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A Águia do Império / Bernard Cornwell
A Águia do Império / Bernard Cornwell

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Águia do Império

 

     1809

     O Exército britânico estava dividido em regimentos como ainda hoje, mas a maior parte deles recebia um número e não um nome; assim, por exemplo, o regimento de Bedfordshire chamava-se na realidade o 14, os Comandos de Connaught o 88 e assim sucessivamente. Os soldados preferiam os nomes, mas tiveram de esperar até 1881 para que tal fosse oficialmente aprovado. Não dei deliberadamente qualquer número ao South Essex pois trata-se de um regimento fictício.

     Um regimento era uma unidade administrativa; a unidade básica de combate era o batalhão. A maior parte dos regimentos consistia, pelo menos, em dois batalhões, mas alguns, como o imaginário South Essex, eram pequenos regimentos de um único batalhão. É por isso que em Sharpe e a Águia do Império se usam indistintamente ambas as palavras em referência ao South Essex. Em teoria, um batalhão tinha mil homens, mas as doenças e as baixas, aliadas à escassez de recrutas, faziam com que os batalhões entrassem frequentemente em batalhas com apenas quinhentos ou seiscentos homens.

     Todos os batalhões estavam divididos em dez companhias. Duas delas, a Companhia Ligeira e a Companhia de Granadeiros, constituíam a elite do batalhão e, em particular as companhias ligeiras, eram tão úteis que se recrutavam ou se ampliavam regimentos completos de tropas ligeiras, como os Fuzileiros do 95.

     Um batalhão era normalmente comandado por um tenente-coronel, com dois majores, dez capitães e, abaixo destes, os tenentes e alferes. Nenhum destes oficiais tinha recebido qualquer tipo de preparação; tal estava reservado aos oficiais de engenharia e artilharia. Um em cada vinte oficiais era promovido. A promoção normal efectuava-se mais por antiguidade do que por mérito, mas um homem rico, sempre que tivesse servido durante um determinado período num posto, podia comprar a promoção ao posto seguinte e, desta forma, antecipar-se. O sistema de compra podia levar a promoções muito injustas, mas merece a pena recordar que, sem ele, o soldado britânico de grandes êxitos militares, Sir Arthur Wellesley, posteriormente duque de Wellington, não teria alcançado uma graduação suficientemente elevada no início da sua carreira, para formar o mais extraordinário exército que a Grã-Bretanha teve; o exército em que Richard Sharpe lutou contra os franceses em Portugal, Espanha e França entre 1808 e 1814.

 

     Os canhões ouviam-se muito antes de aparecerem. As crianças agarravam-se às saias das mães, perguntando-se que coisa tão espantosa provocava aqueles ruídos. Os cascos dos grandes cavalos misturavam-se com o som metálico de tirantes e correntes, com o estrondo cavo das rodas desconjuntadas e, sobretudo, com o estrondo de toneladas de latão, ferro e vigas que chocavam contra o pavimento destroçado da cidade. Então apareceram os canhões, os armões, os cavalos e a escolta; os artilheiros pareciam tão duros quanto os canhões enegrecidos e atarracados que evocavam a luta que havia a norte, de onde a artilharia tinha arrastado as suas volumosas armas, por rios cheios e subido vertentes encharcadas pela chuva para esmagar o inimigo até à derrota. Agora voltariam a fazê-lo. As mães agarravam os filhos mais novos e apontavam para os canhões, seguras de que estes britânicos fariam Napoleão desejar ter ficado na Córsega para se dedicar a criar porcos, que era a única coisa para que servia.

     E por fim chegou a cavalaria! Os camponeses portugueses aplaudiam as fileiras de vistosos uniformes a trote, os brilhantes e cirvos sabres desembai-nhados que se exibiam pelas ruas e praças de Abrantes, e o fino pó levantado pelos cascos dos cavalos era um preço barato para pagar a visão dos esplên-didos regimentos que, segundo diziam os cidadãos, expulsariam completa-mente os franceses para além dos Pirenéus, de volta aos esgotos de Paris. Quem poderia resistir perante tal exército? De norte a sul, desde os portos da costa oeste, estavam a reunir-se e marchavam em direcção a leste pela estrada que vai até à fronteira espanhola e até ao inimigo. Portugal ficaria livre, o orgulho de Espanha seria restaurado, a França seria humilhada e estes soldados britânicos voltariam às suas adegas e às suas tabernas deixando Abrantes e Lisboa, Coimbra e o Porto em paz. Eles, os soldados, não tinham tanta confiança em si próprios. Na verdade tinham derrotado o exército que Soult tinha a norte, mas, ao avançar para as suas sombras alongadas, perguntavam o que havia para além de Castelo Branco, a cidade mais próxima e a última antes da fronteira. Em breve voltariam a defrontar-se com os veteranos de Jena e de Austerlitz, que vestiam capote azul, os donos dos campos de batalha europeus, os regimentos franceses que tinham convertido em carne picada os mais distintos exércitos do mundo. Os habitantes da cidade estavam impressionados, pelo menos com a cavalaria e a artilharia, mas, aos olhos de um conhecedor, as tropas que se reuniam nos arredores de Abrantes eram infelizmente poucas e os exércitos franceses que ameaçavam o leste eram terrivelmente grandes. O exército britânico, que atemorizava as crianças de Abrantes, não assustaria os marechais franceses.

     Enquanto o tenente Richard Sharpe, esperava ordens nos arredores da cidade, via a cavalaria embainhar os sabres ao mesmo tempo que os últimos espectadores ficavam para trás. Retomou então a tarefa de desenrolar da coxa a ligadura suja.

     Quando as últimas polegadas se tinham despegado, caíram para o chão algumas sanguessugas e o sargento Harper ajoelhou-se para as apanhar antes de olhar para a ferida.

     - Já cicatrizou, meu Tenente. Óptimo.

     Sharpe resmungou. O golpe de sabre tinha-se convertido em nove polegadas de tecido cicatrizado e enrugado, limpo e mais rosado em comparação com a pele mais escura. Tirou a última sanguessuga gorda e deu-a a Harper para que a guardasse.

     - Vá lá, querida, pareces bem alimentada.

     O sargento Harper fechou a lata e levantou os olhos para Sharpe.

     - Teve sorte, meu Tenente.

     Era verdade, pensou Sharpe. O hussardo francês quase que acabara com ele; a sua espada estivera a meio caminho de lhe desferir um tremendo golpe quando a bala do fuzil de Harper o obrigara a levantar da sela e o rosto do francês, envolto em estranhas trancas, se transformara com a agonia da dor. Sharpe desviara-se desesperadamente e o sabre, que lhe apontara para o pescoço, tinha-lhe cortado a coxa deixando-lhe outra cicatriz como recordação dos dezasseis anos no exército britânico. Não fora uma ferida profunda, mas Sharpe vira morrer muitos homens por causa de golpes mais pequenos, com o sangue envenenado e a carne descorada e pestilenta. Os médicos eram incapazes de fazer outra coisa que não fosse deixar que o ferido suasse e apodrecesse até morrer nas charneiras a que chamavam hospitais. Um punhado de sanguessugas fazia mais do que um exército de doutores, pois devoravam o tecido doente e deixavam a carne sã cicatrizar naturalmente. Sharpe levantou-se e tentou mexer a perna.

     - Obrigado, sargento. Está como nova.

     - Fico satisfeito, meu Tenente.

     Sharpe vestiu o fato-macaco da cavalaria que usava em vez dos calções verdes regulamentares dos Fuzileiros do 95. Estava orgulhoso do macaco verde com reforços de couro preto que tinha tirado do cadáver de um coronel de caçadores da guarda imperial de Napoleão no Inverno anterior. A parte lateral exterior de cada uma das pernas estava decorada com mais de vinte botões de prata e com esse metal tinha pago comida e bebida quando o seu pequeno bando de fuzileiros havia fugido para sul através das neves da Galiza. O coronel tinha sido uma boa presa; não havia muitos homens em ambos os exércitos tão altos quanto Sharpe, mas as calças assentavam-lhe perfeitamente e as botas de cabedal preto, bonito e macio, eram feitas à sua medida. Patrick Harper não tivera tanta sorte. O enorme sargento irlandês era umas quatro polegadas mais alto que Sharpe e ainda não tinha encontrado umas calças para substituírem as suas, já sem cor, remendadas e feitas em retalhos, que apenas serviam para espantar os corvos num campo de nabos. Toda a companhia estava assim, pensava Sharpe, com os uniformes cocados e as botas literalmente atadas com tiras de couro. Enquanto o batalhão principal estivesse na pátria, em Inglaterra, a pequena companhia de Sharpe não encontraria um único oficial comissário desejoso de complicar a vida com dois livros de contabilidade, que lhes proporcionasse calças e calçado novo. O sargento Harper entregou-lhe a casaca do uniforme.

     - Quer que lhe dê um banho húngaro, meu Tenente? Sharpe negou com a cabeça.

     - Aguenta-se bem.

     A casaca não tinha muitos piolhos, pelo menos não os suficientes para ter de a impregnar com fumo de um lume feito com erva e cheirar a carvoeiro durante os dois dias seguintes. A casaca estava tão gasta como as do resto da companhia, mas nada, nem o cadáver mais bem vestido de Espanha ou Portugal, o teria convencido a tirá-la. Era verde, a casaca verde-escura dos Fuzileiros do 95, e era o emblema de um regimento de elite. A infantaria vestia de vermelho, mas a melhor infantaria britânica vestia de verde, e mesmo depois de três anos no 95 Sharpe gostava da distinção do uniforme verde. Nada mais tinha do que esse uniforme e do que podia transportar às costas. Richard Sharpe não tinha outro lar a não ser o regimento, nem outra família para além da sua companhia, nem outros haveres senão o que lhe cabia na mochila e nas cartucheiras. Não conhecia outra forma de viver e esperava morrer dessa maneira. Ajustou a faixa vermelha de oficial à volta da cintura e cobriu-a com o cinto preto de cabedal com fivela prateada em forma de serpente. Após um ano na península apenas a faixa e o sabre denotavam o seu posto de oficial e até mesmo a espada, tal como as calças, não eram regulamentares. Os oficiais de fuzileiros, tal como todos os de infantaria ligeira, usavam um sabre curvo de cavalaria, mas Sharpe detestava tal arma. Em lugar dela usava a espada comprida e direita da cavalaria pesada; uma arma horrível, mal calibrada e brutal, mas Sharpe gostava da sensação de uma lâmina selvagem que pudesse derrotar as finas espadas dos oficiais franceses e amassar um mosquete e uma baioneta.

     A espada não era a sua única arma. Richard Sharpe servira durante dez anos nas fileiras dos casacas-vermelhas, primeiro como soldado raso, depois como sargento, carregando um mosquete de alma lisa pelas planícies da índia. Resistira na linha com o pesado fuzil de pederneira, entrara aterrorizado em brechas abertas a baioneta e, no entanto, usava uma arma comprida na batalha. A espingarda de Baker era o seu distintivo, diferenciava-o de outros oficiais, e os alferes de dezasseis anos, recém-chegados com uniformes novos e brilhantes, olhavam desconfiados para o tenente alto de cabelo negro com a espingarda pendurada e a cicatriz que, excepto quando se ria, lhe dava um ar de sinistra diversão ao rosto. Alguns perguntavam a si próprios se as histórias seriam verdadeiras, histórias de Seringapatam e Assye, do Vimeiro e de Lugo, mas a expressão dos seus olhos aparentemente brincalhões, ou a visão dos punhos gastos das suas armas, afugentava qualquer dúvida. Poucos oficiais novos se punham a pensar no que representava realmente a espingarda, a luta mais feroz que Sharpe já tivera, a ascensão do rancho geral à messe dos oficiais. O sargento Harper olhou pela janela para a praça iluminada pela luz da tarde.

     - Aí vem o Feliz, meu Tenente.

     - O capitão Hogan.

     Harper não se importou com a repreensão. Ele e Sharpe estavam juntos havia muito tempo, tinham partilhado muitos perigos e o sargento sabia perfeitamente quais as liberdades que podia tomar com o seu taciturno oficial.

     - Parece mais contente que nunca, meu Tenente. Deve ter outro trabalho para nós.

     - Deus queira que nos mandem para casa.

     Harper, destrancando suavemente a segurança da espingarda com as suas enormes mãos, fingiu não ter ouvido o comentário. Sabia o que queria dizer mas o tema era perigoso. Sharpe comandava o que restava de uma companhia de fuzileiros que tinha ficado isolada da retaguarda do exército de Sir John Moore durante a retirada para a Corunha no Inverno anterior. Fora uma campanha com um tempo terrível, mais apropriado às histórias de viajantes da Rússia do que ao Norte de Espanha. Alguns homens tinham morrido enquanto dormiam, com os cabelos gelados pegados ao chão, enquanto outros tinham desistido, exaustos da marcha, à espera que a morte chegasse. A disciplina do exército ruíra e os bêbados vagabundos foram carne fácil para a cavalaria francesa, que chicoteara os animais esgotados até pisar os calcanhares do exército inglês. A chusma salvou-se do desastre graças a apenas alguns regimentos, como o 95, que mantiveram a disciplina e continuaram a lutar. De 1808 passou-se a 1809 e aquele pesadelo de batalha continuou, uma batalha em que se lutava com pólvora húmida e com os homens congelados que assomavam por entre a neve para vislumbrarem os capotes dos dragões franceses. Então, um dia em que o nevão aumentava com o vento, mais parecendo um monstro malévolo, os cavaleiros cortaram a retirada à companhia. O capitão morreu, o outro tenente também, as espingardas não disparavam, os sabres do inimigo erguiam-se e caíam, e a neve húmida abafava todos os sons excepto os grunhidos dos dragões e os terríveis golpes das lâminas que abriam feridas fumegantes em contacto com o ar gelado. O tenente Sharpe e alguns sobreviventes abriram caminho, lutando, e escaparam-se até aos penhascos onde os cavaleiros não os podiam seguir mas, quando a tempestade passou e o último homem morrera selvaticamente ferido, não houve qualquer possibilidade de se reunir ao grosso do exército. O segundo batalhão de Fuzileiros do 95 regressara à pátria, enquanto Sharpe e os seus trinta homens, perdidos e esquecidos, se tinham dirigido para sul, afastando-se dos franceses, para se juntarem à pequena guarnição britânica de Lisboa.

     Desde então, Sharpe tinha pedido uma dúzia de vezes que o mandassem para casa, mas os fuzileiros eram escassos, demasiado valiosos, e o novo comandante do exército, Sir Arthur Wellesley, mostrava-se renitente em perder nem que fossem trinta homens. Assim, tinham ficado e lutado com qualquer batalhão que precisasse reforço da sua Companhia Ligeira e voltaram a marchar para norte, retrocedendo, e tinham estado com Wellesley quando este vingou Sir John Moore expulsando o marechal Soult e os seus veteranos do Norte de Portugal. Harper sabia que o seu tenente acalentava raiva e ressentimento. Richard Sharpe era pobre, terrivelmente pobre, e jamais teria dinheiro para comprar a promoção seguinte. Chegar a capitão, mesmo de um batalhão regular, custaria a Sharpe mil e quinhentas libras; se reunisse essa quantia até poderia esperar que o nomeassem rei de França. Tinha apenas uma esperança de promoção, por antiguidade no seu próprio regimento; subir à custa de homens que morressem ou fossem promovidos e cuja promoção tivesse sido comprada. Mas enquanto Sharpe estivesse em Portugal e o regimento na pátria, em Inglaterra, esquecer-se-iam dele, preteri-lo-iam uma vez e outra. Tal injustiça fazia com que o ressentimento fermentasse em Sharpe. Via que homens, mais novos que ele, compravam os seus postos de capitães, comandantes, enquanto ele, melhor soldado, ficava para trás por ser pobre e estar a lutar em vez de estar a salvo em Inglaterra.

     A porta da cabana abriu-se de rompante e o capitão Hogan entrou. Envergando capa azul e calças brancas parecia um oficial da marinha, e afirmava que tinham confundido o seu uniforme com o de um francês tão frequentemente, que tinham disparado mais vezes sobre ele do lado dos seus homens do que do inimigo. Era oficial de engenharia, um dos raríssimos engenheiros militares que havia em Portugal; esboçou um largo sorriso enquanto tirava o chapéu de três bicos e inclinava a cabeça para a perna de Sharpe.

     - O guerreiro está restabelecido? Como vai essa perna?

     - Perfeita, meu Capitão.

     - Foram as sanguessugas do sargento Harper, não é verdade? bom, nós, os irlandeses, somos uns diabos espertos. Sabe Deus onde estariam vocês, os ingleses, sem nós.

     Hogan tirou a caixa de rape e cheirou um bom bocado. Enquanto Sharpe esperava o inevitável espirro cravou os olhos no capitão baixinho e de meia-idade. Durante um mês, os seus fuzileiros tinham escoltado os homens de Hogan, pois o oficial de engenharia tinha desenhado um mapa dos caminhos que atravessam as passagens mais altas de Espanha. Já não era segredo nenhum que a qualquer momento Wellesley levaria o seu exército para Espanha seguindo o Tejo, que apontava como uma lança para a capital, Madrid, e Hogan, para além de desenhar intermináveis mapas, reforçara as confluências dos rios e as pontes para que aguentassem as toneladas de bronze e madeira que a artilharia de campanha deslocaria no seu caminho até ao inimigo. Fora um trabalho bem feito e em boa companhia, até que choveu e os fuzis não disparavam quando o hussardo francês, com cara de louco, quase conseguiu um lugar entre os heróis com a sua carga solitária contra os fuzileiros. Contudo, o sargento Harper conseguira que a humidade não entrasse na caçoleta da sua espingarda, e Sharpe ainda tremia ao pensar no que podia ter acontecido se a arma não tivesse disparado.

     O sargento fez recuar as peças de segurança da espingarda como se se fosse retirar, mas Hogan agarrou-o pela mão.

     - Fique, Patrick. Tenho um presente para si; um que agradaria inclusive a um selvagem de Donegal.

     Tirou uma garrafa escura da mochila e arqueou as sobrancelhas enquanto olhava para Sharpe.

     - Não se importa?

     Sharpe assentiu. Harper era um bom homem, bom em tudo o que fazia, e nos três anos que se conheciam Sharpe e Harper tinham-se tornado amigos, ou pelo menos eram tão amigos quanto podem ser um sargento e um oficial. Sharpe não podia conceber uma batalha sem o enorme irlandês a seu lado, o irlandês receava lutar sem Sharpe, e juntos formavam o par mais formidável que Hogan tinha visto no campo de batalha. O capitão pousou a garrafa em cima da mesa e tirou a rolha.

     - Conhaque. Conhaque francês das adegas do próprio marechal Soult e requisitadas como despojos no Porto. com as saudações do general.

     - De Wellesley? - perguntou Sharpe.

     - Do próprio. Perguntou por si, Sharpe, e eu disse-lhe que se estava a tratar, pois assim não sendo, não estaria comigo.

     Sharpe não disse nada. Por um momento, Hogan parou de verter cuidadosamente o líquido.

     - Não seja injusto, Sharpe! Ele gosta de si. Crê que se esqueceu de Assaye?

     Assaye. Sharpe recordava-o perfeitamente. O campo semeado de mortos no exterior da aldeia indiana, onde tinha sido promovido em pleno campo de batalha. Hogan estendeu-lhe um copo de estanho.

     - Sabe que ele não pode fazê-lo capitão do 95. Não tem autoridade para tal!

     - Sei.

     Sharpe sorriu e levou o copo aos lábios. Mas Wellesley tinha autoridade para o mandar para a pátria, onde poderia ser promovido. Afastou esse pensamento da cabeça, sabendo que a ofensa contínua da sua promoção regressaria, e invejava Hogan que, sendo oficial de engenharia, só podia conseguir a promoção por antiguidade. Isso significava que Hogan era ainda capitão, apesar de estar na casa dos cinquenta, mas, pelo menos, não havia ciúmes nem injustiça porque nenhum homem podia comprar a sua subida de escalão. Inclinou-se.

     - E então, alguma novidade? Continuamos consigo?

     - Assim é. E temos um trabalho. Os olhos de Hogan brilharam.

     - E também é um bom trabalho. Patrick Harper sorriu brincalhão.

     - Isso significa um golpe duro e pesado. Hogan assentiu.

     - Tem razão, sargento. Uma ponte enorme a enviar pelos ares. Tirou um mapa do bolso e abriu-o em cima da mesa. Sharpe reparou como o dedo calejado seguia o curso do rio Tejo desde o mar até Lisboa, passava por Abrantes, o local onde estavam agora sentados, e seguia para Espanha, para parar aí, onde o rio rodava fazendo uma grande curva para sul.

     - Valdelacasa - disse Hogan. - Aí há uma velha ponte romana. Não agrada ao general.

     Sharpe sabia porquê. O exército avançaria pela margem norte do Tejo até Madrid e o rio protegeria o seu flanco direito. Havia poucas pontes que os franceses pudessem atravessar para fustigarem as linhas de aprovisionamento, e essas pontes situavam-se em cidades como Alcântara, onde os espanhóis tinham guarnições que protegiam as passagens. A de Valdelacasa nem sequer estava assinalada. Se não havia povoação, não havia guarnição, e uma força francesa poderia atravessar e fazer estragos na retaguarda britânica. Harper inclinou-se e olhou para o mapa.

     - Porque é que não está assinalada, meu Capitão? Hogan esboçou um gesto depreciativo.

     - Admira-me que o mapa situe Madrid, quanto mais Valdelacasa.

     Tinha razão. O mapa de Tomás Lopez, o único disponível para os exércitos em Espanha, era um trabalho maravilhoso da imaginação espanhola. Hogan apontou com o dedo no mapa.

     - A ponte raras vezes se utiliza, está em muito mau estado. Disseram-nos que só a muito custo poderá ser atravessada por uma carroça, imagine-se por um canhão, mas pode restaurar-se e poderíamos ter os “calças velhas” nas nossas costas de um momento para o outro,

     Sharpe sorriu. “Calças velhas” era a estranha alcunha que os fuzileiros davam aos franceses e Hogan tinha adoptado com gosto a expressão. O oficial de engenharia baixou a voz em tom conspirativo.

     - Disseram-me que é um lugar estranho, há apenas um convento em ruínas e a ponte. Chamam-lhe Ponte dos Malditos.

     Abanou a cabeça como se se tivesse saído com a sua. Sharpe esperou uns instantes e suspirou.

     - Está bem. O que quer dizer com isso? Hogan sorriu, triunfante.

     - Surpreende-me que tenha de o perguntar! A Ponte dos Malditos. Parece que, outrora, todas as freiras foram obrigadas a sair do convento e massacradas pelos mouros. Está assombrada, Sharpe, é espiada pelos espíritos dos mortos!

     Sharpe inclinou-se para a frente para olhar o mapa mais de perto. Dada a espessura do dedo de Hogan, a ponte devia estar sessenta milhas para lá da fronteira e eles estavam à mesma distância de Espanha.

     - Quando saímos?

     - Temos um problema - disse Hogan enquanto dobrava o mapa com cuidado. - Podemos sair para a fronteira amanhã, mas não a vamos cruzar até que os espanhóis nos convidem formalmente a isso.

     Inclinou-se para trás com o copo de conhaque.

     - E temos de esperar pela nossa escolta.

     - Escolta! - exclamou Sharpe aborrecido. - Nós somos uma escolta! Hogan negou com a cabeça.

     - Oh, não. A política é assim. Os espanhóis deixam-nos fazer ir a ponte pelos ares, mas só se um regimento espanhol for connosco. É uma questão de orgulho, pelo que se vê.

     - Orgulho! - disse Sharpe mostrando a sua irritação de forma evidente. Se o senhor tem todo um regimento de espanhóis, por que raios precisa de nós?

     Hogan sorriu de forma apaziguadora.

     - Preciso de vocês, mas há mais uma coisa, sabe?

     Harper interrompeu-o. O sargento estava de pé junto à janela, alheio à conversa e a olhar para a pequena praça.

     - Que maravilha. Oh, meu Tenente, com aquilo sim, tinha limpo a espingarda.

     Sharpe olhou pela janela. Lá fora, montada numa égua preta, estava uma jovem também vestida de preto; calções pretos, casaco preto e um chapéu de abas largas, que lhe fazia sombra na cara mas que não obscurecia a suasurpreendente beleza. Sharpe contemplou-lhe a boca, os olhos escuros, os cabelos encaracolados da cor da pólvora fina, e então ela deu-se conta de que a observavam. Dedicou-lhes meio sorriso e deu a volta, deu uma ordem a um criado que agarrava o cabeçalho de uma mula e olhou fixamente para o caminho que ia da praça ao centro de Abrantes. Hogan emitiu um ronco de complacência.

     - É alguém muito especial. Não se vê muitas vezes uma coisa assim. Quem será?

     - A mulher de um oficial? - sugeriu Sharpe. Harper abanou a cabeça em sinal de discordância.

     - Não usa aliança, meu Capitão. Mas está à espera de alguém, de um canalha com sorte.

     E seria um canalha rico, pensou Sharpe. O exército estava a juntar a normal fila de mulheres e de crianças que seguia os regimentos para a guerra. Cada batalhão apenas podia levar as mulheres de sessenta soldados para uma guerra no estrangeiro, mas nada podia impedir que outras mulheres se juntassem às esposas oficiais: raparigas da região, prostitutas, costureiras e lavadeiras, todas elas a viver à conta do exército. Aquela rapariga era diferente. Cheirava a dinheiro e a privilégios, como se tivesse fugido de uma casa rica de Lisboa. Sharpe pensou que seria amante de um oficial rico e que faria parte da sua equipa, tal como os cavalos puro-sangue, as pistolas de Manton, o serviço de prata para as refeições de campanha e os cães que correriam obedientes atrás do cavalo. Havia muitas jovens como ela, Sharpe sabia-o, jovens que custavam muito dinheiro. Sentiu que a velha inveja o invadia de novo.

     - Meu Deus - Harper voltou a falar enquanto continuava a olhar pela janela.

     - Que se passa?

     Sharpe inclinou-se para a frente e, tal como o seu sargento, não acreditava no que os seus olhos viam. Um batalhão de infantaria britânico entrava na praça a marchar garbosamente, um daqueles batalhões que Sharpe não via desde havia doze meses. Um ano em Portugal tinha convertido o exército no pesadelo de um sargento de instrução; os descorados uniformes tinham sido remendados com o tecido castanho omnipresente entre os camponeses portu-gueses, tinham o cabelo comprido e havia já muito tempo que desaparecera o brilho dos botões e das condecorações. Sir Arthur Wellesley não se importava com isso; apenas se preocupava com que cada soldado tivesse sessenta cartuchos de munições e a cabeça desperta, se as calças eram castanhas em vez de brancas não tinha qualquer importância para o resultado da batalha. Mas aquele batalhão acabava de chegar de Inglaterra. Os casacos eram de um brilhante vermelho-escarlate, os cintos brancos como a espuma e as botas negras e engraxadas como o carvão. Todos os homens usavam polainas bem abotoadas e, mais surpreendente ainda, usavam o terrível colarinho; quatro polegadas de pele preta envernizada e rígida que comprimiam o maxilar, já que se pressupunha que assim manteriam o queixo dos homens alto, e as costas direitas. Sharpe não se recordava de quando vira a última dessas golas; em campanha, os homens “perdiam-nas”, e com elas também desapareciam as chagas purulentas que se produziam junto ao maxilar onde a pele rígida se fundia com a carne suada.

     - Enganaram-se no caminho para o Castelo de Windsor - disse Harper. Sharpe abanou a cabeça.

     - É inacreditável!

     Quem quer que estivesse no comando daquele batalhão deveria ter convertido a vida daqueles homens num inferno para conseguir que se mostrassem tão imaculados apesar da travessia da Inglaterra em barcos cheios de gente e muito sujos e, apesar da longa marcha desde Lisboa, debaixo do calor do Verão, as armas brilhavam, a equipagem estava nova e era regula-mentar, enquanto as caras estavam inchadas e vermelhas por causa dos colarinhos apertados e do sol a que não estavam habituados. À frente de cada companhia cavalgavam os oficiais; todos, reparou Sharpe, montavam magni-ficamente. A bandeira ia envolvida em couro brilhante e era escoltada por sargentos, cujas lâminas das alabardas tinham sido polidas até atingirem um aspecto brilhante e resplandecente. Os homens desfilavam com passo perfeito, sem olhar para a esquerda ou para a direita, exactamente, tal como Harper tinha dito, como se marchassem para uma guarda real em Windsor.

     - Quem são?

     Sharpe tentava recordar os regimentos que usavam canhões amarelos na manga do uniforme, mas aquele não se parecia com nenhum dos regimentos que conhecia.

     - Os do South Essex - disse Hogan.

     - Quem?

     - Os do South Essex. São novos, muito novos. Recém-recrutados pelo tenente-coronel Henry Simmerson, primo do general Sir Banester Tarleton.

     Sharpe assobiou baixinho. Tarleton lutara na guerra da América, ocupava agora um lugar no Parlamento e era o mais duro adversário militar de Wellesley. Sharpe tinha ouvido dizer que Tarleton queria o comando do exército em Portugal e tinha ficado amargamente ressentido pelo facto de terem preferido o jovem Wellesley. Tarleton era uma pessoa influente, um inimigo perigoso para Wellesley e Sharpe sabia o suficiente de política de alto nível para se dar conta que a presença do primo de Tarleton no exército não ia ser bem-vinda para Wellesley.

     - E aquele ali? - perguntou apontando para um homem corpulento que montava um cavalo cinzento no meio do batalhão.

     Hogan confirmou.

     - Aquele é Sir Henry Simmerson.

     O tenente-coronel Sir Henry Simmerson tinha a cara vermelha sulcada de veias de cor púrpura, com uma papada pendente. Os olhos, à distância a que Sharpe os via, pareciam pequenos e vermelhos, e dos dois lados do rosto desconfiado e penetrante surgiam umas orelhas proeminentes que pareciam os munhões sobressalentes de cada lado de um canhão. Tal e qual um porco a cavalo, pensou Sharpe.

     - Nunca ouvi falar dele.

     - Não é de estranhar. Não fez nada - disse Hogan com desdém

     - Abastado, membro do Parlamento por Paglesham, juiz de paz e, Deus nos livre, coronel de milícia.

     Hogan parecia surpreendido pela sua própria falta de benevolência.

     - Tem boas intenções. Não se dará por satisfeito até que estes rapazes sejam o melhor batalhão do raio do exército, mas creio que o homem terá um sobressalto quando vir a diferença entre nós e a Milícia.

     Tal como outros oficiais, Hogan não tinha tempo a perder com a Milícia, o segundo exército britânico. Era utilizada exclusivamente dentro da Grã-Bretanha, nunca tinha de lutar, os soldados não passavam fome, nem tinham de dormir em campo aberto debaixo de um aguaceiro, no entanto desfilavam com pompa gloriosa e presunção. Hogan riu-se.

     - Não nos podemos queixar. Somos uns felizardos por termos sir Henry.

     - Felizardos? - disse Sharpe olhando para o oficial de engenharia grisalho.

     - Claro que sim. Sir Henry chegou precisamente anteontem a Abrantes, mas disse-nos que era um perito no que respeita à guerra. O homem nem sequer viu um francês, mas já deu lições ao general de como os vencer! E... - exclamou Hogan rindo e abanando a cabeça - ...talvez aprenda. Uma batalha vai tirar-lhe essa rigidez.

     Sharpe olhava para as companhias que desfilavam firmemente como autómatos pela praça. As condecorações de cobre sobre as barretinas reflectiam o sol, mas os rostos por baixo do brilho eram inexpressivos. Sharpe adorava o exército, era a sua casa, o refúgio de que um órfão necessitara dezasseis anos antes, mas gostava dele sobretudo porque, de uma maneira torpe, lhe dava a possibilidade de demonstrar, uma e outra vez, que o apreciavam. Podia irritar-se com os ricos e com os privilegiados mas reconhecia que o exército o tinha tirado do abismo e lhe tinha posto uma faixa de oficial, e Sharpe não sabia de outro trabalho que oferecesse a um bastardo de origem modesta e foragido da justiça a possibilidade de graduação e de obter responsabilidade. Mas Sharpe também tivera sorte. Em dezasseis anos praticamente nunca tinha parado de lutar e tivera a sorte de que para as batalhas na Flandres, na índia e em Portugal tivessem convocado homens que, como ele próprio, reagiam em frente ao perigo como um jogador diante de um baralho de cartas. Sharpe suspeitava que iria odiar o exército em tempo de paz, com os seus desfiles religiosos e instruções sem sentido, as suas invejas mesquinhas e os seus requintes intermináveis, e via o exército em tempo de paz que não lhe agradava no South Essex.

     - Suponho que é dos que gostam de chibatadas.

     - Chibatadas, desfiles de castigo, manobras em excesso - acrescentou Hogan com uma careta. - Sir Henry usa tudo isso. Diz que só quer o melhor. E realmente tem-no. O que pensa deles?

     Sharpe riu-se com aspereza.

     - Que Deus me livre do South Essex. Isso não é pedir muito, não acha?

     - Receio que seja - respondeu Hogan a sorrir.

     Sharpe olhou para ele, sentindo que estava tudo perdido. Hogan encolheu os ombros.

     - Disse-lhe que havia mais. Se um regimento espanhol se dirigir para Valdelacasa, Sir Arthur acredita que, a bem da diplomacia, também deve ir um britânico. Para mostrar a bandeira e essas coisas.

     Deu uma olhadela às lustrosas fileiras e voltou-se para Sharpe.

     - Sir Henry Simmerson e os seus elegantes homens vêm connosco. Sharpe resmungou.

     - Quer dizer que devemos cumprir as ordens dele?

     - Não propriamente - respondeu Hogan apertando os lábios. - O tenente vai acatar as minhas ordens.

     Tinha falado como jurista, de forma afectada e Sharpe olhou para ele com curiosidade. Só podia haver uma razão para que Wellesley tivesse subordinado Sharpe e os seus fuzileiros a Hogan, em vez de a Simmerson, e isso era porque o general não confiava em Sir Henry. Sharpe ainda não sabia porque precisava dele; no fim de contas Hogan podia esperar a protecção de dois batalhões inteiros, pelo menos mil e quinhentos homens.

     - Será que o general pensa que haverá ali uma batalha?

     - Não sabe - respondeu Hogan, encolhendo os ombros. - Os espanhóis dizem que os franceses têm um regimento completo de cavalaria na margem sul, com artilharia pesada, que tem perseguido os guerrilheiros ao largo do rio durante a Primavera. Quem sabe? Acredita que podem tentar impedir que destruamos a ponte.

     - Continuo sem perceber porque é que precisa de nós.

     - Talvez não precise de nós - sorriu Hogan. - Mas não haverá qualquer outra acção militar durante um mês; os franceses permitirão que nos internemos bem dentro de Espanha antes de nos dar luta, pelo que Valdelacasa dar-nos-á, pelo menos, a oportunidade de uma escaramuça. Quero comigo alguém em quem confie. Talvez eu só o queira comigo como um favor.

     Sharpe sorriu. Um favor, acompanhar um coronel da milícia que pensava saber tudo; porém ocultou os seus sentimentos.

     - Por si, meu Capitão, será um prazer.

     - Quem sabe? - disse Hogan, sorrindo também. - Pode ser. A jovem vai-se embora.

     Sharpe seguiu o olhar de Hogan através da janela e viu que a jovem vestida de negro saudava com a mão um oficial do South Essex. Sharpe teve a impressão de que se tratava de um homem louro, de uniforme imaculado, montado num cavalo que provavelmente custara mais do que a promoção do cavaleiro. A jovem impeliu a égua picando-a com as esporas e, seguida pelo criado e pela mula, juntou-se à retaguarda do batalhão que desfilava pelo caminho de Castelo Branco. A praça ficou de novo vazia; o pó assentou no calor abrasador. Sharpe virou-se para trás e começou a rir.

     - Do que é que se ri? - perguntou Hogan. Sharpe apontou com o copo de conhaque para o casaco andrajoso de Harper e para as suas calças esburacadas.

     - Digamos que os novos aliados não vão agradar muito a Sir Henry. A cara do sargento tornou-se sombria.

     - Deus salve a Irlanda. Hogan ergueu o copo.

     - Assim seja.

    

     O rufar dos tambores ouvia-se distante e amortecido dado que por vezes se misturava com os outros ruídos da cidade, mas era insistente e sinistro e Sharpe alegrou-se quando o som parou. Também se alegrou por ter chegado a Castelo Branco, vinte e quatro horas depois do South Essex, após uma esgotante jornada que consistira em forçar as mulas de Hogan a seguirem por um caminho aberto com sulcos profundos e estriados que mostravam por onde, antes deles, tinha passado a artilharia de campanha. Agora as mulas, abatidas pelos barris de pólvora, pacotes de encerado com mechas, picaretas, estacas, pás e todo o material de que Hogan necessitava para Valdelacasa, caminhavam com paciência atrás dos fuzileiros e dos artífices de Hogan, enquanto abriam caminho entre as ruas cheias de gente até à praça principal. Quando saíram para a brilhante luz do Sol confirmaram-se as suspeitas de Sharpe a respeito do rufar dos tambores.

     Alguém tinha sido chicoteado. A vítima já lá não estava e Sharpe, ao ver a formação em quadrado do South Essex, recordou quando fora chicoteado, anos atrás, e a luta por calar a agonia, para não mostrar aos oficiais quanto o látego o magoara. Sharpe levaria para a tumba as cicatrizes de ter sido chicoteado, mas duvidava que Simmerson soubesse quão selvagem era o castigo que acabava de aplicar ao seu batalhão.

     Hogan fez parar o cavalo à sombra do paço episcopal.

     - Não parece ser a melhor altura para falar com este santo do coronel. Alguns soldados estavam a retirar quatro triângulos de madeira que estavam encostados à parede mais afastada da praça. Quatro homens chicoteados. Bendito seja Deus, pensou Sharpe, quatro homens. Hogan fez girar o cavalo de maneira a ficar de costas para o batalhão.

     - Tenho de fechar a pólvora à chave, Richard. Senão roubariam até ao mais ínfimo grão. Encontramo-nos aqui.

     Sharpe concordou.

     - De qualquer maneira, preciso de água. Dez minutos?

     Os homens de Sharpe esparramaram-se junto ao muro, tiraram os apetrechos e as espingardas e o seu humor azedou ao depararem com uma disciplina que os regimentos de fuzileiros havia tempos tinham deixado para trás. Sir Henry guiou delicadamente o cavalo para o centro da praça e dirigiu a voz claramente para Sharpe e para os seus homens.

     - Vergastei quatro homens porque os quatro desertaram.

     Sharpe levantou os olhos, espantado. Já havia desertores? Olhou para o batalhão, os rostos eram inexpressivos, e interrogou-se sobre quantos homens estariam tentados a fugir das fileiras de Simmerson. O coronel estava semi-erguido sobre a sela, sem dúvida a desfrutar do momento.

     - Alguns de entre vós sabem como estes homens planearam o delito. Alguns de entre vós ajudaram-nos. Mas preferiram ficar em silêncio, pelo que açoitei quatro homens para vos recordar o vosso dever.

     A voz era curiosamente aguda; teria soado divertida se ele não fosse tão alto. Tinha falado de forma controlada, mas de repente Sir Henry virou-se para a esquerda e para a direita e agitou um braço como que para apontar para cada um dos homens que estavam sob o seu comando.

     - Vocês são os melhores!

     A sonoridade foi tão repentina que os pombos voaram assustados para as cornijas do convento. Sharpe esperava mais, mas nada aconteceu, o coronel fez girar o cavalo e afastou-se sobre a montada, deixando para trás o grito de batalha como uma ameaça.

     Sharpe chamou a atenção de Harper e o sargento encolheu os ombros. Não havia nada a dizer, as caras dos homens do South Essex manifestavam o fracasso de Simmerson; pura e simplesmente não sabiam como ser os melhores. Sharpe observou como as companhias se afastavam da praça e só viu mau humor e ressentimento na sua expressão. Sharpe acreditava na disciplina. A deserção frente ao inimigo merecia a morte, certas infracções mereciam vergas-tadas e se um homem fosse enforcado por saqueio era por culpa sua, pois as regras eram simples. E para Sharpe, a chave era a seguinte: regras simples. Exigia três coisas aos seus homens: que lutassem como ele, com profissiona-lismo impiedoso; que só roubassem o inimigo e os mortos se tivessem fome, e que nunca se embebedassem sem a sua autorização. Era um código simples, fácil de entender por homens que na maioria se tinham integrado no exército por terem fracassado noutros campos, e funcionava. Estava apoiado pelo castigo e Sharpe sabia que, por muito que os seus homens gostassem dele e o seguissem com gosto, temiam a sua ira quando traíam a sua confiança. Sharpe era um soldado.

     Atravessou a praça até um beco à procura de uma fonte e reparou num tenente da companhia do South Essex que cavalgava para o mesmo beco sombrio entre os edifícios.

     Era o homem que tinha acenado com a mão à jovem vestida de preto e Sharpe sentiu uma punhalada de irritação quando ele entrou no beco primeiro. Eram ciúmes irracionais. O uniforme do tenente era de corte elegante, o sabre curvado da infantaria ligeira era caro e o cavalo preto que montava provavel-mente valia tanto como a promoção a tenente. Sharpe sentia-se ofendido pela riqueza daquele homem, pelos seus privilégios, pela fácil superioridade de homem nascido de latifundiários. E isso aborrecia-o porque sabia que aquele ressentimento se baseava na inveja. Encostou-se a uma parede do beco para dar passagem ao cavaleiro, levantou os olhos, moveu a cabeça amavelmente, e teve a impressão de ver uma cara magra e elegante envolta em cabelo louro. Esperava que o tenente ignorasse a sua presença; Sharpe não era bom em conversas de sociedade e não tinha a mínima vontade de falar educadamente num beco pestilento quando, sem dúvida, iria ser apresentado aos oficiais do batalhão ao longo do dia.

     Mas Sharpe depressa se sentiu desiludido, pois o tenente deteve-se e olhou para o fuzileiro.

     - Nos Fuzileiros não vos ensinam a fazer continência?

     A voz do tenente era tão suave e delicada como o uniforme. Sharpe não disse nada. Os seus galões tinham desaparecido, rasgados nas lutas do Inverno, e deu-se conta que o tenente louro o confundira com um soldado raso. Não era de estranhar. O beco era muito escuro e o perfil de Sharpe, com a espingarda a tiracolo, ajudava a justificar a confusão do tenente. Sharpe levantou os olhos para a cara fina e os olhos azuis, e estava quase a explicar-se quando o tenente moveu o pingalim e golpeou-o na cara de Sharpe.

     - Maldito homem, responde!

     Sharpe sentiu-se invadido pela cólera, mas ficou calado e esperou pela sua vez.

     O tenente guardou o pingalim.

     - Batalhão? Companhia?

     - Segundo batalhão, quarta companhia.

     Sharpe falou com deliberada insolência e lembrou-se dos dias em que não tinha protecção contra oficiais como este. O tenente voltou a sorrir sem um lance de simpatia.

     - Vais tratar-me por “meu Tenente”, sabes. E vais ver. Quem é o teu oficial?

     - O tenente Sharpe.

     - Ah! - disse o tenente enquanto mantinha o pingalim levantado. - O tenente Sharpe de quem todos ouvimos falar. O que veio das fileiras, não é verdade?

     Sharpe assentiu e o tenente levou atrás o pingalim.

     - Por isso não dizes “meu Tenente”? Terá o senhor Sharpe estranhas ideias a respeito da disciplina? bom, terei que ver o tenente Sharpe e ordenar que o castiguem pela sua insolência.

     Deu um golpe com o pingalim na cabeça de Sharpe. Este não tinha sítio para recuar, pelo que não lhe fez falta já que, à falta de tal, pôs ambas as mãos por baixo do estribo do homem e levantou-o com todas as suas forças. O pingalim deteve-se a meio caminho, o homem começou a gritar e no momento seguinte encontrou-se deitado de costas aos pés do cavalo, ali onde outro cavalo tinha defecado anteriormente.

     - Terá que lavar o uniforme, tenente - sorriu Sharpe.

     O cavalo do tenente tinha relinchado e afastara-se uns passos. O furioso oficial estrebuchava com os pés e levou a mão ao punho do sabre.

     - Olá! - gritou Hogan na altura em que entrava no beco. - Pensava que o tinha perdido!

     O oficial de engenharia encaminhou o cavalo na direcção dos homens e olhou com jovialidade para o fuzileiro.

     - As mulas já estão no estábulo e a pólvora guardada. Voltou-se para o alterado tenente e tirou o chapéu.

     - Boas tardes. Creio que nos conhecemos. Chamo-me Hogan. O tenente largou a espada.

     - Gibbons, meu Capitão. Tenente Christian Gibbons. Hogan sorriu brincalhão.

     - Estou a ver que já conhece Sharpe. O tenente Richard Sharpe dos Fuzileiros do 95.

     Gibbons olhou para Sharpe e os olhos abriram-se-lhe de surpresa ao dar-se conta, pela primeira vez, de que a espada que pendia do cinturão de Sharpe não era a espada-baioneta normal que usavam os Fuzileiros, mas sim uma lâmina de tamanho normal. Nervoso, ergueu os olhos para Sharpe. Hogan continuou a falar animado.

     - Com certeza que ouviu falar do tenente Sharpe, como toda a gente. É o tipo que matou o sultão de Tippoo. Depois, deixe-me ver, fez aquele horrível assalto em Asseye. Ninguém sabe quantos Sharpe matou aí. Quantos foram, Sharpe?

     Hogan não deu atenção a nenhuma das previsíveis respostas e continuou a andar sem qualquer remorso.

     - É um tipo terrível, o nosso tenente Sharpe, tão mortal com uma espada como com uma espingarda.

     Gibbons não se podia enganar com a mensagem de Hogan. O capitão tinha visto a briga e estava a prevenir Gibbons em relação às possíveis consequências de um duelo formal. O tenente acatou a saída proposta. Inclinou-se e tirou a barretina de Companhia Ligeira e inclinou a cabeça para Sharpe.

     - A culpa foi minha, Sharpe.

     - O prazer foi meu, Tenente.

     Hogan viu Gibbons pegar nas rédeas do cavalo e desaparecer do beco.

     - Não é muito amável a receber um pedido de desculpas.

     - Não foi apresentado com muita cortesia - disse Sharpe esfregando a face. - Além do mais, bateu-me com o pingalim.

     - O quê? - perguntou Hogan a rir, incrédulo.

     - Porque é que pensa que o atirei para cima do esterco?

     - Não há nada que me dê maior satisfação do que uma relação amistosa e profissional entre oficiais camaradas, caro Sharpe - disse Hogan abanando a cabeça. - Já estou a ver que este trabalho será um prazer. O que queria?

     - Que o cumprimentasse. Pensava que eu era um soldado raso. Hogan voltou a rir-se.

     - Sabe Deus o que pensará Simmerson de si. Vamos descobrir. Foram conduzidos até ao quarto de Simmerson e encontraram o coronel do South Essex sentado na cama sem outra roupa vestida a não ser um par de calças. Tinha um médico ajoelhado ao seu lado que levantou os olhos nervoso quando os dois oficiais entraram no quarto; o movimento provocou uma sacudidela impaciente da mão de Simmerson.

     - Continue, vamos, não tenho o dia todo!

     O médico tinha na mão algo que parecia uma caixa metálica com um gatilho armado na tampa. Deixou-o suspenso do braço de Sir Henry e Sharpe viu que estava a tentar encontrar um bocado de pele que ainda não estivesse marcado com sinais estranhamente simétricos.

     - Escarificação! - rugiu Sir Henry para Hogan. - O senhor sangra-se, Capitão?

     - Não, meu Coronel.

     - Pois devia. É muito salutar. Todos os soldados se deviam sangrar-se. Voltou-se para o médico, que ainda duvidava perante o antebraço cheio de cicatrizes.

     - Vamos, seu idiota!

     No estado de nervos em que estava, o médico apertou o gatilho por engano e ouviu-se um ruído agudo. Sharpe viu na parte inferior da caixa um grupo de pequenas lâminas que se disparavam para fora como línguas de aço. O médico recuou.

     - Lamento, Sir Henry. Um momento.

     O médico forçou mais uma vez as lâminas a entrara na caixa e Sharpe de repente deu-se conta de que era uma máquina de sangrar. Em lugar da antiga lanceta na veia, Sir Henry preferia o escarificador, uma vez que o supunha mais rápido e eficaz. O médico colocou a caixa sobre o braço do coronel, deu uma olhadela nervosa ao paciente e então apertou o gatilho.

     - Ah, assim está melhor!

     Sir Henry fechou os olhos e sorriu momentaneamente. Um pequeno esguicho de sangue jorrou do braço e escapou-se da toalha com que o médico dava pequenos golpes sobre o esguicho.

     - Outra vez, Paton, outra vez!

     - Mas Sir Henry... - replicou o médico abanando a cabeça.

     - Não discuta comigo! Maldito homem, sangre-me! - exclamou olhando para Hogan. - Restam sempre humores prejudiciais depois de umas chicotadas, Capitão.

     - É muito compreensível, meu Coronel - disse Hogan com o seu sotaque irlandês, e Simmerson olhou-o com ar suspeito.

     A caixa voltou a estalar, as folhas saltaram sobre o braço grosso e mais sangue jorrou para as toalhas. Hogan chamou discretamente a atenção de Sharpe, pois vislumbrou neste um sorriso que muito facilmente se poderia converter em gargalhada.

     Sharpe voltou a olhar para Sir Henry Simmerson, que estava a vestir a camisa.

     - O senhor deve ser o capitão Hogan.

     - Sim, meu Coronel - confirmou Hogan em tom afável. Simmerson virou-se para Sharpe.

     - E quem diabo é você?

     - O tenente Sharpe, meu Coronel. Fuzileiros do 95.

     - Não, nada disso. Você é uma maldita vergonha, isso é que é! Sharpe não disse nada. Ficou a olhar por cima do ombro do coronel para a janela, mais para lá das distantes colinas azuis onde os franceses concentravam as suas forças.

     - Forrest! - gritou Simmerson já de pé. - Forrest!

     A porta abriu-se e o major, que devia estar à espera da chamada, entrou. Sorriu assustado para Sharpe e Hogan e então voltou-se para Simmerson.

     - Meu Coronel?

     - Este oficial precisa de um uniforme novo. Forneça-lho, por favor, e providencie para que lho descontem no vencimento.

     - Não - respondeu Sharpe contundente.

     Simmerson e Forrest voltaram-se para o olhar fixamente. Por um momento Sir Henry não disse nada, não estava habituado a que o contrariassem, e Sharpe continuou.

     - Sou oficial dos Fuzileiros do 95 e usarei o seu uniforme enquanto tiver essa honra.

     Simmerson começou a ficar vermelho e os dedos agitavam-se ao seu lado.

     - Maldito Sharpe! O senhor é uma vergonha! Não é um soldado mas sim um varredor! Agora está sob as minhas ordens e eu ordeno-lhe que volte dentro de quinze minutos...

     - Não, meu Coronel.

     Desta vez tinha falado Hogan. As suas palavras detiveram Simmerson em pleno discurso, mas o capitão não deu tempo a que o coronel continuasse. Mostrou todo o seu encanto irlandês, começando por um sorriso de sensatez tão doce que teria encantado um peixe ao ponto de sair da água.

     - Sir Henry, o Sharpe está sob as minhas ordens. O general é muito explícito. Tal como o entendo, Sir Henry, vamos juntos para Valdelacasa, mas o Sharpe irá comigo.

     - Mas...

     Hogan levantou a mão detendo o protesto de Simmerson.

     - O meu Coronel com certeza tem razão. Mas, está claro, que entenderá que as condições no campo podem não ser as que desejamos e também meu Coronel, não será necessário dizer-lhe, que eu terei de dispor dos fuzileiros.

     Simmerson ficou a olhar para Hogan. O coronel não tinha percebido uma única palavra dos disparates de Hogan, mas este tinha dito tudo de uma maneira tão lógica e tão de militar a militar, que Simmerson estava a tentar desesperadamente encontrar uma resposta que não o fizesse passar por idiota. Olhou para Hogan por um momento.

     - Mas as decisões serão minhas!

     - Tem toda a razão, meu Coronel. Toda! - disse Hogan com ênfase mas afectuosamente. - Normalmente, é assim. Mas eu creio que o general tinha a ideia, meu Coronel, de que o senhor ficaria muito sobrecarregado com os problemas dos nossos aliados espanhóis e, claro, há exigências da engenharia que o tenente Sharpe conhece.

     Inclinou-se com um gesto conspirativo.

     - Necessito de homens que possam carregar, meu Coronel. O senhor compreende-me.

     Simmerson deu uma gargalhadinha rouca. Hogan livrara-o da dificuldade. Apontou para Sharpe.

     - Veste como um vulgar operário, hem, Forrest? Um operário! Estava encantado com a sua piada e repetia-a mesmo enquanto vestia a ampla casaca escarlate e amarela.

     - Um operário! Hem, Forrest?

     O major sorria por obrigação. Parecia um vigário resignado assaltado continuamente pelos pecados de um rebanho impenitente e, quando Simmerson se voltou de costas, dirigiu um olhar de desculpa a Sharpe.

     - Sendo assim serviu muito como soldado, Sharpe, sem falar no tempo em que não passou de operário?

     - Um pouco, meu Coronel. Simmerson soltou uma gargalhadinha.

     - Que idade tem?

     - Trinta e dois, meu Coronel - respondeu Sharpe olhando firmemente para a frente.

     - Trinta e dois, hem? E ainda é tenente? O que se passa Sharpe? É questão de incompetência?

     Sharpe reparou que Forrest fazia sinais ao coronel mas este não lhes ligou.

     - Alistei-me, meu Coronel.

     Forrest baixou a mão. O coronel calou-se. Não havia muitos homens que pudessem dar o salto de sargento para alferes e os que o tinham conseguido dificilmente poderiam ser classificados como incompetentes. Só havia três requisitos que um simples soldado necessitava para ser promovido. O primeiro é que devia saber ler e escrever. E Sharpe tinha aprendido na prisão do sultão Tippoo, acompanhado pelos gritos de tortura de outros prisioneiros britânicos. Segundo, o homem devia ter realizado algum acto de valentia suicida, e Sharpe sabia que Simmerson se estava a interrogar sobre qual seria o que ele tinha realizado. O terceiro requisito era ter uma sorte extraordinária, e Sharpe às vezes perguntava-se se isso não era uma lâmina de dois gumes. Simmerson suspirou.

     - Então o senhor não é um cavalheiro, Sharpe?

     - Não, Sir.

     - Mas podia tentar vestir-se como se fosse, não? Lá porque cresceu numa pocilga não quer dizer que se vista como um porco.

     - Não, meu Coronel. - Não havia mais nada a dizer. Simmerson inclinou-se para trás sobre a sua volumosa barriga.

     - Quem o promoveu, Sharpe?

     - Sir Arthur Wellesley, meu Coronel. Sir Henry rosnou de triunfo.

     - Eu sabia! Não tem padrões! Já vi este exército, o seu aspecto é uma vergonha! Não se pode dizer o mesmo dos meus homens, não é verdade? Não se pode lutar sem disciplina!

     Olhou para Sharpe.

     - Que qualidade tem de ter um bom soldado, Sharpe?

     - Capacidade para disparar três cartuchos por minuto, meu Coronel. Sharpe respondera em tom insolente. Sabia que a resposta irritaria Simmerson. O South Essex era um batalhão novo e duvidava que os seus mosqueteiros estivessem ao nível de outros batalhões mais antigos. De todos os exércitos europeus, apenas o britânico fazia os treinos com cartuchos carregados, mas demorava semanas, por vezes meses, para que um soldado aprendesse as complicadas instruções de carregar e disparar um mosquete com rapidez, sem pânico, concentrando-se apenas em disparar melhor do que o inimigo.

     Sir Henry não esperara aquela resposta e ficou a olhar pensativo para o fuzileiro cheio de cicatrizes. Honestamente, e Sir Henry não gostava de ser honesto para consigo próprio, temia o exército que encontrara em Portugal. Até então, Sir Henry tinha acreditado que servir como soldado era uma questão gloriosa de homens obedientes em fileiras bem alinhadas, com as casacas escarlates brilhando ao sol, e, em vez disso, deparara-se com oficiais desali-nhados e de fralda de fora que se riam da instrução da sua milícia. Sir Henry sonhara conduzir o seu batalhão para a batalha, montado no seu cavalo de guerra, com a espada ao alto, alcançando a glória imortal. Mas, olhando fixamente para Sharpe, exemplo típico de tantos oficiais que tinha conhecido no breve tempo que estava em Portugal, perguntava-se se havia algum oficial francês que se parecesse com Sharpe. Imaginara o exército de Napoleão como um rebanho de soldados ignorantes conduzidos por oficiais afectados e estremecia por dentro ao pensar que pudessem ser afinal homens aprumados e duros como Sharpe que pudessem arrancá-lo do cargo antes que tivesse oportunidade de se ver pintado a óleo como herói conquistador. Sir Henry já tinha medo e ainda não tinha visto o inimigo, mas antes tinha de se vingar subtilmente daquele fuzileiro que o tinha desconcertado.

     - Três cartuchos por minuto? - Sim, meu Coronel.

     - E como ensina os seus homens a disparar três cartuchos por minuto? Sharpe encolheu os ombros.

     - Paciência, meu Coronel. Prática. Não há nada melhor do que uma batalha.

     Simmerson fez um gesto irritado.

     - Paciência! Prática! Não são crianças, Sharpe. São bêbedos e ladrões! Lixo da valeta!

     A sua voz voltou a elevar-se.

     - Açoite-os, Sharpe, chicoteie-os! É a única maneira! Dê-lhes uma lição que não se vão esquecer. Não é assim?

     Fez-se silêncio. Simmerson virou-se para Forrest.

     - Não é assim, comandante?

     - Sim, meu Coronel - respondeu Forrest sem convicção. Simmerson voltou-se para Sharpe.

     - Sharpe?

     - É o último recurso, meu Coronel.

     - O último recurso, meu Coronel - disse Simmerson, imitando Sharpe secretamente satisfeito. Era a resposta que queria. - Você é um brando, Sharpe! Pode ensinar os homens a disparar três tiros por minuto?

     Sharpe sentia o desafio no ar mas já não tinha escapatória.

     - Sim, meu Coronel.

     - Perfeito!

     Simmerson esfregou as mãos.

     - Esta tarde, Forrest?

     - Como, meu Coronel?

     - Dê ao senhor Sharpe uma companhia. A ligeira está bem. O senhor Sharpe melhorar-lhes-á o tiro! - Simmerson virou-se e fez uma reverência a Hogan com grande ironia. - Isto se o capitão Hogan estiver de acordo em ceder-nos os serviços do tenente Sharpe.

     Hogan encolheu os ombros e olhou para Sharpe.

     - Com certeza, meu Coronel. Simmerson sorriu.

     - Excelente! Assim, senhor Sharpe, ensinará a minha Companhia Ligeira a disparar três cartuchos por minuto?

     Sharpe olhou pela janela. Fazia calor, o dia estava seco e não havia qualquer razão para que um bom homem não disparasse cinco vezes por minuto com um tempo daqueles. Dependia, claro, das capacidades dos homens da Companhia Ligeira. Se só fossem capazes de disparar dois tiros por minuto, era quase impossível convertê-los em especialistas numa tarde, mas tentar não fazia mal. Voltou a olhar para Simmerson.

     - Tentarei, meu Coronel.

     - Com certeza que tentará, senhor Sharpe, com certeza. E pode dizer-lhes da minha parte que se não o conseguirem mandarei chicotear um em cada dez. Entende-me, senhor Sharpe? Um em cada dez.

     Sharpe entendia perfeitamente. Simmerson tinha-o enganado para que operasse uma tarefa provavelmente impossível e o resultado seria que o coronel teria uma orgia de chicotadas e ele, Sharpe, seria o culpado. E se conseguisse? Então Simmerson afirmaria que a ameaça do chicote tinha funcionado. Viu o triunfo nos pequenos olhos vermelhos de Simmerson e sorriu para o coronel.

     - Não lhes falarei de chicotadas, meu Coronel. Não quererá que se distraiam, não é verdade?

     Simmerson devolveu-lhe o sorriso.

     - Utilize os seus próprios meios, senhor Sharpe. Mas deixarei o triângulo onde está; parece-me que vou precisar dele.

     Sharpe encaixou a barretina deformada na cabeça e cumprimentou o coronel com enérgica precisão.

     - Não se preocupe, meu Coronel. Não precisará de um triângulo. Bons dias, meu Coronel.

     Agora falta conseguir que assim seja, pensou.

    

     Não posso acreditar, meu tenente. Diga-me que não É o sargento Patrick Harper abanou a cabeça enquanto olhava, junto a Sharpe, como a Companhia Ligeira do South Essex disparava duas descargas às ordens de um tenente.

     - Envie este batalhão para a Irlanda, meu Tenente. Seríamos um país livre em duas semanas! Não repeliriam nem o coro de uma igreja!

     Sharpe confirmou tristemente. Não que os homens não soubessem carregar os mosquetes e dispará-los; simplesmente faziam-no com uma lentidão indolente e seguindo fielmente o livro de instruções que os sargentos impu-nham rigorosamente. Oficialmente havia vinte movimentos para carregar e disparar um mosquete, dos quais cinco se referiam a como se devia usar a baqueta de aço para meter a bala e carregar o cano, e a insistência do batalhão em fazê-lo conforme o livro, significava que Sharpe tinha cronometrado para os dois tiros de prova um tempo de mais de sessenta segundos. Tinha três horas, quando muito, para os fazer chegar a vinte segundos por tiro e compreendia a reacção de Harper perante semelhante tarefa. O sargento era claramente insolente.

     - Deus nos livre de ter de enfrentar uma escaramuça ao lado destes tipos! Os franceses comer-nos-iam ao pequeno-almoço!

     Tinha razão. Se a companhia nem sequer estava bem instruída para se manter na frente de batalha, ainda menos conseguiria enfrentar escaramuças com as tropas ligeiras em frente ao inimigo. Sharpe fez Harper calar-se quando um capitão de cavalaria se dirigiu para eles a trote. Era Lennox, capitão da Companhia Ligeira, que sorriu zombeteiramente para Sharpe.

     - Terrível, não é verdade?

     Sharpe não sabia o que responder. Confirmar poderia ser considerado uma crítica àquele escocês grisalho que parecia bastante amistoso. Sharpe deu uma resposta pouco comprometedora e Lennox desceu da sela para se pôr a seu lado.

     - Não se preocupe, Sharpe. Já sei que são maus, mas Sua Eminência insiste em fazê-lo desta maneira. Se me deixasse a mim, faria com que os canalhas o fizessem como deve ser, mas se saltamos uma única linha do regulamento então, são três horas de manobras com as mochilas carregadas - disse, olhando para Sharpe intrigado. - Esteve em Assaye? Sharpe assentiu e Lennox voltou a sorrir.

     - Sim, recordo-me de si. Nesse dia tornou-se famoso. Eu estava com o 78.

     - Também eles se tornaram famosos.

     Lennox gostou da amabilidade. Sharpe lembrou-se do campo indiano e da imagem do Regimento das Terras Altas a desfilar em perfeita ordem para assaltar as linhas de Mahratta. Abriram-se grandes brechas nas fileiras esco-cesas enquanto marchavam lentamente para a tempestade de artilharia, mas os escoceses tinham feito bem o seu trabalho massacrando os artilheiros e tinham carregado com ousadia frente à enorme massa de infantaria inimiga que não teve a coragem para contra-atacar um regimento que parecia invencível. Lennox abanou a cabeça.

     - Já sei o que pensa, Sharpe. Que diabos faço eu aqui com este bando? Não esperou pela resposta. - Sou um velho, estava na reserva, mas a minha mulher morreu, o meio vencimento já não dava e precisavam de oficiais para o maldito Sir Henry Simmerson. Assim, estou aqui. Conhece Leroy?

     - Leroy?

     - Thomas Leroy. Também é capitão aqui. É bom. Forrest é um tipo decente. Mas o resto! Só por vestirem um uniforme elegante pensam que são guerreiros. Olhe para aquele ali!

     Apontou para Christian Gibbons, que montava o seu cavalo preto em direcção ao campo.

     - O tenente Gibbons? - perguntou Sharpe.

     - Já o conhece? - riu-se Lennox. - Então não lhe vou dizer nada do senhor Gibbons, excepto que é sobrinho de Simmerson, que não lhe interessa mais nada a não ser as mulheres e que é um canalha arrogante. Maldito inglês! Desculpe-me, Sharpe.

     Sharpe riu-se.

     - Nem todos somos assim tão maus.

     Reparou que Gibbons trazia delicadamente o cavalo a passo e se detinha a poucos metros deles. O tenente ficou a olhar fixamente com arrogância para os dois oficiais. Então aquele, pensou Sharpe, era sobrinho de Simmerson?

     - Precisam de nós aqui, meu Capitão? Lennox abanou a cabeça.

     - Não, senhor Gibbons. vou deixar o Knowles e o Denny com o tenente Sharpe enquanto opera os seus milagres.

     Gibbons tocou no chapéu e foi-se embora, esporeando o cavalo. Lennox viu-o afastar-se.

     - Este não faz nada mal. É a menina dos olhos remelentos do coronel. Virou-se e saudou a companhia.

     - Deixo-lhe o tenente Knowles e o alferes Denny, ambos são bons rapazes mas mal ensinados por Simmerson. Têm um ou outro soldado veterano, isso será uma ajuda, e boa sorte para si, Sharpe, que vai precisar dela! Grunhiu enquanto subia para a sela. - Bem-vindo ao manicómio, Sharpe!

     Sharpe ficou com a companhia, com os seus jovens oficiais e com as fileiras de rostos mudos que o olhavam fixamente, como que temerosos por algum novo tormento planeado pelo seu coronel. Caminhou para a frente da companhia, olhando para as caras vermelhas que inchavam com os pescoços apertados e brilhantes do suor, causado pelo calor intenso, e voltou-se para eles.

     Tinha a casaca desabotoada, a camisa aberta e não usava chapéu. Para os homens do South Essex era como um visitante de outro continente.

     - Agora estão em guerra. Quando encontrarem os franceses muitos de vocês morrerão. A maioria. - Aquelas palavras assustavam-nos. - Vou-vos dizer porquê. - Apontou para o horizonte, para leste. - Os franceses estão por ali, à vossa espera.

     Alguns dos homens olharam para lá como se esperassem que o próprio Bonaparte surgisse através dos olivais dos arredores de Castelo Branco.

     - Eles têm mosquetes e todos eles podem disparar três ou quatro cargas por minuto. Dirigidas contra vocês. E matar-vos-ão porque sois muito lentos. Se não os matardes primeiro, matar-vos-ão eles, é muito simples. Tu, disse, assinalando um homem da primeira fila -, traz-me o teu mosquete!

     Pelo menos tinha atraído a atenção e alguns deles entenderiam o facto muito simples de que o lado que disparasse mais balas tinha mais possibili-dades de ganhar. Agarrou no mosquete do homem, num punhado de cartuchos e pousou a sua espingarda. Susteve o mosquete por cima da cabeça e começou pelo princípio.

     - Olhem para ele! Um mosquete do tipo índia. Cinquenta e cinco polegadas e um quarto de comprimento com dois canos de trinta e nove polegadas. Dispara balas de três quartos de polegada, quase tão largas como o vosso dedo médio, e até mata franceses!

     Ouviu-se um riso nervoso, mas os homens escutavam-no.

     - Porém, com ele, não matareis nem um francês. São demasiado lentos! No tempo que demoram a efectuar dois disparos o inimigo provavelmente consegue fazer três. E acreditai em mim, os franceses são lentos. Assim, esta tarde aprendereis a disparar três cargas por minuto. com o tempo, disparareis quatro por minuto e, se fordes realmente bons, poderão chegar a cinco!

     A companhia observava-o a carregar o mosquete. Havia tempo que não disparava com uma espingarda de alma lisa, mas comparado com a espingarda de Baker era ridiculamente fácil. O cano não tinha ranhuras para prender a bala e não era preciso empurrar a baqueta com força bruta nem mesmo encaixá-la com golpes. Um mosquete carregava-se tão rapidamente que, por essa razão, a maior parte dos exércitos o usavam em vez da espingarda, mais lenta mas muito mais precisa. Experimentou a pederneira, que era nova e estava bem colocada, pelo que pegou na arma e a levantou.

     - Tenente Knowles?

     O jovem tenente pôs-se em sentido.

     - Sim, meu Tenente!

     - Tem relógio?

     - Sim, meu Tenente.

     - Pode cronometrar um minuto?

     Knowles sacou de um enorme relógio de bolso de ouro e abriu a tampa em seguida.

     - Sim, meu Tenente.

     - Quando eu disparar, o senhor vai olhar para o relógio e avisa-me quando tiver passado um minuto. Entendido?

     - Sim, meu Tenente.

     Afastou-se da companhia e apontou o mosquete para um muro de pedra. Por Deus, rezou, que não falhe o tiro, e premiu o gatilho. O cão, com a sua pederneira agarrada, deu um salto para a frente, a pólvora da caçoleta incendiou-se, no instante a seguir explodiu a carga principal e ele sentiu o forte coice quando a bala de chumbo saiu disparada entre fumo branco e espesso.

     Agora já tudo era instintivo; os movimentos que nunca se esqueciam. A mão direita fora do gatilho, deixar cair a arma sobre a mão esquerda e quando a culatra toca no chão a mão direita já tem o cartucho seguinte. Arrancar a cápsula com os dentes. Vazar a pólvora para o cano mas lembrando-se de guardar uma pitada para o isco. Cuspir na bala. Movimentar a baqueta para cima e para baixo no cano. Um empurrão rápido e já estava mais uma vez de fora, o cano para cima, o percursor no lugar, pôr isco na caçoleta e disparar para o fumo que restava do primeiro tiro.

     Assim uma e outra vez, e as recordações de permanecer na linha junto a camaradas suados e com olhos enlouquecidos e ir continuando os movimentos como num pesadelo. Sem ligar às ondas de fumo, de gritos, aproximando-se pela esquerda e pela direita para preencherem os espaços deixados pelos mortos, só carregar e disparar, carregar e disparar, deixando que as chamas cuspam para a bruma de fumo de pólvora, que as balas de chumbo embatam contra o inimigo que não se vê e esperando que não se retire. Então ouve-se a voz de alto ao fogo e obedece-se, com a cara negra e picada pelas explosões de pólvora na caçoleta só a umas polegadas da face direita, os olhos a arder do fumo e dos grãos de pólvora, e quando essa fantasmagórica cortina se levanta aparecem pela frente os mortos e feridos, apoiamo-nos no mosquete e rezamos para que da próxima vez a arma não parta a pederneira ou pura e simplesmente se negue a disparar.

     Sharpe apertou o gatilho pela quinta vez e a bala embateu ao longe no campo; o mosquete já estava apoiado no chão e a pólvora no cano antes de Knowles lhe gritar: “Acabou o tempo!”

     Os homens cantaram vitória, riram e aplaudiram por um oficial ter ultrapassado as normas e mostrar que o podia fazer. Harper sorria abertamente. Ele pelo menos sabia o difícil que era efectuar cinco disparos num minuto e Sharpe sabia que o sargento tinha reparado que astutamente fizera o primeiro disparo antes que se começasse a cronometrar. Sharpe fez calar o ruído.

     - É assim que se utiliza um mosquete. com rapidez! Agora ides vós fazê-lo.

     Fez-se silêncio. Sharpe sentiu o diabo no corpo; por acaso não lhe dissera Sharpe que usasse os seus próprios métodos?

     - Tirem os colarinhos!

     Na altura ninguém se mexeu. Os homens olharam fixamente para ele.

     - Vá! Depressa! Tirem os colarinhos!

     Knowles, Denny e os sargentos observavam, espantados, enquanto os homens sustinham os mosquetes entre as pernas e utilizavam ambas as mãos para arrancarem com força os duros colarinhos de pele.

     - Sargentos! Recolham os colarinhos. Tragam-nos para aqui.

     O batalhão fora tratado com demasiada brutalidade. Não havia maneira de lhes poder ensinar a ser soldados rápidos a disparar, a menos que se lhes oferecesse a oportunidade de se vingarem do sistema que os tinha condenado a ser um batalhão de chicoteados. Os sargentos aproximaram-se dele, com ar desconfiado, e levando nos braços os odiosos colarinhos.

     - Ponham-nos aqui.

     Sharpe fez com que amontoassem os setenta e tantos colarinhos, uns quarenta passos à frente da companhia. Apontou para o monte brilhante.

     - É esse o alvo! Cada um de vós terá três disparos. Só três. E terão de os efectuar apenas num minuto! Os que o conseguirem duas vezes seguidas, poder-se-ão ir embora e têm a tarde livre. Os restantes continuarão a tentar uma e outra vez até serem capazes.

     Deixou que os oficiais organizassem o exercício. Os homens sorriram amplamente e levantou-se um murmúrio entre as fileiras que ele não tentou acalmar. Os sargentos olhavam para ele como se tivesse cometido uma traição, mas ninguém se atreveu a contrariar o fuzileiro alto e moreno com a espada comprida. Quando estava tudo preparado Sharpe deu o sinal e as balas começaram a esbarrar contra o monte de pele. Os homens esqueceram as antigas instruções e concentraram-se em disparar o seu ódio contra os colarinhos de pele que lhes tinham ferido a carne e que representavam Simmerson e toda a sua tirania. No final das primeiras sessões apenas vinte homens tinham conseguido, quase todos soldados veteranos que se tinham voltado a alistar no novo batalhão, mas uma hora e três quartos mais tarde, quando o Sol avermelhava por detrás de si, o último homem disparou a última bala em direcção aos fragmentos de pele rígida que manchavam a erva.

     Sharpe fez formar toda a companhia em duas filas e olhou para elas, satisfeito, quando soaram três descargas sob as ordens de Harper. Olhou através do fumo branco que ainda flutuava no ar parado até ao horizonte, a leste. Ali, na Estremadura, os franceses estavam à espera, com as suas águias reunidas para a batalha que em breve chegaria, enquanto atrás dele, pelo caminho que vinha da cidade, via-se vir Sir Henry Simmerson, disposto a proclamar a sua vitória e orgulhar-se das suas vítimas no triângulo.

     - O que nos vem para cima - disse Harper baixinho.

     - Cale-se! Faça-os carregar. Vamos fazer uma demonstração. Sharpe viu os olhos de Simmerson quando lentamente começou a dar-se conta do significado dos colarinhos desabotoados dos seus homens e das orlas de pele em cima da erva. Sharpe reparou que o coronel respirava fundo.

     - Prontos! Fogo!

     A ordem de Sharpe resultou numa descarga completa que ribombou como um trovão no vale. Se Simmerson gritava agora, as suas palavras perdiam-se por entre o ruído. Ao coronel só lhe restava observar que os seus homens manejavam os mosquetes como veteranos às ordens de um sargento de fuzileiros, ainda maior que Sharpe, cuja cara larga e confiante era das que sempre haviam posto Sir Henry furioso, provocando as suas frases mais violentas desde o assento bem protegido de magistrado em Chelmsford.

     A última carga sacudiu a parede de pedra e Forrest voltou a meter o relógio no bolso.

     - Faltam dois segundos para o minuto, Sir Henry, e quatro tiros.

     - Sei contar, Forrest.

     Quatro tiros? Simmerson estava impressionado porque secretamente tinha-se desesperado a ensinar aos seus homens a disparar com rapidez, em vez de manusearem nervosamente os mosquetes. Mas os colarinhos de uma companhia! E no dia em que o sobrinho tinha voltado a cheirar como um moço de estrebaria!

     - Maldito seja, Sharpe!

     - Sim, meu Coronel.

     O fumo irritante da pólvora fez com que o cavalo de Sir Henry desse um esticão com a cabeça e o coronel acercou-se para o acalmar. Sharpe observou o gesto e pensou que tinha posto o coronel em ridículo ante os seus próprios homens, e também que isso tinha sido um erro. Sharpe tinha ganho uma pequena batalha, mas tinha feito um inimigo poderoso e influente. O coronel aproximou o cavalo de Sharpe e a sua voz era surpreendentemente calma.

     - Este é o meu batalhão, senhor Sharpe. O meu batalhão. Recorde-o.

     Por um momento pareceu que a sua ira ia rebentar, mas susteve-a e em vez disso, gritou a Forrest que o seguisse. Sharpe deu a volta e foi-se embora. Harper estava a sorrir brincalhão, os homens pareciam satisfeitos, e apenas Sharpe teve o pressentimento de uma ameaça, como um inimigo invisível que se estivesse a aproximar. Afastou esse sentimento. Havia mosquetes para limpar, rações a distribuir e, mais para lá das colinas limítrofes, inimigos suficientes para todos.

    

     Patrick Harper marchava a passo ligeiro, feliz por sentir o caminho debaixo dos pés, feliz por finalmente terem atravessado a fronteira não delimitada e irem a caminho de algum lugar, de qualquer lugar. Tinham-se posto em marcha de madrugada, de forma que a maior parte do caminho se efectuara antes de o sol aquecer ao máximo. Esperava com prazer uma tarde de descanso e desejava que o local onde iam acampar, e que o major Forrest se tinha apressado a encontrar, ficasse perto de um qualquer riacho em que lançaria a cana com uma das suas larvas no anzol. Os do South Essex estavam algures atrás deles; Sharpe iniciara a marcha de um dia no passo rápido do regimento de Fuzileiros, três passos a caminhar, três a correr, e Harper alegrava-se por estarem longe da atmosfera de suspeita que reinava naquele batalhão. Sorriu ao lembrar-se dos colarinhos. Corria o rumor preocupante de que o coronel mandara Sharpe pagar todos os setenta e nove colarinhos estragados e isso, na opinião de Harper, era um preço terrível. Não tinha perguntado nada a Sharpe quanto a esse rumor; se o tivesse feito, este ter-lhe-ia dito que se metesse na sua vida, ainda que para Patrick Harper, Sharpe fizesse parte da sua vida. O tenente podia ser mal-humorado, irascível e propenso a repreender o sargento para aliviar a sua frustração mas, no fundo, Harper considerava Sharpe como um amigo. Não era palavra que um sargento usasse para com um oficial, mas não ocorria outra coisa a Harper. Sharpe era o melhor soldado que o irlandês já vira num campo de batalha, com olhos de camponês para o terreno e instinto de caçador para a guerra. Mas Sharpe apenas pedia conselho a um homem em batalha, e esse homem era o sargento Harper. Era uma relação fácil, de confiança e respeito, e Patrick Harper considerava que o seu trabalho era manter Richard Sharpe vivo e entretido. Gostava de ser soldado, mesmo num exército da nação que tinha ocupado a pátria da sua família e tinha pisado a sua religião. Fora educado nas lendas dos grandes heróis irlandeses, podia recitar de memória a história de Cuchulain que tinha derrotado as forças de Connaught, e quem tinham os ingleses que se pudesse comparar com tal herói? Mas a Irlanda era a Irlanda e a fome leva os homens a lugares estranhos. Se Harper tivesse dado razão ao coração estaria a lutar contra os ingleses, não a seu lado, mas, como muitos dos seus compatriotas, tinha encontrado um refúgio para a pobreza e a perseguição nas fileiras do inimigo. Nunca esquecia a pátria. Tinha na mente a imagem de Donegal, uma região de rochas retorcidas e solo fino, de montanhas, lagos, grandes planícies e minifúndios, em que as famílias enfrentavam uma existência miserável. E que famílias! Harper era o quarto filho que tinha sobrevivido à infância dos onze que a mãe tivera, e ela dizia sempre que não sabia como tinha podido parir uma coisa tão grande. Alimentar Patrick - dizia a mãe - era como alimentar três dos outros, e passara mais fome do que os irmãos. Depois chegou o dia em que se foi para ganhar a vida. Caminhara das montanhas Blue Stack até às ruas pavimentadas de Derry, e aí se embebedara dando por si alistado sem dar por nada. Oito anos depois, com vinte e quatro anos, era sargento. Em Tangaveane ninguém acreditaria!

     Já lhe era difícil olhar os ingleses como inimigos. A familiaridade tinha arranjado muitas amizades. O exército era um lugar em que os homens fortes podiam vingar e Patrick Harper gostava da responsabilidade que conseguira e desfrutava do respeito de outros, como Sharpe. Recordava as histórias dos seus compatriotas que tinham lutado contra os casacas-vermelhas nas colinas e nos campos da Irlanda e, por vezes, perguntava-se sobre o que seria dele se voltasse a viver de novo em Donegal. Esse problema de lealdade era demasiado difícil e guardava-o no fundo da mente, escondido junto aos vestígios da sua religião. Talvez a guerra durasse sempre ou talvez Patrick voltasse e convertesse os ini-migos à verdadeira fé. Quem sabe? Mas por enquanto estava satisfeito por ser soldado e contentava-se com isso. Na véspera tinha visto um falcão-peregrino a voar muito alto, e a alma de Patrick Harper elevara-se até o alcançar. Conhecia todos os pássaros do Ulster, amava-os, e enquanto caminhava esquadrinhava a terra e o céu em busca de novas aves, porque o sargento nunca se cansava de as observar. Nas colinas a norte do Porto vislumbrara por breves instantes uma estranha pega com uma longa cauda azul, completamente diferente de tudo o que tinha visto antes, e queria ver outra. A expectativa e a espera faziam parte da sua satisfação e do seu prazer.

     Apareceu uma lebre num campo próximo do caminho. Uma voz gritou “é minha” e todos se detiveram enquanto o homem se ajoelhava, apontava rapida-mente e disparava. Falhou o tiro e os fuzileiros troçaram dele. A lebre girou sobre as patas e escondeu-se entre as rochas. Daniel Hagman não costumava errar, tinha aprendido a disparar com o pai, que era caçador furtivo, e todos os fuzileiros estavam secretamente orgulhosos da habilidade daquele homem do Cheshire com a espingarda. Enquanto recarregava abanou a cabeça, aborrecido.

     - Lamento, meu Tenente. Estou a ficar velho.

     Sharpe riu-se. Hagman tinha quarenta anos, mas ainda disparava melhor que o resto da companhia. A lebre tinha percorrido duzentas jardas e teria sido um milagre se tivesse acabado nas panelas do jantar.

     - Vamos descansar - disse Sharpe. - Dez minutos.

     Pôs dois homens de sentinela. Os franceses estavam a várias milhas de distância, a cavalaria britânica ia a caminho à frente deles, mas os soldados mantinham-se com vida tomando precauções e esta era uma terra estranha pelo que Sharpe manteve a guarda e os dois homens seguiram com as armas carregadas. Tirou a mochila e as cartucheiras, satisfeito por se livrar das oitenta libras de peso e sentou-se ao lado de Harper, que estava recostado e olhava para o céu azul-claro. - Um dia quente para marchar, sargento.

     - Será, meu Tenente, será. Mas melhor que o maldito Inverno passado. Sharpe sorriu brincalhão.

     - Arranjou-se para se manter suficientemente quente.

     - Fizemos o que pudemos, meu Tenente, fizemos o que pudemos. Lembra-se do santo padre no mosteiro?

     Sharpe assentiu, mas não havia maneira de parar Patrick Harper quando tinha começado a contar uma boa história.

     - Disse-nos que não havia nada para beber no local! Nada para beber e estávamos tão frios como a água no Inverno! Foi terrível ouvir tal mentira na boca de um homem de Deus.

     - O senhor deu-lhe uma lição, meu Sargento! - disse Pendletton, o menino da companhia, com apenas dezassete anos e ladrão das ruas de Bristol, enquanto sorria para o irlandês do outro lado da estrada.

     - Demos-lha, rapaz. Lembras-te? Não há padre que fique sem bebida, e nós encontrámo-la. Meu Deus! Um barril suficientemente grande para afogar a sede de um exército inteiro, e durou-nos uma noite. Primeiro metemos a cabeça do santo padre dentro do vinho para lhe ensinar que mentir é um pecado mortal.

     Harper ainda se ria ao recordá-lo.

     - Não me cairia mal uma pinguita agora - disse, enquanto olhava inocente-mente para os homens que descansavam à sua volta na beira do caminho. - Alguém quer um gole?

     Fez-se silêncio. Sharpe deitou-se para trás e ocultou o sorriso. Sabia o que Harper estava a fazer e não podia adivinhar o que se passaria a seguir.

     Os Fuzileiros eram um dos poucos regimentos que podiam seleccionar os recrutas e recusar os que não fossem os melhores, mas mesmo assim sofria com o pecado que assediava todo o exército: a embriaguez.

     Sharpe calculou que houvesse pelo menos meia-dúzia de garrafas de vinho pelas redondezas e Harper ia encontrá-las. Ouviu o sargento a aproximar-se dos homens.

     - Bom! Revista.

     - Meu Sargento! - exclamou Gataker, caindo na esparrela. - Inspeccionou as garrafas de água esta manhã! Já sabe que não temos nada de especial nelas.

     - Sei o que não tinham nas garrafas de água, mas não é disso que estou a falar, não é verdade?

     Não houve resposta.

     - Tirem para fora todas as munições! Agora, já!

     Ouviram-se queixumes. Tanto os portugueses como os espanhóis estariam encantados por venderem vinho em troca de meia-dúzia de cartuchos feitos com pólvora britânica, a mais fina do mundo, e não era um risco muito grande apostar que se algum homem tivesse menos que os oitenta cartuchos que lhes correspondiam Harper encontraria uma garrafa escondida no fundo da sua mochila. Sharpe ouvia o ruído da revista e o tumulto. Abriu os olhos e viu que tinham aparecido, como por artes de magia, sete garrafas. Harper vigiava-as triunfalmente.

     - Estas, partilhá-las-emos esta noite. Bem feito, rapazes, sabia que não me iam decepcionar - disse voltando-se para Sharpe. - Quer que façamos uma contagem de munições, meu Tenente?

     - Não, vamos continuar.

     Sabia que podia confiar em que os homens não vendessem mais do que um punhado de cartuchos. Olhou para o enorme irlandês.

     - Quantos cartuchos tem, sargento?

     - Oitenta, meu Tenente.

     - Mostre-me o corno da pólvora.

     - Pensava que lhe agradasse beber uma pinga esta noite, meu Tenente - disse Harper sorrindo maliciosamente.

     - Vamos, passe-mo.

     Sharpe esboçou uma divertida careta ante a frustração de Harper. Para além das oitenta cargas, mais vinte do que o resto do exército, os fuzileiros também tinham um corno de pólvora fina para usarem em caso de necessidade.

     - Bom, sargento. Dez minutos de marcha rápida e a seguir mais lenta. Ao meio-dia encontraram-se com o major Forrest e a sua pequena guarda avançada a cavalo, que surgia entre o caminho e o riacho que Harper tanto desejara. O major guiou os fuzileiros para o local escolhido.

     - Sharpe, pensei que seria melhor que estivesse um tanto afastado do coronel.

     - Não se preocupe - respondeu Sharpe fazendo uma careta ao nervoso comandante. - É uma excelente ideia.

     Forrest no entanto continuava preocupado. Olhou para os homens de Sharpe que estavam a cortar ramos.

     - Sharpe, Sir Henry insiste em que as fogueiras que se façam estejam bem controladas.

     - Nem uma chama fora do sítio, meu Comandante. Prometo - respondeu Sharpe levantando as mãos.

     Uma hora depois, chegou o batalhão e os homens atiraram-se para o chão e descansaram as cabeças sobre as mochilas. Alguns deles foram até ao riacho e sentaram-se metendo os pés feridos e inchados na água fresca. Colocaram-se sentinelas, encostaram-se as armas, o cheiro do tabaco espalhou-se por entre as árvores e um confuso jogo de futebol começou, longe do amontoado de bagagem que indicava a desordem temporária dos oficiais. Os últimos a chegar foram as mulheres e as crianças, misturados com os arrieiros portugueses e os seus animais, Hogan com as suas mulas e o gado vacum conduzido pelos camponeses contratados, que proporcionaria carne até ao último animal ser sacrificado.

     Sharpe sentia-se inquieto na tarde sonolenta. Não tinha família a quem escrever e não tinha vontade de se juntar a Harper, que tentava em vão pescar uns peixes inexistentes com as suas larvas. Hogan dormia, ressonando suave-mente à sombra, pelo que Sharpe se levantou da erva, pegou na espingarda, encaminhou-se para o piquete de guarda e passou por ele. O dia estava fantástico. Não se via uma nuvem no céu, a água do riacho corria límpida, um sopro de brisa agitava a erva e fazia oscilar as pálidas folhas das oliveiras. Caminhou entre a corrente e uma seara de milho, saltou por cima de uma represa de vime que tapava um açude e entrou num pequeno olival salpicado de rochas. Nada se mexia. Os insectos zumbiam e estalejavam, um cavalo relinchou no acampamento, o som da água desapareceu atrás de si. Alguém lhe tinha dito que estavam em Julho. Talvez fosse o dia dos seus anos. Não sabia em que dia tinha nascido, mas recordava-se que a mãe, antes de morrer, lhe chamara um bebé de Julho, ou seria de Junho? Pouco se lembrava dela. Cabelo escuro e uma voz à distância. Tinha morrido quando ele era ainda uma criança e não tinha mais família.

     A paisagem diluía-se sob o calor, quieto e silencioso, e o campo tinha engolido o batalhão, como se este não existisse. Dirigiu o olhar para o caminho por onde o batalhão tinha desfilado e, mais ao fundo, demasiado longe para ver bem, havia uma nuvem de pó por onde ia o grosso de um exército. Sentou-se junto a um nodoso tronco de árvore, com a espingarda entre os joelhos e olhou fixamente para a neblina produzida pelo calor. Surgiu do chão uma lagartixa, deteve-se, olhou para ela, depois o bicho subiu a correr pelo tronco da árvore e ficou imóvel, como se ele fosse tirar-lhe a vista enquanto estivesse quieto. Um ligeiro movimento no céu fê-lo levantar os olhos, um falcão deslizava suavemente, com as asas paradas e a cabeça a esquadrinhar o terreno à procura de uma presa. Patrick teria sabido de imediato de que ave se tratava, mas para Sharpe o pássaro não passava de outro caçador, e hoje, pensou, não há nada para nós, os caçadores. Como se tivesse lido o seu pensamento, o pássaro bateu as asas e, por momentos, ficou fora do alcance da sua vista. Sentia-se confor-tável e preguiçoso, em paz com o mundo, contente por ser um fuzileiro em Espanha. Olhou para as pequenas oliveiras que prometiam uma fraca colheita, e pensou na família que abanaria os ramos no Outono, cujas vidas estavam delimitadas entre a corrente do rio, os extensos campos e o caminho alto e escarpado que ele provavelmente nunca mais voltaria a ver.

     Então ouviu-se um ruído. Demasiado longe para que lhe parecesse alar-mante, mas estranho e bastante persistente para o alertar e fazer com que a mão direita agarrasse firmemente a espingarda. Havia sem dúvida cavalos no caminho, apenas dois pelo som dos cascos, mas moviam-se lentamente e com pouca segurança, e esse som sugeria-lhe que algo se passava. Duvidava que os franceses tivessem patrulhas de cavalaria nesta parte de Espanha, mas pelo sim, pelo não, moveu-se em silêncio por entre o arvoredo, escolhendo instintiva-mente um caminho que escondesse e camuflasse o seu uniforme verde, até que surgiu à brilhante luz do Sol para surpreender o viajante.

     Era a jovem. Ainda vestida como um homem, com as calças pretas e as botas, com o mesmo chapéu de abas largas que ocultava a sua beleza. Ia a pé, ou melhor a coxear como o seu cavalo e, ao ver Sharpe, deteve-se e olhou para ele aborrecida, como se a perturbasse ser vista de surpresa. O criado, um homem pequeno e moreno que conduzia uma mula muito carregada, deteve-se dez passos atrás dele e ficou a olhar fixamente para ele sem dizer nada ao fuzileiro alto e cheio de cicatrizes. A égua olhava também para Sharpe, sacudia as moscas com a cauda e deteve-se pacientemente com uma pata traseira levantada do chão. A ferradura pendia de um único cravo e o animal devia ter sofrido terrivelmente com o calor da estrada cheia de pedras. Sharpe abanou a cabeça enquanto olhava para a pata.

     - Porque é que não lhe tiraram a ferradura? - Sabe como isso se faz? - perguntou ela numa voz surpreendentemente suave.

     Ela sorriu, o aborrecimento desapareceu-lhe do rosto e, por um instante, Sharpe não disse nada. Calculou que tivesse uns vinte anos, mas usava a sua beleza com a segurança de alguém que sabe que esta pode ser melhor herança do que o dinheiro ou as terras. A hesitação dele parecia diverti-la, como se estivesse habituada a produzir aquele efeito nos homens, e arqueou maliciosamente as sobrancelhas. - Sabe? Sharpe assentiu e dirigiu-se ao bonito animal. Puxou o casco para si, sustendo firmemente a ferradura, e a égua estremeceu mas ficou quieta. A ferradura teria caído se desse mais uns passos, arrancou-a facilmente com um pequeno puxão e largou a pata da égua. Mostrou a ferradura à rapariga.

     - Teve sorte.

     - Porquê? - perguntou ela olhando-o com os olhos grandes e escuros. - Talvez se possa voltar a pôr, se bem que não o possa garantir.

     Sentia-se desajeitado e pouco à vontade na presença dela e até se lhe travava a língua. Desejava-a apaixonadamente. Ela não fez qualquer gesto para pegar na ferradura, pelo que ele meteu-a no alforge a transbordar.

     - Há-de haver alguém que saiba ferrar um cavalo ali em cima - disse apontando com a cabeça. - Há um batalhão ali acampado.

     - O South Essex? - perguntou ela num inglês correcto, mas com pronúncia portuguesa.

     - Sim.

     - Está bem - anuiu. - Seguia-o quando se desprendeu a ferradura. Olhou para o criado e sorriu.

     - Pobre Agostinho. Tem medo dos cavalos.

     - E a senhora?

     Sharpe queria que ela continuasse a falar. Não era costume as mulheres seguirem o exército; as tropas de Sir Arthur Wellesley já tinham reunido mulheres inglesas, irlandesas, espanholas e portuguesas, amantes e prostitutas, mas era pouco vulgar ver uma mulher tão bonita, com um bom cavalo e servida por um criado, e aquilo despertava a curiosidade de Sharpe. Mais do que a curiosidade. Desejava aquela jovem. Era uma reacção à beleza dela tal como uma reacção ao facto de saber que uma jovem de semelhante beleza não precisava de um tenente andrajoso e sem fortuna pessoal. Podia escolher entre os oficiais ricos, mas tal não iria impedir Sharpe de olhar para ela e de a desejar. Ela parecia ter lido os seus pensamentos.

     - Acha que devia ter medo?

     Sharpe encolheu os ombros, deitando uma vista de olhos caminho acima onde o fumo do batalhão se fundia com o entardecer.

     - Os soldados não são apreciados, minha Senhora.

     - Obrigada, por me avisar - disse ela gracejando. - Tenente? - perguntou observando a faixa descolorida.

     - Tenente Sharpe, minha Senhora.

     - Tenente Sharpe - sorriu ela, mostrando-lhe a sua beleza. - Deve conhecer Christian Gibbons.

     Ele abanou a cabeça, sentindo a injustiça da vida. O dinheiro podia comprar tudo: uma promoção, uma graduação de oficial, uma espada dese-nhada especialmente para um homem, inclusive uma mulher como aquela.

     - Conheço.

     - E não gosta dele! - Riu-se, sabendo que o seu instinto tinha razão. - Mas eu sim.

     Deu um estalo com a língua ao cavalo e apanhou as rédeas.

     - Espero que nos voltemos a ver. vou convosco para Madrid. Sharpe não queria que ela se fosse embora.

     - Está muito longe de casa.

     - O senhor também, tenente, o senhor também - disse ela, virando-se com um sorriso divertido.

     Conduziu a égua coxa, seguida pelo criado mudo, para o bosque e para as primeiras espirais de fumo azul que começavam a dar vida às fogueiras para fazer a comida. Sharpe observou-a, deixou que os olhos seguissem a figura esbelta por baixo da roupa de homem e sentiu inveja e a intensidade do seu desejo. Encaminhou-se de novo para o olival, como se o facto de abandonar o caminho a pudesse apagar da sua memória e assim recuperar o sossego da tarde. Maldito Gibbons e o seu dinheiro, malditos todos os oficiais que podiam pagar as belezas que cavalgavam em éguas de pura raça atrás do exército. Deu rédea solta aos seus mais amargos pensamentos, fê-los girar na cabeça para tentar convencer-se que não a desejava, mas enquanto caminhava por entre as árvores sentia ainda o calor da ferradura na mão direita. Nela apenas havia um cravo retorcido, e meteu-o com cuidado no saco de munições. Pensou que talvez pudesse ser útil: precisava de um cravo para fixar a mola da espingarda quando desmontava a segurança para a limpar, mas havia muitos cravos melhores e sabia que o guardava porque tinha pertencido à jovem. Aborrecido, procurou-o por entre os grandes cartuchos e atirou-o para muito longe.

     Ouviu-se o som de disparos de mosquete do batalhão ali assente e; pensou que tinham sacrificado dois bois para o jantar dessa noite. Havia vinho com o guisado e depois o brande de Hogan, histórias de velhos amigos e campanhas esquecidas. Tinha estado com prazer à espera da comida, do entardecer, mas de repente tudo mudara. A jovem estava no acampamento, o seu riso invadiria a paz, e ele, pensava enquanto regressava pelo riacho, ele nem sequer sabia como se chamava.

    

     O regimento de Santa Maria teria conquistado o mundo se as palavras e a pompa tivessem sido suficientes. Mas a pontualidade não era uma das suas manifestas virtudes militares. O South Essex tinha marchado rapidamente durante quatro dias para chegar ao encontro em Plasência, mas não encontrou um único soldado espanhol na cidade. As cegonhas batiam preguiçosamente as asas nos ninhos sobre os telhados empinados que se elevavam até à antiga catedral que dominava tanto a cidade como a planície que a rodeava, mas não havia sinal do Santa Maria. O batalhão esperava. Simmerson tinha acampado fora das muralhas e os homens olhavam com inveja como outras unidades chegavam e marchavam para o interior das ruas tentadoras com as suas tabernas e as suas mulheres. Três homens desobedeceram à ordem taxativa de se manterem fora da cidade e foram capturados, completamente bêbados, pelo capitão de piquete à cidade e açoitados enquanto o batalhão formava junto ao rio Jerte.

     Por fim, com dois dias de atraso, chegou o regimento espanhol e o South Essex passou por uma revista às cinco horas da manhã para iniciar a marcha para sul, para Valdelacasa. O ar estava fresco mas aqueceria ao despontar do Sol, e a hora prevista para a partida, as cinco e meia, passou sem que houvesse sinal do Santa Maria. Os homens batiam os pés e esfregavam as mãos para se livrarem do frio. Batiam as seis nos sinos da cidade. As crianças que esperavam junto às mães para verem marchar o batalhão começaram a cansar-se e corriam por entre as fileiras, apesar dos gritos de Simmerson a que se seguiram os dos sargentos e dos cabos. O batalhão estava formado junto à ponte romana sobre o rio e Sharpe seguiu o capitão Hogan, resmungão, até aos antigos arcos e ficou a olhar fixamente para a água que corria à volta dos enormes pedregulhos de granito que algum levantamento de terra tinha deixado no leito do rio. Hogan estava impaciente.

     - Malditos! Porque é que não podemos iniciar a marcha e deixar que esses miseráveis nos alcancem mais à frente?

     Sabia perfeitamente que tal não era possível. A resposta chamava-se diplomacia e parte do preço da cooperação com as susceptíveis tropas espanholas era que o regimento nativo devia marchar primeiro. Sharpe não disse nada. Ficou a olhar fixamente para a água e para as grandes ervas que ondulavam à passagem da corrente. Estremeceu com a brisa do amanhecer. Partilhava a impaciência de Hogan misturada com as frustrações que se agitavam dentro de Simmerson como a erva do rio que se movia lentamente. Levantou os olhos para a catedral, banhada pelo sol do amanhecer, e tentou concentrar a sua apreensão quanto à operação de Valdelacasa. Parecia simples. Um dia de marcha até ao rio, um dia para Hogan destruir os arcos, já decrépitos, e um dia de marcha para regressar a Plasência, onde Wellesley estava a concentrar as suas forças para a seguinte etapa de avanço dentro de Espanha. Mas havia algo, algo instintivo tão difícil de concretizar como as sombras cinzentas que retrocediam com o alvorecer, que lhe dizia que não iria ser assim tão fácil. Não eram os espanhóis que o preocupavam. Tal como Hogan, sabia que a presença deles era um imperativo político e uma farsa militar. Se se mostrassem tão inúteis como a sua reputação sugeria, isso não importava; o South Essex era suficientemente forte para aguentar o que fosse necessário. E era esse o problema. Simmerson nunca se tinha enfrentado com o inimigo e Sharpe tinha pouca fé na habilidade do coronel para fazer o que era devido. Se realmente houvesse franceses na margem sul do Tejo, e se o South Essex tivesse de repelir um ataque na ponte enquanto Hogan colocava as cargas, então Sharpe preferiria que fosse um soldado veterano a tomar decisões e não aquele coronel da milícia cuja cabeça estava a abarrotar de teorias sobre batalhas e de tácticas aprendidas nos seguros campos do Essex.

     Mas não era só Simmerson. Olhou para o caminho que conduzia à cidade onde permanecia um confuso grupo de mulheres, as mulheres do batalhão, e perguntou-se se a jovem, Josefina Lacosta, estaria ali. Pelo menos já sabia como se chamava e tinha-a visto, uma dúzia de vezes, montada na delicada égua com uma multidão de tenentes de Simmerson a rir e a gracejar à sua volta. Tinha ouvido rumores acerca dela; era mulher de um rico oficial português, que a tinha abandonado. Ninguém tinha a certeza, mas o que era verdade é que conhecera Gibbons num baile no Hotel Americano de Lisboa e, em poucas horas, tinha decidido ir para a guerra com ele. Dizia-se que tinham planeado casar-se quando o exército chegasse a Madrid e que Gibbons lhe prometera uma casa e uma vida de bailes e diversão. Fosse qual fosse a verdade sobre Josefina, ninguém se privava da sua presença, extasiava todo o batalhão, coqueteava até com Sir Henry, que respondia com muita galanteria e dizia aos oficiais que os jovens são assim. “Christian precisa de fazer exercício, não é verdade?” Simmerson repetia a graça e ria-se de cada vez que o fazia. A indulgência do coronel fora tal que permitiu que o sobrinho quebrasse o regulamento e alugasse vários quartos na cidade onde vivia com a jovem e acolhia os seus amigos em longas e calorosas noitadas. Gibbons era a inveja de todos os oficiais, Josefina a sua jóia da coroa, e Sharpe estremecia sobre a ponte e perguntava-se se ela iria alguma vez para as terras planas do Essex e para uma grande casa construída com os lucros da salga de peixe. Bateram as sete e ouviu-se o rumor da excitação ao ver-se que um grupo de cavaleiros surgia das casas e cavalgava em direcção ao batalhão que os esperava. Os cavaleiros afinal eram britânicos e a tropa voltou a acalmar-se. Hogan e Sharpe encaminharam-se para os seus homens formados junto à Companhia Ligeira de Lennox à esquerda do batalhão e viram que os recém-chegados cavalgavam para se reunir com Simmerson. Todos os cavaleiros usavam uniforme, menos um, que tinha calças azuis por baixo de um capote cinzento e trazia na cabeça um simples chapéu de dois bicos. O alferes Denny”, de dezasseis anos e com mal contida excitação, estava de pé, perto dos fuzileiros, e Sharpe perguntou-lhe se sabia quem era o que parecia vir à civil.

     - Não, meu Tenente.

     - Sargento Harper! Diga ao senhor Denny quem é o cavaleiro com o capote cinzento.

     - O general, senhor Denny. Sir Arthur Wellesley em pessoa. Nascido na Irlanda, como os melhores soldados!

     Uma onda de risos percorreu as fileiras mas todos se puseram em sentido a olhar para o homem que os levaria até Madrid. Viram que puxava por um relógio e olhava para a cidade de onde deviam vir os espanhóis. Contudo, não havia sinal do regimento, apesar de o sol ir já bem alto por cima do horizonte e o orvalho ter desaparecido da erva. Um dos oficiais do estado-maior de Wellesley separou-se do grupo e fez trotar a cavalo até Hogan. Sharpe pensou que ele quisesse falar com o oficial de engenharia e afastou-se, voltando para a ponte, para dar a Hogan alguma intimidade.

     - Sharpe! Richard!

     A voz era-lhe familiar, como se pertencesse ao passado. Virou-se para ver o oficial do estado-maior, um tenente-coronel que lhe estava a acenar com a mão e escondia o rosto com um tricórnio.

     - Richard! Não se lembra de mim?

     - Lawford! - O rosto de Sharpe abriu-se num sorriso. - Meu Tenente-Coronel! Nem sequer sabia que estava cá!

     Lawford apeou-se rapidamente da sela, tirou o chapéu e abanou a cabeça.

     - Está com um aspecto horrível! Realmente devia comprar outro uniforme um dia destes - disse, sorrindo, enquanto estendia a mão a Sharpe.

     - Estou encantado por vê-lo, Sharpe.

     - E eu a si. Tenente-coronel? As coisas correm-lhe bem!

     - Custou-me três mil e quinhentas libras, Richard, e você bem o sabe. Bendito seja o dinheiro.

     Lawford. Sharpe lembrava-se de quando o digno William Lawford era um tenente assustado e um sargento chamado Sharpe tinha-o guiado através do calor da índia. Depois Lawford saldara a sua conta. Numa cela da prisão de Seringapatam o aristocrata ensinou o sargento a ler e a escrever, e esse exercício impedira que ambos enlouquecessem no húmido inferno dos calabouços do sultão Tippoo. Sharpe abanou a cabeça.

     - Não o via desde... - Há meses. Muito tempo. Como está?

     - Tal como vê - sorriu zombeteiramente Sharpe.

     - Desalinhado? - sorriu Lawford.

     Tinha a idade de Sharpe, mas era essa a única semelhança. Lawford era um dândi, vestia sempre a melhor roupa e Sharpe tinha-o visto pagar sete guinéus a um alfaiate do regimento para dar um acabamento melhor a um casaco já por si de corte perfeito. Estendeu expressivamente as mãos.

     - Pode deixar de se preocupar, Richard, Lawford está aqui. Os franceses render-se-ão de certeza quando se inteirarem. Meu Deus! Custou-me meses a conseguir este trabalho! Estava detido no Castelo de Dublin, a render a maldita guarda e a procurar mil ligações para entrar para o estado-maior de Wellesley. E aqui estou! Cheguei há duas semanas!

     As palavras retumbavam. Sharpe estava encantado por vê-lo. Lawford, tal como Gibbons, resumia tudo o que mais odiava no exército; como o dinheiro e as influências podiam comprar as promoções, enquanto outros, como Sharpe, apodreciam na miséria. No entanto, Sharpe gostava de Lawford, não podia sentir ressentimento e supunha que era porque o aristocrata, com toda a segurança da sua origem, correspondia a Sharpe da mesma maneira. E Lawford, apesar de todos os seus ornamentos e da sua suposta languidez, era um militar lutador. Sharpe levantou a mão para deter o fluxo de notícias.

     - Que se passa, meu Tenente-Coronel? Onde estão os espanhóis?

     - Na cama - respondeu Lawford abanando a cabeça. - Pelo menos estavam, os guerreiros vestiram as calças e disseram que já vinham.

     Aproximou-se de Sharpe e baixou a voz.

     - Que tal se dá com Simmerson?

     - Não tenho de me dar com ninguém de maneira nenhuma. Trabalho para Hogan.

     Parecia que Lawford não tinha ouvido a resposta.

     - É um homem extraordinário. Sabia que pagou para promover este regimento?

     Sharpe abanou a cabeça.

     - Sabe quanto lhe terá custado isso, Richard? É impensável!

     - Então é rico. Mas isso não o faz militar - disse Sharpe com amargura.

     - Mas quer ser - disse Lawford encolhendo os ombros. - Quer ser o melhor. Vínhamos para cá no mesmo barco e tudo o que fazia diariamente era sentar-se a ler as normas e o regulamento para os exércitos de Sua Majestade! - exclamou abanando a cabeça. - Talvez aprenda. No entanto, não o invejo a si - disse virando-se para olhar para Wellesley. - Bem, não posso ficar aqui todo o dia. Escute. Tem de vir comer comigo quando voltar deste trabalho. Virá?

     - Será um prazer.

     - Formidável! - exclamou Lawford subindo para a sela. - Espera-os uma luta. Enviámos os Dragões Ligeiros para sul e dizem-nos que há um punhado considerável de franceses por lá com alguma artilharia. Estiveram a tentar arrancar os guerrilheiros das colinas mas agora estão a dirigir-se de novo para leste, como nós, por isso boa sorte. - Obrigou o cavalo a dar meia volta para se ir embora e então olhou para trás. - E... Richard.

     - Meu Tenente-Coronel?

     - Sir Arthur pediu que lhe desse cumprimentos.

     - Ah sim?

     Lawford baixou os olhos para Sharpe.

     - Você é um idiota - disse-lhe amigavelmente. - Quer que dê cumpri-mentos ao general? Será o mais apropriado.

     Sorriu brincalhão, saudou com o chapéu e foi-se embora.

     Sharpe seguiu-o com a vista enquanto ele se afastava e a apreensão perante o frio amanhecer dissipou-se de repente com aquela imprevista avalanche de amizade. Hogan aproximou-se dele.

     - Amigos em altos cargos?

     - Um velho amigo. Estivemos na índia.

     Hogan não disse nada. Olhava fixamente para o campo, com a boca aberta de surpresa e Sharpe seguiu-lhe o olhar.

     - Meu Deus.

     Chegara o regimento de Santa Maria. Dois trombeteiros com perucas empoadas encabeçavam a procissão. Montavam cavalos pretos e brilhantes, engalanados com uniformes que eram um escândalo de ouro e prata, as trombetas engalanadas com cintas, borlas e bandeirolas.

     - Diabos! - exclamou uma voz entre as fileiras. - As fadas estão do nosso lado.

     As bandeiras vinham depois, cobertas de brasões, bordadas a ouro, com borlas, laços, coroas, floreados, transportadas por cavaleiros cujos animais davam passos delicadamente altos com se a terra fosse pouco adequada para suportar tão esplêndidas criações.

     Os oficiais vinham atrás. Devia ser um prazer para Sir Henry Simmerson, pois tudo o que podia ser areado tinha sido polido com tal intensidade que feria a vista; quer fosse de pele, bronze, prata ou ouro. Dragonas de cordões dourados incrustadas de pedras semipreciosas; casacos debruados com fios de prata, com plumas e alamares, com faixas, tudo reluzente. Era um espectáculo deslumbrante.

     Os soldados vinham a seguir, uma desordem que avançava vacilando, movida por tambores enérgicos mas irregulares. Sharpe estava espantado. Tudo o que tinha ouvido a respeito do exército espanhol parecia estar certo, pelo menos no que se referia ao grosso do regimento; as armas estavam baças e descuidadas, não havia coragem no seu porte, e Madrid parecia de repente muito longe se era aquela a qualidade dos aliados que ajudariam a desobstruir o caminho. Sentiu-se uma renovada intensidade dos tambores espanhóis quando os dois trombeteiros desafiaram o céu com uma fanfarra. Depois fez-se silêncio.

     - E agora o quê? - murmurou Hogan.

     Discursos. Wellesley, sábio em questões de diplomacia, fugiu quando o coronel espanhol se aproximou para arengar ao South Essex. Não havia tradu-tor oficial, mas Hogan que falava alguma coisa de espanhol estava a oferecer aos ingleses uma oportunidade, uma pequena oportunidade, de partilhar o glorioso triunfo dos guerreiros espanhóis contra os seus inimigos. Os gloriosos guerreiros espanhóis, incitados pelos seus sargentos, aplaudiram o discurso enquanto que o South Essex, incitado por Simmerson, fez o mesmo. Trocaram-se saudações, apresentaram-se armas, houve mais fanfarras, mais tambores, chegou tudo ao clímax quando apareceu um sacerdote que, montando um pequeno burro cinzento, benzeu o Santa Maria com a ajuda de uns rapazes vestidos com sobrepelizes brancas. Intencionalmente, os pagãos britânicos não foram incluídos nas preces ao Todo-Poderoso.

     Hogan puxou pela sua caixinha de rape.

     - Acredita que lutarão?

     - Sabe Deus.

     Sharpe sabia que no ano anterior, um exército espanhol tinha forçado a rendição de vinte mil franceses, pelo que não havia dúvida de que os espanhóis podiam lutar se o seu comando e a sua organização se equiparassem com as suas ambições. Mas para Sharpe, a evidência deste regimento sugeria que os seus aliados imediatos não tinham a organização nem os chefes necessários para fazer outra coisa que não fosse, talvez, pronunciar discursos retumbantes.

     Às dez e meia, com cinco horas de atraso, o batalhão pôs finalmente as mochilas às costas e seguiu o Santa Maria atravessando a velha ponte. Sharpe e Hogan iam à frente do South Essex e imediatamente atrás de uma retaguarda espanhola de aspecto pouco guerreiro. Uma recua de mulas estava a ser obrigada a avançar, bem carregada de luxos para que os oficiais espanhóis tivessem todo o conforto no campo; entretanto, no meio dos animais, cavalgava o sacerdote que se virava continuamente e sorria nervoso com os dentes enegrecidos aos pagãos que iam atrás dele. O mais estranho de tudo eram três mulheres jovens vestidas de branco que montavam cavalos de pura raça e usavam guarda-sóis debruados. Riam constantemente com um riso tonto, voltavam-se e olhavam para os fuzileiros, pareciam três noivas a cavalo. Bela maneira de ir para a guerra, pensou Sharpe.

     Até ao meio-dia a coluna apenas fizera cinco milhas e tinha parado. Soaram trombetas à cabeça do regimento espanhol; alguns oficiais percorreram a galope as fileiras, levantando violentas nuvens de pó e os soldados simples-mente deixaram cair as armas e as mochilas e sentaram-se na estrada. Todos os que tinham graduação começaram a discutir, o sacerdote cravado entre as mulas gritava histérico a um oficial a cavalo, enquanto as três mulheres definhavam visivelmente e abanavam-se com as mãos calçadas por luvas brancas. Christian Gibbons conduziu o cavalo para a cabeça da coluna e sentou-se a olhar fixamente para elas.

     Sharpe ergueu a vista para ele.

     - A do meio é a mais bonita.

     - Obrigado - disse Gibbons com pesada ironia. - É muito observador da sua parte, Sharpe.

     Estava a ponto de esporear o cavalo para a frente quando Sharpe pôs uma mão na brida.

     - Ouvi dizer que os oficiais espanhóis gostam de duelos.

     - Ah - respondeu Gibbons olhando fixamente para Sharpe. - Talvez o senhor tenha razão.

     Levou o cavalo caminho abaixo.

     Hogan gritava em espanhol ao sacerdote, tentando averiguar porque se tinham detido. O sacerdote sorriu com a boca enegrecida e elevou os olhos para o céu como para dizer que eram desígnios de Deus e não havia nada a fazer.

     - Maldição! - exclamou Hogan olhando rapidamente à sua volta. - Maldição! Não se dão conta do tempo que perdemos? Onde está o coronel?

     Simmerson não estava muito longe. Ele e Forrest chegaram produzindo um rápido martelar de cascos.

     - Que diabos se passa?

     - Não sei, meu Coronel. Os espanhóis sentaram-se. Simmerson humedeceu os lábios.

     - Por acaso sabem que temos pressa?

     Ninguém respondeu. O coronel olhou para os oficiais como se algum deles pudesse sugerir uma resposta.

     - Vamos, então. Vejamos o que se passa. Importa-se de traduzir, Hogan? Sharpe mandou dispersar os seus homens enquanto os oficiais a cavalo avançaram até à cabeça da coluna. Os fuzileiros sentaram-se à beira do caminho com as mochilas ao lado. Os espanhóis pareciam adormecidos. O Sol ia alto e a superfície da estrada reflectia um calor asfixiante. Sharpe tocou por acaso no cano da espingarda e desviou-se para trás ao sentir o metal quente. O suor escorria-lhe pelo pescoço e a luz brilhante do Sol, reflectida sobre os orna-mentos metálicos da infantaria espanhola, era deslumbrante. Ainda faltavam quinze milhas. As três mulheres levaram lentamente os cavalos até à cabeça do regimento, uma delas virou-se e saudou os fuzileiros com ar coquete. Harper enviou-lhe um beijo e, quando já se tinham ido embora, o pó caiu lentamente sobre a fina erva da beira do caminho.

     Decorreram quinze minutos de silêncio antes de Simmerson, Forrest e Hogan voltarem com passo lento da sua reunião com o coronel espanhol. Sir Henry não vinha satisfeito.

     - Malditos sejam! Vão deter-se durante o resto do dia!

     Sharpe olhou para Hogan com ar curioso. O oficial de engenharia assentiu.

     - É verdade. Há uma estalagem ali em cima e os oficiais instalaram-se nela.

     - Malditos! Malditos! Malditos! - exclamou Simmerson batendo no arção da sela. - Que vamos fazer?

     Os oficiais que iam a cavalo olharam uns para os outros. Simmerson era o homem que tinha de tomar a decisão e ninguém respondeu à sua pergunta, mas só se podia fazer uma coisa. Sharpe olhou para Harper.

     - Formar, sargento.

     Harper vociferou as ordens. Os arrieiros espanhóis, cujo descanso fora perturbado, olharam curiosos para a maneira como os fuzileiros carregavam as mochilas e formavam.

     - Baionetas, sargento.

     Deu a ordem e as compridas baionetas com punho de latão saíram das bainhas. Cada lâmina media vinte e três polegadas de comprimento, perfeita-mente afiada brilhante debaixo do sol. Simmerson ficou nervoso ao ver as armas.

     - Que raios está a fazer, Sharpe?

     - Só se pode fazer uma coisa, meu Coronel.

     Simmerson olhou para a direita e para a esquerda para Forrest e para Hogan, mas estes não lhe prestaram qualquer ajuda.

     - Sugere simplesmente que continuemos, Sharpe? Era isso que devia ter proposto, pensou Sharpe, mas confirmou.

     - Não era o que o senhor pretendia, meu Coronel?

     Simmerson não estava seguro. Wellesley tinha-o convencido da necessi-dade de serem rápidos, mas também havia o dever de não ofender os susceptíveis aliados. Mas o que se passaria se a ponte estivesse ocupada pelos franceses quando chegassem? Olhou para os fuzileiros, austeros com os seus uniformes escuros, e depois para os espanhóis que se esparramavam pelo caminho fumando tranquilamente.

     - Muito bem.

     - Meu Coronel - disse Sharpe e virou-se para Harper. - Quatro fileiras, sargento.

     Harper respirou profundamente.

     - Companhia! Em filas de dois à direita!

     Havia momentos em que os homens de Sharpe, apesar dos uniformes andrajosos, sabiam como surpreender um coronel da milícia. com um ruído e uma precisão mais apropriada à guarda real, as filas numeradas e iguais deram um passo atrás; toda a companhia, sob outra voz de comando, virou para a direita e, em lugar de duas filas, havia agora quatro de frente para os espanhóis. Harper fizera uma pausa de um segundo enquanto o movimento era efectuado.

     - Marcha rápida!

     Marcharam. As botas batiam no caminho pondo as mulas em fuga, com os arrieiros espavoridos à frente. O sacerdote deu uma olhadela, fincou os calcanhares e entrou pelo campo.

     - Vamos, canalhas! - gritava Harper. - Marchem a sério! Fizeram-no. Acele-raram o ritmo até atingirem o habitual na infantaria ligeira, batendo com as botas no caminho de modo que o pó se elevava no ar. Atrás deles, o South Essex estava formado e seguia-os, à frente deles o regimento espanhol separava-se para os campos, os oficiais saíam a correr da pousada de paredes brancas e gritavam aos fuzileiros. Sharpe não fez caso deles. O coronel espanhol, como se de uma aparição envolvida em galões se tratasse, saiu pelas portas da pousada para ver o seu regimento feito em pedaços. Os homens tinham-se dispersado pelos campos e os britânicos dirigiam-se para a ponte. O coronel não tinha as botas calçadas e sustinha na mão um copo de vinho. Quando chegaram junto da pousada Sharpe virou-se para os seus homens.

     - Companhia, continência à direita!

     Tirou a comprida lâmina, manteve-a em posição de continência e os homens sorriram zombeteiramente enquanto apresentavam armas ao coronel. Pouca coisa podia fazer. Queria protestar mas a honra era a honra e a continência devia ser retribuída. O espanhol estava perante um dilema. Numa mão o vinho e na outra o grande charuto. Sharpe viu o conflito na cara do coronel, tentando decidir o que largar primeiro, mas por fim o coronel do Santa Maria acabou por segurar o copo de vinho e o charuto numa cerimoniosa pirueta.

     - Olhar em frente! Hogan riu com vontade.

     - Bem feito, Sharpe! - disse olhando para o relógio. - Chegaremos à ponte antes do anoitecer. Espero que os franceses ainda lá não tenham chegado.

     Esperemos que os franceses nunca lá cheguem, pensou Sharpe. Derrotar um aliado era uma coisa, mas as suas dúvidas a respeito da habilidade do South Essex para se enfrentar aos franceses eram mais reais que nunca. Olhou para o caminho branco e poeirento que se estendia pela planície monótona e, durante um fugaz e desagradável momento, perguntou a si próprio se voltaria. Afastou esse pensamento e agarrou a culatra da arma. com a outra mão tocou inconscientemente no vulto que sentia sobre o esterno. Harper viu o gesto. Sharpe pensava que era um segredo o facto de levar pendurada ao pescoço uma bolsa de cabedal em que guardava as suas riquezas mundanas, mas todos os homens estavam a par disso e o sargento sabia que quando Sharpe tocava na bolsa com as suas poucas moedas de ouro pilhadas em antigos campos de batalha, significava que o tenente estava preocupado. E se Sharpe estava preocupado... Harper virou-se para os fuzileiros.

     - Vá, canalhas! Isto não é um funeral! Mais depressa!

    

     Valdelacasa não existia como lugar onde os seres humanos vivessem, amassem ou comerciassem; era simplesmente um edifício em ruínas e uma grande ponte de pedra que tinha sido construída para atravessar o rio num tempo em que o Tejo era mais largo do que a corrente que agora deslizava escura por entre os três arcos centrais da construção romana.

     E, desde a ponte, com o edifício que a acompanhava, a terra estendia-se numa vasta concavidade pouco profunda, dividida em duas pelo rio numa direcção, e pelo caminho de ida e volta para o rio na outra. O batalhão tinha descido a quase imperceptível vertente quando as sombras do crepúsculo começavam a deslizar sobre pálido prado; só as antigas ruínas, a ponte e a água que corria silenciosamente para o longínquo mar.

     - Isto não me agrada, meu Tenente - disse Harper, com uma expressão verdadeiramente preocupada.

     - Porquê?

     - Não há pássaros, meu Tenente. Nem sequer um abutre.

     Sharpe tinha de admitir que era verdade, não se via nem ouvia um único pássaro.

     Era um lugar esquecido, e enquanto marchavam para o edifício, os homens vestidos com as casacas verdes estavam estranhamente calados, como se estivessem contagiados por uma antiga melancolia.

     - Não há sinal dos franceses.

     Sharpe não via qualquer movimento na paisagem escurecida.

     - Não são os franceses que me preocupam - disse Harper inquieto. É o lugar, meu Tenente. Não é bom.

     - Está a comportar-se como um irlandês, sargento.

     - Talvez, meu Tenente. Mas diga-me porque é que não há aqui um povoado. A terra é melhor do que a que deixámos para trás, há uma ponte, porque é que não há um povoado?

     Porque não? Parecia um lugar perfeito para haver um povoado, mas por outro lado tinham unicamente passado por uma pequena aldeia nas últimas dez milhas, pelo que era possível que simplesmente não houvesse gente suficiente na imensidão da planície da Extremadura para habitar todos os lugares adequados. Sharpe tentou não dar importância à preocupação de Harper, que vinha colmatar os seus próprios pressentimentos sombrios. Começara já a sentir que Valdelacasa tinha realmente um ar sinistro e Hogan não dava grande ajuda. - Aquela é a Ponte dos Malditos - disse Hogan juntando-se a eles e apontando para a ponte com a cabeça. - Deve ter sido um convento. Os mouros decapitaram todas as freiras. A história diz que as mataram na ponte, lançaram as suas cabeças à água mas deixaram apodrecer os corpos. Dizem que não vive aqui ninguém, porque os espíritos caminham pela ponte de noite à procura das suas cabeças. Os fuzileiros escutaram-no em silêncio. Quando Hogan acabou, Sharpe surpreendeu-se ao ver que o enorme sargento se benzia sub-repticiamente e supôs que passariam uma noite inquieta. Estava certo. A escuridão era total, não havia lenha na planície, pelo que os homens não puderam acender fogueiras e, de madrugada, o vento trouxe umas nuvens que esconderam a Lua. Os fuzileiros montavam guarda no extremo sul da ponte, a margem em que os franceses andavam soltos, e foi uma noite de nervos em que as sombras pregavam partidas e as geladas sentinelas não tinham a certeza se imaginavam os ruídos que tanto se podia dever às freiras decapitadas como às patrulhas francesas. Precisamente antes do amanhecer, Sharpe ouviu o ruído das asas de um pássaro seguido do piar de um mocho e pensou dizer a Harper que, no fim de contas, sim, havia pássaros. Contudo decidiu não o fazer; lembrou-se que se dizia que os mochos pressagiavam a morte e que a notícia teria preocupado ainda mais o irlandês.

     Mas o novo dia, apesar de não ter trazido o regimento espanhol, que ainda devia estar na pousada, proporcionou um céu brilhante salpicado apenas por algumas nuvens altas e espalhadas que restavam da leve chuva da noite. Pancadas sonoras provinham da ponte onde os artífices de Hogan partiam à martelada o parapeito, no local escolhido para a explosão e as apreensões, nocturnas pareciam já não ser mais que um pesadelo. Os fuzileiros foram substituídos pela Companhia Ligeira de Lennox e, sem ter mais nada que fazer, Harper despiu-se e entrou na água.

     - Isto está melhor. Há um mês que não tomo banho. Passa-se alguma coisa, meu Tenente? - perguntou olhando para Sharpe.

     - Não há sinal deles. Sharpe devia ter olhado fixamente para o horizonte, uma milha para sul umas cinquenta vezes desde o amanhecer, mas não havia rasto dos franceses. Olhou para Harper, que saía a pingar do rio e sacudia-se como um cão pastor. - Talvez não estejam aqui, meu Tenente. Sharpe abanou a cabeça.

     - Não sei, sargento, pressinto que não estão longe daqui. Voltou-se para o outro lado do rio, para o caminho por onde tinham chegado no dia anterior.

     - Ainda não se vêem os espanhóis.

     - Talvez não apareçam - disse Harper enquanto se limpava.

     Já tinha ocorrido a Sharpe a possibilidade de que todo o trabalho se fizesse antes de o regimento espanhol chegar a Valdelacasa e perguntava-se porque sentia ainda uma agitada inquietação a respeito daquela missão.

     Simmerson tinha-se portado com delicadeza, os artífices estavam a trabalhar duramente e não se viam os franceses. O que podia correr mal? Caminhou até à entrada da ponte e perguntou a Lennox:

     - Alguma novidade?

     - Está tudo calmo - respondeu o escocês, abanando a cabeça. - Creio que Sir Henry não terá batalha hoje.

     - Queria combater?

     - Está a desejar - riu-se Lennox. - Creio que julga que virá Napoleão em pessoa.

     Sharpe virou-se e olhou para baixo, para a estrada. Tudo permanecia imóvel.

     - Não estão longe. Pressinto-o.

     - Pensa que sim? - perguntou Lennox olhando para ele com ar sério. Pensava que éramos nós, os escoceses, que tínhamos um sexto sentido.

     Voltou-se e olhou para o horizonte vazio juntamente com Sharpe.

     - Talvez tenha razão, Sharpe. Mas chegam demasiado tarde. Sharpe concordou e caminhou pela ponte. Esteve a conversar com Knowles e Denny e, quando os deixou para se juntar a Hogan, pensou com tristeza no ambiente da messe de oficiais do South Essex. A maior parte dos oficiais apoiava Simmerson, os homens que primeiro tinham comprado a promoção na milícia. Não havia bom ambiente entre eles e os oficiais do exército regular. Sharpe gostava de Lennox, agradava-lhe a sua companhia, mas a maior parte dos oficiais pensava que o escocês era demasiado afável com ele, demasiado ao estilo dos fuzileiros. Leroy era um tipo decente, um americano unionista, mas guardava as suas ideias tal como o faziam os restantes oficiais que tinham pouca confiança na capacidade do coronel. Sharpe tinha pena dos oficiais mais novos, que aprendiam o ofício em tal escola, e alegrava-se porque, assim que a ponte fosse destruída, os seus fuzileiros afastar-se-iam do South Essex para encontrarem uma companhia mais análoga à sua.

     Hogan estava metido num buraco até ao pescoço. Sharpe olhou para baixo e viu, entre o entulho, as pedras correspondentes à parte curva dos arcos.

     - Que quantidade de pólvora vai pôr?

     - Toda a que houver! - Hogan estava satisfeito, era um homem que gostava do seu trabalho. - Isto não é fácil. Esses romanos construíam bem.

     Vê aqueles blocos? - perguntou apontando as pedras dos arcos que estavam à vista. - Foram todos talhados e cortados no lugar onde estão. Se puser uma carga em cima de um destes arcos provavelmente vou reforçar ainda mais a maldita ponte! Não posso pôr a pólvora por baixo, com muita pena minha.

     - Porquê?

     - Não temos tempo, Sharpe, não temos tempo. Há que conter a explosão. Se puser esses barris por baixo do arco, a única coisa que vou fazer é espantar os peixes. Não. vou fazer ao contrário.

     Estava a falar em parte para consigo mesmo, com a mente cheia de pesos de pólvora e medidas de mecha.

     - Ao contrário?

     - Por assim dizer - respondeu Hogan coçando a cara suja. - Estou a descer até ao estribo e então farei voar lateralmente a maldita ponte. Se funcionar, Sharpe, derrubará dois arcos em vez de um.

     - Funcionará?

     - Devia funcionar! - sorriu Hogan. - Será uma detonação dos diabos, isso garanto-lhe eu.

     - Quanto falta?

     - Estarei pronto dentro de um par de horas. Talvez antes. Hogan escorregou para fora do buraco e ficou junto de Sharpe.

     - Vamos trazer a pólvora aqui para cima. Virou-se para o convento, pôs as mãos em concha em frente à boca e ficou imóvel. Os espanhóis tinham chegado, com as trombetas à frente, os pavilhões ao vento e a infantaria com casacas-azuis atrás em desordem.

     - Louvados sejam - disse Hogan. - Já posso dormir descansado. O regimento espanhol marchava para o convento, passaram pela frente do South Essex que fazia instrução no campo e continuaram. Sharpe esperava ordens que fizessem deter os espanhóis, mas não foram dadas. Em vez disso, os trombeteiros dirigiram os cavalos para a ponte, os pavilhões seguiram-nos, depois os oficiais gloriosamente fardados e por fim a infantaria.

     - Que diabos estão a fazer? - perguntou Hogan, afastando-se para um dos lados da ponte.

     O regimento passou com cuidado pela parte destroçada e em frente ao buraco que Hogan tinha aberto. O oficial de engenharia fez sinais com as mãos.

     - Vou fazê-la voar! Bum! Bum!

     Não fizeram caso dele. Hogan tentou dizê-lo em espanhol, mas os homens continuaram a desfilar. Incluindo o sacerdote e as três damas vestidas de branco rodearam cuidadosamente com as suas montadas o buraco de Hogan, dirigindo-se à margem sul, onde o capitão Lennox tinha mandado retirar rapidamente do caminho a Companhia Ligeira. O regimento era seguido por Simmerson, furioso, que tentava averiguar que diabos se estava a passar. Hogan abanou a cabeça aborrecido.

     - Se fôssemos só nós os dois, Sharpe, estaríamos já de regresso a casa. Fez sinal aos seus homens para que tirassem os barris de pólvora do buraco.

     - São nossos aliados, lembre-se disso. Hogan limpou a testa.

     - Também Simmerson o é.

     - Ficarei contente quando isto acabar - disse, voltando para a sua escavação.

     Os barris chegaram e Sharpe deixou que Hogan comprimisse bem a pólvora na base dos arcos. Regressou à margem sul, onde os seus fuzileiros esperavam e olhavam como desfilava o Santa Maria formando uma longa fila pelo caminho que conduzia ao horizonte distante.

     Lennox sorriu enquanto se apeava do cavalo.

     - O que lhe parece isto, Sharpe? - perguntou, apontando para os espanhóis que enfrentavam decididos um horizonte vazio.

     - O que estão a fazer?

     - Disseram ao coronel que o seu dever era atravessar a ponte! Tem qualquer coisa a ver com o orgulho espanhol. Como nós chegámos primeiro, eles têm que chegar mais longe - disse ao mesmo tempo que tocava no chapéu para cumprimentar Simmerson que voltava a atravessar a ponte. - Sabe o que pensa fazer?

     - Quem? Simmerson? - perguntou Sharpe enquanto olhava para o coronel em retirada.

     - Sim. Tenciona levar todo o batalhão para o outro lado.

     - O quê?

     - Se eles atravessam, nós também - riu-se Lennox. - Um louco, é isso que ele é.

     Ouviram-se gritos dos fuzileiros de Sharpe e este dirigiu a vista para onde eles apontavam as armas no horizonte.

     - Vê alguma coisa?

     - Absolutamente nada - respondeu Lennox olhando fixamente. Um relâmpago.

     - Além!

     Sharpe subiu para o parapeito e rebuscou a mochila à procura do seu único pertence valioso, um telescópio construído por Matthew Berge em Londres. Não fazia ideia do seu autêntico valor mas suspeitava que tinha custado no mínimo trinta guinéus. Tinha uma placa curva de bronze no tubo de nogueira e uma inscrição gravada sobre a placa que dizia: “com GRATIDÃO. AW. 23 DE SETEMBRO, 1803.” Lembrava-se dos penetrantes olhos azuis que olharam para ele quando lhe foi entregue o telescópio. “Recorde-se, senhor Sharpe, os olhos de um oficial são mais valiosos do que a sua espada!”

     Abriu o tubo de repente e retirou os protectores de bronze da lente.

     A imagem dançava no vidro, conteve a respiração para manter os braços quietos e movimentou o tubo lateralmente para obter uma boa panorâmica. Maldito tubo! Não parava quieto.

     - Pendleton!

     O jovem fuzileiro, às ordens de Sharpe, aproximou-se da ponte a correr, saltou para o parapeito e baixou-se de modo a que o tenente pudesse apoiar o telescópio no seu ombro. O horizonte saltou e ele moveu suavemente a lente para a direita. Nada, excepto erva e mato. A cor fazia brilhar o ar sobre a vertente suave enquanto o telescópio perscrutava o horizonte.

     - Vê alguma coisa, meu Tenente?

     - Esteja quieto, maldito!

     Virou a lente para trás, concentrando-se no local em que o caminho branco e poeirento se unia com o céu. Então, de repente, como o actor que surge de um alçapão do cenário, perfilaram-se uns cavaleiros no monte. Pendleton arquejou, a imagem moveu-se, mas Sharpe conseguiu captá-la. Uniformes verdes, um único cinto cruzado. Fechou o óculo e levantou-se.

     - Caçadores.

     Ouviu-se um murmúrio que provinha do regimento espanhol, os homens davam cotoveladas e apontavam para o alto da colina. Sharpe dividiu mentalmente a linha pela metade, mais uma vez pela metade e contou as silhuetas distantes em grupos de cinco. Lennox aproximava-se a cavalo.

     - Duzentos, Sharpe?

     - Julgo que sim.

     Lennox brincava nervoso com o punho da espada.

     - Não nos incomodarão - disse em tom preocupado.

     Apareceu uma segunda linha de cavaleiros. Sharpe abriu de novo o tubo e apoiou-o no ombro de Pendleton. Os franceses estavam a fazer uma aparição teatral; duas linhas de cavalaria, com duzentos homens cada uma, caminhando lateralmente para a ponte. Através da lente, Sharpe viu as carabinas penduradas nos ombros e um vulto obsceno junto ao estribo em que o cavaleiro tinha atado uma rede cheia de feno para o cavalo. Levantou-se mais uma vez e disse para Pendleton que descesse de um salto.

     - Vão combater, meu Tenente?

     Tal como Lennox, o rapaz estava impaciente por dar início a uma refrega com os franceses. Sharpe abanou a cabeça.

     - Não se vão aproximar mais. Estão simplesmente a olhar. Não vão ganhar nada se nos atacarem.

     Quando Sharpe tinha sido enclausurado com Lawford na masmorra de Tippoo, o tenente tinha tentado ensinar-lhe a jogar xadrez. Fora um esforço em vão. Nunca se conseguia lembrar que pedra representava determinada peça e os carcereiros tinham chegado a pensar que a quadrícula rabiscada no chão tinha qualquer relação com magia. Foram castigados e o tabuleiro desapareceu. Mas Sharpe lembrava-se da expressão “empate.” Era essa a posição naquele momento. Os franceses não podiam causar dano à infantaria e a infantaria não podia causar dano aos franceses. Simmerson conduzia o resto do batalhão pela ponte, fazendo-o passar com cuidado pela frente do desesperado Hogan e das suas escavações. Não importava quantos homens tivessem os aliados. A cavalaria era demasiado rápida, os soldados a pé nunca chegariam a aproximar-se dela. E, se a cavalaria decidisse atacar, seria aniquilada pelas terríveis descargas a curta distância e qualquer cavalo que sobrevivesse às balas afastar-se-ia ou empinar-se-ia em vez de galopar contra as fileiras bem cerradas e eriçadas de pontas de aço. Hoje não haveria combate. Simmerson não pensava assim. Satisfeito, agitou para Lennox a espada desembainhada.

     - Já os temos, Lennox! Já os temos!

     - Sim, meu Coronel.

     Lennox parecia triste, teria gostado de lutar.

     - Será que este louco não dá conta de que não nos vão atacar? Acredita por acaso que nos vamos movimentar pesadamente pelo campo como uma vaca a caçar uma raposa? Maldito! Já fizemos o nosso trabalho, Sharpe. Minámos a ponte e dentro de uma hora tudo isto terá acabado.

     - Lennox! - gritou Simmerson, que estava como peixe na água. - Forme a sua companhia à direita! A companhia de Sterritt protegerá a ponte e se não se importa levarei emprestado o senhor Gibbons como meu ajudante-de-campo.

     - O senhor fica a ganhar, tenente - comentou ele sorrindo na brincadeira para Sharpe. - Ajudante-de-campo! Pensa que está a lutar na Batalha de Blenheim! O que faria, Sharpe?

     - Não me convidaram - respondeu Sharpe devolvendo-lhe o sorriso. Observarei os seus galantes esforços. Divirta-se!

     A cavalaria detivera-se a meia milha e estava alinhada junto à estrada, as caudas dos cavalos sacudiam as inúmeras moscas. Sharpe interrogava-se sobre o que lhes devia parecer a cena que tinham pela frente; os espanhóis avançando atabalhoadamente em quatro fileiras, oitocentos homens cercando as bandeiras, caminhando em direcção a quatrocentos cavaleiros franceses enquanto, na ponte, outros oitocentos homens a pé se preparavam para avançar.

     Simmerson reuniu os seus comandantes de companhia e Sharpe ouviu como lhes dava as ordens. O South Essex ia formar em linha, a quatro filas como os espanhóis, e avançar por trás deles.

     - Esperemos até ver o que faz o inimigo, cavalheiros, e movimentar-nos-emos conforme ele actue! Desfraldem os pavilhões!

     Lennox piscou o olho a Sharpe. Era grotesco que dois desajeitados regimentos a pé pensassem que podiam atacar quatrocentos cavaleiros que saltariam pelo caminho, a rir do esforço deles para os alcançar. Provavelmente o comandante francês não acreditaria no que estava a acontecer e, pelo menos, iam proporcionar-lhe uma história divertida para contar quando se reunisse ao exército de Victor. Sharpe interrogava-se sobre o que Simmerson iria fazer quando fosse evidente que os franceses não iam atacar. Provavelmente o coro-nel afirmaria que espantara o inimigo. os alferes retiraram as capas de cabedal das bandeiras do South Essex, desfraldaram-nas e içaram-nas. Pareciam até airosas no meio daquela comédia e Sharpe sentiu uma picada de lealdade que lhe era familiar. A primeira que içaram foi a do rei, uma grande bandeira do Reino Unido com o número do regimento no centro e, ao lado, o estandarte do South Essex, uma bandeira amarela com o escudo e a bandeira do Reino Unido bordada no canto superior. Era impossível ver as bandeiras desfraldadas, o sol da manhã brilhava sobre elas e não se mexiam. Mas elas eram o regimento; mesmo que só restasse um punhado de homens no campo de batalha e os restantes tivessem sido massacrados, o regimento ainda existiria se as bandeiras ondulassem e desafiassem o inimigo. Era o ponto de reunião entre o fumo e o caos da batalha, mas mais que isso, havia homens que dificilmente combateriam pelo rei de Inglaterra e pelo país, mas lutariam pelas bandeiras, pela honra do seu regimento, pelas chamativas bandeiras que custavam poucos guinéus e eram levadas para o centro da linha pelos porta-bandeiras mais novos, protegidos por sargentos veteranos armados com grandes lanças de duro aço. Sharpe vira homens empunhando bandeiras nas batalhas, substituindo os mortos, retomando as bandeiras, mesmo sabendo que se converteriam então no alvo principal do inimigo. A honra era tudo. As bandeiras do South Essex eram novas e brilhantes, a do regimento, que não tinha participado em qualquer batalha, não estava rota por balas ou cartuchos, mas, ao vê-la, Sharpe sentiu uma repentina emoção e transformou a farsa das loucas esperanças de Simmerson numa questão de honra.

     O South Essex seguiu o regimento espanhol até aos cavaleiros. Tal como a dos espanhóis a linha dos britânicos media cento e cinquenta jardas de largura, as quatro fileiras terminavam com as baionetas, os oficiais da companhia cavalgavam ou caminhavam com as espadas desembainhadas. Os espanhóis detiveram-se a umas quatrocentas jardas à frente, caminho acima, e Simmerson não teve outro remédio senão mandar o batalhão fazer alto para averiguar o que pretendiam os espanhóis. Hogan aproximou-se de Sharpe e apontou com a cabeça para os dois regimentos.

     - Não se junta à batalha?

     - Creio que é uma festa privada. O capitão Sterritt e eu estamos a proteger a ponte.

     Sterritt, um homem simpático, sorriu nervosamente a Sharpe e a Hogan. Tal como o seu coronel sentia-se aterrado perante o aspecto daqueles militares veteranos e secretamente assustado com que o inimigo pudesse ser tão duro e descuidado como o fuzileiro e o oficial de engenharia. Hogan estava a limpar as mãos com um trapo e Sharpe perguntou-lhe se já tinha acabado o trabalho.

     - Assim é. Já está tudo. Dez barris de pólvora bem apertados, as mechas colocadas e o buraco tapado. Tão depressa esses garbosos soldados saiam, de uma vez por todas, do meu caminho, poderei comprovar se funciona ou não. O que se passa agora?

     Os espanhóis estavam a formar em quadrado. Um bom batalhão podia mudar de linha para quadrado em trinta segundos, mas os espanhóis demo-raram quatro vezes mais. Era a formação adequada para enfrentar um ataque de cavalaria, mas dado que os franceses não mostravam qualquer inclinação de carregar contra uma força quatro vezes superior em número, as evoluções dos espanhóis eram completamente desnecessárias. Sharpe reparou que os oficiais e sargentos insistiam e obrigavam os seus homens a formar o que parecia ser mais ou menos um quadrado, um quadrado ligeiramente irregular, mas serviria.

     Sharpe lembrou-se das três mulheres. Não as viu com o regimento espanhol, olhou em volta e descobriu-as a observarem decorosamente desde a margem. Uma delas reparou no seu olhar e levantou a mão enluvada.

     - Felizmente os franceses não têm canhões daqueles.

     - Tinha-me esquecido desse rumor - disse Hogan arqueando as sobran-celhas. - Vai animar as coisas.

     Não havia combinação mais mortífera para os homens a pé do que a cavalaria com a artilharia. A infantaria formada em quadrado estava completamente a salvo da cavalaria; a única coisa que os cavaleiros podiam fazer era cavalgar à volta da formação atacando inutilmente com as baionetas. Mas se a cavalaria estivesse apoiada por canhões, o quadrado convertia-se numa armadilha mortal. A metralha abriria buracos nas fileiras, a cavalaria entraria e atacaria com os sabres. Sharpe perscrutou o horizonte. Não havia canhões.

     Simmerson observara que o regimento espanhol formava em quadrado. Estava obviamente espantado. Devia ter-lhe ocorrido que ele não podia atacar os franceses, pelo que os franceses deviam atacá-lo a ele.

     Houve uma pausa no processo. Os espanhóis haviam formado o seu quadrado irregular à direita do caminho; Simmerson com fantástica precisão deu ordens e o South Essex demonstrou, à esquerda, como um batalhão devia formar em quadrado. Mesmo a meia milha, Sharpe viu que os cavaleiros aplaudiam ironicamente.

     Agora havia dois quadrados, os espanhóis mais perto dos franceses e nem mesmo assim os cavaleiros fizeram qualquer movimento. O tempo passou. O Sol elevou-se no céu, o prado estremeceu com a confusão, os cavalos franceses baixaram o pescoço e começaram a comer erva. O capitão Sterritt, que defendia a ponte com a sua companhia, queixou-se:

     - Porque não atacam?

     - O senhor atacaria? - perguntou Sharpe.

     Sterritt estava confuso. Sharpe compreendia porquê. Simmerson sentia-se cada vez mais ridículo, tinha marchado para a batalha com a espada desembainhada e as bandeiras desfraldadas e o inimigo resistia a lutar. Era virtualmente impossível marchar ordenadamente numa formação em quadrado; podia fazê-lo o lado que comandava, pois marchava em frente, mas as alas laterais tinham de caminhar de lado e a linha do fundo tinha que fazer marcha-atrás, todos a lutar, rodeados por cavaleiros. Não era impossível, Sharpe já o tinha feito, mas só quando a sobrevivência dependia do impossível e os homens encontravam maneira de o fazer. Podia voltar a pedir a formação em linha mas então pareceria ainda mais ridículo ter formado em quadrado para nada. Pelo que Simmerson ficou onde estava e os franceses continuaram a olhar, muitíssimo espantados ante as estranhas palhaçadas dos inimigos.

     - Alguém tem de fazer alguma coisa! - exclamou o capitão Sterritt franzindo as sobrancelhas, desconcertado. - A guerra não devia ser assim! Era glória e vitória, não aquela humilhação.

     - Alguém está a fazer qualquer coisa - disse Hogan apontando com a cabeça para o South Essex. Tinha saído um cavaleiro do quadrado e galopava para a ponte.

     - É o tenente Gibbons.

     Sterritt saudou com a mão o sobrinho do seu coronel, que deteve bruscamente o cavalo. Tinha o rosto austero, invadido pela seriedade do momento. Baixou os olhos para Sharpe.

     - Deve apresentar-se ao coronel.

     - Porquê?

     - O coronel solicita-o - disse Gibbons com ar surpreendido. - Já! Hogan tossiu.

     - O tenente Sharpe está sob as minhas ordens. Porque o solicita o coronel? Gibbons apontou o braço em direcção aos franceses estáticos.

     - Necessitamos de uma linha de atiradores, Sharpe, algo que leve os franceses à acção.

     Sharpe abanou a cabeça.

     - Para que distância à frente do quadrado acha que devo levar os meus homens? - perguntou em tom educado.

     - Suficientemente próximo para que a cavalaria se desloque - respondeu Gibbons encolhendo os ombros.

     - Não me vou mexer. Seria uma loucura! - Gibbons ficou a olhar para Sharpe.

     - Como diz?

     - Não vou matar os meus homens. Se me puser a mais de cinquenta jardas desse quadrado, os franceses caçam-nos como lebres. Não sabe que os atiradores retiram perante a cavalaria?

     - Vem de uma vez por todas, Sharpe? - disse Gibbons em tom de ultimato.

     - Não.

     O tenente voltou-se para Hogan.

     - Meu Capitão? Ordena ao tenente Sharpe que obedeça?

     - Escute, meu rapaz - disse Hogan e Sharpe notou que acentuara a sua pronúncia irlandesa -, diga da minha parte ao seu coronel que, quanto mais depressa regresse pela ponte, mais depressa lhe poderemos fazer um buraco e mais depressa podemos voltar para casa. Eu não, não vou dar ordens ao tenente Sharpe para que se suicide. Bons-dias, tenente.

     Gibbons fez o cavalo dar meia volta puxando as rédeas e cravou esporas de ambos os lados, gritou algo ininteligível para Sharpe e Hogan, e galopou de regresso ao imponente quadrado levantando nuvens de poeira.

     Sterritt voltou-se para eles espantado.

     - Não podem desobedecer a uma ordem!

     Hogan perdeu a paciência, Sharpe nunca tinha visto o irlandês tão zangado, mas os acontecimentos tinham-no exasperado.

     - Não compreende, desgraçado? Não sabe o que é uma linha de atira-dores? É uma linha de homens dispersos em frente do inimigo. Caçá-los-iam como espantalhos! Meu Deus! Quem pensa que é?

     Sterritt ficou branco, perante a ira de Hogan. Tentou acalmar o oficial de engenharia.

     - Mas alguém tem de fazer alguma coisa.

     - Tem toda a razão. Tem que voltar para a maldita ponte e não nos fazer perder mais tempo!

     Alguns homens da companhia de Sterritt começaram a rir-se dissimulada-mente.

     Sharpe estava a perder a paciência. Não se importava que o assunto fosse seu ou não.

     - Silêncio!

     Produziu-se um silêncio embaraçoso no extremo da ponte, apenas quebrado pelo riso tonto das três mulheres espanholas.

     - Podemos começar por elas.

     Hogan virou-se para elas e gritou em espanhol. Olharam para ele, olharam umas para as outras, mas ele voltou a gritar com insistência. Renitentes, conduziram os cavalos pela frente dos fuzileiros e dos oficiais e voltaram para a margem norte.

     - São menos três a atravessar a ponte. Já deve ser meio-dia - disse Hogan olhando para o céu.

     Os franceses deviam estar tão aborrecidos como os outros. Sharpe ouviu as notas de um clarim e viu que formavam em quatro esquadrões. No entanto estavam de frente para a ponte; o esquadrão principal estava umas trezentas jardas para além do quadrado espanhol. Em vez de duas linhas compridas formaram eficientemente em fileiras de dez homens, o comandante saudou ironicamente os quadrados com a espada e deu ordens para se movimentarem. Os cavaleiros iam a trote, seguindo em círculos na direcção dos espanhóis, continuaram a dar voltas, estavam a virar para marcharem para o cimo da colina, para leste, onde se reuniriam com o marechal Victor e o seu exército à espera do avanço de Wellesley.

     O desastre começou quando os franceses estavam no ponto mais próximo em que o seu amplo círculo os tinha colocado em relação ao regimento de Santa Maria. Por frustração ou por orgulho, mas com estupidez total, o coronel espanhol deu ordem de fogo. Todos os mosquetes em condições de disparar explodiram entre chamas e fogo e as balas perderam-se inutilmente. Um mosquete era eficaz, com algum optimismo, a cento e cinquenta jardas; a duzentas jardas, a distância entre os franceses e os espanhóis, a descarga era simplesmente inútil. Sharpe só viu cair dois cavalos. - Oh meu Deus! - exclamou em voz alta.

     O que aconteceu depois foi simples questão matemática. Os espanhóis tinham disparado a sua descarga e demorariam pelo menos vinte segundos a recarregar. Um cavalo a galope podia percorrer duzentas jardas em menos tempo. O coronel francês não duvidou. A sua coluna estava de lado para os espanhóis, o clarim tocou, e com fantástica precisão os franceses passaram de uma coluna de quarenta fileiras de dez homens cada uma a dez linhas de quarenta homens. As duas primeiras entraram directamente a galope, com os 9 sabres desembainhados, as outras iam atrás a trote ou a passo. No entanto não tinham por que sair vitoriosos. Um quadrado de infantaria, mesmo com os mosquetes descarregados, era insensível a tal ameaça. Tudo o que os homens tinham de fazer era ficarem quietos e manterem as baionetas firmes, e os cavalos desviar-se-iam, correriam para as partes laterais do quadrado e seriam derrubados pelos mosquetes carregados dos lados e do fundo da formação.

     Sharpe correu uns passos para a frente. com terrível certeza sabia o que ia acontecer. Os soldados espanhóis, assustados, apontavam mal. Tinha feito uma descarga aterradora pelo ruído e pelo fumo, mas de repente tinham o inimigo em cima, os cavalos mostravam os dentes entre os mantos de fumo dos mosquetes, os cavaleiros gritavam com os sabres ao alto e galopavam directa-mente para eles. Os espanhóis quebraram a formação como contas caídas de um rosário partido. Os franceses lançaram outras duas linhas de cavalaria quando a primeira chocou contra a massa tomada pelo pânico. Os sabres baixavam, levantavam-se ensanguentados e voltavam a cair.

     Os caçadores estavam literalmente a abrir caminho entre o quadrado compacto, os cavalos não conseguiam movimentar-se entre o aglomerado de homens a gritar. A terceira linha francesa desviou-se, corrigiu e carregou contra os espanhóis que tinham quebrado a formação e corriam desesperadamente. Os espanhóis largaram os mosquetes e correram em direcção ao South Essex para se pôr a salvo.

     Tinham os franceses entre eles, cavalgando junto aos homens que corriam, golpeando habilmente as cabeças e os ombros dos fugitivos. Atrás deles mais linhas de cavalaria trotavam joelho com joelho para o ataque. Os sabres franceses baixavam à direita e à esquerda, mais espanhóis deixaram a massa, as bandeiras baixaram, corriam a toda a velocidade para o quadrado britânico procurando desesperadamente a segurança. O South Essex não via o que se estava a passar, apenas os espanhóis que se dirigiam a eles e os cavaleiros soltos entre o pó que se levantava.

     - Fogo! Dispara, idiota - disse Sharpe.

     Simmerson tinha uma possibilidade de sobreviver. Tinha de tirar os espanhóis do caminho, de contrário os fugitivos irromperiam no seu próprio quadrado e deixariam passar os cavaleiros atrás deles. Não fez nada. com um gemido, Sharpe viu que os espanhóis alcançavam as fileiras vermelhas e afastavam as baionetas para os lados enquanto corriam para se pôr a salvo. O South Essex cedeu terreno, abriu-se para deixar entrar os homens desesperados para o buraco central, o primeiro francês alcançou as fileiras, ergueu o sabre e foi derrubado da sela por um tiro de mosquete. Sharpe viu o cavalo cambalear pelos ferimentos de bala, cair de lado sobre o quadrado e arrastou as quatro filas. Outro cavaleiro chegou até à brecha, golpeando à direita e à esquerda, mas também foi derrubado do cavalo por um tiro. Então tudo se acabou. Os franceses entraram na brecha, o quadrado dispersou-se, os homens misturaram-se com os espanhóis e correram. Desta vez, só havia um sítio para onde ir. A ponte. Sharpe gritou para Sterritt.

     - Tire a sua companhia do meio!

     - O quê?

     - Mexa-se! Vá, homem, mexa-se!

     Se a companhia ficasse na ponte os fugitivos arrastá-la-iam

     Sterritt montou o cavalo e abriu a boca olhando para Sharpe, aturdido e aflito pela tragédia que tinha diante de si. Sharpe virou-se para os seus homens.

     - Por aqui! Rápido!

     Harper estava ali. Harper era de confiança. Sharpe mandava e os homens seguiam-no, mas Harper sabia conduzi-los. Sharpe desatou a correr com Hogan a seu lado.

     - Volte, meu Capitão!

     - Vou consigo!

     - Não. Quem fará voar a ponte?

     Hogan desapareceu. Sharpe não fez caso do caos que tinha à direita, desceu a correr até à margem, contando os passos. A setenta passos considerou que já se tinham afastado o suficiente. Sterritt tinha desaparecido. Voltou-se para os seus homens.

     - Alto! Três fileiras!

     Os seus fuzileiros estavam ali, não tinham precisado de ordens. Atrás dele ouviam-se gritos, o som ocasional de um ou outro mosquete, mas sobretudo o som de cascos e de espadas que caíam. Não se voltou. Os homens do South Essex ficaram a observá-lo ao passarem pela frente dele.

     - Olhem para mim! Olharam. Erecto e tranquilo.

     - Não estão em perigo. Façam simplesmente o que eu disser. Sargento! Harper sorriu brincalhão. Havia que chamar os homens da companhia de Sterritt. O grande irlandês foi passando pelas fileiras, obrigando os homens a desviar os olhos da carnificina e a olhar para os seus mosquetes. Um dos homens, lívido de medo, levantou os olhos para o enorme sargento.

     - O que é que se vai passar, meu Sargento?

     - Passar? Vais ganhar o teu soldo, rapaz. Vais combater.

     O sargento percorreu as fileiras com os olhos e riu-se. Sharpe tinha salvo oitenta mosquetes e trinta espingardas da derrota e os franceses, que Deus os abençoasse, iam ter luta.

    

     Foi uma carnificina. Quinze minutos antes, mil e seiscentos homens de infantaria tinham alinhado num campo, dirigidos e organizados; agora a maior parte deles corria para a ponte, largavam os mosquetes, as mochilas, qualquer coisa que os pudesse tornar mais lentos e trazer para mais próximo dos seus calcanhares os metódicos sabres dos franceses. O coronel francês era bom. Concentrou alguns dos seus homens sobre os fugitivos, fazendo-os correr a trote, virando para a direita e para esquerda com a mesma facilidade que num campo de treinos, conduzindo a massa tomada pelo pânico para o matadouro que era a entrada da ponte. Mais cavaleiros receberam ordens de ir contra o que restava do quadrado britânico, um tropel de homens, lutando desesperada-mente à volta das suas bandeiras, mas Sharpe viu mais cavalaria, que perma-necia imóvel em duas fileiras. Os franceses reservavam algo que se pudesse enviar para manter o ataque ou para quebrar qualquer resistência repentina da infantaria. Não havia motivo para defender a ponte. Já estava bem protegida dos franceses pela massa turbulenta de homens que lutavam para se porem duvidosamente a salvo. Sharpe calculou que cerca de mil homens tentavam escapulir-se por uma estrada com largura apenas para uma carroça. A visão era absurda. Sharpe já anteriormente tinha visto o pânico no campo de batalha, mas nunca como ali. Menos de cem cavaleiros levaram um número dez vezes maior de homens a uma fuga horrível. A multidão da ponte não avançava, a pressão dos corpos era demasiada, mas os espanhóis e os britânicos lutavam e agitavam-se, arranhavam e empurravam, desesperados por escaparem aos caçadores que cortavam os flancos da massa. Mesmo os que conseguiam abrir caminho até à ponte não estavam a salvo. Sharpe vislumbrou homens que caíam à água no sítio em que a ponte estava partida e onde Hogan derrubara os parapeitos. Outros, acossados pelos sabres, uniam-se à cauda da multidão. Os franceses não tinham qualquer possibilidade de abrir caminho a golpes de sabre por entre aquela imensa barreira de ossos e carne; nem sequer tentavam chegar à ponte. Em vez disso, os caçadores mantinham o pânico em ebulição, de modo a que os homens não tivessem possibilidade de formar outra vez e virarem-se contra os perseguidores com os mosquetes carregados e as baionetas levantadas. Os cavaleiros quase se detinham ao desferir os golpes com o sabre. Sharpe viu um homem atacar alegremente os fugitivos com a quilha da espada. Custa matar um homem, sobretudo se leva mochila e está de costas. Os cavalei-ros inexperientes descreviam com as espadas arcos impressionantes que caíam em golpe sobre as costas dos soldados; a vítima seria derrubada e descobriria surpreendida que a sua ferida consistia simplesmente numa mochila e um capote rasgados. Os caçadores veteranos esperavam até se encontrarem ao lado do alvo e então golpeavam para trás as caras desprotegidas, e Sharpe sabia que haveria muito mais feridos do que mortos, terrivelmente feridos, rostos mutilados por lâminas, cabeças abertas até aos ossos. Virou-se para a frente.

     Aí sim, tinha lugar um verdadeiro combate. As bandeiras do South Essex ainda ondulavam, apesar dos homens que estavam à volta já não manterem a imagem de uma verdadeira formação. Tinham sido obrigados a formar um anel infernal, acossados por trás, pelos cavaleiros e lutavam contra os sabres e os cascos com a espada e a baioneta. Era uma luta desesperada. Os franceses tinham lançado a maior parte dos seus homens contra o pequeno grupo; talvez não tivessem qualquer oportunidade de capturar a ponte mas, no meio daquela roda aterrada, havia uma grande recompensa. As bandeiras. Para os franceses abandonarem o campo tendo capturado as bandeiras do regimento era cavalgar para a glória, converterem-se em heróis, saber que aquela história seria contada por toda a Europa. O homem que capturasse as bandeiras poderia pedir o que quisesse como recompensa, dinheiro, mulheres ou promoção, e os caçadores tentavam romper a resistência dos britânicos com uma fúria selvagem. O South Essex repelia o ataque com grande desespero, os seus esforços eram guiados pela determinação fanática de que as bandeiras não caíssem. Perdê-las era a pior das desgraças.

     Sharpe só levou alguns segundos a compreender o caos absoluto que tinha pela frente; não lhe restava outra opção, avançaria para as bandeiras esperando que o anel de sobreviventes aguentasse o ataque dos cavaleiros o tempo suficiente, até que a sua companhia os tivesse ao alcance dos mosquetes e das baionetas. Virou-se para eles. Harper fizera um bom trabalho. Os fuzileiros estavam espalhados entre as fileiras para conterem os nervos destroçados dos homens da companhia de Sterritt. Os homens de casaca verde sorriram amplamente a Sharpe. Os homens de vermelho estavam aterrados e nervosos. Sharpe reparou que Harper tinha colocado uma fileira de fuzileiros em cada extremo da companhia, eram os flancos que seriam os pontos débeis da formação e apenas uns nervos bem temperados e umas baionetas rígidas deteriam os cavaleiros atacantes. Dois tenentes nervosos foram empurrados para o interior das fileiras e, tal como os outros homens da companhia de Sterritt, pestanejavam ao ver a multidão junto à ponte.

     Queriam correr, queriam pôr-se a salvo na outra margem, mas Sharpe também viu dois sargentos firmes que já tinham estado noutras batalhas e esperavam as ordens com tranquilidade.

     - Vamos para a frente. Para as bandeiras. Algumas caras empalideceram de medo.

     - Não há nada a temer. Desde que se mantenham em formação. Entendido? Devem manter a formação.

     Falou calmamente, mas com firmeza. Alguns homens continuaram a olhar para os fugitivos da ponte.

     - Se algum romper as fileiras, dispararão.

     Agora sim, olhavam para ele. Harper esboçou um largo sorriso.

     - E ninguém disparará sem eu ter dado a ordem. Ninguém. Tinham-no compreendido. Tirou a espingarda do ombro, atirou-a a Pendleton e desembainhou a sua espada mortal.

     - Em frente!

     Deu alguns passos em frente, ouvindo Harper que gritava para a formação marcando o ritmo do avanço. Apressou-se. Não tinham muito tempo e sabia que as primeiras duzentas jardas seriam muito fáceis. Avançaram pelo descampado plano e sem cavaleiros que estorvassem. O troço mais difícil seria os últimos cem passos, em que a companhia se deveria manter em formação enquanto fosse pisando os mortos e os feridos. Então os franceses dar-se-iam conta do perigo e desafiá-los-iam. Perguntava-se quanto tempo teria decorrido desde a carga fatal dos espanhóis; talvez só tivessem sido uns minutos mas, de repente, estava a sentir de novo as sensações do combate. Sentiu um desinteresse que lhe era familiar, sabia que duraria até à primeira descarga ou explosão, e fixava-se em detalhes irrelevantes; parecia que o chão se movimentava debaixo dos seus pés em vez de ser ele a caminhar pela terra poeirenta e gretada de princípio de Verão. Via cada uma das raras folhas de erva pálida e que havia formigas a correr à volta de montinhos brancos de excrementos. A luta à volta das bandeiras parecia muito distante, os sons chegavam abafados até si, e ele queria cobrir essa distância. Deram-se as primeiras mostras de excitação, de júbilo até, ante a proximidade da batalha. Alguns homens sentiam-se entusiasmados pela música, outros pelo comércio; havia homens que gostavam de trabalhar a terra, mas Sharpe fora feito para aquilo. Para o perigo do combate. Tinha sido soldado durante metade da sua vida, conhecia o desânimo, as injustiças, conhecia os olhares meio compadecidos dos homens cujos negócios lhes permitiam dormir a salvo durante a noite, mas não conheciam isto. Sabia que nem todos os soldados o sentiam, poderia envergonhar-se se se pusesse a pensar nisso, e não era aquele o momento.

     Os franceses estavam a ser reprimidos. Alguém tinha organizado os sobreviventes do grupo britânico; havia uma primeira ala ajoelhada, com os mosquetes cravados na erva, as baionetas à altura do peito dos cavalos. Os sabres golpeavam sem qualquer efeito os mosquetes angulosos, ouviam-se gritos, guinchos de homens e de cavalos, e as bandeiras foram rodeadas por um manto de fumo de pólvora com clarões de chama e aço. Enquanto caminhava, com a grande espada na mão, via cavalos sem cavaleiros que trotavam à volta da massa confusa de caçadores que tinham sido feridos ou derrubados das selas. Alguns franceses iam a pé, golpeando com as espadas ou mesmo derrubando com as mãos nuas as fileiras britânicas. Um oficial do South Essex obrigou o cavalo a sair do anel, as filas fecharam-se imediatamente atrás dele. Não levava chapéu, o rosto estava irreconhecível por baixo de uma máscara de sangue. Lançou o cavalo à carga e arremeteu com a espada delgada e direita contra o corpo de um caçador. A espada ficou presa. Sharpe viu-o puxá-la pelo punho, o seu fanatismo louco transformou-se em medo e num instante um francês mostrou como se devia fazer, atravessando o peito do inglês com a lâmina curva do sabre, retirando-a com facilidade enquanto o oficial de casaca vermelha caía junto com a sua vítima. Outro caçador, a pé, golpeava às cegas entre as fileiras inultrapassáveis. Um soldado aparou o golpe, picou para a frente com a baioneta e o francês morreu. Bem feito, pensou Sharpe, há sempre alguém melhor.

     Tocou um clarim. Olhou para a direita e viu que a retaguarda francesa se adiantava. Avançavam deliberadamente para a carnificina à volta das bandeiras. Não tinham sabre e Sharpe compreendeu o que o coronel francês pensava fazer. O quadrado britânico, ou o que dele restava, tinha aguentado e os sabres da cavalaria ligeira não o podiam fazer dispersar. Mas os caçadores, ao contrário das outras cavalarias, usavam carabinas e planeavam fazer uma descarga de perto contra as duas fileiras de casacas-vermelhas, o que as destroçaria e permitiria que as espadas penetrassem até ao centro. Apressou o passo, mas sabia que não chegariam às bandeiras antes da cavalaria e observou, incomodado, como com meticulosa disciplina alguns dos espadachins afastavam os cavalos do quadrado infernal para oferecerem campo de tiro às carabinas. Os cavaleiros marchavam com cuidado entre os mortos e os feridos. Sharpe viu que os britânicos carregavam febrilmente os mosquetes, cortando os nós com as lâminas das baionetas quando atacavam os canos com as cargas, mas já era demasiado tarde. Os franceses detiveram-se, dispararam, avançaram para deixar que uma segunda fileira se detivesse e lançaram a sua descarga contra o South Essex. Alguns mosquetes responderam, um caçador caiu derrubado no chão, uma baqueta saiu pelo ar, lançada por algum soldado que tinha disparado o mosquete a meio carregar. As descargas francesas destruíram as filas frontais; abriu-se uma grande fenda na formação vermelha e o inimigo introduziu as espadas curvas para desmembrar e rasgar profundamente a infantaria, de onde poderiam arrebatar e ganhar o maior troféu que um homem podia conseguir num campo de batalha.

     Os homens de Sharpe estavam agora entre os corpos. Pisou um soldado britânico cuja cabeça estava virtualmente separada por um golpe de sabre. Atrás dele alguém vomitou. Lembrou-se que a maioria dos homens do South Essex nunca tinha visto uma batalha, nem sequer faziam ideia do efeito das armas na carne de um homem. Os sobreviventes do quadrado juntavam-se a ele, retirando do campo, perdendo a coesão. Viu que as bandeiras caíam e voltavam a elevar-se, vislumbrou um oficial que gritava aos homens, incitando-os a voltar a atacar os cavalos que os feriam com os cascos e levavam os terríveis sabres. Havia tão pouco tempo... mais franceses lutavam a pé, tentavam separar as baionetas e abrir caminho até às bandeiras, até à glória. Então começou a ter problemas. Viu um oficial francês que conduzia os seus homens e se dirigia para eles; a companhia de Sharpe tinha sido descoberta e o francês sabia o que uma centena de mosquetes carregados podia fazer a uns cavaleiros tão juntos como os que estavam concentrados à volta das bandeiras. Retirou alguns homens da luta, alinhou-os rapidamente e lançou-os contra o novo perigo. Apenas tinha conseguido atingir uma dezena de homens e de cavalos. Sharpe voltou-se.

     - Alto!

     Ficou de costas para os cavaleiros. Sabia de cabeça quantos segundos tinha e os homens assustados do South Essex que o observavam precisavam de uma demonstração do que uma boa infantaria era capaz de fazer à cavalaria.

     - Retaguarda! Meia volta!

     Precisava de proteger a retaguarda para o caso de serem cercados por alguns cavaleiros. Harper estava ali.

     - Primeira linha! De joelhos!

     Caminhou entre eles, com calma, e saltou por cima da primeira linha para ficar a salvo na formação. Os cavalos estavam a umas cinquenta jardas de distância.

     - Só disparará a fila central! Só a fila central! Fuzileiros, retenham o disparo! Só a fila central! Apontem baixo! Apontem ao estômago! Vamos deixar que se aproximem! Esperem! Esperem! Esperem!

     As espadas dos franceses estavam ensanguentadas até ao punho, os cavalos estavam cobertos de suor, as caras dos cavaleiros mostravam o aspecto de homens que tinham lutado e matado desesperadamente. No entanto, a vitória deles sobre homens que os superavam quatro vezes em número tinha sido tão fácil que estes cavaleiros acreditavam ser capazes de tudo. A dúzia de franceses cavalgava em direcção à companhia de Sharpe, esquecendo o perigo, confiantes de que aqueles britânicos cairiam tão facilmente como os dos quadrados. Sharpe viu-os aproximarem-se num galope temerário, viu os torrões de erva levantados pelos cascos, os dentes à mostra e as crinas ondulantes dos cavalos. Esperou, continuou a falar em voz alta, mas moderada.

     - Esperem por eles! Esperem! Esperem! Quarenta jardas, trinta. No último momento o oficial francês apercebeu-se do que tinha feito. Sharpe viu que partia o freio do cavalo mas era demasiado tarde.

     - Fogo! Os caçadores desintegraram-se. Foi uma descarga pequena, só umas dezenas de mosquetes, mas disparados a uma distância mortal. Os cavalos caíram, dois ou três resvalaram quase até à primeira linha, os cavaleiros varreram o solo num remoinho de cascos, sabres e braços. Não restou nem um único caçador.

     - De pé! Em frente! Passou de novo para a frente e conduziu-os por entre os restos sangrentos dos seus atacantes. Um francês estava vivo, tinha uma perna partida por ter caído do cavalo e deu um golpe de sabre em direcção a Sharpe. Este não se incomodou a devolver o golpe. Deu-lhe um pontapé no pulso ferido de maneira que a espada lhe caiu da mão. A companhia caminhou por entre os homens mortos e os cavalos; começaram a andar mais depressa, estava a perder-se a batalha à volta das bandeiras, os britânicos viam-se forçados a retirar-se. Sharpe viu que as compridas lanças dos sargentos que protegiam as bandeiras estavam a ser utilizadas; uma delas balançou por cima do caos e embateu contra a cabeça de um cavalo de modo que este se empinou e derrubou o cavaleiro. A disciplina do quadrado tinha-se desvanecido com a carga das carabinas francesas. Sharpe não via oficiais, deviam estar lá, mas agora os franceses estavam perto das bandeiras e alguns homens do quadrado disperso corriam para Sharpe para a segurança que proporcionavam as baionetas horizontais. Afastou-os para o lado com a espada, gritou-lhes que fossem para os lados. Teve de se deter, incapaz de abrir caminho entre os fugitivos que tinha pela frente e brandiu para eles a quilha da espada.! Harper juntou-se a ele e foi golpeando os fugitivos com a coronha do rifle;! a enorme massa do irlandês obrigava os que corriam a desviarem-se para os flancos onde se podiam unir com segurança à companhia de Sharpe. Então ficou livre e continuou, ainda brandindo a espada, com o sangue a ferver de prazer. A sua intenção não era efectuar uma carga de baioneta, mas havia já muito pouco tempo. As bandeiras cambaleavam, a espada de um oficial cortou a mão a um francês que segurava um dos paus e então as bandeiras caíram.! Sharpe gritou palavras ininteligíveis e corria. Atrás dele os homens tropeçavam nos corpos e escorregavam nas poças de sangue. Um caçado apeado correu na sua direcção, baixou o sabre contra ele descrevendo uma ampla curva. Sharpe levantou a espada, a lâmina do francês partiu-se, deu-lhe um golpe no pescoço, reparou que o francês caía e tropeçou nele. Alguns cavalos tapavam a visão das bandeiras, ouviam-se os estalidos dos fuzis, um homem tombou. Divisou Harper derrubando do cavalo um caçador em pessoa, a cara do sargento era uma terrível cara de raiva e força. Aproximou-se outro cavaleiro, puxando as rédeas para projectar o seu impulso sobre Sharpe e desapareceu para trás quando Sharpe espetou a sua grande espada na queixada do cavalo. Viu que o animal se empinava, o caçador largou o sabre gritando e Sharpe vislumbrou a lâmina brilhante que pendia da correia da sua cintura enquanto cavalo e homem caíam para trás. Ainda restava um grupo de casacas-vermelhas junto às bandeiras caídas e Sharpe viu que dois franceses desmontavam para afastar os últimos defensores com as mãos vazias.

     Então parecia que os casacas-vermelhas tinham desaparecido, apenas havia caçadores e gritos de triunfo franceses enquanto retiravam as hastes aos mortos e arrebatavam as bandeiras. Sharpe virou-se e susteve a espada coberta de sangue bem alto sobre a sua cabeça.

     - Alto! Apresentem armas!

     Estava na linha directa de fogo e atirou-se ao chão, arrastando consigo Harper, ao mesmo tempo que gritava a ordem de disparar. A descarga passou por cima das suas cabeças e então levantaram-se e correram. As balas dos mosquetes tinham desviado os franceses das bandeiras que voltaram a cair, mas desta vez rodeadas também pelos mortos do inimigo para além dos britânicos.

     Só havia que avançar poucas jardas mas havia mais cavaleiros a avançar para o local onde tantos tinham morrido pela posse das bandeiras. Sharpe lançou-se por cima dos corpos, arrastando-se entre sangue e membros, alcançou uma haste e arrastou-a para si. Era a bandeira do regimento, o campo amarelo e brilhante rasgado e com buracos recentes; cravou a ponta da espada num cadáver e foi movendo a haste de um lado para o outro contra os cavaleiros como se fosse um garrote primitivo. A bandeira real estava demasiado longe. Harper ia até ela, mas um cavalo chocou contra o sargento e fê-lo cair de costas. Outro cavalo empinou-se e afastou-se da ondulação de seda amarela que Sharpe tinha na mão, uma espada golpeou a haste e Sharpe viu lascas que saltavam a voar da madeira nova, então a rede com feno atada à sela atingiu-o e atirou-o ao chão. Sentia o cheiro dos cavalos, via os cascos no ar por cima da sua cabeça, a cara do francês envolta pela corrente prateada da barretina que se baixava para ele para lhe arrancar a bandeira da mão. Aguentou. Um casco caiu-lhe sobre o rosto, o cavalo afastou-se da carne que acabava de pisar, o cavaleiro esticou-se e de repente largou. Sharpe viu Harper balançando a grande lança de um sargento. Tinha golpeado com a espada a coluna do cavaleiro e o homem deslizou suavemente para cima de Sharpe, soltando o último suspiro ao ouvido do fuzileiro.

     Sharpe saiu de baixo do corpo. Deixou ali a bandeira, estava tão a salvo como na sua mão. Harper ia agitando a lança, mantendo os cavaleiros à distância. Onde estava a companhia? Sharpe olhou à volta e viu-os a correr para a batalha. Eram tão lentos! Procurou a espada, encontrou-a e arrancou-a do corpo em que a tinha enterrado. Os cavaleiros continuavam a vir, tentavam desesperadamente obrigar os cavalos renitentes a passar pelos montes de mortos. Sharpe voltou a guinchar. Harper rugia, mas não havia inimigos à distância de uma espada. Avançou para a bandeira do rei. Via-a deitada debaixo dos corpos a umas cinco jardas. Escorregou no sangue, levantou-se de novo, mas vinham para ele três franceses a pé com os sabres desembainhados. Harper estava junto dele, um caçador caiu com a lâmina da lança cravada no estômago, o outro afundou-se sob a espada de Sharpe que lhe cortou o movimento do sabre como se a espada do francês fosse feita de delicado marfim. Mas o terceiro tinha a bandeira da União, tinha-a tirado de debaixo dos corpos e mostrava-a aos homens a cavalo que estavam por trás dele. Sharpe e Harper arremeteram contra ele, a lança afundou-se nas costas do caçador mas já tinha cumprido a sua missão. Um cavaleiro tinha agarrado a franja da bandeira e fugia esporeando o cavalo. Vinham mais franceses, arranhando dois fuzileiros para conseguir a segunda bandeira. Eram muitos!

     - Contenha-os, Patrick! Contenha-os!

     Harper começou a dar voltas com a lança, aos gritos, era Cuchulain o da Mão Vermelha, o invencível. Parou com as pernas abertas, a sua tremenda altura dominava a luta, pedia aos franceses de uniforme verde que se acercassem e o matassem. Sharpe gatinhou até onde estava a bandeira do regimento, estendeu-a debaixo do corpo e lançou-a como um dardo para a companhia que avançava. Viu que caía entre a tropa. Harper continuava ali, grunhindo ao inimigo, desafiando-o, mas já não se lutava. Sharpe pôs-se a seu lado com a espada na mão e os franceses deram a volta, encontraram os cavalos, e montaram-nos para partir. Um deles voltou-se e pôs-se de frente para os fuzileiros, ergueu o sabre ensanguentado em sinal de saudação e Sharpe elevou a sua espada vermelha como resposta.

     Alguém lhe deu uma palmada nas costas, os homens gritavam como se tivessem ganho, quando tudo o que tinham feito fora reduzir a metade a vitória dos franceses. A companhia estava com eles, de pé no meio dos mortos, vendo os caçadores marcharem a trote com o seu trofeu. Não havia qualquer possibilidade de recuperar a bandeira real, estava já a trezentas jardas, rodeada por cavaleiros triunfantes no início de uma longa viagem que a levaria para além dos Pirenéus para servir de chacota à multidão de Paris antes de se juntar às outras bandeiras italianas, prussianas, austríacas, russas e espanholas que assinalavam as vitórias francesas por toda a Europa. Sharpe viu-a partir e sentiu-se mal e envergonhado. As bandeiras espanholas também iam ali, as duas, mas não era assunto seu. A sua própria honra estava ligada à bandeira capturada, a sua reputação de militar, era uma questão de orgulho.

     Tocou no cotovelo de Harper.

     - Está bem?

     - Sim, meu Tenente.

     O sargento arquejava sustendo ainda a lança meio ensanguentada.

     - E o senhor?

     - Estou bem. Foi muito bom. Obrigado.

     Harper recusou o cumprimento mas sorriu amplamente ao seu tenente.

     - Era uma bandeira excepcional, meu Tenente. Pelo menos recuperámos uma.

     Sharpe voltou-se para a olhar. Ondulava sobre a companhia, rota e manchada de sangue, perdida e recuperada. Por baixo dela havia um oficial e Sharpe reconheceu Leroy, o mal-humorado e solitário capitão Leroy, que Lennox descrevera como o único outro militar decente do batalhão. O seu rosto era uma máscara de sangue e Sharpe abriu caminho até ele por entre as fileiras.

     - Meu Capitão?

     - Muito bem, Sharpe. Isto foi um massacre.

     A voz do capitão parecia estranha, o seu sotaque era esquisito e Sharpe lembrou-se de que era americano; um dos pequenos grupos de unionistas que ainda lutavam pela pátria mãe. Sharpe apontou para a cabeça de Leroy.

     - Está ferido?

     - Isto é só um arranhão. Ainda tenho uma ferida na perna. Sharpe olhou para baixo. A coxa de Leroy estava banhada em sangue.

     - Como foi?

     - Junto às bandeiras. Graças a Deus que o senhor chegou, ainda que Simmerson merecesse perder as duas. O grande filho da mãe.

     Sharpe olhou para a ponte. Não se via grande coisa porque o campo que levava até ela ainda estava cheio de cavaleiros franceses. Viam-se baforadas de fumo e ouvia-se o disparo dos mosquetes, pelo que alguém tinha organizado qualquer tipo de defesa, mas os caçadores já não lutavam. Os clarins haviam-nos retirado da matança e voltaram a subir o caminho onde formaram fileiras a rodear os seus três trofeus. Deviam sentir-se orgulhosos, pensou Sharpe, uma cavalaria de quatrocentos homens tinha destroçado dois regimentos, capturado três bandeiras e tudo por causa da estupidez e do orgulho de Simmerson e do coronel espanhol. Interrogava-se sobre onde estaria Simmerson. Não estava no grupo que rodeava as bandeiras, a menos que o seu cadáver jazesse num dos montes. Voltou-se para Leroy.

     - Viu Simmerson?

     - Sabe deus o que foi feito dele. Forrest estava ali.

     - Morto?

     - Não sei - respondeu Leroy, encolhendo os ombros.

     - Lennox?

     - Não o vi. Estava no quadrado.

     Sharpe deu uma vista de olhos pelo campo. A visão era aterradora. O local onde estavam, onde tinham lutado pelas bandeiras, encontrava-se rodeado de corpos. Havia feridos, agitando-se e gritando, cavalos deitados que tossiam sangue e escoiceavam o solo com um estremecimento frenético.

     - Dispare sobre esses cavalos, sargento.

     - Meu Tenente? - disse o homem olhando fixamente para Sharpe.

     - Que dispare sobre eles! Rápido!

     Não suportava ver aqueles animais feridos. Alguns homens encaminha-ram-se para eles e apontaram-lhe os mosquetes à cabeça e Sharpe virou-se para contar os seus fuzileiros.

     - Estão todos sãos e salvos, meu Tenente. Harper já os tinha contado.

     - Obrigado.

     Tinham corrido pouco perigo ao permanecerem nas fileiras com as baionetas erguidas. Lembrava-se que tinha pensado o mesmo quando o South Essex marchara campo acima orgulhoso, com as bandeiras a ondular e agora estavam destroçados. Tentou fazer uma estimativa do preço daquela carnifi-cina. Não havia no campo mais que trinta ou quarenta franceses mortos, um preço alto entre quatrocentos, mas tinham conseguido a glória para o seu regimento e tinham infligido tremendas perdas aos britânicos e aos espanhóis. Uma centena de mortos? Olhou para os montes de cadáveres, para a vereda de corpos que conduzia até à ponte; era impossível calcular o número. Seria elevado e haveria muito mais feridos, homens cujas caras tinham sido esmagadas pelos cavaleiros, homens cegos que seriam levados para Lisboa, enviados para casa e ficariam abandonados à fria caridade de uma sociedade amplamente habituada a mendigos mutilados. Estremeceu.

     Mas não eram só os mortos e os feridos. Na sua primeira batalha, o batalhão de Simmerson também tinha perdido o orgulho. Sharpe levava dezasseis anos a lutar no exército, tinha defendido as bandeiras na confusão da batalha e tinha investido à baioneta tentando alcançar o estandarte inimigo; tinha visto capturar bandeiras que se exibiam pelo acampamento e tinha sentido o júbilo feroz da vitória, mas esta era a primeira vez que assistira a uma bandeira britânica ser arrebatada do campo e sabia quanto o iam celebrar os inimigos quando o trofeu chegasse ao exército do marechal Victor. Em breve o exército de Wellesley deveria entrar em batalha, não numa escaramuça contra quatro esquadrões de caçadores, mas sim numa verdadeira batalha em que as máquinas mortais da artilharia fariam da sobrevivência um jogo de azar e os seus inimigos iriam então para essa batalha com o ânimo levantado porque tinham humilhado os britânicos. Começou a conceber uma ideia, uma ideia tão ultrajante que sorriu e o jovem Pendleton, à espera para lhe devolver o rifle, sorriu também ao seu oficial.

     - Conseguimos, meu Tenente! Conseguimos!

     - O quê?

     Sharpe queria saborear a ideia, mas havia muito que fazer.

     - Salvar a bandeira, meu Tenente, não é isso?

     Sharpe olhou para a cara do jovem. Depois de passar a vida roubando nas ruas de Bristol o rapaz tinha o rosto cansado e faminto mas os olhos brilhavam e a cara suplicava desesperadamente a confiança. Sharpe sorriu.

     - Conseguimo-lo.

     - Já sei que perdemos a outra, meu Tenente, mas não foi por culpa nossa, não é verdade?

     - Assim é. Se não fôssemos nós tinham perdido ambas as bandeiras. Muito bem!

     O rosto do rapaz resplandecia.

     - E o senhor e o sargento Harper, meu Tenente. - As palavras do rapaz saíam em turbilhão, pela necessidade urgente de partilhar o entusiasmo. Estavam aterrorizados, meu Tenente!

     Sharpe pegou na espingarda e riu-se.

     - O sargento Harper não sei, mas eu também tive bastante medo.

     - Diz isso por dizer! - disse Pendleton a rir.

     Sharpe sorriu e foi andando entre os corpos. Havia tanto para fazer, enterrar os mortos, tratar dos feridos. Olhou para a ponte. Estava agora vazia, os fugitivos tinham atravessado e Sharpe viu que se estavam a organizar em companhias na outra margem. Os franceses estavam a meia milha, em filas, e observavam um único cavaleiro que trotava em direcção a Sharpe. Pensou que era um oficial francês que vinha negociar uma trégua enquanto resgatavam os feridos. Sharpe sentia-se muito cansado.

     Desviou os olhos para a ponte e perguntava-se por que razão Simmerson não enviava qualquer homem para começar a cavar as sepulturas, a pôr as ligaduras, a despir os mortos. Demorariam um dia inteiro a pôr em ordem aquele caos. Sharpe pegou no rifle e começou a caminhar em direcção ao oficial de caçadores cujo cavalo ia escolhendo delicadamente o caminho por entre os corpos. Levantou uma mão em sinal de cumprimento.

     E naquele momento a ponte explodiu.

    

     A ponte resistia a ser destruída. Havia dois milénios que estava sobre as águas do Tejo e a pedra velha rendia-se lentamente aos modernos explosivos. O pilar central estremeceu profundamente e o movimento sentiu-se até onde estava Sharpe e a sua companhia, que deram meia volta para verem qual era a causa. Das fendas da obra saiu uma nuvem de pó. Durante um segundo pareceu que a ponte ia aguentar, as pedras arquearam e então partiram-se com lentidão agonizante até que, por fim, a pólvora negra venceu e a obra ruiu numa obscena bola de fumo e chamas. O caminho da ponte voou pelos ares, ficou suspenso por um momento e, em seguida, desmoronou-se para a água. O pilar, dois arcos, a base da ponte, tudo foi destruído pela explosão atroadora que rolou interminavelmente pelos prados, assustando os cavalos franceses, fazendo com que os cavalos dispersos dos que tinham lutado a pé relinchassem e fugissem impulsivamente a galope pela erva, como se fossem à procura da segurança humana. Uma enorme coluna de fumo, fervendo de pó antigo, elevou-se por cima dos arcos derrocados; a água borbulhava, as pedras caíram nas profundidades verdes ao longo da corrente; pouco a pouco o silêncio seguiu-se ao trovão, o rio adaptou-se às novas pedras no seu leito e o fumo negro seguiu à deriva para oeste como uma pequena nuvem de tempestade baixa e malévola. Hogan não se devia ter preocupado. Tinham ruído quarenta pés de ponte, Wellesley estava a salvo da cavalaria que o poderia pilhar a sul e Sharpe e os seus homens ficavam agora abandonados do outro lado do Tejo.

     O capitão Leroy caiu no chão. Sharpe quis saber se algum bocado de pedra da ponte se teria desviado e o tinha atingido inesperadamente, mas o capitão negou com a cabeça.

     - É a perna. Não se preocupe, Sharpe, cá me arranjarei. Por que diabos fizeram isto? - perguntou Leroy apontando com a cabeça para as ruínas fumegantes da ponte.

     Sharpe teria gostado de o saber. Teria sido por engano? Hogan decerto teria esperado que Sharpe e a sua companhia, aumentada agora com duzentos homens, alcançassem a segurança que a outra margem oferecia, antes de atear as mechas que conduziam à base do pilar. Ficou a olhar para o outro lado do rio mas a actividade que via não tinha qualquer sentido, os homens desfilavam em companhias, pensou ver Simmerson sobre o seu cavalo cinzento rodeado de oficiais que olhavam fixamente para a destruição levada a efeito na ponte.

     - Meu Tenente, meu Tenente.

     Gataker, o fuzileiro, estava a chamá-lo. O oficial de caçadores francês chegara, um capitão, com a cara curtida pelo sol e dividida por um comprido bigode preto. Sharpe dirigiu-se a ele e cumprimentou-o. O francês retribuiu o cumprimento e olhou para a carnificina que havia à volta.

     - Felicitações pela batalha, monsieur.

     O inglês dele era perfeito; cortês, grave, respeitoso. Sharpe devolveu-lhe o cumprimento.

     - Também o felicitamos. Conseguiram uma notável vitória.

     As palavras soaram altas e desapropriadas. Era extraordinário que os homens pudessem dilacerar-se selvaticamente uns aos outros, lutar como demónios loucos e em pouco tempo tornarem-se educados, generosos até em relação aos danos que o inimigo lhes infligira. O capitão francês sorriu por instantes,

     - Obrigado, monsieur.

     Deteve-se por um momento, olhou para os corpos que jaziam próximo da ponte e, quando se voltou de novo para Sharpe, a sua expressão mudou; tornou-se mais curioso e menos formal.

     - Porque atravessaram o rio?

     - Não sei - respondeu Sharpe, encolhendo os ombros. O francês desmontou e enrolou as redes no pulso.

     - Não tiveram sorte - disse, sorrindo para Sharpe. - Mas o senhor e os seus homens lutaram bem e para quê? - perguntou apontando com a cabeça para a ponte.

     Sharpe voltou a encolher os ombros. O capitão de caçadores com o grande bigode olhou-o por uns instantes.

     - Creio que ainda têm menos sorte que o vosso coronel, não? Falava em voz baixa de modo que os homens que olhavam fixamente e com curiosidade para o seu antigo inimigo não o ouviram. Sharpe não reagiu mas o francês estendeu as mãos.

     - Nós também temos desses. Lamento, monsieur. Era tudo demasiado educado, demasiado íntimo. Sharpe olhou para os corpos que jaziam no campo.

     - Pretende falar dos feridos?

     - Já o fiz, monsieur, já o fiz. Não é que tenhamos muitos mas necessito da sua permissão para revistar este bocado de campo. No que respeita ao resto - disse fazendo uma reverência -, somos os donos.

     Era verdade. Pelo campo cavalgavam agora caçadores encurralando os cavalos extraviados. Estavam a ganhar um prémio já que havia meia-dúzia de puros-sangue ingleses, perdidos por oficiais do South Essex, e Sharpe sabia que eram melhores cavalos do que os que se podiam comprar em Espanha. Mas havia algo de curioso nas palavras que o capitão tinha utilizado.

     - Já o fez, meu Capitão? A sério? - perguntou Sharpe fixando os olhos compassivos do francês, que encolheu levemente os ombros.

     - A situação mudou, monsieur - disse apontando com a mão para a ponte destruída. - Creio que terão problemas para alcançar a outra margem, não?

     Sharpe assentiu, era evidente.

     - Creio, monsieur, que o meu coronel quererá retomar a luta após um tempo conveniente.

     Sharpe riu-se. Apontou para os mosquetes, para as espingardas e para as compridas baionetas.

     - Quando estiverem prontos, senhor, quando estiverem prontos. O francês também se riu.

     - Consultá-lo-ei, monsieur, e informá-lo-ei com tempo suficiente - disse puxando pelo relógio. - Digamos que temos uma hora para tratar dos nossos feridos? Depois voltaremos a falar.

     Sharpe não tinha outra alternativa. Uma hora não chegava para que os seus duzentos homens recolhessem os feridos, os levassem, apesar da sua agonia, para a entrada da ponte e idealizassem a maneira de os manter a salvo. Por outro lado, uma hora era muito mais do que os franceses precisavam e sabia que não podia pedir mais tempo. O capitão desenrolou as rédeas e preparou-se para montar.

     - Felicitações de novo. Tenente? Sharpe assentiu com a cabeça.

     - E os meus mais sentidos pêsames. Bonne chance! Montou e voltou a meio galope em direcção ao horizonte.

     Sharpe fez a recontagem da sua nova companhia. Os sobreviventes do quadrado acrescentavam uns setenta homens à sua unidade. Leroy era o oficial de patente mais alta, claro, mas a sua ferida obrigava-o a querer que Sharpe tomasse as decisões. Havia mais dois tenentes, Knowles, da Companhia Ligeira, e um homem chamado John Berry. Berry era gordo e de lábios carnudos, um jovem que perguntou com petulância a data de promoção de Sharpe e, ao inteirar-se que Sharpe era mais antigo, ficou com pior disposição do que se tivessem disparado sobre o seu cavalo. Sharpe suspeitava que esse era o único motivo por que Berry se mantivera junto às bandeiras.

     Os grupos de trabalho tiraram as casacas aos mortos, ataram as mangas aos mosquetes abandonados e fizeram umas maças rudimentares sobre as quais levaram os feridos para a ponte. Metade dos homens trabalhava nos montes que rodeavam o local onde Sharpe e Harper haviam trepado entre sangue e cadáveres para resgatar as bandeiras. A outra metade trabalhava entre os corpos em leque que acabava na entrada da ponte. Os franceses tinham terminado rapidamente e começavam a procurar por entre os corpos de casaca azul dos espanhóis. Não era piedade o que mostravam, mas sim o desejo de saquear os mortos e os feridos. Os britânicos fizeram o mesmo, não havia maneira de os deter, os despojos de uma batalha eram a recompensa dos sobreviventes. Os fuzileiros, a ordens de Sharpe, recolheram os mosquetes abandonados, dezenas deles, e tiraram as munições aos mortos. Se os franceses iam atacar, Sharpe planeava armar cada homem com três ou quatro espingardas carregadas e enfrentar os cavaleiros com uma descarga contínua que destroçaria os atacantes. Isso não lhe devolveria as bandeiras. Estas já se tinham ido para sempre ou até que num futuro impensável o exército pudesse marchar sobre Paris e trazer de volta os trofeus. Enquanto avançava por entre a carnificina, orientando os trabalhos, duvidava que os franceses tivessem realmente intenção de voltar a atacar. As perdas que sofreriam mal compen-sariam o esforço; talvez esperassem que ele se rendesse.

     Ajudou Leroy a ir até à ponte, encostou-o ao parapeito e cortou-lhe as calças brancas. O americano tinha uma ferida na coxa, escura e purulenta mas a bala de carabina tinha-a atravessado perfeitamente e, apesar do nojo evidente demonstrado por Leroy, Sharpe mandou Harper colocar as larvas na ferida antes de a ligar com uma tira rasgada da camisa de um morto. Forrest estava vivo, aturdido e a sangrar, tinham-no encontrado com a espada na mão, onde as bandeiras haviam caído ainda. Sharpe apoiou-o até junto de Leroy. Forrest ainda tardaria uns minutos a retomar o conhecimento e Sharpe duvidava que o major, que mais parecia um vigário, quisesse entrar de novo em acção naquele dia. Pôs a bandeira junto aos dois oficiais, pendurou a grande bandeira amarela no parapeito como símbolo de desafio aos franceses, mas e os britânicos? Por duas vezes tinha caminhado cautelosamente até ao extremo destruído do caminho e vociferado para o outro lado, mas parecia que os homens que se encontravam lá estavam noutro mundo, andavam de um lado para o outro com as suas coisas, alheios à carnificina que tinham a umas centenas de pés. Pela terceira vez Sharpe foi até ao extremo da ponte por entre as pedras derrubadas.

     - Eh! - Só devia restar meia hora. Fez de novo concha com as mãos. Eehhu!

     Hogan apareceu, saudou-o e aproximou-se pela outra parte da ponte destruída. Era tranquilizante ver a casaca azul do oficial de engenharia e o seu tricórnio, mas o uniforme tinha qualquer coisa de diferente. Sharpe não sabia o que havia de estranho, mas qualquer coisa havia. Apontou com a mão para o buraco existente entre os dois.

     - O que se passou?

     - Não foi coisa minha - respondeu Hogan abrindo os braços. - Simmerson acendeu as mechas.

     - Pelo amor de Deus, porquê?

     - Porque havia de ser? Assustou-se. Pensou que os franceses o iam cercar. Lamento. Tentei detê-lo mas estou preso.

     Era isso, Hogan não tinha o sabre. O irlandês sorriu amplamente a Sharpe.

     - O senhor também, logicamente.

     Sharpe proferiu uma série de palavrões. Hogan deixou-o acabar.

     - Já sei, Sharpe, já sei. É uma estupidez. Tudo porque nos negámos a que os seus fuzileiros formassem uma linha de atiradores, lembra-se?

     - Acha que o teríamos salvo?

     - Tem que deitar as culpas a alguém. Não as vai deitar a ele mesmo, pelo que sou eu o bode expiatório.

     Hogan tirou o chapéu e coçou a careca.

     - Estou-me nas tintas, Richard. Isso só significa suportar o seu mau humor até que regressemos ao exército. Depois não saberemos mais nada dele. O general afastá-lo-á! Não se preocupe!

     Parecia ridículo falar das suas mútuas prisões aos gritos através de um espaço onde a água esbarrava branca contra as pedras destruídas. Sharpe apontou com a mão para os dois feridos.

     - O que se passa com todos estes? Temos dezenas de feridos e os franceses voltarão em breve. Precisamos de ajuda. O que está ele a fazer?

     - O que está a fazer? - exclamou Hogan abanando a cabeça. - Parece uma galinha a quem cortaram o pescoço. Dá instrução aos homens, é isso que está a fazer. Todo o pobre desgraçado que não tenha mosquete terá sorte se receber apenas três dúzias de chicotadas. O grande sacana não sabe o que fazer!

     - Pelo amor de Deus! Hogan ergueu a mão.

     - Já sei, já sei. Eu disse-lhe que tem de conseguir tábuas e cordas disse, apontando para a brecha de quarenta pés. - Não é que pense salvar esta ravina com madeira mas podemos fazer balsas e atravessar sobre elas. Mas aqui não há madeira! Tem de a mandar buscar.

     - Fê-lo?

     - Não.

     Hogan não disse mais nada. Sharpe imaginava a discussão que ele tinha tido com Simmerson e sabia que o oficial de engenharia tinha feito todos os possíveis. Por momentos falaram de nomes, de quem tinha morrido, de quem estava ferido. Hogan perguntou por Lennox mas Sharpe não tinha notícias e perguntava a si próprio se o escocês estaria morto no campo. Então viu o tenente Christian Gibbons cavalgando pela ponte ao lado de Hogan. O tenente louro parou a olhar para o oficial de engenharia.

     - Pensava que estava preso, meu Capitão, e detido.

     Hogan levantou os olhos para o arrogante tenente.

     - Precisava de urinar.

     Sharpe riu-se. Hogan acenou-lhe com a mão, desejou-lhe boa sorte e virou-se para o convento deixando Sharpe frente a Gibbons. O uniforme do tenente estava limpo e brilhante.

     - Você está preso, Sharpe, e tenho ordens para lhe dizer que Sir Henry pedirá um conselho de guerra.

     Sharpe riu-se. Era a única resposta possível, o que enfureceu o tenente.

     - Não é para rir! Ordena-lhe que me entregue o seu sabre. Sharpe olhou para a água.

     - Quer vir buscá-lo, Gibbons? Ou tenho eu de lho levar? Gibbons não fez caso do comentário. Tinham-lhe dito que desse um recado e estava determi-nado a dar-lho até ao fim quaisquer que fossem as dificuldades.

     - E ordena-se-lhe que devolva a bandeira do regimento.

     Era incrível. Sharpe nem acreditava no que ouvia. Estava em cima de uma ponte destruída, debaixo de um calor que torrava enquanto que atrás de si havia filas de feridos cujos gritos se ouviam nitidamente e, no entanto, Simmerson tinha enviado o sobrinho para ordenar a Sharpe que entregasse o sabre e a bandeira.

     - Porque é que rebentaram a ponte?

     - Não tem nada com isso, Sharpe.

     - Raios o partam, tenho sim, Gibbons, estou no lado oposto, raios. Olhou para o elegante tenente cujo uniforme não estava manchado de terra nem de sangue. Suspeitava que o uniforme de Simmerson estaria na mesma. - Pensavam abandonar os feridos, Gibbons? Não é verdade? O tenente olhou para Sharpe com desagrado.

     - Far-me-á o favor de ir buscar a bandeira, Sharpe, e atirá-la para este lado da ponte?

     - Vá-se embora, Gibbons - respondeu Sharpe com idêntico desdém. Vá buscar o seu precioso tio para falar comigo, não o seu cão de fila. A bandeira? Fica aqui. Vocês abandonaram-na e eu lutei por ela. Os meus homens lutaram por ela e ficará connosco até que vocês nos levem de volta através do rio. Percebe-me? - perguntou com a voz cada vez mais carregada de raiva. Diga isto ao seu gordo charlatão! A bandeira dele fica connosco. E diga-lhe que os franceses vão voltar a atacar. Querem esta bandeira e por isso fico com o meu sabre, Gibbons, para poder lutar por ela!

     Desembainhou as trinta e cinco polegadas de aço. Não tinha tido tempo para limpar a espada e Gibbons apenas pôde desviar os olhos do sangue incrustado.

     - E, Gibbons, se quiser pode perfeitamente vir buscá-lo.

     Virou as costas ao tenente e dirigiu-se para os feridos e mortos, onde Harper esperava com o rosto desfigurado.

     - Sargento?

     - Encontramos o capitão Lennox, meu Tenente, está ferido.

     Sharpe seguiu Harper por entre as filas de feridos que olhavam fixamente para ele sem dizer nada. Era tão pouco o que podia fazer! Podia vendar as feridas mas não havia maneira de lhes aliviar as dores. Precisava de conhaque, de um médico, de ajuda. E agora Lennox.

     O escocês estava pálido, a cara distorcida pelas dores, mas abanou a cabeça e sorriu amplamente quando Sharpe se acocorou junto a ele. Sharpe sentiu uma ponta de remorsos ao recordar as últimas palavras que tinha trocado com o capitão da Companhia Ligeira a alguns passos apenas daquele local; tinha sido “divirta-se”. Lennox fazia esgares de dor.

     - Já lhe disse que ele era louco, Richard, e agora isto. vou morrer! vou morrer!

     Falava com realismo. Sharpe abanou a cabeça.

     - Não. Vai ficar bom. Estão a fazer balsas. Levá-lo-emos para casa, para que seja visto por um médico, ficará bem.

     Agora era Lennox quem abanava a cabeça. Movia-se com uma lentidão agonizante e mordeu o lábio superior ao sentir que o atingia uma nova pontada de dor. O corpo estava encharcado em sangue da cintura para baixo e Sharpe não se atrevia a tirar o uniforme ensopado e rasgado, com medo de piorar a ferida. Lennox suspirou profundamente.

     - Não me engane, Sharpe. Estou a morrer e estou consciente disso. O seu sotaque irlandês era mais acentuado. Levantou os olhos para a cara de Sharpe.

     - O louco tentou que eu formasse uma linha de atiradores.

     - Comigo também.

     Lennox concordou lentamente. Franziu ligeiramente a testa.

     - Atingiram-me logo. Um canalha derrubou-me, abrindo-me com o sabre. Precisamente no estômago. Não pude fazer nada. Que se passou? - perguntou levantando de novo os olhos.

     Sharpe explicou-lhe. Contou-lhe que os espanhóis tinham destroçado o quadrado britânico ao procurar segurança no seu interior, que os sobreviventes se tinham reunido e tinham repelido o ataque francês, o fogo das carabinas e a perda da bandeira. Ao mencionar a bandeira real, Lennox deitou-se para trás de dor. Essa desonra doía-lhe mais do que o corpo rasgado que o estava a matar.

     - Meu Tenente! Meu Tenente!

     Um soldado chamava Sharpe mas apontava com a mão para outro local. Lennox tentava dizer qualquer coisa mas o soldado insistiu:

     - Meu Tenente!

     Sharpe voltou-se e viu três caçadores que cavalgavam a trote na sua direcção. A hora devia ter passado.

     - Mais problemas? - perguntou Lennox, sorrindo debilmente.

     - Sim. Mas podem esperar. Lennox agarrou a mão de Sharpe.

     - Não. Posso esperar. Ainda não vou morrer. Oiça. Quero perguntar-lhe uma coisa. Você e esse irlandês grande, voltarão? Prometido?

     Sharpe assentiu.

     - Prometido?

     - Prometido.

     Pôs-se de pé, surpreendido por ter de enxugar os olhos, e caminhou por entre os feridos até onde os caçadores esperavam por ele. O capitão que viera anteriormente estava ali e, com ele, dois soldados de cavalaria que olhavam com curiosidade o cemitério que os seus sabres tinham provocado. Sharpe cumprimentou, dando conta de repente que ainda tinha a espada com a lâmina ensanguentada na mão, e o capitão francês fez um esgar de dor ao vê-la.

     - Monsieur.

     - Senhor.

     - A hora passou.

     - Ainda não recolhemos todos os nossos feridos.

     O francês abanou a cabeça com gravidade. Olhou à volta do campo. Ainda havia trabalho para uma hora e isso antes de começarem a ocupar-se dos mortos. Virou-se para Sharpe e falou em voz baixa.

     - Creio, monsieur, que se devem considerar nossos prisioneiros. Fez calar com a mão os protestos de Sharpe.

     - Não, monsieur, entendo-o. Pode atirar a bandeira aos seus compatriotas, não é isso que queremos, mas a sua situação é desesperada. Os mortos superam os vivos. Não podem continuar a lutar.

     Sharpe pensou nos mosquetes que tinha recolhido. Carregados todos eles, preparados, destruiriam os franceses se fossem suficientemente loucos para atacar. Fez uma breve reverência ao caçador.

     - O senhor é muito amável, mas, como pode ver, eu não pertenço ao regimento cuja bandeira capturaram. Sou fuzileiro e não me rendo.

     Um pouco de valentia, pensou, não seria demais. No fim de contas, o capitão francês devia estar a cantar de galo; tinha experiência suficiente para saber que os seus homens não quebrariam uma formação de infantaria bem comandada e comprovara que o fuzileiro alto com a espada ensanguentada podia comandar de forma conveniente. O capitão concordou como se estivesse à espera da resposta.

     - Monsieur. Devia ter nascido francês. Hoje seria coronel!

     - Comecei como soldado raso, senhor.

     O francês mostrou-se surpreendido. Não era nada de extraordinário que recrutas franceses chegassem a oficiais, mas estava claro para o capitão de caçadores que tal parecia impossível no exército britânico. Levantou amavelmente a barretina com a corrente prateada.

     - Felicito-o. O senhor é um adversário respeitável.

     Sharpe considerou que a conversa se estava a tornar demasiado educada e floreada. Olhou intencionalmente para as suas fileiras de feridos.

     - Tenho de continuar, senhor. Se pretender continuar a atacar, isso é consigo.

     Voltou-se, mas o francês chamou-lhe a atenção.

     - Não compreende, tenente. Sharpe virou-se.

     - Sim, senhor. Compreendo-o. Permite-me continuar? O capitão abanou a cabeça.

     - Monsieur. Não me refiro aos nossos caçadores. Nós somos simplesmente a... - Fez uma pausa à procura da palavra certa. - A vanguarda? A sua situação, tenente, é verdadeiramente desesperada.

     Apontou para o alto da colina ao longe no horizonte mas ali não havia nada. O capitão esperou e então virou-se para Sharpe com um sorriso pesaroso.

     - A minha coordenação é irremediável, tenente. Eu teria sido um péssimo actor.

     - Desculpe-me, senhor, não o estou a compreender.

     Mas então, sim, compreendeu. O capitão não necessitou de dizer mais nada porque se efectuou um repentino movimento lá em cima e Sharpe não precisou do seu telescópio para lhe dizer o que via. Cavalos, cavalos sem cavaleiros, não mais do que uma dúzia, mas Sharpe sabia o seu significado. Um canhão, os franceses tinham trazido um canhão, um canhão de campanha que podia atingir a sua pequena força até a destruir. Voltou a olhar para o capitão, que encolheu os ombros.

     - Compreende agora, tenente?

     Sharpe ficou a olhar fixamente o horizonte. Só um canhão? Provavelmente seria um pequeno canhão, mas porquê apenas um?

     Estariam os franceses por trás, ou teriam concentrado os esforços para trazer o canhão? Se estivessem com falta de cavalos então era possível que os tivessem a várias milhas. Era de esperar que os caçadores tivessem enviado uma mensagem à sua unidade principal a dizer que se enfrentavam com dois regimentos de infantaria e os franceses teriam enviado o canhão o mais depressa possível para ajudar a romper os quadrados. Começou a conceber uma ideia. Olhou para o capitão.

     - Isso não altera nada, monsieur. - Manteve a espada ao alto. - Hoje o senhor é a segunda pessoa que requisita a minha espada. Dou-lhe a mesma resposta. Venha o senhor mesmo buscá-la.

     O francês sorriu, levantou a sua espada e fez uma saudação.

     - Será um prazer, monsieur. Confio em que sobreviva ao confronto e me dê a honra de comer comigo depois. A comida é má.

     - Então alegro-me de não ter a honra de a provar.

     Sharpe sorriu para consigo enquanto o capitão dava ordens em francês e os três homens deram a volta aos cavalos para subir a colina. Sendo um soldado saído das fileiras imaginava que tinha praticado como um mestre o jogo da diplomacia. Então pensou em Lennox e apressou-se a regressar, tentando fixar a ideia na sua mente. Havia muito a fazer, muitas ordens a dar e muito pouco tempo, mas tinha prometido a Lennox. Deu uma vista de olhos para trás. O canhão, com o seu armão, descia lentamente a colina. Ainda tinha uma hora.

     Lennox continuava vivo. Falou em voz baixa e rápida a Sharpe e a Harper. Ambos olhavam para o escocês e prometeram cumprir a sua última vontade. Sharpe recordava o momento em que, no campo de batalha, tinha visto que os franceses arrebatavam a bandeira real, lembrava-se agora de qual era a ideia fugaz que lhe tinha passado pela cabeça, e apertou a mão de Lennox.

     - Isso já eu prometi a mim mesmo. Lennox sorriu.

     - Não me desiludirá, bem sei. E Harper e o senhor podem fazê-lo, sei que podem.

     Tinham de o deixar morrer só, não havia outra possibilidade, é que a outra última vontade do escocês era poder morrer com uma espada na mão. Afastaram-se renitentes e o grande sargento olhou para Sharpe.

     - Poderemos fazê-lo, meu Tenente?

     - Prometemo-lo, não foi?

     - Assim é, mas nunca ninguém o fez.

     - Então seremos os primeiros! - disse Sharpe ferozmente. - Agora vamos, há muito para fazer!

     Fixou a vista no canhão. Avançava, deslizando e deu-se conta é que a sua ideia podia funcionar. Havia cabos soltos, havia sempre perguntas sem resposta; colocou-se então no lugar dos inimigos, e procurou-as. Harper notou a excitação no rosto do seu tenente, viu que a sua mão segurava continuamente o punho do sabre e esperou as ordens com paciência.

     Sharpe mediu as distâncias, os ângulos, as linhas de tiro. Estava excitado, voltava-lhe a alegria, tinha alguma esperança apesar do canhão. Chamou os tenentes, os sargentos, pôs-se à frente deles e bateu com um punho na palma da mão.

     - Oiçam...

    

     O tempo para as lamentações viria depois, o tempo para se entristecer pela carnificina, para pensar em estar vivo e sem feridas, sobretudo para lamentar não ter passado mais tempo com Lennox quando este estava a morrer. Sharpe desembainhou o grande sabre, levantou a espingarda com a mão esquerda, voltou-se para os cento e setenta homens formados em três fileiras atravessadas na estrada.

     - Em frente!

     Enquanto marchavam, Sharpe pensou brevemente na conversa que tivera com Lennox. Teria sido capaz de convencer o moribundo? Julgava que sim. Lennox era um militar, compreendia que Sharpe tivesse pouco tempo, e o fuzileiro estava convencido que tinha visto alívio na cara do escocês. Cumprir a promessa era outra coisa; primeiro teria de acabar os assuntos do dia. Forrest marchava a seu lado, ambos a poucos passos da única bandeira que ondulava sobre a pequena formação; o major estava visivelmente nervoso.

     - Resultará, Sharpe? O alto fuzileiro sorriu.

     - Por enquanto sim, meu Comandante. Pensam que estamos loucos. Forrest tinha insistido em ir com ele em vez de ficar com os feridos junto à ponte. No entanto estava um pouco aturdido, afectado pelo golpe que tinha recebido na cabeça e recusara a oferta de Sharpe para comandar os sobreviventes contra o novo assalto francês.

     - Nunca tinha estado numa batalha, Sharpe - disse Forrest. - A excepção de uma vez em que reprimi um distúrbio por causa da comida em Chelmford e não creio que isso conte.

     Sharpe compreendia o nervosismo do major, agradecia a Forrest o ter dado a sua bênção ao que parecia um acto de completa loucura; no entanto, o instinto de Sharpe dizia-lhe que iria funcionar. Para os caçadores que obser-vavam e aguardavam parecia que a pequena formação britânica tinha o propósito de se suicidar com uma carga mortal ou de glória sem qualquer possibilidade de êxito, mas que pelo menos livrá-los-ia do desgaste de morrer a golpes dos artilheiros franceses. Forrest perguntara, quase queixoso, porque é que o inimigo continuava a lutar, acaso não tinham conseguido uma grande vitória? Mas os franceses deviam saber quão tristemente pequeno era o exército de Wellesley, pouco mais de vinte mil homens. Se pudessem destruir completamente o South Essex, os franceses estavam a eliminar um terço da infantaria britânica e asseguravam aniquilar Wellesley quando a verdadeira batalha tivesse lugar. Para mais Sharpe estava a oferecer-lhes a possibilidade de capturarem uma segunda bandeira britânica que desfilaria no acampamento francês para persuadir os soldados da fragilidade do novo inimigo.

     - Já são horas, Sharpe? - Forrest estava ansioso.

     - Não, meu Major, não. Falta um minuto.

     Marchavam caminho acima, direitos ao canhão que estava a trezentas jardas. O plano de Sharpe dependia de duas coisas, e o inimigo acabara por fazer as duas. Primeiro tinham aproximado o canhão dos britânicos, o máximo que a segurança permitia. Não deviam querer usar balas redondas contra a infantaria. Sharpe sabia que carregariam o canhão com uma carga de metralha, o contentor metálico mortal de balas de mosquete e ferro-velho que explodia assim que saía do canhão e borrifava com a sua mistura letal como se fossem pregos retorcidos disparados pelo trabuco de um cocheiro. Não havia dúvida de que os franceses esperavam que os britânicos se espalhassem pelo terreno acidentado junto ao rio, protegidos pelo declive da margem, mas as cargas de metralha encontrá-los-iam mesmo aí e matá-los-iam dois a dois, três a três. Em vez disso, os britânicos dirigiam-se directamente para o canhão, como cordeiros a caminho do matadouro, e os artilheiros franceses provavelmente não precisa-riam mais do que três tiros para os dispersar e deixar que a cavalaria acabasse com os sobreviventes aturdidos. O segundo cálculo de Sharpe tinha a ver com a cavalaria. Tinha sentido um grande alívio ao ver que desfilavam para a direita dos britânicos. Era o que esperava, mas se se tivessem dirigido para a esquerda o plano não teria sido possível e eles não teriam tido outra alternativa senão morrer junto à ponte. O terreno da direita estava limpo de corpos, não era como o da esquerda um caminho de obstáculos de homens e cavalos mortos, e Sharpe supusera que o oficial francês apontaria obliquamente o disparo do canhão e não quereria que os cavaleiros, que agora esperavam com as armas prontas a abrir fogo, tivesse de passar por um caminho obstruído.

     Observou os artilheiros franceses. Não pareciam ter pressa, não havia necessidade de correr, e olhavam continuamente para as forças britânicas que se dirigiam oportunamente para o canhão. Este apontava directamente para Sharpe. Podia ver a carreta pintada de verde e suja, o canhão de bronze sem brilho e a boca enegrecida. Observara que a eficiente dotação levantava com uma alavanca os três quartos de tonelada, que o canhão de quatro pés e meio apontava directamente para o caminho. Agora o artilheiro de casaca azul punha a bolsa de sarja contendo uma libra e meia de pólvora preta no canhão. Um segundo homem empurrou-a e Sharpe viu que um terceiro se inclinava sobre o canhão e a empurrava para baixo com uma estaca para que a bolsa de sarja se enfiasse e a pólvora pudesse voar com a mecha. Outro artilheiro avançava com a carga de metralha. Agora só faltavam uns segundos para que o canhão ficasse pronto a disparar. Levantou a espingarda no ar e apertou o gatilho.

     - Agora!

     Os seus cento e setenta homens começaram a correr, uma corrida em que arrastavam os pés e rebentavam os pulmões com os sapatos rotos. Cada soldado levava três mosquetes carregados, dois pendurados nos ombros, um nas mãos. Mantinham-se mais ou menos alinhados, se a cavalaria se movimentasse podiam fechar fileiras em segundos e formar a impenetrável parede de baionetas. Os artilheiros franceses ouviram o disparo da espingarda, pararam para observar o inimigo que desatava a correr pesadamente e sorriram zombeteiramente perante a inutilidade dos homens que acreditavam poder carregar contra um canhão de campanha. Então tudo mudou.

     Durante os vinte minutos seguintes à visita do capitão de caçadores, os britânicos tinham continuado a recolher os seus feridos. Sharpe estava seguro de que os franceses não tinham notado nada de estranho no fluxo de homens que iam e vinham dos corpos que jaziam abundantemente no local em que ele e Harper tinham salvo a bandeira do regimento. Durante esses vinte minutos Sharpe tinha escondido trinta homens entre os mortos, dez fuzileiros que estavam vestidos com casacas-vermelhas emprestadas e vinte do South Essex. Cada fuzileiro tinha duas espingardas, uma emprestada por um companheiro, e cada casaca-vermelha estava deitado com três mosquetes carregados. Os franceses não se tinham apercebido disso. Deixaram o armão do canhão e fizeram pontaria, sem darem conta dos corpos dispersos que jaziam a uns cem passos à sua direita. O momento do saque viria depois; primeiro os artilheiros destruiriam os presunçosos ingleses que se dirigiam para eles metade a correr, metade a passo.

     Harper suava com a casaca emprestada. Era demasiado pequena para ele e tinha rasgado as costuras de ambas as axilas, mas, mesmo assim, o suor escorria-lhe pelas costas. As casacas vermelhas eram essenciais. Os franceses já se tinham habituado à visão dos mortos e teriam reparado se de repente tivessem aparecido dez corpos com uniformes verdes entre os cadáveres. O maior receio de Harper fora que os franceses tivessem querido revistar os corpos para os saquear, mas não lhes tinham prestado atenção. Viu que Sharpe vinha entre eles, ainda estavam a cento e cinquenta jardas e ouviu o tenente Knowles a suspirar de alívio quando Sharpe levantou a espingarda no ar. Knowles estava ao comando dos trinta homens mas Harper tinha a certeza que o inexperiente tenente não faria nada sem falar com ele primeiro e suspeitava que Sharpe dissera de certeza absoluta a Knowles, que deixasse Harper tomar as decisões.

     O som do disparo regular elevou-se no campo. Aliviado, Harper estendeu os músculos e ajoelhou-se para a frente. “Levem o tempo que for preciso, rapazes, deixem falar os tiros.”

     Se se apressasse, daria cabo do seu propósito. Os fuzileiros apontavam deliberadamente, deixaram os braços desintumescer, os primeiros disparos seriam os mais importantes. Hagman foi o primeiro, Harper esperava que assim fosse, e olhou com aprovação quando o caçador furtivo de Cheshire grunhiu sobre a mira e apertou o gatilho. O artilheiro que estava a ponto de introduzir a mecha afastou-se rodopiando do canhão. Durante os dois segundos seguintes outras oito balas mataram mais três franceses da dotação, os quatro sobreviventes correram desesperadamente para a escassa protecção oferecida pela carreta e pelas rodas do canhão. O canhão já não podia ser disparado pois a carga de metralha ainda não estava colocada. Harper via-a junto a um artilheiro morto que tinha caído ao lado da boca de bronze, e qualquer homem que ousasse meter o projéctil no canhão seria com toda a certeza derrubado pelas espingardas mortais. Os franceses deixaram de usar as espingardas no campo de batalha, tinham-nas abandonado porque eram demasiado lentas a carregar, mas estes artilheiros estavam a aprender que até uma espingarda lenta tem as suas vantagens em relação ao rápido mosquete que nunca era preciso a cem pés de distância.

     - Alto ao fogo!

     Os fuzileiros olharam para Harper.

     - Hagman!

     - Meu Sargento?

     - Mantenha-os ocupados. Gataker, Sim, Harvey! Os três olhavam para ele na expectativa.

     - Carreguem para Hagman. Os restantes apontem aos oficiais de cavalaria. O tenente Knowles e os vinte homens com mosquetes estavam ali para protegerem os fuzileiros se a cavalaria francesa carregasse contra eles, como certamente iria acontecer. Harper olhou fixamente para os cavaleiros. Pareciam tão surpreendidos como os artilheiros e estavam sentados nos cavalos a olhar fixamente para os homens de artilharia mortos, como se não acreditassem nos seus próprios olhos. Tinham esperado que o canhão fizesse saltar a infantaria britânica em pedaços e agora davam-se conta de que não havia canhão, nem vitória fácil. Harper levantou a sua primeira espingarda, pôs a mira em posição vertical e calculou que os cavaleiros estivessem a trezentas jardas, era um tiro comprido para uma espingarda, mas não impossível, e os franceses tinham agrupado convenientemente os seus oficiais veteranos num pequeno grupo à frente da primeira linha. Quando premiu o gatilho ouviu outras espingardas a dispararem, viu que o grupo se dividia, e que um cavalo caíra. Dois oficiais tombaram mortos ou feridos. Os franceses permaneciam temporariamente sem comandos. A iniciativa, tal como Sharpe planeara, estava totalmente nas mãos dos britânicos. Harper ficou de pé.

     - O grupo de Hagman! Continuem a disparar. Os outros! Sigam-me! Correu para o canhão, dando uma larga volta de maneira a que o campo de tiro de Hagman não fosse interrompido, e os homens seguiram-no. O plano para os fuzileiros fora destruir os artilheiros e permitir que a companhia de Sharpe capturasse o canhão, mas Harper viu que o seu tenente tinha ainda muito caminho pela frente e nem ele nem Sharpe pensavam que o canhão estivesse tão convenientemente próximo do grupo de emboscada. Knowles ficou surpreendido com a corrida para o canhão, mas o enorme irlandês era tão contagiante que Knowles deu por si a apressar os casacas-vermelhas que se escapuliam por entre os corpos e corriam para o canhão que cada vez ganhava mais importância. Os artilheiros sobreviventes deitaram uma vista de olhos aos mortos que tinham regressado à vida e fugiram. Quando Harper percorreu as últimas jardas a toda a velocidade, deu conta de que os tiros espaçados de Hagman paravam e que ele ali estava, com as mãos na boca de bronze e os homens à sua volta.

     - Meu Tenente?

     - Sargento? - Knowles ofegava.

     - Duas fileiras entre o canhão e a cavalaria?

     Harper fez com que soasse como uma pergunta, mas Knowles assentiu como se tivesse sido uma ordem. O jovem tenente estava freneticamente nervoso. Vira a cavalaria destruir o seu novo batalhão, observara como a bandeira real era confiscada do campo, e lutara contra os sabres com a espada que o pai lhe tinha comprado por quinze guinéus na loja de Kerrigan em Birmingham. Observara como Sharpe e o sargento Harper tinham recuperado a bandeira do regimento e ficara estupefacto com aquela acção. Agora queria demonstrar aos fuzileiros que os seus homens sabiam lutar com a mesma eficácia e alinhou o seu pequeno corpo, olhando fixamente para a cavalaria que por fim se movimentava. Parecia que uma centena de cavaleiros avançava para o canhão e os restantes dirigiam-se para Sharpe; Knowles lembrou-se dos sabres e do cheiro do medo e agarrou firmemente a sua espada. Estava decidido a não defraudar Sharpe. Pensou nas últimas palavras que este lhe dissera, nas mãos que lhe tinham agarrado os ombros e nos olhos que o trespassavam. “Espere!” - dissera Sharpe. - “Espere até que estejam a quarenta passos, então lance a descarga. Espere, espere, espere!” Parecia incrível a Knowles que ele e Sharpe tivessem o mesmo posto, estava seguro que ele nunca teria tais dotes de comando que pareciam naturais no fuzileiro alto. Knowles sentia-se intimidado pelos franceses. Eram os conquistadores da Europa, no entanto Sharpe via-os como homens a quem tinha de enganar e superar nos disparos e Knowles queria desesperadamente sentir a mesma confiança. Em vez disso estava nervoso. Queria lançar a sua primeira descarga agora, deter os cavalos franceses enquanto estivessem a uns cem passos, mas controlou o medo e observou como os cavaleiros se aproximavam, reparou que uma centena de sabres chiavam ao sair das bainhas e captavam o sol da tarde em filas curvas de luz. Harper chegou e ficou junto a ele.

     - Temos um presente para os canalhas, meu Tenente!

     Parecia tão contente! Knowles engoliu a saliva e manteve a espada em baixo. Espera, disse para si mesmo, e surpreendeu-se ao ouvir que tinha falado em voz alta e que a sua voz tinha soado calma. Olhou para os homens. Confiariam nele!

     - Muito bem, meu Tenente. Permite-me? - disse Harper em voz baixa. Knowles concordou, sem estar seguro do que se estava a passar.

     - Pelotão!

     Harper estava diante da diminuta linha de homens. Fez sinal aos homens da direita.

     - Para o lado, quatro passos. Marchar! Depois deu a mesma ordem para a esquerda.

     - Pelotão! Para trás, marchar!

     Knowles recuou com eles, vendo como os franceses punham os cavalos a trote, e então compreendeu. Enquanto ele tinha estado a olhar para os franceses, os fuzileiros tinham-se movimentado para o canhão. Em vez de apontar para baixo, para o caminho, agora estava a apontar para a cavalaria francesa; de alguma maneira o tinham carregado e a carga de metralha que deveria ter varrido os britânicos do caminho, como uma dona de casa a afugentar baratas com a vassoura, estava a ameaçar a cavalaria. Harper estava na parte de trás do canhão, afastado da roda. Os artilheiros tinham feito a maior parte da carga, os fuzileiros tinham introduzido a carga de metralha no canhão e tinham encontrado a mecha lenta que ardia por um extremo. A espoleta estava no ouvido. Era uma lingueta cheia de pólvora fina e quando Harper lhe tocasse, o fogo avançaria pelo tubo e acenderia a carga de pólvora que havia na bolsa de sarja.

     - Reter fogo!

     Harper gritava claramente, não queria que os homens sem experiência do South Essex disparassem ao mesmo tempo que o canhão.

     - Reter fogo!

     A cavalaria estava a setenta jardas, impelindo os cavalos a meio galope, dez cavaleiros na primeira fila. Harper calculou que estivessem cinquenta homens no campo de tiro do pequeno grupo à volta do canhão e tinha mais cinquenta de reserva. Tocou na mecha com a lingueta. Soou um ruído sibilante, uma bola de fumo proveniente do ouvido, e então ouviu-se uma enorme explosão. Saiu fumo branco e acinzentado pela boca; o canhão, sobre as rodas de cinco pés, atirou para trás os seus quinze quintais que cravaram os lados da carreta e fizeram saltar as rodas do chão. A fina lingueta metálica partiu-se ao sair da boca e Harper viu por entre o fumo que as balas de mosquete e a metralha derrubavam a cavalaria. As primeiras filas foram destroçadas, as outras estavam aturdidas, eram incapazes de avançar sobre os cadáveres sangrentos e os feridos que cambaleavam, sangrando espantados. Harper ouviu Knowles gritar:

     - Reter fogo! Reter fogo!

     Bom rapaz, pensou o irlandês. A cavalaria tinha-se dividido para ambos os lados da carnificina, parte da reserva aproximava-se a galope, mas os cavaleiros pareciam estonteados pela repentina explosão. Continuaram a avançar para o canhão mas mantiveram-se afastados da sua linha de fogo e Knowles observava as duas alas de cavaleiros que se aproximavam. Esperou, esperou até que meteram esporas aos cavalos e tentaram dar os últimos passos a galope; depois baixou a espada.

     - Fogo!

     Uma segunda descarga destroçou os cavaleiros que tentavam aproximar-se de ambos os lados do canhão. Caíram mais cavalos, mas os homens atiraram-se das selas num monte de braços, pernas, sabres e bainhas. Os cavaleiros de trás continuaram, deram a volta por trás do canhão e as espingardas iniciaram a sua missão e mais cavalos foram abatidos. Knowles estava surpreendido por lá não ver cavalos em frente ao canhão, fez virar os seus homens, mudou para o terceiro mosquete e atirou uma terceira descarga por cima das cabeças dos fuzileiros ajoelhados.

     - Obrigado, meu Tenente!

     Harper sorriu-lhe. A cavalaria fora-se, dispersa pela metralha, ensanguen-tada pela descarga tão próxima, sem se ter podido acercar da infantaria por causa das barreiras de cavalos mortos e feridos. Harper viu que Knowles mandava os homens carregar os mosquetes. Virou-se para o canhão. Havia tanto a recordar! Limpar com os escovilhão, voltar a encher o ouvido; disse aos fuzileiros que voltassem a carregar o canhão capturado.

     Sharpe tinha visto o canhão disparar, tinha observado os cavaleiros rasgados como uma ligadura ensanguentada, então voltara-se para os caçadores que atacavam a sua própria formação. Quando a cavalaria se tinha aproximado mandara deter as três filas, ordenara-lhes que se voltassem de frente para os franceses, à excepção da última fila que deu meia volta para enfrentar os cavaleiros que cercariam a pequena unidade. Os cavaleiros estavam com um humor selvagem. Tinham-lhes arrancado uma vitória fácil, o capitão fora capturado, mas ainda restava a bandeira insolente ondulando sobre o pequeno grupo de infantaria. Esporearam os cavalos em direcção a Sharpe, quebrando a disciplina, simplesmente com intenções de vingança e determinação de massacrar aquele corpo diminuto como o tacão de uma bota esmaga um escorpião. Sharpe observou como se aproximavam. Forrest deitou-lhe um olhar nervoso e aclarou a garganta, mas Sharpe abanou a cabeça.

     - Espere, meu Major, aguarde um momento.

     Ele e Forrest estavam junto à provocadora bandeira. Era uma armadilha para os franceses. Correram para ela, a trompeta tocou a sua carga gelada, os caçadores clamavam vingança, levantaram os sabres e morreram.

     Sharpe deixara que se aproximassem até quarenta jardas e a descarga destroçou a primeira linha em frente aos britânicos. A segunda linha de cava-leiros franceses meteu esporas aos cavalos. Estavam confiantes. Acaso os britânicos não tinha disparado já a sua carga? Saltaram por cima dos restos angustiados da primeira fila e viram com horror que as fileiras de casacas-vermelhas não estavam ocupadas a recarregar mas sim a apontar tranquila-mente os mosquetes. Alguns puxaram desesperadamente as rédeas, mas era já demasiado tarde. A descarga do segundo grupo de mosquetes de Sharpe amontoou os cavalos junto aos cadáveres da primeira linha.

     - Troquem de mosquetes!

     A última fila disparou, uma, duas vezes. Sharpe virou-se mas os sargentos experientes tinham-no feito bem. Os seus homens estavam rodeados de cavalos, mortos e agonizantes, caçadores estonteados e feridos que lutavam entre o caos e fugiam para a ampla extensão de terreno. Os franceses tinham perdido toda a coesão, toda a possibilidade de voltar a atacar.

     - Virar à esquerda! Em frente!

     Continuou a correr. Via Harper e Knowles. O jovem tenente parecia tranquilo e Sharpe viu o anel de franceses mortos que demonstrava que tinha aprendido a reter o fogo. O canhão voltou a disparar, envolvendo o grupo em fumo, e Sharpe olhou para trás para ver que mais cavaleiros caíam onde estavam a voltar a formar fileiras à sua direita. Alguns cavaleiros ainda cavalgavam à sua volta; Sharpe deteve-se e lançou uma descarga de vinte mosquetes para afastar um grupo de seis caçadores que avançavam a galope pelo flanco. Então os seus homens chegaram ao canhão. Sharpe agarrou Harper, deu-lhe umas palmadas nas costas, sorriu abertamente para o enorme irlandês e voltou-se para felicitar Knowles. Tinham conseguido! Tinham capturado o canhão, tinham afastado a cavalaria, tinham causado danos terríveis aos homens e aos cavalos, e sem terem sofrido um só arranhão.

     E era tudo. com o canhão nas mãos, Sharpe sabia que os franceses não se atreveriam a voltar a atacar. Viu que davam voltas bem afastados do campo de tiro, enquanto os britânicos formavam em quadrado. Forrest estava radiante, procurando toda a gente como um bispo que tivesse celebrado uma confir-mação particularmente agradável.

     - Conseguimos, Sharpe! Conseguimos!

     Sharpe ergueu os olhos para a bandeira que ondulava sobre o pequeno quadrado. A honra tinha sido recuperada em parte, não o suficiente, mas em parte. Tinha sido capturado um canhão francês, os caçadores estavam maltra-tados, alguns do South Essex tinham aprendido a lutar. Mas não era tudo. Havia cordas atadas à carreta do canhão capturado. Compridas e resistentes cordas francesas que se podiam esticar por cima da ponte destruída em vez de subir por vertentes íngremes. Cordas e tábuas, tudo o que necessitava para começar a fazer os feridos atravessar o rio. Na ponte Lennox viu que um oficial caçador se aproximava a cavalo do quadrado britânico. Agora era demasiado tarde para voltar a negociar. Tinha frio e estava intumescido, a dor desaparecera e sabia que não duraria muito. Agarrou a espada, uma qualquer recordação atávica disse-lhe que era o seu salvo-conduto para o outro mundo; talvez onde o esperasse a mulher. Sentia-se satisfeito, cansado mas satisfeito. Tinha visto Sharpe avançar como um suicida, perguntando-se o que estaria a fazer, então ouvira o som característico das espingardas, vira figuras a correr para o canhão e observara como a cavalaria francesa era derrubada pela descarga massiva da infantaria. Agora já tinha terminado. Os franceses recolheriam os seus feridos e ir-se-iam embora e Sharpe voltaria para a ponte. E cumpriria a sua promessa, Lennox já o sabia; o homem que podia planear a captura daquele canhão teria ânimo para fazer o que Lennox queria. Assim aquele dia não o entristeceria. A imagem da bandeira, afastando-se do campo envolto em fumo, obscureceu os olhos do escocês. O sol aquecia e ao mesmo tempo fazia muito frio. Agarrou a espada e fechou os olhos.

    

     Maldito Sharpe! Destruí-lo-ei. Perderá a graduação! Vai voltar para o buraco donde provém! O rosto de Simmerson contraía-se de raiva; até as orelhas tinham ficado vermelhas de fúria. Estava com Gibbons e Forrest, e o major tentava em vão aplacar a ira de Sir Henry. O coronel tirou o braço de Forrest de cima do seu ombro.

     - Vou pedir um conselho de guerra! Vou escrever ao meu primo. Sharpe, está acabado! Acabado!

     Sharpe permanecia no outro extremo da sala, com o rosto rígido pelo esforço de controlar a sua própria raiva e desprezo. Olhou pela janela. Tinha voltado a Plasência, ao palácio de Mirabel que era o quartel-general temporário de Wellesley, e olhou fixamente pela rua de Sancho Polo para os telhados amontoados do bairro mais pobre da cidade, apertados dentro das muralhas. Por baixo passavam carruagens, trens elegantes com condutores uniformizados, que levavam damas espanholas de véu para trajectos misteriosos. O batalhão tinha regressado com dificuldade na noite anterior, os feridos transportados em carros de bois requisitados, com sólidos eixos que chiavam como aquelas fadas más irlandesas, dissera Sharpe. Misturado com o ruído interminável havia os gritos dos feridos. Muitos tinham morrido; muitos mais morreriam minados lentamente pela gangrena nos dias seguintes. Sharpe fora preso, haviam-lhe retirado o sabre, marchara junto com os seus fuzileiros incrédulos, que pensavam que o mundo tinha ficado louco e tinham jurado vingá-lo e dar a Simmerson o que este merecia.

     A porta abriu-se e o tenente-coronel Lawford entrou na sala. A sua cara não reflectia o ânimo que Sharpe tinha visto no reencontro que tivera havia cinco dias, olhou de frente para todos, tal como o resto do exército sentia-se humilhado e envergonhado pela perda da bandeira.

     - Cavalheiros - disse com voz fria mas educada. - Sir Arthur recebê-los-á agora. Têm dez minutos.

     Simmerson dirigiu-se para a porta aberta, com Gibbons colado a ele.

     Simmerson parecia satisfeito. Os dedos do general tamborilaram sobre a mesa.

     - Ah, o capitão Hogan. Vi-o há uma hora.

     Wellesley pegou num bocado de papel e olhou para ele. Sharpe sabia que era tudo fingimento. Wellesley sabia perfeitamente o que estava no papel mas fazia com que a tensão aumentasse. Os olhos azuis ergueram-se de novo para Simmerson, e o tom de voz ainda era suave.

     - Servi com o capitão Hogan durante muitos anos, Sir Henry. Esteve na índia. Considerei-o sempre um homem digno da maior confiança.

     Levantou as sobrancelhas de modo interrogativo como a convidar Simmerson a dar-lhe razão. Simmerson, inevitavelmente, aceitou o convite.

     - Hogan, meu General, é oficial de engenharia. Não estava em situação de tomar decisões sobre a deslocação de tropas.

     Parecia satisfeito consigo mesmo, até ansioso por demonstrar a Wellesley que não guardava rancor apesar das suas diferenças políticas.

     Num qualquer local do palácio um relógio zumbiu sonoramente e em seguida bateram as dez. Wellesley estava sentado, os dedos tamborilavam sobre a mesa, e então deitou um olhar a Simmerson.

     - A sua solicitação é recusada, Sir Henry. Não vou submeter o tenente Sharpe a um conselho de guerra.

     Fez uma pausa de um segundo, olhou para o papel e virou os olhos para Simmerson.

     - Temos de tomar algumas decisões a respeito do seu batalhão, Sir Henry, creio que deverá ficar.

     Lawford dirigiu-se para a porta. A voz de Wellesley tinha soado forte e fria, pelo que Simmerson explodiu, erguendo a voz com indignação.

     - Perdeu a minha bandeira! Desobedeceu! O punho de Wellesley bateu sobre a mesa.

     - Sir! Sei a que ordem desobedeceu! Eu também teria desobedecido! O senhor propôs enviar uma linha de atiradores contra a cavalaria! Não foi isso, Sir?

     Simmerson não disse nada. Estava horrorizado pelo tumulto de ira que o envolvia. Wellesley continuou:

     - Primeiro, Sir Henry, não tinha que fazer o seu batalhão atravessar a ponte. Era desnecessário, uma perda de tempo e um disparate. Segundo disse, contando pelos dedos -, só um louco lançaria uma linha de atiradores contra a cavalaria. Terceiro, o senhor desonrou este exército, que levou um ano a reunir, frente aos nossos inimigos e frente aos nossos aliados. Quarto - disse Wellesley lancinante -, a única compensação ganha neste infeliz combate foi pela mão do tenente Sharpe. Pelo que percebi, Sir, ele recuperou uma das suas bandeiras perdidas e para além disso capturou um canhão francês e utilizou-o com algum efeito contra os seus atacantes. Não foi assim?

     Ninguém disse nada. Sharpe olhava fixamente para um quadro na parede junto ao general. Ouviu um ruído de papéis. Wellesley tinha pegado o papel da secretária. Baixou a voz.

     - O senhor perdeu, para além da sua bandeira, duzentos e quarenta e dois homens feridos ou mortos. Perdeu um comandante, três capitães, cinco tenentes, quatro alferes e dez sargentos. São exactos estes números?

     Mais uma vez ninguém falou. Wellesley pôs-se de pé.

     - As suas ordens, senhor, foram as de um louco! Da próxima vez, Sir Henry, sugiro-lhe que levante uma bandeira branca e poupe aos franceses o problema de terem de desembainhar as espadas. O trabalho que tinha de ser feito, senhor, podia tê-lo feito uma companhia; a diplomacia obrigou-me a enviar um batalhão e enviei o seu, senhor, de modo a que os seus homens pudessem ter um primeiro contacto com os franceses. Enganei-me! E como resultado, uma das nossas bandeiras vai agora a caminho de Paris para ser mostrada diante da populaça. Diga-me se o estou a difamar.

     Simmerson estava completamente pálido. Sharpe nunca tinha visto Wellesley tão zangado. Parecia ter-se esquecido da presença dos outros e dirigia as suas palavras contra Simmerson de uma força vingativa.

     - O senhor já não tem um batalhão, Sir Henry. Deixou de existir quando perdeu os seus homens e uma bandeira! O South Essex é um regimento de um único batalhão, não é assim?

     Simmerson acenou afirmativamente.

     - Pelo que não pode completar os seus efectivos com outros. Gostaria, Sir Henry, de o poder mandar para casa! Mas não posso. Tenho as mãos atadas pelo Parlamento, pela Guarda Real e pelos políticos intrometidos como o seu primo. Declaro o seu batalhão, Sir Henry, um batalhão de destacamentos. Incorporarei novos oficiais e recrutarei homens para as suas fileiras. O senhor servirá na divisão do general Hill.

     - Mas, meu General...

     Simmerson ficou aterrado com a informação. Um batalhão de destaca-mentos? Inacreditável! Tartamudeou um protesto. Wellesley interrompeu-o.

     - Vou facultar-lhe uma lista de oficiais. Vai dizer-me que já prometeu algumas promoções?

     Simmerson assentiu. Wellesley olhou para a folha de papel que tinha na mão.

     - Sir Henry, a quem atribuiu o comando da Companhia Ligeira?

     - Ao tenente Gibbons, meu General.

     - Ao seu sobrinho?

     Wellesley fez uma pausa para se assegurar de que Simmerson respondia. O coronel assentiu tristemente com a cabeça. Wellesley voltou-se para Gibbons.

     - O senhor concordou com a ordem do seu tio de fazer avançar uma linha de atiradores contra a cavalaria?

     Gibbons estava encurralado. Humedeceu os lábios, encolheu os ombros e por fim assentiu. Wellesley abanou a cabeça em sinal de desacordo.

     - Pelo que o senhor não é a pessoa mais adequada para comandar uma Companhia Ligeira. Não, Sir Henry, vou entregar-lhe um dos melhores atira-dores do exército britânico para que comande as suas tropas ligeiras. Promovi-o a capitão.

     Simmerson não disse nada. Gibbons estava pálido de raiva. Lawford olhou sorridente para Sharpe e o fuzileiro sentiu-se estremecer de esperança. O general voltou os olhos para Simmerson.

     - Não sei de muitos homens, Sir Henry, que sejam melhores no comando de tropas ligeiras em batalha do que o capitão Sharpe.

     Promoviam-no, tinha conseguido, tinha-se escapado! Não se importava que fosse com Simmerson, era capitão! Quase não ouviu as restantes palavras de Wellesley, a vitória era total! O inimigo fora derrotado! Era capitão. O que importava que fosse uma nomeação artificial e que ainda estivesse dependente do visto favorável da Guarda Real? Por agora era assim. Capitão! Capitão Richard Sharpe do Batalhão de Destacamentos.

     Wellesley deu por terminada a entrevista. Simmerson fez a última tentativa.

     - Vou escrever - disse Simmerson indignado, agarrando-se desesperada-mente a quaisquer restos de dignidade que pudesse recuperar da torrente de desprezo de Wellesley -, vou escrever para Whitehall, meu General, e eles ficarão a conhecer a verdade!

     - Pode fazer o que quiser, Sir, mas permita-me que eu continue a fazer a guerra. Bons-dias.

     Lawford abriu a porta. Simmerson pôs de rompante o tricórnio na cabeça e os oficiais deram a volta para se irem embora. Wellesley disse:

     - Capitão Sharpe!

     - Meu General?

     Era a primeira vez que lhe chamavam capitão.

     - Queria falar consigo.

     Lawford fechou a porta ao sair com os outros três. Wellesley olhou para Sharpe, o seu semblante continuava duro.

     - O senhor desobedeceu a uma ordem.

     - Sim, meu General.

     Wellesley fechou os olhos. Parecia cansado.

     - Não tenho dúvidas de que mereça ser capitão. - Voltou a abrir os olhos. - Se pode ficar com essa graduação ou não, isso é outro assunto. Não tenho poder para essas coisas e é concebível e provável que a Guarda Real cancele todas estas disposições. Está a perceber?

     - Sim, meu General!

     Sharpe pensou perceber. Os inimigos de Wellesley tinham conseguido colocá-lo numa comissão de investigação havia apenas um ano e esses mesmos inimigos queriam aniquilá-lo. Sir Henry contava-se entre eles e o coronel já estaria a planear a carta que ia enviar para Londres. A carta que deitaria as culpas a Sharpe e, dado que o general se tinha posto do seu lado, também seria perigosa para Wellesley.

     - Obrigado, meu General.

     - Não me agradeça. Provavelmente não lhe fiz nenhum favor - disse, olhando para Sharpe com algum desgosto. - Você tem o hábito, Sharpe, de merecer a gratidão através de métodos que deviam ser condenados. Faço-me entender?

     - Sim, meu General.

     Estava a repreendê-lo? Sharpe continuou com o rosto inexpressivo. A cara de Wellesley mostrou um toque de ira mas controlou-se e, de repente, substituiu-a por um sorriso triste.

     - Alegro-me por não lhe ter acontecido nada - disse recostando-se na cadeira. - A sua carreira continua sempre interessante, Sharpe, apesar de eu recear sempre que termine de forma precipitada. Bons-dias, capitão.

     Voltou a pegar na pena e começou a escrevinhar nos papéis. Havia verdadeiros problemas. Os espanhóis não tinham entregue nada da comida que tinham prometido, os pagamentos do exército não tinham chegado, a cavalaria precisava de ferraduras e cravos e faziam falta carros de bois, ainda mais carros de bois. Para cúmulo, os espanhóis iam de um extremo ao outro; num dia davam tudo pela glória, no dia seguinte pregavam precaução e retirada. Sharpe foi-se embora.

     Lawford seguiu-o até à antecâmara vazia e estendeu a mão.

     - Parabéns.

     - Obrigado, meu Tenente-Coronel. Um Batalhão de Destacamentos, hein?

     Lawford riu-se.

     - Isso não vai agradar a Sir Henry.

     Era verdade. Em cada companhia havia pequenas unidades de homens, como Sharpe e os seus fuzileiros, que se isolavam. Eram os restos do exército e a solução mais simples, quando eram em número suficiente, o general agrupava-os como batalhão temporário de destacamentos. Também proporcionavam ao general a oportunidade de promover homens, mesmo que temporariamente, no novo batalhão, mas não era nenhuma destas a razão que desagradava a Simmerson. Ao converter o maltratado South Essex num batalhão de destacamentos, Wellesley estava literalmente a apagar o nome “South Essex” da sua lista do exército; era um castigo dirigido contra o orgulho de Simmerson, ainda que Sharpe duvidasse que o homem que aparentemente tomava a perda da bandeira real com tão assinalável simplicidade se sentisse muito desanimado pela despromoção do seu batalhão. O seu rosto reflectia estes pensamentos e Lawford interrompeu-o.

     - Está preocupado com Simmerson?

     - Sim.

     Não havia necessidade de o negar.

     - Deve estar. Sir Arthur fez o que podia por si, promoveu-o, deve acreditar em mim quando lhe digo que escreveu para Inglaterra a seu respeito nos termos mais elogiosos

     Sharpe assentiu.

     - Mas...

     Lawford encolheu os ombros. Encaminhou-se para a janela e olhou fixamente através das grossas cortinas de veludo para a planície que se estendia mais para além das muralhas; todo o cenário adormecia debaixo do sol implacável. Voltou-se.

     - Sim. Há um mas.

     - Continue.

     Lawford parecia perturbado.

     - Simmerson é muito poderoso. Tem amigos influentes - disse, encolhendo de novo os ombros. - Richard, temo que lhe causem dano. O senhor é um peão na batalha dos políticos. Ele é parvo, de acordo, mas os seus amigos de Londres não vão querer que o pareça! Exigirão um bode expiatório. É como se fosse a voz deles, compreende?

     Sharpe concordou.

     - Quando escrever de Espanha e disser que a guerra está mal comandada, a gente escutará a carta lida no Parlamento! Não importa que o homem esteja completamente louco! É a voz deles na guerra e se o perdem a ele, perdem a credibilidade!

     Sharpe abanou a cabeça angustiado.

     - O que quer dizer é que me vão pressionar a mim e me vão sacrificar para que Simmerson sobreviva?

     Lawford assentiu.

     - Receio que sim. E a defesa que Sir Arthur faça só será vista como uma questão entre partidos.

     - Pelo amor de Deus! Eu não fui minimamente responsável!

     - Eu sei, eu sei - disse Lawford para o acalmar. - Não interessa. Ele escolheu-o a si para bode expiatório.

     Sharpe sabia que o que ele dizia estava certo. Durante umas semanas estaria a salvo, a salvo enquanto Wellesley avançasse por Espanha e combatesse os franceses, mas, depois disso, chegaria uma carta da Guarda Real, uma carta simples e breve que significaria o fim da sua carreira no exército. Sabia que se ocupariam de si. O próprio Wellesley talvez precisasse de um administrador ou o recomendasse a alguém que precisasse de si. Mas continuava a ganhar a vida penosamente, sob a suspeita de ser oficialmente o responsável por ter perdido a bandeira de Simmerson. Pensou na sua última conversa com Lennox. Teria o escocês previsto tudo?

     - Há outro caminho - disse em voz baixa. Lawford olhou para ele.

     - Como?

     - Quando vi a bandeira perdida tomei uma decisão. Também fiz uma promessa a um moribundo.

     Soava desesperadamente melodramático mas era verdade.

     - Prometi capturar aquela bandeira com uma águia.

     Houve um momento de silêncio. Lawford assobiou suavemente.

     - Isso nunca se fez.

     - Não há qualquer diferença entre isso e eles tomarem-nos uma bandeira. Aquilo era fácil de dizer mas sabia que os franceses não lhe tornariam o traba-lho tão fácil como Simmerson o tornara para os franceses. Durante os últimos seis anos os franceses tinham aparecido no campo de batalha com novos estandartes. Em lugar das velhas bandeiras agora traziam águias douradas montadas sobre estacas. Dizia-se que cada asa era apresentada pessoalmente ao regimento pelo imperador e os estandartes eram portanto mais que um mero símbolo do regimento, eram o símbolo de todo o orgulho de França na sua nova ordem. Capturar uma águia era fazer com que Bonaparte em pessoa fizesse má cara.

     Sharpe sentiu que a raiva lhe voltava.

     - Não me importo de substituir a bandeira de Simmerson por uma águia. Mas estou furioso por ter que cavar o meu caminho através de uma companhia de granadeiros franceses simplesmente para permanecer no exército.

     Lawford nada disse. Sabia que Sharpe dizia a verdade; a única coisa que podia impedir que os oficiais de Whitehall escolhessem Sharpe como vítima era o fuzileiro realizar um acto de tão indubitável mérito que lhes pudesse parecer uma parvoíce convertê-lo em bode expiatório. Pessoalmente, Lawford acreditava que Sharpe tinha feito mais do que o suficiente, tinha recuperado uma bandeira, capturado um canhão, mas o expediente das suas proezas ver-se-ia manchado em Londres com o que Simmerson contasse. Não, tinha de fazer mais, ir mais longe, arriscar a vida para tentar conservar o seu emprego.

     Sharpe riu-se ironicamente. Deu uma palmada na bainha vazia.

     - Uma vez alguém disse que nesta profissão o nosso valor é aquele que mostrámos na última batalha. - Fez uma pausa. - A menos que se tenha dinheiro ou influências.

     - Sim, Richard, a menos que se tenha dinheiro ou influências. Sharpe sorriu zombeteiramente.

     - Obrigado. vou reunir-me à alegre multidão. Os meus fuzileiros continuam comigo?

     Lawford assentiu.

     - Boa sorte.

     Viu Sharpe partir. Se havia um homem que pudesse roubar uma águia aos franceses, esse homem era o recém-promovido Richard Sharpe. Lawford ficou junto à janela e olhou para a rua. Viu Sharpe caminhar para a luz do Sol e pôr a barretina na cabeça; um enorme sargento esperava na sombra, o tipo de homem em que Lawford apostaria uma centena de guinéus numa luta a socos, e reparou que o sargento se dirigia a Sharpe. Os dois homens falaram durante um bocado e então o enorme sargento deu umas palmadas nas costas de Sharpe e articulou um grito de alegria que Lawford ouviu dois andares mais acima.

     - Lawford!

     - Meu General?

     Lawford passou para a outra sala e recebeu o expediente das mãos de Wellesley. O general agitou a pena no tinteiro.

     - Explicou-lhe?

     - Sim, meu General. Wellesley abanou a cabeça.

     - Pobre diabo. Que disse?

     - Disse que aproveitaria a oportunidade, meu General. Wellesley grunhiu.

     - Todos o temos de fazer. Pegou noutro bocado de papel.

     - Meu deus! Enviaram-nos quatro caixas de borracha amoniacal, três de sais de Glauber, e duzentas peças variadas para cotos! Pensam que dirijo um maldito hospital em vez de um exército!

    

     As botas dos guardas de Coldstream repicaram sobre as lousas e soavam ocas na escuridão e desvaneciam-se pelas encostas enquanto o seu som era substituído pelo das primeiras companhias dos Guardas do Terceiro. Estas eram seguidas pelo primeiro batalhão do 61, o segundo do 163 e a seguir quatro batalhões completos da curiosa Legião Alemã do Rei. Sharpe estava no pórtico de uma igreja e viu como os alemães passavam à sua frente. - Boas tropas, meu Major.

     Forrest, tremendo apesar do seu capote, assomou-se na escuridão.

     - Quem são?

     - A Legião Alemã do Rei.

     Forrest enterrou ainda mais as mãos nos bolsos.

     - Nunca os tinha visto.

     - De certeza que não, meu major.

     A legião alemã era um corpo estrangeiro do exército e a lei dizia que o máximo que se podiam aproximar da Grã-Bretanha era até à ilha de Wight. Por cima das suas cabeças o relógio da igreja bateu as três. As três da madrugada de segunda-feira, 17 de Julho de 1809 e o exército britânico saía de Plasência. Uma companhia do 60 passou pela frente deles, outra unidade alemã, com o insólito nome de Fuzileiros Reais Americanos. Forrest notou que Sharpe olhava fixa e tristemente como marchavam os fuzileiros, com casacas verdes e cintos pretos.

     - Nostálgico, Sharpe? Sharpe sorriu na escuridão.

     - Teria preferido que fosse o outro regimento de fuzileiros, meu Major. Suspirava pela sensatez reinante no 95 frente à suspeita e ao mau humor que infestava o batalhão de Simmerson. Forrest fez um gesto com a cabeça.

     - Lamento, Sharpe.

     - Não o lamente, meu Major. Pelo menos sou capitão. Forrest fingiu não ter ouvido.

     - Mostrou-me uma carta, lembra-se?

     Sharpe lembrava-se. Forrest continuou a desculpar-se, já tinha falado na carta por duas vezes. Negligência, total desobediência, inclusive a palavra “traição” tinham tido lugar no relatório mordaz que Simmerson escrevera a respeito das acções de Sharpe em Valdelacasa; mas nada disso era surpreendente. O que tinha aborrecido Sharpe era a última petição que Simmerson fizera. Que enviassem Sharpe, como tenente, para um batalhão nas índias Ocidentais. Ninguém comprava um cargo de oficial num desses batalhões, apesar das promoções serem mais rápidas aí do que em qualquer outro lugar do exército, e Sharpe conhecera homens que tinham renunciado, antes de irem para as ilhas banhadas pelo sol com as suas preguiçosas obrigações de guarnição.

     - Isso não sucederá, Sharpe.

     O tom de Forrest traía o pensamento que o destino de Sharpe estava traçado.

     - Não, meu Major.

     Não, se eu o puder evitar, pensou Sharpe, e imaginava-se com uma águia nas mãos. Apenas a águia o poderia salvar das ilhas em que a febre reduzia a esperança de vida de um homem para menos de um ano, devido a uma doença terrível que fazia suar qualquer soldado e que convertia a petição de Simmerson numa virtual garantia de morte, a menos que Sharpe renunciasse à sua promoção ganha com tanto esforço.

     Quase todas as unidades desfilaram em frente deles. Cinco regimentos de Dragões e os Hussardos da Legião Alemã do Rei, no total mais de três mil soldados de cavalaria, seguidos de um exército de mulas que transportavam a forragem para os preciosos cavalos. A artilharia pesada com os seus canhões, armões e forjas portáteis tinha ainda mais mulas e mais provisões. Mas o que mais perturbava o silêncio reinante nas ruas era a infantaria. Vinte e cinco batalhões de infantaria, pouco atractivos, com os uniformes manchados e as botas gastas; os homens que tinham de se enfrentar aos melhores artilheiros e à melhor cavalaria do mundo; e com eles marchavam ainda mais mulas misturadas entre as mulheres e crianças do batalhão.

     O batalhão tomou finalmente a estrada que atravessava o rio muito depois do amanhecer e, se bem que nos dias anteriores tivesse havido calor, naquela altura parecia que a natureza tivera o propósito de cozer a paisagem numa sólida extensão de terracota. O exército avançava pela planície longa e árida e ia levantando um fino pó que permanecia no ar e revestia as bocas e gargantas da esbraseada infantaria. Não havia nem vestígios de vento, só pó, calor e brilho, o suor que escorria para os olhos e o interminável som das botas a bater no caminho branco. Numa povoação havia uma represa que a cavalaria tinha espezinhado deixando-a cheia de barro sujo e pegajoso, mas até mesmo assim os homens acharam-na agradável, já que havia tempo que tinham esvaziado os seus cantis e puseram-se a tirar a água amarga da superfície do barro glutinoso.

     Havia pouco mais a agradecer. O resto do exército evitava o novo Batalhão de Destacamentos, como se os homens padecessem de uma grande enfermidade. A perda da bandeira manchara a reputação de todo o exército e quando o batalhão acampou na primeira noite, o coronel de dragões não os deixou entrar numa quinta espaçosa alegando que não queria ter nada a ver com um regimento que fracassara tão vergonhosamente. A escassez de comida não ajudava a levantar a moral do batalhão. Havia tempo que as cabeças de gado que saíram de Portugal tinham sido sacrificadas e consumidas, as provisões que os espanhóis haviam prometido não tinham chegado, e os homens tinham fome, estavam de mau humor e intimidados pela brutalidade de Simmerson. Este tinha encontrado as suas próprias razões para a perda da bandeira, o comportamento de Sharpe e a acção dos seus próprios homens, e uma vez que não podia castigar o primeiro, tinha poder para castigar os segundos. Apenas a Companhia Ligeira mantinha alguns vestígios de digni-dade. Os homens estavam orgulhosos do seu novo capitão. Em todo o batalhão, Sharpe era considerado um homem mágico, um afortunado, um homem a quem as balas e as espadas do inimigo não podiam tocar. A companhia ligeira acreditava, como fazem os soldados, que Sharpe lhes traria sorte na batalha, os manteria com vida e apresentavam a acção da ponte como prova. Os fuzileiros de Sharpe estavam de acordo, sempre tinham sabido que o seu oficial tinha sorte e estavam satisfeitos com a sua nova promoção. Sharpe ficara perturbado com a alegria dos seus homens, corado quando lhe tinham oferecido uns copos de algumas das garrafas de brande espanhol guardadas, e tinha dissimulado a sua perturbação aludindo a determinadas tarefas a executar. Na primeira noite após sair de Plasência deitou-se num campo, envolto no seu capote, e pensou no rapaz que se tinha alistado temerosamente no exército havia dezasseis anos. O que teria pensado aquele rapaz aterrorizado, fugido à justiça, se soubesse que um dia seria capitão?

     Na segunda noite o batalhão teve mais sorte. Acamparam próximo de um povoado sem nome e os bosques encheram-se de soldados que cortaram ramos para acender fogueiras onde ferver folhas de chá que traziam nos bolsos. Alguns polícias militares vigiavam os olivais. Nada tornava mais impopular o exército do que o hábito francês de cortar as oliveiras do povoado e negar-lhes assim a colheita durante anos e Wellesley dera ordens estritas para que não tocassem nas oliveiras. Os oficiais do South Essex - o batalhão ainda se considerava a si mesmo como tal - alojaram-se na pousada do povoado. Era um edifício grande, evidentemente, um lugar de passagem entre Palência e Talavera e, na parte de trás, havia um pátio com grandes ciprestes e mesas e bancos de ambos os lados. O pátio abria-se para um riacho e, na outra margem, num campo de sobreiros, os homens do batalhão acendiam fogueiras e preparavam as camas. Tinham andado muitos porcos pelo campo e quando Sharpe despiu o uniforme para catar os piolhos nas costuras, cheirou-lhe a carne cozinhada entre as miríades de pequenas fogueiras que se viam através das folhas. Este tipo de saque castigava-se com o enforcamento imediato, mas ninguém o podia evitar. Os oficiais, os polícias militares, andavam todos com falta de comida e a oferta sub-reptícia de um bocado de carne de porco roubada assegurava que os polícias não levariam a cabo qualquer acção por sua conta.

     Pouco a pouco o pátio foi-se enchendo de oficiais da dezena de batalhões que estavam acampados no povoado. O calor do dia transformou-se numa noite cálida e clara e as estrelas surgiram como se fossem as fogueiras do acampamento de um exército sem limites, visto à distância. Da sala principal da pousada saía a música e as vozes dos oficiais que incitavam as bailarinas espanholas a subirem as saias. Sharpe abriu caminho pela sala cheia de gente e vislumbrou Simmerson e os seus apaniguados sentados a jogar às cartas numa mesa do canto. Gibbons estava lá, estava sempre com os oficiais de Simmerson, e com o desagradável tenente Berry. Sharpe pensou por um momento na rapariga. Tinha-a visto uma ou duas vezes desde que tinham voltado da ponte e sentira uma pontada de ciúmes. Afastou esse pensamento da cabeça; os oficiais do batalhão já estavam bastante divididos.

     De um lado estavam os partidários de Simmerson que bajulavam o coronel e lhe confirmavam que a perda da bandeira tinha sido culpa dele, e havia também os que tinham demonstrado publicamente o seu apoio a Sharpe. Era uma situação desagradável, mas não se podia fazer nada quanto a isso. Atravessou a sala para o pátio e encontrou Forrest, Leroy e um grupo de subalternos junto a um cipreste. Forrest indicou-lhe um lugar.

     - Nunca larga esse rifle?

     - Para mo roubarem? - ripostou Sharpe. - Teria de o pagar. Forrest sorriu.

     - Já pagou os galões?

     - Ainda não - respondeu Sharpe com uma careta. - Por enquanto estou oficialmente na relação do batalhão e suponho que mos descontarão no vencimento quando estes chegarem.

     Forrest passou-lhe uma garrafa de vinho.

     - Não se preocupe. Hoje pago eu.

     Os oficiais que estavam à volta da mesa brindaram ironicamente. Inconsci-entemente, Sharpe apalpou a bolsa de cabedal que tinha pendurada ao pescoço. Pesava seis peças de ouro mais, graças aos mortos de Valdelacasa. Bebeu um pouco de vinho.

     - É asqueroso!

     - Correm rumores - disse Leroy secamente. - Ouvi dizer que quando pisam as uvas não se dão ao trabalho de sair do lagar para urinar.

     Fez-se silêncio e então ouviu-se um coro de vozes enojadas. Forrest olhou com dúvidas para dentro do copo.

     - Não acredito.

     - Na índia - disse Sharpe - alguns nativos acreditam que é muito saudável beber a própria urina.

     Forrest ficou a olhar com os olhos muito abertos.

     - Isso não pode ser. Leroy interveio.

     - É absolutamente certo, meu Major, vi-os fazê-lo. Um copo por dia. À saúde!

     Todos os que estavam à volta da mesa protestaram, mas Sharpe e Leroy garantiram que era verdade. A conversa ficou pela índia, batalhas e cercos, animais estranhos, palácios que encerravam riquezas inconcebíveis. Pediram mais vinho e trouxeram-lhes comida da cozinha, não aquele porco de cheiro tão atraente que provinha da tropa, mas um estufado feito à base de verduras. Estava-se bem sentado ali. Sharpe esticou as pernas por baixo da mesa e recostou-se ao tronco do cipreste deixando que o cansaço do dia se apoderasse dele. Por cima das conversas e dos risos ouvia milhares de insectos que zumbiam e crepitavam na noite espanhola. Depois atravessaria o riacho e faria uma visita à sua companhia mas, por enquanto, deixou a mente vaguear; sabia que não a poucas milhas dali, um grupo de oficiais franceses estaria igualmente sentado como eles e que os seus homens cozinhariam em fogueiras como as que havia na outra margem. E em qualquer lado, talvez encostada ao canto da sala de uma pousada como aquela, estaria a águia. Alguém lhe deu uma palmada nas costas.

     - Com que então fizeram-no capitão! Este exército não tem normas!

     Era Hogan. Sharpe não o tinha visto desde o dia em que tinham voltado da ponte. Levantou-se e apertou a mão do oficial de engenharia. Hogan sorriu abertamente.

     - Estou encantado! Surpreendido, claro, mas encantado! Parabéns! Sharpe ficou vermelho e encolheu os ombros.

     - Onde tem estado?

     - Oh, olhando para algumas coisas.

     Sharpe sabia que Hogan tinha estado a fazer o reconhecimento do terreno para Wellesley, informando quais as pontes que poderiam suportar o peso da artilharia, que caminhos eram suficientemente largos para que o exército passasse. O capitão, obviamente, tinha avançado até Oropesa e provavelmente ainda mais longe. Forrest convidou-o a sentar-se e perguntou-lhe as novidades.

     - Os franceses estão no alto do vale. Muitos - disse Hogan enquanto se servia de um pouco de vinho. - Calculo que haja uma batalha dentro de uma semana.

     - Uma semana! - exclamou Forrest surpreendido.

     - Sim, meu Major. Há-os a deitar por fora numa localidade chamada Talavera.

     Hogan pronunciou “Taly-verra” fazendo com que parecesse uma aldeia irlandesa.

     - Mas quando se juntarem com o exército de Cuesta superá-los-ão largamente em número.

     - Viu as tropas de Cuesta? - perguntou Sharpe.

     - Sim - sorriu zombeteiramente o irlandês. - Não são melhores que o Santa Maria. A cavalaria talvez seja melhor, mas a infantaria...

     Hogan não terminou a frase. Virou-se para Sharpe e voltou a sorrir.

     - A última vez que o vi, você estava detido! Agora veja-se. Que tal Sir Henry?

     À volta da mesa todos se riram. Hogan não esperou pela resposta mas baixou a voz.

     - Estive com Sir Arthur.

     - Eu sei. Obrigado.

     - Por dizer a verdade? E agora? O que vai acontecer?

     - Não sei - respondeu Sharpe em voz baixa, de modo que apenas Hogan o pudesse ouvir. - Simmerson escreveu para Inglaterra. Disseram-me que tem poder para fazer com que a Guarda Real não ratifique a minha nomeação pelo que dentro de seis meses serei de novo tenente, provavelmente para sempre, e é quase certo que me enviarão para as ilhas da febre, ou para fora do exército.

     Hogan olhou atentamente para ele.

     - Está a falar a sério?

     - Sim. Um oficial de Sir Arthur disse-me mais ou menos isto.

     - Por culpa de Simmerson? - perguntou Hogan franzindo a testa incrédulo. Sharpe suspirou.

     - Está relacionado com o facto de Simmerson continuar a ter credibilidade no Parlamento entre a gente que se opõe a Wellesley. Eu sou o sacrificado. Não me pergunte, porque não o consigo compreender. E o senhor? Também estava detido.

     Hogan encolheu os ombros.

     - Sir Henry perdoou-me. Não me leva a sério, pois sou só um oficial de engenharia. Não, vá por si. Você começou de baixo, é um fuzileiro, não é um cavalheiro, mas é melhor soldado do que ele alguma vez há-de ser disse apertando o dedo indicador e o polegar. - Quer eliminá-lo. Oiça - disse Hogan inclinando-se para ele. - Em breve haverá uma batalha, de certeza. O grande idiota provavelmente armará a mesma porcaria que da outra vez. Não podem protegê-lo sempre. É tremendo, meu Deus, mas o senhor tem de rezar para que se volte a enganar completamente.

     - Duvido que tenha de rezar para isso - respondeu Sharpe a sorrir. Numa das janelas superiores que davam para duas varandas que rodeavam o pátio ouviu-se um grito de mulher, terrífico e intenso, que fez parar todas as conversas que tinham lugar junto às árvores. Os homens ficaram quietos, com os copos a meio caminho da boca e olharam fixamente para as portas escuras que davam para os quartos.

     Sharpe pôs-se de pé e agarrou instintivamente na espingarda. Forrest pôs-lhe uma mão no braço.

     - Não é nada consigo, Sharpe.

     Houve um momento de silêncio no pátio, ouviram-se alguns risos nervosos, e a seguir foi retomada a conversa. Sharpe sentia-se incomodado. Podia não ter sido nada; uma das mulheres que vivia na pousada podia estar doente, podia até ser um parto difícil, mas estava certo de que se tratava de mais qualquer coisa. Uma violação? Sentia vergonha por não ter feito nada. Forrest agarrou-o outra vez pelo braço.

     - Sente-se. com certeza não é nada.

     Antes de Sharpe se conseguir mexer ouviu-se outro grito, desta vez um homem, e converteu-se num urro de raiva. Abriu-se de repente uma porta no piso superior e espalhou-se sobre a varanda a luz amarela de uma vela, e uma mulher saiu do quarto a correr e lançou-se escadas abaixo. Uma voz gritou: “Detenham-na!”

     A rapariga precipitou-se pela escada como se os demónios do inferno a perseguissem. Os oficiais que estavam no pátio aplaudiram-na e insultaram as duas figuras que apareceram atrás dela, Gibbons e Berry. Não tinham qualquer hipótese de a alcançar; os dois homens estavam bêbados e quando saíram do quarto foram-se embora cambaleando e pestanejando pelo pátio.

     - É Josefina - disse Forrest.

     Sharpe viu que a rapariga ia a cambalear pela escada abaixo até atingir o outro lado do pátio. Olhou desesperadamente por um segundo à sua volta como se procurasse ajuda. Levava uma bolsa e Sharpe vislumbrou qualquer coisa que parecia uma faca na mão dela e então ela voltou-se e sumiu-se a correr na escuridão, no outro lado do riacho, em direcção às luzes das fogueiras do batalhão. Gibbons deteve-se a meio da escada, vestia umas calças e uma camisa, com uma mão agarrava a camisa desabotoada contra o estômago, na outra tinha uma pistola.

     - Volta aqui, cabra piolhosa!

     Saltou os últimos degraus da escada e manuseou desajeitadamente a segurança da pistola.

     - O que se passa, Gibbons? A rapariga levou-te os estandartes?

     A voz provinha de uma mesa do pátio. Gibbons, com aspecto furioso, não fez caso do gozo nem das gargalhadas e correu com Berry para o riacho.

     - Algo se vai passar - disse Sharpe, levantando-se do banco. - vou lá. Abriu caminho por entre as mesas, Hogan e Forrest seguiram-no.

     Afastou-se da luz do pátio e foi chapinhando pelo riacho; não se via nem a rapariga nem os seus perseguidores, apenas as luzes do sobral e de vez em quando a silhueta de um homem que passava em frente às chamas. Deteve-se para que os olhos se habituassem à escuridão. Forrest alcançou-o.

     - Passar-se-á alguma coisa, Sharpe?

     - Não, se eu o puder evitar, meu Major. Mas o senhor viu, leva uma pistola.

     Ouviram-se gritos à direita; um certo alvoroço.

     - Vamos!

     Adiantou-se aos outros dois; corria depressa, deixando o caminho prateado do riacho, sustendo a espingarda na mão direita.

     - O que é que se passa? Quem diabos és?

     À luz de uma fogueira viu um soldado furioso. O homem surpreendeu-se ao ver Sharpe e fez um rápido cumprimento.

     - Vai atrás desse dois, meu Capitão?

     - Iam com uma rapariga?

     - Por ali, meu Capitão.

     Assinalou a corrente abaixo, longe das fogueiras do batalhão, havia um prado escuro. Sharpe continuou a correr, Forrest e Hogan seguiam-no de perto. A frente ouviu um “ali”, um grito, tinham capturado a rapariga. Correu mais depressa, sem prestar atenção ao terreno pedregoso, receando ouvir o som de um disparo, adaptando os olhos à noite. De repente viu-os, Berry estava de pé com uma garrafa na mão e olhava para Gibbons que obrigara a rapariga a ajoelhar-se e queria tirar-lhe o saco das mãos. Sharpe ouviu-o a gritar a Josefina.

     - Larga, cadela!

     Sharpe continuou a correr. Gibbons ergueu a vista, sobressaltado, e então Sharpe deu-lhe um soco com toda a força. O tenente caiu de costas, a pistola saltou-lhe da mão e caiu à água, e Sharpe viu que a bolsa de Josefina lhe caía da mão e derramava ouro brilhante sobre a erva escura. Gibbons tentou resistir com os pés mas Sharpe empurrou-o com a coronha da espingarda.

     - Quieto!

     O luar era suficiente para ver a expressão de Sharpe e ele deitou-se para trás apoiando-se nos cotovelos. Sharpe voltou-se para Berry.

     - O que é que se passa?

     - A rapariga fugiu, meu Capitão. Viemos buscá-la.

     A peculiar maneira de falar de Berry arrastando as palavras era acentuada pela bebida e quando se voltou para ver chegar Forrest e Hogan cambaleou ligeiramente.

     - Está tudo bem? - perguntou Forrest.

     Sharpe levantou-se para olhar para Josefina. Deu-se conta de algo irrele-vante, que era a primeira vez que a via vestida, sem usar calções de montar, e acelerou-se-lhe a pulsação ao ver-lhe os ombros nus e o que sugeria na sombra ser um vestido decotado. Ela tinha a cabeça baixa; primeiro pensou que estava a soluçar, mas viu então que recolhia desesperadamente as moedas de ouro espalhadas. Calculou mentalmente que havia uma pequena fortuna no chão, então Forrest tapou-lhe a vista ao ajoelhar-se junto à rapariga.

     - Está tudo bem?

     A voz de Forrest era paternal, amável.

     A rapariga assentiu, depois abanou a cabeça, e Sharpe viu que os ombros se moviam como se estivesse a soluçar. As mãos continuavam a procurar as moedas de ouro na erva.

     O major pôs-se de pé.

     - O que se passou?

     Disse-o tentando, sem efeito, parecer autoritário. Ninguém disse nada. Sharpe passou a espingarda para a mão esquerda e aproximou-se de Berry, tirou-lhe a garrafa e atirou-a para o ribeiro.

     - Alto aí! - exclamou Berry falando com dificuldade.

     - O que é que se passou?

     - Só uma discussão. Não há com que se preocupar.

     Berry piscou alegremente o olho a Sharpe e levantou cordialmente a mão entre o pequeno grupo. O fuzileiro deu-lhe um forte murro no estômago, e a boca de Berry abriu-se como a de um peixe. Dobrou-se e vomitou na erva. Sharpe agarrou-o e pô-lo de pé.

     - O que é que se passou?

     Berry olhava fixamente para ele, espantado.

     - Bateu-me!

     - E vou crucificar-te se não falares de uma vez por todas.

     - Estávamos a jogar às cartas. Ganhei eu.

     - E?

     - Discutimos.

     Sharpe aguardou. Berry afastou da testa uma mecha de cabelo solto como que a tentar recuperar algo de dignidade.

     - Negou-se a pagar a dívida.

     Josefina tinha visto como Sharpe batera em Berry, e Hogan que estava calado a um lado tinha-a visto sorrir com excitação quando o tenente tinha caído.

     - Não é verdade! - exclamou a rapariga, furiosa. - O senhor fez batota! Eu estava a ganhar!

     Ela pôs-se de pé e deu dois passos em direcção a Berry.

     Hogan olhou para a cara dela e deu-se conta que ia arrancar os olhos ao tenente, se pudesse. Agarrou-a pelo cotovelo, para a deter. Ele, pelo menos, sabia que a verdade sobre quem tinha ganho, quem tinha perdido, ou quem tinha feito batota provavelmente nunca se viria a saber.

     - E o que é que se passou? Josefina apontou para Berry.

     - Queria violar-me! Christian bateu-me!

     Sharpe virou-se para Gibbons. O tenente louro tinha-se posto de pé e olhava para Sharpe dirigindo-se para ele. Tinha a camisa branca manchada de sangue e Sharpe lembrou-se da faca; Josefina tinha-lhe dado uma facada mas não lhe tinha causado grande dano.

     - Isso é verdade? - perguntou Sharpe.

     - O quê? - A voz de Gibbons demonstrava um tom de desprezo.

     - Que o senhor lhe bateu e o tenente Berry tentou violá-la. Gibbons deu uma gargalhada.

     - Tentar violar Josefina Lacosta é como obrigar um mendigo a aceitar dinheiro. Não sei se está a compreender.

     Hogan viu que tinha de dar um passo em frente, que havia demasiada tensão, mas Sharpe rompeu o silêncio que se seguira ao comentário depre-ciativo de Gibbons.

     - Repita isso - disse Sharpe em voz suave.

     Gibbons olhou com desprezo para o fuzileiro e quando falou a voz estava impregnada de todo o desdém que se sente pelas classes baixas.

     - Vamos ver se compreende. Estávamos a jogar às cartas. A menina Lacosta perdeu dinheiro e apostou o corpo. Recusou-se a pagar e em vez disso veio-se embora com o nosso dinheiro. Isto é tudo.

     - Não é verdade! - Josefina chorava. Afastou-se de Hogan e aproximou-se de Sharpe, olhou para ele com os olhos banhados em lágrimas e agarrou a bolsa com as mãos.

     - Não é verdade. Estávamos a jogar às cartas, eu ganhei. Tentaram roubar-me! Eu pensava que eram cavalheiros!

     Gibbons riu-se. Sharpe voltou-se para ele.

     - Bateu-lhe?

     Vira-lhe uma equimose no rosto.

     - O senhor não iria compreender - disse Gibbons com ar aborrecido.

     - O que é que eu não iria compreender? - perguntou Sharpe aproximando-se do tenente.

     Gibbons sacudiu uma folha de erva da manga com um gesto despreo-cupado.

     - Como se comportam os cavalheiros, Sharpe. O senhor vai acreditar nela, porque é uma puta e o senhor está habituado a putas. Não está habituado a cavalheiros.

     - Trate-me por “meu Capitão”.

     O rosto de Gibbons foi invadido pela ira.

     - Vá para o diabo.

     Sharpe deu-lhe um soco no peito e ao ver que a cara de Gibbons estava acima da sua deu-lhe uma cabeçada entre os olhos. Gibbons cambaleou, com o nariz a sangrar, e Sharpe largou a espingarda e voltou a atacar. Uma vez, duas vezes, e um soco final no estômago. Tal como Berry, Gibbons dobrou-se e vomitou. Caiu de joelhos, agarrando-se à barriga, e Sharpe, desdenhosamente, empurrou-o com a bota e o tenente estatelou-se no barro.

     - Tenente Berry?

     - Meu Capitão?

     - O senhor Gibbons está bêbado. Leve-o daqui e trate dele.

     - Sim, meu Capitão.

     Berry não ia discutir com Sharpe. Ajudou Gibbons a levantar-se. O sobrinho do coronel fazia esforço para respirar, arquejando o estômago, empurrou Berry para o lado e voltou-se para gaguejar a Forrest entre sufocos.

     - O senhor viu. Bateu-me!

     Hogan adiantou-se com voz irritada e autoritária.

     - Parvoíces, tenente. O senhor estava bêbado e caiu. Vá-se deitar. Os dois tenentes foram-se embora a tropeçar. Sharpe viu-os afastarem-se.

     - Bandidos! Não se pode jogar uma mulher às cartas. Hogan sorriu tristemente.

     - Sabe porque o fizeram oficial, Richard?

     - Porquê?

     - Você é demasiado cavalheiro para estar na tropa. Os homens jogam as mulheres às cartas desde que as cartas foram inventadas, ou as mulheres - virou-se para a rapariga. - E agora, o que vai fazer?

     - Fazer? - disse, olhando para Hogan e depois para Sharpe. - Não posso regressar. Tentaram violar-me!

     - Pois é verdade - disse Hogan em voz sonora.

     A rapariga assentiu apertando ainda mais a bolsa contra si e chegou-se a Sharpe.

     - A minha roupa - disse. - Tenho de recuperar a minha roupa. As minhas coisas estão todas no quarto! - Forrest adiantou-se, com cara de preocupado.

     - A sua roupa?

     - Todas as minhas coisas. Matar-me-ão. - Os olhos astutos de Hogan moveram-se da rapariga para Forrest.

     - Se der a volta à fachada, major, e for depressa, chegará antes deles. Vão demorar dez minutos até vomitarem todo aquele álcool.

     Forrest parecia assustado mas Hogan tinha tomado o comando e o major não soube como se opor. Hogan pegou no cotovelo de Josefina e levou-a até Forrest.

     - Vá com o major Forrest e recolha as suas coisas. Depressa!

     - Mas onde é que vou passar a noite? Sharpe aclarou a garganta.

     - Pode usar o meu quarto. Posso ficar com Hogan. Forrest puxou a rapariga pelo cotovelo.

     - Vamos, menina, temos de nos apressar.

     Os dois foram chapinhando pelo ribeiro e apressaram-se em direcção às luzes da pousada. Hogan viu-os ir e voltou-se para Sharpe.

     - Ficar comigo?

     - Seria o melhor, não?

     - Hipócrita. Quer dizer, ficar com ela.

     Sharpe não disse nada. Suspeitava que Hogan tinha mandado a rapariga com o major porque queria falar com Sharpe a sós, mas o fuzileiro não tinha qualquer intenção de facilitar as coisas ao amigo trazendo o assunto à baila. Acocorou-se, agarrou na espingarda e verificou a segurança para ver se a humidade e o barro tinham entrado na caçoleta. As luzes das fogueiras do batalhão manchavam a encosta com um mortiço resplendor avermelhado.

     - Sabe o que está a fazer, Richard? - perguntou Hogan, sem querer comprometer-se.

     - O que quer dizer? O irlandês sorriu.

     - Ela é muito bela. Não há muitas tão bonitas como ela, pelo menos fora de Cork.

     A piada fora dita com intenção de suavizar o tom, que era triste.

     - Bem, salvou-a, pelo que de momento é sua. Vai mandá-la para casa dela em Lisboa?

     Sharpe começou a andar junto ao ribeiro sem dizer nada. Hogan alcançou-o.

     - Está apaixonado por ela? Pelo amor de Deus!

     - E que mal há nisso?

     Caminharam algum tempo em silêncio até que Hogan tirou um guinéu do bolso e o mostrou.

     - Aposto isto contra dez dos seus em como não vai dormir no meu quarto hoje.

     Sharpe sorriu na escuridão.

     - Não faço apostas nem tenho dinheiro.

     Hogan falava ainda em voz baixa. Procurou no bolso e tirou um punhado de moedas.

     - Aposto estas todas, Richard, contra uma bala de espingarda em como não vai dormir no meu quarto.

     Sharpe olhou amistosamente para Hogan, com cara de preocupado. Seria tão fácil ganhar a aposta. Tudo o que queria era pôr Josefina no seu quarto e ir então para o de Hogan para recolher o punhado de moedas. O pagamento de seis meses, só por não se aproximar da rapariga, mas Sharpe recusou.

     - Preciso de todas as minhas balas. Hogan riu-se.

     - Isso é verdade. Mas não me diga que não o avisei.

     Pôs a mão no cinto de Sharpe, abriu a bolsa das munições e deixou cair o ouro. Sharpe protestou e tirou-lho, mas Hogan voltou a pô-lo lá.

     - Vai precisar dele, Richard. Ela vai querer um quarto decente em Oropesa e em Talavera, e sabe Deus quanto é que isso vai custar. Não se preocupe. Dentro em pouco vai haver uma batalha e há-de disparar contra um homem rico para me poder devolver o dinheiro.

     Iam caminhando em silêncio. Hogan sentia a excitação de Sharpe e sabia que se tivesse oferecido ao fuzileiro dez vezes mais do que lhe oferecera não teria impedido que o fuzileiro passasse aquela noite com a rapariga ou, caso Josefina dissesse que não, Sharpe ficaria no quarto como seu fiel protector, com a espingarda Baker sobre os joelhos. Passaram por Berry e Gibbons, um deles dobrado e a gemer, e chapinharam pelo riacho de volta para as luzes do pátio da pousada. Hogan olhou para Sharpe, os olhos dele estavam vivos de esperança, e deu-lhe um soco amigável no braço.

     - Durma bem, Richard. Sharpe devolveu-lhe o sorriso.

     - Não se preocupe.

     Subiu a escada pulando os degraus de três em três, as botas pisavam os degraus de madeira, e Hogan viu-o ir-se.

     - É breve, meu senhor - estava a falar sozinho -, como o amor de uma mulher.

     - O que é isso, meu Capitão? - perguntou o tenente Knowles que estava ao seu lado.

     - Nunca leu Shakespeare, meu rapaz?

     - Shakespeare, meu Capitão?

     - Um famoso poeta irlandês - disse Hogan. Knowles começou a rir.

     - E de que obra se trata, meu Capitão?

     - Hamlet.

     - Oh, esse - sorriu Knowles, brincalhão. - O famoso príncipe irlandês?

     - Oh, não - respondeu Hogan. - Hamlet não era irlandês. Era um tonto. Boas-noites, tenente. Está na hora de ir para a cama.

     Hogan olhou para o quarto de Sharpe. Teria confiado a sua vida ao fuzileiro, confiava nele sem a mínima dúvida, mas seria o mesmo ante uma mulher? Estaria indefeso, desarmado; uma jovem podia fazer-lhe o que um batalhão de franceses nunca conseguiria. Hogan foi andando a murmurar pelo pátio vazio, repetindo o verso uma e outra vez, como se, por acaso, a repetição o tornasse menos verdadeiro. “A beleza move os tolos mais do que o dinheiro.”

    

     O Senhor é o oficial de serviço? Sharpe confirmou.

     O oficial comissário, um tenente gorducho, sorriu alegremente e fechou a porta.

     - Boas-tardes, meu Capitão. Pode assinar?

     - Para quê?

     - O tenente ficou surpreendido. Olhou o bocado de papel que estendia a Sharpe.

     - Terceiro Batalhão de Destacamentos, não é verdade? Sharpe confirmou.

     - O seu aprovisionamento, meu Capitão. Voltou a mostrar-lhe a relação.

     - Pode assinar, meu Capitão?

     - Espere - disse Sharpe olhando para a relação. - Setecentas e cinquenta libras de carne de vaca? Que generosos, não acha?

     O tenente esboçou um sorriso profissional.

     - Receio que isto não seja só para hoje, meu Capitão. É também para os próximos três dias.

     - O quê? Três dias? Mas isso é só metade, raios! O tenente estendeu os braços.

     - Eu sei, meu Capitão, eu sei, mas é o melhor que podemos fazer. Assina? Sharpe tirou o chapéu e as armas de cima da mesa.

     - Onde estão?

     O tenente suspirou.

     - Creio que não quer...

     - Onde estão?

     A voz de Sharpe ecoou na pequena divisão. O tenente sorriu, abriu a porta, e fez sinal a Sharpe indicando-lhe o pátio onde estava o grupo de trabalho do tenente junto a uma fila de mulas carregadas. O tenente levantou a tampa de uma barrica com bocados de carne de vaca recém-abatida.

     - Meu Capitão?

     Sharpe pegou no primeiro bocado e agitou-o em frente ao rechonchudo oficial comissário.

     - Nem sequer pode andar em cima dela.

     O tenente sorriu, já tinha ouvido aquilo noutras ocasiões. Sharpe tirou outro bocado de cartilagem da barrica.

     - Isto não é comestível! Quantas barricas é que tenho? O tenente apontou para as mulas.

     - Tudo isso, meu Capitão.

     Sharpe olhou para além do pátio, para a rua iluminada. Havia outra mula pacientemente à espera sob o sol do entardecer.

     - E o que é aquilo?

     - Uma mula, meu Capitão.

     O tenente sorriu generosamente. Viu a cara de Sharpe.

     - Desculpe, meu Capitão. É apenas uma pequena piada - disse, ficando sério. - São as provisões para o castelo, meu Capitão. Para Sir Arthur. Está a ver?

     - Tem a certeza?

     Sharpe desceu a arcada até à mula, com o tenente ao lado, e fez sinal ao arrieiro para que se fosse embora.

     - Acontece que esta manhã é dia de entrega de provisões no castelo, tenente, e não faltava nada.

     O tenente sorriu impotente. Sharpe mentia, sabiam-no os dois, mas o tenente também mentia, e também os dois o sabiam. Sharpe levantou a tampa da barrica que estava mais próxima.

     - Isto, tenente, sim, é carne de vaca. Ficarei com duas barricas destas em vez de duas das outras.

     - Mas, meu Capitão! Isto é para...!

     - Para o seu jantar, tenente? E o senhor e os seus companheiros oficiais venderão o resto. Não é verdade? Fico com isto,

     O tenente voltou a fechar a barrica.

     - Meu Capitão, permita-me que lhe ofereça um excelente frango que encontrámos. Claro que é oferecido.

     Sharpe pôs a mão em cima da mula.

     - Quer que eu assine, tenente? Creio que primeiro vou pesar a carne. O tenente sentia-se derrotado. Sorriu alegremente e entregou a relação a Sharpe.

     - Não quero que tenha esse incómodo. Digamos que o senhor fica com todas as barricas, incluindo estas?

     Sharpe concordou. O regateio do dia tinha acabado e o seu próprio grupo de trabalho descarregou as mulas e levou a carne para fora de Oropesa onde estavam aquartelados os homens do batalhão. A situação de abastecimento era desesperada e estava mesmo a piorar. O exército espanhol tinha esperado em Oropesa e havia tempo que tinham comido tudo o que restara pelos arredores. As ruas íngremes da cidade estavam cheias de tropas, espanholas, britânicas e alemãs da Legião, e já surgiam desavenças entre os aliados. Patrulhas inglesas e alemãs da Legião tinham emboscado os carros de víveres espanhóis, tinham até matado os guardas, para ficarem com os alimentos que Cuesta prometera a Wellesley mas que não lhe entregara. As esperanças que o exército tinha de chegar a Madrid em meados de Agosto tinham-se desvanecido ao ver que as tropas espanholas continuavam à espera. O regimento de Santa Maria estava em Oropesa e desfilava debaixo de bandeiras novas e enormes, e Sharpe interrogou-se sobre se o general Cuesta não tinha limites na altura de substituir os trofeus que iam parar a Paris. Enquanto descia a encosta viu dois oficiais com as compridas espadas metidas debaixo do braço, estranha moda espanhola, e não havia nada neles, nem os seus esplêndidos uniformes, nem os seus finos cigarros, que desse uma pequena sensação de alívio a Sharpe a respeito de exército de Espanha.

     Ele mesmo sentia fome enquanto seguia rua abaixo. O criado de Josefina tinha arranjado comida, a um certo preço, e pelo menos naquela noite ia comer, ainda que cada bocado custasse quase o vencimento de um dia. Os dois quartos que ela tinha encontrado custavam por noite o vencimento de quinze dias, mas ao diabo com isso, pensou. Se acontecesse o pior e se visse obrigado a escolher entre um posto nas índias Ocidentais e ficar como civil, era melhor maldizer logo o maldito dinheiro e desfrutá-lo agora no aluguer de quartos, pagar os olhos da cara por um frango ossudo que ao cozer se convertia em restos acinzentados, e levar dentro de si a febre da recordação do corpo de Josefina e do extraordinário luxo de um leito amplo e partilhado. De momento apenas tinha a recordação da noite na pousada, uma vez que ela tivera de se lhe adiantar, escoltada contra vontade por Hogan, enquanto Sharpe passava dois dias a marchar entre o pó e o calor com o batalhão. Tinha-a visto por um momento ao meio-dia, ficado deslumbrado por um sorriso de boas-vindas, e agora dispunha de toda uma noite, de uma longa noite, já que no dia seguinte não haveria marcha.

     - Meu Capitão!

     Sharpe voltou-se. O sargento Harper corria na sua direcção; vinha outro homem ao lado dele, um homem da Companhia Ligeira do South Essex.

     - Meu Capitão!

     - Que se passa?

     Sharpe reparou que Harper parecia excitado e preocupado, algo pouco habitual, mas sentiu uma pontada de impaciência ao retribuir a saudação. Malditos! Queria ir ter com Josefina.

     - E então?

     - Os desertores, meu Capitão. Harper quase se torcia de vergonha.

     - Desertores?

     - Já sabe, meu Capitão. Os que fugiram em Castelo. No dia em que se tinham reunido com o South Essex. Sharpe recordava-se que os homens tinham sido açoitados porque quatro desertores se tinham escapado por entre a guarda durante a noite. Olhou duramente para Harper.

     - Como é que sabe?

     - Kirby é companheiro deles, meu Capitão.

     Apontou para o homem que estava com ele. Sharpe olhou para ele. Era um homem pequeno a quem tinham caído quase todos os dentes.

     - E então, Kirby?

     - Não sei, meu Capitão.

     - Queres que te açoitem, Kirby?

     Os olhos do homem viraram-se para os seus, surpreendido.

     - Como, meu Capitão?

     - Se não me disseres, tenho de presumir que os estás a ajudar a fugir. Harper e Kirby estavam calados. Por fim o sargento olhou para Sharpe.

     - Kirby viu um deles na rua, meu Capitão. Foi com ele. Dois estão feridos, meu Capitão. Kirby veio ter comigo.

     - E o senhor vem ter comigo - disse Sharpe asperamente. - E o que espera que eu faça?

     Mais uma vez nada disseram. Sharpe sabia que tinham esperança que ele fizesse um milagre, que de qualquer maneira o afortunado capitão Sharpe encontrasse um modo de salvar os quatro homens do selvagem castigo que o exército infligia aos desertores. Sentiu-se impaciente, ao mesmo tempo que uma tremenda raiva se apoderava de si. Que pensavam eles que ele era?

     - Vá buscar seis homens, sargento. Três fuzileiros e três dos outros. Encontrar-nos-emos aqui dentro de cinco minutos. Kirby, fica aqui.

     Harper pôs-se em sentido.

     - Mas, meu Capitão...

     - Vá-se embora!

     O ar era transparente, aquele tipo de luz mesmo antes do crepúsculo quando o sol parece suspenso num líquido colorido. Zumbiu um mosquito irritante à volta da cara de Sharpe e este espantou-o. Os sinos da igreja tocaram o Angelus, uma mulher passou a correr rua abaixo e benzeu-se, e Sharpe blasfemou interiormente porque tinha prometido a Josefina que iria ter com ela às seis em ponto. Malditos desertores! O sargento pensava realmente que Sharpe iria perdoar a deserção? Junto a ele, assustado e nervoso, Kirby impacientava-se olhando para a rua e Sharpe pensou com tristeza no que aquilo significaria para o batalhão. Todo o exército se sentia frustrado, mas pelo menos podia olhar o futuro com uma mistura de medo e ânsia para a inevitável batalha que dava um certo sentido ao seu presente incómodo. O South Essex  não partilhava dessas esperanças. Fora desonrado em Valdelacasa, a sua bandeira tinha sido vergonhosamente perdida e os homens não tinham vontade nenhuma de combater de novo. O South Essex estava amargurado e de mau humor. Qualquer dos seus homens teria desejado o melhor para os desertores.

     Harper voltou com os homens, todos eles armados, todos eles olhando com apreensão para Sharpe. Um deles perguntou nervoso se podia atirar contra os desertores.

     - Não sei - exclamou Sharpe. - Guie-nos, Kirby.

     Caminharam encosta abaixo até à parte mais pobre da cidade, até um emaranhado de becos, onde crianças meias nuas brincavam entre a porcaria que se atirava dos bacios para a rua. A roupa lavada pendia entre as varandas, tapando a luz, e a estreiteza entre as paredes parecia produzir mais peste. Era um cheiro que os homens tinham conhecido pela primeira vez em Lisboa e ao qual se tinham habituado, se bem que a sua origem fizesse com que caminhar pelas ruas noite fora fosse um caso nauseabundo e arriscado. Os homens iam calados e ressentidos, seguiam Sharpe contra vontade para levar a cabo um trabalho que preferiam não fazer.

     - Aqui, meu Capitão.

     Kirby apontou para uma casa que pouco mais era do que uma cabana. Estava parcialmente derrocada e o resto parecia que ia abater a qualquer momento, Sharpe virou-se para os homens.

     - Esperem aqui. Sargento Peters, venha comigo.

     Peters era do South Essex. Sharpe tinha-o como homem sensato e era mais velho do que a maioria. Precisava de alguém do mesmo batalhão que os desertores, de modo que ninguém pudesse pensar que o fuzileiro de casaca verde conspirara contra o South Essex.

     Empurrou a porta para a abrir. Quase esperava que estivesse alguém escondido com uma arma, mas em vez disso encontrou-se num quarto incrivel-mente sujo. Os quatro homens estavam no chão, dois deitados e os outros dois sentados junto às brasas amortecidas do lume. A luz filtrava-se pelos buracos que já tinham sido janelas e através do telhado e dos pisos de cima destruídos. Os homens estavam andrajosos.

     Sharpe atravessou o quarto em direcção aos homens doentes. Pôs-se de joelhos e olhou para a cara deles; estavam pálidos e a tremer, quase sem pulso. Voltou-se para os outros.

     - Quem são vocês?

     - Cabo Moss, meu Capitão.

     O homem tinha barba de quinze dias e as faces cavadas. Era óbvio que não comiam havia muito.

     - Este é o soldado Ibbotson - disse, apontando para o companheiro. E aqueles são os soldados Campbell e Trapper, meu Capitão.

     Moss comportava-se com formalidade e educação, como se aquilo o fosse salvar do seu destino. O ar estava carregado de pó, o quarto estava cheio do fedor da doença e da porcaria.

     - O que fazem em Oropesa?

     - Vimos juntar-nos ao regimento, meu Capitão - disse Moss com demasiada rapidez.

     Fez-se silêncio. Ibbotson aproximou-se do lume apagado e ficou a olhar para o chão por entre os joelhos. Era o único que tinha arma, uma baioneta que mantinha na mão esquerda, e Sharpe calculou que ele não aprovava o que estava a acontecer.

     - E as vossas armas?

     - Perdemo-las, meu Capitão. E os uniformes também. Moss pretendia comprazer.

     - Quer dizer que os venderam.

     - Sim, meu Capitão - respondeu Moss encolhendo os ombros.

     - E beberam com o dinheiro?

     - Sim, meu Capitão.

     De repente ouviu-se um ruído no quarto do lado e Sharpe deu uma volta para olhar para a porta. Não havia lá nada. Moss abanou a cabeça.

     - São as ratazanas, meu Capitão. Exércitos de asquerosas ratazanas.

     Sharpe voltou a olhar para os desertores. Ibbotson olhava agora fixamente para ele, com os olhos fixos de um louco fanático. Sharpe perguntou-se se ele planeava usar a baioneta.

     - O que faz aqui, Ibbotson? Não se quer juntar ao regimento?

     O homem não disse nada. Em vez disso levantou o braço que tinha escondido atrás das costas. Não tinha mão, só um coto envolto em trapos ensanguentados.

     - Ibbs meteu-se numa zaragata, meu Capitão - disse Moss. - Perdeu a mão. Já não lhe serve de nada, meu Capitão. Não é canhoto, sabe - acrescentou com rancor.

     - Quer dizer que não serve aos franceses. Houve um silêncio. O pó pesava no ar.

     - Assim é - falou Ibbotson.

     A voz dele era culta. Moss tentou fazê-lo calar, mas Ibbotson não fez caso do cabo.

     - Poderíamos estar com os franceses há uma semana, mas estes loucos resolveram beber.

     Sharpe olhou-o fixamente. Era estranho ouvir uma voz educada a surgir daqueles farrapos, barbas e ligaduras ensopadas em sangue. O homem estava doente, provavelmente tinha gangrena, mas agora pouco se importava. Ao admitir que corriam para o inimigo, Ibbotson tinha condenado os quatro. Se os tivessem apanhado a tentar chegar a um país neutro, podiam ter sido enviados, tal como Sharpe, para uma guarnição nas índias Ocidentais onde a febre os mataria de qualquer maneira; assim só havia um castigo para os homens que se passavam para o inimigo. O cabo Moss sabia isso. Levantou os olhos para Sharpe e rogou-lhe:

     - Na verdade, meu Capitão, não sabíamos o que estávamos a fazer. Esperámos aqui, meu Capitão...

     - Cala a boca, Moss!

     Ibbotson olhou-o com frieza e depois virou-se para Sharpe, levantando a baioneta com a mão ainda que só para dar ênfase ao comentário.

     - Vamos perder esta guerra. Qualquer parvo o veria! Há mais exércitos franceses do que todos os que a Inglaterra pode formar em cem anos. Olhe para si! - A voz estava cheia de desprezo. - Pode vencer um general, e a seguir outro, mas continuarão sempre a vir! E vencerão! E sabe porquê? Porque têm um ideal. Chama-se liberdade, e justiça e igualdade!

     Deteve-se de repente com os olhos brilhantes.

     - O que é você, Ibbotson? - perguntou Sharpe.

     - Um homem.

     Sharpe sorriu ao ouvir a resposta que soou com dramático desafio. A discussão não era nova, podia contar-se com o fuzileiro Tongue para a repetir a maior parte das noites, mas Sharpe tinha curiosidade em saber o que fazia um homem educado como Ibbotson nas fileiras do exército e pregando as contra-senhas francesas da liberdade.

     - O senhor é culto, Ibbotson. De onde é?

     Ibbotson não respondeu. Por trás dele, Sharpe ouviu Harper e Peters arrastando os pés pelo chão duro. Moss aclarou a garganta e apontou para Ibbotson.

     - É filho de um vigário, meu Capitão - disse, como se isso explicasse tudo.

     Sharpe olhou para Ibbotson. Filho de um vigário? Talvez o pai tivesse morrido ou fosse uma família muito grande e a penúria podia ter chegado por qualquer dos caminhos. Porque teria o destino levado Ibbotson a alistar-se no exército? Para medir a sua insignificante força com os bêbados e endurecidos criminosos que eram o vulgar rebotalho que ia parar às unidades de recrutamento? Ibbotson voltou a olhá-lo fixamente e então, para desagrado de Sharpe, começou a chorar. Largou a baioneta e escondeu o rosto no ângulo do seu cotovelo esquerdo e Sharpe perguntou-se se de repente se tinha posto a pensar no jardim de um vicariato junto a uma igreja e numa mãe saudosa a cozer pão num cálido Verão inglês. Voltou-se para Harper.

     - Estão presos, sargento. Esses dois terão de ser levados. - Saiu do casebre para o beco pestilento.

     - Kirby?

     - Meu Capitão?

     - Pode ir-se embora.

     O homem saiu a correr. Sharpe não queria que se encontrasse cara a cara com os quatro desertores cuja prisão provocara.

     - Os outros, lá para dentro.

     Olhou para cima entre as estreitas paredes que mostravam um pedacinho de céu. Algumas andorinhas passaram pela abertura, as cores escureciam com a noite, e no dia seguinte haveria execuções. Mas primeiro estava Josefina.

     Harper aproximou-se da porta.

     - Estamos prontos, meu Capitão.

     - Vamos então.

    

     Sharpe acordou sobressaltado, sentou-se, levou a mão instintivamente a uma arma e então, dando-se conta de onde estava, voltou a afundar-se na almofada. Estava coberto de suor, apesar de a noite estar fresca e uma suave brisa agitar as pontas das cortinas de ambos os lados da janela aberta, através da qual se via a lua cheia. Josefina estava sentada junto à cama, observando-o, com um copo de vinho na mão.

     - Estavas a sonhar.

     - Sim.

     - Com quê?

     - Com a minha primeira batalha. - Não disse mais nada, mas no seu sonho não tinha sido capaz de carregar a Brown Bess: a baioneta e o cano não encaixavam, e os franceses iam-se aproximando a rir do rapaz espantado nas planícies húmidas da Flandres. Era em Boxtel, e raras vezes pensava na confusa batalha sobre o campo húmido. Olhou para a rapariga.

     - E tu? - perguntou dando umas palmaditas sobre a cama. - Porque estás levantada?

     Ela encolheu os ombros.

     - Não conseguia dormir.

     Tinha vestido uma espécie de bata escura e só eram visíveis a cara e a mão que sustinha o copo no quarto às escuras.

     - Porque é que não conseguias dormir?

     - Estava a pensar no que disseste.

     - Não tem por que acontecer.

     - Não - respondeu ela sorrindo.

     Um cão ladrava em qualquer ponto da cidade, ainda que não se ouvissem outros ruídos. Sharpe pensou nos prisioneiros e perguntou-se se estariam a passar a última noite acordados e a ouvir o mesmo cão. Recordou a noite anterior em que tinha voltado da prisão militar e a larga conversa que tivera com Josefina. Ela queria ir para Madrid, estava desesperada por chegar a Madrid, e Sharpe disse-lhe que não achava provável que os aliados chegassem até à capital de Espanha. Sharpe acreditava que Josefina não sabia muito bem porque queria chegar a Madrid, era a cidade sonhada por ela, o seu pote de ouro no final do arco-íris, e ele tinha ciúmes do desejo dela por lá chegar.

     - Porque é que não queres voltar para Lisboa?

     - A família do meu marido não me receberia bem, pelo menos nestas circunstâncias.

     - Ah, Edward.

     - Duarte - corrigiu de forma automática.

     - Então volta para casa.

     Já tinham tido aquela conversa anteriormente. Ele tentava obrigá-la a recusar cada opção, excepto a de que ficasse perto dele, como se acreditasse que se podia permitir a isso.

     - A casa? Tu não compreendes. Obrigar-me-ão a esperar por ele tal como os seus pais. Num convento ou num quarto escuro, não importa.

     A voz dela tinha indícios de desespero. Tinha sido criada no Porto, filha de um comerciante bastante rico a ponto de se dar com as famílias inglesas importantes que dominavam o comércio portuário. Tinha aprendido inglês desde pequena porque era esta a língua dos ricos e poderosos da sua terra. Então casara-se com Duarte, dez anos mais velho que ela e guardião dos Falcões Reais de Lisboa. Era um cargo de cortesão, longe de qualquer falcão, e ela adorava o brilho do palácio, os bailes, a vida elegante. Depois, havia dois anos, quando a família real fugira para o Brasil, Duarte tinha levado uma amante em vez da mulher e deixou-a na grande casa com os pais e as irmãs dele.

     - Queriam que eu entrasse para um convento. Imagina! Que o esperasse num convento, uma mulher respeitosa, enquanto ele gerava bastardos com aquela mulher?

     Sharpe rebolou em cima da cama para sair de lá e dirigiu-se à janela. Apoiou-se na madeira negra, esquecendo-se da sua nudez, e olhou fixamente para leste, como se pudesse ver no céu da noite os reflexos das fogueiras francesas. Ali estavam, a um dia de marcha, mas não se via nada mais do que o luar sobre o campo e os telhados inclinados da cidade. Josefina aproximou-se, pôs-se ao seu lado e passou os dedos pelas cicatrizes das costas dele.

     - O que se passará amanhã? Sharpe voltou-se e olhou para ela.

     - Matá-los-ão com um tiro.

     - É rápido?

     - Sim.

     Não precisava de lhe explicar as vezes em que os tiros falham e os oficiais tinham de se aproximar e disparar-lhes na cabeça com uma pistola. Passou-lhe o braço por trás e atraiu-a a si. Ela reclinou a cabeça no peito dele, os dedos ainda a explorarem as cicatrizes das costas.

     - Tenho medo - disse ela com voz suave.

     - Deles?

     - Sim.

     Gibbons e Berry tinham estado na prisão militar quando levaram os desertores para lá. Sir Henry estava lá, esfregando as mãos, e tão entusiasmado estava com a captura dos fugitivos que agradecera efusivamente a Sharpe, esquecendo, de repente, toda a inimizade. O conselho de guerra fora uma formalidade, uma questão de minutos, e em seguida o papel fora assinado pelo general; o destino dos quatro homens estava selado. Sharpe, por um momento, ficara na sala com os dois tenentes que não lhe tinham dito nada. Tinham falado em voz baixa, com alguns risos, olhando para ele como que para lhe provocarem a sua ira, mas não era o local nem o momento adequados. Haveria de chegar. Ele puxou-lhe a cabeça para si.

     - Precisarias de mim se eles não estivessem aqui? Ela assentiu.

     - Tu ainda não compreendes. Sou uma mulher casada e fugi. Oh, já sei que ele fez pior, mas isso não conta. No dia em que deixei os pais de Duarte fiquei só. Compreendes? Não posso regressar, os meus pais não me perdoariam. Pensava que em Madrid... - A voz foi-se apagando.

     - E Christian Gibbons disse que tomaria conta de ti em Madrid? Voltou a assentir.

     - Iam outras raparigas, já o sabes. Há tantos oficiais. Mas agora... - voltou a calar-se. Ele já sabia no que ela pensava.

     - Agora estás preocupada. Não consegues chegar a Madrid, e estás com alguém que não tem dinheiro e pensas em todas essas noites nos campos ou em cabanas cheias de moscas.

     Ela sorriu-lhe e Sharpe sentiu o tormento da sua beleza.

     - Um dia, Richard, serás um coronel com um grande cavalo e montes de dinheiro, e serás terrível para com todos esses capitães e tenentes.

     Ele riu-se.

     - Mas não o bastante depressa para ti?

     Tinha dito a verdade, sabia-o, mas isso não ajudava. Havia outras raparigas, raparigas de boas famílias como Josefina, que se tinham exposto a tudo e tinham corrido atrás dos soldados. Mas não eram casadas, tinham arranjado refúgio num casamento rápido e as suas famílias tinham-se visto obrigadas a aceitar o melhor possível. Mas e Josefina? Sharpe sabia que ela encontraria um homem mais rico que ele, um oficial de cavalaria com dinheiro para lhe oferecer e com bom olho para as mulheres, e o afecto dela por Sharpe seria ultrapassado diante da necessidade de conforto e segurança. Apertou-a firmemente contra o peito, sentindo que o ar da noite lhe arrefecia a pele.

     - Tomarei conta de ti.

     - Prometido? - disse ela em voz apagada.

     - Prometido.

     - Então não vou ter medo - disse afastando-se um pouco. - Tens frio?

     - Não importa.

     - Anda - disse ela levando-o de novo para o quarto às escuras.

     Ele sabia que lhe pertencia por pouco tempo, apenas por pouco tempo, e isso entristecia-o. Lá fora, o cão ladrava para o céu vazio.

    

     O batalhão estava formado em companhias dando forma aos lados um quadrado. O quarto lado, em lugar do triângulo para as vergastadas, estava ocupado por dois planos inclinados que cresciam junto a um tanque pouco profundo. As bordas do tanque tinham sido pisadas pela cavalaria; o barro tinha secado e convertera-se em torrões ocres raiados de espuma verde. Entre as árvores tinha-se colocado o tambor do batalhão e sobre a pele cinzenta e tensa repousavam uma Bíblia aberta e um livro de orações. Não havia vento que pudesse virar as páginas, e o sol seguia o seu interminável assalto sobre a planície e sobre os homens que suavam em sentido com o uniforme de gala.

     Sharpe estava diante da Companhia Ligeira, à esquerda da linha, e olhava por cima das cabeças da Companhia de Granadeiros, em frente ao Castelo de Oropesa que dominava a planície. As suas muralhas erguiam-se como lousas de pedra por cima dos telhados da cidade e Sharpe pensou inutilmente no que devia ter sido cavalgar completamente vestido com uma armadura de cavaleiro durante a época em que o castelo fora um verdadeiro obstáculo. A moderna artilharia perfuraria as aparentemente sólidas muralhas e derrubaria as pedras sobre as inclinadas ruelas provocando avalanches devastadoras. O suor fazia-lhe arder os olhos, pingava-lhe pela casaca verde e escorria pela espinha. Sentia-se curiosamente despreocupado, não num estado adequado para presenciar o envio dos desertores para a eternidade, e enquanto olhava fixamente para o castelo pensou em Josefina e de algum modo chegou à conclusão, na luz da manhã, de que a combinação não era má de todo. Ela seria sua enquanto precisasse dele, em troca, oferecia-lhe felicidade e vida. E quando acabasse a dita combinação? Ele sabia que um bom soldado planeava sempre uma batalha quando a tinha pela frente, mas não podia fazer planos de momento para quando Josefina se fosse.

     Olhou para Gibbons que estava formado, montado no cavalo com a Companhia Ligeira.

     Simmerson montava no centro do quadrado junto ao general “Papá” Hill que, junto com os seus oficiais, tinha vindo cumprir o dever de observar como se levava a cabo a execução. Gibbons estava sentado, com uma expressão petrificada, e olhava fixamente para a frente. Tão depressa quanto a revista acabasse, Sharpe sabia que voltaria ao seguro amparo do tio; o tenente não tinha dito nem uma palavra a Sharpe, tinha simplesmente percorrido a companhia com o cavalo, dera a volta e permanecera sentado. Não havia nada a dizer. Sharpe sentia o ódio que o homem quase irradiava, a determinação de vingança, porque Sharpe não só conseguira a promoção que Gibbons queria, mas sim algo muito pior, o fuzileiro ficara também com a rapariga. Sharpe sabia que esse assunto não estava resolvido.

     Catorze homens, todos culpados de crimes menores, marcharam para o interior do quadrado e colocaram-se de frente para as árvores. O castigo deles era ser o pelotão de fuzilamento e enquanto os homens ali permaneciam, com os mosquetes apoiados no chão, olhavam fixamente com fascinação para as duas sepulturas recém-abertas e para os rudes caixões de madeira que esperavam Ibbotson e Moss. Os outros dois prisioneiros tinham morrido durante a noite. Sharpe pensava que Parton, o médico do batalhão, os tinha ajudado a percorrer esse caminho em vez de obrigar o batalhão a olhar para dois homens gravemente doentes atados a duas árvores e crivados de balas até à morte. Em criança tinha visto um enforcamento público e ouvira a multidão excitada quando as vítimas estrebuchavam e se debatiam bruscamente na forca. Tinha visto homens a sair voando da boca decorada dos canhões de bronze, com os corpos destroçados contra a paisagem indiana, companheiros torturados pelas mulheres do Tippoo, alimentando as bestas selvagens, ele próprio enforcara homens à beira dos caminhos; no entanto, a maior parte das vezes tinha visto homens executados por um tiro com toda a pompa de uma execução ritual. Nunca gostara do espectáculo; supunha que nenhuma pessoa de juízo gostava, mas sabia que era necessário. Aquela execução, no entanto, era ligeiramente diferente. Não é que Moss e Ibbotson não merecessem morrer, já que tinham desertado e pensado juntar-se ao exército inimigo, e não podiam esperar outro fim que não o pelotão de fuzilamento. No entanto, depois da batalha da ponte, das chicotadas de Simmerson, da sua insistente condenação por perder a bandeira, parte do batalhão via na execução o resultado do desprezo e o ódio contra eles. Sharpe poucas vezes tinha sentido nas tropas tal ressentimento.

     À distância, abrindo caminho por entre a multidão de espectadores britânicos e espanhóis, surgiu o destacamento de prisioneiros e guardas. Forrest aproximou o seu cavalo de Simmerson.

     - Batalhão! Armem baionetas!

     As lâminas guincharam ao saírem das bainhas e o aço correu pelas fileiras das companhias. Os homens devem morrer com a devida cerimónia. Sharpe viu que Gibbons se baixava para falar com o alferes de dezasseis anos, Denny.

     - É a sua primeira execução, Denny?

     O jovem assentiu. Estava pálido e inquieto, tal como os soldados mais jovens. Gibbons riu-se entre dentes.

     - É a melhor prática de tiro que os homens podem ter!

     - Cale-se! - gritou Sharpe, olhando-o com frieza. Gibbons sorriu às escondidas.

     - Batalhão!

     O cavalo de Forrest deu de lado. O major acalmou-o.

     - Ombro arma!

     Os homens perfilaram-se empunhando as baionetas. Fez-se silêncio. Os prisioneiros vestiam calças e camisa, não tinham casaca, e Sharpe supôs que as deviam ter ensopado em brande asqueroso ou rum. Um capelão caminhava junto a eles, o murmúrio das suas palavras mal chegava a Sharpe, mas os prisioneiros não pareciam dar-lhe importância ao serem conduzidos para as árvores. O drama avançava inexoravelmente. Moss e Ibbotson estavam atados a duas árvores, com os olhos vendados, e Forrest mandou pôr o pelotão de fuzilamento em sentido. Ibbotson, o filho do vigário, estava mais perto de Sharpe que o viu mover freneticamente os lábios. Estaria a rezar? Sharpe não entendia as palavras.

     Forrest não deu ordens. O pelotão de fuzilamento tinha sido treinado para obedecer a sinais mais do que a ordens. Apresentaram armas e apontaram ao ver os movimentos da espada do major. De repente, a voz de Ibbotson tornou-se clara e audível, o tom de culto cheio de desespero, e Sharpe reconheceu as palavras. “Pecámos e desviámo-nos do caminho como ovelhas perdidas...” Forrest baixou a espada, os mosquetes dispararam, os corpos estrebucharam freneticamente, e um bando de pássaros voou a chilrear dos ramos. Dois tenentes adiantaram-se a correr, de pistolas erguidas, mas as balas dos mosquetes tinham cumprido o seu trabalho e os corpos pendiam com os peitos ensanguentados e moídos em frente ao último fumo branco de mosquete.

     Um murmúrio, apenas audível, percorreu as filas do batalhão. Sharpe virou-se para os seus homens.

     - Silêncio!

     A Companhia Ligeira calou-se. O fumo do pelotão de execução sentia-se penetrante no ar. O murmúrio cresceu. Oficiais e sargentos gritaram ordens, mas os homens do South Essex tinham encontrado a forma de protestar e o murmúrio tornou-se mais insistente. Sharpe manteve a sua companhia calada, quase pela força, ficou a olhar para eles com ferocidade com a espada desembainhada, mas não podia fazer nada contra o desprezo que os seus rostos reflectiam. Não era dirigido a ele, era para Simmerson, e o coronel puxou bruscamente as rédeas no centro do quadrado e rugiu a pedir silêncio. O ruído elevou-se. Os sargentos correram para o interior das filas e bateram nos homens que pensavam que produziam o som, os oficiais gritavam às companhias, fazendo com que aumentasse o estrépito, mas por de trás do batalhão provinham as zombarias dos soldados britânicos de outras unidades, que tinham saído da cidade para assistirem à execução.

     Pouco a pouco o queixume e o murmúrio foram-se atenuando, tão lentamente como o fumo dos tiros se dissolveu no ar, e o batalhão ficou em silêncio. “Papá” Hill não se mexera nem dissera nada, mas agora dirigia-se aos seus ajudantes-de-campo e o pequeno grupo afastou-se delicadamente a trote, passou junto ao pelotão de fuzilamento que estava a levantar os corpos para os meter nos caixões, e foi em direcção a Oropesa. A cara de Hill era inexpressiva. Sharpe não conhecia o “Papá” Hill, mas sabia, como o resto do exército, que o general tinha reputação de ser agradável e considerado e Sharpe perguntava a si próprio o que opinava de Simmerson e dos seus métodos. Rowland Hill estava ao comando de seis batalhões mas Sharpe tinha a certeza de que nenhum lhe causaria tantos problemas como o South Essex.

     Simmerson aproximou o cavalo das sepulturas, puxou o animal para baixo e pôs-se de pé sobre os estribos. Tinha o rosto avermelhado, a sua raiva era óbvia e inflamada, a voz soava estridente no silêncio.

     - Hoje às seis da tarde haverá uma revista de castigo. Equipamento completo! Vão pagar por isto!

     Os homens ficaram em silêncio. Simmerson sentou-se na sela.

     - Major Forrest! Aja em conformidade!

     O batalhão desfilou, uma companhia atrás de outra, à frente os dois caixões abertos e os homens tiveram de olhar fixamente para os corpos destroçados que aguardavam sepultura. Isso, dizia o exército, é o que vos vai acontecer e mais que isso, pois os nomes dos mortos eram enviados para Inglaterra para serem afixados num qualquer painel da paróquia de maneira que a vingança recaísse também sobre as suas famílias. As companhias desfilaram pela frente, em silêncio.

     Quando o batalhão se foi e os outros espectadores tinham olhado para os restos de olhos muito abertos, um grupo de trabalho baixou os caixões às sepulturas. Deitaram terra nas covas, e voltaram a colocar as capas de erva de maneira que à primeira vista não se notasse que havia ali gente enterrada. Não estavam nitidamente demarcadas, essa era a última afronta, mas depois de os soldados partirem, os camponeses espanhóis encontraram as sepulturas e cravaram cruzes de madeira na erva. Não era uma questão de respeito, era simplesmente precaução de gente sensata. Os mortos eram protestantes, estavam enterrados fora de um cemitério, e as cruzes rudimentares estavam ali para fazer com que os seus espíritos agitados ficassem debaixo da terra. As gentes espanholas tinham já bastantes problemas com a guerra; os exércitos de França, Espanha e agora da Grã-Bretanha cruzavam uma e outra vez as suas terras. Pouco podia fazer um camponês contra isso, ou contra os homens que lutavam na guerrilha. Mas os fantasmas dos ingleses pagãos eram outra coisa. Que necessidade havia de espantarem o gado e espreitarem pelos campos durante a noite? Cravaram bem as cruzes e dormiram tranquilos.

    

     Em cada dez homens devia ser açoitado. Sessenta homens do batalhão, seis de cada companhia, e o capitão de cada uma das companhias tinha de entregar seis homens, nus da cintura para cima, prontos para serem atados aos triângulos de açoite que Simmerson mandara fazer aos carpinteiros da terra. O coronel tinha dado as suas ordens e olhava à volta, furioso, com os pequenos olhos sanguinolentos, para os oficiais reunidos.

     - Algum comentário?

     Sharpe respirou fundo. Dizer qualquer coisa era inútil, não dizer nada era cobardia.

     - Creio que não é boa ideia, meu Coronel.

     - O capitão Sharpe crê que não é boa ideia - disse Simmerson despejando acidez em cada palavra. - O capitão Sharpe, cavalheiros, está a dizer-nos como dirigir os homens. Porque é que não é boa ideia, capitão Sharpe?

     - Fuzilar dois homens de manhã e açoitar sessenta de tarde parece-me a mim que é fazer o trabalho dos franceses, meu Coronel.

     - Ah, sim. Bem, maldito seja, Sharpe, e malditas as suas ideias. Se a disciplina deste batalhão fosse aplicada tão rigorosamente pelos capitães como eu exijo, este castigo não seria necessário. Açoitá-los-ei! E isso inclui os seus valorosos fuzileiros, Sharpe! Espero que haja três deles entre os seus homens! Aqui não há favoritismos!

     Não havia nada que fazer nem que dizer. Os capitães explicaram-no às suas companhias e, tal como fez Sharpe, cortaram palhas e tiraram à sorte para determinar quem seriam as vítimas de Simmerson. Três dúzias de açoites vezes sessenta homens. Eram duas horas, as vítimas iam emborcando bebidas alcoólicas que pudessem debilitar-lhes a mente e os companheiros mal-humorados começaram a tarde limpando e pedindo o equipamento para a revista de Simmerson. Sharpe deixou-os a trabalhar e voltou à casa que desempenhava as funções de quartel-general do batalhão. Os problemas Pairavam no ar, um humor que evocava o tempo carregado que antecede uma tempestade, a alegria que Sharpe sentira de manhã fora substituída pelo receio do que se poderia passar antes de voltar à casa onde Josefina estava à espera dele, sonhando com Madrid.

     Passou a tarde a preencher laboriosamente os livros da companhia.

     Todos os meses, o diário tinha de ser copiado para o diário maior, e este tinha de ser entregue a Simmerson ao fim de uma semana para que o analisasse. Encontrou tinta, afiou a pena, e com a língua entre os dentes começou a anotar os detalhes. Podia ter delegado o trabalho no sargento encarregado dos livros, mas preferia fazê-lo ele próprio pois assim ninguém poderia acusar o sargento de favoritismos. Lançou na conta do soldado Thomas Cresacre uma escova de calçado nova. Cinco dinheiros. Sharpe suspirou; cada entrada para as colunas escondia uma pequena tragédia. Cresacre tinha atirado a escova à mulher e a madeira tinha-se partido contra uma parede de pedra. O sargento McGivern vira e tinha-o denunciado de modo que, para além dos problemas conjugais, Thomas Cresacre perderia cinco dinheiros dos doze diários que tinha como prémio. A segunda entrada do pequeno diário que andava no bolso de Sharpe era um par de sapatos para Jedediah Horrell. Sharpe teve dúvidas. Horrell garantia que lhe tinham roubado os sapatos e Sharpe inclinava-se para acreditar nele. Horrell era um bom homem, um robusto camponês da região central de Inglaterra, e Sharpe encontrava sempre o seu mosquete limpo e o equipamento em ordem. E Horrell já tinha sido castigado. Tinha marchado durante dois dias com botas emprestadas e tinha os pés feridos e inflamados. Sharpe riscou a entrada no seu diário e escreveu no diário maior “perdidas em acção”. Tinha poupado seis xelins e seis dinheiros ao soldado Horrell. Puxou para si o livro de equipamentos e copiou laboriosamente a informação do diário maior. Divertiu-o ver que Lennox já tinha apontado que cada homem tinha perdido um colarinho “em acção”, pelo que oficialmente os colarinhos, tal como as botas de Horrell, ficavam por conta do governo, em vez de ficarem a cargo do indivíduo que as tinha perdido. Permaneceu durante uma hora a copiar do diário para o diário maior e deste para o livro de contas as bagatelas de cada dia. Quando acabou foi para o livro da tropa. Este era mais simples. O sargento Read, o encarregado dos livros, já tinha registado o nome dos homens que tinham morrido em Valdelacasa e inscrevera os novos nomes, os dos fuzileiros de Sharpe. Em frente a cada um dos nomes de Sharpe anotou a quantia de três xelins e seis dinheiros, a soma lançada, todas as semanas, pelo custo da comida. Não era justo, sabia, já que os homens só recebiam meias rações e a questão era que a situação do aprovisionamento estava a piorar. Os comissários percorriam o vale do Tejo, havia frequentes recontros entre patrulhas inglesas e franceses para decidirem que bando podia revistar uma terra em busca de alimentos escondidos. Até se travaram batalhas entre os ingleses e os seus aliados espanhóis que não tinham entregado nem uma centésima parte dos víveres prometidos e, no entanto, entravam todos os dias rebanhos de ovelhas, vacas, cabras e porcos para os seus homens. Mas ele não tinha poder para reduzir a quantia que os homens pagavam se as rações não se entregassem completas. No entanto no final da página anotou que a quantia era o dobro do que correspondia à comida e tinha esperança que mais tarde se mandaria corrigir a injustiça. Na coluna seguinte registou quatro dinheiros em cada linha, o que tinha custado as mulheres lavarem a roupa. Lavar a roupa de um homem custava dezasseis xelins e quatro dinheiros por ano, o rancho mais de oito libras. Cada soldado ganhava um xelim por dia, dezassete libras e sessenta xelins por ano, mas uma vez deduzidas a comida, a lavagem de roupa, as meias solas e as capas, e o dinheiro de um dia que se perdia para ir aos hospitais militares de Chelsea e Kilmainham, sobravam a cada homem os três setes: sete libras, sete xelins e sete dinheiros, e Sharpe sabia, pela sua própria e amarga experiência, que se podiam considerar afortunados se conseguissem isso. Muitos homens perdiam mais dinheiro ao terem de substituir o equipamento perdido e a verdade era que se pagava a cada soldado quatro dinheiros e meio por dia para lutar contra os franceses.

     Como capitão, Sharpe recebia dez xelins e seis dinheiros por dia. Parecia uma fortuna, mas mais de metade ia-se na comida e além disso a messe dos oficiais cobrava um extra de dois xelins e oito dinheiros por dia para pagar o vinho, a comida de luxo e o rancho dos criados. Pagava mais pela limpeza e pelos hospitais e conhecia a soma de cor. Simplesmente não somava. E agora Josefina custava-lhe dinheiro. Hogan tinha-lhe emprestado e, somado ao conteúdo da sua bolsa de cabedal, tinha o suficiente para os próximos quinze dias, mas o que se passaria depois? A sua única esperança era encontrar o cadáver de um homem rico no campo de batalha. O cadáver de um homem muito rico.

     Sharpe terminou os livros, fechou-os, deixou a pena em cima da mesa e bocejou ao mesmo tempo que o relógio da cidade batia as quatro. Voltou a abrir o livro de tropa semanal e deu uma vista de olhos aos nomes, perguntando-se com morbidez quantos deles estariam ainda ali ao fim de uma semana e em quantos deles apareceria na coluna à frente a palavra “falecido”. Registariam o seu nome? Outro oficial olharia para o livro maior e perguntaria quem tinha escrito “cinco dinheiros, uma escova de calçado” em frente ao nome de Thomas Cresacre? Voltou a fechar os livros. Era tudo pura especulação. Havia um mês que não pagavam ao exército, e mesmo que o fizessem nem assim os pagamentos estariam em dia. Entregaria os livros ao sargento Read, que os guardaria na mula da companhia e quando chegasse o pagamento, então efectuava-o, Read faria as deduções registadas nos livros e pagaria aos homens um punhado de moedas. Alguém bateu à porta.

     - Quem é?

     - Sou eu, meu Capitão. - Era a voz de Harper.

     - Entre.

     A cara de Harper estava triste, o seu comportamento era muito formal.

     - E então, sargento?

     - Temos problemas, meu Capitão, e grandes. Os homens negam-se a formar.

     Sharpe recordou-se do seu receio.

     - Que homens?

     - Todo o maldito batalhão, meu Capitão. Incluindo os nossos rapazes. Quando Patrick Harper falava nos “nossos rapazes” queria dizer os fuzileiros. Sharpe pôs-se de pé e embainhou o grande sabre.

     - Quem mais sabe?

     - O coronel, meu Capitão. Os homens enviaram-lhe uma carta. Sharpe soltou uma maldição em voz baixa.

     - Enviaram-lhe uma carta? E quem a assinou? Harper abanou a cabeça.

     - Ninguém a assinou, meu Capitão. Diz simplesmente que não vão formar e se se aproximar far-lhe-ão voar a maldita cabeça.

     Sharpe pegou na espingarda. Havia uma palavra que descrevia o que se estava a passar e essa palavra era “motim”. A ordem de Simmerson de açoitar um em cada dez podia converter-se facilmente na ordem de os dizimar, e em vez de os açoitar, os homens seriam colocados contra árvores e a seguir fuzilados. Olhou para Harper.

     - O que se está a passar?

     - Falam muito, meu Capitão. Estão a entrincheirar-se no depósito de madeira.

     - Todos? Harper negou com a cabeça.

     - Não, meu Capitão. Ainda há uns duzentos na horta. A sua companhia está lá, meu Capitão, mas os rapazes do depósito estão a tentar convencê-los a unirem-se a eles.

     Sharpe abanou a cabeça. O batalhão estava acampado num olival a que os homens chamavam horta, simplesmente porque as árvores estavam dispostas em filas. O olival ficava por trás do depósito de madeira, um pátio murado com uma única entrada.

     - Quem entregou a carta?

     - Não sei, meu Capitão. Puseram-na por baixo da porta da casa de Simmerson.

     Sharpe apressou-se a sair. O pátio da casa estava sombrio e em silêncio, a maior parte dos oficiais tinha ido conhecer a cidade antes de marchar na manhã seguinte ao encontro dos franceses.

     - Há algum oficial no depósito?

     - Não, meu Capitão.

     - E os sargentos?

     O rosto de Harper era inexpressivo. Sharpe supôs que muitos dos sargentos secundariam o protesto, mas tal como o enorme irlandês, conheciam melhor que os seus homens qual seria o resultado se o batalhão se negasse a formar.

     - Espere aqui.

     Sharpe voltou à casa a correr. As divisões estavam frescas e vazias. Uma mulher olhou-o da cozinha, com uma réstia de pimentos na mão, e fechou a porta rapidamente quando viu a cara dele. Sharpe subiu os degraus dois a dois e abriu de par em par a porta do quarto em que estavam alojados os oficiais mais jovens da Companhia Ligeira. Estava apenas o alferes Denny, o jovem de dezasseis anos, a dormir deitado sobre um colchão de palha.

     - Denny!

     O rapaz acordou, assustado.

     - Meu Capitão!

     - Onde está Knowles?

     - Não sei, meu Capitão, creio que na cidade.

     Sharpe deteve-se por um momento a pensar. O rapaz olhava-o fixamente, do colchão, com os olhos bem abertos. Sharpe agarrava uma e outra vez o punho da espada.

     - Reuna-se comigo no pátio assim que estiver vestido. Depressa. Harper esperava na rua onde o calor do sol aquecia as pedras de tal maneira que Sharpe sentia o ardor mesmo através das solas das botas.

     - Sargento, quero a companhia formada dentro de cinco minutos no caminho por trás do olival. com toda a equipagem.

     O sargento abriu a boca para fazer uma pergunta, mas viu a expressão na cara de Sharpe e preferiu fazer continência. Denny saiu do pátio afivelando o sabre que arrastava pelas pedras a seu lado. Parecia receoso quando Sharpe se virou para lhe falar.

     - Oiça com atenção. Tem de averiguar onde está o coronel Simmerson e o que está a fazer. Entendido?

     O rapaz confirmou.

     - E procure que não se inteire do que o senhor anda a fazer. Tente no castelo. A seguir venha buscar-me. Estarei no caminho por trás do olival ou na praça em frente ao depósito de madeira. Se não estiver em nenhum desses sítios procure o sargento Harper e espere com ele. Entendido?

     Denny voltou a confirmar com a cabeça.

     - Repita-mo.

     O rapaz repetiu as instruções. Queria desesperadamente perguntar a Sharpe a que se devia tanta excitação mas não se atreveu. Sharpe confirmou quando o rapaz acabou.

     - Mais uma coisa, Christopher - disse utilizando deliberadamente o nome de baptismo do rapaz para lhe dar segurança. - Não deve entrar no depósito de madeira, sob qualquer pretexto. Agora, vá. Se vir o tenente Knowles, o comandante Forrest ou o capitão Leroy, diga-lhes que se puderem venham ter comigo! Rápido!

     Denny apertou a espada à cintura e abalou a correr. Sharpe gostava dele. Um dia seria um bom oficial se antes não fosse trespassado pela baioneta de um granadeiro francês. Sharpe rodeou a colina até ao depósito de madeira e aos alojamentos dos homens. Só havia uma maneira de impedir o desastre, e era fazer formar o batalhão o mais rapidamente possível, antes de Simmerson ter tempo de reagir ante a ameaça de motim.

     Atrás dele ressoaram os cascos de um cavalo e voltou-se para ver um cavaleiro que lhe fazia sinais com a mão. Era o capitão Sterritt, o oficial de dia, que parecia compreensivelmente nervoso.

     - Sharpe!

     - Sterritt?

     Sterritt deteve o cavalo.

     - Há uma convocatória para que todos os oficiais se apresentem no castelo.

     - O que se passa?

     Sterritt olhou freneticamente à volta para as ruas desertas, como se alguém pudesse ouvir o novo desastre que tinha caído sobre o batalhão de Simmerson. Sharpe quase não voltara a ver Sterritt desde a batalha da ponte. O homem tinha um medo evidente de Simmerson, dos homens, de Sharpe, de toda a gente, e procurava passar despercebido. Resumiu-lhe os acontecimentos do depósito de madeira. Sharpe interrompeu-o.

     - Isso já eu sei. O que se passa no castelo?

     - O coronel pediu para falar com o general Hill.

     Ainda estava a tempo. Levantou os olhos para o assustado capitão.

     - Escute. Você não me viu. Entendido, Sterritt? Não me viu.

     - Mas...

     - Não há mas nem meio mas. Quer que fuzilem esses sessenta homens? Sterritt abriu a boca. Voltou a olhar para as ruas em redor e dirigiu-se a Sharpe.

     - As ordens do coronel são para que ninguém se aproxime do depósito de madeira.

     - Você não me viu, assim, como é que posso ter conhecimento das ordens?

     - Oh - respondeu Sterritt, sem saber como reagir.

     Viu que Sharpe se afastava rua abaixo e desejou, uma vez mais, ter nascido quatro anos mais cedo; então teria sido o herdeiro e agora seria um latifundiário. Assim sentia-se um boneco arrastado pela corrente. Voltou-se tristemente para o castelo perguntando-se em que é que ficaria tudo aquilo.

     Em frente do depósito de madeira havia um enorme espaço aberto como o terreno comunitário de uma aldeia inglesa, só que a erva aqui era amarelada e crescia humildemente sobre a terra escassa. Aquele terreno era usado para o mercado semanal, mas agora servia de terreno de jogos para os soldados de uma dúzia de batalhões. Sharpe viu tropas do 48 e do 29, e uma companhia dos Fuzileiros Reais Americanos cujas casacas verdes lhe trouxeram à lembrança dias mais felizes. Os homens aplaudiam e animavam os jogadores; Sharpe pensou que em breve teriam um espectáculo mais interessante para assistir.

     Virou à esquerda, junto a um muro do depósito de madeira, e desceu na direcção do olival. Não havia ninguém pelo caminho, tal como ele previra, mas ao aproximar-se chamou por Harper e como resposta ouviu uma torrente de ordens; eram os sargentos da Companhia Ligeira que conduziam os homens pelo caminho. Supunha que estariam renitentes em formar mas duvidava que se atrevessem a resistir-lhe; deteve-se e viu como Harper formava a companhia a quatro filas.

     - Companhia formada, meu Capitão.

     - Obrigado, sargento.

     Sharpe encaminhou-se para a primeira linha da companhia, de costas para as árvores e a multidão de espectadores constituídos pelas mulheres do batalhão misturadas com homens de outras companhias que tinham pulado o muro desde o depósito.

     - Vamos formar imediatamente.

     Não se mexeram. Olhavam fixamente em frente.

     - Os seis homens destacados para o castigo dêem um passo em frente. A hesitação foi momentânea. Os seis homens, três fuzileiros e três da Companhia Ligeira original, olharam para a direita e para a esquerda, mas deram um passo em frente. Gerou-se um murmúrio na tropa.

     - Silêncio!

     Os homens calaram-se mas de trás, do olival, um grupo de mulheres começou a gritar insultos e a dizer aos seus homens que não fossem cobardes. Sharpe deu a volta.

     - Calem a boca! Também se açoitam as mulheres!

     Mandou a companhia marchar para a praça do mercado e fez sair da fina erva os ociosos renitentes. Os seis homens que tinham de ser açoitados perma-neciam na primeira fila, apenas vestidos com as calças e a camisa. Foi fácil convencê-los. Sharpe adivinhava pela cara deles que se sentiam aliviados por os ter obrigado a formar. Quaisquer que fossem as palavras inflamadas que tivessem sido pronunciadas na ardente tarde espanhola, Sharpe sabia que nenhum homem queria realmente passar pela inutilidade de se enfrentar com a máxima autoridade do exército. Isso parecia simples, pensava, e agora tinha de persuadir as outras nove companhias, encaminhou-se para os seis homens da primeira fila e olhou-os com severidade.

     - Sei que é injusto - falava baixo. - Vocês não provocaram o ruído desta manhã.

     Deteve-se. Não estava seguro do que queria dizer e se continuasse poderia parecer que partilhava em demasia os protestos deles. Gataker, um dos infelizes fuzileiros, sorriu alegremente.

     - De acordo, meu Capitão. Não é culpa sua. Subornámos os rapazes dos tambores.

     Sharpe também sorriu. O suborno não serviria de nada, Simmerson assegurar-se-ia disso, mas agradecia as palavras de Gataker. Deu cinco passos atrás e ergueu a voz.

     - Esperem aqui! Se algum homem se mexer substituirá um dos seis. Caminhou pela erva até à porta de dois batentes do depósito de madeira.

     Na realidade nunca tinha estado preocupado pelos seus homens, sabia que o seguiriam, mas enquanto caminhava para as portas fechadas interrogava-se sobre o que se cozinhava no interior, e, ainda mais, que problema se estava a preparar atrás das muralhas de lousa do castelo. Tocou no punho da espada e continuou a andar.

    

     - Meu capitão! Meu capitão!

     Denny corria para ele, arrastando a espada, com o rosto a escorrer suor.

     - O que averiguou?

     - O coronel está no castelo, meu Capitão. Creio que está com o general. Encontrei o capitão Leroy e o comandante Forrest. O capitão Leroy disse que esperasse por ele.

     Sharpe viu, por cima do ombro de Denny, que Leroy saía a cavalo das inclinadas ruas que levavam ao castelo. Graças a Deus, o americano não tinha pressa. Trazia o cavalo a passo como se não tivesse qualquer urgência; se os homens do depósito de madeira se apercebessem de pânico ou preocupação entre os oficiais, acreditariam que estavam a ganhar e obstinar-se-iam ainda mais.

     O cavalo de Leroy quase fez as últimas jardas a passear. O americano cumprimentou Sharpe com a cabeça, tirou as mãos das rédeas e acendeu um charuto preto.

     - Sharpe! Sharpe sorriu.

     - Leroy.

     Leroy desceu do cavalo e olhou para Denny.

     - Sabes montar, rapaz?

     - Claro, meu Capitão.

     - Bem, pois então sobe para este cavalo e mantém-no calado. Aqui tens.

     Leroy fez escada com as mãos e ajudou o rapaz a subir para a sela.

     - Espere-nos com a companhia - disse Sharpe.

     Denny foi-se embora a cavalo. Leroy voltou-se para Sharpe.

     - Há um pânico tremendo lá em cima. Simmerson está negro de raiva e pede a artilharia aos gritos, “Papá” Hill, diz-lhe que se acalme.

     - Você estava lá em cima? Leroy assentiu.

     - Encontrei Sterritt. Vai dar-lhe um ataque, crê que tudo isto é por culpa dele, porque é o oficial de dia. Simmerson grita que é um motim. O que se passa?

     Continuaram a andar para o depósito de madeira. Sharpe recusou um charuto.

     - Dizem que não vão formar. Mas na realidade ainda ninguém lho ordenou. Os meus rapazes fizeram-no sem problemas. Tal como o estou a ver, temos de tirar os restantes rapidamente.

     Leroy lançou um fino fio de fumo para o ar.

     - Simmerson já mandou buscar a cavalaria.

     - O quê?

     - “Papá” Hill não tinha alternativa, não é? Chega um coronel e diz-lhe que as tropas se amotinaram. Assim, o general envia a LAR. No entanto ainda vão tardar; nem sequer tinham montado.

     A Legião Alemã do Rei. Era a melhor cavalaria do exército de Wellesley; rápidos, eficientes, corajosos, e uma boa escolha para acabar com um motim. Sharpe não ousava pensar nos cavaleiros alemães a desalojar o depósito de madeira com os seus sabres.

     - Onde está Forrest?

     Leroy apontou para o castelo.

     - Vem para cá. Foi buscar o sargento-mor. Não creio que espere por Sir Henry e pela sua artilharia pesada.

     Leroy sorriu abertamente. Chegaram à porta que estava entreaberta. Harper tinha-se referido a umas barricadas mas Sharpe não via nenhuma. Leroy fez-lhe um sinal.

     - Adiante-se, Sharpe. Deixo-o a si falar. Acreditam que você é um maldito operador de milagres.

     A sua primeira impressão foi a de um depósito cheio de homens deitados, de pé, sentados, com as armas amontoadas, as casacas e a equipagem postas de lado. Ardia uma fogueira no centro do pátio, o que lhe chamou a atenção dado o calor do dia e então lembrou-se dos troncos que Simmerson encomendara a mais para os açoites em massa. O coronel devia ter mandado fazer ali o trabalho e os homens queimaram as tábuas que tinham sido pregadas toscamente umas às outras, prontas para o castigo. Houve um silêncio momentâneo quando os dois oficiais entraram pela porta seguidos pelo zumbido de uma conversa excitada. Leroy apoiou-se na entrada, Sharpe abriu passagem lentamente por entre os grupos de homens, dirigindo-se para a fogueira que parecia ser o centro do pátio. Os homens bebiam, alguns já estavam embriagados, e enquanto Sharpe caminhava lentamente entre os murmúrios e os olhares hostis, um homem ofereceu-lhe ironicamente uma garrafa. Sharpe não fez caso, deu uma joelhada no braço do homem ao passar e ouviu a garrafa a cair no chão. Chegou ao espaço em frente ao lume e quando se voltou para se pôr de frente para a massa de homens, o murmúrio desapareceu. Achou que não haveria muito a discutir com eles, não havia nenhum cabecilha que protestasse, apenas se tinham ouvido tristes murmúrios.

     - Sargentos!

     Ninguém se mexeu. Tinha de haver sargentos no pátio. Voltou a gritar:

     - Sargentos! Rápido! Aqui!

     Ainda ninguém se mexia mas pelo canto do olho captou a imagem de um grupo de homens, de camisa e calças, que se mexiam, inquietos. Apontou para eles:

     - Vá. Depressa! Ponham a equipagem!

     Vacilaram. Por um momento perguntou-se se os sargentos seriam os cabecilhas, mas chegou à conclusão de que provavelmente tinham medo dos homens. No entanto, pegaram nas casacas e nos cinturões. Ouviram-se alguns assobios mas ninguém fez um gesto para os deter. Sharpe começou a sentir-se mais relaxado.

     - Não!

     Levantou-se um homem à esquerda. Fez-se silêncio, ninguém se mexia, os sargentos olharam para o homem que tinha falado. Era um homem alto com aspecto inteligente. Voltou-se para os homens e falou num tom razoável:

     - Não vamos. Decidimos isto e temos de o manter!

     A sua voz, tal como a do falecido Ibbotson, era educada. Virou-se para Sharpe.

     - Os sargentos podem ir, meu Capitão, mas nós não. Não é justo. Sharpe não lhe prestou atenção. Não era o momento de discutir se a disciplina de Simmerson era justa ou injusta. A disciplina, num momento destes, não era tema que se pudesse discutir. Existia, e isso era tudo. Voltou-se para os sargentos:

     - Vá! Mexam-se!

     Cerca de uma dezena de sargentos dirigiu-se obediente à fogueira. Sharpe apercebeu-se de repente do calor do lume que, juntamente com o sol, lhe encharcava as costas. Os sargentos detiveram-se.

     Sharpe falou em voz alta:

     - Têm dois minutos. Quero toda a gente a formar neste pátio, e uniformizada. Os homens que tiverem de ser açoitados, só de calças e camisa. A companhia de Granadeiros junto à porta, façam formar os restantes. Vamos!

     Hesitaram. Sharpe deu um passo em frente em direcção a eles e de repente puseram-se em movimento. Virou-se e avançou para os homens em massa.

     - De pé! Formar! Depressa!

     O homem corpulento tentou fazer um derradeiro protesto mas Sharpe deu-lhe um soco.

     - Quer que haja mais execuções, raios? Mexa-se!

     Tinha acabado tudo, teve de dar uns pontapés nas pernas dos bêbados, mas a pequena batalha estava ganha.

     Leroy juntou-se a Sharpe e, com os sargentos, alinharam as companhias. Os homens estavam numa desgraça. Os uniformes não estavam escovados, manchados do pó da madeira, os cintos estavam oxidados e os mosquetes sujos. Alguns homens estavam pálidos da bebida. Sharpe nunca tinha visto um batalhão em tão má forma, ainda que isso fosse melhor do que uma multidão amotinada e acossada pela eficiente cavalaria alemã.

     Leroy abriu as portas de par em par, Sharpe deu ordens e o batalhão marchou para fora em formação para se alinhar com a Companhia Ligeira. Forrest estava lá fora. Ficou boquiaberto quando viu sair a primeira companhia. Estavam com ele um grupo de oficiais e sargentos e correram para as suas companhias gritando ordens. O batalhão começou a marchar com determi-nação, o sargento-mor pô-los no lugar, ordenou descanso, e deixou-os nessa posição. Sharpe aproximou-se do cavalo de Forrest, chamou-lhe a atenção e fez continência.

     - Batalhão formado, meu Major! Forrest baixou os olhos para ele.

     - O que se passou?

     - A que se refere, meu Major? Nada.

     - Mas tinham-me dito que se recusavam a formar.

     Sharpe apontou para o batalhão. Os homens estavam a pôr em ordem os uniformes, a escovar o pó das casacas, a dar pancadas às barretinas para lhes restaurarem a forma. Forrest olhou para eles fixamente e em seguida voltou os olhos para Sharpe.

     - Isto não lhe vai agradar.

     - Ao coronel, meu Major? Forrest sorriu zombeteiramente.

     - Vem para cá com a cavalaria, Sharpe. E o general Hill.

     Forrest abandonou o sorriso, que era impróprio, mas Sharpe entendeu a piada. Simmerson ficaria furioso; tinha incomodado o general, tinha requisitado um regimento de cavalaria e tudo isso por um motim que não existia. Esta ideia agradou-lhe.

     O batalhão permaneceu sob o calor, os sinos da cidade bateram as cinco e um quarto, sacudiram tanto quanto puderam o pó dos uniformes. Talvez metade dos oficiais ali estivesse presente, vindo da cidade, mas o resto estava com Simmerson. Quando o relógio bateu as cinco e meia ouviu-se o estrondo de cascos, uma nuvem de pó, e com uma movimentação de forças calculada para desmoralizar as alegadas forças amotinadas, apareceram os dragões com o uniforme azul da Legião Alemã do Rei a galope em direcção à praça do mercado. Estavam fantásticos com as casacas azuis, as peliças debruadas a pele e, na cabeça, os chapéus castanhos de pele. Traziam os sabres desembainhados e cavalgavam directos ao armazém de madeira. Lentamente, foram dando conta de que estava vazio e que as cabeças que lhes tinham mandado cortar estavam formadas. Ouviram-se gritar ordens, os cavalos viraram-se, a cavalaria submergiu num silêncio embaraçoso e olhou para a horda de cavaleiros de casaca vermelha que seguia para a praça do mercado; o coronel Sir Henry Simmerson com o general de divisão Rowland Hill, ajudantes-de-campo, oficiais do batalhão, como Gibbons e Berry, e atrás deles outros oficiais a cavalo que tinham chegado para ver a agitação.

     Detiveram-se todos e ficaram a olhar. Simmerson espreitou para o depósito de madeira, voltou a olhar para a formação e mais uma vez para o pátio do depósito. O sargento-mor cumpriu as ordens de Forrest.

     - Batalhão! Sentido!

     O Batalhão de Destacamentos pôs-se em sentido. O sargento-mor encheu o peito.

     - Batalhão! Ombro arma!

     Os três movimentos estavam perfeitamente sincronizados. Apenas se ouvia o som de seiscentas mãos dando uma palmada a seiscentos mosquetes ao mesmo tempo.

     - O batalhão apresenta-se ao meu General! Havia um general.

     - Apresentar armas!

     Sharpe apresentou o sabre. Atrás dele as companhias bateram com o pé direito no chão, com os mosquetes inclinados com magnífica precisão; a formação vibrou de orgulho. “Papá” Hill retribuiu a continência. O sargento-mor ordenou “ombro arma”, “sentido” e a seguir “descansar”. Sharpe viu Forrest dirigir-se a cavalo até Simmerson, que estava em sentido. Viu gestos mas não conseguiu ouvir nada. Parecia que Hill fazia perguntas e Sharpe viu Forrest a mexer-se na sela e a apontar na direcção da Companhia Ligeira. O aceno de braço converteu-se numa chamada.

     - Capitão Sharpe!

     Sharpe avançou pela praça de armas como se fosse o sargento-mor do regimento num desfile real. Maldito Simmerson. Por ele podia ficar com a cara afundada na lama. Deteve-se, fez continência e ficou à espera. Hill olhou para ele, o tricórnio fazia-lhe sombra na cara.

     - Capitão Sharpe?

     - Meu General!

     - O senhor formou o batalhão, não é assim?

     - Meu General!

     Sharpe, quando era sargento, aprendera que repetir a palavra “meu” seguida pela correspondente graduação com ênfase e precisão suficientes podia fazer dar andamento à maior parte das conversas com oficiais veteranos. Hill pensava o mesmo. Olhou para o relógio e de novo para Sharpe.

     - A revista está pronta com meia hora de antecedência. Porquê?

     - Os homens pareciam estar aborrecidos, meu General. Pensei que um pouco de instrução lhes faria bem. Pelo que o capitão Leroy e eu pusemo-los em acção.

     Hill sorriu, gostou da resposta. Olhou para as tropas que permaneciam imóveis ao sol.

     - Diga-me, capitão, houve alguém que se negasse à formatura?

     - Negar-se, meu General? - ripostou Sharpe, surpreendido.

     - Nem um só homem, Capitão? - insistiu Hill com determinação.

     - Não, meu General, nem um único.

     Sharpe atreveu-se a olhar para Simmerson. O coronel mais uma vez passava por parvo. Tinha clamado “motim” ante um general de divisão e no fim de contas um capitão subalterno conseguira formar os homens. Sharpe reparou que Simmerson se agitava na sela, incomodado, quando Hill baixou perspicazmente os olhos.

     - Estou espantado, Capitão.

     - Espantado?

     Hill sorriu. Tinha lidado com tantos sargentos durante a vida que sabia o que Sharpe estava a fazer.

     - Sim, Capitão. O senhor teve conhecimento que o seu coronel recebeu uma carta a dizer que os homens se recusavam a formar. Isso chama-se amotinação.

     Sharpe desviou inocentemente os olhos para Simmerson.

     - Uma carta, meu General? Recusando-se a formar?

     Simmerson olhou para ele, aborrecido; se pudesse teria matado Sharpe ali mesmo. Sharpe voltou a olhar para Hill e mudou da expressão de surpresa inocente para uma outra que simulava estar a inteirar-se dos acontecimentos.

     - Creio que se trata de uma brincadeira, meu General. O meu General sabe como os rapazes são brincalhões quando estão em vias de entrar em combate.

     Hill riu-se. Tinham-lhe passado pela mão muitos sargentos para saber quando devia parar de brincar.

     - Bom! Muitas palavras, poucas acções! Hoje parece que é o dia do South Essex! É a segunda vez, em doze horas, que passo revista, Sir Henry. Creio que já está na altura de que seja o senhor a passar revista aos seus homens, Sir Henry.

     Simmerson não disse nada. Hill voltou-se para Sharpe.

     - Obrigado, Capitão. Do 95, não é?

     - Sim, meu General.

     - Tenho ouvido falar de si. Sharpe, não é? Deixe-me pensar. Fixou atentamente o fuzileiro e em seguida estalou os dedos.

     - Claro! É uma honra conhecê-lo, Sharpe! Sabia que os fuzileiros estão de volta?

     Sharpe sentiu o coração a rebentar-lhe.

     - Para cá, meu General?

     - Talvez que agora já estejam em Lisboa. Não se pode fazer nada sem os fuzileiros, não é, Simmerson?

     Não houve resposta.

     - Qual é o seu batalhão, Sharpe?

     - O segundo, meu General.

     - Que pena, então. Quem vem para cá é o primeiro. De qualquer modo, é agradável encontrar velhos amigos, não acha?

     - Sim, meu General.

     Hill parecia bastante satisfeito por estar a conversar. Sharpe, por cima do ombro do general, vislumbrou Gibbons desconsoladamente montado no seu cavalo. O general espantou uma mosca.

     - O que é que se diz dos fuzileiros, Capitão?

     - Que são os primeiros a chegar ao campo de batalha e os últimos a partir, meu General.

     Hill confirmou.

     - Exactamente! Por isso o incorporaram no South Essex. Não foi?

     - Sim, meu General.

     - Bom, estou satisfeito por estar na minha divisão, Sharpe, estou muitíssimo satisfeito. Continue!

     - Muito obrigado, meu General.

     Fez continência, deu meia volta e regressou para junto da Companhia Ligeira. Quando se afastou ouviu Hill gritar para o comandante de cavalaria:

     - Podem ir-se embora! Nada mais por hoje!

     O general guiou o cavalo por entre as filas do batalhão e falou afavelmente com os homens. Sharpe tinha ouvido falar muito sobre “Papá” Hill e compre-endeu então porque lhe tinham dado aquele apelido. O general tinha o dom de fazer acreditar a cada homem que se preocupava com eles, parecia interessado neles, queria que estivessem satisfeitos. Não havia a mínima hipótese de não saber em que estado se encontrava o batalhão. Tendo mesmo em conta as três semanas de marcha e a batalha da ponte, os homens tinham-se fardado à pressa e, apesar de estarem sujos, Hill fez de conta de que não via. Quando chegou à Companhia Ligeira, acenou familiarmente com a cabeça a Sharpe, brincou com a altura de Harper e fez os homens rir. Deixou a companhia sorridente e cavalgou em direcção a Simmerson e ao seu séquito no centro da praça de armas.

     - Vocês foram maus, rapazes! Decepcionaram-me esta manhã! Falava lenta e claramente, de modo a que as companhias dos lados, como a de Sharpe, pudessem ouvi-lo perfeitamente.

     - Merecem o castigo a que Sir Henry os condenou! - Fez uma pausa. Mas esta tarde estiveram muito bem! Formaram antes da hora!

     Houve um sussurro de riso entre as tropas.

     - Parecem ansiosos por receber o castigo! Os risos pararam.

     - Bom, vão ficar desiludidos. Dado o vosso comportamento esta tarde, Sir Henry pediu-me que suspenda a revista de castigo. Não estou completamente de acordo com ele, mas vou deixar que faça as coisas à sua maneira. Pelo que não haverá açoites.

     Ouviram-se suspiros de alívio. Hill respirou fundo.

     - Amanhã marcharemos com os nossos aliados espanhóis contra os franceses! Vamos travar uma batalha em Talavera. Estou orgulhoso por vos ter na minha divisão. Juntos, mostraremos aos franceses o que significa ser soldado!

     Levantou uma mão para eles em sinal de paz.

     - Boa sorte, rapazes, boa sorte!

     Aclamaram-no até ficarem roucos, tiraram as barretinas e agitaram-nas a saudar o general, que lhes devolveu um sorriso radiante como se fosse um pai indulgente. Quando cessou o ruído voltou-se para Simmerson.

     - Mande destroçar, coronel, mande destroçar. Estiveram muito bem!

     Não restava outra alternativa a Simmerson senão obedecer. Destroçaram, os homens espalharam-se pelo campo a conversar e a rir. Hill dirigiu-se a trote para o castelo e Sharpe viu Simmerson e o seu grupo de oficiais cavalgando atrás dele. O homem tinha passado por parvo à frente de todos e ele, Sharpe, seria o culpado. O alto fuzileiro regressou lentamente para a cidade com a cabeça baixa. Na verdade não lhe tinha agradado aborrecer Simmerson, mas o coronel merecia-o; nem sequer se tinha dado ao trabalho de ver se os homens se recusariam a cumprir as ordens, limitara-se a chamar a cavalaria. Sharpe sabia que tinha feito muitas ofensas ao coronel e ao sobrinho. Duvidada que agora Simmerson se satisfizesse com a carta que já devia estar em Lisboa, à espera de um barco que transportasse o correio para Londres. A carta iria arruinar a carreira de Sharpe e a menos que se pudesse operar um milagre na batalha que cada vez mais se aproximava, Simmerson teria a satisfação de ver Sharpe destroçado. Mas ainda havia mais. Havia a honra e o orgulho, e uma mulher. Duvidava que Gibbons conseguisse uma solução honrosa, duvidava que o tenente ficasse satisfeito com a carta que o tio escrevera, e estremeceu de receio ante o que pudesse acontecer. A rapariga converter-se-ia no objectivo de Gibbons.

     Chegou junto a ele um homem a correr.

     - Meu Capitão?

     Sharpe voltou-se. Era o homem corpulento que tentara impedir o batalhão de formar no depósito de madeira.

     - Sim?

     - Queria agradecer-lhe, meu Capitão.

     - A mim? Porquê?

     Sharpe falou grosseiramente. O homem estava aturdido.

     - Ter-nos-iam fuzilado, meu Capitão.

     - Eu mesmo teria dado essa ordem.

     - Então, obrigado, meu Capitão.

     Sharpe estava impressionado. O homem podia ter ficado calado.

     - Como se chama?

     - Huckfield, meu Capitão.

     Era culto e Sharpe sentiu-se curioso.

     - Onde obteve tanta educação, Huckfield?

     - Era escriturário, meu Capitão, numa fundição.

     - Numa fundição?

     - Sim, meu Capitão. Em Shropshire. Fabricávamos aço, meu Capitão, dia e noite. Era um vale de fogo e de fumo. Pensei que isto seria mais interessante.

     - Foi voluntário! - exclamou Sharpe, surpreendido.

     - Sim, meu Capitão - assentiu Huckfield.

     Sharpe olhou fixamente para ele. Tinha ouvido homens a falar sobre a nova “indústria” que estava a nascer na Grã-Bretanha. Tinham descrito, tal como Huckfield, paisagens inteiras cobertas de tijolo e salpicadas de fornos gigantes que produziam ferro e aço. Tinha ouvido contar histórias de pontes construídas sobre rios, pontes completamente feitas de metal, de barcos e de máquinas que funcionavam a vapor, mas nunca tinha visto nenhuma dessas coisas. Uma noite, à volta de uma fogueira no campo, alguém dissera que aquilo era o futuro e que os dias dos homens a pé ou a cavalo estavam contados. Claro que se tratava de pura fantasia, mas ali estava Huckfield que tinha visto aquelas coisas, e a imagem de um país entregue a enormes máquinas negras com ventres de fogo fazia-o sentir inseguro. Fez ao homem um aceno com a cabeça.

     - Esqueça-se do que se passou esta tarde, Huckfield. Não foi nada. Não ligou ao agradecimento do homem. O sentir-se inseguro quanto ao futuro era o preço que tinha de pagar por ser militar. Sharpe não conseguia imaginar um exército que não estivesse em guerra; não conseguia imaginar o que faria se, de repente, estivessem em paz e ele não tivesse trabalho. Mas antes tinha de travar uma batalha, e ganhar uma águia e lutar por uma mulher. Embrenhou-se pelas ruas de Oropesa.

    

     Em dezasseis anos de soldado poucas vezes Sharpe tinha sentido com tal convicção a eminência de uma batalha.’ O exército espanhol e o britânico tinham-se juntado em Oropesa e para Talavera marchavam vinte e um mil britânicos e trinta e cinco mil espanhóis, um enorme exército engrossado com mulas, criados, mulheres, crianças, sacerdotes, que fluía em direcção a leste até onde as montanhas quase se uniam ao rio Tejo e à ampla planície na cidade de Talavera. As rodas dos cento e dez canhões de campanha vincavam os caminhos convertendo-os em pó fino, os cascos das montadas dos mais de seis mil soldados de cavalaria levantavam o pó no ar em que seguia a infantaria, caminhando sob o calor e escutando o longínquo ruído produzido pelos atiradores espanhóis da vanguarda que repeliam a cobertura ligeira dos atiradores franceses. Sharpe via à esquerda e à direita outras nuvens de pó onde as patrulhas de cavalaria cavalgavam em paralelo à linha de marcha; mais perto, nos campos, o batalhão via grupos de soldados espanhóis que se tinham descolado da marcha e estavam parados, aparentemente despreocupados, conversando com as mulheres, fumando, vendo passar as longas colunas da infantaria britânica.

     Os homens estavam famintos. Por mais que Wellesley tivesse tentado, por muito consciente que fosse o comissário, não havia comida suficiente para todo o exército. A zona entre Oropesa e Talavera já tinha sido passada a pente fino pelos franceses, agora estava a sê-lo pelos espanhóis e pelos britânicos, e o batalhão apenas tinha comido tommis, uma espécie de crepes feitos com farinha e água, desde que no dia anterior tinham saído de Oropesa. Estava na altura de apertar o cinto, mas a perspectiva de entrarem em acção tinha elevado a moral dos homens e, quando o batalhão passou diante dos corpos de três atiradores franceses esqueceram a fome assim que viram o primeiro sinal da infantaria francesa. Sharpe disse à Companhia Ligeira que os mortos com dragonas debruadas eram os famosos voltigeurs franceses, os atiradores, os homens contra os quais a Companhia Ligeira iria manter a sua própria batalha particular entre as linhas, antes de os grandes batalhões se enfrentarem. Os homens do South Essex, que até então não tinham visto a infantaria inimiga, olharam fixamente e com curiosidade os corpos de casacas-azuis que tinham sido atirados para junto da parede de uma igreja. Os uniformes estavam salpicados de manchas pretas, as cabeças caídas para trás na estranha posição dos mortos, faltava um dedo a um dos homens que Sharpe deduziu ter sido cortado a fim de conseguir um anel de valor. O alferes Denny olhava-os fascinado, era então aquela a famosa infantaria francesa que marchara por toda a Europa: olhou para os rostos com bigode e interrogou-se como se sentiria quando visse caras semelhantes, mas vivas, olhando fixamente para ele por cima do tubo dourado de um mosquete francês.

     Os franceses não opuseram resistência a oeste de Talavera, nem sequer na cidade. Os exércitos atravessaram-na, alguns a desfilar, e continuaram durante mais uma milha até que se detiveram ao crepúsculo, nas margens de um pequeno rio que desaguava no Tejo. O batalhão marchou para norte da cidade e Sharpe interrogava-se sobre como iria Josefina encontrar ali um quarto. Hogan prometera-lhe que se ocuparia dela e Sharpe olhava para a multidão que se apinhava nas estreitas ruas tentando vislumbrá-la. Os homens queixavam-se. Estavam cansados, tinham fome e ressentiam-se por lhes negarem os prazeres da cidade. Viam oficiais a cavalo dirigindo-se para as antigas muralhas, as mulheres e os filhos iam para lá, mas a tropa continuou até ao Alberche e acampou nas matas de sobreiros que desciam até ao rio pouco profundo. No dia seguinte entrariam em combate. Se sobrevivessem, então chegaria o momento de comprarem bebida em Talavera, mas primeiro tinham de cruzar o rio Alberche e derrotar o exército do marechal Victor. Acenderam fogueiras entre as árvores, os batalhões instalaram-se rapidamente para passar a noite, olhando com receio para a longínqua margem de onde centenas de espirais de fumo se misturavam e agitavam sobre o acampamento francês. Por fim, os exércitos tinham-se concentrado, britânicos, espanhóis e franceses e, na manhã seguinte, teriam de lutar; a companhia de Sharpe acocorava-se junto às fogueiras e os homens faziam perguntas a respeito daqueles que se encontravam precisamente do outro lado do rio, sentados junto a fogueiras semelhantes e que diriam as mesmas piadas mas noutra língua.

     Sharpe e Harper passearam pela margem do rio onde os pelotões de vanguarda do batalhão se preparavam para passar a noite de guarda. Dois homens da Companhia Ligeira, de capote, fizeram a Sharpe um gesto com a cabeça e levantaram os polegares a indicar o outro lado do rio. Um pelotão francês estava a olhar, três homens fumavam cachimbo, enquanto o outro enchia o cantil na beira do rio. O homem levantou os olhos, viu Sharpe e acenou-lhe com a mão. Gritou qualquer coisa mas não o compreenderam. Sharpe estremeceu. O sol já não aquecia, avermelhava para oeste e o frio da noite começava a notar-se. com a mão devolveu o cumprimento ao francês e voltou para os sobreiros.

     Chegava agora o momento dos rituais anteriores à batalha. Sharpe caminhou por entre as árvores e conversou com os homens que se preparavam, com as obsessões pelos pormenores que todos os homens acreditavam poder protegê-los no caos da luta. Os fuzileiros tinham destravado as armas, tinham prendido as molas principais da enorme espingarda com cavilhas e retirado toda a sujidade do equipamento. Os homens punham pederneiras novas nos mosquetes ou nas espingardas, desenroscavam-nas e tornavam a colocá-las, procurando o ajustamento exacto que não afrouxasse, abanavam-na para os lados ou partiam-na na caçoleta. Levavam com cuidado das fogueiras panelas com água a ferver que despejavam nos canos das armas para limpar qualquer vestígio anterior de pólvora, porque, no dia seguinte, a vida de um homem poderia depender da rapidez com que conseguisse recarregar o seu mosquete. Juntamente com o som dos insectos ouvia-se o ruído de centenas de pedras a amolar incessantemente as baionetas, os camponeses a afiar as espadas como costumavam afiar as foices ou as gadanhas. Os homens remendavam os uniformes, cosiam-lhes os botões, faziam cintas novas, como se o facto de irem mais cómodos significasse que estavam a salvo. Sharpe vivera aquele ritual uma centena de vezes; vivê-lo-ia outra vez naquela noite como um cavaleiro de outros tempos, ajustando cada parte da armadura, apertando cada peça, não passando à seguinte sem a anterior estar segura. Alguns fuzileiros vazaram toda a pólvora fina dos cornos e deitaram os grãos negros sobre a tela branca para se assegurarem de que não havia bocados húmidos que pudessem obstruir a medida durante a batalha. As mesmas piadas de sempre: “Amanhã não ponha o chapéu, meu sargento, os franceses vêem-lhe a cara e morrem a rir.” Esta sortia sempre efeito desde que o sargento não visse o homem que a tinha gritado de entre as sombras; diziam a outros homens que fossem dormir com os franceses pois os roncos deles manteriam o inimigo acordado, as piadas batidas formavam parte da batalha tal como as balas que começariam a voar com a primeira luz do dia.

     Sharpe foi andando por entre as fogueiras, dizendo piadas, aceitando tragos de bebidas escondidas, verificando os fios das baionetas, dizendo aos homens que o dia seguinte não seria mau. Não devia ser. Os britânicos e os espanhóis superavam largamente em número os franceses; os aliados tinham a iniciativa, a batalha tinha de ser curta, rápida e a vitória era quase certa. Ouvia os homens a alardear as façanhas que efectuariam no dia seguinte e sabia que as palavras escondiam o medo; assim tinha de ser. Outros homens, mais sorrateiramente, perguntavam-lhe como seria. Sorria e dizia-lhes que pela manhã logo veriam, mas que não seria tão mau quanto temiam e ocultava-lhes o seu conhecimento do caos que todos eles teriam de controlar quando a infantaria ofensiva avançasse para a tormenta de cargas de metralha e disparos de mosquete. Afastou-se, deixando para trás as fogueiras, rodeou o enorme lume onde os criados dos oficiais preparavam um estufado ligeiro de vaca salgada, a última das provisões amealhadas, e afastou-se das árvores. com as últimas luzes do crepúsculo divisou uma quinta a umas quinhentas jardas para onde tinha visto encaminharem-se os dragões ligeiros do 16º com os seus cavalos. Atravessou os campos e entrou no pátio. Junto ao armeiro esperava uma fila de soldados de cavalaria com uniforme azul e escarlate. Sharpe esperou que acabassem e então desembainhou a enorme espada e levou-a até à roda. Aquilo fazia parte do seu ritual, ter uma espada afiada por um armeiro de cavalaria, pois faziam o fio mais fino; o armeiro olhou para o seu uniforme de fuzileiro e sorriu zombeteiramente. Era um soldado velho, demasiado velho para cavalgar na batalha, mas tinha visto de tudo e feito de tudo. Pegou na espada de Sharpe, apalpou-a com o gordo polegar e, em seguida, pô-la contra a pedra que rodava. Saltavam faíscas da roda, a folha cantava, o homem deslizava-a para cima e para baixo pela superfície e afiou então seis polegadas da ponta e da quilha da folha. Limpou a espada com um bocado de couro engordurado.

     - Arranje uma alemã, meu Capitão.

     Era uma velha discussão, se as folhas Kligenthal eram melhores que as britânicas. Sharpe abanou a cabeça em sinal de discordância.

     - Amassei espadas alemãs com esta.

     O armeiro soltou uma gargalhada com a boca desdentada e observou o fio com atenção.

     - Aqui tem, meu Capitão. Tome conta dela.

     Sharpe deixou algumas moedas em cima da armação da roda e levantou a espada para a última luz do céu a oeste. O fio tinha um novo resplendor, passou o polegar por ele e sorriu para o armeiro.

     - Nunca conseguirá que uma Kligenthal fique tão afiada como esta. O armeiro não disse nada mas tirou um sabre de trás e entregou-o a Sharpe. Este embainhou a espada e pegou na arma curva, parecia feita para si, o equilíbrio era milagroso, como se o aço ali não estivesse apesar de brilhar contra a luz avermelhada. Tocou no fio. Cortaria tão facilmente a seda como atravessaria a couraça da cavalaria francesa.

     - Alemã? - perguntou Sharpe.

     - Sim, meu Capitão. É do nosso Coronel. O armeiro voltou a pegar na espada.

     - E ainda não a comecei a afiar!

     Sharpe riu-se. O sabre devia ter custado duzentos guinéus. Prometeu a si próprio que um dia teria uma espada igual, não arrebatada a um morto, mas uma espada que tivesse o seu nome gravado, forjada à sua medida, equilibrada para o seu punho. Voltou para as árvores e viu no céu por cima do rio o resplendor das fogueiras inimigas onde vinte e dois mil franceses estariam a afiar os seus próprios sabres e a pensar na manhã seguinte. Poucos iriam dormir. A maior parte dormitaria durante a noite unindo o receio à insónia, procurando o amanhecer no céu, aquele que poderia ser o último que vissem nas suas vidas.

     Sharpe esteve estendido acordado durante parte da noite e visualizou mentalmente o dia seguinte. O plano era bastante simples. O Alberche desenhava uma curva ao unir-se com o Tejo e os franceses estavam dentro dessa curva. Pela manhã, os espanhóis fariam soar as trompetas, deixariam sair os seus trinta canhões e a infantaria marcharia chapinhando pelo rio pouco profundo para atacar os numerosos franceses. E, quando os franceses retirassem, como certamente aconteceria, Wellesley lançaria os britânicos contra o seu flanco. E destruiriam o marechal Victor, destroçariam o seu exército entre o maço espanhol e a bigorna britânica, e quando a infantaria azul se retirasse, a cavalaria sairia da água e converteria a retirada numa carnificina. E uma vez tudo terminado, talvez antes de os cidadãos de Talavera irem à missa de domingo, apenas restariam os vinte mil homens do rei José Bonaparte entre os aliados e Madrid. Era muito simples. Sharpe dormia com o capote vestido, feito um novelo junto às brasas de uma fogueira; os seus sonhos eram atravessados por uma águia de bronze.

     De manhã não houve clarins para os despertar, nada que pudesse alertar os franceses do ataque ao amanhecer em vez da hora mais civilizada do meio-dia em que os homens esperavam lutar. Os sargentos e os cabos sacudiram os homens para os acordar, os soldados praguejaram contra o orvalho e o ar fresco que lhes arranhava a garganta. Todos os homens olharam para o rio, mas a outra margem estava envolta na névoa e na escuridão, não havia nada para ver, nada para ouvir. Tinham-nos proibido de reavivar as fogueiras pois as repentinas luzes poderiam pôr de sobreaviso os franceses, mas conseguiram aquecer água e deitar lá para dentro folhas soltas de chá e Sharpe aceitou agradecido dos seus sargentos um jarro metálico com o líquido escaldante. Harper lançou terra para cima do lume com o pé, pois os homens tinham preferido arriscar-se a acender uma pequena fogueira a não fazerem um chá, levantou os olhos para Sharpe e sorriu brincalhão.

     - Autorização para ir à missa, meu Capitão?

     Sharpe devolveu-lhe o sorriso. Era domingo. Tentou calcular a data.

     Tinham saído de Plasência no dia dezassete, que fora segunda-feira, e contou pelos dedos os dias que haviam transcorrido. Domingo, 23 de Julho de 1809. Ainda não tinha amanhecido a leste, brilhavam as estrelas no céu, faltavam ainda duas horas para o Sol nascer. Atrás deles, num caminho que passava entre o sobreiral e os campos, ouviam-se estrondos, choques e impro-périos como se uma bateria de artilharia deixasse o armão. Sharpe voltou-se, com a caneca de chá entre as mãos, e observou as obscuras silhuetas dos cavalos que eram conduzidos e dos canhões de campanha que apontavam para o outro lado do rio. Anunciariam o ataque, lançando as balas para as linhas francesas, abrindo brechas nos batalhões franceses enquanto Sharpe conduzia os atiradores para o rio. Fazia frio, demasiado frio para sentir qualquer tipo de excitação, que viria depois. Era o momento de se sentir receoso, de ajustar os cintos e as fivelas, de sentir fome. Sharpe tremia ligeiramente com o capote vestido, agradeceu com a cabeça a Harper, e encaminhou-se para o sobreiral entre as linhas dos seus homens, que batiam com os pés no chão, balançavam os braços e faziam ressurgir as melhores piadas da noite anterior. No entanto, de madrugada não pareciam tão engraçadas como ao entardecer.

     Afastou-se das árvores e encaminhou-se para um bocado de erva que havia junto ao rio. As botas rangeram com o orvalho e alertaram as sentinelas da sua chegada. Mandaram-no fazer alto, deu a contra-senha e cumprimentou enquanto descia num salto para os calhaus na margem do rio.

     - Alguma novidade?

     - Não, meu Capitão.

     A água deslizava escura sob a neblina. Ouviu-se um chapinhar isolado e um remoinho que provinha do rio, era um peixe que se agitava e perturbava a superfície. Sharpe olhou através das mãos, em concha, via-se um débil ponto de luz vermelha na outra margem que de repente se tornou mais vivo. A sentinela francesa fumava um cigarro ou um cachimbo. Sharpe olhou para a esquerda. Por fim o céu a leste começava a tomar cor, um cinzento-prateado que desenhava as colinas, o primeiro sinal da aurora. Deu uma palmada no ombro a uma das sentinelas.

     - Já falta pouco.

     Subiu pela estreita margem entre os calhaus e a erva e voltou para as árvores. Um cão ladrou nas fileiras francesas; relinchou um cavalo e então ouviu-se o som clarins. Começariam a acender as fogueiras, a preparar o pequeno-almoço e, com sorte, ainda o estariam a tomar quando as baionetas espanholas os alcançassem a oeste. De repente, sentiu um apetite tremendo de rins marinados e de café, de outra qualquer comida que não fosse o estufado ligeiro, os tommis e as bolachas passadas com que o batalhão se tinha alimentado durante uma semana. Recordou aquela alheira que tinham roubado ao inimigo morto na Roliça, e esperou que encontrassem uma naquela manhã nos corpos dos homens que resmungavam à volta das fogueiras mesmo do outro lado do rio.

     De regresso ao sobreiral despiu o capote, enrolou-o e atou-o à mochila com as correias. Estava a tremer. Tirou o trapo da segurança da espingarda que a tinha protegido da humidade e verificou a tensão da mola com o polegar. Pô-la ao ombro, bateu na espada e começou a movimentar a Companhia Ligeira para o limite do arvoredo. Primeiro iriam os atiradores, a fina linha dos fuzileiros e casacas-vermelhas vedaria o Alberche para afastar as sentinelas e fechar os voltigeurs franceses, de modo que não pudessem impedir o ataque dos batalhões britânicos concentrados que se efectuaria ao flanco francês. Fez com que os homens se deitassem no interior do sobreiral. Onde se misturavam com a sombra das árvores, enquanto via atrás as outras nove companhias do batalhão formadas para um assalto que não podia tardar em acontecer.

     A aurora avançava por cima das montanhas, inundando o vale com uma luz cinzento-prateada, diminuindo as sombras e mostrando as formas das árvores e arbustos da outra margem. Sharpe deduziu que ainda faltavam uns minutos para que os espanhóis rompessem o silêncio e o ataque começasse. Caminhou ao longo da linha de árvores, cumprimentou com a cabeça o capitão da Companhia Ligeira do 29º que estava ao seu lado direito, trocou umas palavras com ele, desejaram-se mutuamente sorte, e voltou para junto de Harper. Não falavam, mas Sharpe sabia que o enorme irlandês pensava na promessa que Lennox os obrigara a fazer junto à ponte. Mas para Sharpe a águia era mais importante. Se não pudesse arrancá-la da haste naquele dia talvez não houvesse outra possibilidade durante meses e isso significava que nunca mais teria oportunidade. Dali a algumas semanas, a menos que pudesse anular a carta de Simmerson, poderia estar num barco a caminho das índias Ocidentais e a inevitável febre faria desse destino uma virtual garantia de morte. Pensou em Josefina, adormecida na cidade, o cabelo negro espalhado sobre a almofada.. e perguntou a si próprio por que razão, a sua vida se havia enredado de repente numa série de problemas que um mês atrás nem sequer suspeitava que existissem.

     Ouviram-se mosquetes a disparar à distância de forma irregular. Os homens apuraram o ouvido, falavam entre murmúrios, escutaram os tiros esporádicos que abalavam de cima a baixo as filas francesas. O tenente Knowles aproximou-se de Sharpe e arqueou as sobrancelhas em sinal de interrogação.

     Sharpe abanou a cabeça.

     - Estão apenas a limpar os mosquetes.

     As sentinelas francesas tinham sido rendidas e os homens saídos de serviço despejavam as cargas que podiam ter humedecido com o ar da noite. O fogo de mosquete anunciaria o ataque. Sharpe esperava os clarões vermelhos que iluminariam o céu para oeste, como a luz de Verão, e indicariam que a artilharia espanhola iniciava a batalha. Não podia faltar muito.

     Ouviram-se gritos provenientes do rio. De novo os homens apuraram o ouvido, inclinaram-se para a frente, mas era de novo um falso alarme. Apareceu um grupo do inimigo, perseguindo-se e gritando disparates, acartando baldes cheios de água até à borda. Um deles levantou o balde e gritou para a margem dos britânicos, os companheiros riram-se, mas Sharpe não fazia a mínima ideia de qual era a piada.

     - Vão dar de beber aos cavalos? - perguntou Knowles.

     - Não - respondeu Sharpe e cobriu um bocejo. - São baldes de artilharia. Deve haver canhões à nossa frente.

     Aquilo era uma má notícia. Uma dúzia de homens trazia baldes nos quais mergulhavam as esponjas que apagam as faíscas dos canhões que disparavam. A água dos baldes ficaria negra como a tinta após alguns disparos e, se os canhões estavam exactamente em frente, Sharpe sabia que o South Essex poderia estar a marchar para uma tempestade de fragmentos de metralha. Sentiu-se dorido e cansado, queria iniciar a luta, queria tirar a águia dos seus sonhos.

     Simmerson e Forrest apareceram, ambos a pé, e olharam fixamente para os artilheiros que enchiam os baldes. Sharpe cumprimentou e Simmerson, esquecendo o seu antagonismo por causa dos nervos, devolveu-lhe a saudação com a cabeça.

     - E esses tiros de mosquete?

     - Livram-se das cargas, meu Coronel. Nada mais.

     Simmerson resmungou. Estava a fazer todos os possíveis por ser amável, como se nesse momento se desse conta de que necessitava da destreza de Sharpe junto de si. Puxou por um grande relógio, abriu a tampa e abanou a cabeça.

     - Os espanhóis estão a atrasar-se.

     A luz começou a perder o tom acinzentado. Viu-se um brilho na margem oposta e por trás deles Sharpe contemplou o fumo de centenas de fogueiras francesas para cozinhar.

     - Posso mandar os pelotões descansar, meu Coronel?

     - Sim, Sharpe, sim.

     Simmerson estava a fazer um enorme esforço para parecer normal e Sharpe pensou se o coronel de repente não se arrependeria da carta que escrevera. Às vezes a eminência da batalha fazia com que disputas aparente-mente obstinadas parecessem trivialidades. Simmerson parecia querer dizer algo mais mas, em vez disso, voltou a abanar a cabeça e levou Forrest mais para lá na linha.

     Renderam as sentinelas, os minutos passaram, o sol fez levantar a névoa e os últimos restos da noite diluíram-se como o fumo de um canhão se desvanece no céu para oeste. Malditos espanhóis, pensou Sharpe, ao ouvir os clarins chamando os regimentos franceses para a formatura. Um grupo de cavaleiros apareceu na outra margem e inspeccionou o lado britânico olhando através de telescópios. Agora já não haveria surpresa. Os oficiais franceses veriam as baterias de canhões, as montadas da cavalaria arreadas, as filas da infantaria alinhadas entre as árvores. Tinha desaparecido toda a surpresa, tinha-se desvanecido com as sombras e com o frio, pela primeira vez os franceses saberiam a quantos homens se enfrentavam, onde se planeava o ataque e como teriam de o enfrentar.

     Ouviu-se o som dos sinos da cidade e Sharpe perguntou a si próprio o que estaria Josefina a fazer; os sinos tê-la-iam acordado? Imaginava o seu corpo espreguiçando-se entre os cálidos lençóis, um corpo que não seria seu antes do final da batalha. O som dos sinos recordou-lhe a Inglaterra e pensou em todas as igrejas das aldeias que se estariam a encher de gente. Pensariam no exército que estava em Espanha? Duvidava. Os britânicos não gostavam do exército. Claro que celebravam as suas vitórias, mas havia muito tempo que não tinham comemorações daquele tipo. A marinha era aclamada, os capitães de Nelson eram nomes familiares, mas Trafalgar era uma recordação, Nelson estava na tumba e os britânicos tratavam da vida alheios à guerra. A manhã estava cálida, os homens, sonolentos, apoiavam-se aos sobreiros e dormiam com os mosquetes apoiados nos joelhos. Algures no acampamento francês ouviu-se o som roufenho do sino de um arrieiro fazendo Sharpe recordar a normalidade.

     - Meu Capitão!

     Chamava-o o sargento de uma das companhias lá em cima, no sobreiral.

     - Oficiais da companhia, meu Capitão. com o coronel!

     Sharpe respondeu com a mão, pegou no rifle, passou o comando a Knowles e subiu pelo sobreiral. Atrasava-se. Os capitães estavam reunidos a ouvir um tenente do estado-maior de Hill. Sharpe captava retalhos do que estava a dizer.

     - Profundamente adormecidos... não há batalha... ordens de serviço de rotina.

     Ouviu-se um zumbido de perguntas. O tenente, esplêndido no seu uniforme prateado de dragão, parecia aborrecido.

     - O general pede que nos mantenhamos a postos, senhor. Mas não esperamos que os franceses façam nada.

     Foi-se embora a cavalo deixando os oficiais confundidos. Sharpe dirigiu-se a Forrest para averiguar o que lhe tinha escapado, quando viu uma figura familiar cavalgando caminho abaixo. Dirigiu-se para lá e ergueu a mão. Era o tenente-coronel Lawford e estava furioso. Viu Sharpe, puxou as rédeas e soltou um palavrão.

     - Inferno maldito, Richard! Maldito, maldito, maldito inferno! Malditos espanhóis!

     - O que se passou?

     Lawford mal podia conter a ira.

     - Os malditos espanhóis negaram-se a despertar! Não é inacreditável? Aproximaram-se outros oficiais. Lawford tirou o chapéu e enxugou a testa. Tinha grandes olheiras.

     - Levantámo-nos às duas da madrugada para salvar este raio de país e eles nem se incomodaram a sair da cama!

     Lawford olhou em volta como que à espera de ver um espanhol sobre quem descarregar a sua fúria.

     - Cavalgámos às seis para lá. Cuesta está no seu maldito carro estendido sobre os malditos coxins e diz que o seu exército está demasiado cansado para lutar! Não é incrível? Tínhamo-los na mão. Assim! - disse, estalando o indicador e o polegar. - Tínhamos acabado com eles esta manhã! Podíamos ter apagado Victor do mapa. Mas não. Mañana, mañana, amanhã, amanhã! Não vai haver amanhã! Victor não é parvo, partirá hoje. Malditos, malditos, malditos! - disse o honorável William Lawford, olhando fixamente para Sharpe. - Sabe o que se passa agora?

     - Não.

     - Jourdan está ali - disse apontando para leste - com José Bonaparte. Unir-se-á a Victor e então teremos de lutar a dobrar. A dobrar! E correm rumores de que Soult conseguiu reunir um exército e vem pelo norte. Meu Deus! A oportunidade que perdemos hoje! Sabe o que é que eu penso?

     Sharpe abanou a cabeça.

     - Penso que o canalha não quer lutar porque é domingo. Há sacerdotes a murmurar orações à volta da sua maldita cama de rodas. Malditos católicos! E continua a não haver comida!

     Sharpe sentiu que o cansaço o vencia.

     - Que fazemos agora?

     - Agora? Esperamos. Cuesta diz que atacaremos amanhã. Não o vamos fazer porque os franceses já lá não estarão. - Lawford deixou descair os ombros e emitiu um suspiro. - Sabe onde está Hill?

     Sharpe indicou o longo caminho e Lawford continuou a cavalo. Malditos espanhóis, pensou Sharpe, malditos todos. Era o oficial de dia e teria de organizar os serviços, inspeccionar as linhas, raspar algumas provisões do comissário, que não teria nada. Não seria possível ver Josefina. Não haveria batalha, nem águia, nem sequer pão com chouriço. Maldito.

    

     Hoje um homem...

     - Sim?

     Sharpe olhava de cima para Josefina que estava sentada, nua, em cima da cama, com os joelhos encolhidos, tentando limar as unhas dos pés com o fio da sua espada. Ria-se das tentativas e então deixou cair a espada e olhou para ele.

     - Era lindo. Trazia uma capa azul com traços brancos por aqui. - Esfregou o peito com as mãos. - E um monte de cordões dourados.

     - A cavalo? Ela assentiu.

     - E levava uma bolsa pendurada...

     - Era a bainha do sabre. E uma espada curva?

     Ela voltou a assentir e Sharpe sorriu zombeteiramente.

     - Esse parece dos dragões do príncipe de Gales. Muito rico.

     - Como o sabes?

     - Todos os soldados de cavalaria são ricos. Pouco inteligentes, mas ricos. Ela levantou a cabeça no seu gesto característico e franziu a testa.

     - Pouco inteligentes?

     - Todos os oficiais de cavalaria o são. O cavalo põe o cérebro e eles o dinheiro.

     - Ah, de acordo - disse, encolhendo os ombros nus. - Não interessa. Eu tenho cérebro suficiente para os dois. - Olhou para ele e sorriu, brincalhona - Estás com ciúmes?

     - Sim.

     Ele tinha captado a sua inclinação para a sinceridade. Ela assentiu com ar sério.

     - Estou aborrecida, Richard.

     - Bem sei.

     - Não é por ti - disse, levantando os olhos dos pés e olhando fixamente para ele com ar grave. - És bom para mim. Mas há uma semana que estamos aqui e não se passa nada.

     Sharpe inclinou-se e puxou as botas por cima das calças.

     - Não te preocupes. Algo se vai passar amanhã.

     - Tens a certeza?

     - Amanhã vamos combater.

     Desta vez, pensou, sem dúvida que nos superarão em número. Ela encolheu os joelhos e encostou-os ao corpo, rodeou-os com os braços e pousou o queixo em cima deles.

     - Tens medo?

     - Sim.

     Ela arqueou as sobrancelhas.

     - Quem vencerá?

     - Não sei. Ela sorriu.

     - Tenho um presente para ti depois da batalha.

     - Não quero presente nenhum. Quero-te a ti.

     - A mim já me tens.

     Ela já sabia o que ele queria dizer, mas dissimulou. Viu-o pôr-se de pé.

     - Queres a espada?

     - Sim.

     Sharpe apertou bem o cinto, pondo a bainha no lugar. Ela sorriu-lhe, brincalhona.

     - Vem buscá-la.

     Pôs a grande espada em cima da cama e rolando por cima dela pôs o ventre nu sobre o aço frio. Sharpe aproximou-se dela.

     - Dá-ma.

     - Agarra tu mesmo.

     O corpo dele era cálido e forte, os músculos endurecidos pelo exercício, e colou-se a ele. Sharpe afastou-lhe o rosto e olhou-a fixamente nos olhos.

     - O que se passará? - perguntou.

     - Conseguirás a tua águia. Consegues sempre o que queres.

     - Quero-te a ti.

     Ela fechou os olhos e beijou-o com força, depois separou-se e sorriu.

     - Somos simplesmente vagabundos,” Richard. Andamos juntos sem rumo, mas efectuamos ambos uma travessia.

     - Não estou a perceber.

     - Sim, percebes. Vamos por dois caminhos diferentes. Tu queres um lar. Queres alguém que te ame e te deseje, alguém que te alegre o trabalho.

     - E tu? Ela sorriu.

     - Eu quero vestidos de seda e música. Serões até ao amanhecer.

     Ele começou a dizer qualquer coisa, mas ela pôs-lhe um dedo sobre os lábios.

     - Já sei o que estás a pensar. Que são loucuras, mas é isso que eu quero. Talvez um dia queira uma coisa mais sensata.

     - Eu sou sensato?

     - Por vezes, querido, quando levas as coisas demasiado a sério.

     - Estás a despedir-te?

     - Aí está! - disse ela a rir. - Estás a ver? Levas as coisas demasiado a sério.

     Beijou-o fugazmente na ponta do nariz.

     - Volta depois da batalha. Vem buscar o teu presente. Ele baixou-se para agarrar o punho da espada.

     - Afasta-te, não te quero cortar.

     Ela moveu-se para um lado e tocou na lâmina com o dedo.

     - Quantos homens mataste com ela?

     - Não sei.

     Deslizou-a por entre a bainha, sentiu o seu peso agradável na anca. Pôs-se de cócoras junto à cama e abraçou-lhe a cintura nua. Olhou fixamente para o corpo dela, como que a tentar gravá-lo na memória: a sua plenitude, a sua beleza, o mistério que o fazia parecer inatingível. Acariciou-lhe o rosto com um dedo.

     - Vai e luta.

     - Voltarei.

     - Bem sei.

     Tudo parecia irreal a Sharpe. Os soldados pelas ruas de Talavera, a gente que se afastava ao passar, a tarde em si. No dia seguinte haveria uma batalha. Morreriam às centenas, mutilados pelas balas, abertos pelos sabres da cavalaria, atravessados pelos tiros de mosquete, e, no entanto, a cidade fervilhava. A gente estava apaixonada, comprava comida, dizia piadas e, no entanto, haveria uma batalha. Ele amava Josefina. A muito custo podia pensar na batalha, na águia, apenas no seu rosto malicioso. Ela escapava-se-lhe, bem o sabia, no entanto não o aceitava. A batalha era quase irrelevante face à irresistível necessidade de a agarrar, de a fazer sua, e sabia que tal não podia ser.

     Encaminhou-se para a porta da cidade que dava para a planície a oeste. A Companhia Ligeira fazia guarda à porta; Sharpe fez com a cabeça um sinal a Harper e subiu as inclinadas escadas do parapeito, onde Hogan olhava fixa-mente para baixo em direcção aos olivais e aos bosques que estavam cheios de soldados espanhóis desfilando para as posições que Wellesley cuidadosamente lhes havia designado. Cuesta, após ter-se negado a atacar no domingo anterior, tinha marchado impetuosamente atrás dos franceses que retiravam. Agora, quatro dias depois, o seu exército regressava a correr, com o rabo entre as pernas, arrastando atrás de si um exército francês que se tinha multiplicado por dois. Amanhã, pensava Sharpe, os espanhóis teriam de lutar, os franceses acordá-los-iam, o exército aliado que podia ter conseguido uma vitória no domingo anterior teria agora de lutar na defensiva contra as forças unidas de Victor, Jourdan e José Bonaparte.

     Não que os espanhóis tivessem muito a ver com o morticínio propriamente dito, pensou Sharpe. Wellesley fizera retroceder o seu exército de modo a criar uma linha defensiva junto à mesma cidade de Talavera. A extrema-direita da linha era constituída pelas muralhas da cidade, pelos olivais, campos e bosques emaranhados, tudo tornado inexpugnável graças ao bom trabalho de Hogan, Tinha abatido árvores, construído rapidamente trincheiras, reforçado as muralhas, e as tropas espanholas tomaram posições nessa teia de barricadas e obstáculos. Nenhum soldado de infantaria francês podia esperar abrir passagem pelo parapeito de Hogan desde que os defensores se manti-vessem nos postos; consequentemente o exército francês viraria para norte, para o lado esquerdo da linha de Wellesley, onde os britânicos aguardariam o ataque. Sharpe olhou para a planície a norte. Nenhum oficial de engenharia teria disposto os obstáculos de melhor maneira, restava apenas o curso do Portina, que podia ser atravessado por um homem sem que a água lhe entrasse nas botas, e um prado ondulante que era um convite para os batalhões franceses e para as suas compridas linhas de esplêndida cavalaria. À distância estava o Medellín, o monte que dominava a planície, e Sharpe tinha experiência suficiente para saber o que iria acontecer no dia seguinte. As colunas francesas atravessariam o curso de água e atacariam as suaves encostas do Medellín. Era esse o lugar mortal. Trinta mil dos efectivos das tropas espanholas, podiam ficar a salvo atrás dos parapeitos e ficar a ver enquanto as Águias atacavam os britânicos na planície aberta do Norte e o fumo cobria o Medellín.

     - Como se sente? - perguntou Hogan.

     - Bem - sorriu Sharpe.

     O irlandês virou-se para ver como os espanhóis ocupavam as posições que ele tinha preparado. Na planície do outro lado, ocultos entre as árvores onde o Alberche despejava as suas águas no Tejo, ouviu-se o ruído dos mosquetes. Durante toda a tarde houve como que um incêndio florestal distante e Sharpe viu dezenas de britânicos feridos levados através das portas da cidade. Os britânicos tinham coberto a última milha da retirada espanhola e os feridos diziam que os atiradores franceses tinham triunfado naquele dia. Dois batalhões britânicos tinham sido maltratados, corria até o rumor de que por pouco não tinham capturado o próprio Wellesley. Os espanhóis pareciam nervosos e Sharpe interrogava-se sobre que tipo de tropas teriam arranjado os franceses para lançar contra o exército aliado. Baixou os olhos para Harper. O sargento, com uma dezena de homens, fazia guarda à porta da cidade, não contra o inimigo, mas sim para deter os soldados britânicos ou espanhóis que se sentissem tentados a perder-se pelas obscuras ruelas de Talavera e a livrarem-se da luta que era inevitável. O batalhão estava no Medellín e Sharpe esperava ordens que enviassem a sua companhia pelo baixo Portina até encontrar o bocado de erva que tinha de defender pela manhã.

     - E que tal está a rapariga? - perguntou Hogan sentado numa pedra poeirenta.

     - Está feliz. Aborrecida.

     - As mulheres são assim. Nunca estão contentes. Precisa de mais dinheiro?

     Sharpe olhou para o oficial de engenharia de meia-idade e viu preocupação nos seus olhos. Hogan tinha emprestado mais de vinte guinéus a Sharpe, uma quantia que lhe seria impossível devolver a menos que tivesse sorte no campo de batalha.

     - Não, por agora é suficiente. Hogan sorriu.

     - Tem sorte - disse encolhendo os ombros. - Por amor de Deus, Sharpe, ela é uma criatura adorável. Está apaixonado?

     Sharpe olhou por cima do parapeito onde os espanhóis tinham ocupado as fortalezas provisórias de Hogan.

     - Ela não deixará que chegue a estar.

     - Então é mais sensata do que eu pensava.

     A tarde passou lentamente. Sharpe pensou na rapariga, aborrecida no quarto, e observou os soldados espanhóis que cortavam faias e sobreiros para acenderem as fogueiras da noite. Então, com uma brusquidão que Sharpe não esperava, viram-se clarões de luz distantes entre as confusas árvores e arbustos que ladeavam a planície a leste. Sabia que era o sol, que se reflectia nos mosquetes e nos peitilhos. Sharpe deu uma ligeira cotovelada a Hogan e apontou para lá.

     - Os franceses.

     Hogan pôs-se de pé e ficou a olhar fixamente.

     - Meu Deus - disse em voz baixa. - São muitos.

     A infantaria avançava para a longínqua planície como uma mancha escura espalhando-se sobre a erva. Sharpe e Hogan observavam como batalhão atrás de batalhão marchavam sobre os campos pálidos; esquadrão atrás de esquadrão de cavalaria, as pequenas formas rechonchudas dos canhões espalhadas entre as formações, o maior exército que Sharpe já tinha visto num campo. As galopantes figuras dos oficiais do estado-maior podiam distinguir-se com facilidade, uma vez que dirigiam as colunas para os seus postos, prontas para avançar e para a batalha do dia seguinte. Sharpe olhou para a esquerda para as fileiras britânicas que esperavam junto ao Portina. O fumo de centenas de fogueiras impregnava o ar do entardecer, uma multidão de homens apinhados junto ao curso de água e, no Medellin, longe da vista do inimigo. Todavia as forças britânicas pareciam lamentavelmente pequenas em relação à enorme maré de homens, cavalos e canhões que cobria a planície para leste e crescia a cada minuto. O irmão de Napoleão, o rei José, estava ali juntamente com dois marechais de França, Victor e Jourdan. Comandavam sessenta e cinco batalhões de infantaria, uma parte enorme dos homens que tinham feito da Europa propriedade de Napoleão, e tinham vindo bater naquele pequeno exército britânico e enviá-lo destroçado para o mar. Planeavam destruí-lo para sempre e garantirem que a Grã-Bretanha nunca mais se atreveria a desafiar as águias em terra.

     Hogan assobiou ao de leve. - Atacarão esta noite?

     - Não - respondeu Sharpe, examinando as linhas distantes. - Vão esperar pela artilharia.

     Hogan apontou para leste, que ia escurecendo.

     - Têm canhões. Olhe, vêem-se além. Sharpe abanou a cabeça.

     - Esses são só os pequenos que acompanham todos os batalhões de infantaria. Não, os grandes filhos da mãe devem estar atrás, algures no caminho. Chegarão de noite.

     E pela manhã, pensou, os franceses começariam com um dos seus favo-ritos ataques de canhão, a artilharia concentrada lançaria a sua chuva de ferro contra as linhas inimigas antes que as colunas densas e acompanhadas de tambores seguissem as Águias atravessando o curso de água. As tácticas francesas raramente eram subtis. A inteligente manobra de rodear o flanco de um inimigo não era típica deles. Em vez disso, uma vez e outra, concentravam os cantões e os homens e lançavam um terrível matraqueio sobre as linhas inimigas; e uma vez e outra, saíam-se bem. Encolheu os ombros.

     Quem precisava de ser subtil? Os canhões e os soldados franceses tinham destroçado todos os exércitos enviados contra eles.

     Ouviu gritos atrás de si, atravessou a ameia e olhou para baixo para a porta onde Harper e os seus homens estavam de guarda. O tenente Gibbons estava ali com Berry, ambos a cavalo, ambos a gritar a Harper. Sharpe inclinou-se por cima do parapeito.

     - O que se passa? Gibbons voltou-se lentamente. Sharpe deu conta de que o tenente estava ligeiramente embriagado e tinha alguma dificuldade em manter-se sobre o cavalo. Gibbons saudou Sharpe com a sua habitual ironia.

     - Não o tinha visto aí, meu Capitão. Lamento. Inclinou-se. O tenente Berry soltou uma gargalhadinha. Gibbons endireitou-se.

     - Apenas estava a dizer ao seu sargento, aqui, que já pode regressar, de acordo?

     - Mas pelo caminho pararam para beber qualquer coisa, não foi? Berry soltou uma sonora gargalhada. Gibbons olhou para ele e pôs-se também a rir. Voltou a inclinar-se.

     - Digamos que sim, meu Capitão.

     Os dois tenentes meteram esporas aos cavalos debaixo da porta e começaram a subir o caminho para as linhas britânicas a norte. Sharpe viu-os ir.

     - Canalhas.

     - Causaram-lhe problemas? - perguntou Hogan sentado no parapeito.

     - Não - respondeu Sharpe abanando a cabeça. - São apenas insolências, comentários idiotas, já sabe.

     Pensou em Josefina. Hogan pareceu ler os seus pensamentos.

     - Está a pensar na rapariga?

     - Sim - assentiu Sharpe. - Mas deveria estar bem - disse como que a pensar em voz alta. - Ela fecha a porta à chave. Estamos no último andar e não sei como nos poderiam encontrar.

     Voltou-se para Hogan e sorriu.

     - Deixe de se preocupar. Não fizeram nada; são cobardes. Já desistiram! Hogan abanou a cabeça em sinal de desacordo.

     - Matá-lo-iam, Richard, lamentá-lo-iam tão pouco como se sacrificassem um cavalo coxo. Lamentá-lo-iam ainda menos. E quanto à rapariga, também tentariam fazer-lhe mal.

     Sharpe virou-se para o espectáculo da planície. Sabia que Hogan tinha razão, sabia que havia muitas coisas por resolver, mas não era a sua vez de jogar; teria de esperar até depois da batalha. As tropas francesas tinham inundado o extremo da planície, fluíam entre bosques e quintas, avançando sempre para o riacho e para a colina de Medellín. Escureciam a planície, enchiam-na com uma maré de homens pintalgados de aço, e continuavam a chegar; hussardos, dragões, lanceiros, caçadores, granadeiros e voltigeurs, os seguidores das Águias, os homens que tinham construído um império, o velho inimigo.

     - Um trabalho duro para amanhã - disse Hogan, abanando a cabeça enquanto observava os franceses.

     - Assim será - respondeu Sharpe e voltou-se para chamar Harper. Venha cá!

     O enorme sargento irlandês subiu a Correr pela muralha derrubada e parou junto aos dois oficiais. Nas linhas francesas brilhou a primeira de milhares de fogueiras. Harper abanou a grande cabeça.

     - Talvez se esqueçam de acordar amanhã. Sharpe riu.

     - Só têm de se preocupar com a manhã seguinte.

     - Pergunto-me com mais quantos exércitos como este nos teremos de enfrentar, antes de estar tudo acabado - disse Hogan, pondo a mão em pala sobre os olhos.

     Os dois fuzileiros não disseram nada. Tinham estado com Wellesley, no ano anterior, quando tinha derrotado os franceses na Roliça e no Vimeiro, todavia este exército era dez vezes maior do que o dos franceses na Roliça, três vezes maior do que o de Junot no Vimeiro e duas vezes maior do que o que tinham expulso de Portugal na Primavera. Era como se por cada francês morto saíssem outros dois ou três do depósito, e quando os matassem então vinha mais uma dúzia, e assim sucessivamente. Harper sorriu com malícia. - Não vale a pena preocuparmo-nos enquanto os observamos. O homem sabe o que faz.

     Sharpe anuiu. Wellesley não estaria à espera deles por trás do Portina se acreditasse que o dia seguinte lhes traria uma derrota. De todos os generais britânicos era o único em que os homens que levavam as armas confiavam, sabiam que tinha compreendido como tinha de lutar contra os franceses e, o mais importante, quando não tinha de lutar contra eles. Hogan apontou com o dedo.

     - O que é aquilo?

     A uns três quartos de milha de distância cavaleiros franceses disparavam com as suas carabinas. Sharpe não via o alvo. Observou as nuvens de fumo e ouviu um débil estalido.

     - Dragões.

     - Isso já eu sei - disse Hogan. - Mas contra o que é que estão a disparar?

     - Serpentes?

     Durante os seus passeios pelo Portina, Sharpe tinha reparado em pequenas serpentes pretas que ondulavam misteriosamente por entre a erva húmida junto ao riacho. Tinha-as evitado mas supusera que possivelmente também viveriam na planície e os cavaleiros estavam simplesmente a divertir-se com exercícios de pontaria. Era já tarde e as chamas das bocas das carabinas brilhavam intensamente à luz do crepúsculo. Era estranho, pensou Sharpe, como a guerra tantas vezes parecia bonita.

     - Ora - disse Harper, apontando para baixo. - Acordaram os nossos valentes aliados. Parece um maldito formigueiro.

     Por baixo da muralha, a infantaria espanhola estava nervosa. Os homens abandonaram as fogueiras e alinharam atrás da muralha de terra e pedras e puseram os mosquetes sobre os troncos caídos e amontoados que Hogan tinha colocado nas portas. Alguns oficiais permaneciam na muralha, com as espadas desembainhadas; ouviam-se gritos e empurrões, os homens apontavam aos distantes dragões e aos seus mosquetes refulgentes.

     Hogan riu-se.

     - Dá gosto ter aliados.

     Os dragões, demasiado afastados para que se vissem com nitidez, continuavam a disparar contra o alvo invisível. Sharpe chegou à conclusão de que não passava de brincadeira. Os franceses pareciam alheios ao pânico que estavam a causar entre as tropas espanholas. Todos os soldados da infantaria espanhola se tinham amontoado contra o parapeito, com as costas iluminadas pelas fogueiras, e os mosquetes apontados para o campo vazio. Os oficiais cuspiam ordens e Sharpe viu com horror que estavam a ser carregados centenas de mosquetes.

     - Que diabo estão a fazer?

     Ouviu o som das baquetas a serem introduzidas nos canos das armas e viu que os oficiais levantavam as espadas.

     - Observe isto - disse Hogan. - Pode aprender alguma coisa.

     Não foi dada qualquer ordem. Em vez disso, um único mosquete dispa-rou, a bala tamborilou inutilmente na erva, e seguiu-se-lhe a maior descarga que Sharpe já tinha ouvido. Milhares de mosquetes dispararam, soltando chamas e fumo, e um trovão ribombou pelo ar; o som pareceu durar eternamente e, misturado com ele, ouviram-se os gritos dos espanhóis. O fogo e o chumbo entornaram-se sobre o campo vazio. Os dragões levantaram os olhos, sobressaltados, mas nenhuma bala de mosquete atingiria sequer um terço daquela distância, pelo que ficaram sentados nas selas e observaram a nuvem de fumo dos mosquetes a elevar-se no ar.

     Por um momento, Sharpe pensou que os espanhóis estavam a celebrar a vitória frente à erva inocente mas, de repente, deu-se conta de que os gritos não eram de triunfo mas sim de alarme. Tinham-se assustado com a sua própria descarga, com o troar de dez mil mosquetes, e agora corriam a pôr-se a salvo. Cerca de um milhar fugiu por entre as oliveiras, largando os mosquetes, pisando as fogueiras, apanhadas pelo pânico, pedindo ajuda aos gritos, com a cabeça levantada, agitando os braços para cima e para baixo, fugindo do seu próprio ruído. Sharpe gritou para os seus homens que estavam na porta:

     - Deixem-nos passar!

     Não havia razão para tentar deter o pânico. Os doze homens de Sharpe seriam envolvidos pelas centenas de espanhóis que se juntaram junto à porta e entraram na cidade. Outros viraram em direcção a norte para os caminhos que levavam para o oeste afastando-se dos franceses. Saqueariam o parque de bagagens, assaltariam as casas da cidade, semeariam o susto e a confusão mas não havia nada a fazer. Sharpe reparou que a cavalaria espanhola usava as espadas contra a infantaria fugitiva. Deteriam alguns, talvez pela manhã tivessem reunido a maior parte deles, mas o grosso da infantaria espanhola tinha-se evaporado, assustada, derrotada por um punhado de dragões a três quartos de milha. Sharpe começou a rir. Era divertido de mais, estúpido de mais, sem dúvida muito próprio daquela campanha. Viu que a cavalaria espa-nhola ceifava furiosamente a infantaria, obrigando alguns grupos a regressar à linha, e, à distância, ouviu os clarins que pediam reforços para a caçada. Na planície, as fogueiras francesas formavam linhas de luz, milhares e milhares de chamas assinalando as linhas inimigas, e nenhum dos homens que estavam à volta dessas fogueiras saberia que acabavam de derrotar milhares de soldados da infantaria espanhola. Sharpe deixou-se cair sobre a muralha e olhou para Harper.

     - Dizia alguma coisa, sargento?

     - Meu Capitão?

     - Deus salve a Irlanda? Não poderá. Tem as mãos ocupadas com os espanhóis.

     O ruído e o pânico diminuíram. Restava um punhado de homens no olival, outros eram trazidos de volta pela cavalaria espanhola, mas Sharpe calculou que os cavaleiros levariam a noite toda a reunir os fugitivos e a obrigá-los a voltar para os parapeitos, e, mesmo assim, milhares escapariam para propagar o rumor de uma grande vitória francesa nos arredores de Talavera. Sharpe pôs-se de pé.

     - Venha, sargento, está na hora de regressarmos ao batalhão. Uma voz chamou da rua.

     - Capitão Sharpe! Senhor!

     Um fuzileiro gesticulava e, junto a ele, estava Agostinho, o criado de Josefina. Sharpe sentiu que o seu humor descontraído desaparecia e via-se substituído por um susto horroroso. Desceu a correr pelo muro derrocado, Harper e Hogan atrás dele, e encaminhou-se para os dois homens.

     - O que se passa?

     Agostinho começou a falar português. Era um homem pequeno que normalmente falava pouco e olhava para tudo com os seus grandes olhos. Sharpe levantou a mão a pedir-lhe que se calasse.

     - O que diz?

     Hogan sabia português suficiente. O oficial de engenharia humedeceu os lábios.

     - É Josefina.

     - O que lhe aconteceu?

     Sharpe teve um pressentimento frio de desgraça. Deixou que Hogan lhe pegasse no cotovelo e o afastasse, com Agostinho, dos ouvidos dos fuzileiros.

     Hogan fez mais perguntas, deixou que o criado falasse, e finalmente voltou-se para Sharpe.

     - Atacaram-na. Fecharam Agostinho num armário.

     - Eles?

     Já conhecia a resposta. Gibbons e Berry. O sargento Harper aproximou-se deles, com um tom formal e correcto.

     - Meu Capitão?

     - Sargento?

     Sharpe engoliu as centenas de temores que lhe restavam para poder ouvir Harper.

     - Eu levo o homem, meu Capitão.

     Sharpe anuiu. Ocorreu-lhe que Patrick Harper sabia mais do que se estava a passar do que ele supunha. Atrás das suas palavras cautelosas havia uma preocupação que fez com que Sharpe lamentasse não ter tido mais confiança em Harper. O irlandês também mostrava uma ira contida. Os seus inimigos, queria ele dizer, são os meus.

     - Siga, sargento.

     - Sim, meu Capitão. E o meu Capitão? - disse Harper aflito. - Permitir-me-á saber o que se passa?

     - Sim, sargento.

     Sharpe e Hogan correram pelas ruas escuras, resvalando na porcaria, abrindo passagem entre os fugitivos que estavam a forçar as portas das tabernas e de casas particulares. Hogan arquejava para se manter junto ao fuzileiro. Seria uma noite má para Talavera, uma noite de saque, destruição e violação. Amanhã milhares de homens marchariam contra uma voragem de fogo e Hogan, vislumbrando o rosto de Sharpe quando rosnava aos soldados de infantaria espanhóis que se afastassem do seu caminho, temia pelo mal que parecia brotar com a antecipação da manhã. Chegaram por fim à pequena rua em que vivia Josefina e Hogan levantou os olhos para as silenciosas janelas, com as portas exteriores fechadas, e rogou que Sharpe não se destruísse a si próprio com a sua enorme ira.

    

     As botas de Sharpe rangeram sobre o gesso partido, ouviu as vozes que murmuravam no quarto do outro lado da porta estilhaçada, e olhou fixamente por uma pequena janela para as pequenas nuvens que passavam rapidamente por cima da Lua. Hogan estava sentado no último lance da escada inclinada, junto aos lençóis que tinham tirado da cama de Josefina. Sob a fraca luz das velas que saía pela porta, os lençóis pareciam estampados a vermelho e branco. Ouviu-se um grito proveniente do quarto. Sharpe ficou irritado.

     - O que estão a fazer? Hogan mandou-o calar.

     - O médico está a sangrá-la, Sharpe. Ele sabe o que está a fazer.

     - Como se não tivesse perdido sangue suficiente!

     - Bem sei, bem sei - disse Hogan em tom tranquilizador.

     Nada do que dissesse poderia aliviar a confusão que fervilhava na cabeça de Sharpe, amortizar o golpe ou desviar a vingança que Hogan sabia estar a ser planeada minuto a minuto, enquanto o fuzileiro ia e vinha pelo diminuto patamar. O oficial de engenharia suspirou e apanhou uma diminuta cabeça de gesso. A casa pertencia a um vendedor de imagens religiosas e nas escadas e corredores amontoava-se a mercadoria. Quando Gibbons e Berry forçaram a entrada do quarto da rapariga tinham espezinhado vinte ou trinta imagens de Jesus Cristo, todas elas com um sagrado coração, e os rostos das estátuas ainda estavam espalhados pelo patamar. Hogan era um homem pacífico. Gostava do seu trabalho, gostava dos novos desafios do dia a dia, era feliz com a cabeça repleta de ângulos, medidas em jardas e pesos ingleses; gostava da companhia de quem se ria com facilidade, que bebia generosamente, e que passava o tempo com histórias felizes de tempos passados. Não era um lutador. A sua guerra fazia-se com picaretas, pás e pólvora; no entanto, quando irrompeu pelas águas-furtadas sentira uma ira abrasadora e sede de vingança. Já lhe tinha passado. Agora estava sentado, triste e em silêncio, mas quando olhava para o alto fuzileiro sabia que o humor de Sharpe se limava e se alimentava. Sharpe deteve-se pela vigésima vez.

     - Porquê?

     - Estavam bêbados, Richard - respondeu Hogan encolhendo os ombros.

     - Isso não é resposta!

     - Não - respondeu Hogan voltando a colocar com cuidado a cabeça partida no chão, distante das idas e vindas de Sharpe. - Não há resposta. Queriam vingar-se de si. Nem você nem a rapariga são importantes. É o orgulho deles...

     Deixou a frase inacabada. Não havia nada a dizer, apenas era possível sentir a enorme tristeza e temer pelo que Sharpe pudesse vir a fazer. Hogan lamentava a primeira impressão que tinha tido da rapariga, tinha-a achado calculista e fria, mas quando a escoltara de Plasência a Oropesa, e daí a Talavera, tinha-se sentido cativado pelo seu encanto, pelo seu riso fácil e pela honestidade com que planeava o futuro, longe de um desagradável passado e de um marido fugitivo.

     Sharpe olhava fixamente as nuvens que desenhavam a lua através da janela.

     - Pensam que não vou fazer nada?

     - Estão aterrorizados.

     Hogan disse-o categoricamente; tinha medo do que Sharpe pudesse fazer. Pensou no verso de Shakespeare: “a beleza provoca os tolos”. Sharpe voltou-se de novo para ele.

     - Porquê?

     - Já sabe porquê. Estavam bêbados. Por amor de Deus, homem, estavam tão bêbados que nem sequer puderam fazer as coisas bem. Pelo que bateram na rapariga. Foi tudo com a excitação do momento, e agora? Estão aterrados, Richard. Aterrados. O que vai fazer?

     - O que vou fazer? Não sei.

     Sharpe falava em tom irritado e Hogan sabia que estava a mentir.

     - O que pode fazer, Richard? Desafiá-los para um duelo? Isso arruinaria a sua carreira, já sabe. Vai acusá-los de violação? Por amor de Deus, Richard, quem iria acreditar em si? Esta noite a cidade está cheia de soldados sangui-nários, que violam tudo o que se mexe! E toda a gente sabe que a rapariga estava com Gibbons antes de estar consigo. Não, Richard, deve reconsiderar. Deve pensar muito bem antes de fazer qualquer coisa.

     Sharpe voltou-se para ele e Hogan viu que não havia qualquer argumento contra aquele rosto implacável.

     - Malditos, matá-los-ei.

     Hogan suspirou e esfregou a cara com as duas mãos.

     - Não ouvi isso. Quer que o enforquem? Que o fuzilem? Moa-os a pancada se quiser, mas nada mais, Richard, nada mais.

     Sharpe não respondeu e Hogan sabia que estava a ver na sua mente o corpo que tinham encontrado com os lençóis ensopados em sangue. Tinham-na violado e batido e quando eles chegaram, a proprietária gritava ao ver a rapariga. Tinha custado mais dinheiro fazer calar a mulher, encontrar um médico e agora esperariam. Agostinho assomou à escada, viu a cara de Sharpe e voltou para a porta onde lhe tinham dito que esperasse. Levaram lençóis limpos para o quarto, água e Sharpe, que ouvira como a proprietária limpava o chão, recordou a rapariga, ferida e a sangrar, a arrastar-se entre os santos partidos e os lençóis manchados.

     A porta abriu-se, fazendo estalar os cacos, e a proprietária chamou-os. O médico estava de joelhos junto à cama e os seus olhos dirigiram-se cautelosa-mente para os dois oficiais. Josefina estava em cima da cama, com o cabelo negro estendido sobre a almofada, e apesar de ter os olhos bem fechados, Sharpe sentou-se a seu lado, viu a contusão amarela na pele anormalmente pálida e pegou-lhe numa das mãos que se agarrava ao linho limpo. Ela estendeu a mão mas ele agarrou-a e os olhos dela abriram-se.

     - Richard?

     - Josefina, como estás?

     Parecia uma estupidez mas não lhe ocorria mais nada. Voltou a abrir os olhos.

     - Vou ficar boa.

     Por momentos recordou a antiga Josefina, mas enquanto falava escapou-se-lhe uma lágrima, soluçou e virou-se de costas. Sharpe voltou-se para o médico.

     - Como está ela?

     O médico encolheu os ombros e olhou sem esperança para a dona da casa.

     Hogan interveio e algaraviou ao médico algo em espanhol. Sharpe ouvia as vozes e enquanto o fazia acariciava o rosto voltado da rapariga. Tinha-lhe prometido protegê-la e agora acontecia aquilo, o pior, o impensável. Hogan sentou-se junto a ele.

     - Vai ficar bem. Perdeu muito sangue.

     - O quê?

     Hogan fechou os olhos e respirou fundo antes de os voltar a abrir.

     - Bateram-lhe, Richard. Não tiveram escrúpulos. Mas ficará melhor. Sharpe assentiu. No quarto reinava o silêncio apesar de Sharpe poder ouvir os gritos e os berros que vinham da rua, produzidos pelos soldados espanhóis que estavam bêbados. A rapariga voltou-se para ele. Tinha parado de chorar. Falava muito baixo.

     - Richard?

     - Sim?

     - Mata-os.

     Falou com decisão. Hogan balanceou a cabeça, mas Sharpe inclinou-se e beijou-a junto à orelha.

     - Fá-lo-ei.

     Quando se levantou, viu outro meio sorriso na cara dele e então ela forçou um verdadeiro sorriso, que resultava estranho ao lado das lágrimas. Ela apertou-lhe a mão.

     - Haverá batalha amanhã?

     - Sim.

     Sharpe falava como se aquele fosse um tema banal, como se não tivesse importância.

     - Boa sorte.

     - Virei ver-te depois - disse-lhe a sorrir.

     - Sim - respondeu sem convicção na voz. Sharpe voltou-se para Hogan.

     - Fica?

     - Até ao amanhecer. Não precisam de mim até lá. Mas o senhor deve ir.

     - Eu sei - disse Sharpe assentindo com a cabeça.

     Voltou a beijá-la, pôs-se de pé, pegou na espingarda e na mochila. Hogan pensou que a expressão do rosto dele era a mais cruel possível. O oficial de engenharia acompanhou-o até à escada.

     - Tenha cuidado, Richard.

     - Vou ter.

     Hogan pôs-lhe a mão sobre o ombro para o deter.

     - Lembre-se do que pode perder. Sharpe voltou a concordar.

     - Quando puder, dê-me notícias.

     Sharpe abriu caminho até à rua, sem prestar atenção aos espanhóis, e enquanto se encaminhava para norte não viu o homem alto de capote azul e virolas brancas que espiava a partir de uma porta em frente à habitação de Josefina. O homem fitou Sharpe compadecido, a seguir olhou para cima, para as janelas, e instalou-se no portal onde se tentou acomodar apesar do braço partido com talas e do lenço que o apoiava que o manteriam afastado da batalha do dia seguinte. Interrogava-se sobre o que se estaria a passar no segundo piso mas em breve o saberia. Agostinho dir-lho-ia em troca de uma moeda de ouro.

     Sharpe apressou-se a subir o caminho que saía da cidade entre o Portina e as linhas espanholas. Os assustados soldados de infantaria eram obrigados a regressar às suas posições, mas, apesar de Sharpe caminhar apressadamente por entre as árvores, ouvia os disparos fortuitos de mosquetes provenientes da cidade, os gritos, a preparação da noite de medo e violação em Talavera. A lua desaparecera por detrás de um grupo de nuvens mas as luzes das fogueiras espanholas indicavam-lhe o caminho. Meio a correr dirigia-se para norte, para a encosta do Medellín. O céu brilhava à direita com um vermelho intenso em que milhares de fogueiras francesas se reflectiam no ar. Devia estar preocupado a pensar no dia seguinte; sabia que seria a maior batalha em que teria lutado; no entanto, a sua mente estava dominada pela necessidade de encontrar Berry e Gibbons. Chegou ao Pajar, a diminuta colina que limitava o fim das linhas espanholas e o local em que o Portina virava à direita; depois de correr por trás das tropas espanholas a corrente fluía agora em frente da posição britânica. Viu os vultos dos canhões da companhia que Wellesley tinha posicionado sobre a pequena colina e uma parte da sua mente registou como o fogo daquelas armas se estenderia preventivamente diante das linhas espanholas e desviaria o ataque francês em massa para as linhas britânicas. Mas a do dia seguinte seria outra batalha.

     O caminho fundia-se com a erva. Viu as fogueiras dispersas dos britânicos mas não fazia ideia de qual era o South Essex. Sabia que estavam dispostos na colina do Medellín, pelo que correu junto ao riacho, tropeçando nos tufos de erva, chapinhando entre zonas pantanosas, seguindo o prateado Portina como guia até ao Medellín.

     Estava só na escuridão. As fogueiras britânicas estavam longe à sua esquerda, as francesas mais distantes à direita, ambos os exércitos tranquilos e calados. Qualquer coisa não corria bem. Sentiu a pontada do seu velho instinto e deteve-se, pôs um joelho no chão e explorou na escuridão. De noite, a encosta do Medellín parecia um lombo comprido e baixo que apontava para o exército francês. Era a chave do flanco esquerdo de Wellesley; se os franceses atacassem a colina poderiam voltar-se e esmagar os britânicos entre o Medellín e Talavera. No entanto, não havia fogueiras no cume. Viu umas chamas brilhantes no extremo oeste, mais para lá do inimigo, mas no lado que dava para a cidade, e na metade do cimo plano mais perto do inimigo não havia luzes. Pensara que o South Essex estava acampado na suave encosta que tinha à sua frente mas esta estava escura e vazia. Escutou. Ouviam-se os sons da noite, os ruídos que provinham da cidade que se dissipavam num murmúrio seco, o vento sobre a erva, insectos, o chapinhar da corrente, e os sons distantes de cem mil homens de cócoras junto às fogueiras esperando a chegada da manhã. Atrás de si, a pequena colina do Pajar estava iluminada com fogueiras, os canhões desenhavam-se em frente ao muro branco da quinta que havia em cima, mas, em frente, tudo era escuridão e silêncio. Levantou-se e continuou a andar cautelosamente, com os instintos despertos perante um perigo que não conseguia definir. E, com o pensamento à procura de explicações na escuridão e entre os murmúrios da noite. Porque não lhe tinham mandado fazer alto? Deveria haver piquetes na linha do Portina, sentinelas amontoadas, abrigando-se do vento frio, espreitando o inimigo, mas ninguém o tinha mandado parar, nem lhe perguntara nada. Continuou a andar junto ao riacho até que a silhueta indistinta e negra do Medellín ficou acima dele, então virou à esquerda e começou a subir a vertente. De dia parecia uma vertente suave mas enquanto trepava, com a espingarda e a mochila, sentia o terreno inclinado e cada passo fazia com que lhe doessem os músculos da barriga da perna. Amanhã, pensou, é precisamente por aqui que virão as colunas francesas. Subirão esta encosta, com a cabeça baixa, enquanto os canhões rebentarão as suas fileiras e os mosquetes esperarão em silêncio lá em cima.

     A meio caminho do cimo da encosta parou e voltou-se. Na parte mais afastada do riacho havia outra colina, parecida na sua forma com o Medellín mas mais baixa e mais pequena. Sharpe viu no extremo superior as fogueiras dos franceses, as sombras fugazes do inimigo, e dando meia volta correu colina acima. O seu pensamento estava ainda alerta quanto ao perigo, a uma ameaça que não compreendia, mas pensava incessantemente no cabelo negro da rapariga espalhado sobre a almofada, na mão dela a agarrar-se aos lençóis, nas manchas de sangue, no seu terror, nas águas-furtadas quando os dois homens irromperam de lá. Não tinha a mínima ideia do que fazer. Gibbons e Berry provavelmente estavam a salvo na companhia de Simmerson e dos seus amigos. De uma maneira ou de outra teria de fazer com que saíssem de lá, interná-los na escuridão, e aquilo animou-o a seguir mais depressa.

     A encosta nivelava-se no planalto. Ao longe viu as fogueiras dos britânicos e percorreu lentamente o caminho até eles, com a mochila a bater desajeitada-mente e a espingarda a balançar. Ainda não lhe tinham mandado fazer alto. Aproximava-se do exército pela direcção do inimigo e não havia sentinelas, nem linha de pelotão na escuridão, como se o exército se tivesse esquecido dos franceses mesmo do outro lado do Portina. Deteve-se a duzentas jardas da linha de fogueiras e acocorou-se sobre a erva. Encontrara o South Essex. Estavam na crista da colina e via os canhões das mangas brilhantes e amarelas dos seus uniformes a brilhar à luz das chamas. Procurou por entre as fogueiras, viu o uniforme dos seus fuzileiros, e continuou a olhar como se, àquela distância, pudesse ver as figuras dos seus inimigos. A sua raiva transformou-se em frustração. Tinha andado e percorrido uma milha para encontrar o batalhão e, no entanto, sabia que não havia nada a fazer. Gibbons e Berry estariam a salvo com o coronel e os seus amigos, sentados à volta de uma fogueira com os oficiais, a salvo da sua vingança. Hogan tinha razão. Deitaria a perder a sua carreira se os defrontasse; no entanto, fizera uma promessa a Josefina, e não sabia como a cumprir. E no dia seguinte teria de tentar cumprir a promessa que fizera a Lennox. Sacou a grande espada da bainha e fincou a ponta sobre a erva à sua frente. A lâmina brilhou embaciada à luz das fogueiras, olhou fixamente para ela a todo o comprimento e sentiu que os olhos lhe ardiam ao recordar o corpo da rapariga deitado, provocador e nu, sobre a folha plana. Aquilo tinha acontecido nessa mesma tarde. Agora maldizia o destino que o tinha levado àquela noite, às promessas que não poderia cumprir. Pensou na jovem, nos homens que a tinham arranhado, levantou os olhos para as fogueiras e sentiu a sua impotência. Era melhor, sabia, deixar correr as coisas, entrar na luz das fogueiras e concentrar-se no amanhã, mas iria olhar para a cara de Gibbons e Berry e ver o triunfo nos seus rostos sem cravar neles uma espada?

     Deu meia volta e olhou fixamente o horizonte distante e o resplendor vermelho das fogueiras francesas que se perfilavam no cimo da colina com luz ténue. Havia coelhos a correr por cima da colina que subira, via as suas pequenas figuras movendo-se e de repente ficou gelado. Havia ali sentinelas que não tinha visto? Não eram coelhos. Via vultos de homens, tinha confundido a cabeça deles com coelhos, mas enquanto subiam pelo outro lado do cume, viu uma dúzia de homens, empurrando canhões na sua direcção. Deitou-se na erva, agarrando a espada, e olhou fixamente para o opaco resplendor do céu. Pôs o ouvido no chão e escutou o que temia, o débil bater de pés a marchar; levantou a cabeça e ficou a olhar para a dúzia de homens que se convertia numa massa uniforme. Lembrava-se de ter dito a Hogan que os franceses não atacariam de noite; no entanto, suspeitava de que o que estava a ver era precisamente isso, um ataque nocturno ao Medellín. Os doze homens seriam alguns dos atiradores, os voltigeurs franceses, e a massa sólida era uma coluna francesa que subia a colina sob o silêncio da noite. Mas como ter a certeza? Poderia certamente ser um batalhão britânico movimentando-se na escuridão, à procura de um novo sítio onde acampar, mas tão tarde? Avançou rastejando, apoiado nos joelhos e nos cotovelos, espalmando bem o corpo contra o solo de maneira que quem quer que viesse na escuridão não o visse projectado nas fogueiras. A espada restolhava sobre a erva, parecia-lhe um ruído ensurdecedor, mas os homens continuavam a caminhar para ele. Parou quando viu que se detinham e viu que se ajoelhavam. Tinha quase a certeza de que eram voltigeurs, a linha de atiradores que fora enviada à cabeça para liquidar as sentinelas, e agora que já tinham os alvos à vista esperavam a coluna de modo que o ataque atingisse o objectivo em uníssono. Sharpe conteve a respiração. Os homens ajoelhados chamavam-se uns aos outros em voz baixa e queria ouvir a língua deles.

     Era francês. Virou a cabeça e olhou fixamente para as fogueiras que assinalavam a linha britânica. Ali nada se mexia, os homens estavam sentados a olhar para as chamas, esperando pela manhã desconhecendo completamente que o inimigo encontrara sem defesa o planalto do Medellín e estava prestes a atacar. Sharpe tinha de avisar os ingleses, mas como? Um único disparo de espingarda seria atribuído a uma sentinela nervosa, que visse sombras na noite; não podia gritar desde tão longe, e se voltasse a correr, seria atingido pelo fogo britânico muito antes de pelo francês. Havia apenas uma maneira, que era provocar os franceses para que disparassem uma descarga, um estrondo de mosquetes que surpreenderia os ingleses, os advertiria do perigo e os faria de imediato formar em linha. Pegou na espada, vislumbrou perto de si o vulto de um voltigeur ajoelhado, e então pôs-se de pé e precipitou-se para o inimigo. O homem levantou os olhos quando Sharpe se aproximou dele e pôs um dedo sobre os lábios. Sharpe soltou, um grito de fazer gelar o sangue de raiva e desafio, e cortou de lado com a sua espada. Não se deteve para ver se tinha causado dano mas continuou a correr, puxando a lâmina, gritando ao homem seguinte. Este levantou-se, gritou uma pergunta, e morreu com a espada na barriga. Sharpe continuou a gritar. Puxou a espada para fora, fê-la girar no ar, de maneira que silvasse, descobriu um movimento à sua esquerda e correu para outro voltigeur. Surpreendera-os o imprevisto do seu ataque, não faziam ideia de quantos homens havia entre eles, nem de onde vinham. Sharpe viu dois atiradores juntos, que erguiam as baionetas para ele, mas gritou, fazendo-os vacilar e desferiu um golpe num homem ao afastar-se; depois desapareceu na noite. Deixou-se cair na erva. Ninguém tinha disparado. Ouviu os franceses que corriam pela erva, os gemidos de um ferido, mas ninguém tinha disparado. Ficou estendido, imóvel, olhando fixamente para o céu, e esperou até que os olhos pudessem distinguir as escuras figuras da coluna que se aproximava. Ouviu como faziam perguntas, e como os atiradores sussurravam as respostas, mas ainda não tinham sido detectados, os britânicos estavam sentados junto às fogueiras e esperavam o amanhecer que talvez nunca chegasse. Sharpe tinha de provocar uma descarga.

     Poisou a espada sobre a erva e tirou a Baker do ombro. Deslizou-a para a frente, abriu a caçoleta e apalpou a pólvora para ver se ainda estava no lugar; afastou então para trás a pederneira até sentir que se encaixava. Os franceses ficaram de novo em silêncio, o seu atacante tinha desaparecido tão rapidamente como tinha surgido.

     - Batalhão! O batalhão disparará por companhias! Apresentar armas! Gritava ordens sem sentido aos franceses. Via o vulto da coluna apenas a cinquenta jardas. Os atiradores tinham-se retirado para se reunirem à marcha decisiva de homens que se atiraria sobre os britânicos confiantes.

     - Batalhão! - Desembainhou a espada. - Fogo!

     A Baker cuspiu a bala em direcção aos franceses e ouviu-se um grito agudo.

     Teriam visto o fogacho do cano, mas Sharpe rodou para a direita e pegou na espada.

     - Tirez!

     Gritou a ordem à coluna. Uma dezena de soldados nervosos puxaram o gatilho e ele ouviu as balas sibilarem sobre a relva. Por fim! Os britânicos deviam ter acordado e ele deu meia volta para ver os homens junto das fogueiras, movimentando-se até com algum pânico.

     - Tirez! Tírez! Tirez - gritou para a coluna e mais mosquetes soaram na noite. Os oficiais gritaram aos seus homens que detivessem os disparos mas o mal já estava feito. Os britânicos tinham ouvido os tiros, tinham visto os fogachos dos mosquetes, e Sharpe viu os homens pegarem nas armas e fixarem as baionetas, aguardando ajoelhados, na escuridão. Estava na altura de sair dali. Os franceses voltavam a movimentar-se e Sharpe correu a toda a velocidade em direcção às linhas britânicas. O seu corpo a correr desenhava-se contra as chamas, ouviu o barulho de um qualquer mosquete e sentiu como as balas passavam perto dele. Gritava enquanto corria.

     - Os franceses! Formar em linha! Os franceses!

     Viu Harper e os fuzileiros que desciam a correr pela linha, afastados do centro para onde os franceses disparariam, e fora do pouco iluminado cimo do planalto. Era o mais sensato. Os fuzileiros não serviam para as distâncias curtas e o sargento escondia os seus homens nas sombras de onde pudessem disparar contra o inimigo. A respiração retumbava nos ouvidos de Sharpe, que arque-java, pois a corrida tinha-se convertido numa luta contra o cansaço e o peso da mochila. Viu que o South Essex formava pequenos grupos nervosos que se separavam e voltavam a formar. Ninguém sabia o que se passava. À direita, outro batalhão estava em igual desordem e Sharpe ouviu atrás o som firme dos franceses avançando a trote.

     - Os franceses!

     Ficou sem respiração. Harper tinha desaparecido. Sharpe saltou por cima de uma fogueira e correu a toda a velocidade para um sargento que o agarrou e susteve enquanto fazia esforço para respirar.

     - O que se passa, meu Capitão?

     - Coluna francesa. Vem para cá. O sargento estava confundido.

     - Porque é que a primeira linha não os deteve? Sharpe olhou para ele surpreendido.

     - Vocês são a primeira linha!

     - Ninguém nos disse nada!

     Sharpe olhou em seu redor. Os homens corriam de um lado para o outro à procura dos seus sargentos ou oficiais, um oficial a cavalo fazia frente entre os fogos. Sharpe não via quem era, e desapareceu em direcção à coluna. Sharpe ouviu um grito, o relincho do cavalo perante os disparos dos mosquetes, e o barulho do animal a cair. Os fogachos dos mosquetes indicavam onde estavam os franceses e Sharpe, com alguma satisfação, ouviu o som crepitante das Baker no cimo da colina.

     Então a coluna tornou-se visível, as calças brancas mostrando-se à luz das fogueiras, fazendo ângulo com a frente e apontando para o centro da linha britânica. Sharpe gritou as ordens.

     - Apresentar. Fogo!

     Alguns mosquetes dispararam, o fumo branco desapareceu imediata-mente na escuridão; Sharpe estava só. Os homens tinham fugido ao ver a enorme coluna. Sharpe correu atrás deles, batendo-lhes com a espada.

     - Aqui estão mais seguros! Quietos!

     Mas não serviu de nada. O South Essex, tal como o batalhão junto a eles, tinha-se dispersado, tomado pelo pânico e voltavam de novo para junto das fogueiras atrás deles, onde Sharpe viu homens que formavam em companhias, a tropa com as baionetas levantadas.

     Era o caos. Sharpe rompeu por entre os fugitivos, dirigindo-se para o cimo da colina e para a obscuridade em que os seus fuzileiros estavam escondidos. Encontrou Knowles com um grupo da companhia, e empurrou-os para a frente para se juntarem a Harper, mas a maior parte do batalhão voltava a correr. Os franceses dispararam a primeira descarga, um trovão imponente de tiros que fez estremecer a noite com fumo e chamas, e abriram uma brecha nas tropas à frente deles. O batalhão voltou a correr às cegas para a segurança de linha de fogo seguinte, Sharpe chocou com os fugitivos, livrou-se deles, lutando até à paz relativa do cimo da colina. Uma voz gritou:

     - O que se passa?

     Sharpe voltou-se. Berry estava ali, com a casaca desabotoada, a espada desembainhada, o cabelo preto caindo-lhe por cima da cara gorda. Sharpe deteve-se, baixou-se e resmungou. Lembrou-se da jovem, do seu terror, da sua dor, e pôs-se de pé, avançou uns passos, e agarrou Berry pelo pescoço. Uns olhos assustados viraram-se para ele.

     - O que se passa?

     Arrastou o tenente consigo, para cima, até à escuridão da encosta. Ouvia Berry a balbuciar, a perguntar o que se passava, mas empurrou-o para baixo até os dois estarem bem abaixo do cume e escondidos das fogueiras. Sharpe ouviu os últimos fugitivos passar pesadamente, o barulho dos mosquetes, os gritos a desvanecerem-se à medida que os homens voltavam a correr. Só o pescoço de Berry. Viu a cara branca voltar-se para ele na escuridão; ouviu o seu grito sufocado.

     - Meu Deus. Capitão Sharpe? É o senhor?

     - Por acaso estava à minha espera?

     A voz de Sharpe soava tão fria como a espada no Inverno.

     - Eu andava à sua procura.

    

     A bala de mosquete perdida zumbiu por cima da cabeça de Sharpe; os ruídos da batalha eram mais débeis agora que estava por baixo do cume e a única luz provinha dos reflexos macabros das fogueiras isoladas por baixo do fumo da batalha que se elevava do planalto de Medellín.

     - Sharpe! - Berry continuava a balbuciar. Deitou-se de costas e tentou subir, arrastando-se para o cimo da colina, afastando-se do alto e escuro vulto do fuzileiro.

     - Não deveríamos ir, Sharpe, e os franceses? Estão na colina.

     - Eu sei. Matei pelo menos dois - disse Sharpe sustendo a espada contra o peito de Berry e detendo o seu esbracejar. - Voltarei para matar mais alguns.

     Berry calou-se ao ouvir falar em morte. Sharpe reparou que ele o olhava fixamente mas estava demasiado escuro para adivinhar a expressão do seu rosto. Sharpe teve de imaginar os lábios húmidos, a cara rechonchuda, o olhar temeroso.

     - O que lhe fez a rapariga, Berry?

     O tenente ficou calado. Sharpe viu a espada fina que deixara cair na erva; o homem não lutava, não tinha intenção de resistir, tinha apenas a patética esperança de que Sharpe se acalmasse.

     - O que fez, Berry?

     Sharpe aproximou-se e a lâmina tremeu junto à garganta de Berry. Sharpe viu que a cara se voltava de um lado para o outro, ouvia a respiração sustida na garganta do tenente.

     - Nada, Sharpe, juro, nada.

     Sharpe sacudiu-lhe o pulso de modo a que a lâmina lhe tocasse no queixo. A folha estava afiada e ouviu o arquejo.

     - Deixe-me ir embora. Por favor! Deixe-me ir embora!

     - O que lhe fez?

     Sharpe ouviu o som característico das espingardas a disparar à sua direita. O estalido envolvente dos mosquetes que se ouvia à esquerda e supôs que a coluna francesa tinha enviado os seus atiradores pelos flancos para dissipar os grupos dispersos que ainda ofereciam resistência. Não tinha muito tempo; queria estar com os seus homens e ver o que se estava a passar em cima da colina mas primeiro queria que Berry sofresse tanto quanto havia sofrido a rapariga, que sentisse o mesmo medo que ela tinha sentido.

     - Josefina suplicou-lhe? - A voz dele parecia o vento nocturno do mar do Norte. - Pediu-lhe que não lhe fizesse mal?

     Berry continuou calado. Sharpe voltou a pegar na espada.

     - Pediu?

     - Sim - respondeu num sussurro.

     - Estava assustada? - perguntou colocando a ponta sobre a carne do pescoço de Berry.

     - Sim, sim, sim.

     - E mesmo assim violou-a?

     Berry estava demasiado aterrorizado para falar. Emitia ruídos incoerentes, abanava a cabeça, olhava fixamente a lâmina que surgia da figura escura e vingativa por cima dele. Sharpe sentia o cheiro do fumo penetrante dos mosquetes da colina. Tinha de se apressar.

     - Está a ouvir-me, Berry?

     - Sim, Sharpe, estou a ouvi-lo.

     Percebia-se na voz de Berry um mínimo indício de esperança. Sharpe cortou-o.

     - Vou matá-lo. Quero que saiba que está tão aterrorizado como o estava ela. Compreende?

     O homem voltou a balbuciar, a suplicar, abanava a cabeça, deixou cair a espada e juntou as mãos como que a rogar a Sharpe. O fuzileiro olhou para baixo. Lembrou-se de uma frase estranha que uma vez ouvira num acto religioso numa campanha longínqua, na índia. Aparecera um capelão que ficara com a sobrepeliz branca na praça de armas e de entre todos o murmúrios sem sentido, uma frase, tinha-lhe ficado na cabeça, uma frase do Livro de Orações que agora lhe voltava à mente ao perguntar-se se realmente poderia matar um homem por ter violado uma mulher. “Liberta a minha alma da espada, a minha amada do poder do cão.”

     Sharpe tinha pensado deixar o homem levantar-se, pegar na espada e lutar pela vida. Mas pensou no terror da jovem, deixou que a imagem do seu sangue nos lençóis alimentasse a sua cólera uma vez mais, viu a cara carnuda a murmurar por baixo dele e, como se estivesse cansado ou apenas quisesse repousar, apoiou-se com ambas as mãos no cabo da espada.

     O murmúrio transformou-se quase num guincho, o corpo estremeceu uma vez mais, a espada trespassou a pele e o músculo grosso até à garganta de Berry e o tenente morreu. Sharpe deteve-se sobre a espada. Era um crime, sabia-o, um pecado capital e, no entanto, não se sentia culpado.

     O que o preocupava era saber que se devia sentir culpado quando não se sentia.

     Tinha vingado a jovem matando o cão. Tinha as mãos húmidas ao arrancar a espada, sabia que tinha cortado a jugular a Berry. Devia parecer-se com alguém de um matadouro mas sentia-se melhor e sorriu na escuridão ao deixar-se cair sobre um joelho e rebuscar rapidamente com as mãos os bolsos de Berry. A vingança, pensou, assentava-lhe bem e sacou do morto algumas moedas e meteu-as nos bolsos. Afastou-se do corpo caminhando em direcção aos sons das espingardas, caminhando lentamente para o cimo da colina, onde os fogachos cuspiam balas em direcção aos franceses, e afundou-se junto a Harper. O sargento olhou para ele e depois voltou-se para o cimo da colina e apertou o gatilho. Saiu fumo da caçoleta, vomitado pelo cano da espingarda, e Sharpe viu um voltigeur cair para trás numa fogueira. Harper sorriu satisfeito.

     - Tem estado a aborrecer-me, mas já as pagou. Tem andado por aqui aos saltos como se fosse um pequeno Napoleão.

     Sharpe olhou fixamente para o cimo da colina. Parecia-se com as pinturas do inferno que tinha visto nas igrejas espanholas e portuguesas. O fumo girava vermelho em retalhos estranhos pela colina, denso no local em que a coluna abria caminho por entre as fogueiras que demarcavam as linhas britânicas, e débil onde pequenos grupos lutavam contra os atiradores que os tentavam desalojar de lá de cima. Centenas de pequenos fogos alumiavam a batalha, os mosquetes bombeavam fumo e chamas na noite, tudo isso acompanhado pelos gritos dos franceses e pelos lamentos dos feridos. Os fuzileiros tinham feito sofrer os atiradores franceses. Harper tinha-os alinhado nas sombras do cimo do monte e eles tinham matado uma a uma as figuras azuis que corriam por entre as fogueiras, muito antes de os franceses estarem suficientemente perto para usarem os seus mosquetes com precisão. Sharpe puxou a espingarda e pegou num cartucho.

     - Algum problema?

     Harper abanou a cabeça e sorriu.

     - Exercícios de tiro.

     - E o resto da companhia?

     O sargento lançou a cabeça para trás.

     - A maior parte está lá em baixo com o senhor Knowles, meu Capitão. Disse-lhe que não precisava deles aqui.

     Por um segundo Sharpe perguntou a si próprio se alguém teria visto como tinha matado Berry, mas afastou da cabeça esse pensamento. Confiava no seu instinto, o instinto que o advertira da presença do inimigo e, naquela noite, cada homem tinha sido seu inimigo até Berry ter morrido. Ninguém o tinha visto. Harper resmungou enquanto metia outra bala na espingarda.

     - O que se passou, meu Capitão?

     Sharpe sorriu como uma raposa e não disse nada. Estava a reviver o instante da morte de Berry, sentindo a satisfação, o alívio da dor e do sofri-mento de Josefina. Quem havia dito que a vingança era dura e inútil? Estavam enganados. Preparou o rifle, levantou-o e fê-lo deslizar para a frente, mas não havia nenhum voltigeur à vista. A batalha tinha-se mudado para a esquerda onde relampejava e troava na escuridão.

     - Meu Capitão?

     Virou-se e olhou para o sargento. Explicou-lhe, simples e brevemente, o que tinha acontecido e observou a enorme cara do irlandês ficar cheia de raiva.

     - Como está?

     - Perdeu muito sangue - respondeu Sharpe abanando a cabeça. - Bateram-lhe.

     O sargento procurou o chão à sua frente, examinou cuidadosamente o lume e as sombras corcovadas, os fogachos distantes dos mosquetes que tanto podiam ser franceses como ingleses. Quando falou, a voz era suave.

     - E o que vai fazer com os dois?

     - O tenente Berry morreu esta noite na batalha.

     Harper voltou-se e olhou para o capitão, para a espada vermelha que estava deitada junto dele e sorriu calmamente.

     - E o outro?

     - Amanhã.

     Harper concordou e voltou à batalha. Os franceses haviam sido retidos a julgar pela posição dos fogachos dos mosquetes, como se ao avançar para as linhas tivessem encontrado uma resistência, que afinal não podiam vencer. Sharpe perscrutou a escuridão, para a direita. Os franceses deviam ter enviado mais tropas mas não havia sinais delas. No terreno em frente deles não se distinguia qualquer movimento. Deu meia volta.

     - Tenente Knowles!

     - Meu Capitão!

     A voz provinha da escuridão mas precedia o rosto ansioso de Knowles que subia a encosta.

     - Meu Capitão! Está bem, meu Capitão?

     - Como peixe na água, tenente.

     Knowles não compreendia porque é que Sharpe parecia tão contente. Tinham corrido rumores pela companhia pois Harper e os fuzileiros tinham voltado sem o capitão.

     - Diga aos homens que preparem as baionetas e subam até aqui. Já são horas de nos juntarmos.

     - Sim, meu Capitão - respondeu Knowles a sorrir.

     - De quantos homens dispomos?

     - Vinte, meu Capitão, sem contar com os fuzileiros.

     - Bom! Ao trabalho.

     Sharpe pôs-se de pé e caminhou para o cimo da colina. Fez um sinal com a mão aos fuzileiros para que avançassem e esperou que Knowles e o seu grupo subissem até à luz. Sharpe fez sinais para a direita e à esquerda com a espada.

     - Ordem de escaramuça! Avancem lentamente. Não nos queremos enfrentar com a coluna, mas eliminaremos os atiradores.

     As baionetas brilhavam vermelhas à luz encarnada do fogo, a linha avançava firmemente, mas os atiradores inimigos tinham desaparecido. Sharpe conduziu-os até umas cem jardas da coluna inimiga e fez-lhes um sinal com a mão para que se acocorassem. Não podiam fazer outra coisa além de observar a demonstração da infantaria britânica. Os franceses tinham aberto caminho quase até ao extremo da colina mas haviam sido detidos por um batalhão que Sharpe pensou ter subido desde a base da colina e que agora se estendia diante dos franceses como uma barreira intransponível. O batalhão formava linha e disparava em controladas descargas de pelotão. Era soberbo. A infantaria nunca poderia resistir aos melhores britânicos e o batalhão destroçava a coluna com os mosquetes que retumbavam acima e abaixo da linha do batalhão, as baquetas faiscando em uníssono, os pelotões disparando em série, num irresistível martelar de disparos de fogo de mosquete que se espalhava na tropa compacta dos franceses. O inimigo fraquejava. Cada descarga dizimava as tropas da frente da coluna. Os homens da retaguarda da coluna não se adiantariam por aquela chuva de chumbo que fluía metódica e mortalmente dos mosquetes britânicos. Grupos de franceses, vestidos com a casaca azul, começaram a fundir-se na escuridão, um oficial britânico a cavalo viu e levantou a espada, a tropa vermelha aplaudiu e adiantou-se, apontando com as baionetas e, tão de repente como começara, a batalha terminou. Os franceses retrocederam, espezinhando os mortos, retirando-se cada vez mais rapidamente das espadas que os alcançavam. O inimigo portara-se bem. Uma única coluna tinha tomado a colina, mesmo sem as outras colunas terem chegado, mas agora o coronel francês tinha de voltar, tinha de retirar os seus homens do fogo dos mosquetes que os esmagava. Quando atingiam a linha de atiradores, alguns dos fuzileiros de Sharpe levantaram as armas mas ele ordenou-lhes que os deixassem ir. No dia seguinte haveria carnificina suficiente.

     Sharpe baixou-se junto à fogueira e limpou o sangue colado à espada na casaca de um francês morto. Estava na altura de recolher os mortos e contar os vivos. Queria que Gibbons se preocupasse com Berry, que tivesse medo na noite e, de novo, sentiu a excitação do golpe mortal. Ouviram-se os sinos da cidade a baterem a meia-noite e pensou por breves momentos na rapariga deitada à luz das velas, perguntando a si próprio se pensaria nele. Harper acocorou-se junto a ele, com a cara negra do fumo da pólvora, e estendeu-lhe uma garrafa.

     - Beba um pouco para dormir, meu Capitão. Bem precisa - disse, a sorrir. - Amanhã temos de cumprir uma promessa.

     Sharpe ergueu a garrafa para o sargento como se brindasse.

     - Uma promessa e meia, sargento. Uma promessa e meia.

    

     Foi uma noite curta e má. Depois de repelir os franceses o exército recolheu os feridos e, à tênue luz das fogueiras, procuraram os mortos e amontoaram os que encontraram. Batalhões que se tinham considerado a salvo numa imaginária segunda linha punham agora sentinelas e a curta noite viu-se perturbada por frequentes estalidos dos mosquetes, pois os pelotões de guarda imaginavam novas colunas inimigas na escuridão. Os clarins tocaram às duas da manhã, avivaram-se as fogueiras e os homens famintos tremiam à volta das chamas, ouvindo os distantes clarins franceses que acordavam o inimigo. Às três e meia, quando uma luz acinzentada e prateada tocava os flancos do Medellín, encontraram o corpo de Berry e levaram-no até à fogueira onde Simmerson e os seus oficiais sorviam chá quente. Gibbons, espantado perante a grande ferida que desfigurava a garganta do amigo, olhou para Sharpe com olhos sem brilho mas desconfiados. Sharpe devolveu-lhe o olhar e sorriu, viu a suspeita, e então Gibbons virou-se bruscamente e chamou os seus criados gritando para que arranjassem as mantas. Simmerson olhou para os seus oficiais.

     - Morreu como um valente, cavalheiros, como um valente. Todos concordaram num murmúrio, mais preocupados com a fome e com que se ia passar do que com a morte de um tenente gordo, e observaram com fastio como se despojava o corpo dos pertences antes de o amontoar com as pilhas dos cadáveres que iam ser enterrados antes que se levantasse o Sol e os tornasse repugnantes. Não pareceu estranho a ninguém que o corpo de Berry se encontrasse tão afastado dos outros mortos. Os acontecimentos da noite haviam sido confusos, dizia-se que os alemães debaixo do Medellín tinham enfrentado um atirador que corria com outra coluna e que os grupos de fugitivos franceses se tinham perdido na escuridão, vagueando pelas linhas britânicas; supôs-se que Berry se tinha encontrado com esse grupo.

     Às quatro o exército estava em posição. As brigadas de Hill estavam no Medellín e os comandantes de brigada alinhavam os batalhões por trás do cume de modo a que não fossem visíveis aos canhões franceses. O South Essex estava na encosta da colina que dava para os alemães e para a guarda, que defenderia a planície entre o Medellín e o Pajar. Sharpe olhou fixamente para a cidade, meio oculta na neblina, e pensou no que se passaria com Josefina. Estava impa-ciente por começar a batalha, afastar a sua Companhia Ligeira de Simmerson e subir até à linha de atiradores que se formaria no vale do Portina meio envolto em névoa. Estava surpreendido por Simmerson não ter dito nada ao batalhão. O coronel estava montado no seu cavalo cinzento e olhava mal-humorado para a miríade de esteiras de fumo que se elevavam do acampamento francês e se fundiam com o sol-nascente. Não prestava atenção a Sharpe, nunca o fazia, como se o fuzileiro fosse uma pequena moléstia que se apagaria da sua vida quando a carta fosse recebida em Londres. Gibbons estava sentado junto a Simmerson e Sharpe reparou de repente que ambos estavam espantados. Em frente deles ondulava na haste a solitária bandeira, adornada com o orvalho da manhã, uma solitária recordação da desonra do batalhão. Simmerson não conhecia a guerra e estava a olhar fixamente para a neblina que percorria o Portina pensando no que poderia emergir da brancura para desafiar o seu batalhão. Não era só o futuro de Sharpe que dependia daquela batalha. Se o batalhão se portasse mal então ficaria como Batalhão de Destacamentos e iria minguando assaltado pelas doenças e pela morte até que desapareceria pura e simplesmente da lista do exército; o batalhão que nunca existiu. Simmerson sobreviveria. Voltaria para casa, para as suas propriedades, ocuparia o seu lugar no Parlamento, converter-se-ia num especialista quando conversasse sobre as guerras mas, onde quer que houvesse soldados, os nomes de Simmerson e do South Essex seriam desprezados. Sharpe esboçou um sorriso; ironias da vida. Naquele dia, Sommmerson necessitava muito mais do fuzileiro do que Sharpe necessitava do coronel.

     Por fim, chegou o sinal e as companhias ligeiras avançaram, abrindo-se numa linha estreita de atiradores para se converterem nos primeiros homens a atacar. Enquanto caminhava vertente abaixo na neblina, Sharpe olhou para o monte Cascajal, coroado por canhões franceses, que quase como uma roda, apontavam para o Medellín. Algures atrás dos canhões, os batalhões estariam formados em enormes colunas que se lançariam contra a linha britânica; atrás deles estaria à espera a cavalaria para se enfiar pela brecha; mais de cinquenta mil franceses a prepararem-se para castigar os britânicos pela sua temeridade ao enviar o pequeno exército de Wellesley contra o seu império. A Companhia Ligeira penetrou no nevoeiro, no mundo privado onde os atiradores se enfrentariam com os voltigeurs, e Sharpe afastou da cabeça os pensamentos de derrota. Era impensável que Wellesley perdesse, que o exército fosse destruído e enviado desfeito de volta ao mar, que os problemas de Sharpe, que os problemas de Simmerson, que o destino do South Essex, que tudo se afogasse na desastrosa inundação da derrota. Harper correu para ele e fez-lhe alegremente um sinal com a cabeça enquanto puxava o travão do cano do rifle.

     - Para nós está calor, meu Capitão.

     - Vai clarear dentro de mais ou menos uma hora - disse Sharpe com uma careta.

     O nevoeiro escondia tudo a uma distância de cem passos, retirando a vantagem às espingardas de longo alcance. Sharpe viu o ribeiro à frente.

     - Já está bem. Vá ver se o senhor Denny está bem.

     Harper foi para a direita onde Denny devia estar reunido com os atiradores alemães. Sharpe caminhou riacho acima onde supunha que se faria o ataque e encontrou Knowles no extremo da linha. Ao longe, no nevoeiro, viu os casacas-vermelhas do 66º e alguns fuzileiros dos Americanos Reais.

     - Tenente?

     - Meu Capitão?

     Knowles estava vigilante e nervoso; meio temeroso, meio a desfrutar do seu primeiro dia de verdadeira batalha. Sharpe sorriu-lhe alegremente.

     - Algum problema?

     - Não, meu Capitão. Falta muito?

     Knowles lançava continuamente os olhos à distante margem vazia do Portina, como se esperasse ver materializar-se de repente todo o exército francês.

     - Primeiro vai ouvir os canhões - disse Sharpe batendo os pés para aliviar o frio. - Que horas são?

     Knowles puxou pelo relógio, com uma dedicatória do pai, e abriu a tampa.

     - Quase cinco, meu Capitão. - Continuou a olhar para o floreado relógio com o ponteiro de filigrana. - Meu Capitão? - Disse como que comovido.

     - Sim?

     - Se eu morrer, ficará com ele? - Disse estendendo-lhe o relógio. Sharpe afastou o relógio. Tinha vontade de rir mas abanou a cabeça com um gesto grave.

     - Não vai morrer. Quem assumiria o comando se eu me fosse? Knowles olhou para ele temeroso e Sharpe confirmou.

     - Pense, tenente. A promoção é rápida em combate - disse, sorrindo, tentando dissipar a preocupação de Knowles. - Quem sabe? Um destes dias ainda acabamos todos generais.

     Ouviu-se um canhão no Cascajal. Os olhos de Knowles abriram-se muito, quando ouviu pela primeira vez o envolvente estrondo da bala de ferro.

     Fora do alcance da vista dos atiradores a bala de oito libras embateu no cimo do Medellín, ricocheteou por cima das tropas envolta em terra e pedras, e rolou inofensivamente até se deter quatrocentas jardas abaixo do planalto. O som do disparo ressoou seco desde as colinas, apagou-se entre o nevoeiro e desapareceu. Ouviram-no cem mil homens, alguns benzeram-se, e outros simplesmente pensaram impulsivamente na tormenta que estava a ponto de rebentar no outro lado do Portina. Knowles esperou ouvir outro canhão mas apenas se fez silêncio.

     - O que foi isto, meu Capitão?

     - Um sinal para as outras baterias francesas. Devem estar a recarregar o canhão.

     Sharpe imaginou o assobio da esponja ao ser introduzida no canhão, o vapor a sair do orifício e, a seguir, uma nova carga e a bala atacada a fundo.

     - Agora, creio eu.

     O silêncio terminou. A partir daquele momento, Sharpe contaria a história da batalha pelos sons e ouviu as balas de ferro enviadas por setenta ou oitenta canhões franceses que gritavam e troavam no ar. Escutava o estalido das enormes armas, imaginava-as retrocedendo com os seus tremendos pesos sobre as armações, dando sacudidelas no ar e voltando a cair sobre as rodas enquanto a baqueta se metia em água e os homens preparavam a bala seguinte. Atrás, o ruído era diferente, o som surdo das salvas que cinzelavam o Medellín, o ruído seco do aço sobre a terra. Voltou-se para Knowles.

     - Não é o meu dia de sorte.

     Knowles voltou-se, mostrando-lhe o rosto preocupado. Dizia-se que o capitão tinha sorte. Sharpe e a companhia dependiam da superstição.

     - Porquê, meu Capitão? Sharpe sorriu.

     - Disparam pela nossa esquerda.

     Gritava mais alto que todos os canhões concentrados.

     - Atacara por ali. Pensava que, de contrário, poderia ser o orgulhoso proprietário de um relógio!

     Deu uma palmada no ombro de Knowles demonstrando que se sentia aliviado e apontou para o outro lado do riacho.

     - Espere-os dentro de uns vinte minutos, ali um pouco à esquerda. Agora vou regressar!

     Percorreu a linha de homens, verificando os pedernais, dizendo as piadas de sempre e procurando Harper. Estava extremamente cansado, não apenas o cansaço por ter dormido mal, mas também pela fadiga, pelos problemas que pareciam não ter fim. A morte de Berry era como um sonho semiesquecido e apenas tinha solucionado metade de uma promessa, e não fazia a menor ideia de como iria resolver a outra metade ou a promessa da águia. As promessas eram como barreiras que se tinham erguido na sua própria vida e a honra exigia que as cumprisse, mas o seu bom senso dizia-lhe que a tarefa seria impossível. Fez um sinal a Harper e, quando o sargento se dirigiu a ele, o som da batalha mudou. Houve um tom de gemido no rugido da bala que passava por cima e Harper levantou os olhos para o nevoeiro.

     - Granadas?

     Sharpe acenou afirmativamente quando a primeira explodiu sobre o Medellín. O som subiu de intensidade, o choque das granadas fazia eco com o troar dos canhões, e ao estrépito somava-se o som agudo do comprido canhão britânico de seis libras que respondia. Harper ergueu o polegar para o Medellín que não estava à vista.

     - É um matraquear estranho, meu Capitão. Sharpe pôs-se à escuta.

     - As bandas ainda estão a tocar.

     - Preferia estar lá em baixo.

     Distante, entre os incessantes choques que se fundiam num longo retum-bar, Sharpe pôde ouvir o som das bandas regimentais. Se os músicos tocavam, os batalhões britânicos não sofriam em demasia com o bombardeamento francês. Se Wellesley não tivesse retirado a linha britânica de trás do cume, os artilheiros franceses estariam a massacrar os batalhões linha a linha e os músicos estariam a fazer o seu trabalho, o de recolher os feridos e levá-los para a retaguarda. Sharpe sabia que Harper, tal como ele, pensava na promessa que tinham feito a Lennox - a águia. Olhou para a outra margem do riacho, para a erva vazia, escutou o canhoneio como se fosse uma batalha de outros e voltou-se para o sargento.

     - Haverá mais dias, sabe. Outras batalhas.

     Harper sorriu calmamente, pôs-se de cócoras e atirou uma pedra para a água límpida.

     - Já vamos ver o que se passa, meu Capitão - ficou parado, à escuta, apontando em frente. - Ouve isto?

     O som de que Sharpe tinha estado à espera, débil mas inequívoco, o som que não tinha ouvido desde o Vimeiro, era o som do ataque francês. As colunas do inimigo não estavam à vista, não o estariam senão dentro de minutos, mas entre o nevoeiro ouvia os perigosos tambores a rufar o hipnótico ritmo da carga. Bum-bum, bum-bum, bum-bum, bum-bum, bum-bum. Assim conti-nuaria até que o ataque estivesse ganho ou perdido, os tambores golpeariam a pele não obstante as descargas, era o ritmo interminável que tinha levado os franceses a vitória atrás de vitória. Havia uma inexorável ameaça naqueles toques e cada frase repetida aproximava dez passos os franceses.

     Sharpe sorriu a Harper.

     - Trate do rapaz. Está bem?

     - De Denny, meu Capitão? Tropeçou três vezes na espada, mas para além disso está bem.

     Harper riu-se.

     - Cuide de si, meu Capitão.

     Sharpe voltou rio acima, com o rufar de tambores cada vez mais perto, a linha de atiradores a esquadrinhar o nevoeiro com temor. O seu trabalho estava prestes a começar. Os canhões franceses não tinham conseguido dispersar os batalhões britânicos e frente aos tambores, estendendo-se como uma enorme nuvem, aproximavam-se os voltigeurs. A intenção deles era chegarem-se o mais que pudessem dos batalhões britânicos e dispersar a linha com os seus mosquetes para a dizimarem e debilitarem, de modo que quando a coluna chegasse com os tambores, os britânicos estivessem destroçados e cedessem. Os atiradores de Sharpe com as outras companhias ligeiras tinham que deter os voltigeurs e a sua própria batalha, travada no nevoeiro, estava a ponto de começar. Encontrou Knowles de pé junto ao riacho.

     - Vê alguma coisa?

     - Não, meu Capitão. O rufar ouvia-se mais, rivalizando com o choque das granadas e, no fim de cada rufo, Sharpe ouvia um novo som quando os tambores se detinham para deixar que milhares de vozes entoassem “Vive l’empereur”. Era o som vitorioso que tinha aterrorizado os exércitos da Europa, o som de Marengo, de Austerlitz, de Jena, as vozes e os tambores da vitória francesa. A seguir, corrente acima e longe da vista, as tropas ligeiras reuniram-se e Sharpe ouviu o primeiro ruído dos mosquetes; não a envolvente descarga de tropas concentradas, mas sim os estalidos espacejados, deliberados, de disparos dirigidos a um alvo.

     Knowles olhou para Sharpe arqueando as sobrancelhas, o fuzileiro abanou a cabeça. - Aquilo é apenas uma coluna. Haverá pelo menos outra, provavelmente duas, e mais perto. Espere.

     E ali estavam, obscuras silhuetas correndo no meio do nevoeiro, dezenas de homens com casacas azuis e dragonas vermelhas. Os soldados levantaram os mosquetes.

     - Esperem! - disse Sharpe baixando a arma.

     Os voltigeurs enfrentaram o fogo do 66º e o dos Americanos Reais, estavam a uns cem passos corrente acima e Sharpe esperava para ver se a linha de atiradores franceses chegaria até ao South Essex.

     - Esperem! Verificou que os primeiros franceses se estendiam na erva, outros punham-se de joelhos e apontavam com cuidado ainda que não fosse dia.

     Supôs que o ataque francês, dirigido ao Medellín, ia passar diante do South Essex mas satisfazia-o o suficiente deixar que a sua tropa inexperiente visse uma verdadeira escaramuça, antes que tivessem de tomar parte numa.

     Os franceses, tal como os britânicos, lutavam aos pares. Cada homem tinha de proteger o seu companheiro, disparando ora um, ora outro e gritando avisos, observando constantemente o inimigo para ver se as armas apontavam para ele ou para o seu companheiro. Sharpe ouvia os gritos, os assobios que transmitiam ordens e, em fundo, insistente como um rebate, o rufar e os gritos. Knowles parecia um sabujo atado a querer subir pela margem a caminho da luta, mas Sharpe deteve-o.

     - Não precisam de nós. Há-de chegar a nossa vez. Espere.

     A linha britânica aguentava. Os franceses tentaram tomar o riacho mas caíram ao chegar à água. As parelhas britânicas movimentavam-se em acome-tidas rápidas, mudando de posição, confundindo o inimigo, esperando que os voltigeurs estivessem ao alcance e disparariam então. Os fuzileiros de casaca verde dos Americanos Reais procuravam os oficiais e sargentos inimigos e Sharpe ouvia o estalido das suas espingardas quando abatiam os chefes inimigos. O som atingiu o primeiro crescendo com o rugido do canhão, os choques anunciados das granadas, os tambores e as vozes da coluna, e o som dos clarins misturando-se com os mosquetes. O nevoeiro tornava-se mais espesso com o fumo das baterias francesas e virava para oeste, para a linha britânica, mas, em breve, sabia Sharpe, a bruma diluir-se-ia. Sentiu a débil brisa, viu estremecer um grande remoinho branco, e ouviu Knowles respirar espantado antes de o nevoeiro se fechar. Pela fenda via-se uma massa de homens a marchar em filas muito próximas, encimadas por pontas de aço e uma dessas colunas dirigia-se para o riacho. Era altura de retirar e, efectivamente, Sharpe ouviu os apitos e cornetins e viu os atiradores à sua esquerda começarem a recuar para o Medellín. Deixavam atrás de si corpos vermelhos e verdes.

     Fez soar o apito, sinalizou com o braço e esperou que os sargentos repetissem o sinal. Os seus homens ficariam decepcionados. Não tinham disparado um único tiro, mas Sharpe suspeitava que teriam oportunidade de o fazer dentro em pouco. Os rufares e os cantos continuaram, os disparos soavam desde cima, mas enquanto a companhia subia a colina, o nevoeiro isolou-os da batalha. Ninguém disparava contra eles, nenhuma granada aterrava com espoletas cintilantes no seu trecho da encosta, e Sharpe continuou a sentir a estranha sensação de estar a ouvir uma batalha que não tinha nada a ver consigo. A ilusão desvaneceu-se quando a linha saiu do nevoeiro para uma encosta iluminada pelo sol da manhã. Sharpe deteve a linha, voltou-se, e viu que os homens estavam boquiabertos e amaldiçoavam o que de repente acabavam de encontrar. No cimo de Medellín não havia soldados. Só os projécteis franceses continuavam a amassar o solo como grandes gotas de terra e chamas. Ao ver o ataque francês, os atiradores treparam pela encosta, aproximando-se cada vez mais dos projécteis que rebentavam, e viraram-se para disparar contra as colunas que se arrastavam, saindo do nevoeiro como animais grandes e estranhos emergindo do mar. A coluna mais próxima estava a duzentas jardas para a esquerda e para os homens pouco experimentados de Sharpe devia parecer assustadora. Os voltigeurs concentravam as tropas, aumentando-as, os tambores continuavam a tocar com o seu rufar incessante, hipnótico e os gritos graves de “Vive l’empereur” sublinhavam o avanço demolidor. Três colunas subiam a vertente; Sharpe calculou que cada uma teria cerca de dois mil homens e sobre cada uma delas pendiam, brilhando ao sol da manhã, três águias douradas que subiam o monte.

     Sharpe voltou a sua linha de atiradores de frente para a coluna e fez sinal aos homens para que se baixassem. Pouco podiam fazer àquela distância. Decidiu não voltar para o batalhão, a companhia sofreria menos ficando na encosta e observando o ataque, do que se tentassem atravessar a barreira de granadas, e enquanto se baixava, observando a enorme formação a marchar vertente acima, Sharpe viu que os homens da Legião Alemã do Rei se uniam à sua tosca linha. Seriam espectadores privilegiados desde a barreira do ataque francês. O alferes Denny aproximou-se de Sharpe, ajoelhou-se junto a ele e o seu rosto mostrava a preocupação e o medo que os rufos e os cantos geravam nele. Sharpe olhou-o.

     - Em que está a pensar?

     - Meu Capitão?

     - Mete-lhe medo?

     Denny anuiu. Sharpe riu-se.

     - Alguma vez estudou matemática?

     - Sim, meu Capitão.

     - Sendo assim, some quantos franceses podem realmente utilizar o mosquete.

     Denny olhou fixamente para a coluna e Sharpe notou pela expressão do seu rosto que ele tinha compreendido. A coluna francesa seria sem dúvida uma vencedora experimentada mas, contra boas tropas, não passava de uma armadilha mortal. Apenas a primeira linha e as duas filas dos flancos podiam na realidade utilizar as suas armas e dos duzentos homens da coluna mais próxima, apenas os sessenta da primeira fila e os homens no fim da trintena de filas podiam na realidade disparar contra o inimigo. A massa de homens do centro estava ali simplesmente para acrescentar peso, para a tornar impressionante, para lhe dar alento, e para preencher os buracos que os mortos deixavam.

     O som da batalha mudou repentinamente. Pararam os projécteis. Os grandes quadrados que marchavam estavam perto do cimo do Medellín e os artilheiros franceses tinham medo de acertar nos seus próprios homens. Por um momento apenas se ouviram os rufos, o som de milhares de botas a baterem em uníssono na encosta, e, de repente, um grande júbilo da infantaria francesa ao pensar que tinha vencido. Era fácil de entender porque pensavam ter conseguido a vitória. Não tinham inimigos à frente, simplesmente a linha do horizonte vazia, e a linha de atiradores tinha-se arrastado para o outro lado do cimo para se reunir com os seus batalhões. Tinham cumprido o seu trabalho. Tinham mantido os voltigeurs afastados dos britânicos. Mas o júbilo francês desvaneceu-se quando se ouviram as ordens britânicas e, de repente, o cume se encontrou cheio de homens que esperavam para formar em linha dois a dois. No entanto parecia ridículo. Três grandes punhos, massas enormes, apontando para uma ténue linha de dois mas a visão enganava; naquela situação a matemática era tudo.

     A coluna mais próxima de Sharpe dirigia-se ao 66º e ao 3º Os dois batalhões britânicos eram inferiores em número, dois para um, mas todos os casacas-vermelhas do cimo podiam disparar o mosquete. Das centenas de franceses que subiam em coluna apenas pouco mais de cem podiam na realidade ripostar e Sharpe já o vira muitas vezes e conhecia o resultado. Observou como davam a ordem, viu a linha britânica aparecer para dar meia volta para a direita enquanto levavam os mosquetes aos ombros, e observou que a coluna francesa se detinha instintivamente frente a tantas armas. Os tambores rufaram, os oficiais franceses gritaram e das colunas saiu, uma espécie de grunhido sonoro, que se converteu num rugido e em aclamações e os franceses carregaram em direcção ao cimo.

     E detiveram-se. As delgadas lâminas de aço dos oficiais britânicos desciam e começaram as descargas incessantes. Nada se podia opor àquele fogo de mosquetes. Da direita para a esquerda, ao longo dos batalhões, as descargas de pelotão acendiam-se e vacilavam; era um fogo envolvente que nunca se detinha, a regularidade quase maquinai das tropas instruídas que faziam quatro tiros por minuto em direcção à densa massa de franceses. O som atingiu o verdadeiro crescente da batalha, o imponente som das descargas ordenadas, e juntamente com ele, o curioso repicar das balas ao chocarem com as baionetas francesas. Sharpe olhou para a esquerda e viu que o South Essex estava a observar. Encontravam-se demasiado longe para que os seus mosquetes fossem úteis mas alegrava-se de que as tropas pouco aguerridas de Simmerson pudessem ver como a potência de um fogo com prática ganhava batalhas.

     O rufar de tambores continuou, os rapazes batiam freneticamente nos seus instrumentos para forçar a coluna encosta acima e, incrivelmente, os franceses tentavam-no. O instinto de vitória era demasiado forte, demasiado arreigado, e quando as primeiras filas foram destruídas pelo fogo mortal, os homens que iam atrás esforçavam-se, passando por cima dos corpos para, por sua vez, serem lançados para trás pelas balas incessantes. Enfrentavam uma tarefa impossível. A coluna estava apanhada, empurrada contra a tormenta, absor-vendo um incrível castigo mas negando-se a ceder, a aceitar a derrota. Como estivera no Vimeiro, Sharpe estava surpreendido ao ver que aquelas tropas podiam sofrer tamanho castigo mas assim foi e observou como os oficiais franceses tentavam organizar um novo ataque. Os franceses, ainda que demasiado tarde, tentavam a formação em linha e viu que os oficiais brandiam as espadas para conduzirem as fileiras da retaguarda para os flancos abertos.

     Sharpe levantou a espingarda.

     - Vamos!

     Os seus homens aplaudiram e seguiram-no colina acima. O perigo de os franceses formarem uma linha era diminuto mas a aparição de dois centos de atiradores pelo flanco dissuadi-los-ia. Os alemães da legião foram com a companhia de Sharpe e todos se detiveram a cem passos da massa de franceses combativos e iniciaram as suas próprias descargas, mais espaçadas do que o fogo ordenado vindo do cimo, mas suficientemente eficaz para repelir os fran-ceses que tentavam corajosamente a formação em linha. Os alemães começaram a armar as baionetas, sabiam que a coluna não podia aguentar o fogo por muito tempo, e Sharpe gritou aos seus homens que fizessem o mesmo. O som dos tambores desvanecia-se. Um rapaz soltou outro rufo com as baquetas, mas o ritmo distintivo da carga apagava-se e o ataque terminou. O cimo da colina cintilava quando o 66º armou as baionetas, extinguiram-se as descargas, os britânicos aplaudiram e os franceses estavam derrotados, destruídos e apanhados pelo fogo dos mosquetes que não esperavam contra a sua carga de baionetas. A massa dividiu-se em pequenos grupos de fugitivos, as águias caíram, as filas azuis dispersaram-se e correram para o riacho.

     - Em frente! - gritaram Sharpe, os oficiais alemães, e lá do cimo, os oficiais da companhia do 66º, enquanto comandavam a linha vermelha coroada de aço colina abaixo. Sharpe procurou as águias mas estas estavam distantes, pois tentavam levá-las para local seguro. Então esqueceu-as e conduziu os seus homens em diagonal colina abaixo para cortar a retirada aos grupos de fran-ceses que fugiam. Era o momento de fazer prisioneiros e quando os atiradores investiram contra a massa azul, os franceses largaram as armas e levantaram as mãos. Um oficial não quis render-se e brandiu a espada para Sharpe, mas a enorme espada de cavalaria atingiu-o de lado e o homem caiu de joelhos erguendo as mãos postas para o fuzileiro. Sharpe não lhe deu importância. Queria chegar ao riacho e fazer com que os seus homens deixassem de perse-guir os franceses na outra margem onde os batalhões de reserva esperavam para castigar os britânicos vencedores. O nevoeiro tinha-se dissipado quase completamente.

     Alguns franceses detiveram-se no ribeiro e voltaram os mosquetes contra os britânicos. Uma bala acertou-lhe na manga, outra roçou-lhe o rosto, chamuscando-o, mas o pequeno grupo dispersou e fugiu quando ele lhes brandiu a espada. As botas chapinharam no riacho, ouvia tiros atrás de si e viu balas a baterem na água, mas voltou-se e ordenou aos seus homens que se detivessem. Afastou-os do riacho e juntou-os aos prisioneiros, longe das tropas francesas de reserva que esperavam na outra margem com os mosquetes carregados.

     Pronto. O primeiro ataque fora retido e a encosta do Medellín estava coberta de corpos que jaziam formando uma mancha azul desde o ribeiro até quase ao cimo que não tinham podido alcançar. Haveria outro ataque mas, primeiro, cada parte devia contar os vivos e recolher os mortos. Sharpe procurou Harper e viu que, felizmente, o sargento estava vivo, o tenente Knowles estava ali sorrindo jovialmente, e com a espada ainda por manchar de sangue.

     - Que horas são, tenente?

     Knowles aguentou a espada debaixo do braço e abriu o relógio.

     - Seis e cinco, meu Capitão. Não foi incrível? Sharpe riu-se.

     - Espere. Isto não foi nada.

     Harper desceu a correr pela vertente e estendeu-lhe um pacote que trazia na mão.

     - Pequeno-almoço, meu Capitão?

     - Uma alheira?

     - Especialmente para si - respondeu Harper a sorrir.

     Sharpe cortou um bocado e trincou a carne saborosa e picante. Esticou os braços, sentiu o alívio da tensão nos músculos e começou a sentir-se melhor. Tinha terminado o primeiro assalto e levantou os olhos para a encosta cheia de restos e para a única bandeira do batalhão.

     Debaixo dela estava Gibbons, a cavalo junto ao tio, e Sharpe desejou que o tenente tivesse observado os atiradores e sentisse medo. Harper viu para onde ele estava a olhar e observou a expressão que tinha a cara do seu capitão. O sargento voltou-se para os homens da companhia, vigiando os prisioneiros e gabando-se das suas façanhas.

     - Muito bem, não estamos na maldita festa das colheitas! Recarreguem as armas. Eles vão voltar.

    

     A batalha estalara durante um curto espaço de tempo, mas mais tarde terminou, e quando o Sol se elevou no alto e o fumo se desvaneceu, o vale do Portina encheu-se de homens, tanto britânicos como franceses, que iam recolher os feridos e enterrar os mortos. Homens que uma hora antes lutavam desesperadamente para se matarem uns aos outros conversavam agora e trocavam tabaco por comida e vinho por conhaque. Sharpe enviou uma dúzia de soldados para o riacho para procurarem quatro homens da Companhia Ligeira que faltavam. Não tinham morrido no tiroteio mas sim atingidos quando subiam de regresso pela encosta com os prisioneiros. Os canhões franceses tinham aberto fogo, mas dessa vez com os canos baixos e os projécteis tinham rebentado por cima da tropa dispersa que caminhava colina acima. Os homens começaram a correr, os prisioneiros franceses tinham dado a volta e corrido para as suas próprias linhas, mas não havia protecção contra as granadas. Sharpe vira uma bola de ferro bater na toca de um coelho e fazer ricochete no ar com o fumo a rodopiar violentamente da espoleta. A granada, suficientemente pequena para caber numa mão, aterrou junto a Gataker. O fuzileiro tinha-se baixado para arrancar a espoleta com um sacão mas fora demasiado tarde, uma vez que explodiu, salpicando-o com a cobertura partida e vomitando fumo e chamas ao mesmo tempo que atirava para trás o seu corpo já cadáver. Sharpe ajoelhou-se junto a ele mas Gataker estava morto; o primeiro fuzileiro de Sharpe a morrer desde a luta nas montanhas do Norte no Inverno anterior.

     Quando os canhões se calaram mandou-os voltar para enterrarem rapidamente os mortos e os homens cavaram buracos profundos na terra mole junto ao riacho. Também chegaram os franceses. Durante alguns minutos as tropas evitaram-se, mas em breve, alguém disse uma piada, estendeu uma mão, e em poucos minutos os inimigos apertavam as mãos, provavam as barretinas uns dos outros, partilhavam os tristes restos de comida e tratavam-se mais como velhos amigos do que como inimigos declarados. O vale estava coberto dos restos da batalha; granadas por explodir, armas, mochilas saqueadas, o lixo vulgar de uma derrota.

     - Sharpe! Capitão!

     Sharpe voltou-se e viu Hogan abrindo caminho entre os mortos e feridos.

     - Tenho andado à sua procura! - disse o oficial de engenharia descendo do cavalo. - Está bem?

     - Estou bem.

     Sharpe aceitou a garrafa de água que Hogan lhe oferecia.

     - Como está Josefina? Hogan sorriu.

     - Adormeceu.

     Sharpe olhou para as escuras olheiras debaixo dos olhos do irlandês.

     - Mas o senhor não?

     Hogan abanou a cabeça e então apontou para os corpos.

     - Não vale a pena queixar-me de uma noite sem dormir.

     - E Josefina?

     - Creio que está bem. Sinceramente, Richard. - Hogan abanou de novo a cabeça. - Está deprimida; infeliz. Mas o que se podia esperar depois da noite passada?

     A noite passada, pensou Sharpe. Santo Deus, era só a noite passada. Deu a volta e olhou para a água ensanguentada do Portina e para os franceses que estavam a escavar na outra margem um buraco comprido e um pouco profundo para o qual atirariam os mortos nus. Virou-se para Hogan.

     - O que se passa na cidade?

     - Na cidade? Ah, preocupa-se com a segurança dela?

     Sharpe acenou afirmativamente. Hogan pegou na caixa de tabaco.

     - Está tudo calmo. Recolheram a maior parte dos espanhóis e já estão de volta às suas linhas. Há uma guarda na cidade para impedir qualquer saque.

     - Então está a salvo?

     Hogan olhou para os olhos avermelhados de Sharpe, para as sombras escuras da sua cara e confirmou.

     - Está a salvo, Richard.

     Hogan não disse mais nada. O rosto de Sharpe assustava-o; tinha uma expressão triste, pensou, como o rosto de um aventureiro desesperado que arriscaria tudo numa única jogada de dados. Os dois homens começaram a caminhar junto ao riacho e Hogan pensou no dragão do príncipe de Gales, um capitão com o braço partido que tinha batido à porta da casa de manhã cedo. Josefina tinha ficado surpreendida ao vê-lo, mas tinha-lhe agradado, e dissera-lhe que tinha conhecido o oficial de cavalaria no dia anterior na cidade. O dragão tinha substituído Harper na vigilância mas aquele, pensou o oficial de engenharia, não era o momento para falar a Sharpe no capitão Claud Hardy. O homem tinha agradado a Hogan, tinha-lhe parecido simpática a descrição de Hardy de como caíra do cavalo e o irlandês vira quão aliviada se tinha sentido Josefina ao ter alguém a seu lado que lhe explicasse piadas, lhe falasse alegremente de bailes e banquetes, de caça e cavalos, mas que astutamente compreendia os horrores que ainda se escondiam nas suas recordações da noite anterior. Hogan sabia que Hardy servia para Josefina, mas não era o momento de o dizer a Sharpe.

     - Richard?

     - Sim?

     - Fez alguma coisa a respeito...? - deixou escapar Hogan.

     - De Gibbons e Berry?

     - Sim.

     Hogan chegou-se para um lado e afastou o cavalo de um francês que arrastava um cadáver pela erva. Sharpe esperou que o homem se tivesse afastado.

     - Porquê?

     Hogan encolheu os ombros.

     - Estava a pensar - disse Hogan com dúvidas. - Esperava que, depois de pensar durante uma noite, seria prudente. Poderia destruir a sua carreira. Um duelo, uma luta. Tenha cuidado.

     Hogan estava praticamente a implorar. Sharpe deteve-se e virou-se para ele.

     - Prometo-lhe uma coisa. Não farei nada ao tenente Berry.

     Por um momento, Hogan deteve-se a pensar. O rosto de Sharpe era inexpressivo mas, por fim, o irlandês concordou.

     - Suponho que isso seja bom. Mas está realmente decidido em relação a Gibbons?

     Sharpe sorriu.

     - O tenente Gibbons reunir-se-á em breve ao tenente Berry.

     Deu meia volta e começou a caminhar encosta acima. Hogan correu atrás dele.

     - Quer dizer...?

     - Sim. Berry está morto. Diga-o a Josefina, por favor.

     Hogan sentiu uma tremenda tristeza, não por Berry, que provavelmente merecia o que Sharpe lhe tinha feito, mas por Sharpe que via a vida como uma imensa batalha e se tinha preparado para lutar por ela com uma ferocidade inigualável.

     - Tenha cuidado, Richard.

     - Terei. Prometo-lhe.

     - Quando o verei? - perguntou Hogan receoso de que Sharpe entrasse no quarto de Josefina e encontrasse lá Hardy.

     - Não sei - responde Sharpe apontando para o exército francês que esperava. - Vai haver uma batalha do inferno e receio que tenhamos de ficar todos no campo até que uma das partes se vá embora. Talvez esta noite. Provavelmente amanhã. Não sei.

     Ouviram-se cornetins no vale chamando as tropas às suas posições e Hogan recolheu as rédeas. Os dois homens viram como os soldados britânicos e franceses apertavam as mãos e davam palmadas nas costas uns dos outros antes de a carnificina recomeçar.

     Hogan subiu para a sela.

     - Dir-lhe-ei o que aconteceu a Berry, Richard. Tenha cuidado, não o queremos perder.

     Meteu esporas ao cavalo e partiu a meio galope, seguindo o rio de regresso a Talavera.

     Sharpe subiu a encosta do Medellín com os seus homens enquanto contavam os despojos que tinham recolhido dos mortos. Ele, por seu lado, nada recolhera mas, caminhando colina acima, sabia que haveria despojos melhores no campo antes que se pusesse o Sol; havia uma águia a depenar.

     A manhã foi avançando. Os dois exércitos encontravam-se frente a frente, a cavalaria aborrecida por não haver infantaria dispersa para massacrar, a artilharia amontoando as munições para dispersar a infantaria, enquanto a infantaria estava sentada na erva, compunha as munições e limpava as seguranças dos mosquetes. Ninguém parecia ter pressa. O primeiro ataque tinha sido repelido e agora os franceses estavam duplamente determinados a destroçar o pequeno exército britânico que tinham pela frente. Através do seu telescópio, Sharpe observava os batalhões azuis a posicionarem-se preguiçosa-mente no seu sítio, regimento a regimento, brigada a brigada, até que pôde ver entre o Pajar e o Cascajal mais de trinta águias concentradas para atacar.

     Forrest aproximou-se e sorriu nervoso ao pegar no telescópio que Sharpe lhe estendia.

     - Estão a preparar-se, Sharpe?

     Forrest examinou a linha francesa. Era óbvio o que ia acontecer. Sobre o Cascajal os artilheiros faziam rodar os canhões de maneira a poderem disparar contra as tropas à direita do South Essex, a Legião e a Guarda. Frente a estes regimentos estava a reunir-se uma vasta horda de batalhões inimigos. Os franceses não tinham conseguido tomar o Medellín, nem de dia nem de noite, pelo que estavam agora a planear um matraqueio de tal ordem que nenhuma tropa no mundo pudesse resistir à fúria e intensidade do seu ataque. Sharpe viu atrás da infantaria francesa a cavalaria impaciente esperando penetrar pela brecha e sacrificar os derrotados britânicos. O dia recuperava as suas forças, fazendo uma pausa antes da carnificina, preparando-se para a grande demons-tração da superioridade francesa que destruiria o exército britânico, espalmando-o depreciativamente, e com essa finalidade, à uma em ponto, os canhões franceses voltaram a abrir fogo.

    

     Sir HenryY Simmerson quase não se mexera em toda a manhã. Tinha observado o repelir do primeiro ataque, mas excepto a Companhia Ligeira, o South Essex não tinha sido necessário; agora, Sir Henry sabia, seria diferente. A parte leste do Portina estava cheia de tropas francesas, batalhão atrás de batalhão, preparando-se para avançar nas inevitáveis colunas que Sir Henry inspeccionara silenciosamente com o seu telescópio. Quinze mil homens estavam a ponto de se lançarem contra o centro da posição britânica e, além disso, quinze mil outros começavam a aproximar-se do Pajar e da rede de obstáculos que protegia os espanhóis.

     À direita de Sir Henry os quatro batalhões da Legião Alemã do Rei, o Coldstream e o terceiro de Guardas esperavam o ataque mas Sir Henry sabia que a batalha estava perdida. Nenhuma tropa, nem sequer as ostentosas como a da Legião e a dos Guardas, podia resistir aos espantosos números que esperavam o sinal para iniciar a sua aproximação em massa.

     Sir Henry resmungava agitado na sua sela. Tivera razão desde o princípio. Fora uma loucura deixar um exército nas mãos de Wellesley, era uma loucura lutar naquele país pagão, esquecido de Deus quando os britânicos deveriam antes estar a lutar atrás das muralhas das cidades francesas e flamengas. Voltou a olhar para os franceses. Qualquer tolo veria o que ia acontecer; que as enor-mes colunas atravessariam a débil linha britânica como um touro enfurecido contra uma barreira de estilhaços. Talavera ficaria isolada, os espanhóis caçados como ratazanas pelas ruas, mas as tropas do Medellín, como o seu próprio batalhão, estavam em pior posição. Pelo menos as tropas próximas de Talavera tinham a possibilidade de atingir a ponte e começar a longa retirada para a ignomínia, mas para o South Essex e para os outros batalhões o único destino era ficarem isolados, e a rendição inevitável.

     - Não nos renderemos.

     O tenente Gibbons aproximou o cavalo do tio. Não lhe ocorrera que deviam render-se mas havia tempo que tinha aprendido que a maneira mais fácil de continuar usufruindo dos favores de Sir Henry era estar de acordo com ele.

     - De acordo, senhor.

     Simmerson fechou o telescópio com força.

     - Será um desastre, Christian, um desastre. O exército está a ponto de ser dizimado.

     O sobrinho estava de acordo e Simmerson pensou uma vez mais no desperdício de talento que era Gibbons ser apenas tenente. Nunca tinha ouvido do sobrinho mais do que coisas com sentido militar, o rapaz compreendia todos os seus problemas, concordava com as suas soluções, e Sir Henry não encontrara temporalmente a oportunidade de dar ao sobrinho um merecido posto de capitão para pelo menos o poder manter afastado daquele maldito Sharpe e utilizá-lo como conselheiro e confidente de confiança. Apareceu um novo batalhão na linha francesa, quase em frente ao South Essex e Simmerson abriu o telescópio e olhou para eles.

     - É estranho.

     - Senhor?

     Simmerson entregou o telescópio ao sobrinho. O novo batalhão a marchar por trás do Cascajal vestia casacas brancas com dragonas e colarinhos vermelhos. Simmerson nunca tinha visto tropas como aquelas.

     - Major Forrest!

     - Meu coronel?

     Simmerson indicou as novas tropas que estavam a formar em coluna.

     - Sabe quem são?

     - Não, meu Coronel.

     - Averigúe.

     O coronel viu Forrest esporear o cavalo linha abaixo. “Vai ter com Sharpe. Acha que sabe tudo.” Mas não por muito tempo, pensou Simmerson, aquela batalha seria o fim de aventureiros militares como Sharpe e Wellesley e devolveria o exército a homens prudentes, oficiais com bom senso, homens como Sir Henry Simmerson. Voltou-se e observou as granadas que explodiam entre a LAR e os Guardas. Os batalhões estavam deitados no chão e a maior parte dos disparos franceses explodiam inofensivamente ou saltavam sobre as suas cabeças. No entanto, de vez em quando, via-se uma nuvem de fumo no meio da tropa e Simmerson viu os sargentos retirarem os mortos mutilados da linha e vedando as brechas. A linha de atiradores estava à frente, deitada na erva alta junto ao riacho, uma acção fútil frente ao eminente ataque francês. Forrest regressou.

     - Major?

     - O capitão Sharpe diz que são da Divisão Alemã, meu Coronel. Crê que provavelmente são os batalhões holandeses.

     Simmerson soltou uma gargalhada.

     - Alemães a lutar contra alemães, hein? Deixemos que se matem entre eles! Forrest não se ria.

     - O capitão Sharpe pede para a Companhia Ligeira se adiantar, meu Coronel. Pensa que os holandeses atacarão parte da linha.

     Simmerson não disse nada. Olhou para os franceses e holandeses, se é que o eram, e na verdade estavam mesmo em frente ao South Essex. Um segundo batalhão formava uma coluna separada atrás da primeira, mas Simmerson não tinha qualquer intenção de que o seu batalhão se enredasse na luta de morte do exército de Wellesley. A Legião Alemã do Rei podia enfrentar-se com os batalhões da Divisão Alemã enquanto Simmerson pelo menos salvaria um batalhão do desastre.

     - Meu Coronel? - incitou Forrest.

     Simmerson fez-lhe sinal para deter a interrupção. Tinha uma ideia na cabeça e era excitante, uma ideia que se estendia para o futuro e que dependia do que fizesse naquele momento e observou a beleza com que crescia na sua mente. O exército estava condenado. Isso era certo e, ao cabo de uma hora aproximadamente, as forças de Wellesley estariam mortas ou feitas prisioneiras, mas não havia necessidade nenhuma de que o South Essex participasse nesse desastre. Se os mandasse marchar agora, afastando-se do Medellín para uma posição na retaguarda, então não se veriam cercados pelos franceses. Mais que isso, seriam o ponto de reunião para os fugitivos que conseguissem escapar à fúria dos franceses e então poderia comandá-los, a única unidade que se teria saído incólume da destruição de um exército, de volta a Lisboa e depois a Inglaterra. Semelhante acção teria de ser premiada e Simmerson via-se a si mesmo com o largo galão dourado e o tricórnio de general. Agarrou-se à sela com excitação. Era óbvio! Não seria tolo a ponto de não se dar conta de que a perda da bandeira em Valdelacasa era uma mancha para ele, apesar de estar satisfeito por na carta ter lançado com firmeza todas as culpas a Sharpe, tornando-a credível, mas se pudesse salvar ainda que fosse uma pequena parte deste exército, então Valdelacasa seria esquecida e a Guarda Real de Whitehall ver-se-ia obrigada a reconhecer a sua habilidade e recompensar a sua iniciativa. A sua confiança cresceu. Durante algum tempo tinha-se sentido incómodo para com os duros homens que lutavam naquela guerra mas agora tinham conduzido o exército a uma posição terrível e apenas Simmerson tinha a visão do que havia a fazer.

     Endireitou-se na sela.

     - Major! O batalhão dará meia volta e formará uma coluna de marcha para a esquerda!

     Forrest não se mexeu. O coronel fez voltar o cavalo.

     - Vamos, Forrest, não temos muito tempo!

     Forrest estava espantado. Se fizesse o que ele ordenava, o South Essex daria a volta como uma porta giratória e deixaria uma brecha na linha britânica por onde os franceses poderiam introduzir as suas tropas. E as colunas francesas tinham iniciado o avanço! Os voltigeurs formigavam em direcção ao riacho, os tambores tinham iniciado o seu ritmo de guerra, as granadas iam caindo cada vez com mais intensidade entre a Legião Alemã por baixo deles. Simmerson deu uma palmada na anca do cavalo de Forrest.

     - Depressa, homem! É a nossa única esperança!

     Deram-se as ordens e o South Essex iniciou o torpe movimento giratório que convertia o flanco do Medellín numa vertente aberta ao inimigo. A companhia de Sharpe era o eixo do movimento, a tropa movimentava-se desa-jeitadamente e olhavam fixamente para trás de si, espantados, enquanto as colunas inimigas iniciavam o avanço. A linha de atiradores já estava a lutar, Sharpe ouvia os mosquetes e espingardas, mas a trezentos metros do riacho aproximavam-se as águias. Este ataque não só era mais esmagador do que o primeiro, como que dessa vez os franceses enviavam a artilharia de campanha com as colunas e Sharpe via os cavalos e os canhões à espera de iniciar a sua viagem para o ribeiro. E o South Essex retirava-se! Sharpe correu pesadamente ao longo da linha oscilante.

     - Meu Coronel!

     Simmerson baixou os olhos para ele.

     - Capitão Sharpe?

     - Por amor de Deus, meu Coronel! Dirige-se uma coluna para nós... Foi interrompido por um tenente dos dragões, um dos oficiais de Hill, que fez com que o cavalo se detivesse resvalando e provocasse uma chuva de terra. Simmerson olhou para o que acabava de chegar.

     - Tenente?

     - Cumprimentos do general Hill, meu Coronel, permaneça na sua posição e mande avançar os atiradores.

     Simmerson abanou a cabeça com bonomia.

     - Os meus cumprimentos ao general Hill, mas já vai ver que estou a agir correctamente. Prossigam!

     Sharpe pensou discutir mas sabia que era inútil. Correu de volta para a companhia. Harper estava atrás, mantendo a formação, e olhou com pena para o seu capitão.

     - Que se passa, meu Capitão?

     - Vamos em frente, é isso que se passa. Sharpe abriu caminho entre a tropa.

     - Companhia Ligeira! Ordem de combate! Sigam-me!

     Correu colina abaixo com os homens atrás dele. Maldito Simmerson! Os voltigeurs do batalhão de casacas-brancas já tinham atravessado o riacho e atacavam os Alemães do Rei e Sharpe viu que muitos homens jaziam mortos ou feridos onde a legião lutava contra o dobro dos seus homens. Foi uma corrida asfixiante, com as mochilas a empatar, com bolsas e armas, mas os homens esforçavam-se por seguir em frente contra os holandeses que tinham cruzado o riacho. Explodiram granadas entre a Companhia Ligeira e Harper, arrastando-os para trás, viu cair dois homens mas não havia tempo para tratar deles. Viu Sharpe tirar desajeitadamente a espada da bainha e percebeu que o capitão planeava carregar precisamente sobre os voltigeurs e empurrá-los de volta a cruzar o riacho. Harper respirou fundo.

     - Baionetas! Baionetas!

     Os homens com mosquetes tinham poucas possibilidades de armar a tempo as baionetas, mas para os fuzileiros não era preciso. A baioneta Baker era comprida e estava equipada com uma asa e os fuzileiros de Sharpe agarravam-na como uma espada; os franceses viram-nos chegar, viraram-se e manusearam desajeitadamente as munições. Uma primeira bala passou próximo de Sharpe, cantando-lhe ao ouvido, uma segunda embateu no chão e ricocheteou para cima até bater no seu cantil e a seguir já estava a brandir a espada contra o homem mais próximo; o resto da companhia apunhalava e gritava e os de casaca branca voltavam a correr para o outro lado do Portina.

     - Para baixo! Para baixo! Para baixo! - gritava Sharpe aos seus homens e empurrava dois deles para o chão.

     Tinha-se restabelecido a linha de atiradores, o que não passava de uma pequena vitória. Correu por entre os homens.

     - Apontem baixo! Matem esses bastardos!

     Os atiradores holandeses tinham voltado a formar e começaram a atravessar o riacho. Sharpe não lhes deu importância e continuou a correr até que encontrou um capitão da Legião Alemã do Rei cuja companhia sofrera por Simmerson se ter negado a enviar a sua Companhia Ligeira.

     - Lamento!

     O capitão fez um sinal com a mão, a Sharpe, rejeitando a desculpa.

     - Seja bem-vindo! Lutamos contra a Divisão Alemã, não é? - disse o capitão a rir. - São bons soldados mas nós somos melhores. Divirta-se!

     Sharpe voltou para a sua companhia. O inimigo estava a cinquenta jardas, do outro lado do riacho, e os fuzileiros de Sharpe afirmavam a sua superiori-dade graças a sete ranhuras em espiral nos canos das armas. Os voltigeurs atrasavam-se pouco a pouco e os casacas-vermelhas de Sharpe do South Essex deslizavam para a frente, aproximando-se do riacho para melhorar a pontaria; ele observava-os com orgulho, ajudando-se uns aos outros, apontando para os alvos, disparando com serenidade e recordando as lições que lhes tinha martelado durante o avanço para Talavera. O alferes Denny estava de pé, animando estridentemente, e Sharpe empurrou-o para o chão.

     - Não faça de alvo, senhor Denny, gostam de matar oficiais jovens e prometedores!

     Denny sorriu de orelha a orelha ao ouvir o cumprimento.

     - E o senhor, meu Capitão? Porque não se baixa?

     - Vou fazê-lo agora. Recorde que não se pode ficar quieto!

     Harper estava de joelhos junto a Hagman, carregando para ele, e escolhendo alvos maduros para o velho caçador furtivo. Sharpe deu-lhe a sua própria espingarda e deixou-os para que matassem um a um, os oficiais inimigos. Knowles estava a observar sensatamente o extremo descoberto da linha, dirigindo o fogo de meia-dúzia de homens para deter os casacas-brancas que atacavam o South Essex, e Sharpe não fazia falta ali. Sorriu abertamente. A companhia estava a trabalhar bem, lutava como uma unidade de veteranos, e já havia uma dúzia de corpos do outro lado do riacho. Havia dois, vestidos de vermelho, do seu lado mas o South Essex, talvez devido à ferocidade da sua carga, mantinha a iniciativa e os holandeses não se queriam arriscar aproximando-se demasiado da linha de atiradores britânicos.

     Mas atrás dos voltigeurs, aproximava-se decididamente, a primeira coluna, a coluna da direita de uma série que enchia a planície entre o Cascajal e a cidade. Faltavam poucos minutos para o ataque e quando este acontecesse, pensava Sharpe, a linha de atiradores teria de se retirar.

     Todo o horizonte estava escondido pela nuvens de poeira que os milhares de soldados de infantaria levantavam, os seus rufos e vivas competiam com o som dos canhões e das granadas a explodir, e ao fundo ouvia-se o ruído sinistro das correntes que chocalhavam e faziam parte dos arneses da artilharia. Sharpe nunca vira um ataque a tão grande escala, as colunas ocupavam meia milha em formação e, atrás delas, quase invisível entre a poeira e o fumo, uma segunda coluna, igualmente forte que os franceses enviariam se os britânicos detivessem os primeiros batalhões. Sharpe olhou para trás. Simmerson fizera virar o batalhão e afastava-se, desfilando, da grande brecha que tinha criado na linha, Sharpe viu um cavaleiro a encaminhar-se temerariamente para a única bandeira e supôs que Hill ou até mesmo Wellesley estavam a enfrentar-se furiosamente a Simmerson, mas de momento a brecha existia e os casacas brancas marchavam directamente para ela.

     Foi reunir-se a Harper. Faltavam apenas uns segundos para que a coluna os obrigasse a retroceder e ele olhava fixamente para o seu lento avanço e para a águia que brilhava sedutoramente no meio. Ao lado dela cavalgava um cavaleiro com um chapéu com insígnia e franjas e Sharpe deu uma palmada no ombro de Hagman.

     - Meu Capitão?

     O homem do Cheshire sorriu com a sua boca sem dentes. Sharpe gritou mais alto do que os toques de tambor do que o estalido dos mosquetes.

     - Vê o homem com o elegante chapéu? Hagman olhou.

     - Duzentas jardas?

     Pegou na espingarda e apontou com cuidado, sem ligar ao silvar das balas do inimigo à sua volta, prendeu um pouco a respiração e premiu o gatilho. A espingarda retrocedeu e embateu-lhe no ombro, havia uma vaga de fumo, mas Sharpe saltou para o lado e viu o coronel inimigo a cair na massa da coluna. Deu uma palmada nas costas de Hagman.

     - Bem feito!

     Encaminhou-se para os outros fuzileiros.

     - Apontem à artilharia! Aos canhões!

     Tinha medo dos cavalos da artilharia que os franceses traziam com as colunas; se permitissem que os artilheiros se aproximassem o suficiente para carregarem com cargas ou metralha abririam grandes brechas na linha britânica e dariam às colunas francesas a potência de fogo que uma formação compacta normalmente lhes impedia. Observou os seus fuzileiros que apontavam aos cavalos e artilheiros que estavam em cima dos canhões de quatro; se alguma coisa podia deter a artilharia, seria a precisão à distância da espingarda Baker, mas faltava muito pouco tempo para que a coluna os obrigasse a recuar e a luta converter-se-ia em correr e disparar continuamente, aproximando-se cada vez mais do enorme espaço que Simmerson criara na defesa britânica.

     Voltou a correr até Harper, no meio da linha, e recuperou a sua espin-garda. Ao mesmo tempo que a coluna se aproximava mais, os voltigeurs inimigos enchiam-se de coragem e faziam curtas arremetidas em direcção ao riacho numa tentativa de forçar a linha de atiradores britânicos a recuar. Sharpe viu meia-dúzia dos seus homens jazendo mortos ou feridos, um deles com casaca-verde, apontou para o homem e arqueou as sobrancelhas olhando para Harper.

     - Pendleton, meu Capitão. Está morto.

     Pobre Pendleton, apenas dezassete anos, e tantos bolsos que tinha deixado por roubar. Os voltigeurs disparavam mais rapidamente, sem se preocuparem em apontar, concentrando-se simplesmente em saturar o inimigo com fogo de mosquete e Sharpe viu cair outro homem: Jedediah Horrell, cujas botas novas lhe tinham posto os pés em chaga. Era o momento de se retirarem e Sharpe fez soar por duas vezes um assobio e viu como os homens apontavam um último tiro antes de recuarem uns passos, para se ajoelharem e voltarem a carregar. Atacou uma bala na espingarda e voltou a deslizar a baqueta de aço pela abertura da culatra. Procurou um alvo e encontrou-o num homem que tinha um único galão de sargento francês e que estava a separar os voltigeurs para a corrida que os ia levar ao outro lado do riacho. Sharpe encostou a espingarda ao ombro, sentiu a satisfação do clique quando o percursor plano e de ponta redonda apertou a mola e premiu o gatilho. O sargento rodopiou, atingido no ombro e voltou-se para ver quem tinha disparado. Harper agarrou Sharpe pelo braço.

     - Foi um tiro terrível. Agora vamo-nos embora daqui! Vão querer vingar-se! Sharpe fez uma careta e correu com o sargento até à nova linha de atiradores que estava setenta passos do riacho. O ar estava cheio do bum-bum, bum-bum, bum-bum, bum-bum, bum-bum, Viva l’Empereur, e as colunas iam chapi-nhando pelo riacho, toda a planície asfixiada pela infantaria francesa, marchando sob inúmeras águias contra a débil linha defensiva que recebia ainda as granadas dos canhões do Cascajal. Os canhões britânicos tinham um alvo que não podiam falhar e Sharpe viu como, uma vez atrás de outra, o disparo sólido abria as colunas, atingindo dezenas de homens, mas havia muitíssimos soldados e as fileiras fechavam-se, a tropa pisava os mortos e as colunas avançavam. Ouviram-se vivas dos atiradores britânicos quando se disparou uma caixa esférica, uma arma secreta britânica desenvolvida pelo coronel Shrapnel, detonada com êxito precisamente em cima de uma das colunas e as balas de mosquete, comprimidas na caixa, salpicaram os franceses e destroçaram metade da tropa, mas não havia canhões suficientes para deter o ataque e os franceses assumiram o castigo e continuaram a avançar.

     Então, durante dez minutos, não houve tempo para olhar para mais nada que senão os voltigeurs lá à frente, para fazer mais nada que não fosse correr e disparar continuamente, tentar manter os atiradores franceses cravados contra a sua coluna. O inimigo parecia mais numeroso, o rufar de tambores mais forte, e o fumo dos mosquetes e das espingardas cobria o ar com uma cortina opaca que rodeava a companhia de Sharpe, os voltigeurs de casacas brancas, com os seus gritos estranhos e guturais. Sharpe conduzia a Companhia Ligeira para o local onde deveria estar o South Essex, alargando o espaço entra a sua companhia e os atiradores alemães. A companhia tinha já menos de sessenta homens e, naquele momento, eram as únicas tropas entre a coluna e a planície vazia na retaguarda da linha britânica. Não tinha qualquer possibilidade de deter a coluna mas enquanto pudesse atrasar o avanço, havia a possibilidade de que a brecha fosse tapada e o sacrifício dos seus homens fosse justificado. Sharpe lutou com a espingarda até esta estar tão suja que já não podia introduzir a baqueta pelo cano; os fuzileiros havia tempo que tinham deixado de utilizar o pano engordurado que rodeava a bala e preferiam pegar no riscado; tal como Sharpe, atacavam a carga e a bala na arma, tão rapidamente quanto podiam, para desanimar o inimigo. Alguns homens corriam a urinar nas armas e voltavam à batalha. Era tosco, mas era o método mais rápido de limpar a pólvora aglomerada num cano sujo no campo de batalha.

     Então, por fim, o bendito som das rajadas, do fogo de pelotão, quando as tropas de Legião e dos guardas dilacerou a frente das colunas francesas e as destroçou, empurrou a tropa para trás, destruiu aquelas que avançavam, fazendo cair as descargas sobre as colunas com maior número de canhões. Sharpe não conseguia ver nada. O Batalhão Holandês tinha penetrado na brecha no flanco do sétimo batalhão da Legião Alemã do Rei e tinha-se detido. Os alemães lutavam em duas frentes, diante deles e do lado onde o South Essex deveria permanecer; Sharpe pouco os podia ajudar.

     Os voltigeurs tinham desaparecido, tinham voltado à sua coluna para a fazerem crescer em número e Sharpe e a sua companhia, exaustos e com a cara enfarruscada, tinham ficado no meio da brecha olhando para a retaguarda da coluna inimiga enquanto esta tentava envolver o flanco dos alemães.

     - Porque não avançam? - perguntou o tenente Knowles que estava junto a ele, sangrando do couro cabeludo, de repente com uma expressão de veterano no rosto.

     - Porque as outras colunas foram derrotadas. Não querem ficar sós. Aceitou um sorvo do cantil de Knowles, o seu tinha sido destroçado e sentia a água maravilhosamente fresca na garganta ardente. Desejara não ver o que se estava a passar mas o som, como sempre, contava a sua própria história. O rufar das doze colunas francesas sussurrou e deteve-se, as aclamações dos britânicos elevaram-se no ar, as descargas detiveram-se enquanto as baionetas rangiam ao encaixarem-se nos mosquetes. As aclamações converteram-se em gritos vingativos e, do cimo do Medellín, os oficiais do general observavam como a primeira linha do ataque francês se desintegrava e a linha dos alemães e dos Homens da Guarda a perseguia obrigando-a a recuar, perseguindo as colunas destroçadas pelas baionetas, cruzando o riacho, passando pelos cavalos da artilharia que pura e simplesmente tinham sido abandonados pelo inimigo sem dispararem um tiro.

     - Oh, meu Deus - gemeu Sharpe incrédulo.

     - Que se passa?

     Knowles olhou para o riacho, atrás do batalhão holandês que estava isolado no meio do campo, para onde os vitoriosos alemães estavam com problemas. As primeiras colunas francesas tinham fugido, dispersas e derro-tadas mas, junto ao riacho, havia uma segunda linha de colunas, tão grande como a primeira, e os franceses dispersos encontravam protecção atrás dos canhões à espera da sua reserva. As tropas britânicas e alemãs, de ânimo levantado, baionetas húmidas e mosquetes descarregados, corriam direito ao fogo da reserva da tropa francesa e tocava aos britânicos serem destroçados pelas descargas de mosquete. Voltaram-se e fugiram, em completa desordem e, atrás deles, a segunda linha de colunas, reforçada com os sobreviventes da primeira, iniciou os rufos e começou a marchar para uma planície onde a brecha deixada por Simmerson se tinha alargado até meia milha e onde as únicas tropas britânicas corriam em desordem.

     Sir Henry, a salvo com o South Essex, atrás do Medellín, viu o segundo avanço francês e suspirou aliviado. Por momentos tinha ficado espantado. Tinha visto avançar as colunas francesas pela planície, a poeira a levantar-se por trás delas, com os voltigeurs à cabeça. Tinha visto o sol realçar a prata dos milhares de baionetas e arder o ouro dos milhares de insígnias quando as trompetas e tambores aproximavam as águias de doze colunas mesmo até à extensa linha britânica. E detiveram-se. Os mosquetes tinham ido acima e abaixo da linha britânica como uma chama em movimento, o seu troar abafando todos os outros sons. Desde o seu lugar privilegiado na encosta, Simmerson tinha visto que as colunas cambaleavam como milho batido repentinamente pelo vento ao chocarem as descargas. Então as colunas tinham-se desfeito, dispersado, corrido e ele quase não podia acreditar que uma linha tão débil pudesse repelir o ataque. Observou, mudo, os britânicos a aplaudir, as bandeiras da União a avançar, as baionetas a chegarem azuis ao inimigo e voltarem vermelhas. Esperara a derrota e, em vez disso, vira a vitória, esperara que os franceses abrissem caminho através da linha britânica como se esta não existisse mas, pelo contrário, os britânicos estavam a conseguir semear um maldito caos num exército que os duplicava em número e, ante eles, e com eles, esfumavam-se os seus sonhos e as suas esperanças.

     Mas os britânicos tinham ido longe de mais. As novas colunas francesas abriram fogo, os alemães e a Guarda separaram-se e dispersaram-se, e um novo ataque francês, ainda maior que o primeiro, abria caminho desde o riacho. As aclamações dos britânicos tinham desaparecido, os tambores estavam de volta e as bandeiras da União dobravam-se num caos ante as águias triunfantes. No fim de contas, tivera razão. Virou-se para acentuar a sua perspicácia a Christian Gibbons mas, em lugar do sobrinho, encontrou a olhar para si os olhos de um tenente-coronel desconhecido; ou não tão desconhecido? Tinha a ideia de que, anteriormente, já tinha visto o homem mas não sabia onde. Estava a ponto de lhe perguntar o que queria mas o elegante tenente-coronel falou primeiro.

     - Está exonerado, Sir Henry. O batalhão é meu.

     - O que... O homem não queria discutir. Virou-se para um sorridente Forrest e lançou um jorro de ordens.

     O batalhão deteve-se, voltou-se e encaminhou-se para o combate. Simmerson cavalgou atrás do homem e gritou um protesto mas o tenente-coronel aproximou-se dele com a espada desembainhada, mostrando-lhe os dentes e Sir Henry, decidindo que não era o lugar para uma discussão, puxou as rédeas do cavalo. O homem olhou então para Gibbons.

     - Quem é o senhor, tenente?

     - Gibbons, meu Tenente-Coronel.

     - Ah, sim, já me recordo. Da Companhia Ligeira?

     - Sim, meu Tenente-Coronel.

     Gibbons lançou um olhar desesperado ao tio mas Simmerson olhava fixamente para os franceses que avançavam. O novo coronel deu uma pancada com a quilha da espada no cavalo de Gibbons.

     - Reuna-se à Companhia Ligeira, senhor Gibbons! Depressa! Precisam de ajuda, até da sua!

     Os franceses avançavam por uma planície juncada de corpos, cercada de fumo, mas com um aterrorizador vazio de tropas. Sir Henry estava montado no seu cavalo e observava o South Essex que marchava para a batalha, viu outro batalhão, o 48º, apressando-se contra o inimigo e, no extremo da brecha aberta, marchavam desesperadamente outros batalhões britânicos para formarem uma fina barreira frente à concentração dos Águias. Os oficiais do estado-maior levantavam pó ao galopar colina abaixo, os compridos canhões de seis retroce-diam nos seus carris enquanto massacravam o inimigo, a cavalaria britânica rondava ameaçadora para deter os cavaleiros inimigos que se tentavam aproveitar dos destroçados batalhões britânicos. A batalha ainda não estava perdida. Sir Henry olhou em redor no cimo da colina e sentiu-se terrivelmente só.

    

     Sharpe perdeu de vista a batalha quando se entrepôs o batalhão de tropas holandesas e o fumo que se elevava como estranhas nuvens de nevoeiro sob o abrasador calor espanhol. com a retirada da primeira linha das colunas fran-cesas, os holandeses tinham-se convertido num alvo para os canhões britânicos e, com muita sensatez, as tropas de casaca branca tinham abandonado a coluna e formado uma linha. Agora constituíam uma parede branca e suja, em ângulos rectos com o riacho e em frente ao resto que fugia da Legião Alemã do rei que atravessava a correr à sua frente. Sharpe via que os holandeses atacavam e disparavam os mosquetes em direcção aos batalhões dispersos mas não faziam qualquer movimento de avanço e arrematavam os sobreviventes. Sharpe achou que, morto o coronel pelo disparo de Hagman, o batalhão não sabia o que fazer e estava à espera do segundo ataque francês para se unir a eles.

     - Meu Capitão! Meu Capitão! - gritou o alferes Denny puxando pela casaca de Sharpe e apontando.

     Por entre o fumo que os canhões do Medellín levantavam, Sharpe viu um batalhão britânico a descer a colina.

     - É o nosso! O nosso!

     Denny estava excitado, aos saltos, enquanto o único estandarte abriu caminho entre o fumo e se tornou totalmente visível na encosta. No entanto, estavam a um quarto de milha de distância e, atrás deles, apenas perceptível por entre o fumo, Sharpe viu outro batalhão que marchava para a brecha, para se pôr em frente deste segundo e mais amplo ataque francês. Voltou a ouvir os tambores, tão persistentes como sempre, e pressentiu que o ponto crucial da batalha se aproximava; como que a confirmá-lo, os canhões franceses voltaram a soar e dos canhões quentes e chamuscados lançaram granada atrás de granada sobre o batalhão britânico que corria para formar uma nova linha com que enfrentar o ataque seguinte. Os franceses estavam muito perto da vitória, apenas tinham de romper a improvisada defesa que se estava a formar com os restos e teriam o dia ganho.

     Esqueceram-se dos homens de Sharpe. Era um pequeno grupo no fundo de um vale pouco profundo nos extremos de uma grande luta. Os batalhões tinham-se dispersado de ambos os lados, havia centenas de mortos, corria sangue pelo riacho e agora, entre o fumo e o ruído, marchavam milhares de franceses em direcção à remendada linha britânica. O ataque atingiria o alvo a qualquer momento e as reservas britânicas desmoronar-se-iam ou aguentariam e Sharpe, com a espada na mão, ficou sem saber o que fazer. Harper deu-lhe um toque no braço e apontou para um cavaleiro que se aproximava deles lentamente vindo do Medellín.

     - O tenente Gibbons, meu Capitão!

     Sharpe voltou a olhar para o combate. Gibbons provavelmente vinha com ordens de Simmerson, mas Sharpe não tinha confiança no coronel e não estava particularmente interessado na mensagem que Gibbons trazia. O South Essex ainda estava algo distante para abrir fogo contra o batalhão de casacas-brancas que tinha pela frente e, quando o fizesse, sabia que os holandeses se voltariam contra os atacantes e não confiava na aptidão de Simmerson para lutar contra o batalhão. Era melhor não dar importância ao South Essex.

     O fumo cobria os holandeses. Quando a luta se tornou mais intensa, o fumo da pólvora ficou mais espesso até se converter numa nuvem branca e suja que cobria tudo e os sons longínquos das trompetas da cavalaria competiam, numa sinistra ameaça. Sharpe descontraiu-se. Não se podiam tomar decisões, a batalha estava a decidir-se com os milhares de homens atrás do fumo dos mosquetes holandeses e a Companhia Ligeira do South Essex cumprira o seu dever. Virou-se para Harper e sorriu.

     - Está a ver o mesmo que eu?

     Harper fez uma careta, os seus dentes pareciam de um branco brilhante no rosto preto da pólvora.

     - É bastante tentador, meu capitão. Eu estava a pensar no mesmo.

     A duzentas jardas, no meio da linha holandesa, havia uma águia. Brilhava como ouro, sob a luz, as asas abertas faziam sombra na haste em que estava içada. Sharpe olhou fixamente para as costas da infantaria holandesa que disparavam contra um alvo invisível entre o fumo.

     - Com certeza que daria muito que falar.

     Sharpe arrancou um talo de erva e mastigou-o, a seguir cuspiu-o.

     - Não lhe posso ordenar que venha comigo.

     O sargento voltou a sorrir, um sorriso largo e feliz num rosto marcado.

     - Não tenho nada melhor para fazer. São precisos mais dois. Sharpe abanou a cabeça e sorriu brincalhão.

     - O tenente Gibbons talvez nos desse uma ajuda.

     Harper virou-se e ficou a olhar para Gibbons que estava cerca de cinquenta jardas atrás da companhia.

- O que quer ele?

     - Sabe Deus. Não lhe dê importância.

     Sharpe colocou-se diante dos homens e olhou para eles.

     Estavam ajoelhados na erva, com as caras sujas, olheiras fundas por causa do fumo da pólvora e da fadiga da batalha. Tinham feito tudo muito bem. Olharam-no na expectativa.

     - Portaram-se bem. Foram extraordinários e estou orgulhoso de vós. Sorriram, perturbados pelo elogio, agradecidos.

     - Não vos vou pedir mais nada. O batalhão vem para cá dentro de um minuto e o senhor Denny conduzir-vos-á e far-vos-á formar à esquerda como sempre.

     Estavam confusos, os sorrisos esfumaram-se.

     - O sargento Harper e eu não vamos convosco. Creio que não está certo que o nosso batalhão só tenha uma bandeira, pelo que vamos buscar outra. Aquela.

     Apontou para a águia e viu que os homens espreitavam por detrás de si. Alguns fizeram uma careta, a maioria parecia espantada.

     - Vamos lá agora. Quem quiser vir é parvo, mas será bem-vindo. Os restantes, todos, se quiserem, regressarão com o senhor Denny e o sargento e eu reunir-nos-emos convosco quando pudermos.

     - Eu quero ir, meu Capitão! - protestou Denny. Sharpe abanou a cabeça em sinal de negação.

     - Qualquer um pode vir, senhor Denny, excepto o senhor. Gostava que chegasse a fazer dezassete anos.

     Os homens sorriram brincalhões, Denny corou, e Sharpe afastou-se.

     Ouviu Harper desembainhar a espada e logo se seguiu o ruído de outras lâminas a encaixarem-se. Começou a andar em direcção ao inimigo, com a espada em baixo e ouvia os passos atrás de si. Harper estava a seu lado e continuaram a andar em direcção ao batalhão confiante.

     - Vêm todos, meu Capitão. Todos. Sharpe olhou para ele.

     - Todos? - disse, voltando-se para trás. - Senhor Denny? Regresse ao batalhão! É uma ordem!

     - Mas, meu Capitão...

     - Não, senhor Denny. Regresse!

     Observou como o rapaz dava meia volta e encetava uns passos. Gibbons continuava montado no seu cavalo olhando para eles e Sharpe voltou-se para lhe perguntar o que fazia o tenente, mas era irrelevante; a águia era tudo. Deu a volta, rezando para que o inimigo não os detectasse, rezando ao que houvesse mais para além do céu azul, misturado com o fumo para que tivessem êxito. A águia era tudo o que desejava.

     O inimigo ainda não olhara para eles, ainda disparava contra o fumo, e o som da batalha crescia. Por fim, Sharpe ouviu as descargas regulares do pelotão e soube que o segundo ataque francês se enfrentara à nova linha britânica e que a espantosa monotonia das rajadas britânicas lutava uma vez mais com o hipnótico rufar dos tambores. As balas dos canhões britânicos troavam por cima das suas cabeças e descreviam trajectórias terríveis nas invisíveis colunas francesas mas os rufares tornavam-se mais intensos, os gritos de “Viva l’Empereur” não diminuíam, e, de repente, encontraram-se a umas cem jardas da águia. Sharpe rodou a espada na mão e acelerou o passo. com certeza que o inimigo os veria!

     Um rapaz que tocava tambor, rufando com as baquetas na retaguarda da linha inimiga, voltou-se para vomitar e viu o pequeno grupo que se aproximava silenciosamente por entre o fumo. Lançou o aviso, mas ninguém o ouviu, voltou a gritar e Sharpe viu que um oficial se voltava. A tropa moveu-se, os homens voltavam-se para os enfrentar, mas tinham as baquetas meio enfiadas nos canos e ainda estavam a carregar. Sharpe ergueu a espada.

     - Continuem, continuem!

     Começou a correr, sem pensar em mais nada que não fosse a águia e as caras espantadas do inimigo que desesperadamente se apressava a carregar os mosquetes. Sharpe via os granadeiros com altos gorros de pele, alguns estavam armados de machados, protectores da honra francesa. Um mosquete disparou e uma baqueta deu uma volta sobre a sua cabeça; Harper estava a seu lado, com o sabre-baioneta na mão, e os dois homens soltaram o seu grito enquanto os rapazes dos tambores fugiam, cada um para o seu lado e os dois enormes fuzileiros se introduziam no meio da linha inimiga. Os mosquetes explodiram com um barulho terrível. Sharpe teve a impressão de ver homens vestidos de verde lançados para trás, mas depois só pôde ver um granadeiro alto que arremetia com golpes curtos e profissionais de baioneta. Sharpe desviou-se, deixou que a lâmina deslizasse mais ao seu lado, agarrou o cano do mosquete com a mão esquerda e atirou o granadeiro para cima da sua espada afiada. Alguém o atacou pela esquerda, um golpe baixo oscilante com um mosquete; moveu-se de maneira a que este caísse com um ruído surdo sobre a mochila e lançou o soldado para cima do corpo do granadeiro cujas mãos agarravam a espada cravada no estômago. Um tiro ensurdeceu-o e, de repente, viu-se livre, arrancando a lâmina do pesado cadáver e gritando morte aos homens que protegiam a águia. Harper tinha aberto caminho, tal como Sharpe, entre a primeira fila, mas a sua baioneta era demasiado curta e o irlandês foi repelido por dois homens com baionetas. Sharpe empurrou-os para o lado com a espada, cortando uma grande lasca do mosquete mais próximo e Harper saltou para a brecha, golpeando à esquerda e à direita, enquanto Sharpe forçava ao lado. Mais mosquetes, mais gritos, os casacas-brancas feriam-nos, voltando a carregar para destruir o diminuto grupo, a fogo de mosquete, que os dizimaria sem piedade. A águia retirava-se, afastava-se, mas o porta-estandarte não tinha outro lugar para onde ir senão em direcção ao fogo de mosquete de um batalhão britânico invisível que estava algures entre o fumo que jorrava do embate da coluna contra a linha. Um dos homens com machado dirigiu-se a Sharpe; era um homem enorme, como Harper, e sorriu ao mesmo tempo que levantava a enorme lâmina e a fazia descer com força, desferindo um golpe que teria partido a cabeça de um boi. Sharpe desviou-se para o lado, sentiu a deslocação de ar produzida pela lâmina, e viu cair o machado no chão empapado em sangue. Cravou a espada no pescoço do homem, soube que o tinha matado e viu que Harper apanhara o machado do chão e largava a baioneta. O irlandês berrava na língua dos seus antepassados e subia-lhe à cabeça o sangue enfurecido, brandindo o machado num círculo tão selvagem que até Sharpe teve de se baixar quando Patrick Harper seguiu em frente; os lábios distorcidos e o rosto enegrecido, a barretina perdida, o cabelo comprido emaranhado pela pólvora, a grande espada prateada a silvar nas mãos e, usando o antigo idioma, abrindo caminho por entre o inimigo.

     O porta-estandarte saltou das fileiras para pôr a salvo a preciosa águia no batalhão mas ouviu-se um estalido, o homem caiu, e Sharpe ouviu o habitual “agarrei-o”, de Hagman. Então ouviu-se um novo ruído, mais tiros, e o batalhão holandês estremeceu como um animal ferido enquanto o South Essex se aproxi-mava do seu flanco e começava a lançar descargas. Um oficial enlouquecido estava a olhar para Sharpe, atirou-se a ele com uma espada, falhou, e gritou de pânico quando Sharpe arremeteu com a ponta. Um homem de branco saiu a correr da formação para recolher a águia caída, mas Sharpe estava na mesma linha e deu-lhe um pontapé nas costelas, dobrou-se e apanhou o objecto do chão. Ouviu-se um grito informe, proveniente do inimigo, os homens arreme-teram contra ele com baionetas e sentiu um golpe na coxa, mas Harper estava ali, com o machado e também Denny com a sua espada ridiculamente estreita.

     Denny! Sharpe fez com que o rapaz se baixasse, balançou a espada para o proteger mas tinha uma baioneta no peito, mas embora Sharpe batesse com a espada na cabeça do homem, reparou que Denny estremecia e caía. Sharpe berrou, balançou a águia de cobre dourado em direcção ao inimigo, viu que o seu brilho rasgava o ar e obrigou-a a retroceder, gritou de novo e saltou por cima dos corpos com a espada ensanguentada à procura de mais. Os holandeses afastaram-se aterrorizados, a águia vinha na sua direcção e eles recuavam diante de dois enormes fuzileiros que grunhiam, lançando-se contra eles, sangrando de uma dezena de golpes mas mesmo assim continuando a avançar. Eram imortais! Agora vinham descargas da direita, de frente, e os holandeses, que tinham combatido tão bem para os seus amos franceses, já tinham que lhes bastasse. Correram, tal como os outros batalhões franceses, e, por entre o fumo do vale do Portina, os restos dos batalhões como o 48º, os homens da Legião e os Guardas tinham voltado a formar adiantavam-se para voltar a combater, avançando sobre o terreno resvaladiço de sangue, investiam com as baionetas, obrigando as enormes colunas francesas a retroceder. O inimigo afastava-se do aço gotejante, retirava-se de uma cena que era como as imagens mais pavorosas do inferno. Sharpe nunca tinha visto tantos corpos, tanto sangue derramado num campo de batalha; nem sequer em Assaye, que acreditava ser incompa-rável no que dizia respeito a horror, tinha corrido tanto sangue.

     Desde o Medellín, através do fumo, Sir Henry observou todo o exército francês a recuar, destruído e a sangrar, tendo perdido a quarta parte dos seus efectivos; derrotados, destroçados pela linha, pelos mosquetes que faziam cinco disparos por minuto num dia bom, e por homens que não temiam os tambores. E em pensamento, Sir Henry redigiu uma carta em que explicaria como a sua ordem de retirada do South Essex da linha tinha sido o movimento-chave que permitira a vitória. Acaso não dissera sempre que os britânicos venceriam?

    

     Ainda não tinha terminado, mas o fim estava muito próximo. Quando as tropas britânicas no meio do campo se fundiram em linhas exaustas junto à margem da descorada corrente do Portina, ouviram rajadas de tiros e os sons estridentes das trompetas de cavalaria provenientes do terreno a norte do Medellín. Mas pouco mais aconteceu; os Dragões Ligeiros do 23º efectuaram uma carga suicida, os canhões de seis britânicos pulverizaram doze batalhões franceses em quadrado e então os franceses renderam-se. Fez-se silêncio no campo. Os franceses estavam acabados, derrotados, e os britânicos tinham ficado com a vitória e com o campo.

     E com este, os mortos e os feridos. Houve mais de treze mil baixas, mas na altura ninguém o sabia. Não sabiam que os franceses não voltariam a atacar, que o rei José Bonaparte e os marechais franceses cavalgariam para leste durante a noite, pelo que os exaustos e enegrecidos vencedores ficaram no campo. Os feridos gritavam pedindo água, chamando pelas mães, pedindo qualquer coisa que não fosse a dor e a impotência sob o calor. E o horror não se compadecia com eles. O sol queimara implacável durante dias, a erva do Medellín e do vale estava seca, e num qualquer lugar uma chama pegou e estendeu-se pela erva, queimando tanto feridos como mortos. O cheiro a carne queimada espalhou-se e elevou-se em persistentes nuvens de fumo. Os vencedores tentaram retirar os feridos mas era demasiado tarde, as chamas estendiam-se e os que os tentavam resgatar maldiziam-se e deixavam-se cair junto ao sujo ribeiro mitigando a sede nas águas ensanguentadas.

     Os abutres rondavam as colinas a norte. O sol caía a prumo e inclinava as sombras sobre os campos incendiados, sobre os homens que lutavam para escapar às chamas e sobre as tropas enegrecidas que se revolviam para saquear os mortos e retirar os feridos. Sharpe e Harper seguiam o seu próprio percurso, dois homens nas cortinas de fumo e na erva a arder, ambos a sangrar mas com os rostos enrugados de íntima satisfação. Sharpe sustinha a águia. Não era grande coisa; uma haste de oito pés de comprimento de cor azul-clara e, no extremo, o pássaro dourado com as asas abertas com a garra esquerda levantada, um raio pronto a ser lançado contra os inimigos de França. Não tinha nenhuma bandeira pregada; como muitos outros batalhões franceses os anteriores donos tinham deixado a bandeira no depósito e só traziam a dádiva de Napoleão para a guerra. Tinha menos de dois palmos de largura e o mesmo de altura, mas era uma águia e era sua.

     A Companhia Ligeira tinha-os visto ir. Só Sharpe, Harper e Denny tinham atravessado as tropas do batalhão inimigo e quando o ataque francês se preci-pitou, o resto da Companhia Ligeira tinha sido empurrada para um lado pela avalancha dos sobreviventes aterrorizados que fugiam das descargas pontuais. O tenente Knowles, com uma bala no ombro, observava como os homens continuavam a disparar contra os franceses em retirada e então conduzira-os de novo para junto do batalhão. Sabia que Sharpe e Harper estavam em qualquer lugar entre o fumo e que em breve apareceriam com ou sem a águia.

     O tenente-coronel William Lawford, a cavalo, olhava fixamente para os corpos no campo. Conduzira o South Essex, colina abaixo, e observara como disparavam os seus mosquetes, lentamente mas com calma, contra os inimigos de casaca branca. Vira a luta pela águia mas o fumo que alastrava provocado pelos tiros do batalhão tinha encoberto a cena e os sobreviventes da Companhia Ligeira pouco mais lhe puderam dizer. Um tenente trouxe quarenta e três homens a sangrar e sujos, fazendo caretas como macacos, que falavam da águia, mas onde estava ela? Queria ver Sharpe, queria ver a cara do amigo quando descobrisse que o seu companheiro da prisão de Seringapatam era agora o seu coronel; contudo o campo estremecia em chamas, pelo que deixou de procurar e fez com que o batalhão começasse a assombrosa tarefa de despir os mortos e amontoar os corpos como se fossem lenha para uma fogueira. Eram muitos os que tinham de enterrar.

     Sir Henry Simmerson estava acabado. Wellesley tinha-o amaldiçoado mas com fluidez, e tinha enviado Lawford para tomar conta do batalhão. Lawford esperava ficar com o posto, já era altura de comandar um batalhão, e havia muito que fazer com este. O major Forrest cavalgou até ele e cumprimentou-o.

     - Major?

     - À excepção da Companhia Ligeira, tivemos poucas baixas.

     - Quantas?

     Lawford olhou para Forrest que tirava um bocado de papel da bolsa.

     - Uma dúzia de mortos, talvez o dobro de feridos. Lawford concordou.

     - Saímo-nos bem, major. E a Companhia Ligeira?

     - O tenente Knowles trouxe quarenta e três e a maior parte está ferida. O sargento Read ficou com o equipamento e com outros dois; isso soma quarenta e seis. Cinco homens estavam demasiado doentes para lutar e estão na cidade. - Forrest fez uma pausa. - Isso perfaz um total de cinquenta e um em relação a um efectivo de oitenta e nove.

     Lawford não disse nada. Inclinou-se para a frente na sela e olhou por entre o fumo que se elevava. Forrest pigarreou nervoso.

     - O senhor pensa que...? - disse sem terminar a pergunta.

     - Não, major, não. - Lawford endireitou-se, desfez-se em explicações. Conheço Richard Sharpe desde que eu era tenente e ele sargento. Devia ter morrido uma dúzia de vezes, major, pelo menos uma dúzia, mas não se sabe como se consegue safar. - Lawford sorriu. - Não estou preocupado com Sharpe, comandante. É muito melhor deixar que ele se preocupe consigo. Quem falta mais?

     - O sargento Harper...

     - Ah! - interrompeu Lawford. - O lendário irlandês.

     - E o tenente Gibbons, meu Coronel.

     - O tenente Gibbons?

     Lawford lembrou-se do encontro no quartel-general de Wellesley em Plasência e da petulante expressão do rosto do tenente louro.

     - Gostaria de saber como se vai arranjar sem o tio.

     Lawford mal esboçou um sorriso; Gibbons era o que menos o preocupava. Havia ainda muito para fazer, muitos homens a recolher antes que as gentes da cidade se espalhassem por entre a carnificina para saquearem os corpos.

     - Obrigado, major. Teremos que esperar pelo capitão Sharpe. Por agora, poderia ir organizar um grupo que vá buscar água para os homens. E espe-remos que esses franceses mortos tenham comida nas mochilas, senão vamos ter uma noite de fome.

     Os franceses sim, tinham comida, e ouro, e Sharpe, como sempre fazia, repartia com Harper o que encontrava. O sargento levava a águia e olhava pensativo para a ave.

     - Vale dinheiro?

     - Não sei.

     Para não perder o hábito, Sharpe estava a recarregar a espingarda e resmungou enquanto tentava introduzir a baqueta pelo cano sujo.

     - Mas recompensar-nos-iam, meu Capitão, não é verdade?

     - Creio que sim - disse Sharpe, sorrindo brincalhão para o sargento. O valor patriótico deveria ser de cem guinéus, quem sabe? - disse enquanto voltava a baqueta no lugar. - Talvez apenas digam “obrigado”. Obrigado, sargento Harper - disse ao mesmo tempo que fazia uma reverência.

     Harper retribuiu-lhe desajeitadamente o cumprimento.

     - Foi um prazer, capitão Sharpe - fez uma pausa. - Os grandes filhos da mãe faziam melhor pagando qualquer coisa. Estou desejoso de ver a cara de Simmerson quando lhe entregar isto.

     Sharpe riu-se, ansiava por esse momento. Tirou a águia a Harper.

     - Vamos. Faríamos melhor indo ao seu encontro.

     Harper tocou no ombro de Sharpe e ficou imóvel, olhando por entre o fumo sobre o riacho. Sharpe não via nada.

     - O que se passa?

     - Não o vê, meu Capitão? - Harper falava em voz baixa mas excitada. Ali! Maldita! Foi-se embora.

     - O quê, por amor de Deus, o quê? Harper voltou-se para ele.

     - Pode esperar, meu Capitão? Dois minutos?

     - Um pássaro? - perguntou Sharpe fazendo uma careta.

     - Sim. A pega de rabo azul. Sobrevoou o ribeiro, e não pode estar longe.

     Harper tinha uma expressão satisfeita no rosto, de repente tinha esquecido a batalha, a captura da águia era uma ninharia, perante a descoberta do estranho pássaro que tanto desejava ver.

     - Vá lá. Eu espero aqui - disse Sharpe a sorrir.

     O sargento dirigiu-se lentamente para o riacho, deixando Sharpe entre o fumo que se elevava dos corpos. Passou um cavalo a trote; absorto no seu trabalho, com uma mancha de sangue no flanco. E, afastado das chamas, Sharpe ouviu os clarins a tocar para a formatura dos vivos. Olhou fixamente a águia, o raio preso na garra, o anel que rodeava o pescoço do animal, e sentiu uma nova onda de alvoroço pela sua captura. Agora não o podiam mandar para as índias Ocidentais! Simmerson podia fazer tudo o que quisesse, mas o homem que trouxera a primeira águia capturada aos franceses estava a salvo de Sir Henry. Sorriu, levantou a águia de maneira que o sol lhe batesse nas asas, e ouviu o som de cascos atrás de si.

     A espingarda estava no chão e teve de a deixar ao rodar desesperada-mente para evitar o ataque de Gibbons. O tenente, com o sabre curto desembainhado, tinha os olhos enlouquecidos e apoiava-se na sela; a espada silvou sobre a cabeça de Sharpe, este caiu, continuou a rodar, e ajoelhou-se para ver Gibbons puxar o freio ao cavalo, fazê-lo girar com uma mão, e voltava a lançá-lo para a frente. O tenente nem sequer deu tempo a Sharpe de puxar pela espada, em vez disso apontava-lhe o sabre como se fosse uma lança e meteu esporas ao cavalo para que este avançasse de maneira a que a lâmina se enterrasse no ventre de Sharpe. Este deixou-se cair e o cavalo chegou como um raio a seu lado, voltou-se sobre as patas traseiras, e Gibbons estava por cima dele, apontando para baixo com o sabre. Nenhum dos dois disse nada. O cavalo relinchou, recuou e bateu com os cascos, Sharpe a rebolar desviou-se quando o sabre desceu para o atingir. Agitou a águia, apontando para a cabeça do animal mas Gibbons era muito bom cavaleiro e sorriu enquanto se esquivava do golpe violento. O tenente ergueu o sabre com ambas as mãos.

     - Dê-me a águia, Sharpe.

     Sharpe olhou à sua volta. A espingarda carregada estava a cinco jardas e correu para ela, sabendo que estava demasiado longe, ouvindo os cascos atrás de si, e então o sabre desceu sobre a mochila e atirou-o ao chão. Caiu por cima da águia, rodou para a direita, e o cavalo fazia piruetas por cima dele, os cascos eram como que martelos por cima da sua cara, e a lâmina do sabre era uma curva luz por detrás das ferraduras brilhantes. Voltou a rebolar, sentiu um golpe paralisante quando um casco lhe pisou um ombro, mas continuou a rebolar afastando-se do sabre de Gibbons. Era inútil. A erva metia-se-lhe pelo nariz, o ar estava cheio do ruído dos cascos, o cavalo estava por cima dele, batendo com as patas no solo a seu lado. Esperou que a espada o atravessasse e o cravasse contra o chão. Estava aborrecido consigo mesmo, por ter sido apanhado, por se esquecer de Gibbons e perguntava a si próprio por quanto tempo estivera o tenente à espreita por entre o fumo.

     Mal conseguia mexer o braço direito, todo ele parecia estar paralisado pela pancada do casco, mas arremetia para cima com a águia como se fosse uma barra, tentando afastar os cascos do seu corpo. Sorte maldita! Seria que Harper não ouvia a luta? Nessa altura o sabre parou por cima do seu estômago e viu o rosto sorridente de Gibbons a olhá-lo.

     - Ela gostou. E eu fico também com a águia.

     Parecia que Gibbons se ria dele, a boca do tenente alargava-se cada vez mais, mas não o atacava. Os olhos alargaram-se-lhe e Sharpe começou a mover-se, afastou-se do sabre, pôs-se de pé e viu que brotava sangue da garganta de Gibbons e que este caía, lentamente, por cima do sabre. Sharpe continuava a mover-se, balanceando a águia, e a asa do trofeu francês embateu contra a boca de Gibbons, partindo-lhe os dentes, empurrando-lhe a cabeça para trás, mas o tenente estava morto. A águia tinha-o obrigado a deitar-se para trás, mas o corpo estava inclinado para Sharpe e mesmo no meio, entre as costelas, havia a baioneta de um mosquete francês. O sargento Harper estava do outro lado do cavalo e sorriu a Sharpe.

     O corpo de Gibbons caiu junto à montada e ficou a olhar fixamente para ele, para a baioneta e para o estranho mosquete francês que lhe tinha entrado tão certeiramente nos pulmões e ali estava cravado, oscilando sobre o corpo. Olhou para Harper.

     - Obrigado.

     - Foi um prazer.

     O sargento sorria encantado, como se estivesse a agradecer a Sharpe por lhe ter podido salvar a vida.

     - Só para fazer isto vale a pena estar neste exército.

     Sharpe inclinou-se sobre a águia, respirou fundo, aterrado com a proximi-dade da morte. Abanou a cabeça olhando para Harper.

     - O canalha quase que me acerta!

     E a voz saiu-lhe espantada, como se parecesse incrível que Gibbons pudesse sair vencedor.

     - Primeiro teria de acabar comigo, meu Capitão.

     Disse isto alegremente, mas Sharpe sabia que o sargento dissera a verdade e sorriu em sinal de agradecimento e em seguida foi apanhar a espingarda.

     Voltou-se mais uma vez.

     - Patrick?

     - Meu Capitão?

     - Obrigado.

     Harper fez-lhe um sinal como que a rejeitar o agradecimento.

     - Procure apenas que me dêem mais cem guinéus. Não se captura uma maldita águia todos os dias.

     Gibbons não trazia grande coisa. Um relógio que se tinha partido com a queda e o sabre caro que se viam obrigados a abandonar. Sharpe aproximou-se de Harper e, ajoelhando-se junto ao corpo caído, meteu a mão por entre o colarinho de Gibbons e encontrou o que quase esperava: um fio de ouro. Muitos soldados levavam ao pescoço qualquer coisa de valor e Sharpe sabia, que, se morresse, um qualquer inimigo encontraria a bolsa com as moedas pendurada ao seu pescoço. Harper levantou os olhos.

     - Esquecia-me disto.

     Era um medalhão em cujo interior havia o retrato de uma jovem. Era loura, mas os lábios eram mais grossos do que os dele. Os olhos, apesar da pequenez da miniatura, pareciam fixar-se com vivacidade e alegria para fora do medalhão, Harper inclinou-se.

     - O que diz, meu Capitão?

     Sharpe leu as palavras no interior da tampa aberta.

     - Deus te guarde. com carinho, Jane. Sharpe assobiou baixinho.

     - É bonita, meu Capitão.

     Sharpe pegou no medalhão, meteu-o na cartucheira e então voltou a olhar para o morto com o sangue brilhante por cima da cara delicada. Sabia que tipo de pessoa era o irmão?

     - Vamos, sargento.

     Caminharam sobre a erva, por entre as chamas, até que viram a bandeira amarela e solitária do South Essex. O tenente Knowles foi o primeiro a vê-los, gritou e, de repente, a companhia rodeava-os, dando-lhes palmadas nas costas, dizendo-lhes palavras que eles não ouviam e empurrando-os para o grupo de cavaleiros que estavam junto à bandeira. Sharpe passou os olhos por um Forrest resplandecente e olhou para Lawford.

     - Meu coronel?

     Forrest riu-se ante a surpresa de Sharpe.

     - Se não me engano, o senhor está ao comando da minha Companhia Ligeira?

     - Sua?

     Lawford arqueou as sobrancelhas. Ficava esquisito com o galão prateado.

     - Não concorda, capitão Sharpe?

     - E Sir Henry?

     - Digamos que Sir Henry sentiu um ardente desejo de voltar para as boas casas de Paglesham - respondeu Lawford encolhendo os ombros.

     Sharpe teve vontade de rir. Tinha cumprido a promessa feita a Lennox mas sabia que a verdadeira razão por que tinha aberto caminho para a águia francesa fora para salvar a sua própria carreira, e teria afinal sido necessário? A morte de Denny e de tantos outros, tudo para não ter de ir para as índias Ocidentais? O trofeu estava escondido entre a multidão de homens, mas ele levantou-o de modo a que a estatueta dourada resplandecesse de repente sob a luz. Entregou-a a Lawford.

     - A bandeira perdida do batalhão. Foi o melhor que o sargento Harper e eu pudemos fazer.

     Lawford ficou a olhar fixamente para os dois homens, para o cansaço sob as manchas de pólvora, para as rugas dos seus rostos sulcadas com sangue das feridas na cabeça e para as manchas negras onde as baionetas tinham deixado sangue nas casacas-verdes. Pegou na águia, incrédulo, sabendo que era a única coisa que devolveria o orgulho ao batalhão e elevou-a ao alto. O South Essex, durante tanto tempo desprezado pelo exército, viu-a e soltou gritos de júbilo, os homens deram palmadas nas costas uns dos outros, elevaram os mosquetes ao céu e brincaram até que os outros batalhões se detiveram para ver a causa de tanto alarido.

     Por cima deles, no Medellín, o general Hill ouviu o entusiasmo e apontou o telescópio para o batalhão que quase tinha perdido a batalha. Focou a águia com a lente e ficou de boca aberta.

     - Raios me partam! Meu Deus! Que coisa mais esquisita! O South Essex capturou uma águia!

     Ouviu-se um riso seco a seu lado e Hill voltou-se para olhar para Sir Arthur Wellesley.

     - Meu General?

     - Raios me partam também a mim, Hill. É apenas a terceira vez que o oiço praguejar - disse Wellesley enquanto pegava no telescópio de Hill e olhava através dele pela encosta abaixo. - Raios nos partam! Tem razão! Vamos lá ver esse esquisito animal.

    

     O vinho dos copos de vidro tinha uma cor vermelho-escuro, a brilhante mesa maciça polida resplandecia sob a luz de uma vintena de velas em candelabros de preta, os quadros, cujo antigo verniz reflectia o círculo de luz, mostravam graves e eminentes antepassados da família espanhola em cujo palácio de Talavera Sir Arthur Wellesley fazia de anfitrião ao jantar. Até mesmo a comida era adequada a ocasião. Na semana posterior à batalha a situação do abastecimento tinha piorado, os espanhóis não haviam cumprido as suas promessas e as tropas só recebiam metade das escassas rações. Wellesley, como correspondia a um general, tinha recebido todo o possível e Sharpe tinha bebido um caldo de galinha ligeiramente aguado, desfrutara de uma lebre estufada. Comera com gosto o carneiro favorito de Wellesley e agora ouvia os outros convidados a queixarem-se da dieta enquanto bebiam intermináveis garrafas de vinho. O “Papá” Hill estava ali, corado e feliz, sorrindo continuamente para Sharpe, abanando a cabeça e dizendo “Bendito Sharpe, uma águia”. Robert Crauford estava sentado em frente do fuzileiro; Black Bob, que Sharpe não tinha visto desde a retirada para a Corunha.

     Crauford tinha perdido a batalha de Talavera por um dia, apesar de ter feito marchar a sua excelente Companhia Ligeira quarenta e duas milhas em vinte e seis horas para ir ter com Wellesley. Entre as tropas que tinha trazido de Inglaterra estava o Batalhão de Fuzileiros do 95º que tinha recebido Sharpe com grande algazarra para celebrar a façanha. Tinham feito mais do que isso. Tinham-lhe oferecido uma farda nova e ele estava sentado à mesa com Wellesley, resplandecente e vestido de verde e elegante, cabedal preto e adornos prateados. Guardara o uniforme velho. No dia seguinte, quando o exército se pusesse de novo em andamento, preferia levar a farda de cavalaria manchada de sangue e as cómodas botas francesas do que aquele imaculado uniforme e o frágil calçado.

     Black Bob Crauford estava em forma. Era a pessoa mais disciplinada do exército, um tirano de cólera excessiva, amado e odiado pelas suas tropas.

     Poucos generais exigiam mais dos seus homens, ou recebiam mais dele, e se as suas exigências se apoiavam em castigos selvagens, pelo menos os homens sabiam que a justiça de Crauford era imparcial. Sharpe recordava-se de uma vez que Crauford apanhara um oficial da companhia a atravessar um ribeiro gelado nas montanhas do Norte às costas de um homem.

     - Deixe-o cair! Deixe-o cair! - gritara o general da segurança do seu cavalo ao surpreendido soldado e para deleite da tropa martirizada, o oficial foi atirado à água sem qualquer cerimónia.

     Agora Crauford fixava Sharpe com olhos cínicos e batia na mesa fazendo estremecer o serviço de prata.

     - Teve sorte, Sharpe, teve sorte!

     - Sim, meu General.

     - Não me chame “meu General”.

     Sharpe viu Wellesley a olhar para ele divertido. Crauford estendeu uma garrafa de vinho a Sharpe.

     - Perdeu metade da sua maldita companhia! Se não tivesse voltado com a águia merecia ser despromovido a soldado outra vez. Tenho ou não tenho razão?

     - Sim, General - respondeu Sharpe inclinando a cabeça. Crauford riu-se satisfeito e ergueu o copo para o fuzileiro.

     - Mas, de qualquer modo, esteve muito bem.

     Ouviram-se gargalhadas à mesa. Lawford, enfeitado com rendas e prata fora promovido, pelo menos temporariamente, a comandante do South Essex. Inclinou-se e pôs mais duas garrafas abertas em cima da mesa.

     - Como está o excelente sargento Harper?

     - A recuperar - respondeu Sharpe a sorrir.

     - A ferida foi grave? - perguntou Hill, inclinando-se para a luz das velas com a sua cara redonda de fazendeiro cheia de preocupação.

     - Não, meu General. O pessoal da messe de sargentos do primeiro batalhão quis comemorar com ele. Creio que propôs a teoria de que um homem de Donegal conseguia beber tanto como três ingleses.

     Hogan deu um soco na mesa. O engenheiro irlandês estava alegremente bêbado e ergueu o copo em direcção a Wellesley.

     - A nós, irlandeses, nunca ninguém nos derrota. Não é, meu General? Wellesley franziu a testa. Tinha bebido menos que Sharpe.

     - Eu não me considero irlandês, capitão Hogan, apesar de partilhar essa característica com eles.

     - Caramba, senhor - grunhiu Crauford. - Eu ouvi-o dizer que lá por um homem ter nascido num estábulo, isso não o converte em cavalo!

     Ouviram-se mais gargalhadas. Sharpe recostou-se e ouviu a conversa à volta da mesa e deixou que a comida lhe descansasse pesadamente no estômago. Os criados traziam brande e cigarros, o que significava que o serão em breve iria acabar, mas ele estava a gozá-lo bem. Não gostava muito das refeições oficiais; não tinha nascido para aquilo, em poucas tinha estado, mas aqueles homens tinham-no feito sentir em casa e tinham fingido não se dar conta de que ele esperava que pegassem primeiro nos talheres para saber qual o que deveria usar para cada prato. Explicara uma vez mais a história de como ele e Patrick Harper se tinham visto arrastados pelos fugitivos antes de abrirem caminho a golpes de espada e de machado.

     Bebeu o vinho, remexeu os pés dentro dos sapatos novos e pensou de novo na sua sorte. Vinha-lhe à memória o desânimo da anterior batalha, o desgosto pelas promessas que não iria conseguir cumprir; no entanto tudo tinha corrido bem. Talvez fosse mesmo afortunado, como diziam os seus homens, mas gostaria de saber como conservar a sua sorte. Lembrava-se do corpo caído de Gibbons, com a baioneta bem espetada nas costas, e da visão de Harper que voltava de observar o pássaro precisamente a tempo de deter a descida do sabre sobre si. No dia seguinte, tinham ardido todas as provas do crime. Os mortos, com Gibbons entre eles, tinham sido amontoados nus em pilhas e os vivos tinham metido bocados de lenha entre os corpos e ateado o lume. Eram de mais para se enterrarem; alimentaram a fogueira com madeira durante dois dias e o cheiro pairou sobre a cidade até que as cinzas se espalharam pelos vales do Portina, os únicos vestígios da batalha eram os restos do equipamento que ninguém se preocupou em recolher e a erva queimada onde as chamas tinham abrasado os feridos.

     - Sharpe?

     Sobressaltou-se. Alguém tinha chamado por ele e não tinha ouvido o que estavam a dizer.

     - Senhor, desculpe-me. Wellesley sorria para ele.

     - O capitão Hogan estava a dizer que o senhor está a melhorar as relações anglo-portuguesas.

     Sharpe lançou um olhar a Hogan que arqueou as sobrancelhas malicioso. O irlandês estivera durante toda a semana muito alegre em relação a Josefina, e Sharpe, com três generais a observá-lo, não teve outro remédio senão sorrir e encolher os ombros modestamente.

     - A sorte está do lado dos valentes, não é, Sharpe? - disse Hill sorridente.

     - Sim, meu General.

     Encostou-se e deixou que a conversa fluísse. Estava a sentir a falta dela. Só se tinham passado duas semanas desde a noite em que tinha ido do pátio da pousada para a escuridão junto ao riacho e desde essa altura apenas passara cinco noites com ela. E agora já não haveria mais nenhuma. compreendera isso quando chegaram a Talavera, na manhã a seguir à batalha e ela o beijara e lhe sorrira enquanto atrás dela Agostinho enchia os alforges e dobrava os vestidos que ele não tinha tido tempo de lhos ver postos. Tinha andado pelo braço dele pela cidade, olhando-lhe para o rosto como se fosse uma criança.

     - Não teria durado, Richard.

     - Bem sei - dissera, apesar de não pensar assim.

     - Verdade?

     Ela queria que ele lhe dissesse adeus sem dificuldade e era o mínimo que podia fazer. Explicou-lhe o caso de Gibbons; o último olhar antes que a baioneta a vingasse. Ela apertou-lhe o braço.

     - Lamento, Richard.

     - Por Gibbons?

     - Não. Que tivesses de o fazer. A culpa foi minha, fui uma tola.

     - Não.

     Era estranho, pensava ele, quando os amantes se despedem e se culpam a si próprios.

     - A culpa não foi tua. Prometi que te protegeria e não o fiz. Caminharam até a um pequeno largo banhado pelo sol e pararam a olhar para o convento que constituía um dos lados da praça. Havia mil e quinhentos feridos no edifício e os cirurgiões do exército estavam no primeiro andar. Ouviam-se nitidamente os gritos através das janelas e, com eles, o fluxo macabro dos membros amputados que se empilhavam junto a uma árvore; um monte cada vez maior de braços e pernas, vigiados por dois soldados cuja missão era afugentar os cães famintos da carne mutilada. Sharpe estremeceu ao ver aquilo e rezou a oração dos soldados: que se livrasse dos cirurgiões com as suas serras e dos dentes delas secos de sangue. Josefina pegara-lhe no cotovelo e afastara-o do convento.

     - Tenho um presente para ti.

     - Eu não tenho nada para ti - dissera-lhe ele, baixando os olhos. Ela parecia embaraçada.

     - Deves vinte guinéus ao senhor Hogan?

     - Não me vais dar dinheiro! - exclamou ele mostrando a sua fúria. Josefina abanou a cabeça.

     - Já lhe paguei! Não te aborreças!

     Ele tinha tentado afastar-se, mas ela agarrou-o.

     - Não podes fazer nada, Richard. Paguei-lhe. Tu levavas-me a crer que tinhas dinheiro que chegasse mas eu sabia que o pedias emprestado.

     Ela deu-lhe um papelinho enrolado sem o olhar de frente porque sabia que ele estava perturbado.

     Dentro do papel havia um anel de prata com uma águia gravada. Não era a águia francesa com o raio, mas de qualquer maneira era uma águia. Ela levantou a vista para olhar para ele, entristecida por ver a sua expressão.

     - Comprei-a em Oropesa. Para ti.

     Sharpe não soubera o que dizer. Agradecera-lhe a tartamudear e agora, sentado com os generais, fez com que os dedos apalpassem o anel de prata.

     Tinham voltado a casa e havia um oficial de cavalaria com dois cavalos a esperá-los à porta.

     - É ele?

     - Sim.

     - E é rico?

     - Muito - confessara ela a sorrir. - É um homem bom, Richard. Devias gostar dele.

     - Duvido - respondera Sharpe a rir.

     Gostaria de lhe dizer o pouco que lhe tinha agradado Claud Hardy, com o seu estúpido nome sonoro, o rico uniforme e os seus puros-sangues. O dragão observava-os quando ela levantava os olhos para Sharpe.

     - Não posso ficar com o exército, Richard.

     - Então vais voltar para Lisboa? Ela confirmou.

     - Não vamos para Madrid, pois não? Ele negou com a cabeça.

     - Bom, tem que ser para Lisboa. Ela sorriu.

     - Tem uma casa em Belém; é grande. Lamento.

     - Não lamentes.

     - Não posso ir atrás do exército, Richard. - Estava a pedir que a compre-endesse.

     - Eu sei. Mas os exércitos vão atrás de ti, não é verdade?

     Era uma desastrosa tentativa de lhe dizer um galanteio e ela teria gostado mas, naquela altura, estava na hora de se separarem e ele queria que ela ficasse. Não sabia o que dizer.

     - Josefina. Lamento.

     Ela tocou-lhe no braço e nos seus olhos brilharam-lhe algumas lágrimas. Pigarreou e esforçou-se por parecer contente.

     - Um dia, Richard, apaixonar-te-ás pela mulher c