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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A AMEAÇA DE BEDFORD SQUARE / Anne Perry
A AMEAÇA DE BEDFORD SQUARE / Anne Perry

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

O corpo assassinado de um velho soldado aparece na porta da casa do general Balantyne, mas Charlotte tem dúvida de que ele seja culpado.

Ao mesmo tempo, várias pessoas importantes de setores diferentes da sociedade, inclusive o general, recebem cartas anônimas ameaçadoras. Porém não se conhece o objetivo do chantagista: dinheiro, influência ou outra coisa qualquer. Todos passam a temer algo que os destrua sem serem culpados, mas sem poder demonstrar sua inocência.

 

 

 

 

Pitt apareceu em camisa de dormir à janela do dormitório, que dava à rua, de onde o olhava o policial, cujo semblante, amarelo à luz da luz de gás, refletia uma tensão e uma contrariedade devidas a algo mais que a ter despertado ao delegado do Bow Street às quatro da madrugada.

— Morto, senhor - disse em resposta à pergunta do Pitt, — e a julgar por seu estado e lugar não parece um acidente. Desculpe, mas tenho que voltar. Dá-me medo deixá-lo só, e vá movê-lo alguém e nos estragar as provas.

— Sim, claro - assentiu Pitt. — Volte, agente. Fez o devido. Descerei assim que me vista. Suponho que não terá tido tempo de avisar ao legista nem ao necrotério.

— Não; venho diretamente. Como o encontrei aí...

— Aviso-os eu. Volte e vigie.

— Sim, senhor. Sinto muito, senhor.

— Pois não o sinta, porque fez o devido - repetiu Pitt, colocando a cabeça no dormitório.

Sofreu um calafrio involuntário. Era junho, nominalmente verão, mas as noites londrinas continuavam sendo frias e flutuava um véu de névoa sobre a capital.

— O que acontece?

Charlotte se endireitou na cama e procurou um fósforo. Pitt ouviu o esfregar e viu acendê-la vela, que iluminou suavemente o rosto de sua mulher, fazendo brilhar os tons quentes de seu cabelo e a trança meio desfeita.

— Acharam um cadáver no Bedford Square, e parece que há indícios de assassinato - lhe disse.

— Tanta falta lhes faz? - protestou ela. — É alguém importante?

Desde sua ascensão, Pitt tinha instruções de concentrar-se nos casos que possuíssem relevo policial ou potencial escandaloso.

— Pode ser que não - respondeu, fechando a janela e aproximando-se da cadeira de cujo espaldar pendia sua roupa.

Tirou a camisa de dormir e começou a vestir-se, mas sem colarinho nem gravata. Verteu na pilha o conteúdo do jarro; estava frio, mas não havia tempo de acender o fogão da cozinha e esquentar a água para barbear-se. Por desgraça tampouco o havia para uma xícara de chá, que teria gostado ainda mais. A sensação da água fria na rosto foi muito violenta. Procurou a toalha com os olhos fechados.

— Obrigado. - Pegou-a de Charlotte e secou o rosto vigorosamente, sentindo que o rígido algodão lhe ativava a circulação e fazia que aquecesse. — Parece que apareceu diante da porta de uma das mansões - respondeu.

— Ah.

Charlotte entendeu as conseqüências. Londres vivia momentos de especial sensibilidade aos escândalos. No ano anterior, 1890, tinha presenciado um no Tranby Croft, e o julgamento tinha em brasas todo o país. Tratava-se de um caso bastante lamentável, ocorrido durante uma festa em uma casa de campo em que alguém tinha sido acusado de fazer armadilhas no bacará, jogo ilegal. Não obstante o previsível e indignado desmentido do suposto jogador profissional, não podia se ocultar nem justificar o fato de que o príncipe do Gales figurasse entre os implicados e estivesse a ponto de comparecer diante do juiz a fim de prestar declaração. Meia Londres continha a respiração ao abrir o jornal cada manhã.

Pitt terminou de vestir-se, abraçou a sua mulher e lhe deu um beijo que lhe permitiu sentir o calor de sua pele. Depois lhe jogou para trás a densa cabeleira e apalpou sua suavidade com um prazer por desgraça efêmero.

— Você continue dormindo - disse com doçura. — Voltarei assim que puder, mas duvido que chegue a tempo para o café da manhã.

Percorreu o corredor nas pontas dos pés e abriu a porta sem fazer ruído para não despertar as crianças, nem à criada Grace, que dormia no piso de cima. O lampião de gás do patamar, que sempre deixavam ao mínimo, foi suficiente para que visse os degraus. Quando chegou ao saguão, levantou o auricular do telefone (aquisição que levava pouco tempo em seu lar) e solicitou à operadora que lhe pusesse com a delegacia de polícia do Bow Street. Quando ouviu a voz do sargento lhe ordenou enviar a Bedford Square o legista e a carruagem do necrotério. Pendurou-o, calçou as botas, recolheu a jaqueta do cabideiro da porta principal e saiu à rua.

Fazia um frio úmido, mas começava a amanhecer. Caminhou depressa pela rua molhada e dobrou pela esquina do Gower Street. Os poucos metros que o afastavam do Bedford Square não lhe impediram de divisar a inquieta figura do agente que montava guarda a sós no meio da rua, e que balançou sua lanterna com expressão de alegria, aliviado ao vê-lo emergir com rápidas passadas da escuridão.

— Aqui, senhor!

Pitt se aproximou e olhou o lugar que lhe assinalava. O vulto negro se destacava claramente contra a escada de acesso à primeira mansão a mão esquerda. A julgar por sua postura devia haver-se desabado quando tentava alcançar a campainha. A causa da morte era visível: uma ferida profunda e ensangüentada a um lado da cabeça, cuja origem, na verdade, parecia algo menos acidental. Nenhum percalço acontecido na via pública o teria arrojado tão longe, e não se apreciava nenhuma outra ferida.

— Me ilumine - solicitou Pitt antes de ficar de joelhos ao lado do cadáver e examiná-lo de perto. Aplicou os dedos à garganta do desconhecido, o qual, embora falto de pulso, continuava quente. — A que horas o achou? - perguntou.

— Às quatro menos dezesseis.

Pitt consultou seu relógio de bolso. Eram as quatro e treze.

— E a que horas tinha passado pelo lugar por última vez?

— Às três menos um quarto, senhor, e então não estava.

Pitt se voltou para olhar as luzes, e viu que estavam apagadas.

— Procure o faroleiro - ordenou. — Não pode ter acontecido faz muito. As de Keppel Street continuam acesas, e a estas horas quase não se vê nada. Passa um pouco de preparado, na verdade.

— Às ordens! - respondeu o agente, preparando-se para obedecer.

— Alguém mais? - perguntou-lhe Pitt antes que partisse.

— Não, para os distribuidores é muito cedo. Começam às cinco, quando muito cedo, e as criadas não estão levantadas. Demorarão no mínimo meia hora mais. Para os notívagos é um pouco tarde; costumam voltar por volta das três, embora nunca se sabe. Poder-se-ia perguntar...

Pitt sorriu com ironia, dando-se conta de que o agente tinha renunciado a encarregar-se disso e o considerava mais adequado para fazer indagações entre a alta sociedade do Bedford Square e lhes perguntar se voltando de seus ócios noturnos tinham visto um cadáver diante de uma porta, ou possivelmente uma rixa de rua.

— Veremos se é necessário - disse subitamente. — Revistou-lhe os bolsos?

— Não, senhor. Deixei à você.

— E tampouco não terá nenhuma pista sobre sua identidade, não é? Não sabe se é criado ou vendedor, ou se ronda a alguma criada?

— Não, senhor, é a primeira vez que o vejo e acredito que não é de daqui. Quer que vá procurar ao faroleiro antes que se afaste muito?

— Sim, traga-me ele - deu a ordem.

— À ordem.

O policial deixou a lanterna no degrau, virou sobre seus calcanhares e se afastou à luz da alvorada sem que a Pitt tivesse ocorrido nenhuma outra pergunta.

O delegado recolheu a lanterna e examinou o cadáver. Tratava-se de um homem de feições enxutas e pele curtida, como se tivesse passado muito tempo à intempérie. Devia fazer um ou dois dias que não se barbeava. Quanto ao cabelo era de uma cor castanha apagada, provavelmente loira em sua juventude. Possuía traços agradáveis, com certa tensão: muito breve o lábio superior, as sobrancelhas diretas, e na da esquerda uma descontinuidade que podia dever-se a uma antiga cicatriz. Era um rosto ao mesmo tempo harmonioso e fácil de esquecer, como os havia aos milhares. Pitt empregou um só dedo para descer a camisa quatro ou cinco centímetros. A pele de baixo era clara, quase branca.

Examinou a seguir as mãos do morto, mãos fortes, de unhas rotas e não precisamente limpas, mas que não pareciam pertencer a um trabalhador. Não tinham nenhum calo. Os dedos estavam cheios de cortes, como se o morto brigara a murros pouco tempo atrás (possivelmente escassos momentos antes de seu falecimento). A pele estava levantada em muitos pontos, mas sangrava pouco e não tinha havido tempo de que saíssem hematomas.

Colocou a mão em um bolso da jaqueta e ficou surpreso pelo achado de uma caixinha de metal, que extraiu e examinou, apreciando sua grande qualidade. A simples vista não soube se era ouro maciço ou um banho. Até podia tratar-se daquela excelente imitação chamada similar, mas estava lavrada como o relicário de uma catedral, dos que se usam para cobrir ossos de santos. A tampa tinha como adorno uma minúscula figura na posição deitada da morte, com vestimentas eclesiásticas e mitra de bispo. Abriu a caixa e a aproximou do nariz. Sim, era o que tinha suposto: uma caixinha de rapé. Dificilmente pertenceria ao morto, que em todo um mês, por não dizer um ano, não teria reunido o dinheiro necessário para comprá-la, tanto se se tratasse de ouro como de uma imitação.

Bem, mas se o tinham surpreendido no ato de roubá-la por que deixá-lo naquele degrau? E, sobre tudo, como se explicava que o assassino não tivesse recuperado a caixa?

Apalpou o bolso para ver se havia algo mais, mas só achou um pouco de corda e uns cordões que pareciam novos. Outros bolsos continham uma chave, um trapo como lenço, três xelins e quatro peniques em caldeirinha e várias folhas de papel, uma das quais era um recibo por três pares de meias três-quartos comprados dois dias antes em uma loja de Rede Lion Square. Aquelas provas, bem investigadas, podiam estabelecer a identidade do morto. Não havia nada mais que desse pistas sobre seu nome ou domicílio.

É claro que havia milhares de pessoas sem lar, pessoas que dormiam diante das portas, debaixo das pontes ou, naquela época do ano à intempérie (se a polícia, tolerante, não as incomodava), mas o aspecto do cadáver levou ao Pitt à conclusão de que seu ingresso naquela categoria tinha que ter sido recente. Levava objetos puídos, meias furadas e botas com solas a ponto de furar, mas estava secas. Não se apreciava a capa de imundície nem o aroma de mofo das pessoas sem teto.

Levantou-se ao ouvir passos, e viu aproximar-se por Charlotte Street a silhueta familiar, muito torpe e angulosa do sargento Tellman. Teria reconhecido-o até à luz do lampião, mas a alvorada já embranquecia o céu no amanhecer.

Tellman se deteve poucos passos. Só a jaqueta, mal abotoada, delatava a precipitação com que se vestira; pelo resto levava o colarinho tão reto e bem engomado como de costume, a gravata impecável e o cabelo úmido e penteado para trás. Sua seriedade era a habitual.

— Um cavalheiro muito bêbado para esquivar-se de uma carruagem de cavalos? -perguntou.

Pitt estava acostumado à opinião do sargento sobre os privilegiados.

— Se era um cavalheiro passava muito má época - respondeu, contemplando o cadáver. — E não o atropelaram, não; os únicos sinais da roupa são as da queda, mas tem os dedos cortados, como se tivesse brigado com alguém. Comprove-o você mesmo.

Tellman seguiu a indicação com um olhar interrogativo. Agachou-se, examinou o cadáver, voltou a levantar-se e Pitt lhe mostrou a caixa de rapé.

A testa do sargento se enrugou.

— Levava-o com ele?

— Sim.

— Sinal de que era um ladrão.

— E quem o matou? Por que diante desta porta? Não entrava nem saía!

— Duvido que o mataram aqui - disse Tellman com certa satisfação. — A ferida da cabeça deve ter sangrado muito. É o normal. Faça um corte e verá. Em troca no degrau quase não há sangue. Suspeito que o mataram em outro lugar e o trouxeram aqui.

— Por roubo?

— Parece bom motivo.

— E por que deixaram a caixa? Além de seu valor, é a única pista para saber de que

casa a roubou. Duvido que haja muitas que se pareçam.

— Não sei - disse Tellman, mordendo o lábio. — Não tem lógica. Suponho que terá que interrogar aos que vivem na praça.

Sua expressão delatava o pouco agrado que lhe inspirava a idéia.

Ouviram ruído de cavalos. Uma carruagem dobrou pela esquina do Caroline Street, seguida pela do necrotério, que se aproximou à calçada a uns dez metros enquanto o primeiro chegava até os dois policiais. Desceu o legista, vestido com um paletó. Subiu a gola, caminhou para eles, saudou-os com a cabeça e dirigiu ao cadáver um olhar de resignação. Depois arregaçou um pouco a calça para não forçar o tecido e ficou de cócoras, disposto a atacar o exame.

Pitt, que tinha ouvido mais passos, viu chegar o agente em companhia de um faroleiro muito nervoso. Era um indivíduo loiro e magro, a quem seu cassetete esgotava. À luz da alvorada filtrada pelas árvores, parecia um cavalheiro extravagante, armado de uma lança que superava suas forças.

— Não vi nada - disse sem que Pitt tivesse ocasião de perguntar-lhe. — Sim.

— Mas aconteceu - afirmou o delegado. — É sua rota? - Só havia uma resposta possível.

— Sim.

— Quando passou?

— Esta manhã - respondeu o faroleiro, como se fosse evidente. — Quando começava a amanhecer. Sempre passo à mesma hora.

— Qual? - disse Pitt pacientemente.

— Já o disse, quando começa a amanhecer! - O faroleiro, nervoso, olhou de esguelha o cadáver, meio abafado pelo legista. — E não estava aí. Eu ao menos não o vi!

— Tem relógio? - prosseguiu Pitt com escassa esperança.

— Para que? Se cada dia amanhece a outra hora - disse o faroleiro.

Pitt se deu conta de que não conseguiria nada mais exato. Do ponto de vista do faroleiro era uma resposta bastante sensata.

— Viu a alguém mais na praça?

O faroleiro negou com a cabeça.

— Por este lado não. Do outro havia uma carruagem levando a casa um senhor. Muito fino não ia, mas tampouco caía. E não passou por aqui.

— Ninguém mais?

— Não. Para festas já era tarde, e ainda faltava um pouco para as criadas e a distribuição.

Certo. Ao menos podia precisar-se um pouco mais. O agente tinha efetuado sua ronda anterior quando ainda era de noite, e tinha encontrado o cadáver quando mal clareava. O faroleiro não podia ter passado muito antes. Conclusão: o cadáver tinha sido depositado na soleira dentro de um intervalo de quinze ou vinte minutos. Havia a possibilidade, se lhes sorria a sorte, que alguém despertara em uma das casas daquele lado e tivesse ouvido passos, gritos, um chiado... A esperança era remota.

— Obrigado - disse Pitt, resignado.

Atrás das grandes árvores do centro da praça o céu se havia posto branco. A luz recortava os telhados do lado oposto e fazia reluzir as águas-furtadas. Voltou-se para o legista, que parecia ter chegado ao termo de seu exame (necessariamente superficial).

— Uma briga, e acredito que curta. Quando o houver visto nu, poderei dizer algo mais. É possível que apareçam mais escoriações, embora na jaqueta não haja buracos nem manchas. Se caiu ou o derrubaram teve que ser em chão seco. Na rua não, isso com certeza, porque não vejo nenhum rastro de barro, esterco nem nada parecido, e as sarjetas estão bastante molhadas. - Olhou em redor. — Ontem pela tarde choveu.

— Sim, sei - respondeu Pitt, vendo brilhar os paralelepípedos.

— Claro - disse o legista, assentindo com a cabeça. — O que vou dizer-lhe que você não saiba! Mas bom, terá que tentá-lo, que para isso me pagam. Um golpe lateral muito forte na cabeça. É o que o matou. Devem ter usado um pedaço de encanamento de chumbo, um castiçal ou um atiçador. Algo assim teve que ser. Em vista do resultado me inclino pelo metal mais que pela madeira. Algo contundente.

— É possível que no assassino tenham ficado sinais? - perguntou Pitt.

O legista apertou os lábios e pensou.

— Algum ou outro arroxeado, pode ser que no lugar do murro. A julgar pelos cortes que há nos dedos, pode ser que lhe golpearam na mandíbula ou na cabeça. Com roupa ou carne branda não teria passado. O outro ia armado e este não, porque em caso contrário não teria tido que usar os punhos. Mau assunto.

— Não o discuto - disse Pitt secamente. Assaltou-o um calafrio. Começava a estar destemperado. — Pode me dar algum dado sobre a hora?

— Nada que não possa deduzir você - respondeu o legista, — nem sobre este pobre desgraçado. Informar-lhe-ei de qualquer novidade. Envio a mensagem ao Bow Street?

— Perfeito. Obrigado.

O legista deu ligeiramente de ombros, saudou com uma inclinação da cabeça e retornou à carruagem do necrotério para dirigir o levantamento.

Pitt voltou a consultar seu relógio: cinco menos um quarto passadas.

— Já é hora de que despertemos às pessoas - disse ao Tellman. — Siga-me.

O sargento suspirou profundamente, mas não tinha mais remédio que obedecer. Subiram juntos pelos degraus onde tinha aparecido o cadáver, e Pitt acionou a campainha de latão. Tellman era favorável à postura do Pitt, que se negava a usar a entrada de serviço (como correspondia ao status social de um policial), mas seu beneplácito à teoria não significava que gostasse da prática. Teria preferido que Pitt o fizesse a sós.

Transcorreu mais de um minuto, longo e incômodo, até que ouviram abrir os ferrolhos e virar a chave. A porta se abriu para o interior, revelando a presença de um lacaio que em sua pressa por vestir-se não pôs libré, mas um simples conjunto de calça escura e jaqueta. Olhou-os piscando.

— O que desejam? - perguntou, alarmado.

Era muito novato para ter adotado a clássica altivez do lacaio de alto status.

— Bom dia - respondeu Pitt. — Lamento chamar a estas horas, mas ocorreu um incidente que me obriga a interrogar a criadagem e a família. - Tirou seu cartão. — Sou o delegado Pitt, da delegacia de polícia do Bow Street. Faça o favor de entregar meu cartão ao senhor da casa e solicitar que me conceda uns instantes. Trata-se de um delito de suma gravidade que me impede de ter a boa educação de aguardar até uma hora mais apropriada.

— Um delito? - O lacaio mostrou expressão de surpresa. — Não sofremos nenhum roubo, senhor. Aqui não ocorreu nenhum delito. Deve confundir-se. - Dispôs-se a fechar a porta, aliviado porque tudo ficaria na rua. No fim de contas era problema de outros.

Tellman deu um passo à frente, para colocar o pé, mas renunciou. Teria sido uma indignidade. Aquela visita lhe parecia odiosa. Preferia tratar com pessoas normais. Repugnava-lhe a idéia de estar ao serviço de outra pessoa. Não era uma maneira decente de ganhar a vida.

— O roubo, caso haja, é secundário - disse Pitt com firmeza. — Venho por um assassinato.

O lacaio empalideceu.

— Um... Um quê?

— Um assassinato - repetiu Pitt com serenidade. — Faz aproximadamente uma hora encontramos um cadáver diante desta porta. Faça o favor de despertar ao dono e lhe informar de que devo falar com todos os habitantes desta casa e desejaria contar com sua permissão.

O ato de engolir a saliva imprimiu uma sacudida ao pescoço do lacaio.

— Sim... Sim, senhor. Isto... - ficou sem palavras. Ignorava por completo onde tinha que deixar esperando dois policiais às cinco da manhã. Em circunstâncias normais nem sequer teriam tido acesso à mansão. Ao máximo que se chegava em dias de frio era servir uma xícara de chá bem quente ao policial do bairro, e isso na cozinha, que era onde deviam estar aquelas pessoas.

— Esperarei na sala de café da manhã - disse Pitt, em parte para ajudá-lo e em parte porque não tinha intenção de ficar tiritando na soleira.

— Sim, senhor... vou avisar ao general.

O lacaio entrou na casa, seguido por Pitt e Tellman.

— General? - perguntou o delegado.

— Sim, senhor. Esta casa pertence ao general Brandon Balantyne.

Soava-lhe o nome, mas demorou um pouco em recordar de onde. Devia tratar do mesmo general Balantyne que tinha tido seu domicílio no Callander Square na época em que Pitt investigava as mortes dos bebês, quase dez anos antes; o mesmo que três ou quatro anos depois tinha estado comprometido nas tragédias do Devil’s Acre.

— Não sabia.

Era um comentário tolo, como reconheceu o próprio Pitt ao pronunciá-lo. Viu que Tellman voltava para ele uma expressão surpreendida, e confiou em não ter que lhe explicar os antecedentes. Só o faria em caso de necessidade. Percorreu o vestíbulo a passo rápido e entrou na sala atrás do lacaio, deixando a porta aberta para Tellman.

O interior se ajustava com tanta exatidão a suas expectativas que lhe produziu um sobressalto, e por uns instantes desapareceram os anos interpostos. A biblioteca era a mesma que na casa anterior; também o mobiliário, de madeira escura e couro verde, gentil pelo tempo. A superfície brunida da mesinha servia de suporte ao modelo em escala do canhão de Waterloo, que refletia a luz do abajur de gás acesa pelo lacaio. A parede de cima do aparador da lareira estava ocupada por uma peça da qual Pitt também se lembrava: o quadro da carga dos Royal Scots Greis, cena que também pertencia ao Waterloo. Compartilhava parede com a azagaya zulú e as pinturas do veld africano: cores claras embranquecidas pelo sol, terra vermelha e acácias de copa horizontal.

Virou-se e deu com o olhar do sargento, em cujo rosto se lia um profundo desagrado. Tellman não conhecia o dono da casa, mas sabia que era general e que na época de sua função ativa ao exército os oficiais acessavam a seus cargos por dinheiro, não por méritos. Procediam de um punhado de famílias ricas de militares e sempre saíam dos melhores colégios (Eton, Rugby ou Harrow). Alguns completavam sua formação com um ou dois anos em Oxford ou Cambridge, mas a maioria ingressava diretamente no exército; fazia isso, além disso, partindo de posições aos quais um homem de classe trabalhadora não teria podido aspirar nem com toda uma vida de serviço jogando a pele no campo de batalha e a saúde em climas estrangeiros sem outra recompensa que os xelins do rei.

Pitt conhecia e tinha em bom conceito Balantyne, mas era inútil dizer a Tellman, o qual tinha visto muitas injustiças para fazer caso ao que pudesse lhe dizer seu chefe. Preferiu esperar em silêncio ao lado da janela, vendo avançar a luz pela praça enquanto as sombras debaixo das árvores centrais se tornavam mais espessas. Os pássaros -estorninhos e pardais - piavam com força. Ouviu-se o estalo continuado de uma carruagem de distribuição que realizava várias paradas. Um mensageiro montado em bicicleta dobrou uma esquina com uma manobra muito brusca, e em seu esforço por não perder o equilíbrio lhe caiu a boina em cima das orelhas.

Pitt e Tellman se voltaram para a porta, pela qual entrou um homem alto e largo de ombros. Seu cabelo, de cor castanha clara, estava cinza nas têmporas e começava a rarear. Tinha feições de homem enérgico: nariz aquilino, maçãs do rosto marcadas e boca larga. Pitt o viu mais magro que em seu anterior encontro, como se o tempo e as vicissitudes tivessem erodido suas reservas de fortaleza, mas continuava caminhando muito ereto e até com certa rigidez, endireitando os ombros. Vestia uma camisa branca e um roupão simples de cor escura, mas não era difícil imaginá-lo de uniforme.

— Bom dia, Pitt - disse com voz baixa. — Devo felicitá-lo por sua promoção? Disse-me meu lacaio que o puseram à frente da delegacia de polícia do Bow Street.

— Obrigado, general Balantyne - respondeu Pitt com certa coibição que se traduziu em rubor. — Apresento-lhe o sargento Tellman. Lamento incomodá-lo tão cedo. Por desgraça, o agente que vigia a zona achou na soleira desta casa um cadáver por volta das quatro menos um quarto da madrugada.

As feições do Balantyne expressaram desagrado, e possivelmente um matiz de incredulidade, embora a notícia não podia pegá-lo de surpresa porque já o teria informado seu lacaio.

— De quem se trata? - perguntou.

— Ainda não sabemos - respondeu Pitt, — mas levava consigo papéis e outros pertences que possivelmente nos permitam identificá-lo em pouco tempo.

Na expressão do general não se produziu nenhuma mudança. Não apertou os lábios nem lhe turvou o olhar.

— Sabe como morreu? - perguntou Balantyne.

Fez gestos de que Pitt tomasse assento, e seu gesto abrangeu ao Tellman de maneira geral.

— Obrigado, senhor - disse o primeiro, aceitando o oferecimento, — mas lhe agradeceria se desse permissão ao sargento Tellman para falar com a criadagem. É possível que tenham ouvido algo.

Balantyne ficou sério.

— Deduzo que não se trata de um caso de morte natural, não é?

— Temo que não. Morreu de um golpe na cabeça, e é provável que depois de uma briga curta, mas violenta.

Balantyne abriu muito os olhos.

— Acredita que ocorreu diante de minha porta?

— De momento o ignoro.

— Tem permissão para que o sargento interrogue aos criados. E mais, o peço.

Pitt fez gestos ao Tellman, que não via o momento de obedecer. Uma vez que a porta se fechou, Pitt se acomodou em uma das poltronas de couro verde e Balantyne se sentou na de frente com certa rigidez.

— De minha parte não posso lhe dizer nada - prosseguiu. — Meu dormitório dá à fachada, mas não ouvi nenhum ruído. Nesta zona não é normal que ocorram roubos tão violentos.

Contraiu-lhe o rosto uma inquietação ou tristeza passageiras.

— Não foi nenhum roubo - respondeu Pitt, resistente a dar o passo seguinte. — Ao menos o que se costuma entender por roubo, porque levava dinheiro consigo. - Reparou na surpresa do general. — E isto.

Tirou do bolso a caixa de rapé e a segurou na mão.

A expressão do Balantyne não sofreu nenhuma mudança. Seu rosto guardava uma imobilidade absoluta, sem indício de admiração pela beleza do objeto nem de surpresa por que estivesse em posse de um homem assassinado depois de uma briga. Uma coisa, entretanto, era dominar suas emoções e outra evitar que o sangue se retirasse de sua pele, que ficou lívida.

— Surpreendente... - Suspirou com lentidão. — Parece... - Engoliu a saliva. — Parece impossível que um ladrão desdenhe um objeto destas características.

Pitt soube que aquelas palavras eram uma maneira de encher o vazio enquanto hesitava entre proclamar-se proprietário da caixa ou não. Que explicação podia dar?

Olhou-o fixamente, fazendo o esforço de não pestanejar.

— Expõe muitas interrogativas - concordou em voz alta. — O reconhece, general?

A voz do Balantyne soou um pouco rouca, como se tivesse a boca seca:

— Sim... Sim, é minha. - Pareceu a ponto de acrescentar algo, mas mudou de idéia.

Pitt formulou a inelutável pergunta.

— Quando a viu pela última vez?

— Pois... Agora mesmo não me lembro. São coisas às quais se acostuma. Duvido que tivesse reparado em sua ausência. - Parecia desconfortável, mas não fugiu o olhar do Pitt e se adiantou à pergunta seguinte. — Guardava-a na vitrine da biblioteca.

Tinha alguma utilidade seguir a pista do objeto? Ainda não.

— Sente falta de alguma coisa mais, general Balantyne?

— Não sei.

— Far-me-ia o favor de comprovar isso? Enquanto isso averiguarei se algum criado reparou em alguma modificação ou indício da passagem de um ladrão.

— Muito bem.

— Há ladrões que antes de dar o golpe chamam à casa para preparar sua estratégia...

— Compreendo - o interrompeu Balantyne. — Acredita que um de nós poderia identificá-lo.

— Sim. Poderia ser útil que viessem você, o mordomo ou os lacaios ao necrotério e vissem se lhes é familiar.

— Como quiser. - Balantyne não ocultou o desagrado que lhe inspirava a idéia, mas a aceitou como algo inevitável.

Ouviu-se um golpe enérgico na porta, que se abriu antes que Balantyne tivesse tido tempo de responder. Pitt recordou imediatamente à mulher que entrou: lady Augusta Balantyne. Possuía uma beleza morena e fria e a vivacidade de suas feições era contida, introvertida. Ela também deve tê-lo reconhecido, porque adotou uma frieza cuja causa não podia limitar-se a que ela e o resto da casa tivessem sido despertados a uma hora inoportuna. Depois de seus dois encontros anteriores, a lembrança que guardava de Pitt tinha que ser por força dolorosa.

Usava um vestido de seda escuro, apto para visitas matinais. Era um desenho que unia moda e discrição, como correspondia a sua idade e posição social. Seu cabelo escuro tinha mechas brancas nas têmporas; as penas tinham apagado a cor de sua pele, mas não a inteligência nem a férrea vontade de seu olhar.

Pitt se levantou.

— Peço-lhe desculpas por havê-la despertado tão cedo, lady Augusta – disse afavelmente, — mas apareceu um cadáver na rua, justo diante de sua casa, e me vejo na triste obrigação de perguntar se algum de seus moradores ouviu ruído.

Desejava lhe economizar sobressaltos. O fato de que não lhe fosse simpática lhe inspirava uma prudência ainda maior que a habitual.

— Dei por certo que se trataria de algo semelhante, inspetor - respondeu ela, negando de entrada qualquer possibilidade de contato social entre ambos.

Estavam em sua casa, a que Pitt só podia chamar no cumprimento de sua profissão.

Pitt experimentou uma absurda crispação interna, e se sentiu igualmente insultado como se lady Augusta lhe houvesse dado um bofetão. Era de prever. Depois de todo o ocorrido entre os dois, de tantas tragédias e culpas, como esperar outra coisa? Quis relaxar a tensão de seu corpo, mas não o conseguiu.

Balantyne também se pôs de pé e os olhava a ambos como se ele também tivesse que pedir desculpas: ao Pitt pela condescendência de sua esposa e a ela pela presença do policial, além de por outra desgraça.

— Um homem a quem agrediram e assassinaram - disse sem rodeios.

Sua mulher respirou fundo, mas não perdeu nem um ápice de sua compostura.

— Conhecido nosso?

— Não - disse Balantyne. — A menos... - voltou-se para o Pitt.

— É pouco provável - disse este, olhando a Augusta. — Parece ter acontecido uma má fase, e ter participado de uma briga. Os indícios apontam de que não se trata de um roubo.

Augusta se relaxou.

— Nesse caso, inspetor, sugiro que interrogue aos criados a fim de averiguar se ouviram algo. Se a resposta for negativa lamentarei não ter podido ajudá-lo. Bom dia.

Não se moveu. Sua intenção não era partir, e sim despedir-se de Pitt.

Balantyne parecia desconfortável. Não tinha o menor desejo de prolongar a entrevista, mas jamais se retirara de uma batalha, de maneira que plantou uma dolorosa resistência.

— Quando chegar o momento mais oportuno para ir ao necrotério, me avise e ali me terá - disse ao Pitt. — Enquanto isso Blisset mostrará o que deseje ver, e não duvide de que saberá se falta algo ou mudou de colocação.

— Faltar? - inquiriu Augusta.

As feições do Balantyne se crisparam.

— É possível que o morto fosse um ladrão - disse laconicamente, sem acrescentar nenhuma explicação.

— Claro. - Sua mulher encolheu levemente um ombro. — É uma maneira de explicar sua presença na praça.

Retrocedeu para deixar passagem a Pitt e aguardou em silêncio que tivesse saído ao corredor.

Blisset, o mordomo, homem amadurecido de porte rígido e militar, aguardava pé da escada. Cabia supor que se tratasse de um antigo soldado, a quem Balantyne, conhecedor de seu histórico, tivesse tomado a seu serviço. Pitt reparou em sua marcada claudicação e a atribuiu a uma ferida de guerra.

— Se fizer o favor de me acompanhar... - disse Blisset com gravidade.

Assim que teve a segurança de que Pitt o seguia, atravessou o vestíbulo em direção à porta forrada de pano que levava às dependências da criadagem.

Tellman se achava de pé ao lado da longa mesa da sala de jantar dos criados, preparada para o café da manhã (que a julgar por seu aspecto ainda não tinha sido consumido por ninguém). Também se achava presente uma criada de vestido cinza, avental impoluto e recém engomado e touca ligeiramente torcida, como se a tivesse posto com pressa. Sua maneira de olhar ao Tellman revelava uma grande antipatia. Também estavam pressentes um lacaio de uns dezenove ou vinte anos, que estava de pé ao lado da porta da cozinha, e o engraxate, que olhava ao Pitt com olhos arregalados.

— De momento nada - disse Tellman mordendo o lábio. Tinha um lápis e um caderno aberto, mas quase não tinha escrito nada. — Parece que nesta casa não há problemas de insônia.

Seu tom confinava com o sarcasmo. Pitt pensou que se tivesse que levantar-se sistematicamente às cinco da manhã e trabalhar quase sem descanso até as nove ou dez da noite acabaria tão exausto que dormiria como um tronco, mas não se incomodou em assinalá-lo.

— Eu gostaria de falar com as criadas - disse ao Blisset. — Posso usar a sala de estar da governanta?

O mordomo aceitou a contra gosto e insistiu em presenciar o interrogatório a fim de proteger a seus subordinados, como era seu dever.

Por desgraça, duas horas de pesquisas diligentes e o registro a fundo da parte principal da casa não arrojaram nenhum dado de interesse. As duas criadas tinham visto a caixa de rapé, mas não recordavam até quando. Não faltava nada mais, e podia afirmar-se com certeza a ausência de indícios de roubo ou presença de pessoas não autorizadas em qualquer das dependências de ambos os pisos.

Ninguém tinha ouvido ruído na rua adjacente.

Todas as visitas correspondiam a pessoas com um longo histórico de entendimentos com a casa. Ninguém tinha visto nenhum vagabundo, noivo (ao menos reconhecido), mendigo, mascate ou distribuidor novo.

Pitt e Tellman deixaram Bedford Square às nove e meia e tomaram uma carruagem de volta à delegacia de polícia do Bow Street. Pouco antes de chegar fizeram uma parada em um posto de rua, onde pediram uma xícara de chá e um sanduíche de presunto.

— Dormitórios separados - disse Tellman com a boca cheia.

— É o habitual nos matrimônios de sua classe - respondeu Pitt, que achou muito quente o primeiro gole de chá.

— Que complicados! - Tellman refletiu em seu rosto a opinião que lhe mereciam.      — Ou seja, que ninguém pode responder de ninguém. Se o morto entrou e o surpreenderam roubando, pode tê-lo matado qualquer um. - Voltou a encher a boca de pão e presunto. — É possível que o deixasse entrar uma criada. Às vezes acontece. Poderia tê-lo ouvido qualquer um e começar uma briga. Até o general, se muito apurar.

Pitt gostaria de rechaçar a idéia, mas guardava uma lembrança muito vívida do olhar do Balantyne ao ver a caixa de rapé.

Tellman o observava esperando a resposta.

— Ainda é cedo para conjeturas - respondeu Pitt. — Começaremos procurando mais provas. Faremos uma ronda pelo lugar para ver se houve algum roubo em outra casa, moveram algo ou lhes consta alguma briga.

— Quem vai pegar algo não podendo levar? Nada de útil?

— Ninguém. - Pitt o olhou com frieza. — Se pegaram em flagrante o ladrão e o mataram, o lógico é que o assassino devolvesse os objetos roubados a seu lugar de origem; tudo menos a caixa de rapé, que não era sua e exigia certas explicações. Vamos ver o que nos diz o legista quando tiver feito um exame mais consciencioso. Fica o recibo das meias. - Tomou um gole de chá, que já estava mais morno. — Embora tampouco esteja seguro de que sirva de muito saber como se chamava.

Nada útil, entretanto, resultou de suas minuciosas pesquisas pelo Bedford Square e nas ruas adjacentes. Ninguém tinha ouvido nada, nem tinha percebido nenhum objeto trocado de lugar ou roubado. Todos afirmavam ter dormido de todo.

O general Balantyne e seu mordomo Blisset foram ao necrotério a última hora da tarde em cumprimento de seu dever, mas nenhum dos dois reconheceu o cadáver. Pitt, que no momento em que se descobriu o rosto do morto observava a expressão do general, percebeu uma surpresa fugaz, como se Balantyne esperasse achar a outra pessoa, possivelmente conhecida.

— Não - disse serenamente o general. — É a primeira vez que o vejo.

Pitt chegou tarde a casa, e uma pequena crise doméstica manteve Charlotte muito ocupada para comentar o caso em profundidade. Seu marido preferiu deixar para mais tarde o dado da implicação do general Balantyne, objeto, conforme recordava, de certa simpatia por parte de Charlotte (até o ponto de que ela tinha passado algum tempo em sua casa ajudando-o em diversas tarefas). Era preferível não gerar angústias desnecessárias, porque ainda podia surgir uma explicação mais simples. Tampouco eram assuntos para comentar a última hora do dia.

Na manhã seguinte foi informar do caso ao subchefe de polícia Cornwallis, pelo simples motivo de que se produziu em uma zona da cidade pouco acostumada a fatos daquela índole. Possivelmente o crime não tinha nada que ver com os residentes da praça, mas não cabia dúvida de que lhes causaria aborrecimentos.

Cornwallis estava há pouco tempo no cargo. Meia vida na marinha o tinha acostumado ao comando, mas em questões de direito penal e política era pouco menos que um recém-chegado, e no caso da segunda havia coisas que excediam sua compreensão. Sua maneira de pensar não tinha nada de maquinadora. Não estava acostumado à vaidade nem ao pensamento circular. O mar não permitia esses luxos; afastava aos destros dos torpes e aos covardes dos valentes com uma inclemência que pouco tinha que ver com os impulsos da ambição nos círculos do governo e alta sociedade.

Tratava-se de um homem de estatura média, cuja magreza parecia indicar maior propensão às tarefas físicas que às de escritório. Seus movimentos eram elegantes e controlados. Não era bonito (seu nariz pecava de muito longo e proeminente), mas seu rosto transmitia equilíbrio e franqueza. Sua calvície completa caía bem com o resto de sua pessoa. Pitt tinha dificuldade em imaginá-lo de qualquer outra maneira.

— O que ocorre?

O olhar do Cornwallis abandonou a mesa para concentrar-se no Pitt, que acabava de entrar. Como estava abafado, as janelas estavam abertas e deixavam entrar o ruído do tráfego. Ouvia-se o estalo continuado das rodas, algum ou outro grito de cocheiro, o estrondo das carroças de cerveja e o pregão dos vendedores ambulantes, que ofereciam cordões, flores, sanduíches e fósforos.

Pitt fechou a porta.

— Ontem à alvorada encontramos um cadáver no Bedford Square - respondeu. — Eu esperava que não tivesse relação com as casas da praça, mas encontramos consigo uma caixa de rapé que pertencia ao general Brandon Balantyne, e de fato apareceu na soleira de sua casa.

— Um roubo? - perguntou Cornwallis com tom de dar como certo.

Seu sobrecenho se contraiu um pouco, como se aguardasse que Pitt justificasse o fato de levar pessoalmente o caso a sua atenção.

— É muito possível que tivesse entrado para roubar alguma das casas e que o pilhasse em flagrante um criado ou o dono da casa. Brigaram com ele e o mataram - disse Pitt. — Depois, por medo de conseqüências, transladaram-no à soleira da casa do Balantyne em lugar de deixá-lo onde estava e avisar à polícia.

— Adivinho o que quer dizer. - Cornwallis mordeu o lábio. — Nenhum inocente atua assim, por muito pânico que tenha. Como o mataram?

— De um golpe na cabeça com um atiçador ou algum objeto parecido, mas antes, a julgar pelos dedos da vítima, produziu-se uma briga.

Pitt tomou assento diante da escrivaninha do Cornwallis. Achava-se à vontade naquele escritório, com suas aquarelas marinhas e o brunido sextante que compartilhava prateleira com os livros (entre os quais figuravam, além de ensaios sobre temas policiais, uma novela do Jane Austen, uma bíblia e vários volumes de poesia: Shelley, Keats e Tennyson).

— Sabe quem é? - perguntou Cornwallis, apoiando os cotovelos na mesa e formando um ângulo agudo com as duas mãos.

— Ainda não, mas o investiga Tellman - respondeu Pitt. — Levava no bolso um recibo por três pares de meias, que poderia nos ser de ajuda. A compra verificou-se só dois dias antes do assassinato.

— Bem.

Cornwallis parecia indiferente ao caso. Talvez tivesse outras preocupações.

— A caixa de rapé que lhe encontramos no bolso pertence ao general Balantyne - repetiu Pitt.

Cornwallis franziu o sobrecenho.

— É de supor que a roubasse, mas não se deduz que lhe dessem morte em casa do Balantyne. Imagino... - Deixou a frase pela metade. — Sim, compreendo o que quer dizer. É aborrecido... e desconcertante. Eu... Eu... Conheço um pouco o Balantyne, e é boa pessoa. Não o imagino cometendo semelhante... estupidez.

Pitt percebeu o nervosismo do Cornwallis, mas lhe pareceu que era anterior a sua chegada. Haver-se-ia dito que seu superior estava muito preocupado para concentrar-se no que lhe dizia.

— Eu tampouco.

Cornwallis levantou a cabeça com brusquidão.

— O que?

— Que não imagino o general Balantyne fazendo algo tão estúpido como deixar um cadáver diante de sua casa em lugar de chamar à polícia - disse Pitt pacientemente.

— Conhece-o?

Cornwallis o olhou como se acabasse de entrar em uma conversa sem ter ouvido o princípio.

— Sim. Investiguei dois casos anteriores que o correspondiam... indiretamente. Como testemunha.

— Caramba. Não sabia.

— Está preocupado por algo? - Pitt sentia apreço pessoal por Cornwallis, e embora fosse consciente de sua falta de conhecimentos políticos respeitava muito sua honradez e valentia moral. — Não será o caso do Tranby Croft!

— O que? Não, Por Deus! - Cornwallis relaxou pela primeira vez desde a aparição do Pitt, e até parecia a ponto de cair em gargalhadas. — Sinto por todos. Ignoro por completo se Gordon-Cumming fazia armadilhas ou não, mas a partir de agora o deixará muito feio. Quanto à opinião que tenho do príncipe de Gales, ou de qualquer pessoa que passe a vida vagando de festa em festa sem fazer nada mais útil que jogar cartas, é melhor que me reserve isso, tanto em público como em privado.

Pitt não sabia se repetia sua pergunta ou interpretava a resposta como uma evasiva.

Pelo que estava seguro era de que o desassossego do Cornwallis era tão intenso que não lhe permitia dedicar todas suas energias mentais ao tema que estava sobre a mesa.

O subchefe de polícia empurrou a cadeira para trás, levantou-se e deu uns passos para a janela, que fechou de repente.

— Que ruído mais espantoso! - disse com irritação. Mantenha-me à corrente de seus progressos no caso do Bedford Square.

Era uma despedida. Pitt se levantou.

— Sim, senhor.

Caminhou para a porta.

Deteve-o um pigarro.

— Ei... - começou a dizer Cornwallis.

Titubeou. Pitt se voltou para olhá-lo. As faces enxutas do Cornwallis estavam ligeiramente rosadas. Parecia profundamente inquieto. Decidiu-se.

— Eu... recebi uma carta de chantagem.

Pitt ficou como pedra. Tinham-lhe ocorrido muitas possibilidades, mas nenhuma tão estranha.

— Eram letras recortadas do Time - acrescentou Cornwallis, — coladas em uma folha de papel.

Pitt ordenou seus pensamentos com dificuldade.

— O que querem?

— É o estranho. - Cornwallis estava rígido. Olhou ao Pitt fixamente. — Nada! Não pedem absolutamente nada! Só ameaçam.

Pitt odiava perguntar, mas o contrário teria sido deixar na estacada a um homem cuja amizade tinha em alto preço, um homem profunda e manifestamente necessitado de apoio incondicional.

— Conserva a carta?

Cornwallis a extraiu do bolso e a entregou. Pitt leu as letras, quase todas recortadas uma a uma, às vezes em grupos de dois ou três e em algum caso por palavras inteiras.

“Sei tudo de você, capitão Cornwallis. Outros tomam por um herói, mas eu sei a verdade. O autor da façanha do HMS Venture não foi você, mas o marinheiro Beckwith, embora você se atribua o mérito. Agora está morto e não pode contar a verdade. É uma injustiça. Deveria divulgar-se. Eu sei o que aconteceu.”

Pitt releu a carta. Não havia nenhuma ameaça explícita, nem pedido de dinheiro ou outras formas de pagamento; não obstante, a sensação de poder era tão forte que saltava da folha enrugada como se possuísse vida própria e maligna.

Olhou ao Cornwallis, que estava pálido, e reparou na tensão dos músculos de sua mandíbula, assim como no pulso que lhe pulsava na têmpora.

— E suponho que não tem a menor idéia de quem a escreveu.

— Nenhuma - respondeu Cornwallis. — Passei meia noite em claro tentando averiguá-lo. - Tinha a voz seca, como se a tensão prolongada lhe tivesse afetado a garganta. Respirou fundo, sustentando o olhar do Pitt. — Repassei várias vezes o incidente ao que acredito que se refere; tentei me lembrar de quem estava presente, quem pôde tê-lo interpretado mal desta maneira, mas me escapa a resposta.

Vacilou. Era um homem pudico com dificuldades para expressar seus sentimentos. Preferia muito o subentendido da ação. Mordeu o lábio e conteve sua vontade de afastar a vista. Era evidente que percebia o desconforto do Pitt, e sem querer o piorou. Tinha consciência de estar pecando de indecisão, de falta de energia, que era justamente o que mais desejava evitar.

— Não seria conveniente que me explicasse o incidente em questão? – disse serenamente Pitt.

Fez gesto de tomar assento, sinal de que não pensava partir.

— Sim... - reconheceu Cornwallis. — Sim, é claro. - Acabou por afastar o olhar e voltar-se para a janela. A intensa luz diurna sublinhava a profundidade das rugas que rodeavam seus olhos e sua boca. — Ocorreu faz dezoito anos... dezoito e meio. Foi no inverno, no golfo de Vizcaya. Fazia um tempo espantoso. Eu naquela época era segundo tenente. Subiu um homem para arriar o sobrejuanete de mesana...

— O que? - interrompeu-o Pitt, que desejava conhecer todos os detalhes.

Cornwallis lhe dirigiu um olhar fugaz.

— Ah, sim... Era um navio de três paus. - Moveu os braços para ilustrar o que dizia. — Pau maior, vela maior... Com arranjo de cruz, claro. Cortou-se com um cabo solto. Na mão. Lhe enrolou não sei como. - Franziu o sobrecenho e voltou a virar-se para a janela. — Eu subi para onde estava; claro que teria que ter enviado a um marinheiro, mas o único que tinha perto era Beckwith e ficou paralisado. Coisas que acontecem. - Falava entrecortadamente. — Não havia tempo para procurar outro; a tormenta piorava cada vez mais, com o navio dando cabeçadas. Tive medo que o ferido se soltasse e deslocasse o braço. Nunca me intimidaram as alturas. O certo é que nem sequer me expus isso. Em minha época de guarda-marinho andei bastante entre as velas. - Apertou os lábios.                   — Consegui soltá-lo, embora tenha tido que cortar o cabo. Era quase como transladar a um morto. Consegui levá-lo pela verga até o mastro, mas pesava muito e cada vez soprava mais vento. O navio cabeceava imprudentemente.

Pitt tratou de imaginar a cena: Cornwallis desesperado, com frio até os ossos e tentando segurar-se a um mastro em perpétuo movimento a quarenta metros de um mar enfurecido, com a coberta ou a água a seus pés, e o corpo inerte de outro homem nos braços. Deu-se conta de que tinha os punhos apertados e continha a respiração.

— Quando tentava repartir melhor seu peso para descer pelo mastro – prosseguiu Cornwallis - vi debaixo ao Beckwith, que devia ter saído de sua paralisia. Ajudou-me a carregar o marinheiro e descemos juntos. Então já se reunira meia dúzia de homens ao pé do mastro, incluído o capitão, e deve ter lhes parecido que me tinha resgatado Beckwith. Disse isso o capitão, mas Beckwith, que era um homem honrado, contou a verdade. -Voltou a cabeça para olhar ao Pitt nos olhos. — O problema é que não posso demonstrá-lo. Beckwith morreu em poucos anos, e o homem a quem tínhamos resgatado sabia tão pouco de quem estava com ele como do ocorrido.

— Compreendo - disse Pitt com calma.

Cornwallis o olhava fixamente, e ao ler a angústia de seu rosto Pitt discerniu um fundo de medo que tratava de não manifestar-se. O homem a quem tinha diante tinha levado uma vida de disciplina contra um elemento que não dava quartel a ninguém, sem misericórdia com os homens e navios. Tinha obedecido suas regras e visto morrer outros homens que não as acatavam ou tinham sido segados pelo infortúnio. Poucos homens, entre os que se beneficiavam da segurança de terra firme, conheciam como ele o valor da lealdade, da honra e da pura, entristecedora valentia física, da obediência imediata e completa e da confiança total nos superiores. Nos navios, a hierarquia era absoluta. Atribuir o mérito do valor alheio era imperdoável.

E, pelo que sabia Pitt do Cornwallis, também era inimaginável. Sorriu-lhe sem fugir seu olhar.

— Investigá-lo-ei. Devemos saber quem é o responsável, e sobre tudo o que pretende. Só há delito se pedir algo concreto.

Cornwallis, vacilante, manteve a mão em cima da carta, como se já temesse o resultado de qualquer medida. De repente se deu conta do que fazia e entregou a folha a Pitt.

Este a pegou e a meteu no bolso sem voltar a olhá-la.

— Serei discreto - prometeu.

— Sim - disse Cornwallis. — Sim, claro.

Pitt se despediu dele, abandonou o escritório, percorreu o corredor, desceu ao piso inferior e saiu à rua. Dez metros mais à frente, absorto no transe do Cornwallis, esteve a ponto de se chocar com um homem que se interpôs em seu caminho, obrigando-o a deter-se.

— Senhor Pitt? - disse o desconhecido, olhando-o. A segurança que se lia em sua expressão desmentia o tom interrogativo.

— O próprio - respondeu Pitt com certa dureza.

Não gostava de ser abordado de maneira tão direta, e estava muito inquieto pela incômoda situação em que se achava Cornwallis para não deplorar qualquer interrupção em suas meditações. Incapaz de proteger a uma pessoa por quem tinha apreço, e temendo que o perigo fosse muito real, sentia-se frustrado e impotente.

— Meu nome é Lyndon Remus e trabalho no Time - disse o homem, que seguia lhe cortando o passo. Tirou um cartão do interior da jaqueta e o estendeu a Pitt, que não o pegou.

— Que deseja, senhor Remus?

— O que pode me dizer do cadáver encontrado ontem pela manhã no Bedford Square?

— O que já sabe.

— Assim, estão desconcertados - concluiu Remus sem vacilar.

— Eu não disse isso! -Pitt estava aborrecido. Aquele homem tinha formulado uma hipótese injustificada, e ele aborrecia os truques com as palavras. — Disse-lhe que não posso lhe dizer nada que não saiba: sua morte e o lugar onde foi encontrado.

— Na soleira da mansão do general Brandon Balantyne. Deduzo que sabe algo e não nos pode dizer. Existe alguma relação entre o caso e o general Balantyne ou outro residente da casa?

Pitt compreendeu com irritação que devia andar com mais cuidado na formulação de suas respostas.

— Olhe, senhor Remus, apareceu um cadáver no Bedford Square - disse com severidade. — Ainda não sabemos quem era nem como morreu, só que a possibilidade de um acidente parece muito remota. Qualquer conjetura pecaria de irresponsável e ameaçaria deteriorar a reputação de uma pessoa inocente. Assim que estejamos seguros de algo o faremos saber à imprensa; e agora faça o favor de afastar-se de meu caminho e me permita seguir com meus assuntos.

Remus não se moveu.

— Pensa investigar ao general Balantyne?

Estava apanhado. Não podia responder que não sem mentir e expor-se a que o acusassem de prejuízos e ineficácia, enquanto que se respondia afirmativamente Remus deduziria que Balantyne estava sob suspeita. A outra alternativa, ignorar a pergunta, dava carta branca ao Remus para interpretá-la como quisesse.

O jornalista sorriu.

— E então, senhor Pitt?

— Começarei minhas indagações pelo morto - respondeu Pitt canhestramente, sabendo que deveria ter previsto aquelas perguntas que o punham entre a espada e a parede. Tomou fôlego. — Depois, como é lógico, seguirei a pista para onde me leve.

Remus sorriu de maneira sinistra.

— Não se trata do mesmo general Balantyne cuja filha Christina se viu envolta nos assassinatos do Devil’s Acre, lá pelo ano oitenta e sete?

— Não espere que eu faça seu trabalho, senhor Remus - replicou Pitt, rodeando ao jornalista. — Bom dia. Afastou-se com rapidez, deixando ao Remus com expressão de satisfeito.

Chegou do trabalho cansado e de mau humor. Já tinham todos os dados a respeito da morte do homem do Bedford Square. O informe escrito não acrescentava nada à postura inicial do legista. Tellman se ocupava de seguir a pista do recibo das meias e interrogar a todos os residentes da praça. Ninguém tinha visto nem ouvido nada interessante.

Para falar a verdade, Pitt estava menos preocupado pelo crime que pela carta do Cornwallis, embora os dois assuntos se parecessem, porque ambos podiam danificar a reputação de uma boa pessoa mediante rumores, suspeitas e insinuações prévias à aparição das primeiras provas. Para desprestigiar a alguém bastava que tais insinuações fossem acreditadas por um número reduzido de pessoas. Os dois homens eram vulneráveis, mas Pitt conhecia e estimava ao Cornwallis, além de acreditar que ele era completamente inocente. O estranho era que tivesse recebido uma missiva ameaçadora, mas sem condições nem exigências. Era de prever que não demorassem.

Abriu a porta, pendurou a jaqueta, agachou-se para desabotoar as botas e entrou descalço na cozinha, onde esperava achar Charlotte. Apesar de contar com uma excelente criada (Gracie), Charlotte continuava executando pessoalmente quase todos os trabalhos culinários. De lavar a roupa branca, limpar a casa a fundo e outras tarefas similares se ocupava uma criada para tudo que vinha quatro vezes por semana. Isso tinha Pitt entendido, embora não era assunto seu.

Tal como tinha previsto achou Charlotte diante do fogão. O forno desprendia um saboroso aroma. Tudo estava limpo, com aroma de madeira bem esfregada e roupa de cama recém lavada. Olhou o teto e viu lençóis postos a secar, pendurados em uma corda que ia de parede a parede segura por duas polias. A porcelana branca e azul do aparador refletia o sol que entrava pelas janelas.

Charlotte tinha a parte dianteira do vestido manchada de farinha, o avental dobrado por um canto e o cabelo soltando-se das forquilhas.

Ele a rodeou com seus braços e lhe deu um beijo, sem se importar que a concha de sopa que tinha na mão gotejasse gema de ovo no fogão e no chão.

Charlotte correspondeu com entusiasmo e depois o repreendeu.

— Olhe o que me fez fazer! - Assinalou a gema de ovo. — Pôs tudo perdido!

Foi à pia, escorreu um trapo e retornou para tirar as manchas. As gotas que tinham caído no fogão estavam queimadas e cheiravam um pouco.

Pitt ficou quieto, pensando no rosto de seu superior. Cornwallis não estava protegido pela segurança de que gozava ele. Não conhecia ninguém disposto a dar mais crédito a ele que a outros; ninguém com quem compartilhar a tensão de esperar a chegada da carta seguinte, nem a quem explicar por que era tão importante.

— O que acontece? - perguntou Charlotte, observando-o com maior atenção. Fez um movimento automático para afastar do calor o prato que continha a gema de ovo. — É o cadáver do Bedford Square? Terá que investigar alguma das casas da praça?

— Não sei - respondeu ele, sentando-se em uma das cadeiras da mesa da cozinha. — É possível. Esta tarde me abordou um jornalista que queria saber se penso investigar o general Balantyne.

Charlotte ficou tensa.

— Balantyne? Se vive em Callander Square! Por que vai investigá-lo?

— Deve ter se mudado - respondeu ele, sem esquecer seus temores pelo Cornwallis. — Sinto lhe dizer que o cadáver apareceu na soleira de sua casa. Simples má sorte, imagino. Só se lembrou da caixa de rapé para o final do jantar, enquanto comia o pudim; então se deu conta de que o que havia dito ao Charlotte não era nem toda a verdade, mas era inútil preocupá-la com o dado porque ela não podia fazer nada.

Estava muito absorto em suas reflexões para atribuir algum significado ao silêncio de sua esposa. Como investigaria a carta do Cornwallis? Como o protegeria?

 

Charlotte ficou muito penalizada pela notícia de que a tragédia do assassinato voltava a atingir o general Balantyne, embora se devesse unicamente ao achado de um cadáver diante de sua porta. Era um lugar público, pelo qual podia passar qualquer pessoa sem necessidade de que se inteirasse o general, e menos de que a conhecesse.

Na manhã seguinte, depois que Pitt partiu, deixou a Gracie a tarefa de recolher os pratos do café da manhã e acompanhou ao colégio a Jemima e Daniel, de nove e sete anos respectivamente. A seguir voltou para a cozinha com o jornal, que o senhor Williamson, vizinho da mesma rua, tinha a amabilidade de lhe deixar na porta.

A primeira coisa que lhe chamou a atenção foram as últimas notícias sobre o caso Tranby Croft. Corriam rumores de que o príncipe do Gales seria chamado a declarar como testemunha e, como não podia ser menos, especulavam-se sobre o conteúdo de sua declaração. Que o herdeiro do trono se apresentasse no tribunal como um homem qualquer era um fato tão insólito como inimaginável, dias atrás. A sala estaria abarrotada, tal era a curiosidade por vê-lo em pessoa e ouvir suas palavras em resposta às perguntas dos magistrados, às quais não teria mais remédio que responder. Só se podia entrar com entrada.

Sir William Gordon-Cumming estava representado por sir Edward Clarke, cujo oponente era Charles Russell. Entre os pressentes, o jornal citava lorde Edward Somerset, o conde de Coventry e a senhora Lycett-Green.

O bacará era um jogo ilegal. Qualquer gênero de apostas topava com muitas e severas críticas. As cartas eram consideradas uma perda de tempo valioso. Sabia-se que o jogo tinha milhares de praticantes, mas entre saber e ver mediava um mundo. Corria o rumor de que a rainha estava chateada, e não era de estranhar em alguém tão severa e puritana (por dizê-lo com comedimento). Nos trinta anos que tinham corrido desde a morte do príncipe Albert, falecido de febre tifóide, a rainha parecia ter perdido qualquer afeição aos prazeres da vida, e estava resolvida a impor sua atitude a outros. Ao menos era o que tinha ouvido Charlotte, e as escassas aparições públicas da soberana não contribuíam para desmenti-lo.

O príncipe de Gales era um indivíduo esbanjador, glutão e muito indulgente consigo mesmo, homem pródiga e sistematicamente infiel a sua esposa, a sofrida princesa Alexandra (sobre tudo com lady Francês Brooke, beneficiária deste modo da íntima admiração de sir William Gordon-Cumming). Até então Charlotte se compadecera muito pouco dele, mas ter diante de si o tribunal, sir Edward Clarke e o público não seria nada em comparação a suportar as recriminações de sua mãe.

Seguiu percorrendo a página até topar com um artigo assinado por um tal Lyndon Remus, que informava sobre o cadáver aparecido no Bedford Square.

“A identidade do homem achado sem vida na soleira do domicílio do general Brandon Balantyne dois dias atrás continua sendo um mistério. O delegado Thomas Pitt, do Bow Street, informou a quem assina de que a polícia ainda ignora sua identidade. E mais: o delegado afirma saber dela o mesmo que qualquer cidadão.

Apesar da insistência do repórter, o senhor Pitt se negou a esclarecer se propõe investigar ao general Balantyne, o qual, como recordarão nossos leitores, era pai de Christina Balantyne, tristemente famosa pelos assassinatos do Devil’s Acre que escandalizaram a Londres em 1887.”

Seguia um resumo acidentado daquele caso terrível e trágico, que Charlotte conhecia de sobra e recordou com tristeza. Rememorou a expressão de Balantyne no momento de conhecer a verdade, momento em que ninguém tinha podido ajudá-lo ou consolá-lo.

Agora o espreitava outra desgraça, e reviviam as penas e amarguras do passado. Charlotte não conhecia o Lyndon Remus, mas lançou pragas contra ele e a embargou uma grande preocupação por Balantyne.

— Encontra-se bem, senhora?

A voz de Gracie penetrou em seus pensamentos como uma faca. A miúda criada pegou a prancha e afugentou maquinalmente ao Archie, o gato branco e avermelhado, que se levantou de seu ninho em cima do montão de roupa, desfez o novelo em que tinha ficado convertido e se afastou com passos preguiçosos, sabendo que Gracie não lhe faria nenhum dano.

Charlotte levantou a cabeça.

— Não - respondeu. — O cadáver que meu marido achou a outra noite apareceu na soleira da casa de um velho meu amigo, e a imprensa insinua que poderia estar envolvido. Há uns anos se produziu um crime atroz no seio de sua família. Agora a imprensa o desenterrou e o recorda a todo mundo justo quando meu amigo e sua mulher poderiam estar começando a esquecer um pouco e sentir-se outra vez pessoas normais.

— Alguns dos que escrevem nos jornais são uns cafajestes – disse Gracie com ira, brandindo a prancha como uma arma. Ela sabia perfeitamente em quem depositar sua lealdade: nos amigos. Sempre estava com os fracos, os que passavam mau, os necessitados. Às vezes, com grandes dose de raciocínio e persuasão, era possível conseguir que mudasse de postura, mas não era fácil nem freqüente. — Pensa ajudá-lo? -disse, olhando para Charlotte com sagacidade. — Não é preciso que fique. Posso me ocupar de tudo.

Charlotte não teve mais remédio que sorrir. Gracie era uma cruzada nata. Tinha chegado a casa dos Pitt sete anos antes, pequena e mirrada, com roupa que era grande e botas furadas; depois só tinha engordado um pouquinho e ainda lhe tinham que entrar e cortar os vestidos, mas se tinha convertido em uma criada irreprovável, competente em todas as tarefas do lar. Além disso, e com a ajuda de Charlotte, tinha aprendido a ler e escrever (contar sempre se tinha dado bem). O mais importante, entretanto, era ter passado de menina miserável rechaçada por todos a jovem orgulhosa de trabalhar para o melhor policial de Londres, quer dizer, do mundo inteiro. A própria Gracie não deixava de informar disso a qualquer pessoa que desse gestos de ignorá-lo.

— Obrigada - disse Charlotte, tomando uma decisão rápida. Fechou o jornal, levantou-se e o enfiou com brutalidade no buraco para colocar carvão. — Vou visitar o general, se por acaso posso ajudá-lo de algum jeito - disse da porta — embora só seja demonstrando que continuo sendo sua amiga.

— Bem dito - respondeu Gracie. — Possivelmente possamos lhe dar uma mão.  Incluiu-se com orgulho e determinação. Considerava-se partícipe do trabalho de detetive, ao qual já tinha contribuído de maneira significativa em casos anteriores. Sua esperança e sua intenção era seguir fazendo-o.

Charlotte subiu ao piso de cima, trocou-se seu simples vestido de musselina azul por outro amarelo pastel que fazia jogo com seu tom de pele e realçava o brilho acobreado de sua cabeleira. Tratava-se de um modelo muito favorecedor, de cintura estreita, ombros cavados, saia lisa e muito pouca anquinha, como ditava a moda. Era seu luxo mais recente, o único. Em geral tinha que conformar-se com roupas sofridas e que pudessem durar várias temporadas sem as trocar muito; claro que sua irmã Emily, que se tinha casado pela segunda vez depois de enviuvar de um excelente partido, provia-a generosamente de modelos desprezados ou que não gostava, mas Charlotte resistia a aceitar muitos por medo de que Thomas notasse com maior intensidade a descida no escalão que representava um matrimônio com um policial. De todos os modos era época de férias parlamentares; Emily e Jack estavam no campo e desta vez levaram a avó. Até Caroline, a mãe de Charlotte, partiu para Edimburgo, onde se representava a última obra de seu marido Joshua.

O que não admitia dúvidas era o que aquele modelo figurasse entre o mais amadurecido de seu vestuário, próprio ou emprestado.

Saiu para Keppel Street, onde brilhava o sol. Não era preciso expor o assunto do transporte, porque a distância não excedia algumas centenas de metros. Tendo em conta a proximidade que estava a nova casa do general Balantyne, não deixava de ser curioso que nunca se encontraram; claro que devia haver dezenas de vizinhos a quem não conhecia, e Bedford Square e Keppel Street pertenciam a âmbitos sociais muito diferenciados, apesar da proximidade física.

Saudou com a cabeça a duas garotas. Elas lhe devolveram a saudação com formalidade e voltaram a entrar em um bate-papo animado. Passou um cupê aberto cujos ocupantes contemplavam o mundo com olhar de superioridade, e um homem que caminhava muito depressa sem olhar aos lados.

Charlotte ignorava em que casa viviam os Balantyne. Pitt só lhe havia dito "no centro do lado norte". Apertou os dentes e chamou a campainha da que lhe pareceu mais provável. Abriu-lhe a porta uma bonita criada que a informou de seu engano e a orientou duas portas mais à frente.

Charlotte lhe agradeceu com todo o aprumo que pôde e partiu. Teria preferido não seguir, entre outras coisas porque carecia de um plano coerente que lhe ditasse o que dizer se o general estivesse em casa e a recebesse. Sua saída de casa obedecia a um impulso. Talvez o general tivesse mudado por completo desde seu último encontro. Tinham passado quatro anos, e as tragédias podiam mudar às pessoas.

Era uma idéia ridícula, quixotesca e aberta às piores interpretações. Por que continuava caminhando em lugar de dar meia volta e voltar para casa?

Porque havia dito à Gracie que ia ver um amigo em quem se colocou a desgraça, e lhe garantir sua lealdade. Não podia voltar para casa e reconhecer que lhe tinha faltado coragem, que tinha medo de fazer ridículo. Gracie a desprezaria. Desprezaria-se ela mesma.

Subiu pela escada, pegou a corrente da campainha e lhe deu um forte estirão sem conceder o tempo necessário para mudar de opinião.

Aguardou com o pulso acelerado, como se ao abrir a porta pudesse aparecer um perigo mortal. Recordou a imagem do Max, o antigo lacaio dos Balantyne; recordou a trágica violência que se desencadeara, a Christina... Quanto devia ter sofrido o general! Era sua única filha.

Seu comportamento era ridículo. Estava-se colocando descaradamente onde não a chamavam! Que razão tinha para supor que o general tivesse algum desejo de vê-la depois de tudo o que Pitt se viu obrigado a fazer a sua família, e com a ajuda dela, Charlotte? Até podia dizer-se que Balantyne tinha motivos para tratá-la com menos amabilidade que a ninguém. A ele o que importava sua amizade? Sua visita era de mau gosto... e francamente pretensiosa.

Retrocedeu um passo, mas justo quando começava a dar meia volta se abriu a porta e ouviu a voz de um lacaio:

— Bom dia, senhora. No que posso ajudá-la?

— É... bom dia. - Podia pedir que a orientassem e fingir-se em busca de uma pessoa fictícia. Não estava obrigada a reconhecer que vinha de visita. — Queria saber se...

— Senhorita Ellison! Digo... Desculpe-me, senhora. Senhora Pitt, não é?

Charlotte o olhou sem recordá-lo. Como era possível que a tivesse reconhecido?

— Sim.

— Entre, senhora Pitt. Agora mesmo me informo se estão em casa lady Augusta ou o general Balantyne.

O lacaio se afastou para deixá-la entrar, se assim o desejasse ela.

Não teve alternativa.

— Obrigada.

Charlotte notou que tremia. O que diria a lady Augusta se a achava em casa? Antes de Christina já não se davam bem. Como não seria depois! O que lhe dizer, por Deus? Como justificar sua presença?

Conduziram-na ao salão da manhã, em cuja mesa reconheceu a reprodução do canhão do Waterloo. Parecia que os anos haviam passado por alto sobre si, como um telescópio, e se tivessem esfumado. O horror dos crimes do Devil’s Acre a afetou como se ainda estivessem ocorrendo, com toda sua dor e injustiça.

Deu várias voltas pela sala, e no transcurso de uma delas chegou até a porta do corredor e a abriu. A presença de uma criada na escada lhe impedia de partir sem ser vista. Seria ainda mais ridículo que ficar.

Fechou a porta e aguardou de frente ao inevitável, como preparando-se a um ataque.

Foi o general Balantyne quem a abriu. Estava envelhecido. A tragédia tinha deixado rastros em seu rosto. Seus olhos e sua boca denotavam um conhecimento da dor ausente em seu primeiro encontro. Não obstante, mantinha as costas igualmente direitas e os ombros erguidos. Continuava olhando nos olhos, como sempre.

— Senhora Pitt! - Adotou uma expressão de surpresa, suavizada por mostras quase seguras de agrado.

Charlotte recordou o grande apreço que tinha sentido pelo general.

— General Balantyne! - Avançou sem pensar. Confesso que não sei por que vim. Só queria lhe dizer o muito que lamento que tenha tido a má sorte de que um pobre desgraçado tenha escolhido a soleira de sua casa para morrer. Confio em que se esclareça tudo o quanto antes, e que você... - Deixou a frase pela metade. O general não merecia tantos formalismos. Bastante dano tinha feito Lyndon Remus ressuscitando o caso do Devil’s Acre. O prejuízo era irremediável, fosse qual fosse o desenlace do novo assassinato. — Sinto muito - disse com sinceridade. — Suponho que só queria dizer isso. Claro que poderia ter escrito uma carta.

O general sorriu.

— Uma carta elegante e com muito tato que não teria significado grande coisa, e em que não a teria reconhecido - respondeu. — Então pensaria que tinha mudado e o lamentaria.

Ruborizou-se ligeiramente, como se então se desse conta de que se excedera em sua franqueza.

— Espero ter aprendido algumas coisas - disse ela, — embora não acerte sempre em pô-las em prática.

Tinha vontade de ficar um pouco mais, embora só fossem uns minutos. Possivelmente lhe ocorresse uma maneira de ajudar ao general. As perguntas estavam descartadas, a menos que queria cair na maior das rabugices. De todo modo já devia tê-las feito Pitt. por que se achava capaz ela de fazer algo mais?

O general rompeu o silêncio.

— Como vai? E sua família?

— Muito bem. As crianças crescem. Jemima já está muito alta...

— Ah, sim, Jemima... - Voltou a aflorar um sorriso nos lábios do Balantyne. Com certeza os dois pensavam na Jemima Waggoner, a mulher que se casou com o único filho varão do general e tinha dado nome à filha do Charlotte. — Sabe que lhe devolveram o cumprimento?

— O cumprimento?

— Sim. Ao segundo filho lhe puseram Thomas.

— Oh! - Charlotte também sorriu. — Não, não sabia. Já o direi. Certamente é uma alegria. Estão bem?

— Estupendamente. Brandy foi destinado a Madrid e quase não nos vemos.

— Deve sentir sua falta.

— Sim.

Apareceu uma profunda solidão no olhar do general, que voltou a cabeça para o jardim tranqüilo e fastuoso, cheio de rosas acariciadas pelo sol de uma manhã do verão. Já se tinha evaporado todo o orvalho.

Ouvia-se o tic-tac do relógio da lareira.

— Minha mãe tornou a casar-se - comentou Charlotte para dizer algo.

O general fez o esforço de voltar para o presente e a olhou.

— Seriamente? Pois... espero que seja feliz.

Não era uma pergunta. Teria sido uma rabugice fazer perguntas sobre temas tão íntimos. A felicidade ou sua ausência eram questões que o tato proibia comentar, sequer de passada.

Charlotte olhou ao general nos olhos e sorriu.

— Muito. Seu marido é ator.

Viu que Balantyne fez expressão de perplexidade.

— Como diz?

Excedeu-se? Possivelmente o general tivesse interpretado como uma ligeireza o que era um simples esforço por aliviar a tensão. Como já não podia voltar atrás, Charlotte optou por se aprofundar no tema.

— Casou-se com um ator bastante mais jovem que ela. - Escandalizá-lo-ia? Sentiu que lhe ardiam as faces. — É um homem muito valente... e encantador. Refiro-me à valentia moral, a de permanecer fiel aos amigos em momentos difíceis e lutar pelo que se considera justo.

A expressão do general se suavizou, ao igual às rugas de sua boca.

— Me alegro. - Por um instante, quase muito breve para estar segura, Charlotte acreditou ver em seus olhos um profundo pesar. Depois o general respirou. — Me parece perceber que lhe tem simpatia.

— Muito, e mamãe é muito feliz, embora esteja bastante mudada. Agora se move em um círculo com o que anos atrás não teria imaginado alternar; quanto a suas amigas de antes, temo que tenham interrompido suas visitas. Até fingem não vê-la ao cruzar-se com ela pela rua.

Balantyne não ocultou de todo seu regozijo.

— Imagino.

Abriu-se a porta e apareceu lady Augusta Balantyne. Apresentava um aspecto magnífico; sua escura e longa cabeleira, presa em cima da cabeça, ganhava em espectacularidade pela presença de algumas mechas brancas. Estava vestida à última, de lilás e cinza, com um colar e uns brincos de ametistas preciosos. Olhou para Charlotte com frio desagrado.

— Bom dia, senhora Pitt. Devo chamá-la assim?

Era uma maneira sarcástica de recordar que Charlotte tinha entrado pela primeira vez em casa dos Balantyne com a desculpa de ajudar ao general na redação de suas memórias, e tinha empregado seu sobrenome de solteira com o objetivo de ocultar sua relação com Pitt e a polícia.

Charlotte voltou a sentir que lhe esquentavam as faces.

— Bom dia, lady Augusta. Como vai?

— Perfeitamente, obrigado - replicou Augusta, entrando um pouco mais na sala.       — Me equivoco ou vem a informar-se de nossa saúde por algo mais que simples cortesia? A situação era difícil, mas devo assumir com ela. Dificilmente pioraria.

Charlotte sorriu com viveza.

— Não, ao contrario. - Todos saberiam que era mentira, mas ninguém ousaria dizê-lo. — Até ontem não me tinha dado conta de que fôssemos vizinhos.

— Ah... os jornais - disse Augusta com desdém.

As damas da alta sociedade não liam os jornais, à exceção das páginas de sociedade e anúncios. Possivelmente Charlotte fosse de bom berço, mas o fato de haver-se casado com um policial eliminava qualquer pretensão de refinamento.

Charlotte arqueou as sobrancelhas.

— Seu endereço estava nos jornais? - disse com inocência.

— É claro! - respondeu Augusta. — Sabe perfeitamente que mataram a um desgraçado diante de nossa porta. Não seja falsa, senhora Pitt. Lhe fica muito mal.

Balantyne avermelhou até as orelhas. Sentia a mesma aversão pelos enfrentamentos emocionais que a maioria dos homens, sobre tudo quando os opositores eram mulheres, mas nunca tinha desertado de seu dever.

— Augusta! A senhora Pitt veio nos comunicar o muito que sente nossa má sorte neste último caso - disse com tom de reprovação. — Imagino que se inteirou pelo delegado Pitt, não pela imprensa.

— Isso imagina? - contra-atacou Augusta com a mesma frieza. — Pois é muito ingênuo, Brandon. Enfim, pior para você. Saio para visitar lady Evesham. - Voltou-se para Charlotte. — Que você tenha bom dia, senhora Pitt, porque com certeza quando voltar já não a acharei.

Deu meia volta, fazendo virar a saia, e deixou aberta a porta.

Balantyne a fechou de uma vez, para surpresa do lacaio que esperava no vestíbulo com a capa de Augusta.

— Desculpe - disse, profundamente envergonhado. Não deu explicações nem tentou justificar o comportamento de sua esposa. Quão único teria conseguido negando a verdade teria sido apagar qualquer rastro de sinceridade entre os dois — Foi...

— Merecido, provavelmente - concluiu Charlotte em seu lugar, aflita. — Esta visita é uma péssima idéia, e ignorava por completo o que dizer salvo que lamento o ocorrido e espero que me considere amiga sua, aconteça o que acontecer.

Sua franqueza teve dois efeitos: desconcertar ao general e lhe procurar uma grande satisfação.

— Obrigado... Conte com isso.

Parecia a ponto de dizer algo mais, mas optou por calar. Continuava estando muito afetado. Sua raiva ou vergonha pela atitude de Augusta, ou pelo incômodo que se sentia quando lhe falavam sem rodeios, deixava transparecer uma emoção mais poderosa.

— Na realidade li o jornal - reconheceu ela.

— Supunha-o - disse ele com uma ameaça de sorriso.

— Que vergonha de artigo! São uns irresponsáveis. Vim por isso: por indignação. E para que saiba que me tem de seu lado.

O general afastou o olhar.

— Fala do que não sabe, senhora Pitt. Não pode prever o que ocorrerá.

Não era uma afirmação gratuita. A rigidez do corpo do general, a angústia de sua expressão e sua maneira de não olhá-la convenceram ao Charlotte de que tinha medo de algo concreto, e de que todos seus pensamentos estavam escurecidos pela angústia que lhe produzia esse algo.

Teve medo por ele, e sua reação foi protegê-lo de maneira instantânea e irrefletida.

— É claro que não! - concordou. — Que classe de amigo condiciona seu apoio ao conhecimento do que ocorrerá, e à segurança de que não haverá surpresas desagradáveis, inconvenientes, maus goles nem custos?

— Uma classe muito abundante - disse com calma o general, — mas não a mais seleta. A lealdade, entretanto, deve ser mútua. Nenhuma pessoa de bem permitiria que seus amigos se metessem em situações perigosas ou desagradáveis sem sabê-lo. Tampouco lhes pediria um compromisso, tácito ou explícito, cujo preço soubesse e eles ignorassem. - De repente se deu conta de que tinha exagerado o oferecimento de Charlotte, e se envergonhou. — Quero dizer que...

Ela caminhou para a porta, mas antes de sair se voltou para o general e o olhou nos olhos.

— Não é necessário que se explique. Passou certo tempo desde que nos vimos pela última vez, mas nem tanto. Entendemo-nos perfeitamente. Conte com minha amizade no que for preciso. Bom dia.

— Bom dia... senhora Pitt.

Charlotte voltou para casa, tão depressa que se cruzou com dois conhecidos e nem sequer os viu. Entrou na cozinha sem ter o trabalho de tirar o chapéu.

Já estava tudo engomado, e Archie dormia na cesta vazia.

Gracie, que cortava batatas, levantou o olhar e ficou com a faca na mão e a inquietação no rosto.

— Ponha água a esquentar - lhe pediu Charlotte, sentando-se na cadeira que tinha mais perto.

Teria feito isso ela, mas por limpos que estivessem o fogão era preferível não acendê-lo com um vestido amarelo.

Gracie obedeceu na hora. Depois tirou o bule e as taças, foi procurar leite na despensa, pôs na mesa a jarrinha azul e branca e retirou sua coberta de musselina, que tinha pendurados vários pesos de cristal para que não saísse voando.

— Como estava o general? - perguntou, baixando o pote de bolachas do aparador.

A operação seguia lhe exigindo ficar nas pontas dos pés e estirar os braços, mas se negava a guardar o pote em uma prateleira inferior porque teria significado reconhecer sua derrota.

— Muito angustiado - respondeu Charlotte.

— Conhecia o morto? - perguntou Gracie, deixando as bolachas na mesa da cozinha.   

— Não o perguntei. - Charlotte suspirou. — Mas me dá medo que a resposta seja afirmativa. Estava muito preocupado por algo.

— E suponho que não disse o que.

— Não.

O vapor saiu assobiando pela torneira. Gracie levantou o recipiente com uma manopla e enxaguou o bule com um pouco de água quente, que puxou depois à pia. A seguir pôs três colheradas de folhas de chá, levou o bule no fogão e verteu o resto da água. Deixou cheio o recipiente para esquentar água, como tinha por costume. Até em junho era imprescindível ter a mão água quente.

— Faremos algo? - perguntou, levando o bule à mesa e sentando-se diante de Charlotte.

Que esperassem as batatas. Aquilo era importante.

— Não me ocorre nada.

Charlotte a olhou e tirou o chapéu distraidamente. Gracie fez uma careta.

— Tem medo de que o general seja culpado de algo?

— Não!

Mordeu o lábio.

— Com certeza?

Charlotte vacilou. Do que tinha medo Balantyne? Porque o tinha, isso com certeza. Possivelmente de sofrer mais, de que seus assuntos pessoais e familiares voltassem a ficar expostos à luz pública? Todas as famílias têm problemas, motivos de vergonha, brigas ou equívocos que preferem ocultar à cidadania em geral, assim como ao círculo em que se movem. É tão natural como não querer despir-se em plena rua.

— Não de todo - disse, deixando o chapéu em cima da mesa. — Considero que é um homem de honra, mas ninguém está a salvo de tomar uma decisão equivocada. Quando se trata de proteger pessoas queridas, ou das que nos sentimos responsáveis, sempre corremos o perigo de atuar com desacerto ou precipitação.

Gracie encheu as xícaras.

— E o general de quem é responsável?

— Não sei. De sua mulher, possivelmente de algum criado, de um amigo...

Gracie dedicou vários minutos à reflexão.

— Como é sua mulher? - acabou perguntando.

Charlotte bebeu um gole de chá e procurou ser justa.

— Muito bonita e muito fria.

— E não será que o morto era seu amante?

— Não.

Charlotte não imaginava Augusta tão boa atriz para ter um amante, e menos a ainda alguém que aparecesse morto diante de uma porta.

Gracie a observava com agitação.

— Nota-se que não lhe é muito simpática.

Charlotte suspirou.

— Não, não muito, mas estranharia que tivesse atacado alguém sem um motivo muito sólido, e não me ocorre nenhum para matar a outra pessoa sem avisar à polícia e justificar o crime. Imagine que o tivesse surpreendido roubando, e que ele a tivesse agredido.

— E se o descobriu o general? - perguntou Gracie, agarrando uma bolacha.

— O mesmo. Por que não ia chamar à polícia?

— Não sei. - Gracie também bebeu um gole de chá. — Certamente estava preocupado pelo cadáver e não por outra coisa?

— Parece-me que sim.

— Pois será questão de ir inteirando-se do que averigue o senhor - disse Gracie com seriedade.

— Sim - assentiu Charlotte, que teria preferido antecipar-se em algo ao Pitt.

Gracie a observava em espera de que tomasse a iniciativa com algum plano prático e inteligente.

Charlotte só tinha duas coisas na cabeça: a sensação de medo que lhe tinha irradiado o general Balantyne quando olhava pela janela e a segurança de que o sargento Tellman se sentia atraído por Gracie, embora fosse o primeiro a lamentá-lo porque discrepavam em quase tudo. Gracie considerava uma grande sorte trabalhar em casa dos Pitt, ter teto, cama quente cada noite e boa comida diariamente, coisas que nem sempre tinha tido nem esperado ter. Também achava estar desempenhando um trabalho muito importante e útil, do qual logicamente se sentia orgulhosa.

Tellman guardava profundos sentimentos a respeito da maldade social intrínseca ao fato de que uma pessoa fosse criada de outra. Aquela discrepância de base originava outras muitas sobre todos os temas de justiça social e valorização das pessoas. Gracie, além disso, era de natureza alegre e extrovertida, enquanto que ele era sério e pessimista. Nenhum dos dois se dera conta de que compartilhavam um sentido apaixonado da justiça, um forte rechaço para a hipocrisia e a vontade de trabalhar e arriscar sua integridade na luta por suas crenças.

— Puseram à frente ao sargento Tellman - disse Charlotte.

— Pois não acredito que sirva muito - respondeu Gracie, enrugando um pouco o nariz. — Não digo que a sua maneira não seja preparado... - Custou-lhe um pouco reconhecê-lo. — Mas com certeza que a um general não faz nenhum favor.

— Sim, sei - admitiu Charlotte, pensando na opinião que merecia para Tellman qualquer privilégio hereditário. Supô-lo informado de que na época em que o general tinha prestado seus serviços os postos se compravam com dinheiro. — Mas ao menos é alguém conhecido.

Gracie estava perplexa.

— Diz isso para falar com ele?

— Sim. - Na mente do Charlotte começava a forjar um plano, embora de momento não fosse grande coisa. — Poderíamos convencê-lo de que nos desse toda a informação.

Gracie se animou.

— Você acha? Pensa pedir-lhe?

— Mais que em mim pensava em ti.

— Eu? Mas se não me diria nem um pio! Despachar-me-ia à primeira dizendo que o que me importa. Isso não! Já imagino a cara que poria se começasse a lhe fazer perguntas sobre seu trabalho. Não lhe digo aonde me enviaria!

Charlotte respirou fundo e foi ao ponto.

— Minha idéia é que em vez de dar parte ao senhor Pitt no Bow Street deva fazer isso em casa, e que coincida com que o senhor Pitt tenha saído.

— E como arrumamos isso?

Gracie não saía de seu assombro.

Charlotte se lembrou de como olhava Tellman ao Gracie a última vez que os havia visto juntos.

— É factível, mas teria que ser muito amável com ele.

Gracie abriu a boca para protestar, e lhe subiram as cores.

— Suponho que se for tão importante se poderia arrumar...

Charlotte a obsequiou com um sorriso radiante.

— Obrigado. Agradecer-lhe-ei isso muito. Dou-me conta de que terá que planejá-lo muito a fundo. Também é possível que umas vezes funcione e outras não. Possivelmente seja preciso mais de um subterfúgio.

Gracie franziu o sobrecenho.

— Mais de um quê?

— Dizer alguma verdade pela metade.

— Ah, já... Sim, claro, já o entendo.

Gracie também sorriu, enquanto bebia um gole de chá e pegava a segunda bolacha. Archie, que seguia na cesta da roupa suja, despertou, se esticou e começou a ronronar.

Enfrentado à tarefa de identificar o cadáver aparecido na soleira da casa do general Balantyne, o sargento Tellman tinha começado pelo lugar mais lógico: o necrotério. Examiná-los formava parte de seu dever, mas lhe desagradava profundamente. Para começar estavam nus, coisa que, embora necessária, obrigava-o a atentar contra a intimidade de um congênere. Em segundo lugar o aroma de carne morta, formol e ácido fénico lhe revolvia o estômago, e fazia frio em todas as épocas do ano. Acabava suando e tiritando ao mesmo tempo. Era, entretanto, um homem consciencioso, e quanto mais lhe desagradava um trabalho mais afinco punha nele.

Por desgraça, nem o exame mais diligente lhe permitiu descobrir algo mais que o observado no Bedford Square à luz da lanterna. O morto era fraco, de musculatura robusta, pele branca nas partes cobertas pela roupa e curtida nas demais, como se passasse muito tempo à intempérie. Não tinha mãos de trabalhador. Observavam-lhe vários arranhões, sobre tudo nos dedos, sinal de que possivelmente tivesse vendido caro sua pele. Tinham-lhe dado um impacto fortíssimo na cabeça, matando o de um só golpe.

Tellman calculou que passava os cinqüenta. Tinha meia dúzia de cicatrizes antigas de tamanhos diversos, nenhuma das quais parecia dever-se a uma ferida grave a não ser os lógicos percalços de quem tem um trabalho perigoso ou vive basicamente na rua. Só havia uma exceção: uma cicatriz longa e fina nas costelas do lado esquerdo, como podia deixá-la um golpe de machadinha.

Devolveu o lençol a seu lugar, não sem alívio, e passou à roupa. Estava puída, bastante suja e descuidada. As solas das botas necessitavam um acerto. Tudo correspondia com exatidão ao que cabia esperar de um homem pobre que tivesse passado o dia na rua, e provavelmente a noite anterior. Não tirou nada em claro.

O conteúdo dos bolsos foi mais revelador; claro que o mais interessante era a caixa de rapé, e Pitt tinha ficado com ela . Tellman não conseguia elucidar seu significado; havia uma dúzia de possibilidades, todas as quais apontavam de maneira mais ou menos direta ao general Balantyne. Não obstante, Pitt havia dito que o investigaria pessoalmente. Um ano antes Tellman o teria interpretado como uma simples desculpa para proteger à classe alta do justo castigo a suas más ações. Agora sabia que não era assim, mas continuava ficando ressentido.

Além da caixa, o único artigo que parecia relevante para a busca da identidade do morto, ou a de seu assassino, era o recibo pelos três pares de meias. Para falar a verdade, Tellman não conseguia entender que um homem tão castigado pela vida comprasse meias em uma loja que imprimia seu nome nas faturas. O lógico teria sido que os adquirisse a um mascate ou no mercado. Aí estava o recibo, entretanto, e pensava lhe seguir a pista.

Foi um grande alívio sair à luz do sol e respirar o ar relativamente puro da rua, com seu aroma de fumaça, esterco de cavalo e esgoto seca, seu ruído de cascos na pavimentação, os gritos dos vendedores ambulantes, o estalo continuado das rodas e o eco longínquo de um realejo, acompanhado pelos assobios de um mensageiro que desafinava.

Subiu a um ônibus de cavalos, embora teve que correr um pouco porque já se afastava da calçada. Ao saltar a bordo atraiu sobre si as repreensões enérgicas de uma mulher gorda com vestido de bombasina.

— Ouça, jovem, que assim se matará!

— Espero que não, mas obrigado pela advertência - respondeu ele educadamente, para surpresa de ambos.

Pagou a passagem ao condutor. A infrutífera busca de assento o obrigou a permanecer de pé, seguro à barra central do corredor.

Desceu no High Holbom e percorreu os dois quarteirões que o afastavam da Rede Lion Square, onde achou com facilidade a loja de roupas masculinas. Entrou com o recibo na mão.

— Bom dia, senhor - disse com tom serviçal o jovem dependente que atendia atrás do balcão. — Deseja que lhe mostre algum artigo? Temos camisas de cavalheiro de muito boa qualidade e a preços muito razoáveis.

— Meias - disse Tellman, pensando se podia permitir-se a aquisição de uma camisa (as da vitrine pareciam muito limpas e bem engomadas).

— Sim, senhor. De que cor? Temo-las todas.

Tellman recordou as meias que levava o morto.

— Cinzas - respondeu.

— Muito bem. Que número necessita?

— A nove.

Se o morto podia comprar meias, ele também.

O jovem se agachou para abrir uma gaveta que havia atrás do mostrador e tirou três pares diferentes de meias cinza de número nove.

Tellman escolheu um, jogou uma olhada ao preço e tirou o dinheiro, deixando o suficiente para o bilhete de volta ao Bow Street (não, por desgraça, para a comida).

— Obrigado, senhor. Deseja algo mais?

— Não. - Tellman mostrou a fatura. — Sou policial. Pode me dizer quem comprou estas meias cinza há cinco dias?

O vendedor pegou o papel.

— Pois... Vendemos muitas, senhor, e nesta época do ano o cinza tem muito êxito, porque é mais claro que o negro e fica melhor que o marrom. O mal do marrom é que sempre parece um pouco campestre. Não acha?

— Sim, sim. Faça um esforço de memória, por favor. É muito importante.

— Cometeu algum delito? O que pode lhe dizer é que estão pagas.

— Já vejo. Não sei o que fez, mas está morto.

O jovem empalideceu. Talvez tivesse sido um engano tático dizer-lhe.

— Meias três-quartos cinzas - repetiu Tellman, muito sério.

— Sim, senhor. Sabe que aspecto tinha?

— Mais ou menos da minha altura - disse o sargento, pensando com um calafrio no muito que se parecia com o morto. — Magro, forte, de cabelo claro e um pouco calvo. - Ao menos nisso não coincidiam. Ele tinha o cabelo escuro, liso e ainda robusto. — Calculo que rondaria os cinqüenta e cinco anos. Vivia ou trabalhava na intempérie, mas não com as mãos.

— Poderiam ser dois ou três clientes habituais - disse o jovem, pensativo. — George Maçom, Wilde String... ou alguém que só veio uma vez. Não os conheço todos de nome. Não pode me dar mais dados?

Tellman se concentrou. Talvez fosse sua única oportunidade de identificá-lo.

— Tinha no peito uma cicatriz muito longa, de faca ou baioneta. - Destacou-se em sim na zona correspondente, até cair na conta de que não tinha muito sentido explicar ao vendedor. — Possivelmente fora soldado - acrescentou, mais que nada para defender o dito.

A expressão do vendedor se animou.

— Vem-me à memória um cavalheiro, e agora que o penso comprou vários pares. Conversamos um pouco sobre o ofício de soldado e quão importante é ter sãos os pés. Lembro-me de que disse: "Um soldado com dor de pés não serve de nada." Por isso ele, que passava uma má fase, dedicava-se a vender cordões. O que não posso lhe dizer é como se chama e onde vive. Tampouco recordo havê-lo visto antes, e no dia que veio tampouco o vi muito bem porque levava o cachecol até o nariz. Estaria resfriado. Magro sei que era, e aproximadamente de sua mesma estatura. Moreno ou loiro já não sei.

— Onde vendia os cordões? - perguntou Tellman. — Disse?

— Sim, na esquina do Lincoln’s Inn e Great Queen Street.

— Obrigado.

Demorou o resto do dia em achar ao George Maçom e Wilde String, as duas pessoas cujos nomes lhe tinha facilitado o vendedor e que estavam vivinhas e abanando o rabo.

A seguir fez indagações sobre os vendedores ambulantes do Lincoln’s Inn Fields e averiguou que na esquina noroeste, perto do Great Queen Street, costumava trabalhar um antigo soldado de nome Albert Colé. Ninguém, entretanto, recordava havê-lo visto nos últimos cinco ou seis dias. Vários advogados da zona tinham por costume comprar os cordões e o descreveram com bastante exatidão. Um deles se ofereceu para passar no dia seguinte pelo necrotério para identificar ao morto.

— Sim - disse com tristeza o advogado, — temo que se parece muito com Colé.

— Pode afirmar que seja ele? - perguntou Tellman. — Se tiver que ser duvidoso não responda.

— Compreenderá que nestas circunstâncias não esteja precisamente à vontade! - replicou o advogado. — Mas sim, estou bastante seguro. Pobre diabo! - Tirou quatro guinéus do bolso e os deixou sobre a mesa. — Pague-lhe um enterro decente. Tinha sido soldado. Serviu a sua rainha e seu país. Não merece acabar na fossa comum.

— Obrigado - disse Tellman, surpreso.

Não esperava aquele rasgo de generosidade com um desconhecido, um simples mascate, e muito menos procedendo de um homem por cuja classe sentia um desprezo inato.

O advogado o olhou com frieza e se dispôs a partir.

— Sabe algo mais dele? - disse Tellman, seguindo-o até a rua. — É muito importante.

O advogado reduziu o passo a contra gosto. Tinha muito arraigada sua formação jurídica.

— Era soldado, acredito que reformado por causas de saúde. Desconheço a que regimento pertencia. Nunca o perguntei.

— É provável que consiga averiguá-lo - disse Tellman, adaptando-se a seu passo.   — Algo mais? Não sabe onde vivia ou se tinha algum domicílio além do Lincoln’s Inn Fields?

— Duvido. Costumava lá estar sempre, chovesse ou nevasse.

— Ouviu-lhe comentar de onde obtinha os cordões?

O advogado fez cara de surpresa.

— Não! Só lhe comprava algum par solto, sargento. Não ficava conversando. Lamento sua morte, mas não posso ajudá-lo em nada mais. - Tirou o relógio de ouro do bolso e o abriu. — Já lhe dediquei todo o tempo de que dispunha; mais, de fato. Devo retornar a meu escritório. Desejo-lhe êxito na busca do assassino. Que tenha um bom dia.

Tellman o viu confundir-se com a multidão. Ao menos tinha averiguado a identidade do morto, e além disso da boca de uma testemunha inexorável, alguém cuja palavra teria um peso indubitável diante de um tribunal.

Agora bem, que fazia Albert Colé, ex-soldado e vendedor de cordões, no Bedford Square, e além disso em plena noite? A distância era pequena, pouco mais de um quilômetro, mas os vendedores ambulantes não tinham por costume transladar-se, nem sequer um par de quarteirões. Fazê-lo significava meter-se em terreno alheio, ofensa moral pela qual podiam lhes pedir contas. Em geral não eram pessoas violentas. As poucas exceções podiam provocar brigas sérias, mas não assassinatos (a menos que fossem acidentais).

De acordo, mas ninguém vendia cordões à meia-noite.

A conclusão era óbvia: a presença de Colé diante da porta do general Balantyne tinha outro motivo. Não a afeição a uma criada, porque então teria ido à porta de serviço. Por nada do mundo teria subido à entrada principal, expondo-se a ser visto pelo policial de ronda ou qualquer viandante; e uma criada que dera entrevista com ele jamais o teria deixado entrar pela porta grande.

Seguindo com o raciocínio, e admitindo a hipótese de um roubo, que razão havia para atrasar-se na porta principal mais do estritamente necessário? Qualquer aspirante a ladrão rondaria pelos becos, os pátios traseiros e as entradas de serviço, onde se distribuíram o carvão e os produtos de cozinha e se recolhia o lixo.

Então, que fazia na porta principal e com a caixa de rapé do Balantyne no bolso?  Tellman caminhou pela calçada com a cabeça encurvada, absorto em seus pensamentos. Não achava nenhuma resposta satisfatória, mas tinha a certeza de que a casa dos Balantyne tinha algo que ver. Não era casualidade. Havia uma explicação.

Sentiu a necessidade de saber algo mais sobre o general Brandon Balantyne. Também de sua mulher, lady Augusta.

Na realidade não suspeitava dela, e menos ainda como única culpada. Tampouco sabia muito bem como investigá-la. Tellman não era covarde nem sentia respeito inato pela posição social ou riqueza, mas a idéia de falar com Augusta o intimidava.

Sobre o general era outro cantar. Tellman compreendia muito melhor aos homens, e lhe seria relativamente fácil consultar o histórico militar do Brandon Balantyne, que em grande medida devia ser de domínio público no exército. Tampouco havia nada que lhe impedisse de procurar e consultar a folha de serviços do Albert Colé.

— Albert Colé? - repetiu o empregado do registro militar. — Segundo nome de batismo, sargento?

— Nem idéia.

— Lugar de nascimento?

— Tampouco.

— Pois sim que sabe pouco!

Era um homem de meia idade que se aborrecia com seu trabalho e se dava mais importância do que tinha (exagerando, naquele caso, sua complicação e desconforto). Tellman estava custando não perder as estribeiras, mas necessitava da informação.

— Só que foi assassinado - respondeu.

— Vamos ver o que pode fazer-se.

O empregado esticou os músculos faciais e saiu para consultar os arquivos, deixando ao Tellman sentado em um banco de madeira do escritório exterior.

Demorou quase uma hora em retornar, mas o fez com a informação.

— Albert Milton Colé - disse, dando-se muitos ares. — Tem que ser este. Nascido na Battersea em 26 de maio de 1838. Serviu no 33.° regimento de infantaria. - Olhou ao Tellman. — É o do duque do Wellington! Em 1875 recebeu uma ferida de bala na perna esquerda. Muito acima. Partiu-lhe o osso. Mandaram-no a casa com uma pensão. Depois não consta nada. Nem bom nem mau. Parece que não chegou a casar-se. Serve-lhe?

— Ainda não. O que pode me dizer do general Brandon Balantyne?

As sobrancelhas do empregado se arquearam.

— Agora tocam generais? Isso é farinha de outro saco. Tem autoridade para isso?

— Sim. Investigo o assassinato de um soldado que apareceu com o crânio quebrado... na soleira da casa do general Balantyne!

Depois de algumas hesitações, o empregado decidiu que ele também sentia curiosidade. Não tinha especial afeto pelos generais. Posto que não havia mais remédio que fazê-lo, e lhe parecia muito provável que assim fosse, daria uma imagem menos insignificante se o fizesse de maneira voluntária.

Voltou a partir e reapareceu quinze minutos depois com várias folhas de papel que estendeu a Tellman.

Este as pegou e as leu.

Brandon Peverell Balantyne, nascido em 21 de março de 1830, era o filho mais velho do Brandon Ellwood Balantyne, do Bishop Auckland, condado do Durham. Tinha estudado no Addiscombe e se graduou aos dezesseis anos. Ao completar os dezoito seu pai lhe tinha comprado um grau de oficial. Justo depois de chegar a Índia como tenente do corpo de engenheiros de Rojão de Luzes, tinha participado da segunda guerra dos sijs. Presente no lugar de Multam, distinguiu-se na batalha do Gujrat, da qual tinha saído ferido. Em 1852 se pôs à frente de uma coluna na primeira expedição contra os hazaras, na fronteira noroeste, e um ano depois participava de outra contra os afridis do Peshawar.

Durante o grande motim de 1857 tinha estado com o Outram e Havelock na primeira liberação do Lucknow e em sua captura final. Tinha permanecido na região em 1858 e 1859, realizando um brilhante trabalho contra os bandos rebeldes do Oudh e Gwalior. Depois lhe tinham entregue o comando de uma divisão na guerra a China de 1860, missão pela qual tinha sido condecorado.

Em 1867, quando o general Robert Napier tinha recebido a ordem de dirigir a expedição a Abissinia, Balantyne estava no exército de Bombay e o tinha acompanhado.

Depois tinha sido promovido ao comando e tinha passado uns anos na África: em 1873 e 1874 se distinguiu em Ashanti, e em 1878 e 1879 nas guerras zulús. A seguir o retiro, e a definitiva volta a Inglaterra.

Era uma carreira cheia de honras, mas também de privilégios imerecidos que tinha começado por pagar seu pai.

Tellman considerava este último altamente ofensivo, uma injustiça inerente ao sistema social que desprezava. De maneira mais superficial, sua ira nascia da falta de coincidências entre as carreiras do Balantyne e Albert Colé.

Agradeceu sua ajuda ao empregado e partiu.

Na manhã seguinte Tellman empreendeu a tarefa de investigar a fundo ao Balantyne. Para isso montou guarda diante da casa do Bedford Square, alternando os momentos em que aguardava impacientemente debaixo das árvores com breves passeios nas redondezas, (mas sem perder de vista a entrada principal). Tinha poucas esperanças de que falasse algum criado, porque sabia que naquelas mansões a criadagem era leal e nenhum empregado valia o dano de que corressem intrigas sobre os donos da casa. Ninguém podia permitir-se ser despedido sem referências. Significava a ruína.

O general Balantyne saiu pela porta principal pouco depois das dez e meia e caminhou muito erguido pela calçada do Bayley Street. Dobrou à esquerda pelo Tottenham Court Road em direção a Oxford Street, onde torceu à direita. Levava um conjunto elegante de calças escuras e jaqueta de corte impecável. Tellman tinha opiniões muito definidas sobre as pessoas que necessitavam de um criado para vestir-se de maneira satisfatória.

O general não falou com ninguém. De fato caminhava com a vista à frente. O verbo adequado teria sido "partir". Parecia tenso, como se estivesse a ponto de entrar em combate. Enquanto Tellman o seguia, pensou que era um homem frio, rígido... e sem dúvida orgulhoso como Lúcifer.

O que pensava das pessoas que deixava atrás? Que eram o equivalente civil dos soldados de infantaria, seres a quem não era preciso deixar passar nem ter em conta? Certamente, o general parecia alheio a sua presença; não saudava ninguém, e ninguém o saudava. Até se cruzou com dois ou três soldados de uniforme, mas os ignorou, assim como eles a ele.

Ao chegar ao Argyll Street torceu bruscamente à direita, despistando ao Tellman, que se deu conta bem a tempo de que subia pela escada de um elegante edifício e entrava pela porta.

O sargento o seguiu e leu em uma placa de latão: CLUBE PARA CAVALHEIROS JESSOP. Titubeou. Com certeza no vestíbulo havia algum mordomo que conhecia todos os membros. Isso o convertia em fonte inexorável de informação, em quem por desgraça se repetiria a dependência entre sustento e discrição.

Era necessária uma boa dose de criatividade. Não servia de nada ficar parado na rua. Tomariam-no por um mascate! Arrumou a lapela, ergueu os ombros e fez soar a campainha.

Acudiu um homem de meia idade com libré elegante mas um pouco desbotada.

— Que deseja?

Dirigiu ao Tellman um olhar neutro que avaliou imediatamente sua posição social.

Tellman sentiu que se ruborizava. Teve vontade de explicar a aquele homem sua opinião a respeito dos cavalheiros que passavam o dia com os pés no alto ou jogando cartas ou bilhar: parasitas que se alimentavam das pessoas de bem, isso eram todos. Tampouco se teria guardado seu desprezo pelos que ganhavam o pão executando os caprichos daquelas sanguessugas.

— Bom dia - disse com frieza. — Sou o sargento Tellman, da delegacia de polícia do Bow Street.

Mostrou seu cartão para demonstrá-lo. O mordomo o olhou sem tocá-lo, como se estivesse sujo.

— Com efeito - disse inexpressivamente.

Tellman apertou os dentes.

— Procuramos um homem que adota a identidade de um oficial retirado e condecorado para extorquir somas consideráveis de dinheiro.

A desaprovação escureceu o rosto do mordomo. Tellman tinha conseguido captar sua atenção.

— Espero que o detenham!

— Faz-se o que pode se respondeu com ardor. — Se trata de um homem alto, largo de ombros, muito erguido e de porte militar. Viu bem.

O mordomo franziu o sobrecenho.

— Me ocorrem várias pessoas que respondem à descrição. Poderia me dar algum dado mais? Como suporá conheço todos nossos membros, mas alguns cavalheiros trazem convidados.

— Pelo que sabemos não usa barba nem bigode - prosseguiu Tellman. — Claro que poderia tê-los deixado. Tem o cabelo loiro, um pouco espaçado e com entradas nas têmporas. Traços aquilinos, olhos azuis...

—Não, não o vi.

— Acabo de seguir a um homem até aqui.

O rosto do mordomo perdeu sua gravidade.

— Ah! Era o general Balantyne. Conheço-o faz anos.

Sua expressão sugeria algo próximo à diversão.

— Tem certeza? - insistiu Tellman. — O canalha a quem procuramos recorre livremente em nomes alheios. O general... Balantyne? Sim. O general Balantyne lhe pareceu o mesmo de sempre?

— Pois... não saberia dizer-lhe.

O mordomo vacilou, e Tellman teve uma inspiração.

— Verá - disse com tom confidencial, aproximando-se um pouco, — suspeito que o muito descarado utiliza o nome do general Balantyne... para comprar fiado e até tomar dinheiro em empréstimo...

O mordomo ficou branco.

— Devo avisar ao general!

— Não! Não o faça. Seria má idéia, ao menos de momento. - Tellman engoliu a saliva. — Se zangaria muito; possivelmente sem dar-se conta pusesse sobre aviso ao falso general, e devemos apanhá-lo antes que repita o mesmo procedimento com outra pessoa. Peço-lhe um favor: me fale um pouco do autêntico general e saberei que outros lugares que freqüenta não sofrem os enganos do impostor.

O mordomo assentiu com a cabeça.

— Compreendo. Pois acredito que pertence a algum outro clube; também ao White’s, embora duvide que vá com freqüência.

Acrescentou o último com orgulho, endireitando um pouco os ombros.

— Não é muito sociável? - aventurou Tellman.

— Pois... sempre é muito correto, mas sem excessivas confianças. Não sei se me entende.  

— Perfeitamente. - Tellman recordou o rígido andar do general e seus passos por Oxford Street sem falar com ninguém. — Sabe se é aficcionado ao jogo?

— Parece-me que não. Tampouco bebe muito.

— Vai ao teatro ou as variedades?

— Duvido-o. - O mordomo negou com a cabeça. — Nunca lhe ouvi referir-se a nenhum espetáculo, mas acredito que assiste à ópera com certa freqüência, e a concertos sinfônicos.

Tellman grunhiu.

— E a museus, sem dúvida - disse sarcasticamente.

— Isso acredito.

— São passatempos bastante solitários. Não tem amigos?

— Sempre foi um homem muito agradável - disse, pensativo, o mordomo. — Nunca ouvi nada mau dele, mas não freqüenta as conversas nem... nem é dos que falam pelo gosto de falar. Já me entende. É que não joga.

— Tampouco lhe interessa o esporte?

— Que eu saiba não.

Disse-o com surpresa, como se nunca lhe tivesse ocorrido.

— Prudente em seus gastos? - concluiu Tellman.

— Esbanjador não é - reconheceu o mordomo, — mas tampouco miserável. Lê muito, e uma vez ouvi-o dizer que gostava de desenhar. Viajou muito, por certo: Índia, África e me parece que até a China.

— Mas sempre por questões militares.

— A vida de soldado - disse o mordomo com tom quase sentencioso e muito respeito.

Tellman se perguntou se sentiria o mesmo pelos de infantaria, que eram os que levavam o peso das batalhas.

Seguiu falando vários minutos com o mordomo, mas já formara uma imagem bastante clara: um homem frio e pouco espontâneo que devia sua carreira ao dinheiro familiar, fazia poucos amigos, aprendido pouco da camaradagem e nada das artes do prazer, salvo as que considerava socialmente admiráveis (como a ópera, que pelo que tinha ouvido Tellman sempre era estrangeira).

Não se observava nenhuma relação com o Albert Colé, e entretanto ela havia. Tinha que havê-la. Do contrário como tinha conseguido Colé a caixa de rapé? E por que era a única coisa que faltava?

O general Brandon Balantyne era um homem inflexível e solitário, como suas afeições. Tinha sido um privilegiado durante toda sua vida, sem trabalhar por nenhuma das vantagens que possuía: dinheiro, posto militar, posição social, sua formosa mansão do Bedford Square, sua aristocrática esposa... Entretanto também era um homem atormentado. Tellman era bastante bom psicólogo para sabê-lo, e se propunha averiguar a causa de sua tortura, sobre tudo se havia custado a vida ao pobre, vulgar, mal alimentado e mau vestido Albert Colé. As pessoas honradas denunciavam os ladrões, não os matava.

O que teria visto o desgraçado do Albert Colé naquela casa do Bedford Square para que o matassem?

 

O caso do cadáver encontrado no Bedford Square preocupava ao Pitt, mas nem tanto nem com tanta urgência como o problema do Cornwallis. De momento, no concernente a averiguar a identidade do morto e o motivo de sua presença noturna na praça, podia fazer pouco que não pudesse fazer igualmente bem Tellman. Seguia considerando como hipótese mais provável a de um roubo com final trágico. Desejava com ardor que Balantyne não tivesse nada que ver, que o morto tivesse começado por roubar a casa do general e ao levar a caixa de rapé o tivessem matado ao pegá-lo em flagrante em outro lugar, possivelmente por acidente. O assassino tinha recuperado seus pertences, mas tinha deixado a caixa de rapé por medo de que sua posse o incriminasse.

Devia tratar-se de um lacaio ou mordomo de outra casa. Uma vez que se descobrissem a quem pertencia seria preciso grandes dose de tato, mas o resultado final não se veria alterado nem por toda a discrição do mundo. Pelo resto, Pitt confiava que Tellman fosse igualmente destro como ele no rastreamento. Ele, enquanto isso faria o possível por ajudar ao Cornwallis.

Saiu de casa como cada manhã, mas em lugar de dirigir-se ao Bow Street ou Bedford Square tomou uma carruagem de cavalos e pediu ao cocheiro que o levasse ao almirantado.

Muito teve que insistir e discutir para que lhe facilitassem o histórico naval do HMS Venture sem explicar para que o queria. Graças ao emprego abundante de palavras como tato, reputação e honra, obteve no meio da amanhã, sem ter dado nomes, estar sentado em uma saleta ensolarada e ler o que tinha pedido.

O informe era simples: achando-se de serviço o tenente John Cornwallis, um marinheiro tinha ficado ferido enquanto tratava de arriar o sobrejuanete de mesana em meio de uma borrasca que se agravava cada vez mais. Cornwallis afirmava de seu punho e letra ter subido a ajudá-lo e havê-lo devolvido a coberta em estado de semi-inconsciência. Dizia que nos últimos metros o tinha ajudado o marinheiro de primeira Samuel Beckwith.

Beckwith era analfabeto, mas seu informe oral, posto por escrito por outra pessoa, coincidia com o de seu superior. Não se observava nenhuma discrepância com a versão oficial. Sua relação se limitava a poucas frases, palavras simples sobre a página branca que não diziam nada sobre a dimensão humana dos participantes, os rugidos do vento e o mar, o balanço da coberta, o pavor do marinheiro apanhado no mastro... e em perigo de cair sobre pranchas de madeira que lhe romperiam os ossos ou em profundidades cavernosas que o engoliriam sem resgate possível. Qualquer pessoa que caísse nelas desapareceria para sempre, como se jamais tivesse existido, jamais tivesse estado vivo, rido ou tido esperanças.

O texto não dizia nada sobre a qualidade dos participantes, seu valor ou covardia, prudência ou insensatez, mendacidade ou franqueza. Pitt conhecia Cornwallis, ou ao homem em que se convertera como subchefe de polícia: taciturno, de uma honradez a prova de bombas, pouco familiarizado com a política e ignorante de suas trapaças.

Mas não conhecia de quinze anos atrás, ao tenente enfrentado com o perigo físico e possibilidade da admiração e da ascensão. Tratar-se-ia acaso do único engano de um homem pelo resto honorável?

Duvidava-o. Um engano daquela envergadura teria deixado rastros mais profundos. Se Cornwallis tivesse aproveitado a oportunidade de receber uma recompensa que não lhe correspondia e atribuir o mérito do valor alheio, não estaria condenado a deixar uma mancha de mentira em tudo o que tocasse? Não o teria atormentado durante toda sua carreira o medo a que Beckwith contasse a verdade? Não teria elaborado uma defesa contra aquela possibilidade, sabendo-se ameaçado em cada momento? E não se teria notado em suas demais ações?

Ele teria explicado a Pitt?

Ou chegava sua arrogância a acreditar-se capaz de utilizá-lo sem que se desse conta?

Isto último distorcia tanto a imagem que Pitt tinha do Cornwallis que o desprezou por virtualmente impossível.

Ficava, pois, a dúvida de se o chantagista acreditava na verdade do que afirmava ou tão somente em que sua vítima não poderia demonstrar o contrário.

Cornwallis afirmava que Beckwith tinha morrido, mas tinha algum parente ou conhecido a quem tivesse explicado o episódio a uma luz mais heróica, falseando-o algo a seu favor? Teria lhe dado crédito essa pessoa, como faria sem dúvida um filho ou um sobrinho?

Ou, por que não, uma filha. Uma mulher era igualmente capaz a um homem de recortar letras em um jornal e formular uma ameaça.

Decidiu aproveitar sua estadia no almirantado para solicitar toda a informação que pudesse sobre a carreira naval do Cornwallis, e sobre o Samuel Beckwith, com preferência pelo paradeiro de seus familiares vivos, em caso de havê-los.

Uma vez mais teve que recorrer a todos seus dotes de persuasão para que lhe entregassem um resumo muito abreviado da carreira do Cornwallis, restringido aos dados que em grande medida já eram de domínio público, como o que pudessem ter observado outros membros da marinha.

Em dois anos tinha sido promovido e transladado a outro navio. Em 1878 e 1879 tinha estado nos mares da China e se destacou no bombardeio de Borneo contra os piratas.

Um ano depois tinha assumido o comando pela primeira vez e tinha participado de várias ações de escasso relevo no Caribe, principalmente combate com negreiros que prosseguiam seus negócios na África Ocidental.

Em 1889 se retirou com todas as honras e uma folha de serviços sem mácula. Só constava uma lista dos navios onde tinha prestado serviço e os postos por ele ostentados.

Pitt comparou sua carreira com a do Samuel Beckwith, truncada por sua morte em mar alto (tinha-o arrojado pela amurada um mastro derrubado por uma tormenta). Tinha morrido solteiro, deixando uma irmã que naquela época residia no Bristol e a quem se enviaram os efeitos e o pagamento atrasado do finado. Constava como "senhora Sarah Tregarth", junto a seu endereço.

Beckwith, entretanto, tinha sido analfabeto, enquanto que a carta recebida pelo Cornwallis estava escrita com bom estilo e continha várias palavras complexas. Era possível que Sarah Beckwith, irmã de um analfabeto, tivesse alcançado semelhante maestria?

Confirmá-lo-ia uma carta discreta à polícia do Bristol.

Leu a lista de navios onde tinha servido Cornwallis e copiou uma dúzia de nomes de integrantes de suas tripulações, incluídos os do capitão e o tenente de navio do Venture.

A seguir mostrou sua lista ao homem que tinha estado ajudando-o e pediu os endereços dos que não estivessem de serviço.

O homem o olhou com suspeita e leu a lista.

— Este morreu em combate faz dez anos - disse, mordendo o lábio. Passou ao seguinte. — Este está reformado e partiu para viver no estrangeiro, não sei se em Portugal. Este vive no Liverpool. Este aqui, em Londres. - Ergueu o olhar. — O que quer deles, delegado?

— Informação - respondeu Pitt com um sorriso forçado. — Preciso averiguar a verdade a respeito de um incidente, a fim de impedir graves prejuízos. Um delito - acrescentou para recalcar a urgência de seu encargo e evitar dúvidas sobre seu direito de ingerência.

— Ah... É claro. Demorarei um pouco. Tem inconveniente em retornar mais ou menos dentro de uma hora?

Pitt tinha fome e sobre tudo sede, por isso aceitou com gosto a proposta e saiu para comprar um sanduíche de presunto e uma xícara de chá carregado em um posto das ruas. Consumiu-os com muito gosto em uma esquina, tomando sol e observando os transeuntes. Viu passar várias babás com seus aventais e seus carrinhos, ou vigiando crianças um pouco maiores que brincavam com aros ou cavalgavam paus com cabeça de cavalo. Um menino que brincava com um pião não fez caso quando o chamaram. As meninas, com seus vestidinhos de babados, davam passinhos curtos com a cabeça alta, imitando seus maiores. Pitt pensou na Jemima com ternura, e em quão depressa tinha crescido: começava a ter em conta seu aspecto físico, consciente de que lhe faltava pouco para fazer-se mulher. Os anos transcorridos desde seus primeiros passos pareciam muito como meses a seu pai.

Em seu primeiro encontro com o Balantyne, Pitt nem sequer era pai. Quando o general tinha perdido a sua única filha da pior maneira imaginável, Jemima balbuciava suas primeiras palavras, que costumava ser Charlotte a única a entender.

A lembrança converteu ao sanduíche em serragem. Como era possível não morrer de tanta pena? Teve vontade de voltar correndo para casa e certificar-se pelo dobro (ou triplo) de que Jemima estava bem. Quis tê-la nos braços, vigiá-la as vinte e quatro horas do dia, tomar todas as decisões em seu lugar, decidir aonde ia, com quem fazia amizade...

Era ridículo e só lhe granjearia o justo ódio de sua filha.

Como era possível que as pessoas suportassem ter filhos, vê-los crescer e equivocar-se, vê-los sofrer e até morrer, ou padecer dores piores e mais inexplicáveis que a morte? Teria tido Balantyne alguma ajuda ou consolo de Augusta? Que efeito tinha tido o sofrimento compartilhado? Uni-los ou convertê-los em seres mais isolados, mais sós em sua dor?

Que nova tragédia lhes jogava em cima? Talvez fizera mal em delegar a Tellman, mas não podia deixar ao Cornwallis na estacada.

Engoliu o resto do sanduíche, bebeu a xícara de chá e voltou para almirantado. Não tinha tempo para estar ocioso.

Começou pelo tenente Black, que tinha sido segundo do bordo do Cornwallis nos mares da China. Estava de licença e possivelmente não demorasse muito em receber outra missão. Como vivia no South Lambeth, Pitt pegou uma carruagem e cruzou o rio.

Teve a sorte de achar em casa o tenente, disposto a recebê-lo, e o infortúnio de que as palavras do Black fossem muito honoráveis para contribuir com dados de interesse. Sua lealdade profissional para um colega de oficialidade era tão grande que apagou qualquer individualidade e significado de seus comentários. As declarações do Black diziam muito do próprio tenente, de sua maneira de ver o mundo, seu aceso patriotismo e fidelidade ao corpo onde tinha passado toda sua vida adulta, mas reduziam ao Cornwallis a um nome, uma posição e uma série de deveres bem cumpridos. Em nenhum momento o apresentou como um ser humano, nem para bem nem para mau.

Pitt lhe agradeceu e procurou o seguinte nome de sua lista. Tomou outra carruagem e se dirigiu para o norte, a Chelsea. Ao cruzar a ponte de Vitória contemplou os navios de recreio cheios de mulheres com vestidos claros, chapéus de cores vivas e cachecóis, homens com a cabeça exposta ao sol e crianças vestidas de marinheiros que comiam maçãs caramelizadas e pirulitos de hortelã a raias. As notas dos realejos troavam o ar, disputando com gritos, gargalhadas e o ruído do fluxo.

O tenente Durand resultou ser um homem muito diferente. Era magro, de feições afiladas, mais ou menos da mesma idade que Cornwallis mas ainda em ativo.

— Pois claro que me lembro! - disse com ímpeto.

Conduziu-o a uma saleta muito acolhedora, cheia de lembranças da marinha (provavelmente de várias gerações) e com vistas a um jardim cheio de flores do verão. Notava-se que era uma casa de longa tradição familiar, e a julgar pelos retratos vistos pelo Pitt no corredor, Durand procedia de uma linhagem distinta de oficiais de marinha, muito anterior ao Trafalgar e a época do Nelson.

— Sente-se - disse o tenente, assinalando uma poltrona muito gasta. Ele ocupou a de frente. — O que quer saber?

Pitt já tinha exposto o motivo de sua visita, mas desta vez devia formulá-lo com maior destreza e averiguar algo a respeito do Cornwallis.

— Que qualidades o faziam apto para o comando?

Durand não dissimulou sua surpresa. Se algo esperava não era aquilo.

— Dá você por certo que o considerava bom capitão - disse com as sobrancelhas arqueadas, olhando ao Pitt de maneira muito direta e maliciosa.

Tinha o rosto queimado pelo vento, as sobrancelhas loiras e espaçadas.

— Tenho suposto que o diria - respondeu Pitt, — e queria algo menos neutro. Equivocava-me?

— A lealdade antes que a sinceridade. Não lhe serve?

Seguia presente o matiz humorístico. Como Durand estava sentado de costas à janela, Pitt tinha à vista o ensolarado jardim.

— Absolutamente. - Apoiou-se no espaldar, que era muito cômodo. — As vezes é a única coisa que encontro.

— Do ponto de vista naval pode ser um defeito - indicou o tenente com um matiz de amargura. — Além disso o mar não tem essa sentimentalidade. Não perdoa nada. Não há nada como o mar para saber se uma pessoa tem a talha. Ao final, a única honra é a verdade.

Pitt o observou com atenção, sensível a viva emoção que se adivinhava em suas palavras. Podia tratar-se de ira, ou da convicção de que se produziu uma injustiça ou tragédia.

— E me diga, tenente: Cornwallis era bom capitão?

— Era bom marinheiro - respondeu Durand. — Compreendia o mar. De certo modo me parece que o queria, na medida em que podia sentir amor por algo.

Era um comentário estranho, dito sem afeto. A expressão do Durand, a contraluz, era de difícil leitura.

— Seus homens confiavam nele? - prosseguiu Pitt. — Confiavam em suas capacidades?

— Capacidades para que?

Durand não estava disposto a dar nenhuma resposta à ligeira. Tinha decidido ser franco, o que lhe impedia de facilitar as coisas com evasivas.

Pitt se viu obrigado a concentrar-se e clarificar suas idéias. O que queria dizer?

— Para tomar as decisões corretas em uma tormenta, conhecer as marés, o vento, a...

Durand sorriu.

— Você não é marinheiro, não é verdade? - Não era uma pergunta, mas uma afirmação feita com paciência (e até condescendência, porque tinha reaparecido o humor). — Imagino que quererá saber se era meticuloso, por exemplo. Sim, em extremo. Sabia ler as cartas de navegação, calcular a posição do navio e interpretar o tempo? Sim, as três coisas. Era previdente e fazia planos com antecipação? Como o que mais. De vez em quando cometia algum engano. Nesses casos, sabia pensar com rapidez, adaptar-se e sair do passo? Sempre, embora às vezes com mais êxito que outras. Não se livrou de sofrer algumas perdas.

Falava com voz neutra, atento a não expressar suas emoções.

— De navios? - Pitt estava horrorizado. — De homens?

— Não, senhor Pitt; nesse caso o teriam retirado do serviço muito antes.

— Não o retiraram por elas? - perguntou Pitt com excessiva prontidão.

— Não que eu saiba - disse Durand, reclinando um pouco as costas sem afastar a vista de seu interlocutor. — Suspeito que foi algo tão simples como ver que sua carreira se estancou e cansar-se dela. Tinha vontade de voltar para terra firme, e quando lhe apresentaram uma alternativa cômoda a aceitou.

Pitt reprimiu a forte tentação de fazer um comentário ácido sobre a situação presente do Cornwallis, porque a necessidade de obter informação lhe proibia indispor-se com seu interlocutor. Era evidente que Durand tinha em mau conceito a seu antigo capitão. Possivelmente a causa, em grande medida, fora o acesso do Cornwallis a posto superior, enquanto ele continuava no serviço sem passar de tenente.

— Que mais perguntaria se conhecesse um pouco o mar? - disse Pitt com certa afetação, tratando de ocultar seus sentimentos.

Durand não parecia haver-se dado conta. O ângulo de sua cabeça e seus ombros, recortado a contraluz, indicava concentração. Tinha muita vontade de falar.

— Era bom chefe? - disse. Importava-lhe seus homens? Conhecia-os individualmente? - Deu ligeiramente de ombros. — Não, nunca deu essa impressão; eles, em todo caso, não achavam assim. Gozava do apreço de seus oficiais? Apenas o conheciam. Era um homem introvertido, ciumento de sua intimidade. Tinha a dignidade do capitão, mas também o isolamento de um homem frio. Não é o mesmo. - Falava observando o rosto do Pitt e vigiando suas reações. — Possuía o dom de comunicar à tripulação sua fé nela e na missão atribuída ao navio? - continuou. — Não. Não tinha senso de humor, afabilidade nem humanidade visível. Por que acredita que destacou Nelson entre seus contemporâneos? Por sua mescla de gênio e humanidade. Sua extraordinária coragem e previsão se compensavam com uma vulnerabilidade absoluta às penas e desgraças próprias das pessoas normais. - Sua voz se endureceu. — Cornwallis carecia dela. A tripulação respeitava seus dotes de marinheiro, mas não lhe tinha afeto. -Respirou. — E para ser bom capitão terá que inspirá-lo. É o que inspira aos homens a ir além de seu dever, a transcender o que se espera deles, a ser audazes, sacrificar-se e conseguir o que estaria fora do alcance de uma tripulação de menor entidade, embora o navio fosse o mesmo.

A exposição, certa ou não, tinha sido magistral, como Pitt teve que reconhecer para si. Ele tinha outra imagem do Cornwallis, e poucos desejos de mudá-la. Se ficasse, se continuasse escutando, era ao mesmo tempo por probidade e medo. Temia que lhe notasse no rosto, e achava perturbadora a idéia de ficar exposto ante o Durand.

— Fez você alusão à valentia - disse Pitt depois de pigarrear, esforçando-se para que sua voz não traísse sua antipatia pelo tenente nem suas lealdades. — Cornwallis era valente?

Durand ficou tenso.

— Indubitavelmente - reconheceu. — Nunca o vi passar medo.

— Não é exatamente o mesmo - observou Pitt.

— Não... E claro que não. É mais: suponho que são coisas opostas – concordou Durand. — Imagino que alguma vez sim que o passaria, já que o contrário denotaria estupidez, mas tinha um controle gélido de sua pessoa, esse controle que esconde todas as emoções. Não lhe apreciava nenhuma humanidade - repetiu. — Mas não, covarde não era.

— Fisicamente? Mentalmente?

— Fisicamente com certeza não. - Durand vacilou. — Moralmente o ignoro. No mar há poucas decisões morais de envergadura. As que tomou na época em que estive a seu serviço não o foram. Acredito que é um homem de idéias muito ortodoxas para ser um aventureiro moral. Se o que pergunta é se se embebedava ou atuava com abandono... Não! Não lhe recordo a menor indiscrição. - A última frase estava cheia de um estranho desdém. — Aprofundando em sua pergunta... Sim, é possível que fosse um covarde moral, temeroso de agarrar a vida pelos chifres e... - Perdeu o fio da metáfora e deu de ombros, sinal de que estava satisfeito. Tinha pintado o retrato que desejava, e sabia.

— Homem de poucos riscos - resumiu Pitt.

O julgamento do Durand tinha sido cruel, idealizado para fazer mal, mas possivelmente em sua ignorância do que estava em jogo houvesse dito exatamente o que queria ouvir Pitt: não que Cornwallis fosse muito honrado para atribuir o mérito de outro homem, mas sim era muito covarde moralmente para correr esse risco. O medo que o descobrissem o teria paralisado.

Durand adotou uma postura cômoda, com o sol nas costas.

Pitt ficou outro quarto de hora, agradeceu-lhe e partiu, contente de fugir do ambiente claustrofóbico de inveja que flutuava naquela casa acolhedora, com seus retratos familiares de homens que tinham tido êxito e confiante em que as futuras gerações seguissem seus passos e subministrassem novas e mais rutilantes imagens, com galões dourados e rostos orgulhosos.

No dia seguinte Pitt localizou a dois marinheiros de primeira e um cirurgião naval. O primeiro era MacMunn, que se tinha retirado depois de um ataque pirata em Borneo que o tinha deixado com uma só perna. Vivia com sua filha em uma casa pequena e arrumada, de tapetes remendados e móveis lustrosos com aroma de cera. Falou sem fazer-se de rogar.

— Sim, sim! Lembro-me muito do senhor Cornwallis. Era estrito, mas justo. Sempre muito justo. - Assentiu várias vezes com a cabeça. — Que raiva tinha dos valentões! Não podia nem vê-los. Teria que ver como os castigava! Não era muito aficionado ao látego, mas quando via alguém abusar dos que tinha a suas ordens deixava as costas em carne viva.

— Era um homem duro? - perguntou Pitt, temendo a resposta.

MacMunn riu.

— Imagine! Nem muito menos! O senhor Farjeon, esse sim era duro. - Fez uma careta que lhe puxou para baixo as comissuras dos lábios. — Para mim tinha que gostaria de passar pela quilha a mais de um. Teria que ter vivido na época dos açoites por toda a frota. Então sim teria desfrutado!

— No que consistiam?

Pitt não estava muito versado em história naval. MacMunn o olhou com os olhos entreabertos.

— Punham-no em um bote, passeavam-no por todos os navios da frota e lhe davam chicotadas em cada coberta. O que lhe parece?

— Uma morte segura! - protestou Pitt.

— Sim - assentiu MacMunn, — embora se o médico do navio fosse bom o deixava tão adormecido que nem se inteirava. Segundo meu avô morriam depressa. Foi artilheiro no Waterloo.

Ao dizê-lo, o marinheiro se ergueu de maneira inconsciente, e Pitt lhe sorriu sem saber muito bem por que, salvo por uma herança compartilhada e a consciência do valor e do sacrifício.

— Ou seja que Cornwallis não era duro nem injusto? - disse com calma.

— Não, Por Deus! - MacMunn desprezou a idéia com um movimento da mão. — Só tranqüilo. A mim a idéia de ser oficial nunca gostei. Parece-me... não sei, como muito solitário. - Deu um gole ruidoso a sua xícara de chá. — Cada qual tem seu lugar, e quando corre perigo não importa que posição tenha, porque sempre há companheiros. Em troca quando é o único não pode falar com os de cima nem eles com você, nem tampouco falar com os de baixo. Quando é oficial a pessoa espera que sempre tenha razão, e o senhor Cornwallis tomava muito a sério. Não sabia relaxar. Entende-me?

— Sim, acredito que sim. - Pitt recordou uma dezena de ocasiões em que Cornwallis tinha estado a ponto de justificar-se e se reportou no último momento. — É um homem muito reservado.

— Isso. Enfim, suponho que o que quer ser capitão não tem mais remédio. Como se equivoca ou pareça fraco come-o o mar. Torna duro, mas também leal. No senhor Cornwallis sempre se podia confiar. Era um pouco quadrado, mas honrado como poucos.  - MacMunn sacudiu a cabeça. — Me lembro de que uma vez teve que castigar a um que tinha feito algo mau; agora mesmo não me lembro do que, mas não era grande coisa. O que passa é que as normas diziam que tinha que açoitá-lo. Disse-o alguém, acredito que o contramestre. Notava-se que o senhor Cornwallis não queria. O contramestre era um mal nascido; mas, claro, em um navio não se pode romper a disciplina porque vai a rivalidade.  - A lembrança do incidente lhe arrancou uma careta. — Logo o senhor Cornwallis o pagou caro. Passou vários dias dando voltas pela coberta, feito uma fera. Sofria tanto que parecia que o tivessem açoitado a ele. - Respirou fundo. — O contramestre caiu pela amurada, e o senhor Cornwallis se esforçou por saber se o tinham empurrado. - Outra careta. — Ao final não se soube.

— E era verdade? - perguntou Pitt.

MacMunn sorriu, mostrando os dentes por cima da xícara.

—Pois claro! Mas nos pareceu que no fundo o senhor Cornwallis não queria inteirar-se.

— E não o disseram.

— Exatamente. Como era boa pessoa não queríamos pô-lo em dificuldades, e se chegar a inteirar-se penduraria o culpado no mastro. Embora lhe partisse a alma, e embora por gosto tivesse sido ele o primeiro em atirar o contramestre! - Sacudiu a cabeça.            — Tinha a imaginação mau posta. Era o cúmulo da compaixão, mas tomava tudo muito ao pé da letra, sabe?

— Sim, parece-me que sim - respondeu Pitt. — Lhe parece possível que se atribuísse o mérito da valentia de outra pessoa?

MacMunn o olhou com incredulidade.

— Antes se teria deixado pendurar por culpa de outro! Quem o tenha dito, além de mentiroso é tolo. Quem foi?

— Não sei, mas tenho a intenção de averiguá-lo. Estaria disposto a me ajudar, senhor MacMunn?

— Eu?

— Sim. Por exemplo: o capitão Cornwallis tinha inimigos pessoais, pessoas que lhe tivesse inveja ou rancor?

MacMunn, que se tinha esquecido do chá, enrugou o rosto.

— Não sei o que lhe dizer. Não quereria mentir. Eu não lhe conheço nenhum, mas nunca se sabe como vai reagir uma pessoa quando vê que não o promovem e a outros sim, ou que lhe jogam algo na cara. Quem é honrado sabe que cada qual responde de seus atos... mas... - deu de ombros.

MacMunn, entretanto, tinha pouco que contribuir em um sentido concreto. Vendo que não servia de nada insistir, Pitt lhe agradeceu e partiu com ânimo renovado, como se o encontro com algo limpo houvesse dissolvido a sensação de abatimento que lhe tinha deixado a entrevista com Durand. Tinha desaparecido um medo interno.

A primeira hora da tarde se achava no Rotherhithe com o marinheiro de primeira Lockhart, homem taciturno e ligeiramente bêbado que não lhe proporcionou nenhum dado interessante a respeito de Cornwallis, a quem parecia recordar como um capitão ao mesmo tempo temido e respeitado por sua tripulação. Lockhart tinha antipatia a todos os oficiais de posto superior, e assim o disse. Foi o único tema em que deu uma resposta que excedesse o monossílabo.

Horas depois o ar permanecia quente e imóvel, a cidade tinha ficado envolta por uma espécie de bruma e o rio era como uma fita de prata. Pitt subiu pela costa que levava do embarcadouro ao hospital naval de Greenwich, onde trabalhava o senhor Rawlinson, antigo cirurgião da marinha.

Encontrou-o ocupado e teve que esperar mais de meia hora em uma saleta; a espera, entretanto, foi bastante confortável, amenizada por visões e sons que saíam da rotina.

Rawlinson chegou com o colarinho da camisa branca aberto e as mangas recolhidas, como se tivesse trabalhado duro. Tinha manchas de sangue nos braços e outras partes do corpo. Era um homem alto e fornido, de rosto longo e amável.

— Da delegacia de polícia do Bow Street? - disse com curiosidade, examinando ao Pitt dos pés a cabeça. — Espero que não se colocou em confusões ninguém do hospital! Por outro lado, estamos bastante longe de seu território.

— Fique tranqüilo. - Pitt se afastou da janela pela qual tinha estado contemplando a água e o tráfico do porto de Londres. — Só queria lhe fazer umas perguntas a respeito de um oficial que serviu com você em tempos passados. John Cornwallis.

Rawlinson fez cara de incredulidade.

— Cornwallis! Não me dirá que o investigam! Mas não estava na polícia? A menos que fosse o Ministério do Interior...

— Não; na polícia. - Parecia inevitável dar explicações. Pitt tinha prometido ser discreto, mas como fazê-lo e ser de alguma ajuda a seu amigo. — Trata-se de um incidente do passado que foi... interpretado mal - respondeu com cautela. — Estou investigando-o de parte do capitão Cornwallis.

Rawlinson apertou os lábios.

— Eu era o cirurgião de bordo, senhor Pitt. Passava muito tempo na coberta inferior, onde levam os feridos e os operamos.

Um clíper remontava a corrente do rio em direção aos moles do Surrey, e seu esplêndido velamen desdobrado refletia a luz do sol. Era um espetáculo de certa tristeza, como o declinar de uma época.

— Caramba... Mas conhecia o Cornwallis? - insistiu Pitt, voltando para o que tinha entre mãos.

— Sim, como não - disse Rawlinson. — Naveguei a suas ordens, mas o cargo de capitão de navio não é muito sociável. Se nunca esteve em alto mar é provável que ignore o poder que concentra o capitão, e o necessário isolamento que lhe impõe esse poder.        - Fez o gesto maquinal de limpar as mãos nas calças, sem pensar que os mancharia de sangue. — Para ser bom capitão terá que manter certa distância com a tripulação, incluído o resto dos oficiais.

Deu meia volta e conduziu ao Pitt por uma porta envidraçada que dava a uma espaçosa galeria. Uns degraus os levaram até a grama, de onde se divisava em pendente uma panorâmica do rio.

Pitt foi atrás dele escutando suas palavras.

— O conceito de tripulação se apóia em uma hierarquia muito estrita. – Rawlinson falava movendo as mãos. — Se houver muita familiaridade os homens perdem o respeito ao capitão. Deve lhes parecer um pouco sobre-humano, próximo à infalibilidade. Se perceberem seu lado vulnerável, suas dúvidas, fraquezas ou medos, perderá uma parte de seu poder. - Olhou ao Pitt de soslaio. — É algo que sabe qualquer bom capitão, e que sabia Cornwallis. No meu entender se adequava a seu caráter; era um homem tranqüilo, solitário por vontade própria. Tomava o cargo muito a sério.

— Era bom capitão?

Rawlinson sorriu e continuou caminhando pela erva, banhada pelo sol. A brisa do rio cheirava a sal. As gaivotas davam voltas pelo céu, entre fortes chiados.

— Sim - respondeu. — A verdade é que muito.

— Por que se retirou? - perguntou Pitt. — É relativamente jovem.

Rawlinson se deteve, e pela primeira vez parecia com a defensiva.

— Desculpe, senhor Pitt, mas de que se trata?

— Alguém se propõe lhe fazer dano - respondeu Pitt, olhando o médico no rosto      — prejudicar sua reputação. Para defendê-lo devo conhecer a verdade.

— Quer saber quão pior podem dizer dele sem faltar à verdade?

— Sim.

Rawlinson grunhiu.

— E que motivos tenho para não suspeitar que você seja o inimigo?

— Pergunte ao Cornwallis.

— Nesse caso, por que não lhe pergunta você pelo melhor e o pior de sua carreira? - A pergunta foi feita com ironia mas sem má intenção. Rawlinson cruzou seus braços manchados de sangue e sorriu.

— Pelo simples motivo, senhor Rawlinson, de que não estamos acostumados a nos ver igual a outros - respondeu Pitt. — Também quer que o explique?

Rawlinson se relaxou.

— Não. - Reatou seu passeio, fazendo gestos ao Pitt de que o acompanhasse.         — Cornwallis era um homem valente - disse, — tanto física como moralmente. Possivelmente lhe faltasse um pouco de imaginação. Tinha senso de humor, mas o demonstrava pouco. Suas diversões eram sossegadas. Gostava de ler. Sobre todos os temas. Possuía dotes surpreendentes de aquarelista; pintava o reflexo da luz na água com uma sensibilidade que sempre me deixava assombrado, porque revelava uma faceta de sua personalidade completamente distinta. Dava-se conta de que às vezes o gênio não é o que põe a não ser o que deixa de pôr. Conseguia transmitir... - Desenhou um círculo com as mãos. — O ar! A luz! - Riu. — Nunca teria imaginado que tivesse tanta... audácia.

—Era ambicioso? - Pitt tratou de formular uma pergunta que propiciasse uma resposta sincera, não um ato de lealdade. Rawlinson refletiu.

— Acredito que a sua maneira sim, mas não se percebia a simples vista, como em outras pessoas. Mais que parecer sobressalente o que queria era sê-lo. Seu orgulho, seu maior desejo, não tinha por objeto as aparências, mas a realidade. – Olhou rapidamente ao Pitt, para ver se o entendia. — Por isso... - Procurou uma maneira de expressar o que pensava. — Por isso às vezes parecia distante, e para algumas pessoas até evasivo. Eu acredito que não, que era um homem complexo, diferente deles. Exigia-se mais que ninguém, mas não porque queria agradar ou impressionar a outros.

Pitt o acompanhou em silêncio, pensando que se ele não falasse o faria o doutor. Acertou.

— Não sei se sabe que perdeu seu pai bastante cedo, acredito que aos onze ou doze anos: idade suficiente para conhecê-lo de uma perspectiva de menino, mas não para decepcionar-se ou questioná-lo.

— Seu pai também era marinheiro?

— Não, absolutamente! - apressou-se a dizer Rawlinson. — Era um pastor inconformista, de fé profunda e simples, e bastante valente para praticá-la e pregá-la.

— Vejo que conhece o capitão mais do que tinha dado a entender.

Rawlinson deu de ombros.

— É possível. O certo é que só foi uma noite. Tivemos uma refrega bastante dura com um navio de escravos. Abordamo-lo, mas era de teca e se incendiou. - Olhou ao Pitt. — Já vejo que não lhe diz nada. Lógico. As lascas de teca são puro veneno, não como as de carvalho - explicou. — Tivemos uns quantos feridos, mas nosso primeiro oficial, que era um bom homem por quem o senhor Cornwallis tinha grande afeto, estava bastante grave. O capitão me ajudou a extrair as lascas e ajudá-lo no possível, mas teve febre e passamos a noite em claro. Durante o dia e a noite seguintes nos alternamos.

Chegou ao atalho de cascalho e reempreendeu a ascensão da costa com Pitt a seu lado.

— Dir-me-á que não é o trabalho de um capitão - continuou, e terá razão, mas nos encontrávamos muito longe da costa e o navio de escravos já tinha sido vencido. Ele fazia uma guarda na coberta, e a seguinte comigo. - Apertou a mandíbula. — Sabe Deus quando dormiria, mas salvamos ao Lansfield, que só perdeu um dedo. Foi então quando falamos. É o habitual nos guardas noturnos, quando a pessoa está desesperada e não há ajuda que prestar. Depois já não nos vimos muito, salvo quando o ditava o dever. Suponho que fiquei com sua imagem dessa noite, com a lanterna amarela iluminando seu rosto abatido pela inquietação: furioso, impotente e tão cansado que mal conseguia manter erguida a cabeça.

Pitt julgou inútil perguntar se Cornwallis era capaz de se atribuir um ato de valentia alheia. Agradeceu a Rawlinson e deixou que voltasse junto a seus pacientes. Ele, por sua parte, desceu para o rio sob os últimos raios do sol, dirigindo-se para o embarcadouro, onde poderia tomar um trasbordador que, passando pelo Deptford, Limehouse, Wapping, a Torre de Londres, a ponte de Londres e o do Southwark, deixasse-o ao fim, provavelmente, no Blackfriars. Agora sabia muito mais sobre Cornwallis, e estava, se pudesse, mais resolvido a defendê-lo do chantagista; em contrapartida sabia quase tão pouco como antes a respeito da identidade deste último, à exceção de que cada vez era mais difícil acreditar que uma pessoa que tivesse estado às ordens do Cornwallis acreditasse sinceramente na acusação.

Recordou o estilo da mensagem e sua correção gramatical, assim como sua ortografia e léxico. Não se devia a um simples marinheiro, nem provavelmente a um familiar, como pudesse ser uma esposa ou uma irmã. Se se tratava do filho ou filha de um membro daquela profissão, sua posição social tinha melhorado muito desde a infância.

Quando chegou à borda, com o aroma de sal e algas no nariz, a umidade do ar na pele e o fluxo nos ouvidos (interrompido pelos gritos das gaivotas, tão ligeiras em seu vôo), soube que ficava um longo caminho por percorrer.

Nessa manhã, Charlotte abriu a primeira entrega de cartas e achou uma em seu nome que varreu os anos interpostos como o vento varre as folhas. Antes de abri-la já estava segura de que a enviava o general Balantyne. O texto era muito breve:

 

Querida senhora Pitt,

foi muito generosa preocupando-se com meu bem-estar e oferecendo uma amizade renovada em circunstâncias tão difíceis.

Nesta manhã penso dar um breve passeio pelo Museu Britânico. Estarei na seção egípcia por volta das onze e meia. Se se achar livre de outras ocupações e passar por lá, prazer-me-á em extremo vê-la.

Seu humilde servidor,

      BRANDON BALANTYNE.

 

Era uma maneira educada e muito formal de declarar-se necessitadíssimo da amizade que lhe ofereciam, mas a própria existência da carta manifestava com suma clareza os sentimentos de seu autor.

Charlotte dobrou a folha com um movimento rápido e se levantou da mesa da cozinha para jogá-la ao fogo. A carta foi consumida imediatamente por uma labareda voraz que apagou qualquer rastro dela.

— Saio - disse a Gracie. — Tenho vontade de ir ver a seção egípcia do Museu Britânico. Não sei quando voltarei.

Gracie lhe lançou um olhar fugaz e cheio de curiosidade, mas se absteve de perguntas.

— Sim, senhora - disse com os olhos muito abertos. — Me ocuparei de tudo.

Charlotte subiu ao piso de cima e tirou seu segundo melhor vestido do verão; não o amarelo pastel, que era o melhor (já o tinha posto a primeira vez), mas outro de musselina rosa e branca que lhe tinha dado Emily, por não achá-lo tão favorecedor como esperava.

Ir ao Museu Britânico era um pequeno passeio, razão sem dúvida de que o tivesse escolhido o general. Charlotte saiu às onze e dez para estar as onze e meia na seção egípcia. Era um encontro de amigos, não uma entrevista amorosa nem de sociedade onde o atraso pudesse ser considerado de bom gosto ou interpretado como recatada indecisão.

Chegou às onze e vinte e em seguida viu o general, muito rígido e com as mãos nas costas. Dava-lhe a luz no cabelo, entre loiro e cinza. Sua figura transmitia uma depurada solidão, como se as pessoas que o rodeavam formassem parte de uma grande unidade que só excluía a ele. Saltava à vista que esperava a alguém, porque a contemplação dos corpos mumificados que tinha diante, ou das talhas intrincadas e o ouro dos sarcófagos, faria com que movesse mais os olhos.

Charlotte se aproximou dele, mas sua presença não foi percebida.

— General Balantyne...

Ele se voltou com rapidez, e sua alegria inicial se permutou em vergonha por não ter reprimido suas emoções.

— Senhora Pitt... Obrigado por vir... A menos que me engane em supor...

Charlotte sorriu.

— Naturalmente que não - o tranqüilizou. — Sempre tive vontade de ver a seção egípcia, mas não conheço ninguém a quem lhe interesse, e se viesse sozinha poderiam me confundir com uma classe de mulher extremamente indesejável, além de chamar uma atenção que não desejo.

— Ah! - Pelo visto o general não tinha tido em conta aquela possibilidade. Ser homem lhe conferia uma liberdade que dava por suposta. — Claro, claro. Vejamo-la, pois.

Tinha-o entendido mal. O certo era que Charlotte poderia ter ido ao museu em qualquer momento, com Emily, sua tia avó Vespasia ou a própria Gracie. Sua intenção tinha sido dar uma pincelada de humor que pusesse mais cômodo ao general.

— Esteve no Egito? - perguntou olhando o sarcófago.

— Não; ou sim, mas só de passagem. - Titubeou um pouco e continuou falando como se tivesse tomado uma grande decisão. — Estive na Abissínia.

Charlotte o olhou fugazmente.

— Seriamente? E por que? Por interesse no país, refiro-me, ou em uma missão? Ignorava que tivéssemos lutado na Abissínia.

Balantyne sorriu.

— Lutamos em quase todas partes, minha querida senhora. Ser-lhe-ia difícil mencionar algum lugar em cujos assuntos não nos tenhamos intrometido.

— E por que nos intrometemos na Abissínia? - perguntou ela com interesse, além do desejo de que o general falasse com gosto de algo.

— É uma história absurda - Balantyne seguia sorrindo.

— Perfeito - disse ela. — Tenho fraqueza pelas histórias absurdas, e quanto mais o sejam, melhor. Conte-me.

Lhe ofereceu o braço, e empreenderam juntos um lento passeio de peça em peça sem fixar-se em nenhuma.

— A crise estalou em janeiro de 1864 - começou a relatar, — mas fazia tempo que se forjava. O imperador da Abissínia, que se chamava Teodoro...

— Teodoro! - repetiu ela com incredulidade. — Não soa muito abissínio, que se diga. Deveria ser um nome... o que sei eu... africano! Desculpe. Continue, por favor!

— Era de origem muito humilde. Seu primeiro trabalho foi de escriba, mas ganhava tão pouco que preferiu dedicar-se ao banditismo. Deu-se tão bem que aos trinta e sete anos foi coroado imperador da Abissínia, Rei de Reis e Eleito de Deus.

— Vejo que subestimei o banditismo! - Charlotte proferiu uma risada aguda. — Não só em sua aceitabilidade social, mas também em seu peso político.

O sorriso do Balantyne se alargou.

— Por desgraça era bastante louco. Escreveu uma carta à rainha...

— Nossa rainha ou a sua? - interrompeu-o ela.

— A nossa! Vitória. Teodoro desejava lhe enviar uma delegação a modo de denúncia contra a opressão a que o submetiam os muçulmanos, a ele e outros bons cristãos da Abissínia. Pediu-lhe formar uma aliança contra eles.

— E a rainha não quis? - perguntou Charlotte.

Detiveram-se diante de uma pedra muito bela com hieróglifos gravados.

— Nunca saberemos - respondeu ele, — porque a carta chegou a Londres em 1863 mas foi extraviada por algum funcionário do Ministério de Assuntos Exteriores. A menos que não lhes ocorresse o que responder. Em suma, que Teodoro se zangou muito e meteu na prisão o cônsul britânico na Abissínia, o capitão Charles Cameron. Torturaram-no no potro e o açoitaram com um chicote feito de pele de hipopótamo.

Charlotte o olhou sem saber se falava de tudo a sério. Viu em seus olhos que sim.

— E então o que aconteceu? Enviaram o exército em seu resgate?

— Não. O Ministério de Assuntos Exteriores se apressou a achar a carta, redigiu uma resposta em que solicitava a liberação do Cameron e a entregou a um assiriólogo turco que se chamava Rassan, lhe pedindo que a levasse a seu destino. A carta levava data de maio de 1864, mas só chegou às mãos do imperador da Abissinia em janeiro do segundo ano contando depois. Teodoro recebeu calorosamente Rassan... e o prendeu com o Cameron.

— E então enviamos ao exército?

— Não. Teodoro voltou a escrever à rainha e nesta ocasião lhe pediu operários, maquinaria e um fabricante de munições.

A ironia fazia tremer as comissuras dos lábios do general.

— E enviamos ao exército? - concluiu Charlotte.

Ele a olhou de esguelha.

— Tampouco. Enviamos a um engenheiro de caminhos com seis peões.

Ela levantou um pouco a voz sem poder evitá-lo.

— Não acredito!

Ele assentiu com a cabeça.

— Chegaram até a Massawa, esperaram meio ano e os chamaram outra vez a Inglaterra. - A expressão do general recuperou sua seriedade. — Mas em julho de 1867 o secretário de Estado para a Índia telegrafou ao governador de Bombaim perguntando quanto se demoraria para organizar uma expedição, e em agosto o gabinete optou pela guerra. Em setembro enviaram um ultimato ao Teodoro. Então zarpamos. Eu vim da Índia e uni às tropas do general Napier: cavalaria bengali, sapadores e mineiros do Madras, infantaria nativa de Bombay e um regimento de cavalaria do Sind. Somou-se a nós um regimento britânico, o trinta e três de infantaria, embora em realidade era composto em sua metade por irlandeses. Também levávamos quase cem alemães, e quando desembarcamos perto da Zula havia turcos, árabes e africanos de todas as procedências. Lembro que informou disso um correspondente jovem que se chamava Henry Stanley e estava fascinado pela África.

Deixou de falar e ficou olhando a peça que tinham diante, um relevo de alabastro que representava um gato. Era uma obra deliciosa, mas o rosto do Balantyne não refletia a menor admiração, só vergonha e dor.

— Lutou você na Abissínia? - perguntou Charlotte.

— Sim.

— Foi uma guerra sangrenta?

Ele expressou sua negativa com um gesto quase imperceptível, um mero tremor.

— Nem mais nem menos que as demais. Sempre há medo, mutilações e morte. Se preocupa pelos seus e os vê reduzidos à mínima expressão de uma pessoa, e elevados ao máximo: terror e valentia, egoísmo em uns e nobreza em outros, fome, sede, dor... uma dor espantosa. - Evitava olhá-la, como se não pudesse lhe dizer nos olhos o que sentia.    — É algo que ultrapassa todas as pretensões, tuas e de outros.

Charlotte não sabia se interrompia-o. Aumentou um pouco a pressão sobre seu braço.

Ele permaneceu em silêncio.

Ela aguardou. Passava pessoas, e alguns se voltavam para olhá-los. Perguntou-se vagamente o que pensariam, e não se importou.

O general aspirou profundamente e exalou em silêncio.

— Não queria falar de batalhas. Perdoe.

— O que desejava me dizer? - perguntou ela com doçura.

— Pois... possivelmente... - Ele voltou a titubear.

— Depois, se quiser, o esqueço - prometeu ela.

O general contraiu os lábios em um duro sorriso. Seguia concentrado em seu interior, não em Charlotte.

—Naquela campanha houve uma ação em que caímos em uma emboscada. Saldou-se com trinta feridos, entre eles o oficial ao comando. Foi uma espécie de fiasco. Eu recebi uma bala no braço, mas sem gravidade.

Charlotte aguardou a que seguisse, sem lhe apressar.

— Recebi uma carta. - Balantyne o disse com dificuldade e o rosto tenso, como se tivesse que arrancar as palavras à força. — Seu autor me acusa de ser a causa daquela derrota... de... de covardia com o inimigo, de ser responsável pelas feridas de meus companheiros. Sustenta... que tive pânico e fui resgatado por um soldado raso, mas que se encobriu o fato para salvar a honra do regimento e sua moral. É mentira, mas não posso demonstrar isso.

Não disse que a difusão da calúnia o afundaria. Dava é como certo que Charlotte sabia.

Assim era, e como ela qualquer um, sobre tudo em um momento em que o caso Tranby Croft aparecia em todos os jornais e nas conversas. Até pessoas menos acostumadas a ocupar-se daquele setor da sociedade falava dele e espreitava o decurso dos acontecimentos, impaciente por assistir a uma catástrofe.

Devia responder com inteligência. Bem estava a compaixão, mas não tinha utilidade prática, e o general necessitava de ajuda.

— O que lhe pediam? - disse em voz baixa.

— Uma caixa de rapé, como simples objeto de boa vontade.

Charlotte levou uma surpresa.

— Uma caixa de rapé? Tem valor?

Ele proferiu uma risada seca e brutal, zombando de si mesmo.

— Não... Uns guinéus. É similar, mas bonita. Muito original. Reconhecê-la-ia qualquer um como minha. É uma prova de que estou disposto a pagar. Para alguns seria uma confissão de culpa. - Crispou os dedos, e Charlotte sentiu nos seus a dureza dos músculos de seu braço. — Na realidade só é um sinal de meu pânico... que é justamente do que me acusam. - A amargura de sua voz confinava com o desespero. — Mas nunca dei as costas ao inimigo físico. Só ao mental. Que estranho! Nunca tinha suspeitado que me faltasse valor moral.

— Não é certo - disse ela sem a menor vacilação. — Se trata de uma estratégia de adiamento... até que conheçamos a força do inimigo e algo mais de sua natureza. A chantagem é um ato de covardia, possivelmente o maior.

Era tal sua indignação, tão violenta, que nem sequer se deu conta do uso que tinha feito da primeira pessoa do plural.

Ele moveu a outra mão e suave, fugazmente, tocou os dedos de Charlotte que estavam em contato com seu braço. Depois deu meia volta e pôs-se a caminhar para a vitrine seguinte, onde havia várias peças antigas de cristal.

Charlotte o seguiu com presteza.

— Nego-me a envolvê-la - disse ele. — Só o disse porque... porque precisava contar a alguém e sabia que em você podia confiar.

— Claro que pode! - disse ela em um arrebatamento. — Mas não penso me manter à margem e ver que o torturam por algo que não fez. E não o digo porque em caso contrário me desentendesse. Todos cometemos enganos, ou temos momentos de fraqueza, medo ou estupidez. Já é castigo suficiente o fato em si. - Colocou-se ao lado do general, mas desta vez não uniu seu braço ao dele. Balantyne não a olhava. — Enfrentaremos!

Voltou-se para ela.

— Como? Ignoro por completo quem a escreveu.

— Pois terá que averiguá-lo - replicou ela, — ou ficar em contato com alguém que estivesse na batalha e possa desmentir o que diz o chantagista. É necessário confeccionar uma lista de todas as pessoas que tenham conhecimento do episódio.

— Todo o exército - disse ele com um vago sorriso.

Charlotte estava decidida.

— Ânimo, general! Foi uma escaramuça na Abissínia, não Waterloo! Além disso ocorreu faz vinte e três anos. Nem sequer estarão todos vivos.

— Vinte e cinco - a corrigiu ele com uma doçura repentina no olhar. — O que lhe parece se começarmos durante o almoço? Não estamos no lugar mais indicado para redigir nada.

— É claro - aceitou ela. — Obrigada. - Voltou a lhe pegar o braço. — Será um começo excelente.

Comeram juntos em um pequeno e acolhedor restaurante. Se Charlotte tivesse estado menos preocupada teria desfrutado daquela comida deliciosa em cuja elaboração não tinha tomado parte, mas o problema era muito grave e absorvia por completo sua atenção.

Balantyne se esforçou por rememorar os nomes de todas as pessoas de cuja participação nos fatos da Abissínia tivesse constância. Conseguiu lembrar-se de todos os oficiais, mas em questão de soldados rasos não pôde passar da metade.

— Com certeza figuram nos arquivos militares - disse com certo desânimo, — embora duvide que nos sirva de ajuda. Passou tanto tempo!

— Mas no mínimo se lembra uma pessoa - indicou Charlotte. — O que enviou a carta tem alguma relação com a batalha. Encontraremo-los. - Releu a folha da caderneta de notas que tinha comprado o general antes de ir ao restaurante. Havia quinze nomes. — Imagino que no exército conhecerão seus domicílios!

As feições do general se encheram de pesar.

— Depois de tanto tempo é possível que se mudaram para outra região, ou talvez a outro país. Também, como observou você, poderiam estar mortos.

Charlotte percebeu seu sofrimento e compreendeu seu medo. Ela o tinha sentido em várias ocasiões: não o terror agudo e próximo à náusea associado com a dor ou a destruição físicos, mas o medo frio e insidioso a perder algo, a sofrer de mente ou coração; medo à solidão, a vergonha, a culpa e o deserto da falta de amor. Ela, que não estava ameaçada, devia ter forças para os dois.

— O que está claro é que a pessoa que procuramos continua viva, e imagino que residirá em Londres - disse. — Aonde enviou a caixa de rapé?

O general abriu muito os olhos.

— Passou a procurá-la um mensageiro, um menino em bicicleta. Falei com ele mas desconhecia seu destino. Só sabia que tinha recebido dinheiro de um homem com quem se reuniria no parque ao entardecer. A única descrição que soube dar foi que levava uma jaqueta e uma boina de tecido, ambas xadrez. O mais provável é que seja um disfarce, porque não me ocorre nenhum outro motivo para vestir-se assim. Ignoro se se trata do chantagista. É possível que atuasse por delegação. – Respirou fundo. — Mas tem você razão: está aqui em Londres. Há algo que não lhe disse... O homem que apareceu morto diante de minha porta tinha a caixa de rapé no bolso.

—Ah... - Charlotte sentiu um calafrio ao dar-se conta de como o interpretaria qualquer membro da polícia, incluído Pitt. —Compreendo. - Agora se explicava melhor o medo de Balantyne.

Este a observava, disposto a fazer frente a sua cólera, suas críticas ou sua mudança de postura.

— Sabe quem é? - perguntou ela olhando-o nos olhos.

— Não. Fui ao necrotério por indicação do Pitt com a esperança de reconhecê-lo, mas não me era familiar.

— É possível que fosse soldado?

— Sem dúvida.

—E que se tratasse do chantagista?

— Não sei. De certo modo o desejo, porque significaria que está morto. – Crispou os dedos que tinha apoiados na toalha, e teve que fazer um esforço consciente para não fechar os punhos. Charlotte o percebeu que sua mão se esticava e contraia. — Mas eu não o matei... e quem pôde havê-lo feito... na soleira de minha casa? Quem a não ser o verdadeiro chantagista, para chamar sobre mim a atenção da polícia? - Pôs-se a tremer muito ligeiramente. — Cada vez que passa o carteiro estou pendente de que chegue outra carta me dizendo o que quer. Como não o darei divulgará a história, e quem sabe se não a contará à polícia.

— Nesse caso devemos achar alguém que estivesse presente e possa desmenti-la -disse ela com mais valentia e esperança que convicção. — Com certeza você tem amigos ou conhecidos que possam ajudá-lo a achar a estas pessoas. - Assinalou a lista.              — Comecemos quanto antes!

Ele não disse nada, mas a angústia de sua expressão e o cansaço de sua postura traduziam sua nula confiança no êxito. Só o tentava porque a rendição não entrava em sua maneira de ser, embora estivesse convencido da derrota.

Tellman estava seguro de que Albert Colé tinha algo que ver com o general Balantyne, e decidiu a averiguar o que. Uma vez que esgotou as fontes imediatas de conhecimento sobre o general voltou para a carreira militar de Colé. Era a possibilidade mais evidente.

Ao consultar o histórico de seu regimento, o 33.° de infantaria, viu que tinha participado da campanha abissínia de 1867-1868. Era o ponto de contato com os anos do Balantyne na Índia, enviado a África em uma breve missão. Exato! De repente tudo enquadrava. Tinham servido juntos. O motivo da presença e ulterior assassinato de Colé no Bedford Square era um episódio daquela campanha.

Sentiu que lhe acelerava o pulso pelo entusiasmo. Devia ir ao Keppel Street para informar ao Pitt daquela notícia tão importante.

Tomou o ônibus, desceu no Tottenham Court Road e caminhou uns cem metros até a casa dos Pitt.

Puxou a campaninha e retrocedeu um passo. Abrir-lhe-ia Gracie, é claro. Passou os dedos pela parte interior do pescoço de maneira inconsciente, como se lhe apertasse, e depois pelo cabelo, que penteou para trás sem necessidade. Tinha a boca um pouco seca.

Abriu-se a porta. Gracie parecia surpreendida. Olhou-o nos olhos, alisando o avental à altura dos quadris.

— Devo informar ao senhor Pitt - disse Tellman de maneira um pouco brusca.

— Pois então será melhor que entre, não? - disse ela sem lhe dar tempo para explicar-se de maneira mais cortês.

Afastou-se para deixar que entrasse. Ele aceitou e percorreu o corredor até a cozinha ouvindo o repicar de suas botas no chão de linóleo. Os pés de Gracie, que ia atrás dele, faziam um ruído mais suave, feminino, apesar de sua proprietária ser miúda como uma menina.

Tellman entrou na cozinha pensando achar ao Pitt sentado à mesa, e ao não vê-lo reparou em seu engano: claro, estaria no salão. Como não era uma visita social falariam na cozinha, não na parte dianteira da casa.

Deteve-se no centro da estadia, rígido e receptivo a calidez do ambiente, os aromas de bolo, roupa limpa e vapor da água posta a ferver, assim como às minúsculas partículas de carvão. O primeiro sol da tarde entrava pela janela e iluminava as peças de porcelana a riscas azuis e brancas do aparador. Junto ao fogo dormitavam dois gatos, um avermelhado e branco e o outro negro como o carvão do fogão.

— Não fique aí parado como um poste! - replicou-lhe Gracie. — Sente-se. – Assinalou uma das cadeiras de madeira. — Quer uma taça de chá?

— Devo comunicar informação muito importante ao senhor Pitt - disse ele friamente, — não beber chá com você na cozinha. Vá dizer-lhe que cheguei.

Não se sentou.

— Não está em casa - disse ela, colocando o recipiente da água no centro da placa. — Se for tão importante o melhor é que me deixe a mensagem. Ocupar-me-ei de que o receba assim que chegue.

Tellman vacilou. Era importante, sim. A água fervia tentadoramente. Levava muito tempo sem sentar-se, e mais sem comer nem beber. Doíam-lhe os pés.

O gato negro se espreguiçou, bocejou e voltou a dormir.

— Fiz bolacha. Gosta? - disse Gracie, deslocando-se pela cozinha com celeridade.

Baixou o bule e tentou alcançar a caixa do chá, que tinha ficado ao fundo da prateleira, mas não lhe serviu de nada ficar nas pontas dos pés nem saltar. Sim, era baixa.

Tellman se aproximou, desceu a caixa e a entregou.

— Posso fazê-lo sozinha! - disse ela secamente, arrebatando-lhe. — O que acredita

que faço quando não está você?

— Beber água.

O olhar do Gracie foi como uma lâmina de barbear, mas levou a caixa até o fogão.

—Pois aproveite para descer alguns pratos - lhe indicou. — Não sei se quer bolo, mas eu comerei.

O sargento obedeceu. Possivelmente fosse melhor lhe deixar a mensagem. Dessa maneira demoraria o mínimo para chegar até Pitt.

Sentaram-se cara a cara, rígidos e muito formais, dando goles a um chá muito quente e comendo uma bolacha deliciosa.

Tellman expôs os dados sobre o Albert Colé, o trinta e três de infantaria, a expedição a Abissínia e a chegada do Balantyne procedente da Índia.

Ela escutou com grande seriedade, como se a contrariassem as notícias.

— Direi isso - prometeu. —E você acredita que o assassino é o general Balantyne?

—É possível.

Não quis comprometer-se. Se o afirmava e acabava demonstrando-se que estava equivocado, Gracie lhe perderia o respeito.

— E agora o que pensa fazer? - perguntou ela com gravidade, olhando-o fixamente.

— Averiguar todo o possível a respeito de Colé - respondeu ele. — Devia ter alguma razão para procurar o Balantyne depois de tanto tempo. Quase aconteceu um quarto de século.

Gracie se inclinou para ele.

— Certamente é algo muito importante, e se o averigua terá que dizer ao senhor Pitt... esteja onde estiver e faça o que faça. Eu lhe aconselho que venha aqui e deixe a mensagem à senhora Pitt ou a mim. Com pessoas de presunção, como os generais, pode ficar a coisa muito feia. Não faça nada sozinho. - Olhou-o com profunda inquietação. — De fato... o melhor é que informe à senhora Pitt antes que a ninguém; pode ser que o ajude, porque também é de boa família. Assim impedirá que você e o senhor Pitt se equivoquem , que não são da mesma classe.

Lia-se em seus olhos o desejo de que Tellman a entendesse.

Era uma simples criada, fazia pouco tempo que sabia ler e escrever, e procedia de... qualquer favela, ou seja qual for, pensou o sargento, sem dúvida parecido a dele. Podia ser Wandsworth, Billingsgate ou um centenas de colméias humanas, antros de pobreza e opressão. Não obstante era mulher, por isso carecia até da mais rudimentar educação. Tellman, em troca, tinha melhorado muito de posição.

A proposta, contudo, tinha sua lógica.

Gracie lhe serviu outra xícara e lhe cortou outro pedaço de bolo.

Ele aceitou agradado a ambas as coisas, surpreso por seus dotes de cozinheira. Parecia-lhe muito miúda e fraca para saber um pouco de comida.

— Deve contar-me - repetiu ela — e me assegurarei de que a senhora Pitt evite confusões ao senhor, porque há pessoas influentes que se se equivocam poderiam prejudicá-lo.

Tellman cada vez se achava mais à vontade na cozinha. Ele e Gracie estavam em desacordo sobre toda classe de temas. Ficava-lhe muito que aprender, sobre tudo em temas sociais, de eqüidade e justiça para o povo, mas era bem-intencionada e ninguém podia acusá-la de não lutar por suas crenças.

— Não parece má idéia - reconheceu.

Preferia, dentro do possível, que Pitt não se metesse em embrulhadas políticas. Não o preferia necessariamente (ou não de tudo) por lealdade a seu superior, por quem seguia guardando sentimentos desencontrados, mas havia uma questão de justiça: se o general Balantyne se achava acima da lei seria preciso muita destreza e bom trabalho detetivesco para apanhá-lo e demonstrar sua culpa.

— Assim é que eu gosto - disse Gracie com satisfação, pegando um pedaço de bolo. — Digo: venha e nos diga a mim ou à senhora o que saiba. Assim ela o dirá ao senhor e ao mesmo tempo o ajudará a não ser imprudente, com o risco de que nunca se saiba a verdade. Pense que uma coisa é a porta principal e outra a de serviço.

Olhou ao sargento com atenção para certificar-se de que o tivesse entendido.

— Já sei! - disse ele. — Mas não deveria ser assim. Os ricos não são melhores soldados que os pobres. Mas bem o contrário!

Ela o olhou inquisitivamente.

— Agora com o que me vem?

— O general Balantyne só é general porque seu pai lhe comprou o posto – explicou com paciência. Possivelmente esperasse muito dela. Com certeza além de dar ordens nunca pisou no campo de batalha.

Gracie se moveu na cadeira, como se lhe custasse muito não perder a calma para estar quieta.

— Pois se tiver tanto dinheiro mais vale que nos andemos com pés de chumbo - disse, zangada e sem olhar ao Tellman. Depois levantou um olhar que lançava faíscas.    — Com certeza se pode chegar a general por dinheiro? E sendo tão rico, que sentido tem meter-se no exército? É uma tolice.

— Você não o entenderia - disse ele com presunção. — São diferentes de nós.

— Quando lhes pegam um tiro não - replicou ela imediatamente. — O sangue é sangue, seja de quem for.

—Isso sabemos você e eu, mas eles acreditam que o seu não só é diferente mas também melhor.

Gracie suspirou com toda a paciência do mundo, como quando Daniel lhe contrariava por princípio e desobedecia só para ver até onde podia chegar.

— Disso, senhor Tellman, você saberá muito mais que eu. Que sorte tem o senhor Pitt de contar com alguém que lhe economize tantos equívocos!

— Faz-se o que pode - disse ele, aceitando o terceiro pedaço de bolo e permitindo que voltasse a lhe encher a xícara. - Obrigado, Gracie.

Ela grunhiu.

Meia hora mais tarde, entretanto, quando o sargento partiu sem ter visto o Pitt nem Charlotte, assaltou-o uma grande inquietação pelo que acabava de prometer. O dia tinha sido longo e fatigante. Fazia calor, doíam-lhe os pés e tinha caminhado vários quilômetros sem comer nada além de um sanduíche de queijo e pepinos japoneses e a bolacha de Gracie. Ela tinha conseguido que estivesse à vontade, e ele, sem dar-se conta, tinha-lhe dado sua palavra de que lhe transmitiria qualquer novidade sobre o caso Albert Colé antes que ao Pitt. Devia ter perdido o juízo! Nunca tinha cometido tamanha estupidez, nem tão oposta a tudo o que lhe tinham ensinado.

Este último, de todo modo, não costumava dissuadi-lo de nada. Não era dos que obedeciam ordens contra seu parecer.

Estava muito cansado para ter as idéias claras. Afligia-o unicamente a sensação de estar desorientado, de ter obedecido ao impulso mais que a sua maneira de ser, seus costumes e o proceder habitual.

Entretanto tinha dado sua palavra... e nem mais nem menos que à Gracie PPS!

 

Ao chegar a casa, Pitt recebeu as notícias do Tellman pela boca de Gracie e o entristeceu profundamente o fato de que as provas parecessem relacionar mais estreitamente ao Albert Colé e Balantyne. Propôs-se ordenar ao sargento que averiguasse todo o possível a respeito de Colé, com preferência por seus antecedentes de roubo ou tentativas de extorsão. Em realidade lhe parecia impossível que na vida do Balantyne houvesse algo que pudesse convertê-lo em vítima de uma delas. Já fazia anos que as tragédias do pobre general tinham sido expostas com violência à luz pública, sem que ficasse nenhuma curva de amargura por iluminar.

Recordou uma vez mais as circunstâncias quando passou ao lado do vendedor de jornais e lhe ouviu apregoar as manchetes:

— Aparece um cadáver diante da casa de um general! O assassinato de um velho soldado no Bedford Square traz de cabeça à polícia! Leiam tudo e tirem suas próprias conclusões! Quer um, senhor? Obrigado. Tome!

Pitt pegou seu exemplar, abriu-o e sentiu aumentar sua ira e consternação à medida que avançava na leitura. O texto era muito vago para ser levado aos tribunais, mas a insinuação ficava clara: posto que Balantyne era general, com certeza em algum momento tinha tido ao morto a suas ordens. Unia-os algum vínculo de amor ou ódio, conhecimento, vingança ou conspiração. Nem sequer faltava uma alusão velada à traição, tão sutil que a alguns podia lhes passar despercebida, mas não a todos. Nada do dito carecia de certa verossimilhança.

E tudo era capaz de afundar ao Balantyne.

Dobrou o jornal, o pôs debaixo do braço e seguiu caminhando até a delegacia de polícia do Bow Street.

Justo depois que entrou chegou um agente a lhe dizer que tinha uma mensagem: o subchefe Cornwallis desejava vê-lo imediatamente. Não tinha declarado o motivo.

Pitt voltou a levantar-se sem olhar nada do que tinha em cima da mesa. O primeiro que temeu foi que Cornwallis tivesse recebido outra carta onde figurassem as condições pelas que o chantagista guardaria silêncio. Ocorreram-lhe todas as possibilidades, desde simples dinheiro a informação sobre casos delitivos, e até manipulação de provas.

Não teve o trabalho de deixar uma mensagem ao Tellman, o qual se arrumaria perfeitamente só. O sargento não necessitava instruções do Pitt nem de ninguém para investigar a vida e costumes do Albert Colé. Saiu à rua, caminhou até o Drury Lane e pegou uma carruagem. O veículo deu meia volta e se dirigiu para o sul sem que seu ocupante prestasse atenção a nada: o resto do tráfico, a manhã buliçosa e ensolarada, a discussão de dois carreteiros que transportavam cerveja, os cocheiros deixando passagem a uma esplêndida limusine fúnebre em perfeita harmonia com quatro cavalos negros adornados com penachos da mesma cor... Três quarteirões mais à frente, tampouco prestou atenção em um cupê aberto cujas passageiras, seis garotas bonitas, riam coquetes e moviam suas sombrinhas, pondo em perigo a todos os veículos de tiro que passassem o bastante perto para ser golpeados pelos mencionados objetos.

Introduziram-no ao escritório do Cornwallis, a quem achou como tantas outras vezes ao lado da janela que dava à rua. Ouvindo-o entrar, Cornwallis virou sobre seus calcanhares. Estava pálido, com olheiras e os lábios tensos.

— Bom dia - disse enquanto Pitt fechava a porta. — Entre. - Assinalou as cadeiras em frente da mesa com um vago gesto, mas ele continuou de pé e em equilíbrio instável, como se tivesse intenção de começar a passear pelo escritório assim que gozasse da atenção completa do Pitt. — Conhece Sigmund Tannifer?

— Não.

Cornwallis o olhava fixamente. Tinha o corpo tenso e as mãos nas costas.

— É um banqueiro com muito renome na City e um grande poder nos círculos financeiros.

Pitt aguardou.

Cornwallis começou a passear de maneira compulsiva: cinco passos em um sentido, meia volta veloz e cinco no contrário, como se o escritório fosse a coberta de um navio com o vento a favor e a ponto de entrar em combate.

— Ontem à noite me chamou - disse atropeladamente. — Parecia... angustiado. - Chegou ao final e deu outra meia volta, olhando ao Pitt de esguelha. — Não quis me dizer do que se tratava, mas me perguntou pelo caso do Bedford Square, concretamente quem o investigava. - Giro e volta. — Disse-lhe que você e me pediu vê-lo... em privado... o quanto antes possível; esta manhã, de fato. - Voltou a aproximar-se com as mãos cruzadas nas costas. — Eu lhe perguntei se tinha informação sobre o caso, pensando que possivelmente lhe tivessem roubado a ele ou a algum conhecido... algum vizinho do Bedford Square. - Deteve-se com olhar de desconcerto, muito piorado. — Disse que não sabia nada, que se tratava de outro assunto, privado e muito grave. - Aproximou-se da escrivaninha e entregou um papelzinho a Pitt. — Tome o endereço. Está em casa esperando-o.

Pitt pegou o papel e o leu de uma olhada. Tannifer vivia em Chelsea.

— Sim, senhor. Vou em seguida.

— Perfeito. Obrigado. - Por fim ficou quieto Cornwallis. — Comunique-me do que se trata. Estarei de volta antes que você... ou isso acredito.

— De volta? - perguntou Pitt.

— Como? Ah, sim. - Cornwallis exaltou com lentidão. — Tenho que ir a meu clube, o Jessop. Confesso que não tenho vontade nem tempo. - Esboçou um sorriso para dissimular um pouco o primeiro. Tinha pavor a visitar o clube, como se houvesse alguma possibilidade de que seus amigos e colegas já conhecessem o conteúdo da carta e lhe dessem crédito (ou no mínimo duvidassem). — Mas tenho que ir – explicou. — É um comitê de caridade, muito importante para faltar. Para as crianças.

Disse-o um pouco envergonhado, e se apressou a dar meia volta para recolher o chapéu e sair depois de Pitt.

Pitt tomou uma carruagem e, novamente ensimesmado, pediu que o levassem ao Queen Street, justo ao lado do embarcadouro de Chelsea. Era um bairro bonito, próximo ao Jardim Botânico, além da fachada do hospital da Chelsea e o amplo espaço do Burton’s Court. O final da rua desembocava diretamente no rio, que estava azul e cinza e refletia o sol.

Bateu na porta do número escrito no papel e mostrou seu cartão ao lacaio que a abriu. Franquearam-lhe o acesso a um vestíbulo com chão lajeado e vários tapetes persas, cujas paredes estavam adornadas por uma gama completa de armas históricas, de uma espada de cruzado a dois pares de pistolas de duelo e dois estoques, passando por um sabre napoleônico. Pouco depois o conduziram a um estúdio com paredes de madeira cuja porta se abriu depois de cinco minutos de espera, dando passagem a um homem alto e de cabelo negro. Era um personagem que chamava a atenção, embora de feições muito poderosas, muito carnudas para ser qualificado de bonito.

Pitt lhe calculou uns cinqüenta e cinco anos, dono de uma fortuna considerável. Sua roupa era de um corte irrepreensível, e de um tecido que por sua queda possivelmente levasse um pouco de seda. O mesmo indicava o brilho de sua gravata.

— Obrigado por vir, delegado. Foi muito amável. Fique a vontade, o rogo.

Indicou as cadeiras de couro escuro e gasto, e assim que viu sentado ao Pitt em uma delas fez o mesmo com a do lado oposto, mas longe de relaxar-se permaneceu erguido e com as mãos juntas. Não delatava um nervosismo a flor de pele, mas se observava nele uma profunda inquietação.

A Pitt ocorreram várias perguntas, mas as guardou. Deixaria falar livremente Tannifer.

— Soube que investiga o desgraçado incidente do Bedford Square - disse o dono da casa, medindo o terreno.

— Sim - respondeu Pitt. — Neste momento meu sargento indaga na vida do morto com o objetivo de averiguar que fazia na praça. Costumava mover-se pelo Holbom. Vendia cordões em uma esquina do Lincoln’s Inn Fields.

— Sim. - Tannifer assentiu. — Li no jornal que tinha sido soldado. É certo?

— Com efeito. Sabe algo dele, senhor Tannifer?

O banqueiro sorriu.

— Nada, por desgraça. - Apagou-lhe o sorriso. — Só queria falar com você pelo que dá a entender a imprensa a respeito da possível implicação do pobre Balantyne. Não cabe dúvida de que é você um homem perspicaz e discreto, merecedor da plena confiança do Cornwallis. Do contrario não lhe teria atribuído um caso destas características.

Observava Pitt com grande vagar, formando uma opinião dele.

Pitt considerou que folgava responder. Uma negativa ditada pela modéstia seria deslocada. Tannifer estava resultando ser todo um perito no caso.

Apertou os lábios.

— Senhor Pitt, recebi uma carta muito inquietante. Poderia ser qualificada de chantagem, a não ser porque não pede nada.

A impressão deixou ao Pitt quase sem fôlego. Era o último que esperava. O opulento banqueiro em cuja presença se achava não tinha o aspecto angustiado do Cornwallis, mas possivelmente se devesse a que ainda não tinha avaliado toda a importância do que significava a carta. Cedo ou tarde chegariam a tensão, o medo e as noites em claro.

— Quando a recebeu, senhor Tannifer?

— Na última partilha da tarde - respondeu o banqueiro, — e informei ao Cornwallis sem demora. Como nos conhecemos faz tempo, considerei que podia tomar a liberdade de ir a ele diretamente e até ir incomodá-lo a sua casa. - Respirou muito fundo e esvaziou os pulmões, relaxando os ombros de maneira voluntária. — Veja você, senhor Pitt, encontro-me em uma posição muito delicada. Minhas possibilidades de seguir com minha carreira, de ser útil a alguém, dependem por completo da confiança.

Olhou Pitt no rosto para ver se o entendia, e apareceu em seus olhos um indício de dúvida. Possivelmente esperasse muito.

— Posso ver a carta? - pediu Pitt.

Tannifer mordeu o lábio e trocou de postura, mas não opôs resistência.

— Como não. Está aqui, no canto da mesa.

Assinalou-a com uma mão, como se lhe desse reparo o mero fato de voltar a tocá-la.

Pitt se levantou e levantou o envelope da superfície brunida onde descansava. O nome e o endereço tinham sido confeccionados com letras recortadas dos jornais, mas tão minucioso e preciso era o recorte, estavam tão bem coladas , que a primeira vista pareciam impressas.

O carimbo correspondia à zona centro e a na tarde anterior. Abriu-a e leu a única folha que continha.

Senhor Tannifer:

O exercício de seus dotes financeiros lhe granjeou riqueza e respeito, sempre com dinheiro alheio. Ambas as coisas se apóiam na confiança das pessoas, que não põe

em dúvida sua honradez. Pensariam o mesmo se soubessem que em uma ocasião não foi você tão escrupuloso, e que incrementou sua fortuna pessoal usando recursos desfalcados a seus clientes?

Warburton e Pryce, ao parecer. Ignoro a soma, e é possível que nem você a recorde. Possivelmente não chegasse a conhecê-la. Para que contar o que não pensava devolver? Você tem sentido do absurdo?

Deve ter, ou não permitiria a ninguém lhe confiar seu dinheiro. Eu não o faria!

Talvez chegue o dia em que ninguém o faça.

Isso era tudo. O sentido estava muito claro, como na carta do Cornwallis, e igualmente nesta não se pedia nada nem se formulavam ameaças concretas e explícitas. Entretanto a dureza, a malevolência e o perigo não podiam ser mais claros.

Pitt olhou ao Tannifer, que o observava quase sem pestanejar.

— Já o vê! - disse o banqueiro com acrimônia, como se a quietude fora um mero e fino verniz. — Não pede nada, mas a ameaça está presente. - Inclinou-se para a mesa, enrugando-a jaqueta. — É completamente falso! Não roubei meio penny em toda minha vida, e acredito poder demonstrá-lo com tempo suficiente e uma auditoria minuciosa dos livros do banco.

Ficou olhando ao Pitt, esquadrinhando seus olhos e seu rosto como se desejasse vivamente perceber esperança ou compreensão.

— Mas o simples fato de que fizesse tal coisa ou acreditasse necessária – continuou - semearia a dúvida. Basta uma insinuação para me afundar; a mim e ao banco, a menos que me despeçam. A única solução seria me demitir. - Fez um gesto amplo e um pouco torpe com as mãos. — E mesmo assim haveria pessoas que o interpretariam como um reconhecimento de culpa. Meu Deus! O que posso fazer?

Pitt teria querido lhe dar uma resposta que lhe infundisse a esperança que tanto ansiava, mas não havia nenhuma maneira de fazê-lo sem incorrer em falsidade.

Devia lhe dizer que não era o único?

— Sabe alguém mais? - perguntou, assinalando a carta.

— Só minha mulher - respondeu Tannifer. — Se deu conta de meu estado e tive que escolher entre lhe contar a verdade ou inventar uma mentira. Sempre confiei plenamente nela, e a mostrei.

Pitt pensou que tinha sido um engano. Temia que a esposa do banqueiro se assustasse tanto que não soubesse dissimular sua angústia, e até sentisse a necessidade de confiar em terceiros, como sua mãe ou uma irmã.

Tannifer deve lhe ter lido os pensamentos no rosto, porque sorriu e disse:

— Não tema, senhor Pitt. Minha esposa é uma mulher de lealdade e valentia excepcionais. Confio nela mais que em ninguém.

Era uma afirmação pouco habitual. Bem pensado, entretanto, Pitt haveria dito o mesmo do Charlotte. Por isso se ruborizou um pouco e se sentiu culpado por ter menosprezado à senhora Tannifer sem nenhuma prova.

— Peço-lhe desculpas - disse, arrependido. — Só pensava...

— É natural - interrompeu o banqueiro, tirando importância ao incidente e sorrindo pela primeira vez. — Em geral teria você razão. Não há motivo para envergonhar-se.

Pegou a corda da campainha e puxou-a . Pouco depois aparecia um lacaio.

— Faça o favor de chamar à senhora Tannifer - ordenou Tannifer. Quando estiveram a sós voltou a olhar ao Pitt com seriedade. — Que ajuda pode nos prestar, delegado? Como devo me comportar com respeito a esta... ameaça?

— O primeiro é não contar a ninguém - respondeu Pitt com olhar grave. — Não propicie a menor suspeita. Pense em alguma causa verossímil a que atribuir sua angústia em previsão de que repare alguém nela. É preferível não fingir que vai tudo bem, porque se arriscaria a não ser acreditado. Não dê alimento às especulações.

— Claro, claro.

Tannifer assentiu com a cabeça.

Ouviram-se golpes suaves na porta, que se abriu pouco depois e revelou uma mulher cujo aspecto, a simples vista, parecia bastante anódino. Era de estatura média, um pouco magra e de ombros angulosos; debaixo do vestido, que quase não tinha anquinhas, os quadris se adivinhavam muito estreitos para ajustar-se na moda, e inclusive à idéia de feminilidade. Seu cabelo loiro escuro possuía uma ondulação natural. Suas feições não eram formosas: o nariz carecia de elegância, e os olhos, grandes e azuis, olhavam muito fixamente. Em sua boca delicada se lia uma estranha vulnerabilidade. O chamativo era o porte. Aquela mulher estava dotada de uma graça peculiar que a teria levado a destacar-se em qualquer multidão, e seu atrativo crescia quanto mais a olhava.

Os dois homens se levantaram.

— Parthenope, apresento-lhe o delegado Pitt, do Bow Street - disse Tannifer. — Vem a propósito da maldita carta.

— Quanto me alegro! -apressou-se ela a responder. Sua voz era cálida e um pouco rouca. Olhou ao Pitt com seriedade. — É diabólico! Quem a escreveu é o último em acreditar no que diz. Utiliza a ameaça de uma mentira para fazer mal e... algo quer, mas ignoro o que. Nem sequer o diz! Como podemos lutar contra ele? Aproximou-se de seu marido e uniu seu braço com o seu de maneira quase inconsciente. Era um gesto ao mesmo tempo espontâneo e intensamente protetor.

— Em primeiro lugar comporte-se com naturalidade - repetiu Pitt, dirigindo-se esta vez à Parthenope Tannifer, — mas se alguém se dá conta de que está nervosa justifique o de outra maneira. Não tente enganá-lo com uma negativa em que não acreditaria.

— O irmão de minha esposa está na Índia, concretamente no Manipur, de onde chegam notícias bastante inquietantes. - Vendo que Pitt assentia com a cabeça, o banqueiro continuou falando. — Saberá você que em setembro do ano passado houve um golpe no palácio. Os nossos o interpretaram como uma rebelião, e em março deste ano nosso representante em Assam ficou no comando de quatrocentos gurkhas e partiu sobre Imphal, a capital de Manipur, para entabular conversações. A sua chegada foram capturados e mortos.

Franziu o sobrecenho, como se ainda não desse crédito ao resto da história.

— Parece - disse — que não ficou nenhum oficial com posto suficiente, por isso a jovem viúva do agente político conduziu os oficiais britânicos para fora da cidade e os gurkhas sobreviventes, atravessando a selva e subindo pelas montanhas em direção a Assam. Foram resgatados por uma tropa de gurkhas que chegava na direção contrária. - Permitiu-se uma breve risada. — Sempre posso dizer que estou preocupado por ele. Deveriam me acreditar.

Olhou a Parthenope, que expressou sua conformidade com um brilho de imaginação e orgulho no olhar. Pitt reconduziu seus pensamentos dos atos insólitos do Manipur à presente e lamentável situação em Londres. A idéia de que dois destacados personagens sofressem a ameaça de uma forma peculiar de desprestígio público, sem que em nenhum caso lhes pedisse um preço, deu-lhe calafrios.

Também o obrigou a perguntar-se se o general Balantyne não seria a terceira vítima do plano, do qual não teria falado por medo ou vergonha. Em seu caso, a ameaça era naturalmente maior: a aparição de um cadáver diante de sua porta tinha despertado a atenção pública e as pesquisas da polícia.

Era Albert Colé o chantagista?

Parecia muito pouco provável. As reflexões do Pitt levavam a descartá-lo. Pegou a carta de Tannifer e a releu. Seu estilo elaborado não podia dever-se a um simples soldado convertido em mascate de cordões.

Entretanto, levava no bolso a caixa de rapé do general, objeto que tinha resultado carecer de valor mas não de beleza nem provavelmente de unicidade.

Tannifer e Parthenope o olhavam com atenção.

— Lembrou algo importante, delegado? - perguntou o primeiro, preocupado. — Me inquieta a expressão de seu rosto.

Parthenope estava rígida e com a boca torcida pelo medo.

Pitt tomou uma decisão rápida.

— Não é você o único que sofre as ameaças do autor da carta, senhor Tannifer...

Calou ao ver assombro no rosto do banqueiro, e algo que podia interpretar-se como alívio.

— Que horror! - estalou Parthenope, retesando todo o corpo e afastando seu braço do de Tannifer. Juntou estreitamente as mãos em frente. — A quem mais...? Perdão, perdão! Que estúpida pergunta. Compreendo que não nos pode dizer isso. Sei que o contrário implicaria explicar nossa difícil situação a outras pessoas.

— Não, senhora Tannifer - corroborou Pitt, — garanto-lhe que jamais falaria dela sem sua permissão. Trata-se, igual a seu marido, de um homem de honra, um personagem destacado cuja reputação nunca tinha sido posta em interdição. Acusa-lhe de uma falta que lhe repugna mais que qualquer outra; por desgraça não pode demonstrar sua inocência, que é completa. De momento não pode, embora seja possível que um trabalho consciencioso o facilite. O ato que lhe atribui também pertence ao passado, e muitas das pessoas que poderiam havê-lo desmentido morreram.

— Pobre! - disse Parthenope com compaixão. Tinha o rosto corado e o olhar franco. — O que podemos fazer, senhor Pitt?

Este desejava achar uma resposta que infundisse ânimos à mulher do banqueiro e lhe desse a sensação de participar da luta, mas sua seguinte intervenção ia dirigida a seu marido.

— O culpado deve ficar definido por uma série de condições - disse, pensativo. — É necessário que conheça o incidente que motiva a carta. Teve alguma divulgação?

— Nenhuma. - Tannifer se animou. — Sim, entendo o que diz: só pode tratar-se de alguém que o viveu ou soube através de um dos implicados. É certo que as possibilidades ficam muito restringidas, mas aludiu você a mais de uma condição. Qual é a outra?

—É necessário que deseje algo de você, algo que lhe seja de proveito. Uma maneira de saber algo mais a respeito de sua identidade é que você pense o que pode fazer por ele, à parte, claro está, de lhe pagar uma soma de dinheiro.

Tannifer franziu o sobrecenho.

— Não acredita que vá pedir me dinheiro, uma vez que se sinta seguro de seu poder?

— É possível - respondeu Pitt. — Você é um homem rico, com recursos ao seu dispor?

Tannifer vacilou.

— Pois... a curto prazo não poderia pagar somas elevadas, e vender propriedades leva seu tempo...

— Influência! - interveio Parthenope com impetuosidade. — Claro, é o mais lógico. -Olhou a Tannifer e depois ao Pitt. — Tem influência a outra vítima, delegado?

— Sim, senhora Tannifer, mais influência que dinheiro. Possui muita em certos âmbitos.

Apareceu um sorriso amargo na boca do Tannifer.

— Deduzo que não se refere ao Brandon Balantyne, cuja influência atual é nula. - Sacudiu ligeiramente a cabeça, gesto estranho de desespero. — Este caso é repugnante, delegado. Rezo por que possa nos ajudar.

Parthenope também olhou ao Pitt com gravidade, mas não acrescentou nada às palavras de seu marido.

— Poderia fazer uma lista, senhor Tannifer? - sugeriu Pitt.

— É claro. Enviá-la-ei ao Bow Street assim que a tenha terminado - prometeu o banqueiro, lhe estendendo a mão. — Obrigado por vir, senhor Pitt. Deposito em você toda minha confiança. A dos dois. Rogo-lhe que agradeça de minha parte ao Cornwallis por enviá-lo com tanta rapidez.

Pitt partiu afligido pelos maus pressentimentos e a sensação de que as cartas ao Cornwallis e Tannifer delatavam um poder muito maior do que tinha imaginado a início. Não tinham nada de torpe ou precipitado, nem procediam de um homem ambicioso que queria tirar dinheiro do conhecimento de um engano. Justamente o contrário: tratava-se de um plano esboçado com esmero, e provavelmente com tempo; um plano cujo objetivo era ganhar poder mediante a corrupção de uma série de personagens influentes.

E apesar das palavras do Tannifer sobre o retiro do Balantyne, Pitt não pôde evitar perguntar-se se também seria vítima de uma chantagem. Estava seguro de que o general tinha medo de algo, e de que esse algo guardava relação com a caixa de similar achada no bolso do Albert Colé. Como tinha chegado à mãos deste último? A resposta esclareceria muitas coisas sobre a causa de sua morte.

Retornou ao Bedford Square com o firme propósito de voltar a falar com Balantyne e tratar de lhe surrupiar algo. Não descartava lhe perguntar diretamente se tinha recebido uma carta. O lacaio, entretanto, informou-lhe que o general tinha saído a primeira hora sem dizer em que momento retornaria. Não se esperava que o fizesse antes do jantar.

Pitt agradeceu ao criado e foi a City para indagar sobre o Tannifer, sua reputação e categoria como banqueiro e, se fosse possível, a influência que pudesse ter sobre as economias alheias. Também queria saber se existia alguma relação entre ele e Cornwallis, e inclusive Balantyne.

Charlotte não tinha nenhuma intenção de deixar que o general Balantyne perseguisse por sua conta o chantagista. Por isso na manhã seguinte uniu suas forças às dele. Acharam-se na escadaria do Museu Britânico, onde voltou a reconhecê-lo a vários metros de distância, apesar da grande quantidade de transeuntes e a presença de meia dúzia de pessoas que esperavam ou conversavam entre si. O que chamava a atenção (certamente mais do que suspeitava o próprio general) era seu porte exageradamente erguido. Charlotte pensou que parecia esperar a carga iminente de um pelotão com baionetas ou uma horda de guerreiros zulús.

O rosto do Balantyne se iluminou ao vê-la, mas sua alegria, pelo resto evidente, não conseguiu aliviar sua tensão.

— Bom dia, senhora Pitt - disse, descendo à calçada para ir a seu encontro. — É muito generosa por me prestar sua ajuda e sacrificar seu tempo a uma busca que poderia não dar frutos.

— Não há batalha que mereça esse nome sem o risco do fracasso – lhe recordou ela com tom enérgico. — Quando começo as coisas não necessito a segurança do êxito.

O general se ruborizou um pouco.

— Não pretendia dar a impressão de que ponho em dúvida sua coragem...

Dirigiu-lhe um sorriso efusivo.

— Sei. Interpreto-o como simples abatimento por ser vítima de algo tão covarde, e por ter que lutar contra um inimigo invisível. - Caminhou pelo Great Russell Street com passo decidido; não tinha a menor idéia de aonde se dirigiam, mas era melhor que ficar parados. — Por quem começamos?

— Geograficamente, o mais próximo é James Carew - respondeu ele. — Vive no William Street, perto do parque.

Levantou o braço para deter uma carruagem. Ofereceu a mão a Charlotte para ajudá-la a subir e tomou assento a seu lado com as costas direitas e o olhar perdido. Já tinha dado o endereço ao cocheiro, o qual começou a desviar-se com rapidez de carruagens e carretas, ônibus e carruagens de cavalos.

Charlotte tinha a ponto vários temas de conversa, mas olhou de esguelha a seu acompanhante e pensou que qualquer deles significaria uma intromissão em seus pensamentos. Preferiu guardar silêncio. Era evidente que uma simples conversa, longe de atenuar a angústia do Balantyne, irritá-lo-ia insuportavelmente. Teria sido a prova de que Charlotte não entendia a profundidade de suas preocupações.

Desceram em William Street.

Quando bateram na porta do endereço que lhes tinham facilitado, um lacaio lhes disse que James Carew tinha empreendido uma aventura nas Montanhas da Lua. Não sabiam se voltaria nem quando.

— As Montanhas da Lua! - disse Charlotte, caminhando velozmente para o Albany Street com um redemoinho de saias, enquanto Balantyne tentava não ficar atrás. — Néscio impertinente!

Ele a pegou pelo braço e a reteve com uma suave pressão.

— Estão no Ruwenzori, no centro da África - explicou. — Foram descobertas pelo mesmo Henry Stanley de quem já lhe falei. Lembra-se? Faz dois anos...

— Dois anos?

Charlotte estava surpreendida.

— Descobriu-as faz dois anos - esclareceu ele, — em 1889.

— Ah. - Ela reduziu o passo e percorreu uns metros em silêncio, sentindo-se um pouco idiota. — Qual é o seguinte? - perguntou ao chegar ao Albany Street.

— Martin Elliott - respondeu ele sem olhá-la.

Disse-o com tão pouca esperança que Charlotte esqueceu sua irritação.

— Onde vive?

— Nos York Terrace. Poderíamos ir caminhando... a menos que...

Titubeou. Notava-lhe no rosto que acabava de ocorrer-se o a possibilidade de que ela não queria caminhar tanto ou não estivesse acostumada.

— É claro - disse ela com firmeza. — Faz um dia estupendo, e o passeio nos dará a oportunidade de fazer planos para depois de ter visto o senhor Elliott. Se conhecer o culpado ou é ele, dirá algo menos a verdade. Que tipo de pessoa é?

Balantyne se mostrou desconcertado.

— Mal o recordo. Era bem mais velho que eu, oficial de carreira de uma família com longa tradição militar. Parece-me que era loiro e tinha passado a infância na fronteira escocesa, mas não recordo se foi no lado inglês ou o escocês.

Recaiu em seu anterior silêncio, e caminhou olhando o chão como se estudasse o pavimento.

Charlotte se concentrou nas provas de que dispunham. O cadáver de Colé tinha sido encontrado diante da porta do Balantyne com a caixa de rapé no bolso. Vinte e cinco anos atrás tinha servido na mesma campanha abissínia que o general. O autor da carta ainda não tinha pedido nada à exceção da caixa de rapé, como objeto, e Balantyne, muito consciente do dano que podiam lhe fazer, não tinha podido negar-lhe.

— O que poderiam querer além de dinheiro? - disse em voz alta.

Ele, surpreso, virou sobre seus calcanhares.

— O que?

Charlotte repetiu a pergunta.

Balantyne desviou o olhar, enquanto pouco a pouco avermelhavam suas faces.

— Possivelmente o mero exercício do poder - respondeu. — Há pessoas que o tem como meta.

Ela falou por impulso, sem tempo para dúvidas que pudessem destruir seu arrojo, nem para uma prudência que derivasse em algo mais de tato.

— Sabe quem poderia ser?

O general se deteve e a olhou sobressaltado.

— Não. Tomara! - ruborizou-se levemente. — Perdoe, mas é que é um dos aspectos mais desagradáveis desta situação. Penso em todos meus conhecidos, em todas as pessoas que considerei amigas minhas ou no mínimo dignas de respeito, à margem de que fossem mais ou menos simpáticas, e agora duvido. A carta começa a poluir minha visão das pessoas. De repente, sem querer, pergunto-me se sabem, se conhecem meus temores e o vêem sorriem em segredo, esperando que perca os nervos. E todos serão inocentes menos um. - Apareceu em seus olhos uma ira amarga. — É um dos grandes males da acusação secreta: quão venenosa é, sua capacidade de destruir lentamente a confiança em pessoas que deveriam lhe merecer a maior avaliação e respeito. E os inocentes? Como pretendo que me perdoem por não ter sabido que o eram e ter guardado a menor suspeita? – Baixou a voz. — Como vou perdoar-me?

Uma mulher que passeava com um cachorrinho passou junto a eles, mas Balantyne estava tão angustiado que nem sequer a saudou com o chapéu (gesto que nele era tão automático que em circunstâncias normais o teria executado sem pensar).

Charlotte obedeceu ao impulso de estender a mão e apoiá-la no braço, exercendo certa pressão.

— Deve perdoar-se - disse, muito séria. — Quanto a outros, não terão necessidade de fazê-lo pelo simples motivo de que não saberão nada. Possivelmente seja o objetivo do chantagista: desmoralizá-lo tanto que quando pedir o que queira o encontre disposto a dar só para livrar do medo e das dúvidas e conhecer a identidade do inimigo para saber de uma vez por todas quem são seus amigos.

Apertou um pouco o braço do general e notou que retesava a musculatura, mas sem afastar-se.

— Recebi outra carta - disse ele, olhando-a no rosto. — Se parecia muito à primeira: recorte do Time colados a uma folha. Chegou com o primeiro correio do dia.

— O que continha? - perguntou ela, fazendo um esforço de contenção.

Tinha que evitar a toda custa que percebesse seu nervosismo.

O general engoliu a saliva. Estava muito pálido e se notava que lhe custava reproduzir as palavras.

— Que se meus amigos se inteirassem de que fui um covarde que fugiu da batalha, foi salvo por um soldado raso e não quis reconhecer sua vergonha, preferindo ser encoberto por ele, rechaçar-me-iam e trocariam de calçada para não cruzar-se comigo.      - Voltou a engolir a saliva com um movimento doloroso da garganta. Tinha a voz rouca.     — Que minha esposa, que já padeceu tanto, sofreria o golpe de graça, e meu filho se veria obrigado a renegar de seu sobrenome para não ver destruída sua carreira. - Olhou a Charlotte com dor e impotência. — E em tudo isso não há uma só palavra de verdade. Juro por Deus.

— Não duvidei de si em nenhum momento - disse ela com calma. A intensidade do sofrimento do general sortiu o estranho efeito de implantar em Charlotte a firme resolução de lutar em sua defesa até esgotar suas forças ou imaginação. — Jamais permita que se acredite vitorioso - disse com convicção; — a menos, claro está, que seja como ardil para obter que se delate. Agora mesmo, entretanto, não me parece benéfico em nenhum sentido.

Ele reemprendeu a marcha. Cruzaram com meia dúzia de pessoas que riam ou falavam entre si: mulheres de cintura muito fina e volumosas saias, com flores e penas no chapéu, e homens com jaqueta do verão. O meio-fio suportava um fluxo contínuo de carruagens.

Encontraram o antigo domicílio do Elliot e foram informados que tinha morrido dois meses antes por uma enfermidade do fígado.

Comeram em um restaurante pequeno e tranqüilo, esforçando-se ambos por não perder o ânimo. Depois tomaram a ferrovia subterrânea e cruzaram toda a cidade até chegar ao Woolwich em busca do Samuel Holt. Para Charlotte foi uma experiência extraordinária e completamente nova, apesar de que a tinha contado Gracie. Pareceu-lhe claustrofóbica e ruidosa. O trem corria a toda máquina por túneis larguíssimos que pareciam tubos, e rugia como cem bandejas de lata caindo em um chão de pedra. Reconheceu, contudo, que a viagem tinha sido notavelmente curta. Saíram ao vento rajado e morno do norte do rio, só a dois quarteirões da casa do Holt.

Este teve muito gosto em recebê-los, apesar de não poder levantar-se da poltrona (do que se desculpou, um pouco envergonhado). Tinha ficado inválido por velhas feridas e o reumatismo, mas respondeu rotundamente que tinha participado da expedição abissínia e a recordava perfeitamente. No que podia ajudá-los?

Charlotte e Balantyne aceitaram os assentos que lhes oferecia.

— Recorda o assalto ao trem de fornecimentos na planície do Arogee? –disse Balantyne, ansioso e incapaz de dissimular sua esperança.

— Arogee? Como não! - Holt assentiu. — Foi horrível.

Balantyne se inclinou para ele.

— Recorda que houve um grupo reduzido de soldados que sucumbiram ao pânico sob o fogo inimigo?

Holt refletiu com um olhar vítreo e ausente em seus olhos azuis, como se retrocedendo um quarto de século voltasse a ver as planícies da Abissínia, os céus brilhantes, a terra seca e as cores dos combatentes.

— Horrível - repetiu. — Assim morrem muitos. O pânico é o pior.

— Lembra-se de mim?

Olhou ao general com os olhos entrecerrados.

— Balantyne - disse, agradado.

— Lembra-se de que voltei em busca dos feridos? - perguntou ansiosamente o general. — Meu cavalo caiu e eu acabei no chão, mas demorei pouco em me levantar. Agarrei ao Manders e o ajudei a ficar a salvo. Tinha um balaço na perna. Você foi em busca do Smith.

— Ah, sim... Smith. Sim, lembro-me. - Holt o olhou com um sorriso encantador e os olhos muito abertos. — No que posso ajudá-lo, senhor?

— Lembra-se do que lhe digo?

— Pois claro! Foi espantoso. - Sacudiu a cabeça, e o sol iluminou seu cabelo branco. — Lástima, porque eram homens valentes.

O rosto do Balantyne se escureceu.

— Os abissínios?

Holt franziu o sobrecenho.

— Não; os nossos. Lembro-me de que os chacais... comiam aos mortos. Que horror! Por que me pergunta isso? - Piscou várias vezes. — Perdeu a muitos amigos?

As feições do Balantyne se contraíram. Seu aspecto lúgubre parecia acusar a morte de uma esperança.

— Simples lembranças - respondeu apoiando-se no espaldar. — Diferença de opinião com outra pessoa.

— Pergunte ao Manders e o dirá. Se você não chegasse para resgatá-lo o pobre teria morrido, isso está muito claro. É o que teria feito qualquer oficial como Deus manda. Quem o nega? - Holt estava sobressaltado e perturbado. — Se derramou muito sangue. Ainda me lembro da peste dos cadáveres.

A angústia lhe crispou o rosto. Charlotte olhou ao Balantyne e viu que também estava afetado pela triste lembrança.

— Era boa gente - murmurou Holt com tristeza. — Manders não estava entre as baixas, não e verdade?

— Mataram-no na Índia poucos anos depois - disse Balantyne em voz baixa.

— Vá! Que lástima. Perdi a conta. Com tantos mortos!

Ficou calado, observando ao general. Este respirou fundo, levantou-se e estendeu a mão.

— Obrigado, Holt. Agradeço-lhe que tenha tido tempo para mim.

O velho soldado ficou sentado em sua cadeira com expressão de satisfação, estreitando com força e longamente a mão do Balantyne. Brilhavam-lhe os olhos de alegria.

— Obrigado, general - disse. — Sua visita me alegrou muito.

Quando saíram à rua, Charlotte estava impaciente por olhar a seu amigo e comprovar seu alívio.

— Já está demonstrado! - disse, exultante. — O senhor Holt estava com você e poderá negar rotundamente a acusação.

— Por desgraça, não - respondeu Balantyne, esforçando-se tanto por dominar suas emoções que evitou olhá-la. — Na Magdala não houve baixas. O certo é que em toda a campanha só perdemos dois homens. Naturalmente que houve muitos feridos, mas só dois mortos.

Charlotte não entendia nada.

— Mas e o cheiro? - protestou, sem resignar-se ao que acabava de ouvir. — Ele se lembrava.

— Abissínios. No Arogee, quanto ao trem de fornecimentos, eram setecentos, e na Magdala nem sei. Matavam a seus prisioneiros e os arrojavam por cima da muralha. É o pior que já vi.

— Mas se Holt... disse... - balbuciou ela.

— Está mal da cabeça. Pobre! - O general caminhava depressa e muito erguido.       — Tem momentos de lucidez. Eu acredito que ao partir se lembrava de mim. Durante o resto do tempo se sentia só... e com vontade de nos agradar.

Charlotte, que lhe via o rosto de perfil, percebeu sua dor e o rouco de sua voz. Balantyne caminhava a grande velocidade, tanto que ela teve que recolher a saia e dar passadas sem que ele se desse conta. Acompanhou-o em silêncio com algum ou outro saltinho para não ficar atrasada. Quão único podia lhe oferecer era sua lealdade.

Tellman estava ocupadíssimo com suas indagações na vida recente do Albert Colé. Começou no Lincoln’s Inn Fields com um par de cordões. Encontrou a esquina habitual do finado e viu que já a ocupava outra pessoa, um homem magro em cujo rosto, pelo resto jovial, destacava-se um nariz mais largo do que o normal.

— Quer cordões?

O novo vendedor lhe mostrou um par que Tellman pegou e examinou de perto.  

— Não os achará melhores - lhe assegurou o homem.

— São do mesmo fornecedor que os de que estava aqui até recentemente? – disse Tellman, fingindo simples curiosidade.

O vendedor titubeou, porque não estava seguro de que resposta o beneficiava mais. Uma olhada ao rosto de Tellman não esclareceu suas dúvidas.

— Sim - se decidiu responder.

— Quem era o anterior?

— Compre-os , chefe. Tenho os melhores cordões de toda Londres.

Tellman tirou a soma pertinente, que era baixa.

— Continuou querendo saber onde os consegue. É para a polícia.

O homem empalideceu.

— Não são roubados!

— Já sei. Quero averiguar todo o possível sobre o Albert Colé, que estava aqui antes de você.

— Que bateu as botas?

— Esse. Conhecia-o?

— Sim, por isso tenho o posto. Que azar! Era boa pessoa. Tinha sido soldado até que lhe deram um tiro, não sei se na África. O que já não sei é que droga fazia no Bedford Square.

— Roubar? - sugeriu Tellman com dureza.

O vendedor ficou tenso.

— Perdoe, mas isso não se diz sem poder demonstrar. Albert Colé era um homem honrado que serviu a seu país, e espero que encontrem ao porco que o mandou ao outro bairro.

— Conte com isso - prometeu Tellman. — Mas ao que ia: de onde tirava os cordões?

— Era boa pessoa - disse o fornecedor de cordões quando o achou Tellman. Fez um gesto entristecido com a cabeça. — Londres já não é uma cidade segura. Se matam a um homem tranqüilo que não fazia mal a ninguém é que a polícia não faz bem seu trabalho.

Tellman ignorou a crítica.

— Tinha problemas econômicos?

— Claro, como qualquer um que venda cordões em uma esquina - disse o outro com mau tom. — Você ganha a vida com isto ou o faz por afeição?

Tellman teve que esforçar-se muito para não perder a calma. Lembrou-se de seu pai, que quando ele era menino se levantava às cinco da manhã, saía dos dois cômodos que ocupava a família no Billingsgate e se dedicava a levar fardos e caixas todo o dia no mercado de peixe. Pela tarde substituía a um cocheiro amigo dele e podia chegar a trabalhar até meia-noite. Isso fazia nas quatro estações, tanto no verão, quando os engarrafamentos eram diários e o ar quente cheirava a esterco (ou quando a chuva obstruía as sarjetas, as ruas se enchiam de porcaria e a luz dos lampiões iluminavam paralelepípedos negros e brilhantes), como no inverno, quando o vento gretava a pele e as ferraduras escorregavam perigosamente pelo gelo. Não o arredava nem a névoa mais espessa.

— Só tenho o que ganho - disse com um matiz de raiva na voz, — e meu pai poderia ensinar a qualquer um o sentido da palavra trabalho, incluindo você.

O fornecedor de cordões retrocedeu um passo; não o assustavam as palavras do sargento, a não ser o poço de ira que tinha destampado sem dar-se conta. Tellman se acalmou, embora a ferida da lembrança seguia sem cicatrizar. Apareceu-lhe o rosto chupado de seu pai, arrasado pelo frio e as preocupações e muito cansado para algo que não fosse comer e dormir. Tinha tido quatorze filhos, dos quais viviam oito. Quanto a sua mulher, cozinhava, lavava, costurava, varria, limpava baldes de água e os conduzia, fabricava sabão com lixívia e potássio e velava noites inteiras as crianças ou os vizinhos doentes. Era ela quem amortalhava aos mortos, que em muitas ocasiões eram familiares seus.

A maioria dos colegas do Tellman na polícia não imaginava o significado real do esgotamento, da fome e da pobreza; achava conhecê-lo, mas não era assim. Quanto às pessoas como o general Brandon Balantyne, com sua carreira comprada, vivia em outro mundo, como se fosse mais que humano, e sub-humanos Tellman e os seus. De fato respeitava mais a seus cavalos. Muito mais! E lhes dava melhor vida: estábulo quente, boa comida e uma palavra de afeto ao final da jornada.

Não obstante, e apesar do sobressalto, o fornecedor não soube lhe dar nenhum dado novo a respeito do Albert Colé, à exceção de que era um negociante completamente honrado e não podia atribuir-se a ele nenhuma irregularidade em seu trabalho, que não fosse algum dia de enfermidade. Desapareceu um dia e meio antes de que aparecesse seu cadáver no Bedford Square; o fornecedor, entretanto, assegurou desconhecer o motivo de sua presença na praça.

Tellman voltou a pegar o ônibus até Rede Lion Square, onde visitou as casas de empréstimo e perguntou pelo Albert Colé. Ninguém o conhecia de nome, mas o dono do terceiro estabelecimento visitado deu gestos de reconhecê-lo pela descrição do Tellman, sobre tudo o corte da sobrancelha esquerda.

— Parece com um homem que vinha bastante freqüentemente - disse com resignação, — sempre com algo mais ou menos suculento. A última vez foi um anel de ouro.

— Um anel de ouro? - perguntou Tellman. — De onde o tirava?

— Disse que o tinha encontrado - respondeu o prestamista, olhando-o sem pestanejar. — Às vezes desce aos esgotos e encontra de tudo.

Coçou o nariz com irritação.

— Aos esgotos?

— Sim. - Assentiu com a cabeça. — Há ouro, diamantes... de tudo.

— Já sei - disse Tellman. — Por isso é tão caro conseguir um trecho onde patrulhar, e o que se mete em território alheio ganha uma boa surra.

O prestamista parecia nervoso. Pelo visto não esperava que Tellman estivesse tão familiarizado com aquela classe de atividades.

— Pois é o que disse! - replicou com brusquidão.

Tellman o fulminou com o olhar.

— E você acreditou?

— Sim. Por que não? Como ia saber se era verdade ou mentira?

— Não tem nariz?

— Nariz?

O prestamista, entretanto, tinha captado o sentido da pergunta. As pessoas que se dedicavam a pinçar nos esgotos desprendiam um aroma inconfundível, igual às que desciam ao rio com peneiras em busca de tesouros ocultos.

— De maneira que ladrão - disse Tellman com amargura. — Mas claro, você não sabe disso. Quantas vezes veio?

O prestamista, que estava muito desconfortável, voltou a coçar o nariz.

— Umas seis ou sete, acredito, mas não sabia que fosse um ladrão. Sempre tinha uma boa desculpa. Tinha-o tomado por um...

— Sim, um dos que procuram pelos esgotos - disse Tellman em seu lugar. — Já o disse antes. Sempre trazia jóias? Alguma vez veio com quadros, adornos ou coisas assim?

— Do esgoto? - A voz do prestamista subiu uma oitava. — Pode ser que não saiba tanto dessa gente como você, mas até eu sei que a ninguém caem quadros pelo deságüe!

O sargento sorriu mostrando os dentes.

—Você e qualquer prestamista que compre anéis de ouro aos que revistam os esgotos. Se esses objetos fossem trigo limpo não haveria nenhuma necessidade de desfazer-se deles de má maneira.

O prestamista o olhou com agressividade.

— E o que sei eu de onde os tirava? Se roubava, é coisa sua. Tem alguma pergunta mais? Se não já pode ir saindo de minha loja, porque me espanta à clientela.

Tellman partiu zangado e perplexo. Aquela imagem do Albert Colé não se parecia em nada a que lhe tinham dado anteriormente.

Comeu tarde na taverna Bull and Gate, do High Holbom, a poucos metros da esquina onde Colé tinha vendido cordões. Possivelmente o finado a tivesse visitado alguma vez para resguardar-se do frio, embora só fosse para pedir uma jarra de cerveja e uma fatia de pão.

Ele pediu sua jarra com um suculento e grosso sanduíche de vitela e molho de rabanete picante, e escolheu seu assento com o objetivo de travar conversa com algum cliente habitual. Começou a comer. Tinha fome. Tinha caminhado toda a manhã, e foi um alívio sentar-se. Fazia pouco tempo que se preocupava com seu vestuário. Nos últimos dois meses tinha comprado algumas roupas: uma jaqueta azul marinho e duas camisas, tudo isso de primeira mão. Devia ter dignidade. No que mais gastava, entretanto, era em botas cômodas, artigo ao que já tinha dedicado uma parte generosa de seu primeiro salário.

Deu uma dentada ao pão e pensou na bolacha do Gracie. A comida caseira, e consumida na mesa da cozinha, tinha algo que a tornava mais digestiva que a melhor carne consumida e paga em um local anônimo. A personalidade de Gracie era uma mescla curiosa: às vezes falava como uma pessoa independente e até mandona, mas trabalhava para Pitt, vivia em sua casa e não tinha lar próprio. Estava as vinte e quatro horas do dia a disposição do amo da casa.

Comeu o sanduíche de vitela pensando na moça: tão miúda (pele e ossos), não respondia ao modelo de mulher atraente para a maioria dos homens. Não havia nada que abraçar. Pensou em outras mulheres que tinha gostado: Ethel, loira e de pele suave, curvilínea e afável. Seu matrimônio com o Billy Tomkinson tinha sido um duro golpe. A facilidade com que pensava nisso, até com um sorriso, deixou ao sargento surpreso.

Que opinião teria tido Gracie de Ethel? Alargou-lhe o sorriso, acreditando ouvir seu comentário: "Pedaço de inútil!" Imaginou a expressão tolerante e zombadora de seu rosto, de olhos grandes e feições pequenas e marcadas. Gracie era forte. Tinha toda a coragem e determinação do mundo. Era incapaz de deixar ninguém na estacada, como o era de fugir. Sempre enfrentava, como um pequeno terrier. E sabia diferenciar o bem e o mal. Sua consciência era de ferro; não, de aço, afiada... e brilhante. Que estranha importância adquiria essas coisas quando se meditavam a fundo!

E tampouco era feia, não. Tinha seu atrativo. Seu pescoço, tão firme, era uma formosura, e suas orelhinhas as mais finas que tinha visto Tellman em sua vida. Outra coisa bonita que tinha, as unhas, ovaladas, sempre rosadas e limpas.

Basta de besteiras! Menos sonhar acordado e mais dedicar-se a seu trabalho. Devia averiguar muito mais coisas a respeito do Albert Colé. Pediu outra pinta de cerveja e começou uma conversa com um homem alto que estava de pé no balcão.

Uma hora depois saiu da taverna sem ter ouvido nada mau sobre Colé. Em opinião do encarregado, e de outros clientes com quem tinha falado, era um bom homem, simpático, trabalhador, honrado cabalmente e prudente em seus gastos, embora sempre disposto a pagar uma ronda quando lhe correspondia.

Algumas tardes em que chovia e fazia muito mau tempo para vender cordões, Colé pedia três ou quatro pintas e as fazia durar horas. Então contava anedotas de sua carreira militar. Podia tratar-se de histórias da última guerra na Europa ou das façanhas de seu regimento, que tinha estado só o comando do próprio duque do Wellington e se distinguira na luta contra o francês durante as guerras napoleônicas. Em contadas ocasiões, e depois de muita insistência (sendo como era homem modesto, e até calado no relativo a seus próprios atos), falava da campanha da Abissínia. Considerava que o general Napier era tão bom militar como o melhor, e se orgulhava enormemente de ter estado a suas ordens.

Ao sair da taverna, a raiva e confusão mental do Tellman tinham chegado a seu ápice. As opiniões contrapostas sobre Colé não tinham sentido. Apresentava duas caras: uma, a de um homem honrado e perfeitamente normal que tinha servido a seu país, vivia em uma pensão, ganhava a vida em uma esquina vendendo cordões às pessoas abastadas do Lincoln’s Inn Fields e bebia com os amigos no Bull and Gate; outra, a de um ladrão que vendia sua cota de butim a um prestamista, provavelmente roubava casas em zonas como Bedford Square e o tinha pago com a vida.

Além disso lhe tinham encontrado a caixa de rapé no bolso.

Bem, mas se o tinham assassinado por querer roubar a alguém... que fazia fora da casa, e não dentro?

Era possível que lhe tivessem golpeado em outro lugar, dando-o por morto, e que ele partira a rastros? Tinha subido até a porta do general Balantyne em busca de ajuda?

Tellman caminhou depressa pelo High Holbom neste direção e dobrou pelo Southampton Row para ir ao Theobald’s Row, que caía ao norte. Tinha intenção de prosseguir suas investigações.

Nenhuma delas lhe esclareceu a situação. Um recitador ambulante que salmodiava as últimas notícias e rumores para entreter aos transeuntes relatava em verso a morte de Colé. Tellman lhe pagou uma boa soma e se inteirou de que Colé era um homem normal, ligeiramente sério mas bom vendedor de cordões e com boa fama no bairro. Conheciam-lhe gestos de bondade, como dar uma taça de sopa a florista ou o presente de um par de cordões a um ancião, e tinha palavras amáveis para todo mundo.

Um policial da delegacia de polícia da zona, que tinha visto desenhada seu rosto no jornal, identificou-o como um simples trombadinha mais briguento que outros que vivia no leste do Shoreditch (zona que tinha sido o último destino do agente). Ao indivíduo em questão lhe faltava uma parte de sobrancelha, despovoada por uma cicatriz infantil. Era má pessoa, propenso a ataques de fúria, e se tinha inimizado com um (se não vários) dos vendedores de objetos roubados que trabalhavam pelo Shoreditch e Clerkenwell.

Uma prostituta o qualificou de engraçado e gastador e lamentou que tivesse morrido.

Quando Tellman abandonou o bairro do Lincoln’s Inn Fields e High Holbom já era muito tarde para passar pelo Bow Street, mas as contradições da personalidade do Albert Colé afetavam muito para não informar ao Pitt o antes possível.

Refletiu por espaço de vários minutos. Ainda era de dia, mas faltava pouco para as oito. Tinham passado muitas horas do sanduíche do Bull and Gate. Estava sedento e cansado, e lhe doíam as pernas. Sonhava com uma boa xícara de chá e tempo para sentar-se (ao menos meia hora, e preferivelmente uma inteira).

O primeiro, entretanto, era o dever!

Iria dar parte para Keppel Street. Sim, era a opção correta. Não demoraria nem vinte minutos.

Chegou com os pés ardendo e as pernas destroçadas, mas não achou em casa ao Pitt nem a sua mulher. Abriu-lhe a porta Gracie, com avental engomado e aspecto descansado.

— Ah... - disse o sargento, consternado. Tinha-lhe acelerado o pulso. — Lástima, porque me urgia lhe explicar o que averigüei hoje.

— Pois se é tão importante mais vale que entre - respondeu ela, abrindo mais a porta e olhando-o com uma mescla de satisfação e desafio.

Devia ter muita curiosidade pelo Albert Colé.

— Obrigado - disse ele com grande formalidade, antes de segui-la e esperar que fechasse a porta.

Deixou-se conduzir pelo corredor que levava a cozinha, onde achou o aroma caseiro de sempre: madeira esfregada, roupa limpa e vapor.

— Sente-se - ordenou ela. — Se ficar aqui no meio não posso seguir com minhas coisas. Ou pretende que o esquive?

Tellman obedeceu, notando a boca igualmente seca como as ruas pelas quais tinha vindo.

Gracie o observou dos pés a cabeça com olhar crítico, do cabelo penteado para trás até as botas poeirentas.

— Parece um coelho morto de fome. Certamente está há várias horas sem provar comida. Tenho um cordeiro frio muito bom, com batatas e verdura. Quer couve com batata, que se faz em um momento?

Agachou-se sem aguardar a resposta, tirou a caçarola do armário e a colocou em cima do fogo. Também pôs água a esquentar com gesto maquinal.

— Se sobra... - disse ele, respirando fundo.

— Pois claro, homem! - respondeu ela sem olhá-lo. — Vamos ver, o que devia dizer e o que era tão importante? Descobriu algo?

— Pois claro! - Tellman imitou seu tom. — Investiguei a vida do Albert Colé e é um mistério.

Apoiou-se no espaldar, cruzou os braços e naquela postura mais cômoda observou Gracie, que se movia rapidamente pela cozinha. Ela cortou uma cebola da réstia que tinha pendurada na porta da despensa, pô-la na tabela de picar, desfez uma parte de manteiga na caçarola e, com rapidez de perita, começou a cortar a cebola em cubinhos que jogou na manteiga fervendo. O aroma era tão agradável como o som. Dava gosto ver trabalhar uma mulher.

— O que tem de misteriosa - disse ela, — além de quem o matou, por que o matou e por que o deixaram diante da porta do general?

— Que era um bom soldado que serve a sua rainha e seu país em um regimento de primeira, reformou-se por feridas de guerra e se dedicou a vender cordões na rua - respondeu ele, — mas também era um ladrão briguento que foi roubar ao Bedford Square e se equivocou de casa.

Gracie virou sobre os calcanhares para olhar ao sargento.

— Ou seja, resolveu tudo? - disse com os olhos muito abertos.

— Não, claro que não - replicou ele com certa dureza.

Teria gostado de lhe oferecer uma solução brilhante, possivelmente antes que Pitt, mas só dispunha de fragmentos que não encaixavam.

Ela seguiu olhando-o e suavizou-se a expressão.

Tellman pensou que a sua maneira era francamente bonita, mas com caráter, não como aquelas bonequinhas insípidas.

— Dizem que era boa pessoa e ao mesmo tempo ladrão? - perguntou ela.

— Não, as mesmas pessoas não - respondeu ele. — Parece que tinha duas facetas opostas, mas não sei por que. Não tinha família nem chefes ou colegas de trabalho aos que impressionar.

— Ui!

Um forte estalo de manteiga fez que Gracie se voltasse. Removeu a cebola com um concha de sopa, misturou a couve e a batata amassada e as jogou na caçarola. Enquanto se douravam, cortou três porções generosas de cordeiro frio e as deixou em um dos pratos azuis e brancos. Depois pôs talher para Tellman, preparou chá, levou-lhe uma xícara e tirou da despensa a jarra do leite enquanto removia o cordeiro.

Uma vez que estava tudo preparado, serviu-o e pôs em frente tudo. A xícara fumegava. Sentindo que lhe escapava um sorriso, o sargento quis adotar uma expressão menos entusiasta... e menos transparente.

— Obrigado - disse, fugindo o olhar de Gracie. — É muito amável.

— Não mereço, senhor Tellman - respondeu ela enquanto se servia de uma xícara de chá e tomava assento diante dele. Então se lembrou do avental e voltou a levantar-se com presteza para tirá-lo. Desta vez se sentou com mais finura. — E de onde tirou tanta informação? Mais vale que diga ao senhor Pitt algo que tenha sentido, e não coisas soltas.

Tellman expôs todos os fatos e opiniões contraditórios que tinha solicitado nos últimos dois dias, esforçando-se por não falar com a boca cheia. Pensou em lhe sugerir que o apontasse tudo para evitar esquecimentos, mas não estava seguro de que soubesse escrever. Sabia que a senhora Pitt lhe tinha ensinado a ler, mas não era o mesmo, e não queria envergonhá-la.

— Lembrar-se-á de tudo? - perguntou. Nunca tinha comido uma couve com batatas tão boa, mas se tinha excedido.

— É claro - respondeu ela com grande dignidade. — Tenho uma memória perfeita. Que remédio! Só sei escrever desde que entrei nesta casa.

O sargento ficou ligeiramente envergonhado. Ia sendo hora de partir. Preferia que Pitt não voltasse para casa e o encontrasse aí sentado, justo depois de desfrutar de uma lauta janta. A cozinha era acolhedora até o último detalhe: o aroma de limpeza, o calor, o suave assobio da água fervendo, Gracie com o rosto corado e os olhos reluzentes...

A vida do Albert Colé não era a única coisa confusa. Era-o igualmente estar sentado aí e ter dado parte para Gracie como se fosse seu superior, enquanto se deixava servir, mimar e pôr-se confortável por ela.

— Tenho que ir - disse a seu pesar, afastando a cadeira. — Diga ao senhor Pitt que seguirei investigando Colé. Se estava acostumado a brigar por sua bota de butim é possível que morresse por isso. Devo averiguar com quem trabalhava.

— O direi - prometeu ela. — Possivelmente seja a explicação. Tem mais lógica que o resto.

— Obrigado pelo jantar.

— Se só era couve com batata!

— Estava muito bom.

— De nada.

— Boa noite, Gracie.

— Boa noite, senhor Tellman.

Que cerimonioso! Devia lhe dizer que se chamava Samuel? Não. Grande tolice! Como se lhe importasse algo seu nome de batismo. Gracie tinha estado apaixonada por aquele criado irlandês do Ashworth Hall. Além disso não estavam de acordo em nada importante: a sociedade, a política, a justiça, os direitos e obrigações do homem... Ela estava muito contente sendo criada, enquanto que ele achava deplorável a idéia de sê-lo, além de contrária à dignidade de qualquer ser humano.

Avançou pelo corredor com passo decidido.

— Tem desfeito o laço da bota - indicou ela amavelmente.

Viu-se obrigado a agachar-se e atá-lo, para não arriscar-se a tropeçar em seu caminho para a porta.

— Obrigado - resmungou, furioso.

— Não há de que - respondeu ela. — O acompanho até a porta. É por boa educação. A senhora Pitt faria o mesmo.

Ele ficou direito e a olhou fixamente.

Ela sorriu com alegria.

Tellman deu meia volta e foi para a saída, seguido pelos passos ligeiros e rápidos de Gracie.

 

Charlotte sabia que Gracie tinha algo que explicar ao Pitt, por sua conversa com Tellman na tarde anterior, mas estava tendo uma manhã cheia de tropeços e não pôde ficar na cozinha o tempo suficiente para escutar. O dia anterior tinha sido morno e ensolarado, mas agora soprava um vento frio e ameaçava chover. As roupas que tinha preparado para a Jemima, a qual estava a ponto de partir para o colégio, não estavam bastante quentes. Jemima estava muito séria e não formulou suas queixa habituais sobre pichi, sinal de que tinha alguma preocupação. Este último era o mais urgente.

Averiguar a natureza exata da dificuldade requereu um interrogatório paciente e minucioso, e a resposta, articulada com seriedade, recordou ao Charlotte que aos nove anos as questões sociais já adquiriram uma importância enorme. A solução acertada ao problema de como aceitar favores da cabeça reconhecida de alunas da classe era um tema de grande transcendência. Tinha que estar à altura das dívidas contraídas. As negativas deviam explicar-se sem ofender, a risco de ver-se expulsa do círculo mágico das favorecidas.

Dispensou ao problema o trato sério que merecia. Ela não tinha ido ao colégio.

Como tinha duas irmãs tinha sido educada em casa por uma preceptora, mas os princípios eram os mesmos que na sociedade adulta, e a estrutura hierárquica, às vezes, igualmente duradoura. A exclusão, em todo caso, doía igual.

O resultado foi que Daniel, dois anos menor que Jemima, percebeu que ocorria algo importante e que ele ficava fora.

Optou por dar golpes, armar animação, atirar coisas ao chão e fazer comentários em voz alta, como se falasse consigo mesmo. Seu objetivo, entretanto, era chamar a atenção de sua mãe.

Por isso, uma vez solucionado o da Jemima, Charlotte decidiu acompanhar ao Daniel ao colégio em lugar de que o fizesse Gracie. A sua volta, depois de ter terminado com a lavagem de roupa, decidido quanta vida restava exatamente as meias e a que camisas tinha que virar os colarinhos e punhos (trabalho que odiava), era meia manhã. Foi então quando se sentou na cozinha para tomar uma xícara de chá, e Gracie lhe explicou o que lhe tinha contado Tellman a respeito da personalidade estranha e contraditória do Albert Colé.

— Felicito-te - disse Charlotte com sinceridade.

— Dei-lhe de jantar. Nada especial, só cordeiro frio e couve com batata. Parece-lhe bem? - respondeu Gracie, vermelha de satisfação.

— Perfeito - lhe assegurou Charlotte. — Por essa informação pode lhe dar a melhor comida que haja em casa. Até a compraria.

Pensou para si que a comida era secundária. O que atraía ao sargento era estar com Gracie. Charlotte tinha notado que ficava um pouco vermelho, e que todos seus esforços não conseguiam evitar certa doçura no olhar. Nada, entretanto, tinha sido tão comovedor como o desconforto e a compaixão do Tellman quando Gracie tinha tido que digerir a destruição de seus sonhos no Ashworth Hall.

Preferiu não dizê-lo para não envergonhar Gracie e não respirar a suspeita de que suas vivências mais pessoais ocasionassem reflexões e planos alheios.

— Não é preciso - disse a moça. — Se daria muitos ares. Agora, que algo terá que lhe dar.

— Certamente. Deixo-o a seu critério.

Charlotte não deixava de pensar nas palavras do Tellman sobre Colé. Acreditava em Balantyne em todos os aspectos (a falsidade do ato de covardia na Abissínia e, como não, o assassinato de Colé), mas quanto mais sabia mais difícil lhe parecia demonstrá-lo. De momento não havia dito nada ao Pitt sobre a chantagem, mas sua consciência lhe impedia de calar muito mais tempo. Por outro lado, e em vista da situação similar do Cornwallis, com certeza ele já tinha em conta a possibilidade.

Sentiu a necessidade de comentar com alguém de absoluta confiança, alguém que além de discreto fosse bom conhecedor da classe de pessoas a que pertenciam Cornwallis e Balantyne, assim como do mundo em que se moviam. A tia avó Vespasia cumpria ambos os requisitos à perfeição. Rondava os oitenta e cinco anos, sua posição social era indisputável e tinha sido a mulher mais formosa de Londres, possivelmente de toda a Inglaterra. Costumava acertar em seus julgamentos pessoais, e Charlotte não conhecia ninguém que os expressasse com uma língua tão afiada, compensada pelo dom de não ferir ninguém. Também tinha a valentia de seguir os ditados de sua consciência e lutar pelas causas em que acreditava sem parar para pensar nos gostos alheios. Charlotte lhe professava maior afeto que a ninguém.

— Vou visitar lady Vespasia Cumming-Gould - anunciou a Gracie quando se levantou da mesa. — Acredito que necessitamos de sua opinião sobre o caso.

— Duvido que saiba muito de alguém como Albert Colé - disse Gracie, surpreendida. — Não passou de soldado raso, e pelo que diz o senhor Tellman era ladrão. Parece que discutiu com seu cúmplice pelo que se levaram, e que saiu perdendo. Diz o senhor Pitt que parecia que brigou a murros.

A idéia teve sobre o Charlotte um efeito bastante tranqüilizador. Parecia lógico. Persistia entretanto, como dado inquietante, o achado da caixa de rapé.

— Pode ser que roubassem algo mais - continuou Gracie como se lhe adivinhasse os pensamentos. Estava ao lado da pia com o trapo na mão. — Possivelmente o outro esquecesse a caixa pela pressa, mas levasse o resto. Possivelmente fugisse ao ver o faroleiro.

— É possível - assentiu Charlotte. Não podia dizer à Gracie nem a ninguém que Balantyne tinha entregue a caixa. Quem era Colé, o autor das cartas ou um simples mensageiro? Também era possível que a tivesse roubado ao chantagista por pura e insólita casualidade. — De qualquer modo me parece que irei ver lady Vespasia – declarou. — Provavelmente coma fora.

Gracie a olhou de maneira penetrante, mas se limitou a dar-se por inteirada.

Charlotte subiu e dedicou vários minutos a escolher o vestido adequado. As vezes, quando se tinha visto na necessidade de dar uma imagem mais sofisticada ou chamativa do que permitia seu limitado vestuário, a tia Vespasia lhe tinha presenteado com vestidos, capas ou chapéus que ela já não utilizava. Em tais ocasiões a criada da anciã os adaptava ao corpo do Charlotte, mais opulento, além de atualizá-los e aumentar sua comodidade em detrimento de outros valores mais em voga na época em que os tinha posto Vespasia. Esta sempre tinha sido muito aficcionada à roupa, e não estava disposta a seguir a moda mas a precedê-la.

A única dificuldade era que Vespasia era octogenária e mais magra que gorda. Tinha o cabelo branco e os gostos caros, como correspondia a sua posição social. Charlotte tinha trinta anos e um formoso cabelo castanho e pele dourada. Impunham-se alguns acertos.

Escolheu um modelo de musselina azul claro com mangas espetaculares e uma pequena anquinha verde unida a uma jaquetinha, a qual compensava a delicadeza do vestido só, sofisticado na Vespasia, mas um pouco insípida em Charlotte. Quanto ao chapéu, tinha um de cor clara que combinava com o vestido. Saiu às doze menos um quarto, bastante satisfeita com o resultado. A única maneira de deslocar-se indo vestida daquela maneira era chamar uma carruagem (a menos que se tivesse um de propriedade, é claro).

Chegou a casa da Vespasia pouco depois de meio-dia. Abriu-lhe a criada, que a aquelas alturas a reconhecia perfeitamente.

Vespasia estava sentada em pleno sol em sua sala favorita, que se abria ao jardim. Usava seu vestido preferido, de renda marfim enriquecido pelo suave brilho de várias voltas de pérolas. Sua cachorrinha branca e negra, estirada até então a seus pés, levantou-se e recebeu ao Charlotte com entusiasmo. Vespasia permaneceu sentada, mas iluminou-se o rosto de alegria.

— Que surpresa, querida! Já tinha vontade de que viesse. Levo uma temporada de aborrecimento supino. Está visto que não há ninguém com um mínimo olfato para o imprevisível. Dizem e fazem todos exatamente o que espero deles. - Expressou seu desagrado com um gesto elegante do ombro. — Até adivinho o que farão. Tudo muito na moda, mas sem o menor interesse. É espantoso. Começo a ter medo de estar velha. Tenho a impressão de saber tudo... e eu não gosto! - Arqueou as sobrancelhas. — Que sentido tem estar vivo se nunca o pegam completamente de surpresa, se não lhe dispersarem as idéias como o vento as folhas, obrigando-lhe à recolhê-las e voltar à juntá-las até descobrir uma imagem nova e diferente? Se não puder sentir paixão nem surpresa é que está morto. - Olhou para Charlotte com censura e afeto. — O que leva você que não o tinha previsto? Pode saber-se de onde tira este vestido?

— É dos seus, tia Vespasia.

Charlotte se inclinou para beijá-la na face. Vespasia arqueou ainda mais as sobrancelhas.

— Valha-me Deus! Faça o favor de não contar a ninguém, porque morreria de vergonha.

Charlotte não sabia se se ofendia ou ria. Tinha vontade de ambas as coisas.

— Tão horrível é?

Vespasia lhe fez gestos de retroceder um pouco e dedicou ao vestido um exame longo e severo.

— É que não me assenta bem o azul claro - lhe explicou Charlotte.

O desagrado de sua tia parecia concentrar-se na adição da cor verde.

— Combinado com um creme sim - respondeu Vespasia. — O verde que leva é muito forte. Parece que caiu no mar e saiu coberta de algas!

— Ah! E pareço uma afogada, como a dama de Shalott?[1] - perguntou Charlotte.

— Menos serena - disse Vespasia com mordacidade, — e não me obrigue a seguir. Agora deixa que lhe tire isso e lhe encontre algo melhor.

Levantou-se e, apoiada em sua bengala com cabo de prata, conduziu a sua sobrinha ao quarto de vestir , que estava no piso de cima. Charlotte a seguiu sem pigarrear.

Enquanto revistava sua coleção de xales e acessórios, a anciã deixou escapar um comentário inocente.

— Imagino que estará preocupada com o lamentável incidente do Bedford Square. Lembro que tinha amizade com o Brandon Balantyne.

Indevidamente, Charlotte ficou muito vermelha. Ela não o haveria dito assim. Contemplou as costas elegante da Vespasia, que apalpava uma peça de seda de cor creme prateada meditando como ficaria. Qualquer protesto contra as palavras empregadas equivaleria a ficar em evidência. Respirou fundo.

— Desgosta-me, sim. Fui vê-lo, mas não o diga ao Thomas, por favor. Ele não sabe. É que... o fiz por impulso, sem pensar. Só queria... lhe manifestar minha amizade... - ficou sem palavras.

Vespasia deu meia volta com a roupa de seda nas mãos, que era suave como uma gaze e tinha um pouco de brilho.

— Isto lhe dará vida - disse com decisão. — Aqui vai um xale grande. Isto se passa pela anquinha e logo por diante. Ficará mais vistoso. Foi vê-lo porque lhe tem afeto e queria que soubesse que este incidente não muda sua relação. É normal. - Sua expressão adquiriu mais seriedade e um matiz de doçura. — Como estava? - Olhou a Charlotte muito atentamente, e ao detectar suas emoções se entristeceu ela mesma. — Mal.

— Estão-no chantageando - respondeu Charlotte, surpreendida de que a afetasse tanto o simples fato de dizê-lo, como se para ela também fosse uma novidade. — Por algo que não fez, mas não pode demonstrá-lo.

Vespasia permaneceu calada certo tempo, mas seu rosto delatava um silêncio reflexivo, não de indiferença ou falta de compreensão.

Charlotte teve a súbita e arrepiante sensação de que sua tia sabia ou adivinhava algo que ela passava por cima. Aguardou com um nó na garganta.

— Por dinheiro? - disse a anciã, quase como se não esperasse uma resposta afirmativa.

— Por nada. De momento, só... só para demonstrar que o chantagista tem poder.

— Ah. - Vespasia passou o lenço de seda por cima dos ombros de sua sobrinha neta e o atou com perícia. Depois fez vários retoques, mas o movimento de seus dedos era maquinal. — Aí está - disse ao acabar. — Assim gosta mais?

Charlotte se olhou no espelho. Ficava muito melhor, mas era um fato sem importância.

— Sim, obrigada. - Voltou-se. — Tia Vespasia...

Sua tia, entretanto, já caminhava para a escada, pela qual desceu agarrada ao corrimão (coisa que não teria feito um ou dois anos atrás). Charlotte tomou consciência de sua fragilidade, e lhe doeu um pouco dar-se conta do muito que a queria. Quis dizer-lhe, mas teve medo de incorrer em excesso de confiança. No fim das contas não eram parentes de verdade, nem era o momento adequado.

Quando chegou ao pé da escada, a anciã se dirigiu ao salão da manhã, que agora estava completamente ensolarado.

— Tenho um amigo - disse, pensativa: — o juiz Dunraithe White.

Charlotte a alcançou e entraram juntas na luminosa estadia. O vaso verde do centro da mesa estava cheio de rosas brancas, as primeiras do ano. O sol se filtrava pelas folhas e fazia desenhos no tapete.

— Diz Theloneus que ultimamente tomou decisões bastante... peculiares, que não se enquadram com seu comportamento habitual. Emitiu ditames que no melhor dos casos merecem o adjetivo de excêntricos.

Theloneus Quade também era juiz, além de eterno admirador da Vespasia. Vinte anos atrás tinha estado muito apaixonado, até o ponto de querer casar-se com ela, mas Vespasia tinha julgado excessiva a diferença de idade. O juiz continuava apaixonado, mas sua relação se enriqueceu com uma sólida amizade.

A anciã tomou assento em sua poltrona favorita, perto da janela, e soltou a bengala. A cachorrinha branca e negra sacudiu a cauda de alegria. Sua proprietária olhou para Charlotte dos pés à cabeça.

— Você o que acha? Estará doente...? - começou a segunda, até dar-se conta de sua lentidão de reflexos. — Suspeita que também o chantageiam!

— Acredito que sofre uma forte pressão - precisou Vespasia. — Conheço-o há muitos anos e sempre foi escrupulosamente honrado. Ao único que dá mais importância que a seu dever de juiz é a seu amor por sua esposa Marguerite. Não têm filhos, e é possível que se consolaram mutuamente até conseguir uma intimidade maior que em muitos outros casos.

Charlotte se sentou diante dela e colocou bem o vestido recém melhorado.

Vacilava em passar a seguinte pergunta, mas sua preocupação pelo Balantyne lhe conferia uma audácia superior a habitual.

— As decisões que diz são a favor de alguém em concreto, de algum interesse?

Pelos olhos da Vespasia passou a faísca da compreensão, e uma tristeza irônica.

— Ainda não. Segundo Theloneus são puramente erráticas e desacertadas, e isso porque é um juiz que costumava meditar tudo muito e sopesar todos os fatores. - Franziu o sobrecenho. — É como se tomasse pensando em outra coisa. Ao sabê-lo fiquei muito preocupada. Pensei que podia ser uma enfermidade, e é possível que o seja. Faz dois ou três dias o vi e tinha muito má cara, como de dormir pouco, mas além disso estava como distraído. A idéia da chantagem só me ocorreu ao ouvi-la explicar o do Brandon Balantyne. - Moveu um pouco as mãos. — Podem insinuar-se tantas coisas sem que o afetado esteja em situação de desmenti-las! Basta pensar na ridicularia do Tranby Croft para dar-se conta de quão fácil é afundar a uma pessoa com uma palavra inoportuna, uma simples acusação, independentemente de que possa demonstrar-se.

— Gordon-Cumming acabará mal? - perguntou Charlotte. — E outra coisa: é inocente?

Sabia que Vespasia teria certa familiaridade com os principais afetados, e provavelmente soubesse muito de suas vidas privadas.

A anciã meneou um pouco a cabeça.

— Não sei se é inocente, mas poderia sê-lo. Para começar, nem sequer teria que haver-se exposto. O caso se tratou mal. O lógico, quando pensaram que fazia armadilhas, era dar por terminado o jogo sem lhe pedir que assinasse nenhuma promessa de não voltar a jogar cartas, porque era como reconhecer sua culpa. O fato de condenar a um dos participantes era uma incitação a que falasse alguém disso, e depois o escândalo era inevitável. Teria previsto isso qualquer um com dois dedos de testa.

Sacudiu a cabeça com impaciência.

— Mas tem que haver algum remédio contra esta ameaça de chantagem! – protesto Charlotte. — É uma injustiça pavorosa. Poderia ocorrer a qualquer um.

Vespasia estava muito tensa, e a inquietação lhe gravava rugas onde não costumava haver.

— O que me preocupa é o que possa pedir o chantagista. Diz que ao Balantyne ainda não lhe pôs nenhuma condição?

— Não... só uma caixa de rapé... que apareceu no cadáver do homem assassinado diante de sua porta. - Notou que lhe crispavam os dedos. — Thomas, logicamente, sabe tudo do crime, porque o atribuíram, mas há algo mais...

— Algo pior - disse Vespasia em voz baixa. Mais que uma pergunta era uma conclusão.

— Sim. Também chantageiam ao subchefe de polícia Cornwallis, e volta a ser por um fato do passado onde não pode demonstrar sua inocência.

— Concretamente qual?

— Atribuir-se um ato de valor alheio.

— E o general Balantyne?

— Pânico diante do inimigo, e permitir que o encobrisse outra pessoa.

— Ah.

Vespasia parecia muito preocupada. Conhecia de sobra uma amarga verdade: que aquela espécie de rumores podia tornar virtualmente insuportável a vida de uma pessoa, embora se tratasse de simples falações e a vítima pusesse o maior empenho em desmenti-los. Sobravam exemplos de acusações menos malévolas que no melhor dos casos tinham levado a que a pessoa afetada abandonasse por completo a vida pública e se instalasse no mais remoto da Escócia, ou inclusive abandonasse Grã-Bretanha e se expatriasse sem objetivo. No pior tinham provocado suicídios.

— Temos que lutar - disse Charlotte com veemência. — Não podemos consentir isso.

— Tem razão. O que não sei é se temos alguma possibilidade de vitória. Os chantagistas têm todas as vantagens. -Voltou a usar a bengala para levantar-se. A cachorrinha a imitou, abandonando sua posição estirada. — Empregam métodos que nós não poderíamos nem quereríamos usar - prosseguiu. — Atacam da escuridão. Não há ninguém mais covarde. Primeiro comeremos e depois iremos a casa dos White.

Dunraithe e Marguerite White residiam no Upper Brook Street, entre Park Lane e Grosvenor Street. Charlotte e Vespasia desembarcaram da carruagem sob o sol intenso de meio-dia. Vespasia dominava a arte de visitar em dias "de receber" (um ou dois ao mês), quando as casas estavam abertas a qualquer pessoa que tivesse suficiente relação com seus donos. Em realidade todas as "visitas matutinas" se celebravam pela tarde: de três a quatro as mais formais e cerimoniosas, de quatro a cinco as que não o eram tanto e de cinco a seis as dos íntimos.

Havia, entretanto, uma série de vantagens associadas à bom berço e o passar do tempo. Quando Vespasia decidia infringir as normas ninguém se queixava, salvo os que queriam fazê-lo mas não se atreviam, e até estes formulavam suas críticas muito dissimuladas (se chegavam aos ouvidos importunos, além disso, negavam-nas).

Felizmente não se tratava de um dia "de receber", por isso a senhora White estava sózinha. Uma criada um pouco perplexa levou o cartão da Vespasia e voltou ao cabo de um momento para anunciar que a senhora as receberia.

Charlotte estava muito preocupada com os temas que motivavam sua visita para fixar-se na casa e seu mobiliário. Percebeu vagamente quadros com molduras maciças e douradas, bastante carvalho esculpido e cortinas com franjas.

Marguerite White estava de pé no salão, ao lado de poltrona tumbona coberta de almofadas das quais parecia acabar de levantar-se. Era esbelta, branca de pele e com o cabelo escuro e abundante. Tinha os olhos afundados, as pálpebras carnudas e as sobrancelhas finas. Era uma mulher formosa, mas a principal impressão que levou Charlotte foi que não era robusta e que o menor esforço a fatigaria. Levava um vestido escuro de musselina que certamente não se teria posto em caso de prever alguma visita.

Outra surpresa ainda maior foi achar atrás dela seu marido, pouco mais alto que ela, ligeiramente gordo e largo de ombros. Apesar de seu físico robusto e a jovialidade de suas feições, o senhor White também parecia convalescente. Sua pele carecia de cor, e tinha olheiras muito marcadas.

— Vespasia! Quanto me alegro!

Fazia um esforço de cortesia e lhe notava na voz o bom aspecto, mas não conseguiu dissimular de todo sua surpresa pela visita, acrescentada pela presença de uma desconhecida como Charlotte.

Vespasia o saudou efusivamente e fez as apresentações de rigor. Não faltaram os clássicos comentários sobre a saúde e o tempo, nem o oferecimento do chá, apesar de que a essa hora ninguém esperasse uma resposta afirmativa.

— Não, obrigada - disse Vespasia com um sorriso, enquanto se sentava no largo sofá e alisava a saia com um gesto conciso, sinal de que pensava ficar.

Marguerite fez expressão de perplexidade, mas não havia nenhuma maneira de evitá-lo que não fosse incorrer na pior grosseria. Por outro lado, sua reação ao ver a Vespasia tinha sido indício suficiente de que lhe tinha afeto e possivelmente um pouco de temor.

Charlotte, que estava nervosa, tomou assento perguntando-se o que dizer naquela situação ao mesmo tempo tão absurda e importante. Algo adulador mas inócuo, sem dúvida. Lançou uma olhada pela janela.

— Tem você um jardim delicioso, senhora White.

Marguerite fez expressão de alívio. Devia tratar-se de um tema que lhe dava muitas satisfações, porque lhe relaxaram os músculos do rosto e lhe iluminaram os olhos.

—Gosta? - perguntou com entusiasmo. — Eu preferiria que fosse maior, mas fazemos o possível por dar sensação de espaço.

— É admirável como o consegue. - Charlotte não teve que mentir. — Já quisesse eu ter tanto jeito. Ou deveria dizer arte? Duvido que possa aprender-se.

— Quer vê-lo mais de perto? - propôs Marguerite.

Vespasia não desejava outra coisa. Tinha intenção de insinuá-lo à primeira oportunidade, e eis aqui que sua sobrinha o obtinha nos primeiros minutos de visita.

Charlotte se voltou para ela. As boas maneiras lhe exigiam informar-se de se podia aceitar.

Vespasia sorriu como se não tivesse importância.

— É claro, querida. Aproveita que faz sol e pode vê-lo em todo seu esplendor. Certamente a senhora White não terá nenhum reparo em que se aproxime o suficiente para admirar a delicadeza dos detalhes.

— Absolutamente - assentiu Marguerite. — É uma das virtudes que temos quase todos os jardineiros: nós adoramos presumir, mas em geral não nos incomoda compartilhar idéias. - Voltou-se para seu marido. — Verdade que não se importa? Quase nunca vem ninguém cujo interesse exceda a simples tolerância de minha paixão. Têm-me tão cansada as boas maneiras vazias!

— Adiante, querida - disse ele com doçura.

Nesse momento mudou sua atitude para com Charlotte. Por sua expressão e sua maneira de relaxar os ombros ao caminhar para a porta envidraçada para abri-la para as duas, ficou claro que Charlotte granjeou sua amizade com um simples gesto.

Uma vez ambas fora e suas elegantes silhuetas se deslocaram pela grama contra a cortina de fundo das árvores (entre vasos de barro de flores de cores claras expostas ao sol e o dramático contraste das petúnias brancas com as chamas escuras dos ciprestes), o senhor White fechou as duas folhas e voltou com Vespasia.

— Vejo-o cansado, Dunraithe - disse ela amavelmente.

Ele permaneceu de pé, um pouco inclinado.

— Ontem demorei para dormir, mas é normal. Acontece com todos.

Vespasia não podia perder o valioso tempo que lhe concedia o passeio de Marguerite pelo jardim. Estava certa de que Dunraithe não lhe diria nada em sua presença, porque sempre se esforçara por protegê-la de qualquer desgosto. O risco contrário era precipitar-se e que ele se sentisse vítima de uma intromissão. Nesse caso, além de não ajudá-lo teria prejudicado uma apreciada amizade.

— É verdade - assentiu com um ligeiro encolhimento de ombros, como se se tivesse em menos. De repente lhe ocorreu uma idéia. Não havia tempo para avaliar seus méritos. O jardim era pequeno, e Charlotte só poderia reter Marguerite um tempo limitado. — Eu ultimamente também durmo menos.

— Vá! Pois o lamento - disse ele com um sorriso ausente. Não lhe ocorreu perguntar pelo motivo. Ia ser preciso uma franqueza muito maior que a desejada.

— É por culpa de umas apreensões - disse Vespasia.

Desta vez ao White já não seria tão fácil responder sem comprometer-se.

— Apreensões? - Por fim estava interessado de verdade. — Tem medo de algo, Vespasia?

— Sim, mas não por mim - respondeu ela olhando-o nos olhos, — mas sim por meus amigos, embora suponha que no fundo deve ser o mesmo. Nossas penas e alegrias dependem dos seres queridos.

— Claro. - White o disse com uma intensidade inesperada. — São a base de nossa existência. Se não pudéssemos querer só viveríamos pela metade... ou menos; e o que possuíssemos não teria nenhum valor, nem nos daria nenhuma alegria.

— Tampouco pena - acrescentou ela.

Turvou-se o olhar de White, e em seu rosto apareceu uma embaraçosa ternura. De repente tinha as emoções nuas. Vespasia sempre teria sabido que queria a Marguerite, mas agora adivinhou a profundidade daquele amor, assim como sua vulnerabilidade. Não pôde evitar perguntar-se se Marguerite White era tão frágil como achava seu marido. A resposta, entretanto, só tinha direito a dá-la ele.

— Não, claro - disse White, ou sussurrou. — Não se pode separar uma coisa de outra.

Ela se manteve na expectativa, mas a resposta não teve segunda parte. Ou White estava muito absorto em suas emoções ou considerava indiscreto lhe fazer perguntas pessoais.

Vespasia respirou fundo e exaltou em silêncio.

— Quando vê que sofre um amigo de verdade e que pode chegar a perder tudo, quão único se quer é ajudá-lo. - Disse-o olhando atentamente ao White.

Este ergueu bruscamente a cabeça e retesou o corpo como se as palavras de sua amiga tivessem sido um murro. O medo flutuava por toda a sala, silenciosa e iluminada pelo sol que banhava o jardim. Mesmo assim não disse nada.

Vespasia não podia nem queria renunciar.

— Necessito que me aconselhe, Dunraithe. Por isso vim a uma hora tão inoportuna. Ou acaso acha que tenho o costume de me apresentar sem avisar às três da tarde?

Pelo rosto de White passou uma expressão fugaz de humor dolorido.

— Você tem que se desculpar menos que ninguém. Como quer que a ajude?

Por fim!

— Uma pessoa que me merece grande afeto - respondeu ela, — e cujo nome prefiro calar por motivos que compreenderá em seguida, está sendo submetida a uma chantagem.

Calou. A expressão do White não sofreu a menor mudança; permaneceu, de fato, mais impassível do que o normal, mas se puseram vermelhas as faces, e depois cinzentas. Já não podia duvidar-se que também figurasse entre as vítimas.

Suspeitaria até que ponto o tinha delatado a mudança de cor? Tinha notado o aquecimento de sua pele e a sucessiva palidez? Vespasia o olhou nos olhos, mas ficou a dúvida. Só continuou porque a única alternativa era a retirada.

— Por algo que na realidade não fez. - Esboçou um sorriso. — O que ocorre é que não pode demonstrá-lo. Aconteceu faz muitos anos, e agora depende da palavra de umas pessoas cuja memória deixa a desejar ou cujo testemunho poderia não bastar. - Encolheu muito levemente os ombros. — Suponho que sabe como eu que uma mera insinuação, por mínima que seja, pode causar um dano irreparável, à margem de sua veracidade. Muitas vezes, as pessoas a que quereria admirar pecam por pouco caridosas quando tem diante de si a oportunidade de causar revôo com rumores. Não terá que ir muito longe para comprová-lo.

Ele quis dizer algo, mas engoliu saliva convulsivamente.

— Sente-se, Dunraithe - disse ela com suavidade. — Me faça caso. Parece enjoado. Possivelmente te convenha um brandy só, embora acredite que lhe ajudaria mais uma palavra de amizade. Também o perturba algo. Dar-se-ia conta qualquer, não só os amigos. Eu te confessei o que me preocupa, e agora me sinto melhor, tanto se pode me aconselhar como se não. A verdade é que não imagino que conselho poderia me dar. O que se pode fazer contra a chantagem?

White fugiu seu olhar e contemplou as rosas do tapete Aubusson, onde tinha os pés apoiados.

— Não sei - respondeu com voz rouca. — Se paga, quão único consegue é seguir inundando-a; estabelece um precedente e demonstra ao canalha que lhe tem medo e cederá.

— É um dos inconvenientes. - Ela o observou. — Sabe o que ocorre? Que não pediu nada.

— Que não ... pediu nada?

White o disse muito pálido, com voz forçada.

— De momento, não - prosseguiu falando com serenidade. — Meu amigo, claro está, tem medo de que cedo ou tarde o faça. A pergunta é: o que pedirá?

— Dinheiro?

A pergunta tinha um matiz esperançado, como se um pedido de dinheiro quase fosse um alívio.

— Imagino que sim - respondeu ela. — Em caso contrário possivelmente se trate de algo muito mais desagradável. É um homem influente. A pior possibilidade é que lhe exijam um ato corrupto... um abuso de poder...

White fechou os olhos e sua amiga teve medo que desmaiasse.

— Por que me conta isso, Vespasia? - sussurrou ele. — O que sabe?

— Só o que lhe disse, e que temo que não seja a única vítima. Dunraithe... tenho muito medo de que exista uma conspiração a escala grandemente mais vasta que a da angústia de um homem, e até de dois. Nenhuma reputação, por justa que seja, pode preservar-se mediante um ato desonroso, possivelmente maior que aquele de que se acusa em falso a seu dono.

De repente White a olhou nos olhos, embargado pela raiva e o desespero.

— Ignoro quanto sabe; não sei se é o motivo de sua visita, nem sei até que ponto é fictício seu amigo. - Falava com brutalidade, quase com aborrecimento. — Mas confesso que também estão me chantageando por uma falta que não cometi. Entretanto, não me arriscarei a que a divulgue ninguém. Ninguém! Contanto que não fale lhe pagarei o que peça. - Tremia, e tinha tão má cara que parecia a ponto de sofrer um colapso.

— Meu amigo é tão real como você. - Vespasia não queria que ele acreditasse que lhe tinha mentido, embora fosse com boa intenção. — Ignorava que fosse outra vítima. Só o pensei ao ver sua má cara, e não sabe quanto o lamento. É o delito mais repugnante. -Passou a expressar-se com maior ardor. — Entretanto terá que lutar, e terá que fazê-lo juntos, que assim seja. É necessário que confiemos o um no outro. Meu amigo foi acusado de covardia diante do inimigo, pecado que além de lhe resultar odioso o envergonharia até extremos insuportáveis.

— Sinto muito. - Cada palavra era uma agonia. Vespasia não duvidou da sinceridade e a paixão com que as pronunciava, porque lhe liam no rosto, na postura do corpo e a contração dos ombros. — Mas a divulgação do ato de que me acusa seria uma tortura muito grande para Marguerite, e isso não penso consentir, faça o que faça o chantagista. É inútil que tente me dissuadir, Vespasia. Estou disposto a tudo para evitar que lhe façam mal. Além disso, acabaria desfeita.

Não era o momento de andar-se com evasivas nem com diplomacia. Charlotte e Marguerite podiam voltar no instante menos pensado. Charlotte já tinha prolongado milagrosamente a conversa sobre jardinagem.

— Do que lhe acusam? - perguntou Vespasia.

Seu amigo estava pálido, e uma vez mais teve que fazer um grande esforço para responder.

— De talvez ser o pai do filho de um de meus melhores amigos. - Respirou com esforço. — O marido faleceu recentemente e nem sequer pode negá-lo. - Levantou a voz. — Certamente que não! Era seu filho, e por nada do mundo teria pensado o contrário. Por desgraça, qualquer indício de dúvida destruiria a reputação da mãe e a minha, sobre tudo porque fomos amigos. Até poderia questionar o direito do filho a herdar o título de seu pai, e sua fortuna, que é grande. - Enrugou o rosto e lhe quebrou a voz. — Se alguém me acreditasse capaz de algo assim, Marguerite morreria. É... muito frágil, já sabe. Nunca foi forte, e ultimamente sofreu... Não penso permitir isso!

— Mas você não fez nada de mal - indicou Vespasia. — Nem você nem Marguerite têm nada de que se envergonhar.

Ele contraiu os lábios. O sol que entrava pelas janelas iluminou uma careta de desdém.

— E você acha que as pessoas se deixariam convencer? Todas? Haveria cochichos, olhares... - Proferiu uma risada zombadora. — Sempre haveria algum intrometido que contasse os rumores à Marguerite, a modo de advertência ou por simples maldade.

— Conclusão: que fará o que lhe peça - disse Vespasia. — A primeira vez, a segunda... e quem sabe se a terceira. Mas então já terá algo de que se envergonhar, e seu domínio sobre ti será real! - inclinou-se um pouco. — Até onde chegará? Você é juiz, Dunraithe. Seu compromisso com a justiça deve ter prioridade sobre tudo.

— Sobre Marguerite não! - White quase gritava e tinha os punhos apertados. — Quis ela quase toda minha vida, e farei o que seja por protegê-la.

Vespasia não disse nada. Não era preciso insistir que se White traísse a confiança posta nele e vendesse sua honra também destroçaria ao Marguerite. Com certeza ele o lia em seus olhos. Não suportava ver mais à frente do primeiro perigo e ir solucionando-os um por um, pagar o preço e pensar no seguinte com a esperança de esquivá-lo de algum jeito. Com um pouco de sorte o chantagista seria derrotado a tempo por outra pessoa.

Abriu-se a porta envidraçada e entraram Charlotte e Marguerite imersas em uma rajada de vento, sol e movimento de saias. Marguerite tinha as faces acesas e parecia entusiasmada, feliz.

Dunraithe fez um esforço supremo por subjugar a dor e o medo que exsudava pouco antes por todos os poros. Sua expressão sofreu uma mudança radical. Endireitou o corpo e sorriu às duas mulheres, fazendo partícipe ao Charlotte de seu afeto.

— Têm um jardim absolutamente lindo - disse ela com sincera admiração. — Quando se possui o dom de saber o que terá que fazer e a destreza de cumpri-lo, o resultado é uma maravilha. Confesso que sinto uma inveja sadia.

— Me alegro muito de que tenha gostado - disse ele. — Verdade que tenho uma esposa inteligente?

Seu orgulho era enorme, expressão de um gozo sem atenuantes. Marguerite ficou radiante de felicidade.

Trouxeram chá, e como eram quase quatro se sentaram todos para meia hora mais de conversa corriqueira. Seguiram as despedidas, e a ordem de avisar à carruagem.

De caminho ao Keppel Street, Vespasia contou ao Charlotte o que tinha averiguado.

— Temo que seja bastante mais grave do que tínhamos imaginado - disse, extremamente séria. — Sinto muito, querida, mas já não pode ocultar ao Thomas o que sabe da chantagem ao Brandon Balantyne. Sei que não será fácil lhe explicar como o averiguou, mas não tem alternativa.

Charlotte a olhou fixamente.

— Acha que é uma espécie de conspiração, tia Vespasia?

— Não lhe parece isso? Cornwallis, Balantyne, e agora Dunraithe White.

— Sim, suponho que sim. Tomara tivesse pedido dinheiro!

— Seguiria sendo necessário lhe parar os pés - indicou a anciã. — O dinheiro só é o princípio.

— Suponho que sim.

Tal como havia predito Vespasia, a conversa não foi fácil, mas Charlotte abordou o tema assim que chegou Pitt a casa. Por uma vez voltou cedo, tirou os sapatos, entrou na cozinha e achou a sua mulher guardando a baixela limpa. Ela o comentou em seguida, porque uma vez tomada a decisão não estaria tranqüila até cumpri-la. Tinha ensaiado varias vezes, mas nunca a sua inteira satisfação.

— Thomas, queria lhe dizer algo sobre o caso Bedford Square. Não sei se é relevante; espero que não, mas me parece necessário que saiba.

Não era sua maneira de falar habitual. Por isso ele, que estava lavando-as mãos na pia, voltou-se com expressão de surpresa.

Ela estava no centro da cozinha com meia dúzia de pratos na mão. Respirou fundo e tomou a palavra sem lhe deixar tempo para perguntas ou interrupções.

— Passei a tarde com tia Vespasia. Um amigo seu, o juiz Dunraithe White, está sendo vítima do mesmo chantagista que ameaça ao senhor Cornwallis.

Ele ficou tenso.

— Como sabe? O disse ele a Vespasia? - Seu tom agudo revelava incredulidade.

— Compreenderá que não foi fácil - respondeu ela, deixando os pratos na mesa e dando a ele uma toalha limpa, — mas são amigos a muito tempo. Eu distraí a sua mulher, que é muito boa jardineira. Já lhe contarei isso mais a... Não, logo! - interrompeu-se ela mesma apressadamente. — Vespasia falou a sós com o senhor White e lhe confessou sua situação. Está louco de medo e de preocupação, mas o acusam de ser o pai do filho maior e herdeiro de um de seus melhores amigos. Agora que morreu o amigo e já não pode desmenti-lo, o chantagista sustenta que pensava denunciar ao senhor White...

Pitt fez uma careta, sinal de que compreendia o doloroso da manobra. Deixou a toalha no espaldar de uma cadeira.

—E disse o senhor White que, se se inteira sua esposa, morreria. É uma mulher muito frágil. Por isso não têm filhos. O senhor White a adora, e pagará o preço que seja para que tal que não se divulgue.

Pitt encurvou os ombros e colocou as mãos nos bolsos.

— Vão três. Cornwallis, White, e hoje me inteirei que terceiro: um tal Tannifer, um banqueiro da City acusado de extorquir a seus clientes.

— Outro? - Charlotte estava sobressaltada. Começava a lhe parecer que tinha razão Vespasia, e que era um problema de maior amplitude e gravidade que uma simples chantagem individual por dinheiro.

Pitt a olhou com seriedade.

— Ocorreu-lhe que também chantageiem ao general Balantyne? Já sei que é uma idéia desagradável, pelo cadáver em sua porta, mas não posso deixá-la só porque eu não gosto.

Era o momento.

— Já o chantageiam.

Charlotte observou a seu marido para ver se levava a mal. Pitt não se moveu, mas em seus olhos lutavam toda classe de emoções: a raiva, a surpresa, a compaixão, a compreensão e algo que ela, por uns instantes, tomou pelo rancor de sentir-se traído. Continuou falando atropeladamente para suavizar a tensão.

— Fui manifestar-lhe minha solidariedade pela nova tragédia... sobre tudo porque a imprensa tinha desenterrado o da Christina, como se não bastasse sofrer uma vez. - A expressão do Pitt já não tinha nada de ambígua: refletia uma grande compaixão, a lembrança de uma dor indescritível, não dele mas sim do Balantyne, e compreensão do que tinha feito ela. — Sabia que lhe passava algo mais, um algo muito grave - prosseguiu, sorrindo-lhe pela primeira vez, — e lhe ofereci minha amizade se por acaso lhe servia de consolo. Disse-me, muito envergonhado, que estão chantageando-o por um episódio inexistente de há vinte e cinco anos, durante a campanha da Abissínia, mas que não pode demonstrar sua falsidade. A maioria dos outros implicados estão mortos, no estrangeiro ou caducos.

Fez uma pausa para respirar e continuou.

— Tampouco lhe pediram dinheiro nem nada, mas tem outra carta muito ameaçadora. A acusação os afundaria a todos: a ele, a lady Augusta (que não é santo de minha devoção) e ao Brandy. Está tentando achar a alguém que estivesse com ele na Abissínia e possa ajudá-lo, mas de momento não o conseguiu. O que podemos fazer, Thomas? É espantoso!

Ele guardou silêncio.

— Thomas...

— O que?

— Perdoa que tenha demorado tanto em lhe contar sobre o general Balantyne. Queria ver se averiguava algo e demonstrava sua inocência.

— E não me queria dizer isso para que não suspeitasse que matou ao Albert Colé, porque a caixa de rapé sua era - disse Pitt serenamente. — A deu ele a Colé?

— Não, ao chantagista. Pediram o objeto e o recolheu um menino que ia de bicicleta.

Permaneceu na expectativa do que dissesse seu marido. Zangar-se-ia muito? Fazia mal em não dizer-lhe.

Ele a olhou.

Ela sentiu calor nas faces, mas não teria duvidado em atuar igual ante os mesmos fatos. Estava convencida da inocência do Balantyne. O general necessitava que o defendessem, e não podia esperar-se que o fizesse Augusta.

Pitt sorriu de maneira peculiar. Às vezes era inquietante o muito que a conhecia.

— Aceitam-se as desculpas, embora não se as acreditam de todo - disse com doçura.

Sugiro que em suas horas livres faça de Quixote.

Charlotte fez uma careta e desceu o olhar.

— Preparado para jantar?

— Sim.

Pitt se sentou à mesa e esperou que ela pusesse os pratos, guardasse o resto da baixela, terminasse de preparar o jantar e o servisse.

Vespasia desconhecia o caso de Sigmund Tannifer, mas os dados de que dispunha a preocupavam tanto que até recorreu ao telefone (aquele instrumento prodigioso) a fim de perguntar a seu amigo Theloneus Quade se podia visitá-lo aquela mesma tarde.

Ele formulou uma contra proposta: visitá-la ele, e Vespasia estava o suficientemente cansada para aceitar com gratidão. Com outra pessoa possivelmente se negaria, e inclusive com dureza, porque não estava disposta a fazer concessões à idade além das puramente obrigatórias, e menos em presença de outras pessoas. Theloneus, entretanto, era uma exceção. Com o tempo, Vespasia se tinha dado conta de que seu amor tinha transcendido a fascinação inicial por uma beleza que lhe tinha durado até bem entrada os sessenta, e cujos fundamentos sobreviviam nela. Agora era amor por sua pessoa e as experiências compartilhadas ao longo de toda uma vida, assim como de um século turbulento; século que começava, ao menos para ela, quando o imperador Napoleão tinha posto em perigo a própria existência de Grã-Bretanha. Ainda se lembrava do Waterloo. Então a rainha Vitória ainda era uma menina relativamente desconhecida.

Agora também era uma anciã que se vestia de negro e presidia os destinos de uma quarta parte do mundo. Os mares estavam sulcados por barcos a vapor, e a margem do Tamisa iluminada com luz elétrica.

Theloneus chegou um pouco antes das oito e lhe deu um beijo na face. Vespasia percebeu um aroma passageiro a pele asseada e roupa limpa de algodão, e sentiu o calor do corpo de seu amigo.

Depois Theloneus retrocedeu.

— O que ocorre? - perguntou com cenho franzido. — Vejo-a muito preocupada.

Achavam-se no salão da casa. Fora ainda brilhava o sol. Faltavam duas horas para que escurecesse, mas o ar, não obstante o fulgor dourado do astro, começava a esfriar.

Ele se sentou, sabendo quanto a irritava ter que olhar para cima.

— Passei várias horas com Charlotte - começou ela. — Visitamos o Dunraithe White, e muito temo que seus temores sobre ele fossem fundados. Confessou-me o motivo de sua angústia. É pior do que suspeitava.

Theloneus se inclinou para ela com rugas em seu rosto magro e amigável.

— Verdade que tinha medo de que fora demência senil? - perguntou ela.

Ele assentiu com a cabeça.

— Sim, no pior dos casos sim. O que te disse para que o considere ainda mais grave?

— Que estão chantageando-o.

— Ao Dunraithe White! - Estava horrorizado. — Resisto a acreditar nisso. Não conheci a ninguém de uma retidão tão sistemática como a sua, nem de uma honradez tão evidente. Que causa pode ter dado a um chantagista? Não me cabe na cabeça, e menos que esteja disposto a pagar por seu silêncio.

A compaixão e a inquietação lhe enchiam o rosto de rugas, mas continuava presente uma incredulidade de fundo.

Vespasia o entendeu. Dunraithe White só era vulnerável por seu amor à Marguerite, e isso era justamente o que dava mais medo. Para ser consciente disso, o chantagista tinha que ser uma pessoa de certa confiança, pois do contrário não teria perdido o tempo em tentá-lo.

Theloneus a observava, pendente da resposta.

— Não é culpado de nada - disse ela com suavidade — como não seja do desejo de proteger ao Marguerite de uns rumores cuja falsidade não os faz menos acertos.

Em seguida lhe explicou a reação do Dunraithe.

Theloneus permaneceu calado.

A cachorrinha branca e negra dormia ao sol, entre suaves roncos e algum ou outro gemido em sonhos.

— Compreendo - acabou dizendo ele. — Tem razão: é muito pior do que temia.

— Fará o que lhe pedirem - disse ela gravemente. — Tentei convencê-lo com argumentos racionais. Disse-lhe que agora não tem nada de que envergonhar-se, que Marguerite o entenderá, mas que se o chantagista consegue obrigá-lo a algo já terá um motivo de vergonha e ela também se inteirará.

— E Dunraithe não o tinha pensado?

— Acredito que tem muito medo por ela para fazer previsões com mais de um dia de antecipação - respondeu Vespasia. — O medo pode ter esse efeito: paralisar a vontade ou a capacidade de ver o que é muito horrível.

— E é verdade que sua mulher seja tão frágil?

Theloneus parecia dividido entre o medo a ser grosseiro e a necessidade de perguntá-lo. Ela meditou bastante na resposta. Pensou no que sabia do Marguerite White depois de tantos anos, relacionou suas lembranças e se perguntou como os tinha interpretado então e do que outra maneira podia interpretá-los à luz dos fatos posteriores.

— É possível que não - disse ao fim, falando lentamente. — O que está claro é que nunca teve boa saúde, embora não saberia lhe concretizar seu grau de enfermidade. No mínimo tem quarenta e cinco anos, e é possível que algum mais, sinal de que em sua juventude deveram lhe atribuir uma fragilidade superior a real. Disseram-lhe que não podia ter filhos porque seria jogar a vida.

Ele punha a mesma atenção em escutá-la que em olhá-la.

Vespasia queria ser justa, mas lhe acumularam as lembranças e com elas as dúvidas. Alegrava-se de estar falando com o Theloneus, uma pessoa querida, pela qual não queria ser tida em mau conceito, mas em quem confiava o suficiente para atrever-se a permitir que visse o que nela tinha que vulnerável, possivelmente temeroso, débil ou não exatamente belo. Julgá-la-ia com olhos de amigo.

— E? - disse ele, animando-a a seguir.

— Também está acostumada a ver-se como alguém que deve ser protegida, a quem não terá que pôr nervosa nem pedir muito. Dunraithe a mimou, claro que com a melhor intenção, e é possível que tenha extremado suas insônias até extremos pouco prudentes. Se ela tivesse tido mais contato com a realidade possivelmente se fortaleceria, ao menos mentalmente. Quando temos a alguém que nos proteja, faça frente a todas as adversidades em nosso lugar e o considere um privilégio, o normal é que optemos pela fuga.

— Seria capaz de suportar? - perguntou ele, olhando a Vespasia fixamente com os olhos muito abertos.

— Não sei - respondeu ela. — Me perguntei isso várias vezes e me expus todas as medidas possíveis, incluída a de precipitar uma crise para fazer que o vilão dê a cara. Quase não me atrevo a pensar o que ocorrerá se pedir ao Dunraithe algo que suponha um abuso de autoridade...

Theloneus lhe tocou a mão suavemente, sem exercer nenhuma pressão. Ela se fixou com surpresa em quão ossuda era a de seu amigo, e em quão visíveis eram as veias. Havia envelhecido muito mais que o rosto, que conservava intacto o perfil do nariz, a intensidade do olhar e a carnosidade dos lábios. Era tão natural proteger a um ser querido, alguém a quem se considerasse vulnerável e em quem se depositasse uma ardente lealdade! Alguém em cuja ausência não existiria felicidade, risada nem alegrias ou penas compartilhadas; alguém (e possivelmente fosse o mais importante) por quem saber-se amado.

— A resposta, querido, é que nos dois casos, tanto se Marguerite for capaz de superá-lo como se não - disse com convicção, — Dunraithe nunca estaria bastante seguro para arriscar-se. Devemos partir do fato de que se lhe puserem alguma condição a aceitará.

Theloneus se apoiou no espaldar.

— Nesse caso terei que exercer uma vigilância rigorosa sobre todas suas decisões, o qual não gosto absolutamente. Não penso lhe perguntar do que o acusa a pessoa em questão, mas possivelmente deva saber se se trata de um delito penalizado que possa afetar a sua posição.

— Não, é puramente moral - respondeu ela com um sorriso inclinado. — Se estivesse penalizado nossos cárceres ficariam repletas e o parlamento vazio.

— Ah... - Ele correspondeu a seu sorriso. — De maneira que desses. Compreendo. No caso do Dunraithe me custaria acreditar, mas me dou conta de quão difícil seria para o Marguerite, embora soubesse que era falso. Às vezes a risada é a mais cruel das sentenças.

Era necessário lhe contar o resto.

— Há mais, Theloneus. Mais e pior.

Houve algo em sua voz, uma nota de temor, que o sobressaltou. Vespasia tinha medo de tão poucas coisas! Frente a um ato de maldade, sua reação habitual era zangar-se.

— Do que se trata?

— Dunraithe White não é o único. John Cornwallis e Brandon Balantyne também estão sendo chantageados, e é quase seguro que pela mesma pessoa... ou pessoas.

— Brandon Balantyne? - O assombro arregalou o olhar do Theloneus. — John Cornwallis? Resulta-me... quase impossível de acreditar. E disse "pessoas". Acha que poderia haver mais de um culpado?

Ela suspirou. De repente se sentia esgotada pelo esforço de imaginar coisas tão desagradáveis.

— Talvez. De momento não houve nenhuma exigência. Dunraithe não é um homem rico, mas tem muito poder e influência. É juiz. Corromper a um juiz é algo terrível, um golpe na raiz da única barreira que existe entre a pessoa e a injustiça. Significa uma perda de confiança em que a sociedade proteja a seus membros, em última instância do caos e a lei da selva.

Viu em seu rosto que estava de acordo. Ele não a interrompeu.

— No caso do John Cornwallis pode dizer-se quase o mesmo – prosseguiu Vespasia. — Não é rico, mas enquanto que subchefe de polícia tem muito poder. Se a polícia está corrompida, o que nos protegerá da violência ou roubo? A ordem começa a desgastar-se, e as pessoas, que não confiam em outros, toma a justiça por sua mão. O que não entendo é o do Brandon Balantyne.

Viu que seu amigo não lhe seguia o fio.

— Ele lhe disse que o chantageiam? - perguntou Theloneus imediatamente.

— Não à Charlotte. Está muito preocupada, porque o quer muito. Esse é outro problema.

Tampouco desta vez foi compreendida. Leu-o nos olhos de seu amigo.

— Não - disse com um sorriso, — não refiro a nada disso. - Respondia assim a uma pergunta que ainda não tinha sido formulada. — Mas Charlotte não se dá conta de que possivelmente o afeto dele por ela seja superior ao que acreditam os dois. - Moveu a outra mão, deixando a idéia para outro momento. — Estou assustada, Theloneus. O que quererá o chantagista? Se exercitar seu poder com suficiente destreza poderia causar danos incalculáveis. Que outros afetados pode haver?

Theloneus tinha empalidecido.

— Ignoro-o, querida, mas acredito que devemos ter em conta a possibilidade de que haja mais e não possamos encontrá-los, nem adivinhar sua identidade. O caso, Vespasia, pode ser muito grave. Possivelmente esteja em jogo muito mais que a reputação de uma ou várias pessoas, que já é importante. Acha possível convencer ao Brandon Balantyne de que resista a pressão?

— Possivelmente. - Ela pensou no que sabia do Balantyne; vagas lembranças, sua rosto de jovem, as desgraças que tinha sofrido depois. Acusa-lhe de covardia ante o inimigo.

Theloneus estremeceu. Não era um homem muito militar, mas sabia bastante da guerra e a honra para compreender o alcance da acusação.

— Sofreu tanto... - disse ela em voz baixa. — Mas quem sabe se tendo passado por tantas dificuldades não será capaz de voltar a agüentar a ignomínia com mais valentia que outros. Confio que não seja necessário.

— E Cornwallis?

— De atribuir um ato alheio de valentia em alto mar. Em todos os casos a acusação é a mais dolorosa que poderia formular-se contra o chantageado. Enfrentamo-nos com alguém que conhece bem a suas vítimas e possui uma habilidade excepcional para lhes fazer dano.

— Certamente - disse ele, sombrio, — e para derrotá-lo será preciso a mesma habilidade, além de uma boa dose de sorte.

— Muita, sim - assentiu ela. — Possivelmente não seja conveniente ir à batalha com o estômago vazio. O cozinheiro tem aspargos, pão negro e manteiga, e espero que também haja champanha.

— Conhecendo-a, querida, estou certo de que sim - aceitou ele.

Cornwallis passeava diante da Royal Academy, preso de uma dor cuja modalidade jamais tinha experimentado. Estava acostumado à solidão e as moléstias físicas do frio, o esgotamento e os maus mantimentos (bolachas rançosas, panceta em muito luxuriosa e água salubre). Enjôos, febre, feridas... Tudo isso tinha padecido; também, inquestionavelmente, o medo, a vergonha e uma compaixão tão dilaceradora que parecia insuportável.

Antes de conhecer a Isadora Underhill, esposa do bispo Underhill, não sabia o que era pensar em uma mulher com gozo e dor inextricavelmente unidos, desejar sua companhia e ter tanto medo de lhe fazer dano ou decepcioná-la que o mero fato de imaginar isso provocasse náuseas.

Não havia nada mais doce que a idéia de que ela também sentisse algo por ele. O que? Não ousava nem pensar. Bastava que ela o tivesse em bom conceito, que o considerasse como um homem de honra, compaixão, valentia e aquela probidade interna que não cedia nem se deixava afetar por nenhuma circunstância exterior.

Em seu último encontro ela tinha comentado que visitaria a exposição de quadros do Tissot na Royal Academy. Se ele não fosse interpretaria como que não desejava vê-la. A relação entre ambos era muito discreta para que Cornwallis se justificasse, como se ela o esperasse. Não obstante, se fosse, encontrar-se-iam (como era inevitável) e entabulariam uma conversa (e como não?), detectaria ela o medo provocado pela carta? Era extremamente perspicaz. Podia dizer-se que adivinhava nele emoções que ninguém tinha suspeitado. Se na atual agonia do Cornwallis ela era capaz de caminhar a seu lado, conversar e não notá-lo, que valor tinha seu afeto?

E em caso contrário, se se desse conta, como explicar-lhe?

Subiu pela escadaria e entrou no edifício sem ter chegado a nenhuma conclusão. A sala da exposição estava anunciada em um pôster. Passou ao lado da virgem da Fra Angélico, de grave e primorosa beleza; de costume teria despertado em seu interior uma emoção incomparável, mas desta vez mal lhe prestou atenção. Não pensava entrar na sala dos Turner, porque sua paixão o teria transbordado.

Sem dar-se conta já estava na exposição do Tissot. Viu a Isadora. Sempre a reconhecia a simples vista pela especial inclinação de sua cabeça morena. Levava um chapéu muito simples de aba longa. Estava sozinha, contemplando os quadros como se fossem muito de seu agrado, embora ele sabia que eram muito estilizados para seu gosto e que preferia as paisagens, as visões e os sonhos.

Caminhou para ela como impulsionado por uma força irresistível.

— Boa tarde, senhora Underhill - disse com quietude.

Sorriu-lhe.

— Boa tarde, senhor Cornwallis. Como está você?

— Muito bem, obrigado. E você, senhora Underhill?

Desejava lhe dizer quão formosa estava, mas teria incorrido em um excesso grave de confiança. O porte daquela mulher estava dotado de uma elegância perfeita, e toda ela de uma beleza muito mais profunda e satisfatória para a mente que a mera perfeição de linhas ou cores. Achava-se na expressão de seus olhos e seus lábios. Desejou poder dizer-lhe, mas só comentou:

— Bela exposição.

— Muito - respondeu ela sem entusiasmo, sorrindo vagamente. — De todo modo, eu prefiro as aquarelas da sala do lado.

— Eu também - assentiu ele. — Vamos vê-las?

— Com muito gosto - aceitou ela, lhe pegando o braço.

Passaram ao lado de um grupo reduzido de cavalheiros que admiravam o retrato de uma jovem com vestido de listas. A sala contigua estava virtualmente vazia. Detiveram-se de consenso diante de uma marinha de pequeno formato.

— Não lhe parece que captou muito bem o efeito da luz na água? - disse ele com intensa admiração.

— Sim - assentiu ela, lhe dirigindo um olhar fugaz. — As pinceladas verdes são acertadíssimas. Dão uma sensação de frio e transparência. É difícil conseguir que a água pareça líquida.

Em seu olhar havia certa preocupação, como se tivesse visto no rosto de Cornwallis os rastros da insônia, o medo e a desconfiança que começavam a infiltrar-se em todos seus pensamentos, e desde a noite anterior até em seus sonhos.

O que pensaria se soubesse? Acreditaria em sua inocência? Compreenderia a causa de seu medo? Tê-lo-ia ela a que a acusação fosse acreditada por outras pessoas? Quereria então distanciar-se da vergonha que implicava, do embaraço de ter que dizer que não lhe dava crédito, explicar o motivo, reparar nos olhares de educada diversão e estranheza... e envergonhar-se?

— Senhor Cornwallis?

Sua voz revelava certa preocupação.

— Sim! - disse ele de maneira um pouco precipitada. Sentiu que lhe queimavam as faces. — Perdoe, estava distraído. Passamos ao quadro seguinte? Acho muito agradáveis as cenas da vida rural.

Que frase mais forçada! Como se fossem dois desconhecidos falando por compromisso. E que fria! "Agradáveis." Que palavra mais morna para aplicá-la a uma beleza como aquela, cheia de uma paz profunda e perdurável! Olhou as vacas brancas e negras que pastavam na erva intercalada de sol, e a paisagem estival de colinas que se adivinhava entre as árvores. Era uma terra a que amava com paixão, por que não podia dizer-lhe?

O que é o amor sem confiança, perdão, paciência nem ternura? O simples apetite e necessidade físicos, o fato de gozar-se na companhia do outro, os prazeres compartilhados, a própria risada ou o intercâmbio de opiniões, só demonstram uma boa relação. A única maneira de ir mais à frente é dar além de receber, pagar os custos além de receber os benefícios.

— Vejo-o um pouco preocupado, senhor Cornwallis - disse ela com doçura.             — Trabalha em um caso difícil?

Ele tomou uma decisão.

— Sim, mas penso me esquecer dele durante meia hora. - Fez o esforço de sorrir e uniu seu braço ao da senhora Underhill, algo que nunca tinha feito. — Contemplarei esta beleza sem mancha, que nada murcha nem destrói, e o fato de compartilhá-la com você a multiplicará por dois. Que espere o resto do mundo. Não demorarei para me reunir com ele.

Lhe devolveu o sorriso, como se tivesse entendido muito mais que o conteúdo de suas palavras.

— Sábia decisão, que imitarei.

E caminhou junto a ele sem afastar o braço.

 

Tellman tinha que averiguar mais coisas a respeito do Albert Colé, e em concreto de seus movimentos durante seus últimos dias de vida. Até então cada dado novo tinha aumentado a confusão. Era necessário começar outra vez desde o começo, e o melhor lugar para isso era o domicílio de Colé no Theobald’s Road.

A casa era velha, e iluminada pelo sol da manhã e parecia mais que em sua primeira visita, mas estava limpa, com tapetinhos de tecido no chão de madeira, e Tellman achou à caseira com o balde e a escova de esfregar. Levava um lenço na cabeça para que não lhe caísse pelo rosto seu cabelo, de um loiro esvaído. Tinha as mãos ensaboadas e com os dedos vermelhos.

— Bom dia, senhora Hampson - disse ele afavelmente. — Perdoe que volte a incomodá-la quando trabalha.

Lançou uma olhada ao chão do corredor, parcialmente limpo. O aroma de lixívia e vinagre lhe recordou os aposentos de sua infância, e a sua mãe ajoelhada da mesma maneira com a escova na mão e a blusa arregaçada. Era como voltar a ser menino, com calças curtas e buracos nas botas.

A senhora Hampson se levantou e alisou o avental com expressão de desconfiança.

— Outra vez você? Continuo sabendo o mesmo do senhor Colé que a primeira vez que veio. Era um homem tranqüilo, boa pessoa e amável com todos. Não me ocorre nenhuma razão para querer matá-lo.

— Tente lembrar-se dos últimos dias antes de sua morte, senhora Hampson – disse ele com paciência. — A que hora se levantava? Costumava tomar o café da manhã? Quando saía? E quando voltava? Recebia alguma visita?

— Eu nunca vi ninguém - respondeu ela meneando a cabeça. — Prefiro que não venham, porque não há lugar e nunca se sabe a que sobem; mas bom, o senhor Colé era um homem decente, e se alguma vez fazia... o natural, vá... não era nesta casa.

Tellman não achava que Colé tivesse morrido por um assunto de saias, e não se incomodou em investigá-lo.

— A que horas chegava e partia durante os últimos dias de sua vida, senhora Hampson?

Ela refletiu.

— No último dia que o vi, que devia ser na quinta-feira, saiu por volta das sete da manhã. Tinha que pegar os clientes de caminho ao trabalho. Não podia dar-se ao luxo de perdê-los. - Afinou os lábios. — Me explicou que o turno seguinte era a das nove ou as dez. Os advogados começam mais tarde, porque são mais senhores.

Gente de passagem há todo o dia, claro.

— E o dia antes? Lembra-se?

— Um pouco. - A senhora Hampson conservou a escova na mão, sem se importar que gotejasse. — Não recordo nada especial, mas se tivesse passado algo diferente me lembraria. Cada dia é o mesmo: papa para o café da manhã e uma pedaço de pão. Ouça, que tenho trabalho. Se quer seguir perguntando terá que entrar e deixar que continue.

Ficou de joelhos para limpar as gotas e o pouco que ficava de água e sabão. Tellman pegou o balde com intenção de levar-lhe e as mãos de ambos se tocaram no cabo de madeira.

Ela ficou tão surpreendida que esteve a ponto de soltá-lo, mas não fez nenhum comentário.

Quando chegaram à cozinha deixou o balde em um canto e começou a misturar pó branco de tijolo com azeite de linhaça, conseguindo uma massa para limpar a superfície das mesas. Logo misturou outro pouco com água para tirar brilho às facas e o pomo do atiçador dos fogões.

Tellman se sentou em um canto para não incomodá-la, e enquanto a via trabalhar lhe fez todas as perguntas que lhe ocorreram a respeito do Albert Colé. Uma hora depois a cozinha estava limpa, e o sargento saiu detrás da caseira, a qual, armada de um escovão, dispunha-se a varrer o patamar e sacudir as esteiras. Ao partir, Tellman se tinha formado uma idéia bastante precisa da vida doméstica de Colé, normal, decente e de uma confortável monotonia. Que soubesse a senhora Hampson, passava todas as noites só em sua cama, cabia supor que adormecido.

A seguinte parada do sargento foi a esquina do Lincoln’s Inn Fields, onde perguntou aos transeuntes e os vendedores se recordavam ter visto Colé em seu posto habitual. Desentranhar a lembrança de um dia concreto não era tarefa fácil.

A florista da esquina mais afastada, a que dava a New Square, foi de maior utilidade.

— No domingo não estava. De qualquer modo não é dia de compra e não vem quase nenhum vendedor - disse, coçando a cabeça e torcendo um pouco o chapéu. — Na segunda-feira sim, porque o vi e falamos um pouco. Disse que estava pendente de um bom pagamento e eu ri pensando que zombava de mim, mas respondeu que o dizia a sério. O que não disse é de onde pensava tirá-lo. Depois já não o vi mais.

— Seria na terça-feira - corrigiu Tellman.

— Não, na segunda-feira - insistiu ela. — Sempre sei que dia é pelo que acontece na praça. Conta-nos isso tudo Beanpole, que é o recitador. Era segunda-feira. Na terça-feira não veio, e na quinta-feira pela manhã é quando o achou morto a polícia no Bedford Square. Pobre, com o bom homem que era!

— E onde estava na terça-feira? - perguntou Tellman com perplexidade.

— Não sei. Pensei que devia estar doente.

A investigação no Lincoln’s Inn Fields não deu mais resultados, nem tampouco as perguntas no Bull and Gate.

Pela tarde o sargento voltou para o necrotério, lugar que aborrecia. Em dias de calor o ambiente parecia mais asfixiante e claustrofóbico, como se se pegasse à garganta. Flutuava uma mescla estranha de aromas agudos e acres. Em dias frios era como se as paredes jorrassem umidade e o frio impregnasse até os ossos. Parecia uma espécie de fossa comum arrumada e artificial pendente de que a cobrissem, e Tellman sempre tinha a sensação de que corria o perigo de ficar dentro.

— Não trouxeram ninguém novo - disse com surpresa o encarregado.

— Quero ver o Albert Colé. - Tellman teve que esforçar-se para dizê-lo. Era o último que desejava, mas o paradeiro de Colé um dia antes de seu assassinato podia ser a única pista a respeito do ocorrido. — Por favor.

— Como não - assentiu o encarregado. — O temos na geladeira, bem encerradinho. Agora mesmo lhe acompanho.

Tellman, obediente, seguiu-o para a saleta onde se guardavam os cadáveres em um frio glacial quando a polícia precisava seguir examinando-os com relação a um crime.  Fez-se um nó no estômago, mas levantou o lençol quase sem tremer. Sentiu-se indiscreto, porque o cadáver estava nu. Sabia tanto e tão pouco daquele homem! A pele do torso e as coxas estavam muito brancas, mas com um matiz cinza de sujeira, e o aroma de rançoso se devia a algo mais que ao ácido fénico e a carne sem vida.

— Que busca? - perguntou, serviçal, o encarregado.

Tellman não estava certo.

— Em primeiro lugar feridas - respondeu. — Foi soldado no trinta e três da infantaria. Participou de muitas batalhas e o reformaram por um tiro na perna.

— Não pode ser - disse o encarregado com segurança. — Pode ser que se rompesse algum osso, porque isso só se sabe quando os abre, mas as balas atravessam a pele e deixam cicatrizes. Este tem uma de faca no braço e outra no peito que lhe chega até as costelas, mas nas pernas nada. Olhe, se quiser.

— Consta em seu histórico militar - argumentou o sargento. — O li com meus próprios olhos. Foi ferido de gravidade.

—Pois comprove-o! - repetiu o encarregado.

Assim o fez Tellman. As pernas do cadáver estavam frias e a carne fofa, mas não havia nenhuma cicatriz nem marca de bala. Não, aquele homem não tinha recebido nenhum tiro, nem nas pernas nem em nenhuma outra parte do corpo.

O encarregado o olhava com curiosidade.

— Que enguiço? - perguntou. — O histórico ou o cadáver?

— Não sei - respondeu Tellman. Mordeu o lábio. — Suponho que em qualquer folha de serviços pode haver algum engano, embora estranharia. Mas se este homem não é Albert Colé... quem é? E por que levava em cima o recibo das meias do Albert Colé? Que sentido tem roubar uma fatura por três pares de meias?

O encarregado deu de ombros.

— A mim que me revistem. E como pensa averiguar quem é este desgraçado? Poderia ser qualquer um.

Tellman pensou com denodo.

— Era uma pessoa que passava muito tempo na rua e levava botas do número equivocado. Note-se nos calos dos pés. Vai sujo mas não é um trabalhador manual, porque tem a pele das mãos muito suaves. Em troca as unhas estão quebradas e já o estavam antes de brigar contra o assassino, porque as deixa negras. É magro... e se parece muito ao Albert Colé, bastante para que o advogado que comprava cordões de Colé confundisse com ele.

— Um advogado? - O encarregado voltou a dar de ombros. — Não acredito que se fixasse muito no rosto. Seguro que olhava os cordões e quase não lhe dirigia a palavra.

Tellman o considerou muito provável.

— Por onde pensa começar?

O interesse do encarregado era quase possessivo.

— Pelos que dizem que Albert Colé era um ladrão - respondeu Tellman, que acabava de decidi-lo-, começando pelo prestamista. Pode ser que este homem fosse o que lhe levava coisas roubadas.

— Boa idéia - disse respeitosamente o encarregado. — Se estiver perto passe a ver-me. Tomamos uma xícara de chá e me conta as novidades.

— Obrigado - respondeu Tellman, sem a menor intenção de retornar a menos que o exigisse o dever. Escrever-lhe-ia uma carta!

Não podia dizer-se que o prestamista se alegrasse de vê-lo. A prova foi que lhe pintou o desgosto na rosto antes de que Tellman tivesse franqueado a soleira de seu estabelecimento.

— Já lhe disse que aqui não tenho nada roubado, ao menos que eu saiba! Me deixe em paz!

Tellman ficou onde estava e o olhou fixamente, satisfeito por sua raiva e seu desconforto.

— O outro dia disse que Albert Colé vendia anéis de ouro e outras coisas que achava nos esgotos.

O prestamista apertou as mandíbulas.

— O disse e é verdade.

— Não; disse que era o homem que viu na foto que lhe mostrei - corrigiu-o Tellman: — magro, loiro e um pouco calvo por diante, com o rosto chupado e uma cicatriz em uma sobrancelha...

— E você disse que se chamava Albert Colé, tinha sido soldado e o tinham matado no Bedford Square - assentiu o prestamista. — E o que? Nem o matei eu nem sei quem é o assassino.

— Exato! Disse-lhe que era Albert Colé. - Tellman lamentou ter que reconhecê-lo.    — Pois agora parece que não. Não coincide com seu histórico militar, de maneira que eu gostaria de saber quem é. Imagino que quererá nos ajudar a identificá-lo, porque é uma possibilidade de ganhar o favor da polícia sem delatar a ninguém. Faça um esforço. Me diga tudo o que recorde do homem que dizia que descia aos esgotos. Talvez fosse verdade. Talvez não fosse vendedor de cordões.

O prestamista fez uma careta de desprezo.

— Pois então não encontrava muito, ou não me trazia isso. Pela zona oeste há alguns que ganham a vida muito bem. Parece incrível que os ricos sejam tão descuidados com o ouro e o resto de suas coisas.

— Adiante, me conte tudo o que dele saiba - insistiu Tellman, passeando um olhar inquisitivo pelas prateleiras. — Bonito relógio. Muito luxo para a classe de pessoa que tem que empenhar algo.

O prestamista se enfureceu.

— Aqui vem pessoas de muita categoria, e uma má onda pode tê-la qualquer um. Até pode ser que um dia aconteça com você. Com certeza então lhe tiram esses ares de superioridade que tem.

— Sim, mas não teria um relógio assim para empenhar - respondeu Tellman. Acho que passarei a delegacia de polícia, não vá resultar que de repente o dono esteja em situação de desempenhá-lo. Não sei, possivelmente apareça em uma lista de objetos roubados... Ao ponto: me diga tudo o que saiba do homem que vinha lhe vender jóias.

O prestamista se apoiou na vitrine.

— Se o digo me deixará em paz? Uma vez entrou quase ao mesmo tempo que uma mulher do bairro, uma que se chama Lottie Menken e vive a uns cinqüenta metros daqui. Ela devia empenhar o bule, como tantas vezes, desgraçada. Devia conhecê-lo, porque o chamou Joe ou um nome assim. Procure-a e lhe dirá quem era.

— Obrigado - disse Tellman. — Com um pouco de sorte não me verá mais.

O prestamista murmurou uma oração, a menos que fosse uma blasfêmia.

Tellman demorou quase uma hora para achar Lottie Menken. Era tão baixa e corpulenta que se movia com uma espécie de sacudida de cabeça. Seu cabelo negro e encaracolado consistia em um arbusto despenteado colocado na cabeça como um chapéu.

— O que acontece? - disse quando a abordou o sargento.

Estava ao lado da cozinha fabricando sabão, que era sua maneira de ganhar a vida. Tinha à mão vários recipientes de gordura e azeite, uma parte dos quais se misturava com soda para conseguir pastilhas, embora a maior, misturada com potássio, convertia-se em sabão líquido, muito mais econômico. Nas estantes altas, que devia alcançar com ajuda dos tamboretes da cozinha, Tellman viu vários potes com compostos de anil, branco da Espanha e esmalte para o último lavado. Serviam para tirar a cor amarela que dava o amido ou era consubstancial à roupa branca de pior qualidade.

Teve a prudência de não interromper seu trabalho. Apoiou-se descuidadamente em uma das mesas de trabalho como se fosse do bairro (na realidade tinha crescido em um semelhante).

— Disseram-me que conhece um tal Joe, um homem magro e loiro que de vez em quando vende coisas ao Abbott, o prestamista. É verdade?

— E o que tem se o for? - replicou ela sem levantar o olhar. — Terei que misturar as medidas exatas. Não o conheço muito. Só nos saudamos.

— Como se chama?

— Josiah Slingsby. Por que? - Continuava sem olhá-lo. — Você quem é e o que lhe importa? Não penso me misturar em nenhum assunto do Slingsby, de maneira que vá tocando. Venha, fora!

A raiva, e possivelmente o medo, crisparam-lhe as feições.

— Pode ser que tenha morrido - disse ele sem mover-se.

Ela interrompeu seu trabalho pela primeira vez e deteve o movimento de suas mãos. O líquido quase lhe molhava as mangas enroladas.

— Que Joe Slingsby está morto? Por que o diz?

— Acredito que se trata do cadáver que acharam no Bedford Square.

Desta vez Lottie Menken se voltou para olhá-lo, e em seu rosto havia algo que ao Tellman pareceu esperança.

— Estaria disposta a vir comigo e lhe dar uma olhada? - perguntou ele. — Assim me confirma isso. - Compreendeu o custo de lhe fazer perder tempo de trabalho. — Seria um serviço à polícia, que logicamente o pagaria. Parece-lhe bem um xelim?

Viu-a interessada, mas ainda indecisa.

— Identificar cadáveres é um trabalho muito frio - acrescentou. — Depois nos seria preciso um jantar bem quente e uma jarra de cerveja.

— Sim, suponho que sim. - Lottie Menken assentiu com a cabeça, sacudindo os cachos. — Onde está o cadáver que poderia ser Joe Slingsby?

A primeira coisa que fez Tellman no dia seguinte foi ir à delegacia de polícia do Bow Street para achar ao Pitt antes que saísse e lhe comunicar sua segurança de que o cadáver não pertencia ao Albert Colé, mas ao Josiah Slingsby, ladrão e pessoa briguenta.

Pitt ficou perplexo.

— Slingsby? Como sabe?

Estavam frente a frente com a mesa no meio, coberta de papéis.

— Identificou-o alguém que o conhecia, e duvido que se equivocasse ou mentisse: descreveu o corte da sobrancelha e sabia o da navalhada no peito. Lembrava-se de quando a fizeram, faz dois anos. O que está claro é que não se trata do Albert Colé. Desmente-o a folha de serviços, concretamente o do disparo: a Colé reformaram por uma ferida na perna, e o cadáver não tinha nenhuma. Lamento-o, senhor.

Não entrou em detalhes. Seu superior merecia uma desculpa, mas não uma longa história, e menos ainda uma escusa.

Pitt se apoiou no espaldar da cadeira e meteu as mãos nos bolsos.

— Suponho que o advogado que o identificou o fez de boa fé. Devia estar pouco acostumado a ver cadáveres, como quase todo mundo. Além disso, demos por certo que era Colé por causa das meias, o qual nos leva a interessante pergunta de por que levava o recibo do Albert Colé no bolso. A menos que fosse dele!

— Duvido-o. Não vivia perto de Rede Lion Square, mas a vários quilômetros, no Shoreditch. Verifiquei-o ontem pela tarde. Pelo Holbom não o conhecia ninguém de vista nem de ouvido. Nem na rua nem no pub. Eu acredito que não conhecia o Albert Colé nem tinha nada que ver com ele. Quanto mais o penso menos se enquadra. Slingsby era ladrão, mas que sentido tem roubar o recibo de umas meias? Só valem uns pennies, e o normal é guardá-lo como máximo um ou dois dias.

Pitt mordeu o lábio.

— Então que fazia Slingsby no Bedford Square? Roubar?

Tellman aproximou a outra cadeira e tomou assento.

— É provável, mas o estranho é que não se sabe nada de Colé. Também desapareceu. Deixou seus pertences no quarto e o aluguel pago, mas faz dias que não o vê ninguém em sua esquina nem no Bull and Gate. Na segunda-feira, em troca, tanto ele como Slingsby foram vistos em seus lugares habituais. Está claro que se trata de dois homens com uma semelhança casual.

— E que Slingsby apareceu morto com o recibo de Colé no bolso – acrescentou Pitt. — Tirou-o por um motivo que nos escapa? Ou foi outra pessoa quem roubou a Colé, um terceiro comprometido a quem não conhecemos e que o entregou ao Slingsby? Nesse caso, por que?

— Possivelmente não nos tenha ocorrido e seja uma tolice - disse Tellman sem acreditar isso possível. Limitava-se a dar paus de cego. — Possivelmente não tenha nada que ver com o assassinato do Slingsby.

— E por que levava no bolso a caixa de rapé do general Balantyne? – acrescentou Pitt. — O general estava sendo chantageado...

Tellman teve uma surpresa. Tinha má opinião do Balantyne, como de todos os privilegiados, mas era por desprezo aos que tiravam da sociedade mais do que investiam nela, aos que gozavam de uma autoridade imerecida. Tratava-se de algo aceito pela maioria, e em nenhum caso um delito.

— O que fez? - perguntou, jogando a cadeira um pouco para trás.

Pelo rosto do Pitt passou um brilho de raiva, e de repente os afastou um abismo. Tinham reaparecido as velhas hostilidades e barreiras de quando Pitt tinha recebido o comando do Bow Street. Ambos eram de origem humilde. Pitt, simples filho de guarda-florestal, aspirava, entretanto, a alguma coisa mais. Falava como pessoas distinguidas e tentava adotar suas maneiras. Tellman, pelo contrário, permanecia fiel a suas raízes e sua classe. Ele queria lutar contra o inimigo, não passar-se a ele.

— Não fez nada - disse Pitt com frieza e precipitação, possivelmente, — mas não pode demonstrá-lo facilmente e a acusação o afundaria. Refere-se a um incidente da campanha abissínia, em que também participou Albert Colé, como demonstrou você. O que ainda não sabemos é se Josiah Slingsby tinha algo que ver com a chantagem.

— A caixa de rapé! - disse Tellman com satisfação. — Um pagamento?

Lamentou suas palavras assim que as pronunciou, e se ergueu automaticamente na cadeira.

Pitt era a viva imagem do desdém.

— Uma caixa de similar? Não me parece que valha a pena. Josiah Slingsby talvez fosse capaz de matar por um punhado de guineus, mas Balantyne não.

A consciência de haver dito uma estupidez teve efeitos crispantes sobre Tellman. Tentou dissimular, mas se deu conta de que se notava no rosto.

— Possivelmente houvesse algo mais além da caixa de rapé - disse com brusquidão. — É possível que só fosse uma fração. Não sabemos que outra coisa pode lhe haver dado. Possivelmente fosse o último de muitos pagamentos e o general perdesse as estribeiras. Pode ser que se desse conta de que nunca se livraria dele, mas o chantagista acabaria afundando-o depois de lhe haver chupado o sangue.

— E as meias de Colé? - perguntou Pitt.

— É lógico. - Tellman se inclinou e apoiou uma mão na mesa. — Colé e Slingsby eram cúmplices. Colé contou ao Slingsby sobre o general. Pode ser que soubesse como usaria a informação e pode ser que não. Talvez Slingsby matasse a Colé pelos lucros.

— Recordo-lhe que o morto é Slingsby - alegou Pitt.

— Bom, pois o matou Colé.

— Conclusão: Balantyne é inocente - disse Pitt com um sorriso forçado.

Tellman reprimiu um xingamento.

— É uma das possibilidades - reconheceu, — mas ainda sabemos muito pouco.

— Certo - assentiu Pitt, — de maneira que vá averiguando todo o possível. Procure descobrir se existe alguma relação entre o Slingsby e Balantyne, e se o general tinha pago algo mais além da caixa de rapé ou feito algo por instigação do Slingsby.

— Às ordens.

Tellman se levantou, mas não para enquadrar-se.

— Outra coisa...

— Diga.

— Desta vez procure me informar diretamente na delegacia de polícia, não em casa.

Ao Tellman ardeu o rosto, mas qualquer resposta teria piorado as coisas. Negava-se a rebaixar-se para dar explicações que pudessem entender-se como desculpas. Permaneceu tenso e calado.

— Não quero que se inteire ninguém de que investiga ao general - insistiu Pitt, — ou de que o segue. Entendido? E incluo nesse "ninguém" Gracie e a senhora Pitt.

— Sim, senhor. Algo mais?

— Não, de momento, não.

Os jornais da manhã seguinte anunciavam dois escândalos. As pessoas eram a saga do caso Tranby Croft, que a cada nova revelação tomava uma aparência mais desagradável. Resultava agora que depois da acusação inicial de fazer armadilhas no bacará Gordon-Cumming tinha aceitado assinar uma carta pela qual se comprometia a não falar disso com ninguém.

Dois dias depois do Natal recebia um anônimo de Paris onde se mencionava o caso Tranby Croft e lhe aconselhava não tocar as cartas em território francês, porque o tema estava no ar.

A carta o deixou aniquilado. O pacto de confidencialidade tinha sido infringido.

E não acabava aí a coisa: pouco depois o episódio tinha sido divulgado por outra fonte, a última amante do príncipe do Gales, Francês Brooke, ou Brooke a faladora (por sua inveterada propensão à fofoca).

Gordon-Cumming escreveu a seu superior, o coronel Stracey, enviou-lhe sua documentação e pediu ser reformado do exército com meio pagamento.

Uma semana depois, o general Williams e lorde Coventry (os dois amigos e conselheiros do príncipe) visitavam sir Redvers Butler no Ministério de Defesa e o informavam a título oficial dos fatos acontecidos no fim de semana no Tranby Croft. Também solicitaram uma investigação completa e o mais rápida possível por parte das autoridades militares.

Gordon-Cumming pediu ao Butler que atrasasse a investigação a fim de não prejudicar o processo civil que tinha pendente por calúnias.

Enfrentado com a perspectiva de prestar declaração, o príncipe de Gales acabou à beira do esgotamento nervoso, mas de nada lhe serviu, porque outras testemunhas (Wilson, Lycett Green e Levett) negaram-se a retirar as acusações de fraude.

Tal era o histórico do caso. A causa estava sendo ouvida pelo presidente do Tribunal Supremo, lorde Coleridge, e um jurado especial. Era uma esplêndida e calorosa manhã de princípios de julho. A sala estava repleta, e o público pendente de qualquer palavra.

Pitt só tinha interesse pelo caso na medida em que refletia a fragilidade da reputação, assim como a facilidade com que uma mera insinuação podia afundar qualquer homem. E o que dizer de um fato!

Chamou-lhe a atenção outro escândalo na parte inferior da mesma página. Era uma notícia impressa debaixo de uma fotografia do parlamentar sir Guy Stanley, que aparecia falando com uma mulher de traje chamativo a quem o pé identificava como esposa do Robert Shaughnessy. Tinham sido surpreendidos em íntima conversa. Shaughnessy era um jovem de ambições políticas radicais e contrário à política governamental, que nos últimos tempos, com a ajuda do que parecia informação privilegiada, tinha conseguido dar um passo de gigante para sua meta. Na foto dava as costas a sua mulher e sir Guy.

O texto insinuava que a intimidade de sir Guy, candidato avantajado a uma carteira ministerial, e a senhora Shaughnessy não se advinha com a moralidade nem a honra. As frases ambíguas do jornalista davam a entender que o primeiro tinha filtrado dados internos em paga pelos favores da segunda. O fato de que a diferença de idade fosse de uns trinta anos afiava o caso e lhe conferia uma auréola de sordidez e patetismo.

Sir Guy Stanley não tinha mais remédio que dizer adeus a suas esperanças de ascensão. Pouco importava a veracidade do ato que lhe imputava, porque aquele golpe a sua reputação destruía seu perfil como candidato ao cargo governamental para o qual se baralhou seu nome.

Sentado à mesa da cozinha, Pitt segurou o jornal com uma mão e se esqueceu da torrada, da geléia e do chá, que esfriava.

— O que acontece? - perguntou Charlotte com inquietação.

— Não tenho certeza - disse ele. Uma vez que leu a notícia do Guy Stanley, baixou o jornal e olhou a sua mulher nos olhos. — É uma coincidência ou a primeira execução de uma ameaça como advertência para outros?

Perguntou-se o que teria precipitado os fatos.

— Não importa o que seja, porque terá o mesmo efeito - indicou ela, pálida. Deixou a xícara no pires. — Como se não tivéssemos bastante com o do Tranby Croft! Isto dará mais força às pretensões do chantagista, seja ou não o responsável. Sabe um pouco do Guy Stanley?

— O que acabo de ler.

— E da tal senhora Shaughnessy?

— Nada. - Pitt respirou fundo e afastou o prato. — Acredito que terei que ir ver sir Guy. Devo averiguar se recebeu uma carta, mas sobre tudo o que lhe pediam... e teve a coragem de recusar.

Charlotte permaneceu calada em sua cadeira. Tinha tenso todo o corpo e seus ombros puxavam o algodão rosado de seu vestido, mas não havia nada mais que dizer.

Roçou-lhe a face e saiu em busca de suas botas e chapéu.

O endereço de Guy Stanley figurava no jornal. Pitt desembarcou da carruagem de cavalos a meio quarteirão de seu domicílio, caminhou depressa sob o sol matinal e puxou a campainha.

Apareceu um lacaio que o informou que sir Guy não se achava em casa nem recebia visitas. Faltou pouco para que lhe fechasse a porta no nariz, mas Pitt tirou seu cartão e o segurou no alto.

— Sinto muito, mas se trata de um assunto policial que não pode esperar – disse com firmeza.

O lacaio não ocultou suas reservas, mas os limites de sua autoridade não lhe permitiam opor-se à polícia, apesar de ter recebido ordens de não deixar entrar ninguém.

Deixou ao Pitt na soleira e foi consultar a seu senhor, levando-o cartão em uma bandejinha de prata.

Julho estava sendo mais quente do que o normal, e se agradecia a brisa. A meio-dia faria um mormaço. A incômoda espera recordou ao Pitt sua posição social. A um cavalheiro o teriam convidado a entrar, embora só fosse para deixá-lo no salão da manhã.

O lacaio retornou com uma expressão ligeiramente perplexa e conduziu ao Pitt a um grande estúdio, cuja porta abriu o próprio sir Guy Stanley ao termo de uma breve espera. Era um homem alto e magro, cuja semelhança com a fotografia do jornal era escassa. Deviam ter passado dois ou três anos, nos quais seu cabelo branco despovoara bastante, ao mesmo tempo que suas costeletas perdiam centímetros e ganhavam em esmero. Caminhava com precaução, como se temesse perder o equilíbrio, e ao fechar a porta de carvalho se deu um golpe no cotovelo. Tinha o rosto quase branco.

Pitt sentiu que lhe caía a alma aos pés. Stanley não parecia uma pessoa que tivesse enfrentado o inimigo, mas a vítima de um golpe terrível e inesperado. Continuava muito afetado e quase não controlava seus nervos.

— Bom dia, senhor... - lançou um olhar ao cartão que segurava - senhor Pitt. Não lhe negarei que esta manhã está sendo muito desagradável, mas se me diz no que posso ajudá-lo farei o possível. - Assinalou as poltronas de couro, exageradamente macias e com um desenho complicado de botões. — Sente-se, o rogo.

Ele quase caiu no que tinha mais perto, como se temesse não se ter em pé mais tempo.

Pitt se sentou em frente.

— Como não existe nenhuma maneira agradável ou diplomática de formular, passo a lhe expor a situação para não lhe fazer perder o tempo. Omitirei os nomes dos implicados por respeito a suas reputações, como farei com o seu se estiver em situação de me prestar alguma ajuda.

O rosto do Stanley não expressava compreensão, a não ser cortês resignação. Só escutava por havê-lo prometido.

— Conheço quatro pessoas importantes que estão sendo chantageadas... - começou Pitt.

Calou bruscamente, vendo avivar o interesse do Stanley, corar suas faces enxutas e crispar-se suas mãos nos braços de madeira e couro de sua poltrona.

— Acredito – prosseguiu com lúgubre sorriso — que os quatro são inocentes do ato que lhes atribui o autor das cartas. Por desgraça, em nenhum caso é possível demonstrá-lo. Trata-se em todos eles de uma falta que os envergonharia mais que nenhuma outra, que é também o motivo de que a pressão seja tão eficaz.

— Entendo.

Os dedos do Stanley pegavam e soltavam o braço da poltrona.

— Não houve nenhum pedido de dinheiro - continuou Pitt. — E mais: até hoje não se nomeou nem entregou nada à exceção de um pequeno objeto de boa vontade... ou submissão, se o preferir.

A mão do Stanley se crispou ainda mais.

— Entendo. E que ajuda espera de mim, senhor Pitt? Não conheço culpado nem me ocorre nenhuma maneira de resistir a seus ataques. - Sorriu com amargura, zombando de si mesmo. — Asseguro-lhe que hoje não existe em toda a Inglaterra um homem menos indicado que eu para dar conselhos sobre a salvaguarda da honra e da reputação.

Pitt já tinha decidido ser franco.

— Antes de vir, sir Guy, me ocorreu a possibilidade de que fosse você uma das vítimas do chantagista, e que ao conhecer o preço de seu silêncio o tivesse enviado ao inferno.

— Não mereço uma opinião tão favorável - disse Stanley sem alterar-se, mas com as faces acesas. — Lamento lhe dizer que não o enviei ao inferno, embora gostaria muito de vê-lo aí. - Olhou ao Pitt sem fraquejar. — Só me pediu algo muito pequeno, uma garrafa de brandy com banho de prata como objeto de boa vontade, embora possivelmente a palavra exata seja rendição.

— E a deu? - perguntou o delegado, temendo a resposta.

— Sim - respondeu Stanley. — A ameaça estava formulada em termos indiretos, mas não deixava lugar a dúvidas, e já teria visto pela imprensa que a executou. - Sacudiu um pouco a cabeça, gesto que não expressava negação, mas surpresa. — Não havia tornado a receber nenhuma outra advertência nem ameaça. Tampouco me tinha pedido nada. -Esboçou um sorriso. — Prefiro pensar que não o teria dado, mas já não saberei. Em realidade tampouco estou seguro de que queria ter feito a prova. Ficam ilusões... mas nenhuma certeza. Você o que acha? É melhor assim? - Levantou-se e se aproximou da janela, que não dava à rua, mas ao jardim. — Nos bons momentos acreditarei que o teria enviado ao inferno e que em minha queda teria conservado intacta a honra, embora a opinião geral não acreditasse assim. Nos maus, quando estiver cansado ou só, terei a segurança de que me teria rendido por falta de coragem.

Pitt tinha levado uma decepção. Surpreendeu-o pensar até que ponto tinha confiado em que tivessem pedido ao Stanley algo concreto, ou o uso de sua influência, e que a negativa tivesse precipitado os fatos. Desse modo teria sabido que desenvolvimento esperar no resto dos casos, e até podia haver-se estreitado o leque de identidades do chantagista.

Stanley reparou em sua expressão e acertou a interpretar suas emoções, mas não o motivo delas. Seus olhos expressaram dor e vergonha.

Pitt encolheu ligeiramente os ombros.

— Lástima. Lamento havê-lo incomodado em um momento tão difícil. Vinha com a esperança de que o chantagista tivesse mostrado suas intenções em grau suficiente para lhe pedir que abusasse de sua influência ou autoridade. Então teríamos sabido o que deseja. As outras vítimas pertencem a âmbitos diversos, e não percebo nenhum elo que as uma.

— Sinto-o - disse Stanley com sinceridade. — Tomara pudesse ajudá-lo! Perguntei-me mil e uma vezes quem pode ser. Pensei em todos meus inimigos ou rivais pessoais, todas as pessoas a quem tenha podido ofender ou insultar, ou cujas carreiras tenha afetado desfavoravelmente, mas não conheço ninguém capaz de cair tão baixo.

— Nem sequer o próprio Shaughnessy? - perguntou Pitt sem muitas esperanças.

Stanley sorriu.

— As crenças do Shaughnessy, que ultimamente tem muitos mais possibilidades de êxito em postar em prática, concordam escassamente com as minhas, mas ele não as oculta. É dos que lutam cara a cara por sua causa, não dos que recorrem à chantagem ou o segredo. - Encolheu levemente um ombro. — Por outro lado, se analisar você a história política recente, comprovará a falta de móvel. Shaughnessy já tem tudo o que possa lhe dar eu. Quão único conseguiria me afundando seria manchar sua causa, não fomentá-la. -Apertou os lábios e indicou o jornal que tinha em cima da mesa. — A foto dá uma imagem de mim como homem traiçoeiro e fácil de enganar, mas também deixa a sua esposa como uma rameira, mas como, independentemente de que um matrimônio esteja melhor ou pior concorde, não deseja apregoá-lo ninguém. Meu conhecimento da senhora Shaughnessy não chega ao que insinuam os comentários, mas a observei em muitas ocasiões e não vi nenhum motivo para duvidar de sua virtude.

— Claro - assentiu Pitt, que não podia fazer outra coisa. Tivesse ou não meios e ocasiões, Shaughnessy carecia de móvel. — Conserva a carta?

Os lábios do Stanley se torceram com desagrado.

— Não, queimei-a para que não a visse ninguém, mas posso descrever-lhe. Estava feita com recortes do Time, letras soltas ou palavras inteiras coladas a uma folha branca de formato normal. O carimbo era do centro de Londres.

— Recorda o texto?

— Pela cara que pôs vejo que é o que esperava - observou Stanley. — Deduzo que as outras eram iguais.

— Sim.

Suspirou.

— Caramba! Pois sim, acredito me lembrar; palavra por palavra possivelmente não, mas sim do conteúdo. O texto segurava que eu, em troca dos favores físicos da senhora Shaughnessy, tinha-lhe dado informação governamental útil para seu marido; que se chegava a saber se seria minha ruína, e em nenhum caso receberia a nomeação ministerial esperada. A carta solicitava a entrega a seu autor de um objeto que demonstrasse minha compreensão, como uma cigarreira com banho de prata. Incluíam-se instruções para empacotá-la e dá-la a um mensageiro que passaria a procurá-la de bicicleta.

Pitt inclinou um pouco o torso.

— Como sabia que você tinha esse objeto?

— Não tenho a menor idéia, e reconheço que me pôs bastante nervoso. – Stanley sofreu um ligeiro estremecimento. — Tive a sensação de que... de que estava me observando em todo momento... escondido... mas sempre perto. Suspeitava de todos...

Perdeu fôlego, afligido pela derrota e dor.

— E lhe deu a cigarreira? - perguntou Pitt no silêncio posterior.

— Sim, me rodeando a suas instruções - respondeu Stanley. — O fiz para ter tempo e pensar. Pedia-me isso imediatamente, para ser recolhido no mesmo dia.

— Já - disse Pitt. — Segue as pautas dos outros casos. Agradeço-lhe sua sinceridade, sir Guy. Desejaria lhe oferecer algum alivio para o transe pelo que passa, mas não conheço nenhum. Conte, entretanto, com que farei tudo o que esteja em minha mão para achar ao culpado e fazer a justiça que se possa. - Disse-o tão sentidamente, e com tal veemência, que foi o primeiro em surpreender-se. Fervia por dentro com a mesma raiva que se se tivesse produzido um assassinato ou um delito de lesões.

— O que aconteceria?

— A extorsão de uma cigarreira com banho de prata não é um delito grave - indicou Pitt com amargura. — Se tiver provas de que foi difamado poderá denunciar ao chantagista por danos e prejuízos, mas isso já depende de você, não de mim. A maioria duvida em tomar esse caminho, pelo simples motivo de que levar o assunto aos tribunais atrai muito mais publicidade que o silêncio. O pobre Gordon-Cumming e o caso Tranby Croft são a melhor prova.

Levantou-se e lhe estendeu a mão.

— Sou consciente disso, senhor Pitt - disse Stanley com pesar, — desejo-lhe sucesso e por muitas provas que haja nunca serão suficientes para apagar o mal a olhos da opinião pública. Assim funciona o escândalo. É uma mancha que não se lava. Suponho que a detenção do canalha me produziria certa satisfação, mas temo que se trate de um homem cuja reputação não fique muito prejudicada pela divulgação de seus atos.

— Não estou de acordo - disse Pitt, repentinamente satisfeito. — Eu acredito que é um homem cujo íntimo conhecimento das vítimas revela uma posição social parecida.

Stanley o olhou dos pés à cabeça.

— Se em algo posso ajudá-lo, senhor Pitt, não duvide em me chamar a qualquer hora. De ontem a hoje me converti em um inimigo muito mais perigoso, porque já não tenho nada que perder.

Pitt se despediu e saiu à rua, onde continuava fazendo sol. Não soprava nem pingo de vento, e lhe agrediu o olfato o aroma acre das deposições eqüinas. Uma carruagem golpeou os paralelepípedos. O sol arrancava brilhos ao latão dos arnês, as damas protegiam o rosto com sombrinhas e os lacaios, que levavam libré, suavam.

Depois de caminhar cinqüenta metros viu aproximar-se Lyndon Remus, cujo rosto refletiu a alegria de reconhecê-lo.

Sentiu uma antipatia que reconheceu como injusta. Remus não tinha escrito o insidioso artigo sobre sir Guy Stanley. Entretanto estava aí para lhe tirar proveito.

— Bom dia, delegado! - disse o jornalista com entusiasmo. — Vejo que visitou o Stanley. Investiga você as acusações?

— A mim, senhor Remus, não me incumbe se a relação entre sir Guy e a senhora Shaughnessy atenta ou não contra o decoro - disse Pitt com frieza, — nem me parece que incumba a você.

— Como, senhor Pitt! - As sobrancelhas loiras do Remus se emolduraram. — O fato de que um parlamentar enfaixa informação do governo em troca dos favores de uma dama incumbe a todos os habitantes do reino.

— Não tenho provas que o demonstrem. - Pitt permaneceu imóvel na calçada quente, enfrentando-o. — Só tenho lido uma insinuação maliciosa nas colunas de um jornal, mas embora fosse certo continuaria sem ser de minha incumbência. Não nos compete investigá-lo nem a você nem a mim.

— Pergunto-o por interesse público, senhor Pitt - persistiu Remus, colocando-se a escassa distância. — Não negará que o cidadão comum tem direito a velar pela honradez e moralidade dos homens a quem escolhe para que o governem!

Pitt soube que devia andar-se com cuidado. Remus recordaria suas palavras e até era capaz de citá-las.

— Naturalmente que não - respondeu, medindo-as, — mas existem vias lícitas de investigação, e a difamação é um delito moral até nas poucas ocasiões em que não o seja civilmente. Minha visita a sir Guy Stanley guarda relação com outro assunto no que considerei que sua experiência podia me ser de ajuda. Foi, mas não posso fazer nenhum comentário porque interferiria com uma investigação em marcha.

— O assassinato do Bedford Square? - concluiu Remus com agilidade. — Tem algo a ver com sir Guy?

— Não me compreendeu, senhor Remus? Acabo de lhe dizer que não posso fazer comentários, e lhe expliquei o motivo. Não quererá entorpecer meu trabalho, não é verdade?

— Não... Não, claro que não, mas temos direito a saber...

— Têm direito a perguntar - o corrigiu Pitt. — Você o fez, e eu respondi. Agora faça o favor de tirar-se do meio. Devo voltar para o Bow Street.

Remus o fez a contra gosto.

Quando esteve em seu escritório da delegacia de polícia, Pitt voltou a pensar em Remus. Valia a pena encomendar a alguém que o investigasse? Não parecia culpado de nada além de cumprir com seu trabalho, embora com uma fruição que francamente incomodava. Investigar casos de corrupção e abusos de autoridade ou privilégio era uma parte tão legítima de seu trabalho como no caso do Pitt. Os homens como Remus eram socialmente necessários, embora sua intromissão nas vidas privadas de seus concidadãos pudesse chegar a ser dolorosa e injustificada. A alternativa era o início de uma tirania e a perda do direito da sociedade a entender-se a si mesma e dispor de algum freio sobre as pessoas que a governavam.

Não obstante, o privilégio da imprensa também estava submetido a abusos, e a pertença à profissão não eximia de ser investigado pela polícia. Pitt podia encarregar a alguém que investigasse se Lyndon Remus tinha alguma relação com o Albert Colé, Josiah Slingsby ou algum dos chantageados.

Não teve tempo de ocupar-se disso, porque recebeu a mensagem de que Parthenope Tannifer desejava vê-lo quanto antes e pedia para ir visitá-la.

Esperava o convite, mas não de Parthenope Tannifer mas sim de seu marido, e talvez do Dunraithe White, embora possivelmente o juiz não desejasse chamar a atenção da polícia, decidido como estava a não enfrentar com o chantagista e aceitar todas suas exigências. Assim o havia dito a Vespasia.

Pitt também pensou na reação do Balantyne quando lesse a imprensa matinal. Devia estar doente de ansiedade e impotência, sem ninguém a quem ir para defender-se. Não podia demonstrar a falsidade da acusação inicial nem sua inocência no assassinato do homem da porta, Colé ou Slingsby. O fato de que fosse Slingsby não liberava de suspeitas o general, já que podia tratar-se de um mensageiro do chantagista.

Voltou a descer pela escada da delegacia de polícia e saiu à rua, quente e poeirenta. Em quem mais pensava era no Cornwallis, e no abatimento que se teria tomado conta dele ao dar-se conta de que as ameaças não eram gratuitas nem vacilaria o chantagista em executá-las. Vontade e meios não lhe faltavam. Tinha-o demonstrado além de qualquer dúvida e esperança.

Foi recebido em casa dos Tannifer e conduzido ao toucador de Parthenope (aquele salãozinho tão feminino onde as damas liam, bordavam ou conversavam a gosto com escassas intromissões masculinas).

O da mulher do banqueiro se parecia pouco aos que conhecia. As cores eram simples e pouco saturadas, e não se apreciava o afetação oriental animado pela moda durante a última década. tratava-se de uma peça altamente idiossincrásica, feita à medida dos gostos de sua proprietária e sem concessões às expectativas alheias. As cortinas eram simples, de cor verde pastel e sem flores. Tampouco as tinha o vaso verde de cerâmica vidrada que repousava na mesita, e cuja forma era ornato suficiente. O mobiliário era simples, antigo e muito inglês.

— Obrigado por vir tão rápido, senhor Pitt - disse Parthenope assim que a criada fechou a porta.

Vestia-se de cinza azulado com um lenço branco no pescoço, conjunto de certa severidade que, apesar disso, a favorecia. Uma cor mais suave teria dissimulado suas proporções angulosas. Estava muito angustiada e não fazia o menor esforço por ocultá-lo. A mesa do lado da poltrona tinha em cima o jornal da manhã, assim como trabalhos de costura com a agulha cravada entre recortes de seda de cores marrons e creme. As tesouras estavam no tapete, com um dedal de prata, como se Parthenope os tivesse deixado cair com a pressa.

— Viu-o? - perguntou, pondo o dedo no jornal.

Achava-se no centro da sala, muito zangada para sentar-se.

— Bom dia, senhora Tannifer - disse Pitt. — Se se referir à notícia sobre sir Guy Stanley, sim, eu a li e falei com o próprio sir Guy...

— E como está? - interrompeu-o ela.

Brilhavam-lhe os olhos. O medo, por uns instantes, tinha sido substituído pela preocupação e a pena.

— Conhece-o? - perguntou ele.

Ela o negou com um movimento da cabeça.

— Não, mas imagino quão mal estará passando.

— Dá você por certo que é inocente do que insinua o redator - disse Pitt, ligeiramente surpreso.

Era uma opinião mais generosa que a de muitas pessoas. O sorriso da senhora Tannifer teve a fugacidade de um raio de sol.

— Deve ser porque sei que meu marido é inocente. Equivoco-me?

Era uma interrogação peremptória, à beira do desafio.

— Não, que eu saiba - respondeu ele. — Sir Guy foi vítima de uma carta como a do senhor Tannifer. Por isso lhe acredito quando diz que a acusação não tem base.

Ela baixou um pouco a voz.

— Mas ele teve a coragem de enfrentar. Como disse o duque do Wellington: "Que publiquem e dêem a aparência de verdade!" Quanto o admiro! - Parecia sincera, e lhe haviam rosado um pouco as faces. — Mas a que preço! Duvido que obtenha o cargo de governo que procurava. Só o consolará seu próprio valor, e possivelmente o respeito dos amigos que o conheçam bastante para rechaçar a acusação. - Respirou fundo e ergueu os ombros. Havia em seu tom uma calidez que conferia a sua voz uma beleza excepcional.  — Espero que nós também saibamos fazer frente ao futuro. Escrever-lhe-ei esta mesma manhã para lhe expressar meu respeito. Possivelmente o reconforte. Não posso fazer mais.

Pitt não soube o que responder. Não queria mentir, e possivelmente não lhe conviesse se pretendia averiguar algo dela, mas tampouco estava disposto a revelar as confidências e dúvidas íntimas do Stanley.

— Vejo-o duvidoso, senhor Pitt - observou Parthenope, olhando-o com atenção. — Me oculta algo. É pior do que achava?

— Não, senhora Tannifer, só pensava em como dizê-lo para não cometer uma indiscrição. Apesar de que sir Guy Stanley e o senhor Tannifer estejam na mesma situação, preferiria não falar de um com o outro até extremos embaraçosos.

— Claro que não! - assentiu ela imediatamente. — E é admirável, mas averiguou algo mais a respeito da identidade do canalha? Imagino que lhe interessará qualquer informação. Verá... Não lhe chamei só porque esteja se desesperada e não saiba o que fazer nem como começar a liberar esta batalha, mas sim porque tenho dados novos que lhe comunicar. Sente-se, por favor.

Indicou a poltrona fofa e simples que estava diante da sua.

— Adiante, senhora Tannifer - disse Pitt. — O que averiguou?

— Recebemos outra carta de conteúdo muito semelhante à primeira mas bastante mais direta, com palavras como "engano" e desfalque"... - A vergonha e a ira lhe coloriram as faces. — É tão injusto! Sigmund não ganhou nem um oitavo que não se deva a sua habilidade e inteligência. Não conheço ninguém mais honrado. Meu pai era militar, coronel de regimento; sei muito de honra e lealdade, da absoluta confiança que deve se ter em tudo e de como merecê-la. -Baixou o olhar. — Perdoe. Estou-o entretendo. Já partimos de que as acusações são injustas. A carta em questão também estava feita com recortes do Time colados a um simples fólio. Chegou com a primeira partilha. Jogaram-na na City, igual à primeira. A única coisa diferente eram as expressões.

Olhou ao Pitt.

— Mas pede algo, senhora Tannifer?

— Não. - Negou com a cabeça. Suas mãos finas estavam crispadas no regaço, e seus olhos cheios de preocupação. — Parece que seja uma espécie de monstro, e que queira atemorizar e fazer mal às pessoas por simples prazer. - Olhou-o com uma seriedade desesperada. — Senhor Pitt, parece-me que conheço outra vítima. Não sabia se lhe dizia e talvez meu marido não goste, mas daria o que fosse pra achar um remédio contra esta desdita e evitar o preço que pagou o pobre sir Guy Stanley.

Pitt se inclinou para ela.

— Me conte tudo o que saiba, senhora Tannifer. Possivelmente seja útil. Por outro lado, façamos o que façamos duvido que cause algum prejuízo além do inevitável.

Ela respirou fundo e exalou com lentidão. Parecia envergonhar-se um pouco de seus atos, mas não vacilou na firme decisão de lutar e defender a seu marido.

— Encontrava-me no estúdio, falando do assunto com meu marido. Suspeito que ao entrevistar-se com você se fingiu menos preocupado do que está. Expõe-se a muito mais que a ruína econômica ou o afundamento de sua carreira. O que periga é a segurança de que a pessoas normal, os amigos, todas as pessoas a quem se admira e cujas opiniões se valorizam, tomarão a um por uma pessoa sem honra. É isso o que dói irreparavelmente. Possivelmente em último termo o mais valioso seja uma consciência tranqüila, mas o segundo é o bom nome.

Pitt não o discutiu, consciente de quão valioso era para o Tannifer que outros acreditassem em sua honradez, e possivelmente em algo mais: sua generosidade, o fato de não prejudicar a ninguém de maneira voluntária.

— O que averiguou, senhora Tannifer?

— Acabava de sair mas não fechei de tudo a porta. Quando estava no corredor ouvi que meu marido pegava o telefone. Compramos um, e é um instrumento excelente. Pediu que o pusessem em contato com Leio Cadell, do Ministério de Assuntos Exteriores. A princípio estive a ponto de seguir para a cozinha, porque queria comentar algo com o cozinheiro, mas ouvi-o mudar de tom; de repente ficou muito sério e lhe notei compaixão e medo na voz. - Olhou ao Pitt. — Conheço muito bem a meu marido; sempre tivemos muita intimidade e entre nós não há segredos. Soube em seguida que o senhor Cadell lhe tinha contado algo grave e confidencial. O que ouvi da conversa por parte de meu marido me levou a concluir que o senhor Cadell o consultava a respeito da obtenção imediata de uma forte soma de dinheiro. É um homem muito rico, mas às vezes não é fácil ter à mão uma quantidade elevada em efetivo. Terá que assessorar-se bem para não perder muito dinheiro. -Respirou. — Sigmund tentou ajudá-lo assim que pôde, mas notei que tinha adivinhado que a soma ia destinada a pagar uma dívida contraída de maneira repentina, dívida cuja importância ainda não se conhecia mas que não podia evitar-se nem atrasar-se de maneira nenhuma.

— Parece chantagem, com efeito - assentiu Pitt. — Não obstante, seria o primeiro que tinha recebido um pedido concreto. Até agora o chantagista não tinha pedido dinheiro a ninguém.

— Não estou certa - reconheceu ela, — mas ouvi o tom de voz do Sigmund e depois lhe vi o rosto. - Sacudiu a cabeça. — Claro que não me disse isso, porque a conversa com o senhor Cadell era confidencial, mas Sigmund estava muito inquieto. Quando falamos voltou a referir-se à carta e me perguntou se me afetaria muito que nos encontrássemos em circunstâncias muito diminuídas, e se estava disposta a abandonar Londres e viver em um lugar bastante diferente; inclusive, se fosse necessário, em outro país. - Falava com energia e confiança. — Lhe respondi que é claro. Enquanto conservássemos a honra e seguíssemos juntos, viveria onde fosse e acataria os ditados da necessidade. - Levantou a cabeça e olhou ao Pitt nos olhos. — Prefiro que me afunde uma calúnia, como ao pobre sir Guy Stanley, que pagar meio centavo a esse monstro e respirar suas maldades.

— Obrigado por sua franqueza, senhora Tannifer.

Pitt disse muito a sério. Era uma mulher excepcional, dotada de uma coragem e uma lealdade que despertavam sua admiração. Ao mesmo tempo estava cheia de paixão, conhecia a dor e era sensível a ela. Sua compaixão por Stanley não era puramente imaginária.

Ficou em pé com a intenção de despedir-se. Ela também se levantou.

— Servirá de algo? - quis saber. — Poderá avançar na investigação?

— Não sei - reconheceu ele, — mas lhe garanto que irei ver o senhor Cadell. Possivelmente possa me dizer algo mais sobre o que lhe pediram e o conteúdo da ameaça. Qualquer dado deveria restringir o número de pessoas com suficiente informação para ter escrito a carta. As acusações sempre são as mais graves para cada vítima, sinal, senhora Tannifer, de que o culpado sabe muito. Se averiguar algo mais faça o favor de me avisar imediatamente.

— Conte com isso e vá com Deus, senhor Pitt. - Em meio daquela sala onde se respirava uma paz tão excepcional, o corpo magro e anguloso da senhora Tannifer irradiava emoção por todos os poros. — Encontre ao demônio que nos tortura. Faça-o por todos!

 

Uma vez que Pitt partiu para visitar sir Guy Stanley, Charlotte pegou o jornal e releu a notícia. Não sabia se Stanley tinha sido ameaçado pelo chantagista, nem o que lhe tinha pedido. De fato não importava, porque as demais vítimas sentiriam o mesmo: horror e compaixão por ele e medo por si mesmos. O resultado seria o mesmo tanto se se tratava de uma coincidência como de uma advertência expressa: o aumento da pressão, que desta vez ameaçava tornar-se insuportável.

Expôs brevemente suas intenções à Gracie, subiu ao piso de cima e colocou o vestido amarelo da primeira vez, porque era o que a dava maior sensação de segurança. Depois se dirigiu a pé ao Bedford Square.

A indignação e os nervos a acompanharam até a soleira da casa dos Balantyne. Quando se abriu a porta, explicou com a maior simplicidade que devia visitar ao general, desde que estivesse em casa e quisesse recebê-la.

Ocorreu, entretanto, que ao cruzar o vestíbulo topou com lady Augusta, a qual, magnificamente vestida de marrom e ouro, descia pela escada justo quando Charlotte chegava ao pé dela.

— Bom dia, senhora Pitt - disse com frieza a mulher do general, arqueando as sobrancelhas. — De que desastre ainda ignorado vem compadecer-se? Ocorreu alguma catástrofe da qual meu marido ainda não me tenha informado?

Charlotte estava muito furiosa para deixar-se intimidar. Além disso tinha fresca sua visita a Vespasia e lhe tinha pego uma parte da insuperável confiança em si mesma da anciã. Deteve, pois, seus passos e olhou à senhora Balantyne com a mesma frieza.

— Bom dia, lady Augusta. Agradeço-lhe seu interesse, embora bem pensado não me surpreende, dado o afeto e generosidade com que sempre julgou a outros. - Viu que Augusta ficava vermelha de raiva, mas não lhe fez caso. — A resposta a sua pergunta depende de se desce pela primeira vez ou já o fez antes. Para tomar o café da manhã, possivelmente? - Voltou a ignorar a evidente irritação de sua interlocutora. — As notícias, por desgraça, são penosas. Apareceu um artigo difamatório sobre sir Guy Stanley, e não falemos, porque não as tenho lido, das novas e deploráveis revelações sobre o caso Tranby Croft, que são o pão de cada dia.

— Como sabe que são deploráveis se não as tiver lido? - replicou Augusta.

Charlotte, fingiu uma leve surpresa.

— Considero deplorável que um mero e triste incidente entre cavalheiros que jogavam cartas se converteu na fofoca do país - respondeu. — Errei em lhe atribuir a mesma opinião?

O rosto de Augusta estava tenso.

— É claro que não! - disse com os dentes apertados.

— Me alegro - murmurou Charlotte, desejando a aparição salvadora do Balantyne.  Augusta, que não se deixava vencer com facilidade, reatou o ataque.

— Já que sua visita não guarda relação com o caso Tranby Croft, deduzo que se deve à hipótese de que o infortúnio de sir Guy Stanley nos afeta em algo. Eu, entretanto, não tenho a constância de conhecer o dito cavalheiro.

— Não? - disse Charlotte de modo vago, como se o comentário fosse de tudo irrelevante (e assim era).

Augusta já não dissimulava sua irritação.

— Não! De maneira por que imagina que estou tão afetada por seu infortúnio, merecido ou não, para precisar a compaixão de você, senhora Pitt? Sobre tudo a... - lançou uma olhada ao volumoso relógio do vestíbulo — às nove e meia da manhã!

Seu tom expressava às claras a extravagância de uma visita a uma hora tão insólita.

— Claro - concordou Charlotte, surpreendentemente tranqüila e desejando com mais ardor que antes a aparição do general. — Se me tivesse ocorrido que pudesse estar... preocupada lhe teria enviado meu cartão e teria vindo às três.

— Nesse caso, além de ter feito a viagem em balde - replicou Augusta, olhando outra vez o relógio — chega você um pouco cedo.

Charlotte lhe sorriu, enquanto procurava com desespero uma resposta. Além de seu desejo de ver o Balantyne não gostava de ser vencida por uma mulher a que detestava; não porque a tivesse prejudicado a ela de obra ou palavra, mas sim pela frieza com que tratava a seu próprio marido.

— Sua indiferença só pode entender-se como que desconhece o respeito do general Balantyne por sir Guy - disse com uma simpatia tão ostentosa como falacioso. — O contrário seria muito pouco caridoso; cruel, na verdade... e ninguém ousaria lhe atribuir esse defeito.

Augusta aspirou uma baforada de ar e voltou a expulsá-la.

Ouviram-se passos pelo corredor e apareceu no vestíbulo o general Balantyne, que ao ver Charlotte se aproximou dela e disse:

— Senhora Pitt! Como vai?

Estava abatido pelos nervos, o medo e a angústia. Tinha escura e muito fina a pele ao redor dos olhos, e lhe tinham marcado mais as rugas da boca.

Charlotte se voltou para ele com maior alívio, sinal de que se desentendia de Augusta.

— Muito bem - respondeu, sustentando o olhar do general, — mas afetada pela notícia. Não o tinha previsto e ainda não sei como reagir. Thomas foi vê-lo, como é natural, mas não saberei o que averiguou até esta noite, caso me queira comentar isso.

Balantyne olhou a Augusta e reparou em sua expressão. Charlotte não se voltou.

Augusta fez um ruido como se quisesse dizer algo, mas renunciou. Sua partida produziu um sapateio e um frufrú de saias.

Charlotte seguiu sem voltar-se.

— Sua visita é muito amável - disse Balantyne com voz baixa. — Reconheço que me alegro enormemente de vê-la.

Conduziu-a para o estúdio e lhe abriu a porta. O interior era quente, luminoso e acolhedor pela freqüência com que se usava. Estava fazendo um verão tão quente que não era preciso acender a lareira. A mesinha estava adornada com um vaso grande e vidrado de cor verde, cheio de lírios que perfumavam toda o aposento, e pareciam absorver o sol que entrava pelas altas janelas.

O general fechou a porta.

— Tem lido o jornal? - disse ela.

— Sim. Conheço bastante Guy Stanley, mas deve achar-se em um estado, o pobre... indescritível. - Tocou a fronte e esticou o cabelo para trás. — Claro que nem sequer estamos seguros de que esteja na mesma situação que o resto, mas não me atrevo a pensar o contrário. Quase parece irrelevante; a notícia demonstrou como nos pode afundar com um sussurro, uma simples insinuação. Como se não soubéssemos... desde o de Tranby Croft! Embora no caso de Gordon-Cumming considero possível que seja culpado.

Empalideceu e fez uma careta de dor.

— Mas o que digo, por Deus! - acrescentou. — Não sei nada dele além de rumores, as fofocas do clube, fragmentos de conversa pegas ao vôo... É exatamente o mesmo que nos ocorrerá , a todos. - Aproximou-se de uma das poltronas de couro com passo vacilante e se deixou cair. — Que esperança fica?

Charlotte tomou assento diante dele.

— O caso do Gordon-Cumming não é de todo igual - disse com firmeza. — Ninguém põe em dúvida que jogasse bacará, e a reputação anterior do senhor Gordon-Cumming justifica que haja muitas pessoas que o considerem capaz de fazer armadilhas. Parece que já tinha levantado algumas duvidas. Em seu caso, general, tinha circulado algum rumor, por ínfimo que fosse, de que pudesse ter tido pânico diante do inimigo?

— Não. - Balantyne ergueu um pouco a cabeça e esboçou um sorriso. — É um consolo, mas não impedirá que continue havendo muitas pessoas com vontade de acreditar no pior. Antes nunca tinha ouvido que se questionasse a honra e integridade do Stanley. Agora... Já viu a imprensa. Duvido que possa interpor uma questão por difamação. Está escrito de maneira tão sutil! Além disso, o que poderia demonstrar? E embora pudesse, há alguma indenização cujo valor possa comparar-se ao da reputação perdida? Quando estão em jogo o amor e a honra, o dinheiro não soluciona quase nada.

Era verdade. Discutir isso além de inútil teria sido ofensivo.

— A sentença só teria valor exemplar - reconheceu ela, — e suponho que o único que se conseguiria indo aos tribunais seria dar às pessoas a oportunidade de formular novas acusações. As de agora, além disso, estão escolhidas com tanta inteligência que não se pode demonstrar sua falsidade. nota-se que o culpado teve isso em conta. -Inclinou-se um pouco, deixando que o sol lhe dourasse o bordo da manga. — De todo modo não terão que dar-se por vencidos. Com certeza resta algum sobrevivente da emboscada na Abissínia que recorde o ocorrido e cujo testemunho tenha credibilidade. Terá que continuar procurando.

O semblante do general não deixava transparecer nenhuma esperança. Tentou adotar uma expressão decidida, mas foi um gesto maquinal, carente de convicção.

— Claro que sim. Estive pensando a quem fica acudir. - Sorriu pela metade. — Um dos aspectos mais desagradáveis do caso é que se começa a suspeitar de todo o mundo. Me esforço por não pensar na identidade do chantagista, mas de noite, quando não durmo, assaltam-me maus pensamentos. - Esticou a boca. — Procuro não alimentá-los, mas passam as horas e vejo que o fiz. Já não posso pensar em ninguém sem suspeitas. Depois de tanto tempo sem pôr em dúvida a retidão e amizade de certas pessoas, de repente os vejo como estranhos e receio todas suas ações. Minha vida sofreu uma mudança radical, porque a vejo de maneira diferente. Interrogo-me sobre tudo o bom... É possível que só seja uma tela, e que detrás haja enganos e traições secretas? - Olhou-a sem dissimular sua angústia. — Com essas idéias me traio mesmo. Atento contra o que desejo ser e achava ter sido. - Baixou a voz. — Possivelmente seja o efeito mais nocivo de seu ataque: mostrar-me uma parte de mim mesmo que até hoje desconhecia.

Charlotte entendeu a que se referia. Lia-o claramente na pessoa do general: isolado, assustado, só e vulnerável, vendo dissolver-se em poucos dias todas as certezas construídas ao longo dos anos.

— Não se trata de você - disse com doçura, estirando o braço e lhe tocando o tecido da manga, não a mão. — O ser humano é assim. Poderia estar qualquer um em seu lugar. A única diferença é que a maioria não sabe, nem somos capazes de imaginar quando é alheio à nossa experiência. Há coisas que estão fora do alcance da imaginação.

O general guardou silêncio por uns instantes. Olhou-a em uma ocasião, e havia em seus olhos uma calidez, uma ternura que ela não esteve muito segura de saber interpretar. Passou o momento, e Balantyne aspirou.

— Pensei em outras pessoas a quem perguntar pela campanha abissínia - disse com calculada despreocupação. — Também tenho que ir almoçar em meu clube. – Não pôde ocultar a tensão que tomou conta repentinamente de seus olhos e seus lábios. — Preferiria não ir, mas tenho obrigações inelutáveis... e que não evitarei. Não penso permitir que este mau pedaço me leve a quebrantar minhas promessas.

— Naturalmente que não - assentiu ela, afastando a mão e levantando-se pouco a pouco. Teria desejado proteger disso ao general, mas a única defesa contra a derrota é não ceder e enfrentar o inimigo, visível ou secreto. Sorriu-lhe com certa frouxidão. — Conte, por favor, com que o ajudarei no que possa.

— Já o faço - disse ele com voz suave, ruborizando-se. — Obrigado.

Deu meia volta, caminhou para a porta do corredor e a abriu.

Ela saiu ao corredor e fez um gesto ao lacaio.

Pitt estava no salão da Vespasia, luminoso e tranqüilo, e olhava o jardim pela janela na espera de que ela descesse do piso superior. A tarde estava muito pouco avançada para fazer visitas de cortesia, sobre tudo a uma mulher de sua idade, mas a de Pitt se devia a uma necessidade urgente e não tinha querido expor-se ao risco de não encontrá-la em casa (coisa muito provável se tivesse esperado até uma hora mais conveniente).

Os lilases brancos seguiam perfumando o ar, e naquele lugar afastado da rua o silêncio quase se podia tocar. A falta de vento, a folhagem não sussurrava. Uma vez cantou um tordo, mas o calor engoliu rapidamente seus gorjeios.

Ouviu abrir a porta e se voltou.

— Bom dia, Thomas.

Vespasia entrou apoiando-se um pouco na bengala. Levava um vestido de renda de cores crua e marfim, com um longo colar de pérolas que lhe chegava quase até a cintura e refletia a luz. Pitt sorriu, apesar do motivo de sua visita.

— Bom dia, tia Vespasia - respondeu, desfrutando de que lhe deixasse utilizar aquele tratamento. — Sinto incomodá-la a estas horas, mas se trata de algo muito importante para me arriscar a não encontrá-la em casa.

Ela moveu a mão com delicadeza, querendo expressar que não tinha importância.

— Deixarei as visitas para outro dia. Não havia nenhuma importante. Só eram uma maneira de matar a tarde e cumprir uma espécie de obrigação. Posso esperar perfeitamente até manhã ou a semana que vem.

Caminhou pelo tapete e se sentou em sua poltrona favorita, de frente ao jardim.

— É muito generosa - respondeu ele.

Ela o olhou com franqueza.

— Bobagens! Sabe perfeitamente que os bate-papos de sociedade me matam de aborrecimento. Se voltar a ouvir uma idiota comentando o compromisso de Annabelle Watson-Smith darei uma resposta que escandalizará até a mim. Pensava visitar a senhora Purves. Estranho que em sua casa ainda haja algum abajur inteiro, porque tem uma risada capaz de quebrar o cristal. Conhece-me muito para andar com bajulação.

— Perdão - se desculpou ele.

— Assim é que eu gosto. E sente-se, Por Deus, que terei torcicolo!

Pitt, obediente, ocupou a poltrona de frente. Dirigiu-lhe um olhar inquisitivo.

— Suponho que vem pelo que passou ao pobre Guy Stanley. Averiguou se é outra das vítimas? - Encolheu um só ombro. — Embora não o seja e só se trate da coincidência de duas tragédias, o efeito sobre outros será o mesmo. Imagino quão afetado estará Dunraithe White. Isto é muito grave, Thomas.

— Sei. - Era estranho falar de tanta maldade e dor infligida a consciência naquela formosa sala, tão simples e perfumada pelas flores. — E você ainda não conhece todo seu alcance. Esta manhã estive em casa de sir Guy, e a situação é pior do que supunha. Confirmou-se que o ameaçaram igual à outros...

— E ele se negou - concluiu Vespasia, muito séria. — E eis aqui a terrível vingança, junto com um aviso a outros.

— Não. Tomara.

Ela arqueou as sobrancelhas.

— Não o entendo. Seja direto, Thomas, por favor. Não sou muito frágil para nenhuma resposta. Vivi muitos anos e vi mais coisas do que imagina.

— Não é nenhuma evasiva - disse ele sinceramente. — Tomara a resposta fosse tão simples quanto sir Guy recebeu um pedido e se negou a satisfazê-lo! Mas o único que lhe pediram foi uma cigarreira com banho de prata, um objeto, como suponho que foi a caixa de rapé do Balantyne: algo pessoal que simbolizasse o poder do chantagista. Sir Guy lhe entregou a cigarreira através de um mensageiro. O escândalo de hoje se produziu sem avisar, como simples demonstração de poder. Sir Guy teve a má sorte de ser o eleito, mas poderia ter sido qualquer outro.

Ela o olhou fixamente, absorvendo suas palavras.

— A menos que sir Guy não tenha nada que interesse ao chantagista - prosseguiu ele, pensando em voz alta — e fosse eleito para ficar em evidência e assustar a outros.

— De maneira que nem sequer teve a oportunidade. - Vespasia estava pálida e falava com as costas retas, o queixo alto e as mãos cruzadas no regaço. Jamais delataria pânico ou desespero, posto que a tinham educado para controlar suas emoções, mas o primeiro sol da tarde iluminava nela uma rigidez que delatava uma profunda dor. — Não pôde dizer nem fazer nada que influísse no resultado. Até duvido que a acusação que lhe imputa tenha algo de verdade.

— Ele diz que não - confirmou Pitt, — e eu acredito, mas vim por outro motivo. No caso de sir Guy Stanley não me ocorre nenhuma ajuda que lhe pedir, mas sim em outro.

As sobrancelhas prateadas da anciã se arquearam.

— Outro?

— Esta manhã fui convocado pela senhora Tannifer. Ouviu a notícia e está muito preocupada...

— Tannifer? - interrompeu-o ela. — Quem é?

— A esposa do banqueiro Sigmund Tannifer. - Por uns instantes tinha esquecido que Vespasia não o conhecia.

— Outra vítima?

—Com efeito. Sua esposa é uma mulher valente e com caráter, a quem Tannifer não ocultou a verdade.

Os lábios da Vespasia insinuaram um sorriso.

— Deduzo que o suposto delito do senhor Tannifer não era de natureza marital.

— Não; financeira. - Ele também cedeu a aquele momento de fugaz humorismo.         — Um abuso de confiança com o dinheiro de seus clientes. É um delito feio, e a menor suspeita de que fosse verdade o afundaria, mas não é tão pessoal. A senhora Tannifer o apóia incondicionalmente.

— E estará assustada, como é natural.

— Sim. - Assentiu com a cabeça. — Mas também algo mais: decidida a lutar em todos os frontes. Chamou-me porque tinha surpreendido uma conversa telefônica entre seu marido e Leon Cadell, quem pelo visto detém um cargo importante no Ministério de Assuntos Exteriores. - Ficou calado, porque no rosto da Vespasia tinha aparecido uma dor nova e nos dedos de suas mãos uma ligeira crispação. — Vim lhe perguntar se o conhece, e vejo que sim.

— Há anos - respondeu ela em voz baixa. Viu que Pitt se inclinava um pouco e pigarreava. — Conheço sua mulher desde que nasceu. De fato sou sua madrinha. Assisti a suas bodas... faz vinte e cinco anos. Sempre gostei de Leon. Me diga o que posso fazer.

— Sinto muito. Tinha a esperança de que o conhecesse, mas lamento que seja de uma maneira tão íntima. - Eram palavras sinceras. Frente a aquela desgraça de múltiplos tentáculos, frente à propagação da dor e do medo, ele continuava sem saber onde procurar, e menos como responder ao ataque. — Ocorre-lhe alguma relação entre o Balantyne, Cornwallis, Dunraithe White, Tannifer e Cadell? Algo em comum?

— Não - disse ela, sem deter-se para refletir. — Já passei muitas horas pensando se os une algum setor de influência ou de poder, algum parentesco, por ínfimo que seja, e me surpreenderia que fossem algo mais que simples conhecidos. Expus-me a possibilidade de que tivessem prejudicado à mesma pessoa, embora não fosse de maneira consciente, mas Cornwallis estava na marinha e Balantyne na infantaria. Que eu saiba Dunraithe nunca esteve no estrangeiro e sempre trabalhou na jurisprudência. Diz que Tannifer é banqueiro, e Leon pertence ao Ministério do Exterior. Embora tivessem ido ao mesmo colégio não poderiam ter coincidido porque não são da mesma geração. Calculo que Brandon Balantyne não é mais velho menos de quinze anos que Leon Cadell.

Parecia confusa, desorientada.

— Tenteio tudo - reconheceu ele. — Investiguei seus interesses econômicos, seus investimentos, sua afeição pelo jogo ou esportes e não me consta que estejam ligados por nada. Se houver algo tem que pertencer a um passado muito remoto. Perguntei isso a Cornwallis, que é o único a quem posso interrogar em detalhe, e jura que até há alguns anos só conhecia o Balantyne.

— Terei que ir ver Theodosia. - Vespasia ficou em pé, aceitando com desgosto a mão do Pitt (que se tinha levantado com maior presteza). — Ainda não estou decrépita, Thomas - disse com certa frieza, — embora tampouco salto como você.

Pitt sabia que não estava zangada com ele, mas com suas limitações, e mais ainda naquelas circunstâncias, sentindo-se incapaz de proteger a seus amigos e avançando diariamente no amargo descobrimento de até que ponto era grave a ameaça.

— Obrigado por me escutar - disse, caminhando a seu lado. — Rogo que não faça nenhuma promessa de confidencialidade a menos que seja a única maneira de averiguar a verdade. Preciso saber tudo o que lhe contem.

Ela se voltou para olhá-lo com seus olhos afundados, entre cinzas e prateados.

— Sou tão consciente como você do perigo que se corre neste caso, Thomas, e não só do dano que poderia infligir aos homens e mulheres afetados, senão à corrupção que se abate sobre a sociedade e que cairá sobre ela se algum desses homens sucumbe ao que lhe pedem. Embora seja algo corriqueiro, e nem sequer ilegal, o fato de que possam deixar-se convencer por instigação alheia é o primeiro sintoma de uma enfermidade mortal. Conheço esses homens, querido Thomas. Conheci a outros parecidos durante toda minha vida. Entendo seu sofrimento e seu temor. Entendo sua vergonha por não saber contra-atacar. Sei o valor que dão à estima de seus pares.

Pitt assentiu com a cabeça. Estava tudo dito.

Vespasia desembarcou de sua carruagem na calçada diante da casa de Leon e Theodosia Cadell. Era um pouco cedo para visitas, salvo as mais formais (e portanto mais opostas a sua intenção), mas não tinha vontade de esperar. Theodosia podia deixar dito ao lacaio que não estava em casa para ninguém. Podia escolher entre diversas desculpas, como ter doente um parente mais velho. Não responderia à verdade, posto que a saúde da Vespasia era inexorável, mas serviria. O que estava, e muito, era angustiada.

Disse a seu cocheiro que levasse a carruagem às cavalariças, onde não a visse ninguém. Avisar-lhe-ia quando quisesse partir. Permitiu que antes de obedecer puxasse a campainha.

A criada a levou ao salão, grande e antigo, com cortinas de cor Bordeaux e uns vasos chineses que nunca tinham gostado. Eram um presente de bodas de uma tia a quem nunca tinham querido ferir em seus sentimentos. Theodosia não demorou para chegar.

— Bom dia, querida.

Vespasia a examinou em profundidade. Os trinta e cinco anos de diferença se notavam ainda menos que de costume. Theodosia também tinha sido uma beleza, possivelmente não tão excepcional como ela mas sim das que faziam girar as cabeças (e alguns, não poucos, corações). Seu cabelo muito negro já tinha fios brancos, não só nas têmporas mas também em cima da fronte. Seus olhos negros eram espetaculares, e suas maçãs do rosto conservavam seu limpo perfil, mas em sua pele havia manchas escuras e uma falta de cor que delatava falta de sono. Seus movimentos eram rígidos, sem a elegância habitual.

— Tia Vespasia! - Nenhum cansaço ou medo eram capazes de mitigar a alegria da saudação. — Que agradável surpresa! Se tivesse sabido que vinha teria avisado à criadagem de que não estou para ninguém mais. Como se encontra? Tem um aspecto magnífico!

— Estupendamente, obrigada - respondeu Vespasia. — Uma boa modista pode fazer muitas coisas, mas milagres não. Um espartilho pode endireitar seu corpo e dar uma postura inexorável, mas com a rosto não há espartilho que possa.

— Seu rosto está muito bem.

Theodosia parecia surpreendida e ligeiramente divertida.

— Isso espero, além de algumas pistas do passar do tempo - disse Vespasia com ironia; — em seu caso, entretanto, não posso ser tão amável sem faltar à verdade. Vejo-a muito preocupada.

— Ah, Por Deus! Tanto me nota? Achava tê-lo dissimulado melhor.

Vespasia se abrandou.

— Quase ninguém se daria conta, mas eu a conheço desde que era um bebê. Além disso - acrescentou, — utilizei suficientes acertos exteriores para saber como se fazem.

— Por desgraça durmo mal - disse Theodosia, lhe dirigindo um olhar fugaz. — É uma tolice, mas possivelmente me aproxime da etapa da vida em que já não se tresnoita sem penitência. Odeio reconhecê-lo.

— Querida - disse Vespasia com doçura, — a pessoa que tresnoita está costuma levantar-se tarde, e você está em excelente situação para dormir até meio-dia. Se dorme mal é porque está doente ou se preocupa muito com algo para tirá-lo o da cabeça ao se deitar. Inclino-me pelo segundo.

A intenção de negá-lo se via tão clara na expressão da Theodosia que talvez estivesse a ponto de fazê-lo com palavras, mas sua resistência se derrubou contra o olhar fixo da anciã. O que não fez foi dar explicações.

— Deixa-me que lhe conte algo sobre um amigo? - perguntou Vespasia.

— Por certo.

Theodosia se relaxou um pouco. A pressão se suavizou. apoiou-se no espaldar, formando uma elegante voluta com a saia, e prestou atenção a sua madrinha.

— Abstenho-me de entrar em detalhes sobre sua história e circunstâncias - começou a dizer Vespasia. — Prefiro que não adivinhe seu nome, por motivos que entenderá imediatamente. É possível que não lhe importasse te explicar seus apuros, mas a decisão é sua.

Theodosia assentiu com a cabeça.

— Compreendo-o. Se não quiser não é preciso que me diga nada.

— É militar, e com uma folha de serviços brilhante - explicou Vespasia sem afastar o olhar do rosto de sua afilhada. — Agora está retirado, mas teve uma carreira longa e honrosa. Era muito valente e com dotes de comando. Mereceu a estima de seus amigos e dos que não lhe tinham tanto afeto.

Theodosia escutava atentamente, mas seu interesse não superava a mera educação. Era muito mais fácil que ser interrogada a respeito de suas preocupações. Tinha as mãos no regaço, e seu anel de pérolas e esmeraldas refletia a luz.

— A vida lhe proporcionou muitos sofrimentos - continuou Vespasia, — como a quase todos, mas recentemente lhe ocorreu um percalço inesperado.

— Lamento-o - disse Theodosia, compassiva.

A julgar por seu olhar, esperava alguma discórdia doméstica ou revés econômico; desgraças, em suma, que podiam afetar a quase qualquer pessoa.

A voz da Vespasia não se alterou.

— Recebeu uma carta, naturalmente anônima, feita com recortes do Time... – Viu que Theodosia ficava tensa e juntava fortemente as mãos, mas fingiu não dar-se conta. — O texto, que estava bem escrito, acusava-o de covardia diante do inimigo; algo ocorrido muitos anos atrás, durante uma de nossas campanhas menos importantes.

Theodosia tragou saliva e respirou mais depressa, como se se esforçasse por não ficar sem ar e lhe resultasse sufocante aquela sala cálida e acolhedora. Quis dizer algo, mas renunciou.

Vespasia teria preferido não seguir, mas deixar pela metade o relato não teria servido de nada nem teria ajudado a ninguém.

— A ameaça de desvelar os detalhes do incidente, que é inteiramente falso, estava bastante clara - disse, — assim como seu efeito desastroso não só sobre meu amigo mas também sobre sua família, como é natural. Ele é inocente, mas transcorreu muito tempo e ocorreu em um país estrangeiro com o que mal mantemos relações, de maneira que será virtualmente impossível verificá-lo. Sempre é mais difícil demonstrar a inexistência de um fato que sua existência.

Theodosia estava pálida, e seu vestido azul cinzento cobria um corpo tão tenso que parecia que o tecido não desse de si.

— O estranho - prosseguiu Vespasia, — é que o autor da carta não pedia nada, nem dinheiro nem favores. Que eu saiba já mandou dois.

— Que horror! - sussurrou Theodosia. — E o que pensa fazer seu amigo?

— Tem poucas opções. - Vespasia a observou com atenção. — Tampouco estou certa de que seja consciente de que não é a única vítima.

Theodosia se sobressaltou.

— O que? Digo... Você acha que há mais?

— Sei de quatro, e considero possível que haja um mais. Você não, querida?

Theodosia umedeceu os lábios e titubeou em silêncio. O relógio do vestíbulo deu o primeiro quarto. Cantou um pássaro no jardim, atrás das altas janelas. Do outro lado da taipa se ouviam gritos de crianças brincando.

— Prometi a Leon que não o contaria a ninguém - disse por fim Theodosia.

Seu rosto de angústia, entretanto, delatava verdadeira ânsia de explicar a alguém.

Vespasia se manteve à espera.

O pássaro continuava cantando, e repetia sem descanso a mesma reclamação. Era um melro, encarapitado na copa ensolarada de uma árvore.

— Suponho que já sabe - se decidiu a dizer sua afilhada. — Não sei por que vacilo tanto, a não ser seja porque a acusação é... tão estúpida, e ao mesmo tempo tão real! Quase... quase não é verdade... mas... - Suspirou. — Por que me justifico? Não importa. Não muda nada. - Olhou para Vespasia sem fraquejar. — Leon também recebeu duas dessas cartas onde o acusam sem pedir nada. Só o avisam de que a divulgação dos cargos seria seu fim; o seu, o meu... e o de sir Richard Aston.

Vespasia estava perplexa. Não lhe ocorria nenhuma acusação que pudesse afetar simultaneamente a Leon, Vespasia e Aston. Este último era o superior de Leon no Ministério de Assuntos Exteriores, além de um político de carreira brilhante e muita influência. Sua mulher estava aparentada com algumas das famílias mais aristocráticas do país. Era um homem cativante, tão engenhoso como inteligente.

Theodosia riu, mas foi um som oco, uma gargalhada sem alegria.

— Vejo que não lhe tinha ocorrido - observou. — O responsável da promoção de Leon foi sir Richard.

— Subiu-o unicamente por méritos - respondeu Vespasia, — como ficou demonstrado; não obstante, e embora não fosse assim, promover alguém por cima de suas capacidades é um engano, mas não um delito, e menos de Leon ou teu.

— Sua confiança em mim a torna ingênua - disse Theodosia com um matiz de amargura. — O que insinua a carta é que Leon pagou por sua promoção.

— Ora! Besteiras! - Vespasia as sacudiu de cima, mas sem convicção nem alívio.     — Ao Aston sobra o dinheiro, e Leon não tem bastante para lhe pagar nada que valesse a pena. Além disso, disse que você está implicada, ou em todo caso deste a entender que desempenhou um papel maior que o de correr o perigo de se afundar com ele.

Ocorreu-lhe uma idéia a meia frase, idéia que lhe repugnava por afeto por Theodosia, mas que em outra pessoa, alguém que fosse indiferente, poderia ter acreditado. Como fariam outros.

— Vejo que no final o entendeu - disse sua afilhada com doçura. — Tem razão: a carta assegurava que a admiração de sir Richard por mim superava os limites da amizade, que Leon lhe vendeu meus favores amorosos em pagamento de sua promoção e que sir Richard aceitou. - Acompanhou a explicação com uma careta, enquanto retorcia as mãos no regaço. — A única parte que tem algo que ver com a realidade é que eu era consciente de que sir Richard, com efeito... desejava-me, mas nunca fez nenhuma sugestão molesta, e muito menos avançou. Simplesmente me sentia... um pouco perturbada por sua posição com respeito a meu marido. - Apertou a mandíbula. — Tenho que pedir perdão? Eu então era bonita. Poderia lhe dar vinte ou trinta nomes de mulheres que o eram igual a mim.

—Não é preciso que se justifique - indicou Vespasia com um brilho de humor.           — Asseguro que a entendo.

Theodosia se ruborizou.

— Perdoe. Claro que o entende, e melhor que eu. Certamente ao longo de sua vida despertou muita inveja e remorso. Comentários, insinuações...

Vespasia ergueu um pouco a cabeça.

— Não é de tudo água passada, querida. Possivelmente o corpo se intumesça um pouco e se canse mais depressa; os apetites carnais se atenuam, o cabelo se clareia, o rosto acusa o passar dos anos e o que se fez com eles, mas a paixão e a necessidade de ser amada não desaparecem. Tampouco, por desgraça, o ciúmes e os medos.

— Melhor - disse Theodosia depois de um breve silêncio. — Ser assim é sofrer, mas acredito que o prefiro. Como posso ajudar a Leon?

— Discretamente - respondeu Vespasia. — Se fizer a menor tentativa de negá-lo fará que as pessoas tenham idéias que até então não tinham tido. Asseguro-te que sir Richard não lhe agradeceria isso, e lady Aston menos; é uma mulher difícil, bastante dominante, e o melhor que pode dizer-se de seu aspecto é que se parece com um cão de raça, desses que têm dificuldades de respiração. Lástima.

Theodosia fracassou em sua tentativa de rir.

— Não acredite - disse; — no fundo é bastante simpática, e embora começasse como um matrimônio dinástico acredito que ele a quer muito. Tem senso de humor e imaginação, duas coisas que duram mais que a beleza.

— Nisso tem razão - assentiu Vespasia. — São virtudes mais gratificantes, mas a maioria das pessoas não se dão conta. A beleza, além disso, tem um impacto tão imediato! Pergunte a qualquer garota de vinte anos se prefere ser bonita ou divertida; surpreender-me-ia que encontrasse uma sobre vinte que escolhesse o humor. Quanto ao Lucy Aston, não cabe dúvida de que figura entre as outras dezenove.

— Sei. Só posso fazer isso, tia Vespasia? Nada?

— De momento não me ocorre nenhuma outra maneira - insistiu Vespasia, — mas se Leon recebe uma carta onde lhe peçam algo sob coação faz o possível por dissuadi-lo. Faça-o pelo amor que lhe tenha, ou por você. Seja qual for o preço do escândalo que provoque o chantagista fazendo pública sua acusação, será pequeno em comparação ao destruidor que seria ceder-se. Além de não ser nenhuma garantia de silêncio, com demonstra o caso do Guy Stanley, somariam ao preço a verdadeira desonra do que lhes obrigaria a fazer. O chantagista pode prejudicar sua reputação, mas os únicos capazes de prejudicar sua honra são vocês. Não o permitam. - Inclinou-se um pouco e olhou atentamente a sua afilhada. — Diga a Leon que pode agüentar algo mau que se diga de você e as conseqüências a que dê lugar, mas que não deve permitir que esse homem o converta em seu igual ou em um instrumento de sua maldade.

— Fique tranqüila - prometeu Theodosia. de repente estendeu o braço e estreitou a mão da Vespasia entre as suas. — Obrigada por vir. Eu não teria tido coragem para ir a sua casa, mas agora me sinto mais forte e bastante segura do que terá que fazer. Saberei ajudar a Leon.

Vespasia assentiu com a cabeça.

— Resistiremos juntos - prometeu. — Somos muitos e não deixaremos de lutar.

Tellman, enquanto isso, investigava com empenho os últimos dias da vida do Josiah Slingsby. Alguém o tinha assassinado com premeditação, ou no transcurso de uma briga. Tinha que resolver o crime, tanto se guardava relação com o a tentativa chantagem como se não. Era o caso pelo qual tinha começado tudo e não tinha que perder isso de vista por ocupado que estivesse Pitt em outras coisas. Tellman previa que em um momento ou outro a pista que estava seguindo se cruzaria no caminho do general Balantyne, e possivelmente fosse mais fácil chegar à intercessão daquele ângulo que investigando diretamente ao Balantyne, coisa, por outro lado, que também seria necessária.

Começou por descobrir onde tinha residido Slingsby. Foi uma tarefa aborrecida e que lhe levou muito tempo, mas não entranhava nenhuma dificuldade para alguém acostumado à mistura de ameaças, truques e pequenos subornos necessários para tratar com os negociantes de objetos roubados, prostitutas e encarregados de certa classe de pensões, que em troca de poucos pennies prestavam emprego noturno a hóspedes que desejassem manter-se a distância da polícia. Os donos se limitavam a aceitar o dinheiro sem fazer perguntas sobre a clientela, pessoas que em nenhum caso era afeita à lei e a ordem e cujas ocupações era preferível não comentar.

Adotando a atitude dos mendigos e ladrões que rondavam pela zona, Tellman entabulou conversa com um homem com torso de barril e o cabelo muito curto, sinal de que tinha saído fazia pouco do cárcere. Apesar de seu físico imponente, tinha tosse e olheiras de cansaço.

Por ele averiguou que Slingsby costumava trabalhar em consórcio com um tal Ernest Wallace, de triste fama por seu talento para subir pelos encanamentos e fazer funambulismo pelas cornijas e peitoris, além de por seu mau gênio.

Passou o resto do dia no Shoreditch, averiguando todo o possível a respeito do Wallace. Quase nada era bom. Pelo visto inspirava duas coisas: antipatia e bastante medo. Dava-se bastante bem com o ramo do furto que tinha escolhido, e desfrutava de lucros elevados e regulares. Até então não o havia tocado o braço da lei, que possivelmente tivesse perseverança de suas atividades mas carecia de provas contra ele. Sim, tinha brigado com todos seus comparsas, e Tellman achou dois ou três com cicatrizes.

Naquele bairro se partia do princípio de que a colaboração com a polícia nunca devia chegar ao extremo de trair a um igual, embora tivesse que pagar com a vida. Tellman era consciente de que era o inimigo, mas a vingança podia buscar-se em mais de uma direção. Devia achar a alguém a quem Wallace fizesse suficiente dano para estar disposto a desfrutar com sua queda e aceitar o preço. Talvez se pudesse influir na discussão com uma dose de medo e outra de proveito.

Dedicou outro dia inteiro a visitar buliçosos botequins e mercados, onde recebeu infinitos empurrões e cotoveladas e onde, apesar de levar vazios os bolsos, os cortaram com tanta destreza que não notou o contato dos dedos nem a faca.

Comprava sanduíches em postos de rua, passeava por ruas úmidas esquivando-se do lixo e ouvindo a correria dos ratos e mesclava ameaças e lisonjas, mas acabou por achar à pessoa que procurava. Não se tratava de um homem, mas sim de uma mulher que tinha abortado como conseqüência de uma surra do Wallace, a quem odiava tanto que estava disposta a algo para vingar-se.

Para interrogá-la Tellman teve que extremar a prudência. Não devia forçá-la, porque se dizia algo com a intenção de afundar Wallace não o aceitaria nenhum tribunal.

— Procuro o Slingsby - insistiu.

A mulher estava apoiada na escura parede de tijolos da rua, com o rosto iluminado pela metade. Flutuava sobre eles a bruma das lareiras, e os envolvia um forte fedor a águas residuais.

— Pois encontre ao Ernie Wallace e terá ao Joe - respondeu. — Joe Slingsby é o único que quer trabalhar com ele, ou queria, porque agora já não sei. - Fez ruído pelo nariz. — Faz uma semana tiveram uma briga que não conto; sim, uma semana, porque foi na mesma noite que a briga que se armou no Goat and Compasses. Ernie quase mata Joe, o grande porco. Depois não tornei a ver o Joe. Devia ter agarrado as do Villadiego. -Voltou a fazer ruído com o nariz e limpou a boca com o dorso da mão. — Eu se fosse ele teria voltado e lhe teria dado uma navalhada nas costelas. Bode de merda! Se me deixasse me aproximar o faria agora mesmo, mas cheiraria e é muito esperto para andar só pelos becos.

— Mas está segura de que essa noite, faz uma semana, estava Joe Slingsby com ele?

Tellman tentava dissimular sua agitação. Percebeu o atropelo de suas palavras, devido à impaciência. Ela também o notou.

— Acabo de dizer-lhe. - Ficou olhando. — Está surdo ou o que? Não sei onde está Joe; depois não lhe vi o cabelo, mas sei onde está Ernie Wallace. Leva uns dias atirando dinheiro como se fora rico.

Tellman tragou saliva.

— Acredita que entraram para roubar uma casa, que brigaram pelo butim e que ganhou Wallace?

— Pois claro! - disse ela com desdém. — O que senão? Anda com o tio preparado! Pode ser que seja verdade... Tem que ter muito cuidado.

Tellman lhe deu as costas e se fingiu duvidoso.

— E pode ser que não.

A mulher cuspiu no chão.

— Como se importasse a alguém! - replicou-lhe, retrocedendo um passo.

— A mim sim! - Ele a pegou pelo braço. — Tenho que achar ao Ernie Wallace. Interessa-me estar certo do que aconteceu.

— Pois Joe não o dirá! - disse ela, zombadora. — O que está claro é que saiu perdendo.

— Como sabe? - insistiu o sargento.

— Homem, pois porque o vi! Como quer que saiba?

— Slingsby fez algum comentário sobre tomar revanche? Aonde foi depois?

—Nem idéia. A nenhuma parte. - Liberou o braço com um forte estirão. — Como se estivesse morto. - Seu rosto sofreu uma mudança repentina. — Oh! Pois igualmente sim estava! Depois não o viu ninguém.

— Nesse caso - disse Tellman olhando-a nos olhos, — se pode demonstrar-se, Ernie Wallace será acusado de homicídio e o enforcarão.

— Sim pode demonstrar-se, sim... - Ela sustentou seu olhar com os olhos muito abertos. — Fique tranqüilo, que me ocupo eu. Juro. Deixe-o em minhas mãos!

Cumpriu sua palavra. As provas eram mais que suficientes. Tellman levou dois agentes, com quem achou e prendeu o Ernie Wallace acusando-o do assassinato do Josiah Slingsby. Não obstante, e apesar da sutileza ou persistência do interrogatório (ou das ameaças ou promessas que lhe foram feitas), Wallace jurava ter deixado o cadáver do Slingsby no beco onde tinha caído e ter abandonado o lugar do crime com toda a rapidez de suas pernas.

— Por que razão ia levar o desgraçado cadáver ao Bedford Square? - quis saber com assombro. — Para que? O que acreditam, que em plena noite teria enfrentado frio por meia Londres só para deixar alguém diante da porta? Para que?

A idéia de pôr o recibo das meias do Albert Colé no bolso do cadáver o conduziu a pôr seriamente em dúvida a prudência de Tellman.

— Você está louco! - Soprou com os olhos muito abertos. — De que coisa fala? Meias? Soltou uma gargalhada.

Tellman saiu ensimesmado da delegacia de polícia do Shoreditch e afundou as mãos nos bolsos de maneira maquinal, sem dar-se conta de que imitava ao Pitt. Acreditava nas palavras de Wallace pelo simples motivo de que tinham lógica. O detido tinha matado ao Slingsby durante uma briga violenta e estúpida, devida a um mau gênio incontrolado e uma discussão por dinheiro. Era um crime sem a menor premeditação, nem anterior nem posterior.

Então... Quem tinha metido o recibo das meias no bolso do Slingsby, e de onde a tirou? Onde estava Albert Colé? Vivo ou morto? E o mais importante: por que?

Só lhe ocorreu uma resposta: para fazer chantagem ao general Brandon Balantyne.

O calor fazia tremer o ar. Desprendia-se dos paralelepípedos como um fluxo, e os muros de tijolo visto que limitavam a rua produziam um efeito claustrofóbico. Os cavalos que trotavam entre as varas das carruagens e as carruagens estavam escuras pelo suor. O ar estava carregado de aroma de esterco. Tellman, entretanto, preferia-o ao de esgoto, mais asfixiante e pegajoso.

Em uma esquina havia um recitador ambulante rodeado por um grupo pequeno de ouvintes, debulhando versos sobre o caso Tranby Croft e o afeto do príncipe de Gales por lady Francês Brooke. Sua versão da história deixava bastante melhor Gordon-Cumming que ao herdeiro do trono ou seus amigos.

Tellman se deteve para escutar durante alguns minutos e lançou ao narrador uma moeda de três pennies. Depois cruzou a rua e prosseguiu seu caminho.

O que queria o chantagista? Dinheiro ou um ato corrupto? Além disso, para que Balantyne cedesse era preciso algo mais que o cadáver do Slingsby, embora fora confundido com o do Albert Colé. A resposta só podia tê-la o próprio general. Seguiria as indicações do Pitt: investigá-lo mais a fundo. Fá-lo-ia, isso sim, com a maior discrição e sem dizer nada à Gracie. Ao pensar nisso se ruborizou, e ficou tão surpreso como zangado pelo sentimento de culpa que lhe produzia este último depois de lhe haver dado sua palavra (ao menos implícita) de que a ajudaria.

Afundou as mãos nos bolsos e caminhou dando passadas pela calçada, com os ombros encurvados, os lábios apertados e no fundo da garganta um resto de aromas de madeira podre, fuligem e águas residuais.

Começou a primeira hora da manhã seguinte repassando o que sabia do histórico militar do Balantyne. Entender seus pontos fracos (o motivo pelo qual tivesse inimigos e a identidade destes) exigia conhecê-lo. Segundo o pouco que tinha averiguado Tellman pelo procedimento de segui-lo, era um homem frio e metódico cujos poucos prazeres eram solitários.

Endireitou os ombros e apertou o passo, completamente seguro de que ficava muito por averiguar, mais do que guardava relação com a chantagem e a pessoa que tinha movido o cadáver do Josiah Slingsby para deixá-lo na soleira do general. Possivelmente não importasse muito do ponto de vista policial; Tellman tinha detido Wallace e o tinha acusado de homicídio, mas a chantagem também era um delito, fosse quem fosse a vítima.

Não desejava falar com oficiais, pessoas que compartilhavam a origem e posição social do Balantyne, compradores de cargos que fechariam filas contra a investigação com a mesma naturalidade que contra qualquer inimigo que atacasse a comodidade e privilégio de suas vidas. Queria falar com simples soldados que não tivessem muita arrogância para lhe responder de homem a homem e elogiar ou repreender com sinceridade. Com eles poderia conversar sobre posição de igualdade e lhes pedir detalhes, opiniões e nomes.

Demorou três horas em dar com o Billy Treadwell, que até cinco anos antes tinha pertencido ao exército indiano. Agora freqüentava uma taverna junto ao rio. Era um homem magro, narigudo e de sorriso fácil, com os dentes torcidos e muito brancos. Os dois do meio estavam quebrados.

— O general Balantyne? - disse com tom jovial no pátio do Rede Bull, apoiado em um barril. — Então era major. A verdade é que faz tempo, mas me lembro, sim. Como não! Por que o pergunta?

Não o disse de maneira agressiva, mas com curiosidade. Os anos na Índia lhe tinham torrado a pele, e não dava a impressão de estar aborrecido por aquela onda de calor excepcional. Entrecerrou os olhos para que não o deslumbrasse o reflexo do sol na água, mas não procurou a sombra.

Tellman se sentou no murinho de tijolo que separava o pátio da pequena horta. O som do rio, que não se via, era um fundo sonoro agradável, mas o calor lhe queimava a pele e tinha os pés ardendo.

— Verdade que esteve a suas ordens na Índia? - perguntou.

Treadwell o olhou com a cabeça um pouco inclinada.

— Se não soubesse não me perguntaria isso. O que acontece? Para que quer saber?

Durante a viagem em barco a vapor Tellman tinha tentado achar uma resposta satisfatória, mas continuava tendo dúvidas porque não queria influir no que lhe dissesse Treadwell.

— Não posso explicar-lhe de todo, porque é confidencial - disse lentamente.             — Acredito que se forja um delito e que o general poderia ser uma das vítimas. Quero evitá-lo.

— E por que não o avisa? - disse Treadwell.

Era uma pergunta razoável. Desviou o olhar para um vapor que passava perto da margem e perguntou-se se eram os da alfândega.

— Não é tão simples. - Tellman tinha a resposta preparada. — Também queremos deter o delinqüente. Me acredite, se o general pudesse nos ajudaria.

Treadwell lhe devolveu sua atenção.

— Isso sim me acredito! - disse. — Era o cúmulo da retidão. Com ele sempre se sabia a que ater-se; não como outros, e não digo nomes.

— Era estrito com o regulamento? - perguntou Tellman.

— Não especialmente. - Treadwell deixou de lado seus negócios e se concentrou no sargento. — Se lhe parecia justificado saltar-lhe não duvidava. Sabia que se pede a seus homens que morram por uma causa é necessário que acreditem nela, igual é necessário que acreditem em seu oficial se tiverem que lhe obedecer sem entender o motivo de suas ordens.

— Não se questionam as ordens? - disse Tellman, desconfiado.

— Pois claro que não - respondeu Treadwell desdenhosamente, — mas algumas se obedecem... digamos que pouco a pouco, e em outras se tem confiança.

— E no caso do Balantyne?

— Confiança. - Disse-o sem duvidar. — Sabia o que tinha entre mãos. Nunca delegava a ninguém o que pudesse fazer pessoalmente. Há homens que mandam da retaguarda, mas ele não -sentou-se em cima do barril para fazer memória. O sol o fazia entrecerrar um pouco os olhos, mas seu calor não o afetava.— Me lembro de que uma vez, estando na fronteira noroeste... - seu olhar se tronou ausente. — Que montanhas! Teria que as ver: uns picos enormes e brancos que não acabavam nunca. Com certeza faziam buracos no chão do céu.

Respirou fundo.

— O caso – prosseguiu — é que o coronel ordenou ao major Balantyne que levasse uns quarenta homens (entre eles eu), subisse pelo porto e surpreendesse os camponeses por detrás. Era bastante novo no noroeste e não conhecia os camponeses. O major Balantyne tentou convencê-lo e lhe disse que eram dos melhores guerreiros que havia, pessoas espertas, duras e que não fugiam de nada. - Sacudiu a cabeça e suspirou com fadiga. — Mas o coronel nem fez caso. Era um desses inúteis que sempre acreditam que têm a razão.

Olhou para Tellman para comprovar que estivesse atento à história.

— E então? - animou-o o sargento, movendo nervosamente os pés. Sentia escorregar gotas de suor por suas costas.

— O major não teve mais remédio que obedecer - continuou Treadwell. — "Sim, senhor. Não, senhor." Ordem recebida. Mas assim que não nos viram do posto disse em voz alta que se tinha quebrado a bússola, ordenou-nos dar meia volta e seguiu seu plano: atacar os camponeses por dois flancos e em vez de defender nossas posições seguir partindo. Pegamos uns quantos tiros e desaparecemos antes que tivessem averiguado por onde chegávamos.

Olhou com atenção ao Tellman, apanhado indevidamente pelo relato.

— Ganharam?

— Que ganhamos, diz! - respondeu Treadwell com um sorriso zombador. — Pois claro, e levou todo o mérito o coronel. Ficou como uma fera, mas já não havia remédio. O grande cretino ficou firme e escutou-os dizer quão esperto era. Até agradeceu! Claro, o que ia fazer.

— Mas se tinha sido idéia do major! - protestou Tellman. — Não o disse ao que estivesse no comando?

Treadwell sacudiu a cabeça.

— Nota-se que não esteve no exército. - Seu tom era ao mesmo tempo comiserativo e tingido de uma espécie de amparo, possivelmente para os inocentes deste mundo.        — Nunca fica em evidência aos camaradas, embora o busquem, e menos o major, que era da velha guarda: aceitava tudo sem pigarrear. Eu o vi tão feito pó que quase caía, mas seguia caminhando. Claro, não queria falhar a seus homens. É o que se chama ser oficial, ao menos, bom oficial. Sempre terá que ser um pouco melhor que o resto. Se não como poderiam segui-lo?

Saiu uma tremenda gargalhada pela porta aberta do local. Tellman franziu o sobrecenho.

— Gostava dele? - perguntou.

Treadwell não entendia a pergunta.

— Como se gostava dele? Era o major. Os oficiais não são simpáticos ou não. Quer-se a eles ou os odeia. Os que gostam são os amigos, os que partem a seu lado, não na cabeça.

Tellman conhecia a resposta antes de perguntar, mas precisava ouvi-la.

— Você queria ou odiava ao major?

Treadwell sacudiu a cabeça.

— Se não lhe visse o rosto tomaria por tolo! Não acabo de lhe dizer que era dos melhores?

Tellman estava confuso. Tinha a obrigação de acreditar no Treadwell porque a luz de seus olhos era muito clara, igual a seu regozijo diante de alguém que por ser alheio ao exército não captava o que lhe parecia evidente.

Agradeceu-lhe e partiu. O que tinha ocorrido ao Balantyne para converter-se no que era, um homem frio e solitário? A que se devia que Treadwell tivesse uma imagem tão... irreconhecível dele?

O seguinte soldado que achou se chamava William Sturton. Era outro homem de origem humilde que tinha chegado a sargento depois de muitos anos no exército e estava muito orgulhoso disso. Movia-se com dificuldade por culpa do reumatismo, e a sombra salpicada do banco do parque onde se sentou lhe iluminava o cabelo branco e as costeletas. Morria de vontade de falar, rememorar as glórias do passado com aquele jovem que não as conhecia e parecia tão interessado.

— Se me lembro do general Balantyne? É claro - disse com a cabeça erguida, uma vez que Tellman se apresentou. — Estava no comando quando entramos no Lucknow depois do grande motim. Não vi nada igual.

Depois de tantos anos, suas feições estavam tensas pelo esforço de controlar a angústia com que seguia recordando o episódio. Tellman não conseguia imaginar o que estaria vendo em seu foro interno. Ele conhecia a pobreza, o crime e a enfermidade; conhecia os estragos da cólera nos subúrbios e tinha visto cadáveres gelados de mendigos, velhos e crianças sem lar; conhecia o terrível sofrimento nascido da impotência e da indiferença, mas nunca tinha estado em uma guerra. O assassinato individual era uma coisa, e outra muito distinta e inimaginável um cruel massacre. Só podia adivinhar e observar o rosto do sargento. Animou-o a seguir.

— Diz que entraram...

— Sim. - Sturton tinha o olhar ausente e os olhos frágeis. — O que pôde foi ver as mulheres e as crianças. Estou acostumado a ver homens cortados em pedaços.

— E o coronel Balantyne? - disse Tellman para reconduzir a conversa.

Não queria ouvir mais detalhes. Conhecia o episódio por leituras e pelo que lhe tinham explicado no colégio, mais que suficiente para saber que não gostava.

Uma rajada de brisa fez tremer as folhas, fazendo-as murmurar como as ondas na praia. Ouviu-se ao longe uma risada de mulher.

— Nunca me esquecerei do rosto do coronel. - Sturton estava perdido no passado. Achava-se na Índia, não em uma tarde do verão inglês muito mais morna. — Parecia um cadáver. Tive medo de que caísse do cavalo. Ao descer tropeçou, e quando caminhou para o primeiro montão de mortos lhe tremiam os joelhos. Havia visto muitos no campo de batalha, mas não era o mesmo.

Tellman tentou imaginar e teve náuseas. Perguntou-se pela natureza e a profundidade dos sentimentos do Balantyne. Sua imagem atual era tão fria e inflexível!

— E o que fez? - perguntou.

Sturton não o olhou. Seus pensamentos continuavam em Lucknow, a trinta e quatro anos de distância.

— Estávamos todos igualmente afetados - disse em voz baixa. — Se fez responsável o coronel; estava branco como o papel e lhe tremia a voz, mas deu as ordens necessárias e nos explicou como devíamos revistar os edifícios para estar seguros de que não houvesse nenhuma emboscada. Ver que não houvesse ninguém escondido. - Em sua voz vibrava o orgulho de ter completado seu dever e ter sobrevivido para viver uns tempos mais clementes. — Ordenou cercar o perímetro e pôr guardas se por acaso voltavam - acrescentou sem olhar, o sargento, que estava sentado ao seu lado. — Enviou aos mais jovens para que não vissem os mortos. Na tropa havia alguns que estavam muito impressionados. Já lhe disse que eram as mulheres, algumas até com bebês. O coronel deu a volta ao montão para ver se havia alguém vivo. Não sei como foi capaz. Eu não teria podido, mas bom, para isso é coronel.

— Era coronel porque lhe comprou seu pai os galões - disse Tellman.

Imediatamente depois, e sem saber por que, lamentou o comentário. Sturton o olhou com um desprezo mitigado pela paciência. Notava-lhe na expressão que não o considerava digno de receber explicações.

— Você não tem nem idéia do que é o dever, a lealdade nem nada. Se não, não haveria dito uma estupidez tão grande - replicou. — A um homem como o coronel Balantyne o teríamos seguido até o fim do mundo, e orgulhosos, não duvide. Ajudou- nos a enterrar aos mortos e depois rezou por eles. De noite, quando faz calor, fecho os olhos e me parece ouvir sua voz. Não é que chorasse (como ia chorar?), mas tinha o horror pintado no rosto.

Suspirou e guardou silêncio.

Desta vez Tellman não se atreveu a interrompê-lo. Embargavam-no emoções estranhas e desasosegadoras. Tentou imaginar-se ao general com muitos anos menos e uma vida interior povoada de emoções como a raiva, a dor e a compaixão, tudo isso dissimulado por um esforço brutal porque era seu dever e tinha que comandar a seus homens sem que por bem deles duvidassem de seu oficial nem lhe observassem nenhuma fraqueza. Não era o Balantyne a quem achava conhecer.

Sturton saiu de suas reflexões.

— O que queria saber do coronel? Não penso criticá-lo porque não há nada que criticar. Se acredita que fez algo mau é que é idiota de arremate, mais tolo e mais ignorante do que me tinha parecido a princípio, que já quer dizer.

Tellman aceitou a recriminação sem queixa, porque estava muito confuso para justificar-se.

— Não... - disse lentamente. — Não, não acredito que tenha feito nada. Procuro uma pessoa que tenta prejudicá-lo. Um inimigo. - Reparou na raiva do Sturton. — É possível que o acompanhasse na campanha da Abissínia, mas não seguro.

— Tem alguma pista? - disse Sturton, indignado. — Que espécie de inimigo?

— Alguém com tão poucos escrúpulos que é capaz de querer chantageá-lo com uma história falsa - respondeu Tellman.

Temeu ter revelado muitas coisas. Tinha a sensação de caminhar por areias movediças. De repente se movia tudo sob seus pés.

— Pois mais vale que o encontre! - disse Sturton com fúria. — E logo! Eu ajudo-o!  Ficou tenso, como se fosse começar imediatamente.

Tellman vacilou. Por que não? Não estava em situação de recusar nenhuma ajuda qualificada.

— De acordo - aceitou. — Necessito que me diga tudo o que averiguar sobre o ataque ao trem de fornecimentos no Arogee, que é o episódio ao que se refere a mentira.

— Feito! - disse Sturton. — Bow Street, não? Ali estarei.

Durante dois dias, o próprio Tellman seguiu discretamente os passos do Balantyne. Não era difícil, porque o general saía muito pouco de casa e caminhava tão ensimesmado que nunca olhava aos lados, e muito menos atrás. O sargento teria podido caminhar a seu lado sem que o visse.

A primeira saída do general foi em carruagem e em companhia de sua esposa, uma mulher bonita e morena que ao Tellman pareceu intimidadora. Cuidou muito para que o surpreendesse olhando-a, embora fosse por acaso. Perguntou-se pelo motivo de que Balantyne a tivesse escolhido por esposa... até cair na conta de que possivelmente não o tivesse feito. Talvez se tratasse de um matrimônio de conveniência por questões familiares ou pecuniárias. Elegância não lhe faltava, pensou ao vê-la pela calçada seguindo ao general quase sem olhá-lo e aceitando a mão do cocheiro para subir à carruagem descoberta.

Depois a senhora Balantyne arrumou a saia com um movimento cheio de perícia e olhou para frente. Nem sequer voltou a cabeça para ver subir seu marido, nem ao responder a umas palavras suas. A seguir se antecipou a ele em dar ao cocheiro a ordem de arrancar.

Tellman se sentiu um pouco perturbado pelo general, como se tivesse sofrido um desprezo. A sensação, além de estranha, tomou-o de surpresa.

Seguiu ao casal até uma exposição de arte a que não lhe permitiu acessar. Aguardou que saíssem, coisa que fizeram pouco depois de uma hora. Lady Augusta irradiava vida, dureza... e impaciência. Balantyne conversava animadamente com um homem de cabelo branco. Tratavam-se com um respeito que confinava com o afeto. Tellman se lembrou de que o general praticava a aquarela.

Lady Augusta deu umas batidinhas com a sola do sapato.

Balantyne seguiu falando por espaço de uns minutos. Durante o caminho de volta não lhe fez nenhum caso, e quando chegaram ao Bedford Square desembarcou do veículo e subiu até a porta da casa sem esperá-lo nem olhar para trás.

A segunda saída do general foi solitária. Caminhava depressa, pálido e muito fatigado. Deu uma moeda de três pennies ao garoto que varria o cruzamento com o Great Russell Street e um xelim ao mendigo da esquina com Oxford Street.

Chegou ao clube Jessop e desapareceu em seu interior, mas demorou menos de uma hora para sair. Tellman o seguiu durante todo o caminho de volta ao Bedford Square.

Depois retornou ao Bow Street e consultou os expedientes antigos do Pitt para informar do caso dos assassinatos no Devil’s Acre e a assombrosa tragédia da Christina Balantyne. Sua leitura lhe produziu um sentimento de horror tão intenso que lhe formou um nó no estômago, devido à impotência, a raiva por um sofrimento contra o que nada podia, a destruição intencional e a dor.

Jantou pouco e depressa. Sua imaginação ficou nos escuros becos do Devil’s Acre, vendo o sangue nos paralelepípedos, mas de vez em quando o assaltavam cenas ainda piores: meninas assustadas, da mesma idade que Jemima, a filha do Pitt; meninas cujos gritos só ouviam outras meninas que compartilhavam sua impotência, encolhidas de medo.

Perguntou-se pela Christina Balantyne e o general. Possivelmente em seu lugar ele também tivesse escolhido afeições solitárias. Tomara Deus não o pusesse em situação de sabê-lo!

Na manhã seguinte, quando seguiu ao general, fez isso com um estado de ânimo muito diferente, e assistiu com surpresa a seu encontro com o Charlotte Pitt na escadaria do Museu Britânico.

A alegria que detectou no Balantyne ao reconhecê-la fez que se sentisse como um intruso, um olheiro. Viu no general uma profunda vulnerabilidade, como se experimentasse um afeto muito intenso e não se atrevesse a confessar a si mesmo, e menos ainda a ela.  Presenciando a viva preocupação de Charlotte, sua maneira de olhá-lo nos olhos e sua franqueza ilimitada, Tellman se deu conta bruscamente de que ela desconhecia a natureza ou profundidade dos sentimentos do general. Notava-lhe no rosto que tinha medo por ele. Tellman o teria averiguado em apenas olhá-la, embora não soubesse por Gracie.

Deram meia volta para entrar no museu, e ele os seguiu sem expor-se nenhuma outra possibilidade. Quando Charlotte olhou de esguelha a uma mulher que quase lhe pisava nos calcanhares, o sargento compreendeu com um calafrio que se chegasse a vê-lo, o reconheceria imediatamente.

Apoiou um jo lho no chão e inclinou a cabeça como se atasse os cadarços, com o resultado de que o homem de detrás tropeçou e recuperou o equilíbrio com dificuldade, além de mau humor. O incidente atraiu sobre o Tellman uma atenção maior que se tivesse se limitado a seguir ao casal a distância mais discreta. Zangou-se consigo mesmo.

Dai em diante deveria ficar no lado oposto das salas e observá-los através de seu reflexo nas vitrines de cristal que continham algumas peças. Balantyne só tinha olhos para Charlotte; ela, não obstante, reconheceria ao Tellman de perfil, e possivelmente até de costas.

Por um tempo conseguiu ficar detrás de uma mulher muito faladora com vestido negro de bombasina. Amparado por ela, viu deslocar-se de sala em sala Charlotte e Balantyne, que conversavam fingindo olhar as obras. Ela estava à corrente da chantagem e o assassinato, e decidida a intervir em defesa de seu amigo. Tellman já lhe conhecia aquela atitude; talvez a paixão fosse nova, mas conhecia seu talento para envolver-se.

Em algumas ocasiões , quando trocavam de vitrine, Tellman se via obrigado a fingir grande interesse pelo objeto que tivesse mais perto. Achavam-se em um lugar onde um homem só que não olhasse nada chamaria a atenção.

Achou-se em proximidade do que figurava na plaquinha como relevo de um palácio assírio, datado em sete séculos antes de Cristo e complementado por um desenho imaginário do conjunto do edifício. Seu tamanho lhe produziu um grande assombro. Devia ter sido magnífico. O nome do rei que o tinha governado lhe era impronunciável. Surpreendeu-se de que fosse tão interessante. Voltaria outro dia em que tivesse mais tempo para ler o texto. Até podia ir com Gracie.

Agora tocava seguir Charlotte e Balantyne. Quase lhe tinham escapado.

Começava a entender o interesse do Charlotte pelo caso. Balantyne não era como tinha acreditado Tellman. Portanto, equivocara-se e incorrera em vários enganos de apreciação. Se podia errar tanto em seus julgamentos sobre o Balantyne, o que dizer de todas as pessoas arrogantes e muito privilegiadas por quem tinha sentido antipatia e rechaço?

Quantas suas idéias preconcebidas?

Não ficava, em suma, como uma pessoa ignorante e cheia de preconceitos? Alguém a quem Gracie não quereria; alguém zangado consigo mesmo, e com as idéias confusas.

Deu meia volta, saiu da exposição e do museu e desceu pela escada a pleno sol. Ficava muito que pensar, e seu cérebro era um caos. Tanto como suas emoções.

Depois do que lhe tinha contado Parthenope Tannifer, Pitt se sentiu na obrigação de ir ver Cadell. Possivelmente soubesse tão pouco como outros sobre a identidade do chantagista, mas não podia passar-se por alto nem a menor oportunidade. Impossível descartar que fosse a primeira vítima em receber um pedido concreto, e se algo tinha era poder: seu cargo no Ministério de Assuntos Exteriores lhe permitia influir em delicadas negociações pertencentes a muitos setores. Pitt tinha tido a idéia de que possivelmente o chantagista desse mais importância a uma das vítimas que ao resto. Talvez uma delas fosse imprescindível para suas intenções, as quais podiam consistir em influir sobre as relações do governo com alguma potência estrangeira ou parte do império.

Delas dependiam verdadeiras fortunas. A situação africana, sem ir mais longe, era imprevisível. Quando havia terras ou ouro em jogo nunca faltava pessoas que desse pouco valor à vida, e menos à honra. Em sua pressa por explorar, por entrar ainda mais naquele vasto continente, homens como Cecil Rhodes e outros que seguiam seus passos estavam acostumados a pensar em termos de exércitos e nações. O bem-estar de uma pessoa passava quase despercebido.

Pitt nunca tinha saído da Inglaterra, mas conhecia muitos viajantes para saber que nos limites da civilização, cada dia mais remotos, a morte (violenta ou devida a uma das muitas enfermidades endêmicas dos climas tropicais) sempre espreitava, freqüente e repentina. Quando os valores e os costumes ficavam submetidos em trocas tão radicais como necessários, nada era mais fácil que esquecer o conceito da honra, que na Inglaterra conservava sua vigência. As considerações individuais podiam ficar eclipsadas pelo muito que havia em jogo.

Teve que combinar uma entrevista com Cadell, e não acessou a seu escritório do ministério até dois dias depois de ter falado com o Parthenope Tannifer. Chegado o dia, fizeram-no esperar um quarto de hora.

Por fim o convidaram a passar, e Cadell se levantou da escrivaninha com uma expressão de perplexidade em seu rosto enxuto. Não era bonito, mas suas feições eram regulares e as rugas que tinham deixado certas expressões refletiam um caráter amável. A entrevista, entretanto, coincidia com um dia de cansaço e tensões, como observou Pitt. Cadell só acessava a ela pela insistência do Pitt em que era um caso importante, um assunto policial que não podia esperar e no qual não podia ajudá-lo ninguém mais.

— Bom dia... é... delegado - disse sorrindo um pouco. Estendeu a mão e a retirou quase na hora, como se tivesse esquecido o propósito do gesto. — Lamento lhe apressar, mas tenho uma reunião consertada com o embaixador alemão para dentro de vinte e cinco minutos. Peço-lhe desculpas, mas se trata de um tema impossível de adiar. - Indicou uma poltrona preciosa de estilo rainha Ana com tapeçaria vermelha. — Sente-se, por favor, e me diga no que posso lhe ajudar.

Pitt aceitou e foi ao ponto. Vinte e cinco minutos eram muito poucos para se aprofundar em um assunto tão delicado e doloroso, mas sabia que Cadell falava a sério.

— Em tal caso, se me permitir, não lhe farei perder o tempo em cumprimentos - disse. — É um assunto muito grave para deixá-lo pela metade por outros compromissos profissionais.

Cadell assentiu.

Pitt lamentava ter que ser tão direto, mas não havia mais remédio.

— O que vou contar lhe é confidencial, como o será, pelo que a mim respeita, quanto me disser.

Cadell voltou a assentir com o olhar fixo, sem pestanejar. Ou não tinha nem idéia do que ia dizer Pitt ou era um ator consumado, coisa, por outro lado, que em um diplomata não teria sido de estranhar.

— Vários personagens destacados, mais por status que por meios econômicos, estão sofrendo uma chantagem - disse Pitt sem rodeios.

As feições do Cadell se crisparam de maneira tão sutil que até podia tratar-se de uma mudança na luz que entrava pela janela. Não disse nada.

— De momento não se produziu nenhum pedido de dinheiro - continuou Pitt.                     — Poderia chegar-se à conclusão de que o chantagista pretende obter influência ou poder. Pende sobre todos uma espada, e nenhum sabe quando ou de que maneira exata cairá. Tenho fé na inocência de todos eles, mas as acusações são tão sutis e se referem a um passado tão remoto que nenhum pode demonstrá-la.

Cadell suspirou lentamente.

— Entendo. - Seu olhar, fixo até exceder os limites da naturalidade, não se desviava um ápice do rosto de Pitt. — Pode me dizer se Guy Stanley figura entre esses homens?

— Posso, e a resposta é sim - disse Pitt com serenidade.

Percebeu que Cadell abria mais os olhos.

— Entendo...

— Parece-me que não - corrigiu Pitt. — O que lhe pediram, mais como objeto de submissão que como outra coisa, foi uma cigarreira com banho de prata, de valor muito relativo. Em si não possuía nenhum. Só era um símbolo de vitória.

— Então... a que se deve o escândalo?

— Ignoro-o - reconheceu Pitt. — Suspeito que se trata de uma advertência às outras vítimas, uma demonstração de poder... e da vontade de usá-lo.

A única parte do Cadell que se moveu foi seu peito, que subia e baixava com uma lentidão superior a normal. Seus dedos não se crisparam em cima da mesa, mas estavam rígidos. Controlar-se estava custando um esforço descomunal.

Alguém passou pelo corredor e se afastou.

— Tem toda a razão - disse por fim. — Desconheço como averiguou que formo parte das vítimas, e talvez seja mal perguntá-lo. O que se insinua de mim é... repugnante, além de falso, mas há pessoas com motivos pessoais para acreditar nisso e propagá-lo. Não só me afundaria , mas também a outras pessoas. O único resultado que teria uma negativa seria familiarizar com a idéia a pessoas que nunca a teriam tido. Estou indefeso.

— Mas até agora não lhe pediram nada? - insistiu Pitt.

— Nada, não; nem sequer um objeto de submissão, como a qualificou você.

— Agradeço-lhe sua franqueza, senhor Cadell. Seria amável de me descrever a carta? A menos que a conserve, em cujo caso o melhor seria vê-la.

Cadell negou com a cabeça.

— Não, já não a tenho. Estava feita com letras recortadas do jornal, acredito que do Time, e coladas em uma folha normal e comum. Tinham-na jogado na City.

— Exatamente igual às demais. - Pitt assentiu com a cabeça. — Me manterá à corrente de se lhe enviarem algo mais, ou de qualquer outra coisa que considere pertinente?

— Por certo.

Cadell se levantou e o acompanhou à porta.

Pitt partiu com a dúvida de se Cadell cumpriria sua palavra. Saltava à vista que era um homem com um grande domínio de suas emoções e profundamente afetado pelos acontecimentos. A diferença de outros não lhe tinha explicado o conteúdo da ameaça. Devia ser muito dolorosa e ter provocado um medo muito fundo.

Dunraithe White, entretanto, só o havia dito a Vespasia. Em Pitt não teria confiado.

Deteve uma carruagem no Whitehall e foi ver o Cornwallis.

Encontrou-o sentado diante da escrivaninha, imerso em muitos papéis. Parecia que procurava algo. Levantou a cabeça assim que o ouviu entrar, como se agradecesse a interrupção. Tinha o cansaço e a tensão gravados no rosto. Seus olhos estavam avermelhados e sua pele parecia de papel, mais escura nas faces e ao redor dos lábios.

Pitt experimentou uma pontada de compaixão, e sua impotência despertou uma onda de ira. Era consciente de que estava a ponto de lhe dizer algo que pioraria as coisas.

— Bom dia, Pitt. Alguma novidade? - perguntou Cornwallis antes de que fechasse a porta.

Esquadrinhou o rosto do delegado, e a compreensão do fracasso se refletiu em seus olhos de maneira gradual. Seu corpo experimentou uma espécie de relaxamento cuja causa não era nenhum bem-estar, senão o desespero e a consciência de ter sido derrotado de novo.

Pitt se sentou sem que o convidassem a isso.

— Falei com Leon Cadell no Ministério do Exterior. A senhora Tannifer tinha razão: é outra vítima do mesmo.

Cornwallis lhe dirigiu um olhar penetrante.

— O Ministério do Exterior?

— Sim, mas não lhe pediram nada, nem sequer um objeto.

Apoiou-se na mesa e acariciou a testa e a calva.

— Já temos um subchefe de polícia, um juiz, um alto cargo do Ministério de Exterior, um banqueiro da City e um general reformado. O que temos em comum, Pitt? - Olhou-o com um brilho de desespero. — Espremi os miolos! O que podem nos pedir? Fui ver o pobre Stanley...

— Eu também - disse Pitt, apoiando-se no espaldar e cruzando as pernas, — e não tinha nada que acrescentar.

— Não é certo que enfrentasse o chantagista. - Cornwallis se inclinou. — O pobre não teve nenhuma miserável oportunidade! Acredito que terá que partir de que o escândalo do Stanley foi uma demonstração de poder pensada para nos assustar. - Aguardou ver se Pitt o contrariava, e ao comprovar que não era assim reatou sua intervenção em voz mais baixa e um pouco entrecortada. — Esta manhã recebi outra carta. Não se diferencia das outras em nada importante, além de que é um pouco mais curta. Sustenta que em todos meus clubes me virarão as costas. Só são três, mas lhes tenho avaliação.

Contemplava a desordem de papéis que cobria a escrivaninha como se lhe resultasse insuportável olhar a outra pessoa.

— Me... eu gosto de ir e poder estar cômodo - continuou. — Ao menos eu gostava. Agora... juro-lhe que me aborreço. Só vou porque não posso faltar a certas obrigações. -Apertou os lábios. — É desses lugares onde só se vai quando gosta, mas de que pode estar ausente todo um ano e encontrá-lo igual à última vez: móveis muito confortáveis, a lareira acesa sempre que faz mau tempo... Eu gosto de ouvir o fogo; parece que está vivo, como quando o rodeia o mar. Os mordomos o conhecem, como se fossem sua tripulação. Não é preciso que lhes diga o que você gosta cada vez que vai. Pode passar várias horas lendo o jornal, e se tiver vontade de conversa sempre há alguém agradável perto. A mim... - Desviou o olhar — me importa o que pensem.

Pitt não soube o que dizer. Cornwallis era um homem solitário; a diferença dele carecia do amor, do calor, da sensação de pertença e as responsabilidades que implicava ter mulher e filhos. Os únicos em esperar sua chegada eram os criados. Podia entrar e sair a seu desejo. Ninguém o necessitava nem sentia falta dele. Sua liberdade, não obstante, tinha um alto preço. Agora não tinha a ninguém que falasse com ele, solicitasse sua atenção ou lhe oferecesse consolo; ninguém que o distraia de seus medos e de sua solidão, permitisse-lhe esquecer seus pesadelos, fizesse-lhe companhia e o quisesse com um amor desligado das circunstâncias.

Começou a mover papéis como se procurasse algo, com o resultado de que a desordem se converteu em caos.

— White se deu baixa - disse, contemplando sua obra.

Pitt ficou de pedra. Não sabia nada.

— Da magistratura? Quando?

— Não! Do clube Jessop, embora... - Falava com voz forçada. — Suponho que não iria mal renunciar ao cargo. Ao menos não teria o poder nem a tentação de ceder aos desejos do chantagista... se fossem dessa índole. - Voltou a passar uma mão pela calva como se tivesse cabelo que pentear. — De todo modo, e em vista do que fez ao Stanley, não estranharia que pusesse White em evidência depois da demissão, só para avisar ao resto, e seguro que White o terá em conta.

— Não sei - disse Pitt.

Cornwallis suspirou.

— Eu tampouco. Vi-o no clube justo antes que se desse de baixa e dava pena vê-lo. Parecia que acabava de ler sua sentença de morte. Eu me sentei em minha poltrona, como um idiota, e fiz ver que lia o jornal. Sabe o que faz dias que não consigo ler o Time?

Seus dedos manuseavam as cartas, notas e listrados da mesa distraidamente, sem indicar o menor interesse por seu conteúdo.

— Olhei-o e soube como se sentia. Quase lhe li o pensamento, pelo muito que se parecia com o meu. Estava com os nervos à flor da pele, tentando dissimular o medo que tinha se por acaso o notava alguém. Fingia naturalidade, mas estava pendente de todos; olhava de esguelha a outros sócios, perguntando-se quem conhecia sua situação, quem achava estranho seu comportamento, quem suspeitava algo... É horrível, Pitt. - Levantou o olhar com o rosto tenso e a pele das maçãs do rosto tirante. — Te enche a cabeça de idéias que aborrece e não poder pensar em nada mais. Tergiversa algo que lhe digam, como se tivesse segundas intenções. Não se atreve a olhar no rosto de amigos se por acaso lhes nota que sabem algo, que o desprezam ou pior ainda: que notam suas suspeitas. - Levantou-se com um movimento brusco e caminhou para a janela, dando as costas parcialmente ao Pitt. — Odeio a pessoa em que me deixei converter, mas não sei como frear o que me está passando. Ontem, cruzando Piccadilly, encontrei-me por acaso com um amigo da marinha; alegrou-se muito, e só por ver esquivou uma carruagem e esteve a ponto de que o atropelassem. O primeiro que pensei foi se seria o chantagista. Logo me deu tanta vergonha que não pude olhá-lo no rosto.

Pitt tentou achar palavras de consolo, mas tudo eram mentiras. Não podia alegar que o amigo do Cornwallis tivesse compreendido ou perdoado. Como perdoar as suspeitas de um amigo, por fugazes que sejam? Se Cornwallis tivesse suspeitado que o chantagista era Pitt, este não teria tornado a olhá-lo da mesma maneira. Teria se quebrado algo sem remédio. Tão pouco o conhecia? A chantagem era um pecado abismal, cruel, traiçoeiro e sobre tudo covarde.

Cornwallis prorrompeu em uma risada inesperada.

— Obrigado por não me consolar com tópicos como que não tem importância ou que ele teria feito o mesmo. - Continuava de costas à sala, olhando a rua. — Sim que a tem, e não espero que me perdoem. Eu não perdoaria a ninguém que me tivesse considerado capaz de algo assim; e o pior, independentemente de que saiba alguém, é que sei eu. Não sou como achava ser. Falta-me critério e valentia. É o que me enfurece mais. - Voltou-se para olhar ao Pitt a contraluz. — O chantagista mostrou uma parte de mim que preferiria não ter conhecido, e que eu não gosto.

— Tem que ser alguém que o conheça - respondeu Pitt com voz tranqüila. — Se não como teria averiguado o suficiente do episódio para tergiversar o dessa maneira?

Cornwallis tinha os pés um pouco separados, como se estivesse na coberta e agüentasse o equilíbrio contra o vaivém da nave.

— Já o pensei. Me acredite, Pitt: passeei por meu dormitório em plena madrugada e passei várias horas estirado na cama olhando o teto, tentando me lembrar de todas as pessoas que conheci desde que ia ao colégio. Espremi os miolos tentando me lembrar de alguém com quem tivesse podido ser injusto, intencionalmente ou não; alguém de cuja morte ou ferida pudesse ser considerado autor ou cúmplice. - Estendeu as mãos com um gesto impulsivo. — Nem sequer me ocorre nenhum ponto em comum com outros. Ao Balantyne o conheço de passagem. Os dois somos membros do clube Jessop e de outro clube do Strand, mas devo ter cem conhecidos como ele. Não acredito lhe haver dirigido a palavra em mais de dez ou doze ocasiões.

— E Dunraithe White?

Pitt também estava fazendo um esforço mental.

— Mais, mas tampouco muito. - Cornwallis fazia cara de perplexidade. — Jantamos juntos algumas vezes. Sei que é um homem viajado e que conversamos, mas agora mesmo não me lembro do que. Gostei dele. Era simpático. Gosta muito de seu jardim. Acredito que falamos de rosas. Sua mulher sabe ordenar muito bem os espaços e as cores. Notava-se que a queria muito, coisa que eu gostei. – A lembrança suavizou a expressão do Cornwallis. — Depois voltamos a jantar. Ficou até tarde no centro por uma questão jurídica. Teria preferido jantar em casa mas não podia.

— Faz um tempo que seus vereditos se tornaram erráticos - disse Pitt, recordando o que lhe tinha contado Vespasia.

— Tem certeza? Investigou-o? Quem o diz?

Com outra pessoa Pitt teria vacilado em responder, preferindo a discrição, mas se tratava de um tema no que não tinha segredos com o Cornwallis.

— Theloneus Quade.

— Quade? Não me diga que é outra das vítimas! Meu Deus! Aonde iremos parar? Quade é a pessoa mais honrada que...

— Não, ele não! - apressou-se a dizer Pitt. — Mas se fixou nas últimas falhas do White e os considerou preocupantes. Por isso lady Vespasia Cumming-Gould foi ver o White.

— Ah... Compreendo. - Cornwallis mordeu o lábio, franziu o sobrecenho, voltou para a escrivaninha e contemplou os dossiês dispersos com semblante taciturno. Depois se voltou para o Pitt. — Acredita que o errático de seus vereditos se deve aos nervos da chantagem, ao medo ao que ocorra e ao que lhe peçam? Ou é o preço que paga ao chantagista? Considera possível que uma dessas falhas tão excêntricas seja o que importa, a causa de tudo?

Pitt meditou. Já lhe tinha ocorrido a mesma idéia, mas, absorto em sua preocupação pelo Cornwallis, tinha-a despachado com rapidez.

— É uma possibilidade - respondeu. — Tem certeza de que não é a relação que procuramos entre ele e você? Um caso em que trabalhem ambos?

— E no que afetaria a outros? É um caso político? Stanley já está arruinado. O papel que desempenhe já não tem importância... Ou sim? Será possível que o objetivo de destruir seu poder, de evitar que acessasse ao cargo que procurava, sempre tenha formado parte do plano? - Mostrou as palmas das mãos. — E Cadell? Há alguma potência estrangeira em jogo? O banco do Tannifer trabalha com muitos bancos europeus. Poderia ser questão de cifras astronômicas. Balantyne combateu na África. Tratar-se-á disso? - Sua voz subiu uma nota e adquiriu um matiz de urgência. — Terá algo que ver com o pagamento de diamantes ou ouro na África do Sul? Ou com terras? Expedições ao interior para fazer-se com novos territórios, como Mashonaland ou Matabeleland? A menos que se trate de algum descobrimento do qual nada sabemos.

— Balantyne passou quase toda sua carreira militar na Índia - disse Pitt, dando voltas à pergunta em sua cabeça. — Que eu saiba sua única experiência africana foi na Abissínia, que está na outra ponta do continente.

Cornwallis virou a cadeira, sentou-se com o torso inclinado e olhou ao Pitt.

— Uma linha de ferrovia do Cabo ao Cairo. Pense no dinheiro que moveria. Seria a maior empresa do século que vem. O continente africano é um mundo completamente novo.

Pitt captou pela metade a visão, mas sua mente não chegou a iluminá-la de tudo. Em qualquer caso era uma fortuna, um poder pelo qual muitos homens estariam dispostos não já a chantagear, mas a matar.

Cornwallis o olhava com grande atenção, e seu rosto refletia a enormidade de suas suspeitas. Adotou um tom premente.

— Temos que solucioná-lo, Pitt, e não só por mim ou outro dos homens a quem ameaça arruinar. Isto possivelmente abranja muito mais coisas que o destino de umas poucas vidas. Poderia tratar-se de uma corrupção que alterasse o curso da história para... sabe Deus para quantas pessoas. - Inclinou-se ainda mais com grande intensidade no olhar. — Quando um de nós ceda à ameaça e cometa algum deslize realmente grave, possivelmente um delito, por não dizer uma traição, o chantagista nos terá em suas mãos. Poderá pedir o que for e não teremos escapatória. Só a morte.

— Sei - assentiu Pitt, vendo abrir-se a seus pés uma cisma de corrupção onde os homens sofriam a sós e seus atos eram impulsionados pelo medo, esgotamento e suspeitas até que já não podiam agüentar a pressão. Um simples assassinato teria sido menos cruel.

A raiva, entretanto, era energia esbanjada, como devia desejar o chantagista. Não servia de nada, fazia perder tempo e ofuscava a mente.

Fez um esforço por serenar-se.

— Investigarei os processos do Dunraithe White e os que constem em sua lista de pleitos.

— Me informe! - exigiu Cornwallis. — Prefiro que venha diariamente a me dar parte, a fim de comparar o que sabemos. De momento é quase nada, nem sequer por onde começar. Poderia tratar-se de uma fraude, um desfalque ou um simples assassinato de aparência vulgar. Tem que haver dinheiro em jogo, ou não estaria metido Tannifer, e interesses no estrangeiro, pelo Cadell e possivelmente por Balantyne... - Sua voz se tornou mais aguda. Levantou a mão e golpeou a escrivaninha com o dedo indicador.                    — Mercenários? Um exército privado? Talvez Balantyne conheça a pessoa que se alistaria... ou que ficaria no comando! É possível que saiba mais do que pensa, e que esteja comprometido em um processo judicial no que trabalhemos White e eu. Ou no que eu trabalhe no futuro. O que lhe parece, Pitt? É possível que comecemos a entender algumas coisas? - Havia esperança em seu olhar. — Poderia ter perguntado ao White, mas deu baixa do Jessop e já não terei nenhuma ocasião de ter uma conversa informal com ele. Quanto ao Balantyne só vai às reuniões do comitê. Tenho a impressão de que passa tão mal como eu. Parece que leva várias semanas sem dormir.

Pitt se absteve de comentar que lhe ocorria o mesmo.

— E não falemos do Cadell - acrescentou Cornwallis, levantando-se de novo, — embora haja que dizer que levo perto de uma semana sem vê-lo, ou seja, desde antes de cair o escândalo sobre o pobre Stanley.

— Conhece Cadell? - Era um dado que ignorava, embora não tinha nada de surpreendente. A alta sociedade era um mundo pequeno, composto por centenas de homens que pertenciam a um punhado de clubes e associações.

Cornwallis deu de ombros.

— Um pouco. Formava parte do comitê do clube. É um grupo que celebra reuniões periódicas para ajudar as crianças órfãs. Agora não vou por nenhum outro motivo. Não posso abandoná-los.

Pitt também se levantou.

— Começarei a investigar os sumários do Dunraithe White, que é onde acredito que acharemos o elo. Deve pertencer ao passado recente ou estar previsto para o futuro. Considero mais provável o segundo.

— Perfeito. Assim que encontre algo me informe, embora sejam meras hipóteses - disse Cornwallis. — Possivelmente eu veja a relação antes que você.

Pitt voltou a assentir e partiu, não sem fazer-se com uma lista de todas as investigações recentes sujeitas à autoridade geral do Cornwallis. Com ela em mão e uma nota breve de apresentação e explicação, deteve uma carruagem e pediu ser levado ao Old Bailey, o Tribunal Central dos Criminosos.

Pela tarde já contava com uma lista de casos, mas eram simples dados e havia várias causas em espera de julgamento que guardavam relação com o Cornwallis e White, por escassa que fosse. Necessitava a opinião de um perito, alguém que se fosse possível, estivesse à corrente da situação. O candidato mais claro era Theloneus Quade. Pitt ignorava seu domicílio, e teria sido difícil, quando não imprudente, abordá-lo no tribunal que presidia.

Às seis da tarde estava diante da porta da Vespasia.

— Traz notícias? - perguntou-lhe ela quando o conduziram ao salão.

Estava sentada, lendo o jornal à luz do sol. Deixou-o, e não só por boa educação mas também porque estava muito preocupada. A cachorrinha branca e negra que tinha a seus pés abriu um olho para assegurar-se de que fosse quem achava, e uma vez satisfeita voltou a dormir.

— A verdade é que não - respondeu ele, dando uma olhada ao Time pela página que tinha ficado aberta.

Era um artigo sobre o caso Tranby Croft, cuja manchete proclamava a leitura do veredicto: culpado. Pitt o achou estranhamente assustador. Não tinha nem idéia de se sir William Gordon-Cumming era culpado de fazer armadilhas, mas o fato de que um assunto daquela índole se convertera em processo judicial com tantos implicados e testemunhos contraditórios, e de que o processo tivesse despertado tanto ódio e um escândalo nacional, era uma tragédia, e para cúmulo desnecessária. Já havia muitas coisas que o ser humano não podia evitar. Parecia absurdo que o caso tivesse chegado a tanto.

— Suponho que quando acabar tudo o príncipe de Gales estará aliviado - disse. — É alguma coisa .

Vespasia olhou o jornal meio caído e lhe encheu o rosto de indignação.

— É de supor - disse com frieza. — Hoje é o primeiro dia das corridas de Ascot, e não ficou no tribunal para escutar o veredicto. Passou a ver-me lady Drury de caminho a sua casa e me contou que o príncipe foi ao camarote real em companhia de lady Brooke, o que no mínimo é uma falta de tato, e que a multidão o recebeu com vaias e assobios.

Pitt se lembrou do pouco que gostava Vespasia de forçar o pescoço para olhá-lo de baixo, e por conseguinte se sentou.

— O que ocorrerá ao Gordon-Cumming? - perguntou.

Ela respondeu sem vacilar.

— Expulsá-lo-ão do exército e de todos seus clubes, e a alta sociedade fará o boicote. Terá sorte se mantiver alguma relação.

A expressão da anciã era de leitura difícil, porque mesclava uma aguda compaixão e a possibilidade de que considerasse culpado ao acusado (e mesmo assim a lamentasse). Pitt a conhecia bastante para dar-se conta da complexidade de suas emoções. Pertencia a uma geração que colocava a honra por cima de tudo, e a condição régia do príncipe do Gales não justificava sua afeição ao jogo nem seus excessos; tornava-os, ao contrário, quanto mais repreensíveis. Vespasia era da mesma geração que a própria rainha Vitória; não obstante, a julgar pelo que tinha ouvido Pitt, eram duas personalidades opostas, apesar de ter vivido a mesma época histórica.

— Você o acha culpado? - perguntou.

Ela abriu mais seus prodigiosos olhos cinzas, mantendo quase imóveis um par de sobrancelhas perfeitamente desenhadas.

— Pensei-o a fundo por motivos que guardam relação com o problema que nos ocupa, e pode servir como aproximação à opinião pública, ao menos à parte dela que afetaria a pessoas como Dunraithe White e Brandon Balantyne. - Olhou para Pitt nos olhos com o sobrecenho ligeiramente franzido. — Parece inegável que o método de apostas que usava Gordon-Cumming não era o mais acertado, sobre tudo entre a classe de pessoas que o rodeava. - A expressão de seus olhos era indecifrável. — A pessoa que o usa, seja varão ou mulher, sempre sai mal parado. Expôs-se à hipótese, não de todo absurda, de que o escândalo fosse premeditado, a fim de desprestigiar ao Gordon-Cumming e desqualificá-lo como rival do príncipe no afeto de Francês Brooke.

— A mesma lady Brooke que acompanhou o príncipe a Ascot? - perguntou Pitt, surpreso.

O estratagema parecia estúpido ou desnecessariamente arrogante, e possivelmente fosse ambas as coisas.

— Exato - confirmou ela com tom seco. — Não tenho nem idéia se é verdade, mas o fato de que possa sugerir-se revela um estado de opinião.

— Inocente? - disse ele.

— Não sei - respondeu ela. — Parece ser que o jurado só demorou um quarto de hora em emitir seu veredicto, o qual também foi recebido com vaias e assobios, mas depois das conclusões do juiz havia poucas alternativas.

— Para salvar ao príncipe?

Vespasia insinuou um gesto de desespero.

— Parece incontestável.

— Então não tem nada que ver com nossa situação...

Ela esboçou um sorriso.

— Tê-lo-ão outras coisas, querido Thomas. A opinião pública é um animal muito caprichoso, e temo que nosso chantagista seja uma pessoa muito hábil. Escolheu muito bem os temas para que nos enganemos pensando que possa cometer enganos. E em resposta a sua pergunta: sim, acredito provável que o pobre Gordon-Cumming fosse inocente.

— Repassei todos os casos onde pudesse haver alguma relação entre o Cornwallis e Dunraithe White - disse Pitt com tom reflexivo, voltando para motivo de sua visita, — e me colocou na cabeça o medo de que a conspiração seja muito mais ambiciosa do que tinha imaginado. Que não tenha nada que ver com a simples entrega de dinheiro, a não ser com a corrupção do poder... - Falava prestando atenção ao rosto da Vespasia e procurando indícios de que a idéia lhe parecesse absurda, mas só percebeu uma extrema seriedade. — Possivelmente esteja relacionada com a expansão na África, que é o primeiro que se pensa quando se busca algo que relacione a todas as vítimas que conhecemos.

— É verdade. - Ela assentiu com a cabeça. — Claro que não sabemos a quem mais pode afetar. É um dos aspectos mais inquietantes do caso. Poderia prejudicar a outros membros do governo, a magistratura ou qualquer outra esfera de poder ou influência. De todo modo estou de acordo com que o da África parece verossímil. É uma zona onde hoje em dia pode ganhar-se mais dinheiro de que possamos conceber a maioria. Não estranharia que Rhodes acabasse fazendo-se virtualmente com seu próprio império. Ao longo da história, a promessa do ouro teve um efeito hipnótico. É como se gerasse uma espécie de loucura.

Pitt tirou o papel onde tinha cotado os nomes dos casos onde coincidiam Cornwallis e Dunraithe White. Só havia cinco.

Vespasia usou os óculos para decifrar sua caligrafia.

— O que necessita? - perguntou ao final da leitura. — Saber mais de cada caso?

— Sim. White não me contaria nada, porque já disse você que tem a intenção de ceder ao chantagista. Ao Cornwallis prefiro não perguntar porque acredito que politicamente é um ingênuo e não quereria comprometê-lo, se por acaso não conseguíssemos evitar que saísse tudo à luz pública. - Pitt sentiu um peso em seu interior, a sombra de um mau presságio que não se dissipava facilmente nem sequer naquela sala tranqüila e ensolarada a que se acostumara de maneira tão prazenteira. — Tenho que estar preparado para ajudá-lo.

— Não é necessário que se explique, Thomas - disse ela com serenidade. — Sei o que são a suspeita e a honra. - Sustentou seu olhar. — Possivelmente fosse oportuno que falasse com o Theloneus; saberá muitas coisas, e o resto poderá averiguá-lo. Está igualmente preocupado como nós e também tem medo de que seja um plano político de grande alcance, com apostas altas e irrevogáveis. iremos vê-lo. A menos que lhe pareça mais sensato ir você só, claro...

Em seus olhos cinzas não havia nem rastro de ofensa pessoal. Ele respondeu com franqueza.

— Prefiro contar com sua opinião. Possivelmente a você lhe ocorram perguntas que me tenham passado por cima.

Ela assentiu, agradecida, porque adorava participar de tudo. Seu intelecto e sua curiosidade não tinham perdido acuidade, e já fazia anos que a aborreciam as fraquezas da alta sociedade. Conhecia seus membros tão a fundo que lhe eram previsíveis, e os únicos em seguir despertando sua curiosidade ou estimulando seu senso de humor eram uns poucos excêntricos. É claro que ela não o haveria dito assim. Limitou-se a sorrir e perguntou ao Pitt se gostava de jantar antes de sair. Ele aceitou e pediu permissão para usar o telefone, a fim de avisar Charlotte de que não iria para casa.

— Há muitas possibilidades, é claro - disse Theloneus Quade quando estiveram sentados em sua biblioteca, tranqüila e iluminada pela luz do final da tarde.

Detrás da janela, no pequeno jardim, trinavam os pássaros e murmurava a água de uma fonte de pedra. As rosas estavam completamente abertas e a luz caía enviesada sobre elas, pintando as de um ouro alaranjado entre o que destacava o brilho prateado de uma clemátide.

— Tannifer pode receber pressões para conceder um empréstimo sabendo que não conta com as devidas garantias - prosseguiu Quade com seriedade. — Ou que não será devolvido. Ou passar por cima negócios fraudulentos e não investigar contas relacionadas com um desfalque.

— Sim, já sei.

Pitt se recostou em sua cômoda poltrona. Era uma sala tranqüila, acolhedora e cheia de toques distintivos. Ao entrar se fixou na diversidade temática dos livros: a queda de Bizancio, a porcelana da China, uma história dos czares da Rússia, a poesia de lhe dêem e William Blake... dezenas de matérias sem relação entre si. Na parede havia uma aquarela de tema naval assinado pelo Bonington, a que supôs certo valor. Beleza não lhe faltava.

— Também poderia ser alguém que já tenha cometido um delito pelo que esteja a ponto de ser julgado - continuou Theloneus, — e que tenha a esperança de subverter a causa da justiça. É possível que as demais vítimas fossem testemunhas desse delito, embora não saibam, e que o chantagista considere factível suborná-las mediante a ameaça de um escândalo ou invalidar seu testemunho pelo procedimento de arruiná-los.

Cravou no Pitt um olhar fixo e interrogador. Suas feições eram finas e sensíveis, mas não ocultavam uma aguda inteligência, e só um idiota teria tomado sua voz serena e sua suavidade de maneiras por falta de coragem ou vontade.

— Não encontrei nenhum elo entre as vítimas que conhecemos - explicou Pitt. — Não parece que estejam unidas por nenhum interesse ou experiência comuns. Conhecem-se como qualquer londrino de certo nível social, tendo em conta que existe um número limitado de clubes para cavalheiros, o museu, a Sociedade Geográfica, o teatro, a ópera, as corridas e o mesmo circuito de acontecimentos sociais, mas não lhes tenho descoberto nenhum interesse compartilhado, nem tampouco relações pessoais que não compartilhem com centenas de pessoas mais.

— E ainda não lhes pediram dinheiro? - disse Theloneus. — A nenhum?

— Não estou certo. - Pitt pensava no Cadell. — É possível que ao Cadell, do Ministério do Exterior, sim.

Contou-lhe a informação do Parthenope Tannifer, sua visita ao Cadell e a negativa deste.

Theloneus guardou um silêncio reflexivo. Fora anoitecia. A grama já estava escura, e o céu dourado.

Vespasia rompeu o parêntese.

— Não vai da cabeça a idéia de que aqui há algo mais em jogo que dinheiro - disse. — O dinheiro seria mais fácil de conseguir com ameaças lentas e razoáveis, e esclarecendo mais o meio de pagamento. Não me parece o sistema mais indicado.

Pitt virou a poltrona para olhá-la, e viu que estava muito séria. A luz do entardecer, mais suave que o resplendor da manhã, dava um brilho especial a seu belo rosto, que não se deteriorara muito com os anos. Seu cabelo, mais que prateado, quase parecia loiro.

— Eu estaria bastante de acordo - disse Theloneus depois de um momento. — O chantagista exerce seu poder com tanto cuidado que quando formular seu pedido às vítimas que conhecemos intuo que se tratará de algo igualmente repugnante para todas elas, mas que a essas alturas estarão tão debilitadas pela tensão, o medo e o esgotamento que não acharão forças para resistir. Estarão dispostas a fazer quase tudo o que lhes peça, embora em outras circunstâncias o tivessem rechaçado sem pensar duas vezes.

— O que me preocupa - disse Vespasia com cenho franzido — é que escolhesse ao Brandon Balantyne para uma medida tão radical como deixar um cadáver na soleira de sua casa. - Olhou ao Pitt, depois ao Theloneus e outra vez ao primeiro. — A intervenção da polícia era inevitável. Por que ia desejar o chantagista? O normal seria que quisesse evitá-la.

— Também estranho - reconheceu Pitt. — Parece que quer exercer uma pressão especial sobre o Balantyne, mas não tenho nem idéia de por que.

— Não será uma coincidência? - perguntou Theloneus. — Há alguma possibilidade de que o pobre Albert Colé morresse justo aí por pura casualidade?

— Não. - Pitt caiu na conta de que não lhes tinha explicado o descobrimento do Tellman. Sua segurança surpreendeu a ambos. — Não, não é nenhuma coincidência -disse. — O investigou Tellman. Concluímos que era Albert Colé pelo recibo dos meias, que parecia dele. O advogado do Lincoln’s Inn Fields o identificou como Colé. - Tanto Vespasia como Quade olhavam-no no rosto e estavam pendentes de suas palavras. — Mas era um ladrão que se chamava Josiah Slingsby. Brigou com seu cúmplice, Ernest Wallace, e o tal Wallace, que era um homem colérico, matou-o.

— E o deixou no Bedford Square? - disse Vespasia, sobressaltada.

— Tinham ido roubar - concluiu Theloneus. — Se levaram a caixa de rapé do Balantyne? Não... Disse você que o general reconheceu que a tinha entregue ao chantagista. Meu querido Thomas, isto não tem sentido. Agradecer-lhe-ia que repetisse suas explicações, porque nos escapou algo. Onde está o verdadeiro Albert Colé, para começar?

— Não, Wallace não matou ao Slingsby no Bedford Square - respondeu Pitt, — nem tampouco perto. Brigaram em um beco do Shoreditch. Deixou Slingsby no chão e saiu correndo. Jura que não se aproximou do Bedford Square, e Tellman acredita nele. Eu também.

— E o recibo das meias? - perguntou Theloneus. — Wallace conhecia o Albert Colé?

— Ele diz que não, e não parece que haja motivos para duvidar.

— E o que diz Colé?

— Não o encontramos. Pedi ao Tellman que o busque.

— Portanto, alguém se apoderou do cadáver do Slingsby, colocou-lhe o recibo de Colé no bolso e o deixou diante da porta do Balantyne - disse Vespasia, incapaz de controlar um calafrio. — A única conclusão possível é que o fez para pôr em apuros ao Brandon Balantyne, e possivelmente para que o prendessem como suspeito do assassinato. Ou não?

— Se esquece dizer que teve que ser o chantagista, querida - lhe recordou Theloneus, — porque também colocou a caixa de rapé no bolso do morto.

Vespasia o olhou a ele e depois ao Pitt.

— Por que? Uma vez preso, Balantyne não podia pagar nem exercer sua influência, corrupta ou não.

— Portanto, só existe uma alternativa concebível - disse Theloneus: — que o chantagista queira tirar Balantyne do meio para que não possa interpor-se em seus planos. Possivelmente tentasse corrompê-lo e fracassasse. Seria sua maneira de evitar que o general desempenhasse algum papel no assunto.

— Voltamos para o mesmo: a necessidade de averiguar de que assunto se trata -disse Pitt com impotência. — Não sabemos! Não encontramos nada em comum entre as vítimas, senhor Quade. - Extraiu uma lista de casos e a entregou ao Theloneus. — Pode me comentar esta lista? São os processos atribuídos ao Dunraithe White onde também participa Cornwallis. Há algum que possa ter algo que ver com outros implicados, embora seja de maneira indireta?

Theloneus leu atentamente a relação, enquanto Pitt e Vespasia guardavam silêncio. Anoitecia cada vez mais depressa. As rosas eram manchas de cor clara. O único dourado era o extremo das árvores. A brisa do crepúsculo fez tremer as folhas de um álamo, convertendo-o em um pináculo de luz trêmula. Uma nuvem de estorninos, negra contra o suave azul do céu, deu voltas no ar. A agitação e a miséria urbanas ficavam a pouca distância, do outro lado de uma taipa alta; aquilo, entretanto, parecia outro mundo.

O relógio do vestíbulo deu meia hora.

— Alguns destes casos a única coisa que são é tristes - disse Theloneus. — Gente que perdeu a sensatez por uma cobiça míope, delitos individuais que arruínam toda a família do culpado, mas nada mais. De certo modo o resultado é inevitável, e não poderão trocá-lo nem Cornwallis nem White. Possivelmente um advogado de talento reduza a condenação alegando circunstâncias atenuantes e mostrando ao acusado a uma luz mais humana, mas o veredicto será o mesmo.

— E os outros? - disse Pitt.

— Este é um assassinato doméstico. É pouco provável que implique outras pessoas, mas não impossível. A esposa era bonita e muito liberal com seus favores. É possível que haja outros homens implicados, mas não me parece que uma chantagem ajudasse ao acusado, que é o marido da assassinada. Tendo em conta que está no cárcere, teria que havê-lo deixado em mãos de outra pessoa. É certo que tem dois irmãos leais e ambiciosos, de maneira que impossível não é.

— Poderia estar vinculado com todas as vítimas da chantagem? - perguntou Pitt sem convicção.

— Se referir a Laetitia Charles, rotundamente não! - disse Vespasia. — Não cabe dúvida de que era muito generosa em seus afetos, para dizê-lo de maneira suave, mas também tinha gostos bastante afáveis, além de ser franca até a vulgaridade e possuir um desagradável senso de humor que costumava exercer a custa de seus admiradores... e de seu marido! - Seus ombros se encolheram um pouco. A penumbra tornava impenetrável sua expressão. — Um homem como o capitão Cornwallis lhe teria tido mais medo que ao próprio diabo, e ela se teria aborrecido como uma ostra. Quanto a Leon Cadell, seu instinto de sobrevivência teria sido muito forte para relacionar-se com ela, nem amorosamente nem de nenhuma outra maneira, e Dunraithe White nunca olhou a outra mulher; embora quisesse, e admito a possibilidade, seu sentido da honra o faria sofrer horrores, e no mínimo saberia eu.

Theloneus sorriu apagadamente.

— Talvez tenha razão, querida. Portanto, ficam dois casos de fraude e desfalque, ambos por somas muito elevadas de dinheiro. Um deles está relacionado com os bancos internacionais, concretamente o alemão, e o envio de recursos a uma empresa sul-africana de índole muito duvidosa. O outro é um caso de falsificação de títulos e escrituras de minas e volta a ter por cenário a África.

— Poderiam estar relacionados? - apressou-se a perguntar Pitt.

— Não a simples vista, mas é possível. - Theloneus releu o papel. — Terei que saber quem comprou os títulos. Cabe a possibilidade de que afete a todas nossas vítimas.

— Que parte da África? - quis saber Pitt.

— Que eu recorde, várias. - Theloneus franziu o sobrecenho. — É provável que se siga investigando. O sumário ainda não está completo. Falta bastante para o julgamento.

— Segue em fase de investigação? - perguntou Pitt, sentindo um salto no estômago. — Quem está à frente?

— O delegado Springer - respondeu Theloneus, — às ordens do Cornwallis.

Olhou ao Pitt com tristeza em seus olhos e feições, mas não quis desviar o olhar nem atenuar a idéia que se formara com toda clareza.

— Compreendo - disse Pitt, odiando-se a si mesmo por uns pensamentos que não podia rechaçar.

Vespasia também o olhava, mas os seus eram mais difíceis de ler por causa da penumbra (já que ninguém tinha querido acender o gás). O dia se consumia com rapidez. O sussurro das folhas do álamo entrava pelas janelas abertas como o fluxo de uma praia muito longínqua.

Disse-o Theloneus por ele.

— Naturalmente, devemos contar com a possibilidade de que Cornwallis receba pressões para abandonar o caso, ordenar ao Springer que se dele retire, interromper as investigações ou tergiversar as provas. Também poderia as receber Dunraithe White, para emitir um veredicto estranho ou corrupto.

— Não seria um motivo de anulação? - perguntou Pitt.

— Só se se declara culpado ao acusado - respondeu Theloneus. — A Coroa não tem direito a recorrer uma absolvição. O contrário eternizaria os julgamentos.

— Claro.

Pitt não tinha pensado com clareza. Doía-lhe mais do previsto a idéia de que Cornwallis pudesse ver-se naquela situação ou já manchara as mãos. Cornwallis não lhe havia dito nada, mas era um homem excepcionalmente solitário, acostumado ao isolamento de ser capitão em alto mar, onde não podia confiar-se a ninguém para não menosprezar irreparavelmente seu poder. A solidão do capitão na ponte era quão mesma se fosse o único homem em todo o oceano. Qualquer debilidade ou indecisão, qualquer possibilidade de ignorância ou engano, davam ao traste com sua autoridade. Referendava-o o próprio conceito de hierarquia, com suas obrigações e privilégios, única maneira de sobreviver em um elemento que só obedecia suas próprias regras e desconhecia a consciência e a piedade.

Cornwallis talvez pudesse mudar, mas não em tão poucos anos. Em presença do perigo recorreria a suas faculdades anteriores, as que lhe tinham permitido superar perigos inumeráveis. Tratava-se de um instinto contra o qual provavelmente não pudesse resistir, nem sequer querendo.

— Está comprometido Tannifer? - perguntou Pitt, pensando em Parthenope e sua acérrima lealdade.

— É um caso de desfalque, de maneira que é possível - respondeu Theloneus.

— E Cadell?

— Recursos africanos. Poderia estar comprometido o ministério.

— Balantyne?

— Não me ocorre nenhuma relação, mas fica muito por averiguar.

— Claro. - Pitt se levantou pouco a pouco. — Muito obrigado por seu tempo... e suas idéias.

Vespasia se inclinou para levantar-se, e Theloneus lhe ofereceu a mão. Ela a pegou sem apertar, aceitando-a como gesto mas não como ajuda.

— Parece-me que não lhe ajudamos muito - disse ao Pitt. — Sinto muito, Thomas. Às vezes os caminhos da amizade estão semeados de armadilhas, algumas das quais podem fazer muito dano. Tomara pudesse te dizer que Cornwallis não cederá, mas seria uma mentira e se daria conta. Tampouco posso assegurar que não saia maltratado, embora reaja com toda a valentia e a honra do mundo. Isso sim, seguiremos na luta, embora nossas armas sejam poucas e inadequadas.

— Sei. - Lhe sorriu. — Ainda não estamos derrotados.

Ela esboçou um sorriso de resposta, mas estava muito tensa para lhe responder verbalmente.

Despediram-se do Theloneus, a quem deixaram de pé na entrada iluminada da casa, e empreenderam o caminho de volta na carruagem da Vespasia. Durante o percurso pelas ruas, iluminadas com luzes de gás, nenhum dos dois estimou necessário prolongar a conversa.

Na manhã seguinte, Pitt, dividido entre as lealdades pessoais da amizade e sua obrigação de investigar até o fundo, foi ver Cornwallis. Entendesse-o ou não seu superior, não podia renunciar conscientemente ao segundo sem renunciar a ajudá-los a todos. Cornwallis voltava a passear-se como uma fera enjaulada. Ouvindo entrar Pitt, deteve seus passos e deu um giro brusco como se o tivessem surpreso em um ato nefando. Parecia que levava vários dias sem comer nem dormir de maneira satisfatória; seus olhos estavam afundados, e pela primeira vez desde que o conhecia Pitt não lhe caía bem a jaqueta nos ombros.

— Recebi outra carta - disse. — Esta manhã.

Aguardou a que Pitt lhe perguntasse por seu conteúdo. Este experimentou um tombo no estômago e uma repentina frieza. Tinha chegado a temida pedido. O viu o Cornwallis nos olhos.

— O que quer?

Tentou não delatar o que sabia.

A voz do Cornwallis soou rouca, como se tivesse a garganta irritada. Falava com dificuldade.

— Que abandone um caso - respondeu. — Do contrário o incidente do Venture aparecerá em todos os jornais de Londres. Poderei negar tudo o que me agrade, mas sempre acreditaria alguém, e minha versão dos fatos toparia com muitas dúvidas. Me... expulsar-me-iam de meus clubes, e é possível que fosse degradado. Note-se o que ocorreu ao Gordon-Cumming, e por muito menos!  Estava pálido, e se não lhe tremiam as mãos era graças a sua força de vontade.

— Que caso é? - perguntou Pitt, esperando que se referisse ao desfalque que investigava Springer.

— Este! - Cornwallis franziu o sobrecenho. — A investigação das chantagens. A verdade a respeito do Slingsby, o assassinato do Bedford Square... e quem pôs o cadáver diante da porta do Balantyne. Que diabos quer de nós?

Tinha levantado a voz a seu pesar, deixando que se infiltrasse nela uma nota de pânico.

Com a luz forte que entrava pela janela aberta e o ruído ensurdecedor do tráfico, a sala parecia dar voltas.

— Mas você não o fará... - disse Pitt, violentando a rigidez de seus lábios.

Apareceram duas manchas nas faces abatidas do Cornwallis, e sua boca se distendeu um pouco.

— Não! É claro que não - disse, embargado por uma emoção tão intensa que pareceu tomá-lo de surpresa, como se não se julgasse capaz de apaixonar-se tanto por nada. — Não, Pitt, naturalmente que não.

Parecia a ponto de acrescentar algo mais, uma palavra de agradecimento porque Pitt tivesse dado por suposta a negativa, mas as palavras teriam sido muito claras, um reconhecimento muito íntimo de sua amizade e vulnerabilidade. Mais valia optar por um subentendido, porta aberta a posteriores dissimulações. Entre homens não se diziam essas coisas.

— Claro que não. - Pitt afundou as mãos nos bolsos. — Ao menos já temos algo mais que investigar, e um ponto de partida melhor que o anterior. - Tinha que dizer algo corriqueiro e neutro. O que não importava muito. — Me parece que voltarei a passar pela casa de Cadell.

— Sim - assentiu Cornwallis; — sim, claro. Me informe do que averiguar.

Pitt se dirigiu para a porta.

— É possível que também visite o Balantyne - acrescentou ao sair. — Se surgir algo novo deverei dizer.

 

Pitt havia voltado tarde a casa, mas com vontade de contar à Charlotte o que tinha averiguado e aqueles pensamentos inquietantes que não conseguia tirar da cabeça. Ela tinha sido todo ouvidos, mais por curiosidade que por consideração, e tinham ficado falando até depois de meia-noite, incapazes de livrar-se de sua ansiedade e a necessidade de compartilhá-las.

Charlotte despertou muito preocupada com o general, a quem o chantagista parecia dedicar uma atenção especial. Pitt se tinha abstido de dizer que se Balantyne tivesse sido acusado de assassinar ao Josiah Slingsby teria perdido qualquer possibilidade de satisfazer as exigências do chantagista, tratasse de dinheiro ou influência. Charlotte, entretanto, tinha-o entendido perfeitamente. deduzia-se que possivelmente não quisesse nada do que pudesse lhe dar o general, a não ser sua destruição; não um ato, mas a incapacidade de atuar. Para isso era tão útil o descrédito como a morte. Pitt tinha evitado o tema para não feri-la, mas uma vez que o raciocínio estava em marcha era inevitável chegar a aquela conclusão.

Por sorte, e embora fizesse muito sol, o calor era mais clemente. Pelo menos soprava uma ligeira brisa que aliviava o abafado da onda de calor. Era um dia muito agradável para ficar entre quatro paredes, a menos que fosse por obrigação. Charlotte havia voltado a citar encontrar-se com Balantyne no Museu Britânico, mas ficou muito contente de receber uma nota onde lhe propunha trocar o lugar da entrevista pelo jardim botânico do Regents Park.

Redigiu com rapidez uma resposta afirmativa.

Esse foi o motivo de que ao dar onze horas estivesse na porta de acesso ao jardim, vestida de rosa e com um dos chapéus mais extravagantes da Vespasia. Entretinha- se observando às pessoas, ocupação que em dose módicas lhe parecia muito interessante: imaginava quem eram, que classe de lares tinham abandonado, que vidas, por que iam ao parque, em busca de quem...

Havia vários casais de noivos que passeavam pelo braço, intercambiando sussurros e risadas sem ver ninguém mais. Outros, mais dissimulados, fingiam ser amigos e ter se encontrado por acaso, motivo de que se esforçassem por falar de banalidades. Passaram várias garotas com vestidos de cores pastel, rindo em grupos fechados, ocultando olhares aos jovens e procurando que não lhes notasse. A pouca brisa que soprava era suficiente para agitar suas saias de musselina. Tinham o cabelo brilhante e as faces cheias de vitalidade.

Dois soldados jovens exibiam sua atitude e a elegância de seus uniformes. Charlotte pensou que vestidos de marrom e cinza, como qualquer civil, não se seriam diferentes do comum dos empregados ou aprendizes. A diferença estribava em sua maneira de pavonear-se. Olhou-os com um sorriso. Tinham uma espécie de desenvoltura inocente.

Parecia-se com Balantyne de trinta anos atrás?

Era impossível imaginá-lo tão jovem, ingênuo e inexperiente.

Passou uma mulher de idade avançada com um vestido azul lavanda. Talvez estivesse de meio luto, ou simplesmente gostasse da cor. Caminhava devagar e só olhava as flores, tão viva e formosas que deslumbravam.

Apesar de estar aguardando Balantyne, Charlotte não o viu até que o teve ao lado.

— Bom dia - disse ele, sobressaltando-a. — São bonitas, né?

Ela se deu conta de que se referia às rosas.

— Maravilhosas.

Seu interesse por elas acabava de ver-se reduzido a zero. Debaixo daquela luz crua, o rosto do general revelava seu cansaço, a trama de pequenas rugas ao redor dos olhos e boca, as olheiras por falta de sono...

— Como vai? - continuou ele, olhando a como se desse muita importância à resposta.

— Demos um passeio - propôs ela, fazendo o gesto de lhe agarrar o braço.

Ele o ofereceu sem vacilar.

— Estou muito bem - respondeu Charlotte, enquanto caminhavam entre as flores como simples passeantes anônimos, — mas a situação não melhorou. Ao contrário: temo que esteja pior que antes. - Sentiu que se esticavam os músculos do braço do general.      — Se produziram uma série de fatos peculiares que não foram recolhidos pela imprensa. Há provas de que o cadáver não pertencia ao Albert Colé, mas a um trombadinha do Shoreditch que se chamava Josiah Slingsby.

O general deteve seus passos, voltou-se para ela e a olhou fixamente.

— Não tem sentido! - protestou. — E roubou a caixa de rapé? A quem? É impossível que fosse o chantagista. Esta manhã recebi outra carta!

Charlotte já o tinha previsto, mas acusou o golpe como algo físico. O chantagista havia tornado a tocá-los de perto, a afetá-los de maneira pessoal; tinha-lhes recordado que existia seriamente, podia agir e estava em situação de lhes fazer dano.

— O que tinha?

Tinha a boca seca e lhe custava vocalizar.

— O mesmo - respondeu ele, reemprendendo a marcha.

Estavam tão rodeados de vegetação que já não se beneficiavam da brisa, e o perfume das rosas ao sol quase enjoava.

— Continua sem pedir nada? - insistiu ela.

Desejou o contrário. Quase era pior esperar o golpe que recebê-lo. Com certeza este último fazia parte do plano: debilitar à vítima, atemorizá-la e desgastá-la antes do ataque.

— Não. - O general voltou a olhar à frente para não olhá-la a ela. — Segue sem constar nenhum pedido de dinheiro nem de nada, e já perdi a conta das horas que passo acordado na cama tentando averiguar que deseja de mim. Pensei em todas minhas esferas de atuação ou influência, em todas as pessoas que conheço e em quem poderia influir em bom ou mau sentido, mas não me ocorre nada.

Charlotte verbalizou uma idéia que lhe parecia abominável. Para lutar contra ela, entretanto, o primeiro era lhe fazer frente.

— Interpõe-se você na ascensão ou benefício de alguém?

— Militarmente? - A risada do general soou seca e desesperada. — Duvido. Estou reformado. O que possuo, em títulos e patrimônio, só pode herdá-lo Brandy, e sabe você perfeitamente que não pode ser o culpado.

— E algum outro benefício, social ou econômico? -insistiu ela. — Algum cargo eletivo?

Ele sorriu.

— Sou presidente de um clube de exploradores que celebra reuniões trimestres, nas quais, por puro entretenimento, contam-se histórias muito adornadas pela imaginação. Todos passamos dos cinqüenta, e em muitos casos dos sessenta. Desfrutamo-nos na glória e no colorido de nossas antigas façanhas. Lembramo-nos da África quando era seriamente o continente negro, cheio de mistério e aventuras. Nós viajávamos por amor ao desconhecido, muito antes de que ocorresse a ninguém relacionar essas terras com algum investimento ou extensão do império.

— Mas você conhece a África? A fundo, de primeira mão? - quis saber Charlotte.

— Sim, claro, mas duvido que aos exploradores e financistas de hoje em dia lhes servisse de algo o que sei. - Balantyne franziu o sobrecenho. — Suspeita que tem algo que ver com a África?

— Thomas sim, ao menos como possibilidade. Minha tia avó Vespasia sustenta que se trata de uma grande conspiração, e que seu responsável pode obter importantes benefícios.

Tinham deixado atrás vários canteiros de flores cheirosas e multicoloridas. O roçar das saias e o murmúrio apagado das conversas não impedia de ouvir o zumbido das abelhas.

— Parece verossímil - respondeu ele.

— Algum outro cargo?

— Fui presidente de uma sociedade que ajuda aos artistas jovens, mas me acabou o mandato o ano passado. - Disse-o com um tom que punha de relevo a trivialidade da informação. — Além disso recentemente ingressei em um grupo do clube Jessop que arrecada recursos para um orfanato, mas me parece impossível que queiram me roubar a praça. De fato tampouco é exclusivo. Acredito que se receberia com os braços abertos qualquer nova incorporação.

— Parece pouco estímulo para uma chantagem - concordou ela.

Percorreram perto de cem metros em silêncio, seguindo o caminho que rodeava os jardins e desembocava na parte principal do Regents Park. O sol queimava cada vez mais, e a brisa tinha desaparecido. ouviam-se as notas longínquas de uma banda de música.

— Não acredito que o fato de que o cadáver pertença ao Slingsby em lugar de Colé tenha influenciado que a polícia me considere suspeito de sua morte - disse o general.        — Podia fazer recados para o chantagista como qualquer outro. Diz que era ladrão?

— Sim, do Shoreditch, que não está precisamente perto do Bedford Square - respondeu ela com celeridade. — Morreu em Shoreditch assassinado por seu cúmplice. Thomas já sabe que você não tem nada que ver.

— Então por que segue me investigando esse sargento que tem a suas ordens?

— Para averiguar o que quer o chantagista - disse ela, convencida. Deve tratar- se de alguma questão de influência, poder ou informação. O que há em comum entre você e as outras vítimas?

Balantyne respondeu com um sorriso lúgubre.

— Não posso formular nenhuma hipótese porque não sei quem são.

— Ah... - Charlotte estava desconcertada. — Claro, claro. São um banqueiro, um diplomata, sir Guy Stanley, como já sabe... - Viu em seu rosto uma careta compassiva, mas continuou. — Um juiz... - Devia nomear ao Cornwallis? Possivelmente Pitt preferisse que não, mas a situação era muito grave para uns segredos cujo objetivo, em geral, era não envergonhar a determinadas pessoas. — E um subchefe de polícia.

Ele a olhou.

— Cornwallis - disse em voz baixa. — Não espero que me confirme isso. É claro que não. Lamento a notícia. É uma pessoa excelente.

— Conhece-o muito?

— Não, não muito, mas somos membros do mesmo clube, ou melhor dizendo de dois. Sempre me pareceu boa pessoa, sem dobras. - Voltou a guardar silêncio durante vários metros. — Também conhecia sir Guy Stanley. Não muito, mas me era simpático.

— Fala dele no passado...

As feições de Balantyne se crisparam.

— Certo. Perdoe, é indesculpável. Desde que apareceu a notícia pensei muito nele. Pobre! - Teve um pequeno calafrio e encurvou os ombros, contraindo os músculos como se a pesar do sol tivesse frio. — Fui vê-lo. Queria lhe dizer que... não sei, possivelmente nada mais que o que veio a me dizer você, que seguia considerando-o meu amigo. Não acredito que seja culpado da acusação, mas ignoro se me acreditou.

Cruzou por diante deles um cão com um pau na boca. O olhar do Balantyne seguia fixo no caminho.

— Talvez devesse ter tido coragem para lhe dizer que sou vítima da mesma chantagem - continuou, — mas não me atrevi a lhe explicar do que me acusava; nem sequer a ele, e não me admiro por isso. Agora eu gostaria de haver-lhe dito. Talvez então se desse conta de que acredito em sua inocência, embora para lhe ser justo suspeito que temi que ele não acreditasse na minha. - Voltou a virar-se para Charlotte. — Essa é a questão, que já não estou seguro de ninguém. Tenho momentos de desconfiança que faz uns meses teriam sido inconcebíveis. As pessoas me oferecem bondade, amizade, simpatia, mas eu os olhou e duvido. Tento lhes descobrir más intenções, falsidade, e procuro duplo sentidos no comentário mais inocente. Mancho até quão bom tenho.

Charlotte lhe apertou um pouco mais o braço e se manteve a pouca distancia à luz do sol, com o resultado de que as penas de seu chapéu, movidas pela brisa, estiveram a ponto de tocar a face do Balantyne.

— Deve manter clara a cabeça além do coração - disse amavelmente. — Sabe que não é verdade. Não nos tenha em tão sob conceito, nos julgando tão fáceis de enganar ou tão propensos à crueldade. - Fez o esforço de sorrir. — Não conhecemos um só inimigo, e nem sequer ele acredita na acusação.

O vento lhe pôs um cabelo pela fronte.

— Obrigado - disse ele com voz muito baixa, pouco mais que um suspiro.

A seguir devolveu o cabelo a seu lugar de procedência (debaixo do chapéu da Vespasia). Bastou aquele gesto para traí-lo, e ele soube. Naquele momento isolado, sob o sol, não se importou. Possivelmente o fizesse no dia seguinte, mas o de hoje permaneceria na lembrança.

Charlotte sentiu uma mescla de doçura e dor, e com ela a consciência de ter cometido uma grave falta de atenção, algo que não pretendia nem podia apagar-se.

A uns metros deles ria uma mulher com sombrinha azul. Duas crianças se perseguiam, pulavam pela erva e se sujavam com total felicidade.

Era necessário reemprender a marcha, dizer algo natural.

— Já lhe disse que a tia Vespasia considera que poderia estar relacionado com a África - comentou. — A situação africana é muito cambiante, com fortunas que se fazem e se desfazem.

— Tem razão - assentiu ele, que também tinha reatado seu passeio e voltava a concentrar seus pensamentos no problema principal-. Explicaria a diversidade das vítimas.

— A linha de ferrovia do Cabo ao Cairo? - sugeriu ela.

Dedicaram certo tempo à política africana: Cecil Rhodes e a expansão para o norte, a possibilidade de que houvesse grandes quantidades de ouro por descobrir, terras, diamantes e os interesses opostos de outros países europeus, sobre tudo Alemanha.

Despediram-se ao meio-dia sem ter dado nenhum passo mais no conhecimento do que pudesse exigir ao Balantyne qualquer aventureiro da política, nem do que pudesse saber o general e se interpor no caminho de alguma pessoa com desejos de explorar as riquezas africanas ou de outro lugar do planeta.

Enquanto Charlotte estava no jardim botânico falando com o Balantyne, Pitt voltou para casa de Sigmund Tannifer por pedido do próprio banqueiro. Encontrou-o muito sério, e desta vez não estava presente Parthenope.

— Estive falando com minha esposa - disse Tannifer uma vez satisfeitas as formalidades, quando ele e Pitt tiveram tomado assento no suntuoso e acolhedor estúdio. — Refletimos a fundo sobre as pessoas implicadas, e sobre tudo no que podem me pedir quando chegar o momento.

Além de sério, Tannifer estava abatido e com aspecto de achar-se à beira de uma crise nervosa. Sua mão esquerda não deixava de mover-se, e Pitt observou que a licoreira de cristal do móvel que tinha detrás só continha brandy até um quarto de sua capacidade. Não seria ele quem criticasse a ninguém por procurar consolo em tão duras circunstâncias.

— E chegaram a alguma conclusão? - perguntou.

Tannifer mordeu o lábio.

— Mais que conclusões, delegado, hipótese que eu gostaria de lhe expor. – Sorriu pela metade. — É possível que esteja procurando desculpas para falar com você, com a esperança de que me tranqüilize. Temo que o momento seja parecido ao de afastar as ataduras de uma ferida a fim de ver se está curando-se... ou não. – Seus ombros volumosos se encolheram, gesto peculiar pela derrota que expressava. — Não serve de nada, nem para a ferida nem para estar mais tranqüilo, mas o impulso é irresistível.

Pitt o entendeu.

— E de que hipótese se trata, senhor Tannifer?

O banqueiro parecia um pouco coibido.

— Não pretendo lhe roubar seu trabalho, delegado. Tenho a certeza de que você sabe muito mais do caso que eu, mas meditei sobre todas minhas possibilidades de intervenção, todos os âmbitos onde meus atos poderiam utilizar-se de maneira ilícita em benefício de outra pessoa... - Tamborilou sem fazer ruído no braço da poltrona. — E sempre desemboco em considerações econômicas.

Calou e olhou ao Pitt com gravidade. Pitt assentiu com a cabeça em sinal de compreensão, mas não interveio.

Tannifer não podia esconder seu nervosismo.

— O primeiro que me ocorreu foi me perguntar pelo que tínhamos em comum. Claro que desconheço as identidades das outras vítimas, além do que possa deduzir com um pouco de bom senso. O caso do pobre Guy Stanley é evidente, embora havendo-se completado a ameaça... - O ritmo dos dedos sobre o braço da poltrona se incrementou.    — Também me atrevo a supor que Brandon Balantyne... – Aguardou que Pitt o confirmasse, ou a ver se podia decifrar sua expressão. Apertou os lábios. — Pelo visto, sim - continuou — E, como acredito que lhe explicou minha esposa (disse-me que falou com você), em meu foro interno albergo a segurança de que Leon Cadell está sendo objeto da mesma ameaça. Acredita que lhe pedirão dinheiro, ou essa é a impressão que me deu, mas nunca pensei que o objetivo principal do chantagista seja econômico.

Pitt assentiu com a cabeça.

— Está de acordo? - apressou-se a perguntar Tannifer. — Com certeza temos razão. Realizei indagações discretas nas atividades de outros e revisei as minhas. Estou facultado para autorizar empréstimos de grande importância encaminhados ao investimento em determinadas áreas, sobre tudo em terras e o fomento da mineração de metais preciosos como o ouro.

Pitt viu que tinha adotado uma postura mais erguida, apesar de sua intenção de não trair suas emoções.

Tannifer não deu indícios de ter percebido. Estava reclinado na poltrona, concentrado.

— Autorizar um empréstimo dessa índole sem a devida segurança seria um ato corrupto - disse, pensativo, — mas se acha dentro de minhas atribuições. Como queria averiguar que setores podiam estar afetados e saber algo mais do resto das vítimas, investiguei as últimas viagens de Leon Cadell, assim como seus interesses, dentro, claro está, pelo que podia averiguar-se mediante indagações discretas. - Observava ao Pitt com atenção. — Em todos os casos, delegado, tinham sua base na África. Ainda não existe uma consciência clara dos enormes tesouros que encerram as regiões desenvolvidas pelo Cecil Rhodes. Em um prazo de vinte anos, a pessoa que intervenha agora poderia amealhar uma fortuna digna de um rei, e até fazer-se com todo um império.

Era o que temiam Vespasia e Theloneus Quade. Agora Tannifer dizia virtualmente o mesmo.

O banqueiro observou ao Pitt sem piscar, com os ombros caídos.

— Vejo que me segue à perfeição. - Respirou fundo. — Quando conversava com o Cadell lhe escapou um comentário que me leva a conclusão de que o juiz Dunraithe White poderia ser outra das vítimas...

Pitt estava assombrado. Como o tinha averiguado Cadell? Observando o comportamento errático do White ou a tensão emocional a que estava submetido, tensão que o tinha posto à beira da enfermidade física? Possivelmente não fora tão difícil detectar a outra vítima quando se tinha uma consciência aguda do próprio sofrimento.

— Não posso fazer comentários - disse com calma. — Saiba, entretanto, que entre as vítimas figura no mínimo um juiz. Esclareço-lhe em algo suas deduções?

— Não estou certo. Confesso que vejo tudo muito impreciso. - Tannifer sorriu de maneira lúgubre. — Possivelmente esteja lhe fazendo perder o tempo, mas me é impossível ficar sentado em espera de que caia o golpe, sem fazer nada para me proteger dele.

Parecia desconfortável e duvidoso, mas saltava à vista que tinha vontade de acrescentar algo.

— Fale com franqueza, senhor Tannifer - o insistiu Pitt. — Se for certo o que acredita,  conspiração é ampla e profunda, e se tiver êxito seus efeitos serão muito maiores que o desprestígio de uma série de cidadãos honrados, junto com suas famílias respectivas.

Tannifer desceu o olhar.

— Sei. O único que me retém é o respeito à intimidade de outras pessoas, e é possível que a estas alturas esses reparos estejam deslocados. - Voltou a olhar para Pitt. — Cadell comentou que na carreira naval do Cornwallis existia um incidente aberto a interpretações errôneas, e portanto à mesma classe de pressões que se exercem sobre mim. - Observava Pitt com grande preocupação. — Temo que o chantagista pretenda põe fim ao conjunto da investigação a fim de proteger-se a si mesmo. É possível que Cornwallis não lhe sirva para fomentar seus interesses africanos, mas para convencê-lo de que ponha travas insolúveis a você... - Suspirou. — É espantoso! Estamos rodeados de ruas sem saída e novas ameaças.

Pitt expressou seu acordo com um gesto, mas não saia da cabeça o comentário que tinha feito Tannifer sobre Cadell sem perceber sua importância. O incidente da carreira naval do Cornwallis não era questionável. O único a vê-lo assim tinha sido o chantagista. Tannifer não sabia, mas Pitt sim. Não devia delatar seu conhecimento daquele fato.

— É um perigo muito grave - disse.

Não lhe foi preciso fingir preocupação. O medo era muito real e o agravava seu respeito ao Cornwallis, porque previa o que podia lhe ocorrer. Era o passo seguinte do chantagista, um passo natural, e agora Pitt sabia que Cornwallis sofreria. Possivelmente já o fizesse. O que faria então, guardar sua dor ou confessar?

Odiou-se a si mesmo por permitir-se aquela idéia, mas aí estava, cravando-se nele como uma faca e surpreendendo-o por sua virulência.

— Mas você não se deixará dissuadir, não é? - disse Tannifer com voz rouca.           —Não... - deixou a frase inacabada.

Pitt não respondeu. O que faria se Cornwallis recebesse a expressa ameaça e lhe pedisse amparo? Ele não duvidava da inocência de seu superior. Permitiria que o arruinassem, que o envergonhassem e lhe tirassem publicamente o que mais valorizava? Não podia prometê-lo sem faltar à honradez.

Tannifer afastou o olhar.

— Não é fácil - disse. — Nos agrada a idéia de que somos bastante valentes para resistir... mas a vergonha, a solidão e a humilhação são reais. - Voltou a olhar para Pitt, e o fez com serenidade. — Uma coisa é falar de que lhe destruam a vida e outra vivê-lo. Agradeço-lhe sua honradez.

— Nos tinha ocorrido a possibilidade de que se obtivesse à força a permissão para destinar recursos importantes a uma expedição africana, saindo do Cabo e indo para o norte pelo Mashonaland e Matabeleland - disse Pitt, pensativo. — Ou um investimento em uma via férrea do Cabo ao Cairo...

Tannifer se ergueu com um movimento brusco.

— Brilhante! - Agarrou com força os braços da poltrona. — O felicito, delegado. Reconheço que não o tinha por um homem tão agudo. Deu-me ânimos. Possivelmente seja uma tolice, mas me aferrarei a isso.

Levantou-se e estendeu a mão. Pitt a estreitou e ficou surpreso pela força do apertão. Partiu com a sensação de ter dado o passo adiante que desejava, embora tivesse como meta uma conclusão desconhecida e certamente cruel.

Não ficava mais remédio que ir ver Leon Cadell. Não pôde visitá-lo no Ministério de Assuntos Exteriores, onde Cadell tinha toda a tarde ocupada, mas passou por sua casa e aguardou sua chegada. Não era uma entrevista que lhe fizesse muita ilusão, e o rosto cansado do Cadell piorou as coisas.

Levantou-se do sofá.

— Boa tarde, senhor Cadell. Lamento incomodá-lo ao final de uma jornada de trabalho. Por desgraça devo lhe falar de certos assuntos e até agora estava ocupado.

Cadell se sentou. Fez isso como se lhe doesse todo o corpo, e saltava à vista que a manutenção de uma atitude cortês o obrigava a usar todas suas reservas de força interior.

— De que deseja falar, senhor Pitt?

— Meditei a fundo sobre as pressões injustas a que poderiam submetê-lo, sobre tudo em relação com seu cargo no ministério - começou a dizer Pitt.

Era difícil manter a raiva que tinha sentido em casa do Tannifer. Teve que recordar a dor que podia estar infligindo a outras pessoas como a que tinha diante, e o desastre pessoal que o chantagista tinha desatado sobre o Guy Stanley sem lhe dar a oportunidade de defender-se, embora fosse de maneira pouco honrosa. Nada impedia ao chantagista disfarçar-se de vítima. Era a melhor maneira de manter-se à corrente da investigação. O que ocultava o aspecto nervoso do Cadell, seu sorriso educado e paciente? Era diplomático. Fazia carreira mascarando suas emoções.

Naquele momento observava Pitt em espera de que fosse ao ponto.

— Tem um interesse e uma responsabilidade consideráveis na situação africana -prosseguiu Pitt, — sobre tudo na exploração de algumas regiões como Mashonaland e Matabeleland.

— Colaboro nas relações com outras potências européias que têm interesses na região - disse Cadell, introduzindo uma pequena correção. — A Alemanha, em concreto, também está interessada pela África oriental. Não sei se sabe até que ponto é delicada a situação. O potencial de benefícios é enorme. A maioria da população sul-africana não é britânica, mas bôer, e não alberga sentimentos positivos pela Grã-Bretanha. E mais: temo que não possa contar-se com sua boa vontade. - Disse-o olhando para Pitt no rosto, a fim de avaliar sua compreensão. — O senhor Rhodes faz e desfaz a seu desejo. Temos pouco controle sobre ele, mal que nos pesa.

Pitt não desejava lhe revelar seus pensamentos. O que sabia pelo Tannifer podia ser sua única vantagem. Um chantagista, por deliciosas que fossem suas maneiras, sempre era um homem sem escrúpulos no concernente a quem prejudicar e com que gravidade. Tudo induzia a pensar que desfrutava no uso de seu poder, sobre tudo na queda de Guy Stanley.

Olhou ao Cadell nos olhos.

— Me diga uma coisa, senhor Cadell: se o chantagista o pedisse, no que poderia contribuir a seus fins, caso tivesse interesses na expansão africana, uma fortuna no país ou o controle de uma linha de ferrovia do Cabo ao Cairo?

Cadell ficou sobressaltado.

— Valha-me Deus! Você acredita que é o que busca?

A que se devia sua surpresa? À idéia em si ou ouvi-la dizer Pitt?

— Seria possível? - insistiu este.

— Pois... não sei. - Cadell parecia incômodado. — Suponho que eu sim poderia passar certa... informação a determinadas pessoas... relacionada com as intenções do governo de Sua Majestade, informação que beneficiaria ou poderia beneficiar à pessoa em questão.

— O que me diz de um aventureiro militar? Alguém, por exemplo, com pretensões de recrutar um exército privado.

Cadell empalideceu.

— É mais grave do que imaginava. Achava que era uma simples questão de dinheiro. Possivelmente tenha sido ingênuo. Asseguro-lhe que se recebesse essa classe de proposta informaria imediatamente a sir Richard Aston, e as conseqüências teriam que seguir seu curso. Jamais trairia a meu país, senhor Pitt.

Pitt quis acreditar nele, mas se Cadell fosse culpado teria respondido o mesmo. Não podia tirar da cabeça que a pessoa que tinha diante, com seu aspecto de inocência, tinha informado Tannifer da vulnerabilidade de Cornwallis, a qual só podia conhecer através do chantagista, posto que em realidade não existia. Era o único ponto em comum incontestável entre as vítimas. O chantagista as conhecia bastante para manipular certos episódios de suas vidas e destruir a valentia e determinação de todas elas, reduzindo-as a seres angustiados e cheios de dúvidas; seres imersos em um pesadelo constante que duvidavam até de seus próximos.

— Conhece subchefe de polícia Cornwallis? - perguntou de supetão.

— Como? - Cadell foi pego por surpresa. — Não... bom, sim, mas pouco. Pertencemos aos mesmos clubes e de vez em quando nos encontramos. por que? Ou está mal que o pergunte?

Dizia-o por conhecimento ou como dedução inteligente que faria qualquer homem em suas circunstâncias? Era necessário idear uma resposta que não comprometesse a nada, além de não trair a confiança do Tannifer. Se Cadell era o chantagista, seria bastante cruel para vingar-se de maneira terrível.

— É o responsável... último do caso. Aludiu à possibilidade de um motivo político.

— Não posso ajudá-lo - respondeu Cadell com fadiga. — Lhe asseguro, senhor Pitt, que se soubesse algo que pudesse lhe ser útil e fosse livre de comentar-lhe não vacilaria. Compreenda que grande parte da informação que possuo sobre a África guarda relação com os planos do governo em torno do senhor Rhodes e a British South a África Company, e é confidencial, como todos os assuntos relativos à colonização do Mashonaland e Matabeleland ou nossas relações com outras potências européias interessadas no continente africano. Cometeria uma traição se expusesse a você algo mais que um simples resumo sem a menor utilidade.

Pitt compreendeu que era inútil seguir insistindo e se despediu do Cadell lhe agradecendo.

Vespasia caminhava lentamente pela grama de seu jardim, pensando que ia sendo hora de voltar a cortá-lo. De repente viu Pitt do outro lado da porta envidraçada do salão e se surpreendeu do corte de respiração e a aceleração cardíaca que produziu nela o medo às notícias que pudesse trazer. Aproximou-se de passo rápido, quase sem apoiar-se na bengala.

— Boa tarde, Thomas - disse. Não queria delatar seu nervosismo. — Pena que já tenha passado o melhor momento das tulipas. Começam a parecer um desastre.

Ele sorriu, olhando as rosas abertas, a cascata de glicinas e algumas tulipas enormes e brilhantes cujo melhor momento já tinha passado.

— Me parecem perfeitas.

Ela o olhou dos pés a cabeça e recordou que em seus momentos de ócio gostava de fazer-se de jardineiro.

— Estou de acordo, mas possivelmente um purista fosse de outro parecer.

Aceitou o braço que lhe oferecia Pitt e percorreram sem pressas a grama, o terraço e os degraus.

— Sinto muito, tia Vespasia, mas trago muito más notícias - disse ele uma vez que estiveram dentro e ela sentada.

— Nota-se no rosto. Mais vale que me conte isso.

— Hoje me chamou Tannifer. Parece que compartilha a opinião de que o objetivo final do chantagista poderia ser influir na situação africana.

— Não é nenhuma notícia, Thomas - disse ela com certa dureza. Não se tinha dado conta de quão tensa estava. Percebeu o cortante do tom. — Já o tínhamos suposto - acrescentou. — Deu-lhe alguma prova?

Pitt devia ter detectado seu estado de ânimo, porque foi ao ponto.

— Mencionou duas vezes ao Cadell, uma delas a propósito, em relação com seus interesses profissionais na política africana.

A angústia refletida em seu rosto encheu a Vespasia de um medo cada vez maior. Apesar disso não quis interrompê-lo.

— A outra foi acidental, ao menos no que diz respeito a seu significado – prosseguiu ele com voz serena. — Tannifer tem medo de que Cornwallis seja outra das vítimas, medo que nasce do fato de que Cadell se referiu a um incidente na carreira do Cornwallis aberto a interpretações errôneas e que poderia prejudicá-lo.

A princípio ela não compreendeu. Estava preocupada com Pitt.

— Cornwallis disse que o tinha salvado - alegou. — Agora dúvida de que seja inocente?

— Não. - Pitt acompanhou a negativa com um gesto quase imperceptível da cabeça. — O que me questiono é que saiba Cadell, e seus motivos para incluir Cornwallis entre as vítimas.

Só então o entendeu Vespasia, e sentiu em seu corpo um peso frio. Não se atrevia a pensar na tragédia que podia avizinhar-se. Conhecia e queria a Theodosia desde sua mais tenra infância. Tinha-a visto crescer como a seus próprios filhos.

— Leon Cadell é outra das vítimas - disse.

Deu-se conta de que era um comentário gratuito. Ao chantagista não lhe custava nada fazer-se passar por um os afetados. O engano lhe aproveitaria em muitos sentidos.

Pitt não discutiu, consciente de que era desnecessário.

— Compreendo que isso não o exclui - disse ela, — mas o conheço há anos. Observei sua maneira de atuar. E não me diga que a pressão ou a tentação podem mudar às pessoas, Thomas, porque já sei. - Falava muito depressa, com veemência excessiva; ela mesma o notava na voz, mas não tinha a sensação de que pudesse controlá-lo. Seus pensamentos se adiantavam muito a suas palavras e eram inexoráveis. — Claro que tem suas debilidades; é ambicioso e sabe ler em outros, mas também é muito patriota, com um patriotismo convencional. - Sentiu um leve calafrio de terror. — Não é ávaro nem gosta de correr riscos.

Pitt a escutava com semblante grave. A luz dourada do sol entrava pela porta envidraçada e se alongava pelo tapete. A cachorrinha branca e negra havia tornado a dormir.  

— Eu não acredito que Leon tenha a crueldade nem a criatividade necessárias para ter concebido um estratagema assim - disse ela com convicção, — mas não é impossível que usasse a beleza da Theodosia para crescer, embora ele o negaria até a si mesmo.

Aborrecia suas próprias palavras, claramente repugnantes. Reconhecê-lo, embora fosse a Pitt, constituía uma espécie de traição. Mesmo assim era verdade, até o extremo de que Vespasia se perguntou se não teria algo de certa a acusação, demonstração mais poderosa que nenhuma outra da habilidade do chantagista. Se até ela alimentava a idéia, com que facilidade ocorreria a outros? Envergonhou-se de ser tão desleal, não só com Leon mas também com a Theodosia. A idéia, não obstante, estava aí, e com ela a dúvida.

Pitt continuava falando.

— Fui vê-lo - disse, muito sério. — Ele, pelo visto, considera possível que lhe peçam dinheiro. A senhora Tannifer surpreendeu uma conversa a respeito de uma quantidade elevada, embora sem concretizar.

— Mas o chantagista não pediu nem um centavo - alegou ela. — Não tem lógica.        - Assaltou-lhe a idéia antes de ter acabado a frase, mas se negou a aceitá-la. Era desleal, falsa. Estava fazendo justo o que queria o chantagista: renunciar a sua independência, suas convicções. — São tolices! - disse com excessiva veemência.

Ele não o negou. Conversaram um pouco mais e Pitt partiu, mas Vespasia não conseguia livrar-se da idéia e da angústia que a oprimia. Foi uma tarde longa e surpreendentemente solitária.

Enquanto Pitt falava com a Vespasia, Charlotte estava na cozinha servindo chá ao Tellman, que tinha ido com a esperança de achar em casa a seu superior. A julgar pela expressão do sargento, a tardança inesperada do Pitt e o fato de que as únicas ouvintes de seu informe fossem Charlotte e Gracie lhe produziram, além de surpresa, satisfação.

Saboreou o chá e descansou os pés. Provavelmente teria gostado de tirar as botas, como o próprio Pitt, mas teria sido uma liberdade excessiva.

— O que? - disse Gracie, olhando-o da pia. — Terá vindo para algo mais que para sentar-se, digo.

— Ver o senhor Pitt - respondeu ele, evitando olhá-la.

Gracie conservou a paciência com dificuldade. Charlotte lhe viu o mau gênio no rosto e observou que uma funda pausa inchava e desinchava seu peito miúdo.  Archie, o gato branco e avermelhado, achou o lugar perfeito diante do fogo e se sentou.

— Ou seja, não confia em que o digamos - disse Gracie sem alterar-se.

Tellman parecia haver-se esquecido quase por completo de Charlotte. Era evidente que o incomodava a idéia de que Gracie acreditasse que não se confiava nela. Sua luta interior se refletia em seu aspecto.

Gracie não foi em sua ajuda. Aguardou com os braços cruzados, olhando-o com impaciência.

— Não tem nada que ver em confiar ou não - se decidiu a responder o sargento. — É que são assuntos internos da polícia.

Gracie pensou nisso.

— Terá fome, não? - perguntou.

Ele ergueu a vista, pilhado de surpresa. Esperava um protesto ou uma explosão de mau gênio.

— O que, sim ou não? - insistiu ela. — Lhe comeu a língua o gato? - Seu tom se tornou sarcástico. — Ou também é segredo da polícia?

— Pois claro que tenho fome! - disse ele. — Levo todo o dia dando voltas.

— Seguindo ao pobre general Balantyne, não? - respondeu ela, fazendo o mesmo caso à Charlotte (quer dizer, nenhum). — Deve ter sido exaustivo. Aonde foi?

— Hoje não o segui. Não tinha nenhum motivo.

— De maneira que não fez nada, né? - concluiu ela. — Já me parecia isso, já.

Fez ruído pelo nariz.

Tellman estava silencioso, mas igual ou mais perturbado que antes. Charlotte, que o observava, soube que sua mente passava por um momento de confusão a que não estava acostumado. Suas idéias tinham sido postas em dúvida e tinham revelado graves deficiências. Viu-se obrigado a mudar de opinião a respeito de alguém, sem dúvida o general Balantyne, e talvez indiretamente a respeito de muitas pessoas à que até então metia no mesmo saco, a mesma classe. Agora não tinha mais remédio que as ver como indivíduos. A destruição dos preconceitos sempre é dolorosa, ao menos a princípio, embora o passar do tempo leve a acostumar-se e o efeito a longo prazo seja liberador.

Compadeceu-se do sargento, que não se teria alegrado por isso. De vez em quando Charlotte se lembrava de quando tinha conhecido ao Pitt e lhe tinha descoberto outro mundo cheio de pessoas concretas com amores, sonhos, medos, solidões e sofrimentos cuja causa possivelmente fosse diferente a dos seus, mas não sua essência. Antes mal prestava atenção às pessoas normal com quem se cruzava pela rua. Via-a como classe, mais que como soma de pessoas tão únicas como ela, com vidas tão cheias de incidentes e emoções como a sua. A compreensão de sua cegueira tinha sido dolorosa.

Sua reação tinha sido desprezar sua estreiteza de miras, que a pesar do tempo transcorrido continuava sendo difícil de assumir.

Leu a confusão do Tellman em seu rosto, sua cabeça inclinada e suas mãos ossudas em cima da mesa, ao lado da xícara de chá que lhe tinha servido Gracie.

Angus, o gato negro, entrou pela porta traseira e caminhou tranqüilamente até sentar-se tão perto do Archie que este se viu obrigado a mover-se. Angus empreendeu seu asseio.

Gracie pigarreou.

— Se quiser lhe ponho um arenque defumado com pão e manteiga - propôs, olhando para Charlotte de esguelha para ver se estava de acordo.

Estava em plenas pesquisas, atividade que não requeria permissões adicionais.  Tellman vacilou, sem dar-se conta de que sua vontade de aceitar eram mais que evidentes.

Gracie se rendeu com um encolhimento de ombros e proporcionou ao sargento o mesmo trato que ao pequeno Daniel, de sete anos: encarregar-se ela de sua decisão. Nem curta nem preguiçosa, desprendeu a frigideira, depositou-a no fogo, jogou água e foi procurar o arenque.

— O faço esquentado - disse por cima do ombro. — Não penso me enredar com frituras. Esquentado, além disso, fica mais tenro.

Meteu-se na despensa em busca do peixe. Tellman olhou ao Charlotte com inquietação.

— Está em sua casa, senhor Tellman - disse ela muito amavelmente. — Me alegro de que tenha descoberto que o general Balantyne não tem nada que ver com o assassinato do Josiah Slingsby, e me felicito de que assim seja.

Ele, que continuava confuso, mordeu o lábio.

— Parece bom homem, senhora Pitt, e bom militar. Falei com várias pessoas que serviram a suas ordens, e lhe têm muito... respeito; mais que respeito uma espécie de... lealdade... e afeto.

A surpresa e a reticência continuavam presentes em sua voz. Charlotte reagiu com um sorriso que em parte se devia ao alívio. Não tinha acreditado o contrário, mas era importante que o reconhecesse Tellman. Também a divertia sua expressão.

Gracie voltou com um arenque grande e o colocou na frigideira com expressão de satisfação, ignorando a ambos. Os dois gatos, surpreendidos, levantaram-se imediatamente com os narizes tremendo e se aproximaram do fogo com verdadeiras ânsias. Gracie tirou uma parte de pão do cesto de madeira, cortou-o em fatias finas começando pela ponta, passou manteiga e pôs elas em um prato. Depois colocou mais água a ferver, trabalhando com a mesma diligência que se estivesse sozinha na cozinha.

Charlotte, que seguia sorrindo, decidiu deixá-los sós. Já se arrumaria Tellman com seu acanhamento. Vendo-a caminhar para a porta, o sargento lhe lançou um olhar carregado de desespero, mas ela fingiu não perceber as emoções que flutuavam na sala e deixou Gracie com o arenque dando a desculpa de que tinha de brincar com Jemima e Daniel.

Na manhã seguinte Pitt chegou ao Bow Street mais tarde que o habitual. De fato acabava de entrar quando ouviu bater com força à porta de seu escritório. Abriu-se sem dar tempo a responder, e apareceu um sargento ofegante e consternado.

— Senhor... acharam morto com um tiro o senhor Cadell! - Engoliu a saliva e recuperou o fôlego. — Parece um suicídio. Deixou uma nota.

Pitt ficou pasmado. Enquanto continuava imóvel, digerindo a impressão como se fosse um bloco de gelo, seu cérebro lhe disse que era previsível. Indícios não tinham faltado, embora ele se negara a reconhecê-los pela dor que teria causado a Vespasia. Pensou nela e em Theodosia Cadell, para quem seria um golpe quase insuportável; quase, sim, porque não havia outra opção que suportá-lo.

Era culpa sua? Podia ser que sua visita do dia anterior ao Cadell tivesse precipitado os fatos? O reprovaria Vespasia?

Não, é claro que não. Teria sido uma injustiça. Se Cadell era culpado, a responsabilidade era sua e de ninguém mais.

— Senhor!

O sargento se apoiava alternativamente em um e outro pé, com uma grande inquietação em seus olhos muito abertos.

— Sim. - Pitt se levantou. — Vou. Tellman está?

— Sim. Aviso-o?

—Diga-lhe que saia à porta. Vou chamar uma carruagem.

Saiu antes que o sargento, desprendendo no ar a jaqueta mas sem pensar nem sequer em pegar o chapéu.

Quando chegou ao andar térreo se achou com o Tellman, saído da parte posterior da delegacia de polícia. Estava sério e pálido. Não disse nada. Saíram juntos à rua, onde fazia sol, e caminharam depressa pelo Drury Lane. Pitt desceu ao meio-fio movendo os braços e assustou um peixeiro que puxava uma carreta cheia de móveis. Avisou com um grito a uma carruagem que dobrava a esquina do Great Queen Street e começou a correr atrás dela, detendo o tráfico e recebendo uma chuva de impropérios.

Subiu, deu instruções ao cocheiro e se deslocou no assento para deixar espaço ao Tellman. Naturalmente que já não tinha sentido, posto que não mudaria nada por chegar a casa do Cadell uns minutos antes, mas o ímpeto aliviou um pouco sua raiva e dor.

Dois ou três minutos depois Tellman pareceu a ponto de dizer algo, mas pensou melhor ao ver o rosto do Pitt.

Quando chegaram, Pitt pagou ao cocheiro e se aproximou da porta principal com umas quantas passadas. Havia um agente montando guarda, muito rígido.

— Bom dia, senhor - disse em voz baixa. — Dentro está o sargento Barstone, que o espera.

— Obrigado.

Pitt abriu a porta e entrou. Tudo, absurdamente, estava igual à tarde anterior. O suntuoso relógio do vestíbulo não tinha interrompido seu forte tic-tac, nem o ponteiro dos segundos de avançar a saltitos. O bordo dourado do bengaleiro continuava brilhando, mas desta vez se devia ao sol que entrava por debaixo da porta fechada do salão. O vaso de rosas não tinha deixado cair nenhuma pétala. Possivelmente os tivesse retirado a criada.

Todas as portas estavam fechadas. Pitt tinha entrado por seu próprio pé, sem que lhe ocorresse perguntar onde estava o cadáver do Cadell. O vestíbulo estava deserto. Voltou para a porta, puxou a campainha e entrou pela segunda vez.

— Quer que fale com os criados? - perguntou Tellman. — Não sei o que poderíamos averiguar. Parece o final. Não imaginava assim.

— Fale, sim - disse Pitt. — Possivelmente lhe dêem algum detalhe que explique o ocorrido. Sim... sim, é claro. - Ficou direito. Estava sendo descuidado. — Ainda nãosabemos se foi um suicídio. É uma hipótese.

— Sim, senhor.

Tellman não se fez de rogar, por motivos que Pitt já conhecia: desagradava-lhe profundamente ter diante às famílias dos finados. Os cadáveres não lhe produziam a mesma inquietação, posto que já não podiam sofrer, mas as pessoas vivas, afetadas, perplexas, enfermos, era outra coisa. Como era incapaz de fazer nada por eles se sentia como um intruso, embora estivesse em situação de justificar seu papel ante qualquer pessoa que lhe pedisse contas. Pitt entendia e compartilhava sua atitude.

O mordomo saiu pela porta forrada que levava às dependências da criadagem, e o descobrimento de que Pitt já estava no vestíbulo lhe produziu uma mescla de surpresa e contrariedade. Com tanto rebuliço se esqueceu até de quem era.

— Bom dia, Woods - disse Pitt. — Lamento a morte do senhor Cadell. O senhor Barstone está no salão?

— Sim, senhor. - Engoliu a saliva e moveu o pescoço como se ficasse apertado o colarinho. — O... o estúdio está fechado com chave. Suponho que terá que entrar.

— Está aí o senhor Cadell?

— Sim. É...

Pitt aguardou.

Woods não achava as palavras. Parecia muito afetado.

— Não acredito, senhor! - disse. — Levo quase vinte anos ao serviço do senhor Cadell e não acredito que se tirou a vida. Tem que haver outro motivo, outra resposta.

Pitt não o discutiu. Diante de um fato tão desagradável (e, do ponto de vista do Woods, tão inexplicável) a reação lógica era a incredulidade. Como ia achar algum sentido?

— Fique tranqüilo. Investigaremos todas as possibilidades - disse com calma. — Me permite que entre no estúdio? O sargento Tellman foi falar com o resto da criadagem. Quem achou o senhor Cadell?

— Polly, a criada que se ocupa do andar térreo. Tinha entrado para tirar o pó e comprovar que o escritório estivesse limpo e ordenado. Não acredito que possa falar com ela, porque o tomou muito mal. Para alguém de sua idade é um descobrimento horrível. -Piscou várias vezes. — Normalmente é muito sensata e trabalhadora, mas desmaiou. Está no salão da governanta, e terá que lhe conceder um pouco de tempo. Não há mais remédio.

— Claro, claro. Possivelmente você possa me dar quase todos os dados que necessito para começar.

— Farei o possível, senhor - disse Woods.

Talvez o confortasse a perspectiva de poder entreter-se com alguma atividade. Pinçou no bolso, extraiu uma chavinha de latão e se manteve à espera com ela na mão.

— A que horas foi? - perguntou-lhe Pitt.

— Justo depois das nove.

— Era normal que Polly entrasse no estúdio?

— Sim. Sempre se estabelece uma rotina. É a melhor maneira. Assim não se esquece nada.

— Portanto, todo mundo sabia que entraria no estúdio a essa hora.

— Sim.

Woods estava muito nervoso, e era compreensível. Seus pensamentos se refletiam no rosto. O próprio Cadell tinha que ter sido consciente de que o acharia quase com segurança uma garota jovem.

— E a porta não estava fechada com chave...

Era evidente, mas não deixou de surpreender ao Pitt. Os suicidas costumavam certificar-se de sua intimidade.

— Não.

— Há alguém que tenha ouvido a detonação? Devia ser bastante forte.

— Não que saibamos. - Woods estava um pouco perturbado, como se houvesse algo que lhe reprovar. Se o tivessem ouvido poderiam ter evitado a tragédia. Era irracional, mas a dor e a incompreensão tinham embotado suas faculdades. — Tenha em conta que a essa hora do dia quase todos os criados estavam ocupados em seus afazeres. Na cozinha havia muita agitação. O pátio estava cheio de moços trazendo mercadorias. Pela rua passavam carruagens fazendo muito ruído, e as janelas estavam abertas para ventilar. Suponho que o ouvimos mas que não nos demos conta do que era.

— O senhor Cadell tinha tomado o café da manhã?

— Não, só uma xícara de chá.

— Era normal?

— Sim, ultimamente sim. O senhor Cadell levava certo tempo sem ser o mesmo em questão de saúde. - Voltou a piscar e fez um esforço para dominar suas emoções.           — Parecia muito preocupado. Deve haver algum assunto de política externa que o justifique. É um cargo de muita respon... - interrompeu-se ao recordar de novo que o dono da casa tinha morrido. Deu as costas ao Pitt com lágrimas nos olhos, envergonhado por perder o controle daquela maneira em presença de um estranho.

Pitt estava acostumado à dor. Tinha vivido incontáveis situações como aquela. Fingiu não dar-se conta.

— Onde tomou o chá o senhor Cadell?

Woods demorou para responder.

— Acredito que o levou Dideott, o criado de quarto, ao quarto de vestir.

— Depois desceu ao estúdio?

— Isso acredito. Saberá Dideott.

— Perguntaremos. Obrigado. Agora, se me deixar entrar, irei ao estúdio.

— É claro.

O mordomo abriu a marcha com passo inseguro. Cruzou o vestíbulo e se enfiou num corredor bastante longo até chegar a uma porta de carvalho que abriu com a chave. Não acompanhou ao Pitt ao interior.

Leon Cadell estava caído de bruços sobre a escrivaninha, com as mãos em uma postura um pouco forçada e a cabeça de lado. O sangue que tinha brotado da têmpora direita cobria uma parte da superfície de madeira da mesa, em que também havia uma pistola de duelo em contato com a mão direita, a cinco centímetros de uma pena de ave com a tinta seca. No chão, perto da cadeira, jazia uma almofada. Pitt se agachou para recolhê-la e o aproximou do nariz. Cheirava claramente a pólvora e queimado. Por isso ninguém tinha ouvido a detonação.

Ficava por explicar o fato de que Cadell não tivesse fechado a porta por dentro com o objetivo de que outros suspeitassem algo estranho e não tivesse que descobri-lo uma garota jovem, ou sua própria esposa.

Por outro lado, e a aquelas alturas, parecia inverossímil que um indivíduo capaz de chantagear ao próximo de semelhante maneira tivesse em conta os sentimentos de uma criada ou qualquer outra pessoa. Com que facilidade erramos por completo, e estrepitosamente, em nossas valorações pessoais! Pitt seguia tendo dificuldade em aceitá-lo, e quanto a Vespasia possivelmente não chegasse a fazê-lo. Pelo visto era capaz de equivocar-se de maneira radical, apesar de toda sua sabedoria e astúcia.

Examinou os papéis que estavam em cima da mesa. Havia meia dúzia de cartas do ministério lindamente amontoadas, à esquerda das quais se observava outra confeccionada com recortes de jornal (de novo o Time, provavelmente), coladas a uma folha branca. Leu-a.

Sei que tenho à polícia nos calcanhares. Não posso ter êxito e não esperarei que me prendam. Não poderia suportá-lo.

Este final é rápido e limpo. Não saberei o que ocorra depois de que vá, salvo que o caso terminou. Tudo acabou.

Leon Cadell.

Era uma carta direta, sem arrependimentos nem desculpas. Possivelmente houvesse outra dirigida a Theodosia. Pitt não podia acreditar que conhecesse a culpa de seu marido.

Submeteu a carta a um novo exame. Seu aspecto era idêntico ao das outras. O espaçamento era ligeiramente diferente, menos preciso, mas naquelas circunstâncias não tinha nada de surpreendente.

Na mesa havia tesouras, um corta-papel, uma barra de lacre, uma bolinha de corda e dois lápis em uma capa. Talvez se tivesse gasto e o recipiente estivesse no lixo.

Onde estava o jornal de onde procediam as letras recortadas? Nem na mesa nem no chão. Olhou o cesto de papéis: aí estava, perfeitamente dobrado. Tirou-o. Era o Time do dia anterior, com os recortes claramente visíveis.

Deixou-o cair. Parecia quase tudo dito. Cadell tinha razão: caso concluído, ao menos para a polícia. Nunca o estaria para as vítimas, e menos ainda para a Theodosia.

A luz intensa da manhã entrava totalmente pela porta envidraçada incolor que dava ao jardim. A criada levou um susto muito grande para que lhe ocorresse correr as cortinas. Não havia ninguém à vista. Pitt se encarregou disso: pegou o fecho e correu o pesado veludo.

Saiu e fechou com chave a porta do corredor. Tinha que achar Theodosia. Os dois momentos mais desagradáveis de uma investigação eram falar com os parentes da vítima e prender a alguém. Aquele caso os unia em uma só ocasião, e a dor devia sofrer uma só pessoa.

Encontrou-a sentada no salão, com má cor, rígida e as mãos tão crispadas no regaço que se via a cor branca dos dedos. Theodosia o olhou fixamente. Estava sozinha, sem criadas nem lacaios.

Pitt entrou com passos silenciosos e se sentou diante dela. Além de perder a seu marido (a quem, de acordo com a Vespasia, amava sinceramente), além de enfrentar um escuro futuro, via destruído seu passado, golpe incomensuravelmente mais doloroso. Tinham-lhe feito em migalhas algo tão valioso como sua imagem do mundo, com tudo o que comportava. Os alicerces de sua fé nas coisas estavam desfeitos. Tudo o que tinha importância no referente a seu marido, o que formava a estrutura de suas relações, tinha demonstrado ser uma mentira, e até sua maneira de ver-se a si mesmo e suas opiniões. Tinham-na enganado em tudo. O que restava?

Com que freqüência percebemos o mundo e aos seres queridos não como são mas sim como queremos que sejam?

Pitt desejou lhe oferecer algum consolo, mas era impossível.

— Quer que avise a Vespasia? - perguntou.

— O que? Ah... - Ela meditou em silêncio, dolorosamente, até dar mostras de que tinha tomado uma decisão. — Não, obrigado... Ainda não. Custar-lhe-á muito assimilá-lo. Sentia... - Lhe quebrou a voz. — Sentia muito afeto por Leon. Tinha-o em bom conceito. Espere a que me tenha recuperado um pouco, por favor; a que me tenha formado uma idéia mais clara do ocorrido e possa contar-lhe.

— Quer que o eu conte? - propôs ele. — Posso ir vê-la em sua casa. Do contrário o lerá na imprensa.

O último vestígio de sangue abandonou o rosto da Theodosia, e Pitt teve medo de que desmaiasse. Viu que se esforçava por recuperar o fôlego.

Seguindo um impulso alheio às convenções, aproximou-se dela até ficar de joelhos a seu lado e lhe agarrar as mãos, juntas e unidas ferreamente no regaço. Passou-lhe o outro braço pelas costas.

—Pouco a pouco! - indicou-lhe. — Respire pouco a pouco, lentamente.

Ela obedeceu, e mesmo assim demorou vários minutos em recuperar o controle físico de si mesma.

— Perdoe - disse. — Lhe rogo me desculpe. Não tinha pensado na imprensa.

— Irei a sua casa daqui - disse ele. — Com certeza quererá estar com você. Assimilá-lo-á melhor em companhia.

Ela o olhou, e passou por seus olhos um brilho de gratidão. Não se opôs à decisão. Possivelmente se alegrasse de que alguém desse um passo por ela, de ver um pouco aliviado o peso que a partir de então teria que levar a sós.

— Obrigada - disse.

Já não havia mais perguntas. Pitt se levantou. Theodosia tinha à criada ao seu dispor. Podia chamá-la, embora possivelmente naquele momento preferisse estar a sós para chorar. O mais provável, entretanto, era que as lágrimas demorassem ainda certo tempo.

Ouviu sua voz antes de sair.

— Senhor Pitt... Meu marido não se suicidou. Assassinaram-no. Não sei como nem quem, mas é de supor que se trata do chantagista. Se não continuar investigando fará o que quiser. - A última frase foi pronunciada com uma raiva sem limites.

Nos olhos da Theodosia brilhou a chama de um desafio, e quase de uma acusação.  Ele não soube o que responder. A única base do que acabava de ouvir eram a lealdade, a dor e o desespero.

— Não darei nada é claro, senhora Cadell - prometeu, — nem aceitarei nada sem procurar provas.

Interrogou toda a criadagem com a ajuda do Tellman, mas não se produziu nenhum clareamento nem tinha visto ninguém a nenhum desconhecido. Os dois moços que tinham levado mercadorias à entrada posterior não tinham franqueado a porta de madeira que dava acesso ao jardim. O certo é que tinham estado muito ocupados em flertar respectivamente com a arrumadeira e a criada de quarto para descer da soleira. Já lhes havia custado bastante desempenhar o trabalho pelo que lhes pagavam.

Ninguém tinha penetrado na casa, e o único em abrir a porta do jardim tinha sido o aprendiz do jardineiro, que punha arames e arrumava um pouco a velha rosa trepadeira branca, que estava em flor e devia endireitar-se.

Da pistola não sabia ninguém nada. Devia levar certo tempo em posse do Cadell. No estúdio havia duas, colocadas sob chave em uma gaveta do armário do canto, mas não se tratava de nenhuma delas. Theodosia assegurou que a via pela primeira vez, mas reconheceu ser inimiga das pistolas e incapaz de distingui-las.

Os criados careciam de informação, porque não tinham permissão para tocá-las. Pelo visto continuaria sendo um mistério onde e quando se fez com ela Cadell, ao igual a tantas coisas relacionadas com o plano de chantagem.

Antes de retornar ao Bow Street, Pitt passou por casa da Vespasia, que ficou igualmente afetada pela notícia da morte de Leon Cadell e teve grande dificuldade em acreditar que fosse culpado das chantagens. O que não fez, a diferença da Theodosia, foi negá-lo. Depois de dar as graças ao Pitt por havê-la informado pessoalmente em lugar de permitir que se inteirasse pela imprensa, ordenou que preparassem sua carruagem, mandou chamar a sua criada e se dispôs a visitar sua afilhada, a fim de consolá-la no possível.

A coisa seguinte que fez Pitt foi dizer ao subchefe de polícia. Tampouco queria que se inteirasse pela edição vespertina dos jornais.

— Cadell? - disse Cornwallis, surpreso. Achava-se de pé no centro do escritório, como se acabasse de interromper um passeio. Estava abatido. Levava várias semanas sem comer nem beber bem. Tinha um pequeno tic nervoso na têmpora esquerda. — Está de todo certo?

— Ocorre-lhe alguma outra explicação? - respondeu Pitt com tristeza.

Cornwallis vacilou. Parecia abatido, mas menos tenso que antes de falar. Seus ombros foram recuperando uma postura mais natural. À margem da surpresa, e da compreensão da dor alheia, o mau pedaço tinha passado. Não podia deixar de constatá-lo, embora se desprezasse por isso.

— Não... - disse por fim. — Não. Pelo que diz tem que ser a resposta. Que horrível tragédia! Sinto muito. Teria preferido que fosse... um desconhecido. Suponho que é uma idiotice. Era inevitável que me conhecesse, a mim e a outros. Felicito-lhe, Pitt... e...

Queria lhe agradecer por sua lealdade; notava-lhe no olhar, mas não sabia como verbalizá-lo.

— Vou ao Bow Street - disse Pitt laconicamente, — para me encarregar dos detalhes.

— Sim. - Cornwallis assentiu. — Sim, claro.

 

Vespasia acudiu imediatamente ao lado da Theodosia, levando a sua criada e os equipamento necessários para ficar a dormir uma ou mais noites. Não tinha intenção de permitir que sua afilhada levasse a sós a pena, a confusão e o desespero que aconteciam necessariamente a uma perda tão atroz. Não era a primeira vez em sua longa vida que topava com o suicídio, uma morte que em certo modo era a mais difícil de suportar. A solidão e o sentimento de culpa que provocava de maneira invariável não faziam senão duplicar o sofrimento.

Durante a tarde e noite iniciais não havia nada que fazer à exceção de sobreviver a elas, estar com a Theodosia e ajudá-la a que começasse a assimilar o fato irrefutável da morte de Leon. O pior seria a manhã seguinte; o sonho, por breve que fosse, seria uma pausa, mas pouco depois de despertar voltariam as lembranças. Seria como ouvi-lo pela segunda vez sem o atordoamento da surpresa. Sentaram-se a conversar sobre o toucador de Theodosia. Ela, pelo visto, precisava falar de Leon, sobre tudo da classe de homem que tinha sido ao conhecê-lo. Recordou com um tom de crescente desespero dezenas de atos de valor, bondade ou inteligência, gestos de honradez em situações que poderiam haver-se solucionado com menos esforço sem despertar críticas; gestos, silenciosamente, de fazer as coisas o melhor possível.

Vespasia a escutava. E mais: lembrava-se pessoalmente de muitas coisas. Custava pouco recordar todo o bom de Leon, tudo o que tinha admirado ao longo dos anos.

De repente, pouco antes da meia-noite, Theodosia descobriu que podia chorar e o pranto a deixou exausta. Depois a criada da Vespasia lhe preparou uma infusão para dormir. Vespasia tomou outra e se retirou um quarto de hora depois que sua afilhada.

A manhã foi pior do esperado, e se zangou por não havê-lo previsto. Achou-se com o Woods no corredor, quando se dirigia ao salão da manhã. Estava pálido e com os olhos avermelhados.

— Bom dia, senhora - disse com voz rouca. Pigarreou. — Como se encontra a senhora Cadell?

— Dorme. Não quero incomodá-la. Tenha a bondade de me trazer os jornais.

— Os jornais, senhora?

As sobrancelhas do mordomo se arquearam.

— Sim, por favor.

— Refere-se ao jornal completo, senhora?

— Completo, Woods, naturalmente. Explico-me mau? - Teria sido mais agradável mandá-los queimar. Foi o primeiro impulso da anciã, mas precisava saber o que diziam. Certas verdades não podiam evitar-se. — Estarei no salão da manhã. Tomarei chá com torradas. Não é preciso nada mais.

— Sim, senhora - se apressou a dizer Woods. — Vou... mandar que os informem.

— Não se incomode. - Ela se deu conta de que a morte do amo da casa tinha modificado as tarefas habituais no referente à imprensa. — Os lerei tal como estão.

Foi à sala de café da manhã sem aguardar nenhuma resposta.

Woods os levou em uma bandeja, alisados mas sem engomar. Vespasia os pegou. Todos eram igualmente horríveis. Um deles resumia o pior dos três e acrescentava abundantes conjeturas, tão cruéis como destrutivas. O autor era Lyndon Remus, que tinha levado a cabo uma investigação sobre o cadáver aparecido no Bedford Square e a possibilidade de que estivesse relacionado com o general Balantyne. Devia ter seguido ao Pitt, porque também estava à corrente de suas visitas ao Dunraithe White, Tannifer e sir Guy Stanley.

Em seu artigo sobre o suicídio do Cadell, Remus dava a entender que Pitt tinha descoberto uma conspiração e tinha estado a ponto de prender Cadell.

“O delegado Thomas Pitt recusou fazer comentários, mas a delegacia de polícia do Bow Street não nega que o senhor Cadell fora investigado por sua vinculação com um caso de grande importância, caso que possui componentes de extorsão e homicídio e afeta a personagens destacados dos âmbitos financeiro e militar, assim como do governo.

Dado que o senhor Cadell, quem ontem pela manhã se suicidou em seu estúdio com uma pistola, detinha um alto cargo no Ministério de Assuntos Exteriores, surge a pergunta de se a conspiração tinha algo que ver com os interesses de Grã-Bretanha no estrangeiro, e se a rapidez de reflexos da polícia não terá evitado uma traição no último momento.

Se existirem outros culpados, é de esperar que não recebam amparo contra o castigo que merecem por seus delitos, tanto se os levaram a cabo como se ficaram em meros planos. Muitos homens de menor relevância foram acusados de delitos de menor gravidade, e pagaram por eles.”

Seguiam vários parágrafos na mesma linha, e quando Vespasia chegou ao final estava tão furiosa que o tremor de suas mãos quase lhe impedia de ler. Deixou o jornal em cima da mesa. Possivelmente em seus inícios Lyndon Remus tivesse sido um jornalista sincero, empenhado em denunciar a corrupção, mas tinha deixado que a ambição corrompesse seus pontos de vista. A promessa da fama e poder que lhe dava a pena o tinham impulsionado a formular hipóteses sem fundamento, todas as quais se distinguiam por sua falta de compaixão para o efeito de suas conjeturas sobre os afligidos. Estes possivelmente fossem inocentes, mas a prova chegaria-lhes muito tarde para pôr remédio à dor ou ostracismo que costumavam acompanhar às suspeitas.

— Já os li - disse ao Woods, que tinha retornado para ver se já podia desembaraçar a mesa. — Pode queimá-los. Não há nenhuma necessidade de que os veja a senhora Cadell.

— Sim, senhora - disse ele com prontidão. Sua opinião se refletia em seu rosto, e ao pegar os jornais lhe tremeram um pouco as mãos.

— Como estão os criados? - perguntou-lhe Vespasia.

— Faz-se o que se pode, senhora. Lamento dizer que na rua há várias pessoas que tentam fazer perguntas... para a imprensa. Suas maneiras deixam que desejar. São pessoas intrometidas, sem respeito a... a morte.

— Fechou com chave as portas do pátio? - perguntou ela. — Hoje nos arrumaremos sem distribuidores.

— Não o tinha feito - reconheceu, — mas com sua permissão as fecharei.

— Concedido. E que não abra ninguém a porta sem haver-se certificado de quem é, nem sem minha permissão ou o da senhora Cadell. Fica claro?

— Muito claro. A cozinheira me encarregou que lhe pergunte que deseja para comer, lady Vespasia. Porque ficará, não é?

Parecia um pouco desesperado.

— É claro - respondeu ela, — e considerarei excelente algo que deseje preparar a cozinheira. Eu, se me permitir isso, sugeriria algo muito ligeiro.

— Obrigado, senhora.

Vespasia passou ao salão, cujo ambiente de formalidade parecia adequar-se às circunstâncias.

Pouco depois das dez desceu Theodosia com má cara e aspecto cansado. Estava de negro, mas com a cabeça erguida e uma expressão resoluta.

— Tenho que fazer muitas coisas - disse, antes que Vespasia tivesse tido oportunidade de lhe perguntar como estava (embora a pergunta teria tido escasso sentido; jamais, provavelmente, tinha sofrido mais que aquela manhã). — E você é a única pessoa a quem posso pedir ajuda - concluiu.

— Com certeza Leon tinha alguém que administrava seus negócios – respondeu Vespasia. — Não é preciso que você faça quase nada, e se quiser me ocupo eu do pouco que haja.

Theodosia arqueou as sobrancelhas.

— Não refiro a essas coisas, tia Vespasia. Estou convencida de que poderá as solucionar o senhor Astell, embora eu gostaria de contar com seu conselho. - Franziu o sobrecenho por causa da concentração. — Estou certa de que Leon não suicidou-se. Dá na mesma o que pensasse ou o medo que tivesse. Não se teria deixado empurrar a tais extremos. E quanto à chantagem, estou ainda mais convencida de que o culpado não era ele.

Estava de costas à sala, com o rosto para o jardim mas sem ver as flores nem a luz salpicada.

— Não pretendo saber tudo dele - prosseguiu, — porque nem é possível nem estaria bem sabê-lo tudo de ninguém. além de indiscreto seria aborrecido, o que é ainda pior. Pelo que estou convencida é de que conhecia muito a Leon para não me haver percebido sua alegria quando o plano parecia ter êxito, nem de seu desespero ao dar-se conta da iminência do fracasso, um fracasso tão grave para levá-lo a suicídio.

Vespasia não sabia o que dizer. Em mais de uma ocasião os fatos tinham rebatido o conhecimento que achava possuir sobre as pessoas. Theodosia, entretanto, tinha falado de emoções, não de moralidade. Nesse caso o que contava era a observação, mais difícil de pôr em dúvida.

— Não é necessário que me siga a corrente - disse Theodosia. Continuava de frente à janela. — Sei o que pareço. Que mulher admitiria algo assim de seu marido sem opor resistência? Mas não penso me limitar a simples queixa.

— Não será fácil - indicou Vespasia. — Temo que deve se preparar para achar muitos obstáculos.

— Por certo. - Theodosia não se moveu. — Se não o fez Leon significa que foi outro, e duvido que se alegrem de que ressuscite um caso que lhes interessa apresentar como fechado, e bem fechado. - Voltou-se. — Ajudar-me-á, tia Vespasia?

— A anciã contemplou o semblante abatido de Theodosia, seus ombros tensos e seu olhar de desespero. Existia o risco de agravar a dor, mas como negar-se? Theodosia não se arredaria por isso. O único resultado de uma negativa seria aumentar seu isolamento.

— Tem certeza de que quer fazê-lo? - perguntou. — É possível que não acabe por gostar do que averigüemos. Há vezes em que vale mais não afundar em toda a verdade. Por outro lado, conta que granjeará inimigos.

— É natural. O que acha, que pode ser mais grave que quando se souber tudo? Não será Gordon-Cumming a única pessoa que se sinta incapaz de ficar em Londres. O chantagista me tirou tanto que fica pouco que perder. Não é necessário que me prometa um final de conto de fadas, tia Vespasia. Sei que não existem. Quão único quero é que me preste sua inteligência e seu apoio. Não é preciso que lhe diga que penso seguir adiante com ou sem eles, porque já deve intuí-lo, mas terei muito menos oportunidades de êxito.

Vespasia reagiu com um sorriso seco e triste.

— Dito assim não me deixa alternativa, salvo querer que pense que preferi que fracassasse. Alegrar-me-ia mais que nada no mundo descobrir que Leon era inocente, tanto da chantagem como do suicídio. Devemos meditar a estratégia com cuidado. Também, logicamente, o ponto de partida.

Theodosia cruzou a sala e se desabou em uma poltrona com expressão de perplexidade.

— Perdoe - disse, — mas a quem podia acudir? E quem melhor que você?

Estava decidida, sim, mas carecia de uma idéia clara sobre suas possibilidades.

— Tem certeza de estar disposta a aceitar tudo o que descubramos? – perguntou Vespasia por última vez. — É possível que não seja o que queira.

— Talvez. - Foi uma resposta clara e segura. Não transmitia alegria mas sim convicção. — Mas não será o que dizem agora. Como começamos?

— Com lógica... e uma xícara de chá bem quente - disse Vespasia.

Theodosia esboçou um sorriso e deu uns passos em direção à borla da campainha. Quando entrou a criada, encarregou-lhe chá quente.

— Adiante com a lógica - pediu quando voltaram a estar a sós.

Vespasia se dispôs a começar.

— O chantagista, seja quem for, tem que ter trato pessoal com todas as vítimas, porque conhece bastante seu passado para saber que acusação as afeta mais e em que campo de suas trajetórias resulta mais acreditável.

— Certo. O chantagista, diz. Tem que ser homem? Não poderia ser mulher? Seria ingênuo nos considerar incapazes de tanta inteligência ou crueldade.

— Efetivamente, mas terei que partir de que a colocação do cadáver diante da porta do Brandon Balantyne não guardava nenhuma relação com o caso, o qual me parece improvável. Tenho sérias dificuldades em imaginar uma situação onde uma mulher relacionada com as vítimas também estivesse informada da morte do Slingsby e tivesse meios para transladar seu cadáver. Embora impossível suponho que não é.

— Me tinha esquecido - reconheceu Theodosia — Comecemos pelos homens. Tenho informação sobre todas as épocas da vida de Leon: onde nasceu, onde viveu de menino, em que colégio e universidade estudou, seu ingresso no corpo diplomático... Já tentei me lembrar de qualquer inimigo que pudesse ser o responsável. - Franziu o sobrecenho-. Quando uma pessoa tem êxito, acorda no mínimo inveja, e é uma pena, mas em muitos casos as que não chegam tão longe se justificam jogando a culpa a outros.

Entrou a criada com o serviço de chá em uma bandeja e a depositou em uma mesinha baixa entre a Vespasia e Theodosia. Ofereceu servi-lo ela, mas Theodosia preferiu fazê-lo pessoalmente.

Vespasia aguardou estar a sós para responder.

— Duvido que se trate de uma vingança pessoal, a menos que encontremos algum incidente no que participem todas as vítimas. Leon as conhecia todas?

Theodosia a olhou com um brilho de ironia.

— Não sei. Foi muito discreta para me dizer quem são.

— Ah! - Vespasia o tinha esquecido. O medo a ser indiscreta não parecia ter muito sentido. Reivindicar o bom nome de Leon e descobrir ao verdadeiro chantagista, caso não fosse ele, pareciam objetivos de maior importância. — O general Balantyne, John Cornwallis, Sigmund Tannifer, Guy Stanley e Dunraithe White.

Theodosia fez expressão de surpresa.

— Não sabia - disse. — Pertencem a várias gerações, e são pessoas bastante diferentes. Por minha parte conheço o Parthenope Tannifer, que veio a casa várias vezes e é uma mulher muito interessante. Dunraithe White é juiz, verdade?

— Sim, e John Cornwallis subchefe de polícia - acrescentou Vespasia. — É para perguntar-se se não haverá um componente de subversão da lei, mas como encaixaria Brandon Balantyne?

— Tem que haver alguma relação. Encontrá-la é nossa coisa. Não pode ser profissional, nem do colégio ou a universidade.

— Então tem que ser social - deduziu Vespasia entre gole e gole de chá. A infusão tinha um efeito extremamente reparador, embora a sala estivesse bem quente e gozasse do sol matinal. Reinava um silêncio em desuso no conjunto da casa. Os criados caminhavam nas pontas dos pés e alguém tinha tido a gentileza de pôr palha na rua para amortecer o ruído dos cavalos. Vespasia teve uma idéia. — Ou econômica! Não seria possível que Leon tivesse feito investimentos em um plano que compartilhasse com outros?

— E que nesse plano houvesse algo duvidoso? - Theodosia pegou a idéia ao vôo.      — Sim! por que não? Tem sentido. - Levantou-se. — Certamente em seu estúdio há notas a respeito. Vamos comprová-lo.

Vespasia a acompanhou, abandonando o chá.

Dedicaram a isso o resto da manhã e as primeiras horas da tarde. Só descansaram para comer um bocado por insistência da Vespasia, preocupada com Theodosia, quem a sua vez obedeceu por respeito. Procuraram documentos referentes aos investimentos de Leon Cadell em todos os setores e averiguaram que o balanço geral era de extrema prudência. A única exceção era o espaldar um pouco precipitado a uma aventura no Caribe, a qual se saldou com a perda de uma quantidade modesta. Os demais investimentos oscilavam entre o correto e o muito acertado. Surpreendia a escassez das que tinham por objeto especulações em ultramar. Leon tinha evitado escrupulosamente qualquer atividade que o expusera à acusação de aproveitar-se de seus conhecimentos em enquanto membro do corpo diplomático.

A leitura dos dados sobre investimentos e benefícios, repartidos ao longo dos anos, foi entristecendo a Vespasia. Eram a manifestação da vida financeira de alguém que fazia previsões para sua família, mas que na hora de tirar proveito de sua vantagem profissional atuava com tanta prudência que às vezes até perdia dinheiro. Aqueles documentos refletiam ao homem a quem tinha conhecido ela, absolutamente não ao que desenhava Lyndon Remus na imprensa ou deduzia de sua morte a polícia. Parecia mentira que uns simples números fossem tão reveladores.

— Aqui não há nada - disse Theodosia com desespero, pouco depois das três e meia. Estava sentada diante da escrivaninha, rodeada de papéis e com a pena e a fadiga refletidas no rosto. — Fez algumas obra de caridade, mas é a única relação que me ocorre com as outras pessoas que mencionou, e tampouco era muito; vá, que não eram quantidades que justificassem uma chantagem.

— Que obras eram? - Vespasia só o perguntou por dizer algo e impedir que o silêncio fosse interpretado como uma rendição.

Theodosia reagiu com surpresa.

— Concretamente? Um orfanato administrado por vários membros do clube Jessop. Sei que Leon ia sempre às reuniões do comitê, inclusive quando tinha mais trabalho. Comentou-me que o general Balantyne também fazia parte do grupo.

Não disse nada mais. Tirou um maço de cartas da gaveta da escrivaninha e empreendeu sua leitura.

Vespasia abriu outra e achou mais cartas.

Durante meia hora não viu nada que parecesse revestido da menor importância. Desagradava-lhe ler cartas alheias que não tinham sido escritas para ninguém mais que o destinatário, não porque contivessem nada que pudesse envergonhar a Leon nem porque fossem excessivamente pessoais, mas sim pelo mero fato de que as lesse outra pessoa. Assaltou-a uma percepção entristecedora da morte de seu autor, morte cuja realidade se tornava quase tangível através do registro de seus pertences.

Leu uma carta de princípio a fim, ou mais que carta memorando, e esteve a ponto de não dar-se conta de sua relevância. Residia no cabeçalho, impresso debaixo do do clube Jessop. A parte manuscrita ia dirigida a Leon Cadell e se referia ao patrocínio de uma exposição de arte para arrecadar recursos. Estava prevista a assistência de um membro destacado da alta sociedade, de sexo feminino. A exposição se celebrara seis meses atrás sem muito relevo. Leon devia ter conservado a carta só porque tinha escrita com sua letra um endereço, a de um colecionador de vasos chineses que vivia em Paris. O que chamou a atenção da Vespasia foram os nomes do comitê: Brandon Balantyne, Guy Stanley, Lawrence Bairstow, Dunraithe White, John Cornwallis, James Cameron, Sigmund Tannifer e Leon Cadell.

Ergueu a vista. Theodosia seguia lendo e cada vez estava rodeada por mais papéis descartados.

— Conhece o Lawrence Bairstow? - perguntou-lhe. — Ou ao James Cameron?

— Conhecia a Mary Ann Bairstow - respondeu Theodosia. — Por quê? O que encontrou?

— É possível que Lawrence Bairstow seja outra vítima?

Seu rosto refletiu decepção.

— Não, o pobre envelhece. É muito mais velho que ela. Duvido que pudesse exercer alguma influência, para bem ou para mau, e soube que seus assuntos pessoais os administram os advogados da família. - Não podia dissimular sua carga de sofrimento.

— E James Cameron? - insistiu Vespasia sem estar segura de por que, nem se tinha algum sentido além do insuportável de dar-se por vencida.

— O único James Cameron a quem conheço partiu para viver no estrangeiro faz sete meses. Tem problemas de saúde e se transladou a um clima mais seco e mais quente. Parece-me que a Índia, mas não estou certa. Por quê? Por que o pergunta? O que ocorre?

— Acredito que é possível que tenhamos descoberto o que têm em comum – disse Vespasia. — O que não entendo é o benefício que se pode tirar de algo assim.

Theodosia se levantou como uma mola e arrebatou o papel a sua madrinha. Leu-o e a olhou com desconcerto.

— Todos formam parte do comitê que te dizia, o do clube Jessop, mas é para um orfanato. Arrecadam dinheiro para um orfanato. Será o que procuramos? Malversação de recursos? - A expressão de seus olhos vacilava entre a esperança e o desespero. — Não me parece que valha a pena. Quanto pode ser?

— Se o descobrirem, muito desprestígio - respondeu Vespasia com gravidade, tentando que a emoção não afetasse a sua voz. — Roubar de um orfanato é uma das coisas mais desprezíveis que há.

— Não me tinha ocorrido. - As mãos da Theodosia tremiam. Juntou-as para controlar seus movimentos. Desejava com tanto ardor que aquela nova informação tivesse algum sentido que não se atrevia a esperar muito. Não obstante, estava tão perto de render-se à dor que tinha que aferrar-se a ela. — Poderia... poderia ser, não...?

Vespasia não teve a coragem de negá-lo, apesar de intuir que pudesse não ser certo. Naquele momento talvez fosse mais importante dar uma alegria a Theodosia que dispor de uma verdade provável. Era necessário que sobrevivesse.

— Sim - assentiu. — Primeiro procuraremos alguma outra referência. Depois o levarei ao Thomas para ver o que opina.

— Refere-se ao delegado Pitt? - A esperança se apagou do rosto da Theodosia.                   — Está certo de que Leon era culpado.

— Se o conto me escutará.

Vespasia tingiu sua voz de uma convicção absoluta que não sentia.

— Sim?

Theodosia se aferrou a isso.

— Com certeza. Vamos ver se achamos algo mais.

Em outras duas horas de leitura meticulosa de todos os papéis da escrivaninha e das gavetas do armário só acharam um documento que parecesse ter alguma relação com o anterior. Tratava-se de uma carta datada umas duas semanas antes.

 

“Estimado senhor Cadell:

Possivelmente me exceda em meu zelo, mas me preocupa a quantidade de dinheiro destinada ao orfanato do Kew. Reli as contas e me parece necessário submetê-las a uma avaliação mais detalhada. Expu-lo uma vez em comitê, mas minha observação foi desprezada.

É claro que existe a possibilidade de que ignore o custo real da vida, mas lhe agradeceria sua opinião. Espero poder comentar-lhe no momento que melhor lhe convenha.

Seu humilde servidor, Brandon Balantyne.”

 

Theodosia o considerou tão alentador que Vespasia não teve ânimos para indicar a trivialidade quase segura do assunto.

— Levará isso ao delegado Pitt? - insistiu a primeira.

— É claro.

— Em seguida?

— Passarei a vê-lo antes de voltar para casa - prometeu Vespasia, — mas agora mesmo a que me preocupa é você, querida. Tem certeza de passará bem a noite? Se quer volto. Não seria nenhum aborrecimento. Posso mandar que me tragam roupa limpa sem a menor dificuldade.

Theodosia vacilou.

— Não... Terei que me acostumar... Acredito que...

Ficou calada, e Vespasia decidiu por ela.

— Voltarei depois de ter falado com o Thomas. Não sei quanto demorarei, porque é possível que não o encontre em seguida. Não me espere para jantar, por favor. Comerei com muito gosto algo que me prepare a cozinheira.

— Como quiser - disse Theodosia com expressão de profunda gratidão. — E... obrigada!

Apesar do dito, Vespasia achou Pitt em seu escritório do Bow Street. Todos consideravam fechado o caso, e o delegado se via na obrigação de encarregar-se dos muitos casos surgidos enquanto o assassinato do Bedford Square e a chantagem absorviam todo seu tempo. Alegrou-se de ver a Vespasia.

Ela observou com receio a quantidade de papéis amontoados em sua escrivaninha.

— Vejo que o interrompo - disse com afável sarcasmo. — Quer que espere e passe a vê-lo em casa?

— Por favor! - Pitt trocou a posição da cadeira que segurava para ela. — Não pode haver nada mais urgente que vê-la.

Parece que o seja bastante - observou ela com um sorriso, tomando assento. — Urgente e bastante árduo. Não o entreterei muito.

— Fique tranqüila. - Lhe devolveu o sorriso, e pela primeira vez em várias semanas lhe brilharam os olhos. Voltou a ocupar seu próprio assento. — Terei que me arrumar com o que me dedique. O que ocorre?

Ela suspirou e lhe apagou o bom humor.

— Quase certo que nada, mas ao revisar os papéis de Leon Cadell descobri algo em comum entre todas as vítimas, algo que no mínimo preocupava a uma delas. A que recebeu a acusação mais cruel.

— Balantyne? - Pitt fez expressão de surpresa. — Do que se trata?

Ela extraiu de sua bolsa a carta e o memorando com o cabeçalho do clube Jessop e entregou-lhe ambas as coisas. Ele leu-as atentamente e voltou a olhá-la.

— Um orfanato? E o que me diz dos outros dois, Bairstow e Cameron? Também são vítimas?

— Não tenho nenhum motivo para supô-lo, e sim para acreditar que nem o são nem podem sê-lo - respondeu ela. — Diz Theodosia que Bairstow envelhece e Cameron abandonou a Inglaterra pelo estrangeiro. Ficam os membros do comitê que conhecemos. -Observou com atenção o rosto de Pitt e percebeu uma faísca de interesse, acompanhada por uma ligeira mudança em sua expressão. — Me fará o favor de investigá-lo, Thomas? Faça-o pela Theodosia. Dou-me conta de que é muito pouco verossímil que seja mais do que parece, uma boa causa a que contribui um grupo de cavalheiros que pertencem ao mesmo clube, mas quero muito a Theodosia e também me custa e me dói acreditar que Leon fosse culpado de chantagem e suicídio. Sinto o impulso de indagar em todas as possibilidades de que não seja assim, por remotas que pareçam.

Gostava muito pouco de pedir favores. Pela cara que pôs Pitt, viu que se dava conta.

— Não se preocupe. Amanhã irei ao Kew, pedirei que me mostrem os livros e enviarei a alguns homens para que comprovem o do Bairstow e Cameron. Cornwallis não porá reparos.

— Obrigado, Thomas. Agradeço-lhe isso muito.

Vespasia se levantou para partir. Tinham sido dois dias exaustivos e quase não conservava forças para fazer frente à volta a casa da Theodosia e as horas de vigília necessárias para lhe oferecer consolo e companhia. Só podia compartilhar a pena de sua afilhada, não aliviá-la, mas o exigia o carinho.

O dia seguinte foi esplêndido. Continuava a onda de calor, mas se tinha clareado um pouco a atmosfera e de vez em quando corria uma rajada de brisa. As ruas e os parques estavam cheios de passeantes, e no rio havia dezenas de barquinhos, vapores de recreio, trasbordadores e qualquer classe de embarcação que se mantivera a flutuação. Tudo eram cantos, realejos e flautins. As crianças gritavam, e de vez em quando se ou