Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A ATRIZ / Mônica de Castro
A ATRIZ / Mônica de Castro

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A ATRIZ

 

Estava apertando a dor de saber-se abandonada por aqueles com quem convivera tantos anos. Mas ela jamais retornara a terra para saber o que fora feito dos seus. Como podia agora esperar que se lembrassem dela, se ela mesma os havia esquecido?

Balançou a cabeça vigorosamente, tentando afugentar as lembranças, e alcançou o portãozinho do jardim, surpreendendo-se com a presença de sua mentora e amiga parada à sua porta.

— Sílvia! — exclamou. — Que surpresa boa. Vamos entrando.

Sílvia sorriu carinhosamente e beijou Tália no rosto, seguindo-a para dentro de casa. Sentou-se num sofazinho cor-de-rosa que havia perto da janela e esperou até que Tália se acomodasse a seu lado.

— Muito bem — falou Tália, apertando os braços gelados e sentindo uma repentina tontura. — Essa visita inesperada tem algum motivo especial?

— Receio que sim — respondeu a amiga, fitando Tália com uma expressão indefinível.

— Do que se trata?

— Trata-se de você. Seu corpo está sendo encontrado na terra, neste exato momento.

Com ar de assombro, Tália se encolheu toda e desatou a chorar, sentindo na pele uma umidade glacial.

— Como isso é possível?

— Não está se sentindo estranha?

— Tenho calafrios... E as lembranças de minha vida na terra surgiram repentinas... Mas não pensei estar ainda ligada ao corpo físico.

— Você não está ligada. O pensamento de certa pessoa foi que formou uma ponte energética com você, trazendo-lhe as impressões do que tem se passado na terra.

— Uma pessoa? Quem?

De repente, Tália viu-se transportada, ao lado de Sílvia, para o casebre onde seus ossos jaziam esquecidos. Algumas árvores penetravam pelas janelas destruídas, e o teto desabara quase por completo. O mato praticamente se fechara sobre o pequenino chalé e formara uma parede quase impenetrável ao redor. Alguns homens, com machados e marretas, estavam derrubando a porta, emperrada pelas dobradiças enferrujadas.

A golpes de machado, os homens derrubaram a porta e entraram. A sala estava toda em ruínas, com os móveis comidos e apodrecidos pelo vento e a chuva. Os homens penetraram devagar e foram percorrendo os ambientes do primeiro andar, passando pela sala, depois a cozinha e o lavabo minúsculo. Um deles se adiantou e experimentou o primeiro degrau da escada de madeira, que rangeu sob seus pés.

— Vai subir? — perguntou Márcio, um dos rapazes.

— É perigoso — respondeu outro.

— Vou subir. Se há alguma possibilidade de que o corpo de minha avó esteja lá em cima, quero descobrir.

Tália sentiu um choque. Como assim, avó? Buscou os olhos de Sílvia, que apertou a sua mão e esclareceu com voz carinhosa:

— Sim, Tália, é o seu neto que está aí. Seu neto Eduardo, que hoje está com vinte e três anos de idade.

Com olhos úmidos, Tália se aproximou do neto, que sentiu um leve arrepio e foi envolvido por estranha emoção.

— O que houve Edu? — indagou Márcio. — Não está se sentindo bem?

— Não é nada.

Deixando de lado a emoção, Eduardo firmou o pé no degrau e começou a subir. A escada ia rangendo e alguns degraus afundaram, fazendo com que todos se sobressaltassem, inclusive Tália.

— Não se preocupe — sossegou Sílvia. — Ele não vai cair.

Tália agradeceu com o olhar e subiu com Sílvia atrás do neto. Eduardo chegou ao andar de cima e olhou para baixo, onde os outros o fitavam ansiosos.

— E aí? — perguntou alguém. — Tem alguma coisa?

— Vou olhar agora — respondeu Eduardo, virando-se para um segundo andar destruído e escorregadio.

A escada terminava numa espécie de saleta, com três portas ao redor. Intuitivamente, Eduardo se dirigiu à do meio e empurrou. A porta imediatamente cedeu indo ao chão com estrondo e fazendo com que todos lá embaixo começassem a gritar.

— Não foi nada — avisou ele, para acalmar os amigos. — Apenas uma porta que caiu.

Com certa ansiedade, Eduardo passou por cima da porta e entrou no quarto frio e úmido, tomando cuidado com as tábuas soltas no soalho.

Olhou de um lado a outro e viu algo envolto em trapos, sobre o que parecia ser uma cama de ferro. Tentando controlar os passos, caminhou para lá, e lágrimas lhe vieram aos olhos ao contemplar aquela estranha visão. Misturados aos trapos sujos, vários ossos se encontravam dispostos, formando um corpo humano perfeito.

— Edu!

— Eduardo!

— Diga alguma coisa, cara, estamos preocupados!

Os amigos não paravam de chamar, mas Eduardo não conseguia responder, fascinado que estava com aquela fantástica descoberta. No plano astral a seu lado, Tália chorava muito, fitando, pela primeira vez, os restos do que um dia fora o seu corpo. O neto, sem saber, captou-lhe as impressões e chorou também. Ajoelhado ao lado do colchão desmanchado, passou os dedos de leve sobre os ossos e soltou um suspiro.

— Ah! Minha avó, então foi aqui que você se meteu, hein?

Em poucos instantes, Márcio alcançou o quarto e acercou-se de Eduardo.

— Puxa Edu! Porque não respondeu? Estávamos preocupados... — calou-se espantado, vendo o monte de ossos aos pés do amigo. — É... É a sua avó?

— É o que parece. Mas só um teste de DNA poderá nos dizer.

— Meu Deus! O que vamos fazer?

— Recolher os ossos, dar uma olhada em tudo e ir embora. O resto é com o laboratório.

Márcio foi correndo, na medida do possível, para buscar uma caixa. Voltou poucos instantes depois e ajudou Eduardo a colocar os ossos lá dentro. Com cuidado, foram fazendo o caminho de volta, escolhendo as tábuas em que deveriam pisar para não cair. Os amigos embaixo ajudaram a descer o caixote, e Edu e Márcio desceram em seguida.

— Pronto — disse Eduardo, batendo as mãos para limpá-las. — Missão cumprida.

— Será que é mesmo a sua avó que está nessa caixa? — indagou um dos rapazes.

— Edu vai mandar fazer um teste de DNA — disse Márcio. — Não vai, Edu?

— Vou sim. Ainda que minha mãe não queira nem saber, tiro o meu sangue e mando analisar tudo. Tenho que descobrir.

Ao ouvir aquelas palavras, Tália fitou Sílvia com ar de interrogação.

— Faz muito tempo que você desapareceu — esclareceu Sílvia. — Ninguém nunca soube do seu paradeiro. Pensaram que você havia largado tudo e sumido no mundo. Depois de algum tempo, começaram a desconfiar que você havia morrido. Procuraram daqui, indagaram dali, até detetive contrataram, mas ninguém conseguiu descobrir nada.

— Nunca encontraram esse lugar?

— Como poderiam? É longe de tudo, da cidade e das fazendas. Quando você comprou este sítio, usou seu verdadeiro nome, lembra-se? Maria Amélia Silveira Matos. Naqueles tempos sem televisão, quem é que ouviu falar em Maria Amélia?

— Mas ninguém nunca nem desconfiou de que eu poderia ter-me escondido aqui?

— Como, Tália? Por que viriam a esse fim de mundo para procurá-la? Você nunca contou que havia comprado esse sítio.

— É verdade... — lamentou-se com pesar. — E como foi que me descobriram agora?

— Um homem comprou as terras vizinhas e se interessou por estas. Foi ao cartório da cidade, mandou fazer uma pesquisa e descobriu que o sítio havia sido comprado por uma tal de Maria Amélia Silveira Matos. Tampouco ele sabia quem você era, mas não foi difícil descobrir. O detetive por ele contratado investigou e descobriu que Maria Amélia era o nome verdadeiro de uma antiga e famosa vedete, Tália Uchoa, desaparecida na década de 1950. Com essa informação, o resto foi fácil. Ele achou a sua filha no Rio de Janeiro, e ambos chegaram à conclusão de que a assinatura no livro do cartório era mesmo a sua. Sua filha vendeu as terras sem nem titubear, mas seu neto, fascinado com as suas histórias, pediu para vir averiguar. O resto, você mesma viu.

Tália chorava de emoção ao ouvir falar de pessoas e coisas que há muito enterrara em seu passado. Sentiu que havia perdido uma grande parte de sua vida e olhou para o neto, que ia longe com os amigos e a caixa contendo seus ossos.

— Minha filha... Pelo que pude perceber Diana não quer nem ouvir falar de mim.

— Ela ficou muito ressentida com o seu abandono e nunca conseguiu superar.

Tália balançou a cabeça, apertando os lábios para não soluçar, e indagou hesitante:

— Quem foi que a criou?

— O pai.

— Honório?

— Ela tem outro?

— Mas... Mas Honório não sabia que ele era o pai. Eu nunca contei...

— Você não contou, mas...

— Ione? — Sílvia assentiu. — Não pode ser! Ela me prometeu...!

— Você deixou uma filha órfã. O que esperava que ela fizesse?

— Não foi minha intenção abandoná-la.

— Mas a menina acabou ficando só, de todo jeito. Honório se revelou excelente pai, e Diana cresceu em um ambiente harmonioso e equilibrado, apesar de tudo.

— Ele criou Diana sozinho? Não acredito.

— Sozinho, não. Criou-a com a ajuda da esposa.

— Honório se casou? Quem diria... Com quem?

— Maria Cristina.

— O quê? Honório casou-se a minha irmã? Como ele pôde fazer isso comigo? Ele sabia que Maria Cristina e eu não nos dávamos bem.

— Pois ela se deu muito bem com ele, e melhor ainda com Diana.

— Não é à toa que minha filha me odeia.

— Ela não a odeia. Foi criada pela tia porque a mãe sumiu no mundo e a abandonou. Como esperava que ela se sentisse?

— Eu não a abandonei!

— Mas é nisso que ela acredita até hoje.

— A verdade se perdeu depois que eu parti...

— Cada coisa está no seu lugar, seguindo o curso que a natureza traçou. E depois, não vejo por que se preocupar com isso agora. Não foi você mesma quem quis assim?

— Não quis me matar — respondeu Tália acabrunhada.

— Mas você morreu e a vida teve que continuar sem você.

— Honório... — divagou Tália. — Foi há tanto tempo... Como será que ele está?

— Se essa pergunta é para mim, saiba que ele está muito bem, apesar da idade avançada.

— Ele ainda está vivo?

— Hã, hã.

— E Maria Cristina? E Ione? E... Os outros?

— Ele é o único que vive entre os encarnados. Os outros já partiram.

— Por que nunca os vi?

— Respeitaram a sua vontade de não ser incomodada e nunca a procuraram.

— E Honório?

— Está com mais de noventa anos e ainda goza de saúde regular para um homem de sua idade. Mas agora chega. Todos já se foram. Vamos embora também.

Tália olhou para a trilha aberta na mata por seu neto e os demais e percebeu que eles haviam desaparecido. Olhou mais uma vez ao redor e deteve o olhar por uns segundos a mais sobre o local em que seus ossos haviam jazido e sentiu o peito se confranger. Perdera uma parte importante de sua vida, enfurnada no astral como se ele fosse um campo de refugiados. Aquilo não era uma guerra. Os tempos de guerra eram parte do passado, assim como ela.

 

Maria Amélia e Maria Cristina sempre foram diferentes em tudo: na beleza, na inteligência, no temperamento, nos afetos. Enquanto Cristina, a mais nova, era extrovertida e alegre, linda, esbelta e adorada por todos, Amelinha era tímida e retraída, cheinha de corpo e nada simpática. Cristina era a preferida da mãe, Tereza, enquanto Amelinha era praticamente ignorada e tratada como se fosse uma aberração na família. Cristina era meiga e dócil, ao passo que Amelinha era agressiva e mal-humorada. Não gostava da mãe, nem do padrasto, que considerava um estranho, nem da irmã, a quem via como inimiga. Essa era a sua família, com quem vivia na pequena cidade de Limeira, no interior de São Paulo.

Naquela época, Amelinha acabara de completar treze anos, e Cristina estava para fazer onze. Amelinha não possuía amigas, e havia apenas uma menina com quem nunca havia brigado e com quem costumava conversar de vez em quando. Chamava-se Cássia e tinha um irmão, Elias, de quinze anos, que era o sonho de todas as mocinhas da cidade, inclusive de Amelinha, que o admirava em segredo.

Os garotos gostavam de se divertir e viam em Amelinha o alvo principal de suas piadas. Naquele dia, em especial, não foi diferente. Ao sair da escola e se despedir de Cássia, Amelinha notou que alguém a seguia e virou-se para trás, dando de cara com Elias, que a acompanhava à distância. Imediatamente, sentiu o rosto arder e estugou o passo, com medo de que ele pudesse ouvir o compasso acelerado de seu coração. Era um menino lindo, mas ela não tinha o direito de admirá-lo. Garoto feito Elias era para sua irmã Cristina, a quem ele logo estaria cortejando.

— Amelinha! — ele chamou por cima de seu ombro, caminhando quase a seu lado. — Espere Amelinha, quero falar com você.

Amelinha parou onde estava, sem se voltar, tentando ocultar-lhe o rubor que subia pelas suas faces.

— O que você quer? — tornou envergonhada e ao mesmo tempo, cheia de felicidade por estar falando com ele.

— Por que a pressa, Amelinha? Gostaria de conversar.

— Sobre o quê?

Ele se postou em sua frente e questionou com olhar significativo:

— Você não sabe?

— Não.

— Por que não vamos a algum lugar onde possamos conversar melhor?

Ela olhou ao redor e respondeu hesitante:

— Não sei... Minha mãe pode não gostar.

— Mas é só um instantinho.

— Por quê?

— Venha. É importante.       

— O que você pode ter de tão importante para me dizer? 

— Não quero falar aqui. Alguém pode nos ver.     

— E daí? O que tem isso?

— Venha Amelinha, por favor.         

Saiu puxando-a pela mão, e Amelinha deixou-se conduzir, completamente inebriada pelas palavras dele. Seria possível que ele estivesse interessado nela? Mas como? Elias nunca deixara transparecer nada. Ao contrário, sempre ria quando os outros meninos

debochavam dela e algumas vezes chegaram mesmo a lhe atirar piadinhas.

Sem nem se dar conta do lugar para onde ia, Amelinha ia seguindo-o em silêncio, presa na ilusão do conto de fadas que parecia estar prestes a viver. Na beira de um regato, Elias parou embaixo da árvore mais frondosa que havia por ali e encostou-a no seu tronco áspero e grosso. Mal acreditando no que acontecia, Amelinha não opôs nenhuma resistência. Estava tão inebriada pela paixão daquele momento que nem percebeu que não estavam sozinhos: em cima da árvore, dois moleques, amigos de Elias, espremiam-se entre os galhos e as folhas para não despertar a atenção.

— Muito bem... — balbuciou ela. — O que você quer?

— Sabe, Amelinha, eu estive pensando. Não é certo o que os garotos fazem com você.

— Não?

— É claro que não. Ficam rindo de você só porque é gordinha.

Em cima da árvore, os meninos abafaram uma risada, enquanto Amelinha não sabia se se zangava com o que Elias dissera ou se felicitava por estar ali ao lado dele, ouvindo suas palavras sinceras.

— Eu não penso como eles — sussurrou Elias, encostando os lábios em seus ouvidos.

— Não?

— É claro que não. Não creio que você seja gordinha. — encostou a boca na sua orelha e soprou, fazendo com que Amelinha sentisse arrepios por todo o corpo. — Nem acho você feiosa, nem sem graça. Também não a acho estúpida.

Amelinha achava que Elias não precisava ficar repetindo aquelas coisas, mas não ousou protestar. Se ele se zangasse e fosse embora, ela jamais se perdoaria. De cima da árvore, os outros garotos quase dobravam de tanto rir, esforçando-se ao máximo para não ser ouvidos.

— Na verdade, Amelinha — prosseguiu Elias, com voz melíflua, — não sei bem o que sinto por você. Quando a vejo, meu coração dispara.

— Você está falando sério? — ela mal podia acreditar. — Você gosta de mim?

— Hã, hã...

— Oh! Elias, você nem imagina a felicidade que estou sentindo. Pois eu sempre gostei de você!

— Não acredito.

— É verdade. Pensei que você não ligasse para mim, que fosse igual a todo mundo, mas agora vejo que não é.

— Não sou igual a todo mundo, Amelinha. Todo mundo a acha gorda e feia.

— Você não...

— Eu não acho.

— Você é maravilhoso, Elias! Acho que o amo... Estou apaixonada... Você é o garoto mais lindo da escola. Não! Da escola, não. Da cidade. Ah! Meu Deus será isso verdade?

— Sim. E eu é que fico o tempo todo pensando em como seria estar com você.

Enquanto falava, Elias ia roçando os lábios pelo seu pescoço e alisando o seu corpo, até que lhe tocou os seios.

— Não faça isso... — ela tentou protestar.

— Por quê? Não está gostando?

Amelinha não respondeu. Deixou que ele a acariciasse e a deitasse no chão, beijando-a por toda parte. Parecia que estava sonhando. Jamais, em toda a sua vida, sentira algo semelhante. Por um instante, ficou imaginando o que a mãe diria se a surpreendesse ali, mas não se importou. Aquele momento único valia todos os castigos e surras que pudesse levar. Mesmo que nenhum outro rapaz a quisesse depois daquilo, ainda assim, valeria à pena. Talvez até não precisasse mais de ninguém, porque Elias a amava e, certamente, iria se casar com ela quando os dois tivessem idade bastante.

Estava tão embevecida com Elias que se deixou acariciar e beijar, aproveitando ao máximo aquele momento de felicidade. Olhos fechados, sentia-se flutuando nas nuvens. Ao longe, ouvia os murmúrios do rapaz, que agora começava a levantar sua saia. Com um sorriso de prazer nos lábios, ela revirou o pescoço e entreabriu os olhos. Queria olhar o céu e se sentir, realmente, nas nuvens.

Mas não foi o céu que ela avistou. Por entre os galhos e folhas das árvores, não havia nenhuma nuvem a lhe deleitar a visão. Ao invés disso, dois garotos estavam deitados sobre os galhos, imóveis, um sorriso irônico nos lábios. Ao vê-los, Amelinha deu um salto, empurrando Elias para o lado.

— O que é isso? — espantou-se, recompondo-se e ajeitando o vestido. — O que vocês estão fazendo aí, seus moleques?

Na mesma hora, os garotos pularam para o chão, às gargalhadas, e Amelinha virou-se para Elias, certo de que ele a iria defender. Elias, porém, ria com os outros.

— Elias... — balbuciou ela. — O que está acontecendo? Do que é que você está rindo?

O garoto não respondeu, mas um dos meninos se adiantou e exclamou:

— De você, sua tonta!

— Apaixonada, hein? — debochou o outro. — O garoto mais admirado da escola, apaixonado pela mais gorducha. Será que dá para acreditar?

Amelinha sentiu o rosto arder. Olhou para Elias com ar de súplica, esperando que ele lhe dissesse que aquilo era mentira, mas ele nada disse.

— Diga que não é verdade, Elias — implorou. — Diga que você não está rindo de mim.

— E de quem mais poderia ser? — zombou Elias, com sarcasmo. — Da árvore? Não, deixe ver... Dos galhos das árvores, que criaram vida e pularam no chão às gargalhadas.

Enquanto falava, ia dobrando o corpo, apertando a barriga que já doía de tanto rir.

— Mas... Você disse que não era como os outros garotos... Que não pensava aquelas coisas de mim.

— Realmente. Não creio que você seja só feia, gorda e burra. Acho você horrorosa, balofa e, pelo que acabei de ver, uma tremenda idiota.

Ela não ouviu mais nada. Tapou os ouvidos e desatou a correr, chorando, o rosto enrubescido de vergonha e dor. Sentia-se traída e extremamente infeliz. Como fora estúpida! Então não via que garotos como Elias nunca se interessariam por meninas feito ela? Elias era o bonitão da escola, e todas as meninas se diziam apaixonadas por ele. Podia escolher quem quisesse. O que a fazia pensar que ele iria se interessar logo por ela? Como não percebera que tudo não passava de um embuste, uma armadilha para se divertirem às suas custas?

Pior seria no dia seguinte. Na certa, todos na escola ficariam sabendo, e a risada seria geral. Por que Elias fizera aquilo com ela? Por que tivera que ser tão cruel e sarcástico? Será que não tinha sentimentos?

Chegou a casa e entrou feito um furacão. A mãe estava na cozinha e a ouviu passar, chamando-a com voz estridente:      

— Maria Amélia, venha já aqui!        

Amelinha não respondeu. Atirou-se na cama e se deixou ficar, soluçando em desespero. Na cama ao lado, Cristina, debruçada sobre um livro, olhou-a com espanto e indagou aflita:

— Pelo amor de Deus, Amelinha! O que foi que aconteceu?

— Não seja cínica, Cristina! Aposto como você sabia de tudo!

Na mesma hora, Tereza entrou no quarto, ainda com a colher de pau na mão, e, vendo o estado da filha, indagou perplexa:

— O que foi que houve Amelinha? Aposto como fez alguma besteira, não foi? O que foi desta vez? Meteu-se em alguma briga? É isso que dá ficar por aí feito uma moleca. Se tivesse vindo para casa, nada disso teria acontecido.

Tomada pela revolta e o ressentimento, Amelinha não conseguiu responder. Ao contrário, chorava cada vez mais, até que Cristina resolveu intervir:

— Mãe, a senhora não vê que ela está nervosa?

— Não preciso que me defenda sua fingida! — esbravejou Amelinha, correndo para o banheiro e trancando a porta.

— O que deu nessa menina? — continuou Tereza, em tom de censura.

Cristina deu de ombros e retomou a leitura. Embora preocupada com a irmã, preferiu não dizer mais nada. Não entendia porque Amelinha não gostava dela e sentiu-se magoada com a sua atitude.

— Vai ficar sem almoço, ouviu? — berrou Tereza, da porta do banheiro. — Assim talvez aprenda a se comportar e não se atrasar na hora das refeições.

Só muito mais tarde foi que Amelinha apareceu, o estômago doendo de tanta fome, sem nada para comer. A despensa estava trancada. No forno, apenas algumas panelas vazias, e nada sobre o fogão. A mãe não estava por perto. Na certa, havia saído para fofocar com as vizinhas, como era seu costume.

Foi para o quarto e fechou a porta, atirando-se na cama, desolada. Cristina também havia saído. Terminara a lição de casa e fora brincar, de forma que ela podia ter alguma paz, acabando por adormecer. Quando acordou, já era noite, e do outro lado do quarto, a irmã mudava de roupa, olhando para ela sem dizer nada.

— Que horas são? — perguntou Amelinha.

— Quase sete horas. Melhor descer para o jantar, se não quiser que mamãe se aborreça. E não se esqueça de trocar de roupa. Está de uniforme até agora.

O tom arrogante de Cristina quase fez com que Amelinha gritasse, mas conseguiu se conter a tempo, com medo de que a mãe ouvisse e ralhasse com ela. Além disso, o padrasto, Raul, já estava em casa àquela hora, e ela não queria lhe dar nenhum motivo para puxar assunto. Não gostava dele, e, sempre que podia, evitava a sua companhia e a sua conversa.

Trocou-se rapidamente e desceu para o jantar. Todos já estavam sentados à mesa, e Tereza enchia de sopa o prato de Raul. Ela chegou em silêncio e sentou em seu lugar de costume.

— Já se lavou? — indagou Raul, reparando no seu rosto amassado.

Amelinha lançou um olhar breve para Cristina e respondeu sem muita convicção:

— Já...

— Ótimo — comentou a mãe. — Sabe que seu pai gosta de muita limpeza.

— Ele não é meu pai — murmurou Amelinha sem querer, levando um tapa na boca.

— Menina respondona! — vociferou a mãe. — Não foi essa a educação que lhe dei.

— Deixe Tereza — objetou Raul. — Amelinha não falou por mal, não foi, Amelinha?

— Ela apenas assentiu, sem encarar o padrasto. Ele parecia muito correto em tudo o que fazia. Era trabalhador e honesto, e não deixava que lhes faltasse nada. Acordava cedo e ia para a vidraçaria onde era gerente e, de vez em quando, trazia-lhes alguns bombons, que a mãe não a deixava comer. Esperava que ela fosse para o quarto e dividia os bombons entre ela e Cristina, alegando que era para Amelinha não engordar ainda mais. Nas primeiras vezes, Cristina tentou lhe dar alguns, mas ela recusou com veemência. Na certa, a irmã fazia aquilo para, mais tarde, poder contar à mãe que ela comera sem autorização.

— Enquanto jantavam, Amelinha sentia os olhares do padrasto sobre ela, o que lhe causava imenso mal-estar. Por mais que Raul se esforçasse, ela não conseguia gostar dele. A irmã e ele pareciam se dar muito bem, mas Cristina sempre fazia de tudo para agradar a mãe. Dar-se bem com o padrasto era algo que satisfazia muito Tereza, certa de que encontrara o pai ideal para suas filhas.

 

No dia seguinte, Amelinha ainda tentou se fingir de doente, mas não adiantou. A mãe não se deixou convencer e obrigou-a a ir à escola. Se ela não tinha nenhum motivo bastante sério para faltar, então que se aprontasse e fosse. Muito a contragosto, Amelinha teve que obedecer. Era costume Amelinha se retardar alguns minutos, só para não seguir em companhia de Cristina, mas, naquele dia, a irmã resolveu esperá-la. Amelinha não queria seguir com ela, mas não teve jeito. A mãe lhe daria outra bronca e gritaria que ela era uma irmã má e egoísta.

— Saíram juntas. Depois que dobraram a primeira esquina, Amelinha considerou mal-humorada:

— Por que não vai procurar suas amiguinhas, Cristina?

— Gostaria de saber o que aconteceu.

— Nada. Não aconteceu nada.

— Não é o que parece. Você está estranha desde ontem.

— Isso não é da sua conta! Garota intrometida, por que não se mete com a sua vida?

Cristina segurou as lágrimas nos olhos e adiantou o passo, indo ao encontro de outras meninas que caminhavam mais à frente. Amelinha tinha certeza de que a irmã a espionava e contava tudinho à mãe. Mas não iria mais lhe dar a chance de rir dela pelas costas nem de se fazer passar por boazinha diante da mãe e do padrasto. Ela não a enganava com aquela carinha de menina meiga. Era uma sonsa, cínica, fingida, a queridinha de todo mundo. Só porque era mais bonita, achava que podia tripudiar sobre ela. Cristina podia ser a mais bonita, mas não era a mais inteligente. Ninguém via isso porque não lhe davam chance de mostrar o que sabia. A mãe só estava interessada nas proezas de Cristina, e tudo que ela, Amelinha, fazia não servia para nada.

À medida que ia se aproximando da escola, seu coração começou a disparar. Parado no portão de entrada, Elias conversava com alguns garotos, dentre os quais, os dois da tarde anterior. Novamente, Amelinha sentiu o rosto arder, mas procurou se encher de coragem e avançou. Os meninos apontaram para ela e começaram a rir, e suas orelhas pareciam pegar fogo. Enquanto ia caminhando, mais e mais risadas se ouviam, agora de outras pessoas, inclusive de algumas meninas que ela nem conhecia. Entrou apressada e foi para a sala de aula sem falar com ninguém, fugindo dos deboches e dos risinhos.

Na hora do recreio, foi obrigada a sair para lanchar e reparou que todo mundo ria dela. Algumas pessoas nem sabiam da história, mas o só fato de estarem rindo fazia com que Amelinha pensasse que era dela que riam. Um grupinho de meninas da turma de sua irmã riu quando ela passou, o que a deixou furiosa. Cristina queria se fazer passar por boazinha, mas estava lá entre as zombeteiras.

Na saída, ao voltar para casa, encontrou Cristina à sua espera. A irmã acercou-se dela e tentou contemporizar:

— Por que não conversa comigo, Amelinha?

— Para quê? Para debochar de mim ainda mais, como tudo mundo está fazendo?

— Não tenho nada a ver com isso.

— Será que não? Não está se divertindo?

— Não.

Ela estacou e fitou a irmã com frieza.

— Mentirosa.

Virou-lhe as costas e seguiu para casa. Cristina não se aproximou mais. Foi caminhando atrás dela, sem chegar muito perto. Também já não agüentava mais levar tanto passa-fora. Amelinha entrou e, cinco minutos depois, Cristina também entrou. As duas foram lavar as mãos e trocaram de roupa, sentando-se para o almoço. Tereza estava alegre e puxava conversa com Cristina, praticamente ignorando a presença de Amelinha. Quando lhe dirigia a palavra, era para fazer alguma recriminação ou comentário maldoso, o que fazia com que ela odiasse Cristina cada vez mais. Por que só a irmã era perfeita, e ela era a que sempre fazia tudo errado?

Mais tarde, como sempre, Tereza terminou o serviço de casa e saiu para suas habituais conversas com as vizinhas. Voltou em seguida, furiosa, e adentrou o quarto das meninas com os olhos chispando fogo.

— Sua ordinária! — esbravejou, estalando um tapa na face de Amelinha. — Então eu me esforço para lhe dar uma educação decente, e é assim que você me paga? Fica por aí se esfregando com os garotos feito uma vagabunda?

— Não foi culpa minha — defendeu-se Amelinha, sem que a mãe lhe desse ouvido.

— E eu ainda tenho que escutar os comentários maldosos das vizinhas. Imagine a minha cara quando me contaram! Quase morri de vergonha. O que foi que você fez Amelinha?

— Não fiz nada...

— E ainda dá mau exemplo para a sua irmã, que é mais nova do que você.

— Mas eu não fiz nada!

— Por que não é como Cristina? Por que tinha que ser uma aberração? Não basta ser gorda e feia? Também tem que ser oferecida e vulgar? Ah! Mas isso não vai ficar assim. Espere só até seu pai chegar.

— Ele não é meu pai!

— Cale essa boca, menina ingrata! Será que não pode mostrar um pouco de reconhecimento pelo que Raul tem feito por nós? Por você, inclusive?

— Mamãe, tenha calma — intercedeu Cristina, vendo que a mãe ameaçava bater em Amelinha novamente.

— Não quero você metida nisso, filha. Você ainda é muito novinha para se envolver com essa sujeira.

— Mas Amelinha não fez nada...

— Não preciso que você me defenda sua cretina! — berrou Amelinha.

A mãe virou-lhe nova bofetada no rosto, gritando histérica:

— Cretina é você! Então não vê que sua irmã ainda está tentando ajudá-la?

— Não preciso da ajuda dela! Não preciso da ajuda de ninguém!

Desvencilhando-se da mãe, Amelinha correu porta afora, esbarrando em Raul, que vinha chegando do trabalho.

— O que foi que houve? — perguntou ele. — Por que a pressa?

— Solte-me! Largue-me! Deixe-me ir!

Tereza veio correndo, seguida por Cristina, e esclareceu com raiva:

— Essa safada... Você não sabe o que essa safada fez Raul!

— O quê?

— Andou se esfregando por aí com um garoto.

— Como? Não acredito. Amelinha não faria uma coisa dessas.

— Pois é verdade. E sabe como eu descobri? A Gertrudes me contou. Logo ela, aquela fofoqueira. A filha dela estuda na mesma escola que Amelinha e disse que o comentário do dia foi esse: que Amelinha ficou se insinuando para o rapaz, que é homem, e você sabe como os homens são suscetíveis a essas coisas. A sorte foi ter aparecido alguém, ou ela teria se perdido!

— Amelinha — chamou Raul, em tom extremamente sério. — Isso é verdade?

— Não...

— É mentira! Sei que aconteceu!

— Não, não! Não fui eu. Foi ele que começou a me beijar e...

— E você bem que gostou, não foi, sua sem-vergonha?

— Eu não sabia... Pensei que não fizesse mal...

— Quer saber o que eu acho Tereza? — interrompeu Raul, com ar mais amistoso. — Que isso é coisa de criança. Logo passa.

— Criança? Amelinha já é uma moça!

— É verdade que Amelinha já está ficando uma mocinha, mas ainda é uma criança. E você não devia se importar com essas fofocas, Tereza.

— O quê? E o que acha que eu devo fazer? Nada?

— É isso mesmo. Não faça nada. Não dê importância e você vai ver como o assunto acaba. — Tereza fez cara de assombro, mas Raul não se deixou impressionar. — E agora, por que não vamos todos jantar? Estou morrendo de fome.

Apesar do espanto, Tereza não contestou. Raul era o homem da casa agora, e não ficava bem discutir com ele na presença das filhas. Mais tarde, quando já estavam recolhidos, ela retomou o assunto, mas ele parecia disposto a manter sua decisão.

— Você está sendo muito dura com ela.

— Mas Raul, ela quase se entrega ao rapaz!

— Aconteceu alguma coisa?

— Ao que parece, não. Mas estão todos falando.

— Pois então, deixe isso para lá. Se você não alimentar a fofoca, ela míngua e morre.

— Isso não está direito, Raul. Nossa filha, de sem-vergonhice com aquele moço.

— Ela é só uma criança.

— Ela não é mais criança! Já ficou até mocinha.

— Se é assim, por que não conversa com ela e não a esclarece sobre certas coisas?

— Eu?! Você sabe como é Amelinha. Ela não vai me ouvir.

— Francamente, Tereza, acho que você é que não tem paciência com ela. Só a vejo recriminando-a.

— É que ela não faz nada direito. Só pensa em comer e engordar.

— Você não repara mesmo em sua filha, não é? Ela está crescendo e botando corpo de mulher.

Tereza abriu a boca, indignada, e mudou o tom de voz:

— O que quer dizer com isso?

— Quero dizer que sua filha está virando mulher e você nem percebe.

— Ainda há pouco você disse que ela era só uma criança.

— É uma criança porque só tem treze anos, mas suas formas já estão mudando. A gordura da infância está dando lugar a curvas de mulher.

— Você reparou nisso?        

— Só um cego para não reparar.

Havia algo no tom de voz de Raul que deixou Tereza preocupada. Ele falava de Amelinha com uma admiração que a impressionou. Seria possível que Raul estivesse de olho na menina? Não, não era possível. Amelinha era apenas uma criança, e Raul, um homem de mais de quarenta anos. Além disso, era decente e honesto, não um daqueles tarados que se aproveitavam das enteadas para lhes fazer mal. Raul não era desse tipo. Ou será que era?

Se fosse, era preciso dar um jeito naquela situação. Ela já estava ficando velha, e era só o que lhe faltava perder o homem para a filha. Não, de jeito nenhum perderia seu marido. Se alguém tinha que ir embora dali, que fosse Amelinha. Tinha certeza de que Amelinha era culpada de tudo aquilo. Como estava crescendo, aproveitava-se de sua juventude para provocar os homens, inclusive o padrasto. E ela, que sempre julgara a filha uma feiosa, agora estava em dúvida. Seria ela assim tão feia a ponto de não despertar o interesse de nenhum homem? Para uma menina feia, até que já se envolvera com homens demais em tão pouco tempo. Primeiro, com o colega de escola. Agora, com Raul. Ainda que o menino estivesse apenas caçoando dela, será que a teria escolhido se ela já não apresentasse formas de mulher?

Tereza não disse mais nada. Tinha medo de falar e chamara atenção de Raul. Talvez ele apenas estivesse tentando defender a menina, nada mais. De qualquer forma, era bom não facilitar. Daquele dia em diante, não deixaria mais Amelinha sozinha com ele. Não lhe daria a oportunidade de estragar o seu casamento.

 

Conforme prometera a si mesma, Tereza não deixou mais Amelinha e Raul a sós. Daquele dia em diante, passou a reparar mais na filha. Realmente, suas gordurinhas iam aos poucos desaparecendo e, em seu lugar, curvas femininas e graciosas iam surgindo. Amelinha nem se dava conta dessas transformações. Tudo o que sabia era que nem a mãe, nem a irmã, gostavam dela, e os colegas da escola então, praticamente a detestavam.

Mas não foi apenas por Raul que as mudanças no corpo de Amelinha foram percebidas. Muitos dos rapazes também já começavam a reparar nela, principalmente os mais velhos. Amelinha nunca foi magra, mas deixava de ser gorda. A cada dia, tornava-se uma moça mais bonita, de formas voluptuosas que passaram a despertar o interesse de vários homens da região. O próprio Raul vivia alertando Tereza dos perigos de deixar Amelinha solta pelas ruas, pois o seu jeito ingênuo ainda acabaria lhe trazendo problemas.

Tereza considerava excessiva aquela preocupação, mas não dizia nada. Tinha horror de que Raul soubesse de suas desconfianças e, mais ainda, de despertar nele qualquer desejo ainda não reconhe

cido. Suas atenções voltavam-se todas para o marido, sem se importar com o que poderia acontecer a Amelinha. Estava tão cega de ciúme que não dava importância ao que ele dizia. Para ela, suas palavras demonstravam um interesse latente pela filha, e era só isso o que lhe importava.

Foi num dia, na volta da escola, que Amelinha percebeu, pela primeira vez, o desejo que despertava nos homens. Os garotos mais jovens, ainda acostumados a zombar de sua gordura, mal tinham notado as transformações de seu corpo. Mas os homens mais maduros não podiam deixar passar despercebida tanta mudança.

Como de costume, Amelinha despediu-se de Cássia na esquina e seguiu sozinha para casa. Muitos passos atrás, Cristina vinha conversando com uma amiguinha e, de vez em quando, olhava para a irmã, que caminhava apressada, a fim de que ela não a alcançasse. Por onde passava, Amelinha causava certo impacto nos homens, e vários foram os que se viraram para admirá-la. Mas Amelinha só notou mesmo quando o Chico, um mecânico bêbado que consertava caminhões, mexeu com ela quando passou.

— Fiu! Fiu! — assobiou excitado.

A primeira reação de Amelinha foi de indignação. Como aquele homem, um bêbado sem-vergonha, se atrevia a assobiar para ela? Amelinha parou e se virou para ele, pronta a lhe dizer um desaforo, quando ele, passando a língua nos lábios, prosseguiu em tom lúbrico:

— Mas que gostosinha! Eta garotinha boa!

Ela achou aquilo um desrespeito, mas, naquele momento, algo despertou dentro de si. Chico podia ser um bêbado, um vagabundo que nem sabia consertar direito os caminhões que lhe levavam, mas, assim mesmo, era um homem. Um homem que, apesar da linguagem chula e da grosseria, achara-a, pelo menos, interessante.

— Está falando comigo, seu Chico? — retrucou ela, entre indignada e envaidecida.

— Estou. Por quê? Você gostou? — disse ele, aproximando-se mais de Amelinha.

Assustada, ela desatou a correr. Não sabia bem o que ele queria, mas, certamente, não podia ser boa coisa. Aproximara-se dela com um estranho brilho no olhar, e ela se sentiu despida diante dele. O que será que pretendia? Entrou em casa correndo e ofegante, e a mãe ralhou com ela, como sempre:

— Será possível que você só vive correndo? Veja se sossega ou vai acabar derrubando alguma coisa.

Nem uma palavra sobre o que estaria se passando. A mãe não se importava mesmo com nada que lhe acontecesse. Amelinha achava que podia até ser atropelada, que a mãe nem ligaria. Logo após, Cristina também entrou, muito séria e calada.

— O que você tem minha filha? — perguntou Tereza, aproximando-se de Cristina e tomando-a nos braços. — Está sentindo alguma coisa?

— Não, mãe, estou bem — respondeu Cristina, olhando Amelinha de um jeito estranho.

— Por que está tão séria?

— Estou com fome.

— Ufa! Pensei que estivesse passando mal. Amelinha não pôde deixar de sentir uma pontada de ciúme. Ou melhor, de inveja. Não havia acontecido nada com a irmã, mas a mãe se preocupava só porque ela não entrara com seu habitual riso de hiena. Enquanto ela, assustada com a atitude do Chico, não merecera sequer uma palavrinha de interesse ou preocupação.

— Vão lavar as mãos — ordenou Tereza, alisando os cabelos de Cristina. — O almoço está quase pronto.

Em silêncio, as duas se dirigiram para o banheiro. Amelinha empurrou Cristina para o lado e ocupou a pia em primeiro lugar, ensaboando as mãos vigorosamente, esfriando a raiva que sentia pela irmã ser tão querida.

— Vi você hoje falando com seu Chico — comentou Cristina, olhando-a pelo espelho. — O que vocês estavam conversando? — Amelinha não respondeu. — Mamãe não vai gostar de saber. Ela diz que seu Chico é um bêbado vagabundo...

— Por que não se mete com a sua vida? — retrucou Amelinha, encarando-a com ar feroz.

— Estou apenas tentando avisá-la. Se mamãe souber que você andou falando com ele...

— E quem vai contar? Você? Vamos, pode ir. Vá correndo fazer o seu papel de queridinha da mamãe.

Cristina olhou-a magoada e saiu do banheiro sem lavar as mãos. Amelinha sentiu vontade de contar à mãe que Cristina não se lavara, mas achou melhor não dizer nada. A mãe não acreditaria ou inventaria uma desculpa para não punir Cristina. Almoçaram em silêncio. A cada palavra de Tereza para Cristina, Amelinha se sobressaltava, com medo de que a irmã dissesse algo sobre seu encontro com Chico. Mas Cristina nada disse e permaneceu quieta, apenas respondendo às perguntas triviais que a mãe lhe fazia.

No dia seguinte e nos outros também, Chico continuou a mexer com Amelinha, assobiando e atirando-lhe piadinhas de mau gosto quando ela passava. Embora não lhe respondesse nem parasse mais para falar com ele, Amelinha, no fundo, apreciava aquelas investidas. Chico podia não ser bonito nem perfumado, mas era um homem e estava interessado nela. Não que Amelinha tivesse algum interesse nele. Apenas gostava de sentir-se admirada por alguém, ainda que por um bêbedo asqueroso e nojento.

Aos pouquinhos, Chico foi-se deixando dominar pela imagem de Amelinha, e um desejo surdo foi tomando conta de seu corpo. Acostumara-se a ficar na porta da oficina só para vê-la passar. Assim que a avistava, soltava as ferramentas e colocava-se de prontidão. Amelinha, por sua vez, estufava o peito quando o via e empinava o bumbum, requebrando os quadris mais do que o habitual. Fazia isso sem maldade alguma, apenas por instinto, esbanjando uma feminilidade quase animal. Amelinha ia se transformando numa moça bonita, bem-feita de corpo e muito, mas muito sensual para os seus poucos treze anos. Só que não se dava conta disso. Sequer sabia que podia ser assim.

Todas às vezes, Cristina vinha atrás e presenciava aqueles momentos. Amelinha passava toda rebolativa, e seu Chico assobiava e mexia com ela. Embora não aprovasse aquele comportamento da irmã, Cristina não dizia nada, com medo de sua reação pouco amistosa. Pensou em contar à mãe, mas também desistiu, pois Amelinha acabaria apanhando e ficaria com mais raiva dela ainda. Cristina também não imaginava o que poderia acontecer, mas, pelo que todos diziam seu Chico não era flor que se cheirasse, e elas não deveriam se aproximar.

O silêncio de Cristina só foi rompido no dia em que Chico tentou agarrar Amelinha. A menina, como sempre, vinha com seu requebro quando o homem se aproximou e meteu a mão na sua cintura, buscando beijá-la na boca. Apavorada, Amelinha tentou se soltar, mas ele começou a puxá-la para dentro da oficina e teria conseguido se Cristina, vendo a cena, não desatasse a correr e a gritar. Com medo de ser surpreendido, Chico soltou Amelinha, que ofegava assustada, e entrou apressado na oficina.

— Viu só no que deu dar conversa para esse homem? — ralhou Cristina, mais apavorada do que zangada.

— Meta-se com a sua vida! — foi a resposta irada de Amelinha.

Fosse como fosse, o susto serviu para pôr um freio em Amelinha. No dia seguinte, ao avistar Chico na porta da oficina, atravessou a rua e passou sem o encarar, e Chico também fingiu que não a vira. Foi assim nos outros dias também, até que Amelinha deixou de pensar em seu Chico e voltou a cruzar a frente da oficina, mas agora sem o provocar.

Chico, no entanto, não se esquecia da pele macia de Amelinha. Desde que a apertara por alguns segundos, vivia assombrado com a lembrança do seu corpo suave e fresco de menina-moça. Apesar de não mexer mais com ela e do seu fingido desinteresse, não havia dia em que, pelo canto do olho, não a observasse ao passar. Estava sempre pensando nela, numa maneira de atraí-la para sua oficina, mas não sabia como. Além do fato de ela ter passado a evitá-lo, ainda tinha a irmã. Aquela garotinha metida colocaria tudo a perder. Só se...

Balançou a cabeça para afastar aqueles pensamentos malditos, mas não conseguiu se desligar deles. Ficou observando Amelinha passar com o seu corpo ardente e se encheu de desejo. Mais atrás, veio a irmãzinha. Era ainda muito novinha, e ele percebeu dois pequeninos botões sobressaindo por debaixo da blusa. A menina, apesar de criança, já começava a botar peito, o que o encheu ainda mais de desejo. Por que não podia ter as duas?

Cristina, que ainda não despertara para as coisas do sexo, sequer virava o rosto para ele quando passava. Chico ficou observando-a também, imaginando como seria bom se pudesse deitar-se com ela. Embora seu desejo maior fosse por Amelinha, que já tinha corpo de mulher, não faria mal nenhum ter entre os lábios aqueles botõezinhos mal desabrochados.

Esses pensamentos o enchiam mais e mais de desejo. Todos os dias, lá vinham às duas. Amelinha, com a volúpia de um corpo ardente, e Cristina, com seus seios em miniatura soltos por debaixo da blusa. Resolveu atraí-las. Se conseguisse pegar Amelinha, a outra, com certeza, viria logo atrás. Esperou até ver Amelinha despontando na rua e escondeu-se atrás do balcão da oficina, tomando cuidado para que ela não o visse. Ao se aproximar, Amelinha estranhou não o ver parado ali, como era de seu costume, e já ia passando em frente à oficina quando ouviu um gemido alto vindo lá de dentro:

— Ai! Socorro! Alguém me acuda!

Amelinha olhou, mas não viu nada. Começou a seguir avante, mas a voz a deteve novamente:

— Socorro! Por piedade, acudam-me!

Ela estacou, apurando os ouvidos. Era mesmo muito estranho que seu Chico não estivesse ali, e Amelinha espiou mais de perto. A oficina parecia escura e deserta, e ela deu um passo para dentro. Da porta, ainda teve tempo de olhar para Cristina, que se aproximava rapidamente, e entrou hesitante:

— Olá! Tem alguém aí? O senhor está aí, seu Chico?

— Acuda-me, menina! — implorava a voz, de trás do balcão. — Estou ferido.

Sem pensar em nada, Amelinha largou a pasta escolar e correu para lá. Chico estava sentado, encostado no balcão, com as mãos nas costas, como se estivesse sentindo dor.

— O senhor está bem?

— Eu caí e me machuquei. Pode me ajudar a levantar?

Certa de que ele estava mesmo ferido, Amelinha aproximou-se, estendendo as mãos para ajudá-lo a se levantar. Na mesma hora, ele segurou suas mãos e puxou-a para si, derrubando-a de joelhos no chão. Rapidamente, subiu em cima dela, prendendo-lhe o corpo sob o seu, e tapou a sua boca com um pedaço de pano sujo. Com uma agilidade fora do comum, Chico apanhou uma corda, estrategicamente colocada perto de onde eles estavam, e amarrou as mãos de Amelinha atrás do corpo.

Bem a tempo. Como era de se esperar, Cristina surgiu logo atrás. Vira Amelinha parar defronte à oficina e olhar para dentro, entrando logo em seguida. Cristina não gostou nada daquilo e estugou o passo. Parou no mesmo lugar em que Amelinha antes parará e espiou para o interior da oficina, mas não viu nada. Da porta, chamou baixinho:

— Amelinha, onde está você? Deixe de brincadeiras e vamos embora. Mamãe vai ficar zangada...

Das sombras, o vulto de Chico saltou sobre ela, puxando-a para dentro e trancando a porta com rapidez. A rua não era muito movimentada, mas, mesmo assim, alguém poderia vê-los. Na oficina mal iluminada, Cristina começou a tremer, olhando para a porta, agora trancada.

— Onde está minha irmã? — perguntou ela trêmula. — O que o senhor fez com ela?

— Acha que sua irmã está aqui? — respondeu ele, passando a língua nos lábios como sempre fazia quando ardia de desejo.

— Eu a vi entrar. Onde ela está? Amelinha! Amelinha! Responda!

— Pode procurá-la, se quiser.

Ele começou a se aproximar, e Cristina foi chegando para trás, olhando ao redor, buscando para onde fugir. Foi quando ouviu um gemido abafado vindo de trás do balcão, seguido de um baque surdo na madeira. Instintivamente, correu para lá e encontrou Amelinha amarrada e amordaçada no chão, chutando o balcão com vigor.

Sem dizer palavra, Cristina se abaixou ao lado dela e tentou tirar-lhe a mordaça, mas não teve tempo.

Chico segurou-a por trás e deitou-a no chão, quase ao lado de Amelinha. Atirou-se sobre ela e começou a rasgar seu uniforme, procurando-lhe os seios miúdos com a boca. Cristina começou a chorar e a implorar que ele a soltasse, mas ele nem se importava com as suas lamúrias. De onde estava Amelinha chorava também e tentou acertá-lo com um chute, mas ele parecia nem sentir. Divertia-se imensamente com aquela situação e falou com cinismo:

— Não precisa ficar com ciúmes, minha querida. Logo lhe darei o que você quer.

Não demorou muito, ele levantou a saia de Cristina e, violentamente, a estuprou. Cristina chorava desesperada e soltou um grito agudo de dor quando ele a penetrou com violência, enquanto Amelinha se debatia, tentando em vão acertá-lo com os pés. Quanto mais elas lutavam e gritavam, mais ele se divertia, investindo furiosamente contra o corpinho franzino de Cristina, apertando e mordendo os seus seios. Ela era tão pequenina que quase sumia debaixo dele, até que não agüentou mais e acabou desmaiando de dor, ao mesmo tempo em que ele dava por encerrado o seu trabalho com ela.

— Agora é a sua vez — disse para Amelinha, aproximando-se dela e retirando-lhe a mordaça. — Deixei o melhor para o final.

Em breve, repetiu aquela cena grotesca. Deitado sobre o corpo de Amelinha, que, amarrada, quase não podia oferecer resistência, estuprou-a com ainda mais ferocidade do que havia usado com Cristina. A menina chorava e se debatia, mas não conseguia se desvencilhar. Chico fez de tudo com ela: bateu, mordeu, seviciou-a... Ouvindo os seus gritos e o seu pranto, Cristina voltou a si, mas não conseguiu se mexer. Não havia apanhado, mas o corpo todo lhe doía, como se lhe tivessem arrancado as entranhas. De onde estava, ficou vendo Chico estuprar a irmã, chorando desconsolada.

Quando ele acabou, levantou-se triunfante e pôs-se a vestir-se em silêncio, olhando de uma para outra e sorrindo ironicamente. Enquanto terminava de afivelar o cinto, ouviu a voz hesitante e trêmula de Amelinha:

— Você vai pagar por isso... Vai para a cadeia...

Ele não respondeu. Terminou de se aprontar e virou as costas para elas, indo apanhar uma pequenina mala que estava escondida a um canto da oficina. Olhou para as duas e respondeu com desprezo:

— Ninguém vai colocar as mãos em mim. Vou-me embora desse lugar maldito, onde ninguém me trata feito gente, mas não sem antes me aproveitar da única coisa que presta por aqui.

Cuspiu no chão com desdém e abriu a porta da oficina, saindo para a rua e trancando a porta ao passar. Cristina não parava de chorar, e Amelinha precisou gritar para que ela a ouvisse:

— Pare de chorar e venha me desamarrar!

Ainda aos prantos e sentindo enorme dor, Cristina conseguiu se arrastar até onde Amelinha estava e a desamarrou. Segurando no balcão, Amelinha se levantou e puxou a irmã pelo braço.

— Ai! — gemeu Cristina, arriando o corpo no chão novamente. — Dói demais!

Embora a violência usada em Cristina tivesse sido um pouco menor, ela era muito pequenina e estava toda machucada e dolorida, de forma que não conseguiu se manter em pé. Amelinha, por sua vez, sustentada pelo ódio que sentia naquele momento, começou a caminhar em direção à porta. Experimentou a maçaneta, mas a porta não se abriu.

— Estamos trancadas aqui dentro. E o maldito levou a chave.

Cristina redobrou o choro, com medo de que nunca mais as achassem ali. Sem lhe dar atenção, Amelinha começou a esmurrar a porta, sentindo uma dor lancinante espalhando-se por todo o seu corpo. Mas não podia parar. Se quisessem sair dali, tinham que reunir forças e tentar. Demorou muito até que alguém a ouvisse. A mãe, vendo que elas não chegavam, tinha chamado Raul e alguns vizinhos, e todos saíram à sua procura, percorrendo o caminho que elas faziam na volta da escola. Um dos vizinhos, ao passar por ali pela décima vez, ouviu o barulho na porta e se aproximou, constatando que as meninas estavam presas na oficina do Chico. Logo chamou os demais e arrombaram a porta.

Coberta de vergonha e dor, Amelinha sentiu as pernas tremerem e desabou no chão assim que a porta se abriu. E a última coisa de que pôde se lembrar mais tarde foi do vulto da mãe, passando por ela horrorizada, os braços estendidos em direção à irmã.

 

Caminhando de um lado para outro, Tereza conversava com Raul em voz alta, esfregando as mãos nervosamente:

— Devia imaginar que algo assim ainda iria acabar acontecendo. Fui cega de não ver o que Amelinha estava fazendo.

— Você não vê que isso é um absurdo? Amelinha não teve culpa de nada.

— Aposto como ela o provocou de alguma forma... — divagou, sem nem prestar atenção ao que Raul dizia. — Foi assim com aquele menino também. E o pior não foi nem ele ter feito com ela. Pior foi fazer com Cristina!

— Tereza! Será que você só está preocupada com Cristina? E Amelinha? É sua filha também. Não liga para ela?

— Ligo... — afirmou, sem muita convicção.

— Não é o que parece. Devia se envergonhar por tratar tão mal assim a sua filha.

Tereza oscilava entre o desgosto e a raiva. Não queria admitir, mas a verdade era que não gostava de Amelinha. Em alguns momentos, chegava mesmo a odiá-la e desejar que nunca tivesse nascido. Desde que engravidara, sentia que jamais poderia amar aquela criança. No começo, até que se esforçara. Mas depois que Cristina nasceu, parou de tentar, vendo que seriam mesmo inúteis os seus esforços.

— Não a trato mal — objetou secamente.

— Trata sim. E vive a acusá-la por qualquer coisa.

— Não a estou acusando de nada. E você? — revidou em tom acusador. — Por que será que a defende tanto?

— Eu? — tornou ele confuso. — Ora, a menina não tem pai. Sinto-me responsável.

— Será que é só isso mesmo?

— O que está insinuando, Tereza?

Tereza silenciou. Sua vontade era de gritar que ele estava de olho na filha, mas tinha medo de que ele se zangasse e fosse embora.

— Não estou insinuando nada. Perdoe-me.

Raul também não insistiu. Começava a perceber os pensamentos maldosos da mulher, mas achou melhor calar. De que ele gostava de Amelinha, não tinha dúvida. Achava-a muito atraente e esperta, e até poderia se interessar por ela como mulher. O problema era que ela era filha de sua esposa e só tinha treze anos. Que tipo de homem seria ele se se envolvesse com uma criança, quase sua filha?

Amelinha e Cristina saíram do hospital três dias depois. Tiveram que ir à delegacia prestar depoimento, mas nada pôde ser feito. Chico metera o pé na estrada e sumira, e seria muito difícil encontrá-lo por aquele mundo afora. O inquérito foi arquivado, e ninguém mais fez perguntas, em respeito à dor das meninas. Algumas pessoas passaram a olhá-las com certa recriminação no olhar, outras, com piedade, e outras ainda preferiam guardar distância.

Amelinha também se aproximou um pouco mais da irmã. A violência de que ambas tinham sido vítimas as uniu na dor e, se bem que não houvesse ainda uma forte amizade entre elas, ao menos Amelinha já não brigava tanto com Cristina. A dor que haviam partilhado e ainda partilhavam as tornava cúmplices, e uma compreensão silenciosa se estabeleceu entre elas.

De forma inocente, conduzida pelo interrogatório tendencioso de Tereza, Cristina acabou contando que vira Chico flertando com Amelinha, e que ele tentara agarrá-la certa vez. Pronto. Era o que bastava para que Tereza tirasse suas conclusões e julgasse a filha precipitadamente, acusando-a de libertina e ordinária. Só não a confrontou diretamente porque Raul a Impediu. Ele não acreditava que Amelinha houvesse agido com maldade ou malícia e proibiu Tereza de incomodá-la. Mais uma vez temendo desagradá-lo, ela se calou, deixando que o ódio silencioso pela filha envenenasse cada vez mais o seu coração.

Se antes as duas já eram distantes, depois disso, Tereza foi-se afastando mais e mais de Amelinha, tratando-a com frieza e até com certa hostilidade, enquanto Cristina era alvo de todas as suas atenções e carinhos. Comprara-lhe até uma boneca nova e nada para Amelinha, com a justificativa de que ela já estava ficando uma moça e não se interessava mais por brinquedos.

Vendo isso, Raul lhe trouxe um bonito laço de fita de seda azul, e ela agradeceu com os olhos úmidos, começando a perceber quanto carinho ele sentia por ela. Presenteá-la tornou-se um hábito, e as atenções que Tereza dispensava a Cristina já não incomodavam tanto Amelinha. Ela agora tinha o padrasto, a quem passou a admirar, afeiçoando-se a ele mesmo sem saber.

Tanto interesse não passou despercebida a Tereza, que redobrou a atenção sobre ambos. Nunca os deixava sozinhos e acordava sempre que Raul se levantava no meio da noite para ir ao banheiro ou beber água. Em silêncio, ela se levantava depois que ele saía e ia espiar pela porta entreaberta, mas ele nunca parou ou fez menção de entrar no quarto das meninas.

O trauma que haviam vivido deixou marcas profundas tanto em Amelinha quanto em Cristina. Era comum acordarem gritando no meio da noite, dizendo que Chico estava ali para pegá-las. Tinham pesadelos parecidos, o que aumentava a empatia que se estabelecera entre elas. Sempre que uma gritava, a outra procurava acalmá-la, dizendo que Chico se fora e não voltaria mais. A mãe também aparecia e, quando o pesadelo era de Cristina, tomava-a nos braços e a acariciava, ao passo que, no caso de Amelinha, limitava-se a sacudi-la e indagava se poderia voltar a dormir.

Ainda nem se havia passado um mês quando Amelinha contraiu uma forte gripe, que lhe provocou uma tosse seca e persistente, além de fortes dores no peito. Raul correu a chamar o médico, que constatou sua primeira pneumonia. Amelinha foi internada às pressas e por pouco não morreu. Quando saiu do hospital, ainda estava fraca, e o médico lhe recomendou repouso absoluto. Os pulmões estavam muito frágeis, e todo cuidado era pouco.

Presa na cama, não poderia ir à festa de aniversário de um primo que morava do outro lado da cidade, o que deixou Cristina decepcionada, e a mãe, furiosa.

— Não podemos mesmo ir, mamãe? — choramingava Cristina.

— Não. Sua irmã resolveu ficar doente justo agora.

— Ah! O tio Raul não poderia ficar com ela? Não poderia?

Cristina olhou para Raul ansiosa, e ele respondeu serenamente: 

— Por mim, está tudo bem. Vocês podem ir que eu cuido de Amelinha.  

— Nem pensar! — contestou Tereza. — Se você não vai, ficamos todos.

— Isso é uma bobagem, Tereza. Não vê que a menina está doida para ir?

— Mas a irmã está doente. O que podemos fazer?

— Já não disse que eu cuido de Amelinha?

— Não!

— Por que não, mãe? Qual é o problema?

— É, qual o problema? — repetiu Raul. — Por acaso não confia em mim?

Aquele não confia em mim era bem mais do que medo de que ele não cuidasse de Amelinha adequadamente. O que Tereza realmente temia era que ele, aproveitando-se de sua ausência, tentasse alguma coisa com a filha e, pior, que fosse correspondido por ela.

— Não se trata disso, Raul — rebateu em tom de desculpa. — Sei que você é cuidadoso e responsável. Mas é que Amelinha é uma menina e pode precisar de certos cuidados que só a mãe pode dar.

— Não vejo o que você faz por ela que eu não possa fazer.

— Por favor, mamãe, vamos! — insistia Cristina, alheia aos temores da mãe. — Tio Raul vai cuidar bem de Amelinha.

Por mais que ela não quisesse deixar os dois sozinhos, não podia negar um pedido à filha, e acabou concordando. Antes de sair, passou no quarto de Amelinha e constatou que ela dormia.

— Deixe-a dormir — aconselhou a Raul. — E não permita que saia do quarto. Ela está muito fraca.

— Pode ir sossegada, que eu tomo conta de tudo.

Depois que elas saíram, Raul, certificando-se de que tudo estava bem, foi para a cozinha consertar algumas cadeiras que estavam com os pés soltos, indo a cada meia hora verificar o estado de Amelinha. Tudo continuava tranqüilo e, quando Raul terminou sua tarefa, deitou-se no sofá para esperar que Tereza voltasse. Estava quase pegando no sono quando um grito de pavor o despertou. Deu um salto do sofá e correu para o quarto de Amelinha, escancarando a porta e entrando esbaforido. A menina se contorcia e gemia na cama, dizendo palavras sem nexo, a camisola empapada de suor. Raul experimentou-lhe a testa e constatou que ela ardia em febre novamente. Chamou-a pelo nome várias vezes, até que ela despertou e o fitou com os olhos arregalados.

— O Chico...?

— Sossegue Amelinha, ele não está aqui. Foi só um pesadelo.

Depois de ajeitá-la novamente na cama, Raul foi buscar o remédio que o médico havia receitado em caso de febre. Amelinha tomou sem reclamar e ficou deitada, de olhos fechados. Durante alguns minutos, Raul permaneceu olhando-a, enternecido com o seu semblante pálido. Aos pouquinhos, a febre foi cedendo, e Amelinha abriu os olhos.

— Sente-se melhor? — indagou ele.

Ela fez que sim com a cabeça e pediu numa vozinha miúda:

— Será que você pode me dar um copo de água?

A moringa ao lado da cama estava vazia, e Raul desceu para buscar um pouco na cozinha. Assim que ele saiu, Amelinha, sentindo o desconforto que a camisola suada causava em seu corpo, levantou-se vagarosamente e foi ao armário buscar uma limpa. Sentiu a cabeça rodar, mas, apoiando-se na parede, chegou até o armário e o abriu. Apanhou a camisola e começou a se despir, com gestos lentos e descuidados. Ao tirar a roupa úmida, sentiu um arrepio de frio, e seu corpo todo estremeceu. O quarto começou a rodopiar, e Amelinha foi acometida por violento acesso de tosse. Cada vez mais zonza, percebendo que ia cair, ainda tentou se deitar na cama, mas a tonteira não lhe permitiu alcançar o leito, e ela desabou ali mesmo, no meio do quarto, o corpo nu sacudido pela tosse e pelos calafrios.

Nesse momento, Raul entrou, trazendo nas mãos a moringa cheia e uma caneca limpa. Ao ver a enteada caída no chão, sem roupa alguma, largou tudo e correu para ela, chamando assustado:

— Amelinha! Amelinha! — ajoelhou-se ao lado dela, e a menina tornou a abrir os olhos. — O que foi que houve Amelinha?

— Eu... Caí... — balbuciou ela. — Senti uma tontura... Não consegui chegar à cama...

— Você não devia ter saído da cama. — ralhou ele, mas com carinho, ajudando-a a se levantar. — O que pensa que ia fazer andando assim, nua, pelo quarto?

— Eu... Ia me trocar... A camisola estava úmida... Grudada no meu corpo.

Apoiada em seu pescoço, Amelinha se levantou, mas não conseguiu se sustentar. O corpo ainda muito fraco não resistiu, e ela já ia tombando novamente quando Raul a ergueu no colo, totalmente despida, e começou a levá-la para a cama. Queria o mais depressa, cobri-la com o cobertor, para que seu estado não se agravasse. Aproximou-se da cama e abaixou-se, depositando-a gentilmente sobre o colchão. Foi nesse momento, quando ele, debruçado sobre ela, começava a puxar o braço de debaixo de seu pescoço, que a porta se escancarou, e uma Tereza furiosa e indignada irrompeu pelo quarto.

— Mas o que é que está acontecendo aqui? — esbravejou fora de si. — Eu sabia! Sabia que não devia tê-los deixados sozinhos! Sua desavergonhada!

— Tereza, calma — começou Raul a falar. — Não é nada do que você está pensando.

— Não estou pensando nada! Tenho certeza do que vejo.

— Mamãe, o que está acontecendo? — perguntou Cristina assustada.

— Saia daqui, Cristina! — berrou ela para a filha. — Vá para a sala e só venha quando eu mandar.

Assustada, Cristina desatou a correr e foi para a sala, chorando e com medo da fúria da mãe. Enquanto isso, Amelinha conseguiu se cobrir com o cobertor e juntou forças para se recostar na cama, tentando contemporizar:

— Não fique zangada, mamãe. A culpa foi minha...

— Eu sei que a culpa é sua! Então não estou vendo?

Amelinha queria dizer que fora culpada por haver tentado se levantar sozinha para se trocar, o que havia causado seu quase desmaio no meio do quarto. Mas Tereza entendeu de outra forma, envenenada por suas próprias desconfianças.

— Por favor, Tereza, tente se acalmar – intercedeu Raul.

— Como posso me acalmar vendo o que vejo? Minha própria filha! Minha própria filha seduzindo o meu marido!

— O quê?! — indignou-se a menina. — Não, mãe, não! A senhora não entende...

— Entendo muito bem! Entendo que você é uma vagabundinha. Aposto que adorou o que o Chico fez com você, não foi?

— Tereza! Cale-se, Tereza, você não sabe o que diz!

— E você? Seu safado! Onde já se viu deixar-se seduzir por uma criança?

— Se você se acalmasse, eu poderia lhe explicar o que está acontecendo.

— Não preciso de explicação nenhuma!

Magoada, Amelinha ocultou o rosto entre as mãos e desatou a chorar. Como a mãe podia pensar que ela se divertira com o Chico? Então não via o quanto havia sofrido?

— Por que está fazendo isso, mamãe? Eu não fiz nada.

— Ah! Mas fez sim! Provocou o Chico até ele não agüentar mais e estuprar você. E agora quer fazer o mesmo com seu padrasto. Mas Raul é o meu homem, entendeu? Meu homem, não seu!

— Eu não provoquei ninguém!

— Provocou sim. Sua irmã me contou a forma como você se requebrava toda para o Chico.

— É mentira! Eu não fiz isso!

— Fez sim. Mesmo depois que ele a agarrou, você continuou se oferecendo. O que queria? Que ele fingisse que não a via? Que não reparasse no seu remelexo e nos seus peitos empinados? Ele é homem, Amelinha, cabia a você se dar ao respeito e não o provocar. Mas não! A prostitutazinha não podia agüentar e se ofereceu para o primeiro malandro que viu. Se quiser ser vagabunda, o problema é seu. Mas você não tinha o direito de carregar sua irmã com você...

— Pare Tereza, cale-se! — berrou Raul, sacudindo-a pelos ombros.

— Mas não adianta nada, viu? Não vou deixar que me tome o homem outra vez!

— Você está louca, Tereza? O que está dizendo?

Amelinha não conseguia mais falar, tomada pelos soluços que lhe embargavam a voz. Ficou escutando a mãe dizer aquelas coisas a seu respeito, um monte de mentiras que ela havia inventado só para machucá-la. Tereza estava cega de ódio e surda à voz da razão, e continuava esbravejando e ofendendo Amelinha:

— Largue-me, Raul! Ainda não terminei. Não acabei de dizer tudo o que está entalado em minha garganta esses anos todos.

— Se você não se calar, Tereza, juro que vou embora daqui e nunca mais apareço.

— É isso mesmo o que você quer, não é? Sair de casa para viver com sua meretriz de treze anos!

— Pare com isso, Tereza, estou avisando!

— Pois não vou permitir, ouviu? Essa cadelinha no cio não vai tirar você de mim! Sou muito mais mulher do que essa ordinária!

— Pare Tereza!

— Vagabunda, prostituta, meretriz!

Sem saber mais o que fazer, Raul perdeu a cabeça e estalou uma bofetada no rosto de Tereza, que reagiu com espanto:

— Você me bateu... Por causa da prostituta, você me bateu!

— Tereza, perdoe-me — implorou Raul. — Eu não queria... Mas você estava fora de si. Você enlouqueceu Tereza! O que deu em você?

— Eu... Eu...

Envergonhada, Tereza rodou nos calcanhares e sumiu pela porta do quarto. Raul ficou aturdido, sem saber se ia atrás dela ou se acalmava Amelinha, que chorava sem parar. Decidiu seguir a mulher. Amelinha estava em casa, medicada e sob as cobertas, ao passo que Tereza saíra desabalada, sabia-se lá para onde. Deu um sorriso encorajador para Amelinha e saiu no encalço de Tereza, ainda escutando a vozinha miúda da enteada:

— O que foi que fiz à minha mãe?

 

Demorou muito para que Amelinha se recuperasse por completo daquela pneumonia. Depois da briga que tivera com a mãe, o médico precisou ser novamente chamado, e por pouco Amelinha não voltou para o hospital. Tereza fingiu-se interessada nos conselhos médicos, mas depois que ele se foi, virou as costas à filha e encarregou Cristina de cuidar dela.

A muito custo Raul conseguiu convencê-la de que nada havia acontecido naquele dia. Contou como Amelinha passara mal e tentara se levantar para trocar a camisola molhada, desmaiando no meio do quarto antes de conseguir fazê-lo. Tereza não sabia se acreditava ou não naquela história. A cena que presenciara deixara-a extremamente chocada e com raiva. Vira Amelinha, nua, nos braços de Raul, e era difícil convencer-se de que aquilo não era o que parecia.

Só não conseguia mais ficar perto de Amelinha. Se antes o relacionamento das duas já era difícil, agora então, tornara-se praticamente inviável. Evitava ao máximo o contato com a filha, e até Raul procurava não ficar muito perto dela, com medo de provocar nova briga com a mulher. Isso fazia com que a menina sofresse imensamente, porque Raul passara a ser o seu único amigo. Não tinha mais ninguém. Mesmo Cristina, com que começara a ter um relacionamento mais amistoso, voltara a ser a estranha de sempre, visto que Amelinha não a perdoava por haver contado à mãe sobre seu pequeno e inocente flerte com seu Chico.

A escola em que estudavam agora era outra, para evitar constrangimentos às meninas, e Tereza passou a levá-las e buscá-las todos os dias. Naquele dia, as duas entraram juntas em casa e seguiram direto para o banheiro, para lavar as mãos e almoçar. Amelinha, como sempre, empurrou a irmã e lavou-se primeiro, deixando Cristina de lado, esperando a sua vez. Terminou de enxugar as mãos, pendurou a toalha no cabideiro e, sem dizer nada, correu para o vaso sanitário e vomitou. Cristina arregalou os olhos de susto e abaixou-se ao lado dela.

— O que você tem Amelinha? Foi alguma coisa que comeu?

Com rispidez, Amelinha empurrou Cristina para o lado e se levantou, respondendo entre os dentes:

— Não tenho nada. Meta-se com a sua vida.

— Está precisando de alguma coisa? Quer que vá chamar a mamãe?

— Isso! Vá correndo fazer a sua fofoquinha, como sempre faz.

Magoada, Cristina deu as costas à irmã e foi para a cozinha, onde a mãe as esperava com o almoço. Amelinha nem conseguiu olhar para a comida. Só de sentir o cheiro do ensopado, levantou-se da mesa e correu novamente para o banheiro, quase não tendo tempo de chegar ao vaso. Tereza acompanhou-a com um olhar silencioso e, após ouvir o barulho da porta do banheiro batendo, perguntou a Cristina:

— O que é que ela tem?       

Cristina deu de ombros e respondeu inocente:

— Sei lá. Ela chegou vomitando, mas disse que não era nada. Vai ver foi muito doce que comeu. Você sabe como Amelinha sempre foi gulosa.

Tereza não respondeu, mas olhou desconfiada para a porta da cozinha, onde Amelinha acabava de despontar.

— Não vou mais comer — anunciou ela, torcendo o nariz e evitando olhar para a mesa.

— Por quê?

— Não estou com fome.

Sem esperar pela resposta da mãe, virou as costas e seguiu para o quarto, indo atirar-se na cama. Estava passando mal, com náuseas e certa tonteira. Fazia dois dias que se sentia assim, mas só hoje vomitara. Não podia ser nada que tivesse comido, porque aquele enjôo lhe tirara por completo o apetite, e ela mal se alimentava às refeições. Para completar, seu período estava atrasado, o que deveria estar causando aquele inchaço nos seios.

Nos dias que se seguiram, seu estado foi piorando, e ela quase não conseguia comer. Não podia nem sentir o cheiro da comida que já passava mal. Chegava da escola sempre enjoada e ia direto para a cama. Cristina, preocupada, levava-lhe frutas, que ela dispensava com má-criação.

— Tente comer alguma coisa — insistia a irmã, deixando a fruta na mesinha de cabeceira.

Mesmo contra a vontade, Amelinha forçava-se a ingerir um pedacinho de fruta, mas vomitava em seguida. Foi emagrecendo e despertando, cada vez mais, as suspeitas de Tereza. À hora do jantar, ela sempre tentava participar da refeição, só para ficar perto de Raul, mas não conseguia comer. Dava duas, três colheradas no máximo e empurrava o prato para o lado, dominada pela náusea. Não raras eram às vezes; em que saía correndo para o banheiro e vomitava, até que acabou chamando a atenção de Raul.

— O que essa menina tem?

— Não sei — respondeu Tereza com azedume.

— Amelinha não anda passando muito bem — respondeu Cristina, prontamente. — Vive enjoada e vomitando.

O olhar de Raul para Tereza foi bastante significativo, mas a mulher fingiu não entender e não disse nada. Assim que Amelinha voltou do banheiro, Raul fez com que ela se sentasse ao seu lado e indagou interessado:

— O que você tem Amelinha? Sua irmã nos disse que você não anda passando bem.

Amelinha fulminou Cristina com o olhar e respondeu vagamente:

— Nada. Não tenho nada.

— Desde quando está enjoada? — ela deu de ombros.

— Você foi vomitar agora?

— Fui.

— O que mais tem sentido?

— Nada.

— Pode falar Amelinha. Sou seu amigo e só quero o seu bem.

Pelo canto do olho, Amelinha fitou a mãe, que permanecia com a cabeça baixa, fingindo-se concentrada no prato de comida.

— Já disse que não tenho nada.

— Se não tem nada, então por que vive enjoada e está emagrecendo?

— Não sei.

— Será que ela tem vermes? — arriscou Cristina.

— Não seja estúpida! — contestou Amelinha.

— Não fale assim com a sua irmã! — censurou Tereza. — Ela não tem culpa do seu mau humor.

— Eu não estou de mau humor!

— A menina está doente, Tereza. Será que você não percebe?   

— Ela não está doente — protestou Tereza, olhando para ela com ódio. — Sei muito bem o que ela tem, e você também sabe.

— O que é? — quis saber Cristina.

— Nada que lhe interesse, querida — cortou Tereza. — Isso não é assunto para você.

— Por quê?

— Porque não é assunto de criança.

Mesmo sem saber do que se tratava, Amelinha podia imaginar que era algo relacionado ao que acontecera entre ela e Chico. Só não sabia o quê, já que Tereza nunca havia conversado com ela sobre sexo ou como eram feitos os bebês.

— Acho melhor você levá-la ao médico. Seja o que for, precisa ser tratado.

— Farei isso — concordou Tereza, com um estranho brilho no olhar.

No dia seguinte, quando voltaram da escola, Tereza deixou Cristina com a vizinha e partiu com Amelinha para o médico. Esperou a vez de serem atendidas sem trocar uma palavra com a filha, que também não disse nada. Na vez de Amelinha, uma enfermeira mandou que ela entrasse, tirasse a roupa e se deitasse na maca, enquanto sua mãe conversava com o médico. Alguns minutos depois, ele entrou e sorriu complacente, dizendo-lhe que se acalmasse e fizesse tudo que ele mandasse. Amelinha, que nunca antes havia se submetido a um exame ginecológico, sentiu-se extremamente envergonhada quando aquele homem afastou as suas pernas e começou a mexer em suas partes mais íntimas. Chorou de mansinho, mas não emitiu nenhum ruído. Não queria que ele ou a mãe atestassem o seu constrangimento.

— Muito bem, Amelinha, pode se vestir — disse ele, depois de encerrado o exame.

A enfermeira ajudou-a com a roupa e levou-a para a outra sala, enquanto a mãe terminava de conversar com o médico. Pouco depois, Tereza apareceu e saiu puxando Amelinha pelo braço. A caminho de casa, não trocaram uma palavra, o que deixava Amelinha cada vez mais amargurada. Queria perguntar o que tinha, mas sabia que a mãe lhe responderia com uma bronca qualquer.

Foi só à noite que ela descobriu o seu mal. Quando Raul chegou a casa e perguntou se Tereza a havia levado ao médico, a mãe lhe respondeu que sim.

— E então? — indagou ele ansioso, à mesa do jantar. — O que foi que o médico disse?

— O que você acha que ele poderia dizer? O que todos nós já sabíamos: que Amelinha está grávida.

Foi como se o mundo ruísse de repente. Como é que ela, que era solteira, poderia estar grávida? Em sua cabeça, só as mulheres casadas engravidavam, porque a mãe jamais lhe contara como é que tudo acontecia.

— Grávida? — repetiu Amelinha, estarrecida. — Eu? Mas como?

— Não se faça de sonsa comigo, menina. Você sabe muito bem como.

Ela se calou e olhou para Raul, que a fitava com um misto de pena e compreensão.

— As moças engravidam quando têm relações sexuais — explicou ele, apesar do constrangimento por estar tratando daquele assunto diante de duas meninas.

— O que são relações sexuais? — indagou Cristina, de forma inocente.

— Vá para o quarto, Cristina — ordenou Tereza, sem responder à sua pergunta.

— Por quê?

— Porque isso não é assunto para uma menina feito você.

— Perdão, Tereza, mas Cristina passou pelas mesmas coisas que Amelinha. Não acha que está na hora de ela também saber o que é isso?

Ao invés de responder, Tereza elevou a voz e disse com raiva:

— Relação sexual é aquilo que você e o Chico fizeram Amelinha. E é por isso que você está grávida. Porque manteve uma relação sexual com seu Chico.

Ela ficou horrorizada e buscou apoio no olhar de Raul.

— É mais ou menos isso... Chico forçou vocês a manterem relações sexuais com ele...

— O senhor quer dizer, tio Raul — era Cristina —, que é assim que os bebês são feitos?

Raul não se sentia nada bem tendo aquela conversa com as meninas. Achava que aquele papel cabia a Tereza, mas ela não parecia muito disposta a dar as explicações necessárias. Assim, teve que assumir aquela tarefa, e, tentando ao máximo deixar de lado o pudor e a vergonha, ia esclarecendo as dúvidas de ambas.

— Sim, Cristina, é assim que os bebês são feitos.

— Oh! Se for assim, não quero ter nenhum bebê. Dói! Dói muito fazer bebês!

Cristina começou a chorar descontrolada, e Tereza a abraçou e começou a acariciar seus cabelos.

— Viu o que você fez? Cristina é ainda uma criança. Não está preparada para ouvir uma coisa dessas.

— Eu só não queria que ela ficasse na ignorância, já que não é mais virgem.

— Ela pode não ser virgem, mas ainda é inocente!

— Vou ter um bebê também, mamãe? — perguntou ela, quase em desespero. — Estou... Grávida como Amelinha?

— Não, minha querida, você não vai ter nenhum bebê. Só a sua irmã é que está grávida.

— Por quê?

— Porque ela já é mocinha, e você, ainda não. Apesar de tudo, Cristina sabia o que era ser mocinha. Já vira Amelinha sangrando, e a mãe lhes explicara que aquilo acontecia todo mês às mulheres. Não entendia bem o que aquilo tinha a ver com bebês e gravidez, mas sentiu-se grata por aquela ser a causa de não estar esperando um bebê.

— E agora, meu bem, vá para o seu quarto e fique lá. Irei levar-lhe a sobremesa depois.

Assim que Cristina saiu, Tereza voltou ao seu lugar e encarou Raul e Amelinha, que, até então, não havia dito uma palavra, espantada que estava com aquela notícia. O que faria com um bebê? Ainda mais sendo de seu Chico?

— Não quero ter um bebê — murmurou Amelinha.

— É claro que não! Não vamos ter nenhum bastardinho em casa!

Mesmo sem saber o que era um bastardinho, Amelinha silenciou. Uma coisa havia entendido: pela primeira vez na vida, a mãe estava de acordo com algo que ela dizia.

— Pense bem no que está dizendo, Tereza — protestou Raul. — Além de crime, o aborto é muito perigoso.

— O que é aborto? — perguntou Amelinha.

— Sh...! — ralhou a mãe. — Fique quieta.

Dessa vez, nem Raul teve coragem de explicar o que era um aborto.

— Falaremos sobre isso depois, querida – disse ele.

Aquele querida não agradou Tereza. Ainda que Raul o tivesse pronunciado sem nenhuma intenção, ela ficou pensando que havia intimidade demais em seu tom de voz. Será que ele pretendia que Amelinha tivesse aquele bebê? Mas por quê? Uma criança, naquelas circunstâncias, não faria bem a ninguém. A menos que...           

— Acho melhor você ir para o quarto também — falou Tereza.

— Não acho justo que decidamos o futuro de Amelinha pelas suas costas. Ela tem o direito de opinar sobre a sua vida.

— Ela não tem direito de nada! É menor de idade e vai fazer o que eu mandar!

— E você quer mandá-la fazer um aborto.

— E daí? O que é que tem? Você mesmo a ouviu dizer que não quer ter o bebê.

— O que não significa que esteja pensando em abortá-lo.

— Por que está tão interessado em que Amelinha tenha essa criança? Será que você tem algo a ver com isso?

De um salto, Raul se levantou da cadeira e começou a andar pela sala, nervoso e vermelho feito um pimentão. Amelinha não compreendia muito bem o que estava se passando, mas ficou imaginando se aquela pergunta não estaria relacionada ao dia em que a mãe os surpreendera no quarto, quando ela passara mal, e ficara falando aquelas coisas horríveis. Será que Tereza pensava que ela também tivera algo com Raul? Como gostava muito do padrasto, achou que era melhor esclarecer:

— Mãe, se a senhora está pensando que Raul e eu tivemos relações sexuais...

Ouvir aquelas palavras foi como se uma erupção eclodisse dentro de Tereza. Não podia nem imaginar a filha envolvida sexualmente com o marido e explodiu com uma fúria descontrolada:

— O quê? Como se atreve, sua pirralha suja e nojenta? Quem foi que lhe deu essa intimidade de se referir assim ao seu padrasto, o homem que ficou no lugar de seu pai?

— Eu... Eu... Não entendo...

Coberta de ódio, Tereza avançou sobre Amelinha e começou a esbofeteá-la, até que Raul a segurou por trás e começou a gritar com ela:

— Pare com isso, Tereza!

— Agora estou entendendo tudo. Você e ela... Vocês se deitaram juntos, dentro da minha própria casa. Terá sido em minha cama?

— Não diga asneiras, mulher! Amelinha é sua filha e é uma criança...

— Uma criança que espera um filho. Será que é seu?

— Cale-se! Você não sabe o que diz!

— Mas sei o que ouço. Ela ainda tenta defendê-lo, falando em relações sexuais, chamando-o de Raul!

— O que foi que eu fiz? — queixou-se Amelinha, que não entendia onde havia errado.

— Agora vejo por que tanta intimidade. Para Cristina, você é o tio Raul. Mas para Amelinha, só Raul basta.

— Cale essa boca, Tereza! Não vou permitir que coloque em dúvida a minha honra e a de sua filha!

— Como vocês se defendem, não é mesmo? Há quanto tempo estão me traindo? Estão apaixonados de novo?

Lá vinha Tereza com aquela referência ao passado, algo que Raul não podia compreender. Ela falava como se ele e Amelinha já tivessem sido amantes, o que era impossível.

— Não agüento mais, Tereza! Estou no meu limite. Não suporto mais o inferno em que a minha vida se transformou.

Com indescritível desgosto no olhar, Raul rodou nos calcanhares e foi direto para o quarto, onde apanhou a mala e começou a atirar suas roupas dentro.

— O que está fazendo, Raul? — berrou Tereza, que vinha logo atrás. — Aonde é que você vai?

— Para mim, chega! Não agüento mais as suas desconfianças nem o seu gênio. Só lamento por Amelinha, que terá que suportar a sua loucura sozinha.

— Vai embora? Vai me deixar? Vai me abandonar por causa daquela meretriz adolescente?

— Você me dá nojo. Devia se envergonhar de suas palavras.

— Você não pode fazer isso! Somos casados! Não pode me abandonar por causa de uma vadia. — Ele não respondeu. — Tudo isso só porque ela vai ter um filho? É isso o que você quer? Um bebê? Posso lhe dar um filho. Já não sou mais jovem, mas ainda posso parir.

— Deixe de tolices.

— Se não é isso, então o que é? O meu corpo? É isso, não é? Cansou-se de mim só porque encontrou um corpo mais jovem e mais firme. Mas Amelinha é uma menina. Espere só até ela crescer e pegar o gosto pelos rapazes. Vai deixar você e fugir com algum vagabundo de vinte anos.

— Está louca.

— Não! Não vá, Raul, eu lhe imploro. Faço qualquer coisa para não perder você de novo. Eu o perdôo. Perdôo você por ter dormido com Amelinha, perdôo até o filho que ela carrega na barriga.

— Ouça bem o que vou lhe dizer Tereza — disse ele, segurando-a pelos punhos e olhando bem dentro de seus olhos. — O filho que Amelinha está esperando não é meu. Eu nunca dormi com sua filha. Quem fez mal a ela foi o safado do Chico, não eu. Não sou um marginal.

— Está bem. Eu acredito. Acredito em tudo o que você disser. Sei que você não dormiu com ela, que você é um homem decente e que jamais me trairia com aquela vagabunda.

— E outra coisa: sua filha não é uma vagabunda, nem meretriz, nem prostituta. É uma menina que sofreu nas mãos de um tarado e continua sofrendo com a incompreensão e as maldades da mãe. Francamente, ela merecia uma mãe melhor do que você.

Ela engoliu a raiva em seco e continuou a implorar:

— Está bem. Sei que errei e peço perdão. Tenho sido incompreensiva com ela, mas vou mudar. Prometo que não vou mais ralhar com ela, mas, por favor, Raul, não me abandone. Faço o que você quiser para que não me deixe.

A essa altura, ela já estava chorando, agarrada às pernas do marido. Raul sentia tanto nojo que tinha vontade de empurrá-la e sair correndo dali o mais rápido que pudesse. E teria feito isso, não fosse o olhar de súplica de Amelinha, que o fitava da porta. A menina, ouvindo a discussão, aproximou-se do quarto e acompanhou toda a cena, sem que nenhum deles notasse a sua presença. Estava apavorada ante a idéia de que Raul pudesse deixá-la. Se o padrasto se fosse daquela casa, a mãe seria bem capaz de matá-la de pancada. Ele era a única pessoa com quem Amelinha podia contar, e foi com aquela súplica silenciosa que lhe pediu para ficar.

— Está certa, Tereza, vou ficar — concordou ele, ainda encarando a enteada. — Mas com a condição de que você nunca mais repita essas barbaridades que ouvi hoje.

— Eu não direi. Prometo que nunca mais direi nada.

— Quero também que você me prometa que, daqui para frente, irá cuidar bem de Amelinha. Não baterá nela nem lhe dirá nada que possa ofendê-la.

— Prometo, prometo. O que você quiser meu bem, o que você quiser para ficar. Eu o amo, Raul, não poderia suportar viver sem você.

— Muito bem então. Que fique bem entendido que esta é a primeira e a última chance que lhe dou. Se voltar a nos agredir, a mim ou a Amelinha, vou-me embora e prometo nunca mais voltar.      

Ela aquiesceu e se levantou, atirando-se em seu pescoço e beijando-o sofregamente. Com uma voracidade sem igual, foi empurrando-o para a cama, já arrancando a sua roupa. Preocupado, Raul ia lhe dizer que parasse que Amelinha os estava observando, mas, ao olhar novamente para a porta, não viu ninguém. Ela havia sumido.

 

Nos dias que se seguiram, Tereza procurou se esforçar ao máximo para tratar Amelinha com um pouco mais de tolerância. Ainda não estava bem certa se acreditava ou não que ela e Raul não eram amantes. Se fossem, preferia não saber. Se soubesse, seria até capaz de matar a filha.

Tinha, porém, um assunto sério a resolver. A gravidez de Amelinha era um problema que necessitava de uma solução imediata. Se o filho era ou não de Chico, não pretendia mais descobrir. No entanto, aquela dúvida era motivo mais do que suficiente para que ela se livrasse daquela criança. Raul era contra o aborto. Achava que o mais correto seria permitir que Amelinha tivesse o filho e tentasse criá-lo. Se de todo isso lhe fosse muito penoso, a adoção seria o melhor caminho. E era isso mesmo que ela pretendia fazer.

Quando a barriga de Amelinha começou a se avolumar, Tereza proibiu-a de ir ao colégio, receando a vergonha que a gestação da filha iria lhe causar. Não foi possível completar o ano letivo, e ela acabou se atrasando na escola. Além disso, Tereza não gostava que ela saísse de casa, e Amelinha passava os dias sem nada para fazer, ansiosa por se livrar daquilo que considerava um estorvo em sua vida.

Com tudo isso, não foi difícil convencer a filha a dar a criança para adoção. Quando o menino nasceu, ela sentiu uma tristeza sem fim, mas nem chegou a vê-lo. Com medo de que Amelinha mudasse de idéia ao segurar nos braços o bebê, Tereza tomou-o da enfermeira assim que foi possível segurá-lo e entregou-o, pessoalmente, nas mãos de uma irmã de caridade, recomendando-lhe que levasse o menino dali e que nunca, mas nunca mais lhe desse notícias de seu paradeiro.

Assim foi feito. O menino foi levado embora sem que Amelinha o visse uma única vez sequer. Ela sofreu com as dores do parto e escutou o seu choro quando nasceu o que, num primeiro momento, encheu-a de emoção. Tomada pela exaustão, Amelinha ainda chegou a estender os braços e pedir que a mãe a deixasse vê-lo ao menos uma vez, mas Tereza foi categórica. O filho não pertencia mais a ela, e ela não tinha nenhum direito sobre a criança. Ignorante e ingênua, Amelinha acreditou no que a mãe lhe dissera e procurou ocultar as lágrimas no lençol que a cobria. Estava arrependida de abandoná-lo, mas agora era tarde. O filho pertenceria à outra pessoa, e ela morreria sem o conhecer.

 

A família de Amelinha, embora fosse do interior de São Paulo, espalhara-se por todo o estado, e ela possuía vários parentes que viviam na capital. Certa vez, um tio de sua mãe, dono de um dos muitos laranjais que dominavam a região, veio a falecer já bem velhinho. Esse tio possuía dois filhos que viviam em São Paulo, um homem e uma mulher, ambos já beirando os sessenta anos. Os primos vieram para o enterro e o inventário, e Amelinha os conheceu no velório do tio-avô.

Juca, o primo, era um homem grande e rabugento, e não escondia o desagrado de ter que comparecer ao enterro do pai em momento tão inoportuno, em que os negócios com sua fábrica de sapatos exigiam sua presença diária no escritório. A mulher fora quem o convencera a ir a Limeira, porque as terras do pai eram muitas, e Juca devia cuidar do patrimônio da família.

A prima, de nome Janete, parecia uma mulher mais equilibrada, embora de feições austeras e olhar penetrante, que tudo parecia ver. Ela era muito comedida e quase não sorria, e seu rosto impenetrável não permitia que se imaginasse o que estava sentindo. Era uma viúva sem filhos e vivia sozinha num casarão em São Paulo, que herdara de um marido extremamente rico e muito mais velho do que ela. Janete fora uma moça muito bonita, e dizem que o marido se apaixonou por ela logo que a viu, fazendo compras em companhia da mãe, numa de suas idas à capital.

Embora vinte e três anos mais velho, o marido era muito rico, e Janete aceitou desposá-lo quase que de imediato. Contava então dezessete anos, e ele, quarenta. Os dois viveram juntos por mais de trinta anos, até que ele morreu de um ataque do coração, deixando-a com uma fortuna considerável, apesar de sozinha e sem filhos.

Essas histórias não interessavam muito Amelinha, que achou os primos muito antipáticos e pedantes. Eles também não pareciam se dar muito bem com Tereza, porque praticamente a ignoraram durante todo o velório. Por isso foi uma surpresa quando, mais tarde, ao entrar em casa, Amelinha viu Janete sentada no sofá conversando com a mãe e Raul. Tereza mandou-a para o quarto em companhia de Cristina, e ela não pôde participar de sua conversa.

— Você sabe como é difícil para uma senhora como eu viver sozinha — disse Janete. — Ainda mais em São Paulo, onde a vida é mais agitada, e os jovens só pensam em se divertir.

Tereza apenas balançava a cabeça, enquanto Raul fumava seu cachimbo e a fitava com mal disfarçada repulsa.

— É por isso que, quando vi suas meninas, a idéia me ocorreu — prosseguiu Janete. — E não pense que faço isso só por mim. Em absoluto! Seria uma excelente oportunidade para a menina estudar em bons colégios e ter uma educação mais refinada.

Raul pigarreou e começou a falar com certa irritação:       

— Perdão, Janete...

— Dona Janete, se não se importa — interrompeu-a, fazendo com que Raul ficasse vermelho até as orelhas.

— Muito bem, dona Janete. Não sei se entendi direito, mas pelo que Tereza me disse, a senhora está interessada em levar as meninas para a capital...

— As meninas, não — cortou novamente. — Apenas Amelinha. É mais velha, já é uma mocinha e saberá cuidar melhor da casa.

— Então, o que a senhora quer, realmente, é uma empregada doméstica.

— Hum... Uma dama de companhia, digamos. Já estou ficando velha e preciso de alguém que me ajude.

— E por que Amelinha?

— Porque ela é parente e me parece bem educadinha. Além disso, é quieta e sossegada, como toda moça de boa família deve ser.

— Eu acho que seria uma ótima oportunidade para Amelinha! — rebateu Tereza, entusiasmada.

— Oportunidade de quê? — tornou Raul.

— Ora, de ter uma vida melhor, uma educação refinada, estudar em bons colégios.

— E, quem sabe, mais tarde, conhecer um bom rapaz e casar-se com alguém importante e rico. — considerou Janete. — Não faltam bons partidos para moças direitas e finas.

Raul e Tereza se entreolharam, mas a mulher procurou ignorar o marido. Janete já estava a par do que acontecera a Amelinha, e aquele era mais um motivo para afastá-la dali.

— Isso seria maravilhoso! — exultou. — Imagine só, Raul, nossa Amelinha casada com algum figurão do café!

— Você está sonhando, Tereza. Amelinha é só uma menina do interior...

— Mas que pode se tornar uma grande dama da sociedade paulista, com o meu auxílio — rebateu Janete. — E tudo isso em troca de quê? Apenas de companhia.

— Hum... Não sei — contestou Raul. — Amelinha ainda é muito criança para ir viver sozinha.

— E quem disse que ela vai viver sozinha? Prima Janete não está prometendo cuidar dela?

— Mas e ela? Será que quer ir? Será que não vai se sentir sozinha longe da família?

— Você sabe como Amelinha é... Independente. Ela nunca foi muito ligada à família mesmo.

— Não quero que tomem nenhuma decisão precipitada — replicou Janete. — Ficarei ainda por mais alguns dias, a fim de providenciar a venda das terras de meu pai. O advogado de Juca vai tratar do inventário, e vou vender tudo para ele. Não entendo mesmo nada de fazendas ou de laranjas. Enquanto isso reflita na minha proposta. Tenho condições de dar a Amelinha uma educação que vocês jamais poderiam lhe proporcionar. Seria uma oportunidade única para ela. Sei o quanto deve ser difícil para vocês se afastarem dela, mas creio que deveriam pensar no futuro da menina. E depois, poderão visitá-la quando quiserem.

— Você tem razão, Janete — concordou Tereza, cada vez mais entusiasmada. — Seria o melhor que poderíamos fazer por Amelinha.

— Seu marido é que ainda não parece bem convencido. Mas não faz mal. Vou deixá-los à vontade para que decidam.

Depois que ela saiu, Raul fitou a mulher com profundo desgosto e revidou com desânimo:

— Por que está fazendo isso? Por que pune assim a sua filha?

— Eu não a estou punindo! Pelo contrário, estou pensando na vida de luxo e conforto que Janete pode lhe dar.

— Mas, e se ela não quiser? Se Amelinha preferir ficar aqui conosco?

— Isso seria uma tolice. Como mãe, tenho que pensar no que é melhor para ela.

— Talvez isso não seja o melhor para ela.

— Como não? Que garota não gostaria de ter uma oportunidade como essa?

— Por que não perguntamos a ela? Por que não deixamos que Amelinha mesma escolha o seu destino?

— Amelinha só tem quatorze anos e não está em condições de decidir nada. Vai fazer o que eu mandar.

— Não creio que essa seja a melhor solução. Não é direito tomar uma decisão dessas à revelia da menina. A vida é dela, e ela tem o direito de resolver.

Por mais que aquilo não lhe agradasse, Tereza não queria desgostar o marido. Precisava fazê-lo crer que seu único interesse era o bem-estar de Amelinha, e não afastá-la dele o mais que pudesse.

— Está bem — concordou com um suspiro. — Se é assim que pensa, vamos falar com ela. Mas você tem que me prometer que, se ela quiser ir, não fará objeções.

— Não. Se for o desejo dela, dar-lhe-ei todo o meu apoio.

Foram falar com Amelinha. Ela e Cristina estavam no quarto, cada uma em sua cama, Cristina brincando de bonecas, e Amelinha deitada com o braço por baixo da cabeça.

— A prima Janete já foi? — indagou Cristina, penteando os cabelos da boneca.

— Já sim — respondeu Tereza.

— O que ela queria? Por que veio nos visitar?

— Na verdade, Cristina — falou Raul —, ela não veio propriamente nos visitar. Veio para falar de Amelinha.

— De mim? — indignou-se a menina. — Por quê? O que foi que fiz a ela?

— Calma, Amelinha, você não fez nada. Ela não veio aqui para se queixar de você. Veio nos fazer uma proposta que interessa a você, mais do que a qualquer um de nós.

— Que proposta?

— Ela pretende levá-la para viver com ela em São Paulo — esclareceu Tereza, a voz trêmula de ansiedade.

— Em São Paulo? — repetiu Amelinha.

— Fica muito longe, não é, mamãe? — tornou Cristina.

— Nem tanto — tranqüilizou Tereza. — E Amelinha poderá nos visitar nas férias, se quiser.

— Por quê? Por que ela quer me levar para São Paulo? Eu não conheço nada daquela cidade.

— Ela está pensando no seu futuro. Quer lhe dar uma educação mais refinada e ensiná-la a ser uma verdadeira dama.

— Que maravilha! — disse Cristina, já visualizando a irmã de vestido longo e cintilante, rodopiando pelos salões em companhia de algum príncipe galante.

— Mas por quê? — insistia Amelinha. — Ela nem me conhece. Por que está sendo tão boazinha? O que quer em troca?

— Não quer nada em troca. Apenas que você lhe faça companhia.

— Só isso? — tornou desconfiada. — Por quê?

— Por que, por que, por quê? Será que não pode se mostrar agradecida ao invés de ficar aí questionando tudo? Não vê que Janete só quer ajudar? Ela é uma mulher rica e poderia contratar qualquer rapariga para lhe fazer companhia. Mas não. Pensou em você, que é da família, e achou que seria uma excelente oportunidade de lhe proporcionar um futuro melhor.

— Mas você não precisa ir, se não quiser — esclareceu Raul.

— É claro que não. Mas pense em todas as coisas maravilhosas que estará perdendo. E tudo para quê? Para continuar enfurnada aqui, nesse fim de mundo, sem nenhuma perspectiva para o futuro. Ainda mais depois do que lhe aconteceu.

A mãe tinha razão. Doía no coração de Amelinha ter que se afastar do padrasto. Por outro lado, o que mais tinha a perder? A violência que sofrerá nas mãos de Chico parecia um estigma em sua vida. Quando passava, todos cochichavam e apontavam para ela, muito mais do que para a irmã. Talvez longe dali, as coisas melhorassem um pouco. Iria para outro colégio, onde ninguém a conhecia, e conheceria outras pessoas, que jamais teriam ouvido falar de seu passado ou do que lhe acontecera. E depois, tirando Raul, não sentiria falta de mais nada nem de ninguém.

— Então, Amelinha? — insistiu a mãe, cada vez mais exaltada. — O que me diz? Aceita a oferta de prima Janete?

— Eu... Não sei...

— Você tem que se decidir. Se não, ela vai embora e você nunca mais vai ter outra chance dessas.

— Não sei... Tudo aconteceu tão rápido... Não sei o que fazer.

— Não seja tola, menina! Não vê que essa é uma oportunidade única em sua vida? Que ninguém mais além de Janete poderá lhe dar uma educação melhor?

— Eu...

— Vamos, Amelinha, decida-se! Aceite logo essa oferta antes que seja tarde!

— Não precisa resolver nada agora — falou Raul com brandura. — Dona Janete ainda vai se demorar mais alguns dias na cidade e, até lá, você pode decidir.

Amelinha olhou-o agradecida. Uma parte dela queria partir, mas outra sentia medo do desconhecido e preferia ficar ali, na segurança de sua casa, ao lado do padrasto amigo. Por outro lado, sentia a necessidade da mudança. A mãe a detestava e a irmã era uma fingida. Não tinha amigos na nova escola e sentia medo de se aproximar dos garotos. Talvez o melhor para ela fosse mesmo partir para uma nova vida, levando consigo a única coisa que ainda lhe restava: esperança.

— Está bem — assentiu ainda em dúvida. — Se é o melhor para mim, é o que farei. Partirei com a prima Janete para São Paulo, e seja lá o que Deus quiser.

— Muito bem! — Tereza bateu palmas, já não conseguindo mais segurar a euforia. — Garanto que não vai se arrepender.

Ela não sabia bem. Talvez até já estivesse arrependida, a exemplo da decisão que tomara sobre o destino do filho, mas era tarde para voltar atrás. A alegria da mãe lhe dizia que ela não era bem-vinda naquela casa, e partir lhe parecia agora à única opção.

 

Dali a duas semanas, Amelinha desembarcava em São Paulo, na companhia da prima. Chovia torrencialmente e fazia muito frio, e elas foram obrigadas a tomar um táxi para a Avenida Barão de Limeira, no bairro de Campos Elíseos. Quando chegaram a casa, estavam molhadas e exaustas. Já era noite, e Janete mostrou a Amelinha o seu quarto no sótão. De tão cansada, ela logo adormeceu. Somente no dia seguinte foi que pôde ver melhor o velho casarão em que passaria a morar.

Foi uma decepção. Amelinha esperava encontrar um palacete iluminado e limpo, em lugar daquele casarão velho e lúgubre, cheirando a mofo e naftalina. As paredes descascadas davam mostras de desleixo, e as cortinas rotas e desbotadas anunciavam a decadência. Os tapetes puídos faziam uma trilha no lugar em que haviam sido mais pisados, e alguns cristais foscos procuravam dar vida aos móveis lascados e sem brilho.    Do lado de fora, o mato cobria o que um dia fora o jardim, e havia muitos vidros quebrados nas janelas sem verniz.

— O que foi? — perguntou Janete de mau humor, notando o ar de desapontamento de Amelinha. — Não gostou?

— Não, prima... É que pensei que fosse... Diferente.

— Para você, eu sou Dona Janete, entendeu bem? Dona Janete. Não quero essa confiança de prima comigo.

Amelinha ergueu as sobrancelhas, espantada com a atitude de Janete. Então não eram primas?

— Não quero abusos comigo, menina — prosseguiu ela. — Ponha-se no seu lugar, e tudo correrá bem entre nós. E agora, venha cá. Experimente este uniforme.

Cada vez mais atônita Amelinha apanhou o uniforme que ela lhe estendia. Era uma roupa de criada, toda preta, com um avental de babadinhos branco.

— Para que é isso? — indagou Amelinha, ainda sem entender direito o que estava acontecendo.

— Que pergunta mais idiota é essa? É para você vestir, ora.

— Mas por quê? Não sou sua criada.

O grito que Janete deu em seguida foi tão alto que Amelinha chegou a sentir uma pontada nos ouvidos.

— Cale essa boca! Menina insolente, como se atreve a me responder?

— Mas prima... Dona Janete... Pensei que tivesse me trazido aqui para ser sua dama de companhia...

— Como espera que eu tenha uma dama de companhia com essa casa toda imunda? Primeiro você limpa e arruma depois me faz companhia. Sabe cozinhar?

Amelinha permanecia parada no mesmo lugar, recusando-se a crer no que estava acontecendo.

— Não... — respondeu ela timidamente, ainda sem se mover.

— Bem, isso é um espeto, mas não faz mal. Com o tempo, você há de aprender direitinho. E agora, o que está esperando? Ande, mexa-se, vá se trocar!

— Mas Dona Janete, e a escola?

— Que escola?

— A escola em que a senhora prometeu me matricular.

— Ah! Bom, depois vemos isso. Pensando bem, não sei para que uma moça precisa de estudo.

— Mas a senhora prometeu que eu ia estudar...

— Escute aqui menina, eu fiz um favor a sua mãe trazendo-a para cá. Você estava sendo um tropeço na vida dela e do seu padrasto. Pensa que não sei? Uma menina que passou pelo que você passou, que já conheceu homem e gostou...

— Eu não gostei do que o Chico me fez! — protestou ela, o rosto coberto de rubor, surpresa porque Janete conhecia o seu passado.

A bofetada que Janete lhe deu foi tão rápida que ela custou a entender o que estava acontecendo. Sentiu o rosto arder, e lágrimas lhe vieram aos olhos. Só quando a outra tornou a gritar foi que Amelinha percebeu que ela havia lhe batido.

— Não me interrompa! Jamais me interrompa quando eu estiver falando! Você já não é mais nenhuma garotinha. É uma mulher, conheceu homem, e o que você queria que sua mãe fizesse? Que ficasse com você em casa e se arriscasse a perder o marido? Pois fez ela muito bem em se livrar de você antes que isso acontecesse.

— Minha mãe lhe disse isso?

— É claro que disse sua tonta! O que você pensou? Que eu bati o olho em você e resolvi trazê-la para morar comigo? Foi sua mãe que sugeriu isso. Com medo de que você roubasse o marido dela, veio me procurar e me ofereceu os seus serviços, como criada, em troca de casa e comida. Nem salário preciso lhe pagar. E agora, deixe de tolices e vá logo vestir esse uniforme. Há muito serviço a fazer nesta casa.

— A senhora não é rica. É uma mentirosa, pobretona, decadente...

— Chega Amelinha, já basta! Isso não lhe Interessa. Você está aqui para trabalhar para mim, e não para ficar especulando sobre a minha situação financeira. Vá logo trocar essa roupa, antes que eu me aborreça e lhe dê outra bofetada.

— A senhora não é minha mãe! Não pode me bater.

— Ainda que sua mãe não houvesse me autorizado a usar com você todos os métodos necessários para lhe impor disciplina, ainda assim, posso bater-lhe quando bem entender. Você está sob a minha responsabilidade agora.

— Isso não é justo — Amelinha começou a chorar. A senhora me enganou, minha mãe me enganou.

— Deixe de choradeiras e faça logo o que estou mandando. A casa está uma imundície, e você não tem o dia todo para limpar. Ande, deixe de fazer corpo mole e vá logo trabalhar!

Naquele momento, Amelinha pensou se não seria melhor morrer. A vida que a esperava se mostrava bem diferente da que lhe prometeram, e um profundo desgosto foi tomando conta de todo o seu ser. Não que não quisesse trabalhar. Não se incomodaria de arrumar a casa e limpar, desde que a prima a tratasse com carinho e respeito. Seria sua companheira e criada, mas esperava em troca que ela cumprisse com o que lhe prometera. Queria estudar e ser alguém na vida, para não ter que se submeter às humilhações por que vinha passando só porque já não era mais virgem. Mas aquele era um sonho que começava a ficar para trás. Pelo visto, Janete a levara ali para trabalhar quase como uma escrava, sem precisar lhe pagar salário. Ela era uma menina, menor de idade e filha de sua prima. Isso era quase como ser propriedade dela.

Efetivamente, fora essa a intenção de Janete quando Tereza a procurara, logo após o enterro de seu pai, para lhe fazer aquela oferta. Ainda se lembrava das palavras da prima, ao expor, de forma direta e sem rodeios, o que pretendia:

— Sei que você está bem de vida, prima. Por que não leva Amelinha para trabalhar com você?

— Não estou tão bem assim, minha cara — retrucou Janete a meia voz. — A fortuna de meu marido foi-se quase toda. Conto agora com minha parte na venda das terras que eram do meu pai.

— Melhor ainda! Quero dizer, se você está passando por uma situação difícil, Amelinha será de excelente ajuda. Pode limpar e arrumar, e você nem precisa pagar-lhe por isso.

— Quer que sua filha trabalhe de graça para mim?

— Bom, você teria apenas que lhe dar casa e comida.

— Posso perguntar por quê? Por que quer se livrar de sua filha?

— Não é que queira me livrar dela. É que aconteceram certas coisas...

Em breves palavras, Tereza contou a Janete tudo o que acontecera a Amelinha naqueles últimos tempos. Contou do estupro, do filho que ela tivera e fora entregue para adoção e, finalmente, de seus temores com relação ao marido. Janete concordou com ela e acabou achando que seria uma boa idéia levar a garota como criada. Não tinha mesmo condições de manter serviçais, e Amelinha poderia fazer todo o serviço da casa. Ela já estava ficando velha e não dava mais conta de nada. A casa estava uma imundície, e ela não tinha mais forças para cuidar de uma mansão tão grande. Depois de tudo ajeitado, e com o dinheiro de sua parte na herança, poderia transformar a casa em uma pensão, e Amelinha continuaria como camareira, arrumando as camas e as mesas para o jantar.

— A oferta até que é atrativa — disse Janete. — No entanto, a responsabilidade é muito grande. Amelinha ainda é uma menina, e eu não gosto de cuidar de crianças.

— Você é prima dela, pode fazer o que for preciso para que ela obedeça.

— Hum... Está bem, Tereza, convenceu-me. Quando é que posso levá-la?

— Esse será outro problema. Meu marido gosta de Amelinha e não vai concordar a princípio. Precisamos convencê-lo de que será a melhor coisa para ela e temos que fazer com que ele acredite que a idéia partiu de você. Se ele souber que eu a procurei, nunca vai me perdoar.

Foi assim que Janete conseguiu levar Amelinha. Apesar de quieta e calada, a menina tinha um gênio difícil que precisava ser domado. Era rebelde e, pelo visto, não gostava de trabalhar. Amelinha, no entanto, de tão desgostosa com tudo a que lhe aconteceu, não opôs muita resistência e logo se conformou com o seu destino. Durante dias, lavou, esfregou, lustrou. Quando Janete recebeu a parte que lhe cabia na herança, arrumou o jardim, comprou cortinas e tapetes novos, pintou, consertou o que estava quebrado e transformou a casa numa pensão, com quartos confortáveis, arejados e limpos para alugar. E tudo isso graças a Amelinha, que acabou se enfiando no trabalho para esquecer a tristeza.

Quando a pensão foi inaugurada, logo apareceram os hóspedes. A casa era bonita, com um salão amplo onde eram servidas as refeições e uma cozinha de dar inveja a muita gente. Janete não sabia cozinhar e contratou uma cozinheira, a única empregada na casa além de Amelinha. Enquanto Ione cuidava das refeições, Amelinha arrumava e limpava os quartos e o resto da casa.

Em pouco tempo, quase todos os quartos já estavam ocupados. O preço do aluguel não era muito barato, o que fez com que a pensão fosse freqüentada, na maioria, por senhores viúvos e solitários, como era o caso de Anacleto. Ele era um funcionário público aposentado, bem de vida, e tinha três filhos que não lhe davam a menor importância. Por isso, vendeu a casa em que vivia e se mudou para a pensão. Apesar de solitário, era um homem alegre e vivia contando anedotas aos demais hóspedes, que se divertiam com suas histórias engraçadas. Era assim todas as noites. Após o jantar, os hóspedes se reuniam na sala de estar para conversar ou tocar piano, e Anacleto punha-se a contar suas piadas. De vez em quando, Amelinha via Anacleto de cochichos com Janete, ocasiões em que ela lhe lançava aqueles seus olhares indecifráveis, e a menina não conseguia imaginar o que poderia estar se passando entre eles. Mas foi da pior maneira que descobriu.

 

Ainda era muito cedo quando Amelinha se levantou naquela terça-feira. Saiu do seu quarto no sótão bocejando, desejando ardentemente ter ao menos um dia de folga na pensão, como acontecia com Ione. O trabalho era duro, mas Janete dera as terças-feiras de folga à cozinheira, porque não era um dia de muito movimento. Amelinha não possuía folga alguma, e eram raras às vezes em que se divertia.

Em seus dias de descanso, Ione se levantava antes do raiar do dia e saía sem fazer barulho, deixando a Amelinha a incumbência de cuidar do café, enquanto que o almoço era sempre preparado de véspera para ser requentado na hora de servir. Naquele dia, ao entrar na cozinha, sonolenta e arrastando os pés, Amelinha teve uma surpresa: Janete lá estava ainda enfiada no seu robe de chambre roxo, bebericando uma xícara de café fumegante.

— Dona Janete! — espantou-se Amelinha. — O que faz de pé tão cedo?

— Não tenho que lhe dar satisfações, menina — respondeu a prima de mau humor. — No entanto, minha descida intempestiva à cozinha teve um motivo.

Amelinha notou que a prima esperava por uma indagação e retrucou com fingido interesse:

— Que motivo?

Janete fitou-a com olhar enigmático e deu um sorriso mordaz, que a menina não compreendeu muito bem. Tomou mais um gole do café, estalou a língua e, mirando Amelinha de cima a baixo, falou com voz melíflua:

— Você já não é mais nenhuma menina, não é, Amelinha? — ela não respondeu. — Nós duas sabemos que dissabores você já experimentou na vida. — Fez uma pausa estudada e prosseguiu com exagerada afetação: — Sei que sua experiência não foi das melhores, mas é preciso que saiba que nem todos os homens são iguais àquele Chico.

Ao ouvir o nome do homem que desgraçou a sua vida, Amelinha teve um estremecimento e encarou a prima com ar indagador.

— Por que está dizendo isso?

— Porque há homens mais cavalheiros do que aquele Chico. Ele foi um animal, é verdade, mas não quero que você se deixe impressionar por isso e se afaste de todos os homens. Você não deve se fechar como uma ostra, minha filha.

Amelinha não entendia nada e se esforçava para que as palavras da prima fizessem algum sentido.

— Não entendo o que está querendo dizer, Dona Janete.

— O que quero dizer, minha filha, é que já é chegada a hora de você deixar eclodir a mulher que existe em você.

— Deixar o quê?

— Ora, não se faça de ingênua. Então não percebe que se transformou numa linda mulher?

— Não sei do que a senhora está falando, Dona Janete. Sei que nunca fui bonita.

— Ah! Mas isso foi antes. Sua mãe me contou como você era gorda e sem-graça — Amelinha engoliu o choro, enquanto Janete prosseguia: — Mas isso foi no passado. Veja agora em que bela moça você se transformou.

Amelinha sentiu vontade de gritar: e daí? Mas achou que a prima não iria gostar e respondeu humildemente:

— A senhora está sendo bondosa comigo, Dona Janete.

— Bondosa, eu? Não, minha filha, estou sendo realista. E acho que você também deveria ser.

— Como assim?

— Venho percebendo o efeito que você causa nos homens desta casa.

Com medo de que a prima a estivesse censurando, Amelinha deu dois passos para trás e tapou a boca com a mão, respondendo apavorada:

— Não... Está enganada, Dona Janete. Eu não faço nada...

— Sei que não faz e nem precisa fazer. Seu remelexo mexe com os homens naturalmente.

— Remelexo? O que a senhora quer dizer com isso?

— Que você bota muita sensualidade no andar.

— Eu?

— Por que o espanto? Por acaso não nota como os homens a cobiçam?

— Dona Janete, a senhora deve estar brincando.

— Não estou não. De uns tempos para cá, tenho notado o fascínio que você exerce sobre os homens... Em especial, sobre um deles.

— Um deles? Quem?

— Nunca reparou?

— Não, nunca. De quem a senhora está falando?

— Do Anacleto.

Mais uma vez, Amelinha cobriu a boca com as mãos.

— Seu Anacleto? — indignou-se.

— Não precisa se fazer de inocente comigo, Amelinha, porque bem sei que você já reparou. Seria impossível não notar o jeito como ele a olha.

Embora Amelinha já tivesse percebido que Anacleto lhe lançava olhares furtivos, jamais lhe passou pela cabeça que ele a estivesse cobiçando. Ele devia ter idade para ser seu avô, e ela nunca poderia imaginar um avô flertando com ela.

— Juro que nunca notei nada, Dona Janete. Nem lhe dei confiança, se é o que quer saber.

— Sei que não. O que é, realmente, uma pena.

Cada vez mais abismada, Amelinha ergueu as sobrancelhas e retrucou com visível indignação:

— Uma pena? O que a senhora quer dizer com isso?

— Olhe Amelinha, chega de rodeios e vamos direto ao ponto. Você já é uma mulher e não há de se chocar com o que vou lhe dizer. O caso é o seguinte: Seu Anacleto está muito impressionado com você. O homem é viúvo, sabe como é, e gostaria de uma companhia.

— Mas tem tanta gente aqui na pensão!

— Ou você está se fazendo de tonta, ou é a menina mais estúpida que já vi! Então não percebe que seu Anacleto está de olho em você? Que ele a deseja e quer dormir com você?

— O quê? — ela recuou aterrada. — O que está dizendo? Dormir comigo?

— E está disposto a recompensá-la com certa importância em dinheiro.

— Dinheiro? Ele está querendo me comprar? O que pensa que sou? Uma prostituta?

— Ora, ora, então você não é tão tola assim, não é mesmo? Já percebeu o que estou tentando lhe dizer.

— O quê? O que a senhora está tentando me dizer?

— Será que preciso ser ainda mais direta do que já estou sendo? Seu Anacleto quer dormir com você em troca de algum dinheiro.

— Não! De modo algum! Não sou nenhuma meretriz!

— A quem está tentando enganar? Você já não é mais moça, não tem nada a perder. Só a ganhar.

— Não, Dona Janete, não posso me entregar assim a qualquer um, por dinheiro. É errado.

— E daí? Que mal pode haver? Ninguém vai ficar sabendo mesmo.

— Mas eu sei! Não quero me prostituir. Não quero virar amante de ninguém!

— O que pretende Amelinha? Casar-se na igreja, de véu e grinalda? Depois do que lhe aconteceu?

Amelinha começou a soluçar e respondeu magoada:

— Não tive culpa do que me aconteceu.

— Será que não teve mesmo? Será que você não provocou o tal Chico?

— Não... — hesitou ela, não muito certa sobre se o havia provocado ou não.

— Isso não tem muita importância agora, não é mesmo? O mal já está feito e não tem mais como remediar. Virgem, minha filha, nunca mais você vai ser.

— Mas... Não sou vagabunda. Não posso me entregar a esse homem por dinheiro.

— E por que se entregaria então? Por amor? Não se iluda minha filha, amor não é para gente feita você. Depois do que lhe aconteceu, você só serve para uma coisa: ser amante.

— Não! A senhora está errada! Sou uma moça direita, de família.

— Mas que família? Você nem tem mais família. Sua mãe a abandonou, e você não tem pai.

— Minha mãe não me abandonou... Mandou-me para cá, mas posso voltar quando quiser.

— Será que pode mesmo? Pois então, por que não experimenta? Será que ela está disposta a aceitá-la de volta?

— Meu padrasto vai convencê-la. Ele sempre a convence.

— Padrasto? Seu padrasto é um bêbado. Vive caído pelas sarjetas.

— Isso é um disparate! Raul sempre foi um homem digno.

— Até o dia em que você o deixou, não é mesmo?

— O quê? O que está dizendo?

— Você é uma tonta mesmo, não é? Não sabe de nada. Pois fique sabendo que, desde o dia em que você partiu, seu padrasto deu para beber. Perdeu o emprego e vive caído pela rua. Sua mãe é que o tem sustentado, lavando e passando roupa para fora.

— Não pode ser... Está mentindo. Diz isso só para que eu faça o que a senhora quer.

— Se não acredita em mim, por que não experimenta telefonar?

— Minha mãe não tem telefone.

— Por que não liga para o antigo trabalho de seu padrasto?

— Não tenho o número.

— Pois então, pode acreditar em mim. Acho que seu padrasto não suportou a sua partida e se entregou ao vício. E sabe por quê? — ela meneou a cabeça. — Porque estava apaixonado por você. Sua mãe percebeu isso e colocou você para fora de casa, só que não a tempo de evitar o mal. Você já o havia enfeitiçado, e ele se deixou arrastar pelo desejo. Quantas vezes você e ele dormiram juntos, pelas costas de sua mãe?

— Isso não é verdade! Raul e eu nunca dormimos juntos! Ele nunca foi apaixonado por mim. Gosta de mim como filha. Como filha, ouviu?

— Ah! É? Então me diga: desde que você veio para cá, por que é que ele nunca a procurou?

— Provavelmente, porque minha mãe não deixa.

— Exatamente. E porque ele anda bebendo por sua causa, e sua mãe não está nada satisfeita.

— Como é que a senhora sabe disso? A senhora nunca mais foi lá, e não creio que minha mãe a procure para lhe fazer confidencias.

— Temos muitos parentes em Limeira, Amelinha. Parentes comuns que morrem por um mexerico.

Amelinha começou a sentir o estômago revirar. Aquela conversa a estava enojando, e ela não queria ficar ali nem mais um minuto para ouvir aquilo. Rodou nos calcanhares e saiu correndo porta afora, subindo as escadas em disparada e batendo a porta do quarto. Atirou-se na cama e prorrompeu num choro longo e desesperado. Pensava nas palavras da prima. Não podiam ser verdadeiras. Raul sempre gostara dela como filha, sempre a defendera e ajudara porque não concordava com as perseguições da mãe. Não havia nenhuma outra intenção por detrás de suas atenções. Não podia haver.

Sentiu-se imensamente inquieta. Janete lhe dissera que ele se tornara um bêbado desempregado. Como seu Chico. Ele também era um bêbado e só não ficara desempregado porque o irmão permitia que trabalhasse na oficina. E Raul? Não tinha irmãos. Onde é que trabalharia? Mas não podia ser. Janete inventara tudo aquilo. Raul era um homem digno e trabalhador. Não se entregaria ao vício daquela maneira, ainda mais por causa dela.

Fazia mais de um ano que ela partira de Limeira, e ninguém nunca lhe havia mandado notícias. Da mãe, nem sinal, e Raul tampouco aparecera. Ninguém lhe telefonara ou escrevera uma carta. Nem ela. O Natal passara, e ela pensou que o padrasto mandaria buscá-la, mas Janete lhe dissera que os tempos estavam difíceis e que ele não poderia se ausentar do trabalho. Ela acreditou e foi ficando, certa de que, mais cedo ou mais tarde, quando tudo voltasse ao normal, Raul convenceria a mãe e a levaria de volta.

Só que agora Janete lhe aparecia com aquela história terrível. Seria verdade? Será que Raul se apaixonara mesmo por ela? Seria por isso que sempre a tratara tão bem? Não conseguia compreender. Gostava do padrasto como se fosse seu pai. Ou será que também nutria por ele algum sentimento camuflado? Não sabia o que pensar. Acostumara-se a vê-lo como seu amigo e salvador. Como agora podia imaginar-se desejando o homem que aprendera a amar como pai? Só se não o amasse desse jeito. Mas como poderia saber?

Havia uma única coisa a fazer naquelas circunstâncias. Precisava voltar a sua casa e ver com seus próprios olhos. Se, por sua causa, Raul se tornara mesmo um bêbedo, vivendo à custa da mãe, precisava fazer alguma coisa. Não sabia bem o quê. Só o que sabia era que não podia viver com aquela dúvida e com aquela culpa a ameaçá-la. Se fora mesmo responsável pela decadência do padrasto, iria descobrir.

Tomou uma decisão. Rapidamente, levantou-se da cama, enxugou as lágrimas e foi apanhar a pequenina mala encardida onde a mãe guardara suas roupas quando partira. Em silêncio, começou a arrumar suas coisas e nem percebeu que Janete entrara no quarto.

— Vai viajar? — ela ouviu a prima perguntar.

— Preciso voltar.

— Para quê? Sua mãe não a quer por lá.

— Não acredito em uma palavra do que a senhora disse.

— Se não acredita, por que se dar ao trabalho de ir até lá?

— Quero ver minha família. Faz mais de um ano que não tenho notícias.

— E só agora lhe deu vontade de vê-los?

— Só agora ouvi esse absurdo.

— Posso saber como é que pretende ir? Você não tem dinheiro.

— E aposto que a senhora não vai me dar, não é mesmo?

— Não.

— Pois não me importo. Vou de qualquer jeito. Pego uma carona na estrada ou me escondo em qualquer trem de carga.

— Muito bem — exasperou-se Janete. — Faça como quiser. Vá até lá e veja com seus próprios olhos. Verá que não menti para você. E depois, volte correndo para mim.

— Não vou voltar.

— Vai sim. Quando descobrir que eu tinha razão, vai voltar correndo e fará o que eu quiser.

Amelinha não respondeu. Fechou a mala e ergueu-a com raiva, passando pela prima como uma bala. Desceu as escadas correndo e ganhou a rua, caminhando em direção à estação de trem. Pediria uma carona num trem cargueiro. Não foi difícil. Amelinha fez cara de choro e o maquinista se condoeu, deixando que ela ficasse em um dos vagões de carga. Ajeitou-se entre uns sacos de farinha e acabou adormecendo. Mal podia conter a ansiedade de voltar a ver sua família. Só então percebeu que sentia saudades de sua casa, de seu quarto e, sobretudo, de Raul. Por que ele não se comunicara com ela naquele ano todo? Sentiu imensa vontade de vê-lo e começou a chorar, imaginando-o caído na sarjeta com uma garrafa de pinga na mão. Aos poucos, a imagem foi-se distanciando, e ela ouviu o apito do trem soar à distância. Seus olhos pesaram, e ela adormeceu.

 

Chovia torrencialmente quando Amelinha desceu do trem na pequenina estação da cidade de Limeira. Agarrada à velha maleta encolheu-se em um banco na plataforma e esperou. A chuva não se decidia a diminuir, e ela foi ficando cansada, o corpo todo dormente da incômoda posição em que se encontrava. Trovões ribombavam à distância, e luzes azuis de relâmpago lançavam uma claridade desconfortável sobre seus olhos. O vento se embrenhava em seus cabelos, atirando-os de um lado a outro, e enfunando suas vestes, já encharcadas pelos grossos pingos de chuva que eram furiosamente atirados pela ventania. A cada rajada mais forte, Amelinha se encolhia mais, pedindo a Deus que fizesse cessar aquela tempestade.

Mas a intempérie não parecia disposta a ceder, ou antes, desafiava Amelinha para um duelo de resistência. As horas iam-se passando, e nada de a chuva parar. O homem do guichê conversava com outro, que parecia ser o chefe da estação, e apontava para ela com o queixo. Amelinha assustou-se. E se aqueles homens pensassem que era uma ladra ou fugitiva e chamassem a polícia?

Resolveu ir embora de qualquer jeito. Enfrentando o mau tempo, Amelinha levantou-se do banco e saiu às pressas para a rua. A chuva a atingiu em cheio, e ela se apertou toda dentro do casaco surrado, estreitando a mala contra o peito, sentindo um calafrio de febre a subir pelo pescoço. Foi caminhando apressada pela rua, olhando de vez em quando para trás, para ver se alguém a estava seguindo, mas ninguém apareceu. Os dois homens, com certeza, não se animaram a enfrentar a tempestade por uma menina desconhecida.

Foi subindo a rua lentamente, sem saber ao certo que direção tomar. Não costumava andar por aqueles lados e sentiu-se perdida num primeiro momento. Foi entrando em ruas escuras, pisando nas poças enlameadas, até que chegou a uma pracinha conhecida. Finalmente encontrou o caminho certo para sua casa. Agora já sabia onde estava e logo dobrou a esquina de sua rua. Sentiu o coração acelerar quando avistou sua casa mais abaixo. Foi andando rapidamente, quase correndo, até que chegou ao portão e entrou. A casa estava toda escura. Não sabia que horas eram, mas, pelo tempo que ficara na estação, deduziu que seria bem tarde e todos deveriam estar dormindo.

Chegou à porta da frente e bateu uma, duas, três vezes. Ninguém parecia escutar, por causa do barulho da chuva e do vento, e ela bateu com mais força, quase esmurrando a porta. Finalmente, depois de mais de quinze minutos, a porta se entreabriu lentamente, e ela reconheceu o nariz da mãe se insinuando na penumbra.

— Quem está aí? — perguntou Tereza, tentando ver na escuridão.

— Sou eu, mãe, Amelinha. Deixe-me entrar.

Na mesma hora, Tereza chegou para o lado, e Amelinha irrompeu na sala, toda molhada e tiritando de frio. Jogou a mala no chão e encarou a mãe, pensando em algo para lhe dizer. Não foi preciso, porque Tereza se adiantou e foi perguntando com rispidez:

— O que está fazendo aqui? Você fugiu da casa de sua prima?

— Fugir? Não, mãe, não fugi. Vim apenas ver com estão as coisas.

— Assim, sem avisar?

Amelinha sentiu o rosto e os olhos arderem e leve vontade de chorar. Então ela passava mais de um ano fora, sem dar notícias, e era assim que a mãe a recebia? Nem um cumprimento, nem um como vai? Nada? Ela e a mãe nunca haviam se dado bem, mas esperava que o tempo e a distância houvesse suavizado um pouco o seu coração de pedra.

— Não está contente em me ver, mãe?

Tereza olhou-a de um jeito estranho e nem precisou dizer o que sentia para Amelinha saber o que lhe ia ao pensamento. Estava claro que a mãe não ficara nem um pouco satisfeita de vê-la ali e nem se preocupava em esconder.

— Não devia ter voltado. Sua vida agora é em São Paulo, não aqui.

— Esta é a minha casa.

— Não é mais. No dia em que você partiu, esta deixou de ser a sua casa.

— Eu não parti mãe. Foi você quem me mandou embora.

— Muito bem. Por que voltou então?

— Para ver como estão às coisas, já disse.

— Mas por quê? O que a fez querer voltar? — Amelinha não respondia, sem saber por onde começar a contar à mãe as infâmias que Janete lhe dissera. — Não! Não me diga. Já sei por que voltou. Depois de arruinar nossas vidas, voltou para rir da nossa desgraça. Eu devia era colocá-la para fora de casa a pontapés.

Naquele momento, Amelinha teve certeza de que as infâmias da prima não eram tão infâmias assim. Pela reação da mãe, tudo o que ouvira a respeito do padrasto deveria ser verdade. Mas ela não tinha culpa, não sabia de nada daquilo. Talvez fosse apenas um mal-entendido, e já era hora de esclarecer tudo.

— Não sei do que está falando, mãe. Eu não fiz nada...

Nem teve tempo de terminar. A bofetada que a mãe lhe deu fez com que ela rodopiasse e se estatelasse no chão.

— Sua desavergonhada, ordinária, vagabunda! Não me chame de mãe! Como se atreve a me enfrentar? Apanhe suas coisas e vá-se embora daqui!

A gritaria acabou despertando Raul e Cristina, que chegaram à sala praticamente ao mesmo tempo. Ao ver a irmã caída no chão, à roupa toda molhada, os cabelos despenteados, Cristina correu para ela e a abraçou, ajudando-a a se levantar.

— Amelinha! — exclamou animada. — Que bom que você está aqui. Senti saudades suas.

Amelinha não respondeu e deixou-se ajudar pela irmã, mecanicamente erguendo-se do chão. Tinha os olhos fixos em Raul, que estava parado na porta da sala, só de ceroulas, sem camisa, a barba de muitos dias, os olhos inchados e vermelhos de beberrão.

— Raul... — chamou ela, chocada com a visão daquela figura feia e decadente, muito diferente do homem que era quando ela partira. — O que houve com você?

Ele não teve coragem de encará-la. Escondeu o tosto entre as mãos e desatou a chorar, ajoelhando-se no chão, o corpo magro sacudido pelos soluços, instintivamente, ela se desvencilhou de Cristina e correu para ele, braços estendidos, num gesto simples de querer ajudar. Mas não foi assim que Tereza entendeu a sua atitude. Impediu-a de aproximar-se, puxando-a pelos cabelos e jogando-a em cima do sofá.

— Fique longe dele! — vociferou ao mesmo tempo em que avançava para ela. — É por sua culpa que ele está assim, sua cadela! Está satisfeita? Vadia, prostituta!

Enquanto gritava, Tereza ia batendo no rosto de Amelinha, que se encolheu toda no sofá, tentando proteger-se daqueles golpes violentos. Assustada com a reação da mãe, Cristina atirou-se sobre ela, tentando segurar-lhe o braço, gritando entre lágrimas e soluços infantis:

— Mãe! Pare com isso, mãe! Está machucando Amelinha! Pare! Pare!

Mas Tereza não parava. Parecia que, quanto mais Cristina gritava, mais prazer ela sentia em ferir Amelinha. A filha tinha o corpo enfraquecido e não conseguia forças para reagir. O rosto parecia em chamas, e ela não sabia se por causa das tapas ou da febre que ia se elevando. Amelinha começou a ver e ouvir as coisas distantes, quase como se estivesse sonhando, e os bofetões que levava já não doíam mais. As faces dormentes se acostumaram aos golpes, e cada nova bofetada apenas aumentava a sua vermelhidão e dormência.

Aos poucos, Amelinha foi sentindo uma sonolência gostosa, e suas pálpebras começaram a tombar. O frio que lhe penetrava a espinha, percorrendo-lhe as veias e se infiltrando nos ossos, começava agora a ceder, e um sopro morninho foi acalmando os pelos de seu corpo, que tornaram a se acomodar em cima da pele. Com muito esforço, tentou manter os olhos abertos, mas o apelo confortável do sono foi mais forte, e ela deixou que as pálpebras caíssem de vez, desfalecendo sob a sanha furiosa da mãe.

Ainda assim, Tereza não parava de bater. Nem percebera que a filha havia desmaiado. Só o que sabia era que precisava se vingar daquela mulherzinha sonsa e vulgar que se disfarçara de sua filha para poder roubar-lhe o marido. Sim, era isso. Era uma vagabunda que tinha em suas mãos, não alguém que saíra de seu ventre e que, supostamente, deveria amar. Continuava batendo, descontrolada, até que sentiu que mãos fortes apertavam os seus punhos, impedindo-a de continuar.

— Você enlouqueceu Tereza? — era Raul que, despertado pelos gritos e as súplicas de Cristina, saíra de seu torpor e segurava a mulher com veemência. — Quer matar a sua filha?

Presa pelo marido, Tereza cessou as bofetadas e o fitou com ódio.

— Você ainda a defende, não é? — rugiu colérica. — Quer salvar a sua amante novamente? Mas dessa vez, não vai conseguir. Se eu não a matar, a peste se encarregará de fazê-lo!

— O que está dizendo, mamãe? — choramingava Cristina, apavorada com a violência da mãe. — Está rogando praga para Amelinha?

Com um gesto brusco, Tereza se soltou das mãos de Raul e correu para Cristina, que chorava apavorada.

— Não chore minha filha — tentou consolar. — Não aconteceu nada de mais.

— A senhora... Matou Amelinha... — soluçava a menina. — Ela... Está morta... Não está?

Amelinha ardia em febre. Mais que depressa, Raul ergueu-a no colo e levou-a para o quarto, tirando-lhe as roupas molhadas e deitando-a na cama. Apanhou dois cobertores e a cobriu, seguido por Tereza, que o olhava com ar de ódio e censura, sem dizer uma palavra. Cristina, agarrada a sua cintura, não parava de chorar, achando que a irmã havia morrido.

— Venha cá, Cristina — chamou Raul. — Fique aqui cuidando de sua irmã, enquanto vou buscar o médico. Não quero que saia de perto dela nem um minuto, Ouviu?

Ela assentiu e retrucou temerosa:

— Ela está... Morta?

— Não, não está. Mas pode morrer, se nós não corrermos e chamarmos o médico.

Foi com imenso alívio que ela ouviu aquelas palavras, e, enxugando as lágrimas, respondeu:

— Pode ficar sossegado, tio Raul. Não largo Amelinha por nada.

— Ótimo. Você é uma boa menina. Tenho certeza de que vai cuidar muito bem dela.

Enquanto ele se vestia rapidamente, Tereza o observava, até que não conseguiu mais se conter e indagou, a voz fremente de ódio:

— Aonde é que você vai?

— Chamar um médico.

— Ela não tem nada. É só passar umas compressas de água fria no rosto, e amanhã estará boa.

— Sua filha está ardendo em febre, além de machucada com a surra que você lhe deu. Precisa de um médico, se não, vai morrer.

A vontade de Tereza era gritar: deixe que morra, mas temia que Raul se zangasse e a repreendesse novamente. Seguiu-o até a sala e, quando ele se aproximava da porta, disse com aparente calma:

— Não se demore.

Ele estacou a mão na maçaneta, e se virou para ela, os olhos chispando de raiva. Aproximou-se, a respiração ofegante, as narinas fremindo de raiva, e disse em tom ameaçador:

— Não se aproxime dela, ouviu bem? Mantenha distância de Amelinha, se não quiser se entender comigo e a justiça.

Ela mordeu os lábios e não respondeu. Ficou parada onde estava vendo Raul sair apressado. A chuva havia diminuído um pouco, mas ainda fazia muito frio. Em silêncio, foi até a porta do quarto das meninas e olhou para dentro. Deitada na cama, Amelinha tiritava de frio sob os dois cobertores, o inchaço do rosto quase lhe cobrindo os olhos, enquanto Cristina, a seu lado, dizia com sua vozinha miúda:

— Por favor, Amelinha, não morra. Gosto de você, quero que fique boa. Não morra. Pai nosso que estais no céu...

Intimamente, Tereza exultava. Não seria nada mau se Amelinha pegasse uma pneumonia e morresse. Ela ardia em febre, o que, certamente, não era conseqüência das tapas que lhe dera. Nem batera tão forte assim. Ela é que era exagerada e fingira desmaiar só para chamar a atenção de Raul. Sentou-se na cama de Cristina para esperar. O que diria o médico se percebesse a satisfação que sentia com o estado da filha?

Pouco tempo depois, Raul estava de volta com médico. Ele cumprimentou Tereza e afastou Cristina gentilmente, pondo-se a examinar Amelinha. Viu os hematomas e o inchaço que lhe cobriam o rosto, mas não pôde se deter muito naquilo. A febre e o ronco de sua respiração eram sintomas que mereciam muito mais a sua atenção, e o diagnóstico para aqueles sinais só podia ser um. Ajeitou os óculos sobre o nariz, virou-se para Tereza e Raul, e esclareceu apreensivo:

— Ela precisa ser internada imediatamente. Está com pneumonia.

— De novo? — assustou-se Cristina. - Faz pouco mais de um ano que ela teve pneumonia.

— Eu sei — comentou o médico. — Lembro-me bem. Vamos, depressa, não temos tempo a perder.

— Ela está sem roupas — adiantou-se Tereza, tentando evitar que Raul a visse nua novamente.

— Pois o que está esperando? Vista-a logo, vamos! Use roupas bem quentes.

O médico saiu puxando Raul pelo braço, deixando Amelinha aos cuidados da mãe e da irmã. Na sala, de pé diante da porta, o médico indagou:

— O que foi que houve com ela?

— Nós não sabemos — respondeu Raul, sem o encarar. — Ela chegou aqui assim e desmaiou.

O médico assentiu e não disse nada. Sabia que Amelinha estava morando em São Paulo com a prima, o que ela estava fazendo ali não era de sua conta, cabia-lhe, tão somente, cuidar de sua saúde.

No hospital, foi constatada a pneumonia dupla, e Amelinha foi internada às pressas. Os médicos se desvelavam para salvar-lhe a vida, e, enquanto Cristina e Raul oravam para que ela resistisse Tereza, em silêncio, invocava o poder das trevas para que ela morresse. Muitos seres das sombras acorreram ao seu chamado, mas havia espíritos de luz interessados no bem-estar de Amelinha.

Por maior que seja o poder da treva, ele nunca será forte o bastante para se impor onde quer que haja um só pensamento de luz, e os espíritos que atenderam ao chamado de Tereza não conseguiram levar Amelinha. Protegida por amigos luminosos, que envolveram seus pulmões numa campânula de luz, ela começou a reagir e, alguns dias depois, já estava fora de perigo, livre de qualquer ataque da escuridão.

Os médicos do hospital quiseram saber a razão da surra que Amelinha havia levado. Sabiam que a pneumonia era decorrência da chuva que apanhara, mas não viam explicação para os inchaços e hematomas em seu rosto. Tereza buscou o apoio de Raul, mas ele abaixou os olhos e não disse nada.

—Nós não sabemos ao certo — explicou ela, tentando demonstrar indignação. — Achamos que ela foi atacada por algum malfeitor quando vinha para casa.

Ninguém fez mais perguntas. Nem a Tereza, nem a Amelinha, nem a ninguém. A desculpa que ela arranjara fora suficiente, e a surra que Amelinha levara terminaram impunes.

— Se tornar a bater nela outra vez — alertou Raul, quando estavam a sós —, juro que a entrego à polícia e vou ser o primeiro a depor contra você.

Com medo das conseqüências, Tereza silenciou. Não queria ser presa nem perder o marido. Mas ainda podia expulsar Amelinha de sua casa assim que ela saísse do hospital. E, com certeza, era isso mesmo que faria.

 

Levou algum tempo até que Amelinha se recuperasse. Mesmo contra a vontade de Tereza, ela teve que voltar para casa, ficando aos cuidados de Cristina. Aos pouquinhos, foi melhorando e se fortalecendo, até que se restabeleceu por completo.

— Agora que ficou boa — disse Tereza, no primeiro dia em que ela pôde se sentar à mesa para almoçar —, já pode voltar para São Paulo. Janete deve estar sentindo a sua falta.

— Acho que Amelinha não quer voltar, quer Amelinha? — indagou Cristina. — Podemos cuidar dela.

— Mamãe tem razão — concordou a menina, fitando a irmã com certo carinho. — Não há mais nada para mim aqui.

— Ah! Que pena.

— Não sei por que se importa tanto com sua irmã — censurou Tereza. — Ela não liga a mínima para você.

— Posso ser tudo, menos mal-agradecida — rebateu Amelinha.

Era a primeira vez na vida, ao menos que Cristina se lembrasse que a irmã tinha algum reconhecimento para com ela.

— Gosto de você, Amelinha. Somos irmãs. Sorriram amistosamente, e Raul entrou na cozinha cabisbaixo, indo sentar-se em seu lugar de sempre. Àquela hora, deveria estar no trabalho, e se não estava, era porque a prima tinha razão, e Raul estava mesmo desempregado.

— Boa tarde, meninas — cumprimentou ele, servindo-se de um prato de feijão.

— Onde você esteve? — quis saber Tereza, olhando-o desconfiada.

— Fui procurar emprego.

Não disse mais nada. Comeram em silêncio, com Raul de cabeça baixa o tempo todo, evitando olhar para Tereza ou Amelinha, que estava louca para conversar com ele a sós. Precisava que ele lhe esclarecesse sobre aquela história de paixão. A mãe praticamente já confirmara tudo, mas o que ela dizia não tinha muito valor. Tereza sempre fora ciumenta, levantando suspeitas infundadas sobre ela e o padrasto. Que a acusasse de tentar roubar-lhe o marido não era nada de mais.

De qualquer forma, Raul não se parecia com o espectro que Janete dissera que ele se tornara. Quando chegara, Amelinha achou-o um pouco esquisito, com um jeito de quem havia se embriagado, mas podia ser impressão causada pela febre. Ele não tinha cara de bêbado agora e, embora desempregado, não parecia acomodado na situação. Contudo, por que havia chorado ao vê-la? Que sentimentos teriam açoitado seu coração quando a vira?

No dia seguinte, acordou cedo e saiu. Encostou-se numa árvore no fim da rua e esperou. Cerca de meia hora depois, Raul saiu de casa, de banho tomado, todo arrumado, a barba feita e os cabelos penteados. Quando passou por onde ela estava, Amelinha saiu de trás da árvore e pôs-se a caminhar ao seu lado. Ele se surpreendeu com a sua presença, mas não fez nenhum comentário. Sentia imensa alegria ao vê-la e não pretendia questionar por que ela estava ali.

— Olá, Raul — começou ela, para puxar assunto.

— Olá, menina. O que faz aqui fora tão cedo?

— Esperava-o para falar com você.

— Falar comigo? O quê?

— Está indo procurar emprego de novo?

— Estou.

— Por que você perdeu o seu emprego antigo? O que foi que aconteceu?

Ele deu uma meia parada e olhou-a com tristeza, pensando se deveria ou não lhe contar a verdade.

— Colocaram outro no meu lugar. Mais jovem e mais inteligente.

Era mentira, e ela sabia disso.

— Não foi isso o que ouvi dizer — arriscou.

— E o que você ouviu dizer?

— Que você foi mandado embora porque vivia bêbado.

— Quem foi que lhe disse isso?

— Minha prima Janete.

— Sei...

— É verdade, Raul? Você foi mandado embora por causa da bebida?

— Por que se interessa por isso, Amelinha?

— Foi por isso que voltei.

Ele estacou, fitando-a com cara de assombro.

— Você voltou por minha causa?

— Voltei porque precisava esclarecer algumas coisas que só você pode me dizer.

— Que coisas?

— Você sabe.

— Não, não sei.

— Minha prima disse que você deu para beber e que vive caído na sarjeta. Isso é verdade?

— É — respondeu ele secamente, engolindo indescritível angústia.

— Disse também que minha mãe é quem sustenta a casa agora.

— Não é bem assim. Estou tentando arranjar outro emprego.

— O que você fez para ser mandado embora?

— Será que não dá para imaginar o estrago que um bêbedo pode fazer numa vidraçaria? — ela assentiu. — Eu era gerente, Amelinha, não podia ter feito o que fiz.

— O que você fez?

— Eu estava com muita raiva naquele dia. Cheguei atrasado, e o patrão chamou minha atenção. Tínhamos vários pedidos para entregar, e a responsabilidade pelas faturas era minha. Eu não sabia onde as havia colocado, havia me esquecido que as levara para casa. O patrão começou a gritar comigo, e eu, alterado pela bebida, perdi o controle e comecei a atirar vidros e espelhos para todos os lados. Foi uma sorte ninguém ter-se ferido.

— O que foi que o levou a isso, hein?

— Você está me fazendo um tremendo interrogatório menina. Posso saber o motivo?

— É que minha prima disse muitas coisas de você...

— O quê, Amelinha? O que mais ela falou que a deixou tão preocupada?

— Quer mesmo saber, Raul? — ele assentiu. — Pois bem. Ela disse que você se entregou à bebida depois que eu parti porque estava apaixonado por mim.

— Ela disse isso?

— Disse. É mentira, não é? Você não se tornou bêbedo por minha causa, se tornou? Vamos, Raul, diga que não é verdade. Diga que Janete inventou tudo isso só para me espezinhar.

— Por que acha que é mentira?      

— Porque você é meu padrasto. É o homem que está no lugar do meu pai. Não pode me amar desse jeito.

Ele soltou um longo suspiro e retomou a caminhada.

— Infelizmente, as coisas nem sempre são como devem ser.

— O que está querendo dizer? Que ela tem razão?

— Sabe Amelinha, há coisas que acontecem na vida que foge ao nosso controle. Sentimento é uma delas... E eu, infelizmente, não pude controlar os meus.

— Por quê? — ela começou a chorar. — O que foi que eu fiz?

— Nada. Você apenas existe.

— É por isso que minha mãe me odeia. Ela pensa que você e eu...

— Sua mãe tem a mente suja e vive assombrada pelo ciúme. Eu jamais lhe faltaria com o respeito. Você é uma criança...

— Ainda assim, você me ama.

Ouvir aquelas palavras dos lábios de uma menina causou-lhe imensa comoção, e ele não pôde mais se conter. Virando-se de frente para ela, segurou-lhe os braços e, olhando fundo em seus olhos, declarou emocionado:

— Sim, Amelinha, amo-a como jamais amei outra em minha vida. Quando você sofreu aquele estupro, fiquei furioso e pensei que seria capaz de matar o Chico. Queria protegê-la, confortá-la, cuidar de você. Naquela época, nem eu conhecia o meu amor. Para mim, tudo não passava de zelo de pai, porque era isso que me julgava. Pensei que a amasse como pai, e foi muito doloroso quando vi que o meu amor por você era de homem. Foi só quando você partiu que descobri o quanto a amava. E quando sua mãe me procurava para o sexo, percebi que era você que eu desejava. Ao amar Tereza, era você que estava amando. Sentindo o corpo dela, eu fechava os olhos e imaginava você em meus braços. Fiquei horrorizado comigo mesmo. Eu era casado com sua mãe, como podia amar você daquele jeito? Disse a mim mesmo que estava enganado, que era a sua mãe que eu amava, mas não conseguia tirá-la de meus pensamentos. Você foi se tornando uma obsessão, eu não conseguia mais parar de pensar em você, de desejar o seu corpo. Até do Chico senti ciúmes e inveja, porque ele pôde tocar o seu sexo, o que, para mim, era proibido, era quase um incesto...

— Por favor, Raul, não diga mais nada! — cortou ela, em lágrimas.

— Fiquei fascinado por você. Comecei a beber para tentar esquecê-la e me obrigar a amar sua mãe. Quanto mais eu bebia, mais eu a desejava e mais usava sua mãe para tentar saciar o desejo que sentia por você. E mais eu a amava e queria. Fui enlouquecendo, bebendo cada vez mais. Bebia de cair, e era só então que eu conseguia um pouco de paz...

— Oh! Raul pare!

Ela desatou a chorar, tapando os ouvidos com as mãos, tentando não escutar. Arrependia-se de haver ido até ali procurá-lo.

— Não chore Amelinha, não quero magoá-la.

— Mas está magoando. Não pensei que fosse assim.

— Não tenho culpa de amá-la. Não pedi isso, não esperava por isso. Tentei lutar contra mim mesmo, mas não consegui. Em um ano, cheguei à decadência total. Sua mãe percebeu tudo antes mesmo de eu descobrir que amava você. Qualquer dúvida que pudesse ter se dissolveu quando eu chamei o seu nome na cama...

— Você o quê?         

— Nós estávamos fazendo amor, e eu, em meu delírio ébrio, sussurrei o seu nome várias vezes ao ouvido dela, dizendo o quanto a amava e desejava.     

— Meu Deus!

— Conhecendo sua mãe, você pode imaginar o escândalo que ela fez. Gritou, esbravejou, disse que ia me deixar. A muito custo conseguiu se acalmar, e as coisas, aos poucos, voltaram a ser mais ou menos como antes.

— Até que eu reapareci.

— Até que você reapareceu. Ao vê-la, senti acender todo o amor e o desejo. E sua mãe demonstrou por você um ódio como eu nunca antes havia visto. Foi isso que me incentivou a tentar me reerguer.

— O ódio de minha mãe?

— Por pouco sua mãe não a matou, e eu senti que a culpa disso tudo era minha. Você é uma criança inocente e nada sabia sobre meus sentimentos. Sua mãe nunca a amou como devia, mas, não fosse a minha paixão, talvez ela não a odiasse tanto. Por isso, resolvi mudar. Por sua causa, eu lhe devia isso. Desde ontem não bebo, e hoje é o segundo dia em que saio è procura de emprego.

— Não sei o que dizer Raul.

— Não precisa dizer nada. Você é uma menina muito boa e não merece a mãe e o padrasto que tem. Só Cristina é boa como você. Pena que você não consegue ver isso.

— Está apaixonado por Cristina também? — horrorizou-se.

— É claro que não! Cristina é uma menina meiga e muito bonita, e, a ela sim, consigo amar como filha.

— Oh! Raul, o que devo fazer? Depois disso tudo, não posso mais continuar vivendo aqui.

— Quer saber a minha opinião? No princípio, não queria que você fosse embora, por egoísmo, porque iria sentir a sua falta. Mas agora, acho que o melhor para você é ficar longe de tudo isso. Volte para São Paulo e procure arranjar a sua vida por lá. Case-se com um homem bom, que a ame de verdade.

— Você quer que eu me case?

— Não pense que me é fácil dizer isso, mas quero o melhor para você. Sei que o meu amor é impossível, mas você pode ser feliz com alguém. Você merece isso.

— Não sei se poderei me casar. Janete me quer para um hóspede.

— Hóspede?

— É. Não sei se você sabe que ela transformou a casa em pensão, e tem um hóspede lá que está interessado em mim. Janete diz que é o melhor que posso arranjar.

— Não faça isso, Amelinha. Não deixe sua prima convencê-la de que você é uma prostituta, porque não é verdade. Você não tem culpa do que lhe aconteceu, e não é por isso que tem que se entregar a qualquer um.

Chegaram ao centro da cidade e tiveram que se separar. Raul tinha alguns empregos para ver, e Amelinha não podia acompanhá-lo. Além disso, a mãe já devia ter dado pela sua falta e talvez estivesse fantasiando alguma bobagem sobre ela e Raul.

— Não conte à mamãe que conversamos — pediu ela. — Ela não vai gostar e vai ficar imaginando o que não aconteceu.

— Pode deixar. É melhor mesmo que ela não saiba dessa nossa conversa. Agora, vá para casa e apronte suas coisas. Volte para São Paulo e faça como lhe falei.

— Você não quer que eu vá.

— Não. Mas é o melhor para você. Ficar longe de mim só lhe fará bem.

Despediram-se. Amelinha sentia uma imensa tristeza no coração. Ouvira o que Raul lhe dissera com grande pesar, principalmente porque não o amava como ele a ela. Queria ficar, mas não podia. A mãe jamais a aceitaria de volta, e se de todo ela insistisse em ficar, trataria de infernizar a sua vida e a de Raul. Não. Tinha que voltar para São Paulo, para a casa de Janete. A prima faria de tudo para que ela se tornasse amante de Anacleto, mas pretendia resistir. Raul acreditava nela. Ela também deveria acreditar. Daria um jeito de estudar e arranjar um emprego honesto. Depois, encontraria um homem de bem que a aceitasse como esposa, e ela se dedicaria ao marido, ao lar e aos filhos.

Mas estavam nos idos de 1930, e as coisas não eram tão fáceis assim...

 

À volta para São Paulo foi mais tranqüila do que a ida para Limeira. A mãe, ansiosa por ver-se livre da filha indesejada, logo tratou de comprar-lhe a passagem e dar-lhe algum dinheiro para a viagem, de forma que Amelinha conseguiu retornar em paz. Chegou à pensão na hora do almoço e encontrou todos os hóspedes reunidos no grande salão. Janete a recebeu com uma alegria afetada, e ela sabia que era por causa de Anacleto.

— Minha querida Amelinha — disse ela com exagerada euforia. — Senti tanta saudade de você! Chegou à boa hora. Vá se lavar e venha se sentar aqui junto a mim para almoçar.

Era a primeira vez que Janete a convidava para sentar-se a sua mesa. Em geral, Amelinha comia na cozinha, junto com Ione, mas Anacleto almoçava com ela, o que justificava tanta atenção. Amelinha lançou um olhar de desagrado para Anacleto, que lhe sorriu com cupidez, e respondeu secamente:

— Obrigada, Dona Janete, mas não estou com fome.

Virou as costas e tomou o caminho de seu quarto, com Janete atrás dela.

— O que pensa que está fazendo? — resmungou Janete ao seu ouvido, enquanto lhe dava um beliscão no braço. — Considero isso uma desfeita imperdoável.

— Lamento, mas não estou com a menor fome. Minha mãe me deu dinheiro, e fiz um lanche na estação.

— Escute aqui, garota! — exaltou-se Janete, virando-a bruscamente. — Esqueceu-se de quem é que manda aqui?

— Não.

— Pois acho bom. Você está sob a minha guarda, sou responsável pela sua educação.

— Isso é educação?

— Não me responda! Ordeno que vá se lavar e venha nos acompanhar ao almoço. Vamos! O que está esperando?

Amelinha olhou-a com um misto de ódio e mágoa, mas não respondeu. Qualquer coisa que dissesse só serviria para irritar ainda mais a prima, e não estava com vontade de entrar em confronto com ela. Fez como Janete lhe ordenou. Foi para o quarto, lavou-se, pôs uma roupa limpa e desceu para o almoço. Demorou-se mais do que de costume e, quando chegou ao salão, a maioria dos hóspedes já havia terminado. Apenas alguns retardatários ainda estavam comendo, e ela se dirigiu para a mesa de Janete, que estava sentada em companhia de Anacleto, tomando calmamente uma xícara de café.

— Ah! Amelinha, que bom que chegou — falou Janete, com fingido interesse. — Venha, sente-se aqui junto a nós.

Em silêncio, Amelinha sentou-se na cadeira que Janete lhe indicava, mas não viu nenhum prato colocado para ela. Ao contrário do que dissera à prima, estava com muita fome e pretendia ignorar Anacleto e almoçar tranqüilamente. Já ia perguntar onde estava seu prato quando ouviu a voz de Anacleto:

— Não vai almoçar Amelinha?

Antes que ela tivesse tempo de responder, Janete se adiantou e foi logo dizendo:

— Amelinha não está com fome. Coisas da juventude, se é que me entende.

Anacleto deu um sorriso compreensivo e levou a xícara de café aos lábios, olhando para Amelinha com visível interesse.

— Como foi à viagem? — prosseguiu ele. — Sua mãe está bem?

— Está — respondeu ela laconicamente, olhando para a prima de esguelha, imaginando se ela havia contado algo de sua vida àquele homem.

— Conseguiu o que queria? — tornou Janete com ar de desdém.

— Consegui.

— Eu tinha ou não tinha razão?

— Tinha — confessou Amelinha, após uma breve hesitação.

— Sobre o que é que vocês duas estão falando? — quis saber Anacleto, interessado.

— Ah! Nada de mais — informou Janete. — Assuntos de família que só irão aborrecê-lo.

Seguiu-se um silêncio embaraçoso, no qual Amelinha ficou fitando o chão, o estômago roncando de tanta fome.

— Não quer nem um café, Amelinha? — insistiu Anacleto, para puxar assunto.

— Um cafezinho, eu aceito.

Era para disfarçar a fome. Janete fulminou-a com o olhar e quase gritou: vá buscar você mesma, mas precisava manter a aparência diante de Anacleto. Ao invés de gritar, apanhou a sineta de prata em cima da mesa e sacudiu-a brevemente. Segundos depois, Ione apareceu e correu para a mesa de Janete, surpresa com a presença de Amelinha à mesa da patroa. Não fez nenhum comentário. Janete não gostava que fizessem perguntas na frente dos hóspedes e limitou-se a dizer baixinho:

— Mandou me chamar, Dona Janete?

— Traga um café para Amelinha — foi à ordem incisiva.

— Sim, senhora.

Antes que Ione se afastasse, Amelinha pediu rapidamente:

— Será que você pode trazer-me algo para comer? Estou com fome agora.

Nem ousou encarar Janete, para não ver o seu olhar de fúria. Apenas ouviu a voz de Anacleto, elevando-se entusiasticamente:

— Mas isso é excelente! Enquanto almoça, posso fazer-lhe companhia.

Amelinha não viu, mas Anacleto lançou significativo olhar para Janete, que pediu licença e se levantou, com a desculpa de que tinha que ver algo na cozinha. A situação era extremamente constrangedora, e Amelinha começava a se arrepender de haver pedido aquela comida. A refeição chegou logo depois, e Amelinha pôs-se a comer em silêncio, acompanhada pelos olhares lúbricos de Anacleto.

— Vejo que está com muita fome — observou ele, vendo a avidez com que ela devorara o ensopado de carne.

— Hã, hã.

— Fez boa viagem? — ele já havia perguntado aquilo, e ela apenas assentiu. — Dona Janete me disse que você e sua mãe não se dão muito bem.

Então Janete se atrevera a comentar de sua vida particular com aquele velho sovina. Como a odiava! Pelo jeito de Anacleto, Janete lhe dissera bem mais do que isso. Se antes Amelinha já desconfiava de que ela lhe contara tudo sobre o estupro que sofrerá, agora já não tinha mais dúvidas. O homem oferecera dinheiro para dormir com ela justamente porque sabia que ela não era mais moça. Só que não era prostituta. Podia não se casar mais na igreja, de véu e grinalda, mas ainda tinha chance de conhecer um homem digno que gostasse dela e a aceitasse do jeito que era.

Com raiva da conversa de Anacleto e do seu jeito libidinoso, Amelinha soltou o garfo, limpou a boca com o guardanapo e revidou com frieza:

— Se me der licença, seu Anacleto, já terminei de almoçar.

Começou a se levantar rapidamente, mas Anacleto a segurou pelo braço e fez com que ela tornasse a se sentar.

— Não precisa ficar aborrecida. Não estou aqui para tecer comentários a respeito do seu relacionamento com sua mãe. No entanto, há certas particularidades de sua vida que não me passaram despercebidas.

— Que particularidades? — perguntou ela mecanicamente, maldizendo-se por haver alimentado aquela conversa.

— O que lhe aconteceu, por exemplo — ela ameaçou fugir, e ele a segurou novamente. — Não precisa ficar com vergonha de mim.

— Não estou. Só não gosto de comentar assuntos pessoais com estranhos.

— Tem razão. Há certas coisas que só devemos contar aos mais íntimos. E é por isso que lhe estou oferecendo a minha amizade, para que você possa se abrir comigo sempre que quiser.

— Agradeço muito, seu Anacleto, mas acho que o senhor é um pouco velho para ser meu amigo. Gosto mais de Ione.

A resposta não o agradou, e ele mordeu os lábios para não gritar com ela.

Você é uma mocinha muito sincera. Gosto disso. No entanto, creia-me, não sou tão velho que não possa ser seu amigo. E depois, posso lhe proporcionar certos... Prazeres, que você dificilmente poderá obter na cozinha.

— Obrigada, mas não — respondeu ela rapidamente, levantando-se de chofre, antes que ele tivesse tempo de impedi-la.

— Espere! — gritou ele, vendo-a se afastar às pressas pelo corredor.

Mas ela não se deteve. Nem quando Janete se postou a sua frente. Esbarrou nela com vigor e saiu correndo em direção à cozinha.

Janete se aproximou de Anacleto, que tinha um brilho estranho no olhar.

— Não está sendo tão fácil como à senhora me garantiu — considerou ele com azedume.

— Tenha calma, seu Anacleto. A menina só está assustada.

— A senhora me disse que ela era experiente.

— Ela é. Foi violada por um bruto e depois manteve um relacionamento com o padrasto bêbedo. Não está acostumada a ser cortejada por homens distintos.

— Ela me desrespeitou.

— Ela é um pouco malcriada, mas posso dar um jeito nisso. Um corretivo é o de que ela precisa.

— Tem certeza de que ela vai me aceitar?

— Absoluta!

— Não sei, não. Ela me pareceu bastante decidida.

— Bobagem! Ela está acostumada com gente do tipo daquele Chico e do padrasto, que não têm a menor linha ou classe.

— Já estou ficando impaciente, Dona Janete. Gosto de Amelinha, mas se ela continuar me rejeitando, vou pensar em outra pessoa. Há muitas mocinhas por aí em situação semelhante à dela que dariam tudo para cair nas graças de um homem feito eu.

— Não diga isso! Amelinha foi feita para o senhor.

— Pois então, trate de convencê-la.

— É o que farei. Se o senhor puder esperar um pouco mais...

— Uma semana, Dona Janete, é o prazo que lhe dou, e nem um dia a mais. Se, dentro de uma semana, Amelinha continuar me rejeitando, trato desfeito.

— Pode ficar sossegado que, em uma semana, ela vai implorar para que o senhor a leve para a cama.

— É o que espero.

Anacleto se levantou e foi para o quarto remoer a sua raiva. Morria de desejo por Amelinha, mas não podia permitir que uma pirralha feito ela o destratasse daquele jeito. Ou Janete a convencia, ou podia esquecer a oferta que lhe fizera. Prometera-lhe certa importância em troca dos favores da menina, mas começava a duvidar de que ela conseguisse convencê-la.

Janete, por sua vez, tinha certeza de que conseguiria convencer Amelinha a se entregar a Anacleto. Depois que ele se foi, saiu à sua procura e foi encontrá-la na cozinha, conversando com Ione enquanto enxugava a louça.

— Não tem mais o que fazer não, Amelinha? — perguntou com rispidez. — Isso não é serviço seu.

— Desculpe-me, Dona Janete — adiantou-se Ione. — Amelinha só estava me ajudando porque os quartos já estão limpos.

— Não lhe perguntei nada, Ione. Meu assunto é com Amelinha.

A cozinheira sentiu o rosto arder e abaixou a cabeça, os olhos úmidos de lágrimas. Os de Amelinha também umedeceram, mas de raiva da grosseria da prima.

— Não precisa brigar com Ione — zangou-se — Amelinha. — Não é culpa dela se o seu plano não deu certo.

— Insolente! — berrou Janete, acertando-lhe uma bofetada na face, que logo se avermelhou. — Não lhe dou o direito de falar comigo assim dessa maneira.

— A senhora é que não tem o direito de me bater! Não sou mais nenhuma criança.

— Enquanto estiver sob a minha guarda, tenho todos os direitos sobre você, e você me deve obediência e respeito.

— E a senhora? Não me deve nada?

— Não. Não lhe devo nada, sua atrevida. Você é quem me deve. Deve-me o sustento, o teto, a cama, a comida. E creio que chegou à hora de pagar pela minha hospitalidade.

— Hospitalidade? Onde está à hospitalidade em me explorar sem nem me pagar salário? Em me dar sobras de comida e me fazer dormir num colchão cheio de buracos?

— Você é uma ingrata, menina. Bem que sua mãe me avisou.

— Não ponha minha mãe nisso!

— Saia, Ione! — ordenou para a cozinheira. — Vá arranjar o que fazer em outro lugar.

A moça nem respondeu. Soltou a bucha com que lavava as panelas, enxugou as mãos no avental e saiu apressada. Janete esperou até ter certeza de que ela não podia mais ouvi-las e olhou ao redor, certificando-se de que não havia mais ninguém por perto. Aproximou-se de Amelinha e, olhos chispando de ódio, levantou a mão para bater-lhe novamente, mas a menina, segurando-lhe o punho com vigor, rebateu com incontida fúria:

— Jamais ouse me bater novamente! Nunca mais vou permitir que a senhora encoste a mão em mim! Não sou mais criança, não sou sua filha nem sua escrava.

Apesar do susto e do medo, Janete conseguiu disfarçar e fitou-a friamente, puxando o braço e respondendo em tom glacial:

— Muito bem. Você tem razão: não é mais criança, nem minha filha, nem minha escrava. E é por isso que precisamos estabelecer algumas coisas. Não tenho obrigação de sustentar você nem de lhe dar emprego. Por isso, se não está satisfeita com as condições em minha casa, pode ir arranjando outro lugar para ficar.

— Está me mandando embora?

— Estou dizendo é que ou você faz as coisas do meu jeito, ou pode ir embora, sim.

— Que coisas, Dona Janete? A que está se referindo?

— Refiro-me ao seu Anacleto. Já é hora de você parar com essas bobagens e dar-lhe a devida atenção. Se não...

— Tenho que ir embora.

— Exatamente. Você está começando a se tornar um estorvo para mim, e não tenho obrigação de aturá-la em minha casa.

— Isso não será mais necessário. Vou estudar, concluir o ginasial e me formar professora ou datilografa.

— Minha querida, você está se iludindo. Com que dinheiro pensa que vai se manter? Ou será que imagina que eu vou sustentar os seus caprichos em troca de nada?

Ela abaixou os olhos, consciente da veracidade das palavras de Janete. Sem auxílio financeiro, como poderia voltar a estudar e concluir o ginasial? Mesmo que arranjasse um emprego de faxineira ou arrumadeira, não ganharia o suficiente para custear os seus estudos. E pior: onde é que iria viver?

— A senhora não pode ser tão ruim assim.

— Não sou ruim, Amelinha, apenas cuido dos meus interesses. Sou uma velha sem fortuna e sem amigos. Só o que me resta são esta casa e o lucro que tiro com o aluguel dos quartos, que não é muito.

— Posso continuar trabalhando para a senhora. Apenas lhe peço que me permita estudar à noite.

— Agora estamos voltando a nos entender. É muito bom que você admita que dependa e precisa de mim.

Humilhada nas mãos daquela mulher mesquinha e arrogante, cuja única preocupação era o seu próprio bem-estar, Amelinha retrucou em lágrimas:

— Não sou uma prostituta, Dona Janete, e a senhora não pode me obrigar a me transformar em uma.

— Eu?! Obrigá-la a virar prostituta? Mas minha querida, se o que pretendo é justamente impedir que você se torne uma!

— Como? Empurrando-me para seu Anacleto?

— Ele vai cuidar de você. Vai lhe dar muitas roupas e coisas bonitas, e você vai até trabalhar menos. Vou lhe dar as noites e os fins de semana de folga. Você vai se divertir e, quem sabe, não poderá ainda enriquecer?

— E isso não é ser prostituta?

— Não exatamente,

— Não tem que ser assim, Dona Janete. Raul me disse que posso ser alguém na vida, casar e ter filhos...

— Ah! Raul lhe disse, não foi? E o que Raul está fazendo por você? Nada. Encheu sua cabeça com essas bobagens de profissão e casamento, quando ele mesmo sabe que você só serve para uma coisa.

— Isso não é verdade! Sou uma moça decente.

— Mas que decente? Já dormiu com Chico, dormiu com seu padrasto e sabe-se lá com quem mais.

— Eu não dormi com meu padrasto! E seu Chico me obrigou! — começou a chorar convulsivamente, ao mesmo tempo em que dizia descontrolada: — Por que é que ninguém acredita em mim? Por que a senhora insiste em dizer que dormi com meu padrasto?

— Vê como tenho razão, minha querida? Ainda que seja verdade, ninguém vai acreditar. E sabe por quê? Porque você nasceu para isso, está no seu sangue. Você é daquelas mulheres que foram feitas para agradar os homens. Está na sua aparência, no seu jeito, na sua voz. Mesmo que não se torne uma meretriz, todos lhe dirão que é.

— Mas eu não sou! Não sou!

— Não adianta tentar ludibriar o destino. Você nasceu para a vida, não para o casamento. Você atrai os homens mesmo sem sentir. Atraiu o Chico, atraiu Raul, está atraindo Anacleto e vai ainda atrair muitos outros. É a sua sina.

— Não é verdade. A senhora não pode me convencer de que é verdade.

Lembrava-se dos conselhos de Raul, que lhe dissera para não se deixar levar pelas palavras de Janete, mas estava ficando difícil resistir. Tudo lhe parecia tão complicado, e ela era apenas uma menina. Como lutar contra o destino com apenas quinze anos de idade?

— Pare de chorar feito uma tonta. Você não é desse tipo. É uma mulher voluptuosa e está pronta para se entregar...

— Não! Não! Não vou me entregar! Desesperada, Amelinha tapou os ouvidos com as mãos e correu porta afora. Não podia deixar Janete convencê-la de que ela era uma prostituta, porque não era. Não queria ser. E Raul lhe dissera que ela não precisava. Se desejasse e tivesse força de vontade, poderia vencer na vida, casar-se e ser feliz. Não tinha pretensões de ficar rica nem de se casar com alguém importante. Bastava um homem honesto, que gostasse dela e não a acusasse de algo pelo qual não fora culpada. Era o que tencionava conseguir. Iria procurar outro emprego e vencer. Mostraria a todo mundo que era capaz de ter uma vida digna e honesta.

 

Os dias que se seguiram revelaram-se os mais desanimadores da vida de Amelinha. Disposta a arranjar um novo emprego e matricular-se no colegial, acordou cedo e se vestiu com capricho. Já ia saindo sem nem tomar café quando encontrou Janete parada no fim da escada, vestida num robe de cetim rosa choque, fitando-a com ar de reprovação.

— Aonde é que você pensa que vai? — indagou ela, tamborilando no corrimão.

— Vou sair.

— Não se faça de tonta comigo, menina! Quero saber aonde você vai.

— Procurar emprego.

— Ah! Vai, é? E o seu serviço?

— Faço depois.

— Enquanto não fizer, não come.

Passou por ela com ar arrogante e subiu para o quarto. Aquelas palavras, a princípio, não impressionaram Amelinha, que saiu mesmo assim. Andou durante todo o dia, mas não conseguiu nada.

A crise econômica por que atravessava o país reduzira as ofertas de emprego e os salários, inviabilizando os planos de Amelinha. Ao voltar no fim da tarde, Janete a esperava no salão e berrou logo que ela entrou:

— Amelinha! Venha já aqui!

Amelinha interrompeu sua subida rumo ao quarto e foi ao encontro da prima.

— O que a senhora quer? — indagou de má vontade. — Estou cansada.

— Tem trabalho esperando por você.

— Hoje não. Caminhei o dia todo.

— Isso é problema seu. Você tem suas obrigações e não pode deixar para depois. Os quartos estão todos por arrumar, e não quero que os hóspedes reclamem.

— Mas Dona Janete, estou cansada.

— Ninguém mandou você ficar andando por aí atrás de emprego quando já tem um.

— Nunca vi emprego sem salário. Só se for emprego de caridade.

— Caridade, quem faz aqui sou eu. Não fosse a minha benevolência, você estaria morrendo de fome. Por falar em fome, não esqueceu o que eu lhe disse, esqueceu?

— O quê?

— Sem trabalho, sem comida.

— A senhora não pode estar falando sério! Passei o dia todo sem comer.

— Isso não é problema meu. Não vou pagar para você passar o dia passeando por aí.

— Eu não estava passeando, estava procurando emprego!

— Dá no mesmo.

Levantou-se bruscamente e foi para a cozinha, deixando Amelinha estupefata em seu lugar. Não acreditava que a prima estivesse falando sério. Ela não podia ser tão má assim. Resolveu primeiro tomar um banho e depois descer para comer. Demorou muito na banheira, deixando que a água morna lavasse seu corpo e sua alma do cansaço de todo aquele dia. Quando saiu, o jantar já estava sendo servido no salão principal, e ela passou devagarzinho, tentando não ser percebida. Janete e Anacleto estavam sentados à mesma mesa, e ela procurou não chamar sua atenção. Entrou na cozinha com pressa e foi apanhar um prato no armário, abrindo as tampas e cheirando as panelas.

— Hum... Que cheirinho bom. Estou com uma fome! Não comi nada o dia inteiro.

— Onde é que você esteve Amelinha? — questionou Ione, que mexia num panelão no fogão.

— Fui procurar emprego.

— Dona Janete ficou furiosa. Disse que você está proibida de comer.

— Dona Janete não está aqui para ver.

— Aí é que você se engana! — berrou uma voz, da porta da cozinha.

As duas meninas se viraram e viram Janete parada, de braços cruzados, com ar enfezado de poucos amigos.

— Dona Janete! — assustou-se Ione. — Não vi a senhora chegar.

— Muito bem, Amelinha, vá soltando esse prato e se afastando do fogão.

— O quê? Não acredito que a senhora esteja falando sério.

— Nunca falei tão sério em toda a minha vida. Arrancou o prato das mãos de Amelinha e fechou a panela com estrépito, enquanto Ione ainda tentava protestar:

— Mas Dona Janete, ela está com fome.

— O problema é dela, não seu. Enquanto não cumprir com as suas obrigações, Amelinha está proibida de comer.

— Isso não está certo, Dona Janete. É uma desumanidade.

— Quer fazer companhia a ela, Ione?

— A senhora não pode fazer isso com Ione! — objetou Amelinha, indignada. — Ela não é propriedade sua.

— Quer ver?

Seu olhar de fúria era tão grande, que as duas recuaram assustadas. Para não causar problemas a Ione, Amelinha preferiu se retirar. Com o estômago doendo, rodou nos calcanhares e voltou para o quarto, passando pela sala feito uma bala, sem nem fitar Anacleto, que a seguia com o olhar. Já de volta, Janete sentou-se a seu lado, e ele indagou curioso:

— O que foi que aconteceu?

— Nada que eu não possa controlar.

— Amelinha passou por aqui em disparada. Ela não vai jantar?

— Não. Faz parte do meu plano para fazê-la implorar a minha ajuda e, conseqüentemente, a sua.

Anacleto sorriu satisfeito e deu uma garfada no assado que tinha diante de si, imaginando se Amelinha não estaria sentindo muita fome. Na verdade, Amelinha estava enjoada e com dor de cabeça, o estômago vazio digerindo o nada. Esperou até que todos se recolhessem e saiu do quarto de fininho. Caminhou vagarosamente pelo corredor e desceu as escadas sem emitir nenhum ruído. A casa estava toda às escuras, mas ela não se atreveu a acender nenhuma lâmpada.

Na cozinha, entrou e fechou a porta às pressas, indo direto para o fogão. Ao contrário do que sempre acontecia, não havia panelas sobre ele nem no forno, e ela experimentou os armários. Estavam todos trancados com correntes e cadeados. Por mais que os forçasse, não conseguiu abri-los e começou a chorar de ódio e de fome, até que Ione a ouviu e apareceu.

— Está com fome, não está?

Ela assentiu.  

— Não tem nada aí para comer? Nem um pedaço e pão?

— Dona Janete me proibiu de levar qualquer coisa de comer para o quarto. Até revistou meu armário e as gavetas para ver se eu não tinha escondido nada. Depois trancou tudo e disse que, se me pegasse dando algo de comer a você, eu estaria na rua.

— Essa mulher é uma víbora!

— Olhe Amelinha, não tenho medo dela. Se tivesse conseguido guardar alguma coisa, daria a você. Mas ela vasculhou tudo.

— Não, Ione, eu não quero prejudicar você. Entrei nessa situação sozinha e pretendo sair sozinha também.

— É uma injustiça o que ela está fazendo com você.

— Estou morrendo de fome, Ione. Se não comer algo, acho que vou passar mal.

— E se eu lhe desse algum dinheiro? Você poderia comprar alguma coisa na rua.

— Onde? Está tudo fechado há essa hora. E depois, não quero o seu dinheiro. Você já ganha tão pouco...

— Não é possível. Tem que haver algum jeito.

— O jeito é eu ir dormir e esquecer a fome. Talvez o sono me alimente e eu não sinta tanto o estômago doer.

Voltou para o quarto com os olhos rasos de água e foi-se deitar, procurando não pensar na fome que a consumia. Esperava que, no dia seguinte, estivesse melhor e mais disposta, e então poderia pensar em aceitar aquele dinheiro que Ione lhe oferecera.

No dia seguinte, o estômago doía mais do que nunca, mas ela não se deixou abater. Não podia desistir logo na primeira dificuldade que encontrasse. Vestiu-se novamente e desceu para a cozinha. Se conseguisse chegar antes de Janete, poderia apanhar um pedaço de pão sem que ela visse. Mas Janete já se encontrava lá, fiscalizando todos os atos de Ione.

— Bom dia, Amelinha — ironizou ela, mordiscando uma rosquinha. — Dormiu bem?

Amelinha não respondeu e olhou para Ione, que não desgrudava os olhos do fogão e dos bules de café.

— Já estou de saída — foi à resposta lacônica. Saiu sem dizer nada, apertando o estômago, que doía imensamente. Por que não aceitara, na véspera, o dinheiro que Ione lhe oferecera? Não fosse tão orgulhosa, ao menos poderia comprar um pãozinho na padaria da esquina, o que serviria para diminuir um pouco aquela sensação de vazio.

Tudo se passou como na véspera. Não havia empregos disponíveis naqueles tempos difíceis. Amelinha tentou matricular-se numa escola, mas a falta de um responsável quase a levou, a um lar para órfãos, e ela desistiu. Voltou para casa no final da tarde, de mãos vazias, como na anterior. Só que com muito mais fome.

— Como foi o seu dia hoje? — perguntou Janete, vendo-a entrar arrasada.

Amelinha não respondeu e foi para o quarto. Tomou banho e bebeu um pouco de água da torneira. Era a única coisa que Janete não pensara em lhe tirar. Desceu para a cozinha, mas Janete lá estava impedindo-a de se alimentar. O cheiro do frango assado quase a fez desmaiar, e ela já estava salivando quando ouviu a vozinha súplice de Ione:

— Por favor, Dona Janete, deixe-a, ao menos, comer um pedaço de pão.

— Nem pensar! Sem trabalho, sem comida. Os quartos ficaram todos por limpar, e eu é que tive que arrumar tudo.

Ao virar as costas para as meninas e voltar para o salão, Ione aproveitou e enfiou uma moedinha na mão de Amelinha, que a apertou agradecida. Já era noite, e todas as padarias e armazéns estavam fechados, mas ela conseguiu encontrar um bar aberto, onde comprou umas rodelas fininhas de salame. Não era muito, mas ao menos agora não tinha mais aquela sensação de desmaio.          

No dia seguinte, teve vontade de desistir, mas a imagem de Janete, parada na cozinha como uma guardiã implacável da comida, encheu-a de ódio e revolta, e ela decidiu que tinha que vencer. Não podia contar com o dinheiro de Ione, que já era tão pouco e mal dava para ela, de forma que precisava conseguir um emprego naquele mesmo dia.

As coisas, porém, não correram conforme o desejado. Perto da hora do almoço, Amelinha começou a sentir uma fraqueza dominando-a por inteiro. O corpo mole, as pernas bambas, a vista embaciada e uma tonteira a confundir-lhe a cabeça. Foi preciso encostar-se num muro para não cair. Lentamente e com muito esforço, conseguiu fazer o caminho de volta para casa.

Ao abrir a porta, o cheiro de comida invadiu suas narinas, e ela começou a chorar desesperada. Alguns hóspedes que conversavam na sala de estar ouviram o seu choro e correram a ajudar. Amelinha teve vontade de lhes dizer o que estava se passando, que Janete a estava matando de fome, mas o medo a paralisou. Levaram-na para o quarto e a deitaram na cama. Logo Janete apareceu, agradecendo aos hóspedes e pedindo gentilmente que saíssem e as deixassem sozinhas.

— Podem deixar que cuidarei dela agora — anunciou.

Depois que todos saíram, ela se aproximou de Amelinha e sentou-se na beira de sua cama.

— Como está? — perguntou.

Amelinha mal conseguia abrir os olhos e respondeu com voz fraca:

— Estou com fome... Muita fome...

— Ts, ts, ts. Sem trabalho, sem comida.

— A senhora está sendo cruel...

— Estou apenas cobrando pela comida que lhe dou. Não é o meu direito?

— Vou contar a todos o que a senhora está fazendo... Vão recriminá-la... Vão chamar a polícia...

— Menina tola, ninguém vai acreditar em você. E depois, quem se importa?

— Preciso comer... Por favor...

— Já disse: sem trabalho, sem comida.

— Eu.... Vou trabalhar... Faço o que a senhora mandar... Mas por favor, deixe-me comer. Se não, vou morrer...

— Você não vai morrer. Está fraca, mas não vai morrer.

— Por favor... Prometo que vou trabalhar...

— Vai deixar de lado essa bobagem de emprego e de estudo?

— Vou...

— Vai aceitar a oferta de seu Anacleto?

Ela hesitou e começou a chorar de mansinho, até que respondeu com pesar:

— Vou...

— Jura?

— Juro.

— Muito bem — finalizou vitoriosa. — Vou mandar Ione preparar-lhe uma refeição e trazer aqui para você. Pode descansar o resto do dia. Amanhã, arranjaremos tudo.

Assim que recebeu a ordem, Ione apressou-se em preparar um prato caprichado para Amelinha. Colocou arroz, feijão, carne assada, batatas, legumes cozidos, um pedaço de pão, um bolo de frutas e suco de laranja. Ajeitou tudo numa bandeja e levou para Amelinha. A menina mal podia acreditar no que via.

Devorou a comida em poucos minutos, sem parar para respirar.

— Devagar, Amelinha — preocupou-se Ione. — Você está há muito tempo sem comer. Tanta pressa pode lhe fazer mal.

Naquele momento, Amelinha não conseguia pensar em mais nada que não fosse o prato de comida à sua frente. Só o que queria era acalmar a dor no estômago. Não se permitiria jamais passar por aquilo novamente.

 

Às sete da manhã em ponto, Amelinha já estava na cozinha, tomando seu café como de costume. Sem esperar por Janete, apanhou a vassoura e o espanador e saiu a arrumar os quartos dos hóspedes que, àquela hora, sabia estarem de pé. Muitos faziam o desjejum no salão, e ela evitou olhar para as mesas, com medo de encarar Anacleto. Ele estava sentado sozinho à mesa de Janete, e Amelinha se perguntou por onde andaria a velha senhora.

À hora do almoço, já havia terminado de arrumar e limpar os quartos, e agora cuidava da prataria da sala. Janete chegou-se por detrás dela e ficou observando-a, esperando que terminasse de lustrar um candelabro.

— Muito bem! — exclamou ela, assustando a menina. — Vejo que retomou suas obrigações.

— Sim, senhora.

— Bem, por hoje é só. Quero que venha comigo agora.

Sem dizer nada, Amelinha largou o pano com que fazia a limpeza e acompanhou a prima até o seu quarto no sótão. Logo que entraram, Janete fechou a porta e apontou para uma caixa em cima da cama, dizendo toda animada:

— Vamos, abra. É um presente para você. Dentro da caixa, o vestido mais lindo que

Amelinha já vira, vermelho cintilante, junto com algumas peças de baixo também vermelhas, que a deixaram encabulada e confusa.

— Para que é isso?

— Você é mesmo uma tonta, não é? Acha que seu Anacleto vai querer você com esse uniforme preto, andando feito um urubu? Nada disso. Deu-me dinheiro para comprar-lhe roupas novas e vistosas, com especial atenção às peças íntimas. Quero que vá tomar um banho bem caprichado e volte aqui. Vou ajudá-la a se vestir.

Amelinha mal conseguia crer no que via. Aquelas roupas eram bonitas, mas as peças de baixo eram escandalosas e vulgares. Apanhou o corpete de renda vermelha bordado de preto, a liga e as meias, sentindo imensa vergonha só de olhar para aquilo.

— Dona Janete, não posso usar isto. Não tem anágua, e o corpete é... Indecente, escandaloso.

— Deixe de tolices, Amelinha. Seu Anacleto faz questão que você se arrume direito para a ocasião. Comprei-lhe até um colar e brincos de pedrinhas brilhantes. É claro que não são jóias verdadeiras, mas até que não foram tão baratas. — Vendo que Amelinha não se mexia, começou a berrar: — Vamos, menina! O que está esperando? Vá logo tomar esse banho e volte aqui para se vestir.

— Não posso...

— Será que os dois dias de fome já se apagaram de sua mente? — ela meneou a cabeça. — Ainda bem, porque não me custa relembrá-la de como se sentiu. É isso o que você quer? Ficar sem comer? — ela meneou a cabeça novamente. — Ótimo. Pois então, faça como lhe digo, e tudo sairá bem.

Com lágrimas nos olhos, Amelinha apanhou a toalha e o roupão e desceu para o banheiro, que ficava no andar de baixo. Pouco depois, estava de volta, e Janete puxou-a pela mão.

— Vista isso — ordenou, estendendo-lhe o corpete e as ligas.

Amelinha começou a se vestir desajeitadamente, pois não estava acostumada com aquelas coisas, e Janete precisou ajudá-la. Enfiou o vestido com rapidez e mandou que ela calçasse sapatos de salto alto, o que quase lhe causou um tombo. A todo instante, Janete balançava a cabeça, recriminando-a por sua falta de classe. Em seguida, puxou uma cadeira e disse-lhe para sentar-se, a fim de fazer a maquiagem e o penteado.

Quando Janete terminou, a menina levou um susto. Fitando-a do outro lado do espelho, estava uma mulher de faces rosadas e lábios carmim, as pálpebras pintadas de preto e um sinal feito a lápis no canto do lábio, os cabelos presos no alto da cabeça em um coque mal ajeitado. Sentiu-se uma palhaça naquelas roupas extravagantes e com aquela maquiagem ridícula. Pensou em protestar, mas Janete não lhe deu tempo, dizendo com voz incisiva:

— Você está ótima. Agora, fique aqui e aguarde. Seja gentil. Faça tudo que seu Anacleto mandar.

Saiu apressada, deixando Amelinha assustada, imóvel na cama, sem saber bem o que iria acontecer e o que deveria fazer. Quase meia hora depois, ouviu batidas leves na porta, que se abriu lentamente, e Anacleto entrou com um sorriso de gula.

— Vejo que está me aguardando — disse ele, passando a língua nos lábios e aproximando-se da menina.

— Dona Janete mandou-me ficar aqui.

— E você foi boazinha e obedeceu, não foi? — ela assentiu. — Ótimo. Gosto de meninas obedientes. Seja boa comigo, e vamos nos dar muito bem.

Aproximou-se mais dela e puxou-a pela mão, levantando-a da cama. Amelinha estava com muito medo, imaginando o que iria acontecer entre eles. A única experiência sexual que tivera fora aquela com Chico, e não gostara nada. Mal contendo a ansiedade, Anacleto segurou o seu queixo com força, dando-lhe um beijo sôfrego, que Amelinha achou nojento. Ela tentou se afastar, mas ele a reteve nos braços e sussurrou em seu ouvido:

— Você está linda. Linda, linda! Quero que dance para mim.

— O quê? — surpreendeu-se ela, afastando-se dele um pouquinho. — Mas... Não sei dançar.

— Uma mulher bonita feito você há de ter os seus truques. Vamos, mostre-me o que sabe fazer.

— Truques? Como assim? Não estou entendendo. Não sei fazer nada além de arrumar a casa...

—Deixe de se fazer de difícil. Dona Janete me disse que você tem experiência, e é bom que tenha mesmo, ou vou exigir de volta o dinheiro que lhe dei.

O medo de voltar a sentir fome aplacou um pouco o ódio de Amelinha, que observou com ar mais amistoso:

— Não tem música.

— Não tem? É, não tem. Mas não se preocupe, vou arranjar.

Saiu e voltou logo em seguida, trazendo o gramofone da sala, junto com alguns discos. O som animado de uma modinha se elevou do alto-falante, e Anacleto olhou para Amelinha, fazendo sinal para que começasse. A menina ficou embaraçada, sem saber bem o que fazer. Começou a remexer os quadris, com as mãos na cintura, timidamente a princípio, mas, à medida que a música ia avançando, ela foi-se soltando mais e mais, movendo as pernas no mesmo ritmo. Logo, seus pés e todo o seu corpo a acompanhavam, numa cadência graciosa e brejeira. Até mesmo os sapatos de salto altos não a incomodavam mais e era como se fizessem parte de seus pés.

— Muito bom! — elogiou Anacleto. — Você é uma dançarina inata.

Em pouco tempo, Amelinha não pensava em mais nada. Nem ela sabia que gostava de dançar. A experiência estava sendo maravilhosa, e ela se sentia bem, feliz, radiante. Ouvia as palmas de Anacleto e desejou nunca mais ter que parar de dançar.

Mas Anacleto não estava ali para vê-la dançar e, quando a música acabou, desligou o aparelho e acercou-se dela, apanhando sua mão e levando-a aos lábios. Ela estava ofegante e suada, e ria gostosamente, o peito arfante subindo e descendo sob o decote do vestido.

— Por que desligou? — indagou, toda sorridente.

— Acabou a música.

— Não pode ligar de novo?

Já ia saindo em direção ao gramofone, mas Anacleto apertou a sua mão e respondeu baixinho:

— Depois.

Puxou-a para si e a abraçou com força, beijando-a novamente, dessa vez com mais ardor e paixão. Foi como se ela, subitamente, se lembrasse do porquê de estar ali. Janete a prostituíra e esperava que ela se entregasse àquele homem. Dera-lhe ordens expressas para fazer tudo o que ele mandasse. Foi acometida por nova sensação de repulsa por aqueles lábios frouxos e excessivamente molhados e, instintivamente, repeliu-o com um empurrão.

— O que está fazendo? — contestou Anacleto, com raiva.

— Deixe-me em paz - murmurou ela, tentando fugir para um canto.

— Ora, deixe de bobagens comigo. Agora a pouco, você me pareceu bem excitada.

— Estava feliz com a música. Gostei de dançar.

— Também gostei que você dançasse. Você dança muito bem, mas não foi para dançar que vim até aqui. — Ela não respondeu. — Sabe para que vim, não sabe?

— Sei.

— Pois então, não fuja de mim. Não lhe trago nenhuma novidade. Dona Janete me disse que você tem experiência, por isso, não banque a santinha comigo. — Aproximou-se dela novamente, que lhe escapuliu por entre as mãos. — Não se faça de difícil comigo, menina! Não tenho paciência nem disposição para correr atrás de você.

Assustada, Amelinha estacou onde estava e ficou olhando para ele, que se aproximou do gramofone e pôs outro disco para tocar, dessa vez uma música suave.

— Quer que eu dance novamente?

— Não. Quero que você se dispa para mim.

— Despir-me para o senhor? Não posso fazer isso.

— Pode e vai.

Ela não estava gostando nada daquilo, mas achou melhor obedecer. Lentamente, ao sabor da música, foi descendo o vestido pelos ombros, até que o deixou cair a seus pés. Anacleto a acompanhava entusiasmado, surpreso com a naturalidade com que ela tirava a roupa. Por fim, só de corpete, ligas e meias, Amelinha parou de se despir e encarou Anacleto. Não podia ir além dali. Já era bastante constrangedor estar diante dele só vestida em roupas íntimas.

Mas Anacleto queria muito mais e segurou-a pelo braço, puxando-a de encontro a si. Amelinha sentiu aquela boca flácida colada à sua, e as mãos de Anacleto começaram a deslizar pelo seu corpo, apalpando-a em suas partes mais íntimas. Aquilo a lembrou de outra ocasião: o dia em que Chico a agarrara e a estuprara, agindo como um brutamonte.

— Por favor, seu Anacleto, não faça nada comigo.

— Como assim, não faça nada? Você concordou em me receber. Não pode me excitar e depois tirar o corpo fora. Não sou nenhum idiota.

— Eu não disse isso. Gosto do senhor, mas não posso fazer o que me pede.

— Não estou pedindo, Amelinha, estou mandando. Paguei por você e paguei muito caro. Tenho meus direitos.

— Deixe-me! — suplicou ela, começando a chorar.

— Ah!  Nada disso. Esperei muito por esse momento. Não vou deixá-la escapar agora.

— Por favor, não faça isso! Não faça... Anacleto não dava atenção às suas súplicas. Foi empurrando-a para a cama com certa violência, deitando-se sobre ela sem nenhum constrangimento. Ela começou a lutar com ele, mas em vão. Apesar de velho, Anacleto era mais forte e logo a dominou. Amelinha esperneou e chorou, mas ele não se comoveu. No auge do desespero, empurrou-o com violência, e ele, já cansado daquela resistência, desferiu-lhe um sonoro tapa no rosto, deixando-a estarrecida. Amelinha afrouxou os braços e as pernas e permitiu que ele fizesse com ela o que bem entendesse. Não queria mais apanhar. Ainda sentia no corpo a dor dos golpes que Chico lhe dera e tinha medo de que Anacleto a espancasse também. Por isso, achou melhor não mais resistir. Entregar-se a ele, pura e simplesmente, seria menos doloroso do que uma surra. E depois, ele a subjugaria de qualquer jeito, e era melhor que fosse sem pancadas. Parecia que aquilo fazia parte de sua história. Fechou os olhos e chorou.

 

O mais difícil foi o começo. Depois da primeira vez, Amelinha acabou se acostumando com Anacleto. Geralmente, ele era gentil e costumava lhe fazer muitos agrados. Dava-lhe roupas e pequenas jóias, além de uns trocados de vez em quando. Se aborrecido ou contrariado, podia ser violento e perigoso. Amelinha se submetia a tudo com uma raiva contida, porque Janete a proibira de responder ou reagir. Ela era sua mina de ouro; trabalhava em troca de nada e ainda lhe garantia a regia recompensa que Anacleto mensalmente lhe pagava.

Como a maioria dos hóspedes era composta de senhores idosos e aposentados, Anacleto se sentia seguro, certo de que Amelinha não se interessaria por nenhum deles. Afinal, ela era jovem e linda, e não seria difícil que se encantasse por algum moço bem-apessoado. Mas a pensão não era exclusividade dos velhos, e Janete não podia impedir a entrada de nenhum jovem que lhe pagasse bem.

Foi assim com Mauro, um rapaz bonito e discreto, que dirigia uma casa noturna no centro da cidade. A princípio, Janete não quis recebê-lo, com medo de que ele fosse um tipo malandro ou boêmio, mas o maço de notas que ele lhe exibiu foi mais do que suficiente para fazê-la mudar de idéia. Como Mauro trabalhava até de madrugada, tinha por hábito dormir até mais tarde, o que comunicou a Janete. Mas ela, preocupada em contar o dinheiro que ia acumulando, nem se lembrou de avisar Amelinha, que nada sabia a respeito do novo hóspede.

No dia seguinte à chegada de Mauro, logo após o término do horário do café da manhã, como de costume, Amelinha apanhou a vassoura e o espanador e foi fazer a limpeza da casa. Foi distraída e mecanicamente entrando nos quartos, até que chegou àquele em que Mauro dormia. Por cautela, costumava dar uma batida de leve na porta e entrar em seguida, apenas para avisar que estava chegando, caso alguém ainda estivesse lá dentro. Como todos já conheciam a rotina, nunca houve problemas.

Amelinha bateu à porta do quarto de Mauro e experimentou a maçaneta, que não estava trancada. Entrou no aposento escuro e dirigiu-se à janela, escancarando as cortinas e deixando que a luz do sol inundasse o ambiente. Nesse momento, um gemido a assustou, e Amelinha se virou com a mão no coração, dando de cara com o rapaz deitado na cama, esfregando os olhos para protegê-los da luz.

— Ei! — reclamou ele. — O que pensa que está fazendo? Será que é proibido dormir nesta pensão?

— Mil desculpas, senhor! — apressou-se ela a dizer, embaraçada. — Perdão, não sabia que ainda estava dormindo. Pensei que já tivesse saído. Desculpe-me. Perdoe-me.

— Não precisa ficar se desculpando. É que trabalho a noite e costumo dormir até tarde. Sua patroa não lhe disse?           

— Não, senhor.         

— Que horas são?

— Já passa das nove horas.           

— É tarde para você, não é? — ela não respondeu. — Pois para mim, ainda é muito cedo.

Ele se sentou na cama e abraçou os joelhos, sorrindo para ela. Aquele sorriso tinha algo de encantador, e Amelinha se aproximou vagarosamente.

— O que o senhor faz? — perguntou ela, timidamente.

— Sou gerente de uma casa noturna.

— Casa noturna? O que é isso?

— Uma casa de espetáculos que só funciona à noite, para clientes muito especiais.

— Que tipo de espetáculos?

— Música, dança... Garotas. Gosta de música?

— Gosto sim. E de dançar também.

— Talvez um dia eu a veja dançar. Se você for boa, quem sabe não a levo para trabalhar comigo?

— Sério?

Ele riu gostosamente e fez um gesto com as mãos, acrescentando de bom humor:

— Quantos anos você tem?

— Dezesseis.

— Terá que esperar mais alguns anos antes de trabalhar para mim. Não posso aceitar crianças.

Se ele soubesse a experiência que ela já possuía, duvidava que a chamasse de criança novamente. Mas ele não sabia, nem ela iria lhe contar.

— O senhor não me parece muito velho — contrapôs ela, com interesse.

— Tenho vinte e quatro anos, o que é bem mais do que você tem. — Ela riu, e ele continuou: — Como se chama?

— Maria Amélia, mas todos me chamam de Amelinha.

— Amelinha? Hum... Não tem glamour. Para trabalhar para mim, vai precisar de um nome diferente. Deixe ver... Que tal Tália?

— Tália? Que nome mais esquisito.

— O que tem? É um bonito nome. Tália Uchoa, a grande atriz do teatro de revista...

Tália achou muita graça e desatou a rir. Suas gargalhadas soavam tão espontâneas e altas que podiam ser ouvidas até no corredor, e foi o que aconteceu. Anacleto seguiu na direção de onde elas vinham e logo encontrou o quarto de Mauro. Sem bater, escancarou a porta e entrou, avaliando aquela cena com ar feroz. Mauro, sentado na cama, falava e gesticulava em mangas de camisa e ceroulas, enquanto Amelinha, sentada a seu lado, retorcia-se de tanto dar risadas.

— O que é que está acontecendo aqui? — perguntou ele, zangado.

De um salto, Amelinha se levantou e correu a apanhar o espanador, caído a seus pés, enquanto gaguejava uma desculpa:

— Seu Anacleto... Nós estávamos... Estávamos conversando... Isto é... O seu Mauro me contava histórias...

— Saia daqui, Amelinha! Vá cuidar de seus afazeres em outro lugar!

— Um momento, senhor — interpôs Mauro, levantando-se também. — Quem lhe deu o direito de ir entrando assim no meu quarto e dando ordens como se estivesse em sua casa? O senhor é o dono da pensão?

— Não, mas...

— É o pai dessa linda mocinha que aqui está?

— Não...

— É seu marido? Não, não pode ser, é muito velho. Então, deve ser o seu avô.

Amelinha abaixou os olhos e abafou o riso, enquanto Anacleto, rosto vermelho e afogueado, ergueu os punhos cerrados e esbravejou:

— Devia se dar mais ao respeito, meu jovem! Onde já se viu um homem se portar dessa maneira diante de uma moça?

— Perdão, mas foi ela quem entrou aqui. Eu estava tranqüilamente dormindo, após exaustiva noite de labuta, quando esta senhorita, repentinamente, irrompeu em meu quarto e escancarou a janela, despertando-me de meu sono inocente.

O tom debochado de Mauro arrancou risos altos de Amelinha e provocou ainda mais a ira de Anacleto, que gritou descontrolado:

— Já mandei você sair daqui, Amelinha! O que está esperando?

Na mesma hora, ergueu a mão diante de seu rosto, e Amelinha se encolheu toda, pensando que ele ia bater-lhe. Para sua surpresa, o tapa não veio, porque Mauro segurava o braço de Anacleto com força, ao mesmo tempo em que dizia:

— Não se atreva a bater na menina. Que era um idiota, eu já havia percebido. Mas que é também covarde isso é uma surpresa.

Amelinha gelou. Pensou que Anacleto fosse se engalfinhar com Mauro, mas ele apenas puxou o braço e respondeu com a voz fremente de ódio:

— Está se metendo onde não deve moço.

A situação parecia estar ficando deveras complicada, Mauro encarando Anacleto com ar ameaçador. Amelinha não queria que eles brigassem por sua causa e, além do mais, tinha medo do que Anacleto faria com ela depois. Deu um passo adiante e se interpôs entre eles.

— Não precisa brigar por minha causa, seu Mauro. Sei muito bem o meu lugar e não pretendo virar motivo de desavenças.

Saiu de cabeça baixa, embora Mauro quisesse impedi-la. Anacleto olhou-o com ar de triunfo e saiu atrás dela, remoendo no íntimo um ódio feroz pelo desconhecido. A menina foi andando apressada, pois sabia que Anacleto estava em seu encalço, e um medo atroz a foi dominando. Ao invés de seguir para seu quarto no sótão, virou à direita no fim do corredor e começou a descer as escadas, tentando fugir do alcance de Anacleto. Mas ele não desistiu. Desceu atrás dela e segurou-a pelo cabelo, rugindo entre os dentes:

— Volte aqui, Amelinha, senão vai ser pior para você.

Ela voltou. Queria sair correndo, mas não podia. Anacleto a mantinha firme, e o puxão de cabelo doía muito. Passivamente, ela deu um passo atrás e subiu de volta os poucos degraus que havia descido, deixando-se conduzir para seu quarto. Assim que entraram, Anacleto jogou-a sobre a cama com um bofetão e começou a gritar:

— Nunca mais tente me fazer de idiota, sua vagabunda! Quem você pensa que é para me humilhar assim?

— Seu Anacleto, não fiz nada...

— Cale-se! — esbofeteou-a novamente. — Não se atreva a me responder!

Deu-lhe mais alguns bofetões e deixou-a chorando sobre a cama. Ela ouviu os seus passos pesados saindo, e o som de uma chave na lingüeta lhe deu a certeza de que ele a havia trancado pelo lado de fora. Chorou angustiada. Anacleto desceu feito uma fera ao encontro de Janete, que estava no jardim, supervisionando o plantio de umas novas roseiras.

— Dona Janete — chamou ele com voz grave. — Preciso falar-lhe.

Pelo seu olhar de fúria, alguma coisa muito séria devia ter acontecido. Ela deu as últimas ordens ao jardineiro e partiu com ele para a casa.

— O que foi que houve?

— Como a senhora pôde permitir a presença daquele descarado em sua casa?

— Que descarado? De quem o senhor está falando?

— Estou falando daquele janotinha para quem a senhora alugou um quarto. É um disparate!

— Ah! O senhor Mauro. O que é que tem ele?

— Ele me desrespeitou.

— Desrespeitou? O que ele fez?

Em minúcias, Anacleto narrou a Janete a discussão que tivera com Mauro, o que a deixou muito aborrecida, embora tentasse não demonstrar.

— Exijo que a senhora o mande embora agora mesmo — prosseguiu ele, em tom solene. — Esse homem é uma ameaça ao sossego deste lar.

Janete encarou-o por alguns momentos, até que retrucou com cautela:

— Ouça seu Anacleto, entendo que a situação foi desagradável...

— Desagradável? Foi constrangedora!

— Muito bem, constrangedora. Mas afinal de Contas, foi o senhor quem irrompeu no quarto do moço.

— Dona Janete, a senhora parece não estar entendendo. Ele estava em trajes sumários, contando piadas a Amelinha. Considero isso uma ofensa!

— Ele não sabe de seu relacionamento com Amelinha.

— E daí? Quem lhe deu o direito de tratá-la com tanta intimidade?

— Ora, seu Anacleto, ele pensa que Amelinha é apenas uma criada. E depois, pelo que o senhor me disse, ele não fez nada à menina.

— Mas isso é um perigo! Dona Janete, a senhora não vê? Não percebe que esse rapaz pode pôr em risco a minha segurança? Ele é jovem, bem-apessoado.

— Acho que o senhor está exagerando. Dê um aperto em Amelinha, ameace-a, faça-a compreender que não vai tolerar qualquer traição. Assuste-a, bata nela, faça o que tiver que fazer para mantê-la na linha.

— A senhora sabe tão bem quanto eu que, quando uma mulher quer trair, não há ameaças ou surras que a impeçam.

— O senhor tem que aprender a controlar sua amante. O que eu não posso é abrir mão do dinheiro dos hóspedes.

— O que eu lhe pago não é o suficiente?

— O senhor sabe que não. O que me dá é satisfatório diante das circunstâncias, mas não é o bastante para me fazer recusar hóspedes. Ainda mais esse rapaz, que me ofereceu uma quantia elevada pelo quarto.

— Mas Dona Janete, pensei que fôssemos amigos.

— Não confunda amizade com negócios. Preciso do dinheiro.

— Pois é muito bom que tenha dito isso, porque eu posso muito bem retirar a ajuda que lhe dou.

— E eu posso muito bem proibi-lo de subir ao quarto de Amelinha — abaixou a voz e continuou em tom apaziguador: — Vamos, seu Anacleto, esqueça isso. O moço trabalha à noite, quase não vai encontrar Amelinha. Hoje foi por acaso, porque ela não sabia. Vou dar-lhe ordens para não perturbar o rapaz pela manhã e só arrumar o quarto dele no final da tarde. Creio que isso resolverá o problema. Quanto ao senhor, trate de mantê-la em rédeas curtas.

Embora Anacleto não estivesse nada satisfeito, teve que aceitar o fim da discussão. De nada adiantaria ameaçar retirar o apoio financeiro que dava a Janete.

Ela sabia que ele não podia mais passar sem os favores de Amelinha, que, livre das ameaças da velha senhora, passaria a recusá-lo e acabaria se atirando nos braços de Mauro.

 

Nenhum encontro, ainda que casual, entre Amelinha e o novo hóspede pôde ser notado por Anacleto ou Janete. Mauro dormia até tarde, levantava e ia direto almoçar. Em seguida, saía e só voltava altas horas da madrugada, o que o impedia de se encontrar com Amelinha. Isso foi deixando Anacleto mais tranqüilo.

Além de gerente da casa noturna, Mauro também dirigia os espetáculos que eram apresentados pelas moças, bailarinas de ocasião, cujo requebrado, ginga e sensualidades abriam as portas para o mundo artístico. Era nesse ambiente que Mauro se sentia mais à vontade, junto de belas dançarinas, embalado pela bebida e a boêmia. Não gostava de morar sozinho, porque não tinha mulher que cuidasse dos afazeres domésticos, e optou por viver em pensões familiares, que lhe prestavam todos os serviços de que um solteiro necessitasse, desde a arrumação do quarto até o cuidado com as roupas.

Certo dia, como acontecia quase todas as noites, Anacleto saiu do quarto de Amelinha por volta da meia-noite, desceu a seu dormitório e entrou cautelosamente, indo direto para a cama. Quinze minutos depois, a porta do quarto de Amelinha se abriu sem produzir qualquer ruído. Pé ante pé, a moça desceu as escadas, tomando extremo cuidado para não ser vista nem despertar nenhum hóspede ou Janete. Em silêncio, saiu para o ar frio da noite, apertou a gola do, sobretudo para proteger-se da garoa e estugou o passo, virando a esquina com andar furtivo.

Tomou um bonde e seguiu em silêncio até seu destino. Ao chegar diante do night club que Mauro gerenciava, desceu e dirigiu-se para a porta dos fundos, entrando sorrateiramente. Parecia uma mistura de teatro e cabaré, com pequenas mesas redondas diante de um pequenino palco, onde os espectadores se sentavam e podiam assistir ao espetáculo ou então dançar. Com os olhos, Amelinha procurou Mauro, até que o encontrou rodeado de algumas moças vestidas com roupas coloridas e brilhantes. Aproximou-se hesitante, e uma das moças apontou para ela com o olhar, o que fez com que Mauro se virasse e abrisse largo sorriso ao avistá-la.

— Olá, minha preciosidade — falou em tom maroto. — Que bom que chegou a tempo de assistir ao espetáculo.

— Vim o mais rápido que pude — respondeu ela, encarando-o com olhos brilhantes.

— Ninguém percebeu?

— Não.

— Ótimo. Quero que você se sente aqui junto a mim e preste bastante atenção às meninas.

Segurou-a pela mão, deu algumas instruções às moças e depois se dirigiu para uma mesa mais ao canto, sentando-se com Amelinha ao lado. Pouco depois, as luzes se apagaram, e holofotes coloridos derramaram luzes faiscantes sobre o palco. As cortinas logo se abriram para dar entrada a meia dúzia de moças, que começaram a dançar graciosamente. Amelinha ficou fascinada e, instintivamente, começou a balançar o corpo ao ritmo da música, acompanhando, sem sentir, a cadência das dançarinas.

Pelo canto do olho, Mauro a observava. Ela era bonita e esbelta, com seios volumosos que encheriam de graça o decote de qualquer vestido. Resolveu testá-la e levantou-se da mesa, estendendo a mão para ela. Amelinha não entendeu e ficou olhando dele para o palco, até que Mauro, com um sorriso maroto, falou bem juntinho de seu rosto:

— Vamos experimentar os seus dons artísticos.

Completamente sem graça, Amelinha deu-lhe a mão e se levantou. Mauro começou a dançar com muito jeito, o que estimulou Amelinha. Em pouco tempo, já estava solta nos braços dele e tirou o casaco, dançando com muita leveza, ritmo e, acima de tudo, sensualidade. Parecia que nascera com o ritmo no corpo, e seu remelexo foi enchendo Mauro de admiração e desejo.

Quando o espetáculo terminou, Mauro fez um gesto imperceptível para a orquestra, que continuou tocando, e os holofotes foram direcionados para onde eles estavam incidindo direto sobre Amelinha. Ela esbanjava alegria e sensualidade. Em pouco tempo, todos batiam palmas, e uma aglomeração se fez ao seu redor. Com cuidado, Mauro puxou-a pela mão, levando-a mais para o centro do salão, e alguns homens afastaram as mesas, abrindo espaço para que ela dançasse. De tão envolvida pela dança, Amelinha nem se dava conta de que se transformara no centro das atenções. Os homens gritavam e batiam palmas, alguns passavam a língua nos lábios, enlouquecidos com o corpo e o requebrado de Amelinha.

Em pouco tempo, o vestido colou-se a seu corpo, e seus cabelos, molhados de suor, caíam-lhe sobre os olhos, emprestando-lhe um ar selvagem e sedutor. Quanto mais sentia o calor a invadi-la, mais Amelinha se requebrava, deixando-se dominar pelo prazer daquele momento. Os gritos masculinos, as palmas veementes, os assobios de admiração, tudo isso contribuía para que ela se colocasse cada vez mais à vontade num mundo que tinha tudo para ser o seu.

Quando a música enfim terminou, ela encerrou a dança com um passo elegante e encarou Mauro, arfando e sorrindo ao mesmo tempo. A explosão de aplausos que se seguiu deu-lhe a perceber que era ela a estrela do espetáculo, vestida em suas roupas simples, com o cabelo despenteado e sem maquiagem de efeito.

Olhou ao redor, confusa, e foi andando para trás, buscando alcançar a mesa a que estivera sentada com Mauro. Os homens gritavam entusiasmados, e ela sentiu um beliscão nas nádegas, outro na coxa, e alguém alisou os seus seios. Assustada, Amelinha disparou a correr, esquecendo-se até de apanhar o casaco. Foi empurrando a multidão, sentindo as mãos sobre seu corpo, explorando suas partes mais íntimas, e lágrimas lhe afloraram aos olhos.

Estava quase chegando à porta quando um braço vigoroso apertou o seu. Já ia gritar com o atrevido quando percebeu que era Mauro quem a segurava e tomava a dianteira, puxando-a para fora do teatro. A chuva fina ainda caía, e ele a envolveu com seu próprio casaco, caminhando com ela pela rua.

— Sou uma tola — balbuciou ela. — Não percebi que estava fazendo papel de meretriz.

— Não diga bobagens, minha querida. Você foi brilhante, divina, fantástica! O público a adorou!

— Mas eles... Eles... — engoliu um soluço e encostou o rosto no peito de Mauro.

— Eles abusaram de você, eu sei. Mas é porque os deixou loucos.

— E você? Não me achou vulgar?

— Claro que não. Você é o meu achado. Juntos, vamos fazer muito dinheiro.

— Do que é que está falando, Mauro? Essa noite foi um desastre. Sinto-me violada, humilhada...

— Não precisa ser tão dramática. Você é linda, dançou muito bem. O que esperava? Que ninguém reagisse?

— Não sou uma vagabunda.

— Não estou dizendo que é.

— Você pensa que pode me usar só por causa de seu Anacleto.

— Não estou pensando nada, Amelinha...

— Só porque danço para ele, não quer dizer que qualquer um pode chegar e ir me passando a mão. Sou uma moça direita.  

— Sei que é.  

— Mas seu Anacleto não faz nada de mais. Ele só gosta de me ver dançando e... foi por isso que vim aqui... Para ver as danças.

— Ei! Ei! Não precisa ficar se defendendo, porque não a estou acusando de nada. O que você faz com seu Anacleto não é problema meu.

— Não faço nada!

— Está bem, Amelinha, não faz nada. Não foi para falar de seu relacionamento com seu Anacleto que a chamei aqui. Queria mostrar-lhe o teatro, o espetáculo, a música. E você gostou, não gostou?

— Gostei, não. Adorei.

— Você nasceu para o teatro. Tem a dança no corpo.

— Você acha mesmo?

— Tenho certeza. Com um pouco de treino, você vai ser imbatível. Ninguém mais dança feito você, tem o seu jeito, o seu carisma, a sua sensualidade. Foi por isso que os homens enlouqueceram. Você é uma mulher especial, Amelinha, tem poder sobre os homens.

— Tenho?

— Você não faz idéia do futuro que tem pela frente, menina. Estou certo de que não será difícil engajá-la em algum teatro de revista.

— Mas eu não sei nada sobre teatro.

— Como disse você só precisa de um pouco de treino. Com o tempo, vai ser a melhor atriz de teatro de revista de que esse país já ouviu falar.

— Será?

— Serei o seu empresário, e com o meu auxílio e sob a minha supervisão, vamos ficar ricos.

— Não sei não, Mauro. Dona Janete não vai gostar, e seu Anacleto vai ter um chilique.

— Mas que Janete? Que Anacleto? Nada disso, meu bem. Se quiser ter um futuro no mundo do teatro, teremos que sair daqui.

— Sair daqui? Para onde iremos?

— Para o Rio de Janeiro. É lá que estão concentrados os maiores teatros de revista da atualidade. Vamos para lá e vamos enriquecer.

— Mas Mauro, sou menor de idade.

— E daí? Quem é que precisa saber? É só você pôr uma maquiagem mais puxada, e ninguém vai desconfiar. Com esse corpo, ninguém vai nem perceber a sua carinha de menina assustada e ingênua.

— Dona Janete vai mandar me procurar. E seu Anacleto, então, vai até colocar a polícia atrás de nós.

— Dona Janete não tem motivos para sair por aí atrás de você, e Anacleto não tem moral para chamar a polícia. O que vai dizer? Que corrompeu uma menor para torná-la sua amante? — Mauro notou o rubor subindo às suas faces e ponderou amável: — Não precisa ter vergonha de mim, Amelinha. Não sou cego, e, desde o dia em que você entrou em meu quarto, percebi que havia algo entre você e Anacleto. Se há alguém que tenha do que se envergonhar é ele, que corrompeu uma menina que tem idade para ser sua neta.

— Não faço isso por querer — tornou ela em tom de desculpa. — Dona Janete me obrigou. Ameaçou colocar-me na rua...

Calou-se, a voz embargada, e Mauro retrucou penalizado:

— Dona Janete deveria ir presa. Onde já se viu abusar de uma menina que nada mais é do que sua criada?

— Não sou apenas criada de Dona Janete. Na verdade, ela é minha prima... Quero dizer, prima de minha mãe.

— O quê? Não acredito.

— Pois pode acreditar.

Sentindo inexplicável confiança naquele homem que mal conhecia, Amelinha contou-lhe todos os detalhes de sua vida, desde quando morava em Limeira e sofrerá aquele estupro, até as ameaças de Janete para que ela aceitasse o assédio de Anacleto. Contou de Raul e de seu amor, da mãe e de seu ódio, da irmã que sempre rejeitara, do filho que entregara para adoção sem nem mesmo conhecer. Mauro ouviu tudo em silêncio, comovido com o seu relato, imaginando como seria dolorosa a vida de uma menina já tão experiente e castigada pela vida. Quando ela terminou, ele puxou o seu rosto e pousou-lhe um beijo delicado e terno, que ela retribuiu emocionada.

— Tudo isso é passado, Amelinha. Estou lhe oferecendo a oportunidade de uma vida nova, longe de tudo e de todos.

— Tenho medo.

— Do que é que tem medo?

— De não dar certo. De ter que voltar e pedir a Janete que me aceite de volta. De sofrer mais humilhações.

— Isso não vai acontecer. Confie em mim. Você vai ser rica e famosa, e ninguém, nunca mais, poderá magoá-la seja de que maneira for.

Amelinha chorava baixinho, não sabendo ainda ao certo se acreditava em tudo o que Mauro lhe dizia. Não que duvidasse dele ou de suas intenções. Não tinha era certeza se a vida lhe permitiria realizar os seus sonhos. Por outro lado, o que tinha a perder? Não agüentava mais as ordens de Janete e tinha nojo de Anacleto. O que poderia ser pior do que aquilo?

— Está bem, Mauro. Vou confiar em você, confiar no destino. Pior do que está não pode mesmo ficar. Se for para tentar ser feliz, vale à pena enfrentar o medo e as adversidades.

— Garanto que seu medo é infundado, e as adversidades não serão maiores do que as que você já enfrentou até aqui.

Ela lhe deu um sorriso forçado e redargüiu, entre ansiosa e hesitante:

— Quando partiremos?

— Dê-me um tempo para preparar tudo. Até lá, aja normalmente, não deixe que ninguém desconfie.

— Podemos contar com Ione.

— Ione? Nada disso, é perigoso.

— Ione é minha amiga e também sofre nas mãos de Dona Janete.

— Tem certeza de que ela é de confiança?

— Absoluta. Foi ela quem me ajudou a não morrer de fome.

— Hum... Está bem. Falarei com Ione e passarei a ela todas as instruções.

— Não podemos levá-la junto?

— Não.

— Por favor.

— Não é o momento, Amelinha. No começo, será difícil para nós dois. Mais tarde, quando você ficar rica, poderá mandar buscá-la.

— Você está certo. Ione ganha mal na pensão, mas ao menos consegue sobreviver. Não tenho o direito de tirá-la de sua vida para fazê-la arriscar-se nessa louca aventura.

— Muito bem, menina, está mostrando juízo — haviam chegado à esquina da rua em que moravam, e Mauro estacou. — Agora, volte para casa em silêncio e vá dormir. Amanhã, faça como lhe disse. E lembre-se: nenhum comentário ou olhar perdido. Isso pode estragar tudo.

— Não se preocupe Mauro. Farei tudo direitinho como você mandou.

— Ótimo. Agora vá.

 

Levou um mês para que Mauro acertasse tudo. Fez alguns contatos, comprou as passagens, informou-se sobre os lugares aonde ir ao Rio de Janeiro. Durante esses dias, Amelinha nem o encarava. Continuava a dançar e a se deitar com Anacleto, esmerando-se para agradá-lo.

Era uma segunda-feira quando recebeu a notícia da partida. Depois do café, Ione sentou-se a seu lado e esperou até que ninguém estivesse por perto para lhe dizer. Mauro mandava avisar que estivesse pronta naquela madrugada. Que levasse o mínimo possível, para não chamar a atenção. Foi assim que ela fez. Às duas horas, quando todos já estavam dormindo, saiu sorrateiramente de seu quarto, carregando apenas a costumeira maleta, com algumas poucas roupas, o dinheiro minguado e as jóias baratas que Anacleto lhe dera. Foi descendo as escadas, pé ante pé, e levou tremendo susto ao avistar uma sombra parada perto da porta. Hesitou por alguns instantes, sem saber se corria de volta ou se ficava parada, até que a sombra se adiantou, e ela respirou aliviada.

— Desculpe-me se a assustei, mas não podia perder a oportunidade de abraçá-la uma última vez — sussurrou Ione, os olhos cheios de lágrimas.

Andando o mais rápido que podia sem fazer barulho, Amelinha soltou a mala no chão e estreitou-a nos braços, chorando junto com ela.

— Quando estiver bem, mandarei buscá-la.

— Não precisa me fazer promessas que sabe que não poderá cumprir.

— Está enganada, Ione. Vou poder e vou cumprir. Você vai ver.

— Oh! Amelinha! Estarei torcendo por você.

— Obrigada. Você é a melhor amiga que alguém pode ter.

— Jamais a esquecerei.

— Nem eu, porque estaremos juntas mais tarde.

Alisou o rosto molhado de Ione e deu-lhe um beijo caloroso, sentindo nos lábios o sal de suas lágrimas.

Em seguida, abriu a porta e saiu, caminhando pela rua, apressada. Virou a esquina quase correndo e deu uma última olhada para trás. Ione havia fechado a porta, e o casarão lá estava, uma silhueta lúgubre erguendo-se na sombra da noite. Um arrepio percorreu a sua pele, e uma onda de incertezas e alegrias invadiu o seu coração. Estava partindo para o novo, o desconhecido, sem saber que destino o futuro lhe reservava. Mas algo dentro de seu peito lhe dizia que fazia a coisa certa.

— Tudo pronto? — indagou Mauro, quando ela se aproximou.

Ela apenas assentiu. Entregou-lhe a maleta e, chorando, agarrou-se ao seu braço, esforçando-se para não desabar em pranto. Mauro a susteve com ânimo, e partiram rumo à estação de trem. Ao amanhecer, estavam embarcados, e o trem seguia a toda velocidade em direção à capital do país, entrelaçando e preparando a teia de seus destinos.

 

Aquelas eram lembranças dolorosas, e Tália escondeu o rosto entre as mãos e deu livre curso às limas, chorando como há muitos anos não chorava, lá havia se passado tanto tempo desde aquele dia! Aquilo fora em 1933, e agora estavam em 2005. Para onde é que fora o tempo? Morrer não era desculpa para o esquecimento que se impusera. Desde o seu desenlace, havia mais de cinqüenta anos, deixara de pensar nos seus entes queridos. Deixara de lado as lembranças, olvidando-se de que era com elas que poderia construir suas experiências, e optara por uma vida de reclusão e abandono. Seu espírito se acostumara à solidão, e ela procurara compensar o esquecimento com horas de estudo e dedicação aos espíritos necessitados.

Tudo isso fora válido e a ajudara a compreender a necessidade de voltar ao passado, não para revivê-lo, mas para conseguir entender os muitos porquês para os quais, em vida, não encontrara resposta. Por onde andariam aqueles que amara? Raul, Mauro, Ione, a filha, o filho que não chegara a conhecer? Não seria hora de tornar a encontrá-los?

— Tudo tem a sua hora — falou uma voz vinda da porta, fazendo com que Tália erguesse as sobrancelhas e encarasse Sílvia.

— É verdade — respondeu ela com tristeza. — Mas creio que perdi a hora para tudo.

— Nada se perde na natureza, minha querida, seja no mundo corpóreo, seja nesse em que hoje nos encontramos. Tudo o que nos acontece é necessário, e não há cedo ou tarde para as experiências do espírito.

— Como pode dizer uma coisa dessas, Sílvia? Revivendo agora o passado, sinto que me omiti durante todos esses anos. Minha filha e minha irmã possuem todos os motivos do mundo para me odiar, e o homem que mais amei se casou com minha irmã.

— Cristina jamais a odiou, e sua filha pensa que você a abandonou.

— Eu desencarnei!

— Ela não sabia disso.

— Jamais consegui ser feliz... Mesmo com todo o dinheiro, toda a fama, todos os homens a meus pés. Com tudo isso, nunca pude ser feliz!

— Você não se permitiu a felicidade porque não acreditou que a merecesse.

— Você, mais do que ninguém, conhece todos os meus erros.

— Quem somos nós para falar em erros? Qual é o peso que eles têm ou deveriam ter? Ninguém passou pela vida sem dar a sua quota de erros, sofrimentos, crimes, desilusão. É assim que se cresce e se aprende o valor dos sentimentos que lhes são opostos. Ninguém sabe o quanto vale uma réstia de luz sem que tenha mergulhado os olhos na vastidão das sombras.

— Eu sei, não estou me culpando.

— Pois não é o que parece. Fala como se sentisse pena de si mesma.

— Não é justo, Sílvia. As marcas do sofrimento ainda estão impressas em meu coração.

— Você sempre se lembrou do quanto sofreu, mas parece que apagou da mente os bons momentos que teve. Por quê? Por que a lembrança do sofrimento é mais sedutora do que a da felicidade?

— Não sei.

— São as nossas carências, Tália, que nos fazem usar o sofrimento em benefício próprio, para despertar a piedade alheia e compensar a dor com compaixão. Quem é que não tem pena do sofredor? Até nós sentimos pena de nós mesmos.

— Não quero a piedade de ninguém.

Sílvia fez um gesto com as mãos e tornou amistosa:

— Está bem, não vim aqui para discutir. Vim apenas lhe dizer que é hoje que seu neto vai buscar o resultado daquele exame de DNA.

— E daí? Já conheço o resultado.

— Mas não conhece a reação dele nem de sua filha, nem de Honório — Tália hesitou, e Sílvia continuou: — Não foi você mesma quem disse que havia perdido muito tempo com a sua solidão? Então? Não acha que está na hora de voltar à vida?

— Muito engraçado, uma morta dizendo isso à outra morta.

— Estamos mais vivas do que nunca, e você sabe disso. Então? O que me diz?

Tália considerou por alguns minutos, até que concordou:

— Está certo. Vou com você.

 

Em companhia da namorada, Eduardo ia caminhando pela rua, segurando nas mãos o envelope com o resultado do exame de DNA.

— Ande Edu — estimulou Gabriela. — Abra logo esse envelope!

Eduardo estacou e fitou a namorada. Queria abrir e não queria. Nem ele mesmo entendia por que é que sempre tivera aquela fixação na avó. Desejava ardentemente que aquele cadáver fosse o dela, mas tinha medo de ler o resultado e descobrir que alimentara uma vã ilusão.

— E se não for a minha avó? — contrapôs hesitante.

— Se não for, tudo bem. Você não tem nenhuma obrigação de encontrá-la mesmo.

— Mas eu queria tanto que fosse ela!

— Então abra logo.

— O que você acha?

— Abra, Edu.

Como Eduardo não se decidia, Gabriela arrancou-lhe o envelope das mãos e abriu afoitamente. Ele não a impediu e permaneceu mordendo as unhas, esperando que ela terminasse de ler. Gabriela desdobrou o papel e correu os olhos por ele, balançando a cabeça enigmaticamente. Encarou Eduardo com um sorriso e ergueu as sobrancelhas, fazendo ar de mistério.

— E aí, Gabi, o que foi que deu? — tornou nervoso.

— Quer mesmo saber?

— É claro que quero.

— Tem certeza?

— Dê-me isso aqui — apanhou de volta o papel e leu com avidez. — Eu sabia! Sabia o tempo todo que era ela!

— Sua mãe vai ficar uma fera.

— Em compensação, meu avô vai adorar. Ele a amava muito.

— Por que será que nunca se casaram?

— Não sei bem. Essa parte da história é meio nebulosa. Não sei se meu avô mistura as coisas ou se não quer me contar. Só o que sei é que ela estava doente e sumiu.

— E por isso, sua mãe não a perdoa.

— Minha mãe não a perdoa porque acha que vovó a abandonou quando ela era ainda bebê. Mas agora nós sabemos que ela morreu naquele sítio e não pôde voltar.

— Sua mãe não sabia que ela estava doente quando desapareceu?

— Ela diz que vovô só falou isso para justificar o desaparecimento dela.

Chegaram ao prédio em que Eduardo morava e subiram direto ao seu apartamento. Diana estava ao telefone, mas ouviu quando eles entraram e desligou, correndo ao seu encontro. Sabia que Eduardo havia ido ao laboratório buscar o resultado daquele maldito exame, e, embora não quisesse admitir, também tinha certa curiosidade em conhecer o seu resultado. Ao encontrar Gabriela em sua companhia, torceu o nariz e abraçou o filho, cumprimentando-a com frieza.

— Como vai, Dona Diana? — falou Gabriela.

— Vou bem.

— Trouxe o resultado do exame, mamãe — interrompeu Eduardo. — Não quer saber?

— Na verdade, não.

— Que pena.

Eduardo deu de ombros e estendeu a mão para Gabriela, saindo com ela vagarosamente.

— Mas já que você o trouxe - apressou-se Diana pode me dizer.

— Muito bem — anunciou ele, em tom solene. Fique feliz em saber, Dona Diana, que o paradeiro de sua mãe já não é mais nenhum mistério. A ossada que encontrei naquele sítio realmente pertence à Tália Uchoa.

Uma estranha emoção arranhou o coração de Diana, que fingiu nada sentir. Torceu o nariz e retrucou em tom gélido:

— Não posso dizer que esteja surpresa. Aquela mulher teve o fim que mereceu.

— Por que a odeia tanto, mamãe? Ela morreu sozinha naquele lugar ermo. Isso não a comove nem um pouco?

— Eu não a odeio, mas também não me comovo com nada que se refira a ela.

— Não acredito nisso. Você a odeia porque se deixou impregnar pelas barbaridades que a bisa contava dela.

— Minha avó a conheceu muito bem. Tália era uma vagabunda, ordinária, prostituta. Por que outro motivo teria me abandonado?

— Porque ela estava doente e morreu, por isso.

— Isso é história! Quem é que foge quando está doente? Essa foi à desculpa que seu avô arranjou para justificar a fuga daquela ordinária. Aposto como desapareceu com algum malandro que lhe deu uma surra e a matou.

— Não acha que está sendo intransigente e rígida Dona Diana? — interrompeu Gabriela. — Edu pode ter razão.

— Em primeiro lugar, o nome do meu filho é Eduardo, e não Edu. Em segundo, não creio que os assuntos de nossa família sejam de seu interesse, mocinha.

— Mãe! Não precisa ser grosseira com Gabi. Ela só está querendo ajudar.

— Muito obrigada, mas não preciso da ajuda de ninguém, muito menos de uma estranha.

Deu as costas aos dois e voltou para o quarto, deixando-os decepcionados e tristes. Mais do que eles, Tália chorava a seu lado. Vira e ouvira tudo, o que a deixara profundamente magoada e triste também.

Olhou para Sílvia a seu lado que, como a ler seus pensamentos, foi logo informando:

— Sua mãe morreu bem depois de você, Tália, carregando no coração todo o ódio que sentia pela perda de Raul.

— Não fui culpada pela morte de Raul.

— Não. Mas é difícil sufocar um ódio tão profundo, de tantos anos, que foi alimentado por mais de uma vida.

— Mas isso é injusto!

— Se você pensar bem, não existe injustiças no mundo. O que há são fatos conhecidos ou desconhecidos, o que nos leva a essa sensação de justiça ou injustiça.

Tália assentiu, e as duas foram ao encontro de Eduardo, que estava no quarto em companhia de Gabriela. Ela deu um beijo no neto e na moça e seguiu com Sílvia. Quando elas partiram, Eduardo sentiu certo arrepio, embora não soubesse explicá-lo. Pensou na avó e correu a apanhar algumas fotos que seu avô lhe dera.

— Ela era linda, não era? — perguntou embevecido.

Gabriela alisou a sua mão, fixando o retrato amarelecido de Tália.

— Edu?

— Hum?

— Posso lhe perguntar uma coisa?

— O quê?

— Por que essa fixação em sua avó? Quero dizer, é natural a curiosidade, mas você fica vidrado em tudo o que se refere a ela. Por quê?

— Não sei Gabi, juro que não sei. Confesso que muitas vezes me fiz essa mesma pergunta, mas não encontrei resposta. No princípio, pensei que fosse influência de meu avô, mas depois notei que não. Antes mesmo de ele me contar as suas histórias, e já era vidrado nela. Aliás, foi exatamente por causa do meu interesse que ele me narrou todas aquelas coisas. Não sei... Sinto por ela algo inexplicável, como se a tivesse conhecido profundamente. Não acha isso esquisito?

— Não sei. Hoje em dia, não sei mais o que é estranho e o que não é. Acho que tudo é possível.

— Tem razão.

— Por que não procuramos ajuda em algum lugar? Podíamos ir a um centro espírita.

— Acha que adiantaria?

— Podemos tentar.

— Se minha mãe descobrir que estou pensando em ir a um centro vai ser um inferno. Ela detesta essas coisas de espiritismo.

— Ela não precisa saber. Podemos ir e procurar descobrir o paradeiro de sua avó. No mundo espiritual, quero dizer.

— Boa idéia, Gabi.

— Vou falar com minha irmã. Ela sabe tudo desses assuntos.

Beijaram-se novamente, agora esquecidos de Tália e das coisas do passado. Mas no peito de Eduardo, uma pequena esperança começava a luzir.

 

Já passava da meia-noite quando Gabriela chegou a casa, e a irmã estava em sua cama, ouvindo um CD e lendo um livro espírita, Nada é como parece, de Marcelo Cezar. Gabriela entrou vagarosamente e acercou-se da irmã, que sorriu sem desgrudar os olhos da leitura.

— Oi — cumprimentou ela, colocando o marcador na página após alguns minutos e pousando o livro na mesinha de cabeceira.

— Oi, Eliane, tudo bem?

— Tudo.

— Sabe o que é Eliane? Eu gostaria de saber quando é que você vai àquele centro de novo.

— Que centro? O centro espírita?

— É lógico, né?

— Por quê? Está interessada?

— Estou. Na verdade, meu interesse pelo assunto surgiu de repente, por causa de Eduardo. Ele anda muito estranho. Quando soube da existência daquele sítio, ficou desnorteado. Só pensava em ir lá e procurar pistas da avó perdida. Descobriu aqueles ossos e teve certeza de que eram dela.

— Já Saiu o resultado do exame de DNA?

— Saiu hoje cedo. O resultado não foi nada surpreendente, já era esperado. Mas a reação de Eduardo é que me preocupa. Ele parece fascinado pela figura da avó. Guarda fotos em porta-retratos, coleciona recortes da época em que ela era atriz. Sabia que até a certidão de nascimento dela ele guardou?

— E daí, Gabriela? Pode ser uma simples admiração. Papai mesmo disse que ela foi uma vedete famosa no seu tempo.

— Não sei explicar, Eliane, mas sinto que Eduardo está ficando muito vidrado, fixado, sei lá. Parece até que está apaixonado por ela.

— Ah! Não vá me dizer que está com ciúmes de alguém que morreu há mais de cinqüenta anos! E pior, que era avó de Eduardo!

— Ele fala dela com uma admiração... É quase como se a tivesse conhecido e vivido intensa paixão.

— Sei. Tipo: Em algum lugar do passado.

— Não brinque Eliane, a coisa é séria. Estou preocupada, com medo de que isso vire uma obsessão.

— Já falou com ele?

— Perguntei-lhe hoje o porquê dessa admiração, mas nem ele soube responder. Foi por isso que pensei no centro espírita. Quem sabe não descobrimos alguma coisa?

— Como o quê, por exemplo?

— Não sei. Talvez eles tenham alguma ligação de outras vidas. Acha isso possível?

— Possível, sempre é. Nós não sabemos quem fomos ou como vivemos, mas podemos estar certos de que nossa vida é feita de reencontros. São eles que nos ajudam a crescer.

— Pois é. Pensando nisso, não será também possível que ela, de alguma forma, tenha se libertado do lugar em que estava presa e voltado para perturbar Eduardo?

— Nem sabemos se ela ainda está no mundo espiritual. E depois, que interesse teria ela nessa perturbação?

— É por isso que preciso da sua ajuda. Talvez o centro espírita nos dê algumas respostas.

— Ou talvez não dê nenhuma. É um erro pensar que o espiritismo, os guias ou qualquer outro processo mediúnico sejam a solução para nossos problemas. Precisamos descobrir os remédios para nossos males dentro de nossas próprias forças...

— Eu sei Eliane, não estou querendo dizer que o centro vai solucionar esse problema. Aliás, eu nem sei se isso é um problema. O que quero são respostas.

— Mesmo as respostas não podem ser tidas como absolutas. Muitas vezes, não temos permissão para conhecer a verdade que procuramos. Há casos em que os guias e mentores não podem nos ajudar da maneira como desejamos.

— Como assim?

— Nem sempre os espíritos têm autorização para responder aos nossos questionamentos ou atender aos nossos desejos. Tudo se processa de acordo com o equilíbrio que existe na natureza. Se o que procuramos vai romper esse equilíbrio, os espíritos de luz não nos irão mostrar.

— Até parece. Tem gente por aí causando desequilíbrios muito mais graves do que esse.

— Desequilíbrios que deverão ser restabelecidos a qualquer momento. E, muitas vezes, restaurar o equilíbrio perdido pode ser muito doloroso.

— Está querendo dizer que podemos ser punidos por tentar descobrir a verdade?

— Punidos, não. Mas a dor que sentimos é, na maioria das vezes, causada pela nossa própria teimosia e imprevidência. Nesse caso, só estaremos recebendo aquilo que nós mesmos desejamos encontrar.

— Em outras palavras, quem procura acha.

— Exatamente.

— Se entendi bem, podemos descobrir coisas que vão nos fazer sofrer?

— É. E talvez vocês não estejam preparados para o que vão descobrir.

Durante alguns minutos, Gabriela permaneceu em silêncio, fitando a irmã com certa perplexidade.

— Eu sempre pensei — prosseguiu Gabriela — que tudo o que acontecesse no mundo fosse pela vontade de Deus.

— E é.

— E fosse para o nosso crescimento.

— O que também é verdade.

— Se é assim, descobrindo ou não a verdade sobre Tália Uchoa, estaremos seguindo a vontade de Deus, e se isso nos trouxer sofrimento, também aí será pela Sua vontade e para o nosso crescimento.

— Pode-se dizer que sim. A vontade de Deus é única: que aprendamos a amar. Agora, os meios que vamos utilizar para alcançar esse fim são aqueles que melhor atendem aos nossos propósitos e que estão mais de acordo com nossa maturidade espiritual. Por isso, podemos sempre escolher aprender pelo amor ou pela dor.

— Mas, ainda assim, não será pela vontade de Deus?

— Deus deu ao homem o livre-arbítrio para que ele pudesse escolher o seu próprio caminho, colhendo, como resultado dessa escolha, as flores ou espinhos com que se deparar.

— Já entendi Eliane. Ainda assim, vamos assumir esse risco. Já conversei com Edu e ele quer ir.

— Muito bem. Se for o que desejam, vou levá-los comigo na próxima sessão. Mas não posso prometer nada.

— É isso aí, irmãzinha. Obrigada! Ficou combinado que Gabriela e Eduardo iriam com Eliane ao centro na terça-feira seguinte, o que deixou o rapaz extremamente animado. Era o primeiro sinal que recebia de que podia ter esperanças de se comunicar com a avó.

 

Em silêncio, Diana seguia para a casa do pai, concentrada em descobrir um jeito de afastar Gabriela de seu filho. Como se isso não bastasse, ainda havia aquele problema com a mãe. Por que será que Eduardo cismara de saber a verdade sobre ela? Não lhe bastava o que o avô e a bisavó haviam lhe contado? Quanto mais pensava nela, mais Diana se enchia de ódio.

Precisava falar com o pai. Apesar de tolo e apaixonado, o pai sempre cuidara dela e lhe dera amor. Cristina também fora muito boa com ela e era a única que merecia ser chamada de mãe. Encontrou-o tomando sol no jardim e se aproximou dele, só então notando que ele tinha um álbum de fotografias nas mãos. Ao ver a filha, Honório fechou o álbum e esboçou um sorriso alegre.

— Diana, minha querida, já era tempo de vir me ver. Pensei que tivesse se esquecido de seu velho pai.

— Não faça drama, papai — respondeu ela, beijando-o nas faces coradas. - Estive aqui no começo da semana.

— Só? Pensei que fizesse mais tempo.

— Você está ficando esclerosado. Não raciocina mais direito.

— Não fale assim com seu pai. Ainda estou saudável e lúcido.

— Você já vai fazer noventa e sete anos. Não é mais nenhum garoto.

— Ainda posso cuidar de mim.

— Já soube da novidade? — indagou ela, mudando de assunto.

— Que novidade?

— Da ossada que seu neto achou?

— Saiu o resultado do tal exame?

— Saiu. E adivinhe só! É mesmo daquela mulher.

— Sua mãe.

— Minha mãe se chamava Maria Cristina e morreu tranqüilamente ao meu lado.

Lembrando-se de Cristina, Honório enxugou duas lágrimas dos olhos e apanhou a mão da filha, erguendo-se do banco em que estivera sentado.

— Vamos caminhar um pouco — convidou. Diana pôs-se a caminhar ao lado dele e esperou alguns minutos até prosseguir no assunto.

— O que tem dito a Eduardo, papai?

— Nada, por quê?

— Ele cismou que precisa descobrir coisas sobre a vida da avó.

— Deixe o garoto. Que mal pode haver?

— Não o quero envolvido com aquela mulher.

— Aquela mulher era sua mãe e já está morta. Ela foi uma grande mulher.

— Grande mulher... Nem se casar com você ela quis. Largou-me para ser criada pela babá e sumiu no mundo.

 Ela estava doente quando sumiu. Mas agora nós sabemos o fim que ela levou, não é mesmo?

— Não sei se acredito nessa tal doença. Para mim, o que ela quis mesmo foi me abandonar. Cuidar de um bebê devia ser um tropeço para uma libertina feito ela.

— Você não conheceu sua mãe — ponderou ele, olhos úmidos.

— É. Ela não me deu essa chance.

— Mas você sabe o motivo que a levou a desaparecer.

— Tudo desculpa para fugir a suas responsabilidades de mãe.

— Por que a julga desse jeito?

— Porque ela não prestava. Era uma vagabunda, mãe desnaturada, filha ingrata. Não é à toa que ela e minha avó não se davam.

— Você bem sabe que sua avó não gostava dela e que foi a responsável pelo seu desaparecimento. Se não tivesse...

— Não tente acusar minha avó! — berrou Diana, interrompendo-o com exasperação. — Ela estava apenas tentando ajudar, mas Tália, ingrata como era, tratou logo de destratá-la! E não quero que você conte isso a Eduardo. Não o quero com raiva da bisavó por algo de que ela não teve culpa.

— Está bem, Diana — suspirou desanimado. — Deixemos os mortos descansarem em paz.

— É melhor mesmo. Tudo isso está causando sérios problemas a Eduardo.

— Que problemas um moço saudável, recém-formado, com uma brilhante carreira pela frente e uma bela namorada pode ter?

— A namorada é um deles, mas não vim aqui para falar dela. Minha preocupação é aquela mulher. Não o quero investigando a vida de Tália, não é saudável. Você precisa tirar isso da cabeça dele.

— Eu? E desde quando Eduardo me dá ouvidos?

— Se há alguém a quem ele dá ouvidos, esse alguém é você. Você sabe que ele o adora.

— Ai, ai, ai! — lamentou-se ele. — Vá lá, Diana, se é isso o que quer, verei o que posso fazer.

— Ótimo papai. Sabia que podia contar com você.

Com um gesto delicado, Honório deu o assunto por encerrado e convidou-a a entrar e tomar um refresco. Se ambos pudessem ver além do visível, teriam percebido a presença de Sílvia e Tália ao lado deles, os olhos úmidos de saudade.

— Você o amava — afirmou Sílvia, notando a sua tristeza. — Por que não se casou com ele?

Tália voltou para ela os olhos brilhantes para, em seguida, dirigi-los novamente a Honório, que caminhava de braços dados com a filha.

— Por quê? — repetiu. — Porque minha vida se perdeu numa ilusão...

Fitou Sílvia de novo e balançou a cabeça, sumindo no ar em seguida.

 

Quando a terça-feira chegou, o clima era de euforia para Gabriela e Eduardo. A sessão começava às oito e meia e, às sete e meia, todos já se encontravam lá. Como Eliane fazia parte do corpo mediúnico, foi apresentar os amigos ao dirigente, um senhor alto e de olhar bondoso, que se chamava Salomão. Ainda tinham tempo, e Salomão dispôs-se a ouvir e conhecer os motivos que levaram Eduardo a procurá-lo. O rapaz contou-lhe tudo o que sabia sobre a avó, inclusive sobre a ossada recém-descoberta, finalizando com a enorme atração que sentia por tudo que se referisse a ela. Salomão escutou com atenção e, ao final da narrativa, segurou as mãos de Eduardo e disse mansamente:

— Meu jovem, talvez esse não seja o momento mais oportuno para você conhecer a verdade. Ou talvez a sua avó não possa ou não queira se comunicar.

— Isso aqui não é um centro espírita? Não é o local apropriado para a gente se comunicar com os que já morreram?

— As coisas nem sempre são como nós queremos, mas como devem ser de acordo com os desígnios de Deus.

— O senhor não está entendendo. Deus não tem nada a ver com isso. Sou eu que preciso me comunicar com a minha avó.

— Deus tem a ver com todas as coisas. E sua avó precisa de permissão para mandar uma mensagem ou se apresentar, mas pode ser que isso não seja oportuno agora, nem para ela, nem para você.

— Por que não? Que mal pode haver em saber de seu paradeiro?

— Há coisas que é melhor não descobrir por enquanto. Tudo tem a sua hora, e talvez esse não seja o momento certo.

— O momento é sempre o certo quando se trata da verdade. E eu preciso descobrir a verdade. Já!

— Você está muito ansioso, meu rapaz. Não creio que a verdade lhe trará algum benefício. Ao menos enquanto você não estiver fortalecido e equilibrado.

— Ouça seu Salomão, sei que o senhor é muito bom e está preocupado comigo. Mas posso lhe assegurar que estou mais do que preparado para descobrir o que houve com Tália. E seja o que for que tenha acontecido entre nós tenho maturidade suficiente para saber. Sou um homem crescido, dono do meu nariz.

— Não é desse tipo de maturidade que você precisa, mas de maturidade espiritual. E essa só vem com o estudo e a reflexão.

— Não precisa se preocupar, já disse. Nada de mal poderá me acontecer.

Salomão deu um suspiro de desânimo e retrucou com compreensão e carinho:

— Vá se sentar na assistência, meu filho, e mantenha-se em oração. Se sua avó quiser e puder se manifestar, ela o fará. Se não, conforme-se com a vontade de Deus e esteja certo de que Ele tudo faz pelo nosso bem.        

Ainda ansioso Eduardo foi se sentar na assistência com Gabriela, e do outro lado, uma mulher de seus trinta e poucos anos sorriu para ele e disse baixinho:

— Estou esperando para ser aceita no corpo mediúnico. Tenho grandes potenciais e quero dar a minha contribuição à espiritualidade.

— É mesmo? — interessou-se ele. — E o que é preciso fazer para ser aceita?

— Nada. Eles apenas estão avaliando minhas capacidades como médium.

— Ah...!

O som de um pequeno sino fez com que todos se calassem, e a iluminação fria do salão foi substituída por suaves luzes azuis, que davam um ar de serenidade ao ambiente. A sessão transcorreu normalmente, sem que nenhum espírito se manifestasse para mandar qualquer mensagem a Eduardo. Ao final, Eliane se juntou a eles.

— Lamento Edu, mas não foi dessa vez.

— Não faz mal, Eliane. Sei que vocês fizeram o que puderam.

— Olá, Eliane — cumprimentou a mulher que estava ao lado de Eduardo.

— Ah! Tudo bem, Janaína?

— Tudo ótimo. Então, já apreciaram o meu pedido?

— Isso não é comigo, é com seu Salomão.

— É o meu pedido para ingressar no centro — esclareceu ela a Eduardo.

Eliane pediu licença e saiu puxando os amigos para fora, para tomarem um refrigerante na cantina.

— Está na cara que você não gosta da tal Janaína — observou Gabriela.

 Você tem razão, não simpatizo muito com ela. Janaína pediu para ingressar na casa, mas não está preparada.

— Por quê? Ela não é médium?

— Médiuns, todos nós somos, em maior ou menor escala. Mas o problema de Janaína não é bem esse. Ela é psicóloga e anda se aventurando no campo da TVP.

— TVP? O que é isso?

— Terapia de Vidas Passadas.

— Ela faz regressão? — indagou Eduardo, cético.

— Faz, mas seu Salomão não confia muito em seus métodos. Já soubemos de casos em que o paciente ficou pior do que já estava.

— Por que será? Será que ela não faz direito?

— Fazer, ela faz, e é por isso que as pessoas ficaram mal. Ela andou arranjando clientes aqui no centro, mentindo, dizendo que era com recomendação de seu Salomão, que ficou muito aborrecido. Afinal, ele tem responsabilidade pelo encaminhamento espiritual dessa casa e de todos que a procuram.

— Acho que Eliane tem razão — concordou Gabriela. — Uma pessoa que mente para alcançar seus objetivos não é digna de confiança.

— É por isso que não a deixam entrar? — quis saber Eduardo.

— É. Seu Salomão não pode pôr em risco as pessoas que aqui vêm.

— Por que não dizem isso a ela?

— Já dissemos, mas ela prefere fingir que não entende.

— Terapia de vidas passadas... — divagou Eduardo. — Deve ser interessante. Imagine só, descobrir a relação que tivemos com outras pessoas, em outras vidas...

— Nem pense nisso, Edu! — cortou Gabriela, rapidamente. — Nem pense em procurar essa tal de Janaína para saber de sua avó.

— Eu não disse isso.

— Mas é o que está pensando. Posso ver pelo brilho dos seus olhos.

— Gabriela está certa, Edu. — concordou Eliane. — Pode ser perigoso. Você pode não gostar do que vai descobrir.

Eduardo silenciou. Não queria mais pensar naquilo, mas o fato era que ficara impressionado com as palavras de Eliane. Se aquela mulher era capaz de levá-lo a outra vida, será que não valeria à pena arriscar? E depois, o que poderia haver de tão terrível em seu passado e no de sua avó que pudesse colocá-lo em risco? Será que foram apaixonados? Talvez tivessem sido amantes. Isso não era assim tão horrível. Podia lidar com aquilo. Ao menos, era no que acreditava.

 

Terapia de vidas passadas parecia algo muito mais do que interessante; era tentador. Tentador demais para ser desconsiderado. Eduardo não conseguia parar de pensar em Janaína e em seu trabalho. Talvez estivesse enganado ao procurar o centro espírita. Talvez a ajuda mais acertada para ele fosse uma regressão a vidas passadas. Era exatamente do que necessitava. Veria e reviveria momentos importantes de sua vida, fatos passados em outras épocas e, muito provavelmente, desvendaria o mistério que envolvia sua relação com Tália.

Eliane dissera que poderia ser perigoso, mas ele não pensava assim. Não era como aqueles fracos e desequilibrados que enchiam os consultórios dos psicólogos com problemas pueris, cuja solução simples mal conseguiam enxergar. Para esses, a terapia de vidas passadas podia representar uma ameaça, porque não estavam prontos para se defrontar com a dor do passado. Mas ele não. Era um homem forte e corajoso, determinado e destemido, e não havia nada que o pudesse intimidar. Esperaria até a próxima sessão no centro espírita, quando poderia encontrar Janaína novamente. Daria um jeito de conseguir o seu telefone e marcaria uma consulta, sem que ninguém precisasse saber.

No dia seguinte, acordou com o telefone tocando insistentemente a seu lado, na mesinha de cabeceira. Consultou o despertador: ainda faltavam quinze minutos para as seis. Muito cedo para se levantar. Eduardo só entrava no trabalho às nove horas, de forma que não precisava madrugar. Como aquele era o seu número particular, o telefonema só podia ser para ele mesmo. Espantando o sono, ergueu o fone e respondeu entre bocejos:

— Alô...

— Oi! Edu? Sou eu, o Márcio.

Márcio era o amigo de Eduardo que estivera presente quando da descoberta da ossada de Tália. Os dois haviam se formado em economia na mesma época e trabalhavam juntos na mesma empresa.

— Márcio? Posso saber o que foi que houve para você me ligar tão cedo?

— Cedo? Já passa das dez horas. Esqueceu-se da nossa reunião? Todo mundo está perguntando por você.

— Dez horas?

Eduardo levantou-se de um salto e apanhou o despertador, encostando-o no ouvido. Parado!

— Não sei o que houve Márcio. O despertador está parado. Acho que deu defeito.

— Lembre-me de lhe dar um rádio-relógio digital no próximo Natal. Agora se apresse. Se vista logo e venha para cá.

— Já estou indo. Por favor, peça desculpas ao pessoal e diga que já estou chegando.

Embora atrasado, Eduardo gozava de prestígio na empresa, e o chefe não ficou muito zangado. A reunião transcorreu normalmente, e, no final do dia, os dois saíram para tomar um chope e conversar.

— Está tudo bem com você, Eduardo? Você anda meio estranho ultimamente.

— Não é nada, Márcio, estou bem.

— Não sei não. Desde que descobriu os ossos de sua avó, você anda esquisito.

— É impressão sua.

— Será? Gabriela também pensa assim?

— Ela comentou alguma coisa com você?

— Olhe Edu, não leve a mal, mas ela me telefonou no outro dia. Está preocupada com você.

Uma sombra imperceptível de ciúme nublou a mente de Eduardo, que conseguiu disfarçar e retrucou com fingida displicência:

— Por quê?

— Não sei se é saudável você ficar nessa fixação pela sua avó. Ela já morreu cara.

— Só o que quero é descobrir o que aconteceu com ela.

— Você sabe que ela estava doente quando sumiu. Seu avô já lhe disse. Provavelmente, foi por isso que ela morreu.

— E daí?

— E daí que não sei se vale a pena você ficar revolvendo essa história. O passado está morto, e você nada pode fazer para mudá-lo.

— Não quero mudar o passado. Quero apenas compreender.

— O que mais há para compreender? Você não conheceu sua avó. Descobrir a ossada dela, confesso que foi uma aventura. Fazer o exame de DNA também foi compreensível, porque tirou sua dúvida. Agora chega.

— Pode ter sido uma aventura para você, mas para mim foi algo muito sério. E depois, eu sou a pessoa mais indicada para definir o que é ou não importante para mim.

— Tudo bem, Edu, não quero discutir com você.

Mudaram de assunto, mas algo continuou martelando na cabeça de Eduardo. Quando foi que Gabriela telefonou para Márcio? E por que não lhe contou? Aquilo o incomodou. Embora o amigo nunca dissesse nada, podia perceber os olhares que dava para ela. Mas não queria dar uma de namorado ciumento e criar um caso por nada. Pouco depois, despediu-se de Márcio e resolveu ir à casa de Gabriela. Ainda era cedo, e podiam sair para jantar. Encontrou-a estudando em seu quarto e beijou-a apaixonadamente.

— Posso saber o motivo desse beijo ardente?

— Estive pensando, Gabi. Que tal se fôssemos acampar nesse fim de semana?

— Não vai dar Edu. Tenho prova na segunda-feira.

— Sei. É para isso que está estudando?

— É sim.

Ele assentiu e ficou rondando a moça, até que indagou:

— Não pretendo atrapalhar você, mas não quer sair para comer alguma coisa? Podemos ir ao Mac Donald's.

— Tudo bem. Estou mesmo com fome. Dê-me só um tempo para me vestir.

Eduardo saiu do quarto e ficou conversando com Eliane, que havia acabado de chegar. Poucos minutos depois, Gabriela apareceu, e ele percebeu o quanto ela era bonita e como a amava.

— Você está linda! — elogiou embevecido.

— Obrigada.

— Aonde é que vocês vão? — indagou Eliane.

— Comer alguma coisa por aí. Quer ir?

— Não, obrigada, já jantei.

— Até mais então, Eliane.

Trocaram beijos de despedida, e os dois partiram rumo à lanchonete.

— Você ainda não me disse o que achou do centro espírita — falou Gabriela, assim que se sentaram para comer.

— Eu gostei. Fiquei um pouco desapontado, mas foi legal. Senti uma paz incrível.

— Eu também. Mas não gostaria que você ficasse decepcionado. Sua avó ainda pode aparecer.

— E se nada acontecer?

— Não será então o melhor?

— Não, Gabriela. Estou disposto a descobrir, ainda que contra a vontade de todo mundo. Até meu avô, que sempre defendeu minha avó, me telefonou outro dia para tentar me convencer a não fazer nada. Aposto como foi idéia da minha mãe.

— Acho que você está insistindo em algo que a vida não quer lhe revelar.

— Se não quer, vou forçá-la a querer. Nada nem ninguém têm o direito de me impedir de descobrir a verdade sobre a minha família.

— Talvez a verdade não seja útil para você, afinal. Não nesse momento.

— Em que momento então? Quando eu morrer? — ela deu de ombros, e ele acrescentou: — Muito obrigado, mas não vou esperar tanto. Se tiver condições de descobrir hoje, vai ser hoje mesmo que vou descobrir.

— Como?

— Darei um jeito. E agora, Gabi, por favor, será que podemos mudar de assunto? — ela silenciou e mordeu o sanduíche, e ele indagou com aparente displicência:

— Soube que você andou telefonando para o Márcio para falar de mim.

— Não é bem assim, Edu. Liguei para ele porque é seu amigo e pensei que poderia ajudar.

— Ajudar em quê? Não estou doente nem nada.

— Foi você quem quis mudar de assunto.

— Isso mesmo. Estamos falando do Márcio agora.

— Acho que não temos nada para falar do Márcio. O problema ainda é a sua avó.

— Foi o que ele me disse.

— Por que está tão zangado? Será que é algum crime preocupar-me com você?

— Não estou zangado. Só não sei se me agrada que a minha namorada fique telefonando para outros homens além de mim.

— O que é isso, Edu? Ciúmes agora? Pensei que Márcio fosse seu amigo.

— E é. Mas também é homem. E muito atraente, eu reconheço.

— Não estou entendendo aonde você quer chegar.

— A lugar nenhum. Esqueça. É besteira.

Eduardo sorriu sem jeito e virou a cabeça para o lado, fitando a rua pela janela envidraçada da lanchonete. Não sabia se Gabriela já havia percebido o interesse de Márcio por ela e não pretendia chamar sua atenção. Jurara a si mesmo que não bancaria o namorado ciumento, mas o fato é que não podia evitar. Por mais que tentasse, não conseguia parar de pensar em Márcio e nos seus sentimentos para com Gabriela. E se falasse com ele? Talvez, esclarecendo tudo, parasse de sentir ciúmes. Diria ao amigo que Gabriela era sua namorada e que não ficava bem os dois se falarem por telefone. Mas que besteira! Márcio o julgaria ridículo. E depois, eles nem andavam se falando por telefone. Pelo que ele sabia aquilo acontecera apenas uma vez e não iria se repetir. Decidiu não mais se importar.

 

Faltavam poucos minutos para o meio-dia, e Eduardo conversava animadamente com Márcio num bar à beira-mar, ainda de sunga e camiseta. Tinham saído da praia havia pouco minuto para dar um pulo no barzinho e tomar uma bebida gelada, fugindo do sol escaldante.   

— E a Gabi, como vai? — perguntou Márcio, tentando não demonstrar excessivo interesse.   

Eduardo fitou-o desconfiado, mas desviou os olhos rapidamente, para que o outro não notasse a sua irritação. Deu um gole largo na cerveja e respondeu sem tirar os olhos da mesa:

— Vai bem... — hesitou, mas a desconfiança foi maior, e retrucou com uma quase zanga: — Por que o interesse?

— Perguntei por perguntar — respondeu Márcio, percebendo que o amigo não havia gostado.

Foi preciso muito esforço para Eduardo não gritar com Márcio. Afinal de contas, ele não perguntara nada de mais. Em outras circunstâncias, nem teria se importado, mas, de uma hora para outra, dera para ter essas desconfianças. Tinha certeza do interesse dele por Gabriela, o que o deixava irritado. A moça jamais lhe dera motivo para desconfianças, mas, desde que telefonara ao amigo para falar dele, Eduardo começou a se sentir incomodado, e a sombra negra do ciúme principiou a avançar sobre ele.

Tentou desanuviar a cabeça, mas estava difícil. Confiava muito em Márcio; eram amigos há muitos anos. E tinha toda confiança em Gabriela também. Mas o que dizer de seu desempenho amoroso nos últimos tempos? Ela vinha se queixando de sua frieza e desinteresse. Estaria interessada no outro e, por isso, seus carinhos já não a satisfaziam mais? Agora que percebera, sentia que havia algo estranho entre aqueles dois. Ou seria mera impressão?

Na verdade, Eduardo não conseguia enxergar os seres que, nessas horas, o abraçavam. Criaturas ligadas a sua mãe compraziam-se em incutir-lhe um ciúme crescente. Cada vez que se deixava dominar por esse sentimento mesquinho e corrosivo que a bebida só fazia aumentar, as entidades se acercavam dele, enviadas pelos pensamentos daninhos de Diana, que odiava Gabriela mesmo sem perceber. Eduardo alheio a esse fato e descuidado na vigília, era presa perfeita para esses espíritos, não lhes opondo resistência nem qualquer dificuldade. Ia se tornando, a cada dia, mais e mais sugestionável a suas vibrações, que o instigavam à desconfiança e ao ciúme.

Assim envolvido por essas sombras, Eduardo dava vazão a sentimentos menos nobres. Fitava Márcio com um brilho de raiva no olhar quando avistou a mãe, que se aproximava a passos largos.

— Graças a Deus encontrei você! — exclamou ela, pendurando-se em seu pescoço e cumprimentando Márcio com um aceno de cabeça.

— Por quê? Aconteceu alguma coisa?

— Não, está tudo bem. E que seu avô apareceu de repente lá em casa, para o almoço. Faço questão da família reunida à mesa.

— Que maravilha! Sabe que adoro conversar com vovô.

— Só não vá aborrecê-lo... — parou abruptamente e queixou-se, aborrecida com a chegada repentina de Gabriela: — Ora essa!

— Olá, olá! — cumprimentou a moça, beijando Eduardo nos lábios.

— Terminou de estudar? — indagou o namorado, puxando-a pela mão e sentando-a a seu lado.

— Graças a Deus. E aí, Márcio, como vai?

— Tudo bem.

— E a senhora, Dona Diana? Veio pegar um solzinho?

— Não tenho tempo para essas bobagens — respondeu ela com azedume. — Vim aqui só porque precisava falar com Eduardo. Temos um importante almoço de família em casa, e não podia deixar de vir.

Mandaria um dos criados, mas não se pode contar com eles hoje em dia. Não fazem nada direito...

Foi só então que Diana percebeu que não havia ninguém prestando atenção em suas palavras. Gabriela acariciava a mão de seu filho, enquanto este, olhar reto, parecia remoer alguma coisa. Seguindo o seu olhar, encontrou os olhos de Márcio que, por sua vez, fitavam Gabriela com ar de adoração. Num átimo de segundo, compreendeu tudo. Gabriela parecia ou fingia não notar, mas Márcio não tirava os olhos dela, o que já fora percebido por Eduardo.

Ciúme. O monstro negro da destruição, inimigo dos amantes e aliados dos oportunistas. E ela era uma grande oportunista. Seria com o ciúme que contaria para minara confiança de Eduardo naquela espevitada. Não podia perder aquela oportunidade.

— Você vai almoçar lá em casa? — escutou Eduardo dizer a Gabriela, que assentiu em dúvida. — Gostaria muito que você fosse.

Fascinada, viu quando Gabriela respondeu com todo o seu charme, que Márcio bebia como se fosse endereçado a ele:

— Se é o que você quer, vou sim.

— Podemos ir para o meu quarto depois — completou quase num sussurro inaudível, e ela sorriu sedutora.

Do outro lado da mesa, Márcio também parecia fascinado. Tentava não prestar atenção, mas não conseguia tirar os olhos da menina, talvez se imaginando no lugar de Eduardo. E por que não?

— Por que não vem também, Márcio? — convidou Diana, esforçando-se para parecer gentil.

— Ah! Obrigado, Dona Diana, mas não vai dar.

— Você tem algum compromisso?

— Não, nenhum. Na verdade, estou sozinho em casa.

 Então, por que não vem? Tenho certeza de que Eduardo ficaria feliz.

Procurou não olhar para o rosto do filho, que se contraiu em desagrado.

— Domingo é dia de se almoçar com a família, mamãe — protestou Eduardo, apertando os lábios.

— Mas foi ele mesmo quem disse que está sozinho! Mais um motivo para vir almoçar conosco. Vocês sempre foram tão amigos, que é como se ele fizesse parte da família. E depois, Gabriela não vem também? Ela não vai almoçar com a família, vai?

— Não sei Dona Diana — hesitou Márcio. — Não quero atrapalhar.

— Que atrapalhar, que nada! Assim fica mais divertido. Eduardo não tem tempo de aborrecer o avô, e vocês, jovens, podem se divertir, os três. Você tem um DVD novo, não tem meu filho?

— Tenho — respondeu secamente.

— Então! Vamos, Márcio, Eduardo está precisando disso. Tem trabalhado demais.

Não era verdade. O trabalho não o incomodava nem o desgastava, e Eduardo não compreendia por que a mãe insistia naquilo. Quase gritou com ela para que parasse, mas conseguiu se conter a tempo. Ela não tinha nada com suas desconfianças e fazia aquilo pensando que era para o seu bem. Finalmente engoliu a raiva e conseguiu dizer:

— Venha, Márcio. Podemos ver um bom filme, nós três.

— Se é assim — considerou Márcio —, eu vou.

— Ótimo! Agora, fiquem aí mais um pouco, enquanto vou para casa e mando pôr mais dois pratos à mesa.

Márcio consultou o relógio e tornou:

— A que horas é o almoço?

— Hum... — fez Diana. — Lá para uma hora, está bom?  

— Já é meio-dia e vinte. Ainda tenho tempo de ir tomar um banho e me aprontar.

— Não precisa. O almoço vai ser servido à beira da piscina.       

— Mesmo assim, Dona Diana, estou cheio de sal.

Levantou-se e despediu-se dos amigos, seguindo para casa sob o olhar contrariado de Eduardo. Gabriela chegou a notar seu desagrado, mas preferiu se calar. Em qualquer outra ocasião, Edu ficaria feliz com a companhia do amigo e da namorada, mas, desde que ela telefonara a Márcio, ele andava esquisito. Ainda estaria com ciúmes?

— Você não precisa ir se arrumar — disse Eduardo, apertando a mão de Gabi, que fez menção de se levantar. — Pode ir agora comigo.

Gabriela não contestou. Estava de biquíni e saída de praia, mas iria assim mesmo. A saída mais parecia um vestidinho, e ninguém iria notar.

 

À uma e meia, sentaram-se para almoçar nas mesinhas colocadas no terraço da imensa cobertura de Diana. Eduardo, que quase não falara nada durante o almoço inteiro, preocupado em tomar conta dos olhares de Márcio, acabou se esquecendo deles por alguns minutos, envolvido que fora na conversa do avô.

— Você não devia mais se ocupar tanto com o passado, Eduardo. Deve cuidar de viver o presente e planejar o futuro. Sua mãe anda aborrecida com esse seu interesse. Sabe como ela se sente com relação a sua avó.

— Isso é problema dela.

— Você devia respeitar mais a sua mãe. Ela só quer o seu bem.

— Mas quem foi que disse que não a respeito? Só porque ela não gosta de vovó, não significa que eu também tenha que não gostar. E depois, é ela que não respeita o meu desejo. Vive me recriminando...

— Ela é sua mãe. Quer o melhor para você.

— Foi ela quem lhe pediu para me falar essas coisas, foi? Porque se foi, não vai adiantar.

Continuaram a conversar, e, como sempre acontecia quando o assunto era Tália, Eduardo se esqueceu por completo de Gabriela, desligando-se momentaneamente dela e de seu amigo Márcio. Deixada sozinha pelo namorado, a moça se aproximou do rapaz, que, debruçado na amurada, observava o movimento dos banhistas embaixo, na avenida. Sentindo o seu perfume suave, Márcio virou-se para ela e deu um meio sorriso, tomando um gole do refrigerante que tinha nas mãos.

— Está fazendo um lindo dia, não está?

Ele assentiu e retrucou:

— Estou até pensando em dar um pulo lá embaixo e dar um mergulho. O que você acha?

— Você já não tomou banho?

— Mas estou de sunga por baixo.

— Por que não caímos na piscina?

— Não sei não, Gabi. Não estou vendo ninguém de roupa de banho por aqui.

— Tem razão. Podem nos achar intrometidos, não é? Ainda mais Dona Diana, que vive cheia de frescuras e etiquetas.

Márcio sufocou o riso e olhou para a mãe de Eduardo, que dava ordens a uma criada.

— Coitado do doutor Douglas — prosseguiu ele. — Merecia coisa melhor.

— É mesmo. Ele é tão legal!

Márcio assentiu e tornou a se virar para o terraço, apontando Eduardo com o queixo.

— Nosso amigo já foi perturbar o avô com aquela conversa de Tália.

— É verdade. Pior que, nessas horas, ele nem lembra que eu existo.

Naquele momento, Márcio se deu conta da enorme ternura que sentia por ela. Teve vontade de estreitá-la em seus braços e beijar seus cabelos, dizendo-lhe o quanto ele se importava. Mas a fidelidade ao amigo não lhe permitia maior contato com Gabriela, e limitou-se a dizer:

— Ele não faz por mal. Mas, se lhe servir de consolo, sou seu amigo e estou ao seu dispor quando você quiser conversar.

Ela apertou a mão dele e agradeceu quase em lágrimas:

— Obrigada, Márcio. Você é um ótimo amigo. De onde estava Diana não perdia um só movimento dos dois. Nem se importava muito com a conversa do filho e de seu pai. Ver a proximidade de Gabriela e de Márcio, sentir o interesse do rapaz por ela e a fragilidade da moça diante da quase indiferença do filho, era algo fascinante, para não dizer prazeroso.

— E então? — prosseguiu ele. — Vamos ou não vamos dar um mergulho?

— Hum... Está certo, você me convenceu. Vou falar com Edu e já volto.

A passos largos, Gabriela se aproximou de Eduardo e, pedindo licença, informou-o de sua intenção de ir dar um mergulho em companhia de Márcio. De tão entretido na conversa do avô, Eduardo mal lhe registrou as palavras. Limitou-se a assentir, dando-lhe rápido beijo nos lábios. Ela deu um sorriso amargo para Honório e se afastou, sumindo em seguida em companhia de Márcio.

— Devia dar mais atenção a sua namorada — censurou-o. — Ou vai perdê-la para outro.

— Como assim? — tornou Edu, incrédulo.

 Sabe por que acabei me interessando por Maria Cristina?

A pergunta pegou Eduardo de surpresa. Eles mal falavam da tia-avó, a mulher de seu avô, irmã de sua verdadeira avó, e era a primeira vez que ele o escutava referir-se a sua vida pessoal.

— Por quê? — repetiu ele, interessado.

— Justamente porque sua avó não me dava atenção. O sucesso, por vezes, ofuscava-lhe a visão, e eu ficava deixado de lado, vendo-a se divertir em festas na companhia de outros homens. Nessas ocasiões, quem me consolava era sua avó Maria Cristina, que não tinha o glamour de Tália, mas que, à sua maneira, também foi uma grande mulher.

— Mas você amava vovó Tália.

— Amava... Mas não há amor que resista à indiferença. Quando a carência aperta, pendemos para o lado daqueles que nos cobrem de atenções. Foi assim comigo e Maria Cristina, e pode vir a ser assim com Gabriela e o seu amigo.

— Acha que eles podem me trair?

— Trair, não. Mas a distância que você está impondo a ela pode acabar aproximando-a do outro. E aí, ela pode simplesmente deixar você para ficar com ele. Troca não é traição.

— Márcio é meu amigo...

— Mas é também um ser humano cheio de sentimentos, dúvidas, desejos. Não jogue com a sorte, menino, porque ela pode virar as costas para você.

— Você também trocou vovó Tália por vovó Cristina?

— Foi Tália quem me trocou por todos os outros homens... E Cristina... Ela me amava tanto...!

— Mas vocês só se casaram depois que vovó Tália sumiu, não foi?

— O que não quer dizer que não tenhamos nos envolvido antes.

— Quer dizer que você e ela tiveram um caso? Antes que a vovó sumisse?

— Era em seu colo que eu desafogava o pranto, e em sua cama que aliviava a tristeza que me consumia o coração.

— Estou... Estarrecido... — balbuciou ele. — Jamais poderia imaginar que você houvesse traído a minha avó.

— Eu não a traí. Apenas procurava consolo nos braços da única mulher que me amou de verdade e que estava sempre livre e pronta para mim. Era Tália quem me traía com qualquer um que tivesse uma carinha bonita ou um pouco de sedução.

— E acha que pode acontecer o mesmo comigo?

— Se você não se cuidar, pode sim. Gabriela é jovem, bonita, inteligente, assim como o seu amigo bonitão. Ainda mais hoje em dia, que tudo é mais fácil. Na minha época, nós ainda tínhamos que fazer tudo às escondidas, mas hoje, o sexo é natural e ninguém se importa com quem dormiu com quem.

— Não fale assim, vovô. Gabriela não seria capaz de dormir com outro.

— Você não sabe as coisas que um coração magoado e desprezado é capaz de fazer.

— E Márcio é meu amigo.

— Que também tem um coração e, pelo que pude perceber, e ele até possa tentar negar, quase arrebenta quando fica perto da Gabriela.

— Você percebeu?

— Na hora do almoço. Por mais que ele disfarçasse, não conseguia tirar os olhos dela.

Eduardo silenciou. As palavras do avô só vinham confirmar suas suspeitas. Então, Márcio estava mesmo interessado em Gabriela, e qual era a mulher que não gostava de ser cortejada? Aquele pensamento o encheu de ódio. Olhou ao redor, procurando-os, e só então se lembrou de que ela havia lhe dito algo sobre ir dar um mergulho na praia. Levantou-se apressado e correu até a amurada, procurando-os na areia lá embaixo. Impossível encontrá-los no meio da multidão e àquela distância.

— Vou lá embaixo procurá-los — disse, voltando para perto do avô. — Daqui a pouco estarei de volta.

— Não se preocupe comigo. Mas não vá brigar com ninguém, viu?

— Pode deixar.

Deu um beijo na testa do avô e saiu, remoendo ainda as suas palavras. Tinha que manter a cabeça fria e não se precipitar. Afinal, tudo podia ainda estar apenas na intenção. Não acreditava que Gabriela e Márcio fossem capazes de traí-lo, mas, como dissera o avô, uma troca não seria propriamente uma traição. E ele tinha que reconhecer que andava meio distante ultimamente. Fosse como fosse, tentaria lhe dar mais atenção.

Com esses pensamentos, atravessou a portaria do prédio e saiu.

 

O olhar de espanto e dor de Tália, que acompanhava esses diálogos do mundo espiritual, demonstrava claramente que aquelas revelações eram desconhecidas para ela, deixando-a transtornada e confusa.

— Você não sabia? — indagou Sílvia.

— Não — respondeu com olhos úmidos, esforçando-se para não parecer excessivamente chocada. — Jamais poderia imaginar que Honório e Cristina tinham dormido juntos enquanto eu vivia.

— Há muitas coisas que você não sabe, não é, Tália? Nunca se preocupou em descobrir nada. Viveu na vida espiritual alheia ao mundo em que trilhou sua jornada de carne, como se ela nunca tivesse existido.

— Será que é errado tentar apagar o passado?

— Quem sou eu para dizer o que é certo ou errado? Mas o passado existe para nos auxiliar a cultivar o que foi bom e a modificar o que nos trouxe sofrimento.

Se você esquece, nega que viveu. Se não viveu, não experienciou, e sem as experiências, como definir o que deve ou não ser aproveitado ou modificado?

Tália encarou Honório com profundo pesar e se aproximou dele lentamente. Ao sentir a sua presença, os olhos dele encheram-se de lágrimas, e a sua lembrança invadiu-lhe a mente. Como estaria sua amada? Não sabia se acreditava em vida após a morte, mas, durante todo aquele tempo, jamais sentira a presença dela como agora sentia. Por mais que se lembrasse dela e que lhe chamasse o nome, ela nunca o atendera.

Naquele momento, a lembrança da amada voltou forte em seus pensamentos. Mais do que isso, uma sensação estranha, uma presença familiar parecia envolvê-lo como uma bruma espessa. Era uma sensação tão forte que chegava quase a ser palpável, e Honório estendeu as mãos para frente, buscando tocar o invisível. Sem querer, atravessou o corpo astral de Tália, que lhe registrou as vibrações e segurou-lhe as mãos com as suas, beijando-as sem quase as tocar.

A troca de fluidos foi tão intensa que, por uma pequenina fração de segundos, Tália fez-se visível a Honório, que estacou bestificado e balbuciou confuso:

— Tália...

De onde estava Diana escutou o seu apelo e olhou para ele com um misto de raiva e espanto.

— O que foi que disse papai?

— Sua mãe... Estava ali... Eu a vi.

— Você está ficando caduco. Não há ninguém ali.

— Mas eu a vi!

— Foi impressão. Viu uma das empregadas e se confundiu.

— Não, não! Era sua mãe, tenho certeza.

— Você andou tomando sol demais, papai. Ou será que bebeu às escondidas?

— Não estou bêbado! Vi Tália perfeitamente, como estou vendo você. Foi rápido, mas eu vi.

— Chega dessa bobagem! Isso é coisa da sua cabeça. Eu bem que desconfiava que sua esclerose está piorando.

— Deixe-o em paz — intercedeu Douglas, que também ouvira o chamado de Honório.

— Mas ele anda falando sandices!

— Ouça Diana, que mal pode haver? Se ele diz que viu Tália, deixe-o com sua visão. Não está prejudicando ninguém.

— Prejudica a cabeça dele.

— Não seja tão dramática nem implicante. Você está é com raiva porque seu pai ainda pensa em sua mãe.

— Será que vocês dois podem parar de discutir por mim? — contrapôs Honório. - Sei muito bem o que vi e não preciso de ninguém para me chamar de caduco ou louco.

— Ninguém está dizendo isso, Honório.

— Estão sim, os dois. Cada um a sua maneira. Mas não faz mal. Tália esteve mesmo aqui, eu sei, e não me importa se vocês acreditam ou não.

Com certa dificuldade, Honório se levantou da cadeira e foi caminhando vagarosamente em direção à escada que dava acesso à parte interior do apartamento. Enquanto descia as escadas, Tália ia acompanhando-o, com Sílvia a seu lado. Chegaram è sala, e ele se sentou numa poltrona defronte à varanda. Pousou a cabeça no encosto, cerrou os olhos e suspirou:

— Sei que era você, Tália. Eu vi.

Quase no mesmo instante, adormeceu, e Tália se afastou dali com Sílvia, para evitar que ele a visse novamente e ficasse ainda mais confuso. Em poucos minutos, estavam na praia, acompanhando Eduardo, que caminhava pela areia escaldante.

— Não podemos ajudá-lo? — indagou Tália, preocupada com o ar transtornado do rapaz.

— Eduardo está se deixando levar pelo ciúme, atraindo criaturas de baixo padrão vibratório. É preciso que ele abra os olhos para as verdades eternas da alma e lute contra esse sentimento daninho. Caso contrário, irá cada vez mais sintonizar com esses espíritos, poderosos aliados de sua mãe, e dar acesso a todo tipo de influência perniciosa.

— Como disse? Esses espíritos são aliados de Diana? Como assim?

— Diana e Gabriela são inimigas de outra vida. Eduardo já foi marido de Gabriela, até que conheceu Diana e, apaixonado por sua beleza, deixou-se por ela seduzir e tornou-se seu amante. Após algum tempo, a beleza vazia e fútil de Diana acabou cansando-o, e ele rompeu esse relacionamento, voltando para os braços da esposa. Diana nunca se conformou. Movida pelo ódio e o ciúme, tirou a vida de Eduardo numa discussão e comprometeu-se a voltar como sua mãe, a fim de não apenas lhe devolver a vida tirada, mas também de respeitar-lhe as escolhas e aprender a amar Gabriela.

— Não sei se ela vem fazendo isso muito bem, não é? Pelo que pude perceber, está muito empenhada em infernizar a vida da menina.

— Não nos cabe julgá-la, Tália. Diana procura fazer o melhor que pode, embora o apego excessivo a Eduardo lhe dificulte um pouco o raciocínio.

— E esses espíritos que você chama de seus aliados? Como foram se ligar a ela?

— Acompanham-na de outras vidas e se alimentam das vibrações densas emanadas por sentimentos inferiores. Como é esse o seu alimento, esforçam-se para levar Eduardo a manter-se na mesma sintonia, reforçando, assim, a sua fonte de energia primitiva. E Eduardo, imprevidente e descuidado, vai-se entregando ao ciúme desmedido, fortalecendo-os cada vez mais, fazendo exatamente aquilo que esperam dele.

— Mas então, ele não tem culpa! São esses espíritos inferiores que o levam a sentir isso.

— Culpa, propriamente, ele não tem. Ninguém é culpado por sentir, porque sentimento não se domina nem se fabrica. Mas não foram esses espíritos que se ligaram a ele para induzi-lo a sentir ciúmes. Foi o ciúme de Eduardo que os atraiu, criando entre eles uma conexão que vai se fortalecendo à medida que ele dá vazão a esse sentimento. No dia em que Eduardo conseguir educar o sentimento, vigiando seus pensamentos e exercitando o verdadeiro amor em seu coração, a sintonia será rompida, e esses seres, privados do alimento que os vivifica, vão deixá-lo de lado e partirão em busca de outro encarnado que sirva melhor aos seus propósitos.

— E Gabriela? Será que gosta mesmo dele ou vai se envolver com Márcio?

— Sobre isso, não nos é dado especular. A vida deles somente a eles pertence.

— Mas Eduardo gosta tanto dessa moça!

— Deveria então se preocupar mais com ela, ao invés de gastar todo o seu tempo tentando desvendar a sua vida, Tália.

— É verdade. Ele tem verdadeira fixação em mim, não é mesmo?

— Isso não devia ser motivo de orgulho para você. O rapaz não sabe a ligação que vocês tiveram e pode ficar chocado com o que descobrir.

— Como assim? Nós já tivemos alguma ligação no passado?

— Só uma forte ligação pode explicar a adoração que ele tem por você.

— Mas eu não me lembro!

  Você mesma apagou da mente as lembranças. Quando quiser, vai se lembrar.

Tália não disse mais nada, mas começou a sentir-se inquieta com relação a Eduardo. Uma sensação de familiaridade a invadiu, e ela percebeu que realmente o conhecia. Restava saber quando e de onde.

 

Eduardo pisava a areia quente da praia com uma quase fúria, olhando para todos os lados em busca de Gabriela e Márcio. Cumprimentou alguns amigos e pensou em perguntar-lhes se os haviam visto, mas não queria que falassem que sua namorada estava perdida na praia com outro. Chegou mais para a beira e procurou na água. O mar, naquele dia, estava um pouco mais manso do que o usual, e ele finalmente os avistaram mais no fundo, além da arrebentação. Sentiu um bolo no estômago ao ver Gabriela subindo nas ondas, talvez impulsionada pelos braços de Márcio que, provavelmente, se prendiam ao redor da sua cintura.

Largou os chinelos ali mesmo, na beira, e se atirou na água com violência, espargindo pingos por todos os lados. Algumas senhoras que se banhava na beirinha se queixaram, mas ele nem teve tempo de se desculpar. Movimentou os braços e as pernas e saiu vencendo as ondas, nadando o mais rápido que podia na direção dos dois. Parou quase ao lado deles, fincou os pés no chão e ergueu a cabeça, sacudindo os cabelos e arregalando os olhos.

Gabriela logo o viu. Ergueu os braços acima do nível do mar e deu um mergulho vigoroso, emergindo com o corpo praticamente colado ao seu. Sem nada dizer, apertou-o de encontro a si e deu-lhe um beijo ardoroso e salgado, que ele correspondeu com sofreguidão. Uma onda mais alta os apanhou de surpresa e os levou para cima, cobrindo parte de suas cabeças, separando seus corpos e desfazendo seu beijo. Gabriela surgiu no meio da água e sorriu com alegria, voltando para junto dele. Passou os braços ao redor de seu pescoço e disse com sinceridade:

— Que bom que você veio, Edu! Estava morrendo de saudades.

— Por que não me chamou para vir com vocês?

— Eu avisei que vinha. Por que não nos acompanhou?

— Não gosto que você fique sozinha com outro homem. Ainda mais nessa intimidade toda.

Olhou de soslaio para Márcio, que se mantivera afastado, observando-os em silêncio.

— Deixe de bobagens, Edu. Márcio é nosso amigo.

— Pelo visto, está se tornando mais seu do que meu.

— Será possível que você esteja mesmo com ciúmes? — virou-se para o amigo, que se mantinha afastado, e chamou: — Venha, Márcio! Venha se juntar a nós.

Meio constrangido, Márcio se aproximou. Cumprimentou Eduardo com um aceno de cabeça e falou desajeitado:

— Acho que vou sair um pouco, Gabi. Aproveitar o restinho do sol.

— Já? — tornou Eduardo, em tom irônico. — Logo agora que eu cheguei você vai embora? Por quê? Estou atrapalhando alguma coisa?

Apesar de notar o ar debochado de Eduardo, Márcio não entrou em sua sintonia. No fundo, compreendia o ciúme de Edu. Embora ele e Gabi não estivessem fazendo nada de mais, em seus pensamentos, via-se abraçando a moça, beijando-a, transando com ela. E isso, para ele, equivalia a uma traição. Não tanto como a física, porque sequer ousara tocá-la. Mas seus sentimentos para com ela cresciam cada vez mais, e estava ficando difícil disfarçar aquele amor.

Por isso, movido pela culpa, afundou a cabeça na água e, ao levantar, esfregou os olhos e contestou:

 Não, Edu. Sou em que estou sobrando aqui.

Aproveitou uma onda e saiu num jacaré, indo parar quase na beira. Eduardo desviou os olhos dele, centrando a atenção na namorada. Ela estava com um olhar de tristeza indefinível, que ele traduziu como pena pelo afastamento de Márcio, mas que, na verdade, retratava o pesar que sentia por sua desconfiança.

— Por que falou assim com ele? — perguntou baixinho. — Não estávamos fazendo nada de mais.

— Você o está defendendo muito, não acha? Dá até para desconfiar.

— Desconfiar de quê? — ele não respondeu. — Vamos, Edu, pode falar. Do que você está desconfiado? De que Márcio e eu temos um caso? É isso?

Mal conseguindo sustentar o seu olhar, Eduardo desviou os olhos para o horizonte e respondeu envergonhado:

— Não. Confio em você, mas não sei se poderia dizer o mesmo de Márcio. Ele está interessado em você.

— Não diga uma coisa dessas.

— Sei o que estou dizendo e duvido muito que você não tenha percebido. Sei como as mulheres são espertas para essas coisas.

— E daí? E se ele estiver interessado em mim? Isso não quer dizer nada.

— Como não? É uma traição. Ele é meu amigo, devia me respeitar mais.

— Ele não fez nada para desrespeitar você.

— Ele a ama!

— Se isso for mesmo verdade, mais um motivo para confiar nele. Márcio é um homem decente e seria incapaz de qualquer atitude menos digna. Se realmente me ama, é em silêncio que o faz, porque nada deixa transparecer e me trata com distância e respeito.

— Distância, sei! Eu os vi lá da areia. Ele estava com as mãos na sua cintura, não estava? Aproveitando o balanço do mar para tocar em você.           

— Seu ciúme o faz ver coisas demais. Em nenhum momento Márcio encostou as mãos em mim.

— Pensei tê-los visto juntinhos, pulando as ondas.

— Estávamos próximos, não juntinhos.

— Por quê?

— Para que pudéssemos conversar sem ter que gritar.

— Sobre o que conversavam?

— Ah! Não! Recuso-me a lhe dar esse tipo de satisfação. Você não tem o direito de tentar controlar as minhas conversas.

— Não estou querendo controlar nada. Só quero saber sobre o que falavam. Será que isso tem alguma coisa de mais?

— Se fosse por mera curiosidade, com certeza que não, nem eu veria qualquer problema em lhe contar. Mas o que você quer é me controlar, e isso, não vou permitir.

— Está brigando comigo, Gabriela? Por causa de Márcio, vai brigar comigo?

— Foi você quem começou. E não estou brigando, estou me posicionando. É diferente.

Notando o seu aborrecimento, Eduardo voltou atrás. Estava se roendo de ciúmes, mas se brigasse com ela, aí sim é que Márcio se aproveitaria para conquistá-la. Tinha certeza de que o outro estava apenas esperando uma oportunidade para se aproximar, dando uma de bonzinho, oferecendo-lhe o ombro amigo para chorar. Não iria lhe dar essa chance.

— Vamos para a areia — cortou ele, puxando-a pela mão em direção à beira da praia.

Gabriela apertou a mão dele e esticou o corpo sobre a água, deixando que ele a puxasse. Em poucos minutos, estavam fora. Eduardo procurou por Márcio, mas não o encontrou e deduziu que ele havia ido para casa.

— Márcio foi embora — disse Gabriela. — E eu também já vou.

 Agora não, Gabi. Vamos até lá em casa. Você pode tomar banho no meu banheiro, e eu lhe empresto uma bermuda.

— Não, Edu, obrigada. Já está ficando tarde, e eu preciso descansar para a prova de amanhã.

— Que pena. Pensei que pudéssemos nos curtir um pouquinho.

— Você sabe que não gosto que fiquemos juntos na sua casa. Sua mãe não aprova.

— Já sou um homem crescido, Gabi, e você, uma mulher adulta. Minha mãe não manda nas nossas vidas.

— A casa é dela, e acho que ela tem todo o direito de não gostar.

— Está me dispensando, não é? Por quê? Está pensando em outro?

— Vou fingir que não ouvi o que você disse. E agora, se me der licença, vou para casa. Tenho prova amanhã cedo e quero descansar.

— Vai descansar agora? Ainda não são nem seis horas!

— Por favor, Edu, estou cansada.

— Mas eu quase não fiquei com você hoje.

— Porque não quis. Preferiu gastar a tarde conversando com seu avô sobre sua avó.

— Você fala que eu sou ciumento, mas é você quem está com ciúmes da minha avó.

— Quer saber mesmo, Eduardo? Não tenho ciúmes da sua avó, não, porque seria ridículo sentir ciúmes de um fantasma. Estou é ficando cheia dessa sua fixação, porque você se esquece de mim quando o assunto é Tália e depois se acha no direito de vir me cobrar coisas, como se eu é que não lhe desse atenção.

— Não é bem assim, Gabi...

— Vamos deixar essa conversa para outro dia. Como disse, estou cansada e tenho prova amanhã.

Deu-lhe um beijo rápido nos lábios, apanhou a saída de praia e saiu a passos largos. De onde estava Eduardo ficou observando-a se afastar, intimamente maldizendo-se por ter dado vazão a seu ciúme.

Ao chegar a casa, a mãe o esperava na sala, lendo uma revista de modas.

— Vovô já foi? — indagou ele, notando o silêncio e o vazio no ambiente.

— Já sim — largou a revista no sofá e chamou-o com as mãos, fazendo com que ele se sentasse a seu lado. — E você, Eduardo? O que o está preocupando?

— Preocupando-me? Nada.

— Não venha tentar me enganar. Sou sua mãe e o conheço muito bem.

— Não estou tentando enganá-la, mas é que não há nada mesmo. Acho que estou um pouco cansado. Vou tomar um banho e ver um pouco de televisão no meu quarto.

— Seus amigos desistiram de ver DVD com você? Onde eles estão?

— Foram embora.

— Nem os vi sair. Não se despediram nem nada.

— É que foram dar um mergulho na praia e resolveram não voltar.

— Na praia? Ora essa, por que não usaram a piscina?

— Não sei.

— Que bobagem a deles, não é, meu filho? Podiam ter ficado aqui na piscina, junto de todo mundo, mas preferiram ficar sozinhos lá na praia. Será que estávamos atrapalhando a conversa deles?

Por mais que tentasse, Eduardo não conseguiu disfarçar o desagrado, que Diana também notou muito bem.

— Não é nada disso, mamãe...

— Ah! Deixe para lá. Afinal, são amigos há muito tempo e devem ter lá os seus motivos.

— Que motivos?

— E eu é que sei? Vai ver, queriam conversar algum segredo.

— Você acha?

— Já disse que não sei, mas é natural que amigos troquem confidencias.

— Gabriela não precisa de ninguém para se confidenciar. Tem a mim.

— E Márcio? Também tem você?

— Tem.

— Ah! Meu filho, não ligue para isso. Vamos, vá tomar o seu banho. Está manchando o tapete.

Em silêncio, Eduardo partiu para o seu quarto, ainda remoendo as palavras da mãe. Será que ela havia desconfiado de alguma coisa? Seria possível que Gabriela e Márcio estivessem de caso? Terminou o banho e, com a toalha enrolada na cintura, apanhou o telefone e discou o número da casa dela. Foi à irmã quem atendeu, e ele pediu para falar com Gabriela.

— Ela ainda não chegou Edu — disse Eliane, do outro lado da linha. — Pensei até que estivesse aí com você.

— Não. Nós nos despedimos na praia, mas eu queria falar com ela.

— Quer que eu peça para ela ligar para você quando chegar?

— Não... Não é preciso.

Agradeceu e desligou. Pensou em ligar para o seu celular, mas tinha medo de que alguém mais atendesse. Largou o fone na base e se vestiu. Ligou a televisão e tentou concentrar a atenção no filme que estava passando, até que, não conseguindo mais se conter, tornou a apanhar o telefone e discou, dessa vez para a casa de Márcio. Foi ele mesmo quem atendeu, e Eduardo desligou em seguida. O que iria lhe dizer? Tentando não pensar mais naquilo, foi até o armário do banheiro e apanhou um comprimido para dormir. Engoliu-o sem água e tornou a se deitar na cama. Em breve, as pálpebras começaram a pesar, até que, finalmente, adormeceu.

 

As provas na faculdade haviam terminado, e Gabriela estava sentada em seu quarto, conferindo as questões dos exames, quando Eliane bateu à sua porta.

— Posso entrar?

— Já está dentro — respondeu Gabriela, de bom humor. — Suas provas já terminaram?

— Graças a Deus!

— As minhas também.

— Pois é. Por isso vim procurá-la. Não gostaria de ir ao centro espírita hoje, de novo?

— Ah! Não sei Eliane. Acho que aquela sessão não fez bem ao Edu.

— Não diga isso. Escutar um pouco de doutrina, tomar um passe, beber água fluidificada... Desde quando isso faz mal a alguém?

— Não é por causa disso. Refiro-me à expectativa que Edu criou com relação à comunicação com a avó. Como não aconteceu, ele ficou frustrado.

 Isso vai passar. Com o tempo, Eduardo vai compreender que, às vezes, pode não ser bom tentar descobrir o passado e talvez desista dessa idéia.

— Você acha?

— Por que não liga para ele e o convida?

Eduardo adorou a idéia de voltar ao centro espírita. Estava louco para ir lá novamente, tinha esperanças de tornar a ver a psicóloga e apanhar o número do seu telefone.

— Passo aí na sua casa às sete e meia — falou animado, desligando em seguida.

Chegaram ao centro cinco minutos depois de iniciada a sessão. Sentaram-se num banco mais atrás e assistiram em silêncio. Como da outra vez, nada aconteceu. A avó de Eduardo não mandava nenhuma mensagem, nenhum sinal de que estivesse por ali.

— Vai ver, ela já reencarnou — arriscou Gabriela. — Afinal, faz cinqüenta anos que morreu...

— Tudo é possível — esclareceu Eliane. — Nesse momento, não temos como saber.

— Que pena! — lamentou-se Eduardo. — Daria tudo para saber o seu paradeiro e a nossa ligação.

— Não tem jeito, Edu. Ela não parece estar disposta a se comunicar, e precisamos respeitar o seu momento.

— Jeito, tem — ouviram uma voz dizer do outro lado.

Todos se voltaram ao mesmo tempo e deram de cara com Janaína, que escutara tudo o que haviam dito.

— Você está nos espionando, é? — censurou Eliane.

— É claro que não. Ouvi o que diziam por acaso.

— Que jeito você acha que tem? — interveio Eduardo, interessado.

— Já ouviu falar em terapia de vidas passadas?

— Janaína, por favor — objetou Eliane —, gostaria que respeitasse as determinações de seu Salomão e não fizesse propaganda aqui.

— Não estou fazendo propaganda de nada. Quero apenas esclarecer o rapaz.

— Não precisamos de seus esclarecimentos — protestou Gabriela, com certa irritação. — Venha, Edu, vamos embora.

Por mais que Eduardo quisesse ficar e conversar com Janaína, Gabriela saiu puxando-o pelo braço, dando ainda a ela tempo de meter-lhe nas mãos um cartãozinho. Eduardo apertou a mão e enfiou-a no bolso, largando ali o cartão amassado. Chegaram ao carro rapidamente, com Gabriela reclamando do atrevimento de Janaína.

— Deixe para lá — aconselhou Eliane. — Ela é uma pobre coitada que se acha melhor do que os outros só porque cursou uma faculdade de psicologia.

— Seu Salomão devia era proibir a entrada dela no centro, isso sim.

— Ele só não fez isso ainda porque sente pena dela e tem esperanças de que ela se emende.

— Emendar! Gente assim não muda nunca.

— Não devemos julgar Gabi. Todos nós temos nossos defeitos.

Continuaram a conversar, e Gabriela estava tão indignada com a atitude de Janaína que nem percebeu o silêncio de Eduardo. Por sua cabeça, mil coisas se atropelavam. Fora mesmo ao centro com a esperança de reencontrar Janaína e, por um golpe de sorte, conseguira o que queria: estava de posse de seu cartão e poderia procurá-la quando quisesse.

Já passava das onze horas quando chegou a casa. Acendeu a luz do abajur, retirou do bolso o papelzinho amassado, desdobrou-o cuidadosamente e fixou os olhos nos telefones que ali estavam grafados. Havia dois convencionais, provavelmente da casa e do consultório, além de um celular. Ficou contemplando o cartão por alguns minutos, até que apanhou o telefone. Apertou o botão para ligá-lo e comprimiu o dedo sobre o primeiro número. Hesitou. Será que deveria ligar àquela hora? Janaína lhe dera o cartão no centro, não havia muito tempo, e não deveria ainda estar dormindo. Decidiu-se. Apertou os botões no fone e discou o número do seu celular.

Ela atendeu no segundo toque e logo reconheceu a voz de Eduardo.

— Mas que surpresa, meu rapaz! Não pensei que fosse me ligar tão cedo.

— Quero que me perdoe por ligar a essa hora, Janaína, mas é que fiquei extremamente interessado no que você me falou.

— Sobre terapia de vidas passadas?

— Sim.

— Tem interesse em alguma coisa em particular?

— Tenho.

— Em quê?

— Bem... — titubeou. — É que gostaria de saber que ligação tive com certa pessoa.

Fez-se um silêncio momentâneo do outro lado da linha, até que, finalmente, Eduardo a ouviu responder:

— Muito bem... Como é mesmo o seu nome?

— Eduardo.

— Muito bem, Eduardo. Façamos o seguinte: vá ao meu consultório amanhã, e verei o que posso fazer por você.

— O endereço é esse aqui no cartão?

— Esse mesmo. Sete horas, está bom para você?

— Estarei lá.

No dia seguinte, Eduardo mal conseguia esconder a ansiedade. Foi um custo concentrar a atenção no trabalho, e Márcio, várias vezes, teve que ir a seu socorro para que não fizesse nenhuma besteira.

— O que deu em você hoje? Parece que está no mundo da lua.

— Não é nada, estou bem.

— Alguma coisa com a Gabi?

A forma íntima com que Márcio falava de sua namorada encheu-o de raiva, mas ele não tinha tempo para aquilo. No momento, o mais importante era a consulta que teria com Janaína dali a algumas horas.

— Gabriela está ótima — respondeu de mau humor. — Nosso namoro está ótimo.

Afastou-se para não brigar, deixando Márcio com a sensação de que ele já sabia de seu amor por ela. Márcio sentiu-se mal com aquela idéia e pensou em procurar o amigo para justificar-se, mas qual seria a desculpa para o que sentia?

O resto do dia pareceu arrastar-se. Quando finalmente Eduardo se liberou do trabalho, passavam poucos minutos das seis horas. Apanhou o carro e quase voou para o consultório de Janaína. Chegou adiantado e deu o nome à secretária, que o fez sentar-se na sala de espera, um cômodo pequenino e escuro, num prédio antigo no centro da cidade. As paredes amareladas ostentavam apenas um retrato com o vidro embaçado. Eduardo forçou a vista e leu abaixo do rosto austero: C. G. Jung.

A consulta anterior demorou mais do que o normal, e ele entrou dez minutos atrasado. Cumprimentou Janaína meio sem jeito e observou o ambiente em que se encontrava. Como a ante-sala, o consultório era escuro e ostentava as mesmas paredes amarelecidas, só que sem qualquer quadro ou ornamento.

— Não repare na simplicidade do ambiente — disse ela, em tom de desculpa. — A vida de uma psicóloga nem sempre é fácil. Ainda mais se dedicando à área que escolhi.

 Refere-se à TVP?

— Sim. Nem todo mundo acredita nisso. Você acredita?

Eduardo levantou os ombros em sinal de dúvida e acabou por dizer:

— Acho que sim.

— Ótimo. Porque o primeiro passo para o sucesso do nosso trabalho é a sua crença nos resultados. Se você não acreditar que será bem-sucedido, nada poderei fazer por você.

— Eu acredito — falou, mais para si mesmo do que para ela.

— Muito bem. Antes de começarmos, algumas informações são necessárias. Primeiro: minha secretária lhe deu o preço da consulta?

— Não. Esqueci-me de perguntar.

— Cobro R$ 250,00 por consulta, que você deverá pagar independente dos resultados.

Normalmente, o valor da consulta era R$ 90,00, mas, como Eduardo parecia um homem rico, Janaína resolveu cobrar-lhe um pouco mais.

— O preço não é problema — anunciou ele, ansioso para começar.

— Muito bem. Não questionar o preço é um bom começo, porque as questões materiais interferem sobremaneira no meu trabalho. Segundo: você assume o compromisso de não comentar nada do que se passar aqui com ninguém no centro de seu Salomão. Ele não alcança o valor do que faço.

— Como quiser.

— Terceiro: tudo o que acontecer com você é responsabilidade sua. Se não gostar do que vir, o problema é seu. Vou levá-lo ao passado por sua própria vontade e não quero que você venha me culpar se as lembranças forem dolorosas ou insuportáveis para você.

— Sem problema.

— Você é um bom rapaz. Gosto de lidar com gente que não fica questionando tudo.

— A única coisa que quero Janaína, é relembrar o passado.       

— O quê, mais especificamente?    

— Quero saber que relações tive com a minha avó.

— Sua avó?

— Sim. Não a conheci, mas não paro de pensar nela.

— Fale-me sobre isso.

Durante os vinte primeiros minutos, Eduardo pôs-se a falar das conversas que tinha com o avô sobre a avó, da ossada que descobrira, do exame de DNA, da admiração que sentia por ela e da certeza que possuía de que já haviam sido amantes. Janaína escutou tudo com interesse, até que, em dado momento, diminuiu a luz da sala, acendeu um incenso e colocou um CD, que ficava repetindo uma música monótona, acompanhada do som de sinos.

— Muito bem — disse ela, empurrando-o gentilmente para que se deitasse no sofá. — Agora, quero que você relaxe. Relaxe e inspire profundamente pelo nariz, soltando o ar lentamente pela boca.

Ele ia obedecendo ao seu comando e sentiu que o corpo todo relaxava. Uma sonolência começou a pesar sobre seus olhos, e pensou que fosse adormecer.

— Ótimo, Eduardo, agora quero que você se imagine entrando num elevador e apertando um botão qualquer do painel. Pode fazer isso?

— Posso.

— Que número apertou? — ele hesitou, mas ela insistiu: — Que número apertou Eduardo?

— É um número estranho.

— Pode parecer estranho, mas não é. O painel mostra os anos, de 2005 para trás. Por isso, diga: qual foi o ano que você escolheu?

 1990.

 Imagine agora que o elevador está descendo e, a cada andar, recua um ano de sua vida. Vai descendo, descendo, até parar no ano de 1990. O que você vê?

— Não quero ver nada em 1990.

— Acalme-se, estamos apenas começando. Deve haver algo importante em sua vida nessa data. O que é?

— Nada, não há nada...

De repente, como que num flash, Eduardo se viu abrindo um baú na casa do avô e dele retirando uma fotografia antiga, que mostrava uma moça muito bonita, uma corista, de lábios carnudos e sorriso sedutor.

— O que você vê Eduardo?

— Minha avó. É uma fotografia antiga da minha avó.

— Excelente! Mais alguma coisa? — ele não respondeu. — Mais alguma coisa, Eduardo?

A imagem havia se desfeito, e só o que ele via agora eram brumas cinzentas ao seu redor.

— Estou perdido... — balbuciou. — Não sei onde estou.

— Você está diante do elevador. Pode vê-lo?

— Sim.

— Entre nele e aperte o botão de cima. É o 2005. Você vê?

— Não quero voltar.

— Mas é preciso. Está na hora.

— Não, não quero voltar. Quero ir ao passado. Desesperado, Eduardo imaginou-se apertando o botão de 1800, data provável em que deveria ter vivido com Tália em alguma vida anterior. Esperou que o elevador retrocedesse, mas nada aconteceu. Ao invés disso, ele continuava parado e, por mais que Eduardo forçasse o pensamento para o ano de 1800, nada acontecia. Tudo o que lhe vinha à mente não passava da sua imaginação, que criava cenas em que ele dançava com Tália, passeava com ela de carruagem e até em que transava com ela sobre uma relva verde. Por mais que tentasse dizer a si mesmo que aquilo eram lembranças de uma vida passada, seu coração sabia que tudo não passava de mera fantasia, do seu desejo quase que desesperado de estar junto dela.

Começou a chorar descontrolado e já não registrava mais os comandos de Janaína. Abriu os olhos e sentiu uma forte tonteira, tentando acostumar a vista à penumbra do ambiente. O cheiro do incenso causou-lhe náuseas profundas, e ele correu para uma porta que julgava ser a do banheiro. Era. Ajoelhou-se diante do vaso e vomitou, lutando para retomar a lembrança da avó.

— Tenha calma, rapaz — ouviu Janaína dizer. — Procure se reequilibrar.

Apanhou o copo de água que ela lhe estendia e sorveu tudo de um só gole. Ajudado por Janaína, ergueu o corpo e foi sentar-se no diva, afundando o rosto entre as mãos.

— Eu a perdi — choramingava. — Estive pertinho dela e a perdi.

— Você está sendo muito afoito. Ninguém consegue relembrar tudo na primeira vez.

— Mas eu podia! Se você não tivesse me chamado, eu podia ter me encontrado com ela.

— Não é assim que as coisas funcionam. Precisamos ir devagar.

— Por quê? Por que não posso relembrar tudo logo de uma vez? Quero que você me leve de volta. Pago outra consulta, o que for, mas leve-me de volta.

— Primeiro: não vou levar você a lugar algum. Você não saiu daqui em nenhum momento. Apenas a sua mente viajou. Segundo: vou fazer as coisas do meu jeito, não do seu. Terceiro: se não está satisfeito, pode arranjar outra psicóloga.

 Não, não... Não se ofenda, por favor. Perdoe-me. Não me mande embora. Faço o que você quiser, mas, por favor, não me mande embora.

Ela não tinha a menor intenção de despedi-lo. Ele representava dinheiro fácil, do qual Janaína não podia abrir mão. Seus métodos podiam não ser os mais éticos, mas ela era boa no que fazia. Não entendia por que ainda não enriquecera. Conhecia muitos terapeutas que dariam tudo para conseguir os resultados que ela obtinha em tão pouco tempo. Era boa, mas não conseguia se firmar. Por quê?

Porque, para Janaína, o uso de suas técnicas não representava nada além de promissora fonte de renda. Não que fosse errado querer ganhar dinheiro com a sua profissão. Afinal, estudara e se preparara para aquilo, e tinha tudo para dar certo. Ela era inteligente e dotada de uma sensibilidade extrema, mas não sabia colocá-la a serviço do bem. Limitava-se a induzir os pacientes a relembrar o passado, sem se preocupar com o aspecto moral e psíquico de todo o processo.

Por isso, sua carreira não progredia. Quando encarnara, assumira o compromisso de auxiliar pessoas que necessitassem da terapia de vidas passadas para se reajustarem com elas mesmas. Comprometera-se a aliar seus métodos científicos à amorosidade espiritual, orientando os pacientes a buscar uma luz em si mesma. Para tanto, fora encaminhada ao centro espírita, onde obteria os valiosos ensinamentos que poderia passar aos clientes em forma de conselhos e ensinamentos. Se desempenhasse sua tarefa com cuidado e amor, o dinheiro fluiria em sua vida de forma abundante, como retribuição material pelo seu esforço e merecimento. Mas, no momento em que Janaína elegeu o dinheiro como sua única meta, deixando de lado a finalidade do seu serviço, toda a corrente de abundância que poderia envolvê-la se desfez, restando-lhe apenas elos minguados e de pouco valor.

— O que você tem? — indagou Gabriela, notando o acabrunhamento de Eduardo.

— Nada — foi à resposta seca.

Ela não insistiu. Havia alguns dias que Eduardo andava estranho, quase não falava e mal a tocava. Aquilo a estava matando. Por mais que tentasse se interessar pelos seus assuntos, ele não lhe dava nenhuma brecha. Vivia carrancudo e mal-humorado. Não queria mais sair nem ir à praia, nem ao cinema. Ao centro espírita então, nem pensar. Saía para o trabalho e voltava para casa irritado, sem falar nada com ninguém.

Os dois estavam sentados num barzinho comendo uma pizza e bebendo sangria, e Gabriela tentava, a todo custo, interessá-lo em alguma conversa. Mas não havia nada que o prendesse, e tudo o que ela dizia só servia para irritá-lo.

— Por que não vamos para outro lugar? — sugeriu ela em tom sedutor, alisando-lhe as mãos.

— Deixe de ser oferecida, Gabriela! — censurou ele, puxando as mãos com fúria.

Ela sentiu o rubor cobrir-lhe as faces, e lágrimas vieram-lhe aos olhos.

— Oferecida? — indignou-se. — Até parece que nunca transamos.

— Mas eu não gosto de mulheres que ficam se oferecendo. Gosto de tomar a iniciativa.

— Desde quando você tem essas frescuras?

— Desde que comecei a reparar no seu assanhamento com... — calou-se abruptamente, desviando os olhos de seu rosto.

— Com quem? Vamos, Edu, pode falar. Assanhamento com quem?

— Não interessa.

— Interessa, sim. Já que começou a falar, vá até o fim.

Ele ainda vacilou por alguns minutos, mas o ódio que o consumia falou mais alto. Precisava descarregar a sua frustração sobre alguém. Já fazia um mês que freqüentava o consultório de Janaína e, até aquele momento, nada havia acontecido. Só se lembrava de passagens sem importância de sua infância, nada que pudesse ligá-lo à avó. Por mais que se esforçasse, nenhuma lembrança de Tália aparecia. Só a fantasia que sua mente imaginosa criava e que ele descartava após alguns instantes de reflexão.

E Gabriela ainda vinha irritá-lo com sua sedução barata. Como é que ela podia pensar naquelas coisas, quando ele se consumia de desejo de se lembrar das vidas que vivera com a avó? Ainda gostava de Gabriela, mas ela estava passando dos limites. Vivia a aborrecê-lo com seus dengos, tentando convencê-lo a transar com ela. Mas ele não queria! Não queria devotar a ela o amor que sentia por Tália.

Olhando para ela, sentiu vontade de fazê-la sofrer. Os espíritos que o cercavam lhe incutiam toda sorte de pensamentos menos dignos a respeito de Gabriela, incitando-o à desconfiança. Já nem sentia mais ciúme de Márcio. O que antes fora ciúme agora se transformara em ódio. Pensou em terminar tudo com ela, mas ainda havia algo em seu coração que os unia. Alguém precisava pagar pelo seu sofrimento, e Gabriela era perfeita. Escutou a sua vozinha irritante a penetrar-lhe os ouvidos como uma flecha e terminou por disparar:

— Quer mesmo saber, Gabi? Não suporto mais o seu assanhamento com Márcio. Há dias venho notando o seu comportamento e o dele. Quantas vezes vocês já transaram?

— Ficou louco, Edu? Eu nunca tive nada com Márcio!

— Duvido muito. Você adora se oferecer para os outros, não é mesmo? E Márcio é um aproveitador. Vai usar você o quanto puder e depois vai descartá-la feito lixo.

Sem acreditar no que ouvia, rosto ardendo em fogo, Gabriela se levantou aos tropeções, derrubando a jarra de sangria sobre a mesa e disparando em direção à saída.

— Cadela! — murmurou Eduardo. — Ainda desperdiça o meu vinho.

Aos prantos, Gabriela saiu para a rua. Eduardo a apanhara em casa, de forma que ela estava sem carro. Não podia nem apanhar um ônibus, porque a condução ali era bem escassa. Com o peito roído pela mágoa, tirou o celular da bolsa e ligou para a casa de Márcio. Ninguém atendeu, e ela tentou o seu celular. Atendeu a caixa postal, e ela deixou um recado desesperado para que ele lhe ligasse. Cinco minutos depois, o rapaz telefonou:

— Gabi? O que houve? Você está com uma voz!

— Oh! Márcio! Foi o Edu! Você não faz idéia das coisas horríveis que ele me disse.

— Vocês brigaram?

— Hã, hã.

— Onde você está?

— Na rua. Você pode vir me buscar?

Por alguns instantes, Márcio hesitou. Estava jantando com uma garota e teve que ir ao banheiro para telefonar. Contudo, não podia deixar de atender a um pedido de Gabriela. A moça com quem estava era linda, e fazia já algum tempo que queria chamá-la para sair. Mas Gabriela era dona do seu coração, e não havia mulher no mundo, por mais bonita que fosse que o afastasse dela.

— Dê-me o endereço. Em meia hora, estarei aí.

Ela estava perto da praia e foi caminhando para um quiosque conhecido, onde ficaria aguardando-o. Márcio deu uma desculpa esfarrapada para a moça e levou-a para casa, rumando em disparada ao encontro de Gabriela. Encontrou-a sentada a uma mesinha, bebendo uma Coca-Cola.

— Oi — cumprimentou ele, sentando-se ao seu lado e notando os seus olhos vermelhos e inchados. — Quer me contar o que foi que houve?

Entre um soluço e outro, Gabriela narrou a Márcio tudo o que se passara entre ela e Edu, desde as insinuações a respeito deles dois, até as coisas horrorosas que lhe dissera.

— Ele enlouqueceu Márcio. Anda estranho, quase não fala comigo. Por que me tratou desse jeito? O que foi que lhe fiz?

— Eduardo está doente, Gabi. Só ele é que não percebe.

— Doente de quê? Só se for da cabeça.

— Acho que é isso mesmo. No trabalho, anda desligado e confuso, não faz nada direito, e o chefe já está até reclamando.

— Não sei mais o que fazer para ajudá-lo. E depois do que ele me disse hoje, nem sei se ainda quero.

— Ele gosta de você.

— Se gostasse, jamais teria dito aquelas coisas. Ofendeu-me e me magoou.

— Tente compreender, Gabi. Eduardo está confuso.

— Fiz o máximo que pude Márcio, mas também tenho meu amor próprio. Edu passou dos limites.

— É uma pena. Vocês pareciam um casal tão feliz!

— Éramos até essa tal de Tália entrar em nossa vida. Foi ela quem virou a cabeça dele.

— Você não sabe o que está dizendo. Essa mulher já morreu há mais de cinqüenta anos. Como pode culpá-la pelo comportamento de Edu, se ele nem a conheceu?

— Oh! Márcio tem razão. Já nem sei mais o que digo. Sinto-me tão sozinha e arrasada!

— Não precisa se sentir assim. Lembre-se de que sou seu amigo e estou do seu lado para o que der e vier.

— Aprecio a sua amizade, mas não sei se seria justo me aproveitar dela assim.

— Por quê? Será que eu não sirvo para ser seu amigo?

— Não é isso...

— O que é então?

Ela estava visivelmente sem graça, mas acabou falando o que pensava:

— Não quero que pense que sou pretensiosa, Márcio, mas já tem algum tempo que noto o seu interesse por mim. Não é verdade?

Agora foi ele quem ficou confuso e envergonhado, como uma criança surpreendida com o pote de biscoitos na mão.

— Gabi, eu... Não dá mais para esconder, não é?

— Acho que nunca deu. E Edu também já notou.

— Eu sei. Pelas coisas que diz, pelo jeito como me olha, é visível o seu ciúme, embora eu nada tenha feito que pudesse desagradá-lo.

— Seu coração fala tão alto que é impossível não ouvir.

— Só posso dizer que lamento Gabi. Quisera eu poder escolher a mulher por quem me apaixonar. Jamais teria escolhido a namorada do meu melhor amigo.

— Não sou mais namorada dele.

— Isso vai passar, tenho certeza, e vocês vão ficar bem de novo.

— Você é um homem maravilhoso — declarou, afagando sua mão por cima da mesa. — E é por isso que não acho justo aproveitar-me de sua amizade, agora que tenho certeza dos seus sentimentos por mim.

— Será que você nunca vai se apaixonar por mim?

— Nunca é um tempo longo demais para se medir. Digamos que, no momento, embora ferida e magoada, meu coração ainda pertence a Edu. Vou fazer de tudo para tentar esquecê-lo, mas não posso me envolver com outro homem por enquanto. Não estaria sendo honesta comigo nem com você.

 Não estou lhe pedindo isso nem vou lhe cobrar nada. Só o que peço é a sua amizade, assim como estou lhe oferecendo a minha.

Ela sorriu e apertou sua mão. Queria muito apaixonar-se por ele, mas não podia mandar no seu coração. Por mais que Eduardo a tivesse magoado, precisava ser honesta consigo mesma e admitir que era a ele que amava.

 

Depois que Gabriela se foi do barzinho, Eduardo pagou a conta e saiu trôpego, resultado da enorme quantidade de vinho que ingerira. Sem que percebesse, sombras cada vez mais espessas se aproximavam dele, deixando-o tonto e confuso. Seus pensamentos embaralhados só pensavam em duas coisas: reencontrar o passado perdido com Tália e vingar-se de Gabriela e Márcio por terem-no traído.

Apanhou o carro e foi para casa, mal enxergando o caminho por onde passava. Por sorte, não provocou nenhum acidente e chegou a salvo. Entrou fazendo ruído e derrubando coisas, indo direto para o quarto. A mãe estava acordada e, ouvindo aquela barulheira, correu para ver o que estava acontecendo.

— Meu filho! — exclamou assustada. — O que foi que houve?

— Nada, mãe — respondeu, a voz pastosa e engrolada. — Quero dormir.

— Você está bêbado.

— Novidade!

— Aconteceu alguma coisa, se aconteceu. Vamos, quero saber o que foi.

— Não foi nada.

— Foi a Gabriela, não foi?

— Não fale no nome daquela vadia na minha frente!

— Eu sabia. Ela andou aprontando, não foi?

Ele começou a balançar a cabeça vigorosamente, de um lado para outro, e foi falando de forma atropelada:  

— Ela estava me traindo, mãe, me traindo! A mim, que sempre fiz tudo por ela. E sabe com quem? Com o Márcio. Ela e o Márcio, meu melhor amigo, bem debaixo do meu nariz!

— Eu bem que lhe avisei que essa menina não prestava, mas você não quis me ouvir. E agora, veja só no que deu.

— Ah! Se minha avó estivesse viva...

— O que sua avó tem a ver com isso, menino?

— Ela saberia me consolar, me abraçar, me seduzir...

Não conseguiu terminar a frase, pegando no sono instantaneamente. Diana não compreendia o que ele queria dizer com aquele me seduzir e ficou extremamente intrigada. Onde já se viu uma avó seduzindo o neto? Resolveu não ligar. Ele bebera demais e não sabia o que dizia. Descalçou-lhe os sapatos e tirou suas calças, deixando-o só de camisa e cuecas, ligou o aparelho de ar condicionado, desligou o seu celular e o telefone. Apagou a luz e fechou a porta, voltando rapidamente para seu quarto.

Assim que fechou a porta do quarto, Tália se aproximou da cama em que Eduardo estava deitado e afagou-lhe os cabelos. Sílvia havia imantado o ambiente, de forma a não permitir o acesso das sombras que o acompanhavam, e ele agora dormia tranqüilo.

— Pobre menino — comentou Tália, com pesar. Não sabe o que está fazendo.

— Ele foi avisado para não buscar ajuda com Janaína. Apesar de possuir a técnica da terapia de vidas passadas, falta-lhe elevação moral para complementá-la.

— E veja só no que deu. Ficou mais perturbado do que já estava.

 Janaína apenas lhe deu os meios para trazer à tona a fixação que antes já sentia por você. Em assim o fazendo, abriu ainda mais as portas para os espíritos menos esclarecidos, que se associaram a ele para sugar-lhe as energias.

— Tudo isso é culpa minha. Jamais devia ter permitido que ele se embrenhasse nessa aventura.

— Você nada podia fazer. Foi decisão dele de buscar o passado.

— Talvez, se não tivesse me aproximado, ele acabasse me esquecendo.

— Não se culpe Tália. A ligação entre vocês foi muito forte.

— Sei disso, Sílvia, e não creio que seja bom para ele descobrir. Não está preparado.

— Você se lembra?

— Lembrei-me numa daquelas sessões da psicóloga. Acho que também eu regredi.

— Se você se lembra, tente ajudá-lo a superar. Se ele insistir, vai acabar se lembrando também e, como você mesma disse, não está preparado para isso.

— Farei o que puder para que ele não sofra.

— Pois então, para começar, junte-se a mim em oração. Vou dar-lhe um passe e depois partiremos.

— E aqueles espíritos? Não vão penetrar aqui?

— Por enquanto, o ambiente está protegido.

Fizeram juntas uma breve oração, pedindo equilíbrio e serenidade para Eduardo. Em seguida, após espargir mais fluido benéfico no ambiente, Sílvia deu a mão a Tália e partiram juntas, deixando Eduardo entregue a seus sonhos e lembranças latentes.

 

Uma chuvinha miúda começava a cair do céu quando Eduardo deixou o consultório da psicóloga. Coração oprimido, foi andando pela rua como se nada estivesse vendo. Caminhava com pressa, dando passadas pesadas, sem ver aonde ia. Esbarrou em um senhor troncudo, que o encarou com antipatia e resmungou um palavrão. Mas Eduardo não ouvia. Trazia no peito a lembrança da última sessão com Janaína, perguntando-se o que faria agora que descobrira a verdade. Então fora para isso que se esforçara tanto? Fora para se deparar com aquela verdade que ele se dedicara a Tália de corpo e alma?

Chegou ao local onde havia estacionado o carro e entrou. Deu partida ao motor e foi guiando até sua casa, correndo feito louco. Entrou com o carro na garagem e saiu a pé, em direção a um bar conhecido seu. Sentou-se sozinho a uma mesa e começou a beber, remoendo as lembranças que praticamente o haviam espancado momentos antes. Quanto mais pensava, mais bebia. Depois de muito tempo, tendo gasto seu último tostão, levantou-se cambaleando e foi para casa.

Entrou sem trocar uma palavra com ninguém e tomou o caminho do quarto, apoiando-se nas paredes para não cair. A mãe dava ordens para o jantar e chamou assustada:

— Eduardo! Aconteceu alguma coisa, meu filho?

Ele não respondeu. Parou e olhou para ela com profunda mágoa. Abaixou os olhos e foi direto para o quarto.

— Mas o que será que deu nesse menino?

A criada deu de ombros e não respondeu. Curiosa, Diana deixou-a sozinha e foi atrás do filho. Bateu várias vezes, mas ele não atendeu. A maçaneta da porta estava trancada, e ela o chamou insistentemente, sem nenhum sinal de sua parte. Encostou o ouvido na porta, e o ruído do chuveiro ao longe informava que ele estava no banho. Não fazia mal. Voltaria mais tarde.

Debaixo do chuveiro, Eduardo deixou que a água batesse com força sobre a sua cabeça, tentando refrescar os pensamentos. Estava confuso e atordoado, e uma raiva intensa ia tomando conta dele. Então fora assim que Tália lhe pagara o seu amor? Tratando-o daquele jeito, levando-o àquela morte horrenda e ingrata? Sempre achara que ele e Tália haviam vivido um amor forte e sincero, daqueles que atravessam os tempos, e que agora se encontravam separados por algum motivo que lhe escapava à compreensão. Só não podia esperar... Aquilo!

O ódio começou a consumi-lo, e nem percebeu as estranhas sombras que se colavam a ele. Soltos pelo consultório de Janaína, esses espíritos ficavam à espera de alguém a quem pudessem se associar, alimentando-se dos sentimentos difíceis que ali eram liberados. E as vibrações de ódio de Eduardo funcionaram como um ímã, atraindo-os para junto de si e deixando o rapaz cada vez mais confuso e perdido. Eram mais espíritos a perturbá-lo, além dos muitos que já atraíra com o seu ciúme e a bebida.

Enquanto isso, em seu consultório, Janaína meditava sobre o que acontecera. Eduardo saíra dali extremamente transtornado e revoltado. Mudara do amor ao ódio em questão de segundos, e, pior, acusando-a de ser a responsável pelo seu infortúnio. Mas ela não era responsável. Não fora ela quem criara aquela situação. Vira-se como amante daquela atriz famosa em uma vida mais remota e assustara-se ao constatar que estivera envolvido com ela havia menos de cem anos.

Efetivamente, o rapaz não estava preparado para descobrir aquelas verdades. A cena do assassínio fora muito forte, e ela ainda se lembrava dos gritos lancinantes que ele dera ao ver-se ingerindo o veneno. Contudo, não havia nada que ela pudesse fazer. Antes do início de cada sessão, alertava-o sobre sua escolha, eximindo-se de qualquer responsabilidade pelo que ele recordasse. As conseqüências do que ele via eram seu problema, não dela. Não assumira o papel de psicóloga, propriamente, mas apenas de uma terapeuta que o auxiliava a ver o passado.

Com essa sua atitude, Janaína abria as portas de seu consultório não apenas aos clientes imprevidentes, mas a espíritos ávidos por uma presa que lhes alimentasse os sentimentos menos dignos. Nada disso ela via. Julgava-se isenta de qualquer responsabilidade e nem sequer de longe imaginava que seu consultório servia de morada para aqueles espíritos sombrios. No centro, seu Salomão tentara alertá-la, mas ela nunca lhe dera ouvidos, julgando que ele queria impedir o seu trabalho por pura ignorância. Não conseguia perceber que Salomão apenas buscava fazer com que ela enxergasse o perigo de uma regressão sem um acompanhamento psicológico e espiritual sério. Para ela, o dirigente do centro não a compreendia e, por isso, tinha medo do que ela fazia, achando que mexia com espíritos das trevas ou fazia feitiços.

Todas as vezes que pedira para fazer parte daquele centro, seu Salomão lhe dissera que a condição para que fosse aceita seria estudar mais sobre a vida espiritual e sobre seu próprio ofício, porque, enquanto psicóloga, deveria se preocupar mais com o bem-estar de seus pacientes, evitando fazer com eles experiências perigosas. Deveria se preparar mais para realizar a TVP, a fim de alcançar maturidade e equilíbrio para orientar e confortar os pacientes após as regressões, auxiliando-os a compreender as dificuldades do passado e a transformá-las em algo útil para sua vida futura.

Mas nada disso Janaína queria fazer. Tinha preguiça de estudar e achava que nenhum espírito se intrometeria em seu consultório. Por mais que seu Salomão falasse, não acreditava que os sentimentos difíceis liberados ali funcionassem como ímãs para espíritos em sofrimento, ainda mais para aqueles já ligados aos clientes por algum motivo. Para ela, psicologia e espiritismo possuíam princípios distintos e estanques, e não conseguia perceber que todas as coisas estão interligadas, servindo umas de suporte às outras. Não há na vida compartimentos estanques, porque tudo o que se faz agita as emoções, e as emoções não ficam limitadas a uma só pessoa ou a um só momento de vida.

Nenhum dos pacientes que ajudara a regredir voltara para lhe dizer como se sentia com relação a tudo o que vira. Em geral, continuavam a freqüentar as sessões até descobrirem o que queriam, para depois se afastar para sempre. Alguns ainda prosseguiam por mais algum tempo, mas depois também acabavam sumindo. Em todos os seus quinze anos de profissão, ninguém jamais voltara para reclamar de nada, o que a levava a crer que estava tudo bem. Mas será que estaria mesmo?

Com Eduardo, as coisas pareciam diferentes. Saíra dali transtornado e abalado, como ninguém jamais saíra. Ela ainda tentou fazer com que ele ficasse e se acalmasse um pouco, mas ele não quis lhe dar ouvido. Pagou a consulta e deixou o consultório chispando fogo, dizendo que fora traído por aquela mulher que amara com paixão e loucura. Janaína ainda pensou em lhe dizer que aquela mulher fora sua avó e estava morta, mas desistiu, com medo de que ele a agredisse. E depois, não era problema dela. Cumprira o trato que fizera com ele. Se quisesse saber mais alguma coisa, que a procurasse. Se não, que não aparecesse mais.

 

Tália e Sílvia presenciaram a tudo sem nada poder fazer. As recordações ainda estavam muito vividas na mente de Eduardo, e não foi preciso muito esforço para ele se lembrar.

— Ele está me odiando! — indignou-se Tália. — Não fiz nada, e ele me odeia!

— Ele se lembrou de apenas uma parte da história esclareceu Sílvia. — Não sabe o que aconteceu realmente.

— Mas devia saber. Depois que desencarnou, deve ter visto a verdade.

— Em espírito, ele viu só que se esqueceu. No momento, pensa que já viu tudo o que havia para ver. Deu-se por satisfeito com essa lembrança dolorosa e interrompeu o tratamento.

— Mas ele só recordou parte da história! Preciso lhe contar o restante. Vou esperar que durma e lhe direi.

— Ele não vai nem ouvir você. Vê as sombras que o acompanham? — ela assentiu. — Pois elas vão formar uma barreira entre vocês dois, e Eduardo não vai nem perceber a sua presença. Só o que vai sentir é mais e mais ódio.

— Isso não está certo! Eduardo vai ficar obsidiado?

— Vai ficar envolvido pelos afins que atraiu, que só conseguirão incutir-lhe o ódio porque o seu coração já está cheio desse mesmo ódio. Na verdade, eles vão apenas reforçar um sentimento pelo qual Eduardo se deixou envenenar.

— O que posso fazer Sílvia? Não posso ficar aqui parada e permitir que ele me odeie por algo que eu não fiz.

— Vamos rezar Tália.

— Não! Rezar só não adianta. Preciso fazer alguma coisa — pensou alguns segundos e acrescentou: — Vou pedir a ajuda de Honório.

Encontraram Honório recostado na cama, lendo um livro. Assim que entraram, ele percebeu a sua presença, embora não soubesse definir o que sentia. Tália se aproximou, e ele pousou o livro sobre o colo, lembrando-se da última vez em que a vira. Ela estava doente e furiosa, gritando com ele e com Cristina por causa de Mauro.

— Eu estou aqui, Honório — sussurrou ela.

Como que ouvindo as suas palavras, Honório respondeu em voz alta:

— Não, Tália, você nunca mais vai voltar para mim.

Honório julgava falar consigo mesmo, ignorando a presença da ex-amante. Enxugou duas discretas lágrimas e jogou o livro para o lado, deitando-se na cama. Estendeu a mão e apagou a luz do abajur, dormindo logo em seguida. Não tardou muito e o corpo fluídico de Honório se desprendeu parcialmente da matéria física, deixando-a plácida sobre a cama. Por uns instantes, ele pareceu confuso, mirando a mulher bonita que tinha diante de si. Olhou dela para Sílvia e para seu corpo, sem nada entender.

— Estou sonhando?

— Nem uma coisa, nem outra — respondeu Sílvia. Você está parcialmente liberto do corpo físico que, nesse momento, se encontra adormecido.

— Quem são vocês? — tornou ele, pouco impressionado com os esclarecimentos de Sílvia.

— Não me conhece, Honório? — retrucou Tália. Não sabe mais quem eu sou?

— Você se parece com alguém que conheci há muitos anos e que já morreu.

— Quem?

— Tália Uchoa.

— Pois sou em mesma, Honório! Não se lembra?

Com olhar incrédulo, Honório fitou-a, lembrando-se de que a vira na casa da filha.

— Vi você outro dia... — balbuciou. — Mas não quis acreditar... E continuo não querendo.

— Por quê? Sou eu mesma, vim aqui para vê-lo.

— Tália morreu há mais de cinqüenta anos. Seu espírito jamais apareceu para mim.

— Estou aparecendo agora.

— Não acredito. Você é alguém que se parece com ela, mas não pode ser ela. Tália se esqueceu de mim, apesar de todo o amor que lhe devotei.

— Quero que me perdoe Honório... — calou-se, a voz embargada.

Nesse momento, Sílvia achou que já era hora de intervir:

— Por que não acredita nela, Honório? Tália desencarnou e esteve um tempo reclusa, preparando-se para este momento.

— O que ela quer comigo?

— Pedir a sua ajuda — foi à própria Tália quem respondeu.

 Minha ajuda? Para quê? Não vejo o que possa fazer por você.

— Por mim, não. Por nosso neto.

Aquele nosso neto tirou-o de seu torpor, e ele a fitou com menos desconfiança.

— Edu? O que tem ele?

— Está correndo perigo, distanciando-se das verdades da alma.

Ele a olhava curioso, sem saber se acreditava ou não no que ela dizia. No entanto, ela falava que Eduardo estava em perigo, e aquilo já era suficiente para fazê-lo interessar-se.

— O que posso fazer?

— Convença-o a se tratar, a procurar ajuda espiritual.

— Não sei se acredito nessas coisas.

— Está falando comigo, não está?

— Não sei com quem estou falando.

— De qualquer forma, aconselhe-o. Convença-o a buscar ajuda espiritual.

Honório ficou ali parado ao lado da cama, fitando-a com um misto de dúvida e esperança. Queria muito que aquela mulher diante dele fosse mesmo a sua Tália, mas temia estar sendo vítima de algum tipo de alucinação senil. Pensou por alguns minutos, até que tornou a indagar:

— Por que está tão interessada em Eduardo?

— Porque me preocupo com ele. É meu neto.

— Então, você não é mesmo Tália. Tália nunca se preocupou com ninguém.

Sem esperar resposta, Honório deu-lhe as costas e voltou imediatamente para o corpo físico, que estremeceu, e ele abriu os olhos. Esfregou-os vigorosamente e se levantou, caminhando em direção à cozinha. Apanhou um copo de água e sentou-se à mesa, lembrando-se vagamente do sonho que tivera, com alguém que lhe dizia ser Tália. Não podia ser.

Uma coisa, porém, conseguira reter na mente: a súplica de Tália para que ajudasse Eduardo. Sem nem se lembrar da conversa que haviam tido, esse pedido ficara gravado em seu inconsciente, e ele, sem querer, pegou-se pensando no neto, preocupado com algo que pudesse estar lhe acontecendo.

Do lado invisível, Sílvia dizia a Tália, magoada com as últimas palavras de Honório:

— Ele não falou sério. Está sob a impressão das lembranças que tinha quando chegamos, de você esbravejando com ele e Cristina. De toda sorte, conseguimos alcançar o nosso objetivo aqui.

Embora frustrada com aquela recepção, Tália sentia-se grata e reconfortada. A preocupação com o neto e o desejo de ajudá-lo havia ficado gravada na memória de Honório, que já pensava em procurá-lo. E era isso o que importava.

 

Eduardo ouviu o telefone na mesinha de cabeceira tocar insistentemente, forçando-o a sair do torpor causado pelo sono e o excesso de bebida da noite anterior. Pegou o fone com fúria e falou em tom pude:

— Alô!

— Edu? É você? Está com a voz diferente.

— Sou eu mesmo. Quem é que está falando?

— É a Gabriela. Está tudo bem com você?

— Gabriela? O que você quer?

— Saber como você está. Você sumiu...

— Eu estou bem. Ocupado, mas bem.

— Ando preocupada com você. Não tem ido à praia nem apareceu mais no centro espírita. Por que não tem me ligado?

— Não tenho mais o que falar com você.

— Edu, por favor... — replicou ela, em tom de quase súplica. — Vamos conversar e esclarecer alguns mal-entendidos.

— Não há nenhum mal-entendido.

— Você está pensando coisas a meu respeito que não são verdades. Não fiz nada...

— Ouça Gabi, não estou pensando nada — cortou ele, rispidamente. — E depois, o que você faz ou deixa de fazer não é problema meu. Não temos mais nada um com o outro.

Dessa vez, ela não conseguiu se conter e começou a chorar, lutando para não soluçar pelo telefone. Já ia dizer mais alguma coisa quando ouviu um até logo frio e breve, e Eduardo desligou. Gabriela soltou o fone e atirou-se na cama, chorando convulsivamente, magoada com a forma como ele a tratara. A porta do quarto se abriu e Eliane entrou assustada.

— Meu Deus, Gabi, o que foi que aconteceu?

— Foi o Edu, Eliane! Precisava ver o jeito como ele falou comigo ao telefone.

— Edu a está fazendo sofrer, não é verdade? — ela assentiu. — Você precisa sair um pouco, espairecer. Por que não vamos dar uma volta? Que tal uma compras?

— Não estou com vontade.

— Vamos ao Barra shopping. Não há nada melhor do que umas comprinhas para desanuviar a cabeça.

— Ah! Não tenho ânimo para compras.

— Vamos, Gabi, faça um esforço. Você se esquece um pouco do Edu e se distrai. Eu prometo, você vai ver.

Gabriela forçou um sorriso e acabou aceitando a sugestão da irmã. Não adiantava mesmo nada ficar em casa remoendo as grosserias de Eduardo. Ainda meio contrariada, levantou-se e foi se aprontar, maquiando-se com cuidado para disfarçar os olhos de choro. Vestiu-se rapidamente e saiu.

 

Do outro lado da linha, Eduardo também soltava o fone, já arrependido pela forma como a havia tratado.

Afinal de contas, eles tinham namorado durante muito tempo, e o mínimo que ela merecia era um pouco de consideração. Pensou em lhe ligar de volta, mas as sombras a seu lado fizeram uma pressão em sua cabeça, já enfraquecida por tantos pensamentos comprometedores, e ele atirou longe o fone, sentindo a raiva dominá-lo. Os espíritos lhe sugestionavam toda sorte de idéias tenebrosas, fazendo-o lembrar-se do dia em que vira Gabriela e Márcio na praia, reacendendo o ciúme que sentira então.

Facilmente, Eduardo deixou-se dominar, envenenando seu coração com um ciúme doentio e irracional. Sentiu raiva de Gabriela e Márcio, mais até do que sentia de Tália. A avó, ao menos, estava morta, enquanto que a namorada e o amigo o estavam traindo e rindo dele pelas costas. Como é que aquela vagabunda ainda se atrevia a lhe telefonar? Será que não estava satisfeita com a humilhação que o fizera passar?

Pouco depois, o telefone tocou novamente, e ele correu a atendê-lo. Queria que fosse Gabriela, ao mesmo tempo em que o irritava a sua insistência. Apertou o botão com fúria e respondeu aos gritos:

— Alô!!!

— Credo, Eduardo, o que foi que deu em você?

Era o avô, e Eduardo sentiu o corpo relaxar.

— Ah, vovô, como vai? Tudo bem?

— Eu estou bem, e você?

— Eu também.

— Não é o que parece.

— Não? Por quê?

— Você está com uma voz estranha.

— Não é nada. Bebi um pouco mais ontem à noite, nada de mais.

— Não sei não, meu filho, mas eu ando desassossegado, achando que algo com você não vai bem.

—Não se preocupe comigo, vovô, eu estou um pouco cansado, mas vou bem.

— Por que atendeu ao telefone com tanta raiva?

— Eu estava com raiva?

— Era o que parecia.

— Não foi nada. Já passou. E você, por que está me ligando?

— Quero falar com você. Acordei com um aperto no peito tão grande! Aconteceu alguma coisa? Foi com a sua avó?

— Não quero falar sobre isso — respondeu o rapaz, com visível irritação.

— Por quê? Antes, era só no que queria falar. O que foi que houve para você se voltar contra sua avó?

— Quem foi que disse que me voltei contra ela?

— O seu jeito de falar já diz tudo.

Ele hesitou por alguns instantes antes de responder:

— Não quero falar sobre isso, vovô. Só o que posso lhe dizer é que Tália foi, para mim, uma grande decepção.

— Como alguém que você nem conheceu pode decepcioná-lo?

— Não quero falar sobre isso, já disse.

— Você devia se cuidar mais, Edu. Está ficando muito rabugento. Desse jeito, quando chegar á minha idade, vai estar insuportável.

Eduardo riu do jeito do avô, esquivando-se de sua insistência, e desligou, não sem antes prometer visitá-lo no dia seguinte. Permaneceu ainda alguns minutos, com o telefone na mão, até que ligou novamente para a casa de Gabriela. Foi à mãe quem atendeu e informou o de que ela havia ido ao shopping com Eliane. Ele agradeceu e desligou. Tentou o celular, mas Gabi não atendeu. Ligou para o de Eliane, que não atendeu também. As duas, envolvidas com as compras e com o           burburinho das lojas, não escutaram os celulares tocando, e Eduardo acabou desistindo. Novamente, as

sombras se acercaram dele, reacendendo as vibrações de ciúme e despertando o desejo da bebida.

A sugestão do invisível surtiu o efeito desejado, e Eduardo foi para o bar de costume, onde os companheiros de sempre lhe deram as boas-vindas, tomou um lugar à mesa, de frente para a rua, com a tulipa de chope na mão, e ia bebendo e conversando, rindo das piadas que os amigos contavam. As horas foram se passando, a noite caiu, e Eduardo continuava sentado à mesma mesa, bebendo e beliscando petiscos. Os amigos se revezavam, indo e vindo, sem que ele resolvesse ir embora. Em dado momento, ao erguer o copo, avistou um carro passando lentamente, diminuindo a marcha até parar no sinal, bem defronte a eles. Eduardo levou um choque. Dentro do carro, Gabriela ia sentada, bem-vestida e maquiada, ao lado de um homem que ele deduziu ser o Márcio. Embora não visse o seu rosto, conhecia muito bem o seu carro e não tinha dúvida: Gabi e Márcio continuavam a traí-lo.

Virou o rosto para o lado, tentando ignorá-los, mas uma onda de ciúmes começou a invadi-lo. Ao mesmo tempo em que bebia, ia imaginando-a nos braços do outro, o que o encheu de ódio. Mas como sentia ódio, se fora ele mesmo quem terminara o namoro com ela? Gabriela estava apenas tentando levar a vida e esquecê-lo, porque fora ele mesmo quem dissera que não a queria mais.

Só que ela o esquecia muito rápido. Ainda pela manhã, telefonara para ele, chorando e quase implorando que a encontrasse. E agora, poucas horas depois, já estava no carro de outro, a caminho, provavelmente, de algum motel. Será que iriam a algum lugar que eles já haviam freqüentado? Será que Gabriela teria a cara de pau de levar Márcio aos motéis em que costumavam se amar?

Aquele pensamento o inquietou, e ele perdeu o sossego. Talvez ainda desse tempo de segui-lo. Levantou-se apressado, quase derrubando o chope, e correu para a calçada. O sinal abrira, e o carro de Márcio havia sumido no fim da rua. Aonde teriam ido? Pensou em apanhar seu automóvel e segui-los, mas seria perda de tempo. Àquelas horas, provavelmente, já deviam estar chegando a algum motel, e ele não teria mais como os encontrar.

Voltou para o seu lugar, acabrunhado, e pediu mais um chope. Depois tomou outro, e outro, e outro, até não conseguir mais concatenar os pensamentos. Estava bêbado, ele sabia, mas a sensação que a embriaguez lhe causava era fascinante. De madrugada, esgotado, pagou a conta e saiu cambaleante. Alguns amigos ainda quiseram ajudar, mas ele recusou. Era um homem, não precisava de ninguém. Tropeçou no próprio calcanhar e desabou no chão, machucando o queixo na queda. Depois disso apagou.

 

Com olhos embaciados, Tália acompanhava a decadência do neto, embriagado e atirado sobre a cama, rodeado de sombras cinzentas e pouco amistosas.

— Temos que fazer alguma coisa! — suplicou ela.

— Vamos tentar a mãe — sugeriu Sílvia. — Diana pode ser uma mulher tempestuosa e arrogante, mas ama o filho o quer o seu bem.

Aproximaram-se dela, que fingia ler uma revista de modas no sofá, ao lado do marido, que lia o jornal com certa impaciência, consultando o relógio a todo tempo.

— Tem algum compromisso? — perguntou ela em tom mordaz.

— Nenhum — respondeu Douglas. — Por quê?

— Não para de olhar o relógio.

— É que estou com vontade de ir à praia.

— Você nunca vai à praia.

— Por isso mesmo. Hoje estou pensando em ir.

— Sozinho?

— Vou ver se Edu quer ir comigo.

— Eduardo não está bem. Deixe-o dormir.

— O que é que ele tem?

— Bebeu além da conta ontem à noite.

— Bebeu? Você quer dizer que ele chegou aqui bêbado? — ela assentiu. — Muito bêbado?

— Bom, alguns amigos o trouxeram para casa. Disseram que ele apagou. Mas não vejo motivos para se preocupar. Coisas de rapaz, você entende.

— Não entendo, não. Ele sempre foi um rapaz ajuizado e equilibrado. Nunca deu para beber, e agora volta para casa de cara cheia. O que será que está acontecendo?

— Acho que é aquela garota, a Gabriela.

— Eles brigaram?

— Parece que sim. Tudo indica que ela o trocou pelo Márcio.

— O quê? Não acredito.

— Pois é o que parece. Eu bem que avisei que ele andava de olho nela.

— Você teve algo a ver com essa história, Diana?

— Eu?! Mas que idéia é essa? Imagine se eu ia me intrometer na vida de meu filho.

— Imagine se não ia...

Enquanto os dois discutiam, Sílvia fez sinal para Tália, chamando-a para perto de Douglas.

— Ele é mais acessível. Um bom médium, ponderado e justo, ainda que não conheça os seus potenciais.

Facilmente, Douglas percebeu a influência de Sílvia, que o induzia a ir ao quarto do filho ver como ele estava passando. Douglas encontrou-o ainda dormindo e sentiu uma leve tonteira ao se aproximar dele.

— Ele está péssimo! — reclamou. — Está com cara de bêbedo.

— Não precisa exagerar — objetou Diana, que vinha logo atrás. — Ele está apenas dormindo.

— Isso não está certo. Olhe só o jeito dele.

— Não vejo nada de mais. Apenas um rapaz adormecido.

Com o barulho, Eduardo acabou por despertar. Abriu os olhos lentamente, piscando várias vezes, bocejou e viu os pais parados perto dele. Demorou alguns segundos até que compreendesse o que estava se passando. Recostou-se na cama, ainda sonolento e zonzo, esfregou os olhos e disse, com a voz um pouco pastosa:

— Está tudo bem? O que vocês dois estão fazendo aqui?

— Eu é que pergunto meu filho — era Douglas. O que é que você anda fazendo da sua vida?

— Eu? Nada. Quero dizer, o de sempre. Por quê? Aconteceu alguma coisa?

— Soube que você chegou bêbado ontem à noite.

— Bêbado? Ah! Aquilo? Não foi nada. Passei um pouco dos limites, é só.

Em quaisquer outras circunstâncias, o episódio teria passado despercebido, tratado apenas como um arroubo da juventude. Quem é que nunca havia tomado um porre na vida? O próprio Douglas já havia bebido umas doses a mais, o que não era motivo de alarde. Por que é então que o estado de Eduardo lhe causava tantas preocupações? Para qualquer pessoa, inclusive Diana, aquilo não passava de um episódio isolado, sem maiores conseqüências, resultado de alguma farra de rapazes numa noite de sábado. Para Douglas, era algo além.

Na verdade, Sílvia lhe inspirava o perigo a que Eduardo se submetia. Mesmo sem compreender o que se passava com ele, Douglas captava vibrações de baixa intensidade partindo de seu corpo. Não sabia definir o que era aquilo, mas uma apreensão muito grande foi tomando conta de seu íntimo, um indescritível medo de que o filho estivesse se embrenhando por um caminho sem volta.

— Ele precisa da sua ajuda — soprava Sílvia em seu ouvido. — Está sendo vítima de espíritos perturbadores. Não pensa mais sozinho. Seus pensamentos estão sendo compartilhados com criaturas daninhas.

— Você está estranho, Edu. Parece até que está mal acompanhado.

— O quê? — indignou-se Diana. — Acha que meu filho está endemoninhado?

— Não foi isso o que eu disse. Apenas estou achando-o esquisito.

— Ele está estranho — prosseguia Sílvia. — Está enfraquecido e não consegue dominar-se a si mesmo, de forma a afastar os perturbadores.

— O que posso fazer por ele? — respondeu Douglas mentalmente, julgando que respondia a seus próprios pensamentos.

— Conduza-o no caminho da oração. Procure um centro espírita.

— Você tem rezado meu filho?

— Rezado, eu? — espantou-se Edu. — Você sabe que eu nunca fui dessas coisas.

— Será que não era bom você ter algum tipo de religião?

— Eduardo é católico — interrompeu Diana. — Fez a primeira comunhão e tudo. Não se lembra?

Douglas não respondeu. Estava confuso com aqueles pensamentos. Ele mesmo nunca fora muito religioso. Por que agora cismara de pensar em oração?

— Levante-se daí, vamos. Está um lindo dia, e não é bom desperdiçar o tempo na cama.

— Ah, pai, hoje é domingo.

— Domingo é dia de missa! — irritou-se Diana, que nunca ia à missa. — Por que não vão à igreja, os dois?

— Isso mesmo — estimulou Sílvia. — Todo templo religioso é sagrado, e toda oração é ouvida por Deus.  

— Sua mãe tem razão — concordou Douglas, para espanto de Diana. — Um pouco de oração não faz mal a ninguém.

— Ah, pai, essa não! Desde quando você gosta de missa?

— Se ele não quer ir à missa, leve-o à praia — prosseguia Sílvia. — O mar é grande repositório de energia e vai auxiliar a eliminar aquelas que o estão prejudicando.

— Hum... — fez Douglas. — Por que não vamos à praia?

— Você vai à praia?

— Se você quiser me acompanhar...

Eduardo quis. Subitamente, sentiu-se animado com a perspectiva de poder ir à praia em companhia do pai, algo praticamente inédito em sua vida. Diana não quis ir. Tinha horror de pegar sol, pois temia estragar a pele. Os dois seguiram sozinhos. Levaram uma barraca e duas cadeiras, acomodaram-se na areia e puseram-se a conversar.

— Como vai sua namorada? — indagou Douglas, com cautela.

— Não tenho namorada — respondeu Eduardo de mau humor.

— Não? E a Gabriela? Não vá me dizer que vocês brigaram.

— Nós terminamos se é o que quer saber. Gabi agora está interessado em outro.

— Que outro?

— O Márcio.

— Não me diga! Ela disse isso a você?

— Não.

 Então, como é que você sabe? Você os viu juntos?

— Não preciso. Só de olhar para eles, dá para adivinhar o que estão fazendo.

— Quer dizer que você agora virou adivinho, é?

Irritado com o rumo que a conversa estava tomando, Eduardo se levantou da cadeira e retrucou, antes de correr para a água:

— Ah, pai, não me amole!

Douglas ficou observando-o entrar na água, pensando no que estaria acontecendo e qual seria a melhor forma de ajudar. Lembrou-se de que havia sugerido uma religião e espantou-se consigo mesmo. Embora acreditasse em Deus, nunca seguira nenhuma religião nem pensara nisso mais a sério. Por que então fora dar essa idéia a Eduardo? Estava perdido em seus pensamentos quando ouviu uma voz que o cumprimentava:

— Como vai, doutor Douglas?

Olhou para a dona da voz e ficou gratamente surpreso ao ver que era Gabriela.

— Olá, menina. Como vai você? Anda sumida lá de casa.

Ela sorriu meio sem jeito e respondeu:

— Tenho andado ocupada. E o Edu? Veio com o senhor?

— Ele está na água.

— Ah...! E ele está bem?

— Por que não lhe pergunta?

Eduardo vinha voltando, sacudindo os cabelos para secá-los um pouco. Viu Gabriela parada junto ao pai e contraiu o rosto, visivelmente contrariado.

— O que você está fazendo aqui? — indagou com azedume.

— Eduardo! — repreendeu o pai. — Isso são modos de tratar a moça? Ainda mais sendo sua namorada?

— Ela não é minha namorada — não esperou resposta, voltando-lhes as costas em seguida. — Vou dar uma caminhada.

Afastou-se a passos rápidos, deixando Gabriela com lágrimas suspensas nos olhos.  

— O que está acontecendo entre vocês? — tornou Douglas, mostrando-se interessado.

— Ah, doutor Douglas, o senhor nem queira saber! Eu mesma não sei bem o que dizer.

Ela aceitou o lugar que ele lhe oferecia, na cadeira de Eduardo, e passou a narrar-lhe tudo o que vinha acontecendo com ele desde o dia em que descobrira a ossada da avó. Contou de sua obsessão, do centro espírita e de sua mudança repentina, até a cisma que passara a ter de Márcio.

— Mas você e Márcio não têm nada um com o outro?

— Nadinha. Somos apenas amigos. Ele tem me dado a maior força nessa situação.

— Sei. E por que vocês não contam isso ao Edu?

— E o senhor acha que já não o fizemos? Acontece que Edu é cabeça dura e não acredita em nós.

— Estranho, muito estranho. Não combina com o temperamento do meu filho.

— Não combinava. Antigamente, Eduardo era alegre e gentil. Agora, tornou-se carrancudo, mal-humorado e desconfiado.

— Mas você deve ter alguma idéia do que esteja acontecendo, não tem?

Ela olhou para os lados, um pouco sem graça, até que retrucou:

— Quer mesmo saber?

— Se não quisesse, não estaria perguntando.

— Promete que não vai rir nem me chamar de tola?

— É claro que prometo.

— Bom, nós andamos indo ao centro espírita que minha irmã freqüenta, porque Edu cismou de ter notícias da avó.

— Como é que é?

— É isso mesmo. Eduardo achou que, indo ao centro, poderia se comunicar com o espírito dela. Acontece que ela não apareceu, e ele foi se frustrando. De repente, desistiu de ir e foi ficando desse jeito esquisito.

— Não aconteceu nada nesse centro que pudesse tê-lo afetado?

— Que eu saiba, não.

— Ninguém que o tenha impressionado ou confundido?

— Não. Todos lá são muito legais... — parou abruptamente. — Só se... Mas não, não é possível.

— O que não é possível?

— Acho que não tem nada a ver.

Estimulada por Sílvia, a curiosidade de Douglas ia aumentando cada vez mais, enquanto ela lhe incutia a idéia de que estava no caminho certo.

— Talvez tenha — insistiu ele. — Por que não me conta?

— Bom, doutor Douglas, é que nós conhecemos uma moça que trabalha com TVP. Já ouviu falar em terapia de vidas passadas?

— Já.

— Pois é. Dizem que ela até que é boa nisso, mas é uma pessoa sem muita moral. Por isso, seu Salomão, que é o dirigente de lá, a havia proibido de arranjar clientes nas dependências do centro.

— E você acha que meu filho teve contato com essa mulher?

— Ela o andou cercando lá no centro, mas eles nunca se encontraram fora dali.

— Tem certeza?

Ela hesitou:

— Bem, certeza, certeza, não posso ter. Edu nunca me falou nada a respeito.

— Curioso. Gostaria de conhecer essa mulher, Gabi. Pode me levar a esse centro?

— Posso.

— Em que dia funciona?

— Terça feira.

— Ótimo. Quero ir lá nessa terça mesma, se você puder ir.         

— É claro que posso! Tudo o que puder fazer para ajudar Eduardo, esteja certo de que farei.

— Sei que você gosta muito dele, e ele, de você. É uma pena estragar esse amor por causa de uma bobagem.

— Oh, doutor Douglas, que bom que o senhor apareceu! Ao senhor, tenho certeza de que ele dará ouvido.

— É o que espero minha filha, é o que espero.

Gabriela saiu dali mais animada. O encontro com Douglas fora providencial. Ela nem estava pensando em ir à praia naquele dia, mas, de repente, sentira uma vontade louca de dar um mergulho e tomar um pouco de sol. Ela não sabia, mas a influência benéfica do invisível havia provocado aquele encontro, que nada tinha de casual.

 

Na terça-feira, Douglas marcou de se encontrar com Gabriela no centro espírita. Anotou o endereço e, meia hora antes de iniciar-se a sessão, ele lá estava, sentado na assistência, aguardando ansioso a chegada da moça. Dez minutos depois, ela entrou em companhia da irmã e foi cumprimentá-lo. Gabriela sentou-se a seu lado, enquanto Eliane seguia para tomar seu lugar junto ao corpo de médiuns.

— Foi difícil encontrar a rua?

— Não. Achei-a com facilidade. E então? A tal moça está aí?

— Infelizmente, doutor Douglas, minha irmã me disse que Janaína não tem aparecido há algum tempo.

— Janaína? É esse o nome dela?

— É sim. Eliane ficou de ver com seu Salomão se ele tem o endereço do consultório dela.

Embora contrariado, Douglas teve que esperar até o final da sessão para ter alguma notícia de Janaína. Enquanto esperava, ia ouvindo a palestra de seu Salomão e começou a interessar-se. Ele falava coisas bonitas, exortando os presentes a ser mais otimistas e amorosos. Falou do casamento e dos laços de família, levando os ouvintes a refletir sobre a necessidade de amor e compreensão dentro do lar. Aquilo o agradou, e ele ficou tão interessado que nem sentiu o tempo passar. Logo chegou a hora do passe, que ele experimentou pela primeira vez na vida, sentindo imenso bem-estar diante do médium simpático que o atendeu. Ao final da sessão, sentia-se completo e mais feliz, pensando em Diana de maneira um pouco diferente da que estava acostumado a vê-la.

— E então? — perguntou Eliane, que se aproximava deles. — Gostou da sessão, doutor Douglas?

— Fiquei encantado!

Eles sorriram, e Eliane estendeu-lhe um papelzinho.

— É o telefone de Janaína. Ao menos, é o último de que seu Salomão tem notícia. Espero que a encontre.

— Irei procurá-la amanhã mesmo.

Saiu agradecido, disposto a telefonar para aquele número e marcar uma consulta. No dia seguinte, logo pela manhã, ligou para o número que seu Salomão lhe dera. Uma moça atendeu, anunciando o consultório da doutora Janaína, e ele quase pulou de alegria. Queria marcar uma consulta para o mais breve possível. A moça disse que havia um horário disponível naquele mesmo dia, às seis horas da tarde, e ele aceitou. Na verdade, Janaína tinha quase todos os horários livres, porque os clientes iam minguando cada vez mais, e até a secretária ela teve que despedir.

Mal contendo a ansiedade, Douglas esperou à hora marcada. Quando chegou ao seu consultório, Janaína o recebeu com um sorriso, fazendo-o entrar diretamente em sua sala.

— Não repare o atendimento — desculpou-se ela. — É que dei férias à secretária e não tive tempo de treinar ninguém para ficar no seu lugar, de forma que tenho que me arranjar sozinha.

— Não se preocupe.

— Sente-se, por favor — esperou até que ele se sentasse, apanhou um caderninho e prosseguiu:

— Muito bem, Douglas, o que o trouxe aqui?

— Meu filho — respondeu ele prontamente.

— Está tendo problemas com seu filho?

— Não. Ele é que está com problemas.

— Que tipo de problemas?

— Não sei. É o que espero que a senhora possa me responder.

Janaína pousou o caderninho sobre o joelho e encarou o homem à sua frente. Será que ele ainda não compreendera que ela fazia terapia de vidas passadas? Não era conselheira nem psicóloga, propriamente.

— Acho que você não está bem informado sobre o meu trabalho — continuou ela. — Sou psicóloga, mas trabalho com TVP, ou seja, terapia de vidas passadas...

— Sei muito bem o que a senhora faz, e é justamente por isso que resolvi procurá-la.

— Ah! Muito bem, vamos então fazer sua ficha primeiro.

— Isso não será necessário, doutora Janaína. Na verdade, peço que me perdoe se lhe dei a impressão de que seria um paciente. Não foi para isso que vim.

— Não? Mas você marcou uma consulta...

— Porque precisava muito falar com a senhora. Como disse, meu filho está com problemas, e pensei se a senhora não poderia nos ajudar.

— Quem não está entendendo sou eu, Douglas. Como espera que ajude seu filho se você não quer se tratar?

— Na verdade, pensei se ele não a teria vindo procurar.

— A mim? — ele assentiu. — Como se chama o seu filho?

— Eduardo Pompeu Leão. Freqüentava o centro de seu Salomão, que você também já freqüentou.

Ela soltou o bloco nervosamente e se levantou, pondo-se a caminhar de um lado para outro no consultório.

— Fiz o que ele me pediu — justificou-se. — Avisei-o de que a responsabilidade não era minha. Foi ele quem quis saber.

— Quer dizer então que ele esteve aqui?

— Esteve. Faz já alguns meses que sumiu. Isso acontece às vezes, depois que o paciente descobre o que quer.

— O que foi que ele descobriu?

— Não posso dizer. É segredo de profissão.

— Ora, vamos, doutora Janaína, já obtive informações suficientes a seu respeito para saber que a senhora pode ser tudo, menos profissional.

Ela mordeu os lábios com raiva e retrucou insegura:

— Não sei o que quer dizer com isso. Meus pacientes são todos maiores de idade e vêm aqui livremente. Que eu saiba, não há nada na minha conduta que possa ser considerado não profissional ou antiético.

— Não estou aqui para julgá-la, doutora. Só o que me interessa é ajudar o meu filho.

— Lamento não poder fazer nada pelo senhor — arrematou ela com frieza, agora emprestando um tom excessivamente formal à voz.

— Pode fazer, sim. Pode me dizer o que foi que ele viu.

— Por que não pergunta a ele?

— Porque ele está confuso e agressivo. Não quer falar com ninguém.

— Se ele não quer lhe dizer, não serei eu a trair sua confiança. Não fui paga para isso.

Douglas olhou para ela com ar de desdém e meteu a mão no bolso, dele retirando a carteira. Abriu-a e começou a contar algumas cédulas. Depois, tirou um maço de notas e colocou-o sobre a mesa, dizendo com desprezo:

— Aqui tem mil reais, doutora. Será que não é o suficiente pela sua confiança?

Ela hesitou um pouco, mas acabou apanhando as cédulas. Sem as contar, guardou-as na gaveta da mesa e se virou para ele:

— Muito bem, doutor Douglas. O que quer saber?

— Tudo. Quero que você me conte o que aconteceu com meu filho.

Com um suspiro profundo, ela narrou tudo o que acontecera a Eduardo desde que ali chegara, culminando com as últimas reminiscências de sua avó. Douglas escutou tudo atentamente e ficou estarrecido com as revelações que ela lhe fizera. Não sabia bem se acreditava em tudo aquilo, mas algo em seu íntimo lhe dizia que era verdade. Havia vida depois da morte, os espíritos sobreviviam à carne e depois retornavam para cumprir aquilo que ainda não tinham conseguido completar.

Saiu do consultório de Janaína completamente transtornado, sem saber bem que atitude tomar com relação a Eduardo. Falar com ele seria um desastre. Com Diana, então, de nada adiantaria. Poderia ir procurar Gabriela novamente, e talvez ela lhe indicasse uma solução. A solução estava no centro espírita, uma voz lhe dizia. Era ali que eles poderiam reunir forças e conhecimento suficientes para enfrentar aquela situação.

A sugestão de Sílvia foi bem aceita por Douglas, que se dispôs a procurar Gabriela e sua irmã o mais rápido possível.

— As coisas agora estão começando a melhorar — disse Tália.

— Graças a Deus, Douglas ouviu nossos conselhos. É um bom médium e tem tudo para explorar seus potenciais. Se resolver se dedicar ao trabalho mediúnico, vai poder ajudar muita gente.

— Será que ele vai conseguir convencer Eduardo a ir?

— Não sei. Talvez o rapaz não lhe dê ouvidos, porque Douglas nunca foi religioso. De toda sorte, ainda temos Honório, e pode ser que seja mais fácil para ele, que já anda mais em contato com o mundo sutil, convencer o neto.

— E nós, Sílvia? O que faremos agora?

— No momento, você precisa repousar. Está muito desgastada energeticamente.

— Tem razão. Os acontecimentos dos últimos meses têm me afetado muito.

— Vamos voltar para nossa cidade. Lá, você terá melhores condições de se refazer.

Num piscar de olhos, estavam de volta a sua cidade astral, e Tália se viu sentada em seu jardim, cercada das flores que espalhavam no ar um perfume suave e doce. Sílvia não a acompanhara provavelmente presa a seus afazeres. Tália sentou-se no banco de sempre e aspirou aquele aroma delicado e prazeroso, lembrando-se de sua última encarnação na terra. Tanto tempo havia se passado! Todos aqueles com quem convivera, à exceção de Honório, estavam agora desencarnados. Tinha ainda uma filha que a odiava e um neto que não a compreendia. O que poderia fazer?

Sua vida sempre fora uma mar de turbulências, e ela, uma gotinha perdida naquele oceano de luxo e paixões. Onde estariam os que um dia disseram que a amavam? E Mauro? Por onde andaria? Um dia ele lhe dissera que a amava, mas ela sabia que ele mentira. Mauro fora o único que realmente conquistara o seu amor, mas ela o perdera, ou melhor, ele se fora. Ela muito sofrerá com a sua partida e mais ainda quando ele não retornara. Ainda podia ouvir o apito daquele navio, levando-o embora do Rio, para nunca mais voltar à terra natal. Há quanto tempo fora aquilo? Quarenta anos? Cinqüenta? Sessenta? Mesmo perdida na esteira dos anos, a dor daquele momento lhe avivava lembranças que jamais conseguiria apagar.

 

Quando Amelinha e Mauro desembarcaram no Rio de Janeiro, vinham cheios de sonhos e projetos a realizar. O teatro de revista estava em alta na capital, e as chances da menina eram realmente muito boas.

— Você precisa se acostumar com seu novo nome — orientava Mauro. — De agora em diante, você se chama Tália Uchoa. Não se esqueça disso. A Amelinha que você conhecia ficou lá em São Paulo. Aqui você é Tália, uma atriz glamorosa do teatro de revista. Entendeu?

Amelinha, ou melhor, Tália, limitou-se a assentir. Estava fascinada com a nova cidade, com suas luzes e cores e, principalmente, com o ar irreverente das mulheres.

— É tudo tão bonito, Mauro!

— É sim. O Rio de Janeiro é diferente de tudo o que você já viu em termos de arte.

— Nunca vi nada...

 Pois então, vai conhecer do melhor! E veja que chegamos à boa época. O carnaval está próximo, e a cidade está em polvorosa.

— Vamos brincar?

— Melhor, minha menina. Vamos nos engajar num bloco qualquer, ou num rancho, para você aparecer bem. Aposto como vai chamar a atenção.

— Bloco? Rancho? Não entendo nada disso.

— E nem precisa. É só arranjar uma fantasia e requebrar do jeito que você sabe.

Dito e feito. No domingo de carnaval, lá ia Tália em sua fantasia de colombina desfilando pela Avenida Central, no que se poderia chamar de projeto de escola de samba. Para garantir a sua segurança, Mauro foi com ela. Acanhada a princípio, Tália quase não se mexia, assustada com os foliões e com a chuva de confetes e lança-perfumes que se espargiam sobre ela. Mas Mauro a incentivava, pegava a sua cintura e rodopiava com ela, envolvendo-a no ritmo frenético da batucada do samba. Ela adorou. Em pouco tempo, foi-se soltando e, de menina tímida e desajeitada, passou a sambista de primeira, requebrando os quadris com graça e sensualidade, despertando a atenção e o interesse dos demais sambistas.

Alguns tentaram se aproximar dela, mas Mauro não permitiu. Visava não apenas a sua incolumidade, mas também despertar a atenção de algum dono de teatro que estivesse por ali. Durante o trajeto na avenida, Tália parecia não perceber nada além daquela música estonteante e animada. Entregou-se por completo, sentindo-se segura sob a proteção de Mauro, que não desgrudava dela. Tanta beleza e sensualidade não podiam passar despercebidas pela avenida. Não foram poucos os que a notaram, e alguns diretores e donos de teatro logo se interessaram por ela. Enquanto ela sambava, eles se aproximavam, tentando falar-lhe, mas Mauro os impedia, apresentando-se como seu agente e segurança. Choveram convites, e Mauro começou a coletar os cartões que lhe ofereciam.

Ao final do desfile, Tália estava exausta. Sambara e se divertira como nunca em sua vida. Ciente do efeito que produzia nos olhares masculinos, entregara-se por completo àquela loucura, remexendo-se com uma sensualidade nunca antes vista. Nem de longe lembrava aquela menina feia e gordinha que era alvo das chacotas dos garotos em Limeira. Possuía agora formas exuberantes de mulher brejeira e dotada de uma sexualidade à flor da pele.

— Você gostou? — perguntou Mauro, satisfeito com o seu desempenho.

— Nossa, Mauro! Nunca me diverti tanto.

Foram para casa, Mauro sentindo os olhares de inveja dos outros homens ao vê-lo passar com Tália pelo braço. Entraram no pequenino quarto de pensão que seu dinheiro conseguira pagar, e ele tirou do bolso os cartõezinhos que coletara.

— O que é isso? — indagou ela, curiosa.

— Isso, minha menina, é a porta para o nosso futuro.

— Como assim?

— São cartões de donos de teatros e diretores de espetáculos de revista, todos interessados em você.

— Sério? Como foi que você conseguiu tudo isso?

— Então você não sabe? — ela meneou a cabeça. Você é mesmo muito tontinha, menina. Estava se acabando no samba e nem se deu conta dos olhares de cobiça da rapaziada, não é mesmo?

— Bem, confesso que reparei nos olhares, sim. Mas o que isso tem a ver com os cartões? Foi naquela hora que você os conseguiu?

— Enquanto você se divertia, eu estava trabalhando. Os sujeitos a viram e ficaram enlouquecidos. Todos querem você nos seus espetáculos.

Ela soltou um gritinho e deu um pulo de alegria, atirando-se no pescoço de Mauro.

— Conseguimos, Mauro? Vou ser realmente, atriz?

— Calma, minha menina. Por enquanto, só temos os cartões. É preciso que você se apresente e faça alguns testes para corista.

— Mas que testes? Então eles já não me viram dançar?

— Uma coisa é sambar na avenida. Outra, bem diferente, é dançar num palco, com roupas pequeníssimas e iluminadas pela luz dos refletores. Não basta saber rebolar. É preciso ter desenvoltura e intimidade com o palco.

— Você acha que eu dou para isso?

— Não tenho dúvidas! Mas eles ainda não sabem que você é perfeita. Espere só até a verem dançando sozinha no palco.

— Oh! Mauro, você é maravilhoso!

— Faço isso porque gosto de você.

— Mentiroso. Faz isso porque eu sou a sua mina de ouro.

Com um gesto carinhoso, ele a puxou pela mão e fê-la sentar-se em seu colo. Alisou seus cabelos sedosos, deu-lhe uma mordida de leve nos lábios e, olhando-a com seriedade, disse em tom solene:

— Vou lhe confessar uma coisa, Tália. Você é minha mina de ouro, é verdade. Mas essa mina em nada me interessaria, não fosse o amor que sinto por você. Sou um homem arrebatado, e não há nada que faça que não seja movido pela paixão. Meus interesses não são mesquinhos. A minha vida é impulsionada pelos sentimentos, e, para mim, o que vale é viver intensamente cada minuto que respiro. E é você, Tália, que me estimula a viver, porque por você, o meu coração dispara cada vez que a vê.

Tamanha sinceridade a emocionou, e ela o abraçou com fervor.

— Também o amo muito, Mauro. Acho que, enquanto viver, nunca vou amar outro como amo você.

— Diz isso agora, porque sua vida de glamour mal começou. Mas depois que você estiver no auge, rica e famosa, vai me esquecer e encontrar outro à sua altura.

— Nunca! Você é e sempre será o único e verdadeiro amor da minha vida. Ainda que tenha outros amantes, por nenhum deles sentirei o amor que sinto por você.

Ele também se emocionou. Abraçou-a com paixão e levou-a para a cama, amando-a com loucura e ardor.

Tiveram que esperar até quarta-feira de cinzas para começar a se apresentar nos teatros, em busca de uma chance para um show. Engajado naquela vida já em São Paulo, Mauro tinha conhecimento de alguns nomes mais expoentes no ramo e buscou-os nos cartões que recebera. Encontrou muitos deles ali e selecionou os mais conhecidos, guardando o resto sem os descartar, para o caso de não conseguirem nada nas casas mais renomadas.

Ajudou Tália a se vestir. Escolheu o seu vestido, orientou-a no penteado e na maquiagem, e partiram para as entrevistas, com a recomendação de que não revelasse sua verdadeira idade. Para todos os efeitos, tinha dezoito anos completos.

O primeiro teatro a que chegaram não os agradou. O dono era um português arrogante e devasso, que foi logo oferecendo a Tália um lugar no grupo de coristas, em troca de algumas horas de prazer. Mauro quase o esbofeteou e saiu de lá irritado, arrastando Tália pelo braço.

— Quem ele pensa que é? — bufou. — Você é uma dançarina, não uma prostituta.

— Não dá no mesmo?

— Não, não dá! E nunca mais repita isso. Você não é nem nunca será uma prostituta.

Em outro teatro, o resultado também não foi o esperado. O dono estava interessado apenas no corpo de Tália e demonstrou isso com muita naturalidade.

O teatro era apenas uma fachada para uma pequena casa de encontros que ele possuía, e Tália seria uma excelente aquisição nesse ramo. Choveriam clientes interessados em sustentá-la e dar-lhe uma vida tranqüila. Mauro poderia continuar agenciando seus encontros, em troca de uma percentagem razoável para o dono do teatro.

Daquela vez, Mauro não resistiu e acertou violento soco no queixo do homem, que cambaleou e caiu. Os seguranças do teatro, ouvindo a gritaria, acorreram aflitos, mas Mauro conseguiu segurar Tália pelo braço e correr com ela para a rua.

— Mas será possível? — lamentou-se. — Será que não há mais gente decente hoje em dia?

— Será que nesse ramo isso é possível?

— Não desanime. Ainda vamos encontrar alguém que lhe dê o devido valor.

No terceiro teatro que visitaram, Tália foi mais bem acolhida. O diretor do espetáculo estava encantado com ela e pediu que dançasse para ele. Tália fez o que mais sabia. Subiu ao palco e soltou o corpo, remexendo-se daquela forma sensual que só ela conhecia. O homem quase enlouqueceu e queria contratá-la de imediato. Chamou Mauro a um canto e foi logo oferecendo uma quantia exorbitante. Mauro ficou bastante animado, achando que, finalmente, haviam conseguido uma boa chance.

— Só tenho uma exigência a fazer — decretou o homem, subitamente. — Que Tália se encontre comigo uma vez por semana, em meu apartamento no centro da cidade.

— Como é que é? — Mauro estava surpreso. — Não estou entendendo.

— Creio que o senhor compreendeu muito bem. É de praxe que minhas meninas se deitem comigo ao menos uma vez por mês. E não faça essa cara de espanto. Não vai querer me convencer de que essa Tália é virgem, não é mesmo?

Mauro estava abismado. Pensou em acertar aquele homem também, mas já estava começando a ficar cansado daquela história. Virou-lhe as costas e foi chamar a moça, saindo com ela para a rua.

— O que foi que houve? — quis saber ela.

— O de sempre — foi a resposta seca.

Depois disso, foram a uma casa de espetáculos em que Tália teria que trabalhar em trajes sumários, atendendo as mesas dos clientes. Em outra, teria que tirar a roupa em um quarto reservado, longe dos olhares do público e, numa terceira, sua função seria a de uma boneca em exposição e consistiria em ficar parada na frente do teatro para atrair a freguesia.

Tália estava exausta. Aonde ia, o resultado era sempre o mesmo: queriam explorar seu corpo maravilhoso sem lhe dar a chance de mostrar seus dotes artísticos. Mauro não podia concordar com aquilo. Não a tirara do jugo de Anacleto, naquela pensão em São Paulo, para transformá-la em prostituta oficial no Rio de Janeiro. Não. Tália tinha valor. Dançava como ninguém, tinha charme e carisma. Não iria se prestar a servir de objeto para nenhum velho devasso.

Os proprietários de casas de espetáculo que ele julgava grandes, ao que tudo indicava, não eram lá assim tão grandes. Havia outros, realmente famosos, que ele tentara contatar, mas fora barrado logo na porta. Só lhe restavam os teatros menores. Abriu a gaveta em que havia guardado os cartões secundários e folheou-os. Alguns nomes ali eram conhecidos, em outros, nunca ouvira falar. O que poderia fazer? Não lhe restava alternativa senão tentar os teatros e casas noturnas de menor expressão,

Foi o que fizeram. Depois de algumas respostas negativas, finalmente conseguiram uma colocação em um teatro menos conhecido. Mauro gostou do lugar. As moças que trabalhavam ali eram direitas e não possuíam aquele ar vulgar e arrogante de estrelas de segunda categoria. Além disso, Darci, o dono do teatro e diretor do espetáculo, era um homem gentil e muito profissional, interessado apenas em fazer progredir o seu negócio.

Tália também gostou. O teatro não era glamoroso como esperava, mas era onde teria a chance de mostrar suas qualidades profissionais. Não possuía mesas, mas era espaçoso, com um palco razoavelmente grande e lugar para cerca de duzentas pessoas. Podia não ser o ideal, mas era o que tinha para começar.

 

A noite estava agitada naquele sábado. Desde que começara a trabalhar no teatro de revista, Tália vinha se firmando como a mais nova sensação do momento. Sua fama de sambista atraente e sensual logo se espalhou pela cidade, e a platéia no teatro começou a aumentar, recheada de homens que iam lá só para ver o seu rebolado.

Com a chegada de Tália, as coisas começaram a mudar para Darci. A moça trazia uma musicalidade que a diferenciava das dançarinas que conhecia, aprendeu a cantar, e a dança parecia sair de seu corpo com naturalidade, como se o seu corpo todo fosse feito para aquilo. Além disso, as idéias de vanguarda de Mauro elevaram-no ao posto de diretor dos espetáculos, e ele passou a atuar não apenas nos shows de Tália, mas nos de todas as outras vedetes.

— Vamos logo com isso — anunciou Darci, apressando Tália no camarote. — Faltam cinco minutos.

— Como está a platéia?

— Casa cheia, meu bem, como sempre.

Em cinco minutos, lá estava ela no palco, para delírio da platéia. Executou o seu número com esmero e maestria, de olhos semicerrados, cantando e dançando como se estivesse nas nuvens e seus pés mal tocassem o chão. Quando Tália se entregava à dança, parecia que nada mais havia no mundo; apenas ela, a melodia e o ritmo. Entregava-se de corpo e alma, e sua beleza exuberante despertava não apenas a atenção dos presentes, mas, principalmente, o desejo de muitos homens.

Mas Tália e Mauro se amavam como loucos, e não havia outro homem que a atraísse, ou mulher que ele desejasse. Ao final do espetáculo, os dois seguiam para casa de mãos dadas, felizes com o rumo que suas vidas estavam tomando. Com o sucesso do seu numero, o cachê de Tália aumentou, e Mauro também não ganhava mal como diretor. Afinal, era ele o responsável pela coreografia e o cenário daquele show maravilhoso, que ia elevando o nome de Darci rumo ao ápice do mundo teatral.

— Por que não nos casamos? — perguntou ela pela manhã, após se amarem intensamente.

— Não vai ser bom para os negócios. Vedetes casadas despertam menos interesse, e você ainda é menor.

— Você não gosta mais de mim — queixou-se ela, fazendo beicinho.

— Não é verdade. Amo-a como jamais amei ninguém. E depois, nós podemos não ser casados de papel passado, mas você é minha mulher e eu sou seu marido. Não fazemos tudo o que outros casais fazem?

Ela não respondeu. Fez cara de aborrecida e foi para a cozinha preparar o café.

 Precisamos arranjar uma empregada — falou Mauro, chegando por trás e beijando-a no pescoço.

— Acha que já podemos pagar?

— É claro. Não estamos ricos, mas estamos vivendo bem. Conseguimos alugar esse apartamento, que não é assim tão mau e, em breve, estaremos nos mudando para nossa própria casa.

— Será?

— Você vai ver. Vamos juntar mais um pouco e partiremos para uma casa só nossa. Uma casa, não, uma mansão, com piscina e tudo.

— Piscina? Nunca vi um luxo desses.

— Pois vai ver. No momento, porém, estou pensando em algo mais imediato: uma empregada, para que você não tenha que estragar suas unhas com o serviço doméstico. Afinal, você agora é uma atriz, quase famosa, e não deve se ocupar com essas coisas.

— Onde vamos arranjar alguém de confiança?

— O que não falta por aí é gente querendo trabalhar. Ponho um anúncio no jornal, e logo aparece alguém.

— Estive pensando em outra coisa...

— O quê?

— Lembra-se de Ione?

— O nome não me é estranho...

— Era cozinheira na casa de Dona Janete.

— Ah! Ione, isso mesmo, agora me lembro. Por quê? Não vá me dizer que pretende ir buscá-la.

— Eu prometi. Quando saí da casa de Janete, prometi que a buscaria assim que estivesse bem.

— Mas querida, Ione mora lá em São Paulo. Não podemos viajar agora.

— Não, mas eu posso escrever-lhe uma carta, enviando-lhe o dinheiro da passagem e o endereço. Aposto como virá.

— É o que quer?

— É sim. Ione sempre foi minha amiga e me ajudou quando eu mais precisava.

— Será que ainda trabalha lá?         

— Não custa nada tentar. Se ainda estiver trabalhando naquela pensão horrorosa, aposto como virá. Ela também não gostava muito de Dona Janete.

— Muito bem, seja feita a sua vontade. Escreva-lhe o nosso endereço numa carta, sob nome falso e sem remetente, para saber se ela ainda trabalha lá. Não queremos que dona Janete descubra o nosso endereço, não é? — ela meneou a cabeça, assustada, pois não havia considerado aquela hipótese. — Depois, se ela responder, enviamos-lhe o dinheiro. Que tal?

— Excelente idéia! Farei isso agora mesmo.

Um mês depois, Ione desembarcava no Rio de Janeiro, munida apenas de uma trouxinha de roupas e muitas saudades da amiga. Quando a viu, atirou-se em seus braços, chorando copiosamente. Tália a estreitou com ternura, dando-lhe as boas-vindas à capital federal.

— Você vai amar o Rio de Janeiro! Vou levá-la à praia, ao Corcovado, ao Pão-de-Açúcar...

— Ah! Amelinha, nem acredito que estou aqui. Você cumpriu a sua promessa. Mandou me buscar...

— Só que aqui não sou mais Amelinha, Ione. Como lhe disse na carta, chamo-me Tália Uchoa. É meu nome artístico e é assim que quero ser chamada.

— Tem razão, desculpe. É que ainda não me acostumei. Mas vou chamá-la de Dona Tália, que é para impor mais respeito.

— Não precisa da dona, não. Somos amigas, e não é porque agora estou ficando rica que vou ficar besta.

Ambas riram e se abraçaram. Tália chamou um táxi e levou Ione para seu apartamento, mostrando-lhe tudo.

— Por enquanto, você vai ficar aqui — disse indicando-lhe o quartinho de empregada que ficava ao lado da área de serviço. — Mas não se preocupe. Quando nos mudarmos para uma casa maior, terá seu próprio quarto do lado de dentro, como uma governanta.

— Não precisa tanta coisa, Ame... Quero dizer, Tália. Aqui está ótimo.

Tália ajudou Ione a se acomodar, e enquanto ela ia guardando suas poucas roupas no armário, iam conversando:

— Teve notícias da minha família? - indagou Tália com interesse.

— Ouvi Dona Janete dizer que a vida da sua mãe anda muito difícil, desde que seu padrasto se entregou à bebida. Parece que nem trabalha mais.

Tália abaixou os olhos, pensativa, lembrando-se da última vez que estivera com o padrasto. Ele estava saindo para procurar emprego, e, já naquela época, andava se entregando ao álcool.

— É por minha causa, não é? — tornou com ar triste.

— Dona Janete diz que sim. Ela e sua mãe disseram que você desgraçou a vida de todo mundo e vai continuar desgraçando a de quem mais cruzar com você.

Aquilo a magoou imensamente. Durante toda sua vida, não fizera nada para desgraçar a vida de quem quer que fosse, embora muitos houvessem contribuído para desgraçar a sua: a mãe, Elias, seu Chico, Janete, seu Anacleto e tantos outros que a viam como uma perdida. Tália não disse mais nada. Esperou até que Ione terminasse de se ajeitar e deixou-a descansando. Só começaria a trabalhar no dia seguinte.

Mais tarde, foi encontrar-se com Mauro no teatro. Estava acabrunhada e triste, o que despertou a atenção de todos.

— O que você tem? — indagou Mauro, preocupado.

Ela apenas deu de ombros e foi-se aprontar para o espetáculo. Desempenhou seu papel como sempre, embora Mauro conseguisse notar seu semblante de tristeza. Depois que o show terminou, voltaram para casa, como sempre faziam.

— Então? — perguntou ele. — Como foi à chegada de Ione?

— Ela já está instalada e bem. Amanhã, começa a trabalhar.

— Alguma notícia ruim de São Paulo? Algo com Dona Janete?

— Não, Mauro, na verdade, minha família é que não vai bem.

— Por quê?

Em breves palavras, Tália narrou tudo o que Ione lhe contara.

— Preciso ajudá-los — arrematou.

— Por quê? Por que ajudar quem sempre a prejudicou?

— Raul é meu amigo.

— Mas foi por causa dele que sua mãe expulsou você de casa.

— E tem a minha irmã. Ela não tem nada com isso.

— Você nunca se deu bem com sua irmã. Por que a preocupação agora?

— E minha mãe?

— O que tem ela? Pelo que você me contou, foi à pior de todos.

— É minha mãe — ciciou hesitante, como a se desculpar por aquele fato.

— E daí?

— Por mais que tenha me maltratado, não posso deixá-la passando necessidades. Estou bem de vida agora, não é justo que eles passem privações se eu tenho condições de ajudá-los.

Mauro pensou por alguns momentos, até que considerou:

— Talvez você esteja certa. Logo, logo vai ser famosa, e não vai ficar nada bem para a sua imagem abandonar a família. As pessoas gostam de estrelas bondosas e generosas, principalmente com os familiares. Com a mãe, então, nem se fala!

— Não é por isso que quero ajudá-los, Mauro.

— Sei disso, mas ninguém mais precisa saber. Podemos usar esse fato em nosso favor, se necessário.

— Acha que minha mãe aceitaria a minha ajuda?

— Você tem dúvidas?

— Não sei. Quando saí de lá a última vez, ela estava com raiva de mim.

— Experimente mandar-lhe dinheiro. Não há raiva que resista a um bom e gordo maço de notas.

— Acho que você tem razão. Farei isso amanhã mesmo.

 

Ao receber a carta de Tália, Tereza sentiu um misto de alívio e ódio. Alívio, porque o dinheiro seria bem-vindo naquela situação de quase penúria em que se encontravam. Ódio porque, se a filha lhe mandara dinheiro, era porque estava bem de vida, ao contrário do que ela desejava. O carimbo no envelope indicava a cidade do Rio de Janeiro, mas ela não colocara o endereço do remetente. Raul, bêbado como sempre, sequer vira a carta ser entregue, e apenas Cristina sabia que a irmã, finalmente, dera notícias.

— Onde você acha que ela está? — perguntou Cristina, lendo a carta e contando o dinheiro.

— No Rio de Janeiro, é o que diz o carimbo dos correios.

— Ela podia ter-nos mandado um endereço qualquer. Não podemos nem responder.

— E o que lhe diríamos? Que estamos quase morrendo de fome?

— Posso trabalhar mamãe.

— Você ainda nem tem dezesseis anos, e moça de família não trabalha para viver. Pretendo que você faça um bom casamento e nos tire daqui.

Ouviram um barulho nas escadas e se voltaram ao mesmo tempo. Raul vinha chegando, cambaleante como sempre, trazendo sob o braço a garrafa de pinga.

— O que é isso? — perguntou, a voz pastosa.

— Isso o quê?

— Essa carta... De quem é?

— Não é da sua conta — cortou Tereza, ríspida. Por que não vai trabalhar, ao invés de ficar se embebedando pelos cantos?

— Eu quero... — lamentou-se ele, atirando-se no sofá — mas ninguém quer me dar emprego...

— Isso é porque você vive bêbado. Pare de me roubar às escondidas e experimente largar a bebida, e logo o emprego aparece.

— Está enganada, Tereza. Eu tentei, mas ninguém me dá uma chance. Diga a ela, Cristina. Diga a ela que eu tentei...

Penalizada, Cristina se aproximou dele e tentou retirar-lhe a garrafa da mão, mas ele relutou e não deixou que ela a pegasse.

— Solte isso, tio Raul — falou ela, com carinho. Não vê que só está lhe fazendo mal?

Por fim, ele soltou. Cristina tinha um jeito meigo de falar que sempre o convencia. Era como uma filha dedicada cuidando do pai enfermo.

— Não sei o que faço com esse homem — reclamou Tereza. — Não serve para mais nada.

— Não sirvo mais, não é? Antes, você dizia que me amava, mas agora que estou inválido, você se queixa e quer me abandonar. Você quer me abandonar, Tereza? Quer me deixar na rua da amargura?

Tereza olhou para ele com desdém, enfiou a carta de Tália no bolso do avental e subiu correndo para o quarto. Como ainda tolerava aquele homem? Devia tomar coragem e colocá-lo para fora, mas não conseguia. Apesar de tudo, até mesmo do nojo que o seu insuportável cheiro de álcool lhe causava, não podia se desligar dele. Depois de tudo por que passara, não era justo que o perdesse. Amor por ele, não sentia mais. Era impossível, dado o seu estado de constante embriaguez, que até impotência lhe causara. Mas sentia-se apegada a ele, como se estivessem ligados por algo muito mais poderoso do que o amor.

Ela sabia o que era: o ódio que sentia de Amelinha e a posse que tinha com relação a Raul, fruto do orgulho de não admitir que ele a deixasse por outra. Fora por causa de Amelinha que perdera o seu homem. Mesmo depois que ela se fora, Raul continuara a pensar nela. Depois que sumira da pensão de Janete, então, ele quase enlouquecera. Entregara-se de vez à bebida e fora se tornando abjeto e asqueroso. Aos poucos, foi deixando de lado os hábitos mais comezinhos do ser humano, abrindo mão de se lavar, pentear os cabelos e manter as roupas limpas. Vivia caído pelos cantos, e não raras eram às vezes em que ele voltava para casa carregado pelos companheiros de copo.

Não podia, contudo, largá-lo. Separar-se dele seria como admitir que Amelinha vencera. Seria dar a ela o sabor da vitória, a certeza de que conseguira sobrepujá-la uma vez mais, tomando-lhe o homem que lhe pertencia. E isso, ela não podia deixar acontecer. Perdera o interesse por Raul, mas jamais permitiria que ele fosse da filha. Mesmo que Amelinha não o quisesse, ainda assim, não correria o risco de vê-lo solto e livre para rastejar atrás dela, lambendo seus pés feito um cachorrinho. Não. De forma alguma aceitaria que seu homem se tornasse o brinquedinho da filha, ainda que isso lhe custasse à dignidade e a vergonha.

 

Mal o dia havia amanhecido, e Tália apareceu na cozinha, estendendo para Ione uma carta recém-selada.

— Será que você podia postar uma carta para mim? — indagou.

— É para sua mãe?

— É sim. O final do mês se aproxima, e estou certa de que ela fica esperando essa carta com a maior ansiedade do mundo.

— Sua mãe deve estar curiosa para saber de você. Até hoje não sabe que você virou atriz.

— Não sou propriamente uma atriz, Ione.

— Não importa o nome que você dê. O fato é que sua mãe não sabe nada a seu respeito. Você escreve para ela e manda dinheiro, mas não lhe conta nada da sua vida e nem tem como saber como anda a vida dela. E se ela já estiver morta e você continuar mandando dinheiro para uma defunta?

 Credo, Ione, que idéia!

— E depois, tem a sua irmã. Só a vi uma vez, quando ela esteve na pensão com sua mãe, depois que você fugiu. Que moça linda! E tão meiga!

— E daí?

— Ela é mais nova do que você, não é?

— É sim. Está agora com dezessete anos. A idade que eu tinha quando cheguei ao Rio.

— Fico imaginando como uma moça bonita feito ela deve estar desperdiçando a vida ao lado de uma mãe problemática e de um padrasto bêbado.

— O que é que eu posso fazer Ione? Trazê-la para morar comigo?

— Até que não seria má idéia.

— O quê? Você só pode estar brincando.

— Não estou não. Lembro-me de como fiquei feliz quando você mandou me buscar. Para mim, era um sonho, poder viver longe daquela pensão e da mesquinhez de Dona Janete. Ganhei vida nova, Tália, e sei muito bem o que significa, para uma moça, ter uma vida melhor.

— Você mereceu estar aqui, Ione. É minha amiga.

— E ela é sua irmã.

— Já a estou ajudando. Mando dinheiro para ela todo mês.

— Mandar dinheiro é uma maneira muito fácil de acalmar a consciência. Você não se envolve e pode dizer a si mesma que está fazendo um bem a ela.

— E não estou?

— Está. Mas será que é só disso que ela necessita?

Durante alguns minutos, Tália ficou refletindo sobre a pergunta de Ione. Cristina nunca havia lhe feito nada. Ela sempre fora tão linda, tão pura, tão boa! E ficava se exibindo o tempo todo, como se fosse uma princesa de contos de fadas, e ela, Tália, a eterna Gata Borralheira, sem direitos nem chance de ser feliz.

Tudo aquilo não passava de desculpas. Na verdade, nem Tália sabia por que antipatizava tanto com Cristina. A irmã sempre tentara ajudá-la, o que só servia para irritá-la ainda mais. Lembrava-se de quando tivera a segunda pneumonia, logo após ter sido espancada pela mãe em sua única ida a Limeira depois que fora para São Paulo. Cristina cuidara dela com desvelo e amor, dedicando-lhe toda atenção e carinho. Na época, ainda conseguira sentir por ela um pouco de simpatia e gratidão. Mas depois, a vida as afastara novamente, e agora ela pensava que a única coisa que ainda tinham em comum era o estupro de que haviam sido vítimas juntas.

— Está escutando o que estou falando, Tália?

— Estou, não precisa gritar.

— E então? Não me diz nada?

Tália se virou para a janela e, olhar perdido, acabou por responder:

— Acho que você tem razão, Ione. Vou viajar a Limeira e ver como estão às coisas por lá. Se Cristina quiser, trago-a para o Rio comigo.

— Assim é que se fala garota!

— Vou falar com Mauro a respeito, mas tenho certeza de que ele não irá se opor.

— Quer que eu vá com você?

— Não. Quero que fique aqui e cuide de tudo.

— Pode ficar sossegada.

Alguns dias depois, Tália embarcava sozinha para Limeira. Mauro quis acompanhá-la, mas aquilo era algo que ela tinha que fazer sozinha. Não sabia o que iria encontrar em sua cidade natal e tinha medo de que a mãe fizesse alguma desfeita para ele. Cuidaria de tudo à sua maneira e voltaria para casa logo em seguida, levando Cristina consigo.

Ninguém sabia ainda que ela se transformara em atriz. Chegaria em grande estilo, bem-vestida, maquiada e usando penteado da moda. Na bagagem levava alguns recortes de jornal e presentes para todos: um vestido novo para Cristina, um xale elegante para a mãe e uma garrafa de licor para Raul. Só depois que comprara os presentes foi que se dera conta de que não devia dar bebida alcoólica ao padrasto, para não alimentar o seu vício, mas a garrafa já estava comprada e não seria um pouco de licor que agravaria o seu estado.

Chegou a Limeira de surpresa. Desceu na estação de trem e riu satisfeita com os olhares de admiração que lhe endereçavam. Como ainda não havia táxis, foi caminhando em silêncio, admirando as ruas, que continuavam as mesmas. Logo avistou sua casa e sentiu um leve calafrio. Não guardava boas lembranças dali, e voltar para lá, ainda que em boa situação financeira, não estava sendo assim tão fácil.

Tália estava exausta de caminhar carregando a mala e rumou direto para a porta da frente. Atravessou o portãozinho e notou que ele agora rangia, o que não acontecia na época em que ela morava ali, pois vivia com as dobradiças sempre lubrificadas. Subiu os degrauzinhos que levavam à pequena varanda da frente e bateu à porta. Demorou alguns minutos até que alguém abrisse, e ela se espantou ao reconhecer, naquele rosto envelhecido que a recebia, o rígido semblante da mãe. Tereza também quase não reconheceu, vestida naquelas roupas vistosas e elegantes. Pensou tratar-se de alguma moça parecida com Amelinha, só que muito chique e requintada.

— O que deseja? — perguntou Tereza, desconfiada.

— Mãe! — exclamou ela, surpresa com a reação de Tereza. — Não me reconhece?

Aquela voz era inconfundível, e Tereza abriu a boca num assombro mudo. Escancarou a porta, dando lhe passagem, e ficou vendo-a entrar com seu andar de mulher feita e senhora de si.

— Você está diferente... — conseguiu, enfim, balbuciar.

— Sou outra mulher agora.  

Aquele mulher espantou Tereza ainda mais. Ao sair dali, Amelinha era apenas uma menina, e mesmo agora, não contava mais de dezenove anos. Contudo, sua aparência e seus gestos haviam abandonado os trejeitos da infância, e ela se portava e falava como uma mulher adulta e experiente.

— Você está muito bem... — continuou ela, começando agora a sentir uma pontinha de inveja. Arranjou alguém que a sustente?

Tália fuzilou-a com o olhar, mas conseguiu manter a calma. Não fora ali para brigar com a mãe e não precisava mais se indispor com ela. Estava agora por cima da situação e trataria de mostrar-lhe isso.

— Arranjei um emprego que me sustenta e hoje não dependo de ninguém.

— Emprego? Mas que emprego é esse que a deixou... Desse jeito?

— Sou uma atriz, mamãe. Apresento-me numa casa de espetáculos e estou começando a ficar conhecida. Quer ver?

Ela assentiu maquinalmente, enquanto Tália se sentava e abria a bolsa, dela retirando os recortes de jornal que levara. Estendeu-os para a mãe, que os apanhou e olhou embasbacada. Neles, a foto da filha se destacava acima dos comentários de seus shows.

— Tália Uchoa? — ela leu. — Mas que nome é esse?

— É o meu nome artístico. Ninguém mais me chama de Amelinha.

Tereza leu todos os recortes e fitou Tália com assombro. Aquilo superava todas as suas expectativas. Desde que a filha sumira da pensão de Janete, ficara especulando sobre o que lhe teria acontecido. Depois, quando começara a lhe mandar dinheiro junto com as cartas lacônicas e nada reveladoras, pensou que ela havia se amasiado com algum político ou comerciante rico lá no Rio de Janeiro. Mas jamais poderia imaginar que ela ingressara no mundo artístico, o que não a excluía, propriamente, do grupo de mulheres que ela classificava como sendo de vida fácil.

— Por que resolveu voltar?

— Soube que vocês estão passando muitas privações e quis ajudar.

Tereza engoliu em seco aquela humilhação, lutando contra a vontade de gritar com ela e dar-lhe uns bons bofetões.

— Quem foi que lhe disse isso?

Ela apenas sorriu e respondeu lacônica:

— Tenho amigos em São Paulo.

— Não sei o que andam lhe falando, mas as coisas não são bem assim...

— Tem recebido minhas cartas com o dinheiro? — cortou ela, sem dar atenção a suas palavras.

— Tenho.

— Espero que a tenha ajudado.

— Ajudou... Raul anda passando por uma fase difícil, e Cristina ainda é muito jovem...

— Por falar nisso, onde é que eles estão?

— Raul está pela rua... Procurando emprego... E Cristina não tarda a chegar. Foi à mercearia com uma lista de compras que encomendei.

Tália assentiu e levantou-se do sofá, apanhando a mala e a valise que levara.

— Vou descansar um pouco em meu antigo quarto, se não se importa. Vim caminhando da estação até aqui, carregando as malas, e estou exausta.

Sem dizer nada, Tereza ficou vendo-a se afastar, e Tália foi subindo as escadas, tomando a direção do quarto. A casa estava muito diferente, nem parecia à mesma de que a mãe cuidava com tanto capricho. Os móveis estavam surrados e sem brilho, e as paredes amareladas davam mostras de que não viam tinta há muitos anos. As cortinas haviam sido trocadas por outras, de tecido velho e vagabundo, e estavam desfiadas e puídas nas pontas.    

No quarto, somente se via a cama de Cristina. A sua, há muito fora vendida para pagar as contas atrasadas. Tália pousou a mala e a valise no chão, perto da antiga cômoda, e sentou-se na cama, quase chorando diante da decadência que invadira seu antigo lar. Recostou-se na cabeceira, sentindo os buracos no colchão, pensando que tomara a decisão certa ao resolver tirar a irmã dali. Ela era muito jovem e tinha a vida toda pela frente, mas não teria vida alguma se a desperdiçasse naquele buraco lúgubre e cheirando a mofo. Apesar do desconforto, estava cansada e sentiu que as pálpebras começavam a pesar. Apanhou o travesseiro e dobrou-o cuidadosamente, ajeitando-o debaixo da cabeça. Deitou-se de lado, admirando a única coisa que parecia viva naquela casa, e adormeceu voltada para o sol que começava a se pôr do lado de fora da janela.

 

— Amelinha! Amelinha!

Lentamente, Tália abriu os olhos, forçando-os a ver na quase penumbra que se espalhava pelo quarto. Piscou algumas vezes, tentando lembrar-se de onde estava e por que a estavam chamando de Amelinha se ela agora era Tália, uma atriz cobiçada por todos e que começava a ficar famosa. Pensou que estivesse sonhando com o passado e tornou a fechar os olhos, fingindo que não escutava. Talvez a voz se cansasse e fosse embora. A voz, contudo, não parava de gritar o seu nome de menina, e ela foi forçada a arregalar os olhos e, finalmente, fitar com atenção o rosto radiante da moça que lhe sorria.

— Cristina! — exclamou por fim, dando um salto da cama. — Como você cresceu!

Cristina sorriu orgulhosa e abraçou a irmã, que correspondeu ao abraço meio sem jeito.

— Mal pude acreditar quando mamãe me contou! Pensei que você nunca mais fosse voltar aqui.

De forma gentil, Tália se desvencilhou do abraço da irmã e, olhando ao redor, respondeu com um pouco de pressa:

— Na verdade Cristina, só voltei por você.

— Por mim?! Por quê?

— Quero tirá-la desse lugar. Estou bem agora e tenho condições de lhe dar uma vida melhor.

Era a primeira vez que Tália demonstrava algum interesse por Cristina, e ela se emocionou.

— Você quer me dar uma vida melhor? — repetiu ainda incrédula.

— Se você quiser...

Aquilo parecia um sonho. É claro que Cristina sonhava em sair daquela cidade sem perspectivas, mas jamais se imaginou indo morar no Rio de Janeiro.

— Mamãe disse que você agora é atriz.

— Sou dançarina. Trabalho num teatro no Rio.

— O que você faz lá?

— Danço e canto.

— É teatro de revista?

— É, sim.

— Que maravilha, Amelinha! Quer dizer que você agora é famosa?

Tália sorriu da ingenuidade da irmã e respondeu paciente:

— Em primeiro lugar, meu nome agora não é mais Amelinha, é Tália. Tália Uchoa.

— Tália Uchoa? Que nome mais esquisito.

— É um nome artístico. Vá se acostumando com ele. Em segundo lugar, não sou famosa ainda. Estou começando a ficar reconhecida no meio, mas ainda falta muito para a verdadeira fama.

— Você tem seu nome escrito em algum cartaz?

— Não apenas em cartazes, mas também nos jornais. Quer ver?

— Jornais? É claro que quero!        

Tália apanhou os mesmos recortes que mostrara à mãe e exibiu-os a Cristina, que os leu sofregamente, demonstrando imensa alegria com os comentários acerca do desempenho da irmã. Vendo a sua genuína alegria, Tália se comoveu. Fora até ali mais por senso de dever do que, propriamente, por devoção ou amor. Sentia-se responsável pelo bem-estar da família, principalmente da irmã, mas não possuía muitas afinidades com ela. O relacionamento entre ambas sempre fora difícil, e Tália chegou a pensar que não fosse conseguir lidar com ela naturalmente. Mas agora, depois daqueles anos todos, via em Cristina apenas uma mocinha ingênua e sonhadora, e não aquela menina falsa e esnobe que ela julgara um dia ter como irmã.

— Você se transformou em uma moça realmente bonita — observou impressionada.

— Você acha? — ela assentiu. — Não tanto quanto você.

— Ora, Cristina, você sempre foi bonita.

— Você é que é linda! E agora então, vestida desse jeito elegante, ficou mais linda ainda!

— Tem namorado?

— Não — seu rosto enrubesceu, e ela abaixou os olhos, envergonhada. — Mamãe não deixa.

— Por quê? Você é jovem e linda. Duvido que não tenha ninguém interessado em você.

— Mamãe teme que eu estrague meu futuro. Quer que eu me case com alguém importante.

Aquilo não fazia sentido, diante de tudo o que lhes havia acontecido. Cristina podia ser uma menina ingênua, mas já não era mais virgem, e a mãe sabia disso. Não havia, portanto, mais nenhum futuro para se estragar.

— Será que ela já se esqueceu...?

— Não! — cortou ela, rispidamente. — Ela não se esqueceu e também não me deixa esquecer.

— Como assim?

— Depois que você se foi, Amelinha...

— Tália. Não se esqueça de me chamar de Tália,

— Muito bem... Tália... Depois que você fugiu da pensão de prima Janete, ela começou a me perseguir, com medo de que eu fizesse feito você. Eu já havia me tornado mocinha, e ela passou a me vigiar constantemente, apavorada com a possibilidade de que eu escolhesse a mesma vida que você.

— Ora essa, mas que graça! — irritou-se Tália. — Será que ela já se esqueceu de que foi ela quem me atirou nessa vida? Depois que o Chico nos violentou, ela passou a me tratar feito uma meretriz, e a você como uma coitadinha.

— Não se irrite comigo, Ame... Quero dizer, Tália. Tive tanta culpa quanto você.

— Ninguém teve culpa de nada. Mas mamãe não devia ter feito o que fez comigo. Você sabia que Janete praticamente me vendeu para um hóspede, seu Anacleto? Fez-me dormir com ele para ganhar dinheiro?

— Prima Janete disse que foi você quem o seduziu...

— Essa é boa! Imagine se eu ia seduzir aquele velho!

— Não se zangue, Ame... Tália. Não acreditei em nenhuma delas.

— Não?

— Nem em Janete, nem em mamãe. Pensa que sou tola? Que não percebi o que mamãe estava fazendo com você?

— Percebeu?

— É lógico. Sempre notei a diferença de tratamento entre nós duas, mas quero que você saiba que nunca aprovei.

— Sei que não.         

— Embora você não compreendesse isso na época, nunca fiquei com raiva de você.

— Por que acha que eu não compreendia?

— Pela maneira como me tratava.

Tália sentiu-se envergonhada. De fato, não conseguia gostar da irmã porque ela era a preferida da mãe e sempre a achara, por isso mesmo, arrogante e esnobe. Mas Cristina jamais tripudiara sobre ela como julgara. Ao contrário, tentara ser sua amiga, e ela é que não nunca conseguira aceitar sua amizade.

— Não fazia por mal, Cristina — tornou, em tom de desculpa. — Eu era criança também. Tinha ciúmes de você, raiva porque mamãe não gostava de mim...

— Ela é uma mulher doente, Tália. Você não tem idéia das coisas que tenho passado aqui.

— Que coisas? Você sempre foi a sua preferida.

— Esqueceu-se de tio Raul? Ela enlouqueceu por causa dele.

— Como assim?

— Ninguém me disse nada, mas eu sei que ele se entregou à bebida por sua causa. Ouvi os dois discutindo, e mamãe o acusou de haver dormido com você...

— Isso é mentira! Raul e eu nunca tivemos nada!

— Sei disso, Amelinha, embora mamãe não acredite.

— Tália! Meu nome não é mais Amelinha, é Tália! Pelo amor de Deus, será que é difícil para você entender isso? Amelinha morreu! Morreu e ficou enterrada no passado! Eu sou Tália! Tália, ouviu?

Ela começou a chorar descontrolada, e só então Cristina pôde ter a exata noção do quanto havia sofrido. Por isso deveria ser tão importante, para ela, mudar de nome, porque Amelinha estava associada ao sofrimento, e Tália representava a esperança e o futuro.

— Desculpe-me, Tália, não falei por mal. É que ainda não me acostumei. Vamos, não chore.

Abraçou a irmã com ternura e pousou a cabeça dela sobre seu colo, alisando seus cabelos, despenteados.

— Nunca tive nada com Raul — declarou Tália chorando. — Mamãe nunca quis acreditar em mim ou nele, mas nós nunca nem nos beijamos.

— Eu sei e, no fundo, ela também sabe. Mas tio Raul é apaixonado por você, e isso ninguém pode negar.

— E que culpa eu tenho disso? Não fui eu que pedi para ele se apaixonar.

— Mamãe teve que culpar alguém para poder suportar a indiferença do marido. Como o amava muito, jogou toda a culpa em você.

— Devia me amar também. Afinal, sou sua filha.

— Mamãe só amava tio Raul. Mas até isso acabou. Tio Raul agora é um bêbedo e não trabalha. Perdeu o respeito e os amigos, e mamãe mal o tolera. Vive com ele entre o amor e o ódio. Ao mesmo tempo em que o repele, apega-se a ele com unhas e dentes.

— Raul está de olho em você?

— Não, não. Ele me trata como se eu fosse sua filha.

— Isso não é ambiente para você, Cristina. Acho que está mesmo na hora de você sair daqui.

— Não sei se mamãe vai permitir.

— Ela não quer para você um futuro melhor?

— Sim, mas acho que não vai aprovar a idéia de eu ir morar com você.

— Porque ela me julga uma perdida? É isso? Cristina assentiu timidamente. — Pois sou uma perdida com dinheiro. Isso deve fazer alguma diferença.

— Talvez... Nossa situação tem andado bastante ruim. Não fosse o dinheiro que você nos manda, não sei como iríamos nos arranjar. 

— Por falar em dinheiro, trouxe uma coisa para você — levantou-se e abriu a mala, dela retirando alguns pacotes meio amassados e estendendo um para Cristina. — Não sei se é do seu agrado.

Era uma caixa grande, embrulhada com papel de seda vermelho, e Cristina a apanhou com euforia.

— É para mim?

— Já disse que é. Vamos, abra.

Cristina desembrulhou cuidadosamente a caixa e levantou a tampa, puxando um vestido de noite lindíssimo, todo branco e enfeitado de pedrinhas brilhantes.

— Tália! Nunca vi nada tão bonito!

Satisfeita porque a irmã, finalmente, a havia chamado pelo seu nome artístico, ao invés de Amelinha, Tália sorriu e levou-a para frente do espelho, avaliando com ar crítico:

— Você vai ficar deslumbrante nesse vestido.

— Acha mesmo?

— Todos os homens vão cair a seus pés.

— Oh! Tália, nem sei como lhe agradecer.

— Não precisa. E agora, vá experimentando o vestido, enquanto vou levar o presente que trouxe para mamãe. Comprei algo para Raul também, mas acho melhor não dar.

— O que foi que lhe trouxe?

— Para Raul? Uma garrafa de licor. Sei que não devia, mas, na hora, nem me lembrei do seu vício.

— Acho melhor mesmo você não dar. Mamãe vai ficar muito aborrecida.

— Tem razão.

Guardou a garrafa de volta na mala e saiu à procura da mãe. Mal chegou à escada e ouviu vozes altercadas, partindo do andar de baixo, e logo deduziu que Raul havia chegado e que eles estavam discutindo. Durante alguns segundos, hesitou sem saber se devia ou não ir ao seu encontro. Um clique soou mais atrás, e Cristina saiu do quarto e caminhava em sua direção. Nem tivera tempo de experimentar o vestido novo.

— Você também ouviu? — perguntou Tália.

Cristina apenas assentiu. Passou por Tália sem dizer nada e começou a descer os degraus, com a irmã logo atrás.

 

Tereza mal conseguia dominar o ódio que, naquele momento a invadia. Tinha diante de si um Raul completamente alterado pela bebida, ansioso pelo reencontro com a enteada.

— Você é um bêbedo, devasso! — gritava Tereza. Mal se agüenta em pé e ainda pensa em fazer sexo com a cadelinha!

— Você está... Imaginando coisas... — balbuciou ele, a voz meio engrolada. - Nunca fiz sexo com Amelinha... Nunca...

— Velho idiota! Pensa que ela agora vai querer você? Está mudada, vistosa, elegante. Virou atriz, pode imaginar quantos homens têm freqüentado a sua cama?

— Isso... Não me interessa... O fato é que... Ela voltou...

— Pensa que voltou por sua causa? Quanto atrevimento! Ela veio para me ver, a mim, que sou a mãe dela! Você não passa de um velho nojento e asqueroso.

Raul passou por ela cambaleante e foi em direção à cozinha. Precisava raciocinar com mais clareza, não entendia bem o que Tereza lhe dizia. A mente, toldada pelo efeito do álcool, não concatenava os pensamentos de forma a lhes dar compreensão. Abriu a torneira da pia e enfiou a cabeça debaixo da bica, deixando que a água fria lhe refrescasse as idéias. A voz de Tereza retumbava em seus ouvidos, e ele tentou fugir, mas não tinha para onde ir. Avistou o bule sobre o fogão e foi servir-se de uma xícara de café frio e sem açúcar, enquanto a mulher continuava a berrar:

— Não o quero andando atrás dela, ouviu? Fique longe dela!

— Deixe-me em paz, Tereza! — conseguiu ele, finalmente, gritar.

— Deixá-lo em paz, não é? Para quê? Para você ir correndo para os braços dela? Isso é que não. Você pode ser um bêbado idiota e repulsivo, mas ainda é meu marido! Não o quero envolvido com aquela ordinária!

— Ela é sua filha, mulher, sua filha!

— E você é meu marido. Dê-se o respeito o mantenha-se afastado.

— Por que está fazendo isso comigo, Tereza, por quê? Será que os anos não foram suficientes para você esquecer?

— E você esqueceu? Se a houvesse esquecido, não teria se entregado à bebida e se tornado o porco que você é!

— Deixe-me em paz!

Num gesto impensado, Raul ergueu a mão e desferiu-lhe violenta bofetada na face, fazendo com que ela desabasse no chão com estrondo. Na mesma hora, arrependeu-se e correu para ela, choramingando com seu jeito de beberrão:

— Perdoe-me, Tereza... Perdi a cabeça, não fiz por mal.

— Afaste-se de mim! — vociferou ela, empurrando-o com as mãos. — Ousa bater-me de novo, por causa daquela vagabunda?

— Foi sem querer...  

— Sem querer, uma conversa! Você me bateu de propósito, porque conheço os seus pensamentos imundos.

— Não é verdade, Tereza, eu perdi a cabeça. Você estava me acusando de algo que eu não fiz, me perseguindo...

— E por isso você me bate, cachorro?

— Não fiz por mal. Por favor, Tereza, acredite em mim. Perdoe-me! Perdoe-me!

Ela já ia responder com mais impropérios quando ouviu uma voz familiar atrás de si:

— Posso saber o que está acontecendo aqui? Era Tália, que havia chegado à cozinha em companhia da irmã.

— Tio Raul, o senhor bateu em mamãe? — indignou-se Cristina, correndo para ela.

Mas Raul já não a ouvia. Tinha os olhos presos na silhueta esguia e elegante de Tália, que o mirava com um misto de nojo e piedade.

— Amelinha... — balbuciou ele, aproximando-se dela. — Você está tão bonita!

Tália pensou em dizer-lhe que não se chamava mais Amelinha, mas que diferença faria? O estado do padrasto era repugnante, mas ao mesmo tempo lhe despertava piedade, e ela se afastou quando sentiu o seu hálito de bebida.

— Por que foge de mim? — prosseguiu ele, estacando ao perceber o seu ar de repulsa.

— Raul... — ela se esforçou para falar — por favor, acalme-se.

— Eu estou calmo. Senti sua falta, Amelinha. Soube que você agora é uma atriz famosa. Está casada?

Ela olhou para a mãe de soslaio, notando, de imediato, o seu ar de reprovação.

— Não — respondeu hesitante —, não estou casada... Mas tem alguém em minha vida, se é o que quer saber.

— Um homem? — ela assentiu. — E ele a trata bem?

— Ele é maravilhoso.

— Saia daqui, Raul! — ouviu Tereza berrar de repente. — Vá-se embora!

— Não — objetou Tália, penalizada com o estado do padrasto. — Deixe-o ficar. Afinal, vim visitar a família, e ele é parte da família também.

— Ele me bateu — protestou Tereza, o rosto inchado e vermelho, não tanto da bofetada quanto da raiva que sentia. — Isso não é jeito de um marido tratar a esposa.

— Já lhe pedi desculpas! — rebateu Raul com irritação. — Não aceita porque não quer.

— Pensa que é assim, é? Não sou mulher de ficar apanhando, não, ouviu?

Ante aquela discussão, Tália sentiu vontade de sair correndo dali. Jamais deveria ter voltado. Sem querer, piorara a situação entre eles. As coisas não andavam nada bem, mas a presença dela só servira para acirrar ainda mais os ânimos já exaltados.

— Deixe-o ficar, mãe — insistiu ela. — Não vê que ele não sabe o que faz?

— Vai justificar a sua covardia com a bebida?

— Não o estou justificando, mas não quero que vocês briguem por minha causa. Não foi para isso que vim.

— Ah! Não foi mesmo — retrucou Tereza. — E já que comentou, gostaria de saber por que veio. Por mim é que não foi. Será que não foi para provocar Raul?

Tália engoliu aquela acusação e quis lhe falar de sua intenção de levar a irmã para morar com ela no Rio de Janeiro, mas Cristina interveio em tom conciliador:

— Tália lhe trouxe um presente, mamãe.

— Tália? — resmungou Raul. — Mas quem, diabos, é Tália?

— Sou eu, Raul — respondeu ela, calmamente. — Esse é o meu nome artístico, e é por ele que gostaria de ser chamada agora.

— Mas...

— Mostre a mamãe o presente que lhe trouxe sugeriu Cristina, tentando desfazer o clima de mal-estar.

Sem nenhuma vontade, Tália entregou à mãe o pacote, que ela atirou para o lado sem nem mesmo o olhar. Foi Cristina quem o desembrulhou e revirou nas mãos o xale.

— É muito bonito, mamãe — elogiou a moça, forçando a mãe a olhar. — Tália tem muito bom gosto.

— Se é o que de melhor o dinheiro dela pode comprar...

— Ah! E ela me deu um vestido maravilhoso! Você precisa ver!

— Como ela é generosa! E para Raul? O que foi que lhe trouxe? Vai lhe dar algo de presente além de... — não concluiu a frase, engolindo em seco a raiva que inundava o seu coração.

O tom de ironia e ódio de Tereza causou imensa indignação e raiva em Tália, que teria virado as costas e ido embora naquele momento, não fosse o olhar de expectativa de Cristina e a postura derrotada de Raul.

— Não precisa se preocupar com isso, Amelinha objetou Raul. — Sabe que não ligo para presentes.

Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, a mãe prosseguiu com o seu sarcasmo:

— É claro que ela não lhe trouxe nada, velho idiota. Quem se preocuparia com um bêbado inútil feito você?

Aquilo já era demais. Tereza não precisava humilhá-lo daquele jeito.

— Na verdade, Raul, trouxe-lhe um presente, sim — afirmou Tália, encarando a mãe com ar de desafio.

Raul parecia aniquilado e não disse nada, mas Tália virou as costas e foi direto ao quarto, voltando em seguida com o embrulho da garrafa nas mãos. Ainda ouviu a voz insegura de Cristina tentando protestar, mas não lhe deu ouvidos. Segurou a mão de Raul e nela depositou a garrafa, acrescentando com preocupação:

— Tome cuidado. Não é para beber feito água.

Ele desembrulhou o pacote mecanicamente e, ao revelar o seu conteúdo, apertou a garrafa de licor contra o peito, já sentindo a boca salivar.

— Ora, vejam só! — desdenhou Tereza. — Então é isso que ela tem para lhe dar? Que presente melhor para um bêbado do que álcool para alimentar o seu vício?

— É um licor, mãe — defendeu-se Tália. — Um licor fino. Não é para se embebedar, mas para saborear em ocasiões especiais.

— Todas as ocasiões são especiais para ele, não é, Raul? Todo dia é dia de degustar uma boa dose de pinga!

— Mamãe, Tália comprou a bebida sem nem se dar conta... — esclareceu Cristina.

— Não precisa me defender! — objetou Tália, já sentindo a antiga rivalidade assomar novamente. — Comprei o licor porque queria dar a Raul algo que ele gostasse, e não é culpa minha se ele não sabe impor seus limites.

— Por que foi que veio aqui, Amelinha? — tornou a mãe com fúria. — Por que quer desgraçar ainda mais a nossa vida? Veio rir de nós, trazendo-nos presentes caros e de nenhuma utilidade para a nossa miséria? — Ou será que quer destruir de vez a vida de Raul, para se vingar porque ele não me abandonou e a seguiu?    

— Você é doente, mãe. E me dá nojo.

— Se é assim, não deveria ter vindo.

— Tem razão. Jamais deveria ter voltado aqui.

— Pois vá-se embora! Ninguém a chamou, você não tinha nem motivos para vir. Volte para sua vida de libertina lá no Rio de Janeiro.

Tália chegou a girar o corpo na direção da escada. Queria apanhar a sua mala e sumir dali. Mas o olhar de súplica de Cristina a deteve, e ela se endireitou e ajeitou a saia. Não podia abandonar a irmã depois da promessa que lhe fizera, da esperança que lhe dera de seguir com ela para uma vida melhor.

— Ouça mamãe — falou ela com vagar, esforçando-se para parecer mais comedida. — Não vim aqui para brigar nem tive intenção de ofendê-la, nem a ninguém. Vim com um propósito específico e não gostaria de partir antes de concluí-lo.

— Mas que propósito? — tornou Tereza desconfiada, fitando Raul pelo canto do olho.

— Na verdade, gostaria de levar Cristina comigo.

— Levar Cristina? — repetiu ela, entre incrédula e atônita. — Para o Rio de Janeiro?

— Sim, para o Rio de Janeiro. Para onde mais haveria de ser?

— Isso é algum tipo de piada? Pois se for, é de muito mau gosto.

— Não é nenhuma piada. Cristina vai gostar de morar no Rio e...

— De jeito nenhum! Jamais vou permitir que minha filha parta para aquele antro de perdição!

— O Rio não é nenhum antro de perdição. E a capital do país e é onde estão as melhores chances de trabalho.

— Só se for para gente feito você, que não tem vergonha na cara e fica exibindo as pernas para um monte de homens devassos.

Tália engoliu a ofensa e prosseguiu, esforçando-s ao máximo para não gritar com Tereza novamente:

— Está enganada, mãe. Posso dar uma vida melhor a Cristina...

— Vida melhor? Como a que você levou em São Paulo?

— Não compare as coisas! — rebateu Tália com raiva. — Só porque você me vendeu para Dona Janete não significa que vou fazer o mesmo com minha irmã!

— Eu não a vendi para ninguém. Você foi para uma casa de família, mas preferiu se perder a levar uma vida honesta, com um trabalho digno.

— Trabalho digno? Dona Janete me fazia trabalhar sem descanso e nem me pagava salário! E ainda me atirou para aquele velho nojento que era o seu Anacleto.

— Foi você quem se entregou a ele porque quis, por dinheiro. E depois fugiu com aquele boêmio. Pensa que Janete não me contou?

— Está bem, mãe, não vou discutir. Se for o que quer acreditar, acredite, eu não me importo. Só o que lhe peço é que me deixe levar Cristina comigo.

— Por favor, mamãe, deixe-me ir — implorou Cristina. — Tália vai cuidar de mim.

— Ela não soube nem cuidar dela direito. Como é que vai cuidar de você?

— Ao que me conste, me saí muito bem sozinha.

— Mas a que preço!

— Pare de fazer teatro, mamãe, não é você a atriz aqui. Não precisa mais encenar essa preocupação excessiva. Todos sabem o quanto você se importa com Cristina, mas, por favor, deixe-me levá-la comigo.

— Jamais! Cristina é menor de idade e só sai desta casa com a minha permissão.

— Deixe a menina ir... — balbuciou Raul, que até então se mantivera calado. — É o que ela quer. Não desconte nela a sua frustração e deixe-a ser feliz.

— Não se meta nisso, Raul! — vociferou Tereza, sentindo o ódio recrudescer com a intervenção do marido. — Cristina é minha filha. Sou eu quem vai decidir o seu futuro. Só eu sei o que é melhor para ela!

— Porque está fazendo isso, mamãe? — questionou Tália desanimada. — Só porque me odeia, não precisa descontar em Cristina.

— Não estou descontando em ninguém, muito menos em Cristina. Acontece que você não é o que se pode chamar de uma educadora apropriada.

— E você, por acaso, é? Qual foi a educação que nos deu? A mim, particularmente? Mandou-me para uma velha decadente que só quis me ensinar a ser mulher da vida.

— Atrevida! Sou sua mãe, você não tem o direito de falar assim comigo.

— Agora se lembra de que é minha mãe, não é? Quer que eu a respeite, mas se esquece de que sou sua filha e que é seu dever me respeitar também.

— Filha? Mas que filha? Não preciso de uma filha feito você.

— Ah! Não? Vamos ver se vai continuar pensando assim quando eu parar de lhe enviar dinheiro.

— Você seria bem capaz disso, não é? Seria capaz de enriquecer e matar a mãe e a irmã de fome. Pois eu não preciso do seu dinheiro, ouviu? Posso trabalhar e sustentar esta família!

— Pense bem no que está dizendo, mãe — objetou Cristina. — A senhora já se esqueceu como as coisas estavam difíceis para nós antes de Tália nos ajudar?

— Isso não é motivo para ela me insultar! Se é para me ofender dessa maneira, prefiro que me deixe morrer à míngua!

— Você é muito mal-agradecida, mãe. Mas não faz mal, eu não me importo. Desde que deixe Cristina ir comigo, continuarei a lhe mandar dinheiro, como se nada tivesse acontecido.

— Pensa que pode me comprar com o seu dinheiro sujo, pensa? Nada disso! Cristina não sai daqui nem por todo ouro do mundo.

— Egoísta como sempre, não é, mamãe? Duvido muito que essa sua relutância em deixar Cristina ir tenha algo a ver com preocupação. Você tem é medo de ficar sozinha e quer que ela permaneça ao seu lado eternamente, ainda que tenha que sacrificar a sua felicidade!

As palavras de Tália, de certa forma, fizeram efeito em Tereza, que se calou e a encarou com fúria.

Foi Cristina quem falou:

— Por favor... Tália, não diga mais nada. Não quem que você e mamãe se desentendam de novo, ainda mais por minha causa. Deixe isso para lá. Agradeço o que está tentando fazer por mim, mas não vale à pena. Eu vou ficar. É o que mamãe quer, e eu tenho que obedecer.

Tereza inflou o peito e continuou a olhá-la, dessa vez com ar de triunfo. Puxou Cristina para seu lado a, com a mão pousada em seu ombro, arrematou com frieza:

— Vá embora, Amelinha. Aqui não é o seu lugar, e você jamais deveria ter voltado a esta casa.

A mãe vencera, ela sabia. Não tinha mais argumentos para tentar convencê-la nem pretendia mais sacrificar o sossego de Cristina e Raul. Com os olhos úmidos, lutando para não chorar na frente de Tereza, Tália concluiu com pesar:

— Você tem razão, eu não devia ter voltado. Hoje mesmo parto para o Rio e pretendo nunca mais pôr os pés nesta casa enquanto viver. Só lamento não poder levar Cristina comigo.

— Sua irmã vai ter uma vida decente, coisa que você não soube ter.

— É isso mesmo. Dê-lhe a vida que deseja para ela. Só espero que isso não a faça infeliz.

Rodou nos calcanhares e saiu, sentindo o calor das lágrimas que agora começavam a escorrer.

 

Depois que a porta se fechou, Tereza voltou para dentro com o ódio ardendo em seus olhos. Se pudesse, mataria a filha. Ela fora até sua casa só para humilhá-la e mostrar a sua superioridade. Mas ela não era nada. Podia se fazer de importante para os homens da capital, mas, para Tereza, ela não passava de uma prostituta de luxo.

Olhou para Cristina, que permanecia sentada no sofá, os olhos baixos e úmidos, tentando disfarçar a decepção.

— Você não tem motivos para ficar triste — aborreceu-se Tereza. — Fiz-lhe um favor em não deixá-la ir. Acabaria se tornando uma ordinária feito sua irmã.

— Tália não é ordinária... — rebateu.

— Tália... Até o nome soa como o de uma vagabunda. Se fosse decente, não mudaria de nome.

— Ela agora é uma artista, mãe. E artistas usam nomes assim.

— Artista, sei... De qualquer forma, soa melhor do que prostituta.

— Não é verdade! Tália não é prostituta.

— Não se iluda minha filha, é o que todas as atrizes são. E você, dê-se por feliz por ter uma mãe que se importa com você e que a livrou desse destino. Você é linda e vai se casar com um bom rapaz, que irá tirá-la dessa vida e lhe dar outra muito melhor. Você vai ver. — Fez uma breve pausa, olhou ao redor e indagou com desdém: — E Raul, onde está?

— Acho que foi para o quarto.

Tereza começou a subir a escada e, sem se voltar, ordenou à filha que fosse para a cama. Alcançou o quarto e, sem fazer barulho, empurrou a porta e entrou. Para sua surpresa, Raul estava debruçado sobre a escrivaninha, escrevendo o que parecia ser uma carta. Um pouco mais atrás, na mesinha de cabeceira, a garrafa de licor jazia intocada.

Aquela cena provocou um ódio incontrolável em Tereza. Pelos suspiros que ele exalava, ela nem precisava ler a carta para saber que Raul escrevia a Amelinha. O que será que dizia? Contar-lhe-ia de sua louca paixão, da sombra de homem em que se transformara depois de sua partida? Tereza sentiu ímpetos de agredi-lo pelas costas. Seria bem-feito, depois de todas as humilhações por que a fizera passar. Ainda sentia na face a ardência do tapa que ele lhe dera havia pouco. Não fora propriamente dolorido, mas a dor da humilhação não passaria jamais.

Se tivesse uma faca, Tereza certamente a cravaria nele. Contudo, nada tinha em mãos, e não havia por perto nenhum objeto que servisse a seus propósitos. E depois, pensou, não queria ir para a cadeia por causa daquela ordinária. Mas como seria bom se Raul morresse! Tereza já não podia mais suportar a loucura que era o amor que ele sempre sentira pela filha. Com o passar dos anos e a ausência de Amelinha, aquela paixão acabara por consumi-lo, levando-o à derrocada física e moral. Raul hoje era um bêbedo vagabundo o asqueroso, e tudo por causa da filha.

Já ia tornar a sair quando ele amassou o papel que escrevera e atirou-o no chão, choramingando feito um covarde:

— Não posso! Não tenho coragem!

Raul levantou-se de um salto, e Tereza, assustada, recuou pelo corredor, indo esconder-se no quarto de Cristina.

— Mamãe! — assustou-se a menina, já deitada na cama, tentando dormir. — O que foi que houve?

— Nada... — balbuciou ela, o coração aos pulos. — Durma...

Tereza espiou pela porta entreaberta, mas Raul já havia descido as escadas aos tropeções. Cuidadosamente, saiu do quarto, ao mesmo tempo em que ouvia a porta da frente bater. Ele havia saído. Mais que depressa, voltou para seu quarto e apanhou o papel amassado no chão. Desdobrou-o avidamente e leu:

 

Minha querida Amelinha,

A vida sem você tem sido um suplício. Desde sua partida, não passa um dia sequer em que não pense em você e sinta, em meus sonhos despertos, o calor de seu corpo e de seus beijos. Isso está me levando à loucura... Sinto imensa culpa por não poder amar sua mãe, mas é a você que eu amo. Sempre amei. Assim que entrei nesta casa, apaixonei-me por você. Você era ainda uma menina, linda aos meus olhos, e não pude deixar de sentir o que senti. Por que não me casei com você? Sei que é loucura, mas quantas vezes eu desejei que você estivesse no lugar de sua mãe, só para poder tê-la em meus braços e em meu leito?

Não posso mais suportar. Entre viver essa meia-vida e não viver, prefiro não viver. Não quero que você se sinta culpada pelo que vou fazer, mas é que já não agüento mais. Sua mãe também não está feliz e quer fazer sua irmã infeliz também. Isso não é justo. Não quero mais essa culpa. Não quero ainda ser responsável pela infelicidade de Cristina. Peça a sua mãe que me perdoe. Tentei amá-la como devia, mas não pude, e não será ela a última pessoa em quem estarei pensando no derradeiro instante de minha vida. Sei que Tereza vai me odiar ainda mais pelo que vou fazer, mas é a única saída. Para mim, para ela, para você...

Fico imaginando como será deixar de existir...

Em breve saberei. Levarei como última lembrança a imagem da Amelinha criança que eu sempre protegi e amei.

Amo você mais do que a própria vida, e é por não poder ter o seu amor que não me julgo no direito de viver.

Adeus.

Raul.

 

A cada linha, o ódio consumia mais e mais pedaços do coração de Tereza. Ao terminar de ler a carta toda, parecia que um ácido lhe queimava as entranhas. Então o idiota do Raul deixava uma confissão escrita de sua leviana paixão por Amelinha. Mas como era estúpido! Covarde, para não dizer coisa pior. Choramingava porque não tinha nem coragem de se matar!

Tereza tornou a amassar a carta e já ia rasgá-la quando uma idéia brotou em sua mente desvairada. Naquele momento, o ódio lhe inspirou o crime. Atirou o papel amassado de volta ao lugar onde o havia apanhado, deu uma olhada rápida na garrafa de licor e desceu correndo para a cozinha. Abriu a despensa com sofreguidão e apanhou uma cadeira, revirando a prateleira do alto, onde guardava os produtos de limpeza e outras substâncias perigosas. Na ponta dos pés, sem nem enxergar onde remexia, sentiu que seus dedos tocavam uma superfície lisa e fria, percebendo que era um vidro. Esticando-se o mais que podia, puxou para fora o vidro e virou-o nas mãos. A palavra VENENO apareceu nítida e alarmante, e ela apertou o frasco entre os dedos. Era daquilo mesmo que precisava.

Desceu da cadeira e fechou a porta da despensa, voltando para o quarto com um saca-rolha e o vidro bem apertado nas mãos. Entrou e fechou a porta, olhando novamente para ele. Era veneno para ratos, e ela sabia que podia ser fatal. Apanhou a garrafa de licor na mesinha de cabeceira, descolou o lacre de papel e tirou a rolha com cuidado, para que não se esfacelasse. A rolha cedeu com facilidade, e ela destampou o frasco de veneno. Levou-o às narinas e sentiu o seu cheiro forte, mas duvidou que Raul percebesse alguma coisa. Além do aroma e do sabor açucarados do licor, voltaria mais bêbado do que quando partira e não sentiria nada. Só o prazer do álcool descendo pela sua garganta.

Olhando para o vidro de veneno, hesitou ainda por alguns instantes. Vira alguns ratos se contorcendo sob seu efeito e imaginou o quanto aquela morte podia ser dolorosa. Será que teria coragem de assistir às contorções do corpo de Raul e deixá-lo morrer naquela agonia? Sua mão se conteve por alguns instantes, em que ela refletia. E se, após ministrado o remédio, se arrependesse? Teria tempo de salvar-lhe a vida? Não, não podia se arrepender. A polícia iria desconfiar e fazer perguntas, e logo descobriria que fora ela quem misturara o veneno ao licor. Não podia correr aquele risco. Ou despejava o veneno, ou levava-o de volta para a despensa.

A carta continuava jogada a um canto, o que reavivou todo o seu ódio. Deixar Raul viver significava permitir que ele continuasse amando Amelinha, e isso, ela não podia mais tolerar. Tinha a carta de suicídio, assinada por ele, e ninguém colocaria em dúvida a sua inocência. O frasco de veneno ao lado do licor mostraria que ele, deliberadamente, o havia ingerido, e ela sairia ilesa. Ninguém iria desconfiar. Nem Amelinha. Pena que não podia acusá-la. Se tentasse fazer com que ela parecesse haver assassinado o padrasto, alguém poderia começar a investigar e acabaria descobrindo a verdade. Não. O melhor seria vingar-se daquela maneira. Mataria Raul, não sem antes lhe impingir uma tortura moral, e deixaria que Amelinha se sentisse culpada pela sua morte, uma culpa que carregaria pelo resto de sua vida. Seria perfeito!

Sem mais dúvidas, despejou o conteúdo do frasco na garrafa de licor e agitou-a bem, tornando a ajustar a rosca no gargalo. Escondeu o frasco de veneno e o saca-rolha, trocou de roupa e deitou-se na cama, para esperar Raul voltar. Por volta das três da madrugada, ele apareceu mais bêbedo do que nunca, fazendo o maior estardalhaço para subir. Tereza sentiu o coração disparar, com medo de que Cristina acordasse com aquela barulheira. Mas a menina, que havia ido dormir mais tarde do que o habitual, ferrara no sono e não ouvira nada.

Raul entrou no quarto cambaleante, vendo tudo rodar a sua volta. Já nem se lembrava mais da carta que havia escrito e atirara a um canto. Saíra desatinado pela rua até o primeiro bar que encontrou aberto e só voltara para casa depois que todos os bares haviam fechado.

— Onde esteve? — perguntou Tereza, demonstrando uma animosidade excessiva.

— Por aí — foi à resposta seca.

— Bebendo, como sempre.

— E... Daí...?

— Quando é que vai deixar essa vida?

— Não me amole, Tereza...

— Você não se cansa de ficar por aí se embebedando? Não tem vergonha? Não tem consideração por mim?

Era preciso provocá-lo um pouco para que ele voltasse a pensar no álcool, o que não foi nada difícil.

— Deixe-me em paz... — tornou ele, a voz enrolada e pastosa.

Já ia se virando para sair novamente quando viu a garrafa de licor, propositalmente colocada em posição que chamasse a sua atenção. A passos incertos, passou a mão nela e por pouco não a deixou cair, quase levando Tereza ao pânico. Se ele quebrasse aquela garrafa, todo o plano iria por água abaixo.

Raul levou a garrafa aos dentes e facilmente arrancou a rolha, nem percebendo que o lacre já havia sido rompido e a rolha, recolocada. Entornou o liquido na boca com avidez, e ele desceu queimando pela sua garganta. O gosto era estranho, mas Raul não desconfiou de nada e tomou outro gole longo, que desceu queimando ainda mais que o primeiro. Subitamente, uma pontada no ventre fez com que ele levasse as mãos ao estômago, e, num primeiro momento, achou que já havia bebido demais. As náuseas o fizeram pensar que iria vomitar, mas nada aconteceu. O estômago é que agora parecia queimar, e ele dobrou o corpo sobre si mesmo, apertando a barriga com mais força.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Tereza se adiantou, indagando com fingida surpresa:

— O que está acontecendo, Raul? Não se sente bem?

— Não sei... — balbuciou ele. — Sinto uma queimação...

— Você já bebeu demais. Dê-me essa garrafa. Tereza tomou-lhe a garrafa das mãos e cheirou- a, fazendo cara de nojo e espanto.

— Isso tem cheiro de veneno de rato! — exclamou, afastando-a rapidamente do nariz.

— O quê? Co... Como...?

— Meu Deus, Raul! Amelinha o envenenou!

— Isso... Não é possível...

A dor agora era insuportável, e ele foi dobrando o corpo cada vez mais, até se ajoelhar, para, em seguida, deixar-se tombar no chão, de lado, contorcendo-se horrivelmente. Parecia que uma fogueira fora acesa em seu estômago, corroendo-lhe a carne e fazendo o sangue borbulhar.

— O que... Está... Acontecendo...? — conseguiu ainda articular.

Depois disso, não conseguiu dizer mais nada. Sentia uma dor terrível, os músculos do abdome se contraindo todos ao mesmo tempo. O ar começou a lhe faltar, a garganta seca o impedia de respirar. Parecia que todo o seu corpo se agitava em convulsões, enquanto a dor se alastrava pelo ventre.

— Ela envenenou você! — ainda ouviu Tereza gritar. — Amelinha envenenou você! Foi ela! Deu-lhe de presente uma bebida envenenada. E é essa a mulher que você diz amar! Foi ela, Raul! Ela envenenou você! Assassina! Amelinha é a assassina! Assassina...!

Raul já não ouvia mais nada. Tereza continuava a gritar, mas um torpor indescritível começou a tomar conta dele. A dor foi cedendo lugar a um formigamento, e todo o seu corpo foi sendo tomado por uma dormência de morte. Em breve, seus ouvidos ensurdeceram, os olhos perderam o brilho e os músculos se distenderam numa rigidez prematura. Raul estava morto. Levava consigo a lembrança de Amelinha, nas palavras de Tereza, acusando-a de assassina.

 

De posse do bilhete de suicídio, a polícia encerrou o caso sem maiores indagações. Estava claro que o homem, por não poder mais suportar a paixão pela enteada, dera cabo da própria vida. Todos acreditaram naquela versão, inclusive Cristina e a própria Tália, que não podia deixar de se sentir culpada. Se não tivesse partido daquele jeito, talvez aquilo não houvesse acontecido.

Como Tália ainda estava na cidade, hospedada no único hotel então existente, não foi difícil localizá-la. Ela assistiu ao sepultamento com pesar, sem trocar uma palavra sequer com a mãe ou a irmã. Depois que o caixão baixou à cova, voltou para o hotel, apanhou as malas e deixou a cidade de Limeira, aonde pretendia nunca mais retornar.

Intimamente, Tereza se regozijava. Conseguira a sua vingança. Não sentia nem uma pontinha de arrependimento, e ver Raul morrer, ao contrário do que a princípio imaginara, causou-lhe indescritível prazer. A tortura mental que lhe infligira nos instantes finais de sua vida deixou-a como que inebriada com o seu poder. Raul morrera achando que Amelinha o matara. Se questionara ou não o porquê daquele crime, era algo que ela jamais iria descobrir e que não tinha muita importância. O que importava era que ele ouvira as suas acusações e registrara na mente, em seus derradeiros momentos de vida, que Amelinha o envenenara propositadamente.

Ninguém sabia disso. Nem Cristina, que nada presenciara. Ferrada no sono, só despertou no dia seguinte, para encontrar a mãe na sala, de camisola, deitada no sofá. Tereza lhe dissera que adormecera esperando Raul, mas que não o vira chegar. Levantou-se sonolenta, espreguiçou-se e subiu para o quarto, onde sabia que ele jazia morto, com o frasco de veneno ao lado da garrafa caída e a carta de confissão atirada mais além.

A encenação de Tereza foi comovente. Chorou, esperneou, disse que não acreditava que aquilo tivesse acontecido a ela. Até Cristina se emocionou com tanto desespero. Mesmo Tália, que não acreditava no seu amor, não pôde deixar de se sentir penalizada. Os parentes e amigos foram unânimes em dizer que ela sempre fora o sustento daquela família e que aturara de Raul muito mais do que qualquer mulher poderia suportar. E tudo por amor a ele.

Tália voltou para o Rio de Janeiro com o coração partido e amargurado, torturada pelas acusações que Tereza lhe dirigia. Mauro e Ione tentavam consolá-la de todas as maneiras, dizendo que ela não podia ser responsabilizada pelo ato impensado de Raul, mas ela se sentia culpada por ter provocado o seu amor. Aos poucos, Tália foi se acostumando com a fatalidade, embora a mágoa daqueles dias permanecesse impressa em seu coração por muitos anos adiante.

— Pare de pensar nos mortos — disse Ione certa vez. — É com os vivos que precisa se preocupar.

— Que vivos?

— Sua irmã, por exemplo.

— Cristina é coisa do passado. Minha mãe foi categórica: não vai deixá-la vir morar comigo nunca. Ainda mais depois do que aconteceu.

— Pode ser. Mas ela deve estar sofrendo muito, ainda mais com a mãe que tem.

— Não posso fazer nada.

— Por que não lhe escreve uma carta?

— Para quê? Para lhe mandar mais dinheiro? Não, Ione, não farei mais isso. Ela e minha mãe que arrumem outra trouxa para sustentá-las.

— Você está transferindo para sua irmã a mágoa que sente de sua mãe. Cristina não tem nada com isso.

— Tem razão, Ione. Mas é que minha mãe não se cansa de me agredir.

— Sua mãe, não sua irmã. Vamos, Tália, escreva para ela. Dê-lhe o seu endereço. Aposto que, se você pedir, ela não contará a sua mãe e ficará muito satisfeita de poder se corresponder com você.

Tália acabou ouvindo os conselhos de Ione e, daquele dia em diante, ela e Cristina passaram a manter correspondência regular. Até que, cerca de dois anos depois, Tália recebeu uma carta em que a irmã lhe dizia que a mãe estava doente e precisava se tratar na capital, que era onde ficavam os melhores hospitais e médicos. Tália refletiu muito em tudo o que Cristina dissera. Por mais que detestasse a mãe, não podia deixá-la morrer à míngua. Afinal, era sua mãe e era graças a ela que estava viva, ainda que fosse essa a única coisa que lhe devesse. Tália acabou por ceder. Escreveu outra carta, oferecendo ajuda, e Cristina respondeu, aceitando.

Ficou combinado que as duas se mudariam para o Rio de Janeiro. Tália era agora uma pessoa influente e muito rica, e comprou uma casa para elas, não muito próxima da sua. Poderia cuidar da mãe sem envolvê-la em sua vida. Tereza aceitou a contragosto. Embora detestasse a filha, seu estado de saúde inspirava cuidados, e ela tinha medo de morrer. Por mais que dissesse a si mesma que não sentia remorso pelo que fizera, temia encontrar Raul na outra vida.

Depois de desencarnar, Raul não se demonstrou um espírito renitente nem empedernido. Passou alguns anos no astral inferior, mas logo foi resgatado, submetendo-se a um tratamento intensivo, para desintoxicação dos efeitos deletérios do álcool. Não demonstrava intenção de se vingar de Tereza, mas sentia ainda muita raiva pelo que ela lhe fizera. Ele não queria morrer. Escrevera aquele bilhete num momento de desvario, mas não pretendia levar a cabo o seu intento.

Tereza desconhecia esses fatos, mas, mesmo assim, tinha medo de que o fantasma de Raul a estivesse esperando do outro lado, e pretendia retardar a sua morte o mais que pudesse. Com o tratamento, começou a melhorar. Sofria de reumatismo e diabetes, mas a medicação e os cuidados adequados colocaram tudo sob controle, e ela pôde levar uma vida mais tranqüila, principalmente porque Tália não deixava que lhe faltasse nada.

Aos pouquinhos, tudo foi retomando a normalidade. Mesmo próxima Tália não permitia que a mãe interferisse em sua vida, e Tereza, por sua vez, preferia mesmo manter distância. Não conseguia sentir-se grata pelo que a filha fazia, achava mesmo que era sua obrigação, mas procurava não entrar em embates com ela. Tália a ajudava porque era seu dever de filha, e ela não via motivos para lhe demonstrar gratidão.

 

Por essa época, os espetáculos de Tália começaram a ganhar repercussão internacional, e ela chegou a viajar várias vezes para se apresentar em países como a Argentina e a França. Sempre que podia, Mauro a acompanhava, mas havia algo nele que a estava deixando deveras intrigada. Ele continuava caloroso como sempre, embora demonstrasse um quê de tristeza no olhar que ela não compreendia nem conseguia definir. Não raras eram às vezes em que ele evitava os compromissos sociais, deixando que ela comparecesse sozinha a jantares e festas.

Sua desculpa era sempre o cansaço, porque ninguém se esforçava tanto para o sucesso de Tália quanto ele. Darci praticamente colocara o teatro em suas mãos, consumindo-lhe tempo e forças muito além de sua capacidade. Mauro se alimentava pouco e quase não dormia. Trabalhava incessantemente, para que os espetáculos fossem sempre admirados, e Tália, mais e mais reconhecida.

Tália foi ficando famosa e cada vez mais rica. Os homens a idolatravam e as mulheres a invejavam, mas Tália não se deixava impressionar por nada disso. Tinha muitos fãs, que viviam a assediá-la, fazendo-lhe convites para jantares e oferecendo-lhe fortunas em troca de atenção, coisas que sempre recusava. Seu amor por Mauro permanecia intocado, e nada nem ninguém poderia se sobrepor ao que sentia por ele. Tudo parecia correr bem, e eles começavam a falar em casamento, até que veio a guerra na Europa...

As notícias da guerra causavam espanto a todos. A Europa enfrentava as forças inimigas com coragem e ousadia, e uma vitória dos aliados era esperada para pôr fim àquele combate sangrento. Vários navios brasileiros haviam sido afundados em águas brasileiras e internacionais, e o Brasil acabou por declarar guerra ao eixo em 1942.

Os espetáculos de Tália tinham então grande repercussão, fazendo referência, por vezes, a episódios, de guerra. Ela agora começava a experimentar uma beleza mais madura e definida, que ainda continuava a impressionar homens e mulheres. Choviam convites para espetáculos e até para apresentações em festas da alta sociedade, e Tália fazia apresentações particulares em clubes só para homens e festas reservadas. Com isso, sua fortuna ia aumentando, e ela começou a sentir necessidade de alguém que a ajudasse a administrar sua vida.

— Acho que sua irmã é a melhor solução — sugeriu Mauro.

— Cristina? Não sei. Isso é trabalho para quem entende do assunto.

— Pois acho que Cristina daria uma ótima secretária e é alguém em quem podemos confiar.

— Você acha?

— É claro. Veja bem: Cristina é de confiança, jamais iria nos enganar ou trair. Podemos deixar tudo por conta dela. Ela pode cuidar de toda a sua parte financeira, agendar seus compromissos, datilografar sua correspondência...

— O que você acha Ione? — indagou ela à amiga, que vinha entrando na sala.

— Do quê?

— De contratar Cristina como minha secretária particular?

— Excelente idéia! Ela é uma moça inteligente e fina, e pode ajudar muito você. Sem contar que não a inveja nem quer tomar o seu lugar.

— Viu, Tália? — tornou Mauro. — Até Ione concorda comigo.

Tália pensou por alguns minutos, mas já estava decidida. Embora ela e a irmã não fossem propriamente amigas íntimas, Cristina era uma boa pessoa e sempre fizera tudo para ajudar. Já estava com vinte e quatro anos e só ficava em casa, cuidando da mãe doente.

— Será que minha mãe não vai se opor? — disse Tália, mais para si mesma do que para os outros.

— Depois que ficou doente não larga Cristina para nada.

— Você pode colocar uma enfermeira para ela —  aventou Mauro.

— É uma possibilidade.

— Olhe, Tália — acrescentou Ione —, sua irmã é uma moça muito bonita e já está passando da idade de se casar. Não é justo o que sua mãe está fazendo com ela.

— É verdade — concordou Mauro. — Cristina é uma bela mulher e está sozinha até hoje porque sua mãe não lhe dá chance de conhecer ninguém. Vai ser bom para ela ter um pouco de liberdade.

Eles tinham razão. A mãe sempre dissera que esperava para Cristina um bom casamento, mas nunca lhe permitira se aproximar de nenhum rapaz. Principalmente depois que Raul morrera, ela fazia as mais variadas chantagens para atrair a atenção e a piedade de Cristina. Com medo de que algo de ruim lhe acontecesse, Cristina acabava sempre cedendo e permanecia ao seu lado, deixando de viver a própria vida.

— Sabem de uma coisa? Vocês estão cobertos de razão. Vai ser bom para Cristina desgrudar um pouco de mamãe. Terá chances de conhecer um bom rapaz e ainda ganhará o seu próprio dinheiro.

— E será ótimo para você também, não se esqueça — completou Mauro.

— Sim, será.

No mesmo dia, Tália foi ao encontro de Cristina. A irmã estava sentada com a mãe no jardim, ajudando-a com um bordado, quando ela chegou. A criada que Tália contratara para auxiliar no serviço doméstico levou-a até elas e se retirou. Quando Cristina a viu chegar, soltou sua parte no bordado e levantou-se para abraçá-la:

— Tália, mas que surpresa! Há quanto tempo não vem nos ver.

Tália correspondeu ao seu abraço e olhou para a mãe, que nem levantou os olhos do bordado.

— Como está passando, mamãe? — perguntou ela, tentando parecer cordial.

— Como Deus quer.

— Você me parece muito bem disposta.

Ela não respondeu e continuou o que estava fazendo, mas Cristina, tomando o braço de Tália, fez com que ela se sentasse no banco, a seu lado.

— Diga-me, Tália, o que foi que a trouxe aqui. Não se trata apenas de uma visita, suponho.

— Imagine se sua irmã ia se dar o trabalho de parar sua vida para vir nos visitar! — retrucou Tereza, com ar de mofa. — Sua irmã é uma mulher muito ocupada, Cristina, não tem tempo a perder.

Procurando não dar atenção a suas ironias, Tália não respondeu. Virou-se para a irmã e falou pausadamente:

— Vim aqui, especialmente, para falar com você, Cristina. Gostaria de lhe fazer um convite.

— Um convite? O que é? Uma festa?

— Não, não se trata de festa. Trata-se da sua vida. Eu andei pensando... Você já é uma mulher e está presa aqui...

— Sua irmã não está presa aqui! — rebateu Tereza, agora furiosa. — Ela é livre para ir aonde bem entender. O que acontece é que o Rio de Janeiro é uma cidade muito perigosa para uma mocinha.

— Cristina não é mais nenhuma mocinha — protestou Tália, lutando para não se descontrolar. — É uma mulher agora. Bonita e inteligente, e está desperdiçando a vida, trancada nesta casa.

— Ela gosta de cuidar de mim. E não está trancada. Pode sair à hora que quiser.

— Ouça, mãe, não vim aqui para discutir com você. Vim para falar com Cristina, e gostaria de falar na sua frente, para que ela não tenha que repetir tudo depois. O fato é que vim até aqui para lhe oferecer um emprego.

— Um emprego? — indignou-se Tereza. — De quê? De corista no seu teatro? Nada disso! Bem sei que tipo de emprego pode haver onde você trabalha.

— Por favor, mamãe! — zangou-se Cristina. — Está ofendendo Tália e falando do que não sabe. Deixe-a terminar o que veio dizer.

Tália lançou-lhe um olhar agradecido e continuou:

— Como eu ia dizendo, vim lhe oferecer um emprego. É para trabalhar comigo, como minha secretária particular. — O espanto no olhar de Cristina foi tão genuíno que Tália achou que havia dito algum absurdo. — Veja bem, Cristina, não me leve a mal. Eu só pensei que você talvez gostasse de ter o seu próprio dinheiro e, mais do que isso, ter uma vida social. Como é que pensa em arranjar um marido se não sai de casa? Mas se você não quer, não faz mal... Posso arrumar outra pessoa...

— Não, não! — cortou Cristina, agora conseguindo dominar o espanto. — Estou encantada! Trabalhar com você é tudo com que poderia sonhar.

— Você quer dizer que aceita?

Ela olhou para a mãe, que observava a cena com o ódio transbordando no olhar, e hesitou uns instantes:

— E quanto à mamãe? Ela não pode ficar sozinha, e a empregada não dá conta.

— Vou pagar uma enfermeira para cuidar dela. Não vai lhe faltar nada.

Podia-se perceber claramente o entusiasmo de Cristina. Ela se dividia entre o desejo de aceitar aquela oferta maravilhosa e o medo que sentia de que a mão não aprovasse.

— Cristina! — berrou Tereza, notando a sua hesitação. — Não vá me dizer que você vai aceitar esse trabalho indecente!

— O que há de indecente em secretariar uma atriz — replicou Tália, agora bastante irritada. — Indecente, para mim, é uma mãe velha que não se importa do ver a filha perdendo a juventude e que só pensa em si. Será que não lhe ocorreu, mamãe, que a sua vida está no fim, mas que Cristina ainda tem muito que viver?

— No fim? Por quê? Pretende me matar corria matou seu padrasto?

— Eu não o matei! — vociferou Tália, levantando se de um salto. — Não é culpa minha se ele se suicidou

— Você viu o bilhete! Ele se suicidou por sua causa! Porque você o enfeitiçou com esse seu jeito de... Meretriz!

Por pouco Tália não a esbofeteou. Foi preciso reunir todas as forças de que era capaz para conseguir se conter.

— Não tenho mais o que fazer aqui — respondeu ela com frieza. — Cristina, o convite está feito. Pense bem e depois me dê uma resposta. Mas cuidado: pense com a sua cabeça, faça o que é do seu desejo. Não deixe que mamãe a convença a viver numa sepultura.

Deu as costas e saiu apressada. Não podia agüentar nem mais um minuto a presença da mãe. Por que ela tinha que ser tão insuportável? Porque a odiava tanto? Cristina ficou vendo-a se afastar, remoendo o desagrado com as palavras da mãe. Depois que ela desapareceu, virou-se para Tereza e, com ar decidido e aborrecido, declarou:

— Mamãe, sempre fiz tudo pela senhora, o que me pediu e até o que não pediu, porque está doente e sozinha. Mas Tália tem razão. Não é justo que eu deixe de viver a minha vida para que a senhora viva a sua.

— Filha ingrata! Depois de tudo o que lhe fiz como pode voltar-me as costas?

— A senhora está sendo teatral, mamãe. Tália disse que vai pagar alguém para cuidar da senhora, nada vai lhe faltar. E depois, não vou me mudar. Vou trabalhar e, quando terminar, volto para casa.

— Você vai me deixar. Vai encontrar um homem e vai se perder, como sua irmã.

— Não diga bobagens, mãe. Não vou me perder. E depois, já não sou mais uma garotinha. A maioria das moças, na minha idade, já está casada.

— Mas você ainda pode arranjar um bom partido. Não se deixe enganar pelas facilidades que Amelinha Oferece.

— Ela não está me oferecendo facilidade alguma. Ofereceu-me trabalho. A sua mente distorcida é que está colocando intenções escusas onde só existem bons propósitos. E depois, ela tem razão: como posso me casar se não saio de casa, não vou a lugar algum?

— Deus coloca a pessoa certa no nosso caminho, minha filha. Não precisa sair correndo atrás de ninguém.

— Pode até ser. Mas como descobrir que a pessoa certa está no meu caminho se eu não sigo caminho nenhum? O fato, mamãe, é que a senhora, lá no fundo, não quer que eu me case porque tem medo de ficar sozinha. Mas isso não vai acontecer. Garanto-lhe que, enquanto viver, não deixarei de lhe dar assistência.

— Diz isso agora. Depois que conhecer um homem que lhe virar a cabeça, nem vai mais se lembrar de que eu existo.

— Não é verdade. Não sou uma pessoa egoísta e nem mal-agradecida.

Tereza percebia, nitidamente, que estava perdendo terreno para a filha. Ela parecia mesmo decidida a aceitar o emprego que Tália lhe oferecia, o que significava que começaria a sair mais e, provavelmente, em breve conheceria alguém. Ela era bonita e inteligente, e não lhe iriam faltar pretendentes. Mais um pouco e se casaria, deixando a casa e a ela. Não adiantava gritar nem discutir. Ela estava começando a perder a autoridade sobre a filha, que já não era mais criança e saíra de seu controle.

— Por favor, Cristina, não aceite esse trabalho — ela quase implorou, deixando que as lágrimas lhe umedecessem os olhos. — Vou ficar abandonada e só. O que será de mim com uma enfermeira estranha o fria? Ninguém vai cuidar de mim como você.

— A senhora está exagerando. Até parece que é inválida. A enfermeira será mais uma dama de companhia, assim como eu estou sendo.

— Por favor... Não pense só em você, pense um pouquinho em mim.

— Estou pensando em nós duas, e é por isso que vou aceitar o emprego.

— Não faça isso, eu lhe imploro.

— Não adianta mãe. Já está decidido. Quer a senhora aprove ou não, vou trabalhar com Tália.

— Maldita Amelinha! — vociferou ela, atirando ao chão o bordado. — Tirou-me o marido e a felicidade. Quer tirar-me também a filha!

— Ela também é sua filha, por mais que a senhora não goste e nunca se lembre disso.

Cristina apanhou do chão o bordado que ela atirara, passou a mão para limpá-lo e tornou a colocá-lo no colo de Tereza. Gentilmente, acariciou-lhe o rosto, deu-lhe um beijo suave e entrou em casa. Tomou banho, vestiu-se e saiu ao encontro de Tália, disposta a iniciar uma nova vida, a se transformar em mulher.

 

Em uma semana, Cristina já havia aprendido todo o serviço. Familiarizara-se com a conta bancária, a correspondência, a agenda, os compromissos. Como era inteligente e caprichosa, logo colocou a vida da irmã em dia, deixando-a satisfeita, sem que tivesse que se preocupar com nada. Tinha duas pessoas de confiança trabalhando para ela: Ione, que cuidava da casa, e Cristina, que cuidava de sua vida pessoal. Agora podia dedicar-se à dança com muito mais tranqüilidade, sem se deter nos afazeres que a vida diária lhe impunha.

Tália partiu para o teatro mais satisfeita do que nunca naquela noite de sábado, mas notou algo estranho ao chegar. Darci, dono da casa noturna, estava acabrunhado e arredio. Mal a cumprimentou, evitando encará-la de frente.

— O que foi que houve Darci? — perguntou ela, tintando puxar assunto.

— Nada. Depois do espetáculo, falaremos.

Tudo transcorreu normalmente, como sempre. Tália dançou como nunca, e os aplausos se derramaram sobre ela, junto com uma chuva de flores. Depois que todos se foram, ela se juntou a Mauro e ao resto da companhia, para esperar Darci. Estavam todos ali presentes, desde as estrelas do espetáculo até os rapazes da bilheteria.

— O que será que está acontecendo? — indagou uma corista.

— Não sei — respondeu outra. — Será que vamos todos ter aumento?

— Vai ver, seu Darci foi convocado para a guerra — gracejou um rapazinho de óculos.

— Por que não esperamos para ver? — tornou Mauro, irritado com aquela conversa.

— Você sabe o que é — sussurrou Tália ao ouvido dele.

Nesse momento, Darci entrou em companhia de outro homem, bonito, elegante, discreto, usando uns óculos fininhos, que lhe emprestavam um ar maduro e intelectual, o tipo do gentleman.

— O motivo de eu ter reunido todos aqui — começou Darci, sem nem cumprimentar os presentes —, é para anunciar que, a partir de hoje, vocês terão um novo patrão. Trata-se do senhor Honório Passos Pompeu, aqui presente, novo dono do teatro...

Com um gesto de mãos, Darci apresentou Honório, que deu um passo adiante e cumprimentou a todos com um sorriso espontâneo.

— Boa noite — falou ele, com uma voz suave e, ao mesmo tempo, firme e segura. — Darci já me apresentou, por isso, não vou ficar me repetindo. Sei que, para muitos de vocês, será difícil conviver com um novo patrão. Mas quero que saibam que estou disposto a trabalhar pelo melhor, e as modificações que pretendo empreender não prejudicarão nenhum de vocês.

— O que o senhor quer dizer com isso? — perguntou uma dançarina mais ousada.

— Quero dizer que não pretendo despedir ninguém, a não serem aqueles que não se adaptem ao meu ritmo de trabalho.

— E que ritmo é esse?

Ele estendeu os braços e deu de ombros.

— Pretendo renovar o espetáculo, e todos vocês passarão por mudanças. Aquilo a que estão acostumados, podem esquecer. Tenho idéia de fazer um espetáculo no nível daqueles exibidos na Europa, onde a nossa estrela, eu sei, já teve oportunidade de se apresentar.

Disse isso e apontou para Tália, que o observava em silêncio, sem saber o que pensar. Mudanças no ritmo do espetáculo poderiam implicar em muitas coisas, principalmente, a despedida de Mauro. Ela balançou a cabeça, pigarreou e ergueu a mão, perguntando em seguida:

— Senhor Honório, por favor. Um espetáculo como os exibidos na Europa requer um coreógrafo familiarizado com os padrões europeus. Tem alguém assim em mente?

— Você não entendeu minha cara. Quando digo Europa, estou me referindo à qualidade do espetáculo, à organização, ao vestuário, à orquestração e iluminação. Mas a coreografia há de ser sempre a nossa. Somos nós que temos o melhor samba, as melhores modinhas, a melhor música e, conseqüentemente, o bailado mais exuberante, do qual a senhorita é nossa mais ilustre representante.

Seu jeito de falar agradou Tália, que sorriu embevecida.

— O senhor quer dizer com isso que eu, particularmente, não serei atingido pelas suas mudanças? — era Mauro quem perguntava.

— Exatamente. Sei, por Darci, que o senhor é excelente coreógrafo e não pretendo me desfazer de seus serviços. Ao contrário, espero que possamos trabalhar juntos.

— E quanto a nós? — tornou uma corista.

— Como eu disse, vocês não precisam se preocupar com nada. Não pretendo despedir ninguém, seja em que função estiver. Se obtiver colaboração, todos podem contar com seus empregos.

Durante o resto da madrugada, continuaram conversando, fazendo perguntas que Honório ia respondendo de forma desembaraçada e cativante. Ao final da reunião, já havia conquistado a simpatia de praticamente todos os empregados. Já estava quase amanhecendo quando se despediram, e Tália seguiu para casa em companhia de Mauro, agora em seu automóvel importado.

— Por que não me contou? — indagou Tália.

— Contar o quê?

— Você sabia que Darci tinha vendido o teatro. Por que não me disse nada?

— Eu não sabia. Tinha esperanças de que isso não acontecesse.

— Mas você sabia que ele pretendia vender?

— Darci está mal de dinheiro. Coloca a culpa na guerra, mas eu sei que é porque ele gasta tudo o que tem em jogatinas. Endividou-se até a alma a agora não tem como pagar o que deve. Eu ainda tentei contemporizar, dizendo que a féria dos espetáculos daria para cobrir suas dívidas, mas toda ela já estava comprometida com os credores. Até nossos salários corriam o risco de ser cortados, e ele disse que ia hipotecar o teatro, para evitar a falência. Hoje, porém, apareceu aqui com esse Honório, e quando disse que queria conversar conosco, eu já imaginava o que iria acontecer.

Ela suspirou e olhou pela janela do automóvel.

— Você não gostou de Honório, não foi?

— Não é que não tenha gostado. Há algo nele que não me agrada.

— Ele é um cavalheiro. Viu como falou de mim?

— Você está impressionada porque ele a cortejou, só isso.

— Ele não me cortejou! Elogiou o meu talento.

— Ele está de olho em você, como todo mundo. Só espero que você não se deixe atrair pelo seu tipo galante e conquistador.

— Você está com ciúmes.

— Estou sim. Não gostei do modo como ele falou de você.

— Ele não disse nada que você já não tenha ouvido de outros.

— Não foi o que ele falou, mas a maneira como falou. Senti o seu interesse.

— Interesse que você, ultimamente, não tem demonstrado...

Mauro pisou no freio e o automóvel parou bruscamente.

— O que foi que disse?

— É isso mesmo, Mauro. Tenho notado a sua distância.

— Isso não é justo. Trabalho duro para poder lhe dar uma vida confortável.

— Você sabe que não preciso disso. O que ganho é suficiente para nós dois.

— Sou homem, sempre trabalhei para ganhar meu sustento. Não posso agora viver à sua custa.

Quando eu a conheci, você era uma menina assustada e indefesa, e precisava de mim. Eu descobri a sua beleza e ajudei a revelar o seu talento. Acreditei e investi em você, ensinei-lhe tudo o que você sabe. E você aprendeu muito bem, porque está no seu sangue, você nasceu para isso. Hoje você ganha muito dinheiro não precisa mais de mim.

— Não preciso? E o amor, onde é que fica, Mauro? Não percebe que preciso de você mais do que qualquer outra coisa no mundo?

Ele deu um sorriso irônico e rebateu com desdém:

— Será que precisa mesmo? Ou será que está presa ao passado, à gratidão que sente pelo que fiz por você?

— Como pode dizer uma coisa dessas? Eu o amo!

— Tenho medo de ter me transformado mais em pai do que em amante para você.

Com a ponta dos dedos, ela cerrou os seus lábios, impedindo-o de falar, e retrucou em tom de súplica:

— Case-se comigo.

— Não sei se isso é o melhor para nós.

— Eu amo você.

— Não sei...

— A não ser que você não me ame.

— Não diga isso nunca mais! Pois se tudo o que fiz e faço é por amor a você!

— Se é verdade, então se case comigo...

Não havia como negar que Mauro amava Tália profundamente, e apesar de temer que o amor dela fosse algo passageiro ou ilusório, ele não tinha como recusar. Estava irremediavelmente preso a ela, e seus olhos encheram-se de lágrimas quando a tomou nos braços e, ao invés de responder, perguntou entre o gracejo e a ternura:

— Quantos filhos você quer ter?

— Oh! Mauro! Isso quer dizer que você quer se casar comigo? Você quer, não quer?

Ele apenas assentiu e a beijou, mas ela se esquivou eufórica e começou a divagar:

— Faremos um casamento em grande estilo. Já estou até vendo as notícias: "Tália Uchoa e Mauro Sodré em enlace matrimonial coberto de glória e pompa. '' Vai ser maravilhoso!

— Faz questão de que seja assim?

— Por quê? — decepcionou-se ela. — Você não quer?    

A vontade de Mauro era lhe dizer que não queria nada daquilo; só uma cerimônia pequena e íntima, com apenas alguns poucos convidados, mas Tália estava radiante com a possibilidade de brilhar novamente nos jornais. Aquilo não tinha a menor importância para ele, mas Mauro não tinha coragem de estragar a sua felicidade. Não era justo pedir-lhe que abrisse mão do brilho a que tinha direito só por causa de suas cismas e do complexo de inferioridade que sentia com relação a ela, complexo que ela nem suspeitava existir.

Incapaz de negar o que ela pedia, Mauro afagou o seu rosto e respondeu com uma tristeza que ela, envolvida pela felicidade do momento, não conseguiu perceber:

— Está bem, Tália, faremos como você quer.

 

Como Cristina não costumava ir ao teatro, eram poucos os amigos de Tália que ela já vira, sendo que, alguns, só conhecia por telefone. Era o caso de Honório, com quem ela nunca se encontrara pessoalmente. No dia da festa de noivado de Tália e Mauro, ele foi dos primeiros a chegar e foi recebido por ela, que fazia às vezes de anfitriã, enquanto a irmã terminava de se aprontar. Tália tencionava entrar no salão quando a festa já estivesse iniciada, a fim de causar efeito nos convidados.

— Boa noite, senhor Honório — cumprimentou ela, lendo seu nome no convite. — Finalmente nos conhecemos.

— Você só pode ser Cristina, irmã de nossa estrela — respondeu ele, beijando de leve a sua mão. — Estou, realmente, encantado.

— Obrigada. Tália fala muito bem do senhor.

— Por que não deixamos o senhor de lado? — ela riu do seu jeito galante e o introduziu no salão praticamente vazio. — Vejo que cheguei cedo. É um dos meus defeitos, Cristina, ser pontual, seja em que ocasião for.

— Não creio que pontualidade seja defeito. Para mim, é uma qualidade admirável.

— Não tão admirável quanto a sua beleza.

Ela corou violentamente. Não estava acostumada a receber elogios assim tão diretos.

— Está sendo gentil... — gaguejou.

— Estou sendo sincero. Espero que não se aborreça nem me ache muito atrevido, mas ouso dizer que você e sua irmã são as mulheres mais bonitas que já conheci em minha vida. Sua irmã já tem dono. Mas você...

Ela corou mais ainda, assustada com a sua ousadia. Honório era um homem muito atraente, fino e elegante, mas não era nada conservador. Filho único de um magnata da indústria cafeeira herdou as indústrias e, com elas, uma grande fortuna, que se dispôs a gastar com algo que lhe desse prazer. Deixou a indústria nas mãos de um primo, muito mais interessado nos negócios do que ele jamais seria, e passou a dedicar-se exclusivamente às artes. Comprou galerias, montou uma livraria e uma escola de música, comprou um teatro. Investia em tudo o que fosse artístico e, como era inteligente, empreendedor e dotado de excelente visão dos negócios, soube multiplicar o dinheiro que investiu, obtendo retorno certo com uma atividade que era puro prazer.

Despido de preconceitos e avesso às convenções sociais, Honório se entendia bem com todo tipo de gente, desde os mais humildes até os mais poderosos, Bastava que fossem pessoas interessantes para que ele entabulasse uma conversa agradável e cativante. Acima de tudo, amava as mulheres e a boa música, não perdendo nenhuma festa, a que ia sempre |acompanhado de alguma beldade.

No noivado de Tália, foi diferente. Até então, nenhuma mulher o havia impressionado tanto quanto sua estrela favorita, mas agora, conhecia Cristina. Olhando para o seu rosto, pôde notar algumas semelhanças entre ela e Tália, embora não fossem, propriamente, parecidas.

— Ora, ora, se não é o nosso querido chefinho que já chegou — ele ouviu uma voz dizer atrás de si.

Ao se virar, Honório encontrou um Mauro sorridente e descontraído, radiante de tanta felicidade.

— Boa noite, Mauro — cumprimentou ele, polidamente. — Linda casa, a sua.

— Minha e de Tália — a inclusão da noiva foi proposital, uma forma de dizer ao outro que Tália e ele, há muito, já estavam comprometidos. — Mas seja bem-vindo. Vejo que já conheceu a minha futura cunhada, Cristina.

— Seria impossível não conhecer. Uma moça assim tão linda logo me chamou a atenção, e você sabe como me comporto diante de mulheres bonitas.

— O senhor Honório é muito galante — observou Cristina, ainda ruborizada, tentando se acostumar ao seu jeito despojado.

— Cuidado com ele, Cristina. Nosso chefe é famoso por cortejar mulheres bonitas.

— Creio que você não está lhe fazendo justiça, Mauro. Todas as mulheres perdem o brilho se comparadas à beleza de Cristina.

Era verdade que Honório achava Cristina uma mulher muito bonita, contudo, não era propriamente para ela que endereçava tantos elogios. De forma inconsciente, ao exaltar sua beleza, era para Tália que falava, declarando para Cristina tudo aquilo que tinha vontade de dizer à sua irmã.

— Muito bem, meu amigo — contrapôs Mauro, que não pôde deixar de sorrir. — Lembre-se apenas de que Cristina é irmã de Tália, vai ser minha cunhada e, portanto, minha irmã também.

— Não se preocupe meu caro, porque não pretendo lhe tirar nenhum pedaço.

Todos riram, e Mauro foi recepcionar os outros convidados, já que Cristina se encontrava presa ao magnetismo de Honório. Seria até bom que ele se aproximasse dela. Mauro não precisaria mais se preocupar com o seu interesse por Tália, e ele seria um bom partido para Cristina. Seria excelente idéia juntar aqueles dois.

Quando a festa já ia a meio, Tália resolveu aparecer, deslumbrante em seu vestido de seda marfim e brincos de brilhantes. Quando surgiu descendo as escadas, os convidados emudeceram boquiabertos ante a sua beleza estonteante. Ela foi descendo devagarzinho, olhando para todos e sorrindo sedutoramente. Os convidados começaram a bater palmas, e Honório, tentando conter a admiração, ouviu Cristina dizer baixinho:

— Essa minha irmã... Parece até cena de fita americana.

— Está com ciúmes de sua irmã, minha querida? — ele soprou ao seu ouvido.

— Não. Ao contrário, acho-a exuberante e corajosa. Uma mulher para se admirar e respeitar.

Tália chegou ao pé da escada e logo foi envolvida pelos convidados, que se apinhavam para dar-lhe parabéns. Ela estendeu a mão para Mauro, que a abraçou e a beijou longamente na boca.

— Senhoras e senhores — disse ele —, minha noiva dispensa maiores apresentações. Sejam bem-vindos a nossa casa e aproveitem a festa.

Durante o resto da noite, Honório não largou Cristina um minuto sequer. Sentia-se atraído por ela como se ela fora Tália, e nenhum dos dois percebia isso.

— Notou como nosso chefe se interessou pela sua irmã? — perguntou Mauro a Tália. 

Tália não havia notado. Estava ocupada em controlar a mãe, para que ela não dissesse nada desagradável a ninguém, e nem teve tempo de reparar em Cristina.

— O que foi que disse?

— Honório. Não tira os olhos de Cristina. Aliás, nem os olhos, nem as mãos. Dançou com ela a noite inteira.

Foi só então que Tália reparou nos dois, dançando juntinhos no meio do salão. Aquela visão não a agradou, embora soubesse que deveria se sentir satisfeita por ver a irmã encontrar um admirador que estivesse à sua altura. Algo, porém, não caiu bem em seu sentimento. Não sabia se era ciúme, inveja ou despeito. Achava que Honório era seu admirador incondicional, e vê-lo todo derretido nos braços da irmã causou-lhe estranha comoção.

— Isso não está certo — recriminou ela. — Honório não é para Cristina.

— Porque não? — surpreendeu-se Mauro. — É rico, charmoso, bem relacionado. O que mais ela poderia desejar?

— É mulherengo. Sua fama é de todos conhecida.

— Não exagere Tália. Honório é mulherengo porque ainda não encontrou mulher que lhe ponha cabresto. Quem sabe Cristina não é essa mulher?

— Que jeito mais vulgar de falar, Mauro...

Sem que eles percebessem, Tereza havia se aproximado por trás e escutara parte do que diziam, intrometendo-se em sua conversa:

— Quem é aquele que está dançando com sua irmã?

Não fosse a intervenção de Mauro, Tália teria lhe gritado um desaforo.

— Aquele é Honório Passos Pompeu, Dona Tereza, o dono do teatro em que trabalhamos.

— Humpf... — fez ela baixinho. — Mais um vagabundo.

— Mamãe, por que tem que ser tão desagradável? Por acaso o conhece para falar assim desse jeito?

— Tenha calma, Tália. Sua mãe está apenas preocupada com Cristina, não é isso, Dona Tereza?

Ela não respondeu. Não gostava de Mauro. Sabia que fora ele o responsável pela fuga de Tália da pensão de Janete em São Paulo, o que já o transformava num quase marginal. E depois, eles viviam juntos naquela casa, em pecado carnal, como se casados fossem.

— Eu bem que avisei a ela que acabaria tendo o mesmo destino de Amelinha.

— Tália, mamãe, Tália! — exaltou-se ela. — Porque é tão difícil para você me chamar pelo meu nome?

Tereza deu de ombros e foi sentar-se numa poltrona mais perto do salão de danças, para melhor observar o homem com quem Cristina estava dançando. Mauro ficou vendo-a se afastar e segurou Tália pelos ombros.

— Procure se acalmar, querida. Hoje é um dia especial para nós. Não deixe que sua mãe estrague isso.

— Não sei por que fui convidá-la. Ela é desagradável e ofende nossos convidados. Seria melhor se não tivesse vindo.

— Mas ela está aqui e temos que lidar com isso. Vou pedir a Ione que fique de olho nela e cuide para que não destrate ninguém.

— Obrigada.

Enquanto Mauro saía ao encontro de Ione, Tália ficou vendo a irmã e Honório dançando, rindo do que diziam um ao outro. Não conseguia compreender por que a visão dos dois juntos não a agradava. Procurou Mauro com os olhos e encontrou-o falando com Ione, dando-lhe instruções a respeito de Tereza. Sentiu imensa ternura por ele e um forte desejo de estreitá-lo. Olhou novamente para Honório e teve a mesma sensação de desagrado, virando-se de novo para Mauro. O que sentia ao vê-lo era diferente. Só Mauro fazia seu coração disparar, enchia seu corpo e sua alma de felicidade, causava-lhe imenso desejo de estar com ele e amá-lo para sempre. Fosse o que fosse que Honório provocasse nela, não era amor.

Enquanto isso, Cristina ia se deixando envolver mais e mais pelo charme de Honório. Ele era uma pessoa cativante e divertida, e tudo o que dizia lhe causava graça. De tão distraída, nem notou que a mãe a vigiava à distância e que Tália a observava discretamente. Só o que lhe importava era a sensação prazerosa que a proximidade de Honório lhe causava.

 

Sob a direção de Honório, os espetáculos de Tália ganharam ainda mais repercussão do que já possuíam. As transformações por que o teatro e o elenco passaram foram muitas: Honório renovou o guarda-roupa das coristas, fez alterações em penteados e maquiagens, contratou novos músicos para trabalhar em arranjos mais modernos, colocou mocinhas vendendo cigarros, bem ao estilo americano, e inovou a platéia, introduzindo mesas em lugar de cadeiras de auditório. O teatro passou a ser uma verdadeira casa de espetáculos, onde as pessoas podiam ir para assistir um bom show, beber e comer à vontade, sem aquele formalismo dos teatros tradicionais.

Para Mauro, contudo, as coisas eram diferentes. Embora Honório não estivesse muito satisfeito com os passos de dança que ele criava, não se atreveu a desfazer-se dele, com medo de desagradar sua estrela favorita. Sabia que Tália romperia o contrato com ele se despedisse Mauro e optou por conservá-lo no teatro, embora procurasse mantê-lo informado sobre todas as novidades no mundo dos espetáculos, dando opiniões e fazendo sugestões baseadas no que havia visto em outras casas de sucesso.

Por mais que detestasse aquelas interferências, Mauro era muito cauteloso no trato com Honório. Não que temesse ser despedido ou substituído por outro coreógrafo mais talentoso. O que não queria era afastar-se de Tália, embora se sentisse incomodado pelo fato de estar vivendo à sua sombra, como ele mesmo sempre dizia. Silenciou para não a perder, mas vivia insatisfeito com a sua vida, longe da realização profissional com que um dia sonhara.

Até que, numa tarde chuvosa do verão de 1944, a vida de Mauro se modificou. Ele teve a triste notícia de que estava sendo convocado a servir na Força Expedicionária Brasileira, devendo apresentar-se imediatamente para treinamento e posterior embarque para a Itália.

— Não pode ser verdade! — lastimava Tália, entre o desespero e a raiva. — Não podem convocá-lo assim desse jeito. Nós vamos nos casar!

— O exército não quer saber disso, minha querida — objetou Mauro, tentando ser forte para dar-lho ânimo. — Mas não se preocupe. Vá continuando com os preparativos. Em breve estarei de volta, e você vai estar se casando com um herói.

— Não quero me casar com nenhum herói. Quem você do jeito que é, mas vivo. Não é justo. Essa guerra não é nossa, estamos bem longe do conflito. Por que é que você tem que ir?

— Porque o governo me convocou. Não posso me recusar.

— Mas é perigoso...

— Nem tanto. Vou só dar uns tirinhos e depois volto. Você não acha que eu vou morrer por lá, acha?

— Não, claro que não — objetou ela acabrunhada. — Tenho certeza de que você vai voltar. Mas ficar longe de você todo esse tempo... E no meio de um conflito tão cruel! Vou morrer de preocupação e medo.

— Pois não deve. Confie em mim, e logo essa guerra acabará e eu voltarei para você.

— Promete?

— Prometo.

Tália esboçou um sorriso forçado, aninhando-se em seus braços, os olhos úmidos de medo. Não podia sequer imaginar que Mauro corresse o risco de perecer naquele conflito. Para ela, a guerra era quase uma abstração, e não parecia viável que alguém tão próximo fosse perder a vida naquele país longínquo, lutando por pessoas que nem conhecia, em uma terra à qual não pertencia. Tudo parecia um pesadelo, mas ela estava segura de que, no fim da guerra, Mauro voltaria ileso para os seus braços, e eles poderiam então se casar. A morte, apesar de tudo, soava como uma fantasia distante, da qual Mauro e seu mundo não faziam parte.

No dia da partida, Tália levou Mauro ao porto, acompanhada de Cristina, Ione e Honório, que, em função de sua miopia, não foi convocado. Depois de muitos abraços e beijos, Mauro conseguiu afastar-se de Tália um pouco e puxou Honório pelo braço.

— Gostaria de lhe pedir uma coisa — começou ele, olhando de soslaio para Tália.

— O que quiser, meu amigo.

— Cuide de Tália por mim. Enquanto eu estiver fora, cuide para que não lhe falte nada. E se algo me acontecer... — calou-se, como que antevendo um futuro funesto.

— Nada vai lhe acontecer — encorajou o outro.

— Ouça Honório, eu estou partindo para uma guerra! Não vou viajar a negócios nem a passeio. Tália parece ainda não se ter dado conta da situação, mas eu sei os riscos que corro. Voltar e não voltar são alternativas percentualmente idênticas.

— Não diga isso. Mauro. Você está temeroso, eu sei, mas tenho certeza de que vai voltar são e salvo.

— Não sei. Algo em meu coração me diz que estou partindo para encontrar o meu destino. Se isso acontecer... Se isso acontecer, por favor, não saia do lado de Tália. Sei o quanto você gosta dela e sei também que ela não lhe é de todo indiferente.

— Mas que bobagem. Mauro, Tália o ama.

— Jamais duvidei disso, mas ela pode vir a amar você também. Se eu não voltar, por favor, cuide para que isso aconteça. Se a ama de verdade, procure fazê-la feliz.

— Você não devia falar assim. Pode dar azar.

— Não acredito em sorte nem em azar. Creio apenas no destino. E o meu, acho que já está traçado.

Voltou os olhos para o navio que estava ancorado no cais e olhou para o mar em seguida, como que a indicar que seu destino seria levado através das águas por aquela embarcação.

— Quisera eu que nada disso estivesse acontecendo — comentou Honório.

— Mas está. É a realidade, e não podemos fugir a ela.

— Se eu pudesse fazer alguma coisa...

— Você pode: prometa-me que vai cuidar de Tália. Ainda que se case com Cristina, prometa-me que vai cuidar dela. Se me prometer, poderei partir tranqüilo e confiante para enfrentar o meu destino.

Honório fitou-o com os olhos embaciados, sentindo profunda admiração por aquele homem que, até então, invejava em silêncio, por possuir a única coisa que ele desejava: a mulher de seus sonhos.

— Se é assim, vá em paz, meu amigo — falou emocionado, estendendo-lhe a mão num gesto amistoso. — Cuidarei de Tália e a defenderei com a própria vida, se necessário.

Também emocionado, Mauro tomou a mão que ele lhe oferecia, puxando-o em seguida e o envolvendo num abraço comovente.

— Obrigado — sussurrou, tentando conter as lágrimas. — Jamais vou esquecer esse gesto.

— Posso saber o que os rapazes estão fazendo aqui, escondidos? — indagou Tália, que finalmente os encontrara no meio da multidão.

— Nada — respondeu Mauro, enxugando os olhos discretamente. — Estava me despedindo de Honório.<