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A BESTA NEGRA DE BELLETERRE / Mary Jo Putney
A BESTA NEGRA DE BELLETERRE / Mary Jo Putney

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A BESTA NEGRA DE BELLETERRE

 

A história da Bela e a Besta na Inglaterra vitoriana.

A besta negra do Belleterre tem um herói: James Markland, barão de Falconer, que cresceu em solidão e, além disso, está desfigurado por uma lesão. Leva um capuz para ocultar seu rosto, e vive em solidão.

Um homem chamado Sir Edward Hawthorne toma emprestada uma quantidade substancial de dinheiro dele, e não pode devolver. Quando vai enfrentar ao senhor Hawthorne, vê de longe a Ariel, sua formosa filha. Logo se inteira de que Sir Hawthorne tem a intenção de casá-la com um homem mais velho com o fim de pagar a seus credores. Falconer se oferece em seu lugar, a contrair matrimônio só de nome com Ariel.

 

Ele era feio, muito feio. Não sabia disso quando era jovem e tinha uma mãe que o amava apesar de seu rosto. Quando as pessoas o olhavam de modo raro, havia presumido que era porque era o filho de um lorde. Como havia poucos meninos que estivessem dispostos a serem amigos dele, não pensou mais nisso.

Foi só mais tarde, quando sua mãe havia morrido e o acidente tinha aumentado sua natural fealdade, que James Markland se deu conta de quão diferente era. As pessoas o olhavam fixo ou, se eram educados, afastavam rapidamente o olhar. Seu próprio pai não o olhava diretamente nas raras ocasiões em que se encontravam. O sexto barão Falconer tinha sido um homem muito arrumado; James não o culpava por desprezar a um filho que era tão claramente indigno do antigo e nobre nome que ambos levavam.

Não obstante, James era o herdeiro, assim lorde Falconer tinha dirigido o desagradável assunto com uma consumada e aristocrática graça: tinha instalado ao menino em um pequeno e remoto imóvel, ocupou-se de que fossem contratados tutores competentes, e não tinha pensado mais nele.

O chefe dos tutores, senhor Grice, era um homem severo e beato, generoso com as surras (punição por mau comportamento) tanto como com os sermões sobre a inevitável maldade da natureza humana. Em seus dias mais joviais, o senhor Grice dizia a seu estudante quão afortunado era por ser bestial em um modo que todo mundo podia ver; a maioria dos homens levava a fealdade em suas almas, onde facilmente podiam esquecer sua maldade básica.

James deveria sentir-se agradecido de que lhe tivesse concedido semelhante oportunidade assinalada para ser humilde. James não tinha estado agradecido, mas sim resignado. Sua vida poderia ter sido pior; aos serventes pagava o suficiente para tolerar ao moço ao que serviam, e um dos moços do estábulo inclusive era amistoso. Assim James tinha um amigo, uma biblioteca, e um cavalo. Estava satisfeito a maior parte do tempo.

Quando o sexto lorde morreu — de um modo próprio de um cavalheiro, enquanto jogava whist — James se converteu no sétimo barão Falconer. Nos vinte e um anos de sua vida tinha passado um total de, possivelmente, dez noites sob o mesmo teto que seu defunto pai. Havia sentido muito pouco pela morte de seu pai; nem pena, nem triunfo, nem culpa. Possivelmente tinha havido arrependimento, mas só um pouquinho.

Era difícil lamentar não conhecer melhor a um homem que tinha escolhido ser um estranho para seu próprio filho. Assim que seu pai morreu, James tinha tomado a dois serventes de confiança e voado a um mundo mais amplo, como a ave alçando voo do brasão da família. Egito, África, Índia, Austrália; tinha-os visto todos durante seus anos de viagens. Tinha descoberto que a vida de um excêntrico lorde inglês lhe assentava bem, e também tinha desenvolvido hábitos que lhe permitiam manter o mundo a uma distância segura. Ver os monges em um monastério no Chipre lhe tinha dado a ideia de vestir um manto com um pesado capuz que o ocultaria da curiosidade ocasional.

Sempre vestia um manto ou capa similar quando devia andar entre estranhos. Como era jovem e incapaz de reprimir seus vergonhosos desejos, também tinha aproveitado sua riqueza e distância do lar para educar-se nos pecados da carne. Pelo preço adequado, era singelo contratar a mulheres hábeis e experimentadas que não só se deitavam com ele, mas também inclusive simulavam que não lhes importava como se via. Uma ou duas, as melhores atrizes do monte, tinham sido quase convincentes ao declarar que desfrutavam de sua companhia e de seu toque.

Ele não se ofendia por suas mentiras; o mundo era um lugar complicado, e se mentir podia garantir mais dinheiro a uma moça, não se podia esperar que ela dissesse a verdade. Não obstante, seu prazer estava tingido pela amarga consciência de que unicamente seu dinheiro o fazia aceitável. Retornou a Inglaterra aos vinte e seis anos, mais forte por ter visto o mundo além dos limites de sua pátria; o suficientemente forte para aceitar os limites de sua vida.

Nunca teria uma esposa, já que nenhuma moça de bom berço se casaria com ele se tinha opção e, portanto, ele nunca teria um filho. Nem teria uma amante, sem importar quanto tivesse saudades de seu corpo e do breve e ditoso esquecimento que só uma mulher podia prover. Embora ele fosse filósofo por natureza e tivesse decidido cedo que não se permitiria a autocomiseração, havia limites à filosofia.

As únicas razões pelas quais uma mulher se submeteria a seus abraços seriam o dinheiro ou a lástima. Nenhuma dessas razões era passível; embora James pudesse suportar sua fealdade e solidão, não poderia ter suportado saber que era patético. Em vez de deter-se na amargura, estava agradecido pela riqueza que o amortecia do mundo. A diferença dos homens feios que eram pobres, Falconer estava em posição de criar seu próprio mundo, e o fez.

O que fazia que sua vida valesse a pena era o fato de que quando tinha retornado a Inglaterra, apaixonou-se. Não de uma pessoa, é obvio, mas de um lugar. Belleterre, no exuberante condado do sudeste do Kent, era o imóvel principal da família Markland. James nunca tinha ido ali sendo menino, porque seu pai não tinha desejado vê-lo. Em troca, James tinha sido criado em uma pequena propriedade familiar nas industriais Midlands. Não lhe tinha importado, porque era o único lar que tinha conhecido e não sem seu próprio encanto austero.

Entretanto, quando retornou de sua excursão do mundo logo depois da morte de seu pai e viu Belleterre pela primeira vez, por um breve momento tinha odiado a seu pai por mantê-lo afastado de sua herança. Belleterre significava “formosa terra”, e nunca tinha havido um nome mais apropriado. Os ricos campos e bosques, a antiga mansão de pedra parecida com um castelo, eram objetos dignos do amor que ele desejava expressar. Converteu-se no trabalho de sua vida ocupar-se de que Belleterre fosse cuidada tão meigamente como um menino.

Dez anos tinham acontecido desde que tinha chegado ao Belleterre, e tinha tido a satisfação de ver a terra e as pessoas prosperarem sob sua administração. Se estava sozinho, não era mais do que esperava. Os livros tinham sido inventados para salvar a solidão humana, e eram amigos sem par, amigos que nunca se burlavam, estremeciam-se ou riam às costas de um homem. Os livros revelavam seus tesouros a todos os que tomavam o esforço de procurar. Belleterre, os livros e seus animais... James não necessitava nada mais.

Primavera…

Algumas vezes, infelizmente, Falconer considerava necessário abandonar Belleterre, e hoje era um desses dias. O ar era quente e estava cheio de aromas e canções da primavera. Desfrutou da viagem de quinze quilômetros, embora não esperava com vontade a entrevista que teria lugar quando chegasse ao destino. Franziu o cenho enquanto refreava seu cavalo ante a entrada principal do Gardsley Manor, já que a ferragem estava oxidada e a argamassa estava desmoronando-se entre os tijolos dos pilares que encerravam a entrada. Quando fez soar o sino para convocar ao guardião, passaram cinco minutos antes que um homem áspero e mau vestido aparecesse.

Disse secamente:

—Sou Falconer. Sir Edwin está me esperando.

O guardião ficou tenso e abriu rapidamente o portal, mantendo o olhar afastado da figura coberta que passava junto a ele. Falconer não estava surpreso pela reação do homem; sem dúvidas os camponeses contavam muitas histórias sobre o misterioso lorde encapuzado de Belleterre. Que tipo de histórias, Falconer não sabia nem lhe importava.

Antes de encontrar-se com sir Edwin, Falconer soube que devia estabelecer a condição da propriedade; era a razão pela que tinha preferido visitar Gardsley em pessoa em vez de convocar o baronete a Belleterre. Uma vez que esteve fora da vista do guardião, passou do caminho principal a um caminho que girava ao oeste, apenas paralelo ao bordo do castelo. Amarrou seus arreios a um lado de uma colina coroada de árvores e tirou um par de óculos de seu alforje, logo subiu ao topo.

Como não havia ninguém à vista, afastou seu capuz para trás, desfrutando da sensação da suave brisa primaveril contra seu rosto e sua cabeça. Como tinha esperado, a colina dava uma clara vista da ondulada campina do Kent. Inclusive podia ver a distância o vapor de um trem rumo ao Dover. Mas o que viu mais perto não lhe agradou. Os óculos mostravam ao Gardsley com lamentáveis detalhes, desde cercos desmoronados a campos cheios de ervas daninhas e gado de pobre qualidade. Quanto mais via, mais se esticava sua boca, porque a propriedade tinha sido claramente descuidada durante anos.

Cinco anos antes, sir Edwin Hawthorne tinha ido até Falconer e pedido um empréstimo para ajudá-lo a melhorar seu imóvel. Embora Falconer não tivesse gostado muito do baronete, tinha estado impressionado e divertido pela pura audácia do homem para pedir dinheiro a um completo estranho. Provavelmente Hawthorne tinha sido inspirado pelas histórias da generosidade de Falconer para a caridade, e tinha decidido que não tinha nada a perder pedindo um empréstimo.

Sir Edwin tinha sido muito eloquente, falando emocionalmente da custosa enfermidade de sua esposa e a recente morte, de sua única filha, e de como a propriedade que tinha estado em sua família durante gerações necessitava desesperadamente investimentos para ser próspera novamente. Embora Falconer tivesse sabido que estava sendo tolo, tinha cedido ao impulso e lhe tinha emprestado ao baronete as dez mil libras que tinham sido requeridas. Era uma fortuna considerável, mas Falconer bem podia permitir-lhe e se a Hawthorne realmente importava tanto seu imóvel, merecia uma oportunidade para salvá-lo. Mas onde quer que tenham ido as dez mil libras, não tinha sido ao Gardsley.

O empréstimo tinha vencido um ano atrás, e Falconer tinha outorgado uma extensão de doze meses. Agora que o período de graça tinha terminado, o dinheiro não tinha sido devolvido, e Falconer devia decidir o que fazer. Se tivesse havido algum sinal de que ao baronete lhe importava sua terra, Falconer estaria disposto a estender o empréstimo indefinidamente. Mas isto...! Hawthorne merecia ser açoitado e arrojado à rota como um mendigo pelo abandono de suas responsabilidades. Falconer estava a ponto de descer de seu cavalo quando viu um brilho azul do outro lado da colina.

Pensando que poderia ser um Martín pescador, voltou a levantar seus óculos e registrou o pendente inferior até encontrar a cor que estava procurando. Ficou sem respiração ao ver que não era um Martín pescador a não ser uma moça. Estava sentada com as pernas cruzadas sob uma macieira em flor e esboçava com lápis-carvão sobre uma tabuleta apoiada em cima de seu colo. Enquanto ele a observava, ela fez uma careta e arrancou seu último desenho. Logo amassou o papel e o deixou cair sobre uma pilha de trabalho similarmente rechaçado. A primeira impressão de James foi que era uma menina, porque era pequena e seus cabelos de prata dourada caíam soltos sobre seus ombros em vez de estarem submetidos.

Mas quando ajustou o foco dos óculos, a maior claridade mostrou que seu rosto e figura eram os de uma mulher, embora uma jovem. Tinha dezoito anos, possivelmente vinte por fora, e era elegante até sentada no chão. Face à simplicidade de seu vestido azul, devia ser a filha do Hawthorne, porque não era uma granjeira. Mas não se parecia com seu pesado pai; em troca, tinha uma qualidade de brilhante doçura que chamou a atenção de Falconer. A visão dele era de seu lado, e o puro perfil lhe recordou à imagem de uma deusa em uma moeda grega.

Se seu velho tutor, o senhor Grice, pudesse ter visto esta moça sob a macieira, inclusive esse velho carrancudo poderia haver-se perguntado se todos os humanos eram inerentemente pecadores. Ela era tão adorável que a Falconer doeu o coração. Não sabia se sua dor derivava da tristeza porque nunca a conheceria, ou da alegria de que semelhante beleza pudesse existir no mundo. Ambas as emoções, possivelmente. Inconscientemente, levantou uma mão e levou o escuro capuz sobre sua cabeça para que se, por acaso, ela olhasse para ele, fosse incapaz de vê-lo. Preferia morrer antes de ver esse doce rosto mostrando medo ou repugnância.

Quando havia feito sua súplica por dinheiro cinco anos antes, sir Edwin tinha mencionado o nome de sua filha. Era algo extravagante que havia feito com que Falconer pensasse que a sua mãe devia ter adorado Shakespeare. Titânia, a rainha das fadas? Não, não era esse. Ofélia ou Desdémona? Não, nenhum desses.

Ariel... Seu nome era Ariel. Agora que Falconer via a jovem, dava-se conta de que o nome era perfeito, porque ela parecia não de tudo mortal, uma criatura de ar e raios de sol. Sua mãe devia ter sido profeta. Embora soubesse que era errado espiá-la, não podia obrigar-se a afastar o olhar. Pelo modo em que o olhar dela subia e baixava, estava desenhando o velho carvalho em frente dele.

Tinha a hábil rapidez manual de uma verdadeira artista, que compete com o tempo para capturar uma visão privada do mundo. James estava seguro de que ela via mais profundo que a mera casca e as folhas da primavera; era uma lástima que não pudesse ver seu trabalho. Uma rajada de brisa soprou pela ladeira, levantando mechas de seu brilhoso cabelo, levando um de seus desenhos enrugados pela grama e soltando flores da árvore. Pétalas rosadas golpeadas pelo sol choveram sobre a moça, como se até a natureza se sentisse obrigada a celebrar sua beleza.

Enquanto o aroma das maçãs subia pela colina, Falconer soube que nunca esqueceria a imagem que ela compunha, dourada pela luz do sol e rodeada pelas flores. Estava a ponto de afastar-se quando a jovem ficou de pé e tirou as pétalas de seu vestido. Depois de juntar seus desenhos descartados, deu a volta e desceu pelo lado oposto da colina, afastando-se dele. Seus passos longos eram tão graciosos como James sabia que seriam, e seu cabelo era um cintilante manto prata dourada. Mas ela tinha passado por cima do desenho que tinha jogado longe.

Logo depois que a moça ficou fora de sua vista, Falconer desceu e recuperou a folha enrugada do arbusto de cerefólio verde onde se alojou. Alisou o papel, com cuidado de não borrar o carvão. Como tinha adivinhado, o desenho da moça, do nodoso carvalho, ia além de uma mera ilustração. Em um punhado de linhas fortes e livres, tinha insinuado duros invernos e verões férteis, ricos de bolotas; sol e chuva e seca; a larga história de uma árvore que tinha brotado pela primeira vez gerações antes que a jovem tivesse nascido e que sobreviveria por mais séculos.

Essa miúda menina dourada era efetivamente uma artista. Como não queria o desenho, certamente não faria nenhum dano que ficasse com ele. E, sabendo que era um tolo sentimental, James também retirou alguns cabelos da grama que tinha sido esmagada debaixo dela enquanto trabalhava. Procurou a jovem enquanto completava seu caminho à mansão, mas sem êxito. Se não fosse pela evidência do desenho em seu alforje, poderia haver-se perguntado se a tinha imaginado.

Sir Edwin Hawthorne recebeu a seu convidado nervosamente, dando efusivas boas-vindas e desculpas. Tinha sido um homem arrumado, mas linhas de dissolução marcavam seu rosto e agora o suor brilhava em sua fronte. Como Falconer esperava, o baronete era incapaz de devolver o empréstimo.

—Os últimos dois anos foram difíceis, milord. — disse, com os olhos disparando-se pela habitação, o que fora necessário para evitar olhar à figura encapuzada que estava sentada imóvel em seu escritório — Arrendatários preguiçosos, enfermidades nas ovelhas. Você sabe quão duro é obter benefícios da agricultura.

Falconer não sabia; seu próprio imóvel era assombrosamente rentável, porque prosperava em mãos amorosas. Não só as mãos de seu amo, mas também as de todos seus arrendatários e empregados, porque não aceitava a ninguém em Belleterre que não amasse a terra.

Com calma, disse:

—Já lhe dei um ano a mais do término do empréstimo original. Pode fazer pagamentos parciais?

—Hoje não, milord, mas muito em breve, — disse sir Edwin — dentro de um ou dois meses, deverei estar em posição de lhe devolver ao menos a metade da soma. Sob seu capuz ocultador, a boca do Falconer se torceu.

—Você é um jogador, sir Edwin? É pouco provável que a volta de uma carta ou a velocidade de um cavalo o salvem da ruína.

O baronete se moveu nervosamente ante o comentário de seu convidado, mas era o golpe da culpa, não a surpresa. Com veloz falsidade disse:

—Todos os cavalheiros apostam um pouquinho, é obvio, mas não sou um jogador. —passou uma mão úmida por seu cabelo — O asseguro se tão somente me der um pouco mais de tempo...

Falconer recordou os campos descuidados, as pobres casinhas dos peões, e quase se negou. Então pensou na moça. O que aconteceria a Ariel se a propriedade de seu pai fosse vendida para pagar suas dívidas? Ela deveria estar em Londres agora, revoando pela temporada com as demais mariposas brilhantes e de berço nobre. Deveria ter um marido que a apreciasse e lhe desse filhos. Mas uma estreia em Londres era custosa, e provavelmente qualquer dinheiro que seu pai conseguisse mendigar ou conseguir emprestado ia a seus próprios vícios.

Apesar do isolamento de sua vida, Falconer não era ingênuo sobre seus próximos. Certamente não era o único credor de Hawthorne; o homem provavelmente tinha tomado dinheiro emprestado em cada direção e tinha dívidas que não poderiam ser pagas mesmo se Gardsley fosse vendida. Falconer sentiu uma onda de fúria. Um homem que descuidava sua terra também negligenciaria a sua família, e uma jovem que deveria ter estado vestida com sedas e adorada pelo homem mais nobre da terra vestia algodão e estava sentada só em um campo.

Não era que ela tivesse parecido infeliz; adivinhava que tinha o dom de ser feliz em qualquer lugar. Mas ela merecia muito mais. Se Falconer insistisse com o pagamento agora, seu pai estaria arruinado, e a jovem provavelmente terminaria sendo um parente pobre na casa de alguém mais. Incapaz de suportar essa ideia, Falconer se encontrou dizendo:

—Dar-lhe-ei três meses mais. Se puder devolver a metade do capital para então, renegociarei o resto. Mas se não puder pagar...

Era desnecessário completar a frase.

Balbuciando de alívio, sir Edwin disse:

—Esplêndido, esplêndido. Asseguro-lhe que terei suas cinco mil libras daqui a três meses. Certamente poderei lhe devolver a quantidade inteira para então. Falconer olhou ao baronete e o desprezava. Era um homem débil e superficial, incapaz de ver mais à frente do fato de que tinham perdoado as consequências de suas ações por um tempo mais. Falconer ficou abruptamente de pé.

—Retornarei dentro de três meses a partir de hoje. — Mas enquanto viajava a casa para o Belleterre, seguia açoitado por um pensamento. O que aconteceria a jovem?  

Ariel retornou à casa para almoçar, satisfeita de ter realizado vários esboços que valiam a pena guardar. Sua satisfação morreu ao descobrir que seu pai tinha tomado o trem de Londres essa manhã. Assim que o mordomo o disse, Ariel levou uma mão a seu cabelo desordenado e saiu disparada escada acima para sua habitação. Enquanto escovava os nós de seu cabelo, perguntou-se quanto tempo ficaria sir Edwin no Gardsley essa vez.

A vida sempre era mais agradável quando ele estava longe, o que era a maior parte do tempo. Mas enquanto estava ali, ela devia andar com cuidado e manter-se fora de sua vista. Ai! Não podia fugir de seu dever filial de jantar com ele cada noite. Ele criticaria sua aparência imprópria de uma dama; sempre o fazia. Também seria bastante específico em relação às várias maneiras nas quais ela era uma decepção para ele.

Uma ou duas vezes Ariel tinha pensado em assinalar que não lhe dava suficiente dinheiro para que estivesse vestida na moda se tivesse tido tal predisposição, mas a prudência sempre refreava sua língua. Embora não fosse um homem verdadeiramente maldoso, sir Edwin era capaz de atacar quando estava bebendo, ou quando estava particularmente frustrado com suas circunstâncias. Ainda escovando seu cabelo, vagou até sua janela e olhou para fora. Adorava essa vista em particular. As nuvens estavam bastante dramáticas esta tarde; possivelmente poderia subir ao teto e tentar capturar o entardecer em aquarelas.

Mas não, isso não seria possível essa noite, já que deveria jantar com seu pai. Estava afastando-se com pesar da janela quando uma estranha figura descendeu os degraus da frente. Era um homem alto vestindo um envolvente manto negro com um capuz profundo e folgado que obscurecia totalmente seu rosto. Como se dizia que Gardsley tinha um fantasma ou dois, Ariel se perguntou distraidamente se um deles estaria fazendo uma aparição. Mas o homem que se movia tão agilmente pelos degraus e logo pedia que trouxessem seu cavalo parecia bastante real.

Certamente, o cavalo e o lacaio de Gardsley que o levava não eram fantasmas. Abruptamente se deu conta de que a figura só podia ser o misterioso e solitário lorde Falconer, às vezes chamado de Besta Negra do Belleterre. Era uma espécie de lenda no Kent, e as donzelas com frequência falavam dele em calados sussurros deliciosamente escandalizados.

Ariel tinha ouvido que o descreviam como um santo tanto como um demônio, às vezes tudo no mesmo fôlego. Dizia-se que dava muito a caridade e que tinha dotado de recursos um hospital para pobres na próxima Maidstone; também se dizia que tinha selvagens orgias de meia-noite em seu imóvel. Ariel tinha procurado o significado da palavra “orgia”, mas a definição tinha sido tão vaga que não tinha sido capaz de deduzir o que envolvia.

Entretanto, tinha divulgado alarmante. Despojado dos rumores e excitadas hipóteses, as intrigas sobre ele se reduziam a três fatos: tinha crescido nas Midlands, era tão horrivelmente deformado que seu próprio pai tinha sido incapaz de suportar vê-lo, e agora ocultava a si mesmo dos olhares de todos exceto um punhado de serventes de confiança, nenhum dos quais dizia uma palavra sobre ele. Se seu silêncio era produto do medo ou da devoção, era uma fonte de muita especulação.

Enquanto Ariel o olhava subindo em seu cavalo sem esforço, decidiu que sua deformidade não podia ser do corpo, porque era alto e de ombros amplos, e se movia como um atleta. Com compaixão, perguntou-se o que o tornava tão resistente a mostrar seu rosto ao mundo. Até mais, perguntava-se por que lorde Falconer estava no Gardsley. Devia ter negócios com seu pai. De fato, isso explicaria por que sir Edwin tinha retornado inesperadamente de Londres.

Ariel acabava de chegar a essa conclusão quando lorde Falconer levantou a vista para a fachada da casa. Seu olhar pareceu ir direto para ela, embora fosse difícil estar segura, já que seu rosto estava em sombras. Instintivamente, ela deu um passo atrás, sem querer ser apanhada no ato de olhar fixamente. Embora, pensou com um toque de mordacidade, um homem que se vestia como um monge medieval devia esperar atrair atenção.

Deixando cair o olhar, ele deu a volta a seu cavalo e partiu em meio galope. Montava belamente, tão em sintonia com seus arreios que parecia mover-se sem o uso de rédeas ou joelhos. Voltando a adiantar-se, Ariel o viu desaparecer da vista. A Besta Negra do Belleterre.

Havia uma qualidade impressionante nesse homem, que era tão romântica quanto trágica. Ariel começou a considerar diferentes modos de retratá-lo. Não em aquarelas, isso não era o suficientemente forte. Teria que ser a crueldade da pluma e tinta ou a voluptuosa riqueza dos óleos.

Ficou parada junto à janela por algum tempo, perdida em contemplações, até que sua atenção foi apanhada por outra figura que descia os degraus. Essa vez era seu pai, seguido por seu ajudante de câmara. Enquanto observava, a carruagem apareceu dos estábulos. Depois que os dois homens subiram, ouviu seu pai ordenar ao chofer que o levasse a estação. Assim retornava a Londres sem sequer pedir para vê-la.

Que parvo de sua parte sentir-se ferida quando seus encontros eram tão incômodos para ambos. Além disso, agora seria livre para subir ao teto e pintar o entardecer. Mas Ariel descobriu que isso era um consolo inesperadamente débil. Um entardecer já não parecia tão interessante; não quando acabava de ver o enigmático lorde Falconer. Sim, pluma e tinta seriam o melhor para ele.

Verão…

Falconer retornou ao Gardsley exatamente três meses depois de sua primeira visita. O dia também era excelente, assim, desprezando-se por sua debilidade, tomou o mesmo desvio pelo imóvel que tinha tomado antes. A terra não estava em melhor forma do que tinha estado, e o feno estaria arruinado se não fosse talhado imediatamente, mas isso não lhe importava. Seu verdadeiro propósito era uma melancólica esperança de que pudesse ver brevemente a moça. Mas ela não estava desenhando na colina hoje. As flores há tempo que tinham desaparecido da árvore, e agora pequenas e verdes maçãs penduravam dos ramos.

Girou seu cavalo com pesar e montou para a casa. Fizera com que seu advogado fizesse perguntas a respeito de sir Edwin Hawthorne e os resultados tinham confirmado todas as suspeitas de Falconer. O baronete era um apostador e um conhecido sedutor das esposas de outros homens. Ficava longe de Gardsley durante meses intermináveis, e tinha estado suspenso à borda do desastre financeiro durante anos.

O relatório do advogado continuava dizendo que a única filha de sir Edwin, Ariel, tinha vinte anos. Tinha tido uma governanta até os dezoito; após, aparentemente tinha vivido sozinha em Gardsley com apenas serventes por companhia. Nas raras ocasiões em que era convidada à sociedade local, era muito admirada por sua beleza e modéstia, mas a reputação de seu pai e sua própria falta de dote deviam havê-la excluído de receber alguma oferta matrimonial apta.

Ao Falconer havia sido difícil acreditar nessa parte do relatório. Certamente os homens do Kent não podiam ser tão cegos, tão ambiciosos, para passar por cima a semelhante jóia simplesmente porque não tinha fortuna. O mordomo deixou-o entrar e o levou a uma sala de desenho à frente da casa, dizendo que sir Edwin estaria com seu convidado em um momento. Falconer sorriu sem alegria. Se o baronete tivesse o dinheiro, estaria esperando-o com um talão bancário na mão. Agora provavelmente se encontrava em seu escritório tentando desesperadamente pensar em um modo de salvar sua esbanjadora pele.

Falconer passeava pela sala de desenho quando ouviu o som de vozes elevadas, o nervoso tenor do baronete se chocando com os tons mais suaves de uma mulher. A sala de desenho tinha portas duplas que conduziam a outra sala de recepção detrás, assim Falconer as atravessou. As vozes eram muito mais fortes agora, e viu que outro par de portas levava ao escritório de sir Edwin, onde estava acontecendo a disputa. O baronete estava dizendo:

—Casar-te-á com ele porque eu o digo! É o único modo de nos salvar da ruína.

Embora Falconer nunca tivesse ouvido a voz de Ariel, soube instantaneamente que esse tom doce e suave lhe pertencia.

—Quer dizer que salvará a ti da ruína, ao preço de arruinar a mim. — respondeu ela —Até eu ouvi a respeito de Gordstone; o homem tem má fama. Não me casarei com ele.

Falconer sentiu como se o tivessem golpeado no estômago. Gordstone de fato tinha má fama, era um pestilento lascivo que tinha levado a três jovens esposas a suas tumbas. Não só tinha uma reputação maligna, mas também devia ser mais de quarenta anos mais velho que Ariel. Certamente sir Edwin não podia ser tão vil para oferecer sua única filha a semelhante homem. Entretanto, Gordstone era rico e o pai do Ariel necessitava de dinheiro.

Em uma tentativa transparente de soar tranquilizador, sir Edwin disse:

—Não deveria ouvir as intrigas clandestinas. Lorde Gordstone é um homem rico e distinto. Como sua esposa, terá uma posição na mais divertida sociedade de Londres.

—Não quero ser parte da sociedade de Londres. — replicou sua filha — Apenas quero que me deixem em paz aqui em Gardsley. É pedir muito?

—Sim, maldita seja, é! — ladrou o baronete — Uma moça com sua beleza poderia ser um grande recurso para mim. Em troca, esconde-te aqui e joga com lápis e pinturas. Apesar de sua falta de cooperação consegui arranjar um esplêndido matrimônio para ti, e por Deus que te comportará como uma filha correta e me obedecerá.

Com a voz tremente, mas desafiante, Ariel disse:

—Não o farei! Terei vinte e um anos logo. Não pode me obrigar.

Era mais forte do que parecia, essa delicada jovem dourada. Mas enquanto esse pensamento de admiração passava pela mente de Falconer, ouviu o terminante som cortante de carne açoitando carne, e Ariel gritou. Sir Edwin tinha golpeado a sua filha. Quase cego pela fúria, Falconer pôs sua mão sobre o pomo da porta do escritório. Estava a ponto de abrir a porta quando de repente ouviu Ariel falando outra vez.

—Não mudará minha opinião deste modo, papai.

Embora Falconer pudesse ouvir as lágrimas em sua voz, ela não falou como se tivesse sido seriamente machucada, assim ele se deteve, com a mão ainda sobre o pomo. O que quer que aconteça entre sir Edwin e sua filha não era assunto dele, e se ele intervisse, o baronete certamente castigaria a jovem por isso mais tarde, quando seu defensor não estivesse perto.

—Não se preocupe, encontrarei um modo que te fará mudar de opinião. — lhe disse sir Edwin bruscamente — Se não se casar com Gordstone, não terá um teto sobre sua cabeça, já que Gardsley deverá ser vendida. Então, o que fará senhorita? Vá a sua habitação e pense nisso enquanto eu falo com esse feio bruto na sala de desenho. Se não puder persuadi-lo de que me dê outra extensão a meu empréstimo, serei pobre e também você.

Falconer deu a volta e se retirou silenciosamente à sala de desenho na frente da casa. Estava ali parado, olhando pela janela, com as mãos enlaçadas atrás das costas, quando o baronete entrou na sala.

— Bom dia, milord. — disse sir Edwin em uma voz de amabilidade forçada. — Veio bem a tempo para ouvir boas notícias. Minha filha está a ponto de contrair uma vantajosa aliança, e poderei lhe devolver o dinheiro do acordo. Só precisará esperar umas poucas semanas mais, já que o noivo está ansioso por bodas antecipadas.

Falconer virou-se e olhou fixamente a seu anfitrião, mas não respondeu. Enquanto o silêncio se estirava, sir Edwin ficou cada vez mais nervoso. Falconer sabia que sua quietude perturbava as pessoas; uma vez, a suas costas, alguém havia dito que era como ser observado pelo anjo da morte. Quando já não pôde suportar mais o silêncio, o baronete disse:

—Sente-se mau, milord?

Logo depois de outra sinistra pausa, Falconer disse:

—Já estendi o empréstimo duas vezes. Como Gardsley é sua garantia, posso o ter desalojado daqui amanhã, se assim desejar.

Sir Edwin empalideceu.

—Mas não pode me arruinar agora, não quando há uma solução tão ao alcance da mão! Juro que dentro de um mês...

Falconer cortou ao outro com um brusco movimento da mão.

—De fato posso arruiná-lo, e por Deus, possivelmente o faça, porque você merece ser arruinado.

Quase choramingando, o baronete disse:

—Não há nada que possa fazer para persuadi-lo a reconsiderar? Certamente é o dever de um cristão mostrar piedade. — deteve-se um momento, procurando por outros argumentos — E minha filha... Destruirá sua vida também? Este é o único lar que ela teve.

Sua filha, a quem o vilão se propunha vender a Gordstone. As mãos de Falconer formaram punhos quando pensou nessa dourada menina profanada por uma criatura tão repugnante. Não podia permitir que a jovem se casasse com Gordstone. Não podia. Mas, como poderia evitá-lo? Uma ideia escandalosa lhe ocorreu. Considerá-la sequer era equivocado, blasfemo; entretanto, cometendo um engano podia evitar outro maior. Quando esteve seguro de que sua voz seria uniforme, Falconer disse:

—Há uma coisa que me faria mudar de opinião.

Impacientemente, sir Edwin disse:

—O que é isso? Juro que farei o que você deseje.

—A moça. — a voz de Falconer se quebrou — Tomarei à moça.

Meia hora mais tarde depois de Ariel ter sido enviada ao seu dormitório, seu pai foi em sua busca. Ela se armou de valor quando ele entrou, rogando ser o suficientemente forte para resistir à suas ameaças e pressões. Estava comovida pelo que lhe tinha revelado antes. Embora sir Edwin nunca tivesse gasto dinheiro em seu imóvel ou com ela, sempre tinha assumido que tinha uma renda privada decente, ou não poderia haver-se permitido viver em Londres. Mas hoje lhe havia informado que toda sua fortuna tinha desaparecido e que devia casar-se com o desprezível lorde Gordstone.

Entretanto, não era possível que se casasse com o Gordstone. Quinze dias antes, seu pai havia trazido o homem ao Kent para o fim de semana. Em retrospectiva era óbvio que o verdadeiro propósito da visita tinha sido que o velho sátiro examinasse Ariel. Uma vez, ele a tinha apanhado a sós e saltado sobre ela como um cão ao descobrir um osso suculento. Seu nauseante fôlego e mãos como garras tinham sido asquerosas. Logo depois de escapar a seu abraço, ela tinha passado os dias em campos distantes e tinha trancado sua porta pelas noites, até que ele partiu. Sem preâmbulo, seu pai disse:

—Não queria se casar com Gordstone, e agora não terá que fazê-lo. Apareceu outro candidato para sua mão. Sem verte, lorde Falconer te quer.

—Lorde Falconer? — ofegou Ariel, sua mente indo para a escura e enigmática figura que tinha visto tão brevemente — Como pode querer casar-se com uma mulher a que alguma vez conheceu?

—Pergunte você mesma, — respondeu sir Edwin — está na sala de desenho e quer falar contigo agora mesmo. — maliciosamente, deu um passo atrás e fez um gesto para que ela fosse diante dele — Parece que será minha salvação embora não queira. Não pode dizer que não te criei bem senhorita; tem como escolher entre dois maridos ricos e com título! A maioria das meninas cortariam o braço direito para estar em sua posição.

Ariel duvidava de que muitas moças sacrificassem uma extremidade pelo privilégio de ser forçada a escolher entre um repugnante velho lascivo e um homem sem rosto conhecido como a Besta Negra, mas manteve o queixo alto quando passou junto a seu pai. Pensou fugazmente em seu cabelo solto, mas não havia tempo de arrumar-se. Nisto seu pai tinha razão; se ela se comportasse como uma jovem dama, bebendo chá em vez de vagar pelos campos, estaria preparada para semelhante entrevista crucial. Certamente, se estivesse vestida de modo adequado, teria menos temor.

Entrou na sala de desenho com a pesada mão de seu pai sobre o braço. A Besta Negra do Belleterre se encontrava parado frente a lareira apagada. Alto, escuro e tão quieto que as pregas de seu manto poderiam ter sido esculpidos em pedra. Tentando ocultar o tremor de suas mãos, Ariel as uniu detrás dela.

—Aqui está a menina. — trovejou sir Edwin — Tão emocionada pela perspectiva de receber seus cuidados que desceu correndo. Ariel, faça uma reverência a sua senhoria.

Enquanto ela descendia obedientemente, o homem encapuzado disse:

—Deixe-nos, sir Edwin.

—Isso não seria apropriado.

Embora o tom do baronete fosse virtuoso, seu duro olhar a sua filha demonstrava que não confiava que ela dissesse o correto sem ele ali. Asperamente, Falconer repetiu:

—Deixe-nos! Falarei com a senhorita Hawthorne em privado.

Ariel secou dissimuladamente suas mãos úmidas em sua saia enquanto seu pai abandonava receosamente a habitação. Face ao que havia dito e feito antes, viu-o partir com pesar, já que era uma quantidade conhecida, a diferença do aterrador homem junto à chaminé. Inclusive sem o capuz, seria difícil vê-lo claramente, já que tinha escolhido parar na parte mais escura da sala. Falconer voltou-se para ela.

—Disse-te seu pai por que desejo falar contigo? — Sem confiar em sua voz, ela assentiu. Sua voz era a mais profunda do que Ariel jamais tivesse ouvido, mas o tom autoritário que tinha usado ao dirigir-se a seu pai tinha desaparecido. De fato, ele soou quase tímido quando disse:

—Não me tenha medo, Ariel. Pedi a seu pai que partisse para que pudéssemos falar livremente. Sei que está em uma posição difícil e quero ajudar. Infelizmente o único modo em que posso fazê-lo é me casando contigo.

Sobressaltada, ela disse:

—Sabe a respeito de Gordstone?

—Sim, enquanto estava esperando para falar com seu pai, ouvi por acaso a discussão entre vocês.

Inconscientemente Ariel levantou uma mão até sua bochecha, onde estava se formando um arroxeado. Quando o fez, as dobras do manto do Falconer se agitaram ligeiramente e a atmosfera mudou, como se uma nuvem de trovões tivesse entrado na habitação. O rosto dela se ruborizou e deixou cair a mão, envergonhada de que este estranho tivesse ouvido o que tinha acontecido entre ela e seu pai. Isso explicava muito; aparentemente a Besta Negra do Belleterre era suficientemente cavalheiro por haver-se alterado pelas ameaças de seu pai.

Mas isso não respondia uma pergunta mais básica. Pensando nessas confusas orgias, ela perguntou:

— Por que está disposto a lhe oferecer matrimônio a alguém a quem não conhece?

Depois de um prolongado silêncio, ele disse:

— Nenhuma jovem dama deveria ser forçada a casar-se com Gordstone. Nunca pretendi me casar, assim te oferecer o amparo de meu nome não me privará de nada. — seu tom se tornou intenso — E isso é exatamente o que estou te oferecendo... Um lar e o amparo de meu nome. Não requererei... Intimidade marital de sua parte.

O rubor do Ariel retornou, desta vez ardorosamente quente. As donzelas sempre baixavam suas vozes ao falar sobre o leito matrimonial, ou do palheiro extra matrimonial. Ariel supunha que o tema devia estar relacionado com as orgias, mas isso seguia sem lhe dizer nada de valioso.

Com voz entrecortada disse:

—Quer dizer que será um... Um matrimônio só de nome?

Ele se aferrou à frase com alívio.

—Exato. Disse a seu pai que desejava estar em paz em Gardsley. Não posso te dar isso, já que é questão de tempo que ele perca o imóvel, mas se você gosta do campo, será feliz em Belleterre. Será livre para desenhar ou pintar, ou fazer qualquer outra coisa que deseje. Prometo não interferir. Os olhos de Ariel se abriram muito. Como podia ele saber a respeito de sua arte e quão importante era para ela? Em vão tentou ver o rosto de Falconer entre as sombras do capuz, sem êxito. Havia algo estranho no homem; não era raro que tivesse semelhante reputação alarmante.

—Seu oferecimento é muito generoso — lhe disse — mas, que benefício obterá você de tal matrimônio?

—O quente resplendor que vem de saber que se realizou um bom ato. — disse ele com inconfundível ironia. Vendo a expressão dela, disse em voz mais baixa — Agradar-me-á se for feliz.

Ela começou a retorcer uma mecha de seu cabelo que lhe caía sobre o ombro. Falconer parecia bondoso, mas, o que sabia dele? Não estava segura de confiar na generosidade desinteressada. Se convertia-se em sua esposa, seria de sua propriedade, para que fizesse com ela o que desejasse.

Adivinhando seus pensamentos, ele disse:

—Está se perguntando se pode confiar em que a Besta Negra de Belleterre mantenha sua palavra?

Assim demonstrava que conhecia seu apelido. Dessa vez, quando ela ruborizou, foi por seus próximos, por inventar um título tão cruel.

—Estou confusa... — disse Ariel sinceramente — Uma hora atrás, mal sabia que você existia; agora estou considerando sua oferta de matrimônio. Há algo muito medieval nisso. — Ele ofereceu-lhe um inesperado burburinho de risadas.

—Se estivéssemos na Idade Média, não teria nenhuma escolha, e o homem propondo-se a ti não estaria vestindo o manto de um monge.

Assim tinha senso de humor. Por alguma razão isso a surpreendeu, porque era uma figura tão escura e melodramática. Ariel afundou em uma poltrona e uniu suas mãos sobre o colo enquanto avaliava suas opções. Desprezou instantaneamente casar-se com Gordstone; antes se converteria em mendiga.

Possivelmente poderia ficar em Gardsley por um tempo, mas tristemente aceitou que seus dias no único lar que tinha conhecido estavam contados. Até mesmo se seu pai recebesse um inesperado ganho financeiro, logo o esbanjaria. Só lhe importava a sociedade de Londres e não valorizava seu imóvel, além do fato de que ser Hawthorne de Gardsley lhe outorgava posição.

Podia procurar trabalho. Nostalgicamente pensou na Anna McCall, quem tinha sido sua governanta e amiga durante seis anos. Anna tinha sido despedida no décimo oitavo aniversário de Ariel porque sir Edwin não queria continuar pagando seu modesto salário. Anna tinha ido a um bom posto com uma família perto de Londres; possivelmente poderia ajudar Ariel a encontrar um emprego, já que ambas as mulheres seguiam mantendo correspondência. Mas Anna era mais velha e mais inteligente, enquanto que Ariel era jovem e distraída, e não tinha habilidades exceto o desenho.

Ninguém a quereria como governanta ou mestra. Se não se casasse com Gordstone, não poderia permanecer em Gardsley, e como era incapaz de manter-se a si mesma, só tinha a outra opção: aceitar a proposta de Falconer. Dos caminhos abertos a ela, era o mais difícil de avaliar. Entretanto, até se o homem estivesse mentindo e quisesse usá-la para saciar suas misteriosas necessidades masculinas, não poderia ser pior que Gordstone, e se genuinamente não queria mais que lhe oferecer um lar, ela poderia ser feliz em Belleterre.

Levantando a cabeça, Ariel olhou ao escuro estranho que esperava pacientemente sua resposta. Ariel desejou poder ver seu rosto; sem importar quão disforme fosse seu rosto, seria menos alarmante que o capuz. Não obstante, disse firmemente:

—Se realmente o desejar, lorde Falconer, casar-me-ei com você.

Com o humor rondando novamente em sua voz, ele disse:

— Decidiste que sou o melhor de um grupo ruim?

— Exato. — os lábios dela se curvaram involuntariamente — Aparentemente herdei algo do sangue apostador de meu pai.

— Muito bem, então, Ariel — disse ele, sua profunda voz fazendo música com o nome dela. — Nos casaremos. Garanto que sua vida em Belleterre não será pior que sua vida aqui, e se estiver dentro de meu poder, ocupar-me-ei de que seja melhor.

Ela não podia pedir algo mais justo que isso. Entretanto, essa noite em sua cama chorou até dormir.

Casaram-se três semanas e meia mais tarde, depois do anúncio das admoestações. O pai de Ariel tinha insistido em que ela tivesse um vestido de noiva elegante, e a tinha levado a uma costureira de Londres. Como sempre, ela tinha odiado o ruído e as multidões de gente. Até mais, odiava o vestido de seda branco, com sua armação e cauda, e elaborados babados que a faziam sentir como um bolo muito decorado.

Mais que tudo, odiava o espartilho e os aros de aço que devia usar para que o vestido ficasse adequadamente justo antes que abandonassem o salão da costureira, ouviu sir Edwin dizer à proprietária que enviasse a conta lorde Falconer de Belleterre. Assim, seu pai não gastaria seu próprio dinheiro nem sequer para o vestido de bodas de sua filha. Qualquer remorso sentimental que Ariel tivesse a respeito de abandonar seu lar se esfumou então.

Dormiu mal durante as semanas entre seu compromisso e seu casamento, e foi à igreja no dia de suas bodas com escuros círculos sob seus olhos. Não ficaria surpresa se o noivo a tivesse olhado uma vez e trocado de opinião, mas ele não o fez. Entretanto, ela suspeitava que Falconer estivesse tão nervoso quanto ela, embora não estivesse segura de como sabia disso se ele ficava completamente invisível sob sua bata com capuz.

Por um momento teve o pensamento histérico de que poderia não estar casando-se com lorde Falconer, já que qualquer um poderia ocultar-se sob uma toga. De repente recordou a si mesma que seu rosto podia estar escondido, mas sua altura e movimentos fluídos e poderosos eram prova de sua identidade. Foram bodas muito pequenas, com apenas Ariel e seu pai, o pastor e sua esposa, e um homem maior que se encontrava junto a lorde Falconer. Apoiado em um fraco, mas inconfundível aroma, o homem maior era um moço de estábulo.

Ariel tinha convidado a Anna McCall, mas sua amiga não tinha podido ir pela interessante razão de que ela mesma estava se casando nesse mesmo dia. Embora a cerimônia acontecesse rapidamente, houve várias surpresas; a primeira quando o pastor se referiu ao noivo como "James Philip." Ariel sabia que seu sobrenome era Markland, mas com uma pequena sacudida se deu conta de que não tinha sabido seu primeiro nome. Ele era um estranho, um completo estranho, e ela tinha concordado casar-se com ele sem saber seu nome nem sua aparência.

Levantou o olhar para o rosto dele, mas a igreja era velha e escura, e o capuz efetivamente evitava que ela visse algo, embora ela estivesse parada ao seu lado. O serviço progrediu. A seguinte surpresa chegou quando Falconer levantou sua gelada mão para poder deslizar o anel no dedo dela. Usou ambas as mãos para sustentar a sua, e Ariel encontrou seu quente toque reconfortante. Então baixou o olhar.

Não tinha visto de perto as mãos de Falconer antes, porque ele tendia a colocá-las de um modo que não ficassem facilmente visíveis. Agora ela via que sua mão esquerda estava tão excessivamente marcada com cicatrizes que os dois dedos menores deviam ser quase inúteis. Não pôde evitar olhá-lo fixamente, com surpresa. Ele viu sua reação e deixou cair as mãos assim que o anel esteve no dedo dela. A manga de seu manto caiu sobre seu pulso, e uma vez mais o dano foi encoberto.

Ariel quis lhe dizer que sua reação tinha sido simples surpresa, não asco, mas não podia fazer isso agora, em meio à cerimônia de bodas. Mordeu o lábio enquanto o pastor finalizava o ritual, declarava-os marido e mulher, e dizia com forçada jovialidade que era momento de beijar à noiva. Ariel tinha se perguntado o que aconteceria nesse momento. Seu novo marido se absteria, ou realmente a beijaria e ela poderia descobrir algo de sua aparência?

Novamente, Falconer a surpreendeu tomando a mão direita e beijando-a, muito brandamente. Seus lábios eram quentes, suaves e firmes, tal como os lábios deviam ser. Ariel queria chorar e não sabia por que. Então deram a volta e abandonaram a igreja, casados. Não tinha planejado nenhum café da manhã de bodas, já que Ariel tinha suposto que lorde Falconer estaria incômodo em um evento semelhante.

Nem haveria lua de mel; iriam diretamente para Belleterre, onde já deveriam ter sido entregues as posses de Ariel. Justo antes de sair, viu Falconer dar alguma coisa a seu pai, mas não disse nada até que ela e seu novo marido estiveram sozinhos em sua carruagem.

Então, enquanto ela ordenava suas torcidas saias, disse com calma:

— Quanto lhe custou comprar-me?

Falconer se moveu incomodamente no assento de couro, mas não evadiu a pergunta.

— Cancelei um empréstimo de dez mil libras e dava a seu pai vinte mil libras mais. Supõe-se que as utilize para cancelar outras dívidas, embora duvide que o faça.

Ela inalou o especial e doce aroma de seu buquê de flores, que consistia principalmente de flores brancas e cravos rosa pálido.

— Esse é um preço muito alto a pagar por uma boa ação. Poderia ter dotado de recursos outro hospital por trinta mil libras.

— Suponho que sim — disse ele incomodamente — mas o considero dinheiro bem gasto.

Ariel olhava diretamente à sua frente, com os olhos sobre o forro aveludado da carruagem. Ele tomou vantagem disso para estudar seu perfil outra vez, esta vez muito mais de perto que a ocasião em que a tinha visto pela primeira vez. Mas hoje ela não era a menina despreocupada sob a macieira.

Sob o véu seu cabelo loiro estava levantado em um complicado estilo de cachos e saca-rolhas, e seu vestido a fazia espantosamente elegante. Sua beleza e sofisticação o alarmaram; onde tinha encontrado a audácia para propor-se a semelhante modelo de virtudes? Era trágico que por culpa da irresponsabilidade de seu pai agora Ariel estivesse atada a um homem absolutamente indigno dela.

—É uma pena que nunca tenha passado uma temporada em Londres. — disse ele tristemente — Ali poderia ter encontrado um marido de seu agrado em vez de ser forçada a escolher entre duas alternativas difíceis de digerir. Para sua surpresa, ela sorriu sem humor.

—Fui a Londres por uma Temporada quando tinha dezoito anos.

Ele franziu o cenho.

—Então, por que não está casada? Deve ter obtido um êxito sensacional.

Ariel começou a arrancar as fitas que caíam de seu ramo. — Oh, sim, obtive êxito... fui proclamada uma beleza, de fato. — disse com inesperada ironia — E houve várias propostas de matrimônio. Felizmente foram impropriamente realizadas a mim em vez de ao meu pai, assim fui capaz das declinar sem que ele se inteirasse delas.

Desconcertado, Falconer disse:

— Por que se negou? Todos eram homens como Gordstone?

Ela enroscou uma fita ao redor do magro dedo.

—Nenhum era tão espantoso como ele, mas tampouco queriam casar-se comigo. Só queriam ganhar a última beleza. E ganhar é a palavra correta. O cortejo era um esporte, e eu era um dos melhores troféus da temporada. Nenhum dos homens que me propôs matrimônio sabia nada sobre mim, nem lhes importava as coisas que me importavam. — levantou o olhar para ele, com seus olhos azuis — Ser uma beleza é ser uma coisa, não uma pessoa. Possivelmente você, mais que a maioria dos homens, pode compreender isso.

Suas palavras lhe chegaram com o impacto de um golpe; pela primeira vez, Falconer se deu conta de quanto era ela mais que a menina formosa que tinha visto na ladeira. Depois de respirar profunda e lentamente, ele disse:

—Sim, compreendo o que é ser uma coisa e não uma pessoa. Não a culpo que isso te ofenda. Mas mesmo assim, estaria melhor se estivesse casada com um desses homens, alguém que lhe desse um matrimônio real e uma posição na sociedade.

—Não estou segura de que estaria melhor assim. Estava dizendo a verdade a meu pai quando disse que preferia uma vida tranquila no campo. Ele não pode suportar a calma; suponho que essa é a razão pela qual nunca nos entendemos muito bem. — disse Ariel com suavidade. Então, livrando-se visivelmente de seu humor — Não acredito haver te agradecido adequadamente por me salvar de Gordstone. Realmente aprecio o que tem feito. — logo depois de uma ligeira vacilação, adicionou: — James.

Surpreso, ele disse:

—Ninguém me chama assim.

Ela levantou o olhar rapidamente.

—Prefere que não o faça?

—Não, por favor, como desejar. — respondeu, com a voz afogada.

Estava profundamente comovido por ouvi-la usar seu nome; nenhuma mulher o havia feito desde que sua mãe tinha morrido. Pensando na morte de sua mãe, deixou cair a mão esquerda fora de vista atrás de sua coxa. Ariel tinha visto as cicatrizes com desagrado quando ele tinha posto o anel em seu dedo; era de esperar, já que ela mesma não tinha defeitos. Mas tinha as boas maneiras do refinamento natural e havia feito sua melhor tentativa por não mostrar sua repulsão.

Durante o resto da viagem a Belleterre nenhum deles falou, mas o silêncio era menos incômodo do que ele tinha esperado. Quando a carruagem se deteve frente a seu lar, Falconer a ajudou a descer e disse ligeiramente, como se o assunto não fosse importante:

—Depois deste momento nunca terá que suportar meu toque outra vez. Falconer começou a tirar sua mão direita da dela, mas Ariel se aferrou a ela. Brandamente, com seus enormes olhos azuis olhando-o fixamente, disse-lhe:

—James, não deve pensar que me repugna. Somos quase estranhos, mas foste bom comigo e agora estamos casados. Certamente teremos algum tipo de relação. Espero que não seja tensa. Ele afastou a mão de seu agarre, sabendo que se sentisse o toque de seus magros dedos mais tempo, iria querer fazer mais que só sustentar sua mão.

—Não será tensa. De fato, apenas me verá por acaso no imóvel. Ela franziu o cenho.

—Isso soa como uma vida muito solitária. Não podemos ao menos ser amigos, possivelmente nos fazer companhia de vez em quando?

Seria muito difícil ser amigo dela, mas James disse obedientemente:

— Se deseja isso. Quanta companhia quer?

Ela mordeu o lábio inferior, encantadoramente honesta.

—Talvez... Talvez pudéssemos jantar juntos cada noite. Se não se importar...

—Não, não me importará.

Falconer recordou a si mesmo que o pedido dela provinha da necessidade básica de interação humana e não de algum agrado especial por ele, mas mesmo assim, a alegria formou-lhe redemoinhos por dentro ao saber que ela realmente tinha pedido sua companhia com regularidade. Ariel tomou-lhe o braço enquanto começavam a subir os degraus, surpreendendo-o outra vez. Era uma menina valente, e honrada, disposta a cumprir com seu dever.

Solenemente, James prometeu a si mesmo que não tomaria vantagem dessa boa disposição. Os serventes estavam alinhados dentro da casa para conhecer a nova ama. Ariel sabia que nunca recordaria todos os nomes até que os conhecesse melhor, mas ficou impressionada pelo ar geral de bem-estar. Se realizavam-se orgias em Belleterre, não pareciam consternar aos serventes. Não obstante, percebia uma profunda reserva entre eles, como se duvidassem dela. Supunha que era natural que fossem cautelosos com sua nova ama. Uma vez que descobrissem que não pretendia fazer mudanças radicais, relaxariam.

Terminadas as apresentações, Falconer a deixou em mãos de sua governanta para que fosse levada a suas habitações. A senhora Wilcox era distante, mas amável enquanto levava a sua nova ama acima. Enquanto passava por salas e corredores, Ariel observou que seu novo lar estava mobiliado com um excelente, se não austero gosto. Também estava bem cuidada com os pisos e móveis reluzindo de cera e sem uma bolinha de pó em nenhum lugar. Ao chegar ao destino a governanta abriu a porta e disse:

—Seus pertences foram entregues e as donzelas as desempacotaram, sua senhoria. Se houver algo que deseja, ou queira fazer mudanças, só tem que pedi-lo.

A primeira impressão de Ariel foi que tinha ingressado em um jardim, já que cada superfície disponível estava coberta de vasos com flores de bem-vinda. Vagou pelas habitações perfumadas, impressionada pelo tamanho e luxo de seus alojamentos. Não só havia um dormitório bem mobiliado e uma sala de estar, mas também outra enorme câmara que estava quase vazia.

Levou-lhe um momento para dar-se conta de que essa sala era para estudo, já que havia luz do norte e um cavalete na esquina. Seus olhos arderam. James saberia o quanto isto significaria para ela? Devia havê-lo adivinhado; embora fosse um estranho, entendia-a melhor do que seu pai jamais a tinha compreendido.

Detrás dele, uma suave voz do Kent disse:

—Sou Fanny, sua senhoria, e serei sua donzela pessoal. Deseja tirar seu traje agora e descansar antes do jantar?

Agradecidamente Ariel aceitou a sugestão da jovem, já que a tensão do dia a tinha deixado exausta. Dormiu bem e despertou refrescada. Fanny apareceu novamente e a ajudou a vestir-se. Em uma das surpresas que começavam a tornarem-se frequentes, Ariel descobriu um armário cheio de roupas novas. Aparentemente tinham encarregado à costureira em Londres que lhe fizesse todo um novo guarda-roupa, além do vestido de noiva. Seu marido tinha julgado bem seu gosto, já que a maioria dos vestidos eram soltos vestidos de tarde.

Seriam perfeitos para o dia no campo, particularmente para pintar e caminhar. As cores escolhidas eram em tons pastéis claros e delicados que assentavam bem a seu cabelo loiro e tez clara. Ariel começava a suspeitar que a Besta Negra tivesse o olho de um artista.

Quando desceu para jantar, encontrou seu marido esperando no salão. Saudou-a com gravidade e perguntou se tudo era de seu gosto. Assegurou-lhe que suas habitações eram adoráveis, especialmente o estúdio. Então foram juntos a sala de jantar. James ficou tenso quando tomou o braço, e Ariel se perguntou se achava seu toque de mau gosto. A sala de jantar era muito grande, a um extremo da habitação e era bastante escuro, embora o sol do verão ainda não houvesse se posto.

Ariel tinha pensado que quando seu marido comia poderia tirar o capuz, mas não o fez. Como sua cadeira estava na parte escura da sala e ela estava a uma dúzia de metros, na ponta longínqua da mesa lustrada, não via nada de seu rosto. O jantar foi silencioso até o final, quando foi servido frutas.

Logo depois que o lacaio abandonou a habitação, Ariel disse:

—Sempre se senta ou para nas sombras?

James se deteve no ato de cortar um pêssego.

—Sempre.

—É necessário?

—Para mim sim. — lentamente começou a cortar uma espiral de pele de pêssego com seus largos dedos destros. Nas sombras era impossível ver as cicatrizes em sua mão esquerda. — Disse que podia fazer o que desejasse em Belleterre. Em troca, Ariel, eu peço que respeite meus desejos neste assunto.

Ela mordeu o lábio.

—É obvio James.

O resto da comida passou em silêncio. Quando terminaram, levantaram-se e foram ao corredor. Ariel tinha pensado que possivelmente se sentariam juntos depois de jantar, mas em troca seu marido disse:

—Boa noite, querida minha. Se desejares ler, a biblioteca está ao outro lado dessa porta à esquerda. A seleção de livros é ampla e, é obvio, é bem-vinda a adicionar o que desejar à coleção. Ariel se deu conta de que ele tinha falado a sério ao dizer que se veriam pouco. Bom, ela tinha desejado uma vida tranquila, e parecia que seu desejo seria atendido.

Estava dizendo boa noite quando uma escavada de garras soou sobre o polido piso de mármore. Ariel levantou o olhar para ver um cão trotando ansioso pelo corredor. Era o cão mais feio que já tinha visto, ossudo, manchado e de duvidosa origem. Mas seu rosto peludo brilhava com felicidade canina ao chegar junto de seu amo, então se sentou sobre as patas traseiras e se balançou sobre suas ancas.

Falconer arranhou a cabeça do cão e uma língua rosada pendurou fora de sua boca ofegante.

—Você chegou a conhecer a sua nova ama, Cerberus?

Divertida pelo nome, Ariel disse:

—Cerberus não tem interesse em mim; claramente é a ti a quem adora com todo seu canino coração.

A bata de Falconer se agitou, como se houvesse uma ligeira brisa.

—Não se demora muito para ganhar o coração de um cão.

Ariel estava começando a dar-se conta de que podia ler os movimentos do tecido para determinar os estados de ânimo de seu marido; muito útil, já que seu rosto estava oculto. Embora fosse nova com a habilidade de ler togas, adivinhou que ele estava incômodo com seu comentário de ser adorado. Pobre homem, sentia-se indigno até da devoção de um cão? Com repentina ferocidade, Ariel quis saber mais sobre o estranho com quem se casou; quis saber o que o havia feito e o que era. Com o tempo certamente saberia. Depois de tudo, estavam vivendo sob o mesmo teto.

Pelo canto do olho, Ariel viu mais movimentos. Girando a cabeça, viu um gato branco e negro entrando no corredor. Movia-se muito estranho, e depois de um momento se deu conta de que lhe faltava uma pata traseira. Entretanto, parecia não ter problemas para mover-se. Ariel se ajoelhou e esfregou seus dedos, esperando que criatura fora com ela.

—Esse é Tripod! — disse Falconer — Sua pata foi acidentalmente cortada por uma foice.

Logo depois de um desdenhoso olhar ao Cerberus, a gata saltou para Ariel e se esfregou contra seus dedos estirados. Ela sorriu.

—Obrigado por se dignar a me conhecer, Tripod.

Com ciúmes, o cão trotou para ela para pedir um pouco de atenção. Enquanto Ariel lhe alvoroçava as orelhas caídas, murmurou:

—Que tipo de aparência divertida é. Recorda-me ao quadro de um boi almiscarado que vi uma vez.

Com uma voz grave, seu marido disse:

—Qualquer criatura feia tem um lar assegurado aqui. — Ariel ficou gelada um momento, sentindo que tinha cometido algum tipo de erro terrível. Então ficou de pé e disse com calma:

—É um homem muito bondoso, James, para acolher a abandonados e perdidos. Depois de tudo, eu sou um deles. Boa noite. Então foi acima às encantadoras habitações onde passaria sua noite de bodas sozinha.  

Embora a tivesse visto com seus próprios olhos e conversado com ela durante o jantar, ele custava acreditar que ela estava sob seu próprio teto. Em sua mente nunca usava o nome Ariel; para ele sua esposa era ela, como se fosse a única mulher no mundo. O que não tinha esperado era quão atormentadora seria sua presença. Dez anos se passaram desde a última vez que tinha dormido com uma mulher e havia se tornado razoavelmente confortável com a vida monástica.    

Mas já não mais; embora seguisse vestindo os mantos de um monge, sofria de desejo. Queria tocar a pele de sua esposa, suave como uma flor, enterrar suas mãos no sedoso cabelo, inspirar seu doce aroma feminino. Queria mais que isso, embora não se permitisse pôr palavras a seus pensamentos básicos. Depois de que ela foi se deitar, ele saiu e caminhou de uma ponta de Belleterre à outra enquanto o entardecer se tornava noite. Cerberus trotava obedientemente detrás, preparado para defender seu amo dos ataques letais de coelhos e faisões.

Assim que estava suficientemente escuro, Falconer tirou o capuz, dando boas-vindas ao frio ar noturno, já que ardia. Desprezava a si mesmo pela debilidade de seu corpo; era impensável que um monstro como ele pudesse estar com o anjo com quem se casou. Ao menos, a diferença de Gordstone, ele sabia que era um monstro. Mas em seu coração, não era melhor que o outro homem, porque não podia deixar de desejá-la. Era muito tarde quando retornou à casa.

Para sua surpresa, quando subiu as escadas viu uma luz sob a porta do dormitório de sua esposa. Também lhe estava custando dormir? Talvez devesse ir e falar com ela, tranquilizá-la sobre sua nova vida. Embora soubesse que mentia a si mesmo a respeito de seus motivos, literalmente não pôde evitar descer pelo corredor e golpear brandamente à porta de Ariel. Quando não houve resposta, girou o pomo e abriu facilmente a porta, logo atravessou a habitação até a cama.

Ela havia adormecido enquanto lia, e jazia com a cabeça voltada para um lado, seu pálido cabelo loiro derramando-se abundantemente sobre o travesseiro. Vestia uma camisola com delicadas nervuras e renda, e era a coisa mais formosa que ele jamais havia visto. James tomou o livro que ela tinha deixado sobre o cobertor. Era um de seus próprios volumes de William Blake, o místico poeta e artista. Uma boa escolha para uma moça que também era uma artista.

Depositou o exemplar sobre a mesa junto a um vaso de rosas, apagou o abajur e ordenou a si mesmo abandonar a habitação. Mas se permitiu um último olhar. As cortinas do dormitório não tinham sido fechadas, e à luz da lua ela era como uma figura modelada em marfim e prata. Ele se embebeu da imagem, sabendo que nunca poderia permitir-se fazer isto novamente, já que não podia confiar em si mesmo estando tão perto de Ariel.

Quando havia memorizado sua imagem o suficientemente bem para que lhe durasse toda uma vida, girou para partir. Estava a meio caminho da porta quando sua resolução se quebrou e voltou a entrar. Contra sua vontade, sua mão se levantou e começou a mover-se para ela. Com uma violência que era muito intensa para ser apagada, voltou-se para o vaso de rosas e agarrou os caules com sua mão esquerda. Ignorando os espinhos cravando-se em seus dedos, tirou as pétalas com a mão direita. Então, lentamente espalhou as frágeis pétalas escarlates sobre Ariel como um pagão adorando a sua deusa.

Elas pareciam-se com veludo negro enquanto se dispersavam sob os raios da lua. Uma pétala lhe tocou a bochecha e deslizou pela suave curva, indo descansar sobre sua garganta, exatamente do modo em que ele desejava tocá-la. Enquanto o embriagador aroma de rosas enchia o ar ao redor de James, mais pétalas caíram no cabelo dourado e a delicada camisola de musselina, subindo e caindo com o lento ritmo de sua respiração. Quando sua mão ficou vazia, ele respirou estremecidamente. Então se voltou e saiu de sua habitação para sempre.

Outono…

Ariel adicionou um pouco mais de pintura amarela à mescla, deu uma pincelada carregada pelo papel de prova, e logo examinou criticamente o resultado. Sim, isso devia servir para a sombra base das folhas, que estavam à altura de sua cor outonal. Nas seguintes duas horas, fez vários esboços em aquarela dos bosques, mais interessada em criar uma impressão de vibrante cena do que desenhar uma cópia exata. Como James dizia, agora que os fotógrafos eram capazes de reproduzir imagens precisas, os artistas tinham mais liberdade para experimentar, para ser mais abstratos. O trabalho absorvia sua inteira atenção, já que a aquarela era em muitos sentidos o meio mais complicado e volátil.

Quando finalmente obteve uma pintura que a satisfazia, começou a empacotar seu equipamento dentro dos alforjes especiais que um dos moços do estábulo de Belleterre fizera para carregar suas coisas por todo o imóvel. O lugar era profundamente pacífico. Sobre sua cabeça, altos olmos sussurravam no vento como um rio nascido no céu. Não havia levado muito tempo para que sua vida mergulhasse em uma cômoda rotina. Como seu marido tinha prometido, tinha paz, liberdade e tudo que o dinheiro pudesse comprar.

O tamanho do subsídio que lhe dava era assombroso, e tinha sido emocionante encomendar os melhores papéis e tecidos, os mais caros pincéis e pigmentos, e nunca ter que considerar o preço. Também provou ser bastante educativo ter semelhante riqueza ao seu dispor. Descobriu que depois de ter comprado seus implementos artísticos, havia pouco mais no que gastar o dinheiro. Nem sequer precisava comprar livros, já que a biblioteca de Belleterre era que melhor já havia visto. Nem tinha que comprar roupas, pois tinha o guarda-roupa que seu marido lhe tinha dado ao casar-se.

Também lhe tinha dado uma deliciosa égua cinza de formosas maneiras. Foxglove era o cavalo mais bonito do imóvel, já que o resto das bestas era um grupo de aspecto raro. Embora bastante capazes de fazer seu trabalho, tendiam a ter joelhos com vultos, orelhas cortadas e pelagens que eram ásperas até depois do mais profundo polido. Os pares não se encaixavam para nada. Ela suspeitava que, igualmente a Cerberus e Tripod, tinha dado um lar aos cavalos porque não tinham sido apreciados por um mundo que valorizava a aparência acima das aptidões.

A Ariel pareciam simpáticos, os cavalos desiguais e quase lhe incomodava o fato de que seu marido tivesse comprado Foxglove para ela. Acreditava que era incapaz de apreciar algo que não fosse perfeito? Aparentemente. Entretanto, como sua intenção tinha sido agradá-la, dificilmente podia queixar-se. Sim, James lhe tinha dado exatamente a vida de paz e liberdade que tinha prometido.

Podia desenhar e pintar tanto quanto quisesse, porque já não tinha que passar a maior parte de seu tempo tentando, em vão, fiscalizar o descuidado imóvel de seu pai. Seu trabalho estava melhorando, e parte do crédito devia ir a seu marido, já que com frequência discutiam sobre arte no jantar. Seu conhecimento de pintura era notável e suas observações muito úteis, porque as habilidades dela eram mais intuitivas que analíticas.

Entretanto, em vez de montar para retornar à casa, Ariel pôs seus braços ao redor do pescoço de Foxglove e enterrou seu rosto contra a pele brilhosa e com aroma de cavalo da égua. Era uma jovem muito afortunada. Sendo esse o caso, por que era tão triste?

—Oh, Foxy... — disse com voz afogada — Estou tão sozinha... Mais só do que estive em toda minha vida. Às vezes parece que é minha única amiga.

Embora soasse perigosamente como auto compaixão, essa afirmação era certa. Se não tivesse pedido que seu marido jantasse com ela, passaria dias e dias sem vê-lo. Esperava ansiosa por aqueles jantares, porque ele era o mais agradável dos acompanhantes, culto e divertido, capaz de discutir sobre qualquer tema. Apesar de sua juventude e frequente ignorância, ele nunca era rude ou desdenhoso com suas opiniões; de fato, as discussões a estavam tornando muito mais entendida, e as desfrutava enormemente.

Entretanto, sem importar quão agradável fosse o jantar, assim que terminava James se despedia dela com um amável boa noite e se retirava. Ariel não voltava a vê-lo até a noite seguinte, exceto possivelmente por acaso, à distância, quando ele cavalgava pelo imóvel. Além disso, os serventes de Belleterre eram um grupo surpreendentemente reservado. Ariel tinha tido um bom relacionamento com todos em Gardsley, mas as pessoas de Falconer eram tão distantes agora como no dia em que tinha chegado, quatro meses antes.

A única exceção era Patterson, esse velho moço do estábulo meio cego que tinha sido padrinho de seu marido nas bodas. Ao menos ele sempre era amistoso, embora não muito comunicativo. Patterson, Foxglove, Cerberus e Tripod formavam quase toda a vida social de Ariel. Inclusive sua amiga Anna não havia escrito em meses, presumivelmente porque estava absorta com sua nova família. Com um suspiro, Ariel montou e deu volta com Foxglove para o lar. Sempre tinha sido capaz de viver bastante feliz em seu próprio mundo; de fato, nunca havia se sentido só até chegar em Belleterre.

Agora considerava uma boa noite quando Tripod se dignava a dormir em sua cama. Ariel havia mudado, e a culpa podia ser lançada à seu marido. A solidão já não era suficiente, porque adorava estar com ele; adorava ouvir sua voz profunda e bondosa, adorava rir com seu mordaz senso de humor. Ficaria feliz em andar atrás dele como Cerberus. Mas não podia, porque sabia que James não gostaria disso.

Era apenas uma moça e não muito interessante; embora ele estivesse disposto a compartilhar uma refeição por dia com ela, mais de sua companhia provavelmente o faria chorar. Ariel não se atrevia a arriscar o que tinha, pedindo mais do que James estava disposto a dar. Enquanto ela freava Foxglove em frente aos estábulos, Patterson saiu tranquilamente para ajudá-la a desmontar. Quando seus pés estiveram a salvo sobre o chão, Ariel fez uma pergunta impulsivamente, inspirada por seus pensamentos anteriores.

—Patterson, por que todos os serventes são tão reservados comigo? É algo que fiz?

O ancião se deteve no ato de desempacotar seus materiais de pintura.

—Não, milady. Todos a consideram muito adequada.

—Então, por que sinto como se estivesse sendo julgada e não dou ao trabalho? — disse Ariel, e imediatamente se sentiu tola.

O moço do estábulo tomou suas palavras de bom modo.

—Não é isso, milady. Você é muito admirada. — disse. — É só que temem que possa machucar ao amo.

Ela o olhou fixamente.

—Machucá-lo? Por que faria isso? — lhe ocorreu uma horrível ideia — Certamente ninguém pensa que o envenenaria para poder ser uma viúva rica!

—Não é isso, milady. — disse ele rapidamente — Não é esse tipo de dano pelo que estão preocupados. — ele tirou os alforjes da égua. Sem olhar para Ariel, disse: — Não é necessário uma faca ou um revólver para se romper o coração de um homem.

—Sua senhoria sabe apenas que estou viva. — disse ela, incapaz de acreditar na insinuação — Sou só mais uma criatura desafortunada que ele trouxe para Belleterre porque necessitava de um lar.

—Não, milady. Não é em nada como outros. — face ao nublado de seus olhos, o olhar de Patterson parecia passar justamente através dela — Conheci a esse moço a maior parte de sua vida, e sei que nunca trouxe para casa ninguém como você.

A mente de Ariel foi inexplicavelmente à manhã depois das bodas. Tinha encontrado pétalas de rosas vermelho sangue em cima de toda a cama quando despertou. Tinha estado surpreendida e um pouquinho incômoda, até que concluiu que algumas das flores deveriam ter caído e sido sopradas pelo vento. Mas se fosse o vento, tinham caído de modo muito estranho.

Tinha uma imagem mental de James semeando pétalas de rosa, e um estranho e profundo calafrio a atravessou. Seria possível que lhe importasse do modo em que a um homem importava uma mulher? Rechaçou a ideia. Ele não a queria por esposa; aparentemente a natureza de James era tão monástica como suas roupas. Enquanto Ariel vacilava, apanhada em seus pensamentos, Patterson disse:

—Acredito que ele está no aviário, milady. Se quiser, posso levar suas pinturas à casa.

Como indireta não havia nada sutil nela.

—Por favor, faça-o, Patterson. E obrigado.

Os passos de Ariel eram lentos enquanto caminhava pelos jardins para o aviário. Se compreendera corretamente o velho moço do estábulo, importava a James, ao menos o suficiente para ter o potencial de feri-lo. Não porque alguma vez fosse fazê-lo, mas o lado oposto desse potencial era que poderia ser capaz de fazê-lo feliz. Com frequência sentia tristeza irradiando de seu marido, e a possibilidade de poder reduzi-la era tentadora. Seus passos se fizeram ainda mais lentos quando avistou o aviário.

Era um enorme recinto feito de ferro fundido, elaboradamente moldado e pintado de branco. Não só era o suficientemente grande para incluir várias árvores pequenas e um pequeno lago, mas também para um abrigo onde as aves podiam refugiar-se durante o mau clima. O aviário era o lar de dúzias de pássaros, a maioria deles espécies estranhas que Ariel não reconhecia. Com frequência ia vê-los voar, tagarelar e jogar conversa fora. Em particular desfrutava em persuadir ao grande papagaio verde a conversar.

Várias vezes tinha feito esboços dos residentes do aviário, tentando capturar os movimentos velozes e brilhantes. Mas hoje seu olhar foi diretamente ao seu marido, que estava dentro do recinto. Em vez de seu habitual manto às panturrilhas, estava vestido com um escuro casaco e calças como os que qualquer cavalheiro poderia usar para um dia de administração do imóvel. De qualquer modo, sua cabeça e ombros estavam ocultos em um capuz folgado que ocultava seu rosto tão efetivamente quanto o manto mais largo. Ariel o tinha visto ocasionalmente vestido desse modo, mas sempre à distância.

De perto, era um homem de excelente figura, alto, forte e masculino. Seu casaco negro mostrava a amplitude de seus ombros. Seus movimentos a fascinavam; o girar de seu poderoso pulso quando estirava a mão para que um pequeno pássaro marrom pudesse saltar em cima dela, sua suavidade enquanto acariciava a cabeça da pequena criatura com um índice, sua calorosa risada afogada quando o papagaio desceu em parafuso e aterrissou sobre seu ombro com um grande açoite de asas. As aves o amavam, sem lhe importar como era seu rosto.

O mesmo era certo para todas as criaturas que viviam em Belleterre, e todos os humanos também, incluindo Ariel. Ou possivelmente o que ela sentia por seu marido não era amor, mas podia sê-lo se lhe desse uma possibilidade. Ela tinha saudades de sua companhia, de seu toque. Em sua limitada vida nunca tinha conhecido a ninguém como ele; não só pela evidente razão de como se vestia, mas também por sua bondade e conhecimentos. Já não importava que não soubesse como se via; estava tão acostumada com seu capuz que, em efeito, converteu-se em seu rosto.

Mas, como podia uma ignorante jovem dizer a um homem amadurecido e educado que desejava ser mais para ele? Rogando que lhe chegasse a inspiração, Ariel elevou o fecho da porta e entrou no aviário. Cerberus, que tinha estado recostado fora, levantou-se cambaleando e tentou entrar com ela, mas Ariel o conteve firmemente. Quando a porta fechou tilintando detrás dela, James virou-se. Com surpresa em sua voz, disse:

—Pensei que estivesse pintando, Ariel.

—Estava, mas a luz mudou, assim resolvi parar depois de ter pintado algo que, de alguma forma, fiquei satisfeita.

Com um sorriso na voz, ele disse:

—Alguma vez está um artista completamente satisfeito com seu próprio trabalho?

Ela sorriu com pesar.

—Duvido-o. Sei que eu nunca estou.

Enquanto ela tentava pensar no que dizer a seguir, o papagaio voou a um ramo e cantou brandamente:

— Ar-r-riel. Ar-r-riel.

Surpreendida, disse:

—Quando aprendeu isso?

James deu de ombros.

—Agora mesmo, imagino. É uma criatura contrária. Uma vez passei horas tentando sem êxito lhe ensinar a dizer 'Deus salve à Rainha.' Quão único aprendeu esse dia foi a frase 'Que deus o leve,' que disse justo antes de me render, exasperado.

A ave atentamente grasnou:

—Que o diabo o leve! Que o diabo o leve!

Ariel riu.

—Está seguro de que 'que deus o leve' foi o que aprendeu esse dia?

Seu marido se uniu a suas risadas.

—Parece que minha má linguagem foi exposta. Sinto muito.

—James…

Não segura de como dizer o que queria, Ariel deu vários passos para seu marido. Para sua consternação ele se afastou.

—Alguma vez viu um destes periquitos de perto? — apoiou uma mão sobre o ramo e o pássaro saltou sobre ela — Adoráveis criaturinhas.

Foi feito habilmente, como se não estivesse retirando-se, mas sim simplesmente tivesse visto algo que tinha apanhado sua atenção. Ariel sentiu as lágrimas ardendo em seus olhos. Patterson devia estar equivocado; se importasse ao James de um modo especial, ele não fugiria cada vez que ela se aproximava. Estava lutando por manter a compostura quando o periquito de peito azul repentinamente saltou pelo braço de seu marido e desapareceu entre as dobras do capuz, onde se envolveu ao redor de sua garganta.

Para o Ariel foi o cúmulo. Inclusive essa tola avezinha, que não serviria para mais de dois bocados para o Tripod, tinha-lhe sido permitido estar mais perto de James que ela. Sua solidão e desejo brotaram, e com eles as lágrimas. Humilhada, deu a volta para abandonar o aviário, querendo afastar-se antes que seu marido se desse conta. Mas ele notou tudo. Rapidamente, disse-lhe:

—Ariel, o que acontece?

Ela sacudiu a cabeça e tentou torpemente abrir a porta, mas o fecho estava rígido deste lado. Enquanto lutava com ele, seu marido veio detrás dela e lhe tocou hesitantemente o cotovelo.

—Seu pai tentou comunicar-se contigo, ou te alterou de algum modo?

Para o Ariel foi o mais natural do mundo voltar-se para ele, e para James pôr os braços ao redor dela. Chorava mais do que tinha chorado em toda sua vida, mesmo quando sua mãe tinha morrido. Mas, Deus querido, que maravilhoso se sentia estando em seu abraço! Ele era tão forte, tão quente, tão seguro. Tão alto, também… o topo de sua cabeça não alcançava ao queixo dele, o qual deixava seu ombro a uma altura conveniente. Tentando deter suas lágrimas, ela tratou de respirar, pressionando seu rosto contra a suave lã negra de seu casaco.

—Ariel, minha querida moça... — disse ele com suave impotência, balançando-a um pouquinho — Há algo que possa fazer? Ou… ou está chorando porque está casada comigo?

—Oh, não, não, não é esse o problema. — deslizou os braços ao redor da cintura do James, querendo estar tão perto como pudesse — É só que… estou tão só aqui. Seria possível que passássemos mais tempo juntos? Possivelmente nas noites, depois do jantar. Não te incomodarei se quiser trabalhar ou ler, mas eu gostaria de estar contigo.

Era o mais perto que podia chegar de pôr seu coração nas mãos de James. Ele não respondeu por um comprido momento, tanto que ela pensou que poderia sufocar-se, porque não parecia poder respirar normalmente. Uma mão lhe acariciava as costas, lentamente, como se estivesse acalmando a um cavalo.

Finalmente ele disse:

—É obvio que podemos, se isso for o que quer.

—Mas, incomodar-te-á? — perguntou Ariel, precisando saber se ele estava disposto ou só a estava consentindo. Sentiu um fraco roçar contra seu cabelo, da mão dele, ou talvez seus lábios.

—Não, não me incomodará. — respondeu brandamente — Será um prazer para mim.

Ela estava tão feliz que suas lágrimas começaram a fluir novamente. Isso lhe deu uma desculpa para ficar justo onde estava, entre os braços de James. Nunca se cansaria de seu abraço, porque sentia como se tivesse chegado em sua casa. Além da felicidade, sentia emoções mais profundas que não reconhecia. Assustavam-na um pouco, mas ao mesmo tempo sabia que queria explorá-las mais, porque tinham algo a ver com James. Deu-se conta de quanta tensão havia em seu marido. A contra gosto deu um passo atrás, porque não queria esgotar suas boas-vindas.

—Está ficando tarde. — repentinamente consciente da desordem de seu cabelo e as manchas em seu traje de pintar, disse: — Devo ir me trocar para o jantar.

—Esta noite, se quiser, podemos nos sentar na biblioteca. — disse James vacilante — Tenho algumas cartas a escrever, mas se acredita que não te aborrecerá…

— Não ficarei aborrecida. — Ariel estava quase envergonhada pela transparente felicidade em sua voz — Vê-lo-ei no jantar.

Essa noite seria o primeiro passo, e com o tempo haveria outros. Não estava exatamente segura de onde conduziria esse caminho, mas sabia que devia segui-lo.  

A refeição foi a mais alegre que compartilharam. Falconer se perguntava se sua esposa esperava com ânsia por passarem a noite juntos tanto quanto ele, e logo decidiu que isso era impossível. Entretanto, ela estava mais feliz do que jamais viu antes. Apesar de não perceber até agora, quando a diferença era óbvia, que ela estava tornando-se cada vez mais calada, e seu característico brilho estava apagando-se.

Recordou-se a si mesmo que inclusive as jovens mulheres independentes que desfrutavam da solidão necessitavam um pouco de companhia, e para Ariel, ele era o que havia disponível. Não tomaria como algo pessoal o desejo dela de vê-lo mais… Mas isso não significava que não pudesse desfrutá-lo. Foram à biblioteca tomar o café, ainda conversando, com uma calidez tangível entre eles. Falconer tomava cuidado de não esticar essa frágil teia de sentimento, porque queria que se fortalecesse. Ariel se sentou e serviu cortesmente café de uma cafeteira de prata. Embelezada com um vestido de seda azul, via-se especialmente adorável essa noite, sua delicada cor tão fresca como as flores da primavera.

Enquanto lhe passava a taça, ela disse:

—Hoje recebi uma carta de minha antiga governanta, Anna. Falei-te sobre ela? — quando James respondeu negativamente, Ariel continuou: — Logo depois de partir de Gardsley, ela encontrou um posto ensinando às duas filhas de um viúvo que vive em Hampstead, justo ao norte de Londres.

Ele revolveu o leite em seu café.

—O homem é intelectual ou artístico, como muitos que vivem em Hampstead?

Ela riu.

—Assim é. O senhor Talbott desenha tecidos e móveis para elaboração industrial e é bastante bem-sucedido nisso. Também tem o bom senso para apreciar a Anna. De fato, casaram-se no mesmo dia que nós. Foram à Itália em lua de mel e acabam de retornar. Anna desculpou-se por não escrever, mas disse que esteve tão ocupada e feliz que não se deu conta de quanto tempo tinha passado. Convidou-nos a visitá-la em Hampstead; a casa é muito grande. — Ariel olhou timidamente por cima de sua taça de café — Estaria disposto a fazê-lo em algum momento? Agradar-te-á Anna, e o senhor Talbott soa como um homem maravilhoso.

Falconer franziu o cenho, mas não quis arruinar o humor da noite.

—Possivelmente algum dia. — disse vagamente.

Ariel o contemplou pensativamente e trocou de tema. Falaram de outras coisas até que terminou o café. Então ela ficou de pé. Falconer temeu que tivesse mudado de opinião e fosse para cima, até que ela disse:

—Lerei enquanto escreve suas cartas. — ofereceu-lhe um sorriso brilhante e ligeiramente nervoso — Não quero distraí-lo de seu trabalho.

Quando ela estava tão perto, era difícil pensar nas cartas, mas James foi obedientemente a sua mesa e começou a escrever. Tinha uma grande e variada correspondência, porque as cartas eram um modo de estar envolto com as pessoas sem ter que conhecê-las cara a cara. Cerberus estava agradavelmente desconcertado por ter a ambos na habitação, e ia e vinha, saltando primeiro junto a Falconer, logo perambulando para a poltrona onde Ariel estava lendo.

Tripod era mais preguiçosa, e simplesmente se enroscou sobre a mesa, em cima de uma pilha de papéis de carta. Falconer não podia recordar quando tinha sido mais feliz. A biblioteca, com seus profundos móveis estofados em couro, sempre tinha sido sua habitação favorita, e ter a presença de Ariel fazia que mesmo o paraíso parecesse inferior. Mas a noite melhorou ainda mais. Ouvindo um som a seu lado, baixou distraidamente a mão esquerda para alvoroçar as orelhas do cão. Em troca, tocou um cabelo sedoso. Olhando para baixo, viu sua esposa enroscada contra sua cadeira.

—Ariel? — perguntou, sobressaltado.

Ela levantou o olhar, brincalhão em vez de desculpas.

—Cerberus desfruta que lhe arranhem a cabeça, assim pensei em provar. — seu sorriso se desvaneceu — Sinto muito, não deveria haver lhe incomodado.

—Não é necessário desculpar-se. — girou a cabeça para que ela não pudesse ver sob o capuz — Estou preparado para um recreio.

Como se tivessem vida própria, seus dedos se enroscaram nas brilhosas mechas. Tinha pensado que seus dedos com cicatrizes tinham pouca sensibilidade, mas agora podia jurar que podia sentir cada delicada mecha separadamente. Com um suave suspiro satisfeito ela relaxou contra o flanco de sua cadeira. Por, possivelmente, um quarto de hora, mantiveram-se assim, enquanto James lhe acariciava a cabeça, o magro pescoço, as delicadas orelhas.

Enquanto o fazia, a alegria borbulhava dentro dele como uma fonte de luz, e em sua mente ressoou as palavras do famoso soneto da Elizabeth Barrett Browning: Como te amo? Deixe-me contar os modos… Porque amava a esta moça deliciosa que era sua esposa.

O dia de suas bodas, quando ela tinha expressado seu desagrado por ser cortejada unicamente por sua beleza, ele havia se sentido envergonhado, porque não podia evitar estar cativado por seu encanto. Entretanto até nesse primeiro momento, quando a imagem dela tinha sido como uma flecha em seu coração, tinha percebido que sua beleza era até mais de espírito que de corpo.

O idílio terminou quando Tripod, decidindo que necessitava atenção, saltou de repente no colo de Ariel. Ela riu e se endireitou. Falconer começou a retirar sua mão, mas antes que pudesse, ela apanhou seus dedos. Então, muito deliberadamente, apoiou a bochecha contra a palma de sua mão.

A pele de Ariel era suave como a porcelana contra as ásperas cicatrizes que inutilizavam seus dois dedos menores e voltavam horríveis ao restante de sua mão. Mas ela não se acovardou. James começou a tremer enquanto ondas de sensações pulsavam dentro dele, começando em seus dedos e estendendo-se até que cada célula de seu corpo vibrou.

Pela primeira vez se perguntou se seria possível que tivessem um matrimônio real. Ela não parecia enojada pelas cicatrizes em sua mão; haveria uma possibilidade de que pudesse tolerar o resto dele? O pensamento era tão aterrador como excitante. Suas emoções muito caóticas para controlá-las, Ficou de pé e logo ela. Roucamente disse:

—É hora de ir à cama. Mas, possivelmente pela manhã te uniria a mim para ir cavalgar?

O sorriso dela era impressionante.

—Eu gostaria muito.

Ele apagou as luzes e a acompanhou até sua habitação, com os animais seguindo-os detrás. Em sua porta, ela se voltou para ele.

—Boa noite, James. — lhe disse com voz suave e rouca — Durma bem.

À débil luz do corredor, ela se via ansiosa e acessível, seus lábios ligeiramente abertos, seu cabelo docemente despenteado por suas carícias de antes. O instinto lhe disse que ela aceitaria um beijo, e possivelmente mais. Mas era tão formosa que James não pôde tocá-la.

—Boa noite, Ariel.

Dando a volta se afastou, sentindo-se tão frágil que um toque poderia fazê-lo em pedaços. A ideia de que pudessem construir um matrimônio verdadeiro era muito nova, muito aterradora para segui-la. Podia estar interpretando mal a boa disposição dela. Ou, pensamento indescritível, Ariel podia acreditar-se disposta, mas poderia mudar de opinião quando o visse. Havia algo que ele sabia: se o rechaçava agora que tinha começado a ter esperanças, seria incapaz de suportá-lo.

Ariel foi à cama em estado de júbilo. James tinha estado contente de estar com ela, sabia. Nem sequer tinha se importado quando ela tinha sucumbido bobamente a seu desejo de estar mais perto. O melhor de tudo era que queria cavalgar com ela. Possivelmente podia acontecer todo o dia juntos. E talvez a noite…? A ideia a encheu de cândida emoção. Não sabia claramente o que acontecia em um leito matrimonial, mas sabia que havia beijos e abraços envoltos e definitivamente gostava dessas coisas; ainda formigava pelo gentil fogo do toque de James.

Se a intimidade começava com um beijo, em que emocionante lugar poderia terminar? Suas ardentes emoções lhe tornaram impossível dormir. Finalmente suas voltas provocaram um grunhido de protesto de Tripod, que necessitava de suas vinte horas de sonho cada dia. Ariel se rendeu e saiu da cama. Enquanto acendia o abajur sobre seu escritório, decidiu que o melhor uso de sua alegria de espírito era responder a carta de Anna, já que agora estava no mesmo sublime ânimo que tinha estado sua amiga.

Sua gaveta de papelaria continha só duas folhas de carta, que não seriam suficientes. Devia procurar mais na biblioteca. Cantarolando brandamente, colocou sua bata, tomou o abajur e foi escada abaixo. As sombras cambiantes a fizeram pensar em fantasmas, mas se havia alguns por perto, certamente seriam benévolos. Devia perguntar a James pelos fantasmas de Belleterre; qualquer edifício tão antigo devia ter ao menos três ou quatro. Com fantasmas em sua mente, Ariel abriu a porta da biblioteca e piscou com surpresa. No canto mais afastado da habitação, emoldurado por escuras prateleiras de livros, flutuava um objeto que se parecia horrivelmente a um crânio. Ariel gritou repentinamente, estupefata.

Uma agitação de sons e movimentos ocorreu, muito rápido e confuso para que Ariel o entendesse. O objeto se afastou girando, acompanhado de uma exclamação suave e angustiada. Quase simultaneamente se ouviram um ruído surdo, um sussurro de tecidos e logo um ressonante golpe da porta no lado mais longínquo da biblioteca. Chocada e sozinha, Ariel soube com uma certeza além da razão que algo catastrófico acabava de ocorrer.

Liberou entrecortadamente o fôlego que tinha estado contendo e caminhou para o canto mais longínquo da sala. Um abajur baixo ardia sobre a mesa; assim era como tinha visto… o que fora que tivesse visto. Um livro jazia aberto no chão, e se ajoelhou para levantá-lo. Os Sonetos da Portuguesa, da Elizabeth Barrett Browning. Deus querido, o outro ocupante da biblioteca devia ter sido James com o capuz baixo.

Tentou recordar a fugaz imagem que tinham visto seus olhos quando tinha entrado na habitação, mas por mais que tentasse não podia recordar detalhes. O objeto flutuante tinha estado à altura adequada da cabeça dele; a brancura parecida com um crânio devia ter sido seu cabelo, loiro pálido como o seu ou possivelmente prematuramente grisalho. Coberto por seu escuro manto, o resto do corpo do James tinha sido invisível na escuridão, o qual tinha convertido a sua imagem tão estranha. Com doente horror adivinhou que ele tinha deixado cair o livro e fugido por sua horrorizada exclamação.

Apoiou-se enjoada contra a biblioteca, com o volume de poesia apertado contra seu peito. James devia ter pensado que ela estava reagindo a sua aparência com repugnância. Mas em realidade nem sequer o tinha visto! Simplesmente tinha tido fantasmas em sua cabeça e se desconcertou ao ver algo fantasmal. Mas para James, que sempre estava tão profundamente envergonhado de sua aparência, devia ter parecido como se ela o encontrasse repugnante. Ele não teria fugido assim, sem uma palavra, se não estivesse profundamente ferido.

Angustiada, deu-se conta de que isto era o que os serventes tinham temido. Ela tinha o poder de ferir seu marido, e sem intenção o tinha feito. Ele devia sofrer ainda mais porque tinham começado a aproximar-se; certamente, esse fato amplificava a própria dor de Ariel. Decidida a lhe explicar que tudo tinha sido um espantoso engano, apagou a luz que ele tinha deixado, tomou seu próprio abajur e foi acima, para as habitações de James. Vacilou fora de sua porta, porque nunca tinha estado dentro, e entrar sem convite era uma invasão dessa privacidade que ele envolvia ao seu redor tão certamente como seu capuz.

Mas Ariel não podia permitir que o mal-entendido não fosse corrigido. A dor em seu coração era quase insuportável, e ele devia sentir-se até pior. Deu a volta ao pomo da porta da sala de estar de James, e a porta se abriu brandamente, mas não havia ninguém dentro. Rapidamente revisou a sala de estar e o dormitório ao lado. Nada mais que móveis sólidos e masculinos, e tecidos de ricas cores. Abriu a última porta e se encontrou no vestiário de James, mas ele tampouco estava ali. Estava a ponto de partir quando uma pequena pintura emoldurada apanhou seu olhar. Surpreendeu-se ao ver que era um de seus próprios desenhos, mas não um que houvesse feito desde que tinha chegado a Belleterre.

Franzindo o cenho, examinou-o com mais cuidado. Era um esboço de seu carvalho favorito em Gardsley, e tinha sido feito na primavera. O papel tinha sido enrugado, logo alisado, e algumas das linhas de risco estavam um pouquinho imprecisas. Dando-se conta de que era um desenho que ela tinha descartado, enviou sua mente de volta ao momento em que devia ter desenhado esse tema em particular. Tinha sido o dia em que tinha visto pela primeira vez a James, quando ele tinha visitado seu pai. Devia ter encontrado o desenho então.

Tocou o elaborado marco de ouro, que era muito mais custoso do que o esboço merecia. Ninguém emolduraria semelhante desenho por si mesmo, assim devia ser pela artista. Sentiu lágrimas incipientes atrás de seus olhos. Sim, ela devia lhe importar, embora não merecesse semelhante consideração. Tragando com força, retirou-se e registrou silenciosamente as áreas públicas da casa, detendo-se ao descobrir que as portas francesas na sala de desenho estavam sem travas.

A governanta nunca haveria permitido tal relaxamento, assim James devia ter saído por aí. Podia estar em qualquer lugar. Ariel se negava a acreditar que poderia machucar a si mesmo. O incidente na biblioteca não podia ter sido tão ofensivo, em seguida voltaria para a casa. Decidida a esperá-lo acordada, retornou às habitações dele e se enroscou no sofá, com as pernas para cima.

Mas apesar de sua intenção de ficar acordada, com o tempo a fadiga a superou. Despertou com volta de James, embora ele não fizesse nenhum som. Levantou a cabeça bruscamente do sofá e olhou fixamente a seu marido. Seu capuz estava firmemente em seu lugar, e estava tão quieto que ela não podia notar nada de seu estado de ânimo. Seu abajur estava apagando-se, mas lá fora o céu começava a clarear. Com calma, ele disse:

—Deveria estar deitada, Ariel.

Ela inspirou temerosamente e foi direto ao coração do assunto.

—James, o que aconteceu na biblioteca… Nada aconteceu. Não te vi, foi só o movimento inesperado. Por isso foi que me surpreendi.

Ainda seguia tratando de encontrar as palavras adequadas quando ele levantou uma mão, cortando-a com seu gesto.

—É obvio que nada aconteceu. — concordou com uma voz totalmente desapaixonada. Logo depois de uma pausa, continuou: — Me ocorreu que como estiveste sozinha, possivelmente deveria visitar sua amiga Anna por algumas semanas.

Ariel se levantou do sofá, com a manta obstinada a seu redor.

—Não me envie para longe, James... — rogou.

—Não entende.

Como se ela não tivesse falado, ele disse:

—Você gostará de Hampstead; é bastante perto de Londres para ser interessante, o suficientemente longe para ser tranquilo. Envie uma nota à senhora Talbott hoje e veja se é conveniente que vá. — deu um passo adiante, sustentando a porta aberta em um inconfundível convite para que partisse — Bem poderia ir. Com o inverno chegando não há muito para fazer no imóvel e não terei muito tempo para ti. Não quero que te aborreça, assim será melhor que visite a sua amiga.

Gelada por sua atitude, Ariel repetiu desesperadamente:

—James, não compreende! A toga se agitou fracamente.

—Que não compreendo? — perguntou, ainda com essa voz suave e implacável.

Derrotada, ela caminhou para a porta. Deteve-se um momento quando estava mais perto dele, perguntando-se se deveria tomar sua mão, se tocá-lo poderia convencê-lo o do que as palavras não podiam.

Duramente, como se estivesse lendo sua mente, ele disse:

—Não o faça.

Um momento mais tarde, Ariel estava no corredor de fora, e a porta de James tinha sido firmemente fechada detrás dele. Insensível, colocou a manta ao redor de seu corpo tremia e caminhou pela comprida passagem para suas próprias habitações. Talvez devesse fazer o que ele sugeria. Não só se beneficiaria do afetuoso bom julgamento de Anna, mas também se partisse por uma quinzena ou algo assim, isso daria tempo a seu marido para recuperar do dano não intencional que ela tinha infligido. Quando retornasse, James estaria mais aberto a sua explicação. Então poderiam começar de novo. Depois de tudo, o incidente tinha sido tão corriqueiro. Negava-se a acreditar que James não podia recuperar-se disso.  

Casa Talbott, Hampstead 20 de outubro

Querido James,

Só uma nota para te dizer que cheguei sem incidentes. É maravilhoso ver a Anna outra vez, está verdadeiramente feliz. O senhor Talbott é um homem tolerante, alegre e hospitaleiro. Faz maravilhosos brinquedos para as meninas.

Havia-me perguntado se às suas filhas poderia lhes incomodar o fato de que Anna passasse de governanta a ser sua mãe, mas elas a adoram. Aparentemente sua própria mãe morreu quando eram muito pequenas. Terminarei isto agora para que possa sair com o próximo correio, mas escreverei uma carta mais extensa esta noite.

Sua amorosa esposa,   Ariel

Casa Talbott, Hampstead 10 de novembro

Querido James,

Estava certamente certo a respeito de Hampstead. É um lugar encantador, cheio de gente interessante. Em nada parecida com a espantosa espécie de sociedade que conheci durante minha temporada.

Recorda a carta que escrevi onde me perguntava quem era o dono de Hampstead Heath? Disseram-me que o cavalheiro que tinha os direitos de propriedade do brejo recentemente os vendeu à Companhia Metropolitana do Trabalho para que a área seja preservada para uso público para sempre. Alegrou-me saber disso, porque as pessoas necessitam de lugares como o brejo.

Passear ali me recorda um pouco Belleterre, embora seja obvio que não é tão tranquilo e adorável. Ontem à noite jantamos com um jovem cavalheiro literário, um tal senhor Glades. É bastante radical, já que brincou comigo por ser lady Falconer. É muito inteligente — quase tanto como você — mas penso que sua mente é menos aberta.

Sei que deve estar terrivelmente ocupado, mas se encontrar tempo para rabiscar uma nota para me contar como está, apreciaria muito. É obvio, logo voltarei para casa, assim não precisa tomar nenhum problema em especial.

Sua amorosa esposa, Ariel  

Belleterre 20 de novembro

Minha querida Ariel,

Não há necessidade de que te apresse em retornar. Estou muito ocupado fazendo uma inspeção de melhoras necessárias para os arrendatários das granjas.

Minhas saudações aos seus amáveis anfitrião e anfitriã.

Falconer  

Casa Talbott, Hampstead 1 de dezembro

Querido James,

A semana passada, para divertir as meninas, fiz alguns esboços ilustrando a história do gato de Dick Whittington. Sem que soubesse, o senhor Talbott os mostrou a um editor amigo dele, um tal senhor Howard, e agora o homem quer que ilustre um livro para meninos para ele!

Diz que meus desenhos são "mágicos," o qual soa muito bem, embora não sei bem o que quis dizer com isso. Embora me adule seu oferecimento, não sei se deveria aceitá-lo. Teria alguma objeção se sua esposa se envolvesse em uma aventura comercial? Se você não gostar da ideia, é obvio que não o farei. Já quase é hora do chá…

Acrescento mais esta noite... Sinto muito a sua falta.

Sua amorosa esposa, Ariel  

Belleterre 3 de dezembro

Minha querida Ariel,

Claro que não faço objeção que venda seu trabalho. Muito apropriado da parte do senhor Howard apreciar seu talento. De fato, possivelmente deveria comprar uma casa em Hampstead, já que fez tantos amigos ali. Seria conveniente se decidisse ilustrar mais livros para meninos. Busca uma casa que realmente você goste; o preço não é problema.

Falconer  

Casa Talbott, Hampstead 4 de dezembro

Querido James,

Embora me agrade Hampstead, não estou segura de que necessitemos uma segunda casa, e certamente não posso comprar uma a menos que você a veja. Podemos discutir o assunto quando voltar para casa. Também quero pedir sua opinião para os acertos financeiros que sugeriu o senhor Howard.

Não me importa o dinheiro particularmente, já que sua generosidade me dá muito mais do que necessito, mas tampouco quero ser tola nisso. Mais tarde esta noite copiarei os detalhes de sua proposta e enviarei esta carta pela manhã. Espero ansiosa sua resposta.

Sua amorosa esposa, Ariel  

Belleterre 6 de dezembro

Minha querida Ariel,

O contrato do senhor Howard parece justo. Entretanto, não posso recomendar que retorne ao Kent agora mesmo, já que o clima está muito cinza e deprimente. É muito melhor ficar com seus amigos, já que Hampstead e Londres serão muito mais entretidos que o campo.

Além disso, como você disse, entendo que todos os Talbott se afligem quando fala sobre partir. E o que diz do literário senhor Glades? Disse que ele afirma que é sua musa; certamente não quererá deixar ao tipo sem inspiração.

Falconer  

Casa Talbott, Hampstead 7 de dezembro

Querido James,

Quando mencionei sua carta a Anna, ela sugeriu que poderia querer vir a Hampstead, e poderíamos passar o Natal com os Talbott. Diz que há muita alegria e celebração. Possivelmente muita; não estou segura de que fosse o tipo de coisa que você gostaria. Além disso, por muito que queira a Anna e a sua família, preferiria que meu primeiro Natal contigo fosse tranquilo, só nós dois.

E Cerberus e Tripod, é obvio. Tripod me perdoou por partir? Sendo como são os gatos, provavelmente me expurgou de sua memória por meu abandono. Espero ansiosamente sua resposta,

Sua amorosa esposa, Ariel  

PS A única inspiração que ao senhor Glades lhe importa ou precisa é o som de sua própria voz.  

Falconer terminou a carta e fechou os olhos com dor. Podia ouvir a voz dela em cada linha, ver sua vibrante imagem na mente. Era uma tortura ler suas cartas, e lhe escrevia fielmente todos os dias, com apenas débeis e pouco frequentes recriminações por sua quase total falta de resposta. Entretanto, o que podia lhe responder? Estou morrendo de amor por ti, amada, vêm para casa, vêm para casa. Não era o tipo de carta que alguém podia escrever à mulher que tinha ficado horrorizada ao ver seu rosto.

Deprimido, ficou de pé e ficou olhando pela janela da biblioteca. O irregular clima tinha produzido um breve momento de sol, mas o inverno estava em seu coração. Uma moça leal como era, Ariel voltaria para casa se ele o permitia mas, para que? Sua vida em Hampstead era plena e feliz; o que teria em Belleterre além de repugnância e solidão? Não podia lhe permitir que retornasse. O senhor Glades, o cavalheiro literário, figurava regularmente em suas cartas.

Claramente, o homem estava apaixonado por ela, embora Ariel nunca chegasse a dizer isso; possivelmente, em sua inocência, não se dava conta desse fato. Falconer fez investigar ao homem e tinha descoberto que o Honorável William Glades era arrumado, rico e talentoso, parte de um brilhante círculo literário. Também era considerado um jovem respeitável. Um pouquinho presunçoso, como estavam acostumados a ser os jovenzinhos inteligentes, mas pelo resto era exatamente o tipo de homem com o que Ariel deveria haver se casado. Falconer apoiou-se pesadamente contra o marco da janela.

Uma vez tinha lido a respeito de selvagens que podiam morrer por própria vontade. Embora tivesse sido cético no momento, agora acreditava que era possível fazer uma coisa semelhante. De fato, seria fácil morrer… Envolveu os braços ao redor dele, tentando intumescer sua desesperada pena. O coração de seu espírito estava morto, e seria só questão de tempo até que seu coração físico também parasse. A luz do sol tinha desaparecido e o céu se obscureceu tão rapidamente que podia ver seu próprio rosto fracamente refletido no vidro da janela. Estremeceu ante a imagem, retornou a seu escritório e tomou a pluma.

Belleterre 8 de dezembro

Minha querida Ariel,

Nunca celebro o Natal; é uma tola combinação de sentimentalismo, piedade exagerada e paganismo. Mas não quero te privar das festividades, assim acredito que deveria ficar com os Talbott durante as festas.

Falconer  

Depois de ler a última carta de seu marido, Ariel se recostou em sua cama e se aconchegou como uma menina ferida. Não chorou, porque nos últimos dois meses tinha derramado tantas lágrimas que agora não ficava nenhuma para chorar este rechaço final. Embora James fosse muito cortês para dizê-lo diretamente, era evidente que não queria que retornasse jamais a Belleterre. Ela seguia acreditando que alguma vez lhe tinha importado ao menos um pouquinho, mas claramente seus sentimentos tinham morrido aquela noite na biblioteca. Obrigou-se a enfrentar seu futuro. Embora amasse a seu marido, ele nunca a amaria; nem sequer podia suportar tê-la sob seu teto.

Portanto, bem podia aceitar sua sugestão e comprar uma casa em Hampstead. Havia uma encantada e velha casa de campo a venda a só dez minutos de caminhada dos Talbott. Tinha uma adorável vista sobre o Hampstead Heath e era justamente do tamanho adequado para uma mulher e uma servente. Embora James tivesse que pagar por ela, jurou trabalhar tanto com as ilustrações que com o tempo já não necessitaria do dinheiro dele para sobreviver. Manter-se só agora parecia possível; seria muito mais difícil fazer que valesse a pena viver o resto de sua vida.  

Natal…

—Tiveram um agradável passeio? — perguntou Anna.

—Esplêndido. — Ariel se ajoelhou e ajudou à pequena Jane Talbott a sair de seu casulo de casaco, chapéu, cachecol e manta — Até no inverno o brejo está cheio de maravilhosas cores sutis. Nunca me canso dele.

A menina maior, Libby, disse:

—Depressa, Janie, não poderemos ajudar a decorar a árvore até que tenhamos tomado o chá. Anna, uma mulher alta com cabelo castanho claro, entrou em corredor da frente.

—Obrigado por levar às meninas para passear e gastar sua energia. — sorriu indulgente enquanto as meninas escapuliam de sua habitação — Estão tão emocionadas que temo que vibrassem até fazer-se em pedaços desde agora até o Natal. E se elas não o fazem, eu o farei!

—Coragem, só faltam dois dias. — Ariel tirou seu casaco e chapéu — Chegou algo no correio para mim?

—Este pacote chegou de parte do senhor Howard.

Anna o levantou da mesa do corredor e o alcançou.

—Nada de Belleterre?

—Não, querida... — disse Anna em voz baixa.

Ariel levantou o olhar e se obrigou a sorrir.

—Não te veja tão mal por mim, Anna. Atrevo-me a dizer que isto é o melhor.

Os olhos de sua amiga eram compassivos, mas era muito sábia para oferecer compaixão quando as emoções de Ariel eram tão frágeis. Em troca, disse:

—Certamente todos na Casa Talbott ficaremos extasiados se compras Dove Cottage. Jamais tirará Jane e Libby de cima.

—Eu adoro as ter por perto. — disse Ariel — E Libby tem verdadeiro talento para desenhar. É um prazer lhe ensinar. — olhando o pacote do editor, continuou: — Se me desculpar, irei a minha habitação. O senhor Howard disse que enviaria outra história para que a avalie.

Enquanto Ariel subia as escadas, agradeceu a compreensão de Anna. De fato, todos os Talbott tinham sido maravilhosos; Ariel não sabia como poderia ter sobrevivido os últimos dois meses sem sua calidez e vivacidade. Como presente de Natal para a família, fazia um quadro em óleo dos quatro juntos. Era um dos melhores trabalhos já feitos; a dor parecia estar aperfeiçoando suas habilidades artísticas.

Como esperava, o pacote continha o projeto que o senhor Howard queria que fizesse a seguir. Tinha ficado tão contente com “O gato com botas” que agora falava em fazer uma série inteira de contos de fadas clássicos, todos a serem ilustrados por Ariel. Com um renovo de interesse viu que lhe tinha enviado dois livros diferentes da bela e a besta. Embora pareça mentira, embora Ariel tivesse um vago conhecimento da história, nunca tinha lido uma das muitas versões do velho conto popular. Tomando o maior dos volumes, começou a ler e logo descobriu que era uma história muito mais poderosa que “O gato com botas”.

Além disso, as possibilidades visuais eram tentadoras. Ariel ia à metade quando sua nuca começou a arder. De um modo estranho, o conto se parecia com sua própria vida, embora a realidade fosse muito mais triste e mais sórdida. Ao final foi um alívio inteirar-se de que a Bela e sua Besta viviam felizes para sempre. Ariel supôs que por isso era que as pessoas liam histórias tão imaginativas: porque não se podia confiar em que a vida real terminasse igualmente bem. Mas enquanto deixava a história de lado, foi espreitada pela imagem da Besta, que quase tinha morrido de pena quando Bela o tinha abandonado. O resto do dia foi ocupado com festejos.

Ajudou aos Talbott a decorar a árvore. Logo depois de que as meninas foram enviadas entre risadas à cama, os adultos foram a uma casa próxima, onde compartilharam ponche quente de vinho e especiarias, e houve conversações com outra dúzia de vizinhos. A pequena festa ajudou a distrair Ariel de sua tristeza. Enquanto ia à cama, deu obrigado por que nos próximos dias estariam tão ocupados. Para o começo do novo ano, poderia estar preparada para enfrentar sua nova vida. Mas sua antiga vida não tinha terminado, porque ao dormir sonhou com a bela e a besta.

Ela mesma era Bela, jovem e confusa, primeiro temendo à Besta que a deixava cativa, logo aprendendo a amá-lo. O que tornou o sonho um pesadelo foi o fato de que seu captor não era um monstro leonino, a não ser James. Ele era uma criatura nobre e atormentada, que estava morrendo pela falta de amor, e enquanto a vida escapava dele, chamava-a. Ariel despertou com um grito angustiado. Como podia havê-lo deixado? Como podia ter permitido que a enviasse para longe?

Até acordada ouvia a voz dele em sua mente, os tons profundos e desolados ecoando através dos quilômetros que os separavam. Deslizou para fora da cama, decidida a partir instantaneamente para Belleterre. Assim que seus pés tocaram o chão gelado, deu-se conta da tolice de seu impulso. Eram três da manhã, e faltavam horas para que pudesse partir; entretanto, podia empacotar seus pertences para estar pronta a primeira hora. Lançou-se na tarefa com frenética pressa e terminou em meia hora.

Pensar nas horas que ficavam por esperar fez que quisesse chiar de frustração. Então a golpeou a inspiração. Localizou em seu escritório papel de desenho, pluma e tinta. Sentindo como se outra mão guiasse a sua, desenhou uma série de imagens com traços febris, agudos. Não tinha comprado um presente de Natal para seu marido, já que ele tinha estado tão firmemente oposto a celebrar a festa. Agora ela estava criando um presente tão vívido que bem poderia ter sido feito com o sangue de seu coração mais do que com tinta da China.

Enquanto soluçava sobre o último desenho, rogou que ele o aceitasse com o espírito devotado.

O lacaio abriu a porta da frente de Belleterre e piscou com surpresa.

—Lady Falconer?

—Nenhuma outra. — disse Ariel secamente enquanto passava rapidamente junto a ele para o salão de entrada —Meu marido está na casa?

—Não, milady. Acredito que pretenda passar todo o dia fora no imóvel.

—Muito bem. — inspecionou seus arredores, sem surpreender-se ao ver que não havia um rastro de decorações festivas. — Por favor, peça à senhora Wilcox que se reúna comigo no salão imediatamente. Logo faça que levem minhas coisas a minha habitação. Seja particularmente cuidadoso com a pasta de desenhos.

Enquanto o lacaio se apressava a obedecer, Ariel foi ao salão, que era a menor e mais amistosa das salas públicas. Enquanto esperava a governanta, Tripod entrou saltando na habitação. A gata estava a meio caminho de Ariel antes de recordar seu mal-estar. Com ostentoso desdém, Tripod se sentou de costas à ama da casa que se atreveu a partir por tanto tempo. Só a movediça ponta de sua cauda traía seu humor.

—Não faça isso, Tripod.

Ariel levantou a gata em braços e começou a arranhar as orelhas felinas. Em um minuto, a gata começou a ronronar e estirar o pescoço para que pudesse lhe arranhar o queixo. Ariel esperava ironicamente que seu marido fosse tão fácil de convencer. Logo a senhora Wilcox se uniu a ela. Sempre circunspecta, hoje o governanta estava positivamente ártica. Com uma voz que só estava dentro dos limites da cortesia, disse:

—Como sua chegada era inesperada, sua senhoria, levará uns minutos para refrescar suas habitações.

Ignorando o comentário, Ariel disse:

—Como está meu marido? — quando a governanta vacilou, Ariel a incitou: — Fale com liberdade.

A senhora Wilcox não necessitava mais estímulo.

—Muito mal, milady, e é tudo sua culpa! — explodiu — Se vê ao amo como se tivesse envelhecido cem anos desde que partiu. Como pôde partir por tanto tempo, depois de tudo o que ele fez por você? — Quão mal era "muito mal"? Embora sofresse, Ariel manteve sua voz uniforme. Era a ama de Belleterre, e pretendia encher esse posto apropriadamente.

—Parti porque ele me enviou longe. — disse com calma —Foi muito mal de minha parte lhe obedecer. Não voltará a acontecer. — deixou a gata e tirou as luvas — Quero que cada servente na casa fique a trabalhar decorando Belleterre para as festas. Folhas, cintas, coroas, velas… tudo. Envie a um homem para cortar uma árvore para o salão, e faça que a cozinheira prepare um banquete de vésperas de Natal. Entendo que o tempo é limitado, mas estou segura de que a cozinheira fará um bom trabalho com o que há disponível. Oh, no futuro, cada vez que se sirva a mesa, ponha sempre meu lugar junto a meu marido, em vez do outro extremo. — a senhora Wilcox ficou boquiaberta. Ariel adicionou: — E quando decorarem e cozinharem, não economize nos quartos dos serventes. Quero que esta seja uma festa que Belleterre nunca esquecerá. Agora se vão; há muito que fazer.

—Sim, milady. — disse a governanta, com os olhos começando a brilhar. Deteve-se justo antes de abandonar a habitação — Não voltará a partir, verdade? Ele a necessita ferozmente.

—Os cavalos selvagens não me levarão a menos que ele também venha. — prometeu Ariel.

Depois de tudo, ela também necessitava a seu marido ferozmente.

Vésperas De Natal…

Pensar em retornar à casa vazia era quase mais do que Falconer podia suportar. Estava tão cansado em espírito que não notou o quão brilhantemente iluminada estava a casa, mas quando entrou no salão foi açoitado pelo aroma a pinheiro e azevinho. Deteve-se, piscando ante a imagem que encontrou frente a seus olhos. O salão estava coroado com grinaldas de folhagem acentuadas por bagos e coques escarlate, e um lacaio estava parado em uma escada, colocando brilhantes folhas de azevinho depois de um espelho alto para o toque decorativo final.

Falconer exigiu saber:

—Por ordem de quem se fez isto?

Enquanto o nervoso lacaio tentava formar uma resposta, uma voz clara e suave disse:

— Minha, James.

Ele reconheceria essa voz em qualquer parte; entretanto era tão inesperada que não podia acreditar que ela estivesse realmente ali. Mesmo ao dar a volta e ver sua esposa caminhando pelo salão até ele, estava seguro de que devia estar alucinando. Deliciosa com um elegante vestido escarlate, seus loiros cabelos atados simplesmente com um formoso laço de veludo escarlate, devia ser uma ilusão nascida de seus sonhos desesperados. Mas ela certamente se via real.

Detendo-se frente a ele, Ariel disse:

—Vêm ver a árvore antes que vás banhar-te e se trocar para o jantar. Perplexo, James a seguiu dentro do salão, que estava perfumado por ácidas folhas perenes e doces troncos de macieira que ardiam. Ariel fez um gesto para o alto abeto que tinha sido se localizado em uma esquina.

—Patterson escolheu a árvore. Adorável, verdade?

Roucamente ele disse:

—Ariel, por que retornou?

—Sou sua esposa e Belleterre é meu lar. — respondeu ela brandamente — Em que outro lugar estaria no Natal?

—Te disse que passasse as festas com seus amigos.

Ela enlaçou os dedos em frente dele, os nódulos se viam brancos.

—Quando nos casamos me ofereceu um lar. Está retirando essa oferta?

—Não pertence aqui.

A angústia o atravessou, como se estivessem retorcendo uma faca em seu coração. Tinha pensado que ela compreendia e aceitava que suas vidas deveriam estar separadas, mas aparentemente não. Agora devia atravessar a agonia de dizer as palavras em voz alta; devia enviá-la longe outra vez.

—Não deve arruinar sua vida por uma lealdade inapropriada, Ariel. Nosso matrimônio é só de conveniência. Tenho quase o dobro de sua idade… É apenas pouco mais que uma menina.

—Sou o suficientemente adulta para ser sua esposa. — respondeu ela.

Ele se afastou para o extremo em sombras da sala, tentando desesperadamente evitar que suas defesas desmoronassem.

—Nunca quis uma esposa.

—Mas a tem, — disse Ariel brandamente — por que foge de mim, James? Sei que não sou inteligente, mas te amo. É tão impensável que estejamos verdadeiramente casados?

—Amar? — disse ele, incapaz de reprimir sua amargura — Como poderia uma moça formosa como você amar a um homem como eu?

Suas palavras atuaram como uma faísca no pavio.

—Como te atreve! — disse ela furiosamente, vendo-se como um anjo fiado em açúcar a beira da explosão — Acredita que porque os homens pensam que sou formosa não tenho coração? Acredita que sou tão superficial, tão cegada por meu próprio reflexo no espelho, que não posso ver sua fortaleza, sua bondade e sua inteligência? Insulta-me, milord.

Em vão ele disse:

—Não quis te insultar, Ariel, mas como pode amar a um homem cujo rosto jamais viu?

Os olhos azuis dela se entrecerraram.

—Se fosse cega e não pudesse ver nada, acreditar-me-ia incapaz de amar?

—Claro que não, mas isto é diferente.

—Não é diferente! — sua voz se suavizou — Apaixonei-me por ti por suas palavras e seus atos, James. Comparados com eles, a aparência não tem muita importância.

Quando as dobras negras de seu manto se agitaram ela soube que estava profundamente afetado, mas ainda não convencido. Ariel se ajoelhou junto à árvore e tirou a pasta de desenhos que havia feito para ele.

—Se quer ver como te vejo, observa estes. Vacilante, ele tomou a pasta e a depositou na mesa. Ariel parou a seu lado enquanto James passava as páginas de desenhos soltos. Se algo de seu trabalho tinha magia, era isto, porque os desenhos saíam direto de seu coração e sua alma. As imagens compunham uma Bela e a Besta modernos, e mostrava exatamente como ela tinha visto seu marido, do primeiro vislumbre em Gardsley até o presente.

Sob cada imagem tinha escrito umas poucas palavras para transmitir a história. James era o centro de cada desenho, forte, misterioso, impressionante. Embora seu rosto nunca fosse mostrado, era tão irresistível que os olhos não podiam olhar a nenhuma outra parte. Ele era a enigmática Besta Negra de Belleterre, seus escuros mantos inchados ao seu redor como nuvens de trovão. Era o compassivo e paciente lorde Falconer, preocupando-se por tudo e todos ao seu redor.

E era James, rodeado por adoradoras aves e bestas, por cada criatura que o conhecia e não podia evitar amá-lo. Então enviou longe ao Ariel. O último desenho o mostrava jazendo nos bosques de Belleterre ao ponto da morte, seu poderoso corpo drenado de força e seu enorme coração quebrado. Ariel chorava a seu lado, seu pálido cabelo caindo ao redor deles como um véu de luto. A inscrição se lia debaixo: "Ouvi sua voz no vento." James deu volta a última folha e encontrou uma página em branco.

—Como termina a história? — perguntou, com a voz trêmula.

—Não sei... — sussurrou Ariel — O final não foi escrito ainda. Quão único sei é que te amo.

Ele deu volta rapidamente, seus velozes passos levando-o às sombras ao outro lado da habitação. Ali ficou parado, imóvel, durante um interminável intervalo, com suas rígidas costas para Ariel, antes que desse volta para enfrentá-la.

—Fui feio inclusive pequeno. Minha mãe estava acostumada dizer que era uma lástima que tivesse saído como meu avô materno. Mas isso era uma fealdade normal e não tinha importado muito. O que verá agora é o resultado do que aconteceu quando tinha oito anos.

Ariel ouviu sua inalação entrecortada, viu o tremor em suas mãos enquanto as levantava para seu capuz e logo baixou lentamente as dobras de tecido até seus ombros. Seus olhos se alargaram ao ver que era totalmente descascado. Claro, isso explicava por que tinha tido a fugaz impressão de um crânio quando o tinha visto na biblioteca. Entretanto o efeito, embora assombroso, não era pouco atraente, já que sua cabeça era bem formada e tinha escuras pestanas e sobrancelhas bem definidas. Poderia haver modelado para um líder asiático em uma pintura de um dos grandes artistas românticos. Com a voz tensa, James continuou:

—Minha mãe estava me levando ao Eton para meu primeiro trimestre, e passamos a noite na Casa Falconer em Londres. Essa noite houve uma explosão de gás em seu dormitório. Despertei e tentei ajudá-la, mas já estava morta. — levantou sua danificada mão esquerda para que Ariel pudesse vê-la claramente — Isto aconteceu quando arrastei seu corpo para fora da habitação em chamas. As cicatrizes menores em meu couro cabeludo e no pescoço foram produzidas por brasas quentes que caíram sobre mim. — tocou sua cabeça nua — Mais tarde tive febre cerebral e delirei durante semanas. Pensaram que morreria. Obviamente, não o fiz, mas meu cabelo caiu e nunca voltou a crescer. Nunca me enviaram à escola; era considerado 'inadequado’. Em troca, meu pai me instalou em uma propriedade menor em Midlands, para não ter que pensar em mim. — James fechou seus olhos um momento e voltou a abri-los, com expressão desolada — Pode ser tão tolerante no particular como foi no abstrato?

Ariel caminhou para ele, e pela primeira vez seus olhares se encontraram. Os olhos de James eram de um profundo cinza esverdeado atormentado, capaz de ver coisas com as quais a maioria dos homens nunca sonhavam. Detendo-se diretamente frente a ele, ela disse com sinceridade:

—Tem os olhos mais formosos que jamais tenha visto. A boca dele se torceu.

—E o resto de mim? Meu pai se negava a me olhar, meu tutor com frequência me dizia quão afortunado era porque minha horripilância era visível em vez de ocultá-la como a maioria dos homens.

Ariel sorriu e sacudiu a cabeça.

—É uma fraude, meu amor. Estou quase decepcionada. Tinha esperado algo muito pior.

A expressão dele se fechou.

—Certamente não vais mentir e dizer que sou bonito.

—Não, não é bonito. — ela levantou as mãos e passeou seus dedos de artista pelos planos de seu rosto, sentindo a sutil irregularidade de cicatrizes já curadas, o masculino nascer da barba ao final do dia — Tem ossos fortes e marcados… Muito fortes para o rosto de um menino. Até sem os efeitos do fogo e a febre, teria levado anos chegar a ter estes traços. Alguma vez viu uma imagem do senhor Lincoln, o presidente norte-americano ao que dispararam alguns anos atrás? Ele tinha um tipo de rosto similar. Ninguém diria que era bonito, mas foi muito amado e profundamente chorado.

—Segundo recordo, o cavalheiro tinha uma boa cabeça cheia de cabelos. — disse James.

Ariel deu de ombros.

—Um menino calvo seria alarmante, quase horripilante. Mas agora que é um homem, o efeito não é desagradável… bastante dramático e interessante, em realidade. — ela ficou nas pontas dos pés e deslizou os braços ao redor do pescoço dele, e pressionou a bochecha contra a sua. Enquanto a tensão chispava entre eles, Ariel murmurou: — Agora que não tem nada que esconder, promete não me enviar longe outra vez? Porque te amo tanto que não acredito poder sobreviver a outra separação.

Os braços dele a rodearam com força esmagadora. Ela era magra, mas forte, e tão formosa que ele mal que podia suportá-lo.

—À diferença da Besta em sua história, não posso me converter em um bonito príncipe, — lhe disse intensamente — mas te amei desde o primeiro momento em que a vi, esposa de meu coração, e juro que nunca deixarei de te amar.

A risada de Ariel soou como sinos de prata.

—Para ser sincera, nos dois livros que me enviou o senhor Howard, o bonito príncipe do final era bastante insípido. Seu rosto tem caráter; foi moldado pelo sofrimento e a compaixão, e nunca será insípido. — jogou a cabeça para trás, com seu brilhante cabelo dourado derramando-se sobre os pulsos dele. Repentinamente tímida, disse-lhe: — Notaste o que há sobre sua cabeça?

James levantou o olhar e viu visco fixado ao candelabro, e voltou a observar a expressão ofegante dela. Dominando sua feroz fome para não afligi-la, inclinou a cabeça e tocou com seus lábios os de Ariel. Era um beijo de doçura e maravilha, uma promessa das coisas por vir. Seu coração pulsava com tanta força que James se perguntou se poderia sobreviver a semelhante felicidade. O instinto o fez terminar o beijo, porque se arriscavam a ser consumidos pelas chamas de suas próprias emoções. Muito melhor ir devagar, para saborear cada momento do milagre que lhes tinha sido outorgado. Compreendendo sem palavras, Ariel disse sem respiração:

—É hora de que nos troquemos para o jantar, já que levará algum tempo decorar a árvore. Trouxe alguns adoráveis ornamentos novos de Londres. Espero que você goste.

James lhe beijou as mãos e a soltou.

—Adorá-los-ei.

A véspera de Natal se converteu em um mágico noivado. Ele descartou seu manto. Logo jantaram o suficientemente perto para tocar joelhos e dedos em vez de estar separados por mais de três metros de polido mogno. Rindo e falando, converteram a árvore em uma brilhante fantasia com luzes de velas. E todo o tempo teciam uma rede de puro encanto entre eles. Cada roce dos dedos, cada tímido olhar, cada risada compartilhada pelas travessuras de Cerberus e Tripod, intensificava seu mútuo desejo.

Quando foram acima, ele vacilou ante a porta do Ariel, ainda um pouco incapaz de acreditar. Sem palavras, ela o conduziu dentro de sua habitação e foi para seus braços. Enquanto se beijavam, James descobriu uma inesperada aptidão para liberar Ariel de seu complicado vestido de noite. Seu corpo magro curvilíneo era perfeito, como tinha sabido que seria. Com os lábios, a língua e as mãos, adorou-a, tão encantado por sua resposta como pela sensação da sedosa pele de Ariel sob sua boca.

Ela era luz e doçura, a essência de mulher pelo que todos os homens desejavam morrer, e ao mesmo tempo unicamente Ariel. Entregou-se a ele com absoluta confiança, e esse presente sanou os lugares escuros dentro de James. Realmente podia sentir a escuridão desmoronando-se até que seu coração ficou livre de toda uma vida de dor e solidão. Semelhante vulnerabilidade deveria havê-lo aterrorizado, mas a confiança de Ariel dava lugar a uma confiança igual da parte dele.

Dificilmente poderia recordar ao homem atormentado que tinha sido incapaz de acreditar no amor. Em troca da confiança dela, entregou-lhe paixão, usando todas suas habilidades, toda sua sensibilidade, toda sua ternura. Seus corpos se uniram como se fossem duas metades de um todo que finalmente se uniram, e quando ela gritou com alegre assombro, foi o som mais doce que James jamais tivesse ouvido.

Depois de que a paixão fora satisfeita pela primeira vez, deitaram tranquilos nos braços um do outro. Ele nunca tinha conhecido tal êxtase ou tal humildade. À distância, os sinos da igreja começaram a soar.

—Meia-noite... — murmurou ele — A paróquia as faz ressonar pelas mudanças para celebrar o começo do dia de Natal.

Ariel se estirou luxuosamente e voltou a apoiar-se sobre ele.

—Natal... Uma época de milagres e novos começos. O que poderia ser mais apropriado?

—Efetivamente. — James roçou seus dedos pelos cabelos dela, maravilhando-se com a textura sedosa — Sinto muito, meu amor, não tenho um presente para ti.

Ariel riu brandamente.

—Deu a ti mesmo, James. Que melhor presente poderia desejar?

 

                                                                                Mary Jo Putney  

 

                      

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