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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A BRUXA DA BABILÔNIA / D. J. McIntosh
A BRUXA DA BABILÔNIA / D. J. McIntosh

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

Situada em uma curva do Rio Tigre, Nínive foi um dia a jóia da co­roa do grande Império Assírio. Imensas muralhas, de dois metros de espessura em seu ponto mais estreito e treze quilômetros de extensão, com quinze portões magníficos, fortificavam a cidade. Um aqueduto que saía do contraforte dos montes Taurus trazia água para os glo­riosos templos, bibliotecas, palácios e jardins de seu interior.

O esplendor de Nínive não durou muito. Em 616 a.C., Ciáxares, rei dos medos, apoiado pelos babilônios do sul e por tribos da região do Mar Negro, sitiou a cidade. Nínive logo caiu. Foi incendiada, sa­queada e abandonada, e nunca mais se reergueu.

Ao longo dos séculos, a poeira da planície circundante foi levada pelo vento até a capital destruída, formando uma elevação, um tell, uma espécie de sítio arqueológico, que podia ser visto a muitos quilô­metros. Nínive desapareceu. Com o tempo, foi apagada da memória humana e se tornou uma cidade perdida.

Em meados dos anos 1800, o diplomata francês Paul-Émile Botta, o explorador britânico Sir Austen Henry Layard e o arqueó­logo iraquiano Hormuzd Rassam escavaram o que era conhecido como monte Kuyunjik e desenterraram objetos extraordinários: es­culturas monumentais de touros alados com cabeças humanas, frisos ornamentados e uma verdadeira biblioteca de tabuletas de argila.

Quase despercebida em meio a essas peças incríveis, havia uma simples inscrição em basalto. Ninguém se deu conta, naquele mo­mento, de que ela se revelaria o achado mais espetacular de todos.

 

 

 

 

 

 

Horas antes do ataque final, poucos acreditavam que a cidade cai­ria. Como poderiam os orgulhosos portões de Ichtar, aquelas pon­tes fortes sobre o Tigre, serem transpostos? Não se viam os soldados da nação por todo lado? O palácio, que se espelhava nas águas serenas do rio, não estava bem defendido? O governante não havia dado sua palavra de que tudo estava bem?

Mesmo assim, no nono dia do mês de Nissan, uma época bem escolhida pelos invasores para evitar o calor brutal do verão, a ci­dade sucumbiu, esmagada tão facilmente quanto a casca de um ovo de passarinho. Os soldados fugiram, livraram-se de seus trajes de combate e se esconderam entre os populares. As mulheres jun­taram as crianças e se refugiaram em quartos escuros. A fúria do fogo transformava casas em cinzas. Labaredas devoravam um farto banquete de papiros e rolos de pergaminho na grande biblioteca. Havia corpos espalhados por toda parte, abandonados nas ruas, flutuando inchados pelo rio como um rebanho afogado. Gaiolas de animais e pássaros exóticos, mantidos por prazer pelas pessoas, esta­vam agora escancaradas. Os animais haviam sido roubados e mortos para servir de comida. As estátuas do governante foram profanadas, e ele próprio não estava em lugar algum.

A irmã gêmea da guerra, a pilhagem, estava à solta. Nem as pou­cas posses dos cidadãos comuns nem a esplêndida galeria dos tesou­ros foram poupadas. Movendo-se como um bando de corvos lutando pelo mesmo pedaço de carne, os saqueadores roubavam preciosos marfins, colares de calcedônia e lápis-lazúli, estátuas dos templos e vasos de alabastro. Um homem despedaçou a cabeça de um leão de terracota do templo de Harmel. Outro, sentado no chão de pernas cruzadas, arrancava as incrustações da Lira de Ur.

No dia 14 de abril de 2003, Bagdá baixou a cabeça diante da derrota. A galeria dos tesouros, o famoso Museu Nacional do Iraque, foi uma das vítimas da guerra.

Abrindo caminho entre a multidão, um ladrão - homem magro, de cabelo escuro e pele clara — movia-se com uma eficiência silenciosa. Uma marca de formato estranho e da cor de uma mancha de sangue envelhecida se destacava em seu pulso esquerdo. O ladrão ria em si­lêncio das inúmeras mãos à cata de espólios. Eles não tinham a menor idéia do que estavam levando. Filho de diplomata, o ladrão caído em desgraça passara dez anos em Bagdá e conhecia bem o museu.

Presa à cintura em uma bainha sob medida, escondida sob a folgada jaqueta preta de couro, ele carregava uma faca de com­bate, pronta caso alguém cruzasse seu caminho. Ele tinha vindo em busca de apenas dois objetos. O primeiro, uma cabeça de cobre em tamanho real da deusa da Vitória, da antiga Hatra, que ele já havia colocado em sua sacola. E estava a minutos do segundo, uma relí­quia ainda mais importante. Por isso, não perdia de vista o homem chamado Tomas Zakar.

 

Tomas Zakar abaixou a cabeça e tampou os ouvidos com as mãos, como se bloquear o som fosse interromper a carnificina. As visões se recusavam a desaparecer. Gangues de saqueadores usavam metralha­doras para destruir os vidros de proteção e enchiam carrinhos de mão com potes de barro; lascando-os e rachando-os durante o processo.

Quase todos os registros do museu, atirados ao chão, queimavam como piras funerárias. Tomas ficou de joelhos para tentar abafar as chamas com as mãos. Seu irmão Ari, mais alto e mais forte, arran­cou-o de lá.

  • Pare com isso, Tomas, você vai se machucar.

Tomas se desvencilhou dele e foi em direção a um saqueador que empunhava uma serra elétrica para cortar uma cabeça de pedra de Khorsabad. A serra foi projetada para cortar fibras de madeira flexíveis. Sua lâmina poderia quebrar o calcário e destruir o objeto inteiro. Tomas se precipitou em sua direção. O homem brandiu a lâ­mina giratória. Agarrando o irmão pela cintura com os braços com­pridos, Ari puxou-o a tempo.

  • Pelo amor de Deus - gritou Ari —, eles vão matá-lo.

Ari olhava ao redor desesperadamente, sem saber para onde ir. Esse era o domínio de seu irmão; Tomas conhecia melhor que ele a disposição dos corredores e das salas. De pele clara e ruivo, Ari cha­mava a atenção, tornando os dois ainda mais vulneráveis. Sem ener­gia, as galerias estavam escuras, iluminadas apenas pela luz natural. O lugar parecia uma imensa tumba. Os artefatos maiores, muito pesados para serem removidos e envoltos por uma embalagem de proteção, pareciam gigantes à espera do enterro.

Em meio à fumaça, Ari podia discernir os colossais lamassu - tou­ros alados com cabeça humana — que formavam o arco de entrada da galeria assíria. Ele implorou a Tomas:

  • Venha por aqui. Me ajude. Não sei para onde ir.

Prensou Tomas contra um dos guardiões de pedra e o manteve lá.

  • Respire fundo e acalme-se.

Tomas tentou se soltar.

  • Preciso ir lá fora. Há um tanque aqui perto.
  • O diretor já tentou. Ele foi três vezes ao Hotel Palestina implo­rar ajuda aos militares. Eles se recusaram. Vamos, Samuel está nos esperando. Já estamos atrasados.
  • Não posso continuar com isso. Nós vamos nos igualar a esses ladrões.
  • Você prefere deixá-la aqui para os saqueadores?

Tomas tentou novamente resistir, sem muito esforço, mas dessa vez Ari estava determinado. Eles seguiram uma rota confusa pelos corredores escuros até uma pequena sala de restauração empoeirada.

Um homem mais velho, baixinho, esperava por eles com uma expressão tensa de ansiedade. Quando viu os dois irmãos, Samuel Diakos suspirou aliviado.

  • Finalmente vocês chegaram. Eu estava muito preocupado.

Tomas apertou os lábios.

  • Vamos logo com isso, então. E que Deus nos perdoe.

Havia potes de barro quebrados e espalhados pelo chão, como se um furacão tivesse passado pela sala.

Samuel mal o ouviu. Com a agilidade de um homem muito mais jovem, correu até uma fila de estantes encostadas na pare­de. Ari apoiou o ombro na última da fila, empurrando-a para a frente e revelando uma pequena porta de aço na parede. Samuel ajoelhou-se.

  • Parece que a fechadura está intacta.

Ele gesticulou para que Ari trouxesse a sacola de lona e pediu-lhe que a colocasse sobre uma mesa comprida onde havia um envoltório de algodão, pincéis e medidores usados para proteger as poucas tabuletas e fragmentos de inscrições que estavam por perto.

Samuel destrancou a porta de aço e espiou o interior escuro.

  • Ainda está lá dentro. Nós chegamos a tempo.

Ele puxou para fora o pesado objeto oval de basalto e colocou-o cuidadosamente sobre a mesa.

Um vulto vestido de preto, com as alças de uma bolsa visíveis no ombro, apareceu na porta. Samuel, preocupado com a inscrição, não percebeu de imediato, mas Ari e Tomas correram para bloquear a passagem do homem. O ladrão tirou a sacola e colocou-a delica­damente no chão. Em seguida, fez um gesto na direção de Samuel.

  • Vou levar isso - disse ele.
  • Saia daqui — disse Tomas, lançando-se contra ele.

O ladrão lhe deu um violento chute na virilha. Tomas se dobrou de dor e caiu. A faca de combate surgiu na mão do ladrão. Ari se colocou na frente de Tomas, bloqueando o movimento do braço do homem com a faca, e acertou um soco no peito dele. O homem se de­sequilibrou, mas girou a faca de modo que a lâmina acertou a palma de Ari, abrindo um corte. O sangue jorrou entre as feias abas de pele ao redor do ferimento.

O ladrão segurava a arma com leveza, pronto para dar um golpe fatal. Ele acreditava que a faca possuía faro para sangue: do mesmo modo como uma forquilha de rabdomancia detecta água, ela podia sentir a localização de uma artéria e cortá-la instanta­neamente.

  • Não! - Samuel ofereceu a inscrição já abrigada no envoltório de algodão. - Pode ficar com ela. Leve-a. Não os machuque mais.
  • Você é um velho. Não conseguiria me impedir de qualquer jeito - zombou o ladrão enquanto pegava sua sacola e a entregava a Sa­muel. - Ponha aí dentro.

Samuel obedeceu.

Um tumulto na entrada lhes chamou a atenção: um grupo de sa­queadores empurrava um carrinho de mão pela porta. Eles pararam de repente ao verem Tomas no chão e Ari pressionando a mão, na vã tentativa de estancar o sangue.

O ladrão apanhou a sacola e dirigiu-se à porta, apontando a faca para os saqueadores.

  • Saiam da frente.

Apavorados, eles soltaram o carrinho e se afastaram.

O ladrão desapareceu no corredor escuro.

Do lado de fora, já era noite. As pessoas corriam em todas as direções, fantasmas brancos na escuridão, com os braços lotados de sacolas de ráfia e caixas de papelão. Um homem carregava um mo­nitor de computador, com os cabos sacudindo ao redor do pescoço como serpentina. Outro arrastava um sofá cujos pés cromados fa­ziam sulcos na sujeira.

Quando eles finalmente chegaram ao Toyota, Tomas se jogou furioso no assento do motorista. Ari entrou, pressionando a áspera faixa de algodão que envolvia sua mão.

Samuel sentou-se no banco de trás, ajeitando o saco de lona a seu lado.

  • Vai ficar tudo bem agora - disse ele. - O pior já passou.
  • O que você quer dizer com isso? - Tomas vociferou. — Foi um fracasso total!
  • Vocês ainda estão vivos. Isso é muito mais importante.
  • Você deveria ouvi-lo, Tomas - ressaltou Ari. - Ele tem razão.
  • De qualquer forma — continuou Samuel calmamente —, entre­guei a sacola errada para ele. Nossa inscrição está na minha. Dirija. Precisamos sair logo daqui.

 

Arredores de Tell al-Rimah, Iraque

20 de abril de 2003

O sol a pino dizia a Hanna que era meio-dia. O calor tinha transfor­mado seu corpo em um trapo. Suas pálpebras ardiam. Ela sonhava com água - a sensação do líquido fresco descendo pela garganta, as poças cheias de junco à beira do Tigre, a umidade gelada sobre as pa­redes de pedra ancestrais. Ela estava cedendo, e sabia disso.

Quando amanheceu, as mãos ásperas dos homens a tinham ar­rastado para o buraco. Colocando seus braços para trás, eles já a ha­viam amarrado a um poste. As pás e as espátulas usadas para cavar o buraco, erguendo uma pirâmide de terra da altura da cintura dela, tinham sido atiradas ao chão aleatoriamente, formando uma pilha a seus pés.

Hanna observou os três homens voltarem e se abaixarem para juntar pedras do tamanho do punho de uma criança, todas elas grandes o bastante para arrancar sangue, mas não tão grandes a ponto de levar rapidamente à morte. Eles depositaram as pedras em uma pequena pilha na beira do buraco.

Um dos homens se afastou do grupo e veio até ela, inclinando-se. Ele era magro e tinha uma cabeleira escura que contrastava com sua pele, estranhamente branca para alguém que tinha passado tantas horas sob o sol inclemente. Dava para ver uma tatuagem vermelha no pulso esquerdo. Ele tirou o lenço que a amordaçava, deixando-o dependurado em volta do pescoço, abaixou a cabeça até ficar a centímetros do rosto de Hanna e falou em voz baixa para que só ela escutasse.

  • Para onde levaram a inscrição? Me conte, e eu poupo sua vida.

Hanna não disse nada, pressentindo uma mentira.

  • Você está com calor, Hanna, não está? - Ele colocou a mão no bolso e tirou uma garrafa de vidro verde cheia de água. Tirando a tampa, tocou os lábios dela com a borda molhada da garrafa. Quando ela abriu a boca, ele a puxou cruelmente. - Você pode to­mar quanta água quiser. É só me contar.

Ela se recusou, virando a cabeça para o lado. As mãos dela estavam dormentes, e o corpo, estranhamente frio, apesar do calor do dia.

  • Eu não sei - respondeu. - Samuel não quis me contar.
  • Você é uma das assistentes em que ele mais confia.
  • Não mais. Ele não me contava mais nada. Ficou desconfiado de mim depois que tentei roubá-la da primeira vez.
  • O que ele lhe ofereceu?

Hanna queria soltar uma gargalhada cínica, mas a língua in­chada não permitiu. Uma pequena quantidade de saliva escorreu pelo canto da boca. Ela estava muito cansada. Olhou para ele e pen­sou nas serpentes da areia que se escondem na poeira, esperando para atacar o primeiro pé que passasse perto. Os olhos dele estavam como os delas: pálpebras encobertas, bordas avermelhadas, tão cla­ros que pareciam quase amarelos.

As palavras saíram como um sussurro. — Nada. Por que eu ficaria do seu lado se pudesse arrancar dinheiro do Samuel?

  • Como então ele sabia que eu estava indo para o museu? Ele estava me esperando. Essa informação só poderia ter sido dada por você.
  • Você sabe como são as coisas por aqui. As informações vazam. Ninguém guarda segredo por muito tempo.
  • O seu sacrifício é um desperdício. Nós vamos encontrar a ins­crição de qualquer jeito.

Ela sentiu o cheiro do suor dele e se perguntou se uma parte dele também estaria com medo. Será que ela tinha alguma chance?

  • Pelo amor de Deus, me deixe ir! Eu vou morrer aqui!

Irritado, ele atirou a garrafa longe, espatifando-a em uma pe­dra. Cacos de vidro verde se espalharam pelo chão, cintilando à luz do sol.

  • Que o diabo te carregue, então.

As palavras doeram em Hanna como uma chibatada. O homem deu meia-volta e subiu pela superfície íngrime.

  • Hanna nos traiu - ele gritou para os outros. Levantou a mão esquerda para fazer o sinal do chifre, esticando o dedo indicador e o mindinho e deixando os outros dedos dobrados, lançando uma maldição terrível sobre ela. Pegou uma pedra, andou em direção ao menor dos outros dois homens e enfiou-a em suas mãos trêmulas. - Apedreje-a.
  • Você disse que só íamos assustá-la. Ela já está bem mal. Isso já foi longe demais.
  • Ela ainda não acha que estamos falando sério.
  • Talvez ela não tenha mesmo a informação.
  • Ela sabe. Obedeça.

O homem mirou, tentando calcular onde o golpe machucaria menos. A pedra ricocheteou de leve no ombro de Hanna com uma batida sem efeito.

  • Você está tentando poupá-la! - gritou o primeiro homem, pare­cendo bravo. — Shim, mostre a ele como se faz.

Um homem gigantesco deu um passo à frente. Instintivamente, o menor se afastou, tendo visto em primeira mão o dano que seu companheiro era capaz de infligir. O Golias curvou a cintura sem titubear, apanhou duas pedras e atirou-as com toda a força contra o alvo.

Hanna gritou. Seu corpo se estremeceu quando uma das pedras acertou o rosto e a outra afundou no tecido mole do abdome. De­pois desses golpes, ela perdeu completamente a noção de tempo e de espaço.

Como que se solidarizando com a agonia dela, a luz pareceu mu­dar. O sol ficou laranja queimado; o céu, um estranho ocre. Com o calor violento, parecia que o chão ondulava, como se uma serpente gigante estivesse rastejando sob a superfície. A atmosfera estava es­tranhamente parada, exceto por um zumbido baixinho, um frisson elétrico de milhões de partículas de areia se aglomerando.

Os homens olharam para o norte.

  • É o vento shamal - disse um deles. - Olhe aquilo.

Era como se uma montanha tivesse de repente se formado no inal­terado horizonte. No início, era só uma pequena protuberância, mas ela cresceu rapidamente diante dos olhos deles. Em minutos, uma onda de areia de muitos metros de altura tornou-se visível. Ela desli­zava na direção deles como um imenso tsunami. Relâmpagos azuis se ramificavam em meio à poeira avermelhada. Os árabes chamam esse vento de khamsin, derivação da palavra "cinqüenta" - porque, quando são fortes, essas tempestades podem durar cinqüenta dias.

Eles saíram em disparada, sabendo que seria quase impossível fugir da parede de areia que se aproximava. O homem mais baixo tropeçou e caiu sobre uma rocha pontuda. Uma dor aguda lhe transpassou o joelho. Ele se levantou, segurou a perna machucada e avan­çou mancando. Os outros dois já tinham chegado à velha picape da GM. Eles abriram as portas e pularam para dentro. O motorista deu a partida.

— Esperem!— gritou o homenzinho. — O que vocês estão fazendo?

Eles bateram as portas da caminhonete; os pneus rodaram em falso no chão arenoso. O motorista engatou a ré. As rodas ganharam tração, e a caminhonete dirigiu-se para o sul. O homenzinho come­çou a correr, ignorando a dor lancinante. Ele esticou os braços como um mendigo implorando compaixão. O farol alto da caminhonete lhe ofuscou os olhos por um momento. Suas últimas palavras foram engolidas pelo ronco do motor e pela tempestade que se armava.

Hanna, praticamente inconsciente, conseguiu sentir brevemente o vento batendo em seu rosto e o primeiro golpe das finas partícu­las de areia. Ela se dobrou no poste como uma boneca quebrada. O lenço esvoaçante anunciava a tempestade que se aproximava.

 

West 20th Street, 342, Nova York

Sábado, 2 de agosto de 2003, 22h30

Nas semanas que se seguiram ao acidente, eu me mantive longe da constelação de amigos que conheciam e adoravam meu irmão Samuel. Se por acaso nossos caminhos se cruzavam, eles davam um jeito de dizer: "Foi um milagre você ter sobrevivido, John", com um tom que indicava o contrário.

Eu levava comigo a lembrança daquele momento sombrio na es­trada como uma marca feita a ferro quente.

Para evitar mais algum encontro casual, cheguei à festa de Hal Vanderlin deliberadamente tarde, na esperança de que os convida­dos já tivessem se dispersado. Eu nem teria me dado ao trabalho de ir, mas Hal andava evasivo ultimamente, não atendia minhas liga­ções nem respondia a meus e-mails. Ele ainda me devia um bom dinheiro, e a festa era o único lugar onde eu sabia que ia encontrá-lo com certeza.

Quando criança, eu havia passado horas explorando a casa de Van­derlin, perdendo-me no labirinto de corredores escuros, abrindo portas que davam para cômodos silenciosos. A maioria continha mobília de uma era que havia ficado para trás - cadeiras estofadas com tecido adamascado cor de vinho, com armação de nogueira entalhada e renda feita à mão nos braços e no encosto da cabeça. Os guarda-roupas, as estantes e as escrivaninhas exalavam um aroma de cânfora e mogno antigo. Uma casa fantasma. Era o que me parecia na época.

De todos esses cômodos, o meu favorito era um que eu chamava de sala de desaparecer. O grande retângulo aberto no andar de cima parecia imenso para um menino. Havia dois espelhos enormes pen­durados na parede, um de frente para o outro. Se eu ficasse de pé bem no meio, podia me ver encolher até virar nada. Quando me cansava dessas brincadeiras solitárias, saía correndo pela cozinha para o jardim dos fundos, uma selva de árvores e arbustos crescidos. Afiava gravetos e amarrava pedaços de barbante para fazer arcos e flechas e depois ficava esperando um ciclope sair dos arbustos ou um gigante descer de uma árvore.

Mesmo essas lembranças inocentes agora pareciam maculadas com a morte de Samuel.

Quando cheguei ao salão, só quem era arroz de festa de verdade ainda estava lá. Entre eles, o professor Golin Reed, que estava dando em cima de uma mulher de cabelo loiro quase branco e olhos muito azuis que parecia ter acabado de se formar - uma presa fácil. A calça justa e uma camisa de seda agarrada exibiam seu corpo firme e em boa forma.

Reed se afastou para buscar bebidas. Enquanto eu olhava ao re­dor à procura de Hal, a mulher me chamou a atenção. Sorri para ela.

  • Eu sou a Eris - ela disse quando estávamos perto o suficiente para ouvir um ao outro.

- John Madison.

Ela chegou mais perto.

  • Você é convidada do noivo ou da noiva? - perguntei.

Observei os olhos dela se arregalarem quando ela riu. Eles eram de um azul hipnotizante, tão intenso que me perguntei se ela estaria usando lentes que realçam a cor.

  • Engraçado — disse ela. - Às vezes essas festas universitárias são tão boas quanto o casamento de um primo de terceiro grau.
  • Você é da Universidade de Nova York?
  • Não, eu me formei no MIT. E você?
  • Mas já faz alguns anos. Hal e eu nos conhecemos há tempos. Somos amigos de infância e, nos últimos tempos, parceiros nos negócios.
  • Ele não é professor universitário?
  • E eu sou marchand. Ele vendeu alguns objetos de arte por meu intermédio.
  • Que exótico! Você deve ser milionário, então.
  • Milhões de dólares passam pelas minhas mãos. Sempre dói vê-los acabar na conta bancária de outra pessoa. Eu deveria ter virado investidor de risco.

Isso gerou outro sorriso.

  • Então, você é amigo do Hal? - perguntou ela.
  • Meu irmão mais velho e o pai dele eram amigos. Samuel sempre me trazia junto quando vinha aqui, e toda vez que Hal voltava para casa do colégio interno ou do acampamento de verão, eu o via. Ele não tinha muitos amigos aqui na cidade. E você? Como o conhece?

Ela não me respondeu, e eu a vi lançar um olhar para o outro lado da sala. Reed apareceu na porta. O cabelo claro e armado, meio bagunçado, e o nariz avermelhado indicavam que aquele não era nem de longe o primeiro drinque da noite. Ele me olhou, irri­tado. Sinal de que não estava gostando de me ver monopolizando o alvo das atenções dele.

Normalmente, eu defenderia meu território, mas precisava en­contrar Hal.

  • Desculpe, não posso ficar para conversar. - Saquei um cartão de visitas e o entreguei a ela. - Preciso encontrar Hal. Me ligue se quiser tomar um café ou algo assim um dia desses.

Ela deu uma olhada rápida no cartão e o enfiou na bolsa a tiracolo.

  • Não tomo cafeína, mas adoro longas caminhadas na praia e jantares românticos.

Foi a minha vez de rir.

  • Mal posso esperar - respondi. E saí antes que Colin Reed che­gasse para quebrar o encanto.

Na cozinha, antes de sair pelos fundos para procurar Hal, colo­quei "Black Black Heart", de David Usher, para tocar, aumentei o volume e abri a janela para a música se propagar. A canção de Usher falava de uma mulher, mas eu sempre achei que o título poderia muito bem se aplicar a mim.

Saí e segui pelo caminho de pedra. Uma luz suave irradiava das janelas e flutuava para o jardim emaranhado. O calor da noite de agosto espalhava o perfume dos choupos-tremedores pelo ar.

Respirei fundo e quase me senti satisfeito.

Encontrei Hal no pequeno pavilhão de pedra, sentado na mesma velha cadeira de vime que o pai dele costumava usar. Uma lampa­rina a óleo pendurada na parede dos fundos exalava um perfume cítrico. Uma das mangas estava enrolada até acima do cotovelo, e uma tira de borracha clara apertava o braço com tanta força que fazia a pele se enrugar.

Quando Hal me viu, apagou o isqueiro e colocou uma colher na mesa, ao lado de um saquinho de plástico contendo um pó acinzentado.

- John, você sempre chega na hora certa.

Atravessei o arco da entrada e me sentei na borda da parede de pedra que formava um lado do pavilhão. Verifiquei se alguém mais havia saído e depois me movi para baixar uma das persianas. Uma mariposa saiu voando com as asas brancas tão finas quanto um lenço de papel.

Parecia que Hal era quem tinha acabado de sobreviver a um aci­dente, e não eu. Fiquei impressionado com a aparência fragilizada dele. Uma coleção de hematomas pontilhava o braço desnudo, feri­mentos causados pela aplicação de injeções. Aos trinta e três anos, um ano mais velho do que eu, ele aparentava ter uns cinqüenta.

Franziu o cenho.

  • Você ainda está solto.
  • É claro. Por que não estaria? - perguntei.
  • Os jornais deram a entender que você seria acusado de crime. Disseram que estava muito acima do limite de velocidade.
  • O acidente foi há mais de seis semanas, e nada aconteceu. Você sabe que eles sempre exageram. Eu fiz aquele caminho um milhão de vezes. Poderia percorrê-lo de olhos fechados.

Ele ergueu as sobrancelhas.

  • Bem, agora é só a sua palavra. Samuel não pode dar a versão dele.
  • Hal, você está prestes a se picar. Não me venha com discursos sobre risco.

Ele riu.

  • Não há perigo nenhum, a não ser que você dê azar e pegue uma pura.

O vício dele não era segredo para mim. Havia começado como uma diversão, mas o que era esporádico tornou-se rotina. Nossa aven­tura comercial de vender a coleção do pai dele não iria muito longe. Nós já havíamos depenado a maior parte da riqueza da família.

Ele apontou para a colher.

  • Pertence a um jogo completo que mamãe montou. Feito por encomenda para a realeza espanhola, foi o que disseram a ela. Sé­culo XVI, Casa de Borbón y Grécia. Presente de casamento para celebrar a união de Castela, Aragão e Navarra.

Ergui a colher com cuidado, sabendo que Hal teria um ataque se eu derramasse a preciosa carga. Vi o brasão no cabo: um escudo na metade inferior, o leão rampante e um castelo nos dois quadrantes superiores e uma coroa no alto. Eu havia aprendido algumas lições duras sobre identificar material falsificado em minha experiência de comerciante de arte e antigüidades.

Coloquei a colher de volta na mesa e suspirei.

  • Você sabe que o faqueiro é falso, senão já o teria vendido a essa altura.
  • Você está certo, é claro. A única coisa que mamãe comprou sem nos consultar antes. Ela ficou tão orgulhosa... Papai viu na hora que era uma cópia. "E malfeita." Ainda posso ouvi-lo dizendo isso; ele se divertiu por umas duas semanas. Como sempre, eu a defendi. Não tenho coragem de vendê-lo.
  • Hal, eu só vim hoje porque você anda me evitando. Você me deve quase dois mil daquele empréstimo que fiz para você. Quando vou ver o dinheiro?
  • Tenho uma longa lista de credores. Bem-vindo à fila.

Meu tom de voz subiu.

  • Engraçado, não foi isso que você disse quando lhe dei o dinheiro.

Hal mudou de cara, como se eu tivesse tocado em um ponto par­ticularmente delicado.

  • Você é tão agressivo, Madison! Tão diferente do seu irmão... Samuel me ensinou a apreciar a beleza dos objetos antigos, suas his­tórias. Está sendo difícil vender as coisas do meu pai, mas, para você, tudo é uma questão de dinheiro. Sempre foi assim entre nós. "Pri­meiro eu", esse é o seu lema.

Nossa relação sempre teve altos e baixos, mas dessa vez eu estava sem paciência para o mau humor dele, e minha irritação virou raiva.

  • Eu ainda estou tentando me recuperar do acidente. Perdi meu único irmão. Não se atreva a usar isso contra mim.
  • E eu estou prestes a perder o emprego. Colin Reed, que neste momento está usufruindo de minha hospitalidade, enxugando as mi­nhas melhores bebidas e se insinuando para as mulheres, me entre­gou a papelada da minha demissão hoje no fim da tarde. Eu descobri tarde demais para cancelar a festa. Eu sabia que eles não iam me efetivar, mas não esperava por isso. E ele teve a cara de pau de apare­cer aqui. Então, estou totalmente falido. Nem mesmo você consegue sugar sangue de uma pedra.

Murmurei algumas palavras sobre o fato de isso ser uma má notícia.

Ele dispensou meus comentários com um gesto.

  • Você vai receber seu dinheiro logo. Tenho uma coisa, de qual­quer forma, que vale muito mais do que um punhado de prata.
  • O quê? - Fiquei um pouco surpreso por ele ter escondido algo de mim. - Você não está tentando vender por conta própria, está?

Ele apertou a faixa de borracha no braço novamente, ignorando-me.

  • Hal, antes de você partir para a terra do nunca, me escute. Você ficou satisfeito com os preços que eu consegui antes. Se isso que vo­cê tem é realmente valioso, você pode acabar sendo enganado. Deixe-me vender, e assim você pode me pagar. Pare com isso, não seja tão teimoso.
  • Você já ganhou o suficiente comigo. Agora é minha vez. - Hal conseguiu dar um sorriso e retomou a preparação, um ritual do qual ele parecia gostar quase tanto quanto da viagem.

Ele pegou a seringa e tirou a tampa, deixando-a cair na mesa. A agulha aparentava ser da espessura de um fio de cabelo. Ele puxou o líquido para dentro da seringa e tirou as bolhas de ar. Dobrando o punho esquerdo, espetou a ponta cia seringa na pele, relaxou e empur­rou o embolo. Uma pontinha de sangue emergiu no lugar da picada.

Recostou a cabeça na cadeira de vime, como se quisesse descan­sar. Eu me afastei, enojado, e deixei-o lá, com os olhos distantes e a boca aberta. Ele tinha encontrado alguma coisa realmente valiosa? Eu duvidava. Mas por que tentara escondê-la de mim?

 

Quando cheguei em casa, peguei uma garrafa de cerveja super-gelada na geladeira e fui para o terraço. O cheiro inconfundível de maconha permeava o ar morno da noite. Essa era uma das maiores vantagens de morar perto das casas noturnas de Greenwich: você podia ficar doidão só de respirar. A luz amarelada e amorfa de letreiros e postes iluminava ligeiramente a rua. Grupinhos de baladeiros passavam, gritando uns com os outros, as meninas com seus jeans de quatrocentos dólares e salto agulha de doze centímetros, e os caras tentando, em vão, ficar com elas.

Embora Samuel e eu dividíssemos o apartamento, nós tínhamos viajado mais que dois navios no meio da noite nos últimos anos, ele muitas vezes para uma escavação, e eu sempre em um avião para encontrar um cliente. O apartamento era um refúgio para ambos. Surpreendentemente, tendo em vista as nossas profissões, a deco­ração tinha um ar contemporâneo. No entanto, tínhamos algumas peças mais antigas - tapetes orientais valiosos, mobília escandinava de teca dos anos 1960 que eu tinha conseguido com um comerciante malsucedido, luminárias Eames e um candelabro. O pé-direito alto dava uma sensação de espaço e, durante o dia, a luz atravessava nossas amplas janelas. Nas raras noites de inverno que passava so­zinho, eu adorava sentar diante da lareira a gás, ouvindo música e vendo a neve cair do lado de fora. Eu colocava o genial Roy Orbison ou Diana Krall para tocar e deixava a voz deles penetrar em minha alma.

A lembrança dos bons momentos que havíamos passado juntos enquanto montávamos nossa casa ao longo dos anos fez a dor voltar ainda mais forte. E, quando as lembranças de Samuel me invadiam, como faziam com freqüência, eu demorava muito para me recuperar emocionalmente. Desde que voltara do hospital, eu não tinha tido coragem de entrar na suíte de Samuel. Os pertences dele me esprei­tavam ostensivamente, desafiando-me a abrir a porta e mexer neles. A maioria eram peças coletadas ao longo de décadas de viagens ao Egeu e ao Oriente Próximo. Entre elas, um raro tapete tribal Jaf de franjas brilhantes cujos fios vermelhos e azul-cobalto mantinham a cor tão viva como se tivessem acabado de ser tecidos. Um cinto de noiva de prata batida do período otomano na Anatólia. Os livros. Um exemplar de Os sete pilares da sabedoria, autografado por T. E. Lawrence, as primeiras edições de O quarteto de Alexandria, de Durrell, quatro volumes. Eu havia sido um cúmplice voluntário na investida contra a herança de Hal, mas nunca me desfaria de nada meu.

Pensar em minha herança me levou de volta ao meu aniversário de sete anos, num dia de novembro com muito vento em que Samuel e eu viajamos para um lugar muito querido que freqüentávamos, uma cidade à beira do lago Ontário, onde morava um amigo pró­ximo da família. Além do abismo de quarenta anos de diferença de idade que havia entre ele e mim, como nós dois éramos diferentes, mesmo naquele tempo... Eu, impetuoso e exigente; Samuel, reser­vado e comedido. Eu às vezes achava que, para dar um passo, ele parava para pensar. Eu iria ficar mais alto do que ele, com a cons­tituição robusta e o cabelo e os olhos escuros da nossa ascendência mediterrânea compartilhada. Ele tinha olhos cinza-claro e a pele clara característica dos europeus do norte.

Não havia quase ninguém por perto naquele dia, só um corredor solitário e um casal com seus labradores. Os cachorros buscavam varetas atiradas no lago, sem se importar com a água gelada. Samuel segurava minha mão, e eu me apoiava nele enquanto caminhávamos pela areia grossa.

  • Sabe, John - disse ele —, há maravilhas por toda parte, mas a maioria das pessoas nunca se detém para olhar. Elas estão muito ab­sorvidas pelas preocupações do dia a dia.

O pessoal da manutenção já tinha instalado uma cerca de ripas de madeira cor de ferrugem para evitar que os ventos do inverno levassem neve para a calçada. Uma faixa de folhas caídas acompa­nhava o perímetro. A água já estava cinza-aço. As ondas batiam nas pedras e faziam a água espirrar. Não havia aquele cheiro forte de sal pairando no ar nem algas jogadas na beira da água; se não fosse por isso, dava para jurar que você estava perto do mar.

Eu pensei no que ele havia acabado de dizer e me lembrei de uma tarde de verão na praia em que nós havíamos enchido dois potes com pedacinhos de vidro colorido arredondados pelas ondas.

  • Como as jóias que encontramos no verão passado? - perguntei.

Eu não entendia como objetos tão bonitos podiam ficar jogados no chão esperando para ser recolhidos. Os verdes, mais abundantes, eram minhas esmeraldas, os azuis, minhas safiras. Ocasionalmente, eu encontrava um âmbar ou um raro rubi.

  • Sim, como elas - disse Samuel. - Vamos olhar perto das pedras. Quem sabe? Talvez a gente encontre alguma coisa.

Não demorou para ver a garrafa presa entre duas pedras. Samuel precisou me ajudar a puxá-la para fora. Era uma garrafa de vidro azul-esverdeado bem clarinho, com uma rolha. Dentro, dava para ver um pedaço de papel amarelado enrolado. A rolha estava frouxa, e eu logo consegui pescar o papel.

Samuel o desenrolou sobre a superfície plana de uma pedra.

  • Bem, John - anunciou ele acho que você encontrou o mapa de um tesouro.

Se eu fosse mais velho, teria imediatamente percebido a brin­cadeira. Como era pequeno, mal podia conter minha alegria en­quanto seguíamos cuidadosamente as instruções do mapa. Cem passos até o pinheiro azulado, quarenta até a fonte de água po­tável, depois em direção ao coreto e de volta para a garagem de barcos.

Fomos parar em um canteiro de flores atrás de uma cerca viva de cedro onde, espantosamente, ainda restava uma rosa.

  • O tesouro está embaixo do local sinalizado pela rosa, é o que está escrito aqui - disse Samuel.

Abaixei-me e ataquei o monte de terra solta com um graveto. Sa­muel ajoelhou-se no chão ao meu lado, com as unhas sujas e o velho paletó de tweed, agitado pelas rajadas de vento.

Ele desempenhou seu papel de forma convincente.

Usando um lenço, removemos com cuidado o resto da terra e tiramos do chão um pequeno cofre, arredondado de um lado e com arestas do outro. Era típico de Samuel enchê-lo com objetos de va­lor em vez de coisas de criança. Eu abri uma bolsinha de rede que continha sete moedas de ouro. Tirei-as, examinando as imagens incomuns e sentindo o peso delas com a mão. Havia também um disco de cobre, esverdeado pelo tempo, com a imagem de um pássaro gra­vada de um lado; um selo cilíndrico de pedra e uma chave dourada. Mais tarde, experimentei a chave em todas as fechaduras de nossa casa, mas nunca descobri qual ela abria. O baú também continha uma pequena caixa esmaltada, e dentro dela um camafeu cor de caramelo com o perfil de uma mulher. Na parte de trás, vi uma ins­crição com letras que não entendia.

  • Guarde essas coisas em um lugar seguro - disse Samuel. - Elas serão importantes para você um dia.

Meu celular fez um barulho estridente, trazendo-me de volta para o presente. Olhei o relógio. Quase meia-noite e meia.

Atendi, na esperança de ouvir a voz da mulher loira, mas era Hal que estava na linha, falando enrolado. Eu só consegui distinguir o meu nome e mais nada. Depois disso, um período de uns cinqüenta segundos de peito chiando e respiração lenta e difícil.

A voz ficou mais clara.

- John, você ainda está me ouvindo? Volte para cá. Preciso de você. - O som do telefone caindo sobre uma superfície dura foi como um choque atingindo minha orelha. A linha ficou muda.

Eu não podia me lembrar de nenhuma vez, depois de adultos, em que Hal tivesse me pedido ajuda para alguma coisa pessoal. O pedido de agora era um sinal claro de problema. Peguei as chaves, desci voando as escadas dos fundos para economizar tempo e entrei no carro. Depois de dirigir como um louco, ziguezagueando pelas ruas e ignorando todos os limites de velocidade, estacionei na frente da igreja, perto da casa de Hal. A rua estava estranhamente deserta e sombria, e as sombras dos casarões no escuro pareciam mausoléus gigantes sem os seus mortos.

Eu saí, digitei a senha da porta da frente com força e disparei pelo corredor ecoante, escada abaixo e pela cozinha até o jardim dos fun­dos. Um cachorro uivou no vizinho. Fora isso, o silêncio era mortal.

O sistema de segurança detectou meus movimentos, e as luzes se acenderam, lançando arcos de claridade sobre o jardim e deixando as bordas totalmente às escuras. Eu vi Hal estatelado no chão de concreto do pavilhão, com um braço jogado em um ângulo sobre a testa. Os olhos estavam abertos, olhando para o nada. O rosto era um retrato congelado do grito de Edvard Munch.

Eu me abaixei e encostei na pele dele, na base do pescoço, em busca de um leve pulso na cavidade mole da garganta. Tentei fechar sua boca à força, achando, em pânico, que isso faria seu rosto voltar ao normal e ele iria reviver. Tentei abaixar as pálpebras, mas, de um jeito assustador, elas se abriram novamente quando tirei os dedos.

Peguei a mão dele, que já estava esfriando, e fechei-a na minha, que estava quente.

"Pelo amor de Deus, Hal! Toda aquela bravata sobre não com­prar heroína pura. Esse erro só se comete uma vez."

Quando meus olhos começaram a se habituar com o escuro, vi um feio corte ensangüentado em sua mão esquerda, provavelmente causado pela queda. Procurei meu BlackBerry para chamar uma ambulância e vi que o celular de Hal tinha ido parar embaixo da cadeira. Apanhei-o. A parte de cima tinha quebrado, a lateral tinha pedaços de plástico preto pontudos saltando para fora.

A seringa de Hal ainda estava em cima da mesa, perto do copo de bebida vazio. Com exceção de uns poucos grãos, o plástico trans­parente que continha a heroína estava vazio. O cachorro voltou a ladrar, dessa vez uma série de latidos agudos furiosos, como se tivesse avistado uma vítima e estivesse prestes a atacá-la.

Ouvi o barulho de passos no caminho de pedras e me endirei­tei. A mulher loira que eu havia conhecido mais cedo estava em pé olhando para mim, com um estranho meio-sorriso no rosto. O ca­belo dela refletia o brilho da luz como uma seda ondulada.

Ela ainda tinha a aparência impecável de antes, com uma exce­ção: um borrifo de sangue visível na manga direita. Ela parecia à vontade, quase indiferente. Como se fosse perfeitamente normal Hal estar morto no chão do pavilhão. Ela deu alguns passos em minha direção.

- Oi de novo, John - disse ela.

 

Apelei para minha memória, tentando recobrar o nome dela. Érica, Erin... Algo parecido com isso.

  • Você percebeu o que aconteceu aqui?

Ela se aproximou e passou os dedos pelo meu braço.

  • É Eris. A gente conversou mais cedo, você se lembra?

Ela não tinha visto Hal? Talvez eu estivesse bloqueando a visão dela. Dei um passo para o lado.

Como se já tivesse feito isso muitas vezes antes, ela se ajoelhou do lado dele, verificou os olhos e pressionou a garganta com os dedos. Suspirando, ela se levantou de novo.

  • Não há mais nada a fazer por ele. Mas acho que você já sabe disso. - Disse a mulher de forma solidária, mas o fato de não ter fi­cado alarmada me incomodou.
  • O que aconteceu com ele?
  • Eu já vi corpos o suficiente. Ele teve uma overdose.

Um barulho de ganido ofegante veio da casa ao lado. O cachorro do vizinho. Ele arranhava agitadamente a cerca de madeira. A con­firmação dela para a minha suspeita me colocou em um dilema. O certo a fazer era chamar a polícia, mas com aquele monte de drogas por lá eu me dei conta de que ia sobrar para mim, por conta de uns problemas com a lei na minha juventude.

Como se estivesse lendo meus pensamentos, ela disse:

  • Não envolva a polícia nisso.
  • Por que não?
  • Você teve uma discussão com ele mais cedo. Você deixou a ja­nela aberta. As pessoas ouviram.
  • Aquilo não foi nada. - Olhei em volta. — Você está sozinha aqui? Cadê Colin Reed?

Ela virou os cantos dos lábios para baixo, com um sorriso fingido.

  • Reed foi embora faz algum tempo. Ele só estava interessado em uma coisa, e saiu quando deixei claro que não ia conseguir o que que­ria. Os homens podem ser bem decepcionantes. - Disse ela em tom de brincadeira, como se fosse uma piada. - Desperdicei meu tempo com ele quando podia ter ficado com você. - Ela apanhou o saco plástico de Hal e o enfiou no bolso. A mão dela voltou para o meu braço. — Sabe, o que aconteceu com Hal foi uma coisa infeliz. Mas nós podemos fazer um trato. Há muito dinheiro envolvido nisso.
  • De que diabo você está falando?

Ela se aproximou, e a pressão sobre meu braço aumentou.

- John, é um artefato roubado. Eu sei. Não tem nada de mais. Você certamente não acha que eu sou da polícia federal ou algo assim, acha?

Dei um passo para trás e tirei a mão dela de cima de mim.

  • Francamente, para mim não faz a menor diferença se você é do FBI ou do Forte Knox.

A mariposa que eu havia visto mais cedo reapareceu, batendo as asas perto da lamparina. Eris esticou o braço e a fez encostar no fogo. Eu ouvi um chiado. A mariposa saiu rodopiando erraticamente, esforçando-se para voar com as asas queimadas, e depois caiu na base da lamparina.

  • Isso está ficando cansativo - disse ela. - Você quer que eu sole­tre? O que eu estou lhe dizendo é que nós ajudamos Hal a aplicar a injeção. Não tome a decisão errada como ele.
  • Você está louca? Você tem idéia de como isso foi uma idiotice? Você o matou. Ele já tinha tomado o suficiente. Eu vi quando ele tomou a primeira dose.
  • Ele preferiu ser teimoso. Foi ele quem pediu.
  • Do que você está falando?

O tom excessivamente doce desapareceu.

  • Olhe, nós sabemos que você está envolvido. Hal chamou você de volta para cá por algum motivo. É só me dizer onde está.

Minha cabeça estava a mil por hora. Nada daquilo fazia sentido. Ou ela era louca, ou estava tramando alguma coisa realmente terrí­vel. Eu não queria me envolver com nenhum dos dois. Aquilo tudo estava saindo do controle. O que eu queria era dar o fora. Duvidei que ela tivesse força para me derrubar, e não via nenhuma arma. Ouvi um barulho e desejei que fosse mais alguém chegando. Ela lançou um olhar para o fim do jardim. Um vulto apareceu, e eu vi de relance um homem enorme caminhando pelas pedras. Eris sorriu. Ele não ia me salvar. Talvez eu pudesse dar conta de um deles. De dois, nem pensar.

Uma velha cerca de treliça separava os Vanderlin da casa ao lado. Pelos vãos das ripas, o cachorro rosnava furiosamente, usando os dentes e as patas para despedaçar a madeira podre. Ela começou a se estilhaçar.

Eris virou a cabeça e arregalou os olhos de medo. Ela abriu a boca, revelando os dentes pequenos perfeitamente espaçados, e pas­sou rapidamente a língua rosada pelos lábios.

A parte de baixo da cerca se rompeu. Pelo buraco, a cara e a mandíbula coberta de baba de um bullmastiff apareceram. Eris deu um pulo, com medo de que o cachorrão conseguisse passar e atacasse. As luzes piscaram no vizinho. Uma voz de homem gritou: — Pelo amor de Deus, o que está acontecendo aí? - Uma sirene soou a distância.

Eu aproveitei a brecha dada por Erin e acertei o celular do Hal nela, com o lado pontudo para a frente, e saí correndo pelas portas de correr de vidro abertas. "Não olhe para trás. Saia. Só saia." Eu voei pela casa, saí pela porta da frente e pus o carro em movimento antes de fechar a porta. Mais adiante, vi as viaturas da polícia ten­tando abrir caminho no cruzamento com a 8th Avenue.

Acelerei. Se a polícia me apanhasse naquele momento, eles acha­riam que eu estava fugindo de um assassinato.

 

Fiquei rodando de carro sem rumo, olhando no espelho retrovisor constantemente para ter certeza de que não estava sendo seguido. Meus pensamentos eram uma confusão frenética. Que diabo estava acontecendo? Eris tinha tomado alguma coisa e estava tendo alucinações? Ela tinha mesmo matado Hal? Ela estava atrás de algum tipo de artefato? Seria a coisa sobre a qual Hal tinha me falado an­tes? Ele tinha me chamado de volta para ajudá-lo ou para me envol­ver em algum esquema?

Olhei pelo espelho novamente. Aquele Range Rover prateado es­tava na minha cola? Ela poderia ter se locomovido tão rápido? Não sei por que escolhi aquele carro, qualquer um deles poderia estar de olho em mim. Fiz um retorno brusco e passei pelo SUV prateado. Meu corpo tremeu, e eu fiz um movimento abrupto com o volante. Foi só graças à atenção do motorista ao lado que nós não colidimos. Ele enfiou a mão na buzina com uma raiva justificável. Se um acidente se somasse aos acontecimentos da noite, eu ficaria com merda até o pescoço.

Meu estado de espírito era tal que eu não estava prestando a me­nor atenção para onde estava realmente indo, e então percebi que tinha ido parar em Murray Hill. Examinei os carros atrás de mim de novo. Nem sinal do prateado. Virei em uma rua lateral e encostei em uma vaga antes de me dar conta de que estava na frente de uma viatura de polícia. Ela passou por mim devagar e parou. O policial sentado no banco do passageiro me olhou, desconfiado. Ele havia pressentido meu pânico. Era o meu fim. Mas, para minha surpresa, eles ficaram meio minuto parados e depois aceleraram e desceram a rua. Apoiei a cabeça no volante. Parecia que eu estava sendo pren­sado pelos acontecimentos chocantes da noite.

Eu precisava de um lugar onde pudesse me acalmar e pensar. Ir para casa não era uma opção. Pelo menos não ainda. Eris tinha o cartão de visita com meu endereço. O único lugar que eu podia pensar era meu bar favorito, que tinha a vantagem de ficar em frente a meu apartamento, do outro lado da rua. Eu poderia ficar de olho para o caso de Eris aparecer.

Fiz a volta com o carro e me dirigi ao Kenny's Castaways.

 

O prédio onde ficava o Kenny's era um bar desde o início do século XIX. Em 1890, o Herald o consagrara como "o melhor lugar de Nova York". Em tempos mais recentes, o irlandês Pat Kenny comprou o local e o tornou famoso. As lendárias bandas de lá haviam me dado as primeiras lições de boa música. Em uma noite de verão, há muito tempo, eu tinha ficado apoiado na grade do terraço do apartamento como um marinheiro hipnotizado pelo canto de uma sereia, atraído pelo som que emanava das portas abertas. Eu tinha só oito anos e fiquei lá por horas até Samuel me obrigar a ir para a cama.

Meu caso de amor com o lugar e as músicas nunca chegou ao fim.

O Kenny's estava devagar. A banda estava na última sessão, perto da hora de juntar as coisas e sair pela porta. Algumas pessoas ainda estavam perto do palco, tomando seu chope devagar. Eu me sentei em um banquinho, o meu lugar de sempre, no fim do balcão.

Diane Chen, a atendente, tinha cabelo curto e espetado, tingido de dois tons de roxo, e usava uma maquiagem que fazia sua pele, já pálida, ficar fantasmagórica. Uma vez, ela me contou que sempre depilava as sobrancelhas com cera e depois as desenhava de novo com lápis preto. O delineador tinha sido tatuado junto aos longos cílios escuros. Um brinco de diamante enfeitava o lábio inferior, e uma das orelhas ostentava uma seqüência de pequenas argolas prateadas. Como muita gente que trabalha em restaurantes, ela usava o salário de atendente de bar para financiar sua carreira de atriz. Com todos aqueles brincos, eu pensei, as trocas de roupa deviam ser um inferno.

Ela acenou quando me viu, foi até a porta da frente e olhou para fora antes de voltar. Minhas mãos ainda tremiam. Eu as apoiei no colo para que ela não percebesse.

  • Por que você foi verificar a porta da frente?
  • O cara que fica espreitando restaurantes está de volta. Nós es­tamos tentando evitá-lo.

Ela viu em meu rosto que eu não tinha entendido.

  • É um cara aí. Ele faz um circuito regular e, esta semana, está na Bleecker. Ele entra em um bar ou restaurante e fica parado no meio do salão, olhando. Ele deixa os proprietários nervosos. Se você der uma nota de cinco, ele vai embora. Na verdade, é um bom truque. Melhor do que ficar plantado na calçada com a mão estendida.

Aquilo me fez sorrir, e ela sorriu de volta.

— John, senti sua falta por aqui. Fiquei muito triste quando soube do acidente. Você recebeu meu cartão?

Depois do acidente, eu tinha perdido a vontade de fazer qualquer coisa, inclusive de abrir a correspondência. Agradeci pelo cartão.

  • Também tentei te ligar, mas só caía na caixa-postal.
  • Eu estou meio fora de combate ultimamente. Faz seis semanas. — A dor do acidente voltou à tona. - Eles precisaram cortar o carro para me tirar de dentro. Eu quebrei as costelas, e uma artéria se rom­peu. A perda de sangue me fez ficar tanto tempo no hospital que eu até perdi o enterro do Samuel. Mas estou me recuperando agora.

Ela deu um suspiro.

  • Que coisa horrível. O que aconteceu?
  • Quando tento imaginar, me dá um branco. Eu me lembro de ter ido pegar Samuel no JFK. Ele tinha acabado de chegar de avião da Jordânia. Nós estávamos na Belt Parkway, com o hipó- dromo mais à frente. Uma picape atrás de nós estava colando em mim, e eu estava ficando muito irritado, mas, quando eu diminuí a velocidade para ela passar, ela não passou. Essa é última coisa que eu lembro.

Isso era uma verdade parcial, mas eu não agüentava contar o resto da história. O airbag tinha bloqueado minha visão, mas eu guardei uma lembrança auditiva - o terror absoluto na voz de Samuel. O ho­mem que nunca tinha levantado a voz comigo gritava. Ignorando a dor cortante no peito, eu tinha agarrado o cinto de segurança para me soltar e poder ajudá-lo, e estava quase conseguindo antes de desmaiar.

Diane pegou minha mão e a segurou.

  • Talvez seja uma bênção você não lembrar. O seu cérebro está protegendo você de alguma lembrança muito assustadora. Você deve sentir muita saudade do Samuel.
  • Acho que nunca vou superar, Diane.

Como eu poderia descrever o buraco negro em que havia caído depois da morte dele? Eu não tinha palavras. Minha cabeça ficava voltando aos primeiros anos. O trabalho dele exigia longos períodos de ausência. Eu sempre tinha aquela sensação de estar esperando, como em março, quando você começa a desejar que o inverno acabe. Quando Evelyn, nossa empregada, ficava sabendo que Samuel es­tava voltando para casa, o clima mudava totalmente. Eu ainda podia ver o rosto dela se iluminando, as bochechas corando levemente. Ela começava a andar para lá e para cá, limpando coisas que não preci­savam de limpeza, eu ia ao barbeiro, ela engraxava todos os sapatos e até tentava fazer um bolo. Quando chegava o dia, Samuel pas­sava pela porta com os braços cheios de caixas de presentes. Coisas exóticas. Doces turcos, garrafas de areia, mosaicos, brincos artesanais de vidro romano de Israel para Evelyn.

Limpei a garganta para esconder o fato de minha voz estar falhando.

  • Fico esperando encontrá-lo de novo. Mesmo sabendo que não vou vê-lo nunca mais.

Ela pegou um guardanapo e me deu.

  • Para que é isso?
  • Para os seus olhos.

Sem perceber que as lágrimas tinham começado a se formar, en­costei o guardanapo nos olhos e senti a umidade.

  • Você quer alguma coisa? Você está visivelmente arrasado.
  • Uma garrafa de uísque. Nem precisa de copo.

Ela riu.

  • Pelo visto, a noite foi boa.
  • Você não faz idéia.

Ela me serviu uma dose dupla de scotch e desapareceu pela porta no fim do balcão. Eu virei a bebida e me levantei para olhar a rua. Da janela da frente dava apenas para distinguir o nosso hall de en­trada. Nem sinal de Eris ou do estranho companheiro dela.

Não demorou muito para a carícia do álcool fazer meus nervos adormecerem. Comecei a me acalmar, o ambiente conhecido era reconfortante. Eu sempre adorei a atmosfera eclética do Kenny's. Pa­recia um pouco um bar ilegal da época da Lei Seca, desgastado pelo tempo - paredes vermelho-tomate, painéis de madeira escura, lustre de roda de carroça pendurado no teto de metal trabalhado. A parede atrás do bar era decorada com espelhos, canecas de cerveja, espadas e revólveres antigos e um imenso cabideiro de chifres no centro, com chapéus de feltro empoeirados pendurados nas pontas.

Bem na minha frente havia uma grande foto do "Boss", e, abaixo dela, um artigo elogioso da revista Crawdaddy!:

 

Bruce Springsteen era a atração principal, e não havia nem uma dezena de pessoas que sabiam quem ele era. Do lado de fora, no letreiro feito à mão, o nome dele estava escrito errado. Mas, quando ele começou a cantar, foi como se o oceano tivesse se acalmado e você sentisse que uma tempestade estava se armando pelo modo como a pele se arrepiava.

Diane sentou no seu banquinho atrás do balcão, interrompendo meu devaneio. Debaixo do braço ela carregava uma caixa retangular marrom. Ela colocou a caixa em cima do balcão e levantou a tampa.

  • O que é isso?
  • Você não se lembra? Você mencionou isso uma vez quando estávamos falando sobre o seu trabalho. Uma amiga minha com­prou para mim no Museu Britânico quando esteve em Londres. Eu trouxe para fazer você esquecer um pouco os seus problemas.

Quando ela tirou o tabuleiro, eu o reconheci de imediato. Uma reprodução do Jogo Real de Ur, o mais antigo jogo de tabuleiro co­nhecido. O Museu Britânico tinha um raro original, um dos dois encontrados por Sir Leonard Woolley nos anos 1920, na escavação da antiga cidade suméria de Ur.

Diane colocou o dedo nos lábios. As unhas compridas estavam pintadas de preto arroxeado, cada uma com um signo do Zodíaco diferente detalhado em branco.

  • Eles acham que o jogo é um precursor do gamão.
  • Eu sei disso, Diane. Escute, não estou com disposição para jo­gar hoje. Estou com a cabeça muito cheia.

Quando ela se mexeu no banquinho, os pequenos penduricalhos e argolas ao longo da orelha retiniram.

  • Se você quiser superar os seus problemas, vai precisar se con­centrar em alguma outra coisa. Dê um descanso para suas emoções. De qualquer jeito, eu não ia sugerir que nós jogássemos. Depois que ganhei o jogo, eu descobri que ele também era usado para fazer pro­fecias. Você não sabia disso, aposto.
  • Você se interessa por previsões?
  • E só um É minha nova mania. - Diane sorriu com um brilho no olhar. - Por que você não experimenta? Uma amiga minha estava tendo uma maré de azar recentemente. Eu previ seu futuro, e tudo à volta dela mudou.
  • Sou supersticioso demais.
  • Não se preocupe. — Ela tirou sete peças vermelhas, cada uma mais ou menos do tamanho de uma moeda de um centavo, e deu-as para mim. Colocou três dados esquisitos, em forma de pirâmide, so­bre o balcão. — Os sumérios consideravam a adivinhação uma ciên­cia. Eles procuravam presságios celestiais, examinavam o fígado de animais ou interpretavam figuras de óleo formadas sobre a água.
  • Eu sei.
  • O seu futuro não é imutável - continuou ela. - A previsão só sugere uma direção, ou alerta sobre algumas pessoas ou comporta­mentos que devem ser evitados.

Eu estava prestes a dizer para ela esquecer aquilo quando me dei conta de que precisaria que ela me fizesse um grande favor, então, resolvi deixá-la fazer aquilo.

  • Vou fazer só uma previsão curta, porque já é tarde.
  • Como você descobriu as regras? Ninguém nunca encontrou as do jogo.

- Confie em mim. — Ela deu um sorriso e empurrou as pequenas pirâmides em minha direção.

Eu as chacoalhei e as joguei sobre o balcão.

Diane se inclinou e espiou os dados.

  • Ande quatro casas.

Peguei uma das peças e a coloquei no primeiro espaço na se­gunda fila de três quadrados.

  • Você caiu uma casa antes de uma roseta.
  • Isso é ruim?
  • Mais ou menos. É uma casa de punição. Significa que você deve esperar uma comunicação secreta; não vai ser uma notícia boa.
  • Bem, isso se encaixa na noite de hoje. - Peguei os dados e joguei de novo.

Ela ficou pálida.

  • O que foi? Achei que você tinha dito que não existiam escolhas boas ou ruins.
  • Você tirou seis. Você passou mais uma roseta e caiu de novo nos olhos. Uma das piores casas.
  • O que ela tem de errado?
  • Ela profetiza traição e morte violenta.

Isso me deu um susto e, por um instante, as palavras me abando­naram. Adivinhação é uma enganação, mas depois de um dia que havia se transformado em um pesadelo, não precisou de muito para me deixar perturbado.

  • Há esperança - disse Diane rapidamente. - O talismã do sol também está associado ao espaço. Só o símbolo do sol pode salvar você.
  • Do quê?
  • Ele protege contra assassinato.

Aquilo estava ficando bizarro. Com certeza, ela não tinha como saber do Hal.

Minha expressão deve ter entregado meus pensamentos, porque ela acrescentou:

  • Eu não estou inventando nada, se é isso que você está pensando.

Fiquei tentando achar algo para dizer.

  • Então... por que o sol? É um deus romano, não mesopotâmico.

Diane ficou um pouco aborrecida com o meu ceticismo.

  • Às vezes, é preciso improvisar.

Na jogada seguinte, um dos dados caiu no chão, do lado em que ela estava no balcão.

  • Esse não vale. - Ela se abaixou para apanhá-lo. - Estou curiosa para ver se o símbolo do amor vai aparecer. Vejamos qual teria sido a previsão. Junto com o outro dado você avança mais três espaços. É uma posição interessante. Poderia significar que depois da dor vem a felicidade. Meio indefinido. Não tenho muita certeza de como de­veria interpretar isso. - Ela se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos no balcão. - Faz muito tempo que eu não vejo você com alguém especial.
  • Eu marco uns encontros, chego a sair algumas vezes. Quando parece que está indo tudo bem, elas somem e não ligam mais.

Ela revirou os olhos.

  • Me poupe. Você é que não liga. Da última vez em que você esteve aqui, duas mulheres me ofereceram dinheiro para que eu lhes conseguisse seu telefone. Ficavam comentando que você era um gato. Tão bonitão, elas diziam. De tanto falarem, virou uma chatice ficar ouvindo as duas. Depois, elas apostaram qual delas ia voltar para casa com você. São esses seus olhos escuros. E a barba, acho. Dá um ar meio europeu.
  • E quem conseguiu?
  • Voltar para casa com você? Você nem se lembra, não é? - Ela balançou a cabeça e deu um sorriso provocativo.

Em condições normais, eu teria pensado em ir atrás dela. Hoje, eu mal estava conseguindo segurar as pontas.

  • Diane, obrigado de verdade pelo elogio, mas no momento eu estou sob muita pressão. Estou sem energias. - Juntei os dados e as peças e coloquei-os de volta na caixa.
  • Tudo bem. — Ela esticou as mãos e se afastou, ofendida. - Re­laxe. Você não está colaborando muito consigo mesmo levando tudo tão a sério.

Para uma gótica, a reação era meio excessiva. Ela me ignorou e foi se ocupar arrumando os copos de bebida, passando um pano no balcão e somando a entrada da noite. Toda vez que ela se abaixava, a calça de cintura baixa descia o suficiente para revelar parte das nádegas.

A observação sobre a barba tinha sido lisonjeira. Eu a deixava rente, e realmente combinava com minha imagem profissional, mas eu a deixava crescer por um motivo totalmente diferente. Para esconder uma marca de nascença na mandíbula que parecia uma queimadura. Fonte de muitos inconvenientes ao longo da minha adolescência, pa­recia uma letra e chamava a atenção, como uma cicatriz feia.

Eram umas quatro da manhã quando Stan, o garçom, colocou os cadeados e foi embora, e Diane terminou as tarefas dela. Da porta, eu dei outra examinada na rua, para decidir se era seguro ir para casa. No cruzamento da Thompson com a Bleecker, vi um Range Rover prateado parado junto à guia. Seria Eris?

Decidi não me arriscar e me ofereci para acompanhar Diane a pé até o Chase Bank, na Broadway, para fazer o depósito da noite. Nas últimas horas, a temperatura tinha subido muito. As pessoas ainda andavam pelas ruas, fugindo de apartamentos apertados, sem ar-condicionado. Um cara estava em pé com as costas encos­tadas na vitrine de uma loja, segurando cinco ratos de estimação no antebraço. Dois brancos, dois marrons e um malhado. As longas caudas rosadas peladas se contorciam quando ele dava uma batidinha nelas. O boné de beisebol dele estava virado para cima, na calçada.

  • Ele está sempre aqui à noite - disse Diane. - Vai embora de manhã porque um vendedor de cachorro-quente tem licença para ficar no lugar. As pessoas dão dinheiro para ele acariciar os ratos.

Ela colocou o envelope pardo com o dinheiro do caixa no dispo­sitivo de depósito noturno do banco e fechou a gaveta. Eu peguei o braço dela delicadamente. Precisava pedir um favor antes de ela ir embora.

  • Diane, será que você poderia me ajudar?
  • É claro, o que foi?
  • Eu tive um probleminha hoje. Não tive nada a ver com o que aconteceu, mas quero ficar fora disso. Se alguém perguntar, você poderia dizer que eu apareci no Kenny's perto da meia-noite?
  • Se alguém perguntar? Alguém quem? A polícia?
  • É possível.
  • Você jura que não está envolvido nesse... problema?

- Juro. Provavelmente ninguém vai perguntar nada, de qualquer forma.

  • Tudo bem, acho.
  • E o Stan?
  • Tudo bem, ele é legal.
  • OK, então — eu disse. — Diane, muito obrigado.

Ela chamou um táxi, entrou nele e me mandou um beijo quando ele partiu.

Eu fiquei parado na esquina da Broadway com a Bleecker e de­pois comecei a percorrer o quarteirão até o meu prédio. Vendo os baladeiros ainda zanzando pela rua, resolvi correr o risco. O por­teiro, Amir, que estava cobrindo o turno da noite naquela semana, veio ao meu encontro no minuto em que eu pus os pés no hall.

- John, você foi viajar ou algo do tipo? Faz séculos que não te vejo.

  • Eu tenho ficado no meu canto desde o acidente.

Ele abaixou a voz.

  • O que aconteceu com seu irmão foi horrível. Ele era um ho­mem maravilhoso.
  • É difícil acreditar que ele morreu. Amir, apareceu alguém me procurando hoje?
  • Uma mulher. Ela esperou um tempão. Ela me pediu para ligar para você umas dez vezes. Por fim, eu concordei em levá-la até lá em cima, para ela bater na porta.
  • Você o quê?

Amir ergueu as mãos com as palmas viradas para fora.

  • O que eu podia fazer? Ela estava histérica. Disse que estava tentando falar com você há semanas.
  • Ela pode ser muito convincente, Amir. Era uma encenação. Se você a vir de novo, mande-a embora. Não deixe que ela chegue perto de mim.
  • Tudo bem - disse ele, visivelmente ofendido por ter passado dos limites para ser delicado com alguém que ele havia achado ser uma amiga. - Ela usava uma cadeira de rodas. O que você queria que eu fizesse?
  • Cadeira de rodas? Como ela era?
  • Mais velha. Vestida de preto. Um casaco preto e um vestido também preto. Muito quente para esse calor que está fazendo. Uma daquelas peruas para deficientes físicos deixou-a na porta da frente.

No fim das contas, ele não estava falando de Eris, mas sim de Evelyn, nossa ex-empregada.

  • Desculpe, Amir. Eu estou cansado e entendi mal. Tudo bem deixar Evelyn subir. Ela deixou recado?
  • Quando você não atendeu, ela desistiu e foi embora. Descrevi Eris e pedi a ele que me ligasse imediatamente se a avistasse. Amir não podia deixar seu posto, então nós acordamos o zelador e eu pedi a ele que me acompanhasse até lá em cima. Eu queria me certificar de que nenhuma outra surpresa me aguardava.

Eu encontrei mesmo uma coisa, mas não o tipo de surpresa que eu temia. Dentro, peguei do chão um bilhete que havia sido passado por baixo da porta, um papel cor de pergaminho dobrado ao meio com meu nome rabiscado na parte da frente. Parecia ter sido arran­cado de um bloco de notas. A segurança por ali andava tão confiável quanto um rifle entortado.

 

Por favor, venha me encontrar no Restaurante Khyber Pass amanhã às seis horas da tarde. Preciso conversar urgentemente com você sobre o Samuel.

 

Estava assinado Tomas S. Zakar. Zakar? O nome me soou familiar. Um dos assistentes de Samuel no Iraque. Eu nunca o tinha visto, mas meu irmão havia falado dele muitas vezes. Iraquiano, antropólogo. "Um jovem brilhante", Samuel dizia, "trabalhador incansável."

Fui até a sala e folheei alguns dos nossos álbuns de fotos. Samuel havia identificado todas as fotos, e eu logo encontrei algumas ima­gens, feitas em um dos sítios. Algumas mostravam Zakar: medindo um artefato, ajoelhado em uma vala ao lado de Samuel, os dois fa­zendo um brinde no fim do dia, na tenda.

Era coincidência o cara ter aparecido na mesma noite da morte de Hal? Resolvi aceitar o convite, na esperança de que ele pudesse lançar alguma luz sobre aquela confusão.

A adrenalina que havia me impulsionado ao longo da noite de repente me abandonou. Um cansaço profundo desceu sobre mim. Eu sabia que não poderia mais agüentar. Deitei na cama e mergulhei no abençoado esquecimento do sono.

 

Domingo, 3 de agosto de 2003, 9 horas

Na manhã seguinte, eu acordei com um apetite voraz e a impressão de que precisava falar com meu advogado e com a polícia. Eu havia entrado em pânico na noite anterior e precisava consertar as coisas. Deixei uma mensagem urgente para o meu advogado, Andy Stein, pedindo que me ligasse de volta na segunda pela manhã.

Não deu nada no News One, mas o Times havia dedicado uma co­luna com algumas linhas a Hal. Não encontrei nenhuma menção a Eris ou a seu estranho companheiro. A notícia citava um detetive da 10a Delegacia, Paul Gentile, que dizia não haver suspeita de crime - "código" policial para casos em que as vítimas se mataram. Normal­mente, acidentes com drogas como aquele não ganhariam nenhuma cobertura, mas a morte de uma pessoa rica por overdose virava notícia.

Precisei dar três telefonemas para localizar o escritório de Gen­tile, mas fui informado de que ele só estaria lá dali a algumas horas. Marquei para encontrá-lo ao meio-dia.

Tomei um banho e vesti uma camisa Prada leve, de verão, um paletó e calça que eu havia mandado fazer sob medida em minha última viagem a Milão. Eu estava apresentável até para um policial francês. Preparei um bule de café, peguei cereal e leite e comi uma tigela enorme. A montanha de correspondência atrasada na pia da cozinha ameaçava desmoronar. Eu não tivera estômago para lidar nem mesmo com coisas triviais depois do acidente. Dei uma olhada enquanto comia. Contas, mais contas, cartas de condolências. En­contrei na pilha o cartão de Diane escrito ã mão.

As contas me fizeram lembrar que eu não tinha tomado ne­nhuma providência quanto ao inventário de Samuel. A infeliz tarefa ainda estava diante de mim. Um envelope de uma empresa da qual eu nunca havia ouvido falar, Teras Distributing, estava no meio da pilha, e nele se lia segundo aviso: 25 de junho destacado em verme­lho. Era uma confirmação de que alguns bens pertencentes a Samuel haviam sido enviados de navio para o armazém deles em Nova York no malote diplomático. O pacote estava sendo mantido em um de­pósito seguro, aguardando ser retirado.

Depois de ligar para o número do formulário, eu disse ao homem que atendeu que era Samuel Diakos, e dei a ele o número do proto­colo. Ele me pediu para esperar. Quando retomou a ligação, ele disse que o pacote já havia sido apanhado.

  • Quem assinou?
  • O senhor. - Ele fez uma pausa. - Alô?

Desliguei, e a ficha começou a cair. Eu sabia o que Hal havia feito. Ele não tinha devolvido as chaves da minha casa quando ficara aqui depois da morte da mãe. Na época, ele disse que precisava se afastar porque não suportava todas as coisas que o faziam se lembrar dela. Eu ia sair da cidade mesmo e fiquei com pena dele. Ele devia ter entrado enquanto eu estava no hospital, mexido na minha correspondência e encontrado o primeiro aviso do armazém.

Samuel guardava cópias do documento de identidade no seu escri­tório depois que fora roubado em um hotel em Beirute, quatro anos antes. Demorei alguns minutos até juntar coragem para entrar nos apo­sentos dele. Quando entrei, puxei com força a gaveta da escrivaninha. Ele guardava o documento de identidade em uma pasta de plástico fechada com uma tira de elástico vermelho. O elástico vermelho havia sumido. O descuido de Hal explicava tudo. O objeto que ele havia rou­bado pertencia a Samuel. Isso explicava como, quem e aproximadamente quando. O porquê era simples. Ele precisava de dinheiro.

Samuel havia sido como um tio atencioso para Hal. Sabendo como era doloroso quando o próprio pai de Hal o destratava, meu irmão se esforçava para preencher a lacuna - lembrando-se do ani­versário dele, levando-o ao teatro ou para passear em museus. As vezes, eu ficava com ciúme por ter de dividir a atenção do meu ir­mão com Hal. E fora assim que o desgraçado havia demonstrado sua gratidão.

Ficar sabendo do roubo de Hal fez o meu moral despencar mais uma vez. Um lembrete doloroso de como em pouco tempo eu havia perdido tanto. O escritório de Samuel tinha a atmosfera silenciosa de um lugar fechado e abandonado. Senti um leve cheiro de fumo vindo da prateleira dos cachimbos na estante. A ausência dele era como uma força tangível dentro da sala. Quando coloquei a identidade de volta no lugar, vi a aquarela emoldurada em cima da mesa, o único bem que havia restado da casa da família dele na Grécia. A mãe dele, que havia morrido quando os nazistas incendiaram a cidade, é que a havia pintado, e ela tinha certo talento. Ela havia levado o quadro para que um homem da cidade consertasse a moldura, e a oficina dele tinha escapado das chamas. Quando Samuel voltou para uma visita, anos depois do fim da guerra, ele conseguiu recuperar o quadro.

Eu queria poder voltar o relógio para antes do acidente, ouvir Samuel entrar pela porta da frente como de costume, com um Times dobrado embaixo do braço, trazendo café da manhã e dois copos de latte. Nós revezávamos todo domingo. Uma semana ele caminhava até o Katz's e trazia para casa salame e knishes de batata quadrados. Na semana seguinte, era minha vez de ir até o Murray's e comprar bagels frescos e salmão defumado da Nova Escócia.

Samuel apreciava muito essas idas ao Katz's, e não só por causa da comida. Era um motivo para ele caminhar pelo Lower East Side, o lugar onde desembarcara quando uma família patrocinara sua vinda para os Estados Unidos depois da guerra. Ele adorava os velhos con­juntos habitacionais de tijolo vermelho, que hoje em dia estavam sendo rapidamente convertidos em condomínios, as ruas cheias de lojas com saldos, os fios elétricos da rua parecendo um emaranhado de espaguete.

Eu queria parar de pensar nessas coisas. Pela primeira vez na vida, desejei ser simplesmente igual a todo mundo. Pegar o metrô e ir para um trabalho tedioso. Suar para conseguir pagar a hipoteca. Tomar cer­veja com os amigos depois do trabalho. Ser qualquer um, menos eu.

Eu sempre podia contar com meu irmão como um porto seguro em momentos tempestuosos da minha vida. Evoquei a sua imagem: estatura pequena, magro, a pele judiada pelas intempéries - de­pois de décadas enfrentando os terrenos exigentes da profissão os olhos quase sempre com uma ponta de bom humor. Ele era caute­loso e pontual, e tinha uma memória aguçada. A antítese do acadê­mico avoado.

Eu me lembrei daquelas noites de verão em casa, há muito tempo. Samuel fumando cachimbo, e eu brincando feliz com meus vagões de trem, usando a grade de ferro do terraço como trilho. Meus ami­gos diziam que minha tendência dramática vinha da falta da figura paterna. Samuel era muito ausente para preencher esse papel. Mais tarde, porém, eu cheguei a uma conclusão diferente. Aos meus olhos, ele sempre fora mais parecido com um deus. E isso é uma coisa com a qual não dá para competir. Eu achava que sabia como era ter um pai celebridade, uma megaestrela do rock ou um herói do esporte. A luz que os filhos deles poderiam lançar sobre o mundo seria sem­pre fraca em comparação.

Nos meus anos de juventude, a palavra santo surgia com regu­laridade. "O seu irmão é um santo por assumir a responsabilidade por você, sabe?", as pessoas diziam. "Você é da família, é claro, mas ele não precisava fazer isso." Um dos diretores da minha es­cola particular uma vez disse: "Eu vou te dar uma segunda chance em consideração ao seu irmão. Esse homem deve ter uma paciên­cia de santo."

Agora que eu era mais velho, pensava com mais clareza e não agia segundo o apelo impetuoso do momento, precisava admitir meu talento para a auto-destruição. Samuel sempre me dava o benefício da dúvida. "É o seu jeito", ele dizia depois de consertar algum dos meus estragos. "Você é jovem; ainda não encontrou seu caminho na vida. Você tem uma personalidade ousada, John. Muitas vezes, eu gostaria de ser mais parecido com você."

Que Samuel tivesse morrido por causa de minhas ações era uma coisa que eu podia encarar apenas por breves momentos. Alguém tinha batido em meu carro ou era minha imaginação que estava me pregando uma peça, uma fantasia que eu tinha inventado? Eu era incapaz de admitir minha culpa para o resto do mundo. Deixaria a dor consumir um pedaço do meu coração. Era o que eu merecia.

Afastei aqueles pensamentos e tentei me concentrar no novo problema. O que seria o objeto desparecido? Só podia ser alguma coisa vinda do Iraque. Na última vez em que tinha falado com Samuel, ele havia me dito que algumas peças roubadas estavam sendo recuperadas. Então, se ele tinha levado alguma coisa tem­porariamente para protegê-la de saqueadores, por que não tinha simplesmente devolvido? Não era o famoso vaso Uruk sumério. Esse havia sido deixado no museu por três homens em um carro. O vaso havia sido quebrado em catorze partes, mas dava para recuperá-lo - era sabido no ramo que os ladrões quebravam um objeto, mandavam as partes pelo correio para a Europa ou para os EUA aos poucos, para que fosse remontado uma vez que tudo tivesse sido enviado. Também não era a Lira de Ur. Essa havia sido destruída na pilhagem, mas a famosa cabeça de bezerro de ouro presa à caixa de ressonância havia sido removida com ante­cedência por questões de segurança.

O fato de Samuel assumir o imenso risco de trazer uma relíquia para casa indicava que devia ser realmente uma peça muito valiosa.

Os artefatos mesopotâmicos podem ter valores que vão de milhares de dólares a muitos milhões, dependendo das condições e das ins­crições. Apesar de a pilhagem ter acabado, por algum motivo esse objeto ainda deveria estar sob ameaça. Do contrário, Samuel o te­ria devolvido. Eu pensei que poderia reduzir as possibilidades por meio de um processo de eliminação, mas no mínimo quinze obje­tos de maior porte e cerca de dez mil pequenos — selos cilíndricos, jóias e estatuetas - ainda estavam desaparecidos. O valioso Leão de Nimrud, um relevo de marfim de 850 a.C., tinha desaparecido, junto com uma maravilhosa cabeça de cobre da deusa romana da Vitória encontrada nas ruínas párticas do sítio de Hatra. Ele teria recupe­rado algum deles?

Em uma das últimas ligações antes de voltar para casa, Samuel me havia falado sobre a devastação do museu. "Poderia ter sido pior", ele dissera. "Felizmente, o pessoal do museu tomou o cuidado de esvaziar algumas galerias e esconder centenas de objetos com an­tecedência. A equipe de investigação americana que veio depois foi brilhante. Eles elaboraram uma política de devolução 'sem pergun­tas' e passaram muito tempo divulgando-a em feiras e mesquitas. Isso alcançou resultados realmente bons, mas eles passaram desper­cebidos diante da extensão da perda."

Se o pessoal havia escondido tantos objetos importantes, por que Samuel achara necessário levar um deles? Até eu ter mais informa­ções, não poderia descobrir os motivos de Samuel. Quando nós ha­víamos conversado sobre a espoliação do museu, ele não agüentara e começara a chorar no telefone. Sacrificar os próprios valores para manter um objeto roubado devia ter acabado com ele.

O telefone tocou. Era o fixo. Poucas pessoas tinham esse número, e menos ainda o usavam.

  • Alô. Aqui é John Madison.

- John, é Andy Stein. Como está você?

  • Bem, as coisas andam bem complicadas. Obrigado por me ligar em pleno domingo, Andy.
  • Não tem problema. Olhe, você sabe que eu cuido da parte co­mercial; não posso ajudar você com esse... problema, mas entrei em contato com um advogado criminalista, Joseph Reznick. Ele é um dos melhores. Eu falei com ele sobre a sua situação. Você deveria falar com ele, e logo.
  • Com certeza. Como eu faço para entrar em contato com ele? - Anotei rapidamente o número e o e-mail do cara enquanto Andy falava.
  • Ah, outra coisa. Ele não é barato.
  • De quanto nós estamos falando?
  • Não sei. Não é uma situação muito bem definida, não é? Ele vai querer um adiantamento.
  • E em quanto você acha que isso ficaria?
  • Alguns milhares de dólares, no mínimo.

Eu tinha cinco cartões de crédito. Só um ainda não tinha estou­rado o limite, e não faltava muito. De onde o dinheiro poderia vir era uma incógnita. Meu trabalho era banquete ou fome, e no momento eu estava morrendo de fome. No passado, Samuel sempre me acudia financeiramente, mas eu não tinha essa opção enquanto o inventário não fosse feito.

  • Você tem alguma idéia de quanto tempo vai levar para liberar o inventário de Samuel?
  • Nessas circunstâncias? Se você tiver alguma culpa pelo aci­dente, não dá para saber. Eu não cuido de inventário, mas você pode ter de esperar bastante.

O interfone tocou assim que eu desliguei. Era Amir, ligando para dizer que tinham acabado de deixar um envelope para mim e que ele vinha me entregá-lo.

  • Que surpresa você ainda estar aqui! - eu disse quando abri a porta.

Amir parecia exausto.

  • O porteiro da manhã chegou bem atrasado, então não tive esco­lha. Eu queria te entregar isso antes de ir embora. - Ele me passou um envelope comercial branco liso, com o meu nome e endereço impressos.
  • Quem trouxe isso?
  • Um mensageiro, de bicicleta. Me desculpe, mas ele foi embora tão rápido que eu nem consegui pedir para assinar o recebimento.

Agradeci a Amir, e ele foi embora. Dentro do envelope, encontrei um pen drive embalado em plástico-bolha. Nenhuma indicação so­bre quem o havia enviado. Abri o laptop e inseri o pen drive. Uma página se abriu na tela.

Parabéns, John.

Considere isto uma espécie de mapa do tesouro. Eu incumbi meu escri­tório de advocacia de te mandar isso caso acontecesse alguma coisa comigo.

A esta altura, você provavelmente já sabe que eu adquiri um objeto de grande valor, uma placa de pedra do século VII a.C. com inscrições em carac­teres cuneiformes. Por acaso, é uma famosa profecia bíblica. Estou usando a palavra "adquirir" de forma abrangente. Na verdade, ela pertencia a Samuel.

Na minha opinião, você não a merecia.

Tentei vendê-la e ficar com os frutos. Depois de receber uma proposta promissora, comecei as negociações. A perspectiva de conseguir tanto dinheiro prejudicou minha capacidade de julgamento. Fui imprudente e revelei minha identidade. Agora sei que meu conhecimento sobre a existência do objeto me condenou.

Tão logo me dei conta do perigo, projetei este joguinho. Resolva os quatro quebra-cabeças na ordem, e você vai encontrar a inscrição.

Você pode estar se perguntando por que eu mudaria de idéia. Você não seria a última pessoa que eu escolheria como beneficiário? Acho que você pode creditar isso à minha natureza quixotesca. Cada vez que enfrentar um de meus enigmas, se você prestar atenção, vai me ouvir rindo de você do além.

Seus adversários neste jogo são inteligentes. Eu sinto que eles estão se aproximando de mim. Eles são cinco, e fico com medo só de pensar que algum deles vai vencer. Meu único consolo é saber que o mesmo destino o aguarda.

Você vai descobrir quem eles são a tempo? Se por acaso conseguir fazê-lo, embora suas chances sejam mínimas, a ganância vai falar mais alto ou você vai

devolver a inscrição? Eu acho que você não tem instintos mais refinados e vai escolher o caminho que te beneficie diretamente.

Fique à vontade para me provar o contrário...

Hal

 

Fiquei olhando boquiaberto para a tela. Ponto para Diane Chen. Ali estava a mensagem secreta.

A falsidade de Hal era muito mais profunda do que eu imaginava. Isso não tinha nada a ver com Samuel. O alvo era eu. Acreditando estar em perigo, ele havia mandado os inimigos dele atrás de mim propositalmente. Na verdade, essa perspectiva o divertia. Eu odiava ser manipulado dessa forma.

Uma leve esperança de que ele tivesse sido vítima de uma men­tira ardilosa me atravessou o pensamento. Mas ele havia sido as­sassinado, então os inimigos dele provavelmente acreditavam que o objeto era autêntico. Que coisa patética, desperdiçar os últimos dias de vida criando uma armadilha maldosa dessas para mim.

As pessoas sempre acham que a grama do vizinho é mais verde. Hal tinha inveja de mim. Ele nunca soube como eu me sentia solitá­rio quando Samuel se ausentava a trabalho por períodos de tempo tão longos. Por ser um garoto racional, que não queria atenção, ele nunca havia sido compreendido pelo pai. Peter queria um macho alfa, e em vez disso ganhara um menino tímido e introvertido. De­pois de uma crítica humilhante por parte do pai, Hal tinha se virado contra mim. "Ele disse que queria que você fosse o filho dele em vez de um moleque patético como eu." Ele tinha cultivado aquele res­sentimento durante anos.

Hal havia pagado caro por isso.

Quando olhei para a tela novamente, a carta tinha sumido, e uma nova página apareceu, exibindo o primeiro passo do jogo de Hal.

Eu gostava de jogos, mas minha natureza impaciente não per­mitia uma boa estratégia, e eu detestava perder. Hal era quem ado­rava intriga, a batalha da perspicácia. Ele sabia que eu estava em desvantagem já de saída. Quanto mais eu analisava o jogo, mais in­comodado e irritado eu ficava.

Isso era mais uma forma de retomar nossa infância. Nós não brincávamos de esconde-esconde como as crianças normais. Ele in­sistia em inventar jogos complicados - jogos em que ele sabia que es­taria em vantagem. Certa vez, ele passou a manhã inteira inventado uma caçada ao detritívoro. A trilha levava ao sótão, onde ele havia prometido que uma nota de vinte dólares estaria me esperando se eu conseguisse desvendar as pistas. No fim, não havia dinheiro nenhum, só o cadáver ressecado de um rato. Ele quase morreu de rir quando eu o encontrei.

Depois de estudar o quebra-cabeça por algum tempo, percebi que não conseguiria resolvê-lo facilmente e voltei a atenção para o artefato em si. A descrição de Hal não me fornecia quase nada para avançar, mas valia a pena fazer uma busca para ver se eu con­seguia encontrar alguma referência on-line. O banco de dados da Interpol sobre objetos de arte roubados, o Registro de Objetos de Arte Desaparecidos e o Programa de Objetos de Arte Roubados, do FBI, eram todos instrumentos usados no mercado de arte. Eu conheci um vendedor de má reputação que verificava regularmente essas fontes para medir se um objeto era realmente quente antes de encostar nele. Se estivesse na lista, ele triplicava sua comissão.

Não havia na Interpol nenhuma descrição sobre nada remota­mente parecido com uma inscrição neoassíria desaparecida. Isso não era surpresa, porque como os registros do Museu de Bagdá haviam sido queimados, demoraria até todos os objetos desaparecidos serem documentados, até mesmo pelas principais agências policiais. O FBI tinha uma lista de grande parte das peças de maior destaque rouba­das. Como eu esperava, a placa de marfim com um leão matando um núbio, uma obra de arte admirável, estava entre as dez princi­pais, mas não encontrei nada sobre a inscrição ali também. Eu estava mais esperançoso quanto ao Registro de Objetos de Arte Desapare­cidos, porque sabia que eles tinham no mínimo duzentos mil objetos documentados, de antigüidades a objetos de colecionador. Fiz um pente fino no site, porém, novamente não surgiu nada parecido com a peça que eu buscava.


Quando dei uma olhada no relógio, vi que estava na hora de sair para ir encontrar o detetive. Eu deveria levar a carta para mostrar a ele? Não tinha nenhuma prova de que ela tivesse vindo de Hal. Eu poderia ter inventado tudo. Contentei-me em imprimir uma cópia do quebra-cabeça e enfiá-la no bolso da calça, achando que poderia me distrair com ela se meu encontro atrasasse. Baixei o arquivo de Hal no meu BlackBerry, arranjei um envelope novo para o pen drive e coloquei meu nome nele.

Ainda faltava uma tarefa urgente.

 

Nina, a dona do apartamento do outro lado do corredor, fre­qüentemente cuidava da nossa casa, regava as plantas e verificava o ar-condicionado quando Samuel e eu nos ausentávamos. Imaginei que ela ainda estaria em casa num domingo de manhã.

Ela deu um sorriso esperto quando pedi que guardasse o enve­lope para mim. Não era a melhor solução, mas era só o que dava tempo de fazer no momento. Ela apertou o papel.

  • Não são drogas ou algo do tipo, certo? Acho que você não me confiaria algo assim. - Ela deu uma leve chacoalhada no envelope. - Eu vou xeretar, você sabe.
  • São jóias roubadas. Diamantes de vinte quilates. Valem uma fortuna.
  • Então não tem problema. — Ela riu e prometeu que ia guar­dar bem o envelope. - Você não se esqueceu de hoje à noite, esqueceu?

Olhei para ela com cara de quem não tinha entendido.

  • Desculpe, Nina. Essas últimas vinte e quatro horas foram difí­ceis. Do que mesmo você está falando?
  • Da minha festa. Você anda enfurnado demais naquele aparta­mento. Precisa voltar ao convívio social.
  • Oh, certo. Não sei se vai dar. Surgiu um imprevisto. Mas vou fazer o máximo possível. — Agradeci e fui andando até o elevador.

Depois de esperar quase uma hora na 10a Delegacia de Polícia, finalmente eu fui chamado por um policial de uniforme, que me acompanhou pelo corredor até a mesa de uma auxiliar. Nem sinal do detetive Gentile. O policial verificou os meus bolsos e passou a mão pelo meu corpo. Quando a auxiliar começou a fazer perguntas para atualizar a minha antiga ficha, eu protestei.

  • Gentile mandou - foi tudo o que ela disse em resposta. Ela tirou outra foto e confirmou a cor dos meus olhos, minha altura e peso. Observei que meus olhos não tinham mudado de cor nos últimos catorze anos, e contei para ela que uma mulher certa vez havia dito que eles pareciam veludo negro.

A auxiliar franziu a testa e olhou por cima dos óculos. Abaixou a cabeça de novo e escreveu "castanhos".

  • Mas você fica melhor de barba - disse ela. - Na sua carteira de motorista, seu nome é Madak; no seu cartão Visa, é Madison. Por quê?
  • Legalmente, é o nome da carteira de motorista. É turco. Meu irmão mudou para Madison quando eu vim para os EUA.
  • Colocou o nome de um presidente americano em você, não é? - Ela arqueou os ombros até a orelha e depois os deixou cair. Eu não sabia se era uma coisa para aliviar a tensão ou um gesto para demonstrar que ela precisava de maiores esclarecimentos. - Então a versão correta é a da carteira de motorista.
  • O seu nome de batismo é Jonathan?
  • E o segundo nome? K-E-N-I-T-E. Está certo também?
  • Na verdade, deveria ser o meu nome turco. Se pronuncia ken-it-ee.
  • Se eu fosse sua mãe, teria me limitado a Ken. - Ela gargalhou como se fosse a maior piada da história.

Deixei passar.

O policial de uniforme, Vernon, guiou-me até uma sala de inter­rogatório com uma mesa e cadeiras de metal muito antigas, paredes brancas cor de casca de ovo velha e carpete cinza barato. A sala estava um gelo, o ar-condicionado estava muito forte, e tinha um leve cheiro de cigarro. Imaginei que aquele lugar devia ter uma lei própria, como o Vaticano ou algo assim.

Vernon saiu da sala, fechou a porta e ficou encostado nela. Eu via a camisa dele parecendo um borrão ondulado do outro lado do vidro texturizado. Eu conseguia distinguir as pessoas que passavam e ouvi-las trocando algumas palavras. Entre outras coisas, descobri que o apelido de Gentile era Genitália - e não tinha uma conotação positiva.

Vir à delegacia tinha se revelado um erro de cálculo. Lá se foram as boas intenções. Eles iam tentar me ligar à morte de Hal de alguma forma? Passei o resto do tempo ensaiando a história que queria con­tar para eles, certificando-me de que não havia nada mal explicado ou inconsistente. Eu queria mencionar Eris e o grandalhão sem ad­mitir que havia ido embora da cena do crime.

Quando a porta finalmente se abriu, entraram os inquisidores - dois homens. Vernon fez um movimento com a cabeça para cumpri­mentar o primeiro homem:

- Detetive Gentile... - Fechou a porta e ficou encostado nela, dessa vez do lado de dentro da sala.

Gentile e o outro homem se sentaram na minha frente e jogaram as pastas com os arquivos na mesa.

Gentile mexeu nos botões da câmera automática e ligou-a, depois anunciou a hora, a data e os participantes do depoimento. O segundo homem era Louis Peres, outro detetive.

Gentile, quando jovem, provavelmente poderia ter jogado fute­bol americano profissional na defesa. Talvez o paletó estivesse muito apertado, mas os músculos eram volumosos e estavam comprimi­dos sob o terno risca de giz. As bochechas dele eram esburacadas, o cabelo cortado rente e totalmente branco. Ele usava um Rolex Cellini Classic e um anel de prata no dedo mindinho. Aparentava estar perto dos sessenta anos. Velho para um policial. Gentile ficou me encarando fixamente; Peres folheava o material da pasta sem se dar ao trabalho de notar minha presença.

Uma funcionária civil entrou com uma jarra cheia de água ge­lada e alguns copos. Ela colocou os copos diante dos detetives, ajarra na mesa e foi embora.

  • OK - disse Gentile. - Vamos começar. Conte o que aconteceu. - Ele arqueou as sobrancelhas, olhou para mim e mexeu o queixo de um lado para o outro como um lutador prestes a aplicar um mata-leão.
  • Antes de tudo, eu vim até aqui voluntariamente. Por que vocês estão me tratando como um criminoso?
  • Nós só estamos tentando verificar os fatos, senhor Madison. Um homem está morto. Queremos ouvir o que o senhor tem a dizer.

A atitude dele não me deixou muito confiante.

  • Tudo bem. Eu vim aqui porque alguém injetou deliberadamente heroína pura no Hal, uma mulher que eu conheci na festa dele. Eu ouvi um outro homem e ela discutindo com Hal quando eu estava indo embora da festa.
  • E a que horas teria sido isso?
  • Perto de meia-noite. Eu fui direto para um bar. Você pode ve­rificar, se quiser.

Eu sabia que Diane confirmaria minha história, e os horários iriam facilmente me excluir da lista de suspeitos. Dei a ele o nome do bar e disse como encontrar Diane. Gentile fez uma anotação em um pedaço de papel e entregou-o a Peres, que saiu da sala. Rezei para que Diane já tivesse chegado ao trabalho.

Gentile continuou:

  • Você tem como identificar essas pessoas?
  • O nome da mulher era Eris; não sei o sobrenome. Atraente, perto dos trinta, magra, com mais ou menos um metro e setenta de altura. O cara que estava com ela tinha mais de dois metros e era muito forte.

Gentile passou a mão na testa. Apesar de a sala estar fria, ele es­tava suando. O rosto dele estava vermelho como um pimentão.

  • Colin Reed falou de uma mulher assim. Ele afirmou que ela foi embora da festa antes dele.

Era óbvio que Reed, um homem casado, diria isso em vez de admitir que tinha dado em cima dela.

  • Se ela foi embora, deve ter voltado mais tarde. Eu a vi lá.

Mais anotações no caderninho de Gentile, mas dava para perce­ber que ele não estava engolindo minha história.

  • Você voltou a traficar? Onde Vanderlin conseguia drogas?
  • Verifique na minha ficha. Você sabe que eu nunca me envolvi com opiáceos.

Gentile fingiu abrir a pasta, um movimento totalmente inútil. Ele já tinha inspecionado o arquivo todo antes mesmo de entrar na sala. Ele folheou algumas páginas.

  • Preso por tráfico de drogas em 1989, por vender maconha. Em 1990, foi acusado de tráfico novamente, agora vinte e duas gramas de cocaína. Você conseguiu se safar dessa. Talvez agora você já esteja bem escolado.
  • Isso foi na minha juventude, que foi conturbada. Eu era um moleque. Deixei isso tudo para trás há muito tempo. Além disso, essas quantidades não são nada.
  • Qual era a sua relação com Vanderlin?

Essa teria sido uma pergunta fácil de ser respondida vinte e qua­tro horas antes. A nossa amizade com certeza havia tido muitos altos e baixos, mas eu havia descoberto um ressentimento profundo de Hal em relação a mim que nunca tinha nem imaginado. Mesmo assim, dei uma resposta mais direta:

  • Meu irmão e o pai dele eram amigos. Hal e eu crescemos juntos.
  • No caso, seu irmão, Samuel Diakos, e o pai dele, Peter Van­derlin.
  • Samuel era meu meio-irmão, quarenta anos mais velho; na verdade, ele era mais como um pai para mim.
  • Por que o sobrenome de vocês é diferente?
  • É uma longa história.
  • Não estou com pressa.
  • Samuel e eu somos filhos do mesmo pai, um membro da resis­tência do Elas, o Exército Popular de Libertação Grego, na Segunda Guerra Mundial. Ele e Samuel foram apanhados pelos nazistas e enviados para um campo de trabalhos forçados. Quando os oficiais do campo descobriram que meu pai era ourives, eles o mandaram para a Deutsche Gold und Silberscheideanstalt, uma companhia de fundição. Ele era obrigado a examinar bandejas com jóias roubadas de prisioneiros e avaliá-las.
  • Obviamente, seu pai sobreviveu.
  • Um dia, ele encontrou um anel que havia feito para Sa­muel numa bandeja; e achou que o filho tivesse morrido. Como não tinha mais família, fugiu para um lugar seguro, a Turquia, de­pois do fim da guerra, porque o regime grego estava perseguindo os esquerdistas. Ele manteve a verdadeira identidade em segredo e adotou um sobrenome turco, Madak. Anos mais tarde, ele se casou novamente e teve um segundo filho, eu. Samuel continuou procu­rando o pai. Quando ele finalmente soube que meus pais tinham morrido em um terremoto que provocou um acidente em uma mina, foi imediatamente para a Turquia e me trouxe para casa consigo.
  • Você era um pobre órfão turco. Samuel Diakos tratou você melhor do que se fosse o próprio filho. E você retribuiu sua ge­nerosidade matando-o.

A sala ficou vermelha. O imenso reservatório de culpa que eu levava comigo por causa da morte do Samuel se transformou em raiva cega. Eu fiz menção de me levantar, mas o policial de uniforme correu por trás da mesa e colocou o braço em volta do meu pescoço.

Eu estava prestes a perder os sentidos quando ouvi Gentile dizer:

  • Tudo bem, Verne, pode soltar. Dê uns minutinhos para ele se acalmar. - O policial me soltou, mas continuou atrás de mim.

Gentile colocou um pouco de água no copo e deu um gole. Ele parecia satisfeito com essa última investida.

  • Você levou alguma coisa da casa de Vanderlin quando foi embora?

- Não.

Fiquei imaginando aonde ele estava querendo chegar.

  • Colin Reed nos contou que ouviu você discutindo com Vander­lin. Qual foi o motivo?
  • Ele me devia dinheiro de um empréstimo que eu lhe fiz. Ele me disse que não tinha como devolvê-lo.
  • Então você conseguiu o que ele devia de outra forma, foi isso? Você levou o resto da heroína com você?
  • É claro que não.

Gentile fechou a pasta com força.

  • Senhor Madison, existem evidências claras de que Vanderlin morreu em um acidente relacionado a drogas, e que não foi socor­rido. Essa informação já foi revelada publicamente. O que nos inte­ressa é como ele conseguia as drogas.
  • Olhe, isso é secundário. A mulher sobre a qual eu falei estava atrás de alguma coisa que Hal Vanderlin roubou do meu irmão, uma inscrição neoassíria que pode ter sido trazida do Iraque. Ela vale uma quantia considerável.
  • Será que você poderia traduzir isso para os pobres mortais?
  • Ê uma inscrição em pedra feita no período em que o Império Assírio estava no auge. Cerca de 800 a 612 a.C.
  • Obrigado, Você é marchand há quanto tempo? Sete anos, não é?
  • Mais ou menos isso.
  • E uma atividade lucrativa?
  • Tem altos e baixos. Às vezes, entra bastante dinheiro. Porém, alguns períodos podem ser de vacas bem magras. Tudo depende da sua rede de contatos.
  • E de onde eles vêm, esses seus contatos?
  • Inicialmente eles vinham por intermédio do Samuel. Ele era ar­queólogo e também estudou assiriologia. Ele conhecia esse mundo, os comerciantes, os acadêmicos, os burocratas dos museus. Agora eu tenho minha própria carteira de clientes. Nesses últimos anos, eu não dependia mais tanto dele.
  • O seu trabalho é voltado para objetos do Oriente Médio?
  • No começo era, porque era a especialidade de Samuel. Depois, eu fui diversificando. Um pouco de arte da Renascença e, é claro, a coleção de Peter Vanderlin.
  • Então, você é um homem com talentos diversificados. Você deve ter um notável conhecimento sobre arte para cobrir um terri­tório tão amplo.

"Um elogio falso", pensei, "plantado de forma deliberada".

  • Eu sei muita coisa sobre o Oriente Médio porque cresci com um especialista nessas culturas. Quanto ao resto, não sou grande coisa. O que eu sei fazer é vender. Eu, na verdade, sou um agente. O importante é conhecer bem os clientes, os seus sonhos. Quanto aos objetos em si, sempre se pode contratar uma consultoria.

Gentile fez uma pausa para olhar de novo o arquivo.

  • Como você fez com a "Madonna de Livorno"?
  • Isso acabou sendo resolvido sem ir a julgamento, como você com certeza sabe. O dono estava vendendo uma falsificação. Eu não tive nada a ver com isso.

A cadeira de Gentile gemeu quando ele se apoiou no encosto.

  • Aposto que o seu pesquisador também se safou.
  • Até mesmo renomadas casas de leilão são enganadas.

A porta se abriu. Louis Peres entrou e se sentou, e depois se incli­nou e cochichou alguma coisa para Gentile.

Gentile acenou com a cabeça e retomou as perguntas.

  • Presumo que você conheça um grande número de coleciona­dores proeminentes. Alguns deles com uma tendência a burlar a lei por um item que desejam?
  • Você está se referindo a ladrões que roubam por ordem de um multimilionário com uma câmara secreta em sua mansão, cheia de quadros de Ghagall e Picasso roubados? Isso é mito.

Gentile arqueou a sobrancelha.

  • Verdade?
  • Você não compreende a psicologia do colecionador. O prin­cipal atrativo é exibir as aquisições, não escondê-las. Em noventa e nove por cento dos casos, os ladrões de arte não têm cérebro. Eles roubam as coisas e depois descobrem que é impossível vender por­que a obra está documentada com muita precisão.

Dava para ver a dúvida no rosto de Gentile.

  • Pelo visto, isso não os impede de tentar.
  • A maioria passa por redes criminosas como garantia ou para la­vagem de dinheiro. A grande recompensa é o resgate. As companhias de seguro preferem fazer vista grossa e pagar um resgate a ressarcir o valor total da obra. Um mesmo quadro de Rembrandt foi roubado quatro vezes. Com antigüidades provenientes de saque, é diferente. E muito mais difícil provar a origem. E muito mais fácil forjar uma proveniência falsa. Ou então eles fazem uma restauração reversa.
  • O que é isso? — Gentile perguntou.
  • Os especialistas fazem peças verdadeiras parecerem falsas. Mes­mo que existam números de aquisição, não é muito difícil fazê-los de­saparecer. Essa é uma atividade que movimenta bilhões no mundo inteiro, todo ano. É uma quantidade de dinheiro inacreditável. Sa­muel via itens anunciados para venda que ele sabia terem sido rou­bados, mas não podia fazer nada porque não tinha provas. Ele ficava enlouquecido. A verdade é que o mercado de antigüidades depende de roubo. Fora as revendas, os saques são a única fonte de novas ofertas.
  • E isso é mesmo feito de forma tão aberta? - perguntou Gentile.

A pergunta parecia sincera. Talvez ele tivesse desistido de me fisgar.

  • Normalmente, elas passam por casas de leilão menores que não são tão seletivas. O artefato desaparecido sobre o qual eu falei prova­velmente veio da antiga cidade de Nínive.

Gentile fez um gesto com a cabeça, mas eu desconfiei que ele sabia tanto sobre Nínive quanto sobre o que fazer com um garfo de peixe em um banquete da realeza. Ele ergueu o dedo indicador na minha direção, como um advogado de acusação.

  • E o senhor Vanderlin era o quê? Professor?
  • De filosofia.
  • Então ele não era especialista em peças de museu?

- Não.

  • Você mencionou o fato de tê-lo ajudado na venda da coleção do pai dele, certo?
  • O pai de Vanderlin ainda está vivo. O filho tinha autorização legal para fazer isso?
  • Ele tinha uma procuração. Peter tem Alzheimer.
  • Você está me dizendo que depois de ficar satisfeito com o seu trabalho para se desfazer de toda a coleção do pai, ele não o procu­rou para essa nova peça?
  • Sim, eu já disse isso. Para começar, ele a roubou do meu irmão.

Gentile fechou os olhos, com se estivesse refletindo sobre minhas palavras. Por fim, colocou as grandes mãos carnudas sobre a mesa e se levantou. A cadeira quase tombou quando ele a empurrou para trás. Ele deu a volta até o meu lado da mesa e ficou em pé perto mim, certificando-se de que eu percebia o impacto do tamanho dele. Dava para sentir o hálito dos ovos com bacon que ele tinha comido no café da manhã.

  • Voltemos para a noite passada. Você nos disse que deixou Hal Vanderlin perto da meia-noite e que de lá foi para um bar.

O que ele estava querendo com isso, mudando de rumo ao fa­lar novamente sobre a overdose? Olhei para Peres. Ele havia final­mente acordado e me fitava.

  • Porque Diane Chen diz que você só apareceu de­pois das duas da manhã. Por favor, preencha essa lacuna para mim.

Eles haviam armado a coisa toda com maestria, dando corda, deixando-me divagar sobre artefatos saqueados, e eu havia caído feito um patinho.

Gentile ensaiou o primeiro sorriso sincero nesse tempo todo.

Eu fiquei negando mais algum tempo, argumentando que Diane devia ter se enganado quanto ao horário, mas eles eram mais esper­tos do que isso. No fim, eu lhes contei que tinha voltado quando Hal ligara e que havia achado o corpo. Depois, Eris e o companheiro haviam me ameaçado. E eu tinha saído correndo, com medo de que eles também me matassem.

Como era de se esperar, Gentile tinha adotado a linha mais fácil, acreditando que eu havia fornecido a droga a Hal e inventado a história sobre Eris e a inscrição desaparecida para despistar. Mas ele não tinha como provar, era só uma suspeita crescente. No fim, ele não podia me prender.

Quando eu me levantei para sair, ele disse de forma brusca: - Senhor Madison, a investigação sobre seu acidente de carro ainda está aberta. E, se nós determinarmos que o senhor forneceu heroína para Hal Vanderlin, isso vai fazer com que você, no mínimo, seja indiciado por homicídio culposo. Não faça nenhuma viagem longa. Não quero ficar sabendo que o senhor está traficando sua mercadoria em alguma praia do Brasil.

Eu havia começado minha visita à polícia pensando em uma mu­lher - Eris. Agora, não podia esquecer outra - Diane Chen. O que ela havia previsto? Traição. A profetisa havia concretizado a própria profecia.

 

Fui atingido pela claridade quando passei pela porta da delegacia. Pedaços do asfalto tinham amolecido. Para mim, parecia que a tem­peratura estava beirando os sessenta graus. Olhei para o sol que ar­dia no céu cor de safira e me senti como um homem cego que de repente recuperou a visão. Queria sair de lá o mais rápido possível.

Eu só conseguia pensar em uma pessoa para procurar - a ex-mu­lher de Hal, Laurel. Se ela já tivesse recebido a notícia da morte do Hal, estaria muito triste e precisando do meu apoio. Quanto a mim, queria estar com alguém em quem confiasse. Precisei ligar para al­guns amigos em comum até descobrir que ela havia se mudado tem­porariamente para a residência da mãe do Hal, na Praça Sheridan.

O casamento de Laurel e Hal havia durado seis meses. Desde a separação, há mais de um ano, eles haviam construído uma ami­zade excêntrica, mas profunda, depois de reconhecer que nenhum dos dois tinha talento para o casamento. Eles nunca haviam se dado ao trabalho de se divorciar. Candidata ao doutorado em filosofia, Laurel conhecera Hal na NYU. Era muito inteligente, mas nunca sufocava as pessoas com seu intelecto, diferentemente de Hal, que adorava pegar as pessoas com armadilhas verbais para fazê-las se atrapalhar. Eu sempre a achara atraente, mas me mantinha a distân­cia, por causa de Hal. A polícia já teria ligado para ela? Eu esperava não precisar dar a má notícia.

O prédio não era muito longe da delegacia, então resolvi andar e aproveitar esse tempo para me acalmar, depois da escorregada com a polícia. Eu não conseguia me livrar da sensação de inquietação. No começo, achei que era por causa do interrogatório, mas depois tive a impressão de que estava sendo seguido. Eris? Olhei para trás e examinei o rosto das pessoas, mas não pude avistá-la. Me enfiei em uma casa de sucos e fiquei examinando cada rosto conforme a multidão ia passando. Nem sinal dela. Eu me desviei do caminho propositalmente, entrando em uma rua residencial com casarões de quatro andares. Um deles, enfeitado com grades e pilares elaborados de ferro batido e uma sacada em estilo espanhol, parecia ter sido arrancado de uma rua de Nova Orleans e transplantado para Nova York. Apesar das casas chiques, a rua dava má impressão e era es­cura, por causa das árvores frondosas. A alta umidade e as folhagens exuberantes demais lhe davam um ar tropical. Havia poucas pessoas ali. Eris não passaria despercebida. Esperei dez minutos, mas não notei nada fora do comum. As evidências me diziam que eu estava seguro, mas meu sexto sentido discordava.

Parecia totalmente insano que no espaço de um dia eu tivesse pas­sado de um cidadão normal a esse ser em estado de medo constante.

Verifiquei a rua mais uma vez quando cheguei ao prédio de Lau­rel e, não vendo nada fora do normal, decidi entrar. Hal havia to­mado posse da casa da mãe quando ela morrera, no último outono. A cobertura dela era um ninho de águia no topo achatado de uma montanha de tijolo marrom, coroada por uma mistura gótica de pi­lares, arcos, terraços e gárgulas. O térreo do prédio abrigava um bar famoso pelas drags latinas nas noites de segunda.

Minha única preocupação era se Gip iria se lembrar de mim, mas, quando entrei no saguão principal, ele se levantou atrás do bal­cão e sorriu. Ele estava vestido nos trinques, uniforme verde-exército com um monte de galões dourados, quepe, casaco comprido e calça combinando. Ainda bem que o recinto tinha ar-condicionado. Irlan­dês robusto com uma cara redonda corada, ele era a terceira gera­ção da família no posto. Aristocrata dos porteiros, ele se referia a si mesmo como Gerald Powell Terceiro.

  • Prazer em vê-lo, John. Faz tempo que você não aparece.
  • Obrigado, Gip. Vim visitar Laurel Vanderlin, se ela estiver em casa.
  • Um segundo, vou verificar. - Ele digitou alguns números, falou no bocal e me passou o telefone.
  • Oi, Laurie. É John.
  • Oh, John. Você já ficou sabendo, então.
  • Posso subir?
  • Por favor. Estou precisando desesperadamente de companhia.

O elevador havia sido modernizado, mas o trabalho art déco ori­ginal, em latão, havia sido preservado, como mandava o bom senso. Um funcionário uniformizado, de luvas brancas, abriu a porta. De­via ser um dos últimos lugares de Manhattan em que esse tipo de serviço ainda existia. Ali você não dizia o andar, simplesmente dava o nome do morador. Nós subimos até a cobertura.

Laurel estava esperando com a porta semi-aberta. Peguei-a nos braços, apertei meu rosto contra o dela e senti as lágrimas escor­rendo pela bochecha dela. Senti o álcool que lhe brotava do hálito. A luz de dentro, mais forte, revelou um rosto vermelho e inchado de tanto chorar; os olhos dela tinham aquele olhar vidrado que se vê nas pessoas quando um choque ainda é recente.

Nós entramos em uma rotunda reluzente de mármore giallo siena, com espelhos feitos sob medida encaixados nas paredes ar­redondadas e, no centro, um aparador incrustado e pintado à mão que havia pertencido a um rei francês. Sobre ele havia um abajur Tiffany. Na sala de estar, o chão mudava para um rico carvalho espinha de peixe, coberto de tapetes Kashan do século XVII, tão valiosos que era quase um pecado andar sobre eles. Três portas de vidro duplas, emolduradas por cortinas de brocado drapeadas, levavam ao primeiro terraço. O lugar era a expressão da elegância de outros tempos.

A mãe de Hal tinha feito apenas uma mudança, juntando um corredor, o vestíbulo da prataria e a saleta de café da manhã para criar uma grande sala íntima e uma cozinha moderna. O espaço era todo decorado em branco-cirúrgico. Carpete branco, paredes bran­cas, mobília branca. Era como estar em uma sala de cirurgia perdida no meio de um museu.

Eu me joguei no sofá da sala íntima. Laurel perguntou se eu que­ria alguma coisa para beber.

  • Não, nada. Obrigado.
  • Tem certeza? - Ela pegou um copo com uma coisa que parecia água, mas eu sabia que não era, e balançou-o na minha direção.
  • Você está tomando vodca pura?
  • O gelo derreteu. Se você não vai se juntar a mim, aproveite o show. - Ela virou o resto da bebida.

Eu não seria a pessoa a sugerir que ela evitasse a parte da bebe­deira. Quem era eu para ditar imperativos morais a quem quer que fosse, considerando minha queda por uma variedade razoável de pe­cados? Depois do que tinha acontecido com Hal na noite anterior, ela podia ser perdoada por querer ficar entorpecida.

Laurel despencou em uma cadeira.

  • Que anjo malvado lançou seu feitiço sobre nós, John? Primeiro você e Samuel naquele acidente horrível, e agora isso. É inacreditável.
  • Eu sei - Senti uma espécie de conexão pesarosa com ela, agora que ambos estávamos enfrentando uma perda violenta.
  • Eu disse a ele tantas vezes que aquelas drogas o matariam!

Quanto eu deveria revelar?

  • Acho que não foi tão simples assim. Hal me ligou depois que eu já tinha ido embora da festa. Eu voltei correndo, mas ele já estava morto quando cheguei.

—Você o encontrou? A polícia não me contou isso. O que aconteceu?

  • Uma pessoa que estava na festa administrou a dose fatal. Uma mulher. Ela também me ameaçou.

Ela ficou branca.

  • Você contou isso para a polícia, não contou?
  • Acabei de sair de lá. Eles não acreditam em mim. Com meu histórico prévio e drogas suficientes para abrir uma farmácia cir­culando pela festa, eles estão com as armas voltadas contra mim. É assim que eles raciocinam.
  • Você está me dizendo que Hal foi assassinado e que você viu quem foi? — Ela perdeu o equilíbrio. Segurei-a antes que ela caísse e ajudei-a a chegar até o sofá, e depois me sentei ao lado dela. — Estou ficando assustada, John. Não sei em quem acreditar.
  • Por que eu mentiria? Veja, eu sei como tudo isso é duro para você. Dá para perceber.

—Já era suficientemente horrível, e agora você está me contando que foi pior ainda. Não estou conseguindo processar as informações.

  • Nem me fale. Está sendo difícil lidar com a perda de Samuel, e agora essa... essa coisa com Hal. E como se uma bomba tivesse ex­plodido dentro da minha cabeça. Hal era a coisa mais perto de um irmão que eu tinha.
  • Eu achava que Samuel era seu irmão.
  • É claro, mas ele era quarenta anos mais velho do que eu, en­tão ele sempre foi mais parecido com um pai. Ele fez esse papel. Eu não conheci meu pai verdadeiro. Quando Hal voltava para casa do colégio interno ou do acampamento, nós passávamos muito tempo juntos. Nós nos estapeávamos muito também. Não era sempre uma coisa fraternal.

Nossa conversa deixou Laurel um pouco mais calma.

  • Eu sou a única mulher da família - disse ela. — Tenho quatro irmãos. Pode acreditar em mim, se estapear é normal.
  • Mas ele exagerava. Não deixava passar nada, nem depois de adulto. Em Columbia, a gente saía, ia para uma festa ou algum ou­tro lugar. Estávamos comemorando, nos divertindo incrivelmente, e então ele começava a ficar competitivo. Pensando nisso agora, eu devia ter conversado sobre isso com ele na época.
  • Isso tem a ver com o modo como o pai o tratava. E exatamente como Peter se comportaria. - A voz dela era adorável. Os anos passados em Nova York não tinham alterado o sotaque do Meio-Oeste. - Acho que agora Peter é responsabilidade minha, junto com todo o resto.

Peguei a mão dela.

  • Eu te ajudo. Samuel e eu visitamos Peter depois que ele foi para a casa de repouso. Ele ainda se lembrava de mim.

Ela deu um suspiro profundo.

  • Por que todas as coisas ruins acontecem ao mesmo tempo? Es­tou me sentindo como se tivesse acabado de ser atropelada por um caminhão de dez toneladas.
  • Acho que existe uma ligação entre a minha situação e a sua.
  • O que você está querendo dizer?
  • Você consegue pensar em alguém que poderia querer punir Hal? - perguntei.
  • Eu descobri que não sabia tudo sobre a vida dele. Ele não me contava algumas coisas. Comecei a perceber isso a partir do mo­mento em que ele me pediu que o ajudasse com as contas e as coisas dele. Mas você está falando de alguém que poderia chegar ao ponto de matá-lo? Nem imagino quem faria isso.

Abaixei a cabeça e esfreguei os olhos.

  • O que a polícia disse?

Ela levou um minuto para responder.

  • O detetive foi meio cauteloso. Só disse que Hal havia morrido, provavelmente de uma overdose. Um vizinho ligou para a emergên­cia depois de um tumulto. Foi ele quem identificou Hal. Ainda bem que eu não precisei fazer isso. E eles ainda não liberaram o corpo.
  • Laurie, Hal estava metido em alguma coisa. Nada relacionado a opiáceos. Ele tentou vender uma relíquia muito valiosa, um item de colecionador. Era disso que a mulher estava atrás. Você sabe alguma coisa sobre isso?
  • Você acha que foi por causa disso que ele morreu?
  • Eu pensei que ele tivesse vendido toda a coleção de Peter. Você fez isso para ele. Se sobrou alguma coisa, por que ele não procurou você?
  • Não pertencia a Peter. Era uma inscrição em pedra que Samuel trouxe do Iraque. Hal a pegou quando eu estava no hospital. Essa mulher, Eris, descobriu de algum jeito. Hal a mencionou alguma vez?
  • Esse nome não me diz nada.

Laurel se recuperou um pouco e andou até um aparador encos­tado na parede. Cada centímetro do tampo de mármore estava co­berto com pilhas de pastas de arquivos e documentos, e junto havia algumas fotos empoeiradas que estavam ao lado do computador dela. Uma delas, uma foto do casamento, exibia uma noiva com maçãs do rosto bem definidas, olhos verdes com uma leve inclina­ção eslava que davam ao rosto um ar vagamente exótico, o cabelo castanho brilhante preso no alto da cabeça. Ela estava vestida com simplicidade, um tubinho de cetim branco, segurando um buquê de rosas brancas e florzinhas do campo. Ao lado dela, Hal, empertigado em um terno preto sisudo, parecendo pouco à vontade, como se já soubesse que o casamento estava condenado ao fracasso. Como um fantasma onipresente, a mãe de Hal, Mina, um pouco fora de foco mas claramente identificável, podia ser vista ao fundo.

Laurel viu que eu estava olhando para a foto.

  • Você sabia que não há nenhuma foto do casamento só com nós dois? Mina estava sempre à espreita, para ter certeza de que sairia na foto. - Ela passou os dedos pelo cabelo. Normalmente esse seria um gesto sedutor. No caso dela, simplesmente revelava uma sobrecarga de preocupação e tensão. Ela folheou alguns arquivos, mas não achou o que estava procurando. - Em algum lugar, há uma lista que Hal fez com todos os bens que ainda não haviam sido vendidos, principal­mente os que estavam na casa dele, mas não consigo encontrá-la.

Ela se virou para mim.

- John, tem uma coisa que você precisa saber. Hal e eu havía­mos conversado sobre reatar. Sem Mina, e com Peter em um lu­gar de onde ele nunca vai sair, finalmente havia uma brecha para mim. Hal se sentia ameaçado pelo pai e era muito chegado à mãe. Ele a adorava. Você sabia que ele costumava chamá-la de "minha jóia"?

Balancei a cabeça e deixei-a falar.

  • As coisas estavam indo bem. Meu contrato de sublocação es­tava terminando, e ele se ofereceu para me deixar ficar aqui, já que havia voltado temporariamente para a casa, para cuidar de Peter. Estava tudo bem, até eu descobrir que ele estava usando heroína de novo, apesar de ter jurado que tinha parado. Nós estávamos nos vendo todos os dias. Paramos na semana passada, quando eu desco­bri. Eu fiquei furiosa. - O lábio inferior dela tremia.
  • Drogas pesadas são o diabo, Laurie. E muito difícil se livrar delas. Uma vez Hal me contou que tinha rastejado no esgoto só para conseguir um pouco. Ele aprendeu com um especialista, por sinal, William Burroughs. Você não pode mudar o passado. Tente se con­centrar nos bons momentos que tiveram.

As lágrimas ameaçaram virar uma cachoeira.

  • Hal estava desesperado atrás de dinheiro. Ele precisava cobrir todas as despesas da casa e as daqui. Só os impostos eram mais de seis mil por mês, e ainda tinha de pagar o tratamento de Peter.
  • Por que ele simplesmente não vendeu a casa?
  • A procuração não permitia que Hal a vendesse. Peter se certifi­cou disso antes de ficar doente demais para pensar.
  • E o que Hal fez com o dinheiro da coleção de Peter?

Laurel fechou os olhos por um instante, tentando se recompor.

  • Gastou tudo. Ele ia ser demitido também. Você sabe que ele tinha horror a eventos sociais, mas a festa era uma tentativa final de cair nas graças de Colin. O contrato dele tinha chegado ao fim.
  • Hal me disse que Colin o havia dispensado. - Nas poucas vezes em que eu havia encontrado Colin Reed, ele não tinha me impres­sionado. - Até que ponto você conhece Reed? Ele sabe alguma coisa sobre antigüidades?
  • Não muito bem. Eu o via na NYU quando ia encontrar Hal. Ou em festas e lugares assim. E só. Nunca gostei muito dele. Ele dá aulas sobre os grandes filósofos alemães, como Kant, Schelling. É considerado uma autoridade em Hegel. Até onde eu sei, seu conhe­cimento do passado só vai até aí.
  • Reed esteve lá ontem à noite. Tentou me complicar, o filho da mãe. E eu me pergunto por que ele faria isso.

Laurel deu de ombros. Notei como os movimentos dela eram graciosos, mesmo ela estando um pouco inebriada.

  • Não leve para o lado pessoal - disse ela. - Reed é do tipo que faz qualquer coisa por uma boa risada.
  • Onde o computador de Hal poderia estar? Na casa?
  • O laptop está aqui. O desktop está na mesa dele na NYU.

Eu precisava verificar os dois. Tinha de haver alguma coisa neles que me desse uma pista sobre a identidade de Eris.

Laurel suspirou.

  • É muito estranho estar cercada pelas coisas da família de Hal. Agora tudo pertence ao banco.
  • Falando em coisas que eram dele, ele ainda usava a aliança. Você sabia?
  • Você está falando do solitário de ouro? Não é a aliança. Ele man­dou fazer esse de um anel antigo quando a mãe dele morreu. Ele foi mais casado com Mina do que jamais foi comigo.

Era um jeito estranho de colocar as coisas, mas era perfeito. A mãe de Hal sempre fora muito possessiva. Eu podia imaginar o desa­fio que seria para uma mulher conseguir ficar entre os dois.

  • E esse apartamento? Deve valer uma fortuna.
  • O irmão de Mina deixou para ela. Peter ficou enrolando deliberadamente para se separar até ela receber a propriedade, para garantir que ele ficaria com metade do valor. Ela precisou assumir uma hipoteca monstruosa para comprá-lo dele. Tudo vai precisar ser vendido só para quitar as dívidas.

Eu não quis contradizê-la. Talvez ela só fosse ruim de matemá­tica. Mesmo se Mina tivesse sido obrigada a hipotecar metade do apartamento, ainda sobraria uma quantia bem razoável. Mas talvez Peter tivesse conseguido dar um jeito de amarrar essa propriedade também.

Eu me levantei para esticar as pernas. Não tinha certeza ainda se queria falar sobre a carta de Hal, mas eu precisava desesperadamente de ajuda. Tirei do bolso o quebra-cabeça que havia imprimido.

  • Hal criou uma espécie de jogo para me mostrar onde escondeu a inscrição. Isso faz algum sentido para você? - Entreguei o papel para ela.
  • Por que ele iria querer que ficasse para você? - "Em vez de ficar comigo", eu a ouvi pensar.
  • Não há nada de altruísta nisso. É uma armadilha. Ele colocou Eris atrás de mim deliberadamente.

Laurel tirou o papel da minha mão e examinou-o, e depois co­locou as mãos no rosto. Eu a envolvi nos meus braços e deixei que chorasse. Depois de uns poucos minutos, ela se afastou, pegou um lenço e secou os olhos.

  • Ele esperava que você decifrasse isso?
  • É o que parece.

Ela suspirou.

  • Ele sempre ganhava de mim nesses jogos de palavras. Tentar resolver este faria eu me sentir como se estivesse jogando com um fantasma.
  • Não acho que haja outra escolha. Pelo menos, não para mim.
  • Você acabou de dizer que Hal está lá no necrotério agora por causa disso. Você está querendo acabar lá também?
  • Ele estava totalmente fora do ambiente dele. Eu sou mais escolado, não se esqueça. As palavras que ele usou são pouco comuns.
  • Algumas delas se referem à alquimia, como É um ma­nual sobre magia que data do século XIII. As palavras preto e brancos provavelmente se referem a dois dos estágios da conversão de metais comuns em ouro. Melanosis, o enegrecimento, vem antes, para eli­minar as impurezas por meio do fogo, e depois vem leucosis, o embranquecimento. O estágio final seria losis, o avermelhamento ou a obtenção da forma pura.
  • Alquimia? Sério? Isso é surpreendente para um acadêmico ri­goroso como ele.

Achei intrigante que o quebra-cabeça de Hal estivesse carregado de palavras relacionadas à alquimia. Qual seria a ligação com uma relíquia neoassíria? Os assírios teriam experimentado métodos para transformar metais comuns em ouro? Eu sempre achei que a alqui­mia tivesse se originado com os egípcios, e não com os mesopotâmios.

Laurel me devolveu o papel. A ponta da unha dela estava toda lascada, e as cutículas vermelhas, sinal de que as preocupações ha­viam começado muito antes da morte de Hal.

  • Na verdade, não é. Venha comigo. Você precisa ver uma coisa.

 

Segui Laurel pela cozinha e por um corredor escuro que parecia se estender infinitamente. Luzes fracas se acenderam quando ela acionou um interruptor na parede. Laurel me levou até uma porta fechada.

  • Normalmente eu não venho aqui. É muito mórbido. - Ela abriu a porta. - Você precisa esperar um pouco. Os fios que vinham para essa sala foram cortados propositalmente; não há eletricidade aqui.

Ela entrou arrastando os pés. Pouco depois, ouvi um barulho de fósforo. As chamas pulularam nas velas compridas enfiadas em dois grandes castiçais de cristal, enquanto a luz trêmula brilhava refletida nas facetas.

  • Voilà — disse Laurel, balançando os braços —, a sala do espírito. Pelo menos é assim que eu a chamo.

A sala não tinha janelas, e provavelmente um dia havia sido uma despensa grande. As paredes e o teto haviam sido pintados com um tom de uva escuro. Pairando no ar, havia um cheiro de mofo mistu­rado a um cheiro estranho que eu não conseguia identificar - pare­cia fruta estragada. Não havia pentagramas desenhados dentro de um círculo no chão, crânios de cabra ou cruzes invertidas nem velas pretas escorridas - nenhuma dessas bobagens. Mesmo assim, a sala tinha uma aura desagradável, que dava calafrios. Era um lugar em que ninguém se candidataria a passar muito tempo.

Um velho armário com portas de vidro abrigava objetos curiosos: prismas de vários tamanhos, pedras em formato de ovo e de cores diferentes, uma velha balança de latão com pesos e medidas, antigas garrafas de farmacêutico azuis, cheias de substâncias em pó. Havia uma estátua de prata de uma deusa com chifres na parte de cima do armário, ao lado de uma faca de aspecto cruel, com uma lâmina cur­vada como uma foice. Uma grande tapeçaria estava pendurada na parte de cima, uma cena medieval mostrando uma mulher masca­rada, vestida com um manto, subindo os degraus que levavam a uma cidadela na encosta de um morro, um cavaleiro ferido em primeiro plano, um corvo portando um diadema voando no céu.

  • Isso é uma loucura! - exclamei. - Com que tipo de coisa Hal estava envolvido?

Laurel cruzou os braços sobre peito, como se estivesse se prote­gendo.

  • Esta sala era de Mina, mas, ultimamente, Hal vinha passando muito tempo aqui.
  • Mina também se interessava por essas coisas new age?
  • Foi ela que levou Hal a se envolver no início. Eu sei que a maio­ria das pessoas acha que isso é esquisitice, mas não dá para des­considerar sem mais nem menos. Os antigos alquimistas abriram o caminho para a química moderna.
  • Quando Hal e eu éramos pequenos, Mina quase nunca estava por perto; normalmente só se viam as governantas ou as emprega­das. Nas raras vezes em que eu a vi, ela me pareceu bem distante. Ela sempre tinha um ar poderoso, era quase assustadora.
  • Você estava certo.

Senti que as palavras de Laurel significavam mais do que uma simples concordância.

  • O que você quer dizer com isso?
  • Hal nunca te disse nada?
  • Sobre o quê?
  • Mina era uma bruxa praticante.

Tive uma visão súbita de Mina tomando alguma poção e se trans­formando em uma bruxa de pele verde, com um longo nariz adunco e um único dente, e saindo voando do terraço à meia-noite para lançar seus feitiços malévolos. Caí na gargalhada.

  • Eu sei que você não gostava dela, mas isso é um absurdo.

Os olhos dela deixaram transparecer um breve lampejo de irritação.

  • É a última coisa com que eu faria piada. Ela levava isso muito a sério. Aquela faca em forma de foice que está no armário é uma ferramenta de bruxa. A bruxaria é mais antiga do que a maioria das religiões e se disseminou bastante, especialmente aqui e no Reino Unido. Mina era uma solitária.
  • E o que é isso?
  • Uma praticante individual. Não pertencia a um círculo. Ela se tornou uma autoridade em bruxaria praticada na Alemanha medie­val. Especialistas renomados do mundo inteiro vinham consultá-la. - Laurel estremeceu e cruzou os braços. - Eu descobri isso tudo logo depois do funeral dela. Hal estava muito abalado, e uma noite ele deixou escapar a coisa toda. Ele disse que ia torná-la imortal.
  • E como ele pretendia fazer isso?
  • Ele não me disse, e eu não quis dar corda para aquela conversa maluca. Eu queria que ele se esquecesse dela.
  • Até onde eu sei, Mina era totalmente Park Avenue. Você a está fazendo parecer a louca do sótão.
  • Olhe aquele livro, se não acredita em mim. - Laurel apontou para um volume grande em cima de uma mesa à nossa frente. - Esse é o Picatrix, o guia espiritual dela.

A capa do livro era um elaborado relevo em marfim com uma borda de padrões geométricos interligados e um painel central com símbolos ocultos. Pequenas rachaduras no marfim denunciavam a idade do livro. Dois grampos de prata manchada haviam sido fixados na borda da direita - um mecanismo para trancá-lo mas os fechos estavam abertos.

  • É um grimório - disse Laurel. Ela parecia incomodada com a proximidade do volume, e se afastou dele.
  • Parece devidamente sinistro.
  • Um livro de feitiços e encantamentos, formas de invocar demô­nios e se comunicar com os anjos. O título original árabe era O obje­tivo do sábio. Foi traduzido do espanhol para o latim. Supostamente, existem apenas dezessete cópias, todas trancafiadas em bibliotecas européias. Não tenho nem idéia de onde Mina arranjou esse.

Coloquei-me ao lado dela e, apanhando um lenço no bolso para proteger as páginas, abri o livro.

  • Você tem certeza de que quer fazer isso? - perguntou Laurel. - Dizem que quando você abre o livro, ele passa a ter poder sobre você.

Dei de ombros e virei as primeiras páginas.

  • Essas histórias normalmente serviam para desestimular as pes­soas a olhar materiais proibidos. Se for realmente antigo, é muito valioso. Você deveria colocá-lo em um cofre.

Um pouco contrariada, Laurel respondeu:

  • Sim, além de mais um milhão de coisas que eu tenho para fazer.

Virei as páginas com cuidado, fascinado com as ilustrações. Emol­durada por um círculo, uma delas mostrava um rei com vestimentas multicoloridas, sentado em um pavão radiante, prateado, dourado e verde. Em uma outra página, um Hermes nu aparecia com um velho barco a vela ao fundo.

  • Eu não sei latim.
  • É uma espécie de manual para prática de astrologia e magia. Se bem me lembro do que Hal me contou, naquele tempo você pode­ria morrer só por possuir isso. Ele contém instruções para a criação de talismãs mágicos e mostra como fazer imagens do seu inimigo para derrotá-lo.
  • Derrotá-lo?
  • .. matá-lo, na verdade.
  • Que bom...

Ela deu de ombros.

  • Sabe, essa conversa toda sobre o Picatrix mexeu com minha memória. Aquela mulher que você mencionou... Hal era membro de um grupo on-line, um site para pessoas com um interesse real em al­quimia. Ele poderia tê-la conhecido por intermédio dele? Hal falou disso algumas vezes, mas você acha que eu vou me lembrar?... Lem­brei. Acho que o nome era Arquivos de Alquimia, ou algo parecido.
  • Vamos verificar. - Peguei o celular e aproximei a vela o máximo possível. Uma busca pelo nome fez o site aparecer de imediato. - Es­sas pessoas são supostamente reais?
  • Hal dizia que sim. Esses símbolos abaixo delas representam planetas: Vênus, Mercúrio, Marte, Júpiter e Saturno. Junto com o Sol, e Luna, a Lua, eles simbolizam os sete objetos celestiais que na Antigüidade se acreditava girar ao redor da Terra. Supostamente, eles representam os cinco hosts do site. Eu acho isso tudo meio falseta.
  • Por que esconder a identidade?
  • Eles são profissionais, não são os esquisitos que você normal­mente encontra em um site como esse. Eu diria que eles não querem que as pessoas saibam que estão lidando com esse tipo de coisa.

"Ou talvez tenham outro bom motivo, como a necessidade de es­conder seus crimes", pensei. - Então, eles levam esse negócio a sério...

  • Com certeza. Você ficaria surpreso. Algumas pessoas gastam milhões montando laboratórios para tentar transformar chumbo em ouro. Isso se chama transmutação.
  • A mulher que eu conheci... será que é uma delas? Talvez seja Vênus.
  • Pode ser. Hal me disse que ele era Saturno, mas não deu o nome de mais ninguém. - Ela espiou a tela do meu celular. - Bem, parece que pelo menos uma mulher pertence ao grupo.
  • Não dá para dizer. São máscaras de porcelana cobrindo o rosto inteiro, e qualquer coisa pode ser alterada digitalmente.

 

Laurel esfregou os olhos. Dava para ver que ela estava exausta. Quando eu fechei o Picatrix, notei uma ponta branca de um papel na parte de trás do livro. Puxei-a com cuidado. Era uma fotografia, ou pelo menos parte dela. A imagem era da nossa época na Columbia, em uma de nossas lendárias festas. Era um retrato meu nos tempos de estudante, de cabelo comprido e tudo, passando um baseado para a mulher ao meu lado. A foto com certeza não ia me ajudar a lembrar quem ela era, porque a cabeça dela havia sido cuidadosamente removida. Meu rosto estava pintado de vermelho-sangue, com um símbolo desenhado à tinta de forma tosca sobre ele.

Deixei a foto cair como se ela tivesse mordido a minha mão.

  • Que droga é essa?

Laurel se abaixou para apanhá-la e ofegou.

  • Não sei. Nunca tinha visto antes.

A foto devia ser obra de Hal, com aquela cabeça muito mais dis­torcida e cheia de ódio do que eu imaginava.

  • É algum tipo de maldição idiota.
  • Eu não deveria tê-lo trazido aqui. Me desculpe - disse Laurel, preocupada.

Ainda me sentindo assustado com a foto e as implicações do que eu havia visto naquela sala, eu tinha certeza de que Laurel também estava em perigo. Enquanto nós voltávamos para a sala íntima, eu senti que precisava dizer alguma coisa.

  • Olha, essa coisa toda está ficando realmente bizarra. Estou preocupado com você. Você tem algum lugar para ficar até eu re­solver essa situação? Eris pode vir aqui atrás de você. Estou surpreso por ela ainda não ter feito isso.
  • Você está brincando? Este lugar é mais bem trancado do que uma tumba. Não vai acontecer nada comigo.

Dei a ela meu cartão para ela ter como me encontrar e peguei o número do celular dela.

  • Eu vou te ligar, então. Só para ter certeza de que está tudo bem.

Ela me abraçou.

  • Cuide-se. Não se preocupe comigo.
  • Você não dormiu muito à noite, dormiu?
  • Quase nada.
  • Por que você não tenta descansar? Você tem alguma coisa para te ajudar a dormir?

Ela balançou a cabeça, mas seguiu o meu conselho e se encolheu no sofá. Coloquei uma almofada sob sua cabeça e a cobri com uma manta de mohair. Ela sorriu, agradecida. Esquentei um pouco de leite no micro-ondas da cozinha e trouxe numa xícara para ela.

Na saída, dei uma descrição de Eris para Gip e pedi para que ficasse alerta.

Fui para o restaurante Khyber Pass, ainda abalado. Demorei um pouco para organizar os pensamentos. Hal havia roubado a inscri­ção do Samuel. Por que ela era tão valiosa? A mensagem fazia re­ferência a cinco adversários, e ele os tinha colocado atrás de mim. Acho que fazia parte da idéia de piada vingativa ele incluir-se como um deles. Eris também pertenceria ao grupo? Se pertencia, quem seriam os outros três? Por que pessoas que mantinham um site sobre alquimia teriam interesse em uma inscrição assíria? Eu esperava que Tomas Zakar, o homem com quem eu estava prestes a me encontrar, pudesse me dar algumas respostas.

Ainda ponderando sobre isso, eu atravessei a rua para o jardim triangular na frente do prédio de Laurel e parei de repente. Um gran­dalhão estava à espreita num canto, de costas para mim, com alguma coisa na mão. O companheiro estranho de Eris? Como se tivesse lido a minha mente, ele se virou bruscamente e veio em minha direção.

 

O homem atirou uma bola de tênis na calçada e sorriu quando pas­sou por mim. Um cachorrinho veio saltitando atrás dele para buscar a bola. Amaldiçoei Hal mais uma vez por ter acabado com a minha paz de espírito e fui para o meu compromisso.

A St. Mark's Place, no East Village, estava um alvoroço, como se­ria de se esperar em uma noite quente de verão, cheia de gente e um pouco frenética. Alguns policiais de uniforme estavam em pé perto das suas viaturas trocando histórias com dois homens robustos, vestidos no estilo das ruas, os infiltrados locais, sem dúvida. Os restaurantes de sushi e de comida fusion asiática já estavam movimentados, e as tabacarias fervilhavam. Eu sempre achava graça na placa de uma loja em que se lia Unissex - vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Mais adiante, na calçada, um grupo de Hare Krishna avançava lenta­mente na minha direção, carecas, com roupas cor de açafrão, entoando o mantra de sempre e batendo em um tambor grande. Os anos 1960 estavam de volta. Algumas coisas e alguns lugares nunca mudam.

O Khyber Pass, um restaurante afegão, era o preferido de Sa­muel. Eu nunca tinha prestado muita atenção no nome, mas, de­pois das minhas experiências recentes, o fato de que nós íamos nos encontrar lá era um pouco enervante. O nome vinha do famoso desfiladeiro com cinco quilômetros de extensão que atravessava uma cadeia de montanhas traiçoeira, a Hindu Kush. Um oficial britânico dissera uma vez que "cada uma daquelas pedras já esteve banhada em sangue". Mau sinal para o encontro que estava prestes a aconte­cer? Eu esperava que não.

Cheguei atrasado. Nas vezes em que havia estado lá com Samuel, o lugar estava lotado, mas era sempre tarde da noite. Nessa noite, havia apenas um cliente, sentado em uma pequena mesa no pátio da frente, do tamanho de um selo postal. Ele empurrou a cadeira para trás e se levantou, fazendo um leve sinal com a cabeça. Mais baixo do que eu e com uma constituição esbelta, Zakar estava vestido de forma tradicional. Tinha uma aparência formal e ascética, com traços definidos, cabelo e olhos escuros e pele puxando para o esverdeado, como a minha.

  • Você é Tomas Zakar? - Estendi a mão.
  • Sim - Ele me deu um aperto de mão e murmurou: - Obrigado por ter vindo. - Obviamente, ele havia me reconhecido de imediato. Fiquei um pouco incomodado por ele estar em vantagem.

Ele deu uma olhada rápida no relógio.

  • Espero não estar muito atrasado - eu disse.

Ele abanou a mão.

  • Você está aqui. É isso o que importa. - Apontou para a entrada.
  • Vamos?

Descemos alguns degraus e chegamos a um ambiente que reme­tia ao Oriente. Uma canção afegã emanava de um alto-falante na parede, perto de nós. O lugar tinha uma decoração elaborada, com uma desarmonia de tons de vermelho, do vinho-escuro ao escarlate. Todas as mesas eram forradas com um tapete feito à mão, com um vidro em cima. A recepcionista nos levou para uma mesa colocada diante de um sofá, perto da janela da frente.

  • Essa é a melhor mesa para a nossa conversa, a mais discreta
  • disse Tomas depois que nos sentamos. - Você gostaria de fumar?

- Ele gesticulou na direção de grandes narguilés de vidro trabalhado vermelho-rubi e azul-cobalto colocados sobre o bar. Um cardápio com uma variedade de fumos com sabor de frutas havia sido colo­cado na mesa.

  • Não, obrigado - eu disse.

Os olhos escuros dele deixaram transparecer uma ponta de surpresa.

  • Samuel adorava fumar narguilé.

Estou certo de que essa não era a intenção dele, mas o comentá­rio teve um efeito depreciativo. Gomo se eu não estivesse à altura do meu irmão.

  • Uma bebida, então? — sugeriu ele.

Resolvi dispensar o álcool por enquanto, com o desejo de pre­servar minha acuidade, e pedi um café no lugar. Ele pediu chá de hortelã e deu um leve sorriso.

  • Chá de hortelã. A única coisa nos Estados Unidos que me faz lembrar de casa.
  • Falando em casa, como você sabia onde me encontrar?
  • Eu já estive em Nova York algumas vezes com o Samuel.

Supostamente, meu irmão não tinha nenhum motivo em especial para nos apresentar, mas por alguma razão isso foi como um outro golpe inesperado. Eu me perguntei até que ponto o cara seria real­mente confiável.

  • Detesto ter de perguntar isso, mas, como nós nunca nos vi­mos, você tem algum tipo de identificação? - Eu já sabia como ele era, mas não queria que ele achasse que podia contar com a minha confiança.

Ele pareceu surpreso com meu pedido, mas abaixou-se, enfiou a mão no bolso da mochila e me entregou o passaporte e uma foto com Samuel em algum tipo de reunião, os dois sorrindo para a câmera, com palmeiras e vasos de plantas ao fundo.

Ele contou que havia crescido em Mossul e se formara em Ox­ford. Descobrimos uma coisa em comum quando eu fiquei sabendo que ele havia feito alguns cursos na Columbia, em um intercâmbio. Ele havia sido contratado por Samuel como assistente nos últimos três anos. O trabalho deles se concentrava no sítio de Nínive. Ele havia vindo para os Estados Unidos atrás da inscrição, daí a urgência para me encontrar.

O garçom trouxe as nossas bebidas. Coloquei açúcar no meu ex­presso e mexi.

Tomas soprou o chá para esfriar.

  • Meus pêsames - disse ele.
  • Tem sido muito difícil.
  • Ainda não consigo acreditar que ele morreu. Samuel foi muito mais do que meu chefe. Ele financiou meu último ano em Ox­ford e ajudou meus pais quando eles perderam a casa. Não consigo descrever a tristeza que senti quando recebi a notícia. Fiquei doente.

Tive um pouco de ciúme ao ouvir isso. Ele obviamente tinha se tornado muito próximo do meu irmão, mas também fiquei mais confiante ao ouvir que seus motivos eram genuínos. Ele ficou visivel­mente chocado quando contei que Hal havia morrido depois de ter roubado a inscrição.

  • Você sabe alguma coisa sobre ela? Era neoassíria, e ao que pa­rece, Samuel a enviou para cá do Iraque.
  • É exatamente por isso que eu estou aqui. Para levá-la de volta. Mas você certamente sabe o que é, não sabe? Você deve ter man­dado fazer uma avaliação quando a encontrou.
  • Há um problema. Hal a escondeu, e eu não tenho nem idéia de onde. - Achei melhor omitir qualquer menção ao jogo de Hal por enquanto. Tomas dobrou um guardanapo em volta do copo de chá e ficou sentado em silêncio, envolvido em seus pensamentos, assimi­lando essa mudança dos acontecimentos.

Eu fiz uma outra tentativa.

  • A inscrição. Ela pode estar de alguma forma relacionada à ve­lha ciência da alquimia. Você sabe alguma coisa sobre isso?

Ele ficou mexendo no guardanapo e murmurou:

  • Me desculpe. Isso que você acaba de contar é muito preocupante.

Ele estava tentando evitar uma resposta? Decidi que era melhor não fazer muita pressão de uma vez só, e perguntei como ele havia conhecido Samuel.

  • No meu primeiro emprego no Museu Nacional. Como você sabe, seu irmão prestava consultoria para eles regularmente. O pes­soal confiava totalmente nele. Eles não podiam lhe pagar, mas ele sempre arranjava dinheiro de pesquisa em algum lugar. Ele nunca falou de mim?
  • Nos últimos tempos, ele não falava muito sobre o trabalho.

Mais uma vez, esperei para bombardeá-lo com as perguntas para as quais eu mais precisava de respostas, com medo de afugentá-lo. Eu queria ler o cara um pouco melhor, então tentei tocar em algum assunto que pudesse fazê-lo se abrir um pouco.

  • Você conseguiu sair do Iraque antes da guerra?
  • Não, nós só conseguimos sair depois que os americanos en­traram em Bagdá. A cidade inteira se recusava a aceitar a situação. Uma orgia de falta de realismo. As pessoas compraram a ilusão de que a diplomacia de última hora fosse providenciar um milagre. En­tão as bombas começaram a cair. Foi a coisa mais estranha. Antes de ficarmos sem eletricidade, nós podíamos efetivamente ver os prédios ao redor de nós explodindo na CNN. Inacreditável. Eu estava assis­tindo ao desastre enquanto, na verdade, estava no meio dele.

Senti algumas brechas se abrindo na armadura dele. Uma expe­riência como essa abalaria qualquer um.

  • Certa vez, eu visitei Amariya, um abrigo antiaéreo bombar­deado pelas forças armadas americanas durante a Guerra do Golfo. Ainda dava para ver os corpos das pobres almas que haviam se agru­pado lá impressos nas paredes pelo calor da explosão, como pessoas feitas de sombra. Uma versão moderna do que nós vemos nas esca­vações. Batalhas esquecidas trazidas à luz, cidades que um dia foram grandiosas destruídas, pilhas de ossos quebrados e queimados. Você já foi a Pompéia?

- Já.

  • O abrigo me fez lembrar de lá. Corpos congelados no tempo. Quando a guerra começou, a sensação era a mesma, como se a nossa população inteira tivesse evaporado repentinamente. Nenhum carro nas ruas, nada do zunido habitual da cidade. Então, nós víamos um clarão no céu. Aquele verde fosforescente sinistro na tela da tevê. Nós ouvíamos as explosões das bombas do lado de fora e sentíamos o chão tremer, como se estivéssemos sendo atingidos por um terremoto atrás do outro.

O que eu poderia dizer sobre isso? A guerra me era uma expe­riência totalmente estranha. Senti a mesma incoerência cambaleante que eu havia demonstrado depois que um amigo me contara que estava com câncer e eu reagira com palavras de incentivo vazias e frouxas.

Tomas deu um gole hesitante no chá.

  • Às vezes, parecia que o oxigênio tinha desaparecido e nós es­távamos aspirando fuligem. Nosso corpo ficava coberto dela. Nós tossíamos fuligem. Como não havia água, precisávamos usar óleo de cozinha para removê-la. Era impossível dormir. Nunca sabíamos quando o próximo míssil cairia. Como um assassino esperando por você: não dá para saber de que porta escura ou parede oculta ele vai aparecer de repente. Nós vivíamos em estado de medo perpétuo. - Ele pousou o copo. Aquilo era convincente o bastante. Eu tive a forte impressão de uma pessoa que mantinha a distância, que não estam­pava as emoções no rosto, mas a tensão ao redor da boca e dos olhos dele me dizia que falar sobre a experiência tinha um custo.

Murmurei algumas palavras para expressar minha solidariedade.

  • Você está me trazendo lembranças também, o 11 de Setembro. O filho de um artista amigo meu morreu nas torres. Eu passei alguns dias fazendo de tudo para consolá-lo. O impacto daquilo se disse­minou muito. No caso do meu amigo, a família ruiu. Ele e a mulher acabaram se divorciando.
  • Um acontecimento terrível de se presenciar.
  • Eu não estava aqui, estava em Miami nesse dia. Gomo todo mundo, fiquei hipnotizado pela tevê, assistindo uma vez após outra aos aviões baterem, as torres desabarem, as pessoas se materializando nas nuvens poeirentas, os destroços das estruturas dos arranha-céus projetando-se para fora das cinzas. Estar longe quando minha ci­dade estava sob ameaça parecia ser um pecado por omissão.

Ele ficou pensativo.

  • Se você passou por algum tipo de trauma, dizem que deve falar sobre ele, mas parece que isso só piora as coisas.
  • Graças a Deus você sobreviveu à invasão. Samuel me disse que estava na Jordânia, em Amã. Você foi se encontrar com ele lá?
  • Do que você está falando? Ele estava conosco o tempo todo.
  • Você está me dizendo que ele estava no Iraque?
  • Você não sabia? Ele veio uma semana antes da invasão porque ficara sabendo que a inscrição corria perigo.

Senti uma onda momentânea de raiva. Samuel tinha mentido para mim. Por que ele faria isso? Para eu não ficar preocupado?

  • Então foi por isso que ele trouxe a inscrição para Nova York? Para mantê-la a salvo?
  • No momento em que a tirou do museu, ele efetivamente a rou­bou. Não acredito que meu irmão tenha feito uma coisa dessas.

Isso não soou bem, e Tomas ficou irritado.

  • Muita gente fez isso. As antigüidades estão sendo devolvidas agora. Coisas que as pessoas levaram para protegê-las dos saquea­dores.
  • Hoje em dia, todas as antigüidades do Iraque são suspeitas; os vendedores não querem mexer com elas. Se eu colocar as mãos na inscrição, ela vai voltar direto para o museu.

Eu podia ver pela expressão dele que ele tinha acreditado que minha observação se estendia a ele.

-Julgar é fácil para você. Você não imagina como foi durante o saque. Por pouco, eu não fui assassinado.

Até agora a história dele era plausível.

  • Não tive intenção de criticá-lo. Deve ter sido um completo caos.

Ele me lançou um olhar sombrio.

  • Foi intencional.
  • Isso está me parecendo uma teoria da conspiração.

Ele abanou a mão como se estivesse tentando se livrar de fumaça de cigarro.

  • Explique então por que, de todos os prédios do governo, um dos poucos protegidos era o do Ministério do Interior. Ele abrigava os documentos do serviço secreto de Saddam Hussein. Disseram que era impossível impedir o saque por causa dos atiradores da Guarda Republicana que estavam no museu, mas o saque continuou por dois dias inteiros depois que eles fugiram.
  • Isso gerou muita publicidade negativa para nós.
  • Você já ouviu falar sobre aquele tratamento com choque? O que é usado para pessoas com problemas mentais?

A pergunta me deixou desconcertado, e eu não conseguia imagi­nar aonde ele estava querendo chegar.

  • Você está falando de terapia eletroconvulsiva?
  • Sim, isso. Os idealizadores da guerra não queriam nenhuma lembrança do passado. O plano deles era criar uma nova sociedade sem história, como uma lousa em branco.

Mais uma vez, eu tive a sensação de uma mola bem apertada prestes a saltar para fora à menor pressão. Resolvi esfriar a conversa. Eu não conseguiria nada gerando antipatia no cara.

  • Então Samuel estava no Iraque durante o bombardeio e tudo o que aconteceu depois?
  • Eu fiquei muito preocupado por causa da idade dele, mas ele segurou as pontas surpreendentemente bem. - Tomas fez uma pausa, como se não tivesse certeza de quanto revelar. - Era a nossa única opção, sabe? Você já ouviu falar dos tesouros de Nimrud? Das tumbas das três grandes rainhas assírias?

-Você quer dizer os adornos de cabeça e os colares de ouro?

  • As jóias da coroa do nosso país - disse Tomas. - Mas nós não tínhamos uma Torre de Londres para guardá-las. Estávamos com medo de que também tivessem sido roubadas, mas elas foram en­contradas em uma caixa-forte subterrânea, no Banco Central. Há muito tempo, elas haviam sido inundadas por dois milhões de metros cúbicos de água de esgoto. Isso evitou qualquer roubo. As baterias de Bagdá, porém, estão desaparecidas, outra perda terrível. Nosso povo descobriu a eletricidade oitocentos anos antes de vocês. Você chegou a vê-las?

Balancei a cabeça.

  • Eram jarros altos de terracota com rolos de cobre conectados a uma haste de ferro. Quando um ácido como o vinagre era acres­centado, elas produziam uma corrente elétrica. É um desastre elas terem sido levadas.
  • Mas eu soube que muitas coisas foram salvas.
  • Graças apenas ao pessoal do museu que escondeu milhares de objetos com antecedência. Essas pessoas são heróis nacionais.

Nossa garçonete nos interrompeu para perguntar se queríamos pedir comida. Tomas e eu dissemos que não, e eu aproveitei a opor­tunidade para fazer a conversa voltar para a relíquia desaparecida.

  • Qual é aparência da inscrição?
  • É uma placa grande, retangular, com sessenta centímetros por trinta e cinco. As palavras estão em acádio, em escrita cuneiforme gravada na pedra. Só algumas pessoas sabiam da existência da ins­crição, ou era o que nós achávamos. Samuel, é claro, eu e Hanna Jaffrey, uma estagiária do programa de estudos sobre a Ásia e o Oriente Próximo da Universidade da Pensilvânia. Esse é um dos problemas.
  • Qual é?

- Jaffrey. Depois que nós fechamos o campo de Nínive, ela voltou para a cidade de Tell Afar, perto do sítio arqueológico de Tell al-Rimah. Ela tinha um namorado lá, outro estagiário da Universidade da Pensilvânia. Nos disseram que ela havia voltado para os Estados Unidos antes da guerra estourar, mas eu não consegui mais falar com ela depois disso. Ela simplesmente desapareceu. Não consigo desco­brir se ela realmente voltou ou se ainda está lá.

  • Ela não teria certamente ido embora antes da guerra estourar?
  • Algumas pessoas da equipe arqueológica decidiram ficar e ten­tar proteger os sítios. Ela pode ter sido uma delas.
  • Então ela estava em Nínive quando vocês encontraram a inscrição?
  • Sim, no último mês de dezembro. Nós estávamos trabalhando no monte Kuyunjik. — Ele hesitou no meio da frase. — É...
  • Eu sei onde fica.

De repente, eu percebi que parte da rigidez dele tinha a ver com o nervosismo de me conhecer. Estávamos rondando um ao outro como dois cães, e nenhum de nós estava disposto a confiar no outro ainda.

  • Nínive é uma das lendárias cidades perdidas da Assíria - con­tinuou ele. — Mais de cem anos depois de ser descoberta, há ainda uma quantidade imensa de coisas a ser escavada. Você esteve em escavações com Samuel, suponho.
  • É claro - Mentira. Eu não podia admitir para Zakar nem mi­nha falta de conhecimento nem que eu lamentava isso. Eu implorava para ir a viagens de campo com Samuel, mas toda vez dava de cara com uma muralha de justificativas. "Espere até você ser mais velho", ele dizia. Quando eu era adolescente, ele achou outros motivos. A uma certa altura, desisti de pedir. Ele havia sido generoso quanto a viagens ao exterior. Nós visitamos Florença, o Louvre, o fabuloso Museu Pergamon, de Berlim, mas eu nunca havia colocado os pés no Oriente Médio.
  • Acho isso invejável, ser tão jovem e viajar para terras estran­geiras. Tocar a história, não só estudá-la na escola. Você teve sorte. Suas lembranças de Nínive provavelmente agora são vagas, depois de tanto tempo. Você deve se lembrar de que existem duas eleva­ções: Kuyunjik, o sítio principal, e Nebi Yunus, o antigo depósito de armas. As escavações feitas no Nebi Yunus impuseram muitas dificuldades porque algumas casas foram construídas sobre partes dele.
  • Um templo para o profeta Jonas também foi construído lá, não foi? — perguntei.
  • Sim - respondeu Tomas —, outro motivo pelo qual o acesso ao sítio é limitado. O templo é sagrado para o Islã. Mas o Samuel conse­guiu autorização para dar uma outra olhada nas antigas escavações de Kuyunjik. O Conselho de Antigüidades concordou porque parte das paredes de tijolo de barro e pedra havia sofrido uma erosão con­siderável. Nós tínhamos financiamento estrangeiro, e uma parte da nossa missão era proteger as ruínas.
  • Eu pessoalmente sempre fico admirado logo que avisto a ele­vação de Nínive. Você deve se lembrar que ela fica em uma planície totalmente descampada, e o monte se eleva do nada. Dá para ver imediatamente que não é um fenômeno natural. Ela tem uma pre­sença quase espiritual, ainda hoje, depois de milênios.

Deixei minha mente voltar aos relatos que eu havia lido sobre Ní­nive, a maior cidade do mundo no seu tempo. O magnífico palácio de Senaquerib, com enormes estátuas de pedra guardando as entra­das e painéis decorativos de pedra calcária retratando cada passo da construção do palácio. Quedas-d'água, lagos de carpas e dezoitos canais adornavam os parques em que elefantes, camelos e macacos perambulavam livremente.

  • Em que condições as escavações estão agora? - perguntei a Tomas.

Ele curvou os lábios estreitos para baixo, fazendo uma expressão parecida com uma careta.

  • Péssimas. Pilhas de sujeira e buracos, na maior parte. Elas fo­ram extremamente saqueadas nos anos 1990. Quando começamos as operações, no ano passado, nós nos concentramos nos trechos próximos aos portões de Shamash e Halzi, áreas que tanto Layard quanto Hormuzd Rassam investigaram.

Eu sabia que na época de Layard, em meados do século XIX, as escavações arqueológicas não eram muito diferentes da pilhagem generalizada. Os primeiros exploradores se concentravam nas coisas reluzentes e arrancavam pedaços inteiros de relevos dos palácios, le­vando o que lhes parecia mais atraente ou o que podiam remover com facilidade e mandar de navio para casa. Só no começo do século XX, quando arqueólogos alemães como Robert Koldewey e Walter Andrae começaram a trabalhar, é que as fotografias e a documenta­ção detalhada dos sites se tornaram padrão.

  • Foi um trabalho difícil. Nossos homens passavam a maior parte do tempo construindo novos suportes e escorando paredes. Nós precisamos peneirar grandes depósitos de entulho. As chuvas de inverno enchiam nossas valas de água e deslocavam os sinalizado- res que nós havíamos distribuído e fotografado com tanto cuidado. Muita coisa precisou ser refeita.
  • Por que vocês escolheram essa época do ano?
  • Nosso financiamento ia só até o fim de dezembro. Não tínha­mos escolha. Foi uma das maiores emoções da minha vida. Meu pri­meiro projeto importante, e Samuel me nomeou supervisor.
  • Vocês encontraram alguma coisa?
  • Nós fizemos uma descoberta incrível. Houve alguns dias sem chuva, e eu aproveitei para vasculhar um pequeno monte de escom­bros. A superfície estava úmida, mas cavando e espanando com cui­dado, consegui avançar. Foi quando desenterrei o primeiro osso. Na mesma hora, eu sabia que havia encontrado uma coisa fenomenal.
  • Um cemitério?
  • Não. Nós juntamos toda a equipe nessa hora. Demoramos sé­culos para desenterrar tudo. Esqueletos completos, achatados pelo peso da terra. Nem sinal de armaduras, escudos ou esse tipo de coisa, então eles não eram soldados, e obviamente qualquer roupa teria se desintegrado há muito tempo. Mas, junto com um monte de cinzas, madeira carbonizada e uma grande quantidade de ossos, nós encon­tramos jóias de bronze. Braceletes, brincos e coisas assim.

"Com isso, soubemos que tínhamos descoberto restos de habitan­tes que haviam fugido de Nínive quando a cidade pegou fogo. Incrí­vel. Foi como se nós tivéssemos voltado milhares de anos no tempo.

Todas as evidências da catástrofe estavam diante de nós. Dava quase para ouvir os gritos das pessoas enquanto sufocavam com a fumaça preta e as nuvens e cinzas atingiam sua pele como brasas quentes. Muitos tinham ferimentos mortais, desferidos pelas espadas e pelas adagas dos medos."

  • Havia outros tipos de artefatos?
  • Umas poucas estátuas pequenas de guardiões e selos cilíndricos, objetos que as pessoas queriam salvar do fogo.
  • Foi lá que vocês encontraram a inscrição?
  • Perto dali. Uma noite, nós trabalhamos até mais tarde que o normal. O sol estava bem baixo no céu. A terra tinha belos tons aver­melhados, reforçados pela luz cada vez mais fraca do sol. Um certo aroma de terra paira sobre esses sítios antigos. Não sei o que é... Com certeza, um geólogo pode explicar a composição química dele. Mas eu gosto de pensar que ele resulta da libertação de coisas que ficaram enterradas por séculos, quando elas são liberadas das suas sepulturas e devolvidas ao mundo.

"Então Tomas tem uma pitada de romantismo na alma. No fim das contas, ele não é tão vitoriano", pensei.

  • Samuel estava a uns dez metros de mim - continuou Tomas. - Tinha sido uma jornada longa. Eu tinha ficado espantando nuvens de moscas o dia todo, estava cansado e só pensava em me preparar para juntar as coisas e ir embora. Eu o ouvi gritar. Hanna Jaffrey e eu corremos até ele, com medo de que tivesse se machucado. Mesmo com a luz fraca, dava para ver que ele estava pálido. Ele nos disse para olhar para baixo. Ele estava trabalhando em uma cavidade que se estendia na terra no sentido horizontal. No primeiro momento, eu não vi nada significativo. Eu me abaixei. A saliência parecia um pedaço de pedra, como os detritos que nós estávamos acostumados a encontrar nesses sítios. Então eu me dei conta do que estava vendo. Um pedaço de pedra trabalhado saltava da parede de entulho, com marcas cuneiformes claramente visíveis sobre ele. Nós ficamos ree- nergizados. Para o vasto número de horas de trabalho que esses lugares consomem, as descobertas muitas vezes são realmente par­cas. Foi uma grande emoção.

"Hanna e eu fomos correndo pegar nossas lanternas e nossas câmeras. Nós as posicionamos e passamos, os três, várias horas reti­rando cuidadosamente o material circundante. Nós comemoramos quando finalmente conseguimos remover a placa. Era uma peça muito grande, a superfície inteira coberta com os escritos. E o me­lhor de tudo era que estava intacta, e por ser de pedra, e não de barro, estava bem conservada."

  • Samuel conseguiu identificar de imediato o que era? - perguntei.
  • Um dia depois, ele tinha decifrado as primeiras linhas. Você sabe que são necessários vários estágios para transcrever símbolos cuneiformes para palavras que façam sentido na nossa língua, não sabe? Não é nada parecido com uma simples tradução.
  • Claro - eu disse. - É preciso muita paciência.

Ele me olhou rapidamente. Por baixo daquele olhar havia a sus­peita de que eu sabia muito menos do que estava dizendo, mas ele não disse nada. Continuou:

  • Em uma semana, Samuel sabia com certeza o que havia encon­trado. Ele ficou nas nuvens.
  • Então você sabe o que ela diz?
  • Só o que ele nos contou. Ainda estou desenvolvendo meus co­nhecimentos, então eu teria demorado um bom tempo para decifrar, e Hanna Jaffrey conhece muito mal a escrita.

Ele falava de um jeito bem formal, e só ocasionalmente fazia mau uso de alguma palavra ou cometia algum erro gramatical. Isso com­binava com sua personalidade contida, quase fria.

Tomas parecia à vontade nessa seara. Ele provavelmente dava aulas, além de executar trabalho de campo.

Os escribas dedicavam a vida a aprender as línguas antigas por­que eram necessários muitos anos até dominar as centenas de carac­teres dos primeiros alfabetos. É fascinante pensar nos cananeus das minas de turquesa do Sinai. Eles foram os primeiros que apareceram com a idéia de associar símbolos aos sons em vez de imagens. Por isso, o alfabeto fenício foi revolucionário. Os vinte e quatro caracte­res dele permitiam, pelo menos teoricamente, que todos pudessem aprender a ler e a escrever.

"Como as inscrições haviam sido feitas em pedra, nós sabíamos que essa era importante. As inscrições reais e os oráculos com signi­ficado especial eram, muitas vezes, gravados em pedra por causa da durabilidade; os documentos menos significativos eram escritos em tábuas de barro. Os escribas às vezes colocavam água sobre elas para poder usá-las novamente."

Eu queria ser educado, mas agora ele estava realmente me con­tando coisas que eu já sabia. Levantei a mão.

  • Isso eu sei.

Ele me deu um pequeno sorriso.

  • Me desculpe. Eu esqueço.
  • O que Samuel disse sobre o texto?
  • Ele mal conseguia se conter. "Uma das maiores descobertas de toda a história do Iraque", ele nos disse.

Pensei em meu irmão e em quanto isso havia significado para ele. A alegria dele devia ter sido comparável à de George Smith, o assiriologista amador que descobriu a história de Noé e do Dilúvio nos anos 1850. Smith interpretou a escrita cuneiforme das tabuletas no Museu Britânico, durante o horário de almoço. O ápice para ele foi o momento em que descobriu a famosa história de Noé e do Dilúvio em uma tabuleta, parte da Epopéia de Gilgamesh. Quando Smith se deu conta do que havia encontrado, dizem que ele correu de um lado para outro diante de seus colegas especialistas. Samuel tinha uma persona­lidade mais contida, mas ele devia ter ficado igualmente radiante.

  • Alguém tentou roubá-la - continuou Tomas. - No dia seguinte, Samuel a levou para o Museu de Bagdá e a escondeu lá.
  • Como ele fez isso sem que ninguém ficasse sabendo? Eu verifiquei as fontes, o FBI, a Interpol e o Registro de Objetos de Arte Desapareci­dos, e não há nenhuma menção a nada parecido com a inscrição.
  • No próprio museu, muitas tabuletas e selos cilíndricos ainda não foram transcritos. Isso também vale para museus estrangeiros. Essa é uma das grandes tragédias dessa pilhagem. Muita coisa não havia sido registrada. Mesmo se os objetos reaparecerem, não existe ne­nhuma maneira, se as marcas de identificação tiverem sido apagadas, de afirmar que eles nos pertencem.

Tomas fez uma pausa, fez um sinal para a atendente para que trouxesse mais chá e indicou minha xícara. Balancei a cabeça.

  • O escriba assinou o nome dele, Naum. Isso te diz alguma coisa? - perguntou ele.

- Não.

  • Naum era um dos doze profetas menores da Bíblia Hebraica. O Livro de Naum, chamado A Ruína de Nínive, profetiza a destruição de Níníve. A cidade foi queimada em 612 a.C.

Essa nova informação me atingiu como um raio. Ele tinha aca­bado de fazer a ligação com a profecia a que Hal havia se referido na carta.

  • Você está dizendo que a inscrição que eu estou procurando é uma versão original de um livro do Velho Testamento? - Minha pul­sação se acelerou com a antecipação da resposta.
  • Exatamente. Você pode imaginar como ela é importante? Foram encontradas citações do Livro de Naum nos Manuscritos do Mar Morto de Qumran, mas só fragmentos. A inscrição contém as palavras originais, intactas. - É um achado fenomenal. Nem consigo pensar em uma comparação. Nós só podemos sonhar com seu va­lor histórico.

A garçonete colocou uma nova xícara de chá diante de Tomas. Agradecendo, ele continuou:

  • Uma estátua mesopotâmica foi vendida recentemente na Suíça por vinte e dois milhões. Não chega nem perto da importância de um livro original da Bíblia. Não consigo nem imaginar quanto ele valeria.

A emoção inicial foi murchando conforme fui recobrando o bom senso.

  • Eu tenho certeza de que vocês todos estavam achando que isso sairia na primeira página. Como Samuel pôde se deixar levar? Ela não pode ser genuína. E Hal foi assassinado por causa dela.

Tomas recuou, como se minhas palavras fossem verdadeiros golpes.

  • Alegações desse tipo são feitas o tempo todo. Você se lembra do ossário que foi levado ao conhecimento público no ano passado? Supostamente, ele continha os restos mortais de Tiago, irmão de Jesus. Os especialistas acham que a pátina da superfície foi forjada. A cada minuto, alguém é ludibriado por esse tipo de coisa.
  • Você nem a viu e está dizendo que é falsa - retrucou ele. - É totalmente possível que um escriba hebreu tenha vivido na Assíria.
  • Eu sei, mas isso é muito diferente de um livro original da Bíblia ter sido escrito lá.
  • É provável que ele fosse um escriba extremamente culto que foi levado como tributo para trabalhar para o rei assírio. Naum sig­nifica "o que conforta", e provavelmente não era o nome verdadeiro do escriba. Ele era originalmente da Judéia, e, apesar de o Estado as­sírio estar nas últimas, o autor de uma tirada contra Nínive como o Livro de Naum teria sido morto. Assim, o profeta precisou esconder sua identidade. A inscrição é verdadeira, eu posso garantir.

Eu estava começando a juntar as peças.

  • Então, um escriba hebreu escravizado redige uma diatribe con­tra o que ele acreditava ser uma cidade sem Deus. Tudo bem. Mas, se a inscrição foi encontrada enterrada na cidade perdida de Nínive, como ela virou um livro da Bíblia Hebraica?

Tomas parou para pensar um pouco. Dava para perceber que ele não queria abrir o jogo e revelar muito mais.

  • O papiro estava começando a ser usado por volta dessa época; eles devem ter contrabandeado cópias em papiro para fora da Assíria.

Ele podia estar certo. Um hebreu poderia ter sido deportado à força para a capital assíria, e múltiplas cópias do livro terem apare­cido na Judéia.

  • É só que... eu já vi pessoas se entusiasmando com um achado importante para depois descobrir que algum aventureiro havia for­jado tudo. Todos os museus importantes já foram enganados.
  • Mas não Samuel. Ele a examinou com todo o cuidado. Nós fomos avisados de outra tentativa de roubo durante o saque. Foi quando ele resolveu trazê-la para cá.

Eu praguejei em silêncio. Proteger a história de outro país tinha virado uma obsessão para Samuel.

Pelo meu olhar, Tomas supôs que eu não o aprovava.

  • Nós nunca íamos conseguir convencê-lo do contrário, sabe? Nós bem que tentamos. É uma ironia; o saque também nos encobriu para tirá-la de lá. Sem Samuel, nós nunca teríamos conseguido atra­vessar a fronteira com ela.
  • E por que não deixá-la na Jordânia e esperar a guerra acabar?
  • As paredes têm ouvidos lá. Alguns colecionadores americanos fizeram lobby para o governo afrouxar as regras de exportação das antigüidades iraquianas no outono de 2002, logo antes da invasão. Eles diziam que a política de proibição de exportação de antigüida­des do Iraque era "retentiva".
  • Eu não sabia disso.
  • Os arqueólogos fizeram uma petição contrária, para garantir que milhares de sítios arqueológicos fossem protegidos, e receberam a promessa de que nada seria danificado. Que farsa! Surgiram ru­mores de roubo em massa e até de uso de sistemas de imagem avan­çados com infravermelho e radar subterrâneo. Antes de esta guerra acabar, tudo terá sido desenterrado.

Eu podia ver a dor estampada no rosto dele. Seus sentimentos pareciam legítimos.

  • Ele suspeitava de alguém em particular?
  • Um comerciante americano e pessoas associadas a ele.

Eu listei mentalmente os mais conhecidos comerciantes america­nos de antigüidades mesopotâmicas. Não era um grupo grande, e eu conhecia praticamente todos eles.

  • Ele deu outra descrição? Alguma idéia de quem poderia ser?
  • Acho que ele não sabia muito mais do que isso, ou talvez não quisesse acusar ninguém sem ter provas claras. Mas ele mencionou um escritório na West 34th Street, a um ou dois quarteirões do rio Hudson. Ele disse que alguns outros itens que ele suspeitava terem sido roubados do museu haviam sido enviados para lá por agentes de Bagdá.
  • Isso parece promissor. Qual é o endereço?

Tomas suspirou.

  • Desculpe, isso é tudo que eu me lembro de ele ter dito, mas ele descobriu a identidade de dois sócios do comerciante, um homem e uma mulher. A mulher que te ameaçou, você disse que o nome dela era Eris?
  • Sim - eu disse, pensando novamente no nome. "Eris, a divin­dade grega da discórdia, da guerra e da dor. Combina bem com ela."
  • É ela! -Tomas estalou os dedos. - Seu nome completo é Eris Haines. É uma ex-funcionária da Seção de Pesquisa do Departamento de Defesa. Eles desenvolvem armas avançadas, realizam pesquisas científicas com impacto sobre a segurança nacional. Antes disso, ela trabalhou como consultora particular de segurança na Bósnia.
  • E o homem?
  • George Shimsky. Segundo dizem, um químico brilhante. Ele sofreu algum tipo de acidente; tem umas cicatrizes horríveis no rosto.

Eu virei meu expresso.

  • O dois eram assustadores. Eles podem ter ligação com um site chamado Arquivos de Alquimia. Você sabe alguma coisa sobre isso?
  • Não sobre um grupo. Você mencionou alquimia antes. Vem do árabe, al-kimia. A ciência da química foi um presente das nações ára­bes para o Ocidente. A alquimia supostamente se originou no Egito, mas há argumentos convincentes de que as primeiras fontes seriam mesopotâmicas.
  • E por que alquimia teria alguma coisa a ver com o Livro de Naum? — Eu introduzi a pergunta novamente, dessa vez determi­nado a conseguir uma resposta de verdade.

Ele deu de ombros.

  • É possível encontrar muitos significados ocultos em escrituras bíblicas. O Samuel poderia ter uma resposta para isso. Mas, se ti­nha, levou-a para o túmulo.

Ele deixou essa observação no ar por um momento antes de mu­dar de assunto.

  • Eu soube que você nasceu na Turquia. O Samuel disse que você tinha só três anos quando seus pais morreram em um desastre em uma mina.

A mudança repentina do rumo da conversa me convenceu de que Tomas sabia mais sobre a importância da alquimia do que es­tava disposto a revelar, mas ele insistiu.

  • Você nunca tentou procurar seus parentes?
  • Eles deixaram bem claro que não me queriam. Por que eu faria isso?

Um leve rubor no pescoço dele era uma indicação de que ele sabia que havia passado dos limites da boa educação com alguém que mal conhecia.

  • Você teve sorte, você tinha o Samuel. Ele nunca se casou. Acho isso curioso.
  • Ele foi casado, há muito tempo. A mulher dele morreu antes de ele saber que eu existia. Isso o ajudou a decidir a me colocar debaixo de sua asa. A morte dela deixou um vazio, e ele descobriu minha existência no momento certo.

Estava tão úmido que praticamente dava para ver o vapor saindo do chão, do lado de fora. Eu pedi um copo de gelo e uma garrafa de Lauquen, uma água artesiana revigorante. Quando a ofereci a Tomas, ele recusou.

Ele não parecia nem um pouco incomodado com o calor. Só de olhar as pessoas encaloradas pela janela, eu já me sentia pouco à vontade. Eu estava lutando com as revelações dele. Sa­muel havia descoberto um livro original da Bíblia. Se isso fosse verdade, teria sido uma descoberta sensacional. Mas algumas peças da história estavam deliberadamente faltando, e isso me incomodava.

  • De qualquer forma, voltando ao que você estava dizendo, Sa­muel tinha laços com a maior parte dos museus importantes e várias opções de lugares seguros. Por que então trazer a inscrição para cá? Acho que você não me contou tudo.

Tomas tomou fôlego, e nesse intervalo eu vi uma faísca de preo­cupação nos olhos dele.

  • Tem mais alguma coisa?

Ele se remexeu no sofá, pouco à vontade.

  • Eu não tenho liberdade para dizer.
  • Você não confia em mim?

Ele tentou evitar os meus olhos.

  • Você já sabe o que pode acontecer. Até o perigo passar, é mais seguro você não saber. Provavelmente, foi por isso que o próprio Samuel não te contou nada.

Minha paciência finalmente se esgotou.

  • Se você quer encontrar o artefato, vai precisar de mim. Me conte tudo ou eu vou embora.

Passaram-se alguns minutos de silêncio enquanto ele resolvia se me contava ou não.

  • Samuel acreditava que havia uma mensagem oculta.
  • Você está dizendo que Naum usou algum tipo de código?
  • Não exatamente. Não uma cifra. Tem alguma coisa a ver com a forma como ele escreveu o livro. Sinais no texto, que o profeta deixou para seus confederados.

Ele podia ler a descrença no meu rosto.

  • É possível. Você já ouviu falar do manuscrito de cobre que foi encontrado em Kirbet Qumran com os Manuscritos do Mar Morto? Ele contém uma relação de vários lugares em Israel. Escon­derijos de ouro e prata.
  • Isso foi escrito séculos depois de Naum. Não havia nenhuma mensagem oculta. Os lugares foram descritos; os intérpretes contem­porâneos simplesmente não conseguem entender. Você não acha que se houvesse uma mensagem na profecia de Naum, ao longo de milhares de anos, ninguém a teria desvendado?
  • Não - Tomas baixou a voz, e eu senti que finalmente nós está­vamos chegando ao ponto.
  • Por que não?
  • Porque as palavras da inscrição diferem até da versão mais ori­ginal da Bíblia hebraica que nós temos.

A voz de Tomas era quase um sussurro, os olhos escuros dele encontraram os meus.

  • Você precisa admitir que fui franco com você, John Madison. Agora é a sua vez. Se você tem alguma pista, eu quero saber.
  • Nada concreto ainda. Eu não tive chance de ir atrás de nada.
  • Espero que você me mantenha informado. E propriedade do meu país.
  • Ela vai voltar ao Iraque pelos devidos canais.

Manter-se sob controle parecia um desafio cada vez maior para Tomas.

  • Minha experiência com antigüidades valiosas me diz que as coisas podem sair dos trilhos até mesmo com o que vocês chamam de canais adequados. Um livro original da Bíblia? É difícil abrir mão de uma coisa assim, especialmente se não existe uma prova do lugar de onde ela veio. Samuel confiava em mim. Você também deveria.

Ele estava sugerindo que eu pretendia vendê-la na mesma frase em que havia invocado meu irmão morto? Que filho da mãe! Eu cer­tamente não estava preparado para simplesmente entregá-la a ele.

  • Nós estamos nos precipitando - eu disse com frieza. - Primeiro vamos ver se consigo achá-la.

Nós criamos um impasse. Evidentemente, nenhum dos dois ti­nha a menor intenção de dar mais informações ao outro voluntaria­mente. Ele olhou o relógio, disse que precisava ir embora e pegou rapidamente a mochila. Rabiscou um número no cartão de visitas e se levantou.

- Me ligue neste número. A conta está paga. Como posso entrar em contato com você?

Dei a ele meu e-mail e telefone. Depois que ele foi embora, espe­rei mais ou menos um minuto antes de segui-lo. Virando a esquina na 2nd Avenue, eu o avistei encurvado junto a um carro, com o braço apoiado na janela aberta do lado do motorista, falando com a pes­soa que estava lá dentro. Ele deu a volta para o lado do passageiro e entrou. Saí andando, sabendo que ele havia me entregado apenas um pedaço da verdade. Mas eu estava decidido a descobrir a histó­ria toda.

 

Eu havia planejado voltar para casa e tentar decifrar o quebra-ca­beça, mas uma idéia melhor surgiu e, em vez disso, eu me arrisquei a voltar para a casa de Hal na West 20th Street. A rua parecia relati­vamente segura, cheia de gente que voltava para casa dos restauran­tes andando pelas calçadas. Era uma noite perfeitamente rotineira. Mesmo assim, a sensação de alguma coisa mal-intencionada às mi­nhas costas me invadiu novamente.

Eu me apoiei na cerca de ferro da escola na frente da casa de Hal e inspecionei os arredores. A Igreja Episcopal de São Pedro, com sua bela pedra calcária cinza, portas vermelhas vibrantes e a graciosa torre do relógio ficava logo a oeste. O portão alto de ferro preto da igreja estava aberto, como ficava muitas vezes quando algum grupo musical ou artístico tinha uma apresentação. Ao lado da igreja, a fachada de tijolo do Teatro Atlântico.

Não vendo nada fora do normal, atravessei a rua para a casa de Hal. Era um típico casarão de quatro andares, menos ornamentado que a maioria deles, com um acabamento de estuque simples rosa-pálido e frisos pretos. O primeiro andar ficava no nível da rua, e não meio andar acima, como nas casas de pedra avermelhada mais grandiosas. A fita amarela da polícia formava um X sobre a porta da frente. Olhei em volta para me certificar de que ninguém estava vendo e digitei o código da fechadura. Peter havia instalado um sis­tema de segurança muito mais elaborado, mas Hal o havia abando­nado, junto com muitas outras coisas que não podia mais bancar. A porta se abriu com um clique, eu passei por baixo da fita e fechei a porta atrás de mim.

Decidi ir até lá porque deveria haver algum tipo de pista no meio dos papéis de Hal que indicasse o esconderijo, e havia até uma chance bem pequena de que ele, na verdade, tivesse escondido a ins­crição em um local que eu conhecia.

O interior estava escuro, mas eu conhecia o lugar como a palma da mão. Eu me locomovi pelo térreo - os cômodos ainda fediam a bebida e maconha da festa da noite anterior -, certificando-me de que as janelas e as portas estavam trancadas. Fiquei feliz ao ver que a polícia tinha feito um bom trabalho. Tudo parecia seguro também no segundo andar. Um cheiro rançoso chegou até mim quanto passei pelo quarto de Peter, devido ao acúmulo de comida espalhada, pó e acidentes noturnos. Hal não era nenhuma dona de casa. Ele prova­velmente não tinha nem sequer tido o cuidado de trocar a roupa de cama depois que o pai tinha ido para a casa de repouso.

O escritório de Hal ficava em um cômodo sem janela, a meio caminho do segundo andar, então não haveria problema em ligar o abajur. A sala era decorada com uma mesa de carvalho pesada, de design holandês, que sem dúvida pertencera a algum de seus ancestrais ilustres, e uma cadeira de madeira combinando. Uma estante Ikea na parede lateral, atulhada com livros sobre filosofia, física e teoria do jogo, contrastava de um jeito estranho com o resto da decoração. Dei uma olhada nos livros e encontrei vários sobre alquimia.

As paredes tinham sido depenadas; os retângulos mais claros si­nalizavam a ausência das pinturas valiosas. O único quadro que ha­via sobrado, uma reprodução de uma gravura de Dürer intitulada Melancolia 1, não valia o trabalho de tentar vendê-lo.

O laptop de Hal não estava lá. Revirei a papelada dele, à pro­cura de algum tipo de pista que indicasse o esconderijo. Exatamente como eu havia imaginado, uma cópia do primeiro aviso da Teras Distributing estava quase no topo de uma pilha de papéis que obs­truía a mesa. Presa à carta por um clipe, havia uma mensagem de Walter Taylor, adido cultural na Jordânia e velho amigo de Samuel.

 

Samuel, mandei seu pacote por nosso correio diplomático, como você pediu. Ele deve chegar à Teras Distributing em junho. Se eu não o conhecesse tão bem, diria que o áraque que você consumiu ao longo dos anos está finalmente fazendo efeito. Falando sério, você pode ter feito uma descoberta rara. Não poderia haver um desfecho mais adequado para sua carreira. Vamos discutir isso melhor quando eu voltar para casa em terra firme. Guarde um gim ge­lado para mim. Nem pense em voltar para o Iraque, meu amigo. O lugar está prestes a ser detonado.

 

Então Samuel havia confiado em mais alguém além dos assisten­tes. Na Jordânia, seriam mais de três da manhã. Eu precisava adiar o telefonema para Taylor por enquanto.

Enfiado em uma gaveta havia um impresso de computador:

 

Inscrição neoassíria em pedra originária do monte Kuyunjik, Nínive. Século VII a.C. Descrição completa com manifestação de interesse. Antigüidade rara.

 

O número de contato havia sido rabiscado. Talvez fosse um ras­cunho do anúncio que Hal pusera em circulação para vender a ins­crição. Que coisa de amador... Nenhum comerciante legítimo tocaria um item como esse sem pelo menos uma descrição completa, uma indicação do valor e alguma garantia de proveniência. Se Hal estava achando que conseguiria fazer a venda, ele estava louco. Qualquer endereço que ele arranjasse poderia ser rastreado pela Interpol em minutos. Se ele tivesse colocado um luminoso na Times Square, te­ria dado na mesma. Desde a devastação do Museu de Bagdá, todas as coisas originárias do Iraque vinham sendo observadas de perto. A falta de percepção dele era espantosa.

Na meia hora seguinte, revirei o resto das contas e das cartas de Hal. Ele estava muito mais endividado do que eu havia percebido, deixando até coisas básicas como o pagamento da conta do telefone e da TV a cabo passar. Senti pena dele. Seus últimos meses deviam ter sido desanimadores.

Como não encontrei nada na mesa de Hal, subi as escadas até o último andar. Ele era ocupado quase inteiro pelo lugar que eu cha­mava de sala de desaparecer. O avô de Hal a usava para praticar esgrima. "O professor de esgrima dele foi ferido gravemente, bem aqui." Mais lenda do que realidade. Eu me lembro de Hal contando essa história com o maior entusiasmo quando nós éramos meninos, e de eu olhar fixamente para o chão, tentando encontrar manchas de sangue entre os veios da madeira clara, imaginando o mestre de es­grima caindo, a espada batendo no chão, o vermelho-fogo brotando na camisa branca, como acontecia no Zorro.

As venezianas de madeira das duas janelas da frente estavam fe­chadas, então eu pude acender o abajur com segurança. Ele liberou um brilho amarelado suave, e a luz voltou a se refletir nos espelhos. A sala não tinha mobília; até onde eu sabia, os únicos móveis sempre haviam sido os armários que acompanhavam a parede do fundo, onde Peter armazenava o grosso de sua coleção. Na parede da frente havia máscaras de esgrima e espadas penduradas em uma peça feita sob medida — floretes leves, espadas e os sabres mais mortíferos. Uma vez Hal e eu fomos apanhados brincando com eles e fomos proibidos de entrar na sala por meses.

As prateleiras do armário agora estavam vazias e cobertas de su­jeira. Apalpei-as até achar o botão escondido em uma curva de ma­deira trabalhada no alto do primeiro armário e ouvir o estalo da fechadura se abrindo. O fundo escorregou para o lado, revelando um grande closet. Senti uma onda de expectativa - eu estava certo de que Hal teria escondido a inscrição ali, como seu pai fizera com as peças mais valiosas. Duas caixas grandes de papelão estavam encostadas na parede do fundo do closet, com as abas abertas. As caixas estavam va­zias. Praguejei em voz alta.

O único outro objeto era uma pequena urna de bronze em uma prateleira a uns sessenta centímetros do teto. Eu a peguei e abri a tampa. Dentro dela havia algumas pedras amareladas. Tirei uma delas. Algum tipo de pedra preciosa. Por que Hal as guardava ali? Elas eram bem pequenas e brutas, então não deviam valer muito.

Aborrecido e preocupado com meu fracasso por não ter encon­trado nada, baixei a guarda quando saí da casa. Foi só o que precisei fazer. Quando passei pelo recuo entre uma casa e o cemitério da igreja, um vulto surgiu das sombras e travou o braço parrudo ao re­dor de meu pescoço. Ele agarrou meu paletó e me puxou com força contra o peito, apertando tanto que eu conseguia realmente sentir o diafragma dele subindo e descendo.

Dei um tranco com meu corpo para trás e senti o aperto ceder um pouco. Puxei o braço e dei um golpe, acertando-o com toda a força. Meu paletó ficou para trás quando consegui me desvencilhar. Eu estava livre.

Com uma fração de segundo para reagir, optei por não correr pela rua, imaginando que Eris poderia estar me esperando ali, ar­mada. Em vez disso, corri para o portão da igreja e abri a porta frontal de madeira com um empurrão, na esperança de que quem quer que estivesse lá dentro me ajudasse. Mas o interior estava escuro e silencioso.

Subi correndo a escadaria de madeira escurecida que levava às galerias no segundo andar. Lá em cima, em um canto, havia uma pequena porta, como a entrada da cela de um monge. Fiz pressão e, sentindo que ela cedia, joguei o corpo contra ela com força. Ela se abriu.

Fechei-a fazendo o mínimo de barulho possível e me vi em um tubo de tijolo amarelo tão estreito que não dava para abrir os bra­ços. Procurei o celular para chamar a polícia, mas me dei conta de que ele tinha ficado no bolso do paletó. Eu só tinha uma opção: me esconder.

Uma escada espiralada de ferro preto subia pelo centro da torre. Candeeiros presos às paredes arredondadas produziam uma fraca iluminação amarelada. Minha sombra me antecedia enquanto eu subia pela escada retorcida. Não dava para ver mais de dois metros adiante, e eu não tinha nem idéia de que altura ela tinha. O ar lá dentro estava quente e abafado, e minha cabeça rodava com o movi­mento circular. No alto da escada, uma porta de madeira pintada de cinza se abria para uma grande sala quadrada, com paredes de mais de quatro metros cada. O espaço tinha um pé direito muito alto e um teto de gesso caindo aos pedaços. Em algumas partes, o gesso havia caído, expondo as ripas de madeira por baixo.

Uma pulsação constante à minha esquerda revelou vir de um imenso pêndulo de ferro cercado por uma armação de madeira. Acima dele rangia um conjunto de engrenagens em ação. O meca­nismo do relógio da igreja. O pêndulo balançava de um lado para outro, com o zunido lento da foice de um ceifador.

A história de Poe me veio à cabeça. Imaginei as paredes e o chão se fechando sobre mim e me esmagando.

Um uniforme militar de gala, empoeirado pelo tempo, e insígnias militares da Segunda Guerra Mundial estavam pendurados na pa­rede. Fantasmas de soldados mortos sussurravam no silêncio.

Tentei ouvir algum som que indicasse perseguição, mas só detec­tei a batida regular do relógio, um som suave como a pulsação do coração de um gigante. Uns degraus precários levavam a um alça­pão fechado no teto. Subi por eles e empurrei a tampa de madeira. Alguma coisa caiu, e eu me afastei como se ela fosse atingir minha cabeça. Um pardal morto caiu no chão com uma pequena pancada.

O alçapão dava para um espaço escuro vazio. Um cheiro acre de fezes de passarinho e bolor infestava o ar. Eu podia ouvir barulho de asas. Pombos? Morcegos? Apalpei com cuidado a estrutura de madeira acima do alçapão para ver se havia chão firme o suficiente para eu subir. Quando puxei de volta a mão, ela estava coberta de pó e asas aveludadas de mariposas mortas.

Eu poderia me esconder ali?

O barulho de passos nos degraus de metal da escada abaixo da sala foi aumentando, intercalado com o tique-taque do pêndulo gi­gante, como se o relógio estivesse marcando os segundos de vida que me restavam. A porta se abriu com um chiado.

A perna do homem atravessou a soleira da porta, e depois o corpo inteiro apareceu. Ele mal conseguia se espremer para entrar. Ele entrou cambaleando e parou.

Quando ele me avistou, um tremor de excitação fez com que seu corpo se agitasse. Sons atormentados saíram de sua boca, como se as cordas vocais estivessem corroídas. Como uma estátua de pedra, ele veio em minha direção a passos lentos. Pressenti que esse era o químico queimado. Ele parecia uma criatura primitiva que havia assumido forma humana, como se um deus tivesse criado uma escul­tura gigante e dado vida à pedra com um sopro. Os gregos antigos acorrentavam suas estátuas para evitar que elas escapassem, acredi­tando que elas tivessem vida. Eu me dei conta de que eles faziam isso por medo, e não para evitar que elas fugissem.

A cara dele era larga e anormalmente achatada sob a cabeça totalmente raspada. A pele tinha uma coloração acinzentada, como massa de vidraceiro ressecada. Ele me fitou com um olho só. Senti repulsa. Por um instante, tive a impressão de que os ciclopes da mi­nha imaginação pueril tinham voltado para me reivindicar.

Quando ele virou a cabeça, me dei conta de que ele tinha os dois olhos, mas o esquerdo havia sido muito ferido, e ficava escondido sob um tecido cicatricial. O espaço vago onde o olho esquerdo deveria estar havia sido coberto com um enxerto de pele malfeito, que pare­cia de cera.

Eu tinha algumas vantagens. O cara era forte, mas lento. Minha velocidade de reação era muito maior, e eu estava acima dele, posi­ção sempre boa quando é preciso derrubar alguém.

Ele teve dificuldade com a escada, a madeira frágil dos degraus cedia ao seu peso, e ele parecia estar desequilibrado. Eu me esforcei ao máximo para calcular a distância ideal. Quando ele estava ao meu alcance, agarrei os corrimões para segurar o peso do meu corpo e dei um chute no peito dele. Ele perdeu o equilíbrio e despencou da escada.

Deveria ter sido uma jogada bem-sucedida, mas quando eu agar­rei a borda do alçapão para me impulsionar cavidade acima, a ma­deira comida pelos cupins se despedaçou e ficou nas minhas mãos. Eu desci alguns degraus, o suficiente para ele me agarrar. Ele pegou a parte de baixo das minhas pernas e me puxou para baixo. Dessa vez, eu não consegui me soltar.

Ele me levou à força para fora da sala, escada retorcida abaixo, até o térreo da igreja e porta afora. No meio-fio, um Range Rover acelerou.

Alguém abriu a porta lateral. O brutamontes me atirou de cara no chão, lugar onde deveria estar o banco traseiro, que havia sido remo­vido. Lá dentro, eu distingui o vulto de outro homem. Quando tentei levantar a cabeça, uma bota pesada esmagou minha cara no chão. O sangue jorrou dentro da minha boca quando meus incisivos cortaram o tecido mole do meu lábio inferior. Cuspi sujeira e óleo de motor.

Uma mão adentrou o bolso da minha calça.

  • Olhe para cima — disse o homem. — Cadê suas chaves?

Eu não ia ajudar.

  • Devo ter perdido na torre.

A manobra não funcionou. Ele abriu a janela e disse algo para o comparsa do lado de fora, chamando-o de Shim. Devia ser o George Shimsky que Tomas Zakar havia mencionado. Um minuto mais tarde, meu paletó foi atirado no assento da frente. As chaves foram retira­das, e nós partimos, deixando Shim para trás.

Se eles estavam me levando de volta para casa, eu estava quase dizendo que nunca iam conseguir passar pelo porteiro. Mas eu me segurei. Eles que caíssem na própria armadilha.

Um telefone tocou. Eu ouvi o motorista atender.

  • Sim? - Voz de mulher. - Nós estamos com ele e estamos a cami­nho. Um minuto. - Eu a ouvi procurar alguma coisa. - OK. Está co­migo. Sim, nós estamos quase aí. - Um intervalo de silêncio enquanto ela ouvia. - Não desta vez - respondeu ela, e desligou o telefone.

A voz pertencia a Eris.

Nós paramos depois de menos de dez minutos. As luzes internas se acenderam.

  • Sente-se - ordenou o homem.

A porta do motorista se abriu e voltou a fechar com uma batida. Tec, tec, tec - som de sapatos de salto alto no asfalto. As batidas de­ram a volta pela frente do veículo e pararam ao lado da minha porta. Quando ela se abriu, Eris estava diante de mim. O cabelo platinado brilhando sob as luzes da rua.

Ela me examinou.

  • Você está com sangue no rosto. Não posso levar você para dentro assim. - Ela enfiou a mão na bolsa e tirou um lenço de pa­pel, inclinando-se na minha direção. Por um instante, eu pensei em agarrá-la, mas as chances de não dar certo eram muito grandes.

Senti as leves notas de especiarias do perfume dela quando ela se inclinou.

  • Tudo bem - disse ela. - Você vai colocar o braço à minha volta e vai me levar até o elevador. Nós dois estamos voltando de uma festa. Estamos levemente bêbados. Quando vir o porteiro, você vai sorrir. Nem tente escapar. Você não é páreo para nós.
  • Verdade? Da última vez, eu consegui.

Isso não melhorou o humor dela. Ela me jogou meu paletó, man­dou-me vesti-lo e puxou uma arma, pressionando-a de lado, perto demais para que ficasse visível para mais alguém. Nós seguimos para o hall de entrada enquanto o segundo homem ia embora com o carro.

Olhei para o balcão. Nem sinal do Amir. Em noites tranqüilas, ele saía para um cafezinho. Ele não poderia ter escolhido uma hora pior.

Eris afastou-se abruptamente tão logo nós entramos no elevador e se encostou na parede, apontando a arma para mim. Tentei fazer cara de corajoso, mas por dentro meu coração saltava como o de um passarinho ferido. Eu me consolei com o pensamento de que isso estava acontecendo porque ela queria alguma coisa de mim. Tudo o que eu precisava fazer era cooperar.

Nós saímos do elevador para o corredor vazio. Passando pela porta do apartamento de Nina, ouvi o som à toda, tocando Jay-Z, e as vozes da festa atingindo o último volume. Se eu gritasse, ninguém ia me ouvir. Parecia que meu prédio inteiro estava conspirando con­tra mim.

Ela me entregou as chaves para abrir a porta e me fez ir direto para o meu quarto. Pelo canto do olho, notei que a porta da sacada ainda estava aberta. Em uma breve alucinação, eu me vi atirando-me por ela, escapando das inevitáveis balas, passando por cima da grade e caindo no terraço de baixo. As pessoas faziam isso nos filmes e, de algum jeito, sempre sobreviviam.

Eris pegou alguma coisa na bolsa e veio em minha direção. Um spray. Eu me lembro de querer dizer alguma coisa e abrir a boca quando a nuvem atingiu o meu rosto. Senti um aperto no peito, e o mundo me escapou.

 

- Mexa as pernas - mandou a médica.

Tentei e não consegui.

  • Você está paralisado. Era isso o que eu temia.

Não era a voz da cirurgiã sisuda que havia me costurado no hos­pital, mas a de uma médica angelical. O cabelo cintilava como prata sob a luz; os olhos azul-gelo, circundados por cílios loiros, eram cris­talinos e lindos.

O rosto do anjo se transfigurou no de Eris.

Uma onda de terror me invadiu.

Eu estava prostrado na minha cama, nu da cintura para cima, os pulsos presos na armação da cama com algemas que pareciam gigantes fechos de embalagem de pão de fôrma. Tentei me erguer, rolar, mexer as pernas ou mesmo o dedão do pé. Comecei a urinar e não consegui me controlar. Da pelve para baixo, meu corpo parecia um peso morto.

Tentei falar, mas minhas palavras saíam como o ganido de um cão moribundo. Eu pigarreei algumas vezes antes de conseguir murmurar:

  • O que você fez comigo?
  • Nós precisamos conversar.
  • Sua vaca.
  • Não use esse palavreado comigo.
  • Me diga o que você fez.
  • Você foi inutilizado. Como o motor de um carro com algumas velas removidas.
  • Foi isso que você usou em Hal?

Eris franziu a testa.

  • Não estamos aqui para falar de Hal. Você ainda pode usar os braços. Me conte onde a inscrição está escondida ou eu vou arrancar mais algumas velas.

Eu baixei a voz deliberadamente para forçá-la a chegar mais per­to. Se ela se aproximasse o suficiente, eu poderia tentar acertar a cabeça dela com a minha e fazer algum estrago.

Ela não mordeu a isca.

  • Fale mais alto. Não estou te ouvindo.
  • Eu já disse que não sei. Meu irmão a trouxe para cá. Hal a roubou de um depósito e a escondeu em algum lugar. Você o matou, então você se ferrou.
  • Esta noite, você se encontrou com um homem, Tomas Zakar. Acho que vocês dois devem ter conversado sobre como recuperar a inscrição. Não adianta mentir. - Ela me examinou mais de perto, mas manteve distância suficiente para que eu não pudesse tocá-la. - Você vai agüentar isso tudo?
  • Quero saber o que você aplicou em mim — falei com rispidez.
  • Você é mole, John. Não tem idéia do que é ter medo de ver­dade. - Ela estava sentada em uma cadeira ao meu lado, em um ângulo que me permitia vê-la facilmente. Tinha tirado o cardigã. Na parte de cima do seu braço havia uma tatuagem verde, um círculo com uma cruz saindo da parte de baixo, o símbolo do sexo feminino. A imagem que eu havia visto na Vênus, no site de alquimia.

Fiquei observando enquanto ela levantava a blusa até a linha dos seios. A barriga inteira era entrecortada por vergões e cicatrizes ver­melhas. Não havia um centímetro de pele normal visível.

Ela abaixou a blusa.

  • Eu sei algumas coisas sobre dor. Posso te ensinar, se você quiser.
  • Como isso aconteceu?
  • Combatendo na Bósnia. Agora comece a cooperar. Não lhe resta muito tempo.
  • Isso é uma causa perdida. Eu já disse que não tenho nem idéia de onde ela está. - Evidentemente, eu havia calculado mal a idade dela na festa. Se ela havia participado da guerra na Bósnia, era muito mais velha do que eu tinha imaginado.

Eu estava sentindo a sensibilidade voltando às minhas pernas? Tive a impressão de que sentia a maciez dos lençóis e uma dor me queimando as pernas.

  • Você está me cansando - suspirou Eris.

Ela pegou uma seringa com um líquido leitoso na bolsa.

  • Isso se chama Gato da China. É heroína adulterada para ficar mais pura. Se eu a injetar em você, você morre. - Senti a ponta da agulha me arranhando a pele quando ela se inclinou na minha direção.

Eu precisava lhe dar alguma informação.

  • Tudo bem, vou contar. Mas afaste essa agulha de mim.

Ela fez pressão e a enfiou na minha carne.

  • Então fale.
  • Hal deixou uma indicação de onde encontrá-la.

Eris hesitou.

  • Olhe, eu não quero morrer por um pedaço de pedra.

Senti a picada da agulha quando ela a enfiou mais ainda.

  • Isso não é o suficiente.

Senti minhas pernas de volta por um momento, um calafrio su­bindo pela sola dos pés para a canela. Era a minha imaginação ou a droga estava perdendo o efeito? Mas isso não adiantaria nada se ela usasse a agulha. O medo me penetrou as entranhas. Nesse momento, eu me lembrei da cópia do jogo de Hal.

  • Você não conheceu Hal. Se ele tivesse de escolher entre sair com a Beyoncé e jogos de tabuleiro, ele escolheria os jogos. Ele deixou um mapa revelando a localização na forma de um enigma. Ainda não consegui desvendá-lo, mas vou conseguir.
  • Onde ele está? - Os olhos dela se iluminaram.
  • Olhe no meu bolso de trás.

Ela puxou a agulha e enfiou a mão no meu bolso. Fiquei aliviado quando ela retirou o pedaço de papel - eu não tinha certeza se ele ainda estava lá.

Eris ficou olhando fixamente para ele, como se fosse o mapa das minas do rei Salomão.

  • Nós vamos ficar com isso. Talvez não precisemos mais de você, no fim as contas.

Isso significava que eu estava livre ou que ia ganhar um braço cheio de heroína?

  • Vocês precisam de mim, sim - eu disse. - Só uma pessoa que o conhecia bem pode resolvê-lo.
  • Você está querendo dizer que é algum tipo de código?
  • Algo assim. Um código de palavras. Provavelmente, uma série de anagramas.
  • Me mostre.

Tentei levantar a cabeça, mas estava fraco demais.

  • Agora eu não consigo, mas você nunca vai encontrá-la sem mim. Vai dar adeus a uma fortuna.
  • Nós temos outras opções...

Quando eu tentava olhar para ela, ela entrava e saía de foco.

Vozes surgiram do lado de fora da minha porta da frente, segui­das por batidas fortes.

- John... John, você está aí? - Uma série de risadinhas. Era Nina, emergindo da festa barulhenta como um texugo saindo da toca.

Uma voz de homem se seguiu:

  • Ele não está. Vamos entrar e pegar, querida.

Nina de novo:

  • Ele disse que vinha para a festa. E se ele aparecer? - Mais risinhos. - Talvez nós não devêssemos entrar.

"Nina, você precisa entrar. Não vá embora", rezei.

Eris se levantou, alarmada, deu alguns passos em direção à porta do quarto e ficou ouvindo.

O homem de novo:

  • Me dê a chave. Eu entro e pego.

"Abra a porta. Deus do céu, abra logo", rezei.

  • Não, é melhor eu abrir. Ele pode estar aí. Ele não te conhece.

Barulho de alguma coisa raspando. A porta sendo aberta com um estrondo. Cochichos.

Eris me lançou um olhar fulminante e fez sinal para eu ficar quieto. Ela enfiou o enigma na bolsa, bagunçou o cabelo e abriu alguns botões.

Nina falou de novo:

  • Eu estou encanada, e se ele estiver no quarto?
  • Onde ele o guarda?
  • Na sala de jantar.

Os pés deles se arrastaram sobre o carpete. Eris saiu para a sala.

  • Oi - eu a ouvi dizer. - Não é uma boa hora, sabe?

Nina engasgou.

Tentei gritar, mas a droga ainda tinha um efeito devastador sobre as minhas cordas vocais.

  • Oh! - ouvi Nina dizer - Desculpe, eu achei que não tivesse nin­guém em casa. Sou a vizinha do John.

Juntei todas as minhas forças e as canalizei para a voz:

  • Nina, não dê ouvidos a ela. Ela está mentindo.
  • Ele está bêbado - disse Eris rapidamente.
  • Não estou. Nina, venha até o quarto, preciso ver você.
  • Oi - A voz do homem. — Que diabo está acontecendo? - A porta da frente bateu. Nina e o homem se materializaram na porta do quarto. Em segundos, Nina passou de uma expressão de choque para uma explosão de riso de quem estava levemente embriagada. O namorado tinha um sorrisinho irritante.

Ela colocou as mãos no rosto para abafar o riso.

  • Nossa, John! Eu só queria pedir vinho emprestado. O nosso acabou. Me desculpe.
  • Cadê Eris? A mulher?

O homem perdeu o sorrisinho.

  • Ela foi embora.

Nina teve dificuldade para reprimir outro sorriso.

  • Eu nunca pensei - ela apontou para mim, na cama - que você gostasse... desse tipo de coisa.
  • Não vou nem tentar explicar. Pode pegar uma caixa inteira de vinho, só corte essas coisas antes. Há um estilete na gaveta da escri­vaninha de Samuel.

Ela encontrou o estilete e voltou. O acompanhante dela precisou cortar as algemas de plástico, porque elas eram muito duras. Quando eles terminaram, tentei passar as pernas sobre a lateral da cama, mas só consegui tombar de lado como um peixe morto. Uma onda de tontura e enjôo me atingiu. Nina, finalmente percebendo que alguma coisa estava muito errada, perguntou se deveria chamar a polícia.

  • Não, não vai adiantar nada. Será que você poderia apenas me fazer um pouco de café? Super-forte.

O namorado fez algumas observações superficiais, como se espe­rasse que estivesse tudo bem comigo, e depois se mandou de volta para a festa. Eu fiquei tentando me sentar com cuidado e, quando Nina voltou com o café, eu já tinha conseguido. Ela disse que ia ficar até ter certeza de que estava tudo bem comigo, mas eu insisti que ela voltasse para os seus convidados.

Virei todo o café e massageei as pernas. Consegui cambalear até a sala. Verifiquei se a porta estava trancada e vi minhas chaves na mesa do hall de entrada, onde eu as havia jogado. Cambaleei até o banheiro e fiquei meia hora embaixo do chuveiro.

Ouvi o chiado e o estrondo dos caminhões de lixo esvaziando os contêineres de metal do lado de fora. O barulho de uma sirene se perdeu a distância. Quatro da manhã. Fechei os olhos. Eu havia me enfiado em um buraco muito estranho. E ele parecia não ter fundo.

 

Segunda-feira, 4 de agosto de 2003, 8h05

Um pesadelo bizarro me fez acordar. Eu estava deitado de bruços na calçada de uma cidade. O concreto parecia aço derretido ao sol da tarde. Eris se aproximava. Toda vez que eu tentava rastejar para a frente e escapar dela, a palma da minha mão queimava, como se eu tivesse acabado de encostá-la no forno quente.

Estremeci, despertei totalmente e saí do sofá. Dessa vez, minhas pernas fizeram tudo o que eu mandei. Outra chuveirada absur­damente quente ajudou a dissipar a confusão que ainda serpenteava pela minha cabeça. Aparei a barba para ficar novamente apresentável e passei um pouco de pomada nos lábios. A dor latejava como uma batida de tambor ritmada. Rasguei os lençóis, fui até o corredor e os enfiei no incinerador. Pensei em bater na porta da Nina para lhe agradecer pelo resgate, mas não dava para ouvir nenhum barulho lá dentro, então supus que ela ainda estava dormindo para curar a ressaca.

Quando tentei entrar em contato com Joseph Reznick, o advo­gado criminalista que Andy havia recomendado, a assistente dele me disse que ele estava no tribunal, incomunicável até o fim do dia.

  • Posso marcar uma hora para hoje à tarde? É urgente.
  • Nem se você estivesse diante de um pelotão de fuzilamento. Mas vou avisar que você ligou.

Era uma hora boa, porém, para ligar para Walter Taylor, na Jor­dânia - lá já era meio da tarde. Mas, quando consegui falar com o es­critório dele, a secretária me disse que ele estava de licença por duas semanas. Ela deixaria um recado para ele, mas não podia prometer nada. Precisei me contentar com isso.

Liguei o som, peguei a cópia do enigma de Hal e me sentei com um café no balcão da cozinha para tentar resolvê-lo com novos olhos. A primeira música que eu coloquei foi R. Kelly cantando "If I Could Turn Back the Hands of Time". Ótima música, grande vocalista. Uma vez eu peguei um avião e atravessei metade do país só para vê-lo cantar ao vivo. Mas a música me distraía.

Desliguei o som e me concentrei no enigma. A disposição das pala­vras no quadro estava errada. Dois grupos de palavras estavam total­mente separados. Nesses jogos, pelo menos uma palavra precisa fazer uma ponte entre os dois lados. Se eu colocasse um s no fim da palavra busca, um e e um a acima do s, isso criaria uma ponte. Mas a pala­vra resultante tinha de caber nos doze espaços, então não dava certo. Examinei o resto do quadro. O jogador hipotético havia desperdiçado uma boa chance de acrescentar palavras partir do t que aparecia na sétima linha da sexta coluna contando do alto, do lado esquerdo.

Tive um estalo. Tentei retê-lo, mas era como a lembrança de um sonho a me provocar antes de desaparecer completamente. Experi­mentei várias combinações de palavras por mais meia hora, e não cheguei a lugar nenhum.

Levantei, espreguicei-me e, com mais um café, fui dar uma olhada no escritório de Samuel. A porta estava entreaberta. Com certeza, Eris havia vasculhado tudo enquanto eu estava desacordado. Eu que­ria ler o Livro de Naum, mas, quando abri a porta, meus olhos re­caíram sobre livros que haviam sido atirados em uma pilha no chão. Olhei para cima e vi que a parte da estante reservada para os registros dele estava vazia. Fiquei de gatinhas e, examinando os livros e os papéis espalhados pelo chão, eu os encontrei. Trinta ao todo. Uma vida toda de registros de viagens, observações e pensamentos privados.

Os registros de Samuel não eram bem diários, mas um amon­toado de observações, relatos de acontecimentos ou anotações feitas durante viagens, comentários pessoais e, às vezes, até esboços. Os vo­lumes eram encadernados em couro verde-floresta, e todos estavam rotulados com o período de tempo ao qual se referiam. Eu os organi­zei, colocando as datas mais próximas na parte de cima, e encontrei o mais recente, de janeiro de 2001 a dezembro de 2002.

A primeira página me surpreendeu. Ele havia colado uma foto, um relevo assírio do Palácio de Senaquerib. Eu o havia visto no Mu­seu Britânico. Retratava soldados chicoteando prisioneiros de guerra hebreus; as estrias com aparência de matelassê ao fundo serviam para representar uma floresta.

Abaixo da imagem havia algumas anotações que ele havia feito com base em um livro chamado A Bíblia desenterrada, de Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman:

Em 772 a.C., Sargão II arrasa a Samaria. Fim da linhagem de reis israelitas. Samaria totalmente destruída. Israelitas deportados para a Assíria.

 

Os registros também descreviam como Senaquerib se vingou da Judéia:

 

Quanto a Ezequias, rei de Judá, ele não se submeteu ao meu jugo. Eu sitiei quarenta e seis das suas cidades fortificadas, fortes murados e incontáveis povoados nas suas vizinhanças, e os conquistei por rampas de terra bem batida e aríetes... Expulsei duzentas mil cento e cinqüenta pessoas e gado além da conta, e os considerei como recompensa de guerra.

 

Isso tudo tinha alguma relação com a inscrição? Teriam os ances­trais de Naum, os avós talvez, vindo da Samaria e passado por isso? As hipóteses de Naum ter sido deportado para a Assíria como tributo e ter sido forçado a trabalhar como escriba estavam ficando mais fortes.

Eu sabia que reis assírios estabeleceram o primeiro império ver­dadeiro. Estados anteriormente vassalos, como a Judéia, foram con­vertidos em províncias com governadores nomeados, sob controle direto dos assírios. Os Estados que resistiram foram queimados, sa­queados e submetidos a deportações em massa - as primeiras limpe­zas étnicas.

Em defesa da Assíria, Samuel uma vez me havia dito: "Quem escreve a história é o que conta. A nossa imagem dos assírios e babi­lônios veio do Antigo Testamento. Assim, a sua história, escrita por inimigos, lança sobre eles uma luz totalmente negativa. Só no fim do século XIX, quando a interpretação das tabuletas com escrita cuneiforme começou, surgiu uma imagem diferente".

Samuel tinha muito respeito pelos assírios, mas reconhecia que al­guns reis eram tiranos. Senaquerib destruiu a Babilônia de tal forma que só restou junco e mato. Por outro lado, seu filho, Assaradon, pas­sou boa parte do seu reinado restaurando o esplendor da Babilônia. Assurbanípal foi um grande estudioso que reuniu a famosa biblio­teca de tábuas de barro encontrada em Nínive e ajudou os elamitas persas a ficar vivos, enviando-lhes comida. Mas ele tinha um lado sombrio e se deleitava com punições violentas. Fixava correntes nos lábios dos prisioneiros de guerra com um cruel anel de ferro. Eu me lembrava de ter lido um relato em que ele fez um banquete sob uma árvore da qual pendia um fruto particularmente repulsivo. Assur­banípal havia decapitado o inimigo, cuspira e fizera cortes no rosto dele, e depois suspendera a cabeça na árvore.

Folheei um pouco mais o registro de Samuel e vi que ele havia identificado reis de alguns Estados obscuros: o rei Asa, de Manai, e o rei Mita, dos mushki. Por que ele estaria interessado nesses governan­tes pouco conhecidos?

Apanhei a placa de cobre que estava sobre a mesa dele. Meu ir­mão tinha mandado fazer uma inscrição com uma maldição assíria, do rei Assurbanípal.

 

Quem quer que conquiste a inscrição, ou grave seu nome nela, lado a lado com o meu, que Assur e Belit o destituam com ira e fúria, e que destruam seu nome e a posteridade do país.

 

Samuel costumava brincar que esse era o primeiro direito auto­ral, e dizia que os editores modernos adorariam ter o poder de um rei assírio. Agora, ao olhar para ela, a maldição assumia nuances agourentas, e eu me perguntei se ela teria conservado uma parte do seu poder através dos séculos. A inscrição de Naum havia realmente sido "conquistada". Duas vezes, eu havia descoberto. E Samuel e Hal estavam mortos por causa dela.

A pequena coleção de relíquias de Samuel era composta quase que totalmente por objetos resgatados, itens que ele havia coletado de comerciantes e que teriam acabado nas mãos de particulares de qualquer forma. A carreira havia sido motivada pelo desejo de res­taurar histórias culturais. "Os nomes são importantes," dissera ele uma vez, "eles moldam quem nós somos. Quando eu era menino, ficava intrigado com o meu homônimo, o profeta Samuel, que recuperou a Arca da Aliança. Eu decidi então que o trabalho da minha vida seria resgatar artefatos, nossos pontos de referência históricos."

Um objetivo louvável, mas dessa vez ele havia exagerado. Quem poderia saber quais conseqüências aquilo poderia acarretar?

Encontrei a Bíblia de Samuel e procurei o livro do profeta. Nas raras vezes em que eu havia lido a Bíblia, eu sempre tinha dificul­dade com a linguagem antiquada, mas achei Naum surpreendente­mente fácil de ler.

 

Livro da visão de Naum, o elcosita

Capítulo segundo

2:1 Eis sobre as montanhas os pés daquele que traz a boa-nova, que anuncia a paz! Celebra as tuas festas, ó Judá, cumpre os teus votos, porque aquele que é mau não passará mais por ti, ele está total­mente isolado.

2:2 Um martelo está diante da tua face; guarda as defesas, vigia o ca­minho, cinge os rins, fortalece o teu poder com vigor!

2:3 Pois o Senhor restaura o orgulho de Jacó, assim como o orgulho de Israel; pois os esvaziadores os esvaziaram, e danificaram os ramos da sua vinha.

2:4 O escudo de seus homens vigorosos é coberto de vermelho, os ho­mens valorosos estão vestidos de escarlate; as carruagens são fogo de aço no dia da sua preparação, e as lanças de cipreste são balançadas.

2:5 As carruagens correm loucamente pelas mas, batem umas nas ou­tras nos lugares amplos; a aparência delas é como a de tochas, elas correm para cá e para lá como raios.

2:6 Ele chama os seus poderosos; eles tropeçam em sua marcha; cor­rem apressadamente para a muralha e a proteção está preparada.

2:7 As portas do rio estão abertas, e o palácio, enfraquecido.

2:8 E a rainha está descoberta, foi levada embora, suas servas gemem com a voz das pombas, batendo no peito.

2:9 Mas Nínive sempre foi como um tanque d'água; e mesmo assim eles fogem; "Parem, parem", mas ninguém olha para trás.

2:10 Levem todo o espólio de prata, levem o espólio de ouro; o supri­mento não tem fim, opulento, com todos os objetos preciosos.

2:11 Ela está vazia, desconsolada e devastada; e o coração definha, os joelhos vacilam, todas as entranhas entram em convulsão e todas as faces assumem um ar sombrio.

2:12 Onde está o covil dos leões, o lugar em que os leõezinhos eram alimentados, onde o leão, a leoa e os filhotes caminhavam, e nada os assustava?

2:13 O leão rasgava em pedaços para seus filhotes e estrangulava para suas leoas, enchia suas cavernas de presas e seus covis de despojos.

2:14 Eis-me contra ti, disse o Senhor dos Exércitos, e vou queimar tuas carruagens, elas vão virar fumaça, a espada devorará teus leõezi­nhos; e eu vou separar a tua presa da terra, e a voz de teus mensa­geiros não será mais ouvida.

 

Capítulo terceiro

3:1 Ai da cidade sanguinária! Está cheia de mentiras e rapina, a presa não morre.

3:2 Ouça! o chicote, e ouça! as rodas chacoalhando; cavalos galopando e as carruagens correndo;

3:3 O cavaleiro ataca, e a espada reluzente, e a lança cintilante; e uma multidão dc feridos, uma pilha de carcaças; cadáveres sem-fim, e eles tropeçam nos seus cadáveres;

3:4 Por causa dos inúmeros serviços da prostituta que recebe as aten­ções, a mestra das feitiçarias, que vende as nações por suas prosti­tuições, e famílias por suas feitiçarias.

3:5 Eis-me contra ti, diz o Senhor dos Exércitos, e eu levantarei tuas saias até a face, e mostrarei às nações tua nudez e aos reinos tua vergonha.

3:6 Jogarei sobre ti coisas detestáveis, e tornar-te-ei desprezível, e serás como esterco.

3:7 E o que há de acontecer, todo aquele que te vir fugirá de ti, e dirá, "Nínive está devastada; quem vai chorar por ela? Onde posso pro­curar consoladores para ti?"

3:8 És melhor do que No-Amon, situada entre os rios, que tinha águas ao seu redor; cuja proteção era o mar, e de mar sua muralha?

3:9 A Etiópia e o Egito eram a tua força, e ela era infinita; Fut e os líbios eram teus auxiliares.

3:10 Pois ela foi para feita cativa; suas crianças tiveram as cabeças feitas em pedaços em todas as ruas; e elas lançaram a sorte de seus ho­mens honrados, e todos os seus grandes homens foram presos em correntes.

 

Coloquei o livro de lado, decepcionado. As passagens não lan­çavam nenhuma luz sobre a questão central — que grande segredo Samuel havia encontrado nas palavras de Naum?

 

A última vez que eu havia verificado os meus e-mails tinha sido an­tes da festa de Hal - tempo demais. Olhei as mensagens. Depois de apagar todos os spams e salvar as coisas que não tinham urgência, sobraram duas. A primeira, de Diane:

 

John, aquele problema que você mencionou. Como você pôde pedir a uma amiga para mentir sobre uma coisa dessas? Um homem morreu! Eu contei a verdade.

"Curto e direto ao ponto: acho que ela tem uma certa razão."

A segunda mensagem era de Eric Nolan. Um Holbein ia ser lei­loado naquela semana. Da última vez que a obra tinha sido ven­dida, havia alcançado a casa dos milhões. Eric queria que eu o representasse; a comissão era tentadora. A última mensagem dele, enviada de manhã, dava um prazo até a tarde para a resposta. Agora era uma e quarenta. Como eu poderia arranjar tempo para pesqui­sar a procedência da obra e aparecer em um leilão com essa ameaça pairando sobre a minha cabeça? Escrevi uma mensagem para Eric me desculpando e amaldiçoei a minha falta de sorte.

 

Continuar a trabalhar no desafio de Hal era a minha prioridade, mas eu ainda estava meio devagar por causa da droga e precisava de um lugar para pensar e respirar um pouco de ar fresco. Eu queria es­capar do barulho da cidade e do zunido constante do tráfego. Sentir o sol no rosto.

Ao sair do prédio, fui atingido por uma onda de calor. Estava tão quente do lado de fora que dava para fritar hambúrgueres na calçada. O ar estava pesado, como se estivesse fazendo pressão sobre os meus ombros; o céu estava com uma cor amarelo-amarronzada no horizonte, por causa das emissões dos milhares de carros. Um cheiro de enxofre emanava das grades do esgoto, fazendo-me lembrar de que, como em uma cidade antiga, havia outra metrópole sob Manhattan: uma rede de canos, túneis de metrô perdidos, antigas pedreiras, riachos subterrâneos, tudo enterrado há muito tempo.

Peguei meu carro no estacionamento da Thompson, onde eu o deixava, e enfrentei o tráfego matinal para chegar a Coney Island, ponderando sobre o jogo de Hal enquanto dirigia.

Quando eu estava indo para um gramado tranqüilo, com vista para a praia, vi uma sereia parada no calçadão, distribuindo folhetos. Ela estava com uma peruca estilo Lady Godiva pálida e sedosa que descia pelas costas; os cílios pretos bem destacados eram tão longos quanto o seu dedo mindinho. A parte de cima do corpo estava envolta em chiffon, deixando transparecer os seios, mas sem revelá-los totalmente. Um longo rabo de peixe de lantejoula completava a fantasia; dava para ver a ponta dos sapatos de cetim verde na parte de baixo. O Desfile de Sereias de Coney Island tinha sido em junho, ela estava um pouco atrasada.

Encontrei um banco vazio e me sentei. Grupos de mulheres jo­vens estavam deitadas em esteiras, jogando vôlei, passeando na beira da água. Um aroma de óleo de coco e baunilha flutuava na brisa. Uma das jogadoras de vôlei estava usando apenas a parte de baixo de um biquíni vermelho-vivo e um top minúsculo mal amarrado. Toda vez que ela saltava para acertar a bola, os seios pulavam para fora. Ela parecia ter muita prática, batia na bola e puxava o top para baixo antes que os pés tocassem o chão novamente.

"Não é um bom lugar", pensei, "para um homem que precisa se concentrar."

Eu havia voltado a atenção para o enigma de Hal quando meu celular tocou.

- John Madison?

  • Sim - eu disse. - Quem fala?
  • Joseph Reznick. Você conversou com a minha secretária mais cedo. Disse que precisava falar comigo urgentemente.
  • Obrigado por retornar minha ligação. Andy Stein me disse que eu devia entrar em contato com você.
  • Certo, agora eu me lembro.
  • Será que nós podemos nos encontrar para falar sobre a minha situação?
  • Que tal por volta das cinco? Você pode?

Eu teria resolvido o enigma até lá? Poderia me dar ao luxo de passar uma hora longe dele? Não, eu precisava continuar tentando.

  • Será que poderíamos marcar para amanhã? - O cara devia es­tar achando que eu era um idiota completo, solicitando uma reunião urgente e depois pedindo para adiá-la. Se ele pensou isso, não deixou transparecer.
  • Bem, amanhã, na verdade, é melhor para mim. Nessa mesma hora?
  • Pode ser.
  • Você já foi interrogado pela polícia?
  • Sim, a coisa foi meio feia.
  • Não havia ninguém para representá-lo?

- Não.

  • Não se apresente se eles quiserem te interrogar novamente. Se eles fizerem uma acusação, dê o seu nome e nada mais. Em algum momento, eles vão precisar te autorizar a chamar um advogado. Não diga nada até nós termos a oportunidade de conversar. Nada de interrogatório sem eu estar sentado ao seu lado. - Ele me deu seu número pessoal e me disse para ligar imediatamente caso a polícia me procurasse de novo.
  • Muito obrigado. A propósito, Andy me disse que você poderia verificar a minha situação.
  • Eu tenho bons contatos. São dois problemas, o acidente e a morte de Hal Vanderlin. Quanto ao segundo, as coisas estão soltas no ar; eles não têm muita coisa, mas ainda é cedo. Quanto ao aci­dente, a polícia está bem confiante. Só há uma coisa impedindo que eles te acusem por imprudência ao volante. Mas vamos deixar isso para a reunião. Você pode me ligar a qualquer hora, se precisar.

Encerrei a ligação, contente por ter pelo menos uma pessoa do meu lado. Se eles realmente me acusassem e conseguissem algo con­vincente, eu poderia ir para a cadeia. Só de pensar nisso, já fiquei enjoado.

As novidades me deixaram agitado a ponto de não conseguir mais me concentrar no jogo de Hal como eu pretendia. Olhei ao redor, as coisas à vista, os sons, tentando desanuviar a cabeça. No banco vizi­nho, um homem e dois meninos estavam almoçando, com um monte de embalagens de fastfood amontoadas em volta. As crianças, vestidas de forma idêntica, com camisetas listradas, shorts azuis largos quase nos joelhos e sandálias, pareciam ter uns seis anos. Elas ficaram se provocando durante a refeição. Uma roubava uma batata frita, a outra atirava embalagens de ketchup nele. Eu supus que o homem fosse o pai, porque ele ficava dando ordens com uma autoridade que é território exclusivo dos pais. A maior parte das observações era dirigida ao menino de cabelo escuro, o que jogava coisas, e que, devo admitir, era o mais pestinha. A briga era irritante.

Eu me virei de lado e estiquei as pernas, jogando a cabeça para trás para aproveitar o sol. Pensei nos muitos dias de infância passados com Samuel e me perguntei se alguma coisa dentro do pequeno baú que ele havia me dado poderia ter relevância para a minha busca. Eu conhecia o conteúdo muito bem, já o havia manipulado muitas vezes ao longo dos anos: as sete moedas de ouro com imagens misteriosas, o medalhão de cobre, a chave dourada. Nada parecia ter relação com a inscrição.

Gritos interromperam minhas divagações. Os dois meninos ha­viam se afastado, e a provocação tinha se transformado em guerra declarada. O de cabelo claro estava batendo no irmão com um taco de beisebol de plástico laranja. O de cabelo escuro se desviava, ia para trás e depois voltava e dava um chute. Uma das sandálias dele tinha caído. Os dois estavam gritando a plenos pulmões. O pai tinha ficado para trás, hipnotizado pelo biquíni vermelho. Os gritos das crianças o trouxeram de volta para o mundo real. Ele saiu como um touro que­rendo atingir o toureiro. Agarrou o menino de cabelo escuro e deu-lhe uma palmada no traseiro com força suficiente para que eu ouvisse o golpe de onde estava sentado. O menino urrou e começou a chorar. Eu me encolhi pelo segundo menino, que já devia saber o que o esperava.

Mas não. O homem se agachou e deu um abraço nele, falando com calma. Ele apanhou o taco de beisebol, pegou a mão do menino e o levou até o carro. O menino de cabelo escuro ficou.

O cara simplesmente entrou no carro, com o motor ligado. Fi­nalmente, ainda chorando, porém mais calmo, o menino foi até o carro e entrou. Quando eles foram embora, soprou uma brisa que espalhou as embalagens de comida e os papéis.

"É assim que começa", pensei. "Ter preferência por um filho. Aquela criança vai crescer com raiva do mundo inteiro."

Voltei a atenção para a inscrição e retomei os fatos. Samuel havia reconhecido o texto de Naum como sendo um livro profético do An­tigo Testamento chamado A Ruína de Nínive. Depois de alguém tentar roubá-la, ele não deixou mais ninguém vê-la. Ele acreditava não só que o texto era genuíno como também continha uma mensagem oculta. Voltada a quê? Alguma coisa a ver com processos da alqui­mia para fazer ouro. Isso seria produto da imaginação de um velho ou poderia haver alguma verdade nele?

Outra ligação interrompeu a minha linha de raciocínio.

  • Ainda bem que eu consegui falar com você - disse Laurel assim que eu atendi.
  • Está tudo bem? — perguntei. A voz dela parecia abalada, como se tivesse andado chorando de novo.
  • Não. Aquela mulher que você descreveu... Eris?
  • Isso mesmo.
  • Ela tentou chegar a mim. Eu estava sem o que comer no café da manhã. Na volta do Gristedes, tive a estranha sensação de estar sendo seguida, e Gip a pegou tentando subir, fingindo que tinha al­guma coisa para me entregar. Ela foi embora quando ele começou a fazer perguntas.
  • Ela provavelmente fez uma busca na casa e não encontrou nada, então agora está tentando vasculhar o seu apartamento.
  • Boa sorte para ela! Passei os últimos meses tentando separar as coisas da Mina, ajudando Hal a decidir o que vender. Acho que eu saberia se ele tivesse escondido alguma coisa aqui.
  • Ele pode ter escondido enquanto você não estava em casa.
  • - Ela não pareceu estar convencida.
  • E se eu fosse até aí? Você não deveria ficar sozinha.
  • Você poderia? Eu me sentiria melhor.

Liguei o rádio no caminho de volta. "Money for Nothing", do Dire Straits, começou a tocar. Se a música ajudou a dar clareza ao meu raciocínio eu não sei, mas, quando pensei sobre os signifi­cados ocultos que a profecia de Naum poderia ter, tive um estalo de novo, só que dessa vez funcionou. Eu tinha resolvido o enigma de Hal.

 

Quando subi, Laurel me recebeu com um beijo no rosto. Não posso negar que estava gostando de fazer o papel de salvador.

  • O que aconteceu com os seus lábios? - Ela tocou no inchaço no meu rosto.
  • Não foi nada. Estou mais preocupado com você. E tenho boas novas. Talvez eu tenha encontrado a resposta para o enigma de Hal.
  • Sério?

Saímos da sala íntima e fomos para o escritório, onde eu lhe fiz um esboço.

  • Estão faltando quatro letras: r, a, n, s. Hal não usou todas as le­tras disponíveis de propósito. Todas as palavras do quadro deveriam estar interligadas, mas os grupos da esquerda e da direita não es­tão ligados. Eu precisava procurar uma palavra para fazer a ligação. Colocar as letras que faltavam entre otea palavra mutação gerou a palavra correta: transmutação, a forma de transformar metais comuns em ouro.
  • Minha nossa! - disse Laurel. - Que vergonha, não sei como não vi isso. Não foi muito inspirado, Hal costumava ser mais criativo.

Eu já havia salvado a imagem do segundo desafio no meu Black-Berry, então Laurel não viu como eu havia feito a transição. Abri a imagem e mostrei para ela.

  • Você reconhece? - perguntei.

— É claro. Melancolia 1, de Albrecht Dürer. Está pendurado no es­critório de Hal.

Só havia dois espaços a serem preenchidos dessa vez. Tentei a res­posta óbvia, as iniciais de Dürer, A e D, e depois os equivalentes nu­méricos das iniciais, um e quatro, mas nenhum dos dois funcionou.

  • Hal alguma vez mencionou algo em particular de que ele gos­tava na gravura?
  • Não estou certa. Ele adorava Dürer e M.C. Escher porque eles compreendiam a matemática do espaço e a ligação entre os números e as artes visuais. — Ela pensou por alguns minutos. — Nada me vem à cabeça quanto a algo específico de que ele gostasse.
  • O que ele queria na realidade? - Eu estava desesperado. - Não tenho tempo para perder com isso. Ele vai simplesmente ficar me enrolando?
  • Conhecendo Hal, alguma coisa ainda está por vir. Ele não tirou esses enigmas do nada. Eles apontam para um significado, algum tipo de tema subjacente. Como você passou do primeiro enigma para este?

Eu fugi da pergunta.

  • Você está dando a ele mais crédito do que ele merecia. Hal não passava de um ladrão. Graças a ele, minha vida virou um inferno.

Laurel ficou uma fera.

  • E o dinheiro todo que você ganhou vendendo a coleção do pai dele? É bem conveniente para você se esquecer disso.

A reação dela me pegou desprevenido.

  • Eu só ganhei vinte por cento. É menos do que muitos comer­ciantes pedem. E ele ainda me devia o dinheiro do empréstimo que lhe fiz.
  • Você está choramingando que o mundo não te trata como de­veria. Esse é o seu problema, John. Com Samuel ou com Hal, qual­quer um que tenha sido bom para você, você simplesmente pega o que estiver à mão. E, quando acaba, você fica furioso.

 

Eu estava prestes a perder a compostura quando lembrei que, como esposa legal dele, Laurel teria herdado o dinheiro. Com a co­leção de Peter vendida e as propriedades comprometidas, não havia restado nada para ela. Dinheiro de meio período de aulas e bolsa não dura muito em Nova York.

Ela se virou bruscamente para ficar de frente para mim.

  • Por que então você está fazendo isso? Pelo dinheiro, não é? Você disse que essa coisa era muito valiosa.
  • Não é uma questão de dinheiro. Eu quero que essas pessoas saiam do meu pé. E do seu também. Eu preciso encontrá-la. Quando encontrar, vou dar um show, fazer uma demonstração pública quando for entregá-la ao FBI. E a única forma de eles nos deixarem em paz.
  • Alguém vai acabar encontrando. Eles que resolvam o problema.
  • Não dá. Eris me atacou ontem à noite. Ela está convencida de que eu sei onde a inscrição está. Ela quer arrancar o meu couro.

Isso a deixou um pouco abalada.

  • Conte para a polícia. Eles podem resolver isso.
  • Você só pode estar brincando, não é? Depois do que aquele detetive já me fez passar? Ele não vai acreditar em nada do que eu disser.

Laurel se afundou no sofá, enfiou a cabeça entre as mãos e do­brou as pernas. Eu me sentei ao lado dela.

  • Laurie, você está passando por um momento difícil, eu sei.
  • Como eu vou fazer os arranjos para o funeral, John? A polícia mandou umas coisas que eles encontraram com Hal e que não vão ser necessárias para a perícia. Eu não agüentei nem olhar. Eles não me falam nem quando vão liberar o corpo. - Os olhos dela se enche­ram de lágrimas.
  • Você precisa sair daqui. Você não tem alguém com quem possa ficar? E os seus pais? Onde eles moram?
  • Em Dakota do Norte. Eles têm uma granja perto de Bismarck. Mas não posso recorrer a eles. Não sou bem-vinda. Digamos que existe uma certa incompatibilidade de estilos de vida.
  • Seria um bom lugar para ficar por enquanto, de qualquer jeito. Você estaria segura.

O rosto dela já dizia o que ela achava da idéia.

  • Certamente, correr para casa com o rabo entre as pernas. Minha mãe me criticava o tempo todo por causa do Hal. Precisei implorar para ele fazer pelo menos uma visita aos meus pais. Eu não deveria ter me dado ao trabalho, porque ela não o suportava. "Muito cheio de si", dizia. Ela nunca quis que eu viesse para Nova York. Ainda posso ouvi-la. "Nós temos uma universidade decente no nosso estado, por que isso não é o suficiente para você?" Ela deu uma desculpa esfarrapada para não aparecer no casamento. Quando o casamento desmoronou, sabe qual foi o comentário da minha mãe? "Bem, Loretta, pelo menos ele finalmente está fora da sua vida." Ela até riu. Eu imagino o que ela diria, levando em consideração o modo como Hal morreu.
  • Então você terá de ficar comigo até a gente achar outra solução. - Coloquei o braço ao redor do seu corpo. - Que negócio é esse de Loretta?
  • Detesto o meu nome. Comecei a usar Laurel no instante em que saí de casa.
  • Vou me lembrar disso na próxima vez que estiver bravo com você.

Ela sorriu.

  • Desculpe a reação temperamental. Eu sei que você está fazendo o que pocle. É que eu estou muito estressada. Já basta o que aconte­ceu com Hal e ter de lidar com todos os problemas das propriedades. Sério, ter de me preocupar com um grupo esquisito de assassinos... Isso é insano.

As lágrimas ficaram penduradas nos longos cílios. Ela pegou um lenço de papel para secá-las. Laurel tinha lindos olhos, com um tom acinzentado em ambientes fechados, mas verdes à luz do sol.

  • Ontem à noite acordei com uma sensação muito ruim - ela disse.
  • Eu também tive um pesadelo.
  • Não foi um pesadelo. Era só uma sensação de que tudo estava dando muito errado, como se eu estivesse presa em uma teia da qual não conseguia me libertar.
  • Você devia se mudar, pelo menos por algum tempo. Eu vou dar um jeito. Enquanto isso, vamos visitar Reed na sala dele na NYU e ver se ele tem alguma coisa para nos contar. Depois, vamos dar uma passada na galeria de Phillip Anthony. Ele é especialista em gravuras da Renascença e pode nos dar uns conselhos sobre o Dürer.
  • Tudo bem. Você pode esperar enquanto eu tomo banho e junto algumas coisas?

Aquele ambiente não ajudava a melhorar o estado de espírito de Laurel. Ela parecia perdida na casa de Mina, engolida por ela. Havia uma sensação deprimente de coisa antiquada, apesar da decoração luxuosa. Quase quatrocentos metros quadrados em dois andares, tudo vazio, fora o pequeno domínio de Laurel na sala íntima.

Olhando para fora através das portas de vidro, vi uma das gárgulas posicionada sobre uma cornija acima do terraço, uma figura alada com uma cabeça de leão mostrando os dentes e cauda de dragão, não muito diferente de um demônio assírio. As gárgulas protegiam contra espíritos do mal, por isso eram usadas nas igrejas européias. Mas essa parecia chamar o mal para dentro.

Quando Laurel voltou, parecia outra mulher. Tinha colocado um vestido com uma estampa floral verde, com a parte de cima mais justa e saia rodada, com um estilo meio hippie, que mostrava suas curvas de forma admirável. Os cabelos fartos, naturalmente casta­nhos, caíam formando cachos sedosos na base do pescoço longo. Eu gostava do fato de ela os manter assim.

 

Deixamos aquele ambiente melancólico para trás.

Decidi não pegar o carro. A NYU era logo na esquina, e a galeria de Phillip Anthony não ficava muito longe. Além disso, eu não queria que Laurel achasse que eu dirigia um carro alugado por escolha pró­pria. Meu carro esporte tinha sido destruído no acidente. Eu ficava mortificado só de lembrar.

O prédio da filosofia, uma bela construção da virada do século, de arenito vermelho, ficava a poucos minutos do Washington Square Park. Laurel mostrou o passe de aluna da pós-graduação, o que per­mitiu que subíssemos sem que Reed fosse alertado da nossa visita. Fomos primeiro até a sala de Hal. Só de olhar, já dava para perceber que tínhamos perdido tempo. O lugar tinha sido totalmente limpo. Abri as gavetas da escrivaninha. Vazias, todas elas.

  • Que rapidez! - eu disse.

Laurel olhou ao redor, irritada.

  • E a papelada dele, o computador? Onde estão?
  • Só há um jeito de descobrir.

Apesar de ter ligado antes para ter certeza de que ele estaria lá, eu não havia dito a Reed que nós estávamos indo vê-lo. Pego de sur­presa, seria mais provável ele deixar escapar alguma coisa.

Reed disfarçou a surpresa por nos ver com um sorriso ligeiro, ar­rastou a cadeira para trás e se levantou.

  • Laurel — disse ele como está você? Fiquei chocado quando soube de Hal. Sinto muito. Posso fazer alguma coisa para ajudar? É só pedir.

Ele foi abraçá-la, e ela o empurrou.

  • Você ficou chocado, Colin? Se Hal estivesse se afogando, você o se­guraria lá embaixo. Você sabia como ele era vulnerável, e mesmo assim tirou o emprego dele. Eu considero você responsável pelo que aconteceu.

Vendo que a falsa solidariedade não estava tendo um efeito favo­rável, Reed passou à rispidez habitual.

  • Não me lembro de ter marcado alguma coisa com vocês dois. — Ele lançou um olhar nada amigável na minha direção. - Hal estava afetado pelas drogas. Ele não conseguia dar conta nem das poucas aulas que eu lhe pedia para dar.

Não dava para rebater essa afirmação, mas eu não ia dar a ele o prazer de saber disso.

  • Fico feliz em ver como você se importa profundamente com os sentimentos de Laurel. Onde estão as coisas de Hal? O desktop dele sumiu. Não deixaram nada no escritório dele.
  • O computador é propriedade da universidade. Nós apagamos os arquivos, e ele já foi entregue a outra pessoa. — Ele fez um gesto em direção à porta. - Lá fora há umas caixas de plástico com os pa­péis dele e outras coisas. Laurel, fique à vontade.
  • Você é um imprestável, Colin. — Laurel deu meia-volta, saiu pela porta e se abaixou para examinar o material.
  • E então? - Ele me encarou abertamente. A agressividade não combinava com ele. O nariz achatado ficou enrugado de forma pouco atraente, e os lábios carnudos se esticaram numa careta.
  • Você estava dando em cima de uma mulher loira na festa de Hal, Eris Haines. Eu preciso falar com ela.
  • Não tenho a menor idéia. Nunca a tinha visto antes. Ela ficou se insinuando a noite inteira. Foi difícil me livrar dela.

Comecei a rir.

  • Colin, me poupe.
  • Não tenho mais nada a te dizer, John.
  • O que sua mulher ia achar disso?
  • Seu desgraçado! Você é bem capaz disso, não é? - Ele se virou, remexeu uns papéis sobre a mesa, pegou um cartão e me entregou. - Isso é tudo o que eu tenho. Faça o que quiser.

No logotipo do cartão estava escrito TRANSFORMAÇÕES em gran­des letras douradas. Embaixo, em preto, o nome de Eris, o telefone e o número do fax. Mais nada.

  • Outra coisa. A inscrição em pedra que Hal deixava no escritó­rio, você a tirou da mesa dele? Ela foi roubada do meu irmão. Eu já falei com o FBI. É melhor você entregá-la agora mesmo.

Ponto para mim. A cara de espanto dele revelou que ele não sabia nada sobre o assunto.

 

Phillip Anthony, um britânico que havia se instalado na cidade há vinte anos, vendia gravuras e pinturas em sua galeria na East 10th Street, perto da University Place. Ele havia começado a galeria com Claire Talbot, que passara de parceira comercial a esposa e depois a ex-esposa dele. Ainda dava para ver o nome dela meio apagado so­bre os tijolos, no lugar onde ficavam as letras de metal que ele havia removido. Eu conheci Claire primeiro. Ela ora fazia parte, ora não, de um grupo de amigos da Columbia. Nós dois mantivemos contato só porque nossa vida profissional nos havia aproximado. Fui total­mente a favor quando ela se separou do Phillip. Ele era insuportável, não dava para aguentá-lo nem por pouco tempo.

Phillip usava a galeria principalmente como vitrine - a maior parte das vendas que ele fazia era para clientes particulares, por va­lores consideráveis. Como eu não tinha o conhecimento necessário para resolver o enigma de Hal, precisava ir atrás de pessoas como ele.

Seu assistente nos disse que ele estava no segundo andar. Philip normalmente usava esse espaço para armazenar e restaurar quadros. Nesse dia, a sala estava vazia, o que a fazia parecer muito maior. As paredes tinham uma camada recente de tinta branca, e o piso brilhava. Esticada por toda a extensão do teto, havia uma tela com afrescos da Capela Sistina, de Michelangelo.

Laurel não sabia o que dizer.

  • Bem - começou ela, tentando achar alguma coisa educada para falar se você não pode ver a coisa de verdade, acho que é melhor do que olhar em um livro. E surpreendentemente benfeita.

Eu não teria sido tão elogioso.

Uma voz atrás de mim interrompeu meus pensamentos.

  • Um tanto ousado, vocês não acham? Quinze estudantes de arte levaram dois meses para terminá-la.

A voz pertencia a um homem alto e ossudo, de cabelo grisalho com sinais de calvície e olhos azuis, grandes como os olhos de um bebê, aumentados pelas lentes grossas dos óculos.

  • Phillip - cumprimentei. - Esta é Laurel, uma amiga minha.

Ele me deu um breve e frio aperto de mão e sorriu de forma ca­lorosa para ela.

Expliquei que ela estava fazendo doutorado em filosofia. Phillip gostava de pessoas com credenciais vistosas.

  • O que traz vocês aqui? - Ele se virou para mim. — Normal­mente nós só vemos você quando há alguma coisa a ganhar. Como um evento em que você possa conseguir alguns clientes.
  • Estou pesquisando um Dürer.

Ele tinha acabado de fazer uma observação bem desagradável. Então, eu tive um clique. Eu estava tão envolvido na nuvem de tris­teza causada pela morte de Samuel que não havia percebido. A di­minuição constante do número de convites para festas e de ofertas de trabalho.

Como cortesãos em um círculo da realeza, as pessoas influentes do nosso mundo podiam se unir contra alguém em um instante. Eu conseguia trabalho por causa da minha conexão com Samuel, e eles o adoravam. As pessoas me culpavam pela morte dele. Você pode estar no topo do mundo, mas, se tropeçar, eles vão disputar para ver quem vai dar a facada final. Não só a morte do Samuel havia produzido um nó apertado de pesar, que parecia permanente, mas podia também acabar com a minha carreira.

Fingi que não tinha percebido a frieza dele. Phillip nunca tinha gos­tado muito de mim, e nós não tínhamos começado muito bem. Eu tinha saído para beber com outros comerciantes depois de um leilão. Um deles estava comemorando sua bela vitória pagando rodadas ca­ras de Bourbon Evan Williams de 23 anos para nós. Com o passar da noite, fomos ficando muito bêbados. Phillip, vangloriando-se de seu desempenho sexual, contou-nos que uma vez ele havia agüentado uma hora e cinco minutos. Eu perguntei se tinha sido no horário de verão, na hora em que o relógio é adiantado. Não caiu muito bem.

Tentei pensar em alguma coisa positiva para dizer sobre a repro­dução de Michelangelo.

  • Isso é uma coisa inesperada para expor na sua galeria.

Ele sorriu.

  • Foi um projeto para levantar fundos. Cada painel foi patrocinado por uma empresa diferente. Nós fizemos um evento na noite passada e arrecadamos uma boa quantia, foi realmente muito bom. - Ele apon­tou vagamente na direção de Deus tocando a mão de Adão. - A IBM desembolsou dez mil só por aquele painel. Mas precisamos convencê- -los a não cobrir as partes baixas de Adão com o logotipo deles.

Laurel ficou olhando para ele de olhos arregalados. Dava para ver pela sua expressão que ela estava chocada. Ele deu um sorrisinho para mostrar que era só uma piada. Aproveitei a deixa e dei risada, mesmo sem ter a menor convicção.

  • Quanto tempo eles ainda vão ficar expostos? - perguntei.
  • Pelo menos até o final do verão. - Ele me dirigiu o olhar. - Hor­rível o que aconteceu com Hal Vanderlin.
  • Foi terrível. - Dei uma olhada para Laurel. Um leve rubor em seu rosto era a única pista de que ela tinha ficado incomodada com o comentário de Phillip.
  • Ouvi boatos sobre um problema com drogas. - Ele levantou a sobrancelha.

Eu não estava nem um pouco interessado em alimentar a fo­gueira sobre a qual a panela da fofoca do mundo das artes fervilhava, e mudei de assunto.

  • Fale do seu projeto.

Phillip ergueu o braço magro e apontou novamente para A criação de Adão.

  • Existem algumas especulações sobre o que Michelangelo quis dizer.
  • Você está se referindo à análise pop - disse Laurel. - A questão não é Deus ter criado Adão, mas justamente o contrário. Adão, que representa a humanidade, imagina Deus à sua própria imagem.
  • — Phillip deu um sorriso para ela, praticamente engolindo-a com os olhos. — Mas eu acho isso muito simplista. Um es­tudioso americano, Frank Meshberger, disse que Michelangelo, por meio da forma da imagem de Deus e das vestimentas retorcidas, queria retratar as espirais labirínticas do cérebro humano. Os pin­tores renascentistas sabiam qual era a aparência do cérebro porque dissecavam cadáveres. A cabeça de Deus é mostrada de perfil, pelo lado esquerdo, e o hemisfério esquerdo é o centro ativo da fala. A cabeça dele está justaposta sobre o arcuate fasciculus, ou o locus da fala no cérebro humano. - Ele fez um gesto teatral em direção ao teto.

Precisei segurar o riso.

  • Eis a minha teoria - continuou ele. — Embora aparentemente seja uma representação fiel do Antigo Testamento sobre a criação, o pincel provocador de Michelangelo na verdade estava dizendo que a capacidade sagrada do homem de falar, imaginar e pensar por meio de símbolos e conceitos abstratos representava sua ascensão do profano - o mundo animal. E, por isso, a divindade mora nos seres humanos e não fora deles. Adão está estendendo o braço para o po­der da palavra, não para um deus mítico.

Quando ele fez uma pausa, Laurel interferiu.

  • Como um escultor do século XVI poderia saber onde está loca­lizado o centro da fala?
  • Talvez nós não estejamos dando o devido crédito ao artista. - Phillip esfregou o queixo com os dedos distraidamente, pensando no assunto. - Um bom e velho subversivo, é isso o que eu acho que Michelangelo era.
  • Você está exagerando, Phillip - eu disse. — E só olhar para a ima­gem. A figura de Adão é flácida, lânguida, como se tivesse acabado de ganhar vida. Toda a energia e a força estão na figura de Deus. Michelangelo tinha umas diferenças com a hierarquia religiosa, mas mesmo assim tinha devoção.
  • Olhe para o resto do teto, então - insistiu Phillip. - O que os clarividentes pagãos estão fazendo no meio do que pode ser considerada a mais famosa obra de arte cristã? Os Oráculos. É realmente espantoso. Há uma sibila líbia ao lado do painel da Criação. Ele colocou uma sacer­dotisa paga no mesmo patamar que os profetas do Antigo Testamento.
  • Você está dizendo que Michelangelo promovia o paganismo? — disse Laurel.
  • A Igreja atacava os pagãos implacavelmente, mas, iro­nicamente, eles ainda são celebrados no coração da Igreja por inter­médio da genialidade de Michelangelo.

Eu já tinha ouvido o suficiente dessa pregação.

  • Phillip, Laurel e eu estávamos discutindo a gravura de Dürer, Melancolia 1. Você poderia esclarecer algumas coisas para nós? Você é o especialista.

Toquei no ponto certo. Ele se empinou todo, parecia um pavão.

  • Ah, Melancolia 1, uma das três Meisterstiche, suas obras-primas. Eu sempre achei que Dürer concorre com Leonardo. Ele também era um pintor extraordinário, e matemático. Escreveu dois livros so­bre geometria. Para apreciar sua obra, é preciso olhar para o homem em seu contexto cultural.

"Lá vamos nós de novo. Por que ele não vai simplesmente direto ao ponto?", pensei.

  • Dürer foi educado no colo do pai, um ourives aclamado, e se tornou um artista importante fazendo xilogravuras e gravuras a partir de placas de cobre. Seiscentos anos depois, ninguém o supe­rou. O pai dele se mudou para Nuremberg em 1455. - Ele levantou uma sobrancelha. - Me interrompam se já tiverem ouvido isso; eu tenho uma tendência a me estender.

Fiz sinal para que ele continuasse.

  • Eu disse que nós precisamos estar a par do contexto. Não é possível apreciar a arte renascentista inteiramente sem compreender o hermetismo, uma filosofia grega e egípcia da Alexandria do século primeiro.

"Não me diga que eu vou ter de ouvir dois mil anos de história só para conseguir algumas respostas", pensei.

  • Alexandria era cheia de vida; era, indiscutivelmente, o coração pulsante da erudição do mundo. Gontracorrentes de muitas filoso­fias. religiões e crenças corriam pela cidade.

Ele esfregou as mãos e nos deu uma pequena aula.

  • Os clarividentes egípcios, místicos judeus e gregos seguidores de Platão se reuniam ali. Os sacerdotes de Cibele, que se castravam em honra à sua deusa, desfilavam pelas ruas com mantos cor de laranja vibrante, jóias e cabelo comprido, batendo seus címbalos e seus tam­bores. O hermetismo surgiu na cidade.

Hermetismo tem relação com alquimia e transmutação, não tem? - Eu esperava que isso desse um empurrãozinho para que ele passasse ao tópico que realmente nos interessava.

O homem literalmente me olhou por cima do nariz, os óculos escorregaram desajeitadamente por ele e pararam na ponta.

-John, por que você tem essa tendência a reduzir tudo a um denominador comum? A alquimia é como uma ciência aplicada, é só um aspecto do hermetismo, e certamente não o mais importante.

Ele empurrou os óculos de volta, deu outro sorriso indulgente para Laurel e continuou:

  • Há uma frase central para o pensamento hermético: "O que está embaixo é como o que está em cima, e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres da coisa única".

Isso é a tradução de uma linha-chave de uma tábua, O segredo de Hermes, de onde vem a referência de todos os trabalhos herméticos bem-sucedidos. A tabuleta foi atribuída ao sábio egípcio Hermes Trismegisto, mas hoje em dia acredita-se que ela seja apócrifa. Como a Bíblia, ela tinha muitos autores cujos nomes podem ser fictícios. Assim em cima como embaixo, como ela ficou conhecida, significa que todos os elementos da realidade estavam relacionados e em harmo­nia. O material e o espiritual eram um. Os padrões vistos na terra espelhavam os do céu. A física moderna justifica essa visão ao nos mostrar que o sistema solar está configurado da mesma forma que um átomo. Vocês conhecem a estrela de cinco pontas, o pentagrama da bruxa?

  • Com certeza.
  • Virada para cima, ela significa o bem, mas quando virada de ca­beça para baixo, com duas pontas voltadas para o céu, o pentagrama é considerado o símbolo do demônio. Peguem a estrela de oito pontas mesopotãmica ou o Selo de Salomão, com seis. As duas são iguais, viradas de cabeça para baixo ou não. Elas simbolizam a frase que eu acabei de citar e representam a harmonia de todas as coisas.

Eu não tinha idéia de que Phillip fosse tão entendido do assunto. Nós havíamos nos afastado bastante de Dürer, mas o conhecimento dele sobre o pensamento hermético me chamou a atenção. Eu brin­quei com a idéia de que ele na verdade poderia ser o comerciante americano inescrupuloso de quem Samuel suspeitava, mas isso já era ir longe demais.

Laurel, percebendo meu desconforto, interferiu novamente.

  • O cristianismo separou o mundo material, a carne, obscura e pecadora, do âmbito espiritual.

Phillip deu um tapinha no ombro dela.

  • Sim, o objetivo deles não era conhecer a natureza, mas sim trans­cendê-la. Para dar lugar à Igreja cristã, as crenças pagãs precisavam ser absorvidas ou esmagadas. Quando a Igreja ganhou força, Alexandria, a sede do antigo paganismo, desmoronou.

Ele parou de forma um tanto abrupta e se voltou novamente para Laurel.

  • É aí que os mesopotâmicos entram em cena.
  • Você está falando de Harã?
  • Exatamente - Ele deu um sorriso radiante para Laurel, como se ela fosse a aluna premiada. — O fluxo de pessoas e idéias gravi­tou para lá. Quando Harã entrou em decadência, os sábios migraram para Bagdá, o centro supremo do aprendizado no século XVIII. Lá, as escolas sufis acrescentaram muito ao corpo do conhecimento her­mético. Um homem em particular, Jabir ibn Hayyan, conquistou o título de pai da química pelo brilhantismo de suas realizações. Ele aperfeiçoou a destilação, inventou o alambique e os processos usados para fazer ácido clorídrico e nítrico.

Phillip voltou o olhar insípido para mim.

  • E é aqui que a sua alquimia entra, pelo menos no que diz respeito à bobagem de transformar metais comuns em ouro. Um místico sufi de destaque na Bagdá daquele tempo declarou: "Somos nós que, por meio do nosso olhar, transformamos o pó do caminho em ouro".

Os insultos dirigidos a mim estavam se acumulando.

  • Os estudiosos se dedicam inteiramente às fontes egípcias, mas é fácil defender que a Mesopotâmia deu à luz a alquimia. O conheci­mento incubado em Harã e Bagdá se disseminou até Córdoba, sob o domínio dos mouros. Quando os europeus fizeram uma pausa nos saques e nos massacres das Cruzadas, eles trouxeram muitos textos e conceitos herméticos para casa. Um aparte divertido, o próprio rei João da Inglaterra ficou tão fascinado com essas idéias que solicitou secretamente tornar-se muçulmano, com a intenção de entregar o seu reino ao Islã. E você acredita que a honra lhe foi negada?
  • Fascinante, Phillip. Mas eu quero saber sobre a gravura de Dürer, Melancolia 1.

A voz dele continuou a fluir como se eu não tivesse dito nada.

  • O pensamento e a prática hermética ressurgiram nas grandes academias e sociedades secretas de Florença sob os Médici. Quando o império Médici caiu, o hermetismo se estabeleceu em Veneza. Lá, um cidadão chamado Manúcio, um dos primeiros editores, publi­cou textos herméticos. Em 1503, ele recebeu um hóspede ilustre: Albrecht Dürer.
  • Dürer na verdade visitou a cidade várias vezes - corrigi. Eu tinha aprendido isso quando estava pesquisando algumas obras da coleção de Peter Vanderlin. - Os olhos dele se abriram em Veneza. Ele adorava o trabalho de Bellini.

Phillip deu outro sorriso beatífico na direção de Laurel, como se fosse ela que tivesse feito a observação.

  • Sim, visitou. A exposição à cultura renascentista italiana mu­dou sua visão artística de forma fundamental. A rigidez gótica das primeiras obras deu lugar a formas mais naturais. O pensamento hermético foi absorvido pelas grandes mentes culturais e científicas da Renascença. - Mais uma vez, ele alçou o braço em direção ao teto. — Meus artistas, Michelangelo, Raphael, Botticelli e Tintoretto entre eles. Como eles, Dürer foi atraído pela filosofia hermética.

"Isso é interessante. Phillip possui obras de artistas renascentistas importantes", pensei.

Eu me intrometi de novo, ansioso para voltar à nossa pergunta original. Phillip, antecipando-se a mim, levantou a mão.

  • Sim, a imagem. — Ele foi até um armário de poliéster, selecionou um livro e virou as páginas. Era um catálogo raisonné. Ele o mostrou para nós, apontando para o canto superior direito da xilogravura de Dürer. - Os símbolos de Melancolia 1 são herméticos. O sino, por exemplo, representa a correspondência entre todas as coisas. A corda que sai do sino também pode ser uma configuração. Talvez Dürer nunca tenha se dado conta de como sua imagem era profunda. O nosso planeta funciona como um sino. A terra literalmente canta. O atrito entre as camadas da crosta da terra produz ondas sonoras como as de um sino, que podem ser ouvidas no espaço. Dá até para saber a escala: si bemol maior.

Phillip apontou para o canto superior esquerdo da xilogravura.

  • O arco-íris ilustra o mesmo princípio: branco, que se trans­forma em um espectro de cores. Você já ouviu falar de um fenômeno chamado sinestesia?
  • Pessoas que veem música como cores? - disse Laurel.
  • Esse é um tipo. Um exemplo perfeito das possibilidades de in­tercâmbio. Na gravura de Dürer, a escada simboliza a conexão entre o céu e a terra. Grandes obras da Renascença eram vistas não como simples imagens, mas também como verdadeiros talismãs com pro­priedades mágicas.

Phillip mostrou os dentes para Laurel de novo.

  • Há uma longa lista de notáveis, Dante, Mirandello, Dürer, Goethe e o meu inglês, Edmund Spenser, que levaram adiante a noção fundamental do "único". O grande Isaac Newton foi o úl­timo antes daquele herege do Descartes baixar a cortina sombria do racionalismo.
  • Você poderia explicar alguns dos outros símbolos? - pediu ela.
  • Seria mais sensato consultar alguém mais versado nesse campo. Eu sei, porém, que Dürer pregava algumas peças na audiência.
  • Peças? - Laurel ergueu as sobrancelhas.
  • Não era nada típico artistas renascentistas assinarem sua obra. De fato, muitos eram proibidos de fazê-lo, então eram forçados a usar subterfúgios. Em A Escola de Atenas, Rafael escondeu suas iniciais na gola de uma das figuras. Dürer freqüentemente usava um mono- grama em suas obras, mas em Melancolia 1 ele escondeu o nome.

Ele esticou os longos dedos esqueléticos e encostou de forma afável na bochecha de Laurel.

  • Você tem até a noite para descobrir como ele assinou o traba­lho. Se você conseguir, eu pago o jantar.
  • Qualquer aluno do primeiro ano de história da arte sabe disso - eu disse. - Você está falando do quadrado mágico. Todas as filas e colunas somam 34. Na fila de baixo ficam 4, 15, 14 e 1. O 1 e o 4 representam as iniciais de Dürer, ieD, ou, alternativamente, 1514 a.D., ou anno Domini, a data em que ele terminou a obra. Picasso ficou tão impressionado com isso que escondeu a data da Obra desconhecida, 1934, em seu próprio desenho.

Isso não serviu para acabar com o ar presunçoso de Phillip.

  • Suas origens são duvidosas, John, e seus modos demonstram isso. Essa é só a primeira. Dürer, na verdade, assinou de oitenta e seis formas, mas eu desconfio que qualquer coisa mais profunda vai te confundir. Você vai precisar de ajuda. Claire esteve no nosso evento. Por que você não liga para ela? Ela pode resolver isso para você.

Laurel não achou graça.

  • Se para você dá na mesma, nós gostaríamos de saber agora.

Dessa vez, Phillip balançou o dedo para ela.

  • Qual é a pressa? Garanto que eu conheço alguns dos melhores lugares da cidade para jantar.

 

Por sugestão de Laurel, nos dirigimos ao Washington Square Park para trabalhar no desafio de Dürer. O parque tinha uma boa quan­tidade de gente, então nós estaríamos seguros em meio ã multidão.

  • Phillip é um cafajeste mesmo - eu disse. - Ele tem uma péssima fama entre as mulheres.
  • Dá para perceber. Quem é Claire? - perguntou Laurel.
  • A ex-mulher de Phillip, uma velha amiga minha. Estou sur­preso por ele tê-la sugerido; eu achava que eles tinham cortado relações. Ela era sócia dele na galeria, e depois abriu uma própria. Ela agora é curadora do Museu de Arte Moderna, tem uma vasta coleção de credenciais, diplomas de Cambridge e da Sorbonne, esse tipo de coisa. O pai dela tem uma das coleções mais impor­tantes de literatura oculta do país. Se ela pressentir alguma coisa que pode dar o que falar, não vai deixar passar, então vamos ver se conseguimos resolver isso sozinhos. Prefiro não ligar para ela, se não for necessário.

Nós fomos caminhando pela entrada da Waverly Place até o cír­culo dos jogadores de xadrez. Paramos para olhar dois homens jo­gando, com a cabeça inclinada sobre o tabuleiro, concentrados na partida como se a vida dependesse dela. Eu me inclinei sobre o que estava mais perto e cochichei "Cavaleiro f3". Ele nem piscou.

  • Você joga bastante xadrez? - perguntou Laurel quando nos afas­tamos.
  • Eu jogava. Mas depois nunca mais joguei, porque não queria destruir um histórico perfeito.

Ela me deu um tapinha de mentira.

Nós sentamos em um banco perto dos espaços reservados para os cães. Como um gesto realmente civilizado, o parque oferecia áreas isoladas, uma para os pequenos e outra, do outro lado da rua, para os grandes. Paramos para observar um yorkshire disputar uma bola com um dachshund de pelo longo.

Mais adiante, algumas pessoas refrescavam os pés na fonte. Os funcionários do parque passavam rapidamente em carrinhos de golfe. O Washington Square tinha perdido muito do seu charme depois dos anos 1960, época em que Pollock e De Kooning tinham ateliês lá perto e Allen Ginsberg e Dylan eram os trovadores locais. Pelo que me contaram, naquele tempo praticamente dava maconha nos gramados.

Se Dürer havia mesmo assinado o seu nome de oitenta e seis for­mas diferentes, eu estava perdendo a esperança de alguma hora en­contrar a certa. Demos uma nova olhada em Melancolia 1. Fizemos uma busca em meu BlackBerry, e alguns sites se mostraram úteis.

  • O que você vê no canto superior direito? - A imagem estava pouco nítida e acinzentada, mas ainda definida o suficiente para que se pudesse ler.
  • O sino - disse Laurel - e o quadrado mágico. Os quadrados mágicos são de origem chinesa, não são?
  • Sim, os babilônios também tinham quadrados, de quinta e sexta ordem, usados na astrologia. No quadrado mágico de Dürer, os dois números da constante, 3 e 4, somam 7. Multiplicando, o re­sultado é 12; 7 e 12 são os números mais sagrados. — Verifiquei outro site e li o texto em voz alta para Laurel: — O 7 era venerado pelos mesopotâmicos por causa dos sete corpos celestiais visíveis a olho nu: a Lua, Mercúrio, Vênus, o Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Pitágoras acreditava que o 7 era a expressão máxima da harmonia, e o judaísmo o considerava o número perfeito como reflexo do sétimo dia — o Sabá, o dia de adoração.
  • Há também a música - acrescentou Laurel -, as sete notas da escala diatônica.
  • E você já ouviu falar do sétimo céu? É o conceito mu­çulmano do paraíso supremo, o da pureza absoluta. Mas isso não nos ajuda - eu disse. - Sete não funciona com apenas dois espaços a serem preenchidos.
  • Quanto soma o nome inteiro de Dürer? - perguntou Laurel.

Contei o valor numérico de cada letra do nome e somei-os.

  • Cento e trinta e cinco. Seriam preciso três quadrados, só temos dois.
  • Acho que não é o caso de continuar com a constante, 34, por­que isso representaria as letras C e D — disse Laurel.

Balancei a cabeça, distraído. Depois de mais meia hora, não ha­víamos chegado a lugar nenhum e resolvemos ir embora. O sol tinha desaparecido atrás de uma pesada barreira de nuvens, deixando o céu do fim da tarde sarapintado de roxo e cinza, mas sem levar o calor embora. Rios de transpiração deslizavam pela minha espinha e forma­vam uma poça na concavidade inferior das minhas costas.

Laurel parou quando estávamos nos aproximando da saída oeste do parque. Dois personagens haviam chamado sua atenção. Ela deu meia-volta na direção deles, e eu acompanhei seu olhar. O primeiro era um Elvis prateado. Usava o cabelo prateado fixado com gel pen­teado para trás nas laterais, a cara pintada de prateado, terno de lantejoulas brilhantes e óculos de sol de armação cromada. Mais ou menos a cada minuto, ele dava uma volta, movia os quadris e fazia uma nova pose de Elvis. O outro artista fazia uma encenação a pou­cos metros de distância. Usava uma roupa de bobo da corte, chapéu dourado e preto com sinos e um macacão preto justo de gola branca.

Em cada aba da gola havia o símbolo de um naipe de cartas: espa­das, copas, ouros e paus. O rosto dele estava completamente escon­dido por uma máscara branca de porcelana. No pulso esquerdo, vi uma tatuagem vermelha.

Laurel colocou a mão na boca.

  • Quem é aquele?
  • Boa pergunta. O Elvis provavelmente é um artista de rua legí­timo, mas o bobo da corte deve ser do site de alquimia.

Nós estávamos em um parque movimentado, então nos sentía­mos suficientemente seguros. Esperamos para ver o que ele ia fazer. Ele olhou para os seios fartos de Laurel e lá ficou. Coloquei o meu braço em volta dela para deixar claro que ela pertencia a mim, e depois levantei a outra mão e mostrei o dedo do meio.

  • Vamos embora - eu disse. - Não quero ficar perto desse cara.

Agora eram três deles - Eris, Shim e esse bobo da corte. E eles representavam um perigo não só para mim, mas agora para Laurel também. A única solução que eu via era me contrapor às fileiras deles com meus aliados. Isso tornava necessário contar uma parte maior da história para Laurel e recrutar a ajuda de Tomas. De qual­quer modo, eu queria descobrir o que mais Tomas sabia, e isso me forneceria um pretexto. Eu poderia envolvê-los, mas ainda manter algumas coisas em segredo. O pen drive de Hal estava seguro, pelo menos eu esperava que sim, com Nina. O único outro arquivo exis­tente estava no meu BlackBerry, e Eris e os amigos dela não iam pôr as mãos nele. Contei a Laurel o que sabia sobre o Livro de Naum e o que Tomas havia revelado sobre ele.

  • Agora entendo por que você está tão desesperado para encon­trá-la - disse ela depois de um momento de surpresa por causa do imenso achado. - Não é de se espantar que valha uma fortuna. Como você disse que era o nome dele, Tomas Zakar? Você confia nele?
  • Samuel o contratou no Iraque. E isso aconteceu mesmo.
  • Como você sabe que não é só uma história que ele inventou para você? Ele pode ser qualquer um. E se ele tiver ligações terroristas?
  • Sem chance. Samuel nunca teria se aproximado de uma pessoa assim. Quero que você o conheça, outro par de olhos pode nos aju­dar a resolver essa coisa, e não faz sentido cada um trabalhar para si.
  • Tudo bem. Mas, se você sentir qualquer coisa negativa em re­lação a ele, afaste-se. O jogo de Hal está nos fazendo afundar, e eu acho que você não está percebendo. Você é muito precipitado, isso me preocupa.

Eu perdi a compostura com essa observação.

  • Laurel, minha vida está sendo ameaçada diretamente. Veja o que acabou de acontecer. Esses malucos aparecem do nada, até em um par­que lotado. Eles não têm medo. Como eles me encontraram? Você está certa, eu estou me precipitando, mas não tenho outra escolha, droga!
  • Por que você está bravo? Eu só estou tentando te proteger - Ela enganchou o braço no meu. - Nós vamos dar um jeito.

O apartamento seria o primeiro lugar onde eles iriam me procu­rar. Eu precisava sair de lá. Laurel me esperou na esquina, no Café Dante, enquanto eu passava lá para pegar algumas coisas. Mas, antes de chegar perto de casa, fiquei em pé na porta do Kenny's para ter certeza de que ninguém estava me vigiando.

Uma vez lá dentro, joguei uma muda de roupa, artigos de toalete e o último diário do Samuel em uma mala pequena. Enfiei meu baú do tesouro no fundo do closet de Samuel, embrulhei-o em um cober­tor e joguei alguns sapatos em cima. Coloquei no bolso a carteira de Samuel com seus cartões American Express e Visa e cerca de duzen­tos dólares, que me haviam sido devolvidos depois do acidente.

Eu estava prestes a ir embora quando tocou o telefone.

  • Querido, em que confusão você se meteu agora?

Claire. Ela nunca se dava ao trabalho de dizer quem era, supondo que o mundo inteiro soubesse de quem se tratava.

  • Engraçado você me ligar.
  • Phillip me mandou uma mensagem. Ele disse que você queria falar comigo. Algo sobre alquimia e Dürer? Você se envolve com umas coisas tão intrigantes, meu bem...
  • Eu só estou pesquisando uma gravura de Dürer, mas está tudo sob controle. Posso te ligar depois, se precisar?
  • É claro. Mas agora estou intrigada. Você está atrás de uma co­missão bem gorda, não está? Eu não ouvi nenhum comentário sobre algum Dürer estar sendo avaliado no momento.
  • Tudo está sempre à venda, Claire. Você sabe disso. Agradeço muito você ter ligado, mas preciso sair.

Ela desligou abruptamente, sentindo-se enganada, sem dúvida, por eu tê-la deixado de fora.

Entrei em contato com Tomas, e ele sugeriu que nós nos encon­trássemos no quarto dele no Waldorf. Antes de ir embora, peguei a preciosa garrafa de Barolo 1985 que eu havia guardado para uma ocasião especial. Atrás do meu cartão de visita escrevi um agradeci­mento para Nina. Ninguém respondeu quando eu bati, então deixei-a encostada na porta. Ela tinha feito por merecer.

 

Antes de subir para ver Tomas, sugeri a Laurel que aguardássemos no saguão do Waldorf, para ter certeza de que ninguém havia nos seguido. Quando chegamos ao hotel, nos instalamos nas poltronas estofadas.

Nossa empregada, Evelyn, aprendeu inglês assistindo a filmes an­tigos, e por isso eu cresci paralisado diante de Cary Grant cativo no Plaza, King Kong balançando no Empire State Building, Lana Turner numa cena de sedução no Waldorf Astoria. Fantasia e realidade ainda não eram coisas distintas na minha mente jovem. Em uma visita ao Empire State com a escola, eu me recusei terminantemente a ir até o mirante, com medo de ser envolvido por uma mão peluda gigante e ser atirado lá de cima. Algumas das minhas primeiras impressões mais marcantes da cidade vieram desses filmes. Eles davam a Nova York uma aura de glamour que nenhum outro lugar possuía, um dos motivos pelos quais eu gostava tanto de lá.

Em ocasiões especiais, Evelyn me levava ao Waldorf. Para ela, en­trar no saguão era como entrar no palácio de um rei. Nós fazíamos um tour pelo lugar como as outras pessoas faziam em uma galeria ou um museu, e encerrávamos nosso passeio com um almoço no

Peacock Alley - salada Waldorf com nozes caramelizadas para ela e, para mim, um mimo: folhado de morango com musse de chocolate branco. O Waldorf havia passado por um longo processo de restau­ração depois dos anos 1960, quando muitos dos fabulosos detalhes art déco foram cobertos por carpetes ou pesadas cortinas drapeadas. As obras de Louis Rigal — doze murais extraordinários e o disco de mosaico do piso, feito com 150 mil pedaços de mármore - brilha­vam, totalmente expostas. Uma coisa chamava a atenção na sala, um carrilhão da Feira Mundial de Chicago, de 1893, ainda tocava seus sinos de Westminster a cada quinze minutos.

As pessoas andavam pelo saguão cuidando da própria vida. Nin­guém parecia estar prestando atenção em nós. Observei Laurel. Ela estava olhando para baixo, torcendo nervosamente um lenço de pa­pel, ainda assustada com a presença do bobo da corte no parque. Ela já tinha muita coisa sobre os ombros, e as novidades que eu havia contado poderiam ser um peso a mais para ela. No curto tempo que havíamos passado junto, eu havia sentido uma atração por Lau­rel como não sentia por ninguém há muito tempo. Ela me pegou a observá-la e me deu um sorrisinho.

  • Vamos subir - eu disse. - Acho que está tudo bem aqui.

O elevador parou no segundo andar para uma senhora de idade que recendia a um perfume pesado e excessivamente doce. O cabelo dela era um capacete assustador, duro e excessivamente lustroso, de­nunciando décadas de tintura. Ela entrou e ocupou o centro do ele­vador, forçando-nos a recuar para a parede do fundo.

A porta de Tomas se abriu depois da primeira batida. Um leão afável pegou minha mão com as duas patas imensas, insistindo:

  • Entre, entre, John. Você é muito bem-vindo.

Notei uma cicatriz profunda na palma da sua mão quando ele a puxou.

Tomas levantou a cabeça de onde estava, acomodado em uma cadeira no canto, e fez um gesto em direção ao homem.

  • Meu irmão, Ari.

Laurel cumprimentou os dois educadamente quando eu a apre­sentei; ela parecia estar devidamente impressionada com o ambiente. Quando Ari se afastou, nós vimos que o quarto era na verdade uma grande suíte de dois quartos, com uma área de estar decorada com mobília estilo Chippendale, flores frescas sobre mesas reluzen­tes, cortinas elaboradas, tapetes e paredes de tons suaves de café e creme, tudo projetado para dar um ar de elegância inofensiva. O pé-direito alto se elevava até as sancas ornamentadas. Uma câmera do tipo dessas usadas por foto-jornalistas da tevê estava sobre uma das cadeiras, ao lado de uma mochila surrada. A suíte ocupava uma posição privilegiada no hotel, com as janelas viradas para a Park Avenue.

Eu achei que eles estavam queimando incenso antes de notar um cigarro aceso no cinzeiro, com um pacote de Gitanes Brunes aberto ao lado. A mesa de centro estava coberta por embalagens de comida para viagem. A presença de outra pessoa era desconcertante, e eu fiquei incomodado por Tomas ter deixado de mencionar o irmão quando telefonei. Tomas também não parecia estar especialmente receptivo, e eu me senti como uma mariposa batendo as asas a cami­nho de um vespeiro.

O leão fez um gesto na direção de Tomas, fazendo sinal para que se levantasse da cadeira. Ele o fez, com um suspiro. Não dava para saber se Tomas não queria se mexer ou se detestava receber ordens. Me lembrei dos dois meninos que eu havia visto na praia mais cedo.

Eu me sentei, relutante. O que mais poderia fazer? Não seria educado de nossa parte dar uma desculpa e ir embora.

Eu nunca teria imaginado que Ari, com sua cabeleira cor de caramelo, sardas e uma profusão de pelos cacheados nos braços e na parte de cima das mãos, fosse irmão de Tomas. Ele usava uma calça Levi's e camisa jeans, e tinha olhos verde-pálidos que formavam rugas nos cantos quando ele sorria, o que parecia ser uma coisa constante. Tanto na aparência quanto na personalidade, o contraste entre ele e Tomas era espantoso. Gostei dele instantaneamente.

  • Posso lhes oferecer alguma coisa para beber? - perguntou Ari. - Nós temos um armário cheio de bebidas. - Ele abriu um bar cheio de garrafas miniatura. Eu agradeci, mas recusei. Laurel pediu uma garrafa de água.
  • Por favor, comam, sirvam-se - insistiu ele, sorrindo para nós. - Tudo é do Khyber Pass. Foi lá que você se encontrou com Tomas, não foi?

Fiz que sim com a cabeça.

  • A comida de lá é a melhor. - Ari apontou para as embalagens. - O mantu é realmente delicioso, temos dois tipos de homus, bolinhos, iogurte com hortelã, ashak, baklava de nozes pingando mel. Por favor, sirvam-se.

Nós escolhemos alguns petiscos e os comemos com prazer.

Eu ia ficar no máximo uns vinte minutos e depois daria alguma desculpa para ir embora.

Ari se virou para mim.

  • Por favor, me permita expressar nossos sentimentos pelo terrível acidente de Samuel, nosso grande amigo. Não conseguimos acredi­tar que ele tenha partido.

Toda manifestação de solidariedade ainda doía como uma acu­sação, mas eu agradeci.

Nós perguntamos se ele gostava da cidade e quanto tempo eles pretendiam ficar. Tomas falou pouco, mas eu observei que ele olhava ocasionalmente para Laurel. Nós ficamos sabendo que Ari era fotojor- nalista e cobria a guerra do Iraque para a BBC. Apesar dos esforços de Ari para nos deixar à vontade, nossa conversa tinha um tom formal, apreensivo, que espelhava a tensão subjacente do recinto.

Por fim, Tomas entrou na conversa.

-John, pode ficar à vontade para falar. Ari e eu compartilhamos tudo.

Era perfeitamente razoável que ele confiasse na própria família, mas eu ainda estava incomodado.

  • O que aconteceu com você? - perguntou ele, apontando para meus lábios.
  • Eris Haines me fez uma visita ontem à noite. Ela quase me matou.

Ari veio até mim e apoiou a mão no meu ombro. Eu senti o calor da mão dele transpondo o tecido leve da minha camisa.

  • Amigo, você não está sozinho agora. Samuel teria feito qual­quer coisa para proteger você. Nós vamos assumir o lugar dele. Por favor, dê-me a honra de acreditar em mim.

Ele realmente estava sendo sincero, mas eu me perguntei se seu irmão compartilhava a mesma opinião. Eu tinha a sensação de que Tomas preferia me jogar aos lobos a me receber no rebanho.

  • Tomas te contou a história? - perguntei. Ari confirmou com um aceno de cabeça. - Eu não contei nada a Haines porque não sei onde a inscrição está. Hal deixou uma espécie de pista, um enigma que precisa ser resolvido para que ela possa ser encontrada.

Tomas se manifestou.

  • Por que ele faria isso? Não faz sentido. Primeiro ele a rouba do Samuel, e depois te dá um mapa para recuperá-la?
  • Ele me pregou uma peça de mau gosto. Acho que ele contou para Eris Haines que eu sabia onde a inscrição estava escondida, e depois criou o jogo, acreditando que eu não conseguiria resolvê-lo a tempo de salvar minha vida.
  • Ele armou isso para você deliberadamente? Por que um amigo faria isso?
  • Hal era perturbado e estava abusando das drogas. Ele se vol­tou contra mim. E agora Laurel e eu estamos precisando de ajuda. - Em um papel tirado da bolsa de Laurel e com a minha caneta, desenhei um quadrado perfeito, dividido em quatro linhas e quatro colunas, e escrevi os números. Eu o levantei para que Ari pudesse ver. - Isso quer dizer alguma coisa para vocês?

Ari balançou a cabeça e fez um sinal para Tomas.

  • E o quadrado mágico de Dürer — disse Tomas. — Mas eu não consigo ver sua relevância para o Livro de Naum. Hal era um pro­fessor de ciência, correto?
  • Ele ensinava ciência da filosofia. Um especialista em Dürer nos disse que o artista escondeu seu nome na figura, talvez usando o quadrado mágico.

Laurel me pediu para acessar a página com a biografia de Dürer de novo.

  • Aqui - ela disse quando o texto apareceu. - Na metade da pá­gina está escrito que o pai mudou o nome da família de Thürer para Dürer.
  • Isso também não resolve. Mesmo que a gente troque o d por th, determine números para as letras e os some, incluindo o primeiro nome, temos 1, 5 e 9, e existem só dois espaços.

Passamos algum tempo nos concentrando nas combinações de números e letras. Eu achei todo o esforço muito frustrante, e estava prestes a arrancar os cabelos quando Laurel falou:

  • Phillip Anthony não disse que o pai de Dürer se mudou para Nuremberg? Ele era alemão ou tinha outra nacionalidade?
  • Não sei, vou verificar. - A biografia confirmava o que Phillip havia nos contado. — Húngaro.
  • E qual era o nome húngaro?
  • Só mais um segundo... Ajitos. Quer dizer porta, como Dürer.
  • E isso resolve alguma coisa?

Eu somei os valores numéricos das letras.

  • Ajitos sem o primeiro nome somaria setenta e quatro. Vamos tentar. Quando eu coloquei os números, a página não se mexeu.

Eu estava prestes a desistir quando pensei em outra coisa.

  • Será que nós não estamos usando o alfabeto errado? Dürer pode ter usado o antigo alfabeto latino. Não existe
  • Isso é interessante. Pense nas raízes em comum: Dur e Am­bas significam porta, não é? - disse Laurel. - Como ficaria em hún­garo, usando o antigo alfabeto latino?
  • Ajto significa porta em húngaro. Em números, usando o antigo alfabeto latino, sem o j, isso se expressaria como... trinta e quatro, a constante do quadrado mágico de Dürer.
  • Isso faz sentido - disse Tomas. - Agora eu me lembro. Eu li em algum lugar que o quadrado tem oitenta e seis combinações possíveis para trinta e quatro.

Eu relembrei o desafio anterior de Phillip: "Dürer, na verdade, assinou de oitenta e seis formas, mas eu desconfio que qualquer coisa mais profunda vai te confundir". Phillip praticamente tinha dado a resposta lá na galeria.

Quando eu coloquei 34 nos dois quadrados, a página virou, re­velando o Selo do Senado dos Estados Unidos. Embaixo dele havia quadrados para uma palavra com 7 letras e uma palavra com 6 letras.

Procurei o selo na internet e descobri que ele havia sido criado por Louis Dreka, em 1866. Era circular, com as palavras "Senado dos Estados Unidos" acompanhando a circunferência externa. Um escudo com treze estrelas e listras ocupava a parte central, atraves­sado pelas palavras em latim E pluribus unum. Sobre o escudo havia um gorro cônico de aparência estranha e, embaixo, feixes cruzados que eu identifiquei como sendo romanos.

A citação em latim, "E pluribus unum" - "De muitos, um" - era longa demais para caber nos espaços. Os feixes romanos cruzados embaixo e o gorro do alto também não se encaixavam. Nós não tí­nhamos a menor idéia do que Hal estava querendo.

Ari me fez uma pergunta.

  • Tomas e eu estamos gratos por você ter vindo nos ver. Você poderia ter mantido isso em segredo, e nós não teríamos a menor idéia do destino da inscrição. Nós estamos gratos por você ter sido honesto conosco. Então, suponho que isso significa que nós vamos trabalhar juntos.
  • Mais ou menos. Assim todo mundo sai ganhando, mas eu quero acesso a todas as informações.

Tomas percebeu imediatamente a que eu me referia.

  • Isso é informação privilegiada. Não posso revelar mais nada.

Eu me levantei.

  • Então não me resta outra escolha. Vou embora.

Ari veio atrás mim, colocando a mão de novo em meu ombro.

  • Você deveria ficar conosco. Você sabe como essas pessoas são perigosas. Nós não podemos ajudar se não soubermos onde você está.
  • Vai ficar tudo bem se eu conseguir superar esse desafio. Vou manter contato.

Ele tirou a mão e fez um apelo a Tomas.

  • Isso não tem cabimento. Conte o resto para ele.

Seguiu-se uma discussão acalorada entre eles no que eu supus ser um dialeto árabe. Tomas finalmente cedeu.

  • Você guarda a informação só para você?
  • É claro.
  • Sinceramente, nós não temos mais muita coisa para contar. Samuel acreditava que o Livro de Naum revelava a localização de saques realizados no século VII a.C. durante uma das campanhas militares do rei Assurbanípal na região da atual Anatólia, na Tur­quia. Ele descobriu isso quando encontrou por acaso uma inscrição assíria, uma descrição dos despojos que Assurbanípal levou e escon­deu em algum lugar na Assíria.

Isso seria possível. Era comum nos registros assírios a listagem detalhada dos espólios levados depois de batalhas bem-sucedidas.

  • O que era?
  • Nós não sabemos. Samuel não quis nos contar. Ele só deu uma pista. Disse que o tesouro tinha ligação com uma bruxa antiga e uma famosa lenda que tinha um elemento sobrenatural, algo que ultra­passava a experiência humana normal.
  • Era uma lenda grega ou do Oriente Médio? Tinha alguma coisa a ver com transformar metais comuns em ouro?

Tomas deu de ombros.

  • Não tenho a menor idéia. A inscrição tem sinais explícitos que não existem nas escrituras bíblicas. Sem ela, nós não temos o texto no qual Samuel estava trabalhando.
  • E o comerciante americano que está atrás dela, ele sabe disso?
  • Samuel achava que o comerciante sabia pelo menos até aí. O valor da inscrição vai além do valor intrínseco. Ele acreditava que Naum pretendia que ela servisse de guia para a localização dos espólios de Assurbanípal. Como Hanna Jaffrey saiu de cir­culação, suponho que ela devia ser o canal de informação do comerciante.

Minha cabeça rodopiava com as novas informações. Assurbaní­pal havia se apossado de uma mina de objetos preciosos? A própria inscrição valia pelo menos vinte milhões. Se ela levasse a saques co­letados por um rei assírio, o valor seria incalculável. Ainda assim, a história de Tomas, especialmente a parte de não poder dar mais do que uma descrição vaga, dificilmente parecia confiável.

Tomas percebeu o meu ar cético.

  • Os estados da Anatólia eram ricos em ouro, prata e pedras preciosas, e eles tinham artesãos magníficos. E bem possível que o rei tenha encontrado uma mina de ouro em artefatos.
  • O filho de Assurbanípal era o rei quando Nínive foi saqueada, certo? - perguntei.

Tomas fez que sim com a cabeça.

  • Quando ficou claro para o rei que ele havia perdido a batalha, ele juntou todos os seus objetos preciosos, a rainha e suas concubinas e mandou seus servos construírem uma imensa pira funeral e atear fogo. Todas as suas posses foram queimadas com ele.

O desprezo de Tomas praticamente desceu até os joelhos.

  • Isso é uma lenda. Nunca existiu nenhuma prova disso.
  • Você está me pedindo para acreditar que ainda existe um baú do tesouro por aí? O que é? Deixe-me adivinhar... As jóias perdidas da rainha de Sabá?
  • Você é quem queria saber. Agora que eu estou contando, você vem com todo esse desdém.

Ari, o apaziguador, interferiu, preocupado que nosso frágil acordo estivesse indo por água abaixo.

  • Não tem como você ter certeza disso, Tomas.
  • Eu mereço mais respeito. - Tomas lançou as palavras contra ele com uma crítica implícita a mim. - E sou o único aqui que sabe alguma coisa sobre cultura mesopotâmica, devo acrescentar.

Levantei a mão.

  • Tudo bem, argumento aceito. Mas você está pedindo que nós acreditemos que ele permaneceu escondido esse tempo todo? Isso é absurdo.
  • Existem doze mil sítios arqueológicos no Iraque - Tomas reba­teu. - E esses são só os sítios registrados. Muitos ainda nem foram explorados.

Laurel e Ari trocaram olhares quando a conversa começou a es­quentar. Por fim, ela pegou a minha mão.

  • Vocês dois estão brigando por um fantasma. Quando consegui­rem a inscrição, provavelmente tudo vai se esclarecer. De qualquer forma, meus pés estão me matando. Eu quero me recolher agora.

Na recepção, eu usei a maior parte do crédito restante em meu Visa para reservar quartos para mim e para Laurel por duas noites.

  • Você quer entrar para tomar um drinque? - Laurel me pergun­tou quando eu a acompanhei até a porta. - Não estou a fim de ficar sentada sozinha em um quarto solitário.
  • Claro, por que não? - Despenquei na cama enquanto ela ia até o bar e pegava duas minigarrafas de uísque. - Gosto puro - eu disse. Ela me deu um copo e sentou ao meu lado.

Peguei o celular e comecei a tirar a capa da bateria.

  • O que você está fazendo?
  • Como o cara fantasiado de bobo da corte nos encontrou? - per­guntei. - Não foi coincidência. Eu estava sendo cauteloso.
  • Eles devem estar nos vigiando de alguma forma.
  • Eu não vou passar o resto da vida sendo perseguido por aque­les lunáticos. Removi a bateria e olhei dentro do compartimento.

- Droga. Não parece ter nenhum problema. Achei que Eris poderia ter colocado algum tipo de rastreador aqui dentro.

Ela bebericou em silêncio por alguns minutos. Quando o silêncio estava começando a ficar constrangedor, ela disse:

  • Talvez você devesse tirar a roupa também.

Embora a abordagem tivesse sido aparentemente fria, a rapidez da passagem de conversa casual para um convite aberto quebrou algum tipo de recorde. Eu concordei de bom grado e tirei a camisa.

  • Fique de costas para mim.

Ela obviamente era um pouco tímida com nudez, então eu me virei.

  • Se você preferir apagar a luz, por mim tudo bem.
  • Não, tudo bem. - Ela passou a mão pela minha mandíbula e a desceu pelo meu pescoço. Eu peguei uma de suas mãos e a beijei de­licadamente. Ela murmurou alguma coisa que eu não ouvi e retirou a mão de forma recatada. Isso não adiantou nada para conter meu desejo. Eu estava ficando mais duro que uma pedra. Ela moveu os dedos até a base do meu crânio. A tensa rede de músculos do meu pescoço e da parte de cima das minhas costas se rendeu. Pela pri­meira vez em muito tempo, relaxei.

Eu me inclinei um pouco para trás. As mechas do longo cabelo cas­tanho encostaram nos meus ombros. Ela passou a mão pelas minhas costas, acariciando-as com os dedos. Era melhor deixá-la no comando. Afinal, as coisas estavam indo muito bem sem eu forçar nada.

As palavras seguintes tiveram o efeito de um mergulho repentino na água gelada.

  • Você tem algo implantado sob a pele no meio das costas, num local que você dificilmente veria. Eris provavelmente o inseriu quando você estava inconsciente. Precisamos tirá-lo.

Não sei o que foi mais decepcionante: me dar conta de que a movimentação dos dedos de Laurel não era um prelúdio de sexo ou não ter percebido que aquela coisa tinha sido enfiada nas minhas costas.

  • Com todos os baques que o seu corpo levou nos últimos tem­pos, acho que você não notou esse pequeno ponto dolorido.

Eu me sentei no vaso sanitário enquanto ela usava pinças e tesou­ras do seu estojo de manicure para removê-lo. Uma ou duas cutuca­das, e pronto. Ela depositou o pequeno objeto parecido com um grão de arroz na minha mão.

- Jogue no vaso, dê descarga e pronto - disse ela.

Peguei um pedaço de papel e embrulhei o dispositivo cuidado­samente. Enfiei-o no bolso da calça, entrei no quarto e coloquei a camisa de volta.

Laurel ficou parada na porta do banheiro, com um ar preocupado.

  • Você não vai se livrar dele?
  • Não - eu disse. - Tenho uma idéia melhor.

 

O céu noturno, uma cobertura baixa de nuvens cinzentas, apri­sionou o calor e fez a cidade parecer uma câmara de compressão. A atmosfera precisava urgentemente de alívio - uma explosão de trovões e um dilúvio. Os motoristas tagarelavam em seus celula­res, como se estivessem à temperatura de cubos de gelo no interior refrigerado dos carros, enquanto os pedestres derretiam. Com a quantidade de gente que zanzava por ali, era quase impossível detectar meus perseguidores, mas eu tinha certeza de que eles estavam de olho em mim. Minha primeira parada seria a casa de Corinne Carter.

Corinne, criada no Harlem, havia se mudado definitivamente para o Sul; ela fazia parte do nosso círculo mais próximo, na Columbia. Era a única pessoa no mundo que podia me chamar de Johnnie. Na faculdade, ela era a força centrípeta que nos manti­nha unidos. Quando alguém passava mal depois de uma bebedeira daquelas, ela sempre estava lá para ajudar. Se uma desavença ga­nhava força e virava uma coisa problemática, era ela que colocava panos quentes. Foi uma surpresa para nós quando ela foi viver como uma ermitã.

No escritório que mantinha em casa, Corinne era especialista em desenvolver e testar sistemas avançados de segurança, e era contra­tada por bancos e escritórios de Wall Street. Ela podia se infiltrar na rede tão bem quanto qualquer hacker.

O prédio dela era um bloco monolítico de tijolo amarelo, na esquina da 8th Avenue com a 23th Street. Os dias se passavam sem que ela percebesse se o sol brilhava ou se chovia torrencialmente. As persianas estavam sempre fechadas. Uma vez ela me disse que sabia quando era outono porque o sistema de aquecimento era acionado. Acho que ela nem sequer tinha um casaco de inverno apropriado. A entrada da frente do prédio ficava a poucos passos do metrô, de onde ela podia se conectar a todos os serviços de que precisava. Do outro lado da rua, um Dunkin'Donuts e um Dallas BBÇMhe forneciam o que ela precisava. Ela comia muitas costeletas e roscas de cereja.

Corinne vivia tão enclausurada quanto uma freira medieval.

Como sempre, ela atendeu quando o porteiro tocou o interfone.

Eu não sabia se o chip do mal podia ler elevação além de coorde­nadas, então, do lado de fora do elevador, eu o enfiei dentro de um pedaço de chiclete e o prendi sob uma saliência.

No momento em que atravessei a porta, fui envolvido por um longo abraço efusivo.

  • Como você está? Tentei fazer uma visita há séculos, mas o hos­pital não deixava ninguém se aproximar, e depois disso você sim­plesmente desapareceu. Tentei ligar e mandar e-mails muitas vezes. - Ela tocou nos meus lábios. - Você machucou a boca no acidente?
  • Desculpe por eu não ter respondido. Não consegui falar com ninguém por muito tempo. Estou melhor agora, fisicamente, pelo menos. - Contar sobre o ataque só serviria para deixá-la mais preocupada.

Ela apertou minha mão, expulsou o gato da cadeira da sala e me pediu para sentar. O gato, um himalaio, miou para demonstrar que não tinha gostado.

  • E agora isso que aconteceu com Hal. Fiquei totalmente arra­sada quando soube, ontem.
  • Acho que ele se descuidou.
  • Não é difícil de acontecer. Eu já vi isso mais de uma vez. Aquela coisa simplesmente acaba com as pessoas.
  • Eu sabia que você ia ficar bem deprimida com isso.
  • Bem, obrigada por ter vindo me ver. Sei que nós não nos vemos com a mesma freqüência que antes, mas eu sempre penso em vocês. - A coisa mais atraente em Corinne eram os lindos olhos castanhos. No momento, eles estavam começando a lacrimejar. - Eu invejava Hal por ter crescido com todo aquele privilégio. Sempre achei estra­nho ele andar com a gente.

Eu me senti um pouco culpado. Se não estivesse no meio de um labirinto de problemas, eu teria aberto o jogo de imediato. Não que­ria causar mais desgosto ainda contando o verdadeiro motivo da morte de Hal.

  • Você quer uma bebida ou alguma outra coisa?
  • Um café seria bom.
  • Preto, certo? — disse ela enquanto ia para a cozinha, mais uma pergunta retórica do que qualquer outra coisa.

Quando ela voltou, vi que havia ganhado uns quilinhos desde a última vez que tínhamos nos visto. Ela sempre havia sido agradavelmente cheinha, com curvas generosas. Os homens achavam o sorriso fácil e a afabilidade dela atraentes. Eu ficava perplexo com o fato de ela se esconder desse jeito.

Ela me deu o café e se sentou no sofá da frente, com uma caneca na mão.

  • Você sabe alguma coisa sobre os trâmites de Hal?
  • Não. Ao que parece, a polícia ainda não liberou o corpo. Isso foi o que Laurel me disse.
  • E como ela está reagindo?
  • Não muito bem. E ela tem uns megaproblemas com as proprie­dades para resolver. Tanto a da Mina quanto a do Peter.

Corinne deu um suspiro.

  • Aquela mãe dele! Ela o mantinha aprisionado como um peixe no aquário. No funeral, Hal mal conseguia ficar em pé, de tão per­turbado. Inacreditavelmente estranho, o que ele fez com ela. Peter está em uma casa de repouso agora, não está?
  • Ele está péssimo. Não consegue mais se alimentar sozinho, não reconhece ninguém.
  • Pelo menos ele não vai saber o que aconteceu com o filho.
  • É um tipo estranho de bênção. - Tomei um gole de café. — Corrie, eu tenho uma coisa com a qual eu esperava que você pudesse me ajudar. Você está com tempo agora?
  • Estou terminando um trabalho. Você está com muita pressa?
  • Do que se trata?
  • Algumas pessoas têm me feito passar uns maus bocados. Elas que­rem pôr as mãos em um artefato que pertencia a Samuel e não querem se identificar. A única pista que eu tenho é um site insólito, com um fórum sobre alquimia.
  • Alquimia? Você quer dizer magia negra, satanismo, esse tipo de coisa?
  • Não chega a tanto. Eles são sérios. Aparentemente, o site tem links para artigos sobre documentos da Renascença e da Idade Mé­dia que descrevem métodos esotéricos para converter metais comuns em ouro.

Ela deu risada.

  • Você está brincando.
  • Eu sei que parece loucura. Mas essas pessoas não brincam em serviço. Elas já me ameaçaram duas vezes. E, para piorar, Hal estava envolvido com elas. Acabei de descobrir. E eu preciso saber quem elas realmente são.
  • Elas aparecem no site?
  • Sim, mas usando máscaras e signos astrológicos. Porém, eu te­nho dois nomes. Eris Haines e George Shimsky.
  • Bem, vamos verificar na tela.

Ela me pediu para pegar uma cadeira na cozinha e levá-la para o escritório. Em contraste com a grande quantidade de objetos pes­soais e o aconchego do resto do apartamento, o local de trabalho era espartano. Nenhum livro ou arquivo, só um par de canetas esfero­gráficas e papel de rascunho. A única exceção era um amontoado de brinquedos de gato no chão. O gato veio atrás de nós. Ele apanhou um rato de pano rasgado e voltou a arrancar o enchimento, espa­lhando algodão branco por toda parte, fixando os olhos amarelados em Corinne com um ar maldoso. Ela riu.

  • Ele só está bravo comigo porque eu o mandei sair da cadeira.
  • O gato começou a ronronar e se esfregou nas minhas pernas. Eu abaixei a mão e mexi no pelo dele.

Corinne achou ainda mais engraçado.

  • Agora ele está tentando me deixar com ciúme.

Ela tinha três monitores sobre a mesa, cada um com um fundo de tela diferente. Em um, uma chuva caía suavemente sobre um campo de flores silvestres ao som de Bartók; na seguinte, a espuma das on­das do oceano acariciava uma praia de coral. O último monitor exi­bia uma floresta brilhando intensamente com as cores do outono.

  • Isso é o mais perto que eu chego da natureza - brincou Co­rinne. Ela se sentou em uma cadeira tão tecnologicamente avançada que parecia coisa de avião. - Foi feita sob medida. Passar horas a fio sentada faz coisas inomináveis com as costas. Então, você só tem nomes? Nenhuma data de nascimento, documento, alguma coisa assim?
  • Só isso. - Entreguei o cartão de visita que Colin havia me dado.
  • Os números de telefone e fax são falsos, e o nome da empresa provavelmente também é. Fora isso, Eris pode ter estudado no MIT, e foi despedida do Departamento de Defesa. George Shimsky era químico.
    • Isso deve dar para começar.

Eu me sentei ao lado dela enquanto ela fazia buscas em sites.

  • Tudo bem, não consigo encontrar nada sobre Haines. Há uma boa chance de que esse não seja o verdadeiro nome dela. Mesma coisa para o nome da empresa. Shimsky se formou summa cum laude também no MIT, em 1984, aos vinte. Um ano mais tarde, ele ti­nha cinco patentes registradas. Garoto brilhante. Trabalhou na Dow Chemical e na FMC. Parece que não ficou muito tempo em ne­nhuma das duas. Estabeleceu a própria empresa de consultoria, e estão veio o desastre. Meu Deus!
  • O que foi?
  • Aqui diz que ele estava tentando transformar metais em ouro. - Ela balançou a cabeça. — Como as pessoas são malucas! Ele sofreu um trauma físico grave e sumiu do mapa. Depois disso, não consigo achar nada sobre ele. Qual era o site que você mencionou?
  • Arquivos de Alquimia ponto com.

Ela abriu o site passou alguns minutos examinando-o.

  • Há algumas coisas interessantes aqui, mas vou precisar de al­gum tempo para acessar. Ouça, Johnnie, eu realmente tenho uma droga de prazo a cumprir. Posso te ligar depois? Vou fazer isso logo.
  • É claro. Você está me fazendo um favor enorme.
  • Estou aqui sempre que você precisar de mim - você sabe disso.
  • Ah, mais uma coisa, outro nome: Hanna Jaffrey, aluna da Uni­versidade da Pensilvânia. Você poderia tentar encontrar alguma coi­sa sobre ela também?
  • Mais alguém? Estou começando a ter a impressão de que o mun­do inteiro está furioso com você.

 

Depois de me despedir de Corinne e recuperar o chip, chamei um táxi e logo cheguei à área que Tomas havia mencionado, na extre­midade oeste da 34th Street. Era uma região desolada, um pequeno canto escuro no resplandecente vaivém de Manhattan.

Pedi ao motorista que diminuísse a velocidade o máximo possí­vel. A minha esquerda, o largo terreno aplainado dos trilhos da linha West Side se estendia a distância. Do outro lado havia uma igreja com uma fachada de tijolo vermelho, um arco românico de pedra calcária branca sobre o qual se via uma janela gótica fechada com blocos de cimento. Não era um prédio comercial, mas eu pedi ao motorista que parasse um pouco - eu podia ver o rio Hudson dali, então nós devía­mos estar perto. Em uma placa próximo à porta lia-se:

 

Igreja de são Miguel

Missa na tradição católica romana

Desde 1857

 

Havia uma estátua de Jesus do lado de fora da igreja. Em tama­nho real, fechada em uma caixa de acrílico como um caixão transpa­rente, ele estava sobre um pedestal, olhando para baixo para quem passava. Era todo feito de gesso branco, com uma mão estendida e a outra tocando uma filigrana dourada com uma cruz dourada e um coração humano branco sobrepostos. Sobre a caixa, em letras roma­nas, havia as palavras: "Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo, e eu vos darei descanso".

Aquilo poderia ter sido escrito para mim.

No quarteirão seguinte, encontrei um prédio de estuque de uns cinco andares que não chamava a atenção. No nível da rua havia uma porta azul-clara de ripas de madeira que parecia não ser usada há anos e, mais adiante, um quadrado de metal laminado do tama­nho de uma porta de garagem. Ao lado dele eu vi os cinco símbolos planetários gravados em uma placa de latão simples, presa à parede.

O motorista falou:

- Se nós avançarmos mais, vamos chegar à via expressa. O que você quer fazer?

- Já vi o suficiente. Me leve à Autoridade Portuária.

Ele resmungou algo que eu supus ser uma aquiescência, deu a volta com o carro e pisou no acelerador.

O táxi me deixou no Terminal de Ônibus da Autoridade Por­tuária, onde os camelôs ainda expunham suas mercadorias - livros usados, bolsas femininas, óleos perfumados. Um deles tirou a rolha de uma garrafa e a estendeu para mim. Um leve cheiro de jasmim se espalhou pelo ar, colidindo como os odores da calçada poluída.

Um sem-teto se aproximou com a mão estendida. Ele usava shorts de ginástica rasgados, tênis Nike e um boné de beisebol coroando longos dreadlocks. Seus olhos claros me fitaram. O sorriso revelou os dentes estragados de um viciado em metanfetaminas. Dei-lhe umas moedas. Ele levantou o boné em sinal de agradecimento e seguiu adiante.

A última vez que uma viagem de ônibus teve algum resquício de classe deve ter sido entre as duas guerras mundiais. Qualquer que fosse a cidade, todos os terminais de ônibus tinham esse mesmo triste ar de abandono. A Autoridade Portuária era um ótimo exem­plo disso. O chão, as paredes e as imensas pilastras quadradas eram cobertos de azulejos amarronzados. Parecia haver uma conspiração para manter a luz o mais fraca e desagradável possível. A exceção era uma obra de arte gigante de alumínio brilhante com facetas multi- coloridas na parede sul. Ela estava pendurada ali como uma linda criança abandonada em um banheiro público.

Dirigi-me ao guichê de passagens, pensando que poderia econo­mizar dinheiro testando o cartão de crédito de Samuel. A atendente me lançou um olhar pernicioso.

  • Posso ajudar?

Essa era a frase padrão que todos os vendedores aprendiam quan­do se preparavam para arrancar sua pele.

  • Uma passagem para o próximo ônibus para Filadélfia, por favor.
  • Ida e volta ou só de ida?
  • Só de ida.
  • São vinte e três dólares.

Empurrei o cartão de Samuel pela janelinha. A mulher passou o cartão e esperou. Ela apertou os olhos, examinou a tela e me devol­veu o cartão.

  • Me desculpe, esse cartão não pode ser usado. Aqui diz que o dono do cartão faleceu. — Ela olhou para mim. — Você me parece bem vivo.

Murmurei uma desculpa e perguntei onde ficavam as platafor­mas dos ônibus. Ela revirou os olhos e apontou para um conjunto de placas.

  • É para isso que servem as placas. Está escrito ali.

Minha idéia era deixar o dispositivo em um ônibus para os meus perseguidores acharem que eu havia saído da cidade. Não deu tempo. No caminho para as plataformas dos ônibus vi o homem que tinha encarado Laurel no Washington Square Park — um cara de traços marcados, pele branca como a de um cadáver e cabelo bem preto, com uma tatuagem vermelha no pulso esquerdo. Sua presença ali não era coincidência.

Ele veio atrás de mim. As plataformas dos ônibus de repente pa­receram desertas, e não havia nenhum policial da Autoridade Por­tuária por perto. Saí correndo do prédio e desci voando pela 42th. Na 10th Avenue eu vi com o rabo de olho a luz amarela. Quando o bobo da corte chegou ao cruzamento, a luz tinha ficado vermelha e o trá­fego apareceu diante dele. Quando cheguei à via expressa do West Side, segui para o norte antes de virar na 44th, com falta de ar, per­cebendo que não poderia manter esse ritmo por muito mais tempo.

No local em que a rua cruzava com os trilhos da West Side, uma faixa de pedras pretas pontudas ladeava as bordas íngremes, criando um desfiladeiro feito pela mão humana para a linha do trem. A queda de uns seis metros até as linhas de trem e o paredão formado pelos prédios do outro lado da rua diminuíam as minhas opções. O arame farpado que circundava um pátio de caminhões também não aju­dava. Atrás de mim, o Intrepid, a imensa carcaça cinza de um navio de guerra, flutuava no Hudson. Ao lado dele havia um submarino preto ancorado e, atrás dele, um barco menor com a metade de um Con­corde em cima. A mistura de barcos e aviões velhos oferecia muitos lugares para eu me esconder, mas à noite o lugar estaria fechado.

Minhas entranhas ameaçavam explodir de tanto correr. Vendo o bobo da corte virar a esquina, tentei achar um jeito de sair da rua. Tinha sido um pequeno milagre eu ter ficado à frente dele por tanto tempo. A minha esquerda havia um pedaço de cerca quebrada e amassada. Eu me espremi por um vão e tentei me livrar dele no emaranhado de caminhões. O arame rasgou minha camisa e abriu um corte no meu ombro quando eu passei. Corri entre os veículos, tentado despistá-lo.

O som da perseguição parou de repente, como se meu algoz ti­vesse evaporado. Ele estaria dando a volta ou eu o havia perdido? Saí na 45th, a pouca distância de um prédio branco baixo. A entrada cavernosa do edifício estava aberta. Corri para dentro. Por incrível que pareça, era um estábulo, fedendo a umidade, esterco e óleo velho. De um lado, eu ouvia o farfalhar dos cascos e as batidas de rabos ba­lançando. Havia carruagens decoradas vazias, brancas e coloridas, enhleiradas. Parecia uma convenção cigana com todos os condutores em hora de almoço. "As carruagens que eles usam no Central Park", pensei, "deve ser isso."

Eu me agachei atrás da quarta carruagem em uma fila de cinco, no chão grudento, respirando o pó do feno, ouvindo os relinchos tranqüilos dos cavalos. Eu não podia me arriscar a usar o telefone - se ele tivesse me seguido até lá dentro, ouviria minha voz imediata­mente e saberia minha localização exata. Um novo som me chamou atenção. Passos entre os coches. Segurei a respiração, na esperança de que eles fossem em outra direção, mas o barulho das botas estava a duas carruagens de distância. Corri para lá.

Um homem parrudo, com a camisa de trabalho toda manchada de suor debaixo dos braços, olhou-me espantado quando eu surgi de trás da carruagem. No fim das contas, não era o bobo da corte. Eu continuava com sorte.

Uma vez na 10th Avenue, olhei ao redor para ter certeza de que ele não estava à vista e fui andando bem rente às pequenas lojas, para ficar menos perceptível. Pouco antes de eu chegar a um café ao ar livre, cheio de gente confraternizando na noite quente de verão, uma coisa parecida com a parte mais larga de uma chave de fenda comprimiu a parte de baixo das minhas costas. Um braço coberto por uma manga preta me agarrou.

  • Eu imaginei que você fosse fazer alguma bobagem como essa, Madison.

Tentei me soltar. Ele me empurrou contra o vidro de uma pada­ria. Nenhum transeunte deu atenção.

  • Você vai atirar em mim bem aqui? Na frente de todas essas pessoas?
  • Não, nós só vamos atravessar a rua em direção ao restaurante onde meu carro está estacionado.
  • E se eu não for?
  • Você já levou um tiro?

- Não.

  • Eu já. Primeiro, você não sente nada. Só um baque, como se alguém tivesse pegado uma pá e golpeado as suas costas. Depois, você tem uma sensação estranha de queimação. Em seguida, você não consegue mais parar em pé.
  • Quando nós chegarmos ao carro, ela estará esperando, não é?
  • Eris? Ah, sim, ela estará. De braços abertos.

Antes que eu pudesse responder, ouvi um barulho, como se fosse um pneu explodindo. O mundo ficou em câmara lenta. Eu me apoiei no vidro, tentando me manter em pé. Esperei a sensação de queima­ção atingir as minhas costas. Um grito ganhou corpo no fundo da minha garganta.

Uma mulher na mesa do café mais próxima de mim pulou da ca­deira e gritou. Um táxi amarelo freou bruscamente. Um homem que ia passando pegou o telefone e começou a discar. As mesas do café se esvaziaram. As pessoas corriam de mim. Estendi a mão. Ninguém me estendeu a sua.

 

A multidão se reuniu em volta de alguma coisa na calçada. Torci a mão para alcançar as costas. Nada fora do normal. Nenhuma quei­mação, buraco ou sangue viscoso escorrendo. Senti mais força nas pernas. Dei um impulso para me afastar da janela e descobri que ainda podia andar.

A primeira sirene começou a soar e um caminhão dos bombeiros se aproximou rapidamente, parando na frente do café, as viaturas logo atrás. Depois disso, perdi a conta dos veículos de emergência. Abri caminho em meio à multidão e lá na frente vi um furgão grafitado parado em um ângulo estranho em relação ao meio-fio. Na frente dele havia um homem estatelado no chão, com os shorts rasgados e sem um dos tênis, enquanto o sangue se espalhava em volta do tronco e lhe escorria pelas pernas.

Vários homens uniformizados formavam um círculo ao redor dele. Um deles se abaixou com uma mão sobreposta à outra e come­çou a aplicar compressões regulares no peito dele para socorrê-lo.

Examinei a multidão, buscando algum sinal do bobo da corte, mas ele havia desparecido. Era compreensível que ele não quisesse continuar com o que estava fazendo tão perto de metade da polícia de Nova York. Fiquei lá por algum tempo, sentindo-me protegido pelo grupo. O que tinha acontecido? O acidente tinha sido um puro golpe do destino? Meu atacante havia errado o tiro, atingido o fur­gão e causando a colisão?

As pessoas se dispersavam quando dois policiais se moveram e mandaram que os curiosos se afastassem. Procurei mais uma vez pelo bobo da corte antes de entrar em um táxi preso no congestionamento. O acidente que havia me salvado fez voltar a lembrança do meu aci­dente. A exaustão tomou conta de mim, mas o pânico agudo não me deixava descansar. Sentia que estava perdendo o controle, e temia não conseguir mais lidar com a confusão em que Hal havia me metido. Eu precisava de ajuda. Em um lugar qualquer nas dependências da Penn Station, Rapunzel, um velho conhecido meu, tinha um trailer de comida. Lá, eu esperava encontrar ao menos salvação temporária.

Rapunzel tinha esse apelido porque tinha o cabelo raspado, exceto por um tufo loiro na parte de trás da cabeça, que descia até o traseiro. Ele não conhecia o conto de fadas, e quando descobriu que Rapunzel era nome de mulher, abreviou-o para Rap. Ele estava no ramo havia mais de dez anos. Nesse período, tinha mudado de ponto, mas não mu­dara o tipo de serviço. Ele tinha sido fornecedor de umas pessoas que eu conhecia, e vendera para um cara uma mercadoria com impurezas suficientemente perigosas para mandá-lo para a UTI.

Eu o encontrei parado em pé ao lado do trailer, ouvindo a música alta que saía dos alto-falantes.

  • Ei, Rap, estou vendo que você continua com mau gosto para música.

Ele sorriu e colocou de lado o sanduíche que estava comendo.

  • Que bom te ver! - Ele deu uma olhada na minha camisa ras­gada e no corte ensangüentado em meu ombro. - O que foi isso? Você anda flertando com alguma coisa da pesada de novo?
  • Muito engraçado, Rap. Escute, eu preciso comprar uma coisa.
  • Eu tenho uns sanduíches frios de peru. Minha mamãe foi quem cozinhou o bicho e embalou os sanduíches.
  • Você é um comediante, Rap. Você desperdiçou sua vocação.
  • Eu ganho uma boa grana aqui, apesar de trabalhar como um cachorro. Está um calor filho da mãe.
  • Estou duro hoje. Você pode me financiar temporariamente?
  • Temporariamente?
  • Mais ou menos uma semana.
  • Eu por acaso estou usando Armani? Tem um caixa eletrônico bem ali. - Ele apontou vagamente para o norte.

A distância entre as drogas e as armas não era muita, então achei que havia uma boa chance de ele ter o que eu queria. Não havia nin­guém com quem se preocupar por perto, mas, mesmo assim, baixei a voz:

  • Estou com uns problemas. Preciso de uma arma.

Ele arregalou os olhos.

  • E de umas anfetaminas... Preciso de um pouco também.
  • Nunca pensei que você fosse um gângster, Madison. O ramo da arte não está indo bem?
  • Nem queira saber - eu disse. - E aí?
  • Tenho umas coisas aqui. Você me entende? Quanto você quer?
  • O suficiente para mais ou menos uma semana.
  • Espera aí. - Ele pegou o celular, o sanduíche mordido, a má­quina de cartão de crédito e a caixa do dinheiro, e depois fez um gesto para que eu o acompanhasse para dentro do Ele se abaixou e empurrou o meu pé para poder levantar um tapete de borracha no chão. Embaixo havia uma tampa recortada de forma rudimentar no compensado. Numa concavidade abaixo dela havia um par de pistolas.

Ele enfiou umas luvas de látex e tirou uma.

  • É uma Glock. Imagino que você não saiba atirar.

Balancei a cabeça.

  • Essa é melhor para gente como você; você tem dezessete tiros. - Ele me mostrou como carregar a arma. — Se estiver realmente que­rendo apagar alguém, você precisa chegar perto.
  • Como assim?
  • Você precisaria praticar umas mil vezes para ter alguma chance de acertar a distância. Vai custar um pau e meio. A munição é grátis.
  • Tudo bem. Mas eu não tenho como pagar agora.
  • Você está de gozação.
  • E a benzedrina? Vamos lá. Eu só comprava de você.
  • Eu tenho um pouco de dexedrina. E tão bom quanto, verdade. Isso vai custar trezentos.
  • Só por umas doses? Qualquer motorista de caminhão tem isso.
  • Não estou vendo nenhum motorista de caminhão por perto no presente momento. E remédio controlado. Eu não faço caridade,

Tirei o relógio e o entreguei para ele.

  • Omega Speedmaster. Vale uns dois mil dólares. Fica como um empréstimo pelos dois, a arma e o estimulante.

Ele pegou o relógio e passou a corrente de aço em volta da mão.

  • O relógio está em bom estado. Vou ficar com ele, só pela arma. E é um acerto final, nada de empréstimo.
  • Você não está falando sério.
  • Sou um ser humano, cara. Todo mundo precisa de dinheiro. É uma necessidade humana.
  • Então eu deveria procurar outra pessoa?

Isso provocou uma bela risada.

  • O tempo está curto. - Ele tirou um saco plástico com fecho do porta-luvas, colocou a Glock dentro dele e depois tirou as luvas.
  • Você não tem alguma coisa onde eu possa colocá-la? Não posso sair andando com ela na mão.

Ele balançou a cabeça e remexeu atrás do banco do motorista, puxando uma pequena bolsa de lona.

  • Eu devia te cobrar mais por isso também. Toma — disse ele. — E agora tchau.

Quando eu saí, deixei a porta um pouco aberta. O sanduíche mordido de Rap estava em cima do painel. Esperei até vê-lo se dirigir ao lado aberto do trailer e engatar uma conversa exaltada com outro freguês, o corpo desengonçado emoldurado por um pano de fundo de barras de chocolate, sanduíches de pão branco embrulhados, la­tas de refrigerante e caixinhas de suco.

Voltando sorrateiramente para dentro do trailer, peguei a semente do mal que Eris havia plantado nas minhas costas, enfiei-a no meio das folhas de alface do sanduíche de Rap e fui embora.

 

Encontrei um restaurante perto da parte mais degradada da Penn Station e tomei duas xícaras de café que parecia ter sido requentado o dia inteiro. Desejei que isso tivesse concentrado a cafeína, e ele real­mente levou embora a maior parte do meu cansaço, embora tenha deixado os meus nervos à flor da pele. Meu barco havia levantado âncora novamente, e estava pronto para navegar por mares revoltos.

Fui olhar o relógio, esquecendo por um momento que ele havia sido confiscado por Rapunzel.

Meu telefone dizia que eram quase onze da noite. Saí andando, sem saber qual deveria ser meu próximo passo. Furiosa por ter me deixado escapar duas vezes, Eris deveria estar soltando os cachorros. Minha vida tinha tomado um rumo bizarro. Era caçado na minha própria cidade, estava impossibilitado de ficar na minha própria casa, minha vida era agora comandada pelo jogo de Hal. Eu odiava aquela situação toda, mas não conseguia enxergar uma maneira de me livrar dela.

Liguei para Laurel. Caiu na caixa postal, o que indicava que ela não estava no quarto. Depois de alguns instantes de temor alar­mante, tentei de novo. Dessa vez ela respondeu.

— Aonde você foi? Você prometeu ficar no seu quarto; não me assuste desse jeito.

Ela riu de um jeito abobado, como se tivesse passado a noite in­teira bebendo.

  • Não agüentei ficar olhando para quatro paredes. Os Zakar e eu fomos ao bar. Alguns drinques afogaram meu tédio maravilhosa­mente.

Vozes masculinas falavam ao fundo.

  • São o Ari e o Tomas?
  • Um momento. Tomas está se despedindo.

Eu podia ouvir a voz mais aguda da Laurel misturada às deles. Cerca de um minuto se passou. Laurel retomou a ligação.

  • Estou me sentindo totalmente idiota agora, por ter suspeitado deles. Eles são assírios.
  • Como?

Seguiu-se uma torrente de palavras.

  • Ari ganhou um montão de prêmios por suas fotografias, e To­mas um dia já quis se ordenar padre. Ele entrou para o seminário antes de ir para Oxford.
  • E por que ele mudou de idéia?
  • Ele se apaixonou, mas a mulher acabou ficando com outro. Uma espécie de romance agridoce, na verdade.
  • Bem, ainda bem que você está tranqüila. - Eu não estava que­rendo ser sarcástico, mas ela não entendeu assim.
  • Você nunca fica satisfeito? Eu achei que você quisesse que eu gostasse deles.
  • É claro que eu quero. Eu não quis passar a impressão errada. Só que eu estou no O cara que nós vimos na Washington Square, o bobo da corte, veio atrás de mim.

Eu a ouvi tomando fôlego.

  • John, você precisa se livrar disso. Você já esgotou sua cota de sorte.
  • É uma boa idéia... para você. Eu já queria que você fizesse isso antes, você se lembra? Quanto a mim, só consigo ver um jeito de me livrar. Encontrar o que eles estão procurando e acabar com isso.

A ligação ficou muda por um instante, e eu achei que ela tivesse desligado.

  • Você tem razão - disse ela por fim. - Vou ligar para alguns amigos e ver se encontro algum outro lugar para ficar.
  • Laurel, se você ainda estiver por perto amanhã, vou tentar mar­car um encontro para nós todos com Claire Talbot, no MoMA.
  • No fim das contas, você resolveu ir vê-la?
  • Não estou chegando a lugar nenhum na minha tentativa de desvendar o significado do Selo do Senado. Talvez seja o caso tentar uma especialista. E eu prefiro não falar com Phillip novamente.
  • Tomas quer consultar um professor, Jacob Ward, amanhã de manhã. Ele é uma autoridade em assuntos bíblicos na Columbia, e conhece Hanna Jaffrey. Ele é especialista em profetas menores.

O nome não me era familiar, então ele devia ter começado a le­cionar na Columbia depois que eu saí.

  • Ele tem alguma idéia de onde Hanna está?
  • Aparentemente não.
  • Eu pensei que Tomas estivesse querendo ser discreto. Ele confia nesse tal de Ward?
  • Sim, confia. Vou pedir para ele mudar o horário. Ward à tarde e Claire de manhã.

Desejei-lhe boa noite e desliguei, sentindo-me um pouco traído. Enquanto eu bancava o cavaleiro errante em batalha, Laurel e os Zakar tinham ido se divertir.

 

De volta ao meu quarto do hotel, coloquei uma toalha sob a água quente e limpei de leve o corte no lugar onde o arame farpado tinha arranhado meu ombro. Deitei na cama, mas o sono me fugiu. Eu estava inquieto e no limite.

Dei uma busca sobre Jacob Ward no meu celular e descobri que ele era um dos principais nomes em sua especialidade acadêmica, com uma tonelada de títulos, artigos publicados nos melhores pe­riódicos e com alta aprovação entre seus alunos. Alguns colegas discordavam de suas opiniões, mas, fora isso, não encontrei nenhum comentário negativo sobre ele. Na verdade, seria interessante conhe­cer o cara e analisá-lo por mim mesmo. Ninguém era tão perfeito.

Em seguida, olhei o diário de Samuel, tanto pela sensação reconfortante de ver sua letra como para achar pistas. Eu esperava que alguma coisa saísse de lá. E saiu.

Samuel havia colado uma foto da xilogravura de Dürer, Mulher da Babilônia, da série do Apocalipse. Embaixo, ele havia escrito:

Eu nunca soube que meu irmão tivesse muito interesse por reli­gião. Mesmo assim, ali estavam evidências concretas, com a letra do próprio Samuel, ligando a alquimia a uma divindade assíria. O que a estrela de oito pontas e a Prostituta da Babilônia tinham em comum? Como um tesouro assírio escondido estava ligado a isso?

Fechei o diário e sentei-me de novo, remoendo as informações. Tudo o que eu tinha até agora eram fragmentos. Eu me sentia profundamente frustrado com minha incapacidade de formar um quadro completo. Tomas ainda estava me escondendo alguma in­formação ou a conversa toda sobre tesouro tinha sido simplesmente um artifício para me afastar da verdade? Samuel tinha feito referência à transmutação. Talvez o destino final que meu irmão tinha em mente não fosse o tesouro, mas a fórmula para converter metais comuns em ouro.

 

Terça-feira, 5 de agosto de 2003, 7h30

Justamente às terças, o MoMA ficava fechado para o público. Peguei Claire em casa. Ela disse que poderia nos ver por volta do meio-dia nas instalações temporárias do museu, em Queens.

Aproveitei para falar rapidamente com Laurel, que me contou não ter conseguido dormir direito depois de ter falado comigo na noite anterior. Ela ainda não tinha conseguido fazer contato com ne­nhum amigo, assim, permaneceria na cidade. Ela afirmou que havia passado a manhã com Tomas e Ari, e nós combinamos nos encon­trar no MoMA.

Enquanto eu me vestia, liguei o NY1. Uma chamada sobre a Guerra do Iraque relatava que corpos de civis estavam sendo encon­trados em um ritmo de vinte por dia, e esperava-se que os seqüestras e as execuções piorassem muito mais. Algumas notícias depois, ouvi uma história sobre uma troca de tiros perto da Penn Station. A câmera deu um zoom em um trailer de comida com marcas de buracos de balas nos painéis de alumínio, e depois passou a mostrar Rapunzel sendo levado para um furgão da polícia, com uma corrente cru­zando as costas e prendendo os braços à cintura. Como eu esperava, Eris e o bobo da corte tinham rastreado o transmissor até o furgão de Rapunzel. A notícia dizia que Rap havia sido acusado de venda de substância controlada e porte ilegal de arma. Nenhuma menção a Eris e seus capangas.

Finalmente uma boa notícia.

Debati comigo mesmo se deveria levar a arma. Eu estava um pouco mais tranqüilo sabendo que Eris provavelmente havia me perdido, e armas sem registro eram ilegais em Nova York - eu não podia me arriscar a ser apanhado com uma. Mesmo se eles tivessem conseguido seguir meu rastro novamente, dificilmente eu poderia me arriscar a provocar um tiroteio e ferir pessoas inocentes. Embrulhei com relutância a arma em uma toalha e enfiei-a na mala antes de descer para o saguão.

Do lado de fora, o ar matinal estava fresco e límpido. Comprei um Times e fui tomar o café da manhã no Westway Diner.

Em destaque, acima da janela, uma faixa anunciava que o lugar havia sido eleito a melhor lanchonete de Manhattan. Sem dúvida, os turistas ficariam impressionados, já que os nova-iorquinos conheciam sua comida, mas só até irem a outras lanchone­tes e descobrir que elas também haviam sido eleitas a melhor de Manhattan. O detalhe era quem havia votado, para que e quando. Por mim, o café da manhã estava aprovado, e o café fresco me deixou revigorado.

Retomando as questões sobre as quais eu havia refletido na noite anterior, senti alguma coisa que eu não sabia o que era pairando no ar. Enquanto comia, deixei meus pensamentos fluir aleatoriamente. Então, ela me veio. Parecia que em vez de me trazer a conta, o gar­çom tinha acabado de virar um saco de ouro em meu prato.

Era a observação de Corinne sobre o funeral da mãe de Hal. Em­bora eu estivesse fora da cidade na época, eu sabia que o funeral de Mina tinha sido na Igreja da Intercessão, em Hamilton Heights. Se a família tivesse um mausoléu, Hal teria acesso ilimitado a ele. Seria um ótimo esconderijo.

Deixei dinheiro em cima da mesa para cobrir minha despesa e corri para o metrô. Desci na estação da 155th Street e percorri apres­sado os dois quarteirões até a Igreja da Intercessão.

Uma parede de pedra calcária acinzentada separava o cemitério da rua. Plantada logo na entrada, havia uma cruz celta alta, com pássaros e animais esculpidos em relevo, instalada em homenagem a John Audubon, que um dia havia sido proprietário do terreno. O lugar tinha uma atmosfera serena, parecia um parque; velhos olmos faziam sombra no gramado, ainda bastante verde apesar do calor prolongado. As lápides variavam de placas de pedra proeminentes com cercas a uma simples sinalização. Muitos túmulos eram tão anti­gos que o nome havia se apagado na pedra. Não havia mais ninguém por perto.

Ver todas aquelas lápides me fez lembrar que não me restava nenhuma família. Com Samuel morto, a pessoa mais próxima de um parente que eu tinha era Evelyn. Eu já deveria ter ido vê-la a essa altura. Embora tivesse pouco mais de cinqüenta anos, sua ar­trite havia piorado a ponto de ela precisar de cuidados constantes. Ela tinha vindo trabalhar conosco pouco depois do meu aniversário de quatro anos. Era surpreendente Samuel ter dado conta daquela obrigação por tanto tempo. Para um homem mais velho, estudioso, com predileção pelo silêncio e pela ordem, não deve ter sido fácil li­dar com uma criança pequena cheia de vida. A história da origem de Evelyn permanecia um mistério para mim, porque ela nunca falava sobre ter crescido no Oriente Médio. As crianças são hipersensíveis quando se trata de segredos guardados, mas, por algum motivo, eu sempre soube que era proibido fazer perguntas sobre os seus primei­ros anos e sobre a razão de ela ter fugido de seu país.

Nos meus primeiros anos de colégio, toda manhã ela embrulhava cuidadosamente o lanche feito em casa em papel-manteiga e em um saco de papel pardo guardado das compras, colocava-o na minha mochila e andava os cinco quarteirões até a escola comigo. Quando fui ficando mais velho, comecei a me ressentir disso. Ela sempre usava preto, e, como um grande corvo negro, sobrevoava os meus ombros, sem nunca me perder de vista. Mesmo no inverno, que ela detestava, enfiava as galochas grandes demais e lá ia atrás de mim, reclamando o caminho todo do gelo escorregadio e da neve acumulada. Eu não suportava o contraste com as mães dos outros meninos, e tentava de tudo para me livrar daquela sombra que me acompanhava, mas, apesar de ela ter uma natureza tranqüila, nunca consegui escapar dela.

Só quando fui para o colégio interno, na adolescência, me dei conta de como ela era importante para mim. Entre todas as pessoas, a mais difícil de encarar depois da morte de Samuel tinha sido ela.

Um caminho circular levava a um grupo de grandes mausoléus. Só esses eram suficientemente grandes para esconder alguma coisa. Como mansões em miniatura, eles ficavam enfileirados ao redor da passagem. Dois deles me chamaram a atenção, mas tinham os no­mes errados: Garret Storm e Stephen Storm. O lugar de descanso de Garret era uma extravagância gótica ornamentada com uma porta de ferro batido e um telhado inclinado ladeado por torres, com uma cruz no topo.

Procurei o túmulo de Mina pelo nome Vanderlin, o nome de ca­sada, e por Janssen, o de solteira. No entanto, quinze minutos de busca se mostraram infrutíferos. Um dos maiores mausoléus, cons­truído de tijolos envelhecidos cor de leite com achocolatado e coberto de musgos pelo tempo, não tinha nenhum nome. A porta estava trancada com um cadeado enferrujado. Se Mina estivesse enterrada em um mausoléu, tinha de ser esse. Dei alguns passos à frente para ver se ele havia sido aberto recentemente.

  • Você aí.

Um homem vinha andando em minha direção. Ele vestia um colete de couro preto,jeans e camisa acetinada. Tinha colares volu­mosos em volta do pescoço.

  • O senhor não deveria estar aqui.
  • Achei que fosse público. O portão estava aberto.
  • Não leu as placas? É preciso autorização da administração do cemitério. Só visitas agendadas.
  • Minha tia-avó morreu há pouco tempo, enquanto eu estava fora do país. Ela deveria estar enterrada aqui.
  • - Ele enrugou os olhos, tentando me medir. - Qual era o segredo dela?
  • Me desculpe, não entendi.
  • O segredo da longevidade. As pessoas pagariam um bom di­nheiro por ele.

Ele estava fazendo alguma piada às minhas custas. Esperei o desfecho.

  • A última pessoa que foi enterrada aqui nasceu em 1836. Isso colocaria a sua tia com bem vividos cento e sessenta e sete anos. Sorte sua se tiver herdado os genes dela. - Ele começou a rir.
  • Devem ter me indicado o lugar errado.

As lágrimas escorriam pelo canto dos olhos dele, mas não eram de tristeza.

  • Alguém disse Trindade?
  • Sim, foi isso o que me disseram.
  • Vá ao columbário. É o único cemitério de Manhattan em que ainda ocorrem enterros, mas só cremação. Você provavelmente vai encontrar os restos de sua tia lá.

Um nicho no columbário seria pequeno demais para esconder qualquer coisa de um tamanho razoável, mas eu ia verificar de qual­quer forma. Talvez Hal tivesse deixado um bilhete ou outras instruções.

A funcionária de plantão no columbário me disse que era neces­sário marcar uma hora até mesmo para essa consulta. Quando ex­pliquei que precisava ir embora de Nova York à tarde, ela amoleceu.

  • Qual era o nome?

- Janssen.

Ela digitou algumas palavras no computador e verificou a tela.

  • Nenhum registro de Janssen. Talvez no cemitério, mas não aqui no columbário.
  • Tudo bem. Você poderia procurar por Minerva Vanderlin? - Soletrei para ela.
  • Ah, sim. Aqui está. O nicho não está mais no nome dela. O filho veio buscar os restos.
  • E quando foi isso?

Ela olhou para a tela de novo.

  • Vinte e cinco de janeiro, seis meses atrás.

A urna que eu havia visto no closet da casa provavelmente havia abrigado, em algum momento, os restos dela. Ele devia ter espalhado as cinzas em algum lugar de que ela gostava, como muitas vezes as pessoas fazem, e usado a urna para guardar as pedras.

Segui para o metrô, infernalmente irritado. Hal tinha me supe­rado mais uma vez. Eu tinha tanta certeza de que estava na direção certa... A decepção pesou muito.

Esperei o trem, confiando em pegar um vagão com o ar-condicionado funcionando e ganhar uma rajada de ar frio. Até mesmo a curta caminhada vindo do cemitério tinha me feito pingar suor. A poucos passos, dois rapazes se exibiam para a multidão que aguar­dava. Os dois vestiam calças que deviam ser tamanho extragrande, embora nenhum dos dois fosse gordo, e camisetas muito largas, uma com a imagem de Tupac Shakur estampada na frente, a outra com a de Seanjohn. O rapaz mais baixo usava um par de Air Jordan 18s que devia ter custado uns duzentos dólares.

Observei a movimentação deles, apreciando sua destreza. Um deles de repente pegava a canela do outro e se arremessava para cima. O parceiro, por sua vez, pegava a canela dele de volta, e eles formavam um O humano. Eles davam cambalhotas na plataforma e depois voltavam com uma desenvoltura de deixar acrobatas profis­sionais sem fôlego. A multidão aplaudiu e atirou moedas, e os rapazes recolheram os trocados antes de o trem chegar rapidamente à esta­ção. Nós fomos chacoalhando pelos trilhos a toda a velocidade. Eu me deliciei com o frio do vagão, que parecia uma câmara frigorífica.

 

As instalações temporárias do MoMA localizavam-se em uma ex-fá­brica de grampeadores da Swingline. Os bons cidadãos do Queens comemoraram quando ficaram sabendo que um bam-bam-bam da cultura ia atravessar o rio e se instalar em seu burgo. Eles pintaram o prédio de um tom forte de azul.

Ari estava em pé perto da porta de entrada, tragando nervosa­mente o seu Gitane. Laurel, com uma aparência um pouco frágil e cansada, esperava ao lado de Tomas. Por um lado, saber que ele estava cuidando dela tirava um grande peso das minha costas, mas, por outro, ele estava com um ar de quem tinha tomado posse dela, o que me deixou incomodado.

Claire Talbot veio nos encontrar depois que nós nos identifica­mos na entrada. Ela me deu dois beijos enfáticos e apertou a mão de Tomas e de Ari. Laurel ganhou um sorriso frio. Ela e o guarda nos acompanharam pela exposição de pinturas impressionistas da coleção permanente. Nós passamos pela Noite estrelada. O quadro se impunha mais ainda diante das muitas reproduções inferiores. O es­tilo que era a marca registrada de Van Gogh podia ser apreciado com toda a sua força: pinceladas violentas, espirais turbulentas, tons estridentes de azul-marinho e azuis apocalípticos. A lua amarelo-vibrante se destacava, o sol, visível no mesmo céu, fazia um contraste pálido e aguado. A imagem escura do cipreste se erguia para o céu como um obelisco ancestral.

  • Há sempre uma multidão em volta da Noite estrelada - disse Claire. - As pessoas parecem nunca se cansar desse quadro. Imagine quantos pôsteres e gravuras devem existir espalhados pelo mundo. Aqueles girassóis todos! - Ela deu um sorrisinho. - Esse período não é a minha especialidade, como você sabe, querido. - Ela roçou os dedos na manga do meu paletó. Percebi que Laurel notou.

Claire tinha uma aparência intrigante: pele de alabastro; uma cabeleira cheia, acobreada, na altura dos ombros; olhos castanho-claros; longos dedos de artista e um corpo esteticamente magro. Ela adorava usar roupas de estilo artístico, com estampas arrojadas, e jóias artesanais que chamavam a atenção. Eu me lembro dela com um vestido feito de um tecido copiado diretamente de uma pintura de Mondrian. Depois que ela terminara com Phillip, nossos cami­nhos se cruzaram muitas vezes em recepções e lançamentos, em que ela sempre fazia questão de vir me cobrir de elogios. Uma vez eu mordi a isca, até ficar claro que o verdadeiro objetivo dela era roubar um de meus melhores clientes.

Com as pessoas que ela julgava estarem à sua altura, Claire era uma pantera. Sedutora, suave como veludo. E não guardava rancor.

  • Nunca se sabe - disse-me ela uma vez - quando as pessoas podem ser úteis. Não vale a pena cultivar inimigos. - Esse conselho social calculado aparentemente não se aplicava a seus subordina­dos. Com eles, os acessos de mau humor e as repreensões no estilo diva eram lendários. Volátil. Ora calorosa, ora fria, conforme lhe convinha.

Quando chegamos ao escritório, ela nos fez sentar em brilhantes cadeiras de plástico branco, verdes e pretas. Eu lhe mostrei uma có­pia do Selo do Senado. Ela a examinou por dez longos minutos, foi até o computador, mexeu no teclado e depois sentou-se e sorriu.

  • Eu não esqueci as coisas que aprendi com meu pai quando ainda era pequena. Está vendo o chapéu cônico sobre as treze estre­las? Isso se chama barrete frígio. Os frígios vieram da Trácia, prin­cipalmente da região hoje conhecida como Bulgária. Por volta do ano 1.000 a.C., os trácios migraram para a região da Anatólia, na Turquia. Lugar que se tornou o reino da Frígia.

Olhei discretamente para Tomas. Na noite anterior, ele havia su­gerido que o tesouro roubado pelo rei Assurbanípal teria vindo da Anatólia, sede do reino frígio. Isso nos fornecia outra ligação.

  • O barrete frígio se mostrou duradouro - continuou Claire. - E possível traçar a sua história por intermédio da arte. Ele está em um busto grego de Atis, o amante da deusa Cibele, do século II, e é comum ver o deus persa Mitra usando um. Mitra se transformou no deus guerreiro romano, então, para os libertos romanos, o barrete simbolizava a liberdade.

Laurel disse que ele fazia lembrar os chapéus usados pelos revo­lucionários franceses.

  • É claro - respondeu Claire, com um toque de condescendência. - Por causa da associação com a liberdade. Como eu já expliquei.
  • Nós estamos chegando a algum lugar? - eu dirigi a pergunta para o resto de nosso grupo.

Seguiu-se um silêncio incômodo. Ari suspirou.

  • Isso é complicado para mim.
  • O que exatamente vocês estão procurando? — perguntou Claire.
  • Estamos atrás de uma palavra associada à alquimia, especifi­camente ao conceito de transformar chumbo em ouro. Mas eu não vejo nenhuma relevância no barrete frígio.
  • Eu achei que você tivesse me falado que tinha alguma coisa a ver com Dürer.
  • Phillip nos ajudou a resolver isso. Tomas está escrevendo um trabalho sobre as origens mesopotâmicas do pensamento hermé­tico. Ele encontrou a imagem do Selo do Senado no decorrer da pesquisa.
  • Aliás, como anda o meu ex? - Era eu quem estava sentado mais perto dela. Ela estendeu o braço e apertou a minha mão. - Aposto que ele cobrou pela consulta - disse ela.

Todo mundo riu, menos Laurel. Ela evidentemente não estava impressionada com as demonstrações de espirituosidade de Claire nem com a atenção voltada aos homens.

  • Bem, vocês estão no caminho certo. - Claire lançou um sor­riso radiante em direção a Tomas. - Há uma forte relação. Só um segundo.

Ela deu uma busca em mais sites e depois nos convidou a olhar para a tela.

  • Isso vem de um manuscrito do século XVII chamado Atalanta fugiens, de Michael Maier. A parte do livro em que essa imagem apa­rece é um guia para transmutação. O funil com uma aparência es­tranha acima da cabeça do alquimista é parte de um aparelho de destilação em que o chumbo é depositado para ser purificado. Moe­das de ouro prontas repousam dentro do cesto em cima da tora. Descrições de processos alquímicos eram comuns em manuscritos medievais e renascentistas.
  • Ele está usando um barrete frígio - observou Laurel.
  • E verdade. O barrete estava fortemente associado à alquimia.

Claire passou a mão nos cachos encaracolados. A luz que se refle­tia do cabelo dela também parecia tingida de cobre e ouro.

  • O mito grego de Jasão e do tosão de ouro é originário da Frígia, onde foram encontrados depósitos de ouro lendários. O mito surgiu porque peles de ovelha lavadas no rio Pactolo, rico em ouro, ficavam saturadas de pequenas pepitas que grudavam na lã.

Ela buscou outra página e apontou para uma nova imagem.

Esse é outro fólio famoso do mesmo período, chamado Mutus Liber, o Livro do Silêncio. E francês. Com exceção de algumas linhas no início, o livro não tem nada escrito, só ilustrações. É como um ma­nual sobre transformar metais comuns em ouro. Só Deus sabe quan­tas pobres almas pagaram caro por esses experimentos. As pessoas morriam por causa de venenos químicos, queimaduras terríveis ou coisa pior. O czar russo Teodoro I Ivánovitch uma vez forçou dois alquimistas a tomar mercúrio porque eles não conseguiram cumprir a promessa de fazer ouro.

Eu pensei em Shim, que havia ido em busca do mesmo sonho e sofrerá horrivelmente por isso.

  • Os chefes de estado europeus temiam os alquimistas porque se eles tivessem sucesso, grandes volumes de ouro fabricado desvalori­zariam suas moedas. Ao mesmo tempo, cobiçavam esse poder para si mesmos.
  • Você está dizendo que eles se opunham apenas se a fórmula caísse nas mãos de outro? — eu interrompi.


Claire sorriu.

  • Sim. As coisas não mudam muito, não é? Você provavelmente acha que a alquimia não passava de uma grande farsa, mas, na ver­dade, é possível? A resposta é sim. Cientistas russos transformaram painéis de chumbo em ouro em uma instalação de pesquisa secreta perto do lago Baikal, em 1972, e dez anos depois um americano, Glenn Seaborg, converteu átomos de bismuto em ouro. Fazer isso em larga escala, porém, seria ridiculamente caro.Claire bateu com o dedo na imagem da tela.

 

    • Claire estava certa. Olhando para trás, para aqueles experimen­tos, pela perspectiva da ciência moderna, as primeiras explorações químicas eram praticamente risíveis. E, sem dúvida, um número significativo de alquimistas que haviam prometido uma forma fácil de criar ouro ou elixires de imortalidade não eram muito diferentes dos vendedores de óleos milagrosos. E, ainda assim, novamente me perguntei se algum daqueles primeiros praticantes realmente havia encontrado a fórmula. Muitos estudiosos respeitados daquele tempo achavam que isso era possível.
  • Os hermetistas acreditavam que toda matéria era composta pe­los mesmos elementos; eles só precisavam encontrar a chave certa para alterar o equilíbrio e fazer a mudança de uma forma material para a outra. Meu pai achava que a alquimia era na verdade uma alegoria para estágios de purificação espiritual.
  • Quem escreveu o Mutus Liber? — perguntou Ari.
  • Um huguenote - disse Claire. - Os protestantes huguenotes franceses eram perseguidos severamente, então o autor precisava es­conder o seu nome. A página inicial do livro trazia uma frase em latim: "Cuius nomen est Altaus". O nome do autor, Altaus, foi transfor­mado em anagrama para esconder sua verdadeira identidade. Seu verdadeiro sobrenome era Saulot.

 

 

Depois de nos despedir de Claire, voltamos para Manhattan, onde encontramos um restaurante tailandês perto da casa de Jacob Ward. Laurel olhou para o céu antes de entrarmos.

  • Bem que podia chover - disse ela. — Isso é o que a minha mãe chama de um dia empapado. É tão opressivo!Laurel suspirou.

 

    • Pegamos uma mesa. O garçom anotou os pedidos e voltou com nossas bebidas. Tomas ficou enrolando com um café. O resto de nós pediu cerveja Sing Tao estupidamente gelada, que descia maravilho­samente pela garganta. Coloquei as palavras barrete frígio nos espaços. Uma nova página deu o ar da graça.
  • Parece que isso não acaba nunca.
  • Não - corrigi nós estamos perto. - Sob os quadrados, Hal havia escrito: "Você está na reta final".
  • Não faço idéia do que esse cara pretendia. Essa coisa toda é uma perda de tempo colossal - disse Tomas irritado.

 

    • Ari, sempre negociando a paz, interrompeu.
  • Até onde eu me lembro, John, quando você nos mostrou os passos anteriores não havia nada de muito complexo.

 

    •  
  • Achei os malabarismos da última bem traiçoeiros - disse Laurel.
  • Para você talvez, Laurel. Mas ele não estava pensando em você quando armou essa coisa toda. Ele tinha John em mente. Por que ele não deixou para você? Você é a herdeira, não é?

 

    • "Boa jogada, Tomas", pensei. "Divida e conquiste, se puder."
  • Como você bem sabe, para começar, a inscrição não pertencia ao Hal.

 

    • Nós quatro ficamos sentados em silêncio, tentando decifrar o que parecia ser um anagrama. Ari, que era quem dominava menos o inglês, achou o esforço particularmente frustrante.
  • Eu ainda penso o tempo todo no meu trabalho. Estou com difi­culdade para me concentrar.
  • A história da qual você estava indo atrás em Washington?
  • Sim.

 

    • Percebendo que eu estava perdido, Ari se virou para mim.
  • Em Washington, antes de vir para Nova York, alguns contatos confirmaram rumores sobre Abu Ghraib.
  • O que é isso?
  • Uma prisão no Iraque. As forças de ocupação estão mandando equipes de interrogatório para torturar prisioneiros. Isso vai aconte­cer fora do comando militar normal. Essa notícia é inacreditável. Se vazar, todo o Oriente Médio vai pegar fogo.
  • Isso é um fato confirmado?
  • Estou trabalhando exatamente para confirmá-lo.

 

    • Tomas cortou o assunto. A impaciência dessa vez era dirigida ao irmão.
  • Por que você está trazendo isso à tona? A gente precisa se con­centrar nesse maldito jogo.

 

    • Ari simplesmente respondeu:
  • Nem todo mundo pode viver no passado.Quebrei o impasse com uma interrupção para perguntar a To­mas sobre os relatos que eu havia encontrado nos escritos de Samuel.

 

    • Tomas revidou com algumas palavras em assírio.
  • O diário de Samuel menciona dois reis obscuros, um chamado Asa, o outro Mita. Isso te diz alguma coisa?

 

    • O mau humor que ele vinha acalentando transformou-se em raiva. Ele bateu a mão na mesa.
  • Você avançaria muito mais se estivesse concentrado em en­contrar a inscrição em vez de ficar examinando cada palavra que Samuel escreveu. E há uma coisa que não está resolvida. Eu quero que ela seja entregue a mim quando for encontrada.
  • Eu vou entregá-la ao FBI - respondi sem rodeios.

 

    • Os lábios dele se curvaram para baixo numa careta feia.
  • Eu não concordo com isso.

 

    • A pouca paciência que me restava desapareceu em uma nuvem de irritação.
  • Depois de tudo por que eu passei, você espera que eu te entre­gue um artefato roubado que vale milhões? Eu iria para a cadeia. Todo o meu empenho para montar o meu negócio seria destruído.

 

    • Tomas deu uma risada amarga.
  • A julgar por tudo o que eu já ouvi, você não sabe o que é tra­balho duro. Você vivia às custas de Samuel. Na verdade, você matou sua galinha dos ovos de ouro.

 

    • Eu cerrei o punho, e Ari colocou a mão em meu braço.
  • Será que nós podemos nos comportar como adultos? - disse ele. - As pessoas estão olhando.

 

    • A gerente do restaurante olhou para a nossa mesa, levantando as delicadas sobrancelhas escuras. Eu abaixei a voz.
  • Me explique uma coisa. Até agora, quem está levando a carga pesada sou eu. Laurel e eu, nossas vidas estão em perigo; meu irmão morreu; o marido de Laurel morreu. Você contribuiu com o quê? Por que você pelo menos não tem uma atitude mais positiva?

 

    • Tomas me lançou um olhar frio o suficiente para paralisar uma cascavel.
  • Você acha que eu estou pegando carona com você? Você não sabe nada sobre mim. O perigo que vocês estão correndo agora não é nada comparado ao risco que eu vou correr para levar a inscrição para casa. Alguém precisa cuidar dessa parte.- Já chega. Isso está saindo de controle. Em todo caso, está na hora de ver seu professor, Tomas.Do lado de fora, parecia que a atmosfera estava ainda mais quente. Agosto em Nova York. Todo mundo que podia tinha saído da cidade. Quanto ao resto, dava efetivamente para ver o vapor saindo pelas orelhas.Quando chegamos, Ward nos fez entrar em um hall de propor­ções generosas. Ele falou cordialmente para Tomas:

 

    • Jacob Ward morava na West 44th Street, em um quarteirão com típicas casas nova-iorquinas de quatro andares, de tijolos marrom-avermelhados e com grades pretas sofisticadas separando a pequena fachada da calçada. O Actor's Studio, onde Elia Kazan e Lee Strasberg desenvolveram o sistema de atuação teatral chamado de Método, destacava-se de forma proeminente na rua. Legiões de estrelas, Brando, De Niro e Monroe, para citar algumas, haviam aper­feiçoado seu talento ali.
    •  
    • Laurel amassou o guardanapo dela e jogou-o em cima mesa.
  • Vocês tiveram sorte de me encontrar em casa. Meus filhos estão em Westhampton com minha esposa e a governanta. Eu só voltei por causa de alguns compromissos.
  • Eu estava me perguntando se você soube alguma coisa de Hanna depois que nós conversamos - disse Tomas.
  • Não, infelizmente não. Mas isso não é de se espantar. Nós não nos correspondemos com regularidade.

 

    • Ele me apertou a mão.
  • Eu soube que você é irmão de Samuel Diakos. Eu o conhecia só pela fama. Sinto muito pelo acidente.Algumas pessoas levam a vida com pura energia, ofuscando os que as circundam. Ward, uma estrela indiscutível na sala de aula, incor­porava muito disso em sua atuação como professor. Ele parecia mais um showman do que um mestre. Tinha um rosto cheio e avermelhado, bonito, apesar de um pouco carnudo. O terno e a camisa eram feitos sob medida, ostentosos demais, mas cortados com maestria. Ele estava usando uma gravata Duchamp e um cinto Ferragamo de couro caramelo. Uma corrente de ouro lhe circundava o pulso. As unhas, brilhan­tes demais para serem naturais, haviam passado por uma manicure.Ward fez um gesto em direção à árvore.

 

    • No jardim, nós nos sentamos em espreguiçadeiras confortáveis, com garrafas de Perrier e rodelas de limão à mão. Uma cascata de hera cobria a parede da casa vizinha. Um papagaio de papel flu­tuava nos galhos de uma árvore. Um conjunto de plantas grandes, de largas folhas verde-escuras e flores brancas em forma de trombeta, brotava como vegetação silvestre perto de um rio. Dois vasos de cada lado das portas da cozinha estavam recheados de petúnias, que exalavam um aroma atalcado, excessivamente doce, como o per­fume de uma senhora de idade.
    • Murmurei um agradecimento. Ele nos fez descer uma escada até o nível do jardim e sugeriu que nos sentássemos do lado de fora.
  • Vocês acreditam que nós temos um casal de cardeais aqui? Bem no coração cidade. Eu ainda penso nesse bairro como o Hell's Kitchen, apesar de o nome ter sido mudado para Clinton. Uma estraté­gia imobiliária. Não é uma bobagem?
  • É por causa do ex-presidente? - perguntou Tomas.

 

    • Ward riu baixinho.
  • Não, esse está se escondendo em Winchester. - Ele se incli­nou para a frente, apoiando a bebida no joelho. - Eu cresci a dois quarteirões daqui, em um apartamento modesto, no terceiro andar. Minha esposa, Miriam, recebeu uma herança generosa. As crian­ças estavam crescidas, e ela queria se ocupar, então nós pegamos o nosso capital e escolhemos duas propriedades. Somos donos da casa imediatamente atrás de nós. E de uma na 47th. Miriam refor­mou as duas de cima a baixo. Em alguns anos o mercado imobiliá­rio vai ter um pico, e nós vamos passá-las para a frente. - Ele riu. - Quando o cofrinho começar a esvaziar. Mas não esta aqui. Eu quero ficar com ela.Ele pegou o copo e cruzou as pernas.

 

    • Parecia uma informação excessivamente pessoal para dividir com pessoas que ele havia acabado de conhecer. Mas eu senti que essa era uma das maneiras que ele tinha de fazer as pessoas se sentirem à vontade. Pelos meus cálculos, o cofrinho devia estar bem cheio. Ele estava falando de um valor em imóveis na casa dos vinte milhões de dólares, sem contar o que quer que tivessem em Westhampton.
  • Antes de chegarmos a Naum, posso perguntar por que vocês estão interessados nele? Ele é um tanto obscuro. Daniel ou Ezequiel, por outro lado, são muito mais úteis para buscas arqueológicas.

 

    • Tomas sorriu.
  • Eu sou de Mossul. Naum passou a maior parte da vida nessa região, então eu tenho um interesse particular por ele.
  • Entendo. Uma pequena explicação prévia, então, sobre inter­pretação bíblica. Tudo é basicamente especulativo. Apesar disso, virou uma pequena indústria. Eu uso o texto massorético da Bíblia Hebraica. O Antigo Testamento cristão é baseado nele. Além das evidências arqueológicas diretas, eu cruzo informações com outros relatos, registros mesopotâmicos, historiadores gregos e romanos, para verificar suas interpretações.

 

    • Tomas concordou com a cabeça.
  • Permitam-me passar algumas informações básicas. A primeira versão completa da Bíblia Hebraica foi reunida em algum momento por volta de 560 a.C., nos anos que se seguiram ao exílio babilô- nico. Há um vácuo de pelos menos trezentos anos até o texto mais antigo que existe hoje - os Manuscritos do Mar Morto de Qumran. Fragmentos de Naum aparecem no manuscrito 4Q169. Eu tive a sorte de poder usá-los também como um guia parcial.

 

    • Nós estávamos nas mãos de um mestre, e ele se deliciava com a platéia.
  • Vocês sabem o que é uma muraqqa?
  • É um álbum persa, não é? - eu disse. - Lindos livros em fo­lhas contínuas, feitos de pedaços de papel colados juntos, decorados com imagens, caligrafia e bordas ornamentadas.
  • É isso mesmo — respondeu Ward. — Eu gosto de pensar na Bíblia assim. As histórias do Antigo Testamento eram original­mente orais; a conversão para a escrita só começou no século VII a.C., quando a alfabetização floresceu na Judeia. Como a muraqqa, a Bíblia é uma coleção de partes; ao longo do tempo, pedaços foram removidos, alterados ou substituídos por novos. O modo de escrever e os significados originais mudaram. - Ele riu. - Eu já vi colegas discutirem anos por causa do significado de duas frases.
  • Em alguns casos, a mudança não foi proposital? - perguntou Laurel.

 

    • Ward concordou.
  • Uma parte foi intencional. Os autores da Bíblia queriam expressar um ponto de vista teológico, e acontecimentos como a queda de Nínive foram descritos para ilustrar esses valores e não para documentar a história. O Antigo Testamento cristão em si é cheio de pistas editoriais falsas. "Olho por olho", por exemplo. Ge­ralmente no que se pensa quando se ouve isso?
  • Que a punição deve ser adequada ao crime - respondeu Ari.
  • Correto. Mas originalmente significava que não devia ser apli­cada uma punição maior para um crime do que a que ele permitia. E praticamente o inverso da noção comumente aceita.
  • Como a brincadeira do telefone sem-fio - eu disse. - Você faz uma fila, a primeira pessoa cochicha uma frase para o vizinho, e, quando chega ao fim, a frase mudou totalmente.
  • Isso. Aqui vai mais uma: Armagedon. O que isso significa?
  • O fim do mundo? - perguntou Laurel.
  • Não. É um lugar real, uma palavra grega que se refere a um lugar de verdade: Har Megadon, o monte e a planície de Megido, onde a batalha final supostamente vai ocorrer. E uma mudança mais sutil de significado, mas ilustra o que eu quero dizer. Nenhuma história sobrevive intacta por mais do que algumas gerações. O que é velho volta a ser novo. Com freqüência eu acho que essa afirmação é praticamente um reflexo perfeito da realidade.
  • Você está falando dos mitos mesopotâmicos - eu disse.
  • Exatamente. Peguemos a história original de Caim e Abel. Você já parou para pensar nas inconsistências dela?
  • Não posso dizer que tenha passado muito tempo pensando sobre isso.
  • Nós temos Abel, o pastor, e Caim, o agricultor. Por que Deus ficou tão ofendido com a oferta de Caim? Não seria natural Caim, um agricultor, oferecer o "fruto da terra"? Por que era um presente pior que o de Abel, o pastor que deu as primícias de seu rebanho?

 

    • Tomas, para não ser superado por mim, deu sua opinião:
  • As ovelhas eram mais valiosas porque eram usadas para sacri­fícios?

 

    • Ward tomou um pouco de Perrier e se levantou. Ele gostava de gesticular enquanto falava, e ficar sentado certamente impunha li­mitações.
  • Você precisa colocar a história em seu contexto social - disse ele. - A maioria dos povos hebreus da Judéia naquele tempo era nômade, constituída de pastores. Seus inimigos territoriais naturais eram os habitantes das cidades. Caim é agricultor, e, sendo assim, não está ligado à vida nômade, mas à das comunidades assentadas. Mais adiante, no Gênesis, nós vamos ver que depois do exílio Caim se tornou o pai das cidades. Ele simbolizava as cidades que o Gênesis descrevia como antros de pecado, uma noção, por sinal, que perdu­rou até os tempos modernos. A "natureza" é celebrada, e as cidades são vistas como um mal necessário.

 

    • Ward continuou em pé com as costas apoiadas na mesa de jar­dim, obrigando-nos a levantar os olhos para fitá-lo.
  • Minha interpretação é, de certa forma, uma licença poética. Os autores da Bíblia hebraica queriam forjar uma grande nação. Eles foram extremamente bem-sucedidos. Mas isso tornou necessário en­fatizar a ameaça dos inimigos, os construtores de cidades cananeus e assírios.
  • Eu acho que você está tomando muitas liberdades. Tudo é aberto a interpretações. Você não pode provar nada disso. - Tomas pareceu um pouco incomodado com a afirmação de Ward. Se ele um dia havia estudado para ser padre, sua crença nos ensinamentos tradicionais provavelmente continuaria firme.

 

    • Ward gesticulava com o copo. Eu podia ouvir os cubos de gelo tilintar quando espirrava água do copo.
  • O Gênesis é uma parábola escrita por um povo nômade amea­çado por cidades-estado. Leiam a versão mesopotâmica anterior de Caim e Abel. E completamente diferente. Nela, os dois protagonistas eram um rei pastor e um rei agricultor. Mas a disputa era por uma mulher, não por ofertas a Deus. Um motivo muito mais plausível para uma briga.Ward interrompeu meus pensamentos.

 

    • Eu sabia que Samuel concordava com a visão dele. Ele acreditava que os mitos não eram inventados, mas que tinham origem em acon­tecimentos reais. A história do dilúvio era um exemplo perfeito. An­tes do advento da escrita, as informações só podiam ser transmitidas oralmente, e a informação crua que era vital para as futuras gerações precisava ser expressa da forma mais dramática possível - por meio da poesia. As rimas e o ritmo da poesia tornavam as histórias mais fáceis de serem lembradas.
  • Voltando a Naum, quando comecei a estudar o livro, pedi a um amigo escritor que o analisasse para mim. Não é um texto muito conhecido; ele nunca tinha ouvido falar dele antes. Então, ele fez uma abordagem de um ponto de vista totalmente novo. A primeira surpresa foi o fato de ele ter adorado o texto. Disse que era poético, totalmente convincente. Mas o texto também o deixou confuso, por­que todo o tom e o ímpeto da obra mudavam significativamente de­pois do primeiro capítulo. Isso confirmou aquilo em que eu acredito e que outros especialistas discutem.
  • E o que seria? - perguntei.
  • O primeiro capítulo inteiro e os primeiros dois versos do se­gundo capítulo foram escritos muito depois da obra original, e, com certeza, não por Naum. E interessante notar que a Bíblia do rei Jaime confirma isso quando começa o segundo capítulo, no que na Bíblia hebraica é o capítulo 2:2.

 

    • Caíram alguns pingos de chuva. O céu ficou cinza-chumbo. Uma tempestade estava ameaçando despencar. Nós nos levantamos bem rápido e corremos para a cozinha.
  • Acho que no fim das contas sentar do lado de fora não foi a melhor das idéias - disse Ward. - Vamos subir para a biblioteca.Aproveitei o intervalo para ir ao banheiro, no segundo andar. Ele era equipado com banheira e chuveiro separados, e o chuveiro era preso ao teto, para o jato de água cair como uma cachoeira. Uma pia de cerâmica artística, um aparelho elétrico de limpeza dental de fazer inveja a um dentista, azulejos Milano artesanais, assoalho de tá­buas largas de pinho, toalhas brancas impecáveis.Quando me virei para sair, olhei pela janela. Um Range Rover prateado estava parado do outro lado da rua. As janelas escuras não me permitiam ver quem estava dentro. Meu estômago deu um nó. Puxei a manivela para abrir a janela, ouvi o motor ligado e senti o cheiro do escapamento. Eu precisava achar um jeito de verificar o veí­culo sem revelar o problema para Jacob Ward.

 

  • Quando retornei, encontrei-o em pé na frente da lareira, em plena atuação, expondo alguma sutileza sobre suas teorias bíblicas.
  • Olhei a hora e praguejei em voz alta quando me dei conta de que havia esquecido o compromisso com Reznick, o advogado criminalista. Aquilo tudo era demais para minha cabeça. Telefonei imedia­tamente para o escritório dele, mas, como ninguém atendeu, precisei me contentar em deixar uma mensagem na secretária eletrônica.
  • Ward nos conduziu até a sala da frente, no primeiro andar. A parede do fundo da biblioteca estava lotada de livros: volumes sobre arte e fotografia de Nova York; livros antigos com cheiro de mofo, com escritos dourados em hebraico na lombada; uma prateleira inteira dedicada ao simbolismo na arte religiosa; um ou outro ro­mance. Eu puxei O grande Gatsby e, folheando-o, vi que era uma primeira edição autografada.
  • Acho que os convidados do seu próximo compromisso devem estar chegando - eu disse. - Espero que nós não estejamos tomando muito de seu tempo.
  • Se eles já chegaram, estão muito adiantados; eu ainda tenho mais de uma hora. Como você sabe?
  • Tem uma SUV do lado de fora da casa.

 

  • Ele andou até a janela da frente, olhou para fora e depois riu.
  • São cinco e meia. E o meu vizinho Lawrence Barry. Meus filhos o chamam de Larry Barry, o homem dos trinta minutos. Ele aparece todo dia a essa hora e fica sentado no carro por exatamente meia hora.
  • Só para conseguir estacionar?
  • É proibido estacionar antes das seis da tarde. Um cara no nosso quarteirão uma vez cometeu o erro de pegar aquela vaga uns cinco minutos antes de Larry chegar. O homem tinha acabado de se mu­dar; não tinha a menor noção de como aquilo era uma péssima idéia. Toda manhã ele descobria algum novo tipo de insulto. Um arranhão perto da maçaneta da porta, uma lata de Coca-Cola jogada no capô, cocô de cachorro no para-choque. Cada dia uma coisa. Depois de umas duas semanas ele entendeu, e desde então aquela vaga é do Larry. Eu deixo o meu caro na Columbia e pego o metrô para casa. Não vou me meter nessa maluquice.

 

    • Ward saiu para repor nossas bebidas e voltou com uma jarra de água gelada e uma travessa de biscoitos. Ele serviu os biscoitos.
  • Estes são os melhores. Cookies de chocolate amargo e manteiga de amendoim da padaria Levain's. É sempre bom ter alguma coisa doce para beliscar quando bate aquela fome no fim da tarde.Olhei para Laurel. Ela estava pálida e parecia inquieta, e não sor­riu quando viu que eu estava olhando. Perguntei se ela estava bem. Ela disse que estava ficando com dor de cabeça, mas que podia agüentar por mais algum tempo.

 

    • Ward pareceu não notar e continuou:
    • Ele tinha um talento inegável para deixar as pessoas à vontade. Dava para ver por que ele era um palestrante de sucesso. Mas eu percebi muitas dissonâncias. Ele estava fazendo uma encenação. Eu me perguntei que tipo de pessoa se escondia por trás dela.
  • Naum significa "o que conforta". Isso é um pouco enganador. Quem ele está confortando? Não os assírios. Você pode achar que os membros da tribo de Judá ficaram mais tranqüilos ao tomar co­nhecimento do terrível destino de seus inimigos. Mas a obra também trazia um alerta velado para eles, ameaças terríveis sobre as conse­qüências de adorar deuses estrangeiros. - Ward olhou ao redor para ter certeza de que ainda prendia a nossa atenção. Dava quase para ouvir o rufar dos tambores a distância. - Eu acredito que o Livro de Naum não era uma profecia, mas um testemunho ocular do cerco a Nínive e de sua destruição pelos medos e babilônios. Como eu disse antes, o primeiro capítulo foi acrescentado muito mais tarde."As primeiras duas linhas em 2:4 fazem referência a escudos ver­melhos e soldados vestidos de vermelho. Isso descreve especifica­mente os medos. Segundo os relatos babilônicos, Ciáxares, o rei dos medos, liderou a batalha apoiado pelos guerreiros de ummamandu, uma tribo cita do norte, e pelos babilônios. Os medos eram guer­reiros intrépidos, conhecidos por usar vermelho para esconder seus ferimentos de combate. Isso mantinha o moral de seus homens e projetava uma imagem de invencibilidade para os inimigos.

 

    • "A frase de Naum no versículo 2:7, As portas do rio estão abertas, e o palácio, enfraquecido', muitas vezes é citada como prova de que o livro é uma profecia." Falou virando-se para Tomas:
    • "Como vocês podem imaginar, essa não é uma opinião muito bem vista, mas eu tenho um aliado interessante", Ward prosseguiu. "A versão da Bíblia do rei Jaime coloca todo o Livro de Naum no tempo futuro. Provavelmente os tradutores acharam que o texto he­braico, boa parte no tempo presente, não parecia suficientemente 'profético'. E há várias outros sinais que revelam o conhecimento direto de Naum sobre a batalha.
  • Talvez você possa nos ajudar aqui.

 

    • Dessa vez, Tomas pareceu ficar satisfeito por ser incluído.
  • Até agora não foi encontrada nenhuma evidência de uma inundação em Nínive. Fogo, sim; uma grande extensão da cidade foi incendiada. Só cinco dos quinze portões de Nínive foram es­cavados: Halzi, Shamash, Adad, Nergal e Mashki. Armamentos e esqueletos encontrados nos portões de Halzi e Adad levaram alguns arqueólogos a concluir de forma precipitada que esses locais representavam o principal ponto de ataque. Mas nós sabemos que existiam dois portões de cada lado do ponto em que o rio Khors penetra no território de Nínive. É totalmente possível que esses sítios, os portões do rio, tenham sido derrubados primeiro, per­mitindo que os exércitos invadissem os limites da cidade. Provavel­mente esse é o significado da frase.
  • Uma coisa tão específica indica um relato em primeira mão, não uma profecia - concordou Ward. - Resumindo, eis quem eu acho que Naum era, seja esse o nome verdadeiro dele ou não: um talentoso escriba hebreu deportado para Nínive quando jovem para trabalhar para o notório tirano Assurbanípal. O rei havia juntado a imensa biblioteca de tabuletas escavadas em Nínive, a maioria delas copiada de textos babilônicos, então nós sabemos que ele precisava de escribas habilidosos. O Livro de Naum toma emprestado pala­vras assírias, fornecendo provas adicionais. Os próprios ancestrais de Naum provavelmente passaram pelo terror dos ataques assírios à Samaria. Isso por si só já explicaria o sentimento de ódio quase pessoal em sua escrita.

 

    • Eu acrescentei uma pergunta:
  • Quando Nínive caiu, Naum não seria um homem velho para os padrões da época?
  • Sim - disse Ward. - Provavelmente tinha mais de sessenta anos, e não lhe restavam muitos anos mais. — Ele usou os dedos para enu­merar as observações seguintes: - Primeiro, o livro é uma carta que dá aos contatos de Naum na Judéia um relato de uma testemunha ocular da batalha. Segundo, ele envia uma mensagem para as tribos de Judá, alertando-as contra adorar ídolos e deuses estrangeiros. Ter­ceiro, ele tem outra função: contrapor-se ao enorme poder da deusa Ichtar sobre o coração e a mente das pessoas. Quarto, o livro satisfaz a necessidade do próprio Naum de expressar seus sentimentos de vingança. Ele, sem dúvida, regozija-se com a queda de Nínive. Tomas quebrou o silêncio.

 

    • Depois de agradecer a Ward pelo tempo concedido, nós deixamos a casa e caminhamos em direção à 9th Street, cada um perdido nos próprios pensamentos, ponderando sobre o que ele havia nos dito.
    • Nenhum de nós, é claro, mencionou o quinto propósito: a mensa­gem oculta de Naum sobre a localização do tesouro de Assurbanípal.
  • Não sei se concordo com todos os argumentos dele, mas Ward estava certo quanto a uma coisa: a inscrição foi feita depois da queda de Nínive.
  • Como você sabe? - perguntei.
  • Ela data de 614 a.C.
  • Eu achava que os métodos de datação não eram tão precisos.
  • Samuel nos disse que uma marcação na parte inferior da inscri­ção atesta a data... em termos acádios, é claro.

 

  • Ainda contrariado com a atitude de Tomas, tentei imaginar um jeito de evitar passar mais tempo com os Zakar. Inesperadamente, Laurel providenciou a desculpa.
  • Estou ficando com enxaqueca - disse ela. - O máximo que eu podia agüentar era ficar sentada lá até o fim. Minha vista está em­baçada. Quando a dor chegar, vai ser um desastre. Culpa dessa umi­dade pesada.
  • Você tem algum remédio para isso?
  • Meus comprimidos, mas eles estão em casa.
  • Não podemos ir a uma farmácia? - eu disse.

 

    • Em menos de um minuto, o rosto dela passou de pálido a cor de cera.
  • Eu precisaria de uma receita.
  • É melhor você ir embora - disse Ari. — Vamos chamar um táxi para você na 9th. Nós vamos para o Waldorf e encontramos vocês lá mais tarde.

 

    • Eu acompanhei Laurel de volta à cobertura, de olho em qual­quer sinal de que estivéssemos sendo seguidos. Quando chegamos ao prédio, ela subiu e eu fiquei para trás, encostado na grade do jardim triangular do outro lado da rua. A localização me dava uma boa visão da calçada e da área ao redor. Fiquei lá por vinte minutos sem detectar nenhum sinal de Eris. Quando entrei, Laurel estava deitada no sofá da sala íntima.
  • Você melhorou?
  • Minha cabeça sim, graças aos comprimidos, pelo menos por en­quanto. Meus pés estão me matando, eu não devia ter usado salto.
  • Nisso eu posso ajudar. Você tem algum hidratante?

 

    • Ela pegou um tubo de creme na bolsa e me entregou. Fechando os olhos, ela se deitou nas almofadas. Os pés estavam descalços. Eu vi as marcas vermelho-vivas ameaçando virar bolhas em volta do calcanhar e do dedinho. Espremi o creme na palma da mão. Ele ti­nha um cheiro frutado agradável, como o de maçãs amadurecendo. A pele dela estava úmida e quente ao toque, e eu tomei o cuidado de fazer movimentos lentos e suaves. Os cantos dos lábios dela se curva­ram para cima de prazer. Sem abrir os olhos, ela disse:
  • Você não tem idéia de como isso é maravilhoso, John.

 

    • Ela suspirou e colocou as pernas de volta no chão.
  • O detetive Gentile me deixou um recado. Vão liberar o corpo de Hal amanhã, então preciso tomar as providências e falar com os advogados para liberar o dinheiro para o funeral. Tenho muito a fazer.Desabotoei um pouco a camisa, ainda com calor por ter ficado do lado de fora. Laurel havia regulado o ar-condicionado na tem­peratura perfeita; o ventinho gelado não era perceptível. Eu passei a hora seguinte lutando com as palavras de Hal antes de dar uma espiada nela. Ela ainda estava ao telefone, mexendo em alguma coisa sobre a mesa enquanto falava. Parecia um anel.Achei uma xícara de chá cheia de couves-de-bruxelas mofadas, um queijo camembertz uma embalagem de Perrier na geladeira. Minha intenção era fazer uma salada, mas descartei a idéia. Tirei o queijo e coloquei-o em um luxuoso prato de bolo de cristal. Em contraste com a geladeira, os armários estavam recheados de pipoca, latas de castanha de caju, potes de azeitonas gregas, caviar de esturjão russo, alcaparras, ostras de Malpeque defumadas, pacotes de biscoito, sacos de salgadinho e chocolate amargo.Na sala de jantar, apanhei facas e garfos de prata de lei de uma das gavetas, uma toalha de mesa e guardanapos de linho com uma inscrição em latim e as iniciais HRH bordadas nas laterais em letras douradas. Peguei ainda um candelabro de três velas. Com todas as coisas empilhadas em uma bandeja, fui para ao terraço e montei uma bela mesa.Laurel pareceu não notar quando eu voltei ao escritório.

 

    • Toques de lavanda tingiam o céu noturno. Sequei a mesa e as cadeiras ainda molhadas da chuva da tarde e coloquei a mão ao redor das velas para acendê-las. Felizmente elas não se apagaram. Algumas luminárias solares, arbustos e plantas em vasos estavam dispostos perto do parapeito. Quando me virei para sair, vi uma pe­quena mariposa pousar no globo de uma luminária, batendo as asas em lenta harmonia, abrindo e fechando. Só as fêmeas voam à noite. Surpreendente uma mariposa voar até aquela altura.
    • A geladeira de vinhos forneceu uma bela garrafa de riesling Schloss Lieser. Seco e refrescante. Abri dois pacotes de biscoito diferentes e arru­mei-os ao redor do queijo. Uma tigelinha de vidro que combinava com o prato de bolo servia perfeitamente para as azeitonas. Abri as ostras, coloquei-as em uma vasilha e arrumei o chocolate em uma travessa.
    • Na cozinha, as bocas do fogão de aço inoxidável ainda estavam com a embalagem de celofane. Eu sabia que Hal vivia de comida de delivery, e imaginei que, nas raras ocasiões em que cozinhava, Laurel devia ser uma artista exclusivamente do micro-ondas.
    • - Tudo bem. Por que você não começa, enquanto eu trabalho no jogo? Pode não levar tanto tempo quanto você pensa.
  • Quer jantar comigo no terraço?

 

    • Estendi o braço e levei-a para fora. Ela enrubesceu quando viu a mesa.
  • Que gentileza a sua!

 

    • Servi o vinho e nós fizemos um brinde.
  • A você - eu disse, e pousei o copo. Um pouco de vinho escor­reu pelo lado e deixou uma marca na toalha. Senti a mãe de Hal se revirar no túmulo.
  • Você fez algum progresso?
  • Encontrei uma casa funerária para cuidar das coisas, e os advo­gados vão liberar dinheiro suficiente para pagar o enterro. Tirei um peso enorme das costas. Agora preciso avisar as pessoas.-John, eu vou embora. Preciso me afastar desse jogo do Hal. O problema é seu, não meu, e eu estou cansada disso. Tenho coisas de­mais na cabeça. Não tenho energia para mais nada. Aonde quer que isso vá terminar, não tem nada a ver comigo.

 

  • Ela foi até o parapeito e se encostou nele. Luzes vinham de toda a cidade agora, um milhão de estrelas na galáxia urbana. Mais adiante, a superfície plana e escura do Hudson tornava sua presença sensível pela ausência de iluminação. Os prédios altos brilhavam como ouro à luz do sol poente acima das faixas iluminadas que demarcavam as linhas verticais e horizontais das ruas e avenidas; luzes coloridas ver­melhas, azuis e verdes saíam dos luminosos de neon. O barulho da rua que subia até nós era muito sutil. A gárgula, encolhida em uma sombra profunda, inspecionava a cidade do alto como se estivesse juntando forças para saltar sobre os corpos desavisados lá embaixo.
  • Infelizmente o grupo de alquimistas acredita que você está en­volvida.
  • Não vou permitir que eles controlem minha vida. Até pouco tempo atrás, eu era uma mulher de vinte e quatro anos capaz de to­mar as próprias decisões.
  • Mas nós já concordamos que você não pode ficar aqui.
  • Eu sei. Minha amiga finalmente entrou em contato comigo. Ela vai me receber por alguns dias.
  • Isso é ótimo. Onde ela mora?
  • Em New Haven. Ela vem para a cidade algumas vezes por se­mana. Ela vem me buscar hoje à noite, mais tarde.

 

    • Eu ia sentir falta de ficar com ela, mas as coisas seriam muito mais fáceis se eu só precisasse me preocupar comigo mesmo.
  • Você está obcecado com essa coisa toda. Devia desistir disso. Você não tem algum lugar para ir por algum tempo também?

 

  • Eu pensei na perseguição que sofrerá na Autoridade Portuária.
  • Eles iam me encontrar de qualquer jeito.

 

  • Ela passou os dedos pelo cabelo e suspirou.
  • Acho que no fundo você gosta da aventura. Você disse que ia entregar a inscrição para o FBI. É verdade mesmo? O dinheiro que você poderia ganhar deve ser bem tentador.
  • Tentador para um tolo. Essa coisa é mais quente do que ferro em brasa. Um comerciante com um longo histórico e com clientes inter­nacionais muito discretos poderia conseguir fazer uma venda como essa, mas eu ainda não cheguei a esse ponto.
  • A coleção de Peter foi toda embora. É isso mesmo?

 

  • - Até onde eu sei... Vendi todos os itens que nós havíamos catalogado.
  • Você devia ver a bagunça que estão esses registros. E não é só por obra de Hal... os arquivos da mãe dele também estão um caos total. - Lágrimas escorreram pelo rosto dela.

 

    • Eu não sabia direito o que ela estava querendo que eu fizesse. Aproximei-me só para que ela soubesse que eu estava lá, sem querer fazer mais nenhuma pressão.
  • Tem alguma coisa errada?
  • Eu queria que Hal e eu tivéssemos tentado nos acertar. Fiquei realmente esperançosa quando Mina morreu. As pessoas diziam que não entendiam como nós dois havíamos ficado juntos. Mas ele tinha um lado que ninguém conhecia. Nunca tentou me controlar. Res­peitava minha visão das coisas e me apoiava, mesmo que as minhas escolhas se revelassem catastróficas.Ela me empurrou, relutante.

 

    • A cabeça dela estava abaixada. Ela esfregou a mão na bochecha como se estivesse querendo conter o impulso de chorar. Eu a abracei com a intenção de confortá-la. Meu gesto de consolo rapidamente se transformou em outra coisa. Os seios dela estavam contra o meu peito. Enterrei o rosto em sua exuberante cabeleira sedosa, beijei-lhe o pescoço e depois os lábios. Tentei segurar o rolo compressor do meu desejo, mas qualquer suposta intenção de ir devagar rapidamente se evaporou.
  • Sabe — disse ela -, uma parte de mim gostaria de fazer isso, mas eu não estou pronta. Hal ainda nem foi enterrado, e no mo­mento eu preciso de um pouco de espaço. Não vamos perder nada se esperarmos.Não sei ao certo o que me fez acordar. Podem ter sido as rajadas de vento trazendo pingos de chuva para dentro, fazendo-os bater no chão. Olhei a hora: nove e quinze da noite.Fechei as portas com uma batida, quase caindo no chão escorre­gadio. Eu estava com frio e, para dizer a verdade, um pouco envergo­nhado por ter dormido. Fui verificar o banheiro. Estava vazio. Nada da Laurel. Chamei-a pelo nome. Ela não respondeu.Ela teria ido para a sala dos espíritos? Quando abri a porta, o cheiro que eu havia notado antes se espalhava pelo corredor, mas a sala estava escura e vazia. Junto ao corredor havia uma outra esca­daria: nos tempos áureos das atividades sociais de Mina, a escada era usada pelos empregados. Ela levava a um amplo andar superior com quartos, banheiros, closets e ante-salas.Não ouvindo nada, chamei-a de novo. Minha voz ecoou e reverberou nas paredes como a de um cantor dos Alpes. Segui adiante, com as mãos esticadas, até encontrar a parede. Usando os painéis de madeira como guia, avancei devagar pelo corredor.O que ela havia feito - tinha fugido no meio da noite chuvosa? Com certeza, ela teria deixado um bilhete se já tivesse ido para New Haven. A primeira suspeita de que havia alguma coisa errada se ma­nifestou quando eu fui até a rotunda. Vi uma abertura estreita, uma fenda nos painéis, onde o mármore encontrava uma faixa de madeira incrustada. E claro. Tinha de haver alguma saída além do elevador. Mas, a menos que você realmente passasse a mão pela superfície, quando a porta estava fechada, não daria nunca para saber que ela existia. Era estranho o fato de a porta estar aberta daquele jeito.

 

  • Liguei para o celular dela e caiu na caixa postal. Meu e-mail ti­nha uma nova mensagem, enviada há poucos minutos de um ende­reço desconhecido. Nenhum texto, só um anexo com um vídeo. O que vi me deixou tomado de pavor.
  • Um interruptor apareceu, e quando eu o ativei, uma série de arandelas antigas ganhou vida. Continuei a avançar, abrindo as portas, chamando por Laurel. Era evidente que ninguém se aven­turava por ali há algum tempo. O lugar tinha uma aura silenciosa, vazia. Passei a mão na borda dos painéis de madeira; minha mão saiu coberta de pó. Minha apreensão crescia a cada minuto. Con­tinuei a busca mesmo muito tempo depois de os meus instintos co­meçarem a me dizer que não iria encontrá-la. Quando meu cérebro finalmente entrou em compasso com o meu coração, uma onda de tristeza se formou ao meu redor. Senti um ódio repentino daquele lugar e queria sair de lá.
  • Laurel devia ter ido para lá, provavelmente para não me inco­modar. Não encontrando nenhum interruptor na escada, subi tro­peçando. Os degraus de madeira rangiam. Cheguei a um corredor que parecia um vale escuro e parei, esticando a cabeça como um ca­chorro, tentando ouvir algum barulho que indicasse a presença dela.
  • Por que as luzes estavam apagadas? Eu me lembrava de ter di­minuído as luzes da sala íntima, mas não as havia desligado. Laurel devia tê-las apagado ao me ver dormindo. Eu apalpei a parede para achar o interruptor e acendi a luz. Uma luz fluorescente fria inundou o branco-azulado da cozinha.
  • Lutei para chegar às portas de vidro. O terraço estava escuro e com um ar desolado, os restos da comida boiavam nas travessas. O candelabro havia caído, e uma vela tinha feito um buraco preto na toalha antes de apagar.
  • Murmurei alguma coisa como uma resposta de que estava tudo bem, apesar de as palavras colidirem com meus verdadeiros senti­mentos como um martelo acertando uma vidraça. Quando ela saiu e voltou para o escritório, peguei a garrafa de vinho e virei o resto, sentindo-me rejeitado, apesar de saber que não tinha nenhum bom motivo para reagir daquele jeito. Tentei me concentrar no jogo de Hal de novo, mas comecei a apagar.

 

O vídeo abriu com um fundo cinza granulado, tudo fora de foco, depois ficou mais claro e foi dado um zoom em Laurel. Eles a tinham amarrado a um cano vertical em um ambiente com paredes e chão de azulejo. Não havia nenhum som. O filme tinha um ar amador, ba­lançava como um vídeo de casamento malfeito. O corpo dela estava caído, a cabeça solta como se o pescoço estivesse quebrado. Tentei ver se dava para detectar o peito subindo e descendo, alguma coisa que pelo menos indicasse que ela estava viva. Alguém fora do ângulo de visão da câmera deve ter dado uma ordem, porque ela levantou a cabeça. O rosto dela estava branco e atordoado, os olhos tinham uma mistura de abatimento e terror. Ela falou, mas eu não consegui entender o que ela disse pelo movimento dos lábios.

Desci as escadas correndo, caindo algumas vezes sem nem sentir. Tive a presença de espírito de me recompor logo antes de chegar ao hall de entrada. Gip não devia estar na recepção. Abri a porta e fiz um gesto com a cabeça para o porteiro.

  • Você conhece Laurel Vanderlin?
  • Conheço — disse ele.
  • Você a viu sair?
  • Há quase uma hora. Uma amiga a levou para o hospital. Eu perguntei se devia ligar para a emergência, mas um amigo estava com o carro ali fora. Ainda bem, porque ela teve dificuldade para andar até lá.
  • A amiga dela. Uma loira bem bonitona?
  • Não sei bem. Por quê? Você não lembra com quem vocês esta­vam?Subi alguns quarteirões da 7th Avenue correndo. Chovia muito; eu não me importei. Eu precisava erguer uma barreira entre mim e essa última hora terrível.Saí cambaleando, mal percebendo para onde meus pés me le­vavam. Uma cascata de horrores desfilava à minha frente como es­píritos do mal vagando em um cemitério - o acidente de carro, o assassinato de Hal, Shim e Eris nos caçando, o bobo da corte sor­rindo e agora Laurel. Todos os meus atos tinham um lado obscuro. Meu cérebro estava explodindo de angústia. 

 

  • Meu celular tocou. Outro e-mail. Curto e direto ao ponto.
  • Quando meus pulmões começaram a doer cada vez que eu to­mava fôlego, busquei abrigo embaixo de um toldo. Eu estava total­mente encharcado, minhas roupas grudavam no corpo como se eu tivesse ido nadar com elas, a água escorria pelo meu rosto. A imagem de Laurel naquela sala perfurava meu cérebro.
  • Ele fez uma cara inexpressiva, mas dava para perceber o que ele estava pensando. Um ménage à trois com muita bebida e drogas que tinha dado errado. Ele já tinha visto isso antes mais de uma vez. Ele observou meus passos enquanto eu saía do hall sem dizer uma palavra.

Encontre-nos na caixa-d'água de High Bridge amanhã às nove da noite.

Laurel pela inscrição. Ela vai morrer se você levar a polícia.

 

Fiquei andando para lá e para cá, desesperado para encontrar uma saída para a situação. Sentei em uma praça; os bancos estavam molhados por causa da chuva, mas eu mal notei. Mesmo à noite, os fumantes estavam por toda parte, deixando um rastro de bitucas embaixo dos bancos. Um cara perto de mim vestindo um elegante terno risca de giz jogou o cigarro ainda aceso no chão, pegou a pasta e o capacete e foi andando até uma motocicleta. Uma Ducati S4R preta, esplendor em duas rodas. Ele montou na moto e deu a partida. Eu daria qualquer coisa para, como ele, poder desaparecer numa noite de verão e deixar o buraco imundo da minha vida para trás.

A High Bridge foi construída nos anos 1840 para levar um duto com água fresca e limpa do rio Croton até Manhattan. Era a ponte mais antiga que havia sobrevivido na cidade. Entrara em decadên­cia e fora fechada depois de uns guardas pegarem crianças jogando pedras nos barcos da Circle Line. Eu já havia visto fotos dela, e na época havia pensado que ela me fazia lembrar muito a arquitetura do Império Romano. Originalmente construída com pedra, a clás­sica série de arcos que se espalhava sobre o rio Harlem evocava ima­gens dos antigos aquedutos que cortam o vale do Tigre. Embaixo da superfície plana havia um espaço fechado para abrigar a tubulação que percorria toda a extensão da ponte. Naquele tempo, até mesmo os espaços mais funcionais eram projetados para ser bonitos, e esse tinha arcos e pilares ornamentados.

A torre ficava em um ponto abandonado do parque. Uma pessoa havia sido assassinada lá no ano anterior. Colocar-me naquela situa­ção seria equivalente a me amarrar a uma cadeira elétrica e puxar a alavanca. Eu precisava encontrar outro jeito de negociar uma salva­ção para Laurel.

 

Começou a trovejar quando entrei no Waldorf. A chuva de antes não havia alterado a umidade; o ar estava pesado com o calor opressivo, como o interior de um vulcão prestes a entrar em erupção.

No meu quarto, revirei minha mala em busca da arma. Eu preci­sava de toda a ajuda possível no momento.

Ela tinha sumido. Alguém havia alertado a segurança para dar uma busca atrás dela? Se isso tivesse acontecido, eu estava perdido; eles já teriam chamado a polícia a essa altura. Se alguém tivesse re­clamado, a segurança teria de agir, mas era pouco comum um hotel invadir a privacidade de um hóspede. E quem teria falado alguma coisa? Ninguém tinha acesso ao meu quarto. Troquei-me rapidamente e me dirigi ao quarto dos Zakar.

Ari me recebeu com o entusiasmo habitual quando abriu aporta.

- John, nós estávamos nos perguntando quando veríamos você. Esperávamos que você tivesse voltado horas atrás. Tomas desistiu de esperar e desceu para o bar. Cadê a Laurel?

  • Eles a levaram, Ari. Por Deus, o que eu vou fazer?

 

    • Ele afundou no sofá e colocou a cabeça entre as mãos.
  • Isso é péssimo. Temo que você não consiga resgatá-la.
  • Hal foi um filho da mãe quando fez isso conosco.

 

    • Ari levantou a cabeça.
  • Mas já está feito. Precisamos seguir em frente, isso é tudo. Tem mais uma coisa que eu preciso te mostrar. - Ele se levantou, foi até o quarto e voltou com um saco plástico.Ari abriu a janela e perguntou se eu me importava que ele fumasse. Enfiou a mão no bolso da calça e tirou um pequeno disco de prata com uma tampa que se abria. Um cinzeiro portátil. Pegou o maço de Gitanes, puxou um cigarro e o acendeu. Segurando o cigarro de lado entre o polegar e o indicador, ele deu um trago profundo e expeliu a fumaça com um suspiro. Então, abriu o saco, enfiou a mão nele e tirou a arma.

 

    • Imaginei o que viria depois.
  • Tomas achou isso na sua mala. Você não tem porte de arma; nós vimos que o número de série foi raspado. Ele ficou muito bravo por você mantê-la perto de nós.
  • Você está brincando comigo? Ele não tinha o direito de mexer nas minhas coisas. E, aliás, como ele entrou no meu quarto?
  • Ele não deveria ter entrado. Mas é errado você ter uma arma estando conosco. Tomas está aqui com documentos falsos. Se nós es­tivermos juntos e você for pego, ou, pior, se você a usar, isso vai causar um problema terrível para todos nós. De qualquer forma, Tomas a inutilizou. Você não pode mais usá-la.
  • O que eu resolvo fazer não é da conta de vocês. E, devo acres­centar, por causa das decisões que Samuel e o seu irmão tomaram, Laurel pode morrer.
  • Concordo, mas nós todos estamos presos nesse, nesse... lamaçal agora. Estou tentando fazer o possível para nos tirar daqui. O único motivo pelo qual eu vim para cá foi para tomar conta de Tomas, e agora preciso pegar um avião para Londres amanhã cedo. Não quero ir embora se não tiver certeza de que está tudo em paz entre vocês dois.
  • Você não me respondeu. Como ele entrou no meu quarto?
  • Tentar sobreviver a duas guerras e muita traição no Iraque pode ser uma grande motivação para adquirir habilidades que não têm nenhuma utilidade para gente como você. - Ele colocou o saco na cama, ao seu lado.
  • Por que você precisa ir a Londres?
  • Fiz uns avanços na história sobre a qual te falei. Isso é um pro­blema; foi um avanço um pouco grande demais. Alguns membros do alto escalão do governo americano ficaram sabendo. Fizeram sérias ameaças contra mim, e eu fui chamado de volta para Londres. Eles querem que eu me afaste por algum tempo antes de ser realocado.
  • Seus patrões vão abandonar a história?
  • Não, provavelmente eles vão procurar um freelance local menos conhecido do que eu para fazer a cobertura, alguém que possa des­cobrir as coisas sem chamar tanta atenção. Eles querem me proteger.

 

    • O cigarro tinha queimado até a metade. Ele suspirou e amassou-o no cinzeiro.
  • No Iraque, todos os dias você vê coisas horríveis como essa que aconteceu com Laurel. Pessoas seqüestradas, explodindo, sendo mor­tas sem motivo nenhum. Pouco antes de vir para cá, outro repórter e eu saímos de Bagdá para cobrir uma história em Nassíria. O calor parecia uma fornalha, e a viagem era em uma região desolada. Nós vimos muitas vezes veículos de abastecimento americanos passando como morcegos saindo do inferno."Nosso motorista freou bruscamente. Havia uma coisa escura no meio da rua, uma menininha, ou o que havia restado dela. Ela havia sido atropelada pelo comboio. Nós descobrimos depois que ela tinha visto os caminhões de suprimentos chegando e correra até ali porque alguns dias antes os soldados haviam parado para dar doces para eles. Duvido que eles saibam que a atropelaram. Eles viajam muito rápido para evitar ataques. O irmão estava apavorado, com medo de ir até ela e a mesma coisa acontecer com ele."

 

    • Os murmúrios dos trovões se aproximaram. Pensei em fechar a janela.
    • "Uns vinte minutos depois de passarmos por um dos comboios, vimos alguma coisa à frente. No começo parecia alguma coisa bri­lhando do lado da estrada, como um pedaço de pano branco tremu­lando. Mais de perto dava para ver que era um adolescente usando uma dishdasha. O menino dava alguns passos na direção da estrada e depois voltava para trás, como se houvesse uma linha invisível que ele não podia atravessar. O tempo todo ele chorava. Na verdade, ele gritava. Chorava e abanava as mãos.
  • Suponho que vocês tenham aprendido a lidar com o perigo. Vocês sabem com o que precisam tomar cuidado. Eu me meti em algumas encrencas quando era mais jovem, mas nada assim.
  • Nós... - disse Ari. - Nós também estamos nessa. Você não está sozinho, não se esqueça disso.
  • Ainda assim, estou envolvido em uma coisa que não compreendo totalmente. Minha vida foi ameaçada mais de uma vez, e agora só Deus sabe o que eles estão fazendo com Laurel. Eu achei que tinha descoberto o esconderijo de Hal hoje de manhã, um mausoléu no Ce­mitério da Trindade, onde a mãe dele foi enterrada, mas não consegui entrar. Preciso seguir o jogo de Hal até o fim, independente de como será sua conclusão. Para ser sincero, não tenho nem como pagar pelo resto da busca.

 

    • Ari estendeu o braço e colocou uma das mãos em meu ombro.
  • Não posso garantir que tudo vai acabar bem, mas vou fazer o possível para que isso aconteça. Não se preocupe com o dinheiro, nós vamos cuidar disso.

 

    • Olhei bem para ele.
  • De onde vem todo esse dinheiro? Você é jornalista, Tomas é antropólogo. Alguém mais deve estar custeando vocês.
  • Uma parte foi doada. - Ele desviou o olhar como se estivesse me escondendo alguma coisa.

 

    • O alerta de Laurel sobre terrorismo ressurgiu.
  • Por quem? - insisti. - Algum grupo militante? Preciso saber ou não vou continuar.

 

    • Ari puxou outro cigarro e começou a rolá-lo entre o polegar e o indicador, sem acendê-lo. Ganhando tempo, imaginei, para tentar inventar uma história que eu aceitasse. Ele sorriu.
  • Nós, assírios, temos em mãos só o suficiente para nossa sobre­vivência. Ficamos felizes por ver o fim de Hussein, mas agora cada vez mais gente foge do país. Está ficando muito perigoso para nós. O dinheiro não vem de nós.

 

    • Ele estudou minha reação. Fiquei com a impressão de que ele estava tentando decidir se eu poderia lidar com a verdade.
  • Samuel nos deu o dinheiro. O dinheiro veio dele.

 

    • Um raio lampejou do lado de fora da janela. Eu me senti como se ele tivesse acabado de me atingir.
  • Isso é impossível. Meu irmão não tinha esse dinheiro todo.
  • Pelo que sei, ele vendeu algumas coisas para um investidor de Dubai. - Ari hesitou. - Acredito que a propriedade, o apartamento no condomínio, tenha sido uma delas. Foi isso que ele nos disse. Ao que parece, o comprador concordou com um prazo longo para a entrega, quatro ou cinco meses.
  • Isso é impossível.
  • Ele pretendia te contar. Acho que não deu tempo.Um assobio estranho atravessou o ar. Na esteira dele, o arco lumi­noso de um raio clareou a noite com uma luz fria, como se um holofote tivesse de repente sido apontado para a janela. Ari correu para fechá-la. Me sentei, atordoado com a nova informação. Eu havia perdido Samuel e possivelmente Laurel, e agora a casa que eu adorava tinha ido embora com eles. Enfiei a cabeça entre as mãos. Meu pesar se manifes­tou e jorrou de mim na forma de soluços descontrolados.

 

    • Ari não tentou me acalmar, mas se aproximou de mim. Esperou até eu ficar mais tranqüilo e trouxe uma toalha que ele havia mergu­lhado na água fria. Entregou-me a toalha com um suspiro.
    • Eu podia ver pela cara dele que estava falando a verdade. Afinal de contas, ele não tinha nenhum motivo para mentir. Eu sempre tive uma reserva especial de confiança em Samuel. Ari tinha acabado de mandar aquilo para o espaço.
  • Talvez você esteja achando que Tomas o convenceu a entrar nesse esquema. Não é nada disso. Samuel liderou tudo desde o co­meço. Ele conhecia muito bem os riscos, e deixou bem claro que, se alguma coisa acontecesse com ele, nós poderíamos contar com você no lugar dele.
  • Não consigo imaginar por que ele disse isso.
  • Você está se dando o devido crédito? As vezes, as pessoas pró­ximas veem pontos fortes em nós que nem nós sabemos que temos. Tomas me dá provas disso o tempo todo. Pense. Temos uma boa chance de recuperar a inscrição graças a seu empenho.
  • Não sei se tenho coragem para continuar com isso. Passei os últimos dois dias olhando por cima do ombro, imaginando quando virá o próximo ataque. Ainda estou vivo por pura sorte. Amanhã à noite, Laurel pode não estar.
  • Vou te dar uma coisa.

 

    • Ari enfiou a mão dentro da gola da camisa jeans desarrumada e tirou uma corrente de onde pendia um amuleto dourado. Senti o ca­lor da pele dele no metal quando ele o entregou a mim. Em um lado da medalha havia um disco alado gravado, o símbolo mais famoso da Assíria.
  • É um ktiwyateh. Um talismã assírio. O emblema de Chamach, o deus do Sol - contou Ari. - É protetor. Nós, assírios, existimos há mais de quatro mil anos, então a eficácia dele está comprovada. Antes que você dê risada, ele me manteve a salvo diante de duas guerras, três tiros e muitos outros que passaram perto. Há uma bala com o meu nome por aí, mas até hoje eu escapei dela. O medalhão foi testado e aprovado. Quero que você fique com ele. Nós estamos ligados agora. Companheiros de guerra?

 

    • Ele fez uma pausa e depois continuou:
  • E, por favor, não leve o que Tomas diz para o lado pessoal. Ele está sob muita pressão, como todos nós. Isso não é desculpa para o comportamento dele. Eu não poderia ir embora se não achasse que ele está em boas mãos. Ele também vai ficar doente quando souber o que aconteceu com Laurel. Ele gostava muito dela.

 

    • "Não fale sobre ela no passado. Não agüento nem imaginar isso", pensei.
  • Você também passa uns maus bocados com Tomas.

 

    • Ari sorriu.
  • O que você acha? Eu sou o irmão mais velho. Nós temos um longo histórico a superar. Aos olhos do meu pai, eu não fiz nada errado. Com Tomas, é simplesmente o oposto. Eu pago por isso há muito tempo. Sei como lidar com essa questão. Eu tenho, como vo­cês dizem, braços grandes.
  • Ombros largos.
  • Isso! - Ari riu de novo e tocou o ombro. Ele tinha uma aura tão forte que, quando o sorriso dele esmorecia, como agora, a luz da sala parecia ficar mais fraca. - Outra coisa. Vou violar um segredo, mas é bom você saber. A noiva dele morreu recentemente.

 

    • Olhei para ele, surpreso.
  • Laurel disse que eles haviam se separado, que ela havia se ca­sado com outro.
  • Tomas tem vergonha de contar a verdadeira história. Ele se sente culpado.
  • O que aconteceu?
  • Laurel contou que meu irmão pretendia ser padre?
  • Sim, e que ele havia mudado os planos porque queria se casar.
  • Tomas só poderia usar essa desculpa aqui. - Ele balançou a cabeça com uma espécie de gesto desalentado. - Os padres assírios podem se casar. Não foi isso o que aconteceu.A expressão de Ari murchou.

 

    • "A noiva dele morava com os pais em Bagdá, no distrito de Karradah. Quando começou o bombardeio, ela ficou apavorada e pediu que Tomas a deixasse ficar com ele, mas ele estava ocupado demais ajudando Samuel e achou que ela estaria mais segura em casa. De­pois que pegamos a inscrição, Tomas e eu fomos vê-la."
  • Nós encontramos um desastre: o prédio de apartamentos da família esmagado. Metade ainda estava de pé. Dava para ver as en­tranhas da construção. Mas o resto? Barras de metal saltando para fora, montanhas de concreto destruído.

 

    • "Você vê Tomas como um homem contido, e normalmente ele é. Mas naquela noite ele ficou descontrolado. Foi a única vez em que eu precisei ficar de lado. Não podia fazer nada para ajudar. O corpo dela nunca foi encontrado."
  • Eu sei como é.
  • É claro... Samuel - disse Ari. - E também quero que você saiba que não vou me esquecer de sua herança. Vou garantir que você seja tratado de modo justo.Aproveitei a oportunidade. Eu não precisava ter nenhum escrú­pulo em revirar a mala de Tomas depois da incursão dele pela mi­nha. Nela, encontrei dois passaportes, o iraquiano, com o nome dele, que ele havia me mostrado no Khyber Pass, e um segundo atestando que ele era George Anápolis, cidadão grego. Roupas, produtos de higiene pessoal, um par de sapatos extra, nada mais que despertasse algum interesse. Encontrei um livro em um bolso lateral com zíper e o folheei. As Metamorfoses, de Ovídio. Preso na página do meio havia um retângulo branco do tamanho de um cartão de visitas e, nele, um endereço de Bagdá. O fato de Tomas tê-lo escondido daquele jeito me dizia que ele atribuía muita importância a ele. Peguei um bloco anotações, copiei o endereço e o enfiei no bolso.Apesar da dor que isso me causava, quando voltei para o quarto assisti ao vídeo do seqüestro algumas vezes, para o caso de ter dei­xado escapar alguma indicação de onde eles estavam mantendo Laurel. O fundo era de paredes e chão, de azulejo comum. Poderia ser qualquer banheiro, porão ou prédio comercial da cidade. 

 

  • Liguei o rádio do hotel, na esperança de espairecer a cabeça. Músi­cas do CD de Dwight Yoakam, que por sinal se chamava Last Chance for a Thousand Tears, começaram a tocar. A sensação era de que as chances, as minhas e as de Laurel, haviam desaparecido há muito tempo.
  • Trovejou novamente, uma série de explosões alternadas com a luz dos relâmpagos. A chuva forte batia na janela como mãos gigantes.
  • Ari se certificou de que eu realmente havia me acalmado antes de ir buscar Tomas. Ele levou a arma consigo. Na verdade, acho que ele queria me dar um tempo para ficar sozinho e recuperar a compostura.

Quarta-feira, 6 de agosto de 2003, 7 horas

Seja por causa da intensa provação pela qual minhas emoções ti­nham passado na noite anterior ou pela simples urgência de encon­trar uma solução, decodifiquei a primeira parte do desafio de Hal em pouco tempo na manhã seguinte.

Owl la memoir se convertia em low memorial. Como em Biblioteca Low Memorial, o prédio da administração da Universidade de Columbia. Apesar de as palavras não se encaixarem nos sete espaços, eu tinha certeza de que elas levavam à solução. A resposta estaria esperando por mim no campus.

Chequei novamente o meu e-mail, mas não havia novas mensagens. Mandei uma para o meu advogado, Andy Stein, perguntando a ele se era muito tarde para fazer alguma coisa sobre a venda do apartamento.

Por mais que eu preferisse evitar Tomas, ainda era mais seguro que nós dois fôssemos até a biblioteca juntos. A essa altura, Ari já devia ter lhe contado que Laurel fora seqüestrada, e eu contava com o fato de que ele teria motivação para ajudá-la. Enfiei minhas coisas na mala e telefonei para lhe dizer que ficasse pronto, mas a ligação caiu na caixa-postal. Uma batida na porta ficou sem resposta.

Na recepção, paguei apressadamente pelos quartos e pedi para deixar um recado para Tomas Zakar, pedindo que ele fosse me en­contrar na Universidade de Golumbia.

O recepcionista fez uma consulta.

  • Ele saiu hoje de manhã.
  • Você tem certeza? - Ele tinha ficado tão assustado com as no­tícias sobre Laurel que tinha abandonado nós dois e a busca? Ele tinha ido embora com Ari? Outro mistério a desvendar. Uma ligação para o telefone de Ari não deu em nada. Ele também não atendia. Provavelmente já devia estar inalcançável, sobrevoando o Atlântico. Eu não tinha tempo para me preocupar com Tomas. Laurel era só o que importava agora.

 

 

Um som metálico sinalizava que a cidade voltava à vida. Caminhões grandes erguiam latas de lixo, furgões encostados descarregavam fru­tas e verduras, os funcionários das lojas erguiam as grades de metal das vitrines. Passei por um aventureiro que se preparava para a ativi­dade do dia, instalado na entrada de um dos prédios grandiosos que ladeiam a Fifth Avenue. Dois gatos estavam deitados aos pés dele, um rajado de cinza e um persa preto, cada um em uma cama redonda azul com uma lata de comida de gato aberta ao lado de uma placa mal-ajambrada em que se lia ajude, por favor. A julgar pelas caras botas Kodiak que o cara usava, as pessoas estavam sendo generosas.

Uma Estátua da Liberdade balançou folhetos na minha cara - um homem vestido dos pés à cabeça de látex verde, com a túnica esvoaçante tremulando por causa da brisa. O rosto dele estava coberto com tinta verde, e na cabeça ele levava uma coroa de sete pontas. Os gatos olhavam, espantados.

Eu me juntei à multidão que se amontoava para entrar no me­trô que ia para o norte, desci na parada da 116th Street e me dirigi ao coração do campus. Dizia para mim mesmo que estava tudo bem com Laurel. Eles não tomariam nenhuma atitude drástica antes de ter a inscrição. Mesmo assim, minha ansiedade só aumentava, ofus­cando a onda de nostalgia que me invadiu quando deparei com o Low Memorial. Quantas vezes Hal, Corinne e o resto dos nossos amigos haviam se reunido naqueles degraus para se divertir e ficar na companhia uns dos outros? Eu havia tido muitos bons momentos em Columbia. Olhando para trás, até demais.

Uma beleza neoclássica, o Low Memorial era um templo no topo de uma escadaria imponente. Os arquitetos haviam se inspirado no Panteão de Roma. Dez colunas jônicas se erguiam até uma ampla cúpula de granito.

Passei pelas estátuas de bronze de Zeus e Apolo e parei logo depois da entrada. O que eu estava procurando? Muitos elemen­tos clássicos haviam sido incorporados ao interior. Para qual deles Hal estaria apontando? Circundando o famoso busto de Palas Atena viam-se os doze signos do Zodíaco. Nenhum se encaixava nos sete espaços do desafio de Hal. Eu revi as palavras originais: owl la memoir. Talvez Hal as tivesse usado só para gerar o nome do prédio, mas eu acreditava que tivessem um significado mais abrangente.

A referência à coruja atiçava a minha memória. Hal tinha feito o desafio pensando em mim, logo alguma coisa que eu deveria saber tinha de estar relacionada à resposta. Então eu lembrei o que era. A estátua da Alma Mater que havia do lado de fora. A competição da qual nós havíamos participado quando éramos calouros - encon­trar a coruja esculpida no manto. A estátua havia sido modelada segundo a Atena grega, a deusa romana Minerva. As sete letras do nome da mãe de Hal.

Eu me sentei nos degraus de fora e coloquei "Minerva" nos sete espaços. O nome de Minerva e o anagrama se esvaíram, deixando apenas o diamante e a palavra "transmutação", confirmando que a minha resposta estava correta. O que aquilo queria dizer?

Eu me lembrei da urna funerária que havia encontrado na casa e das pedras de aparência insossa contidas nela. Elas poderiam ser diamantes com muitas impurezas, mas a urna não tinha mais nada, nenhuma indicação de um esconderijo. Pensei nisso por uns dez mi­nutos, até que uma coisa que Corinne dissera veio à minha mente:

"Inacreditavelmente estranho o que ele fez com ela."

Na hora, eu pensei que ela estivesse simplesmente se referindo ao relacionamento um tanto bizarro deles. Ela estaria falando de alguma outra coisa? Corinne atendeu imediatamente quando eu liguei.

- John, ainda bem que você ligou. Desculpe por não ter te dado um retorno ainda.

  • Não tem problema, Corrie. Escute, eu andei pensando em uma coisa. Quando nós conversamos no outro dia, você mencionou que Hal havia feito uma coisa estranha com Mina. O que você quis dizer com isso?
  • Hal não te contou?
  • Não. Ele cremou o corpo dela, não foi?
  • No primeiro estágio, sim.
  • Primeiro estágio?

 

    • Ouvi um suspiro do outro lado da linha.
  • Não me surpreende que ele não tenha alardeado o fato. Foi muito estranho. Aquela conversa sobre querer estar acorrentado a alguém. Ele mandou comprimir as cinzas dela e transformá-las em um diamante, o solitário que ele usava. Assim ela teria uma espécie de imortalidade, ele disse.
  • Você está falando sério?
  • Eles fazem isso hoje em dia. Um corpo humano adulto tem carbono suficiente para gerar dezenas de pequenos diamantes. As pedras são sintetizadas a partir das cinzas.
  • Meu Deus!Corinne quebrou o silêncio.

 

    • Fiquei sem palavras.
  • Há outra coisa que eu preciso contar a você. Sobre Hanna Jaffrey.
  • Você a encontrou?
  • Eu achei uma coisa em um blog de notícias iraquiano. A foto­grafia que ele mostrava nunca aparecia na mídia convencional. Era de embrulhar o estômago. Você já ouviu falar de um lugar chamado Tell al-Rimah? Fica em algum lugar do Iraque.

 

    • "O destino que Tomas havia mencionado, para onde ele espe­rava que Hanna tivesse ido depois de ir embora do acampamento de Nínive."
  • Sim, sei.
  • Ao que parece, ela e o namorado tinham desaparecido de uma equipe arqueológica que estava em Tell Afar. Isso foi em abril. Uma tem­pestade de areia atingiu a região, aparentemente das grandes. Depois que a tempestade se dissipou, eles fizeram uma busca. Encontraram Hanna primeiro, presa a um poste. Foi brutal. Ela havia sido ape­drejada. Um dos membros da equipe disse que o rosto dela ficou irreconhecível.

 

    • Fiquei enjoado só de ouvir.
  • Meu Deus, que horror! Eles pegaram quem fez isso?
  • O corpo do namorado foi resgatado também, não muito longe. Ele é suspeito. O joelho dele estava machucado, e eles supõem que ele a tenha matado e depois tenha ficado preso na tempestade. Pa­rece que eles haviam brigado por algum motivo no acampamento.

 

    • "Ou o namorado tivera ajuda?" Demorei um pouco para ficar calmo o bastante para falar.
  • Alô? Você está aí?
  • Estou. Só estou pensando.

 

    • - John, não quero me meter na sua vida, mas esse negócio é real­mente horrendo. Você está bem?
  • Estou tomando cuidado.
  • Espero que sim. Desencavei mais algumas informações tam­bém. Não é muito, mas pode ajudar. Aquela mulher, Eris Haines. O verdadeiro nome dela é Eris Hansen, e ela não foi demitida. Ela era especialista em trans-humanismo e saiu do Departamento de Defesa amigavelmente.
  • Trans-humanismo... O que isso quer dizer?
  • Tecnologias para aumentar habilidades físicas ou mentais de seres humanos. Uma coisa do tipo homem ou mulher biônica.

 

    • Haines tinha dito que havia estudado no MIT, então isso se encaixava.
  • Corinne, obrigado por isso tudo. Você realmente ajudou.
  • Não tem problema. Mantenha contato. Não suma, OK?
  • Prometo que não vou sumir.Eu precisava voltar para Sheridan Square, o último lugar em que havia visto um anel. Antes de deixar a biblioteca, verifiquei meu e-mail na esperança de ter notícias de Tomas. Nada dele, mas meu advogado havia respondido:

 

  •  
  • Depois de desligar, pensei no ângulo do trans-humanismo e me perguntei se ele tinha alguma coisa a ver com a confusão a que a inscrição de Naum havia levado. Presumi que transmutação signifi­cava transformar metais comuns em ouro, já que essa era a aplicação mais comum da palavra. Mas ela podia se referir a qualquer forma de mudança, até a evolução. Quando pesquisei a palavra, descobri que Darwin inicialmente havia sido chamado de trans-mutacionista. A brincadeira de Hal com as palavras: de carne humana a diamante. De animal humano a uma forma inteiramente nova de ser. Era esse o elemento sobrenatural a que Tomas estava se referindo? Essas per­guntas não levaram a lugar nenhum e me deixaram mais no escuro do que nunca.

John,

Antes de tudo, o que aconteceu com Reznick? Eu te coloco em contato com um dos melhores advogados criminalistas da cidade e você não se dá ao tra­balho de aparecer na hora marcada? Reznick está p. da vida, e eu também não estou muito satisfeito. Quanto ao condomínio, uma firma de Nova York agiu em nome do comprador, então eu entrei em contato com eles. A venda foi concretizada e é final. Nada pode ser feito quanto a isso. Expliquei a sua situação, e eles estão dispostos a deixar você ficar até o dia 26 de agosto. Diante das circunstâncias, é uma boa oferta. Todos os seus pertences precisam ser retirados até lá ou serão confiscados. Isso foi o melhor que eu consegui. Vou mandar uma carta de confirmação junto com o meu recibo.

 

Minha última partícula de esperança morreu como uma fagulha apagada pela chuva. Eu podia conseguir um pouco de dinheiro vendendo a coleção de Samuel, uma coisa na qual eu detestava até pensar. Caso contrário, eu estava quebrado, sendo caçado e comple­tamente sozinho.

 

A mensagem de Andy tornou minha ligação seguinte muito mais difícil. A situação estava fora de controle, e eu não podia mais lidar com ela sozinho. Eu ia ter de avisar a polícia sobre Laurel, mas pre­cisava levar comigo alguém em quem eles acreditassem. Liguei para seu número particular, e ele atendeu imediatamente.

  • Aqui é Reznick.
  • Aqui é John Madison.
  • Bem. Você está só um dia atrasado. Existe uma fila de pessoas querendo a minha ajuda, Madison. Eu encaixei você exclusivamente para fazer um favor para Andy.
  • Eu realmente sinto muito por ter perdido nosso compromisso. Uma amiga minha está com um problema muito sério. Ela...
  • É um problema legal?
  • De certa forma.
  • Se ela quiser uma consulta, espero que ela seja mais educada do que você.
  • Na verdade, ainda não chegou ao estágio legal. Ela foi amea­çada, e agora está desaparecida.
  • Não vá me dizer que você quer ir à polícia por conta disso?
  • Sim, eu estava pensando nisso.
  • Você já esteve na cadeia?

 

    • - Não.
  • Provavelmente não demorará muito e, eu vou te dizer uma coisa: você vai ser comido vivo. Eu te avisei da última vez que nós conversamos para não entrar em contato com a polícia voluntaria­mente por qualquer que fosse o motivo, e isso foi antes de eu conse­guir novas informações.

 

    • Um alarme soou no meu cérebro.
  • Que novas informações?
  • Você vai receber um mandado de prisão logo.
  • Por quê? - Senti o coração afundar.
  • Parece que um vizinho de Hal Vanderlin encontrou a paraferná­lia de drogas que foi jogada por cima da cerca. Uma colher de prata. A polícia está com ela. Ela tem vestígios de heroína e as suas digitais.

 

    • Ele considerou o meu silêncio uma admissão de culpa.
  • Quero te dar mais uma chance. Venha ao meu escritório para dar um depoimento completo, e eu te acompanho à delegacia. Você vai ser acusado, e provavelmente vai passar um dia ou mais preso, mas eu...
  • Não posso. Você não sabe toda a...
  • Então eu não posso mais te ajudar, Madison. Até logo.Gip me cumprimentou quando entrei no hall do prédio de Laurel.

 

    • - Bom dia, John. Que bom que o tempo abriu... Você deve estar aqui por causa de Laurel... Está tudo bem com ela? Fiquei sabendo que ela passou mal ontem à noite.
    • Eu me senti como se estivesse preso no meio do tráfego de oito pis­tas expressas. Todas as minhas possibilidades de movimentação tinham acabado de ser cortadas. Cada policial por quem eu passasse agora seria uma ameaça; quando eu estivesse com a inscrição, teria de achar um jeito de negociar com Eris e sua turma inteiramente por conta própria.
  • Foi só uma enxaqueca muito forte. Ela está bem agora, mas não está em casa. Ela foi se encontrar com os advogados de Hal e precisa de um documento que esqueceu, então eu vim buscar para ela. Tudo bem?

 

    • A expressão dele endureceu.
  • Você vai me desculpar, mas a administração é muito rígida com essas coisas. Ela deveria ter me ligado para me autorizar. Você con­segue falar com ela?

 

    • "Droga. Eu não deveria ter tido tanta certeza de que ele confiaria em mim."
  • Eles estão enterrados em uma reunião, e você sabe como são as recepcionistas, nunca querem interromper.

 

    • Como um bloco de granito alojado no leito de um rio, a cara dele me dizia que ele não ia mudar de idéia. Como eu poderia contornar a situação?
  • Gip, vocês têm segurança no prédio? Eles podiam subir comigo.
  • Só com solicitação. Como eu conheço você, posso ser um pouco flexível. O cara da manutenção está aqui, consertando o ar-condicionado. Vou pedir que ele te acompanhe. — Ele pegou o celular e fez o arranjo.
  • Obrigado. Laurel anda tão chateada por causa de Hal que não surpreende ela andar meio esquecida.
  • Foi muito triste. Eu o vi crescer.
  • Eu sei. Está sendo difícil para todos nós.Fiquei bem nervoso quando nós entramos. Eu achava que tinha visto Laurel mexendo no anel no escritório ao lado da sala íntima, mas não tinha certeza. Através das portas de vidro, ainda dava para ver os pratos e as coisas do jantar molhadas sobre a mesa do terraço.

 

    • O sinal do elevador tocou, o homem da manutenção colocou uma parte do corpo para fora e acenou para mim. Fui até lá e entrei. Felizmente eu me lembrava do código de entrada da cobertura.
  • Que bagunça! - disse o homem da manutenção quando entra­mos no escritório.Ele olhou para mim, desconfiado.

 

    • Parecia que um furacão tinha passado por ali - pastas e fotos es­palhadas pelo chão. O laptop tinha sumido.
  • O que aconteceu aqui?

 

    • Eu dei de ombros. Não precisei fazer cara de quem estava cho­cado; eu estava tão surpreso quanto ele.
  • Não sei. Ela provavelmente devia estar organizando os papéis quando surgiu alguma outra coisa.- Vou precisar relatar isso. - Ele pegou um page no cinto e digitou alguns números.Ouvi o trinado do celular do homem da manutenção. Nos pou­cos segundos em que ele desviou sua atenção para atender, fingi que ia pegar um livro, peguei o anel e o enfiei no dedo indicador. Eu me abaixei e remexi nas pastas que estavam no chão, encontrei uma com a etiqueta Administração de Propriedade e olhei lá dentro. Pu­xei um recibo de imposto territorial e me levantei.

 

    • Senti que a oportunidade de encontrar o anel estava me escapando. Eu achava tê-lo visto no escritório, mas onde? Abri as gavetas da escri­vaninha, pensando que Laurel poderia tê-lo guardado. Blocos de notas, clipes, coisas assim. Mas nada de anel. Então, um raro golpe de sorte: sobre uma prateleira de livros recuada, acima da escrivaninha, havia um relógio de homem e uma carteira, e, ao lado deles, o anel de Hal.
    • Ele não pareceu ter ficado convencido.
  • Está aqui. É disto que Laurel precisa.

 

    • O homem me passou o telefone.
  • Gip quer falar com você.
  • Oi, Gip. Está tudo bem. Há uma carteira e um relógio na pra­teleira aqui dentro. Não foram levados, então acho que você não precisa se preocupar com roubo. Provavelmente, é um caso de dona de casa relapsa. Ela não é lá muito de cuidar da casa. Vou pedir para Laurel falar com você quando ela voltar.— Tudo bem. Ele falou para não fazer nada por enquanto. Ele vai escrever um relatório para o responsável.Minhas mãos eram maiores que as de Hal, e o anel estava tão apertado que eu não consegui enfiá-lo até o fim. Era um anel pesado e desajeitado, e eu fechei a mão esquerda para garantir que ele não caísse. No minuto em que me vi a uma distância segura do prédio, eu o tirei. Havia um jogo de basquete em andamento nas quadras da West 4th Street; uma multidão de ias barulhentos e suados se amon­toava ao longo da grade de metal. Eu tinha passado muitos momen­tos felizes na "Jaula", assistindo à movimentação rápida e violenta. Fui andando devagar até lá.Achando que poderia ser um fecho, fiz pressão em um arabesco na coroa do anel. Ouvi um clique baixinho e puxei a parte da frente do anel para fora. Um pedaço minúsculo de papel dobrado estava no compartimento abaixo dela. Eu o abri com as mãos trêmulas.Eu estava certo. Tinha chegado tão perto! Hal havia, no fim das contas, escondido a inscrição no mausoléu do cemitério ao lado da Igreja da Intercessão. Apesar de Mina não ter sido enterrada lá, Hal ainda tinha o acesso permitido a qualquer hora que quisesse.Parei na Garber's Hardware e comprei uma lanterna pequena e uma serra a bateria para cortar o cadeado. A serra tinha apenas uns dois palmos de comprimento e era fácil de esconder. Joguei mi­nhas roupas em uma lata de lixo para deixar espaço na sacola para a inscrição. Depois de dar outra olhada ao redor em busca de Eris ou alguém da turma dela, fiz sinal para chamar um táxi.Coloquei o cadeado no bolso e, uma vez lá dentro, fechei as portas. Liguei a lanterna e passei-a pelo interior escuro. Lacraias e aranhas pálidas se enfiaram nos cantos sem luz, fugindo do meu doloroso brilho. Caixões de pedra estavam encostados em cada uma das paredes laterais, com a tampa deslocada para o lado. Mi­nha luz evidenciou um amontoado de ossos amarronzados, que não estavam na disposição simétrica de se esperar. Estava frio e úmido dentro do túmulo. Fora os ossos e um emaranhado de teias de aranha, não havia mais nada lá. O segundo caixão continha um esqueleto intacto, em que ninguém havia mexido. A inscrição tinha sumido.Quando saí do túmulo, uma voz cortou o ar:

 

  • Fiquei paralisado de desespero. A última esperança que eu tinha de libertar Laurel tinha desaparecido.
  • Dentro do cemitério, examinei a área em busca do zelador, mas nem sinal dele. Não havia vivalma à vista. A sorte talvez estivesse a meu favor, ao menos uma vez. Fui andado diretamente até o mau­soléu sem nome, supondo, na falta de outro, que esse deveria ser o túmulo Janssen. Quando puxei o cadeado, ele caiu. O fecho havia sido cortado com precisão. As portas se abriram com facilidade, sem travar por causa de sujeira ou entulho, outro sinal de que alguém havia passado por lá antes de mim.
  • Mesmo tendo chegado muito perto da inscrição no dia anterior, encontrar o anel me deu certa paz. Meu palpite era que o pessoal da alquimia tinha destruído o escritório de Laurel em busca da inscrição ou de novas informações que levassem a ela. Provavelmente porque ela tinha dito a eles que procurassem lá. Sem saber a resposta, mas na esperança de ganhar tempo, ela provavelmente havia dado uma pista falsa. Uma manobra inteligente da parte dela. Isso significava que ela não estava tão mal a ponto de não conseguir pensar racionalmente. Meu celular marcava onze horas e quarenta e oito minutos. Restavam-me nove horas para libertá-la.
  • A letra rabiscada de Hal destacava-se em tinta azul: "Trindade - Túmulo Janssen".
  • Achei um lugar vazio no fim da cerca e voltei a atenção para o anel. Parecia velho, com uma armação de ouro ornamentada circun­dando o solitário. Achei que era uma antigüidade, provavelmente uma cópia vitoriana de um antigo anel porta-veneno celta. O selo do ourives do lado de dentro confirmou isso - uma marca que não se vê em anéis contemporâneos. O diamante brilhou no sol como se o espírito de Mina estivesse vivo dentro dele. Assustador.
  • Antes de eu sair, Gip anotou que documento eu havia pegado. Eu estava em êxtase por ter conseguido o anel, como se tivesse acabado de tirar um grande peso das costas.
  • Entreguei o telefone de volta para o homem da manutenção. Ele falou com Gip, encerrou a chamada e olhou para mim.
  • Espere aí. Você veio aqui ontem. Achei que eu tivesse sido claro. - O zelador desceu a elevação atrás do mausoléu, dessa vez sem um sorriso amigável no rosto.

 

    • Colocando o corpo de um jeito que não desse para ele ver que o cadeado não estava lá, eu disse:
  • Depois que você me mandou para o columbário, eu descobri que eles não tinham nenhum registro com o nome da minha tia. En­tão voltei aqui, onde meu primo havia me indicado.
  • Um pouco estranho. Já que esse túmulo nem tem identificação.
  • Eu achei que poderia haver alguma indicação, alguma coisa que eu não tinha visto.
  • E para sua conveniência, você esqueceu que não deveria estar aqui.
  • Mais ou menos isso.

 

    • Ele me mediu por alguns segundos.
  • O que está acontecendo? Hoje de manhã, precisei expulsar ou­tra pessoa daqui. Um turista com uma mochila. Acho que ninguém mais sabe ler.
  • Como ele era?
  • Meio parecido com você, porém mais baixo e mais magro. De cabelo escuro.
  • Ele tinha sotaque?
  • Sim, mas falava bem o inglês.Esforcei-me para tentar entender como Tomas tinha descoberto. Ele disse que tinha feito alguns cursos na Columbia, então era pos­sível que ele tivesse decifrado o anagrama. Exceto pelo fato de que o anel estava intacto e em minha posse. Ele não tinha a vantagem da pista final de Hal. Poderia ter sido minha conversa da noite da véspera, em que eu me abrira com Ari? Eu tinha lhe falado sobre minha visita ao cemitério. Ele teria contado isso para o irmão? Devia ter contado. No fundo, eu sabia que não podia confiar em Tomas.A raiva é um aliado inútil. Ela confunde a mente. No entanto, mesmo com meus sentidos totalmente alertas, eu não teria como prever aquilo. Quando atravessei a entrada da Amsterdã, o bobo da corte, à espreita atrás do muro de pedra alto, enfiou uma arma na minha barriga.A dor ribombou pelas minhas entranhas e depois pareceu se ex­pandir, transformando o meu corpo inteiro em uma gigantesca onda de dor latejante. Eu caí, contorcendo-me na calçada como um cor­deiro abatido. Não conseguia respirar. Lembro-me vagamente de ser arrastado até um veículo, do fedor do escapamento, de uma voz de mulher. Quando tentei me mexer, meu corpo ficou prostrado como um peso morto.

 

    • Ele puxou o gatilho.
    • Não fazia mais diferença. Tomas estava com a inscrição de Naum agora. Fiquei chocado com tamanha duplicidade. Ele havia me traído e deixado que Laurel morresse. Eu ia acabar com ele se um dia o encontrasse de novo.
    • "Tomas." Eu me desculpei pela invasão e fugi do olhar zangado dele.
  • Onde está? - Eris me lançou uma olhar fulminante. Ela abriu bruscamente a minha sacola e praguejou quando percebeu que es­tava vazia.
  • Ele atirou em mim. - Tentei levantar a mão e pressioná-la con­tra o abdome.
  • Ele deu um choque em você — corrigiu ela. — O que você fez com a inscrição?

 

    • Ainda zonzo, levantei-me para me sentar, respirei fundo duas ve­zes e, fechando a mão trêmula, tentei acertar um golpe violento nela. Ela se esquivou com facilidade e torceu meu braço dolorosamente para trás das costas. Ela pegou o aparelho de choque.
  • Quer mais? Mil e quinhentos volts direto em sua cabeça dessa vez?
  • Al você nunca vai encontrá-la.

 

    • Ela franziu o cenho, irritada.
  • Tudo bem. Vou repetir de novo. Onde você a colocou?
  • Ela não estava lá.
  • Você está mentindo. - Ela ligou algum botão na arma paralisante e pressionou-a contra a minha têmpora.- Já estamos quase lá - disse ela. - Ele vai descer para ver você.

 

    • O telefone tocou. Eris enfiou a mão na bolsa e o pegou. Depois de uma breve conversa seca, ela olhou pela janela e depois se virou para mim, sorrindo.
  • Seja ele quem for, ele que se dane também.
  • Então nós vamos precisar arrancar de você a informação.O carro estacionou em uma garagem bem grande que supus perten­cer ao prédio da West 34th Street. Paramos em uma plataforma de carregamento. Eris e o bobo da corte foram me empurrando pelo espaço sombrio, e nós subimos alguns degraus até uma porta de aço.- Sente-se aqui. - Eris apontou uma fila de cadeiras estofadas.

 

    • Olhei em volta, tentando achar algum jeito de fugir da sala, e ouvi uma voz atrás de mim.
    • A primeira vista, a sala em que entramos me fez lembrar uma sala de velório esnobe, decorada para gente rica. Um carpete ma­cio cor de champignon cobria cada centímetro do chão. Havia um grande vaso de prata em cima de um aparador estilo rainha Ana com uma superfície tão brilhante que o refletia com perfeição. Em relevo, ao redor da base, havia os sinais dos cinco planetas antigos que eu tinha visto no site Arquivos de Alquimia: Júpiter, Vênus, Marte, Saturno e Mercúrio. Um cheiro adocicado pairava no ar, como se alguém tivesse tentado disfarçar um cheiro ruim com spray floral barato. O lugar trazia consigo uma espécie de si­lêncio em suspenso, de respiração presa na garganta, comum em uma sala de espera do pronto-socorro ou ao lado de um túmulo.
    •  
  • Acho que está na hora de termos uma conversa mais franca.Minha surpresa momentânea desapareceu. Ali, eu não tinha dúvida, estava Júpiter. Eu não conseguia imaginá-lo em nenhum outro papel que não fosse o de chefào. Jacob Ward era o contato de Tomas. A coisa toda tinha sido uma armação? Ward tinha um interesse bem entusiástico pelo período e bolsos suficientemente recheados para comprar o artefato. Mas, se ele e Tomas estivessem com a inscrição de Naum, por que Ward estaria nessa queda de braço comigo agora?

 

    • Quando me virei, Jacob Ward estava em pé a poucos metros.
  • Vou te dizer uma coisa, Ward. Você tem talento. Como con­segue esconder o fato de não ser melhor que um assassino inútil de Rikers?

 

    • Ele ficou levemente vermelho e passou a mão pelo rosto como se eu tivesse acabado de cuspir em seu rosto.
  • Onde está Laurel? Me leve até ela imediatamente.

 

    • O modo como ele estava vestido, terno preto sob medida, camisa branca e gravata tradicional, fazia-o parecer um agente funerário. Vi uma contração muscular, o único sinal da tensão que ele carregava.
  • Eu apreciei bastante sua companhia na minha casa, John. Va­mos evitar começar com o pé esquerdo hoje. — Ele se aproximou e me deu um tapinha no ombro, o tipo de gesto de um tio para com um sobrinho querido.

 

    • Eu me afastei da sua mão rechonchuda, sem a menor disposição para fingir ser educado.
  • Você não me respondeu. Eu disse que queria vê-la.
  • E se nós recusarmos? Você vai sair balançando um trabuco fumegante? — Ele riu. — Madison, pense nisto como uma briga de cães. Nós somos os rottweilers e você é o poodle - um dos pequenos. Isto não é uma competição. Vamos conversar em outro lugar; sempre tem gente entrando e saindo aqui.Ward fez um gesto com o braço, formando um amplo arco.

 

  • Dar vazão à minha ira podia fazer com que eu me sentisse melhor, mas não ia ajudar Laurel. Eu ganharia mais se entrasse no jogo deles e encontrasse algum ângulo que pudesse explorar. Nós andamos por um corredor até um elevador. O bobo da corte se afastou, deixando Eris na retaguarda. Ward apertou o botão do quinto andar, e saí­mos em uma sala imensa. Do chão ao teto, o lugar tinha uma altura de quase dois andares. O espaço era circular e amplo. Não tinha janelas; supus que as que eu havia visto pelo lado de fora haviam sido bloqueadas. As paredes tinham acabamento de papel de parede caro, branco, com um pouco de brilho. O teto, uma cúpula com uma curvatura suave, tinha uma claraboia central oval com uma armação de bronze no topo. Eu via uma elipse de céu lá no alto, mas a maior parte da luz era indireta - as lâmpadas provavelmente estavam disfarçadas por trás da sanca arredondada. A sala tinha uma tonalidade fria e monótona, sobrenatural. Ao redor da circunferência, havia uma série de armários com portas de vidro, feitos sob medida para as paredes circulares.
  • Nossa galeria — disse ele.

 

  • Monitores de plástico branco, todos com uma fila de luzes verdes piscantes, estavam afixados nos armários. Quase dois terços conti­nham artefatos, e o resto, livros e manuscritos. Imaginei que nem todos deviam ser legítimos - provavelmente eram frutos de saques ou falsificações. Identifiquei uma estátua roubada do Museu Nacional. Com uma ligação telefônica, eu poderia, provavelmente, dar fim a um número significativo de casos do FBI.
  • O vidro é à prova de balas - disse Ward. - Você pode explodir uma granada aqui que ele não vai quebrar. Tudo é protegido contra raios ultravioleta. Dentro, há até um sistema de ventilação independente; ele mantém a atmosfera úmida e a temperatura constante. Como você deve saber, o solo do Iraque é muito salgado. Quando objetos de argila são removidos da terra, eles ressecam, racham e se desintegram. Eu arranjo tempo todos os dias para vir até aqui. Você pode senti-los, sabe? Os antigos artesãos falando com você através do vidro.

 

    • Muitos dos livros e manuscritos tinham páginas que eram pergaminhos delgados e amarronzados, páginas quase transparentes, frágeis como uma pele envelhecida. Eles estavam alojados em pe­quenas plataformas de madeira ou molduras sob medida, como um suporte de livros em miniatura. Pressionei a mão contra o vidro para fazê-lo deslizar e abrir, esquecendo que estava trancado.
  • Os artefatos estão disponíveis para compradores, mas essa seção é minha coleção pessoal. Alguns deles são muito raros. Posso pegar algum, se você quiser ver. - Ward apontou para um volume encader­nado em couro com fechos como os que eu havia visto no Picatrix. - Esse é o Secretum secretorum, Os segredos dos segredos. Data do século XII.

 

    • Ele gesticulou para a direita.
  • O Manual de Munique de Magia Demoníaca, um livro alemão so­bre ritos proibidos. Está em latim. O volume ao lado é uma obra sobre astrologia do russo Vladímir Apriagnev. E o meu grande orgu­lho, uma obra francesa, Le mystère des cathèdrales. O autor desapareceu em 1953; ninguém sabe o que aconteceu com ele. Alguns especulam que ele encontrou a chave para a imortalidade. - Ward bateu de leve com o dedo no vidro que protegia o livro. - Somente trezentos exem­plares foram impressos. Um número bem menor está em circulação atualmente.
  • Você realmente acredita nessas histórias? Imortalidade? Alquimia?

 

    • Ward ficou roxo.
  • Explique por que Himmler levava isso a sério então. Ele plane­java usar ouro de alquimia para financiar o Partido Nazista.
  • Você espera que a inscrição leve você até o quê, algum tipo de fórmula para fazer ouro?

 

    • Eris, que estava estranhamente quieta, me interrompeu:
  • Nós não precisamos nos justificar para você, Madison.

 

    • Foi então que eu resolvi chutar o balde.
  • Não, não precisam. Mas vocês não estão totalmente atualiza­dos. O jogo de Vanderlin foi resolvido, e Tomas Zakar está com a inscrição.Olhei diretamente para ele e tentei forçar um sorriso.

 

  • Eu tinha dado um passo audacioso contando para eles que ela estava com Tomas, mas consegui a reação que esperava. A notícia foi um choque. Especialmente para Ward. A sua incapacidade de es­conder a ansiedade revelava como a informação tinha sido um golpe duro para ele. Ele esfregou a bochecha como se tivesse acabado de ser picado por uma vespa. Quando falou, a voz saiu fraca: Onde ele está?
  • Sei tanto quanto você. Em algum lugar sobre o Atlântico, supo­nho. Ele deixou Laurel e a mim à míngua. Você perdeu o seu tempo quando nos arrastou para cá.
  • Não fique achando, Madison, que minha boa vontade com você quer dizer alguma coisa. — Ward mexeu a cabeça na direção de Eris. - Laurel já experimentou os talentos de Eris. Ela é bem eficiente na hora de arrancar segredos das pessoas.
  • Certo. Como com Hal. Ela certamente fez um estrago ali.
  • Ele tentou passar a perna em nós — disse ela na defensiva.

 

    • Disfarcei minha surpresa. As peças estavam finalmente se encai­xando. Laurel estava certa. Hal havia participado do grupo e pagou por isso com o mesmo destino repulsivo de Hanna Jaffrey. "Pelo amor de Deus, Hal. No que você foi se meter?"
  • Ele queria vender a peça. Vocês não precisavam matá-lo.
  • Ele queria seis milhões. E dinheiro demais. Eu não consegui isso tudo sendo idiota - disse Ward.
  • A inscrição vale muito mais que isso.
  • Sem dúvida, mas prefiro que seja eu a pessoa a maximizar os lucros.

 

    • Eu percebi o medo. Você não será um bom vendedor sem conse­guir ler bem as pessoas, e alguma coisa me dizia que havia um blefe misturado às ameaças.
  • Um conselho. Você aproveitaria melhor o seu tempo se tentasse localizar Tomas e deixasse Laurel e eu irmos embora. Nos colocar contra a parede não vai te levar a lugar nenhum.

 

  • Ele veio para cima de mim, o sorriso arrogante finalmente sumiu do seu rosto.
  • Acho que a tarde que passamos na minha casa deixou você com uma impressão errada. O propósito daquele interlúdio cordial era simplesmente permitir que eu pudesse formar uma opinião so­bre você. Você só pode comprar sua liberdade nos contando onde Tomas está.

 

    • Eu me afastei dele. O movimento repentino me fez sentir dores no estômago.
  • Tomas me enganou. Imagino que ele esteja a caminho do Ira­que, mas não tenho certeza.

 

    • Eris concentrou seu olhar frio em mim.
  • Como ele saiu do país? Ele não comprou nenhuma passagem de avião.
  • Ele entrou nos Estados Unidos por intermédio de uma pista de pouso particular, e provavelmente foi embora do mesmo jei­to. - Eu ainda estava furioso com o embuste dos Zakar, e queria que quaisquer conseqüências os atingissem diretamente. Ward me encarou por alguns segundos, tentando imaginar se eu estava fa­lando a verdade.
  • Eu achei que vocês estivessem vigiando todo mundo constante­mente. Como ele e Ari passaram por vocês?
  • Nós demos o máximo de liberdade para você encontrar a ins­crição. Não temos recursos ilimitados, então a maior parte da vigi­lância tinha de estar focada em você. Nós sabemos que Ari Zakar voltou sozinho para Londres, e perdemos Tomas de vista.
  • Vocês são uns tolos.A sala balançou. Parecia que o meu cérebro tinha se soltado den­tro do crânio. Precisei esperar que o apito em meu ouvido dimi­nuísse antes de ouvir o que ele tinha a dizer em seguida.

 

    • Ward se mexeu surpreendentemente rápido para um homem pesado. Ele me acertou com a parte de trás da mão, fazendo minha cabeça virar.
  • Agora nós temos um assunto a ser encerrado. Diga para onde Tomas levou a inscrição.
  • Não até ser libertado com Laurel.
  • Acho que não vai dar - disse ele. Eles me empurraram de volta para o elevador. Nós descemos até o porão. Ele e Eris me es­coltaram por um corredor e pararam quando chegamos à entrada de uma sala pequena. - Até agora nós estávamos participando de seu joguinho. Não tivemos nenhuma intenção de ferir você, pelo menos não irremediavelmente. Você teve sua chance. Porém, essa fase acabou.A porta se fechou com uma batida metálica contra o concreto. Eu me encostei na parede, o mais longe possível do Ciclope. Ele não me­xia um músculo. Só olhava. A sala estava completamente em silên­cio, exceto pela britadeira da minha própria pulsação. Eu não tenho a menor idéia de quanto tempo ficamos nessa posição, presos em um impasse como as duas últimas peças em um tabuleiro de xadrez.A certa altura, minha cabeça me pregou uma peça, e achei que o brutamontes realmente fosse feito de pedra. Shim era capaz de se manter totalmente imóvel. Quando não era chamado a agir, a mente dele simplesmente se fechava como se ele fosse um boneco gigante movido a corda. Ele olhava diretamente para mim, sem nem piscar, com o olho bom, como o olhar homicida de uma ave de ra­pina pré-histórica gigante. Eu começava a cair, escorregando junto à parede em que estava encostado, quando uma onda de adrenalina me sacudia, fazendo-me acordar, e eu avistava Shim, que continuava estático, sem emitir um som.De vez em quando, eu ouvia sons abafados do lado de fora. Passos ecoando pelo corredor, a voz de dois homens conversando, alguém pigarreando. Era sinistro ouvir sons de normalidade preso nessa cela. O que poderia ser obtido com o prolongamento do meu sofrimento? Era algum tipo de tortura prévia para arrancar, junto com o meu sangue, até a última gota de informação que eles acredi­tavam que eu tivesse?A porta bateu na parede quando Jacob Ward entrou.

 

    • Ouvi a fechadura girar. Shim me alcançou com um passo gigan­tesco, forçando-me contra a parede, torcendo meus braços para trás. Meu ombro estralou, e meus olhos lacrimejaram. Tentei me prepa­rar mentalmente para a tortura que eu sabia que estava por vir. Eu era jovem e tinha uma forma física razoável. Isso daria a eles um bom tempo antes de eu me render definitivamente.
    • Eu me perguntei como ele seria antes da explosão no laboratório. Um jovem gênio ansioso para deixar sua marca no mundo. Talvez nem mesmo um homem mau. Ele ainda trazia algo sentimental. Eu via isso no seu apego cego a Ward e Eris.
    • Eles tinham levado meu telefone e minha carteira, e, sem relógio ou janela para acompanhar a diminuição da luz do sol, eu logo perdi a noção de tempo. Poderiam ter se passado poucas horas ou boa parte do dia. Fiquei olhando para o chão de azulejo e contando os quadrados, na esperança de conter as mensagens de pavor que po­voavam minha cabeça. Notei que o piso estava limpo, quase limpo demais para um chão de porão, e cheirava a alvejante. Eu podia ver manchas desbotadas na argamassa entre os azulejos.
    • Eles me jogaram para dentro. O aposento, de paredes e chão cobertos de azulejo, sem janelas, era parecido com a sala do vídeo em que Laurel era torturada. Uma luz fraca saía de uma luminária no alto da parede, no canto. A única coisa diferente no lugar era um nicho cavado na parede do fundo, arqueado no alto, com cerca de dois metros e meio de altura e noventa centímetros de largura. Pare­cia ter sido feito sob medida para uma escultura em tamanho real. Shim estava em pé dentro dele, grandalhão e silencioso. Meu rolo compressor privativo.
  • Vamos começar. Você já teve algum tempo para pensar na sua situação, então me conte para onde Tomas foi.
  • Quero ver Laurel primeiro.
  • Achei que nós já tivéssemos resolvido isso.
  • Não como eu queria.

 

  • Uma dor incapacitante atingiu meu braço quando Shim o torceu para cima. Um gesto de Ward o fez diminuir a pressão.
  • Estou querendo mostrar um pouco de boa-fé - disse ele e ges­ticulou para Shim. Os dois me levaram para fora da sala e por um longo corredor subterrâneo até uma sala parecida, mas mobiliada com uma cama de armar barata e uma única cadeira.Corri até Laurel. Ela estava com a cabeça virada para baixo, sem se mexer.

 

    • Laurel estava deitada na cama. Eris se levantou da cadeira quando eu entrei na sala.
  • É o John, Laurel.

 

    • Ela se moveu e virou de lado. Coloquei o braço em volta dela e ajudei-a a se sentar, ou melhor, ela ficou jogada ao meu lado, com meu corpo servindo de escora. Os olhos dela pareciam embaçados. Ela piscou e me examinou como se não acreditasse que eu realmente estava lá. Peguei sua mão. Estava fria e suada.
  • É você mesmo? - disse ela. - Como você chegou aqui?
  • Eles me trouxeram para cá. Eu me recusei a falar com eles antes que me deixassem ver você primeiro.

 

    • Ela se afastou.
  • Não toque em mim.

 

    • Eu me lembrei tarde demais de que as mãos dela haviam sido amarradas.
  • Seus pulsos devem estar muito doloridos.

 

    • Quando ela olhou para mim, pude ver como ela estava brava.
  • O que você esperava conseguir ao me ver? Você levou tudo o que eu tinha. Pelo menos, acreditar que você ainda estava por aí me dava alguma esperança. Eu queria não ter aberto a porta na primeira vez em que você apareceu, cheio de solidariedade. Tão solícito, me con­solando por causa de Hal... jurando que me protegeria. Não consigo nem olhar para você.Eu me levantei e tentei pensar em uma última palavra para lhe dar alguma tranqüilidade.

 

  • Eu queria dizer que ela estava errada, que provavelmente ela já teria sido morta por Eris se não fosse pelos meus esforços, mas ela não tinha condições psicológicas para compreender. Além disso, eu já não havia re­preendido a mim mesmo por levar má sorte a todos de quem eu gostava?
  • Tente manter as forças, Laurie. Vou achar um jeito de nos tirar daqui. Eles só querem a inscrição. - Eu não quis assustá-la ainda mais contando que Tomas havia dado um jeito de nunca mais a con­seguirmos de volta.

 

    • Ela estremeceu. Ainda tinha uma última observação amarga para mim:
  • Não se engane. Nós nunca mais vamos nos ver. O que é uma bênção, de qualquer forma.
  • Ela precisa de cuidados médicos - eu disse a Eris. - Você pre­cisa libertá-la.
  • Nós estamos com falta de médico por aqui - rebateu Eris. - É hora de ir.

 

    • Ward e o bobo da corte estavam esperando por nós do lado de fora da cela improvisada de Laurel.
  • Então, a nossa parte do trato foi cumprida. Onde está Tomas?

 

    • Eu não ia desistir tão facilmente.
  • Me diga uma coisa primeiro: foi Eris quem pegou Laurel, não foi? E imagino que Laurel tenha sido drogada...

 

    • Ward concordou com a cabeça.
  • Ela provavelmente não se lembra de onde fica este lugar.
  • Sim — respondeu Ward.

 

    • Eu estava prestes a explodir, mas tentei conter a minha reação, pelo bem de Laurel.
  • E eu suponho que ela não saiba nada sobre você. Eris é prova­velmente a única pessoa que ela viu.

 

    • Eris bufou, incomodada.
  • Esqueça. Nós sabemos aonde você está querendo chegar com isso.
  • Nós não vamos libertá-la - disse Ward sem se abalar, como se estivesse pedindo uma pizza. - Pelo menos não agora. Mas eu com­preendo seu raciocínio, e você está certo. Ela não vai ter praticamente nenhuma pista para a polícia seguir quando nós a libertarmos. Isso poderia te servir como incentivo. Você pode escolher entre o céu e o inferno. E bom que as coisas sejam simples. Coopere conosco, e ela será libertada; não coopere, e ela morre.

 

    • Eu precisava admitir que a minha munição tinha acabado. Mi­nha única opção era esperar uma nova oportunidade se abrir.
  • Ele está em Bagdá. Eu tenho o endereço. - Procurei no bolso o papel do hotel em que havia escrito o endereço que encontrei no quarto de Tomas e o entreguei a Ward. Ele o olhou e o passou ime­diatamente para Eris.
  • Verifique isso - disse ele.

 

    • Depois de Ward estar convencido de que eu havia contado tudo o que sabia, eles me levaram de volta para o Shim. Cerca de uma hora depois, Ward e Eris voltaram e me levaram apressadamente de volta pelo corredor. O bobo da corte empurrava a minha cabeça para baixo de forma que eu visse apenas as costas largas de Ward, cujos músculos faziam o paletó se enrugar enquanto seguíamos seus passos.
  • Para onde nós vamos agora? - perguntei.
  • Para a Babilônia - disse ele. - Sorte sua.

 

 

Quinta-feira, 7 de agosto de 2003, 10h30

Nós fomos de carro até uma pista de pouso que imaginei ser em Nova Jersey. Laurel permaneceu presa em Nova York para garantir minha cooperação.

Senti o cheiro forte de gasolina e vi de relance o chão brilhando depois da chuva. Nós tínhamos parado ao lado de um jatinho. Nosso destino era Bagdá, não o verdadeiro sítio da antiga Babilônia. Mas Ward não precisava de mim para localizar o endereço que eu havia lhe dado. Por que se dar ao trabalho de me mandar para um país que eu desconhecia totalmente em meio a uma guerra? Não cheguei a lugar nenhum com Ward quando o bombardeei com perguntas sobre a razão de ele me levar para lá. O fato de eles terem adiado minha tortura implicava que eles precisavam da minha cooperação em algum plano futuro. O que seria?

Eles me fizeram entrar na traseira de um Learjet 35. Era uma ironia eu ter feito um voo em um avião parecido dois meses antes para pajear uma cerâmica italiana que um de meus clientes havia comprado. Nesse, a parte de trás da cabine era separada por corti­nas, e alguns assentos haviam sido removidos. As janelas tinham sido pintadas de preto. Parecia que eu não era a primeira pessoa a ser forçada a viajar nesse avião contra a vontade.

O bobo da corte fechou uma algema de metal no meu pulso direito e a prendeu a uma alça que saía da parede. Meu corpo doía sem parar. Eu me apoiei na parede. O homem prendeu o cinto. Ele estava de terno agora, mas isso não melhorava nada o cabelo preto lambido e a pele mortalmente pálida. Ele tinha olhos muito estra­nhos - quase amarelos.

Eu conseguia ver uma tatuagem vermelha em seu pulso, mas a manga escondia quase a metade dela, e não dava para saber como era. Supus que Eris e Shim estivessem na frente com Ward. Eu os recontei mentalmente: Vênus, Marte e Júpiter. Eu havia chegado à conclusão de que Ward era Júpiter, o chefe; Eris, Vênus; e Shim, Marte. Laurel disse que Hal era Saturno. Por exclusão, o bobo da corte deveria ser Mercúrio. Ninguém diria que ele era um mensa­geiro dos deuses.

Como eu ia passar mais de um dia com esse homem, resolvi ten­tar baixar o limiar de hostilidade.

  • Qual você é? — perguntei.

 

    • Ele não me entendeu e resmungou:
  • Lázaro.
  • Esse é o seu nome verdadeiro?
  • Agora é.
  • Como você ganhou esse nome?
  • Os médicos me trouxeram de volta dos mortos. Uma hora des­sas eu vou te contar como é, assim você vai saber o que esperar.

 

    • "Que cara insuportável..."
  • Onde?
  • Na Chechênia.
  • E o que você estava fazendo lá?
  • Você não sabe de nada, não é? Nós estamos em todos esses buracos. Você fica para lá e para cá com seu latte e seu martíni, ven­dendo sua arte sofisticada e não sabe nada sobre o mundo real.
  • Você provocou aquele acidente em frente ao café, não foi?
  • O Ward me disse para te assustar, não para te matar.
  • Uma pessoa se machucou feio ali. Você não se importa nem um pouco?
  • Você mesmo disse: foi um acidente. Eu só estava tentando acer­tar o pneu do caminhão. De qualquer forma, nós não deveríamos estar conversando.Lázaro enfiou a mão no paletó e tirou uma faca. Ela tinha uma es­pessa lâmina serrilhada, de aspecto cruel. Ele ficou brincando com ela, fingindo mirar em mim. Quando se cansou dessa brincadeira idiota, me deu duas latas de Dr. Pepper sem gelo, um sanduíche empapado de carne enlatada e uma garrafa de plástico vazia onde eu deveria urinar. Eu tinha de conseguir segurar isso tudo com a mão esquerda livre.Dormi mal e, quando acordei, estava completamente desorientado e zonzo. Eu sabia que estava no ar há muitas horas e tinha uma vaga lembrança de ter aterrissado e decolado de novo em algum momento - isso era tudo. Minha bebida devia ter sido batizada com um sedativo.Lázaro retirou a algema do meu pulso. Quando estiquei as pernas e tentei ficar em pé, quase caí. Minhas juntas protestaram como as de um velho de oitenta anos. Ele abriu as cortinas.

 

    • A aeronave começou a fazer uma descida de virar o estômago. Ouvi o tranco do equipamento de aterrissagem engatando, logo depois senti o contato com terra firme e ouvi o barulho das turbi­nas invertendo a marcha. Enquanto taxiávamos até o nosso destino,
    • Pensei nos outros: Ari, jantando em um restaurante chique em Lon­dres; Tomas, no Iraque, acomodado em algum esconderijo confortável; a clarividente, Diane Chen, acompanhando a música de lábios fecha­dos, puxando conversa com os freqüentadores. As previsões dela eram tão precisas que ela devia entrar para esse ramo. Senti o peso do ta­lismã de Ari no peito. Até mesmo o deus do Sol havia me abandonado.
    • Eu ia ficar lá com ele por muito tempo. Com uma escala, a via­gem em um avião comercial levaria quase um dia. Esse avião menor precisaria de mais paradas para abastecer e, a uma velocidade mais baixa, o vôo demoraria mais ainda. Antes, eu estava enfrentando uma ameaça vinda de um grupo específico de pessoas. No Iraque, o pe­rigo seria dez vezes maior. Não existiam lugares seguros em Bagdá.
  • Vá para a frente. Ward está lá.Ele os colocou em meu colo.

 

    • Ward acenou para que eu me aproximasse e indicou um assento na mesa diante dele. Lázaro se colocou atrás de mim. Não havia mais ninguém na cabine. Tentei olhar rapidamente pela janela, mas só dava para ver uma parede lisa esbranquiçada, e eu concluí que nós devíamos estar em algum tipo de hangar. Ward enfiou a mão no bolso e pegou uma carteira e um passaporte azul escuro, com o Grande Selo dos Estados Unidos na capa.
  • Há cartões de crédito e uma identidade na carteira também.

 

    • Eu abri o passaporte e fiquei chocado ao ver que era o meu.
  • Onde você conseguiu isso?
  • Eris o pegou quando vocês tiveram aquela conversinha no seu apartamento. Na época, achamos que fosse preventivo, para dificul­tar a sua saída do país.
  • Eu vou entrar com o meu nome verdadeiro?
  • Não podemos nos arriscar na alfândega. As autoridades são rígidas por aqui.Como se estivesse lendo os meus pensamentos, Ward pegou um telefone na mesa à nossa frente. Era um aparelho grande e desajei­tado, como um controle remoto de tevê com uma antena.

 

    • Ward viu que eu estava olhando para o aparelho e o ergueu.
    • Eu mal podia acreditar no que ele havia dito. Fazer-me passar pela alfândega seria um presente para mim, uma oportunidade fácil de fugir deles.
  • Um telefone por satélite. Não existem muitas torres de celular viáveis no lugar aonde nós vamos. — Ele digitou alguns números, esperou mais ou menos um minuto e cumprimentou a voz do outro lado. - Coloque-a na linha agora - disse ele, e me passou o telefone. — Há alguém querendo falar oi para você.

 

    • Apanhei o telefone da mão dele e coloquei-o junto ao ouvido.
  • Aqui é John Madison. - Esperei, mas não obtive resposta, só o barulho da estática das ondas aéreas. Dei o telefone para Ward. - Não há ninguém do outro lado. Esse é mais um de seus truques?

 

    • Ward o apanhou e quase gritou:
  • Fale com ele como você foi instruída a fazer, ou as coisas vão ficar feias para você.Ela falou comigo quando eu peguei o telefone de novo.

 

    • Devia ser Laurel do outro lado da linha. Foi um alívio saber que ela ainda tinha forças para resistir a eles.
  • Eles estão me obrigando a falar com você. Não foi idéia minha.
  • Mesmo assim, é bom ouvir sua voz - eu disse.
  • A sua voz está um pouco estranha. Como se houvesse um atraso entre o momento em que você pronuncia as palavras e o momento em que eu as escuto.

 

    • Ela ia perder a cabeça se soubesse como eu estava longe.
  • Estou em uma sala muito grande no último andar do prédio. Ela é cavernosa. Isso deve estar causando eco. Você está agüentado bem?
  • Você está falando sério? Sim, estou bem. Passo o tempo todo imaginado como eles vão resolver esse assunto. Talvez eles façam alguma coisa para simular um acidente. - Nessa hora, a voz dela se interrompeu.
  • Laurel, se eles fossem se livrar de nós, a essa altura isso já teria acontecido. Tente pensar dessa forma.Ward levantou a mão rechonchuda para indicar que queria que eu parasse de falar. Eu o ignorei.

 

    • Eu a ouvi rir, mas era o tipo de reação vinda de um sentimento profundo de descrença e desespero.
  • Não vai demorar, Laurie. Eles estão perto de conseguir o que querem. E eu ainda tenho informações para negociar.

 

    • Eu não ouvi a resposta porque Lázaro arrancou o telefone da minha mão e o devolveu a Ward, que o fechou e o colocou em uma pasta a seus pés. Ele se levantou.
  • Então você ainda tem informações para negociar, é isso? Eu gostaria de ouvir.
  • Eu disse isso apenas para reconfortá-la.
  • Pela primeira vez, acho que eu acredito em você. Se acontecer alguma coisa na alfândega ou em qualquer lugar do aeroporto, a vida dela acabou. A sua também, é claro. Eris tem um estoque de drogas.
  • Você está tentando insinuar que ela injetaria heroína em mim no meio de um aeroporto?
  • Ela tem muitas outras substâncias químicas eficientes. Você sabe o que é uma taipan?
  • Uma cobra.
  • A cobra terrestre mais mortífera do mundo. O veneno leva o seu sistema respiratório à falência em menos de um minuto. Eris tem um estoque dele, junto com um sistema de entrega muito eficiente. - Ele escovou o paletó e mexeu na gravata. - Agora, o motivo da nossa visita. Nós vamos a um lugar chamado Afyon. Já ouviu falar?

 

    • - Não.
  • É uma cidade famosa por sua tapeçaria. Nós estamos em uma viagem de negócios para comprar alguns tapetes raros. Você con­segue falar sobre isso de forma convincente se alguém te perguntar, não consegue?
  • Você é maluco. Nós estamos no meio de uma zona de guerra e você vai lhes dar uma desculpa esfarrapada sobre comprar tapetes?
  • Isso é uma coisa que cabe a mim julgar. - Ward cortou qual­quer prolongamento da conversa dirigindo-se à saída. Eu o segui, com Lázaro colado atrás.Um seda preto da Mercedes estava estacionado do lado de fora do hangar. Mas não foi isso o que me fez parar. A meia distância, havia um prédio moderno reluzente, com a parte externa rodeada de aeronaves internacionais. Nenhum veículo militar à vista. Antes que Eris ou Lázaro pudessem pôr as mãos em mim, agarrei o ombro de Ward e o forcei a se virar, de modo que ficasse de frente para mim.

 

    • Não havia nem sinal de Shim ou dos pilotos. Nós estávamos em um hangar, como eu havia suspeitado, e somente Eris esperava por nós. Ela parecia abatida e exausta. O cabelo platinado, normalmente impecável, estava bagunçado; olheiras escuras lhe circundavam os olhos. Ward a teria castigado pelos seus erros? Ou talvez ela tivesse alguma consciência, no fim das contas. Talvez fazer mal a outras pessoas tivesse algum custo para ela.
  • Evidentemente, isto não é Bagdá. Onde nós estamos?

 

    • Ele riu com desdém.
  • No Aeroporto Internacional Atatürk. Bem-vindo à sua terra natal, Madison.

 

 

— Nós deveríamos estar indo para Bagdá, para aquele endereço que eu te dei.

  • Você está reclamando de visitar a terra em que você nasceu?

 

    • Lázaro riu baixinho com a observação de Ward. Eu o mandei se danar.
  • O que está acontecendo, Ward?
  • É só um pequeno desvio - respondeu ele. — Aproveite enquanto pode.De acordo com o relógio do aeroporto, nós chegamos às dez horas da noite. A noite, pelas janelas do carro, eu podia ver pouco mais do que rápidos trechos da cidade. Achei que tinha vislumbrado o domo e os exóticos minaretes pontudos da magní­fica Mesquita Azul de Istambul, mas pode ter sido só a minha imaginação.Essa experiência teve um papel importante na minha falta de in­teresse pela minha terra natal. Depois disso, ela era para mim pouco mais do que uma ou duas linhas nos meus documentos de naturali­zação como cidadão americano. Acrescente-se a isso o sabor amargo da história que me havia sido contada sobre os meus parentes que tinham me abandonado. Então, a explosão de orgulho que eu senti ao ver Istambul pela primeira vez, mesmo como uma visão emba­çada através da janela de um carro, pegou-me de surpresa. E, agora, minha primeira visita ao país tinha sido arruinada pelas circunstân­cias brutais.- O Grande Hotel de Londres - anunciou Ward. - Nós vamos descer aqui.Ward vistoriou rapidamente o ambiente quando entramos no sa­guão, deu uma olhada no relógio e reclamou para Eris:

 

  • Quando adentramos o hotel, fomos transportados para o século passado - candelabros de cristal, papel de parede vitoriano, estatuetas art déco douradas dos dois lados da escadaria. O veludo dos móveis estofados, um dia cor de vinho, desbotado com o tempo.
  • O Mercedes acabou parando em frente a um prédio excepcio­nalmente bonito de calcário marfim, com uma fachada ricamente ornamentada com esculturas e floreios decorativos.
  • Duas semanas antes do meu aniversário de nove anos, Samuel escreveu para dizer que ia deixar o sítio em que estava trabalhando em Mossul para passar algumas semanas na Turquia. Implorei que ele me deixasse ir encontrá-lo. Evelyn me avisou para não ficar muito animado, mas, para nossa surpresa, ele disse que sim, que eu podia ir. Ela comprou um livro cheio de fotografias da Turquia para mim, e eu o li e reli muitas vezes até poder jurar que tinha decorado todas as palavras. Ainda me lembro da imagem das pis­cinas verdes de Hierápolis, colunas romanas de mármore branco submersas sob a superfície de lagos como fantasmas aquáticos de um passado obscuro. Dias antes do meu voo, Samuel mandou um telegrama para avisar que tinha havido uma mudança de planos. Foi como se ele tivesse batido a porta na minha cara. Levei meses para me recuperar da decepção.
  • A passagem pela alfândega correu bem. Eu cooperei por causa da lembrança da voz de Laurel, que quase não saía de tanto medo. E eu também não duvidava que Eris fosse capaz de usar o veneno. Eu precisava encontrar a oportunidade certa e um jeito de garantir que Laurel estivesse protegida antes de tentar escapar. Isso significava es­perar para entrar em ação quando eles estivessem distraídos ou eu estivesse sozinho com um deles.
  • Não estou vendo os nossos contatos. Eu achava que eles fossem nos encontrar aqui.
  • Eles vão aparecer. Devem ter ficado presos no trânsito ou al­guma coisa do tipo — disse ela.
  • Nós estamos pagando o suficiente para eles serem pontuais - rebateu Ward. - Vamos nos sentar no bar, então. Estou morrendo de fome.O humor de Ward tinha melhorado quando ele voltou. A perso­nalidade expansiva do professor jovial tinha voltado. Eu pensei que aquilo era um talento que ele tinha, a capacidade de sair tão rapida­mente do lado escuro em que a personalidade natural dele habitava.

 

    • Ele foi até o bar enquanto nós nos instalávamos nas cadeiras. Eu o vi falar com o atendente e entregar um maço de notas. O ambiente mantinha a temática vitoriana, tanto que poderia servir de cenário para um filme inglês colonial. Papagaios de verdade eriçavam as re­luzentes penas verde-amareladas em gaiolas de bambu. De vez em quando, os pássaros grasnavam, mas se tinham algo a dizer, não era em inglês. Eu esperava ver Myatt, de Expresso do Oriente, de Graham Greene, sentado em um banco do bar, bebericando gim-tônica.
  • Nosso contato telefonou para o hotel. Ele vai chegar logo. Eles disseram que não é praxe comer no bar, mas eu consegui convencer o atendente.
  • Nós vamos dormir aqui hoje?
  • Não. Só vamos ficar um pouco e depois vamos embora. Vamos levar cinco horas para chegar ao nosso destino.
  • Afyon? A cidade de que você falou?
  • Mais ao norte.Ward resolveu se exibir, ainda encarnando o professor.

 

    • O atendente interrompeu com uma bandeja de bebidas e serviu Ward primeiro, em vez de Eris. Ele praticamente fez uma deferência, sem dúvida para agradecer a gorjeta enorme que Ward devia ter dado a ele. Alimentei a idéia de mandar uma mensagem para a polí­cia de Nova York por intermédio dele, mas duvidei que fosse conse­guir falar com ele a sós.
  • O hotel tem uma das melhores vistas da cidade para o Chifre de Ouro. Ele fica fora da rota mais conhecida, é por isso que eu gosto de vir aqui. Este lugar foi construído em 1892, logo depois que a linha do Expresso do Oriente chegou a Istambul. Os trens trouxeram uma nova onda de invasores, turistas ingleses em busca da atmosfera mística do Oriente Próximo. Agatha Christie escreveu Assassinato no Expresso do Oriente no Hotel Pera Palace, um pouco mais adiante nesta mesma rua, e nos anos 1920 Ernest Hemingway sentou neste mesmo bar.
  • Este lugar parece um pouco sofisticado demais para Hemingway. Eu me lembro de ter lido que ele tomou vinho de uma jarra com oito cobras na China. - Adorei a expressão de irritação de Ward depois da minha intromissão.Ward aproveitou para lhe oferecer algo para beber, mas eles recu­saram. Eris não se deu ao trabalho de fazer as apresentações, ou pelo menos foi o que pareceu, porque ela logo falou alguma coisa no que devia ser turco. Quando ela terminou, o homem de cabelo grisalho olhou para Ward e fez um movimento de cabeça.

 

  • Dois homens apareceram na entrada. Eris sorriu, um pouco ali­viada, e fez um sinal para eles. Calculei que um deles devia estar na casa dos trinta anos; o outro, de cabelo escuro com alguns fios grisa­lhos, perto dos cinqüenta. Eles estavam usando ternos informais, sem gravata, e óculos de sol, embora o sol já tivesse se posto há um bom tempo. O mais jovem tinha um relógio de ouro com uma correte pe­sada. Parecia que eles tinham acabado de sair de O poderoso chefão III.
  • Pergunte há quanto tempo eles o viram - Ward disse a Eris.

 

    • Ela traduziu, ouviu a resposta e disse:
  • Na noite passada, na tumba. Mazare - ela apontou para o ho­mem mais velho — confirmou que ele ainda está na área.

 

  • De quem eles estavam falando - de Tomas? Ele havia me dito que o tesouro tinha vindo da Anatólia, e nós sabíamos que havia uma conexão com a Frígia, mas eu não acreditava que eles fossem encontrar alguma coisa na Turquia. A pilhagem de Assurbanípal de­via ter sido levado para a Assíria há milhares de anos. Eu, porém, não tinha certeza de que Tomas tivesse me contado a verdade.
  • Para onde exatamente nós estamos indo então? Não quero me meter em uma empreitada que vai me fazer perder tempo - disse Ward.

 

    • Eris falou com o homem mais velho. Ele pegou o celular, fez uma ligação, falando rapidamente em turco, e voltou a falar com Eris.
  • Ele pode estar em dois lugares - disse Eris —, na aldeia de Yazi-likaya ou em Ayazinköyu. Mazare tem gente vigiando nos dois luga­res. Eles acham que ele está escondido em algum lugar para passar a noite e não vai fazer nenhuma investida até de manhã. Se ele tentar ir embora, eles vão mantê-lo preso até você chegar.

 

    • O rosto de Ward ficou vermelho de irritação com a resposta vaga e por ter de ceder o controle a Eris, que dominava a língua.
  • Vocês estão falando de Tomas Zakar? - perguntei a Ward.

 

    • Ele hesitou e depois resolveu me contar a verdade.
  • Ele está aqui, e não no Iraque, como você acreditava. Achou que podia nos passar a perna, eu suponho.A comida chegou. Alguns aperitivos, um servido com cacik, uma pasta de iogurte, acompanhados de berinjela recheada, pilaf e doner kebab, um prato de cordeiro assado incrivelmente saboroso. Nós co­memos rapidamente, já que Ward estava ansioso para ir embora.Eu detestava o toque de especiarias do perfume de Eris e a desa­gradável proximidade da figura dura de traços marcantes do bobo da corte. Fiquei bem acordado o caminho todo, apesar de ser tarde da noite. Meu relógio interno tinha ficado desregulado por causa do vôo.Fiquei de olho na sinalização da estrada, tentando descobrir para onde estávamos indo. A certa altura, nós circundamos uma cidade grande, Eskiçehir, e depois seguimos para o leste na rodovia E90. Pouco depois, percebi que nós havíamos perdido o furgão. Quando nos aproximamos de uma cidade, cerca de vinte minutos depois, nosso motorista se virou e disse alguma coisa para Eris.

 

  • Pelo vidro da frente, eu podia ver a luz começando a se infiltrar no céu oriental, com a aproximação da alvorada. Nós estávamos em uma região montanhosa, de chão avermelhado, com algumas moitas verde-escuras, vegetação pontuada por ravinas e trechos ocasionais de pomares e fazendas. Senti outro aperto no coração. O que eu não daria para ter a liberdade de conhecer o país...
  • De volta ao carro, fiquei novamente preso entre Eris e Lázaro. Nosso primeiro motorista tinha desaparecido, e Mazare assumiu a direção, acelerando o carro ao máximo. O companheiro dele vinha atrás em um furgão Ford Econoline azul. Ele não ia conseguir acom­panhar o nosso Mercedes.
  • Eu ainda tinha sérias dúvidas quanto a isso, mas guardei-as para mim.
  • Chegamos a Çifteler - disse ela. — Vamos virar aqui.

 

    • Nós entramos à direita em uma estrada pavimentada com uma pista única, até chegar a um povoado. O carro fez uma parada brusca, e Mazare apontou para um punhado de construções à nossa frente.
  • Yazilikaya - disse ele.

 

    • Nós saímos do carro.
  • Para que lado? — perguntou Ward, impaciente.Nós nos desviamos do povoado, e as poucas pessoas que circula­vam àquela hora nem ligaram para nós. Supus que eles já estavam acostumados com turistas há muito tempo. Quando nós nos apro­ximamos, vi que a estrutura era coberta por padrões geométricos intrincados e que na base havia um vão profundo. Só existia essa fachada, o interior não havia sido concluído.

 

  • Ward não resistiu a parar na frente dela.
  • Mazare devia entender um pouco de inglês, porque ele apontou de novo para a frente. A visão me deixou sem fôlego. Um morro pouco escarpado se erguia diante de nós, pontilhado com casas rústicas co­bertas de telhas e alguns anexos. Atrás delas, uma cadeia de despenhadeiros alta, constituída de torres de pedra, rocha vulcânica macia esculpida pelo vento e pela água ao longo dos milênios formando es­culturas gigantes; no meio da cadeia, e acompanhando praticamente a altura dos despenhadeiros, de vinte metros no mínimo, uma magnífica fachada de tumba havia sido esculpida na rocha. Ela tinha a forma de um retângulo simples com a parte de cima triangular. O sol nascente brilhava diretamente sobre a superfície dela. Os tons rosados da pedra me encantavam os olhos. Com os efeitos especiais da luz da manhã e o contraste entre a tumba e a rocha circundante, parecia que uma porta mágica tinha acabado de surgir na superfície do despenhadeiro.
  • A tumba de Cibele - disse ele, indicando uma série de sinais. - Este é um dos melhores exemplos de escrita frígia que se pode encon­trar. - Ele se virou para mim. - Você conhece a história de Cibele?
  • Um pouco - eu disse, lembrando o que Phillip Anthony me havia contado.
  • Ela era uma deusa, irmã de Ichtar e, como ela, um símbolo de fertilidade e de sede de sangue. Em um acesso de ciúme, Cibele matou a mulher que seu amante, Átis, desejava. Desesperado, Átis decepou a própria genitália com uma pedra afiada. - Ward sorriu. - Não é o tipo de mulher com quem as pessoas deviam se relacionar.Mesmo sendo muito cedo, o calor era sufocante, e Ward, o me­nos ágil de nós, estava ofegante. Eu tinha me posicionado logo atrás dele, e notei que suas pernas tremiam por causa do esforço físico ou, o mais provável, por causa da altura. De vez em quando, um vão se abria nas paredes de pedra, e o caminho fazia uma inclinação aguda. Um empurrãozinho apenas, e ele despencaria pela lateral. Eu podia descer atrás dele, pegar o telefone e tentar correr. Talvez. Mas Eris e Lázaro correriam atrás de mim como uma matilha de cães.Nosso guia acenou para nós e se agachou ao lado de outra parte da beira do despenhadeiro. Eris se curvou e olhou por cima.

 

    • As escadas levavam a um arco natural no despenhadeiro. Um círculo de céu azul brilhava através dele. Quando saímos do outro lado, estávamos no topo achatado da cadeia. Ruínas de uma acrópole se espalhavam à nossa frente. Altares de pedra e estranhas fi­guras usando chapéus cônicos haviam sido esculpidos em relevo na superfície da rocha. Um vento fraco agitou o meu cabelo. Eu estava fascinado com o encantamento do lugar.
    • Deixamos o monumento para trás e fomos andando em direção a uma escadaria escavada na superfície da pedra. Eris caminhava ao lado de Mazare, falando rapidamente com ele. Lázaro se colocou atrás da nossa pequena delegação. Chegamos à escadaria e começa­mos a subir. Os degraus irregulares estavam se desfazendo em muitos lugares, e não havia nenhum tipo de corrimão. As paredes onduladas das torres de pedra nos cercavam dos dois lados, fazendo o caminho parecer a nave de uma catedral. A cena parecia uma fantasia deli­rante inspirada em Gaudí.
  • Há uma saliência na outra entrada da tumba, uns dez metros mais para baixo. Lázaro e eu podemos verificar.

 

    • Ward lançou um olhar rápido na minha direção e disse:
  • Não. Um de vocês precisa ficar comigo.Nós observamos enquanto Eris descia. Forte e atlética como era, ela logo alcançou a extensão de pedra. Quando ela pisou na plata­forma, o telefone do guia tocou. Ele teve uma conversa curta e seca e depois gritou algo para Eris lá embaixo.

 

    • Ela praguejou e começou a subir de volta.
    • Praguejei em silêncio. Por uma fração de segundo tive a esperan­ça de que o grupo se dividisse e eu ficasse sozinho com ele.
  • Mazare me disse que eles acabaram de ver Tomas no outro povoado - gritou ela para nós.

 

    • Ward avançou em direção à Mazare e despejou uma série de acu­sações contra ele, pontuadas por algumas obscenidades bem diretas. O guia cuspiu palavras em turco de volta.
  • Estou ficando cansado disso. - Ward lançou um olhar fulmi­nante para Eris quando ela chegou ao topo. Parecia que ele estava prestes a bater nela. - Eles nos disseram que Zakar estava aqui.- Ele na verdade disse que Tomas havia sido visto aqui na noite passada. Olhe para essa terra, é cheia de cavernas e formações rocho­sas tortuosas. Tomas poderia ter escapado facilmente. Pelo menos, eles o encontraram de novo. Pare com esses ataques e concentre-se em nos levar até lá antes que nós o percamos mais uma vez.Mazare dirigiu de novo. O Mercedes passava rasgando pelas es­tradas de terra. As pedras batiam no chassi, e o veículo balançava loucamente, levantando poeira nas curvas. Logo chegamos a outro povoado, muito parecido com o que tínhamos acabado de deixar. O furgão tinha conseguido de algum jeito chegar antes de nós. Estava estacionado, vazio, ao lado da estrada. Eris, Ward e o nosso guia confabularam por alguns minutos, falando entre si.Andamos até uma das casas na periferia do povoado. A constru­ção de dois andares, pintada de amarelo-canário vibrante, tinha sido erguida para dentro da superfície vertiginosa de rocha atrás dela, e era circundada nos outros três lados por um muro de quase dois metros. Uma grande quantidade de trepadeiras floridas se espalhava por cima do muro. Nosso guia bateu em uma porta de madeira e gri­tou. Alguns minutos depois, ouvimos passos arrastados na nossa direção e o barulho da porta sendo destrancada. Ela se abriu e revelou um homem idoso, de cabelo branco, que nos recebeu com um sor­riso largo e acolhedor. Ele nos cumprimentou em turco e segurou a porta enquanto entrávamos. Atravessamos um quintal fresco, sombreado por árvores frutíferas; eu ouvia o barulho de uma fonte em algum lugar.

 

    • Quando Shim passou por ele ao entrarmos na casa, o velho deu uma boa olhada e depois se afastou e colocou as mãos para cima, gritando alguma coisa. O medo saltava dos seus olhos.
    • Essa área também era entremeada de despenhadeiros e estranhas chaminés de rocha vulcânica. Buracos e santuários haviam sido es­cavados em vários lugares. Imaginei que iríamos direto para os des­penhadeiros, mas, em vez disso, percorremos um caminho de pedra íngreme e sinuoso, que atravessava o povoado. Quando dobramos a esquina, uma imensa sombra escureceu o nosso caminho. Shim saiu de um recuo entre duas construções. Atrás dele, estava o homem que acompanhava Mazare. Ele tinha ido a algum lugar pegar Shim. Praguejei. Fugir estava ficando cada vez mais difícil. Agora eram seis deles contra mim.
    • Vendo que isso fazia sentido, Ward engoliu a raiva, e nós fomos correndo de volta para os carros.
    • Ela perdeu a paciência e atacou de volta.
  • Ele não quer Shim aqui dentro - Eris nos disse. - Portador de má sorte para a casa.
  • Pergunte a ele se quer o nosso dinheiro ou não. — Ward puxou a carteira e tirou duas notas de cem dólares. Ele havia desabotoado os botões de cima da camisa e suava em bicas. Estava prestes a ter outra explosão.

 

    • Mazare levou o velho para o lado e falou com ele em voz baixa, e em seguida fez um gesto para Ward, para que ele entregasse o di­nheiro. Nosso anfitrião pegou as notas e saiu correndo.
  • Maldito idiota - disse Lázaro.

 

  • Eris era quem estava mais perto da porta. O velho estendeu o braço para a maçaneta e virou-a. Eris se aproximou mais. Eu achei que ela ia se despedir dele em turco. Ele sorriu para a bela mulher e começou a abrir a porta. Segurando alguma coisa entre o polegar e o indicador, ela fez um movimento rápido, apertando o pescoço dele em um estranho gesto de despedida. Um rápido olhar de espanto passou pelos olhos dele. Então, o homem colocou as mãos no pescoço e tentou dizer alguma coisa. Respirou fundo e pareceu dobrar-se sobre si mesmo, e então estendeu uma das mãos para evitar o impacto com o chão. Em seguida, teve um espasmo. As pernas se esticaram bruscamente. Ele parecia ter mordido a língua. Os espas­mos vieram com mais rapidez, um atrás do outro.

 

Shim me esmagou contra a parede quando tentei correr para ajudar o velho. Mazare gritava. Eu não precisava entender turco para per­ceber a raiva em sua voz.

  • Diga para Mazare se acalmar, Eris - ordenou Ward.Mazare e o companheiro encaravam o nosso grupo com um olhar hostil. Ward os ignorou, vasculhou uma sacola e tirou duas lanternas de dentro dela.

 

    • Eu ofegava, furioso.
    • Quando Shim me soltou, Lázaro e Eris tinham puxado as armas.
  • Para que matar o homem? - eu gritei. - Vocês são uns porcos.
  • No momento em que ele saísse com o dinheiro, metade da ci­dade saberia que nós estamos aqui.
  • Você o matou por nada. Se Tomas estiver nesta casa, ele está quieto demais.
  • Você já ouviu falar da Gapadócia? - perguntou Ward. - Você sabe que existem cidades subterrâneas lá, antigas câmaras e corredo­res que descem oito andares para baixo da terra?
  • O que isso tem a ver? Nós estamos longe de lá.
  • Existe uma rede como essa aqui, mas muito menor. Tomas lo­calizou uma tumba ao interpretar corretamente a inscrição. Nós po­demos chegar lá pelo porão desta casa.

 

    • Quase dei risada de incredulidade, mas me contive a tempo. Se Ward queria acreditar que ia encontrar algum baú do tesouro abaixo de nós, ele que se iludisse com sua fantasia.
  • E qual é sua fonte para isso? - perguntei.

 

    • Ward fez um gesto abrupto com a mão em direção a Mazare.
  • Ele é cúmplice de Tomas. Ele chegou até nós por um inter­mediário, um dos contatos confiáveis de Eris. A tumba que Tomas encontrou aqui está lacrada desde a queda do Império Frígio.
  • E você acha que o velho sabia disso?
  • É claro que não. Ele achava que nós queríamos visitar os san­tuários cristãos.
  • E por que exatamente Mazare resolveu passar para o lado do mal?
  • Pelo motivo mais convincente de todos. Tomas foi mesquinho com ele. Eu estou oferecendo uma parcela considerável dos lucros.Entretanto, uma idéia me ocorreu. A colmeia de câmaras e pas­sagens pelas quais essas cidades subterrâneas eram famosas tinha conexões através de escadas e buracos no chão. Alguns dos buracos serviam de latrinas e poços, mas em outros eram usadas escadas a fim de descer para corredores de níveis inferiores. Se eu ficasse atento, poderia me jogar em um desses ao passar e fugir. Isso me daria uma pequena chance.

 

    • Quando Tomas me falara sobre a possibilidade de um tesouro assírio oculto, tudo tinha me parecido um exagero, mas essa nova re­velação de Ward entrava no reino do faz de conta. As pessoas haviam passado o pente-fino nessas passagens por milhares de anos; uma tumba oculta já teria sido encontrada há muito tempo. Era tão pro­vável existir uma tumba não descoberta cheia de tesouros em uma cidade subterrânea turca quanto o Cálice aparecer em Cleveland. Um desespero fanático para fazer uma descoberta colossal o havia feito perder a noção de realidade.
  • E que motivo vocês têm para me levar junto?
  • Você é nossa apólice de seguro - disse Ward.
  • Tomas ia gostar de assistir ao meu fim. Eu já disse isso antes.
  • Ele está lá embaixo com mais outros dois, e todos estão arma­dos. Nós vamos colocar você na frente para negociar com ele. Se eles começarem a atirar, você vai servir de escudo.Ward olhou o relógio.

 

    • "Se isso acontecer, você acha que vai chegar muito longe?", pensei.
  • Tomas está lá embaixo há quase duas horas. Precisamos ir.

 

    • Ele apontou na direção do velho, que estava imóvel no chão.
  • Pegue-o - ele me disse -, não podemos deixá-lo aqui.
  • Faça você mesmo o trabalho sujo. Eu não vou pôr a mão nele.

 

    • Ward me lançou um olhar fulminante.
  • Escolha o seu veneno então. A poção de Eris ou a faca de Lá­zaro. Eu recomendo Eris. Ela vai providenciar uma morte rápida.

 

    • Mazare vociferou mais algumas palavras e foi até onde o velho estava deitado.
  • Mazare disse que vai carregar o velho - disse Eris quando Ma­zare levantou o corpo sem nenhum esforço, já que o velho pesava pouco mais que um menino. Os lábios dele estavam azuis, e a cabeça balançava de um jeito estranho. Desviei o olhar. O parceiro de Ma­zare ficou lá em cima, atento a algum vizinho curioso.As prateleiras também abrigavam uma variedade de vasilhames de barro. Percebi de imediato que eram antigüidades, e imaginei que o velho os havia encontrado durante a escavação do corredor e guardado alguns de seus achados valiosos para si. O túnel era escorado com vigas de madeira. Mais ou menos a cada três metros, uma chuva de pedras caía do teto quando as passadas pesadas de Shim batiam no chão. Eu me perguntei até que ponto aquela estru­tura era estável.- As portas originais - disse Ward. - Eles usavam esses buracos para lançar flechas.Mais adiante, a parede tinha sido lixada. Um mosaico havia sido aplicado sobre ela; estava consideravelmente danificado, mas ainda intacto. Era composto de símbolos e temas cristãos bizantinos, entre eles uma cruz proeminente. Abaixo dela, um buraco quadrado ha­via sido escavado na pedra. Imaginei que um dia isso devia ter sido usado como um altar primitivo. Eu sabia que na Capadócia esses assentamentos tinham três mil e quinhentos anos — remontavam à época do Império Hitita, e possivelmente até a um período ante­rior. Ao longo dos séculos, muitas culturas haviam passado por eles, acrescentando coisas, deixando sua marca indelével. O labirinto de câmaras e corredores provia um excelente sistema de defesa e ofe­recia proteção contra cercos feitos à superfície por meses. Eu tive a impressão de conseguir ver a marca de carvão das tochas fumacentas que um dia haviam sido afixadas a essas paredes.Na câmara seguinte, Ward apontou para uma leoa esculpida em re­levo na parede do fundo. Ela era tão benfeita que, quando Ward passou a luz sobre a imagem, parecia que ela ia saltar da superfície de pedra. O artista havia usado propositalmente os contornos naturais da pedra para definir o corpo do animal. A leoa estava empinada sobre as patas traseiras, e a boca aberta exibia uma fila de dentes ferozes. Na barriga havia uma seqüência de tetas cuidadosamente representadas.

 

    • Finalmente, nós nos deparamos com algumas câmaras vazias. Paramos em uma delas e esperamos enquanto Mazare carregava o velho para dentro e colocava o corpo no chão.
    • Nós ficamos para trás enquanto Shim, grunhindo com o esforço, rolava a pedra para o lado, revelando um segundo corredor. Aqui, a luz elétrica acabava. Quando Ward ligou a lanterna, um rato correu para uma fissura na parede; sua cauda longa e pelada parecia uma cobra rastejando para dentro da toca. As paredes de pedra eram mais ásperas, e o teto, mais baixo. O túnel cheirava a esporos ances­trais e fungos em desenvolvimento, o cheiro da deterioração. Uma vala primitiva havia sido cavada ao longo de um lado do chão. Shim foi obrigado a andar abaixado. Nós havíamos entrado em uma ci­dade subterrânea.
    • A passagem terminava de forma abrupta. Uma rocha circular, parecida com uma pedra de moinho com um buraco bem no meio, bloqueava nossa passagem. O objeto era visivelmente obra humana.
    • No porão, uma passagem rústica havia sido aberta na parede de estuque. Nós abrimos a porta e entramos em um túnel. Uma fileira de luzes de Natal brancas havia sido amarrada a ganchos no teto, fornecendo uma iluminação fraca. Havia prateleiras empilhadas dos dois lados da passagem, cheias de queijos redondos embrulhados em juta, potes empoeirados de azeitonas e conservas. Era sensivelmente mais frio lá embaixo.
  • Isso é frígio - disse Ward, visivelmente entusiasmado. O humor dele tinha mudado de novo. Ele agora parecia exultante, como se a visão da leoa tivesse confirmado todas as suas esperanças, e o mau humor de antes tivesse se transformado em júbilo. Tive a impressão de ver uma faísca de esperança nos olhos inexpressivos de Lázaro."Onde está o covil dos leões?"Quando atravessamos o corredor, Mazare virou-se de repente e fez sinal para pararmos. Nós havíamos chegado a duas pequenas câmaras cavadas nas paredes, uma diante da outra. Cerca de trinta metros adiante, o corredor terminava em uma intersecção em forma de T. Mazare cochichou algo para Eris.

 

  • Eu estava errado? No fim das contas, nós estávamos no caminho certo? Se estivéssemos, como Naum, um escriba que vivia na Assíria, ficara sabendo da tumba oculta? Talvez ele tivesse acompanhado o rei assírio em sua campanha na Anatólia.
  • As palavras de Naum voltaram a mim.
  • Ele quer que nós apaguemos as lanternas — disse ela. - A tumba fica à esquerda.Mazare ligou a lanterna novamente e direcionou a luz para o chão. Ele falou de novo com Eris.Ward mandou que os outros fossem para dentro das salas, mas insistiu para que eu ficasse parado na passagem, bem à vista. Ward e Eris ficaram atrás de Shim em uma das salas; Lázaro entrou na outra. Quando eu tentei entrar, ele pegou a faca.Por um segundo, eu me perguntei por que ele tentaria fazer uma ligação ali embaixo. No instante seguinte, percebi o que estava para acontecer e corri a toda na direção dele.

 

  • Se no fim das contas Tomas estivesse lá e uma rajada de balas viesse na minha direção, tudo o que eu poderia fazer para me proteger seria me espremer contra uma parede. Mazare foi andando bem de­vagar, acompanhando a parede da esquerda até quase alcançar o arco da intersecção. Ele fez um sinal para mim. Eu fiquei quieto. Então ele disse alguma coisa que achei ser "Venha". Devia ser a minha imagina­ção. Ele deu de ombros, pegou o telefone e digitou um número.
  • - Ele vai subir primeiro - disse ela.
  • As luzes se apagaram, deixando-nos totalmente no escuro. Quando nossos olhos se adaptaram, vimos uma luzinha fraca vindo do lado es­querdo da intersecção.

 

Um clarão ofuscante iluminou o corredor, seguido por uma longa explosão. Ouvi Ward gritar um segundo antes de o teto explodir. Momentos depois, fui jogado de cara no chão. Tentei me mexer, mas minha perna esquerda estava presa embaixo de alguma coisa. Torci a parte de cima do corpo e, com a mão, senti que o objeto que me prendia ao chão era um pedaço de pedra do tamanho de uma mesa de centro que havia se soltado e caído sobre mim. Minha perna tinha ficado alojada numa vala; não havia sido estilhaçada quando a pedra caiu. Eu não sentia dor e podia mexer o pé. Tentei agarrar a borda da pedra com as duas mãos, mas minha posição não permitia que eu fizesse contrapeso, e não consegui movê-la nem um centímetro.

Eu não conseguia ver nada. A poeira da pedra era tão densa que eu mal podia respirar. Abri a camisa e a arranquei, cobrindo meu nariz e boca.

Desde que tínhamos entrado no túnel, eu estava tentando moni­torar nossa direção, e calculei que a passagem se estendia por baixo do despenhadeiro que ficava nos fundos da casa do homem. Isso queria dizer que havia uma pequena chance de alguém do povoado ter ouvido a explosão. Alguma hora alguém se aventuraria pelos túneis e veria o desabamento, mas seria tarde demais para mim. O destino já tinha me aplicado tantos golpes baixos que eu tinha per­dido a conta. Agora, quando finalmente eu estava livre das pessoas que me atormentavam, estava condenado a morrer naquele inferno poeirento. Provavelmente não haviam se passado mais do que dez minutos, apesar de parecer muito mais, quando ouvi os primeiros sons. Uma espécie de grunhido e vozes. A torturante tentativa de falar só poderiam estar vindo de Shim.

Uma luz fraca brilhou acima de mim. Através da poeira de pedra, vi que o epicentro da explosão tinha sido perto das duas pequenas câmaras. A força tinha sido tanta que pulverizara a pedra. Pedras de vários tamanhos bloqueavam a passagem, subindo até uma abertura grande no teto. Eu não conseguia ver até onde ia a pilha de destro­ços. Se eu não tivesse corrido naquela hora, teria sido enterrado vivo.

Um jato de pedras despencou do alto da pilha. Eu gritei para Shim parar antes que outro deslizamento me atingisse. Mais pedras caíram, mas dessa vez devagar, e, por fim, sua mão carnuda apare­ceu. Ele limpou um espaço maior, e depois sua mão desapareceu. Eris se espremeu pelo buraco e desceu pela pilha, seguida pouco depois por Ward. Ambos estavam cobertos de poeira amarelada da pedra.

Nem sinal de Lázaro. Ward olhou para mim e disse:

  • É isso que você merecia, Madison, ficar preso no chão como um inseto morto.
  • Como você sobreviveu?
  • O impacto principal atingiu a outra sala. Nós também ficamos presos, mas Shim poderia mover uma montanha se quisesse.
  • Tire essa coisa de cima de mim. Minha perna está presa.
  • Vai sonhando - disse ele.Shim abriu um espaço muito maior e se espremeu pela pilha de pedras. Ward iluminou a entrada da outra sala. Tive a impressão de ter visto uma fenda escura que poderia ser o contorno de uma porta. En­quanto os outros dois se afastavam, Shim começou a trabalhar, tirando as pedras. Eris chamou por Lázaro, mas não obteve resposta.Isso me trouxe de volta à memória o que Corinne me contara sobre Hanna Jaffrey. Que ela havia sido apedrejada, que havia apa­nhado até ficar com o rosto irreconhecível. E agora Lázaro, enter­rado nessa pirâmide de pedras, tinha tido a mesma sorte.

 

  • - Jogue as pedras de volta, Shim. Pelo menos assim ele terá um enterro decente - disse Ward com rispidez.
  • Shim conseguiu mover uma placa enorme, e jogou-a para o lado como se fosse um travesseiro de penas. Um grito lhe saiu da gar­ganta, e ele se afastou diante daquela visão de embrulhar o estôma­go, como se tivesse levado um tapa. A cabeça e os ombros de Lázaro apareceram: um lado do seu rosto havia afundado, os ossos do crânio estavam expostos, a boca aberta coberta de sangue e poeira como se ele tivesse acabado de bocejar. A lâmina da faca tinha atravessado o tecido mole sob a mandíbula, e as pedras tinham despencado com tanta força que tinham enfiado a faca inteira, até o cabo.
  • Em algum ponto do caminho, eu havia me convencido de que devia ter algum valor para eles, com quais intenções futuras eu ainda não sabia. Usar-me como escudo contra Tomas e seus homens não era mais um problema. Ward sabia que todas as informações que eu poderia dar estavam esgotadas. Isso significava que Laurel também já era. Fechei a mão sobre um pedaço de pedra afiado. Pensaria em algum motivo para fazer Ward se aproximar e esmagaria a cabeça dele com aquilo. Se eu ia morrer lá embaixo, ele também ia.

 

Por fim, eles me libertaram. Eu estava muito abalado emocionalmente para imaginar por quê. Fui atrás deles, mancando. Viramos à esquerda na interseção em T e vimos de onde vinha a luz de Mazare, a que ele tinha nos convencido de que era a usada por Tomas. Era um holofote no chão. Não vi nenhum fio elétrico, então supus que ele devia ter uma bateria potente. Mazare o havia destruído com um chute quando fugira.

Esse túnel fazia, pelos meus cálculos, um ângulo de quarenta e cinco graus com o caminho principal por onde nós havíamos pas­sado. Nós não tínhamos a menor idéia do lugar aonde ela nos leva­ria, mas Mazare tinha seguido por lá, então deveria haver uma saída mais à frente. Ward tossia sem parar enquanto voltávamos. Nossa única lanterna começou a falhar. Se não encontrássemos uma saída logo, precisaríamos ir tateando para encontrar o caminho. Depois de andar uma boa distância, Eris apontou para um círculo de luz fraca que foi ficando mais forte conforme nos aproximávamos. Era um dos buracos que eu havia visto nos despenhadeiros quando chegamos à cidade. Nós irrompemos na luz do sol, paramos um pouco para nos localizar e fomos para o carro.

O Mercedes havia sumido, é claro. Eles tinham deixado o fur­gão azul, mas nós não tínhamos a chave. Eris entrou em ação, ar­rombando o furgão e fazendo uma ligação direta, enquanto Ward esbravejava e Shim me vigiava. O telefone via satélite de Ward havia sobrevivido à provação ileso; Ward fez uma ligação rápida antes de irmos embora. Ele mandou Eris se sentar no banco do passageiro e foi dirigindo. Shim esperou que eu entrasse atrás e depois se enfiou ao meu lado. Eu me perguntei se Eris havia perdido o pequeno kit de substâncias químicas, mas achei melhor não tentar descobrir na­quela hora.

A ira incandescente de Ward por ter sido sobrepujado por To­mas era tão evidente que dava para cortar a atmosfera do carro com uma faca. Mazare tinha mentido. Enganara Ward e continuava fiel a Tomas, no fim das contas. A perspectiva de ganhar dinheiro havia sido uma isca que eles e Tomas sabiam que Ward engoliria. Senti uma certa satisfação por ver o professor, sempre no controle, perder as estribeiras. Longe da vida confortável de Nova York, ele estava em território instável, e sabia disso.

Profundamente envergonhado por ter caído na armadilha, Ward, irritado, manteve-se em silêncio o caminho todo, interrompendo-o apenas para fazer um comentário:

- Quando nós chegarmos ao Iraque, tudo vai mudar. Lá, quem vai dar as cartas somos nós.

Ele havia cometido um erro gigantesco com essa incursão pela Turquia. Eu esperava que essa certeza de que ele teria sucesso no Iraque se provasse igualmente infundada.

 

Fomos para o Aeroporto de Erkilet, nos arredores da cidade de Kayseri, onde o avião esperava por nós, e voamos até Amã. Depois de duas horas presos lá, conseguimos autorização para seguir para Bagdá. Isso me surpreendeu. Eu supunha que nós ingressaríamos de carro, pela Jordânia. As conexões de Ward com os poderosos deviam estar melhores do que nunca.

Quando chegamos a Bagdá, o avião ficou parado por pelo me­nos uma hora na pista de aterrissagem. Um sisudo militar ameri­cano de uniforme entrou, deu uma boa olhada em mim, verificou meu passaporte e saiu. Ele devia estar liberando minha entrada no país. Saímos do avião e entramos numa fornalha. Descemos em uma área pavimentada cheia de rachaduras e pontilhada de ervas dani­nhas. Devia estar fazendo mais de quarenta graus. Gomo os soldados conseguiam enfrentar o calor com uniforme completo, carregando quase quarenta quilos de equipamentos, eu não podia imaginar. Pu­xei o ar para respirar fundo, e minha boca ficou cheia de poeira. Um Humvee branco de janelas escuras esperava por nós. O veículo estava amassado, judiado e coberto de poeira.

Dois seguranças musculosos ocupavam o banco da frente, bárba­ros modernos usando capacetes, jaquetas camufladas sobre camise­tas manchadas de suor e jeans cáqui. Placas de identificação pendiam de correntes em volta do pescoço. Ambos estavam bem-barbeados e tinham cabelo raspado. Um portava uma série de insígnias enfileiradas na manga esquerda. Eles levavam armas que pareciam suficien­temente poderosas para destruir prédios inteiros.

Olhei para Ward.

  • Quem é a guarda na dianteira?
  • Mercenários. Não dá para sobreviver aqui sem eles.
  • Eles parecem muito jovens.
  • O que eles vão fazer, arranjar um subemprego em casa? Nós estamos falando de mil dólares por dia.
  • Para onde exatamente estamos indo?
  • Para o Hotel al-Mansour. Você não pode reclamar. É um hotel cinco estrelas.

 

    • Hotel? Isso me surpreendeu. Eu temia ir parar em algum tipo de centro de detenção. Mas, se Ward estava sendo forçado a ser meu supervisor de cativeiro, ele ia querer o máximo de conforto possível.
  • Você não estará algemado quando chegarmos ao hotel. Fique perto de nós. Nossos amigos aqui vão andar atrás da gente o tempo todo, então, definitivamente não vale a pena tentar nenhuma mano­bra idiota. Se você tentar se afastar do hotel, vai cair direto sob fogo cruzado. 

 

  • Saímos a toda velocidade do aeroporto e entramos em uma faixa de autoestrada. Quantas vezes Samuel havia percorrido essa mesma rota até a cidade? Imaginei-o relaxando à noite nas casas de chá, tomando chai, comendo pão doce achatado e kebabs saídos do fogo. Admirando os domos reluzentes das mesquitas. Passeando ao lado da água mar­rom do Tigre que fluía lentamente, sentado na sharayuya - os pequenos parques à beira-rio. Passando o tempo com seus amigos queridos nos mercados e no velho bairro judeu. Uma vez ele me havia escrito:

A cidade tem um jeito próprio de seduzir as pessoas. Quando você vai em­bora, pensa no seu contato como um relacionamento casual, um apego transitório. Mas ela sempre volta à cabeça. Em pouco tempo você já está pensando em um jeito de voltar. Ela não apela de forma superficial apenas ao intelecto; a verdadeira atração é carnal. Gomo uma amante da qual você não consegue se livrar, por mais que ela lhe cause problemas. E, para mim, ainda existe a história.

 

Eu me perguntei o que ele diria agora, vendo a ruína em que ela se transformara.

Da janela dava para ver faixas de terra desolada intercaladas com ilhas verdejantes, com um agrupamento de construções rurais em cada uma delas. Mais perto da estrada, a paisagem parecia o pano de fundo de Mad Max. Muros de proteção danificados; crateras; pilhas de cinzas e detritos de buracos explodidos no asfalto; um jumento morto — o fedor da carcaça chegava a nós até mesmo com as janelas fechadas; caminhões e carros amassados; esqueletos de tanques des­truídos. Poeira e cinzas cobriam tudo. Pessoas com vestimentas tradi­cionais arrastavam os pés cansados pelas valas, procurando só Deus sabe o quê. A certa altura, pensei ter visto uma mancha de sangue seco escurecido no asfalto.

Passamos pelos subúrbios da cidade e ingressamos no centro mais populoso, passando por muitos prédios destruídos. Em alguns, o pri­meiro andar estava em perfeitas condições, com as enormes janelas mouriscas e tijolos amarelados totalmente intactos. Em contraste, os andares superiores eram um emaranhado infernal de madeira quei­mada e vigas retorcidas. Eu via longas filas de prédios praticamente incólumes pontuados por um que havia sido totalmente destruído, como um dente faltando em um sorriso perfeito. O lixo fétido se amontoava por todo lado.

Nós entramos no que um dia devia ter sido uma rua de estilo parisiense, com um bulevar grandioso separando as pistas. A parte do meio havia sido um dia embelezada por filas de tamareiras ma­jestosas, a maioria das quais havia sido cortada; os troncos saltavam para fora como espetos enfiados no chão, e a folhagem apodrecia, empilhada. Notei que Ward também as observava.

  • O que aconteceu ali? - perguntei.
  • Eles precisaram derrubá-las. Serviam de abrigo para os insur­gentes. Este caminho do aeroporto é um dos trechos mais perigosos da cidade inteira.
  • Que pena...

 

    • Ward revirou os olhos.
  • Imagine ter suas pernas explodidas. Você também ia derrubar algumas árvores se achasse que isso poderia te salvar.Soldados corpulentos, com aparência durona, vestidos com uni­formes pretos, patrulhavam o hotel. Eles carregavam um arsenal de armas suficiente para tomar um país pequeno. Fiquei surpreso ao ver que eles não eram americanos.

 

    • Com as paradas nos postos de verificação, nós levamos quase uma hora para chegar ao nosso destino. Barreiras de concreto ergui­das para evitar que caminhões-bomba conseguissem passar e uma pesada presença militar nos impediram de ir diretamente até o hotel. Nós estacionamos e fomos andando até a entrada.
  • Peshmergas - Ward me disse. - Soldados curdos; eles estão tra­balhando com os militares americanos. É melhor não se meter com esses caras.

 

    • Depois de sermos revistados pelos guardas, seguimos para nossa suíte - um quarto com uma sala de estar e banheiro. O hotel parecia estar em más condições, e Ward me contou que o local havia sido saqueado quando as forças de ocupação entraram em Bagdá. Ele me fez ir para o quarto e acabou com o meu breve flerte com a liberdade algemando meu pulso à armação da cama. Dessa vez ele deixou mi­nha mão direita livre.
  • Preciso sair para fazer alguns arranjos. Vou pedir alguma coisa para você comer. Quando eu voltar, podemos conversar. — Ward disse quando já estava saindo. Eris o acompanhou. Os dois merce­nários se acomodaram na sala e imediatamente colocaram um filme no DVD.Olhei para baixo, para as dependências do hotel, e consegui ver um bando de cães que um dia tinham sido bichos de estimação, agora forçados pela fome a voltar às suas raízes selvagens e procurar comida na paisagem urbana. Eles puxavam com os dentes pedaços esbranquiçados de alguma coisa no chão. Desviei os olhos, não que­rendo saber exatamente o que eles estavam comendo.Quando tínhamos passado pelo saguão mais cedo, notei que havia muitos ocidentais, que, a julgar pelo tom cordial da conversa e pela roupa informal da maioria, deviam ser jornalistas. Ocorreu-me a idéia de que, se eu conseguisse me libertar, um deles poderia me ajudar a fugir. Mas, sem dinheiro e sem documentos, eu não teria como sair do país. E, mesmo que eu conseguisse contornar isso, Ward descontaria em Laurel.Chamei um dos guardas. Ele enfiou a cabeça por trás da porta.

 

    • Aproveitei o tempo para pensar um pouco, e acabei por imaginar por que razão ele havia me trazido para o Iraque. Se eu estivesse certo, logo isso ficaria óbvio.
    • O barulho do tráfego diminuiu. As notas líricas do canto do adhan cortaram o ar noturno. Essa seria a quinta e última chamada para oração do dia, entre o cair da noite e a meia-noite. Senti a beleza da música, tentei relaxar e deixar os semi-tons flutuarem através de mim. Então, veio o tá-tú-tá dos tiros. Os cães uivaram, e a chamada do muezim foi quebrada por aquela canção de deses­pero. Laurel agora estava tão longe que eu não conseguia imaginar como ajudá-la. As minhas próprias perspectivas não eram muito melhores.
    • Percebi que podia fazer a pulseira da algema escorregar um pouco pela cama, e então fiz uma manobra até o lado perto da ja­nela e olhei para fora. A distância eu podia ver o domo turquesa da Décima Quarta Mesquita do Ramadã, um dos últimos megaprojetos de Hussein. Ele não economizava na hora de construir monumentos, a maioria deles em homenagem a si mesmo.
  • O que foi?
  • Quero uma bebida. Você pode pegar alguma coisa no frigobar?
  • Nós não somos garçons.

 

    • Senti o cheiro dos cachorros-quentes que eles tinham acabado de esquentar.
  • Onde vocês conseguiram o cachorro-quente?
  • Vem tudo do Kuwait. A gente não come essa porcaria iraquiana.Depois que Ward voltou, ele abriu a algema, e então pude usar o banheiro. Não tive pressa, ensaboei-me e joguei água nos braços e nas mãos, coloquei uma toalha sob a água fumegante e a esfreguei no rosto, dando uma penteada no cabelo. Minha barba estava come­çando a ficar desgrenhada.

 

    • Quando voltei para o quarto, eu disse a Ward que queria uma bebida.
    • Apesar da alegação de que não era garçom, quando minha co­mida chegou, ele trouxe a bandeja para dentro e colocou-a na mesa de cabeceira. Tikka de frango, arroz e alguma coisa meio esverdeada que eu supus algum dia ter sido um vegetal. Junto com isso, uma gar­rafa de chai doce com uma tampa de rosquear que podia ser usada como xícara. Devorei a comida inteira como se fosse cordon bleu.
  • Sirva-se - disse ele.Apoiei as pernas na beirada da cama enquanto Ward puxava uma cadeira. Ele parecia mais relaxado, um pouco mais animado.

 

    • Para ter uma idéia do ponto a que eu havia chegado, fiquei exultante quando ele me deixou ir sozinho até a saleta para pegar algo do frigobar. Os guardas ficaram com os olhos fixos em mim quando peguei uma garrafinha de uísque e virei em um copo antes de voltar para o quarto.
  • Eris verificou o endereço que você nos deu. Parece confiável. Na verdade, fica neste bairro, al-Mansour. O dono da casa é assírio, como os irmãos Zakar. Tomas pode muito bem estar escondendo a inscrição lá.
  • Então por que você simplesmente não invade o lugar? Você tem os meios. Por que me envolver?
  • Não quero me arriscar a danificá-la em uma invasão. Preciso saber mais antes de entrar. Eles estão sendo mantidos sob vigilância constante, e seja lá o que for que tenha estado na casa nos últimos dias ainda está.
  • Tomas teria tido tempo de chegar aqui? Ele dificilmente entra­ria no país pelo aeroporto.
  • Quanto tempo faz que você o viu pela última vez, uns três dias?
  • Por aí.
  • Duvido que ele sequer tenha entrado na Turquia. Mazare ar­mou tudo para ele. Isso lhe deu tempo mais do que suficiente para voar para a Síria ou para a Jordânia e entrar de carro. As frontei­ras estão parecendo uma peneira agora, há milhões de buracos que qualquer um pode atravessar, e é só meio dia de viagem até a cidade.A tatuagem do antebraço se destacava como um luminoso de neon. Um h minúsculo com um traço curto no alto. Ward se curvou para a frente, apoiou os cotovelos nos joelhos e o queixo sobre as mãos fechadas.

 

    • Ele se inclinou para trás e se esticou. Apesar do calor, ele estava com trajes relativamente formais, terno, camisa branca e gravata. Talvez para parecer mais descontraído e me deixar à vontade, ele tirou o paletó, afrouxou a gravata e dobrou as mangas.
  • Amanhã de manhã nós vamos te mandar para o endereço que você nos deu. Queremos que você entre lá.
  • Por que eu? Deve haver um monte de gente que você pode requisitar.
  • Tática de choque. Você é provavelmente a última pessoa que Tomas Zakar esperaria encontrar em Bagdá. Dessa forma, nós va­mos conseguir fazê-lo dar as caras. — Ele fez uma pausa para garantir o impacto das palavras seguintes. - Além disso, você é dispensável. Não quero ninguém do meu pessoal morrendo lá dentro.
  • E, depois do que aconteceu na Turquia, de que forma exata­mente vou explicar como cheguei lá, ou por que me dei ao trabalho de vir?
  • Você não vai precisar fazer isso. Tomas dificilmente vai aten­der à porta, mas quem o fizer vai contar para ele. Ele vai estar cheio de si. Repousando sobre os louros da vitória. Vai ficar aba­lado só de saber que você está vivo e chegou até aqui. Vai querer saber se você está sozinho ou se nós escapamos. E assim que nós queremos que ele fique: inseguro e sabendo que os planos dele fo­ram para o espaço.Olhei para Ward.

 

    • Eu me levantei e andei até a janela. Ward não fez nenhum mo­vimento para me impedir. A distância, as palmeiras se moviam à brisa suave; o ar cintilava com o calor e a poeira. Eu me senti como se fizesse parte de uma miragem, como se nada disso pudesse estar realmente acontecendo comigo.
  • Não vou fazer isso. De que vai adiantar? Você vai matar Laurel e a mim de qualquer forma.Um maço com cerca de cem notas de dólar e o meu Visa, junto com meu passaporte, que ele havia me mostrados antes.

 

    • Ward apontou para o cartão.
    • Ward sorriu, levantou-se e foi até a saleta. Voltou segundos de­pois, trazendo uma mala que deixou cair sobre a cama e abriu-a. Re­mexeu num bolso de tecido dentro dela, puxou um envelope pardo e derrubou o conteúdo dele sobre a cama. Fui até lá para olhar.
  • O cartão foi quitado; você pode usá-lo agora.Fiquei sem ação por um instante com a beleza do rosto. Os olhos dela estavam intactos, diferentemente da Máscara de Warka, cujos olhos ausentes a faziam parecer uma sibila cega. Os olhos da Vitória, com as íris confeccionadas em obsidiana e as córneas de madrepérola, davam-lhe uma impressionante aparência viva.

 

    • Ele enfiou novamente a mão na mala e retirou uma grande sa­cola de veludo preto. Afrouxando o cordão dourado trançado, tirou delicadamente um objeto esculpido de dentro. A cabeça de cobre da Vitória de Hatra.
  • Como se eu tivesse alguma chance de entrar com isso nos Es­tados Unidos.
  • Quando o serviço aqui terminar, vamos mandar você de avião para Belgrado. De lá você será enviado para Zurique. Um comer­ciante local vai tirá-la das suas mãos de bom grado.
  • Eu sei quem você é. Você não pode se dar ao luxo de me deixar ir embora.

 

    • Ward evitou o meu olhar e deu uma risada forçada.
  • Não estamos interessados nem em você nem em Laurel. Você não é o centro do nosso universo. Só consiga para nós o que estamos querendo.Ward deu um pulinho, mostrando como estava ansioso. Percebi que o telefone devia ter tocado, vibrando em seu quadril. Ele o tirou e começou a falar, e então virou-se e ficou em pé no vão da porta, falando em voz baixa. A figura dele preenchia quase toda a porta, de modo que os dois guardas não podiam ver nada. Apanhei o maço de dinheiro, enfiei umas poucas notas no bolso e rapidamente o devolvi exatamente ao mesmo lugar. Era agonizante ter de deixar o passa­porte e o cartão.

 

    • Ele desligou o telefone e se virou. Tirou a mala e o restante das coisas de cima da cama e prendeu meu pulso novamente à armação.
    • Essa era mais uma das histórias inventadas por ele. Era o mesmo que estar com um anzol enfiado no lábio com Ward puxando a outra ponta da linha - o dinheiro e a promessa de liberdade simplesmente para garantir minha cooperação. E eu não acreditei na história so­bre não querer invadir a casa. Uma vez confirmada a presença de Tomas, a invasão teria início. A escultura da Vitória era mais quente do que um maçarico, e teria o papel de estrela. A culpa pela car­nificina seria minha - o comerciante de arte americano caído em desgraça. Eu não poderia fazer nada quanto a isso, porque também estaria morto. A oferta tinha sido feita puramente para garantir que eu faria o papel que ele havia criado para mim.
  • Vou voltar tarde; começaremos cedo amanhã.
  • Eu ainda não concordei com nada.
  • Você não tem escolha - disse, e murmurou alguma coisa para os guardas e bateu a porta na saída.Derrubei o copo, deixando a bebida cair na camisa. Fiquei deitado ali, fedendo a álcool, atolado em minha situação lastimável.

 

  • Tentei achar o uísque que eu havia colocado na bandeja, junto com o prato sujo do jantar. Fechei a mão em volta do copo e levei-o aos lábios. Uma saraivada de balas estourou de novo, tão alto que poderia muito bem ter sido direcionada para a nossa janela.

 

Devo ter caído no sono, porque acordei sobressaltado no meio da noite. Meu braço doía de ficar amarrado à cama em uma posição pouco na­tural, e também havia toda a sobrecarga ao longo dos últimos dois dias. A luz na sala dos guardas ainda estava acesa, emitindo uma luminosi­dade fraca para dentro do meu quarto. Mesmo com o som muito alto do filme e o barulho dos roncos deles, ouvi um ruído no pé da minha cama. Sentei e tentei descobrir de onde vinha o barulho.

O que era aquilo - uma alucinação? Uma espécie de inseto estra­nho rastejava sobre o lençol. Ele tinha o corpo do tamanho de uma faca de caça e a mesma estranha cor pálida daquelas criaturas sub­marinas que nunca veem a luz. Na cabeça, as mandíbulas vermelhas se abriam como o bico de uma ave. A coisa era imensa. Dei um chute e gritei. Ela correu para a parede. Peguei o copo vazio e atirei nela. O copo se espatifou quando bateu na parede, mas a coisa escapou e entrou no vão escuro entre a cama e a parede. Depois, ela reapare­ceu mais perto ainda. Levantava as patas dianteiras, balançando-as no ar como se estivesse tentando captar as vibrações do inimigo.

  • Que diabo está acontecendo? - A imagem do guarda se ma­terializou na porta, bloqueando a luz. Agora eu não via mais nada.
  • Tem uma coisa que parece um escorpião em cima da cama. Mate-a. Pelo amor de Deus, rápido!

 

    • Ele acendeu a luz. Agora ela estava a apenas trinta centímetros do meu braço nu.
  • Merda. Como ela entrou aqui? - disse ele. - É uma aranha de camelo. Não vou encostar nela. Elas ficam escondidas na areia e dão um salto. Usam a boca para rasgar a barriga macia do camelo e entrar nela. E daí que vem nome. A picada é muito venenosa, pior que a de um escorpião.

 

    • Totalmente em pânico, afastei meu corpo o máximo possível da cama, mas meu braço ainda estava preso à armação. Eu sentia o toque aveludado das patas dianteiras começando a sondar minha pele nua.
  • Me jogue a chave, seu asno.

 

    • O segundo guarda se acotovelou para dentro do quarto, deu um olhada e se dobrou ao meio de tanto rir.
  • Você devia ver a sua cara, Madison. Parece que você está pres­tes a urinar nas calças.Voltei para a cama.

 

    • Ele pegou a bandeja do jantar, derrubou os pratos vazios no chão e acertou a aranha. Ela caiu de barriga para cima, agitando inutil­mente as patas no ar. Ele bateu a bandeja com força, e eu ouvi um crec. Ele envolveu a carcaça com a colcha.
  • Seus idiotas, vocês colocaram aquela coisa aqui de propósito.
  • Vá para o inferno e pense bem antes de nos tratar como empre­gados de novo - disse o segundo guarda. - Estávamos precisando dar umas risadas. É chato ficar vendo filmes o tempo todo. Machucou o braço? 

 

  • O bracelete da algema tinha arrancado a pele ao redor do meu pulso quando me afastei. Os dois desapareceram no seu covil. Fiquei acordado o resto da noite para evitar mais alguma brincadeira de mau gosto.

Sábado, 10 de agosto de 2003, 9 horas

Na manhã seguinte, nós saímos do hotel direto para o sol escaldante. Até as palmeiras pareciam murchas por causa do calor corrosivo. Os soldados da patrulha nos observaram rapidamente e desviaram o olhar. Quanto ao nosso pequeno grupo, a tensão exalava - o humor de Ward estava de novo especialmente azedo, e ele era desagradável com os comparsas.

Minha carruagem me esperava. Um táxi cor de laranja detonado, um Datsun de meados da década de 1980. Era um espanto o mo­torista conseguir fazê-lo sair do lugar. O táxi encurralado entre eles.

Eris foi na frente, dirigindo um sedã, com Ward ao lado, e o Humvee branco na retaguarda, de posse dos dois mercenários.

Ward estava certo quando dissera que o endereço ficava perto. Quando entramos na zona residencial, demorou uns dez minutos até alguém nos mandar encostar em um cruzamento. As casas da área eram suntuosas - pelo menos foi o que eu imaginei, porque boa parte delas estava escondida atrás de muros. Muitas tinham guardas arma­dos mal-encarados postados do lado de fora. Aparentemente muitas pessoas importantes moravam ali. Mas, mesmo nessa área, uma das partes mais ricas de Bagdá, dava para ver destroços dos bombardeios. Eu me lembrava de ter ouvido no noticiário que duas casas cheias de gente tinham ficado totalmente destruídas depois de um restaurante nas proximidades ter sido apontado por engano como a localização de Saddam Hussein.

Ward saiu e se inclinou na minha janela.

  • O táxi vai parar na frente da casa; ela fica meio quarteirão à frente. O Humvee ficará estacionado aqui, e meu carro, um pouco mais adiante. O resto é com você.Não aconteceu nada. Praguejei. Isso poderia acabar em uma es­pécie de anti-clímax tragicômico se por acaso ninguém estivesse em casa? Apertei o botão novamente e ouvi a porta da frente abrir com um clique. Uma figura diminuta, usando calça comprida e camisa polo, olhou para mim. Um homem, mas não Tomas.

 

    • Ele se virou e disse alguma coisa para quem quer que estivesse dentro da casa, e depois veio andando em minha direção. Ele parou a uns três metros de distância, sem fazer nenhum movimento para abrir o portão, e começou a tagarelar; parecia o assírio que Tomas falava. Eu sorri e sacudi os ombros.
    • Meu destino ficava escondido atrás de um considerável muro de blocos de basalto. Parei em frente a um portão, uma ornamentada grade de metal. Através dele eu podia ver um pátio de pedra e um Mercedes estacionado na frente de um sobrado. O carro era pra­teado, então não era o que nós havíamos usado na Turquia. Árvores jovens e videiras cresciam exuberantes por cima do muro. Apertei o botão no meio de uma placa de bronze e rezei por um milagre.
  • Tomas Zakar - eu disse. - Ele está?Um segundo homem entrou, vestindo uma batina de padre preta. O cabelo era escuro, mas ele tinha olhos azul-claros que lhe davam uma aparência etérea. Ele inclinou a cabeça para a frente e se cur­vou levemente.

 

  • O homem olhou para a porta da frente mais uma vez e apertou o controle remoto que estava segurando. O portão se abriu e fechou auto­maticamente no segundo em que eu passei por ele. Ele gesticulou para que eu o acompanhasse até dentro da casa e apontou para uma cadeira no hall de entrada. Os minutos iam passando. O ambiente emanava um ar de elegância, apesar da mobília esparsa. Vários kilins, com um maravilhoso colorido vermelho e marfim, estavam pendurados na pa­redes. Havia um buquê de rosas dentro de uma urna alta de alabastro no chão. Imagine encontrar flores frescas nessa cidade sitiada.
  • Em que posso ajudá-lo? - Detectei uma ponta de sotaque britânico.

 

    • Tentei ser o mais convincente possível.
  • Meu nome é John Madison. Acabei de chegar a Bagdá com uma delegação cultural. Tomas Zakar me deu esse endereço para entrar em contato com ele quando chegasse. Por acaso ele está?
  • Zakar? Como se escreve?
  • Z-a-k-a-r. Zakar - eu disse novamente.

 

    • Ele balançou a cabeça devagar.
  • Desculpe-me. Não posso ajudá-lo. Não tem ninguém aqui com esse nome. Um mal-entendido, sem dúvida.
  • Acho que não. Ele me deu seu cartão.

 

    • O homem respondeu com um leve sorriso:
  • Isso é estranho. Esta casa pertence ao meu pai há muitos anos; não imagino como alguém poderia ter cometido um erro desses. Você está sozinho?
  • Sim.
  • Eu o aconselho a ter muito cuidado, então. - Ele gesticulou educadamente em direção à janela. - Muitas pessoas são levadas como reféns todos os dias na cidade. Dois médicos vivem nesta rua. O filho de um deles foi seqüestrado há três semanas. Ele ainda não voltou para casa. O outro médico está tão assustado que fez uma barricada em casa para proteger a si e a família. E um milagre você ter chegado vivo do hotel até minha casa.

 

    • Eu estava ficando impaciente. Precisava voltar com alguma coisa para Ward.
  • Agradeço muito a preocupação com o meu bem-estar e com­preendo que seja precavido com a sua privacidade, mas é muito impor­tante que eu fale com Tomas. Conheço o irmão dele, Ari. Ele está em Londres. Estive com eles há pouco tempo em Nova York. Sou confiável.

 

    • Um lampejo de irritação passou pelo rosto dele.
  • Imagino que alguém tenha lhe dado indicações erradas, mas garanto que nunca ouvi falar desses indivíduos. Se você não se im­portar, acho que é melhor você ir embora. - Ele hesitou. - Você está hospedado em um hotel?
  • Sim. O Al-Mansour.
  • Você fala árabe?

 

    • Balancei a cabeça negativamente.
  • O pessoal de lá é muito competente e fala inglês. Sugiro que você peça a ajuda deles para sua busca. Eles devem ter listas telefô­nicas e outros recursos. - Ele se dirigiu até a porta. - Desculpe-me, infelizmente estou ocupado. Com licença.Ward e Eris vieram ao meu encontro quando cheguei ao táxi.

 

    • Agradeci e fui embora. O que mais eu poderia fazer? Eu tinha cerca de dois minutos para inventar uma história que deixasse Ward satisfeito. Busquei desesperado alguma idéia e achei uma coisa que podia funcionar.
  • E aí? — perguntou ele.
  • Tomas não apareceu, como você previu. O homem com quem falei alegou que nunca tinha ouvido falar dele. Mas eu vi uma coisa.
  • O quê? - Ward colocou o rosto mais perto do meu. Gotas de suor escorriam de suas têmporas para o queixo.
  • O cara estava mentindo. Pelo menos Ari está lá - disso eu tenho certeza.
  • Por que você acha isso?
  • Eu vi uma câmera apoiada em um armário na sala da frente. A mesma que ele carregava em Nova York. Se ele está aqui, Tomas tem de estar por perto. - Decidi que isso parecia mais convincente do que dizer que não tinha visto nenhum dos dois pessoalmente.Eris pegou o telefone.

 

    • A vermelhidão desapareceu da pele dele; a tensão que havia pro­duzido rugas de preocupação entre as sobrancelhas e ao redor da boca diminuíram. Ward evidentemente não estava preparado para invadir a casa naquele momento. Quando eles invadissem o lugar, interrogassem o dono e descobrissem que minha história não tinha nenhum fundamento, eu poderia já ter encontrado um jeito de me desvencilhar desse pesadelo.
  • Para quem você está ligando? - eu perguntei.
  • Existem pessoas que precisam ser alertadas se Ari Zakar voltar - respondeu ela. Ela viu o ponto de interrogação na minha cara e completou. - Não tem nada a ver com nossa pequena empreitada. Só uma troca de favores com algumas pessoas importantes.
  • E por que eles se importariam com isso?
  • Uma história em que ele está trabalhando. Alguma coisa sobre Abu Ghraib. Nada a ver conosco. - Ela digitou alguns números e passou a informação que eu tinha acabado de dar para a pessoa que estava do outro lado da linha. Eu sorri para mim mesmo. Ari devia agradecer àquela história da prisão por estar escondido em segu­rança em Londres.

 

    • Quando chegamos ao quarto do hotel, vimos o botão do telefone piscando. Ward atendeu, e Eris se dirigiu ao quarto. Justamente na hora em que ela ia me prender de novo, Ward gritou:
  • Espere. Temos um novo desdobramento.

 

    • Empurrei Eris para passar. Ward sorriu.
  • Parabéns, você conseguiu.

 

    • Disfarcei minha surpresa diante da notícia.
  • Acabamos de receber uma mensagem para você.
  • Eu estou registrado aqui oficialmente?
  • Nós tivemos que te registrar.
  • Qual é o recado?
  • Você deve encontrar um contato de Tomas no museu. As três horas.A fachada instantaneamente reconhecível do Museu das Crianças, que havia saído nas primeiras páginas da imprensa internacional na primavera, ficava no cruzamento entre as ruas Qahira e Nasir, atrás de um cerca alta de ferro trabalhado. A estrutura de calcário cor de areia — duas torres quadradas unidas por uma ponte sobre o arco central - era um belo exemplo de arquitetura de museu. Inconfundi­velmente islâmica, de uma beleza clássica."Um pouco tarde", pensei, contrariado. Provavelmente só estava lá para fazer pose. O lugar tinha um ar desolado. Me fez lembrar aquelas fábricas abandonadas do Cinturão da Ferrugem, antes um complexo industrial pujante construído na virada do século, trans­formadas em postos avançados solitários sem função.A localização atual, um complexo de prédios, data dos anos 1960. As galerias principais ficavam abrigadas em uma estrutura retan­gular com um pátio interno. Desde a fundação do museu, sempre houve surtos periódicos de saques, o mais recente ocorrido durante a Guerra do Golfo. Ele estava fechado para o público desde então.- Muito bem-vindo - disse ela depois que eu a cumprimentei. O inglês dela era falho, mas nós conseguimos nos comunicar relativa­mente bem.Minha guia me chamou. Nossos passos apressados ecoavam no vazio dos corredores. Fiquei triste pelo que havia sido roubado, pi­soteado, perdido para sempre. "Na verdade as coisas não mudam." Todas as grandiosas cidades mesopotâmicas haviam sido destruídas na Antigüidade. Mais de dois milênios mais tarde, aquilo estava se repetindo.

 

  • Dava para ver os esforços que estavam sendo feitos para limpar um pouco da bagunça, embora muitas áreas ainda estivessem uma confusão. Nós atravessamos devagar um largo corredor que tinha um lado decorado com pequenas aberturas quadradas para permitir a en­trada de luz natural. Havia uma estátua de um lado, sobre um pedestal baixo. Quando me viu olhar para ela, Hanifa enrubesceu e disse:
  • Relembrei todos os momentos da minha infância em que eu so­nhava acordado com o dia em que passearia por esses corredores com Samuel. A emoção de estar lá de verdade tomou conta de mim momentaneamente. No caminho, nós passamos pela galeria assíria. A entrada era dominada pelo gigantesco Lamassu, com corpos de touro, asas, cabeças humanas, cabelo trançado e capacetes com chi­fres. Cada estátua tinha cinco patas posicionadas de modo que pare­ciam ser quatro tanto quando vistas de frente como de lado. Dentro da galeria, o chão estava coberto de destroços esparramados, mas os relevos em tamanho natural de personagens da realeza assíria e os Apkallu em volta do perímetro felizmente estavam intactos. Parei diante de uma magnífica escultura de um homem segurando as ré­deas de dois cavalos, esculpida com a mesma beleza que qualquer coisa feita por gregos e romanos.
  • Depois de passar pelo portão, entreguei o passaporte, que Ward me havia devolvido, para um fuzileiro naval americano, e ele me ajudou a localizar a entrada certa. Uma mulher mais velha, usando óculos de armação preta e véu, que se apresentou como Hanifa al-Majid, veio ao meu encontro. Era uma colega de Tomas; eu espe­rava encontrar uma pessoa muito mais jovem.
  • Eu conhecia a história do museu. Fundado no zênite do poderio britânico no Oriente Médio, quando as fronteiras do Iraque mo­derno foram delineadas, inicialmente era apenas uma sala em um prédio de Bagdá. Quando se precisou de mais espaço, foi construído um pequeno museu com vista para o Tigre. Inaugurado em 1926, o museu resultou de uma colaboração entre o rei Faiçal, do Iraque, e uma admirável mulher inglesa, Gertrude Bell. Eles a chamavam de Al-Khatun. Exploradora, escritora e arqueóloga, ela dedicou boa parte de sua vida a proteger a cultura mesopotâmica.
  • Entre o friso central e a parte de cima do arco, um círculo preto - um tiro de canhão americano - parecia um ponto de interrogação. Não dava para passar pelo arco; o espaço estava ocupado por um tanque.
  •  
  • Sempre a cabeça sumida. Foi no passado, não saqueadores. — Eu me solidarizei com a sua angústia pelo estado do museu.Ela apontou para as pilhas.

 

    • Um guarda iraquiano com uma AK-7 estava sentado diante de uma pequena mesa em uma das salas de restauração, cercado por um monte de prateleiras com centenas de vasos e potes de barro empoeirados. Pedacinhos quebrados estavam empilhados no chão, alguns fragmentos ainda com as marcas de identificação do museu visíveis, tudo esmagado pelos saqueadores. Eu me perguntei se essa era a sala em que Samuel guardava a inscrição.
  • Me desculpe por isso, como está. Não há eletricidade aqui. A maior parte das pessoas foi embora. Não há sistema de segurança. Nós demoramos para arrumar por causa disso. - A pobre mulher parecia carregar todo o peso do prédio nos ombros.

 

    • Aproximei-me dela.
  • Você tem um telefone? Preciso fazer uma ligação com urgên­cia. - Pelo rosto dela dava para ver que ela não tinha entendido. Fiz uma mímica, e ela percebeu o que eu queria. Ela balançou a cabeça.
  • Não. Desculpe.Ela pegou um papel e uma caneta esferográfica na mesa, escre­veu uma mensagem e passou-o para mim. Estava escrito: "Siga-me, por favor". Comecei a falar, mas ela encostou dois dedos na minha boca em sinal de silêncio. Ela apanhou o papel, virou-o e escreveu: "Outra pessoa está esperando você". Ela se levantou e disse em voz alta o bastante para o guarda ouvir:

 

    • Minhas esperanças se esvaíram de novo. Eu estava querendo demais, de qualquer forma. Mesmo se ela tivesse um telefone que funcionasse, conseguir fazer uma chamada para Nova York prova­velmente seria impossível.
  • Venha, por favor. Vou buscar chá para nós.Eu me afastei dele.

 

    • Vários corredores e salas depois, nós encontramos um homem do Oriente Médio de cabelo escuro com pontos grisalhos, usando ócu­los de sol. A mulher fez um gesto na direção dele como se estivesse me oferecendo um presente, deu um sorrisinho e foi embora rápido. Mazare estendeu a mão e me cumprimentou.
  • Você não está carregando nenhum explosivo hoje, espero. E que surpresa... Você fala inglês.

 

    • Ele sorriu.
  • Desculpe-me por aquilo.
  • Desculpe? Você quase me matou.
  • Eu tentei te avisar. Fazer você chegar mais perto de mim. Você não entendeu meu sinal suficientemente rápido.
  • Estava meio difícil prestar atenção em sutilezas com quatro pessoas nas minhas costas à procura de uma boa desculpa para atirar em mim.

 

    • O bom humor dele sumiu. Ele olhou no relógio e disse:
  • Tomas e eu estamos nos arriscando muito para salvar você neste momento. Fique com Ward, e amanhã você estará morto. Venha co­migo, ou não. Mas eu o aconselho a se decidir logo.

 

    • Lembrei que no túnel da cidade subterrânea Mazare havia ges­ticulado para eu ir para a frente, murmurando alguma coisa. Era possível que ele estivesse tentando me alertar.
  • Não posso ir com você. Eles estão com uma mulher em Nova York. Vão matá-la se eu fugir.- Aquela mulher... Laurel, é esse o nome?

 

  • A cara de Mazare murchou, e eu notei uma expressão de solida­riedade em seu rosto.

- É.

  • Sinto ter que te contar isso. Ela está morta. Afogada no rio.-Você tem certeza? Como você sabe? Foi Tomas quem te contou?

 

    • "Meu Deus, isso não pode ser verdade", pensei.
  • Não foi Tomas, foi Ari. Ele descobriu. Hoje. O noticiário dizia que ela tinha ido para uma ponte alta e pulado no rio Harlem, arra­sada por ter perdido o marido.Ele me pegou pelos ombros e me chacoalhou com força.

 

    • Embora ele tivesse se expressado de forma confusa, não tinha como ele ter inventado a referência à High Bridge e ao rio Har­lem. E a história tinha lógica. Quando Ward e Eris me levaram às pressas para Bagdá, ela não era mais do que uma garantia. Ward ainda podia ameaçar fazer algum mal a ela porque eu não tinha como saber o que havia acontecido com ela. Mazare disse alguma coisa. Eu mal ouvi. A notícia da morte de Laurel me atingiu como um raio.
  • Eu disse que nós precisamos ir. Agora. — Ele quase me arrastou até um furgão Toyota estacionado em uma alameda sombreada do lado de fora. Abriu a porta de trás e me empurrou para dentro antes de ele mesmo subir e colocar a chave no contato.
  • Fique aí atrás, onde ninguém pode te ver. Vou te levar até Tomas.Tentei me recompor. Mazare não estava queimando o asfalto. Isso queria dizer que ele estava correndo feito louco, mas não mais do que a maioria dos motoristas iraquianos. Quinze minutos depois nós paramos de novo.

 

    • Eu me apoiei de um lado do furgão, sem me importar com o lugar para onde nós estávamos indo. Ele dirigiu alguns minutos e depois freou, abriu a janela e falou algumas palavras em árabe com um guarda. Um tenso momento de silêncio se passou antes de ele pisar no acelerador e partirmos.
  • Passe para a frente agora - disse ele. Eu suspirei e passei por cima do banco do passageiro para me sentar ao lado dele. Nós es­távamos estacionados atrás de uma faixa de prédios bombardeados. O fedor do lixo do lado de fora era insuportável. Havia pedaços de peixe podre e espinhas espalhados por todo lado.
  • Essas roupas são suas?
  • A calça é minha, e os sapatos. Eles me deram o paletó e a ca­misa lá em Nova York. - Ele abriu o porta-luvas e tirou uma coisa que parecia um celular. Apertou um dos botões e o passou pelos braços, pelas lapelas e pela parte de trás do paletó.
  • Tire o paletó e tire a camisa de dentro da calça. - Ele repetiu o procedimento com a minha camisa e depois olhou para a tela, desli­gou o aparelho e devolveu-o ao porta-luvas.
  • O que você está procurando?
  • Hoje em dia eles podem colocar o rastreador no tecido. É pre­ciso ter cuidado.

 

    • Respirei fundo algumas vezes, tentando me acalmar e me lem­brar do risco que o cara estava correndo por minha causa.
  • Obrigado. Eu sei como é perigoso fazer isso.

 

    • Ele deu de ombros.
  • Nós fazemos o que Tomas quiser.

 

    • Ele dirigiu os olhos escuros diretamente para os meus e apontou o dedo indicador para mim como um professor prestes a dar uma bronca.
  • Nos lugares para onde nós vamos, você só estará seguro co­migo. Não fale com ninguém.A rua tinha tráfego intenso. Enfiar a mão na buzina simplesmen­te fazia parte de dirigir, como pisar no freio ou mudar de marcha.Nós paramos bruscamente, com carros fazendo pressão por to­dos os lados. A fumaça de escapamento subia como um redemoinho pelo ar, formando uma névoa sufocante. Mazare levantou as mãos e xingou.

 

    • Ele finalmente achou uma rua lateral e estacionou o furgão.
    • Os ônibus competiam por espaço, meninos cambaleavam sob carri­nhos cheios de mercadoria, os carros brigavam por cada centímetro de asfalto. Era como se eu estivesse na Broadway.
    • Atravessamos uma ponte e viramos na Al-Rashid, a principal rua comercial de Bagdá. Mais perto da ponte, as construções exibiam o impacto da guerra. Janelas estouradas com os caixilhos em frangalhos, marcas de explosões em forma de estrelas de fuligem nas facha­das, aberturas escurecidas no revestimento.
  • Nós vamos andar daqui em diante — disse ele.Eu poderia ter feito alguma coisa de outra forma? Ela já estava condenada desde o momento em que nós havíamos começado a ten­tar decifrar o jogo de Hal? Tudo o que eu tocava definhava e morria.Ele fez um gesto com a mão.

 

    • Mazare parecia menos tenso quando nos misturamos à multidão, apesar de olhar para trás de dois em dois minutos.
    • O calor nos atingiu sem dó. Eu o acompanhei arrastando os pés. Imagens de Laurel desfilavam no meu cérebro. Eles deviam tê-la drogado, provavelmente com algum tipo de calmante, para fazer o suicídio parecer mais convincente. Algum dos homens de Ward a te­ria agarrado, levantando o corpo rapidamente para fazê-lo passar por cima do parapeito e o jogado para baixo? Mesmo com drogas no corpo, ela devia ter sido tomada por um minuto de pânico total enquanto mergulhava no rio escuro. Que jeito triste de morrer...
  • Esta é a rua Al-Mutannabi; você vai ver o bazar de livros. Nós ainda temos cultura aqui, por mais que os americanos tenham ten­tado matá-la. — Se ele estava tentando me fazer passar vergonha, estava conseguindo o que queria.
  • Você conheceu o meu irmão, Samuel? - perguntei, indignado.
  • Eu o vi uma vez.
  • Ele era americano, e fez tudo o que podia para salvar a cultura iraquiana. Ele amava esta cidade.
  • Bem, então ele fracassou.
  • O fracasso não é só dele.Acima de uma barraca de pôsteres, havia uma imagem de Saddam Hussein com um xis sobre o rosto. Uma barraca vizinha exibia um retrato emoldurado com alguma coisa escrita em árabe.

 

    • Mazare riu com desdém e desviou o olhar. Não havia nenhum carro na Al-Mutannabi, pelo menos não enquanto o bazar estava em atividade. Era uma pequena meia-lua de paz em comparação com o que nós tínhamos acabado de percorrer. Construções antiquadas, várias delas abrigando livrarias, emparedavam a rua. Pilhas bem altas de livros forravam o interior mal iluminado das lojas. Do lado de fora, forrações de plástico barato estavam cobertas de periódicos, panfletos, DVDs piratas e volumes em inglês e árabe. Armários de metal altos, com as portas abertas, estavam lotados de velhas páginas emboloradas.
  • Quem é aquele? - perguntei a Mazare.
  • O aiatolá Muhammad Muhammad Sadiq al-Sadr. Assassinado em Najaf, em fevereiro de 1999. Um homem muito respeitado no Iraque - disse ele.

 

    • Quase todos os compradores eram homens; pouquíssimas mulhe­res se arriscavam a sair na rua. Nós passamos por um espaço aberto, ocupado por três homens em cima de uma plataforma de madeira. Dois estavam ajoelhados, um terceiro estava em pé com um porrete, fingindo bater neles. A platéia entusiasmada gritava comentários.
  • Atores - disse Mazare. - É uma velha tradição.

 

    • Nós acompanhamos a curva da rua. Eu podia ver a água vítrea do Tigre no fim dela. Um pouco mais adiante, Mazare apontou para um prédio térreo semicircular com mesas enfileiradas na frente.
  • O Al-Shabandar. E um lugar famoso de Bagdá.Um gerador zumbia. Dominós estalavam. Havia uma ou outra par­tida de gamão em andamento.A sala congelou.

 

    • Mazare franziu o cenho e balançou a cabeça.
    • Um helicóptero passou sobre nós no momento em que estáva­mos nos sentando. Os enormes rotores fizeram o prédio chacoalhar. Poucos segundos depois, ouvimos uma explosão muito alta. "Um morteiro acaba de ser disparado", calculei.
    • O café estava lotado, novamente só de homens, quase todos fu­mavam. Alguns tragavam fumo oriental adocicado em narguilés, ou­tros fumavam cigarros. Tive a impressão de sentir o perfume doce do haxixe. Dava quase para sentir o gosto da mescla dos aromas no ar. Copos de chá fumegante nas mesas. Um ventilador girava lenta­mente no teto alto. Quadros emoldurados e fotografias de todos os tamanhos enchiam as paredes — retratos, paisagens, naturezas-mortas.
  • Olhe para nós - disse ele. - Nós exalamos medo.

 

    • Eu me inclinei, baixando a voz. Saber que Laurel estava morta punha um fim àquilo tudo. Eu só queria fugir.
  • Escute, você não conseguiria me tirar de Bagdá? Para a Jordânia ou Turquia? Qualquer lugar, não me importa. Não preciso ver Tomas, e com certeza ele não faz questão de me ver. Eu fui forçado a vir.

 

    • Ele descartou a idéia rapidamente.
  • Tomas não disse nada sobre isso. Vou buscar café.Fiquei tentando achar alguma coisa para dizer.

 

    • Ele trouxe dois cafés e os colocou sobre a mesa. O cheiro exube­rante do café devia ter me apetecido, mas não fiquei tentado. Ma­zare examinou o relógio acho que pela centésima vez e olhou para a rua, examinando os rostos. Havia mais alguém vigiando para ele lá fora? O café dele ficou sobre a mesa, intocado.
  • Você estava falando em turco com Eris?
  • Sou assírio, mas cresci em Istambul. Nós, assírios, estamos espa­lhados por muitos lugares. Até na Europa. Até no seu país.

 

    • Alguém assobiou em algum ponto da rua. Mazare se levantou abruptamente.
  • Vamos. Deixe a bebida. Precisamos ir agora.Quando nós saímos com o carro, eu disse:

 

    • Ele andava rapidamente. Tive dificuldade para acompanhá-lo. Ele não falou comigo; apertava tanto os lábios que eles tinham per­dido a cor. Os olhos se lançavam de um lado para outro, verificando a rua. Ele fez um caminho sinuoso para voltar ao furgão.
  • Agradeço pelo passeio e tudo o mais, mas por que você se deu ao trabalho de ir até lá?
  • Escapar do pessoal de Ward não é fácil. Eles estão nos seguindo. Precisamos dar um jeito de eles nos perderem de vista.
  • Para onde nós vamos agora?
  • Suq al-Haramia, o Mercado dos Ladrões. Você conhece?Nós rumamos para o norte pela rua Khulfafa, afastando-nos do centro da cidade. Nos arredores de Cidade Sadr, cruzamos com uma patrulha americana. Mazare encostou enquanto eles passavam.

 

    • - Já ouvi falar.
  • As coisas estão ruins de novo depois da Embaixada da Jordâ­nia. - Ele soltou uma risada cínica. - Não, não é isso. Ruim é o que acontece todo dia. Existe uma palavra na sua língua para uma coisa pior do que o inferno? Se existe, é onde nós estamos.

 

    • Ocorreu-me que era onde eu havia passado a última semana.
  • O que aconteceu?
  • Um caminhão-bomba matou dezessete pessoas. Com a explo­são, os carros foram parar nos telhados. E ontem um Humvee ameri­cano foi atacado do lado de fora do Hotel Rabiya. Então, os soldados vieram para este mercado. Alguns homens estavam testando ar­mas para comprar, disparando para o alto, e os soldados atiraram, achando que fossem o alvo dos disparos. Nós temos muita raiva por causa disso. Essa guerra não vai acabar tão cedo.Outro vendedor estava em pé, perto de dois grandes contêineres - tambores de óleo enferrujados cortados pela metade e cheios de água turbulenta com peixes agonizantes. Masgouf, a carpa-verde pescada no lânguido Tigre.

 

    • Saímos mais uma vez do furgão e seguimos a pé. Parecia que o lugar não acabava nunca. Uma versão do mercado negro de Porto-bello Road, em Londres. Samuel havia me contado que era possível comprar praticamente qualquer coisa lá, e ele estava certo. Apesar dos acontecimentos do dia anterior, um vendedor tinha enchido a caçamba da picape com armas. Um grupo de homens as examinava, mas nenhum parecia estar disposto a dar tiros de teste naquele momento.
  • Peixe venenoso - disse Mazare. - Eles eram bons. Mas agora essa guerra encheu o rio de imundície.

 

    • Havia um estranho sortimento de coisas sobre um tapete sujo: tu­bos de pasta de dente espremidos, lâminas de barbear cor-de-rosa, garrafas pela metade de Detol, pequenas embalagens com uma por­ção de manteiga de amendoim e MREs - as refeições do exército, prontas para consumo. Mazare gesticulou em direção às mercadorias.
  • Eles reviram o lixo das bases militares e pegam essas coisas para vender.

 

    • Uma mesa perto de nós estava atulhada de telefones, reprodu­tores de DVD, aparelhos de tevê e computadores - produtos de saques ou bens roubados das casas das pessoas. O vendedor se­guinte expunha pedaços de carne de aparência estranha. Mazare me disse que era pulmão de carneiro. Uma nuvem de moscas zunia sobre eles. A carne crua tinha uma coloração esverdeada e estava cozinhando no calor. Quando manifestei minha repugnância, ele deu ombros.
  • As pessoas estão morrendo de fome. O que você queria?

 

    • Outro assobio. Ninguém mais deu atenção, mas Mazare pegou o telefone e fez uma ligação. Depois de uma breve explosão de pala­vras, ele agarrou meu braço e nos conduziu rapidamente por outro caminho de volta ao furgão. Dava para perceber que aquilo não es­tava dando certo, e eu achei que ele devia estar ficando sem opções, então, foi uma surpresa quando ele disse:
  • Tomas vai nos encontrar na próxima parada. Se Deus quiser.Os portões de metal enferrujados se abriram. Nós passamos de carro por um caminho feito só para pedestres. Ele manobrou o fur­gão e estacionou, e depois puxou o telefone para fazer mais uma ligação. Depois de desligar, ele disse:

 

    • Dessa vez, quando Mazare começou a dirigir, ele não esclare­ceu onde estávamos. Nós havíamos ido para o sudoeste e tínhamos passado por uma rua movimentada, isso era tudo o que eu sabia. Ele saiu da estrada, entrou em uma estradinha e nós diminuímos a velocidade. Uma placa anunciava o Cemitério do Portão Norte, o lugar onde foram enterrados os soldados do Commonwealth que participaram da campanha de 1917 contra os turcos otomanos. To­mas teria se apossado de uma página do livro de Hal e escolhido um esconderijo semelhante ao de Nova York?
  • Agora nós vamos esperar por Tomas. Ele vai chegar logo.

 

    • Uma larga passagem central era ladeada por palmeiras altas mal-cuidadas; em volta do perímetro, crescia grama da altura de um ho­mem. A passagem levava a um mausoléu de alguém importante, uma marquise de pedra com quatro pilastras, erguida sobre uma base, clara­mente construída para uma pessoa importante em comparação com as cruzes simples e as lápides gastas dos túmulos dos soldados rasos.
  • Isto é um cemitério britânico? Quantos túmulos! Deve ter sido uma batalha terrível.

 

    • Mazare balançou a cabeça.
  • Nem todos morreram baleados ou pela espada.
  • Morreram do que então?
  • Cólera. - Ele apontou para uma fileira de cruzes brancas. - Eles ficavam tão doentes que tossiam as entranhas. Tão longe de casa... Por que eles vieram?Talvez fosse apenas o contraste entre a quietude do cemitério e o barulho de tráfego no resto da cidade, mas estava um silêncio ali que parecia qualquer coisa, menos paz. Nenhum pássaro gorjeava sua canção do fim do dia; nenhum pequeno animal saltitava na grama. Nós esperamos.O Humvee branco invadiu o cemitério. Atrás dele, o seda de Ward. Mazare gritou e se jogou no chão. Ele tirou uma semiautomática de baixo do assento. Eu tentei alcançar a maçaneta. Mazare me agarrou e me puxou de volta. O Humvee explodiu em um caldeirão de cha­mas cor de laranja. As portas se abriram com a explosão, e o corpo de Eris caiu para fora, com um buraco ensangüentado no torso des­truído, o cabelo em chamas. Uma coluna de fumaça se ergueu no ar.As minhas artérias estavam prestes a explodir; meu coração batia com toda a força. Ao mesmo tempo, era uma sensação estranha, como se eu estivesse vendo isso tudo acontecer com outra pessoa.Shim deu meia-volta, tentando puxar Ward para trás da carcaça do sedã. Novos tiros soaram. Ele estremeceu e balançou, mas con­tinuou; as balas surtiam tanto efeito sobre ele como se tivessem sido dirigidas às lápides. Mas o tanque de gasolina do sedã explodiu, e Shim estava perto demais. A explosão os cobriu de fogo. As roupas de Ward começaram a queimar; ele gritou e se debateu no chão. Shim se contorceu e se virou, apanhado pela violência das chamas. Ele pareceu encolher e começou a pretejar, como pedra se transfor­mando em cinzas, até tombar no chão. Eu estava deitado em um tapete de espuma de borracha espre­mido em um canto da sala. Não ouvia nada e rezei para isso não significar que meus tímpanos haviam estourado na explosão. Uma bandagem tosca enrolada no meu antebraço cobria a queimadura do metal quente do furgão.Quando a porta se abriu, um raio de luz atingiu meu rosto em cheio. Balancei a cabeça e vi Tomas em pé na entrada.

 

  • Tentei me levantar e caí. Minhas pernas estavam tão fracas que era como se os ossos tivessem sido extraídos, deixando a carne in­tacta. Fiquei de joelhos e me arrastei até o contorno de uma porta na parede oposta. Não havia fechadura nem maçaneta. Lutei para voltar e desabei de novo no tapete de espuma.
  • Duas lanças de dor perfuraram as minhas têmporas. Abri os olhos e vi apenas a tela cinza e amorfa que é a paisagem do cego. Pisquei e esfreguei os olhos, tentando forçar a visão a voltar. Minha vista ficou mais clara, e eu percebi que o ambiente era realmente cinza; paredes de bloco de concreto, chão pintado do mesmo cinza usado nas prisões, nenhuma mobília. A única luz do dia vinha de uma pequena janela perto do teto.
  • Tentei me levantar novamente. Outra saraivada de balas atingiu a frente do furgão. Uma dor atordoante atravessou minha cabeça. Fiquei estranhamente consciente - as lápides brilhavam, irradiando uma luz branca, como se fossem cravejadas de luzes internas. Eu me lembro de fazer força para respirar. Alguém se curvou sobre mim, tentando me dizer alguma coisa. Eu via uma boca se movendo, mas não conseguia ouvir as palavras, como se estivesse submerso, a quinze metros da superfície. A pessoa foi desaparecendo. E então, eu estava embaixo da água, com peixes verdes a me circundar as pernas, co­bertores de algas marinhas me envolvendo os braços, e o corpo de Laurel rolava na correnteza, a pele prateada como a de uma sereia, o cabelo castanho se espalhando, os membros se movendo como se ela estivesse dançando no fluxo da água. A última coisa que me passou pela cabeça foi que um rio pudesse extravasar tão repentinamente no meio de um cemitério.
  • Um segundo míssil atingiu a frente do sedã, atirando-o para o ar como um brinquedo. Ele aterrissou sobre a capota, e os estilhaços do carro nos atingiram. Instintivamente, joguei as mãos para o alto. Mazare jogou o corpo para trás quando nossas janelas se despeda­çaram. Eu sentia o cheiro de borracha queimando. Tentei a porta de novo; minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia segurar a maçaneta. Dei um tranco nela e caí para fora. Mazare me seguiu. Tentei me levantar, mas de repente me senti fraco demais para me erguer. Mazare olhou para mim por um instante, com o rosto todo esfolado, e depois correu.
  • Shim alcançou o sedã, abriu a porta e arrastou Ward para fora, colocando o corpanzil entre ele e o local de origem do ataque. Com a força de uma britadeira, uma série de tiros rasgou a grama na frente dele. Um dos guardas pulou do sedã, disparando uma salva de tiros em direção ao mausoléu. Mazare puxou a maçaneta do lado dele, abriu a porta com um chute e deu alguns disparos. Os tiros pe­garam no lado esquerdo do guarda; o corpo dele foi jogado para trás com a força das balas, e ele caiu.
  • Perto de anoitecer, o sol vacilante ia ficando cada vez mais baixo no céu. Uma sombra que destoava dos vultos ao redor me chamou a atenção. Era alta demais, e parecia vir na nossa direção. Era como se um monumento de pedra tivesse de repente ganhado vida. Shim apareceu diante de nós.
  • Eu não tinha resposta para aquilo.
  • Olá, John - disse ele -, bem-vindo de volta ao mundo. - Parecia que ele estava falando de muito longe, mas fiquei aliviado por não ter perdido a audição no fogo cruzado.Tomas me deu um copo de chá.

 

    • Um dos homens dele precisou me ajudar a subir as escadas. Parecia que eu estava escalando uma pequena montanha de lama. Do segundo andar, subimos mais uma escada até um pequeno terraço no telhado, com uma estatueta de pedra de um fauno. Uma mancha de ferrugem marcava o caminho por onde a água deveria escorrer ao sair dos tubos da sua flauta de pã. Desabei em uma cadeira de plástico.
  • Tome isso — disse ele você vai se sentir revigorado.Tomas tinha ganhado um leve bronzeado. Ele parecia relaxado e acomodado, feliz por estar em casa.

 

    • Terminei o chá e pousei o copo. Tomas pegou uma bandeja de tâmaras e nozes, perguntando se eu queria comer alguma coisa. Ba­lancei a cabeça. Tomar o chá já tinha me provocado pequenas ondas de náusea. Eu não quis forçar.
    • Qualquer resistência que eu pudesse oferecer havia sido levada pelo trauma da explosão. O mentol fresco do chá desceu agradavelmente pela minha garganta. Por cima do muro, eu podia ver outros terraços sobre os telhados, coroando construções modestas em tons de caramelo, pêssego e hena contra o pano de fundo do céu azul. Grupos de palmeiras balançavam a distância. Senti o sol no rosto, suave sob a brisa fresca. Era como se eu estivesse sentado em uma pension na Côte d'Azur. Queria ficar ali para sempre.
  • Logo você vai se sentir melhor - disse ele —, não foi nada grave.
  • É verdade o que ele disse sobre Laurel?

 

    • O ar de descontração de Tomas diminuiu; ele ficou tenso de novo.
  • Ela está morta, John.

 

    • Por mais que estivesse fraco, dei um impulso para sair da cadeira e me joguei contra ele.
  • Seu merda! Você nos traiu. Daria no mesmo se você a tivesse matado.

 

  • Os homens dele me arrastaram para longe. Um deles puxou uma arma. Tomas fez um gesto para ele parar e esfregou o lugar onde meu punho tinha acertado a mandíbula dele.
  • Guarde isso, não é necessário. - O olhar dele se voltou para mim. - Você não está ajudando, Madison. - O silêncio reinou por alguns minutos antes de Tomas falar novamente: - Eles já a haviam levado quando peguei a inscrição. Eu não podia fazer nada.
  • Ward a queria. Ele estava disposto a fazer uma troca.
  • Você não acredita que eles cumpririam o trato até o fim, acre­dita?
  • Era a minha única esperança de salvá-la. Eu estava tentando achar um jeito de envolver a polícia sem que Ward descobrisse. Você mandou tudo para o inferno e tirou de mim qualquer chance. De qualquer forma, como você sabia o suficiente para chegar ao mausoléu?
  • Laurel havia mencionado o apego de Hal à mãe. Então, Ari me contou o que você havia dito sobre o túmulo no Cemitério da Trin­dade. Eu me lembrava do lugar porque morei perto de lá quando fui para Columbia. Você contou para ele que não tinha conseguido entrar. Eu encontrei o mausoléu sem nome e levei uma ferramenta de corte comigo.
  • E quanto a mim? Você me abandonou.

 

    • Em momentos, Tomas já não era muito tolerante, e não demorou muito para perder a paciência. Ele gritou:
  • O que você queria que eu fizesse? Um dos capangas de Ward estava na minha cola, e eu quase não consegui sair do país. Mazare e eu nos arriscamos muito para trazer você até aqui. Considere-se um homem de sorte. Nós poderíamos ter deixado você lá para morrer.
  • E por que você se deu ao trabalho de fazer isso?

 

    • Tomas deixou escapar um sorriso.
  • Talvez eu não seja tão ruim quanto você pensa.
  • Verdade? Depois de matar a sangue-frio?
  • Como eles teriam feito conosco, você está querendo dizer?
  • Todos eles morreram?
  • Eris e Shim, sim. E os dois mercenários. Quanto a Ward, não temos certeza. No mínimo ele ficou gravemente ferido. Você pode compreender por que meus homens não quiseram se demorar por lá.
  • Gomo eles nos encontraram?
  • O paletó que eles te deram tinha rastreadores.
  • Eles me deixaram escapar para poder seguir você?
  • Sim.
  • Mas Mazare verificou o meu paletó e não encontrou nada.

 

    • Tomas sorriu novamente.
  • Sim, ele verificou.

 

    • Passaram-se alguns segundos antes de eu me dar conta do que ele havia feito.
  • Mazare sabia que os rastreadores estavam lá. Você queria que eles fossem atrás de nós.

 

    • O rosto de Tomas assumiu uma expressão radiante.
  • Nós jogamos a rede e eles caíram.

 

    • A raiva irrompeu de novo em meio à minha exaustão.
  • Você e Ward são iguais, sabia? A vida humana não significa absolutamente nada para vocês.

 

    • Tomas ignorou o comentário com um gesto de mão.
  • Nada, não. Mas também não é a coisa mais importante.

 

    • Deixei aquela afirmação pairar no ar por um momento.
  • Alguém precisa contar para a polícia de Nova York o que real­mente aconteceu.
  • Quando você voltar, fique à vontade para contar para quem quiser. Eu com certeza não vou. Tome cuidado, porém. Você foi uma das últimas pessoas a ser vista tanto com Hal quanto com Laurel. Você pode estar pisando num campo minado.
  • Vou me arriscar. Onde está a inscrição de Naum? Pelo menos me deixe vê-la.
  • Na hora certa.
  • O que você quer dizer com hora certa? Ela tem de estar aqui. Você não a deixaria longe de sua vista.

 

    • Tomas balançou a mão para a frente e para trás, como se esti­vesse espantando uma mosca incômoda.
  • Nem mesmo este lugar é seguro o bastante. Ela precisa ficar protegida.

 

    • Minha irritação veio à tona de novo.
  • Não acredito em uma palavra disso.

 

    • A única resposta que obtive foi o seu desprezo. Ele sabia que es­tava em uma posição de poder.