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A CANÇÃO DOS ELEFANTES / Wilbur Smith
A CANÇÃO DOS ELEFANTES / Wilbur Smith

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A CANÇÃO DOS ELEFANTES

 

ERA UMA CONSTRUÇÃO sem janelas, de tecto de colmo, que Daniel Armstrong erigira com as suas próprias mãos havia quase dez anos, quando era um jovem guarda do Serviço dos Parques Nacionais. Entretanto, o edifício transformara-se numa autêntica casa do tesouro.

            Johnny Nzou enfiou a chave no pesado cadeado e abriu as portas duplas de teca talhadas à mão. Johnny era o chefe dos guardas do Parque Nacional de Chiwewe. Nos velhos tempos, fora batedor e carregador de Daniel. Era um jovem e inteligente matabele a quem Daniel ensinara a ler e a escrever, à luz de milhares de fogueiras de acampamento, e a falar um inglês fluente.

            Os dois jovens, um branco e um negro, haviam patrulhado juntos a vastidão do Parque Nacional. E tinham forjado no mato uma amizade que não fora afectada pelos anos de separação subsequentes.

Daniel espreitou para o interior escuro do armazém e assobiou baixinho.

- Sim, senhor, Johnny, meu velho, trabalhaste bem na minha ausência.

O tesouro estava empilhado até às vigas do telhado e valia muitas centenas de milhares de dólares.

            Johnny Nzou olhou para Daniel, franzindo os olhos, como que esperando uma crítica na expressão do amigo. Sabia que Daniel era seu aliado. mas mesmo assim o problema tinha uma tal carga emocional que era natural esperar uma reacção de repulsa e antagonismo.

Daniel voltara-se para o seu operador de câmara:

- Podemos trazer para aqui uma luz. Queria umas boas imagens do interior.

O operador avançou e acendeu o projector portátil, iluminando as pilhas do tesouro com uma luz intensa de um branco-azulado.

- Jock, quero que venhas atrás de mim e do guarda ao longo do armazém - ordenou Daniel.

O operador de câmara assentiu e aproximou-se, com a câmara de vídeo Sony equilibrada em cima do ombro. Fez uma panorâmica sobre as pilhas desordenadas de presas de elefante, acabando na mão de Daniel, que afagava a curva elegante do marfim brilhante de uma presa. Depois, recuou para apanhar Daniel de corpo inteiro.

            Não era só devido ao seu doutoramento em Biologia nem aos seus livros e conferências que Daniel era considerado uma autoridade internacional e porta-voz da ecologia africana. Tinha também um físico de desportista e modos carismáticos que lhe davam uma boa presença televisiva, assim como uma voz profunda e convincente.

            O pai combatera no Norte de áfrica durante a Segunda Guerra Mundial, e depois da guerra estabelecera-se na Rodésia para cultivar tabaco. Daniel nascera em áfrica, mas fora estudar para Inglaterra, frequentando a Academia Militar de Sandhurst, antes de regressar à Rodésia para trabalhar no Serviço de Parques Nacionais.

            - Marfim - disse, olhando para a câmara. - Uma das substâncias naturais mais belas e mais cobiçadas desde o tempo dos faraós. A glória do elefante africano... É a sua maldição.

Daniel começou a andar por entre as pilhas de presas, com Johnny Nzou a seu lado.

            - Há dois mil anos que o homem caça o elefante para obter este ouro branco, mas, apesar disso, há dez anos restavam ainda mais de dois milhões de elefantes no continente africano. A população de elefantes parecia ser um recurso renovável, um bem protegido e controlado; mas daí para cá deu-se uma tragédia. Nestes últimos dez anos, foi abatido perto de um milhão de elefantes. É quase inconcebível que isso possa ter acontecido. Estamos aqui para saber o que é que se passou e como é que pode salvar-se o elefante africano da extinção.

            Olhou para Johnny.

- Está aqui hoje comigo Mr. Johnny Nzou, o chefe dos guardas do Parque Nacional de Chiwewe, no Zimbabwé. Por coincidência, o nome Nzou significa, em língua xona, "elefante". E John Nzou não é o Sr. Elefante só no nome. Na sua qualidade de chefe dos guardas de Chiwewe, é responsável por uma das maiores manadas de elefantes que vivem no mato africano. Diga-nos, chefe, quantas presas tem aqui neste armazém?

            -           Quase quinhentas presas, com um peso médio de sete quilos.

            -           No mercado internacional, o marfim vale trezentos

dólares o quilo - interrompeu Daniel. - O que significa que está aqui mais de um milhão de dólares. De onde é que veio isto tudo?

            -           Bom, algumas presas foram encontradas, é o marfim dos elefantes que morrem no parque, uma parte é marfim clandestino, confiscado pelos meus guardas aos caçadores furtivos. Mas, na maior parte, as presas são fruto de operações de abate controlado que o meu departamento é obrigado a fazer.

Pararam os dois na outra ponta do armazém e voltaram-se para a câmara.

                        -   Depois falamos do programa de abate, chefe. Mas primeiro pode dizer-nos mais alguma coisa sobre a actividade dos caçadores furtivos em Chiwewe?

                        -  Está cada vez pior - disse Johnny, abanando tristemente a cabeça. - à medida que os elefantes do Quénia, da Tanzânia e da Zâmbia são exterminados, os profissionais voltam-se para as manadas mais a sul. A Zâmbia fica do outro lado do rio Zambeze, e os caçadores furtivos que vêm de lá estão bem organizados e mais bem armados do que nós. Atiram a matar sobre homens, elefantes ou rinocerontes.

                        -   E tudo por causa disto

                        Daniel pousou a mão na pilha de presas mais próxima. Eram todas diferentes: umas quase direitas, compridas e finas como agulhas de tricô: outras curvas, em forma de arco. Algumas tinham pontas tão afiadas como as de uma lança; outras eram curtas e rombas. Algumas presas, provenientes de crias, não eram mais compridas do que o antebraço de um homem; outras ainda eram grandes hastes curvas e imperiais, o marfim maduro e pesado dos velhos machos.

                        Daniel sentiu a melancolia que o levara a começar a escrever sobre a destruição da velha África e do seu reino animal.

            - Ao que um animal sábio e magnífico foi reduzido. ­Baixara a voz e falava num murmúrio. - Não podemos escapar à tragédia das mudanças, que estão a varrer o continente. O elefante está a morrer. Estará a áfrica também a morrer?

                        A sua sinceridade era total, e a câmara registou-a com fidelidade. Era essa a razão pela qual os seus programas de televisão agradavam tanto a toda a gente.

                        Daniel arrancou-se aos seus pensamentos e voltou-se para Johnny Nzou.

            - Diga-nos, chefe, quantos destes animais maravilhosos há no Zimbabwé e quantos tem no Parque Nacional de Chiwewe?

                        - Há cerca de cinquenta e dois mil elefantes no Zimbabwé e temos dezoito mil em Chiwewe.

            - Isso é quase um terço de todos os animais que restam no país. - Daniel ergueu uma sobrancelha. - No clima de pessimismo reinante, deve sentir-se muito encorajado?

                        - Pelo contrário, Dr. Armstrong - replicou Johnny

Nzou. - Estamos muito preocupados com esses números. Não podemos sustentar tantos elefantes. Pensamos que trinta mil seriam a população ideal para o Zimbabwé. Um único animal precisa de uma tonelada de matérias vegetais por dia e derruba árvores que levaram centenas de anos a crescer para obter esse alimento.

            - O que é que aconteceria se deixassem essa enorme manada crescer à vontade?

- É muito simples: em muito pouco tempo, este parque seria reduzido a um deserto poeirento, e nessa altura a população de elefantes desapareceria também. Perdíamos tudo, as árvores, o parque e os elefantes.

                        Daniel acenou com a cabeça. Quando fizessem a montagem do filme, cortava-o neste ponto e inseria uma série de imagens recolhidas no Parque de Amboseli, no Quénia; panorâmicas terríveis de uma paisagem devastada, de terra vermelha, nua, e de árvores sem casca nem folhas, no meio das quais jaziam os restos ressequidos dos grandes animais, semelhantes a malas de couro abandonadas, destruidos pela fome ou pelos caçadores furtivos.

            - E há alguma solução para esse problema, chefe? ­perguntou Daniel em voz baixa. - Sim, mas infelizmente é muito drástica. Quer mostrar-nos qual é?

                        Johnny Nzou encolheu os ombros.

- Não é agradável, mas, sim, pode assistir ao que temos de fazer.

                        DANIEL acordou vinte minutos antes do nascer do Sol. Os anos passados longe de África não o haviam feito perder o hábito adquirido naquele vale e reforçado durante os anos da guerra de guerrilha da Rodésia, quando fora mobilizado para as forças de segurança.

                        Para Daniel, a aurora era a parte mágica do dia. Saiu do saco-cama e agarrou nas botas. Dormira todo vestido na terra aquecida pelo sol. O orvalho encharcou-lhe as pernas das calças até ao joelho enquanto ele se afastava silenciosamente do círculo de homens adormecidos em direcção ao promontório rochoso. Sentou-se num penhasco de granito e enrolou-se no anoraque.

A aurora chegou com uma rapidez inesperada, colorindo de tons suaves de rosa e cinzento as nuvens que pairavam sobre o grande rio Zambeze. Um leão rugiu ali perto. Daniel estremeceu. Apesar de o ter ouvido inúmeras vezes, aquele som continuava a emocioná-lo. Ouviu um barulho leve junto de si e sobressaltou-se; Johnny Nzou sentou-se ao seu lado na laje de granito.

- Os batedores chegaram ao acampamento há dez minutos.

Descobriram uma manada.

            - Quantos? - perguntou Daniel, olhando para ele.

- Cerca de cinquenta. Tens a certeza de que queres filmar isto?

            Daniel acenou afirmativamente.

            -           Pensei muito no assunto. É uma questão complexa que desperta muitas paixões. Mas as pessoas têm o direito de saber.

            -           Se fosses outra pessoa qualquer, eu desconfiava que querias sensacionalismo jornalístico - murmurou Johnny.

            -           És a única pessoa a quem eu deixava passar uma observação dessas, porque sabes que não é - observou Daniel, franzindo o sobrolho.

            -           Pois sei, Danny - concordou Johnny. - Detestas isto tanto como eu, mas foste tu que me ensinaste que era necessário.

            -           Então, vamos ao trabalho - sugeriu Daniel bruscamente.

            Levantaram-se e aproximaram-se em silêncio do lugar onde os camiões estavam estacionados. Havia movimento no acampamento e estavam a fazer café. Os guardas enrolavam os sacos-cama e verificavam as carabinas. Eram quatro, quatro rapazes negros que envergavam o uniforme de caqui do Serviço de Parques, com galões verdes nos ombros.

            - Vou fazer-te umas perguntas parvas para a câmara e pode ser que te irrites um bocado - disse Daniel, avisando Johnny.

- à vontade.

            Sentaram-se junto da fogueira fumarenta do acampamento, e Jock levou a câmara até junto deles.

            -           Estamos aqui acampados nas margens do rio Zambeze ao nascer do Sol, e os seus batedores descobriram no mato uma manada de cinquenta elefantes perto daqui - disse Daniel, falando para Johnny. - Explicou-me que o Parque de Chiwewe não pode sustentar tantos elefantes e que só este ano têm de ser retirados mil elefantes do parque. Como é que tenciona retirá-los?

            -           Vamos ter de os abater - disse Johnny bruscamente.

            -           Abatê-los? - perguntou Daniel. - Quer dizer que os vai matar?

- Sim. Eu e os meus guardas vamos matar toda a manada. -           E as crias e as fêmeas cheias? Não vai poupar um único animal?

            -           Vamos ter de os eliminar a todos - insistiu Johnny.

            -           Mas porquê, chefe? Não podia apanhá-los e levá-los para outro lado?

            - Os custos do transporte de um elefante são assustadores. Olhe só para a geografia do vale. - Johnny apontou para a escarpa altíssima, para os kopjes de rocha fragmentada e para a floresta virgem. - Precisaríamos de camiões especiais e de estradas para eles poderem entrar e sair daqui. E mesmo que isso fosse possível, para onde é que os levávamos? Já temos um excedente de mais de vinte mil elefantes no Zimbabwé.

- Isso quer dizer que a gestão da sua manada de elefantes foi boa demais, chefe. Agora tem de destruir e desperdiçar estes animais maravilhosos.

- Não os vamos desperdiçar. As carcaças, o marfim e a pele renderão muito dinheiro. Os lucros serão novamente investidos na preservação da espécie, no combate à caça furtiva e na protecção do nosso Parque Nacional.

- Mas porque é que tem de matar as fêmeas e as crias? - insistiu Daniel.

- É absolutamente essencial não deixar sobreviventes. A manada elefantes é uma organização familiar complexa. Quase todos os elementos da manada são parentes, e o grupo tem uma estrutura social muito desenvolvida. O elefante é um animal inteligente. Sabem... quer dizer, percebem

            Calou-se, perturbado. Os seus sentimentos tinham sido mais fortes do que ele, e Daniel admirou-o mais do que nunca naquele momento. Johnny continuou em voz rouca:

            -           A verdade terrível é que... se deixarmos escapar algum animal, ele comunicará o seu terror às outras manadas do parque, e haverá uma desagregação rápida do comportamento social dos elefantes.

            -           Isso não será exagero, chefe? - perguntou Daniel em voz baixa.

            -           Não. Já aconteceu antes. Depois da guerra, havia dez mil elefantes a mais no Parque Nacional de Wankie. Nessa altura, sabíamos pouca coisa sobre os efeitos das operações de abate controlado. Mas em pouco tempo ficámos a conhecê-los. Ao abater os animais mais velhos, destruímos as reservas de experiência e sabedoria da manada. Desorganizámos os comportamentos migratórios, a hierarquia dentro da manada e até mesmo os hábitos reprodutivos. - Johnny abanou a cabeça.

            - Temos mesmo de abater toda a manada de uma vez.

            Olhou para o céu, quase aliviado.

-   Lá vem o avião de localização - disse baixinho,

pegando no microfone do seu rádio. - Bom dia, Sierra Mike; estás a sul da nossa posição, aproximadamente a seis quilómetros. Vou sinalizar com fumo amarelo.

            Johnny fez sinal a um dos guardas, que puxou pela patilha de um sinalizador de fumo. O fumo sulfuroso amarelo subiu até ao cimo das copas das árvores numa nuvem espessa.

-   Roger, Parque. Já vi o vosso fumo. Dêem-me uma

indicação sobre a direcção da manada, por favor.

            -   Ontem, ao pôr do Sol, a manada estava a avançar para norte, na direcção do rio, sete quilómetros a sueste desta posição. São cinquenta e tal - replicou Johnny.

            -   Obrigado, Parque. Falo outra vez quando os localizar.

Ficaram a ver o avião a afastar-se para leste. Ao fim de um quarto de hora, o rádio começou novamente a crepitar.

            - Atenção, Parque. Vi a vossa manada. Cinquenta e tal, a treze quilómetros da vossa posição actual.

A MANADA estava espalhada ao longo das margens de um

curso de água seco que atravessava uma linha baixa de elevações pedregosas. Ali, a floresta era mais luxuriante, pois as raízes profundas tinham encontrado água subterrânea.

Duas fêmeas aproximaram-se de uma das acácias frondosas.

Eram as matriarcas da manada, animais velhos e magros, de orelhas esfarrapadas e olhos aquosos. Os laços existentes entre elas datavam de há mais de cinquenta anos. Eram meias-irmãs, crias sucessivas da mesma mãe, e tinham extraído da sua vida comum um tesouro de experiência que se acrescentara ao instinto ancestral profundo com que tinham sido ambas dotadas à nascença. Conheciam todos os esconderijos secretos da montanha e todos os bebedouros dos lugares desertos. Sabiam onde se escondiam os caçadores e conheciam os limites dos santuários onde elas e a manada estavam em segurança. O seu ciclo reprodutivo acabara há muito, mas a segurança da manada continuava a ser a sua grande preocupação.

Talvez fosse fantasia atribuir a animais selvagens

emoções humanas como o amor e o respeito ou pensar que tinham consciência da continuidade da sua linhagem, mas quem tivesse observado a manada, seguindo as duas elefantas velhas, não podia duvidar da sua autoridade. Quem as tivesse visto ajudar as crias a transpor os obstáculos do caminho não podia pôr em causa a sua dedicação. Quando havia perigo, precipitavam-se em defesa da manada, de orelhas abertas e trombas levantadas, prontas a enfrentar o inimigo.

            Os enormes machos, de grande porte e envergadura, não estavam muito ligados à manada. Quando envelheciam, preferiam separar-se dela, formando pequenos grupos de dois ou três machos solitários, que só visitavam as fêmeas quando eram atraidos pelo cheiro inebriante do estro. Mas as fêmeas velhas mantinham-se na manada, formando a base sólida em que assentava a sua estrutura social.

            Agora, as duas irmãs avançavam em acordo perfeito para a acácia gigante, carregada de vagens, tomando posição dos dois lados do tronco. Encostaram a cabeça à casca grossa e começaram a baloiçar em sintonia para trás e para diante. Primeiro, a acácia manteve-se hirta, resistindo à força dos animais. Mas as fêmeas continuaram o seu trabalho, primeiro uma e depois a outra, atirando-se com todo o seu peso de encontro à árvore, até que os ramos mais altos da copa começaram a tremer lá em cima.

Uma única vagem madura soltou-se do ramo e caiu de uma altura de trinta metros, batendo no crânio de uma das fêmeas. O animal fechou os olhos ramelosos, mas não abrandou o ritmo dos empurrões. O tronco da árvore começou a abanar e a estremecer.

Caiu outra vagem e mais outra.

Os animais mais jovens da manada abanaram as orelhas, excitados, e correram para a árvore. As vagens de acácia, ricas em proteínas, eram um petisco muito apreciado. Aglomeraram-se alegremente em volta das duas fêmeas, apanhando as vagens que caíam e enfiando-as nas goelas com a tromba.

Só quando caiu a última vagem é que as duas fêmeas se afastaram do tronco. Baixaram a cabeça e começaram a apanhar delicadamente as vagens douradas com a ponta carnuda e hábil da tromba, que enrolavam para dentro da boca escancarada.

A manada aglomerava-se em volta delas, baloiçando e enrolando as trombas compridas para enfiar as vagens nas goelas com um som surdo que reverberava através dos grandes corpos dos animais. Era um ronco suave, em muitos tons diferentes, que formava um estranho coro de satisfação. Um som que exprimia alegria de viver e que confirmava os laços profundos que ligavam todos os membros da manada. Era a canção dos elefantes.

            Uma das fêmeas velhas foi a primeira a pressentir o perigo. Transmitiu a sua preocupação com um som muito agudo, acima do registo do ouvido humano, e toda a manada se imobilizou de repente.

            As fêmeas velhas reconheceram o zumbido distante do avião de localização, que associavam a períodos de actividade humana intensa, de tensão e de terror inexplicáveis. Uma delas recuou e abanou furiosamente a cabeça na direcção do barulho vindo do céu. Agitou as orelhas esfarrapadas, que lhe bateram ruidosamente nas espáduas, como uma vela batida pelo vento. Depois, rodou e conduziu a manada em fuga rápida.

Havia dois machos adultos na manada, que, ao primeiro sinal de perigo, se afastaram e desapareceram na floresta. Reconhecendo instintivamente que a manada era vulnerável, procuravam a segurança na fuga solitária.

            - Atenção, Parque. A manada está a fugir para sul, para o desfiladeiro de Imbezeli.

            - Roger, Sierra Mike. Empurrem-nos para a encruzilhada de Mana Pools, por favor.

            A velha fêmea dirigia a manada para as montanhas. Queria sair do fundo do vale para terreno onde a perseguição seria dificultada pelos rochedos e pelo declive acentuado, mas o ronco do avião soou à frente dela, cortando-lhe o acesso à entrada do desfiladeiro. Parou, hesitante, e levantou a sua velha cabeça para o céu, abrindo as orelhas para seguir aquele som terrível.

            Depois, viu o avião. O sol-nascente reflectiu-se no vidro quando o aparelho mergulhou na sua direcção, rasando as copas das árvores.

- Parque, a manada agora está a andar nessa direcção.

Está a doze quilómetros da encruzilhada.

            - Obrigado. Sierra Mike. Vai-os batendo para nós; não os faças correr demasiado. - Johnny mudou o sinal de chamada. ­Atenção a todas as unidades K. É favor convergirem para a encruzilhada de Mana Pools.

            As unidades K, as equipas de abate, eram os quatro Land-Rovers posicionados no trilho principal, que ia desde orio até à sede do Parque de Chiwewe, na escarpa. Johnny escolhera essa disposição para funcionarem como uma barreira e desviarem a manada, caso fugisse para aquele lado, mas agora parecia que isso não ia ser necessário.

            - Parece que vamos ser bem-sucedidos à primeira tentativa - murmurou Johnny.

            Engatou o Land-Rover em marcha atrás, fez meia volta e avançou rapidamente pela pista. Havia uma crista coberta de ervas no meio dos trilhos escavados pelas rodas na areia, e o Land-Rover rodava aos solavancos.

Viram os outros veículos estacionados na encruzilhada, depois da curva. Os quatro guardas estavam de pé junto aos jipes, de carabinas em punho.

Johnny travou a fundo, e o Land-Rover derrapou e parou repentinamente. Ele pegou no microfone do rádio:

- Sierra Mike, dêem-me uma informação de posição.

- Parque, a manada está a três quilómetros de vocês e aproxima-se de Long Vlei.

            Um vlei é uma depressão na savana, e o Long Vlei estendia-se por muitos quilómetros paralelamente ao rio. Na estação húmida, transformava-se num pântano, mas agora era o local ideal para a matança. Já não era a primeira vez que o usavam para o efeito.

            Johnny saltou do banco do condutor e tirou a carabina do suporte. Ele e os guardas estavam armados com carabinas automáticas de calibre.375 Magnum, baratas e de produção em série. Os homens tinham sido escolhidos devido à sua excelente pontaria. A matança tinha de ser o mais rápida e humana possível; iam apontar ao cérebro em vez de atirarem ao corpo, um tiro mais fácil, mas de efeito menos seguro.

            - Vamos! - gritou bruscamente Johnny.

            Apesar de já terem feito muitas vezes aquele trabalho, a expressão dos guardas era sombria. Era evidente que não lhes agradava a perspectiva da tarefa sanguinária que os esperava. Estavam vestidos o mais levemente possível, e os únicos objectos pesados que transportavam eram as armas e as munições, presas à cinta. Eram todos magros e musculosos, e Johnny Nzou era tão atlético como eles. Correram em direcção à manada.

Daniel tomou posição logo atrás de Johnny. Estava convencido de que se havia mantido em forma, correndo e fazendo ginástica com regularidade, mas já se esquecera da preparação que era necessária para caçar e lutar, como Johnny e os seus guardas, que deslizavam sem esforço pela floresta. Daniel também já fora capaz de correr assim, mas agora batia pesadamente com as botas no chão e tropeçava no terreno acidentado. Ele e o operador de câmara começaram a ficar para trás.

            Johnny Nzou fez sinal com a mão e os guardas espalharam-se numa longa fila, deixando intervalos de cinquenta metros entre si. Lá adiante, a floresta acabava de repente no vale descoberto do Long Vlei, que tinha trezentos metros de largura. A erva seca, amarelada, chegava à cintura de um homem.

            Daniel chegou junto dos outros, apercebendo-se de que ele e Jock estavam completamente ofegantes apesar de terem corrido pouco mais de um quilómetro.

- Lá estão eles - disse Johnny baixinho. - Vê-se a poeira.

A poeira formava realmente uma nuvem por cima das copas das árvores entre eles e o avião, que descrevia círculos no céu.

            Johnny abanou o braço direito em círculo, e a sua frente de combate avançou a trote, formando um semicírculo com ele no centro. A brisa ligeira soprava-lhes de encontro à cara, a manada não ia sentir-lhes o cheiro.

            O grau de visão dos elefantes não é muito apurado; quando a manada se apercebesse do significado da linha de figuras humanas, seriajá tarde demais. A armadilha estava preparada, e os elefantes avançavam directamente para ela, espicaçados pelo voo rasante do avião.

            A linha do pelotão de execução mantinha-se completamente imóvel. Seria mais fácil que os elefantes detectassem o movimento do que reconhecessem a linha de figuras humanas indistintas que os seus olhos fracos e toldados pelo pânico lhes revelavam.

            Johnny falou baixinho. Reconhecera as matriarcas e sabia que sem elas a manada ficaria desorientada. A sua ordem para as matar primeiro foi transmitida ao longo da linha.

As velhas elefantas que conduziam a manada avançavam direitas ao lugar onde Johnny estava. A uns cem metros, começaram a desviar-se para a esquerda, e ele mexeu-se então pela primeira vez.

Abanou a carabina acima da cabeça e gritou em sindebele: - Nanzi, Jnkosikaze, aqui estou, venerável senhora!

            Só nessa altura é que as elefantas perceberam que ele não era um tronco de árvore, mas um inimigo mortal. Voltaram-se imediatamente para ele e avançaram as duas à carga.

            Tinham as orelhas esticadas para trás ao longo da orla superior, um sinal indubitável de cólera, e avolumavam-se sobre o grupo de minúsculas figuras humanas. Daniel já esquecera de como aquele momento era aterrador, com a primeira fêmea apenas a cinquenta metros disparada a sessenta quilómetros por hora.

            Toda a manada investiu na direcção deles como uma avalancha de granito cinzento, como um penhasco despenhando-se a seguir a uma explosão. Aos trinta metros, Johnny Nzou levou a carabina à cara e inclinou-se para diante para absorver o coice da arma. Não tinha a mira telescópica montada em cima do cano; para disparar de tão perto, bastavam-lhe os pontos de mira normais.

Johnny apontou à cabeça da fêmea da frente, entre os olhos míopes do animal. O tiro produziu um ruído seco, levantando da pele cinzenta e coriácea do animal uma pluma de poeira no ponto exacto do crânio para onde ele apontara. As patas dianteiras da fêmea flectiram, e Daniel sentiu a terra tremer debaixo dos pés quando o animal se abateu numa nuvem de pó.

            Johnny voltou a carabina para a segunda fêmea. Empurrando o ferrolho para trás e para diante sem a tirar do ombro, colocou nova bala na câmara. O cartucho de latão vazio saltou, descrevendo uma parábola brilhante, e o chefe dos guardas disparou novamente.

            A fêmea morreu como a outra, instantaneamente. As pernas cederam e caiu de barriga no chão, com a espádua encostada à da irmã.

Atrás delas, reinava a confusão na manada. Os animais, assustados, andavam de um lado para o outro, espezinhando a erva e levantando uma cortina de poeira que pairava em volta deles. As crias correram a abrigar-se debaixo das barrigas das mães, de orelhas encostadas ao crânio, apavoradas.

Os guardas aproximaram-se, atirando regularmente. O som dos tiros era um matraquear contínuo, semelhante a granizo a bater num telhado de chapa. Ao fim de poucos minutos, os adultos estavam todos no chão, deitados ao lado uns dos outros ou amontoados em pilhas sangrentas. Os atiradores avançavam lentamente e o círculo de aço apertava-se em volta da manada dizimada. Disparavam, recarregavam e disparavam novamente à medida que se iam aproximando, até que não ficou um único animal de pé.

            Seis minutos depois do primeiro tiro de Johnny, fez-se silêncio no campo de extermínio do Long Vlei. Nada se movia.

Os guardas continuavam afastados uns dos outros, taciturnos, olhando com remorsos para as duzentas toneladas de despojos.

            Foi Johnny Nzou quem quebrou o silêncio trágico. Aproximou-se lentamente do lugar onde jaziam as duas fêmeas, lado a lado, com as espáduas juntas e as patas dobradas debaixo do corpo, à frente da manada.

            Johnny pôs a coronha da carabina no chão e apoiou-se nela, examinando as duas matriarcas durante algum tempo num silêncio condoído. Não se apercebeu de que Jock estava a filmá-lo. As suas palavras foram completamente espontâneas.

- Hamba gahle, Amakhuíu - murmurou. - Descansem em paz, velhas avós. Juntas na morte como na vida. Descansem em paz e perdoem-nos.

Afastou-se até à orla da floresta. Daniel não foi atrás dele. Percebia que Johnny queria estar sozinho. Os outros guardas também se mantinham longe uns dos outros. Não se gabaram, não se felicitaram mutuamente; três deles vagueavam pelo meio dos cadáveres com um ar desconsolado, e o quarto pousara a carabina e olhava para o céu, observando os abutres que começavam ajuntar-se.

            Primeiro, essas aves agoirentas eram pontinhos recortados numa nuvem, como grãos de pimenta espalhados numa toalha de mesa. Depois, começaram a pairar por cima da cabeça deles, formando esquadrões que voavam em círculos, uma roda escura de morte suspensa sobre o Long Vlei.

Ao fim de quarenta minutos, Daniel ouviu o ronco dos

camiões-frigoríficos que se aproximavam, e os veículos apareceram no meio da floresta. Um batalhão de homens seminus empunhando machados corria à frente do comboio, cortando o mato para abrir caminho aos veículos. Johnny levantou-se do lugar onde estava sentado sozinho,junto à orla das árvores, e foi comandar o trabalho de esquartejamento das carcaças.

            Não se perderia nada do abate. A pele e a carne valiam dinheiro, mas as presas de marfim eram a parte mais valiosa do animal. Os caçadores furtivos e os caçadores de marfim de antigamente não se arriscavam a danificá-las com uma machadada imprudente, e geralmente deixavam o marfim preso ao crânio até que a bainha cartilaginosa que fixava a presa apodrecesse e esta se soltasse. Geralmente, ao fim de quatro ou cinco dias, as presas podiam ser arrancadas à mão, perfeitas e sem marcas. Mas agora não podia perder-se tempo com esse método. Era necessário cortar manualmente as presas. Os esfoladores encarregados desse trabalho eram os homens mais experientes. Estavam agachados junto das presas, batendo pacientemente com o machado.

            Enquanto os homens se dedicavam a esse trabalho delicado. Daniel foi para junto de Johnny Nzou. Jock enquadrou-os na câmara e Daniel comentou:

            - Um trabalho sangrento.

- Mas necessário - interrompeu Johnny em voz seca. - Um elefante adulto rende em média cerca de três mil dólares em marfim, pele e carne.

- Para muita gente, isso parecerá uma perspectiva muito mercantilista, principalmente porque acabaram de testemunhar a dura realidade do abate. - Daniel abanou a cabeça. - Deve saber que os grupos de protecção dos animais estão a mover uma grande campanha para que o comércio de produtos extraídos do elefante, tais como a pele, o marfim e a carne, seja proibido. O que é que pensa sobre este assunto, chefe?

- Fico furioso - respondeu Johnny com uma expressão selvagem.

            - Mas isso evitava os abates futuros, não?

            - Claro que não - contradisse-o Johnny. - Continuaríamos a ser obrigados a controlar a dimensão das manadas, a abater animais. A única diferença era que não podíamos vender os produtos extraídos do elefante. Eram desperdiçados, e isso seria uma perda trágica e criminosa. Perderíamos milhões de dólares em receitas, que são utilizados agora para proteger, ampliar e manter os santuários de vida selvagem...

Johnny calou-se e ficou a assistir ao trabalho de dois esfoladores, que separavam uma presa do osso esponjoso do crânio e a pousavam cuidadosamente na erva seca e castanha. Depois, continuou:

- Esta presa facilita-nos a justificação da existência dos parques e dos animais que os habitam perante as populações tribais que vivem junto das reservas.

- Não percebo - retorquiu Daniel, puxando-lhe pela língua. - Quer dizer que as tribos locais estão contra os parques e a população animal?

- Não, se puderem retirar vantagens pessoais disso. Se lhes demonstrarmos que um único elefante vale o mesmo que cem ou mil cabras ou cabeças de gado bovino dos rebanhos deles, se receberem dinheiro para si e para a tribo, percebem que vale a pena conservar as manadas.

            - Quer dizer que os camponeses da região não se interessam pelos animais selvagens em si mesmos?

            Johnny riu-se amargamente.

- Isso é um luxo e uma afectação do Primeiro Mundo. As tribos daqui vivem a um nível muito próximo do da subsistência. Não se podem dar ao luxo de reservar terras e pastagens para animais bonitos mas inúteis. A caça só pode sobreviver em África se se pagar por ela. Nesta terra dura, nada é gratuito.

            - E qual é a solução, chefe? Se é que existe...

- Estamos a tentar mudar a atitude do nosso povo –disse-lhe Johnny. - Temos sido bastante bem-sucedidos na nossa tentativa de os educar, de modo que compreendam a importância do turismo, dos safaris e do abate controlado. Estão a participar pela primeira vez nos lucros e há uma nova compreensão para a preservação da vida selvagem.

            -           Então, isso quer dizer que, em última análise, é uma questão económica?

            -           Tal como tudo no Mundo - concordou Johnny. – Os novos Estados independentes de África, com a explosão demográfica das suas populações, não podem dar-se ao luxo de não explorarem os seus recursos naturais. Têm de os explorar e de os conservar. E quem não nos deixar fazer isso será responsável pela extinção da vida selvagem em África.

Daniel fez sinal a Jock para interromper as filmagens e deu uma palmada no ombro de Johnny.

            -           Era capaz de fazer de ti uma estrela! Tens um jeitão.

            -           Queres que eu vá morar em hotéis e andar de avião em vez de dormir debaixo das estrelas? - exclamou Johnny com falsa indignação. - Queres que eu fique barrigudo? - Espetou o dedo no estômago de Daniel. - E que fique de língua de fora depois de correr cem metros? Não, obrigado, Daniel. Fico aqui a beber água do Zambeze em vez de coca-cola e a comer bifes de búfalo em vez de hamburgers.

            Carregaram a última presa nos veículos e salgaram as peles dos elefantes à luz intensa dos faróis dos jipes; depois, subiram novamente a estrada sinuosa e irregular até à beira da escarpa e à sede do Parque Chiwewe.

            Johnny conduzia o Land-Rover verde, à cabeça do comboio lento de camiões-frigoríficos, com Daniel sentado a seu lado. Conversavam calma e descontraidamente, como dois velhos amigos que se entendiam muito bem.

            -           Está um tempo de cão. - Daniel enxugou a testa à manga da camisa de caqui. Apesar de ser quase meia-noite, o calor e a humidade eram enervantes. - As chuvas devem estar aí a vir.

            -           Ainda bem que te vais embora do vale – resmungou Johnny. - A estrada fica um pântano quando chove e é impossível atravessar a maioria dos rios.

            O acampamento turístico do Parque de Chiwewe fechara havia uma semana, na previsão do início da estação das chuvas.

-           Estou com pena de me ir embora - confessou Daniel. - Foi tal e qual como nos velhos tempos.

            -           Os velhos tempos... - assentiu Johnny. - Foram bem divertidos. Quando é que voltas a Chiwewe?

            -           Não sei, Johnny, mas a minha proposta é séria. Vem comigo. Antigamente, formávamos uma boa equipa e agora também podíamos ser bons. Tenho a certeza.

- Obrigado, Danny - disse Johnny, abanando a cabeça -, mas tenho o meu trabalho aqui.

- Olha que eu não desisto - avisou Danny, e Johnny sorriu.

            - Eu sei. Tu nunca desistes.

 

NA MANHÃ seguinte, quando Daniel subiu o kopje que ficava por detrás da sede do parque para ver o nascer do Sol, o céu estava carregado de castelos de nuvens negras e o calor continuava opressivo.

            O estado de espírito de Daniel harmonizava-se com aquela madrugada sombria, pois embora tivesse captado imagens espantosas durante a sua estada, redescobrira também a amizade por Johnny Nzou. A ideia de que passariam talvez anos antes de se tornarem a ver entristecia-o.

            Johnny convidara-o para o pequeno-almoço. Estava à espera de Daniel na varanda larga, protegida por um mosquiteiro, do bungalow de tecto de colmo que fora em tempos a casa de Daniel. Agora, era Johnny que lá morava com a sua belíssima esposa matabele, Mavis. Nessa manhã, Mavis preparara um pequeno-almoço matabele típico: papas de milho com leite azedo cozinhadas numa cabaça. Depois, Johnny e Daniel desceram até ao armazém do marfim.

            A meio da encosta, Daniel pôs a mão em pala por cima dos olhos para olhar para o acampamento dos visitantes. Na margem do rio havia um recinto vedado com cabanas circulares de tecto de colmo, conhecidas pelo nome de rondavels, construídas à sombra das figueiras-bravas.

- Julgava que me tinhas dito que o acampamento turístico estava encerrado - disse Daniel. - Um dos rondavels ainda está ocupado, tem um automóvel estacionado à porta.

- É um convidado especial, o embaixador da República de Taiwan em Harare - explicou Johnny. - Interessa-se muito pelos animais selvagens, principalmente pelos elefantes, e tem contribuído muito para a conservação neste país. Tem privilégios especiais. Queria estar aqui sem os outros turistas, por isso deixei o acampamento aberto para ele... Olha, ali vem ele!

            Estava um grupo de três homens no sopé da colina. Quando se aproximaram, Daniel viu o embaixador de Taiwan. Pareceu-lhe que teria pouco mais de quarenta anos. Era um homem alto e magro, de cabelo preto muito liso penteado para trás com brilhantina, deixando à vista a testa alta e inteligente. Havia qualquer coisa nas feições dele que sugeria que não era de raça chinesa pura, que devia ter sangue europeu.

- Bom dia, Excelência - cumprimentou Johnny com um respeito evidente. - Que me diz deste calor?

- Bom dia, chefe. - O embaixador afastou-se dos dois guardas negros, aproximando-se de Johnny e Daniel. - Prefiro o calor ao frio.

            Estava de camisa azul de manga curta e colarinho aberto e calças de desporto e realmente tinha um aspecto fresco e elegante.

            - Dá-me licença que lhe apresente o Dr. Daniel Armstrong? - continuou Johnny. - Daniel, Sua Excelência o Embaixador de Taiwan, Ning Cheng Gong.

- Dispensavam-se as apresentações, o Dr. Armstrong é um homem famoso. - Cheng sorriu amavelmente, apertando a mão a Daniel. - Li os seus livros e vejo os seus programas de televisão com o maior interesse e prazer. - Falava num inglês excelente.

- Johnny disse-me que contribui generosamente para a conservação neste país - comentou Daniel.

            Cheng fez um gesto depreciatório.

- Gostava de poder fazer mais. - Fitou Daniel inquiridorament­Desculpe, Dr. Armstrong, mas não esperava encontrar outros visitantes em Chiwewe nesta altura do ano. Disseram-me que o parque estava fechado.

Daniel percebeu que o comentário tinha um segundo sentido.

            - Não se preocupe, Excelência, o meu operador de câmara e eu vamo-nos embora esta tarde. Em breve, terá o parque todo por sua conta.

- Lamento que se vá embora. Tenho a certeza de que teríamos muito que conversar.

Apesar da resposta, Daniel percebeu que Cheng ficara aliviado ao saber que ele se ia embora. Os seus modos continuavam a ser cordiais, mas Daniel sentiu que toda aquela delicadeza escondia outros sentimentos.

            Dirigiram-se para o armazém do marfim, um de cada lado do embaixador e conversando descontraidamente. Cheng ficou a olhar, enquanto os guardas e os carregadores descarregavam o camião-frigorífico que continha o marfim dos animais abatidos à medida que iam descarregando as presas, pesavam-nas uma por uma numa balança de estrado que estava à entrada do armazém. Johnny Nzou estava sentado a uma mesa e registava o peso de cada presa num livro grosso encadernado a cabedal. Depois, atribuía-lhes um número e um dos guardas punha esse número nas presas com um carimbo de aço. Cada dente, registado e carimbado, era marfim legal que podia ser exportado.

            Um dos pares de presas era particularmente belo, com hastes de proporções delicadas, grão fino e curvas elegantes. Cheng avançou e agachou-se junto delas, assentes no estrado da balança. Acariciou-as num gesto apreciativo.

- Perfeito - disse. - Uma obra de arte natural.

            Daniel sentiu uma vaga repulsa perante aquela manifestação de cupidez e demonstrou-a na expressão do rosto. Cheng levantou-se e explicou calmamente:

- O marfim sempre me fascinou. Como deve saber, não há quase nenhuma casa chinesa onde não exista um objecto de marfim; dá sorte. O meu pai começou a vida como entalhador de marfim, e era tão hábil que, quando eu nasci,já possuía lojas em Taipé e Banguecoque, Tóquio e llong Kong. Quando era novo trabalhei como aprendiz de entalhador em Taipé, e hoje aprecio tanto e compreendo tão bem o marfim como o meu pai, que tem uma das colecções mais valiosas... - Calou-se. - Desculpem, entusiasmei-me porque é uma das minhas paixões, mas é raro encontrar um par de presas tão iguais. Se o meu pai as visse, perdia a cabeça.

Ficou a olhar cobiçosamente para as presas, que foram levadas e arrumadas junto das muitas centenas que se encontravam já no armazém.

            - Uma personagem interessante - observou Daniel depois de a última presa ter sido registada e arrumada e quando Johnny e ele subiam a encosta de regresso ao bungalow para almoçarem. ­Mas como é que o filho de um entalhador de marfim conseguiu chegar a embaixador?

            Johnny deu uma gargalhadinha.

- O pai de Ning Cheng Gong podia ser de origem humilde, mas subiu muito na vida. Ouvi dizer que ainda tem as suas lojas de marfim e a colecção, mas só como hobby. Hoje, é um dos homens mais ricos de Taiwan, está metido em todos os grandes negócios da região do Pacífico e também com interesses em áfrica. Tem muitos filhos; Cheng é o mais novo e dizem que é também o mais esperto.

            - Parece ser simpático, mas tem qualquer coisa de estranho. Reparaste na cara dele quando acariciava a presa? Era... - Daniel procurou a palavra certa - pouco natural.

- Vocês, os escritores! - comentou Johnny, abanando a cabeça com uma expressão de reprovação. - Quando não fazem descobertas sensacionais, inventam-nas.

            Riram-se ambos.

            NING CHENG GOMO ficou no topo da colina com um dos guarda-negros. olhando para Daniel e Johnny, que desapareciam no meio das árvores.

- Não me agrada que o homem branco aqui esteja – disse Gomo. o guarda mais antigo de Chiwewe. - Talvez fosse melhor esperarmos pela próxima vez.

- O homem branco vai-se embora hoje à tarde - replicou friamente Cheng. - Além disso, tu foste bem pago. Sabes o que tens a fazer.

            Gomo não replicou. Efectivamente, o estrangeiro pagara-lhe mil dólares americanos, o equivalente a seis meses de ordenado, prometendo-lhe o ordenado de um ano para quando o trabalho estivesse terminado.

            - Fazes o que eu disse?

            - Sim - concordou Gomo. - Faço.

- Tem de ser esta noite ou amanhã à noite – assentiu Cheng -, mais tarde não. Estejam prontos os dois.

- Estaremos prontos - prometeu Gomo, que subiu para o

Land-Rover, onde o outro guarda já o esperava, e arrancaram. Cheng voltou para o seu rondavel, no acampamento deserto dos visitantes. A casa era igual às outras trinta onde se alojavam os grupos de turistas durante a estação seca e fresca. Foi buscar uma bebida fria ao frigorífico e sentou-se no alpendre à espera das horas mais quentes do meio do dia.

Estava nervoso e inquieto. Lá muito no fundo, partilhava dos receios de Gomo quanto ao êxito do projecto. Apesar de terem considerado todas as eventualidades possíveis, havia sempre factores imprevisíveis, como a presença de Armstrong. Era a primeira vez que tentava dar um golpe desta envergadura por sua própria iniciativa. Se fosse bem-sucedido, conquistaria o respeito do pai, e isso para ele era mais importante do que os ganhos materiais. Era o filho mais novo e tinha de se esforçar muito para ocupar um lugar na afeição do pai. Quanto mais não fosse por essa razão, não podia falhar.

Nos anos em que estivera na Embaixada de Harare, consolidara a sua posição no comércio ilícito de marfim. Tudo começara com um comentário aparentemente inocente, feito no decurso de um jantar em casa de um funcionário governamental de nível médio, sobre as vantagens dos privilégios diplomáticos e do acesso aos serviços do correio diplomático. Cheng compreendera imediatamente o significado da alusão e dera uma resposta favorável, mas sem se comprometer.

            Fizera saber discretamente que se interessava pelo marfim, e haviam-lhe oferecido várias peças não registadas nem carimbadas a preços muito vantajosos. Enviara-as para Taipé pelo correio diplomático e o pai tinha ficado encantado. Não fora preciso muito tempo para que se espalhasse no pequeno mundo dos caçadores furtivos a notícia de que havia um novo comprador na praça.

Ao fim de uns meses, tinha sido contactado por um homem de negócios sikh do Malawi, que se dizia interessado em procurar investidores taiwaneses para uma empresa de pescas que pretendia criar no lago Malawi. O primeiro encontro entre ambos correra muito bem. Cheng considerara interessantes os números de Chetti Singh e transmitira-os ao pai para Taipé. O pai aprovara as estimativas e concordara em formar uma joint venture. Quando os documentos haviam sido assinados na embaixada, Cheng convidara Chetti Singh para jantar, e durante a refeição o sikh dissera:

            - Sei que o seu ilustre pai gosta muito de marfim bonito. Como prova de minha grande estima, posso fornecer quantidades regulares. Tenho a certeza de que pode enviar a mercadoria para o seu pai sem muita papelada. Infelizmente, o marfim não está carimbado.

            - Detesto papelada - garantira-lhe Cheng.

            Inicialmente, Cheng não passava de mais um freguês, mas quando o negócio da pesca no lago começou a florescer, a relação mudou também. Chetti Singh propôs a Cheng e ao pai sociedade no tráfico de marfim. Claro que pedia em troca um investimento substancial que lhe permitisse expandir o âmbito das operações da sociedade. Ao todo, esse montante atingia quase um milhão de dólares.

            Só depois de se terem tornado sócios é que Cheng avaliou bem as dimensões do negócio de Chetti Singh. Ele criara em todos os países onde ainda existiam manadas de elefantes redes clandestinas de cúmplices a nível governamental. Muitos dos seus contactos eram a nível ministerial. Tinha também informadores e subornava funcionários em todos os grandes parques nacionais.

Por essa altura, já o pai e os irmãos de Cheng, estavam bem cientes de todas as oportunidades de investimento que a África oferecia. Investiram em terras, concessões de pesca e direitos de exploração mineira na Namíbia e noutros países.

Mas, apesar disso, o pai de Cheng continuava atraído pelo negócio do marfim, que despertara inicialmente o seu interesse. Da última vez que tinham estado juntos, dissera a Cheng, quando o filho se ajoelhara diante dele para lhe pedir a bênção:

- Meu filho, agradar-me-ia muito que, quando voltasses para África, me conseguisses encontrar uma grande quantidade de marfim registado e carimbado.

- Ilustre pai, as únicas fontes de marfim legal são os leilões governamentais... - Cheng calou-se ao ver a expressão de desprezo do pai.

            - O marfim comprado nos leilões públicos proporciona uma margem de lucro muito pequena - retorquira a voz sibilante. ­Pensava que eras mais inteligente, meu filho.

            A censura do pai magoou-o muito, e Cheng falou com Chetti Singh assim que teve oportunidade disso. O sikh afagou pensativamente a barba encaracolada. Era um homem atraente, e o turbante imaculado fazia que parecesse ainda mais alto.

- Só me estou a lembrar de uma única fonte de marfim registado - disse. - São os armazéns governamentais dos diversos países.

- Está a sugerir que pode subtrair-se o marfim do armazém antes do leilão?

- Pode ser... - Chetti Singh encolheu os ombros. – Mas são precisos planos complicados. Deixe-me pensar no assunto. Três semanas depois, encontraram-se novamente no escritório de Chetti Singh, em Lilongwé.

- O assunto ocupou muito a minha cabeça e descobri a solução - disse-lhe o sikh.

            - Quanto é que vai custar? - foi a pergunta instintiva de Cheng.

            - Não mais do que comprar marfim não registado, mas como só há uma oportunidade de obter a remessa, tem de ser a maior possível. Todo o conteúdo do armazém... porque não?

            Cheng sabia que o pai ficaria encantado. No mercado internacional, o marfim registado valia três ou quatro vezes mais do que o ilícito.

            - É preciso considerar que país nos pode fornecer a mercadoria - sugeriu Chetti Singh. - Não pode ser o Zaire nem a África do Sul. Não tenho uma organização bem montada nesses países. A Zâmbia, a Tanzânia e o Quénia têm pouco marfim. No Botswana, há poucos abates. Só resta o Zimbabwé. O marfim está guardado em armazéns do Departamento de Caça em Wankie, Harare e Chiwewe até ao leilão semestral. Podemos ir buscar a mercadoria a um destes sítios.

            - Mas qual?

            Chetti Singh levantou três dedos da mão.

            - O armazém de Harare está muito bem guardado. - Dobrou um dos dedos. - Wankie é o maior parque nacional, mas fica muito longe da fronteira com a Zâmbia. - Dobrou mais um dedo. - Resta-nos Chiwewe. Tenho agentes de confiança no pessoal do parque. Dizem-me que o armazém está quase cheio de marfim registado.

            - Tenciona assaltar o armazém?

- Sem a menor dúvida. - Chetti Singh baixou o dedo que ainda estava levantado e fez um ar de surpresa. - Afinal, não era essa a sua intenção?

- Talvez - replicou cautelosamente Cheng. - Mas é viável? - Chiwewe fica numa zona remota e isolada do país, mas a menos de cinquenta quilómetros do rio Zambeze, que é a fronteira internacional. Mando um pequeno bando de vinte homens armados com armas automáticas e chefiado por um dos meus melhores caçadores. Atravessam o rio a coberto da escuridão, vindos da Zâmbia em botes, e num dia de marcha chegam à sede do parque e assaltam-na. Eliminam todas as testemunhas, queimam o armazém de marfim e batem imediatamente em retirada pelo rio.

O sikh calou-se, mas ficou a olhar para Cheng com uma expressão de triunfo, adivinhando a sua próxima pergunta.

- Diz que será um pequeno grupo de caçadores furtivos.

Mas, nesse caso, não podem transportar todo o marfim, pois não?

            - Essa é a melhor parte do plano. Quero que as autoridades do Zimbabwé pensem que os caçadores levaram o marfim. Assim, nunca se lembrarão de procurar no seu próprio país, não é verdade?

            AGORA, sentado na varanda, ao calor do meio-dia, Cheng abanou a cabeça, preocupado. O plano de Chetti era engenhoso, mas claro que não contara com a presença de Armstrong. Se Armstrong e o operador de câmara ainda lá estivessem quando os homens de Chetti Singh chegassem, teriam de ser eliminados juntamente com o chefe dos guardas, a sua família e o resto do pessoal.

            Cheng foi interrompido nos seus pensamentos pelo telefone a tocar na outra ponta da varanda. Apressou-se a atender. Esperava o telefonema, que fazia parte do plano de Chetti Singh.

            - Embaixador Ning - atendeu.

            - Peço desculpa de o incomodar, Excelência - disse Johnny Nzou -, mas está aqui uma chamada da Embaixada de Harare. É um senhor que diz chamar-se Huang.

            - Obrigado, chefe. Eu falo com Mr. Huang.

            Era a mensagem que esperava, e, depois de a receber, Cheng deu à manivela do velho telefone e Johnny Nzou atendeu novamente.

            - Chefe, a minha presença é necessária em Harare. Lamento muito, porque estava desejoso de passar aqui mais uns dias sossegado.

- Também lamento que seja obrigado a partir. A minha mulher e eu gostávamos muito que viesse jantar connosco.

            - Talvez outro dia.

- Os camiões-frigoríficos vão levar a carne de elefante para Karoi esta noite. Talvez fosse preferível viajar em comboio com eles. O seu Mercedes não tem tracção às quatro rodas e pode começar a chover a todo o momento.

            Aquilo também estava previsto no plano de Chetti Singh. O ataque fora planeado de modo a coincidir com o abate dos elefantes e a partida dos camiões-frigoríficos. Cheng hesitou deliberadamente e depois perguntou:

            - Quando é que os camiões se vão embora?

- Um deles tem uma avaria no motor. - Gomo, o guarda, sabotara o alternador. O objectivo era atrasar a partida do comboio até à chegada do bando de assaltantes. - O condutor disse-me que deviam partir por volta das seis da tarde. Mas o Dr. Armstrong vai-se já embora e, se quiser, pode ir com ele. - Não, não! - interrompeu Cheng bruscamente. - Não posso ir-me já embora. Vou com o seu comboio de camiões. Obrigado, chefe. E para evitar mais conversa, desligou.

            Passados vinte minutos, Cheng ouviu o ruído de um motor vindo da direcção do bungalow do chefe dos guardas. Saiu para a varanda e viu o Toyota Landcruisei que descia a encosta. Na porta do jipe, estava pintado o logótipo da Armstrong Productions, um braço com uma pulseira guarnecida de espigões metálicos e com o cotovelo flectido e tenso, na pose estilizada de um praticante de musculação. Daniel Armstrong ia ao volante, e o operador de câmara sentado a seu lado.

Cheng olhou para o relógio. Passavam alguns minutos da uma hora. Arrnstrong tinha pelo menos quatro horas para se afastar antes do início do ataque à sede do parque.

Daniel Armstrong viu Cheng e travou. Baixou o vidro e sorriu-lhe.

- Johnny disse-me que também se vai hoje embora,

Excelência - gritou. - Tem a certeza de que não podemos ajudá-lo?

     - Não, doutor. Não se preocupe. Está tudo combinado. Armstrong tinha o condão de o perturbar. Era um homem alto, de cabelo encaracolado, que lhe dava um ar descontraido e desportivo. Tinha um olhar directo. Cheng talvez o tivesse considerado uma pessoa inofensiva se não fossem aqueles olhos. Os olhos deixavam-no pouco à vontade. Eram vivos e penetrantes.

            Armstrong fitou-o durante uns bons cinco segundos antes de sorrir novamente e de lhe estender a mão pela janela aberta do Toyota.

            - Bom, então até à vista, Excelência. Espero que tenhamos oportunidade para a tal conversa um destes dias. - Ergueu a mão direita numa saudação e arrancou em direcção aos portões da entrada principal do acampamento.

            Cheng ficou a olhar para o Landcruiser até o perder de vista e depois voltou-se e fitou a crista dos montes. A cerca de trinta quilómetros para oeste, uma das nuvens negras de trovoada foi trespassada repentinamente pelo clarão de um relâmpago. Enquanto ele olhava, a chuva começou a cair num dilúvio sombrio, tão impenetrável como um lençol de chumbo, que escurecia os montes à distância.

            Chetti Singh não podia ter escolhido melhor o momento do assalto. Em breve, o vale e a escarpa seriam um pântano. Uma equipa policial enviada para investigar os acontecimentos de Chiwewe não só depararia com uma estrada intransitável, como também - mesmo que conseguisse chegar à sede do parque - com todos os vestígios da passagem do bando de assaltantes apagados pela chuva torrencial.

            "Oxalá cheguem depressa", pensou Çheng. Foi buscar o binóculo e um exemplar muito usado de Aves da África Austral, que estava em cima da mesa da varanda. Esforçava-se por mostrar ao chefe dos guardas que era um ecologista ferrenho. Depois, entrou para o seu Mercedes e foi até ao escritório do chefe dos guardas, que ficava atrás do armazém do marfim.

Johnny Nzou estava sentado à secretária. Levantou os olhos de uma pilha de papéis quando Cheng apareceu à porta.

- Pensei que, enquanto esperava pela reparação do camião-frigorífico, podia ir até ao bebedouro de Fig Tree Pan - explicou.

Johnny sorriu quando viu o binóculo e o guia - eram o equipamento típico dos observadores das aves, e Johnny simpatizava sempre com todos os que partilhavam do seu amor pela Natureza.

            - Depois, mando um dos guardas chamá-lo quando o camião estiver pronto - disse ele a Cheng.

            Cheng conduziu o carro até ao bebedouro artificial, que ficava a menos de dois quilómetros da sede do parque. Um moinho de vento bombeava um fio de água para um charco lamacento para atrair as aves e os animais às proximidades do acampamento.

            Quando Cheng estacionou o automóvel na zona de observação sobranceira ao bebedouro, um pequeno rebanho de kudus que estava a beber assustou-se e fugiu para a savana circundante. Eram grandes antílopes de cor bege, com riscas pálidas, cor de giz, no dorso.

Naquele dia, Cheng estava demasiado perturbado para se concentrar nas nuvens de aves que desciam para se dessedentarem no bebedouro. Enfiou um cigarro na boquilha de marfim e começou a tirar fumaças nervosamente. Era naquele lugar que combinara encontrar-se com o chefe dos caçadores furtivos, e Cheng ia perscrutando ansiosamente a savana.

            O primeiro indício que teve da presença de alguém foi o som de uma voz entrando pela janela aberta do Mercedes. Cheng teve um sobressalto e virou-se rapidamente para o homem que estava junto do automóvel. O homem tinha uma cicatriz que descia do canto do olho esquerdo até à altura do lábio superior. O lábio estava repuxado para cima desse lado, num sorriso sardónico retorcido. Chetti Singh tinha mencionado a cicatriz.

            - És o Sali? - perguntou Cheng.

            - Sim, Sali - assentiu o homem.

            A sua pele era de um negro-arroxeado, onde sobressaía o cor-de-rosa-vivo da cicatriz. Era um homem baixo, mas de ombros largos. Vestia uma camisa esfarrapada e uns calções da tropa de caqui desbotado, manchados de suor. Devia ter andado muito, porque as pernas nuas estavam cobertas de pó até ao joelho. Estava muito calor e o homem cheirava a suor azedo. Cheng recuou, enojado.

            - Onde estão os teus homens? - perguntou Cheng.

Sali apontou com o polegar para o mato denso que os cercava. - Sabes o que tens a fazer? - O outro esfregou o tecido cicatricial brilhante da face e assentiu com a cabeça. - Não podes deixar testemunhas. Tens de os matar a todos.

Sali inclinou a cabeça num gesto de concordância.

            - Não deixamos escapar ninguém.

- A não ser os dois guardas, Gomo e David. Conhece-los?

- Conheço. - Sali já trabalhara com eles de outras vezes. - Estão na oficina com os dois camiões grandes. O chefe

dos guardas está no escritório. A mulher e os três filhos dele estão no bungalow, na colina. Há quatro criados no acampamento com as famílias; estão nos alojamentos do pessoal. Verifica se está tudo bem cercado antes de abrirem fogo. Ninguém pode escapar.

- Você tagarela como um macaco numa ameixieira-brava - respondeu Sali com desprezo. - Já sei isso tudo. Chetti Singhjá me disse.

            - Então, vai e faz o que te disseram - ordenou bruscamente Cheng.

            Sali meteu a cabeça pela janela do Mercedes, obrigando o chinês a suster a respiração e a recuar.

            Sali esfregou o polegar e o indicador um no outro, no gesto universal que significa dinheiro. Cheng estendeu o braço e abriu o porta-luvas do carro. As notas de dez dólares estavam em maços de cem, presas com um elástico. Ele depositou os maços um a um na palma da mão de Sali - eram três grupos de mil dólares cada um. A operação ia custar-lhe cerca de cinco dólares por quilo de marfim do grande stock do armazém, marfim que valeria 300 dólares o quilo no mercado internacional ou talvez mesmo mil, se fosse vendido em Taipé. Por outro lado, para Sali, os maços de notas verdes equivaliam a um ordenado de cinco anos de trabalho duro e perigoso. Ambos estavam muito satisfeitos com o negócio.

- Fico aqui à espera até ouvir tiros - disse Cheng.

- Não vai ter de esperar muito - replicou Sali, sorrindo. Depois, tão silenciosamente como aparecera, desapareceu no mato.

A ESTRADA era bastante boa segundo os padrões da África Central, mas mesmo assim Daniel, que não tinha pressa, ia devagar.

            Jock era um bom companheiro. Conversavam amigavelmente enquanto Daniel conduzia o jipe carregado, descendo a estrada cheia de curvas da escarpa. Sempre que uma ave, um animal ou uma árvore mais invulgares atraíam a sua atenção, Daniel parava o jipe, observava e tomava notas, enquanto Jock filmava.

            Ainda não tinham andado trinta quilómetros quando chegaram a uma parte da estrada onde uma grande manada de elefantes estivera a pastar na noite anterior. Haviam arrancado ramos e derrubado muitas das grandes árvores. Algumas estavam atravessadas na estrada, bloqueando-a completamente.

            - Grandes malvados - disse Daniel com um sorriso, contemplando aquela destruição. - Até parece que gostam de bloquear as estradas.

            Era uma demonstração clara, caso ainda fosse precisa, da necessidade do abate regular das manadas. A floresta não poderia aguentar mais do que uma dose limitada daquele tipo de alimentação destrutiva.

            Conseguiram tornear muitas das árvores caídas, ainda que por vezes fossem obrigados a rebocar um tronco, atando-o ao gancho de reboque do Toyota e afastando-o para poderem passar. Portanto, eram já quase 4 horas quando chegaram ao fundo do vale e viraram para leste para atravessarem a floresta de mopanes em direcção à encruzilhada de Mana Pools.

            Nesse momento, estavam embrenhados numa discussão sobre a melhor maneira de Daniel fazer a montagem da grande quantidade de filme que tinham gravado. Após o seu regresso a Londres, fechar-se-ia num quarto escuro durante meses, absorto no trabalho fascinante da montagem das sequências e da composição do comentário que as acompanharia.

            Apesar de estar a dar atenção ao que Jock dizia, Daniel observava com atenção o que o rodeava. Mas, mesmo assim, por pouco não reparava naquilo. Percorreu duzentos metros antes de se dar conta de que passara por qualquer coisa estranha. Talvez fosse uma recordação das suas experiências da guerra no mato em que a menor marca estranha na estrada podia anunciar uma mina enterrada. Nesses tempos, ele teria reagido muito mais depressa. Travou e Jock olhou-o interrogativamente.

            -O que foi?

            - Não sei. - Daniel voltou-se no assento para fazer inversão de marcha. - Se calhar não foi nada - murmurou. Parou e apeou-se.

            - Não vejo nada - comentou Jock, debruçando-se da janela do outro lado.

- É isso mesmo - concordou Daniel. - Há aqui uma parte lisa.

            Apontou para a estrada poeirenta, cuja superfície estava cheia de marcas salientes ou de concavidades que eram o desenho maravilhoso da vida do mato - pequenas marcas em forma de V das patas das aves, rastos serpenteantes de insectos e lagartos, marcas maiores de cascos de várias espécies de antílopes e rastos de lebre -, a não ser num ponto da estrada em que a superfície de terra macia estava completamente lisa. Daniel agachou-se junto desse ponto e estudou-o por momentos.

- Alguém apagou um rasto aqui - disse.

- E o que é que isso tem de extraordinário? - Jock saiu do jipe e foi ter com ele.

            - Nada, talvez - retorquiu Daniel, levantando-se. - Ou tudo. Só os seres humanos é que encobrem os seus rastos, e só quando não vão fazer coisa boa.

            Daniel rodeou a área de terra macia que fora

cuidadosamente varrida com um ramo frondoso e saiu da pista para a erva densa da berma. Viu imediatamente outros sinais de encobrimento de rastos. Os tufos de erva estavam achatados, como se um grupo de homens a pé tivesse andado por cima deles para evitar deixar sinais na terra. Daniel sentiu um arrepio na nuca. Era como nos velhos tempos, quando era batedor e descobriam a pista de um bando de guerrilheiros. Teve a mesma sensação de excitação e de medo.

            A cerca de cinquenta metros da estrada, Daniel descobriu a primeira pegada de um pé humano calçado, e alguns metros adiante o bando entrara numa pista de caça estreita e formara uma fila indiana, deixando de se preocupar com o rasto. Iam na direcção do acampamento de Chiwewe.

            Daniel identificou o rasto de dezasseis a vinte indivíduos diferentes no bando. Analisou cuidadosamente a sua descoberta. Atendendo à direcção de onde vinha o grupo e às precauções tomadas para disfarçar as pistas, a conclusão mais óbvia era que se tratava de um bando de caçadores furtivos zambianos que haviam atravessado o rio Zambeze em busca de marfim e de chifres de rinoceronte.

            Tinha de avisar Johnny Nzou para ele destacar o mais depressa possível uma unidade anticaça furtiva. Daniel começou a pensar em qual seria a melhor maneira de o fazer. Havia um telefone no escritório do guarda de Mana Pools, a uma hora de distância de carro, ou então podiam voltar para trás e transmitir pessoalmente o aviso. Mas deixou de hesitar quando avistou a fila de postes telefónicos, lá mais adiante, na floresta. Os fios tinham sido cortados.

- Porque diabo é que um caçador furtivo havia de cortar os fios telefónicos? - interrogou-se Daniel em voz alta. A sua inquietação transformou-se numa sensação de alarme. - Isto começa a cheirar muito mal. Tenho de avisar o Johnny.

Começou a correr para o local onde deixara o Landcruiser. - Que diabo é que aconteceu? - perguntou Jock quando

Daniel saltou para o assento e ligou o motor.

            - Não sei, mas não estou a gostar disto - respondeu Daniel, saindo da estrada em marcha atrás e fazendo inversão de marcha.

            Daniel agora andava depressa, levantando uma comprida nuvem de poeira atrás do Landcruiser. Não percebia porque é que um bando de caçadores furtivos queria ir à sede de Chiwewe. Pelo contrário, o natural seria que pretendessem passar o mais ao largo possível. Mas o rasto apontava nessa direcção e eles tinham cortado as linhas telefónicas. Agiam atrevida e agressivamente. E talvez já estivessem em Chiwewe.

"Mas porquê? Não há lá nada de valor..." De repente, porém, lembrou-se de que estava enganado.

- Bolas! O marfim! murmurou. E subitamente ficou gelado de terror. - O Johnny! E a Mavis e os miúdos!

            Agora, o Landcruiser voava na pista. Quando entrou na primeira curva apertada da escarpa, um grande veículo branco atravancava a estrada à sua frente. Ao mesmo tempo que travava e virava bruscamente o volante do Toyota para fugir do outro carro, Daniel verificou que era um dos camiões-frigoríficos. Passou a um palmo do guarda-lama dianteiro do camião, subiu pelo talude da berma e parou com a frente do Toyota quase encostada ao tronco de um grande mopane. Jock foi atirado de encontro ao tablier.

            Daniel saltou do Toyota e correu para o lugar onde o camião-frigorífico conseguira parar, bloqueando as traseiras do Toyota. Reconheceu Gomo, o guarda mais antigo, ao volante do camião e chamou-o.

            - Desculpe! A culpa foi minha! Está bem?

Gomo parecia abalado, mas acenou que sim. - Estou bem, doutor.

            - Quando é que saiu de Chiwewe? - perguntou imperiosamente Daniel.

Gomo hesitou. A pergunta pareceu desconcertá-lo.

            - Não sei ao certo

            Nesse momento, ouviu-se o som de outros veículos que se aproximavam, e Daniel olhou para trás e viu o segundo camião, que chiava na curva. Vinha em primeira para reduzir velocidade no declive acentuado da estrada. Cinquenta metros atrás, vinha o Mercedes azul de Ning Cheng Gong. Os dois veículos pararam atrás do camião de Gomo, e Daniel aproximou-se do Mercedes.

Quando chegou junto do carro, o embaixador Ning abriu a porta e saiu para a estrada poeirenta.

            - Dr. Armstrong, o que é que está a fazer aqui?

            Daniel ignorou a pergunta.

            - Quando é que saíram de Chiwewe?

            Estava ansioso por saber se Johnny e Mavis se encontravam a salvo.

- Porque é que faz essa pergunta? - murmurou Cheng. - Porque é que voltou para trás?

            - Só quero saber se houve problemas em Chiwewe.

- Problemas? Porque é que haveria problemas? – O embaixador enfiou a mão na algibeira e tirou um lenço. - O que é que está a sugerir, doutor?

- Não estou a sugerir nada. - Daniel tinha dificuldade em esconder a sua irritação. - Descobri o rasto de um grande grupo de homens que se dirigiam para Chiwewe. Estou com medo de que seja um bando de caçadores furtivos armados e voltei para avisar o chefe dos guardas.

            - Não houve problemas - garantiu-lhe Cheng. Daniel reparou no brilho da transpiração na testa dele. - Está tudo bem. Saímos há uma hora. O chefe Nzou está bem.

            Há uma hora? Daniel verificou as horas no seu Rolex. Sentia-se muito aliviado com a afirmação do embaixador. - Isso quer dizer que saíram de lá às cinco e meia?

            - Claro. Está a duvidar do que eu lhe digo?

Daniel ficou surpreendido com o tom de voz dele e a veemência das suas negações.

- Não me fiz entender, Excelência. Claro que não duvido do que me diz.

            Por sua vontade, Cheng ter-se-ia afastado da cena do assalto. Mas Chetti Singh ameaçara cancelar a operação se Cheng não estivesse presente para assegurar que o assalto tivera lugar depois da partida dos camiões. Essa é que era a chave do êxito da operação. A palavra de um embaixador como Cheng teria muito peso na investigação subsequente. A Polícia partiria do princípio de que os assaltantes tinham levado todo o marfim possível e destruído o resto no incêndio que consumira o armazém.

            - Desculpe, Excelência - disse Daniel, tentando acalmá-lo. - É só porque estou preocupado com o Johnny, o chefe dos guardas.

- Bom, garanto-lhe que não tem razões para se preocupar. Cheng enfiou o lenço na algibeira de trás das calças e tirou um maço de cigarros do bolso da camisa. Bateu no fundo do maço para tirar um cigarro, mas tremiam-lhe os dedos e o cigarro caiu no pó,junto dos seus pés.

            Os olhos de Daniel fitaram instintivamente o chão quando Cheng se baixou para apanhar o cigarro. Calçava uns sapatos de ténis brancos e Daniel reparou que o lado de um sapato e a virola das calças azuis tinham uma mancha que parecia ser sangue seco.

            Ficou intrigado, mas depois lembrou-se de que Cheng estivera presente nessa manhã quando as presas sujas de sangue fresco tinham sido descarregadas do camião e guardadas no armazém. A explicação da mancha era óbvia: devia ser sangue de elefante seco.

            Cheng reparou para onde é que ele estava a olhar e recuou rapida mente com um ar comprometido: sentou-se ao volante do Mercedes e bateu com a porta. Daniel reparou instintivamente no desenho invulgar, em forma de escamas de peixe, que as solas dos sapatos tinham deixado na poeira fina da estrada.

- Bom, estou satisfeito por tê-lo sossegado, doutor. Cheng recompusera-se e exibia novamente o seu Sorriso Sofisticado e encantador. - Ainda bem que pude Poupá-lo a uma viagem desnecessária de regresso a Chiwewe. Naturalmente, quer juntar-se ao nosso comboio para sair do parque antes do início das chuvas?

            Ligou o Mercedes.

            - Obrigado, Excelência. Continue o seu caminho com os camiões, mas eu não o acompanho. Vou voltar para trás. Alguém tem de avisar o Johnny.

            O Sorriso de Cheng evapOrou-se.

            - Vai ter uma grande maçada desnecessária. Sugiro que lhe telefone de Mana Pools.

- Ah, eu não lhe disse? Cortaram os fios telefónicos.

            - Mas isso não tem pés nem cabeça, Dr. Armstrong! Tenho a certeza de que está enganado.

- Pode pensar o que quiser - disse firmemente Daniel. - Vou voltar a Chiwewe.

            Afastou-se da janela do Mercedes.

- Olhe para aquelas nuvens negras, Dr. Armstrong - gritou Cheng. - Vai lá ficar retido durante semanas.

- Eu corro esse risco - respondeu jovialmente Daniel, estranhando, porém, a insistência do outro.

            Voltou rapidamente ao Lándcruiser. Quando passou pelos camiões, reparou que nenhum dos guardas mal-encarados descera da cabina ou dissera o que quer que fosse quando eles passaram.

            - Gomo, puxe o camião para a frente para eu poder passar - gritou Daniel.

O guarda obedeceu sem dizer uma palavra. Depois, o segundo camião passou por eles a roncar e finalmente O Mercedes do embaixador chegou junto do jipe. Daniel levantou a mão num gesto de despedida. Cheng fez-lhe um cumprimento indiferente e foi atrás dos camiões, que desciam em direcção à encruzilhada de Mana Pools.

            - O que é que o chinoca te queria? - perguntou Jock quando Daniel fez uma inversão de marcha para entrar novamente na estrada e engrenou a primeira para subir a encosta íngreme.

- Disse que estava tudo tranquilo em Chiwewe quando de lá saiu há uma hora.

            Os primeiros pingos grossos de chuva bateram no pára-brisas, mas Daniel não abrandou a marcha. Continuou a seguir habilmente os trilhos dos camiões, torneando os mopanes derrubados. Mas, mesmo assim, começava a escurecer quando chegaram ao alto da escarpa. Os relâmpagos brilhavam na escuridão e os trovões ribombavam nos céus.

            A chuva começou a cair tão copiosamente que os limpa-pára-brisas não davam conta do trabalho. Em breve, a atmosfera no interior da cabina fechada estava tão húmida que o vidro começou a embaciar. Daniel baixou o vidro do seu lado para deixar entrar o ar fresco da noite. Franziu imediatamente o nariz. Jock sentiu o cheiro ao mesmo tempo.

- Fumo! - exclamou. - Estamos muito longe do acampamento? - Estamos quase lá - replicou Daniel. - É já depois da próxima lomba.

            Avistaram lá à frente os portões do acampamento principal ao lusco-fusco. O caminho estava alagado com um palmo de água, e os pneus do Toyota levantavam um leque denso de lama.

- Não há luz - resmungou Daniel quando avistou o vulto dos edifícios através da chuva. Depois, viu um brilho difuso, cor de rubi, reflectindo-se suavemente nas paredes dos edifícios. - Um dos edifícios está a arder!

            Jock inclinou-se para a frente no assento.

            - É de onde vem o fumo.

Quando se aproximaram, Daniel distinguiu o armazém do marfim. Horrorizado, parou o Toyota e saiu para a lama.

            O calor das chamas abrira as paredes, que se tinham desmoronado quase completamente. O fogo devia ter sido muito intenso para produzir tanto calor. O edifício continuava a arder e estava em brasa, apesar da chuva intensa.

            Daniel tinha a camisa encharcada colada ao corpo e o cabelo ensopado de água, que lhe escorria pela testa e para os olhos. Trepou por cima das paredes desmoronadas. O telhado desabara e formava um colchão espesso de cinzas negras e de vigas chamuscadas. Apesar da chuva, o fumo era ainda muito denso e o calor tão intenso que o impedia de se aproximar mais. Correu para ojipe, sentou-se ao volante e limpou a água que lhe escorria para os olhos.

            Ligou o motor e avançou encosta acima com o Toyota, em direcção ao bungalow do chefe dos guardas. Uma vez aí chegado, saiu novamente para a chuva.

            - Johnny! - gritou. - Mavis! - Correu para a porta principal do bungalow, que fora arrombada e estava aberta. Os móveis estavam partidos e espalhados pela casa. - Johnny! ­gritou. - Onde estão?

            Daniel correu para a sala de estar. Tinham atirado ao chão os bibelôs que Mavis colocara na prateleira da lareira de pedra, e o estofo dos sofás e dos maples estava rasgado. Daniel correu pelo corredor que ia dar aos quartos.

            - Johnny! - gritou, indignado e desesperado, iluminando o corredor com a lanterna.

A parede do fundo tinha uma mancha escura de tinta em forma de estrela. Daniel ficou a olhar para a mancha durante uns instantes, sem perceber do que se tratava, mas depois baixou os olhos para o pequeno vulto encolhido no chão encostado à parede.

Johnny e Mavis tinham dado o seu nome ao filho, Daniel Robert Nzou. Daniel tinha quatro anos. Estava deitado de costas, com os olhos sem vida abertos e fitos no vazio. Daniel inclinou-se para o rapazinho, com os olhos marejados de lágrimas. Depois, levantou-se lentamente e dirigiu-se para a porta do quarto, que estava entreaberta. Daniel hesitou em abri-la completamente e teve de se obrigar a fazê-lo. As dobradiças rangeram suavemente quando a porta abriu.

Daniel relanceou os olhos pelo quarto e depois recuou, vacilante, para o corredor, a ofegar e com vómitos.

As filhas de Johnny eram mais velhas do que o irmão.

Miriam tinha dez anos, e Suzie, quase oito. Estavam deitadas no chão, nuas, aos pés da cama. Tinham sido ambas violadas. Mavis estava deitada na cama, com a saia levantada até à cintura. Tinha os braços atados pelos pulsos à cabeceira da cama de macieira. As duas rapariguinhas deviam ter morrido com o choque. Mavis, provavelmente, sobrevivera até eles se terem fartado dela e tinham-lhe disparado um tiro na cabeça.

            Daniel forçou-se a entrar no quarto. Descobriu onde é que Mavis guardava a roupa de cama, num dos armários de parede, e tapou os corpos com lençóis.

            - Quem fez isto não era humano - murmurou Jock à porta. ­Deviam ser uns animais selvagens e sanguinários.

            Daniel saiu do quarto de costas e fechou a porta. Tapou o corpinho de Daniel Nzou.

- Encontraste o Johnny? - perguntou em voz rouca a Jock. - Não. - Jock abanou a cabeça, virou costas e fugiu pelo corredor.

            Daniel ouviu-o vomitar no canteiro, junto aos degraus da porta. Recalcou a sua fúria e a sua tristeza e controlou as suas emoções.

"O Johnny, tenho de encontrar o Johnny", pensou. Revistou rapidamente os outros dois quartos e o resto da

casa. Não havia sinais do amigo e sentiu uma vaga esperança. Era um alívio abandonar aquele local de morte. Daniel saiu para a escuridão e levantou a cara para a chuva. Abriu a boca e encheu-a de água para lavar aquele gosto amargo a fel. Depois, gritou a Jock:

            - Vamos, temos de encontrar o Johnny.

            Dirigiu-se no Toyota para as casas onde moravam os criados do acampamento. Passaram pelo portão do recinto, e o cheiro a fumo tornou-se cada vez mais forte. Instantes depois, Daniel constatou que os bungaiows dos criados tinham ardido completamente. A chuva apagara o fogo, mas ainda se viam uns restos de fumo a flutuar na luz.

Ali, o bando não deixara cadáveres. Daniel calculou que deviam ter atirado os corpos para dentro das casas antes de lhes atearem fogo.

- Johnny! - gritou Daniel. - Johnny, estás aí?

Mas o único som que se ouvia era a brisa que agitava as mangueiras, fazendo cair a água das folhas.

            Que raio, mataram toda a gente que estava no acampamento. Porque é que fizeram uma coisa destas?

- Eram testemunhas! Eliminaram todas as testemunhas!

- Mas porquê? Porque é que fariam isso? Não faz sentido! - O marfim. Era o que eles queriam.

            - Mas queimaram o armazém!

            - Depois de o terem esvaziado.

O escritório do chefe dos guardas estava intacto, mas quando levantou a lanterna para o telhado de colmo, Daniel viu uma mancha chamuscada provocada por um archote que alguém para lá atirara. No entanto, os telhados de colmo, bem construídos, não ardem facilmente, e as chamas não haviam pegado.

            A chuva parou subitamente, como é característico em África. Instantes antes, caia um dilúvio e agora, subitamente, a chuva parara. Mas Daniel quase nem reparou. Saiu do jipe e correu para a varanda larga.

A porta do escritório de Johnny estava aberta e Daniel parou à entrada. Tinham virado o escritório de pantanas, atirando para o chão as pilhas de impressos que estavam nas prateleiras dos armários e arrancando as gavetas da secretária de Johnny, cujo conteúdo estava espalhado pelo chão. Haviam encontrado as chaves e aberto o velho cofre de parede. As chaves ainda estavam no cofre, mas este estava vazio.

            Daniel passeou o olhar pelo escritório e pousou-o no vulto encolhido, deitado no chão, à frente da secretária.

- Johnny - murmurou. - Meu Deus, não pode ser!

            - PENSEI que, enquanto esperava pela reparação do camião-frigorífico, podia ir até ao bebedouro de Fig Tree Pan. A voz do embaixador Ning interrompera a concentração de

Johnny Nzou, mas ele não ficou aborrecido quando levantou os olhos da secretária. Sorriu ao ver o binóculo e o guia de Ning Cheng Gong.

Após a partida de Cheng, Johnny debruçou-se novamente sobre os seus impressos e livros monótonos. Olhou para o relógio uma vez e viu que faltavam uns minutos para as 5. Sabia que Mavis em breve mandaria as crianças chamá-lo. Sorriu, pensando que deviam estar a chegar. Depois, ouviu um barulho junto da porta e ergueu os olhos.

O sorriso desvaneceu-se logo. Estava um desconhecido à porta, um homem entroncado, de pernas tortas, vestido de farrapos sujos e com as mãos atrás das costas.

            - Sim? - perguntou Johnny bruscamente. - Quem éo senhor? O que é que quer?

O homem sorriu. Tinha a pele muito escura e, quando sorria, a cicatriz que lhe riscava a face entortava-lhe a boca. Johnny levantou-se.

            - O que é que quer? - repetiu.

            O homem que estava à porta disse:

            - Quero-te a ti! - Sacou da carabina automática AK 47 que tinha escondida atrás das costas e atingiu Johnny Nzou no estômago.

            A bala tirou o fôlego a Johnny e projectou-o de encontro à parede. Não sentia nada da cintura para baixo, mas tinha as ideias claras, como se a adrenalina tivesse aguçado a sua percepção.

            "Faz-te de morto!", pensou, ao cair. Tombou no chão, mole como uma saca de farinha, e não se mexeu mais.

Ouviu o pistoleiro atravessar o compartimento, com as solas de borracha das botas da tropa a chiarem levemente. Depois, as botas penetraram no campo de visão de Johnny.

            Ele sentiu o contacto frio e duro da boca do cano da arma de encontro à têmpora e fez das tripas coração. Sabia que o mais pequeno movimento desencadearia o tiro. Tinha de convencer o atirador de que estava morto.

            Nesse momento, ouviu gritos lá fora e uma rajada de tiros de arma automática. A pressão da espingarda na têmpora de Johnny abrandou. As botas deram meia volta e retiraram em direcção à porta.

            - Venham! Não percam tempo! - gritou o pistoleiro da cicatriz na cara. - Onde estão os camiões? Temos de carregar o marfim!

O zambiano correu para fora do escritório, deixando Johnny deitado no chão de cimento.

            Johnny sabia que estava ferido de morte. Sentia o sangue e a vida a esvaírem-se-lhe do corpo. Depois. ouviu mais tiros no alto da colina, vindos da direcção das casas dos criados e da sua própria casa.

            "É um bando". pensou, desesperado. "Invadiram o acampamento. Estão a assaltar a sede do parque." Depois, pensou: "Valha-me Deus, os meus filhos!"

            Lembrou-se das armas que estavam no compartimento do lado, mas sabia que não seria capaz de ir até lá. Depois, ouviu os camiões. Reconheceu o ronco dos grandes motores diesel e percebeu que eram os camiões-frigoríficos. Foi invadido por um surto de esperança. "Gomo", pensou. "David..." Estava deitado de lado e olhou para a outra extremidade do compartimento para a porta aberta.

            Um dos camiões-frigoríficos parou dentro do seu campo de visão e fez marcha atrás até ao armazém do marfim. Gomo saltou da cabina e começou a discutir acaloradamente com o homem da cicatriz. o chefe do bando.

            "Gomo", pensou Johnny. "Gomo é um dos deles. Foi ele quem armou isto tudo."

De repente, a zona que circundava o armazém encheu-se de homens, os outros elementos do bando. O da cicatriz organizou logo uma equipa de trabalho. Um dos homens rebentou a fechadura do armazém a tiro, e os bandidos pousaram as armas e entraram lá para dentro. Ouviram-se gritos de cobiça quando eles viram o marfim, e depois formaram uma cadeia humana e começaram a carregar as presas no camião.

            A visão de Johnny foi enevoada por uma mancha escura e os seus ouvidos começaram a zumbir. Mas expulsou dos olhos a escuridão e pensou que estava a sonhar, porque viu o embaixador Ning por debaixo da varanda. Johnny tentou gritar-lhe um aviso, mas da sua garganta saiu só um grunhido fraco que não foi além do quarto onde se encontrava.

            Depois, para seu grande espanto, viu que o homem da cicatriz se aproximava de Ning e o cumprimentava. "Ning", pensou Johnny, incrédulo. "É mesmo ele."

            As vozes dos dois homens ouviam-se no lugar onde ele estava.

- Tens de mandar os teus homens despacharem-se, Sali - dizia Ning Cheng Gong. - Têm de carregar o marfim, porque quero ir-me embora quanto antes.

- Dinheiro - respondeu Sali. - Mil dólares

- Já recebeste o teu pagamento - exclamou Cheng, indignado.

- Mais dinheiro ou paro. Vamos embora e deixamos o marfim. - Sali sorriu com descaramento.

- Não tenho aqui mais dinheiro - declarou Cheng com firmeza.

- Então, vamos embora! Já! Carregue você o marfim.

- Espera! - Era evidente que Cheng estava a pensar rapidamente.

- Não tenho dinheiro. Mas levem todo o marfim que quiserem. Levem tudo o que puderem transportar.

            Cheng sabia que os caçadores furtivos não podiam transportar mais do que uma presa cada um. Vinte homens, vinte presas - era barato.

Sali ficou a olhar para ele, meditando na proposta.

            - Está bem, levamos o marfim!

            Começou a afastar-se, mas o embaixador Ning chamou-o.

            - Espera, Sali! E os outros? O chefe dos guardas, a mulher e os filhos? Trataste deles?

            - Estão todos mortos.

            - E o chefe dos guardas? Onde é que ele está?

Sali, o caçador furtivo, apontou com a cabeça para a porta do escritório de Johnny.

            - Matei-o. Pum!

            Afastou-se com a carabina ao ombro, ainda a rir, e Cheng foi atrás dele, desaparecendo do campo de visão de Johnny.

A fúria e a dor deram forças a Johnny: Mavis e as crianças, todos mortos! A cólera deu-lhe coragem para tentar rastejar até à secretária.

Sabia que a única coisa que podia fazer nos poucos minutos de vida que ainda lhe restavam era deixar uma mensagem qualquer. O chão estava coberto de papéis. Se conseguisse deitar mão a uma folha e escrever, a Polícia mais tarde encontrá-la-ia.

Deslocando-se poucos centímetros de cada vez, estendeu a mão para uma folha de papel. Ainda não lhe tinha tocado quando a intensidade da luz do compartimento se alterou. Estava alguém à porta. Voltou a cabeça e viu o embaixador Ning, que o fitava. O embaixador gritou em voz aguda:

- Ainda está vivo! Sali, anda cá depressa! – Cheng desapareceu da porta e correu pela varanda, sempre a gritar pelo homem da cicatriz:

- Sali, anda, depressa!

            Johnny rebolou o corpo, estendeu o braço e pegou no papel. Prendeu-o de encontro ao chão com uma das mãos e com a outra abriu a camisa.

            Começou a rabiscar a folha de papel com o dedo, escrevendo com o próprio sangue. Formou a letra N, num grande desenho irregular, mas sentia- se muito tonto e começou a ver tudo a andar à roda. NJ. Cada vez tinha mais dificuldade em concentrar-se. O traço vertical do i ficou comprido demais e curvo, parecia um J. A grande custo, fez um ponto em cima da letra para mostrar que era um i. Começou a desenhar o segundo N. Ouvia o embaixador a chamar por Sali e depois o grito de resposta do caçador furtivo. NIN - Johnny começou a fazer o G, mas o dedo escapou-lhe para o lado e começou a ver as letras vermelhas e húmidas a dançarem e depois a turvarem-se.

            Quando ouviu os passos de um homem a correr na varanda, Johnny amarrotou a folha de papel com a mão esquerda, a mão que não estava suja de sangue, enfiou o punho fechado dentro da camisa e rebolou para cima da barriga lacerada, escondendo a bola de papel com o recado.

            Não viu Sali entrar - tinha a cara comprimida de encontro

ao chão de cimento. Johnny não teve medo, sentia só uma grande tristeza e resignação. Pensou em Mavis e nos filhos quando sentiu a boca do cano da carabina encostada à nuca.

- ESTAVA difícil de morrer - comentou Sali.

            Ning Cheng Gong entrou no compartimento.

- Tens a certeza de que acabaste mesmo o trabalho? - perguntou.

Sali pegou nas chaves de Johnny, que estavam em cima da secretária, e revistou o cofre.

            - Está morto, é garantido.

            Cheng aproximou-se do corpo e fitou-o, fascinado. O assassínio excitara-o. Estava tão absorto que só reparou que tinha metido os pés numa poça de sangue quando Gomo o chamou lá de baixo da varanda:

- O marfim está todo carregado. Estamos prontos para partir. Cheng recuou e soltou uma exclamação de desagrado quando viu a mancha na virola das calças de algodão azul, impecavelmente engomadas.

            - Vou-me embora - disse a Sali. - Deitem fogo ao armazém do marfim antes de saírem daqui.

            Cheng desceu os degraus da varanda a correr e entrou no Mercedes. Fez sinal a Gomo, e os dois camiões-frigoríficos arrancaram. O marfim estava arrumado nas caixas de carga, coberto com as carcaças dos elefantes abatidos. Uma inspecção menos cuidadosa não permitiria descobriro tesouro.

            Correra tudo de acordo com os planos de Chetti Singh. Cheng olhou para o retrovisor do Mercedes. O armazém do marfim já estava a arder. Os caçadores furtivos tinham formado numa coluna para o regresso. Transportavam uma grande presa de elefante cada um. Cheng sorriu. A cobiça de Sali ia ser-lhe favorável. Se a Polícia apanhasse o bando, o desaparecimento do marfim ficaria bem explicado pelo incêndio e pela carga transportada pelos caçadores furtivos. Insistira em que deixassem quarenta presas no armazém para o laboratório forense da Polícia encontrar restos de marfim chamuscado. Cheng estava radiante com o êxito do assalto.

            - JOHNNY, Johnny, meu Deus!

            Daniel estava agachado ao lado do amigo e estendeu a mão para lhe tocar no pescoço, tentanto detectar pulsações, apesar de a bala na nuca de Johnny ser conclusiva.

            Sentou-se nos calcanhares até que a angústia da dor deu lugar à cólera. Finalmente, levantou-se e olhou à sua volta, procurando qualquer coisa com que tapar o corpo do amigo. Os cortinados serviam. Arrancou um e voltou para junto de Johnny.

O amigo tinha um dos braços torcido por baixo do corpo e

a cara enfiada numa poça de sangue. Daniel voltou-o carinhosamente. O punho esquerdo de Johnny estava dentro da camisa e fechado com força. Daniel ficou intrigado com a folha de papel amarrotada que ele tinha na mão. Abriu os dedos de Johnny e soltou o papel.

            Levantou-se, foi até à secretária e alisou a folha de papel em cima do tampo. Viu que Johnny tinha escrevinhado qualquer coisa com o seu próprio sangue e estremeceu perante os caracteres macabros. NJNC. As letras eram quase ilegíveis. Não faziam sentido, mas o J talvez fosse um i. Daniel estudou a palavra. NINC. Não significava nada.

            Mas, de repente, Daniel sentiu que o seu subconsciente estava a querer lembrar-lhe qualquer coisa e fechou os olhos durante uns instantes para se concentrar. NINC. Abriu novamente os olhos e deu consigo a fitar o chão. Concentrou o olhar numa das pegadas ensanguentadas das solas das suas botas e nas do assassino. E de repente estremeceu. a pegada tinha um desenho de escamas de peixe.

            NINg. A palavra ressoou-lhe dentro da cabeça e depois aquela pegada muito característica deu sentido à palavra, que ecoou novamente, alterada e surpreendente. NING. Johnny tentara escrever NING! Daniel percebeu que tremia com o choque da descoberta. O embaixador Ning Cheng Gong. Seria possível? Ning estivera ali depois de Johnny ter sido atingido a tiro. Ning mentira quando dissera que saíra mais cedo... Daniel interrompeu o curso dos seus pensamentos, pois lembrara-se de outra coisa: do sangue nas calças de algodão azul - o sangue de Johnny. Colocou novamente a nota ensanguentada na mão de Johnny para a Polícia a encontrar. Depois, estendeu o cortinado por cima do corpo de Johnny e ficou junto do amigo durante uns instantes.

            - Hei-de apanhar o sacana que te matou, meu amigo. Por ti, pela Mavis e pelas crianças. Prometo, em memória da nossa amizade. Juro!

            Daniel foi buscar o molho de chaves que estava ainda pendurado na fechadura do cofre e entrou no depósito das armas. Tirou uma carabina automática AK 47 da estante e carregou-a. Armado e furioso, saiu do escritório a correr, descendo os degraus até ao local onde Jock o esperava, junto do Landcruiser estacionado.

Olhou para trás, para as ruínas do armazém e os rastos dos pneus, que já mal se viam na lama. Era engenhoso. Os caçadores furtivos seriam perseguidos, e entretanto Cheng e os seus homens transportavam o marfim para fora do parque nos camiões do Serviço dos Parques Nacionais. Daniel lembrou-se dos modos pouco cordiais de Gomo e do outro condutor quando se encontrara com eles na estrada. Levavam o marfim roubado e não admirava que se tivessem comportado de forma tão estranha.

Quando se sentou ao volante do Landcruiser e mandou Jock entrar para o lado dele, olhou para o relógio. Eram quase 8horas, uma hora e meia depois de se terem cruzado com Cheng e os camiões na estrada. Seria capaz de os apanhar antes de eles chegarem à estrada principal, depois de Mana Pools, e desaparecerem? Ligou o motor do Landcruiser, acendeu os faróis e empurrou a alavanca das velocidades.

            - Não me vais escapar, maldito!

            A chuva torrencial tinha arrastado a terra da estrada, escavando valas perpendiculares aos trilhos e deixando à vista pedregulhos do tamanho de balas de canhão. Daniel conduzia o Landcruiser por cima desses obstáculos com tanta violência que Jock teve de se agarrar à pega do tablier.

- Vai mais devagar, Daniel. Ainda nos matas aos dois.

Qual é a pressa?

Daniel pô-lo ao corrente das linhas gerais da situação no menor número de palavras possível.

- Não podes atacar um embaixador - resmungou Jock, e os solavancos do jipe arrancavam-lhe as palavras aos sacões. - Se estiveres enganado, dão cabo de ti.

            - Não estou enganado - garantiu-lhe Daniel.

            A água escorrera pela encosta da escarpa, formando um rio tumultuoso no vale. Havia poucas horas, Daniel atravessara nos dois sentidos o leito seco de um rio. Agora, parou junto ao vau. Os faróis penetraram na escuridão até à outra margem.

- Não vamos conseguir lá chegar - murmurou Jock, alarmado.

            Daniel deixou o motor a trabalhar e saltou para a lama, onde se enterrou até ao tornozelo. Correu até à beira da água. Uma das árvores que crescia junto do vau formava um dossel sobre a corrente, e os ramos mais baixos quase tocavam na água. Daniel agarrou-se ao ramo maior para se firmar e entrou na água. Avançou a custo na torrente, e precisou de toda a força dos seus braços para não ser arrastado.

            No meio do rio, a água chegava-lhe ao peito. O ramo a que se agarrara estalou e dobrou-se, enquanto ele voltava a custo para a margem. Saiu da água com a roupa encharcada colada às pernas e as botas cheias de água.

- Vou passar - disse a Jock, subindo novamente para ojipe.

- Estás doido! - explodiu Jock. - Eu não me meto ali.

            - Muito bem! Como queiras! Tens dois segundos para saíres - explodiu Daniel, engatando a tracção às quatro rodas e a primeira velocidade.

            - Pronto! Vamos lá afogar-nos! - rendeu-se Jock.

Daniel desceu a margem ingreme com o Landcruiser em direcção ao vau e às águas castanhas. Prosseguiu numa velocidade regular, e ao fim de uns metros a água já cobria as rodas.

            Ouviu-se o silvo do vapor quando a água entrou em contacto com o motor, inundando o metal quente do bloco. Os faróis foram obscurecidos quando ficaram debaixo de água. Um motor a gasolina teria ficado inundado e deixaria de funcionar, mas o grande motor diesel propulsionou-os impassivelmente na cheia. A água começou a entrar pelas portas. Tinhamjá os pés metidos em água até aos tornozelos.

- És mesmo doido! - gritou Jock, levantando os pés e apoiando-os no tablier.

            Agora, o Landcruiser começava a falhar, o ar retido no chassis fê-lo flutuar e as rodas ficaram sem tracção no fundo pedregoso do rio; foram arrastados pela corrente. De repente, Daniel sentiu as rodas agarrarem de novo o chão. A corrente arrastara-os para uma curva do rio, empurrando-os para a outra margem. O motor continuava a trabalhar. O colector de entrada de ar e o filtro tinham sido modificados e ficavam à altura do tecto da cabina. Daniel equipara assim o veículo para as emergências.

O Landcruiser derrapou e, patinando e cuspindo água, começou a subir o talude da margem, com o motor a roncar ferozmente, abrindo sulcos profundos na terra mole, até que, de repente, os pneus agarraram melhor e arrancaram o jipe da margem. A água escorria do chassis, mas eles conseguiram entrar na floresta com o motor a roncar.

            - Estou vivo - murmurou Jock. - Aleluia!

            Daniel virou de modo a avançar paralelamente à margem do rio, ziguezagueando com o Landcruiser por entre os troncos até saltarem sobre a berma e entrarem na estrada. Depois, engrenou outra mudança, acelerou e avançaram a toda a velocidade em direcção à encruzilhada de Mana Pools.

- Quantas travessias como esta é que ainda temos de fazer? - perguntou Jock, inquieto.

            Daniel sorriu pela primeira vez desde a morte de Johnny, mas era um sorriso amargo.

- Só umas quatro ou cinco - respondeu. - Aqui está a próxima. Põe o colete salva-vidas.

- Não aguento outra como aquela. - Jock voltou-se para ele, com a cara muito pálida à luz do painel de instrumentos. - Vai ser canja - garantiu Daniel quando os faróis iluminaram o vau.

Em África, uma cheia-relâmpago desaparece tão depressa como apareceu. A chuva parara havia quase três horas, e a encosta do vale estava quase seca. Desta vez, o Landcruiser fez a travessia com facilidade.

            Mas já eram quase 11 e 30 quando Daniel estacionou ojipe em frente da porta principal do bungalow do chefe dos guardas de Mana Pools. Jock inclinou-se e carregou na buzina, num longo toque de urgência, e Daniel bateu com força à porta da casa.

            O chefe dos guardas, Isaac Mtwetwe, veio abrir a porta a correr, em cuecas.

            - Quem é? - gritou em língua xona.

            - Isaac? Sou eu - respondeu Daniel.

            - Danny? - Isaac protegeu os olhos do brilho intenso dos faróis do jipe. - O que foi? O que é que aconteceu?

            - Um bando de caçadores furtivos atacou o acampamento de Chiwewe. Mataram Johnny Nzou e a familia e todo o pessoal do acampamento.

            - Meu Deus! - Isaac despertou imediatamente.

- Palpita-me que vieram da Zâmbia - continuou Daniel. -

Calculo que devem estar a regressar para atravessarem o Zambeze cerca de trinta quilómetros a jusante daqui. Tens de levar para lá a tua equipa anti-caçadores furtivos para os apanhares.

            Daniel comunicou-lhe rapidamente todas as informações que recolhera, a estimativa do número de homens do bando, a hora a que tinham saído de Chiwewe, a direcção provável e a velocidade da sua marcha. Depois, perguntou:

            - Os camiões-frigoríficos de Chiwewe passaram por aqui de regresso a Harare?

- Há cerca de uma hora - confirmou Isaac. - Devem ter conseguido passar antes da cheia. Vinha um civil com eles, um chinês num Mercedes azul. Ia a reboque de um dos camiões. O Mercedes não andava na lama. - Isaac vestia-se enquanto falava. - E o que é que tu vais fazer, Danny? Se vieres connosco, podes ajudar-nos a caçar esses porcos.

            Daniel abanou a cabeça.

            - Vou atrás desse Mercedes.

Isaac, que estava a apertar as botas, interrompeu-se.

            - Não percebo.

            - Agora não posso explicar, mas tem a ver com a morte de Johnny. Podes crer. - Daniel não podia contar a Isaac a história do marfim e do embaixador Ning enquanto não tivesse provas. - Podes crer - repetiu, e Isaac fez um aceno com a cabeça.

            - Está certo, Danny. Eu apanho esses porcos antes de eles atravessarem o rio - prometeu.

            Daniel separou-se de Isaac nas margens do Zambeze, deixando-o aí a reunir a sua equipa de guardas especializados no combate à caça furtiva e a embarcar com eles numa lancha de assalto de seis metros.

Daniel dirigiu-se para oeste, na escuridão, seguindo a

pista paralela ao Zambeze. Ali, os trilhos dos pneus do comboio haviam deixado valas fundas na terra lamacenta. à luz dos faróis, os trilhos eram tão frescos que pareciam ter sido feitos minutos antes.

            Percebia-se que um dos camiões continuava a rebocar o Mercedes. Daniel distinguia as marcas deixadas pela corda de reboque a arrastar na terra. O reboque ia atrasá-los muito, pensou, satisfeito. Olhava atentamente para a frente, esperando ver a luz avermelhada dos farolins traseiros do Mercedes, e estendeu a mão para tocar na AK 47, entalada entre os bancos.

Jock reparou no gesto e advertiu-o em voz baixa:

- Não faças parvoiçes, Danny. Não há provas. Não podes

rebentar com a cabeça do embaixador com base numa suspeita. Acalma-te.

Afinal, estavam mais distantes do comboio do que Daniel

esperara. Passava da meia-noite quando cruzaram a Grande Estrada do Norte, a estrada que atravessava o Zambeze na ponte de Chirundu, a norte, e que para sul serpenteava pelo vale até Harare, a capital do Zimbabwé.

Daniel parou o Landcruser na berma do cruzamento. Provavelmente, o comboio tinha virado para sul, para

Harare. Não iam certamente tentar passar pelos postos alfandegários do Zimbabwé e da Zâmbia com dois enormes camiões governamentais carregados de marfim.

- Tira a lanterna do compartimento das ferramentas -

pediu Daniel.

            Obedientemente, Jock enfiou a mão no compartimento das ferramentas e tirou para fora a grande Maglite. Daniel

arrancou-a da mão dele e saltou do jipe. Os pneus lamacentos dos camiões e do Mercedes tinham deixado um rasto visível no alcatrão da estrada, confirmando a dedução de Daniel. O rasto desaparecia gradualmente à medida que os últimos restos de lama dos pneus eram eliminados do rodado, mas durante perto de um quilómetro e meio a estrada estava juncada de pedaços de lama moldados com a forma do rodado dos pneus.

            - Para sul - disse Daniel, sentando-se novamente ao volante. - Estão a dirigir-se para sul e vamos apanhá-los.

Começou a puxar pelo motor do Landcruiser, engatando a quarta. O ponteiro do velocímetro chegou quase aos cento e quarenta quilómetros por hora.

            - Não podem estar muito longe - disse Daniel entredentes. No momento em que falava, viu a luz dos faróis à frente deles. - Lá estão eles.

Tocou novamente na coronha da AK 47, e Jock mirou-o, inquieto.

            As luzes já estavam mais perto e Daniel acendeu os máximos do Landcruiser, mas depois soltou uma exclamação de desapontamento. Esperara avistar a grande mole branca de neve dos camiões-frigoríficos, mas apenas viu um veículo desconhecido estacionado à beira da estrada e voltado para norte, para a ponte de Chirundu. Era um gigantesco camião de mudanças, de vinte toneladas, que rebocava um atrelado de oito rodas igualmente monstruoso, tapado com uma cobertura resistente de nylon verde.

Os três homens que estavam a prender as cordas que fixavam a cobertura olharam para o Landcruiser, que se aproximava.

            Dois dos homens eram africanos, vestidos com fatos-macaco desbotados. O terceiro estava mais bem-vestido, com um fato de safari de caqui. Também tinha a pele escura, era barbudo e trazia um chapéu branco. Quando se aproximaram. Daniel verificou que era um turbante e que o homem era um sikh.

Quando Daniel estacionou o jipe junto do atrelado, o sikh deu uma ordem brusca aos dois africanos e correram os três para o camião.

- Espere lá! - Daniel saltou do Landcruiser. - Quero falar consigo.

O sikh já estava sentado ao volante do camião. -Sim, o que é?

- Desculpe maçá-lo - disse Daniel. - Passou por dois grandes camiões brancos na estrada? - O sikh ficou a olhar para ele, sem responder, e Daniel acrescentou: - Dois camiões muito grandes, não podia deixar de os ver. Viajavam juntos, em comboio. Talvez viesse também um Mercedes azul com eles.

O sikh meteu a cabeça para dentro e falou com os dois africanos num dialecto que Daniel não entendeu. Enquanto aguardava impacientemente a resposta, Daniel reparou no logotipo da empresa, pintado na porta da frente do camião.

CHETTI SINUH LIMITADA, IMPORT-EXPORT

CAIXA POSTAL 52, LILONGWÉ, MALAWI

- Estou com muita pressa, Mr. Singh - gritou Daniel. - Por favor, diga-me se viu os camiões.

            O sikh meteu a cabeça pela janela, alarmado.

            - Como é que sabe o meu nome?

Daniel apontou para o logotipo pintado na porta.

            - Ah! Muito observador! O sikh parecia aliviado. - Sim, os meus homens lembram-se de que dois camiões passaram por nós há meia hora. Iam para sul. Não havia Mercedes com eles. Nenhum Mercedes, tenho a certeza. - Ligou o motor do camião MAC. - Feliz por tê-lo ajudado, senhor. Estou também com uma pressa terrível. Adeus, amigo. - Acenou com a mão e o grande camião arrancou.

Os modos descontraídos do homem pareceram-lhe fingidos.

Quando o pesado camião passou por ele a roncar, Daniel agarrou-se a uma das tiras de aço e saltou para o estribo metálico do fundo do atrelado, que parecia estar carregado de sacas de serapilheira. Viu numa das sacas uma inscrição estampada que dizia "Peixe seco. Produto de..." O nome do país de origem estava esborratado, mas o olfacto de Daniel confirmou o conteúdo das sacas. O cheiro intenso a peixe era inconfundível.

O camião começava a ganhar velocidade e Daniel saltou para o chão, dando uma corrida para se equilibrar. Ficou a olhar para os faróis, que desapareciam na escuridão. O seu instinto dizia-lhe que não era só peixe que estava debaixo da lona mal-cheirosa.

- Chetti Singh - repetiu o nome para o fixar firmemente na memória.

            - O que foi? O que é que ele disse? - quis saber Jock.

- Viu os camiões-frigoríficos passar para sul há cerca de meia hora; e nós vamos atrás deles.

            A estrada começou a subir os montes que levavam ao planalto central, a grande altitude. A cara de Jock, à luz do painel de instrumentos, tinha uma expressão tensa e nervosa. De vez em quando, olhava para Daniel como se fosse protestar, mas depois parecia pensar melhor e ficava calado.

            A estrada descrevia uma série de curvas suaves, acompanhando o declive dos montes. Quando saíram da curva seguinte, um dos camiões-frigoríficos brancos apareceu-lhes repentinamente à frente. Deslocava-se a metade da velocidade do Landcruiser e vomitava nuvens de fumo diesel pelos escapes, subindo a encosta em segunda.

Daniel tocou a buzina para obrigar o camião a encostar, mas este não se desviou.

            - Encosta, bandido, assassino - rosnou.

            - Calma, Daniel - implorou Jock.

            Daniel atirou o Landcruiser para a berma oposta, em posição de ultrapassagem, e tocou novamente a buzina. Mas o condutor estava a bloquear deliberadamente a estrada, fazendo as curvas fora de mão e encostando à direita quando Daniel tentava ultrapassá-lo por esse lado.

- Sabe que somos nós - disse Daniel a Jock, furioso. - Sabe que fomos a Chiwewe e que vimos aquele banho de sangue. Está a tentar empatar-nos.

- Acalma-te, Daniel. Isso são ideias tuas. Pode estar a fazer isto por qualquer outra razão. Não me quero meter nesta maluquice.

            - Agora já é tarde demais, amigo. Quer queiras, quer não, já estás metido nisto.

            Daniel virou bruscamente o Landcruiser para o lado oposto Dessa vez, a reacção do condutor não foi suficientemente rápida e não conseguiu atravessar-se na estrada para lhe bloquear a passagem. Daniel reduziu e carregou a fundo no acelerador. O Landcruiser deu um salto para diante e contornou a traseira do camião. Daniel encostou o jipe à altura da cabina do camião no espaço estreito entre a caixa de aço e a beira da estrada. As rodas do lado de fora entraram na berma, levantando uma nuvem de cascalho; estavam tão próximos da beira do precipício que o cascalho caía lá em baixo, no vale do Zambeze.

- Vais matar-nos a ambos - gritou Jock, encolerizado.

            O Landcruiser bateu num dos marcos de cimento da estrada que delimitavam o precipício. arrancando-o e ziguezagueando perigosamente. mas Daniel aguentou ojipe e continuou a ganhar terreno junto à cabina do monstruoso camião.

De repente, o condutor virou bruscamente o volante e, antes que Daniel pudesse reagir, o camião bateu de lado no Landcruiser. O peso e o impulso do grande camião atiraram novamente o veículo mais pequeno para a berma.

            Daniel travou a fundo e, enquanto o camião prosseguia, o Landcruiser parou com uma das rodas suspensa sobre o declive. Daniel engrenou a marcha atrás e ojipe obedeceu, evitando a queda.

- Muito bem - rosnou ele para Jock. - Ainda queres mais provas? Foi uma tentativa deliberada para dar cabo de nós.

            O camião desaparecera na curva seguinte da estrada, e Daniel lançou-se em sua perseguição. Quando saíram da curva, o camião ia só umas centenas de metros mais adiante. As portas duplas da traseira estavam fechadas com uma pesada barra de ferro vertical, mas uma escada de aço montada ao lado dava acesso ao tecto plano, onde as ventoinhas do equipamento de refrigeração estavam alojadas em cápsulas de fibra de vidro.

            - Vou saltar para aquela escada - disse Daniel a Jock. ­Assim que eu sair, vens para aqui e agarras no volante.

- Nada disso, amigo. Estou farto. Não contes comigo.

- óptimo! Não agarres no volante. Deixa-o despenhar-se

contigo lá dentro.

            Daniel estava a avaliar a velocidade e a distância entre os dois veículos. Abriu a porta do seu lado. A mola da porta fora retirada para facilitar as filmagens, e a porta abriu-se completamente para trás.

            Guiando só com uma das mãos, Daniel debruçou-se, com o pé esquerdo no acelerador e o direito pronto para o salto. Estava a metro e meio do lado do camião, mas nesse momento o condutor guinou novamente para cima do Landcruiser. Quando os dois veículos ficaram encostados, Daniel gritou a Jock:

            - Guia tu, estás por tua conta!

            Depois, saltou, agarrando-se a um dos degraus da escada lateral, e içou o corpo para não ficar entalado entre os veículos quando chocassem novamente. Viu Jock inclinar-se e agarrar no volante. Depois, o Landcruiser guinou e ficou para trás.

            Daniel trepou pelos degraus estreitos de aço até chegar ao tecto do camião. A caixa das ventoinhas ficava no centro do tecto e havia um varão de segurança baixo. De gatas, Daniel avançou lentamente. Levou quase cinco minutos a chegar à parte da frente, por cima da cabina do condutor. Tinha quase a certeza de que este não o tinha visto subir para o camião e de que ele também devia estar certo de que o Landcruiser desistira da perseguição, pois já não se viam na estrada os faróis do jipe.

            Daniel rastejou cautelosamente pela cabina, sobre o lugar do passageiro, e espreitou. Abaixo da porta havia um estribo corrido e ele podia agarrar-se ao retrovisor exterior. Esperou até que a estrada descrevesse uma curva para a esquerda para ajudá-lo a manter-se de encontro à porta. Deslizou pelo lado e agarrou-se ao retrovisor. Por instantes, ficou com os pés no ar, mas depois caiu no largo estribo corrido de aço e firmou-se nele. Espreitou pelo vidro.

            O condutor, que era Gomo, virou-se para ele, assombrado, e gritou qualquer coisa. Tentou debruçar-se para aquele lado para trancar a porta, mas tinha de transpor toda a largura do banco e o camião começou a guinar, obrigando-o a agarrar-se novamente ao volante.

            Daniel abriu a porta com um puxão e atirou-se para dentro da cabina. Gomo esmurrou-o, paralisando-o por instantes, mas depois ele agarrou no travão de mão e puxou-o com toda a força.

As gigantescas rodas do camião travaram todas ao mesmo tempo, chiando, no meio de uma nuvem de fumo azul e de um cheiro a borracha queimada; o camião derrapou e guinou na estrada. Gomo foi projectado para a frente, batendo com o peito no volante e com a cabeça no pára-brisas.

            A guinada seguinte do veículo projectou-o novamente para o assento. Daniel debruçou-se por cima dele e agarrou-se ao volante, endireitando o camião até o veículo parar. Desligou a ignição e estendeu a mão para abrir a porta do lado do condutor. Empurrou Gomo brutalmente para fora do camião. O guarda caiu de uma altura de perto de dois metros e ficou de joelhos no chão. Daniel saltou para o chão e baixou-se para o agarrar pelo colarinho do uniforme.

            - Ora bem. - Torceu o colarinho à maneira de um garrote. - Mataste Johnny Nzou e a família dele.

- Por favor, doutor, não percebo. Porque é que está a fazer isto? - A voz de Gomo era um gemido ofegante, pois Daniel estava a estrangulá-lo.

            - Mentiroso miserável

            Gomo enfiou a mão debaixo da camisa. Trazia uma faca de esfolador à cinta numa bainha. Daniel ouviu o fecho a abrir e entreviu o brilho da lâmina. Largou o colarinho de Gomo e deu um salto para trás quando o africano levantou a faca. à justa, porque a lâmina cortou uma prega solta da camisa dele comQ se fosse uma lâmina de barbear.

            - Eu mato-o - avisou Gomo, agitando a lâmina brilhante na posição típica do faquista em guarda.

Fez uma finta e desferiu um golpe para o lado; Daniel pulou para trás, enquanto a lâmina lhe passava a dois centímetros do estômago.

Gomo alterou o ângulo dos seus ataques, mantendo sempre a faca à distância para Daniel não lhe poder agarrar no pulso. Daniel recuou e fingiu que tropeçava no solo irregular. Caiu sobre um joelho e pôs a mão no chão para se equilibrar.

            - Iaahh!

            Gomo viu a sua oportunidade e atacou a matar, mas Daniel pegou numa mão-cheia de cascalho e atirou-lho à cara. Era um velho truque, mas Gomo deixou-se enganar. O cascalho acertou-lhe nos olhos e ele levantou instintivamente as mãos para proteger a cara. Daniel agarrou-lhe na mão que segurava na faca e puxou por ela. Agora estavam frente a frente, quase encostados, com a faca erguida acima das cabeças e os braços estendidos. Daniel deu uma cabeçada na cara de Gomo, acertando-lhe na cana do nariz. O guarda ofegou e desequilibrou-se, tombando para trás. Daniel agarrou-lhe no braço direito e bateu com ele com toda a força de encontro ao lado do camião. A faca saltou dos dedos de Gomo e Daniel passou-lhe uma rasteira e empurrou-o para trás, atirando-o para a valeta.

Antes de Gomo recuperar o equilíbrio, Daniel agarrou na faca e encostou-lha à garganta, apoiando a ponta da lâmina debaixo do queixo e picando-lhe a pele macia do pescoço.

- Muito bem. Agora, levanta-te devagar. – Gomo levantou-se. Daniel empurrou-o de encontro ao lado do camião, com a faca encostada à garganta. - Tens o marfim no camião ­acusou. - Vamos ver isso.

            -   Não - murmurou Gomo. - Não há marfim.

-   Onde é que estão as chaves da caixa de carga? - perguntou Daniel.

- Na minha algibeira.

            - Dá-mas.

            Gomo enfiou a mão no bolso e tirou as chaves. Empurrando-o para a frente, com a faca encostada às costas, Daniel obrigou Gomo a ir até às traseiras do camião.

-   Abre - ordenou. Gomo rodou a chave e o mecanismo abriu-se facilmente. - Muito bem, agora tira as algemas do cinto - continuou. As algemas faziam parte do equipamento dos guardas. - Prende uma algema ao teu braço direito e dá-me a chave.

            Com as algemas a baloiçar num dos pulsos, Gomo entregou-lhe a chave por cima do ombro. Daniel guardou a chave na algibeira e prendeu a segunda algema ao tirante de aço do

camião. Assim, Gomo estava preso ao chassis do camião, e Daniel deixou-o ali.

            Rodou o fecho das portas duplas das traseiras do camião e abriu-as. Uma corrente de ar gelada saiu do interior do camião-frigorífico e sentiu-se o cheiro a ranço da carne de elefante. Daniel saltou para as traseiras do veículo e procurou o interruptor. A lâmpada comprida do tecto iluminou o interior da caixa de carga com uma luz fria e azulada. Havia toneladas de carne, tão compactas que Daniel só via a primeira fila de carcaças penduradas. Ajoelhou-se e espreitou para o espaço estreito que ficava por debaixo das carcaças. O pavimento de aço tinha charcos de sangue, mas não se via mais nada.

Daniel ficou desanimado. Estava à espera de ver pilhas de presas arrumadas por debaixo das carcaças penduradas. Levantou-se e abriu caminho para entrar no compartimento. O frio cortou-lhe a respiração, e o contacto com a carne crua congelada, ao roçar nas carcaças, enojava-o, mas mesmo assim penetrou mais no compartimento.

            Desistiu ao fim de dez minutos. Não havia lugar onde pudessem ter escondido uma carga tão volumosa. Saltou para o chão e rastejou por debaixo do chassis do camião, procurando um compartimento secreto. Quando saiu novamente de debaixo do veículo, Gomo bradou triunfalmente:

            -           Não há marfim, já disse, não há marfim. Você assaltou um camião governamental, bateu-me, agora vai ter muitos sarilhos, seu branco de uma figa.

            Daniel agarrou-lhe no ombro e voltou-lhe a cara para a parede lateral do camião. Com um movimento hábil, soltou a algema do chassis, torceu os pulsos de Gomo e prendeu-os atrás das costas.

            -           Johnny Nzou era meu amigo - disse baixinho. - Mataste a família dele. Mataste o Johnny...

            -           Não, não fui eu. Eu não sei nada. - Gomo gritou quando Daniel o picou com a faca.

            -           Anda, Gomo. Basta picar com mais força, assim.

            Foi só um arranhão, mas Gomo gritou de terror.

            -           Pare! - gemeu. - Eu conto tudo. Pronto, está bem, eu conto tudo o que sei. Pare, por favor, pare!

            -           Muito bem - incitou Daniel. - Então conta-me tudo o que sabes de Chetti Singh...

            Era um tiro no escuro, mas Gomo reagiu.

            -           Sim, conto-lhe tudo, mas não me corte. Por favor, não me corte.

            -           Armstrong! - A voz assustou Daniel. Não ouvira o

Landcruiser aproximar-se, mas Jock estava ali no escuro. ­Larga-o, Armstrong.

- Jock falava em voz dura e decidida.

            -           Não te metas nisto - advertiu bruscamente Daniel.

            Mas Jock aproximou-se, e Daniel, surpreendido, viu que ele trazia a AK47.

            - Deixa-o em paz - ordenou Jock.

- Mas este homem é um assassino e um criminoso! - protestou Daniel.

- Não tens provas. Não encontraste o marfim - disse-lhe

Jock.

            - Mas ele estava a confessar - exclamou Daniel, furioso. - Não te metas nisto

            - Estavas a torturá-lo. Claro que estava a confessar. Ele tem direitos e tu tens de os respeitar.

            - Viste o Johnny...

- Também te vi ameaçar este homem. Dá-me as chaves das algemas ou atiro. Daniel percebeu que o outro falava a sério e atirou-lhe relutantemente as chaves. - Muito bem, agora recua - ordenou Jock.

Manteve a arma apontada à barriga de Daniel enquanto abria as algemas.

            - Maldito idiota - praguejou Daniel, frustrado. - Mais um minuto e descobria quem é que matou Johnny e o que é que aconteceu ao marfim.

De novo livre, Gomo recuperara a sua insolência.

- Não disse nada. Não sei nada de Nzou. Estava vivo quando saímos de Chiwewe...

- Muito bem. Podes dizer isso à Polícia - interrompeu

Jock, silenciando Gomo. Vou levar-te para Harare no camião. Vai buscar a minha câmara e o meu saco ao Landcruiser. Estão no banco da frente.

Gomo correu para o local onde o Landcruiser estava estacionado.

- Ouve, Jock. Dá-me só mais cinco minutos – implorou Daniel.

            Porém, Jock abanou a arma na sua direcção:

            - Não quero mais nada contigo, Danny. A primeira coisa que vou fazer quando chegar a Harare é contar tudo à Polícia.

Gomo regressou, com a câmara de video Sony e a mochila de lona de Jock.

            - Entra para o camião - ordenou Jock. Gomo obedeceu e ele voltou-se para Daniel: - Desculpa, Danny, mas daqui em diante estás por tua conta. - Subiu para o lugar do passageiro. - E não tentes novamente deter-nos. - Brandiu a AK47. - Eu sei servir-me disto.

Jock bateu com a porta, e Gomo arrancou com o camião.

Daniel ficou sozinho no escuro, a olhar para a luz vermelha dos farolins traseiros, até o veículo desaparecer numa curva da estrada. Regressou ao local onde Jock deixara o Landcruiser e deixou-se cair pesadamente no banco da frente.

            A raiva sustentou-o durante algum tempo, raiva contra Cheng e os seus cúmplices, contra Gomo e principalmente contra a intervenção de Jock. Mas depois a raiva evaporou-se lentamente e ele começou a aperceber-se de que se tinha metido num grande sarilho. Agira impetuosa e perigosamente. Fizera acusações que não podia provar; causara estragos e atacara um funcionário público.

"Mais uns minutos com Gomo e apanhava-os". Pensou amargamente. "Quase que os apanhei. Johnny."

Não valia a pena perseguir Gomo. Agora. estaria alerta.

E sabe-se lá como, conseguira desenvencilhar-se do marfim. Que podia fazer então? Ning Cheng Gong, claro. Ele era a chave de tudo. Mas a única coisa que o ligava ao crime, agora que o marfim tinha desaparecido, era a nota de Johnny e a pegada que ele deixara na cena do crime.

Mas havia também Chetti Singh. Gomo admitira tacitamente que conhecia o sikh. E havia também o bando de caçadores furtivos. Interrogou-se se Isaac Mtwetwe teria conseguido interceptar o bando na travessia do Zambeze e fazer prisioneiros. Isaac não teria os escrúpulos de Jock. Saberia extrair informações de um caçador furtivo capturado.

            "Telefono para Mana Pools do posto da Polícia de Chirundu", decidiu, e pôs o Landcruiser a trabalhar. Fez uma inversão de marcha e regressou à escarpa. Tinha de fazer uma declaração à Polícia e assegurar-se de que a investigação começava o mais depressa possível. A Polícia devia ser alertada para a nota de Johnny e as pegadas ensanguentadas.

Eram quase 4 da manhã quando chegou à ponte de Chirundu.

Estava um sargento de serviço na esquadra, sentado à secretária, com a cabeça apoiada nos braços cruzados em cima do tampo. Dormia tão profundamente que Daniel teve de o abanar com força, e quando ele levantou finalmente a cabeça, fitou Daniel com um olhar de incompreensão.

- Quero apresentar queixa por um homicídio, homicídio múltiplo.

            Daniel iniciou o processo laborioso de accionar a pesada

máquina oficial.

            Não havia máquina de escrever naquela esquadra remota. O sargento tomou nota da declaração de Daniel numa caligrafia hesitante.

- Bolas, sargento. Enquanto estamos aqui sentados, os assassinos escapam-se.

O sargento continuou placidamente o seu trabalho, e Daniel ia corrigindo a ortografia dele, impaciente e exasperado.

            No entanto, o vagar do ditado permitiu-lhe compor cuidadosamente os termos da sua declaração. Anotou o horário completo dos acontecimentos da véspera: a hora a que saíra de Chiwewe, a hora a que se cruzara com os camiões-frigoríficos na estrada. Reproduziu a sua conversa com o embaixador Ning e descreveu em pormenor as calças de algodão azul e os sapatos com o desenho de escamas de peixe na sola. Depois, falou da carnificina que encontrara em Chiwewe. E não se esqueceu de mencionar a nota que estava na mão de Johnny e a pegada ensanguentada no chão do escritório com o motivo em forma de escamas de peixe.

Descreveu com o maior cuidado a sua perseguição ao Mercedes e aos camiões-frigoríficos.

- Segui o comboio para perguntar se sabiam alguma coisa do marfim roubado - ditou. - Embora não conseguisse apanhar o embaixador Ning nem o camião da frente, falei com o guarda Gomo, que conduzia o segundo camião-frigorífico. Negou ter conhecimento dos acontecimentos e deixou-me inspeccionar o conteúdo do camião. Não encontrei o marfim. Decidi então que a minha obrigação era contactar a Polícia e dar parte da morte do chefe dos guardas de Chiwewe, da sua família e do pessoal e do incêndio e da destruição dos edifícios e de outros bens.

Passava muito da alvorada quando Daniel assinou finalmente a declaração escrita à mão, e só então é que o sargento telefonou para a sede da Judiciária de Harare. Ao fim de uma longa discussão telefónica, ficou decidido que o sargento iria para o acampamento de Chiwewe no Land-Rover da esquadra e que uma equipa de inspectores sairia de avião de Harare, aterrando no aeródromo do parque.

- Quer que eu vá consigo a Chiwewe? - perguntou Daniel quando o sargento começou finalmente os preparativos para a sua expedição ao acampamento.

            - Deixe uma morada e um número de telefone onde possamos contactá-lo se precisarmos de si - resolveu finalmente o sargento, após muita meditação.

            Daniel ficou aliviado por ser dispensado. Desde a chegada ao posto de Chirundu, tivera muitas horas para fazer os seus planos. Se Isaac Mtwetwe tivesse conseguido capturar algum dos caçadores furtivos, seria essa a via mais rápida para apanhar a pista de Ning Cheng Gong, mas era preciso falar com Isaac antes de ele entregar os prisioneiros à Polícia.

-   Posso usar o telefone? - perguntou a um cabo assim que o sargento e o seu grupo de polícias armados partiram para Chiwewe no Land-Rover verde.

            O cabo apontou para o telefone.

            Isaac Mtwetwe atendeu imediatamente.

            -   Isaac - exclamou Daniel com alívio. - Quando é que voltaste?

- Acabo de entrar no meu escritório - respondeu Isaac. ­Chegámos há dez minutos. Tenho um homem ferido. Preciso de o levar ao hospital.

            - Então, interceptaste-os?

-   Interceptei. Descobrimos onde é que eles tinham guardado as pirogas para atravessar o rio e esperámos pela volta deles. Como tu disseste, Danny, era um grande bando de homens maus.

- Fizeste algum prisioneiro, Isaac? - perguntou

ansiosamente Daniel.

            -           Não houve prisioneiros, Danny - respondeu Isaac. - Morreram oito, incluindo o chefe, Sali, mas o resto do bando foi comido pelos crocodilos ou escapou para a Zâmbia.

            - E o marfim, Isaac? Levavam presas?

            -           Sim, todos eles transportavam presas, que desapareceram no rio quando as pirogas se afundaram.

            -           Raios os partam - murmurou Daniel. Agora ia ser muito mais dificil convencer as autoridades de que, na maior parte o marfim fora transportado para fora de Chiwewe nos camiões-frigoríficos. A pista de Ning Cheng Gong desvanecia-se rapidamente a cada hora que passava.

-           Vai uma unidade da Polícia a caminho do acampamento de Chiwewe.

            - Está bem, Danny. Vou ter com eles assim que tiver tratado de tudo para mandar o meu guarda de avião para Harare.

- Ouve, Isaac. Eu vou seguir a única pista que tenho.

- Cuidado, Danny. Olha que esta gente não é para brincadeiras. Pode acontecer-te alguma coisa. Para onde é que vais?

            - Depois falamos, Isaac.

            Daniel disfarçou para não responder à pergunta. Pousou o auscultador e foi até ao Landcruiser. Sabia que tinha pouco tempo. A Polícia do Zimbabwé ia querer interrogá-lo novamente. Só havia uma coisa a fazer: sair do país. Resolveu ir para a Zâmbia, para Lusaca, onde tinha amigos.

 

DANIEL hospedou-se no Ridgeway Hotel de Lusaca.

            Deram-lhe um quarto com vista para a piscina, e ele foi tomar um duche para se livrar da porcaria e do cansaço das últimas vinte e quatro horas. Depois, telefonou para o Alto-Comissariado Britânico.

- Posso falar com Mr. Michael Hargreave, por favor?

- Vou ligar - respondeu a telefonista.

            - Michael Hargreave.

            - Mike, é o Danny Armstrong.

            - Que surpresa! Onde é que estás, Danny?

- Aqui, em Lusaca. Posso falar contigo? Preciso de um favor.

- Porque é que não vens cá hoje jantar? A Wendy adorava. Michael morava numa das residências diplomáticas de Nobs Hill, muito perto da sede do Governo, que, tal como todas as outras casas da rua, era fortificada. Os muros do jardim tinham três metros de altura e estavam rematados com rolos de arame farpado, e o portão era guardado por dois malondo, ou guardas-nocturnos.

Michael Hargreave acalmou o seu casal de cães de guarda Rottweiler e cumprimentou entusiasticamente Daniel.

- Vejo que não queres correr riscos, Michael – comentou Daniel, designando com um gesto as medidas de segurança.

            - Só nesta rua há em média um assalto por semana, apesar dos cães - replicou Michael com uma careta.

            Levou Daniel para dentro de casa, onde Wendy veio cumprimentá-lo. Wendy tinha um lindo cabelo louro e uma sedosa pele de inglesa.

- Já me tinha esquecido de que ainda és mais bonito em carne e osso do que na televisão - disse ela, sorrindo.

            Michael Hargreave era um agente do MIS, mas parecia mais um professor de Oxford do que um espião. Ele e Daniel haviam-se conhecido na Rodésia perto do fim da guerra. A princípio, a relação entre ambos fora indiferente e profissional, mas o respeito e a confiança mútuos tinham-na transformado numa amizade que resistira à passagem dos anos.

Michael serviu-lhe um whisky e falaram dos velhos tempos até Wendy os chamar para jantar. A comida caseira era sempre um regalo para Daniel, e Wendy estava radiante com o apetite dele. Quando chegaram ao brandy, Michael perguntou:

- São dois favores, para dizer a verdade. - Uma inflação galopante! Diz lá, rapaz.

- Podias mandar as cassetes dos meus filmes para Londres

na mala diplomática? Para mim, valem mais que a própria vida e não me apetece confiá-las ao correio da Zâmbia.

            - Isso é fácil - assentiu Michael. - Mando-as na mala de amanhã. E o outro favor?

- Preciso de informações sobre um homem chamado Ning Cheng Gong. É o embaixador de Taiwan em Harare.

- Com certeza que temos um dossier acerca dele. É amigo

ou inimigo, Danny?

            - Não sei bem, pelo menos por enquanto.

            - Então, não me digas nada. - Michael suspirou e empurrou a garrafa do brandy na direcção de Daniel. - Amanhã, antes do meio-dia, já devo ter qualquer coisa para te dar. Queres que te mande ao hotel?

            - Agradeço. Fico a dever-te um grande favor.

            - Espero que não te esqueças disso, Danny!

            Foi um enorme alívio para Daniel dar destino às cassetes gravadas por Jock. Representavam um ano de trabalho árduo e eram toda a sua fortuna. Ele tinha tanta fé no novo projecto que, contrariamente ao habitual, decidira dispensar financiamentos exteriores. Investira tudo o que possuía

naquele projecto arriscado.

As cassetes de Daniel seguiriam na mala diplomática do

dia seguinte, no voo da British Airways, e estariam em Londres dentro de doze horas. Daniel remetera-as para os Castle Studios, onde ficariam a salvo até ele poder começar o trabalho de montagem.

            Preferindo não os confiar a um mensageiro, Michael Hargreave foi entregar pessoalmente a Daniel os documentos com as informações sobre Ning Cheng Gong.

            - Não li tudo - comentou. - Só o suficiente para perceber que a família Ning não é para brincadeiras. Cuidado, Daniel, olha que é gente muito influente. - Entregou-lhe o envelope fechado - So ponho uma condição. Assim que leres isto, queimas tudo. Dás-me a tua palavra?

Danny assentiu com um aceno de cabeça e depois levou o

envelope para o seu quarto. Mandou vir um bule de chá e, quando o vieram trazer, fechou a porta à chave e deitou-se em cima da cama. O documento tinha onze páginas, todas elas fascinantes. Johnny Nzou só lhe tinha dado uma pálida ideia da riqueza e da importância da família Ning. Ning Heng H'Sui era o patriarca. Os bens que detinha no estrangeiro eram de ordem tão diversa que o autor do relatório confessava laconicamente no fim da enumeração: "Lista de bens provavelmente incompleta."

            Analisando os dados, Daniel detectou uma ligeira alteração do tipo de investimentos a partir da altura em que Ning Cheng Gong fora nomeado para o seu cargo em áfrica. Embora, na sua maior parte os interesses da família Ning continuassem centrados no Pacífico, os investimentos em empresas sediadas em África haviam aumentado de zero a doze por cento em seis anos.

            Daniel leu que Ning Cheng Gong era casado com uma rapariga chinesa de outra família taiwanesa muito rica. O casamento fora combinado pelas respectivas famílias. Os interesses de Cheng eram a música e o teatro orientais e coleccionar arte oriental, especialmente objectos de jade e marfim. Era perito em artes marciais. Fumava pouco e só bebia em festas. Sugeria-se no relatório que a única fraqueza que poderia ser usada para pressioná-lo era que Ning Cheng Gong frequentava regularmente as casas de passe mais caras de Taipé e que as suas preferências sexuais pareciam ser do género sádico. Em 1987, uma rapariga tinha morrido durante uma das suas visitas, mas era óbvio que a família conseguira abafar o escândalo, porque Cheng nunca fora acusado de nada.

            "Mike tinha razão", reconheceu Daniel. "É uma gente muito influente. O melhor é dar um passo de cada vez e com cuidado. A começar por Chetti Singh, em Lilongwé. Talvez ele seja a chave disto tudo."

NA MANHÃ seguinte, Daniel dirigiu-se para leste, para a

fronteira com o Malawi. Ao nascer do Sol, já percorrera perto de cento e cinquenta quilómetros, e continuou a viagem durante quase todo o dia, só parando para comer à beira da estrada.

Chegou à fronteira na manhã seguinte, e quando entrou no Malawi, ficou mais aliviado. O Malawi tinha fama de ser a Suíça Africana devido às suas montanhas grandiosas, aos seus lagos e aos seus belos rios. O povo era famoso em toda a África Austral pela sua inteligência e capacidade de adaptação, e a mão-de-obra local tinha muita procura a todos os níveis. O artigo de exportação mais valioso do Malawi era a sua gente.

No regime de despotismo benevolente do seu presidente vitalício, todas as famílias do Malawi eram obrigadas a construir a sua própria casa e a serem auto-suficientes do ponto de vista alimentar. As culturas comerciais eram o algodão e o amendoim. Nas grandes propriedades da região

montanhosa cultivava-se chá de qualidade superior. Quando se aproximou de Lilongwé, Daniel ficou

impressionado com o contraste com outras capitais africanas. Era uma capital recente, moderna, próspera e funcional, construída com a ajuda técnica e financeira da África do Sul.

O Capital Hotel estava bem situado, perto do centro.

Assim que entrou no quarto, Daniel consultou a lista telefónica local, que encontrou na gaveta da mesinha-de-cabeceira.

            Chetti Singh devia ser um homem importante na cidade; tinha muitos números na lista e parecia estar metido em muitos negócios diferentes: Pescas Chetti Singh, Supermercados Chetti Singh, Serrações Chetti Singh, Garagens e Agência Toyota Chetti Singh.

Depois de ter feito a barba e tomado um duche, Daniel

desceu e perguntou ao recepcionista onde é que ficava o supermercado de Chetti Singh, onde pelo menos podia renovar o seu stock de provisões.

- É do outro lado do parque - disse o homem, apontando para lá.

            Aparentando grande despreocupação, Daniel atravessou o parque. Lembrara-se de que devia dar bastante nas vistas, com o seu casaco de safari comprado em Londres e o Landcruiser todo amolgado, com o motivo do braço musculado estampado por todos os lados.

"Esperemos que Chetti Singh não me tenha visto bem, nem a mim nem ao jipe."

O supermercado de Chetti Singh ficava na rua principal,

num edifício novo de quatro andares. As prateleiras estavam bem guarnecidas de mercadoria e o supermercado estava à cunha - tudo coisas pouco vulgares em África.

            Daniel misturou-se com as donas de casa que empurravam os carrinhos de compras pelos corredores, observando o local e o pessoal. Quatro raparigas novas de raça asiática estavam sentadas nas caixas. Eram rápidas e eficientes e bonitas como colibris nos seus saris de cores vivas. Deviam ser as filhas de Chetti Singh, pensou Daniel, notando as parecenças.

No centro da loja, uma senhora asiática de meia-idade

estava sentada num estrado alto, de onde podia observar com o seu olhar de águia todos os cantos do supermercado. Tinha o cabelo grisalho penteado numa trança, e o seu san, apesar de ser de cores menos vivas, era debruado a fio de ouro.

A mulher de Singh, deduziu Daniel. Levou algum tempo a escolher o que queria comprar, mas não viu sinais do sikh de turbante.

Finalmente, a mãe Singh levantou-se do seu assento no estrado, atravessou majestosamente a loja e subiu umas escadas tão bem escondidas num dos cantos da secção alimentar que Daniel não tinha reparado nelas.

            Entrou por uma porta do andar de cima, e Daniel viu que ao lado da porta havia uma janela com um vidro espelhado. Era evidentemente uma janela com vista só de um dos lados. Um observador que estivesse no compartimento teria certamente uma visão clara de todo o andar do supermercado, e Daniel teve a certeza de que era o escritório de Chetti Singh.

            Dirigiu-se a uma das raparigas da caixa e voltou a cara para o lado oposto ao da janela enquanto ela fazia a conta das suas compras.

            CHETTI SINGH estava postado àjanela de observação quando a mulher entrou no escritório. Esta percebeu imediatamente que ele estava perturbado. Puxava pensativamente pela barba e tinha os olhos semicerrados.

- Aquele homem branco. - Acenou na direcção da loja,

debaixo da janela. - Reparaste?

- Sim - disse ela, aproximando-se do marido. – Reparei nele quando entrou.

            - Acho que o conheço - declarou Chetti Singh. - Vi-o há muito pouco tempo, mas foi de noite e não tenho a certeza absoluta.

            Pegou no telefone da secretária e marcou dois números. Continuava junto da janela e viu a sua segunda filha levantar o auscultador do telefone que estava junto da caixa.

            - Querida - disse em língua hindu. - O homem que está na tua caixa está a pagar com cartão de crédito?

            - Sim, pai.

- Toma nota do nome e pergunta-lhe onde é que está hospedado.

            Chetti Singh desligou e viu o homem branco pagar as compras e sair da loja muito carregado. Assim que ele saiu. Chetti Singh telefonou outra vez à filha.

            - Chama-se Armstrong - disse-lhe ela. - D. A. Armstrong. Diz que está no Capital Hotel.

            - óptimo. Chama o Chawe, depressa.

Lá em baixo, a filha rodou no assento e chamou um dos seguranças de uniforme que estava à porta da loja. Estendeu-lhe o auscultador, e quando ele o encostou ao ouvido, Chetti Singh perguntou:

            - Chawe, reconheceste o malungu que acaba de sair? Aquele alto, de cabelo encaracolado?

- Vi-o, mas não o reconheci - respondeu o guarda.

            - Há três noites - recordou Chetti Singh -, na estrada de Chirundu, logo depois de termos carregado o camião, foi aquele homem que parou e que falou connosco.

            Chawe pensou no assunto.

- Talvez - disse finalmente -, mas não tenho a certeza.

            - Vai atrás dele - ordenou Chetti Singh. - Mas não deixes que ele te veja.

Chawe voltou ao fim de meia hora, sucumbido e deprimido. - Nkosi, é o mesmo homem. - Chawe tinha os olhos baixos.

Apesar de ser alto e forte, tinha muito medo de Chetti Singh. Já tinha visto o que acontecia a quem desagradava ao patrão.

- Como é que agora tens a certeza quando há bocado não tinhas?

- Ojipe - explicou Chawe. - Foi até ao jipe e meteu as compras lá dentro. É o mesmo jipe, com um braço de homem pintado de lado.

Chetti Singh acenou com a cabeça num gesto de aprovação. - Fizeste um bom trabalho. Onde é que está o homem agora? - Foi-se embora no jipe - disse Chawe, tentando desculpar-se. Não o podia seguir. Perdão, nkosi.

- Não faz mal. Fizeste um bom trabalho - repetiu Chetti Singh.

- Quem é que está de guarda ao armazém esta noite?

- Sou eu, nkosi... - Chawe riu-se de repente. - E a Nandi, claro.

            - Sim, claro. Eu vou até ao armazém esta noite. Quero ter a certeza de que a Nandi está pronta a fazer o seu trabalho. Penso que esta noite talvez haja problemas e quero que esteja tudo preparado. Ponham a Nandi na jaula pequena. Não admito erros. Percebes, Chawe?

- Sim, nkosi. - Chawe saiu do escritório às arrecuas.

            Depois de ele sair, Chetti Singh ficou a olhar para a porta fechada durante algum tempo antes de pegar novamente no telefone. Em áfrica, fazer directamente uma ligação internacional era sempre uma lotaria, e só ao fim de vinte frustrantes minutos é que conseguiu entrar em contacto com Ning Cheng Gong, na Embaixada da República da China em Harare.

- Não me deve telefonar para este número - disse Ning. - Foi o que combinámos.

            Isto,é urgente absolutamente - respondeu Chetti Singh com firmeza. - É o homem branco, Armstrong, aquele que o senhor disse que tinha encontrado em Chiwewe e que o abordou na estrada e viu certas manchas na sua roupa.

- Está tudo bem, não se preocupe. Ele não sabe nada.

- Então, porque é que ele apareceu aqui em Lilongwé? -

perguntou Chetti Singh. - Ainda quer que eu não me preocupe? Fez-se um silêncio.

- Em Lilongwé? - disse finalmente Cheng. - Ele também o viu nessa noite, na estrada de Chirundu?

-           Sim - respondeu Chetti Singh, cofiando a barba. - Parou e falou comigo. Perguntou se eu não tinha visto os camiões do parque.

            -           Quando é que isso foi? Depois de transferirmos o marfim para si?

            -           Cuidado! - recomendou Chetti Singh em voz brusca. - Sim, depois de nos termos separado e partido cada qual para seu lado. Os meus homens e eu estávamos a prender as lonas quando este homem branco, num jipe, parou

            Cheng interrompeu-o.

            -           Durante quanto tempo é que falou com ele?

            -           Um minuto, não mais do que isso. Depois, ele seguiu para sul, para Harare. Acho que ele ia atrás de si, sem o menor fragmento de dúvida.

            -           Ele apanhou o Gomo e obrigou-o a sair da estrada - informou Cheng em voz agitada. - Revistou o camião do parque. Claro que não encontrou nada.

            -           Está desconfiado, indubitavelmente.

            -           Indubitavelmente - concordou Cheng, sarcástico. - Mas se só falou consigo durante um minuto, não o pode relacionar com isto. Nem sequer sabe quem o senhor é.

            -           O meu nome e a minha morada estão pintados no camião

- disse Chetti Singh.

Cheng ficou novamente silencioso, durante o tempo

necessário para contar devagar até cinco.

            - Não reparei. Foi uma imprudência, meu amigo. Devia ter tapado a inscrição.

            -           Não serve de nada fechar a porta da cavalariça

depois de o cavalo ter fugido - observou Chetti Singh.

            -           Onde é que está... - Cheng interrompeu-se. - Onde é que está a mercadoria? Já a expediu?

            -           Ainda não. Vai sair amanhã.

            -           Vai ter de se encarregar de Armstrong se ele começar a mostrar-se muito curioso.

            -           Sim - disse Chetti Singh. - Encarrego-me dele muito firmemente e resolutamente. E do seu lado? Tratou de tudo? A roupa suja de sangue? Os dois condutores?

- Sim. A roupa foi queimada. Gomo e David infelizmente sofreram acidentes.

            -           As autoridades já o visitaram?

            -           Sim, mas foi uma visita de rotina - garantiu Cheng.

- Não houve surpresas. Não me falaram no seu nome. Mas não pode voltar a telefonar aqui para a embaixada.

            Cheng desligou. Já contava ouvir falar novamente de Daniel Armstrong, mas isso não atenuara o choque causado pela mensagem de Chetti Singh. Resolveu que ia voltar imediatamente para Taipé. Nunca se teria arriscado a participar na aventura de Chiwewe se tencionasse continuar na embaixada. A mulher e a família já tinham partido. Segui-las-ia.

            DANIEL destrancou a porta traseira do Landcruiser e carregou as provisões compradas no supermercado de Chetti Singh. Depois, contornou ojipe e sentou-se ao volante. Enquanto o motor aquecia, consultou a agenda para ver a lista das outras empresas do sikh.

            Com a ajuda de alguns transeuntes prestáveis, descobriu o caminho para a zona industrial da cidade, onde Chetti Singh possuía instalações com uma área de perto de dois hectares.

Num dos terrenos, por detrás de uma vedação de arame farpado, ficavam as oficinas da agência Toyota de Chetti Singh.

Estavam pelo menos uns cem veículos Toyota novos

estacionados em frente da oficina. Era evidente que tinham saído da fábrica e que estavam à espera de transporte. Daniel via através da porta aberta uma equipa de mecânicos no seu trabalho.

Estacionou o Landcruiser no parque e falou com um dos encarregados. A pretexto de combinar uma revisão ao Landcruiser, conseguiu dar uma vista de olhos à oficina e ao escritório. Não havia ali lugar onde pudessem esconder uma remessa de marfim roubado.

            Conversando com o encarregado, ficou a saber que a serração e o armazém da empresa de import-export de Chetti Singh ficavam na outra rua, para onde davam as traseiras da oficina.

            Foi-se embora e deu a volta ao quarteirão. A serração

via-se à distância. Num ramal privado, estava parada uma dúzia de vagões carregados de pilhas de grandes troncos. O guincho das serras circulares ressoava até à ponta da rua.

            Quando passou pelos portões, espreitou para os barracões onde estavam montadas as serras. Os discos rotativos brilhavam como prata e, quando as lâminas mordiam os troncos, faziam saltar jactos de serradura amarela.

O complexo de armazéns ficava do outro lado da rua, à frente da serração. Estava rodeado por uma vedação alta de rede metálica revestida de plástico verde e fixada a postes grossos de betão, guarnecidos de arame farpado. O armazém era constituído por cinco edifícios geminados, com portas de correr semelhantes às dos hangares dos aeroportos. A placa de sinalização colocada junto do portão exibia os seguintes dizeres:

 

         SOCIEDADE COMERCIAL CHETTI SINGH

         DEPÓSITO CENTRAL E ARMAZENAGEM

 

Havia uma cancela e um edifício de tijolo à entrada, e Daniel avistou pelo menos um guarda de uniforme. Quando chegou à altura do último armazém, reparou que as grandes portas de amianto estavam abertas e conseguiu espreitar lá para dentro.

De repente, sentiu o coração a bater mais depressa quando reconheceu o grande camião de mudanças estacionado no meio do armazém. Era o veículo que vira na estrada de Chirundu. O reboque com a cobertura de lona verde continuava atrelado ao camião. Mas não se viam as sacas de peixe seco.

            Voltou para o Capital Hotel, estacionou o Landcruiser no parque e subiu para o quarto. Pôs a água a correr para um banho, o mais quente que era capaz de aguentar, e deixou-se ficar de molho para lavar a poeira e a sujidade das estradas africanas que tinha entranhadas nos poros. Finalmente, saiu do banho e olhou-se gravemente ao espelho embaciado pendurado por cima do lavatório.

            -   Ouve lá, Armstrong, se tivesses juízo, ias à Polícia e contavas-lhes as tuas suspeitas. É o trabalho deles, eles que o façam.

-   Desde quando é que tens juízo,, Armstrong? - respondeu a si mesmo. - Além disso, estamos em áfrica. A Polícia levava três ou quatro dias a levantar o rabo da cadeira, e Mr. Singh tinha mais que tempo para se livrar do marfim que está no armazém.

-   Será que não estás a fazer isto porque te agrada a ideia de uma aventura de capa e espada, de fazer trabalho de detective amador?

            -   Quem, eu? Estás doido! Conheces-me muito bem.

            -   Exactamente - concordou, piscando o olho à sua imagem no espelho.

            Não tinha pressa. Jantou calmamente e depois voltou para o quarto, deitou-se em cima da cama e deixou-se embalar pelo gozo da aventura. Olhava constantemente para o relógio, que parecia estar parado, e encostava-o ao ouvido. A espera era sempre a parte mais difícil.

            CHETTI SINGH dirigiu-se para a zona industrial no seu Cadillac. O automóvel não era novo. A escassez de divisas não permitia que um cidadão vulgar importasse um veículo tão luxuoso, mas Chetti Singh, como sempre, tinha um sistema. Contactava os membros recém-nomeados do pessoal diplomático americano, que estavam autorizados a importar um carro novo. e pagava-lhes o dobro do preço do veículo na América. mas em kuclu a moeda local Com essa quantia, eles podiam viver principescamente no Malawi durante os três anos da sua missão. mantendo o carro ao seu serviço. Quando partiam, Chetti Singh tomava posse do veículo.

            Quando chegou ao portão do armazém, Chawe abriu a cancela para deixar passar o Cadillac.

- Ele esteve aqui - informou Chawe - Passou por esta rua às quatro e dez. Vinha no jipe dele. Guiava devagar, sempre a olhar para a vedação.

            Chetti Singh franziu o sobrolho, aborrecido.

            - O indivíduo está a tornar-se uma autêntica peste. Tanto pior - disse em voz alta. - Anda comigo.

Chawe entrou para o banco de trás do Cadillac. Nunca se atreveria a sentar-se ao lado do patrão.

            Chetti Singh avançou lentamente junto à fachada do armazém. Todas as portas estavam fechadas. Não havia alarmes que guardassem o local, e a vedação exterior nem sequer estava iluminada por holofotes.

Há dois ou três anos, o armazém havia sido assaltado diversas vezes, mas os alarmes e os holofotes não serviam de nada contra essas depredações. Desesperado, ele consultara o feiticeiro mais famoso do território. Cobrando honorários condizentes com a sua reputação, e com grande cerimonial e muito barulho, o velho feiticeiro colocara o armazém sob a protecção dos espíritos e demónios mais malévolos que controlava.

Nos seis meses seguintes, não houve mais assaltos. Mas, finalmente, um dos bandos da cidade encheu-se de coragem e foi pôr à prova a eficácia do bruxedo. Roubaram uma dúzia de televisores e perto de quarenta transístores.

Chetti Singh mandou chamar o feiticeiro e recordou-lhe que os seus serviços traziam uma garantia. Regatearam um bocado e por fim Chetti Singh concordou em comprar-lhe a preço de saldo o dissuasor máximo, que se chamava Nandi. Depois da chegada de Nandi, só tinha havido um assalto, e o assaltante morrera no dia seguinte no Hospital de Lilongwé, escalpado, o crânio em sangue.

            Chetti Singh estacionou o Cadillac nas traseiras do armazém, junto de uma pequena construção encostada à parede. Quando saiu do Cadillac, aspirou o cheiro acre que se evolava dajanela da construção, protegida com grades fortes. Olhou para Chawe.

            - Está bem presa?

            - Está na jaula pequena, como mandou, nkosi.

            Apesar dessa afirmação, Chetti Singh espreitou pelo óculo da porta antes de a abrir e entrar na construção. A única luz era a que entrava pela janela alta, e a obscuridade que reinava no interior contrastava fortemente com a luz do fim de tarde exterior.

            Ali, o cheiro era mais intenso, um cheiro pungente a animal selvagem, e de repente ressoou um rugido tão feroz que Chetti Singh se sobressaltou involuntariamente.

            - Meu Deus - disse com uma gargalhadinha para disfarçar o medo. - Estamos com uma disposição muito má hoje - Um animal moveu-se por detrás das grades da jaula, uma sombra escura de patas almofadadas, e os olhos amarelos brilharam no escuro. ­Nandi - disse Chetti Singh com um sorriso. - Minha linda.

Estendeu a mão para o interruptor que ficava ao lado da porta, e a lâmpada fluorescente do tecto crepitou e acendeu-se.

            Na jaula, uma pantera recuou até à parede do fundo, agachando-se aí, com o beiço superior arreganhado num rosnar silencioso que lhe descobria as presas. Era um enorme felino da floresta, de sessenta quilos de peso e com mais de dois metros de comprimento do focinho à ponta da cauda. As panteras da floresta são mais escuras do que as da savana; as rosetas negras como azeviche que lhe salpicavam a pele estavam muito próximas. A cauda do animal encaracolava e esticava como um metrónomo, denunciando a sua má disposição. Olhava fixamente para o homem. A força do seu ódio era tão intensa como o cheiro a fera no pequeno compartimento sobreaquecido.

            - Estás zangada? - perguntou Chetti Singh.

O beiço do animal arreganhou-se mais ao ouvir o som da voz dele. Conhecia-o muito bem.

- Não está suficientemente zangada - respondeu Chetti Singh.

Foi buscar a forquilha eléctrica para gado que estava arrumada numa estante ao lado do interruptor.

            O felino reagiu imediatamente. Já conhecia o choque da forquilha eléctrica. Rosnou mais alto e começou a correr de um lado para o outro para tentar escapar à tortura que se avizinhava.

A forquilha tinha um comprido cabo de alumínio. Chetti Singh enfiou-a entre as grades da jaula e estendeu-a para tocar na pantera. Os movimentos do animal tornaram-se frenéticos para tentar escapar ao instrumento, e Chetti Singh riu-se das cabriolas. O animal atirou-se de encontro às grades, raspando com as garras no aço e tentando atirar-se a ele, mas o cabo era comprido e Chetti Singh mantinha-se fora de alcance.

Tocou-lhe no pescoço com a forquilha. Saltou uma faísca azul e a pantera guinchou de dor.

- Basta por hoje. Abre a portinhola para o armazém - ordenou Chetti Singh.

            Chawe aproximou-se do fecho da portinhola de aço e levantou-o. Com um último rugido, a pantera saltou para o armazém.

            Nandi rondaria por ali durante toda a noite, torturada e feroz, aguardando a primeira oportunidade de vingar a sua humilhação e a sua dor. Chawe fechou a portinhola depois de a pantera ter saltado e saiu atrás do patrão para os últimos raios do sol-poente.

- Ficas na casa do guarda, junto do portão principal - ordenou Chetti Singh. - Não patrulhes a vedação nem tentes impedir o homem branco de entrar no armazém. Se ele entrar, a Nandi avisa-te... - Sorriram os dois com a ideia. - Quando ouvires a Nandi a tratar-lhe da saúde, telefona-me do portão. Não entres no armazém até eu chegar. Nessa altura, a Nandi já deve ter-nos livrado de muitos problemas.

            A RUA NÃO ERA iluminada.

- Assim o trabalho é mais fácil - murmurou Daniel. Estacionou o Landcruiser a trezentos metros da vedação do armazém central de Chetti Singh, desligou o motor e saiu para a escuridão. Verificou as horas no relógio - passava pouco da 1 hora.

            Vestia umas calças azul-escuras e um blusão de cabedal preto. Enfiou um carapuço azul-escuro que lhe tapava a cara e prendeu ao cinto uma pequena bolsa de nylon preto com ferramentas.

            Trazia duas escadas de mão de alumínio, leves e extensíveis, presas ao tejadilho do Landcruiser. Enfiou-as debaixo do braço e dirigiu-se para o armazém. Avançava fora da rua, pelo meio da vegetação. A cerca de quinze metros da vedação, pousou as escadas e agachou-se atrás do chassis enferrujado de um velho automóvel. Examinou o armazém. Não havia holofotes a iluminar a vedação. era estranho.

            "Será bom demais? Fácil demais?", perguntou de si para consigo. A única luz era a da casa do guarda, junto ao portão de entrada. Via-se o suficiente para ele poder examinar a vedação. Verificou imediatamente que não era electrificada e não descobriu sinais de um sistema de alarme.

            Avançou. O método de entrada mais rápido seria cortar o arame com um alicate, mas não queria deixar vestígios da sua visita. Estendeu as duas escadas até ao comprimento máximo e depois encostou uma delas ao poste do canto. Susteve a respiração, mas não se ouviu qualquer alarme.

            Pegando na segunda escada, subiu até ao topo da vedação. Em equilíbrio instável no degrau de cima e esforçando-se por evitar o arame farpado do topo, passou a outra escada para o lado de lá. Tencionava baixá-la cuidadosamente, mas ela escapou-lhe das mãos.

            Apesar de amortecida pela erva, a queda soou-lhe como uma detonação de uma.357 Magnum. Vacilou no topo da escada, debaixo de forte tensão nervosa, à espera de uma intimação ou de um tiro.

            Mas não aconteceu nada e, ao fim de um minuto, ele enfiou a mão debaixo da camisola e tirou de lá um rolo de espuma de borracha que lhe servia de almofada quando dormia ao relento. Tinha apenas a espessura suficiente para o proteger do fio superior do arame farpado.

            Agarrou-se firmemente ao arame. com as mãos enluvadas entre as farpas, e saltou para o outro lado, caindo na erva de uma altura de quase três metros. Amorteceu a queda com uma cambalhota de judo e agachou-se rente ao chão, à escuta. Nada.

Encostou rapidamente a segunda escada ao interior da vedação, pronta para uma fuga rápida. e avançou, agachado, junto à comprida parede das traseiras do edifício. Não havia qualquer abertura, à excepção de uma fila de clarabóias abaixo do beiral, a nove metros de altura.

            Entretanto, avistara no escuro uma pequena construção encostada à parede das traseiras do armazém. Ao aproximar-se, sentiu um cheiro pouco intenso, mas desagradável.

            O cheiro intensificou-se quando ele contornou a construção, mas não deu importância ao facto. Havia um cano de algeroz no ângulo formado entre a parede da construção e a do edifício principal. Daniel experimentou o cano para ver se aguentava com o seu peso e depois subiu por ele com facilidade. Em poucos segundos estava no telhado da construção, por baixo da fila de clarabóias da parede principal, que agora estavam só três metros acima dele. Havia duas abertas.

            Daniel tirou um rolo de corda de nylon do saco que trazia à cintura e deu um nó grosso numa das pontas, que atirou para cima com um movimento do pulso. O nó foi de encontro ao batente entre as clarabóias abertas e caiu-lhe em cima. à quinta tentativa, o nó entrou por uma clarabóia e Daniel deu um sacão imediato; o nó chicoteou, enrolando a corda no batente. Daniel começou a trepar, apoiando as solas de borracha no revestimento de amianto da parede para se firmar.

Quando chegou à altura das clarabóias, içou-se num esforço convulsivo e encavalitou-se na moldura.

            Precisou de alguns segundos para recuperar o fôlego e depois abriu o fecho de correr da bolsa e tacteou à procura da lanterna Maglite. Fez incidir o feixe de luz na parede interior do armazém. O revestimento interior era de chapa ondulada, fixa a uma estrutura de perfis de ferro soldados. Os perfis eram uma escada perfeita para descer até ao chão de cimento. Desceu rapidamente e apagou a lanterna.

            Agachou-se entre dois caixotes, à escuta no silêncio. Preparou-se para avançar, mas imobilizou-se repentinamente. Ouvira qualquer coisa, um som tão leve que era quase imperceptível. Mas o som desapareceu.

            Acendeu novamente a lanterna e a luz tranquilizou-o; começou a avançar por entre as pilhas de mercadorias.

Parou de repente e apagou a lanterna. Pressentira novamente qualquer coisa indefinida que nem sequer chegava a ser um som - só um pressentimento de que havia algo ali perto, na escuridão. Susteve a respiração e ficou à espera.

            Nada. Era só dos nervos. Avançou pelo armazém às escuras. Não havia paredes interiores, só pilares de ferro suportando o telhado e separando os vãos. Parou novamente, fungando. Lá estava finalmente o cheiro a peixe podre. Avançou mais rapidamente.

            As sacas estavam empilhadas na parede, no último vão. Tinham estampada a inscrição: "Peixe seco. Produto do Malawi."

Daniel enfiou a mão no saco de nylon e tirou uma chave de fendas grande. Agachou-se em frente da pilha de sacas e começou a investigar o seu conteúdo, enfiando a ponta da chave no tecido da saca e rodando-a, à procura de um objecto duro embalado por debaixo da camada de peixe seco. Trabalhava depressa, fazendo cinco furos em cada saca e passando adiante.

Finalmente, parou e começou a pensar. Partira do princípio de que o marfim estaria escondido nas sacas de peixe. mas mudou de ideias. Se Ning Cheng Qong tivesse transferido o marfim dos camiões-frigoríficos para o camião de mudanças de Chetti Singh, não teria tido tempo para o embalar nas sacas nas poucas horas decorridas até ele ter interceptado Chetti Singh na estrada de Chirundu. O mais que podiam ter feito era terem empilhado o marfim no chão e tapá-lo com as sacas de peixe.

            "Que estúpido." Abanou a cabeça e passeou o feixe de luz à sua volta, mas de repente ficou novamente tenso. Parecera-lhe ver qualquer coisa na extremidade dos raios luminosos, mas quando firmou a lanterna e olhou melhor, viu que fora outra vez a sua imaginação. Ralhou consigo mesmo: "Estás a ficar velho e assustadiço."

            Avançou rapidamente por entre as montanhas de mercadorias, examinando o rótulo de todos os caixotes à medida que ia passando por eles. Os caixotes estavam todos endereçados à Sociedade Comercial Chetti Singh. Eram remessas que tinham chegado. Tinha de procurar mercadorias para expedição.

            Viu mais adiante o vulto de uma empilhadora elevando-se junto à rampa de descarga, perto da porta principal. Quando se aproximou, viu um grande caixote suspenso do garfo da empilhadora, à altura da cabeça de um homem. Mais adiante, bloqueando quase a rampa, estava uma grande pilha de caixotes idênticos, baús de chá típicos, de paredes sólidas de contraplacado e armação robusta.

            Sentiu um arrepio quando leu o endereço estampado num dos lados do caixote mais próximo:

 

         AMULETOS DO DRAGÃO, SA 1555

         CHUNG CHING SOUTH ROAD TAIPÉ, TAJWAN

 

"Claro!" Daniel fez um grande sorriso. "A ligação chinesa!"

            Dirigiu-se para a empilhadora e colocou-se por debaixo do garfo, enfiando a chave de parafusos pelo fundo do caixote e abrindo um orifício circular suficientemente grande para lá caber a sua mão. Descobriu que o interior do caixote estava revestido de folha plástica grossa. Pegou no canivete que tinha no saco e rasgou o plástico.

            Sentiu o cheiro familiar de folhas de chá secas e começou a escavar nessa massa negra, entornando o chá no chão de cimento. Daí a pouco, tinha escavado a todo o comprimento da chave de parafusos e não encontrara qualquer objecto estranho escondido no caixote.

            Alargou o furo com mais alguns golpes e enterrou com toda a força a ponta de aço na massa de chá, embatendo num objecto sólido. Daniel quase deu um grito de triunfo. Esfarelou as bordas do buraco até conseguir enfiar as duas mãos. Agora podia finalmente tocar no objecto duro enterrado no chá. Era redondo e liso. Com a ponta da chave de parafusos, picou a superfície exposta do objecto, fazendo saltar uma lasca do tamanho de um dedo.

- Agora é que eu os apanhei, bando de assassinos - murmurou, examinando a lasca, que tinha a textura característica do marfim.

            Dobrou à pressa para dentro do buraco o pedaço de plástico rasgado para impedir que o chá continuasse a cair. Amontoou as folhas caídas, apanhou-as e enfiou-as na algibeira. Depois, passeou a lanterna à sua volta para ter a certeza de que não havia deixado outros vestígios da sua passagem. E desta vez viu claramente o perigo.

            Uma grande sombra escura estava agachada à beira da rampa, vigiando-o com olhos que brilhavam como opalas à luz da lanterna. Daniel recuou instintivamente de encontro ao lado da empilhadora.

            Repentinamente, um som arrepiou-lhe os nervos, ecoando pelo interior escuro e cavernoso do armazém. Percebeu imediatamente o que era e ficou gelado.

- Uma pantera! - murmurou. Percebeu o perigo em que se encontrava.

O animal estava em vantagem. A noite era o seu elemento natural, e a escuridão tornava-o agressivo.

            Daniel procurou com a lanterna e viu novamente o felino. Dera a volta para trás dele, rondando-o. Era uma manobra hostil - o predador cerca a presa antes de a atacar.

            Quando a luz lhe bateu, a pantera fugiu. Desapareceu por detrás dos caixotes de chá com um salto ágil, e o seu grito de ódio feroz ressoou novamente na escuridão.

            "Está a dar-me caça!"

            Daniel conhecia o comportamento dos felinos; o leão, desnorteado pela estranha silhueta vertical do ser humano, não sabe instintivamente qual é a melhor maneira de atacá-lo. Então, salta sobre a vítima e atira-a ao chão, mordendo e rasgando ao acaso. Por vezes, contenta-se com roer um membro, dando tempo aos socorros de chegarem. A pantera, pelo contrário, compreende a anatomia humana. Ataca imediatamente a cabeça e o ventre do primata, as zonas mais vulneráveis. O seu método de caça habitual é saltar sobre a vítima e enterrar-lhe as garras das patas dianteiras nos ombros, golpeando com as patas traseiras, como um gato doméstico a brincar com um novelo de lã. As compridas garras do animal rasgam o ventre de um homem com meia dúzia de golpes. Ao mesmo tempo, a pantera enterra os dentes no pescoço ou no rosto da vítima.

            Agachado ao lado da empilhadora, Daniel puxou até acima o fecho de correr do blusão de cabedal para proteger o pescoço e rodou o saco de nylon para a frente na cintura para proteger o ventre. Depois, passou a chave de parafusos para a mão direita e com a esquerda acompanhou com a lanterna os círculos ameaçadores da pantera.

            Daniel sabia que nunca conseguiria voltar ao local por onde tinha entrado no armazém. Era demasiado longe. Desviou por um segundo a lanterna, procurando outra saída.

            As sacas de peixe! Estavam empilhadas de encontro à outra parede até à altura das janelas.

            - Posso chegar até à clarabóia - murmurou.

Teria de descer de muito alto pelo lado de fora da parede, mas tinha outra corda de nylon que lhe permitiria descer pelo menos até uma certa altura.

"Mexe-te!", disse de si para consigo. "Tens muito pouco tempo. Ela vai atacar-te a qualquer momento."

            Encheu-se de coragem para deixar o abrigo da empilhadora. Assim que saiu do abrigo, a pantera soltou um novo rugido, ainda mais feroz e impaciente.

- Desaparece! - berrou Daniel, esperando desconcertá-la com o som da voz humana.

O felino desviou-se para o lado e desapareceu atrás de uma pilha de caixotes - e foi então que Daniel cometeu um erro.

            Sabia melhor do que ninguém que nunca se deve fugir de um animal feroz. E principalmente nunca se deve voltar as costas a um felino. Têm o instinto da perseguição, tal como um gato doméstico é incapaz de resistir a um rato em fuga.

Daniel correu para as sacas de peixe e a pantera saltou da escuridão. Ele nem sequer a ouviu, mas ela aterrou-lhe entre as omoplatas com todo o seu peso e o balanço da corrida.

Daniel foi projectado para diante. Sentiu as garras enterrarem-se e ficarem presas e por instantes pensou que se lhe tinham enterrado na carne. Mas, ao mesmo tempo que caía sob o peso do animal, percebeu que estavam presas no cabedal resistente do blusão e na camisola de lã grossa que tinha por baixo. O impacto atirou-o de encontro à pilha de sacas, fazendo-o perder o fôlego.

            Daniel conseguiu levantar-se a custo, apoiando-se na muralha de sacas. Sentia a pantera a encolher-se em cima das suas costas, levantando as patas traseiras e curvando o corpo como uma mola, preparando-se para lhe lacerar as nádegas e a parte de trás das coxas.

            Fazendo força com os dois braços, Daniel atirou-se para trás, enrolando o corpo, com os joelhos encostados ao queixo. As garras da pantera enterraram-se no cinto do saco e depois esticaram-se para baixo, mas Daniel já tinha encolhido as pernas, e as patas do felino agitaram-se no vazio.

            Quando Daniel caiu com todo o seu peso sobre a pantera, o impacto fez o animal soltar um rosnido sibilante, e ele sentiu as garras afrouxarem no cabedal. Torceu-se violentamente e, quando conseguiu ajoelhar-se, estendeu uma das mãos para trás sobre o ombro, agarrou numa prega de pele do pescoço da pantera e, com a força multiplicada pelo terror, arrancou a criatura das costas e atirou-a de encontro à pilha de caixotes.

O felino preparava-se para ressaltar como uma bola de borracha.

            A lanterna escapara das mãos de Daniel ao primeiro ataque da pantera. O feixe de luz voltado para cima irradiava luz suficiente para Daniel conseguir prever o ataque da pantera.

Com as terríveis mandíbulas completamente abertas, o animal saltou sobre Daniel de cabeça estendida para enterrar as presas no rosto e na garganta dele. Daniel contra-atacou: com a chave de parafusos agarrada nas duas mãos, enfiou-a na goela aberta da pantera.

            Uma das presas do animal partiu-se e Daniel caiu de costas, mantendo a pantera afastada do rosto com a chave de parafusos. Sentiu o animal estender a pata dianteira por cima do ombro dele, enfiando-a na juta grossa da saca, a um centímetro da sua orelha. Depois, o felino esticou as duas patas traseiras para baixo, mas, em vez de lhe abrirem a barriga, as garras enterraram-se no resistente saco de nylon.

A pantera recuou, tentando evitar a haste de aço que Daniel lhe continuava a forçar pela goela aberta. Daniel retirou rapidamente a chave e enterrou-a novamente na narina aberta do felino, furando-lhe a cartilagem do focinho e enfiando-a por baixo da pele mosqueada, rente ao osso. O felino guinchou de dor e por um segundo afrouxou o seu ataque. Daniel rebolou e atirou a pantera para longe. O felino prendeuo com uma pata e as garras rasparam no braço esquerdo de Daniel, rasgando o cabedal e atingindo o músculo do antebraço. A dor obrigou Daniel a recorrer às suas últimas reservas. Desferiu um golpe com os dois pés ao mesmo tempo e bateu com os calcanhares no corpo do felino quando este se preparava para novo ataque. O pontapé atirou a fera para trás, uma bola de pêlo escuro que brilhou e ondulou à luz da lanterna.

Mesmo atrás de Daniel havia um espaço entre as sacas de peixe que tinha apenas a largura necessária para lá caber o seu corpo, e ele atirou-se lá para dentro. Rosnando e de dentuça arreganhada, a pantera enfiou a cabeça no buraco estreito, tentando apanhá-lo.

- Desaparece! Vai-te embora! - berrou Daniel, mais para se encorajar do que na esperança de afugentar o animal enraivecido.

            A pantera começou a patrulhar a entrada do buraco, parando de vez em quando para baixar a cabeça e soltar um dos seus temíveis rugidos.

            Daniel sentia o sangue a escorrer-lhe pelo braço. Só com uma das mãos, atou o lenço à volta do braço ferido para estancar a hemorragia e apertou bem o nó com os dentes. Já sentia o braço a pulsar. Sabia que o mais leve arranhão provocado pelas garras ou pelos dentes de um carnívoro era muito perigoso se não fosse logo tratado.

            Estava quase a amanhecer. Era extraordinário que os rugidos do animal não tivessem alertado ninguém. Mas quando estava a pensar isso mesmo, o armazém inundou-se de luz. A iluminação era tão forte que a pantera se agachou. Daniel ouviu o ruído das portas de correr do armazém a abrirem, accionadas por um motor eléctrico. Depois, ouviu um automóvel a entrar. Em seguida, alguém gritou:

            - Nandi! Volta para ajaula! Para ajaula!

            Daniel reconheceu a voz de Chetti Singh. A pantera começou a correr e desapareceu da vista de Daniel. Depois, Chetti Singh falou novamente:

- Fecha a pantera na jaula! Depressa! - Ouviu-se o som metálico da porta da jaula a bater. - Vês o homem branco? Cuidado, pode ser que ainda esteja vivo.

- Está ali uma lanterna no chão ainda acesa. E lá adiante, perto das sacas de peixe, parece ser sangue.

Daniel ouviu passos cautelosos que se aproximavam.

            - Dá-me a lanterna.

            De repente, um par de pernas apareceu diante dos olhos de Daniel e o homem iluminou o buraco escuro onde ele estava agachado.

            - Ora, ora! - disse a mesma voz. - Aqui está ele e de excelente saúde. Como está, Dr. Armstrong? Estou encantado por voltar a vê-lo finalmente. - Daniel olhou-o ferozmente, encandeado pela luz da lanterna, e Chetti Singh continuou a falar em voz prazenteira: - Não precisa dessa arma. Faça favor de ma entregar. - Daniel não se mexeu para lhe obedecer, e Chetti Singh deu uma gargalhadinha. - Tenho aqui uma excelente espingarda de fabrico inglês. Uma Purdey, nem mais nem menos. Peço-lhe humildemente o favor de respeitar o meu pedido de cooperação.

Resignadamente, Daniel atirou a chave de parafusos para junto dos pés dele, e Chetti Singh afastou-a com um pontapé.

            - Agora pode emergir, doutor.

            Daniel saiu de gatas, com o braço ferido apoiado de encontro ao peito. Chetti Singh apontou-lhe a caçadeira à barriga e falou com o guarda de uniforme em língua angoni:

- Chawe, revista os caixotes. Vê se ele abriu algum.

Daniel reconheceu o guarda negro do supermercado. Era um homenzarrão de ar feroz. Chawe não precisou de andar muito: ajoelhando-se, apanhou uma mão-cheia de folhas de chá entornadas. Depois, seguiu o rasto até ao caixote da empilhadora e enfiou o braço no buraco escavado por Daniel.

            - O senhor é um tipo muito inteligente. - Chetti Singh acenou com a cabeça na direcção de Daniel, com admiração fingida. - Um autêntico Sherlock Holmes, nem mais nem menos. Mas às vezes não é prudente ser-se tão esperto, meu caro senhor.

            Daniel fitou o sikh nos olhos e percebeu que não devia fiar-se na maneira de falar do homem. Tinha um olhar cruel, não era palhaço nenhum.

            - Chawe, onde é que o homem branco deixou ojipe? ­continuou ele, sem desviar a caçadeira da barriga de Daniel.

- Acho que o estacionou do lado sul. No terreno desse lado.

Chetti Singh ordenou a Daniel que lhe entregasse as chaves do jipe, que deu a Chawe.

            - Vai buscá-lo! - ordenou-lhe.

            Depois de Chawe sair, Daniel e Chetti Singh confrontaram-se em silêncio. O sikh estava calmo, de espingarda em punho.

            - Tenho um braço muito ferido - disse finalmente Daniel. - Pode infectar.

            - Não - replicou Chetti Singh com um sorriso. - O senhor vai morrer antes de a infecção ter tempo de se manifestar.

            - Já que vou morrer, porque é que não satisfaz a minha curiosidade e não me conta o que aconteceu em Chiwewe? Quem é que teve a ideia do ataque, o senhor ou Ning Cheng Gong?

- Infelizmente, meu caro senhor, não sei nada sobre

Chiwewe ou essa pessoa. Além de que não estou com disposição para conversas.

            - Não tem nada a perder se me contar. Quem é que é o dono da Sociedade Amuletos do Dragão?

- Receio que tenha de levar a sua curiosidade consigo para a tumba, doutor. - Ouviram o Landcruiser a aproximar-se, e Chetti Singh moveu-se. - Vamos para a porta principal cumprimentar Chawe. Vá à frente, por favor, doutor, e não se esqueça de que a excelente arma de fogo de Mr. Purdey está só a um palmo da sua coluna.

Segurando sempre o braço ferido de encontro ao peito, Daniel encaminhou-se na direcção da porta do armazém. Quando saíram do meio das pilhas de caixotes, viu um Cadillac verde estacionado ao lado do vagão vazio.

            Chetti Singh devia ter-se mantido a salvo dentro do Cadillac até a pantera haver voltado para ajaula. Daniel lembrou-se da pequena construção das traseiras do armazém e do cheiro desagradável. Estava a encaixar todas as peças do quebra-cabeças e percebeu onde é que guardavam a pantera e como é que a controlavam.

            Quando chegaram à porta principal, Chetti Singh fez sinal a Daniel para parar. De repente, a grande porta começou a abrir, revelando o Landcruiser de Daniel parado à entrada. Chawe estava junto da caixa de comando exterior da porta eléctrica do armazém. Quando a porta abriu completamente, ele tirou o cartão de comando de dentro da caixa. Usava o cartão preso a uma corrente curta e enfiou-o no bolso traseiro.

            - Está tudo pronto - disse a Chetti Singh.

            - Já sabes o que deves fazer - disse o sikh.     Tem de ser um belo desastre normal numa estrada de montanha. Percebes?

            Estavam a falar outra vez em angoni, certos de que Daniel não os entendia. Chetti Singh virou-se novamente para Daniel.

- Muito bem, caro senhor. Por favor, instale-se aos comandos do seu automóvel. Chawe diz-lhe o caminho. Por favor, obedeça-lhe fielmente. Ele atira muito bem com a caçadeira.

Daniel trepou obedientemente para a cabina do Landcruise e Chawe sentou-se atrás dele. Quando estavam instalados, Chetti Singh entregou a arma ao grande angoni, que encostou firmemente os dois canos à nuca de Daniel.

            Chetti Singh recuou, e Daniel, obedecendo a uma ordem de Chawe, engrenou a marcha atrás, fez uma inversão de marcha e saiu pelo portão principal.

            Chawe, no banco traseiro, ia dando as suas ordens em péssimo inglês, e para as sublinhar enterrava a boca dos canos na nuca de Daniel. Percorreram as ruas silenciosas e desertas da cidade adormecida, dirigindo-se para leste, para o lago e as montanhas.

            O dia nasceu furtivamente, e Daniel começou a distinguir os vultos das árvores da floresta, que surgiam da escuridão, para além dos feixes de luz dos faróis. Estudava as alternativas possíveis. Desistiu rapidamente da ideia de atacar Chawe no jipe - o angoni rebentava-lhe a cabeça antes de ele ter sequer tempo de se voltar para trás. Podia abrir a porta do seu lado com um pontapé e atirar-se para a estrada, mas para isso tinha de abrandar a velocidade para menos de cinquenta à hora. Começou a levantar o pé do acelerador, mas Chawe apercebeu-se imediatamente da alteração do ritmo de funcionamento do motor.

- Kawalesa! Mais depressa!

Daniel fez uma careta e obedeceu. Resolveu esperar.

            De repente, a estrada tornou-se mais íngreme e as curvas mais apertadas. Sempre que saíam de uma curva, via-se o vale lá em baixo, semioculto por bancos de neblina prateada; ao fundo, avistavam-se as cascatas brancas de uma torrente.

Apareceu uma nova curva à frente deles, e quando Daniel se preparava para a descrever, Chawe ordenou bruscamente: Pare! Encoste à berma ali adiante.

            Estavam no alto de uma ravina. A berma da estrada encontrava-se protegida por uma fila de pedregulhos pintados de branco, e para além deles abria-se o abismo; um mergulho de sessenta a noventa metros até ao leito rochoso do rio, lá em baixo.

            Daniel puxou o travão de mão e sentiu o coração a bater-lhe com força no peito. Seria agora que ia apanhar o tiro?

- Desligue o motor e ponha as mãos em cima da cabeça - ordenou Chawe.

            Daniel ouviu o estalido do fecho da porta, mas a pressão dos canos na sua nuca não afrouxou. Sentiu a corrente de ar frio quando Chawe abriu a porta de trás e deslizou pelo banco, sempre com a espingarda encostada à sua nuca. Agora, estava de pé junto ao carro.

            - Abra a sua porta devagar. - Manteve a caçadeira apontada à cara de Daniel através da janela. Daniel abriu a porta. - Agora, saia.

            Daniel desceu do jipe.

            Continuando a cobri-lo com a caçadeira, Chawe meteu a mão esquerda pela porta traseira do automóvel. Daniel viu que a alavanca de aço do macaco estava em cima do banco de trás e percebeu instantaneamente como é que Chawe tencionava ver-se livre dele. Obrigava-o a ir até à beira do abismo com a espingarda e desferia-lhe na nuca uma pancada com a alavanca, precipitando-o na garganta rochosa. Em seguida, empurrava o Landcruiser do alto da ravina para cair em cima dele. Pareceria apenas mais um turista morto devido a condução descuidada num troço de estrada de montanha. Nesse momento, Daniel viu a sua oportunidade. Chawe estava debruçado pela porta aberta, levemente desequilibrado. Daniel atirou-se e bateu com a porta.

            O braço de Chawe ficou entalado entre a moldura de aço e a ombreira da porta e ele berrou de dor. O berro não abafou o barulho do osso a estalar. O indicador dele escorregou no gatilho, disparando um dos canos. Mas o tiro falhou a cabeça de Daniel por um palmo.

            Daniel atacou-o, agarrando na caçadeira com as duas mãos. Chawe estava a segurar na arma só com uma das mãos, enfraquecido pela dor excruciante do osso partido. Disparou o segundo cano, mas o tiro perdeu-se no ar. Daniel arrancou a arma da mão direita de Chawe, levantou-a, rodou-a e atirou com uma coronhada à cara de Chawe, partindo-lhe o maxilar. O homem, atordoado, caiu para trás, ficando preso só pelo braço entalado na porta. Daniel puxou pelo fecho e abriu a porta de repente, libertando inesperadamente o braço de Chawe.

Agitando os braços para se equilibrar, o homem recuou, vacilando. Tropeçou numa das pedras da berma e tombou para trás no precipício. O grito dele cessou bruscamente nas rochas do fundo.

            Daniel levou uns instantes a recompor-se, mas depois foi à beira da ravina e espreitou lá para baixo. Chawe estava deitado nas rochas, de barriga para baixo, pernas e braços abertos, junto à margem do rio. Daniel pensou rapidamente no que devia fazer. Participar à Polícia? Falar do marfim à Polícia? Certamente que não! Em África, é melhor um homem branco nunca matar um negro, mesmo em legítima defesa, mesmo num Estado civilizado como o Malawi.

            Daniel atirou a caçadeira para o banco de trás do Landcruiser e tapou-a com uma lona. Depois, percorreu a ravina até encontrar um lugar para descer. Levou vinte minutos a chegar junto do corpo de Chawe. Não era preciso verificar-lhe o pulso. Revistou rapidamente os bolsos de Chawe e descobriu que a única identificação era um passaporte em mau estado: tinha de o fazer desaparecer. Fora isso, só tinha nos bolsos quatro cartuchos de caçadeira e o cartão electrónico da caixa de comando da porta do armazém. Todos esses objectos lhe podiam ser úteis.

            Daniel fez rebolar o corpo de Chawe até à beira do rio e empurrou-o para a corrente forte. Ficou a olhar enquanto o corpo era arrastado para jusante.

            Quando chegou novamente ao alto da ravina, junto do Landcruiser, o braço ferido ardia-lhe como se estivesse em brasa. Sentando-se ao volante, com o estojo de primeiros socorros no banco junto dele, levantou a manga e fez uma careta com o que viu. Os sulcos das garras não eram profundos, mas à volta dos ferimentos os tecidos já estavam inchados e vermelhos.

            Cobriu os rasgões com uma camada espessa de Betadine e ligou o ferimento; depois, encheu uma seringa com antibiótico e injectou-o no braço esquerdo.

            Eram quase 8 horas quando olhou para o relógio de pulso. Deu meia volta e partiu em direcção a Lilongwé.

            Sabia que não podia passear por Lilongwé no Landcruise,; cujo logotipo dava muito nas vistas, portanto dirigiu-se para o aeroporto, deixando ojipe no parque de estacionamento. Tirou da mala um estojo de toileite e uma camisa lavada e foi arranjar-se à casa de banho do aeroporto. Deitou fora a camisa e a camisola sujas de sangue e vestiu uma camisa lavada de mangas compridas, que lhe tapava o braço ligado. Depois de se examinar ao espelho da casa de banho, dirigiu-se para as cabinas telefónicas. O número de emergência da Polícia estava afixado na parede, de forma bem visível, por cima da cabina. Disfarçando a voz através de um lenço, falou em suafli.

            - Quero participar um assalto e um homicídio - disse à funcionária que atendeu. - Passe-me urgentemente a um funcionário superior.

- Fala o inspector Mopola - disse uma voz profunda e autoritária.

- Tem informações sobre um homicídio?

- Ouça-me com atenção - disse-lhe Daniel. - O marfim roubado do Parque Nacional de Chiwewe está aqui, em Lilongwé. Foram mortas pelo menos oito pessoas durante o assalto. O material roubado está escondido em caixotes de chá nos armazéns da Sociedade Comercial Chetti Singh. Despache-se, porque vão retirá-lo de lá dentro de pouco tempo.

Daniel desligou. Depois, foi ao balcão de aluguer de automóveis da Avis, e a empregada entregou-lhe um Volkswagen Golf azul.

            Antes de sair do aeroporto, parou junto do seu Landcruiser e transferiu sub-repticiamente a caçadeira embrulhada para a mala do Volkswagen. Recuperou também o seu binóculo Zeiss.

            Guiou pelas ruas da zona comercial até chegar a um mercado ao ar livre. Eram 10 e 30 da manhã e o mercado estava apinhado de vendedores que exibiam as suas mercadorias e de compradores que regateavam por elas. Havia dezenas de camionetas e carrinhas estacionadas na zona, e ele parou o Volkswagen azul no meio dos outros veículos. O mercado situava-se numa pequena elevação com vista para a linha férrea e, do outro lado da linha, ficava a zona industrial. Através das lentes do Zeiss, que ampliavam nove vezes, via perfeitamente a fachada do armazém de Chetti Singh, a quinhentos metros de distância.

            Entravam e saíam constantemente camiões pelos portões do recinto do armazém; Daniel reconheceu o grande camião de mudanças e o atrelado. Mas por enquanto não havia sinais de intervenção da Polícia.

            - Vá lá, pessoal! Despachem-se - murmurou impacientemente. No momento em que pronunciava estas palavras, viu entrar uma locomotiva pelo ramal da linha férrea que ia dar ao complexo do armazém. Um dos guardas abriu o portão da vedação de rede metálica quando a locomotiva se aproximou, e esta passou lentamente, abrandando ao entrar pelas portas abertas do armazém. A locomotiva desapareceu da vista de Daniel, mas instantes depois ele ouviu o estrondo surdo do aço a chocar no aço quando a locomotiva foi engatada. Depois, a locomotiva reapareceu, rebocando três vagões.

Os vagões abertos de mercadorias, muito carregados, estavam tapados com coberturas grossas de lona. Daniel examinou-os pelo binóculo, mas não conseguiu detectar se se tratava dos caixotes de chá. Baixou o binóculo e bateu com o punho fechado no volante do Volkswagen. "Onde raio estava a Polícia?"

- Tem de ser o marfim - resmungou entredentes. – Não havia mais nenhuma carga empilhada na rampa.

            Daniel ligou o motor do Volkswagen e saiu da estrada. Acelerando, dirigiu-se a toda a velocidade para a passagem de nível que a locomotiva tinha de atravessar para chegar à estação de mercadorias. As luzes vermelhas de aviso estavam acesas, a campainha tocava e a cancela baixou à sua frente, obrigando-o a travar. A locomotiva atravessou lentamente a passagem.

            Daniel deixou o motor a trabalhar, saltou para a estrada e enfiou por baixo da cancela. O primeiro vagão passou tão perto que ele quase lhe podia tocar. O letreiro com a indicação do destinatário da carga estava fixo na parede lateral do vagão, e ele leu-o facilmente quando O vagão passou à sua frente:

 

         DESTINATÁRIO AMULETOS DO DRAGÃO, SA

 

Destino: Taiwan, via Beira Carga:    250 caixotes de chá

As suas últimas dúvidas dissiparam-se, e ele ficou a olhar raivosamente para o comboio que se afastava. Iam safar-se mesmo debaixo do seu nariz. O comboio chegaria à fronteira moçambicana dentro de poucas horas.

            A não ser que o interceptasse no porto da Beira, antes de a mercadoria ser carregada no barco que a transportaria até ao Extremo Oriente. O pouco que sabia de Chetti Singb era suficiente para deduzir que ele criara uma rede de influências e subornos que abarcava muitos países da África Central. Dado que o Malawi era um Estado interior, a sua influência tinha de se estender ao capitão do porto e à alfândega moçambicanos. Deviam ter sido subornados por Chetti Singh e protegê-lo-iam. Mas, mesmo assim, valia a pena tentar, resolveu Daniel.

            As luzes de aviso apagaram-se, a campainha deixou de tocar e a cancela levantou quando a locomotiva e a sua carga se afastaram da passagem de nível. Os condutores parados atrás do Volkswagen começaram logo a buzinar impacientemente.

            Daniel voltou para o automóvel alugado e foi até ao edifício dos Correios, no centro da cidade. Teve mais uma vez o cuidado de enviar uma mensagem curta e de disfarçar a voz, falando em suafli:

            - Digam ao inspector Mopola que o marfim foi expedido para fora do armazém às onze e trinta e cinco num comboio de mercadorias com destino à Beira. Está escondido numa remessa de caixotes de chá enviada para a Amuletos do Dragão, SA, de Taipé.

Sem dar tempo à telefonista da Polícia para lhe pedir a identificação, pousou o auscultador e atravessou a rua até um pequeno supermercado situado em frente dos Correios. Uma vez que a Polícia não fazia nada, era ele que tinha de intervir.

Comprou uma caixa de fósforos, um rolo de fita-cola, uma caixa de tiras de papel mata-moscas, comprimidos para dormir e dois quilos de carne picada congelada e depois voltou para o Capital Hotel.

            Assim que entrou no quarto, percebeu que este tinha sido revistado.

- Chetti Singh deve ter ficado desiludido – murmurou vingativamente.

            Havia depositado o passaporte e os travellers cheques no cofre do hotel. Mas o facto de o seu quarto ter sido revistado confirmou a ideia que fazia de Chetti Singh.

- É um bandido matreiro: tem uma boa organização e até

aqui nunca falhou. Vamos a ver se consigo trocar-lhe as voltas. Mas primeiro preciso de descansar.

Mudou o penso do braço, injectou-se novamente com antibiótico e atirou-se para cima da cama.

            Dormiu profundamente até à hora do jantar e depois tomou um duche e mudou de roupa. Sentia-se como novo e o braço já lhe doía menos; sentou-se à secretária, espalhando as compras à sua frente.

            Com o canivete, raspou as cabeças dos fósforos para dentro do cartucho de papel e fechou o embrulho com fita-cola. O pacote tinha o tamanho de um punho e era uma excelente bomba incendiária.

            Depois, cortou duas tiras de dez centímetros de papel mata-moscas. Eram os rastilhos da sua bomba, e se um deles falhasse, ficava o outro. Furou o embrulho, enfiou as pontas do papel mata-moscas nos furos e prendeu tudo bem com fita-cola.

Em seguida, desceu e ofereceu a si mesmo um bom jantar, acompanhado por meia garrafa de Chardonnay.

Depois do jantar, procurou a morada de Chetti Singh na Lista Telefónica e descobriu a rua no mapa da cidade gentilmente fornecido pela Câmara de Comércio de Lilongwé.

De volta ao parque de estacionamento do hotel, meteu-se no Volkswagen e guiou pelas ruas quase desertas da cidade. Passou pelas montras iluminadas do supermercado de Chetti Singh e deu a volta ao quarteirão. Viu que no beco das traseiras havia sacos de lixo e caixas de cartão vazias à espera do camião do lixo. Sorriu, satisfeito, quando viu o detector de fumo do sistema de alarme contra incêndios montado na parede.

            Estacionou o automóvel debaixo de um candeeiro de iluminação pública e abriu o saco de plástico da carne picada, que entretanto descongelara. Abriu algumas cápsulas do soporífero e deitou o pó por cima da carne. Esvaziou umas cinquenta cápsulas. "Dava para atordoar um elefante", pensou, satisfeito, enquanto misturava bem o pó na carne.

Depois, dirigiu-se para a residência de Chetti Singh, situada num bairro elegante, por detrás dos principais edifícios governamentais. A casa, rodeada por um enorme relvado, era a mais imponente da rua. Daniel estacionou o Volkswagen numa parte escura da rua e retrocedeu apé.

Quando chegou junto da vedação que rodeava a casa de Chetti Singh, dois Rottweilers irromperam da escuridão e atiraram-se de encontro à rede metálica, acompanhando Daniel, que avançou pelo passeio até à outra ponta da propriedade.

Quando passou pelos portões de entrada para o caminho que levava à casa, reparou que o cadeado da corrente tinha um mecanismo simples, fácil de abrir com um clipe. Atirou uma porção de carne por cima da vedação, e um dos cães farejou-a e engoliu-a. Ele atirou uma segunda porção ao outro cão.

            Voltou para o Volkswagen e regressou à cidade. Estacionou o carro a um quarteirão de distância do supermercado. Acendeu as pontas das tiras de papel mata-moscas. Soprou devagarinho para ter a certeza de que ficavam a arder bem e depois saiu do Volkswagen e foi até ao beco deserto, atrás do supermercado. Sem abrandar o passo, atirou com a bomba incendiária para o monte de lixo e saiu calmamente do beco.

            Viu as horas: 10 da noite. Meteu-se outra vez no automóvel e voltou para junto da casa de Chetti Singh. Calçou umas luvas pretas e tirou de debaixo do banco do condutor a caçadeira embrulhada na lona. Desmontou os três componentes da arma e limpou tudo bem para não deixar impressões digitais. Depois, montou novamente o fuste nos dois canos. Quando saiu do Volkswagen, enfiou os canos na perna das calças e escondeu a coronha dentro do blusão de cabedal. Revistou as algibeiras para ter a certeza de que trazia os cartuchos e o cartão de Chawe de entrada no armazém. Depois, coxeou até à casa do sikh.

            Quando chegou à propriedade, não tinha os cães de guarda a recebê-lo e precisou de menos do que os dois minutos previstos para abrir o cadeado. Deixou os portões abertos e atravessou silenciosamente o relvado.

            Abrigado atrás de uma grande buganvilia, examinou a casa. Era uma construção baixa, estilo casa de rancho, com grandes janelas de sacada, que estavam quase todas iluminadas e tapadas com cortinados. De vez em quando, viam-se as sombras dos ocupantes a passarem atrás dos cortinados.

            Havia uma garagem pegada à casa principal. Uma das portas estava aberta, e Daniel avistou lá dentro os cromados brilhantes do Cadiílac. Chetti Singh estava em casa.

Escondido na sombra, Daniel montou novamente a caçadeira e meteu dois cartuchos nas câmaras. Fechou os canos e verificou as horas no mostrador luminoso do relógio. Dentro de menos de vinte minutos, o pacote de cabeças de fósforos pegaria fogo ao lixo, fazendo muito fumo, o qual, ao fim de uns instantes, seria detectado pelos alarmes.

            Atravessou o relvado em passo rápido, vigiando as janelas da casa, até chegar à garagem. Tentou abrir as portas do Cadillac, mas estavam trancadas.

            Na parede da garagem que ficava mais próxima do lugar do condutor havia uma porta que comunicava certamente com a casa. Chetti Singh sairia por essa porta para se deslocar de automóvel até ao local do incêndio.

            Matar Chawe fora um acto de legítima defesa, e Daniel já matara deliberadamente na guerra do mato. Mas nunca sentira prazer nem satisfação em matar, ao contrário de muitos outros homens. No entanto, agora preparava-se para matar de novo, muito mais a frio e deliberadamente do que nunca. Aquilo que ia fazer em memória de Johnny Nzou justificar-se-ia? Depois, lembrou-se de Mavis Nzou e dos filhos. Ficaria doente de remorsos quando o fogo da sua cólera se extinguisse, mas tinha de o fazer.

            O telefone tocou dentro de casa. Daniel despertou dos seus pensamentos. abanando a cabeça para expulsar as dúvidas e a incerteza. Segurou com mais força na caçadeira.

Ouviu passos apressados atrás da porta e depois esta abriu-se, dando passagem a Chetti Singh. As chaves dele tilintaram quando procurou a fechadura da porta do automóvel, praguejando baixinho. Dirigiu-se para o interruptor de parede e a garagem inundou-se de luz.

            Chetti Singh tinha a cabeça descoberta. O cabelo comprido e já com alguns fios grisalhos, que nunca fora cortado, estava atado num carrapito ao alto da cabeça. Ele estava de costas para Daniel quando enfiou a chave na porta do Cadillac. Daniel avançou e encostou-lhe às costas a boca dos canos da caçadeira.

- Nem um gesto, Mr. Singh. Esta excelente Purdey está encostada mesmo à sua coluna.

Chetti Singh imobilizou-se. mas voltou lentamente a cabeça.

- Pensei... - Mas depois reconsiderou e calou-se.

            Daniel abanou a cabeça.

- As coisas não correram assim. Lamento, mas Chawe não era lá muito esperto. Agora, por favor, dê a volta ao carro devagar.

            Espetou a espingarda com força nas costas do sikh, magoando-o propositadamente sobre a camisa fina de algodão, que era tudo o que ele trazia vestido, além de umas calças de caqui e umas sandálias. Era evidente que Chetti Singh se vestira à pressa.

Deram a volta ao Cadillac pela frente.

- Abra a porta e entre - ordenou Daniel. Chetti Singh sentou-se nos lustrosos estofos de cabedal e olhou para os canos da caçadeira, que estavam a poucos centímetros do seu rosto. - Agora, passe para o volante devagar e com jeito.

Chetti Singh, um homem corpulento, arrastou-se a custo, ofegante, para o outro lado por cima da consola situada entre os dois assentos.

- Muito bem. Está a portar-se muito bem, Mr. Singh. - Daniel deslizou para o banco do passageiro, ao mesmo tempo que Chetti Singh se instalava melhor ao volante, e pousou a espingarda atravessada em cima dos joelhos. Fechou a porta com a mão livre. - Muito bem. Arranque.

Quando os faróis varreram o relvado, iluminaram o corpo de um dos Rottweilers deitado na relva.

- Os meus cães! Uma das minhas filhas gosta muito deles. - Lamento muito - replicou Daniel. - Mas o animal está só drogado, não morreu.

            Saíram para a rua.

            - A minha loja... O meu supermercado está a arder. Penso que foi o senhor. É um investimento de muitos milhões.

            - Mais uma vez, lamento muito - declarou Daniel. - A vida é muito dura, Mr. Singh, mas palpita-me que a companhia de seguros vai ficar pior do que o senhor. Agora, vá até ao armazém, se faz favor.

            - O armazém? Qual armazém?

            - Onde eu me encontrei consigo e com Chawe hoje de manhã, Mr. Singh.

Chetti Singh virou na direcção certa. Estava a suar.

            - Porque é que me está a maltratar desta maneira bárbara, por favor, doutor?

- Não se faça de inocente com essas perguntas parvas - aconselhou-o Daniel. - Sabe muito bem porque é que eu estou a fazer isto.

- Mas o marfim não era nada da sua conta, pois não, doutor?

            - O roubo do marfim é da conta de qualquer homem decente. Mas tem razão: não é esse o motivo principal.

            - Aquilo do Chawe. Não era uma questão pessoal. O senhor é que teve a culpa. Não me pode culpar por eu tentar proteger-me. Estou disposto a compensá-lo por todos os prejuízos que a sua dignidade ou a sua pessoa possam ter sofrido. Vamos falar de números. Cinquenta mil dólares americanos?

- Johnny Nzou era um dos meus melhores amigos – disse Daniel baixinho.

            - Quem é Johnny Nzou? - perguntou Chetti Singh. - Digamos que são mais cinquenta mil para ele. Cem mil dólares americanos. Dou-lhe esse dinheiro e deixa-me ir embora. Esquecemos este disparate. Certo, doutor?

- Já é tarde demais para isso, Mr. Singh. Johnny Nzou era o chefe dos guardas do Parque Nacional de Chiwewe.

            Chetti Singh assobiou baixinho.

- Lamento muitíssimo, doutor. Mas não fui eu que dei essas ordens... Via-se que estava a entrar em pânico. Eu não tive nada a ver com isso. Foi... foi o chinês.

            - Fale-me do chinês.

- Se eu lhe contar tudo, jura que não me faz mal?

            Daniel pareceu meditar longamente no assunto.

            - Muito bem - acedeu finalmente. - Vamos para o seu armazém, onde podemos ter uma conversa particular sem sermos interrompidos. Diz-me tudo o que sabe de Ning Cheng Gong e depois eu não lhe faço mal.

Chetti Singh voltou-se para olhar para ele à luz do painel de instrumentos.

- Acredito que vai cumprir a sua palavra, Dr. Armstrong. - à letra, Mr. Singh - garantiu Daniel. - Agora, siga para o armazém.

O armazém estava às escuras. Chetti Singh parou diante dos portões.

- O volante é à esquerda - observou, apontando para os comandos do Cadillac com um gesto de desculpa. - Tem de abrir o portão do seu lado.

            Entregou a Daniel um cartão electrónico plastificado, semelhante ao que ele tinha tirado do cadáver de Chawe, e baixou o vidro eléctrico do automóvel.

            Daniel inclinou-se para fora e inseriu o cartão na ranhura da caixa de comando. A barreira do portão levantou-se, e Chetti Singh entrou.

            - A sua pantera de guarda deve poupar-lhe muito dinheiro em salários. - Daniel falava em voz calma, mas mantinha o cano da caçadeira enterrado nas costelas de Chetti Singh. - Só não percebo como é que conseguiu que o animal ficasse tão feroz. Geeralmente, a pantera só ataca o homem quando é provocada.

            - É verdade. - Chetti Singh deu uma gargalhadinha. - Foi um conselho da pessoa que ma vendeu. De vez em quando, é necessário espevitá-la. Faço isso com uma forquilha eléctrica

Deu outra gargalhadinha.

- Quer dizer que a tortura deliberadamente para a enfurecer? - perguntou Daniel.

O seu tom de voz exprimia claramente indignação e desprezo, e Chetti Singh ficou novamente sério.

- Vocês, os Ingleses, e o vosso amor aos animais. É só uma forma de treino para a tornar mais eficiente. As feridas são superficiais e cicatrizam depressa.

            Pararam em frente da porta do armazém, e Daniel utilizou novamente o cartão electrónico para abrir as portas de correr. Quando entraram, as portas fecharam-se atrás deles.

- Estacione aí ao pé da rampa de carga - ordenou Daniel. Os faróis iluminavam as vigas e a chapa ondulada da parede ao fundo do cavernoso edifício.

            A pantera estava agachada junto de uma pilha de caixotes. Quando a luz lhe bateu, os olhos amarelos brilharam e ela arreganhou os dentes num rugido. Depois, desapareceu atrás da pilha de caixotes.

- Reparou na ferida que ela tem no focinho? – perguntou Chetti Singh. - O senhor fez aquilo e ainda me acusa de crueldade.

            - Aqui está bem - disse Daniel, ignorando a observação do outro.

- Podemos conversar aqui. Desligue o motor e apague os faróis. Acendeu a luz interior do automóvel, e um brilho suave substituiu a luz branca intensa dos faróis. Ficaram em silêncio durante um tempo e depois Daniel perguntou calmamente:

- Então, Mr. Singh, quando é que conheceu Ning Cheng Gong?

- Foi há três anos. Um amigo comum disse-me que ele estava interessado em marfim. - Chetti Singh encolheu os ombros. - Podia usar a mala diplomática. Um método de exportação perfeitamente seguro - A não ser quando o material é demasiado volumoso - observou Daniel. - Como no caso da última remessa de marfim.

            - É como diz - concordou Chetti Singh. Mas, mesmo assim, as ligações familiares dele eram tremendamente úteis. Taiwan é um entreposto muito conveniente.

- Quem é que teve a ideia do ataque a Chiwewe, Mr. Singh? - Foi o embaixador. A ideia foi dele – respondeu precipitadamente Singh.

            - Acho que o senhor está a mentir. É muito pouco provável que ele soubesse da existência do armazém de marfim. A localização do armazém não é do domínio público. Acho que devia ser mais da sua especialidade

- É verdade - concordou Chetti Singh. - Sabia disso há vários anos. Estava à espera de uma oportunidade. Ning disse-me que queria dar um grande golpe. A missão dele estava quase a acabar, ia voltar para casa e queria impressionar a família. O pai, principalmente.

            - Mas foi o senhor quem recrutou os assaltantes, não foi? Ning não podia ter feito isso. Não tinha os seus contactos.

- Não fui eu que dei ordem para matarem o seu amigo - disse Chetti Singh em voz trémula. - Não queria que isso acontecesse.

- Ia deixá-los contar a história à Polícia?

            - Sim... Não, não! Ning é que quis. Não me agrada mandar matar pessoas, doutor.

- Por isso é que mandou Chawe comigo para as montanhas?

- Não! O senhor é que me obrigou a fazer isso, Dr. Armstrong. Por favor, tem de compreender. Eu sou um homem de negócios, não sou um assassino!

- Está bem. Deixemos isso por agora. Mas diga láo que é que tinha combinado com Ning? Certamente têm planos para o futuro, não é verdade?

- Falámos de algumas possibilidades - confessou Chetti Singh.

- A família Ning tem muitos interesses em áfrica. Depois desta última remessa de marfim, a posição de Cheng na família vai melhorar. Está convencido de que o pai vai pô-lo a dirigir a secção africana da Sociedade Amuletos do Dragão.

            - E deve haver lugar para si nesses planos, não é verdade? Vão precisar dos seus serviços especializados. Com certeza que já discutiu o assunto com Ning?

- Não... - Chetti Singh guinchou quando o cano da espingarda se lhe enterrou na carne. - Por favor, doutor. Tenho a tensão alta.

            - E qual é a sua combinação com Cheng? - insistiu Daniel. - Onde é que vai trabalhar a seguir?

            - Em Ubomo - ganiu Singh. - O Dragão tenciona negociar no Ubomo.

- No Ubomo? - exclamou Daniel, surpreendido. - Com o presidente Omeru?

O Estado soberano do Ubomo era um dos poucos casos de êxito do continente africano. Tal como o Malawi, situava-se nos contrafortes da depressão do Grande Rift, numa região de lagos e montanhas da Africa Oriental, onde a savana e a floresta virgem equatorial se encontravam. O presidente Omeru era um déspota benevolente que governava à maneira africana tradicional. Graças a ele, o seu país não estava endividado nem fora devastado pelas guerras tribais.

            Daniel sabia que Omeru morava numa pequena vivenda de tijolo com um telhado de chapa de ferro ondulada e que ele próprio guiava o seu Land-Rover. Não tinha palácios de mármore, grandes Mercedes pretos nem jactos particulares. Era uma luz de esperança, nada o género de pessoa interessada em negociar com o Dragão.

            - Não acredito - declarou Daniel enfaticamente.

            - Omeru é um homem do passado. É velho, está ultrapassado. Resiste à mudança e ao desenvolvimento. Tem de ser expulso. Mas estão a tratar disso. Em breve, haverá um novo governante no Ubomo, um homem novo e dinâmico

-           E ganancioso - sugeriu Daniel. - E o que é que Cheng e o Dragão têm a ver com tudo isso?

            -           Não estou a par dos pormenores. Só sei que Cheng me pediu para mandar a minha gente para o Ubomo para quando fosse preciso.

            -           E quando é que vai ser preciso? Este ano? No ano que vem?

            -           Não sei, pode crer, doutor. Não lhe escondi nada.

Cumpri a minha parte do acordo. Agora, o senhor tem de cumprir a sua.

            -           E como era o nosso acordo, Mr. Singh? Tem de fazer o favor de me lembrar - pediu Daniel sem afrouxar a pressão da caçadeira.

            -           Depois de eu lhe ter dito tudo o que sabia de Cheng, prometeu libertar-me sem me fazer mal.

            -           E já lhe fiz algum mal, Mr. Singh?

            -           Não, por enquanto não. - Chetti Singh transpirava abundantemente. A expressão na cara do homem branco era assustadora.

            Daniel estendeu o braço à frente dele e agarrou no fecho da porta. Foi um gesto tão inesperado, tão rápido, que Chetti Singh não teve tempo para reagir. Encolheu-se de encontro à porta para fugir à caçadeira.

            -           Pode sair, Mr. Singh - disse Daniel suavemente.

            Accionou o fecho da porta do lado do condutor do Cadillac. A porta abriu-se toda para trás, e Chetti Singh, que estava encostado à porta com todo o peso do corpo, caiu de costas no chão de cimento, ficando imóvel, paralisado de susto.

            Daniel bateu com a porta do Cadillac e trancou-a. Acendeu os faróis. Chetti Singh ficou deitado por instantes ao lado do veículo, e Daniel fitou-o através do vidro inquebrável. A pantera rugiu lá das profundezas do armazém.

            Chetti Singh levantou-se de um pulo e atirou-se para cima do Cadillac, arranhando o vidro com as mãos, com as feições contorcidas numa expressão de pânico.

            -   Não pode fazer isto, doutor. A pantera... por favor, doutor. - A voz dele era abafada pelo vidro, mas mesmo assim o terror tornava-a aguda. Daniel olhou-o, indiferente, cerrando os dentes. - Dou-lhe tudo o que quiser! - gritou Chetti Singh. - Tudo!

Olhou para trás e fez uma expressão de terror quando avistou a sombra mortífera rondando na escuridão.

A pantera soltou um rugido de ódio, um som ameaçador.

Chetti Singh voltou-se para a escuridão, encostado ao automóvel.

            -   Para trás, Nandi! Para trás! Vai para ajaula!

Ambos viram a pantera, agachada entre dois muros de caixotes. A luz dos faróis reflectiu-se nos olhos amarelos e brilhantes do animal. A pantera começou a dar à cauda num ritmo hipnótico. Estava a espreitar Chetti Singh.

- Não! - berrou o sikh. - Não pode deixar-me à mercê do animal! Por favor, doutor, imploro-lhe. Ela vai matar-me! Por favor...

            Daniel deslizou para o volante do Cadillac. Ligou o motor, e Chetti Singh perdeu a cabeça. Desencostou-se do automóvel e começou a correr na escuridão do armazém. Os seus gritos confundiam-se com os rugidos da pantera, que o perseguia.

            Daniel desceu a rampa de carga em marcha atrás e dirigiu-se para a porta. Deixou o motor a trabalhar e os faróis acesos e saiu do Cadillac. Inseriu o cartão de Chetti Singh na ranhura da caixa de comando e as pesadas portas abriram-se ruidosamente. Deixou o cartão na ranhura. depois largou a caçadeira e saiu às arrecuas.

            Teve o cuidado de não correr nem fazer movimentos bruscos que pudessem provocar a pantera, embora fosse evidente, a avaliar pelos ruídos que se ouviam no interior do armazém, que o animal já tinha a sua vítima.

            Finalmente, desapareceu na noite. Usou o cartão de Chawe para sair para a rua, fechou o portão e depois começou a correr.

            Quando encontrassem Chetti Singh, no dia seguinte de manhã, pensariam que o alarme de incêndio o tinha atraído ao lugar errado e que fora atacado pelo animal ao abrir as portas do armazém. Daniel não deixara impressões digitais nem provas que pudessem incriminá-lo.

            Quando chegou à esquina mais afastada da vedação, Daniel parou e olhou para trás. Os faróis do Cadillac continuavam a iluminar a porta aberta do armazém. Viu o vulto escuro do felino a escapulir-se pela porta, saltando a vedação alta do recinto. Daniel sorriu. Sabia que o pobre animal torturado se dirigiria sem hesitações para a sua região natal, nas montanhas enevoadas e cobertas de floresta. Depois do que sofrera, merecia a liberdade.

Dirigiu-se para o aeroporto no seu Volkswagen alugado e estacionou num dos lugares da Avis. Meteu as chaves do automóvel na caixa que existia para esse efeito no escritório vazio da Avis e procurou o seu Landcruiser no parque de estacionamento.

            Saiu de Lilongwé, regressando ao posto fronteiriço com a Zâmbia. Eram três horas de viagem. Ligou o rádio e sintonizou para o programa da manhã da Rádio Malawi para ouvir a música e as notícias. Já estava perto da fronteira quando deram o noticiário das 6 da manhã.

            - Entretanto, aqui em Lilongwé, acabamos de receber a notícia de que um conhecido homem de negócios foi atacado pela

sua pantera. Mr. Chetti Singh foi levado de urgência para o Hospital Geral de Lilongwé, onde se encontra agora na Unidade de Cuidados Intensivos. Um porta-voz do hospital disse que Mr. Singh tinha ferimentos graves e que o seu estado era crítico. As circunstâncias em que se deu o ataque não são conhecidas. Daniel desligou o rádio e estacionou no exterior do posto alfandegário do Malawi. Receava ter problemas, especialmente se Chetti Singh estivesse em estado de poder falar e tivesse dado o seu nome à Polícia. Não fazia parte dos seus planos que Chetti Singh sobrevivesse. Esperara que a pantera fizesse um trabalho mais perfeito. O seu erro fora sair cedo demais com o carro - distraira a pantera da sua vítima.

Com algum nervosismo, foi mostrar o passaporte ao posto fronteiriço. Mas não valia a pena ter-se preocupado. Os funcionários eram todos eles sorrisos e modos delicados.

            TELEFONOU a Michael Hargreave uma hora depois de ter chegado a Lusaca, e Michael convidou-o para jantar nessa noite.

            -           Para onde é que vais agora, meu beduíno errante? - perguntou Wendy, servindo-lhe uma segunda dose do seu famoso Yorkshire pudding.

            -           Isso depende do que o Michaci me souber dizer de um nosso conhecido chamado Ning Chcng Gong.

            -           Ainda andas atrás do chinoca? - perguntou Michael, abrindo uma garrafa de vinho. - E pode saber-se qual é a razão de tudo isso?

            -           Está mais que provado que foi ele quem organizou o ataque ao armazém de marfim de Chiwewe.

Michael, que ia levar o copo de vinho à boca, parou a meio.

            -           Meu Deus'. Agora estou a perceber. Estou a lembrar-me de que eras muito amigo do Johnny Nzou. Mas tens a certeza de que foi o Ning? Ele é embaixador, não é um gangster.

            -           É as duas coisas - respondeu Daniel. - O homem de mão dele é um sikh de Lilongwé, um tal Chetti Singh.

            -           Chetti Singh? Ouvi esse nome há pouco tempo. – Mike pensou um segundo. -Pois, foi nas notícias desta manhã. Foi atacado por uma pantera domesticada, não foi? - A sua expressão alterou-se. - Foi mesmo na altura em que tu estavas em Lilongwé. Que coincidência, Danny. Não tem nada a ver com o teu braço ligado e essa expressão complacente, pois não?

            -           Sabes muito bem que estou regenerado – garantiu Daniel. - Já não me meto em brigas. Mas descobri uma coisa durante a minha breve conversa com Chetti Singh antes desse acidente infeliz com a pantera. Uma coisa que lhes pode interessar a vocês lá no MIS.

            -           Então, diz lá, Daniel.

            -           Chetti Singh disse-me que ia haver um golpe de Estado no Ubomo. Vão correr com o Omeru.

            -           Ora, não me digas, logo o Omeru! É um dos bons. Não pode ser. Sabes mais alguns pormenores?

            -           Não, receio que não. Ning Cheng Gong está metido nisso e a família dele também, mas não são os cabecilhas, com certeza. Acho que são só patrocinadores entusiásticos da futura revolução com que esperam conseguir direitos e privilégios mais tarde.

            Michael assentiu com a cabeça.

            -           É o cenário do costume. Apanham uma fatia do bolo quando o novo dirigente do Ubomo o repartir. Não fazes ideia de quem ele possa ser?

            -           Não, não sei mais nada, mas aposto que vai ser nos meses mais próximos.

            -           Vamos ter de avisar o Omeru.

            -           Já agora, agradecia que aproveitasses e também investigasses melhor Ning Cheng Gong.

            -           Foi-se embora, Danny. Fugiu da gaiola. Falei com o meu colega de Harare esta manhã e, como sabia que estavas interessado nele, fiz a pergunta em conversa. Ning deu uma festa de despedida na Embaixada de Taiwan na sexta-feira à noite e foi-se embora no avião de sábado.

            -           Maldição - exclamou Daniel. - Isso estraga todos os meus planos. Tencionava ir a Harare...

            -           Isso era uma má ideia - interrompeu Michael. – Uma coisa é atirar com um cidadão vulgar à sua própria pantera e outra é andar a bater em embaixadores. Cai mal.

            -           Ele já não é embaixador - observou Daniel. - E eu podia ir para Taiwan atrás dele.

            -           Outra ideia medíocre, se me permites. Que eu saiba, a família dele é praticamente dona da ilha. Deve estar tudo cheio de malfeitores a soldo do Ning. Se estás mesmo disposto a brincar aos vingadores, é melhor esperares. Se aquilo que me disseste corresponde à verdade, não tarda nada Ning está de volta a áfrica. O Ubomo é terreno neutro, é muito melhor do que Taiwan. Pelo menos aí posso ajudar-te. Temos um escritório em Kahali, a capital. De resto, até é possível... - Michael hesitou. - Talvez seja prematuro, mas ouvi dizer que vão mandar-me para Kahali na minha próxima missão.

            Daniel pôs-se a olhar para o copo, engolindo vagarosamente o seu conteúdo e admirando os reflexos cor de rubi do vinho. Finalmente, suspirou e assentiu com a cabeça.

            -           Tens razão, como sempre. - Sorriu a Michael com um ar infeliz. - Estava a entusiasmar-me demais e além disso estou muito mal de massas. Acho que nem sequer tinha dinheiro para o bilhete de avião para Taipé.

            -           Nunca pensei, rapaz! Estava convencido de que eras milionário. E todos aqueles contratos de milhões de dólares para a TV?

            -           Tudo o que possuo está investido nas videocassetes que mandaste para Londres. E não valem nada enquanto eu não fizer a montagem. É toda a minha fortuna neste momento. Não te importas que deixe o Landcruiser e o equipamento aqui em Lusaca à tua guarda, como de costume?

            -           Com certeza, rapaz. A minha casa está às tuas ordens e a minha garagem também. Não faças cerimónia.

            Na manhã seguinte, Michael levou Danny ao aeroporto para apanhar o voo da British Airways para Londres.

            NA NOITE seguinte, tocou o telefone no apartamento de Daniel. Ninguém sabia que ele estava de volta a Chelsea. Ficou a pensar se havia de se dar ao trabalho de atender, mas ao décimo toque rendeu-se.

            -           Danny, és mesmo tu ou é esse maldito atendedor de chamadas? Recuso-me a falar com uma máquina por uma questão de princípio.

            Reconheceu imediatamente a voz de Michael Hargreave.

O que foi, Mike? A Wendy está boa? Onde é que estás?

            -           Continuo em Lusaca. Estamos os dois óptimos, rapaz.

Mas já não posso dizer o mesmo do teu camarada Omeru. Tinhas razão, Danny. Acabo de saber a notícia. Correram com ele. Um golpe militar. Soubemos mesmo agora pelo nosso escritório de Kahali.

            -           E o que é que aconteceu a Omeru? Quem é que está no poder?

            -           Não sei a resposta a nenhuma das perguntas.

Desculpa, Daniel, mas por enquanto está tudo muito confuso. Devem dar a noticia na BBC, mas assim que souber mais alguma coisa, telefono-te.

            Deram a notícia mesmo no fim do noticiário da BBC: disseram só que houvera um golpe de Estado no Ubomo e que uma junta militar tinha tomado o poder. Mostraram Omeru na televisão, um homem de setenta e tal anos, de cabelo todo branco e feições marcadas, ainda atraente. Tinha um olhar sereno e directo. Depois, seguiu-se o boletim meteorológico, e Daniel sentiu uma certa tristeza.

            Encontrara-se uma única vez com Victor Omeru, havia cinco anos, quando o presidente lhe concedera uma entrevista. Tinham passado só uma hora juntos, mas Daniel ficara impressionado com a eloquência e a presença do velho e principalmente com a sua dedicação óbvia ao povo e o seu empenho na preservação da floresta, da savana e dos lagos que eram o património nacional. Simpatizara imediatamente com aquele homem, que partilhava do seu amor e do seu interesse pelo continente onde ambos haviam nascido. Mas agora Victor Omeru desaparecera, e a África ficara mais pobre e mais triste com a sua morte.

            Daniel passou todo o dia de segunda-feira na City falando com o seu banco e o seu agente. Correu tudo bem, e quando chegou a casa, às 9 e 30 da noite, estava muito mais bem disposto.

            Havia um recado de Michael no atendedor de chamadas: "Detesto esta maquineta! Telefona-me assim que chegares a casa, Daniel."

Eram 2 da manhã em Lusaca, mas ele resolveu levar as palavras de Michael à letra.

            -           Estavas a dormir, Mike?

            -           Não faz mal, Danny. Ainda não tínhamos apagado a luz. Tenho mais uma notícia para ti. O novo homem forte do Ubomo é o coronel Ephrem Taffari. Tem quarenta e dois anos, estudou na London School ofEconomics e na Universidade de Budapeste. Fora isso, ninguém sabe nada dele, a não ser que já mudou o nome do país para República Democrática Popular do Ubomo. Mau sinal. Em áfrica "democrático", na linguagem socialista, quer dizer "tirânico". Correm notícias de que ele teria executado membros do antigo governo.

            -         E Omeru?

            -           Não se sabe, mas calcula-se que foi um dos que eles encostaram à parede.

            -           Se ouvires dizer alguma coisa dos meus amigos Chetti Singh ou Ning Cheng Gong, avisa-me.

            -           Está descansado, Danny.

 

DANIEL expulsou dos seus pensamentos os acontecimentos do Ubomo, e durante algum tempo o seu mundo restringiu-se ao espaço compreendido entre as quatro paredes da sala de montagem do estúdio de Shepherd's Bush. Estava tão absorto no processo criativo que nas semanas seguintes os acontecimentos de África recuaram para um lugar distante. Só quando viu a cara de Johnny Nzou a olhar para ele, no filme que tinha feito, e ouviu a sua voz é que tudo lhe voltou à memória com um choque que ressuscitou a sua cólera. Sozinho na sala de montagem às escuras, falou para a imagem de Johnny:

            -           Não me esqueci de ti. Não se vão safar depois do que te fizeram. Prometo-te, velho amigo.

            Em fins de Fevereiro, três meses depois de ter iniciado a montagem, tinha uma versão em bruto dos quatro primeiros episódios da série para mostrar à sua agente, Bína Markham.

Passaram a manhã na sala de pré-visionamento do estúdio, vendo os quatro episódios de seguida. Ema não fez comentários até ao fim da reprodução da última cassete, mas depois levantou-se e disse:

            -           Está uma maravilha, Armstrong, uma verdadeira beleza. É do melhor que tens feito. Quero quatro cópias imediatamente.

            -           É impossível venderes isto - riu-se ele, aliviado. - Não está pronto.

            -           Impossível? Isso é o que vamos ver!

EmA MOSTROU primeiro o trabalho aos italianos, que gostavam sempre muito das coisas dele. Uma semana depois, levou-lhe a casa a minuta de um contrato.

- Gostaram tanto como eu - disse-lhe Ema. - Consegui um adiantamento vinte e cinco por cento superior ao da última vez.

- És um génio - comentou Daniel.

O adiantamento dos italianos cobria quase integralmente os custos de produção da série. A grande aposta resultara em cheio. A venda dos direitos às televisões de todo o Mundo poderia atingir os três milhões de dólares. Ele próprio estava impressionado com a sua proeza.

            - A propósito, o que é que se passou entre ti e o Jock? ­perguntou Ema. - Fez-me um telefonema muito estranho. Disse que tu e ele tinham tido uma briga e que não queria trabalhar mais contigo. É verdade?

            - Sim, foi mais ou menos isso.

            -           É pena. Ele fez um trabalho fantástico nesta série "A Morte de África". Tens outro operador de câmara em mente?

            -           Não. Sabes de alguém?

            Ema ficou a pensar no assunto um bocado.

            - Importas-te de trabalhar com uma mulher?

            -           Não, desde que ela se aguente. A África é um país rude e duro. É preciso uma certa resistência para aguentar as condições físicas.

            Ema sorriu.

            - A fulana em que estou a pensar é uma mulher forte e tem muito talento, posso garantir-te. Acaba de fazer uma peça para a BBC sobre o Árcúco e os índios inuit, isto é, os Esquimós, que ficou muito boa.

            - Gostava de a ver.

            Ema mandou-lhe a cassete ao estúdio no dia seguinte, mas Daniel estava tão absorto no seu trabalho que se limitou a enfiá-la na gaveta da secretária.

MICHAEL HARGREAVE telefonou outra vez de Lusaca.

- Danny, tenho uma boa notícia para ti: o teu amigo Chetti Singh saiu do hospital.

            - Tens a certeza, Mike?

- Uma recuperação notável, ao que me dizem. Tiveram de amputar-lhe um braço, mas fora isso está ali para as curvas. Tens de mandar-lhe outra pantera pelo Natal, porque aquela não resultou.

            Daniel riu-se sem entusiasmo.

- E soubeste alguma coisa do meu outro camarada?

            - O chinoca? Não, absolutamente nada.

            - Se ele aparecer, avisa-me. Não vou poder sair de Londres nestes dois meses mais próximos. Isto por aqui está muito animado.

Daniel não exagerava. Ema acabara de vender a série "A Morte de África" ao Canal 4. Iam exibir o primeiro episódio no horário nobre, ao domingo à noite, nas seis semanas seguintes.

- Vou dar uma grande festa em tua honra na noite de estreia - informou Ema.

No sábado, véspera da festa, Ema telefonou para o apartamento de Daniel.

- Já tiveste tempo para ver a cassete que eu te mandei?

            -Qual?

            - Isso quer dizer que não - resmungou Ema. - A cassete do Árctico gravada pela tal operadora de câmara, Bonny Mahon.

- Bolas! Desculpa, Ema. Nem tive tempo de pensar nisso.

            - Convidei-a para a festa - avisou ela.

            - Vou vê-la já - prometeu Daniel.

Foi buscar a cassete à gaveta da secretária. Tencionara vê-la muito por alto, mas a primeira sequência - uma vista aérea dos gelos eternos do Pólo Norte - cativou-o.

Só depois de a cassete ter chegado ao fim é que Daniel tentou analisar como é que a operadora de câmara produzira os seus efeitos. Bonny Mahon soubera tirar partido daquela luz extraordinária para dar ao filme uma textura e uma atmosfera que lhe lembravam muito a luminosidade das obras do grande pintor William Turner. Ficou com vontade de a conhecer.

As festas de Ema eram sempre muito animadas, e a grande sala estava a rebentar pelas costuras. Felizmente que era uma noite quente de Maio e os convidados podiam sair para o terraço, que tinha vista sobre o rio.

            Daniel vivera como um recluso durante seis meses, e era bom ter outra vez contactos humanos. Estava no centro de um círculo de admiradores, os quais, na maior parte, eram também velhos amigos que se revezavam para falar com ele, e sentia-se satisfeito com essa atenção. Finalmente, Ema bateu palmas.

            - Gente! Vai começar!

Andou de sala em sala a ligar uma dúzia de televisores extras que distribuira por pontos estratégicos do seu apartamento, sintonizando-os para o Canal 4. Ouviu-se um murmúrio de vozes excitadas quando apareceu o genérico, a música do tema começou a ressoar nas salas e a primeira sequência da peça de Daniel abriu com uma vista que era a alma de África.

            Era uma planície de terra queimada, de cor sépia, onde se erguiam algumas acácias dispersas de troncos retorcidos e copas achatadas. Um único elefante avançava pela planície, um macho velho de pele cinzenta enrugada e presas maciças. Era um animal imponente. Tinha um andar pesado e majestoso e uma nuvem brilhante de garças-brancas de asas translúcidas, cor de pérola, esvoaçando à sua volta. Na linha do horizonte, recortada no céu azul de África, flutuava a pirâmide nevada do Kilimanj aro.

            As vozes e os risos dos convidados mais "alegres" aquietaram-se e fez-se silêncio nas salas apinhadas, cativados pela panorâmica evocadora de Daniel.

            Depois, ouviram-se exclamações quando duas velhas matriarcas da manada do Zambeze galoparam em direcção aos espectadores, parecendo querer sair do ecrá, com as orelhas esfarrapadas a abanarem e levantando a terra vermelha debaixo das patas, até que os seus barridos agudos foram cortados cerce pelo estrondo dos tiros.

Durante quarenta e cinco minutos, Daniel encantou o seu público, passeando-o por aquele continente majestoso e devastado. Mostrou-lhe uma beleza quase irreal e uma crueldade e fealdade que ainda se tornavam mais chocantes devido ao contraste.

            Quando a última imagem se esbateu, o silêncio reinou durante uns segundos. Depois, alguém bateu palmas devagar, e os aplausos irromperam cada vez mais fortes, intermináveis. Ema veio até junto de Daniel; não disse nada, limitou-se a agarrar-lhe na mão.

            Ao fim de algum tempo, Daniel teve vontade de escapar às felicitações ruidosas. Saiu para o terraço e ficou sozinho, olhando para as águas escuras do Tamisa. As suas próprias imagens de África tinham-no comovido e entristecido. Já devia estar imune, mas não. A sequência de Johnny Nzou e dos elefantes era particularmente perturbadora. De repente, Daniel foi invadido por um desejo avassalador de regressar a África. Sentia-se inquieto e descontente.

Alguém lhe tocou no braço. Virou-se e viu que era uma rapariga. Tinha cabelo ruivo, espesso e abundante, de um vermelho flamejante. Era quase da altura dele e tinha feições generosas, uma boca grande de lábios cheios.

            - Andei toda a noite a ver se conseguia falar consigo. ­Tinha uma voz profunda, de timbre seguro. - Mas o senhor é o homem do dia.

            Não era bonita. Tinha a pele cheia de sardas, do sol e do vento, e o ar sadio de uma pessoa que anda muito ao ar livre. Os olhos verdes, franjados de pestanas tão densas e espessas como fios de bronze, brilhavam à luz do terraço.

- Ema prometeu que me apresentava, mas já desisti de esperar. Chamo-me Bonny Mahon. - Tinha um riso arrapazado.

            - A Ema deu-me uma cassete sua.

Daniel estendeu-lhe a mão e ela apertou-a com força. "Sim, senhor. Não há dúvida de que ela é uma mulher forte, como a Ema disse. A África não lhe vai meter medo."

- Você tem um jeito especial para captar a luz. O seu trabalho é muito bom.

- O seu também. - Fez um sorriso ainda mais rasgado. - Gostava de trabalhar consigo qualquer dia.

Tinha uns modos directos, despretensiosos, e Daniel gostou dela.

            ALGUNS quilómetros a norte do terraço onde Daniel e Bonny se encontravam, outra pessoa assistira também ao primeiro episódio de "A Morte de África".

            Sir Peter Harrison, ou "Tug" Harrison, era o maior accionista e o director-geral da British Overseas Steam Ship Co. Ltd., ou BOSS. Embora a empresa estivesse cotada na Bolsa de Londres como uma companhia de navegação, o seu carácter modificara-se radicalmente nos últimos cinquenta anos, desde que Tug Harrison adquirira uma participação maioritária que lhe dera o controle.

            Tug sempre fora sensível às flutuações da opinião pública e à imagem projectada pela sua empresa. Tinha um instinto tão apurado para essas subtilezas como para as flutuações dos mercados financeiros mundiais. E essa era uma das razões do seu enorme êxito.

- O verde está na moda - dissera havia um mês ao seu conselho de administração. - O verde-vivo. Podemos concordar ou não com esta paixão pela Natureza e o ambiente, mas temos de a ter em conta.

            Naquele momento, estava sentado no terceiro andar da sua magnífica casa de Holland Park, uma das zonas mais prestigiosas de Londres. O seu escritório era apainelado com madeira africana proveniente das concessões da BOSS na Nigéria. Só havia dois quadros pendurados no apainelado, porque os próprios veios da madeira já eram uma obra de arte natural. O quadro que estava em frente da secretária era uma Nossa Senhora e o Menino, da época da primeira estada de Paul Gaugum nas ilhas do Pacífico Sul, e o outro, pendurado por detrás de Tug, era um Picasso, uma grande imagem bárbara e erótica de um touro e de uma mulher nua.

Ao lado da porta, havia uma placa com os chifres de um rinoceronte. Num dos chifres, havia uma zona mais brilhante, polida pelas mãos de Tug Harrison ao longo de muitas dezenas de anos. Acariciava sempre o chifre quando entrava na sala. Era o seu amuleto.

            Quando era um jovem de dezoito anos, esfomeado e sem um tostão, que apenas tinha de seu no Mundo uma velha carabina e uma mão-cheia de balas, perseguira aquele rinoceronte no deserto cintilante do Sudão. A cinquenta quilómetros das margens do Nilo, abatera o grande macho com um único tiro no cérebro. O sangue de uma artéria da cabeça do animal formara um pequeno rego na areia do deserto, e Tug Harrison apanhara no fundo dessa estreita depressão uma pedra transparente com um brilho fosco quase do tamanho da palma da sua mão.

Aquele diamante fora o princípio de tudo. A sorte dele mudara no dia em que matara o rinoceronte. Guardara os chifres, que eram mais preciosos para ele do que qualquer dos dois quadros fabulosos que os ladeavam.

            Sintonizou um televisor encastrado na parede apainelada e o som do tema musical flutuou no compartimento. A imagem de um grande elefante e de um pico nevado encheu o ecrã, e Harrison foi transportado instantaneamente para um ponto longínquo no tempo e no espaço cinquenta anos atrás e a muitos milhares de quilómetros de distância. Permaneceu atento até a última imagem se desvanecer. Depois, estendeu a mão para tocar nos comandos e o ecrã escureceu.

            Tug ficou ali em silêncio durante algum tempo. Finalmente, pegou na sua caneta de ouro de dezoito quilates e rabiscou um nome na agenda: "Daniel Armstrong."

            DANIEL foi a pé de Shepherd' 5 Bush até Holland Park. Lá porque era um futuro milionário, não ia deitar fora cinco libras por uma corrida de táxi de poucos minutos. E enquanto caminhava, pensava em Tug Harrison.

            Ficara intrigado assim que Ema lhe telefonara para lhe transmitir o convite de Harrison. Estava a par do poderio e da riqueza da BOSS e da influência que a empresa tinha em África. Tug Harrison era o corretor, o correio, o consultor, o banqueiro, o intermediário e negociador do continente. Os seus tentáculos estendiam-se a todos os cantos, desde o Egipto às margens do rio Limpopo.

            Daniel estava com vontade de o conhecer. Ao chegar diante da porta imponente da casa de Tug, sentiu um arrepio de nervosismo. Frequentemente, aquele género de pressentimento fora-lhe útil no mato africano; advertira-o muitas vezes da presença de animais ferozes ou de homens ainda mais perigosos.

Um criado preto, vestindo uma kanza branca flutuante e com um fez vermelho na cabeça, veio abrir a porta. Quando Daniel lhe falou em suafli, a máscara rígida da sua cara desfez-se num grande sorriso de dentes muito brancos.

Subiu uma escadaria de mármore branco, indicando o caminho a Daniel. Havia flores naturais nos nichos dos patamares. e Daniel reconheceu alguns dos quadros da famosa colecção de arte de Harrison Sisley, Dufy e Matisse. O criado parou diante de umas grandes portas duplas de teca da Rodésia, afastou-se para o lado e fez uma vénia. Daniel entrou no compartimento.

            Tug Harrison levantou-se por detrás da secretária. Era um homem grande e compacto, e o fato cinzento de risquinhas, de corte perfeito, disfarçava os ângulos da ossatura e a barriga saliente. Tinha uma orla de cabelo branco a toda a volta da cabeça, como um monge tonsurado, mas fora isso era careca. Os olhos eram vivos e penetrantes, traindo uma inteligência implacável.

            -           Armstrong - disse ele. - Obrigado por ter vindo.

            Estendeu a mão por cima da secretária, obrigando Daniel a chegar junto dele numa manifestação subtil de domínio.

            - Obrigado por me ter convidado.

            Apertaram as mãos, examinando-se mutuamente. Harrison fez sinal a Daniel para se sentar na cadeira de cabedal acolchoado por baixo do Gaugum e disse ao criado:

            -           Letta chai, Selibi. Toma um chá, não toma, Armstrong?

Enquanto o criado servia o chá, Daniel olhou para os chifres de rinoceronte da parede da entrada.

            -           Não é muito vulgar verem-se troféus daqueles - comentou.

Harrison saiu de trás da secretária e atravessou a sala até à porta. Acariciou um dos chifres.

            -           Pois não - concordou. - Eu era um miúdo quando o abati. Persegui o velho macho durante quinze dias. - Pegou na chávena que o criado lhe estendia. - Obrigado. Selibi. Quando saíres, fecha a porta.

            O criado fechou as portas duplas. e Harrison voltou para a secretária. Começou a beber o chá. A chávena de porcelana delicada tinha um ar frágil nas suas mãos, que acusavam as marcas de sol tropical e de trabalho físico duro.

            -           Vi o seu filme no Canal 4 no outro dia - disse.

Daniel inclinou a cabeça e ficou à espera. - Você tem razão ­continuou Harrison. - Você tem toda a razão.

Daniel não fez comentários. Percebeu que um comentário modesto ou depreciatório irritaria aquele homem.

            -           Viu o que havia para ver e tirou as conclusões certas. Foi uma variante agradável. depois das pieguices e dos disparates que ouvimos todos os dias. Foi direito às raízes dos problemas de África: tribalismo. superpopulação. ignorância e corrupção. As soluções que sugeriu fazem sentido. - Harrison acenou com a cabeça. - Sim. você tem razão.

"Não baixes a guarda", pensou Daniel. "Nem por um momento. Não deixes que as lisonjas dele - influenciem. Está á espreita para te apanhar. como um velho leão."

            -           Uma pessoa na sua posição pode influenciar mais do que ninguém a opinião pública - murmurou Harrison. - Você é famoso. tem um público internacional. As pessoas confiam na sua visão. Baseiam as suas opiniões no que o senhor lhes diz. Gostava de o ajudar e de o encorajar.

-           Obrigado. - Daniel fez um meio-sorriso irónico. De uma coisa estava ele certo: Tug Harrison nunca dava ponto sem nó. - Como é que os seus amigos lhe chamam? Daniel, Dan, Danny?

            - Danny.

            - Os meus amigos chamam-me Tug. Temos ideias tão semelhantes! A áfrica interessa-nos muito aos dois. Acho que devíamos ser amigos, Danny.

            -           Está bem, Tug. - Harrison sorriu.

            - É natural que esteja desconfiado. Compreendo isso perfeitamente. Sei a fama que tenho. Mas não deve julgar-se um homem pela sua fama.

            -           Isso é verdade. - Daniel retribuiu-lhe o sorriso. - Mas agora diga láo que é que quer de mim.

            - Ora esta! - Harrison deu uma gargalhada. - Gosto de si. Acho que vamos entender-nos. Pensamos ambos que o homem, que é a espécie dominante do planeta, tem o direito de explorar a Terra em seu benefício desde que o faça numa base sustentável e renovável.

            - Sim - concordou Daniel. - É o que eu penso.

- É o ponto de vista mais pragmático e equilibrado. Não esperava outra coisa de um homem com a sua inteligência. Na Europa, o homem anda a derrubar as florestas e a matar os animais há séculos, e apesar disso a terra é mais fértil, a floresta mais densa e os animais mais numerosos do que há mil anos atrás.

- A não ser a sotavento de Chernobyl, onde cai a chuva ácida - observou Daniel. - Mas isso é verdade. Na Europa, as coisas não vão mal. Mas em África já é diferente.

            Harrison interrompeu-o.

            -           Você e eu gostamos de África. Acho que temos o dever de combater os males africanos. Eu posso fazer alguma coisa para combater a pobreza em algumas partes do continente com investimentos e conselhos. Você, com o seu dom especial, está em posição de combater a ignorância que existe no que se refere à África. Pode esclarecer as ideias confusas dos ecologistas de salão e dos fanáticos dos direitos dos animais, que estão a ameaçar os elementos da Natureza que julgam proteger.

            Daniel assentiu pensativamente.

            - Em princípio, isso que está a dizer é muito certo. Mas gostava que se explicasse melhor.

- Claro - concordou Harrison. - Conhece o Estado do Ubomo, não é verdade?

            Daniel sentiu um pequeno choque eléctrico que lhe eriçou os cabelos da nuca. Aquilo era totalmente inesperado. mas, apesar disso, parecia-lhe uma predestinação. Levou uns instantes a recuperar e depois disse

            -           Ubomo, o país da terra vermelha. Sim,já lá estive, mas não posso dizer que conheça aquilo muito bem.

            -           Desde que se tornou independente da Grã-Bretanha, nos anos 60, tem sido um país atrasado. - Harrison encolheu os ombros. - Não há grande coisa para saber. Era o feudo de um velho ditador arrogante que resistia à mudança e ao progresso.

-           Victor Omeru - disse Daniel. - Encontrei-me com ele uma vez, há muitos anos.

            -           Resistia a todas as mudanças por uma questão de princípio. Queria preservar os costumes tradicionais. ­Harrison abanou a cabeça. - Seja como for, isso são águas passadas. Omeru foi-se e agora está um homem novo e dinâmico a chefiar o Governo. O presidente Ephrem Taffari vai fazer que o seu povo entre no século xx. O Ubomo tem recursos naturais importantes em madeira e minerais. Andei vinte anos a tentar convencer Omeru de que esses recursos deviam ser explorados a bem do seu povo. Mas ele resistia com uma intransigência cega.

-           Sim, era teimoso - concordou Daniel. - Mas eu gostava dele.

            -           Pois, era um velhote simpático - assentiu Harrison.

Mas o país está pronto para o desenvolvimento e, em nome de um consórcio internacional liderado pela BOSS, negociei uma concessão que nos permitirá desempenhar um papel importante nesse desenvolvimento.

            -           Então não precisa de mim, a menos que esteja a deparar com alguma oposição aos seus planos. É isso que está a querer dizer-me, Tug?

            Harrison inclinou a cabeça de lado.

            -           Você é muito directo, meu rapaz, mas não esperava outra coisa de si. Durante a presidência de Omeru, estava uma cientista a trabalhar no Ubomo - continuou. - Ela e o velho entendiam-se muito bem, e ele concedia-lhe toda a espécie de privilégios especiais que negava a outros jornalistas e investigadores. Essa mulher publicou um livro sobre os habitantes da floresta do Ubomo. Você e eu chamar-lhes-íamos pigmeus, mas na sociedade actual essa palavra é considerada depreciativa. O título do livro era...

- O título era O Povo das Grandes An'ores - interrompeu Daniel.

- Sim, li o livro. E o nome da autora é Kelly Kinnear.

            -           Conhece-a? - perguntou Harrison.

            -           Não - respondeu Daniel, abanando a cabeça. – Mas gostava de a conhecer. Escreve bem.

            -           É uma agitadora - declarou Harrison abruptamente. - Quando subiu ao poder, o presidente Taffari mandou chamar essa mulher. Explicou-lhe os seus planos para o desenvolvimento do país e pediu-lhe apoio. Mas o encontro não foi um êxito. Kelly Kinnear tinha lá uma ideia que devia ser leal ao velho presidente Omeru e resiStiu à tentativa de Taffari para estabelecer com ela uma relação de amizade. Depois, lançou uma campanha de agitação no interior do Ubomo. Acusou Taffari de violações dos direitos humanos. Acusou-o também de ter a intenção de saquear os recursos naturais do país. - Harrison levantou as mãos fortes e calejadas num gesto de impotência. ­Esses ataques não se baseavam em factos, e Taffari não teve outro remédio senão expulsá-la do Ubomo. Como talvez saiba, ela tem nacionalidade britânica, por isso voltou para a Grã-Bretanha. Mas não aprendeu a lição e continua a mover uma campanha contra o Governo do Ubomo.

            -           Mas a BOSS não tem nada a temer de uma pessoa assim, pois não? - perguntou Daniel calmamente, experimentando-o. Harrison olhou para ele, desconfiado.

            -           Infelizmente, a mulher fala bem e - hesitou - é uma pessoa insinuante. Conseguiu recrutar o apoio dos Verdes deste país e do resto da Europa. Tem razão, a BOSS não tem nada a temer, mas ela é incómoda. Soube dos planos do nosso consórcio para o desenvolvimento do Ubomo. Ela e os seus apoiantes estão a dificultar-me a vida. Tenho de prestar contas aos meus accionistas e a assembleia geral aproxima-se. Ora, acabo de saber que essa mulher comprou um pequeno bloco de acções da BOSS que lhe dá o direito de comparecer na AG e de falar. Pode ter a certeza de que vai convocar a imprensa radical e fazer uma tourada.

            -           A situação é delicada, Tug - concordou Daniel, disfarçando um sorriso. - Mas como é que posso ajudá-lo?

            -           Você tem muito mais influência do que Kelly Kinnear junto do público e nos meios científicos. Proponho que vá ao Ubomo e faça um documentário expondo os factos tal como são. Era o suficiente para neutralizar essa tal Kinnear. A televisão é um meio de comunicação muito mais influente do que a palavra escrita, e eu garantia-lhe a maior publicidade para o seu trabalho.

            Daniel teve vontade de dar uma gargalhada de desprezo, de reagir violentamente àquele insulto à sua integridade. Aquele homem achava que ele estava à venda.

            -           Claro que também posso garantir-lhe toda a cooperação possível da parte do presidente Taffari e do seu governo. Podia ir onde quisesse, mesmo no interior da zona interdita das reservas florestais.

            -           O que é que aconteceu a Omeru? - perguntou Daniel, inclinando-se para a frente com um ar muito interessado.

            - Estarei a detectar hostilidade em relação ao Governo do Ubomo? - perguntou Harrison devagar. - Em relação à minha proposta?

            -           Não - negou Daniel. - Mas sou um homem de negócios, tal como você, Tug. Tenho de saber em que é que estou a meter-me. Quero saber a verdade, e não a propaganda. Com certeza que me compreende.

            -           Está bem - respondeu Harrison, descontraindo-se. - Omeru era um velho teimoso. Taffari não teve outro remédio senão colocá-lo sob prisão domiciliária. Tinha acesso aos seus advogados e ao seu médico, mas morreu com um ataque cardíaco. Taffari ainda não anunciou a sua morte.

            -           Uma espécie de execução sumária sem julgamento - sugeriu Daniel. - Sentiu saudades do velho presidente.

            - Talvez pareça, mas Taffari garantiu-me que não foi isso - declarou Harrison.

            -           Está bem, aceito a sua versão - assentiu Daniel. – E os custos dessa produção? Não irá sair barata. Assim de repente, eu avaliaria os custos em cerca de dois milhões. Quem é que pagaria? A BOSS?

            - Isso seria demasiado óbvio - disse Harrison, hesitando. - A produção seria interpretada como uma peça de propaganda da empresa. Não, o dinheiro seria fornecido por uma empresa do Extremo Oriente. Apesar de ser um dos membros do consórcio, não está associada directamente à BOSS. Possui uma empresa cinematográfica em Hong Kong que poderia servir de testa-de-ponte.

            -           E como é que se chama a empresa-mãe? Onde está sediada?

            -           A empresa-mãe é taiwanesa, não é muito conhecida, mas é muito rica, muito poderosa. Chama-se Amuletos do Dragão. Daniel ficou a olhar para ele e por instantes quase perdeu a fala. O destino de Ning Cheng Gong parecia estar estranhamente ligado ao seu pela morte de Johnny Nzou. Sabia que tinha de investigar aquilo até ao fim.

            - Tem algum problema, Danny? - perguntou Harrison com um ar preocupado.

            - Não. Estava só a pensar na sua proposta. Em princípio, aceito o trabalho. - Fez um esforço para se controlar. - Tudo depende do contrato, claro. Há muitos aspectos que terão de ser negociados.

- Tenho a certeza de que vamos chegar a acordo sobre os pormenores - disse Harrison, sorrindo. - Peça à sua agente para me telefonar o mais rapidamente possível.

            -           OUÇA, BONNY, era tudo muito mais simples se você tivesse um agente - disse-lhe Danny com um ar muito sério. ­Não gosto de discutir consigo. Acho que o trabalho de um artista é ser criativo e que não deve desperdiçar o seu talento a discutir os pormenores de um contrato.

- Vou ser franca consigo, Daniel. Não me agrada ter de largar vinte por cento do dinheiro que tanto me custa a ganhar para o dar a um intermediário. Além disso, redigir um contrato pode ser tão criativo como pintar um quadro ou estudar um ângulo de filmagem. - Descalçou-se, atirando com os sapatos, sentou-se, dobrando as pernas compridas vestidas de calças de ganga debaixo de si, e recostou-se no sofá de cabedal. - Vamos falar de negócios.

            -           Está bem - concordou Daniel, rendendo-se. - Trabalhamos sempre que houver trabalho e durante todo o tempo que for preciso. Vamos para onde eu disser e arranj amo-nos com o que houver. Não há hotéis de cinco estrelas.

- Isso assim merece dois mil por semana - respondeu ela calmamente.

            -         Dólares?

            -           Libras.

- É um bocado forte. Isso não ganho eu – protestou Daniel.

            -           Não, mas provavelmente fica com vinte por cento dos lucros brutos e eu tenho de me contentar com uns miseráveis cinco por cento.

- Cinco por cento e mais duas mil libras por semana! - Daniel fez um ar horrorizado. - Deve estar a brincar.

            - Se estivesse a brincar, estava a rir, não é verdade?

            -           Bom, digamos mil e duzentas por semana e esqueça a percentagem.

            - A acústica aqui é terrível. Será que o ouvi falar em setecentas e cinquenta e quatro?

            -   Tem razão - concordou Daniel. - Deve haver qualquer problema acústico, porque eu disse mil e quinhentas e um e meio por cento.

            - Dois por cento - contrapôs ela.

            Levaram quase três horas a discutir as condições do contrato, e no fim a simpatia de Daniel por ela conjugava-se com um sentimento de respeito. Não era para graças.

            A SEDE DA Boss situava-se em Blackfriars, na City, mesmo em frente do pub que se erguia no mesmo local do velho mosteiro que dera o nome à zona.

O responsável de relações públicas estava à espera de Daniel e de Bonny na recepção. Vestia um fato completo com colete e projectava uma imagem de jovem executivo.

            -   Bom dia, chamo-me Pickering - informou, cumprimentando-os. - Dr. Armstrong e Miss Mahon, não é verdade? - Apertou a mão de Bonny, lançando-lhe um olhar rápido, do cabelo flamejante até às botas de cowboy. ­Organizei uma sessão de esclarecimento sobre o Ubomo para os senhores.

            Pickering levou-os para uma sala de reuniões. Estavam dois homens à espera deles junto de uma mesa com bebidas e aperitivos colocada a um canto. Pickering apresentou-os.

-           George Anderson, o chefe dos nossos geólogos. É responsável pelos empreendimentos de mineração no Ubomo. E Sidney Green, que coordena as concessões de exploração de madeira no Ubomo. Posso oferecer-lhes um cálice de xerez?

Pickering deu-lhes dez minutos para ficarem à vontade e depois instalou-os nas cadeiras colocadas em volta de uma mesa de reuniões de nogueira polida.

            -   Muito bem, vamos começar. Tenho instruções para ser completamente franco e aberto nesta sessão. Esteja à vontade para fazer todas as perguntas que quiser, Dr. Armstrong, que nós faremos o possível por lhe responder. As concessões da BOSS dividem-se em quatro categorias. Primeiro, temos as minas e as jazidas de minério; em segundo lugar, os empreendimentos agrícolas e de exploração florestal; em terceiro lugar, os projectos de pesca e de aquacultura, e finalmente a indústria turística e hoteleira e os casinos. Esperamos que o desenvolvimento de todos estes recursos permita que o Ubomo seja um dia um dos países mais prósperos do continente africano. - Pickering voltou-se para uma consola de equipamento audiovisual e regulou a luz da sala.

- Muito bem. Vamos a isto.

Apareceu um mapa do Ubomo no ecrã de parede do fundo, e Pickering começou a recitar a lição.

-   A República Democrática Popular do Ubomo situa-se

nos contrafortes da depressão do Grande Rift, na África Oriental e Central. Pickering indicou as fronteiras e os principais acidentes geográficos. A capital, Kahali, fica nas margens do lago, no sopé do maciço do Ruwenzori. ou, como lhe chamam também mais romanticamente, das Montanhas da Lua. A população total do Ubomo é estimada em quatro milhões de almas. A maior tribo é a dos Uhalis. Mas o novo presidente, Taffari, e a maioria dos seus conselheiros militares são hitas. Ao todo, estão representados no Ubomo onze grupos tribais, sendo o mais pequeno o dos Bambutis, mais conhecidos pelo nome de pigmeus. Cerca de vinte e cinco mil pigmeus habitam nas florestas equatoriais do Norte do país, onde se situam as principais concessões da BOSS.

            Pickering recolhera cuidadosamente a sua informação e apresentava-a de uma forma interessante. Mas Daniel já sabia quase tudo. Depois da introdução de Pickering, Sidney Green mostrou-lhes os anteprojectos de arquitectura das estâncias de recreio e dos casinos a construir nas margens do lago.

            -           Estamos a falar de meio milhão de visitantes por ano. Além do turismo, tencionamos desenvolver a indústria agrícola... Passou a expor alguns projectos de desenvolvimento agrícola. Nas savanas de baixa altitude do Leste do país, a mosca tsé-tsé impede o aproveitamento de uma grande área de terras, ideais para a criação de gado. Assim que isso for possível, propomo-nos aplicar, em cooperação com o Governo do Ubomo, um programa de pulverização aérea destinado a erradicar esse insecto perigoso. Quando isso tiver sido feito, a produção de carne de bovino...

            -           Pulverização aérea? - perguntou Daniel. - E que produtos químicos vão utilizar?

            -           Estou em posição de lhe anunciar que a BOSS adquiriu vários milhares de toneladas de Selfrin a preços muito favoráveis.

            -           Esses preços favoráveis não terão alguma coisa a ver com o facto de o Selfrin ter sido proibido nos Estados Unidos e no Mercado Comum'?

            -           Posso garantir-lhe que a utilização de Selfrin não é proibida no Ubomo - retorquiu Green com um sorriso contrafeito.

            -           Ainda bem - disse Daniel, retribuindo-lhe o sorriso.

Já tinha sentido o cheiro do Selfrin nos pântanos de Okavango e no vale do Zambeze e testemunhara a destruição total de algumas espécies de insectos e das aves e dos pequenos mamíferos que se alimentavam desses insectos. - Desde que seja legal, ninguém tem nada a objectar, não é verdade?

            -           Evidentemente, Dr. Armstrong. - Sidney Green mudou o diapositivo do ecrã. - As zonas de savana que não podem ser utilizadas para a criação de gado serão cultivadas com algodão e cana-de-açúcar. Os pântanos e as terras húmidas do Norte serão drenados; mas isso já são projectos a longo prazo. De imediato, a nossa facturação será assegurada pela exploração da madeira das florestas da vertente ocidental das montanhas. Essa exploração florestal será feita em coordenação com a exploração mineira. Independentemente um do outro, os dois projectos não seriam rentáveis, mas em conjunto são muito lucrativos. No entanto, vou deixar que George Anderson, o nosso geólogo responsável, lhes explique isso tudo.

A expressão de Anderson era tão dura como uma das suas amostras geológicas.

            -           As únicas jazidas de minério viáveis descobertas até agora no Ubomo situam-se no quadrante de noroeste. - Deslocou o cursor em cima do mapa exibido no ecrã. - A cobertura florestal dessa zona é constituída por cinquenta espécies arbóreas com interesse económico, tais como o carvalho-africano, o mogno-africano, a nogueira-africana, o cedro-vermelho e a palmeira. Não vou maçá-los com os nomes científicos; basta dizer que a existência dessas árvores tem grandes vantagens económicas, como o meu colegajá observou. Os solos florestais são, de uma maneira geral, laterites lixiviadas, da cor que deu ao rio Ubomo o seu nome de rio Vermelho e que está na origem do nome de País da Tela Vermelha por que é conhecido o Ubomo. Felizmente que esses subsolos são muito finos e por baixo deles está uma formação dobrada pré-câmbrica. - Fez um sorriso cansado. - Mais uma vez, não vou maçá-los com pormenores técnicos, mas esses solos contêm quantidades significativas de monazite, um minério raro, juntamente com jazidas de platina. Não há mais nenhuma formação conhecida que contenha esse espectro específico de minerais. Essas duas riquezas combinadas serão muito lucrativas e a sua rentabilidade será aumentada pelas madeiras valiosas que serão recolhidas no processo de extracção do minério.

            -           Desculpe, Mr. Anderson - interrompeu Daniel. - Propõe-se fazer exploração mineira a céu aberto na bacia do rio Ubomo?

            George Anderson olhou para ele como quem sente uma dor de estômago repentina.

            -   Dr. Armstrong, a expressão "exploração mineira a céu aberto" tem uma conotação emocional muito negativa. Digamos apenas que as minas que tencionamos explorar no Ubomo terão em conta as condições ambientais da região. A BOSS adopta uma abordagem "verde" em relação à Natureza. Efectivamente, Dr. Armstrong, estamos convencidos de que, a longo prazo, o ambiente vai ganhar muito com o que vamos fazer pelo país.

Lançou um olhar de desafio a Daniel, e este quase reagiu a esse desafio, mas depois forçou-se a fazer um gesto de assentimento.

            - Tem de me desculpar por estar a desempenhar o papel de advogado do Diabo, Mr. Anderson. São as perguntas que as pessoas vão fazer e tenho de lhes saber responder. É para isso que a BOSS me paga.

            Anderson pareceu acalmar.

            -   Claro, claro. Mas devo insistir em que a BOSS é uma empresa verde. Sei que Sir Peter está mesmo a pensar em alterar o logotipo da empresa. Como sabe, o actual representa uma picareta de mineiro e um arado. Sir Peter tenciona acrescentar uma árvore verde para simbolizar a nossa preocupação com a Natureza.

-   Acho que é uma ideia de muito bom gosto – replicou Daniel com um sorriso conciliador.

            Sabia que a conversa ia ser transmitida a Tug Harrison e que até talvez estivesse a ser gravada. Se manifestasse abertamente a sua hostilidade em relação à empresa, a viagem gratuita ao Ubomo e o contacto com a Amuletos do Dragão e com Ning Cheng Gong evaporar-se-iam.

            -   Com as garantias que os senhores me deram, vou tentar mostrar ao Mundo as enormes vantagens que derivarão do desenvolvimento intensivo que a BOSS vai empreender. - Falava para quaisquer microfones que houvesse escondidos. - Agora, queria que os senhores me arranjassem uma maqueta do hotel e do casino a construir nas margens do lago. Gostava de filmar a zona como ela é hoje e de sobrepor depois o projecto a essas imagens para evidenciar as suas melhores características e mostrar que se integra perfeitamente na paisagem natural.

-Tenho a certeza de que Sidney Green pode encarregar-se disso - assentiu Pickering.

A reunião prolongou-se por mais meia hora e finalmente Daniel concluiu:

            -Na minha qualidade de cineasta, tenho de ter um tema para esta produção. A África é considerada como um continente a braços com problemas demográficos. económicos e políticos aparentemente insolúveis. Quero mostrar ao Mundo como é que ela pode vir a ser. O tema da minha produção seria - levantou o braço, apontando para um ecrã imaginário - "O Ubomo, a via para o futuro da África".

            Os homens sentados à volta da mesa aplaudiram espontaneamente. Mais tarde, acompanhando Daniel e Bonny até à entrada do edifício, Pickering disse-lhes num tom alegre:

            -   Acho que a reunião correu muito bem. Produziram uma excelente impressão. - Fez um grande sorriso de aprovação com um ar de mestre-escola. - E agora tenho uma pequena surpresa agradável para os senhores. Sir Peter Harrison em pessoa manifestou o desejo de lhes dar uma palavra, a si e a Miss Mahon. - Pronunciou estas últimas palavras num tom de voz reverente e depois acompanhou-os ao elevador.

            Na antecâmara do gabinete de Tug Harrison, uma das três bonitas secretárias ergueu os olhos e sorriu.

-   Venham comigo, por favor. Sir Peter está à vossa espera.

Conduziu-os até à porta do lado oposto da antecâmara e Pickering afastou-se.

            -           Espero-os lá fora. Não fiquem mais de três minutos.

Sir Peter é um homem muito atarefado.

            As grandes janelas do gabinete de Sir Peter davam para o rio Tamisa. em frente do Teatro Nacional. Harrison afastou-se da janela e estendeu-lhes a mão direita deformada.

            -           Então, Danny. Trataram-no bem?

            -           Não podia ter sido melhor - assegurou Danny. - Já me lembrei de um tema para a produção: "O Ubomo. a via para o futuro da África."

            -           Agrada-me - exclamou imediatamente Tug Harrison. Mas pronunciou o comentário examinando Bonny Mahon. A aprovação tanto podia dizer respeito ao título de Daniel como à pessoa dela.

            Exactamente três minutos depois de eles terem entrado no santuário da BOSS, Tug Harrison arregaçou ligeiramente o punho da sua dispendiosa camisa. Tanto os botões de punho como o relógio de pulso eram de ouro e brilhantes.

            -           Gostei muito de o ver, Danny. Foi um prazer conhecê-la, Miss Mahon. Agora, vão desculpar-me. Pickering já tinha um táxi à espera deles na porta principal.

- É por conta da empresa - disse, apertando-lhes a mão. - Leva para onde quiserem.

- Caviar Kaspia - disse Danny impulsivamente ao motorista. Quando estavam já sentados numa mesa junto da janela no pequeno restaurante muito bem arranjado, Bonny murmurou:

            -Quem é que paga?

            - A BOSS! - garantiu ele.

            -           Nesse caso, quero duzentos e cinquenta gramas de beluga com bímis quentes e natas.

            -           Assim é que é - concordou Daniel. - Quero a mesma coisa e uma garrafa de champanhe a meias.

            Bonny atirou-se ao caviar com o prazer e o apetite de um aluno de colégio interno num dia de saída.

            -           Então, o que é que lhe pareceu a BOSS? – perguntou Daniel.

            -           De cair para o lado! - respondeu Bonny entusiasticamente. Era uma expressão que irritava Daniel. - Só queria que me pagasse o suficiente para comprar um conjunto de acções da BOSS! Alguém vai ganhar uma batelada nesta história do Ubomo.

            -           Uma batelada? É isso que você pensa?

            Bonny pareceu ficar intrigada com a pergunta, mas depois resolveu não ligar.

            -           Claro. Há alguma coisa mais importante? - Rapou os últimos grãos de caviar com um bocado de panqueca. - Acha que as suas ajudas de custo dão para outra dose de ovas de peixe? Não é todos os dias que uma pobre trabalhadora apanha uma coisa destas.

            BONNY MAHON contemplou apreciativamente o seu reflexo num dos espelhos antigos de moldura dourada da entrada do Hotel Ritz, em Piccadilly.

"Não estou nada mal", pensou. "à distância, até pareço uma senhora". Ajeitou os caracóis, alisados com gel à última moda. Era um gesto pouco característico, um sintoma do nervosismo com que aguardava o encontro combinado.

            A secretária que telefonara a marcar o encontro sugerira que a fossem buscar de automóvel a casa, mas Bonny recusara a sugestão: não queria que ninguém visse onde ela morava, pois aquela zona do Sul de Londres não era nada recomendável.

            O Ritz foi o primeiro ponto de encontro alternativo que lhe ocorreu. Estava mais de acordo com a imagem que queria projectar. Apesar de o encontro ter sido combinado pela secretária, tinha esperanças de que desse alguma coisa.

            "Com certeza que é porque ele está interessado em mim", pensou para se tranquilizar. "A maneira como olhou para mim foi muito elucidativa. Nunca me enganei nessas coisas."

Olhou para o relógio. Eram exactamente 7 e 30. Ele era o género de homem que fazia questão em ser pontual, pensou, e quando olhou novamente para a porta, na expectativa, um groom dirigia-se já para ela.

- O seu carro chegou, minha senhora - informou ele. Estava um Rolls-Royce parado junto ao passeio. Era cinzento-pérola iridescente, com vidros opacos. Um jovem motorista bem-parecido, de uniforme cinzento-claro e boné de pala de verniz, cumprimentou-a quando ela desceu as escadas.

- Miss Mahon? Boa noite. - Abriu a porta de trás do automóvel e afastou-se para ela entrar. Bonny instalou-se no conforto sensual dos estofos de cabedal cinzento-claro.

            - Boa noite, minha querida - cumprimentou-a Tug Harrison numa voz untuosa, que lhe provocou um arrepio de inquietação e excitação nas costas.

            O motorista fechou a porta do automóvel, encerrando-a num casulo de riqueza e privilégio. Ela inalou o aroma intenso e luxuoso do cabedal, do fumo do charuto e do aftershave: o aroma do poder.

            - Boa noite, Sir Peter. Foi uma grande amabilidade da sua parte ter-me feito este convite - disse Bonny. Mordeu imediatamente o lábio, irritada. Não devia ter dito aquilo, fora demasiado efusiva e subserviente. Tencionara manter uma certa distância e não se mostrar impressionada com a condescendência dele.

            - Chez Nico - disse Tug Harrison ao motorista.

            Depois, tocou no botão de comando da divisória de vidro à prova de som que separava o banco da frente do de trás.

            -   Não se importa que eu fume, pois não? - perguntou a Bonny.

-   Não. Gosto do cheiro de um bom charuto. É um Davidofí não é?

- Não falara ao acaso. Reparara no aro de papel do charuto no cinzeiro.

-   Ah! - comentou Tug Harrison. - Já vejo que é uma apreciadora.

            Bonny teve esperanças de que ele não tivesse reparado na manha dela e mudou rapidamente de assunto.

- Nunca fui ao Chez Nico. Mas também não admira; mesmo que conseguisse marcar uma mesa, não podia pagar a conta. Dizem que é preciso marcar com semanas de antecedência. É verdade?

            Tuc Harrison sorriu novamente.

            -   Para ser franco, não sei. Peço à minha secretária e ela trata de tudo.

            Bolas, estava a disparatar. Cada vez que abria a boca, soava a interesseira. Durante o resto do caminho, deixou que fosse ele a falar. A imaginação de Bonny delirava. Se jogasse bem os seus trunfos, podia ser este o seu futuro: o ROllS-Royce, conta aberta no Harrods e um apartamento em Mayfair, férias em Acapulco e em Sydney, um casaco de zibelina. Riqueza e luxo para todo o sempre.

            O restaurante era alegre e simpático. O tecto em vitral, em tons de verde, inspirava-se no estilo Art Nouveau. Ela sentia-se alegre e bem disposta, em harmonia com o ambiente.

Foram acompanhados até uma mesa especial, e as cabeças voltavam-se à sua passagem. Tug Harrison era uma personagem lendária. Era bom estar ao lado dele e gozar os olhares de inveja das outras mulheres.

            Bonny sabia que a sua figura alta e atlética e o cabelo flamejante davam nas vistas. E sabia também o que toda a gente ia pensar do lugar dela na vida de Sir Peter. "Por favor, meu Deus, faz que seja verdade. Tenho de ter cuidado, não posso beber muito."

Foi mais fácil do que ela esperava. Tug Harrison era delicado e atento e fez que ela se sentisse mimada e muito especial.

Teve muito cuidado com o Chevalier-Monetrachet que ele mandou vir para acompanhar o salmão. Incitou-o a contar as aventuras da sua juventude em África. Não era difícil mostrar-se interessada, porque ele era um excelente narrador. Tinha uma voz de veludo, e Bonny não se ralava nada que ele fosse velho e tivesse a pele enrugada pelo sol tropical. Tinha lido há pouco tempo que a fortuna pessoal dele ultrapassava os trezentos milhões de libras. Por esse preço, que importância tinham umas rugas?

            -   Bom, minha querida. - Tug limpou finalmente os lábios ao guardanapo. - Posso sugerir irmos tomar o café a Holland Park? Gostava de discutir uns assuntos consigo.

Bonny hesitou. Devia facilitar assim tão depressa? Não seria preferível esperar que ele a convidasse pela segunda vez? E se não houvesse segunda vez? Estremeceu com esse pensamento. "Atira-te de cabeça, rapariga", pensou, e sorriu-lhe.

            - Obrigada, Sir Peter, gostava muito.

Sir Peter levou-a para o escritório e instalou-a numa cadeira de cabedal. Bonny estava deslumbrada com o esplendor da casa de Holland Park. Reparou nos quadros e teve um arrepio quando se deu conta do seu valor.

-   Está com frio? - perguntou Sir Peter, solícito, e fez sinal ao criado preto da kanza branca flutuante para fechar as janelas.

Sir Peter levou-lhe a chávena de café com as suas próprias mãos.

- Kenya Blue informou. - Colhido especialmente para mim nas minhas plantações particulares dos contrafortes do monte Quénia.

- Mandou embora o criado e acendeu um charuto. - E agora, minha querida... - Soprou uma baforada do fumo do charuto para o tecto. - Diga-me uma coisa, você vai para a cama com o Daniel Armstrong?

A pergunta foi tão inesperada, tão brusca e alarmante que, por instantes, ela ficou desnorteada. Não conseguiu dominar-se e perguntou-lhe, furiosa:

            - Com quem é que pensa que está a falar?

            Ele ergueu uma sobrancelha prateada.

            - Já vejo que tem um temperamento a condizer com a cor do seu cabelo. Mas vou responder francamente à sua pergunta. Penso que estou a falar com Thelma Smith. É o nome que consta da sua certidão de nascimento, não é? Pai incógnito. A mãe morreu em 75 com uma overdose. Heroína, se não estou em erro.

Bonny sentiu suores frios a escorrerem-lhe pela testa e ficou a olhar para ele, embasbacada.

            - Tal como a da sua mãe, a sua vida tem sido acidentada. Aos catorze anos, foi parar a uma casa de correcção por roubo em lojas e posse de marijuana. Depois, aos dezoito anos, foi condenada a nove meses de prisão por prostituição. Quando estava presa, começou a interessar-se por fotografia. ­Sorriu-lhe. - Faça o favor de me corrigir se estou enganado nalgum ponto.

Bonny encolhia-se no grande cadeirão de cabedal. Ficou calada.

- Mudou de nome e conseguiu o seu primeiro emprego como fotógrafa na Peterson Television, no Canadá. Foi despedida a 19 de Maio de 81 por ter roubado equipamento de vídeo da empresa. Mas não apresentaram queixa. Depois disso, não consta mais nada do seu cadastro. Regenerou-se ou agora é mais esperta? Seja como for, não tem muitos escrúpulos e faria tudo por dinheiro.

- Sacana - disse ela em voz sibilante. E eu que pensei

- Sim, pensou que eu cobiçava o seu corpo decididamente

apetecível. - Abanou a cabeça com um ar triste. - Sou um velho, minha querida. à medida que a chama é menos intensa, os meus apetites são mais requintados. Com o devido respeito pelos seus encantos óbvios, compará-la-ia a um vinho novo e forte, saboroso, mas sem distinção. Na minha idade, prefiro algo de semelhante a um Latour ou a um Margaux: mais velho e com mais classe.

            - Velho malvado! Ainda por cima me insulta.

Não era essa a minha intenção. Só queria que me compreendesse bem. Não estou interessado no seu corpo. Você quer dinheiro. Que diria a vinte e cinco mil libras?

 

            A quantia deslumbrou Bonny, mas ela seguiu o seu instinto e recusou a proposta com desprezo.

- Mandava-o à fava. Li não sei onde que pagou dez vezes mais do que isso por um cavalo.

- Sim, mas era uma poldra de raça pura e linhagem impecável. Com certeza que não se compara com ela, pois não? - Levantou as mãos para evitar a reacção furiosa dela. - Foi só uma brincadeira, minha querida. Faça o favor de me desculpar. Gostaria que nos associássemos num negócio e não que fôssemos amantes ou sequer amigos.

- Bom, então, antes de discutirmos preços. era melhor explicar-me o que é que eu tenho de fazer. - Tinha uma expressão matreira.

- É muito simples, pode crer... - comentou Sir Peter. E explicou-lhe o que queria dela.

            DANIEL passou todos os dias dessa semana na sala de leitura do Museu Britânico. Costumava sempre fazer aquilo antes de começar um trabalho. Além dos livros sobre o Ubomo, pediu à bibliotecária que lhe arranjasse todas as publicações que conseguisse encontrar sobre o Congo, a depressão do Rift e os seus lagos e a floresta equatorial africana.

Uma das publicações mais recentes era o livro de Kelly Kinnear, O Povo das Grandes An'ores. Pediu um exemplar e examinou a fotografia da autora na badana. Ao fundo, via-se uma paliçada de troncos de grandes árvores tropicais. Era como se ela estivesse na clareira de uma floresta. Era bonita, com uma cara expressiva e interessante, cabelo escuro penteado para trás e preso numa grande trança caída por cima do ombro. Tinha maxilares bem desenhados e maçãs do rosto altas, e a boca era decidida, talvez mesmo teimosa. Os olhos eram o seu melhor atributo, afastados e em forma de amêndoa, e olhavam calmamente para a câmara. Daniel calculou que devia ter trinta e poucos anos.

            "Não deve ser para graças", pensou. "Não admira que o meu amigo Tug esteja assustado. É uma mulher que não deixa que nada se lhe atravesse no caminho."

            Daniel já tinha lido o livro e procurou rapidamente a parte onde a autora descrevia os três anos que passara junto de um clã de pigmeus nas profundezas das florestas equatoriais do Ubomo. Kinnear era antropóloga e tinha uma boa capacidade de observação dos detalhes e de recolha de material, mas possuía uma alma de escritor. A sua descrição não era de carácter friamente científico, falava de seres humanos. Descrevia um povo cordial, amável e digno de amor, retratado no cenário grandioso da floresta equatorial. No fim do livro, o leitor era obrigado a partilhar a afeição óbvia da autora pelo povo estudado e, principalmente, a sua preocupação profunda com a floresta onde vivia.

            Daniel techou o livro e ficou sentado durante uns instantes, gozando a sensação de prazer que a leitura lhe Inspirara. Sentiu vontade de conhecer a mulher que criara aquela magia. Já não era a prlmeira vez que sentia aquele desejo. mas pelo menos agora sabia como podia satisfazê-lo. A assembleia geral de accionistas da BOSS estava marcada para uma semana antes da sua partida para o Ubomo, e Pickering, numa manobra de relações públicas, arranjara um convite para que Daniel e Bonny pudessem assistir à reunião.

A AG REALIZAVA-SE sempre no salão de baile da opulenta sede da BOSS, em Blackfriars, na última sexta-feira de Julho, e começava às 7 e 30 da tarde. A segurança à porta era muito rigorosa. O nome de todas as pessoas era verificado no registo de accionistas e os convites especiais eram examinados pelos seguranças fardados da BOSS.

            Todos os lugares estavam ocupados, e uma pequena multidão apinhava-se ao fundo do salão de pé. Daniel conduziu Bonny para um canto junto ao bar.

Sir Peter estava no lugar do meio de uma mesa comprida, com um microfone à frente, ladeado pelos outros membros do conselho de administração. Tinham nomes e títulos que ficavam bem no papel timbrado da empresa. mas todos os presentes na sala naquela noite não tinham ilusões sobre quem detinha realmente o poder e a influência na BOSS.

Sir Peter estava de pé. com a mão esquerda enfiada na algibeira do casaco, hipnotizando o seu público com uma descrição das actividades da BOSS ao longo dos últimos doze meses. Tudo o que tinha a relatar eram boas notícias. desde os resultados das sondagens petrolíferas no canal de Pemba até à produção de amendoim na Zâmbia e ao aumento dos lucros e dos dividendos. A assistência murmurava de contentamento com cada nova revelação.

            Sir Peter relanceou os olhos pelo relógio. Estava na hora de falar dos planos e dos projectos do futuro. Bebeu um gole de água e depois recomeçou a falar numa voz de veludo muito sedutora.

- Minhas senhoras e meus senhores. já lhes dei as más notícias... - Fez uma pausa para as risadas e a salva de palmas. - E agora vou passar às boas. As boas notícias são a República Democrática Popular do Ubomo e a participação da vossa empresa na nova era que se abre para esse belo país.

Encantou-os durante mais dez minutos com promessas de novos lucros e dividendos fantásticos e depois concluiu:

- Por isso, minhas senhoras e meus senhores. têm diante de vós o Ubomo. a via para o futuro do continente africano.

-. Raios o partam - murmurou Daniel. mas a sua voz foi abafada pelos aplausos. - É um caso de plágio flagrante. O velhote roubou-me a ideia.

            Quando Sir Peter se sentou, o secretário da empresa deixou que a assistência desse largas à sua aprovação durante dois minutos e depois inclinou-se para o microfone.

- Minhas senhoras e meus senhores, vou dar a palavra à assistência. Algum dos accionistas tem perguntas a fazer? O vosso presidente e o conselho de administração tentarão responder-lhes o melhor que lhes for possível.

O eco da voz amplificada do secretário ressoava ainda pela sala quando foi interrompido por uma outra voz.

- Tenho uma pergunta para o presidente. - Era uma voz feminina nítida, segura e surpreendentemente forte.

            Daniel já tinha tentado descobrir Kelly Kinnear na sala apinhada, mas sem êxito. Mas agora via bem que era ela. Estava em pé em cima da cadeira, na terceira fila a contar da frente. Daniel sorriu, divertido. O volume da voz dela explicava-se pelo megafone electrónico com que viera equipada.

Em muitas outras reuniões a que Daniel assistira, as perguntas dos accionistas perdiam todo o impacte devido ao facto de eles não se conseguirem fazer ouvir. Eram acolhidas com protestos - "O que é que ele disse'? Fale mais alto" -, e o jogo estava perdido à partida. Mas Kelly Kinnear não deixara que isso lhe acontecesse. Empoleirada na cadeira, bem à vista de toda a assistência, atacava Sir Peter numa voz jovem e forte.

- Sr. Presidente, a BOSS acrescentou recentemente ao logotipo da empresa a imagem de uma árvore verde. O que eu quero saber é se fez isso para também poder abatê-la.

            Fez-se um silêncio de assombro.

- Há trinta anos, desde que o senhor é o presidente da BOSS, Sir Peter, que a divisa da empresa é "Escavem tudo" e "Abatam tudo". A nuca bronzeada de Kelly Kinnear estava a ficar vermelha de fúria. - Há trinta anos que a BOSS extrai as riquezas minerais do solo de África e por onde passa só deixa devastação. E a mentalidade "Escavem tudo". Há trinta anos que a BOSS abate as florestas naturais para cultivar algodão e amendoim e fazer outras culturas comerciais que esgotam o solo, que o envenenam com nitratos e que contaminam os rios e os cursos de água. É a filosofia "Abatam tudo".

Sir Peter franziu o sobrolho em direcção ao secretário.

Este levantou-se obedientemente.

            - Quer fazer o favor de dizer o seu nome e de formular a sua pergunta com brevidade e clareza?

- Eu sou a Dra. Kelly Kinnear e estou a fazer a minha pergunta. O presidente da BOSS tem conhecimento de que, neste preciso momento, as florestas tropicais do Ubomo já estão a ser destruidas'? - Olhou-o com uma expressão feroz. - O presidente sabe que, em consequência directa das actividades da BOSS, mais de cinquenta espécies de vida selvagem se extinguiram?

Ouviu-se um murmúrio de indignação dos accionistas. Sir Peter Harrison sorriu e abanou a cabeça com uma expressão de dó, sem tentar sequer responder ao ataque dela. Sabia que os seus accionistas lhe eram fiéis.

            - Sente-se! - gritou alguém.

- Sr. Presidente. acuso-o de estupro! - disse Kelly, apontando um dedo vingador a Sir Peter.

            Houve gritos de protesto e outros accionistas levantaram-se.

            -Fora!

            - A mulher é doida!

Alguém tentou puxar Kelly para o chão, mas era evidente que ela se rodeara de um grupo de apoiantes. Um dos rapazes gritou:

            - Deixem-na falar!

            - Dra. Kinnear, se não desce da cadeira, não tenho outra alternativa senão mandá-la expulsar da sala.

            - Eu sou accionista. Tenho todo o direito

            - Expulsem-na!

Gerou-se grande confusão e muito barulho na frente da sala, mas Sir Peter, no palco, parecia muito calmo.

- Responda-me! - gritava Kelly. - Cinquenta espécies condenadas à extinção para o senhor poder passear no seu Rolls-Royce...

- Seguranças! Seguranças! - guinchava o secretário, e saltaram de todos os cantos da sala os seguranças fardados que se meteram no meio da confusão.

            Quando um deles o empurrou ao passar, Daniel não conseguiu conter-se: estendeu o pé direito. O homem tropeçou e foi projectado para a frente. Voou direito a uma fila de cadeiras e atirou os ocupantes uns para cima dos outros no meio de gritos de protesto. As cadeiras caíram e as mulheres começaram a gritar. Os fotógrafos da imprensa, radiantes, iluminavam a sala com osflashes.

- Aquelas florestas não lhe pertencem. Não pertencem ao tirano militar que se apoderou do poder no Ubomo e que é seu cúmplice nesta atrocidade. As florestas pertencem aos Pigmeus Bambutis, uma tribo tranquila e inofensiva que lá vive desde tempos imemoriais.

            A voz amplificada de Kelly Kinnear sobressaía no meio do tumulto reinante na sala. Continuava de pé em cima da cadeira, uma figurinha heróica, no meio da confusão que a rodeava. Três dos seguranças da BOSS conseguiram romper o círculo dos defensores de Kelly Kinnear e tentaram obrigá-la a descer da cadeira.

            - Larguem-me! - gritou ela.

            Utilizando o megafone como uma arma ofensiva, começou a bater-lhes com o instrumento, até que este se rachou e se desfez em bocados, deixando-a indefesa.

Os homens lá conseguiram obrigá-la a descer da cadeira e arrastaram-na para fora da sala. Restabeleceu-se a calma na assistência assombrada. Os accionistas levantaram as cadeiras e verificaram a sua integridade física.

            No palco, Sir Peter levantou-se e retomou o seu lugar ao microfone.

            - Minhas senhoras e meus senhores, posso garantir-lhes que este espectáculo não constava do programa. Em nome da BOSS e do seu conselho de administração, apresento-vos as mais sinceras desculpas por esta explosão. Se teve alguma utilidade, foi a de constituir um exemplo claro das dificuldades com que deparamos quando tentamos melhorar a sorte dos homens nossos irmãos. A Dra. Kelly Kinnear é famosa pelas suas opiniões radicais. Declarou guerra ao governo do presidente Taffari, do Ubomo, uma guerra em que ela é a única combatente. De resto, tem causado tantos distúrbios naquele país como os que aqui provocou esta noite. Prefere que dezenas de milhares de seres humanos morram de fome a que uma única árvore seja cortada ou que morra um único animal. - Fez uma pausa, sentindo que dominava novamente a assistência. - No ano passado, gastámos mais de cem mil libras em estudos ambientais antes de iniciarmos alguns dos nossos empreendimentos. Gastámos esse dinheiro numa tentativa sincera de fazer a nossa obrigação para com o Mundo. Sabemos do fundo do coração que o que fazemos está certo e os senhores também o sabem, os senhores, que são os membros mais importantes da BOSS, os nossos accionistas.

            A assembleia prolongou-se ainda por mais vinte minutos, e grande parte desse tempo foi dedicada a uma ovação de pé ao discurso improvisado do presidente.

            Por uma vez, o voto de agradecimento tradicional não foi ratificado com um aperto de mão, mas antes com uma trovoada de aplausos.

            O PAI DE NING CHENG GONO não anunciara à família qual dos filhos iria enviar para o Ubomo para dirigir a operação conjunta com a BOSS. Anteriormente, Ning Heng H'Sui ter-se-ia encarregado pessoalmente do comando da operação, mas agora os filhos sabiam que ele tinha de delegar num deles e estariam dispostos a matar para serem dignos dessa honra. Aquela tarefa seria a consagração suprema e indicaria claramente quem é que CHeng escolhera para lhe suceder.

Cheng ambicionava essa honra com uma paixão tão intensa que lhe fazia perder o sono e o apetite. Arranjava todas as desculpas para estar na companhia do pai. Mesmo quando o velho estava a pintar, a meditar com os sacerdotes confucianos, no santuário dos jardins da propriedade ou a catalogar a sua colecção de marfins, Cheng esforçava-se por se manter junto dele. Pressentia que o pai estava à beira da morte, que esta podia sobrevir a todo o momento, e tinha suores frios quando pensava nisso. Sabia que, a menos que consolidasse a sua sucessão enquanto o pai estava vivo, os irmãos lha arrancariam assim que ele morresse. Pressentia também que o pai estava à beira de tomar uma decisão sobre o projecto d9 Ubomo; estava na altura de lhe oferecer o presente que trouxera de África. - Ilustre pai, tenho uma coisa para vós. Um humilde testemunho do respeito e gratidão que sinto por vós. Posso oferecer-vo-lo?

            Naquele dia, o velho estava bem disposto, no domínio de todas as suas faculdades, e tinha recuperado uma parte das suas forças, que estava a perder rapidamente. Heng sorriu e assentiu com a cabeça.

            - Podes trazer-mo, meu filho.

            - Infelizmente, meu pai, a natureza do presente faz que isso não seja possível. Tenho de levar-vos até lá.

A expressão de Heng alterou-se. Já raramente saía da

propriedade. Parecia prestes a recusar, mas Cheng previra aquela reacção. Bastou-lhe levantar a mão para o Rolls-Royce estacionado por trás da sebe bem aparada avançar silenciosamente.

Antes que o velho pudesse protestar, Cheng tinha-o ajudado a entrar para o banco de trás, instalando-o confortavelmente, com uma manta de caxemira em cima dos

joelhos. O motorista sabia onde devia levá-los. O Rolls desceu a estrada de montanha em direcção ao bulício da cidade de Taipé, mas Heng e Cheng estavam isolados e protegidos do calor, da humidade e da multidão fervilhante que engarrafava a estrada com motociclos e autocarros, táxis e camionetas superlotadas.

Quando entraram na Chung Ching South Road, no bairro de Hsimending, o motorista abrandou e meteu pelos portões do armazém principal da Amuletos do Dragão. Os guardas puseram-se em sentido quando reconheceram os dois homens sentados no banco de trás.

Uma das portas do armazém estava aberta, e, depois de o carro ter entrado, as pesadas portas rolantes de aço fecharam-se. Cheng ajudou o pai a sair do Rolis e pegou-lhe no braço, conduzindo-o para uma cadeira de teca entalhada semelhante a um trono, coberta de almofadas de seda bordadas.

Depois de o pai estar confortavelmente instalado, Cheng fez sinal a um dos criados para trazer chá acabado de fazer. Sentou-se numa almofada, abaixo de Heng, e tomaram chá, conversando tranquilamente. Cheng prolongava a expectativa, tentando espicaçar a curiosidade do pai.

            Dez trabalhadores corpulentos ajoelharam-se em fila diante do trono, baixando respeitosamente as cabeças. Cheng mandara-os vestir com túnicas negras e fitas vermelhas na cabeça, e as túnicas tinham o emblema do Dragão bordado a vermelho nas costas.

- Eis o presente que vos trouxe de África - disse Cheng ao pai, apontando para uma fila de caixotes arrumados atrás dos homens. - É um presente tão modesto que me envergonho de vo-lo oferecer.

- Chá? - perguntou Heng com um sorriso. - Arcas de chá?

Chá que baste para o resto dos meus dias. É um belo presente, meu filho.

- É um presente modesto, mas posso abrir os caixotes? - perguntou Cheng.

            O velho assentiu com a cabeça.

            Cheng bateu as palmas e os dez homens levantaram-se de um pulo e correram em direcção a um dos caixotes de chá, que levantaram e colocaram à frente do velho. Arrancaram rapidamente a tampa do caixote.

            Heng inclinou-se para a frente no seu cadeirão. Dois dos homens levantaram a primeira presa da cama de folhas de chá preto amassadas.

            Cheng organizara aquela encenação de modo que a primeira presa fosse uma das maiores e de formas mais belas de toda a remessa de marfim roubado. A presa era comprida, com mais de dois metros, mas era menos espessa e menos romba do que as pesadas presas maciças dos animais do Norte do Zimbabwé. Era mais bela, a espessura estava mais em harmonia com o comprimento, as curvas e a ponta afiada eram mais elegantes. Tinha uma pátina amarelada.

Heng bateu as palmas de satisfação e exclamou alto:

            - Tragam-ma!

            Dois homens, sobrecarregados com aquele peso, subiram os degraus de cimento e ajoelharam diante dele, estendendo-lhe a maravilhosa presa. Heng acariciou o marfim e os seus olhos brilharam.

            - É lindo! - murmurou. - A mais bela de todas as criações da Natureza, mais bela do que as pérolas ou do que a plumagem das mais coloridas aves tropicais. - Calou-se de repente quando detectou com os dedos uma mancha de textura rugosa na presa. Inclinou-se mais, olhou-a mais de perto e exclamou novamente: - Mas esta presa tem o carimbo ZW do número do Governo do Zimbabwé. É marfim legal, Cheng. - Bateu palmas novamente. - Marfim legal, meu filho, muito mais valioso devido a estas marcas! Como é que conseguiste?

            - Todos os caixotes estão cheios de marfim, ilustre pai. Todas estas presas estão carimbadas.

            - Onde é que as arranjaste? - insistiu Cheng. Mas depois levantou a mão para impedir o filho de lhe responder. - Não me digas nada! - Calou-se, fitando o filho durante uns momentos, e depois disse: - Sei de onde vem este marfim.

            Com um aceno da mão, mandou embora os homens vestidos de preto, e quando estes estavam fora do alcance da voz, inclinou-se para o filho e sussurrou-lhe:

- Li há algum tempo que um bando de caçadores furtivos assaltou um armazém de marfim do Governo do Zimbabwé. Um lugar chamado Chiwewe? Nunca encontraram o marfim, não é verdade, meu filho?

- Eu li o mesmo artigo de jornal, ilustre pai. – Cheng baixou os olhos e ficou à espera.

            Heng falou novamente.

            - O homem que planeou o ataque era inteligente e corajoso. Não teve medo de matar por aquilo que queria ­murmurou. - O género de homem que eu admiro. O género de homem que eu era em novo.

- O género de homem que ainda sois, pai - disse Cheng.

            Heng abanou a cabeça.

            - O género de homem que eu me orgulharia de ter como filho. Sabia que tinhas herdado o meu espírito, Cheng, mas até hoje duvidava de que fosses do aço dos guerreiros. Foi por essa razão que hesitei na escolha entre ti e os teus irmãos. Mas este presente que me deste fez-me mudar de opinião. Sei como arranjaste este marfim. Sei que foi necessário espremer o sumo da cereja madura. - Era o eufemismo usado por Heng para se referir ao derramamento de sangue. - E sei que não recuaste diante disso. Foste bem-sucedido numa empresa difícil, por sorte ou por inteligência, não sei nem me interessa. Prezo igualmente a sorte e a inteligência. Vou mandar-te para o Ubomo, meu filho, na qualidade de representante do Dragão. Dizem que nas florestas da bacia do Ubomo vive um elefante macho com presas de mais de três metros, quase tão grossas como a cintura de uma mulher. Quero essas presas - murmurou Heng. - Mais do que o minério e as madeiras preciosas da floresta, quero esse marfim.

Cheng inclinou a cabeça sobre a mão do pai e beijou-a.

            - Não falharei - prometeu.

            E uma única lágrima de alegria e orgulho escorreu-lhe do canto do olho e rebrilhou como uma jóia na pele pálida e seca da mão do pai.

 

NÃO HAVIA voo directo de Londres para o Ubomo. Daniel e Bonny apanharam o avião da British Airways para Nairobi, onde passaram a noite no Norfolk Hotel, embarcando no dia seguinte no voo da Air Ubomo para Kahali.

            Dado que tinham o dia livre, Daniel e Bonny foram filmar umas sequências de fundo e de enchimento. Mas o que interessava realmente a Daniel era vê-la em acção e habituar-se a trabalhar com ela no terreno. Alugou uma carrinha descapotável com um condutor kikuyu e saíram para o Parque Nacional de Nairobi, nos arredores da cidade.

            Nos últimos anos, Daniel já filmara muitas vezes no parque, e o chefe dos guardas era um velho amigo, que destacou um dos seus guardas mais antigos para os acompanhar e deu carta branca a Daniel para ir onde quisesse e mesmo para desobedecer a uma das regras mais rígidas do parque, podendo abandonar o veículo para filmar a pé.

            O guarda levou-os para um bosque de acácias de copa achatada junto do rio, onde um enorme rinoceronte macho andava a fazer uma corte pesadona a uma fêmea. Os dois monstros antediluvianos estavam tão absortos um com o outro que Daniel e Bonny conseguiram sair da carrinha e aproximar-se à socapa.

Daniel ficou surpreendido com a facilidade com que Bonny levantava a câmara e com a ligeireza e a agilidade dela, apesar do calor e do terreno acidentado.

O rinoceronte macho estava a exibir-se agressivamente para impressionar a fêmea que penetrara no seu território e que ele mantinha cativa do seu desejo. Sempre que ela tentava aproximar-se dos limites do território, o macho desviava-a, roncando e soprando como uma locomotiva e levantando tempestades de poeira debaixo das patas.

O rinoceronte é sempre um animal com vista fraca, mas agora aqueles dois estavam completamente cegos por uma paixão obsessiva. Daniel e Bonny tinham de estar alerta e prontos para fugir a todo o momento ou para se desviarem, pois as corridas das duas criaturas inflamadas eram selvagens e caprichosas. Se não corressem depressa, podiam ser pisados pelas patas coriáceas dos animais ou esventrados por uma cornada cega de um dos compridos chifres polidos do focinho dos rinocerontes.

            Era um trabalho difícil e perigoso, mas Bonny não mostrava receio. Pelo contrário, parecia estar radiante. Tinha os olhos a brilharem e o suor encharcava-lhe o cabelo flamejante e escorria-lhe pelas costas da camisa, enquanto corriam lado a lado na floresta ou se atiravam para trás de uns troncos de acácia para escaparem a uma corrida súbita de um dos animais.

            De repente, o macho lançou-se inesperadamente à carga na direcção deles. Talvez tivesse detectado um sopro do odor corporal no meio das nuvens de perfume erótico que a fêmea lhe enviava para as narinas dilatadas. Daniel agarrou no braço de Bonny.

- Quieta! - murmurou imperiosamente.

Ajoelharam-se e ficaram completamente imóveis, em silêncio absoluto.

            A enorme criatura enfrentou-os a seis metros de distância, soprando e roncando furiosamente. Espreitou-os com os seus olhos míopes, aguardando algum pequeno movimento que a convencesse de que eles não eram uma pedra ou um arbusto e que mereciam, portanto, que os atacasse com todo o peso da sua cólera e do seu ciúme.

Daniel tentou suster a respiração, mas tinha os pulmões a arder com o esforço e ofegava. De repente, ouviu um zunido eléctrico junto ao ouvido esquerdo e rodou os olhos nas órbitas, sem mexer a cabeça. Verificou com assombro e incredulidade que Bonny continuava a filmar. A lente da Sony estava a poucos metros do focinho do rinoceronte, e Daniel ficou impressionado.

            "Arranjei uma operadora de câmara de mão-cheia" pensou. "Por esta altura, Jock já se teria metido num avião para Inglaterra."

            De repente, o rinoceronte deu meia volta num movimento tão rápido e ágil que parecia impossível numa criatura tão maciça. O amor triunfara. Correu novamente para a sua dama, soprando ansiosamente. Bonny ria, e Daniel nem queria acreditar nos seus ouvidos. Pegou-lhe no braço e puxou-a.

            - Vamos embora daqui.

            Retiraram cautelosamente passo a passo, sempre atentos ao macho.

- Você é boa profissional - comentou Daniel quando chegaram junto da carrinha. - Mesmo boa.

            Bonny riu-se.

- Estou a começar a apanhar a luz daqui. Dê-me mais uma semana e vai ver o que eu sou capaz de fazer.

            Uma hora depois, vestidos de lavado, passeavam pelo pátio do hotel na frescura do crepúsculo queniano e pararam por um minuto junto de uma gaiola no centro do relvado para admirar as cores vivas dos touracos e dos estorninhos-de-peito-dourado que estavam por detrás das grades. Outros hóspedes do hotel dirigiam-se também para o restaurante.

Daniel só reparou na figura delicada junto deles quando ela se voltou e o cumprimentou pelo nome.

- Desculpe maçá-lo, mas é Daniel Armstrong, não é?

            Daniel ficou espantado quando a reconheceu.

- Dra. Kinnear! Vi-a na assembleia geral de accionistas da BOSS.

- Estava lá? - perguntou ela, rindo-se. - Não reparei.

            - Não, na altura parecia ter mais em que pensar. - Daniel retribuiu-lhe o sorriso. - O que é que aconteceu ao megafone? Teve arranjo?

- Era uma porcaria qualquer de fabrico japonês – disse Kelly Kinnear. - Com duas pancadas numa cabeça, faz-se em bocados.

            Claro que ela tinha sentido de humor - Daniel já percebera isso pela maneira como ela escrevia. Mas tinha uns olhos ainda mais bonitos do que na fotografia da badana do livro, e ele simpatizou imediatamente com ela.

            - Dá licença que lhe apresente a minha assistente, Bonny Mahon?

            - Bom, na realidade sou operadora de câmara, e não a sua assistente - corrigiu-o Bonny expeditamente.

- Pois - começou Kelly. - Conheço o seu trabalho. Foi você que filmou O Sonho árctico. Era muito bom.

            Bonny pareceu ficar desconcertada com o elogio.

            -   Obrigada. Mas aviso desde já que não li o seu livro, Dra. Kinnear.

-   Nem você nem muitas centenas de milhões de outras pessoas, Miss Mahon. - Kelly pressentiu o antagonismo da outra mulher, mas voltou-se novamente para Daniel. - Acho que ao longo destes anos não falhei nenhuma das suas produções. De resto, o senhor é o responsável por eu estar em áfrica. Quando me formei, tencionava ir para o Bornéu para trabalhar com a tribo Penan, mas vi uma das suas séries sobre os lagos da depressão do Rift e mudei de ideias. Tive de vir para áfrica. - Kelly riu baixinho, envergonhada. - Sei que isto vai parecer-lhe patetice, mas sou uma das suas grandes fás. Tenho vindo aqui para ver se o encontrava, porque soube que estava em Nairobi. Precisava de falar consigo.

-   Não está hospedada no hotel? - perguntou Daniel.

Simpatizava cada vez mais com ela; é difícil não gostar de alguém que confessa ser nosso fá.

            -           Não, de maneira nenhuma - respondeu Kelly, rindo. - Não sou um conhecido produtor de televisão. Sou apenas uma pobre investigadora em apuros e sem patrocinador. A Smithsonian retirou-me a bolsa quando fui expulsa do Ubomo por Taffari.

            -           Então, permita-me que lhe pague um bife – propôs Daniel.

- Um bife! Fico com água na boca só de pensar nisso.

Tenho-me alimentado de amendoim e peixe seco do lago desde que voltei.

            -           Sim, porque é que não vem jantar connosco, Dra. Kinnear? - disse Bonny em voz melíflua e venenosa, dando ênfase à primeira pessoa do plural.

            - Muito obrigada, Miss Mahon.

            Kelly deitou-lhe um olhar frio e foi como se saltasse uma faísca de hostilidade entre as duas, como uma descarga de electricidade estática.

            Daniel fez um sorriso simpático.

- Vamos arranjar qualquer coisa para comer - disse. Encaminhou-as para a porta do Grili Ibis, que dava para o pátio.

            -           O que é que está a fazer em Nairobi, Dr. Armstrong?

- perguntou Kelly depois de se terem instalado no restaurante. - Danny -disse ele, convidando-a a renunciar ao tratamento cerimonioso. - Por acaso, vamos a caminho do Ubomo. -         O Ubomo! - exclamou Kelly, fitando-o. - Mas que maravilha! É o tema ideal para si, o microcosmo da nova áfrica. Para lhe pagar o jantar, vou contar-lhe tudo o que sei sobre o país.

            -           Está combinado - concordou Daniel.

Enquanto as duas mulheres estudavam o menu, Daniel comparou-as. Eram ambas bonitas. Bonny era uma valquíria indomável de cabelo cor de fogo; Kelly era toda ela um pastel de cambiantes delicados. Era mais suave e mais discreta. Em repouso, tinha uma cara quase feia, com um nariz e uma boca austeros, mas quando sorria os seus traços fisionómicos suavizavam-se. Como Daniel já verificara na badana do livro, os olhos eram a sua melhor feição. Eram grandes, escuros e expressivos. Ora brilhavam com uma expressão alegre e impertinente, ora exprimiam uma inteligência e uma sinceridade apaixonadas.

- Já esteve no Ubomo depois do golpe de Estado? - perguntou Kelly.

            -           Não, fui lá pela última vez há quatro anos.

            -           Nessa altura, o presidente era Victor Omeru - observou Kelly.

            -           Sim, encontrei-me com Omeru. Gostei dele. O que é que lhe aconteceu? Disseram-me que sofreu um ataque cardíaco. Kelly encolheu os ombros, sem dar resposta, e mudou de assunto quando o criado veio saber o que é que eles queriam.

            -           Posso mesmo mandar vir um bife ou estava só a acicatar-me?

            -           Pode mandar vir o maior de todos - declarou Daniel magnanimamente.

            Quando vieram servi-los, Daniel voltou à carga.

            -           Ouvi dizer que você e Omeru se entendiam muito bem.

            -           Quem é que lhe disse? - perguntou Kelly, olhando-o com desconfiança.

            Daniel ia a responder, mas calou-se a tempo. Não era conveniente pronunciar o nome de Tug Harrison em frente dela.

-           Acho que li isso num artigo qualquer – respondeu evasivamente.

            -           Pois - replicou Kelly, aceitando a resposta. – Deve ter sido no Sunday Telegraph. Fizeram um artigo sobre Victor e falaram em mim.

            -           Pois foi. E o que é que está a passar-se no Ubomo?

Prometeu informar-me. Disse que era um microcosmo da nova África. Explique-se lá.

            -           O Ubomo debate-se com todos os grandes problemas comuns aos outros Estados africanos: tribalismo, explosão demográfica, pobreza. analfabetismo, e agora que esse filho da mãe do Taffari se apoderou do poder, o país tem mais uma série de problemas, tais como tirania de partido único, exploração estrangeira e corrupção.

            -           Parece ser a sociedade perfeita. Vamos começar pelo tribalismo no Ubomo. Fale-me disso.

            -           O tribalismo é a maior praga de África. – Kelly meteu na boca uma garfada do bife mal passado e fechou os olhos por um instante, em êxtase. - Que maravilha! - murmurou. - Não podia saber-me melhor! Bom, voltemos ao tribalismo no Ubomo. Há seis tribos, mas só duas é que contam. Os Uhalis são a mais numerosa, com perto de três ou quatro milhões. São tradicionalmente agricultores e pescadores. São um povo trabalhador, mas escravizado há séculos por uma tribo muito mais pequena, os Hitas. Estes são pastores e guerreiros. Vivem com e para o seu gado. São muito bonitos, altos e elegantes. Um morani hita de menos de um metro e oitenta e cinco de altura é considerado um anão. São um povo cruel, arrogante e brutal.

            -           Está a tomar partido, Kelly. É tão tribalista como eles - acusou Daniel.

- Se viver bastante tempo em África, vai ver que também passa a ser tribalista - disse Kelly, abanando tristemente a cabeça. - E neste caso é com razão. Antes de os Ingleses saírem do Ubomo, em 1969, organizaram umas eleições ao estilo de Westminster, e claro que os Uhalis as ganharam pela força dos números e Omeru foi eleito presidente. Era um bom presidente. Tentou fazer justiça ao seu povo, a todas as tribos, mas os Hitas eram orgulhosos e sanguinários. Dado que eram um povo de guerreiros, dominaram gradualmente o exército, e o resultado era inevitável. Ephrem Taffari, um déspota tirânico, é hoje presidente vitalício. Um milhão de Hitas dominam agora totalmente uma maioria de três milhões de membros de outras tribos, entre eles os Uhalis e os meus queridos e minúsculos Bambutis.

            - Fale-me dos seus Bambutis, "o povo das árvores altas" ­sugeriu Daniel.

            Kelly sorriu de prazer.

            -           Já estou a ver que sabe o título do meu livro!

            -           Não só sei o título, como também já li o livro.

Aliás, já o li três vezes. Arriscando-me a passar por pateta, sou um dos seus fãs - disse Daniel, repetindo provocadoramente as palavras dela.

            -           Ouçam lá, parem com isso que já estou enjoada - disse Bonny, falando pela primeira vez num quarto de hora. Não estava habituada a ser completamente ignorada. - Queria mais vinho, se é que alguém se preocupa com isso - continuou, amuada.

            Delicadamente, Daniel encheu-lhe o copo, enquanto Kelly se concentrava nas últimas garfadas de bife. Finalmente, Daniel quebrou um silêncio embaraçoso.

            -           Estávamos a falar dos Bambutis. Conte-me coisas deles.

            Kelly ergueu os olhos, mas ficou calada por instantes.

            -           Ouça - disse finalmente. - Quer saber coisas dos Bambutis? Muito bem, e se em vez de lhe falar deles eu o levasse à floresta e lhos mostrasse? Podia mostrar-lhe coisas que muito poucos ocidentais tiveram ocasião de ver.

            -           Ficava encantado, Kelly. A ideia agradava-me muito, mas não há um pequeno problema? O presidente Taffari mandava-a enforcar na árvore mais alta assim que você pusesse o pé no país.

Kelly riu-se. Daniel começava a gostar de ouvir o riso dela. Sentia-se bem e ficava com vontade de rir com ela.

            - O nosso amigo Ephrem não é muito por enforcamentos, tem lá os seus métodos favoritos.

- E como é que você se arranjava para organizar essa visita guiada sem a bênção dele?

- Vivi cinco anos na floresta. A autoridade de Taffari acaba onde começam as árvores. Tenho muitos amigos e Taffari muitos inimigos.

- E como é que posso entrar em contacto consigo? - insistiu Daniel.

            - Não vai ser preciso. Contacto-o eu.

- Ouça lá, Kelly, porque é que se arrisca tanto? Esse trabalho é assim tão importante que tenha de o fazer sem um subsídio de investigação, sem nenhum apoio e em risco de ser presa ou mesmo morta?

            Kelly fitou-o nos olhos.

            -           O trabalho que há para fazer nas florestas era suficiente para me ocupar durante toda a minha vida. Por exemplo, ando a estudar a fisiologia dos Bambutis. Tenho estudado o nanismo dos Pigmeus e estou a tentar determinar a causa por que não crescem mais. Acho que tive uma ideia nova. Até aqui, toda a gente se concentrou na hormona do crescimento... - Calou-se e sorriu. - Não vou maçá-los com pormenores técnicos, mas penso que o que lhes falta são os receptores da hormona.

            -           Não estamos nada maçados - interrompeu Bonny, sem tentar disfarçar o sarcasmo. - Estamos fascinados. Tenciona dar uma injecção aos Pigmeus e transformá-los a todos em gigantes como os Hitas?

            Kelly não deu mostras de irritação.

            -           A pequena estatura dos Bambutis faz que se adaptem idealmente à vida na floresta tropical. Ficariam espantados se vissem a facilidade com que eles se movimentam na floresta. Desaparecem debaixo dos nossos olhos.

            A cara dela irradiava entusiasmo e afeição quando falava desse povo que adoptara como se fosse o seu. Daniel mandou vir a sobremesa e café, mas Kelly ainda não esgotara o seu tema.

            -           A minha outra área de investigação ainda é mais importante. Os Bambutis têm um conhecimento vastissimo das plantas e das suas propriedades medicinais. Julgo que poderemos encontrar nessas plantas remédios para todos os nossos males e doenças: a cura do cancro e a da sida.

            -           Ficção científica - troçou Bonny.

            -           Cale-se, Bonny - disse-lhe bruscamente Daniel. - Isso é fascinante! E as suas investigações já vão muito adiantadas?

Kelly fez uma careta.

            -           Não tanto como eu gostaria. Pus as velhas da tribo dos Bambutis a apanharem folhas, cascas e raízes para me ajudarem. Tento catalogar e experimentar esse material e isolar as substâncias activas, mas o meu laboratório é uma palhota e não tenho dinheiro

            -           Mesmo assim, gostava de ver o seu trabalho.

            -           Há-de vê-lo - prometeu Kelly. - Estava tão entusiasmada com o interesse de Daniel pelo trabalho dela que lhe pôs a mão em cima do braço. - Não quer vir a Gondala, que é onde eu moro?

            Bonny olhava para a mão da outra rapariga pousada em cima do antebraço bronzeado e musculoso de Daniel. Era uma mão fina, como o resto do corpo dela, bonita e graciosa. Sentiu uns ciúmes irracionais.

            -           Sir Peter estaria certamente muito interessado na fórmula da cura da sida - disse Bonny, sempre de olhos cravados na mão. - A BOSS podia comercializá-la através das suas empresas farmacêuticas. Valeria muitos milhões

            -           A BOSS? Sir Peter? - Kelly retirou bruscamente a mão de cima do braço de Daniel.

            -           Tug Harrison, meu amor - participou-lhe Bonny, triunfante. - Tug é que financia a produção que Daniel vai filmar no Ubomo. A ideia é Danny e eu mostrarmos que a BOSS está a fazer maravilhas pelo Ubomo. Vai chamar-se "O Ubomo, a via para o futuro da áfrica". Não acha que é um título excelente? Vai ser a obra-prima de Danny.. Kelly não esperou pelo fim da frase. Levantou-se de um pulo.

            -           Você! - Olhou de cima para Daniel. - Você e esse monstro do Harrison! Como é possível?

            Deu meia volta e correu para fora do restaurante, empurrando um grupo de turistas americanos que lhe bloqueavam o caminho.

            -           Raios a partam! - rosnou Daniel para Bonny. – Deu cabo da hipótese de fazermos um trabalho único! Depois falo consigo.

            Correu atrás de Kelly Kinnear, furioso. Ela não estava na entrada do hotel. Daniel perguntou ao porteiro:

            -           Não viu uma mulher... Mas calou-se quando viu Kelly Kinnear do outro lado da rua montada numa Honda dois e meio poeirenta. Nesse momento, ela carregou no pedal de arranque e o motor começou a funcionar. Voltou o guiador numa volta apertada.

            -           Kelly! - gritou Daniel. - Espere! Dê-me uma oportunidade! Deixe-me explicar.

            A rapariga acelerou a fundo e a moto empinou-se em cavalinho. Quando passou a toda a velocidade em frente dele, Kelly olhou-o com uma expressão simultaneamente furiosa e magoada, e Daniel quase juraria que lhe corriam lágrimas pela cara abaixo.

- Judas! - gritou ela, e afastou-se na moto.

            Daniel voltou para o hotel, desejoso de ter uma conversa com Bonny. Mas antes de chegar à porta, percebeu que era perigoso enfrentá-la naquele estado de espírito, pois daria uma violenta discussão e ele não estava interessado em perder outro operador de câmara. Precisaria de muitas semanas para arranjar um substituto e, nesse caso, teria de cancelar o seu contrato com a BOSS, e tornar-se-ia impossível seguir o Dragão Feliz e Ning Cheng Gong até ao Ubomo. Seria um preço muito elevado pelo prazer de dar uma ensinadela a Bonny Mahon.

NA MANHÃ seguinte, quando Daniel conferia a conta do hotel antes de a pagar, reparou numa despesa de 120 xelins quenianos em "chamadas telefónicas internacionais". Interrogou Bonny.

            - Fez alguma chamada internacional na noite passada?

            -           Telefonei à minha mãe para lhe dizer que tinha chegado bem. Não me vai ralhar por isso, pois não?

O tom de desafio perturbou Daniel, e enquanto ela ia à frente para verificar se o equipamento de vídeo estava bem arrumado no táxi, ele ficou na suite. Assim que Bonny saiu, telefonou para a recepção e perguntou à telefonista para que número tinha sido feita a chamada internacional que constava da sua conta.

            - Londres 727 6464. - Não se importa de fazer outra chamada para esse número? - Está a chamar.

            Atenderam o telefone ao terceiro toque.

            - Bom dia, o que deseja?

            - De onde fala? - perguntou Daniel.

Mas o seu interlocutor respondeu cautelosamente:

            - Para onde é que deseja falar?

Daniel julgou reconhecer a voz, o sotaque africano cerrado.

            - És tu, Selibi? - perguntou em suafli.

            - Sim, sou eu. Quem fala?

Daniel desligou o telefone e ficou a olhar para o aparelho. Selibi era o criado de Tug Harrison.

            - Muito curioso - murmurou Daniel para consigo. - Miss Bonny anda a esconder alguma coisa, a não ser que a mãe dela more em Holland Park.

            TODOS os lugares do voo da Air Ubomo para Kahali estavam ocupados. Na maior parte, os passageiros tinham aspecto de homens de negócios, e havia também uma meia dúzia de soldados negros de óculos escuros e camuflado. Por enquanto, não se viam turistas, pois a BOSS ainda não tinha inaugurado o novo casino das margens do lago.

A hospedeira, uma rapariga hita muito alta, com um traje nacional flamante, mandou-os apertar os cintos.

Os telhados de chapa ondulada brilharam por baixo do avião antes de este aterrar na pista poeirenta. Quando as portas se abriram, foram acolhidos por um bafo de calor. Chegaram a suar ao edifício do aeroporto.

            Um oficial hita de uniforme camuflado e boina castanha identificou Daniel no meio do grupo de passageiros que começavam a dispersar e foi falar com ele.

- Dr. Armstrong? - Estendeu-lhe a mão. - Sou o capitão Kajo e vou ser seu guia enquanto aqui estiver. Foi o presidente quem me pediu pessoalmente para vir buscá-lo. O presidente Taffari é amigo de Sir Peter Harrison e manifestou o desejo de o conhecer assim que o senhor tiver descansado da viagem. Organizou um cocktail de boas-vindas.

O capitão Kajo falava muito bem inglês. Era um homem novo, alto e magro, uma bela figura de hita. Tinha mais uma mão travessa de altura do que Daniel, e os seus olhos cor de azeviche cintilaram quando examinou Bonny Mahon.

            - Esta é a minha operadora de câmara, Miss Mahon ­apresentou Daniel, e Bonny retribuiu interessadamente o olhar do capitão Kajo.

            Desde que soubera do telefonema secreto dela para Tug Harrison, Daniel andava cada vez mais inquieto. Não tinha confiança nenhuma nela.

            ESTAVA lua nova. A luz das estrelas era clara e brilhante, e os seus reflexos dançavam nas águas agitadas do lago. Kelly Kinnear estava sentada à proa de um pequeno dhow, cujo aparelho rangia à brisa nocturna enquanto bordejavam pelo lago.

            Ergueu a face para as estrelas. Era das poucas coisas de que sentia a falta na floresta, pois o dossel alto e ininterrupto das copas escondia-as permanentemente. Gozava-as agora, pois em breve deixaria de as ver.

O estado de espírito de Kelly era inconstante. Estava radiante com a ideia de se encontrar novamente com velhos amigos. Tinha medo da viagem e dos perigos que a esperavam até se refugiar na segurança das árvores altas. Receava que as mudanças políticas posteriores ao golpe de Estado tivessem feito muitos estragos na sua ausência. Por outro lado, estava satisfeita com as promessas de apoio que recebera e com o interesse que conseguira suscitar durante a sua viagem a Inglaterra e à Europa.

            Depois lembrou-se de repente de Daniel Armstrong e sentiu-se novamente encolerizada e descontente. A traição dele era tanto mais odiosa quanto depositara nele uma fé absoluta.

Formara uma opinião muito positiva acerca dele com base no que vira e lera a seu respeito, não porque ele fosse um homem bonito e que falava bem, mas sim devido à sua compreensão e simpatia aparentemente profundas por aquele pobre continente devastado.

            A primeira impressão confirmara todas as suas esperanças. Ele era um homem simpático e acessível. Ele e ela eram pessoas do mesmo mundo, com as mesmas preocupações, e, principalmente, Kelly sentia que se estabelecera imediatamente um laço entre eles. Havia afinidades intelectuais, além de uma atracção física mútua inegável.

Mas, de repente, tornara-se tudo uma ilusão: Daniel era igual aos outros. Um lacaio da BOSS e daquele monstro do Harrison. Ela tentava utilizar a sua cólera como um escudo contra a sua sensação de perda.

O timoneiro do dhow chamou-a lá da popa em voz baixa em suafli, e ela arrancou-se aos seus pensamentos e olhou em frente. A costa ficava a menos de um quilómetro de distância. e a linha baixa, de cor creme, da rebentação brilhava fracamente ao luar.

            O Ubomo. Estava a chegar a casa.

            Levantou os olhos e viu um bando de papagaios cinzentos que levantavam voo a guinchar das copas das árvores, trinta metros acima da sua cabeça.

            A entrada da floresta era densa e emaranhada. Nos pontos onde a luz solar penetrava até ao solo, nascera uma segunda camada de vegetação densa. Havia um trilho aberto pelos Pigmeus. mas um bambuti de altura média tinha menos trinta centímetros do que ela. Os rebentos cortados de fresco conheciam-se bem. mas os que já estavam secos eram afiados como punhais e ficavam à altura da cara e dos olhos de Kelly, que avançava com cuidado. Embora não se desse conta disso, aprendera a deslocar-se na floresta com a mesma graciosidade ágil dos Pigmeus.

            Os Bambutis, quando queriam troçar de alguém, diziam que ele andava na floresta como um wazungu. Wazungu era o termo de desprezo que designava os estranhos. Mas até Sepoo, um dos mais famosos caçadores bambutis, tinha de reconhecer que Kelly andava na floresta como um deles, e não como um wazungu branco.

A vegetação densa acabou abruptamente. e Kelly penetrou no verdadeiro solo da floresta. Era como se entrasse numa caverna submarina, num lugar escuro e secreto. A luz solar era filtrada por várias camadas de folhas. e toda a floresta parecia banhada numa atmosfera verde: o ar era quente e húmido. cheirava bem a terra vegetal e a húmus. E era um alívio entrar ali depois do calor, do pó e da luz implacável do exterior. Kelly encheu os pulmões com aquele odor e olhou em volta, pestanejando para se adaptar àquela luz estranha e bela. Os grandes troncos das árvores chegavam à cobertura verde lá no alto e perdiam-se de vista na verdura à sua frente.

O tapete de folhas debaixo dos seus pés era denso e macio como um tapete oriental precioso. Dava elasticidade aos seus passos, e o restolhar das folhas que estalavam avisava as criaturas da floresta da sua aproximação. Era conveniente não pisar uma das víboras mortíferas enroladas debaixo do tapete de folhas do solo da floresta.

            Kelly avançava rapidamente em passo leve, e as folhas mortas sussurravam debaixo dos seus pés. Só parou uma vez para cortar um pau, ao qual foi afiando a ponta com a navalha, mas sempre a andar. Enquanto caminhava ia cantando um cântico de louvor à floresta, que Pamba, a esposa do velho Sepoo, lhe ensinara. A floresta é o deus dos Bambutis; uma entidade viva que lhes pode oferecer ou recusar os seus dons, conceder favores ou castigar os que desrespeitam as suas leis e lhe fazem mal.

A meio da tarde começou a chover, uma daquelas cortinas de chuva que eram um acontecimento diário. As gotas, grossas como pedras, que caíam incessantemente nas galerias superiores da floresta produziam um ruido semelhante ao da corrente rápida de um rio à distância. Se caíssem com a mesma força em solo descoberto, arrastariam a camada superficial do solo, abrindo cicatrizes profundas, rolando em enxurrada pelas encostas e provocando danos irreparáveis.

            Mas as galerias superiores da floresta atenuavam a força da tempestade, amortecendo as gotas de água, que escorriam pelos troncos das grandes árvores, espalhando-se beneficamente no espesso tapete de folhas mortas e húmus para a terra conseguir absorver a chuva. Os rios, em vez de ficarem turvos de lama e atulhados pelas árvores arrancadas pela raíz, continuavam a correr suavemente, doces e cristalinos.

            Kelly despiu a camisa de algodão e enfiou-a numa das bolsas impermeáveis da mochila. Para as correias não lhe magoarem os ombros nus, atou um lenço à cabeça e prendeu a mochila ao lenço, ficando com as mãos livres, à maneira das mulheres dos Pigmeus. Nua da cintura para cima, envergava apenas calções curtos e sapatos de lona. Vestuário mínimo era o natural na floresta.

            Kelly deliciava-se com a chuva a escorrer-lhe pela pele e avançava rapidamente, apanhando quase sem parar tudo o que encontrava para comer: cogumelos de chapéu brilhante em forma de cúpula ou de lamelas cor de laranja. Eram as mais deliciosas das cerca de trinta variedades comestíveis.

            As sombras verdes tornaram-se mais cerradas quando o dia chegou ao fim e a luz ficou cada vez mais fraca. De repente, ouviu um som explosivo, uma corrente de ar libertada sob pressão, semelhante ao ruído de um pneu a rebentar. Era um dos sons mais terríveis da floresta, e Kelly saltou para trás instintivamente.

            Com a mão a tremer, pegou na tira atada à cabeça e deixou cair a mochila no chão coberto de folhas. No mesmo movimento, enfiou a mão numa das bolsas da mochila e tirou a fisga.

Os Bambutis haviam-na baptizado com o nome de Pequeno Arqueiro por causa da sua fisga. Apesar de troçarem dela, a perícia com que manejava aquela arma impressionava-os. Nem sequer o velho Sepoo fora capaz de aprender a servir-se da fisga, apesar de Kelly ter tentado ensiná-lo com toda a paciência. Finalmente, ele desistira, declarando altivamente que o arco e as flechas eram as únicas armas dignas de um caçador e que aquela coisinha só servia para crianças e bebés. Foi assim que lhe deram o nome de Pequeno Arqueiro, Kara-Ki.

Com um movimento rápido, puxou os grossos elásticos cirúrgicos até à orelha direita. O míssil era uma esfera de aço de um rolamento. Á sua frente mexeu-se qualquer coisa no solo da floresta. Parecia um monte de folhas mortas ou um tapete afegã com motivos das cores da floresta: amarelos, ocres e malva-claros, com riscas, manchas e triângulos pretos que enganavam os olhos. Mas Kelly sabia que aquela massa amorfa era na realidade um corpo de serpente camuflado com cores sedutoras e enrolado sobre si mesmo, em que cada anel da espiral tinha a grossura do seu tornozelo. A víbora do Gabão é a cobra mais venenosa de áfrica, com excepção da mamba.

No centro da pirâmide enrolada do corpo, a cabeça achatada erguia-se, recuada sobre a curva em 5 do pescoço, semelhante a uma seta prestes a ser disparada. Os olhos, engastados em saliências córneas, tinham a cor e a transparência de um topázio precioso, e as pupilas negras como azeviche estavam fixas nela. A cabeça era maior do que os dois punhos de Kelly juntos. A língua preta e fina projectava-se da abertura fina e sorridente da boca.

            Kelly fez pontaria instantaneamente e depois soltou o projéctil. A bola prateada zumbiu no ar, brilhando como uma gota de mercúrio à luz suave. Atingiu a víbora na ponta do focinho e abriu-lhe o crânio. A víbora, com um último silvo explosivo, contorceu-se em agonia, com as grandes voltas do corpo escorregando e retorcendo-se.

            Kelly contornou cautelosamente a víbora com o pau afiado em riste. Correndo para diante, pregou ao chão a cabeça despedaçada, empurrando-a com toda a sua força, enquanto a víbora se enrolava no pau. Depois, abrindo a lâmina da navalha com os dentes brancos, decepou a cabeça da víbora com um único golpe.

Deixou a serpente a retorcer-se nos últimos movimentos reflexos e olhou à sua volta, procurando um lugar para acampar. Havia na base de um dos troncos das vizinhanças uma caverna natural que era um abrigo nocturno ideal.

            Os Bambutis nunca tinham dominado a arte de fazer fogo, e as mulheres transportavam sempre um carvão em brasa de acampamento em acampamento, mas Kelly acendeu o seu isqueiro Bic e dentro de poucos minutos tinha uma bela fogueira junto à base da árvore. Abriu a mochila e preparou o acampamento. Depois, armada com o pau e a navalha, voltou até junto da carcaça da víbora do Gabão e cortou uma fatia grossa, esfolando-a com alguns golpes destros. A carne era branca e limpa. Separou dois nacos grossos do osso e colocou-os em cima das brasas da fogueira sobre uma grelha de ramos verdes. Espalhou em cima do lume algumas folhas de um arbusto próximo e o fumo temperou a carne. Depois, grelhou os cogumelos de lamelas cor de laranja noutro tronco verde, à maneira de uma espetada, voltando-o regularmente.

            Os cogumelos tinham um sabor a fungo mais intenso do que o das trufas pretas, e o gosto da carne de víbora era uma mistura de lagosta e frango tenro. Kelly não se lembrava de ter comido uma refeição mais deliciosa.

DE MANHÃ, lavou-se num riacho e apanhou o cabelo ainda molhado numa trança grossa e luzidia, caída sobre as costas nuas.

            Comeu as sobras do bife de víbora e dos cogumelos da noite anterior e pôs-se a caminho assim que nasceu o dia. Apesar de ter uma bússola na mochila, orientava-se pelas placas de fungos e pelos ninhos de formigas, sempre agarrados ao lado sul dos troncos, e pelo curso e direcção dos rios que atravessava.

            A meio da tarde, virou para sudoeste. Ao fim de uma hora, reconheceu um marco, uma ponte natural formada pelo tronco maciço de uma árvore atravessada sobre um rio.

Sepoo dissera-lhe uma vez que a árvore-ponte estava ali "desde o princípio dos tempos", o que significava desde que ele se lembrava. O tempo e os números não eram conceitos concretos no espírito dos Pigmeus. Contavam "um, dois, três, muitos". Na floresta, as estações eram todas iguais do ponto de vista da pluviosidade e da temperatura, e os Bambutis regulavam as suas vidas pelas fases da Lua, mudando-se para outro acampamento na lua cheia. Assim, nunca permaneciam no mesmo lugar o tempo suficiente para esgotarem a caça ou os frutos dessa zona ou para poluirem os rios e acidificarem a terra com os seus dejectos. A árvore-ponte estava polida por várias gerações daqueles pequenos pés, e Kelly inspeccionou-a atentamente para verificar se tinha sido usada recentemente. Ficou desapontada e dirigiu-se rapidamente para o acampamento onde esperara encontrá-los. Tinham partido e, a avaliar pelos sinais, havia já várias semanas, na lua cheia.

Era impossível saber que direcção teriam escolhido. Tal como todas as decisões tribais, essa teria sido tomada após um debate acalorado em que todos participavam com o mesmo peso. Kelly sorriu ao pensar como é que a discussão teria acabado. Assistira já muitas vezes a outras semelhantes. Uma das mulheres, irritada com a tontice e teimosia dos homens, nomeadamente com as do seu próprio marido, pegara subitamente na trouxa e pusera-se a caminho. Os outros, muitos deles ainda a resmungar, haviam-na seguido numa fila desalinhada.

Na comunidade bambuti, não havia chefes nem dirigentes.

Todos os adultos, de todas as idades, tinham o mesmo peso e a mesma voz. Só em relação a algumas questões, por exemplo a de saber quando e onde se deviam colocar as redes de caça, é que os membros mais jovens da tribo respeitavam a experiência dos mais velhos.

            Kelly estava ansiosa por se juntar a eles e aborrecida por não os ter encontrado. Começou a pensar no que devia fazer a seguir. Não valia a pena tentar adivinhar em que direcção teriam partido. Tinha de se dirigir para o seu próprio acampamento, em Gondala, "o lugar do elefante feliz". Os Bambutis acabariam por encontrá-la; bastava ter paciência.

Ficou ali durante mais algum tempo a escutar a floresta.

à primeira impressão, parecia ser um lugar isolado e silencioso. Só quando o ouvido se habituava a escutar para além do silêncio é que se tornava perceptível que os sons da vida ressoavam constantemente na floresta. A orquestra dos insectos tocava a sua eterna música de fundo, as aves piavam e cantavam nas galerias superiores, os macacos saltavam de ramo em ramo ou uivavam tristemente para o céu descoberto e os antílopes anões corriam furtivamente no tapete de folhas.

Pegou na mochila e pôs-se a caminho de Gondala.

Identificava com uma frequência cada vez maior marcos e sinais conhecidos ao longo da pista, a forma de certos troncos e encruzilhadas de trilhos, entalhes que cortara havia muito tempo nos troncos com a sua catana. Estava já muito perto de casa.

            Numa curva da pista, deparou subitamente com um monte de excrementos amarelos fumegantes que lhe chegavam ao joelho. Olhou em redor, procurando o elefante que ali os depositara, mas ele já tinha desaparecido. Pensou que talvez tivesse sido o Velho com Uma Orelha, um elefante macho de grandes presas que andava muitas vezes pela floresta nas proximidades de Gondala.

            Kelly sentia-se satisfeita por saber que, apesar de raramente os ver, partilhava a floresta com esses grandes animais sagazes e que a sua casa fora baptizada com o nome de um deles.

            No riacho seguinte, parou para se lavar, pentear e vestir uma Tshirt. Dentro de poucas horas, estaria em casa. Acabara de prender com um atilho a ponta da trança e de guardar o pente quando ficou arrepiada ao ouvir um novo som, feroz e ameaçador. Levantou-se e pegou no pau. O som ressoou mais uma vez, um rugido rouco que lhe acelerou as pulsações.

Não era costume ouvir-se o rugido do leopardo em pleno dia, pois o felino sarapintado é por excelência um animal nocturno. O rugido soou novamente, mais perto, quase directamente a montante, na margem do rio, e Kelly inclinou a cabeça, de ouvido à escuta. Este leopardo tinha qualquer coisa estranha. Teve uma suspeita passageira, mas ficou à espera, agachada, com o pau aguçado em riste. Fez-se silêncio durante muito tempo, mas depois o rugido soou novamente na margem do rio, já muito perto, a quinze metros, no máximo, do local onde ela se encontrava.

            Desta vez, a suspeita de Kelly transformou-se em certeza. Soltando por sua vez um grito de arrepiar, atirou-se para o esconderijo da criatura, brandindo o pau aguçado. As folhas da margem agitaram-se subitamente e um pequeno vulto saiu de lá a correr e fugiu. Kelly desferiu uma pancada com o pau, com um movimento largo do braço, e acertou estrondosamente nas nádegas nuas e castanhas da criatura. Ouviu-se um uivo de dor.

- Velho malvado! - berrou Kelly. - Querias pregar-me um susto! - A figurinha saltou por cima de um arbusto diante dela e refugiou-se lá atrás. Diabinho maroto!

            Espantou-o de detrás do arbusto e ele correu para o lado, guinchando, a fingir que estava cheio de medo e rindo ao mesmo tempo.

- Apanhas tantas que ficas com o rabo azul como o de um babuíno - ameaçou Kelly, brandindo o pau.

            Deram duas voltas ao arbusto a correr, e a figurinha dançava e fazia fintas à frente de Kelly, esquivando-se ao pau. Riam os dois.

            - Sepoo, és um monstro, não vou perdoar-te tão depressa! - gritava Kelly.

            Finalmente, ela desistiu e encostou-se ao pau, morta de riso. Sepoo atirou-se para o tapete de folhas, dando palmadas na barriga e rindo com as lágrimas a correrem pela cara abaixo.

            - Kara-Ki. Ria tanto que ficou com soluços. - Kara-Ki, a que nunca tem medo, assustou-se com o velho Sepoo!

            Era uma graça que ia contar junto à fogueira do acampamento durante as próximas doze luas.

            Kelly olhava-o afectuosamente, acompanhando-o nas manifestações de hilaridade mais fortes. Mas aos poucos as risadas acalmaram e eles acocoraram-se lado a lado, conversando. Os Bambutis tinham esquecido há muito a sua própria língua, adoptando as dos wazungu com quem contactavam. Falavam uma mistura de suafli, uhali e hita, com uma pronúncia e termos idiomáticos pitorescos que eram só deles.

            Sepoo abatera nessa manhã um macaco colobo com o arco e a flecha e fez uma fogueira e cozinhou a carne para eles comerem.

            Enquanto comiam e conversavam, Kelly deu-se conta de que o estado de espírito do seu companheiro era diferente do habitual. Tinha um ar preocupado, a inquietação e a tristeza atenuavam o brilho do seu olhar e faziam-lhe descair os cantos da boca.

            Kelly foi-lhe perguntando pelos outros membros da tribo, pela mulher.

            - Ralha como um macaco na árvore e resmunga como o trovão nos céus. - Sepoo fez uma careta de riso, com um amor que se mantinha vivo ao fim de quarenta anos de casamento. - É uma velha rabugenta, mas quando lhe digo que vou arranjar uma outra mulher nova e bonita, responde que, se alguma rapariga for suficientemente estúpida para me querer, pode ficar comigo.

Gargalhou com a sua própria graça e deu uma palmada na coxa.

- E os outros? - insistiu Kelly, procurando descobrir a causa da infelicidade de Sepoo. Haveria algum desentendimento na tribo? - E o teu irmão, Pirri?

            Havia uma certa rivalidade entre os dois meios-irmãos. Sepoo e Pirri eram os melhores caçadores, os dois homens mais velhos da pequena tribo. Deviam ser amigos, mas Pirri não era um verdadeiro bambuti. Era filho de um hita. Havia muito tempo, mais tempo do que qualquer dos membros da tribo conseguia lembrar, a mãe deles, que nessa altura era virgem, fora apanhada por um bando de caçadores hitas junto à orla da floresta. Talvez tencionassem matá-la quando se fartassem dela, mas ela conseguira fugir antes disso. Pirri nascera dessa experiência e era mais alto do que todos os outros homens da tribo, de tez mais clara e feições mais finas. Também tinha uma maneira de ser diferente, era mais agressivo e ganancioso do que os outros bambutis.

- Pirri é Pirri - respondeu evasivamente Sepoo.

            Kelly percebeu que ele estava preocupado com outra coisa, e não com o irmão mais velho.

            Apesar de Gondala ficar só a algumas horas de viagem, continuavam ambos a conversar durante todo o dia, e quando caiu a noite, continuavam agachados junto da fogueira. O tempo estava a ameaçar chuva. Kelly aproveitou o resto da luz para cortar os ramos finos e macios de uma árvore selepe, cravando-os em círculo na terra macia, como Pamba lhe ensinara, e entrançando-os de modo a formarem a estrutura de uma palhota bambuti tradicional. Entretanto, o velho Sepoo foi aos seus afazeres.

Voltou carregado de folhas de mongongo para revestir a palhota. Quando rebentou a trovoada, estavam abrigados na pequena construção, quentes e a seco, em frente de uma fogueira que crepitava alegremente e comendo os últimos bifes de macaco.

            Finalmente, Kelly instalou-se no seu colchão insuflável na escuridão, e Sepoo deitou-se na cama macia de terra vegetal ao lado dela, mas nenhum deles adormeceu logo. Sepoo, a coberto da escuridão, murmurou:

            - Estás acordada, Kara-Ki?

Estou a ouvir, velho pai - sussurrou ela.

            - Kara-Ki, a Mãe e o Pai estão zangados. Nunca os vi tão zangados - disse Sepoo.

Kelly sabia que ele se referia ao deus da floresta de duas cabeças, macho e fêmea num só.

- Isso é muito grave. E porque é que estão zangados?

- Estão feridos - disse Sepoo baixinho. - Os rios estão vermelhos com o sangue deles.

Kelly ficou calada. Como é que os rios podiam estar vermelhos com o sangue da floresta? Finalmente, teve de perguntar:

            - Não percebo, velho pai. O que é que estás a dizer?

- As minhas humildes palavras não estão à altura de descrever estas coisas - murmurou Sepoo. - Houve um terrível sacrilégio e a Mãe e o Pai estão a sofrer. Talvez apareça o Molimo.

            Kelly estava com os Bambutis uma vez durante uma visita do Molimo. As mulheres haviam sido excluídas, e Kelly ficara nas palhotas com Pamba e as outras mulheres quando o Molimo aparecera, mas ouvira a sua voz troando como um elefante furioso à solta na floresta.

            De manhã, perguntara a Sepoo:

            - Que espécie de criatura é o Molimo?

            - O Molimo é o Molimo - respondera ele enigmaticamente. ­É a criatura da floresta. É a voz da Mãe e do Pai.

            Agora, Sepoo sugeria que o Molimo talvez voltasse, e Kelly estremeceu. Desta vez não ia ficar nas palhotas com as mulheres, prometeu a si mesma. Ia descobrir mais coisas sobre essa criatura fabulosa. Mas, para já, esqueceu isso e concentrou-se no sacrilégio que fora cometido algures, nas profundezas da floresta.

- Sepoo - murmurou. - Não me queres falar dessa coisa terrível, mostrar-ma?

- Está bem, Kara-Ki. Amanhã mostro-te. Amanhã, antes de chegarmos a Gondala, mostro-te os rios que sangram.

            Na manhã seguinte, Sepoo estava outra vez muito bem disposto, como se nunca tivessem tido a conversa da véspera. Kelly deu-lhe o presente que trouxera para ele, um canivete suíço. Sepoo ficou encantado com todas as lâminas e utensílios que saíam do cabo de plástico vermelho e cortou-se imediatamente com uma delas. Deu uma gargalhada e chupou o polegar, estendendo-o depois a Kelly para lhe mostrar como a pequena lâmina era afiada.

            Kelly sabia que ele ia provavelmente perder o canivete ao fim de uma semana ou oferecê-lo impulsivamente a outro membro da tribo, como fizera com todos os outros presentes que lhe oferecera. Mas de momento a sua alegria era total.

            - Agora, tens de me mostrar os rios que sangram ­recordou-lhe, ajustando à volta da cabeça a tira que prendia a mochila.

O olhar dele entristeceu-se durante uns instantes, mas depois riu-se e fez uma cabriola.

- Anda, Kara-Ki. Vamos ver se és capaz de andar na floresta como um membro do verdadeiro povo.

Em breve, saíram do trilho principal e Sepoo conduziu-a rapidamente por caminhos que não estavam marcados. Bailava à frente dela como um espírito. Sepoo podia andar direito, mas Kelly tinha de se baixar para passar por baixo dos ramos e às vezes perdia-o de vista. Mas, como todos os Pigmeus, Sepoo cantava, ria e tagarelava pelo caminho com ela e com a floresta. Kelly guiava-se pela voz dele, que avisava as criaturas da floresta da sua aproximação.

            Ela sabia que Sepoo avançava no seu andamento mais rápido para a experimentar e brincar com ela, mas estava decidida a não se deixar ficar para trás. Quando ele chegou às margens do rio, muitas horas depois, Kelly só se atrasara uns segundos.

O velho pigmeu riu-se para ela, e os seus olhos desapareceram numa rede de pequenas rugas; acenou com a cabeça, em sinal de aprovação, mas Kelly não estava interessada na aprovação dele. Olhava para o no.

Era um dos afluentes do Ubomo, que nascia a grande altitude, nas Montanhas da Lua. Os Bambutis chamavam-lhe Tetwa, o nome dos peixes-gatos prateados que pululavam nas águas transparentes, nadando em cardumes perto das areias amarelas da margem. As mulheres bambutis, equipadas com redes de juncos e cascas de árvore entrançadas, chapinhavam na água e gritavam de excitação, pescando os peixes prateados e escorregadios que se contorciam nas águas transparentes.

Mas isso era antes de o rio ter começado a sangrar.

Agora, Kelly olhava para a água, horrorizada. O rio estava vermelho a toda a sua largura; não era o vermelho-vivo do sangue, mas sim uma cor mais escura, acastanhada. As águas barrentas haviam perdido o brilho e corriam lentamente, espessas e pesadas como óleo.

            Carcaças de peixes-gatos, empilhadas em grande número, espalhavam-se pelas margens vermelhas. O cheiro pestilento a peixe podre era opressor na atmosfera húmida e confinada do dossel da floresta.

Kelly desceu até à margem, enterrando-se na lama quase até aos joelhos. Pegou numa mão-cheia de terra e deixou-a escorrer entre os dedos. Era viscosa como óleo, macia como barro de oleiro, e tingiu-lhe a pele de vermelho-escuro. Tentou lavar os dedos, mas estavam impregnados de corante e vermelhos como os de um assassino. Levou uma mão-cheia de lama ao nariz e cheirou-a. Tinha o odor pungente de um produto químico.

            Voltou para a margem e perguntou a Sepoo.

- Quem fez isto, velho pai? O que é que aconteceu? - Ele evitou o olhar dela.

            - Não sei, Kara-Ki.

- Porquê? Porque é que não subiste o rio para descobrir? - Tive medo, Kara-Ki - murmurou.

            Kelly compreendeu subitamente que, para os Bambutis, aquilo era um acontecimento sobrenatural. Não subiriam os rios mortos para montante porque tinham medo do que poderiam descobrir.

            - Quantos rios estão assim? - perguntou Kelly.

            - Muitos, muitos - murmurou Sepoo, o que significava mais de quatro.

            - Diz-me os nomes - insistiu Kelly.

            O pigmeu desbobinou os nomes de todos os rios que ela conhecia na região e de alguns de que só tinha ouvido falar. Parecia que toda a bacia do Ubomo fora afectada.

                        Temos de subir o rio - disse Kelly decididamente. Sepoo fez uma cara como se fosse chorar.

            - Estão à tua espera em Gondala - guinchou.

Mas Kelly não fez a asneira de começar a discutir com ele. Aprendera isso com as mulheres da tribo. Pegou na mochila, ajustou a tira à volta da cabeça e começou a andar pela margem, dirigindo-se para montante. Avançou sozinha durante duzentos metros e ficou desanimada. Não conhecia a zona da floresta que se estendia à sua frente e seria uma loucura continuar se não conseguisse convencer Sepoo a acompanhá-la.

            Quando ouviu Sepoo ali perto, protestando em voz muito alta que não daria nem mais um passo, Kelly sorriu de alívio e estugou o passo. Sepoo seguia-a, jurando numa voz cada vez mais queixosa, que daí a pouco voltava para trás e a deixava sozinha, quando percebeu que Kelly não ia ceder. Depois, de repente, deu uma gargalhadinha e começou a cantar. Não era capaz de se forçar durante muito tempo a sentir-se infeliz. Kelly acompanhou-o no refrão da canção seguinte, e daí a nada Sepoo ultrapassou-a e passou a ser ele a indicar o caminho.

Nos dois dias seguintes, foram sempre avançando ao longo do rio Tetwa, e de quilómetro em quilómetro o estado do rio parecia cada vez pior, atolado de lama vermelha; as águas daí a pouco eram só lama, espessas como papas de aveia, arrastando raízes mortas e vegetação solta, e começavam já a borbulhar com os gases da decomposição; o cheiro pestilento desses gases misturava-se com o das aves e dos pequenos animais mortos e o do peixe podre, apanhado e sufocado pela lama.

Ao fim da tarde do segundo dia, chegaram aos limites do território de caça da tribo de Sepoo. Não havia marcos assinalando essa fronteira, mas Sepoo parou nas margens do Tetwa, retirou a corda do arco e guardou as flechas no carcás de casca enrolada que trazia pendurado ao ombro para mostrar à Mãe e ao Pai da floresta que respeitava o lugar sagrado e que não mataria nenhuma criatura dentro daquela reserva das profundezas da floresta. Depois, entoou um cântico dos Pigmeus para aplacar a floresta e pedir autorização para entrar.

Kelly estudara em pormenor as tradições do coração da floresta. Era o reservatório de onde brotava a vida, espalhando-se pelas reservas de caça, renovando-as e sustentando-as. Era também a zona-tampão que separava cada uma das tribos dos seus vizinhos, evitando as disputas territoriais entre elas. Era mais um exemplo da sabedoria dos Bambutis.

            Nessa noite, Kelly e Sepoo acamparam no limiar do coração sagrado da floresta. De noite choveu, e Sepoo declarou que era um sinal claro de que as divindades da floresta não se opunham a que eles continuassem a sua viagem para montante.

            A meio da terceira tarde, Kelly parou repentinamente e inclinou a cabeça, a escutar um som que até aí nunca ouvira na floresta. Era fraco e intermitente, mas à medida que avançavam tornava-se mais nítido e mais forte, até ressoar na sua imaginação como o rugido do leão na caça, um som terrível, selvagem e feroz que a encheu de desespero.

            Agora, o rio Tetwajá não corria; estava barrado de ramos e detritos e em certos pontos inundara as margens e o solo da floresta, obrigando-os a avançar com água até à cintura num pântano pestilento. Depois, a floresta acabou abruptamente e eles foram iluminados pela luz solar num lugar onde esta não penetrava há um milhão de anos.

            à frente deles estava uma visão que Kelly não seria capaz de imaginar nos seus mais terríveis pesadelos. Contemplou-a até não aguentar mais e depois voltou-lhe as costas.

            Acordou de noite, a chorar alto, com Sepoo a acariciar-lhe o braço para a consolar.

            A viagem de regresso, descendo o rio moribundo, foi mais vagarosa, como se Kelly carregasse o fardo da sua tristeza, e Sepoo tinha de encurtar o passo para o acertar com o dela.

Cinco dias depois, Kelly e Sepoo chegaram a Gondala.

 

            GONDALA era um lugar único naquela zona da floresta. Era uma clareira de capim amarelado com menos de quarenta hectares. Na extremidade sul, o terreno elevava-se ao encontro das colinas revestidas de floresta. Durante uma parte do dia, as árvores altas davam sombra à clareira, mantendo-a fresca. Essa extensão de terreno descoberto era limitada por dois riachos, e a encosta tinha uma vista estonteante sobre as copas das árvores a noroeste. Era um dos poucos locais da bacia do Ubomo onde a vista não estava tapada pela grande floresta.

Kelly parou na orla da selva, como sempre costumava fazer, e olhou para os picos das montanhas, a duzentos quilómetros de distância. Geralmente, as Montanhas da Lua estavam escondidas pelas nuvens. Mas nessa manhã, como se quisessem dar-lhe as boas-vindas depois do seu regresso a casa, viam-se nitidamente em todo o seu esplendor. O maciço glaciário do monte Stanley, espremido entre as falhas da depressão do Grande Rift até uma altitude de mais de cinco mil metros, tinha o branco puro do gelo e era extraordinariamente belo.

            Kelly arrancou-se a custo a essa visão e olhou para a clareira. Era lá que se erguia a sua casa e o seu laboratório, uma construção de troncos e adobe com um telhado de colmo que levara perto de três anos a erigir.

            As hortas da parte baixa da encosta eram irrigadas pelos rios e vedadas contra as criaturas da floresta. Era delas que a pequena comunidade de Gondala tirava uma boa parte do seu sustento.

            Quando saíram da floresta, algumas das mulheres viram-nos e correram para Kelly, gritando e rindo de alegria. Umas eram bambutis, mas a maior parte eram mulheres uhalis, envergando as tradicionais saias compridas de cores vivas. Rodearam Kelly e escoltaram-na até à casa.

O sururu atraiu uma figura solitária, que saiu do laboratório para a varanda larga; era um velho de cabelo prateado da cor da neve do monte Stanley, que vestia um fato de safari azul e calçava sandálias. Protegeu os olhos com a mão, reconheceu Kelly e sorriu, mostrando os dentes muito brancos, que sobressaíam na sua cara escura e inteligente.

            - Kelly! - Estendeu-lhe as duas mãos quando ela começou a subir para a varanda, e Kelly correu para ele. O homem pegou-lhe nas mãos.

- Estava a começar a ficar preocupado consigo. Esperava-a já há dias. Estou contente de a ver.

- Também estou contente de o ver, Sr. Presidente.

- Então, minha filha. Já não sou presidente, ou pelo menos não o sou para Ephrem Taffari, e desde quando é que faz tanta cerimónia comigo?

- Victor - emendou Kelly. - Tive saudades suas e tenho tantas coisas para lhe contar. Nem sei por onde começar.

- Deixe isso para depois. - Abanou a nobre cabeça grisalha e abraçou-a. Kelly sabia que ele tinha mais de setenta anos, mas o seu corpo era tão forte e vigoroso como o de um homem de metade dessa idade. - Primeiro, deixe-me mostrar-lhe o bem que me encarreguei do seu trabalho durante a sua ausência. Devia ter continuado a ser cientista em vez de me dedicar à política.

            Pegou-lhe na mão e levou-a para o laboratório.

Quando jovem, o presidente Victor Omera estudara em Londres. Regressara ao Ubomo com um mestrado em Engenharia Electrotécnica e trabalhara durante algum tempo para a administração colonial, demitindo-se depois para encabeçar o movimento de luta pela independência. Mas mantivera o seu interesse pela ciência, e os seus conhecimentos impressionavam sempre Kelly.

            Quando fora derrubado pelo sanguinário golpe de Estado de Taffari, fugira para a floresta com um grupo de partidários fiéis e refugiara-se na casa de Kelly Kinnear, em Gondala. Nos meses seguintes, a colónia da clareira fora a sede do movimento de resistência uhali à tirania de Taffari. Enquanto não estava a receber os seus visitantes ou a planear a contra-revolução, Omeru resolvera tornar-se assistente de Kelly, e ao fim de pouco tempo prestava-lhe uma ajuda preciosa.

            Mais tarde, quando sentados na varanda larga do bungalow, Kelly informou:

            - Victor, está a acontecer uma coisa terrível aos rios da floresta, no coração sagrado do território dos Bambutis. Nem sei como é que vou conseguir explicar.

Ele ouviu-a sem interromper e, quando ela acabou, comentou calmamente:

            - Taffari está a matar a nossa terra e a nossa gente. Os abutres cheiram a morte no ar e estão a juntar-se, mas nós vamos detê-los.

Kelly nunca o vira tão zangado. Tinha uma expressão dura. - Eles são poderosos, Victor. Ricos e poderosos.

            - Não há poder que possa igualar o de homens honestos com uma causa justa - replicou Omeru com uma determinação contagiosa.

            Kelly sentiu o seu desespero a desvanecer-se.

- Sim - murmurou. - Vamos descobrir uma maneira de os deter. Temos de a descobrir, a bem desta terra.

 

A ADMINISTRAÇÃO vitoriana construíra o Palácio do Governo do Ubomo numa zona alta sobranceira ao lago e com vista para as águas, rodeando-o de relvados e árvores trazidas da Europa, que lhe lembravam a pátria. A noite, a brisa descia das Montanhas da Lua, a Oeste, cortando o calor.

O Palácio do Governo continuava a ser, como na era colonial, uma casa de rancho de tijolo vermelho, cómoda e despretensiosa, circundada por uma varanda larga com redes contra as moscas. Victor Omeru não a modificara. Não queria gastar dinheiro em edifícios públicos sumptuosos enquanto o seu povo estivesse necessitado.

Naquela noite, a varanda e os relvados estavam apinhados de gente quando Daniel Armstrong e Bonny subiram a encosta no Land-Rover do Exército que fora colocado à sua disposição. Um cabo hita, de fato-macaco camuflado e pistola-metralhadora a tiracolo, indicou-lhes um lugar no parque de estacionamento.

Os jacarandás estavam iluminados por holofotes, e uma banda militar tocava jazz popular com um ritmo tipicamente africano que pôs Daniel mais bem disposto.

            - Tudo isto em sua honra - gracejou Bonny.

            Isso é o que o Taffari diz a todos os convidados, aposto - replicou Daniel, sorrindo.

O capitão Kaj o, que fora esperá-los ao aeroporto, dirigiu-se imediatamente para eles assim que chegaram ao relvado.

- Ah, Dr. Armstrong, o presidentejá perguntou por si. O senhor é o convidado de honra desta noite.

            Acompanhou-os até à varanda. Subiram os degraus e Daniel identificou imediatamente o presidente Taffari, apesar de estar de costas para eles. Era o homem mais alto num compartimento cheio de oficiais hitas muito altos e vestia um uniforme cor de vinho desenhado por ele.

            - Sr. Presidente. - O capitão falou respeitosamente para as costas de Taffari, que se voltou e sorriu, exibindo as medalhas que trazia ao peito. - Posso apresentar-lhe o Dr. Daniel Armstrong e a sua assistente, Miss Mahon?

- Doutor! - exclamou Taffari, cumprimentando Daniel. - Sou um grande admirador do seu trabalho. Não podia ter escolhido uma pessoa mais qualificada para mostrar o meu país ao Mundo. Até agora, fomos mantidos na obscuridade e no isolamento pelo velho tirano que derrubámos. Está na altura de o Ubomo se afirmar. O senhor vai ajudar-nos a transportar o meu amado país para o século XX.

- Farei os possíveis - garantiu Daniel cautelosamente. Ficara surpreendido com a eloquência e a presença de Taffari. Era um homem impressionante, que irradiava força e confiança. Tinha mais um bom palmo de altura do que o metro e oitenta de Daniel e as feições de um faraó egípcio.

O olhar de Taffari deslizou sobre Daniel e pousou em Bonny Mahon.

- Você é um génio. Sir Peter Harrison mandou-me uma videocassete de O Sonho árctico. Se for capaz de fotografar o Ubomo com a mesma compreensão e a mesma arte, ficarei muito satisfeito, Miss Mahon.

            Olhou para o peito dela, para as sardas douradas logo abaixo do pescoço, a que se seguia uma tira estreita de pele branca e pura que o decote do vestido verde deixava à mostra. -     É muito amável. Sr. Presidente - respondeu ela atrevidamente.

Taffari riu-se.

-   O que é que acharam do meu país até agora?

            -   Só chegámos hoje - observou Bonny. - Mas o lago é lindo e as pessoas são tão altas. os homens tão bonitos! - Bonny transformou as suas palavras num cumprimento pessoal.

            -           Os hitas são altos e atraentes - concordou Taffari.

- Mas os Uhalis são baixos e feios como macacos, até mesmo as mulheres.

            Os oficiais Hitas da sua casa militar riram-se. encantados, e Bonny engoliu em seco, escandalizada.

            -           Na terra de onde eu venho, não costumamos falar com desprezo dos outros grupos étnicos. A isso chama-se racismo ­disse ela.

            Taffari fitou-a. Era óbvio que não estava habituado a ser corrigido. Depois, fez um sorrisinho frio.

            -           Bom, Miss Mahon, em áfrica diz-se a verdade. Quando as pessoas são feias ou estúpidas, nós dizêmo-lo. Chama-se a isso tribalismo.

-           Os oficiais riram à gargalhada, e Taffari voltou-se novamente para Daniel. - O embaixador britânico está cá hoje. Com certeza que quer cumprimentá-lo. - Chamou Kajo. - Capitão, vá apresentar o Dr. Armstrong a Sir Michael.

            Bonny preparava-se para seguir Daniel, mas Taffari fê-la parar, tocando-lhe no braço.

            -           Não se vájá embora, Miss Mahon. Gostava de lhe explicar umas coisas, tal como a diferença entre os Uhalis e os Hitas, altos e bonitos, que tanto admira.

            Bonny voltou para junto dele, espetando a anca numa pose provocante e cruzando os braços por baixo do peito.

            -           A áfrica não pode ser julgada pelos padrões da Europa - continuou Taffari. - Aqui, as coisas são diferentes. Bonny viu pelo canto do olho que Daniel e Kajo já tinham saído da varanda. Chegou-se mais a Taffari e disse:

            -           Óptimo! Estou sempre pronta a aprender coisas diferentes.

DANIEL parou ao fundo dos degraus, mas depois avançou rapidamente quando avistou uma cara conhecida no meio do relvado apinhado de gente.

            -           Sir Michael! É embaixador britânico, nem mais nem menos! Malandro! Quando é que isso aconteceu?

            Michael Hargreave pegou no braço de Daniel numa manifestação impulsiva de afecto muito pouco britânica e nada diplomática.

            -           Não recebeste a minha carta, Danny? Foi uma correria. Mandaram-me ir de Lusaca sem me darem tempo para nada. Depois, foram as pancadinhas nos ombros pela espada de Sua Majestade e "Levantai-vos, SirMichael", sabes como é. E enviaram-me directamente para cá.

            - Parabéns, Sir Michael. Já devia ter sido há mais tempo. Bem mereces.

Hargreave fez um ar embaraçado e largou a mão de Daniel. - Onde é que está a tua bebida, rapaz? Não toques no whisky. É de fabrico local. Estou convencido de que é chichi de crocodilo engarrafado. Experimenta o gin.

            -E a Wendy?

            - Está em Lusaca a fazer as malas. O tipo que foi para o meu lugar disse que tomava conta do teu Landcruiser e do material. A Wendy deve vir daqui a uns quinze dias. A propósito, manda-te muitas saudades.

- Como é que ela sabia que eu estava aqui? – perguntou Daniel, intrigado.

            - Foi Tug Harrison quem nos anunciou que tu vinhas para o Ubomo.

            - Conheces o Harrison?

            - Em África, toda a gente o conhece. Está metido em tudo. E pediu-me para olhar por ti. Falou-me do teu trabalho aqui. Que ias filmar o Taifari para dar uma boa imagem dele e da BOSS; foi o que ele me disse. É verdade?

- É um bocado mais complicado do que isso, Mike.

- Isso já eu sabia! Complicações com que tu nem sonhas ainda - Puxou Daniel para um canto deserto do relvado, longe dos ouvidos dos outros convidados. - Mas, antes de mais nada, o que é que achas do Taffari?

- Não lhe comprava um país em segunda mão sem ver primeiro o motor.

- Eu, se fosse a ti, via também os pneus – comentou Michael, sorrindo. - Tudo leva a crer que ao pé dele o Idi Amin vai parecer a Madre Teresa. Os meus amigos do MIS dizem-me que já abriu várias contas na Suíça e que o dinheiro já começou a pingar.

- Não me admira nada. É o que fazem todos, não é?

            - Temos de reconhecer que se tornou vulgar. Mas ele também está a ser bastante mauzinho para Os Uhalis. Deu cabo do velho Victor Omeru, que era um homem decente, e agora está a acabar com o resto da tribo. Correm boatos de que tem feito coisas muito feias. Não aprovamos. Até o Primeiro-Ministro já está aborrecido com ele; a propósito, tenho notícias de um amigo teu.

            - Um amigo meu?

- A sociedade do Dragão. Ainda não te esqueceste desse assunto, pois não? E adivinha lá quem é que vão mandar para dirigir as operações deles aqui...

- Ning Cheng Gong - disse Daniel em voz baixa. Tinha de ser. Era a razão por que ele se encontrava no Ubomo. Pressentira desde o início que aquilo ia acontecer. Era ali que ia encontrar-se novamente com Cheng.

            - Exactamente, Ning Cheng Gong. Chega na semana que vem. Taffari vai dar outra festa de boas-vindas em honra dele. O nosso Ephrem aproveita todos os pretextos para dar festas. ­Calou-se e fitou Daniel. - Tens alguma coisa? Tomaste o remédio da malária, não tomaste? Estás branco como a cal da parede.

            - Estou óptimo - respondeu Daniel em voz rouca.

            Revira mentalmente a imagem terrível da casa de Chiwewe e dos corpos de Mavis Nzou e dos filhos, e essa visão deixara-o abalado e trémulo. Queria pensar noutra coisa, em tudo menos em Ning Cheng Gong.

            - Diz-me tudo o que devo saber sobre Taffari e o Ubomo ­pediu a Michael Hargreave.

- Isso não é fácil, rapaz. Agora, só te posso dar uma ideia, mas se apareceres na embaixada amanhã, dou-te as informações completas e deixo-te espreitar os ficheiros. Ultra-secretos, claro.

            Daniel abanou a cabeça.

- Amanhã, vamos para as margens do lago para começar as

filmagens. Taffari pôs a Marinha em peso à nossa disposição. Uma canhoneira velha do tempo da II Guerra. Mas posso lá ir no dia seguinte.

            Quando achou que eram horas de se irem embora, Daniel procurou Bonny Mahon, mas não a encontrou. Viu o capitão Kajo com um grupo de oficiais no bar e foi ter com ele.

- Vou-me embora, capitão. Viu Miss Mahon? – perguntou Daniel.

            Um dos oficiais hitas deu uma risada ébria, e Kajo fez um grande sorriso.

            - Não, doutor. Estava aqui há bocado, mas há uma hora que não a vejo. Deve ter-se ido embora. Por acaso, estou a lembrar-me de que a vi ir-se embora.

            Daniel afastou-se, dirigindo-se para o parque de estacionamento para ir buscar o Land-Rover. A casa onde se alojavam os convidados do Governo estava às escuras quando ele chegou e estacionou o carro debaixo da varanda. Bonny devia estar na cama a dormir e de luz apagada.

            Ele bebera uma quantidade suficiente de gin local para ficar com uma dor de cabeça e foi buscar uma aspirina à casa de banho. Depois, atirou com a roupa para O chão e enfiou-se debaixo do mosquiteiro.

            Acordou com a luz de uns faróis que iluminavam a fachada da casa, atravessando as cortinas e reflectindo-se na parede por cima da cama. Ouviu pneus a derraparem no cascalho do jardim, depois soaram vozes, a porta do carro bateu e o veículo arrancou. Em seguida, ouviu Bonny a subir as escadas da varanda e a abrir a porta principal. Passado um minuto, a porta do quarto dela fechou-se furtivamente.

            Na manhã seguinte, Daniel já ia na sua segunda chávena de chá quando Bonny apareceu na varanda e se sentou à frente dele à mesa sem o cumprimentar.

            Tinha os olhos inchados e a expressão indisposta de alguém na ressaca de uma bebedeira. O mordomo da casa dos convidados, um anacronismo da era colonial, serviu-lhes um pequeno-almoço inglês tradicional. Nenhum deles falou enquanto Bonny atacava a sua pratada de ovos com bacon. Depois, Daniel perguntou:

- Faz alguma ideia daquilo a que se arrisca metendo-se com um homem tão imprevisível?

- Ora, ora! Isso são ciúmes? Como é que sabe o que eu fiz?

            - Não é segredo. Toda a gente sabia na festa. IFez o que faz qualquer pegazita.

Daniel levantou-se e foi preparar o equipamento. Estava furioso com ela por pôr em risco toda a operação.

            Ainda não estava pronto quando chegou o capitão Kajo com mais três soldados nas traseiras do Land-Rover. Ajudaram-nos a transportar o pesado equipamento de vídeo e a arrumá-lo no jipe. Daniel deixou a Bonny o lugar da frente, ao lado do capitão Kaj o, e foi atrás com os soldados hitas.

A cidade de Kahali continuava igual às suas recordações da última visita. As ruas eram largas e poeirentas, e as casas pareciam-se com as do cenário de um filme de cowbQvs antigo. A principal diferença que Daniel notou foi no estado de espírito das pessoas. As mulheres uhalis continuavam a usar os seus vestidos coloridos até ao tornozelo e os turbantes, mas tinham uma expressão reservada. Viam-se poucas caras sorridentes no mercado ao ar livre, onde as mulheres estavam agachadas ao lado das suas mercadorias, espalhadas em cima de panos no chão.

A canhoneira esperava-os no cais. Marinheiros descalços de uniforme azul-escuro subiram a rampa de embarque carregando o equipamento de vídeo, e o comandante apertou a mão de Daniel quando ele subiu a bordo, acompanhado pelo capitão Kajo.

- A paz esteja consigo - cumprimentou-o em suafli. - Tenho ordens para levá-lo onde quiser.

            Saíram do porto e viraram para norte, paralelamente à margem do lago. Daniel ia de pé na proa e em breve sentiu-se mais animado. A água era azul-escura e brilhava ao sol.

Olhou para leste, com a espuma levantada pelo barco a bater-lhe na cara, tentando distinguir os picos românticos das montanhas à distância, mas naquele dia, como de resto quase sempre, estavam envoltos numa massa difusa de nuvens azuladas que se confundia com o céu africano.

            Voltou-se para a ponte aberta da canhoneira. Bonny Mahon estava a filmar. Tinha a câmara Sony equilibrada no ombro e apontada para terra. Ele fez uma careta de aprovação relutante. A idoneidade moral dela podia deixar a desejar, mas era uma excelente profissional. Quando morresse, ia filmar o Diabo a caminho do inferno. Daniel riu-se com a ideia.

            Voltou para a cabina de navegação, abaixo da ponte, e espalhou em cima da mesa os mapas topográficos e os projectos de arquitectura que a BOSS lhe tinha fornecido.

            O local escolhido para a construção do hotel e do casino ficava cerca de dez quilómetros a norte de Kahali, na margem do lago. Daniel viu que era uma baía natural com uma ilha a guardar a entrada. O rio Ubomo, que descia a escarpa da depressão do Rift, vindo das grandes florestas e das cordilheiras nevadas, desaguava na baía. Parecia ser o local ideal para uma estância de férias. Na opinião de Daniel, só tinha um inconveniente. Havia ali uma grande aldeia de pescadores. Interrogou-se sobre o que é que Tug Harrison e Ning Cheng Gong tencionariam fazer com a aldeia. O cheiro do peixe a secar ao ar não contribuiria grandemente para aumentar os atractivos românticos da Residência da Baía das águias-Pesqueiras, que era o nome do empreendimento.

            O comandante chamou Daniel lá de cima. Ele levantou-se da mesa das cartas e saiu para a coberta quando a canhoneira dobrou o promontório e a baia das Águias-Pesqueiras apareceu à frente deles.

            Daniel viu imediatamente que o nome fora bem escolhido. A ilha da embocadura da baía estava coberta de floresta densa. Centenas de casais de águias-pesqueiras haviam construído os seus ninhos nos ramos mais altos. Muitas dessas grandes aves de plumagem castanha e avermelhada e cabeças brancas brilhantes estavam pousadas nos poleiros altos, e outras pairavam de asas abertas sobre as suas cabeças.

A canhoneira ancorou na baía e desceram um barco de borracha para levar Daniel e Bonny a terra. A vista era espectacular: falésias de rochas vulcânicas erguiam-se a pique acima das águas muito azuis e entre as rochas negras estendiam-se praias de areia cor de laranja.

            Deixando o capitão Kajo e os dois marinheiros na praia com o barco, Daniel e Bonny treparam ao ponto mais alto da falésia, sendo recompensados com uma vista panorâmica da baía e do lago.

Do local onde se encontravam, avistavam a grande aldeia de pescadores, na foz do rio Ubomo. Uns vinte barcos à vela estavam varados na areia da praia. As redes encontravam-se estendidas ao sol a secar, e o cheiro do peixe chegava até ao lugar onde eles se encontravam, no alto da falésia. Crianças nuas brincavam na praia e chapinhavam nas águas do lago. Os homens trabalhavam nos barcos ou estavam sentados de pernas cruzadas, reparando as redes. Na aldeia, mulheres de saias compridas moviam-se graciosamente, pilando grão nos almofarizes de madeira, balançando o corpo ao ritmo do movimento, que levantava e baixava; outras estavam agachadas junto das fogueiras, cozinhando.

Daniel apontava a Bonny os diversos aspectos que queria filmar, e Bonny seguia as instruções dele, voltando a objectiva para gravar tudo.

            - E o que é que vai acontecer à gente da aldeia? ­perguntou, continuando a espreitar pelo visor da Sony. - Vão começar a escavar as fundações do casino dentro de três semanas...

- Provavelmente, mudam-nos para outro lugar - disse-lhe Daniel. - Na nova áfrica, os governantes mudam as pessoas de um lugar para outro como se fossem peças de um jogo de xadrez...

            Calou-se e protegeu os olhos com a mão, espreitando para a estrada que vinha de Kahali ao longo da margem do lago. A brisa vinda das montanhas do Norte levantava uma nuvem baixa e escura de pó vermelho que pairava sobre as águas azuis do lago.

            - Deixe-me dar uma olhadela pela teleobjectiva - pediu Daniel a Bonny, que lhe entregou a câmara. Fazendo um zoom com a ampliação máxima, viu um comboio de veículos que se aproximavam. - Camiões do Exército - disse. - E atrelados... Parece que trazem escavadoras.

Entregou novamente a câmara a Bonny, que estudou o comboio que se aproximava.

- Será um exercício militar? - perguntou ela. – E deixam-nos filmar?

            - Em qualquer outro país de África, não me atrevia a apontar a câmara para nada que tivesse a ver com militares, mas aqui temos a bênção do presidente Taffari. Filme!

Bonny montou rapidamente o tripé que utilizava com a teleobjectiva e fez zoom sobre o comboio militar que se aproximava. Entretanto, Daniel aproximou-se da beira da falésia e olhou para a praia. O capitão Kajo e os marinheiros da canhoneira estavam estendidos na areia. Kajo devia estar a dormir, cansado da orgia da véspera.

Daniel voltou para junto de Bonny para observá-la a trabalhar.

            O comboio estava já perto da aldeia. Um bando de crianças e de cães vadios correu a acolhê-lo. As crianças corriam ao lado dos camiões, rindo e acenando, e os cães latiam histericamente. Os veículos pararam na praça principal da aldeia. Soldados de camuflado, armados com carabinas AK 47, saltaram para o chão e formaram em pelotões.

Um oficial hita trepou para cima da cabina do camião da frente e começou a discursar aos aldeãos com um megafone. O som da sua voz, amplificada electronicamente, chegava ao alto da falésia onde Daniel se encontrava. Embora ele perdesse uma parte das palavras em suafli, percebeu o suficiente. O oficial estava a acusar os aldeãos de actividades contra-revolucionárias. Enquanto falava, um pelotão de soldados trotou até à praia, reuniu os pescadores e as crianças que lá estavam e trouxe-os para a praça principal da aldeia.

            As crianças escondiam-se nas saias das mulheres, e os homens protestavam, gesticulando para o oficial empoleirado na cabina do camião. Os soldados começaram a percorrer a aldeia, mandando sair as pessoas que estavam dentro das palhotas. Um velho tentou resistir aos homens que o arrastavam para fora de sua casa e um dos soldados deu-lhe uma coronhada. O velho caiu no chão, encolhido, e os soldados deixaram-no lá; continuaram a avançar, abrindo as portas das palhotas a pontapé e gritando para os ocupantes.

Bonny não despegava os olhos do visor da câmara.

- Isto é formidável! É a sério! Dá para concorrer aos prémios Emmy!

            Daniel não respondeu. A excitação exaltada dela escandalizava-o. Compreendia a necessidade de obter material diferente e emocionante para espicaçar os sentimentos embotados dos telespectadores, mas o espectáculo a que assistiam era tão horroroso como as cenas dos soldados das SS a limparem os guetos da Europa. Os soldados começavam a meter os pescadores nos camiões; as mulheres gritavam e procuravam os filhos na confusão.

            As duas escavadoras amarelas rodaram para fora dos atrelados. Uma delas descreveu uma curva apertada e baixou a grande pá, que brilhou ao sol da tarde e cortou a parede da palhota mais próxima. O telhado de colmo abateu-se.

- Nem de propósito eu tinha encenado isto melhor - murmurou Bonny. - É uma sequência espantosa!

As mulheres carpiam, naquela manifestação tão típica e arrepiante da dor africana. Um dos homens fugiu para o campo mais próximo. Um soldado gritou-lhe um aviso, mas ele correu mais depressa. Soou uma rajada curta de arma automática como um fogo-de-artifício, e o homem abateu-se no pó e ficou imóvel. Uma mulher gritou e correu na direcção do corpo caído; levava um bebé atado às costas. Um soldado barrou-lhe o caminho com a baioneta e obrigou-a a voltar para o camião.

            Os soldados estavam bem treinados e eram implacáveis. Passou-se tudo muito depressa. Ao fim de meia hora, tinham reunido toda a população da aldeia. O primeiro camião, completamente carregado, arrancou na direcção de onde tinha vindo. As palhotas eram derrubadas sucessivamente à medida que as duas escavadoras avançavam por entre as filas de casas.

- Deus queira que a fita não acabe - murmurou ansiosamente Bonny.

            Daniel não dissera uma palavra desde o início da operação. Já não era a primeira vez que assistia à destruição de uma aldeia. Presenciara já outros realojamentos forçados às mãos dos esbirros do apartheid mas nunca se tornara indiferente ao sofrimento do povo africano. Olhava de entranhas revolvidas para o último camião carregado de aldeãos, que se afastava no meio de uma nuvem de pó vermelho. Assim que o camião desapareceu, uma das escavadoras amarelas desceu à praia e empilhou os barcos abandonados como se fossem lenha.

            Quatro soldados apanharam os corpos do velho e do homem que tentara escapar e atiraram-nos para a pira funerária dos cascos destroçados e das velas rasgadas. Um dos soldados atirou um archote aceso para cima da pilha e as chamas alastraram tão intensamente que os soldados foram obrigados a afastar-se.

            Ouviu-se o som agudo de um apito, e os soldados formaram rapidamente e embarcaram nos veículos de transporte de tropas que os esperavam. As escavadoras amarelas rastejaram até aos atrelados e o comboio partiu, serpenteando na estrada.

Depois de eles se terem ido embora, o único som que se ouvia era o sussurro manso da brisa da tarde e o crepitar distante das chamas.

            - Bom - disse Daniel, tentando falar em voz neutra. ­Limparam o lugar para o novo casino. O investimento de Taffari está assegurado... - Fraquejou-lhe a voz. - Filho da mãe! ­murmurou. - Maldito assassino sanguinário!

            Deu-se conta de que tremia de cólera e indignação. Foi até à beira da falésia de onde se via a praia. A canhoneira continuava ancorada nas águas mais profundas do meio da baía, e o barco de borracha fora puxado para a praia e estava guardado por um dos soldados, mas o capitão Kajo e os outros marinheiros já não estavam a dormir na areia.

Daniel procurou Kajo e finalmente avistou-o. Estava a subir a falésia, a cerca de oitocentos metros dali, e percebia-se pelos seus modos que estava perturbado. Andava à procura deles, parando a intervalos regulares para chamá-los, com as mãos em concha em volta da boca, e espreitando ansiosamente em redor.

Daniel atirou-se para o chão para não ser visto e disse bruscamente a Bonny - Ninguém pode saber que filmámos isto. É dinamite!

            - Claro! - concordou ela.

- Dê-me a cassete. Eu guardo-a para o caso de eles quererem verificar o que você filmou.

Bonny ejectou a cassete e entregou-a a Daniel, que a enrolou numa camisola e a enfiou no fundo do saco.

- Pronto, vamo-nos embora daqui. Kajo não pode nem sonhar que vimos o que vimos.

Bonny pegou rapidamente no equipamento e seguiu Daniel, que meteu para o interior, afastando-se dos destroços da aldeia e das margens do lago. Ao fim de poucos minutos, estavam metidos na erva alta e no mato da savana.

Daniel deu uma volta pelo meio do capim alto e do mato até chegar novamente às margens do lago, perto da embocadura da baía. Desceram a falésia até à praia, e Daniel parou para Bonny recuperar o fôlego.

            - Não percebo como é que deixam uma equipa de filmagens à solta na zona exactamente no dia em que tencionavam arrasar a aldeia - disse Bonny, ofegante.

            - Uma incompetência típica - comentou Daniel. - Alguém se esqueceu de avisar alguém. Está pronta para continuar? Aparentando a maior descontracção, começaram a andar pela areia molhada e firme à beira de água. Viam o barco de borracha na areia, lá longe, mas a aldeia arrasada estava escondida pela saliência da falésia.

            Não tinham percorrido mais de duzentos metros quando Kajo os chamou do alto da falésia. Pararam e olharam para ele, acenando-lhe como se tivessem acabado de o avistar.

            Kajo precipitou-se falésia abaixo, escorregando e deslizando nos pontos mais íngremes. Chegou à praia ofegante e perguntou-lhes em tom de desafio:

            - Onde é que foram?

            - Fomos ao cabo - disse-lhe Daniel. - Estivemos a filmar o lugar onde vai ficar o casino. Agora, vamos filmar a localização do hotel, na foz do rio, onde fica a aldeia de pescadores...

            -   Não! Não! - disse Kajo, agarrando no braço de Daniel. - Já chega. Não vão filmar mais. Temos de voltar para o barco. Por hoje, acabou-se.

            Daniel discutiu um bocado com ele e finalmente, manifestando uma certa relutância, deixou-se levar para o bote e voltaram para a canhoneira.

Assim que chegaram à ponte, Kajo teve uma discussão em voz baixa com o comandante do navio e olharam ambos para terra. Ainda se viam restos de fumo da queima dos barcos de pesca pairando sobre a água. O comandante parecia preocupado e deu ordem para levantarem ferro.

            Antes que Daniel pudesse impedi-la, Bonny foi até à balaustrada da popa e apontou a câmara Sony para a praia. O capitão Kajo desceu precipitadamente a escada da ponte e correu pela coberta, gritando:

            - Não! Espere! Não pode filmar isso...

            - Porquê? É um fogo no mato, não é?

- Não! Sim! É um fogo no mato, mas é material secreto.

- Um fogo secreto no mato? - perguntou Bonny para o arreliar, mas baixou a câmara.

Assim que ficaram sozinhos, Daniel ralhou com ela.

            - Não se faça de esperta. Essa brincadeira podia ter-nos saído cara.

            - Pelo contrário, convenci Kajo de que estávamos inocentes - replicou Bonny. - Quando é que me restitui a minha cassete?

- Vou ficar com ela - respondeu ele. Kajo ainda está desconfiado. Aposto que, quando chegarmos a Kahali, vai revistar o seu equipamento.

            Já era noite quando a canhoneira atracou no seu ancoradouro. Durante a transferência do equipamento de vídeo de Bonny do barco para o Land-Rover do Exército que os esperava no cais, a mala de alumínio que continha as cassetes desapareceu. Bonny gritou com Kajo e ameaçou queixar-se da incompetência dele ao presidente, mas o capitão sorria calmamente.

            - Não se preocupe, Miss Mahon. Há-de aparecer. Garanto-lhe.

            Na manhã seguinte, com muitos sorrisos e muitas desculpas, Kajo foi entregar a mala perdida à casa dos convidados.

            Não falta nada, Miss Mahon. Foi um dos estúpidos carregadores uhalis que a transviou. Queira aceitar as minhas desculpas.

            - Pode ter a certeza de que examinaram todas as cassetes da caixa - assegurou-lhe Daniel, depois de Kajo se ter ido embora. Bateu na algibeira abotoada da sua sariana. - Vou levar esta cassete do ataque à aldeia para a Embaixada Britânica para Mike guardar. É o único lugar onde fica a salvo. Quer vir comigo?

-           Tenho um compromisso - respondeu ela em tom de desafio.

            - Se vai visitar o seu novo namorado, aconselho-a a ter cuidado. Agora, já conhece o estilo dele.

            - Ephrem é um homem decente - retorquiu ela, encolerizada. Não acredito que soubesse do ataque à aldeia.

- Acredite no que quiser, mas não fale a ninguém da cassete. Nem sequer a Tug Harrison.

Bonny empalideceu e ficou a olhar para ele, estupefacta. - O que é que está a dizer? - perguntou.

            - Ora, Bonny, eu não sou completamente estúpido. Verifiquei para onde é que tinha feito a chamada do hotel de Nairobi. É óbvio que. você está a informar Harrison. Quanto é que ele lhe paga para me espiar?

- Está doido - exclamou ela, tentando disfarçar descaradamente.

            - Sim, talvez. Mas mais doida é você se falar a Harrison nesta cassete.

            Deixou-a especada a olhar para ele e meteu-se no carro, descendo a colina até à Embaixada Britânica. O recinto da embaixada era murado, e os portões estavam guardados por soldados da guarda pessoal do presidente Taffari de uniforme camuflado e boina cor de vinho. Michael Hargreave saiu do seu gabinete para vir ao encontro de Daniel.

            - Bom dia, Sir Mickey.

            - Olá, rapaz! Falei com a Wendy ontem à noite. Manda-te saudades. - Continuou a fazer conversa até chegarem ao gabinete, mas assim que fechou a porta os seus modos mudaram. - Tenho uma notícia para ti, Danny. O chinês já cá está. Aterrou esta manhã no jacto da BOSS. Segundo as minhas informações, veio de Taiwan, via Nairobi. Dirigiu-se imediatamente para a sede da BOSS, em Lake House, para tomar posse do seu cargo de presidente do empreendimento, e Taffari vai dar uma festança em honra dele na sexta-feira à noite. Certamente vais receber um convite. - Michael Hargreave consultou o relógio de pulso. - Tenho de sair, rapaz. Vou discursar no almoço dos Rotários do Ubomo, imagina! A minha secretária tem aqueles ficheiros de que te falei e arranja-te uma sala para trabalhares. Podes dar-lhes uma espreitadela, mas depois tens de lhe entregar tudo. E não podes tirar apontamentos nem fotocópias, Danny, por favor. Só podes ler.

- Obrigado, Mike, és um herói. Fazes-me ainda um outro favor?

            - Diz. Tudo o que eu puder.

- Guardas-me um envelope no teu cofre pessoal?

            Michael fechou no cofre-forte o envelope fechado contendo a cassete gravada na baía das águias-Pesqueiras e depois apertou a mão de Daniel, apresentando-lhe mais uma vez as suas desculpas.

Quando Daniel saiu da embaixada, passadas três horas, a sua primeira impressão de Ephrem Taffari fora plenamente confirmada.

            - É um bicho perigoso e manhoso - murmurou, pondo o motor do Land-Rover a trabalhar. - Ele e Bonny Mahon devem entender-se bem.

O PRESIDENTE Ephrem Taffari mandara formar a sua guarda de honra, de uniforme cor de vinho e capacete colonial branco, para receber Ning Cheng Gong. Avançou pelo tapete vermelho para o conhecer pessoalmente e lhe apertar a mão. Depois, levou-o para a varanda larga e convidou-o a sentar-se numa das cadeiras de braços entalhadas por baixo da ventoinha suspensa do tecto.

            Um criado uhali, de túnica branca até ao tornozelo, cinta escarlate e fez de borla, estendeu-lhes uma bandeja de prata com bebidas frescas em copos embaciados. Cheng recusou o champanhe e tirou um copo de sumo de laranja acabado de fazer.

Ephrem Taffari, de fato de algodão branco impecável, instalou-se numa cadeira em frente de Cheng, cruzando as pernas, e sorriu para o chinês.

- Queria que o nosso primeiro encontro fosse informal e descontraído - explicou. - Por isso, vai desculpar-me por eu estar vestido desta maneira e não estar acompanhado por nenhum dos meus ministros.

            - Claro, Excelência - respondeu Cheng, bebendo um gole do sumo de laranja. - Também estou encantado com esta oportunidade de o conhecer melhor.

            - Sir Peter Harrison diz muito bem de si, Mr. Ning. Ele é um homem cuja opinião prezo muito. Tenho a certeza de que a nossa relação vai ser proveitosa para ambos.

            Trocaram cumprimentos e declarações de amizade e simpatia durante mais dez minutos. Estavam ambos à vontade nessas circunlocuções lisonjeiras e compreendiam perfeitamente as jogadas e contrajogadas à medida que se iam aproximando indirectamente do verdadeiro motivo do encontro.

            Finalmente, Cheng tirou um envelope fechado do bolso interior do seu fato de seda branca. Era um envelope luxuoso, de papel creme brilhante, com um dragão gravado na parte de trás.

            - O meu pai e eu gostávamos de demonstrar que o nosso interesse pelo seu país é profundo. Gostaríamos que aceitasse este testemunho da nossa amizade e do nosso interesse.

            Cheng fazia a sua oferta como se fosse um presente espontâneo e não solicitado, mas ambos sabiam que havia sido objecto de negociações intensas e demoradas. Fora necessária toda a influência de Sir Peter para conseguir que a sociedade formada pela BOSS e pelo Dragão conseguisse chegar a acordo com o presidente.

            O envelope continha a segunda prestação da soma prometida a Ephrem Taffari para o seu cofre pessoal. A primeira prestação fora paga havia dez meses, no momento da assinatura do acordo.

O presidente Taffari abriu o envelope com uma faca de cortar papel e desdobrou os dois documentos que continha. Um era o recibo de um depósito feito numa conta numerada na Suíça. A quantia eram dez milhões de dólares. O outro era um documento de transferência de acções lavrado num notário do Luxemburgo. Um total de trinta por cento das acções da sociedade estava agora registado em nome de Ephrem Taffari. O nome oficial da nova empresa era Sociedade de Desenvolvimento do Ubomo.

            O presidente guardou novamente os documentos no envelope aberto e meteu-o na algibeira da sua camisa desportiva.

- Os progressos não foram tão rápidos como eu teria desejado - disse cortesmente, mas a sua voz era dura como o aço. - Esperemos que isso mude com a sua chegada, Mr. Ning.

- Sei que tem havido atrasos. Como sabe, o meu encarregado está em Kahali há cerca de uma semana e já me apresentou um relatório completo da situação. Creio que as culpas são em parte dos responsáveis nomeados anteriormente pela BOSS. Houve uma certa relutância em explorar todas as potencialidades. - Cheng fez um gesto pejorativo delicado. ­Além disso, o meu encarregado diz-me que temos falta de mão-de-obra.

            -Garanto-lhe que terá toda a mão-de-obra necessária, Mr. Cheng. Já dei ordens ao Exército. Todos os presos e dissidentes políticos vão ser reunidos e mandados para campos de trabalho na floresta.

-           São membros da tribo Uhali? - perguntou Cheng.

- Claro - respondeu bruscamente Taffari.

            - E quanto ao projecto do hotel e do casino da baía das Águias -Pesqueiras? O meu encarregado diz-me que ainda não se fez nada nesse local, para além do primeiro levantamento topográfico da região. Disse-me também que ainda havia uma aldeia de pescadores no local do hotel.

            - Já não há - respondeu Taffari com um sorriso. - A zona foi limpa há dois dias. A aldeia era um foco de actividades contra-revolucionárias. Os meus soldados prenderam todos os dissidentes. Duzentos presos robustos estão já a caminho da zona da concessão da floresta para se juntarem à sua mão-de-obra. O local do hotel está pronto para o início da construção. - Taffari olhou para o relógio de pulso. - Tem de almoçar connosco, Mr. Ning. Pode ser que goste de conhecer o meu outro convidado, um membro da equipa de filmagens contratada por Sir Peter Harrison.

- Ah, pois - disse Cheng. - Sir Peter explicou-me as razões por que tinha convidado uma empresa cinematográfica para filmar no Ubomo, mas não sei se concordo com ele. Os Ingleses têm aquele provérbio sobre não se perturbar os cães que dormem. Na minha opinião, talvez fosse melhor não chamar a atenção do Mundo para as nossas operações. Gostaria de cancelar o projecto e mandar embora a equipa.

- Receio que isso já não seja possível - disse Taffari, abanando a cabeça. - Já fomos objecto de muita publicidade desfavorável. Há uma mulher, uma protegida do antigo presidente, Omeru...

            Discutiram durante mais dez minutos o plano de Sir Peter para combater a virulência da campanha de KeIly Kinnear com uma contracampanha organizada por eles.

            - Seja como for, podemos sempre cortar tudo o que não nos agrade na produção - observou Taffari. - Sir Peter inseriu no contrato uma cláusula de aprovação. Podemos, inclusive, suprimir todo o produto final e destruir todas as cópias do filme, se isso nos parecer aconselhável.

- É claro que tomou todas as precauções para assegurar que essa gente não se aproxima das zonas sensíveis... os campos de trabalhos forçados, as operações de exploração florestal e as minas a céu aberto? Pode ficar descansado, Mr. Cheng. Andam sempre acompanhados por um oficial da minha confiança. - Calou-se ao ouvir o barulho de um veículo que se aproximava. - Ah! Deve ser o cameraman e o capitão Kajo.

- Cameraman? - perguntou Cheng quando Bonny Mahon e o capitão Kajo atravessavam o relvado impecável, aproximando-se deles.

            - Pois, é inexacto! - concordou Taffari com uma gargalhadinha.

- Mas não sei se pode dizer-se camerawoman.

            Levantou-se e foi ao encontro da sua convidada.

            O capitão Kajo pôs-se em sentido e fez a continência, mas Taffari ignorou-o. Kajo deu meia volta e regressou ao Land-Rover, que o esperava.

Cheng estudou a mulher que Taffari acompanhava até à varanda. Não tinha ossos delicados e as feições eram grosseiras; a pele sardenta e o cabelo ruivo dela também não lhe pareceram atraentes. Falava e ria com Taffari em voz alta e com modos ordinários. Cheng não gostava que uma mulher fosse tão forte e agressiva como um homem. Mas levantou-se delicadamente, sorriu e apertou-lhe a mão, apercebendo-se de que Taffari estava muito impressionado com ela.

            Sabia que o presidente tinha uma dúzia de esposas hitas, algumas das mulheres mais bonitas da tribo, mas pensou que ele devia sentir-se atraído pela novidade desta criatura grosseira. Talvez achasse que lhe dava categoria ter uma mulher branca como brinquedo. Mas Cheng pensou que ele ia fartar-se dela e mandá-la passear com tão pouca cerimónia como entabulara relações com ela.

- Mr. Ning é o director executivo da Sociedade de Desenvolvimento do Ubomo - disse Taffari a Bonny. ­Tecnicamente, é o seu patrão.

- Bom, posso dizer-lhe que está a fazer um trabalho formidável, patrão - riu-se Bonny.

            - Ainda bem, Miss Mahon - respondeu Cheng, sisudo. - Vai empreender uma tarefa importante. O que é que já fez até à data?

- Temos andado a trabalhar aqui em Kahali e no lago. Já filmámos o local do novo casino. - Cheng e Taffari escutaram gravemente o relatório dela. - Depois de termos acabado o trabalho aqui, vamos para norte, para a zona da floresta. Para um lugar chamado Sengi-Sengi. É assim que se chama, Excelência? Olhou para Taffari.

            - É isso mesmo, Miss Mahon - assegurou Taffari. ­Sengi-Sengi é o programa-piloto de exploração florestal da empresa.

            Cheng assentiu com a cabeça.

            - Também vou visitar o projecto na primeira oportunidade. - Porque é que não vai a Sengi-Sengi enquanto nós estamos a filmar lá? - sugeriu Bonny. - A produção teria muito mais impacte se o senhor figurasse nela, Mr. Ning. -. Calou-se quando lhe ocorreu outra ideia e depois voltou-se para Ephrem Taffari com um sorriso arrapazado. - Mas o que era mesmo formidável era que o senhor entrasse também na peça, Sr. Presidente. Podíamos entrevistá-lo no local do projecto de Sengi-Sengi. Podia explicar-nos as suas esperanças e os seus sonhos para o seu país. Pense nisso, Excelência!

            Ephrem Taffari sorriu e abanou a cabeça.

- Sou um homem muito ocupado. Não me parece que consiga arranjar tempo para isso. - Mas Bonny percebeu que ele estava tentado. Era um político e, como tal, agradava-lhe a perspectiva de publicidade favorável perante um vasto público.

- Seria excelente - insistiu ela. - Para o Ubomo e para a sua imagem pessoal. As pessoas lá fora têm uma ideia muito vaga acerca da sua pessoa. Se pudessem vê-lo, isso mudaria radicalmente.

A ideia agradou a Taffari, que se sentiu lisonjeado.

            - Bom, vamos a ver DANIEL E BONNY, acompanhados, como sempre, pelo capitão Kaj o, partiram de Kahali. Embora tivessem de percorrer pouco mais de trezentos quilómetros, levaram dois dias no caminho, passando grande parte do tempo a filmarem a paisagem variada e as tribos rurais que encontravam pelo caminho.

            Filmaram as jovens junto aos bebedouros, vestidas apenas com saias curtas de contas, lavando-se e entrançando o cabelo. Filmaram as manadas de gado malhado e multicor, com os seus grandes chifres e corcovas, num fundo de acácias de copa achatada e de erva dourada da savana.

            Quando atravessaram finalmente o rio de barco, no segundo dia, e chegaram à orla da grande floresta, até Bonny ficou assombrada com a altura e grossura das árvores.

            - Parecem pilares a sustentar o céu - murmurou, apontando a câmara para as árvores.

O ar e a luz mudaram quando deixaram para trás a savana seca e entraram no mundo húmido e luxuriante da floresta. Primeiro, seguiram pela estrada principal, de bermas larguíssimas, mas ao fim de oitenta quilómetros meteram por uma das estradas secundárias abertas recentemente na floresta virgem. Quanto mais penetravam na floresta, mais perto da estrada ficavam as árvores, até que, finalmente, as copas começaram a encontrar-se lá em cima e eles passaram a avançar num túnel de luz esverdeada às manchas.

            A superfície da estrada fora pavimentada com troncos colocados lado a lado, sobre os quais havia sido espalhada uma camada de brita grossa para os camiões poderem passar.

            A intervalos de cerca de quilómetro e meio havia grupos de centenas de homens e mulheres a trabalharem na estrada, espalhando a brita e assentando novos troncos para o pavimento não dar de si.

- Quem são eles? - perguntou Daniel.

            - Presos - respondeu Kajo calmamente. - Em vez de termos de os alimentar fechados na prisão, trabalham para pagar a sua dívida à sociedade.

- São muitos presos para um país tão pequeno – observou Daniel.

- Os Uhalis são um povo de bandidos, ladrões e agitadores ­explicou Kajo. Depois, estremeceu, olhando para além dos presos que trabalhavam na estrada, para a floresta impenetrável. - Detesto este lugar - disse com uma veemência inesperada. - É um lugar escuro e maligno, bom para os macacos e os seus parentes próximos, os Pigmeus Bambutis.

- Vamos ver os Pigmeus? - perguntou Bonny, esperançada.

            Alguns dos mais domesticados vendem coisas junto à estrada - resmungou Kajo. - Mas os outros são tão selvagens como os animais da floresta. Não vai vê-los, ninguém os vê. Estremeceu novamente.

- Devíamos cortar todas estas árvores e vendê-las e semear pastagens para o nosso gado poder multiplicar-se. - Era a voz do amor profundo dos Hitas pelo gado, o grande tesouro da tribo.

- Se cortassem as árvores, deixava de chover e os rios que correm para o lago e dão de beber ao gado secavam. Na Natureza, tudo é interdependente. Quando se destrói uma coisa, destrói-se tudo - começou Daniel a explicar.

            Mas Kajo respondeu-lhe abruptamente, agarrado ao volante do Land-Rover, que saltava em cima dos troncos.

- Não fale comigo com esse ar superior, Dr. Armstrong.

Tenho um curso universitário e, por muito estranho que lhe possa parecer, sei ler e escrever. Conheço todas essas teorias brancas elitistas que o senhor e outros como o senhor nos querem impingir... - Calou-se e respirou fundo. - Desculpe, doutor, não queria ofendê-lo, mas nós, os africanos, temos de viver aqui. Estas árvores que tanto admira pertencem-nos. Temos uma população em crescimento rápido e temos de cuidar dela. Precisamos de alimentos, casas e escolas e precisamos de terra. Estas florestas não valem nada para nós se não as utilizarmos. Temos de as cortar e queimar e de transformar a terra em hortas e pastagens...

            Daniel sentia-se triste ao ouvi-lo. Kajo era um homem inteligente e instruído. Se um homem assim continuava apegado às ideias antigas, seria difícil convencer os camponeses incultos.

"As teorias brancas elitistas", dissera Kajo. Era esse ponto de vista que poderia transformar o continente num deserto. Um dia, o Sara estender-se-ia talvez do Cairo até Table Mountam. a montanha de cume achatado que guarda o cabo da Boa Esperança.

            Chegaram finalmente a Sengi-Sengi. A estrada acabava num conjunto de edifícios construídos no meio da floresta. As árvores maiores haviam sido deixadas de pé, mas as outras tinham sido abatidas. e o mato rasteiro fora arrancado para erigir os alojamentos do pessoal, as oficinas e os edifícios administrativos.

            Kajo estacionou o Land-Rover em frente do edifício administrativo principal e subiram os degraus da entrada.

            - Vou apresentá-los ao director local da SDU.

- O que é que significa SDU? - quis saber Bonny.

- Sociedade de Desenvolvimento do Ubomo - replicou Kajo secamente.

            A porta de um gabinete abriu-se, e o director saiu lá de dentro com um grande sorriso.

- Bem-vindos a Sengi-Sengi - disse, avançando para eles. Kajo estava à frente de Daniel, tapando-lhe a vista com o seu metro e noventa de altura. Quando se afastou, o director e Daniel ficaram frente a frente.

- Mr. Chetti Singh - disse Daniel em voz baixa. – Não esperava voltar a vê-lo. Mas que prazer.

            O sikh barbudo parou repentinamente, como se tivesse chocado com uma parede de vidro, e ficou a olhar para Daniel.

- Já se conheciam? - perguntou Kaj o. - Que feliz coincidência.

            - Somos velhos amigos - replicou Daniel. ­Interessamo-nos ambos pela fauna, principalmente por elefantes e panteras. - Estendeu a mão. - Como está, Mr. Singh? Ouvi dizer que sofreu um acidente desde a última vez que nos vimos.

A pele escura de Chetti Singh ficou cinzenta, mas o sikh recuperou imediatamente do choque. Os seus olhos faiscaram por momentos e Daniel julgou que ele lhe ia bater. Mas depois o outro resolveu retribuir na mesma moeda a falsa cordialidade de Daniel e estendeu a mão para apertar a do seu interlocutor. Só que a mão estendida era a esquerda. A manga direita estava vazia, dobrada para trás e pregada à parte de cima. Daniel viu que a amputação fora feita abaixo do cotovelo.

            - Realmente é um puro prazer tornar a vê-lo, doutor. - Os olhos frios de Chetti Singh desmentiam as suas palavras. ­Obrigado pela sua amabilidade, mas felizmente recuperei, apenas me ficou a faltar aqui um apêndice. - Abanou o coto. ­É uma grande maçada, mas conto ser completamente indemnizado pelos responsáveis, não se preocupe.

            Tinha a pele tão fria como a de um lagarto. Retirou a mão da de Daniel e voltou-se para Bonny e Kajo, cumprimentando-os cordialmente. Quando se voltou novamente para Daniel, já não sorria.

- Então, doutor. Veio tornar-nos famosos a todos com o seu programa de televisão. Vamos ser todos estrelas de cinema... - Olhava Daniel com uma expressão estranhamente gulosa, como um pitão olhando para uma lebre.

O choque fora quase tão grande para Daniel como para o sikh. Claro que Michael Hargreave lhe dissera que Chetti Singh sobrevivera ao ataque da pantera, mas isso fora há meses e ele não esperava vê-lo aparecer no Ubomo. Porém, pensando melhor, concluiu que já devia estar preparado para aquilo. Ning Cheng Gong e o sikh estavam muito ligados. Tendo Ning sido nomeado para dirigir a operação no Ubomo, escolheria obviamente para seu assistente alguém que conhecesse o terreno palmo a palmo e que dispusesse de redes de contactos bem organizadas.

A expressão dos olhos de Chetti Singh não teria sido necessária para avisar Daniel de que se encontrava em perigo de morte. Chetti Singh ia tentar matá-lo, disso não tinha a menor dúvida. O sikh conhecia bem o terreno e podia escolher o local e o momento. A única saída de Sengi-Sengi era a estrada que atravessava a floresta, patrulhada por guardas da empresa e bloqueada por várias barreiras militares. Chetti Singh conversava com o capitão Kajo e Bonny.

- Hoje, já é muito tarde para lhes mostrar isto. Não tarda nada vai anoitecer. Com certeza que querem instalar-se nos alojamentos que lhes preparei... - Fez uma interrupção e sorriu-lhes cordialmente. - Além disso, tenho uma notícia sensacional para lhes dar. Acabo de receber um fax do palácio presidencial de Kahali. O presidente Taffari vem a Sengi-Sengi de helicóptero. Chega amanhã de manhã e acedeu amavelmente a conceder uma entrevista filmada no local das nossas operações. É uma grande honra. O presidente Taffari é um homem importante e vem acompanhado pelo director executivo da SDU, Mr. Ning Cheng Gong, uma outra personagem eminentemente importante. Talvez ele consinta também em participar na vossa produção.

Estava a chover quando o secretário de Chetti Singh os acompanhou até aos alojamentos que lhes tinham sido reservados. A chuva crepitava como metralha nos telhados dos edifícios, e a terra, já saturada de água, estava coberta por uma camada de neblina à luz crepuscular sob o dossel de árvores.

            Os alojamentos para os visitantes consistiam numa enfiada de quartinhos numa cabana comprida pré-fabricada. Os quartos estavam equipados com alguns móveis rudimentares - a cama, uma cadeira, um armário e uma secretária. No centro da cabana comprida, havia uma casa de banho e uma retrete comuns.

Daniel revistou cuidadosamente o seu quarto. A porta tinha uma fechadura tão fraca que cederia à menor pressão, e, além disso, Chetti Singh possuia certamente um duplicado da chave. A estada prometia ser agradável!

            "Muito bem, pessoal, vamos fazer um concurso", pensou, sorrindo amargamente. "Vamos adivinhar quando é que Chetti Singh faz a sua primeira tentativa para me dar cabo do canastro. O primeiro prémio é uma semana de férias em Sengi-Sengi. O segundo prémio são duas semanas de férias em Sengi-Sengi."

            O jantar foi servido na messe, outra cabana pré-fabricada comodamente mobilada que servia simultaneamente de bar e cantina. Quando Daniel e Bonny entraram, a messe estava cheia de engenheiros e técnicos taiwaneses e ingleses, fumando e conversando ruidosamente. Bonny fez sensação, como de costume, especialmente entre o grupo de ingleses que bebiam cerveja no bar. Daí a pouco tempo, Daniel deixou-a a jogar aos dardos com dois corpulentos engenheiros de minas e foi-se embora.

Quando chegou ao seu quarto, empurrou a porta e ficou à espreita. Podia estar alguém à espera dele na escuridão. Daniel deu oportunidade a qualquer eventual intruso de fugir antes de estender o braço ao longo da ombreira da porta e acender a luz do tecto. Só nessa altura é que se atreveu a entrar. Fechou à chave a frágil porta e sentou-se na cama para desatar os atacadores das botas.

            Chetti Singh podia tentar matá-lo de tantas maneiras diferentes que era impossível Daniel precaver-se contra todas. Nesse momento, sentiu qualquer coisa a mexer debaixo da roupa da cama onde estava sentado. Era um movimento lento, furtivo e deslizante, reptiliano, debaixo do lençol fino, e o que quer que fosse que se movia tocou-lhe na coxa. Daniel sentiu um arrepio gelado de medo percorrer-lhe as costas e todos os músculos do seu corpo ficaram tensos.

            Sabia com toda a certeza que a coisa que mexia debaixo do lençol era uma serpente. Sabia que Chetti Singh ou um dos seus homens a havia colocado ali. Devia ser uma das espécies mais mortíferas, uma das mambas, com os seus beiços finos e sorridentes, ou uma cobra da floresta, negra como a morte.

Daniel saltou da cama e, com o coração a martelar, olhou em volta à procura de uma arma. Pegou na cadeira frágil e arrancou-lhe uma perna com a força do pavor. O facto de ter aquela arma na mão, acalmou-o. Nos seus tempos de guarda do parque, enfrentara rinocerontes, elefantes e grandes felinos mortíferos. Quando era soldado, saltara de pára-quedas em terreno inimigo e travara combates corpo a corpo, mas agora tremia e ofegava diante de um fantasma da sua imaginação.

Encheu-se de coragem e voltou para junto da cama. Pegou na ponta do lençol com a mão esquerda, ergueu a perna da cadeira com a outra mão e abriu a cama de repente.

Um rato raiado da floresta estava imóvel no centro do lençol. Tinha uns bigodes brancos compridos e os olhinhos vivos piscaram rapidamente perante a luz repentina. Daniel e a minúscula criatura ficaram a olhar um para o outro, espantados. Depois, o rato guinchou, saltou da cama e correu para um buraco no estuque. Daniel atirou-se para cima da cama morto de riso.

            - Meu Deus, Chetti Singh - murmurou, ofegante. - Estás disposto a tudo, não é verdade? Que tramója irás engendrar a seguir?

O HELICÓPTERO veio de leste. Ouviram o ruído rítmico do rotor antes de o aparelho aparecer numa abertura do dossel de árvores da floresta, lá muito em cima. Era um Puma de fabrico francês, e era evidente que tivera muitos anos de serviço antes de chegar ao Ubomo.

            Aterrou na clareira e o piloto desligou os motores. O presidente Taffari saltou da escotilha principal. Estava muito elegante e movia-se com agilidade no seu uniforme de campanha com botas de pára-quedista. Bonny avançou com a câmara em punho e Taffari fez um grande sorriso, tão vivo como as cores das fitas das condecorações que trazia ao peito, e foi cumprimentar o comité de recepção, encabeçado por Chetti Singh.

            Ning Cheng Gong desceu do Puma atrás dele pela escada de desembarque. Vestia um fato de Verão de cor creme. A pele era do mesmo creme-amarelado, contrastando com os olhos escuros e vivos como ónix polido.

            Olhou rapidamente em redor, procurando alguma coisa ou alguém, e viu Daniel lá atrás, fora do alcance da câmara. Os olhos de Ning Cheng Gong pousaram na cara de Daniel, mas só por um instante. Não traiu o menor sinal de tê-lo reconhecido, e Daniel percebeu imediatamente que Chetti Singh conseguira prevenir Cheng da sua presença no Ubomo. Daniel preparara-se psicologicamente para o encontro com Cheng, mas mesmo assim sentiu um choque físico, como se tivesse levado um murro na barriga. Teve de fazer um esforço para retribuir normalmente o cumprimento do presidente Taffari.

            - Ah, doutor, como vê, Maomé veio à montanha. Reservei a tarde de hoje para participar nas filmagens. O que é que quer que eu faça? Estou às suas ordens.

- Agradeço-lhe muito, Sr. Presidente. Fiz um plano de filmagens. Vou precisar de cinco horas do seu tempo, ao todo, incluindo a maquilhagem e os ensaios

Daniel resistiu à tentação de olhar para Cheng, mas Chetti Singh interveio.

- Dr. Armstrong, gostava de o apresentar ao director executivo da SDU, Mr. Ning.

            Daniel foi invadido por uma estranha sensação de irrealidade ao apertar a mão de Cheng, sorrindo e dizendo:

            - Já nos conhecemos. Encontrámo-nos uma vez no Zimbabwé, quando o senhor era lá embaixador. Naturalmente não se lembra.

- Desculpe - disse Cheng, abanando a cabeça. – Conheci tanta gente no desempenho das minhas funções oficiais

            Daniel fez um esforço para continuar a sorrir. A última vez que vira aquele homem fora na escarpa do vale do Zambeze, poucas horas antes de ter encontrado os cadáveres mutilados de Johnny e da sua família. Sentiu vontade de fechar os punhos e esmurrar aquela cara inexpressiva.

            Voltou-lhe as costas; não aguentava mais. Compreendeu pela primeira vez o que tinha de fazer. Tinha de matar Ning Cheng Gong ou de ser morto nessa tentativa. Só assim podia cumprir a promessa que fizera diante do corpo do amigo. Era um dever simples e uma dívida à memória de Johnny Nzou.

            - PODERIA pensar-se que eu estou na ponte de um couraçado... - Ephrem Taffari sorriu para a objectiva da câmara de Bonny e continuou: - Mas garanto-vos que não é assim. Estou na plataforma de comando da Mobile Mining Unit Number One, conhecida aqui pelo acrónimo afectuoso de MOMU.

O restante espaço da plataforma estava apinhado de pessoal da empresa. O engenheiro responsável e o geólogo tinham ensinado a lição ao presidente, certificando-se de que ele dominava todos os pormenores técnicos.

Daniel dirigia a sequência, e Chetti Singh e Cheng encontravam-se entre os espectadores, mas sem se evidenciarem. Bonny encarregara-se pessoalmente da maquilhagem do presidente.

            - Estou a vinte metros acima do solo - continuou Taffari. - E estou a avançar à velocidade alucinante de cem metros à hora. O veículo em que me desloco pesa mil toneladas...

            Daniel tomava notas para a montagem da sequência enquanto Taffari falava. Neste ponto, ia fazer um corte e inserir um grande plano do gigantesco veículo MOMU deslocando-se sobre as suas lagartas. Havia doze pares de lagartas de aço para darem estabilidade ao veículo quando o terreno era mais irregular. Embolos hidráulicos de aço regulavam automaticamente a posição da plataforma para contrabalançar a inclinação das lagartas, que subiam e desciam acompanhando os acidentes do solo da floresta.

            Taffari apontou por sobre a balaustrada.

- Ali em baixo ficam as maxilas e as presas do monstro. Vamos lá abaixo espreitar.

Era necessário deslocar a câmara e regular novamente os ângulos, mas daria uma bela sequência. As escavadoras estavam montadas em grandes pórticos. Moviam-se independentemente, subindo e descendo à maneira dos pescoços de uma manada de girafas de aço dessedentando-se num bebedouro. As pás das escavadoras rodavam ferozmente, cortando a terra e atirando-a para trás, para os tapetes rolantes de transporte.

- Estas escavadoras podem atingir trinta metros de profundidade. Estão a escavar uma vala de sessenta metros de largura e a retirar mais de dez mil toneladas de minério por hora. E trabalham dia e noite.

            Daniel olhou para a vala cavernosa que a MOMU estava a abrir na terra vermelha. Era um bom lugar para esconder um corpo, o seu corpo. Ergueu a cabeça de repente: Cheng e Chetti Singh vigiavam-no atentamente. Continuavam na plataforma de comando, vinte metros acima dele. Tinham as cabeças muito juntas, quase a tocarem uma na outra, e estavam a falar, mas as suas vozes eram abafadas pelo ronco das grandes cabeças rotativas das escavadoras e pelo estrondo dos transportadores de correia. Os olhares deles cruzaram-se com o seu por um instante, mas os outros dois desviaram logo os olhos.

            A câmara subiu mais uma vez a escada de aço que conduzia à plataforma central da MOMU. Chetti Singh e Ning Cheng Gong tinham desaparecido, e Daniel sentiu-se ainda mais inquieto.

Lá do alto da plataforma viam-se os moinhos cilíndricos.

Eram quatro grandes tambores de aço maciço, montados horizontalmente no tabuleiro da MOMU e rodando à maneira do tambor de secagem de uma máquina de lavar roupa. Só que estes tambores tinham quarenta metros de comprimento e estavam carregados com cem toneladas de balas de canhão de ferro fundido. à medida que a terra vermelha era retirada da vala aberta pela escavadora, subia pelos tapetes rolantes e passava por dentro dos tambores, sendo triturada e reduzida a um pó finíssimo pelas bolas de ferro. O pó vermelho que saía da extremidade mais traseira dos moinhos ia directamente para os depósitos separadores.

A equipa de filmagem desceu pelos passadiços de aço até ficar mesmo acima dos separadores, e Taffari continuou aí a sua explicação, falando para a câmara de Bonny.

            - Dos dois valiosos minérios que pretendemos extrair um é muito pesado e o outro é magnético. A monazite, um minério raro, é recolhida por electroímanes potentes, e o resto vai para os depósitos separadores, onde as matérias mais leves sobrenadam e são eliminadas, recolhendo-se o minério de platina, que é mais pesado - continuou Taffari. - E esta é a parte mais delicada da operação. Se usássemos catalisadores químicos nos depósitos, obteríamos efluentes tóxicos, que seriam absorvidos pela terra e arrastados pelas chuvas para os rios, onde matariam as aves, os insectos, os peixes e a vida vegetal. Na minha qualidade de presidente da República Democrática Popular do Ubomo, dei instruções para que não fossem utilizados reagentes químicos nas operações de mineração da platina levadas a cabo no nosso país. - Taffari olhava de frente para a câmara. - Posso garantir-vos isso. Não utilizando catalisadores, a quantidade de minério aproveitada desce de noventa para sessenta e cinco por cento, o que significa que perdemos muitas dezenas de milhões de dólares. Mas o meu governo e eu estamos decididos a aceitar esse prejuízo para não corrermos o risco de poluição química. Estamos decididos a fazer tudo o que pudermos para deixarmos um mundo não poluido aos nossos filhos.

            Era muito convincente. Quem ouvisse aquela voz profunda e tranquila e olhasse para aquela face nobre não podia duvidar da sua sinceridade. Até Daniel se sentiu comovido.

            - Corta - ordenou bruscamente. - Saiu-se lindamente, Sr. Presidente. Muito obrigado. Se quiser voltar para a messe para almoçar, nós acabamos por aqui. Esta tarde filmamos as sequências finais, com os mapas e as maquetas.

            Chetti Singh reapareceu, como um génio de turbante, para acompanhar Taffari, que descia da MOMU, e o levar de carro até ao acampamento, onde o esperava um almoço volante sumptuoso, como Daniel sabia.

            Depois de os outros se terem ido embora, Daniel e Bonny captaram as últimas sequências da MOMU. Eram já três horas quando terminaram as últimas sequências que Daniel pretendia filmar, e quando chegaram ao acampamento de Sengi-Sengi, o almoço presidencial estava a acabar.

No centro da sala de reuniões da cabana que servia de sede, estava uma maqueta muito perfeita à escala, que ilustrava todo o processo de mineração. Era um trabalho impressionante, muito pormenorizado e fiel.

            Representava a mina, de sessenta metros de largura, que formava uma clareira aberta na floresta pelas equipas de lenhadores e pelas escavadoras que avançavam à frente da MOMU. Daniel tencionava dedicar alguns dias à filmagem das operações de exploração florestal; o abate das grandes árvores produziria sequências impressionantes. As escavadoras amarelas que arrastavam os troncos para fora da selva e as equipas de lenhadores que os carregavam nos camiões constituiam excelente material cinematográfico.

            Entretanto, tinha de tirar o maior partido possível daquele dia em que Taffari acedera em participar nas filmagens. Olhava para Bonny, debruçada sobre o presidente, falando com ele em voz baixa e rindo enquanto o maquilhava. Ela estava a mostrar bem a toda a gente que eram amantes.

"Já está a imaginar-se no lugar de primeira dama do Ubomo", pensou Daniel, espantado. "Não faz a menor ideia de como os Hitas tratam as mulheres." Levantou-se e interrompeu o espectáculo.

- Se já está pronto, Sr. Presidente, gostava que viesse para aqui, para junto da mesa. Bonny vai filmar deste lado. Tente focar o general Taffari e a maqueta. - Taffari foi para o seu lugar e ensaiaram a sequência. - Muito bem, Sr. Presidente. Vamos começar. Bonny, está pronta?

            Taffari usava o seu stick de oficial, de marfim polido e de chifre de rinoceronte, para apontar os pormenores da maqueta que estava na mesa à sua frente.

            - Como podem ver, a mina é uma faixa estreita no meio da floresta, só com sessenta metros de largura. É verdade que nessa faixa estamos a abater as árvores e a limpar o mato para a MOMU poder avançar. - Fez uma pausa e olhou para a câmara. ­Não é uma destruição insensata, mas sim uma exploração prudente. Esta faixa estreita de actividade afectará menos de um por cento da floresta, e atrás da MOMU virão máquinas de terraplenagem que taparão a vala e compactarão o solo. Assim que a vala for tapada, uma equipa de botânicos virá repovoar o solo da floresta, semeando e plantando novas árvores. Algumas delas serão espécies de crescimento rápido para revestir o solo; outras só atingirão a maturidade dentro de cinquenta anos. Esta operação foi planeada de modo a que nunca se abata mais de um por cento da floresta por ano. - Fez um sorriso tranquilizador para a câmara, com os seus modos simpáticos e atraentes. - Daqui a mil anos, as florestas do Ubomo continuarão a oferecer-nos os seus dons e a ser um refúgio para todas as criaturas vivas.

            Daniel verificara com os seus próprios olhos que era realmente assim. A faixa estreita aberta na floresta não ameaçava de extinção nenhuma espécie. Taffari estava a expor exactamente a mesma filosofia perfilhada por Daniel, a filosofia da exploração sustentável, da utilização disciplinada e planificada dos recursos da terra. Esqueceu momentaneamente a sua animosidade para com Ephrem Taffari e teve vontade de o aplaudir.

            CHETTI SINGH, sentado no guarda-lama traseiro do Land-Rover, alisava o documento em cima da coxa com a mão esquerda.

            - Este papelucho tira a graça toda a isto - observou.

- Não é para ter graça - retorquiu abruptamente Ning Cheng Gong. - É um presente para o meu ilustre pai. Tem de resultar, dê por onde der.

            Chetti Singh olhou para ele e fez um sorriso falso. Não lhe agradava a mudança evidente que notara em Ning desde o seu regresso de Taipé. Estava muito mais forte. Chetti Singh teve medo dele pela primeira vez, e não era uma sensação agradável.

- Mas, mesmo assim, resulta melhor quando tem graça - replicou Chetti Singh para se animar. Mas descobriu que não tinha coragem para retribuir o olhar sombrio e implacável de Cheng. Baixou os olhos para o documento e leu alto:

República Democrática Popular do Ubomo Licença Presidencial Especial de Caça

O portador, Mr. Ning Cheng Gong, ou um seu representante, está autorizado por decreto presidencial especial a caçar, colocar armadilhas ou matar a seguinte espécie de caça protegida em qualquer ponto da República do Ubomo. A saber, cinco exemplares de elefante (Loxodonta africana).

                        Além disso, está autorizado, para fins de investigação científica, a coleccionar ou a ter na sua posse, para exportar ou vender, qualquer parte dos referidos exemplares, incluindo a pele, OS ossos, a carne e/ou as presas de marfim dos mesmos.

Ephrem Taifari, Presidente da República

A licença fora passada à pressa. A pedido de Cheng, o presidente escrevinhara aquelas palavras numa folha de bloco, e a tipografia estatal carimbara o papel com o brasão da República do Ubomo, entregando-o doze horas depois para ser assinado pelo presidente Taffari.

- Sou um caçador furtivo - explicou Chetti Singh. – O melhor que há em áfrica. Mas este papelucho faz de mim um aprendiz de carniceiro

            Cheng voltou-lhe as costas com impaciência. O sikh estava a irritá-lo. Começou a andar de um lado para o outro na clareira, absorto nos seus pensamentos. Depois, olhou em volta para a parede verde ameaçadora da selva. Recalcou a inquietação inspirada por aquela visão e olhou para o relógio

de pulso.

            - Já é tarde - disse bruscamente Chetti Singh encolheu os ombros e dobrou a licença de caça com a única mão.

- Ele não tem a mesma noção do tempo que nós. Vai aparecer quando quiser. Talvez já aqui esteja à espreita.

- E o Armstrong? - perguntou Cheng. - Temos de lhe tratar da saúde.

            - Claro! - respondeu Chetti Singh com um grande sorriso. - Isso vai ter graça! - Massajou o coto do braço. - Há muitos meses que sonho todas as noites com o Dr. Armstrong. Mas nunca esperei que ele viesse ter aqui connosco a Sengi-Sengi.

            - Não pode sair daqui vivo - insistiu Cheng.

            - Deus nos livre! - concordou Chetti Singh. - Tenho dedicado muita atenção ao problema. Quero que o falecimento do bom doutor seja apropriadamente simbólico e doloroso, mas que, ao mesmo tempo possa ser explicado como um acidente infeliz.

            -   Não espere muito - avisou Cheng.

            -   Tenho mais cinco dias - observou Chetti Singh. - Já vi o calendário das filmagens. Ele não pode acabar o trabalho antes disso...

-   E a ruiva, a assistente dele? - interrompeu Cheng. -   De momento, o presidente Taffari anda a divertir-se com ela, mas, mesmo assim, acho que talvez seja mais prudente arranjar as coisas de maneira que ela acompanhe o Dr. Armstrong na sua longa viagem... - Chetti Singh calou-se bruscamente e levantou-se. Ficou por instantes à escuta, de cabeça inclinada, e depois disse: Acho que ele está aqui.

Avançou em direcção à cortina verde e ergueu a voz, falando em suafli:

- A paz seja contigo, filho da floresta. Vem para nos podermos cumprimentar como amigos.

            O pigmeu saiu de uma abertura no muro de vegetação como que por encanto. Um raio de sol reflectia-se na sua pele escura, salientando os músculos do seu corpinho atlético.

Tinha uma cabeça pequena e perfeita, um nariz largo e achatado e uma barbicha de lá negra macia, estriada de cinzento-prateado.

- Trouxeste tabaco? - perguntou em suafli, com uma franqueza infantil.

            Chetti Singh riu-se e entregou-lhe uma caixa de lata. Pirri desatarraxou a tampa, tirando da lata uma bola solta de tabaco amarelo que colocou debaixo do lábio superior, cantarolando de prazer.

- Ele sabe caçar? - perguntou Cheng, desconfiado. – É capaz de caçar um elefante?

            Chety Singh riu-se.

- É o melhor caçador da tribo e, além disso, não é um bambuti de raça pura, o pai era hita. Tem outras qualidades devido ao seu sangue misto.

            - Que qualidades? - perguntou Cheng.

            - Compreende o valor do dinheiro - explicou Chetti Singh. - A riqueza e a propriedade não interessam aos outros bambutis, mas Pirri é diferente. É suficientemente civilizado para sentir cobiça.

            Pirri escutava-os. Não percebia as palavras inglesas, mas voltava a cabeça ora para um, ora para o outro homem quando falavam, mascando o seu tabaco. Usava apenas um pano à volta das ancas e tinha o arco atrás das costas e a catana à cinta numa bainha de cabedal.

- Quem é este wazungu? - perguntou abruptamente em suafli, apontando para Cheng com o queixo barbudo.

            - É um chefe famoso e rico - garantiu Chetti Singh.

            Pirri atravessou a clareira em passo musculado e olhou para Cheng com curiosidade.

            - A pele dele tem a cor da malária e os olhos são iguais aos da mamba - anunciou sem rodeios.

Cheng percebia alguma coisa de suafli e ficou irritado.

            - Talvez ele saiba o que é a cobiça, mas desconhece o que é o respeito.

            - São os modos dos Bambutis - disse Chetti Singh, tentando acalmá-lo. - São como as crianças: dizem tudo o que lhes passa pela cabeça.

- Pergunte-lhe se sabe do elefante - ordenou Cheng. Chetti Singh falou num tom de voz diferente, sorrindo

lisonjeiramente para Pirri.

- Tu és o melhor caçador de todos os Bambutis - disse o

sikh.

            - É verdade - concordou Pirri.

            - Fala-me do elefante - incitou-o Chetti Singh.

- Há trinta elefantes fêmeas com as crias na floresta

perto de Gondala - disse Pirri. - E dois grandes machos de dentes brancos compridos.

            - De que tamanho? - perguntou Chetti Singh.

            Cheng, que estava a perceber a conversa, inclinou-se para a frente, ansioso.

            - Um elefante é maior do que o outro. Os dentes dele são assim. - Pirri tirou o arco que trazia a tiracolo, levantou-o acima da cabeça e pôs-se em bicos de pés. - Da altura a que eu chego com o meu arco, da ponta do dente até à boca, sem contar com a parte que está escondida dentro da cabeça.

- E de que grossura? - perguntou Cheng em suafli.

            Pirri pôs as mãos à volta da cintura.

- Desta grossura- disse. - Da mesma grossura que eu E o maior de todos os elefantes.

- Quero que mates esse elefante e me tragas as presas - disse Chetti Singh em voz baixa.

            Pirri abanou a cabeça.

- Esse elefante já não está em Gondala. Quando as máquinas de ferro amarelo entraram na floresta, fugiu do fumo e do barulho. Foi para o coração sagrado da floresta, onde nenhum homem pode caçar. São as ordens da Mãe e do Pai. Não posso matar esse elefante no coração da floresta.

- Pago-te muito dinheiro pelos dentes desse elefante - murmurou tentadoramente Chetti Singh. Mas Pirri abanou a cabeça com firmeza.

- Dou-te dez medidas de pano bonito como as mulheres gostam e cinquenta mãos-cheias de contas de vidro.

-   É o coração sagrado da floresta - repetiu Pirri, abanando a cabeça.

-   Além disso, dou-te mais vinte machados de ferro e dez belíssimas facas.

            Pirri abanou-se todo, como um cachorro.

- É contra a lei e os costumes. A minha tribo vai odiar-me e expulsar-me.

            -   Dou-te dez garrafas de gin - disse Chetti Singh. - E tanto tabaco quanto fores capaz de levantar do chão.

            Pirri rebolou os olhos.

-   Todo o tabaco que eu for capaz de transportar! - Falava em voz rouca. - Não posso. Eles chamam o Molimo. Eles vão invocar a maldição da Mãe e do Pai sobre a minha cabeça.

-   E dou-te cem dólares de prata Maria Theresa.

            Chetti Singh meteu a mão no bolso da sariana e tirou uma mão-cheia de moedas de prata. Começou a passá-las de uma mão para a outra, fazendo-as brilhar ao sol.

            Pirri olhava cobiçosamente para as moedas. Depois, soltou uma espécie de latido agudo e disse:

-   Mato esse elefante para ti e trago-te os dentes.

Depois, dás-me tudo o que prometeste, e não te esqueças do tabaco.

            Chetti Singh conduziu o Land-Rover de volta pelo trilho rudimentar da floresta. Quando se juntaram ao tráfego que se

dirigia para Sengi-Sengi, Chetti Singh voltou-se para Cheng com um grande sorriso.

            -   O problema do presente para o seu pai já está resolvido. Agora, temos de recorrer a toda a nossa manha para resolver o problema do meu presentinho, a cabeça do Dr. Armstrong.

            BONNY MAHON chegou atrasada às filmagens do dia, obrigando Daniel a esperar quarenta minutos sob chuva intensa até ela aparecer finalmente com um ar descontraido.

            -   Quando disse que começávamos às cinco horas, não era às cinco da tarde - resmungou ele.

            Mas Bonny riu-se, toda alegre e bem disposta.

- Quer que eu faça hara-kiri, mestre?   - perguntou.

            Daniel preparava-se para lhe dar um raspanete, mas de repente percebeu que ela devia ter vindo directamente da cama de Taffari. Ficou tão furioso que a sua vontade era bater-lhe. "Acalma-te, Armstrong", pensou, ralhando silenciosamente consigo mesmo. "Estás a perder o auto-controle."

            Trabalharam num clima de antagonismo latente durante toda a manhã, filmando as escavadoras e as serras mecânicas que limpavam a faixa da mina para permitir o avanço da monstruosa MOMU.

            Era difícil andar na lama e à chuva, o que não contribuiu para melhorar a disposição de Daniel, mas ele conseguiu manter tento na língua até ao meio-dia, hora a que Bonny declarou que não tinha mais cassetes e que precisava de voltar ao acampamento para ir buscá-las.

- Que raio de operadora de câmara é você para deixar acabar a fita no meio das filmagens? - perguntou Daniel.

            Mas Bonny voltou-se contra ele:

- Já percebi qual é o seu mal. Não é por o filme ter acabado. Está furioso com a sorte que calhou a Ephrem e não a si. São ciúmes.

- Tem uma ideia muito exagerada do seu valor – replicou Daniel, realmente furioso.

A discussão azedou-se rapidamente e finalmente Bonny gritou-lhe:

            - Ninguém fala comigo nesse tom, camarada. Pode ficar com o emprego! - Voltou para o Land-Rover, patinhando na lama vermelha.

            - Deixe a câmara no Land-Rover - berrou Daniel. - Já tem o bilhete de regresso a Londres e eu mando-lhe um cheque do que lhe devo. Está despedida.

- Não estou nada! Já não vai a tempo. Eu já me despedi.

Não se esqueça disso!

            Bonny bateu com a porta do Land-Rover e ligou o motor. Com as rodas a patinarem a toda a velocidade, fazendo saltar chapadas de lama, arrancou pelo trilho. Daniel ficou a olhar para o jipe.

            Bonny estava tão furiosa como Daniel, mas era muito mais vingativa. Deu voltas à cabeça para se lembrar da vingança mais cruel que lhe pudesse ocorrer e finalmente, quando chegou ao acampamento de Sengi-Sengi, teve uma ideia.

- Vais arrepender-te de tudo o que me disseste, Danny - prometeu alto. - Não vais gravar nem mais uma cassete no Ubomo; nem tu nem qualquer outro operador de câmara que possas contratar para me substituir.

            EPHREM TAFFARI estava deitado de costas no lençol branco amarrotado, e Bonny achou que ele talvez fosse o homem mais bonito que ela vira em toda a sua vida.

Encostou a cara ao seu peito nu. Nunca sentira aquilo por ninguém e queria fazer alguma coisa por ele.

            - Tenho de dizer-te uma coisa - murmurou.

Taffari afastou-lhe a cabeleira ruiva da cara com uma carícia preguiçosa.

- O que é? - perguntou sem grande interesse. Bonny sabia que as suas próximas palavras lhe iam despertar a atenção e prolongou esse momento. Era demasiado precioso para se desperdiçar. O prazer era duplo: vingava-se de Daniel Armstrong e ao mesmo tempo, com aquela oferenda, provava a Taffari a sua lealdade e o seu valor.

            - O que é? - repetiu ele.

            -           Vou dizer-te isto para mostrar que te pertenço e o quanto te amo - murmurou. - A partir de agora, nunca mais vais duvidar da minha lealdade.

            Taffari deu uma risada.

            -           Isso só eu é que posso dizer, meu liriozinho vermelho. Diz-me lá essa coisa terrível.

            -           É mesmo uma coisa terrível. Por ordem de Daniel Armstrong, filmei a evacuação forçada dos aldeãos da baía das Águias-Pesqueiras para a construção do novo casino.

            Ephrem Taffari susteve a respiração durante vinte pulsações. Depois, expirou lentamente, e o coração batia-lhe um pouco mais depressa quando disse:

            -           Não sei de que é que estás a falar. Explica-te.

            -           Daniel e eu estávamos no alto da falésia quando os soldados chegaram à aldeia. Daniel mandou-me filmá-los, e eu captei a sequência toda.

            -           E o que é que viram?

            -           Vimo-los arrasar completamente a aldeia e queimar os barcos. Vimo-los meter as pessoas nos camiões e levá-las... ­Hesitou. - E vimo-los matar duas pessoas. Atiraram com os corpos para a fogueira.

            -           Filmaste isso tudo? - perguntou Ephrem.

O seu tom de voz assustou-a e fê-la perder a segurança.

            -           Foi Daniel quem me obrigou a filmar.

            -           Não sabia dessa atrocidade. Não fui eu que dei essas ordens.

            -           Tinha a certeza de que não sabias de nada.

            -           Tenho de ver o filme. É uma prova contra quem foi responsável por esses acontecimentos. Onde é que está?

            -           Dei-o ao Daniel.

            -           E o que é que ele fez com o filme?

            -           Disse que o tinha entregado na Embaixada Britânica de Kahali. Sir Michael Hargreave, o embaixador, é amigo dele. -         Ele mostrou o filme ao embaixador? - quis saber Ephrem.

            -           Acho que não. Disse que era dinamite e que só o usaria quando chegasse a altura.

            -           Então, tu e Armstrong são as únicas pessoas que sabem do assunto.

Ela não tinha pensado naquilo e sentiu-se inquieta.

            -           Sim, acho que sim. A não ser que Daniel tenha falado nisso a alguém. Eu não disse nada a ninguém.

            -           óptimo, querida. - Bphrem fez-lhe uma festa na cara.

- És uma linda menina. Estou-te muito agradecido. Provaste que eras minha amiga.

            -           É mais do que amizade, Ephrem. Nunca senti por nenhum outro homem o que sinto por ti.

            -           Eu sei - murmurou ele, beijando-a na boca. – Temos de recuperar esse filme. Pode ser muito prejudicial para o país e para o presidente.

            -           Já devia ter-te contado isto - disse Bonny.

            -           Ainda vai a tempo - tranquilizou-a Taffari. – Vou falar com o Armstrong amanhã de manhã. Ele entrega-me o filme para servir de prova.

            -           A cassete é explosiva. Ele não vai querer dar-ta.

            -           Então, tens de me ajudar a recuperá-la. Ajudas-me, meu lindo lírio vermelho e branco?

            -           Sabes bem que sim, Ephrem. Faço tudo o que quiseres - murmurou Bonny.

            Sem dizer mais nada, Taffari fez amor com ela, um amor devastador e belo como só ele sabia fazer. Depois, Bonny adormeceu.

            Quando acordou, estava outra vez a chover. Naquele inferno verde da selva, parecia que estava sempre a chover. Tacteou instintivamente à procura de Ephrem, mas ao lado dela a cama estava vazia. Os lençóis estavam frios no lugar onde ele estivera deitado. Devia ter-se levantado já há algum tempo.

            De repente, ouviu vozes masculinas vindas do quarto ao lado.

            Encostou o ouvido à fina parede divisória e reconheceu a voz de Ephrem falando em tom ríspido de comando. Alguém lhe respondeu, mas o barulho mais intenso da chuva não lhe permitiu identificar a voz do interlocutor de Taffari.

            -   Não - replicou Ephrem. - Esta noite. Quero que isso seja feito imediatamente.

            Bonny agora estava completamente acordada, e nesse momento a chuva parou repentinamente. Então, no silêncio, ela ouviu bem a resposta nesse silêncio e reconheceu a voz da pessoa que falava.

            -   Assina o mandado, Sr. Presidente? - Era Chetti Singh; a pronúncia inglesa dele era inconfundível. - Os seus soldados podem encarregar-se da execução.

-   Não diga disparates, homem. Quero que as coisas sejam feitas discretamente. Livre-se dele. Pode pedir a Kajo que o ajude, mas encarregue-se você disso. Sem fazer perguntas. Basta livrar-se dele.

            - Sim, sim. Compreendo. Dizemos que foi filmar para a selva. Depois, podemos mandar um grupo em busca dele, mas não se encontram vestígios. Muito lamentável. E a mulher? Também foi testemunha dos nossos preparativos na baía das águias-Pesqueiras. Quer que me encarregue também dela?

            -   Não, não seja idiota! Preciso dela para recuperar a cassete que está na embaixada. Leve só o Armstrong para a selva e livre-se dele.

-   Posso garantir-lhe que nada me poderia dar mais prazer, Sr. Presidente. Preciso de uma hora para combinar as coisas com Kajo, mas antes do nascer do dia fica tudo arrumado, prometo-lhe solenemente.

            Ouviu-se bater uma porta e depois fez-se silêncio.

            Bonny ficou gelada com o que acabara de ouvir. Continuou deitada, com o corpo tenso, pensando rapidamente. Julgara que Ephrem iria confiscar a videocassete e prender Daniel, deportá-lo ou qualquer coisa no género. Não sonhara nem por um instante que o mandasse matar, que o esmagasse como um insecto, sem o menor remorso.

            Daniel insultara-a e despedira-a, mas ela dera-lhe razões para isso e não o odiava ao ponto de querer vê-lo morto. Ficou deitada à espera de Ephrem, mas ele não voltou. Deslizou relutantemente para fora do mosquiteiro e pegou no roupão, que estava aos pés da cama. Atravessou o quarto, dirigindo-se para a porta que dava para a varanda do bungalow, e abriu-a silenciosamente.

A luz saía pelas janelas da sala, iluminando a varanda.

Posicionando-se de modo a poder espreitar para a sala sem ser vista, deparou com Ephrem Taffari sentado à secretária junto da parede do fundo. Estava de costas para ela a fumar e estudava os papéis espalhados em cima do tampo da secretária.

Bonny demoraria menos de dez minutos para ir até à fila dos bungalows dos hóspedes, situados na parte leste do recinto, e voltar para o quarto. Afastou-se da janela iluminada e correu pela plataforma de madeira, debaixo das árvores, que escorriam água. Quando chegou aos bungalows dos hóspedes, constatou com satisfação que Daniel tinha a luz do quarto acesa.

            Não subiu para a varanda, preferindo dar a volta pelas traseiras do edifício. A janela de Daniel tinha cortinas. Ela arranhou levemente a rede mosquiteira que a cobria e ouviu uma cadeira a arrastar no chão de madeira.

Arranhou novamente a rede, e a voz de Daniel perguntou baixinho:

- Quem é?

- Por amor de Deus, Danny, sou eu. Tenho de falar consigo.

- Entre. Vou abrir a porta.,

- Não, não! Venha aqui. É um caso de vida ou de morte. Não podem ver-me. Depressa!

Logo a seguir, os ombros largos de Daniel recortaram-se na escuridão, iluminados por trás pela luz do bungalow.

- Daniel, Ephrem sabe da cassete da baía das águias-Pesqueiras.

            -           Como é que ele descobriu?

            -           Isso não interessa. Venho avisá-lo que ele deu ordens para o executarem imediatamente. Chetti Singh e Kajo vêm buscá-lo. Vão levá-lo para a selva e não querem deixar vestígios.

            -           Como é que soube isso?

            -           Não faça perguntas. Pode crer que é verdade. Não posso ficar nem mais um minuto. Tenho de me ir embora. Voltou-se, mas ele agarrou-lhe no braço.

            -           Obrigado, Bonny - disse. - Quer fugir comigo?

            Bonny abanou a cabeça.

            -           Eu cá me arranjo. Fuja sozinho. Tem uma hora, no máximo. Despache-se!

Bonny afastou-se a correr por entre as árvores. Ele vislumbrou-a uma última vez, com as luzes do bungalow a transformarem-lhe o cabelo despenteado numa auréola rosada, que, juntamente com o roupão branco comprido, fazia que parecesse um anjo.

            -           Que raio de anjo! - murmurou Daniel.

            Ficou imóvel no escuro durante um minuto, pensando no que havia de fazer. Enquanto só tinha que se haver com Chetti Singh e Ning Cheng Gong, ainda tinha algumas hipóteses, pois eram obrigados a agir em segredo, tal como ele. Mas agora Chetti Singh tinha licença do presidente para o matar. Era de prever que o sikh agisse rapida e implacavelmente. Tinha de fugir de Sengi-Sengi nos próximos minutos.

            Foi até à esquina da casa e deu uma vista de olhos rápida pelo recinto. Estava tudo calmo e às escuras. Voltou ao quarto e tirou o saco de viagem do armário. Continha o seu passaporte, os bilhetes de avião, os cartões de crédito e os travellers cheques. Além do seu vestuário e do estojo de toilette, não havia mais objectos de valor no quarto.

Pegou num blusão leve e verificou se tinha a chave do Land-Rover na algibeira. Apagou a luz e saiu. O jipe estava estacionado na outra ponta da varanda. Abriu silenciosamente a porta e atirou o saco para o banco do passageiro. Todo o equipamento de vídeo alugado estava arrumado nas traseiras do jipe, e nos outros compartimentos havia material de campismo e de primeiros socorros, mas ele não tinha nenhuma arma, a não ser a sua velha faca-de-mato.

Pôs o Land-Rover a trabalhar. O ruido do motor pareceu-lhe altíssimo na escuridão. Não acendeu os faróis e embraiou lentamente, sem acelerar. Atravessou devagar o recinto mergulhado na escuridão, dirigindo-se para o portão de entrada.

            Daniel não tinha ilusões sobre a distância que conseguiria percorrer no jipe. Só havia uma estrada até ao barco que fazia a travessia do rio Ubomo, que tinha uma barreira de dez em dez quilómetros. Bastava que mandassem de Sengi-Sengi um aviso pela rádio para alertar os guardas de todas as barreiras, que o esperariam com os dedos no gatilho das AK 47. Não, tinha de ir pela selva, uma ideia que lhe não agradava nada. Aprendera a sobreviver e a combater no mato da Rodésia, uma zona mais seca, muito mais para sul, e não seria capaz de se desembaraçar tão bem na floresta tropical. Antes de mais nada, tinha de se afastar de Sengi-Sengi. Depois, enfrentaria os problemas um por um, à medida que surgissem.

"E este é já o primeiro", pensou amargamente quando os holofotes do portão de entrada se acenderam subitamente, criando uma alvorada branca de halogéneo. Meia dúzia de vultos saíram a correr do quartel dos guardas. Daniel reconheceu o capitão Kajo, brandindo uma pistola automática, e Chetti Singh, que trotava atrás dele, gritando e acenando para o Land-Rover que se aproximava. Um dos guardas já estava a atravessar na estrada uma das portas de rede metálica montada numa armação de aço.

Daniel acendeu os faróis, assentou a mão com força na buzina e avançou com o jipe para cima do guarda. O homem escapuliu-se agilmente para o lado e o Land-Rover chocou com a metade solta da porta, atirando-a para o lado. Daniel transpôs o portão a toda a velocidade. Ouviu atrás de si o estampido dos tiros de armas automáticas. Sentiu meia dúzia de balas a baterem na carroçaria do Land-Rover, mas deitou-se por cima do volante e continuou a carregar com o pé no acelerador até ao fundo.

            Na primeira curva da estrada, uma nova rajada de metralhadora crepitou de encontro às traseiras do veículo. O vidro de trás explodiu numa tempestade de estilhaços e bateu-lhe qualquer coisa nas costas. Já não era a primeira vez que era atingido por uma bala e reconheceu a sensação. A avaliar pela localização do ferimento, podia ter sido atingido num pulmão. "Continua enquanto conseguires", pensou, e entrou na curva de prego a fundo.

Sentia o sangue quente a escorrer-lhe pelas costas, mas não estava a sufocar, não se sentia fraco, nada. Podia continuar. Sabia exactamente onde ficava a primeira barreira da estrada. Cerca de Oito quilómetros mais adiante, recordou. Na primeira travessia do rio.

            Passara meia dúzia de vezes pela estrada nos últimos três dias de filmagens. Lembrava-se de todas as curvas, de todos os desvios. Antes da primeira barreira, havia cinco pistas de lenhadores. Algumas delas já não eram utilizadas havia bastante tempo e estavam completamente cobertas de mato, mas pelo menos duas eram percorridas todos os dias por inúmeros veículos. Optou pela primeira, a três quilómetros de Sengi-Sengi, e meteu por ela, dirigindo-se para oeste. A fronteira do Zaire ficava naquela direcção, a cerca de cento e quarenta quilómetros, mas a pista não tinha mais de dez quilómetros até se cruzar com a escavação da MOMU.

Tinha de abandonar o Land-Rover e tentar percorrer os restantes cento e trinta quilómetros a pé pela floresta desconhecida. Na última parte da viagem, teria de subir montanhas de grande altitude, atravessando glaciares e pastagens cobertas de neve. Depois, lembrou-se da bala nas costas e percebeu que estava a sonhar. Nunca conseguiria andar tanto.

            A pista de lenhadores em que se encontrava era um lamaçal, e o Land-Rover avançava a custo, com a tracção às quatro rodas engrenada, saltando nos trilhos de meio metro de profundidade. O ferimento começava a doer-lhe, mas ele ainda não se sentia tonto. De repente, viu luzes à sua frente na pista. Um dos camiões dos lenhadores avançava na sua direcção, e Daniel percebeu imediatamente que era a sua grande oportunidade. Abrandou a velocidade e começou a olhar para a berma em busca de uma abertura na folhagem. Meteu aventurosamente o Land-Rover pelo mato quase impenetrável. A vegetação raspava dos dois lados da carroçaria e batia por baixo do chassis. O solo mole da floresta agarrava as rodas, e o Land-Rover foi perdendo velocidade até parar.

            Daniel desligou o motor e apagou os faróis. Sentado na escuridão, ficou à escuta, ouvindo o camião passar para leste, em direcção a Sengi-Sengi, pela estrada por onde ele tinha vindo. Depois de o barulho do grande motor diesel desaparecer no silêncio, ele inclinou-se para a frente no assento e encheu-se de coragem para examinar o ferimento de bala nas costas. Relutantemente, torceu o braço para trás e tacteou em direcção à dor.

            De repente, soltou uma exclamação e tirou a mão. Acendeu a luz interior do jipe e examinou o arranhão do dedo. Deu uma grande gargalhada de alívio. Uma lasca de vidro tinha-lhe feito um golpe nas costas e estava enfiada junto às costelas. Era um ferimento superficial.

Arrancou o vidro. Estava sujo de sangue e o rebordo era irregular; a ferida sangrava novamente. "Mas não morres desta", disse de si para consigo, acalmando-se. Pegou no estojo de primeiros socorros. Era difícil tratar uma ferida nas costas, mas lá conseguiu untá-la de Betadine e fazer um penso mal jeitoso. Continuava à escuta de outros veículos na estrada, mas só ouvia os sons fracos da selva, as aves, os insectos e os animais.

            Encontrou a lanterna no estojo e saiu para a estrada a pé. Examinou os trilhos profundos e enlameados. Tal como previra, o camião com as suas rodas múltiplas maciças obliterara completamente o rasto do Land-Rover. Começou a disfarçar a folhagem esmagada pelo jipe no ponto onde entrara no mato.

            O seu trabalho foi posto à prova quase imediatamente. Viu faróis que se aproximavam, vindos da direcção de Sengi-Sengi, e recuou, embrenhando-se mais no mato. Esfregou lama na cara e nas costas das mãos e deitou-se no chão. O blusão que vestia era verde-escuro, da cor da vegetação, e não se destacava à luz.

            Quando o veículo chegou à altura do seu esconderijo, ele percebeu que era um camião da tropa camuflado de verde e castanho apinhado de soldados hitas. Pareceu-lhe avistar o turbante branco de Chetti Singh na cabina do condutor. Um dos soldados apontou um holofote para as bermas da estrada. Era evidente que estavam à procura dele. Daniel escondeu a cara na dobra do cotovelo quando a luz da lanterna varreu o ponto onde ele se encontrava. Mas o camião continuou o seu caminho e em breve tinha desaparecido.

            Daniel correu para o Land-Rover atolado. Fez uma escolha rápida dos objectos guardados nos compartimentos, o principal dos quais era a bússola, e enfiou-os num pequeno saco de viagem. Tirou do estojo de primeiros socorros alguns pensos, comprimidos contra a malária e anti-sépticos, guardou tudo no saco de viagem e pô-lo a tiracolo do lado oposto ao ferimento.

"Tenho forçosamente de atravessar a pista da MOMU antes do nascer do dia, pois é o único lugar onde fico a descoberto e vulnerável", pensou.

            Dirigiu-se para oeste. Era difícil orientar-se na escuridão da floresta densa e era obrigado a acender a lanterna para estudar a bússola a intervalos de algumas centenas de metros. O piso era mole e irregular e Daniel avançava lentamente. Quando chegou à escavação da MOMU, o céu descoberto estava já a clarear com os primeiros alvores da madrugada. Ele via as árvores do outro lado da clareira, mas a MOMU tinha passado ali havia já várias semanas e trabalhava agora dez ou doze quilómetros mais para norte. Esta parte da floresta devia estar deserta, a menos que Kajo e Chetti Singh tivessem mandado uma patrulha para a faixa da mina para lhe cortar o caminho.

            Deixou o abrigo da floresta e começou a atravessar a vala. A lama vermelha sugava-lhe as botas e ele esperava ouvir a todo o momento um grito ou um tiro. Chegou à linha das árvores do outro lado, ofegante de cansaço.

Continuou a andar durante mais uma hora antes de descansar pela primeira vez. Já fazia muito calor e a humidade era tanta como num banho turco. Despiu tudo o que levava vestido, à excepção dos calções e das botas, fez uma bola com a roupa e enterrou-a na argila macia do solo da floresta. Tinha a pele curtida pelo sol e pelas intempéries e não era afectado pelas picadas dos insectos. Desde que tapasse o ferimento das costas, não havia problema.

            Continuou a andar, contando os passos para calcular a distância percorrida. De duas em duas horas, descansava dez minutos. à noite, calculou que devia ter andado quinze quilómetros. àquele ritmo, levaria oito dias a chegar à fronteira do Zaire, mas claro que não conseguiria manter o ritmo. Tinha de transpor montanhas e glaciares e desfizera-se da roupa. Ia ser interessante atravessar um glaciar naquela figura, pensou, ao mesmo tempo que preparava um ninho de folhas húmidas e se instalava para passar a noite.

Quando acordou, já havia luz suficiente para ver

ligeiramente. Tinha fome e a ferida das costas doía-lhe e estava rígida. Quando lhe tocou, viu que tinha as costas inchadas e quentes em volta da ferida. "Era só o que me faltava, uma infecção", pensou, e mudou o penso o melhor que conseguiu.

            Ao meio-dia, estava esfaimado. Encontrou um ninho de gordas larvas brancas debaixo da casca de uma árvore. Sabiam a gema de ovo crua.

            "O que não mata engorda", pensou para se animar, e continuou o seu caminho para oeste de bússola em punho. Ao principio da tarde, pareceu-lhe reconhecer um cogumelo comestível e deu uma dentadinha num para experimentar. Ao fim da tarde, chegou à margem de um ribeiro de águas transparentes e matou a sede.

            No dia seguinte, quando acordou, tinha o estômago inchado de disenteria. Não sabia se a causa tinham sido as larvas de insecto, o cogumelo ou a água do rio, mas ao meio-dia estava muito fraco. O ferimento parecia-lhe um carvão em brasa entre as omoplatas.

            Foi naquela altura que Daniel teve pela primeira vez a sensação de que estava a ser seguido. Possuía esse instinto natural de que se dera conta pela primeira vez nos seus tempos de escuteiro. Tinha a sensação física de estar a captar a concentração maligna do caçador que lhe seguia a pista. "Tenho de encobrir o meu rasto", pensou, sabendo que isso o ia atrasar, mas que teria o efeito quase certo de despistar o seu perseguidor.

No riacho seguinte, meteu-se pela água, e a partir daí recorreu a todas as manhas e subterfúgios para encobrir o seu rasto e despistar quem o perseguia. Mas sabia, com uma certeza clarividente, que o caçador invisível continuava a persegui-lo e que se aproximava a cada hora.

 

CHETTI SINGH, o rei dos caçadores furtivos, desenvolvera ao longo dos anos vários sistemas para contactar os seus caçadores. Nalgumas zonas, bastava-lhe deslocar-se de automóvel até uma aldeia remota e falar com a mulher ou o irmão do caçador, confiando-lhes a transmissão da mensagem. Noutras, podia fiar-se nos Correios locais para a entrega de uma carta ou de um telegrama, mas contactar um pigmeu selvagem na floresta tropical do Ubomo era uma tarefa difícil e morosa.

A única maneira de o fazer era parar em todas as dukas, ou armazéns, meter conversa com todos os bambutis semicivilizados que encontrava e suborná-los para transmitirem uma mensagem a Pirri. A rede de comunicações que os Pigmeus mantinham na vasta área da floresta tropical era espantosa.

Chetti Singh teve sorte. Dois dias depois de ter dado o seu recado a um grupo desgarrado de mulheres que encontrara numa das travessias do rio, Pirri compareceu ao encontro na floresta. Como sempre, apareceu tão repentinamente como um génio da floresta e pediu tabaco e presentes.

- Mataste o meu elefante? - perguntou Chetti Singh incisivamente.

            - Se não me tivesses mandado chamar, o elefante já estava morto.

- Mas não está - observou Chetti Singh. - Portanto, não ganhaste aqueles presentes maravilhosos que te prometi.

            - Só um bocadinho de tabaco? - implorou Pirri. - Sou o teu escravo fiel e o meu coração está cheio de amor por ti. Só uma mão-cheia de tabaco?

            Chetti Singh deu-lhe metade da quantidade que ele pedira e, enquanto Pirri se agachava para gozar do tabaco, continuou:

- Dou-te o dobro de tudo aquilo que te prometi se matares

outra criatura e me trouxeres a sua cabeça.

- Que criatura é essa? - perguntou Pinri na defensiva, franzindo os olhos, desconfiado. - É outro elefante?

            - Não - disse Chetti Singh. - É um homem.

            - Queres que eu mate um homem! - Pirri levantou-se, alarmado. - Se eu fizer isso, os wazungus vêm buscar-me, levam-me e põem-me uma corda à volta do pescoço.

- Não - retorquiu Chetti Singh. - Os homens do Governo recompensam-te tão generosamente como eu se caçares este homem.

            Pirri meditou cuidadosamente no assunto. Já tinha matado outros wazungus brancos na guerra do Zaire, quando era novo. O Governo pagara-lhe por isso e era fácil. Na floresta, os wazungus brancos eram estúpidos e desajeitados. Era fácil segui-los e matá-los.

- Quanto tabaco? - perguntou.

- Tanto quanto consigas transportar - respondeu Chetti Singh.

- E onde está o homem? - perguntou Pirri. Chetti Singh disse-lhe onde calculava que o homem se dirigia. - Só queres a cabeça dele? - continuou Pirri. - Para comer?

            - Não - respondeu Chetti Singh sem se ofender. - Só para saber que mataste o homem certo.

            - Primeiro, trago-te a cabeça desse homem - declarou Pirri, todo contente. - Depois, trago-te os dentes do elefante e vou ter mais tabaco do que qualquer outro homem no Mundo.

E desapareceu novamente na floresta como um duende.

            DE MANHÃ cedo, enquanto o calor não apertava, Kelly Kinnear trabalhava na clínica de Gondala. Tinha mais doentes do que de costume, sofriam quase todos de úlceras infectadas, que, se não fossem tratadas, chegariam ao osso. Consultava Victor Omeru quando houve uma agitação repentina à porta da clínica.

            Victor espreitou pela janela.

            - Os seus amiguinhos chegaram - disse ele.

Ela deu uma risada Je alegria e saiu para a luz do Sol. Sepoo e a mulher, Pamba, estavam agachados no chão, por baixo da varanda, conversando com os outros pacientes e rindo. Quando a viram, vieram os dois a correr, competindo um com o outro para lhe agarrarem nas mãos e lhe contarem todas as novidades desde o seu último encontro, cada um tentando ser o primeiro a transmitir as notícias mais sensacionais da tribo. Levaram-na para o lugar do costume, no degrau mais alto da escada da varanda, e sentaram-se a seu lado, tagarelando em uníssono.

- A Swilli teve um bebé. É um rapaz e ela diz que vai trazê-lo para to mostrar na próxima lua cheia - disse Pamba.

- Vai haver brevemente uma grande caçada... – disse Sepoo.

            - Trouxe-te um molho das raízes especiais de que te falei da última vez que nos vimos - guinchou Pamba, que não queria ficar atrás do marido.

            - Matei dois macacos colobos - gabou-se Sepoo. E trouxe-te uma das peles para fazeres um lindo chapéu, Kara-Ki.

Kelly agradeceu-lhe.

- E quais são as notícias de Sengi-Sengi? O que é feito das grandes máquinas amarelas que engolem a floresta? Que notícias tens do homem branco alto do cabelo encaracolado e da mulher com o cabelo cor de fogo?

- As notícias são estranhas - disse Sepoo. - O homem grande do cabelo encaracolado fugiu de Sengi-Sengi. Fugiu para a floresta para se esconder. E os wazungus de Sengi-Sengi ofereceram a Pirri, o meu irmão, um grande tesouro e uma recompensa para caçar o homem e matá-lo.

            Kelly olhou para ele, horrorizada.

            - Matá-lo? Querem que Pirri o mate?

- E que lhe corte a cabeça - declarou Sepoo alegremente. - Tens de o impedir! - Kelly levantou-se de um pulo, arrastando Sepoo. - Não podes deixar Pirri matá-lo. Tens de salvar o homem branco e trazê-lo para aqui, para Gondala. Estás a ouvir? Vai já! Depressa!

            - Vou com ele para ter a certeza de que faz o que disseste, Kara-Ki - anunciou Pamba. Porque ele é um velho tonto e, se encontrar um amigo na floresta, esquece-se de tudo o que tu disseste. Voltou-se para o marido. - Anda, velho. ­Espicaçou-o com o polegar. Vamos procurar esse wazungu branco e trazê-lo a Kara-Ki. Vamos depressa antes que Pirri o mate e leve a cabeça dele para Sengi-Sengi.

            PIRRI, o caçador, pôs um joelho no chão da floresta e examinou as pegadas. Ajustou a corda do arco ao ombro e abanou a cabeça com admiração relutante.

- Sabe que eu estou perto dele - murmurou. - Como é que ele sabe isso?

            Tocou na pegada, no ponto onde o wazungu saíra da água. O wazungu tinha feito aquilo com grande perícia, deixando apenas vestígios que só um especialista como Pirri conseguiria detectar.

            - Sim, sabes que estou a perseguir-te - disse Pirri, acenando com a cabeça. - Mas onde é que aprendeste a disfarçar o rasto quase tão bem como um bambuti?

            Descobrira o rasto do wazungu no ponto onde atravessava a estrada que a grande máquina amarela que comia terra e engolia árvores abrira na floresta. Nesse ponto, a terra estava mole, e o wazungu deixara um rasto que podia ser seguido por um cego numa noite escura. Dirigia-se para oeste, para as montanhas, como Chetti Singh dissera. Pirri achou que a caça ia ser fácil, principalmente quando descobriu que o wazungu arrancara um bocadinho de um cogumelo venenoso.

            - Agora não vais longe - gargalhou.

            Pirri deslizava por entre as árvores, confundindo-se com as sombras e as cores escuras das profundezas da floresta, seguindo o rasto ao dobro da velocidade do homem que o fizera.

Ao fim da tarde do segundo dia, chegou a uma clareira e avistou pela primeira vez o wazungu. Apercebeu-se de um levíssimo movimento numa das clareiras da floresta, a mais de quilómetro e meio de distância, do outro lado do vale. Por instantes, até a vista apurada de Pirri foi enganada. Não parecia ser um homem, muito menos um homem branco, mas quando o vulto desapareceu por entre as grandes árvores da orla da floresta, Pirri percebeu que o homem estava coberto de lama da cabeça aos pés e que trazia um chapéu de casca de árvore e folhas que lhe deformava a cabeça e tornava mais difícil distinguir o seu vulto.

- Ah! - exclamou Pirri, entusiasmado, dando uma palmada na barriga. - És muito hábil, meu wazungu. Nem eu vou ser capaz de te apanhar antes do cair da noite, mas de manhã a tua cabeça será minha.

            Nessa noite, dormiu, sem acender uma fogueira, na orla da clareira onde avistara pela última vez o homem branco, e assim que se fez dia recomeçou a andar.

            Encontrou o wazungu a meio da manhã. Estava deitado aos pés de um dos grandes mognos africanos, e Pirri começou por pensar que estava morto. Tentara tapar-se com folhas mortas, numa derradeira tentativa patética de enganar o pequeno caçador implacável.

            Pirri aproximou-se muito lentamente. Empunhava na mão direita a sua catana de lâmina larga, tão afiada como uma lâmina de barbear. Quando se debruçou sobre Daniel Armstrong, percebeu que ele estava doente e muito fraco, mas que ainda não estava morto. Produzia um ligeiro som gorgolejante no fundo da garganta quando respirava. Tinha a cabeça inclinada para o lado e o suor lavara-lhe a camuflagem de lama por baixo do queixo, deixando à vista uma linha branca. A marca perfeita para desferir um golpe e decapitá-lo.

            Pirri levantou a catana com as duas mãos até muito acima da cabeça e parou antes de desferir o golpe. Era um verdadeiro caçador e por isso tinha sempre uma certa pena da sua presa no momento de a abater. O credo da sua tribo era respeitar e amar os animais que se matavam, principalmente quando a presa fora ardilosa e valente. "Morre depressa", desejou silenciosamente.

Estava prestes a desferir o golpe quando uma voz disse baixinho atrás dele:

- Para, irmão, senão espeto-te esta seta venenosa no fígado. Pirri ficou tão espantado que deu um pulo, voltando-se para enfrentar Sepoo, que estava cinco passos atrás dele. Tinha o arco tenso e a seta puxada atrás até junto do rosto, com a ponta voltada firmemente para o peito de Pirri.

            - És meu irmão! - exclamou Pirri, ofegando com o choque. - Não deixarias voar a tua seta!

            - Se achas isso, Pirri, meu irmão, és ainda mais estúpido do que eu pensava. Kara-Ki quer este wazungu branco vivo. Se derramares uma única gota do sangue dele, trespasso-te com esta seta.

            - E eu canto e danço à tua volta enquanto tu te torces de dor no chão - acrescentou Pamba, a mulher dele, das sombras da floresta, lá atrás.

Pirri recuou. Sabia que podia convencer ou desconvencer Sepoo praticamente de tudo, mas Pamba não. Tinha muito respeito à cunhada.

            -   Ofereceram-me um grande tesouro para matar este wazungu - disse em voz aguda. - Divido-o irmãmente com vocês. Todo o tabaco que vocês sejam capazes de transportar.

- Vou cheirar um bocadinho de rapé - disse friamente Pamba. - Se ainda aqui estiveres quando eu acabar de espirrar...

            -   Vou-me embora guinchou Pirri. - Vou-me embora. ­Embrenhou-se no mato e, assim que ficou fora da linha de fogo, berrou: - Macaca velha e malvada

            Ouviam-no golpear com a catana a vegetação à sua volta, furioso. Mas os sons da sua cólera enfraqueceram gradualmente à medida que ele se afastava na floresta, e Sepoo baixou o arco e olhou para a mulher.

            -   Não me divertia tanto desde que Pirri caiu na sua própria armadilha por cima do búfalo que já estava na cova! ­disse, rebentando de riso.

            Pamba não lhe ligou. Aproximou-se do lugar onde Daniel Armstrong estava deitado, inconsciente. Ajoelhou-se a seu lado e examinou-o rápida e conscienciosamente, tirando-lhe as formigas dos cantos dos olhos e das narinas.

            - Vou ter de me esforçar muito para o salvar para Kara-Ki - disse, pegando na sua saca de remédios. - Se o deixar morrer, não sei onde é que lhe vou arranjar outro.

            ENQUANTO Pamba tratava de Daniel, Sepoo construiu uma cabana por cima do lugar onde ele estava deitado e acendeu uma fogueira pequena para afastar os mosquitos e a humidade. Agachou-se à porta e ficou a ver a mulher a trabalhar.

            Pamba era a curandeira mais afamada de todos os Bambutis e limpou o ferimento das costas do wazungu com os seus dedos ágeis e habilidosos, aplicando-lhe uma cataplasma de raízes e folhas fervidas. Depois, fê-lo beber uma grande quantidade de uma infusão de ervas.

            Passadas três horas, Daniel recobrou a consciência. Olhou, espantado, para os dois velhos agachados a seu lado na palhota fumarenta e perguntou em suafli:

            - Quem são vocês?

            -   Eu sou Sepoo - disse o homem. - Um caçador famoso e um sábio de nomeada dos Bambutis.

-   E eu sou Pamba, a mulher do maior mentiroso da floresta do Ubomo - disse a mulher, rindo à gargalhada.

            Na manhã seguinte, Daniel já conseguiu comer um bocado do guisado de carne de macaco e ervas que Pamba preparou para ele. No outro dia, a infecção das costas estava a melhorar e ele sentia-se com forças suficientes para iniciar a viagem até Gondala.

A princípio, parecia-lhe ter a cabeça cheia de algodão.

Pamba conduzia-o vagarosamente pela floresta, tagarelando sem parar e intercalando as suas palavras com gargalhadas agudas. Sepoo ia mais adiante, caçando à maneira dos Bambutis.

Daniel já adivinhara a identidade da misteriosa Kara-Ki que enviara os Pigmeus para o salvar, mas fez mais perguntas a Pamba, tentando conseguir que ela descrevesse a sua protectora em pormenor.

            - Kara-Ki é muito alta - disse-lhe Pamba. Daniel compreendia que, para um bambuti, toda a gente é alta. - E tem um nariz comprido e afiado.

Todos os Bambutis tinham o nariz largo e achatado, por isso a descrição de Pamba podia ser aplicada a qualquer wazungu. Daniel desistiu, continuando a seguir a custo a mulherzinha.

            Chegaram a Gondala na tarde do outro dia. Os Pigmeus não tinham avisado Daniel de que estavam prestes a chegar, por isso, quando ele saiu da floresta, avistou de repente a pequena comunidade, com as hortas e o rio, de encontro ao fundo espectacular das grandes montanhas de picos nevados.

- Daniel! - cumprimentou-o Kelly quando ele subiu as escadas da varanda.

            Apesar de estar a contar encontrá-la, Daniel ficou surpreendido com o prazer que sentiu ao revê-la. Kelly tinha um ar fresco, atraente e cheio de vitalidade, mas Daniel sentiu que era acolhido com uma certa reserva quando ela avançou para lhe apertar a mão.

- Estava com receio de que Sepoo não o encontrasse a tempo... - Calou-se e deu um passo atrás. - Mas está côm péssimo aspecto! O que é que lhe aconteceu?

            - Obrigado pelo cumprimento - disse Daniel com um sorriso infeliz. - Mas para responder à sua pergunta, aconteceram-me muitas coisas desde a última vez que nos encontrámos.

            - Venha ao consultório para vermos como está.

            - Não posso tomar banho primeiro? Até eu me sinto mal ao pé de mim.

- Realmente, tem um cheiro bastante forte, mas isso é o que acontece com todos os meus doentes. Já estou habituada ­riu-se ela.

            Levou-o para o consultório e mandou-o deitar-se na marquesa. Examinou-o cuidadosamente, inspeccionou o ferimento das costas e depois disse:

- Pamba tratou-o muito bem. Vou dar-lhe uma injecção de antibiótico e depois de você tomar banho mudo-lhe o penso das costas. Devia ter levado uns pontos, mas agora já é tarde para isso. Vai ficar com mais uma cicatriz interessante para juntar às outras todas.

Começou a lavar as mãos numa bacia e sorriu-lhe por cima do ombro.

- Parece que você andou metido numas brigas.

- Mas foi sempre por culpa dos outros - garantiu-lhe Daniel. - A propósito de brigas, da última vez que nos encontrámos, você não deixou que eu me explicasse. Saltou para a moto sem me dar uma oportunidade.

            - Pois foi. É o meu sangue irlandês.

            - Posso explicar agora?

            - E se fosse tomar banho primeiro?

            A casa de banho era uma palhota, e a banheira, uma tina de zinco onde ele cabia à recta, encostando os joelhos à boca. Os criados do acampamento encheram-na com baldes de água fumegante, aquecida na fogueira lá fora. Trouxeram-lhe roupa para ele vestir: uns calções e uma camisa de algodão caqui e um par de sandálias de couro.

Kelly esperava-o no consultório depois de ele se vestir. - Que transformação! - exclamou quando ele apareceu. - Agora vamos tratar dessas costas.

            Daniel sentou-se na única cadeira que havia, e Kelly foi para junto dele. Era agradável sentir na pele as mãos leves e destras dela.

            - Ainda não lhe agradeci por ter mandado os seus pigmeus para me salvarem a vida - disse Daniel.

- Não tem de quê. Faz tudo parte do meu trabalho.

            - Como é que entrou no país? - perguntou-lhe Daniel. - E que raio está aqui a fazer? Se Taffari a apanha

            - Ah, isso quer dizer que já começou a descobrir a verdade acerca de Ephrem Taffari? Que ele não é o santo que você pensava?

- Não vamos discutir outra vez - implorou ele. – Ainda estou muito fraco para me defender.

            - Está bem. Venha jantar comigo. Tenho uma surpresa para si. Um convidado, uma pessoa que você não vê há muitos anos.

Ao pôr do Sol, atravessaram o recinto da clínica até à casa de Kelly, na outra ponta da clareira. Pararam uns minutos no caminho para admirar o pôr do Sol, que conferia um esplendor vermelho e dourado às Montanhas da Lua.

- Hei-de levar a recordação desta beleza para onde quer que vá no Mundo - murmurou Kelly. - É uma das coisas que me prende aqui.

            Daniel estava tão comovido com a reacção dela como com a grandiosidade da cena propriamente dita. Para manifestar a sua sintonia com ela, apeteceu-lhe pegar-lhe no braço e apertá-lo, mas absteve-se de o fazer, e ao fim de uns momentos continuaram o seu caminho.

A mesa estava posta na varanda do bungalow de Kelly, e uma figura solitária, que se encontrava sentada à mesa, levantou-se quando eles se aproximaram.

- Dr. Armstrong. Muito prazer em vê-lo novamente!

            Daniel ficou embasbacado a olhar para ele.

            - Ouvi dizer que tinha morrido, Sr. Presidente, que tinha tido um ataque cardíaco ou que Taffari o mandara executar.

            - A notícia da minha morte foi muito exagerada - comentou Victor Omeru com uma gargalhadinha, apertando a mão de Daniel.

- Encontrei uma garrafa de wissky na minha mala dos remédios - disse Kelly. - E hoje é uma ocasião auspiciosa para a usar. - Deitou uma pequena quantidade do líquido dourado nos copos deles e fez uma saúde. - Ao Ubomo! Que em breve seja libertado da tirania.

O jantar foi uma refeição simples de peixe do rio e de legumes das hortas de Gondala, mas a comida era abundante e a conversa à mesa foi sempre animada. Victor Omeru contou a Daniel como é que tinha sido derrubado do poder, a sua fuga para a floresta e as suas actividades depois disso.

- Com a ajuda de Kelly, consegui instalar em Gondala a sede da resistência à ditadura brutal de Taffari - concluiu. Mas Kelly insistiu com ele:

            - Victor, conte a Daniel o que Taffari fez ao país desde que se apoderou do poder. Daniel está convencido de que Taffari é um salvador. De resto, veio até cá para filmar uma peça exaltando as virtudes de Taf.......

- Não, Kelly - interrompeu Daniel. - Não era isso.

Aceitei a encomenda do filme por razões pessoais e particulares.

            Falou-lhes da morte de Johnny Nzou e da sua família, da implicação de Ning Cheng Gong nesses assassínios e de como ele seguira a pista do Dragão até ao Ubomo. Falou-lhes também de Chetti Singh.

            - Vou ser franco com os dois - disse finalmente. - Quando vim para aqui, não estava interessado em Taffari nem nos verdadeiros problemas do Ubomo. Queria vingar-me, e o contrato do filme era só um meio para alcançar esse fim. Mas depois da minha chegada, comecei a descobrir o que se passava realmente no país

            Falou-lhes da atrocidade da baía das águias-Pesqueiras e do trabalho forçado que testemunhara e filmara. Victor Omeru e Kelly trocaram um olhar, e depois Victor acenou com a cabeça e voltou-se para Daniel.

            - Taffari prendeu mais de trinta mil uhaíis para trabalharem nas minas e nos campos de exploração florestal. São escravos que vivem em condições terríveis. Estão a morrer como moscas nos campos, de fome, de pancada ou abatidos a tiro. Os horrores que lá se passam são indescritíveis.

- E está a destruir a floresta - interrompeu Kelly. - Está a destruir milhões de hectares de floresta tropical.

            - Vi a unidade mineira a trabalhar - disse Daniel. - Mas, nesse ponto, o que ele está a fazer está de acordo com as minhas convicções sobre a exploração controlada dos recursos naturais do país, na base de uma produção sustentável e renovável.

Kelly e Victor fitaram-no, assombrados, e depois Kelly exclamou indignada:

- Aprova o que ele está a fazer à floresta? Não está bom da cabeça! uma violação e uma pilhagem!

- Espere lá, Kelly - interrompeu Victor, levantando as mãos. - Não use essa linguagem inflamada. Deixe Daniel dizer-nos o que viu e o que filmou.

Kelly dominou-se, mas os seus olhos continuavam a chispar.

            - Está bem, Daniel Armstrong, diga lá o que é que Taffari lhe mostrou.

            - Mostrou-me uma unidade MOMU a trabalhar. Bonny e eu filmámo-la, e Taffari explicou que a faixa de floresta abatida pelo veículo ia ser replantada depois da sua passagem.

- Replantada! - exclamou bruscamente Kelly. - Valha-nos Deus! E também lhe falou dos reagentes químicos que eles começaram a usar nestas últimas semanas para refinar a platina quando passa pelos moinhos da MOMU?

- Sim - respondeu Daniel, com um aceno de cabeça. - Disse-nos que decidira que não fossem usados reagentes nem catalisadores no processo de mineração, embora isso tivesse como resultado uma quebra de quarenta por cento na produção de platina e monazite.

- E você acreditou'? - perguntou Kelly bruscamente.

            - Vi-o com os meus próprios olhos - respondeu Daniel. Começava a ficar irritado. - Filmei tudo. Claro que acreditei.

Kelly levantou-se de um pulo e foi buscar um mapa do Ubomo ao quarto do lado, estendendo-o na mesa em frente de Daniel.

- Mostre-me onde é que viu a MOMU em acção - ordenou.

Daniel pousou o dedo num ponto situado imediatamente a norte de Sengi-Sengi.

- Foi por aqui - disse. - Uns quilómetros a norte do acampamento.

- Foi levado! - exclamou Kelly, exaltada. – Taffari enganou-o. Mostrou-lhe o programa-piloto. Era uma montagem organizada especialmente para si. A operação mineira principal é aqui. - Assentou o punho em cima de uma zona situada cerca de oitenta quilómetros mais para norte. - Aqui, em Wengu. E é muito diferente daquilo que Taffari lhe mostrou.

- Diferente como? - perguntou Daniel.

- Não lhe diga, Kelly - interrompeu calmamente Victor Omeru.

- Se lhe mostrasse, era muito mais fácil convencê-lo.

Kelly ficou a olhar para Victor durante uns instantes e depois concordou com um aceno de cabeça.

- Tem razão. Vou levá-lo a Wengu. E já que lá vai, pode filmar tudo o que aquele bandido está a fazer à floresta e mostrar ao seu compincha, Sir Tug Harrison, se é que ele não está já a par de tudo.

            - Muito bem: eu podia de facto usar uma câmara, mas para isso era preciso que a tivesse. Onde é que sugere que eu procure uma câmara de vídeo no meio da floresta?

            - O que é feito da sua? - perguntou Kelly.

            - Bolas! - disse Daniel. - Tem razão. Deixei a câmara no Land-Rover. Se os rapazes do Taffari não o encontraram, ainda lá está.

            - Porque não vai lá buscá-la? Posso mandar Sepoo consigo.

- TROUXE-TE a cabeça do wazungu branco – anunciou dramaticamente Pirri, o caçador, atirando para os pés de Chetti Singh a saca de fibras vegetais entrançadas que trazia a tiracolo. Uma cabeça rebolou para fora da saca, e Chetti Singh recuou, enojado.

- Como é que eu sei que isso é a cabeça do wazungu branco? - perguntou imperiosamente Chetti Singh. - Esse homem morreu há muito tempo. Está meio comido pelas formigas e pelos vermes. Não foste tu que o mataste, Pirri.

- Não - confessou Pirri. - O estúpido wazungu comeu um cogumelo venenoso e morreu na floresta antes de eu o encontrar. As formigas jáo tinham comido, como tu dizes, mas trouxe-te a cabeça dele, que foi o que combinámos. - Pirri empertigou-se todo no seu metro e vinte de altura. - Agora, tens de me dar o que me prometeste, principalmente o tabaco.  

            Era uma esperança vã, como o próprio Pirri compreendia. Para obter aquela cabeça, Pirri exumara um dos cadáveres enterrados nas valas comuns escavadas na floresta pelos guardas hitas para os corpos dos trabalhadores-escravos que morriam.

            - Bo wazungu - afirmou Pirri.

Chetti Singh meditou no assunto durante uns instantes. - Leva isso - disse, tocando com o pé na cabeça malcheirosa. - Leva-a para a floresta e enterra-a.

            - E a minha recompensa? - perguntou Pirri num tom de voz implorante e insinuante.

            - Não me trouxeste a cabeça toda. Falta a pele e o cabelo. Por isso, não posso dar-te toda a recompensa. E só ta dou quando me trouxeres os dentes do elefante, como combinámos.

Pirri soltou um grito de raiva e sacou da catana.

- Guarda a faca, senão desfaço-te a cabeça com isto - disse Chetti Singh calmamente, mostrando ao pigmeu a pistola Tokarev escondida na algibeira da sua sariana.

            Pirri embainhou a catana.

- Vou-me embora, buscar os dentes do elefante, como tu mandaste. - Pegou na cabeça decepada. Quando desapareceu na floresta, Pirri estava tão furioso que pensou que rebentava de raiva. - Ninguém engana Pirri - murmurou, golpeando um tronco de árvore com a catana. - Pirri vai matar o homem que o enganou. Queres uma cabeça, homem maneta, e vou-te dar uma cabeça. A tua.

- DANIEL ARMSTRONG está morto - disse Chetti Singh. – O bambuti trouxe-me a cabeça dele. Morreu na floresta.

- Não há dúvida nenhuma? - perguntou o presidente Taffari.

            - Não há a menor dúvida - afirmou Chetti Singh.

- Isso quer dizer que a mulher é a única testemunha viva. Ning Cheng Gong parecia aliviado.

            - Temos de nos livrar dela imediatamente, Excelência.

- Não está a esquecer-se da videocassete? – perguntou Taffari.

            - Claro que não - disse Cheng. - Mas assim que ela recuperar a cassete que está na embaixada, temos de nos ver livres dela. - Hesitou.

-           Posso encarregar-me disso. - Ephrem Taffari sorriu-lhe.

            - A mulher já está a aborrecer-me. Desinteressei-me dela. Assim que recuperarmos a cassete, pode encarregar-se dela, mas assegure que não haja quaisquer erros.

            - A MINHA combinação com Daniel foi que ele a vinha buscar pessoalmente. - Sir Michael Hargreave foi até àjanela do seu gabinete da Embaixada Britânica e olhou para o lago. ­Daniel não me disse para a entregar a outra pessoa. Tem de compreender a minha posiçã.... -   hesitou - Miss Mahon.

A ventoinha do tecto rangia e zumbia, e Bonny puxou pela cabeça. Sabia que não podia mostrar-se muito ansiosa, apesar de estar plenamente consciente de quais seriam as consequências se aparecesse a Ephrem de mãos a abanar.

- Não percebi que ia haver problemas. - Levantou-se. - Não me lembrei de lhe pedir uma nota por escrito. De qualquer modo, obrigada pelo seu tempo. Eu explico a Daniel que o senhor achou que não devia entregar-me a cassete.

            Estendeu-lhe a mão e fez-lhe o seu sorriso mais sexy. Sir Michael hesitou e depois pareceu decidir-se.

- Bom, penso que não faz diferença. Ao fim e ao cabo, você é a assistente de Danny...

            - Não quero que faça nada que vá contra a sua consciência - disse-lhe Bonny. - Tenho a certeza de que Daniel vai entender que o senhor desconfiou de mim.

- Minha cara senhora, não é que eu desconfie de si...

            - Ah, pensei que era por isso. - Pestanejou provocantemente.

- Não se importa de assinar um recibo? Desculpe a insistência, mas tenho de dar uma explicação a Danny.

            - Claro, Sir Michael.

            O embaixador garatujou um recibo em papel da embaixada, e Bonny assinou-o, anotando o número do passaporte no fundo da página.

            Sir Michael foi até ao compartimento do lado, e Bonny ouviu-o enfiar uma chave na fechadura e depois o som metálico de um cofre de aço a abrir e a fechar. Minutos depois, Sir Michael voltou e entregou-lhe um volumoso envelope de papel pardo. Bonny tentou disfarçar o seu alívio.

            - Por favor, dê os meus melhores cumprimentos a Danny. Sir Michael acompanhou-a até à porta principal da embaixada. ­Quando é que ele volta de Sengi-Sengi?

- Vou ter com ele de avião esta tarde... - Bonny

controlava bem o seu nervosismo, conversando descontraidamente.

- Eu dou um cocktail no sábado que vem - disse Sir Michael. - Se você e Danny já estiverem de volta, têm de aparecer.

            Bonny dirigiu-se para o Land-Rover do Exército, onde o capitão Kajo a esperava ao volante. Sentou-se com o envelope no colo, agarrando-o com força, mas mesmo assim conseguiu fazer um último sorriso e um aceno de despedida a Sir Michael quando saíram os portões da embaixada. Depois, respirou fundo e descontraiu-se no assento.

- O presidente Taffari está à sua espera no iate, Miss Mahon - disse o capitão Kajo.

            Meteram pela estrada que seguia as margens do lago, dirigindo-se para o porto. O iate estava ancorado na doca da Marinha. Era um Camper and Nicholson de quinze metros, de curvas elegantes e equipado com todos os luxos.

Estavam dois homens na cabina sentados à mesa de teca vermelha do salão, um em frente do outro.

O presidente Taffari consultava o último relatório das operações da SDU, e Ning Cheng Gong observava-o na expectativa. Quando Taffari baixou o documento e olhou para ele, Cheng retribuiu-lhe o sorriso.

- Estou impressionado, Mr. Ning. Chegou há muito pouco tempo ao Ubomo para dirigir a empresa, mas os resultados são espectaculares.

- É muito amável, Excelência, mas posso dizer sem exagero que espero que melhorem muito mais nos próximos meses.

-,Eo depósito de manutenção dos veículos? – perguntou Taffari.

- É uma das minhas grandes preocupações.

- E com toda a razão, Sr. Presidente. Temos mais de mil veículos pesados ao serviço. Os nossos custos de manutenção ultrapassavam os três milhões de dólares mensais quando eu tomei posse. Como vê, consegui reduzi-los em perto de quarenta por cento

            Alguém bateu delicadamente à porta.

            - Quem é? - perguntou Taffari.

- É o capitão Kaj o, Sr. Presidente, e Miss Mahon. Taffari olhou para Cheng, e o chinês assentiu com a cabeça.

            - Entrem! - ordenou Taffari.

            A porta deslizou para o lado, abrindo-se. Bonny irrompeu na cabina e dirigiu-se directamente a Taffari, ignorando o outro homem sentado à mesa.

            - Já a tenho, Ephrem - gabou-se. - Está aqui. - Colocou o envelope na mesa à frente de Taffari, e este pegou-lhe, abriu-o e tirou de lá a videocassete. - É mesmo essa.

            - Muito bem, estou muito satisfeito contigo - disse-lhe Taffari.

- Vem sentar-te aqui ao pé de mim, minha querida.

Bonny aceitou pressurosamente o convite, e Taffari pôs-lhe a mão em cima da coxa, por baixo da mesa.

            - Capitão Kajo - ordenou. - Há uma garrafa de champanhe no frigorífico. Temos de comemorar o acontecimento.

            Kajo foi até ao bar e afadigou-se com a garrafa. A rolha saltou e o jacto de espuma molhou o tapete. Kajo estava de costas voltadas para eles, tapando a fila de copos alinhados em cima do balcão do bar, enquanto servia o champanhe. Deu o primeiro copo a Bonny e depois serviu os outros.

            Taffari ergueu o copo para Bonny.

            - à tua saúde, minha querida. Salvaste-me a mim e ao meu país de uma situação que nos podia ser prejudicial.

            - Obrigada, Sr. Presidente.

            Bonny bebeu um gole de champanhe. Notou que lhe deixava um travo amargo na boca, mas não disse nada, porque aprendera a não dar a Taffari o menor pretexto para se zangar com ela. E quando Kajo lhe encheu novamente o copo, bebeu o champanhe sem hesitar.

- Pensei fazer um cruzeiro no lago até ao pôr do Sol - disse-lhe Taffari.

            Bonny sorriu-lhe, mas tinha a cara dormente.

            - Isso era óptimo - tentou dizer. A sua voz estava arrastada e entaramelada. Calou-se e olhou para eles. As caras dos homens estavam a desaparecer, tinha a cabeça a zunir e via tudo escuro. Parecia que olhava para a cara de Ephrem pela ponta contrária do telescópio; estava cada vez mais pequena e afastada. O estrondo da voz dele ecoou-lhe no cérebro drogado.

- Adeus, minha querida - dizia.

            A cabeça de Bonny caiu para cima da mesa.

O presidente Taffari pegou nos seus papéis e arrumou-os na pasta. Levantou-se, e Kajo abriu a porta para ele sair. Taffari parou na ombreira e olhou para trás. Ning Cheng Gong continuava sentado em frente da rapariga inconsciente, olhando-a com uma intensidade estranha.

            - Ah, Miss Mahon - disse Cheng numa voz rouca e excitada. - Vamos divertir-nos um bocado os dois antes de morrer.

            DANIEL e Sepoo entenderam-se imediatamente. Era um acordo espiritual, decidiu Daniel, que seguia Sepoo através da floresta. Eram ambos filhos de África; o continente pulsava-lhes nas veias, a sua alma era a alma deles. Compreendiam e amavam a beleza selvagem daquela terra e apreciavam ambos a sua generosidade,

            Nessa noite, quando acamparam, sentaram-se ao lado um do outro, junto da fogueira, e conversaram baixinho. Sepoo falou-lhe dos segredos e do mistério da floresta e Daniel compreendeu-o. Sepoo chamava-lhe Kuokoa, ou "aquele que eu salvei". Daniel aceitou o nome, apesar de saber que o velho lhe queria lembrar assim a sua dívida.

            Chegaram no fim da tarde à pista aberta pela MOMU perto de Sengi-Sengi e deitaram-se junto à orla da floresta até anoitecer. Depois, atravessaram o espaço descoberto na escuridão.

            Sepoo levou Daniel até à estrada florestal onde deixara o Land-Rover quase dez dias antes. Encontraram-no exactamente como Daniel o tinha deixado, por detrás de mato denso, enterrado até aos eixos no solo mole da floresta.

            O equipamento de video continuava guardado nos estojos de alumínio. A câmara não funcionava; ou as pilhas estavam gastas por terem ficado tanto tempo sem funcionar, ou a humidade penetrara no mecanismo. Era uma desilusão, mas Daniel esperava que fosse possível recarregar as baterias ou que, quando chegasse a Gondala, uma limpeza e uma secagem rudimentares pusessem novamente a câmara a funcionar. Entregou o estojo das cassetes a Sepoo e levou ele a câmara e as lentes.

            Estavam muito carregados e levaram o dobro do tempo na volta, além de que choveu praticamente o tempo todo. Assim que chegaram a Gondala, Daniel recrutou a ajuda de Victor Omeru. Sabia que Victor era engenheiro electrotécnico.

Victor carregou as baterias da câmara de vídeo e descobriu que só uma delas estava avariada. Mas a câmara e a lente eram outro problema mais grave. Desmontou a câmara e limpou a humidade condensada. Verificou os circuitos, constatou que um dos transístores estava avariado e substituiu-o por outro, extraído do espectroscópio de Kelly. Ao fim de vinte e quatro horas, tinha a câmara novamente a funcionar.

            - Muito bem - disse Daniel. - E agora o que é que querem que eu filme?

- Saímos amanhã de madrugada, ao romper do dia – disse Kelly.

            - Eu também vou, Kelly - declarou Victor Omeru.

            - Acho que isso é pouco prudente, Victor - respondeu ela, hesitante. - A sua pessoa é demasiado preciosa.

            - Tenho trabalhado tanto que mereço uma pequena recompensa, não acha? - Voltou-se para Daniel. - Além de que o seu equipamento pode avariar-se outra vez. Vá, Dr. Armstrong, ajude-me!

            Daniel abanou a cabeça. Partilhava dos receios de Kelly. Victor Omeru tinha mais de setenta anos e a viagem seria dura. Eram quase oitenta quilómetros até Wengu. Ia dizer isso mesmo quando Victor observou em voz baixa:

- A sério, o Ubomo é o meu país. Não me posso fiar em relatórios de terceiros. Tenho de ver com os meus próprios olhos o que Taffari está a fazer ao meu povo e ao meu país.

Nenhum deles foi capaz de o contrariar, e quando o safari partiu de Gondala, na madrugada seguinte, Victor Omeru acompanhava-o.

            Sepoo recrutara oito homens do seu clã como carregadores, e Pamba assumiu a direcção da caravana para ter a certeza de que eles iam na linha. Todos os homens do clã tinham muito respeito à língua de Pamba.

            No TERCEIRO dia, chegaram ao primeiro dos rios ensanguentados, e os carregadores bambutis assentaram a carga no chão e acocoraram-se na margem. Não se ouviam risadas ou brincadeiras, e a própria Pamba estava calada e sucumbida.

Daniel desceu ao pântano fétido de lama vermelha, animais mortos e vegetação envenenada e pegou numa mão-cheia de lama. Cheirou-a e depois atirou-a fora, tentando lavar a tinta das mãos. Olhou para Kelly, que estava mais acima, na margem, e perguntou:

            - O que é isto, Kelly? Qual é a causa disto?

- É o reagente que Taffari lhe jurou que não ia usar.

- Em que é que consiste este reagente? – perguntou Daniel.

            - É arsénico. - Kelly pronunciou a palavra com rancor. ­Estão a usar uma solução de arsénico a dois por cento para decompor a camada exterior de sulfureto e para libertar a platina.

Daniel olhou para ela, incrédulo.

            - Mas isso é uma loucura!

            - Pode crer - concordou Kelly. - Esta gente não é razoável nem responsável. Estão a envenenar a floresta, numa orgia de ganância mortífera.

            Daniel saiu de dentro do rio envenenado e veio para junto dela. Foi invadido por uma onda de indignação.

            - Bandidos! - murmurou.

            Kelly pareceu compreender que Daniel naquele momento tomara partido pela sua causa e estendeu o braço, pegando-lhe na mão. Mas não era um gesto de ternura ou afeição: apertou-lhe a mão quase com ferocidade.

            - E ainda não viu tudo. Isto é só o princípio. O verdadeiro horror começa mais adiante, em Wengu. - Abanou-lhe imperiosamente o braço. - Venha!

            A pequena coluna continuou o seu caminho, e, ao fim de mais cinco horas de marcha, os carregadores bambutis pararam repentinamente e começaram a segredar uns com os outros.

            - E agora o que é que foi? - perguntou Victor.

- Chegámos ao limite do território de caça do clã - explicou Kelly. - Daqui em diante, vamos entrar no coração sagrado da terra dos Bambutis. Até agora, só Sepoo é que viu o que se passa em Wengu. E os outros hesitam em avançar. Receiam a ira da Mãe e do Pai da floresta. Percebem que foi cometido um sacrilégio e estão aterrados.

- O que é que havemos de fazer para os convencer? - perguntou Daniel.

            - Não podemos meter-nos nisto - replicou Kelly, abanando a cabeça. - É um assunto do clã. Temos de deixar que Pamba os convença.

A velhota estava a fazer todos os possíveis. Falava com os homens, ora discursando em voz aguda, ora baixando a voz até se parecer com o arrulho de uma pomba, colocando-lhes as mãos em volta da cara para lhes falar ao ouvido.

            Ao fim de uma hora, um dos carregadores pegou subitamente no seu fardo e começou a avançar pelo caminho. Os outros seguiram-lhe o exemplo, e o safari continuou em direcção ao coração sagrado da floresta.

            Ouviram as máquinas na madrugada do dia seguinte, e o som foi-se tornando mais intenso à medida que avançavam. Nos rios que atravessavam, a água chegava-lhes à cintura e era viscosa como mel, atulhada de lama vermelha venenosa. Para além do ronco distante das máquinas, a floresta estava silenciosa. Não viram aves, macacos nem antílopes, e os bambutis avançavam também em silêncio. Ao meio-dia, Sepoo mandou parar a coluna e conferenciou com Kelly. Apontou para leste, e Kelly assentiu com a cabeça, fazendo sinal a Victor e a Daniel para se aproximarem.

            - Sepoo diz que agora já estamos muito perto. As máquinas estão a trabalhar poucos quilómetros à nossa frente. Não podemos aproximar-nos mais, porque há guardas da empresa na orla da floresta. A leste, há uma enfiada de colinas. Podemos avistar daí a zona da mina e da exploração madeireira. Pamba fica aqui com os carregadores. Vamos só nós quatro até às colinas. Vamos, antes que se faça noite ou que comece outra vez a chover - ordenou.

Subiram as colinas em fila indiana, com Sepoo à frente.

Mas mesmo quando chegaram ao ponto mais alto, a floresta tapava-lhes a vista. Ouviam o ronco dos motores diesel lá em baixo, mais forte e mais próximo do que nunca.

            - E agora? - perguntou Daniel. - Daqui não se vê nada.

            - Sepoo vai levar-nos para a tribuna de honra - prometeu Kelly.

            Assim que disse estas palavras, chegaram à base de uma árvore que era um gigante no meio de uma floresta de grandes árvores.

- Vinte pigmeus de mãos dadas não conseguem dar a volta ao tronco desta árvore - murmurou Kelly. - Já experimentámos. É a árvore sagrada do mel da tribo.

Os pigmeus tinham cravado estacas de madeira no tronco maciço para chegar aos ramos mais baixos, e mais para cima tinham atado cordas de liana aos ramos para fixar degraus de madeira, que subiam até desaparecerem nas galerias superiores da floresta, trinta metros acima do lugar onde se encontravam.

- É um templo bambuti - explicou Kelly. - Rezam e fazem oferendas ao deus da floresta, lá em cima, nos ramos mais altos.

Sepoo subiu primeiro, porque era o mais leve, e algumas das estacas e dos degraus estavam podres. Cortou outros e enterrou-os no tronco, martelando-os com o cabo da catana e fazendo depois sinal aos outros para subirem. Kelly foi a seguir, estendendo a mão para ajudar Victor quando ele fraquejava. Daniel vinha na cauda, com a câmara ao ombro, e ajudava Victor a pôr os pés nos degraus quando ele não os encontrava sozinho.

à medida que subiam, a luz mudava. O brilho verde submarino aclarava e de repente saíram para a luz do Sol. Estavam nos ramos superiores da árvore sagrada do mel.

Olharam para baixo, para o tapete da floresta, que se estendia a perder de vista, ondulando como as vagas do oceano, verde e contínuo para todos os lados, menos para norte. Voltaram os olhos nessa direcção, e as exclamações de admiração morreram-lhes na garganta, ao mesmo tempo que fitavam, pasmados, a visão horrível e quase inacreditável.

A norte, a floresta desaparecera. Desde o sopé da colina verde onde se encontravam até aos contrafortes das montanhas cobertas de neve, a floresta fora destruida. Uma planície vermelha desolada estendia-se agora onde se haviam erguido em tempos as grandes árvores verdes. Era uma paisagem lunar desértica.

            - Valha-nos Deus! - Victor Omeru foi o primeiro a falar. - É uma abominação! Quanta terra é que ele poluiu?

- É impossível calcular - murmurou Kelly. - E não se esqueça de que eles só andam a trabalhar aqui há menos de um ano. Pense na destruição que pode haver dentro de mais um ano se deixarmos estes monstros... - apontou para a fila de veículos MOMU alinhados junto à orla da floresta, no sopé da colina - se os deixarmos continuar.

            Daniel teve de fazer um esforço para despegar os olhos do espectáculo daquela destruição em grande escala para os concentrar na fila de máquinas amarelas. Contou-as.

            - oito, nove, dez! - exclamou. - Se trabalharem lado a lado, têm uma largura de corte de cerca de seiscentos metros.

- Parece impossível que dez máquinas tenham infligido prejuízos tão terríveis - disse Victor com a voz a tremer. ­Parecem gafanhotos gigantes, implacáveis, terríveis.

Sepoo, empoleirado num ramo ao lado de Daniel, chorava.

As lágrimas corriam-lhe lentamente pelas faces enrugadas e pingavam-lhe no peito.

            Daniel fez deslizar do ombro a correia da câmara, levou a máquina aos olhos e começou a filmar a planície vermelha, nua e devastada, onde não restava um único ser vivo. Filmou a fila de máquinas amarelas, avançando inexoravelmente. Filmou o veneno vermelho que era cuspido pelas calhas das traseiras dos veículos e que caía descuidadamente no chão para ser arrastado pela próxima chuvada, que o espalharia por todos os rios e riachos num raio de cento e cinquenta quilómetros. Filmou a queda das árvores à frente da fila de máquinas amarelas. Filmou as hordas de escravos uhalis nus, trabalhando na lama vermelha para manter as estradas transitáveis para os grandes camiões com os seus atrelados, que levavam para longe os tesouros saqueados na floresta.

Quanto mais olhava para toda aquela destruição, mais furioso ficava, até que a sua raiva igualou a da mulher sentada no ramo a seu lado. Kelly não precisava de expandir a sua indignação. Ele sentia-a no ar carregado à volta dela. Não se espantou de estar tão bem sintonizado com os sentimentos de Kelly. Estavam muito próximos um do outro. Forjara-se um novo laço entre eles, reforçando a atracção mútua que já existia.

Ficaram na árvore até ao anoitecer, incapazes de se arrancarem ao fascínio terrível daquele espectáculo. Ouviam os motores a roncar na noite e olhavam para os holofotes que inundavam a floresta e a planície vermelha devastada com uma luz tão forte como a do dia. Aquilo nunca parava: as máquinas cortavam, escavavam, roncavam e cuspiam a morte e o veneno noite e dia.

            Quando recomeçou a chover e os relâmpagos e os trovões ribombaram acima das suas cabeças, desceram da copa da árvore e dirigiram-se, lenta e tristemente, para o lugar onde Pamba os esperava com os carregadores na floresta.

            De manhã, iniciaram a jornada de regresso a Gondala pela floresta húmida e silenciosa, parando apenas para Daniel filmar os rios poluídos. Os carregadores bambutis estavam tristes e desanimados. Apesar de não terem visto a mina, Sepoo descrevera-a e eles tinham visto os rios a sangrar. E antes de chegarem à fronteira entre o coração sagrado da floresta e o seu território de caça tradicion