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A CASA DAS SETE MULHERES / Leticia Wierzcbowski
A CASA DAS SETE MULHERES / Leticia Wierzcbowski

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A CASA DAS SETE MULHERES

 

A Guerra dos Farrapos, ou Revolução Farroupilha (1835-1845) — a mais longa guerra civil do continente — , foi uma luta dos latifundiários rio-grandenses contra o Império brasileiro.

As complexas razões do levante estão nos livros de História.

O que não está nos livros de História sobre essa guerra brasileira está neste livro de Letícia Wierzchowski. Porque A casa das sete mulheres é um exercício totalizador sobre a violência da guerra - de qualquer guerra - e sua influência maléfica sobre o destino de homens e de mulheres.

O líder do movimento, general Bento Gonçalves da Silva, isolou as mulheres de sua família em uma estância afastada das áreas em conflito, com o propósito de protegê-las. A guerra que se esperava curta começou a se prolongar. E a vida daquelas sete mulheres confinadas na solidão do pampa começou a se transformar...

Somente um talento literário instintivo e visceral poderia conduzir essa narrativa claustrofóbica e íntima com o sopro épico que varre as páginas do livro. As mulheres daquela casa viviam naturalmente na expectativa das notícias da guerra, que demoravam e eram lentas como as estações que se sucediam. Cartas, recados, bilhetes escritos às pressas trazidos por solitários mensageiros com meses de atraso não bastavam para redimir da solidão. A solidão sufoca. A solidão enlouquece.

As mulheres adoecem de solidão. As mulheres rezam. As mulheres esperam.

Para contar essa história, Letícia transpõe todas as fronteiras.

História e ficção, realidade e fantasia, o natural e o sobrenatural se interpenetram no cotidiano das sete mulheres, cada dia mais violento e sufocante e imutável.

 

 

 

No dia 19 de setembro de 1835 eclode a Revolução Farrou­pilha no Continente de São Pedro do Rio Grande. Os revolucio­nários exigem a deposição imediata do presidente da província, Fernandes Braga, e uma nova política para o charque nacional, que vinha sendo taxado pelo governo, ao mesmo tempo em que era reduzida a tarifa de importação do produto.

O exército farroupilha, liderado por Bento Gonçalves da Silva, expulsa as tropas legalistas e entra na cidade de Porto Alegre no dia 21 de setembro.

A longa guerra começa no pampa.

Antes de partir à frente de seus exércitos, Bento Gonçalves manda reunir as mulheres da família numa estância à beira do Rio Camaquã, a Estância da Barra. Um lugar protegido, de di­fícil acesso. É lá que as sete parentas e os quatro filhos peque­nos de Bento Gonçalves devem esperar o desfecho da Grande Revolução.

 

Cadernos de Manuela

O ano de 1835 não prometia trazer em seu rastro luminoso de co­meta todos os sortilégios, amores e desgraças que nos trouxe. Quando a décima segunda badalada do relógio da sala de nossa casa soou, cor­tando a noite fresca e estrelada como uma faca que penetra na carne tenra e macia de um animalzinho indefeso, nada no mundo pareceu se travestir de outra cor ou essência, nem os móveis da casa perderam seus contornos rígidos e pesados, nem meu pai soube dizer mais pala­vras do que as que sempre dizia, do seu lugar à cabeceira da mesa, olhando-nos a todos nós com seus negros olhos profundos que hoje já perderam há muito o seu viço, a sua luz e a sua existência de olhos de homem do pampa gaúcho que sabiam medir a sede da terra e a chuva escondida nas nuvens. Quando o relógio cessou de soar o seu grito, a voz de meu pai se fez ouvir: "Que Deus abençoe este novo ano que a vida nos traz, e que nesta casa não falte saúde, alimento ou fé." Todos nós respondemos: "Amém", erguendo bem alto nossos copos, e nisso não houve ainda nada que pudesse alterar o curso dos acontecimentos que nos regiam tão dolentemente os dias naquele tempo. Minha mãe, em seu vestido de rendas, os cabelos presos na nuca, bonita e correta como era sempre, começou a servir a família com os quitutes da ceia, sendo seguida de perto pelas criadas, e poucos segundos depois, quando do relógio não mais se ouvia um suspiro ou lamento, tudo em nossa casa recobrou a antiga e inabalável ordem. Risos e ponches. A mesa iluminada por ricos candelabros estava farta e repleta da família: mi­nhas duas irmãs, Antônio, meu irmão mais velho, o pai, a mãe, D. Ana, minha tia, acompanhada de seu marido e dos dois filhos barulhentos e alegres, meu tio, Bento Gonçalves, sua mulher de lindos olhos verdes, Caetana, a prima Perpétua e meus três primos mais velhos, Bento Fi­lho, Caetano e, à minha frente, olhando-me de soslaio de quando em quando, com os mesmos pequenos olhos ardentes do pai, Joaquim, a quem eu fora prometida ainda menina, e cuja proximidade me causa­va um leve tremor nas mãos, tremor este que eu conseguia disfarçar com galhardia, ao segurar os pesados talheres de prata que minha mãe usava nos dias de festa. Os filhos pequenos de meu tio Bento e de sua esposa estavam lá para dentro, com as negras e as amas, decerto que já dormiam, pois essas coisas de esperar o Ano não eram lá para os que ainda usavam fraldas.

Foi exatamente assim que o ano de 1835 veio pousar entre nós. Havia no ar, fazia já algum tempo, um leve murmúrio de insatisfação, umas queixas contra o Regente, umas reuniões misteriosas que ora sucediam-se no escritório de meu pai, muito escusas, ora arrancavam-no de nossa casa por longas tardes e madrugadas. Porém, como disse, naquela noite tenra e tépida de princípios de janeiro, nenhum dos pre­sentes àquela mesa parecia carregar qualquer sombra que lhe turvas­se os olhos. Joaquim, vindo do Rio, juntamente com os irmãos, para rever a família, deitava-me longos olhares, como a dizer que eu não me esquecesse que era sua, que o tempo por ele passado para as bandas da Capital fora bom para comigo: eu via em suas retinas negras um brilho de satisfação — a prima que lhe cabia era bela, a vida era bela, éramos todos jovens, e o Rio Grande era uma terra rica, terra da qual nossas famílias eram senhoras. Distante de mim, tio Bento e meu pai riam e bebiam à solta, homenzarrões de vozes trovejantes, de alma lar­ga. As mulheres ocupavam-se com seus assuntos menores, seus anseios, não reles em tamanho, pois dessa delicada fímbria feminina é que são feitas as famílias e, por conseguinte, a vida; falavam dos filhos, do ca­lor do verão, dos partos recentes; tinham um olho posto nas conversas, os risos doces, a alegria; porém, com o outro fitavam seus homens: tudo o que lhes faltasse, de comer ou de beber, do corpo ou da alma, eram elas que proviam.

Assim seguia a noite, estrelada e calma. A prima Perpétua e minhas irmãs não se cansavam de falar em bailes, em passeios de charrete, em moços de Pelotas e de Porto Alegre. Vieram os doces dar vez às car­nes, a ambrosia brilhava feito ouro em seu recipiente de cristal, a comilança seguia seu ritmo e seu passo, o ponche era bebido aos sorvos para espantar o calor das conversas e dos anseios. O ano de 1835 estava entre nós como uma alma, a barra de suas saias alvas acarinhava minha face como um sopro; 1835 com suas promessas e com todo o medo e a angústia de seus dias ainda sendo feitos na oficina da vida. Nenhum dos que ali estavam sequer viu o seu vulto ou ouviu sua voz de mistérios, abafada constantemente pelo ruídos dos talheres e pelos risos. Só eu, sentada em minha cadeira, ereta, mais silenciosa do que de costume, somente eu, a mais moça das mulheres daquela mesa, pude ver um pouco do que nos aguardava. A minha frente, Joaquim sorria, contava um caso do Rio de Janeiro com sua voz alegre de moço. Sob a névoa dos meus olhos, eu mal podia percebê-lo. Via, isso sim, agar­rado ao mastro de um navio, um outro homem, mais velho, de cabelos muito loiros, não negros como os de meu primo, de olhos doces. E via as ondas, a água salgada comprimia minha garganta, afogando-me de susto. E via sangue, um mar de sangue, e o minuano começou então a soprar somente para os meus ouvidos. O vulto do novo ano, pálido e feminil, estendeu então sua mão de longos dedos. Pude ouvi-lo dizen­do que eu fosse para a varanda, ver o céu.

— Está tão quieta, Manuela — a voz de minha irmã Rosário le­vou embora de meus ouvidos o sopro cruel do vento de inverno.

— Não é nada — disse eu, sorrindo um riso débil.

E saí da mesa, fazendo uma mesura discreta, à qual Joaquim retri­buiu com um largo sorriso que, de tão puro, me trouxe lágrimas aos olhos. Deslizei então para a varanda, donde podia ver a noite calma, o céu estrelado e límpido que se abria sobre tudo, campo e casa, derramando no mundo uma luz mortiça e lunar. De onde estava, podia ain­da ouvir o vozerio de todos lá dentro, e mais ainda seus risos alegres, as frases soltas e despreocupadas, não se falava em gado nem charque, pois era noite de festa. Como não percebem?, foi o que pensei com toda a força da minha alma. E, no entanto, o campo à minha frente, úmido de orvalho e florido aqui e ali, parecia ser o mesmo de todos os meus anos. E foi então que vi, para as bandas do oriente, a estrela que descia num rastro de fogo vermelho. E não era o boitatá que vinha buscar meus olhos arregalados, era sangue, sangue morno e vivo que tingia o céu do Rio Grande, sangue espesso e jovem de sonhos e de coragem. Um gosto amargo inundou minha boca e tive medo de morrer ali, pos­tada naquela varanda, aos primeiros minutos do novo ano.

Dentro da casa, a festa prosseguia, alegre. Eram quinze pessoas em torno da mesa posta, e nenhuma delas viu o que eu vi. Foi por isso que, desde essa primeira noite, eu já sabia de tudo. A estrela de sangue confidenciou-me este terrível segredo. 1835 abria suas asas, ai de nós, ai do Rio Grande. E eu, fadada a tanto amor e a tanto sofrimento. Mas a vida tinha lá seus mistérios e suas surpresas: nenhum de nós naquela casa voltaria a ser o mesmo de antes, nem os risos nunca mais soariam tão leves e límpidos, nunca mais aquelas vozes todas reunidas na mes­ma sala, nunca mais.

"Do mesmo sonho que se vivia, também se podia morrer", ocor­reu-me isto naquela noite, num susto, como um pássaro negro que pousa numa janela, trazendo sua inocência e seus agouros. Muitas outras vezes, nos longos anos que se seguiram, tive oportunidade de me recordar dessa estranha frase que ouvi outra vez, algum tempo mais tarde, na voz adorada de meu Giuseppe, e que repetia o que eu mesma já tinha dito ao ver uma fresta do futuro... Talvez tenha sido exatamente nessa noite que tudo começou.

Manuela.

 

1835

A Estância da Barra era de propriedade de D. Ana Joaquina da Silva Santos e do seu esposo, o senhor Paulo, que na noite de dezoito de setembro de 1835 reunira-se, juntamente com seus dois filhos, Pedro e José, às tropas do coronel Bento Gonçalves da Silva. A Estância da Barra ficava na ribeira do Arroio Grande, às margens do Camaquã, a doze léguas da Estância do Brejo, esta de propriedade de D. Antônia, irmã mais velha de Bento e D. Ana. A Estância do Brejo também situava-se às margens do Rio Camaquã e possuía um imenso laranjal, famoso entre todas as crianças da família Silva.

Na manhã do dia dezenove de setembro daquele ano, sob um céu tão azul e plácido onde, ora aqui, ora ali, finíssimas nuvens de renda branca repousavam, isto formando um conjunto tão delicado quanto o de uma rica toalha de mesa bordada por hábeis dedos e estendida so­bre tudo, arvoredo, rios, açudes, bois e casario, a Estância da Barra estava em polvorosa. Naquela mesma tarde, chegariam para longa es­tada as sete mulheres da família, carregadas com suas mui extensas bagagens, com as suas negras de confiança, criadas e amas-de-leite, pois junto vinham, em alegre confusão, os quatro filhos pequenos de Bento Gonçalves e Caetana, sendo que Ana Joaquina, a mais pequenina de todos, estava para completar seu primeiro ano por aqueles dias, e ain­da mamava na teta da negra Xica.

Na manhã daquele dia, D. Antônia, tendo recebido por um pró­prio a notícia da chegada de suas parentas, e tendo tomado também conhecimento dos intentos de seu mui amado e estimado irmão, que marchava para tomar a cidade de Porto Alegre, acordou mais cedo do que de costume e foi até a estância vizinha dar as ordens necessárias a D. Rosa, a caseira, e mandar que se fizesse de um tudo de comer e de beber, pois decerto que Ana, Maria Manuela e Caetana, mais as qua­tro moças e os pequenos, vindos de viagem desde Pelotas, tirante as angústias que por certo lhes açoitavam as almas, haveriam de chegar à casa varados de fome, até porque os moços e as crianças têm mesmo muito apetite, ao contrário de gente já mais velha, como ela mesma, a quem basta um bom prato de sopa e um assado à hora da ceia.

D. Antônia contava, naquele ano de 1835, a sua quadragésima nona primavera, era apenas três anos mais velha do que seu irmão Bento e, como ele, tinha também aquela consistência firme de carnes, os mes­mos olhos negros, espertos e doces, a mesma voz calculada, e idêntica capacidade de rejuvenescimento. Era uma mulher alta e magra, ainda de rosto liso, cabelos negros sempre presos no mesmo coque de três grampos, vestia-se sempre em tons discretos, mas seus vestidos eram campeiros: nunca fora afeita das cidades, vivendo sempre em sua es­tância, com seus cavalos, seus pomares e seus pássaros, isso desde que ficara viúva do casamento com Joaquim Ferreira, moço a quem ama­ra com todo o seu espírito, advogado, e que morrera numa carreira de cavalos, tendo caído da montaria e, com a espinha partida, vindo a fa­lecer assim, na mesma hora. D. Antônia tinha então vinte e sete anos e nenhum filho, e assim continuara a sua vida inteirinha. De Pelotas, onde fora viver após o casamento, voltara para a Estância do Brejo e lá fica­ra gastando seus anos; dos filhos que não parira, quase não sentia qual­quer falta: tinha para mais de doze sobrinhos e com isso se bastava muito bem.

Enquanto a pequena charrete vencia as milhas necessárias, sob o agradável sol de setembro, D. Antônia media uma certa felicidade em seu peito; vinham as duas irmãs e a cunhada, e vinham as sobrinhas moças e os pequenos, teria boas companhias por uma temporada, ou pelo tempo que durasse a guerra. Guerra, essa palavra teve a força de causar-lhe um longo arrepio. O irmão começava uma guerra contra o Império, contra a tirania do Império, contra os altos preços do charque e o imposto do sal. Bento começava uma guerra contra um rei, e isso a enchia de aflição e de orgulho. Recebera a sua carta ainda naquela al­vorada, e lera-a enquanto sorvia o seu mate. A erva e as palavras do irmão tinham lhe deixado um gosto amargo e um calor morno no cor­po. E então, enquanto mandava servir pão e mate para o portador do bilhete, um gaúcho calado e de longos bigodes que a fitara com o res­peito devido à irmã de um coronel, pegara da sua pena e escrevera: "Que Deus e a Liberdade lhe acompanhem, meu irmão. Pode deixar Caetana e as outras sob os meus cuidados e os de Ana. A Estância do Brejo e os meus peões são seus quando precisar. Sua Antônia." De­pois disso, recobrara alguma paz. Bento nascera para as guerras. E ela, como as outras, sabia esperar com paciência. Bento tinha estado nas guerras quase a maior parte da sua vida, e sempre voltara. Não era um homem feito para morrer, como o seu pobre Joaquim.

D. Rosa era uma cabocla de idade indefinida, carnes enxutas e sorriso cordial. Trabalhava para os Gonçalves da Silva desde que se vira em pé, assim como sua mãe, e ali naquelas terras à beira do Camaquã pas­sara os últimos trinta anos de sua vida, sovando o pão, mexendo a tina de marmelada, a tina de pessegada, o doce de abóbora, zelando pela casa da estância, pelos jardins, pelos bichos do quintal, pelos empre­gados e pelos negros de dentro. Era ela quem cuidava da cozinha e dos quartos, era ela quem conhecia os gostos de D. Ana e dos seus meninos, os jeitos de servir o mate para o senhor Paulo, o tempero das comidas que o senhor Bento mais apreciava quando vinha ali a cami­nho das suas cavalhadas ou para rever a família da irmã.

Quando D. Antônia surgiu, ainda muito cedo, com a notícia da chegada dos outros, D. Rosa não se inquietou: estava tudo arreglado, os quartos todos limpos; os cinco quartos destinados às visitas tinham os lençóis alvos ainda cheirando a alfazema, as cortinas abertas para deixar o sol da primavera entrar nas peças ainda ressentidas do úmido inverno, as jarras com água fresca e limpa repousavam sobre cada cô­moda. O quarto da patroa também estava ao seu gosto, pois D. Rosa tinha sempre em mente que o dono da casa podia aparecer quando bem lhe aprouvesse, e D. Ana tinha muita satisfação na primavera da es­tância, no perfume dos jasmins e das madressilvas, no canto dos curiangos que rasgava o céu das noites estreladas.

— São treze que chegam, contando com as três negras, D. Rosa. Me arrume acomodação para elas também, no quarto grande do quintal, junto com as outras da casa. — Antônia depois pensou um pouco, se não faltava ninguém, recordando mentalmente a lista que Bento lhe fizera com toda a sua gentileza, para que ela não fosse pega em despre­paro, e disse: — Vem com eles também o Terêncio, mas esse não sei se fica ou se volta para as terras do Bento. Ah, e tem os pequenos, é pre­ciso um quarto para os dois meninos de Caetana, e outro para as meni­nas pequenas. Acho que a negra Xica fica com elas à noite, veja bem isso.

D. Rosa assentiu, tranqüilamente. Com um seu chamado, Viriata e Beata apareceram, vindas da cozinha. D. Rosa deu-lhes algumas or­dens: arrumassem os quartos dos pequenos, pusessem os dois berços que ficavam lá na despensa num outro quarto, para as meninas de D. Caetana. E mandassem Zé Pedra cortar mais lenha, as noites ainda eram bem frias por ali e precisavam aquecer a casa toda.

D. Antônia achou tudo por resolvido, depois disse:

— Vou lá para a varanda da frente. Não demora elas chegam, e quero recebê-las. Mande alguém me levar um mate.

Saiu em passos rápidos, adentrando o corredor da cozinha. Conhe­cia bem aquela casa, desde meninota, tudo ali era um pouco seu tam­bém. D. Rosa saiu para dar jeito nos seus afazeres, não sem antes avisar Viriata que levasse o mate para a patroa. E que cozinhasse mais feijão, mais arroz, mais aipim. Tinham também de pôr outro assado no forno.

 

Passava do meio-dia quando a pequena procissão de charretes apare­ceu na porteira da estância. O dia estava claro e sem nuvens, e o céu de um azul muito puro parecia alargar ainda mais a paisagem sem fim. Soprava uma brisa fresca que vinha dos lados do rio. D. Antônia, da sua cadeira na varanda, reconheceu o vulto de Terêncio a cavalo, de­certo que Bento o mandara para dar segurança às mulheres. Não que o pampa estivesse convulso, pois tudo ainda não passava de um suspi­ro, um espasmo, um assunto para as rodas de chimarrão, para as co­madres sussurrarem de olhos arregalados; de Porto Alegre, naquela manhã de vinte de setembro, nenhuma notícia ainda tinha chegado, fosse ela boa ou ruim. Mas Terêncio, forte e impávido, carranca prote­gida pela sombra do chapéu de barbicacho, as esporas de prata — presente de Bento — rebrilhando ao sol da primavera, vinha guiando o pequeno comboio, e foi ele mesmo quem pulou do cavalo para abrir a porteira, antes que um dos peões da casa tivesse tempo de fazê-lo.

D. Antônia ficou esperando sem erguer-se: ainda tinham um bom caminho para chegar à frente da casa, mas já se sentia feliz por rever as irmãs e a cunhada, as sobrinhas e os sobrinhos. Dos moços, nem sinal. Decerto tinham ido com os outros para a cidade, o sangue aven­tureiro corria em suas veias, era impossível que ficassem em casa en­quanto tanto acontecia sob suas barbas ainda tão discretas. Os filhos de Caetana, os três mais velhos, esses andavam para o Rio de Janeiro, lá para perto do Império. D. Antônia tinha plena certeza de que se a guerra fosse mesmo coisa certa, Bento, Joaquim e Caetano haviam de voltar para o Rio Grande.

Viu a primeira charrete subindo a pequena estradinha de terra, conduzida por um negro: lá estavam D. Ana, vestida de azul, muito ereta, e Caetana, com uma das filhas no colo — devia ser Maria Angé­lica, a maiorzinha —, Caetana, tão bela, mesmo de longe, com seus negros cabelos a brilharem sob o sol. Vinha com elas a negra Xica, tra­zendo nos braços Ana Joaquina, um volume rosado, de bracinhos curtos e roliços. Sorriu, acenando-lhes. A mão enluvada de D. Ana ergueu-se no ar, alegre e inquieta. Caetana acenou com mais resguar­do. D. Antônia a conhecia muito bem; numa hora dessas, com toda a certeza, devia estar pensando em Bento, no peito de Bento, desafiando as espadas, as carabinas e as adagas, conduzindo seus homens e seus sonhos. Sim, Caetana devia estar abatida, e ainda tinha os filhos pe­quenos a lhe darem as preocupações rotineiras. Mas amar Bento era conviver com essa sina, e Caetana sempre soubera disso.

A segunda charrete trazia Maria Manuela e sua filha Manuela, que tanto crescera desde o outono, e que já estava uma moça viçosa e mui­to bonita, Milú, a criada de D. Ana, e os dois filhos de Caetana, Leão e Marco Antônio, que já vinham apontando isto e aquilo, naquela ân­sia louca que os meninos têm de sair a correr e subir nas árvores. D. Antônia pôde ver que Maria Manuela tentava acalmá-los sem muito êxito, enquanto a negra Milú apenas ria seu riso de dentes muito bran­cos, o rosto retinto de preto contrastando com o lenço amarelo que lhe cingia os cabelos de carapinha. Maria Manuela reconheceu-a e ace­nou, D. Antônia ergueu alto o braço e retribuiu longamente o aceno da irmã mais moça.

Por fim, vinham as outras sobrinhas, numa conversação alheia a tudo. D. Antônia recordou a sua própria mocidade ao vê-las, pássaras alegres, pulando e rindo na sua charrete. Perpétua, Rosário e Mariana, as três primas, vinham entretidas em falastrinas que duravam já desde a saída de Pelotas, enquanto um negrinho miúdo, impávido, guiava o par de cavalos rumo à casa. D. Antônia sabia que Manuela, a mais moça, preferira vir com a mãe no outro carro, mergulhada em seus silêncios. D. Antônia tinha muitas simpatias pela bonita Manuela, pois também fora moça de longos pensamentos, calada e misteriosa. A filha de Ben­to e Caetana, Perpétua, que herdara o nome da avó paterna, já era fei­ta de diverso barro, como as outras filhas de Maria Manuela: estavam alheias a tudo, nem tinham acenado para a tia na varanda, a conversa devia estar boa e decerto falavam de bailes e moços. Apenas Zefina, a criada de Caetana, é que vinha calada ao lado das sinhazinhas, enco­lhida num canto do carro, olhando para tudo com uns olhos ávidos.

A um sinal de Terêncio, as três charretes pararam em frente à grande casa branca de janelas azuis com cortinas de veludo cinzento. D. Antônia desceu os cinco degraus da varanda e foi receber as irmãs e a cunhada. Ladeando a casa, duas carroças carregadas de malas e paco­tes foram para os fundos do terreno. Terêncio seguiu-as, para ordenar o descarrego das malas das patroas.

— Sejam bem-vindas — disse D. Antônia, e tratou de abraçar D. Ana. — Está mais viçosa, irmã — falou, sorrindo. — Espero que a sua casa esteja a gosto. Eu mesma vim hoje cedo, dar ordens à D. Rosa. Os quartos estão todos prontos, e se não se atrasaram lá na cozinha, a mesa deve estar posta.

D. Ana sorriu um riso amplo e alegre, e seus olhinhos miúdos e escuros cintilaram de satisfação. Apertou com força a irmã, sentindo-lhe o volume das costelas sob o pano claro do vestido.

— Tive saudades de vosmecê, Antônia. Nem no inverno mais ri­goroso vosmecê se afasta daqui, hein, cabreira?

— Minha alma só tem sossego nesta terra, irmã. Devia já saber disso.

D. Ana cortou o ar com a mão enluvada:

— Não tem problema, Antônia. Agora estamos aqui. E, quem sabe, talvez fiquemos por um bom tempo... — suspirou e, por um segundo, seus olhos ficaram nebulosos, mas ela voltou logo a sorrir. — Vamos a ver, isto é com Deus e com os nossos homens... Depois se fala na guer­ra, se é que teremos mesmo uma guerra pela frente. Por hora, há mui­to o que fazer. É preciso acomodar essa gente toda. — E subindo os degraus da varanda, foi chamando: — D. Rosa! D. Rosa, chegamos e trouxemos crianças famintas! D. Rosa, fez um vaso com jasmins para o meu quarto?

A voz enérgica perdeu-se dentro da casa. D. Antônia abraçou Caetana e deu-lhe as boas-vindas. Caetana segurava pela mão a filha de cinco anos.

— Está bonita, Maria Angélica! Logo será moça, hein? Crescem como o capim, essas crianças... — D. Antônia acarinhou os cabelos dourados da menina, que sorria. — E vosmecê, como vai, cunhada?

Caetana abriu um sorriso doce e algo cansado. Seus olhos verdes cintilavam uma luz que dava mágica ao seu rosto.

— Estoy mui bien, Antônia. E muito bem ficarei até que me chegue uma carta do Bento... Vosmecê sabe, quando elas chegam, meio que morro, antecipando o conteúdo, quando elas tardam, é o medo... Mas sempre foi assim, desde que me casei. Até já estou acostumada com essas campanhas todas. Desta vez, ao menos, estamos juntas, cunhada.

— Teremos bons dias — disse a outra.

— De cierto, querida Antônia, de cierto.

Caetana tornou a pegar na mão da filha e foi ver como tinham ido de viagem os meninos. Movia-se entre todos com uma leveza de garça, alta e ereta como uma rainha. Caetana era, sem dúvida, uma das mais belas mulheres do Rio Grande. Nos bailes, nenhuma das moças con­seguia fazer melhor figura que ela, quando valsava pelo salão guiada por Bento Gonçalves.

D. Antônia abraçou por último a Maria Manuela, que lhe falou da amena viagem.

— A estrada esteve deserta por quase todo o tempo. Parece que o Rio Grande está em compasso de espera... Meu marido foi com Bento, faz dois dias... Só de pensar — baixou a voz —, estremeço. Se vier a guerra, compadre lutará contra compadre — e fez o sinal-da-cruz.

— Fique tranqüila, Maria. Vosmecê conhece: eles sabem bem o que fazem. Deixemos a eles esses assuntos...

— Está certa, irmã... No momento, tenho mesmo é vontade de comer alguma coisa e beber um suco fresco. A poeira me entrou pela garganta como o diabo.

Subiram juntas as escadas da varanda, onde uma criada já servia de beber para as moças e os meninos. D. Antônia gastou algum tempo com os filhos de Bento, mas logo eles entraram para explorar a casa numa cor­reria desabalada. As quatro sobrinhas vieram então abraçá-la. D. Antônia disse a Perpétua que ela estava uma moça bonita, parecida com o pai.

— Está já para casar, Perpétua. É preciso que le achemos um bom marido, menina.

Perpétua enrubesceu um tanto e foi logo respondendo que em tempo de guerra era tarefa ingrata achar um pretendente. Tinha a pele acobreada da mãe, mas os olhos eram os mesmos de Bento, embora o olhar fosse mais dolente, e seus cabelos eram de um castanho muito escuro.

— Estão todos se juntando ao meu pai e aos outros, tia. Enquanto durar esta guerra, ficarei solteira por certo.

Não imaginava ela o que o futuro estava reservando à província, nem nenhuma das mulheres o imaginava naquele princípio manso de primavera nos pampas. Perpétua Garcia Gonçalves da Silva tinha es­peranças de que o verão já lhes trouxesse a paz. A paz e a vitória. E os bailes elegantes onde desfilaria os vestidos vindos de Buenos Aires e os sapatos de veludo que mandara buscar na Corte. D. Antônia tomou-lhe a mão:

— O tempo às vezes pode se arrastar muito nestas paragens, mi­nha filha... Mas tenha calma, se o seu marido está para vir, não há de ser a guerra que vai tirá-lo do seu caminho. Essas coisas estão progra­madas todas. Confie em mim, que eu sei desses assuntos de destino, pois aprendi da forma mais dura: vivendo.

Perpétua sorriu e deu um leve abraço na tia a quem sempre recor­dara como viúva. Parecia muito remoto que um dia D. Antônia, tão recatada e solitária, houvesse tido um homem ao seu lado na cama.

Rosário achegou-se, era a sua vez de abraçar D. Antônia. Pediu desculpas pela poeira. Estava querendo um longo banho morno. Ro­sário era a mais citadina de todas: quando a mãe fora lhe dizer que deixariam Pelotas para ficar uns tempos na Estância da Barra, tranca­ra-se no quarto por uma tarde inteira e chorara amargas lágrimas. Queria conhecer Paris, Buenos Aires, o Rio de Janeiro, queria os bai­les da Corte, as danças e a vida alegre que as damas deviam levar, e agora, enquanto os homens pelejavam por sabe-se lá que sonhos, ela tinha de retirar-se ao campo, ao silencioso e infinito campo onde tudo parecia eternizar-se junto com o canto dos quero-queros. Rosário de Paula Ferreira não tinha amores às paragens do pampa, e agora estava ali, com as outras, destinada a um exílio cujo fim desconhecia.

— Antes do almoço, se vosmecê quiser, uma das negras prepara o seu banho. Agora me dê um abraço, que faz muitos meses que não lê vejo, menina. E vosmecê sabe que a poeira a mim nunca fez medo. — D. Antônia cercou-lhe a cintura fina com os braços fortes de montar e sorriu. Rosário era de consistência frágil, pele clara, olhos azuis, cabe­los claros e muito lisos. Tinha umas mãos delicadas de segurar cristais. Imaginou-a sobre uma sela e sorriu um riso alegre: Rosário tinhas ares de salão, isso sim. — Agora vá ao seu banho — e empurrou a moça para dentro da casa.

Mariana beijou a tia no rosto, e alegria da chegada dava um brilho aos seus olhos castanhos.

— Tia, quanta saudade! Fiquei feliz que vínhamos estar com vosmecê.

E logo, no mesmo alvoroço, já entrava na casa, buscando Perpé­tua. Era uma moça de estatura meã, pele morena e rosto forte, cuja graça maior estava nos oblíquos olhos castanhos de longas pestanas negras. Olhos de índia, dizia a mãe. E era alvoroçada como uma criança.

Manuela, a mais moça, abraçou a tia com sincero afeto. Estava um tanto descabelada, pois tirara o chapéu a meio caminho para sentir a brisa nos cabelos, e seu rosto bem-feito, os olhos verdes muito claros, tudo tinha um viço de coisa nova e misteriosa, e a boca cheia abriu-se num sorriso. Usava um vestido amarelo, com peito de rendas, que lhe acentuava a graça.

— Tia Antônia — disse somente, e suas mãos mornas apertaram as palmas ossudas de Antônia.

— Vosmecê está uma moça, Manuela. A última vez que le vi, no verão passado, ainda era uma menina.

— O tempo passa, tia — falou Manuela, por falar. E aspirou o ar cheio de jasmins que pairava sobre a varanda e o jardim. — E bom estar aqui.

D. Antônia sorriu para a sobrinha preferida. Mandou-a entrar, então. Fosse ter com as outras, tirar a poeira, preparar-se para o almo­ço; afinal, estavam todos famintos.

— Até eu, menina, que hoje acordei ao raiar do dia e quase nada comi. Não vejo a hora de ver as travessas na mesa!

Ficou espiando Manuela adentrar a casa, pisando leve no chão de madeira, e ir seguindo pelo corredor já conhecido, em direção ao quarto que uma negra lhe indicara. E sentiu um leve arrepio lamber suas car­nes, ao ver a sobrinha assim, flanando pela casa feito uma fada, mas creditou-o à brisa da primavera, que, naquelas paragens dos pampas, ainda enregelava.

Restava sozinha na varanda. As mulheres todas e as criadas tinham ido tratar da chegada, abrir as malas, preparar-se para o almoço. D. Antônia sorriu: a casa estava cheia como nas férias, e uma alegria nova e buliçosa ardia em tudo. "Por quanto tempo?", não pôde deixar de se perguntar. "Por quanto tempo, meu Deus?"

 

D. Ana sentou na cama e acarinhou o colchão de molas. No lado es­querdo, podia apalpar, mais com a alma do que com os dedos, as mar­cas do corpo do seu Paulo. Deitou-se por um instante, mas encontrou a cama vazia do calor e do cheiro do marido, cheiro forte, de tabaco com limão. Em tudo, pairava um aroma de limpeza que doeu em seu peito. Paulo não era mais um moço, embora tivesse a compleição ro­busta dos cavaleiros, alto, espáduas largas, a barba espessa, a voz for­te, as mãos calejadas e firmes de segurar o laço. Já tinha lá seus cinqüenta anos, embora os cabelos estivessem negros como na juven­tude e ele ainda sonhasse os mesmos sonhos de quem tem a vida pela frente. Gostava do imperador, da Corte, da rotina calma alternada pelas invernadas que fazia questão de comandar, mas agora estava lá, assim como Bento, desafiando o Regente e tudo o que ele significava, com a arma em punho contra tudo que sempre conhecera. Nos últimos tem­pos, a coisa andava brava para os estancieiros, e D. Ana via nos olhos do esposo uma crescente angústia, que se traduzia nuns gestos secos, numas noites sem sono, quando sentia-o rolar ao seu lado, na cama, tentando acalmar os pensamentos. Quando ele a chamara ao escritó­rio, ainda na semana passada, e contara que marchariam sob o coman­do de Bento para tomar Porto Alegre, D. Ana já sabia de tudo, porque aprendera desde menina a pescar nos silêncios as respostas para as suas dúvidas. Olhando o marido pitar seu palheiro, o rosto fingindo uma calma que não sentia de todo, os olhos verdes tomados de uma febre misteriosa, D. Ana quisera apenas saber:

— E José e Pedro?

O marido mantivera firme o olhar.

— Já falei com eles. Disseram que vão conosco. — E antevendo o medo nos olhos de Ana, acrescentara com voz decidida: — São ho­mens, são rio-grandenses, serão donos destas terras, têm o direito de ir e de lutar por aquilo em que acreditam.

E agora D. Ana estava ali. Seus três homens, tudo de seu, estavam talvez nos arredores de Porto Alegre, na Azenha, conspirando, afian­do as adagas, limpando as baionetas, comendo o churrasco assado nas fogueiras, aspirando aquele cheiro de terra, de cavalos e de ansiedade que devia pairar em todos os acampamentos de soldados.

D. Ana acarinhou outra vez o colchão, sob a colcha de matelassê branca. Um sol dourado entrava pela janela de cortinas abertas, um sol tênue e aconchegante. Precisava se ajeitar para o almoço; afinal de contas, não era causo de tristezas, não ainda. Teriam pela frente muitos dias de angústia, à espera de uma notícia, de boa sorte ou de malogro, e então, só então, se fosse o caso, viria a tristeza estar com elas. A tristeza serena que era com­panheira constante das mulheres do pampa. Sim, pois não havia uma mulher que não tivesse passado pela espera de uma guerra, que não tives­se rezado uma novena pelo marido, acendido uma vela pelo filho ou pelo pai. Sua mãe conhecera a angústia de espera, e antes dela sua avó e sua bisavó... Todas as mulheres na estância estavam na mesma situação, e ela, Ana Joaquina da Silva Santos, era a dona da casa. Levantou, abriu o ar­mário de madeira escura e tirou dali um vestido. Foi ao toucador e, pe­gando da jarra, derramou um tanto de água na bacia de louça. Lavou-se rapidamente. Milú, como uma sombra, adentrou o quarto trazendo uma toalha branca. Secou a patroa com gestos delicados e ágeis, ajudou-a a trocar as saias, vestir a roupa limpa e refazer a trança do cabelo. Milú ti­nha uns dedos longos e dourados que corriam pelas melenas de D. Ana como asas, quase voando. A trança foi presa no coque perfeito.

— Está ótimo, Milú — D. Ana presenteou a criada com um sorri­so. — Avise na cozinha que já estou indo.

Milú tinha uma voz suave, condizente com seu corpo miúdo de negrinha adolescente. Disse um "está bem, senhora", e saiu ventando do quarto, mas sem bater a porta, coisa que D. Ana execrava.

Sentadas em torno da mesa, eram dez pessoas. As duas meninas pe­quenas de Caetana já tinham ganhado a sopa e o leite, e agora dormiam um soninho exausto de viagem sob o olhar atento da negra Xica. O al­moço teve ares festivos: a carne assada, a galinha com molho, o feijão, o arroz, o purê e o aipim cozido na manteiga espalhavam-se em várias tra­vessas sobre a mesa recoberta com a toalha bordada a mão por D. Per­pétua, muitos anos atrás.

Um pequeno e inquieto silêncio se fez apenas quando, antes da refeição, como era o costume na casa, D. Ana juntou as mãos em ora­ção e pediu "pelos nossos maridos e filhos, que Deus os guie com a Sua própria mão, e que logo retornem, vitoriosos, a casa". A voz das mulheres respondeu em coro um amém; Leão e Marco Antônio esta­vam mais ocupados em mastigar.

Caetana Joana Francisca Garcia Gonçalves da Silva fez força para conter o leve tremor que assaltou suas carnes, mas foi em vão. Baixou os olhos para a mesa, e em suas retinas dançava ainda o vulto de seu adorado Bento, montado no alazão, usando o dólmã, espada na cintu­ra, as botas negras que cutucavam o cavalo com as esporas de prata. E reviu ainda o seu adeus, naquela alvorada em que partira de casa com Onofre e os outros, para tomar a Capital. Sob a luz tênue do amanhe­cer, pareciam figuras de mágica, vultos dourados pelos primeiros mati­zes do dia. E fora assim que o guardara no último instante, as costas eretas, o cavalo troteando, uma mancha negra que ia diminuindo pou­co a pouco. Ficara na varanda, enrolada no xale de lã, com o coração acelerado querendo escapar-lhe pela boca. Dentro de casa, a filha pe­quena chorava.

D. Ana, à cabeceira da mesa, começou a servir-se, um pouco de tudo, porque nada melhor do que um estômago cheio para acalmar as ânsias da alma, e uma sesta, isso sim, na sua cama, sentindo entrar pela janela o perfume de jasmins e a brisa fresca do pampa. Notou que, ao seu lado, Caetana era a única de prato vazio, vazio como seus olhos verdes que vagavam perdidos entre uma travessa e outra, como que a contemplar velhos fantasmas.

— Vosmecê não tem fome, cunhada?

A voz morna arrancou Caetana de seu torpor, e ela sorriu um riso triste.

— Desculpe, Ana. É que não pude deixar de pensar em Bento. E em onde anda ele a uma hora dessas...

D. Ana abriu um sorriso, tinha ainda muito alvos os dentes. Esten­deu o braço e tocou na mão da cunhada. Seus olhos eram um lago de paz e de conforto.

— Esteja calma, Caetana. Numa hora dessas, se bem imagino, Ben­to e os outros devem estar se refestelando com um bom churrasco. Vosmecê conhece o apetite que têm os valentes... Comem um boi pela perna.

As moças riram da graça da tia. D. Antônia, sentada à outra cabe­ceira, ainda disse:

— Se vão tomar Porto Alegre, seja esta noite ou amanhã, decerto que estarão com o estômago cheio. E se eles comem, não há por que deixarmos nós de nos regalar. Afinal, já dizia minha mãe: saco vazio não pára em pé.

Caetana sorriu um riso leve e pôs também alguma comida em seu prato, comida esta que venceu aos bocadinhos, embora estivesse de gosto bom e muito bem temperada, porque ainda Bento, seu Bento, espaçoso e forte como um touro, ocupava cada palmo de seu espírito. Mas o almoço transcorreu com leveza, e as moças trataram de falar de coisas alegres, pois para elas a temporada na estância era nada mais do que férias, logo deveriam voltar para Pelotas, para os chás domingueiros com as amigas de bordado, e para os bailes. Isso mesmo, para os bai­les, que elas tanto desejavam.

— A cor desta primavera é o amarelo — disse Rosário. — Pena que para mim não caia bem, pois sou toda clara, de pele e de cabelos. Vestida de amarelo, ficarei igual a uma gema de ovo.

E D. Ana riu com vontade, deitando seus olhos castanhos na­quela mocinha citadina, de pulsos finos e olhos azuis como o céu que brilhava lá fora. Considerou que Rosário era frágil, não herda­ra a força dos Gonçalves da Silva, talvez ainda sofresse muito nessa vida campeira. No Rio Grande, os jogos da Corte eram brincadei­ras dos tempos de paz, e a fronteira quase nunca tinha paz, quase nunca... Ela recordou sua velha mãe e as muitas madrugadas em que a vira pedalando a máquina de costura para espantar o medo da cama vazia. Nunca a vira chorar, nem na paz nem na guerra, não a vira chorar nem quando enterrara os filhos, um pequeno, o outro já moço, ferido de bala numa batalha que nem um nome dei­xara para lembrança. D. Perpétua da Costa Meirelles não entendia de modas, vestia-se sempre de cinzento ou azul. Branco, usara ape­nas no dia do casamento. Morrera calada, de velhice, naquela casa mesmo em que se encontravam, quando viera visitar a filha num verão, havia tempos.

D. Ana fitou Rosário com o canto dos olhos; havia nela alguma coisa dos traços da avó, a testa alta, a boca delicada, mas Rosário tinha uns olhos úmidos, afeitos ao pranto, e os olhos de D. Perpétua foram sem­pre secos, até na hora da morte.

— A moda é nada mais do que um passatempo, Rosário — disse D. Ana, sorrindo, ao cruzar os talheres. — O azul, o branco, o verde, o amarelo e o cinzento sempre existiram e sempre foram boas cores para uma mulher de bem vestir — e quando acabou de falar, vendo alguma mágoa no rosto frívolo da sobrinha, pareceu-lhe que o vulto da mãe a espiava de um canto da sala, perto da cortina, e que lhe sorria o mesmo riso comedido de toda a sua vida.

Comeram a sobremesa num silêncio cansado da viagem. Apenas Maria Manuela e D. Antônia prosearam um tanto sobre a rudeza do inverno passado fazia pouco, sobre flores, coisa da qual ambas enten­diam deveras. D. Antônia despediu-se no final da refeição: precisava voltar para a Estância do Brejo, cuidar dos afazeres da casa, da venda de uma ponta de gado.

— Mas amanhã venho estar com vosmecês para mais uma prosa — disse ela, e saiu em busca do cocheiro, que devia estar de assunto com os peões da casa.

Logo depois, cada uma das mulheres recolheu-se ao seu quarto. Manuela e Mariana dividiam a última peça do corredor, que dava vis­tas para a figueira do quintal; Perpétua e a prima Rosário ganharam o quarto ao lado do pequeno escritório que também servia de biblioteca — o senhor Paulo tinha muitos livros em espanhol e francês, línguas da qual tinha um bom conhecimento.

— Lerei um livro em francês — disse Rosário à prima, antes de fechar os olhos, já de combinação, deitada na cama. — Sei um pouco do idioma, pois tive algumas aulas com a senhorita Olívia, no ano pas­sado. O resto, adivinharei. É um bom jeito de passar o tempo por aqui...

Perpétua nem chegou a responder: antes de Rosário acabar de falar, já ressonava. Talvez sonhasse com um noivo de olhos azuis, talvez.

Em seu quarto, Caetana olhava o teto, em vão, o sono não lhe vinha, apesar do cansaço que sentia pesar nos seus membros. Ouviu um leve arrastar de passos no corredor, decerto as criadas botavam a sala em ordem outra vez. No quarto ao lado, pelo silêncio que lhe chegava, as filhas dormiam calmamente.

Ergueu-se da cama após alguns minutos de inquietação. Era uma alcova simples: a cama larga, de madeira escura, um rosário preso à parede, sobre a cabeceira, janelas altas com cortinas de veludo azul, um pequeno toucador com as coisas de higiene, a jarra de louça bran­ca e a bacia com florezinhas azuis, um espelho de cristal com bela moldura de prata escalavrada. Um armário pesado, de duas portas, ficava assentado em frente à cama. Ali, Zefina já tinha disposto os seus vestidos, xales e chapéus. No outro canto do quarto, perto da janela, uma pequena mesinha segurava um maço de folhas, pena de metal e tinteiro.

Caetana puxou a cadeira e sentou. Tomou da pena, mergulhando-a no líquido negro do tinteiro de cristal, e pôs-se a escrever numa faina louca que deixava irregular a sua letra sempre delicada.

 

"Amado esposo,

Estamos aqui na estância da sua irmã, Ana, todas as mulheres reuni­das para esta espera que, rezo, seja breve. Ainda não tive notícias suas, e sei o quanto é cedo para isto; sei também que vosmecê se preocupa comigo e com os nossos filhos, fazendo o possível para que tudo nos seja leve. Mas eu sofro, Bento. E sofro por vosmecê. A cada instante, é somente em vosmecê que penso, se está bem, se terá êxito, e se voltará para a sua casa e para os meus braços. Sem usted, não sei viver, e até mesmo um simples dia se torna custoso como um inverno... Mas espero, e rezo.

Desculpe esta sua esposa tão fraca, que, de tanto viver esta angústia, já desaprendeu a suportá-la. A espera é um exercício duro e lento, meu querido, que só os fortes logram vencer. Vencê-la-ei, por usted. Nunca ignorei a sua fibra, nem a força dos seus sonhos, e luto para estar eu à altura da sua companhia e da grandeza dos seus atos.

Quando um seu vier dar aqui, com notícias da sua pessoa e das suas tropas, creio estar trêmula demais para responder-lhe a contento, e é por isso que já me desafogo nestas linhas ansiosas... Saiba que seus filhos es­tão bem, e que Leão perguntou já muitas vezes do seu paradeiro, queria ele estar com usted, lutar ao seu lado. É um menino que já nasceu com gosto pelas batalhas, anda sempre com a espada que usted talhou para ele enfiada na cinta da calçola, então desde já vou preparando minha alma para sofrer também por ele quando for o tempo. Maria Angélica disse-me que sonhou com usted a tarde, e seus olhinhos verdes brilharam de con­tentamento ao recordar o pai. A pequena Ana Joaquina, Marco Antônio e Perpétua le mandam seus carinhos. Dos mais velhos, ainda não tive notí­cias, mas decerto estão a salvo na Corte. E sua irmã Antônia veio nos re­ceber com a doçura de sempre. Há algo na serena força dela que me remete a usted e que me conforta.

Por tudo isto, pode, meu caro Bento, acalmar seu coração no que tan- ge a nós, sua família. Saiba que tenho pedido à Virgem por usted, fervo­rosamente, e que em cada gesto meu há uma palavra de oração sussurra­da. Que a glória le acompanhe, esposo, onde quer que vosmecê pise. Esse desejo não é apenas meu, mas das suas parentas todas. Aqui na Barra, rezamos muito por vosmecê e pelos nossos.

Que Deus cavalgue ao seu lado,

Com todo o amor,

Sua Caetana

Estância da Barra, 20 de setembro de 1835"

 

Dobrou com cuidado e lacrou a carta com cera. Depois, guardou-a numa gavetinha, com o zelo de quem guarda no cofre uma jóia de muita estima.

Sem mais o que fazer, voltou para o leito; deitando-se, fechou os olhos e rezou para dormir um tantinho que fosse. Suas costas estavam doridas da viagem, e ela tinha ganas de chorar. Lá fora, começou a soprar um leve vento de primavera. A tardinha, rezaria no oratório. Só a Virgem poderia sossegar-lhe a alma.

 

Cadernos de Manuela

Estância da Barra, 21 de setembro de 1835.

Nosso primeiro dia na estância passou sem acontecimentos espe­ciais. Claro, não pude deixar de notar a angústia que se enreda nos olhos de Caetana feito um gato, arredia como um gato. Estranho, Caetana é minha tia, pois casou-se com meu tio Bento, e no entanto, mesmo a tendo conhecido assim, ao lado do tio, desde que nasci, não posso chamá-la de tia. Há uma dignidade estranha nela, em cada gesto seu, cada olhar. E mulher, apenas, e é tanto. Seus suspiros exalam suave fragrância, e imagino que Bento Gonçalves tenha por ela se apaixonado ao primeiro olhar, quando por acaso conheceu-a em al­guma tertúlia uruguaia, na casa de seu pai ou de um outro estancieiro chegado seu. Meu tio Bento também é um homem marcante, de força. Quando pisa no chão, é como se a madeira tremesse um tanto a mais, mas não por seu peso, nem que pise forte, é que tem nos olhos, nas carnes, no corpo todo um poder e uma calma dos quais não se pode escapar. Meu tio, mesmo não estando entre nós, marca-nos a cada uma com a força de seus gestos: é por um ideal seu que estamos aqui, esperando, divididas entre o medo e a euforia. Caetana, por certo, com sua digna beleza e seu espírito ao mesmo tempo tão frágil e tão forte, deve ter-se rendido a essa aura que de Bento Gonçalves exala. Aura de imperador, mesmo que nesse momento esteja ele lu­tando contra um.

Caetana, ao almoço, mal comeu. E pouco disse, apenas olhava tudo inquietamente, e tanto, que me pareceu estar vendo o nada, decerto retida entre suas lembranças. Tive vontades de sentar ao seu lado e de dizer-lhe que também eu sei do que ela sabe. Sim, pois ela sabe... Fica­remos aqui muito tempo. Mais tempo do que qualquer uma de nós possa imaginar. Ficaremos aqui esperando, esperando, esperando. Da estrela de fogo que vi na noite do novo ano, não falei a ninguém, mas tenho seu recado marcado a ferro em minha alma. Minhas irmãs, por certo, ririam de mim. Dizem-me densa. Densa como a cerração que cobre estes campos ao alvorecer, um manto opaco de água condensada, um manto, talvez, de lágrimas, lágrimas choradas pelas mulheres daqui por Caetana, quem sabe.

Acordei hoje antes ainda da alvorada, e, como imaginei, lá estava a bruma cobrindo tudo, uma bruma úmida e gélida, e também um silên­cio aterrador, um silêncio digno da pior espera. Demorou muito tem­po para que um primeiro pássaro cantasse e, com seu canto, quebrasse a barra da noite, com seus presságios e sonhos angustiantes. Caetana chorou esta noite, tenho certeza. Eu não chorei: ficaremos muito tem­po reunidas nesta casa, unidas nesta espera, e algo me diz que as mi­nhas lágrimas terão serventia apenas mais tarde...

Hoje é o dia marcado.

Ainda não são sete horas, e pergunto-me se Porto Alegre já ama­nheceu dominada pelo exército de meu tio. Não tivemos ainda qual­quer notícia, e tudo lá fora parece aguardar, até os pássaros piam menos, em seus galhos, ainda derreados pelo frio que esta noite nos trouxe; até a figueira, parece fitar-me com perguntas terríveis para as quais não tenho resposta. Sei que, ao café, uma nova inquietação virá juntar-se a nós, terá seu lugar à mesa e, talvez, a sua xícara. Mas ninguém terá coragem de formular a pergunta, a terrível pergunta, e os segundos passarão por nós com suas lâminas afiadas de tempo, sem que ninguém interrompa o bordado ou a leitura por mais de um momento que seja, um momento imperceptível. A arte de sofrer é inconsciente... E é pre­ciso fingir que se vive, é preciso. Não pensar em meu pai, no seu cavalo dourado, do qual tanto gosto, não pensar em sua voz, e em seu grito. Terá ele ainda a sua espada presa à cinta? E meu irmão, Antônio, que vive a incomodar minhas leituras com sua alegria buliçosa de homem novo, e meu irmão, com que olhos receberá esta manhã, e onde? Terá vitórias e façanhas para contar aos filhos, ou cicatrizes? Ninguém sabe, e os pássaros teimam em fazer silêncio nos seus ninhos.

Batem à porta. Mariana, em sua cama, está para despertar. Mariana sempre gostou que a deixassem dormir até mais tarde. É a negra Bea­ta, com sua voz esquisita, metálica, que nos chama do corredor, dizen­do que a mesa do café está pronta e que nos esperam. Vamos todas, com nossos vestidos rendados e nossas angústias. Mas é preciso. Pisar o chão com a leveza que de nós esperam, sorrir um sorriso primaveril e estar feliz, principalmente, estar feliz como a mais tola das criaturas... Mariana reclama um pouco, lava o rosto na água fria, escolhe um ves­tido qualquer, pela manhã não liga nem para as modas.

Deixo aqui estas linhas, D. Ana gosta de todos reunidos à mesa e não hei de me fazer esperar. Um pássaro piou lá fora, um canto morno como um alento ou uma xícara de chá.

Manuela.

 

As primeiras horas da manhã gastaram-se lentamente. Um sol, a princípio tímido, começou a dourar os campos. Havia feito muito frio na noite anterior, mas no pampa, mesmo em madrugadas prima­veris, o frio mostrava-se intenso, e as camas recebiam muitos cobertores. À noite, nas salas de família, a lareira era acesa. No seu crepitar, as conversas mansas embalavam-se, e o mate passava de mão em mão, enquanto o luzio dos palheiros se fazia ver, exalando o cheiro acre do fumo de rolo.

Mas não naquela casa. Na casa branca da Estância da Barra havia um número tão alto de mulheres, que a voz delas é que ditava os mo­dos. E as mulheres não pitavam, não tomavam o mate à noite. Lá fora, à beira do fogo, dois ou três peões, enquanto a carne assava respingando gordura, lambiam seus palheiros. Terêncio pernoitara na estância aquela noite, era mais um na volta do fogo, um vulto alto, calado, de olhos firmes e dedicação canina a Bento Gonçalves. Mas, ao alvore­cer, ainda quando o mundo estava frio e nebuloso, tomara o caminho da Estância do Cristal, onde deveria esperar quaisquer ordens do pa­trão, enquanto zelava pelo seu gado e pelas suas terras. Com a partida de Terêncio, ficara Manuel, capataz da Barra, mais os seus peões, o negro Zé Pedra, muito querido de D. Ana, e o resto dos escravos que cuidavam da terra e das coisas dali.

Era, desde então, uma casa de mulheres. A noite anterior fora à bei­ra do fogo que crepitava na lareira, nisso sim uma casa igual a outras; mas pouco se falou, nem se viu o brilho dos palheiros queimando: bebeu-se um tanto de chá, quando Beata apareceu com o bule e um prato de bolo de milho; os rostos baixos ocupavam-se com bordados delica­díssimos, a cor que se via, alheia ao intenso brilho do pinho que ardia sob as chamas, era vivida cor de seda: o verde, o vermelho, o azul que traçava nos panos flores, arabescos e outras maravilhas de fino artesa­nato. Uma ou outra das moças se ocupava de ler sob a luz de um cande­labro, mexendo os lábios vagarosamente, imperceptivelmente até, como as preceptoras lhes tinham ensinado nas longínquas tardes de lições.

Lá pelas tantas, quando o sono já as assaltava, ou coisa pior ronda­va seus espíritos, quando Caetana mal podia acertar o fio de seda no buraco da agulha, quando Maria Manuela começou a pensar no mari­do e no filho, enquanto ouvia zunir o vento lá fora no capão, D. Ana ergueu-se da sua poltrona e foi para o piano. Levantou a tampa envernizada com um único gesto, e as mãos brancas e ágeis correram pelas teclas, fizeram brotar uma, duas, três valsas. As moças alegra­ram-se bastante: fecharam os livros, ficaram pensando nos bailes. Maria Manuela abriu um tênue sorriso, o marido gostava de valsar aquela, dava passos largos, queria dar voltas pelo salão, exibi-la aos outros, mostrar que era um bailarino de monta. Caetana também pensou em Bento Gonçalves. Bento, que amava as músicas, que não perdia um baile, que valsava com a mesma faina que tinha para guerrear.

— Toca uma polca, tia! — pediu Perpétua, com os olhos brilhando.

D. Ana abriu um sorriso farto. Deu nova vida aos dedos no tecla­do. As moças reconheceram a música, riram, bateram palminhas. Ro­sário ergueu-se de um pulo, deixando o livro escorregar para o tapete, e, fazendo gestos com o braço, declamou:

— "Eu plantei a sempre-viva,

sempre-viva não nasceu.

Tomara que sempre viva

O teu coração com o meu."

As mulheres aplaudiram em coro. Caetana tinha os olhos verdes ar­dentes, seus pés, sob a saia azulada do vestido, acompanhavam o ritmo da melodia. Manuela largou o bordado com o qual se entediava e tam­bém ergueu-se, para responder à irmã. Testou a voz e, com graça, disse:

— "Tu plantaste a sempre-viva,

sempre-viva não nasceu.

É porque teu coração

Não quer viver com o meu."

Palmas outra vez. Rosário deu o braço à irmã e seguiram as duas dançando pela sala que a lareira iluminava de maneira inquieta, como se fossem um par de noivos num baile. Mariana e Perpétua juntaram-se a elas. D. Ana tinha uma alegria tão vivida em seu rosto, que pare­cia remoçada. As outras sorriam. Manuela dava voltas pela sala, e seu pensamento voava: não era a irmã que ela via, era um outro homem que lhe dava o braço, e um calor morno e acolhedor dele emanava para a sua pele, enquanto faziam giros loucos pela sala cheia de convivas. Ah, e ela se sentia tão bonita, bonita como uma jóia, e feliz, explodiria de felicidade bem ali, no meio de todos... E a música, a música enchia seus ouvidos e seu coração...

D. Ana parou de tocar, de repente.

As moças riram, jogaram-se com estardalhaço nas suas poltronas, rostos afogueados. Manuela estava atônita. Olhou a sala vazia de visi­tantes, olhou as outras mulheres, Viriata parada num canto da sala, com seu vestido velho, torcendo os dedos pretos e encaroçados, emo­cionada com a música que ouvira.

— Vosmecê ficou tonta, Manuela?

A voz da mãe fez-se ouvir. Manuela negou, abriu um sorriso, sen­tou no seu lugar, pegou o bordado do chão e ajeitou-o um pouco, sem vontade. D. Ana ergueu-se do seu posto ao piano.

— Está tarde — disse.— Já é bem hora de irmos dormir... Ama­nhã será um longo dia.

E, à menção do dia seguinte, o rosto de Caetana ganhou outra vez ares misteriosos, e uma sombra nublou o verde agreste dos seus olhos. Foi ela a primeira a recolher-se, alegando que ia ver como estavam passando os filhos pequenos.

E depois as outras recolheram-se.

E a noite fria esgotou-se nas claridades da aurora.

E já estavam sentadas à mesa do café, D. Ana à cabeceira, naquela manhã do dia vinte e um de setembro do ano de 1835, quando Zefina adentrou a sala correndo e, tendo esquecido todas as cerimônias e jei­tos de tratar as senhoras, gritou, com uma voz aparvalhada:

— Vem chegando um homem aí! E tá usando um lenço encarnado no chapéu! Deve tá trazendo as notícia que as senhora tanto espera, Deus do céu!

Caetana Joana Francisca Garcia Gonçalves da Silva não achou forças para repreender a atitude da escrava. Ergueu-se da mesa num pulo, lívida como um fantasma. Seu rosto pálido confundia-se com o vestido de seda marfim que ela usava. As mulheres pararam todas. Mariana tinha na boca um pedaço de bolo que esquecera de mastigar por muitos minutos. Caetana saiu correndo para a varanda. D. Ana seguiu-a, e todas as outras foram atrás, a trêmula Zefina por último: estava ninando Ana Joaquina quando espiara pela janela e vira o ho­mem galopando pros lados da casa. Deitara a menina em seu berço e saíra correndo para a sala. Ana Joaquina ficara ali deitadinha, de olhos abertos, resmungando alguma coisa que a ama não chegara a ouvir.

Caetana desceu a escada da varanda, sentindo que as parentas a se­guiam. Viu o homem apear, desmontar do cavalo, que entregou para um negro, e, dando uns passos rápidos, postar-se à sua frente, fitando-a com o respeito que lhe devia por ser uma dama e esposa de quem era.

— Buenos dias, senhora Caetana. — A voz do homem era forte e cerimoniosa.

— Buenos dias — respondeu Caetana.

— Trago aqui uma carta que o coronel Bento Gonçalves mandou para a senhora. — E tirando do bolso do colete um pequeno papel amarelo, com o selo de cera vermelha de Bento Gonçalves, estendeu-o para Caetana. — Permisso, senhora.

Caetana arrancou da mão do homem a carta. Desculpou-se depois pela ansiedade. O soldado devolveu-lhe um sorriso de compreensão.

Zé Pedra surgiu por ali. D. Ana convidou o homem a tomar um mate e comer algo na cozinha, ao que ele agradeceu: cavalgara desde o alvo­recer para estar ali com a carta do coronel, e aceitava de muito gosto o que havia de comer e de beber. Também tinha precisão de descansar um pouco, antes de voltar para Porto Alegre, onde estava o resto das tropas. Zé Pedra, um negro atarracado e com cara de poucos amigos, mas que tinha um coração de manteiga e que carregara no lombo, brin­cando de cavalinho, os dois filhos de D. Ana, fez sinal para que o sol­dado o seguisse até os fundos da casa principal.

Caetana correu para a sala, sentando numa poltrona, com a carta em seu colo. Estava trêmula, mas aguardou que as outras se acomo­dassem ao entorno, uma a uma, as cunhadas e as sobrinhas, a filha ao seu lado, e que a negra Zefina, que tinha homem arreglado para servir com Netto na causa, se postasse perto da janela, discretamente. Só então soltou o lacre onde vinham as iniciais do marido. Na sala, nenhum som se ouvia, nem mesmo a brisa sacudia as árvores do quintal. A voz de Caetana tremeu levemente quando ela começou a ler.

 

"Minha cara Caetana,

Escrevo estas linhas breves do gabinete do antigo presidente desta nossa província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga, que, provando a sua total incapacidade e falta de coragem, fugiu de Porto Alegre num navio antes mesmo da chegada das nossas tropas. Entramos na cidade ainda nesta madrugada, o que sucedeu sem muitas pelejas e quase sem derramamen­to de sangue. Peço então, a usted, às minhas irmãs, e às outras todas que fiquem calmas e tranqüilas e que tenham fé em Deus, pois ele está do lado dos justos e nos guia nesta empreitada.

As coisas, minha Caetana, estão em bom pé, mas há muito a ser feito. Rio Pardo ainda resiste, mas nossas tropas logo vencerão mais esta prova. Esta cidade de Porto Alegre, até o momento em que le escrevo, permane­ce deserta e medrosa, decerto que Braga e os seus andaram espalhando as piores mentiras sobre nossas intenções para com o Rio Grande e oseu povo. Mas tenha fé, Caetana, que logo dar-le-ei mais boas notícias.

Sinto muito a sua falta, esposa. Quisera estar ao seu lado, mas os deveres para com a minha terra aqui me seguram. Dê um beijo longo nos meninos, outro nas meninas. E peça para que Perpétua reze por mim tam­bém, que suas orações são fervorosas. Alcance um abraço meu a cada uma das minhas irmãs, e diga-lhes que todos da família estão bem e a esta hora descansam da longa noite que tivemos.

Com todo o meu afeto,

Bento Gonçalves da Silva

Porto Alegre, 21 de setembro de 1835"

 

Quando Caetana acabou a leitura, tinha lágrimas nos olhos. D. Ana também chorava, de alívio e emoção. Tivera uma longa noite insone, pen­sando nos filhos e em Paulo, mas agora sabia, agora tinha certeza de que todos estavam bem, que a Capital era deles e que tudo acabaria em paz.

— Graças ao bom Deus! — exclamou Maria Manuela, que pen­sava mais em Antônio, que nunca estivera em batalha, do que no espo­so, tão hábil com o sabre, que fazia lenda na sua terra.

Manuela, Mariana, Rosário e Perpétua abraçaram-se com alegria. Perpétua, mais do que todas, estava radiante por ter o pai falado em suas orações. Sim, rezaria por ele e pelos seus exércitos com toda a força da sua alma. Rosário abraçou a mãe, ficou feliz pelo tio, pelo pai e pelo irmão, mas chegou-se a D. Ana e, numa voz de conchavos, quis saber:

— Esta carta significa que podemos voltar para casa, tia?

— Esta carta, minha filha, significa que nossos homens estão vi­vos, ou estavam vivos até esta alvorada. Bento disse que há muito para ser feito, e que Rio Pardo ainda resiste... — Num suspiro, D. Ana acres­centou: — Vamos esperar. Não foi para isso que fomos feitas, para esperar, minha filha?

Rosário concordou lentamente.

Voltaram todas para a mesa e foram aos poucos retomando a refei­ção do pé em que a haviam largado. O peito de Caetana era aquecido por um novo calor. Refletiu que quando acabasse de comer, iria brin­car um pouco com Leão e Marco Antônio, e contar-lhes que o pai ven­cera mais uma batalha e que era um valoroso soldado.

Lá pelo meio da manhã, chegou D. Antônia, e Caetana releu para a cunhada a carta de Bento. D. Antônia ouviu as palavras do irmão com o rosto impassível. Eram boas notícias, sem dúvida. Haviam to­mado Porto Alegre. Ela abriu um tênue sorriso, ao qual Caetana retri­buiu com gosto. Depois virou os olhos para os lados do campo. Um peão tentava domar um potro xucro; a terra vermelha, escalavrada pelas patas inquietas do animal, subia ao ar em violentas golfadas. O peão resistia, sabia que tinha de ter mais paciência do que o cavalo, sabia que venceria o animal no cansaço. D. Antônia ficou contemplando o sutil espetáculo. Alguma coisa ardia em seu peito, um mau presságio talvez. Ou talvez, quem sabe, fosse a velhice. Sim, estava ficando ve­lha, e os velhos, todos sabiam, esperavam sempre pelo pior.

Resolveu afogar aquela angústia.

— Caetana — pediu ela —, me faça a gentileza de mandar uma criada me trazer um mate, por favor... Vim cavalgando lá da estância e, não sei, acho que o pó me entrou pelos pulmões. Estou meio seca por dentro.

Caetana dobrou a carta com todo o cuidado, guardando-a no abri­go do colo. Ergueu-se e foi para dentro da casa, pedir que Beata pro­videnciasse o tal mate.

 

A tarde descia mansamente sobre o pampa, uma luz rosada, brilhante, abria suas asas sobre o paralelo 30, e tinha essa luz uma mágica. Tor­nava as coisas mais belas, maiores.

Da janela da pequena biblioteca, onde entrara para pegar um ro­mance francês que estava decidida a ler, Rosário espiava a tardinha. Nem mesmo o seu espírito, tão afeito às cidades, aos prédios brancos, imponentes, às ruas, salões e átrios das igrejas, nem mesmo a sua alma, que amava a pompa e as coisas construídas pelo homem, podia passar imune àquela luz. As árvores, as madressilvas que subiam pelo corpo lateral da casa com suas flores lilases, tudo parecia ganhar outra di­mensão sob o toque misterioso daquela luz poente. Rosário apoiou o rosto com as mãos, deitou o corpo para a frente, sentindo que do chão emanava aquele cheiro de terra, de final de dia, que entrava pelas na­rinas e ia acalmar as ânsias mais secretas de um vivente. Por um único segundo, uma fração mínima de tempo, teve raiva de si mesma e da­quela súbita paz. Não gostava do campo. Mas então alguma coisa afrou­xou-se em suas carnes, um cadeado qualquer rompeu-se, e ela se entregou àquele gozo simples. Desde menina, não apreciava assim um entardecer.

Pelo campo, uns últimos peões troteavam, findavam as lides do dia. Logo, as primeiras estrelas, as mais brilhantes de todas, surgiriam no céu. Os peões fariam o fogo, poriam um bom naco de carne a assar. E então um deles puxaria de uma viola, talvez um daqueles indiáticos, como Viriato, que cuidava dos cavalos do seu pai, traria para a roda uma flauta e, com sua música triste, encheria de presságios a noite.

Rosário deu as costas ao entardecer, já recuperava o seu senso, o sol se punha lá fora e era só isso: um sol morrendo, mais um dia, al­guns homens fedendo a cavalo e suor que voltavam para a casa, e ela ali, perdida no meio daquele pampa infinito, sob aquele céu imutável, à espera de um destino que nunca vinha. Pensou no pai e na promessa que lhe havia feito, de levá-la à Europa quando completasse dezoito anos. Bem, estava já com dezenove, tinha-os feito havia pouco menos de um mês, e o pai lhe havia dito que deviam esperar, que agora coisas mais urgentes sucediam, negócios sérios, de guerra talvez, e que suas obrigações de rio-grandense, de gaúcho dos pampas, de estancieiro e homem de palavra impeliam-no a ficar e a lutar. Assim, o pai dera por findo o seu maior sonho. Quando as coisas serenassem, poderiam ou­tra vez pensar na viagem, em Paris, em Roma, nos navios elegantes, nas casas de chá e nas modas chiques. Mandara-a então para a estân­cia da tia com um beijo na testa, pedindo que se comportasse bem e que zelasse pela mãe e pelas irmãs.

Ela olhou pela janela. Agora um manto vermelho ardia lá fora.

— Que se ponha esse maldito sol! — gritou, com raiva.

Sabia que nenhuma das tias, nem a mãe, a ouviriam. Estavam na varanda, aproveitando os últimos momentos do dia. Fazia pouco que o homem de Bento ganhara a estrada rumo a Porto Alegre, com duas cartas de Caetana na guaiaca, mais os bilhetes que D. Ana e sua mãe tinham enviado aos seus próprios maridos. E as mulheres, nesse mo­mento, deviam estar caladas, pensativas, saudosas.

Pensou nas irmãs e na prima Perpétua; havia algo que a diferia das outras, e era, ela tinha certeza, uma certa finesse. Perpétua era bonita, claro, mas não tinha a mesma elegância de Caetana, nem seu porte de rainha. E Manuela? Manuela também tinha graça, mas era calada, pensativa, que homem se apaixonaria por uma criatura assim, de tão poucas palavras, estranha? E era ainda muito moça, com seus misterio­sos quinze anos. Mariana também tinha seus encantos — as mulheres da família sempre gozaram de certa beleza —, mas era mais dolente, gostava do campo, estava feliz na estância, em companhia das outras. As três poderiam esperar esta guerra, e mais outra e outra ainda, mas e ela? Ela estava madura para os salões, valsava elegantemente, tinha talentos sociais. Recordou um oficial do Império, um jovem de vinte e quatro anos, com quem valsara seguidas vezes num baile em Pelotas, fazia pouco tempo. Chamava-se Eduardo. Ah, e quantas graças lhe dissera... Que era digna, com seu porte delicado, seus cabelos da cor do ouro, de valsar nos salões do imperador, de quem por certo ganha­ria todos os favores. Eduardo Soares de Souza, assim se chamava o rapaz, tinha belos olhos verdes, serenos. Imaginou que ele deveria es­tar fazendo cerco a Porto Alegre, que lutaria contra os rebeldes, con­tra seu tio Bento, contra seu próprio pai e seu irmão, Antônio. E teve raiva, então, não do oficial tão terno e romântico que lhe fizera tantos galanteios, mas do pai, da barba negra e espessa de Bento Gonçalves, teve raiva do charque, do sal, de todas aquelas pequenezas que agora a faziam sofrer. E rezou uma Ave apressada por seu querido Eduardo. Se Deus quisesse, se Nossa Senhora rogasse por ela, logo estariam ambos valsando num salão, num salão elegante e rico, repleto de damas e de gentis cavalheiros. Quem sabe até na Corte, quem sabe até na Corte...

A noite começava a derramar lentamente as suas sombras. Ela sen­tou na poltrona de couro negro e ficou olhando a escuridão descer sobre a peça, reduzindo os dourados de antes a simples sombras cotidianas; os livros na estante eram agora pequenos vultos tristonhos e sem nome, apertados naquele móvel, à espera de que alguém os salvasse dali.

Correu os dedos longos pela capa do volume que segurava. Achou muito bonita a escrita das páginas, que agora apenas adivinhava, por causa da penumbra. No corredor, ouviu os ruídos das negras passan­do. Estavam acendendo os lampiões, espalhando os candelabros. Um toque leve na porta.

— Entre. — Sua voz saiu desprovida de paciência.

Da rua vinha uma cantoria distante. Ela pensou nos mestiços sem camisa, em volta do fogo. Sentiu um certo asco.

— Quer luz, sinhá? — Viriata olhava-a com seus olhinhos miú­dos. Preta, mal podia ser divisada, era quase uma dentadura branca lhe sorrindo.

— E por que eu haveria de querer ficar no escuro, criatura?

— Adesculpa, sinhá... — Viriata fez uma mesura desengonçada e tratou de acender os lampiões de querosene. — Dá licença — pediu, e saiu ventando da sala, porque tinha um certo receio dos olhos frios daquela mocinha pálida.

A luz morna aquecia a peça. Rosário decidiu-se a ler um pouco. Faltava ainda um pouco para o jantar, e muito teria de esperar pelo sono. Abriu o livro, acarinhando o papel macio, papel europeu. Co­meçou a ler com certa dificuldade, mais adivinhando do que com­preendendo a narrativa, mais saboreando o som misterioso das palavras do que o seu sentido.

Principia a soprar um vento lá fora, um vento que traz cheiro de flores e de descampado. Pela janela aberta entra uma lufada que faz tremer a chama dos lampiões.

Rosário ergue os olhos azuis.

A parede branca está a sua frente, a estante de mogno, rente à parede. Um frio de gelo invade Rosário. Suas mãos brancas estão des­maiadas sobre o livro, mais brancas ainda, como pombas sonolentas

Seus olhos azuis vêem, encostado à estante, o vulto do jovem ofi­cial. Ele não se mexe. Uma bandagem ensangüentada cobre sua testa, e ele está pálido feito as mãos de Rosário, feito a parede que segura a estante. Está lívido, mas sorri. Pela janela aberta, vem o cheiro de mato, o cheiro de noite, de sonho. O soldado veste um uniforme azul, tem o peito coberto de medalhas. Na verdade, Rosário só percebe isso ago­ra: não é um soldado, é um oficial. E sorri. Tem uns olhos verdosos e febris, e uma boca fina, bem delineada no sorriso estático. Ele suspira. O cheiro de flores torna-se mais forte, quase insuportável. De muito longe, cada vez mais baixo, vem a música dos peões.

Rosário de Paula Ferreira tenta mexer-se, mas suas mãos repou­sam sobre o livro, alheias a qualquer vontade. Um grito prende-se à sua garganta, mas não sai. Os olhos azuis se arregalam de pavor.

— Tienes miedo?

A voz do homem à sua frente parece vir de muito longe, e é quente e suave, mansa feito uma flauta daquelas fabricadas pelos índios. Uma flauta doce.

— Tienes miedo, Rosário?

Não, ela quer dizer, não tem medo. Está assustada, seu corpo não a obedece, o cheiro de flores a sufoca, um homem entrou no gabinete sem que fosse convidado, um estranho, um jovem estranho, é verda­de, um belo oficial de algum exército desconhecido que lhe fala em castelhano. Não, temer não teme, pensa em dizer isso, mas sua boca permanece muda.

O jovem oficial parece mover-se, no entanto seu vulto permanece encostado à estante. Brilham seus olhos de selva, brilham de febre. Ele tem um ferimento sério na cabeça. É bom que chame D. Ana... D. Ana conhece as ervas, poderá ajudá-lo, ou as negras. Sim, as escravas têm boas receitas para essas coisas. Rosário quer dizer-lhe que irá buscar ajuda. São de posses, podem mandar trazer um médico de Pelotas. Se vier a galope, chega ainda na madrugada, cuida do ferido, troca a sua bandagem suja, sangrenta, tira a febre daqueles oblíquos olhos ver­des. Tenha calma, oficial, quer dizer, mas não diz. "Tienes miedo?", a pergunta sem resposta parece pular pela peça. Responda, responda. Mas Rosário não consegue responder. Lágrimas assomam aos seus olhos. Ela quer chamar a mãe, quer chamar D. Ana, quer chamar Rosa, que dizem boa benzedeira.

Faz um esforço descomunal, todas as células do seu corpo, juntas, na única ordem de erguer-se. Agora está em pé. O livro escorregou para o chão, caiu desconjuntado, páginas abertas. Rosário nem pensa mais no livro. Tem os olhos fitos no oficial, que ainda sorri. Atravessa a pequena sala, está tremula. "Vou chamar D. Ana", é o que pensa. Está lívida. Recostado na estante, o jovem a fita. A bandagem agora está empapada de sangue. "Tienes miedo...", a voz dele agora soa afir­mativa, triste, e ecoa nos ouvidos de Rosário, enquanto ela sai em cor­reria desabalada pelo corredor.

Quase derruba uma negra pelo caminho.

Chega à sala. D. Ana, Maria Manuela e Perpétua estão por ali, as outras andam lá para dentro. D. Ana tira os olhos do bordado e vê a sobrinha parada no meio da sala; ela treme e tem o rosto branco feito a geada. Ela tem um brilho estranho nos olhos azuis.

— O que foi, menina? — D. Ana fita a sobrinha. As outras tam­bém estão olhando Rosário.

— Está doente, minha filha? — Maria Manuela vai abraçar a fi­lha mais velha. Toca-lhe a fronte, está febril.

Rosário desvencilha-se da mãe. Está olhando fixamente para D. Ana, e diz:

— Tia, vem cá comigo. Tem um moço lá no escritório, está muito ferido. Deve ser coisa de bala.

As mulheres se alvoroçam. Beata, que estava por ali arriando as cortinas, faz o sinal-da-cruz. Será que já começou? Gente ferida che­gando na casa?

— Como isso, menina? Um homem baleado? Vamos lá agora! — D. Ana ergue-se e toma a sobrinha pela mão. Tem os olhos preocupa­dos, mas está serena e decidida. Será que estão guerreando por ali, será?

Vão em procissão pelo corredor. Perpétua fica imaginando se o soldado é jovem e bonito. Sente pena, sente medo. Rosário tenta con­trolar os passos, quer é sair correndo porta afora, fugir dali, voltar para Pelotas. Esquecera de dizer para a tia que o moço fala castelhano, mas não é importante. Está ferido, muito ferido. Deve arder em febre, e é tão garboso.

D. Ana abre a porta do escritório com o coração a saltar-lhe pela boca. Corre os olhos pela pequena peça: está tudo calmo, os livros ar­rumados na estante, a cadeira no seu canto, a escrivaninha de Paulo com o tinteiro e os papéis. As cortinas tremulam ao sabor da brisa campeira. Não tem ninguém ali.

— Não tem ninguém aqui — diz, surpresa.

— Mas tinha, tia. Eu juro.

Rosário tem os olhos arregalados. Toca na estante, bem onde o homem estava encostado. Ele ficara ali uns bons minutos, fitando-a com seus olhos verdes. E sangrava.

— Minha filha, o que é isso? — Maria Manuela está confusa. A filha parece estranha, doente. — Tinha mesmo um homem ferido aqui?

Rosário derrama-lhe um olhar ardido, lacrimoso.

— Tinha um moço aqui! Eu vi, eu juro! Estava muito ferido, com uma bandagem na cabeça, coitadinho... Sangrava muito... Acho que vai morrer — suspira. — Ele falou comigo, tia Ana.

D. Ana pega a sobrinha pelos ombros, delicadamente. Faz com que ela olhe dentro dos seus olhos, dos seus olhos negros como os de Ben­to Gonçalves, dos seus olhos firmes e bondosos.

— Falou o quê, Rosário? Diz direitinho, menina... Se tem um ho­mem aqui, seja lá quem for, temos que encontrá-lo.

Rosário se derrama nos olhos da tia. O homem falara com ela. Ti­nha voz doce e olhos tristes. Falara em castelhano.

— Em castelhano? — D. Ana não entendia mais nada.— E disse o quê, menina?

— Perguntou se eu estava com medo... Só isso. Perguntou se eu tinha medo dele... — Rosário começa a chorar. — E eu não tinha, tia... Só fiquei assustada, juro, e não podia me mexer..

D. Ana troca um olhar de estranheza com a irmã. Maria Manuela abraça a filha, enquanto Perpétua espia pela janela: quem sabe o ho­mem pulara para a rua? D. Ana leva todas para a sala, onde já apare­cem Caetana, Manuela e Mariana. Numa casa de mulheres, as notícias correm rápido.

Rosário chora muito, diz que não está mentindo, tinha lá um oficial ferido, e era jovem. D. Ana sente pena da menina. Vai ver, está adoentada, pensou. Quem sabe a angústia fizera-lhe isso? Sim, vira muitas vezes as pessoas delirarem de angústia... E Rosário não era forte, não herdara a solidez dos Gonçalves da Silva, era frágil, delicada.

D. Ana vai para o lado da sobrinha e lhe acaricia os cabelos. Sua voz é muito doce, quando diz:

— Fique sossegada, Rosário... Vou mandar o Manuel e uns ho­mens darem uma olhada por aí. Se o moço fugiu, não deve estar longe. Traremos ele para a casa e vamos cuidar do seu ferimento, está bem? — Rosário concorda lentamente, e seu choro esmaece um pouco. — Agora, menina, é melhor que vosmecê se deite... Sua mãe le leva para o quarto. Depois, eu mando a Beata le levar uma sopinha... Pode dei­xar que a gente cuida disso, está bem?

— Ele estava muito ferido... — é o que sabe dizer. Maria Manuela estende a mão:

— Vem, filha. Vamos deitar um tantinho...

As duas vão saindo da sala. As outras mulheres estão ao redor de D. Ana, cheias de perguntas no olhar.

— Manda chamar o Miguel e o Zé Pedra, Beata. E diz para eles virem rápido. — A voz de D. Ana ecoa pela sala.

Beata sai correndo, arrastando as chinelas de pano.

 

Jantaram numa muda expectativa. Rosário contara uma história es­tranha. Se um castelhano estava ferido por aquelas bandas, devia ser briga de bolicho ou coisa parecida. Não estavam em guerra com o Prata, estavam começando uma guerra contra eles mesmos... Mas o que faria um oficial de fora por ali?

— Ela dormiu rápido.

Maria Manuela chegou atrasada para o jantar. Ficara à cabeceira da filha, zelando seu sono. Tinha feito com que tomasse um chá de folha de tília, para acalmar os nervos.

— Se acharem esse homem, temos que avisar o Bento. Ele nos dirá o que fazer — Caetana duvidava muito que Manuel voltasse com al­guma notícia, aquela história estava mal contada.

— O que eu não quero é ver essa menina se adoentar — disse D. Ana. — Se o tal aparecer, tratamos dele, depois o enviamos para Porto Alegre. Mas se o Manuel não o encontrar por aí, deixem comigo; eu conto uma história para sossegar Rosário e não se fala mais nisso.

D. Ana comia calmamente. No fundo, sabia bem que nenhum castelhano andava por aquelas terras. Talvez a menina estivesse ape­nas assustada demais cora tudo, com a perspectiva de uma guerra.

Manuela estava em silêncio. Pensou na irmã frente a frente com o tal oficial. Não duvidava de nada, quem sabe não fora uma briga de amor, um duelo? Quem sabe, o coitado, ao ver as luzes na casa, não fora pedir um alento? Não entendia era aquela fuga assim, antes do socorro. Ele podia até morrer no mato, as noites ainda estavam muito frias.

Ficaram ali, sem respostas. Lá fora começava a soprar um vento inquieto que fazia cantar as árvores do capão. Talvez chovesse duran­te a noite.

Depois da janta, quando Caetana já tinha se recolhido para ver as crianças pequenas, foi que Manuel e Zé Pedra voltaram. Suas botas estavam embarradas, e as roupas, úmidas; tinha começado a cair uma chuva fina e gelada. D. Ana foi ter com os dois na cozinha.

— Não encontramos nada, D. Ana. — Manuel já se arrumava para comer. — Le digo que vasculhamos tudo, até o rio. Fomos até na es­tância da Siá Antônia, e nada. Se esse moço passou mesmo por estas bandas, então se escafedeu como o diabo.

— Está bem, Manuel. Mas não me comentem essa história com ninguém, nem com a peonada.

Zé Pedra mastigava furiosamente o feijão com arroz. D. Ana sabia que da sua boca não sairia uma palavra, não era à toa que o chamavam de Pedra: era um túmulo para guardar segredos. Manuel tirou o chapéu de barbicacho e sentou à mesa, pedindo licença à patroa.

— A senhora acha mesmo que tinha castelhano ferido por aqui? — perguntou Manuel em voz baixa.

D. Ana sorriu. Estava enrolada num xale de lã preta e parecia menor e mais frágil do que quando estava ataviada com suas saias e rendas.

— Não acho nada, Manuel... Minha mãe sempre dizia que em cabeça de moça e vespeiro a gente não deve remexer. — Um cheiro bom de lenha queimando ocupava o ambiente. — E a mocidade é uma época esquisita mesmo, o melhor é deixar passar, no más... — Foi saindo da cozinha. — Buenas noches.

— Buenas, patroa — responderam em coro o negro e o capataz.

Em seu quarto, Rosário dormia um sono agitado onde os olhos ver­des e febris do oficial a perseguiam como borboletas. Acordou no meio da noite, e o silêncio aterrador da madrugada campeira encheu-a de medo. Enrolou-se na coberta e, vencendo um pânico ancestral, atra­vessou o corredor quase às escuras e foi bater no quarto da mãe.

— Posso dormir com vosmecê?

Maria Manuela sorriu no escuro. Foi para o lado, abrindo espaço para a filha e, com a voz pastosa de sono, disse apenas:

— Deita aqui, meu anjo. Dormiram de mãos dadas.

 

Cadernos de Manuela

Estância da Barra, 2 de dezembro de 1835.

Ninguém soube explicar o causo do tal castelhano que viera ver Rosário naquele dia, nem nunca mais tocou-se no assunto. Lembro que, no dia seguinte, D. Ana trancou-se com ela no escritório e ali ficaram um par de horas. Rosário deixou o encontro com os olhos ardidos de choro, mas D. Ana acalmou-nos a todas com sua voz de certezas.

— Eu também já fui moça. Isso passa logo... Quando os homens voltarem, faremos uma baile. Até lá, Rosário terá esquecido essa his­tória toda.

E foi assim. Não se falou mais no causo.

D. Antônia também pouco fez do acontecido. Tinha lá seus pensa­mentos e suas certezas. Preocupava-se com gente de carne e osso. Olhou-me, quando acabei de lhe narrar o encontro que a mana tivera, e me disse: "Vosmecê tem bom senso, Manuela. Esqueça esse assunto. Temos aqui mesmo muitos rio-grandenses que de nós necessitam... E quanto à sua irmã, deixe que fique assim... Essas tolices se curam com o tempo."

Mas, nos dias subseqüentes, Rosário tornou-se mais calada e es­quiva, até hoje tem sido assim... Passa lendo por tardes inteiras trancada no escritório do tio, e é como se lá fosse um canto só seu, um outro país, que ela freqüenta por uma graça divina. Às vezes, passa muito tempo ao toucador, penteando os cabelos, trançando-os, até mesmo se lava e se perfuma para esses momentos... A mãe anda cabreira, coitadinha, mas tem lá outras angústias. Parece que Antônio se feriu numa escaramuça na Azenha, um imperial o teria cortado com a adaga. O pai e Bento se apressaram em nos escrever, dizendo ambos que fora coisa pouca, que Antônio estava bem e já curado. Apenas um arranhão no ombro, disseram ambos, que lhe custara uma noite de febre; com umas compressas e paciência, já fora sanado. Mas a mãe não acredita, quer ver o filho com os próprios olhos. Sonha que Antônio está muito ferido, gangrenando até, e acorda em prantos, os olhos riscados de veias vermelhas. D. Ana tem de servir-lhe um chá, e depois disso gasta mui­to tempo para demovê-la de tomar uma sege e ir para Porto Alegre por estas estradas, atrás do seu Antônio.

Ontem chegou um próprio trazendo extensa carta de Bento Gon­çalves. Como acontece sempre, Caetana leu-a na sala, em voz alta, para todas nós. Contava a carta que o novo presidente da província, indica­do pelo regente do imperador, chegara no dia anterior ao Rio Grande, vindo do Rio de Janeiro. Ouvimos apreensivas a voz de Caetana so­prar o seu nome: José de Araújo Ribeiro. Filho de uma família daqui, um rio-grandense contra outros. E fiquei pensando se seria esse ho­mem, esse sulista imperial, que traria em sua esteira todas as desgra­ças que enxerguei. Mas um nome? O que é um nome apenas, um indício de alguma sina? Será que nossos nomes traçam o futuro que nos cabe, será que Bento Gonçalves da Silva, quando ainda era um bebê, ao re­ceber na pia batismal esse nome que lhe foi dado, recebia também a herança de comandar este povo? Será de Araújo Ribeiro a mão que empunhará a espada da nossa desgraça?

Bento Gonçalves virá ver-nos em breve. Caetana chorou ao ler esse trecho. Choramos todas. Minha mãe ficou imaginando se o irmão tra­ria Antônio para estar com ela... Não sabemos. Mas tio Bento virá, e isto já nos alegra. Com ele, notícias; com ele, verdades. Aqui nesta casa, o tempo passa lentamente, embora a primavera tenha trazido novas cores a tudo, e os campos estejam floridos e belos como um salão pre­parado para o baile. Apenas Rosário, imbuída do seu novo distanciamento, pareceu não se alegrar com a chegada de Bento Gonçalves: talvez nem ouvisse direito o que Caetana nos lia.

Fugi pelos fundos, enquanto as mulheres permaneciam na sala co­mentando a carta e seus pormenores. D. Antônia estava conosco, pois mandaram buscá-la na estância para que também tivesse notícias: sua voz pausada e firme ouvia-se sobre todas as outras, e ela tomava pro­vidências para esperar com glória o irmão coronel.

No quintal, em torno do mate, Manuel, Zé Pedra e o vaqueano que trouxera a carta do coronel Bento trocavam frases esparsas enquanto sorviam a bomba, cada um a seu turno. Aqui não se fala muito, a gente do Rio Grande tem o peito fechado como um cofre. E um jeito de se alegrar para dentro, diz sempre D. Ana, quando falo da sisudez de nós todos, pois até eu tenho esse espírito controlado, essas palavras medi­das que às vezes me deixam a boca com custo.

No entanto, apesar dos longos silêncios de chupar o mate, os ho­mens pareciam muito contentes da vida, e tinham um certo brilho de orgulho nos olhos de sobrancelhas cerradas. E eu, fingindo que ia buscar um dos cachorrinhos de Nega, a cadela que deu cria na semana passada, pude ouvir da boca do mensageiro:

— Porto Alegre é nossa, estou les garantindo. Eu vi os imperiais fugirem como passarinhos. Logo teremos todo o Rio Grande.

Um calor de júbilo tomou-me. Escolhi um dos filhotes a esmo — a alegria até me turvava os olhos —, estavam todos numa grande caixa cheia de panos, Nega dormindo exausta, e tomei-o no colo. O bichi­nho tinha uma cara linda, e eu estava contente.

Vosmecê vai ser meu, cãozinho. E vai se chamar Regente.

Regente agora anda no meu encalço, mas D. Ana não o quer na casa. Detesta bichos pelas suas salas, porque diz que trazem doença e pulgas. Pedi, e Mariana deixou que ele ficasse em nosso quarto, contanto que não chorasse. Regente não chora, sabe bem o que lhe convém. Enquanto escrevo estas linhas, ele está aqui ao meu lado, olhando-me com seus olhinhos pretos e alegres: é uma bolinha gordu­cha e luzidia, de pêlo baixo, grosso e negro, tem a cabecinha pequena e uma mancha branca escorre de entre seus olhos até o focinho. Tem estado comigo todos estes dias, e é bom ficar ao seu lado, porque não me pede assuntos, segue-me apenas. Tomamos banho na sanga, on­tem à tarde, Regente nadou como se fosse um peixe, depois dormiu longas horas, deitado sobre a colcha velha que lhe serve de cama.

Amanhã, Bento Gonçalves chega à estância. As mulheres estão todas em polvorosa. D. Ana foi pessoalmente fazer a pessegada de que o irmão tanto gosta. E as negras não param, andam de um lado a ou­tro, areando a prataria, arrumando a casa como um brinco, trocando as toalhas das mesas, arejando as cortinas de veludo, lavando de esco­vas o chão da salas. Até os cavalos foram escovados, e a peonada ga­nhou de D. Ana mate e carne para um assado. Estamos quase em festa, como se fosse Natal... Espero que esta noite não nos seja longa.

Manuela.

 

O dia ainda não tinha clareado de todo, quando um vaqueano veio avisar à negra Beata: o coronel Bento Gonçalves, mais um grupo de cavaleiros, chegava na estância. Com eles, vinha Antônio, o filho de Maria Manuela, e usava no braço uma tipóia ou coisa que o valesse.

— Ainda não atravessaram a porteira — disse o gaúcho, coçando a barba. — Mas usted já pode avisar D. Ana: os homens chegaram para o mate da manhã.

Beata deu um pulinho de contentamento, abriu um riso largo e saiu ventando para dentro da casa.

Um sol tímido e dourado rasgava as nuvens da manhã, o passaredo cantava nas árvores, e o cheiro de mato, que o sereno carregava, ainda se fazia sentir naquele princípio de manhã de dezembro. O campo já tinha ares de verão. Ao longe, o gado pastava. O peão deu uma boa olhada em tudo — estava na mais perfeita ordem, seu Bento iria aprovar o andamento das coisas —, depois deu uma virada com o cavalo e saiu prós lados do celeiro. Manuel andava por lá, arrumando umas monta­das. Precisava avisá-lo da chegada do coronel.

A casa despertara mais cedo. De cá e de lá, as escravas andavam carregando bacias com água, toalhas, panos de fralda. Beata foi dando a notícia para todos com quem cruzava no corredor. Chegou na cozinha. Zé Pedra tomava um mate, encostado na soleira da porta.

— O coronel Bento chegou.

A voz de Beata era esganiçada feito taquara. O negro forte e espadaúdo não moveu um músculo do rosto. Acabou de sorver o mate bem amargo e retrucou em voz baixa, como falava sempre:

— Pois tá fazendo o quê aí, sua negrinha da peste? Vai avisar D. Ana agora mesmo, em vez de ficar por aí botando alarido na negrada.

Beata ventou cozinha afora. Todos tinham medo de Zé Pedra, que, diziam, tinha sido feitor lá para os lados de Cerro Largo, e que era de toda a confiança de D. Ana. Também falavam que era alforriado, que comprara sua liberdade, mas Zé Pedra não comentava sua vida, nem para mentir, nem para desmentir a boataria.

Beata saiu arrastando as chinelas pelo corredor. Na última porta, parou, ajeitou as saias. Bateu de leve. A voz de D. Ana se fez ouvir:

— Entra, Beata. — Conhecia os passos ligeiros e o jeito afobado da negra.

D. Ana acabava de aprontar-se. Milú prendia os seus cabelos no alto da cabeça, e Beata viu com gosto o vestido novo, enfeitado com fitas de veludo. Limpou a voz e, toda faceira, disse:

— O coronel Bento está aí. Deve está apeando, lá nos fundo. Veio com mais uns soldado. Seu Antônio tá com ele.

— Graças a Deus — disse D. Ana, abrindo um sorriso.— Vamos logo com isso, Milú. Quero ir ver meu irmão.

 

Bento Gonçalves era um homem alto, de barba cerrada e negra, e poses de fidalgo. Não aparentava os quarenta e seis anos que tinha, porque em tudo emanava energia, até nos menores gestos, mas era comedido, compenetrado, confiável. Por isso era o homem forte da revolução, um gaúcho, no más. Corajoso e sereno. Usava naquela manhã o dólmã azul, bombachas escuras, o chapéu de barbicacho e, presas nas botas de couro negro, suas esporas de prata, muito bem areadas, brilhantes. O lenço vermelho de seda estava preso ao pescoço.

Desceu do alazão, fez um carinho no lombo do animal e saudou com alegria o capataz:

— Como le vai, Manuel? Por estas terras está tudo bien?

— Tudo em ordem, coronel. A primavera tem sido boa. Um cava­lo xucro descadeirou um dos peões semana passada, mas o homem já está andando de novo, e já demos um jeito no bicho.

— Bueno — respondeu Bento Gonçalves.

João Congo, o escravo de confiança do coronel, veio e pegou o alazão. Bento sorriu para o negro. Estava contente de estar em casa e rever sua Caetana e os filhos pequenos. Aspirou o ar que cheirava a jasmins e sentiu uma vontade louca de tomar um banho de sanga e de passar a tarde toda numa rede, olhando as nuvens correrem no céu. Ficara dois meses em Porto Alegre, naquele palácio sisudo e escuro, repleto de veludos e criados de libré. E agora estava ali, uns três dias de calma e de campo le fariam um bem danado.

Antônio de Paula Ferreira, filho mais velho de Maria Manuela, tocou no ombro do tio com a mão esquerda. O braço direito vinha imobilizado numa tipóia encardida de pó.

— Aspirando o ar do campo, tio? Está um belo dia, não é?

O rapaz abriu um riso contente. Tinha límpidos olhos verdes e a pele clara que contrastava com o preto dos cabelos revoltos.

— E bom estar em casa, Antônio. Ainda mais com um céu des­ses... Vosmecê não vai lá dentro aquietar o coração da sua mãe? Ela me escreveu umas dez cartas, ou más, pedindo que eu le trouxesse comigo.

Antônio sorriu em resposta. Entregou sua montaria para Zé Pedra e sumiu cozinha adentro, chamando por Maria Manuela com voz ale­gre. Bento Gonçalves achou graça do sobrinho. Agora o ombro estava curado, mas andara feio; ainda bem que em Porto Alegre havia médicos bons para atendê-lo. Antônio e uma brigada pequena tinham cruzado um grupo de imperiais dispostos à batalha. Um deles reconhecera no moço alto e garboso, montado no cavalo branco, o sobrinho do gene­ral Bento, e tentara a todo custo vará-lo com a lança. Fora uma escara­muça rápida, mas os imperiais eram em maior número, e os rebeldes tiveram bastante trabalho. Horas depois, Antônio aparecera no palá­cio com o ombro tinto de sangue. A lança do maldito entrara fundo, fizera estrago. Bento Gonçalves não queria trazer para casa o rapaz sem um braço ou coisa parecida. Ia ser mui triste.

Dois outros homens desmontaram. Um deles era um italiano alto, de traços delicados, pele alva e modos fidalgos. Na verdade, era um conde, um conde fugido da Itália, agora secretário mui valoroso de Bento Gonçalves. Chamava-se Tito Lívio Zambeccari. Tito entregou a montaria para um escravo.

— Meu caro Tito, hoje vamos comer do bom e do melhor. Nada como estar em casa. Usted sinta-se à vontade aqui, amigo. — Bento Gonçalves gostava daquele italiano de gestos corteses e cultura impressionante.

O italiano sorriu.

— Quem não ficaria à vontade sob este céu, coronel? E este chei­ro de pão que vem de lá de dentro? Parece um sonho.

— Não há nada de sonho nesse cheiro, le garanto, Tito. Espere para ver as comilanças que minha irmã mandou preparar. Ela acredita que os guerreiros comem por dez.

O último a desmontar era Pedro, filho mais novo de D. Ana. Era um moço de vinte anos, de pele morena e olhos escuros. Falava pouco e era discreto, mas se mostrara um valoroso soldado. Entregou o cava­lo para Manuel, e este sorriu para o patrãozinho.

— Seja bem-vindo, seu Pedro. Tem aí uma égua recém-domada para o senhor dar umas voltas.

— Macanudo, Manuel. — Pedro deu um abraço no capataz que conhecia desde menino.— Vou lá dentro ver minha mãe.

Não precisou.

D. Ana e Caetana apontaram na porta da cozinha, sorridentes.

Caetana estava bela, usando um vestido azul muito claro, que fazia seus olhos arderem de brilho, os cabelos presos numa trança lustrosa. Viu o marido parado no meio do terreno, dizendo qualquer coisa a João Congo. Não conteve um grito:

— Bento!

Mal tinha dormido naquela noite. Acordava de pouco em pouco, suada, nervosa, para ver se já tinha amanhecido, se ouvia o barulho dos homens chegando, mas sempre era a noite apenas, com seus pios e seus silêncios de orvalho, e seus gritos de corujas e morcegos. Levan­tara antes do sol.

Agora correu para os braços do marido. O rosto de Bento Gonçalves adquiriu uma doçura nova que brilhou nos seus olhos miúdos assim que ele viu a esposa. Abraçou-a com força, quase escondendo-a sob seu corpo forte.

— Minha cara... Vosmecê está tão hermosa, mais do que eu me lembrava!

Caetana riu de contente. Fez um carinho na barba daquele coronel cheio de sonhos.

— E vosmecê está bien? Tem se cuidado como le pedi? Tem co­mido, dormido o bastante, ou só pensa em batalhas?

Bento riu com força.

— Tenho estado bem longe de pelejas, Caetana. Sentado atrás de uma mesa, como se fosse um juiz. Ainda agora, venho até aqui para encontrar este senhor Araújo, neste baile em Pelotas. Esta guerra ainda não se fez com batalhas, Caetana.

— Assim está bien, por enquanto — disse a uruguaia de olhos esmeraldados. — Vamos lá para dentro, que a mesa está posta e cheia de quitutes. Ah, e seus filhos estão loucos para le ver.

— Vamos a eles, então. — E o coronel saiu pisando firme, de bra­ço dado com Caetana.

Na cozinha, abraçou e beijou D. Ana. Vinham da sala o som de risos e a gritaria dos meninos que brincavam de guerra com Antônio e Pedro, correndo em volta da mesa comprida.

 

Rosário ouvia com muita atenção as histórias contadas pelo conde. Encantava-a aquele brilho que ele tinha nos olhos claros, as maneiras elegantes de salões. Tito Lívio Zambeccari tinha uma voz pausada e morna. Rosário imaginou-o em seu castelo na Itália. Pois sim, se era conde, deveria ter um castelo.

Estavam todos à mesa. Maria Manuela cercava Antônio de atenções, satisfeita de ver o filho com cores. Já o tinha posto num longo banho de tina, a bandagem no braço direito era outra vez alva. Fizera-lhe também um prato farto, com tudo o que ele mais apreciava comer. A cabeceira da mesa, Bento Gonçalves falava:

— Pois o homem chegou à província faz quase uma quinzena de dias. E ainda não me saiu do Rio Grande. Se não for a Porto Alegre assumir o seu posto, a coisa fica feia. Estamos parados, esperando. Mas se Araújo Ribeiro não se dignar a nos reconhecer, haverá uma guerra.

D. Ana trocou um longo olhar com o irmão, onde leu alguma an­gústia, mas seu rosto era firme e orgulhoso, o rosto de um comandan­te. As coisas não estavam no pé que ela imaginava, nem tudo estava certo ainda. Os imperiais resistiam ao movimento. E quem era este Araújo Ribeiro, e onde estava vivendo? Formulou estas questões em voz alta. Bento Gonçalves sorriu e pensou por um instante, escolhen­do boas palavras para sua resposta.

— José de Araújo Ribeiro está morando no brigue Sete de Setem­bro, Ana. Nem pisar neste chão o homem pisa. Mas amanhã nos en­contraremos... Não é à toa que irei à festa do Rodrigues Barcelos. Quero ver o que Araújo me diz, na cara. Quero ver quais são as suas inten­ções. Onofre e os outros ficaram a postos, estamos bem organizados. Quero ver esse Araújo se meter a besta comigo 1

As mulheres arregalaram os olhos. D. Ana sorriu da efervescente for­ça do irmão. O que tinha de ser, tinha de ser, pensou. Mas disse apenas:

— Vou mandar servir a pessegada.

O conde Tito abriu um leve sorriso de satisfação.

E o almoço prosseguiu num clima leve, de reencontro familiar. Manuela e Mariana notaram os novos risos no rosto da irmã. Desde o episódio do castelhano, Rosário não parecia tão contente. Não tirava seus olhos azuis do rosto aristocrático do jovem conde.

 

D. Antônia chegou após a sesta. Recebera no dia anterior a notícia da vinda de Bento Gonçalves, mas passara boa parte da manhã envolvida com assuntos de gado, fechando uma venda, e só pudera deixar a Estância do Brejo à tarde. Tomara a charrete. Trazia consigo um cesto de laranjas frescas para os sobrinhos.

Encontrou Bento Gonçalves sentado na varanda, tomando um mate. Bento passara boas horas com Caetana, depois tomara um banho, ves­tira a bombacha, as botas, a camisa branca, bem passada — como eram bons os cuidados femininos —, e agora estava ali, pitando o cigarro de palha que João Congo acabara de fechar. Ainda há pouco vira passar uma cabocla que trabalhava na casa, uma rapariga duns quinze, dezesseis anos, no mas, e estava pensando o quanto era apetitosa uma carne jovem daquelas, de moça virgem, que cheirava a coisa nova.

D. Antônia interrompeu esse seu devaneio.

— Que alegria têm os meus olhos, Bento!

Abraçaram-se com carinho. Bento Gonçalves da Silva tinha muito respeito pela irmã mais velha, boa de tino, estancieira das sábias, que tanto lhe recordava D. Perpétua com suas decisões bem pensadas, com sua voz calma, com as mesmas certezas de uma vida inteira. Falaram amenidades, falaram do campo, do gado, das dificuldades que se avi­zinhavam com a guerra. D. Antônia tomou o mate. A tarde começava a esmaecer em seu brilho. Os quero-queros cantavam. Manuela pas­sou ao longe, cavalgando ao lado do irmão.

— Esses dois têm a mesma têmpera — disse D. Antônia.

— São Gonçalves de cima a baixo.— Bento ficou olhando os dois cavaleiros irem diminuindo de tamanho, duas pequenas manchas no horizonte. Os cabelos negros de Manuela balançavam ao vento como uma coisa viva. Bento sorriu. — Ela será uma boa esposa para Joaquim.

— Manuela tem a cabeça no lugar.

— E o coração? Usted sabe de algo? Afinal, estão todas aqui, du­rante esses meses. Sabe se ela quer o Joaquim?

D. Antônia passou o mate ao irmão. Viu as mãos calejadas, fortes, másculas agarrarem a cuia com facilidade extrema. A cuia sumiu man­samente entre aqueles dedos.

— Olha, Bento, saber eu não sei de nada. Manuela é de poucas palavras, vosmecê conhece os silêncios dela. Mas tem a cabeça no lugar, como eu disse. Por que não haveria de querer Joaquim, um moço tão garboso, rico, bonito? Quando Joaquim acabar a faculdade de medicina, os dois se casam, fique tranqüilo.

Bento Gonçalves sorriu. Mandou João Congo ir buscar mais água. Depois olhou a irmã no fundo dos olhos — era como se olhasse a si mesmo — e respondeu:

— Deixa, Antônia... Às vezes tenho esse cutuque. São bobagens de velho. Joaquim e Manuela serão um belo par, sem dúvida. Quando casarem, vou fazer uma festança como nunca se viu nesta terra.

O negro João Congo voltou com uma chaleira fervente. Tornou a encher a cuia do patrão. Antônia analisava o homem ao seu lado. Esta­va inquieto, alguma coisa dentro dele não se acomodava. Ela o olhou, recostado na cadeira, fitando o horizonte rosado do entardecer, mas era como se não o enxergasse, era como se Bento não estivesse ali, no seu sossego, na sua paz campeira. E viu então o que a inquietava tan­to: dentro dos olhos de Bento, dos olhos negros e ávidos de Bento, um brilho de fúria ardia como uma chama.

O irmão virou-se de repente para ela.

— Antônia, quero que vosmecê saiba: se esta guerra estourar, vou necessitar de seus ajutórios.

— Pode contar comigo, Bento — a voz dela era firme. — Le disse isso no primeiro dia, pois repito agora.

— Bueno.

O conde apareceu em frente à casa. Vinha sorrindo, o rosto corado, satisfeito. Subiu os degraus da varanda. Bento Gonçalves ofere­ceu-lhe um mate. Tito Lívio Zambeccari agradeceu, mas declinou. Na verdade, nunca se acostumaria com aquela beberagem amarga, com a bomba que sempre lhe queimava os lábios. Preferia um bom vinho, como italiano que era. Fazia muito tempo que não revia a sua Itália. Olhou aquelas terras planas, infinitas, recobertas pela grama verde, pensou nas terras do pai, tão diversas, escarpadas, mas belas, tão belas como só podem ser as coisas do passado. Sentiu um nó no peito.

— Se aprochega, Tito. Estamos aqui de prosa, aproveitando esta tarde bonita.

João Congo botou uma cadeira para o conde. Tito Lívio agrade­ceu polidamente. D. Antônia simpatizou com o italiano de olhos cla­ros; havia uma coisa nele que evocava romances, e no entanto parecia frágil, um tanto pálido. A voz maternal de D. Antônia se fez ouvir:

— O conde não quer o mate? Então vou mandar que tragam um suco de laranja bem fresco. São laranjas do meu pomar.

— Muito le agradeço, D. Antônia. — Tito sorriu timidamente. — Um suco me faria bem.

Bento fez um gesto de mão:

— Não se apoquente, Tito. Minha irmã tem esse jeito, cuida de todos.— E depois, mudando de tom: — Vamos combinar: amanhã saímos cedo para Pelotas. Vamos nós, mais Caetana e Congo. Depois do baile, voltamos, pegamos Antônio e Pedro, e rumamos outra vez para Porto Alegre. E agora que a coisa vai pegar fogo, Tito. Quero ver de que trigo é feito esse Araújo.

 

Rosário esgueirou-se pelo corredor, como uma sombra. Não encon­trou ninguém, a não ser uma negrinha que varria a varanda dos fundos, assobiando qualquer coisa. Pensou no conde, um calor agradável su­biu ao seu rosto. Onde estaria o conde àquela hora? Já tinha passado a sesta fazia tempo, será que estava cavalgando, conhecendo a estân­cia? Talvez estivesse de prosa com o coronel Bento; sim, eles deviam ter muitos assuntos a tratar. Mais tarde, chamaria Antônio para um passeio de charrete, e então, sutilmente, perguntaria quem era aquele Tito, aquele conde de olhos azuis que estava tão longe de casa, um homem fino, que falava tantas línguas, perdido nessa terra, secretarian­do um coronel. Sim, tinha muito o que descobrir do conde. Mesmo assim, não podia faltar ao seu encontro. A tarde caía, o calor levanta­va-se do chão, o sol ia esmaecendo lá fora, dando descanso ao pasto e aos animais. Deviam ser mais de seis horas.

Rosário entrou na biblioteca e fechou a porta a chave. D. Ana não gostava que trancassem os cômodos. "Aqui não temos segredos a es­conder", era o que dizia. Mas D. Ana estava ocupada com as visitas, a última coisa que faria era procurá-la. Rosário fechou as cortinas, a penumbra tomou conta do pequeno aposento.

Assim está bom. Ele não gosta de luz. A luz fere os seus olhos.

Rosário sentou na poltrona, cruzou as mãos no colo e começou a esperar. Seu coração deu uma corrida dentro do peito.

Preciso ficar calma. Já me visitou outras vezes. Não há nada de errado nisso.

Fechou os olhos por um momento. Ao abri-los, ele estava ali. En­costado na estante, como o vira pela primeira vez. A bandagem em torno da testa estava rubra. Seus olhos verdes ardiam de febre e de amor. Ele sorriu, um sorriso doce. Estava muito cansado, já lhe dissera tan­tas vezes... Rosário sentiu pena, sentiu amor, sentiu medo. Não medo dele, que já lhe era tão querido, mas de que lhe faltassem forças até para vir vê-la. Seu rosto estava branco feito papel, a boca delicada quase sem cor.

— Usted está bien? — A voz dele era um sopro nos ouvidos de Rosário, um sopro morno.

Ela enrubesceu. Baixinho, respondeu: "Sim, estou bem." Disse que estivera pensando nele, se ele viria vê-la naquela tarde. Afinal, tinham visitas. Sabia que não gostava de estranhos. "Lo conozco, Rosário", respondeu ele. "Hubiemos nos encontrado en la Cisplatina", e dizen­do isso fez um esgar de dor.

Rosário quis erguer-se para tocá-lo, mas o oficial fez um gesto. "Está bien...", disse somente. Rosário viu que, de um instante para o outro, a bandagem tornava-se úmida de sangue. Por um estranho pressentimento, pensou na mão de Bento Gonçalves segurando a espada que rasgara aquela carne, que tornara tão pálido e fugidio aquele semblante que ela já começava a amar. Seus olhos arderam de lágrimas.

— Steban... — sua voz titubeava. — Steban, não fique assim... Eles estão lá fora. Vamos esquecê-los, não nos importam.

— Lo juras? — O verde dos olhos dele se acendeu. Rosário cogi­tou se um dia poderia abraçá-lo, dar-lhe um beijo, valsar com ele num salão de baile.

— Juro, Steban... Fiquei a tarde toda esperando para estar com vosmecê. Não vamos deixar que meu tio estrague também isto.

O oficial sorriu. Alguma cor voltou ao seu rosto. Ele virou-se para a estante, procurando alguma coisa. Gastou assim alguns momentos, até que retirou dali um livro. Abriu numa página e, com a voz sussurrante, começou a ler um trecho para Rosário. Em seu espanhol morno e pausado, contava de uma noite sob um céu de estrelas. Rosário sus­pirou e deixou-se levar. Lá fora, a noite derramava suas primeiras es­trelas pelo céu de verão.

 

Cadernos de Manuela

Estância da Barra, 5 de dezembro de 1835.

Eles partiram ao alvorecer. Mesmo tão cedo, o calor já se fazia sen­tir. João Congo aboletou-se ao lado do cocheiro e abanou para nós com sua manzorra. Caetana olhou da janelinha, usava um vestido cla­ro de viagem, mas, na mala, levava rico traje de festa. Vi meu tio Bento dizer-lhe: "Quero que estejas linda como nunca. Para que saibam quem somos."

Perpétua pediu muitas vezes à mãe para que pudesse acompanhá-los ao baile, dançaria com o conde, queria muito ir à festa, valsar, dan­çar a chimarrita, ver gente e ouvir música. Bento Gonçalves irritou-se. Chamou-a de tola, disse que não estavam de divertimentos, que tinha uma província às suas costas. Ia a Pelotas para resolver um assunto pendente. Perpétua saiu correndo da sala, acho que chorava. Isso su­cedeu ontem à noitinha, e a prima não esteve conosco ao jantar, nem foi à varanda despedir-se dos pais.

Os grilos cantam lá fora. Já é bem tarde.

Mariana ainda não veio para o quarto, deve estar conversando com Pedro e Antônio. É bom ter meu irmão conosco, mesmo que seja por pouco tempo. Antônio contou-nos coisas sobre o conde Zambeccari. Disse que ele fugiu da Itália, onde conspirava contra o rei. Que foi para a Espanha, para o Uruguai, e que agora estava aqui e era muito fiel a Bento Gonçalves. Rosário pareceu interessada no conde, fez perguntas, quis saber coisas pessoais. Antônio caçoou dela, disse que o conde Tito não era homem de romances. Gostava das idéias.

Existem outros homens por trás disso tudo, homens daqui do Rio Grande, cujos sonhos se assemelham aos de Bento Gonçalves, e ou­tros ainda, que sonham com uma república. O coronel Antônio Netto de Souza, de Bagé, Onofre Pires, primo de minha mãe, o major José Gomes de Vasconcelos Jardim, o major João Manoel de Lima e Silva, o capitão José Afonso Corte Real, o capitão Lucas de Oliveira, e ain­da outros. Alguns deles querem apenas um regente que lhes dê ouvidos, outros falam fervorosamente numa república e no fim da escravidão. Antônio conta da tal república, e seus olhos brilham, brilho de olhos moços que almejam o futuro. D. Ana pede que ele não nos ensine bo­bagens. Fala que Bento Gonçalves quer apenas um novo presidente para a província, que reconheça os direitos dos estancieiros e as suas exigências. E isto é que é o certo. O resto são sonhos, diz ela. Fantasias.

Antônio não retruca, baixa os olhos, respeitosamente. Quando er­gue outra vez o rosto, ainda está lá aquele brilho. Eu o percebo como se fosse um halo, um halo dourado que circunda o verde de seus olhos. Talvez as outras não notem, talvez. Minha mãe, sentada numa poltro­na, borda sua toalha de mesa quase com furor, não gosta desses assun­tos de guerra e de política. Rosário torna a perguntar da vida pessoal do conde. Antônio responde, brincando: não é uma comadre alcoviteira, não fuça a vida do conde. Fica ele ali fazendo a sua graça, mas eu sei, eu pressinto, Antônio é republicano, gostou desse idílio, luta, no fundo de sua alma, é por isso. Me ponho a pensar se Bento Gonçalves percebe o imenso mecanismo que pôs em movimento quando marchou com suas tropas sobre Porto Alegre, e fico pensando como o coronel pretende dominar este tordilho enfurecido que já corcoveia pelos pampas, nos olhos de meu irmão mais velho, nos olhos de Pedro e de outros tantos espalhados por aí...

Risadas chegam da sala. E eu estou aqui, quieta, escrevendo estas linhas. Para quem? Para que eu as leia, anos mais tarde, e lembre des­te tempo aqui na Barra, destes dias silenciosos que gastamos esperando à beira do Camaquã? Não sei por que escrevo, mas algo me impele, uma vontade toma meus dedos, empurra a pena para a frente... Fico imaginando como estará o baile... Caetana levou na mala um vestido verde-esmeralda, de seda, decotado e com rendas na saia. Deve estar bela, mais do que é possível imaginar. Bento Gonçalves estará elegan­te, e sério, e duro, a barba feita com esmero, a camisa de seda branca, o chiripá preso à cintura. Muitas coisas se resolverão neste encontro, ou nenhuma. Amanhã à tardinha saberemos de algo. Amanhã eles retornam. Caetana volta para nós, tio Bento e o conde vêm buscar Antônio e Pedro, estarão de passagem, outros os esperam.

Sim, sempre os homens se vão, para as suas guerras, para as suas lides, para conquistar novas terras, para abrir os túmulos e enterrar os mortos. As mulheres é que ficam, é que aguardam. Nove meses, uma vida inteira. Arrastando os dias feito móveis velhos, as mulheres aguar­dam... Como um muro, é assim que uma mulher do pampa espera pelo seu homem. Que nenhuma tempestade a derrube, que nenhum vento a vergue, o seu homem haverá de necessitar de uma sombra quando voltar para a casa, se voltar para casa... Minha avó Perpétua dizia isso, disse-nos isso muitas vezes ao contar das guerras que meu avô lutara. É a voz dela agora que ecoa nos meus ouvidos.

E lá fora os grilos cantam.

Deve ser bem tarde.

 

Manuela.

1836

"Minha querida Caetana,

Muito sofri quando o dia trinta e um de dezembro nos pegou separa­dos, eu tão longe de vosmecê e dos nossos filhos, a família apartada, brin­dando a chegada deste misterioso ano de 1836 sabe-se lá com que apreensões na alma. Pensei em usted, nas irmãs e nas meninas, todas reu­nidas na estância, e espero que, mesmo sem nós, tenham feito lauta ceia e brindado para que a sorte nos acompanhe nesta jornada. Pensei em Joa­quim, Bento e Caetano, no Rio de Janeiro, os três solitos, quando sempre nos reunimos em mesa farta, os irmãos, cunhados e primos, para a noite de final de ano. Porém, minha Caetana, em tudo este ano de 1836 parece ser diverso dos outros, e não o reconheço sem uma certa agonia.

Aqui em Porto Alegre as coisas precipitam-se dia a dia, e a cada novo momento parece mais remota a possibilidade da paz. É por isso que, em vez de tomar do cavalo e ir ver-te como eu gostaria, apenas le envio esta carta, escrita às pressas, à luz do candelabro, nesta modorrenta madruga­da de janeiro. Faz muito pouco, o conde, sempre cortês e gentil nos seus modos e sentimentos, deixou cá comigo uma poesia que copiou de pró­prio punho, para que eu a envie junto com esta. Assim é que Tito manda as suas lembranças, minha Caetana.

No início deste janeiro, após muitas confusões ocorridas nas reuniões da Assembléia, o presidente interino desta província, o deputado Marcia­no Ribeiro, enviou ofício a Araújo Ribeiro, convocando-o a comparecer à Assembléia Legislativa para que tome posse do cargo que é seu. Pois, dias mais tarde, chega-nos a notícia de que o tal Araújo Ribeiro tomara posse em Rio Grande, um insulto que não se pode engolir. E mais, minha cara, sendo que estas são as primeiras coisas que sucederam neste ano, mas não ainda as piores. Meu tocaio, o infame Bento Manuel, finalmente mostrou suas garras: reúne tropas em São Gabriel, para pelejar em nome do imperador, e diz que só obedece às ordens do presidente nomeado pela Corte.

Estamos todos à espera dos fatos, que certamente vêm por aí. Já co­meçamos a tomar medidas e a fazer reuniões de comando, para o caso de a guerra realmente acontecer. Decidimos, no entanto, não tomar quais­quer atitudes até a data de quinze de fevereiro, quando então, caso Araú­jo Ribeiro não volte atrás em seus hediondos atos, começaremos uma guerra em nome desta província e da sua mui honrada gente. Os homens aqui dizem que a guerra tem data certa. Onofre está ansioso por batalhas. Não posso me esquivar a esse fato, no entanto, meu temperamento co­medido me faz esperar sem sobressaltos nem vãos anseios. Dentro de um mês saberemos o rumo que tudo isto há de tomar.

Cara Caetana, sei que estas notícias que ora le dou hão de deixar in­quieta a sua alma. Peço que tenha calma, e que rezes por esta terra. É sua a missão de informar estes fatos às outras da casa, mas que não se assus­tem, nem temam. Os outros estão todos bem, ainda há pouco comemos juntos um gordo churrasco.

E outra coisa, trate junto com Antônia da venda de uma ponta de gado e envie parte desse dinheiro aos meninos, no Rio. Caso seja necessário, quero que eles estejam preparados para voltar ao Rio Grande.

Fique com meu carinho e meu amor,

Bento Gonçalves da Silva

Porto Alegre, 20 de janeiro de 1836."

 

O final daquele mês de janeiro demorou muito para gastar-se, es­correndo em dias azuis de calor intenso, nos quais o céu mostrava-se impávido, sem nuvens que trouxessem um refresco ou a promessa de chuva. Os primeiros dias de fevereiro vieram carregados de nuvens negras, baixas, o campo perdia-se em nebulosidades ao anoitecer, e uma inquietude ainda maior assolou as mulheres da Estância. A carta de Bento Gonçalves espalhara entre elas uma angústia muda e crescente. Quiseram rever os dias de sol, quando ainda havia a graça dos banhos na sanga, dos passeios de barco com D. Antônia pelas margens do Rio Camaquã, do suco fresco e espumoso que sorviam em grandes goles quando chegavam das cavalgadas, a pele úmida de suor.

Com o tempo feio de fevereiro, um calor ainda mais pegajoso agar­rou-se em tudo. As crianças choravam pelos cantos por qualquer coi­sa. D. Ana tocava longas horas ao piano para espantar os silêncios cheios de sussurros dos entardeceres sem sol. A negra Xica ficou dias sem leite, mas logo depois, com os cuidados e as simpatias feitas por D. Ana, voltou intacto o seu manancial, e a vozinha chorosa de Ana Joaquina aquietou-se, afogada naquele líquido branco e espumoso que a deleitava e apaziguava.

Marco Antônio e Leão fugiram numa manhã tempestuosa, porque na noite anterior tinham decidido ir em busca do pai e unir-se às suas tropas ainda antes da falada guerra. Não queriam mais restar naquela casa com tantas mulheres medrosas, vendo a mãe rezar horas e horas para a Virgem, pedindo vitórias e zelos, quando tudo o que o general Bento, o grande e forte guerreiro e pai, necessitava eram mais espadas para atacar os imperiais.

Era ainda muito manhãzinha quando os dois escorregaram da cama e vestiram sobre os pijamas um agasalho qualquer. Leão, por ser um ano mais velho, ordenando o silêncio e o cuidado, com medo de que uma das negras que dormia no quarto ao lado fosse alertada pelos ruí­dos. Deslizaram pelos corredores ensombreados e atravessaram a co­zinha na exata hora em que D. Rosa saía do seu quarto, mas não a tempo de ver os dois fujões, que ganharam o pátio correndo e conseguiram driblar a atenção do negro Zé Pedra, que estava sentado num tronco, muito silencioso, esperando o dia raiar para começar o trabalho.

Sumiram no capão. Levaram consigo um pequeno farnel com os restos do lanche da tarde anterior: um pedaço de pão sovado e duas laranjas. Logo, Marco Antônio começou a reclamar de fome, e Leão, no alto dos seus onze anos, proclamou contrariado:

— Um bom soldado não reclama de nada! Tome aí esta laranja. Vendo o irmão menor chupar com gosto a fruta, achou que não havia mal nenhum em se servir também, e foi assim que a tempestade os apanhou: chupando laranjas agachados num canto qualquer.

A água rapidamente começou a formar poças no chão. Os meninos avançavam com dificuldade, pois chovia muito, um manto de água derramava-se do céu, promessa de tantos dias de nuvens negras. Marquito, era assim que Bento o chamava, quis voltar para a casa.

— Podemos procurar os exércitos do pai amanhã — argumentou, parado no lamaçal, os cabelos pretos escorridos de chuva. — Hoje ainda não é o tal dia quinze, Leão... Vamos amanhã, quando estiar...

Leão achou alguma lógica no pedido do outro, mas como não po­dia mais recordar para que lado ficava a casa, e não queria dizer ao irmão desse seu esquecimento, respondeu apenas:

— Eu sou o coronel, Marquito. Vosmecê é apenas um tenente. Eu é que mando, e nós vamos prosseguir. O pai está esperando por nós em algum lugar aí na frente. Vamos!

E os dois foram.

Viriata foi acordar os dois meninos lá pelo meio da manhã, quando as mulheres já tinham tomado o café e estavam na sala, olhando a chu­va que caía lá fora, Não estranhou ao ver as camas vazias, decerto que tinham ido para outra peça brincar, ou estavam lá para os fundos, in­comodando as negras na cozinha. Gastou uns quinze minutos procu­rando os dois por toda parte, nas despensas de compotas, no quarto das meninas, na biblioteca, no quintal e até no curral. Quando entrou na sala e postou-se à frente de Caetana, estava pálida como quem tinha visto alma penada,

— Os menino sumiram — foi o que disse, sem delongas.

D. Ana ergueu-se de um salto e pôs a mão no ombro da cunhada.

— Sumiram como, Viriata? — A voz de Caetana tremia levemente.

— Devem estar por aí, brincando na chuva. Esses meninos têm muita energia... Eu sei, criei dois moleques — interveio D. Ana. — Esteja calma, cunhada. Vou agora mesmo mandar Zé Pedra buscar esses dois aí fora. Vão voltar uns pintos molhados — e saiu para os lados da cozinha.

Zé Pedra e um vaqueano saíram em busca dos meninos. Saíram rindo. Em dias de chuva, era aquilo: viravam de tudo, até babás de guri fujão. A cavalo, percorreram boa parte da estância, foram até a beira do rio, adentraram um tanto no capão. Na sanga, nem sinal dos meninos. Zé Pedra teve a idéia de ir falar com a sinhá Antônia, os guris podiam andar por lá. Mas na Estância do Brejo ninguém tinha visto os filhos de Bento Gonçalves, por ali não tinham passado. D. Antônia fi­cou preocupada, mandou aprontar a charrete para ir até a casa da irmã.

Zé Pedra, o vaqueano, D. Antônia e o negrinho que a levava che­garam à Barra à uma hora da tarde. As mulheres tinham acabado o almoço, carreteiro de charque, menos Caetana, que a estas alturas es­tava tomada de nervosismo e não conseguira levar o garfo à boca. Continuava chovendo muito.

— Nós olhamos em quase tudo que foi canto, até pros lados do capão, mas os guris não estavam — contou Zé Pedra, molhado de chu­va, chapéu na mão.

D. Ana começou a ficar nervosa. Não bastavam os tantos medos que já tinham, os maridos, os filhos, todos preparando-se para aquela guerra, uma guerra contra o Império, agora acontecia de os meninos tomarem sumiço, e num dia terrível daqueles. Caetana chorava no sofá, amparada por Maria Manuela e por Perpétua. As outras estavam ca­ladas, olhos de angústia. Manuela queria sair a cavalo, em busca dos primos.

— Nada disso — respondeu D. Antônia. — Vamos mandar Ma­nuel e os homens darem revista em tudo quanto for canto. Lá no Bre­jo, mandei o capataz fazer o mesmo. Ele reuniu uns dez peões e estão procurando Leão e Marquito. Nós vamos esperar aqui, e manter a calma. — Chamou D. Rosa e disse: — Faz um chá de camomila para todas, e tome uma xícara também. A tarde vai ser longa.

As horas vespertinas pareceram se arrastar, prolongadas ao máxi­mo pela chuva que tamborilava no telhado e ia encharcando a varanda, formando grandes poças no jardim, afogando as flores de que D. Ana mais gostava. As quatro moças liam, de cabeça baixa, cada uma com­penetrada no seu romance como se fora das páginas estivesse um abismo de breu — se os primos não aparecessem, o que aconteceria? De quando em quando, uma delas erguia os olhos para a rua. O tempo parecia cristalizar-se, a tarde era um sem-fim daquela mesma luz opa­ca, daquele céu gris que pairava tão baixo, quase tocando a copa do umbu que ficava em frente à casa. A chuva espantara os pássaros, e um silêncio pegajoso derramava-se sobre tudo.

Maria Manuela, D. Ana e D. Antônia bordavam; Caetana estava à janela; os olhos verdes, perdidos na umidade da rua, estavam úmidos também. De quando em quando, ia ao quarto ver como andavam as meninas: com o sumiço dos dois filhos, o amor pelas pequenas pare­ceu-lhe que se multiplicava, via nelas belezas novas, era como se tives­sem desabrochado no espaço daquele dia para ocupar-se da angústia que a assolava. Teve saudades de Bento e sentiu raiva da guerra, que a privava da sua presença e força. Bento já teria achado os filhos, sim, ela tinha certeza.

A tarde, tendo findado tão lentamente, trouxe alento ao anoitecer. A chuva estiou, era agora apenas uma bruma espessa que se grudava em tudo e roubava os contornos das coisas. As moças foram para os quar­tos, tomar o banho, trocar de roupa para o jantar. D. Ana fazia questão de que tudo seguisse seu ritmo normal. "Quando se perde o tino de uma casa, nada mais está sob controle no mundo", dizia sempre, e repetiu isso, quando mandou as sobrinhas irem preparar-se para a ceia.

Rosário ainda ficou um tanto de tempo fechada no escritório, aque­les momentos mágicos que davam certa razão aos seus dias, mas na­quele anoitecer o encontro com o jovem oficial não teve o mesmo gosto das outras vezes. Pensava nos primos, na umidade lá de fora, pensava nas cobras, nos bichos perigosos, nas sombras noturnas. O uruguaio parecia mais difuso, era como se a chuva lhe tivesse roubado o viço das cores, e seus olhos verdes tinham um brilho nebuloso, de céu en­coberto. Um riso úmido escorria-lhe pelo rosto muito pálido.

— Vosmecê está indo embora, Steban? — preocupou-se. Será que sumiria até a completa desaparição, deixando-a ali, à mercê daqueles dias intermináveis? — Vosmecê não quer mais vir ver-me?

— No es nada de esto, mi querida. — Sua boca moveu-se lenta­mente, como num sonho. — La lluvia me deja así. — No entanto, sa­bia que a angústia no rosto bonito da moça tinha outra razão. — No estés preocupada. Los hijos del coronel aparecen hoy, yo los vi.

Depois soprou-lhe um beijo que foi rolando pelo ar até tocar seu colo como uma coisa viva. Rosário permaneceu quieta, emocionada com aquele gesto, com o frescor do beijo que ela podia sentir entre as ren­das do decote. E Steban foi desaparecendo lentamente, era como se mergulhasse para dentro da estante, desfazendo-se entre os livros como uma nuvem que já derramou toda a sua chuva.

Por fim, Rosário ficou sozinha. Quando deixava o escritório, as mãos tocando o colo onde ainda podia sentir a morneza daquele cari­nho, cruzou com Mariana, que vinha vestida e penteada.

— Os meninos já apareceram? — perguntou. Mariana fez uma cara amuada.

— Ainda não — disse. — Caetana está chorando no quarto, a mãe foi lá ter com ela. Estou indo pedir que Beata lhe traga um chá com bastante açúcar, quem sabe a pobre se acalma...

— Esteja tranqüila, Mariana. Eles aparecem ainda hoje — fa­lou Rosário, com uma certeza que espantou a irmã. E depois disso, levemente envergonhada, correu para o quarto a fim de fazer sua toalete.

Mariana deu de ombros: Rosário andava esquisita ultimamente.

Zé Pedra, Manuel e os outros peões voltaram para a estância às oito horas sem notícias dos meninos. D. Ana cogitava se era certo en­viar por um dos homens uma carta a Bento, alertando-o sobre o desa­parecimento dos filhos.

— Esperamos até as dez — disse D. Antônia, decidida. — Se não aparecerem, mandamos Zé Pedra com o bilhete. Por enquanto, deixe­mos Bento com as dores de cabeça que já tem. — E depois, com voz morna, ajuntou: — Meus homens ainda não chegaram, quem sabe encontram esses dois guris.

Manuela andava por ali, olhando tudo com seus vagos olhos ver­des. A noite escura e úmida a oprimia. O pequeno Regente estava en­colhido em seu colo.

— Largue desse bicho, menina — ordenou D. Ana. — Agora é hora da comida. E não gosto de bichos dentro de casa. Além do mais, esse aí está cheirando a mofo.

Manuela não retrucou a tia. Ela tinha os olhos de Bento Gonçal­ves, olhos que não gostavam de ser contrariados. Cearam num silên­cio tristonho. Caetana ficou em seu quarto, sendo cuidada por Zefina. A luz dos candelabros parecia ainda mais lúgubre. D. Ana tinha o ros­to sisudo, estava rabugenta, era o seu modo de esconder a angústia. Reclamou com as negras, achou a carne dura, a abóbora salgada demais.

— Leve esta abóbora para a cozinha, Beata! E me traga algo que se possa comer... Senão, le sento logo uma surra, que estou pelas ventas.

Beata saiu correndo com a travessa. Quando findava a refeição foi que Neco e Miro Souza chegaram. Vinham empapados de chuva e com as botas cobertas de lama. Mas traziam os dois meninos. Miro Souza, o capataz de D. Antônia, trazia Marquito no colo, desmaiado. Leão vinha cabisbaixo, de mãos dadas com Neco, fungando e chorando bai­xinho. Sua estréia como coronel fora um fiasco: o tenente caíra numa vala e lá ficara, esparramado, enquanto a chuva derramava-se sobre tudo. Tentara salvá-lo, mas não tinha jeito: a vala era muito funda. Estava já anoitecendo, o pão que tinham levado desmanchara-se sob a chuva, Marco Antônio já cessara de chorar havia muito quando os dois peões os encontraram. Leão ficara feliz como se tivesse vencido a guer­ra. Mas agora, chegando em casa e antevendo o castigo que receberia, já estava triste. A expedição tinha sido um fracasso.

Foi um alarido. Caetana beijava os dois filhos, acalentava-os, reza­va agradecimentos. Mandou Perpétua acender duas velas para a Vir­gem, tinha prometido. D. Ana examinou os meninos. Leão estava bem, teria uma boa gripe, tomaria uns chás, ficaria uns dias de cama.

— Só não le sento a mão, menino, porque vosmecê está mais mo­lhado do que um pinto — ralhou D. Ana, os olhos fuzilando. — Que­ria o quê? Matar sua mãe de susto? Já não basta essa guerra nos rondando? Vosmecê sabe que dia horrível tivemos aqui?

— Eu queria ir com meu pai — respondeu Leão, de olhos baixos. Zefina levou-o para um banho quente. D. Antônia examinou Mar­co Antônio. A testa ardia em febre, e ele dizia coisas incompreensíveis.

— O que tem? Delira? — As lágrimas escorriam pelo rosto boni­to de Caetana. — Será que quebrou alguma coisa? Será que chama­mos Bento?

D. Antônia apalpou o menino como fazia com as reses, de olhos fecha­dos, para sentir bem os ossos. A voz estava calma quando ela respondeu:

— Ele está com bastante febre. Apanhou muita chuva... E acho que quebrou uma costela ou duas. Amanhã chamamos o doutor. Por hoje, vamos aplicar-lhe umas compressas para baixar essa febre. E vamos enfaixá-lo no peito. Dessa ele se safou, Caetana.

No dia seguinte, um médico das redondezas veio ver o filho de Bento Gonçalves e diagnosticou uma pneumonia e duas costelas quebradas. Marco Antônio passou o resto do verão convalescendo. E quando veio a notícia da guerra, ainda estava na cama, com tosse e febre alta. Não sonhava mais em juntar-se ao pai, agora tinha medo do escuro e até da chuva. Leão perdera seu único tenente.

 

"Caro Bento,

Parece que seus filhos resolveram quebrar a monotonia dos dias desta fazenda; ambos fugiram de casa numa manhã chuvosa deste fevereiro, com o intuito de se juntarem às tropas em Porto Alegre, e só foram en­contrados à noite. Mandamos revirar a estância e também os arredores, trabalho que os peões realizaram com carinho e dedicação, mas mesmo com esse esforço nada encontraram. Eu já desesperava. Estive no quarto dos dois e mexi em suas roupas, chorando uma saudade que era misto de medo. Cheguei a pensar que Bento Manuel os tinha capturado para insultar vosmecê, mas logo desisti disso, por ter visto o quanto havia de fantasioso nessa versão.

Vosmecê sabe bem o quanto eu sofro, todos os dias, quando penso nas batalhas que le esperam, quando penso que desafiou um império in­teiro... Imagine o que sobrou de minha alma depois da artimanha que seus filhos aprontaram. Preciso, enfim, dizer-lhe que Marco Antônio agora convalesce de uma pneumonia e fraturou duas costelas. Leão apenas pe­gou uma gripe e recebeu de mim severo castigo, pois foi o responsável pela funesta aventura. Quando ralhei com ele, me disse apenas: "Mala suerte, mamãe." Estava tão decidido, que vi nele a sua têmpera. Decerto é mais um que sonha com pelejas. E está cada dia mais parecido com usted; até o olhar firme, ardente, é o mesmo que o seu, Bento.

Hoje, esposo, é dia dez de fevereiro. Faltam cinco dias para o prazo que ustedes aguardam, e me pergunto se esta guerra é mesmo inevitável. Aqui na estância, comungamos todas da mesma espera e da mesma angústia. E há um clima de ansiedade no ar. Todos os dias, acendo uma vela para a Vir­gem... Alguns peões já dizem às claras que, se a guerra estourar, juntar-se-ão aos seus efetivos. D. Ana vendeu algum gado, a fim de estar preparada para alguma situação de emergência. Quanto a mim, já remeti a Joaquim o dinheiro que vosmecê solicitou. Ele me enviou carta dizendo que na Corte muito se fala da guerra que está por estourar aqui na província, e que Bento e Caetano desejam regressar brevemente. Joaquim manda-lhe carinhos e respeitos, e deseja que Deus Nosso Senhor cavalgue ao seu lado. Disse tam­bém haver le enviado uma longa missiva, mas como vosmecê nada contou sobre ela, penso deve ter-se perdido por esses caminhos tortuosos.

Esta carta, caro esposo, que agora escrevo às pressas, segue junto com Manuel, que está de partida para Porto Alegre a fim de realizar vários ser­viços e de comprar alguns mantimentos que já nos faltam. Espero de todo o coração que estas linhas le encontrem, que vosmecê esteja são e forte, e que me envie resposta o mais breve possível. Como vosmecê sabe, nes­te ermo são poucas ou raras as notícias que nos chegam. Fique com Deus.

Com todo o meu afeto,

sua Caetana.

 

Estância da Barra, 10 de fevereiro de 1836"

O dia quinze de fevereiro finalmente chega, sob um sol abrasador que se derrama sem descanso sobre toda a província. O prazo que Bento Gonçalves e seus oficiais estipularam está esgotado. Bento, da janela do palácio, olha as ruas desertas e ardentes. Seus olhos têm um brilho estranho, negro.

José de Araújo Ribeiro não foi à Capital para ser empossado pela Assembléia Legislativa, e não reconhece o novo governo. A guerra começa no pampa. Na cidade de Porto Alegre, os revolucionários empossam o deputado Américo Cabral como novo presidente de São Pedro do Rio Grande.

Os portões de Porto Alegre receberam patrulha redobrada na noi­te do dia quinze de fevereiro, e os sitiantes começaram a construir trin­cheiras para a defesa da cidade ocupada. Durante o dia inteiro, não se vê ninguém nas ruas, e em tudo grassava apenas o calor hediondo e a poeira vermelha que subia do chão. Um medo pegajoso grudava-se nas casas fechadas, nas gentes quietas que esperavam o primeiro ribom­bar dos trovões. A madrugada foi ventosa e assustada. Começou a vi­gorar severo toque de recolher, muitos habitantes da Capital resolveram fugir e abrigar-se com parentes no interior, onde se sentiriam mais seguros.

No dia dezesseis de fevereiro, o coronel Bento Gonçalves resolve partir com suas tropas para o sul da província. De lá, envia o capitão Teixeira Nunes com ofício intimando Araújo Ribeiro a abandonar o Rio Grande imediatamente. Teixeira Nunes parte sob um céu nubla­do e tenso, cinzento. Vão com ele mais três soldados de confiança. Estão assando um churrasco no acampamento, e o cheiro da carne gorda se espalha por tudo.

Disso, passam-se dois dias. No segundo dia, cai por muitas horas uma chuva fina e quieta.

Na manhã do terceiro dia, Bento tomava o mate, quando viu o ginete de Teixeira se aproximando a galope do acampamento. Vinha solito. Teixeira Nunes desmonta e vai falar com o coronel. Tem o rosto can­sado e a barba por fazer. Conta que encontrara o Dr. Araújo Ribeiro — Só não le sento a mão, menino, porque vosmecê está mais mo­lhado do que um pinto — ralhou D. Ana, os olhos fuzilando. — Que­ria o quê? Matar sua mãe de susto? Já não basta essa guerra nos rondando? Vosmecê sabe que dia horrível tivemos aqui?

— Eu queria ir com meu pai — respondeu Leão, de olhos baixos. Zefina levou-o para um banho quente. D. Antônia examinou Mar­co Antônio. A testa ardia em febre, e ele dizia coisas incompreensíveis.

— O que tem? Delira? — As lágrimas escorriam pelo rosto boni­to de Caetana. — Será que quebrou alguma coisa? Será que chama­mos Bento?

D. Antônia apalpou o menino como fazia com as reses, de olhos fecha­dos, para sentir bem os ossos. A voz estava calma quando ela respondeu:

— Ele está com bastante febre. Apanhou muita chuva... E acho que quebrou uma costela ou duas. Amanhã chamamos o doutor. Por hoje, vamos aplicar-lhe umas compressas para baixar essa febre. E vamos enfaixá-lo no peito. Dessa ele se safou, Caetana.

No dia seguinte, um médico das redondezas veio ver o filho de Bento Gonçalves e diagnosticou uma pneumonia e duas costelas quebradas. Marco Antônio passou o resto do verão convalescendo. E quando veio a notícia da guerra, ainda estava na cama, com tosse e febre alta. Não sonhava mais em juntar-se ao pai, agora tinha medo do escuro e até da chuva. Leão perdera seu único tenente.

 

"Caro Bento,

Parece que seus filhos resolveram quebrar a monotonia dos dias desta fazenda; ambos fugiram de casa numa manhã chuvosa deste fevereiro, com o intuito de se juntarem às tropas em Porto Alegre, e só foram en­contrados à noite. Mandamos revirar a estância e também os arredores, trabalho que os peões realizaram com carinho e dedicação, mas mesmo com esse esforço nada encontraram. Eu já desesperava. Estive no quarto dos dois e mexi em suas roupas, chorando uma saudade que era misto de medo. Cheguei a pensar que Bento Manuel os tinha capturado para insultar vosmecê, mas logo desisti disso, por ter visto o quanto havia de fantasioso nessa versão.

Vosmecê sabe bem o quanto eu sofro, todos os dias, quando penso nas batalhas que le esperam, quando penso que desafiou um império in­teiro... Imagine o que sobrou de minha alma depois da artimanha que seus filhos aprontaram. Preciso, enfim, dizer-lhe que Marco Antônio agora convalesce de uma pneumonia e fraturou duas costelas. Leão apenas pe­gou uma gripe e recebeu de mim severo castigo, pois foi o responsável pela funesta aventura. Quando ralhei com ele, me disse apenas: "Mala suerte, mamãe." Estava tão decidido, que vi nele a sua têmpera. Decerto é mais um que sonha com pelejas. E está cada dia mais parecido com usted; até o olhar firme, ardente, é o mesmo que o seu, Bento.

Hoje, esposo, é dia dez de fevereiro. Faltam cinco dias para o prazo que ustedes aguardam, e me pergunto se esta guerra é mesmo inevitável. Aqui na estância, comungamos todas da mesma espera e da mesma angústia. E há um clima de ansiedade no ar. Todos os dias, acendo uma vela para a Vir­gem... Alguns peões já dizem às claras que, se a guerra estourar, juntar-se-ão aos seus efetivos. D. Ana vendeu algum gado, a fim de estar preparada para alguma situação de emergência. Quanto a mim, já remeti a Joaquim o dinheiro que vosmecê solicitou. Ele me enviou carta dizendo que na Corte muito se fala da guerra que está por estourar aqui na província, e que Bento e Caetano desejam regressar brevemente. Joaquim manda-lhe carinhos e respeitos, e deseja que Deus Nosso Senhor cavalgue ao seu lado. Disse tam­bém haver le enviado uma longa missiva, mas como vosmecê nada contou sobre ela, penso deve ter-se perdido por esses caminhos tortuosos.

Esta carta, caro esposo, que agora escrevo às pressas, segue junto com Manuel, que está de partida para Porto Alegre a fim de realizar vários ser­viços e de comprar alguns mantimentos que já nos faltam. Espero de todo o coração que estas linhas le encontrem, que vosmecê esteja são e forte, e que me envie resposta o mais breve possível. Como vosmecê sabe, nes­te ermo são poucas ou raras as notícias que nos chegam. Fique com Deus.

Com todo o meu afeto,

sua Caetana.

 

Estância da Barra, 10 de fevereiro de 1836"

O dia quinze de fevereiro finalmente chega, sob um sol abrasador que se derrama sem descanso sobre toda a província. O prazo que Bento Gonçalves e seus oficiais estipularam está esgotado. Bento, da janela do palácio, olha as ruas desertas e ardentes. Seus olhos têm um brilho estranho, negro.

José de Araújo Ribeiro não foi à Capital para ser empossado pela Assembléia Legislativa, e não reconhece o novo governo. A guerra começa no pampa. Na cidade de Porto Alegre, os revolucionários empossam o deputado Américo Cabral como novo presidente de São Pedro do Rio Grande.

Os portões de Porto Alegre receberam patrulha redobrada na noi­te do dia quinze de fevereiro, e os sitiantes começaram a construir trin­cheiras para a defesa da cidade ocupada. Durante o dia inteiro, não se vê ninguém nas ruas, e em tudo grassava apenas o calor hediondo e a poeira vermelha que subia do chão. Um medo pegajoso grudava-se nas casas fechadas, nas gentes quietas que esperavam o primeiro ribom­bar dos trovões. A madrugada foi ventosa e assustada. Começou a vi­gorar severo toque de recolher, muitos habitantes da Capital resolveram fugir e abrigar-se com parentes no interior, onde se sentiriam mais seguros.

No dia dezesseis de fevereiro, o coronel Bento Gonçalves resolve partir com suas tropas para o sul da província. De lá, envia o capitão Teixeira Nunes com ofício intimando Araújo Ribeiro a abandonar o Rio Grande imediatamente. Teixeira Nunes parte sob um céu nubla­do e tenso, cinzento. Vão com ele mais três soldados de confiança. Estão assando um churrasco no acampamento, e o cheiro da carne gorda se espalha por tudo.

Disso, passam-se dois dias. No segundo dia, cai por muitas horas uma chuva fina e quieta.

Na manhã do terceiro dia, Bento tomava o mate, quando viu o ginete de Teixeira se aproximando a galope do acampamento. Vinha solito. Teixeira Nunes desmonta e vai falar com o coronel. Tem o rosto can­sado e a barba por fazer. Conta que encontrara o Dr. Araújo Ribeiro acompanhado do brigadeiro Miranda e Brito, comandante das tropas enviadas pelo Regente. Mesmo sendo um mensageiro, fora aprisiona­do juntamente com os outros. Por fim, Araújo mandou-o embora com um documento, para que o entregasse nas mãos mesmas de Bento Gonçalves, chefe dos revolucionários.

— Os outros ficaram presos — termina Teixeira Nunes, os olhos negros ardendo de raiva. — Mas voltarei para libertá-los.

O coronel Bento Gonçalves entrega a cuia para João Congo, e re­cebe o documento das mãos crispadas do capitão. Abre o lacre quase com fúria e lê o seu conteúdo rapidamente. Manda reunir seus homens. São quatrocentos soldados munidos de cavalos, armas e uma boca de fogo. Algumas mulheres e crianças acompanham-nos, e também ache­gam-se, acanhadas, para ouvir as notícias. Bento Gonçalves passa len­tamente os olhos pelos rostos daqueles homens morenos, decididos, ansiosos. E então, sorvendo grande quantidade de ar, lê em voz alta o documento que acabou de receber. Um súbito silêncio instala-se entre a tropa. Araújo Ribeiro declarava oficialmente a guerra contra os revoltosos que haviam tomado a cidade de Porto Alegre.

— Por causa desta guerra, derramaremos o sangue dos nossos ir­mãos. — A voz de Bento Gonçalves ecoou pelo campo e bateu asas como um pássaro, alçando-se para o céu azul. Tinha tanta força que parecia entrar pelos poros de todos ali reunidos. — Que Deus nos perdoe, mas haveremos de lutar contra esses tiranos como se cada um de nós houvesse quatro corpos para defender a pátria e quatro almas para amá-la.

Os homens soltaram urras e tiros para o alto. O passaredo saiu em revoada. O capitão Teixeira Nunes tinha um brilho de lágrimas nos olhos.

 

Bento Gonçalves, Antônio de Souza Netto, João Manuel de Lima e Silva, Onofre Pires da Silveira Canto, Joaquim Pedro, Lucas de Oliveira, Corte Real e Vasconcellos Jardim começam a organizar as tropas e a angariar fundos e soldados para a guerra. De estância em estância, de cidade em cidade, os coronéis, majores e capitães do exército revolucionário tentam aumentar seus efetivos. Em al­gumas cidades, conseguem reunir trezentos, quatrocentos homens; em outras, ninguém se alista. Bento Manuel e outros comandantes imperiais fazem a mesma coisa, libertando presos das cadeias e obrigando-os a se alistar, e levando das fazendas, cujos donos são imperiais, os peões mais capacitados. A província de São Pedro do Rio Grande divide-se, de um momento para o outro, em imperais e revolucionários.

A notícia da guerra chegou à Estância da Barra na noite do dia vinte e seis de fevereiro. As mulheres haviam acabado a ceia, estando assim reunidas na varanda, aproveitando a noite estrelada e fresca, quando Zé Pedra, pedindo licença e sempre com os olhos fitos no chão, aprochegou-se por ali.

— Me adesculpe, D. Ana, mas é que seu Manuel chegou agorinha mesmo de viagem. Tá lá nos fundo, descarregando as compra, e man­dou le dizer que tem notícia.

— Manda ele aqui, Zé. — A voz de D. Ana tremia levemente. — Rápido!

O negro sumiu sem ruído, misturando-se com a escuridão da noi­te. Na varanda, fazia um silêncio inquieto, e só se ouvia o tilintar das agulhas de tricô de Maria Manuela. Caetana segurava Ana Joaquina no colo, a menina começou a choramingar. Chamou Xica e entregou-lhe a filha:

— Leve-a lá para o quarto — disse, inquieta.

Manuela, da sua cadeira, olhava os rostos das tias e da mãe. Sabia o que iriam ouvir, sempre soubera, desde aquela noite... Nunca mais tinha visto a estrela de fogo no céu, mas não pudera esquecê-la. E nem seu rastro, seu rastro de sangue.

Manuel chegou afobado. Contou que a viagem fora boa, que trazia consigo todos os mantimentos necessários e mais quinze quilos de açú­car que comprara por bom preço perto de Guaíba. Na volta, porém, tivera de se esquivar de umas tropas que iam marchando para Porto Alegre. Tropas imperiais. Tinham arrebanhado um cavalo. Confisca­ram simplesmente, disse. No caminho, também encontrara um pique­te de rebeldes.

— Eram uns cinqüenta, sessenta. Estavam buscando homens para lutar. — Olhou para Maria Manuela. — O menino Antônio estava entre eles. Mandou lembranças para a senhora sua mãe, para as tias, primas e manas. — As sete mulheres tinham os olhos fitos na figura atarracada de Manuel.— Mandou avisar também que a guerra começou. E é coisa séria... Parece que já vieram do Rio umas tropas, uns quinhentos homens, e munição. — E acrescentou, por conta própria: — Les digo que agora a coisa vai pegar.

D. Ana fez o sinal-da-cruz. Maria Manuela perguntou se o filho estava bem. Bueno, no más, respondeu o homem. Estava de uniforme, muito garboso. Maria Manuela abriu um sorriso de orgulho, depois suspirou profundamente. Era uma tola, pensou.

— Vosmecê entregou minha carta ao Bento? — Caetana tinha a voz morna, expectante.

— Para ele em pessoa, não senhora... Estava fora quando passei por lá no tal de palácio. Deixei a carta com o conde italiano. E as outras, do seu Paulo Santos e do seu Ferreira, o conde também arrebanhou. Prometeu que entregava para eles depois. Estava todo mundo fora, numa tal de assembléia.

— O conde é um cavalheiro — disse D. Ana. — As cartas ficaram em boas mãos. Pode ir agora, Manuel. Vosmecê deve estar ansioso para ver sua mulher e seu filho... Vá, homem. E não se preocupe com o ca­valo que levaram. Ainda temos muitos outros.

Caetana esperou o capataz desaparecer. Lágrimas mornas come­çaram a rolar por seu rosto, tornando ainda mais ardentes os olhos verdes. Ela pegou do lenço de seda e começou a enxugá-las. D. Ana estendeu o braço e fez um agrado discreto. Também ela tinha os olhos úmidos.

— Todas nós queremos chorar, Caetana. Não se envergonhe. Caetana sorriu tristemente.

— É que tenho uma coisa aqui no peito — tocou no seio esquerdo — que dói muito... Um pressentimento, talvez. Mas está tudo bien, tudo ficará bien... E que ando nervosa, é isso...

Manuela ergueu-se e saiu correndo para o quarto, segurando os soluços com toda a força de sua alma. Já no corredor, mal distinguia o caminho por causa do embaralhado das lágrimas. Entrou no quarto e jogou-se na cama, desatando imediatamente num choro convulso. Sa­bia que nenhuma delas viria procurá-la, não ainda.

Na varanda, com voz fraca, Mariana perguntou à mãe:

— Quanto tempo durará essa guerra? Maria Manuela deu de ombros.

— Nem Deus lo sabe, minha filha. Nem Deus... E, do seu canto, D. Ana lembrou:

— É preciso que avisemos Antônia. Mas não hoje, que le rouba­remos o sono em vão. Amanhã cedo, mando Zé Pedra até o Brejo. — Ergueu-se com certo custo, ela que era tão lépida e miúda. — Boa noite, durmam com a Virgem. Vou para meu quarto, escrever um bilhete para Antônia. — Parou um instante, à porta, e olhou as parentas. — Ama­nhã, à luz do sol, as coisas hão de parecer melhores, les garanto. Boa noite.

 

Cadernos de Manuela

Estância da Barra, 23 de abril de 1836.

Os dias que se seguiram à notícia da guerra foram repletos de boa­tos e de angústias. Andávamos todas sobressaltadas, olhando o hori­zonte, como se dele viessem os socorros para nossos medos. Mas nada vinha, a não ser as chuvas que traziam o final do verão, e um silêncio que pesava nossas noites, e que D. Ana se esforçava para quebrar, tocando o piano por muitas horas.

Ficamos sabendo de batalhas travadas no passo do Lajeado, entre as tropas de João Manoel de Lima e Silva e as de Bento Manuel, o traidor e tocaio de meu tio. As notícias diziam também que os rebeldes estavam em maioria e que tinham causado grandes baixas nas tropas imperiais. Comemoramos com um assado, e D. Ana mandou que as negras fizessem uma panelada de doce de goiaba.

Mas também nos chegavam notícias tristes... Vinham da boca dos homens que passavam pela estância, a caminho de se alistar no exérci­to de Bento Gonçalves. As notícias voavam como o vento daquele fi­nal de verão, um verão já úmido, de chuvas pesadas que deixavam o céu cinzento por muitas horas. Ficamos sabendo que um marinheiro rebelde, chamado Tobias da Silva, não querendo se render aos impe­riais que o haviam cercado, explodira seu navio, estando a bordo ele, dezoito tripulantes, mais quinze cavalarianos, a mulher e dois filhinhos pequenos. Foi um peão do Brejo quem nos narrou o acontecido, e no final seus olhos ficaram úmidos de lágrimas. Vi D. Ana chorar na nos­sa frente, um choro contido e silencioso que convulsionou seus olhos negros, e tive medo, tive muito medo...

Nesse dia, minha mãe não apareceu para o jantar, alegando forte dor de cabeça. D. Ana mandou que as negras lhe levassem comida no quarto, mas o prato voltou intacto. Sei que minha mãe pensava em Antônio e no pai. Queria-os conosco. Que lhe importavam, afinal, o preço do charque, os sonhos de um governo próprio, até aquela con­fusa história de república, quando tudo o que almejava era a compa­nhia do filho mais velho e do marido? Pobre minha mãe, teve sempre os nervos mais fracos... A longa guerra, que nesse tempo apenas insi­nuava suas sombras entre nós, estragou-lhe o espírito e incapacitou-a para o resto da vida... Mas, naquele tempo, Maria Manuela ainda ti­nha algumas esperanças. O altar da Virgem estava sempre aceso das velas que minha mãe e Caetana ali depositavam para acalmar seus medos ardentes. Minha mãe tentava ser como suas irmãs, mas não conseguia, não tinha a mesma força...

O filho de Manuel partiu em princípios de março para unir-se a uma tropa rebelde que passava ao norte. Ficamos todas na varan­da, vendo-o partir em seu baio, ereto e solene como quem fazia uma coisa santa. Sua mãe chorava, no meio do campo, acenando com um lenço branco que parecia uma pomba desajeitada. Manuel nada disse, ficou calado vendo o filho ir embora. Se não fosse pelo muito que preza D. Ana, e pela obrigação que tem de zelar por nós, tenho certeza de que teria ido junto com o rapaz, passar sua espada pelo lombo dos malditos imperiais — como ele disse, mais tarde, para Leão, que, com seus doze anos, já estava ansioso por se reunir ao pai.

Quando o filho de Manuel sumiu pela coxilha, D. Ana mandou que Rosa escolhesse um pote bem grande de pessegada e mandasse levar para D. Teresa.

— Nessas horas, um doce é bom para acalmar a alma — foi o que a tia disse.

Numa tarde de chuvas, já em meados de abril, quando o ar começa a esfriar lentamente, as noites já são quase frias, chegou na Estância um próprio. Tinha um lenço colorado amarrado na aba do chapéu. Foi recebido com festa e com agrados. Le serviram mate e bolo de milho. Era um homem duns trinta e tantos anos, olhos indiáticos, uma cicatriz rasgava-lhe a testa, funda, avermelhada. Trazia consigo uma carta de Bento Gonçalves, que entregou a Caetana assim que pôde. Pareceu tímido no meio de tantas senhoras importantes, mas logo, aquecido pelo mate, e de estômago cheio, contou-nos coisas do Rio Grande. Foi por ele que soubemos que o tenente-coronel Corte Real tinha sido captu­rado por Bento Manuel e agora estava preso lá pros lados do Caverá. Muito eu já tinha ouvido falar desse moço, José Afonso de Almeida Corte Real, dizem que é bonito, galante e muito inteligente. Pois a notícia da sua captura deixou-nos a todas tristes, principalmente a Mariana, que o vira num baile certa feita e nunca lhe esquecera a for­mosura.

Mas a carta de meu tio foi mais explicativa. Caetana leu-a para nós logo após a partida do soldado, que tinha de voltar para a sua tropa, e que foi levando na guaiaca um bom pedaço de bolo de milho. Meu tio nos contou que o tenente-coronel Corte Real empreendera manobra arriscada, inclusive desobedecendo ordens superiores, e atacara as forças de Bento Manuel com seus homens, que eram em menor núme­ro e menos preparados. Bento Gonçalves tentara perseguir o traidor e libertar seu oficial, mas o facínora se refugiara na Serra do Caverá, fi­cando atocaiado lá em cima, e negando-se à luta. Esperaram por mui­tos dias, até que a inquietude da tropa o fez desistir do cerco. As forças rebeldes estão em plena luta, conta o coronel, com sua letra dura e bem-feita, mas pequenas escaramuças e desordens atrapalham as manobras. Alguns soldados de Domingos Crescêncio atacaram e roubaram víve­res de uma estância, e por isso houve um conselho de guerra. Eram quatro os infratores, e todos foram fuzilados como exemplo, na frente da tropa, "Foi um momento muito duro", escreveu meu tio, "mas é preciso que se mantenha uma disciplina rígida, senão os homens ficam incontroláveis." Mas também tiveram boas vitórias. O coronel Onofre Pires desbaratou um grupo de imperiais numa batalha vitoriosa, ten­do feito duzentos e tantos prisioneiros, e trinta e poucos mortos.

Bento Gonçalves terminou sua missiva falando em saudades. E pro­metendo que, se tudo corresse bem, no inverno apareceria para estar na estância por uns bons dias, nos quais haveria de descansar de tan­tas batalhas e cavalgadas, e estar ao lado de sua esposa, filhos e parentas. Caetana terminou a leitura com a voz embargada...

Trinta e tantos mortos. Fiquei pensando nisso o resto da tarde. Mortos da nossa terra, que apenas estão do outro lado, que acreditam num sonho, ou lutam, por dinheiro ou glória, junto aos imperiais. Será que um deles, um que seja, foi nosso conhecido, freqüentou nossos saraus, esteve em nossa casa tomando um mate com meu pai, foi ami­go de Antônio ou enamorado de uma das minhas irmãs? Não há como sabê-lo... Tenho medo do dia em que voltaremos para a nossa casa em Pelotas e contaremos os lugares vazios à nossa volta. Que Deus nos proteja a todos.

Estamos já em fins de abril. Os dias, pouco a pouco, se tornam mais curtos, e mais dourados, de uma beleza cálida, quase triste. Ou talvez sejam apenas os meus olhos.

Manuela.

 

Perpétua estava recostada na cama, lendo um livro. Mas a leitura não lhe entrava pela cabeça. De quando em quando, levantava um olho para espiar a prima. Andava achando Rosário tão estranha ulti­mamente... Não que fosse má companhia ou estivesse de humores ruins, pelo contrário, até andava mais feliz, até sorria mais, gostava de as­suntos, dizia sempre que a guerra logo findaria. Antes, no começo, a prima andava azeda feito um limão, parecia contar as horas na estân­cia, como se fosse prisioneira de cruel algoz, como se todas as outras não estivessem na mesma situação, naquela espera que tinha de ser vivida como férias.

Baixou o livro para o colo e pôs-se a fitar Rosário sem disfarces. A moça penteava as longas melenas douradas, escovava-as com zelo e cuidado. Bateram à porta. Era Viriata. A negra entrou meio de mansi­nho, olhou Rosário e quis saber:

— A sinhá deseja que le trance os cabelos? A voz de Rosário foi quase doce:

— Tranças bem finas, por favor. Tranças grossas são deselegantes.

A negra avançou até o toucador, onde Rosário se olhava no es­pelho de cristal, e pôs-se a trabalhar com habilidade. Poucos minu­tos depois, Rosário de Paula Ferreira estava penteada. Viriata fez uma mesura esquisita e foi saindo, não sem antes dirigir-se a Per­pétua:

— E a senhorinha, quer alguma coisa? De beber, de comer?

— Não, Viriata. Pode ir... — Quando a negra fechou a porta, não resistiu e perguntou: — Você vai sair, Rosário? Pôs um de seus me­lhores vestidos, está toda engalanada, parece que vai a uma festa...

Rosário fitou a prima com algum desdém. Sorriu e disse:

— Sair para onde, nesse descampado? Ora, Perpétua, estou ape­nas me arrumando um pouco, me arrumando para mim mesma... Uma moça não pode descuidar da vaidade, senão está perdida...

Perpétua tornou a pegar o livro do colo. Virando as páginas sem interesse, retrucou:

— A sua vaidade está intacta, Rosário. Sete meses aqui nem a arranharam.

Rosário deu uma última olhada no espelho. Ergueu-se, alisou as saias do vestido azul que usava e avisou que ia ao escritório, procurar um bom romance para a noite. Saiu de mansinho, pisando leve pelo corredor.

Depois que a prima deixou o quarto, Perpétua ficou pensativa.

Rosário entrou no escritório. Alguma escrava já tinha acendido o lampião. A luz tênue dançava na sala, e da janela ainda vinha a clari­dade dourada do entardecer. Rosário puxou um pouco as cortinas, sentou na poltrona de couro negro, com a qual já começara a criar uma certa relação. Quando pensava em Steban, era o cheiro daquele couro que lhe vinha às narinas. Steban não tinha odor de seu, mas que chei­ro teriam os espectros? Rosário irritou-se com essa conjectura: Steban era um homem, nada mais, nada menos do que isso, um soldado valen­te e belo. E o amava. Viam-se em segredo, pois sim, mas dizer o quê às tias e à mãe? E Steban temia Bento Gonçalves, temia-o com todas as suas forças. Não, ele ainda não lhe havia contado a razão daquele pâ­nico, mas logo haveria de dizer-lhe tudo. Estavam mui unidos. Quan­do o pai voltasse para buscá-las, aí sim, aí chamaria Steban para conhecê-lo e poderiam ter um namoro formal.

Fechou os olhos e chamou por ele. Eram tão unidos que na maio­ria das vezes ela nem precisava lhe falar, bastava um olhar, um sorri­so. Steban a compreendia completamente. De olhos bem fechados, convidou-o a aparecer. Esperou alguns segundos, as pálpebras unidas com força, o coração inquieto. Da rua vinha a cantoria dos peões, fra­ses perdidas, que o vento espalhava sem ordem. Testou a voz:

— Estoy aquí.

Abriu os olhos brilhantes de alegria. A sua frente, Steban sorria um riso cálido, sensual. Os olhos ardiam a velha febre, mas a ferida em sua testa hoje parecia seca, mal a velha bandagem avermelhava-se a um canto. Rosário sentiu um espasmo de felicidade.

— Vosmecê está se curando!

— Hay dias buenos y dias malos... — Rosário não lhe entendeu as palavras. — Hoy estoy bien... Solo de veria, ya mejoró.

— E eu, então? Tantos meses nesta estância, se não fosse vosmecê, o que seria de mim?

Ouviu um ruído vindo da rua. Ruído de folhas secas. Um dos ca­chorros devia estar passando por ali. Talvez fosse Regente, o cãozinho de Manuela. Aquele bicho estava sempre por perto, furtivo como a dona. Não se incomodou de ir até a janela e averiguar, estava por de­mais encantada com seu oficial. Achou que Steban escovara a farda.

— Vosmecê está muito elegante hoje, Steban...

O riso translúcido alargou-se no rosto do uruguaio.

— Es que vos estas demasiado bella. Rosário enrubesceu.

— Estive pensando — emendou rapidamente, antes que perdesse a coragem. — Quando meu pai vier nos ver, acho que não demora, quero que vosmecê o conheça. Acho que é preciso...

Perpétua empertigou-se toda. A cortina estava quase cerrada, mas a luz do lampião que ardia dentro do escritório dava às coisas algum contorno. Ela pôde perceber que Rosário estava sentada na poltrona de couro. Ouviu sua voz, uma voz coquete, morna, que a prima raramente usava. Decerto, vira-a falar assim uma vez, com o conde Zambeccari. Mas Rosário charlava com quem? Forçou os olhos, tentando olhar dentro do escritório. Nada. Rosário estava sozinha. Notou que esperava alguns instantes, como atenta a qualquer resposta, depois tornava a falar. Ouviu o nome do tio, e ouviu Steban. Steban? Quem era esse Steban?

Encostou-se na parede externa, o coração batendo forte. Um vento frio vinha dos lados do Camaquã. Ela ficou ali por longos minutos, pensando. Ou Rosário estava ficando louca, ou escondia algum segredo. Deveria contar às outras o que vira? Ou esperaria mais algum tempo, até que descobrisse algo? Resolveu rumar para a varanda, contornan­do a casa. A escuridão descia rápido do céu.

Perpétua estava pálida quando chegou à sala. D. Ana bordava. Ergueu os olhos para a sobrinha, achou-a estranha.

— Vosmecê tem alguma coisa, menina? Perpétua tomou um susto. Não tinha visto a tia.

— Eu? Nada, tia Ana... Estou com frio, somente isso. Vou lá para dentro, tomar um banho e me ajeitar.

— Então vá — disse D. Ana, arrematando um fio de lã. — E não me fique mais parada pelos cantos, com essa cara de assombração.

 

D. Antônia estava sentada à beira do fogo, mas as mãos crispadas no colo continuavam frias, gélidas. Uma negra achegou-se, perguntando se podia mandar servir o almoço.

— Não estou com fome agora, Tita. Se tiver, depois le digo.

A negra estranhou. D. Antônia era uma mulher de bons apetites.

No colo, a carta queimava. D. Antônia pensou em jogá-la ao fogo, em negar aquelas notícias, mas não era possível, não era. Bento fora muito claro: devia contar às outras o sucedido, devia, no más, tomar uma sege e rumar para a estância vizinha. Era bom que soubessem que os imperiais tinham retomado Porto Alegre, era bom que soubessem por ele, não por outro, por qualquer peão ou até por algum soldado imperial que por ali estivesse cruzando e se bajulando. Todo mundo comentava o acontecido naquela madrugada de quinze de junho. Fora muito fácil para os imperiais invadirem o quartel quase deserto. De­pois tocaram o alarme. Na noite frígida, um a um, os soldados revolu­cionários foram chegando ao 8o quartel, um a um, foram sendo presos.

Antes do amanhecer, os imperiais tinham já cem soldados sob seu jugo. Depois soltaram os presos do Presiganga. Porto Alegre fora dormir revolucionária e amanhecera imperial, tudo isso com uns poucos tiros. Uma coisa estúpida, um desleixo. Agora o marechal João de Deus Menna Barreto assumira o controle das tropas imperiais em Porto Alegre... A letra do coronel Bento tremia nesse ponto da narrativa. O irmão tinha lhe escrito uma carta curta, mui cheio de coisas devia estar seu pensamento, mas fora taxativo: estavam para retomar à cidade naqueles dias mesmo. Fariam o que fosse possível, e o impossível tam­bém, para reaver o controle da capital e do seu porto. Armavam terrí­vel cerco, logo mandaria notícias outras, dessa vez favoráveis. "A guerra é feita dessas pequenas batalhas, Antônia... Tenha fé que darei ordem nesse desarranjo todo. E vosmecê fique com Deus. Dê os meus mais profundos carinhos para minha Caetana." Assim findava a pequena carta.

D. Antônia fez um esforço, dobrou o papel e guardou-o no bolsinho do vestido. Depois tocou a sineta. A negra Tita apareceu.

— Mande preparar a sege. Vou sair.

— Sem almoço, patroa? — a voz era espantada.

— Sem almoço, Tita. Agora vai, que estou com pressa.

 

Vestiu um agasalho quente. A sege esperava em frente à casa. Ela mandou o negrinho rumar para a estância de D. Ana. O sol invernal lutava para vencer as nuvens que cobriam o céu. O ar estava frio. So­prava um pouco de vento. D. Antônia acariciou a carta guardada no bolso.

No caminho, cruzaram com uma charrete e duas carroças repletas de bagagem. Um homem acenou. A sege diminuiu o ritmo, andando parelha com a charrete. O homem era um tipo moreno, de bigodes, alto, elegante. Com toda a educação, acenou para D. Antônia. Ao lado dele, uma moça de chapéu cinzento, rosto delicado e um tanto pálido, sorria.

Muito boas tardes, senhora — a voz do homem era quente, agradável. — Me chamo Inácio José de Oliveira Guimarães, e esta é minha esposa, a senhora Teresa. — Ambas as mulheres fizeram um cumprimento leve de cabeça. O homem prosseguiu: — Desculpe in­terromper-lhe a viagem, mas saiba que sou muito devotado ao seu ir­mão, nosso coronel Bento Gonçalves. Estou aqui indo levar minha esposa para a fazenda de uma parenta, onde quero que fique por estes dias, até as coisas se acalmarem um pouquito... A senhora sabe, não se faz uma república sem barulho... D. Antônia sorriu:

— Pois les desejo boa estada. Moro na Estância do Brejo, não sei se vosmecê sabe. Mas qualquer coisa que le faltar, estou às ordens. Amigo de Bento é meu amigo também, senhor.

— Muito le agradeço, senhora Antônia — e o homem sorriu um riso largo. A esposa acenou com a mãozinha enluvada.

A charrete tomou uma estradinha lateral. D. Antônia pensou na moça, mirrada, pálida. Não tinha muito boa saúde, decerto. Tomara que o inverno não le fosse mui penoso. Simpatizara deveras com o homem. Como se chamava mesmo? Inácio de Oliveira Guimarães. Quando escrevesse ao Bento, falaria no tal. Pensando em Bento, lem­brou das notícias que tinha para dar.

— Toque mais rápido, José. Estou mui apressada.

O negrinho deu com o rebenque no lombo do cavalo. A sege au­mentou seu ritmo outra vez. D. Antônia sentia frio. Nuvens escuras se acumulavam no céu. "Vamos ter minuano soprando", pensou.

 

As notícias causaram tristeza na Estância da Barra. D. Ana rezou muito naquela tardinha, fechada no quarto, pedindo por Paulo, José e Pedro. Se os rebeldes tinham perdido o controle de Porto Alegre, então tra­var-se-iam muitas batalhas, batalhas sangrentas e cruéis; tratava-se de um posto de mui importância tanto para imperiais quanto para revo­lucionários, pois, além de capital, a cidade de Porto Alegre era um porto, era uma saída lacustre das mais necessárias.

D. Ana pensou nas ruas de Porto Alegre, no calçamento de pedras, nas igrejas brancas, nos sobrados portugueses, nas carruagens que andavam de um lado a outro, levando as gentes... Sentiu saudades dos passeios que dera com o esposo por aquelas ruas, das lojas onde com­prava seus panos e rendas de bilro, dos criados de libré que os atendiam, sempre prestativos. Como estaria Porto Alegre? Haveria barricadas nas ruas, gente fugindo à noite, sorrateiramente, soldados feridos pe­las praças? Não sabia, perdida ali, naquele campo que tanto amava, mas que agora, assolado pelo inverno, cinzento, gélido, estava estrei­tando sua alma. Teve ganas de chorar... Uma única lágrima escorreu pelo seu rosto, abrindo um sulco de umidade na pele branca, ainda fir­me. Os olhos negros luziram.

D. Ana secou a lágrima rapidamente. Puxou a cortina de veludo e viu, da janela, o umbu parado sob o céu pesado, como um gigante ador­mecido. Não vou me abater. É preciso seguir a vida, ser firme. Paulo vem me ver ainda este mês...

De repente, teve certeza. Viu Paulo atravessando a fazenda, mon­tando no cavalo negro, usando o dólmã e o chapéu colorado. O cheiro de tabaco que ele exalava chegou-lhe até as narinas, misturado com o aroma da colônia de limão, a predileta do marido. Sentiu um formiga­mento pelo corpo todo. Teve uma idéia súbita. Tocou a sineta chamando a escrava.

Milú apareceu um minuto depois, os cabelos de carapinha presos numa trança firme. D. Ana sorriu, um riso largo, quase feliz.

— Milú, me traga uns seis litros de leite lá do curral e leve lá para a cozinha. Vou fazer um doce.

Milú concordou e saiu pelo corredor, toda apressada. D. Ana le­vantou, puxou o postigo da janela. Iria fazer doce de leite, a sobreme­sa predileta do marido. Ouviu o uivo do vento que nascia lá fora, ainda leve, acossando sutilmente as árvores. Conhecia bem aquele ruído sur­do. Teriam minuano pela frente. O vento da angústia... Pelo menos três dias soprando por tudo, incessante. E os rebeldes tentando retomar Porto Alegre...

— Vou fazer um doce bem douradinho, como o Paulo gosta... D. Ana riu de estar falando sozinha. Lembrou de D. Perpétua, muito velha, andando pelos corredores, falando sozinha. Será que fi­carei igual à mãe?

 

No dia vinte e sete de junho daquele ano, os rebeldes, comandados por Bento Gonçalves, iniciaram o primeiro cerco a Porto Alegre. Estavam unidas as tropas do coronel Bento e do major João Manoel, formando um total de mil e quinhentos soldados contra uma guarnição de pou­cas centenas de homens. Além disso, os imperiais não tinham qualquer perspectiva de socorro imediato, porque estavam cortadas as comuni­cações com o Rio Grande, e Bento Manuel e suas tropas encontravam-se mui longe, para os lados da fronteira.

Os rebeldes tinham quatro embarcações armadas em guerra, o bri­gue Bento Gonçalves, o patacho Vinte de Setembro, a escuna Farroupilha. e o iate Onofre. O brigue e o patacho ficaram ao lado da Praia de Belas, para de lá fazerem fogo, a escuna Farroupilha e o iate Onofre foram postar-se do lado norte da cidade, no litoral do Caminho Novo.

Dentro da capital, Menna Barreto inspecionava a construção das trincheiras e dos muros de defesa, quase sem comer nem dormir, e do fosso de quatro metros de profundidade, repleto de ferros cortantes e madeiras afiadas, que devia acompanhar a linha de trincheiras. Em frente à praça da Alfândega, ficavam as naus de defesa dos imperiais. Na cidade, os alimentos começavam a escassear, por causa da vigilân­cia extrema dos sitiantes, e os poucos víveres disponíveis nos arma­zéns começaram a ser vendidos com até oitenta por cento de acréscimo.

 

No início da tarde daquele vinte e sete de junho cinzento e tenso, de­pois de haver proseado longas horas com João Manoel a respeito das ações que deveriam ser tomadas contra a cidade de Porto Alegre, Bento Gonçalves retirou-se para a sua barraca e escreveu longo ofício ao marechal João de Deus Menna Barreto.

As mãos fortes seguravam a pena quase com ânsia, enquanto as palavras brotavam no papel, negras, lustrosas de tinta. Bento acabou a redação e pôs-se a ler o documento.

 

"Tendo caído essa Capital em poder dos facciosos por meio da mais negra traição, e constando-me que V. Exa. se acha à frente das forças que a guarnecem, movido unicamente pelos desejos de poupar a efusão de sangue e de remover os males que podem sobrevir, sendo eu compelido a retomá-la por viva força, intimo-lhe que hoje mesmo, antes de se pôr o sol, deponham as armas as mencionadas forças. (...) Rendendo pronta­mente as armas, evite V. Exa. os imensos desastres que ameaçam já de perto essa Capital; pelos quais faço a V. Exa. e a todos os mais chefes da reação responsáveis perante o céu e o mundo."

 

Mandou que chamassem o conde à sua barraca. Zambeccari sur­giu usando um pesado agasalho escuro, os olhos azuis brilhantes e inquietos, as mãos crispadas de frio. O coronel Bento Gonçalves es­tendeu-lhe a carta. O conde leu-a cuidadosamente, aprovando-a com um sinal de cabeça.

— Agora, Tito, mande um dos homens levá-la ao marechal.

O conde Zambeccari saiu da barraca com seus passos de bailari­no, levando a carta no abrigo do bolso do dólmã. Começava a cair uma chuva fina.

Bento Gonçalves ficou olhando as mãos calejadas e frias. Sentia o peito apertado: atacar Porto Alegre, a cidade que tanto conhecia e es­timava, era algo que não desejava nem de longe. Pensou nos muitos homens seus presos no Presiganga. e temeu por eles.

Paulo da Silva Santos entrou na barraca, sacudindo a chuva das vestes.

E então, Bento?

Os olhos negros de Bento Gonçalves pousaram na figura do mari­do de sua irmã Ana. Achou que os cabelos de Paulo começavam a branquear rapidamente.

— Então, meu amigo, que de hoje não passa.

Nenhum dos dois homens disse mais nada. Do lado de fora, vinham os ruídos do acampamento, o relinchar dos cavalos, a cantoria triste e lamuriosa de um soldado qualquer.

Ao cair da tarde, chegou a resposta dos imperiais. Um soldado jo­vem, de cabelos claros e rosto infantil, trouxe carta do seu general. Ben­to segurou-a com as mãos crispadas. Os imperiais aceitavam a luta. Bento Gonçalves e João Manoel reuniram as tropas e avisaram: atacariam ao alvorecer.

Porto Alegre foi acossada por água e por terra pelas tropas rebel­des, mas, apesar da grande diferença humana, os imperiais consegui­ram defender a cidade. Do alto das trincheiras bem guarnecidas, duzentos e oitenta soldados do império conseguiram bater e pôr em retirada os mil e quinhentos homens de Bento Gonçalves.

Assim começou o cerco a Porto Alegre. Os rebeldes não consegui­ram tomar a cidade, mas, do lado de fora, impediam qualquer movi­mentação ou entrada de víveres, dia após dia, num lento e exaustivo gastar-se de horas. Bento Gonçalves ficava horas mirando a cidade com seu binóculo, e tudo o que lhe ocorria era o rosto de Caetana, seu rosto moreno, agreste, e a voz rouca, inquieta e doce que sempre o seduzira. O tempo custava a passar, girava sobre si mesmo como um moinho gigante, enquanto a chuva despencava incansavelmente do céu.

 

Cadernos de Manuela

Estância da Barra, 26 de agosto de 1836.

Nos últimos dias de julho, chegou carta de meu pai. Era a primeira vez que ele nos escrevia, antes mandara apenas abraços, carinhos, re­cados por um ou por outro que vinham dar aqui na estância como pássaros perdidos de algum bando.

Sua carta, mesmo antes de ser lida, foi um bálsamo para minha mãe e minhas irmãs. Até mesmo Rosário, que andava cada dia mais calada, retirada a um mundo do qual nos privava invariavelmente, sentou à beira do fogo para ouvir as palavras do pai, e vi que de seus olhos azuis escorreram lágrimas grossas. Sim, Rosário sempre soubera amar mais ao pai.

Não lhe deve ter sido fácil redigir sua pequena missiva, pois nun­ca fora homem dado a escritos e desabafos, no entanto a saudade de quase um ano deve ter-lhe pesado no peito. Além disso, tinha novi­dades sobre o cerco a Porto Alegre, e mandava avisar de um inciden­te muito grave. A carta narrava um grande ataque rebelde à cidade, sucedido no dia dezenove de julho corrente. Os rebeldes acossaram Porto Alegre com um canhoneio pesado que pusera a população em terrível pânico. Ouvimos essas palavras com o coração pesado e te­meroso; a voz de minha mãe, ao ler esse trecho, tremeu de leve, al­çou-se um tanto, até recuperar-se e voltar ao tom normal com o qual ela falava sobre tudo: a voz baixa, morna, quase adocicada. Era o grande assalto rebelde, para o qual haviam se preparado por mais de um mês. "Conquistamos com muito esforço e com o sangue de vários dos nossos o Forte de São João, posto que explodimos, por motivo de lá estar guardado o arsenal de armas do Império. Com a explosão, uma bola de fogo alaranjado subiu ao céu e quase fez-se dia, um dia terrível, por alguns segundos." E foi então que a carta de meu pai trouxe sua maior apreensão: "Infelizmente, minhas caras, tenho de lhes informar que, neste ataque, foi ferido o meu cunhado mui queri­do, nosso Paulo, que caiu em mãos imperiais, mas que, graças à bra­vura de seu filho mais velho, José, foi resgatado antes que lhe acometessem maiores danos. Paulo foi atendido por um dos nossos médicos, sendo que uma bala lhe perfurou o estômago, tendo saído pelo outro lado, e uma lança dilacerou-lhe a coxa direita. Sinto in­formar-vos de tão grave lástima, mas é meu dever, e assim tendo me pedido Bento, quero que vosmecês falem com D. Ana e digam-lhe que seu esposo está vivo, e que passa regularmente, e digam-lhe tam­bém que está sendo levado à estância, com a urgência que permite esta guerra e o seu estado de saúde, para que possa ser tratado pelas mãos hábeis da esposa."

Somente assim findou a carta de meu pai.

Quando Maria Manuela cessou a leitura, com os olhos rasos d'água, todas nós procuramos o rosto de D. Ana. Ela estava sentada a um can­to da sala, ereta e lívida, as mãos cruzadas no colo, e lágrimas grossas escorriam-lhe pelo rosto, indo morrer na gola de rendas que lhe cingia o pescoço. Corri e ajoelhei-me aos seus pés, deitando a cabeça sobre seus joelhos, que estavam trêmulos.

Os dedos longos de D. Ana penetraram entre as tranças do meu cabelo e me acarinharam. De um canto, o pequeno Regente olhava tudo, com seus assustados olhos negros. A voz de D. Ana era um murmúrio, mas ela disse:

— Esteja calma, minha Manuela. Deus está conosco... — suspi­rou, parecendo buscar forças para terminar o seu dito. — Paulo chega aqui vivo. Eu o vi, dia desses, adentrando a porteira da estância.

Depois ergueu-se com jeito, me pondo de lado, e olhando todas nós no fundo dos olhos, com um aviso mudo para que permanecêssemos calmas, falou que ia até a cozinha dar ordens para o jantar e que volta­ria em breve para tocar um tanto de piano. Ficamos todas mudas, de olhos baixos. Minha mãe chorou um tanto. Por fim, Caetana ergueu-se do lugar onde estivera e avisou: "Vou mandar Zé Pedra avisar Antônia do que aconteceu." E deixou a sala com seu passo de rainha.

Nos dias seguintes, foram nos chegando notícias esparsas. Um dis­sidente da tropa que passava por nossas terras contou ao capataz que os revolucionários tinham montado seu quartel-general em Viamão, de onde agora controlavam discretamente Porto Alegre. O homem, faminto e estropiado, disse também que o moral das tropas andava baixo e que muitos partiam como ele, por causa da notícia de que Bento Manuel, com uma tropa de 3.000 homens, se preparava para marchar sobre as hordas de Bento Gonçalves. O homem também pediu de co­mer e de beber, mas Manuel, o capataz, deu-lhe apenas um quarto de pão d'água, dizendo que era um traidor e um covarde e que melhor teria feito se ficasse para lutar como um homem.

Manuel relatou tudo isso a D. Ana e D. Antônia, e as duas perma­neceram soturnas e cabisbaixas, olhando para a chuva que caía lá fora em pingos regulares e dolentes. Estávamos todas tristonhas, e nas noi­tes de nossa casa quase não se ouvia mais o piano, em parte porque D. Ana desistira de lutar de modo tão ferrenho contra a sua própria ansie­dade e agora esperava claramente a chegada do esposo, em parte por­que não éramos boa platéia. Mariana começou a queixar-se de tédio e de saudades de Antônio, que devia estar lá para Viamão, com o pai e os outros. Os meninos de Caetana corriam pela casa, cheios de energias acumuladas no mau tempo daquele inverno, quando não podiam ir ao campo nem brincar no quintal, e suas gritarias inocentes nos entra­vam pelos ouvidos como facas de gume afiado.

Certa madrugada, já em princípios de agosto, acordei com um ala­rido que sucedia no corredor. Mariana olhou-me assustada. Sempre temíamos que algum soldado imperial nos viesse molestar, mas as vozes eram da casa. Reconheci D. Ana e Milú, mais Zé Pedra, com seus monossílabos, e uns gemidos baixos e angustiados.

— Tio Paulo chegou!

Mariana pulou da cama, ia já para o corredor, mas eu a detive: era bom que esperássemos o pobre ser acomodado numa cama, e a tia es­tar mais calma. Nem sabíamos em que estado estava o tio, se muito mal ou já mais bonzinho, quase curado. Mas os gemidos que se alarga­vam nos diziam o contrário, e um cheiro de coisa estragada, podre, emanava, entrando pelas frinchas da porta. Mariana teve medo, abra­çou-me. Regente pulou também para a cama, aproveitando nosso des­cuido. Assim passamos até que começasse a clarear, quando então saí do quarto e fui até a cozinha. As negras sempre sabiam de tudo na casa.

Na cozinha, a preparação do café misturava-se ao cheiro de folhas que ferviam numa tina e a um leve odor de coisa alcoólica. Prepara­vam uma infusão para aplicar no tio Paulo, e D. Rosa pessoalmente cuidava da fervura. Foi ela quem disse, na sua voz grave e contida:

— O patrão está malzito. A perna le vai inflamada e deixa sair um pus quase verde. — Falava aquilo sem afetação, sempre fora boa curandeira e conhecedora de ervas. — O ferimento na barriga até que está cicatrizando. Mas a perna... Não sei não, aquilo está ruim mesmo.

D. Ana cuidava do marido, no quarto, e lá passou a manhã inteira, enquanto as negras iam num vaivém de bacias e ungüentos, e a casa parecia exalar um cheiro de hospital, e todas nós ficávamos na sala, esperando alguma notícia. Apenas D. Antônia chegou muito cedo e logo foi para o quarto da irmã, com ares preocupados.

Quando pude ver o tio, fiquei espantada. Estava muito magro, o pijama que lhe tinham vestido sobrava no corpo todo, o rosto era bran­co, arroxeado em tornos dos olhos meio baços, a perna direita, incha­da e exalando um cheiro de coisa ruim, estava coberta com uma bandagem branca que não escondia totalmente uma ferida vermelha e ardente que vertia um líquido purulento. D. Ana, de mangas arrega­çadas e olhos secos, aplicava compressas na testa do marido, afanosamente, como se dos panos molhados lhe dependesse a vida. D. Antônia apenas olhava, tristemente, e em seus olhos muito negros e miúdos se via a terrível verdade de tudo aquilo.

Lá pelo meio da tarde, chegou um médico que estava pelas redon­dezas. Entrou alvoroçado para o quarto do doente, cumprimentando com muita afetação Caetana, com quem cruzara no corredor. Ficou lá por umas duas horas, saiu descomposto. Na sala, olhou-nos a todas e, pousando os olhos em D. Antônia, que estava a um canto, falou bai­xinho:

— Era bom que mandassem chamar os filhos, se fosse possível, e quem mais da família vosmecês desejarem aqui nesta hora. O senhor Paulo não passa desta semana... A perna gangrenou, espalhou-se por tudo, está podre por dentro. Nem a amputação resolve mais. Seria sofrimento vão — e baixando os olhos, acrescentou: — Me desculpem, senhoras, mas fui chamado muito tarde, agora não existe mais jeito.

D. Antônia ergueu-se com custo da sua cadeira, estava pálida e pa­recia quase frágil, no seu simples vestido cinzento. Enrolou-se mais no xale azul que usava e chamou o doutor: "Vamos hablar no escritório." O homem seguiu-a prontamente. Mariana desatou a chorar.

 

Manuela.

O estado de saúde do Dr. Paulo de Silva Santos foi se agravando dia a dia. No início, ainda se ouviam seus terríveis gemidos, e D. Ana andava atarantada pelos corredores, gritando com as negras, pedindo outra bacia de água quente, nova infusão de folhas ou toalhas limpas. O médico voltou mais duas vezes.

Na última visita, chamou D. Antônia à varanda, antes de partir. Estava um dia claro, de ar frio e céu muito azul, aqui e ali pontilhado de nuvens pálidas. D. Antônia olhou o médico com seus olhos enxutos.

— Então, doutor Soares?

— Não le dou mais esta noite, D. Antônia. Sinto muito... — Dei­xou-se perder pelo pampa, depois fitou outra vez a senhora alta e esguia, de cabelos presos em coque no alto da cabeça. Estava sem jeito, quis saber: — Os filhos chegaram?

— Não. Vosmecê sabe que essas estradas estão cheias de tropas. Mandamos Zé Pedra atrás dos meninos, mas o negro ainda não deu com as caras por aqui. — A voz soou desconsolada. D. Antônia cruzou os braços frios ao redor do corpo. — O remédio é esperar. E rezar.

— Era bom que chegassem hoje. Despediu-se e partiu numa sege negra.

D. Antônia dirigiu-se à cozinha e mandou Rosa fazer um almoço leve, estavam todas preocupadas demais para grandes comidas. De­pois foi até o escritório e mandou que Beata chamasse Caetana.

A cunhada chegou usando um vestido castanho que não lhe diminuía a beleza, embora fosse simples, sem arranjos. Os cabelos estavam trançados na nuca. Ela beijou D. Antônia, ainda não se tinham visto naquela manhã. A irmã de Bento não fez rodeios:

— Paulo morre hoje, Caetana. Só de ver, já se sabe. — Caetana fez o sinal-da-cruz. D. Antônia sorriu cansadamente, como quem sor­ri a uma criança, depois prosseguiu numa voz baixa: — Ontem à noite, tive longa prosa com a Ana. Ela já está sabendo... A coisa não tem mais volta. Precisamos estar preparadas.

— Dios... Nunca pensei, nunca pensei que tão cedo uma tragédia dessas sucedesse conosco, cunhada. Paulo chegou aqui tarde demais, o ferimento já estava arruinado, eu vi. — Caminhou até a janela e olhou o jardim. — Será que Bento e os meninos vêm?

— Meus ossos dizem que não. Nem Zé Pedra apareceu. Además, não sabemos como vão as coisas aí fora. Por isso le chamei, Caetana, para di­zer que já mandei buscar o padre. Hoje à tarde, ele vem dar a extrema-unção ao Paulo. Não é justo que o homem morra sem o consolo de Deus.

— Vou avisar Maria Manuela e as meninas — aquiesceu Caetana. — E vou rezar para que os homens cheguem a tempo. Ter os filhos por perto faria bem a Ana, coitada.

 

O padre veio, cumpriu sua obrigação e partiu.

Era noitinha, e o dia bonito transformara-se em noite fechada, sem estrelas. Jantavam uma sopa, todas na grande mesa, quietas, cientes de que logo teriam a notícia. O lugar de D. Ana, à cabeceira, estava vago. A qualquer momento, ela entraria na sala para avisar que o marido tinha morrido. Era coisa de pouco tempo, até o padre dissera. D. Antônia re­mexia com a colher o prato fumegante, estava sem nenhuma fome. Lem­brava do horrível dia em que enterrara seu Joaquim. Uma dor aguda comprimiu-lhe o peito. D. Antônia cerrou os olhos, fazendo esforço para segurar as lágrimas.

 

Quando as negras recolhiam a mesa, Zé Pedra chegou. Vinha sozinho, sujo, cansado da viagem penosa e friorenta. D. Antônia não quis saber de firulas, recebeu-o na sala, junto com as outras. Ouviram todas o que o negro contou nas suas palavras secas. Não tinha conseguido chegar até as tropas de Bento Gonçalves, nem tinha falado com os meninos. Os revolucionários estavam malparados, acossados em Viamão, por terra e por água. Zé Pedra atrapalhou-se todo para dizer o nome de um inglês que comandava a esquadra da Marinha imperial. Era John Pascoe Greenfell, capitão-de-mar-e-guerra que, com seus navios, tor­nara a abrir as rotas de navegação para o Rio Grande, desafogando a cidade de Porto Alegre do cerco imposto por Bento Gonçalves. Além disso, as tropas de Bento Manuel cercavam os revoltosos por terra.

— Foi impossível chegar até o coronel — disse Zé Pedra. — Nem uma alma passa pelas tropas do Império, D. Antônia. Eles vão ter chum­bo do grosso pela frente. Não pude dar a notícia aos patrõezinhos, le peço desculpas. Mas entreguei a carta da senhora para um soldado. O homem prometeu que ia dá-la ao coronel Bento Gonçalves.

 

D. Antônia baixou os olhos por um momento. As mulheres estavam caladas, tristes, com medo. Manuela pensou naquele nome que Zé Pedra mal soubera repetir: Greenfell. Ficou imaginando o capitão in­glês que comandava os navios contra seu tio e os outros. Sentiu uma raiva surda crescendo dentro do peito. Se tivesse dito aos outros, na­quela noite de Ano-Novo, se tivesse contado as desgraças que enxer­gara, alguém lhe teria dado ouvidos?

Zé Pedra pediu licença e retirou-se para a cozinha. Estava vesgo de fome, comera mui pouco na viagem de volta. D. Antônia pegou o crochê largado no cesto de palha. Com custo, fez o primeiro ponto. As duas cunhadas fitavam-na, esperando. A voz lhe saiu quase mansa, como queria, quando disse:

— Deixemos, que Bento sabe bem o que faz. Logo estará por aqui, conosco outra vez. Por esta noite pelo menos, temos coisas mais ur­gentes com as quais sofrer.

Rosário começou a chorar, abraçou-se à mãe. Caetana levantou do seu lugar e avisou que ia pôr os meninos na cama. Perpétua foi ajudá-la, era bom ocupar a cabeça, nem que fosse com as travessuras dos dois irmãos.

 

Paulo de Silva Santos morreu ao alvorecer, enquanto D. Ana segura­va sua mão e recordava a noite do casamento. Casara-se na fazenda do pai, em Bom Jesus do Triunfo, numa festança inesquecível. D. Perpé­tua estivera feliz como em poucas vezes na vida, vendo a filha toda vestida de renda branca, de braço dado com o jovem fazendeiro. De­pois tinham ido viver em Pelotas, tinham arrumado a casa da estância, tinham sido felizes e companheiros. José e Pedro nasceram, ambos parecidos com o pai, ambos corajosos, fortes, amantes dos cavalos e do campo... Quando D. Perpétua estava para morrer, na cama, cha­mara a filha e lhe dissera: "Com vosmecê não me preocupo, Ana. Sei que o Paulo cuidará de tudo, sempre."

Lágrimas grossas e mornas escorriam pelo rosto de D. Ana. A mão aninhada entre as suas começava a perder um pouco do calor, inerte como um passarinho morto, inocente, entre seus dedos. Ela apertou ainda mais aquela palma calejada que tantas vezes a acolhera... Nesse exato momento, onde estariam os filhos? O postigo deixava passar uma claridade baça, D. Ana adivinhou que o dia já raiava. José e Pedro deveriam estar no acampamento em Viamão, quem sabe despertando, indo tomar um mate, quem sabe sentindo que alguma coisa tinha su­cedido de vez com o pai. A última coisa. A derradeira.

D. Ana ergueu-se e beijou a fronte pálida do marido morto.

Preciso avisar Antônia. Preciso mandar Zé Pedra levar a notícia ao padre. Preciso mandar as negras prepararem de comer e beber; mesmo na guerra, alguém pode vir, um vizinho ou outro, e nesta casa sempre estivemos prontos para receber as visitas. Preciso parar de chorar.

 

Secou o rosto com um lenço de renda, ajeitou os cabelos. O corredor ainda era silente e escuro. Antes de seguir para a cozinha, onde com certeza já encontraria Zé Pedra tomando o seu mate, caminhou até a porta da sala. D. Antônia estava derreada no sofá, olhos fechados; no colo, repousava esquecido o crochê. Tinha dormido ali.

D. Ana caminhou até ela, sentou ao seu lado, tocou-lhe o rosto com carinho. A irmã abriu os olhos, as retinas negras cintilaram cansaço e preocupação.

— Ele morreu faz quinze minutos — disse D. Ana, os olhos secos e ardidos. — Mal o sol começou a raiar... Morreu dormindo, o meu Paulo.

D. Antônia segurou-lhe a mão.

— Foi melhor, Ana. Ele não iria voltar ao que era antes. E teria preferido assim.

D. Ana sentiu os olhos explodirem em lágrimas.

 

Enterraram-no à tardinha.

A guerra tinha revolucionado a vida do Rio Grande, e naquela es­tância, afastada de quase tudo, pouco se podia fazer, era quase impossí­vel mandar notícias aos compadres e vizinhos. Manuel andou umas léguas a cavalo, avisando quem pôde. Dois fazendeiros da região vieram pres­tar seus sentimentos, mais o padre, que tinha suas missas para dizer à alma do morto, e encontraram a casa da Estância da Barra de luto cerra­do. Duas negras circulavam pela sala servindo licor de pêssego e bolos caseiros. As mulheres estavam todas de preto. D. Ana não saiu do lado do marido, que era velado sobre a mesa da sala, com um círio de cada lado. O padre rezou pelos homens do Rio Grande e pelo fim da guerra. Caetana chorou, segurando pela mão Leão, que fitava tudo com os olhos arregalados de pavor, e que a todo momento pedia pelo pai. Mariana e Manuela ficaram ao lado da mãe, quietas, de olhos baixos. Rosário, de­pois de haver ficado largas horas trancada no escritório, agora surgia na sala, os olhos ardidos. Uma raiva surda de tudo aquilo se traduzia em seu rosto angustiado. Por que tinha de viver aquela tristeza, aqueles dias horríveis de choros e cheiro de morte, por quê?

D. Antônia estava à varanda, vendo a tarde de sol ameno, pensan­do no irmão. Bento fazia falta nessas horas duras, tinha sempre uma palavra de consolo, uma palavra certa, necessária. Apesar de ser católica, os ditos do padre pouco lhe serviam... D. Antônia sabia que, dali a uma hora, o cunhado estaria sepultado à esquerda da casa, no canto afastado onde ficava o canteiro de rosas, sob a sombra de uma figuei­ra. Pensou nas muitas vezes em que vira Paulo galopando por aqueles campos, um homem de ferro, alegre e disposto para tudo. As coisas acabavam cruelmente para alguns.

Uma sege subia pelo caminho, D. Antônia ergueu-se. A sege pa­rou em frente à casa. D. Antônia reconheceu no vulto alto, de cabelos negros e bem cortados, o homem que a cumprimentara na estrada. Ele veio compungido, estendendo-lhe uma mão dura, bronzeada.

— Sinto muito que a honra de revê-la tenha sido motivada por tão triste acontecimento, D. Antônia. — A voz era agradável e bem mo­dulada. — Estou de retorno para unir-me às tropas em Viamão, ou onde quer que de mim precisem. Deixei Teresa com sua parenta, faz ainda pouco, e não podia deixar de trazer aqui o meu abraço. Todos estimavam muito o senhor Paulo.

D. Antônia aceitou a mão estendida. Inácio José de Oliveira Gui­marães deu-lhe o braço. Era um cavalheiro. Entraram assim na sala, onde já preparavam o morto para ser levado. D. Ana recebeu as con­dolências de Inácio. Tinha os olhos inchados, mas afora isso seu rosto estava quase sereno.

Seguiram todos para o jardim. Manuel, Zé Pedra, Inácio e um dos vizinhos levaram o ataúde. Atrás iam as mulheres. Perpétua caminha­va rapidamente, a tristeza pela morte do tio misturava-se a uma eufo­ria estranha: quem era aquele homem? Sentiu que seu coração batia mais rápido, sob o peitilho de renda negra do vestido. Fez o sinal-da-cruz. Devia ser pecado pensar nessas coisas num momento daqueles. Alguns metros à sua frente, Inácio José de Oliveira Guimarães pros­seguia com seu passo firme. Perpétua admirou-lhe a nuca de pele cla­ra, os cabelos negros bem compostos. Era um homem garboso.

 

A pequena procissão chegou à beira da cova. O padre abriu uma Bí­blia com uma velha encadernação em couro e começou a ler um trecho. O sol se punha atrás de uma coxilha. O ar começava a esfriar ra­pidamente. Poucos minutos depois, o primeiro punhado de terra caía sobre o caixão do marido de D. Ana. A terra estalando na madeira pro­duziu um baque surdo e seco.

 

"Minha querida Ana,

Somente um mês depois de a notícia ter chegado a mim é que tenho calma para escrever e le dizer o quanto sofri a perda desse inestimável homem que foi o nosso Paulo. Muito senti que esta guerra tenha derreado sobre a sua alma tão grande fardo, e tenho que le dizer: seus filhos também muito têm sofrido. Não há dia em que não venham até mim, tristonhos, e ficamos tomando o mate e recordando das coisas boas sucedidas no passado.

Minha irmã, conto isso não para que vosmecê sofra mais, mas para que saiba que o Paulo está em nossos corações. Agora, lutamos também por ele. Se me for dado cruzar com o ordinário que o molestou tão terri­velmente, numa dessas batalhas que vêm acontecendo, juro-le, Ana, que minha espada não o deixará impune... Juro-le também que, logo tenha­mos nos acalmado por estas bandas, mando seus filhos estarem um pou­co com vosmecê, pois sei que o único consolo agora é a presença de José e de Pedro ao seu lado.

Ana, aproveito estas linhas, escritas com pressa num alvorecer chuvo­so, para contar a vosmecê e às outras o que anda sucedendo conosco. Vamos em plena guerra. Quando estávamos aquartelados em Viamão, no começo de agosto, na época mesma em que enviei Paulo aos seus cuida­dos — talvez um erro meu, pois sei que a viagem penosa piorou-lhe o estado —, foi que recebemos a notícia: nossas tropas estavam sitiadas por terra e por mar. O capitão Greenfell, um inglês de um braço só, que está a serviço do Império, tinha posto seus barcos no Guaíba, fechando a nos­sa passagem.

Enquanto isso, Bento Manuel chegava com suas tropas, quase 3.000 homens, contingente muito maior do que o nosso. Além disso, o moral das nossas tropas, após a retomada de Porto Alegre, estava muito baixo. Não tivemos outra saída senão fugir para as barrancas, de onde tentaria- mos ganhar a campanha ao sul do Jacuí. Foi necessário uma luta feroz: nossa única chance era atravessar as tropas de Bento Manuel, mas obtive­mos vitória que muito nos alegrou. Onofre, nosso primo, comandando trezentos homens, conseguiu assustar os imperiais, que recuaram e nos permitiram avançar. Assim, rompemos o cerco e atravessamos carroças e canhões. Foi um momento glorioso, minha irmã! E seus filhos e sobrinhos tiveram muita coragem, sendo que Pedro comandou cem homens da ca­valaria com muito êxito.

Vosmecê deve saber que agora estou a meio caminho da Campanha, dentro de uma barraca, aquecido apenas pelo mate que Congo acabou de me passar, e pelas saudades. Este setembro tem sido frio e chuvoso, o que muito nos dificulta os movimentos. Mas, Ana, esta carta tem outras notí­cias a dar. Ontem, fui acordado com a novidade de que Netto proclamou a República no Campo do Seival. Agora é general, patente que também a mim foi atribuída. Le digo, minha irmã, que isto muito me assusta. Pela voz de Netto, demos um grito sem volta, que nos há de separar ainda mais do Império. Onde estou, seguido de perto pela tropas do meu tocaio Ben­to Manuel, pensar em república pouco ou nada me adianta. Estamos como que numa ilha, cercados de imperiais por todos os lados. Estamos acossa­dos e precisamos nos unir aos outros. Mas tenha fé, Ana, e que as paren­tas também na fé se escorem, pois haveremos de nos safar daqui, e logo poderei ir vê-las.

Esta notícia sobre a República Rio-grandense é um segredo que vosmecês não podem espalhar. Ainda há muito tempo para isto. Quem pouco tempo tem sou eu, pois agora mesmo ouço a voz de Tito a me cha­mar lá para fora. Onofre deseja parlamentar comigo. Termino aqui esta carta, Ana, com todo o meu carinho e o meu sentimento. Segue junto um pequeno bilhete para Caetana, foi tudo o que o tempo me permitiu escrever.

Estejam com Deus.

 

Bento Gonçalves da Silva.

21 de setembro de 1836."

 

"(...) Nós, que compomos a 1a Brigada do Exército Liberal, devemos ser os primeiros a proclamar, como proclamamos, a independência desta província, a qual fica desligada das demais do Império e forma um Estado livre e independente, com o título de República Rio-grandense, e cujo manifesto às nações civilizadas se fará competentemente.

 

Campo dos Menezes.

11 de setembro de 1836.

Assinado: Antônio de Souza Netto,

comandante da 1a Brigada de Cavalaria."

 

A voz que lia o manifesto deixou um rastro de silêncio atrás de si. O silêncio durou alguns poucos segundos. Um grito de excitação percorreu a tropa como um sopro. Fazia um sol fraco naquela manhã. O general Netto desembainhou sua espada e ergueu-a bem alto, gritando:

— Viva a República Rio-grandense! Viva a independência! Viva o Exército Republicano!

De todas as bocas sobe um grito único, voraz. A bandeira tricolor tremula no alto de um mastro. Um bando de bem-te-vis passa gritan­do no céu, por sobre as copas das árvores de um capão próximo.

 

Enquanto o general Netto proclamava a República Rio-grandense, Bento Gonçalves, acossado pelas tropas de Bento Manuel, tentava armar um plano de fuga. Achavam-se praticamente sitiados em Viamão. Os homens estavam cansados e famintos, os cavalos, estropiados. Cho­via muito, primavera úmida dos pampas. Os rios estavam cheios por causa da chuva, era difícil se locomover, e quase impossível arrastar as quatorze bocas de fogo.

Numa pequena escaramuça, Bento Gonçalves foi ferido no ombro. Precisava ir para a Campanha, onde poderia descansar e cuidar do ferimento, que ali, naquelas parcas condições, poderia infeccionar.

— Lembre do seu cunhado, general — disse o médico da tropa.

Bento Gonçalves perdeu os olhos no horizonte cinzento. Sim, lem­brava-se muito bem de Paulo. Bem demais. Mas precisavam atraves­sar o Gravataí com as tropas, pois este era o único rio que tinha ponte naqueles caminhos que davam para a Campanha. Precisavam atraves­sar o Gravataí e livrar-se de Bento Manuel. Era a única chance.

Foi assim que armaram o plano.

Espalharam a notícia de que iriam marchar para Porto Alegre, e foi justamente o que fizeram. Bento Gonçalves, Onofre Pires, Tito Lívio Zambeccari e Sebastião do Amaral reuniram as tropas e seguiram rumo à capital. Bento Manuel Ribeiro recebeu a notícia da marcha e pôs-se com seus homens rumo à cidade. Não queria deixar os rebeldes esca­parem.

No meio do caminho, a maioria das tropas tomou o rumo do norte, o rumo do Rio Gravataí. Bento Gonçalves, Onofre Pires e um piquete seguiram em direção a Porto Alegre, para despistar o inimigo. As tro­pas que rumaram para o Gravataí seguiam silenciosamente, sob a luz mortiça de uma lua triste, recoberta de nuvens. Sabiam que muitos piquetes inimigos estariam pelo caminho de quase oito quilômetros, era preciso cautela.

Quando estavam na metade do caminho, os imperiais descobriram o estratagema. A todo galope, a tropa revolucionária tocou para a ponte do Gravataí. Bento Manuel vinha-lhes no encalço, atirando, lanças em punho. Homens rolaram, pisoteados pelos cavalos. Uma nuvem de in­tensa poeira subiu no céu noturno. Mas os rebeldes alcançaram a ponte. Passou a tropa, passaram os quatorze canhões. A ponte foi recoberta de pólvora. Um tiro cortou o ar noturno, e a ponte subiu pelos ares.

Empinando o alazão, Bento Gonçalves sorriu. As labaredas verme­lhas clareavam momentaneamente a noite. Ele enganara seu tocaio. Sob o pano do dólmã, o ombro ardia um pouco. Bento Gonçalves correu para o lado de Onofre.

— Desta vez, tivemos suerte! — gritou.

Os dois homens seguiram troteando lado a lado. Pedro, sorriden­te, o rosto sujo de poeira, veio juntar-se ao tio.

Agora era chegar em São Leopoldo. Lá descansariam, Bento cui­daria do ombro, a tropa teria alguma paz. A lua continuava cintilando, muito tímida, no céu.

 

D. Ana estava na varanda, tomando um pouco de sol. A primavera se anunciava lentamente no pampa, florindo os flamboyants, espalhando no ar um cheiro doce de frutas.

Desde que José, o filho mais velho, chegara, D. Ana tinha recupe­rado um pouco da antiga paz. Quando o filho subiu os degraus da varanda, usando o dólmã, a espada na cinta, o rosto barbado e cansa­do da longa viagem, D. Ana, que estava na sala tentando ler um livro, transformara-se em cachoeira. Mal pôs os olhos em José, as lágrimas verteram, incontroláveis. Venceu o véu de pranto para atirar-se nos seus braços e aquecer-se naquela morneza familiar. Achou José ainda mais parecido com Paulo, a guerra tinha lhe amadurecido as feições, uma barba rala sombreava seu rosto. Essa parecença atiçou-lhe o pranto.

— Calma, mãe — foi tudo o que José soube dizer.

E logo ambos choraram, ante os olhares de dó das outras mulheres.

D. Ana cuidou do filho com as atenções que não pudera dar ao esposo. Foi para a cozinha e preparou-lhe uma tacho de marmelada, fez compota de pêssego e sovou com as próprias mãos o pão que lhe serviu à tardinha. Essas tarefas todas deram algum viço ao seu rosto, que andava tão abatido. Caetana agradeceu à Virgem a melhora da cunhada-

E os dias foram passando. Fazia uma semana que José estava na Estância da Barra. Tinha trazido notícias da guerra, contara como as tropas haviam conseguido deixar Viamão para trás. Fora depois disso que seguira rumo à casa materna. O irmão, Pedro, ficara ao lado de Bento Gonçalves. Sabiam que agora os revolucionários estavam aquar­telados em São Leopoldo.

D. Ana deixou seu olhar vagar pelos campos que se estendiam até perder de vista. Longe, junto a uma coxilha, viu um grupo de vaqueanos. Estavam chegando da venda de uma carga de charque. Era bom, precisavam do dinheiro para muitas coisas.

José chegou do interior da casa. Suado, mangas arregaçadas. Bei­jou a mãe, jogou-se numa cadeira de palha.

— Estive cavalgando um pouco. Fui com Manuela. Tomei um banho na sanga. — A voz adquiriu uma nota triste. — Lembrei dos velhos tempos, mãe, de quando éramos crianças e vínhamos passar aqui o verão.

D. Ana sorriu, sentindo os olhos úmidos.

— Sabe que dia é hoje, mãe?

— Que dia, meu filho?

— Dia vinte de setembro. Faz um ano que a revolução começou. D. Ana olhou as mãos caídas sobre o colo, lívidas. Fazia um ano.

Um ano inteiro de ansiedades e esperas.

— A gente aprende a não sentir o tempo, meu filho. Senão, acaba enlouquecendo.

Leão e Marco Antônio passaram correndo, descendo os degraus da varanda aos tropeços. D. Ana fitou os sobrinhos e sorriu.

— Estes dois guris dobraram de tamanho desde que chegamos aqui.

José deu uma sonora risada. Tinha o mesmo riso do pai, amplo, alegre e doce.

 

Inácio José de Oliveira Guimarães apareceu na estância por aqueles dias. Para tomar um mate, prosear. Estava de passagem, pois tinha ido ver D. Teresa, a esposa, que estivera combalida por uma fraqueza dos pulmões.

— O inverno foi difícil mesmo — disse D. Ana ao visitante, en­quanto lhe oferecia o bolo de laranja. — Maria Angélica, a filha de Caetana, andou muito atacada da asma, por causa da umidade. Gra­ças a Deus, ficou tudo bem.

Inácio fez uma cara compungida.

— Minha esposa é um tanto fraca do peito, me preocupo muito.

D. Antônia atalhou:

— Pois le ofereço nossa ajuda. Se D. Teresa precisar, estamos to­das nós por aqui.

Perpétua estava em seu quarto, deitada na cama, olhando o teto. Algumas tardes demoraram muito a passar. Rosário entrou, afobada:

— Vosmecê sabe quem está aí? Aquele homem, o do enterro do tio. Aquele que vosmecê ficou espiando, que eu vi.

Perpétua deu um pulo da cama.

— O senhor Inácio?

— Esse mesmo, prima. Veio de visita, trazer notícias.

— Pois vou lá — e foi ataviar-se, arrumar os cabelos, trocar os sapatos por um par melhor.

Perpétua apareceu na varanda quando Inácio começou a contar as notícias que tinha dos rebeldes. Estivera com Netto, sabia algumas coisas de Bento Gonçalves. Falaram da República. Os olhos escuros de Inácio brilharam.

D. Ana disfarçou um sorriso quando viu a sobrinha. Tinha notado umas conversas entre Perpétua e Mariana, nas quais ouvira o nome do visitante. E aquele brilho novo nos olhos da serena Perpétua?

— Sente aqui, menina. — D. Ana indicou-lhe uma cadeira. Não havia mal. E, afinal de contas, o homem era casado. Que a menina se alegrasse um pouco, as coisas estavam tristes naquela casa.

Os olhos de Inácio José Oliveira Guimarães beberam as feições da filha mais velha de Bento Gonçalves. Uma leve inquietação asso­mou-lhe ao peito. Ela pigarreou. As duas senhoras estavam de olhos fitos nele. José quis saber:

— Como estão as coisas para meu tio? Parto ainda esta semana para me reunir a ele.

— As notícias se atrasam, vosmecê sabe. Mas parece que o maldi­to Bento Manuel está indo com tudo para a frente do coronel. Vai ter mais batalha.

— O traidor não engoliu a nossa manobra em Viamão — disse José.

— Vamos a ver o que sucede. Amanhã também parto, bem cedo. D. Ana sugeriu que seguissem juntos. Era mais seguro. Os dois

homens combinaram tudo. Pegariam a estrada ao alvorecer, com mais um vaqueano da Estância do Brejo. Perpétua sentiu um leve tremor, imaginando Inácio na guerra, no meio da batalha. D. Antônia chamou uma das negras e mandou trazer mais água para o mate. A tarde caía lentamente, tornando o céu róseo e fantástico.

 

A carta do coronel Bento Gonçalves da Silva chegou no décimo quin­to dia daquele mês de outubro, numa manhã luminosa, no bolso inter­no do dólmã de um tenente que vinha ferido, lanhado e cheio de fome. Tinha uma missão, missão de que fora incumbido pelo chefe maior, o Bento, e o tenente André assim desdobrara-se em muitos para vencer as estradas e a dor, desviando no caminho de vários piquetes imperiais. Mesmo depois de tudo, mesmo depois da derrota, o tenente André cumprira sua missão.

Chegara a pé na estância, mancando da perna direita, que havia sido atingida de raspão por uma bala imperial. Pedia uns dias de gua­rida e um cavalo. Tinha planos de juntar-se a Netto e prosseguir a luta na Campanha.

D. Ana recebeu-o como a um filho, imaginando que talvez, em outra fazenda mui longe dali, Pedro ou José pudessem estar também à mer­cê da gentileza de estranhos. Quis logo chamar D. Rosa, para que a governanta tratasse o ferimento do tenente, mas André negou-se. A perna le ia bem, no más, después aceitaria um remédio, um prato de comida, uma talagada de aguardente e um banho, mas agora tinha missão a cumprir. Precisava esperar que a carta fosse lida, precisava dar notícias dos combates, viajara aquelas léguas somente para isso.

— Espero vosmecês sob o umbu — disse ele. — Quando acaba­rem a leitura, direi para que mais vim até aqui.

Caetana sorriu.

— Vosmecê fique conosco — pediu ela. — O que meu marido nos conta decerto não deve ser segredo algum.

O tenente, com o rosto lívido, agradeceu a gentileza e pescou a carta do bolso do dólmã. Caetana leu-a em grandes goles, atropelando as palavras, pulando vogais, até que seu coração serenasse. Depois repe­tiu-a em voz alta para as parentas, na varanda mesmo, onde todas se reuniram naquele entardecer nublado. O tenente ficou quieto a um canto, embora o cansaço fosse cruel, e esperou gentilmente que toda a carta fosse lida para dar a terrível notícia que trazia entalada na gar­ganta. O tenente André tinha vinte e três anos e era o filho mais novo de um fazendeiro da região, um moço educado, de boa família, cujo garbo ficava latente mesmo sob o uniforme maltrapilho e sujo.

A voz rouca de Caetana tremeu um pouco ao pronunciar as pri­meiras frases, depois pacificou-se. O tenente apreciou a voz bonita da esposa do coronel.

 

"Mui adorada Caetana,

Enquanto le escrevo esta missiva, lá fora está geando. Um frio terrível vence as paredes da barraca e vem açoitar-me, penetrando em minha pele como uma cruenta adaga... Sinto contar-te o pé em que as coisas estão, mas a verdade, minha esposa, é que após tantas lutas, e depois de tanto tempo com este Bento Manuel a nos perseguir, estamos quase sem man­timentos, sem agasalhos e sem fé. Teimo em reanimar a tropa, e é com palavras que nos alimentamos por ora. Já faz um ano inteiro que esta guerra começou, no campo de batalha o tempo passa mui depressa... E eu, para estar mais feliz, sonho com usted e com nossa casa, com um bom fogo crepitando na lareira, e com os filhos todos reunidos.

No entanto, apesar da mala suerte desses dias, os homens são mui co­rajosos. Até Tito, o conde, que está adoentado dos pulmões e tem a saúde fraca, não sossega um dia, esquece a febre, tudo para estar ao meu lado e preparar a tropa para a nossa partida desta São Leopoldo. Aqui consegui­mos material para construir dois pontões que nos ajudariam na travessia do Jacuí, donde então seguiríamos para a Campanha. Sucede que estamos cercados, Caetana, mas usted sossegue a alma, pois acredito que consegui­remos, mais uma vez, como em Viamão, dar bom êxito ao nosso plano.

Do outro lado do Jacuí, está o coronel Crescendo, e seria bom que pudéssemos nos unir a ele, assim teríamos as tropas reforçadas e estaría­mos em condição de bater Bento Manuel. Esta travessia, no entanto, ago­ra me parece difícil e demorada. Talvez avancemos por terra, nos batendo de frente com os malditos imperiais. Isto vamos a ver.

Onofre anda irritado, é um gigante preso, cujo mau humor preciso conter a todo momento. Ao amanhecer, nos reuniremos todos para tomar uma decisão acertada.

De resto, esposa, somos soldados levando a vida dura de uma guerra, mas estamos vivos e saudáveis. Os outros, os sobrinhos e meu cunhado, estão bem. Mandam lembranças, assim como eu, para as parentas. Penso nos meninos, que estão no Rio de Janeiro, e acho que já é quase hora de voltarem ao Rio Grande. Escreva-lhes, Caetana, e lhes diga deste meu sentimento.

Por hora, findo aqui esta carta. Hei de despachá-la ainda nesta ma­drugada, para que logo chegue às suas mãos.

Com todo o carinho e saudade,

Bento Gonçalves da Silva.

São Leopoldo, 29 de setembro de 1836."

 

 

Caetana, tendo findado a leitura, dobrou com cuidado o papel e guar­dou-o num bolsinho do vestido, suspirando. As coisas não estavam bem, e mesmo que Bento tentasse acalmá-la, ainda assim alguma coisa lhe ardia no peito, uma inquietude, um mau sentimento. Noite passada, quase não dormira, olhos pregados no teto. Só se acalmara após passar duas horas rezando no altar da Virgem, pedindo pelos homens, pelo êxito, e para que a Santa desse um fim honrado àquela guerra.

D. Ana tinha os olhos perdidos. Impossível não pensar em Paulo, que agora estava tão perto, sob a figueira, uma lembrança morna para o seu consolo. Impossível não odiar a guerra. Tentou desanuviar os pensamentos. Manuela, Mariana, Perpétua e Rosário olhavam o te­nente, esperando para ver o que mais sucederia. D. Ana lembrou de perguntar:

— E vosmecê, meu filho, que notícias mais tem para nos dar?

Uma última réstia de sol tentava furar o manto de nuvens cinzen­tas. A tarde findava lentamente, os quero-queros cantavam. O tenente perfilou-se, como que respondendo a um chamado superior, depois um rastro de súbita tristeza riscou suas feições delicadas. Era um jovem de tez clara, olhos castanhos, boca bem-feita.

A voz lhe saiu trêmula. Depois de tantas batalhas, de ver tanta mortandade e horror, ainda a voz lhe tremia. Lembrou do que vira em Fanfa e sentiu um certo horror gelar o seu sangue. Estava perante a família de Bento Gonçalves, e tinha aquela notícia a dar.

— Senhoras — começou ele, olhando o chão. — Sinto muito estar aqui e trazer inquietude a vosmecês... — Ergueu o rosto e fitou Ma­nuela, tão moça e viçosa. Depois deitou os olhos em Caetana, e prosse­guiu: — Mas fui incumbido pelo coronel Domingos Crescêncio de vir les falar.

— Pois fale, meu filho. — A voz de D. Ana soou impaciente e cheia de medo. — Estamos aqui para le ouvir.

O tenente encheu de ar os pulmões e despejou, num sopro só:

— O coronel Bento Gonçalves da Silva foi capturado e preso no dia quatro de outubro, na Ilha de Fanfa. Ele tentava atravessar o Jacuí com suas tropas para se unir ao coronel Crescêncio. Junto com Bento Gonçalves, o coronel Onofre e Tito Lívio Zambeccari também foram presos e levados ao Presiganga. De lá, foram transportados para o Rio de Janeiro, para a Fortaleza de Santa Cruz, onde também se encontra o capitão Lucas de Oliveira.

O silêncio só era cortado pelos passarinhos. O tenente cruzou e descruzou as mãos. Na verdade, poderia chorar. O sonho da repúbli­ca ficava seriamente comprometido com a prisão de Bento Gonçalves.

As sete mulheres à sua frente não pensavam em repúblicas nem em sonhos, somente no homem que tinha sido levado para longe, algema­do, humilhado, e que agora teria destino tão incerto. D. Ana ergueu-se da sua cadeira e foi abraçar Caetana, que começava a chorar. O tenen­te sentiu-se ainda mais constrangido. Manuela correu o braço pelos ombros de Perpétua; a prima estava lívida, apoiou-se nela quando sentiu seu toque.

— Senhoras... — O tenente não sabia bem o que fazer. Ajuntou: — Foi uma batalha desigual. Bento Manuel cercou-os na ilha, e sob fogo cerrado eles lutaram por muitas horas, com muita coragem. Uma noite inteira. Nunca se há de esquecer... Mas os barcos do inglês Greenfell foram decisivos. Estavam escondidos no Jacuí, apenas aguar­dando. Não houve outra saída, o coronel Bento Gonçalves teve de se entregar. Com seu gesto, salvou a vida de muitos homens.

— Ah, meu filho... — viu-se D. Ana a dizer. — E a vida dele, quem há de salvar?

Mariana e Rosário estavam abraçadas à mãe. A noite foi derraman­do suas sombras pela varanda e pelo campo, os grilos cantavam. Duas negras vieram acender os lampiões.

— Senhoras, me desculpem... — O jovem tenente não sabia como agir.

— Fique calmo, meu filho. — D. Ana se recompunha. —Vosmecê viajou muito. Está cansado e precisa de cuidados. Le agradecemos que tenha vindo até aqui nos contar o sucedido... — Tocou uma sineta. A negra Beata apareceu. — Beata, leva o moço lá para a cozinha. Manda a Rosa cuidar muito bem dele. E prepara um quarto lá nos fundos para o moço, que vai pernoitar aqui uma noite ou duas.

O tenente André agradeceu. Estava exausto. Andando atrás da negra, pelo corredor penumbroso, ainda podia ouvir o choro triste da esposa de Bento Gonçalves. Deveria ter-lhe dito que o coronel iria voltar, não era homem de estar preso, todo mundo no Rio Grande sa­bia. Mas não tivera coragem. Os olhos da uruguaia eram de um verde de mata úmida. Ele não tivera coragem: a voz tinha morrido dentro da sua garganta.

 

Cadernos de Manuela

Estância da Barra, 7 de novembro de 1836.

Naquela mesma noite, após receber um bilhete de minha mãe, D. Antônia veio ver-nos. Mesmo sob sua máscara de força e serenidade, via-se uma profunda tristeza entranhada nos seus olhos negros. Primeiro, su­cedia a morte do tio Paulo, e agora a prisão de Bento Gonçalves... As coisas ficavam duras para nós, e D. Antônia padece calada, como minha avó, de quem nunca ouvi uma reclamação durante toda a minha vida. Aqui no Rio Grande, sofrer é uma sina, e nunca se sofre mais do que numa guerra. D. Antônia sabe disso, vai se tornando marmórea com o passar dos dias. Endurece. A tristeza não se mostra, é uma espécie de nudez.

D. Antônia não chorou um só momento naquela noite que custou muito a passar, mas esteve acalmando Caetana, pedindo-lhe que ficas­se bem, pelos filhos, por Bento. Sim, pois Bento voltaria. Ela tinha absoluta certeza.

— Bento tem o pêlo duro, Caetana — garantia D. Antônia, com sua voz baixa, tépida. — Quando era guri, caiu de um cavalo e luxou o tornozelo. A mãe ficou muito preocupada, pois fora um tombo feio. Depois que o enfaixaram, Bento sumiu... Quando fomos procurá-lo, estava lá, montado no tal zaino, feliz da vida, como se nada tivesse sucedido. Sempre foi uma criatura teimosa... — E D. Antônia sorria, tentando convencer a si própria: — Ele vai fugir de lá. Ninguém segu­ra Bento Gonçalves da Silva.

Todas nós acreditamos naquelas palavras como numa profecia.

Quando recuperou um tanto da calma, uns dias depois, Caetana escreveu longa carta aos filhos. Fiquei pensando em Joaquim, lá no Rio de Janeiro, como iria ele receber tal notícia? Será que poderia vi­sitar o pai? Joaquim, de olhos negros e sorriso alegre, com quem brin­quei em tantas tardes da infância, e que hoje está prometido para ser meu esposo. Tenho carinho por ele. Carinho. D. Ana disse que sentir carinho é um modo de amar... Mas ainda não me esqueci daquela vi­são, do homem no convés do barco, do homem loiro que sorria para mim. E dizem que me casarei com meu primo, quando esta guerra acabar... Se um dia esta guerra acabar. Não foi o rosto de Joaquim que emergiu em mim, naquela noite de Ano-Novo. Foi, isso sim, um rosto estrangeiro, um rosto diverso desses nossos rostos rio-grandenses, de pele morena, de cabelos escuros, com ares espanholados. Aquele homem era puro ouro, um sol poente brilhava dentro dos seus olhos, dourava seus cabelos de trigo. Às vezes me ponho a espiar o horizonte para muito além das coxilhas, e fico pensando: virá algum dia esse homem dos meus sonhos, verei a face que ora me visita em pensamen­tos, ou meu destino é mesmo casar com meu primo Joaquim, ter filhos seus, distribuir ordens às negras, cujas mães também obedeceram às mulheres mais velhas desta casa, dar netos ao coronel Bento Gonçal­ves, netos parecidos com o que já somos nós, com este mesmo sangue correndo nas veias e estas mesmas visões de campos e de alvoreceres na alma? Não tenho resposta que sossegue o meu espírito. Os dias passam, iguais entre si. Instala-se o verão no pampa, e nós ficamos esperando que nos tragam a boa nova tão ansiada, a notícia da fuga de Bento Gonçalves.

João Congo, o negro de meu tio, apareceu na estância em meados de outubro. Caetana deu-lhe dinheiro e instruções para que tomasse um barco para a Corte e fosse estar com Joaquim, Bento Filho e Caetano. De lá, poderia zelar por Bento Gonçalves, levar-lhe de comer todos os dias. A comida da prisão deve ser das piores. João Congo partiu no dia seguinte, com um punhado de cartas e um sorriso no rosto preto e afável.

Todos se vão, somente nós restamos aqui. Novembro chegou com um céu azul sem nuvens e um sol morno que faz brotar flores por todo o campo. Impossível, vendo esta beleza serena, imaginar que fora des­ta terra se trave uma guerra tão cruel. Mas as notícias nos chegam com o vento, e é verdade que a guerra existe lá fora.

Os filhos de Caetana crescem, Ana Joaquina já começou a falar, corre atrás de Regente pelos corredores, está ficando uma guriazinha bonita. Leão, desde que soube que o pai foi preso, faz apenas brincar de guerra com sua espada de pau, Diz que vai libertar Bento Gonçal­ves. Caetana e D. Ana olham tudo com ares apreensivos. É sempre mais um homem se fazendo para a guerra, mais um a esperar, por quem rezar, a quem prantear.

E o tempo assim vai passando. Completei meu décimo sexto ano num domingo de sol. D. Ana mandou que se fizessem bolos e doces, e minha mãe me deu de presente uma gargantilha de ouro que fora sua na mocidade. Pensei muito em meu pai e em Antônio, nos aniversários passados, quando o pai me pegava no colo, dizendo que eu era a sua menina e que nunca haveria de crescer. O pai está longe, faz um ano que não o vejo. Serei eu a tomar um susto quando o encontrar — quem sabe o que a guerra causou à sua pessoa — ou será ele que se espanta­rá por me ver moça, por ver em mim essa serenidade lavrada a faca, moldada nesses dias de angústia e de espera, em que o silêncio ainda é o melhor dos confortos e dos esconderijos?

 

Mariana mudou também. Encantou-se com o tenente André, an­dava de assuntos com ele, mais feliz, até sorridente, alegria que con­trastava com a tristeza de todos. Desde que o vira na varanda, ainda sujo e cansado da viagem, uma nova luz se acendera nos olhos de mi­nha irmã Mariana. Durante dias, seguiu-o com os olhos, de longe, sem coragem de falar-lhe. Até que um dia vi os dois proseando no pomar. Mariana exalava um viço novo, um viço que destoava de todas nós.

A casa, desde a notícia da prisão de Bento Gonçalves, ficou mais silenciosa — D. Ana desistiu temporariamente do seu piano. Para sofrimento de minha irmã, o tenente, passada uma semana aqui na es­tância, tomou estrada outra vez, foi juntar-se às tropas de Netto. Mariana ficou desolada, fugiu para a sanga, restou lá uma tarde intei­ra a chorar. Voltou para a casa com os olhos ardidos, um cãozinho sem dono. Não se pode segurar um soldado longe da guerra, não aqui no Rio Grande... O tal tenente, mal esteve recuperado da perna, montou num cavalo e foi procurar seu novo coronel. Com Bento Gonçalves preso, Antônio Netto é agora o cabeça da revolução. Dizem que está ganhando batalhas na Campanha. Que Deus o ajude. Desde então, minha irmã ora por suas tropas. O pequeno altar de Nossa Senhora, no corredor, nunca esteve tão repleto de velas. O cheiro de cera se espalha por tudo, junto com o perfume da pessegada que está ferven­do nos tachos, é mais um dos odores desta casa de mulheres.

 

Manuela.

D. Antônia recebeu o telegrama e o segurou entre as mãos como uma coisa preciosa. O paisano que trouxera a mensagem acom­panhou um dos negros até a cozinha, onde lhe dariam de comer e de beber.

D. Antônia estava sentada na cadeira de balanço, tomando as fres­cas na varanda. A manhã do dia 22 de dezembro se acabava, um sol límpido e dourado derramava sua luz pelo campo, e lá fora soprava uma brisa fresca. Dos lados do rio, vinha, desfeita em frases descone­xas, a cantoria das negras que lavavam a roupa. D. Antônia rasgou o envelope e leu. Bento Gonçalves da Silva tinha sido eleito presidente da República Rio-grandense, em Piratini.

Ela ergueu os olhos para o campo. Suas retinas tinham uma cor de carvalho, um castanho quase negro e cintilante onde nada, nenhuma emo­ção, podia escapar. Os cabelos presos no coque deixavam entrever as pri­meiras cãs. Não tinha esses fios brancos antes de a guerra começar; agora, quando se mirava no espelho, era fácil correr os dedos pelos fios desbota­dos. Podia enumerar as angústias que os tinham originado. Baixou os olhos para o telegrama e releu a curta mensagem. Bento Gonçalves era presi­dente de uma república que não proclamara. E estava preso. Estava lon­ge, no Rio de Janeiro. Que sina era aquela que guiava um homem à frente de um rebanho inteiro, que o punha como um chefe, maior do que todos os outros e, no entanto, devedor desses outros, devedor de cada ovelha, a quem deveria zelar, honrar e proteger? Ficou pensando no irmão, tranca­do numa cela, logo ele que amava tanto o pampa, o vento batendo na cara, o cheiro de mato e de frescor das campanhas. Um presidente acorrentado. Bento Gonçalves não era republicano, ela sabia disso muito bem, tinham conversado tanto sobre esse assunto — como estaria se sentindo agora, com esse encargo, essa honra, essa lâmina cravada em sua carne? Com que armas lutaria, e contra quem?

— As coisas vão como cavalo desembestado.

A voz morreu lentamente. D. Antônia percebeu que falava sozi­nha. Ficou ranzinza. Nunca falava sozinha, era o primeiro passo para uma velhice caduca. Deitou um último olhar para o jardim florido e verde, aspirou o ar fresco, voltou para dentro da casa. Depois do al­moço, aí sim, iria até a estância de Ana, dar a notícia a ela e às outras. Não ainda. Precisava pensar em tudo aquilo, pôr a cabeça no lugar.

Os acontecimentos se sucediam freneticamente. D. Antônia ouvira boatos de que Netto tinha se encontrado com Bento Manuel, e que am­bos haviam tentado um acordo para aquela guerra, mas os entendimentos haviam fracassado. E o presidente Araújo Ribeiro estava enfraquecido perante o Império. As coisas se confundiam mais e mais. O hiato entre os revoltosos e os partidários da Regência aumentava a olhos vistos. D. Antônia pensou no Natal, dali a três dias. Esperava, como as outras, que Antônio, Pedro, José e Anselmo, marido de Maria Manuela, apareces­sem para as festas. Pensou em Ana: haveria um lugar vazio à ceia, vagueza que nunca mais seria remediada. Sentiu uma pena terrível da irmã. Sabia muito bem que uma dor como essa demorava muitos anos para abrandar. E quando abrandava, ficavam as cicatrizes, vermelhas, doloridas, salientes.

 

No dia vinte e quatro de dezembro de 1836, Bento Filho e Caetano che­garam à Estância da Barra, depois de tomarem um navio no Rio de Janei­ro, que os tinha levado até o Rio Grande. De lá, sob o sol quente de dezembro, cavalgaram para rever a mãe e os irmãos. Bento tinha termina­do o ano da faculdade de Direito, e Caetano esquecia temporariamente os planos de entrar para uma universidade. Era tempo de pensar em outras coisas mais prementes. O Rio Grande ardia em revoltas, era preciso que todos os seus filhos viessem acudi-lo. Era preciso, por aquele nome que carregavam e honravam. Eram Gonçalves da Silva, filhos do general Bento, e a guerra os chamava. Joaquim, o filho mais velho, ficaria mais algum tempo na Corte, para visitar o pai na prisão e auxiliá-lo no que mais fosse possível. João Congo restara com ele no Rio de Janeiro.

Bento era um rapagão alto e forte de dezessete anos, de voz grossa e rosto meigo. Tinha os mesmos olhos verdes de floresta de Caetana, os cabelos castanhos, crespos, e uma alegria viçosa. Caetano, aos quinze anos, era mais calado, parecido com o pai, porém de consistência física mais delicada. Ao ver a mãe parada na varanda da casa, a saudade acumulada naqueles dois anos pesou no seu peito, e ele não conseguiu segurar as lágrimas. Correu para os braços de Caetana como um me­nino assustado, e ali restou num forte abraço, até que Bento disse:

— Solta da mãe, guri. Também mereço um beijo dela. Caetano foi abraçar Perpétua. Bento pegou a mãe pela cintura, deu-lhe um sonoro beijo no rosto e falou:

— Olha, mãe, em toda a Corte eu juro que não vi uma dama mais bonita do que a senhora. Le garanto.

D. Ana e D. Antônia sorriram. As primas vieram em alegre polvo­rosa. Era bom ter mais gente em casa, viver um pouco de alegria, dei­xar de lado a guerra e o medo de todos os dias. Leão e Marco Antônio queriam brincar de batalha com os irmãos mais velhos. Caetano foi correr com eles no quintal.

Bento revirou uma das malas e tirou dali duas cartas. Entregou a primeira à mãe, dizendo que era de Joaquim. O outro envelope estava recheado de papéis, um pouco sujo, mas selado.

— Esta carta é do pai, mãe. Escreveu da cela, na Fortaleza de Santa Cruz. Deu-a para o Congo, pedindo que a entregássemos à senhora logo que a gente chegasse em casa. — Estendeu o braço, depositou a carta na palma trêmula de Caetana. — A gente chegou em casa, mãe. Agora a senhora pode ir lá para dentro e ler a sua carta.

Caetana sorriu para o filho. E saiu correndo em direção ao quarto. O farfalhar das saias do seu vestido azulado ficou no ar ainda por al­guns instantes como o som de um suspiro, até que D. Ana disse:

— Vamos entrar, Bentinho. A viagem de vosmecês foi mui longa, que eu sei. E hoje teremos um almoço de festa.

— E uma ceia natalina? Com doce de abóbora e ambrosia e pão de mel? D. Ana riu. Tomou o sobrinho pelo braço.

— Com tudo isso, meu filho. Com tudo isso.

 

Caetana Joana Francisca Garcia Gonçalves da Silva jogou-se na cama. Sentia o corpo todo trêmulo, e era como se estivesse para encontrar Bento às escondidas, era como se nunca tivessem estado a sós e ela ainda fosse uma menina inocente da vida. Tremia do mesmo modo que tremera na noite de núpcias, em Cerro Largo, naquela madrugada, vinte e dois anos atrás.

Zefina estava pelo quarto, arrumando alguns vestidos. Caetana mandou que a negra saísse. Aquela carta, queria lê-la sozinha. Antes, deu um beijo leve no envelope que Quincas lhe enviara. Leria a carta do filho depois.

Soltou o lacre de cera. A letra de Bento Gonçalves surgiu ante seus olhos úmidos.

 

"Minha Caetana,

Tenho tantas coisas para contar, que nem sei, esposa, por onde devo iniciar estas linhas. Desde Fanfa, quando preciso estar em paz, é em usted que penso, nos seus olhos, nas suas mãos, na força das suas orações. Sei que usted reza por mim, talvez seja por isso mesmo que ainda resisto, que ainda espero, entre estas paredes de pedra, neste lugar tão longe do meu Rio Grande, afastado dos meus deveres e dos meus sonhos.

Estou vivo, Caetana, e esta é a boa notícia que tenho para le dar. Estou vivo e suportando estes dias porque sei que logo regressarei para os seus braços e para o meu chão. Desde a batalha de Fanfa, desde que tive de me entregar ao meu tocaio, o traidor Bento Manuel, meu orgulho tem sido posto à prova, lacerado, forçado nas suas amarras, até o limite da exaustão desta minha alma. E vosmecê sabe, Caetana, o quanto soy un hombre orgulhoso. Tive porém de entrar em Porto Alegre como prisioneiro, algemado, junto com o conde Zambeccari e com Onofre, tive de ficar preso no Presiganga por muitos dias, até que me foi dada a notícia de que seria trazido para cá, para a Corte, tão longe de usted, do meu chão, e tão perto do Regente.

Foi a bordo do Presiganga que me contaram que fui eleito presidente desta República Rio-grandense, e que agora sou general. Mas quais atitu­des um homem preso pode tomar, minha Caetana? Que general sou eu, tendo permitido tamanha derrota em Fanfa, e que hoje estou nesta mas­morra, confinado numa cela solitária, exposto a suplícios que não hei de le narrar, pois não le quero pensar mais sofredora do que decerto está.

Logo que cheguei ao Rio de Janeiro, juntamente com os outros, fui levado para a Fortaleza de Santa Cruz, onde fomos bem tratados, e onde vi com gosto o nosso mui estimado conde recuperar-se um pouco, pois que sofria desde muito de um sério mal dos pulmões. Porém, passados alguns dias, tendo visto em mim um perigo muito maior do que represen­to aqui — apartado de tudo e de todos —, me jogaram numa cela da Casa Forte, e é desta imunda peça que ora le escrevo, Caetana.

Aqui mal se sabe quando é dia e quando é noite. Uma única e estreita janela fica no alto da cela, quase na junção do teto, e nem subindo na enxerga que me serve de cama posso ver o que se descortina lá fora, no mundo. No entanto, durante a madrugada, escuto o barulho do mar. Des­se mar que me separa de usted, Caetana, e que me sussurra segredos que tento desvendar nas minhas noites solitárias.

Recebi a visita de nossos filhos e de Congo, que me trouxe roupas, fumo e coisas de comer. Congo trouxe também a sua carta... Foi um bom momento, lendo as suas palavras. Quase me esqueci que estava aqui.

Sei que Bento e Caetano estarão com vosmecês na estância quando usted ler esta. Cuida deles, esposa. Joaquim voltará para o Rio Grande em breve, le garanto. Por agora, ajuda-me aqui, fazendo alguns contatos. E está mui bien, um homem, e parecido com vosmecê.

Dê meus carinhos para as minhas irmãs e para as sobrinhas. E, por favor, vosmecê beije nossos filhos por mim.

Não desanime, Caetana. Estaremos juntos em breve, se assim Deus quiser e a buena suerte me ajudar.

Sempre seu,

Bento Gonçalves da Silva.

Fortaleza de Santa Cruz, Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1836."

 

Caetana limpou do rosto as lágrimas. Um soluço estava preso em sua garganta, ardido, como um espinho. Ela tocou a sinetinha que fi­cava no criado-mudo, ao lado da cama. Zefina apareceu logo depois. Caetana mandou a negra buscar D. Ana.

A cunhada veio rapidamente. Estava na sala, servindo o almoço para os dois sobrinhos, botando a conversa em dia. Sabia o que a esposa de Bento queria com ela. Bateu de leve na porta, ouviu a voz rouca:

— Entra.

D. Ana não disse nada, mas notou o rosto de choro de Caetana. Sentou na cama e ficou esperando a cunhada dizer:

— Leia, Ana, por favor.

D. Ana pôs-se a ler a carta. Do corredor, vinha a algazarra dos meninos. Estavam brincando de cavalaria. D. Ana leu as primeiras pa­lavras. Sentiu a voz de Bento em seus ouvidos.

 

Apesar de tudo, tiveram um bom Natal

Apenas Antônio pôde ir ter com elas, os outros estavam para os lados de Piratini, envolvidos com a guerra, ocupados demais para a viagem de festas. Antônio chegou ao anoitecer, com a barba crescida e um brilho diferente nos olhos. Agora falava muito na república, agora era um homem de verdade. Tinha lutado como um homem, vira coisas cruéis que o perseguiam nos sonhos. Passara a odiar os imperiais com todo o seu sangue de moço. Mas, em casa, ao lado da mãe, das irmãs e das tias, recuperou a doçura alegre de sempre, animou-as, cantou, dançou a chimarrita com a prima Perpétua.

Num dado momento, propôs um brinde:

— Ao presidente desta república, o general Bento Gonçalves da Silva. — Ergueu sua taça no alto, e o cristal brilhou sob a luz dos can­delabros. — Que ele logo esteja entre nós, mais forte ainda do que antes.

As taças tilintaram.

D. Antônia abraçou forte o sobrinho.

— Que Deus Nosso Senhor esteja le ouvindo, Antônio — disse ela, o rosto sério.

— Está, tia. Le garanto que está. Logo Bento Gonçalves sai da prisão. Estamos trabalhando muito. Com ou sem a ajuda de Deus, tio Bento vai ficar livre.

O resto da noite foi de festas. Caetana tentou ficar alegre; porém, apesar da presença dos dois filhos, não conseguia tirar da memória as palavras de Bento. A cada instante, vinha à sua mente a imagem do marido preso numa solitária, doente e esfarrapado. Ela acendeu mui­tas velas para a Virgem, mas a angústia não a abandonou naquela noi­te inteira, nem nos dias subseqüentes.

 

1837

D. Ana fizera questão de que comemorassem a virada do ano, que fizessem uma boa ceia e que mandassem carnear um novilho para o pessoal da fazenda. Dizia que a tristeza era feito pó, quando se entranhava numa casa, não saía mais. Era preciso cuidar para que a alma permanecesse arejada, apesar de tudo. Ela mesma chorara de saudades do seu Paulo, enquanto se arrumava para a festa; porém, logo depois limpara as lágrimas e fora estar com as cunhadas e os sobrinhos. Afinal, a vida seguia como um rio. E era preciso remar.

O senhor Inácio de Oliveira Guimarães viera trazer seus votos de felicidades à família. Chegou passado das nove horas, muito bem com­posto como andava sempre. Do seu lugar na sala, Rosário viu o rosto da prima Perpétua tingir-se de carmim quando o visitante apareceu na soleira da porta. Trazia consigo a esposa, uma senhorinha mui apa­gada de graças, que se chamava Teresa. Nem a presença da mulher acalmou o nervosismo de Perpétua.

Estavam todos na sala, tomando ponche e proseando. D. Ana to­cava umas modinhas ao piano. As negras arrumavam a mesa da ceia. Rosário aproveitou o alarido provocado pela chegada das visitas, en­veredou pelo corredor semi-escurecido. O escritório cheirava a sonhos e coisas guardadas. Ela abriu a janela, e o perfume dos jasmins se insi­nuou para dentro da peça como se fosse o hálito da noite. A luz tênue do candelabro que trouxera fazia os livros perderem a forma nas prateleiras da estante. Rosário sentou, ajeitando bem as saias do vestido novo, e esperou. O cheiro de jasmins ficava mais e mais forte.

— Steban....

Ele pareceu brotar das prateleiras da estante. Rosário não se as­sustou; ao contrário, sentiu uma morneza boa derramar-se dentro do seu peito quando viu o brilho daqueles olhos oblíquos e tristes. Steban usava um uniforme de gala.

— Tuve miedo que no venieras a verme. — A voz dele era puro cristal. Ele sorriu, mostrando os dentes alvos, e seu sorriso clareava o rosto bonito, quase sempre tão pálido.

Rosário percebeu a atadura nova, limpa, ao redor da testa de Steban. Sentiu o impulso de se erguer, de tocá-lo. Havia muitos meses que dese­java tanto, sonhava com isso. Acordava no meio da noite com o nome dele ainda em seus lábios. Mas sabia que não era possível, não ainda. E Steban tinha muito medo dos homens da casa. El general. Não podia ouvir o nome de Bento Gonçalves. Rosário vira uma vez, ao pronunciar o nome do tio por acaso, a atadura ficar tinta de sangue rubro e tépido, e Steban se desfazer como fumaça pelas frestas da estante dos livros.

Rosário conteve a ânsia de abraçá-lo.

— E los otros? No vinieran para la fiesta?

— O tio está preso, Steban. E meu pai anda na guerra. Mas Antô­nio está aqui. Se vosmecê quiser, chamo meu irmão. Assim vosmecês se conhecem.

Steban estendeu o braço, como que para tocá-la, mas a mão foi caindo lentamente, como um animal ferido.

— No llames tu hermano, Rosário... No es la hora.

Rosário sentiu os olhos úmidos de lágrimas. Ajeitou o vestido, ten­tando disfarçar o nervosismo. Nunca era a hora. Queria que os outros soubessem. Aquele silêncio pesava feito chumbo em seu peito. Ela res­pirou fundo, ergueu novamente o rosto. O jovem oficial uruguaio lhe sorria. Como era garboso...

— Vosmecê está muito bonito hoje — teve coragem de dizer, e sen­tiu-se ruborescer levemente. Se D. Ana ou mesmo a mãe a ouvissem...

Da sala, vinham a melodia do piano e um som de vozes e de risos. O cheiro de jasmins queimava sua garganta. Faltava pouco agora para a meia-noite. E os olhos de Steban eram límpidos como o céu do verão nas paragens.

 

Antônio partiu no dia seguinte, ao alvorecer. Bento Filho quis acom­panhar o primo, arrumou algumas coisas numa trouxa, estava decidi­do a ir para a guerra ao lado do general Netto.

Caetana soube da notícia quando estava cuidando de Ana Joaquina. Largou a menina no colo da negra Xica, saiu correndo pelo corredor afora. Encontrou o filho encilhando um cavalo sob o sol ainda morno daquele alvorecer de janeiro. Da porta da cozinha, D. Ana observava tudo, o rosto impávido, apenas um brilho ardido nos olhos escuros.

— Aonde usted pensa que vai? — gritou Caetana. Ela quase nun­ca gritava, tinha a voz baixa, modulada.

Zé Pedra estava por ali arrumando umas achas de lenha, ergueu os olhos, entendeu tudo num único instante. Saiu de mansinho. Bento largou do animal, virou-se para a mãe:

— Eu ia falar com a senhora ainda agora... — A voz tremia um pouco. — Vou com o Antônio. Estou decidido.

Caetana segurou o braço do filho. Seus dedos amoleceram ao con­tato daquela carne tão sua. A voz serenou um pouco.

— Bento... Seu pai pediu que usted esperasse aqui... Quando Joa­quim voltar, vosmecês vão os dois. Nem bem faz uns dias que veio. E eu preciso de usted.

— Mas mãe... Quero ir. Pelo Rio Grande, pelo pai.

Os olhos de Caetana ardiam de lágrimas contidas. Chegou mais perto do filho. Era tão alto, um rapagão. Lembrou da primeira vez que o levara ao seio, uma coisinha rosada e tenra, indefesa.

— Por Dios, hijo...

Bento titubeou. Caetana tremia. O jovem ergueu os olhos, viu a tia parada à porta da cozinha, uma estátua. Antônio já tinha lutado muitas batalhas, tinha uma cicatriz no braço, um brilho de fúria nos olhos verdes. Pensou no pai. Bento Gonçalves havia mandado que esperasse. "Fica com sua mãe por uns tempos, meu filho. Quando eu escapar daqui, usted lutará ao meu lado." Caetana o fitava, parecia prestes a desfalecer.

— Está bem, mãe. — Um gosto de bile encheu sua boca. Era um covarde. Tinha medo.

Caetana abraçou o filho, trêmula.

— Gracias, Bento, gracias... — Acarinhou-lhe a face já escurecida pela barba. — Venha, vamos tomar o café juntos. Não fique triste, hijo, usted ainda lutará ao lado do seu pai.

D. Ana entrou na cozinha. Passou pelas negras sem dizer nada. Chorava baixinho, de alívio.

 

No final de janeiro, chegou à estância a notícia de que o general Bento Gonçalves havia sido transferido para a Fortaleza de Lage, no Rio de Janeiro. Era uma prisão mais dura, de onde seria ainda mais difícil fugir. Mas os republicanos faziam planos, armavam estratagemas para libertar o general sulista. Era questão de tempo.

— E de paciência — disse D. Antônia para a cunhada, ao ver os olhos vermelhos de Caetana, que chorara a noite inteira. — Bento sai dessa, eu tenho fé. Vosmecê, por favor, não perca a sua.

De resto, os dias se gastavam em lentas horas quentes sob aquele céu azul-cobalto, aqui e lá tingido de nuvens. Era um verão bonito. Para além, no entanto, encarniçadas batalhas prosseguiam. Araújo Ribeiro deixara o cargo de presidente da província e fora embora do Rio Grande. Para o seu lugar, havia sido nomeado o brigadeiro Antero de Britto, um homem de cinqüenta anos, feroz e ditador, que prometia acabar com a revolução a qualquer custo. Antero de Britto tinha um inimigo de longa data: Bento Manuel Ribeiro, e uma das suas primei­ras ações foi desautorizá-lo a negociar a paz com os rebeldes. Coagido, Bento Manuel desmanchou suas tropas e partiu para sua estância.

D. Ana passava largas horas na varanda — o bordado perdido entre as dobras da saia, o desenho que nunca aumentava —, fitando o pampa. Pensava em Pedro e José. Fazia muito tempo que não via o filho mais velho e agora sonhava com ele todas as noites, uns sonhos inquietos em que José se confundia com o marido morto, gemia de dor naquela mesma cama em que Paulo falecera. Desses sonhos, D. Ana desperta­va coberta de suor. Milú logo vinha acudi-la, abanando o leque e re­clamando do calor daquele verão.

— Calor é esse fogo que cozinha a minha alma, Milú — dizia sem­pre. — Vou andar um pouquito.

A negrinha não entendia nada, ficava olhando a patroa vestir o chambre, calçar as chinelinhas e sumir pelo corredor em direção ao altar de Nossa Senhora. Era lá que D. Ana esperava a volta do sono. Muitas vezes, encontrava Caetana a rezar no meio da madrugada, e fazia coro à sua voz rouca.

Entardecia. Uma luz rosada se derramava sobre o campo, enchen­do de cores mágicas as flores e as folhagens. Um cheiro fresco se er­guia da terra. Dois cachorros latiam ao longe, para os lados da sanga. Bento, Caetano, Leão e Marco Antônio estavam lá, tomando banho e brincando. D. Ana lembrou da manhã em que vira Bento encilhar o cavalo, disposto a ir para a guerra. Naquele dia enxergara, sobre a cabeça do sobrinho, uma espécie de luz que a assustara. Não dissera nada a ninguém, mas receara que fosse um aviso. Bento não partira, graças a Deus. Agora devia estar mergulhando na água tépida da sanga, rindo com os outros, vivendo. Pensou mais uma vez nos dois filhos, havia tanto tempo empunhando espadas. Saberiam ainda tomar um banho de sanga, desanuviar a cabeça das coisas da guerra?

— Os acontecimentos vão sucedendo num caminho sem volta... Maria Manuela chegou à varanda.

— Vosmecê disse alguma coisa, Ana? D. Ana enrubesceu levemente.

— Estava falando sozinha, irmã. Hay cosas que a gente não tem coragem de dizer para os outros, só para nós mesmos.

Maria Manuela sentou numa das cadeiras de vime. Parecia triste.

— Essa guerra é que faz isso, Ana. Eu também tenho falado sozi­nha, cada coisa, cada coisa...

D. Ana afagou o ombro da irmã mais moça. Quando via alguém triste, achava forças. Abriu um sorriso confiante.

— Deixa estar, Maria... Isso passa. Tudo na vida passa. Vamos adelante. Logo o Rio Grande se assenta outra vez, e nossos homens voltam para a casa.

— Deus le ouça. Queria mesmo era levar Rosário de volta para a cidade. Ela anda tão diferente, nem parece a mesma moça de antes... Precisa do pai, eu acho.

— Isso também passa. Quando casar, passa, le garanto. Rosário agora precisa é de um marido.

As duas ficaram caladas. Um quero-quero escondido no umbu co­meçou a cantar. A luz do entardecer agora adquiria matizes de puro ouro. D. Ana se ergueu lentamente.

— Vou lá na cozinha perguntar a Rosa a quantas anda o jantar. Quando voltarem da sanga, aqueles guris vão estar varados de fome — e saiu num passinho rápido.

 

O entrevero é uma massa humana recoberta de pó que parece dançar numa cadência estranha. Um ato gera outro, ritmado, esperado, ca­bal. A lâmina de um sabre se ergue, brilha um instante contra o sol, baixa, crava-se na garganta de um imperial. O sangue rubro jorra fei­to água, o cavalo empina, aterrorizado. O sabre, agora tinto, desce outra vez, erra o seu alvo, o republicano desvia com o cavalo. Um soldado inimigo avança, pistola em punho, olhar furioso. A bala zune, parece ter fugido daqueles olhos negros, entra no meio da testa do republica­no, que toma um susto, um instante, como se percebesse a armadilha na qual se deixou pegar. O homem desaba. Como num passe de mági­ca, o sabre agora está na cinta do imperial. Dois cavalos vêm em corre­ria, um tiro de canhão abre um buraco no meio da infantaria; mais adiante, a horda humana recua como a maré. Saltam corpos de ambos os exércitos, voam sem qualquer graciosidade, como pássaros bêba­dos. Tudo desaparece por um momento, escondido no meio da poeira negra e do cheiro acre de pólvora.

Havia um céu azul vendo tudo isso, havia um céu azul e uma brisa morna de manhãzinha. Havia um céu azul. Agora tudo é negro e sujo e moribundo por um momento, até que a poeira desce e outra vez se descortina o movimento ritmado dos corpos vivos pisando sobre os " corpos mortos. E o céu permanece inalterado, o olho de Deus.

A cavalaria é como um único corpo que avança sob o grito de Netto, pula corpos pelo chão, pisoteia membros. Não há tempo para nada, e o tilintar dos metais estoura os tímpanos. Antônio crava a lança num soldado, solta-a com custo, deve ter entranhado em algum osso, segue adiante, tentando compreender aquela cena de horror, tentando livrar o rosto da poeira, tentando varar o maior número possível de impe­riais. Os canhões rugem, um tiro desaba sobre um grupo de cavaleiros republicanos. A tropa se dispersa um pouco, avança, urrando. A bata­lha recomeça. Netto dá ordens para seus soldados, e sua voz se eleva acima de tudo, como a voz de um sacerdote. Antônio trespassa o ven­tre de um soldado inimigo. E jovem, loiro, seu rosto faz um esgar de dor, quase de espanto. A pistola em sua mão pálida desaba e some no meio do chão tinto de sangue. Da ferida, escapa uma pasta viscosa, os intestinos pulam para fora da prisão daquela carne. O rapaz perde as forças, cai no chão, some na poeira. Antônio segue em frente. (O sol­dado se parecia com um guri lá da estância, tinha grande parecença mesmo.) Antônio agora tem os olhos cheios de lágrimas, aquele pó é que o deixa assim, aquela pólvora. Já não sente nada quando mata um inimigo. (É preciso, é preciso.) Seu cavalo avança. Os imperiais re­cuam para dentro de uma sanga.

Esta batalha vamos vencer. Después alguém conta a notícia para Bento Gonçalves, lá no Rio de Janeiro, para alegrá-lo um pouco em seus pesares. O tio há de apreciar essa vitória. Uma vitória macanuda. Os imperiais estão fugindo feito formigas.

Antônio lembra muito bem do primeiro homem que matou. Não dormiu naquela noite, sonhando com os olhos baços do soldado. Ago­ra já nem sabe mais quantos passaram pela sua espada. Nem quer sa­ber. Quer ganhar esta batalha, esta guerra. Quer ver a República brilhar, quer seu Rio Grande de volta. Antônio pensa no pai, para os lados da Serra, lutando as suas batalhas. A gritaria aumenta. Ele vê um homem sem as duas pernas, rebentado ao meio por um tiro de ca­nhão. Desvia os olhos. (Essas coisas, não é bom a gente ver, deita os olhos nelas e não esquece nunca mais. É uma praga. Voltam nos so­nhos, quando menos se espera.).

A verdade é que sente saudades da casa da estância, das longas tardes cavalgando pelos campos. Jamais gostara de ir ao matadouro, nunca, nem em moleque, por curiosidade. Mas guerra é guerra, e um homem não morre como um boi, peleja muito antes de morrer.

A dança prossegue. Começa a chover, uma chuva de pingos miú­dos que não dá conta do calor. Netto luta em meio a um entrevero de homens e de cavalos. José está bem na frente, perto da sanga, empur­rando os imperiais para a água. A terra encarnada de sangue vai se transformando em barro quando a chuva engrossa, uma pasta fétida. Os corpos vão sendo pisoteados, vão sumindo no barro vermelho. Antônio limpa o rosto. A chuva tira o sangue da sua testa, só deixa ficar o corte fino, na altura da sobrancelha esquerda, um raspão, nada de mais. "Até casar, sara", diria D. Ana, se estivesse ali para ver o ferimento. Mas D. Ana está bem longe, com as outras, fazendo a sua parte, cuidando das coisas da vida, rezando por eles. É preciso que alguém reze por eles, a mala suerte pode estar rondando por ali... An­tônio recorda o homem rebentado ao meio, esfacelado pelos canhões. Essa lembrança desgraçada não sararia nunca, ele sabia, ia lá juntar-se a tantas outras, no tacho das memórias de guerra. Tacho sangrento. Mas era pelo bem do Rio Grande, pela liberdade. Antônio avançou seu cavalo para auxiliar o primo, entrando na beira da sanga. A ma­nhã ia derramando suas luzes pelo mundo, decerto faria um calor des­graçado. José lhe sorri. Tem o rosto parcialmente encoberto pelo barro, e um ferimento leve no braço esquerdo.

 

Fevereiro ia já para o final quando D. Antônia recebeu a carta. Fazia muito que andava sem notícias de Bento, preso naquele forte no Rio de Janeiro, e o homem que chegara montado a cavalo, um paisano, fez questão de contar o quão custoso fora o despacho daquela missiva. A carta viera de barco, em meio às bagagens de um republicano proemi­nente que, por sua vez, a recebera das mãos de um tal italiano.

— O conde? — quis saber Antônia.

O paisano negou. O conde estava preso, junto com Onofre Pires e Corte Real, em outro forte. O italiano que se encontrara com o general chamava-se Giuseppe. E fazia pouco tempo que estava no Brasil.

D. Antônia recebeu a carta com ansiedade, mas não esqueceu a cortesia, mandando que as negras servissem mate e bolo à visita. O paisano agradeceu, mas declinou. Estava a caminho de uma missão, não tinha muito tempo para perder, todas aquelas estradas pela fren­te, até São Gabriel, e o sol de verão cozinhando os miolos do vivente, não era coisa pouca. Aceitava, no entanto, um pedaço de charque para comer no caminho, à noite.

Assim que o homem partiu, levando no alforje o charque, arroz e fumo de rolo com que D. Antônia o presenteara, foi que ela acorreu ao quarto para ler a carta do irmão. Fechou-se toda, como se cem mil olhos imperiais a estivessem espionando e, na cama, pôs-se a par das notícias. A carta era muito breve, escrita em papel ordinário. Bento Gonçalves era comedido para narrar a dureza daquela vida, da masmorra de onde quase nunca saía para uns raros passeios à beira-mar. Não contava da umidade, da comida ruim, das visitas quase proibidas, da solidão que quase o enlouquecera até a chegada de Pedro Boticário, com quem agora dividia a sua cela e aquela espera. Contava, isso sim, de um tal Giuseppe Garibaldi, a quem conhecera, juntamente com outro italia­no de nome Rossetti. Ambos tinham ido vê-lo na prisão, no princípio daquele mês. Uma visita de poucos minutos. O general estava pratica­mente proibido de receber visitas, era sempre coisa breve, mal dava tempo para trocar umas palavras. Mas os italianos tinham sido hábeis em explicar seu intento, não perdiam minuto em vão. Ambos queriam unir-se aos republicanos naquela luta pela liberdade.

" Faz muito tempo, Antônia, perguntei se podia contar com usted nesta empreitada, e vosmecê esteve ao meu lado. Tenho planos para este ita­liano de nome Garibaldi, que tanto já combateu na Itália e no resto da Europa. Foi Tito Zambeccari quem o fez chegar até mim... Cara irmã, ainda meus sonhos são apenas sonhos, pois estou aqui neste forte longe do meu Rio Grande, mas entrevejo um novo rumo para nossa causa. E, de usted, quero saber: ainda posso contar com seus préstimos e com a estância?"

 

D. Antônia leu o resto da carta com rapidez. Bento pouco mais fa­lava do tal Garibaldi, a não ser que, em breve, seria corsário dos repu­blicanos. Mas onde entraria a sua ajuda naquilo tudo? Era certo que a Estância do Brejo ficava na barra do Rio Camaquã, mas será que Ben­to desejava que o seu corsário italiano viesse se esconder logo ali?

D. Antônia ergueu-se da cama e foi espiar pela janela. Estava uma manhã bem bonita, de céu límpido. Ela dobrou a carta e guardou-a no bolso do vestido. Enviaria sua resposta para Joaquim, ele a faria che­gar ao pai de algum modo. O que Bento Gonçalves precisava era do seu consentimento. D. Antônia pensou no irmão, a saudade doeu no seu peito. Queria cuidá-lo, fazê-lo recuperar-se daquela odiosa prisão. As lágrimas escorreram pelo seu rosto. Não chorava nunca, era bom; se as outras vissem, aí sim, todas as lágrimas haveriam de brotar... Mulher não podia ver outra chorar sem fazer coro. Mas estava em casa, sozinha, não havia mal algum. O irmão podia contar com ela, com a estância, com o que fosse necessário.

D. Antônia caminhou até a secretária, puxou uma folha de papel de uma gaveta, pegou da pena e pôs-se a escrever para Bento Gon­çalves.

 

Cadernos de Manuela

Pelotas, 30 de junho de 1867.

Quando março ia se esgotando, trazendo lentamente o outono para nossa terra, as coisas começaram a acontecer. Não é preciso dizer que cada notícia, cada suspiro cifrado levavam muitos e muitos dias para chegar até a estância, tendo traçado para isso caminhos tão tortuosos que, muitas vezes, desconfiávamos daqueles segredos, e não sabíamos se era causo de estar triste ou de estar feliz; se, lá no Rio de Janeiro, as coisas estavam andando como nos informavam, ou se tudo corria ao inverso, como um rio enfeitiçado, e apenas nós, oito mulheres no pampa, críamos que as engrenagens estavam começando a se mover novamente.

D. Antônia pernoitou muitas noites conosco, nesse princípio de ou­tono de 1837, pois que se nos chegasse qualquer notícia — e elas vi­nham pela boca de oficiais, por cartas escondidas nas guaiacas de impensáveis tropeiros, pela mão de todo tipo de criaturas a serviço dos republicanos — era bom que estivéssemos todas juntas, para come­morar ou para prantear um revés.

Sabíamos que um visconde no Rio de Janeiro estava tramando, jun­to com tantos outros, uma operação para libertar o presidente da Repú­blica Rio-grandense da Fortaleza de Lage, e também Onofre Pires, Zambeccari, o italiano, e Corte Real, que estavam na Fortaleza de Santa Cruz. Irineu Evangelista de Souza, o visconde de Mauá, estava na pon­ta de uma intrincada rede, segundo nos explicou D. Antônia, uma rede que ia muito além dos limites do Rio Grande, que se estendia por diversos estados do Brasil, até o Nordeste, e que ambicionava a república. Portanto, para eles, ajudar a causa rio-grandense era fundamental.

Fechadas naquela casa onde a vida se regia pelas horas de comer e de rezar, era impossível que compreendêssemos os intrincados caminhos da­quele sonho. Tudo para nós se baseava na simplicidade da carne com ar­roz, da hora da sesta, dos banhos de sanga. Imaginar que, na Corte, tramavam-se coisas tão misteriosas, como nos romances que líamos nas longas tardes de modorra? Nem sempre eu podia acreditar... Mas a ver­dade é que Joaquim estava no Rio de Janeiro, também ele tentando li­bertar o pai. A verdade era que a lenda sobre meu tio chegara já tão longe das nossas terras, e eu imaginava homens vestidos de negro, reunidos num local ermo, ao redor de uma mesa onde tremulava uma vela, como piratas noturnos, tramando passo a passo um plano para arrebatar o general da­quele forte e mandá-lo de volta ao Rio Grande, onde era o seu lugar.

Lembro muito bem que, naqueles dias, Caetana esteve oscilando en­tre o júbilo e o temor, e ora a víamos bela, com seus resplandecentes olhos de esmeralda, ora a víamos pálida, os cabelos desfeitos, rezando, as mãos tão apertadas sobre o peito, que era como se estivesse se agarrando a um muro invisível, estando a ponto de cair num penhasco. Bento e Caetano andavam pelos cantos, como se da concentração de suas almas dependes­se o bom sucesso daquilo tudo. Mas a verdade é que eu via nos olhos de Bento uma angústia cruel. Ele queria estar perto do pai, assim como esta­va Joaquim. Aqueles dias de forçada paz, na estância, estavam corroendo o seu espírito. Estive com ele, numa tarde, e, à sombra do umbu, conver­samos. Bento ouviu meus pedidos de calma, as coisas tomavam seu rumo e não tão rapidamente como desejávamos, haja vista que eu mesma estava ali na Barra havia já dois anos. E o tempo se escoara assim, como areia pelos meus dedos, sem que eu quase percebesse a sua totalidade.

— Estes dias estão me custando a alma. Já sou um homem, não é certo que fique aqui, sem nada para fazer, enquanto os tios, os primos, todos os outros homens do Rio Grande pelejam por esses campos, e enquanto meu próprio pai está preso, lá na Corte.

— Nem que vosmecê parta agora, Bento, a sua ajuda será útil. A viagem ao Rio de Janeiro é longa, quem sabe usted chega lá e seu pai já partiu. Queira Deus... Mas também não sei muito o que le dizer, os homens não foram feitos para a espera. Esses humores são femininos, por isso é que parimos. Nós, sim, fomos feitas para esperar, sempre.

Mas Bento esperou. Ao lado da mãe, ansioso, corroendo os dias, ele esperou.

D. Ana e D. Antônia passavam longas horas proseando na varanda, enchiam aquela angústia com preparativos para um baile. Sim, quando Bento Gonçalves voltasse para o Sul, haveria um baile em casa. Era bom pensar assim, e todas nós nos unimos a elas nessa expectativa, tecendo uma rede de fios muito tênues, combinando cores de vestidos, tecidos, ren­das. Um vestido novo, de baile, só de sonhar com ele, ah, que suave alegria... E música, e dança. Ressuscitar os candelabros de prata, as toalhas de linho, os tapetes... Ressuscitar a alegria, nem que fosse por uma única noite.

Mariana esteve feliz naqueles dias; para ela era como se o tio estivesse já retornando para a casa. Escolhia penteados, cogitava se André, o tal tenente por quem ainda suspirava, viria à festa. Rosário e Perpétua tam­bém estavam alegres. Dois longos anos sem um baile, queixavam-se elas. Era causo de uma moça morrer solteira. Uma solteira de guerra. Aconte­cia muito isso na época das batalhas; as moças envelheciam em casa, e quan­do a guerra acabava, não sobrava homem são para o casamento.

— Eu por mim já arranjo um pretendente nesse baile — dizia Perpé­tua. — Já fico noiva e pronto. Me caso logo... Essa guerra não tem fim.

Era um bom jeito de passar o tempo. Desviávamos nossos espíri­tos da angústia principal: Bento Gonçalves escaparia da prisão? Até minha mãe apreciou a idéia da festa. Não revia o marido havia muito. Dançar uma meia-cancha com ele era quase um sonho.

Hoje, passados os anos, sei que as tias inventaram o causo do baile para que nos ocupássemos dessa alegria e deixássemos a vida andar lá para a Corte. Eram sábias, tinham essa sabedoria que a vida não ensina, mas que vem no sangue de alguns viventes, acho que por herança. Ar­mavam estratagemas, como o irmão general. As duas regiam a vida da família, da ala feminina da família, com manobras dignas de uma batalha. Lutavam contra o horror daquela guerra, com todas as forças. Dia após dia, D. Ana e D. Antônia nos roubavam das garras do medo e do desencanto, e nos protegiam naquela redoma de paredes caiadas, onde para tudo havia um horário e uma norma, menos para a desesperança.

— Quando uma mulher desacredita, está tudo perdido.

Era isso que dizia D. Antônia.

E foi isso que aprendi naqueles dez anos que passamos juntas, es­perando.

 

Nos primeiros dias daquele abril, Pedro veio nos ver. Trazia uma notícia. A fuga de Bento Gonçalves fora frustrada.

Pedro apeou do zaino e, ali mesmo onde estava, em frente à varan­da, nos contou o sucedido. Zé Pedra e Manoel, que andavam por per­to, também se achegaram para ouvir. Éramos muitos, mas o silêncio que fazia retumbava, somente cortado pelas frases de Pedro, incisivas. As lágrimas de Caetana e de minha mãe correram silentes, ninguém fez um gesto para acalentá-las. Estávamos todos perdidos num mar de bruma; D. Ana, pálida, nem teve tempo de demonstrar alegria pela chegada do filho; ficou ali, em sua cadeira de balanço, como que tres­passada por uma espada invisível. D. Antônia tinha as feições talha­das em pedra e, assim, era ainda mais parecida com o irmão general: em seu rosto não se lia um sentimento, nem de dor, nem de medo, ape­nas aqueles olhos negros coriscavam, perdidos no horizonte nublado da tarde, como dois corvos espreitando alguma coisa.

Pedro contou tudo o que acontecera. Numa noite, um grupo de ho­mens pôs em prática um plano já havia muito arquitetado — Joaquim estava entre eles. Num barco, atravessaram a Baía de Guanabara, em direção ao forte onde estava Bento Gonçalves, o primeiro a ser liberta­do. Quando tivessem consigo o general, iriam até a fortaleza de Santa Cruz buscar Onofre Pires e os outros. Estava tudo arreglado. Por meio de mil subterfúgios, os homens haviam de antemão conseguido uma cópia da chave das celas, cópia que tinham feito chegar às mãos de Bento Gon­çalves e de Onofre. A noite e a hora haviam sido combinadas. Bento Gonçalves e Pedro Boticário, seu companheiro de cela, deviam abrir a porta e fugir para a praia, de onde seriam resgatados. No entanto, o barco ficara muito tempo esperando pelos dois, até que, na mira da Marinha, foram obrigados a seguir. Só muito depois é que souberam o que atra­palhara o general: a chave falsa não abrira a porta da cela. Bento Gon­çalves e Boticário, no auge do desespero, começaram a limar uma grade da janela, grade esta que cedeu, abrindo um espaço suficiente para que Bento Gonçalves se esgueirasse por ali. Já no pátio, teria ele tentado puxar Pedro Boticário, mas o homem era muito gordo e ficou entalado na janela. Bento recusou-se a partir sozinho, abandonando o tal à sua própria sorte, e o barco teve de seguir rumo à Fortaleza de Santa Cruz.

Ele falava rapidamente, numa voz baixa, voz de riacho. íamos be­bendo as suas palavras, não com ânsia, mas com angústia. As coisas tinham ido muito mal.

Pedro prosseguiu:

— Em Santa Cruz, a chave funcionou. Os homens atravessaram a baía e recolheram o coronel Onofre e Corte Real. Parece mesmo que o conde italiano, o Zambeccari, não sabia nadar e ficou lá. — Pedro to­mou ar. — O Quincas ajudou muito, esteve até no barco. Mas agora está voltando para cá. Tomou um navio no Rio de Janeiro, vai ficar em Santa Catarina. O resto faz a cavalo, mais o João Congo. Vem devagar, é bom, para não levantar suspeita sobre si.

D. Ana exibiu uma voz quase calcária:

— E os outros, meu filho? E o Onofre?

— Eles vêm vindo, mãe. Mas não me pergunte por onde, que não sei le responder. E preciso ter muito cuidado, porque esses imperiais andam soltos por tudo quanto é canto desta terra.

D. Ana ergueu-se com certo custo.

— Zé, leva o cavalo do Pedro, dá comida para esse animal, coita­do. — E estendeu a mão ao filho. A mão tremia um pouco, mas Pedro não disse nada. — Vem, guri. Vem comer, que vosmecê está com uma cara cavada que só vendo. Deus me perdoe, nem parece filho meu. E depois vai tomar um banho, um banho bem comprido.

Pedro já ia entrando. Passou por mim, afagou os meus cabelos. Eu quis sorrir, mas não consegui. Tinha o peito encaroçado de angústia. A voz de D. Antônia segurou o primo por mais um instante:

— Me diz, Pedro, vosmecê sabe o que aconteceu com o Bento? Pedro ficou triste, baixou os olhos.

— Parece que vai para mais longe, tia. Não sei bem para onde, mas andam dizendo que é lá pros lados de Salvador.

E, dito isso, entrou. Parecia sentir que a culpa de tudo aquilo era dele, como se o fato de nos ter contado lhe desse algum poder sobre os acontecimentos.

Sentada em sua cadeira, muito pálida, Caetana começou a chorar baixinho, e Perpétua foi abraçá-la, ela também chorando, as lágrimas lhe caindo pelo rosto fino.

— Salvador é mui longe, ai Dios... Salvador é na outra ponta des­ta terra... — gemeu Caetana, e estava tão bonita na sua tristeza de mulher sofredora que mais parecia aquelas personagens dos livros de amor que a gente gostava de ler.

D. Antônia fitou-a. Gastou um tempo pensando alguma coisa, de­pois disse:

— Esteja calma, que seu nervosismo não vai ajudar o Bento, Caetana. Salvador é bem longe mesmo, mas se vosmecê rezar com fé, tenho certeza que o pedido alcança o seu final. Para reza de alma, não tem distância que seja demasiada... — E olhou para todas nós: — Vosmecês também, ouviram? Aqui nesta casa nós temos fé, nem que seja a última coisa que nos reste. Ninguém vai ficar de choradeiras, vamos é orar. Eu digo e repito: ninguém segura o Bento por muito, ninguém. Nem esse imperador de meia-pataca. E tem mais, ele ainda não foi para essa tal de Salvador, pode ser que nem vá, que fuja antes.

E a tarde, depois disso, ainda demorou muito a gastar-se. Mas o céu cinzento pesava sobre nossas cabeças, compacto, um teto baixo, ameaçador. Eterno.

 

Manuela.

Em meados de abril, quando os dias começavam, lentamente, a en­curtar, foi que Joaquim chegou à estância, num final de tarde de sol pálido. Veio escoltado por João Congo — haviam percorrido longos caminhos, procurando as estradas desertas, os descampados, fugindo das tropas inimigas que se espalhavam nas vilas e cidades, aqui e ali, naquele outono silencioso, pelo pampa.

A mãe o esperava na varanda, não porque soubesse de sua chega­da — nenhum próprio viera avisá-la —, mas apenas porque tinha so­nhado com o filho durante toda a noite anterior, e esse aviso onírico fora o bastante para ela ter certeza de que seu Joaquim retornava a casa.

Caetana estava postada no primeiro degrau, usando um leve vesti­do branco que surrupiava alguns dos seus trinta e oito anos, e que fa­zia brilhar a sua pele trigueira. Mal Joaquim apeou do tordilho, Caetana venceu a pequena distância e atirou-se nos braços do filho. João Congo, enquanto tomava as rédeas do cavalo do patrãozinho, sorriu discreta­mente.

— Hijo, hijo de Dios... — Caetana correu os dedos pela face bar­buda de Joaquim. — Vosmecê está outro, um hombre.

Joaquim vestia roupas simples, empoeiradas. As botas pesadas estavam cobertas de barro seco, vermelho. Os mesmos olhos que ar­diam na face de Bento Gonçalves se repetiam naquele rosto de homem moço, bonito.

— Hay cosas que nos tornam homens, mãe. — Atirou-se com ga­nas àquele abraço morno, com cheiro de perfume.

Não tardou para que D. Ana, Maria Manuela, Caetano, Bento e as moças se achegassem por ali, sorridentes. Bento correu para o irmão, pedindo notícias do pai, detalhes da fuga fracassada, da noite em que abordaram o forte. Joaquim fez um gesto largo de braços, se entris­teceu.

— O que le dizer, mano, se tudo deu errado para o pai? Foi uma noite eterna. Mas Onofre e Corte Real conseguiram fugir a nado e chegaram ao barco. Ao menos, essa vitória tivemos... O Rio Grande precisa de todos os seus homens. — Olhou a mãe nos olhos, vendo ali uma cintilação de medo. — É por isso que vim — disse. — Mal me recupero desta viagem, vou procurar Onofre e os outros.

Bento abriu um sorriso jubiloso:

— Vou com vosmecê, Quincas.

— Todos vão, está certo. — D. Ana tomou voz na conversa, abra­çando o sobrinho. — Todos vão... Mas isso não é para hoje, que vosmecê mal chegou e nem nos deu um abraço que seja, Quincas. Por hora, vamos para dentro. Deixa que o Manuel e o Congo cuidam do cavalo e dos seus pertences. Vosmecê precisa de um banho... E depois queremos todas saber desse mundo aí de fora. — Fez um gesto para a varanda, onde estavam as moças. — Afinal, suas primas estão aqui, ávidas por notícias e segredilhos,

Joaquim Gonçalves da Silva ergueu seus olhos para a varanda. Viu Manuela, alta e esbelta, parada entre as outras. O rosto vivaz, a pele de seda, os olhos ardentes da prima lhe trouxeram uma morneza boa no peito. Joaquim fitou-a por um longo momento, depois tomou a mão de Caetana e disse, para ela e para a tia:

— Então vamos para dentro, les dou razão, como sempre. Devo estar cheirando igual a um cachorro molhado. E eu e Congo não co­memos coisa que o valha já faz bem uns dois dias.

Antes de entrar na sala, ao passar pelas moças, seu olhar caiu so­bre Manuela. A moça sorriu serenamente. Também ela, além da tia, tivera sonhos naquela noite: sonhara com o mar, com um marinheiro que vinha de longe, que vinha para ela.

 

Rosário entrou afobada no pequeno escritório que cheirava a madeira e segredos. A noite já se instalara sobre o pampa gaúcho, com seus pios de corujas, suas sombras, com uma lua alta e muito clara que estendia translúcidos braços sobre o jardim e o campo. Sim, ela perdera a hora do encontro. Pela primeira das vezes, deixara Steban esperando.

Depositou o candelabro que trazia sobre a escrivaninha de mogno, ajeitou as saias do vestido, tirou o xale de lã de sobre os ombros. Fazia frio lá fora, naquela noite de maio, um frio seco, ardido, que antecipa­va um inverno duro. Ela se atrasara por causa de Joaquim e de Bento '—ambos haviam partido, fazia pouco, para encontrar as tropas de Mariano de Mattos, na fronteira. Sim, os primos tinham ido para a guerra, para desespero de Caetana, que agora devia estar chorando em seu quarto — mais dois do seu sangue sob o fio dos sabres inimi­gos, e Bento Gonçalves ainda preso, o que seria do futuro? Rosário sentiu pena da tia, cujos olhos de relva tinham se tornado opacos nos últimos dias. Em Manuela, não vira grandes sofrimentos pela partida de Joaquim, não mais do que os das outras da casa — Manuela por certo ainda não amava o primo que lhe fora destinado.

Rosário sentou na poltroninha de couro que sempre ocupava, fi­cou esperando. Ele viria. Sempre viera, não a deixaria ali, sofrendo, naquela noite triste de despedidas. Pensou nos primos, indo para a guerra, sob aquele céu frio e estrelado, alheio ao que sucedia aqui embaixo. Iam felizes, os dois filhos do presidente da província. A re­cente vitória em Rio Pardo lhes tinha trazido novas esperanças. Os farroupilhas haviam infligido aos legalistas uma dura derrota. Lembrou da voz do senhor Inácio, que viera havia poucos dias contar a novida­de. Cheio de brios e com um olho posto em Perpétua, dissera ele: "Os de lá viram sumir oito peças de artilharia, mil armas de infantaria e todos os víveres de que dispunham, aqueles servos da escravidão, aque­les imperiais." Haviam sido essas as palavras de Inácio, e todos na casa comemoraram com um cálice de licor. Trezentos mortos e setecentos prisioneiros imperiais, fora o saldo de tal batalha. E agora os republi­canos estavam cheios de novas energias, o general Netto tomava o rumo da capital com suas tropas para mais um cerco.

Rosário esfregou as mãos frias. Aquela vitória significava mais tem­po na estância, mais espera. Às vezes, desejava simplesmente que per­dessem a guerra, que tudo voltasse a ser como era antes e que ela pudesse retornar a Pelotas. Mas os gaúchos eram teimosos, e por con­ta disso ela via seus melhores anos escorrerem naquele limbo sem fim.

— Steban... — chamou ela, angustiada. Precisava vê-lo. Steban era a única coisa feliz daqueles dias. — Steban, onde vosmecê está? Me atrasei... Os primos partiram faz pouco, não pude vir antes.

O mesmo rosto pálido e bem talhado surgiu das sombras em seu uniforme de oficial. O cabelo castanho e revolto escapava da faixa ensangüentada que lhe cingia a testa alta, bem-feita.

— Pensé que no vendrías, Rosário. — A voz dele era doce.

Rosário sorriu com amor, os olhos azuis arderam de alegria. Pen­sou no dia em que contaria ao pai daquela paixão. Decerto, não have­ria qualquer problema, fazia tempo que a Banda Oriental estava em paz com o Rio Grande.

— Meus primos partiram para a guerra. Os dois filhos de Bento Gonçalves. — Ao ouvir aquele nome, Steban empalideceu ainda mais. Rosário escusou-se. Sabia que Steban, por algum motivo muito segreda­do, temia o tio. Mas havia tantos segredos em Steban, tantos... — Eles foram para a fronteira. Os revolucionários venceram uma grande batalha em Rio Pardo, estão fortes agora. Fizeram setecentos prisioneiros, Steban.

— Como en la Cisplatina... — disse ele. — Hablemos de otros te­mas, Rosário. He pensado mucho em vos...

Rosário sentiu o rubor queimar suas faces. Respondeu que tam­bém ela estava assim, havia já muito. Não suportava mais aqueles se­gredos, aquele mistério, os encontros fortuitos no escritório.

— Deixe que eu traga minha mãe até aqui um dia desses, Steban. Quero que ela le conheça.

O jovem abriu um sorriso triste.

— Todavia no és possible, Rosário...

— Quando, Steban?

Uma súbita rajada de vento varou o postigo da janela semi-aberta. A sala tornou-se fria e estranha quando as três velas do candelabro se apagaram.

— Diacho! — resmungou Rosário. Não tinha meios de acender as velas ali. Restou um tanto no escuro, sentindo a brisa fria lamber seu rosto. Até que teve medo, não sabia do quê. Medo de escuro não era, nunca fora dada a essas tolices; era um medo maior, uma sensação de perigo. Chamou por Steban ainda uma vez, recebendo somente o silêncio em resposta. Ele tinha partido sem um adeus. Amanhã falarei com ele, decidiu-se. Agarrou o candelabro e saiu para a meia-luz do corredor. Dentro das rendas do vestido, seu coração batia descompas­sado.

 

Cadernos de Manuela

Pelotas, 11 de março de 1903.

Eu ainda não sabia, mas, enquanto sofríamos aquela derrota que deixou meu tio na cela por mais algum tempo, uma grande engrena­gem começava a mover-se como um sol que vinha em minha direção. A República Rio-grandense traria para mim o único homem da minha vida, e esse homem não era Joaquim, que nos chegou no final de abril, e por quem não pude sentir mais do que carinho e uma certa vagueza quando derramava sobre seu rosto os meus olhos, e ele me fitava com um meio sorriso nos lábios famintos.

Pelo mar, de muito longe, chegava aquele a quem eu pertenceria por todos os meus dias. Vinha de uma terra mágica e sofrida, e vinha com sonhos em sua alma, sonhos esses que o uniram ao meu tio e aos outros, e que o fizeram dedicar toda a sua bravura e sabedoria à causa da nossa República. Sim, enquanto eu via o inverno chegar até nós, com suas noites frias e enevoadas, com suas árvores de folhas amare­ladas, com o vento, sempre o vento, que açoitava as nossas madruga­das insones, ele hasteava a sua bandeira, içava as velas e ganhava o mar. Ainda faltaria muito para que me chegasse, com seus olhos da cor do ouro velho e seu sorriso de menino — a vida nem sempre ofere­ce caminhos fáceis a esses homens que nascem com a faina e a sina de mudar o mundo. Muito ainda teria ele que trilhar, venceria até mesmo a morte, mas o primeiro passo estava dado, a primeira lufada de vento o havia soprado para essas paragens e para os meus braços de mulher apaixonada.

Eu amava Giuseppe Garibaldi desde muito antes de conhecê-lo, na tarde em que nos chegou com suas falas enroladas e seus modos corte­ses e alegres; eu já o amava desde que o pressentira, no começo de tudo, naquela primeira noite de 1835, ainda na varanda de minha casa, num arremedo de futuro que meus olhos tinham podido captar por graça de algum bom espírito. Mas como falar desse homem? Como contar dessa criatura ao lado de quem vivi os melhores instantes dessa minha existência, e por quem até hoje espero e anseio, a cada instante, a cada noite, no frescor de cada alvorada, de quem sinto o tênue perfume entre as fronhas do meu travesseiro, nos velhos vestidos daquele tempo, até mesmo nas tranças de meus cabelos desbotados?

Vivi por Giuseppe Garibaldi como muito poucas mulheres vive­ram por um homem, um homem que nunca foi de todo meu, mas de quem pude compreender a essência — era um cometa, uma estrela cadente —, justo que restasse tão pouco ao meu lado. Era um ser sem paradeiro, e se não segui com ele, foi unicamente porque a vida não o quis. Hoje, passados todos esses anos, quando, ao me olhar no espelho, já nem reconheço mais a Manuela que fui naqueles tempos, hoje ainda o amo com a mesma força e a mesma dedicação. Ele não voltou para mim, mesmo depois de ter ficado sozinho e com dois filhos nos braços, porque é como um pássaro, teve sempre a necessidade de migrar, de seguir o verão dos seus sonhos, mas me levou consigo em algum lugar de sua alma, eu sei.

Pois, voltando para aqueles tempos da estância, quando a guerra ceifava tantas criaturas e tanta juventude, contarei o que começou a suceder em maio de 1837: Giuseppe Maria Garibaldi recebeu a carta de corso para a sua Mazzini — chamada desde então pelo nome de Farroupilha —, assinada pelo general João Manuel de Lima e Silva, e que lhe dava autorização para singrar os mares rumo ao sul, como corsário da República Rio-grandense. Assim, partiu o italiano, da ci­dade do Rio de Janeiro, com uma tripulação de doze homens. Na sumaca Farroupilha levavam armas e munições escondidas sob um carregamento de carne defumada e mandioca.

Começava aí o longo caminho que traria Garibaldi até a estância de minha tia, D. Antônia. Se eu pudesse voltar no tempo, retroceder todos esses anos, sofrer tudo o que sofri, nem que fosse para vê-lo por um único instante, como o vi pela primeira vez, parado em frente à nossa casa, naquela tarde morna e plácida de outubro, os cabelos fulvos e inquietos cintilando ao sol do pampa, se eu pudesse pôr o tempo a pi­sar as suas próprias pegadas, eu não hesitaria... Ainda ouço o metal de sua voz em meus ouvidos, quando, ao ver-me, junto com as outras, postada na varanda — afinal, era a primeira vez em muito tempo que um estranho vinha estar conosco, e sob o aval de Bento Gonçalves —, me olhou, somente a mim, com seus olhos sedentos e disse:

— Como stai sinhorina? Io me chiamo Giuseppe Garibaldi. E la buona fortuna me trouxe até aqui.

Mas isso foi em 1838, e, naquela primavera, o general Bento Gon­çalves já estava solto, Perpétua já estava noiva de Inácio José, e eu ainda tinha meus dezoito anos, e não os oitenta e três que carrego hoje, por entre essas minhas rugas que mais parecem os vincos de um vesti­do de baile. Isso foi em 1838, quando todos nós ainda tínhamos sonhos.

 

Manuela.

O brigue Constança gastou cinco dias para atravessar o mar, do Rio de Janeiro até a cidade de Salvador. O calor intenso, em pleno mês de agosto, não assustou o general Bento Gonçalves. Ele estava sendo transferido da Fortaleza de Lage para o Forte do Mar, ainda mais longe da sua terra e dos seus exércitos.

Depois da longa travessia no brigue, amarrado, Bento Gonçalves foi conduzido por dois soldados para o saveiro que o levaria até o For­te do Mar. Fazia muito tempo que a umidade da cela na Fortaleza de Lage se entranhara em sua carne, e o sol, dourado, vivo, que se derra­mava sobre a cidade da Bahia e sobre a sua pele naquele final de ma­nhã, trazia-lhe uma sensação boa.

Tivera notícias do Sul, as primeiras notícias depois de um longo silêncio na solitária. Notícias desconcertantes. Bento Manuel, outra vez ao lado dos farrapos, mandara prender e levar para o Uruguai o go­vernador Antero de Britto. O italiano Giuseppe Garibaldi, juntamen­te com os tais Rosseti e Luigi Carniglia, recebera sua carta de corso, agora estava a serviço da causa, rumo ao sul do país. No caminho, ata­caram a sumaca Luíza., perto do Rio de Janeiro, e agora deviam estar — o general não sabia bem — nas alturas do porto de Maldonado, no Uruguai. Assim seguia a luta, enquanto ele estava ali, de mãos atadas, olhando o céu azul da cidade de Salvador. Netto continuava a guerra, junto com os outros. E seu amigo, o conde Zambeccari, ainda estava preso em Santa Cruz, adoentado. O conde tinha consistência frágil, não era como ele, que, depois de todos aqueles meses na solitária, com os cabelos compridos, o rosto esverdeado, ainda estava em pé, duro como uma rocha, um general em farrapos que punha medo nos jovens oficiais que haviam vindo buscá-lo para a travessia. Era Bento Gon­çalves da Silva, e iria lutar. Pensou isso, aspirando o ar morno, enquanto o saveiro cruzava aquele mar de águas serenas, rumo ao Forte de São Marcelo, aquele monstro de pedra de onde não se podia fugir, e sentiu uma faísca de esperança. Na solitária, andava desencantado. Mas ago­ra, ainda mais longe do seu Rio Grande, ainda assim, via uma chance de voltar. Ainda não sabia qual, mas iria descobrir.

O pátio de pedras claras refletia a luz do sol como um grande espe­lho que cegava. Bento Gonçalves adentrou o lugar, os portões fecha­ram-se atrás dele. O comandante do forte estava parado no centro do pátio e derramou sobre Bento um olhar intrépido e imutável. O presi­dente do Rio Grande estava à sua frente, um homem de grandes posses, um general. Usava roupas desbotadas, tinha a barba por fazer, e os ca­belos crescidos demais. O comandante cruzou seu olhar com o do gene­ral. Viu, no fundo daqueles olhos negros, um brilho de animal enjaulado, um brilho leonino. Sem saber por quê, teve um mau pressentimento. Baixou os olhos e mandou que levassem o prisioneiro para a sua cela.

 

Era a primeira carta de Bento Gonçalves que Caetana recebia naque­les últimos cinco meses. Ela arrancou-a das mãos do jovem oficial que viera entregá-la como quem arranca o filho de um assassino. Tremia e tinha os olhos marejados de lágrimas. D. Ana sorriu, com pena da cu­nhada, ela mesma ansiosa por saber notícias do irmão, e mandou que Manuel levasse o soldado para a cozinha, e que as negras lhe dessem de beber, como era praxe e digno de uma boa casa.

Caetana correu ao quarto e passou a tranca no ferrolho. Precisava daquela solidão, de correr seus olhos pelas palavras de Bento sem pressa e sem companhia. Havia sido um longo inverno, um inverno frio, de minuano, de noites intermináveis e repletas de medos, que ela gastara com a avareza de um sovina, não porque quisesse, mas apenas porque o tempo teimara em se arrastar com uma preguiça que antes nunca chegara a conhecer.

Sentou perto da janela, onde uma nesga de sol vinha dourar o ta­pete e um canto do quarto. Abriu o envelope enodoado e apertou a carta ao peito. Depois, a letra decidida do esposo surgiu aos seus olhos, vivida, larga, uma letra de homem.

Bento Gonçalves contava seus dias em Salvador, no Forte do Mar. Os horrores, a umidade e a loucura que o haviam cortejado na solitá­ria em Lage, após sua fuga frustrada, ele havia esquecido. Nunca diria à esposa das noites em que ansiara morrer, definhar simplesmente, longe de tudo e de todos que lhe eram caros. Agora, apesar da prisão e da vigilância constante, tinha o sol e tinha o mar. Fazia exercícios no pátio, estava recuperando a forma de outrora. E tinha permissão para nadar todos os dias. Agora podia mandar e receber cartas, estar em contato com o Rio Grande, com ela, sua adorada Caetana. Também recebia visitas de outros maçons — a sua chegada à Bahia não passara despercebida. As coisas estavam se ajeitando. Mais não podia falar, temia que aquela carta, tendo de percorrer tantos caminhos, fosse aca­bar em mãos inimigas.

Caetana leu cada palavra com um sorriso nos lábios. Estava con­fiante. Acabou a carta, dobrou-a bem. Chegou a abrir a gavetinha da secretária, mas desistiu, acomodou o pequeno pedaço de papel sob o espartilho e sorriu. Fazia uma linda tarde de primavera naquele prin­cípio de setembro, e o sol brilhava num céu sem nuvens. Caetana Joana Francisca Garcia Gonçalves da Silva saiu do quarto para o corredor, caminhando com passos rápidos. Encontrou as duas filhas brincando na sala. Deu um beijo em cada uma, afagou seus cabelos.

D. Ana ainda estava na varanda, sentada na sua cadeira de balan­ço, bordando. Ergueu o rosto ao perceber a chegada da cunhada, e em seus olhos havia um brilho de angústia e de mil perguntas.

Caetana sorriu. Os cabelos negros, soltando-se do coque, emoldu­ravam sua face trigueira.

— Senti uma coisa aqui no peito, Ana. Ele vai fugir de lá, tenho certeza — e, pescando a carta de Bento do regaço onde a acomodara, estendeu-a para que a outra a lesse também.

 

Joaquim tirou as botas ensangüentadas e repletas de barro. Um frio gélido e noturno venceu a entrada da pequena barraca e veio rondá-lo como um gato. Os pés estavam duros, sujos, as meias rasgadas. Pedi­ria que a mãe lhe mandasse novas meias, escreveria para Caetana lon­ga carta contando que estava bem e que Bentinho se mostrava um excelente soldado, um soldado que faria orgulho ao pai.

Atirou-se no catre, o corpo moído, os olhos ainda repletos da mor­tandade de ainda havia pouco, no campo. Um lamaçal de corpos e de terra misturados, a luta da tropa, sob as ordens de João Antônio, ten­tando vencer a ordem legalista, tudo isso se misturava em seu espírito com os vultos dos lanceiros, seus gritos de guerra, seus corpos fortes, o zunido das lanças e o grito de Pedro, o primo, quando fora ferido, ao romper a linha de defesa inimiga.

Bento tinha salvado Pedro, recolhendo-o em seu cavalo e levan­do-o para longe da fúria da batalha na exata hora em que caíra ao chão. Agora o primo passava bem, um corte fundo, comprido, na altura da coxa direita, mas ficaria bem com uns remédios, alguma cachaça e um pouco de tempo. Joaquim examinara-o pessoalmen­te: o ferimento estava limpo, não havia perigo de infeccionar. Pedro era um homem forte, saudável, logo estaria cavalgando como an­tes. "Para a próxima batalha, se Deus quiser, estará buenacho", dissera o médico da tropa. E Pedro sorrira, debilmente, febril e cansado.

Joaquim tinha também que escrever à tia Ana, contar o sucedido, acalmá-la quanto à saúde do filho mais moço. José andava para os la­dos do Rio Grande, não sabia de nada do que sucedera ao mano. Faria isso mais tarde; quanto mais o tempo passasse, melhores seriam as notícias. Não precisava apoquentar D. Ana assim tão cedo. Pedro era um osso duro de roer, ficaria sarado antes da próxima batalha.

Joaquim ergueu-se do catre, uma dor por todo o corpo o incomodava. Pôs o poncho. Um cheiro bom de churrasco vinha da rua. Ia lá to­mar um mate, comer um naco de carne, sentar sob uma árvore, longe de todos, da balbúrdia e da excitação do entrevero recente, longe dos feri­dos e das duas covas recém-abertas para os mortos, Sozinho, imerso em alguma paz, pensaria em Manuela. Estava saudoso da prima bonita, futura esposa. Quando a guerra acabasse, quando o pai estivesse outra vez no Rio Grande, iriam casar. Manuela ia ficando mais linda a cada dia que passava, mais formosa, distinta, os olhos verdes e misteriosos como uma mata fechada. Ele lutava pela República, e por ela, por Manuela. Quando vencessem o Império, lhe daria uma grande estância, e ambos iriam ser felizes como mereciam.

A voz do irmão arrancou-o dos seus devaneios. O rosto sorridente infiltrara-se para dentro da barraca.

— A carne está no ponto, Quincas. Vem comer um pouco. O Pedro fica bom, pode descansar com isso.

— Tá certo, Bento.

Saíram ambos para a noite. Joaquim agasalhou-se mais no pon­cho. Depois das batalhas, sempre sentia frio. O céu estava pesado e baixo, sem estrelas. Para a noite, viria a chuva.

 

D. Antônia tinha acordado muitas vezes naquela noite, ouvindo lá fora o sopro duro do minuano. Apesar das muitas cobertas, um risco de frio a incomodava de maneira persistente. Ela conhecia aquilo muito bem, aquela angústia mascarada que lhe açoitava a carne nas noites de inverno. Sem muita certeza, fez o sinal-da-cruz, ainda tonta de sono que estava.

Ficou um tanto na cama, a madrugada teimando em não passar, o tempo congelado por aquele vento infernal. Durante o seu casamento, em noites assim se aconchegava ao seu Joaquim, e somente desse modo, enroscada no calor daquele corpo, conseguia dormir. Mas isso fora antes. Com o marido morto, aquelas noites invernais se repetiam.

D. Antônia sentou na cama, procurou o lampião. Acendeu-o. O quarto ganhou tons avermelhados. O postigo da janela tremia sob a ação do vento que vinha da rua como tremiam as mãos de D. Antônia quando ela ajeitou os cabelos negros sob a rede de dormir. Ela se er­gueu, pegou o xale e foi espiar a noite.

Ainda faltava muito para amanhecer. O minuano varria o pampa com sua fúria, sacudindo as árvores, arrancando a terra do chão. Tudo em volta parecia morto, carcomido pelo minuano. Vento frio, cortante. Pairando lá no alto, no entanto, estava aquele céu de estrelas serenas, límpido como uma pintura, descansado. Um céu bonito que trouxe medo a D. Antônia.

— Mala suerte...

Falara sozinha. Ah, o quanto detestava falar sozinha como uma velha caduca. Mas aquelas palavras ficaram dançando em seu espírito como um aviso que vinha do céu. E parecia que o vento, na rua, ao cruzar pelos galhos da figueira, repetia sem parar: mala suerte, mala suerte, mala suerte...

D. Antônia fechou a janela, achegou mais o xale de lã em torno do corpo gelado. Sentou na cadeira de balanço e tomou do crochê. Não dormiria mais, sabia bem. Estava tomada inteira de uma sensação ruim que se tinha misturado ao seu sangue. A agulha de metal começou a tramar os pontos, inquieta. D. Antônia cantarolou uma velha modinha. Lá fora, o vento repetia as duas malditas palavras, aquela cantilena as­sustadora. D. Antônia cantou mais alto, como quando ninava as filhas de Caetana na hora da siesta, quando as duas não queriam se entregar ao sono. E o vento zunia.

— Vou ficar aqui esperando. Tem notícia ruim a caminho. Falara sozinha outra vez. A agulha de crochê dançava em sua mão, como se tivesse vida própria.

 

A negrinha estranhou de ver D. Antônia tão cedo já pela cozinha, es­piando a preparação do mate e do café, olhando a consistência da massa de pão que ela sovava com suas mãozinhas miúdas.

— A senhora levantou cedo hoje — disse, sorrindo. — O sol ain­da nem apareceu.

D. Antônia derramou sobre a menina um olhar castanho e suave:

— O sol não vem hoje, Tita... Detrás dessa cerração tem um céu cinza, de chuva. — Espiou bem a função na cozinha, mandou também que assassem um bolo de milho bem grande. Para os meninos de Caetana. — Se vier alguém procurar por mim, estou mateando no meu quarto.

E saiu, arrastando as saias cinzentas, alta e ereta, pisando leve.

Não se passou meia hora, e um dos peões meteu o rosto na porta da cozinha, não para pedir mate, mas para avisar que um próprio vie­ra trazer mensagem para D. Antônia, mensagem importante. Coisa mui urgente: o homem esperava lá na varanda. A negrinha foi buscar a se­nhora no quarto.

D. Antônia seguiu a escrava com um passo conformado. Mala suerte. O vento ainda zunia em seus ouvidos. Fazia frio na varanda. O próprio era um soldado raso de dezessete, dezoito anos, com uns olhos tímidos e uma cara compungida, que tinha cavalgado um dia e meio para trazer a mensagem que entregou, lacrada, nas mãos pálidas da irmã do general Bento Gonçalves.

— É da parte de quem?

— Da parte de Joaquim Gonçalves da Silva.

Ela se retirou para o quarto com a carta queimando entre os dedos, não sem antes mandar uma das negras dar de comer ao soldado, que o pobre tinha vindo de longe e aturado muito minuano nas ventas.

 

"Estimada tia,

Escrevo estas linhas com muito pesar para comunicar-lhe que o nosso mui querido tio Anselmo veio a falecer numa emboscada ainda na noite de ontem, quando se dirigia, com mais dois soldados, para os lados de Cima da Serra, sendo vítima de uma barbaridade cometida por uma tropilha imperial, crueldade essa que haveremos de vingar, pois antes disso não descansaremos nem por um instante.

Escrevo para que vosmecê possa dar esta triste notícia à tia Maria Manuela e às primas. Muito me machuca saber que Manuela há de chorar lágrimas pelo pai, mas confio em vosmecê e na sua sabedoria para tornar mais leve essa grave missão que le confio. Antônio está conosco, mui bem de saúde, e disposto a vingar o pai.

Quando tivermos mais notícias, boas, espero eu, le escrevo uma outra vez. Vosmecê fique com meu afeto, e transmita meus carinhos a minha mãe e a todos da casa,

seu sobrinho,

Joaquim."

 

O rosto de D. Antônia era uma máscara pálida. Fechou a pequena carta e guardou-a na gaveta da secretária. Lá fora, a cerração estava forte, não eram ainda sete horas da manhã. Ela pensou em Anselmo, e pensou em Maria Manuela, que era tão frágil, coitadinha. E pensou nas meninas, e pensou no irmão, lá em Salvador, sem nem saber da barbaridade que tinham cometido com o cunhado que tanto estimava. E pensou no Rio Grande. Aquilo tudo era uma tragédia... Mala suerte. Quisera Deus que o minuano parasse de soprar, fazia já três dias que varria tudo. Mala suerte, coitado do Anselmo. Morrer por trás não era morte decente para um homem tão brioso.

Tocou uma sinetinha. A mesma negrinha que antes sovava o pão surgiu, toda lépida. Notou a palidez no rosto da senhora, quis saber o que D. Antônia desejava.

— Mande arrumarem a charrete. Vou até minha irmã... — Lem­brou de repente: — O bolo de milho já está assado?

— Tá quase pronto — disse a pretinha.

— Pois acabe logo esse bolo, e embrulhe tudo muito bem. Estou com muita pressa, Tita.

Depois, quando a porta se fechou, D. Antônia tirou a carta da gave­ta. Guardou-a num bolso do vestido. Melhor levar consigo. Como uma garantia de que aquilo não era apenas um pesadelo que tinha varado a noite para atazaná-la.

 

A estrada fazia uma curva à direita, contornando uma discreta eleva­ção do terreno. Ali, no alto de uma pequena coxilha, havia umas árvo­res meio mirradas, mas boas o suficiente para acobertá-los. Ademais, a noite era sem estrelas, quase negra. E. eles sabiam muito bem que não faltava muito, uma hora, duas, no más, para que o bando de impe­riais passasse por ali, rumo ao acampamento, em São Gabriel. A mes­ma patrulha que tinha atocaiado Anselmo da Silva Ferreira. E eles desceriam o terreno de surpresa, caindo sobre os desgraçados bem no meio da estrada. Caindo para matar.

Joaquim apeou. Fez um afago no lombo do zaino, que resfolegou ao seu contato. Pisava leve, sentindo o ar frio entrando pelos seus pulmões como um calmante. Olhou o vulto de Antônio, ao lado, tirando um pouco de fumo da guaiaca. Mesmo no escuro, podia sentir o olho brilhante do primo, de uma espécie de verde vegetal a angústia que se derramava da­quelas retinas tão parecidas com as de Manuela. Chegou perto, falou baixo:

— Esteja calmo, Antônio. Seu pai vai ser vingado hoje. Com mui­to sangue, e com honra.

O primo apertou o seu braço.

— Deus assim o deseje, Quincas. Pois eu só saio daqui quando não restar um daqueles canalhas. Nem um, para contar o causo. — Olhou para o céu: — Está descendo uma neblina.

— A noite está do nosso lado — respondeu Joaquim, e pensou no pai, sem saber muito o porquê, na sua cela, em algum canto da cidade de Salvador.

Eram cinco: Joaquim, Bento, Antônio, José e Pedro. José viajara duas noites para encontrá-los, chegara cansado, barbudo, furioso. Ti­nham que vingar a família, e todos haviam abandonado temporaria­mente suas tropas para a tarefa. Não se matava um soldado de bem pelas costas. O coronel Onofre Pires dera seu consentimento a José, e agora o primo estava ali, encolhido sobre o pala, comendo um pedaço de bolacha dura, os olhos perdidos no escuro do caminho. Talvez pen­sasse no falecido pai, mas seus olhos negros não diziam nada.

Ficaram uma boa hora esperando, atocaiados. Do céu, descia um sereno tão pesado que mais parecia chuva, e a bruma tocava seus ros­tos como um véu. Uma coruja piava a intervalos regulares de tempo. Joaquim estava inquieto. Os imperiais, segundo estavam informados, eram sete, dois a mais do que eles. Mas tinham a vantagem da surpre­sa, e a fúria correndo nas veias.

Um pedaço de lua pálida saiu do seu refúgio nas nuvens. Dava para ver um braço da estradinha de terra, tudo silencioso como um túmulo. E foi então que ouviram o relincho de um cavalo, alguns metros à frente. Os cinco se retesaram.

— Eles vêm aí — disse José, já pegando a carabina carregada, tomando posto entre duas árvores, no alto da elevação onde estavam.

— Eu vou meter a adaga no pescoço de um. Joaquim tomou a frente:

— Antônio, eu, você e o Pedro descemos e pegamos eles por trás, para o causo de um querer fugir. José e Bento atiram daqui, dando cobertura, depois descem também, para a gente acabar a coisa no cor­po-a-corpo. — Pensou um pouco e disse, numa voz mansa: — E to­mem cuidado, chega de notícia de morte lá na Estância.

Moveram-se silenciosamente.

A pequena tropilha surgiu na curva da estrada. Vinham de prosas, calmamente. As vozes se perdiam na neblina opaca. Joaquim reconhe­ceu um sotaque carioca, um riso, alguém ansiava por um churrasco. Não ia ter churrasco nenhum, nunca mais, para aqueles desgraçados. Os três montaram os animais. O primeiro era um oficial, fez a curva do cami­nho. Dois soldados surgiram atrás. Os outros quatro vinham assuntando.

Joaquim baixou a espada, imitou um passarinho — como nos tem­pos de brincadeira na Estância —, José reconheceu o sinal do primo. O primeiro tiro estourou na noite. Os imperiais se inquietaram, assus­tados. Um cavaleiro caiu no chão. Tiro certeiro de José, bem no meio da testa do homem. A bagunça começou, relinchos, ordens desen­contradas do único oficial. Joaquim, Antônio e Pedro desceram a coxilha em desabalo. Mais um tiro derrubara outro infeliz. Agora eram cinco contra cinco. José e Bento logo estariam na estrada.

— Uma garganta para cada um! — gritou Antônio, tirando a ada­ga da cinta.

José surgiu de entre os arbustos, o chapéu caído nas costas, a lança empinada. Era um bom lanceiro. Travou pequena luta com um sol­dado. Trespassou-o sem dificuldade. Depois, no acampamento, teria dito que o soldado estava meio bêbado, cheirava a canha. Esporeou seu cavalo, indo ajudar Joaquim, quando um imperial se levantou do chão — o braço ensopado de sangue — e, erguendo a pistola, dispa­rou um tiro que o acertou no ombro. José sentiu a bala como um belis­cão de fogo. A lança foi ao chão. Ele pegou a própria arma e, num surto de ira que lhe era mui raro, mirou o desgraçado e destroçou sua cara, que virou uma papa de carne, sangue e ossos.

— Está ferido, primo. — Bento segurou as rédeas do cavalo de José. — Vamos para lá. Falta pouco, eles cuidam do resto.

O sangue escorria pelo pala, molhava as mãos brancas de José da Silva Santos.

Joaquim e Pedro encurralaram um soldado. Havia nos olhos do homem um medo animal. Pedro desembainhou o sabre, desceu do zaino, segurou o homem pelos cabelos e passou o fio pela pele mole daquele pescoço, abrindo-o ao meio. Joaquim viu os olhos apavora­dos congelarem-se para sempre, viu-os no meio da bruma, e sentiu uma ânsia ardida em suas entranhas. Lembrou de uma tarde, na infância, quando vira a sua primeira rinha de galos.

Antônio degolou também o seu oficial, que agora não tinha mais a quem dar ordens. Era um homem barbudo, meio gordacho, com cara de porco. Antônio pensou naquele infeliz metendo o sabre na carne do seu pai. Fora aquele o desgraçado que matara o seu pai. Pensou no pai caído na estrada de terra onde o encontraram no dia seguinte. Segu­rou a adaga com força. Cravou-a no pescoço do tenente, que já estava ferido, sangrando no alto da cabeça por causa de um tiro de raspão. Antônio também sangrava um pouco, a pálpebra esquerda aberta num corte fino. Viu o homem estrebuchar em matizes de vermelho, o san­gue que descia sobre seus olhos misturando-se com aquele outro sangue que escorria para o chão, e disse:

— Foi pelo senhor, pai.

Depois meteu outra vez a adaga na bainha, e viu que a neblina tinha desaparecido completamente, e que umas poucas estrelas brilha­vam no céu frio e distante.

 

Voltavam com o sol.

Era um sol fraco, de manhã invernal. José vinha ferido, tinha fe­bre, Joaquim temia pela bala, que extraíra na noite anterior. O primo corria o risco de uma infecção.

Encontraram um piquete farroupilha, e foi com alívio que ouviram a voz de Inácio. Do meio de um grupo, surgiu o homem alto, moreno, de longos bigodes, com o chapéu de barbicacho metido bem fundo na ca­beça. Estava de uniforme, parecia mais gasto, menos elegante do que quando vestia seus trajes, mas o mesmo sorriso ardia no seu rosto franco.

— Buenas! Encontro vosmecês reunidos assim por algum causo especial?— E foi cumprimentando os conhecidos. Ainda não se en­contrara com José nem com Joaquim. Os outros, conhecia da Estân­cia da Barra.

Antônio apresentou Joaquim ao charqueador de voz elegante e morna.

— Este é o senhor Inácio de Oliveira Guimarães, proprietário da Estância do Salso.

Inácio sorriu e estendeu a mão de dedos longos:

— E agora delegado de polícia de Boqueirão, às ordens de vosmecês. — Apertaram-se as mãos. — Mas me contem, o que fazem nesta estrada? O general Netto ou o coronel Onofre andam por estas bandas?

Joaquim contou o sucedido. A morte do cunhado de Bento Gonçal­ves numa tocaia. A estrada brumosa, a luta com a tropilha de imperiais.

— Agora temos um ferido. E meu primo José, filho de D. Ana. Inácio pareceu compungido. Viu o moço na maca improvisada,

apertou-lhe a mão suada e fraca. Iriam levar para onde o rapaz?

— Sou médico — disse Joaquim. — Mas aqui, vosmecê sabe, não tenho medicamentos, nem canha, nem nada. Essa ferida vai infeccio­nar. A bala quase atingiu o osso.

Trouxeram uma garrafa de canha, que Joaquim derramou no ombro de José. Inácio afastou-se um pouco, proseou com outro ofi­cial, voltou, dizendo numa voz firme:

— Está resolvido, deixem o José comigo. Eu e mais um soldado o levaremos para a estância. Devo esse favor a D. Ana, que nestes tem­pos andou mandando ervas para minha esposa, doente dos pulmões. — Tocou no ombro de Joaquim, decidido. — Ainda esta noite, José vai estar numa cama. D. Ana precisa dos dois filhos, mais ainda después do que sucedeu ao marido.

— Nós todos precisamos de José, senhor Inácio. O favor que vosmecê nos faz é grande. Tenho de me apresentar a Netto ainda ama­nhã, no más, e são dois dias de viagem.

— Pois eu levo José para casa — e procurou no rosto bonito de Joaquim algum traço da irmã.

Prepararam tudo em pouco tempo. Inácio de Oliveira Guimarães montou num tordilho negro, à frente de dois soldados que traziam a maca improvisada de José. Queria ajudar o filho de D. Ana, e queria, mais do que tudo, como um sonho, rever Perpétua.

— Hasta Ia vista, Joaquim. — Acenou para os outros. — Hasta la vista.

Joaquim viu o grupo seguir no caminho inverso. Tinha gostado de Inácio. E José logo estaria em casa.

 

Inácio José de Oliveira Guimarães chegou à Estância da Barra quan­do o relógio deu a vigésima terceira badalada. Era uma noite chuvosa de início de setembro. D. Antônia, presa de uma angústia que a carta do sobrinho, avisando represálias, tinha apenas aumentado, pernoita­va havia uns dias na estância de D. Ana. Ademais, Maria Manuela pre­cisava de consolo e de cuidados, muito abalada com a perda do esposo. E D. Antônia cuidava diligentemente da irmã mais moça e das so­brinhas.

Estavam as mulheres na sala, bordando sob a luz dos lampiões, aquecidas pela lareira ardente, quando ouviram um chamado na va­randa. Era uma voz de homem, conhecida. Tinha passado pelo vigia, na porteira. Perpétua sentiu uma morneza percorrer seu corpo quan­do reconheceu a voz de Inácio, que gritava:

— Senhora D. Ana, senhora D. Ana!

Perpétua ergueu-se num pulo. As primas, alertadas, largaram os trabalhos. D. Antônia deitou um olhar para a sobrinha e disse:

— Fique sentada, Perpétua. Deixe que o Manuel vai ver o que está sucedendo. Não é mais hora de visitas. Pode ser coisa séria.

Leão e Marco Antônio brincavam sobre um tapete. Caetana cha­mou Milú, que estava sentada a um canto, e ordenou:

— Leve os meninos para o quarto. Já é hora de dormir. Foram ambos reclamando. Nunca sucedia nada, e quando sucedia,

tinham de ir deitar. A mãe passou-lhes um pito. Manuel, o capataz, apareceu no corredor e disse, sem preâmbulos:

— É o senhor Inácio que está aí fora. E traz com ele o José, ferido de bala.

— Meu Deus do céu! — gritou D. Ana, erguendo-se da cadeira de balanço, já pálida e trêmula de angústia. — Vamos lá fora!

A um canto, Maria Manuela, vestida num luto cerrado, enxugou dos olhos uma lágrima tardia, enquanto espiava a irmã correr até a porta. Pensava no marido morto e não tinha ânimo de erguer um bra­ço que fosse.

— Calma, Ana. — D. Antônia foi para a porta, segurando doce­mente a irmã pelo braço, e enrolou-se no xale. — Vamos a ver. José é forte. — Olhou o capataz. — Manuel, tome um cavalo e vá buscar o doutor. Diga que é urgente.

O capataz aquiesceu e sumiu pelos caminhos que levavam à cozinha.

Meia hora mais tarde, José estava em sua cama, tendo D. Ana ao lado, que lhe aplicava compressas e tentava fazê-lo comer umas colheradas de sopa. Haviam-lhe feito um curativo limpo no ferimento e aguardavam o médico. No escritório, Inácio contou o que acontecera a D. Antônia.

— Eles mataram todos?

— Sim, senhora. Antônio degolou o tenente que atacou o pai. Fez pela honra.

D. Antônia fez o sinal-da-cruz.

— Ainda faz pouco, eram uns meninos... — disse, divagando, e sorriu. — Tenho medo de represálias. — Depois mudou de tom: — Mas o senhor vai pernoitar aqui conosco. Está uma noite horrível.

Um calor aqueceu o peito de Inácio, apesar do pala molhado, que deixava cair pingos de água no tapete do escritório.

— Eu le agradeço, D. Antônia. A viagem foi penosa e estou mui cansado. Amanhã, então, cedo, vou ter com minha esposa.

D. Antônia lembrou da moça pálida e frágil que vira na estrada, certa vez.

— Este inverno está sendo duro, senhor Inácio. Como vai sua es­posa? Ana mandou-lhe uns chás para o peito, dia desses.

Uma sombra turvou os olhos castanhos.

— Vai malzita. Mas, se Deus quiser, melhora para a primavera. D. Ana foi muito gentil com a Teresa.

D. Antônia abriu a porta do escritório. Chamou uma das negras e mandou que servissem uma mesa farta lá na cozinha.

— Estômago cheio ajuda o sono — disse, sorrindo, os olhos ne­gros e espertos fitos no rosto do homem. — Depois conversamos me­lhor, lá na sala, com as moças. Agora, vosmecê vai comer alguma coisa.

Ambos ganharam o corredor, onde a luz tênue dos lampiões dese­nhava sombras.

 

Inácio voltou à estância dias depois, para saber como passava José. Tinha ele estado com a esposa, e agora ia assumir suas funções de de­legado no Boqueirão. Ao desmontar do cavalo, encontrou Perpétua sentada à varanda, lendo um livro. Gastou um instante admirando aquele rosto delicado, a tez clara, a boca carnuda, os olhos mui negros fitos nas páginas que lia. Logo, a moça ergueu os olhos e, ao vê-lo, enrubesceu ligeiramente. Inácio sentiu uma alegria nova, percebendo que fora ele a causa daquele rubor. Subiu os degraus da varanda.

— Como está a senhorita, nestes dias?

Perpétua largou o livro para o lado e sorriu. Vestia-se de carmim, os cabelos presos numa trança solta, e tinha um perfume de lírios que a circundava como um halo. Fazia uma tarde bonita.

— Estou muito bem, senhor Inácio. E como le vai a vida? Inácio adiantou-se num arroubo, beijou a mãozinha branca. De­pois respondeu:

— A vida vai como Deus manda, senhorita Perpétua... E lástima que Deus esteja mal cuidando de Teresa.

Perpétua quis saber notícias da senhora, e Inácio contou que Tere­sa andava sempre com uma ponta de febre, tossindo muito, acamada. Mas com a chegada do sol, se recobrasse um pouco das forças, decerto ficaria boa. Afinal, era jovem.

— Aos jovens tudo é possível. — Depois lembrou do assunto que o trouxera ali. — E como vai José?

— Está melhorando. A febre baixou desde ontem. D. Ana e D. Antônia não lhe deixam a cabeceira, acho que logo ficará curado e poderá voltar.

— Voltar para a guerra —completou Inácio, tristemente. Perpétua pareceu surpresa:

— O senhor não aprecia a guerra? Todos os homens gostam da peleja.

Inácio sorriu da simplicidade da moça. Gostava da guerra, pela li­berdade, pela República, pelos direitos do Rio Grande. E era por isso que lutava, por seus sonhos. Mas amava a vida na estância, as tardes de sossego, a casa.

— Pena que não tenha mais a Teresa me esperando, como antes. Agora nem bem levanta da cama. Quando voltamos da guerra, quere­mos os braços de uma esposa. — Depois emendou: — Perdão, senho­rita. Vosmecê ainda não sabe dessas coisas...

Perpétua fitou-o nos olhos por um instante, pasma com sua pró­pria ousadia — se uma das tias a visse!

— E será que me caso, senhor Inácio? Com esta guerra sem fim, às vezes acho que não. Ficarei, então, sem saber dessas coisas para sempre.

Inácio sentiu um calor pelo corpo. Teresa era uma pedra fria em seu peito, a coitada, sempre entre compressas e febres; o rosto angulo­so e jovem de Perpétua o aquecia. Ele viu-se a dizer:

— A guerra está lá para fora... E vosmecê não é moça de ficar soltei­ra, seria um desperdício de beleza e de graça. — Pareceu segurar as pala­vras no peito, um instante, depois arrematou: — Feliz do homem que desposá-la, senhorita Perpétua. E, le garanto, isso não tarda. Os homens não são cegos nesta província, nem a guerra os confundiria a tal ponto.

D. Ana surgiu na varanda subitamente. Estava mais alegre, embo­ra olheiras marcassem seu rosto, discretas, e os cabelos negros estives­sem talvez mais opacos, sem vida, presos num coque simples. O assunto romântico morreu pelo meio. D. Ana abriu um largo sorriso.

— Senhor Inácio, Milú me avisou que vosmecê estava aqui... Eu quero le agradecer pelo que fez ao meu filho. Graças a Deus, e ao se­nhor, José fica bom logo, é só questão de repouso agora.

Inácio tomou a mão fria de D. Ana entre as suas.

— Fiz de coração, D. Ana. Seu filho é um homem mui valoroso.

— Herdou do pai a coragem — respondeu D. Ana, e olhou ao lon­ge, para os lados de onde estava a cova do marido.

Sentada em sua cadeira, Perpétua ainda tentava domar as batidas do seu coração. Sentia que, se a tia a fitasse, veria o seu nervosismo. "Um desperdício de beleza e de graça..." Então, ele a achava bela! "Feliz do homem que desposá-la", ecoou a voz de Inácio em seus ouvidos, e ela sorriu de alegria.

— Que sorriso é esse, menina? — interpelou-a D. Antônia, sur­gindo também na varanda.

Perpétua tomou um susto.

— Não é nada, tia. Estava pensando que José fica logo sarado e me senti feliz.

D. Ana sorriu também.

— Todos nós, minha filha.

— Todos nós — repetiu Inácio, fitando Perpétua com o canto dos olhos.

E D. Antônia aquiesceu, também sorrindo, mas com um brilho di­ferente nos olhos.

 

Cadernos de Manuela

Pelotas, 14 de agosto de 1883.

O final daquele inverno de 1837 foi triste para a nossa família. Minha mãe perdeu tanto de seu viço, que, em poucos dias, parecia não mais aquela dama elegante, de olhos ardentes, mas uma senhora páli­da, de consistência frágil, cujas roupas negras da viuvez cobriam de dor cada gesto seu. Nunca mais vi em seus olhos a mesma alegria de antes, assim como nunca mais vi meu pai, desde a tarde de 18 de se­tembro de 1835, quando nos despedimos dele, na varanda de nossa casa, aqui em Pelotas.

O tempo em que nos mantivemos distantes se ocupou de amenizar em meu peito a dor da sua perda — durante os dois anos e meio que a guerra já custava, meu pai não tinha ainda voltado para nos rever, en­volvido nas labutas da revolução. Anselmo da Silva Ferreira já era para mim, naqueles dias que antecederam a sua morte, quase um fantasma dos tempos idos, em que vivíamos na cidade, entre saraus e festas, numa alegria buliçosa que a guerra acabou por levar embora para sempre. Rosário e Mariana também sentiram sua morte de um modo aneste­siado. Foi um adeus sem velório, sem enterro e nem nada, apenas aquela notícia sem contornos, aquela vaziez que preenchia certos momentos, quando pensávamos nele e nos dávamos conta de que seus pés não mais pisavam este chão, e de que seus olhos, que sempre tinham amado as cores do pampa, agora deviam vislumbrar paisagens de uma outra vida.

Coube a Antônio e aos primos a honra e a desgraça de recolher seu corpo frio, de enterrá-lo em alguma coxilha cuja floração tenha esca­pado das rudezas do inverno, e de vingá-lo como um homem de bem e de boa família. Talvez por isso, quando revi Antônio, percebi em seus olhos uma vagueza de dor e de raiva que nunca antes estivera ali. A vingança não lhe fora bastante para aplacar seu sofrimento. Também meu irmão ficou marcado para sempre pela morte súbita e cruel do nosso pai. Acho que, até o fim, Antônio levaria na alma a imagem do pai morto, sangrado naquela tocaia — e isso mudou alguma coisa nele para sempre. Mas a guerra nunca deixa as pessoas como as encontrou, nunca, e Antônio não escapou desse fado.

Já em meados de setembro, José ficou recuperado. Passou assim algum tempo conosco, tempo esse que gastava em longas caminhadas pela estância e em conversas com a mãe e com os filhos de Caetana, que tinham muitas curiosidades sobre a guerra. Quando esteve me­lhor, José voltou a cavalgar, e saía com o gado para vendê-lo, organi­zou algumas coisas da casa, depois partiu. A peleja o chamava outra vez. Despedimo-nos dele na varanda, todas nós, cada uma com um aperto na alma, e D. Ana chorou um pouco, sentada na cadeira de balanço, tecendo furiosamente um xale ao qual nunca punha fim, como uma Penélope dos pampas.

Durante a convalescença de José, o senhor Inácio veio nos visitar muitas vezes. Não escapava a nenhuma de nós o motivo real daquelas suas aparições: estava ele enamorado de Perpétua, e era por ela plena­mente correspondido, embora essa paixão não passasse de alguns olhares trocados, de rubores súbitos no rosto da prima, e de uns emprés­timos de livros que os dois promoviam entre si, mais com o intuito de conhecerem seus gostos do que com o desejo de ter leitura para as horas vagas do dia. D. Antônia ou Caetana vigiavam esses serões, pois o se­nhor Inácio era casado, muito embora, a cada visita, tivesse uma notí­cia triste a nos dar: a saúde de sua esposa, Teresa, não cansava de piorar.

Eu vi Perpétua soluçando pelos corredores da casa muitas vezes: estava ela presa de um amor cujo êxito implicava o sofrimento de outrem, e disso ela tinha muitos remorsos, por causa dos quais não se cansava de mandar ungüentos e xaropes para a senhora Teresa, que se hospedava na fazenda de parentes, não muito longe de nós. Foi Rosário quem um dia lhe disse:

— Não seja boba, não chore por isso. Vosmecê nada faz além de receber as visitas do senhor Inácio, e de prosear um tanto com ele. Não seja tão ingênua, prima: na guerra e no amor, tudo é permitido. Afinal, não foi vosmecê quem envenenou os pulmões da senhora Teresa.

Era assim que pensava minha irmã naqueles dias, muito embora nun­ca a tivesse visto de anseios por nenhum homem, conhecido ou não. Ape­nas uma vez, encontrei entre seus bordados uma folha com um nome mil vezes rabiscado: Steban. Nada mais soube, nem lhe perguntei a res­peito daquele nome castelhano. Rosário andava, isso sim, embrenhada entre os livros do escritório, trancada tardes inteiras, como se ela mesma estivesse a armar outra e sigilosa revolução. Perpétua e Mariana tam­bém estranhavam o seu comportamento, e contei essas impressões a nossa mãe. Porém, andava Maria Manuela com suas próprias dores a mitigar, e pouco se interessou pelas novas estranhezas de Rosário.

Nos últimos dias de setembro — junto com a primavera — foi que nos chegou a grande notícia: Bento Gonçalves da Silva tinha fugido do Forte do Mar. Recebemo-la pela boca mesma de Joaquim, que veio até a estância para trazer à mãe a boa nova. Bento Gonçalves fugira de uma maneira prosaica e inusitada: a nado. Conforme nos narrou Joa­quim, Bento praticava todos os dias um pouco de natação, sempre vi­giado por um soldado da prisão. Pois, em certo dia que o forte estava mais desguarnecido do que de costume, o general saíra para nadar num passeio sem retorno. Havia um barco ancorado a pouca distância do forte, e Bento Gonçalves nadou até ele, pedindo aos pescadores que o levassem ao cônsul Pereira Duarte — um aliado da revolução e tam­bém maçom como o general. A casa do cônsul ficava em Itaparica, e assim obedeceram os pescadores, segundo a promessa de que seriam muito bem recompensados.

Não sei como Bento Gonçalves conseguiu driblar a vigilância dos soldados, nem como nenhum dos barcos do forte o alcançou, só sei que sua estrela brilhou o suficiente para que a travessia até Itaparica fosse exitosa. Em Itaparica, o presidente do Rio Grande foi acolhido, e per­maneceu escondido por muitos e muitos dias, até que a vigilância e busca por sua pessoa baixassem. Numa noite tempestuosa, embarcou num cargueiro e partiu das terras nordestinas rumo a Santa Catarina. Estava livre, por fim. E voltava para o Rio Grande.

Houve festa em nossa casa. D. Ana mandou carnear uma ovelha, e se fizeram doces e guloseimas, até tarde dançamos e cantamos. O senhor Inácio apareceu e até mesmo dançou a chimarrita com Perpétua, que res­plandecia de dupla felicidade. Também Caetana ficou revigorada com a notícia. Saber que seu marido já singrava as águas rumo ao Sul encheu-a de brilho e de sorrisos. Ela contava os dias para revê-lo, mandou fazer um vestido novo, amarelo como ouro, parecia uma noiva rumo ao altar. D. Antônia e D. Ana entraram também numa fase de alegrias e esperanças: com o irmão de volta ao Rio Grande, a guerra se decidiria de vez, elas tinham fé. Então, de repente, o altar de Nossa Senhora se viu repleto de velas — desta vez, não de pedidos, mas de agradecimentos pelo acontecido.

Vindo da Bahia, meu tio Bento desembarcou em Nossa Senhora do Desterro, Santa Catarina. De lá, a cavalo, seguiu para Torres, já na divisa do Rio Grande, aonde chegou na noite do dia três de novembro. Sete dias mais tarde, alcançou Viamão, onde foi recebido com surpre­sa e festa pelas tropas republicanas. Caetana e os filhos mais velhos foram recebê-lo em Piratini, no dia quatro de novembro. Houve um grande baile na cidade, segundo nos contou Caetana, muito depois, ainda exultante por rever o esposo e encontrá-lo bem disposto de saú­de e revigorado dos meses de confinamento. Foi nesse dia que Bento Gonçalves da Silva tomou posse, enfim, do cargo de presidente da República Rio-grandense. Dias depois, passaria seu cargo para o vice, Mariano de Mattos, e iria comandar as tropas do exército republicano.

Não posso dizer que senti inveja de tantas festas e bailes, enquanto permanecia na Estância da Barra, em companhia das tias, das irmãs e de minha mãe. Além do luto, poucos motivos havia para que nos locomovêssemos até Piratini, as batalhas andavam sucedendo por todos os caminhos, e a nossa segurança era estar na fazenda. Gastei aqueles dias bordando um enxoval que nunca cheguei a usar, e que ainda hoje está guardado, amarelado pelo tempo e pelas lágrimas, nas arcas de pinho que ganhei de minha mãe. Bordava como quem pregava os minutos num pano: dando cores às horas exatas do dia, enquanto escolhia ma­tizes de verde ou de azul com os quais tingir a minha solidão. Desde sempre, os trabalhos manuais esconderam o fastio e o medo das mu­lheres, e em nossa casa os rituais sucediam de igual maneira.

Eu ainda não sabia, e só vim a saber disso muito mais tarde, mas meu peito já se confrangia na angústia do germe de meu amor por Giuseppe Garibaldi. Enquanto Bento Gonçalves ganhava a liberdade e as honras de nosso povo, o marinheiro italiano de olhos cor de mel sofria um longo exílio nas terras uruguaias. Meses antes, exatamente no dia vinte e oito de maio daquele 1837, Garibaldi e seus marítimos entravam triunfalmente no porto de Maldonado, limite setentrional do Rio da Prata. Vinham do Rio de Janeiro, com a carta de corso da Re­pública Rio-grandense, depois de terem atacado a sumaca Luíza, que trazia vinte e seis toneladas de café em seus depósitos.

Em Maldonado — segundo me contou ele mesmo, com sua voz mor­na e suas palavras construídas na algaravia de vários idiomas —, Garibaldi tentou vender o café pilhado. Porém, estavam eles já sendo perseguidos, tendo assim de negociar sua carga as pressas, fugindo de Maldonado numa fria madrugada de inverno, protegidos apenas por uma densa névoa que escorria do céu. Naquelas águas, quase foram a pique, tendo a bússola os levado para cima de perigosos recifes, e só não naufragaram por sorte e por perícia de Garibaldi. Somente passa­do o susto foi que descobriram que os fuzis, armazenados num com­partimento ao lado da cabine de comando, haviam enlouquecido a agulha magnética. E assim, na noite, após esse susto, Giuseppe Maria Garibaldi e sua tripulação seguiram viagem rumo ao Rio Grande.

Ainda havia muitas atribulações no caminho até o pampa gaúcho. Enquanto ele navegava, eu bordava lençóis e colchas. No dia em que foi ferido por soldados uruguaios que iam em sua perseguição, em águas de Jesús-Maria, já perto de Montevidéu, descuidada, perfurei meu dedo com a agulha de bordar, e o sangue que jorrou da minha carne ferida tingiu de vermelho o linho de meus lavoros como deveria ter-se tingido a fronte de meu Garibaldi. Nessa batalha, uma bala vinda dos navios inimigos atingiu Giuseppe Garibaldi entre a orelha e a carótida, deixando-o inconsciente. Os outros marinheiros, comandados por Luigi Carniglia — inseparável companheiro de Giuseppe —, conseguiram sustentar a batalha, e seguiram então para Santa Fé. Garibaldi, muito ferido, agonizava. A bordo, não havia médicos ou medicamentos, e foi somente a "buona fortuna" que o salvou. Depois de alguns dias, en­contraram uma goleta que fazia transporte de passageiros e foram so­corridos. Numa cabine pequena e escura, Giuseppe Garibaldi gastava em delírios aquilo que seriam as suas últimas forças. Foi levado então para Gualeguay, sendo operado e atendido com todos os confortos.

Meu Garibaldi era um homem forte. Recuperou-se em pouco tem­po. Lá, aprendeu a cavalgar — coisa que lhe seria de extrema utilida­de nestas terras do Rio Grande. Porém, estava impedido de deixar a cidade, e a rotina entediante de seu estado de convalescente logo co­meçou a exasperá-lo.

Tudo isso sucedeu naqueles últimos meses de 1837, embora mui­tas dessas coisas me tenham chegado aos ouvidos apenas anos depois. Na vastidão destes pampas, o tempo é algo relativo e impalpável: uma noite de minuano, por exemplo, pode durar uma eternidade. Assim pensava minha tia, D. Antônia, a parenta com a qual mais vim a me assemelhar com o passar dos anos. Aqueles últimos meses se gastaram com a lentidão das coisas etéreas. Víamos a natureza abandonar as cores mortas do inverno, tingir-se solenemente de festa, até esmorecer suas flores sob o calor fustigante do sol de verão. E foi num dos últimos dias daquele dezembro calorento e seco que nos chegou a notícia da morte da senhora Teresa, esposa de Inácio José de Oliveira Guimarães.

 

Manuela.

1838

A barraca sacudia com o vento de temporal, mas lá dentro, prote­gido pela lona, o mesmo ar pesado, úmido, continuava incomo­dando Bento Gonçalves. Incomodava por recordar a cela quente no Rio de Janeiro, onde ele cozinhara no próprio suor por dias e dias a fio sem um banho que fosse. No mais, estava em casa. Se saísse para o campo, veria as árvores do capão assoladas pelo temporal, vergadas por aquele vento fresco, incansável, que vinha de longe, que vinha da Argentina. Gostava de tempestades, de ver o pampa alisado pelo pente dos tempo­rais, os raios explodindo ao longe, rachando o céu com sua luz prateada. As últimas luzes da tarde eram engolidas pelas nuvens negras. O coronel Onofre Pires, grande, alto, desproporcionalmente superior ao teto baixo da barraca, estava sentado num banco, sério.

— Então nomearam o Elzeário de Miranda para presidente da província?

Onofre derramou um olhar pesado sobre Bento.

— O homem vem com tudo.

— Entonces, também vamos com tudo para cima dele, Onofre. Eu tenho meses de tédio acumulados nas costas.

Onofre sorriu vagamente. Bento Gonçalves levantou do seu banco, pediu licença e saiu para o campo. Lá fora, soldados recolhiam os cavalos e protegiam os mantimentos da fúria do temporal, e tudo isso dava uma agitação quase caseira ao acampamento. Bento Gonçalves lembrou das negras, na estância, recolhendo, às pressas, a roupa seca no varal. Sentiu um cheiro de pão quente e uma vontade louca de ir para casa nem que fosse por uma noite, para rever as meninas, os dois guris, e dormir na cama de Caetana. Precisava escrever a Caetana para contar do filho. Bento fora promovido a tenente — era um bom guerreiro. Parecido com ele, herdara até seu nome. Tinha valor nas batalhas, agora estava com Netto, no cerco à capital. Pelo tempo que durasse o cerco — talvez não muito.

Andou uns passos, sentindo o vento úmido lamber seu rosto, pene­trar por entre a barba como um afago. A chuva começava a engrossar, mas era boa, fresca. Do chão se levantava aquele cheiro bom de terra molhada. Um raio estourou no céu, bem perto. Bento Gonçalves olhou para os lados, saboreando aquele pampa que por tanto tempo revira em seus pensamentos, até que perdesse os seus contornos reais, até que virasse nada mais do que um sonho, um lugar mítico, pelo qual ansia­va nas longas noites pegajosas da prisão.

Ao longe, sob uma árvore, Joaquim olhava o temporal. Bento Gonçalves correu até o filho.

— Vosmecê estudou tanto, Joaquim. Esqueceu, por acaso, que uma árvore não é um bom lugar para se apreciar uma tempestade? — Falava sorrindo, a chuva escorrendo pelo rosto, molhando o cabelo negro. — Vem, Quincas, vamos para um lugar melhor, não necessaria­mente um teto... Também tenho gosto numa boa chuva.

Saíram ambos caminhando pelo acampamento. O chão já se en­chia de poças. O vulto alto e teso de Joaquim seguia ao seu lado, no mesmo passo.

— Pai, o senhor vai para Porto Alegre estar com as tropas do Netto?

— Não. Hay muito o que se fazer por estes pagos. Na verdade, para os dias, tenho planos de ir até a casa de Ana.

Joaquim sorriu.

— Vai rever a mãe?

— Mais que isso, meu filho. Vou falar mui seriamente com Antônia, um assunto de suma importância que le diz respeito. Planos, meu fi­lho... Después, por uma noite ou duas, um general merece o conforto da sua família.

Joaquim desviou os olhos para o campo; recordou Manuela e sen­tiu um aperto no peito. Bento Gonçalves acompanhou, de algum modo, o olhar vago do primogênito.

— Pode deixar que mando lembranças para Manuela — bateu no ombro do filho. — Quando esta guerra acabar, vosmecês se casam numa grande festa.

Joaquim sentiu a timidez como uma mão em sua garganta. Mudou de assunto:

— Que segredos le levam à estância, pai? Se é que posso sabê-los.

— Planos que temos para um italiano amigo do conde Zambeccari, Garibaldi. Decerto que o homem já devia estar aqui por estas horas, não sei onde se meteu... Mas vem. É um homem de fé. Um homem do mar. E nós precisamos de um porto para ganhar esta guerra. E preci­samos das águas interiores.

Joaquim nada disse. Um raio caiu ao longe, alguns cavalos relin­charam. A noite agora era um manto espesso e fresco que recobria tudo.

 

Quando o primeiro mês do seu luto findou, Inácio foi visitar a Estân­cia da Barra. Trazia as feições mais magras, o rosto mais denso, mas mesmo assim continuava um homem bonito, alto, moreno, forte e jo­vem para seus trinta e oito anos. Com a morte da esposa, era justo e correto que começasse a cortejar Perpétua, de quem pediria a mão assim que fosse possível. Ademais, em épocas de guerra, o tempo perdia seu significado, tudo era instável. E um viúvo, mesmo recente, jovem como ele, tinha o direito de se casar novamente.

Trazia queijos feitos na sua própria fazenda. Entregou-os para Milú, que o recebeu à varanda, saindo logo depois "para chamar a patroa D. Ana". Inácio sentou numa cadeira, apreciando a brisa fresca que vi­nha, naquele final de tarde de verão, lá dos lados do Rio Camaquã. Não demorou para que D. Ana aparecesse por ali, vestida de cinzento, os cabelos ajeitados em tranças, o rosto doce, compenetrado como sempre.

— Le agradeço os queijos, senhor Inácio.

Inácio beijou-lhe a mão. Não tinha de quê. Gostava da família, apreciava trazer presentes.

— Quando Celestiana, a cozinheira lá de casa, fizer um doce de goiaba, le trago, D. Ana. Não existe doce más saboroso do que o da Celestiana.

D. Ana sorriu, agradecida. Perguntou como iam as coisas, depois da morte da esposa. Inácio baixou os olhos.

— Vão como Deus manda. A senhora sabe, sou um hombre sem filhos, é difícil viver sozinho. E agora que ando de delegado no Boqueirão, bem... A guerra distrai a solidão. Mas a casa vazia é cosa dura demás.

D. Ana aquiesceu, as mãos postas no colo. Uma negrinha trouxe um jarro de limonada fresca. Beberam e falaram amenidades. D. Ana aguardou pacientemente que Inácio entrasse no assunto que, afinal de contas, o tinha trazido até ali. Sabia que o delegado era homem mui ocupado, tinha seus afazeres, tinha as estâncias, le faltava o tempo para visitas como aquela. E sabia também — todos na casa sabiam — das simpatias do senhor Inácio pela filha de Bento, Perpétua. Resolveu facilitar as coisas:

— Vosmecê sabe, meu irmão agora voltou para o Rio Grande. Logo, isso nos escreveu ele, virá para a estância passar uns dias. Coisa pouca, três noites, no más, para um general o tempo é precioso, e esta guerra... — suspirou. — Mas, de qualquer jeito, havemos de organi­zar um churrasco para ele, um baile, talvez. E o senhor será nosso con­vidado.

— Mui honrado, D. Ana. Tenho grande admiração pela hospitali­dade desta casa... — pigarreou um pouco. Casara cedo com Teresa, eram primos, coisa arranjada pelas famílias, nunca passara aqueles constrangimentos... Fez um silêncio medido, depois acrescentou: — D. Ana, preciso le falar. A senhora sabe que agora sou viúvo e, por­tanto, desimpedido para o casamento. Deve saber também, pois nun­ca fiz segredo disso, que tenho muita estima pela senhorita Perpétua... Seria uma grande honra desposá-la, assim que fosse possível, quando passar o tempo necessário da morte da coitada da Teresa.

D. Ana abriu um sorriso. Serviu mais limonada para Inácio. Me­diu bem as palavras:

— Esteja certo, senhor Inácio, da estima que le tenho. E também do carinho que minha sobrinha sente pelo senhor. Mas, apesar desta casa ser minha e, nessa guerra, estar eu tomando as lides das coisas por aqui, acho que o senhor deveria falar com minha cunhada Caetana. Na ausência de Bento, é ela quem pode le dar esta permissão. — Mu­dou de tom: — Mas, me diga, qual o tempo justo desse noivado, até o casamento? Um ano de espera, pelo luto?

Inácio derramou sobre D. Ana um olhar inquieto. Abriu um sorri­so e disse, mansamente:

— As guerras trazem malefícios e benefícios, D. Ana. Um ano, no meu caso, pode ser muito. Deus há de saber o que me reserva, mas acho que seis meses é tempo bastante para honrar a memória de Teresa.

— Imagino que seja — respondeu D. Ana. — Dá para preparar o enxoval, arreglar tudo. E estaremos então no início da primavera, que é época bonita para umas bodas. — Ergueu-se da cadeira. — Vou lá dentro chamar Caetana. Está ensinando a filha mais moça a bordar. Volto num minuto.

Inácio ficou olhando o umbu, ao longe. Sentia as palmas das mãos úmidas, como se fosse um menino que via uma tirana pela primeira vez. Secou o segundo copo de limonada, e ficou esperando. Ao longe, de algum canto da casa, vinham risos de moças. Tentou identificar, no meio daquelas vozes, o riso de Perpétua — quente, doce, prometedor.

Caetana consentiu naquela corte, combinando que logo fariam o noivado — assim que Bento viesse dar na Estância. Seria um namoro discreto, como convinha a um viúvo. A filha, por sua vez, estava de pleno acordo, queria desposar o senhor Inácio. E vinha logo, arruma­va-se para vê-lo.

Veio bonita, num vestido azul muito claro que realçava seus cabe­los escuros. Apesar da guerra, tinha encontrado um amor, um amor que viera dar ali, nas portas da estância, com aqueles mornos olhos de azeviche, e a voz quente e forte. Teve ainda um leve remorso, ao recordar a criatura tênue e pálida que vira de passagem, certa vez, mas logo tudo foi esquecido, e o serão na varanda durou ainda algum tem­po, prolongando-se num jantar em família, íntima comemoração da­quele enlace. Inácio José de Oliveira Guimarães e Perpétua Justa Gonçalves da Silva iriam contrair matrimônio. Na comprida mesa da sala de jantar, Inácio e as sete mulheres ergueram seus copos num brinde.

— Que sejam mui felizes — desejou D. Ana, do seu lugar à cabe­ceira da mesa.

 

Os grilos cantavam lá fora, fazia um calor morno que entrava pelas ja­nelas abertas como uma mão que vinha acariciar seu corpo. Rosário rolava na cama sem conseguir dormir. Uma angústia açoitava o seu pei­to. E aquele calor que penetrava pelo tecido da camisola. Na cama ao lado, Perpétua dormia placidamente. Rosário pensou na sorte da prima. Iria casar. Apesar da guerra, apesar de tudo, Perpétua tinha o seu qui­nhão de felicidade. E Inácio era um viúvo muito bem-apessoado, alto, elegante. Não era um campeiro apenas. Sabia se portar nos salões. Um cavalheiro. Rosário se ergueu em silêncio. Calçou as chinelas, acendeu o lampião e ganhou o corredor penumbroso. A casa dormia.

Na varanda, um sopro de brisa fresca agitou seus cabelos. Ela sen­tou na cadeira de balanço e ficou ali, pensando na terrível verdade daquele seu amor.

O céu estava repleto de estrelas. Rosário sentiu uma lágrima es­correr pelo rosto. Secou-a com o canto da mão. Não iria chorar como uma mocinha boba, não iria mesmo.

Não vou chorar. Steban me ama. Eu o amo. E aconteceu. Coisas como essa não acontecem todos os dias. Não estou louca.

— Não estou louca... — Sua voz soou doce no silêncio da noite de verão.

— Falando sozinha?

Mariana apareceu na varanda. Também não conseguira dormir, por causa do calor que fazia.

— Senta ao meu lado — convidou Rosário. — Está uma noite lin­da demais para a solidão.

Mariana sorriu, os cabelos negros desfeitos caíam pelos lados do seu rosto como uma moldura.

— Vosmecê está triste, maninha? Sossega... Os noivados e os ca­samentos fazem isso com as mulheres, principalmente com as soltei­ras, — Riu. — Mas havemos de ter a sorte de Perpétua. Não que eu queira o senhor Inácio para marido, é um pouco velho para mim, com certeza. Mas um amor me vinha a calhar.

— Não é tristeza, Mariana, Nem sei bem o que sinto, um aperto no peito, uma angústia. Um medo.

Mariana derramou um longo olhar sobre a irmã mais velha, loura, delicada, tão bonita sob a luz daquele luar.

— Medo de quê? Aqui estamos protegidas dessa guerra. E nenhum imperial, por mais atrevido que seja, ousaria invadir esta estância, Rosário.

— Não é a guerra que me assusta. Essa guerra apenas me entedia.

— E o que é, então?

— É um amor que sinto — respondeu. E ficou observando o rosto de Mariana adquirir pouco a pouco um ar de pasmo.

— Vosmecê está apaixonada? Por quem? Alguém aqui da casa? Das redondezas? E eu que nunca desconfiei de nada... — Mariana jogou o corpo para trás na cadeira. — Quem havia de dizer!

Rosário tinha a boca seca. Pensou bem nas palavras, pesou o que tinha a contar. Sua voz soou sigilosa.

— É uma longa história, Mariana. Vou contá-la apenas para usted. Mas jura que manterá esse segredo?

Mariana beijou os dedos em cruz.

— Juro — respondeu.

E Rosário começou a narrar a história dos seus encontros com Steban no silêncio misterioso do escritório, as horas gastas em longas confidências, a paixão que crescia até ser quase dor, o medo da desco­berta, dos olhares das negras, do controle de D. Ana. E a varanda foi então se enchendo de segredos, de palavras sussurradas, de suspiros, de promessas... Um uruguaio. Os ojos vierdes. A beleza etérea. E Mariana foi enveredando num mundo intocável que nunca imaginara roçar sequer, um mundo de asas e de sopros, onde um jovem oficial surgia de entre os livros como uma sombra, sempre pálido, sempre sangrando numa eterna morte, e vinha jurar seu amor pela sobrinha do general mesmo cuja espada lhe tinha tirado a vida.

Quando Rosário acabou sua narrativa, a irmã estava trêmula.

— Vosmecê quer dizer que vê um fantasma? Rosário sorriu.

— Não apenas o vejo, eu o amo. E quero ficar com ele pelo resto dos meus dias.

Mariana não podia acreditar no que estavam falando. Nunca ouvi­ra nada igual, nem lera em nenhum livro. Nem ouvira nenhuma lenda que contasse um amor assim.

— Mas, se é como vosmecê diz, irmã, se é possível que um homem venha do além movido pela força de uma paixão, os dias dele já se foram há muito... Ele já morreu — sacudiu a cabeça. — Isso não é possível, Rosário... Vosmecê está confusa, adoentada, talvez. Cansada da estância.

— Nunca estive tão bem em toda a vida, Mariana. — Tocou a mão da irmã, que estava fria. — Fique mais calma, por favor. Se le digo que eu e Steban nos encontramos aqui mesmo, nesta casa, é verdade... Alguma coisa sucedeu, não sei bem o quê, mas é certo que nossos mundos se alcançaram — e concluiu: — Nós nos amamos.

— Se a mãe ouve isso... Vosmecê ama um fantasma, irmã. A mãe não suportaria.

Rosário pressionou a mão da outra entre as suas, e pediu:

— Não fale nada, não ainda. Só le contei tudo isso porque meu peito estava a ponto de explodir de tanta angústia. Eu juro, hei de levar vosmecê para conhecê-lo. Então saberá que não minto, que nos ama­mos. Que um milagre aconteceu aqui, nas margens do Rio Camaquã.

Uma rajada de vento cortou a placidez da varanda. Mariana olha­va a irmã quase sem vê-la. Tentou fisgar naquelas retinas azuis alguma sombra de loucura, mas tudo o que pôde achar foi um brilho de excitação. O brilho dos olhos de uma mulher apaixonada.

 

No outono daquele ano de 1838, os rebeldes conquistaram a cidade de Rio Pardo na maior batalha já travada até então entre as forças legalistas e as republicanas. O retorno de Bento Gonçalves insuflara novos âni­mos nas tropas farroupilhas. Mais de três mil homens reuniram-se sob o comando dos generais farrapos. Contra eles, lutaram mil e setecentos soldados imperiais, que perderam na batalha oito peças de artilha­ria, mil armas de infantaria, e tiveram ainda trezentos mortos e feridos, sendo que os farroupilhas fizeram mais de setecentos prisioneiros en­tre as ordes imperialistas.

Foi uma das piores derrotas sofridas pelos imperiais durante toda a Revolução Farroupilha. Tamanha foi a repercussão dessa vitória, que, por causa dela, o marechal do exército imperial, Sebastião Barreto, até então comandante militar da província, teve de responder a um conse­lho de guerra.

Foi ainda tomado dessa sensação de graça que Bento Gonçalves chegou à Estância da Barra, já em meados de maio, para rever Caetana e os filhos. Fazia um outono de dias claros e ensolarados, e aos poucos o ar da província começava a esfriar levemente; as noites ficavam mais aconchegantes, mais acolhedoras, mais convidativas a um bom fogo de lareira.

Foi recebido com um grande churrasco, onde se comemorou o noivado de Perpétua e de Inácio de Oliveira Guimarães. A casa estava em festa, florida, repleta de sorrisos. As mulheres trajavam vestidos novos, vindos de Pelotas, e tinham os cabelos presos com fitas. Perpé­tua usava um vestido verde de rendas, estava bonita e com ares de mulher feita.

Quando Bento Gonçalves abraçou Perpétua, tendo-a entre seus braços como uma coisa delicada e morna, só soube dizer:

— Na guerra, este tempo não passa. Mas em vosmecê, filha, ele fez milagres. Está uma noiva mui hermosa.

E Perpétua corou de prazer.

Depois, Bento Gonçalves se afastou com Inácio. Já se conheciam da guerra e dos negócios. E tinham muitos assuntos a tratar.

 

D. Antônia estava inspecionando a preparação das saladas, quando Bento Gonçalves apareceu na porta da cozinha e, enfiando o rosto bem escanhoado para dentro, disse:

— Vem cá na rua, Antônia. Deixe essas comilanças de lado, pois preciso hablar com vosmecê.

D. Antônia saiu limpando as mãos no avental branco. A luz forte da rua cegou-a por um instante.

— É coisa urgente? — perguntou sorrindo.

Bento tomou o seu braço. Caminharam para a sombra de um pessegueiro. Os passarinhos cantavam.

— Quando se tem pouco tempo, Antônia, tudo é urgente. Vosmecê sabe que amanhã eu já me vou. E quero le falar umas coisas antes de partir para São Gabriel.

No ar, um misto de música e cheiro de assado dava ao dia ares fes­tivos. O céu estava azul, um céu de encomenda para um dia como aquele.

— Vamos sentar — sugeriu Antônia. Acomodaram-se num banco de madeira.

— É sobre aquele estaleiro abandonado que vosmecê tem lá na beira do Camaquã — disse Bento. — Faz tempo que ele está às mos­cas, não é? — D. Antônia concordou, calada. — Tenho uns planos para ele. Mui importantes. Mas preciso do seu consentimento.

D. Antônia fitou as retinas negras do general. Era incrível: Bento tinha os mesmos olhos da mãe. Olhos de noite sem lua. Insondáveis.

— Faça bom uso daquele lugar, Bento. Vosmecê sabe que pode sempre contar comigo.

— E conto. Quando as coisas estiverem bem acertadas, le mando uma carta explicando tudo. Vou precisar dos seus préstimos, e da sua coragem. Vou engendrar um segredo naquelas terras, Antônia.

 

Cadernos de Manuela

Pelotas, 9 de setembro de 1883.

A história de Giuseppe Garibaldi está impressa na minha pele, como as digitais dos meus dedos. Ultimamente, nas noites de frio, quando ando pela casa escura e já deserta de todos, ouvindo o eco das minhas botinas neste chão de madeira tantas vezes encerado, é nele que pen­so, é ele que ocupa toda a minha alma como se eu não fosse mais do que um refúgio para as lembranças do que ele já fez, e é no calor da sua recordação que me aqueço. É isso que sou: um cofre, uma urna daqueles sonhos perdidos, do sonho de uma república e do sonho de um amor que se gastou no tempo e nas estradas desta vida, mas que ainda arde em mim, sob essa minha pele agora tão baça, com a mesma pulsação inquieta daqueles anos.

Recuerdo mui bien os acontecimentos dos primeiros meses daque­le ano de 1838, talvez o ano mais importante da minha vida — quando pus meus olhos sobre a figura de Garibaldi e, como um rio que sai do seu álveo, extravasei os meus limites e inundei recantos que nem ousa­ra imaginar existentes...

Depois de convalescer em Gualeguay por muitos meses, já entediado daquela vida calma que nunca soube ser a sua, Giuseppe Gari­baldi fugiu, em meados de janeiro. Mas sua fuga foi denunciada, e ele foi preso nas imediações da cidade. Estando o general Pascual Echague, seu protetor, em viagem de negócios, Giuseppe foi levado por um coronel de nome Leonardo Millan e foi torturado por várias horas, até que desmaiasse de exaustão e de dor. No final daquele mês, Millan seria seriamente advertido pelo governador da província, e Garibaldi então seguiria para Entre-Rios, onde responderia por seus atos à justiça local.

Mas Garibaldi fugiu novamente — não cruzara tantos mares para estar à mercê do governo uruguaio —, e dessa vez teve êxito. Encon­trou seu amigo Rossetti, que voltava do Rio Grande, onde travara já vários encontros com os homens de confiança de meu tio. Garibaldi então partiu juntamente com Luigi Rosseti para engendrar aquela louca e linda república da qual tanto já tinha ouvido falar. Sim, aquele era um sonho pelo qual se merecia lutar até a última gota de sangue: a li­berdade de uma terra e de um povo, a criação de uma nação igualitá­ria, onde não houvesse imperador ou escravo. Enfim, no faro desse seu enlevo, vinha ele para a minha terra. E vinha a cavalo, pois agora ti­nha aprendido a montar e, sobre o dorso de um zaino de pêlo muito negro, cortava os pampas rumo ao Rio Grande.

No final daquele outono luminoso e de dias suaves, Giuseppe Garibaldi e seu amigo Rossetti chegaram a Piratini. A vila efervescia naqueles tempos: era a capital da República, e lá se acertavam todas as manobras dos exércitos. Estava cheia de vida e de emoções, e essa energia imediatamente atraiu o aventureiro italiano da minha alma: Garibaldi tomou-se de amor pelos anseios dos rio-grandenses, pela sua coragem e ousadia, e pela sua república.

Em Piratini, foram recebidos por Domingos José de Almeida, en­tão ministro das Finanças.

— Bento Gonçalves tem grandes planos para vocês — foi o que lhes disse o homem baixinho, de fala vigorosa e espertos olhos cas­tanhos.

Dois dias mais tarde, estavam nas margens do São Gonçalo, um braço de rio que liga a Lagoa dos Patos à Mirim, em meio a um buliço­so acampamento de soldados. Acomodados numa barraca, viram en­trar a figura de Bento Gonçalves, alto, forte, enrijecido pelas lutas e pela liberdade, vestido no seu uniforme impecável. Giuseppe Garibaldi olhou fundo naqueles olhos escuros, e respirou aliviado. Estava em casa, finalmente. Agora tinha outra vez um sonho.

Meu tio traçara muitos planos para aquele italiano de olhos cor de mel e sorriso fácil. E foram esses planos que o trouxeram para os meus braços.

Durante o churrasco aqui na estância, Bento Gonçalves teve chance de se reunir com D. Antônia e de lhe pedir um grande obséquio: o uso do pequeno estaleiro que ficava na Estância do Brejo. D. Antônia não recusou os desejos do irmão, por quem sempre seria capaz de fazer tudo. Bento Gonçalves partiu outra vez desta casa, e somente um mês mais tarde é que nos chegou um próprio que trazia na guaiaca uma carta do presidente. Procurava a senhora D. Antônia. A tia estava conosco, naquela tardinha de sol dourado e translúcido, cujo brilho dava contornos de ouro ao mundo — aqueles outonos de amarelo si­lêncio interminável hão de ficar para sempre na minha alma —, e rece­beu a carta do irmão com suas mãos pálidas e firmes. Leu-a em voz alta para todas nós. Bento Gonçalves enviava, nos próximos dias, um grupo de soldados para a Estância do Brejo. Esses soldados eram, na verdade, marinheiros mui experientes cuja chefia cabia ao italiano Giuseppe Garibaldi, "um hombre mui honrado e digno, um verdadei­ro soldado, que deve ser tratado com toda a fidalguia", segundo escre­veu Bento Gonçalves. Vinham eles com a tarefa de construir barcos para o exército republicano, "e em tudo o que eles necessitarem, de comida, de agasalhos, de auxílio, conto com vosmecê para alcançar, e também com os peões da estância, para que les ensinem algumas lides da terra, visto que todos são homens de mar".

A tia fez uma pausa. Ficamos todas presas do mesmo silêncio. Foi Mariana quem resolveu perguntar:

— Quantos homens são?

D. Antônia deitou os olhos outra vez para a carta, procurando nas linhas escritas com letra firme o número exato do nosso susto.

— Parece que são quinze, minha filha. Na maioria, estrangeiros.

D. Ana largou o bordado, os óculos de aro de ouro brilhavam na ponta do seu nariz fino.

— Diacho, teremos assunto por estas bandas... — Fitou Mariana, sorrindo: — Vosmecê se acomode, menina. Esses homens são solda­dos, e vêm para cá por causa da guerra. Vosmecês todas, não me es­queçam disto. Ademais, são eles lá, nós cá.

Mas meu coração já alardeava aquele amor. Sim, e eu via como num sonho o homem loiro segurando o mastro de um navio, seu porte es­guio, fidalgo, e seus olhos de poente. Seria então que ele me chegava?

D. Antônia cortou o fio dos meus devaneios.

— Antes desse italiano, vem para cá um tal de João Griggs, um americano. O Bento avisa isso aqui — apontou o papel timbrado. — Vai construir uns lanchões, para quando o tal italiano chegar.

Caetana foi para o lado da cunhada, querendo ver a carta do mari­do. Ficou ali um bom tempo, como que presa de alguma inquietação. Depois disse:

— Este tal Griggs deve chegar nessa semana ainda, Antônia. E pre­ciso mandar arrumar o galpão, preparar umas camas. Dar um jeito na coisa.

D. Antônia guardou a carta no bolso da saia. A luz da tarde agora incandescia com seus últimos suspiros, e o brilho suave da primeira estrela surgia no céu.

— Vamos a isso, cunhada. E é preciso carnear um boi para logo. A fome de quinze homens não deve ser desprezada.

E foi assim que o suave arrastar dos dias iguais acabou para nós, para o regozijo de minhas irmãs e o meu. Fazia muito tempo que não tínhamos homens em casa. Fazia muito tempo que vozes masculinas não se faziam ouvir na nossa varanda. E agora eram vozes de outras terras, com sotaques misteriosos... E os donos dessas vozes, será que algum deles nos tocaria o coração, ou alegraria um pouco que fosse a modorra dos nossos dias? Éramos moças presas de uma espera, e ago­ra nossa calma e nosso cansaço podiam ser sacudidos como lençóis num varal. (Naquela noite, lembro bem, de ansiedade, não dormi.)

Marco Antônio, que andava brincando por ali e que ouvira as no­vidades, saiu gritando para os fundos da casa:

— Zé Pedra! Zé Pedra! Tem uns soldados chegando para morar aqui! Urra! Zé Pedra, eu também vou ser soldado!

D. Ana sorriu, benevolente. Depois balançou pensativamente a ca­beça de cabelos escuros.

— Acho que teremos dias agitados. E foi assim que tudo começou.

 

Manuela.

O tropeiro entregou o pacote pardo, pesado, para D. Rosa, a go­vernanta. Caetana pagou-o em moedas de ouro, falando um fluente castelhano que o homem respondia com alegria. Era de Cerro Largo, e viera trazer o tecido para o vestido de casamento de Perpé­tua. Renda branca, cetim muito fino, que brilhava num tom perolado. Fitas muito grossas, para os arranjos finais, de pura seda.

D. Rosa, baixinha e atarracada, segurava com orgulho o pacote. Era costureira muito boa, a encarregada de fazer o vestido da menina Perpétua. A noiva tinha desejado uma costureira de Pelotas, mas com a guerra era isso um trabalho mui dificultoso, de modo que ficara de­cidido: D. Rosa faria o modelo ali mesmo, com todo o zelo, para a grande festa de princípios de setembro.

O tropeiro guardou o dinheiro na guaiaca, despediu-se com azáfama e tomou o rumo da porteira. As duas mulheres entraram para a casa. Era uma luminosa manhã de junho.

Caetana chamou:

— Perpétua, chegou o pano do vestido!

Num momento, estavam já as quatro moças na sala. A face triguei­ra de Perpétua tingia-se de um rubro suave.

— Ah, mãe! Deixa eu ver!

Caetana deu um beijo na filha. Do corredor, Maria Manuela apa­receu sorrindo. Um dos raros sorrisos dos últimos tempos. Era bom um casamento, iam ter um pouco de alegria na casa. E tantos prepara­tivos. Ela já mandara buscar tecido para os vestidos das filhas.

— Rosa, vá pegar os moldes — disse Caetana. — Vamos lá para a salinha das costuras.

E as raparigas soltaram risinhos de contentamento.

— Perpétua vai casar! Perpétua vai casar! — passou gritando Marco Antônio no corredor. — E os soldados do papai vêm para a festa!

Maria Manuela foi bordar no sofá. Ela ainda tinha três filhas para ca­sar, e agora estava sem marido. Ainda bem que Manuela já tinha o Joa­quim. Logo que a maldita guerra acabasse, ficavam noivos e casavam sem demora. Era um compromisso a menos. E depois, Antônio, quando vol­tasse, ajudaria a achar bom partido para as outras duas manas. Mas agora Antônio estava nos arredores de Porto Alegre, naquele sítio interminável que os rebeldes impunham à cidade. E Maria Manuela rezava por ele to­dos os dias, apegava-se às suas santas, fazia promessas complicadas, je­juava. Tinha perdido o marido, mas seu filho querido, esse, nem que ela tivesse de queimar todas as velas do Rio Grande, esse voltava para casa são e salvo. Pegou a agulha e recomeçou o trabalho de onde o tinha deixa­do na noite anterior. Era uma toalha de mesa, para o enxoval de Manuela.

 

John Griggs era um americano muito alto, um tanto curvado, de vinte e sete anos, que vivia no Brasil fazia já algum tempo, e que tinha uma doçura nos olhos que encantou D. Ana e lhe venceu as barreiras. Era perito em navios a vapor e um ótimo marinheiro. Foi recebido para um mate na varanda, ao meio-dia de um sábado nublado e frio, e suas mãos de dedos longos seguravam a cuia com prazer, enquanto ouvia D. Ana con­tar das coisas da estância, da vida do campo. Griggs achou D. Ana se­rena e forte, parecida até com o presidente Bento Gonçalves, mas somente quando D. Antônia surgiu, atarefada com os últimos preparativos para receber o americano, foi que ele encontrou a verdadeira semelhança que buscava. D. Antônia tinha o mesmo olhar firme, forte, e a mesma pose ereta, receosa, analítica, do grande general gaúcho. Soube então por que haviam sido mandados para aquela estância. D. Antônia, se preciso fos­se, lavoraria nos barcos como qualquer um dos homens. D. Antônia estendeu a mão para Griggs:

— Seja bem-vindo, senhor João. — Falava o nome dele em bom português. Griggs sorriu seu terno sorriso. — Como meu irmão pediu, já le arranjei quatro carpinteiros de confiança. E também um ferreiro.

Um mulato alto, de braços fortes e boca graúda apareceu, ladeado por Zé Pedra, o faz-tudo de D. Ana. O ferreiro chamava-se Abraão, e era irmão de Zé Pedra.

— O senhor vai nos ser muito necessário, seu Abraão — disse Griggs, e o mulato sorriu, mostrando uma fileira de dentes muito bran­cos. — Há muito o que forjar.

D. Antônia sentou ao lado do americano. Estava tudo arreglado na estância: tinham um galpão para alojamento que ficava ao lado do es­taleiro. A cozinheira da casa les faria a comida, até quando chegassem os outros. E, qualquer coisa, era só mandar um recado.

— Meu capataz tem ordem de atender a todas as necessidades de vosmecê.

— E o Zé Pedra também — avisou D. Ana.

John Griggs sorriu satisfeito. De dentro da casa, abafadas pelos reposteiros, vinham vozes feminis. Griggs sentiu uma pontada de curiosidade animando seu peito, mas depois lembrou que estava ali em missão. E os olhos de D. Antônia, ah, eram iguais aos olhos de Bento Gonçalves. Griggs curvou-se um tanto mais, e aceitou outra cuia de mate, que sorveu com gosto, para espantar o frio.

 

"Cara Manuela,

Faz muito que anseio em le escrever, pois a saudade que sinto de vosmecê tem aumentado a cada dia, mas somente agora, sentado aqui nesta pedra, vendo uma ponta de mar quebrar com estrondo na areia, é que tive coragem suficiente de le dizer dessa falta que me pesa. Sim, faz muito que deixei de le dedicar um afeto de primo. Hoje, penso com cari­nho e amor no nosso futuro casamento, e espero que seja breve esse tempo em que estamos separados, e que vosmecê está na estância com as ou­tras, e eu aqui, neste acampamento de soldados, nesta luta pela liberdade.

Eu ando aqui para as bandas de Torres, onde temos travado algumas batalhas, nas quais, graças a Deus e à Virgem, tenho me saído mui bem e em completa saúde. Afora elas, sucederam uns poucos embates sem im­portância, umas escaramuças passageiras que mais servem para espantar a solidão destes dias do que para fazer garantir nossa República. Mas o inver­no aqui se faz mais úmido, e me aperta o peito. De modo que, ao partir — sairemos de Torres ainda nesta semana —, meu coração há de encontrar um pouco mais de alento, mesmo que não seja no verde dos seus olhos.

É por isso que le escrevo, Manuela. Para que vosmecê responda a esta missiva e me diga que dedica a mim esse mesmo afeto que le dedico, e que sente por este seu primo a mesma saudade que sinto eu de vosmecê. Tenho certeza de que serei mais feliz então, e de que lutarei com mais gana. De­pois, quando esta guerra estiver finda, teremos a nossa vida e a nossa es­tância, e os dias serão doces e ternos para nós. Por agora, é a República, mas peço que vosmecê me espere e que reserve para este seu parente que tanto bem le quer a melhor parte do seu afeto e dos seus pensamentos.

O mar hoje está verde como seus olhos, de um verde escuro e cheio de mistério, Manuela, que as nuvens que pesam do céu só fazem acen­tuar. E eu, aqui, sob um vento frio e úmido que levanta a areia em redor, mando para usted todo o meu afeto.

Por favor, dê lembranças minhas para minha mãe e para as tias,

sempre seu,

 

Joaquim.

Praia de Torres, 12 de julho de 1838"

O dia do casamento de Perpétua amanheceu límpido e fresco. Prin­cipiava setembro. Soprava uma brisa leve que agitava as copas das árvores e espalhava pelos caminhos os primeiros perfumes daquela primavera de 1838.

O padre Viriato, confessor da família, viera de Pelotas para oficiali­zar a união da filha mais velha de Bento Gonçalves da Silva. A Estância da Barra estava em polvorosa naquela manhã: negros acabavam de pen­durar as últimas bandeirolas pelos quintais, Milú e Zefina prendiam ramos de flores silvestres no cercado de madeira branca que contornava o altar, sob o umbu. Pela frente da casa, compridas mesas se enfileiravam, cobertas por toalhas muito alvas, repletas de cadeirinhas de palha que haveriam de acomodar todos os convidados. Dos fundos, já se sentia o cheiro do assado, ouvia-se a barulheira dos peões que ajudavam o assador naquela faina de preparar costelas e picanhas e lombos inteiros. Na co­zinha, meia dúzia de negras acabavam as saladas, punham os doces nas compoteiras de cristal, enquanto D. Rosa decorava, com as mesmas hábeis mãos de cera que haviam confeccionado o vestido da noiva, o grande bolo coberto de merengues, pontilhado de flores açucaradas.

Já chegavam os primeiros convivas, algumas famílias pelotenses que andavam em suas estâncias para fugir da guerra, a vizinhança de charqueadores com suas esposas e filhos, e os homens da República: Antônio Netto, com seu uniforme impecável, os longos bigodes ence­rados, vinha num alazão; Onofre Pires da Silveira Canto, alto, forte como um gigante, avançava por entre as famílias para cumprimentar o primo Bento; o capitão Lucas de Oliveira, que pudera se ausentar das suas reuniões em Piratini, muito garboso, fazendo arrancar velados suspiros das moças solteiras, saltava do seu cavalo, sorrindo, feliz de estar outra vez numa boa festa, com música, comida e mulheres boni­tas. Outros nomes da República não haviam podido comparecer, por­que a guerra ia em frente, e agora — com a vitória em Rio Pardo, com os planos de singrarem as águas interiores —o governo rebelde sentia-se fortalecido, e era preciso manter a guarda.

Perto dali, John Griggs enchia folhas e folhas de papel com desenhos de proas e velas e planos, enquanto se juntava a madeira e se forjava o ferro para tirar do sonho e materializar a esquadra da República Rio-grandense. Era nisso que Bento Gonçalves pensava ao caminhar lenta­mente por entre as pessoas, balançando as franjas das ceroulas a cada passo, o chiripá preso à cintura, as botas negras muito bem lustradas. Destaca­va-se entre a multidão, com seus ares sérios, calmos, seu porte de fidalgo.

Chegou-se para Onofre e Netto.

— Amigos, sejam bem-vindos.

— Está um dia buenacho — disse Onofre. — Dia escolhido a dedo para uma festa. — Apertaram-se as mãos. — E a noiva?

— Está lá para dentro com a mãe — respondeu Bento. — Como todas as noivas, deve estar nervosa. O noivo vai por aí, com os familia­res. Vosmecê o conhece, Onofre. O Inácio de Oliveira Guimarães, proprietário da Estância do Salso, charqueador.

Onofre Pires vasculhou a memória, assentindo. Sim, conhecia o tal. Era homem deles. Bento apertou a mão de Netto. Os olhos azuis do coronel brilhavam sob a aba do chapéu de barbicacho.

— Vamos hoje ter uma boa festa, amigo. Já ouço os primeiros acordes de uma gaita.

Ouvia-se ao longe o princípio de uma chimarrita.

— Estão ajeitando as cosas — disse Bento. —Depois da bênção e do churrasco, vamos ter boa música por aqui. — E perdeu seus olhos por um instante pelas pessoas que circulavam, as mulheres de sombri­nhas, em claros vestidos de festa, os homens de jaleco ou de uniforme, os lenços colorados brilhando nos pescoços. — Pena que nos falte o conde. Ah, o amigo Zambeccari, ainda preso, e tão adoentado. Seria bom que estivesse conosco, neste dia de festança.

— Hay cosas que entristecem uma alma — disse Netto. — Parece que o conde vai ser mesmo deportado para a Itália.

Os três homens fizeram um silêncio pesaroso. Zambeccari faria falta à República.

 

Inácio de Oliveira Guimarães olhou a esposa com uns olhos ardentes e sorriu. O padre ainda erguia as mãos compridas sobre suas cabeças numa última bênção para aquela nova vida. E Perpétua estava linda, no viço dos seus vinte e três anos, os longos cabelos escuros presos no alto da cabeça, ornados de flores, a longa grinalda que lhe caía ao re­dor dos ombros, até o chão, como um halo que deixava penetrar a sua­ve luminosidade da manhã, o colo arfante e trigueiro, escapando suavemente do vestido rendado.

Perpétua fitou o marido com um brilho de fogo nos olhos negros. Os vivas explodiram às suas costas, e ela sentiu a chuva de arroz que lhe picava os ombros, que ia se derramando pelo chão do pequeno altar, e ouviu os primeiros acordes da música. Agora estava casada. Iria embo­ra da Estância da Barra, iria viver no Boqueirão, dormir na mesma cama daquele homem moreno, de olhos misteriosos e sorriso doce, sentir seu cheiro salino, dividir com ele a sua vida. Corou levemente. Viu os olhos do pai, negros, profundos, se derramarem sobre ela, perdidos em pen­samentos invioláveis. Viu as lágrimas que desciam pelo rosto bonito da mãe, viu as tias, com seus vestidos de festa, os sorrisos alegres, o olhar beato do padre, que pensava em quantos filhos eles dariam para o reba­nho do Senhor. E sentiu de tudo isso um arrepio na alma, um gosto bom na boca, uma vontade de ser mulher nos braços fortes daquele homem.

— Vivam os noivos! — gritou Joaquim.

— Urra! Vivam os noivos! — respondeu um eco de vozes misturadas. A música começou a tocar a todo volume. Perpétua sentiu que braços a puxavam e bocas roçavam seu rosto, e que era arrastada em abraços para longe de Inácio, e que todos ali queriam cumprimentá-la. Foi levada pelo pequeno turbilhão humano, de mão com as primas, desejando apenas que não lhe estragassem o arranjo dos cabelos na­quela azáfama toda.

 

As mesas ainda exibiam os restos da grande comilança, enquanto as negras, inquietas feito moscas, tratavam de recolher os pratos com res­tos de carne, as travessas de saladas, de aipim, de arroz, e iam ajeitan­do as compoteiras, os pratos de doce, as terrines de abóbora caramelada, de doce de pêssego. Crianças suadas corriam pelo jardim, pisando os canteiros de flores, numa alegre balbúrdia.

Ao fundo, no pequeno palanque de danças, os primeiros casais já bailavam o caranguejo: os homens em frente às damas, que batiam pal­mas. O gaiteiro mandou o sinal, os pares se juntaram e saíram dançan­do. A festa estava alta, um sol morno dourava os cabelos das moças, brilhava nas compoteiras cheias de doce caramelado, de caldas, de cre­mes. Um cheiro bom, de flores, de comida, de dia alegre, pairava no ar.

D. Antônia, sentada à sua cadeira, na ponta de uma das mesas, tinha os olhos postos num dos casais que bailavam. Estava muito pensativa.

— O que vosmecê tem, irmã? — Maria Manuela, no seu vestido de seda negra, veio juntar-se a ela.

— Não é nada... Estou olhando os jovens. É o que os velhos fa­zem, não é? Olham a vida dos jovens.

Maria Manuela acompanhou o olhar da irmã mais velha e sorriu, prazerosa.

— Eles formam um bonito casal, o Quincas e a Manuela.

— É verdade — respondeu D. Antônia. — Beleza não les falta, realmente.

Mas sua voz tinha um tom estranho, que Maria Manuela resolveu ignorar. Sua cabeça já andava cheia por demais, com tantas coisas a pensar. Ficou ali, olhando a filha e sonhando com aquele casamento.

— Decerto logo se casam — falou, ao léu. E gostou de ouvir aque­las palavras, que lhe soaram como um bom presságio.

Joaquim segurava na cintura de Manuela e tentava fixar seus olhos naquele rosto bonito. Sim, Manuela estava linda no seu vestido azul, os cabelos negros presos em tranças com fitas, as rendas do decote recortando aquela pele tenra, clara. Manuela girava, sentia um frescor no rosto, uma alegria. Mas não ousava fitar Joaquim, cujos olhos — ela sabia — se derramavam de um amor de melaço. E o primo era tão bonito! Tão garboso, alto, elegante, o rosto bem-feito, os olhos vivos, agudos, os olhos mesmos do pai, a boca rosada e graúda. Via os jeitos das moças por entre os leques quando Quincas passava... E ainda era filho do presidente. O que poderia querer mais? E, no entanto, aque­las mãos quentes que lhe seguravam a cintura, que a faziam girar, não lhe provocavam senão um carinho, um carinho de primos.

— Está feliz, Manuela? — Todo o rosto dele resplandecia. Tinha deixado crescer uma barba bem aparada e curta, castanha, que lhe moldava o rosto bonito.

Manuela sorriu.

— Estou feliz. Fazia tanto que não tínhamos uma festa em casa!

E Joaquim quis dizer-lhe que falava de outra felicidade, que falava daquela música, daquele contato que o deixava eletrizado, que falava da­quela proximidade que ele sonhava havia tanto. Mas nada disse. Decerto que a prima tinha lá os seus acanhamentos, as suas pequenas timidezes.

A música findou, vieram as palmas. Mais gente subia para o palan­que. Joaquim viu, a um canto, o pai e a mãe, que se preparavam para a próxima dança. Admirou-lhes o amor. Os cabelos muito negros de Caetana, presos por fivelas de prata, brilhavam ao sol do entardecer. Surgiram então os primeiros acordes de uma meia-cancha. Bentinho foi para o meio da gente, de lenço na mão, e, para iniciar a dança, fez sinal para a prima Mariana, que foi para junto dele. Logo outro par formava-se, e outro e mais outro. Em poucos instantes, Joaquim e Manuela estavam também na roda. O vestido de Manuela girava e girava, espalhando seu azul como uma bênção.

 

Rosário desvencilhou-se como pôde dos assuntos de Tinoco Silva Tavares, filho de um estancieiro da região, que fazia tempo andava alardeando uma certa afeição pela loura sobrinha do general Bento Gonçalves. Disse que ia lá para dentro tomar um pouco de ar, um chá talvez, estava meio tonta.

— É a bebida e a comida — sugeriu Tinoco, sorrindo por entre os bigodes — Dá um disparate na gente.

—Acho que é somente emoção de ver a prima casada — arrema­tou Rosário, com um sorriso falso. E depois, erguendo a barra da saia rendada, saiu em disparada para dentro da casa.

Trilhou os corredores vazios e silenciosos que contrastavam com o buliço da festa lá fora. Sabia que Xica e Zefina estavam com as peque­ninas, no quarto, para que elas fizessem a siesta. Passou por ali com cautela. Iriam estranhar a senhorinha indo rumo ao escritório, no me­lhor das danças.

Rosário entrou na saleta fresca, fechou a porta atrás de si. Sentou na velha poltrona da tia, esperando, como sempre esperava, que seu Steban surgisse das brumas onde se escondia e se materializasse por entre as prateleiras da estante, e que aparecesse em carne e luz como sempre vinha, tão belo e garboso como um príncipe.

Esperou muito tempo. A certa altura, marcando o compasso de uma chimarrita com a ponta do pezinho, pegou-se pensando no elegante ca­pitão Lucas de Oliveira. Vira-o por entre as gentes, alto, moreno, e sen­tira, a um dado momento, que ele lhe lançara um longo olhar. Depois o perdera. Decerto estava dançando com alguma das moças, decerto já tinha par. Uma angústia assolou-a, ferindo sua carne como uma faca: era jovem e gastava seu tempo com um fantasma. Amava-o... Ah, era tão belo e tão garboso e tão real como nunca ninguém lhe parecera antes. Mas será que vivia uma ilusão? Será que estava louca? Vira nos olhos de Mariana, aquela noite em que lhe contara sobre Steban, um brilho de medo. Mariana temia que ela estivesse louca. E quem sabe, quem sabe estivesse mesmo. Eram já três anos naquela estância, purgando aquela guerra, e ela não fora feita para essas esperas. Talvez tivesse contraído alguma doença que lhe roubava a sanidade pouco a pouco...

— Steban! — Quase gritou.

Era urgente que seu amado aparecesse ali, que viesse vê-la, para que ela soubesse estar sã, apenas amando como qualquer outra. Amando um homem que tinha vindo de muito longe para adorá-la — um homem que tinha vindo da própria Morte. Sentiu um arrepio lambendo seu corpo ao pensar na morte. De repente, aquele escritório tão familiar, com seus reposteiros azuis, com sua poltrona de couro, sua mesa, seus livros e candelabros, de repente aquele escritório lhe parecia um sepulcro.

Ergueu-se, pálida.

— Steban, vosmecê não aparece? — A voz era quase um gemido.

Não, ele não viria. Sabia que Bento Gonçalves estava na estância. E sangrava à simples menção do nome do grande general.

Rosário saiu correndo. Já não se importava mais que uma das ne­gras a visse, que notasse seu olhar de pânico, seu rosto pálido, seu medo. Venceu o corredor c ganhou a sala. Vinha da rua a música alegre. O coração batia forte dentro do peito.

Voltou para a festa. Pensava em ir ter com o capitão Lucas, ofertar- lhe um doce, uma bebida. Quem sabe dançassem juntos uma cancha-reta. Saiu abrindo caminho por entre os convivas. Algumas pessoas já se retiravam, subiam nas charretes, desejavam felicidades aos noivos. Rosário procurou por vários lugares. Nada do capitão. Buscou o ta­blado, e seus olhos o viram. Lá estava ele, elegante, dançando com uma moça morena. Rosário notou que sorria, um riso muito branco, e que dizia algo para a dama; e então seus olhos ficaram marejados.

 

Perpétua e o esposo partiram para a Estância do Salso ao anoitecer. As arcas com o enxoval e com as roupas da noiva tinham seguido mais cedo. Ela se despediu da mãe e do pai com os olhos secos, emocionada. Caetana segurou-se em Joaquim, e estava trêmula. Agora a filha mais velha era senhora de si. Logo lhe daria netos, netos que cresce­riam junto com as próprias filhas.

— Ela vai ser feliz, mãe.

— De cierto, Quincas. Lo quiera Dios.

Bento Gonçalves despediu-se de Perpétua, recomendou boa via­gem ao noivo, charleou um pouco, depois foi procurar D. Antônia.

D. Antônia apreciava a cena da varanda. Alguns convivas ainda aproveitavam os restos da festa. Do palanque vinha agora o som de uma milonga meio triste, e o céu já ganhava as primeiras estrelas. Um cheiro vago, de comilança, pairava no ar fresco.

— Amanhã parto mui cedo, Antônia.

— Esta guerra nunca acaba, Bento. Bento Gonçalves sorriu fracamente.

— Hay de findar. Temos paciência e temos coragem, derrubare­mos o Império. — Encostou-se na amurada.

D. Antônia olhou o irmão longamente. Tinha a ousadia de falar-lhe sobre coisas nas quais ninguém mais ousaria tocar. Era seu irmão pequeno, de quem cuidara, a quem dera tantas vezes de comer, com quem brincara na sanga. Tinham dividido risos e lágrimas.

— E usted queria derrubar um império, Bento?

Bento Gonçalves da Silva viu nos olhos de Antônia aquele mesmo brilho que sempre via, todas as manhãs ao fazer a barba, no seu pró­prio rosto. Tocou-lhe a mão magra, onde um anel de esmeralda brilhava.

— Não queria, Antônia. Vosmecê sabe mui bien... Mas as cosas suce­dem, as cosas cambiam, e eu estou no comando desses hombres. — Ca­lou-se por alguns instantes. Depois disse: — É sobre isso que vim falar a vosmecê. O italiano e os outros estão vindo. Em quinze dias chegam aqui.

— Está tudo arreglado. O americano, o Griggs, tem trabalhado dia e noite, Bento. E já le disse, o que é meu é seu. Terra e homens. Está tudo ao dispor da República.

— Só quero a sua fé, irmã. E o estaleiro. Vamos tentar ganhar as águas internas. O Império tem uma frota grande, mas são navios pesa­dos, que não passam na barra destas lagoas. Vamos agir de outro modo. Vosmecê vai ver, o Griggs e o Garibaldi vão nos dar barcos capazes de atravessar qualquer barra. E vamos reverter esse quadro.

D. Antônia ficou pensando nos barcos inimigos, nos soldados, nas batalhas. Seus olhos negros perderam a luminosidade. Bento Gonçal­ves sorriu.

— Vosmecê esteja calma, Antônia. Tudo isso é segredo de Estado. Só nós sabemos que o italiano estará aqui construindo esses barcos. Nós e Deus.

D. Antônia fez o sinal-da-cruz. A milonga cessou quase como um suspiro.

 

D. Ana ficou até muito tarde sentada na sala. Viu Manuela ir dormir, com ares cansados, alheia as graças e cantorias dos primos e aos lon­gos olhares mornos, doces, de Joaquim. Viu Joaquim recolher-se tam­bém, pois a falta da moça tirava todo o resto de alegria daquele serão. Viu quando Caetano e Bento deixaram de lado a viola que dedilhavam sem muito êxito e seguiram para o quarto. Viu D. Antônia tomar a charrete, no meio da noite, mesmo com os insistentes pedidos de Ben­to, e rumar para a Estância do Brejo. Tinha de organizar as coisas. E não havia perigo. Mandara Zé Pedra acompanhar a irmã. Zé Pedra e sua carabina; Zé Pedra, que parecia um monstro de dentes brancos, muito misturado à escuridão da noite, com sua adaga presa à cintura. D. Ana viu Bento Gonçalves tomar Caetana pela mão, e viu os dois perderem seus vultos nas sombras dos corredores. Sabia que teriam uma boa noite, uma longa noite, de comemoração e de despedida.

— Deus esteja com vosmecês — foi o que disse. Naquela madrugada, ao menos, Deus estaria com eles.

E D. Ana viu os olhares de Maria Manuela, quando os esposos ganharam o caminho da alcova. Viu ali, dentro daquelas retinas, as lá­grimas contidas, a saudade apertada do marido que não voltava mais. Não voltava daquela guerra, nem de nenhuma outra.

— Por que vosmecê não vai se deitar? Já passa das onze, e tive­mos um dia longo. Usted está cansada, Maria.

— Já estava cansada antes... Acho que Seguirei cansada pelo res­to da vida.

Sua voz era triste. D. Ana deitou-lhe um olhar duro que disfarçava uma certa pena, uma certa angústia que ambas dividiam. Ambas viú­vas de guerra. D. Ana manteve-se firme. Largou o bordado e, fitando a irmã mais moça dentro dos olhos, falou:

— Vosmecê não devia ficar aí pensando essas besteiras. Tem ain­da três filhas para encaminhar na vida, e tem o Antônio. Eu sei que é duro, mas existem outras alegrias... Logo, uma das suas meninas le dá um neto, pense nisso.

Maria Manuela suspirou.

— Está certa... Não sou a única a sofrer essa dor... — Ergueu-se com delicadeza, quase como num sopro. Tinha emagrecido nos últi­mos tempos. — Vou me deitar... Buenas. Durma com Deus, Ana. — E também ganhou o caminho do seu quarto.

D. Ana restou ainda um bom tempo na sala vazia. Na lareira, crepitava um resto de lenha. Milú apareceu para saber quando a senhora iria deitar-se. D. Ana mandou a negra dormir. Não precisava de nada. En­quanto dava as últimas laçadas no seu desenho, ficou pensando nos filhos. Não tinham vindo, estavam para os lados de Vacaria. Fazia algum tempo que já não os via, a nenhum dos dois. Ficou imaginando se Pedro tinha mudado muito... Quando partira de casa para a guerra, lhe parecia ainda um menino, um menino grande e bom; mas na última vez em que estivera na Estância, o seu Pedrinho já ostentava um brilho agudo nos olhos escu­ros, um brilho de adaga, e uns gestos inquietos, sempre atentos, mui di­versos daquele modo dolente de ser, daquela calma de andar pela casa, sempre rindo, sempre de assuntos com a peonada. E José? Tinha ficado bom do ferimento, graças a Deus. Mas, e como le ia a alma? Será que era ainda o mesmo de antes, tão parecido com o pai, ou será que agora teria aqueles jeitos argutos, aquela fúria contida que ela via nos olhos de Onofre Pires, ou aquela coragem quase cruel que diziam ser típica do coronel Netto? Ou será ainda que em seu íntimo começava a crescer a mesma angústia que percebera no irmão? Sim, Bento Gonçalves estava diferen­te, agora pensava um tanto a mais, agora olhava para trás e talvez se arre­pendesse daquela República, ou talvez não.

D. Ana pestanejava. Guardou o bordado no cesto. As últimas fagulhas morriam sem alarido na lareira de pedra. A casa toda estava mergulhada num silêncio morno e acolhedor. D. Ana foi para o quarto pensando na sobrinha. Agora, Perpétua dividia pela primeira vez a sua cama com um homem. Agora iniciava uma outra vida, cheia de novi­dades e de obrigações.

O candeeiro lançava uma luz inquieta pelo quarto. A cama estava ar­rumada. Pairava ali um cheiro bom de hortelã. D. Ana olhou o colchão frio, a colcha estendida com zelo, os travesseiros intocados, alvos. E Paulo veio então no seu pensamento. O seu Paulo, com quem também dividira, havia muitos anos, uma primeira noite de mistérios e de segredos. O seu Paulo, sempre calmo, paciente, que tinha todas as respostas e que gostava de amontoar os travesseiros, de dormir com a cabeça alta, e que falava no sono. D. Ana sentiu as lágrimas quentes que lhe saltavam dos olhos. Ha­via um resto de Paulo em sua alma, uma parte dele muito diferente dos despojos que agora dormiam sob a figueira. Ela se deitou na cama, enfiou a cabeça entre os travesseiros e desandou a chorar.

No quarto contíguo, Maria Manuela também chorava, um lenço enterrado na boca, tentando segurar os soluços altos que nasciam no fundo do seu peito. Não queria que ouvissem seu pranto. Não queria que ninguém soubesse, nem de longe, o quanto lhe pesava aquela nova solidão. A solidão de não ter mais por quem esperar.

 

Dias depois, todos os homens tinham voltado para a guerra. Bento Gonçalves fora o primeiro a partir. Com ele, seguira Joaquim. Depois, Bentinho também tomou o rumo de Bagé, para se juntar às tropas do general Antônio Netto. Ficavam na Estância apenas os filhos mais moços de Bento Gonçalves. Porém, Caetano, com dezesseis anos, já ansiava em tomar um corcel e ganhar o pampa, rumo às batalhas das quais tanto ouvia falar. Era já homem, forte e era alto, sabia manear um cavalo, sabia usar uma pistola, enfim, queria a revolução. Estava cansado de estar entre as mulheres, entre os bordados, de seguir os peões pelo campo, de cuidar dos cavalos, da charqueada, daquela vida de estância, sempre com o irmão Leão a segui-lo por todos os lados.

— A la fresca, guri — disse-lhe D. Antônia, ao vê-lo resmungan­do que queria ir para a guerra. — Vosmecê ainda é muito novo para essas cosas, Caetano. E tem mais, a guerra é dura, não é brincadeira de meninos.

— Eu não sou mais um menino. Já tenho barba na cara, tia.

— Quando eu vir que vosmecê tem pêlos no peito, aí sim, eu mes­ma le mando para a guerra. Por enquanto, fica aqui e cuida da sua mãe, que já se angustia por três. Faça isso, Caetano, e já usted faz muito.

Caetano amuou-se. Era muito cedo da manhã. Tinham acabado de dar adeus ao Bentinho. Caetano viu os peões saindo para o campo. E viu o céu azul, sem nuvens, grandioso. Resolveu juntar-se aos homens.

— Vou com a peonada — disse. — Nesta estância não sucede coi­sa alguma. É melhor estar com os peões na lida.

D. Antônia olhou o sobrinho sair em disparada. Um dos peões tra­zia um cavalo pela correia. Caetano pulou no lombo do zaino com um movimento exato. O peão lascou alto um elogio. Caetano era bom ca­valeiro. D. Antônia ficou sorrindo.

— As coisas vão aferventar por aqui... —Falava sozinha. A mãe falara sozinha pelos corredores por muitos anos, antes de morrer em silêncio, corajosa, como sempre soubera ser. — Eta!— Arreliou-se consigo mesma.

Manuela apareceu, vinda da cozinha. Os cabelos negros ainda es­tavam úmidos do banho.

— Vosmecê falava com quem, tia?

D. Antônia olhou bem a moça. Estava cada dia mais bonita, brejei­ra. E aqueles olhos verdes, tão misteriosos.

— Falava comigo mesma, minha filha. São manias que herdei.

— E vosmecê falava de quê?

— Da vida. Que muda. Que vai mudar por aqui.

Manuela pareceu curiosa. As retinas de esmeralda brilharam por um instante.

— Muda como, tia?

— Vosmecê espere, que vai ver. Mas não me pergunte o que é... É uma coceira que eu sinto na alma, que está me avisando, menina.

 

Quinze dias mais tarde, Giuseppe Maria Garibaldi chegou à Estância da Barra com duas carretas e seis marinheiros de confiança. Outros homens estavam por vir nos próximos dias, homens de nacionalidades diversas, práticos do mar, conhecedores de segredos que agora muito interessavam aos republicanos, e que iriam completar a pequena tri­pulação dos dois barcos a serem construídos à beira do Camaquã. Mas aquela pequena tropa tão variada, composta pelo italiano Garibaldi — agora tenente-capitão da República Rio-grandense —, por seu braço direito, Luigi Carniglia, que usava um tapa-olho negro a cingir sua face, pelo espanhol Ignácio Bilbao, pelos genoveses Lorenzo e Eduardo Mutru, pelo mulato Rafael, por Jean, o grande francês, e pelo negro Procópio, já era algo a causar espanto naquele povo pampeano: nunca se vira por ali tão variada miscelânea de gentes.

Era uma tarde bonita, de primavera. Passava das três quando o cavalo de Giuseppe Garibaldi adentrou o portão da Estância da Bar­ra, seguido por seus homens, e foi trilhando o caminho que levava à casa branca, baixa, de janelas azuis, esparramada pelo gramado no alto de uma pequena elevação ao longe. Zé Pedra mostrava o caminho, e Regente corria em volta deles, latindo, como se desse boas-vindas aos visitantes. Brilhava no céu azul sem nuvens um sol dourado que fazia bem ao corpo, dava uma morneza doce às carnes, e os pássaros voa­vam pelo céu, os quero-queros cantavam no capão ao longe, e pairava no ar um cheiro bom de flores e de terra bem cuidada.

Garibaldi trazia no bolso da camisa uma carta de apresentação es­crita a punho por Bento Gonçalves. Na estrada, tendo cruzado com Zé Pedra, fora informado de que D. Antônia estava na estância vizi­nha, de propriedade de uma irmã, D. Ana, distante dali uma hora. Seguiram assim para a Estância da Barra, pois era necessário que an­tes palreassem com a senhora D. Antônia, e após a sua permissão é que seguiriam para o pequeno estaleiro onde, a uma hora daquelas, o americano Griggs acabava seus desenhos e planilhas.

Zé Pedra contornou o corpo da casa, enquanto Garibaldi esperava ao pé da varanda. Os outros homens aguardavam a uns trinta metros, silenciosos, deliciando-se com aquela calma de campo e com as bele­zas da tarde mansa.

D. Antônia apareceu logo depois, acompanhada de D. Ana e de Caetana. Garibaldi reconheceu, nos traços da mulher mais velha, mo­rena, a sutil força que antes vira cintilar nas feições do general Bento Gonçalves. D. Antônia apresentou-lhe a irmã e a cunhada. Garibaldi fez uma suave reverência para as duas senhoras.

— Piacere — disse, simplesmente, e sua voz era quente, afável. Não deixou de apreciar a beleza morena de Caetana, nem de retribuir um sorriso doce, inesperado, que D. Ana lhe lançou.

— Vosmecê seja bem-vindo. — D. Antônia dobrou com cuidado a carta que acabara de ler e devolveu-a ao italiano. — Hay, na minha estância, alojamento para todos os seus homens. A Barra dista daqui umas duas horas, margeando as águas, ou pela estradinha que fica aqui atrás do quintal. É lá que vosmecês trabalharão. — Disse isso fitando aqueles olhos castanhos, de um tom de mel, que brilhavam no rosto do italiano bonito, galante. Giuseppe Garibaldi sorria um riso de dentes muito alvos e alinhados, tinha umas madeixas da cor do trigo maduro. As cosas aferventavam, decerto. Era impossível deitar um olhar sobre aquele italiano elegante, garboso, e não pensar nas três moças lá den­tro. Fazia muito que não se tinha homem por perto, além dos familia­res. E havia um brilho naqueles olhos... D. Antônia tinha visto o mar poucas vezes na vida, mas sabia: havia um brilho de coisa marinha naqueles olhos profundos.

Pouco depois, Manuela, Rosário e Mariana apareceram na varan­da. As três moças foram surpreendidas pela visão do italiano de mo­dos fidalgos.

— Estas são Mariana, Rosário e Manuela, filhas de nossa irmã, Maria Manuela, que agora está lá para dentro, descansando — indicou D. Ana. O italiano beijou suavemente as três mãos de pele alva e fina, demorando-se um instante a mais na última, de longos dedos. D. Ana viu Manuela corar ligeiramente. — Aqui também estão os meninos, filhos de Caetana e de Bento, mas estes andam lá para a charqueada. E temos também as meninas pequetitas e umas poucas negras. — Gari­baldi sorriu. Havia um calor morno em seu peito, uma coisa nova e viva, e era como se visse terra depois de muitos meses no mar. — Usted, esta noite, está convidado a jantar conosco, senhor Garibaldi — prossegiu D. Ana — Mandarei que preparem os pratos da terra, para que o senhor os aprecie. Não sei se já provou de uma boa pessegada.

Garibaldi agradeceu a gentileza! A comida do continente era mui­to apetitosa, e ele estava decerto inclinado a gostar muito desse doce campeiro, a pessegada. Porém, precisava seguir: tinha ainda que aco­modar os homens, e tantas coisas a acertar com o John Griggs.

— Signore, até a noite — disse ele, por fim, e curvou-se com ele­gância.

Nenhuma delas tinha visto ainda aqueles modos corteses. Um sus­piro contido correu pela varanda. Zé Pedra montou o cavalo, disposto a levar o italiano e sua gente até o estaleiro. As cinco mulheres ficaram na varanda, observando a partida da pequena tropa.

— Es um hombre mui diferente dos otros — sussurrou Caetana, quando o italiano partiu.

— Isso pode ser bom ou ruim — respondeu D. Antônia.

 

O jantar foi alegre e prazeroso. Dos candelabros de prata, vinha uma luz inquieta que levantava sombras nas paredes, e que desenhava os rostos das seis mulheres, de Caetano, e de Giuseppe Garibaldi, senta­do no lugar de honra da mesa, reservado às visitas. As moças haviam posto seus vestidos mais belos, bebia-se vinho — que o italiano recu­sou, por só tomar água (D. Antônia, interiormente, alegrou-se daque­le zelo inesperado).

Falaram sobre muitas coisas. Caetana narrou o casamento da filha mais moça, havia poucos dias, contou das danças, da cantoria. Garibaldi mostrou-se muito curioso de um baile naquelas paragens, confidenciando que era pouco afeito a valsas, pois não tinha os jeitos para "ballare".

— Ma credo io que una delle signorine poderá me ensinar. — Sua voz era morna, espalhava-se pela sala ampla como um sopro.

— Nossa família gosta de bailantas. O general Bento é conhecido como um dos melhores dançarinos do continente, senhor Garibaldi — completou D. Ana, sorrindo. — As moças todas aqui dançam mui bien. Fruta boa não cai longe do pé, já dizia minha mãe.

E mais uma vez, como um pássaro que foge de uma gaiola, o olhar do italiano pousou por um instante no perfil de Manuela de Paula Ferreira, e seu peito se aqueceu como envolvido por um manto.

Depois da sobremesa, Garibaldi encantou as senhoras com histó­rias de além-mar, das terras italianas e francesas, e com aventuras de guerra. Era um homem cheio de sonhos. Lutava pela liberdade. Tinha fugido da Europa, onde agora sua cabeça andava a prêmio. Falava com os olhos perdidos, talvez pensando na sua terra, nas coisas que haviam ficado para trás.

— Vosmecê não sente saudade? — perguntou D. Ana. — Não se arrepende dessa distância que agora le é intransponível?

Garibaldi sorriu. Havia um brilho de fogo nos seus olhos.

— Se vive e se morre por un sogno, signora D. Ana. Io escolhi Ia liberdade. La liberdade me levou para longe delia mia Itália... Io esco­lhi questo sogno. E por ele, posso viver e morrer, signora D. Ana.

Caetano tudo ouvia, e desejou por alguns instantes ser um aventu­reiro de coragem como aquele italiano que ali estava.

Giuseppe Garibaldi contou do seu amor pelo mar, das viagens in­termináveis, das noites de lua sobre o oceano de calmaria.

— Eu nunca vi o mar — disse Manuela, a certa altura, pousando no colo o bordado esquecido.

Garibaldi sorriu. Havia alguma coisa naquele olhar que lhe deu que fez Manuela perceber: enfim, via o homem com quem tantas noites sonhara havia anos, e era ele mesmo, aquele italiano de olhos de mel, que agora lhe dizia com voz quente, no seu sotaque de acento estra­nho e encantador:

— O mar é como um berço para a alma de uma persona, signorina... As mulheres da sala se puseram a pensar no mar, nos mistérios das suas ondas, em praias remotas que decerto nunca veriam. E Manuela recordou a distante noite em que ele lhe surgira pela primeira vez, entre as névoas da sua intuição, os cabelos ao vento, no convés de algum navio, e soube que decerto ele já rumava para ela, e que aquela guerra toda, tudo aquilo, era apenas para que ambos se encontrassem e vives­sem o que lhes estava destinado. E, nesse momento, segurando o bor­dado com mãos trêmulas, Manuela descobriu-se a mais feliz das criaturas.

Depois, D. Ana serviu os licores, e já passava da meia-noite quan­do Garibaldi montou seu cavalo e tomou os rumos do estaleiro.

 

Cadernos de Manuela

Pelotas, 4 de setembro de 1880.

Não dormi naquela noite, mas gastei-a lentamente, como quem chu­pa os gomos de uma laranja, sorvendo seu sumo com prazer e com cui­dado. Porque não queria que a noite passasse, nem que o sol rompesse a barra da madrugada, onde a paz do mundo me aproximava ainda mais da grande verdade: eu encontrara o amor.

Decerto, assim o soube desde o primeiro instante, e esse amor não me veio como chuva, mas era um manancial, era um oceano tão igual ao que Giuseppe nos narrara, que soube ser verdadeiro e eterno — até hoje ainda o amo com a mesma faina, mesmo gasto o tempo, mes­mo passadas tantas coisas, mesmo que esse oceano já se tenha evapo­rado e dele só me reste o seu sal e alguns escombros de sonhos, como fósseis mui antigos que eu acarinho com cuidado para que não virem pó.

Giuseppe Garibaldi. Giuseppe... Repeti aquele nome muitas vezes, baixinho, enquanto Mariana ressonava ao meu lado, e aquela palavra era tão linda, e cada letra que nela se incrustava era tão perfeita, que chorei repisando seu nome... De terras tão longínquas ele me vinha, e tão galante, garboso nos seus modos, nos seus sorrisos, nos seus jeitos de tratar com uma mulher... Tinha ele então vinte e seis anos, e era tão homem, tão digno, tão corajoso. Ah, o que os seus olhos já tinham vis­to 1 Que terras, que mistérios, que tesouros e perigos contemplara. E, no entanto, guardavam ainda aqueles olhos para mim o seu brilho e a sua luz de sol poente... Sim, pois foi sob seu olhar que me descobri mulher. E eu era então como a concha que descobre em si mesma uma pérola.

No dia seguinte, estive quieta a bordar por muitas horas. A casa estava mergulhada numa alegre agitação que a proximidade dos ho­mens impingira. D. Ana resolvera ir até a cozinha ela mesma preparar goiabada para Garibaldi. Tinha gostado muito dele. E Mariana e Ro­sário, que tanto proseavam: era o italiano um príncipe!, e ainda havia os outros, de tão longe, espanhóis e franceses, que decerto um deles ao menos seria belo... Assim ansiavam elas, e a guerra até lhes sabia mais doce então. As tias tricotavam, em conversas; somente minha mãe permanecia no seu silêncio triste, ora e outra quebrado por uma pala­vra, não mais. E eu, eu ia tão feliz... Dona de uma certeza: Giuseppe Garibaldi tinha me amado como eu o amara. E construir barcos, ah, construí-los era tarefa demorada. Pensando assim, me esquecia das guerras e dos planos de Bento Gonçalves: ganhar as águas internas e ir em busca de um porto republicano. Mas o que era uma república para mim, naquele tempo, uma moça de dezoito anos, com o coração transbordante do mais puro amor? Que todos os contratempos se su­cedessem! Que se forjasse o ferro por mil anos e que a madeira esti­vesse sempre verde. Assim, Giuseppe ficaria entre nós ainda muito tempo, e me diria de seu amor... E então, um dia, quando fosse a hora, partiríamos juntos para qualquer outro lugar, para a felicidade. Ah, de Joaquim não havia na minha alma a mais remota lembrança...

 

Os dias foram passando, naquela primavera de 1838. Sabíamos, pelo que nos contava D. Antônia, que o estaleiro às margens do Camaquã tomara-se da mais febril das agitações. Garibaldi e John Griggs pas­savam muito tempo debruçados sobre planilhas, sobre desenhos onde o esqueleto dos barcos se destacava em tinta negra; dia e noite se viam os homens a trazer a madeira recolhida nas matas ali de perto, e era sempre a forja com seu calor infernal, onde o irmão de Zé Pedra derretia-se em trabalhos para dar vida a eixos e roldanas, parafusos e outras misteriosas coisas que ergueriam o corpo dos sonhados barcos repu­blicanos. Barcos que, se esperava, mudariam o rumo daquela guerra.

Carpinteiros e marinheiros trabalhavam feito formigas, dias e noi­tes. D. Antônia mandava para o estaleiro certa quantidade de pães e de doces, quase diariamente, para regozijo dos homens, que tinham lá consigo um cozinheiro para as suas merendas. Especialmente para Giuseppe, D. Antônia mandava bolo de milho, iguaria que ele muito apreciara — e assim foi que soube que meu adorado andava já con­quistando o duro e reservado coração de minha tia.

Apesar de toda a faina, em certas tardinhas de céu avermelhado, quando soprava pelo pampa aquela brisa cheirando a flores de pri­mavera, na hora final dos seus trabalhos, Garibaldi vinha ver-nos e contar das novidades. Ah, como eu aguardava então essas surpresas, sempre com o coração pendurado por um fio, sempre ansiosa, zelosa de qualquer ruído novo, de qualquer palavra quente que me delatas­se o som ditoso da sua voz... Foram esses serões que, freqüentemente escorregando até as horas de se jantar, nos aproximaram. Ficávamos longo tempo proseando sobre coisas, sobre a vida, o pampa, a guer­ra, o mar e o mundo inteiro. D. Ana, zelosa de mim, vez por outra vinha estar conosco, rir conosco, deliciar-se nas histórias daquele homem italiano que sempre sabia nos encantar. Caetana também muitas vezes ficava na varanda ouvindo Giuseppe contar aventuras. Minha mãe acabrunhava-se. Certa vez, numa noite, chamou-me ao seu quarto.

— Vosmecê tem compromisso, minha filha — foi o que me disse. — Joaquim é como se fosse seu noivo. Vosmecês hão de casar breve­mente, seu pai deixou tudo acertado com seu tio, não esqueça... Ade­mais, esse italiano, por mais que bons sorrisos tenha, não foi feito para usted. É um homem sem casa, sem pouso. Um pássaro. Sabe-se lá de onde vem e para onde vai. É um aventureiro.

— Esteja calma, senhora minha mãe. Apenas somos amigos, e é só. Hay que se gastar o tempo com alguma coisa por aqui.

Menti-lhe. Sim, escorregou de meus lábios aquela mentira sem que eu me apercebesse. Mas dizer o quê àqueles olhos escuros, agora sem­pre lacrimosos? Dizer que eu amava e que tal amor era incontrolável? Dizer que de repente o pampa, o céu sob minha cabeça, o Rio Grande inteiro ficavam pequenos para acalentar tamanha paixão? Joaquim estava longe, na guerra. E eu estava ali, presa ao magnetismo de Giuseppe... Sim, menti. Talvez, à próxima confissão, tivesse de pagar esse pecado, mas qualquer preço era justo por aquele amor.

— Fique atenta, Manuela. As pessoas falam. — Minha mãe fita­va-me com olhos tristes.

— As pessoas estão na guerra, mãe. Assim encerrou-se nossa pequena entrevista.

No dia seguinte, como que atraído pelos apelos de minha alma, Giuseppe veio ver-nos. Era cedo ainda, e saímos pelos campos caval­gando. Mariana ia conosco, mais atrás. Seguimos até a sanga. Era uma tardinha fresca, de final de outubro, e umas poucas nuvens finas se esparramavam sobre nossas cabeças como um imenso mosaico. Ma­riana foi colher umas flores. E então Giuseppe aproximou-se de mim.

— Manuela... — A voz dele. A voz dele era como a brisa sopran­do no arvoredo. — Manuela, preciso dizer una cosa... Um segredo delia mia alma...

Estávamos à beira da sanga, e a água corria com seu murmúrio de passarinhos. Os cavalos matavam a sede placidamente.

— Vosmecê me diga, por favor.

Ele derramou o mais quente olhar sobre minha face.

— Estou enamorado, Manuela. Enamorado delia signorina... Des­de a primeira vez, desde a chegada, que il mio pensamento pertence a signorina... Hay una floresta dentro dos vossos olhos, Manuela. E io sono perdido in questa floresta.

Segurou a minha mão entre as suas, tão fortes e amorenadas pelo sol. Foi como se meu corpo partisse em mil bocaditos, como se explo­disse, como se rebentasse tal e qual uma nuvem rebenta na hora das chuvas... Deixei minha mão entre as suas por um longo momento, como um pássaro aconchegado em seu ninho. E só quando vi que Mariana retornava com a cesta repleta de flores, foi que retirei daquela morneza a minha mão, e que lhe disse:

— Também eu só penso em vosmecê, senhor Garibaldi. Eu não conheço o mar, senhor Garibaldi, mas acho que um pouco dele está nos vossos olhos.

Retornamos em silêncio para a casa, onde nos esperavam com o jantar. Mariana falava banalidades e dizia graças, e Giuseppe lhe de­volvia alguns sorrisos, mas seus olhares estavam presos em mim como pedras preciosas incrustadas num colar. E aquele foi, então, um dos momentos perfeitos da minha vida.

 

Manuela.

Perpétua descobriu que tinha um filho dentro de si ao despertar certa manhã, apenas porque lhe ficara um gosto estranho na boca, e na alma uns restos de sonho onde via uma menina mui pequetita cor­rendo entre as alamedas da fazenda do Boqueirão com um vestido de rendados cor-de-rosa.

Inácio estava na charqueada. Ao voltar, pela metade do dia, encon­trou a esposa sentada à sala, tricotando. Como sempre, ao vê-la, seus olhos se iluminaram de alegria. O casamento fizera-lhe bem. Estava mais corada, com uns ares de comando, alguma coisa de semelhante à beleza derradeira da mãe misturava-se a uma calma que lhe vinha dos Gonçalves da Silva. Perpétua ergueu os olhos e sorriu para o marido. Deixou de lado os bordados e falou:

— Tenho uma coisa a le dizer, Inácio. Ele sentou e tomou-lhe a mão.

— É coisa boa ou ruim?

Perpétua acarinhou o rosto escanhoado do marido. Entre tantos ho­mens de longas barbas, a face limpa de Inácio lhe parecia muito desejável. Gostava de seu contato macio, e daqueles beijos quentes. Abriu um sorriso.

— É coisa boa. — Esperou alguns segundos, saboreando a notí­cia: — Vou ter um filho.

Inácio de Oliveira Guimarães resplandeceu:

— Vosmecê tem certeza, Perpétua? Certeza mesmo? Não me dê o céu por engano, hein?

— Oh, tenho certeza. É tão certo como esta terra sob nossos pés. Eu já tinha minhas intuições, entonces a negra Quirina fez uma sim­patia infalível, que agora confirmou tudo. Pelo meio do inverno que vem, teremos um filho.

Naquele almoço, Inácio bebeu vinho e brindou. Sempre quisera filhos, mas a saúde frágil da pobre Teresa nunca lhe permitira realizar esse sonho. Achou, então, Perpétua mais bonita do que nunca, e via já um viço novo nos seus olhos escuros, na sua pele espanholada, no leve balancear das suas longas pestanas.

Despertou da sesta com a chegada de um mensageiro. Era urgente que fosse até Piratini, onde o ministro Domingos José de Almeida o aguardava para uma secreta reunião. Deu a notícia à esposa.

— Bueno. Arrume suas coisas, Perpétua. Fico uns dois meses fora. Hay muito o que fazer neste Rio Grande ainda... E vosmecê não vai restar aqui no Boqueirão, grávida e solita. Amanhã bem cedo vamos até a Barra. Deixo vosmecê lá com sua mãe.

 

Chegaram à Estância da Barra ao entardecer do dia seguinte. Cho­via mansamente, a água se esparramando pelo chão em pequenas poças.

Caetana Joana Francisca Garcia Gonçalves da Silva estava em seu quarto, ensinando uma reza à pequenina Ana Joaquina, quando Milú veio lhe avisar da chegada da filha mais velha. Caetana correu à va­randa, um sorriso no rosto. Mal pôs olhos na moça, que vinha de braço dado com o esposo (já vestido com o uniforme republicano), pegou-se a dizer:

— Vosmecê está diferente, niña. — Perpétua corou bruscamente. E Caetana soube então: —Está esperando um filho, Perpétua Justa! É por isso que veio sem avisar, nem um bilhete mandou!

O sorriso tímido da filha confirmou-lhe o presságio. E a boa nova se espalhou pelas salas da casa, causando um alegre alarido. Perpétua estava esperando seu primeiro rebento! Logo teriam outra vez o chorinho manso de um bebê a trilhar os corredores, logo o varal se encheria novamente de fraldas!

 

(Após o jantar, quando o marido já tinha partido em viagem e as pa­rentas se tinham recolhido para o sono, Perpétua arrastou-se com Manuela até a varanda da casa, e lá, sob as estrelas, ouviu a história do italiano Giuseppe Garibaldi.)

 

O estaleiro republicano ficava nas margens do Rio Camaquã. Rio que desembocava suas águas, através de várias barras, na Lagoa dos Patos. As barras eram rasas, quase impossíveis de serem vencidas por barcos de grande calão, que ficariam encalhados naquelas areias. Mas não para os barcos que Griggs e Garibaldi estavam construindo. Os lanchões Seival e Farroupilha poderiam atravessar facilmente as barras, navegar pelas águas da Lagoa e voltar ao estaleiro sem que nada atrapalhasse tal empreitada. Eram barcos pequenos e leves, que facilmente se meteriam entre os juncais que cobriam as margens da Lagoa dos Patos, e ali desa­pareceriam dos olhos do mundo, rumo à segurança da Estância do Brejo.

Esse era o plano. Realizar incursões na Lagoa, atacar barcos impe­riais, atacar as estâncias dos caramurus que ficavam nas margens — dominar, enfim, as águas interiores, senão pela força, pela inteligência e prática. A República Rio-grandense precisava desse fôlego. Era para isso que Giuseppe Garibaldi treinava seus marinheiros.

Nos últimos dias de 1838, o Seival, de doze toneladas, e o Farroupi­lha, de dezessete, ficaram prontos. Garibaldi comandava o Farroupilha, e John Griggs, o Seival. A poucas léguas dali, as águas da grande Lagoa esperavam. Para comemorar o feito, D. Antônia mandou que se carneassem dois bois, e houve churrasco para os marinheiros. Era o começo de uma grande vitória, todos tinham certeza. Garibaldi escre­veu longa carta ao general Bento Gonçalves, e depois do churrasco, enquanto os homens bebiam vinho e canha, achou um jeito de montar no cavalo e ir prosear com Manuela. Levava no rosto bonito um sorriso de satisfação pela tarefa cumprida. Já tinha os seus barcos.

 

1839

No início de 1839, os lanchões farroupilhas entraram nas águas da lagoa pela primeira vez. Abrindo caminho entre os juncais, surgiam eles, como por encanto, a singrar aquele mar de água doce. Giuseppe, à proa, comandava seus marinheiros. Estavam treinados para tudo. Se havia um baixio pela frente, Giuseppe enchia o peito de ar e gritava:

— À água, patos!

Os marinheiros seguravam o barco na altura dos ombros e o leva­vam para o outro lado dos baixios. Griggs e os seus homens faziam o mesmo com o Seival.

Naquelas primeiras incursões, navegaram nove dias em busca de uma preia, mas as águas estavam desertas. Só quando a repetição da­queles passeios tranqüilos começava a cansar a tripulação, foi que se depararam, numa tarde quente daquele verão, com duas sumacas. Navegavam elas em direção a Porto Alegre, e tinham hasteada a ban­deira do Império. Sob o sol dourado que tingia as águas da Lagoa dos Patos, o Farroupilha e o Seival se aproximaram. Garibaldi ordenou que Ignácio Bilbao disparasse o canhão.

— Fogo!

Com apenas um tiro, o comandante da sumaca Mineira se entre­gou. Os tripulantes ainda tentaram fugir num barco, mas foram cap­turados pelos homens de Griggs numa das margens do Camaquã, perto dali. A outra embarcação, o patacho Novo Acordo, conseguiu fugir, levando para o Rio Grande a notícia de que havia corsários farroupilhas nas águas da Lagoa dos Patos.

O butim foi cuidadosamente aproveitado. Cordas, velas e equipa­mentos foram levados para o estaleiro para serem usados na fabrica­ção de outros lanchões. O restante da carga, quinhentas barricas de farinha que estavam sendo transportadas para Porto Alegre, Garibaldi mandou entregar ao governo em Piratini.

D. Antônia ouviu enlevada a narrativa do ataque às duas sumacas imperiais. Sim, os planos do irmão estavam certos: aqueles marinhei­ros iriam ajudar a República a consolidar a sua posição. E ela, da sua estância, assistia a tudo com privilégios de dona. Garibaldi contava a história trocando palavras, misturando português, italiano e espanhol. D. Antônia, no entanto, não precisava se esforçar para compreender aquele homem de olhos límpidos: havia sempre uma sinceridade na­quelas retinas, uma coisa viva e cheia de força que a encantava, e que o tornava compreensível e amorável. Enquanto Giuseppe Garibaldi sorvia o mate que um negrinho lhe tinha alcançado, D. Antônia não pôde deixar de pensar em Manuela. Sim, a sobrinha estava enamora­da do marinheiro italiano. Bueno, era fácil apaixonar-se por um ho­mem como aquele, D. Antônia sabia. Imaginou um coração de dezoito anos, cheio de vida, palpitando de ardores pelo corsário.

— Io mandei il uomo, o capitão da sumaca, um tal de Antônio. Bastos, para Piratini. Cosa a signora pensa disso? Mandei il uomo junto com as farinhas! — e pôs-se a rir com muito gosto, mostrando os den­tes alvos. — Junto com as farinhas!

D. Antônia também riu, divertida. Mas pensava em Manuela. E pensava em Joaquim.

 

O ataque às duas sumacas causou furor entre os imperiais e alquebrou a influência do almirante Greenfell junto ao governo. Como resposta ao ataque, o Império enviou quatro navios de guerra à Lagoa dos Pa­tos. E as embarcações imperiais navegavam naquelas águas, como gran­des fantasmas, esperando pelos corsários que nunca apareciam.

Giuseppe Garibaldi divertia-se. Deslizava com seu barco entre os juncais e atacava as estâncias dos caramurus. Levavam cavalos à bor­do, e eram já tão bons ginetes quanto marinheiros. Quando voltava das incursões à Lagoa, Garibaldi ia visitar sua Manuela e lhe contava as peripécias do dia. Levava sempre em seu barco os cavalos, em nú­mero de sete.

— Io acredito na buona fortuna. E sete é um número de fortuna. Manuela adorava ouvir Garibaldi por muitas horas, e, às vezes,

quando D. Ana ia até a cozinha tratar com as negras de algum assun­to, ou quando uma das outras tias se descuidava dos dois, deixava es­corregar sua mãozinha para os dedos de Giuseppe, e ali ficavam ambos, dividindo o mesmo calor e o mesmo arrepio. E Giuseppe dizia:

— Vou falar com vostro tio, Manuela. Io sono enamorado. Vou pedir ao general Bento Gonçalves que consinta no nosso casamento.

Manuela então baixava os olhos, não de vergonha, mas apenas porque aquele amor era tanto, e tão forte, que ela tinha medo que lhe escapasse feito lágrima. E logo, então, D. Ana voltava dos seus assun­tos domésticos, e Garibaldi enveredava outra vez a contar alguma his­tória da sua Itália.

Assim ia a vida, nos princípios daquele ano. E a doçura da proxi­midade de Giuseppe Garibaldi fazia com que Manuela esquecesse que uma guerra sangrenta sucedia lá fora. Para ela, era apenas o amor. De tudo, temia tão-somente que um dos barcos de guerra imperial pudes­se atacar o Farroupilha e ferir seu adorado Garibaldi. Mas, para isso, todos os dias acendia uma vela sobre o oratório da Virgem e rezava.

— Essa menina está cheia de fé — dizia D. Ana, entre sorrisos, quando via a sobrinha persignada sobre a imagem da santa.

— Está é cheia de outra cosa — respondia Caetana, que percebia nitidamente o amor nos olhos verdes da sobrinha. Mas como uma mulher não perceberia aquele amor? — Es bien el tiempo do meu fi­lho voltar para a casa.

— Esteja calma, Caetana. Esse amor não tem futuro. Garibaldi logo partirá, não foi feito para o pouso. Quando a guerra acabar, e se Deus Nosso Senhor quiser ela acaba logo, Giuseppe Garibaldi partirá... E irá sozinho. Não é homem de amarras, ouça o que le digo.

Mas a guerra estendia-se por sobre o tempo como uma colcha an­tiga. Garibaldi continuava com as sortidas na Lagoa dos Patos, fugin­do sempre pelos juncais, que os grandes barcos inimigos não podiam transpor. Os "patos" de Garibaldi eram ágeis e sempre conseguiam escapar, levando as duas sumacas nos braços. Bento Gonçalves rece­bia longas cartas, nas quais o italiano narrava os acontecimentos, e estava mui contente com o rumo das coisas. As águas internas do Rio Grande agora não eram de domínio exclusivo dos imperiais.

O Império estava assustado e tomava providências. Greenfell caí­ra, e fora nomeado um novo comandante para as operações navais. Frederico Mariah não acreditou quando lhe contaram que corsários farroupilhas assombravam as águas da Lagoa.

 

Mariana já o tinha visto de longe algumas vezes, e em todas sentira o mesmo formigamento pelo corpo, a mesma angústia que agora a impe­lia a seguir em frente, mesmo sabendo que a mãe e as tias desaprovariam a sua curiosidade. O estaleiro não era lugar para mulheres, era o que D. Antônia não cansava de repetir.

Atiçou o cavalo, ia pela estradinha, apreciando o dia lindo que fa­zia. A manhã ainda estava fresca, mas, para a tarde, decerto o calor amolaria a todos. Fazia um verão dos brabos. O trote suave do cavalo acalmou-a um pouco: diria à mãe que fora passear, ver E). Antônia, que não aparecia na Barra havia dias, pedir uma receita. Afinal, tinha o direito de dar um passeio. E não iria se aventurar pelo estaleiro, pas­saria perto. Se tivesse sorte, iria vê-lo.

Sabia que se chamava Ignácio Bilbao. Não simplesmente Inácio, como os do Rio Grande, mas Ignácio, com aquele suave toque, aquele jeito es­tranho de se dizer. Ignácio Bilbao. Espanhol. Todas essas coisas, quem as contara fora Manuela. A irmã tinha muitos assuntos com Garibaldi... Andavam sempre os dois pelos cantos, em segredos amorosos que Mariana ajudava a disfarçar. Em agradecimento aos seus ajutórios, Manuela andara averiguando coisas sobre o homem moreno, de pele alva, de cabelos escuros como o breu, alto, muito alto, que por vezes acompanhava Garibaldi quando ele ia buscar alguma encomenda na estância de D. Ana. Sabia que o espanhol tinha vinte e oito anos, e que navegava o mundo havia seis. Imaginou suas mãos fortes da lida com o velame... Teria ele cheiro de mar, como Manuela dizia de seu Giuseppe?

Seguiu o caminhozinho de pedras que levava à casa de D. Antônia por alguns metros, depois quebrou à direita, para os lados do estalei­ro. Quando já ouvia o ruído do metal sendo trabalhado, e as vozes dos homens em plena faina, desmontou do zaino, amarrando-o no tronco de uma árvore. A manhã já ia alta. Se ficasse um pouco por ali, como havia calculado, poderia almoçar com D. Antônia.

Desceu o caminho estreito, coberto de folhas, que levava ao Cama­quã. O cheiro doce de água inundou-lhe as narinas. Ela viu, alguns metros adiante, os dois barcos ancorados numa espécie de cais, viu que uma dezena de homens se empenhava em fazer consertos no casco do barco maior, o Farroupilha. E reconheceu, dentre eles, metido na água até os joelhos, as calças arregaçadas, Ignácio Bilbao. Sentiu, como sempre, que o coração se agitava dentro do seu peito, e esperou. Os homens traba­lhavam com gosto, sob o comando de Garibaldi. De longe, vinha a alga­ravia de vozes e de línguas estranhas. Mariana saboreou o burburinho como se fosse uma música. Sentada num pedaço de tronco, ficou olhan­do o trabalho dos marinheiros, tímida, assustada como uma criança que comete falta grave. Mas não tinha coragem de partir. Afinal, fora até ali. E nunca antes vira um barco tão grande como o Farroupilha.

Demorou pouco para que fosse notada. Um suave murmúrio percorreu os homens, mas todos prosseguiram o trabalho. Apenas Garibaldi, sorrin­do, pulou fora do convés e saiu em direção a Mariana. Iria cumprimentar a senhorinha. Atrás dele, os olhos faiscantes de ânsia, vinha Ignácio Bilbao.

— Por estas bandas, signorina Mariana? — A voz de Garibaldi era alegre. Ele estava ensopado até a cintura, porém mesmo assim fez um gesto galante, depois sorriu. —Vosmecê seja bem-vinda. O que acha da nossa pequena frota?

— Impressionante — respondeu a moça, sentindo os olhos do es­panhol fitos no seu rosto.

— Mas não conte o que viu a nessuno imperial, certo? — sorriu Garibaldi.

— Pode deixar, senhor Garibaldi. Vim estar com a tia Antônia para o almoço e tive curiosidade com os barcos.

— E gostou do que viu?— intrometeu-se Ignácio Bilbao. Tinha oblíquos olhos negros.

Mariana corou levemente.

— Vosmecê saiba que gostei muito do que vi.

Fez-se um pequeno silêncio que Garibaldi soube muito bem apreciar.

— Signorina Mariana, vou cuidar dos meus barcos. Esteja à von­tade para ficar o tempo que vosmecê desejar. E mande meus afetos à vossa irmã, per favore.

Garibaldi afastou-se pela beira do rio, chutando os juncos, outra vez dando ordens aos homens. Já falava a língua da terra como se ti­vesse vivido ali muito tempo.

O sol incidia pelas copas do arvoredo, fazendo mosaicos no chão úmido de folhagens. Ignácio Bilbao fez menção de seguir o chefe. An­tes, porém, virou-se, fitou o rosto bonito da moça morena, de pele sua­ve, e sussurrou:

— Vou apreciar que a señorita venha mais vezes ver os barcos da República — e afastou-se lentamente, deixando Mariana queimar em seu próprio ardor.

 

"Querido irmão,

Escrevo a vosmecê porque tenho muitas coisas a le informar, cosas da guerra e cosas da família. Vosmecê sabe mui bien que, desde que o esta­leiro ganhou utilidade para a República, os dias aqui na estância se tornaram agitados e cheios de novidades. Não que isso me incomode, pois é bom que cosas novas sucedam para aplacar essa minha velhice, e sempre me sinto mui honrada de estar ajudando vosmecê e todos os rio-grandenses."

D. Antônia leu as linhas que traçara na folha branca, depois mo­lhou a pena no tinteiro. Tinha muito o que contar a Bento. Precisava avisá-lo sobre certas coisas que andavam sucedendo por ali, coisas sutis, mui distantes da guerra, das canhoadas, das batalhas. Não que des­gostasse do italiano, pelo contrário, tinha afeto pelo homem, mas ape­nas porque era seu dever de tia, seu dever de irmã, avisar Bento Gonçalves de que Manuela estava apaixonada — e mais do que isso — e pretendia ficar noiva de Giuseppe.

 

"Seus soldados têm feito muitas capturas por estas águas, como vosmecê decerto sabe e se alegra, e le digo que são homens mui valoro­sos e dedicados à República, e que não passa um dia sem que eu me orgu­lhe dos seus feitos. Ademais, não causam incômodo nenhum à estância nem a mim, são gentis e educados, sendo o mais prestativo de todos o italiano Giuseppe Garibaldi.

Sim, Garibaldi é um homem mui honrado e de boa companhia, tanto que visita a estância de Ana muito seguidamente, e é deveras benquisto por todos da casa. Porém, como vosmecê deve imaginar, Giuseppe Garibaldi tem sido benquisto demais por uma de nossas moças, e me senti no dever de alertá-lo para este fato. Sim, meu irmão, Manuela está mui apaixonada pelo marinheiro italiano, no que é plenamente correspondida por ele, que sempre a tratou com toda a elegância e honradez, e que tem por ela de­sejos de casamento. Porque sei que vosmecê tem já planos para Manuela e Joaquim, é que le escrevo. E também porque imagino nesse italiano um sangue mui afeito a aventuras, e não sei se seria um bom marido para Manuela. Não fosse isso, eu estaria mui contenta de tê-lo em nossa famí­lia. Mas vosmecê me pediu que ficasse atenta para tudo e para todos, e agora então me faço presente com essa notícia.

Fico esperando resposta sua. Venha nos visitar e ver seus barcos em ação, Bento. Sua presença será mui comemorada e bem-vinda.

Com todo o meu afeto,

sua Antônia.

Estância do Brejo, 20 de fevereiro de 1839."

 

Selou a carta e mandou chamar Nettinho.

Nettinho era um negro retinto, de olhos azuis. Diziam ser filho do general Antônio de Souza Netto, e por isso o chamavam assim. D. Antônia desconfiava um tanto daquela história. Bagé era mui longe dali para que Netto andasse semeando crias pelas suas terras, mesmo que fosse um con­quistador incorrigível e quem sabe apreciasse as negrinhas novas; mas, em todo caso, o pretinho tinha esperteza de sobra. D. Antônia sorriu ao vê-lo entrar no pequeno escritório da casa. Ficou espantada, como sem­pre, com aquele estranho azul que seus olhos ostentavam.

— Vossa mercê me chamou?

A voz do negrinho tinha um timbre alto. Ele já se estava fazendo homem.

D. Antônia entregou-lhe a carta selada.

— Quero que vosmecê leve essa carta ao general Bento. Ele está lá para as bandas de Piratini. Vá hoje e não me pare em nenhuma estância pelo caminho. E se cruzar com qualquer piquete imperial, queime esta carta, ouviu bem? Ou coma-a. Sei que usted tem apetite suficiente para isso, guri. — O negrinho riu e guardou a carta no bolso da bombacha surrada. D. Antônia prosseguiu: — Espere a resposta e me traz. Quan­do chegar a Piratini, diga que está levando carta minha. O general vai le receber. E não esqueça: que ninguém mais me ponha a mão nesse papel.

 

Bento Gonçalves leu a carta rapidamente. Depois guardou-a no bolso da calça. Pensou um pouco. Precisava mesmo ir até a Estância, vender uma ponta de gado, tomar umas providências. A guerra se encompridava, as coisas ficavam paradas, e ele precisava se manter. Perdia-se muito dinheiro na guerra. E agora aquela. Devia mesmo ter pensado naquilo: era só olhar para o italiano, era só ver o fogo dentro daqueles olhos. E Manuela era moça jovem, cheia de viço, trancada na estância esperando o desfecho daquela guerra louca. Qualquer moça se encan­taria com o italiano e suas histórias fantásticas. O homem tinha lábia. Nettinho ficou olhando o grande general e sentiu que aquele era um dos momentos mais importantes da sua vida. Tinha visto Bento Gonçalves outras vezes, mas ali, naquele gabinete, o general parecia maior e mais alto e mais forte do que qualquer homem sobre o chão do pampa, e Nettinho tinha um nó na garganta. Pensou ainda se Antônio de Souza Netto, o misterioso general que diziam ser seu pai, andava pela cidade. Mas não tinha coragem de perguntar a ninguém.

— Não vou escrever resposta nenhuma — rugiu a voz de Bento Gonçalves. E o negrinho tremeu. — Assim le poupo o trabalho de guar­dar outra carta por todo o caminho. Foi difícil para usted chegar aqui?

Nettinho balançou a cabeça de carapinha.

— Não, senhor. Viajei à noite, pelas veredas. E sou bem preto, me misturo com a escuridão.

Bento Gonçalves riu alto.

— Buenas, guri. Desta feita, usted pode viajar de dia mesmo. Diga à senhora D. Antônia que estarei lá na semana que vem.

— Só isso?

— Solamente. Sei que usted é esperto o bastante para não contar isso para nenhuma outra pessoa. O paradeiro de um general é segredo de Estado.

Nettinho saiu do prédio central com um orgulho a inflar o seu pei­to. Dividia com o presidente da República um segredo de Estado. Es­tava ficando importante.

 

Bento Gonçalves da Silva chegou à Estância da Barra em meados de março. A casa das sete mulheres estava de janelas abertas a esperá-lo, e flores enchiam os vasos da varanda. Ele abraçou Caetana e as irmãs, depois foi ver Perpétua, cuja gravidez começava a salientar-se por so­bre os panos do vestido escuro. Comeu bem e sesteou na cama fresca de lençóis limpos, apreciando a calma morna da tarde.

Naquele dia, ainda arrematou a venda uma ponta de gado e tomou providências com o capataz.

Após o jantar, esteve com D. Antônia.

— Amanhã vou até o estaleiro. Quero ver de perto como andam as cosas por lá.

— Vosmecê vai ver que andam bem. Fez-se um pequeno silêncio.

— Também vou prosear com o italiano. Sobre Manuela.

— E com a menina, quem fala?

— Isso são coisas de mulheres, e vosmecês são muitas. Deixa, que com o italiano eu me entendo bem. Depois vosmecê fala com ela. E Maria Manuela, o que pensa disso?

— Maria anda desvalida desde que o marido morreu. Não se pode contar com ela, ao menos por enquanto. — Derramou seu longo olhar sobre o irmão. — Bento, preciso le dizer uma cosa... Acho mesmo que os dois se amam. Mas tenho medo do italiano, ele não nasceu para o pampa.

— E um bom soldado, mas não tem pouso. Vai atrás de aventuras. Apesar da coragem, não serve mesmo para Manuela. Deixa estar, Antônia. Vosmecê pensou bem. Vai ser melhor que ela esqueça o marinheiro.

Estavam sentados na varanda. A noite era fresca e perfumada. Os calores do dia se tinham desfeito. Agora era apenas aquele céu imen­so, estrelado, que prenunciava um outono bonito.

— Amanhã teremos baile. Ana e Caetana estão organizando tudo há dias.

— Buenas, irmã. Estou louco por umas danças. Hay cosas que preciso esquecer. Ontem mesmo, fiquei sabendo que o meu amigo conde, o Zambeccari, foi deportado para a Itália. — Mastigou as pala­vras. — Deportado. E com a saúde mui debilitada pela prisão.

D. Antônia entristeceu-se.

— Mas que cosa...

— O conde é um grande homem, Antônia. Vai nos fazer falta.

 

João Congo, o escravo pessoal de Bento Gonçalves, apareceu por ali, trazendo uma chaleira fumegante e a cuia de mate. D. Antônia serviu o irmão, que ficou chupando o mate, pensativo.

 

Bento Gonçalves não pôde falar com Giuseppe Garibaldi no dia se­guinte. Ele tinha saído com os homens para mais uma sortida na lagoa.

Griggs estava no estaleiro: o Seival precisava de reparos, e sua tripula­ção trabalhava nisso. Bento Gonçalves ficou longo tempo conversan­do com o americano, vendo planilhas, olhando o grande bicho de madeira e pano ancorado no cais.

Em casa, fechada no quarto, Manuela dividia-se entre a angústia e a esperança: quem sabe o tio não permitia um compromisso seu com Giuseppe? Ele era mui valoroso para a República, decerto Bento Gon­çalves apreciava-o. Mas Manuela não tinha respostas. Perpétua, ven­do a prima assim tão incomodada, disse:

— Não se apoquente. Escolhe uma roupa bem bonita para a festa de hoje, e espera. O italiano está apaixonado por usted, e não tem jei­tos de quem desiste facilmente.

Manuela atirou-se nos braços da outra, agradecendo.

— Vosmecê tem sido tão boa comigo, Perpétua... Entende mesmo que não amo o seu irmão?

Perpétua sorriu, acarinhando os cabelos trançados de Manuela. A gravidez tinha suavizado seu rosto ainda mais.

— Boba. Sei bem que nesses assuntos do coração a gente não manda nada. O Joaquim há de achar uma boa moça que o ame, deixa estar. Isso tudo se ajeita.

 

O jantar foi servido às quatro horas da tarde: churrasco, aipim co­zido na manteiga, saladas, sobremesas. A casa estava aberta e en­feitada de flores. D. Ana, num vestido escuro por todos os lutos da família, recebia os convidados — alguns vizinhos, umas poucas fa­mílias que tinham vindo de Camaquã. Os empregados da fazenda também estavam lá, usando suas boas roupas, felizes com a festa. Bento Gonçalves e Caetana recebiam a cortesia de todos, e não se falava na guerra.

Garibaldi, John Griggs, o italiano Luigi Carniglia e mais meia dú­zia de marinheiros chegaram por volta das cinco, todos com seus me­lhores trajes. D. Ana recebeu o italiano com carinho, enquanto, de longe, Manuela corava de alegria. E Mariana também: Ignácio Bilbao viera para o baile, e sua camisa vermelha cintilava entre os convivas, aproximando-se vagarosamente dela.

— Señorita... Hoje não se fala em barcos, si? — A voz dele sibilava como um instrumento afinado. — Hoje baila-se.

Mariana viu que a mãe fitava-a de longe, mas não fez caso.

 

Rosário chegou tarde ao baile, com os olhos inchados de choro. Steban não aparecera, como sempre sucedia quando Bento Gonçalves estava na estância. A beleza loura e delicada de Rosário chamou a atenção de uns quantos homens ali presentes, e especialmente de François, um francês alto, de cabelos fulvos e olhos de um verde muito aguado, que desde os doze anos estava no mar, e que tinha se engajado na causa farroupilha como companheiro de Garibaldi. Mas Rosário não se ape­tecia por aqueles tipos exóticos, nem mesmo pelo francês — que tinha um cicatriz a lhe riscar o sobrolho direito. Sentou numa cadeira e pôs-se a observar, com certa inveja, a alegria das duas irmãs.

 

As danças começaram após o jantar. Bento Gonçalves e Caetana for­maram o primeiro par da noite, e circulavam pelo salão dançando com gosto uma polca. O presidente era um pé-de-valsa conhecido em to­dos os bailes. Caetana acompanhava-o com garbo.

Aos poucos, os casais aumentavam em número, rodopiavam, for­mavam e desformavam pares conforme a música e a coreografia. Mariana atreveu-se a dançar com Ignácio Bilbao. Espantou-se com os galantes modos do espanhol, que tinha desenvoltura para aquelas dan­ças que decerto nunca conhecera.

Giuseppe Garibaldi não sabia bailar a meia-cancha. Enquanto um dançarino de lenço colorado na mão fazia sinal para sua senhorita, o italiano aproximou-se sorrindo de Manuela.

— Vosmecê há de se desencantar comigo questa notte... Io não tenho jeito para danças. O único balanço que me sustenta é o do mar — e seus olhos se derramaram nos olhos verdes de Manuela de Paula Ferreira.

— Prefiro estar ao lado de vosmecê, aqui, do que dançando com qualquer outro, Giuseppe.

O italiano sorriu. Ambos foram até a varanda. A noitinha vinha lentamente, e as últimas sombras douradas morriam no pampa. Senta­ram-se num balanço ao canto, muito perto um do outro, cada um sa­boreando o calor que vinha daquela outra carne, cada um sonhando horas de solidão e felicidade pura.

Um quero-quero cantou no capão, logo outros pássaros fizeram coro. O ar de final de verão tinha um cheiro doce de flores.

— Questo lugar é molto bello. Os pássaros, o campo, a luz de questo sole... — Giuseppe fitou longamente a moça ao seu lado. Tinha um perfil bem talhado, o nariz curto, delicado, a boca rosada como uma fruta bem madura. Ele sentiu um calor morno invadir seu peito. — Ou talvez seja apenas a vostra presença, Manuela.

Manuela fitou-o. Havia um brilho agudo nos seus olhos.

— Vosmecê é que faz tudo isso especial, Giuseppe. Giuseppe Garibaldi segurou a pequena mãozinha branca entre as

suas. Sentiu os olhos úmidos. Da casa, vinha agora o som de uma chimarrita.

— Io te amo, Manuela. Precisava dizer isso... Io te amo.

Manuela olhou as primeiras estrelas que nasciam no céu ainda cin­zento. "Nunca mais hei de esquecer este exato instante", pensou. Quan­do voltou seus olhos outra vez para Giuseppe Maria Garibaldi, era já uma mulher que encontrara seu caminho e sua certeza.

— Eu também le amo. Com todo o meu coração e toda a minha alma.

Giuseppe nunca tinha pensado que encontraria o amor em para­gens tão distantes. Apertou ainda mais a mãozinha delicada entre as suas.

— Io sono pobre, Manuela... De mio, tenho apenas meus sonhos, minha coragem e minha vontade. Mas se vosmecê assim me quiser, per Dio, falo ainda hoje com seu tio, o general Bento Gonçalves, e fi­camos noivos.

Manuela pensou no tio, e pensou em Joaquim. Seu peito estava leve feito uma nuvem num céu de verão.

— Sim, eu quero, Giuseppe. Eu quero muito. Casar com vosmecê é tudo o que quero nesta minha vida.

 

Bento Gonçalves viu os últimos convidados subirem nas suas seges. Sorvia um mate, distraído. A noite ia alta, com uma lua crescente es­petada no meio do céu repleto de estrelas. De onde estava, meio es­condido pelas trepadeiras floridas que se erguiam pelo pilar da varanda, ouviu a voz de Garibaldi. O italiano despedia-se de D. Ana, com poli­dez e simpatia.

Bento acabou o mate e foi falar com Garibaldi.

— Procurei vosmecê durante o baile, mas, haja vista que estava ocupado, não le incomodei.

Garibaldi abriu um sorriso. Caminhava em direção ao seu cavalo. Também ele queria falar com o general, um assunto muito sério, pessoal.

— Buenas. Vosmecê espera um minutito, que vou mandar o Congo me selar um cavalo. Vou com usted até o estaleiro, e conversamos no caminho.

 

Seguiam pela estradinha deserta e silenciosa. De quando em vez, a luz da lua se infiltrava pelas ramagens. Os outros marinheiros tinham par­tido mais cedo, porque havia muito trabalho no dia seguinte. Garibaldi restara por último, na esperança de pedir a mão de Manuela a Bento Gonçalves. Agora seguiam ambos calados, os animais trotando man­samente.

Foi Bento quem cortou o silêncio:

— Estive no estaleiro hoje cedo, le procurando.

— Io estava trabalhando, general. Atacamos hoje a estância de um caramuru, a umas quinze léguas daqui. Pouca cosa... Uns sacos de farinha, madeira, alguns cavalos. Está tudo lá, general. Mais una vol­ta, enganamos os barcos imperiais.

Bento acendeu um palheiro. Segurava as rédeas com uma única mão.

— Vosmecê tem feito um bom trabalho, tenente-capitão Garibaldi. Mas tenho que le dizer uma cosa: dentro em breve vou le dar missão maior do que esta. Não há muito mais o que fazer por aqui, e precisa­mos dos seus barcos para cosa más importante.

Garibaldi sentiu no peito um misto de emoção e de angústia. A aventura de uma nova missão o chamava com sua voz sedutora, mas isso o afastaria de Manuela. Ele achou que era hora de falar com Ben­to Gonçalves. Contar-lhe seus sentimentos.

— General, io preciso pedir una cosa. Como le disse, é cosa pessoal. O caminho serpenteava para a beira do rio. Uma bruma suave co­bria as águas. Bento Gonçalves olhou o italiano de soslaio.

— Eu também tenho a le pedir algo, tenente-coronel Garibaldi. É um assunto delicado, espero que vosmecê compreenda.

A sombra da charqueada desabitada que servia de acomodação a Garibaldi e seus homens surgiu como um fantasma sob a luz das estre­las. Garibaldi saltou do cavalo, acarinhou as costas do animal e ficou olhando o rosto impenetrável de Bento Gonçalves da Silva, presiden­te da República Rio-grandense, o grande proprietário de terras, o ho­mem que respondia por todo aquele sonho.

— Vou falar primeiro, amigo Garibaldi. Vosmecê há de me enten­der... É sobre minha sobrinha Manuela. — Fez-se um silêncio pesado. E prosseguiu: — Sei que vosmecê está enamorado da menina, mas le peço como um cavalheiro que não le faça mais a corte. Manuela está prometida para meu filho Joaquim. E Joaquim está na guerra. E cosa acertada faz muito tempo. Además, não hei de quebrar a promessa que fiz ao meu falecido cunhado. Ele apreciava muito esse casamento.

Garibaldi sentiu a garganta seca.

— Io amo la vostra sobrinha, general.

A voz de Bento Gonçalves derramava-se na noite. Tinha um tim­bre duro, decidido.

— Os amores vem e vão, amigo Garibaldi. Um homem que já va­rou o mundo como vosmecê deve saber disso mui bien. Só a honra é que vale. E sei que vosmecê é um homem mui honrado. Además, como le disse, logo seu tempo e sua alma estarão ocupados com uma missão más importante. Dela talvez dependa a nossa república. — Garibaldi nada disse. O cavalo de Bento Gonçalves arreliava-se. O general to­mou postura na montaria. — Buenas. Está na hora de eu voltar. Hay ainda esse caminho pela frente, e estou mui cansado. Buenas noches, amigo Garibaldi.

— Buona notte, general Bento Gonçalves.

 

Abril é um mês bonito nos pampas, quando vem o outono, com suas luzes de âmbar que alongam a silhueta dos animais no pasto, e que derramam suas cores sobre os campos como um véu muito tênue. Outono, com sua brisa já fresca, fria à noite, apetitosa para o aconche­go das lareiras. O outono no sul tem qualquer coisa de mágico, de len­to, que faz bem para a alma. Que fazia bem para a alma de Giuseppe Garibaldi, e que lhe dava uma vaga saudade da sua terra natal.

A manhã daquele dia dezessete estava límpida. No galpão da charqueada onde dormiam os sessenta homens de Garibaldi, acorda­va-se cedo, com as primeiras luzes da alvorada. O cozinheiro já prepa­rava a farta refeição da manhã, enquanto os homens tomavam tino da vida, vestiam-se, sorviam aquele mate amargo e quente que era o cos­tume da região e que espantava o sono com tanta galhardia.

Garibaldi estava sentado num banco à beira do galpão, e calçava as botas quando Zé Pedra, o negro de confiança de D. Ana, apareceu por ali num alvoroço.

— Senhor Garibaldi! Venho avisar vosmecê que o coronel Mo ringue, aquele diabo dos imperiais, foi visto a duas léguas daqui.

Garibaldi ergueu-se de um pulo, os cordões desamarrados das bo­tas arrastando pelo chão. O coronel Francisco Pedro de Abreu, apeli­dado de Moringue por causa da sua cabeça descomunal e das orelhas de abano, era tão feio quanto excelente nas artes da guerra. Temia-se muito a sua fama e a sua audácia nas expedições de surpresa. Garibaldi olhou atônito para o negro.

— Quem le disse questo, Zé Pedra?

— Um vaqueano foi avisar lá na Barra. Contou que o Moringue desembarcou aqui por perto com uns setenta homens de cavalaria, mais um oitenta de infantaria. D. Ana mandou que eu viesse correndo le dar o aviso. Estou levando comigo a senhora D. Antônia, para o causo de qualquer surpresa.

— Bene — respondeu Garibaldi. — Vou tomar as providências necessárias. — Virou-se para o galpão. — Carniglia, Bilbao, Matru! Venham até aqui. La buona fortuna vai sorrir para nós hoje! Teremos festa, meus amigos!

Zé Pedra ficou olhando o italiano sem compreender.

Eram cento e cinqüenta contra sessenta, mas Giuseppe Garibaldi confiava nos seus homens. E tinham a vantagem de estarem bem atocaiados. O estaleiro era de difícil acesso.

Garibaldi reuniu os homens em frente ao galpão e contou a novi­dade. Decidiu enviar exploradores em todas as direções, para que se colocassem a par da posição das tropas de Moringue. Dez homens montaram a cavalo e se espalharam. Os outros cinqüenta foram para o galpão da charqueada.

— Carreguem todos os rifles — ordenou Giuseppe. — O Moringue não vai nos pegar de surpresa.

Os rastreadores voltaram no meio da manhã.

— Não há sinal de ninguém — disse Carniglia.

Os outros confirmaram a informação: tinham vasculhado por todo o canto, e nada. A calmaria reinava nos arredores. Era impossível que Moringue e sua tropa estivessem por perto.

Garibaldi ficou pensativo. Seria um falso alarme? Sabia que Moringue era astucioso. Mas onde teria escondido cento e cinqüenta ho­mens? Resolveu confiar na intuição. Sempre soubera que quando algum estrangeiro estava por perto, os animais, ao farejarem o perigo, tornavam-se inquietos e arredios. Deu umas voltas pelo terreno. A calmaria reinante era prova de que os imperiais não andavam por aque­las bandas. Garibaldi tranqüilizou-se. Melhor era almoçarem e retor­narem logo ao trabalho, pois os lanchões precisavam de reparos urgentes, e faltava lenha no galpão. Ademais, estavam construindo dois novos barcos, e o serviço ia atrasado. Os fuzis, carregados, ficaram dispostos na charqueada, esperando ocasião oportuna. Logo, o cozi­nheiro chamou, avisando que a sopa estava pronta, e os homens reu­niram-se para satisfazer a fome daquela longa manhã.

Garibaldi pôs-se a apreciar o almoço e o dia bonito, pensando que, à tardinha, podia ir até a casa de D. Ana e falar com Manuela. Haviam combinado que ficariam noivos, escondidos se preciso fosse, em oca­sião oportuna. E os dias iam passando para os dois, lentos, ardorosos, consumidos naquele amor de silêncios e de anseios.

Garibaldi acabou de comer. Imaginou que Manuela devia estar nervosa com a notícia de que as tropas de Moringue estavam a rondar o estaleiro. Sim, era necessário ir ter com ela no fim do dia.

Os sessenta homens estavam sentados pelos cantos, em pequenos bancos, comendo em mesas improvisadas. Ao final da refeição, Gari­baldi ordenou que todos voltassem ao trabalho.

— Com esta calmaria, decerto o inimigo está molto distante da­qui. Questo tutto foi um alarme falso.

Os homens foram cuidar das suas obrigações. Uns trinta marinhei­ros tomaram o rumo ribeirinho, para tratar dos reparos nos lanchões; outros se dividiram entre a forja e a busca da lenha nas matas ao re­dor. John Griggs tinha ido até Piratini no começo da semana. Na charqueada, restaram apenas Garibaldi e o cozinheiro, que recolhia a panelada do almoço, assobiando uma milonga.

 

Garibaldi toma seu mate quando ouve a fuzilada atrás de si como o ronco furioso de um trovão. Ergue-se num salto, bem a tempo de ver o seu poncho perfurado por uma lança.

— Dio! E essa agora! — Corre para o abrigo do galpão, chamando o cozinheiro. — Luís, o Moringue está aqui. Vai para dentro e pega os fuzis.

 

O tenente Francisco Pedro de Abreu está lá com seus cento e cinqüenta homens. É impossível saber como se escondeu durante a manhã inteira, como aquietou os animais da redondeza. Mas ele está lá, a duzen­tos, trezentos metros, gritando ordens com sua cara feia e disforme, babando ira pela boca arreganhada.

Garibaldi, da janela do galpão, vê que infantaria e cavalaria inves­tem a galope contra o galpão, como que surgidos do nada. Não pensa por mais tempo. É impossível pensar. Tem que agir, fazer qualquer coisa o mais rápido possível. Se Moringue chegar mais perto, ele, Garibaldi, estará morto. São dois homens contra cento e cinqüenta — os outros estão embrenhados na mata, ou no rio — quanto tempo de­morarão para se aperceberem daquela emboscada?

Os sessenta fuzis carregados estão encostados a uma parede. Ga­ribaldi toma o primeiro e descarrega-o contra os inimigos. E um segun­do e um terceiro fuzil cospem sua carga contra a horda imperial. Garibaldi age como um autômato. Sem pensar, sem pensar. Aperta o gatilho com os dedos firmes. Joga ao chão o fuzil descarregado, recebe outro das mãos do cozinheiro. Vê três soldados caírem por terra. A massa humana é tamanha, que nenhum tiro seu se perde, indo sempre perfurar alguma carne, decepar um braço, ferir o dorso de um cavalo. E Giuseppe Garibaldi atira furiosamente. Pensa em Manuela e redobra sua ira con­tra os soldados inimigos: mais três caem sem vida. Não quer Moringue perto da Estância da Barra, perto de Manuela. Não quer Moringue com vida, o desgraçado. Ordena que o cozinheiro recarregue as armas o mais depressa possível. Não há um segundo a perder. A artilharia imperial avança com mais zelo. O tiroteio que vem do galpão é cerrado. Os olhos de Garibaldi saltam para fora das órbitas, como os olhos de um louco. Mas ele não pára de atirar, não perde o ritmo.

O barulho na mata é terrível, e o passaredo foge assustado. Os homens que recolhiam a madeira já se deram conta do sucedido e co­meçam a voltar para o estaleiro. Os marinheiros que consertavam os barcos também tentam retornar. Ouve-se o barulho dos tiros como um ribombar distante. Dois ou três homens que estavam num galpão ali perto, trabalhando na construção de dois novos lanchões, foram feri­dos quando tentavam fazer o caminho de volta ao estaleiro (mas o pequeno galpão permaneceu incólume, guardando seus dois tesouros). Uma parte das tropas de Moringue está no meio da mata. Os homens de Garibaldi estão cercados. Não podem voltar. É preciso fugir pelos caminhos, esconder-se.

Alguns têm êxito e logram chegar ao galpão. Garibaldi os recebe com seus olhos injetados, o rosto já escuro de pólvora e poeira. Os recém-chegados, em número de onze, tomam das armas, abrem espa­ço nas janelas, nas frestas de madeira, em qualquer buraco ou parede que lhes dê guarida. Eduardo Mutru, Carniglia, Bilbao, o mulato Rafael Nascimento e o negro Procópio se põem ao lado de Garibaldi, fazendo carga cerrada. O cozinheiro recarrega os fuzis desesperadamente. E sua em bicas, e reza todas as orações que consegue recordar. Lá fora, o mundo parece estar acabando em gritos e estrondos e tiros.

Se Moringue souber que existem, ao todo, treze homens nesse galpão de charqueada, tudo estará perdido. Mas os marinheiros de Garibaldi lutam com tanta faina e atiram com tamanha mestria, que o astuto Moringue se imagina guerreando contra uma grande tropa e não ousa avançar mais.

A fumaça negra dos tiros espalha-se pelas matas ao derredor e sobe para o céu, nublando pouco a pouco o azul da tarde outonal. Os cava­los já se embrenharam na mata, os cães tomaram o rumo da estrada. Na Estância da Barra, atrás das janelas fechadas, as mulheres rezam e acendem velas. Receiam por elas mesmas e pelos homens do estaleiro. Moringue é temido em todo o Rio Grande. Mas D. Ana não deixa que chorem, que se desesperem. É preciso que se mantenha a calma, que a vida prossiga atrás das janelas cerradas, enquanto Manuel e Zé Pedra ficam de tocaia, armados, para qualquer surpresa. Mariana soluça baixinho, num canto da sala, o rosário entre as mãos trêmulas, pen­sando em seu Ignácio Bilbao. D. Ana a repreende. É preciso dar o exemplo para as meninas pequenas. É preciso ser forte. Manuela tem os olhos secos, e está pálida. Nenhum arroubo de oração lhe escapa dos lábios murchos. Suas mãos dormentes estão esquecidas no colo. D. Antônia preocupa-se com a sobrinha, mas não larga o bordado. É preciso ocupar a mente. Logo tudo passará, logo abrirão outra vez a casa, apagarão as velas, sorrirão desse medo. É pedindo isso que ela reza. Borda e reza, silenciosamente. Na cozinha, as negras de casa, ajoelhadas no chão de ladrilhos, choram silenciosamente.

 

A batalha no estaleiro durou exatas cinco horas. Garibaldi e seus doze companheiros resistiram bravamente aos cento e cinqüenta soldados de Moringue. O telhado do galpão já apresentava buracos enormes, por onde os soldados imperiais tentavam entrar, sendo na mesma hora liquidados por Carniglia, que só assim matou dois. Uma das paredes laterais era apenas um punhado de lenha ardente, que o cozinheiro tentava apagar com paneladas de água, mas a construção resistia bem ao ataque imperial. E no meio disso tudo estava Garibaldi. Dando or­dens, atirando, gritando pela república, destilando seu ódio aos impé­rios, cuspindo fogo pelos olhos de trigo.

Pelas três horas da tarde, o negro Procópio, que era atirador dos mais guapos, calculou bem e acertou o braço e o peito do coronel Moringue. Imediatamente, a tropa imperial deu sinal de retirada e embrenhou-se pelo meio das matas, debandando.

Liderados por Garibaldi, Eduardo Matru, Carniglia e Procópio ainda perseguem os inimigos por alguns metros, disparando. A exu­berância da tarde começa enfim a ceder, o sol amaina, quando eles retornam para a charqueada e constatam que o estaleiro ficou quase completamente destruído. Porém, no cais, os dois lanchões permane­cem intactos, prontos para a navegação. E, ali perto, os outros dois barcos ainda em construção também estão a salvo da fúria imperial.

Garibaldi limpa o suor do rosto coberto de fuligem. Sua camisa está rasgada; ele tem um corte na mão direita. Caminha entre os destroços fumegantes, entre panelas reviradas, corpos de imperiais destroçados, e vai contando os feridos e os mortos. Seus olhos agora estão apazi­guados. Sobreviveu. Nunca há de esquecer essa batalha, das mais encarniçadas que já conheceu. Contabiliza dez cadáveres inimigos. O corpo do genovês Lorenzo é trazido por Rafael Nascimento e Eduardo Matru. Tem um tiro bem no meio da testa, e seus olhos azuis ainda estão abertos, fitos num pavor congelado no tempo. Lorenzo tinha vinte e seis anos, e uma noiva em Gênova.

Garibaldi abaixa os olhos para o companheiro morto.

— Diavolo. Que Moringue queime no inferno. Depositam o corpo do genovês num colchão.

Ignácio Bilbao foi atingido na perna. Outros cinco homens tam­bém foram feridos. O mais ferido deles, um peão das redondezas, tem uma lança atravessada na coxa esquerda e um tiro que lhe penetrou pelas costelas. Quando começa a cuspir sangue, Carniglia diz:

— Pegou o pulmão. Não há muito o que fazer. Garibaldi examina o moribundo.

— Vamos buscar ajuda com D. Ana.

— Não dá tempo.

O homem regurgita sangue. A noite vai descendo de mansinho, enquanto o passaredo volta para os seus lugares. Uma poeira negra paira no ar. E um silêncio pesado cobre tudo.

— Procópio — ordena Garibaldi —, vosmecê pegue um cavalo e vá até a Barra. Leve a notícia de que expulsamos o desgraçado. E peça ajuda e remédios. E preciso tentar fazer alguma coisa por questo uomo.

O negro desaparece para trás do galpão. O peão que cospe sangue está cada vez mais pálido, acinzentado.

Garibaldi reúne os companheiros em frente ao galpão. Os homens embrenhados na mata agora começam a chegar.

— Hoje tivemos aqui una vera batalha. Mas vencemos. E isso prova que um uomo libero é para doze cativos. — Os homens urram, erguem os braços no ar. Ignácio Bilbao equilibra-se na perna sadia e bate pal­mas, gritando. Garibaldi recomeça: — Tutto o que fizemos foi pela nostra república. Pela República Rio-grandense. E vocês foram bra­vos. Que Dio esteja sempre com voi!

Depois, é o trabalho de recolher armas, arreios e outros instrumen­tos deixados pelos inimigos durante a brusca retirada. É preciso dar-se utilidade a tudo aquilo. Enquanto recolhe um fuzil caído em meio à lama, Garibaldi vê que a mata ao redor ficou destroçada. "Sucedeu aqui um pesadelo", constata. Silenciosamente, a um canto do galpão, o peão ferido pára de cuspir sangue e morre de olhos abertos, pensando numa longínqua tarde no pampa, quando pescava com os irmãos na ribeira do Camaquã.

 

Procópio chegou à estância de D. Ana no meio da noite. A casa estava com as janelas fechadas, mergulhada no silêncio.

Ele apeou e foi bater à porta. Vieram lá de dentro ruídos e vozes abafadas. Demorou um pouco, mas Zé Pedra apareceu numa fresta da porta, segurando uma pistola.

— É vosmecê, Procópio! Que arreliação! As senhorinhas ficaram com medo que fosse algum maldito imperial.

As mulheres apareceram num canto da sala, quando Zé Pedra abriu a porta e Procópio entrou, tirando o chapéu perfurado de balas. No fun­do da casa, um cachorro ladrava sem parar. D. Antônia adiantou-se:

— Conta logo o que sucedeu, pelo amor de Deus! Passamos o dia todo numa aflição.

Manuela tinha o coração nos olhos. Caetana segurava a mão de Perpétua e pedia que a filha ficasse calma, por causa do bebê. Procópio pigarreou um pouco e começou a falar:

— O tenente-coronel Garibaldi está bem e mandou avisar que o Moringue e seus homens bateram em retirada lá pelo meio da tarde. Foi uma luta braba. Eles nos pegaram de surpresa: treze homens con­tra cento e cinqüenta.

D. Ana fez o sinal-da-cruz. No corredor, apareceu a cabeça de Milú, que vinha espiar a notícia.

— Foi feia a cosa? — quis saber D. Ana.

— Morreu um dos nossos, e temos mais seis feridos. Um peão aqui das redondezas está malzito, no más. Vim pedir uns remédios e algum ajutório. Lá, só temos água para lavar os ferimentos dos soldados.

Tinha morrido um. Manuela estava com os joelhos bambos: seu Garibaldi estava bem, graças a Deus e à Virgem! Aos poucos, um sorriso leve avivou seu rosto. Mariana sentou numa poltrona. Com voz muito fraca, quis saber:

— Quem morreu, Procópio?

— O Lorenzo. Um italiano.

Mariana sentiu o peso abandonar seus ombros. Mas não teve co­ragem de perguntar por Ignácio Bilbao. D. Antônia e D. Ana chama­ram as negras e mandaram que reunissem ataduras, álcool, compressas e remédios para levar ao estaleiro. E algumas garrafas de canha. Num canto da sala, Maria Manuela assistia a tudo como se estivesse no meio de um pesadelo. Rosário foi providenciar um chá. Cogitava se o seu Steban tinha morrido numa batalha como aquela.

— Procópio, vou mandar a Milú com vosmecê — atalhou D. Ana. — Ela tem jeito com curativos. E amanhã o Zé Pedra vai buscá-la.

Procópio assentiu.

Caetano, que acabava de acordar com os ganidos do cachorro, apa­receu na sala e quis saber detalhes da batalha. Seus olhos brilhavam de excitação. E a voz do negro Procópio, monocórdia, foi contando aos trancos um pouco do inferno que o estaleiro vivera. Todos na casa permaneceram muito quietos, escutando.

 

Cadernos de Manuela

Estância da Barra, 30 de junho de 1839.

Muitas coisas sucederam aqui na estância nos últimos tempos. Des­de que Moringue veio atacar o estaleiro, todas nós nos tornamos mais temerosas, pois nos descobrimos vulneráveis aos ataques imperiais. Parece impressionante, mas eu nunca antes tinha pensado na guerra como uma coisa palpável, como uma coisa real. Era como se vivêsse­mos numa redoma, apartadas do mundo, e nada mais. Nem quando vi meu tio morrer em sua cama, tomado pela gangrena, nem quando me avisaram da emboscada que levou a vida do meu pai, eu jamais pensei na guerra como uma coisa de sangue e de músculos, como um bicho cruel e faminto.

As horas daquele dia dezessete de abril foram terríveis para mim. Ah, contar os instantes como se fossem as moedas de um resgate, e segurar o pranto para que eu mesma não morresse antes de ter qual­quer notícia dele. E pensar, a cada momento, que ele poderia estar morto, que talvez seu olhos não iluminassem mais este mundo, que meu Giuseppe estaria jazendo em algum pedaço de chão com uma lança atravessando seu peito. E o silêncio que nos impusemos... Sim, D. Ana e D. Antônia, sempre elas a zelarem pela casa e por nós, incansáveis e decididas — tanto que nem Caetana nunca ousou contrariá-las, estan­do sempre obediente às suas ordens e sugestões —, D. Ana e D. Antônia nos tinham proibido de chorar, nem por amor, nem por medo. E com tal faina, e com tal zelo, que quando Mariana deixou escapar um pou­co do seu pranto, foi mandada à cozinha preparar um bolo para o chá que tomamos na sala fechada, em silêncio, como numa missa onde se cultua a angústia. E a todas nós foi dada uma tarefa a ser cumprida, para que não desandássemos pelos despenhadeiros do pavor que nos consumia. Eu mesma me vi bordando um pano qualquer, que cores tinha, nem me recordo, e a cada ponto engolia uma lágrima, até que minha garganta e minha alma ficaram salgadas de choro acumulado. E foi assim que aquele dia terrível passou. Demorou muito para que o sol se pusesse no horizonte: era como se ele risse de nós, risse de mim, que só queria saber qualquer coisa do meu Giuseppe. Quando a noite chegou, tudo foi mais tenebroso ainda. O escuro guarda os piores re­ceios. O escuro é como uma arca repleta de velhas coisas empoeiradas. Não se pode abri-la, nem esquecê-la. A arca está no meio da sala, e a cada instante se tropeça nela.

Naquela noite, jantamos sem fome.

Somente muito tarde foi que bateram à nossa porta, e então meu coração acelerou como um cavalo em disparada pelas coxilhas, e nun­ca senti tanto medo em minha vida, porque, depois que abrissem aquela porta, tudo estaria irremediavelmente perdido ou irremediavelmente salvo. Era o negro Procópio; soubemos então da batalha, e que meu Giuseppe estava vivo e mandava notícias. Renasci com aquelas pala­vras. E odiei aquele dia com cada átomo de mim mesma, e tanto, que para sempre hei de recordá-lo negro e viscoso como um morcego em minhas lembranças. Mas pude, enfim, mesmo com medo dos imperi­ais que talvez estivessem por perto, dormir em paz. Garibaldi estava vivo, este mundo ainda nos abrigava a ambos, e isso era tudo que me bastava para ser feliz.

Na manhã seguinte, Zé Pedra encontrou um imperial morto na en­trada da fazenda. Trouxe-o arrastado até os fundos da casa. Era um jovem das redondezas que outrora eu vira cavalgando por perto, não devia ter então mais do que dezenove anos. Fora morto com dois tiros. Seu rosto cinzento e barbudo me trouxe pena e nojo. Morrera por que, afinal? E, estando vivo, não teria ele matado meu Giuseppe sem qual­quer consideração, se fosse capaz de tanto? Por que se lutava e por que se morria? Nunca hei de sabê-lo. E nenhum regime sob o céu me haverá de justificar esta guerra. Talvez por um sonho. Por liberdade. Por ela é que se luta. Como Giuseppe Garibaldi. Ele tem esse sonho e o persegue pela vida, mesmo muito longe deste Rio Grande, em outras terras ainda mais distantes da sua pátria, Giuseppe sempre lutou por seu sonho.

E eu sempre sonhei com ele.

Mas luto pouco, porque não tenho armas.

 

Dias depois do ataque de Moringue, Giuseppe veio até nossa casa. Estava mais magro, mas teve para mim o mesmo sorriso único que sem­pre me ofertava, um sorriso de amor. Estávamos proibidos de casar, assim dissera minha mãe, assim me avisara D. Ana, com algum dó no fundo dos olhos escuros. Bento Gonçalves proibira nossa união. Tal­vez por Joaquim, talvez porque imaginasse em Garibaldi nada mais do que um forasteiro sem pouso, um aventureiro dos mares, um so­nhador. E Giuseppe é um sonhador. Não um descendente dos continentinos, como meu tio e toda a nossa família, não um proprietário de terras, com escravos e ouro e influências políticas, mas um homem capaz de virar os mundos em busca de um sonho. E foi por isso que o amei. Desde o primeiro instante. E antes ainda.

Giuseppe contou-nos tudo que sucedera no dia da batalha, e como foram corajosos os homens do estaleiro, vencendo um número tão su­perior de inimigos apenas com sua coragem e garra. Estávamos todas reunidas na sala, ouvindo-o. Eu tremia de felicidade em vê-lo mais uma vez, e vivo, perto de mim. Não foi possível que ficássemos a sós, pois as tias e minha mãe faziam muito zelo em nossa presença. Mas houve um momento, quando íamos à mesa para o almoço, em que Garibaldi pôde colocar um bilhetinho entre meus dedos.

"Carina, Manuela, del mio cuore

 

Io ainda te amo, e muito. Vosmecê não pense que il suo tio pôde apagar esse amor del mio peito. Haverá um momento oportuno para nós. Quando tutto questo passar. E io ainda penso em falar com o ge­neral mais uma vez, pedindo por nosso noivado e casamento. Por ora, fui chamado a Porto Alegre, onde os republicanos estão fazendo o cerco. Receberei una nuova missão, mas io ritorno para estar com vosmecê brevemente.

Sempre suo, Giuseppe."

 

Giuseppe partiu no começo de maio.

Foram dias de um vazio cruel para mim. A proibição do nosso noivado me trouxe doenças e uma fraqueza que assustou minha mãe. D. Antônia preparou chás e compressas; eu não melhorava por tei­mosia. Não era justo que me obrigassem a casar com um primo que eu não amava, enquanto Giuseppe tanto ardia em estar comigo. D. Antônia falou-me francamente que tinha pena daquele malogro amo­roso, mas que era ò único caminho e que um dia eu agradeceria a decisão de meu tio e de minha mãe. Para a tia, havia o certo e o errado, nada fora disso. Respondi-lhe que ela mesma tinha conhecido a feli­cidade mui brevemente, e que dela se havia esquecido havia tempos, portanto eu a perdoava, mas que nunca mais seria feliz. E nem me casaria com outro que não fosse o meu Giuseppe. D. Antônia fitou-me com os olhos rasos dágua e não disse mais nada, restou em silên­cio, aplicando compressas em minha testa febril. Muito depois, quando saía do quarto, sussurrou: "Um dia, isso tudo passa, filha. Vosmecê vai ver."

Sei que não passará.

Fui talhada para ser de um único homem, e serei dele eternamente. Mesmo que nunca nos casemos, mesmo que a guerra ou o destino o leve para longe de mim, permanecerei esperando-o até quando for ne­cessário, até a eternidade.

Meu primo José chegou no final de maio, de passagem, rumo a Santa Vitória. Dormiu um par de dias na estância e partiu outra vez. Mas dei­xou-me com o coração despedaçado. Segundo ele, Garibaldi ainda vol­taria para a Estância do Brejo, porém por pouco tempo. Soubemos por José os planos que tinham afastado Giuseppe de nós, embora o estalei­ro continuasse em franca agitação, sob o comando de John Griggs. Agora os republicanos queriam conquistar a cidade de Laguna, em Santa Catarina. E Giuseppe Garibaldi e seus marinheiros seguiriam com eles.

A República Rio-grandense precisava de um porto. Os imperiais ainda dominavam a barra do Rio Grande, fechando assim o acesso para o Atlântico. Ademais, ainda era deles o controle das águas interiores. As manobras de Garibaldi na lagoa tinham rendido bons frutos, mas aquela política de guerrilha lacustre não tinha mais serventia para a revolução. Era preciso uma atitude enérgica para abrir espaço. E ha­via a cidade de Lages, em Santa Catarina, que proclamara a Repúbli­ca e agora queria incorporar-se aos rio-grandenses. Em tudo isso andava pensando Bento Gonçalves. Era preciso um porto, e esse por­to era Laguna, já que no Rio Grande os imperiais dominavam todo o acesso ao mar. Garibaldi teria aí a sua missão: os barcos precisavam, de algum modo, chegar até Laguna e garantir a tomada da cidade.

José contou isso com os olhos ardentes de euforia. Também ele se jun­taria, quando fosse o momento, às tropas que tomariam Laguna. Estava indo para a fronteira, reunir-se à gente de lá. E toda essa operação seria comandada por um coronel chamado Davi Canabarro. Para Laguna, par­tiriam Giuseppe e os homens do estaleiro, e então nossa vida continuaria a mesma de antes, triste e pacata, vida de esperas. E a mim, tudo o que restava era rezar por Giuseppe e para o seu retorno. Rezar e rezar, é tudo o que faço ainda agora, e Giuseppe nem partiu com seus barcos.

 

Ficamos sabendo que o comandante da Marinha imperial voltava a ser o inglês Greenfell. E, em princípios de junho, os navios imperiais retornaram à lagoa, agora decididos a exterminar os corsários repu­blicanos. Criou-se em mim uma dúvida: como Garibaldi partiria com seus barcos? Por onde iriam eles sem que os navios inimigos os perse­guissem, sem que houvesse mais batalha e destruição?

Eu não tenho respostas. Ninguém em nossa casa tem respostas. A guerra agora sucede tão perto, e estamos como espectadoras de tudo isso. Mariana, no auge de seu amor por Ignácio Bilbao, agora some a cada entardecer, sempre com alguma desculpa ou com a ajuda minha ou de Rosário, e vai encontrar-se com o espanhol perto do capão. Lá, juram seu amor. Eu penso em todos os planos que tinha feito para mim e Giuseppe, e temo que o romance de Mariana tenha o mesmo destino que o meu. Falamos muito em fugir, mas a verdade é que não temos para onde ir. O pampa está convulsionado pela guerra, e os homens querem a batalha como querem o pão diário. A nós duas, só resta esperar.

Zé Pedra nos trouxe a notícia da volta de Garibaldi, logo confirmada por D. Antônia. Com ele, veio também Davi Canabarro. Soubemos que acontecem reuniões intermináveis no galpão do estaleiro, onde John Griggs, Giuseppe Garibaldi, Luigi Carniglia e Davi Canabarro ficam ho­ras fazendo planos e traçando passos para a expedição a Santa Catarina.

 

Meu Giuseppe veio ver-nos no início desta semana. Na sala de nossa casa, tomando um mate à beira do fogo, ele contou que Canabarro já partira. Para tomar providências. Mais não disse, nem ousamos per­guntar. Apenas eu fiquei ali, como que em transe, fitando o perfil da­quele homem que me é tudo, e que eu já sentia se afastar de mim. Ah, ele me olhava como antes... Com os olhos cheios de fome e de adora­ção. Mas havia algo em seus sorrisos, uma dor que era uma espécie de adeus. Sim, ele vai embora, eu sei. É um soldado da República e por ela lutará até a última gota do seu sangue. O amor precisa esperar pela guerra. Era isso que me diziam seus olhos de mel, quando ele derra­mava em mim seus olhares lentos.

Giuseppe jantou conosco naquela noite. Lá fora, soprava o minuano, com sua fúria triste. Giuseppe estava mui interessado naquele vento perigoso que poderia pôr a pique os seus navios, e D. Ana então con­tou-lhe histórias antigas sobre o minuano e seus três dias de ânsia. Ao final do jantar, quando D. Ana mandou que as negras trouxessem o doce de pêssego, Giuseppe chegou perto de mim e sussurrou:

— Io sinto molto la vostra falta, Manuela.

E outra vez conseguiu entregar-me um bilhete escrito num papelote azul que eu guardei num dos bolsos de minha saia, com o rosto em brasa.

Era quase meia-noite quando Giuseppe Garibaldi vestiu seu capo­te de lã e se preparou para enfrentar a noite ventosa até o estaleiro. Despediu-se de mim com o mais doce olhar que um homem já deitou a uma mulher, depois sumiu na noite como se nunca tivesse existido, como se fosse um sonho que sonhei numa das muitas madrugadas desta guerra, como se fosse um anjo ou um demônio, qualquer ser, do céu ou do inferno, que tivesse vindo a mim para me roubar a alma. Depois sumiu, como um sopro. Uma onda. Como uma lenda.

 

"Carina Manuela mia,

Logo, io parto para Santa Catarina, onde dobbiamo fare Ia Repú­blica. Vou por amor à liberdade dos povos, Manuela. E somente per questo. Ma io juro que ritorno per voi, que pensarei em voi a cada notte, e que sonharei com vostro rosto a cada sonho. Não peço que me espe­re, mas io juro que um dia voltarei, quando questa guerra acabar, e que ficaremos juntos, para sempre então.

Saiba, Manuela mia, que questo amor é verdadeiro e imenso como il mare, e que io sono vostro per sempre.

Giuseppe Garibaldi"

 

Guardei aquela carta no abrigo dos meus seios por dias, e era como se um pouco de meu Giuseppe andasse sempre comigo. Depois, com medo de perder papel tão precioso, acomodei-o em meio às páginas do meu diário. Melhor lugar para o nosso amor. Onde eu espero por ele, e com ele sonho. Nestas linhas em que o relembro.

 

Manuela.

Perpétua olha a tarde cinzenta pela janela, e um arrepio percorre seu corpo. O céu está pesado, parece que vai desmaiar sobre as coxilhas. Ela se aconchega mais ao xale de lã. Os pés metidos nas chi­nelas agora estão inchados, a barriga salienta-se sob o vestido largo, de tecido azul.

Ela sente saudades do marido. Durante toda a gravidez, Inácio vi­era vê-la umas cinco vezes. Ficara pouco com ela, mas sempre estivera amoroso, e tão feliz ao ver que o filho crescia em seu ventre como uma fruta amadurece num galho de árvore. Mas era a guerra, difícil para todos. Agora mesmo, Perpétua não pode precisar o paradeiro de Inácio. De seu, tem apenas essa criança inquieta que se remexe dentro dela como um peixe num aquário pequeno demais.

A mãe está bordando ali perto, e ensina Maria Angélica, que agora está com nove anos, a dar seus primeiros pontos. Maria Angélica es­peta o dedo na agulha constantemente. Se Perpétua tiver uma menina, logo repetirá esse ritual.

— Está cansada, hija?

Caetana envelheceu nesses últimos tempos. O tom esmeralda de seus olhos perdeu alguma coisa do brilho.

— Estou bem, mãe. Mas me doem as costas.

Passa o resto da tarde sem acomodar-se, nem consegue dormir. Não come o bolo que Zefina lhe traz. Um peso cada vez maior empurra seu ventre para baixo. E lá fora o mundo parece mais cinzento e escuro.

Antes do jantar, resolve caminhar pela casa. Fica andando como um fantasma sem rumo, de uma peça a outra, cruzando com as negras, com as primas que agora andam tão cabisbaixas, entrando e saindo da sala onde o fogo crepita na grande lareira de pedras, arrastando as chinelas como dizem que fazia sua avó paterna, de quem herdou o nome e alguma coisa em seu olhar.

Passa das nove horas quando a dor a invade sem nenhum aviso, como uma faca que penetra sua carne. Perpétua grita. Sente que um rio se solta e desce por suas pernas, alagando as saias do vestido e for­mando uma poça no chão de ladrilhos.

D. Ana acode, vinda da cozinha.

— Que foi, menina? — E quando vê a sobrinha, já sabe. Mas está calma. Pôs dois meninos no mundo, e mais um terceiro que morreu pequetito. Segura as mãos de Perpétua. — Tenha calma... Essa dor passa rápido. Pense que o seu filho vai nascer...Vou chamar a Rosa. As negras acodem, juntamente com Caetana, que ajuda a filha a ir até o quarto. Mandam buscar D. Rosa, que está na sua casinha lá no fundo, bordando. D. Rosa entende de ervas e de trazer crianças ao mundo. Entende de fogão e de boitatá. D. Rosa tem os olhos casta» nhos, meio baços, e um sorriso discreto no rosto.

Logo o quarto está repleto de coisas: bacias com água fervente, fral­das, lençóis, a tesoura recém-esterilizada, comprida, que D. Rosa tem desde que aprendeu a trazer inocentes para esta vida. Perpétua grita de dor. Do lado de fora da alcova, Mariana, Manuela e Rosário se angustiam e sussurram. D. Ana aparece por uma fresta da porta.

— Vosmecês vão lá para a sala. Aqui não ajudam nada com esses falatórios. — As sobrinhas têm os olhos arregalados de pavor. Perpé­tua solta um grito agudo. — Toda mulher passa por isso, é assim mes­mo. Se aquietem lá para dentro, que vai dar tudo certo.

E D. Ana fecha a porta lentamente.

 

A primeira hora da madrugada fria do dia primeiro de julho de 1839, nasceu Teresa da Silva de Oliveira Guimarães. Depois dos trabalhos do parto, depois de ver o corpinho perfeito da menina e de contar-lhe os dedinhos dos pés e das mãos, Perpétua Justa olhou a mãe e sussurrou:

— Queria tanto que o Inácio estivesse aqui.

E mergulhou num sono exausto.

Caetana, com a neta nos braços e os olhos úmidos de lágrimas, sor­riu docemente. A vida seguia seu rumo. D. Ana baixou as mangas do vestido que arregaçara na faina de ajudar Rosa, e foi se chegando para ver o rostinho da menina.

— Vai ter alguma coisa da nossa gente — disse com orgulho. — Nasceu gritando para todo mundo ouvir.

Caetana enrolou mais a menina no xale de lã e apertou-a contra o peito. Lá fora, começava a cair uma chuvinha miúda e fria.

 

Acordaram muito cedo naquela manhã. O estaleiro estava em polvorosa. Era chegado, finalmente, o dia de partir. Garibaldi olhou o céu in-vernal. Estava pálido e sem nuvens. O mês de julho começaria com muito frio. Era bom que não chovesse naquele dia, mas era muito mais impor­tante que não chovesse depois. Ele tinha uma grande tarefa pela frente. E iria cumpri-la molto bene. Fora idéia sua, e ele sabia que daria certo. Outros já tinham feito travessia igual à que imaginara; venezianos mui­to antigos e Marco Antônio, o romano, tinham usado de artifício igual. E agora era chegada a vez dele, Giuseppe Garibaldi, fazer a sua mágica. Deu ordens para que os homens recolhessem tudo, deixassem o estaleiro em ordem. Não queria que D. Antônia ficasse com más re­cordações da sua pessoa. Porque iria voltar. Sim, voltaria, quando ti­vesse cumprido a sua missão, para buscar Manuela.

— Carreguem o Farroupilha. Il mare nos espera, homens! Havia muita expectativa no ar. Ignácio Bilbao e Carniglia levavam alguns víveres e cordas para o barco. Iam cantando. Era um dia com cheiro de novidade.

O plano tinha sido meticulosamente tramado por ele e por Davi Canabarro. Garibaldi precisava levar os seus barcos para o mar. Do estaleiro, pela Lagoa, navegariam até o Rio Capivari, cuja foz era coberta por uma brenha cerrada. Era um riozinho estreito e raso, mas Garibaldi tinha os seus "patos". A segunda parte do plano era a mais corajosa e difícil (mas os romanos já a haviam provado possível). Le­variam por terra os barcos até a Lagoa Tomás José, em Tramandaí. Dali, chegariam ao oceano e tomariam o rumo de Laguna.

Giuseppe Garibaldi sabia que Greenfell o esperava ali perto, na Lagoa dos Patos. Mas já enganara o inglês muitas vezes, e faria tudo de novo. Até gostava daqueles jogos de gato e rato — era um rato esper­to. A travessia por terra era mais ousada e necessitava de calma. Para isso, Davi Canabarro já estava em Tramandaí, limpando a região, amealhando cavalos, madeira, e organizando os homens.

 

Ganharam as águas da Lagoa sob o céu azul e frio do inverno gaúcho. Logo, os barcos de Greenfell os perseguiam. Mas os lanchões farrou­pilhas eram mais ágeis e leves. Garibaldi ia no Farroupilha, e John Griggs comandava o Seival. Os barcos pequenos, os novos, iam atrás e tinham outros caminhos a percorrer.

O vento frio zunia em seus ouvidos. Garibaldi exultava. A água se abria em leques azulados, dando passagem ao imenso animal que des­lizava sobre ela. Logo, Garibaldi avistou a barra do Rio Capivari, com seus matagais densos e misteriosos. O Farroupilha foi enveredando pelo meio da vegetação, como um pássaro que busca o ninho. Griggs fez a mesma manobra com o Seival. Rapidamente, ambos os barcos sumi­ram entre as ramagens, como se nunca tivessem passado por ali, como se nunca tivessem existido. Garibaldi abriu um sorriso de satisfação. Sabia que Greenfell iria esperá-los do outro lado. Esperariam para sempre. Os lanchões farroupilhas não sairiam do Capivari pela água.

Quando escolheu um bom lugar, Giuseppe mandou que camuflas­sem os mastros dos barcos com ramagens e folhas, e os homens se jo­garam no serviço. Já anoitecia.

 

Duzentos bois foram requisitados em segredo pelos soldados de Davi Canabarro. A madeira necessária foi recolhida das matas e forjada em fogueiras, onde, depois, se assava a carne. Garibaldi mandou construir duas grandes carretas, cada uma com quatro rodas, que tinham mais de três metros de altura e quarenta centímetros de largura. Canabarro e Garibaldi acompanhavam o trabalho atentamente.

Numa tarde cinzenta e fria, começou a tarefa de colocar os barcos sobre as carretas. Garibaldi mandou que a primeira carreta fosse submersa num pequeno arroio, depois os homens suspenderam o pri­meiro lanchão até a quilha e o fizeram repousar sobre o duplo eixo da carreta, sempre deslizando-o nas águas geladas do rio. Apesar do frio terrível, os marinheiros tiveram êxito na tarefa: depois de muitas ho­ras, quando a noite já vinha, pesada, o Seival e o Farroupilha repousa­vam sobre as duas carretas, prontos para viajar pelo pampa.

Com a ajuda de muitas parelhas de bois, no dia seguinte as carre­tas submergiram com sua carga impressionante. Os homens urraram de alegria. Davi Canabarro olhou tudo sem demonstrar emoção. Garibaldi pensou no sorriso que Manuela daria se visse aquele estra­nho espetáculo.

Começava, naquele gélido princípio de julho de 1839, a travessia por terra dos barcos republicanos.

Choveu muito naqueles dias. As carretas atolavam constantemen­te, mas sempre havia parelhas de bois descansados, e sempre havia a crua energia de Giuseppe Garibaldi, incansável na sua tarefa. Foram oitenta e seis quilômetros de travessia pelo pampa coberto de relva, aqui e ali empoçado de água, mas o pequeno exército seguiu firme, e por onde passava era aplaudido pelo povo. Nunca se havia visto no pampa uma cena igual.

Na Estância da Barra, Manuela passava os dias à janela, olhando a chuva miúda pingar do céu, os olhos baços, o apetite pouco, sempre um arrepio nas costas e aquela vontade de chorar. D. Ana fez-lhe chás, tocou músicas ao piano, tentou alegrar a menina de todas as maneiras. Mas por fim cedeu também ela à tristeza: tinha ficado amiga de Giuseppe Garibaldi, aquele italiano engraçado e contador de causos, e agora ele fazia falta nos dias cinzentos do final de inverno. Maria Manuela acendia velas à santa, agradecendo a bênção de sua filha mais moça estar livre dos encantos daquele corsário de olhos dourados.

Quando chegou à Estância a notícia do grande feito de Giuseppe Garibaldi, D. Ana deixou escapar um sorriso disfarçado. D. Antônia, que estava visitando as irmãs naquele dia, permaneceu séria, atenta à sobrinha, vigiando duramente aquele afeto que crescia no seu peito a cada vez que pensava no italiano.

— Giuseppe Garibaldi é um herói — comentou Mariana, impres­sionada com a façanha do corsário que levara os seus barcos através dos campos.

Maria Manuela mirou a filha com um brilho de fúria nos olhos cansados.

— Um herói para pouco serve quando uma guerra acaba, Mariana. Não se olvide disso. — Virou o rosto para Manuela, que remexia pensativamente no seu cesto de bordados. — E você principalmente, Manuela de Paula Ferreira, lembre do que eu disse e não me cometa nenhum desatino. Eu não suportaria mais um sofrimento.

Manuela sustentou firmemente o olhar duro da mãe. Por um mo­mento, sentiu pena daquela mulher que, havia pouco, lhe parecia tão bela e doce, e agora era apenas uma figura triste, pálida e sem forças. A perda do marido tinha roubado um quinhão da sua vida. Manuela baixou os olhos outra vez.

— Giuseppe está longe demais daqui, mãe, para que vosmecê se apoquente por ele.

E sua voz soou lúgubre.

 

Rosário entra no quarto que cheira a alguma coisa doce, leitosa, que não consegue precisar. Uma luz tênue atravessa as cortinas levemente arriadas, uma luz fraca de entardecer invernal. Num canto da peça, sobre a larga cama, Perpétua dorme. A filha está ao seu lado, uma coisinha rosada, um pequeno embrulho de mantas e laços de fita, cuja cabecinha de penugens douradas mal se salienta entre tantos agasa­lhos. Teresa mexe o rostinho durante o sono, emite suaves grunhidos, como os de um animalzinho mui pequeno, como os dos cãezinhos que uma cadela da casa pariu faz alguns dias, e que Rosário às vezes vai espiar lá no galpão. Teresa é uma menina bonita, e Rosário sente amor pela menininha. Mas sente também estranheza. Perpétua casou, está feliz, ama o marido. Agora tem essa filha. E ela, Rosário, nada tem. Faz muito tempo que Steban deixou de vir vê-la... Steban, com seus brios, com seus ares translúcidos e sua beleza fluida que muitas vezes a exaspera, quando desperta alagada em suores e sente que ele a está vigiando no escuro, como um gato, como um fantasma. Mas Steban é um fantasma, é preciso acostumar-se com isso.

Rosário caminha suavemente, para não acordar a prima e a crian­ça. Num canto perto da janela está a arca de madeira. Sabe que ali está o que procura. Abre a arca com cuidado e pega o pacote envolto em linhos. Um cheiro de alfazema exala do pacote bem-feito.

 

Rosário tem o mesmo corpo que a prima, exatamente a mesma cintura fina, exata, o mesmo colo alto, bem-feito, mas sua pele é mais clara, confunde-se com o pano perolado do vestido, parece outra seda, mais suave ainda, mais frágil ainda. A saia desce bem pelos seus quadris, macia e delicada. Rosário toca as rendas com cuidado; a perfeição dos trabalhos, dos bordados de pérolas, deixa-a estupefata. Um vestido muito caro, aquele. Sabe que o tecido veio de longe, que foi encomen­dado por Caetana, e Caetana entende de modas, é fina e elegante.

Rosário prende sozinha os cabelos claros num coque no alto da cabeça. Faz isso sem muito jeito, sempre uma das negras está por per­to para ajudá-la, mas agora não quer ninguém. Esse momento é só seu. Ajeita entre os cabelos a grinalda de flores. São minúsculas florezinhas de seda, com seus miolos bordados de pedraria. Ela se ergue e vai para a frente do espelho. Afasta-se um pouco para mirar-se melhor. E não acredita no que vê. Está tão linda... Ah, como está linda! A mais bela das mulheres, a mais suave e perfeita criatura. Nem parece ser deste mundo. Talvez, vestida assim desse modo, Steban volte para buscá-la. É justo que ela, Rosário, não pertença a esta terra dura, gélida, cruel.

Ela se mira com tanta emoção, que de seus olhos escorrem lágrimas grossas. Mas são lágrimas de felicidade. Agora sabe, agora tem certe­za. Steban não irá abandoná-la, não a ela, que mais parece um anjo.

Pensando assim, num passo elegante, como se entrasse num salão de baile, Rosário sai do seu quarto e segue andando pelo corredor. Está vazio o corredor, mas é como se mil olhos a fitassem, é como se dois mil pares de mãos estivessem aplaudindo a sua passagem, e ela abre um sorriso emocionado. Um sorriso lindo, digno de uma rainha. "De una reina", pensa ela.

 

"Minha querida prima Manuela,

Vosmecê deve ter estranhado que tanto tempo se passou sem que eu le mandasse uma carta, embora a saudade muito me corroesse aqui den­tro do peito. Mas é que andei por este pampa de um lado a outro, no más, e tantas foram as tarefas e refregas e feridos, que tive de esperar para escrever a vosmecê. Agora estou com meu pai em Piratini, onde restarei por alguns dias. Ainda ontem, encontrei com Antônio, seu irmão, e ele le mandou lembranças e carinhos, e também à sua mãe e às primas.

Mas é do meu afeto que desejo le dizer, Manuela. Do meu afeto que solamente cresce por vosmecê, e que me faz desejar o final desta guerra, para que eu possa regressar à estância e estar junto de vosmecê por todo o tempo. Às vezes penso, no entanto, se esse meu afeto tem morada em seu peito, porque em todos esses meses solamente um pequeno bilhete seu me chegou às mãos. Bilhete que guardei em minha guaiaca como um tesouro que me alegra e me protege, Manuela. Mas sei que vosmecê está longe, que as comunicações são difíceis e que as cartas se perdem nestas estradas cheias de más surpresas. No entanto, almejo que vosmecê não me olvide, e que esse silêncio seja apenas saudade. E que vosmecê tam­bém tenha por mim o carinho imenso que le tenho.

Aproveito esta carta para mandar notícias da guerra às tias e às pri­mas também. Como se sabe, estamos agora tentando abrir frentes em Santa Catarina. Vosmecê deve mesmo ter conhecido o italiano Garibaldi, que tão perto da estância esteve hospedado para construir os lanchões

da República Rio-grandense. Este italiano, a quem todos elogiam a co­ragem e a habilidade na navegação, causou muito espanto no pampa quando transportou seus barcos por terra, sendo eles puxados por pare-lhas de bois. Sei que vosmecês devem saber disso e com isso terem muito se alegrado. Sei que D. Ana e D. Antônia gostaram de Garibaldi por demás, e então aproveito para contar do infortúnio que sucedeu a esse italiano quando ele saía com os barcos pela barra do Rio Tramandaí.

Um grande naufrágio colheu os barcos republicanos nesse dia de tra­gédia. Parece mesmo que um vento sul mui forte açoitou o mar, tornan­do-o perigosíssimo. Não sei como tudo sucedeu exatamente, porque as notícias sempre vêm desfalcadas de um ou outro fato, mas sei decerto que dezesseis homens morreram nessa desdita, dentre eles os italianos Matru e Carniglia, e até um certo espanhol de sobrenome Bilbao, de quem muito se palreava da sua coragem. O comandante Garibaldi não foi en­golido pelas águas, para sua sorte e sorte das nossas tropas, mas poucos companheiros conseguiu salvar, devido ao mau tempo e à violência do mar. O barco menor, comandado pelo americano John Griggs, que vosmecês também devem conhecer, esteve quase à deriva, mas conseguiu se salvar por ser menor e mais leve, e pôde ancorar numa barra conhecida como do Camacho, onde después foi encontrado intacto e com toda a tripulação.

De resto, Manuela, há também a notícia de que o tocaio de meu pai, o Bento Manuel, desligou-se das tropas farroupilhas e diz ter ido viver em suas terras, por estar cansado da guerra e sentindo-se mal considerado pelo nosso governo. Pois vosmecê deve saber que esse outro Bento é um traidor que mui trapaças já nos fez, mas mesmo assim vi meu pai sentir a perda da sua pessoa, pois se diz dele que é um bom comandante de armas.

Por favor, conte todas essas novidades para as tias e para minha mãe. Mande meus carinhos para Perpétua, e le diga que estou mui contento pelo nascimento de Teresa, e que logo, assim que for possível, estarei uns dias com vosmecês para dar conta dessa saudade que me aflige.

E vosmecê, Manuela, não esqueça o muito que le estimo e sinto a sua falta,

com carinho, Joaquim.

 

Piratini, 20 de julho de 1839."

D. Antônia desceu da sege em frente à casa. Fazia um frio seco, o céu estava muito azul. Soprava um vento leve, gelado. D. Ana, parada à varanda, esperou que a irmã galgasse a pequena escada.

— Vamos lá para dentro, Antônia. Tem um mate pronto, e a larei­ra está uma beleza. Esse frio está me corroendo os ossos.

A sala estava vazia, apenas se ouvia o ruído da lenha crepitando. O tricô de D. Ana estava sobre uma banqueta, perto do fogo. D. Antônia quis saber onde estavam as outras parentas.

— Lá para os quartos. Perpétua e Caetana estão com a menina. As outras, nem sei. — D. Ana suspirou lentamente, e buscou lugar na cadeira de balanço. — Isto aqui está uma tristeza desde a carta do Joaquim. Manuela anda calada feito um túmulo, me faz lembrar a mãe. Mariana, nem se fala; quando soube do infortúnio do tal marinheiro, chorou dois dias seguidos. Nem chá, nem as rezas de Rosa le acalma­ram os nervos. Agora, mal sai do quarto. E eu que nunca notei a pai­xão da guria...

D. Antônia sacudiu pesarosamente a cabeça.

— Isso passa. Era um amor de divertimento, Ana. Que futuro te­ria a Mariana com o tal espanhol?

D. Ana sorriu tristemente.

— Vosmecê sabe como é a juventude... Agora que o moço está morto, o amor dela deve ter aumentado. E sempre assim.

— A galinha do vizinho é mais gorda.

— A gente solamente quer o que não pode mais ter...

D. Antônia sentiu um arrepio no peito. Tinha recebido a notícia do naufrágio por Zé Pedra. Sentira muita pena dos homens que tinham morrido; de alguns, lembrava até o rosto. Eram valentes soldados, todos eles. Achegou-se numa poltrona e ficou uns instantes olhando o fogo.

— Cadê esse mate? — perguntou por fim, para dissipar a angús­tia que lhe ia na alma.

A irmã tocou uma sineta. Uma negrinha miúda apareceu com a chaleira e a cuia preparada. D. Ana esperou que D. Antônia tomasse a primeira cuia e disse:

— Vosmecê soube de Rosário? Não. Ela não tinha sabido.

D. Ana contou então que tinham encontrado a sobrinha vagando pelo capão, usando o vestido de noiva de Perpétua. E já era noite, noi­te iria. Rosário estava roxa de frio, e chamava um nome. Aquele nome de homem que ela sempre teimava em repetir.

D. Antônia ficou muito séria.

— Essa menina está com algum problema de cabeça. Era bom procurar um médico entendido dessas cosas.

— Nós chamamos um doutor de Camaquã. Vosmecê tinha que ver a tristeza da Maria Manuela quando viu a filha daquele jeito. Parecia que ia morrer a qualquer minuto. E quando o médico veio e olhou a Rosário, Maria só dizia: minha filha não é louca, minha filha não é lou­ca, não. Mas o médico ficou achando tudo mui estranho. Disse que a Rosário tinha tido um surto.

— A nossa família não é de surtos.

— Nem eu lembro de ter havido um louco, a menos que me tives­sem escondido o causo.

D. Antônia serviu o mate e passou a cuia para D. Ana.

— É de pôr olho em Rosário. Essa guerra está mui longa... Sabe-se lá o que pode suceder com a menina, já meio doente, tanto tempo nesta estância. — Tirou do bolso do vestido uma carta. Abriu-a e es­piou um pouco seu conteúdo. — E de Bento, Ana. Parece que eles tomaram Laguna. Que foram recebidos com festa. Bento está mui con­tento com os rumos da coisa lá em Laguna. Um porto é do que eles mais precisam.

— Quem sabe assim essa guerra acaba, no más. Eu já nem sei o que fazer com essas gurias.

— Nós não fazemos, nós esperamos, Ana. E é preciso que se man­tenha a ordem da casa. Senão tudo se vai, tudo se vai. Não deixe que elas fiquem à toa, esmigalhando tristezas. Assim é até pior.

D. Ana olhou a irmã mais velha sombriamente e nada disse. O fogo levantava-se em altas labaredas. Lá fora, começava a ventar. Na va­randa, Regente, o cão vira-lata que Manuela havia adotado, começou a ganir. D. Ana pensou nas histórias de minuano que tinha contado a Garibaldi, e sentiu vontade de que o italiano estivesse por ali.

 

Cadernos de Manuela

Pelotas, 20 de dezembro de 1880.

A carta de Joaquim caiu sobre minha alma com o peso de uma mon­tanha. Ah, os pesares que meu pobre Giuseppe enfrentara! E tantos homens mortos, homens com os quais eu proseara muitas vezes aqui em casa; Luigi Carniglia, sempre tão gentil, a quem Giuseppe dedica­va tanto afeto, a ponto de le chamar "irmão"; e Matru, o outro italiano, amigo de Giuseppe desde a infância em Nizza... E Ignácio Bilbao, por quem Mariana chorou tanto tempo. Sim, pois Mariana gostava do es­panhol, e dele falava sempre com os olhos ardentes de afeto. Sabê-lo morto, sepultado sob as águas sem nem uma bênção, sem cruz ou flor sobre seus ossos, deixou-a em estado lastimável. Todos os seus sonhos se tinham afogado junto com Ignácio. E dele guardara, segundo me confidenciou naquele tempo, o gosto de um único beijo.

Naqueles dias invernais e escuros, eu só fazia pensar nas angústias do meu Giuseppe, que agora devia se sentir mui solito nesta terra, pois seus maiores amigos e mais fiéis companheiros haviam todos perecido no naufrágio. E o Farroupilha, o barco que ele construíra com tanto empenho, do qual se orgulhava como um pai, era outro dos defuntos engolidos por aquele mar bravio. Dos sonhos de Giuseppe, havia res­tado muito pouco. E tanto esforço, e a proeza de cruzar este pampa com os barcos sobre carroções, tudo isso se tinha perdido... Deus não teria qualquer piedade daqueles homens que tanto faziam por um sonho? Não haveria qualquer clemência em seus atos, ou estavam sendo castigados por uma guerra que já ensangüentava todos os quadrantes deste Rio Grande? Impossível que eu tivesse essas respostas... E nem sobre isso eu podia conversar com minha mãe ou com as tias. O que se tinha sucedido de ruim morria para nossas bocas. Era a lei da casa, e somente no silêncio dos nossos quartos era possível que se pranteasse um amor morto, que se duvidasse de Deus ou que se tivesse medo do futuro.

Muitas vezes imaginei se Giuseppe pensava em mim naquela terra de Santa Catarina, se, nas noites tristes que se seguiram ao naufrágio, teria ele ansiado por meus abraços, por meu carinho e por meu conso­lo. Sonhava com ele todas as noites, seus olhos de âmbar, seu rosto bonito, seus cabelos de ouro puro... Vinha sua imagem sempre aque­cer minhas noites gélidas, espantando o medo de sob os meus lençóis, fazendo sossegar o vento que assobiava lá fora como um morto inse­pulto. Eu vivia, então, para pensar nele, enchendo páginas e páginas do meu diário, cobrindo cadernos inteiros com frases de saudade e juras de um amor que nunca se veria realizado. Eu ainda não sabia... Mal abandonava o quarto na horas das refeições, ou quando D. Ana exigia de mim o cumprimento de alguma tarefa caseira. Ficava à beira da ja­nela, olhando o campo nu e corroído pelo inverno, vendo a chuva cair de um céu pesado e cinzento, anúncio de maus presságios que sempre me traziam pânico. Ia, às vezes, brincar com a pequenina filha de Per­pétua, mas a alegria sossegada da prima me causava remorsos, e temia maculá-la com minhas tristezas. Ficava pouco em sua companhia, e nenhuma das suas doces frases de incentivo chegou sequer a amainar a angústia que me corroía.

 

No princípio de setembro, chegaram mais notícias sobre Laguna e sobre os republicanos. Tinham eles entrado na vila sob a escolta alegre do povo. Os sinos repicaram nas igrejas. Davi Canabarro, Teixeira Nunes e Giuseppe Garibaldi foram recebidos como heróis. Haviam feito mais de setenta prisioneiros, matado dezessete soldados imperiais e tomado quatro escunas da Marinha, quatorze veleiros, quinze canhões e mais de quatrocentas carabinas. Todo o esforço tinha valido a pena: Lagu­na agora era republicana, e iniciava-se então o governo sob o coman­do de Canabarro, condecorado general.

Comemoramos a boa nova com uma ceia quase alegre — tínhamos discretas alegrias naquele tempo. D. Antônia, Caetana e D. Ana esta­vam jubilosas: Laguna seria fundamental para os planos republicanos, com seu porto de mar e sua localização estratégica. Falaram muito naquela noite, e vi o velho piano de minha tia ressuscitar suas valsas, que não se ouviam na casa desde o baile em homenagem a Bento Gon­çalves. Mas minha mãe pouco ou nada disse, presa de seu eterno esta­do de tristeza. Para ela, a guerra tinha pouca importância, a não ser por ter Antônio entre suas fileiras; andava, então, sofrendo por Rosá­rio, que se tornara cabisbaixa e cheia de segredos, e que, desde a noite em que fora encontrada vestida de noiva, mal se sentava à mesa conosco. Naquela noite, ceou em nossa companhia, e pude ver seu rosto abati­do, as manchas arroxeadas que volitavam sob o azul dos seus olhos outrora tão vividos. Não falou da Corte nem dos antigos bailes que tanto adorava. Estava mais magra e muito alheia, sorvendo sua sopa com os olhos presos no prato, sorrindo às vezes para ninguém, ou fitando ca­deiras vazias como se ali visse a sombra de uma pessoa só dela, que nossos olhos não podiam perceber.

Mariana tinha melhorado então do seu luto, mas não via graças em comemorar uma vitória que lhe trouxera tamanho pesar; pouco comeu, e nada disse. Eu estava feliz por meu Giuseppe, recebido como herói, um salvador de povos (de quê tinham eles salvado aquela gente de Laguna, eu nem saberia dizer), um homem que merecia o afeto das multidões, o dobrar dos sinos nas igrejas, as palmas das damas nas varandas. Quisera eu estar ao seu lado naquele momento, e dividir com ele tamanha glória.

Ah, eu não sabia então que meu Giuseppe estava a um passo de conhecê-la, a outra, a que o acompanhou e o seguiu e viveu com ele todos os sonhos que teci para nós. Aquela que se chamava Anita... Sim, dentre a multidão que o aplaudira em Laguna naquele dia de vitória, decerto estava ela, olhando-o de longe, já ansiando o momento de fa­lar-lhe, de fazer-se sua como enfim se fez.

Mas tinha eu dezenove anos, idade pouca o suficiente para crer que meu frágil amor era um robusto castelo, que Giuseppe se guardaria para mim, para mim que lhe era proibida, para mim que estava pro­metida ao filho do presidente da República pela qual ele lutava... Ah, como fui tola, hoje sei. Não tola por crer que Giuseppe tivera amor por mim — pois ele amou-me com toda a sua alma —, mas apenas tola por acreditar que esse amor teria um dia o seu sossego. Nosso noivado secreto, feito de juras e de beijos, o quão estava distante daquela reali­dade lagunense... Giuseppe não era mais o mesmo, então. E nem me­lhor, nem pior (tinha aquela fímbria que Deus deu a uns poucos, tinha honra), mas era apenas um homem longe de sua pátria, que vira mor­rer seus amigos, e que muito ainda teria que lutar. Um homem que vivia dia após dia, por pura necessidade de enfrentar a vida assim, e que por essa causa tinha um peito amplo e um coração valoroso, mui capaz de vivenciar o amor. E o amor lhe vinha. E o amor outra vez o perseguia naquelas terras lagunenses, e ele ainda nem desconfiava.

 

Manuela.

A casa tinha recuperado uma certa paz, já não se via Mariana cho­rando pelos cantos, nem Maria Manuela a rezar no oratório por tardes inteiras: fazia tempo que não se ouviam notícias do corsário ita­liano, e também Rosário melhorara um tanto, mesmo imersa num si­lêncio inexpugnável, agora já sentava à mesa todos os dias e voltara até mesmo aos bordados.

A primavera tinha sido boa também para os exércitos republi­canos. Vitórias e expansão, a tomada de Laguna, a mudança da capital para a cidade de Caçapava, tudo contribuía para aumentar o ânimo das gentes partidárias de Bento Gonçalves e seus generais. Recentemente, Caetana tinha ido encontrar o esposo em Caçapava, onde participara de um faustoso baile, e voltara para a estância im­pressionada com o progresso da cidade. D. Ana não visitava Caça­pava fazia muito tempo, e se espantou com as descrições da cunhada: Caçapava tinha hospital, imprensa, quartéis, um governo com mi­nistros, uma igreja faustosa e edifícios elegantes que provavam que a República podia ser muito rica se os ventos continuassem a so­prar a seu favor.

Não esperava, portanto, naquela manhã fresca e ensolarada, que uma carta por si só tão almejada — fazia muito que não tinha notícias de José — fosse lhe trazer tamanho quinhão de angústias, e ainda sor­via seu mate com toda a calma, quando Zé Pedra veio anunciar a pre­sença de um soldado que desejava prosear com a patroa.

D. Ana recebeu o jovem republicano na varanda, e seus olhos bri­lharam quando ela reconheceu a letra que cingia o envelope que lhe foi entregue. Mandou que dessem comida e bebida para o soldado, e que lhe alcançassem também um pala novo (o dele estava em tiras), coisa que o jovem agradeceu com um sorriso aliviado e orgulhoso ao mesmo tempo.

D. Ana correu para o quarto e abriu o envelope já meio enxovalha­do. Sentia o peito batendo forte: fazia muito que José não vinha vê-la, e agora, estando em Laguna, era impossível que não temesse por ele. Até quando soprariam os ventos da boa sorte para os republicanos de Santa Catarina? Os imperiais não deixariam a vitória republicana im­pune. Lá, os rebeldes estavam longe do grosso dos seus exércitos, sus­tentavam solitos aquela revolta, apenas com o fio de suas adagas e a força de sua coragem. E o seu filho estava em Laguna lutando ao lado da gente de Canabarro... O filho tão parecido com Paulo, o filho que ela ensinara a ler, que vira crescer e virar homem feito, de barba es­pessa e voz grossa que ela amava tanto, tanto.

 

"Minha querida mãe,

Escrevo de meu quarto aqui na vila de Laguna, pois sei que amanhã o italiano Rosseti despachará correio ao Rio Grande, e guardo que esta car­ta siga junto até as mãos da senhora. Sei que deve estar pensando em mim e em como estou aqui nesta nova República, e le digo que esteja tranqüila quanto à minha saúde, que vai mui bien, e ao meu estado, que aqui tenho de tudo o que fazer e estou com as tropas do nosso valoroso Teixeira Nunes.

O mesmo, minha mãe, não le digo desta nossa república recém-instaurada. Tudo aqui parece estar desandando mui rapidamente, e só Davi Canabarro — ocupado em exercer seus desmandos e seu poder — parece não notar que as coisas estão malparadas. De tudo já sucedeu. Davi Canabarro busca apenas livrar-se dos que considera subversivos, nada fazendo para ser benquisto por este povo, que já começa mesmo a desprezá-lo. Há aqui um padre com grandes influências, chamado Vilella, e até com esse homem da Igreja o general já se desentendeu amarga­mente. Mandou prender mais de setenta pessoas, isso numa vila pequetita como é esta Laguna. É um desmando total, mãe, e fico imaginando o quanto não seria bom que Bento Gonçalves chegasse por aqui, com sua palavra única e seu modo sereno e guapo de tomar decisões. Mas Bento não vem, e o pobre Rossetti não consegue mais contornar as atitudes des-póticas de Canabarro.

Para que a senhora saiba como vai tudo, ouça que até mesmo o ita­liano Giuseppe Garibaldi, tão honroso soldado, e a quem tanto nós deve­mos, cometeu a sua falta, tendo se apaixonado e tomado para si uma moça da vila que era casada, e cujo marido está na guerra junto com as tropas inimigas. Pois o nosso valoroso Garibaldi, que furou o bloqueio imperial aqui na barra de maneira tão engenhosa quanto corajosa, levou em seu barco a tal moça de nome Anita e rumou para o litoral de São Paulo, com o intento de fazer capturas nas águas. Esta vila está mui ofendida com esse amor impudico assim consumado em plena luz do dia, e mais ainda com os desmandos de Davi Canabarro, sendo que o povo daqui já não é mais o mesmo que tomou as ruas para nos receber, é bem outro, arisco e fugidio."

 

D. Ana parou de ler a carta para assimilar bem as notícias. As co­sas pareciam tão certas, tudo tão engalanado. Às vezes, afigurava-lhe, no entanto, que estavam construindo castelos sobre a areia. Num so­pro de brisa, tudo desandava sem solução. Mas seu irmão não era hombre de construir castelos sobre areia, isso não era, ela sabia mui bien. Bento deveria estar a par das escaramuças em Laguna. Bento faria alguma cosa para conter as fúrias daquele tal Canabarro. Já ouvira falar do homem algumas vezes, um tipo guasca, tosco, mas um bom soldado cheio de valentia. O irmão, decerto, tinha um plano para se­gurar a coisa toda, para domar o Canabarro.

Deitou os olhos para o papel uma outra vez, mas não prosseguiu a leitura. Veio em sua mente a imagem de Giuseppe Garibaldi. Ficou pensando no italiano, no sangue quente do italiano, e ficou pensando na sobrinha. Na casa, liam todas as cartas em voz alta, ao jantar — era uma combinação que tinham desde o começo daquela espera. Ela leria a carta de José, mas não antes de chamar Manuela até seu quarto, de fazê-la ver o que se tinha sucedido, de ajudá-la a entender que, mesmo antes de Garibaldi ter tomado para si mulher casada, aquele amor que eles tinham vivido na estância já estava fadado ao fracasso. Não que­ria que Manuela tivesse desilusão maior do que a necessária, não era bom que uma mulher odiasse demais um homem, ódio e amor eram sentimentos por demais semelhantes. E o ódio de uma mulher poderia ser mais duradouro do que uma guerra. Sim, era preciso falar a sós com Manuela. E falar com zelo, cuidadosamente.

D. Ana suspirou. Eram tantas coisas. O dia estava lindo lá fora, e o mundo parecia muito sereno. Mas não. José, seu filho, estava agora mesmo no meio de um palheiro prestes a incendiar. E Bento Gonçal­ves estava em Caçapava.

Ela retornou à leitura.

 

"Hay outras cosas que preciso le contar, mãe. Mas serei breve, pois já não tenho tempo.

Ontem, a expedição de Garibaldi retornou, e estavam mui destroça­dos os barcos, e cansados os homens. Apesar de terem se safado de inimi­go mui superior, pois a expedição cruzou com o navio imperial Andorinha, mesmo assim não tiveram qualquer bom fruto com a campanha. Tinham aprisionado dois barcos do Império, mas os largaram no afã da luta com o Andorinha, tendo então voltado a esta Laguna de mãos vazias. Parece que a tal Ana Maria — a quem Garibaldi chama de Anita — retornou também, e que muito lutou, tão bravamente como um homem. Já se fala nas ruas da sua coragem excepcional. Mas se a senhora a visse: é uma moça franzina, de rosto delicado e gestos corteses, simples e até mesmo bonita. Impossí­vel imaginar criatura semelhante em meio a uma batalha cruenta.

Tropas imperiais numerosas rumam para cá. E a freguesia de Imaruí, que fica mais ao norte de Laguna, já se bandeou para o lado dos cativos. Ontem, logo após a chegada do italiano, Davi Canabarro reuniu a todos e ordenou que fossem tomadas medidas cruéis contra o povo de Imaruí, para dar o exemplo. Garibaldi e seus homens foram designados para atacar a vila. Vi, nos olhos do italiano, o pesar por tão terrível ordem, mas ele não pode desacatar um superior seu, e amanhã os barcos partem para seu duro destino.

Además, mãe, estamos vivendo e lutando. Não se preocupe a senho­ra com este seu filho, que sou mui capaz de seguir em frente e de lutar em quantas batalhas seja a minha espada necessária. Agora findo esta carta. Meus carinhos e saudades para a senhora, e para as tias e primas,

seu filho querido,

 

José.

Vila de Laguna, 6 de novembro de 1839."

Manuela bateu de leve na porta.

— Entre — respondeu D. Ana, sentada na cadeira de balanço perto da janela.

Manuela usava um vestido simples, rosado, e tinha os cabelos mui­to negros presos numa longa trança. D. Ana apreciou a beleza vigoro­sa da menina.

— Vim le dizer que tia Antônia está aí. Vai pousar aqui esta noite.

— Buenas — disse D. Ana, sorrindo. — Já vamos lá ver a Antônia. Antes eu preciso falar uma cosa com vosmecê. — Manuela estava em pé, no meio do quarto. — Sente aqui, do meu lado.

Manuela acomodou-se na cadeira de palhinha e ficou esperando.

— Recebi uma carta hoje, Manuela. — A voz de D. Ana era doce e serena. — Uma carta de José. Uma carta que fala no italiano Garibaldi. — Os olhos verdes de Manuela se acenderam de inte­resse. D. Ana desdobrou cuidadosamente as duas folhas de papel. — Não são cosas boas, Manuela. Mas também não são cosas más. Vosmecê vai entender o que le digo, depois de ler a carta... São cosas desta vida, Manuela.

Entregou a carta para a sobrinha. O rosto de Manuela empalideceu um tanto, e foi se tornando mais e mais descorado à medida que seus olhos percorriam a narrativa derramada naquelas duas folhas de papel ordinário.

Quando acabou a leitura, seus olhos estavam encharcados. Seu lábio superior tremia, mas Manuela fazia uma força atroz para segurar o pranto e manter-se digna na frente da tia.

D. Ana sentiu a aflição inquietar seu peito. Que pena sentia da menina... Mas era a vida. Nem boa, nem má. Apenas a vida. Como ela tinha dito havia pouco.

— Isso é mentira. — A voz de Manuela tremia um pouco. — É mentira, tia Ana... Eu sei que é mentira.

— Para que seu primo ia mentir, Manuela?

— Isso é um mal-entendido, tia. Essas notícias todas, de boca em boca, vão sendo distorcidas, a senhora sabe. Giuseppe me ama. Jura­mos amor um ao outro. Vamos casar, tia... Quando essa guerra toda se acabar, vamos casar. Combinamos isso, em segredo. Ninguém sabe, a não ser nós dois, e a senhora. Mas não diga nada para ninguém, tia, por favor. Ele deve apenas ter ajudado essa moça. Quem sabe ela que­ria partir de Laguna, fugir. Giuseppe deve ter sentido pena dela e a ajudou, tia. Mas ele me ama.

D. Ana segurou a mão fria da sobrinha entre as suas.

— Não se apoquente... Vosmecê precisa ficar calma, Manuela. Por isso le chamei aqui, para le contar essas cosas todas. Não quero que Maria fique le fazendo sofrer mais... Isso é um segredo nosso, está bem? Vou ler a carta hoje para as outras, mas pulo esta parte. Só eu e vosmecê saberemos desse causo. Assim vai ser melhor para todo mundo. Deixe Giuseppe para lá, ao menos por enquanto. Hay cosas demás suceden­do nesta vida, filha.

— Giuseppe não ama essa tal Anita, eu sei. Vi nos olhos dele o quanto me amava. É um homem de honra, tia. Não iria fazer isso co­migo, não iria...

Uma lágrima grossa escorreu pela face de Manuela. Ela parecia perdida como uma criança que vê seu melhor brinquedo quebrado.

— Giuseppe tem honra sim, Manuela. Mas é um corsário, um aven­tureiro. Ele le amou, mas o amor dele é instável como o seu paradeiro. Isso não o torna uma má pessoa, Manuela, vosmecê veja bem: ele é diferente de nós, só isso. Não le queira mal, por favor. Vá lá se saber o que sucedeu entre ele e essa tal moça... — Acarinhou as melenas ne­gras da menina. — Ele nunca iria voltar, Manuela. Não é homem do tipo que pisa duas vezes a mesma terra. E vosmecê iria ficar esperan­do por ele para sempre... Foi por isso que le mostrei essa carta. Seu primo contou tudo o que sabe, e não mentiu, filha. Mas foi bom. Ago­ra vosmecê pode esquecer Giuseppe e seguir a vida em frente. Não le tenha ódio, mas também não le tenha amor. Vosmecê tem uma vida cheia de coisas bonitas para viver... Vosmecê tem Joaquim, Manuela. Manuela fitou D. Ana com os olhos vazios.

— Vou amar Giuseppe para sempre. — Deu um abraço na tia. Ergueu-se, muito ereta. — Muito obrigada por me mostrar essa carta, tia. Le agradeço do fundo do meu coração.

— Esqueça tudo isso, Manuela. É o conselho que le dou.

— Impossível, tia.

Pediu licença e saiu do quarto.

 

A noitinha derramou seus brilhos, tornando rubro o céu sem nuvens. Achavam-se reunidas na sala ampla as irmãs de Bento Gonçalves. Mariana e Perpétua tinham se acomodado a um canto, uma com a fi­lha no colo, a outra lendo distraidamente um romance. E Caetana en­sinava em voz baixa a filha mais moça a casear um pequeno trapo de cambraia branca. As janelas estavam abertas para o campo e pairava em tudo o cheiro das flores e da relva. Ao longe, ouvia-se uma cantoria castelhana, uma milonga triste e cheia de saudade.

Faltava pouco para o jantar. D. Antônia examinava os papéis da venda de uma ponta de gado. Estava séria. A guerra ia empobrecen­do-os lentamente, as coisas já não eram como antes. Agora trabalha­vam para manter as terras, quase nada sobrava, e, às vezes, chegava mesmo a faltar. Mas sempre dava-se um jeito.

D. Ana arrematava um bordado. Tinha no bolso a carta de José, que leria antes da refeição para as parentas. Estava triste, e aquela cantoria lá fora não ajudava. Manuela tinha ido para o quarto, nem saíra mais de lá. Mandara dizer que estava com dor de cabeça. D. Ana não teve coragem de ir incomodar a sobrinha, mas sabia mui bien que não era a cabeça que lhe doía, e sim o coração. Maria tinha mandado um chá para a filha, mas a bandeja voltara intacta. Agora bordava à sua frente, parecia calma. Andava tão desatenta da vida, angustiada com Rosário. Nem le passava pelas ventas o sofrimento da filha mais moça, pensou D. Ana.

— A cosa anda feia — deixou escapar D. Antônia, ajuntando a papelada da estância.

Mariana, Perpétua e Caetana fitaram-na em silêncio. Não havia nada a dizer. A pequena Teresa começou a choramingar no colo da mãe. D. Antônia, como sempre, arrependeu-se de ter falado demais.

— Cadê a Manuela? — indagou.

— Está no quarto, com dor de cabeça — respondeu Mariana. — Não quer jantar hoje.

— Deve ser uma gripe — resmungou Maria Manuela. — Después le levo um chá de limão bem forte. Ontem, a noite foi bem friazinha, ela deve ter apanhado sereno.

D. Ana ficou olhando a irmã mais moça. Maria Manuela estava se desligando do mundo, suavemente. Era isso. A vida era dura demais para ela. Desde pequena, a vida sempre le pesara demais.

 

Manuela solta os cabelos, que caem pelos seus ombros, em cascatas negras, até a altura da cintura. São fios sedosos, brilhantes e elásticos, que cá e lá se enrodilham em cachos pesados e bem-feitos. Sempre teve cabelos bonitos, desde menina. A mãe contava que tinha nascido ca­beluda e que logo pudera lhe ataviar as melenas.

Olha a imagem que o espelho lhe devolve. O rosto delgado, claro, bem-feito. Os olhos muito verdes, agora ardidos de choro, inchados, sempre foram a predileção do pai. "Essa menina tem esmeraldas em vez de pupilas", dizia sempre. "Vosmecê tem una selva dentro dos olhos", falara Giuseppe, certa vez. Manuela sente as lágrimas quentes descendo pelo rosto. No espelho, parece uma estranha. Uma estranha que chora. Uma estranha com olhos de esmeralda. Pensar em seu Giuseppe e não chorar é impossível.

Pelas cortinas entreabertas entram as últimas claridades do dia. O quarto todo parece imerso numa luz de sonho, rosada e vivida. Manuela fita-se no espelho alto, de cristal. Essa luz lhe dá ares de morta. É como um fantasma. Ela toca nos cabelos, deixando a mão deslizar até o peito e ali aquietar-se, segurando o coração aflito para que ele não exploda de dor sob o peitilho do vestido. Num canto do toucador está o diário que vem escrevendo desde que veio para a estância. Aquele é seu me­lhor caderno, o mais feliz, o caderno em que fala de Giuseppe. Pega o diário, folheia-o quase com ira, joga-o longe. Sorri. É tola e burra como qualquer outra moça. Tão tola quanto Rosário, que ama um homem que não existe. E sempre se achou diversa, mais esperta, mais terrena do que as outras, que só fazem sonhar... No entanto, cometeu também o seu erro: amou um Giuseppe diferente, um príncipe, um herói, um homem bom e delicado e romântico que lhe dissera galanteios e jurara coisas lindas para um futuro que agora está morto.

Abre a segunda das três gavetinhas do toucador. Vasculha entre os pentes, presilhas e grampos e puxa lá do fundo a tesoura negra, pesada. É uma tesoura velha, pertenceu à sua avó paterna. Ela acari­cia a lâmina afiada e escura. Passa a tesoura pelo rosto com cuidado, sentindo a frieza do metal.

Não quer mais viver, se for para estar longe dele. Para quê? Agüen­tar uma lenta sucessão de dias iguais, fingir-se interessada pela guer­ra, pelas vitórias, pelo sangue derramado, por aquela república... Ver outros verões, suar outras tantas tardes até que chegue um inverno, e mais outro e mais outro, até que o minuano estoure em seus tímpanos, corroa sua alma, até que envelheça numa cadeira de balanço, olhando o pampa, feito um fóssil.

A tesoura pesa entre os seus dedos.

A tesoura espera uma decisão.

Mas, e se morrer antes da hora? E se Giuseppe voltar, arrependi­do, dizendo que tudo não passou de uma aventura? E se Giuseppe vier, com sua voz morna, com seu cheiro de mar, dizendo coisas be­las e doces? Carina. Carina mia. Giuseppe pode voltar a qualquer momento. A guerra é imprevisível. Manuela não quer decepcioná-lo. E se ele encontrar dela apenas um sepulcro? Ele, que tem tanta coragem. Ele que varou o mundo, rasgou os mares. Lutou contra todos os homens.

A tesoura é negra como as palavras que José escreveu naquela carta. Anita. Anita. Anita. José disse que Anita tem coragem. Não quer ser Manuela-sem-coragem. A mulher que seguir Giuseppe Garibaldi pe­los caminhos desta vida há de ter coragem.

— Não. Eu não sou covarde.

A voz ecoa pelo quarto vazio. Lá fora, a noite se instalou pelo pampa. Apenas uma réstia de luz entra pelas janelas. Alguém acendeu um lam­pião por perto. Ou são as estrelas. Num canto do quarto, os olhos ne­gros de Regente brilham de curiosidade. O cão gane. Sente a sua tristeza como uma presença.

Ela já não vê seu reflexo no espelho. Assim é melhor. Aperta bem a tesoura com a mão direita. Com a esquerda, num gesto ágil, enrodilha os cabelos. A tesoura faz pouco esforço para cortar os fios. É como se partisse ao meio o corpo de um animal. Sente as mechas se derraman­do pelo chão, libertas, mortas, perdidas de si. Joga a tesoura sobre a cama. Seu coração bate forte, mas ela não tem medo.

— Sou corajosa como Anita. Não é a falta de coragem que vai decidir nossa vida.

Leva as mãos ao pescoço. A pele nua arrepia-se. Manuela sente uma liberdade estranha, masculina, quase animal.

 

Alguém bate à porta.

Manuela, no escuro, hesita. Mas é preciso ter coragem.

— Entre.

A porta se abre e derrama para dentro do quarto a luz de um cas­tiçal. D. Antônia adentra a peça, acostumando os olhos ao escuro.

— Vosmecê melhorou?

Sua voz é desconfiada. Ela ergue o castiçal de cinco velas e vê a sobrinha sentada em frente ao toucador, calma, plácida, com os cabe­los espalhados pelo chão numa massa difusa. Vê seu pescoço esguio, muito branco, e vê seus olhos secos e duros.

D. Antônia fecha a porta e põe o ferrolho.

— Por Deus, menina, o que vosmecê fez?

D. Antônia é uma mulher dura, calejada pela vida. Sabe bem que é preciso ser forte. Os fracos ficam pelo meio do caminho. Mas, ao ajoe­lhar-se no chão, juntando os cabelos de Manuela, alguma coisa se sol­ta em seu íntimo, uma comporta se abre. Ela chora.

— O que vosmecê fez?

Segura os cabelos entre as mãos com delicadeza, como quem car­rega o corpo frágil de uma criança morta.

— Giuseppe encontrou outra mulher, tia.

A voz de Manuela treme, desliza pelo ar, derrama-se no chão. Giuseppe a levou em seu navio, vão viver um sonho de liberdade. E a mulher é corajosa. Abandonou tudo por ele.

— Quem le disse essas cosas?

Tinha sido José. Ou melhor, tinha sido D. Ana. D. Ana mostrara-lhe a carta, ela mesma lera tudo. Era verdade. A moça chamava-se Anita, e pelejava como um homem. Ela não, ela ficara esperando, como todas as outras. E Giuseppe não queria uma mulher como as outras, queria uma mulher especial.

Manuela agora chora aos borbotões. Parece uma criança, com os cabelos cortados. D. Antônia ajeita os longos fios soltos numa trança cuidadosa. Suas mãos ágeis trabalham com destreza.

— Não foi culpa sua, Manuela — vai dizendo, enquanto trabalha. — Garibaldi é um aventureiro, um homem sem pouso. Quando ele seguiu para Laguna, era para não voltar mais, minha filha.

— Não... Ele ia voltar, tinha me prometido. — Abre uma gaveta do toucador, tira dali uma latinha repleta de cartas. — Ele me escre­veu nestas cartas, tia, tantas vezes. Ele me amava... Talvez ainda me ame.

— Talvez, Manuela. — D. Antônia pensou na conversa que tive­ra com Bento. — Talvez não. Garibaldi é um pássaro. Gosta de liber­dade. E luta pelo que deseja.

— Essa tal de Anita é casada.

D. Antônia deposita a trança sobre o toucador. Sorri tristemente. As velas derramam uma luz pálida e inquieta.

— Bento pediu que ele fosse embora. Que esquecesse vosmecê, minha filha. Por causa do Joaquim, que le ama. E porque vocês não servem um para o outro. Eu sabia de tudo, e concordei com ele.

— Então foi isso...

— Não, não foi só isso, minha filha. Giuseppe não disse nada. Não lutou por vosmecê. E ele é um lutador.

Lágrimas descem pelo rosto de Manuela. D. Antônia segura a tris­teza dentro do peito, com gana.

— Ele pode voltar, um dia. E lutar por mim.

— É preciso esperar para ver, filha. Esperar o tempo certo. — Segura a trança. — Por que vosmecê fez isso?

— Porque não tive coragem de me matar.

— Vosmecê tem vida demais para uma loucura dessas, Manuela. Tem força. Eu confio em vosmecê. Nós somos parecidas. — Suspira. — Vamos dizer o quê para as outras?

Manuela dá de ombros.

— Diga a verdade, tia.

— Elas não iam entender, Manuela. E a cosa ficaria feia por demás. Não precisamos de mais um problema nesta casa.

— Não me importo. Tudo o que desejo eu já perdi. Não me im­porto com a mãe, ou com os outros.

— Sua mãe está confusa, por causa da Rosário. Vamos deixar isso entre nós. E vamos esperar.

— Esperar para quê?

D. Antônia fita a sobrinha nos olhos.

— É preciso ter coragem para esperar com dignidade, Manuela. E vosmecê é corajosa, eu sei.

D. Antônia pega um punhado de grampos. Vai prendendo os ca­belos de Manuela na altura da nuca, vai acomodando os fios. Depois pega a trança. Com duas presilhas, ata-a à cabeça da sobrinha como um aplique, disfarçando o trabalho dos grampos. Quando era moça, tinha jeito para os penteados. Manuela mostra um sorriso triste.

— Está quase tão bom como era antes, tia. D. Antônia acaricia seu rosto.

— O que eu quero que fique bom como antes é esse coração, vosmecê não me descuide dele. Quanto aos cabelos, vou ajudá-la a prendê-los como deve ser. Com o tempo você pega o jeito. — Suspira. — Isso vai ser um segredo nosso, Manuela. E agora vamos jantar, antes que as outras desconfiem.

 

"Mãe,

Después da última notícia que le mandei, muitas cosas sucederam em Santa Catarina. Como guardo que meu tio, t> general Bento, esteja por demás ocupado com esta guerra, e temendo que a senhora não tenha recebido notícias do que sucedeu em Laguna, le escrevo estas linhas. A senhora, ao ler esta carta, não se preocupe com este seu filho, que sou toruno, como a senhora mesma sempre disse, e me escapo do que for necessário.

Buenas, no dia 15 de novembro as cosas desandaram na vila de Lagu­na, sendo que o almirante Mariah, comandante da esquadra imperial, colocou vinte e dois navios na boca da barra, cosa que muito assustou nossa gente, embora se confiasse que a barra era intransponível para embarcações de peso, e também que estávamos muito bem armados no forte que protegia a entrada da baía. As gentes de Laguna, ao verem o combate iminente, fugiram. As ruas tornaram-se um caos de pânico e de lutas. Poucos lagunenses ficaram conosco, e por mais que se tentasse, e muito Garibaldi e Teixeira o tentaram, era impossível organizar uma defe­sa terrestre. Apesar das dificuldades, montamos uma linha com cento e cinqüenta atiradores do melhor calão, e seis canhões estavam protegendo a entrada, sendo que os nossos seis barcos foram postos por Garibaldi em semicírculo, para atacar qualquer navio que entrasse na barra de Laguna.

Passava do meio-dia quando tivemos a notícia: os barcos de Mariah estavam forçando a entrada da barra. Era assustador. Por causa das marés, a frota imperial conseguiu lograr o canal e então começou a batalha. A nossa artilharia respondeu com tudo, tentando pôr os barcos inimigos a pique. A troca de fogos foi terrível, pois estávamos muito perto uns dos outros, e por todo o lado o que se via eram navios incendiados e corpos mutilados e gritos. A maioria bélica imperial logo começou a sobressair, apesar dos esforços de Garibaldi, que comandava seus marinheiros com toda a galhardia que já vi num homem sob este céu.

O fim do mundo não teria imagens tão cruéis, mãe. Aquele america­no que a senhora conheceu, o John Griggs, foi partido ao meio por um canhonaço, e em toda parte o que se via era morte e sangue, e de meus olhos, já tão acostumados às misérias dessa guerra, até umas lágrimas escorreram, e foi de pena por tantos sacrifícios. A moça que agora vive com Garibaldi, a Anita, lutou como um homem, transportando gentes e salvando os feridos num pequeno barco, e a víamos do alto do forte, pequenina em meio ao fogo cruzado, indo de um lado a outro, incólume e corajosa.

A batalha destruiu os barcos da nossa república, e o que deles restou conheceu o fogo, pois Garibaldi incendiou-os antes de partir para que não caíssem nas mãos sediciosas dos inimigos. Dos nossos, morreram sessenta e nove homens que foi possível contar. Ainda na tarde desse terrível dia, a esquadra de Mariah ancorava no porto de Laguna, enquanto nossas tro­pas abandonavam a vila e tomavam o rumo de Torres — de onde le escrevo hoje esta carta. Davi Canabarro seguiu conosco, sendo que eu acompa­nho o destacamento do coronel Teixeira Nunes, e com eles partirei breve­mente para Lages. Giuseppe Garibaldi, Anita, Rosseti e o que restou de seus homens vão conosco.

Mãe, não preciso le dizer o quanto foi triste ver nossos esforços assim alquebrados, e ver tanta matança e a perda de tão corajosos soldados. Mas le digo que muitas barbaridades também foram cometidas pelos nos­sos, para o que contribuiu a fúria desse general Canabarro, a meu ver ruim como carne de pá, e que mandou matar o padre Villela a punhaladas, e ainda ordenou que le arrancassem os olhos por ser um traidor, deixando seu cadáver no meio de uma rua, ao alcance dos imperiais, como um presente pela derrota que nos impuseram. Outras atrocidades ele também cometeu, mas não ouso contá-las aqui. Tudo isto muito me faz sofrer, mais ainda do que a fome e a crueza desta andança sem finalmentes. Por suerte, não fui ferido nessas batalhas, e é isso que me deixa em paz. Temos um caminho mui longo para ser vencido por homens feridos, e se eu assim estivesse, talvez a senhora recebesse notícias ainda mais tristes. Mas as suas orações têm feito por mim, mãe.

Imagino o quanto Bento Gonçalves desaprovará essas coisas todas, mãe. Mas a senhora guarde esta carta consigo e não a mostre para nin­guém, pois estes meus desabafos são somente para os seus ouvidos.

E tenha fé que logo estarei com a senhora uma outra vez. Antes disso, tento ainda brios para seguir com o coronel Joaquim Teixeira Nunes rumo à Serra, pois as cosas ainda não estão acabadas em Santa Catarina. Además, não almejo seguir com Canabarro para Torres, que é o destino que ele escolheu.

Seu filho, José.

Camacho, 26 de novembro de 1839."

 

A mesa tinha recebido uma toalha alva e rendada que somente se usava em dias de festa. Os candelabros de prata haviam voltado aos seus postos, por sobre os consoles, nas mesinhas, no centro da grande mesa de jantar, e despejavam sua luz tênue, dourada, pela sala. Fazia um calor ameno naquela noite estrelada de vinte e quatro de dezem­bro. As janelas estavam abertas para receber a brisa que vinha do cam­po, a sala estava toda enfeitada de flores — coisa da qual D. Ana havia feito questão: mesmo que fosse um Natal triste, de solidão, ainda as­sim era Natal, e a casa tinha que estar bem engalanada, bonita.

Num canto da sala, as meninas brincavam. Maria Angélica, alta para os seus nove anos, cantava para que Ana Joaquina dançasse (diziam que Ana Joaquina tinha puxado aos pais como pé-de-valsa), e, de seu bercinho rendado, a pequena Teresa parecia apreciar tudo, silenciosa. Perpétua zelava a filha e pensava no marido: Inácio tinha prometido voltar para o Natal, mas a última carta que recebera dele dava conta de estar em Cima da Serra. Sabia que havia batalha por lá, que José, o ita­liano Garibaldi e até mesmo seu marido estavam lutando sob o coman­do do coronel Teixeira. Sentiu um aperto no peito. Fez o sinal-da-cruz. Que Jesus zelasse por Inácio, que lhe desse ao menos um Natal de paz, um pouco de sossego e boa comida. Ela tinha tanto a lhe dar; acumula­va-se em seu peito um amor que até ardia, amor guardado havia meses, amor de moça nova, apaixonada, que contava os minutos daquela espe­ra infinda. Mas ela nada podia fazer. Olhou as outras. D. Ana orientava as negras na disposição das iguarias. Tinham trabalhado havia dias para servir os doces mais apetitosos, as carnes assadas, o ponche, os pêssegos em calda. D. Ana fazia questão daquela ceia. Perpétua suspirou. A tia tinha razão, afinal. Melhor do que se entregar, como Maria Manuela e Rosário — que agora estava cada dia mais calada, alheia —, era ser for­te, viver o dia. Não estavam todas sãs? Teresa não era uma menininha saudável e bonita? E seus irmãos e primos, mesmo na guerra, não ti­nham coragem de manter a fé? Então, era também tarefa delas seguir o prumo das coisas. Viver, de algum modo.

D. Antônia entrou na sala, trazendo uma bandeja de bem-casados. Manuela vinha atrás. Ultimamente, ambas estavam muito apega­das. Manuela ajudou a tia a acomodar os doces na mesa. Usava um vestido claro, simples, e os cabelos estavam presos num coque à altura da nuca. Manuela tinha emagrecido um pouco nos últimos tempos, mas até a suave palescência de sua pele a deixava mais bonita e delicada.

— Está posta a mesa — disse D. Antônia, com satisfação, olhando a luz do candelabro iluminar a calda âmbar na compoteira de cristal. — Parece uma ceia feita pela mãe.

D. Ana entrou na sala.

— Sua memória foi longe, Antônia — disse, sorrindo. Depois mudou de tom. — Não vamos resvalar em nenhuma tristeza. É preci­so alegrar esta casa. Hoje é noite de festa — caminhou até o piano: — Vou tocar alguma cosa bonita.

Leão lia um velho jornal, tendo Regente aos seus pés. Agora não mais brincava de guerrilhas, estava virando homem, a voz titubeante, os primeiros pêlos de barba a escurecer seu rosto. Aos quinze anos, queria ir para a guerra como os outros. Queria ir para guerra junta­mente com Caetano, que só pensava nisso, e que se tinha decidido em partir no começo do ano.

— Mas que horas são, tia Ana? Já é Natal?

— Falta pouco para as onze, Leão. Logo é Natal. E eu tenho um presente para cada um de vocês. Cosa pouca, mas presente, mesmo assim.

— Faz tempo que não ganho nenhum agrado. Só por isso se deve comemorar — disse Manuela num arremedo de alegria.

Caetana surgiu dos lados da cozinha. Avisou que a carne estava quase pronta, no ponto. Logo serviriam a comida.

— Tinha comigo a esperança de que o Bento viria — disse ela. — Mas a hora passou, no más.

— Ele vem — garantiu D. Antônia. — Se não hoje, outro dia. Ser presidente é cosa cheia de compromissos. Mas ser pai é importante para ele. Decerto vem para o Ano Novo, estar com vosmecê e com os filhos dele.

Caetana sorriu tristemente. Ver o marido era quase um sonho, ain­da mais com as coisas tão confusas na Serra, e com a perda de Laguna.

Ouviram um barulho na rua. Os cães ladraram. Caetano, que esta­va para os lados da varanda, entrou correndo na sala e anunciou: dois cavaleiros acabavam de cruzar a porteira e subiam para os lados da casa. Um deles era o pai. Tinha-o reconhecido, mesmo de longe, mes­mo na escuridão da noite.

Pouco depois, a figura alta de Bento Gonçalves da Silva ocupou por um instante o vão da porta. Fez-se um silêncio espantado. Leão, ao ver o pai, jogou o jornal para o alto. Marco Antônio chegava na sala nesse momento, e a visão repentina do pai general o deixou assustado. Era um rapazito quieto e avesso às guerras.

— Urra! O pai veio! — gritou Leão, e correu a abraçar a figura barbuda que adentrava a sala, no uniforme vermelho e azul.

Bento Gonçalves derramou sua risada.

— A esperança é a última que morre. Não é assim que se diz? Además, o Cristo só nasceu à meia-noite, e pelo que sei ainda não estamos adelante. — Entrou na sala, e o ar pareceu sumir, sugado por seus pul­mões. Estava mais magro, sujo de poeira, mas havia nele uma força que se derramava pelo chão, sobre os sofás, pelos cantos dos móveis, e ia trazendo sorrisos aos rostos das mulheres. — Vem cá, Caetana. Vosmecê precisa me dar um afago. Já estou mui velho para ficar tanto tempo solito.

Caetana jogou-se nos braços do marido. Respirou aquele cheiro de homem misturado com pó e com sereno.

— Rezei tanto, Bento. Pedi a Dios que usted viesse. Pedi tanto. Os filhos viam a cena enternecidos.

— E eu vim. Estava saudoso como um cusco abandonado. E tam­bém queria conhecer minha neta.

Perpétua pegou a filha no colo e levou-a até Bento Gonçalves.

— Esta é a Teresa, pai. — A menina pareceu sorrir, como se reco­nhecesse alguma coisa naquele homem barbudo, de olhos profundos. — Pena que Inácio não esteja aqui para dividir este momento conosco.

Bento afagou a cabecinha da neta.

— Inácio não pôde vir, Perpétua. Está servindo à nossa causa como bom soldado que é. Mas eu trouxe outro comigo. O Joaquim.

Um rubor ardido manchou as faces de Manuela, que estava senta­da num banco a um canto da sala. As mãos magras subiram até a nuca, ajeitaram bem o coque, como D. Antônia lhe havia ensinado. Ela pro­curou os olhos da tia, que a fitava cheia de serenidade. Tinham um segredo dividido. Não queria magoar o primo, não queria chocar a família. Alas preferia que Bento Gonçalves tivesse trazido outro acom­panhante. Ainda estava muito magoada com tudo que havia sucedido.

Joaquim entrou na sala, desculpando-se pelas botas embarradas, abraçando a mãe com carinho, beijando as irmãs. Como uma brisa de primavera, espalhou sua graça entre todos, tomou no colo a pequena Teresa, roubou um bem-casado da bandeja de prata. A guerra o tor­nara mais enxuto de carnes, a pele curtida pelo sol, e uma pequena cicatriz marcava sutilmente o alto da sua testa.

Tirando o dólmã, num canto da sala, Joaquim derramou seus olhos para a prima. E aquele olhar, lento, sereno, cheio de alegria no reencon­tro, era a sua prova de amor. Manuela retribuiu-o com um sorriso tími­do. E sentiu uma raiva surda corroê-la: por que não podia amar àquele primo bonito, jovem, tão seu conhecido, mas tinha que sofrer as penas todas que sofria? Por que aquele coração rebelde a latejar em seu peito? Os outros cercavam Bento, querendo notícias das batalhas, de José, Antônio, Bentinho e Pedro. Joaquim chegou-se mais perto.

— Vosmecê está mui hermosa, Manuela. Mais do que eu me lem­brava.

Ela sorriu. Um sorriso morno. E segurou as lágrimas que lhe vie­ram aos olhos. Segurou-as com garra, como quem doma um animal xucro que corcoveia no pasto. Era gentileza do primo dizer aquilo. Nem estava de roupa nova, pois não esperavam companhia para a ceia.

Joaquim bebeu a voz dela com a sede dos muitos meses de separa­do. Vestidos não embelezam ninguém, respondeu ele. Además, era preciso que a moça tivesse beleza própria, como ela.

Manuela agradeceu o elogio. Convidou o primo a tomar algo, um copo de ponche, um vinho, até um mate, se le agradasse. Tentava pa­recer alegre, feliz por revê-lo. Joaquim ficou algum tempo de prosas com a prima, mas, apesar da aparente tranqüilidade que ela demons­trava, não deixou de perceber uma vaga tristeza naqueles olhos ver­des, um vazio de coisas perdidas, de sonhos despedaçados. Uma solidão de poço sem fundo.

 

Amanhecia.

Manuela tinha dormido pouco e mal, mas por fim conseguira en­tregar-se a um sono sem sonhos, brumoso e inquieto. Quando a pri­meira pedrinha bateu no vidro da sua janela, abriu os olhos assustada. Outra e outra pedrinha vieram, estalando. E um sussurro. Seu nome.

Ergueu-se da cama e enrolou-se no xale leve. Ia abrir a janela, quan­do recordou dos cabelos. Estavam soltos, curtos. Sobre o toucador, a trança de fios negros esperava. Colou o rosto ao postigo.

— Quem é? — perguntou baixinho.

— Sou eu, Joaquim. Preciso hablar com vosmecê.

O coração deu um pulo dentro do peito. O que dizer? Da rua, o primo a chamava outra vez. Podia ver que uma claridade rosada e fresca se derramava lá fora.

— Só um minuto, Joaquim. Tenho de me ajeitar.

Prendeu os cabelos com pressa. Lavou o rosto. Em sua cama, Mariana dormia profundamente, tinha o sono pesado. Manuela saiu do quarto na ponta dos pés, trazendo nas mãos as chinelinhas.

Na rua, o ar fresco do alvorecer arrancou-lhe os resquícios do sono. Joaquim estava já uniformizado, barbeado, sentado num degrau da varanda. Seus olhos estavam cheios de promessas. Ela achou o primo bonito, de uma beleza sem erros, sem viço até. Giuseppe inundou seu pensamento, arrebatador, um vendaval.

Joaquim sorriu ao vê-la.

— Preciso muito le falar. Desculpe se acordei vosmecê, mas va­mos partir ainda bem cedo.

— Para onde vosmecê vai?

— Caçapava. Caetano vai conosco.

Manuela sentou ao lado dele no degrau da varanda. Sentia-se uma criança cometendo uma traves sura, assim como, quando pequena, ia roubar doces à cozinha e depois fugia para o capão. Agora, estava de mãos vazias. E tinha um gosto amargo na boca.

— Mais um que se vai.

— Manuela... — Joaquim segurou suas mãos. Ela deixou-se ficar. — Manuela, queria le dizer uma coisa antes de partir. E queria le fazer urn pedido... Só assim irei em paz. — Encheu o peito de coragem: — Vosmecê sabe o quanto le quero.

Manuela olhou para os próprios pés. A pele branca dos tornoze­los. A renda que arrematava a camisola de algodão. E olhou o chão, a terra úmida, um canteiro de flores mais adiante.

Por fim, respondeu:

— Vosmecê não devia ter me chamado aqui, Joaquim.

— Porquê?

— Eu não mereço a sua consideração. Por isso.

Ele apertou ainda mais as palmas alvas entre as suas. Manuela sentiu que ele tremia.

— Eu não le considero, Manuela. Eu amo vosmecê. E amor é mui diverso de consideração. Amor perdoa. E entende. — Suspirou pro­fundamente. — Eu sei de tudo, Manuela.

Olharam-se nos olhos.

— Quem le contou?

— Meu pai, D. Ana, minha mãe. Essas cosas a gente fica sabendo, não é preciso que se pergunte a ninguém.

Eu amo o Giuseppe. Joaquim pareceu sentir dor.

— Não diga isso, Manuela. Vosmecê ficou encantada com o ita­liano, coisa passageira. Eu entendo... A guerra faz isso. Também já me encantei com outras moças neste pampa afora. E até na Corte. Mas amar não. Amar, eu amo só vosmecê.

Ela fitou-o. A angústia varria o verde dos olhos dela.

— Eu sei o que é amor, Joaquim. Eu sei aqui no meu peito, como um punhal. Um punhal cravado para sempre.

Ele sorriu, um riso triste.

— Amor não é ferida, Manuela. Não precisa ser... Olha, eu vou voltar para a guerra, ainda leva um tempo toda essa batalha. Vosmecê fica aqui, esquecendo, curando essa dor. Eu volto, le juro. E aí nos casamos. Sei que vosmecê vai me amar. Sei desde piazito. Já sonhei com isso tantas vezes... Vamos viver numa estância e criar os nossos filhos. Até lá a guerra já acabou, e seremos felizes. Vosmecê nem vai lembrar daquele italiano.

Manuela ergueu-se.

— Não diga isso. — A voz dela soou tensa. — Não diga isso outra vez. Vosmecê não pode julgar meus sentimentos. — Tocou de leve no peito: — Aqui eu os sinto. Aqui eles me doem. Não le pedi amor, nem desdém.

Joaquim pareceu confuso.

— Me desculpe, Manuela. Eu não queria le magoar. — Ergueu-se também. Segurou a prima pelos ombros, viu os olhos verdes úmi­dos de lágrimas. Agarrou no osso a vontade de beijá-la ali mesmo, naquele momento, ele de uniforme, ela de camisola. — Me desculpe... Sei que vosmecê está sofrendo, e le proponho um tempo. Después, quando for a hora, conversaremos.

Ela deu um passo atrás.

— Sinto muito, Joaquim. Nunca mais haverá o que conversarmos. Não sobre esse tipo de amor do qual vosmecê fala. Se for para viver desse jeito, não me casarei com vosmecê nem com mais ninguém. Fi­carei esperando Giuseppe.

Joaquim pareceu subitamente exausto.

— O italiano não vai voltar, Manuela.

— Vamos a ver.

Ela virou-se e foi entrando na casa. Parecia pequenina e frágil con­tra o vulto da grande construção branca.

— Manuela!

Manuela parou no alto da varanda, um instante.

— Sim?

Ele estava parado no fim da escada, segurava o dólmã. Seus olhos brilhavam tristemente.

— Eu amo vosmecê. Vou esperar o tempo necessário... Não pre­cisa dizer nada. Eu le espero.

Manuela entrou e sumiu, engolida pela casa. Joaquim olhou o pampa suave, dourado pelo sol que nascia. Tinha vontade de chorar. Mas um homem de verdade chorava? Iria esperar aquele tempo. Por ela. Por eles. Saiu andando em direção ao galpão, o dólmã pesava so­bre o seu braço como se fosse feito de madeira. O rosto do italiano, que ele vira de relance uma única vez, surgiu ante seus olhos, sorri­dente. Engraçado, não sentia raiva dele. O italiano não tinha culpas naquilo tudo. Sentia raiva da vida, e daquela engrenagem invisível que alguns chamavam destino.

 

1840

D. Antônia serviu o mate e alcançou-o para Inácio. Fazia pouco que ele tinha apeado. Enquanto uma das negras preparava a água, ele lhe dissera que estava de partida. Viera vê-la na passagem, para não sumir assim, no más, sem nem ter le feito uma visita que fos­se. A estada na Barra fora mui curta, mal tivera tempo de matar as saudades da esposa e da filha.

Como todos que voltavam das batalhas, também Inácio estava mais magro, o rosto ossudo, os olhos presos nas órbitas cavadas nas maçãs do rosto. Mas o sorriso era o mesmo, luminoso. Tinha chegado havia dois dias; já precisava partir. O cavalo estava mais ao longe, sob a som­bra de uma figueira, carregado com suas coisas, uma marmita para a estrada, o poncho, um bom cobertor e um livro, e pastava preguiçosa­mente.

— Me vou para Caçapava, D. Antônia. Mas não queria partir as­sim, no más, sem nem le fazer uma honra. Nestes dois dias, mal pude descansar e aproveitar a menina... Vai crescer esses primeiros tempos longe do pai, a pobrezita.

A tardinha de verão ia se acabando feito uma vela num altar. Ao longe, era possível ouvir o barulho do rio. A Estância do Brejo estava silenciosa e calma. Alguns peões voltavam da lida.

D. Antônia respirou fundo o ar que cheirava a madressilvas.

— Desde que o estaleiro foi desfeito, isto aqui está uma paz que só vendo — disse ela. — Uma paz meio triste.

— Pois la aproveite, D. Antônia. Por aí afora as cosas vão difíceis, le digo. Só me sinto mais tranqüilo porque sei que Perpétua e a meni­na ficam com vosmecês.

D. Antônia baixou os olhos.

— Essa guerra não termina, Inácio.

— Está mais encarniçada do que nunca. De onde eu venho, para os lados de São Francisco de Cima da Serra e de Vacaria, as cosas andaram sucedendo feias, D. Antônia. É justo que acabaram bem. Hay coragem em nossos soldados, mas le digo que perdemos muitos hom­bres. — Deixou o olhar vagar pelo pampa. — Do jeito que as cosas vão, D. Antônia, gastaremos muito tempo e muitas vidas, talvez sem um bom proveito.

— Quantos homens vosmecês perderam nessa peleja? Inácio baixou os olhos.

— Em Curitibanos, para os lados do Rio Marombas, caímos numa emboscada feita pelos imperiais. Gasta uma hora, perdemos quatro­centas almas. O coronel Teixeira Nunes foi valente, é um hombre raro; mesmo assim, a cavalaria se viu cercada pelas tropas de Melo Manso. Foi uma mortandade sem tamanho.

D. Antônia empalideceu. As mãos longas, finas, cruzam-se no colo, como para segurar aquela angústia. Quatrocentos homens. Quatrocen­tos pais, filhos, jovens do Continente,

— Que cosa más horrível — sussurrou. E depois pareceu recor­dar: — Vosmecê contou isso para a Ana? Me parece que o José estava na tropa desse coronel Teixeira. E o italiano, o Giuseppe também.

— José estava lá. Foi ferido, cosa pouca. Não se apoquente, D. Antônia. Contei para D. Ana sobre o rapaz, e le disse que já estava bonzito quando saí para estas bandas, até já cavalgava- A guerra en­durece as carnes da gente, não é qualquer espetada de lança que arruina um soldado. E o italiano foi mui corajoso. E um hombre... A tal moça que se amasiou com ele, a Anita, essa sim teve mau destino: foi presa.

— Presa? E morreu? Inácio deu de ombros.

— Pouco sei dessa cristã. Quando vim de partida, a moça ainda não tinha aparecido. Vai ver que virou china de soldado. Se bem que era mui corajosa, só a senhora vendo. Acho que os imperiais, sabendo quem ela era, devem ter le dado um tratamento más justo.

Ficaram um tempo em silêncio. Os primeiros grilos já cantavam a noitinha. D. Antônia oferece um outro mate, mas Inácio recusa.

— Já me vou, no más. Tenho muita terra pela frente, D. Antônia. E quero aproveitar a noite.

Ergueu-se. Era um homem alto. D. Antônia ficou pequenina ao seu lado. Mas tão pequenina que chegou a se perguntar se a idade já esta­va encolhendo seus ossos.

— Vá com Dios, meu filho. E vá em paz. Cuidaremos da sua espo­sa e da sua filha.

Inácio sorriu.

— É por isso que fico descansado, D. Antônia. — Enfiou o cha­péu de barbicacho na cabeça. — Adiós.

Foi seguindo para os lados onde estava o zaino negro. As primei­ras estrelas brilhavam no céu. O cavalo relinchou de ansiedade.

D. Antônia ficou em pé, na varanda, vendo-o montar no animal e seguir num trote lento, até sumir pelo pampa, como uma assombra­ção. Permaneceu ali, tomando um último mate e pensando no destino daquela moça, a Anita. Que Deus zelasse pela pobrezita.

 

A noite sufoca como um abraço muito apertado. Das janelas abertas, vem um silêncio repleto de sereno. O quarto está quase às escuras, apenas um lampião derrama sua luz fraca sobre a cama onde Rosário dorme. Faz algum tempo, Rosário teme o escuro. Mais ainda agora, que dorme sozinha, a cama de Perpétua está vazia desde o casamento. Agora ela ocupa um outro quarto no final do corredor, junto com a filha pequena.

Rosário tem tido pesadelos.

Remexe-se sob a colcha, inquieta. Os cabelos lisos, dourados de um ouro pálido, estão espalhados sobre o travesseiro.

Um homem cavalga em sua direção, corta o pampa num cavalo branco. Rosário sorri. Sabe bem quem é o cavaleiro. Ajeita o vestido de rendas, segura o maço de flores que colheu para lhe ofertar. Um riso límpido ilumina seu rosto. O cavalo branco avança, sobe e desce uma coxilha. O sol é morno. Ao longe, ela sabe, há a guerra, mas não ali, naquele campo florido, não ali, onde o único movimento que se vê é a dança desse cavalo delgado e do seu cavaleiro.

Ele vem chegando. Rosário não se cansa de apreciar seu porte fi­dalgo, a beleza morena de seus cabelos que o vento agita, o garbo de sua farda. Não é uma farda republicana.

Steban pára. Seus olhos brilham de euforia pela cavalgada, brilham por ela. Ele salta do cavalo. Está parado à sua frente, o rosto bonito, a boca carnuda que sorri, a testa sem cicatrizes, sem ataduras.

— Vosmecê está curado, Steban.

Ela se atira nos seus braços, sentindo o calor daquele peito, o per­fume de homem. O sol é morno sobre eles. As flores caem ao chão, outra vez terão de ser colhidas, mas Rosário não se importa. Steban está curado. Não há sangue nas suas vestes, nem palidez no seu rosto, nem cicatrizes, nem ataduras.

Rosário sorri. Nunca esteve tão feliz como nesse momento. Segura o rosto de Steban com as duas mãos, acarinha seus cabelos revoltos. Ele retribui seu sorriso por um momento, belo feito um príncipe. E então seus olhos vazam lágrimas de sangue, e seu rosto adquire a palescência translúcida da lua.

— No estoy curado, Rosário. Estoy muerto. Muerto, muerto... Aqui me ves, muerto. — A voz dele ecoa pelo pampa, corta o dia boni­to de sol. — Muerto e frio e descarnado. Estoy muerto e no tiengo cova, no tiengo nadie... Quédate cerca de mi.

E então seus olhos saltam das órbitas, e todo o seu rosto bonito adquire ares cavernosos, um cheiro de carniça se eleva no ar, e logo ele nada mais é do que uma pilha de ossos decrépitos que Rosário se­gura entre as mãos.

Rosário grita.

Grita. Grita.

Abre os olhos, senta-se na cama. Está ensopada de suor. Da janela, ainda vem o mesmo silêncio. O lampião ilumina o quarto vazio. A voz dela vai morrendo dentro da garganta, vai enveredando pelas suas entranhas, vai se afogando num pavor mudo.

Maria Manuela e D. Ana entram no quarto, ambas de camisolas, descalças, assustadas. Maria Manuela senta ao lado da filha, toma-lhe as mãos frias, úmidas.

— Que sucedeu, Rosário? Vosmecê teve um sonho ruim, minha filha. Se acalme agora, já passou.

A voz lhe sai trêmula, quase um sopro:

— Não foi sonho, mãe. Ele está morto. Morto. Steban está morto. Como essa guerra, como nós. D. Ana seca os olhos úmidos.

— Vou mandar a Milú preparar um chá de camomila — diz. — Para nós três. Bem forte.

 

Não se comentou o assunto ao café, mas D. Ana e Maria Manuela passaram boa parte da manhã conversando, de portas fechadas, no escritório. Haviam tomado uma decisão. Rosário estava doente, doen­ça grave, traiçoeira.

— Essa guerra pode durar por demás, Maria. E melhor fazermos alguma coisa logo pela menina. Después pode ser tarde.

D. Ana estava sentada na cadeira que fora do marido, os olhos negros sérios, compenetrados. Não viviam coisa fácil de resolver, mas tinham de tomar uma atitude. Rosário piorava a olhos vistos.

Maria Manuela secou as lágrimas com o lenço branco. Nos últi­mos tempos, envelhecera, o rosto outrora viçoso adquirira ares gastos, a pele se enrugava ao redor dos olhos e da boca. Ela acomodou as mãos trêmulas no regaço.

— Cinco anos aqui — disse ela, balançando tristemente a cabeça. — É demais para a menina, é muito sofrimento. E ainda a morte do pai...

— Todas nós estamos sofrendo. Mariana e Manuela também per­deram o Anselmo... Mas hay que ser forte. A guerra é dura para nós, tanto mais para os nossos homens, Maria. Eu e vosmecê ficamos viú­vas. Muita cosa sucedeu. Mas não estamos por aí, vendo fantasmas, falando com mortos, emagrecendo em pesadelos. — Suspirou. — É preciso fazer algo, irmã. E rápido.

Maria Manuela aquiesceu, tristemente. Ergueu-se, foi até a janela. Lá fora, um céu cinzento e pesado estendia-se sobre o pampa.

— Vai chover hoje — disse. Espiou em volta. — Era aqui neste escritório que ela o via, não é, o fantasma? — D. Ana concordou. — Está bien. Vou escrever ao Antônio, consultá-lo. Depois da morte do pai, ele ficou sendo o homem da família. Vamos esperar a resposta dele, então a gente escreve para Caçapava.

— Como vosmecê quiser.

 

Manuela lia, sentada na varanda. Desde a conversa com Joaquim, tira­ra um peso do peito. Não se casaria com o primo para agradar sua fa­mília, não poria a vida fora por uma promessa, por um sonho que nunca tinha sonhado. Esperaria Giuseppe, porque não tinha outro caminho. Era daquelas mulheres com um destino e nada mais.

Folheou o livro, distraidamente. Ainda não contara para D. Antônia a sua decisão. Imaginou o rosto da tia, impenetrável, e aquele brilho nos olhos, de aprovação e de pena.

— Manuela!

Ergueu o rosto. Marco Antônio vinha correndo. Era um guri alto, magriço, moreno como a mãe.

— O que foi, Marquito? Ele parou, ofegante.

— Vem, vem comigo, Manuela. Eu descobri uma coisa horrível! Uma coisa horrível, perto da charqueada.

Manuela jogou de lado o livro e saiu com o primo. Contornaram a casa e seguiram pelo caminhozinho que levava à construção onde se curtia o charque da estância. Iam num passo rápido e ansioso. Passaram por uns peões, pela negra Zefina, que carregava uma tina de rou­pas para lavar no rio e ia cantando uma velha modinha.

Chegaram. O cheiro forte do lugar invadiu suas narinas.

— Onde?

— Atrás do galpão — respondeu Marco Antônio, e segurou a mão da prima.

Deram a volta, pisando macio a relva. Regente estava caído sobre um amontoado de tábuas. A garganta aberta num único talho. Os olhinhos negros, escancarados de susto, fitavam o céu carregado da­quele final de verão. Era um cachorrinho miúdo, de pelagem rala e macia.

— Cruz em credo! — gemeu Manuela, e começou a chorar. Ti­nha criado aquele cão desde pequenino, tinha lhe dado leite e carinho, e em seu quarto havia sempre um cobertor velho para servir-lhe de cama. Quantas noites acordara com Regente a espiá-la, no escuro? Ajoelhou-se. As lágrimas escorreram dos seus olhos. — Quem faria isso, uma maldade dessas? O Regente nunca fez mal para ninguém...

Marco Antônio acomodou-se ao lado da prima. Uma mosca pou­sou no focinho de Regente e ficou ali, parada.

— Tem muita maldade neste mundo, Manuela... Pode até ter sido um peão, ou alguém de fora. Foi esta noite, isso é certo. Mas não chora mais, vosmecê não pode remediar isso. Não chora.

— Coitadinho. Bem que eu estranhei, ele não foi lá no quarto hoje de manhã. Ele sempre ia, sempre.

— Vou chamar o Zé Pedra para recolher o Regente... Vamos fa­zer um cova para ele, está bem?

Manuela aquiesceu.

— Está bem. Mas não conte para as meninas, elas vão ficar mui tristes... A Maria Angélica adorava esse bichinho.

— Vamos dizer que ele fugiu. O Regente sempre foi um cachorro danado mesmo. Vamos dizer que ganhou o pampa.

Marco Antônio saiu correndo para os lados da casa. Manuela fi­cou ali, chorando. Tinha muita maldade no mundo mesmo. Ali naquela estância também... Quem teria feito uma coisa daquelas com o cão, quem teria?

 

Caetano olhava tudo com os olhos cheios de curiosidade. A cidade fer­vilhava como uma coisa viva, inquieta e voraz. Homens andavam pe­las ruas, com seus uniformes, entravam nos prédios elegantes, tomavam o mate. Carroças passavam de um lado a outro. Negros descalços, mas com o dólmã da República, reuniam-se nas esquinas, falavam da guer­ra, seguiam para seus destinos. Uma bodega vendia pinga e coisas de comer. Estava cheia de soldados.

Joaquim abria caminho pelas gentes, Caetano seguia-o. Achara o irmão cabisbaixo desde a saída da estância. Pouco falara, assuntos de guerra, com o pai, nada mais. Bento Gonçalves parecia respeitar o silên­cio do filho mais velho. Tinham feito a longa viagem quase calados. Jo­aquim com os olhos perdidos no horizonte, mirando o campo e as estrelas. Caetano, ao contrário, quisera conversas, saber das batalhas. Tinha ân­sia naquela guerra, em rever Bentinho, em matar seu primeiro caramuru, dar a sua contribuição à República, causar orgulho ao pai.

— Adelante, Caetano. O pai nos espera no Palácio do Governo. — Joaquim puxou o irmão pelo braço. — Vosmecê vai ter tempo para olhar tudo mais tarde. Agora, nos vamos.

Numa esquina, um grupo de mulheres mal vestidas ria para alguns soldados, diziam troça, mostravam sorrisos desfalcados de dentes.

— Quem são elas?

— São chinas que acompanham as tropas.

Caetano foi seguindo o irmão. Entraram no prédio, passaram por guardas, por criados de uniforme. Havia abundância ali. Caetano pen­sou nos negros descalços que vira na rua.

Bento Gonçalves despachava com mais dois ministros. Ergueu o rosto, de bigodes encerados, quando percebeu a chegada dos dois fi­lhos. Tirou uma carta lacrada de uma gaveta, entregou-a a Joaquim.

— Vosmecê me escolha um mensageiro de boa perna. Isto é ur­gente. Teixeira, Garibaldi e as tropas estão em Lages. Vosmecê sabe que perderam feio para a gente do Melo Manso. Morreram mais de quatrocentos soldados, e eles chegaram em Lages estropiados, sob chuva, sem cavalos e famintos. A mala suerte caiu com tudo sobre a tropa. — Bento Gonçalves fez uma pausa. Sentia um aperto no peito, uma dor profunda nas costas. Respirou fundo, esperou a dor passar e prosseguiu: — Agora, estão lá, estão aguardando reforços. Esta carta é para dizer que não esperem, não haverá qualquer reforço. É preciso que deixem a serra o más rápido possível e rumem para os lados do Rio Taquari. O coronel Joaquim Pedro está lá, com dois mil homens. Que se juntem ao coronel e esperem por lá.

Joaquim guardou a carta no bolso do dólmã.

— E después?

— Después vosmecês me vão até Porto Alegre, encontrar o gene­ral Netto. É preciso suspender o cerco. Precisamos dele. Le diga que amanhã mesmo eu parto para Viamão e que vou reunir os meus ho­mens. Quero o Netto em Viamão o quanto antes. Precisamos traçar um plano de ataque, um plano fundamental para a guerra.

Caetano bebeu as palavras do pai. Ficou imaginando todos os exér­citos juntos, e sentiu um formigamento no rosto, uma emoção nova, quente e boa. Ficou sonhando com Taquari.

Os dois jovens saíram da sala. Um dos ministros ainda aguardava, calado, a um canto. Bento Gonçalves tornou a olhar a papelada sobre a mesa. De novo lhe veio a dor no peito. Tinha começado fazia alguns meses, lenta, discreta. Amainara com o verão. As chuvas de outono a tinham despertado outra vez. Já não era mais um moço, e aquela guerra o envelhe­cera. Envelhecera sua carne, envelhecera sua alma. Ele fez as contas men­talmente: estava com cinqüenta anos. E vinha pela frente mais um inverno.

— Vosmecê está bem, presidente? — O homem olhou-o com cer­to estranhamento.

Bento Gonçalves recostou-se na cadeira.

— Tanto quanto qualquer criatura que acaba de noticiar a morte de quatrocentos soldados numa batalha. — Deglutiu suas palavras tristemente. — Mas vamos adelante. Se essa manobra tiver acerto, será decisiva para a República. E a República precisa mais do que nunca de uma vitória. Está começando a agonizar.

Das janelas, abafada pela cortina, vinha a balbúrdia da vida lá fora.

 

Maria Manuela fechou-se em seu quarto e acendeu o lampião sobre o criado-mudo. O sol morria entre as nuvens, lá longe, em alguma coxilha. Maria Manuela não apreciava mais o sol ou a chuva; fazia muito que seu coração andava cinzento, nebuloso como uma tarde fria de inverno.

Olhou bem a carta antes de soltar o lacre. Era carta do filho. Sabia bem do que se tratava. E tinha medo de lê-la. Temia tanto a aquiescên­cia como a discordância de Antônio. Temia aquela carta em suas mãos, porque depois de lê-la precisaria tomar uma atitude. E tudo o que gos­taria era de não pensar em nada, nunca mais.

Suspirou fundo, rasgou o envelope. A letra de Antônio era irregu­lar e apressada. Ela leu as primeiras palavras, e era como se a voz do filho as sussurrasse em seus ouvidos. Seus olhos se encheram subita­mente de lágrimas.

 

"Estimada senhora minha mãe,

Recebi sua carta ainda esta manhã e achei algum tempo para le respon­der, pois a gravidade desse assunto me deixou mui abalado. Estou aquarte­lado em Viamão, junto com o resto das tropas de Bento Gonçalves, mas para cá rumam também os outros generais e caudilhos da República, visto que todos se reunirão ainda amanhã mui temprano, para que seja traçada a nova ação das tropas. Vai haver grande batalha. Eu, mãe, parto junto com meu tio, mas ainda não le digo para donde, pois é este um assunto mui secreto, e posso apenas le adiantar que preparamos uma grande ofensiva.

Sucederam muitas cosas, mãe, e le conto que um coronel imperial de nome Loureiro avançou sobre Caçapava, poucas horas depois de o vice-presidente Mariano de Mattos abandoná-la às pressas, visto que seria ata­cada, levando os documentos da República numa carreta, e rumando também para cá. Desde esse dia, Viamão voltou a ser a nossa capital.

Pois, a despeito de todas essas manobras políticas e bélicas, a vida anda aí para fora, e o quanto me espanto com as suas palavras, mãe, que me dizem estar Rosário adoentada, e adoentada de doença misteriosa que le atacou as idéias e os nervos. Faz já tempo demás que não vou de visita, e o último recuerdo que tenho da mana é tão bom, estava ela tão bonita e sadia, que essas cosas todas me deixam profundamente triste e espanta­do. Mas a senhora mesma me diz que Rosário tem visto um fantasma uru­guaio, ou a alma de um desencarnado qualquer, e que ela jura amar essa aparição e diz até que pretendem casamento. E a senhora diz também que ela acorda em pesadelos a cada madrugada, e que pouco fala, emagreceu e chora por demás. É triste ver os estragos que esta guerra faz, na carne e na alma da nossa gente. Pois creio, mãe, no mais profundo do meu peito, que é a guerra que envenena os pensamentos de Rosário, e que o repou­so em lugar acertado, e a reza e a paz hão de dar-lhe novo viço. Somente assim, quando estas batalhas findarem, a mana poderá outra vez viver feliz.

Por isso tudo, mãe, e por estar eu mesmo imbuído das decisões que antes cabiam ao pai, le digo que a sua idéia está mui certa. Sobre ela, proseei tam­bém com Bento Gonçalves, e o tio a considerou justa. É bom que Rosário vá viver num lugar apartado da revolução e perto de Deus Nosso Senhor, um lugar onde possa a sua alma respirar em paz e recuperar o bom raciocínio, onde seus olhos não vejam fantasmas, nem seu sono seja tumultuado por pesadelos e medos. Se a senhora tem em mente já um convento digno de cuidá-la como ela merece, peço-lhe mesmo que o faça sem tardança.

De resto, mãe, a senhora receba meu carinho tão saudoso, e dê lem­branças minhas às manas, especialmente a Rosário.

Seu Antônio,

Viamão, 23 de março de 1840."

 

O mês de abril tinha começado com chuvas, depois de um março ensolarado e quente. Na Estância da Barra, as mulheres ansiavam pelo bom sucesso das manobras republicanas. Sabiam, por intermédio de alguns informantes e pelas cartas que recebiam, que Bento Gonçalves e os outros chefes armavam uma grande batalha que reuniria todo o seu contingente. De resto, imaginavam o que estava por vir. Recea­vam, rezavam. Era sempre assim: a mesma angústia da notícia incompleta, e o medo, o medo sempre, de um emissário no meio da noite. O medo da derrota e da morte. E aquela espera que já durava cinco anos.

Caetana agora estava sempre com um rosário à mão, acendia velas para a Virgem, orava com as cunhadas. Se houvesse uma vitória, se as manobras imaginadas por Bento Gonçalves fossem frutíferas, talvez a guerra estivesse então nos seus estertores. Era nisso que ela cria. Na volta da paz. No reencontro com os filhos, com o marido. Os últimos dias tinham sido tristes, com a preparação da viagem de Rosário, as malas poucas, os choros de Maria Manuela, que não se conformava com o estado da filha mais velha. O fim da guerra seria uma bênção para todas, para o Continente, que não suportava mais sorver tanto sangue, receber tantos mortos sob o seu solo.

Caetana acendeu a vela e fez o sinal-da-cruz. Do fundo do corre­dor, vinha o chorinho miúdo da neta. Caetana sorriu com carinho. Estava assim ajoelhada, quando D. Antônia entrou.

— Me desculpe, não sabia que vosmecê estava rezando agora, no meio da manhã.

Caetana sorriu.

— A graça que eu peço merece todas as orações, cunhada. E esse oratório és mi lugar, como a batalha és el lugar de Bento.

D. Antônia tocou-lhe o ombro. Tinha a mão quente.

— O lugar de Bento deveria ser aqui, perto de nós. — Suspirou. Lembrou do que viera dizer: — A madre chegou. Veio buscar Rosário.

Caetana ergueu-se. As duas seguiram juntas até a sala.

Pelas janelas entrava a claridade baça do dia chuvoso, bem como um ar fresco que tinha algo de cortante, de invernal. Maria Manuela e D. Ana estavam sentadas em frente à madre Lúcia, e falavam baixo. Maria Manuela tinha o rosto convulso. Temia que a filha, longe de seus cuida­dos, piorasse ainda mais. A madre abriu um sorriso amigável e plácido.

— Conosco, a sua filha ficará bem. Na casa de Deus, Maria Manuela, as almas só encontram a paz.

D. Ana concordou. Beata entrou na sala, trazendo uma bandeja com o chá. A madre aceitou sua xícara e tomou um gole pequenino.

— Assim que a guerra findar, madre, quando pudermos retornar a Pelotas, mando buscar Rosário.

— Ela pode ficar conosco o tempo que for necessário — disse a madre. — As visitas são semanais, porém les aconselho que nesses primeiros tempos a deixem conosco, sem visitas. Ela precisa de sosse­go e de solidão. Deus fará por ela.

Maria Manuela aquiesceu.

Caetana e D. Antônia tomaram lugar num sofá,

— Como estão as coisas em Camaquã, después da chegada dos imperiais? — perguntou D. Antônia. — O convento fica nos arredo­res da cidade, não?

— Deus não é imperial nem republicano, D. Antônia, mas zela por todos os seus filhos. Pouco sabemos das coisas que sucedem na vila de Camaquã, mas na nossa casa a paz persevera. A senhora pode estar tranqüila, não há outro lugar tão bom para a sua sobrinha.

— Ela é uma moça mui delicada.

— Saberemos tratar de Rosário — garantiu a freira. Maria Manuela ergueu-se.

— Rosário está lá dentro, com as irmãs e com Perpétua. Vou buscá-la. A senhora já deve estar atrasada.

— É uma longa viagem, minha filha. E estas estradas são de ninguém. Maria Manuela sumiu pelos caminhos da casa. Voltou alguns mi­nutos mais tarde, os olhos ardidos. Trazia Rosário pela mão.

Rosário usava um vestido escuro, um xale lhe cingia os ombros. Os cabelos muito loiros, soltos pelas costas, davam-lhe um ar de fragilidade e doçura. Ela fitou a madre com seus grandes e úmidos olhos azuis.

— Madre...

A freira ergueu-se. Deu um leve abraço na moça. Rosário sentiu seu cheiro de sabão e de incenso.

— Não tenha medo de vir comigo, minha filha. Deus está le espe­rando, e vai confortá-la.

Rosário fitou a mãe. Sorriu timidamente.

— Não tenho medo. Mas será que Steban vai saber onde me en­contrar? O convento fica bem distante daqui.

A freira baixou os olhos. Maria Manuela secou uma lágrima. D. Ana aproximou-se da sobrinha e segurou-a docemente pelos ombros.

— Vá, menina. E não se preocupe com nada. Steban vai achá-la, tenho certeza.

Rosário sorriu, agradecida.

Manuela veio de dentro, trazendo a mala da irmã.

— Deixe essa mala na varanda, Manuela. Zé Pedra vai acomodar as coisas na charrete — disse D. Antônia.

A madre despediu-se das três irmãs de Bento Gonçalves. Por últi­mo, apertou levemente as mãos de Caetana.

— Tenha fé, filha. Essa guerra vai acabar logo. Caetana sorriu.

Ganharam a varanda. Caía uma chuvinha fina. O campo úmido parecia triste. Rosário lançou um último olhar para a casa. Sentiu um aperto no peito, e um descanso, um sopro de satisfação.

— Faz cinco anos que estou aqui... — disse, baixinho. — E pare­ce que cheguei ontem.

Maria Manuela abraçou-a com força, segurando o choro. Perpé­tua e Mariana também surgiram na varanda, para as despedidas.

Foi tudo muito rápido. A madre tomou a mão pálida de Rosário e conduziu-a à charrete, onde um indiozinho charrua aguardava, aco­modado na boléia.

— Vamos, minha filha. Temos muito chão pela frente.

Rosário subiu no veículo, a freira acomodou-se ao seu lado. O char­rua fez um muxoxo e a parelha de cavalos começou a trotar lentamen­te. Rosário ainda derramou um último olhar para a janelinha discreta, num canto do casarão. A janela do escritório. Ela achou ter visto o vulto de Steban, escondido sob a renda das cortinas. Suspirou aliviada. "Ele sabe para onde vou."

Maria Manuela ficou chorando, postada na varanda, ancorada ao abraço de D. Ana. E a chuva continuou caindo, dolente, do céu.

 

Cadernos de Manuela

Pelotas, 4 de junho de 1900.

Rosário partiu da estância naquela manhã de outono, e era como se, na verdade, já tivesse ido embora havia muito tempo, desde que mergulhara em seu túnel de silêncios, desde que achara para si aquele amor de outro mundo. Era minha irmã, e, no entanto, eu soube tão pouco dela, tão pouco... Tínhamos crescido juntas, brincado com as mesmas bonecas e, tantas vezes, sonhado sonhos idênticos de amor. Mas havíamos sido talhadas de diferentes matérias, e essa diversidade nos foi intransponível. Sob o teto da mesma casa, durante aquela guerra, nossas vidas se distanciaram até a encruzilhada final — ela partiu rumo ao silêncio que havia de recompor o frágil equilíbrio de sua alma, eu permaneci na estância, ao sabor daqueles dias de incerteza, vivendo do mesmo amor e sofrendo idênticas angústias até o fim da revolução.

Nunca mais a vi.

Ainda hoje a recordo com seu vestido de viagem, os cabelos soltos pelas costas, olhando-nos com seus olhos azuis, escurecidos pelo adeus. Ainda hoje recordo o suave movimento de suas saias, quando ela su­biu na charrete que a levaria embora de casa, e a calma vazia com que se persignou àquele destino, calma somente digna de um espírito per­dido num labirinto de medos.

Rosário morreu no convento, no último ano da revolução. Não pude ir visitá-la, assim como não compareci ao seu enterro. A mãe esteve com ela umas poucas vezes, e sempre voltou com os olhos embaçados, silenciosa e triste. Sabia decerto que a filha tomara caminho sem volta, e que a cada dia estava mais inalcançável e etérea. (Para as mulheres do pampa, nada é mais incompreensível do que aquilo que não se pode tocar ou mensurar, e tudo o que é volátil assusta e desorienta. A doen­ça de minha irmã, portanto, foi o último castigo que minha mãe logrou suportar. Aquele verme invisível, quase mágico, que lhe envenenava a filha mais velha, diligentemente, mais e mais, a cada dia.)

D. Antônia disse que Rosário tinha enlouquecido de solidão, que algumas mulheres, mesmo as continentinas, não tinham brios para a espera, e que os anos as corroíam até que cedessem sua dor para a eter­nidade. Disse também que fora necessário que a levassem da casa, pois a loucura, como a gripe, era contagiosa. Talvez D. Antônia não espe­rasse a morte da sobrinha, talvez imaginasse que a distância e as novenas do convento haveriam de recuperá-la para o mundo, não sei... Não falamos mais sobre Rosário, e, depois da guerra, vi poucas vezes a tia. Ela se trancou na Estância do Brejo e lá ficou. Restaram dela aqueles olhares duros, que aprendi a imitar por força de sobreviver também eu aos meus fantasmas, restou dela aquela serenidade calcu­lada quando todos estavam à beira do desespero, serenidade na qual me agarrei muitas vezes quando estive a ponto de me afogar na minha própria desilusão, como um náufrago em um mar revolto que tenha de seu somente uma tábua na qual apoiar sua fé.

De Rosário, minha irmã mais velha, pouco restou. Lembro que sem­pre foi bela, de uma beleza cremosa e dourada, quase frágil, e que ti­nha anseios de viver na Corte. A pobre Rosário faleceu com a República que ela mesma tantas vezes reprovou.

Mas essas recordações, ah, elas se adiantam a tantas coisas... Quan­do Rosário nos deixou, rumo ao convento, a guerra estava ainda pela metade, naquele abril de 1840.

Meus cabelos começavam lentamente a crescer outra vez, como cresciam em meu peito a saudade de Giuseppe e a esperança de que ele me enviasse uma carta, um sinal qualquer, um aceno que trouxesse brilho aos meus dias. Anita, a mulher que ele escolhera para dividir a guerra e a vida no Continente, depois de ter sido capturada pelos im­periais, conseguiu fugir e encontrou-o outra vez. Quando Manuel, o caseiro, que tinha voltado de viagem recente a Viamão, acabou de nar­rar essa façanha, meu peito se encheu de sentimentos contraditórios. Eu tinha desejado que morresse, tinha ansiado ouvir da sua morte com detalhes escabrosos, para que pudesse dar meu amor e meu consolo a Giuseppe; e ele então voltaria para mim, arrependido de tal aventura, certificado de que estávamos mesmo unidos, pelo amor e pelo destino. Mas Anita ainda não tivera seu encontro com a morte — encontro esse que não tardou, para o peso de minha consciência —, estava de volta aos braços de Giuseppe, e grávida dele.

Essa notícia me feriu como uma lança, e corri para o meu quarto. Pouco me interessava tudo o mais naquela guerra desgraçada... Pe­guei meus cadernos de memórias e rasguei muitas páginas do meu di­ário. Não tinha então mais cabelos para cortar, mas apenas estes pulsos finos, de sangue e de seiva, que quase de nada valiam e que não ousei profanar... A semente de Giuseppe se perpetuava em outro ventre. E eu, o que tinha dele? Um punhado de escritos e meia dúzia de cader­nos repletos de sonhos e divagações, em que seu nome se multiplicava pelas linhas e pelas páginas... Lembro que era uma tarde de outono, ensolarada, a despeito da minha dor, e lembro que caminhei até a co­zinha, onde as negras trabalhavam sob a supervisão de Rosa. Em frente ao fogão, arranquei páginas e páginas de um caderno, e vi-as arder sob as chamas com os olhos secos de lágrimas.

— Queime, desgraçado — foi o que eu disse.

A quem se refere uma moça insana de paixão, quando assim fala? A Giuseppe, ou ao amor que me adoentava, me acorrentava a ele? Ao passado, com suas esperanças e erros e desilusões?

Mariana acudiu, ao ouvir os gritos de espanto de Rosa. Mariana, que havia pouco tinha visto Rosário ser recolhida ao convento, então me tomava nos braços, com carinho, e pedia numa voz mansa que lhe devolvesse os cadernos, que os deixasse longe do fogo.

— Um dia você vai querer lê-los, Manuela. Eles são a sua vida nesta estância.

— Nunca mais.

— Então deixe-os comigo, por favor.

E levou os cadernos consigo. Depois, voltou à cozinha. Eu estava parada à beira do fogo, sem saber o que fazer. Fitei minha irmã:

— Giuseppe vai ter um Filho.

Ela sorriu tristemente. Tomou-me pela mão.

— Vamos lá para dentro. Um dia, quando você quiser e essa má­goa tiver passado, le devolverei os cadernos. Deixe Giuseppe ter seu filho.

A mágoa ressecou meu peito, mas, por fim, serenou sem alvoroços. Algum tempo depois, recomecei a escrever, porque não sabia mais le­var os dias sem derramar meus pensamentos no papel, e as silenciosas tardes na estância pediam a companhia das palavras. Quando a guer­ra findou, Mariana me entregou uma caixa de madeira. Lá dentro es­tavam meus velhos cadernos. Foi lendo-os que cheguei até aqui. Passou-se muito tempo, depois daquilo tudo, e tanta gente morreu, quase todos morreram... Restei eu, como um fantasma, para narrar uma história de heróis, de morte e de amor, numa terra que sempre vivera de heróis, morte e amor. Numa terra de silêncios, onde o brilho das adagas cintilava nas noites de fogueiras. Onde as mulheres teciam seus panos como quem tecia a própria vida.

Ah, mas isso tudo levou muito tempo, tempo demás... Naqueles dias, meus cabelos ainda estavam crescendo. Naquele tempo, ainda tínha­mos muitos sonhos.

 

Manuela.

Tinham saído de Viamão no dia vinte e dois de abril e marchado durante dois dias inteiros, sem comer nem beber. Bento Gonçal­ves liderava mais de dois mil homens sob a fina chuva. Canabarro, Lucas de Oliveira e Corte Real seguiam junto. Havia quatro batalhões de infantaria, artilharia, cavalaria e uma companhia de marinheiros co­mandados por Giuseppe Garibaldi. Por onde passavam, só viam ter­ras abandonadas, estâncias saqueadas e desilusão. Os homens iam de cabeça baixa, segurando a inquietude das tripas, pensando naquela ba­talha que deveria ser a decisiva. Seria o maior encontro de tropas de toda a história do Continente.

Atravessaram o Rio Caí numa noite sem estrelas. Não encontra­ram muita dificuldade por parte das tropas imperiais: ali havia um pequeno destacamento que foi rapidamente desbaratado. Acamparam no morro da Fortaleza. Bento Gonçalves mandou um mensageiro avi­sar Netto de que tinham transposto o Caí. Era a hora do encontro.

Encontraram-se no último dia daquele abril. Netto vadeou o Caí com dois mil e quinhentos soldados. De todos os lados chegavam re­forços, homens com seus cavalos,, a lança em riste, o lenço vermelho no pescoço, e homens a pé, descalços, o pala esfarrapado, mas com a mesma gana de lutar ao lado dos seus generais. Adagas brilhavam na luz das fogueiras. Risos e abraços de reencontros. Houve festa, carrea­ram bois para matar a fome do exército, enquanto na barraca de Bento Gonçalves reuniam-se todos os chefes farroupilhas. Lucas de Oliveira, Corte Real, João Antônio, Netto, Teixeira, Canabarro, Crescêncio, estavam todos lá.

A planície amanheceu repleta sob um sol tímido que tentava dissi­par o frio da madrugada outonal. Eram seis mil homens reunidos, os olhos se perdiam na contemplação de todo aquele exército. Uma ener­gia latente pairava no ar, sobre as cabeças de todos, como um grande pássaro de asas abertas.

Bento Gonçalves levantou com a aurora. Tinha dormido mal, os pulmões andavam frágeis, mas acordara com rara disposição. Era um dia especial para a República. Quando calçava as botas, João Congo entrou na tenda trazendo o mate.

— Congo, mande o Joaquim reunir todos os chefes aqui. João Congo saiu rapidamente.

Pouco depois, estavam todos lá. Garibaldi foi o último a chegar. Desculpou-se, Anita tinha passado uma noite difícil.

— A guerra não é lugar para uma mulher que vai dar à luz — dis­se Bento Gonçalves sem qualquer emoção.

Garibaldi sustentou o seu olhar. Tinham se encarado assim uma única vez, havia tempo, no estaleiro. Garibaldi recordou Manuela. Agora o general gaúcho não tinha qualquer poder sobre a sua vida.

— Anita prefere estar al mio lado, general, a estar em qualquer outra parte de questo Rio Grande.

Bento Gonçalves abriu um sorriso de compreensão. O italiano ti­nha fogo nos olhos.

— Sabemos que Anita é uma mulher de coragem, capitão. Agora vamos ao que importa — disse ele, percorrendo os rostos ali reuni­dos. — Os imperiais estão perto do Rio Taquari, a poucas léguas do nosso acampamento. Conseguimos nos unir sob as barbas de­les, mas agora já sabem onde nos encontramos. — Fez uma pausa. — Isso tem pouca valia. Porque nós vamos atacá-los ao alvorecer, amanhã.

— O Manoel Jorge tem o dobro da nossa infantaria e uma arti­lharia muito forte — disse Corte Real.

— Está bueno. Mas nós vamos atacar antes e estamos melhor posicionados. Vamos vencer esta guerra de uma vez por todas.

 

Caetano andou uns metros e acomodou-se sob uma árvore. A noite infiltrava-se no acampamento, lentamente. A luz âmbar do outono ia esmorecendo, lançando seus últimos reflexos sobre o pano desbotado das tendas. Os homens movimentavam-se num ritmo próprio, caden­ciado, os rostos curtidos pelo sol e pela intempérie, as mãos nodosas, a barba de muitos dias de cavalgada. Índios, mestiços, castelhanos, continentinos e negros, todos formando uma única coisa, uma coisa viva e pulsante e cheia de fúria acumulada, como um bicho quieto que aguarda a hora do bote.

Os primeiros braseiros começaram a lumiar. Caetano sentiu o frio baixando do céu, aconchegou-se mais ao pala de lã. Seus olhos esta­vam bêbados daquilo tudo. Ele queria enfarar-se daquela cena, banhar-se na energia que sentia vibrar sob o capim, que subia pelas patas dos cavalos, que exalava das fogueiras como uma espécie de luz misteriosa.

— É a guerra... Ela também tem seu brilho.

A voz de Joaquim surgiu do nada. O irmão estava parado a cerca de um metro, com um sorriso estranho no seu rosto bonito.

— Hay uma grandeza em tudo isso, Quincas, uma coisa que nun­ca vi antes. Sinto um formigamento pelo corpo. Uma excitação.

— Amanhã, após a batalha, não haverá mais essa beleza toda. Vai ser um confronto feio. A guerra é dura... — Olhou o acampamento ao redor. Um cheiro de carne assada tomou-o de soco, e ele descobriu que estava faminto. — O pai quer falar com usted. Está lá na barraca dele, com o Bentinho.

— Buenas.

Caetano seguiu para os lados da barraca de Bento Gonçalves. Joa­quim olhou o chão. Amanhã, o brilho dos olhos de Caetano seria enco­berto pelas primeiras nuvens. Era impossível passar imune ao horror da batalha. E Caetano tinha apenas dezoito anos. Mas, no pampa, de­zoito anos era idade de homem feito.

Joaquim ouviu a batucada que vinha do rancho. Eram os Lanceiros Negros, se preparando para o entrevero do dia seguinte. Netto, decer­to, estaria entre eles. Ele ficou pensando como um único homem pode­ria ter tantas facetas quanto o general Antônio de Souza Netto. Alguns homens nasciam com algo de especial, essa era a verdade, uma força que arrastava multidões consigo. Como Netto, como o seu pai.

 

Às oito horas e doze minutos do dia três de maio de 1840, começou a batalha. Os imperiais haviam decidido esquivar-se, cobrindo-se com o Rio Taquari, e já tinham passado metade da cavalaria, quando Bento Gonçalves atacou, à frente das tropas, com o brilho seco dentro nos olhos negros, como uma estrela. Netto comandava a ala direita, e Canabarro, a esquerda.

 

O clarim retumba nos céus, e a massa humana avança sob um único passo. Começa o entrevero humano. Os cavalos imperiais estão na água, atropelam-se, agitam-se. Recuam. As tropas republicanas avançam, perdem o corpo, alas ficam desprotegidas. Caetano, montado no zaino negro, recebeu ordens do pai: é preciso que fique colado em Bentinho, que o siga, seja como for. Bentinho ataca, investe com a lança em riste, enfia a lâmina sob a costela de um infante imperial. Caetano também ergue a sua lança. Está na margem do rio. É difícil dominar o cavalo ali, o chão arenoso escorrega, dificulta os movimentos. Um soldado imperial galopa em sua direção. Grita. Caetano grita também, grita pela República, avança como pode. As lanças se encontram, barulho de metal retinindo. Os olhos se encontram, cheios de uma determinação semelhante ao ódio. Caetano sente a bile em sua boca. A lança imperial executa uma dança no ar. O ferro é frio e duro e cruel quando penetra a sua carne. Um véu nebuloso desce das suas retinas. O rosto da mãe, bordando na varanda da estância de D. Ana, é a última coisa de que ele se recorda quando cai.

As tropas imperiais começam a se retirar. O terreno agora já não favorece o avanço republicano. Mas não há outra saída. É tudo ou nada.

Os homens querem a luta, não é possível reverter a engrenagem posta a girar. Giuseppe Garibaldi está à frente dos seus soldados. Quer ata­car. Netto quer atacar. É preciso correr riscos. Bento Gonçalves orde­na o recuo. Republicanos recolhem os seus feridos, imperiais realizam a mesma manobra. Os dois imensos exércitos ficam frente a frente, sem qualquer ação.

 

Caetano não morreu. Está no acampamento. Abre os olhos e vê Joa­quim, com seu olhar doce, com suas mãos hábeis. O ferimento é pro­fundo, e a febre já resseca a sua boca.

— Vosmecê vai ficar bem, guasca. Mas tomou uma lança entre as costelas. Foi bem fundo. Sorte que não le pegou o pulmão. — Caetano faz menção de falar. — Psiu, fique bem quieto. Quando estiver são outra vez, agradeça ao Bentinho. Foi ele que le recolheu do rio.

Joaquim ergue-se, lava as mãos num balde. Agora vai lá para fora. Os homens estão reunidos em conselho.

O comandante das tropas imperiais, Manoel Jorge, quer evitar a batalha e atravessar o Rio Taquari com todos os seus homens. E Greenfell, com seus barcos, dá cobertura à retirada das tropas.

— O negócio é impedir o movimento deles. Vamos mandar um des­tacamento para cuidar da coisa. Ficar de olho neles. E amanhã atacamos.

A noite vai caindo outra vez sobre o pampa. A cerração fria reco­bre o acampamento. Já faltam comida e água para os homens. Ouve-se o som triste de uma viola que lamenta aquela espera. Na sua pequena barraca, Caetano arde em febres.

Quando já amanhece é que um batedor traz a notícia: o exército imperial desapareceu durante a noite. Sete mil homens evaporaram-se como num sonho. Como num pesadelo. Bento Gonçalves atira longe a cuia do mate.

— Malditos! Mas eles não nos escapam!

 

A segunda brigada de infantaria iniciou o ataque, mas a superioridade numérica dos imperiais obrigou-os a retroceder. A Marinha imperial dava tiros de canhão. A artilharia republicana e os homens de Giuseppe também atacaram. O combate era encarniçado e terrível. Corpos se espalhavam pelo chão, pela água. Na parte mais densa, onde havia o mato, retumbavam os tiros e os gritos. As árvores eram arrasadas pelo avanço furioso das tropas. As águas do Taquari arrastavam consigo os corpos do soldados mortos, e um tom avermelhado de sangue tingiu o rio.

O fogo cerrado continuou; mesmo assim os imperiais forçaram a passagem do Taquari e avançaram. Os republicanos lutaram com gar­ra, com a alma, mas foi impossível conter a travessia imperial. E o dia se escoou, enfim.

Ao amanhecer, contaram os mortos. Mais de quinhentos. Bento Gonçalves tem o rosto contraído, respira com dificuldade, não sabe ao certo se é de ira, ou se é a nova surpresa que o corpo vem lhe pregan­do. Sabe que não dormiu durante a noite, que apostou tudo num fra­casso. Que, ainda há pouco, suas mãos tremiam a ponto de não poder segurar a cuia do mate. Não houve vitória. Os imperiais também tive­ram muitos mortos e feridos. Mas isso não é um consolo. Ao longe, Netto prepara um palheiro. Tem a boca vincada, dura. Era para terem vencido. Era. Estava escrito em algum lugar. Mas onde?

Dois dias depois, as tropas recolheram acampamento. Era hora de voltar, voltar de mãos vazias. Retomar o cerco a Porto Alegre. Voltar a Viamão.

 

Giuseppe Garibaldi ajuda Anita a subir na carroça. Está cansado e magro, com fome. Deu parte da minguada ração para a mulher, que precisa comer melhor. O parto se aproxima agora. Garibaldi pensa na batalha. Sente algo ambíguo para com Bento Gonçalves... Não sabe definir esse sentimento. Bento Gonçalves é um grande general, um homem íntegro e justo. Mas não tem sorte.

— É preciso la fortuna para vencer una guerra.

— Vosmecê disse alguma coisa? A voz de Anita é doce e cansada.

— Niente. Scusa, estava pensando alto. — Fica uns segundos era silêncio. — Espera un puó. Vou resolver una cosa.

Garibaldi se afasta da carroça. Tem uma carta no bolso da calça. A carta queima sua pele como um braseiro. Ainda recorda os olhos dela, olhos de floresta. Mas agora encontrou Anita. E a vida não tem volta.

Joaquim está ajudando Caetano a se acomodar no cavalo. A febre já cedeu, mas ele ainda está pálido e fraco. Vai ser árdua a viagem até Viamão.

 

— Scusa, io poderia falar com vosmecê?

Joaquim olha o italiano. Está mal vestido, cansado, magro. Mas ele mesmo também não se sente em boa forma, o pala foi rasgado e está sujo de sangue. Joaquim sorri.

— Algum problema com a sua mulher? Chegou a hora?

— No, Anita está bene. Io quero le pedir una cosa. — Tira a carta do bolso. O nome de Manuela está escrito em letras graúdas no enve­lope pardo. — Io sei que vosmecê a ama. Por isso é que le peço questa gentileza. É una carta de adio para Manuela... Io le devo questo.

— Compreendo.

Garibaldi entrega a carta a Joaquim.

— Io amei Manuela... Mas adesso la vita me trouxe outra mulher. Una que pode me acompanhar por questo mondo. Ma io a amei. Adesso, le desejo que seja felice com Manuela. A ragazza merece um bom homem.

— E usted quer dizer que este homem sou eu?

Garibaldi derrama seus olhos sobre o jovem oficial. Uma força emana do italiano. Ele abre um sorriso sutil.

— Questo é vosmecê quem sabe. Io peço apenas o favor de enviar questa carta a ela. Junto com as outras que vosmecê enviar para a vostra casa.

Joaquim dobra a carta e a guarda no bolso do dólmã. Vira-se para Caetano e pergunta se quer um pelego, uma cuia de mate. Garibaldi tem os olhos úmidos. Não é o vento frio que o incomoda. Sai andando para os lados onde Anita o espera. Um peso a mais cinge o seu peito na manhã nublada e triste do retorno.

 

Os cavalos avançam pelo caminho, lentamente. São poucos. A maio­ria dos homens seguem a pé, escondidos sob os palas, para se proteger do vento frio. O inverno chegou sem avisos, gélido. Mas o céu é um manto de estrelas. O Cruzeiro do Sul brilha sobre a cabeça de Joa­quim, brilha como uma jóia sob o veludo negro.

A carta está guardada no bolso do dólmã, junto com outra, que pretende enviar à mãe assim que chegarem a Viamão. Na carta da mãe, fala de Caetano, que foi ferido, mas passa bem, melhorou, a febre está cedendo. Quando chegarem à cidade, onde existem mais recursos e ele poderá ter uma cama e lençóis limpos, tem certeza que Caetano fi­cará bom. Pronto para outra. E outra, e mais outra. A guerra parece que não findará nunca. E conseguiram muito pouco, a República está outra vez sem saída, sem porto, sem caminho.

Joaquim acaricia o volume no bolso. Esquece a República e seus fracassos. Manuela é o que importa. E aquela carta que o italiano le entregou. Maldito. A sinceridade do italiano irritou-o. Ele pensou muitas vezes em jogar fora a carta. Manuela ficaria para sempre espe­rando uma palavra, uma explicação, um consolo. E somente teria o silêncio. Talvez fosse melhor. O italiano não voltaria, e Manuela aca­baria esquecendo tudo aquilo. Odiou-se por ter aquele brio que o im­pelia a enviar a carta para a prima. Era um adeus, ele sabia. Mas que palavras mais teria escrito Garibaldi, que esperanças teria ele semea­do naquelas páginas, que promessas teria feito para Manuela? O amor podia ser vendaval na alma de uma mulher; talvez um punhado de palavras despejadas numa folha de papel não fosse suficiente para dis­suadir a férrea Manuela de esperar o italiano, de esperá-lo para sem­pre, como uma Penélope que aguarda o seu Ulisses.

Giuseppe Garibaldi tinha le dado aquela carta porque o conhecia. Todos os médicos da tropa eram conhecidos pelo nome. Salvavam poucas vidas, por causa da penúria, da falta de remédios, da chuva e do frio, mas eram respeitados. Garibaldi confiara nele quando le en­tregou aquele envelope. E Joaquim ia fazer jus àquela confiança. Mas uma parte de si tinha vergonha, vergonha de ser tão honesto, inocente até. Qualquer outro, no seu lugar, jogaria aquela carta no primeiro barranco, poria fogo naquele envelope sem pensar duas vezes, menos ele. Menos ele.

Foi seguindo a tropa. O cavalo ia num trote manso pela estrada ilu­minada de lua. Os homens avançavam em silêncio, famintos. Joaquim pensou na mulher que ia lá atrás, na carroça, com um filho maduro em seu ventre. Enviaria aquela carta. Garibaldi agora seria pai. E, um dia, quando fosse o tempo, quando a revolução acabasse, ele casaria com Manuela. E tudo voltaria a ser como antes, como tinha sonhado desde que era um guri.

 

D. Antônia aconchegou-se mais ao xale de lã. Um frio subia por suas pernas, nascia na planta dos seus pés, a despeito das botinas e das meias, e ia avançando por todo o seu corpo, e ia se concentrando no seu pei­to, fazendo doer as costas a cada vez que ela tentava encher de ar os pulmões. Olhou para fora e viu o vento varrendo a campina, sacudin­do as folhas da mangueira, espantando os guaipecas que corriam pelo quintal. As negras trabalhavam na cozinha, um cheiro de sopa pairava no ar, como um conforto. D. Antônia atravessou o corredor vazio, sen­tindo aquela dor no peito, aquela angústia que era mais do que molés­tia, era um incômodo, um aviso. O vento zunia.

A cadeira de balanço rangeu sob o seu corpo quando ela se acomo­dou, tapando as pernas com a colcha de lã. Havia dias em que se sentia uma velha. Fez as contas. Estava para completar cinqüenta e quatro anos. A mãe tinha morrido para lá dos setenta, morrera calada, como ela mesma morreria um dia, talvez numa tarde primaveril, onde um céu azul brilhasse no pampa. Que Deus a livrasse de morrer num dia de vento, quando todas as coisas no mundo pareciam gemer uma cantilena triste, quando as folhas voavam pelo campo feito fantasmas sem rumo. A verdade é que acordara com o peito oprimido, e aquele vento... Sonhara com o irmão. Um sonho ruim, marcado de sangue, de escuridão e de angústia. Ela sentiu a febre lamber-lhe o corpo como um cão misterioso, o arrepio correu pela sua espinha, arrepiou-lhe os pêlos da nuca, enregelou o seu coração. Não queria ficar sozinha na estância, com as negras, com os peões, com aquele vento maldito e aqueles sonhos que atazanavam suas noites.

Tocou a sineta.

Uma mulata miúda entrou na sala.

— Mande chamar o Nettinho — disse D. Antônia, e espantou-se com a fraqueza da sua voz. — Quero ir para a casa da Ana. Estou doente.

— A senhora quer um remédio, um chá forte?

— Não, menina. Só quero a charrete pronta bem rápido. E um pelego. Estou congelada por dentro.

 

Zé Pedra abriu a porteira ao reconhecer a charrete. Nettinho acenou, enrolado no pala. O céu cinzento derramava-se sobre tudo e parecia morrer para os lados do Rio Camaquã, pesadamente, como se quises­se se afogar em suas águas. A charrete subiu o pequeno caminho. Um cão seguiu-a ladrando, fazendo alarido.

A porta abriu-se, e o rosto de D. Rosa surgiu por uma fresta. A casa branca era uma coisa sólida no meio do campo raso, um refúgio. D. Ana logo apareceu na varanda, envolta numa manta pesada, os cabelos soltos, roupa caseira de lã. Nettinho ajudou a patroa a descer do carro.

— Usted aqui, irmã? Não pensei que viesse hoje, com esse frio. — Observou o rosto marcado e pálido. — Aconteceu alguma cosa?

D. Antônia abriu um sorriso cansado.

— Estou doente, com febre. Deve ser uma gripe braba, um incô­modo do peito. — Suspirou. — E esse vento diabólico. Fica entrando pelos meus ouvidos como um choro... Não quis ficar sozinha na es­tância.

— Fez bem — segurou o braço da irmã mais velha. — Almoçamos faz pouco. Vou mandar preparar alguma coisa para vosmecê comer.

Dentro da casa, um fogo ardia na lareira. D. Antônia acomodou-se numa poltrona, mexeu os pés gelados, puxou o pelego sobre o corpo.

— Vosmecê está abatida, Antônia.

— Tive uma noite de cachorro. Sonhei com o Bento, um sonho ruim. Não consigo me olvidar dele.

D. Ana acomodou-se ao lado da irmã.

— Esta guerra está mal parada, Antônia. Joaquim mandou carta, Pedro também. Rio Pardo foi um fracasso.

— O tempo está se gastando demás. Meu gado já se reduziu à metade. Se essa guerra durar muito, nem sei como vai ser. — Tossiu. A dor no peito veio como uma lâmina. — Mas hoje nem quero falar disso, que me vou mais para lá do que para cá...

— Vira essa boca, Antônia!

D. Rosa entrou na sala com uma bandeja.,

— Le trouxe uma canja, D. Antônia. Está bem quentinha. Vai le fazer bem.

D. Antônia agradeceu. O fogo crepitava na lareira, deixando exalar um cheiro bom de pinho. D. Antônia recordou o rosto que vira em so­nhos. Escaveirado, pálido, barbudo. O rosto do irmão, do irmão cansado, sofrido, triste, derrotado, o rosto do irmão presidente. Ele perdeu os olhos no fogo. Tentou acalmar sua alma. Um dia, Bento voltaria para casa e re­começariam tudo de novo, do exato ponto onde haviam parado de viver.

 

Manuela guardou a carta no corpete do vestido. Enrolou-se no xale outra vez, e não disse nada. Caetana, que tinha lhe dado o envelope — ele viera junto com a correspondência da casa —, também nada lhe perguntou. Ainda tinha uma carta a entregar para Perpétua, carta de Inácio. Caetana saiu da sala com seu passo firme, ereta e elegante como se andasse num salão de bailes. E deixou Manuela com seus fantasmas. Manuela foi para o quarto, que estava vazio. Agradeceu que Mariana tivesse ido até o Brejo, buscar uns pertences de D. Antônia junto com Zé Pedra. Precisava de solidão. A carta era como uma brasa em suas mãos. Ela depositou-a sobre a cama e ficou olhando-a por um bom tempo, o coração batendo forte, um frio na boca do estômago. Aquele pedaço de papel poderia mudar sua vida.

— Meu Deus, meu Deus.

Ele tinha escrito. Depois de tanto tempo... Mais de um ano. Um lon­go ano em que esperara uma palavra, uma notícia que fosse. Um longo ano em que contara instantes, dias e meses, e que se arrastara com o peso de um século inteiro. E agora aquela carta, com seus mistérios e espe­ranças, com seus segredos e verdades, vinda sabe-se lá de que campo de batalha, de que vila, de que lonjura daquele continente sem fim. Ergueu os olhos e, sem querer, mirou-se no espelho do toucador. Espantou-se com a própria palidez e com o brilho angustioso que se derramava das suas retinas. Os cabelos cresciam rápido, agora estavam à altura dos ombros, mas ela ainda usava a trança falsa. Nunca ninguém desconfiara de nada. Somente D. Antônia e Mariana, com quem divida o quarto, sabiam o que havia feito por amor. E faria muito mais. Por Giuseppe.

Rasgou o envelope manchado e sujo. Com os dedos hesitantes, pescou a folha branca, protegida da viagem, das mãos dos estafetas, do barro, do sangue e do suor. A letra graúda e derramada de Giuseppe surgiu. Seus olhos se encheram de lágrimas.

Quando começou a ler, era como se a voz morna e melodiosa dele cantasse em seus ouvidos. Era como o barulho das ondas que nunca tinha visto, mas que imaginava semelhante ao riso de Giuseppe.

 

"Carina Manuela,

Faz molto tempo que almejo le escrever, mas questa guerra tem sido dura e dificile, e por conta de questo o tempo passa sem que eu le diga as palavras que preciso le dizer, Manuela. É sempre com muita saudade que recordo esse lugar querido e vosmecê, que formoseou meus dias como nenhuma outra dama o soube fazer. Ao vostro lado, eu fui felice, e dividi um amor puro que muito me acalmou a alma. Mas a vida, as exigências superiores e o destino me levaram para longe de vosmecê. Nem sempre, Manuela, a vida nos dá aquilo que almejamos, mas nos dá outras e novas cosas com as quais aprendemos a viver. Questo sucedeu comigo. E hoje me sinto contento, mesmo que recorde aqueles dias com um sorriso saudoso.

Ma io parti. E, longe de questa estância que a acolhe e abriga, conheci outras cosas e personas. E conheci Anita, que hoje é mia companheira e amorosa esposa. Anita, que atravessa comigo as batalhas e os sofrimen­tos, e que deixou tutto para estar ao mio lado. Non le digo questo sem dor em mio peito, Manuela, porque sono um suo apaissonato para sempre, mas a vida me trouxe uma companheira mais capaz de seguir-me, uma que não conheceu nunca a riqueza e a paz da propriedade, e que pode ir comigo per questo mondo sem levar saudades de qualquer rincão. Sei que vosmecê me tinha dito que seguiria ai mio lado per sempre, e sei que fa­lava Ia veritá. Mas a vida é molto diversa, e não almejei ver vosmecê infelice ai mio lado, em terras distantes deste continente, passando por privações e trabalhos, onde la vostra mãe e le vostre companheiras não estivessem. A vida ai mio lado é molto dificile, Manuela. Sou um homem que tem a cabeça a prêmio na Europa, e aqui, in questa terra, também não tenho nada de mio, a não ser a coragem e o sonho de ver a República forte, o sonho de ver a liberdade de Ia gente.

Tomei assim a decisão que me cabia. La vita traz um igual para todos, Manuela, e io encontrei Ia mia. Pensa, per favore, que assim será melhor per noi. Vosmecê há de encontrar um homem que le agrade e que seja igual ao seu mondo, um homem que a entenda e a faça felice, que le dê conforto e amore. Io sono um homem diverso, sem pouso. E non poderia fazer vosmecê felice como merece ser.

Adesso, deixo aqui il mio afeto, que será suo per sempre, Manuela. E es­pero que um dia Ia vita nos aproxime una altra vez. E fique com il mio amore per sempre, pois per sempre io pensarei em vosmecê como una cosa bela e delicada que alegrou Ia mia vita. De um altro modo, serei sempre vostro.

Com carinho,

Giuseppe Garibaldí.

Viamão, 25 de abril de 1840."

 

Manuela deixou a carta cair sobre o assoalho. A folha pousou man­samente no chão de madeira, como uma pomba morta. Um grito rou­co brotou do seu peito como se lhe houvessem aberto uma chaga. Manuela atirou-se na cama. Começou a chorar.

O vento sacudia o mundo lá fora com sua insistência de alma pe­nada. Começava a escurecer. As primeiras sombras surgiram no quar­to. Manuela estava deitada de olhos fechados. As lágrimas corriam silenciosamente pelo seu rosto. Ela recordou a primeira vez em que o vira, parado à frente da casa, empoeirado da viagem, os cabelos loiros ao sol, o brilho que lhe tinha nascido nos olhos quando ele a fitara. Recordou a última vez, quando ele partia com os barcos pelo Camaquã, para depois levá-los por terra até o Rio Tramandaí. Nun­ca o tinha achado tão belo como naquela última vez, com o riso repleto de sonhos de quem venceria grandes batalhas. E ele tinha prometido voltar...

As lágrimas vinham direto da sua alma, eram pedaços da sua alma que se desfaziam sobre a colcha colorida que recobria o colchão. Ela soluçava forte. Desejou com todas as forças que anoitecesse rapida­mente e que não amanhecesse nunca mais, nunca mais. Que todo o Continente de São Pedro do Rio Grande virasse uma única e imensa treva, um nada, que haveria de engolir para sempre tudo aquilo, todos eles, como se nada jamais tivesse existido sobre aquele pampa.

 

Rosário levantou junto com as outras. A capela, iluminada pelos casti­çais, tinha um silêncio de coisa santa. Era uma capela austera, os ban­cos de madeira rústica, as paredes quase nuas, com pinturas simples representando o Martírio. No altar, um Cristo de olhos tristes, preso eternamente em sua cruz, derramava lágrimas de sangue. As freiras começaram a sair lentamente, uma atrás da outra, todas de cabeça baixa, tão humildes em sua paz, tão cheias de oração ao cair daquela tarde fria e anuviada de inverno. Rosário esperou que as noviças começas­sem a se retirar e seguiu com elas. As vésperas ainda ecoavam em seus ouvidos como uma cantilena triste.

Ela seguiu pelo corredor até o seu próprio quarto. Era uma peça simples, com uma cama de madeira, um pequeno armário e um cruci­fixo preso à parede. Ela sentou na cama. Soltou os cabelos dourados, que estavam presos numa trança bem-feita. Era proibido andar com os cabelos soltos pelo convento. Deus não parecia gostar de qualquer rastro de vaidade, assim a madre lhe dissera.

— Steban... —chamou em voz baixa. — Steban, estou de volta — repetiu sorrindo.

Ele a tinha seguido pelos caminhos do pampa até o convento. E parecia mais feliz, menos pálido e doente ali, entre aquelas paredes grossas de silêncio, que cheiravam a incenso e pureza e proteção.

Rosário pegou uma pequena Bíblia que estava sob o travesseiro, abriu em uma página, leu um trecho. Esperava. Nem sempre Steban aparecia rapidamente. Às vezes, levava horas até que seu vulto esbel­to, seu sorriso de salteador, seu rosto galante surgissem na semi-escuridão do pequeno quarto. Mas a madre tinha lhe ensinado a ter calma. Era preciso ter calma. Cultivar o silêncio, a paz do espírito, a serenida­de. Era preciso ser mansa e pacata como o próprio pampa.

Rosário lembrou as muitas horas de angústia que vivera na estân­cia, os minutos suados, que se escoavam lentamente, fatalmente, pelas frestas do assoalho. Os pesadelos e o medo. Ali no convento, experi­mentava uma paz tão grande, que poderia até se dizer feliz. E Steban tinha vindo com ela. Naqueles corredores inóspitos, ambos se amavam sem pressa ou perigo. Pela primeira vez em muitos anos, podia sentir-se longe daquela guerra e de tudo que ela representava. Nunca tinha contado à madre sobre Steban, sobre como ele a tinha achado numa noite de tempestade, ali naquele quarto minúsculo, depois de ter vara­do coxilhas e descampados atrás dela. A madre, decerto, não permiti­ria aquele amor cheio de mistérios. Era verdade que Deus não tolerava mistérios que não fossem os d'Ele. E Steban tinha pedido que ela fi­zesse segredo.

Ela ouviu um ruído distante. Quase um ganido de um cão ao lon­ge. O quarto estava agora imerso na escuridão morna das primeiras horas da noite. Rosário acendeu o lampião. Logo a chamariam para o jantar, para as rezas. Havia sempre as rezas. Era uma boa forma de viver, sem esperar nada, nada almejar, somente aqueles dias iguais, divididos de orações, apartados do mundo lá fora e da guerra. Outra vez o ganido. Rosário ergueu-se, segurando o lampião, e foi até a jane­la estreita que dava vista para a horta do convento. Um vulto estava parado em meio à noite ventosa e lúgubre. Parecia flutuar com o vento.

— Steban!

Rosário enrolou-se no xale negro, prendeu rapidamente os cabe­los. Tinha pouco tempo para estar com Steban. Era quase hora do jan­tar, e a madre não tolerava atrasos. Deus gostava das coisas nas horas certas, dizia a madre, sempre.

 

D. Ana arregaçou as mangas do vestido e prendeu o avental à cintura. Podia ouvir a lenha estalando. Um calor morno abraçava toda a cozi­nha. Ela começou a mexer o tacho com força.

— Vosmecê cortou as goiabas em pedaços mui grandes, Milú. Isso vai demorar no cozimento.

Milú desculpou-se, foi separar os potes de vidro.

D. Ana gostava de ficar à beira do fogão. Quando estava angustia­da com qualquer coisa, então, era um santo remédio. Mexer e remexer o tacho. Deixar a cabeça varar pelos pensamentos, sem pouso ou ques­tão. Tudo o que importava era a cor do doce, o ponto, o gosto. O pra­zer de vê-lo dourar e ganhar cor e consistência. A mão executando o movimento ideal, nem mexendo mui rápido, nem lento demais. Como a mãe le tinha ensinado quando era ainda uma meninota de meias curtas.

Sabia que Antônia gostava de goiabada, gostava de comer o doce no pão quente, de mastigar devagar, saboreando bem. E Antônia não tinha lá muitas predileções, além da goiabada. Moderada, sempre co­mera de tudo, mui pouco, nunca dissera não gostar de qualquer coisa. Ela queria agradar Antônia. A irmã mais velha estava com febre havia dias, atacada dos pulmões. Tinham mandado chamar o médico, mas ele estava longe, na guerra. Rosa então pusera-se a cuidá-la, com un­güentos e chás; Rosa tinha boa mão para essas coisas de ervas e plan­tas, mas o caso é que Antônia não melhorava, estava magra e pálida. Tinha ido ver a irmã fazia pouco, lá no quarto; ela ressonava, chamava baixinho o nome de Bento Gonçalves.

D. Ana enrolou um pano na mão. O vapor que subia do tacho co­meçava a machucar de leve a sua pele. Ela mexeu com força, puxando do fundo da panela. Os dois irmãos sempre haviam tido uma espécie de simbiose, de união misteriosa, como se um fío invisível ligasse um ao outro. Bento contava a Antônia os seus medos — teria Bento me­dos que ousasse declarar? —, contava os planos, as manobras daquela guerra. Sempre os tinha visto pelos cantos da casa, desde pequenos, um ajudando o outro, fazendo confidências. Agora Antônia estava doente e chamava por Bento em seus sonhos. Angustiava-se por ele. Alguma coisa teria sucedido ao irmão general? Algo que ainda nin­guém soubesse? Uma tocaia? D. Ana secou com um paninho o suor que porejava em sua testa. O doce começava a adquirir uma cor avermelhada, de madeira boa, de terra viva, uma cor quente e bonita e uniforme.

— Milú, coloque os potes na pia. Gosto de guardar o doce quan­do ainda está quente. Vou separar uma parte e fazer goiabada também.

A negra arrumou diligentemente os potes um ao lado do outro.

D. Ana pensou em mandar um pouco do doce até Viamão, para os filhos, para os sobrinhos e para Bento. Precisava mesmo que Manuel fosse lá, sondar Bento sobre uma venda de gado, e comprar uns man­timentos que estavam mui difíceis d