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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A CASA ENFEITIÇADA / Heather Graham
A CASA ENFEITIÇADA / Heather Graham

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

Matt Stone não acreditava em fantasmas, mas havia muita gente convencida de que sua casa, um histórico edifício da Virginia, estava enfeitiçada. Ao sentir-se pressionado para averiguar a verdade sobre os misteriosos acontecimentos acontecidos na mansão, Matt conseguiu que a bela e inquietante Darcy Tremayne estudasse o caso.

Como investigadora de sucessos paranormais, Darcy tinha aprendido a acreditar no incrível. Já lhe tinha advertido ao Matt de que as vezes as pessoas não gostava do que se encontrava oculto a seu redor, mas ele não tinha previsto que tal advertência pudesse referir-se a ela. Darcy estava a ponto de descobrir que aquela casa escondia um perigo real e mortal que a ia obrigar a lutar contra o mundo dos vivos e o dos mortos...

 

Outro tempo, outra Época.

Darcy Tremayne não tinha esperado que a festa de graduação fosse ser uma noite de sonho. Mas tampouco tinha esperado que se tornasse o princípio de um pesadelo interminável.

Tudo começou com o Hunter comportando-se como um idiota. Não estava segura de como tinha começado a discussão; só sabia que tinha aumentado até que ele havia dito que não voltaria a lhe dirigir a palavra enquanto não se desculpasse. E Darcy lhe tinha respondido que, então, que fosse pensando em não voltar a lhe falar, porque não tinha a menor intenção de desculpar-se. Ela não tinha feito nada, além de comentar que, por muito que lhe tivessem concedido um prêmio na oficina de teatro, não tinha por que haver dado um beijo tão longo e tão profundo na atriz principal, em pleno salão de atos, diante do mundo inteiro. Ou de sua pequena parte do mundo: diante de todo o Colégio. Quando Hunter saiu da casa de Darcy aquela tarde, ela supôs que seria ele quem terminaria chamando-a para lhe dizer que sentia muito.

No dia seguinte, entretanto, Darcy se inteirou de que Hunter tinha convidado a atriz principal, Cindy Lee, à festa de formatura.

Darcy evitou seus amigos e se permitiu desfrutar da solidão, passou a tarde inteira brigando consigo mesma. Ao terminar o colégial, Hunter partiria direto pra Califórnia para tentar triunfar em Hollywood. Ela se matricularia na Universidade de Nova Iorque. Teve uma enorme alegria ao confirmar que tinham lhe concedido uma vaga e uma pequena bolsa para estudar ali. Em algum momento, vivendo tão afastados, Hunter e ela teriam acabado rompendo. Darcy deveria ter aceito há muito que Hunter olharia para outras garotas. Era jovem. Igual a ela. Deviam passar um tempo sem compromissos.

Mas, no fundo, não queria terminar com Hunter. Estava apaixonada por ele dede os quatorze anos. Depois, tinham compartilhado quatro anos. Quatro longos e maravilhosos anos, ou isso ela tinha pensado.

No final, Hunter acabou chamando-a, disse que sentia muito, que tinha posto tudo a perder, mas que já tinha se comprometido em ir ao baile de Formatura com a Cindy Lee.

Darcy aceitou sua desculpa com uma maturidade imprópria para sua idade, segundo sua mãe. E foi sua mãe a que lhe sugeriu que convidasse a seu amigo Josh.

— O Josh? — perguntou surpreendida.

Mas em seguida lhe pareceu boa idéia. Josh era um solitário. Um gênio com os computadores, a matemática e as ciências. Era o menino mais tímido que jamais tinha conhecido; mas sempre se oferecia encantado a fazer de público quando Darcy queria ensaiar uma canção, um movimento de baile ou um monólogo. Viviam na mesma rua, em uma zona bem rural, fazia anos. E, pouco a pouco, tornaram-se amigos. Não andavam nos mesmos círculos, mas Darcy sempre se manteve fiel à amizade que os unia, sem importar o que outros pensassem. Com o passar dos anos, alguns de seus amigos tinham terminado aceitando a Josh.

E, assombrosamente, Josh tinha tido um sexto sentido para tirá-la de muitos apuros que a vida lhe teria dado se ele não tivesse avisado-a antes.

—Acompanhe o Hunter esta noite — ele tinha avisado em uma ocasião— Não deixe que ele vá só a sorveteria. De modo que tinha ido à sorveteria e se encontrou com a Cindy Lee, paquerando com o Hunter, até que esta se deu conta de que Darcy estava com ele. E havia mais coisas. Josh a tinha convencido para que evitasse que seu pai fosse de carro à loja um dia em que os freios se danificaram. Os pais do Darcy sempre escutavam ao Josh. E ela também tinha aprendido a fazê-lo.

Sabia que a algumas pessoas sentiam medo de suas previsões. Josh tinha pressentido que a senhora Shumacher não demoraria para morrer de câncer. Tinha adivinhado que Brad Taylor quebraria uma perna durante um jogo de futebol. Muitos companheiros diziam que era um inseto estranho. Mas Darcy sempre tinha tido boa reputação no colégio. Podia levar Josh à festa de graduação e todos o aceitariam, porque ia com ela. É obvio, murmurariam a suas costas; mas, e daí? Hunter já tinha feito todo o dano que podiam lhe fazer. Já tinha esmigalhado seu coração, como só é possível rasgar um coração de dezoito anos.

Por outro lado, o colegial tinha terminado. Uma vida nova estava a ponto de começar.

Josh duvidou e vacilou ao princípio, cético.

— Darcy, parecerei uma marionete, o boneco que escolheste vestir e levar contigo para a ocasião.

Mas ela se pôs-se a rir e o tinha animado:

— Josh, sério, é um garoto bonito, Alto, com bom corpo, uns olhos fabulosos e se não te importar, iremos juntos comprar o traje. Mas se for sentir-se incômodo, não vamos. Ficaremos vendo um filme ou o que seja, Se quiser me fazer companhia, claro.

— Não me ocorre uma companhia melhor — tinha respondido ele. — Mas não tem por que ir comigo. Meio colégio ficaria encantado de ser seu par.

— Isso terei que vê-lo e, além disso, não importa. Se você não quer ir, eu não quero ir.

— Se quer ir à festa de Formatura com o inseto estranho da classe, senhorita, aceito com supremo gosto — respondeu Josh por fim com um estranho sorriso.

Para surpresa do Darcy, divertiu-se com os preparativos. Embora Josh não tinha estilo para vestir-se, sim tinha bom olho para a roupa. De lado a lado, foram juntos de compras. Cruzaram-se com vários amigos do Darcy nas lojas de departamentos e esta desfrutou ao ver suas caras de surpresa. Josh ajudou a Cissy Miller com um problema de matemática ao que levava dias lhe dando voltas e, enquanto comiam uns tacos, encontrou a uma nova amiga em Brenda Greeley, uma garota muito bonita, capitã da equipe de cheerleaders.

Quando seguiram com as compras, fez com que Darcy provasse um vestido que não gostava quando pendurado, mas que lhe entusiasmou depois de esperimentá-lo. Resultou que um dos amigos com os que Josh se juntava para criar programas de computador trabalhava na loja, de modo que ofereceu um desconto para que Darcy pudesse pagar o vestido. O garoto se chamava Riley Ou'Hare e disse a Darcy que eram da mesma classe em algumas disciplinas. Ela se desculpou sinceramente por não haver-se apresentado nunca e quando saíram da loja, disse ao Josh que nunca tinha imaginado que pudesse ser tão grosseira.

—Grosseira você? Nunca. Grosseiro é não fazer caso a alguém que te está falando, ou não te incomodar em levantar a mão para devolver uma saudação. Ou quando lhe dá um empurrão a um companheiro só porque não é da equipe de basquete ou não se sabe tocar o violão as sextas-feiras de noite. Darcy, sabe que gosto de você. Disse muito ràpido, mas sabe que é uma garota especial, verdade? — Josh sentiu que estava a ponto de ruborizar-se. — Bom, vamos, temos que encontrar algo para mim. Não posso ir ao baile com uma garota como você com as roupas que uso normalmente.

Assim chegou a vez de Josh e quando Darcy lhe sugeriu que provasse uma camisa e uma jaqueta, entre funky e retro, também ele ficou encantado.

Só houve um encontro desagradável esse dia. Mike Van Dam.

Era um grandalhão com mais músculos que cérebro, amigo de Hunter, e saía com Brenda. Darcy pensou mais tarde que devia tê-lo visto enquanto comiam, e teria visto a Brenda falando com o Josh. Quando se dispunham a sair das lojas de departamentos, a porta acertou Josh, carregado com as bolsas de tudo o que tinham comprado. De repente, Mike apareceu, de pé junto ao Josh, que se tinha caído de costas no chão.

— O que está acontecendo?, tem problemas para te manter de pé? — Mike lhe tendeu uma mão, que Josh aceitou. Mas quando estava levantando-se, Mike o soltou e Josh voltou a cair.

— pode-se saber o que te passa? —perguntou zangada Darcy enquanto se agachava para oferecer ela mesma uma mão ao Josh. Mike a agarrou pelos ombros e lhe deu a volta.

— pode-se saber o que está acontecendo com você, Darcy?, tenta nos deixar em ridículo levando a baile a um marginalizado, à escória do colégio?

— Você é idiota? — Darcy se soltou. — O que está acontecendo?, pensa passar o resto da vida se fazendo de valentão do colégio?, ou não está preocupado com futuro, porque, por muito melhor que seja no basquete, pode ser que não consiga entrar em nenhuma universidade e pense que dentro de dez anos tenha que se conformar vendo as partidas pela televisão enquanto Josh abre caminho em um escritório de advogados de prestígio?

Isso lhe tocou a fibra. Josh já se pôs de pé. Mike os olhou furioso.

— Levo um splay — lhe advertiu Darcy com suavidade.

Mike apertou as mandíbulas. Os olhos saltavam faíscas. Aponto com o indicador para Josh e fez o som de apertar um gatilho.

— É um homem morto — lhe disse.

Josh lhe manteve o olhar e esboçou um estranho sorriso, entre irônica e divertida.

— Pode ser, mas você também — respondeu sem levantar a voz.

Mike estava a ponto de explodir. Darcy agarrou as bolsas e deu um pequeno empurrão em Josh para que começasse a andar. Durante um momento, seguiram ouvindo os insultos do Mike.

— O que acha que significa isso, pirralho? tome cuidado. Vou A...

Não chegaram para ouvir o final da ameaça. A porta havia tornado a fechar-se.

Enquanto avançavam a passo ligeiro para o carro, Darcy olhou ao Josh com apreensão:

— por que há dito isso? Não terá tido uma de suas premonições, não?

Josh riu e negou com a cabeça.

— Não, fica calma, mas ele não sabe.

Darcy riu também, divertida, Provavelmente, o que Josh tinha dito iria assustar Mike durante muitos dias.

A noite da festa de formatura chegou. Embora fazia tempo que conhecia Josh, só tinha trocado algumas palavras com seu pai. Sua mãe tinha morrido quando Josh era um bebê e seu pai quase nunca estava em casa. Só o que Josh tinha contado dele era que dirigia uma empresa com sedes em Washington, razão pela que tinha que passar tanto tempo longe de sua pequena cidade no sul da Pennsylvania. Darcy o tinha achado agradável as poucas vezes que o tinha visto, embora sempre lhe tinha parecido muito envelhecido. Nunca se tinha dado conta, entretanto, até que Josh foi buscá-la para o baile, da quantidade de dinheiro que devia ganhar seu pai. O presente de formatura do Josh tinha sido um Volto último modelo, conversível ainda por cima.

Josh levou o buquê mais bonito que jamais tinha visto Darcy. A mãe dela não parou de mimá-los e dar voltas a seu redor, tirando fotos e mais fotos, enquanto seu pai sorria orgulhoso.

Josh, conforme pôde comprovar essa noite, também era um par de baile magnífico. Ruborizado, lhe explicou que tinha um pouco de experiência porque seu pai o tinha colocado para aprender dança de salão ao entrar no colégio.

As amigas do Darcy se mostraram amáveis, sobre tudo Brenda, e até os garotos tiveram que comportar-se um pouco, já que seus pares pareciam aceitar Josh. Hunter, em troca, não se aproximou dela nem uma vez. Entretanto, Darcy viu que Mike e ele os olhavam de longe e que Mike pôs cara de explodir de raiva quando Josh e ela ganharam o concurso de baile rock.

Hunter simplesmente parecia triste.

Darcy sorriu ao Josh, o qual o olhou arqueando uma sobrancelha com curiosidade.

—Obrigada —disse ela.

—A mim? Obrigado a Você! Esta noite sou como a versão masculina de Cinderela. Um príncipe, embora não muito arrumado, com a dama mais bela da festa.

— Não — Darcy negou com a cabeça. — Me fez dar conta de que minha vida não termina com Hunter e que há um mundo mais à frente.

Josh lhe agarrou as duas mãos e as apertou com força.

— Nunca o esqueça, Darcy. Ouve-me? Aí fora há um mundo que está te esperando. É um mundo precioso — disse com urgência, olhando-a aos olhos. — Mesmo que as coisas não pareçam bem de tudo. Há pessoas que com apenas um sorriso aqui ou lá, com uma palavra amável, fazem que seja um lugar melhor para todos quantos as rodeiam. Você é uma dessas pessoas. Lembre-se. Na vida há momentos tristes e momentos dolorosos, mas você tem muito que oferecer. Nunca deixe que o medo ou as dificuldades lhe transbordem. Nunca te renda, por muito triste que esteja e embora não tenha vontades de seguir adiante.

—Josh, está-me assustando — Darcy sentiu um calafrio.

— Perdoa — Josh pareceu voltar a si—. Anda, não posso acreditar! Estão pondo um charlestón! Anima-te?

—por que não?

Ao cabo de um momento, Darcy se esqueceu do que Josh lhe havia dito, de tanto como estavam divertindo-se.

Pouco que era consciente do que se estava bebendo, do álcool que estavam jogando no ponche; nem sequer das drogas. Brenda estava desgostosa porque estava segura de que Mike teria um acidente. Também inquietava a Darcy que os garotos dirigissem, mas não tinha o menor controle sobre eles e decidiu que se limitaria a desfrutar de do milagre que tinha ocorrido: Hunter a tinha trocado para o baile de formatura e aí estava ela, de todos os modos, passando-se o de maravilha.

Por fim, chegou a hora de irem. Darcy tinha reservado um quarto no hotel que iria a maioria dos companheiros depois do baile; mas não queria ir. Josh disse que o final perfeito para noite seria ver uns filmes e contemplar a saída do sol. Estavam em seu flamejante Volto, saindo do estacionamento, quando tiveram o primeiro aviso de que nunca conseguiriam levar a cabo seus planos.

Notaram que davam um toque no pára-choque. Um golpe toque. Apenas os empurraram.

Josh se girou, ligeiramente irritado.

— Muito álcool. Isso ou não sabem dirigir.

Havia tantas luzes ao redor que não podiam ver quem estava detrás deles.

Josh saiu da estrada.

— Você se importa eu dar uma olhada nos seus cds? — perguntou Darcy.

— Ponha o que você quiser.

Darcy estava elogiando sua coleção dos Beatles quando sentiram a segunda pancada contra o pára-choque. Essa vez foi mais forte.

— Maldição! — exclamou Josh.

— Mas o quê...? — disse Darcy girando-se para trás.

Embora não precisou girar muito, Um carro ficou na sua altura pelo outro lado. Mike ia ao volante de seu Chevy. Era um carro de combate com um motor para participar de um circuito profissional de automobilismo. Estava com o vidro do seu lado baixado e segurava uma cerveja na mão enquanto dirigia com a outra.

— Porco! —insultou-o Darcy.

Josh estava tranqüilo, com os olhos postos na estrada. Não parecia assustado. Só... resignado. Mike estava fazendo gestos para que Darcy baixasse o vidro.

— faça o que ele pediu, vamos ver o ele quer—comentou Josh.

— É idiota. Você continue — respondeu Darcy.

Ela também olhou para frente de repente, Mike bateu a lateral direita de seu Chevy contra o Volto.

Embora tinha colocado o cinto de segurança, Darcy acabou equilibrando-se contra Josh. Perplexa, recuperou a posição enquanto Josh manobrava com destreza para não sair-se da estrada.

— Josh, sinto muito! — disse com um fio de voz, começando a assustar-se de verdade. Sabia que Mike podia ser um cretino. Mas não tinha imaginado que pudesse estar tão louco. Olhou furiosa para o Chevy, que seguia a sua altura, conduzindo em paralelo a eles.

O perigo das cidades pequenas, é obvio, podiam ser as estradas. Na Pennsylvania havia milhares delas sem apenas iluminação e solitárias, sem ninguém para ajudá-los. Mike sabia. Darcy notou quando viu o sorriso de sua cara. Então, para espanto dela, viu que Hunter ia a seu lado, no assento do co-piloto.

Darcy baixou o vidro. O pai do Josh ia dar um ataque quando visse o carro. E alguém podia acabar realmente mal.

— Já basta, idiotas! —gritou ela.

— Venha, ainda quer te divertir com esse inseto estranho? — respondeu Mike.

O vento lhes açoitava a cara. Darcy teve medo de que se levasse suas palavras:

— Hunter!, diga que pare! Já!

Hunter se tornou para frente e Darcy pôde ver sua cara: estava branco, como um fantasma.

—Estou tentando, Darcy!

Mike riu e bateu na lateral do Volto de novo. Darcy ouviu o terrível rasgão do metal contra o metal.

— Para! — disse então ao Josh. — Para. Hunter não deixará que Mike te faça mal. Ele não está bêbado.

Antes de terminar de falar, o Chevy arremeteu com todas suas forças. Darcy se agarrou ao assento ao tempo que o Volto derrapava. Em um instante fugaz, viu o Hunter tentando apoderar do volante do Chevy. Logo tudo se descontrolou . O Chevy se adiantou e girou para golpear a parte dianteira do Volto. Depois se inclinou e ficou a dar voltas diante deles. Josh pisou fundo e soltou os freios, mas não puderam vencer as leis da física e acabaram Batendo contra o Chevy. Por um momento, Darcy sentiu como se estivesse voando. Um airbag explodiu de repente na sua cara. Sentiu um golpe como nenhum outro que já tivesse sentido e o mundo começou a dar voltas. Apareceram umas estrelas absurdas, como nos desenhos animados. Logo, uma a uma, as estrelas foram apagando-se até ficar totalmente escuro.

Pó ao pó.

Terra à terra.

Darcy assistiu ao enterro do Josh com os olhos negros e cheia de hematomas. Haviam-lhe dito que só graças à segurança do Volto do Josh continuava com vida.

Mike não seria enterrado até dois dias depois. De algum modo milagroso, Hunter também tinha sobrevivido. Darcy pensou que devia seguir trespassada, incapaz de assimilar o que tinha ocorrido, porque, enquanto permanecia junto à sepultura de Josh, ladeada por seus pais, foi capaz de olhar ao Hunter. Até pensou que, em honra deste, tinha tido coragem para apresentar-se, e estava chorando como um bebê.

O acidente tinha sido uma chamada de atenção para todo do colégio, pensou; em especial, para quem tinha marginalizado Josh durante anos. ocorreu que a este poderia resultar curiosa a cena. Por outra parte, os rostos de todos mostravam tristeza e angústia. Quem sempre tinha acreditado que ser jovem era ser invulnerável, tinham descoberto quão frágil era a vida e que a morte podia chegar em qualquer momento. Quem podia ter imaginado que provocar Mike podia dar lugar a um desenlace tão trágico?

O pai do Josh, circunspecto, alto e envelhecido, beijou o caixão com ternura e pôs uma flor em cima. Seu pesar parecia ir além das lágrimas. Contudo, quando as últimas palavras do sacerdote se desvaneceram na formosa e estranha beleza da manhã, aproximou-se de Darcy. Chegou a esboçar um sorriso carinhoso, como se a dor dela pudesse ser tão profundo como a sua, e lhe tendeu uma mão. Darcy a agarrou, deixou-se guiar para o caixão, onde ele lhe ofereceu outra flor para que a colocasse em cima.

Foi um momento estranho, pois quem estava assistindo pareceu querer aproximar-se dele, para oferecer suas condolências. Entretanto, o pai do Josh e Darcy permaneceram em seu pequeno mundo privado e outros duvidaram, sem animar-se a aproximar-se. Até os pais do Darcy, pessoas amáveis e afetuosas, permitiram-lhes esse momento de intimidade.

Guardaram silêncio durante muito tempo. De repente, Darcy captou o gorjeio de um pássaro. E, por fim, saiu-lhe a voz. Tremia, mas conseguiu articular as palavras que queria pronunciar:

—Sinto muito. Muitíssimo. Sou... é minha culpa. Embora saiba que não serve de nada — balbuciou. — Mas era meu amigo, de verdade. Meu melhor amigo. Sempre estava aí. Deus, eu não sabia...

— Por favor — disse o pai do Josh com voz suave. — Darcy, não fez nada errado. Não há nada de errado em ser bons amigos. Ele te amava. Não romanticamente, claro. Você tampouco o amava desse modo. Mas ele sabia que lhe tinha carinho de verdade. Foi uma pessoa muito especial para ele. Muitíssimo.

Darcy olhou o senhor, que parecia curvado pela dor e, ao mesmo tempo, reconciliado com a terrível perda que acabava de sofrer.

— Por favor... tenta me consolar... perdeste a seu único filho — disse ela e o pai do Josh a olhou um bom momento.

— Sempre soube que o perderia — respondeu com serenidade. — Mesmo assim, que menino mais estupendo! O amor que compartilhamos permanecerá dentro deste velho coração enquanto siga pulsando. Foi um privilégio conhecê-lo. Recorda isto: as pessoas a qual amamos vivem para sempre em nosso coração. Recordará sua voz. As coisas que disse e que o fizeram rir. Não lhe posso explicar isso, mas... Josh não era feito para este mundo na verdade.

— foi para um lugar melhor — sussurrou Darcy e pôs uma careta de impotência por ouvir o quão típicas que soavam aquelas palavras expressas com o mais fundo e sincero desejo.

— Era diferente, Darcy. Você dava conta disso.

— Preparado, doce, maravilhoso — sussurrou ela.

O pai do Josh seguia sorrindo. De repente, meteu uma mão no bolso e tirou um cartão.

—Tão pouco ficara muito tempo neste bairro. Por favor, guarda isso Se alguma vez necessitar de ajuda, se precisa falar, me chame. Venha me ver. Tem pais maravilhosos, Darcy. Sei que ajudarão a superar isto. Mas se sentir confusa, perdida... me chame. Lembre que eu sou... era pai de Josh. Sempre me terá para o que queira. Você sempre esteve ao lado de meu filho — o pai do Josh vacilou antes de acrescentar — E é possível que possa precisar de mim. Lembre-se, por favor. Pode contar comigo.

Tocou-lhe a cabeça com carinho e logo se afastou, deixando-a junto ao tumulo. Darcy ficou ali vários segundos, sentindo o contato da brisa sobre a cara, reparando uma vez mais no incrível azul do céu. Abaixo, na estrada, seus pais a esperavam. Dariam todo o tempo que necessitasse. Darcy viu que Hunter, agachado de cócoras, também estava esperando.

Não acreditava que pudesse suportar falar com ele. Ajoelhou sobre a terra na frente do caixão, afligida de repente pela amargura.

— Josh... nunca voltarei a lhe falar — sussurrou com suavidade. Logo negou com a cabeça. — Me Ajude, Deus! Fechou os olhos. Pareceu-lhe ouvir a voz do Josh dentro de sua cabeça.

— Darcy, não seja tão dura com o Hunter. Ele deu conta de que Mike queria nos matar. Tentou evitá-lo. A voz foi tão real que Darcy abriu os olhos de repente. O dia seguia igual. O céu continuava azul, suave a brisa. O caixão seguia sobre o mecanismo que o afundaria na terra em pouco tempo.

Seus olhos encheram de lágrimas. Fechou-os com força e rezou. Logo beijou o caixão, levantou-se e murmurou:

— Josh, nunca te esquecerei. E, como disse a seu pai, sempre te levarei em meu coração. Sempre. Embora viva cem anos.

Por fim, deu-se a volta. Pôs-se a andar para a estrada, onde seus pais, e Hunter, esperavam-na. Por um momento, o ódio foi muito intenso. Nem sequer pôde olhar ao Hunter. Logo recordou as palavras do Josh, tão reais dentro de sua cabeça. Não devia ser tão dura com o Hunter. Este continuava chorando. Darcy se aproximou dele e pôs uma mão sobre o braço.

—Tentou evitá-lo —sussurrou ela.

—Darcy! — sussurrou atormentado Hunter.

—Tentou-o — repetiu Darcy. — Algum dia... algum dia poderemos voltar a falar.

Assombrosamente, sentiu-se melhor. E sabia que era verdade, que Hunter tinha tentado evitar o acidente. Também sabia que a perna dele se recuperaria. Mas seu coração nunca o faria. Sempre carregaria a noite em que Mike e Josh tinham perdido a vida. E teria que brigar com o sentimento de culpa até o fim de seus dias.

A mãe de Darcy a estava esperando com os braços abertos. Seu pai também. Darcy correu para eles e deixou que lhe fizessem todos os carinhos que quisessem.

Essa noite, sua mãe lhe deu um comprimido para dormir, já que não tinha conseguido conciliar o sonho desde o acidente.

E foi o comprimido, ou ao menos levantou convencida disso à manhã seguinte, a que provocou aqueles sonhos tão estranhos.

Estava de volta no cemitério. O céu já não estava azul. Tampouco estava cinza. Parecia como se uma capa de névoa cobrisse o dia. Tinha passado o tempo e Darcy caminhava entre as árvores, velhas e cheias de nós, entre as tumbas antigas e as mais recentes. Josh estava enterrado sob um bonito carvalho. Darcy se aproximava dele, vestida de negro, com um buquê de flores.

E, entretanto...

Ao aproximar-se, Darcy viu um homem magro, de pé junto ao carvalho. Franziu o cenho e avançou. Era Josh.

Estava muito elegante, com o traje negro, a camisa a medida e a gravata de seda vermelha com a que o tinham enterrado. Levava o cabelo limpo e penteado, com o corte que fez para a festa de formatura. Estava apoiado contra a árvore, com os braços cruzados, e sorriu ao vê-la aproximar-se.

Por um momento, Darcy teve medo. Só por um momento.

— Josh?

— Darcy, pobre Darcy — disse ele com suavidade. Seu sorriso melancólico recordou a de seu pai, quando tinham se falado junto ao caixão. — Darcy, tem de sabê-lo. Estou bem. De verdade. Não passa nada.

— Sim passa. Está morto — Darcy franziu o cenho. Surpreendeu-a dar-se conta de que estava um pouco zangada com ele. — Sabia! Você Sabia que ia morrer, Josh. No dia que Mike te ameaçou... disse que era um homem morto, mas que ele também o era. E o está!

— Sei. Sinto muito. Era um estúpido total, mas na realidade não o odiava.

— Josh...

—Tenho que ir, Darcy. Só queria que soubesse que estou bem. Sério. Tem que seguir adiante.

— Farei-o, mas... Nunca imaginei quanto ia sentir falta de você — sussurrou ela.

Josh lhe acariciou o cabelo. Só que... a mão do Josh não era de verdade e, é obvio, não foi mais que um sopro de brisa o que a roçou.

— Sempre estarei contigo, Darcy. Quando me necessitar, pensa mim. Com o coração — Josh levou a palma da mão ao peito.

— Josh...

estava desvanecendo. Ia apagando-se na capa de névoa que cobria o dia. É obvio, não era mais que um sonho. Um sonho provocado por um sonífero.

— É especial, Darcy — disse sorridente ele. — vai ter que ser forte —acrescentou com voz suave. Logo desapareceu.

 

Tudo começou ao dia seguinte.

O pai do Darcy tinha decidido que essa manhã não ia trabalhar. Sua mãe também ficaria em casa. Passariam o dia com ela, iriam de carro às montanhas e dariam um passeio por esse lugar tranqüila e belo de sua cidade.

O pai do Darcy não encontrava sua agenda eletrônica.

— Deixou-a sobre a pia do banheiro —disse ela.

— Como sabe? esteve em nosso banheiro, coração? —perguntou seu pai.

— Não — disse Darcy, surpreendida. — Eu... não sei, mas me ocorreu que pode tê-la deixado lá.

O pai subiu para o banheiro, voltou com a agenda eletrônica e olhou ao Darcy estranhamente.

— Obrigado. Parece que conhece bem o seu pai, pequena.

Exato. Não era mais que isso. Mas...

Começou a experimentar pequenos brilhos premonitórios, de vez em quando. Dois durante o verão, outros poucos durante os primeiros anos na universidade. Logo mais.

Ao princípio a inquietavam. Depois acabou aceitando-os. Pensou que possivelmente eram algo que Josh tinha irradiado de alguma forma. Mas não decidiu que tinha chegado a hora de chamar o pai do Josh até mais tarde.

Quando chegaram os fantasmas.

 

Jeannie Mason Thomas descansava gloriosa na cama gigante da suíte Lee do Melody House. Roger roncava com suavidade a seu lado. Homens, pensou com carinho. Nada lhes tirava o sono.

Ela, em troca, não podia dormir. Tinha que repassar o dia inteiro minuto a minuto. O dia de seu casamento.

A manhã tinha transcorrido com os nervos habituais. Sua mãe tinha posto a chorar cada poucos minutos e tinha insistido em fazer discursos sobre o casamento e o sexo absolutamente desnecessários. Alice, a dama de honra, tinha quebrado duas das unhas acrílicas que acabava de comprar enquanto ajustava a cauda do vestido. A Sandy, outra dama de honra, tinha bebido muito champanha que tinham compartilhado enquanto se vestiam para a cerimônia. A limusine tinha chegado tarde. A soprano ficou afônica, o que tinha obrigado a Jeannie a procurar outra cantora as pressas no último momento. Mas tinha conseguido localizar a uma tenor irlandesa graças ao Pai O'Hara, e, no final, tudo tinha saído à perfeição.

Todos asseguravam que tinha sido um dos casamentos mais bonitos que tinham visto. Roger, alto e moreno, tinha estado deslumbrante com seu smoking. O pai do Jeannie tinha estado majestoso e sua mãe, preciosa. Sua irmã e seu irmão, que tinham participado da cerimônia, levaram-se bem e não tinham parado de brincar e rir. A primeira dança com seu flamejante marido tinha sido mágico; mas até a dança com seu pai não se deu conta de que era uma das pessoas mais afortunadas do mundo, com uma família unida e afetuosa e um marido incrível.

Do banquete se falaria em muitos condados durante meses. A tenor irlandesa se uniu à orquestra. A música tinha passado de clássica ao rock, passando por alguns temas pop. A comida tinha estado deliciosa; o bolo, estupendo.

Logo, depois de desfrutar ao máximo da festa, retiraram-se por fim ao Melody House. E embora não era a primeira vez que faziam amor, sim era uma novidade fazer amor como marido e mulher, de modo que o ato tinha sido mais sensual, mais erótico, e muito satisfatório. Entregaram-se com paixão, riram-se enquanto Jeannie tratava de sair do vestido, tomaram banho juntos e tinham gozado profundamente na cama. Tinham bebido muito champanha, até acabar com a garrafa que tinham deixado em um elegante balde de prata sobre uma mesa antiga situada frente à chaminé. Tinham jantado os deliciosos petiscos que lhes tinham preparado: caviar, trufas com chocolate derretido e muitos mais manjares. Logo tinham feito o amor de novo, devagar, quase com preguiça, e o resultado também tinha sido magnífico. O Melody House tinha oferecido tudo o que quisessem. Pela manhã, poderiam descer e lhes serviriam um café da manhã suculento em um pequeno canto ensolarado perto da cozinha. Poderiam passar o dia desfrutando da piscina climatizada, luxo recente da casa colonial. Poderiam percorrer os caminhos que serpenteavam através de quilômetros de bosque quando o sol começasse a se pôr. Tinham intimidade e estavam recebendo a melhor atenção. Jeannie tinha todo o direito a sentir-se completamente feliz. Também tinha que ser paciente, embora seu marido estivesse dormido e ela não pudesse consegui-lo. levantou-se, sentindo-se tão ágil como uma gata, nua no frescor da noite. Estirou os braços e pensou que a exigente tabela de exercícios a que se submeteu antes das bodas tinha merecido a pena. Nesse momento, não devia ter mais de cinco por cento de gordura em todo o corpo, e Roger estava encantado. Ela também estava contente, porque gostava de pensar que tinha convencido Matt Stone de que ele desejavam usar a suíte lee em sua noite de núpicias, e estava tão bonita. Stone tinha fama de ser um pouco desmancha-prazeres.

Jeannie se aproximou das portas que davam a terraço, ainda se exercitando sorriu. Roger havia dito que Matt Stone só tinha aceito porque era consciente de que a única forma de manter Melody House era permitir que a mesma casa lhe proporcionasse parte do dinheiro que o imóvel necessitava. E tinha razão. Mas que a decisão se devia tanto às necessidades do Stone como ao encanto e a capacidade de persuasão do Jeannie. Dava igual. Ao final, havia concordado com a sua idéia e estava feliz. Era uma amante da história e passar a noite de núpicias em um lugar tão elegante e com tanta história era como saborear a cereja mais rica do bolo mais maravilhoso. Tinha sido um dia de casamento perfeito. Correu as cortinas, entreteve-se com a carícia do vento e voltou a excitar-se. Casou-se. Converteu-se na senhora Thomas. Podia retornar à cama, despertar a seu marido com delicadeza e fazer realidade até sua última fantasia.

E, entretanto...

De repente, a sensação prazerosa deixou de ser tão prazerosa. Sentiu um frio Enregelado por todo o corpo. Virou-se e não viu nada na tênue luz que se filtrava desde o banheiro e a do terraço.

Sentiu...

Medo. Um medo intenso e irracional.

Engoliu em seco, fechou as portas do terraço e passou o trinco. Olhou Roger, que continuava roncando. Tentou acalmar-se. Se desse um ataque irracional de medo, não tinha que fazer mais do que meter na cama, grudar-se em Roger e deixar que ele a abraçasse, e tudo iria bem.

Isso exatamente era o que ia fazer. Mas não consegui. Não se moveu. Porque viu... Um ponto prateado movendo-se na noite.

Piscou, mas continuava lá. E não era a escuridão nem o reflexo das luzes. Era algo com uma forma imprecisa, cor prata, que se movia. Estava no lado da cama onde deveria ter estado deitada e se aproximava dela.

Estava aterrorizada. Tinha as cordas vocais congeladas. Limitou-se a olhar, quase sem poder respirar do medo, já que não conseguia falar. A coisa se aproximou ainda mais. Jeannie sentiu que o sangue lhe gelava, estava paralisada, e então...

Quase estava tocando-a. Jeannie sentiu que lhe movia o cabelo, uma bofetada de frio na cara. E teria jurado que ouvia um sussurro, uma vozinha zombadora:

— É tola? Vai ti matar.

E, de novo, o cabelo... se levantou. E só, por um puxão da coisa prateada. Uma coisa que jogava com a brisa. Mas já não havia brisa. Tinha fechado as portas.

Por fim, recuperou a voz, o movimento. Soltou um grito histérico e estremecedor e saiu correndo.

Não correu para a cama em busca do Roger; correu direto para a porta. Jeannie puxou a maçaneta com tanta força que esteve a ponto de arrancá-la. A porta se abriu de repente e se estrelou com estrépito contra a parede. O que não lhe importou. Jeannie logo que ouviu a portada. Continuava gritando, espantada pelo corredor, voando para as escadas que comunicavam o Quarto Lee com a planta baixa.

 

Matt Stone tinha decidido ficar na casinha de campo situada a cinqüenta metros à esquerda da casa principal. A casinha de campo tinha sido seu lar durante anos, até a morte de seu pai, que lhe tinha deixado Melody House, e a responsabilidade de mantê-la, para ele sozinho. Fazia pouco que tinha se mudado para casa principal, pois achava mais simples atendê-la e devia reconhecer que tinha terminado gostando. A suíte que tinha escolhido tinha todas as comodidades. Uma quarto enorme, armários gigantes, escritório, uma quarto para relaxamento, e que permitia estar em contato direto com o quê quer ocorresse na propriedade.

Também gostava da casinha de campo. Como tinha estado anos deteriorando-se por falta de cuidados, tinha-a reconstruído e equipado com as instalações mais modernas. Se com a casa principal não tinham poupado em gastos para preservar seu estilo histórico, na casinha de campo também.

Ao concordar a alugar a Suíte Lee como suíte para uma lua de mel, tinha decidido passar a noite em sua antiga morada.

Já estava dormido quando o grito o tinha feito levanta-se da cama de um salto.

Apesar de viver em uma cidade tranqüila, como delegado do Stoneyville estava acostumado o que despertassem no meio da noite. Portanto, não tinha demorado para vestir-se e pôr-se a andar pela grama que separava a casinha de campo da principal, com a chave da enorme porta de carvalho na mão. Chegou à casa menos de dois minutos depois de ter ouvido o grito.

Havia luz à entrada, como sempre. O alpendre dianteiro estava eternamente banhado por uma suave iluminação. Estava preparado para algo quando empurrou a porta.

Ou, ao menos, tinha acreditado está-lo. Possivelmente não.

Não havia sinais aparentes de perigo. Sim estava, em troca, ela, a noiva radiante, de pé junto às escadas, tremendo e gritando sem parar. Jeannie era uma garota bonita, com um corpo trabalhado à perfeição por meses em uma academia. Não era fácil resistir a tentação de contemplá-la, mas se obrigou a olhá-la aos olhos. Depois girou a cabeça com nervosismo, tratando de localizar alguma ameaça oculta que pudesse ser a causa daquela cena. Ao não ver nada, seu cérebro de delegado lhe sugeriu, em questão de milésimos de segundos, a possibilidade de que o noivo tivesse resultado um maníaco homicida ou um espancador de mulheres. Ambas as opções lhe pareciam duvidosas.

— Jeannie? — chamou-a com profunda calma e autoridade. Normalmente, teria se aproximado dela, lhe teria passado um braço sobre os ombros e teria esgotado sua paciência até determinar o motivo daquela reação. Mas a garota estava de pé, em pêlos e gritando. — Jeannie, por favor, me fale. pode-se saber...?

Nesse instante, seu marido apareceu, baixando as escadas a toda velocidade. Seguia meio dormindo e Matt teria jurado ante qualquer juiz que o jovem não podia estar mais horrorizado e desconcertado. Certamente, não parecia que acabasse de ter uma briga com seu flamejante esposa.

— Jeannie! — gritou Roger assustado.

Matt avançou para o salão, agarrou uma manta que havia sobre o sofá e cruzou a peça para pô-la ao redor dos ombros do Jeannie. Tinha deixado de gritar, mas seguia tremendo como uma folha, com os olhos arregalados, dilatados.

Roger, ainda aturdido e horrorizado, disse obrigado brevemente. Logo voltou a olhar a sua esposa.

— Jeannie, o que aconteceu?

Por fim, Jeannie se girou para ele, pálida ao princípio, logo tensa.

— Você não o viu?, não o sintiu?

— Estava profundamente adormecido! De que esta falando?

Justo então chegou Penny Sawyer, de camisola, com o cabelo emaranhado ao redor de um rosto de belas feições. Parou-se junto à porta, que tinha ficado aberta ao entrar Matt.

— De onde vem tanto escândalo? — perguntou.

Penny administrava Melody House. Cuidava da contabilidade e se ocupava das excursões programadas pela casa. Amava a casa, provavelmente tanto ou mais que o próprio Matt. Tinha trabalhado como historiadora para o avô do Matt e tinha assumido o cargo de administradora após sua morte. Era como uma tia para o Matt, além de ser incrivelmente eficiente.

Só havia uma coisa em que não ficavam de acordo. E Matt apertou os dentes, sabedor de que aquele episódio acabaria indo nessa direção.

— Parece que a noiva teve um pesadelo — disse Matt com tranqüilidade.

— Pesadelo! — gritou Jeannie. Deu para notar o tom agudo de sua exclamação, porque tentou controlá-lo. — Eu não estava dormindo!.

— Então, o que aconteceu? — perguntou Roger com um tom que deixava transparecer certa irritação sob a fachada de preocupação.

— Acredito que deveria tomar um conhaque — disse Penny.

— Acredito que Jeannie teria que se vestir! — replicou Roger, a ponto de explodir.

— me vestir? — Jeannie se olhou e deu conta de que só estava coberta pela manta do sofá.

— Prepararei um bule de chá com o conhaque — disse Penny com decisão.

— Enquanto prepara o chá, podia subir e te vestir, Jeannie. Logo nos sentamos e nos contas o que está fazendo — disse Roger, ligeiramente zangado.

— O que estou fazendo? — repetiu ela com o cenho franzido.— Levei um susto de morte!, não entende?

— Um susto tão grande para sair correndo nua?

Matt se mordeu o lábio inferior. Não deveria ter concordado em alugar a suíte Lee para uma noite de núpcias. Lançou um olhar fulminante a Penny. Era ela quem o tinha convencido, recordando que necessitavam o dinheiro para o Melody House.

Penny encolheu de ombros, fazendo-se inocente, e lhe dirigiu um olhar cúmplice.

Melody House tinha fama de estar enfeitiçada. Matt sempre havia dito que todos esses rumores não eram mais que isso: rumores. A casa principal tinha mais de duzentos anos. Tinha sobrevivido à revolução, à guerra civil e a todo tipo de enfrentamentos. Nada com tantos anos carecia de alguma lenda. E, ao parecer, a maior parte do mundo queria acreditar em coisas que se apareciam de noite. As pessoas não podia respeitar a memória das tragédias pessoais do passado; tinham que inventar algo mais a partir delas.

Ele, ao menos, não acreditava em fantasmas. Tinha trabalhado muitos anos em Washington antes de retornar à terra em que nasceu, e sabia que as coisas que se faziam os homens e as mulheres estando vivos podiam ser tão violentas, atrozes e cruéis que não havia motivos para preocupar-se com quem fazia tempo que estavam mortos e enterrados.

—levante-se e vá se vestir! — exclamou Roger em tom autoritário.

Jeannie, com os olhos tão azuis mais abertos ainda, olhou-o com rebeldia.

— Não penso fazê-lo!, entenda! Não vou voltar a subir para esse quarto. Nunca! Lá em acima há um fantasma e... ameaçou-me!.

Matt sacudiu a cabeça e rezou para que Deus lhe desse paciência. Olhou aos noivos. Parecia assustador a velocidade em que podiam surgir problemas no paraíso.

— Jeannie, fantasmas não existem — disse apelando a sua sensatez. — Vivi aqui quase toda minha vida. Passei muitas noites sem luz, totalmente às escuras. Juro-te que não há fantasmas. Eu Saberia.

Tinha tratado de falar com desenvoltura. Sabia, entretanto, que não tinha podido ocultar certa contrariedade. Estava farto das histórias de fantasmas.

—Olhe a cena que fez — disse Roger a Jeannie. — Genial. Vamos passar uma lua de mel maravilhosa com Matt Stone chateado.

— Perdão, mas não estou zangado — contradisse Matt em seguida. — Simplesmente, não acredito em fantasmas. Jeannie, foi um dia muito feliz para você. Estou seguro de que foi para os dois... Não estou dizendo que estejam bêbados, mas, bom, os dois beberam muito. Está cansada, Jeannie. Excitada. Não é para menos: dizem que foi o casamento do século. Mas não tem por que voltar para esse quarto. Se quiser, desceremos suas coisas. Roger e você podia passar o resto da lua de mel na casinha de campo. O que te parece? Posso te-la pronta em questão de minutos, enquanto Penny traz o chá.

Jeannie se girou de novo. Parecia como se queria fugir do Roger e lançar-se em braços do Matt.

— Nenhum dos dois sugeriu subir no quarto para ver se houver algo — disse indignada.

— Eu subo agora mesmo —se ofereceu Matt, elevando uma mão.

Começou a subir pelas escadas, deixando atrás aos recém casados. Enquanto se aproximava do patamar superior, chegavam-lhe os sussurros furiosos do Roger:

— É incrível! Não sabia que fosse uma exibicionista. Sempre tiveste algo estranho com o Matt Stone. O que acontece, Jeannie? Necessitava uma desculpa para que te visse nua?

— Roger!, como te atreve a sugerir algo assim? Desgraçado! —respondeu ela em voz baixa. Logo elevou o tom. — Não necessitamos da casa de campo! Vou pra casa. A casa... com minha família. Eles não são idiotas!

— Venha, venha. Acalmem-se — atravessou Penny com alegria. — Todos estamos cansados, mas seguro que acabaremos nos inteirando do que passou. Matt é um homem muito prático e não acredita em fantasmas, mas não seja muito duro com sua mulherzinha, Roger. Asseguro-te que há muita gente que acredita que esta casa está mais que um pouco encantada.

Matt entrou na suíte Lee. Como supunha, não encontrou nada. As portas do terraço estavam abertas e as cortinas penetravam para dentro. Deviam ser o que tinha assustado à noiva. Isso ou estava tão empenhada em que o lugar estava assombrado que tinha terminado vendo o que não havia.

Encontrou a camisola do Jeannie. Logo o soltou. Era muito transparente e o marido não se alegraria se lhe via tocando-o. aproximou-se do armário e viu dois roupões com o nome da casa costurado nos bolsos; um objeto que Penny tinha insistido em oferecer aos clientes as poucas vezes que se alugasse um quarto. Tirou um de seu cabide e retornou abaixo.

Penny, Jeannie e Roger já estavam na cozinha. Era ampla. Conservava o ar antigo graças a uma chaminé enorme e às numerosas ervas e caçarolas de cobre que penduravam das paredes, mas a geladeira, o congelador e um forno de aço inoxidável ofereciam todas as facilidades para os freqüentes atos sociais, os jantares e reuniões que estavam acostumados a celebrar-se no Melody House.

Os recém casados estavam sentados na mesa com o Penny. Esta tinha agido na velocidade de raio, pois a água do chá já estava quente, serviu-se o conhaque e estavam todos dando sorvos de emas xícaras de louça gigantes.

Juntaram-se vários outros residentes da casa, que, provavelmente, tinha despertado com os gritos. O primo do Matt, Clint, que vivia como Penny, em um dos apartamentos quadra, estava também sentado na mesa. Seus olhos se iluminaram com expressão divertida ao ver Matt. Sam Ardem, o zelador, velho, magro e resmungão, também tinha se unido a eles. Ao reparar em Matt, sacudiu a despenteada cabeça. Também tinha descido Carter Sutton. Era um velho amigo do Clint, da cidade vizinha. Tinha muitos terrenos e acabava de comprar uma casa perto. Como ainda estava cheias de operários, tinha ocupado outro dos apartamentos que havia sobre a quadra. Carter vivia de seus investimentos e, às vezes, tinha muito dinheiro em papéis e escrituras, mas pouco em efetivo, de modo que gostava de cuidar da quadra e fazer de guia quando algum turista alugava um cavalo para explorar os arredores.

Matt entregou a roupa a Jeannie em silêncio e rodeou ao grupo para sentar-se no extremo da mesa. Penny falava entusiasmada de fantasmas. Roger seguia convencendo a sua esposa de que no quarto não havia nada e que todo se havia devido à excitação do dia.

—bE se havia um fantasma, certamente ele levou um susto maior que você —lhe assegurou Clint à noiva.

— Digo-lhes que há fantasmas — afirmou Sam, assentindo com a cabeça.

— Sam — protestou Matt.

—Queria me fazer mal —disse Jeannie.

— Que eu saiba, os fantasmas não atacam às pessoas —comentou Carter. tocando os bigodes. Deixou uma barba tão longa como a de uma cabra para dar uma imagem autoritária, pois estava imitando o aspecto de um militar de alta graduação.

— Queria me fazer mal — repetiu Jeannie.

— Eu dormi nesta suíte — disse Clint — e, a verdade, nunca me aconteceu nada.

— Conheço a suíte Lee como a palma de minha mão — disse Carter com alegria. — Me traz muito belas lembranças — acrescentou lhe piscando os olhos um olho à noiva.

Jeannie se ruborizou e soltou uma risadinha nervosa.

— Matt — disse Penny. — Tem um chá bem forte aí na mesa.

—Obrigado — disse ele. — Daqui a pouco, antes vou tirar umas coisas da casinha de campo, para que os dois possam se mudar quando quiserem.

— Não, senhor Stone... Não quero lhe causar mais moléstias — disse Roger.

— Não penso dormir nesta casa! — chiou Jeannie.

— Não é incômodo nenhum — assegurou Matt.

A única coisa que queria nesse momento era partir. Não acreditava que pudesse suportar outro dos discursos do Penny sobre fantasmas. As sextas-feiras e sábados de noite, permitia organizar uma excursão pela casa para falar das lendas do Melody House. Sempre contava diversas histórias enigmáticas relacionadas com a casa e informava que, segundo os rumores, esta estava habitada por fantasmas, alguns dos quais eram personagens históricos.

Negou redondamente que chamassem de visita aos fantasmas de Melody House. Mas como conseguia atrair a multidão de turistas dispostos a pagar, procedentes de zonas muito diversas e longínquas, como Williamsburg, Richmong, Harpers Ferry ou Washington inclusive, não podia suspender as excursões. Penny servia chá, cidra e biscoitos no meio do percurso e Matt sabia que ela tinha razão: os turistas deixavam muitos dólares graças às visitas. Mesmo assim, não gostava, como tampouco gostava de nada que pudesse sugerir que Melody House estava encantada realmente. Mas o suportava pelo bem da casa.

— Fique calmo, Matt. Nos cuidaremos deles — disse Clint com amabilidade. Matt arqueou uma sobrancelha. Clint podia ser muito lascivo. Com certeza tinha desfrutado vendo a noiva só tampada pela manta do sofá.

— Obrigado — respondeu com secura. Logo os deixou com seus argumentos a favor ou contra se havia fantasmas.

Uma hora depois, voltou a se instalar na sua suíte da casa principal e, com a ajuda do Penny, tinha mudado e acomodado, felizmente, os recém casados na casinha de campo. Penny retornou ao apartamento onde vivia, sobre a quadra.

Apenas tinha começado a adormecer quando o Matt despertou com um Barulho. Esticou um braço para desligar o alarme, mas era o telefone. Um de seus agentes o apressava a dirigir-se imediatamente na direção em que se achava: tinha uma situação de violência doméstica que ameaçava sair do controle.

Matt se vestiu a toda pressa enquanto pensava na noite recém passada e no dia que chegava. Uma vez mais, a verdade falava por si só. Como seu pai lhe havia dito uma vez quando Matt era pequeno e se assustou ao ver um cemitério, os mortos eram as pessoas menos problemáticas.

E com os vivos que tem de tomar cuidado.

 

Foi um dia longo para o Matt. Estava tão cansado que teria ficado dormido em qualquer momento. Começou com a cena na casa dos Creekmore, com o velho Harry ameaçando matar sua esposa e aos filhos, acusando a de ir deitando-se por aí com outros homens e duvidando inclusive de se era o pai das crianças. O agente Thayer tinha conseguido manter a situação sob controle até Matt chegar. Este, ao princípio, tinha que convencer Harry para que lhe deixasse entrar em sua casa. Logo tinha fingido compartilhar com ele quase uma garrafa inteira de uísque, tinha-o convencido de que podia fazer um teste de DNA para comprovar sua paternidade e, por fim, tinha tomado a arma e o tinha prendido.

De algum jeito, conseguiu agüentar o resto da semana, agasalhado na casa principal, enquanto os recém casados desfrutavam da piscina a todas as horas, dia e noite.

Jeannie foi dizer obrigado em pessoa por não havê-los expulsado. A lua de mel, entre a piscina, os passeios a cavalo e o incrível jacuzzi da casinha de campo, tinha sido uma maravilha. Esqueceu-se do fantasma. E reconheceu que a noite das bodas tinha bebido muito. Penny seguia insistindo em que havia um fantasma e que Matt era idiota se não acreditava. Algum dia podia ocorrer algo terrível ou, sendo positivos, se demonstravam a existência do fantasma, ganhariam tanto dinheiro que não teriam que voltar a preocupar-se com a manutenção da casa. Por fim, os recém casados partiram e tudo voltou ao normal. Então, Penny o provocou. Queria celebrar uma sessão de espiritismo.

Matt disse que não. Ela insistiu.

Disse que fizesse o favor de deixá-lo em paz. Tinha muitas coisas das quais se ocupar nesse momento. Penny acabou cedendo e se contentou com suas excursões. Matt pensou feliz que a rotina voltaria ao normal.

Até que ela apareceu com a carta do Adam Harrison, de Investigações Harrison.

 

Tinha passado um mês quando Clara Issy, uma das cinco criadas do turno de dia, ficou petrificada.

Era uma manhã ensolarada. A suíte Lee estava como sempre. A cama que acabava de fazer e cobrir com uma linda colcha se estendia ao longo da parede direita. A televisão estava desligada. As portas do terraço estavam entreabertas, pois fazia um dia muito agradável e a brisa, pura e fresca, estava ventilando o interior. Nada disso era estranho. Estava acostumada a respirar e sentir a carícia do ar. Adorava e o preferia ao aparelho de ar condicionado, que funcionava durante os meses do verão. Não, a suíte em si estava como sempre.

Clara permanecia paralisada junto às portas da terraço, com a boca aberta e os olhos enormes. Porque, embora estivesse sozinha na suíte, algo se movia. Algo na cama. Algo sem uma forma precisa. Algo frio. Algo ameaçador.

aproximou-se de Clara. Esta sentiu um toque no rosto, como uns dedos na bochecha. Uns dedos muito frios. Pareceu-lhe ouvir um sussurro. Uma voz rugosa junto ao ouvido. Algo suplicante... ou ameaçador.

Tinha as mãos congeladas em torno do pau da escova de varrer. O corpo inteiro tinha ficado gelado. Um calafrio percorreu as costas de cima abaixo.

O medo a envolvia. Aterrava. Com mais e mais força.

Por fim, fechou a boca. Superou a sensação de terror. Gritou. Mas não foi um grito estremecedor. Apenas ela ouviu. Então reagiu e saiu correndo.

Foi para o corredor do segundo andar. Não havia ninguém. Desceu as escadas até o vestíbulo e, de novo, a casa seguia vazia. dirigiu-se por volta da segunda porta à direita. Segura de que haveria alguém no escritório da casa. Embora fosse Penny, pequena defesa contra um ser maligno; mas ao menos estaria acompanhada.

Clara suspirou aliviada ao ver o Matt. Estava saindo do escritório. Tinha posto o uniforme de trabalho, mas ainda não ia à delegacia de polícia. Era muito cedo. Graças a Deus.

Correu para ela, como se a tivesse ouvido gritar. Sendo Matt, com certeza que ele a tinha ouvido. E tinha ido em seu resgate. Mas ela tinha fugido da suite mais rápida que um raio. Assim aí estava, quase batendo contra ele.

— Clara!, o que aconteceu?

Tinha cinqüenta e cinco anos, ao menos vinte mais que Matt. Mas ele era Matt, sólido como uma rocha. Um homem alto cuja mera presença impunha respeito, mas que, ao mesmo tempo, a fazia sentir-se suficientemente segura para tentar falar.

— Eu me... demito — balbuciou ainda nervosa.

— Clara, quer-me dizer o que esta acontecendo? — perguntou ele com amabilidade, segurando-a a certa distância para poder olhá-la aos olhos.

— Quero que saiba que a noiva não estava louca. Nessa suite há um fantasma!

— Clara, por favor. Nos dois sabemos que todo isso não são mais que tolices! Estamos ouvindo essas histórias desde que éramos pequenos. Como me vem com isto? Faz muitíssimos anos que trabalha nesta casa. Pareço um disco rachado, mas acredite: os fantasmas não existem. Às vezes, a gente quer que existam. Penny morre por ter um dois fantasmas autênticos para atrair mais turistas. Hoje em dia, parece que não basta alojar-se em um edifício histórico com todo tipo de comodidades — acrescentou sorridente enquanto lhe acariciava o cabelo.

— Na suíte Lee há um fantasma. Me tocou — Clara se plantou as mãos sobre os quadris. — Desde quando me conhece? Toda a vida, certo? E não estive sempre de acordo contigo em que não eram mais que bobagens? Mas tem que acreditar: nessa suite há algo. Ameaçou-me. Matt, não foram minhas imaginações. Não me deixei sugestionar por todas estas lendas de fantasmas. Era de verdade. Vi-o. Sobe e olha-o você mesmo!

Matt respirou fundo. Mas sentia afeto por Clara e era evidente que seguia preocupada.

— Está bem, vamos dar uma olhada.

Clara se colocou atrás dele, e o segiu enquanto Matt avançava para o vestíbulo com passos largos e firmes. Logo subiram as escadas e entraram na suíte Lee.

Claro, não havia nada.

Clara se aproximou da vassoura de varrer.

— Eu estava aqui.

— Possivelmente se moveram as cortinas. A porta do terraço está aberta.

Clara levantou indignada seus cento e cinqüenta e cinco centímetros. Notava que Matt tinha a sensação de estar repetindo uma cena absurda. Estava tentando mostrar-se paciente, contendo as vontades de levantar as mãos em sinal de rendição, como se fora a aceitar que o mundo inteiro se tornou louco.

—Sei distinguir entre uma cortina e um fantasma!

Matt se passou uma mão por seu cabelo, negro como a tinta, e balaçou com a cabeça.

— Clara... não sei o que dizer. Aqui não há nada de nada.

— Porque se foi!, mas te asseguro que havia algo! Por que não acredita? Deveria. Não faz tanto que alugamos a suíte aos Thomas. A garota saiu correndo em meio da noite, nua, gritando! De acordo, eu não estava quando passou; mas te asseguro que me contaram isso — Clara fez uma pausa e se mordeu o lábio inferior, — E sim, entrei na risada, reconheço-o. Mas... Matt, aqui passa algo.

— Clara, a mesma Jeannie Thomas reconheceu mais tarde que essa noite tinha bebido muito. Seu marido não ouviu nem viu nada, e o único que ocorreu é que tiveram uma boa discussão a primeira noite de casados. Jeannie me enjoou até me deixar louco para conseguir esta suíte específica, tendo ouvido que estava encantada. É que não o vê? A noiva queria que houvesse um fantasma e o encontrou. Nada mais. Vamos, Clara, você é uma mulher sensata. No fundo, sabe que te está deixando enganar pela imaginação.

— Demito-me.

— Clara! — protestou Matt. Ele sabia que não podia permitir-se perder outra funcionária. — O que te parece isto? Não se demite, mas não voltará a se ocupar da limpeza desta suíte, de certo?

— Quem a limpará? — perguntou ela depois pensar uns segundos.

— Deixaremos que Penny se encarregue desta suíte. Penny parece maravilhada que esta casa tenha fama de estar encantada.

— Sério, Matt. Não posso evitá-lo. Sabe de sobra que era a primeira que se burlava de todas estas tolices, mas lhe digo isso: a casa está encantada!

— Pode ser que esteja encantada. Ou pode...

—O que?

—Pode ser que Penny esteja fazendo alguma brincadeira. Ou possivelmente haja alguém... Não sei. Que entre e assuste às pessoas.

— Como? — perguntou Clara com incredulidade.

—Quem sabe — murmurou ele.    

Clara voltou a colocar mãos sobre os quadris.

— Quem demônios vai estar entrando nesta casa? Quem vai ter a coragem, tendo em conta que é sua casa, a casa do delegado da cidade?

— Não sei. Mas já que pensa que aqui havia alguém, averiguarei quem era.

— Somos nós que estamos nos enganando, Matt — Clara negou com a cabeça. — Não sei se a casa inteira estará encantada, mas esta suíte é uma... ameaça!

— Os fantasmas não ameaçam.

— O que você sabe sobre fantasmas, se não acredita que existem? —replicou Clara.

— É verdade: não acredito em fantasmas; mas, pelo que vi e li, não tenho notícia de que os fantasmas façam mal a ninguém.

Clara voltou a negar com a cabeça, como se de repente fosse uma perita em fenômenos paranormais.

— Pois saiba que isso é mentira! E alguma vez ouviu falar do Espírito dos Bell, no Tennessee? Dizem que até ao presidente Andrew Jackson tinha medo, que pegava as pessoas pelos cabelos e dava rasteiras nos meninos; até provocou a morte do John Bell, o proprietário da casa. Está cego: se nega a aceitar o que acontece sua própria casa!

Matt se apoiou contra o portal da porta.

— Insisto — disse sorridente. — Estou convencido de que a gente pode chegar a ver o que quiser se tiver uma imaginação muito poderosa.

— Acredita que Andy Jackson tinha muita imaginação?

—Teria que me mostrar uma prova escrita de que Andrew Jackson tinha medo de um fantasma. E não me serve um rumor em um programa do Discovery Channel nem um livro de histórias de fantasmas.

— Mais talvez faça algo antes que as histórias sobre esta casa sejam tão reais que ninguém pague um centavo pora visitá-la — respondeu Clara, apontando com um dedo no seu peito. — Não pode manter este lugar com o salário de delegado e nada mais.

— Obrigado, Clara. Terei isso em conta. Por outro lado, já sabe que Penny está convencida de que se pudéssemos documentar a existência de algum fantasma, ficaríamo tão ricos como MIDAS — disse Matt. De repente, franziu o cenho e se aproximou dela. — O que você passou no rosto?

— No rosto? — perguntou estranhamente Clara, e foi olhar se no espelho. Tinha a bochecha vermelha, marcada, como se lhe tivessem dado uma bofetada. — Assim os fantasmas não atacam às pessoas, não é? — disse ela depois de girar-se para Matt.

— Clara, lembre-se. Deve ter batido com algo ao sair correndo da suíte.

— Estas histórias circulam faz anos — disse Clara depois negar com a cabeça. — Há gente que jura ter visto soldados nos quartos abaixo. Viram uma moça vestida de branco flutuando nas escadas. Fantasmas que encaixam com a história do Melody House. Só faz uns poucos anos, da morte de seu avô, as coisas começaram a mudar de verdade. Lembra de quando Randy Gustav se demitiu depois passar uma noite na suíte Lee? Nem sequer foi capaz de te explicar o que tinha passado. Só faz uns anos que os fantasmas ameaçam ficando violentos.

— Os fantasmas não existem — repetiu Matt cansativamente.

—Ah, não? Pois um acaba de pôr o meu rosto vermelho! — exclamou Clara. Logo se deu meia volta. — Matt, você é um homem forte e sensato. Confio em você e por isso fico. Mas, acredite ou não, é melhor que vá fazendo algo sobre este fantasma... que para você não existe.

À tarde, quando retornou para casa depois de um longo dia de trabalho, Matt estava sentado em sua suíte na casa principal, dando uma olhada na correspondência. Quando bateram na porta.

— Entre.

—Interrompo-te? — perguntou Penny colocando a cabeça para dentro.

— Absolutamente.

Penny entrou e se sentou sobre uma quina da mesa de Matt.

— Tem que fazer algo sobre este último episódio com Clara.

— Sim? — Matt se recostou na cadeira.

— Deram-lhe uma bofetada!

— Penny, por favor. Não lhe dê mais importância. Eu já disse que podia tirar a tarde livre. Deve ter batido em algo enquanto corria — raciocinou ele e Penny sacudiu a cabeça.

— Ouça, não estará organizando você tudo isto, tentando convencer ao resto do mundo, embora não a mim, de que a casa está encantada?

Penny o olhou tão ofendida que Matt se arrependeu imediatamente.

— Matt, eu nunca...

— Mas pode que alguém sim.

— Pode — reconheceu Penny a contra gosto. — Às vezes é muito crédulo. É muito fácil penetrar nesta cabeça — acrescentou, acusando-o com um dedo.

— Não sou muito crédulo. Estamos em uma cidade pequena.

— De acordo. Mas não esqueça que, inclusive em nossa pequena cidade, produziram-se alguns assassinatos espantosos. Por que não pode aceitar que algo estranho esteja passando?

— Penny, faz anos que desejas que nesta casa haja um fantasma.

Ela negou com a cabeça, súbitamente preocupada.

— Fantasmas... que sopram e fazem que as cortinas se levantem, uma brisa... Não acredito que este seja um bom fantasma — murmurou. Logo revolveu entre as cartas que Matt tinha sem abrir na mesa. — O que me diz da carta que recebeu de Investigações Harrison? Chama o Adam. Sempre o respeitaste. Era amigo de seu avô faz muitos anos.

— Não acredito...

— Por favor, Matt — interrompeu ela. — Acaba de sugerir que pode se alguém que esteja entrando na casa ou fazendo algo para que pareça que há fantasmas. Adam pode te dizer o que é real e que não.

— Ou que ele disser como real — matizou Matt.

— Segui alguns de seus casos. O ano passado, ele e seus colegas demonstraram que os supostos fantasmas de um velho campo mineiro não eram em realidade mais que dois buscadores de ouro.

— Estupendo: chamo à brigada antifantasmas e viro o bobo da cidade. Já posso ir procurando novo lugar onde viver.

— Possivelmente possam fazer aqui o mesmo — continuou Penny ao tempo que se descia da mesa. — Por favor, me prometa que ao menos vai pensar nisso.

Logo se foi, fechando a porta com suavidade ao sair.

Matt se aproximou das portas de seu terraço. Havia lua cheia. ao longe, podia ver o contorno impreciso das montanhas. adorava esse lugar. adorava a casa, a quadra e, sobre tudo, a beleza natural daquelas paisagens.

Voltou para a mesa de trabalho, pensativo. O que não podia negar era que a cara de Clara estava marcada, como se lhe tivessem batido. Continuava sem acreditar em fantasmas, mas...

Matt pensou em todas as pessoas que viviam naquela casa. Penny, Sam, Clint, Carter, até Clara de vez em quando, e, ao longo dos anos, diversos amigos e parentes. Poderia ser que algum estivesse tramando todo tipo de truques para fazer parecer que o lugar estava encantado?

Caminhou até a suíte Lee, examinou o chão sob a cama, o armário, tudo. E não encontrou nada.

Mesmo assim...

Retornou então a sua suíte, brincou um momento com a carta do Adam Harrison e desprendeu o telefone. Marcou o número do Harrison. Foi uma conversação breve.

—Matt, alegra-me que me chame.

—Não estava seguro de que fora a fazê-lo? —respondeu Matt.

—Não. Esta vez não.

— Sabe que não acredito em seres sobrenaturais nem nada do estilo.

—Sei.

—Se vem é unicamente porque espero que seja capaz de demonstrar que não tenho fantasmas.

—Pode —respondeu Adam.

—Quando vem?

—Minha agenda é um pouco complicada, mas... acharei uma brecha logo.

—E, segundo sua carta, você vai me pagar por isso? —perguntou receoso Matt.

—Sim. E, como digo, estou ansioso. Iremos quanto antes.

—Geralmente, pode me localizar na hora do almoço no bar Wayside.

—Certo. Chamarão-lhe do escritório para fixar uma data.

—Bem —disse Matt—. Tenho vontade de te ver, Adam.

Adam Harrison seguia falando quando Matt pendurou o telefone. Olhou, pensando já que tinha cometido um grave engano.

 

Ao outro lado da linha, Adam Harrison também ficou olhando o telefone. Estava encantado. Matt sempre lhe tinha caido bem.

—Garoto, está a ponto de aprender uma lição. Por mais valente que seja, um fantasma de verdade impressiona ao mais cético —disse com suavidade—. Anda!

Tinha querido avisar Matt de que não estava seguro de se poderia encarregar-se ele mesmo desde o começo. De momento, enviaria sua ajudante mais qualificada.

Mas não queria voltar a chamar Matt. Sabia que a este não convencia absolutamente aquela investigação, por muito que, provavelmente, estivesse tendo algum outro problema.

Tudo iria bem. Darcy podia ocupar-se de qualquer homem, vivo... Ou morto.

Nada mais que um bar, Darcy notou com claro desgosto. chamava-se Wayside e parecia um salão do antigo Oeste.

Uma bofada de fumaça esteve a ponto de derruba-a ao abrir a porta. Flutuava como uma bruma sobre os velhos tamboretes e as mesas. À esquerda havia duas mesas de bilhar, a um lado do que, em algum momento, poderia ter sido utilizado como pista de baile.

Até havia escarradeiras para quem fumava tabaco de mascar.

Quando entrou a porta se fechou a suas costas, o local se paralisou. Os quatro jogadores de bilhar e todos os que seguiam as partidas se giraram para o Darcy e ficaram olhando-a. atrás do balcão, uma mulher de grandes seios, de cabelo ruivo deixou de esfregar copos. Em uma parte que parecia destinada a servir comidas, os quatro homens que ocupavam uma das mesas de madeira elevaram também a vista.

Darcy permaneceu em meio daquela neblina e olhou ao redor, tratando de formar uma imagem do local enquanto os olhos lhe acostumavam à luz. E soube, imediatamente, que era Adam quem devia ter ido ali. E deveria haver colocado uns jeans e uma camiseta gasta. Embora imaginar-se o Adam com um aspecto assim resultava divertido, era um homem teimoso e, por alguma razão, estava empenhado em entrar no Melody House.

Darcy tinha posto um traje de negócios, a indumentária que estava acostumado a levar para as reuniões de trabalho, recordou-se, defendendo sua escolha apesar de que era evidente que não encaixava com aquele ambiente. Embora não tinha imaginado que o Wayside fosse um restaurante de cinco estrelas, tampouco tinha pensado que fora tão... plano.

— Quer algo, coração? — perguntou a ruiva do outro lado do balcão. Sua voz, cálida e amistosa, infundiu um pouco de coragem em Darcy, a qual lhe devolveu um sorriso. Mas antes de poder responder, um dos homens sentados na mesa se levantou.

— Senhorita?

Era alto e languido. Quando sorriu, Darcy viu que tinha todos os dentes e uma covinha na bochecha esquerda. De olhos marrom claro e ar agradável, tinha-lhe bastado com essa simples palavra para mostrar seu acento e encanto sulinos.

— Procuro um homem chamado Matt Stone. Acredito que estava aqui —disse Darcy com a esperança de que algum dos homens conhecesse Matt. Não acreditava que este se achasse entre os pressente. Já se tinha formado uma imagem mental dele. Seria alto, andaria com as costas bem reta e estaria envelhecendo com incrível dignidade. Talvez fosse algum dos rapazes que estavam sentados ao redor das mesas, recordando as glórias do passado. Sem dúvida, trataria-se de todo um cavalheiro.

— Se quiser, pode ficar comigo, bombom — disse um dos jogadores de bilhar elevando a voz.

— Vigia suas maneiras, Carter! — advertiu-o outro e um terceiro dissimulou um sorriso.

Outro dos homens da mesa ficou de pé.

— Venha, sente-se — disse.

Darcy teve que reconhecer que os jeans ficavam bem ao homem. Marcava com perfeição a cintura estreita e a um par de potentes pernas. Estava com óculos de sol, mesmo estando dentro do bar. Talvez os utilizasse para proteger seus olhos da fumaça. Passava o metro oitenta com folga, tinha o cabelo negro, um pouco comprido, mas limpo e penteado. Estava bem barbeado e teria entre trinta e trinta e cinco anos. De feições marcadas, fortes. Enquanto que o primeiro homem que a abordava tinha mostrado amável e reservado, os rasgos do segundo pareciam esculpidos em mármore. Embora também se levantou e a tinha convidado a tomar assento com educação, parecia impaciente, como se, em realidade, o que queria e que fosse ela fosse embora.

Darcy se aproximou da mesa. O homem da covinha lhe tinha deslocado uma cadeira. Darcy olhou aos outros dois, que também se levantaram o vê-la aproximar-se. A gente era maior, de cabelo e barba grisalhos. Ela seguia imaginando-se ao Matt Stone com um uniforme cinza do Exército Confederado. O quarto homem teria uns trinta anos também, levava o cabelo bem talhado e uma camisa a medida, e parecia como se tivesse um trabalho de verdade em alguma cidade civilizada.

—O que a traz por aqui? —perguntou o homem alto, de feições cinzeladas, ao mesmo tempo em que se sentava. Todos a olharam.

—Meu nome é Darcy Tremayne. trabalho com o Matt Stone. acredito que devíamos nos encontrar aqui... se não me enganei de local. Algum de vocês o conhece?

Falou com calma e educação. Estava ali por um assunto de trabalho. Mas sentia uma hostilidade quase evidente. Teve vontades de levantar-se e sair correndo dali. Sabia que todos os clientes do bar continuavam observando-a.

—Conhecê-lo? —disse o homem languido da covinha.

Mas o interromperam. O homem ao que Darcy tinha batizado mentalmente como Cara de Mármore o cortou:

—É da equipe antifantansma?

Darcy arqueou uma sobrancelha. Deveria ser amável com os habitantes, havia dito Adam.

—Suponho que pode dizer que sim —respondeu.

Tinha que compreender que estava em uma cidade pequena. Ela mesma procedia de uma cidade bastante modesta, mas aquela parecia mais rural ainda. Provavelmente dava essa impressão porque levava muitos anos vivendo em Nova Iorque. Fosse como fosse, era normal que qualquer novidade relacionada com o Melody House estivesse na boca de todos.

—Uma casafantasmas em carne e osso? —brincou o homem da covinha.

—Casafantasmas? —Darcy voltou a arquear uma sobrancelha ao tempo que se apoiava no respaldo, resolvida a manter uma atitude serena, cordial... e digna—. Na realidade, Investigações Harrison é uma empresa privada pequena e nos dedicamos a estudar acontecimentos estranhos em casas velhas. A maioria das vezes não descobrem mais que chãos de madeira que rangem e canos que gotejam, mas em construções como Melody House é possível que com o passar dos anos tenha carregado o ambiente de certa... história.

—Melody House tem um montão de história —disse o homem da covinha com outro sorriso radiante.

O velhote grisalho tomou a palavra:

—Senhorita Tremayne, tem muitas pessoas que veio com intenção de pôr câmaras, gravadoras e aparelhos muito modernos no Melody House. E o proprietário sempre o impediu.

—Sim, por isso tenho tanta vontade de me reunir com o Matt Stone. O senhor Harrison e ele se conhecem. O senhor Stone respeita o trabalho de meu chefe e sabe que não somos nada sensacionalistas. Conhecemos a história e a arquitetura dos lugares que investigamos e, é obvio, somos muito discretos. Entendo que o senhor Stone tenha guardadas certas dúvidas do passado. Estou segura de que terão vindo muitos aproveitadores para tirar dinheiro a custa dos fantasmas.

—Entendo —interrompeu Cara de Mármore—. Está aqui para investigar algumas das tétricas histórias que se contam da casa, mas não vai tentar tirar dinheiro a custa dos fantasmas, não? —perguntou com voz profunda, sem alterar-se, mas com um claro tom de brincadeira.

—Não. Já o expliquei. Nós só investigamos as casas.

—Certo —murmurou Cara de Mármore. depois a olhou naos olhos—. Diz que a maioria das vezes não descobrem mais que chãos de madeira que rangem e canos que gotejam. O que acontece no resto das vezes?

—Fazemos o possível por arrumar as coisas —respondeu com calma. de repente, Darcy desejou não ter iniciado aquela conversação.

—E como o fazem? Sem montar um número que atraia aos curiosos, é obvio. Sem sensacionalismos nem ânimo de ganhar dinheiro a custas dos fantasmas.

Darcy duvidou. Não tinha por que manter essa conversação com um descrente. Com quem tinha que tratar era com o Matt Stone. Mas, de novo, estavam em uma cidade pequena. E Adam lhe tinha sugerido que tratasse de levar bem com os habitantes. Em um lugar assim, estavam acostumados a contribuir muita informação que podia ser valiosa. encolheu os ombros. Se Adam o queria, tentaria ser sociável.

—Alguns fantasmas formam parte da história de um lugar. E é precisamente essa história, com todas suas lendas, o que mais fascina às pessoas. Alguns proprietários, empresas construtoras inclusive, sobre tudo tratando-se de lugares tão significativos como Melody House, estão desejando ter seu fantasma para atrair clientela. Basta ligar a televisão para dar conta de que uma parte enorme da população gosta de sentir medo.       O que nós fazemos é, em primeiro lugar, descobrir se seriamente estamos ante um fenômeno inexplicável... ou se houver alguém que gosta de fazer brincadeiras. Se houver algo além do ordinário, averiguamos a que se deve e trabalhamos a partir daí —disse Darcy sustentando o olhar do homem.

Embora não devia obcecar-se com ele. Adam Harrison já tinha falado com o Matt Stone e, ao parecer, tinha sido suficientemente convincente como para que Stone tivesse concordado com aquele encontro. De fato, tinha sido ele quem tinha chamado Adam, depois de receber uma carta deste. E, gostasse ou não que sua casa se convertesse em um centro nacional do esotérico, com certeza que teria no que gastar os exorbitantes honorários que Adam tinha pagado para poder investigar as histórias que circulavam sobre a casa. Darcy sabia quanto que custava manter um edifício histórico. Sobre tudo, se estava em mãos privadas. de repente, aborreceu-a ter se deixado intimidar por aqueles homens. Tinha passado anos de sobra em um lugar similar, o qual deveria tê-la preparado para fazer frente a qualquer Homem. E também se cruzou com muitos céticos brincalhões. Pelo geral, esse tipo de atitude não a incomodava. Ela tinha suas convicções e outros podiam ter as suas. Quem necessitava ajuda acabavam pedindo-a normalmente.

Já tinha sido mais que sociável, decidiu.

—Desculpem, cavalheiros, mas meu chefe já se pôs em contato com o senhor Stone e, ao parecer, está disposto a permitir acesso a Melody House. verei um modo de marcar outro encontro com ele mais na frente.

—Eu a conheço —disse de repente o homem da covinha—. Juraria que vi sua cara em alguma lugar — acrescentou sorridente.

Darcy duvidou. Se lhes contava que tinha sido modelo para uma empresa de cosméticos durante vários anos enquanto ia à universidade, nunca tomariam a sério. Por outra parte, que mais dava a ela? Com quem tinha que tratar era com o Stone.

—Estou segura de que não nos conhecemos —respondeu com tom educado—. Obrigado por seu tempo. Se me desculparem...

— Pecado Original! — exclamou o homem da covinha com um sorriso triunfante. — Acabei comprando esse perfume. Sua cara esteve nas capas de todo o país.

Até no Hicksville?, esteve tentada de dizer, e então se zangou consigo mesma por ser tão desdenhosa quando seus pais, umas pessoas maravilhosas, tinham ensinado que todas as pessoas, fossem de onde fossem, do último canto do país ou da terra incluso, mereciam respeito.

—Assim... você é modelo —disse Cara de Mármore.

Em realidade, soou como se houvesse dito que era uma loira estúpida com dois boles seios. Claro que ela era tirando a ruiva e, certamente, não ia sobrada de dianteira.

—Trabalhei para Pecado Original, sim —reconheceu com voz acalmada—. Também tenho diploma em Sociologia e em História dos Estados Unidos pela Universidade de Nova Iorque.

—Acreditava que viria Adam Harrison em pessoa —comentou Cara de Mármore e Darcy teve que apertar os dentes.

—Sim, o senhor Harrison virá em algum momento no curso da investigação. Agora mesmo não pode. Está ocupado com um assunto em Londres —Darcy freou. Sentiu raiva por haver-se sentido na obrigação de dar explicações a aqueles homens.

Estava a ponto de levantar-se quando o quarto homem do grupo, o do penteado arrumado e a camisa a medida, inclinou-se para frente e lhe tendeu uma mão.

—Perdoe, deveríamos ter nos apresentado. Sobre tudo eu. Sou David Jenner. Alguém de seu escritório se dirigiu a mim para alugar aparelhos de vídeo e gravação —disse. Logo olhou a seu redor e se encolheu de ombros—. Se é que o projeto sai adiante.

—Prazer em conhecê-lo, David —disse Darcy—. Justin, nosso gerente, disse-me que tinha falado contigo.

—Não têm sua própria equipe de trabalho? —perguntou Cara de Mármore.

—É obvio, temos uma equipe muita especializada —Darcy se obrigou a falar com cortesia—. Mas nós gostamos de alugar as câmaras de vídeo e as gravadoras em lojas locais. Para que não digam que inventamos nada. O senhor Stone nos conhece e sabe como trabalhamos. Tem informação de nossa empresa.

Cara de Mármore inclinou a cabeça e ela desejou que o muito cretino não tivesse óculos de sol em meio de um bar cheio de fumaça.

—Está bem que pensem que nossos aparelhos estão à altura... já sabe, de seus sofisticados meios de investigação.

—trabalhamos por todo o país, e no estrangeiro —replicou com presteza Darcy—, e sempre mantivemos excelentes relacionamento com todo mundo.

—Isso soa genial!

Darcy se surpreendeu com voz que lhe chegou pelas costas. girou-se e viu que o jogador de bilhar ao que tinham chamado Carter se aproximou. Era mais alto do que tinha pensado; ela mesma era alta, roçava quase o metro oitenta, e sem saltos. O tipo tinha barba, bigode e uns olhos de um verde intenso. E dava a impressão de que, debaixo da camisa, devia ter um corpo incrível. Em qualquer caso, Darcy teve a sensação de ter retrocedido no tempo. Com um uniforme, o tipo seria parecido ao general de cavalaria Jeb Stuart, como se acabasse de descer de seu cavalo para beber um gole no bar do povo. Olhou-a com uma estranha sinceridade ao tempo que falava:

—São muitos os yankes que vieram ao sul acreditando ser os deuses do mundo. Mas nesta ocasião pode que seja verdade, senhorita Tremayne. Eu também vi sua cara nas capas publicitárias. E sim que parece uma deusa.

—Obrigado —murmurou ela. Os yankees indo ao sul. Tinha viajado muito, mas nunca tinha tido a sensação de dar um salto atrás no tempo tão brusco—. Nossa sede so está duas horas daqui na realidade —comentou.

—Um rosto conhecido —disse Cara de Mármore—. Perdoe, mas me parece estranho. Uma modelo. Não sei, possivelmente a tenham enviado para manipular ao Matt Stone. Quero dizer, talvez a tenham mandado para terminar de convencê-lo. É você muito bela... e até está titulada.

de repente, Darcy se fartou de tanta rabugice. Ao diabo com os habitantes! Por muito boas maneiras que tivesse aprendido em casa, na universidade e ao longo da vida, não pôde conter seu gênio.

—Titulada em uma universidade excelente —disse ao tempo que ficava de pé—. E eu temo, cavalheiros, que o resto do mundo já entrou no século vinte e um. A Guerra Civil acabou no século dezenove. Agora somos um país unido, se não o recordarem. Washington, que é onde vivo, está muito perto. Há vida além desta cidade.

—Washington —murmurou Cara de Mármore antes de sorrir a seus companheiros—. certamente a que as coisas não funcionam igual a aqui por muito perto que estejamos, verdade, rapazes?

Darcy, já de pé, plantou as mãos sobre a mesa e o olhou com frieza. Cuspiu as palavras sem tempo a tomar consciência do que estava dizendo:

—Eu tinha esquecido de devolver seu velado galanteio. A verdade é que não é feio de tudo para ser um completo idiota. E agora, se me desculparem, nada disto é seu assunto. Tenho que falar com o senhor Stone. Com ninguém mais —Darcy olhou com desprezo ao grupo inteiro, girou-se e pôs-se a andar até a porta, onde se deu a volta—.Só para sua informação, o Sul perdeu a guerra. Se algum de vocês vir o senhor Stone, façam o favor de lhe dizer que vim vê-lo. Entrarei em contato com ele.

Os homens se levantaram e ficaram olhando-a. O mais amigável deles, o da covinha, começou a sorrir:

—O que esta acontecendo? —perguntou ela.

—Bem... acredito que Matt Stone sabe perfeitamente que vieste.

—Sim? E por que? —grunhiu Darcy.

—Senhorita Tremayne —interveio Cara de Mármore—, eu sou Matt Stone.

Adam Harrison teria dirigido a situação muito melhor. Teria encontrado uma forma mais graciosa de sair daquela situação. Mas, claro, Adam nunca o teriam tratado como a um objeto decorativo.

—Pois sinto não poder dizer que foi um prazer conhecê-lo, dado que não tem feito outra coisa que divertir-se a minha costa, senhor Stone. Se estragar esta oportunidade, asseguro-lhe que não me importa mais mínimo. É meu chefe que acredita que merece a pena investigar sua casa.

Com isso, deu-se a volta, saiu e deixou que a porta se fechasse atrás dela.

—Assim que faz! —disse Mae de detrás do balcão. Matt se colocou os óculos de sol sobre a cabeça e se girou para o Mae com um olhar desafiante:

—A princípio não tinha nem idéia de quem era e como pensava que ia vir o próprio Harrison, desconfiava dela. O que menos precisamos é que comece a vir um punhado de pirados e recreiem o cenário do projeto da bruxa Blair.

—Você foi genial — disse Clint em tom de brincadeira, sorindo de tal modo que a covinha lhe marcava a fundo na bochecha—. Entra uma deusa em nosso bar e ele a trata a ponta pés. Muito tato, garoto.

Clint era segundo primo de Matt, mas, embora levava o sobrenome familiar, seu avô tinha nascido fruto de uma união fora do matrimônio. O que, provavelmente, era uma boa coisa. A capacidade que Clint tinha de ver o lado divertido da vida era invejável, mas Matt estava seguro de que se Melody House tivesse ido parar à mãos do Clint, nesses momentos não estariam tendo essa conversação: sem dúvida, teriam perdido a propriedade fazia tempo. Não porque os terrenos tivessem sucumbido a praga alguma, a não ser devido às dívidas que Clint contraía jogando e apostando.

Matt desviou o olhar de Mae para o Clint e sacudiu a cabeça:

—É que o conceito dignidade não significa nada para nenhum dos dois?

—Não muito —respondeu Clint com alegria.

—Dignidade?, acredita que deu oportunidade a essa pobre garota de sentir que tinha alguma? —replicou Carter.

—Asseguro que está acostumada a conseguir o que se propõe —respondeu Matt encolhendo-se de ombros. Reconheceu, embora só para seus botões que tinha sido grosseiro... um pouco. Mas, ao menos, não tinham faltado motivos. Contudo, sentiu-se obrigado a recordar a seu amigo alguns de seus comportamentos—. E não me você venha com a dignidade, Carter. Se não recorda, foi tão desagradável com seu amiga Catherine Angsley, aqui neste mesmo bar, diante de muita mais gente, que partiu da cidade e ninguém tornou a vê-la.

—Ao menos a conhecia de antes —Carter se encolheu de ombros.

—E você, jovencito —atravessou Mae, sorridente, dirigindo-se ao Clint—, mandou a essa garota do Texas tão bonita... como se chamava? Salela Bennett. Mandou-a de volta ao Texas!

—Sasha —corrigiu Clint.

—Isso, Sasha. por que alguma vez me lembro desse nome? —perguntou Mae—. Claro que é impossível lembrar-se dos nomes de todas as mulheres que passam por suas vidas.

—Mae, só estamos procurando o amor eterno —disse Clint com cinismo.

—Uma ova! Estão procurando o primeiro corpo que se cruze por diante de seus narizes. Mas acredito que esta turista lhes faria cai com boca no chão —comentou Mae agradada.

—Dificilmente. Amável que foi Matt, seguro que já está voltando para Washington —Carter suspirou e se girou para o Matt—. Lembro um par de vezes que também te pôs bordo com a Lavinia.

—Ao menos se casou com ela antes —disse Mae.

—Nunca fui desagradável com a Lavinia. Nem sequer durante o divórcio —repôs Matt, irritado consigo mesmo por se sentir na defensiva e aborrecido porque estivessem recordando seu desastroso casamento.

—Vê, Mae? Não se pode casar precipitadamente —disse Carter—. Olhe o que aconteceu com Lavinia. Com tudo ser tão bonita, que cortava a respiração só de vê-la, resultou que era uma bruxa manipuladora.

—Simplesmente, não olhavamos a vida do mesmo modo —contrapôs Matt,perguntando -se por que diabos estaria defendendo de repente a sua ex-mulher.

Porque era verdade que Lavinia tinha sido uma bruxa. Uma menina rica e mimada que só pensava em si mesma.

—Estamos mudando o tema —apontou de repente o velho Anthony Larkin—. Mae, o que eu acredito é que o mundo tmudou muito desde que eu era jovem. E claro que sim, os jovens têm que estar seguros antes de casar-se. É verdade que hoje em dia todo mundo se divorcia. Mas não deixa de ser duro. Sobre tudo para os filhos.

—Por sorte, Matt e Lavinia não tiveram filhos. Com certeza que teriam saído muito mal desta historia—disse Clint—. Para mim Lavinia fez de tudo para que não os tivesse. Pois seguiria transmitindo-o pelos seu gens.

—Lavinia se foi, é história —disse Matt com rotundamente.

—Essa Sibel, ou Shana... Sheila... a garota com a que saía Clint não era uma bruxa —comentou então Mae—. um pouco teimosa possivelmente. Inteligente. E sabia cuidar de si mesmo. Mas não era uma bruxa.

—Sasha, chamava-se Sasha Bennett — a corrigiu Clint depois exalar um suspiro exagerado—. E o problema com essa relação tão estupenda era que queria que fosse com ela ao Texas. Além disso, estamo-nos desviando do assunto.

Anthony sacudiu a cabeça de cima abaixo, como arranhando o peito com a barba.

—Muito bem, esta é minha opinião, se por acaso te interessa, Matt. nos esqueçamos das confusões que tenham tido no passado. Mas uma coisa está clara: nem todas as mulheres são para ter uma aventura. Esta parecia inteligente e com classe. veio por motivos de trabalho. Matt, está tendo problemas em sua casa. Você mesmo me disse que chamou o Harrison depois de receber sua carta. Chamou-o você, insisto. Assim, por que te levaste assim com essa garota?

—parece-se muito a Lavinia —comentou Clint.

—Não, não se parecem —respondeu Carter—. Tem um andar similares... como uma graça natural. Mas isso é tudo o que se parecem.

—Cavalheiros? —interrompeu Mae.

—Suponho que não estive muito educado, de acordo. E sim, fui eu quem chamou o Adam depois de receber a carta. Mas essa é a coisa: esperava me encontrar com ele — reconheceu Matt—. E, bom, possivelmente sim tenha influenciado algo seu aspecto... Embora não se parece com a Lavinia absolutamente —acrescentou olhando ao Clint e ao Carter.

—Claro que não. é muito mais bonita —assegurou Mae.

—Mas não tem pinta de investigadora profissional — acrescentou Matt.

—As aparências enganam —disse Carter.

—Se não ouvi mau, vais deixar que Liz faça uma sessão de espiritismo —interveio Anthony Larkins—. Não acredito que isso seja do mais profissional.

—Liz estava unida ao avô. Foi uma enfermeira excelente até o final. Lhe devo —respondeu Matt encolhendo-se de ombros—. E me suplicou isso quando disse que iriam vir uns supostos peritos em fantasmas. Queria fazer uma sessão de espiritismo antes de que qualquer forasteiro colocasse os narizes. Além disso, todos os meses faz uma reunião de mulheres no Melody House e sejamos honestos sempre nos deixam dinheiro.

—Supunha que seria algo assim —Anthony se encolheu de ombros—. Eu a encontrei na drogaria. Disse-me que lhe tinha implorado isso porque está seguro de que nota algo estranho, sobre tudo nos quartos de acima. E disse que podia ir também o sujeito novo da Câmara de comércio. Assim... não vejo por que não deixar que essa garota dar uma olhada à casa também.

—E muito Bonita —insistiu Clint.

Matt assentiu com a cabeça. Tinham razão. E ele se comportou muito mal com a mulher. Devia estar se sentindo muito sensível. Não teria gostado de vê-la com esse aspecto, como se acabasse de sair de uma revista de moda, com esses saltos elegantes, unhas de manicura e uma cara de anjo... ou de sereia, algo assim.

As ruivas sempre davam problemas.

—Suponho que estou um pouco receoso com tudo isto. Talvez lhe deva uma desculpa.

O telefone soou com estrépito no bar. Matt apertou os dentes. Com certeza seria Penny. Mae respondeu.

—Olá... sim, Penny, está aqui. O celular deve estar desligado. Está aqui sentado, sim. Deveria ter o celular ligado, Matt —disse depôs de atender Penny, quando lhe aproximava o telefone.

—Na delegacia de polícia sabem onde estou. Shirley teria me localizado. Isso é o único que importa —disse Matt.

—Penny sabe que está no bar. pegue, por favor —insistiu Mae ao ver a expressão teimosa do Matt.

Este a fulminou com o olhar, mas acabou aceitando o telefone.

—Sim?

—Matt, ouvi que estive muito agressivo com a garota de Nova Iorque!

—Não foi para tanto. Como te inteiraste tão rápido?

Matt olhou ao redor. Teria sido Marty Sawyer, o sobrinho do Penny. Estava entre os que seguiam a partida de bilhar do Carter e tinha desaparecido. Teria saído correndo a pôr contar a sua tia.

—Matt Stone!, estamos demorando muito! Joe, o diretor do colégio, estava-me contando outro dia quanto gostaram aos alunos das visitas que organizamos no verão passado, e não poderemos as repetir se não nos assegurarmos de que não corremos perigo na casa. E já deu permissão para que façamos a sessão de espiritismo.

—Porque me dou bem com Elizabeth!, nada mais! —exclamou irritado Matt.

—Elizabeth vai deixar muito menos dinheiro do que está disposto a te pagar Adam Harrison por investigar Melody House. Normalmente, cobra por seus serviços. Já sabe que eu adoro a idéia de que haja fantasmas, mas até eu estou ficando nervosa. Pensa na cara que ficou a pobre Clara. E não me diga que bateu contra uma parede. Necessitamos histórias de fantasmas: histórias apaixonadas, de amores impossíveis, assassinatos, suicídios incluso. Mas... algo não esta bem. Noto-o. Matt, por favor. Se de verdade amar esta casa e quer mantê-la aberta, deixa que essa garota venha e comece a investigação.

Matt se girou. Todos estavam olhando-o. Penny falava em voz alta e podiam ouvir a embora não tivesse tirado o telefone da orelha.

—Tem razão. Assassinatos, suicídios... A mulher de branco que flutua nas escadas... não importa o que eu faça. Nunca nos livraremos dessas histórias.

—Eu vi à mulher de branco —assegurou Penny com teimosia.

—Bem na noite em que tinha bebido a metade da adega —lhe recordou ele.

—Em todo caso, isto é importante. Você mesmo disse que suspeita que alguém pode estar por trás destas estranhas aparições. Como vai saber se não deixar que o investiguem?

—Penny, sou o delegado. Tenho certa experiência como investigador.

—Matt, onde está seu patriotismo?

—O que? —perguntou assombrado ele.

—Esta casa forma parte da história do país. Seria uma calamidade se ocorresse algo grave de verdade.

Matt sorriu. Era uma nova estratégia.

—Matt, as coisas não estão tão bem —disse David Jenner da mesa detrás esclarecê-la garganta—. Nos precisamos do dinheiro.

—É verdade. Nem todos somos ricos, famosos e nascidos dentro de um casamento matrimônio legítimo —acrescentou Clint sorridente.

—Faria-nos um favor a todos —rematou Carter.

—Não terá que mover um dedo —disse Penny ao outro lado da linha—. me Dê o telefone da senhorita Tremayne e eu me ocupo de tudo. Se não querer, não tem nem que se aproximar da casa enquanto ela estiver aqui. Mas, antes, saia do bar e a tira desse hotel barato no que está alojando-se.

—Ei! —protestou Carter. Era evidente que tinha ouvido a Penny e ele era o dono do hotel barato.

—Está bem —se rendeu Matt.

—Sério, Matt, juro-te que eu me ocupo de tudo —insistiu Penny—. Além disso, que demônios! Se já tinha chamado ao Adam Harrison, por que dar pra atrás agora?

—Porque esperava o Adam Harrison —repetiu Matt. sentia-se como um disco furado—. Falarei com ela, fique calma —acrescentou para tranqüilizar Penny justo antes de desligar.

Mae sorriu como se fosse uma menina com um pirulito.

—Genial!, vamos ter uma equipe de casafantasmas autênticos no Melody House!

—Não são casafantasmas —disse Matt com firmeza.

—Tenho que me aprontar para a sessão de espiritismo! —exclamou entusiasmada ela.

—Não perderam nenhuma palavra da conversação, não foi? —perguntou resignado Matt. Todos negaram com a cabeça—. Está claro que vou ter que me acostumar a utilizar o celular.

—E então? —disse Carter—. Quando vais chamar à garota para convence-la de que estamos desejando lhe dar nossa mais cordial boa vinda?

—Logo. Mas não agorai —respondeu Matt. Voltou a colocar os óculos de sol e pôs-se a andar até a porta, onde recolheu seu chapéu de um gancho. Apertou os dentes. Ele não acreditava em espíritos, fantasmas nem encantamentos. Como não acreditava nas premonições.

E, entretanto, tinha um mau pressentimento.

Sacudiu a cabeça e, sem voltar para trás, murmurou:

—Este lugar tem muitas histórias feias enterradas.

Logo saiu do bar e deixou que a porta se fechasse de repente.

Todos permaneceram em silencio durante uns segundos.

—Deixará que se faça a sessão de espiritismo. Não se preocupe, Mae —lhe assegurou Clint.

—Sim... A casa não é o único o está deixando inquieto — comentou ela.

—Nunca deveria ter-se casado com essa bruxa de Nova Iorque —disse Carter.

—Também ruiva —murmurou David Jenner.

—Vivas ou mortas, está claro que sempre são pessoas que atormentam a quem continua vivo —sentenciou Mae com tom sombrio. Logo seu rosto se iluminou, como se fosse uma jovenzinha a que ia a seu primeiro baile—. E já podem se preparar!, vou ver um fantasma vivinho e abanando o rabo!

—Mae, como vai estar vivo se for um fantasma? —replicou Clint—. Mas estou contigo: as coisas podem ficar mais de interessantes por aqui.

 

Meia hora depois, Darcy estava de volta no quarto de seu hotel, escutando a voz que lhe falava pelo celular.

—Quer o que? —perguntou com incredulidade Não acha que vou me desculpar?

Darcy se apartou o celular para olhá-lo, apesar de que, no fundo, sabia que não conseguiria ver a cara do Adam.

—Não digo que te desculpe. Só que reconsidere a situação —respondeu ele. Logo ficou calado uns segundos—. Darcy, tenho muitíssimo interesse nessa casa. Já lhe explicarei isso quando voltar. Por favor, não tenho a ninguém tão boa como você. Necessito-te. E não é para tanto: tampouco te estou pedindo que faça as pazes com uma invasão de alienígenas hostis.

Darcy fez uma careta de apreensão. Sabia que havia um pouco relacionado com o Melody House que Adam não tinha compartilhado ainda com ela. Tinha que havê-lo. Tinha a sensação de que seu chefe, por muito rico que parecesse, contava com o apoio econômico de outra fonte... possivelmente governamental. Não era a primeira vez que entravam em edifícios federais e nunca tinham posto o menor obstáculo. Mas esse caso era distinto. notava-se que Adam estava interessado. Por motivos pessoais, ao parecer. Motivos que até esse momento não tinha querido compartilhar.

—Adam, se tanto te interessava, deveria ter vindo você mesmo.

—Sei. Mas tinha que estar em Londres.

Não lhe pediu explicações, porque Adam sempre era vago com as questões de trabalho e nem sequer lhe dava mais detalhes dos estritamente necessários.

—Darcy, você está bem? —perguntou ele.

—Estou acostumada aos céticos —disse ela. Mas nunca tinha tido que trabalhar com alguém que se mostrasse tão hostil.

—Pode fazê-lo. Sei que pode —a animou Adam.

—Mas de verdade quer que chame a esse sujeito e me desculpe?

—Nunca te pediria que fizesse algo assim.

—Então?

—Deixa estar de momento. Com certeza não demorará para ter notícias dele.

Darcy exalou um suspiro profundo. Irritava-a saber que não tinha dirigido bem a situação. Sentia um grande carinho pelo Adam e não queria falhar.

—Certo. O que faço então agora?

—Esperar. O hotel é bom?

—Sim —mentiu Darcy depois de dar uma olhada ao redor. Justo nesse instante, o telefone do hotel começou a soar. Olhou o telefone com desagrado. Estava mais sujo que um telefone público de um posto de gasolina—. Tenho outra chamada —disse ao Adam.

—Alguma intuição? —brincou Adam—. Eu digo que é Stone.

—Já veremos. Logo te chamo.

—Na verdade não precisa —respondeu ele e desligou o telefone.

De novo, Darcy olhou o telefone. Sacudiu a cabeça e se obrigou a pega-lo

—Sim?

—Senhorita Tremayne, é Matt Stone.

Darcy ficou calada, esperando. Adam tinha acertado. como sempre.

Ao parecer, Matt Stone também podia ser teimoso. O silêncio se prolongou.

—Sim? —repetiu ela. Podia imaginar Matt apertando os dentes.

—Como já sabe, sou o proprietário do Melody House. Não vivo na casa principal todo o tempo, embora passo ali algumas noites. Não obstante, tenho uma mulher que se ocupa da manutenção e das visitas e atos que celebramos de vez em quando. chama-se Penny Sawyer. Porei-lhe em contato com ela. Está desejando que comece sua investigação.

—Mas você não.

—Chamei o Adam para que viesse —respondeu Matt sem mais—. A casa tem um valor histórico enorme.

—Sem dúvida.

—Como lhe disse, Penny vai se encarregar de tudo. Conhece a casa com perfeição e a ajudará em tudo que necessitar. Entretanto, aproximarei-me pessoalmente quando já tiver estabelecido um plano de ação. Continua sendo minha propriedade e quero ter a última palavra antes de aprovar qualquer coisa.

—Lógico —respondeu Darcy, embora soube que sua resposta tinha soado resignada, não tinha outra opção.

—Penny sugeriu que se mude Melody House agora mesmo.

—O que? Não é necessário...

—Terá que estar na casa para investigá-la, não?

—Só digo que não acredito que eu precise ir com tanta pressa.

—Penny quer que vá o antes possível. Está ansiosa por conhecê-la. Além disso, ela trabalha la. Em seu escritório poderá encontrar todo tipo de documentos, assim... pode ir se preparando.

Darcy olhou sua habitação. A verdade era que aquilo não merecia ser chamado um hotel. Não a assustavam os insetos, mas tinha tido que limpar os que havia na banheira antes de dar uma ducha rápida.

Possivelmente Matt Stone também tivesse poderes paranormais, pois suas seguintes palavras sugeriam que lhe tinha lido o pensamento:

—Conheço o hotel no que se está alojando, senhorita Tremayne.

—Está bem. Tem razão.

—Pego-a em meia hora.

Darcy abriu a boca para protestar. Teria preferido dispor de algo mais de tempo para examinar a local antes de entrar na casa.

Muito tarde. Matt Stone tinha desligado.

Darcy amaldiçoou por entre dentes. Depois deu olhada por seu pequeno quarto. Não havia muito que recolher: tinha ficado medo que os insetos invadissem sua lingerie por isso não tinha tirado roupa da mala. Agarrou a nécessaire do banheiro e dobrou os poucos objetos que tinha tirado menos de dez minutos.

Por sorte. O conceito que Matt Stone tinha do tempo não devia ser muito preciso. Mal tinha repassado seus pertences para assegurar-se de que não se esquecia nada, quando bateram na porta.

Abriu. E aí estava ele, com seus óculos de sol, com um cacho negro e solto sobre a frente. Embora Darcy estivesse de saltos, o homem continuava parecendo enorme. Não agradou sentir-se em desvantagem, embora a estatura não significasse nada em realidade.

—Pronta, senhorita Tremayne?

Darcy respirou profundo e se obrigou a esboçar um sorriso que pareceu pouco convincente.

—Senhor Stone, não sei como acerta para pronunciar meu sobrenome de forma tão depreciativa. Meu nome é Darcy. Estou acostumada a que se dirijam para mim por meu nome.

Ele inclinou a cabeça ligeiramente. Ela não pôde interpretar a expressão de seus olhos, pois os óculos de sol os ocultavam.

—De acordo... Darcy. Alegra-me que tenha decidido mudar-se —disse Matt, olhado as horas—. Tenho que voltar para meu escritório, assim temos que andar depressa. Onde esta sua mala?

—Posso me ocupar eu dela, obrigado.

—Diz-me onde esta maldita mala?

—Alguém teria que te demitir da polícia —Darcy colocou as mãos nos quadris—. Pode que seja um homem importante por estas terras, mas é a pessoa mais rude que conheci em minha vida.

—Sinto muito, mas meu tempo é limitado. Por favor, senhorita Tremayne... Darcy, posso levar sua mala? —perguntou com mais sarcasmo que educação.

—De acordo. Aí está. Tem rodas... a não ser que sua imagem de macho não possa suportá-lo e queira carregá-la nos braços.

Matt pôs uma careta de chateio, agarrou a mala e pôs-se a andar.

Darcy o seguiu pelos corredores cheios de telhas de aranha até o estacionamento. Não viu nenhum carro normal: havia dois veículos, um carro de polícia e um de patrulha.

Matt tinha pernas compridas, mas tinha parado à saída do edifício e tirou os óculos para dar a oportunidade de que chegasse a seu lado. Viu que Darcy olhava em dúvida para os carros do estacionamento.

—Desculpe, é esse aí —disse ele—. Suponho que esquece de dizer que Sou o delegado. Claro que, sendo adivinha, deveria saber —acrescentou olhando-a maliciosamente.

—Não sou adivinha —respondeu ela com um sorriso doce e cínico—. Digamos que tenho uma capacidade de dedução especial. As pessoas ocultam coisas e algumas dessas coisas as intuo com facilidade. Tenho fama de ser boa descobrindo segredos e estou segura de que haverá muitos Melody House.

Matt lançou um olhar penetrante. Seus olhos eram escuros, não marrons, mas sim de um cinza profundo. Inquietantes. Pareciam radiografá-la e, ao mesmo tempo, tinham como um véu que impedia Darcy aventurar no que estaria pensando.

—Bom, e ai?, vamos? —perguntou por fim ela.

—Sim, estou desejando ver que segredos descobre, senhorita Tremayne. Morro de vontade.

—Perfeito. Mas...

—O que?

—Te prepare. As pessoas nem sempre gostam quando têm seus segredos desvendados.

—Para mim, é simplesmente uma das casas mais incríveis, e com mais interesse histórico, sobre a face da terra —assegurou com entusiasmo Penny.

Darcy sorriu e pensou que estava de acordo... apesar da dificuldade do lugar; dificuldade que, em concreto, chamava-se Matt Stone.

Ele tinha iniciado uma conversação mais ou menos agradável durante o trajeto em carro e lhe tinha comentado que, em uma ocasião, a caminho de uma batalha, o grande general sulista Robert E. Lee se alojou no Melody House. Então tinham chegado na casa e, embora Darcy não podia dizer que a tivesse expulso do carro a chutes, não tinha dúvida de que se desfez dela o mais rápido possível, deixando-a nas mãos do Penny Sawyer e alegando, sem mais, que tinha trabalho que fazer.

Darcy perguntou se também teria estado de serviço quando o tinha conhecido no bar Wayside.

Mas Penny Sawyer era maravilhosa. Darcy não acertava a calcular sua idade. Sem dúvida, estava entre os quarenta e os sessenta, mas era uma margem muito ampla. Era esbelta, mais ou menos um metro setenta, tinhao cabelo curto e uns preciosos olhos azuis. Vestia com estilo e era tão cordial como descortês era seu chefe.

—A casa é incrível —concordou Darcy—. Há muitas casas que foram restauradas respeitando com rigor seu aspecto original; mas é assombroso o bem conservada que está esta, e mais tratando-se de uma propriedade particular.

—O avô do Matt amava este lugar. Mimava a casa como se fosse um bebê. Queria que fosse cálida, um verdadeiro lar, mas mantendo sua integridade. Era um homem maravilhoso.

—Isso parece.

Penny sorriu.

—Embora custe acreditar, Matt tem tanto ou mais carinho à casa. Está empenhado em mantê-la ele sozinho. Dá-lhe medo perder o controle. Mas sabe que um lugar assim tem muitos gastos. E os delegados não ganham uma fortuna. Assim não tem outro remedeio que me deixar organizar excursões para arrecadar recursos —Penny fez uma pausa para olhá-la aos olhos—. Bem, e ai? que vibração te dá a casa? Está encantada?

Darcy sorriu. perguntou-se como responder à pergunta:

—Está claro que se nota no ambiente que tem muita história.

—Mas... vê fantasmas?

—No momento, o único posso dizer é que a casa parece acolhedora. Como se o que queira que perdure do passado fosse benigno. Tem vida. O que não é estranho, tratando-se de um lugar com tanta história. Muitas pessoas acreditam que como os seres humanos são feitos de energia, e a energia não pode destruir-se, a energia de algumas almas permanece.

—Já sei o que a maioria das pessoas acredita —respondeu Penny arqueando uma sobrancelha—. Mas você é perita. O que você acha? E isso que, diga o que diga, não trocará o que eu penso e sinto. Sei que os fantasmas existem. Eu mesma vi um.

—Seriamente?

Penny se encolheu de ombros. Estavam em seu escritório, uma sala muito agradável, situada na planta baixa, perto do escritorio do Matt.

—Vi à mulher de branco que flutua nas escadas. E começo a acreditar que não é benigna absolutamente. Não me interprete mal: pessoalmente, eu adoro as histórias de fantasmas. São muito importantes para o Melody House: atraem turistas. Mas de um tempo para cá os fantasmas se estão voltando mais... reais.

—Em que sentido?

—Bom, faz não muito, alugamos a suíte Lee um casal de recém casados. Ela despertou em meio da noite e o fantasma lhe falou, ou lhe puxou o cabelo, ou algo. A garota não se explicou com muita claridade. O caso é que saiu correndo do quarto e desceu as escadas nua. Não quis voltar a entrar na suite, nem sequer para recolher suas coisas. depois, Clara Issy, uma das criadas, uma mulher maravilhosa, saiu espantada, contando o mesmo. O fantasma lhe tinha deixado uma marca de uma bofetada no rosto.

—O que disse o delegado Stone a respeito? —perguntou Darcy.

—Está convencido de que Clara bateu o rosto em algo —respondeu Penny, fazendo um gesto de rechaço com a mão—. Matt se nega a acreditar em nada sobrenatural. Mas concordou que celebremos uma sessão de espiritismo. Nada disto tem muito sentido. Pode que Matt não conheça Investigações Harrison, mas eu sim. Adam Harrison é um dos investigadores mais influentes e prestigiosos de fenômenos paranormais. Matt sabia que você viria. Esperava Adam em pessoa, de acordo, mas disse a Liz que prossiga com a sessão de espiritismo. É estranho. Claro que está convencido de que ninguém contatará com nenhum espírito. Possivelmente só quer agradar Liz.

—Será interessante participar de uma sessão de espiritismo aqui, embora a médium não seja uma perita —comentou Darcy com tato.

—É amanhã de noite — informou Penny—. Estou preparando o salão, porque Elizabeth diz que devemos utilizar o centro da casa, o coração.

—Por mim não há problema —assegurou Darcy e Penny sorriu.

—É um alívio. A final, a profissional é você.

—Não sei se nestes temas se pode falar de profissionais —comentou Darcy—. Acho que Liz dirigirá a sessão maravilhosamente. Importa-se se eu der uma volta? —acrescentou enquanto ficava de pé.

—Prosiga, por favor! pusemos sua mala na suite Lee, onde tiveram lugar os fenômenos. Se passar algo, suponho que não te dará tanto medo e tentará falar com o fantasma, não?

—Algo assim —disse Darcy.

—Bom, pois está em sua casa —Penny lhe ofereceu um folheto—. São para os turistas, mas o mapa te ajudará a te orientar. E há alguns dados interessantes sobre a história da casa.

—Perfeito —disse Darcy—. Muito obrigado.

—É um prazer. E, por favor, se precisar de algo, não duvide em me chamar. Estou encantada de te ter aqui.

—Obrigado —repetiu Darcy.

Depois agarrou o mapa e saiu do escritório de Penny. Que era uma dos dois cômodos da direita do corredor que comunicava com o vestíbulo e as escadas.

Darcy parou um instante. Para ela, aquela era a parte mais importante de seu trabalho. Adam Harrison era excelente com as máquinas. Tinha aparelhos que registravam as mudanças de temperatura, gravadoras que captavam o som mais leve, até havia artefatos que captavam qualquer movimento de um campo magnético. Quando Adam chegasse, mediria a contaminação eletromagnética com um aparelho que, como gostava de lhes dizer aos clientes, era estupendo para detectar se o microondas funcionava bem. Em qualquer caso, Adam sabia que, naquele trabalho, qualquer manifestação ia sempre acompanhada de uma certa quantidade de energia, e justo isso era o que acabava captando com sua equipe.

Adam trabalhava partindo de um enfoque científico. Ela, em troca, deixava-se guiar pelas vibrações que lhe produzia a casa. O segredo consistia em ir conhecendo-a.

E, freqüentemente, quando chegava a um lugar supostamente encantado, notava que Josh estava a seu lado. Disposto a protegê-la, vigilante, como um guarda-costas naquele mundo de fenômenos estranhos.

Esperou. Mas não sentiu sua presença. Esperou vários minutos, quieta, fazendo um esforço por limpar a cabeça, coisa que não estava acostumado a necessitar. Mesmo assim, continuou sem receber o Josh, o que era realmente estranho.

Sobre tudo, porque a casa parecia mais viva e cheia de energia do passado que qualquer outro lugar que tivesse visitado até então.

Caminhou até o saguão, ou vestíbulo, e consultou o mapa para orientar-se. Embora a casa não fosse muito complicada. Havia um alpendre com uma entrada que dava ao vestíbulo, no que se elevava uma majestosa escada. igual a em outras muitas construções coloniais, havia um corredor justo à direita das escadas. Ia reto e direto até as portas de atrás. Em outra época, quando ainda não existia o ar condicionado, esse corredor permitia ventilar a casa no verão com uma brisa constante, pois as portas traseiras se deixavam abertas com esse preciso objetivo.

Havia uma terceira cômodo além dos dois escritórios nessa parte da casa: a biblioteca. Darcy deu uma olhada rápida na sala. Três das paredes estavam lotadas de livros, enquanto que uma chaminé enorme ocupava a quarta. O chão, de madeira, estava cobrerto por um tapete persa delicado, provavelmente antigo. Também havia uma mesa de mogno e cadeiras de leitura junto à chaminé. Darcy se perguntou se Matt Stone seria consciente do valor de muitos dos volumes antigos que enchiam as estantes, misturado com muita literatura recente também.

A mesa tinha capacidade para um computador, uma impressora e certo espaço de trabalho. Darcy supôs que os aprelhos deviam estar a serviço dos hóspedes, pois tinha percebido que o escritório de Penny contava com todos os meios necessários para dirigir Melody House. E com certeza o escritório de Matt também estaria bem equipado.

De pé na biblioteca, fechou os olhos um segundo e sentiu a comodo. A atmosfera era rica e intensa. A sala tinha sido testemunha de muitas paixões, emoções e sucessos cotidianos. Mas não notava nada diabólico ou maligno. Abriu os olhos, saiu da biblioteca e retornou ao vestíbulo.

A escada estava cheia de vibrações perturbadoras, o que tampouco era estranho. Darcy se perguntou quantos homens teriam baixado por ali, seguidos de suas mulheres, amantes e filhos, para dirigir-se a uma guerra da que não tinham retornado nunca.

O salão era realmente belo e, ao igual à biblioteca, tinha uma energia especial. Energia acumulada ao longo de muitos anos de história. Mas tampouco aí percebeu nada maligno.

Mais à frente do salão havia uma sala de refeições, ampla e elegante, e uma cozinha com os eletrodomésticos mais modernos, mas que conservava seu sabor antigo. Pareceu-lhe preciosa nada mais vê-la. A porta traseira comunicava com o alpendre que rodeava a casa inteira. A vista do alpendre era deliciosa. Era um dia radiante, o ar levava a fragrância das flores e, ao fundo, entre verdes, violetas, rosas, laranjas e dourados se elevavam as montanhas.

Darcy voltou para a cozinha. Depois, em vez de retornar ao vestíbulo e subir as escadas que davam ao segundo andar, avançou pelo corredor com os quartos dos criados e as criadas, muito menos espetacular. Ao chegar ao final, encontrou-se com outras escadas, que também conduziam ao piso superior. Voltou a olhar o mapa. Em um princípio, acima tinha havido seis dormitórios. Mas já só havia cinco, pois a suíte principal, possivelmente a do Matt, tinha incorporado uma peça a modo de escritório ou salão.

Darcy supôs que Matt lhe impediria de entrar em sua suite. Ao menos, no momento.

Ao parecer, todas as suites tinham nomes de militares sulinos; é obvio, a suíte Lee era a mais majestosa e elegante. A julgar pelo plano, as suíte Stuart, Longstreet, Beauregard e Amizade eram um pouco mais pequenas. Darcy foi entrando em cada suite e concluiu que todos conservavam um ar clássico. Eram bonitas, limpas e acolhedoras. notava-se que o pessoal cuidava a casa com esmero.

Por fim, chegou à suíte Lee, e fechou os olhos. A atmosfera era pesada, como se estivesse encapotada, densa, e a envolveu imediatamente. Abriu os olhos e entrou.

As portas que davam a terraço estavam abertas. Uma doce brisa acariciava o quarto.

Mas não devia enganar-se, pensou Darcy. Uma aura de tremenda agitação flutuava atrás dessa calma aparente. Tratou de imaginar como lhe explicar ao Matt Stone as sensações que estava tendo. Não parecia uma empreitada simples.

De fato, tinha a impressão de que jamais conseguiria fazer Matt Stone entender talento extraordinário que possuía. Adam sim a compreenderia. Era um homem assombroso. Era inteligente, mas seu melhor dote era que aceitava que havia pessoas com uma sensibilidade especial. Desde não fosse por Adam, Darcy teria se tornado louca depois de ver e ouvir o que ninguém mais alcançava a captar. Mas Adam tinha acreditado nela. E tinha ensinado a canalizar as estranhas imagens e sensações que experimentava. Quando havia se sentido uma inadapta, Adam tinha feito ver que tinha o dom de dar paz e alívio às almas perdidas. Tinha-lhe proporcionado um sentido a sua vida, assim como um modo de ganhar um salário generoso.

A suíte Lee tinha rastros invisíveis de dor e sofrimento. O ambiente estava carregado, como se estivesse a ponto de explodir uma tempestade.

Por outra parte, era incrível. Não era mau lugar para alojar-se. Muito melhor, que o hotel anterior. A mala estava aos pés da cama. Darcy começou a desfazê-la, cantarolando uma cantiga, embora atenta em todo momento ao menor mudança na atmosfera.

A única que a roçava era a brisa que entrava pelo terraço e, entretanto...

Estava segura de que a estavam observando. Notava um comichão desagradável nas costas. Era como se os olhos de alguém, ou de algo, estivessem em cima dela. Como se um olhar misterioso a vigiasse.

Sensações... intuições. O pêlo arrepiado da nuca. deteve-se um segundo. Mas...

Não havia nada tangível. Nada absolutamente. Mas Darcy não confiava. Sabia que, o que fosse que habitasse a suíte esperaria, observaria e aguardaria o momento adequado para manifestar-se.

 

O verão dava luz a Melody House até depois das oito horas da tarde.

Matt chegou em casa às seis e foi em busca de Penny. Estava convencido de que a encontraria com sua convidada, falando dos muitos fantasmas que já tinham descoberto. Possivelmente até tivessem tirado o tabuleiro da Ouija.

Mas Penny estava na cozinha com o Joe McGurdy, o cozinheiro. Matt não o esperava essa noite. Geralmente, só ia quando celebravam um acontecimento especial. Ao vê-los juntos na cozinha, Matt arqueou uma sobrancelha, olhando para Penny, enquanto Joe o saudava com um sorriso amistoso.

— Teremos convidados para o jantar, não? — adiantou-se Penny.

— Quais?

— Clint, Carter, Darcy, você e eu.

— Claro! E já tirou o faqueiro de ouro? — perguntou com ironia Matt.

— Não diga tolices. Mas não queria lhe servir umas lentilhas em lata em sua primeira noite, verdade?

— Santo céu, não! —exclamou Matt teatralmente—. Onde está nossa convidada?

— Carter selou a Nellie. Ela saiu para dar um passeio para ver os arredores.

— Sabe montar a cavalo? Se for para o Oeste, o terreno se complica.

— Matt, ela é uma pessoa adulta, me disse que sabia montar.

— Pode ser que tenha que procurá-la, de qualquer jeito — murmurou contrariado. Genial, tinham chamado o cozinheiro e, quando voltasse de sua volta a cavalo, até lhes estenderiam um tapete vermelho. Matt se perguntou por que Carter não teria acompanhado sua convidada. Depois de trocar-se e colocar uns jeans e um pulôver, foi ao estábulo e para saber o porquê. Carter encolheu os ombros enquanto tirava o Vernon de sua baía.

— Disse que queria explorar os arredores a sós. Que era importante para seu trabalho. O que acha? Que não me ofereci a acompanhá-la? Se é um bombom.

— Um bombom que vê fantasmas — recordou Matt enquanto punha a brida em Vernon.

— Ouça, todo mundo tem que ganhar a vida de algum modo — disse Carter.

— Certamente que não era esta a única opção que tinha - respondeu Matt enquanto punha os arreios em Vernon.

— Possivelmente seja boa profissional — disse Carter enquanto olhava Matt subir no cavalo. — Não sei, eu acabo de comprar a casa do Reed no condado do lado. Se não quiser que ela olhe seus fantasmas, eu ficarei encantado que dê uma olhada nos meus.

— Estou certo de que a deixaria apaixonada — Matt negou com a cabeça. — Mas, no momento, deixe que eu me assegure de que não está caída em algum caminho com uma perna quebrada. De verdade, como deixou-a ir sozinha?

— Será... por que me disse que não queria companhia? — replicou Carter. — Não chegue tarde para o jantar! Parece que Penny pediu a Joe que preparasse algo bom —acrescentou, elevando a voz, enquanto Matt saía do estábulo no lombo do Vernon.

Ele notou que seu mau humor aumentava a cada segundos e respirou fundo para acalmar-se. Adam Harrison havia pago uma soma considerável por ir fazer o que ele chamava uma investigação. Assim teriam que dar de comer à mulher. No final, já contava com o Joe para o jantar do dia seguinte, para quem assistisse à sessão de espiritismo. Quanto ao cavalo...

A mulher tinha saído a cavalgar sozinha. E se não sabia montar? Se acontecesse algo, com certeza ele seria responsável pela lesão e o condenaria.

O caminho lógico era atravessar o campo que havia ao sul do estábulo e seguir por algum dos atalhos que se desviavam ao oeste. Matt observou que alguém tinha passado recentemente por ali. Havia marcas de cascos de cavalo e a grama estava esmagada.

Fiel a seu instinto, cruzou o campo até chegar a um atalho largo que subia para as montanhas. Logo, depois de vinte minutos, chegou a um pequeno riacho que serpenteava entre as árvores. O ar era fresco; o aroma dos pinheiros, doce.

Quando viu Nellie solta, bebendo no arroio sem cavaleiro, deu-lhe medo. perguntou-se onde teria atirado à mulher.

Mas quando desmontou, depois de examinar os arredores com uma rápida olhada, advertiu que não devia haver-se preocupado. Darcy estava tranqüilamente sentada sobre um velho tronco , fazendo desenhos no chão com um ramo quebrado. Ela o observou sem dar a boas-vindas nem reclamar.

— Olá — saudou ele depois deixar Vernon bebendo junto a Nellie.

Ainda havia bastante luz, mas as árvores do bosque criavam estranhas sombras com reflexos verdes. O cabelo do Darcy reluzia com uma tonalidade vermelha excepcional e seus olhos resplandeciam, mais verdes inclusive que as árvores. Parecia mais delicada no meio do bosque e, com os jeans e o pulôver que usava, era como uma ninfa. Claro que no momento em que ficasse de pé, seria muito mais alta que qualquer elfo. Surpreendeu-o comprovar que o que mais o irritava nela era essa altura ágil e elegante.

Darcy entrelaçou as mãos ao mesmo tempo que abraçava os joelhos e o olhou com certa hostilidade:

— Olá, delegado. Como pode ver, não tenho quebrado o pescoço nem me extraviei nem perdi a égua.

— Por acaso sugeri em algum momento que poderia ocorrer algo assim?

— Só porque não sabia que tomaria a liberdade de sair a montar a cavalo.

— Podia ter mencionado que tinha intenção de fazê-lo.

— Quando?, Enquanto me jogava do carro a empurrões ao chegar a Melody House?

— Eu não tenho feito nada semelhante.

Darcy encolheu os ombros como resposta. Matt voltou a irritar-se e, em parte, sabia porquê. A mulher não só era alta e elegante, a não ser sensual, de movimentos suaves, quase felinos. Parecia uma princesa intocável, mas, ao mesmo tempo, algo nela prometia prazeres ocultos, muito carnais.

— Pensei que estaria explorando a casa.

— Tenho feito isso. — respondeu Darcy, posando seus verdes olhos sobre ele.

— E ainda não descobriu os fantasmas diabólicos?

— Explorei a casa e agora estou explorando os arredores —respondeu Darcy com secura.

— Ah! — Matt se sentou no tronco junto a ela. Olhou através das árvores para a água, que refletia com mil brilhos os raios do sol. Depois virou se para ela. — Supõe-se que o bosque também está encantado. E não só Melody House.

— Obrigado pela informação — disse Darcy. — Alguma lenda associada ao bosque em particular?

— Bem... faz muitos anos, no final do século dezesseis, acredito, havia uma família com um pequeno rancho perto das montanhas. Um pai, uma mãe e um punhado de filhos. A irmã mais velha era normal; a mais nova, bonita. O pretendente da irmã mais velha acabou apaixonando-se perdidamente pela mais nova. O rapaz teve que fazer uma viagem para cuidar de uns negócios e, ao partir, beijou à irmã mais nova. Os dois estavam felizes, porque se casariam assim que ele retornasse. O que não imaginavam era que a irmã mais velha estava louca, desenquadrada. Um dia pediu a que a mais nova acompanhasse a casa de uns vizinhos. Enquanto atravessavam o bosque, convidou-a para que se deitasse junto ao rio e... zás!

— Matou-a com um facão, quase decapitando-a. Depois disto, o espírito da irmã mais nova vaga pelo bosque, com sangue emanando da garganta e gritando aterrorizada — finalizou Darcy.

— Já lhe tinham contado a lenda! — exclamou Matt em tom zombador.

Ela permaneceu calada um momento. Logo perguntou:

— O que aconteceu com a irmã mais velha?

— Bom, quando o jovem retornou, enforcou-se desesperado, arruinando as esperanças da assassina. Suponho que então não teriam muitas provas de demonstrar o que tinha ocorrido, de modo que ninguém foi a julgamento. Mas a irmã mais velha enlouqueceu. A família a encerrou no celeiro até que morreu, já velha, com oitenta anos. Pouco antes de falecer, confessou e passou vários dias gritando que sua irmã a perseguia para vingar-se.

— Isto que eu chamo de uma família desestruturada — comentou Darcy.

— Sim, suponho que se pode dizer que sim — Matt a olhou. As suas feições eram clássicas e, entretanto, sua beleza era única. Tinha sido modelo de uma empresa de cosméticos, recordou-se, com o que devia ter ganho bastante dinheiro. Por que renunciar a tudo para ir em busca de fantasmas... ainda mais se realmente tinha tantos títulos acadêmicos?

— O corpo da irmã mais nova foi descoberto por um cão que estava escavando no lugar que ela tinha sido enterrada — disse Darcy. — Mas não encontraram a cabeça, assim não puderam enterrá-la como é devido, junto com o resto dos ossos. O dia que alguém encontre a cabeça e a enterre com os outros ossos, o feitiço acabará.

— Ah, pois muito fácil. Isso parece. Deveríamos nos pôr todos a escavar em busca da cabeça. Claro que, por onde começaremos? Se é que ficou algo dela depois de tanto tempo. A esta altura, pode que o rio levou os restos para a Florida. Mas, que demônios!, As pessoas adoram as histórias de fantasmas! Por que não deixar que o pobre fantasma siga gritando e sangrando entre as árvores?

— Porque é muito triste — respondeu Darcy.

— Bom, se tiver tempo, não deixe de examinar o bosque. É bastante terreno, mas se vê que é uma mulher decidida. Ainda assim, não deixe buracos. Há muita gente que vem aqui montado a cavalo e não seria boa coisa que nos apareça outro fantasma com a cabeça desencaixada por ter seu pescoço partido. — Levantou-se mal-humorado.

— Posso saber o que passa com você? — perguntou ela ficando também de pé. — Por que tem de ser tão hostil?

— Porque o único que vai fazer é alimentar a imaginação de um montão de idiotas e bêbados que deveriam comportar-se com inteligência, em vez de ficarem loucos por uma história de fantasmas! A história pode ser trágica. Trágica... mas é história. Forma parte do passado. Não o revolva, Darcy.

— Foi você quem nos chamou!

— Não. O único que fiz foi dizer a Adam que podia vir.

Darcy plantou as mãos sobre os quadris e o fulminou com o olhar:

— Disse nada: assinou um contrato que autorizava a Investigações Harrison a examinar sua casa. E eu pertenço a Investigações Harrison tanto quanto Adam.

Matt arqueou uma sobrancelha. Agradou-o observar o ligeiro rubor que encarnou as bochechas do Darcy.

— Bom, quase tanto quanto Adam — corrigiu ela. — E sou muito boa em meu trabalho. Assim, já que você me contratou, que tal você deixar de agir como um cretino por um momento?

Matt teve vontade de gritar e pô-la em seu lugar. Mas não encontrou um argumento para fazê-lo. Levantou as mãos, como se rendesse.

— Temos que voltar. O jantar estará preparado.

Matt deu a volta e pôs-se a andar para o cavalo.

— Embora não acredite, nem todas as ruivas são perversas.

Matt se girou assombrado.

— Não sei de que demônios fala.

— Da Lavinia Harper, sua ex-mulher — respondeu Darcy sem rodeios.

— Entendo. E sabe graças a seus poderes?

— Você não gosta de ruivas. Não precisa ser um gênio para dar-se conta. Penny me contou da Lavinia.

— Um cabelo vermelho se compra em caixas de tinturas por dez dólares. Nunca discriminaria a ninguém pela cor de seu cabelo, da pele, nem dos olhos — respondeu Matt, tratando de soar calmo e seguro como um catedrático, mas sem poder conter sua irritação.

— Se você diz — contrapôs, enquanto ia em busca da Nellie.

Matt a deixou ir enquanto reprimia um arrebatamento de cólera. Não entendia por que essa mulher o deixava fora dos eixos, Não estava acostumado a julgar a uma pessoa antes de conhecê-la. Estava tenso. Fechou os olhos um segundo, abriu-os e girou com intenção de ajudá-la a subir na égua. Mas, antes de que pudesse fazê-lo, Darcy já tinha subido em Nellie.

Quando Matt montou sobre o Vernon, ela já estava cavalgando pelo atalho.

Seguiu-a uns metros atrás e só então percebeu por que começava a anoitecer.

No horizonte, ao outro lado do campo, Melody House se elevava, banhada por um brilho carmim e dourado. A luz durou apenas uns segundos. Logo, o sol se pôs. E a noite envolveu de sombras a paisagem.

 

Apesar de Matt Stone, ou possivelmente devido a sua presença, o jantar foi entretido e Darcy riu muito enquanto comia. Matt e Penny pareciam não estar de acordo em nada, mas se notava que tinham um grande carinho. Penny queria contar lendas. Matt se dedicava a corrigi-la quando suas lendas se tornavam muito fantásticas, muito românticas ou muito o que fora.

— Foi como se o exército inteiro se refugiasse no Melody House! —exclamou Penny.

Sim, Mulher!, o exército inteiro! Não eram mais de vinte homens —particularizou Matt.

— Eram soldados fabulosos — continuou Penny. — Pode ser que fossem vinte, mas valiam por mil. Derrotaram aos yankees...

— A todo o exército do Norte? —burlou-se Matt.

— O menos eram cem! — assegurou Penny, chateada pelas interrupções de seu chefe. — A questão é que nossos rapazes não se renderam e, em geral, saíram vitoriosos; mas mataram seu chefe, um capitão jovem. Uma bala atravessou o vidro e deu em pleno coração. Dizem que seu espírito continua aqui, protegendo Melody House.

Matt se inclinou sobre a mesa e olhou ao Darcy com expressão divertida:

— E parece que ninguém lhe disse que a guerra terminou, que o sul perdeu. Tenho entendido que não gosta do acento dos yankees.

— Pois menos mal que eu não o tenho — respondeu Darcy com doçura.

—Como vai te-lo? era atriz. Com certeza trabalhou para tira-lo - comentou Carter.

— Era atriz — murmurou Matt.

— Ia estudar para atriz — corrigiu Darcy. — Mas não cheguei a fazê-lo.

— É normal: não se pode ter um doutorado em tudo — disse Matt.

—Tem um doutorador em fantasmologia? — perguntou Clint.

— Não digam tolices! — arrebateu-lhes Penny.

Tanto Carter como Clint encolheram de ombros. Serviram a sobremesa. Um bolo de gema excepcional. Darcy estava convencida de que, em qualquer momento, apareceria um mordomo e convidaria às damas a se retirar a um cômodo enquanto os cavalheiros iam a outra sala para tomar uma taça de champanha e fumar um charuto.

Mas não havia mordomos nem criados, ao menos essa noite. Todos tinham ajudado a pôr a mesa e servir a comida.

— E então? — perguntou Penny, olhando ao Darcy com um sorriso espectador.

— E então? — repetiu esta, também sorridente.

— Vi-o?

— A quem

— Ao fantasma de nosso capitão!

— Ao capitão que impediu que os yankees fizessem cinzas Melody House — acrescentou Matt em tom zombador.

— Os primeiros dias só vou me aclimando à casa — respondeu Darcy encolhendo os ombros.

— Claro, claro! Deixa que todas as vibrações penetrem em seu corpo — disse Penny em tom pormenorizado.

— Algo assim, sim — disse Darcy.

— Mas há vibrações? — perguntou Matt, aparentando interesse.

— A casa treme — respondeu ela olhando-o aos olhos.

— Do que?

— De hostilidade — respondeu, e Clint soltou uma gargalhada.

— Parece que os vivos também sabem atacar, não é?

Matt olhou para Darcy e esboçou um pequeno sorriso que transformou seu rosto por completo. De repente, parecia um homem devastadoramente atraente.

Ela surpreendeu, dando conta de que também estava sorrindo. Além de se dar conta que Penny, Clint e Carter os estavam olhando. Darcy se levantou, movendo-se com menos graça e elegância da que teria gostado.

— Foi um jantar maravilhoso. Muito obrigado a todos. Acabo de me dar conta de que é muito tarde. Se me desculparem, acredito que vou deitar.

Matt, Carter e Clint ficaram de pé em um gesto cavalheiresco que pareciam ter tão incorporado como o hábito de respirar.

— Ficará bem — disse Carter. — Eu dormi na suíte Lee e ainda estou aqui.

— Nem sequer saiu correndo nu — acrescentou Clint piscando o olho.

— Graças a Deus! —exclamou Penny.

— Ouça! — protestou Carter. — Tenho um belo corpo.

— Bom, suponho que estarei bem — disse Darcy depois soltar uma suave risadinha.

Surpreendeu-a notar que Matt parecia um pouco preocupado.

— Esta noite dormirei na casa. Se acontecer algo, só tem de gritar.

— O que poderia acontecer? Se você não acredita em fantasmas! —recordou-lhe Darcy.

— Mas os vivos sim, podem fazer mal — murmurou. — Estarei no final do corredor — acrescentou olhando-a nos olhos.

Darcy assentiu com a cabeça, deu boa noite a todos, saiu da sala e subiu as escadas. Logo avançou devagar. Sentia muito por Matt Stone não sentir nada estranho. Penny tinha perguntado se tinha vibrações. A casa estava cheia. Quase tudo eram almas perdidas, amáveis. Mas a suíte Lee tinha um foco de maldade.

Uma vez acima, decidiu tomar uma ducha rápida. Depois escovou os dentes e se preparou para deitar-se. O quarto estava fresco, mais do que deveria esta sendo verão. Não deu importância... nem a isso, nem à sensação de que a vigiavam. Meteu-se na cama. Estava esgotada. E dormiu com a televisão ligada, vendo um documentário. No meio da noite, começou a sonhar. Por um lado, era ela mesma e estava dormindo em cima da cama; por outro, não era ela mesma, porque estava movendo-se dentro do um corpo de homem. A Darcy que seguia dormindo sentiu medo, pois nada mais advertiu a Darcy homem se aproximava, intuiu sua ira, uma fúria profunda e perigosa. E então...

Ela era o homem e via, sentia e sabia o mesmo que ele.

Uma mulher repudiada... servia mais morta, que viva. Essa noite, o homem chegou pensativo e silencioso; furioso mas sem estar seguro de suas intenções. Em meio da escuridão, olhou a casa e pensou em tudo o que tinha ocorrido e tudo o que podia chegar a passar.

A casa... a majestosa casa seguia como sempre. Um lugar com tanta personalidade como qualquer pessoa. Assim tinha sido desde o começo. E o tempo não tinha feito a não ser acrescentar caráter a um lugar no que se padeceram tantos sofrimentos, como ele bem sabia.

Ela estava lá. O homem sabia que ela estava lá.

E havia coisas que deviam ser feitas. Coisas que necessitam ser esclarecidas pôr fim. Mesmo assim...

O homem olhou a casa. E esperou. negava-se a aceitar que tinha ido com más intenções.

O coração lhe pesava como uma rocha. Sementes de idéias germinavam em sua alma. O que tivesse que passar passaria. O homem deixou cair os braços, abriu e fechou as mãos, como se já estivesse estrangulando a amante que sem dúvida estava dentro.

Porque uma mulher repudiada... servia mais morta que viva.

 

Darcy despertou sobressaltada, tremendo. Havia sentido o passado como se a tivesse penetrado. Não havia sentido tanto uma pessoa, como a fúria e a maldade de um tempo remoto.

Sentou-se na cama, olhou a seu redor, fechou os olhos e os voltou a abrir. O que quer que tivesse estado dentro dela, ou juntou a ela, tinha desaparecido. E, entretanto... Algo permanecia.

Algo, ou alguém, silencioso, furtivo... Vigiando... Esperando.

 

— Todos sabemos por que estamos aqui —disse Elizabeth Holmes com uma voz feminina, mas de grande ressonância.

Não era o tipo de mulher que Darcy tinha esperado para ouvir que uma novata da cidade, que se tinha começado a afeiçoar pelo esotérico fazia um ano nada mais, tinha rogado a Matt Stone que lhe permitisse dirigir uma sessão de espiritismo. Não era nada teatral. Não tinha posto nenhum turbante, nem pintou os olhos de negro para dar uma imagem misteriosa. Na realidade, tratava-se de uma mulher entre cinqüenta e cinco a sessenta anos, esbelta, alta, elegante, com cabelo grisalho e agradáveis olhos azuis. Mas bem parecia uma empresaria.

Só sua voz podia se encaixar com a imagem de uma cigana adivinha. A voz parecia encher toda sala de jantar do Melody House, como se as paredes formassem parte de um equipamento estereofônico. E, por sorte, a mulher não tinha optado por rebatizar-se. Não tinha decidido chamar-se Madame Zara para a ocasião, nem nada semelhante. Era Elizabeth Holmes, nascida na Virginia e agente imobiliária durante o dia. No começo, Darcy tinha perguntado se essa médium não seria uma dessas malucas que acreditavam que bastava vestir-se de forma exótica para adquirir poderes sobrenaturais. O certo era que parecia muito afável e que levava a sério o que fazia. Se tinha algum poder especial estava por ver.

E sua introdução mostrou-se intrigante.

— Melody House. Esta casa esta sobre esta colina desde mil setecentos e dezessete. Ao longo destes anos, foi testemunha de momentos de alegria e tristeza. É uma das poucas casas antigas de nossa nação que ainda sobrevivem e que estão em mãos dos herdeiros de quem a construiu. George Washington dormiu aqui — Elizabeth fez uma pausa e sorriu a quem se tinha sentado ao redor de uma mesa iluminada por uma vela. — E não foi o único hóspede conhecido. Patrick Henry, Thomas Jefferson e outras celebridades também visitaram a casa durante a revolução. E, mais tarde, durante outro triste período de guerra, acolheu a personalidades como Robert E. Lee, Stonewall Jackson, Jeb Stuart... Até é possível que Ulysses Grant e Abe Lincoln parassem a descansar neste lugar. As paredes desta casa foram fortificadas e são muitos o soldados morreram em seu interior. É obvio, também houve aqui tragédias não relacionadas com a guerra. É o caso da bela Melody, filha do construtor da casa, afligida por uma discussão entre seu pretendente e seu pai. Diz-se que saiu correndo em sua defesa e caiu rodando pelas escadas, para morrer nos braços de seu amado, justo no vestíbulo, a escassos metros de onde agora nos encontramos. E depois está Eliza, a filha do general Stone, talvez envenenada por sua rival, Sally Beauville, a qual matou com um tiro na cabeça o pai da Eliza, que se enfrentou a seguir à forca. Com isto não esgoto todas as histórias. Só são alguns exemplos — Elizabeth fez uma pausa antes de prosseguir. — Melody House esta em pé quase três séculos. Em tanto tempo, qualquer um pode imaginar as desgraças que terá presenciado, as paixões e os sonhos destruídos. Dizem que somos energia e que a energia não pode destruir-se. Também dizem que Melody House está encantada. Ao longo dos anos, muitas pessoas viram ou acreditam ter visto os fantasmas de quem tão tristemente tem morrido nesta casa. Conta-se que o intrépido Andrew Jackson, quando ainda não tinha assumido o cargo de presidente dos Estados Unidos, passou nada mais que meia noite aqui e, mais tarde, comentou que preferia enfrentar o exército inglês a dormir outra noite no Melody House. Há quem jura que uma mulher vestida de branco passeia ainda pelos corredores. Outros viram soldados, possivelmente liberando batalhas perdidas faz tempo. Unamos, portanto, nossas mãos no círculo que criamos e vejamos se algum espírito quer manifestar-se, expressar seus últimos desejos, palavras ou necessidades.

Fazia muito que Melody House contava com eletricidade, mas essa noite, não havia mais luz na sala de jantar que a proporcionada pela vela situada em meio da mesa.

Darcy já sentia essa presença fria. Não sabia se Elizabeth seria capaz de comunicar com a energia que permanecia na casa, mas ela voltava a sentir-se observada. Ao outro lado da mesa, viu o Penny tremer.

Darcy notou que lhe davam uma cotovelada. Ah!, As mãos, tinham que dar mãos. Colocou as suas sobre a mesa. Estava junto ao Jason Johnstone, escritor e historiador local e, é obvio, amigo do Matt, e pregada também a Clint Stone. Carter estava ao outro lado do Clint. Este lhe cobriu a mão com a sua. Parecia entretido e curioso, como se estivesse aberto ao que pudesse ocorrer. Matt estava em frente, junto à Elizabeth, e dava a impressão de estar impaciente por acabar. Mae, a mulher que a tinha recebido ao entrar no bar Wayside, vestiu-se para a ocasião e sorria excitada ao outro lado de Matt. Por último, também tinham convidado a uma formosa jovem chamada Delilah Dey, recém escolhida para a Prefeitura, sentada entre o Jason Johnstone e Mae.

David Jenner, também presente no bar Wayside aquele primeiro dia, estava de pé, a certa distância do grupo, com uma câmara de vídeo. Darcy tinha pensado levar seu própria equipamento, mas tinha decidido que essa não era a noite de estrear os modernos aparelhos de Investigações Harrison.

— Reunimo-nos formando um círculo amistoso — disse Liz, dirigindo-se aos espíritos. — Queremos lhes ajudar com qualquer problema que tenham, presente ou passado. Viemos com carinho e desejamos nos comunicar com qualquer ente que queira expressar-se. Nossos corações estão abertos. Se houver algum espírito entre nós, por favor, se manifeste.

Darcy notou uma brisa na nuca e fechou os olhos.

Nunca tinha deixado de sentir medo. Josh, que tinha nascido com essa capacidade de percepção extraordinária, nunca tinha tido medo. Mas Darcy seguia assustanda ao estabelecer contato com uma dimensão sobrenatural. Sabia que devia deixar empapar-se das sensações que captasse, mas lhe dava a impressão de que uma mão gelada lhe apertava o coração cada vez que fazia seu trabalho.

Não estavam sozinhos. “Me fale”, pensou em silêncio.

Então ouviu um golpe sobre a mesa e abriu os olhos de par em par. Darcy franziu o cenho e notou como se todos apertassem as mãos ao mesmo tempo.

— Estabelecemos contato! — exclamou emocionada Elizabeth. — Dá outro golpe se estiver entre nós, por favor. Soou outro golpe.

Darcy olhou ao redor. Não acreditava que se tratasse de nenhum fantasma. Matt também estava vigiando aos que formavam o círculo.

A sensação de que a estavam observando diminuiu. Não desapareceu. Só diminuiu, como se retrocedesse uns passos e seu olhar perdesse intensidade.

— É o espírito da dama de branco? — perguntou Elizabeth.

Não obteve resposta.

—Talvez um soldado?

Ouviu-se um golpe.

Matt olhava ao Darcy com expressão hostil. Ela se irritou. Era evidente que a considerava responsável pelos golpes.

— Viveu durante a revolução? — perguntou Elizabeth com tom preocupado.

Silêncio. Elizabeth insistiu:

— Durante a guerra civil?

Outro golpe.

— Sim!, sim! — Exclamou Elizabeth com os olhos fechados, extremamente concentrada. — Acreditam que sabemos quem é. Lutou duro pelo que acreditava uma causa justa. Faleceu nesta casa. Mas não precisa seguir combatendo. A guerra terminou. Chegou a paz. E, ao final, tudo foi bem. O mundo seguiu adiante. Pode descansar em paz. Ajudarão-lhe minhas palavras a encontrar descanso?

Outro golpe, seguido de vários golpecitos excitados.

— Não queremos que os fantasmas partam — sussurrou Penny a Elizabeth. — Só queremos que estejam contentes.

— Só estarão contentes se estiverem em paz — disse Carter, olhando a Penny com um estranho sorriso.

— Que emocionante! — sussurrou Mae.

— Chist! — repreendeu-os Elizabeth. — Romperemos a fina linha de comunicação que une a este ser.

Ouviu-se outro golpe sobre a mesa. Um golpe impaciente. Do Matt.

— Por favor! — protestou Elizabeth. — Capitão... por que é você um capitão, verdade? — perguntou, dirigindo-se ao fantasma.

Silêncio.

— Nos fale. Queremos te ajudar — insistiu ela.

Outro golpe.

— Sim, é um capitão. É um cavalheiro e segue lutando por defender seus ideais!

De repente, ouviu-se um pequeno grito e a mesa saltou.

— Alguém... algo esta no meio da minha coxa! — exclamou Delilah.

— Parece que o capitão não é tão cavalheiresco — brincou Clint.

A mesa se moveu de novo.

Matt amaldiçoou e se levantou, rompendo o círculo.

— David, importa-te acender a luz? — perguntou e a sala se iluminou imediatamente. — Muito bem, quem estava tocando as pernas do Delilah?

— Matt, tínhamos estabelecido contato — disse Elizabeth.

— Por favor! — exclamou Matt.

— Tínhamos estabelecido contato com um fantasma luxurioso —sugeriu Carter. — Eu não fui! — defendeu-se então, ao notar o olhar acusador do Matt.

— Nem eu! — assegurou Clint quando todos se giraram para ele.

—Digo-lhes que tínhamos estabelecido contato com um capitão da guerra civil — repetiu Elizabeth.

— É verdade — atravessou Penny. — E um de vocês interrompeu a comunicação. Matt, a próxima vez esqueça de trazer estes dois. Delilah, de verdade que aqui há fantasmas.

— A sério acredita... que estávamos com um capitão da Guerra Civil? — sussurrou Delilah.

— O certo é que todos tinham as mãos sobre a mesa — interveio Jason. Por seu tom de voz, não se sabia se estava impressionado pelos golpes ou se só sentia simples curiosidade por averiguar quem dos pressente os tinha dado.

— Esquecemo-nos da perita — disse David ao tempo que girava a câmara de vídeo para o Darcy. — Você o que pensa?

—Temo que não estivemos tempo suficiente para dar uma opinião com garantia — respondeu encolhendo os ombros.

— Mas, você em que acredita? — perguntou-lhe Jason sorridente. — O que sente?, intuiu algo? Melody House está encantada?

— A casa tem muntissíma historia — disse Darcy. — Só de estar nela te faz sentir afinidade pelo passado. Pode ser que isso, por si só, faça que um lugar esteja encantado.

— Terá que ver!, Que habilidade para não se comprometer! — disse Clint detrás soltar uma gargalhada. — E se estivéssemos em um concurso no qual tivesse que responder sim ou não?

— Mas não estamos em um concurso — respondeu Darcy.

— Foi incrível! — exclamou então Elizabeth. — Estou segura de que tínhamos estabelecido contato. Temos que voltar a ficar para repeti-lo. Não temos feito mais que começar. Não acredito que seja bom insistir esta mesma noite. Seria muito logo. Mas, Matt...

— Desculpa, Elizabeth, mas agora mesmo não estou pronto para repetir nada. Sinto muito. E acredito que alguém arrumou para dar golpepinhos na mesa, e acariciar de passagem a perna do Delilah, de propósito ou não.

— Matt, é impossível! — protestou Penny.

— Já vejo — disse Delilah com um ligeiro sorriso enquanto examinava aos homens que havia na sala.

— Está-nos acusando — disse Carter a Clint, embora sem ofender-se realmente.

— Exato — afirmou Matt.

Tampouco ele parecia zangado, mas sim bem cansado. A idéia da sessão de espiritismo não tinha feito graça desde o começo.

— Acredito que vou sair um momento. Se me desculpam — disse Darcy.

— Vou trazer algo para beber e mordiscar — anunciou Penny.

— Algo para beber! — repetiu Carter.

—Te dou uma mão, Penny — se ofereceu Mae. — Ainda estou emocionada. Eu tambémtenho certeza de que tínhamos estabelecido contato. Você também não sentiiu? A sala estava gelada. Sim, havia alguém entre nós. Ou algo. Convencida. E, Matt, tem que nos deixar fazer outra sessão, por favor. Por favor, por favor, por favor!

Darcy ouviu as últimas palavras do Mae enquanto atravessava o vestíbulo e saía pela porta da frente. Sentia-se um pouco culpada por não haver-se devotado a ajudar a Penny, mas havia outras pessoas que podiam fazê-lo e ela tinha tido uma necessidade urgente de sair.

A noite estava magnífica. O céu do verão parecia veludo. Estavam tão perto das montanhas que podiam ver-se milhares de estrelas brilhando contra o fundo negro. apoiou-se um momento sobre o corrimão do alpendre, respirou fundo e se encheu os pulmões de um ar fragrante, impregnado com o aroma das flores.

Então se sentou em uma cadeira de balanço, fechou os olhos e desfrutou da suave carícia do vento. perguntou-se quem teria dado os golpes na mesa.

Pouco depois, sobressaltou-se ao sentir a presença de alguém ao lado.

Alguém vivo, cujas bochechas despediam aroma de loção pós barba.

Abriu os olhos e viu que Matt se unir a ela. Tomou a cadeira de balanço que havia a seu lado e a olhou uns segundos sem falar. Darcy olhou para o céu e não esperou que ele falasse.

— Não, não acredito que os golpes tenha sido de um fantasma — disse e viu de relance que Matt sorria.

— Graças a Deus! Teria perdido toda minha fé em ti se houvesse dito outra coisa.

— Sim? Não sabia que tivesse fé em mim.

— Isso está por ver.

— A experiência me diz que a maioria das pessoas não acredita no oculto — comentou Darcy. — Mas também me diz que a maioria das pessoas ouve uma vozinha em algum lugar dentro de suas cabeças que lhes sugere que é possível que haja algo mais entre os vivos e os mortos.

— Quer dizer que é gente de mente aberta?

— Pode ser que sua mente não esteja de todo aberta, mas está acostumado a haver alguma brecha.

Matt se balançou na cadeira de balanço uns segundos.

— Em minha família somos de tradição militar. Eu servi no exército vários anos e nenhum dos cadáveres que vi se movia. Se um soldado estava morto, estava de verdade. Logo comecei a trabalhar como policial e, embora os cidadãos acreditam que a maioria dos delitos são políticos, garanto que há muitos delinqüentes que sabem como matar. A morte acostuma ser feia... e definitiva. Ninguém morre pela metade. Por outra parte, sou herdeiro direto de muitos anos de história, tradição e assassinatos no Melody House. Se alguém pudesse ver algo ou ter um vínculo com o passado, não teria que ser eu?

— Não quando em sua cabeça não há nenhuma dessas brechas para permitir que os mortos tentem te falar — respondeu Darcy depois soltar uma gargalhada.

Matt ficou em silêncio, balançando-se, e de repente lhe deu um desses sorrisos que lhe aceleravam o coração, gostasse ela ou não.

— Quando meu pai morreu, desejava com toda a alma que me falasse. Estava disposto a fazer o que fosse. Amava-o tanto que teria metido com ele no caixão. E com meu avô passou mais ou menos o mesmo, embora então eu era maior e era consciente de que tinha vivido muitos anos e tinha chegado sua hora — disse com uma franqueza comovedora. — Não foi você que estava dando os golpes, não é? — perguntou então.

— Não!, não fui eu! — respondeu indignada. — E, pensando bem, o que acaba de contar é muito interessante. Não mencionou a sua mãe. Tem algo contra as mulheres, Matt?

Ele se virou para ela e seus olhos cinzas reluziram com um brilho perigoso.

— Te asseguro que eu gosto das mulheres, Darcy. Sobre tudo, as sinceras. E sim, sei que elas existem. Não mencionei a minha mãe porque morreu quando era um bebê e não me lembro dela.

— Sinto muito — disse ela, devolvendo o olhar ao céu.

— E você?

Darcy o olhou e, de repente, sorriu sem pensar.

— Eu tampouco tenho nada contra as mulheres.

— Não, quero dizer que o aconteceu para que a brecha de sua cabeça se transformasse em um buraco enorme pelo qual os mortos falam a toda hora.

— Ah...

— Sofri um acidente de carro. Ia com um grande amigo.

— Ele te falou?

— Algo assim — Darcy pensou que Matt voltaria a fazer algum comentário sarcástico, mas resultava um homem imprevisível. surpreendeu-se quando notou que posava uma mão em cima da dela, sobre o braço da cadeira de balanço.

— Não acredita que às vezes as pessoas vêem pessoas, ou as ouvem, simplesmente porque desejam com todo seu coração voltar a falar com elas? —perguntou com voz cálida e delicada.

— Às vezes sim.

— Mas não é seu caso.

— Quem dera que fosse assim — respondeu ela.

Matt a olhou com carinho, com uma intimidade que, de novo, acelerou-lhe o ritmo cardíaco. E Darcy se assombrou ao dar conta de que fazia anos que não se sentia tão atraída por um homem. Possivelmente nunca havia sentido uma atração tão magnética. Matt tinha algo especial, além de seu fabuloso aspecto e da sensação de poder e segurança que transmitia. Tinha algo que a fazia desejar tocar sua pele, acariciar seu rosto e multiplicar o calor que produzia seu olhar. Quase dava medo ouvi-lo falar, porque a tentação de aproximar-se de Matt era muito forte. Estava a ponto de dizer algo e ela estava desejando ouvi-lo.

Mas as palavras não chegaram a sair da boca do Matt. Antes, as portas da casa se abriram e Delilah apareceu, todos sorrisos e amabilidade.

— Não vão tomam uma taça e beliscar algo? Penny é uma jóia. Em dois minutos preparou todo uma festança.

Ambos a olharam em silêncio uns segundos.

Darcy tinha gostado de Delilah desde o começo. Era uma mulher agradável, parecia inteligente e dava a impressão de que levava a sério seu trabalho na Prefeitura, ao serviço dos cidadãos. Mas nesse momento a teria estrangulado.

— Matty, por favor, não se zangue pelo golpes na mesa — continuou Delilah — Penny e Liz têm razão: estabelecemos contato. Não se zangue com todos!

— Não estou zangado — disse Matt com tom impaciente ao mesmo tempo que ficava de pé. — Agora vamos.

Delilah retornou à casa. Matt ofereceu uma mão ao Darcy.

—Vem?

Ela aceitou sua mão e se levantou. Ao tocar-se, foi como se saltassem faíscas. Mas Darcy não soube se ele também as tinha notado.

— Matty? — brincou Darcy, repetindo o diminutivo que tinha utilizado Delilah.

—É o que passa quando leva muitos anos em uma cidade e todos lhe conhecem bem.

—Ah! — murmurou ela, e sentiu vontade de perguntar quão bem se conheciam, mas conteve-se e deixou se conduzir de volta à casa.

Em efeito, Penny tinha organizado todo uma festança. Chá, café, refrescos, álcool, bolachas, batatas, pasteizinhos e outras sobremesas que Darcy sabia que tinha preparado naquele mesmo dia.

Não tinha fome, mas tampouco queria ofender Penny, de modo que se serviu de uns pasteizinhos e, para beber, optou por um café irlandês. Descafeinado, explicou Penny, para poder dormir de noite. Clint e Carter se acusavam mutuamente de ser os responsáveis pelos golpes. Delilah paquerava. Mae seguia entusiasmada e não parava de dizer obrigada a Matt por haver deixado participar e de lhe rogar que a convidasse se chegassem a fazer outra sessão. Liz zombou dos rapazes por se fazerem de tolos quando estavam falando de um assunto tão sério. Penny parecia relaxada quando não estava pendente de seus trabalhos de anfitriã. David Jenner falava sobre as diferentes classes de fitas, carretéis e filmes, e se interessou pelas preferências de Darcy em seu trabalho. Enquanto recolhiam os restos da comida, Delilah consultou Matt sobre um problema com o estacionamento perto da prefeitura.

Darcy punha no escorredor os pratos à medida que ia esfregando-os. Clint e Carter levavam os talheres sujos e a ajudavam pela metade enquanto a paqueravam. Tinham terminado bem, em qualquer caso. Estava excitada e esgotada ao mesmo tempo, de modo que, quando pôde, desembaraçou-se dos dois, despediu-se de Penny, Mae e Elizabeth e subiu as escadas rumo à suíte Lee.

Enquanto se preparava para deitar, não sentiu nada especial no ambiente. Nem um sussurro nem o menor rastro de presença alguma. Nem sequer tinha a sensação de que a observavam. Embora seu trabalho consistia em descobrir o que estava ocorrendo, alegrou-se em poder ira para a cama com a perspectiva de passar uma noite tranqüila de descanso.

Segundos depois, caiu em um profundo sono. E a seguir despertou. Darcy levantou a cabeça, porque um grito silencioso pareceu atravessar seu cérebro e penetrar em seu subconsciente. Olhou a seu redor...

E aí estava: uma mulher com uma camisola branca, de pé à entrada, levando-a mão ao pescoço, emitindo aquele grito silencioso. Darcy viu a imagem na penumbra da noite, viu a mulher tratando de passar a chave na porta, mas uma força procedente do corredor a impediu. Então a mulher foi correndo para a cama e, por um momento, seus olhos se encontraram com os do Darcy.

A mulher suplicou com o olhar que a ajudasse, como se também ela pudesse ver o Darcy. E a súplica era tão muda como o grito. Voltou a gritar. A mulher moveu os lábios, mas Darcy não conseguiu entender o que dizia. Só sabia que estava desesperada. Porque estava fugindo da morte.

O assassino, intuiu Darcy, estaria no corredor. De repente, a porta se abriu e Darcy intuiu uma silhueta alargada aproximando-se. Aproximando-se da mulher. Então, sobre o ombro da mulher, Darcy viu o brilho de uma faca, como se um foco tivesse iluminado o fio. Um novo grito brotou na cabeça de Darcy... mais poderoso, inclusive, que os anteriores.

E a faca...

A faca brilhou sobre o corpo do Darcy, que não se assustava com facilidade, pois estava acostumada a se comunicar com os mortos. Ia em busca deles.

Mas essa noite...

A ira era tão intensa, o perigo parecia tão real... A faca ia dirigido contra ela e Darcy sabia. Obrigou-se a acalmar, a recuperar a prudência e recordar-se que só estava vendo uma imagem do passado. Em realidade, não havia nenhum assassino empunhando a faca. Tudo que via pertencia a um tempo remoto. Mas a faca voltou a se mover. Brilhava... e gotejava. Caíam gotas de sangue. Darcy sentia como se a faca a tocasse...

Saiu da cama e dessa vez foi ela quem gritou. A imagem não se desvanecia, o grito da mulher de branco não tinha sido um eco do passado. Era pura maldade. E algo mais capitalista que a calma, a intuição e a experiência que tivesse acumulado ao longo dos anos se apoderou dela. Um medo intenso, mais antigo que qualquer outra emoção, invadiu-a. Darcy correu entre as imagens e saiu gritando do quarto. Baixou as escadas a toda velocidade.

Chegou ao vestíbulo e só então ouviu que a chamavam. Provavelmente, teriam pronunciado seu nome várias vezes; mas até esse momento seu cérebro não o tinha registrado. Darcy freou em seco, recuperou a calma tão depressa como a tinha perdido. Desejou que a terra a tragasse.

Era Matt quem a chamava. Descia pelas escadas de cueca, com um roupão colocado de qualquer forma sobre os ombros. A seguir saiu Penny, com o cabelo revolto e em pijama. Outra porta se abriu e Carter se chocou contra as costas do Clint, que também tinha saído de seu quarto.

Foi assombroso, tão irreal como o sonho ou a lembrança que acabava de experimentar, ver como se despertaram todos em questão de segundos. Quase se sentiu ameaçada enquanto observava Matt e Penny aproximar-se.

Uma vez no vestíbulo, Matt a olhou com receio:

— Você também se assustou? — perguntou sombeteiro. — Esperava que fosse uma caça fantasmas.

— Está bem, Darcy? — perguntou Clint com mais amabilidade.

— Sim, e sinto muito — respondeu ela olhando ao Matt. — Devo ter tido um pesadelo.

— Assim que os fantasmas não lhe dão medo, mas os pesadelos sim —murmurou Matt.

— Viu à mulher de branco — disse Penny.

— Vamos, Penny! — exclamou Carter. — dormi muito tempo neste quarto e nunca vi a nenhuma mulher de branco.

— Eu sim. E Clara Issy. E também a viu uma recém casado que saiu fugindo nua — respondeu Penny, ofendida.

Matt olhou para Penny, Carter e Clint, um a um. Logo se deu a volta e começou a subir as escadas.

— Uma coisa é dar golpes na mesa — disse irritado. — Mas como sei que criou algum tipo de efeito especial na sala...

— Matt, por favor! — protestou zangado Clint. — Eu nunca faria algo assim!

— Garanto que eu tampouco! — afirmou Carter. — Eu não acredito nesses estúpidos fantasmas.

— Pois eu sim — respondeu ofendida Penny. — E estão aqui.

Matt seguia subindo as escadas. Darcy olhou os outros enquanto subiam atrás dele. Seguiu-os.

— Só foi um pesadelo — disse. — Sinto haver despertado.

Matt não pareceu ouvi-la. Abriu de repente a porta da suíte Lee. Clint e Carter entraram com ele. E, é obvio, não encontraram nada fora do normal.

Entretanto, Matt parecia empenhado em encontrar alguma explicação. Abriu o armário e examinou a roupa que pendurava dos cabides. Olhou debaixo da cama e depois saiu para o terraço. Retornou com os braços cruzados.

— O que viu exatamente? — perguntou olhando-a aos olhos.

— Não vi nada — mentiu Darcy. — Foi um sonho. Nada mais. Sinto muito, de verdade.

— Não acredito que deva seguir dormindo aqui.

Darcy sentiu um ligeiro calafrio de medo, mas se manteve firme.

—Tenho que dormir aqui — respondeu.

— Por quê? Pode explorar o quarto, ou fazer o que diabos considere oportuno, durante o dia.

— De verdade, não é necessário — Darcy negou com a cabeça. — Não voltará a acontecer, juro.

— Não.

— Venha, Matt. Não lhe pode acontecer nada. Sua suíte está ao lado — disse Clint, ficando do lado do Darcy.

Esta lhe lançou um sorriso agradecido, embora não pareceu que seu apoio servisse de nada.

— Não — repetiu com teimosia Matt.

— Insisto: juro que não sou uma covarde. Tive um mau sonho e me assustei, mas já está tudo bem. Sei que é o delegado, que tem trabalho durante o dia e que precisa descansar de noite. Sinto muitíssimo. Mas tenho que dormir aqui.

— Matt — pressionou Penny.

— Façamos um trato. Se eu voltar a sair correndo, pela razão que seja, não faço caso e saio da suíte — propôs Darcy. Quase estava suplicando e não gostava de suplicar. Por outro lado, tampouco tinha a menor intenção de abandonar a suíte Lee. Sim, levou um susto de morte, mas não se renderia. Fazia anos que convivia com aquele dom. Embora às vezes tivesse medo, era consciente de suas próprias forças. E não permitiria que aquela presença maligna a aterrorizasse de novo. Não voltaria a deixar levar-se pelo pânico.

— Matt, todos sabemos quão teimoso é, mas parece que a senhorita Tremayne não vai voltar atrás — atravessou Carter. — Assim se queremos dormir um pouco no que resta da noite, sugiro que a deixe voltar para a suite Lee. Não vai acontecer nada. Você é o primeiro que não acredita em fantasmas.

— Mas acredito na capacidade dos vivos para fazer atrocidades —respondeu olhando para Darcy.

— Está a dois passos — recordou ela para tranqüilizá-lo.

— O último coisa que preciso é que te aconteça algo! — murmurou.

— Seria mau para o negócio? — replicou ela. — Te garanto que não vou me transformar em outro fantasma do Melody House.

— Sim, seria mau para o negócio. E, goste ou não, sou responsável perante Adam Harrison do que possa te acontecer.

Darcy se perguntou até que ponto Matt conhecia Adam.

— Sou uma mulher adulta. Posso cuidar de mim mesma — respondeu. — E não se esqueça de que foi Adam quem me enviou. Sabe que posso me cuidar.

— Se cuidar, como?, Dando gritos e correndo espantada?

— Não voltará a acontecer — repetiu Darcy com teimosia. De repente, deu-se conta de que não estava a sós com o Matt e começou a sentir-se como se fosse uma menina discutindo com um adulto.

Embora, ao parecer, estava ganhando.

Matt levantou as mãos em sinal de derrota e se retirou. Clint lançou um sorriso e elevou o polegar em sinal de vitória. Também Carter sorria por debaixo da barba. Só Penny parecia um pouco perplexa.

—Tem certeza que estará bem? — perguntou-lhe com suavidade.

—Totalmente — assegurou Darcy.

— Bom, então voltarei para a cama — disse Carter. Logo piscou os olhos, um olho para Darcy. — Conheço a suíte. Não tem mais que cimento e tijolos.

— Outro cético — murmurou Penny.

— Não se preocupe, senhorita — brincou Clint. — Você tem três cavalheiros sulistas dispostos a lhe oferecer, não só seu encanto, mas também toda nossa coragem. Estaremos encantados de tirar a chutes qualquer fantasma que possa incomodá-la.

Penny soltou um ruído entre um suspiro e um grunhido.

— Saiam daqui. Voltem para estábulo e deitem. Vão tremer no dia que lhes apareça um dos fantasmas.

— Uhhh!, que medo! — disse Carter.

Pareceu que Penny fosse lhe dar um soco.         

— Já vamos, já vamos — disse Clint. Logo se dirigiu a Darcy. — Mas, sério, se Matt não chegar a tempo para o resgate, não tem mais que assobiar.  

— Obrigado. Boa noite — disse Darcy, sorrindo para Penny ao tempo que olhava Matt ao longe. — Eu sinto seriamente. Não voltará a acontecer.           

Matt assentiu com a cabeça e se fechou no seu quarto.                            

Penny ficou a sós com o Darcy.           

—São de verdade!, sei!         

—Temos que averiguar o que está acontecendo exatamente — disse Darcy sorridente. — Quando os mortos ficam violentos ou destrutivos é porque querem que saibamos algo.

— Conte comigo para o que precisar — disse Penny com valentia, embora a voz tenha saído tremida.

— Sério, estou bem — lhe garantiu Darcy.

— A coisa está indo de mal a pior — disse Penny. — Pode ser que Matt tenha razão. Possivelmente deveria dormir em outro lugar e examinar a suíte Lee durante o dia.        

— Penny, eu trabalho com isto — recordou Darcy. — Esta noite me surpreendeu a intensidade de... do pesadelo. Mas não acontece nada, de verdade... te juro — acrescentou isso ao ver a cara de preocupação do Penny.           

Logo lhe deu um beijo na bochecha e se fechou na suíte Lee. Uma vez dentro, apoiou-se contra a porta. A temperatura parecia normal, o ar era puro. Estava segura de que já tinha experimentado tudo que tinha experimentar essa noite. E, superado o susto, encontrava-se bem. Com mais força, preparada. E mais decidida e enraivecida.          

Melody House ocultava muitos segredos. Mas era óbvio que a mulher de branco tinha sido vítima de uma morte violenta e que nunca tinha chegado a conhecer a verdade sobre seu assassinato.        

Darcy refrescou o rosto com água, olhou a seu redor e caiu na cama.      

Começou a dormitar. Então, de novo, incorporou-se, plenamente acordada.

Sentiu algo estranho no quarto, mas não havia nada. E, entretanto, tinha-a despertado. Saiu da cama. As portas da terraço estavam abertas. As cortinas se moviam balançadas por uma suave brisa. De pé junto à cama, muito quieta, Darcy examinou as sombras em busca de alguma visão ou aparição.

Silêncio, nada...

aproximou-se das portas da terraço e passou as mãos pelas cortinas. ia sair quando se produziu um golpe de vento. As cortinas a envolveram ao mesmo tempo que dois braços potentes a espremiam sem clemência.

 

Enquanto subiam as escadas que davam aos apartamentos situados sobre o estábulo, Carter olhou ao Clint com curiosidade:

— Como o tem feito? — perguntou-lhe.

— O que? — Clint o olhou surpreso.

— O dos golpes na mesa.

— Não fui eu. Acreditava que foi você.

— Conta outra!

— Pois terão sido os fantasmas — disse Clint em tom desenvolto.

— Agora acretida em fantasmas? — perguntou Carter divertido.

— Penny — disse de repente Clint.

— Penny! — exclamou Carter.

— Ela é a que está empenhada em demonstrar que Melody House está encantada — raciocinou Clint.

—Sim, mas, consegui imaginar Penny dando os golpes?

— Por que não? — perguntou Carter encolhendo os ombros.

— E Elizabeth? — sugeriu então Clint. — Precisava provar sua capacidade como médium.

— Não sei... — Carter ficou pensativo. — E o que me diz de nossa caça fantasmas, que saiu disparada no meio da noite igual à flamejante noiva?

— Acredito que é uma lástima que não saísse nua igual à noiva — disse Clint sorridente.

— Vigie suas maneiras, filho — disse Carter, embora também fazesse graça. Deu de ombros. — Não sei, me parece estranho. Darcy Tremayne não é uma menina impressionável. Tem caráter... e sim, é uma pena que não saísse nua. Mas tem que estar acontecendo algo mais.

— Você sim que está começando a acreditar em fantasmas! — exclamou Clint.

— Não, começo a estar de acordo com o Matt em que alguém está fazendo brincadeiras pesadas na suíte Lee — respondeu Carter. — E eu adoraria saber por quê.

— Possivelmente tudo seja mera sugestão — disse Clint. — Você e eu passamos muitas noites nessa suíte. Assim como Matt. Antes de que abrissem a casa ao público, quando o avô do Matt estava vivo e ia e vinha de Washington a três por quatro. Passei algumas de minhas melhores noites nessa suite. Nada como impressionar uma mulher com uma casa com história. Uma sedução em um ambiente luxuoso... e a ameaça de um fantasma de verdade para que procure suas carícias.

— Sim, eu também passei umas quantas noites lá — Carter assentiu com a cabeça.

— E viu algum fantasma?

— Nenhum.

— Pois então... Esquece-o.

— É difícil esquecer quando temos como hospede uma caça fantasmas — disse Carter.

— Não sei, a verdade é que devo reconhecer que, ao longo dos anos, já tive notícias de muitos pessoas que dizem ter visto coisas — Clint encolheu de ombros. — Clara Issy é uma mulher sensata. Mais prática e realista que ela não vai encontrar ninguém. E garante ter visto algo na suite Lee. E outros dizem ter visto um soldado andando pelo vestíbulo.

—Tudo tem uma explicação lógica — disse Carter.

— O que quer dizer?

— Que alguém está fazendo brincadeiras. E se não é nem você nem eu... então quem? E por quê?

— Não sei — Clint duvidou. — Mas eu adoraria descobrir.

Com Darcy hospedade na suíte Lee, Penny tinha se acomodado na suite Stuart, Que ficava a duas portas, no lado esquerdo da casa. Tanto Darcy como Matt tinham retornado a seus dormitórios. Penny, ao contrário, seguia de pé, indecisa, no meio do corredor.

Ganharia mais se voltasse para a cama. Não podia fazer mais nada.

Mas negou com a cabeça e olhou para a porta de Matt. Que diabos tinha que fazer para que se convencesse de que tinham algo realmente especial na casa? Era verdade que preservava e admirava seu valor histórico, isso tinha que reconhecer, mas tinham algo... ainda melhor. Algo único.

Dirigiu sua atenção para a porta de Darcy, cruzou-se de braços e amaldiçoou em voz baixa. Por que se negava a contar o que a tinha feito sair correndo? Melody House tinha fantasmas. Isso era um fato. E embora custasse demonstrá-lo ao resto do mundo, não havia razão alguma para que Matt se opusesse sequer a tal possibilidade. Não entendia por que não estava impaciente por provar a existência dos fantasmas. Seria maravilhoso. Seriam o centro das atenções de um público que amava esse tipo de histórias.

Que diabos ia ter que fazer para que acreditassem?

Penny suspirou, pôs-se a andar pelo corredor caminho de sua suite de repente, freou em seco:

— Estou aqui!, posso te escutar! — disse em voz alta. — me fale, seja o que seja. Quero conhecer sua história!

Esperou. Olhou a seu redor. Mas, ao parecer, os fantasmas não tinham nada que lhe contar.

— Não me importa que me puxe os cabelo ou que me dêem uma bofetada! — desafiou-os. — Deixe em paz os outros. Vamos, atreva-se comigo. — mas não obteve resposta. O corredor continuou em silêncio. Enfim, era evidente que não podia fazer mais nada, então empurrou a porta de sua suite e se deitou desgostosa.

Darcy estava apanhada nas cortinas. Alguém a segurava. Tinha medo, mas estava disposta a resistir, a brigar, gritar...

Mas o grito não chegou a sair de seus lábios, porque uma voz familiar interrompeu seus pensamentos.

— Quem é e que diabos está fazendo?

A voz, baixa e profunda, penetrou em sua cabeça como uma faca. E, entretanto, o medo desapareceu imediatamente. Ficou em silêncio, totalmente quieta, durante uns segundos. Logo falou:

— Sou eu, Darcy. Ia sair para o terraço quando soprou um vento forte e, de repente, me vi sendo agarrada.

Darcy notou que as mãos que a segurava se afrouxavam. Por um instante, só sentiu o calor do corpo de Matt, o prazer de ser abraçada. Percebeu o aroma masculino de seu perfume e um aroma másculo, sexual, que a pegou despreparada. Esteve a ponto de desmaiar.

Matt a soltou de todo e ela terminou se desprendendo.

— O que fazia bisbilhotando pela terraço? — perguntou Darcy ruborizada e com o cabelo revolto.

Matt cruzou os braços.

— Primeiro, a terraço é meu. E segundo, não estava bisbilhotando. Agora e minha vez: que diabos você fazia na terraço?

—Tinha ouvido algo.

— A mim, pelo que parece.

— E o que fazia aqui fora? — insistiu ela.

— Tinha ouvido algo. A ti, pelo que parece.

— Acredito que eu te ouvi primeiro — respondeu Darcy.

—Temo que não estou de acordo.

— Deus, isto é um absurdo.

Matt arqueou uma sobrancelha, dando a entender que sua mera presença no Melody House em busca de fantasmas era absurda.

Darcy exalou um comprido suspiro.

— Olhe, já que está claro que foi só você e eu, o melhor será que voltemos a dormir.

— Feche as portas da terraço — disse ele.

— Fechou as suas? — replicou Darcy.

Matt negou com a cabeça.

— Por que não? — perguntou ela.

— Porque ouço.

— Enquanto dorme?

— Um dom natural. Ou deformação profissional. Como quiser chamá-lo — respondeu com secura Matt. — Mas é melhor que você passe o ferrolho.

Darcy o olhou um bom momento.

— Por que tenho que fazê-lo?

— Porque alguém está fazendo brincadeiras pesadas nesta suite.

— Assim acredita que o perigo vem de fora.

— De onde mais?

— Por que não é capaz de acreditar que nem tudo o que existe se pode perceber com os olhos? — perguntou com suavidade Darcy. — Nem todas as formas de vida são brancas ou pretas.

—Acredito em uma ampla gama de vidas cinzas... reais — remarcou Matt.

— Se a casa corre algum perigo — insistiu ela, — acredito que comece de dentro.

— Mas você quer ficar na suite Lee de todo o jeito, não é isso?

Darcy baixou a cabeça. Tinha que ser paciente.

— Se é tão cético, por que chamou o Adam?

— Porque o conheço. Sei que pode encontrar a quem quer que esteja por trás destes fatos.

— Adam também acredita nos fenômenos esotéricos. E em mim.

Matt encolheu os ombros e voltou a entrar na suite Lee. Por um momento, permaneceu quieto, de costas.

— Não imagina quantas noites que passei quanto era pequeno nesta suite. E... Inclusive, nestes últimos anos — murmurou ele. Havia algo por trás de suas palavras. Darcy não conseguia imaginar o quê. Então, Matt voltou a girar e a olhou. — Muitíssimas noites. E nada me apareceu. Nada me sussurrou a meia noite nem ficou a flutuar sobre a cama.

— Eu não disse que tinha aparecido nada — respondeu Darcy. — Não foi mais que um pesadelo.

— Sim, claro, e a perita caça fantasmas se assusta e sai correndo.

— Foi um pesadelo muito mau.

Matt se aproximou de Darcy, que se sobressaltou ao sentir suas mãos sobre os ombros e seus olhos, atravessando a escuridão, sobre os dela. De repente, tomou consciência do tanto que estava perto daquele homem. Reparou de novo no aroma de seu perfume. O rocar de seus dedos sobre os ombros parecia uma carícia. Darcy disse que fazia muito tempo que não estava perto de um homem tão atraente e que, portanto, não era estranho que seu sistema se alterasse.

— Darcy, eu também acredito que passa algo. Mas algo real. E não quero que lhe façam mal — disse ele com sinceridade e afeto. O fio de hostilidade tinha desaparecido por completo.

E Darcy sentia falta dele. Necessitava-o. Estava de pé em um dormitório, perto da cama, com uma camisola fina, quase pregada a um homem irresistível, coberto apenas pela cueca e um roupão. Bastaria aproximar-se um pouco mais, um centímetro, e saberia de primeira mão se ele também estava excitado.

— Não... Ninguém vai me fazer mal — assegurou Darcy com voz rouca.

Foi como se passassem séculos sem que Matt respondesse. Séculos durante os quais permaneceram quietos. A cabeça do Darcy era um redemoinhos de pensamentos. Matt não iria aproximar o centímetro que os separava. Ela devia retirar-se, é obvio; mas não o faria. Queria voltar a sentir a potência de seus braços rodeando-a, mas essa vez com cuidado, apertando-a contra sua ereção. Então, Matt acariciaria o rosto, desceria para o queixo. Depois se fundiriam em um infinidade de toques, sabores e sensações. E depois... Matt retrocedeu um passo.

— Estou aqui ao lado. Se quiser algo, não exite em gritar — brincou ao tempo que dava outro passo atrás.

Darcy achou que Matt não se movia com a segurança que o caracterizava. Ou possivelmente era imaginação dela, que desejava que ele também estivesse um pouco nervoso.

— Sério, ao menor ruído, não deixe de avisar. Venho em seguida —insistiu ele, sorridente. Logo acariciou a bochecha com as pontas dos dedos. Por um momento, o tempo se deteve de novo.

Darcy sentiu como se o corpo inteiro estivesse conectado a uma fonte de energia elétrica.

E, então, Matt partiu.

Tinha que reconhecer que estava cansado. Tampouco tinha ajudado o modo em que se passou a manhã. Tinha começado com uma chamada desesperada para um dos colégios de ensino médio. Tinham tido que se apresentar para confrontar uma situação potencialmente trágica. Ao parecer, Brad Middleton, um garoto gordinho com a cara cheia de espinha, tinha entrado na classe e, segundo ele, levava uma arma. Ao parecer, tudo tinha sido uma brincadeira e a arma não era mais que uma pistola de água. Embora Brad tivesse feito muita graça, outros não tinham compartilhado seu senso de humor. Depois de uma conversação com um psicólogo, um agente de polícia, o diretor do colégio e os pais do garoto, Matt encontrou Brad tremendo como uma folha. O garoto teria que ir a julgamento. Com sorte, dado que Brad parecia sinceramente arrependido, mostrariam-se indulgentes com ele. Mas não tinha terminado de falar com o garoto, quando informaram de um ataque em um posto de gasolina na auto-estrada. E quando foram prender o assaltante, sua pistola não era de água. Mesmo assim, ao ver-se rodeado de carros de polícia, o homem se entregou. Por sorte, não tinham chegado a efetuar nenhum disparo e ninguém, nem sequer o assaltante, tinha saido ferido. E tudo antes do meio-dia, em uma cidade em que podiam acontecer dias e dias sem um só sobressalto.

Ele se perguntou por que se apresentou como voluntário para assumir o cargo de delegado. Embora sabia por quê. Ele era como um dos carvalhos vistosos do bosque: várias gerações familiares tinham nascido e crescido no Stoneyville e Matt se sentia responsável por aquela cidade, como se tivesse raízes. Além disso, embora estivesse cansado, era bom em seu trabalho. Sabia como tratar com os adolescentes, com assaltantes armados, até com os mais velhos, quando se queixavam de que os vizinhos punham música rock ou rap a muito volume.

O que não sabia tratar era aquilo que não podia ver nem ouvir. A noite anterior o tinha deixado inquieto.

E também Darcy Tremayne o transtornava. Estava acostumado a dar uma imagem digna e elegante, como se fose uma princesa. E, entretanto, a noite anterior, quando saiu da suite Lee, tinha estado aterrorizada. Tinha controlado o medo em seguida, com um aprumo que não tinha dado lugar a discussões. Mas Matt se deu conta de que a queria longe dessa suite, onde não pudesse lhe acontecer nenhum mau. Por outra parte, admirava a valentia que Darcy tinha mostrado, insistindo em ficar ali. Claro que, por incompreensível que fosse, era seu trabalho. Ele também passava medo quando se enfrentava a um homem armado. Sabia o perigo que corria. Mas nem por isso deixava de ser o delegado de Stoneyville e seu dever era resolver qualquer situação que surgisse.

Seguia sem acreditar em fantasmas, mas dava igual. Algo a tinha assustado. Por mais que quisesse, não conseguia imaginar o que estava ocorrendo nem quem era o responsável. Os golpes da sessão de espiritismo podiam ser criancices. Mas o outro...

Alguém tinha que estar fazendo brincadeiras pesadas. Ou possivelmente se devia tudo à imaginação de quem desejava tanto a presença de fantasmas que acabavam por criá-los. Isso explicava as visões do Penny e da recém casada. Mas, Clara? Era tudo menos fantasiosa.

De qualquer modo, por que preocupar-se tanto? Todo mundo queria acreditar em fantasmas e espíritos, em algo que apoiasse a idéia de uma vida depois da morte. O que tinha de mau que Melody House estivesse encantada?

Embora seguia sem entender a marca na bochecha de Clara. Devia ter se chocado contra uma porta. E também tinha que averiguar quem estava jogando com os hóspedes da suite Lee. Ele tinha revistado a suíte a fundo umas mil vezes e nunca tinha encontrado nada estranho.

Eram muitas as noites que tinha dormido naquela suíte. Com a Lavinia, por exemplo, que sempre tinha gostado especialmente desse quarto. Achava-o excitante, por motivos que ele nunca tinha chegado a compreender. E sabia que Clint tinha levado a umas quantas mulheres a essa suite. E Carter. E nenhum se viu ameaçado por seres sobrenaturais. Matt se deu conta de que estava a vários minutos sentado na mesa da delegacia de polícia, olhando uns papéis, com uma caneta nas mão. Sacudiu a cabeça e tratou de concentrar. Odiava essa parte do trabalho. A papelada era uma das razões pelas que as forças de segurança perdiam a tantos agentes de polícia.-se. Obrigou-se a terminar e logo avisou a sua secretária de que partia. Eram mais de seis e trabalhava mais de doze horas de jornada. De repente, sentiu-se intranqüilo. Muito tempo longe do Melody House.

 

Seria uma cidade pequena, mas Stoneyville tinha uma das bibliotecas públicas mais impressionantes e bonitas que Darcy já tinha visto. A senhora O'Hara, uma mulher de bonitos olhos marrons, com óculos, pequena mas cheia de energia, amava os livros e, ao que parece, sentia a necessidade de criar ambientes agradáveis e estéticos para desfrutar deles. As mesas estavam adornadas com vasos e flores e, conforme contou a Darcy com orgulho, tinha adquirido as cadeiras em diversos leilões. As seções estavam muito bem assinaladas, de modo que tanto adultos como jovens pudessem localizar com facilidade os livros que lhes interessassem.

— Os livros contribuem para a educação — disse a Darcy com alegria. — Mas eu acredito que ler deve ser um prazer. Se a gente aprende a amar a leitura, elas nos abrirem as portas de todas as matérias — acrescentou.

Por sorte, não era uma mulher indiscreta e em seguida dirigiu Darcy a seção de História do Stoneyville. Darcy descobriu que havia muitos escritores locais que tinham sentido curiosidade por entender o que ocorria a seu redor. Na década de 1870, uma mulher chamada Murial Moore tinha escrito sobre as irmãs da lenda que Matt lhe tinha contado ao chegar a Melody House. Tratava-se da família Clayton e viviam nos subúrbios perto da cidade. Um tal Barry Brewster prometeu em princípio a Ophelia, a mais velha das filhas, mas logo se apaixonou pela mais nova, Amy. A última vez que a tinham visto com vida, Amy tinha saído a passear com sua irmã pelo bosque. Logo, Barry retornou. E um dia um chacareiro que ia passeando pelo bosque com seu cão encontrou a maioria dos ossos de Amy. Barry se pendurou de uma árvore que havia perto do arroio. Depois, Ophelia havia ficado louca, embora tenha vivido até os oitenta e oito anos, presa por sua família no celeiro. Finalmente, o celeiro e a casa dos Clayton tinha terminado reduzida a cinzas pelo fogo.

— Que tal essa leitura? — Darcy ouviu lhe perguntarem. Elevou a vista e se encontrou com a senhora O'Hara. — ia preparar um chá. Gosta de uma xícara?

Definitivamente, aquela biblioteca era especial.

Darcy sorriu, depois consultou o relógio. Havia se aprofundado na história da família Stone, mas tinha a sensação de estar pisando em um terreno escorregadio, mistura de lenda e realidade. E estava ansiosa por voltar para bosque.

— Aceitarei o chá amanhã, se não se incomodar — respondeu Darcy. Depois lhe devolveu o livro que estava lendo. Não podia tirar da biblioteca um exemplar tão antigo como aquele.

A senhora O'Hara lhe assegurou que seria bem recebida e lhe disse que examinaria alguns dos livros velhos, para ver que podia encontrar algo sobre o Melody House.

— Se encontrar dificuldades em sua investigação, não vai ser por falta de livros sobre a história do Melody House. Ao contrário, escreveu-se muitíssimo a respeito.

— Muito obrigado pela ajuda.

— Não há de quê. Pessoalmente, estou convencida de que a casa está encantada. De fato, tenho uma amiga com a qual você possivelmente gostaria de falar. Chama-se Márcia Cuomo. Começou a trabalhar no Melody House depois que o avô de Matt morreu. E demitiu em um dia. Está certa de que a empurraram pelas escadas abaixo e de que esteve a ponto de morrer.

— Verdade? — Darcy não tinha ouvido mencionar ao Márcia Cuomo.

— Claro que, naquele tempo, tinha fama de que gostava de tornar um gole de vez em quando, na hora do trabalho — reconheceu a senhora O'Hara. — Não queria que Matt Stone pensasse que tinha estado bebendo, assim que se limitou a dizer a Penny que estava cansada. Depois, quando tratou de explicar a a lgumas poucas pessoas que na casa havia um fantasma, não a tomaram por uma testemunha confiável.

— Entendo. Eu adoraria falar com ela — disse Darcy. Depois, apoiando-se na mesa de entrega de livros, anotou seu próprio telefone celular e o deu à senhora O'Hara. — Pode dizer a Márcia que me chame quando quiser?

Darcy saiu da biblioteca e se dirigiu ao pequeno Volvo que tinha pegado emprestado de Penny. Vinte minutos depois estava no estábulo. Sam estava cuidando dos cavalos e ela teve que lhe assegurar que podia encarregar-se de selar Nellie sozinha.

Ainda era de dia, mas as copas das árvores projetavam sombras no caminho. Darcy cavalgou até onde tinha desmontado na entrada anterior, deixou Nellie bebendo no arroio e retornou ao tronco no qual se sentou da primeira vez. Abraçou os joelhos contra o peito, um pouco assustada, como sempre. Fechou os olhos e tratou de concentrar-se para conectar com o passado. A princípio sentiu frio. Um frio que se estendia sobre o bosque como um lençol. Logo, em silêncio, Darcy chamou o Josh para que fosse em sua ajuda.

— Estou aqui — o ouviu responder.

Isso ou estava ficando louca. Era uma voz suave, que saía de sua própria cabeça. Abriu os olhos. Anoitecia. Darcy ouviu uma voz, delicada, de uma garota que ria.

— É tão boa, Ophelia! — dizia a garota. — No inicio, ia se casar com você; mas nós não nos conheciamos e então nos vimos e... amo-o tanto! Estou certa que encontraremos um homem bonito para ti também. Pode ser que não nesta cidade, mas viajará com o Barry e comigo e será maravilhoso.

Darcy via as irmãs. Com toda nitidez. Os fantasmas de dois cavalos se uniram a Nellie no arroio. A égua elevou a cabeça, soprou e se apartou intranqüila, como se fosse trotar.

As duas irmãs tinham cabelos pretos e usavam vestidos de algodão singelos e botas de montar.

Amy desmontou primeiro.

— Será maravilhoso — repetiu Ophelia de seu cavalo. — E também desmontou.

— Por que paramos aqui? — perguntou Amy.

— Nada, queria te mostrar uma coisa. Está na água. Tem que se abaixar.

— Assim vou me molhar.

— É verão. Logo ficara seca.

Amy duvidou.

Darcy, sabedora do que ia ocorrer, quis gritar, avisar a Amy, ajudá-la. Mas permaneceu sentada, congelada, como se estivesse em transe, observando, o passado repetir-se, consciente de que só podia vê-lo e não podia intervir para mudá-lo.

— Na água? — repetiu Amy.

— Sim, você agacha aqui e o verá.

Foi uma execução clássica, levada a cabo sem destreza, brutalmente. Uma vez que Amy se ajoelhou, Ophelia tirou um facão de debaixo da sela de seu cavalo. O primeiro golpe só conseguiu aturdir a Amy, que gritou e caiu na água. Ophelia se deu conta de que não a tinha matado. Levantou o facão de novo, uma e outra vez, enquanto Amy gritava e gritava. Os golpes da lãmina contra a carne, os ossos e os músculos soavam como um rufo de tambores. A visão resultava muito clara. Tanto que Darcy não a suportou mais e começou a gritar também. Pôs-se a correr para o rio para tentar impedir uma morte inevitável.

Nem Amy, nem Ophelia sentiram a presença de Darcy. O tempo tinha transcorrido e Darcy só podia contemplar as imagens do passado. Quando se lançou sobre elas, a imagem das irmãs se desvaneceu. Darcy caiu de joelhos sobre a água. Ali, tremente, espantada pela crueldade da Ophelia, pôde ver o fantasma. Amy, decapitada, estava a menos de dez metros, perto de um carvalho antigo.

Muito devagar, Darcy se levantou.

Quando Matt chegou à casa, viu que Clint e Carter estavam no estábulo, discutindo pelo Riley, o melhor cavalo do Melody House. Aproximou-se de ambos.

—Temos mais cavalos — recordou a seu primo e a seu amigo.

— Mas só uma hospede ruiva — respondeu Clint. Empregou o tom brincalhão que o caracterizava, mas se notava certa tensão e determinação em sua voz.

— Tornou a sair com o Nellie? — perguntou Matt.

— E eu digo que sou quem deveria ir procurá-la para nos assegurar de que está bem — respondeu Carter. Alisando a barba e sorriu. — Para que serve o autêntico encanto sulista.

— Agora você acha que por ter barba tem encanto sulista? — zombou Clint.

— Ouça, eu sou um latifundiário. Você só é... da família — respondeu Carter.

— Exato. Sou de Melody House. Você tem sua casa. Simplesmente, você gosta de aparecer por aqui — replicou Clint.

Matt se afastou dos dois, agarrou as rédeas do Riley e montou sobre a sela.

—Irei eu — sentenciou.

— Não é justo — disse Carter com o cenho franzido.

— Por que não?

— Porque você é rude com ela — disse Clint.

— E isso porque, na realidade, não se parece nada com a Lavinia —acrescentou Carter.

— Nada de nada — conveio Clint. — Lavinia é bonita, mas sempre quer mais. É muito ambiciosa.

— Enquanto que esta está acima das ninharias — comentou Carter.

— E estava linda de camisola — rematou Clint.

— Pena que não durma nua — disse Carter.

— Ouça, essa mulher veio para trabalhar — Matt disse irritado. — Não ultrapassem, não é uma aventura para uma noite.

— Quem falou em uma noite? — respondeu Clint.

— Além disso, veio a trabalho, mas você não acredita no que ela faz —disse Carter.

— Nem você.

— Pode ser, mas esta mulher me atrai. Seu trabalho me fascina. Eu nunca riria dela como você faz — respondeu Carter.

— Nos vemo no jantar — cortou Matt, antes arrancar com o cavalo.

— Ouça! — chamou-o Clint. Matt se girou para seu primo. — Tampouco é uma aventura de uma noite para você — acrescentou.

— Ela só esta aqui a trabalho — insistiu Matt.

— Sei, que você acredita que não notamos as faíscas que saltam cada vez que estão juntos.

Era verdade. Mas se negava a reconhecer que se sentia atraído pela caça-fantasmas.

— Só estará aqui até que encontre algo... ou até que Adam chegue —respondeu.

Logo apertou os lombos do Riley e enfiou no bosque. Não tinha perguntado em que direção tinha ido, nem se fixou nos sinais do chão. Tinha certeza de que a encontraria justo onde a tinha visto pela última vez, perto da água, provavelmente sentada no mesmo tronco. Estabelecendo contato com o bosque. Sentia-se irascível e, ao mesmo tempo, estava ansioso por encontrá-la. De repente, também, alegrou-se por ter chegado em casa a tempo. Embora não tinha nada contra Clint, ele era esbanjador e um mulherengo. Tinha êxito com o sexo oposto. Era todos sorrisos e cortesia e não lhe custinha dificuldade em conquistar uma mulher. Carter também tinha um bom histórico de aventuras. E fazia tempo que não os via tão interessados em uma determinada mulher. De fato, nunca os tinha visto discutir por uma mulher. De modo que...? Se ela estava interessada em algum deles...?

Mas Darcy tinha ido ali para trabalhar. Investigações Harrison tinha pago para examinar Melody House. Era sua casa. O que lhe dava direito a sentir-se possessivo. Ou possivelmente não.

De fato, não, não tinha o menor direito.

Matt chegou ao arroio, ao tronco onde tinha encontrado Darcy na vez anterior. Nellie estava junto à água, com os olhos bem abertos. Não estava bebendo, só olhava a água como se estivesse sumida em uma espécie de transe.

Matt ficou nervoso por não ver Darcy no tronco. Então ouviu um som. Um grunhido. Dirigiu a vista por volta de um dos carvalhos. Perplexo, desmontou do cavalo e ficou olhando para Darcy. Estava de quatro, cavando ferozmente. Coberta de barro. Sua hospede, sempre tão elegante, tinha barro por todo o corpo e parecia não perceber a presença do Matt. Tinha cavado um buraco bem grande com uma pá improvisada, formada por uma parte de um ramo e uma pedra côncava.

— Darcy?

Justo ao pronunciar seu nome, ela emitiu um grito triunfal.

Logo, enquanto o sol despedia os últimos raios do dia, levantou uma mão, em que sustentava um crânio humano.

 

Tinha-o encontrado! Darcy estava exultante.

— Darcy!

Chamavamseu nome de um modo tão imperioso que o crânio esteve a ponto de cair. Girou a cabeça e viu que Matt se aproximava dela.

— Matt!, encontrei-o!

Mas lhe bastou ver a expressão de seu rosto para entender que não compartilhava seu entusiasmo pelo achado.

— Posso saber o que esta fazendo? — perguntou ele.

— Matt, é o crânio. O crânio da irmã mais nova. A história estava certa. Aconteceu de verdade. Todos sabíam que a irmã mais velha a assassinou.

— Deixa-o no chão agora mesmo — ordenou ele. Darcy o olhou confusa, com o cenho franzido. — Ponha no chão!

— Pode me explicar o que esta te acontecendo? — respondeu Darcy depois obedecer. — estou te dizendo que encontrei o crânio da irmã mais nova. Por fim poderemos enterrá-lo com o resto do corpo.

Matt ficou de cócoras junto a ela e olhou o crânio, que jazia sobre a terra escavada.

— Não o toque — disse a Darcy.

— Mas...

— É um crânio humano e eu sou o delegado.

— Mas... o assassinato aconteceu há mais de cem anos! — exclamou ela com cara de incredulidade. — O que vai fazer?, Vai prender alguém?

— Como sabe?

— Como sei o quê? Nós dois sabemos a história.

—Também é perita em ossos? — respondeu Matt.

Darcy sentiu uma mescla de raiva e desolação. Maldição. Matt sabia. Sabia tão bem quanto ela que aquele crânio fazia séculos que estava enterrado. E, não entendia como, mas Matt tinha arrumado um jeito de aproximar-se dela e, ao mesmo tempo, parecia distante e inacessível. Não ia reconhecer que tinha encontrado o crânio, que era verdade que possuía um dom de percepção extrasensorial. Por outra parte, estava segura de que Matt sabia o que acabava de encontrar. Matt se afastou. Não queria acreditar nessa especie de poderes e, entretanto, não podia evitar sentir certa repulsão a respeito.

— Muito bem, toma seu maldito crânio. O que pensa fazer com ele?

— Vou garantir de que o tratem como é devido.

— Pertence a uma garota inocente, brutalmente assassinada por alguém a quem gostava e em quem confiava. Para tratá-lo como é devido não tem mais que ordenar que o enterrem com o resto de seu corpo — disse zangada Darcy.

— Pode me garantir, sem dúvida nenhuma, que é o crânio dela? —perguntou ele com sarcasmo.

— Sim.

— Pois tanto faz, pois a lei não funciona assim.

— É um absurdo — protestou Darcy.

— Só estou fazendo meu trabalho.

Darcy se levantou e tirou o pó das mãos contra os jeans.

— Muito bem, pois faça o que tem que fazer — disse e pôs-se a andar, afastando-se do Matt. Notou que ele a punha uma mão no seu antebraço. Com força. Livrou-se quase com violência. Darcy olhou a mão, olhou-o aos olhos. Matt a soltou imediatamente.

— O que acontece?, Dedica a ir encontrando partes de cadáveres e a desenterrá-los só porque está convencida de que são ossos antigos?

— Não.

— Não o quê?

— Nós dois sabemos a quem pertence este crânio!

— Saibendo ou não, com restos humanos terá que seguir certos procedimentos legais.

Darcy baixou a vista. Possivelmente nisso ele tivesse razão. Talvez só estivesse desconcertada pela cara de espanto que tinha visto Matt fazer quando a tinha visto com o crânio.

— De acordo, delegado. Siga seus procedimentos legais. E agora, se me desculpar, vou para casa tomar uma ducha.

Matt assentiu com a cabeça, sem tirar os olhos dela. Darcy se sentia doída, o que não fazia a não ser enfurecê-la. Matt Stone se mostrou hostil desde o começo. Tinha sido uma idiota por se permitir sentir uma mínima atração, que fosse, por ele. E, entretanto... tampouco podia controlar-se. A atração existia, estava aí, nesse preciso instante, enquanto permaneciam de pé, olhando-se. Era uma força potente, como uma energia estática, elétrica, viva. Nunca havia sentido tal urgência por estar com um homem, por aconchegar-se contra seu corpo e sentir seus braços ao seu redor. Estava certa de que ele também se sentia atraído. E de que Matt estava se obrigando a conter seu desejo. Teve vontade de gritar que podia ser tocada. Que não era nenhuma leprosa. Embora possivelmente ele pensasse que era. Deu volta e se dirigiu para o Nellie. Sem olhar para trás, montou, orientou a égua rumo a casa e começou a trotar.

Estava magoadíssima. Para qualquer outra pessoa, ter descoberto o crânio teria sido a prova definitiva de que possuía certo capacidade sobrenatural. Mas não para o Matt. Ele se negava a entender seu trabalho. Estava disposto a deixar que Investigações Harrison entrasse em Melody House e examinasse até o último canto para descobrir o responsável pelos supostos fantasmas. Mas nunca aceitaria que o espírito de algumas pessoas morava em sua casa. E para isso, precisamente, tinha contratado Adam. Mas não para o caso de encontrarem fantasmas, ou para tentar ajudá-los.

Ela acabava de ajudar a Amy. E o idiota do Matt deveria ter compreendido que, do mesmo modo, poderia ajudar a resolver os misteriosos sucessos que aconteciam em sua casa. De fato, alguém devia resolvê-los, pois nunca tinha experimentado nada tão estranho como no Melody House.

E tão sinistro.

Nem sequer dava a impressão de que Josh fosse poder ajudá-la, como estava acostumado a ocorrer. Quando conseguia resolver um mistério e ajudava a liberar uma alma perdida, adorava seu trabalho. Embora lhe desse medo, embora lhe doesse ser testemunha de assassinatos horríveis, um dia como aquele merecia pena. Qualquer esforço ficava recompensado. Mas desta vez tinha topado com o Matt Stone! O grande cético.

Darcy sabia que ele a seguia quieto, olhando-a. E que permaneceria imóvel um momento. Sabia que a observaria até quase perdê-la de vista, pelo atalho, no lombo de Nellie.

 

Era tarde, mas não importava. Matt estava na mesa de seu escritório, na delegacia de polícia, sem fazer nada. Tinha chamado a vários agentes e se encarregou de que enviassem o crânio a Departamento Forense, para que fizessem uma análise. Embora estivesse certo de que Darcy tinha razão, tinha mandado o crânio a uns amigos do Smithsonian, especializados na identificação de cadáveres. Com toda probabilidade, à manhã seguinte remeteriam um relatório no que lhe confirmariam que o crânio tinha mais de cem anos. De modo que aí estava, sentado em seu escritório, sem fazer nada. A princípio, tinha fingido estar ocupado com diversas papeladas. Logo, cansou-se de dissimulações, tinha entrelaçado as mãos detrás da nuca e ficou olhando o teto.

Não podia tirar a imagem de Darcy da cabeça. Darcy escavando. Darcy com o crânio na mão. Seu grito triunfal. Produzia-lhe calafrios. Embora na realidade não os produzia, e devia. Era uma mulher muito estranha. Não. Sim.

Claro que era, mas não se importava. Seguia sendo incrivelmente atraente, sedutora. Arrebatadora, inclusive. Sabia que o mais prudente seria afastar-se de Darcy. Mas adorava estar perto dela. Queria falar com ela, conhecer seus gostos, saber de onde vinha. adorava o som de sua voz, como a modulava. E o fascinavam seus olhos, seu modo de mover-se. Possuía uma enorme vitalidade e, ao mesmo tempo, podia mostrar-se calma e reservada. Era desiquilibrante.

Se ficasse trabalhando, conseguiria guardar distâncias. Precisava guardar. Se alguma coisa era misteriosa em tudo aquilo era o feitiço com que parecia ter hipnotizado. Não entendia como exercia tanto poder sobre ele. Com certeza era bonita, mas como tantas outras mulheres. E também tinha bom corpo, era sensual e elegante como uma gata. Outras criaturas quase perfeitas compartilhavam essas qualidades. Mas não eram como essa mulher. Possivelmente fosse esse o segredo, o conhecimento oculto que aparecia em seus olhos.

Bateram na porta.

— Sim? — perguntou Matt, depois de baixar os pés de em cima da mesa.

O agente Harding, encarregado do turno de noite, empurrou a porta.

—Tudo bem?

Alan Harding era jovem. Uma boa idade para preservar a paz de doze da noite a oito da manhã. Alto e de olhos azuis, tinha caráter suficiente para ocupar-se das brigas entre bêbados que, de tanto em tanto, requeriam a intervenção das forças da ordem.

— Sim, tudo bem. Por quê?

— Não... por saber. Não está acostumado a ficar até tão tarde.

— Que horas são? — Matt arqueou uma sobrancelha.

— Quase as duas.

— Da manhã?

— Claro — Harding sorriu. — É meu turno.

— Sim... é verdade — Matt passou as mãos no rosto. — De qualquer modo, já estava saindo, me chame se...

—Se necessitar. Sim, senhor — se adiantou Alan sorridente. Matt se levantou e colocou o chapéu. — Ouvi que você encontrou um crânio velho.

— Não fui eu que o encontrou.

—Foi a caça-fantasmas, não?

Matt ficou tenso. Por que o incomodava que chamassem Darcy de caça-fantasmas? Ele não acreditava nessas coisas. Deveria não se importar como a chamassem. Negava a acreditar em fantasmas e poderes extrasensoriais.

— Quem o encontrou foi a senhorita Tremayne, da Investigações Harrison, se for isso a que se refere — respondeu finalmente.

— É boa, não é?

— Sabe ler. E parece que gosta das bibliotecas. Por isso trabalha em uma empresa de investigações, Alan — respondeu Matt com secura.

— É obvio, senhor.

Matt saiu do escritorio. Já no corredor, girou a cabeça:

— Me chame se...

— Precisar — finalizou Harding de novo.

Matt balbuciou algo incompreensível. Quando saiu da delegacia de polícia, a névoa roçava quase o chão. E, muito a seu pesar, teve um mau pressentimento. Como tinha podido ficar até tão tarde na delegacia de polícia? Deveria ter voltado para o Melody House fazia horas. Avançou para o carro a passos largos. E se alegrou de ser o delegado, porque passou muito do limite de velocidade permitido enquanto conduzia de volta a casa.

 

Deveria ter sido uma noite tranqüila e triunfal para o Darcy. Sabia que tinha feito um bom trabalho. E isso estava acostumado a agradá-la. Mas essa noite...

O jantar deveria ter sido divertido. Penny, Clint e Carter se mostraram entusiasmados com seu descobrimento. Clint e Carter tinham competido por captar sua atenção, Penny a tinha cuidado como se fosse uma adivinha sábia e se sentia orgulhosa de ter sido ela quem tinha insistido em que Matt chamasse investigações Harrison. Até o Sam Ardem, encarregado de cuidar os cavalos, parecia olhá-la com mais respeito. Clint e Carter não paravam de lhe perguntar, de distintas formas, como as tinha feito para localizar o ponto exato onde se encontrava o crânio. Darcy se negou a dar uma explicação precisa. Limitou-se a dizer que tinha consultado uns livros da biblioteca, os quais lhe deram pistas de onde poderia estar, assim como ela qualquer um poderia deduzir seu paradeiro. Clint, entretanto, não estava de acordo.

— Qualquer um não. Você é assombrosa. Simplesmente assombrosa. Tem um dom especial.

—Tem que nos contar como descobriu — insistiu Carter.

— Investigando — repetiu Darcy. Mas não pôde evitar sorrir. — Dedicamos a isso.

— O fantasma da suite Lee já pode ir se preparando! — disse Penny.

— Possivelmente devia tomar cuidado — comentou Clint, um pouco preocupado, — Já que possivelmente o fantasma não quer que o encontre e fique mais violento se ficar com medo de você.

— Do que você esta falando? — perguntou Carter com o cenho franzido.

— Os fantasmas só aparecem quando querem ser descobertos —afirmou de repente Sam Ardem. Todos o olharam surpreendidos. — Como os assassinos em série. Sempre deixam pistas para a polícia porque, no fundo, querem que os detenham.

Durante uns minutos, puseram-se um pouco nervosos; mas logo Clint tinha anunciado que tinha uma champanha especial. Darcy aceitou uma taça que lhe ofereceu e saiu para o alpendre. Clint a seguiu.

— É duro contigo porque tem medo — disse ele com suavidade.

— O quê?

— Matt. Ele tem medo.

— Não entendo. Diz que não acredita em fantasmas, mas em realidade tem medo?

Clint soltou uma gargalhada.

— Matt?, medo dos fantasmas? — repetiu sorridente. — Não. Nem sequer tem medo dos delinqüentes armados. Tem medo de você.

— Por que ia ter medo de mim?

Clint se apoiou sobre o corrimão do alpendre. Era alto, atlético, agradável. E muito atraente. Darcy se perguntou por que não se sentiria atraída para ele.

Clint esticou um braço para lhe acariciar uma mecha do cabelo. — Porque gosta de verdade. E te respeita. Mas não quer gostar. Porque é uma ruiva muito bonita.

— Obrigado — Darcy sorriu. — É muito bajulador. Mas é mentira.

—Sua mulher era uma bruxa — continuou Clint depois negar com a cabeça. —No início, estava louca por ele; mas Matt não podia abandonar a casa nem seu trabalho e ela gostava de viajar. Então, começou a pensar que Matt tinha perdido o interesse nela e tratou de provocar ciume. Uma má estratégia. Matt não gostou. No final, o casamento foi um desastre e ele ficou amargo.

— E, por isso, odeia às ruivas.

— A certa classe de ruivas.

— Fantástico. Sou uma classe de ruiva?

— Uma ruiva bonita, inteligente, com classe.

— Com classe?

— Com o tipo de elegância que não se pode adquirir. Ou se nasce com ela ou não se tem. E Matt não quer voltar a sofrer. Assim será duro contigo. O melhor é que se esqueça dele e começa a se dar conta de quando eu sou atraente.

— Sei que você é.

— Mas não está interessada em mim. Mesmo assim... Se mudar de ideia, já sabe onde estou. Irei em sua defesa quando quiser.

— Espero não necessitar de ninguém para me defender.

— Não destrua meu espírito heróico!

— De acordo. Se precisar de um herói, chamarei você. Melhor?

— É mentira — respondeu ele. Mas estava sorrindo. Logo passou um braço ao redor dos ombros e a conduziu de volta a casa.

Penny tinha preparado chá. Quando deram as onze, Darcy bocejou, desculpou-se e se foi à cama. Sua suíte estava gelada, em contraste com o ambiente quente que tinha respirado durante o jantar. Abriu as portas do terraço, convencida de que ali não entraria nenhum espírito maligno. Porque o que quisesse que a vigiasse já estava dentro. Ligou o televisor e seguiu um programa de entrevistas sem muita atenção.

Algo esperava dentro da suite. Ela também esperava.

Eram mais de meia-noite e estava certa de que Matt não tinha retornado. Mesmo assim, não demorou muito para ficar adormecida. Pouco depois, começou a sonhar de novo, penetrando no mundo do desconhecido. De algum modo, inconscientemente, deu-se conta de que estava sonhando.

Na ocasião anterior tinha sonhado que era um homem que se aproximava da casa...

Essa noite entrou na alma da mulher que esperava dentro.

No princípio, não se sentia especialmente atemorizada. Mas bem, estava furiosa e disposta a brigar, discutir e dizer o que pensava. Disposta a mudar de vida inclusive. Estava tão agitada que nem sequer tinha tentado deitar. Estava certa de que ele não iria. Estavam muito chateados e necessitavam de tempo para acalmarem. Estava furiosa!

Sob uma luz tênue, sentou-se no escritório e começou a escrever. Que fizesse o que quisesse. Não podia impedi-la. Mas pagaria.

Então, de repente, deixou de escrever. Fazia uma noite linda. O céu estava espaçoso e a lua brilhava sobre as montanhas além da janela. Por um momento, duvidou. Seguia querendo-o. Mas... Tinha-na traído. Ele a tinha traído.

Voltou a escrever. A certa distância, ouviu o bufo de um cavalo. Um cão começou a latir. Mas ela continuou escrevendo. A sorte estava lançada.

Então... Um som.

 

Darcy despertou sobressaltada. Teve a sensação de estar compartilhando o sonho de outra pessoa, de ser essa outra pessoa e ter revivido um passado longínquo mais uma vez. Pestanejou em meio a escuridão e tratou de averiguar o que a tinha arrancado do sono. Teria sido o som que tinha ouvido no sonho? Não...

Escutou. E teve a certeza de que tinha ouvido algo. Lá fora, no terraço. Umas pegadas, sigilosas, furtivas. Mordeu o lábio inferior e ficou quieta, em silêncio. Logo, ao fim de uns segundos, saiu da cama e se levantou, devagar, sem fazer ruído. Os pés descalços não fizeram ruído sobre o tapete persa que havia sob a cama. Darcy rezou para que não chiasse nenhuma tabua de madeira. Com cuidado, avançou para a terraço. Deteve-se junto às cortinas e olhou para fora. Nada. Nada além da lua no céu e uma brisa delicada. Saiu, deu dois passos curtos, de um em um, e seguiu sem ver nada. Darcy suspirou e se aproximou do corrimão com o cenho franzido. Então o ouviu de novo. Algo... só um som, detrás dela. virou-se. E não viu nada além da escuridão. Logo sentiu como se algo golpeasse sua cabeça, uma descarga, como um relâmpago. Embora não foi um golpe tão forte para perder o sentido, mas conseguiu atirá-la ao chão, cair de joelhos, gritou...

E seguiu sem ver nada. Levou a mão à cabeça, mais furiosa que ferida. Não tinha sido um ataque letal. Não estava machucada. Enquanto se levantava, as portas da terraço da suite do lado se abriram.

E apareceu Matt. Com umas cueca do Calvin Klein negros. E nada mais. Olhava como se uma lunática tivesse decidido chamar a sua porta em metade da noite.

— Pode-se saber o que esta fazendo? — perguntou ele.

Possivelmente parecia um pouco estranho. Darcy se deu conta de que estava de pé, justo diante da parte da terraço que dava à suite de Matt, despenteada e com pouca roupa. Essa noite tinha optado por sua camisola favorita, em vez das camisetas largas que estava acostumado a usar. Era branca, diáfana, sem mangas. O cabelo lhe caía de qualquer forma. Pareceria uma louca.

— Eu... acredito que havia algo aqui fora — respondeu.

Matt arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços.

— O fantasma está dando uma volta pelo terraço?

— Não acredito.

— Não acredita? — replicou Matt em tom zombador.

Ofendida, também, ela cruzou os braços e tratou de adotar uma pose mínimamente digna.

— Ouvi algo aqui fora. Despertou-me.

— Sussurrou em seu ouvido?

— Já basta, tá? Acredito que havia alguém aqui fora.

       — Vivo ou morto?

— Vivo.

Matt seguiu olhando-a com cepticismo, mas terminou saindo para o terraço. Amaldiçoava em voz baixa, mas parecia que, ao menos, ia dar o gosto de dar uma olhada. Percorreu o terraço. Quando desapareceu ao dobrar a esquina, Darcy experimentou uma sensação de perda e notou que ficava gelada. O tempo se deteve, estirou-se e, apesar da noite estar cálida, o frio seguiu penetrando-a. Quanto demoraria para dar uma volta no terraço? Era uma casa grande, sem dúvida, mas...

Darcy olhou para a esquerda, à esquina pela qual tinha desaparecido. Avançou devagar e, de repente, notou que lhe tocavam um ombro. Esteve a ponto de gritar. Deu um salto, virou-se e viu que Matt tinha retornado.

— Não vi ninguém — murmurou ele com cara de chateado.

— Um momento — protestou Darcy, plantando as mãos sobre os quadris. — É você o que está convencido de que não há fantasmas, a não ser algum intruso que está fazendo brincadeiras. Por que se incomoda tanto que eu acredite ter ouvido alguém no terraço?

Matt tinha a expressão dura e impenetrável de quando o tinha batizado como Cara de Mármore, no bar Wayside. Seguia com os braços cruzados sobre o peito.

— Sinto muito, mas eu não ouvi nada. E tenho um ouvido realmente bom.

— Inclusive dormido?

— Inclusive dormido.

— Mesmo assim, pode ser que lhe tenha escapado algo.

—Tudo é possível.

— Alegra-me saber que acredita que é possível.

— Lembra-se de haver dito que fechasse as portas de seu terraço.

Durante uns segundos, Darcy ficou calada, mordendo-a língua.

— Alguém me deu um golpe na cabeça! — explorou indignada.

—O que? — o tom do Matt a trocou. Deu um passo adiante e lhe levantou o queixo para olhá-la aos olhos. — Está ferida?

Darcy negou com a cabeça. O toque de seus dedos lhe produzia um comichão excitante. Estavam muito perto... mas não se afastou.

— Não estou... ferida. Mas havia alguém aqui fora e...

— Uma pessoa de verdade?

— Sim.

— Não como Clara, que dizia que um fantasma lhe deu uma bofetada. Você não tropeçou nem bateu contra nada. Notava-o preocupado... e algo mais. Possivelmente, tinha ma certa sensação de triunfo, como ela naquela mesma tarde. Matt não acreditava em fantasmas. O que dava no mesmo, porque no Melody House havia, queria ele ou não. Mas dessa vez tinha razão: tinha sido uma pessoa de carne e osso a que tinha estado rondando pela terraço.

— Havia alguém e estava bem vivo — assegurou Darcy.

Matt não se moveu. A fragrância de sua pele era embriagadora. Darcy não queria separar-se dele. Queria apoiar a cabeça sobre seu peito nu.

De repente, de alguma forma, notou-o mais perto dela.

— Onde... onde lhe bateram? — perguntou enquanto lhe acariciava o cabelo com suavidade.

— Em... um lado da cabeça.

— tem um galo?

— Acredito que não — Darcy negou com a cabeça.

— Está enjoada?

— Não — mentiu ela. Porque a sensação de que tudo girava ao seu redor não tinha nada que ver com o golpe na cabeça.

— Está bem?, bem de verdade?

A respiração de Matt lhe acariciava a testa. Darcy tinha os lábios secos. Assentiu com a cabeça, ainda sem mover-se. Matt seguia roçando seu cabelo. Esteve a ponto de posar os lábios sobre seu peito.

— Estou... bem.

Então, Matt levantou seu queixo de novo e a olhou nos olhos. Ele também estava despenteado. Tinha saído para o terraço ao levantar-se da cama. Seu corpo parecia emitir calor, como se fosse um radiador. Seus músculos se esticaram, a respiração lhe entrecortou. Darcy podia ouvir os batimentos do coração do Matt. E os dela.

— Seria uma loucura — sussurrou ele.

— Totalmente de acordo — respondeu Darcy. E, entretanto, nenhum dos dois se moveu.

Então, a respiração de Matt acariciou seu ouvido. Ela sentiu que seu corpo ardia.

— Sente-se muito louca? — perguntou ele.

— Muitíssimo — sussurrou Darcy.

Um segundo depois, Matt se apoderou de seus lábios. Deveria ter sido um beijo suave, de começo, e começou assim. Mas em seguida se transformou em algo distinto, muito mais profundo, intenso, apaixonante e selvagem. Possivelmente foi pelo modo em que a rodeou com os braços ou porque a distância entre ambos desapareceu por completo e ela pôde sentir o corpo nu do Matt contra sua delicada camisola. Suas bocas permaneciam unidas. As línguas se converteram em armas de sedução. Ali, em meio da noite, uma fome devoradora os consumia e o beijo foi a experiência mais carnal de que tinha desfrutado Darcy, como se o movimento de seus lábios, de seus dentes e suas línguas fosse o prelúdio do que estava por vir. Ela não estava acostumada a ser assim, pensou ao descobrir a urgência com que estava respondendo ao beijo, desejosa de chegar até o final no terraço mesmo. Mas a vida não oferecia muitas oportunidades como aquela, de modo que preferia não pensar no que pudesse ocorrer ao dia seguinte. Só importava o presente. Nesse momento não importava que ela acreditasse em fantasmas e ele não. Quão único existia era o abraço que os mantinha juntos, a potência do beijo que estavam compartilhando, a força da ereção do Matt contra seu umbigo.

Darcy se sentiu derretendo contra ele, como a caricia sobre a grama ao sair do sol pelas manhãs. Agradeceu que Matt a estivesse segurando com os braços, pois não estava certa de que conseguiria se manter em pé por si só. Tremiam as pernas. De repente, Matt a levantou e a introduziu em sua suite. Na dele, não na suite Lee, advertiu ela vagamente enquanto Matt a posava sobre a cama. A cama. Isso era o único que importava. O resto da suite, qual das duas fosse, não importava. Os lençóis estavam arumados, frescos e cheiravam suavemente. O colchão era fofo. Mas nem sequer isso importava. Embora tivesse apoiado as costas contra uma lâmina de ferro, o único que contava era sentir os lábios do Matt sobre seu pescoço. Darcy seguia com a camisola, embora logo que resultava uma barreira. Notou sua boca sobre os peitos. Notou que se umedecia. Notou a língua do Matt sobre os mamilos. Notou uma explosão de sensações por todo o corpo. Darcy afundou os dedos no cabelo do Matt quando este se apoiou na cama e baixou o corpo para ela.

Então, sem tirar ainda a camisola, desceu para o umbigo. E mais abaixo ainda. Era uma tortura erótica. Até que, por fim, Matt introduziu as mãos sob a camisola e acariciou o interior das coxas. Darcy pensou que enlouqueceria quando sentiu que a tocava no vértice das pernas. Logo foi sua língua e acendeu até o último de seus poros. Nesse momento, Darcy não tinha dúvidas, não sentia inibição alguma. Não pensou que apenas se conheciam, mas sim deviam conhecer-se muito mais. Deviam prolongar esse contato o máximo possível. Entendiam-se sem palavras. Para cada gesto, uma reação. Darcy se virava, se contorcia, retorcia-se e arqueava, continha a respiração cada vez que uma descarga elétrica a enchia e acendia. Em troca, tinha que tocá-lo, roçá-lo, saboreá-lo e acariciá-lo. Em questão de minutos, eram uma massa suada de pernas, braços e paixão. Darcy estava reluzente, como se, acostumada a uma vida árida, abrisse-se em flor a uma cascata de prazeres e sensações. O impacto de receber Matt até o fundo provocou nela um comichão enlevado. De repente, a noite se converteu em uma sucessão de movimentos acelerados, ofegantes, vertiginosos. Matt, a cama, seu olhar fogoso, o mundo inteiro dava voltas. E, então, uma rigidez em todo o corpo, ejacular e experimentar um clímax tão violento e devastador que Darcy não pôde evitar gritar. Tremia como as folhas marrons no inverno. Pouco a pouco, os espasmos foram remetendo, demorou mais de um minuto para voltar a respirar normalmente. E então...

A verdade sombria. As portas da terraço continuavam abertas de noite. A realidade tangível: a cama enorme, os livros das estantes, o contato com o homem que estava a seu lado. O homem que ria dela e que não acreditava em fantasmas. O mesmo que a tinha olhado com espanto quando tinha descoberto o crânio.

Darcy olhou uma bolinha de pó suspensa no ar, dançando como uma estrela diminuta em um raio de lua. Matt passou uma mão pelo cabelo, tirando-o do seu rosto, e ela se virou e afundou o rosto contra seu peito. Não queria olhá-lo aos olhos, esses olhos cinzas que pareciam ver o fundo de sua alma à luz do dia, na penumbra e inclusive em plena noite.

— Shiiiiiu! — sussurrou ele com suavidade e Darcy compreendeu que a realidade se impunha mais rápido ainda do que pensava.

— O que esta acontecendo?

— Acredito que há alguém lá abaixo.

— Alguém... tramando algo? — perguntou nervosa Darcy ao mesmo tempo que levantava para poder ver seu rosto.

Matt sorria. Notava-se que estava satisfeito. Dobrou um braço em cima do colchão e apoiou a bochecha sobre o cotovelo enquanto contemplava Darcy.

— Na verdade, é possível que tenhamos despertado os vivos e os mortos — disse ele com tom divertido.

Apesar da pouca luz, Matt viu que Darcy ruborizava.

— Deus! Sinto muito — murmurou, pensando de repente como escapar.

Matt a rodeou com um braço. Não queria que ela partisse para lugar nenhum.

— De verdade, sente muito? Eu não — disse ele com sinceridade. Então, Darcy o olhou no rosto e captou uma expressão que lhe chegou à alma. Mas em seguida voltaram as brincadeiras e o ceticismo. — De verdade acredita que podemos ter despertado aos mortos?

Darcy sentiu que se estava rindo dela. afastou-se e nessa ocasião se moveu com tal decisão que Matt não pôde impedir,ficou frustrada por não encontrar a camisola, de tanto que se enrolou entre os lençóis.

— Darcy — chamou ele com suavidade. — De verdade sente muito? Porque te asseguro que eu não — repetiu Matt.

— acredita que eu invento isso tudo — respondeu com frieza.

— Não, eu não digo que inventou nada.

— Está falando dos fantasmas ou do sexo? — replicou Darcy.

De novo, Matt esboçou um sorriso preguiçoso que podia ter quebrado centenas de corações.

— É possível que das duas coisas.

— Isto não tem futuro — disse ela com ar afetado.

— Acaso tudo tem que haver com um futuro?

— Não, talvez não — Darcy encolheu os ombros. — Importa-se de mover? Está em cima da camisola.

—    Vai a algum lugar?

—A minha suite — respondeu com firmeza ela.

— Então te acompanho.

Darcy ficou olhando-o. Matt ficou de pé e lhe entregou a camisola. Depois encontrou a cueca e um roupão e virou para ela.

— Não tem por que... — começou Darcy enquanto vestia a camisola.

— Importa-se? — interrompeu ele.

— Não.

— Então te acompanho.

— Não estou certa de que isto deva se tornar em... um costume.

— Nunca poderia me acostumar com algo assim — repôs Matt.

— Às vezes você é exasperante — disse Darcy.

Então, diante do terraço, Matt parou e voltou a colocar o polegar e o indicador sob o queixo dela.

— Quero entrar contigo na suite Lee, já que faz questão de dormir aí. Mas fecharemos as portas do terraço. Não quero oferecer um espetáculo a quem quer que possa estar rondando a casa.

— Possivelmente seja melhor que fique aqui. Possivelmente sou uma tola por atrair o intruso.

— Você não é uma tola — disse Matt com firmeza.

Logo a acompanhou a sua suite e passou o ferrolho do terraço.

— Você deixou aberta a porta de sua suite — assinalou ela.

— Ninguém nunca apareceu em minha suíte — Matt encolheu os ombros. — Não quero que haja ninguém aqui. Conosco.

Assustou-a dar-se conta de que o simples som de sua voz a fez tremer de novo. Estremecer-se.

— Confie em mim — insistiu Matt. — Ninguém nos incomodará esta noite.

— Mas...

— Darcy, não ponha mas, por favor — disse ele ao mesmo tempo que a abraçava. — nos Dê de presente esta noite. Que tudo seja normal. Não, normal não, incrível. Mas... normal.

E então...

A textura de seus lábios. De repente, tudo aquilo que era cru e real voltou a tingir-se de magia. E, entretanto, essa vez, no calor da paixão, uma vozinha a entristecia. Quem dera... Quem dera fosse verdade... Quem dera ela fosse... Normal.

 

Penny tinha levantado contente. Deu um gole no café e olhou para Clint e Carter por cima da taça. Claro que ultimamente se levantava contente diariamente. Darcy Tremayne tinha mudado o ritmo da vida em Melody House e ela gostava disso.

— Como diabos acredita que encontrou o crânio quando ninguém o tinha conseguido até agora? — perguntou Clint enquanto passava geléia em uma torrada. — Dá arrepios, não é?

— Leva aí muitos anos. Possivelmente é que ninguém se incomodou em procura-lo bem — respondeu Carter encolhendo os ombros. — Teve sorte.

— Não diga tolices! — protestou Penny. — Esta mulher sabe o que faz.

— Venha, Penny. Ninguém aqui tem poderes extrasensoriais — disse Carter.

— Embora tenha outras qualidades extraordinárias — acrescentou Clint.

— Sim, mas eu temo que não estejam ao nosso alcance — comentou Carter em tom resignado.

— Estou seguro de que Matt está caido por ela — afirmou Clint.

— Para mim é ela que está um pouco caida pelo Mat — interveio Penny.

— Não diga tolices — respondeu Carter.

— Nem em sonhos — assegurou Clint.

       — Por que não? — perguntou Penny.

— Não têm nada a ver. Ela acredita em fantasmas — explicou Clint sorridente. — E Matt nunca aceitará que ela se dedique a investigar fenômenos paranormais. Eu, em troca, sou um homem de mente aberta.

— Não que seja algo sério, não é? — perguntou Carter então, franzindo o cenho. — Não digo que ele não se sinta atraído para ela, mas isso logo passa.

— Sim, com a Lavinia passou.

— E todos nos sentimos atraídos quando a vimos a primeira vez.

— Lavinia era uma bruxa — sentenciou Penny.

— Mas enganou a todos — disse Clint.

— A mim? Nem pensar — respondeu Penny. — Não tinha o que era preciso para segurar Matt.

— Está claro que ir deitando-se com outros homens não é a melhor forma de fazer funcionar um casamento — comentou com sarcasmo Clint.

— Não acredito que ele já se importasse com que ela fizesse —respondeu Penny.

— Mesmo assim, é um pouco estranho: duas ruivas — disse Clint.

— Uma era uma bruxa e a outra caça-fantasmas — comentou Carter. — Definitivamente, ainda temos opções — acrescentou olhando para Clint.

— Matt nunca teria algo sério com ela — conveio Clint. — A mim, em troca, seria igual se ela passasse o dia estabelecendo contato com os espíritos. Simplesmente, daria graças a Deus por permitir que me pertencesse.

— Tolices. Isso você diz por que não pode ver um rabo de saia — replicou Carter.

— Ouça, você...

— De qualquer modo, pode ser que seja inteligente, bonita e elegante, mas não é o tipo do Matt — assegurou Carter.

— Realmente?

Todos se sobressaltaram ao ouvir a voz que chegava da entrada da cozinha. De fato, Penny deu um pulo que quase caiu para trás na cadeira. Não olhou o relógio, mas deviam ser mais de nove da manhã e Matt estava acostumado ir para a delegacia de polícia muito antes.

— Acredita em fantasmas — disse Carter, que até se ruborizou.

Penny, a fim de evitar qualquer possível discussão, trocou de conversação:

— Matt! Pensava que já estivesse na delegacia de polícia. Nunca está em casa tão tarde. Quer um café?

— Não, chegarei tarde.

— Sabe algo sobre o crânio? — perguntou Clint.

— Saberei quando chegar à delegacia de polícia.

— Com certeza é dessa garota que decapitaram faz séculos —comentou Carter.

— Provavelmente — confirmou Matt. — Mas não deixa de ser um crânio humano e terá que cumprir certos procedimentos, como qualquer outro resto humano que se seja encontrado.

— Claro — disse Carter em tom pormenorizado. Logo tremeu. — Dá um pouco de medo, não? Pode ser que Darcy saiba coisas que nós preferíamos manter ocultas.

Matt deu meia volta e se foi.

— Sim, sim que dá medo — respondeu Clint.

— Porquê? — perguntou Penny.

— Porque todos nós temos algum segredo — respondeu Carter.

Shirley Jamison o estava esperando quando Matt entrou na delegacia de polícia. Sorriu. Não parecia ter curiosidade por saber por que tinha chegado tarde. Ao parecer, todos estavam cientes de que na noite anterior ficou trabalhando até muito tarde.

— Olá! — saudou-o com alegria.

Era uma mulher magra, atraente, de uns trinta e cinco anos, e muito agradável. Gostava de seu trabalho, seu marido e seus dois filhos. Tinha nascido no Stoneyville e nunca tinha tido a menor tentação de mudar-se para outro lugar. Seu marido, Ray, era empreiteiro em uma empresa de construção, tão encantado como Shirley. Matt se perguntava freqüentemente se haveria algo artificial em tanta aparente alegria; mas, em realidade, tudo fazia indicar que era um casal feliz.

— bom dia.

— ouvi que ontem à noite ficou até as tantas — comentou Shirley. — Não te esperava tão cedo. Embora ia telefonar para sua casa. Temos notícias do Digger.

Digger era Darrell Jordy, um antropólogo excepcional, que trabalhava no museu de História Americana Smithsonian.

— E? — perguntou Matt.

Sabia que Digger era um homem ocupado. Agentes de polícia e do FBI de todo o país lhe mandavam ossos constantemente para submetê-los a sua análise. Matt não tinha imaginado que fosse dar prioridade a seu crânio.

— O que você acreditava — Shirley se encolheu de ombros —. O relatório indica que os ossos têm cento e cinqüenta anos. Diz que já tinha te falado que devia pertencer a uma moça, com idade entre quinze e vinte e cinco anos. O que encaixa com a história da irmã mais velha ciumenta que cortou a cabeça da mais nova.

— Perfeito — murmurou Matt.

— Chamaram do jornal. Querem saber quando pensa enterrar o crânio com o resto do cadáver.

— Quem chamou exatamente?

— Max Aubry.

— Genial.

Aubry daria uma pinta sensacionalista a tudo. Por outra parte, estavam em uma cidade pequena, de modo que não era estranho que feitos sem importância recebessem titulares no jornal. Contudo, temia a repercussão que podia chegar a ter a notícia.

— Vamos, Matt! É uma história fantástica. Triste, mas com um final. — Aubry lhe dará um toque fantasmagorico e logo se derreterá em louvores pela Darcy e pelas Investigações Harrison.

— E?

Matt levantou os braços em sinal de rendição. Acaso todo mundo estava a favor de contar histórias sobre fantasmas? Era uma loucura.

Embora ele sim se sentia que estava ficando louco, de desejo. Não podia tirar Darcy da cabeça. E cada vez que se inteirava de algo novo sobre ela, mais vontade tinha de conhecê-la melhor. Era uma mulher enigmática e, entretanto, quando a olhava aos olhos, não via a não ser sinceridade, medo e, sobre tudo, uma grande precaução. Como se a menor intimidade a pusesse sob um risco enorme. O que, de fato, era certo. Porque Darcy era... diferente. E ele estava em guarda, não confiava nela completamente. Mas, ao mesmo tempo, o único coisa que tinha desejado ao ocordar era estar a seu lado, sentir sua pele fresca e sedosa, observar seus olhos, abertos, vulneráveis, embora só durante um segundo. Sem dúvida, era a mulher mais sensual e incrível com a qual se deitou. E Matt havia sentido totalmente livre para ser ele mesmo. Seu mundo tinha mudado por um único e ridículo encontro fortuito de uma noite.

Um incidente absurdo, pois ela era uma caça-fantasmas, ele era o homem racional e tinha sido Darcy que tinha estado convencida de que alguém rondava pelo terraço. Tinha percorrido de um extremo a outro, rodeando toda a casa, e não tinha encontrado ninguém. Ao abrir ao público Melody House, tinham instalado sistemas de alarme tanto na casa como na quadra. De modo que não podia ter entrado ninguém. Não tinha sentido. E tudo pioraria se a imprensa começasse a exagerar. negava-se que jornal deformasse a importância daquele achado. Não podia aceitar que Darcy tivesse encontrado o crânio graças a algum tipo de conexão sobrenatural com o reino dos mortos.

Quem dera, ao falar com a imprensa, fizesse mais insistência no aspecto de investigação que em sua intuição. Em qualquer caso, Matt não podia esquecer a expressão de seu rosto enquanto Darcy escavava desenfreadamente até resgatar o crânio. Uma lembrança que lhe gelava o sangue.

Deveria ter pensado a respeito a noite anterior. Embora tampouco pensava por ter desfrutado de uma boa queda. Estavam no século vinte e um. Não devia dar tanta importância ao sexo. A maioria dos adultos se permitiam algum agrado de vez em quando. De fato, ele não era o primeiro que tinha tido mais de uma aventura. Essa podia ser outra.

Mas havia algo mais...

— Matt?

— Estou em meu escritório — respondeu quase grunhindo.

Shirley ficou olhando-o, perplexa.

Darcy despertou e deu conta de que Matt tinha partido. Depois tratou de refletir sobre o que tinha ocorrido na noite anterior. Tinha sido uma maravilha. E uma idiotice. Possivelmente fosse melhor não pensar muito. Do contrário, acabaria com dor de cabeça.

Certo, não tinha muita vida social e fazia anos que sua vida sexual era simplesmente inexistente. Mas tinha sido uma decisão própria. Os anos de universidade a tinham deixado com sensação de indigestão e, dado que tinha medo a qualquer compromisso sério com um homem normal, tinha-lhe parecido prudente distanciar-se deles. Tinha uma família encantadora e bons amigos na Investigações Harrison, os quais entendiam que ela era diferente. Jamais tinha imaginado que poderia sentir-se tão atraída por um homem, muito menos para alguém como Matt Stone.

Pouco a pouco, começou a compreender que a noite anterior tinha sido um grave erro. Como também compreendeu que acabaria sofrendo, pois não podia evitar sentir algo intenso pelo Matt. Por ilógico que parecesse, tinha a sensação de que sua relação podia durar. Era assombroso descobrir, que mal tinha acabado de conhecê-lo no bar Wayside, até o ponto de viver em sua casa e conhecer quem o rodeava tinha mudado seu conceito sobre Matt. Não sentia algo assim desde... talvez nunca. E era uma tolice. Sentia-se perfeita depois de uma noite gloriosa, mas também se sentia abatida, porque tinha feito promessas que não poderiam cumprir. A cama conservava o aroma do homem que a tinha acompanhado, como uma lembrança do fogo, a paixão e a intimidade que tinham compartilhado.

Fez gesto de levantar-se, mas logo ficou quieta. Não tinha que ir a nenhum lugar. Na cama estava perfeitamente bem. Talvez o dia melhorasse de cara se dormisse um pouco mais. Fecharia os olhos um momento e, pelo menos, despertaria um pouco mais descansada. Pouco depois caiu num sono profundo e, de algum lugar do subconsciente, chegou a dar-se conta de como os fatos e os sentimentos do passado a penetravam, como se pudesse introduzir-se sob a pele de outra pessoa. Soube, imediatamente, que já tinha entrado no corpo de duas pessoas: primeiro, um homem; depois, uma mulher. E dessa vez voltava a ser um homem. Também soube que o desenlace traumático da relação entre ambos tinha tido lugar ali, nessa suite em que dormia.

O homem olhava a casa. Sabia que ela estava sozinha, lá dentro. Assim entrou e fechou a porta com sigilo.

Conhecia a casa. Conhecia quem morava ali, enchiam-na, consideravam-na seu lar ou a reclamavam de sua propriedade. E sabia onde estavam todos. Do mesmo modo que sabia que ela teria ido ali, convencida de que tinha direito a fazê-lo. Não o tinha. Não tinha nenhum direito.

E essa noite não havia nada nem ninguém que lhe impedisse de entrar. Tal como tinha previsto. Não se importava se ela pudesse ter ouvir o ruído da porta ao fechá-la. Não demoraria para inteirar-se de que tinha ido vê-la. Ficou de pé no vestíbulo e olhou as escadas. Baixou os braços e sentiu um volume junto a um dos bolsos. Um cinto de couro. Tirou do bolso com determinação. Seria muito fácil. Era um homem forte. De fato, era muito forte. Mais do que aparentava.

Não...

O homem ouviu um protesto em sua própria cabeça. Mas apertou os dentes e seguiu adiante. Respirou profundamente. Obrigou-se a relaxar. E voltou a olhar as escadas.

 

— Darcy!, Darcy!, Está bem, coração?

Darcy despertou de um salto. Os golpes à porta soavam como trovões. Lamentou a interrupção. Tinha começado a ver imagens com muita claridade. Talvez, se conseguia presenciar tudo o que tinha acontecido no passado, poderia encontrar respostas.

— Darcy!

— Estou bem, Penny. Só fiquei adormecida — respondeu.

— Graças a Deus! Pensei que o fantasma da suíte Lee havia... Bom, tudo bem. A verdade é que não sei como se atreve a passar a noite inteira aí sozinha.

Darcy olhou para a porta e se perguntou se Penny se sentiria melhor se soubesse que, na realidade, não tinha passado a noite alí sozinha.

—É... estou bem — repetiu.

— Quer que eu suba uma bandeja com algo para tomar o café da manhã?

— Não, não. Já desço, obrigada.

— Darcy? — insistiu Penny do outro lado da porta.

— Sim?

— Tenho que lhe dizer que tinha razão. O crânio que encontrou era da irmã mais nova. É incrível! Bom, supomos que será dela. É a única história que conhecemos de uma garota jovem dessa época. Há mais fantasmas femininos, mas todas têm cabeça. É assombrosa!

— Obrigado, Penny.

— Vamos enterrá-la, ou seja, enterraremos a cabeça com o resto do corpo e por fim poderá descansar em paz, não é?

— Assim espero.

— Bom, estou no escritóri, se necessitar de algo, deixei café na cozinha, se por acaso quiser uma xícara quando descer.

— Obrigada — repetiu Darcy.

Ouviu Penny partir e fechou os olhos. Abriu-os. Não conseguiria dormir de novo e, embora quissese, não acreditava que pudesse retomar o contato e descobrir o que havia acontecido.

Darcy olhou a seu redor. Notava uma presença já familiar. Vigiando. Talvez esperando? A quem? E onde estaria Josh?, por que não ía em sua ajuda?, pensou Darcy. Mas não obteve resposta.

— Josh? — chamou-o em voz alta. Na realidade, nunca tinha sabido a forma exata de encontrá-lo. Ele era seu guia. John, um amigo do Shoshoni e outro dos empregados do Adam, tinha-lhe explicado que Josh seguia a seu lado porque a tinha querido muito enquanto era vivo. E porque, de algum jeito, ao morrer, tinha-lhe transmitido seu estranho dom.

— Josh, ajudou-me no bosque. Por que aqui não?

Mas Darcy sabia a resposta. A suíte Lee estava carregada de tensão, amargura e violência. De repente, precisou sair dali quanto antes.

Era curioso o ambiente tão diferente do que tinha havido no quarto quando Matt estava a seu lado. Mas não tinha ido ali para sentir-se segura, a não ser para resolver o mistério. Assim, levantou-se. Estava inquieta e não sabia por que. Supunha que fazia muito que estava acostumada aos fantasmas. Eram as pessoas vivas as que podiam lhe fazer mal. Tinha ouvido isso inumeráveis vezes, e sempre tinha acreditado que era verdade. Seguia acreditando. Mas... Nunca tinha experimentado nada parecido com o que estava ocorrendo na suíte Lee.

 

Não houve forma de esquivar de Max Aubry. Embora Matt não lhe houvesse retornado a chamada, Aubry o caçou a uma em ponto, justo quando se dispunha a ir ao bar Wayside para comer.

— Matt! Como está? Faz um bom tempo que estou tentando te localizar.

— Sim, sinto muito. Ontem à noite estive trabalhando até tarde —respondeu Matt.

— Me fale sobre o crânio — disse Aubry sem rodeios.

— Estou saindo para comer agora.

— Perfeito. Comeremos juntos — propôs Aubry olhando-o nos olhos. Sabia que Matt não simpatizava com ele. Também sabia que não era nada pessoal. Simplesmente, Matt não gostava dos jornalistas. — É uma comida de trabalho? Bom, me dê algo. Tenho intenção de entrevistar a mulher que está investigando Melody House; mas pensei que podia me contar algo antes.

— É obvio — respondeu Matt. — A senhorita Tremayne trabalha para uma empresa chamada Investigações Harrison. Examinam lugares supostamente encantados. Aqui há muitas lendas, normalmente com alguma base real. Todos ouvimos falar da garota decapitada no bosque. A senhorita Tremayne foi estava pesquisando alguns documentos na biblioteca, estudou todos os dados relacionados com o assassinato, deduziu onde era o lugar e encontrou o crânio.

— Assim o fantasma já não vagará pelo bosque, não é mesmo, delegado?

— Eu nunca acreditei que houvesse um fantasma no bosque —respondeu Matt com firmeza. — E se escrever outra coisa, será processado.

— Vamos, Matt!

— Falo sério, Aubry. Tome cuidado com o que escreve. A última vez que Julie Cristopher teve uma dor de estômago disse que a tinham envenenado. A loja de donuts esteve a ponto de fechar, porque afirmou que era o último lugar onde tinha comido.

— E era o último lugar onde tinha comido.

— Mas não a tinham envenenado! Disse ao médico que tinha bebido leite de uma caixa que passou a noite inteira aberto sobre a mesa da cozinha.

— Está bem, mas, o que pensa em fazer? — insistiu Aubry, trocando de tema.

— Já verei. Mas não invente nada ou acabará no tribunal.

— De acordo, de acordo! Na verdade eu não te entendo. Um lugar como Melody House pega bem ter uns fantasmas.

— Por que todo mundo se empenha em acreditar em algo assim?

— Porque para o resto do mundo ainda sobra um pouco de romantismo. Enfim, vou te deixo ir comer. Estou certo de que sua investigadora será muito mais amável. Adeus. Aubry deu a volta e partiu. Matt esteve tentado a chamá-lo para lhe dizer que não fosse atrás de Darcy. Mas não podia fazer algo assim. Aubry tinha direito de entrevistar a quem quisesse. Olhou-o se afastar. Maldição. Deveria ter lhe concedido mais tempo, lhe proporcionado uma história melhor. Talvez, desse modo, tivesse deixado Darcy em paz. Pensou em chamá-la para avisá-la. Tinha que lhe dizer... o quê?, que, apesar do que ela acreditava, devia lhe dizer ao Aubry que não acreditava em fantasmas?

Voltou a amaldiçoar e se dirigiu para seu carro. Enquanto sentava em frente ao volante, chamou-lhe a atenção uma estranha urgência por trocar de rumo e não ir ao bar Wayside. E sim ir a biblioteca.

Matt ficou gelado. Apertou as chaves, introduzidas já no contato. Teria jurado que tinha ouvido a palavra com tanta claridade como se alguém a tivesse pronunciado em voz alta. Matt grunhiu. Apoiou a testa sobre o volante. Acabaria ficando louco. Teria sido um pensamento, procedente de algum lugar de seu cérebro. E, por alguma estúpida razão, não deixava de ressoar dentro de sua cabeça. Nem pensar, não permitiria que o confundissem com todas essas lendas. Furioso consigo mesmo, segiu para o Wayside... E virou.

Darcy não tinha tido intenção de voltar para a biblioteca esse dia, mas Penny estava tão empenhada em falar do crânio que tinha preferido sair de casa. E não porque Penny a aborecesse, pois a adorava. Simplesmente não queria ter que lhe explicar outra vez no que consistiam seus poderes extrasensoriais. Se ela mesma não os entendia, como diabos ia explicar-los a outra pessoa?

Além disso, Clint e Carter também estavam na casa. E também queriam falar. Clint tinha mostrado amável, mas muito curioso. Não tinha deixado de piscar os olhos, brincar e perguntar se podia ajudar a encontrar umas algemas que tinha perdido no natal anterior.

Carter também parecia com vontade de conversar e tinha perguntado de seu passado, por outros mistérios que tivesse resolvido. E embora também eles fossem simpáticos, tinha preferido escapar. Tinha gostado da biblioteca, de modo que tinha decidido refugiar-se ali para documentar sobre a família da Amy Clayton. Estava segura de que alguém do lugar saberia onde estava o cemitério familiar, mas o averiguaria mais rápido consultando os arquivos da biblioteca. Só de ver a senhora O'Hara, soube que ela sabia que tinha descoberto o crânio. Era uma cidade pequena. As notícias viajavam a grande velocidade. Mas o único que a senhora O'Hara lhe perguntou foi se gostaria de uma xícara de chá. Darcy aceitou. Era como se a senhora O'Hara também tivesse uma percepção mais desenvolvida do habitual, pois tinha sobre sua mesa de trabalho o arquivo que Darcy queria.

— Se necessitar mais informação sobre a cidade, só tem que subir — disse a senhora O'Hara, apontando para uma escada que conduzia ao corredor que marcava o perímetro da planta de acima. O elaborado desenho dos corrimões mostrava que o edifício foi construido a principio para acolher os proprietários de uma casa senhorial, mais que para albergar um serviço público. A senhora O'Hara sorriu ao ver a cara de Darcy. — Antes formava parte de uma velha fazenda. Pertencia a um tal Geoffrey Huntington, bom amigo do Thomas Jefferson, entre outros homens notáveis. Mas queimaram sua casa durante a Revolução. Por sorte, utilizava este lugar como retiro para ler e a biblioteca ficou intacta. É preciosa, não é verdade? E está tal como se construiu. É uma sorte que seja tão grande, porque com os anos têm acumulando muitíssimos livros.

— É uma biblioteca extraordinária — afirmou Darcy.

— Incluíram-na no Registro Nacional de Edifícios Históricos —comentou a senhora O'Hara com orgulho. — Mesmo assim, pode ser que tenhamos que ampliá-la dentro de pouco tempo.

—Suponho que é melhor que uma biblioteca tenha muitos livros a que tenha poucos — disse Darcy.

— É obvio! — falou a senhora O'Hara.

Com a xicara de chá e o livro que a senhora O'Hara lhe tinha facilitado, Darcy tomou assento em um sofá da planta baixa e começou a ler.

A família Clayton tinha deixado a cidade no final do século dezenove. Várias gerações tinham vivido no local e tinham recebido sepultura junto à Igreja de Cristo. O arquivo, um Livro Grossíssimo, incluía enormes listra de sobrenomes, casamentos, batismos, mortes e pouco mais, embora sem oferecer um mapa que apareciam a Igreja de Cristo e o cemitério anexo. Não ficava longe do Melody House. Darcy supunha que quando as autoridades pertinentes confirmassem que o crânio tinha mais de cem anos, não haveria problema em enterrá-lo com o resto do cadáver da pobre Amy.

Deixou o livro e voltou a olhar para a escada. Com efeito, tratava-se de um edifício excepcional. O que não era estranho, pois tinha pertencido a um homem rico e com influências e que parecia gostar de ler. Mesmo assim, poucas cidades podiam desfrutar de uma jóia como aquela biblioteca. Tanto a escada como o chão de madeira pareciam ser tão velhos como o edifício em si.

Darcy decidiu que tinha chegado o momento de esquecer do livro e subir para ver o que mais encontraria. Uma vez lá em acima, começou a bisbilhotar. Alguns livros só interessariam a quem encontrasse neles dados de algum antepassado. Em qualquer caso, pareceu maravilhoso que tantas pessoas pudessem se informar sobre suas origens familiares. Havia livros com árvores genealógicas e outros volumes cujos títulos explicavam o conteúdo do livro, como Casamentos dos Granger do Stoneyville. Darcy sorriu. Ia tirando algum volume de tanto em tanto e quase todos eram antiqüíssimos. Ao que parecia, fazia muito tempo que ninguém deixava seus registro ali. Ou, possivelmente, a vida se complicou muito e não era tão fácil levar um bom arquivo. De repente, reparou em um livro colocado em uma estante elevada: Os Stone do Melody House. Adorou vê-lo e, de novo, comoveu-a que os familiares de muitas décadas atrás se descem ao trabalho de anotar os pequenos detalhes cotidianos de sua vida.

Como não era mais que um volume, decidiu que o leria. Embora era uma mulher alta, teve que esticar-se para tentar alcançá-lo.

Então, enquanto ficava nas pontas dos pés, ouviu um rangido sob seus pés. ia franzir o cenho quando a madeira que suportava seu peso começou a ceder. Não havia tempo para fugir. De repente, foi como se o tempo se congelasse. Darcy permaneceu imóvel. Sabia que o chão iria abaixo e que a esperava uma queda no vazio. Contudo, não conseguia acreditar nas leis da física, como se algum milagre fora a mantê-la flutuando.

Deu um grito e notou que a madeira seguia rachando-se. Tratou de se agarrar a algo ao mesmo tempo que se perguntava como era possível que aquilo estivesse acontecendo. Estava convencida de que a senhora O'Hara jamais teria deixado subir a ninguém se soubesse que não era seguro. Darcy ouviu o ruído das tabuas de madeira ao bater no chão da planta baixa. Estava a ponto de cair quando conseguiu agarrar-se a uma viga. A pesar do susto, desfrutou de um instante de alívio ao dar-se conta de que tinha conseguido frear a queda.

No momento. Só no momento, já que a força da gravidade a puxavam para baixo e esta não poderia seguir segurando-se muito tempo. Tremiam-lhe os braços e as mãos começavam a suar. Ouviu-se outro grito, embora este não saiu de seus lábios. Era a senhora O'Hara, justo debaixo dela. Só então olhou Darcy para baixo e tomou plena consciência de que estava pendurada em uma viga, com as pernas balançando-se no ar, a mais de oito metros de altura.

—Agüente!, agüente! — gritou a senhora O'Hara. — chamei à polícia. Livros!, farei uma montanha de livros! E porei as almofadas dos sofás. Agüente, por favor!

Não tinha outra opção, pensou Darcy. Mas não sabia se seus ombros seguiriam suportando o peso de seu corpo ou se terminariam por desencaixar-se. Até esse momento, não tinha dado conta totalmente do perigo que corria. Só se sentia aliviada por ter podido agarrar-se à viga.

Mas, quanto tempo agüentaria?

A senhora O'Hara tinha chamado à polícia, mas Darcy não acreditava que os agentes fossem chegar tão rápido. Só levaria uns segundos. Não mais de um minuto. Mas os braços lhe doíam como se estivessem esticando em uma máquina de torturas. Não era uma fracote, mas tampouco estava preparada para uma competição de boxe.

— Darcy, agüente firme!, eles já vêm! — disse a senhora O'Hara.

Darcy olhou para baixo. Grave erro. A distância até o chão dava vertigem, como se dirigir a vista para baixo fizesse que seus braços tivessem que suportar mais peso. Fechou os olhos, apertou os dentes e começou a temer que acabaria escorrendo por mais que tentasse resistir.

— Não entendo como isso pôde acontecer! — exclamou nervosa a senhora Ou'Hara. — Por favor, agüente. Por favor...

Não havia ninguém mais na biblioteca nesse momento. Era muito cedo para os meninos do colégio e, possivelmente, muito tarde para os investigadores locais. Darcy olhou as almofadas com os que a senhora Ou'Hara pretendia amortecer sua queda. Sentiu que ia desmaiar.

Voltou a fechar os olhos e se perguntou se quebraria quase todos os ossos ou se morreia instantaneamente. Doíam-lhe os braços e começava a acreditar que não ia demorar muito para dar-se por vencida. De repente, perguntou se teria forças para balançar-se e dar-se impulso para cima para poder segurar-se apoiando os tornozelos e as pantorrilhas sobre a parte do chão que não havia quebrado

—Darcy? —perguntou desesperada senhora O'Hara ao vê-la balançar-se.

—Sempre soube que devia ter trabalhado para o Circo du Soleil — comentou Darcy. Perguntava-se por que sentia a necessidade de soar tranqüila quando não o estava, absolutamente. Olhou para cima. Teria que fazer cair umas duas tábuas de madeira para conseguir colocar as pernas.

Darcy tirou forças da fraqueza e elevou as pernas...

Esteve a ponto de quebrar os dedos dos pés.

As outras tábuas estavam firmes e seguras, de modo que não se moveram. Mas o esforço acabou com a pouca energia que ficava em Darcy. Começou a ver pontinhos negros ao redor. Fechou os olhos. ia cair.

— Darcy!

Surpreendeu-se ao ouvir a voz do Matt. Tanto que pensou que a tinha imaginado.

— Darcy, sou eu, Matt. Solte-se. Não deixarei que se machuque. Confie em mim.

Ele pedia que confiasse nele. Que se soltasse.

— Darcy, estou debaixo de você — insistiu Matt. —Se Solte. Eu te seguro.

Que confiasse nele... Não tinha nada que ver com a confiança. Não podia agüentar mais. Os dedos estavam escorregando. Na realidade, não chegou a soltar-se. Simplesmente caiu, porque já não podia segurar-se. Um grito de terror saiu de seus lábios. Enquanto caía, imaginou os ossos espremidos, o chão cheio de sangue, a cabeça...

— Darcy!

 

Matt não caiu, mas sim retrocedeu uns passos quando acolheu Darcy entre seus braços. Embora não havia tanta distância, ela tratava de frear o impulso da queda, agitando os braços freneticamente. Quando por fim a pegou Matt, agarrou-se a ele desesperada.

Por um momento, tremeram-lhe as pernas. Depois perdeu o equilíbrio, embora em todo momento mantivesse certa coordenação. Matt ficou de joelhos para não carregar todo o peso sobre as costas e depois a sustentou entre os braços contra o peito. Durante vários segundos, Darcy se aferrou a ele com todas suas forças. Depois abriu os olhos e suspirou aliviada.

— Você está bem? — perguntou-lhe Matt.

Darcy assentiu com a cabeça. Depois, passou uma mão sobre o cabelo do Matt e sorriu.

— Está coberto de pó.

—Tem a camisa rasgada e o seu braço sangra —disse ele.

— Deus, Deus, Deus! — repetia a senhora O'Hara, perto dos dois. Ouviram uma sirene. Um carro da delegacia de polícia. — Não sei como isso aconteceu!, recentemente passamos por uma inspeção de segurança! Piso sobre esse chão todos os dias e sei que estava bem. Estava-o. Deus, acreditava que estava bem. Os meninos sobem todos os dias quando devem estudar. Poderia ter sido um menino e não teria tido forças para se segurar a nada. Sinto muitíssimo, Darcy! Matt, graças a Deus que chegou bem na hora.

Graças a Deus que tinha chegado bem a tempo.

Matt sentiu um calafrio e olhou para Darcy, que ainda segura contra o peito. Darcy se soltou. depois, com cuidado, ficou de pé e ofereceu uma mão ao Matt para ajudá-lo a levantar-se também. Embora aceitasse a mão, levantou-se sem necessidade de que Darcy o puxasse.

Seguia tremendo, assustada. Por muito que sentisse e não quisesse dar importância ao acontecido, tinham que investigar o acidente.

— Ponha na porta o cartaz de fechado, senhora O'Hara — disse Matt.

— Sim, sim, é obvio — respondeu, embora continuasse imóvel, olhando para Darcy. — É a polícia, mas necessitaremos uma ambulância também.

— Não precisa, estou bem — afirmou Darcy.

— Está sangrando — falou Matt apontando para braço.

— Não é mais que um arranhão. Estou bem, de verdade. Só espero não haver fraturado vinte ossos, caindo em cima de você como tenho feito.

Ela também estava coberta de pó. Matt a olhou e ouviu a freida do carro de polícia. Thayer Martin e Jimmy Tyson entraram apressados na biblioteca.

—Tudo bem — anunciou Matt em seguida, sem tirar o olho de Darcy.

Mas não teria estado nada bem se Darcy tivesse tido que esperar que chegassem os agentes. A teriam encontrado no chão. Pode ser que não morta, mas com certeza gravemente ferida.

— Que diabos aconteceu? — perguntou Thayer, olhando de Matt para Darcy, logo as tábuas quebradas e por último à senhora O'Hara.

—Soutou-se o piso de acima — respondeu Matt sem mais explicações. virou-se para os agentes, que seguiam observando todos com cara de perplexidade. — Chamem o inspetor de edifícios. Que venha em seguida.

— De acordo — disse Thayer antes de tirar o rádio.

Matt reparou vagamente que Thayer estava informando a situação. Enquanto, Jimmy passeava com cuidado ao redor das tábuas. Não podia deixar de olhar para Darcy e, de repente, sentia-se incômodo. Que diabos o tinha convencido de repente de que devia ir à biblioteca? Se não tivesse ido... Mas tinha ido. Nunca se aproximava da biblioteca na metade do dia. Mas, apesar de que tinha decidido ir a Wayside, ao final tinha ido ali.

Outra sirene e, um segundo depois, apareceram Jenkins e Smith, da brigada de bombeiros. Thayer o pôs à parte dos fatos e Smith se aproximou do Darcy.

— Vamos levá-ça ao hospital, senhorita — disse ele com amabilidade, ao mesmo tempo que a examinava com olho de perito.

— Não preciso ir ao hospital — insistiu ela.

—Seu braço sangra, Darcy — disse Matt com brutalidade. Com muita brutalidade.

Viu-a franzir o cenho, mas acabou cedendo e deixou que Smith desse uma olhada. Tinha cinqüenta e cinco anos, cabelo cinza, com barba e era corpulento, Harry Smith era um homem dos mais competente. Era capaz de transmitir calma nas situações mais apuradas e Darcy aceitou a pressão com a que a agarrou por um braço para conduzi-la a um banco.

Matt os ouviu falar em voz baixa enquanto ele subia as escadas para examinar o ponto pelo que Darcy havia caido. Medindo a estabilidade do chão, avançou engatinhando para aproximar do lugar que tinha cedido. Parecia como se um tabuleiro estivesse cortado de extremo a extremo. Só um. E a biblioteca tinha centenas de anos, recordou-se.

Claro que a metade dos edifícios da cidade eram igualmente antigos e se conservavam bem.

— Matt!

Este se aproximou do corrimão e olhou para baixo, de onde o tinha chamado Smith.

—A senhorita Tremayne se nega a ir ao hospital. Diz que está bem. vamos levar-la a Melody House. Quer dirigir ela mesma. Tinha vindo com o carro de Penny. Arume alguém para devolvê-lo.

— Estou bem! — repetiu Darcy. Depois olhou para Matt. —. Foi você que suportou o impacto de minha queda.

— Está um pouco abalada — disse Smith.

— Sério, estou perfeitamente bem . Só tenho um arranhão no braço — protestou Darcy.

—Eu devolvo o carro de Penny — disse Matt, — Darcy, deixe que a levem. Não demorarei muito. Quero estar aqui quando vier o inspetor de segurança — acrescentou.

— De verdade, posso dirigir — seguiu resistindo ela.

— Estou certo disto. Mas faça-o por nós, por favor — respondeu Matt.

Estava com a camisa rasgada e cheia de pó, mas seguia deslumbrante. Com os olhos arregalados ainda pelo susto, mas com expressão serena e digna. Estava mais linda que nunca. Era uma garota estranha, recordou-se.

Mas havia algo nela que resultava irresistível. Desejava-a. Mas havia algo mais. Era uma mulher elegante e sensual; mas, debaixo dessa preciosa fachada, também havia dor e vulnerabilidade.

Ele somente conseguiria lhe fazer mais mal. E, entretanto... Matt não acreditava que fosse conseguir manter-se afastado dela.

—Voltarei para o Melody House assim que puder — disse.

Darcy apertou os dentes, olhou como se fosse protestar de novo, mas acabou aceitando o braço que oferecia Smith e disse obrigado por sua atenção e os transtornos que estava causando.

Penny a esperava na porta. Estava preocupada depois ter recebido uma chamada da senhora O'Hara da biblioteca. Depois de ouvir a ambulância estacionar, correu para abrir a porta.

— Pobre!, pobrezinha! — disse a Darcy enquanto passava um braço sobre seus ombros, sem lhe dar tempo sequer a sair da ambulância. — Entre. Agora vai tomar um banho de água quente. Isso vai relaxá-la. E logo te prepararei um chá com uísque. Os irlandeses juram que com isso se cura tudo. Graças a Deus que não saiu pior o acidente. É um milagre. Podia ter te matado. Deus! Como é possível que algo assim tenha acontecido no Stoneyville?

— Penny, estou bem — disse Darcy sorridente. — Não faço nada mais que dizer a todo mundo, mas não sei por que ninguém acredita.

Harry Smith tinha saído da ambulância e assistia à conversa com discrição.

— Quer um café ou um chá? — ofereceu Penny. — Está de serviço, assim não posso pôr uísque no seu — acrescentou.

Deu a sensação de que soava muito estrita e não gostou. Sempre tinha gostado desse homem. Era amabilíssimo, sempre tranqüilo e eficiente. Penny tinha compadecido, de coração, quando no ano anterior sua esposa tinha sucumbido a um câncer com cinqüenta e dois anos.

— Obrigado, Penny; mas tenho que voltar. Deixei meu companheiro na biblioteca para que desse uma olhada no Matt. Tenho que buscá-lo e seguir trabalhando.

—Matt está ferido? — perguntou alarmada Penny.

— Não. Mas queríamos nos assegurar.

— Obrigada — disse Penny, que seguia de pé, rodeando Darcy com o braço.

—Até mais tarde — disse Harry. — Senhorita Tremayne, se notar que sente dor de cabeça, ou algo estranho...

— Não bati a cabeça contra nada, de verdade — disse Darcy.

Ele assentiu, despediu-se com um gesto de mão, rodeou a ambulância e sentou ao volante. Penny e Darcy o viram afastar-se.

— Pobrezinha! — repetiu Penny. — Venha, vamos entrar. Já estará bem, pois vamos cuidar de você. Clara Issy entrou inclusive na suíte Lee para te preparar o banho. De fato, estava gritando com o fantasma.

— Gritando com fantasma? — repetiu Darcy.

— Sim, carinho — respondeu Penny. — As duas acreditam que... bom, sabemos que tem um instinto agressivo e nos dá medo que, por alguma razão, tenha saído para te atacar.

— O fantasma só tenta nos dizer algo — respondeu Darcy, negando com a cabeça. — Não quer me fazer mal.

— Venha, vamos tirar todo este pó — disse Penny. — É sério, não leve a mal, mas... acredito que deveria ir — acrescentou ao mesmo tempo que a convidava a entrar na casa.

— Penny!

— Digo por você. Viu o que aconteceu na biblioteca.

— Supõe-se que o fantasma está na casa, não na biblioteca — replicou Darcy.

—Mas pode ser que este fantasma esteja tão desequilibrado que tenha te seguido.

— E pode ser que o piso fosse muito velho e a madeira tenha cedido.

—Bom, sobe. Com certeza tudo terá mais lógica quando soubermos exatamente o que aconteceu — disse Penny. Darcy parou aos pés das escadas e a olhou aos olhos:

— Penny, não foi você que queria que alguém viesse para demonstrar a Matt que havia fantasmas?

—Sim, mas isso era antes e agora é agora — respondeu exasperada Penny. Ao parecer, Darcy não entendia que podia estar em grave perigo.

— Penny, sério, acredito que na suite Lee há um espírito que está tratando se fazer notar e que necessita que alguém fale com ele. Mas não acredito que tenha me seguido à biblioteca. O que aconteceu foi um susto para todos, mas estou bem. Poderia ter ocorrido com qualquer um. Se tivesse sido um menino, Matt não teria chegado a tempo.

— Sim, isso também é estranho, não te parece? — murmurou Penny. Como era que Matt tinha aparecido pela biblioteca bem a tempo?

— Estranho pode ser, mas sorte com certeza que foi — respondeu Darcy. Depois pôs as mãos sobre os ombros de Penny, aproximou-se e lhe deu um beijo na bochecha. — Estou bem. E não tenho medo do fantasma da suite Lee. Estou empenhada em falar com ele. Agora vou subir e tomar um banho e me trocar. Depois desço. Esse chá de que falava será uma maravilha. Mas não me trate como a uma inválida. Só tenho um arranhão no braço.

Darcy subiu as escadas e Penny a viu afastar-se. Permaneceu quieta no vestíbulo um bom tempo, olhando para cima muito depois de que Darcy tivesse desaparecido. Sacudiu a cabeça.

Seria horrível se acabava ocorrendo algo ao Darcy. Espantoso.

Tinha que convencê-la para ir embora.

 

Dan Platt, o inspetor de edifícios, apareceu na biblioteca. Como era de esperar, e contando com o consentimento e apoio do Matt, fechariam a biblioteca até ter levado a cabo uma investigação a fundo. Mesmo assim, Matt queria um relatório preliminar.

Dan, de uns quarenta e cinco anos, cabelo cinza e corpo musculoso, respondeu com prudência:

— Agora mesmo, parece simplesmente que os tábuas cederam.

— Por que justo essas tábuas? — quis saber Matt.

—Talvez por alguma umidade.

— Não há filtrações. Estive olhando o telhado.

—Às vezes, há furos que não são evidentes. Vão pelas paredes e chegam ao chão. Há outras possibilidades.

— Por exemplo?

— Que tenha caído algum líquido no lugar. Quem sabe? Possivelmente algum menino derramou algo ácido ou corrosivo e não se atreveu a dizer à senhora O'Hara. Algo assim poderia danificar gravemente a madeira. Mas não estou seguro, Matt. O que não parece é que alguém tenha serrado a tábua. Além disso, não sei por que alguém ia querer provocar um acidente na biblioteca.

— Mesmo assim, eu gostaria que analisasse as tábuas que se desprenderam.

— É obvio. Se for o que quer.

— Sim, é o que quero.

Dan olhou para Matt como se tivesse perdido a cabeça, mas seguiu em frente:

— Realizaremos uma investigação exaustiva e analisaremos todas as peças podres.

— Perfeito — Matt assentiu com a cabeça.

Dan voltou a subir as escadas. Matt ficou no térreo e esperou. Quando Dan e seus companheiros terminaram, foi Matt quem subiu as escadas. Confiava em Dan Platt e não duvidava de que este ia levar o caso a sério. Mas...

Tirou da jaqueta uma bolsinha para guardar provas e selecionou um pedaço da madeira podre do lugar situado sob as seções de história local. Abaixo, escolheu outro pedaço.

Por fim, saiu da biblioteca, passou o ferrolho e se assegurou de que o cartaz de fechado ficasse pendurado na portas da entrada. Não se dirigiu para casa. Queria ir a Washington. No caminho, chamou Shirley para avisar de que ia estar fora, embora podia chamá-lo pelo celular em caso de emergência. Não era uma viagem comprida. Embora já teria anoitecido quando retornasse.

 

— Olá.

Darcy estava sentada na sala de jantar com o Penny, tomando o chá com uísque, quando Clint entroucom toda pressa. Comoveu-a o carinho com que foi para ela, agachou-se e lhe deu um singelo, mas quente, abraço. Logo se afastou e, sem lhe soltar os braços, olhou-a aos olhos preocupado.

—De verdade, você está bem? — perguntou.

— Perfeitamente — lhe assegurou ela.

— Eu disse que deveria ir-se — disse Penny com firmeza. Depois levantou a xicara e deu um sorvo no chá.

— Pelo que aconteceu na biblioteca? — perguntou Clint com o cenho franzido.

— Eu acredito que o fantasma a está seguindo — disse ela.

— Seguindo-a? — repetiu Clint com incredulidade enquanto se sentava. — Como vai estar seguindo-a? Penny, isso é uma loucura.

— Sim?

— Não estou convencido de que haja fantasma algum — reconheceu Clint depois exalar um suspiro.

— Pois é um idiota — respondeu Penny.

Clint arqueou uma sobrancelha para Darcy, que o olhou sorridente.

— Penny, passei muitas noites nessa suite... Você me entende.

— Quantos anos tem, Clinton Stone? Mais de trinta, não é verdade?

— Penny...

— Faz tempo que deveria estar casado e ter sua própria família.

Clint elevou as sobrancelhas, surpreso.

— Algumas pessoas não são feitas para o casamento — respondeu sem mais.

— Algumas pessoas simplesmente não são amadurecidas e responsáveis! — replicou Penny, apontando para ele com um dedo.

— O que você queria. Deveria me casar... igual a Matt.

— Lavinia parecia uma mulher adequada para ele — murmurou Penny.

— Vê? — Clint olhou sorridente para Darcy. — Sempre há uma forma de escapar das reprimendas do Penny.

— Penny?, Darcy?, onde estão todos? — ouviu-se a voz do Carter do vestíbulo.

— Na sala de jantar! — respondeu Darcy elevando a voz.

Carter entrou imediatamente e, como Clint, foi direto para ela, agachou-se e agarrou uma mão com afeto.

— Está bem? — perguntou olhando-a nos olhos.

— Sim — Darcy sorriu. — E vou pôr um anúncio no jornal no que declararei sob juramento que não estou mal. E que não vou partir —acrescentou olhando para Penny.

— Partir? Por que iria partir? — perguntou Carter com o cenho franzido.

— Penny acredita que o fantasma a seguiu até a biblioteca e que quebrou as tábuas de madeira.

— Por que o fantasma ia fazer algo assim? — disse Carter, tratando de ocultar um sorriso. — Se supõe que Darcy veio para falar com ele.

— Adiante!, riam de mim! — grunhiu indignada Penny.

— Penny, não estou rindo de você — disse Carter, enquanto se sentava também na mesa. — Minha pergunta é por quê. Se houver um fantasma, pelo que não estou nada convencido, supõe-se que gostará de falar com alguém. Confessar seus pecados. Liberar-se da maldição que o faz vagar em pena, uivando e arrastando correntes.

— Nossos fantasmas nunca uivaram nem arrastam correntes —respondeu Penny.

— Penny, sinto muito, de verdade que não estou brincando —assegurou Carter, ao que parece estava custando um grande esforço não sorrir. — Mas não vejo a relação entre umas tábuas quebrados e o presumido fantasma da suíte Lee. Ou seja, quando se ouviu que um fantasma fica a viajar pelo país?               

— Quer saber o que de verdade acredito? – respondeu Penny.        

—Bem... não muito — respondeu Carter com suavidade sorridente.  

—Pois acredito que tanto Matt como vocês dois pensam que acreditar em fantasmas não é coisa de homens, assim negam a verdade — replicou ela, fulminando-o com o olhar. — Inclusive, embora Darcy tenha descoberto o crânio da pobre Amy em um dia, quando tinha perdido mais de cem anos! Ela não o admite, mas estou segura de que o fantasma lhe disse onde estava.               

— Ela Disse isso? — perguntou — Clint ao Darcy.     

Ela notou que ficava vermelha.            

Penny necessitava que a apoiassem, mas tampouco queria dar material a Clint e a Carter para que tirassem um sarro.        

— Foi um pouco de tudo: investigação, intuição e pode que alguma energia do passado — murmurou por fim.         

— Ouviram? — disse Penny.        

— A única coisa que vejo é que Darcy esteve estudando onde pôde ter acontecido o assassinato — respondeu Carter. — Vamos, Penny! Matt também ficou muito tempo nessa suite. Lembra? A Lavinia adorava. Parecia-lhe um lugar histórico e fascinante.

       — Sim, passou muito tempo lá com sua encantadora esposa —acrescentou Clint sorridente.

— E eu também o passei bem nessa suite — disse Carter.        

Penny os atravessou com o olhar.       

— O que aconteceu?, Por que não briga com Carter por sua vida de conquistador e mulherengo? — protestou Clint.          

— Ao menos este pobre se apaixonou pela Susan Howell — respondeu Penny, pondo uma mão sobre a do Carter.

— Susan Howell? — repetiu Clint. — E o que me diz do Catherine Angsley, Tammy não-sei-quem, Gina Danson e Glynnis Qualquer-coisa?

— Pare! — protestou Carter.

— E ele ao menos se importava com Susan de verdade — insistiu Penny.

— A questão é que, machos ou não, todos os homens desta casa passou muitas noites nessa suíte e nunca aconteceu nada. Uma noiva assustadiça que queria ver fantasmas se assustou a meia-noite. Clara Issy se sobressaltou enquanto limpava. E Darcy é caça-fantasmas, assim não conta. Me perdoa, Darcy — se desculpou em seguida.

— Possivelmente seja um fantasma misógino — disse Clint rindo.— Há cavalos aos que lhes passa o mesmo. E cães. Alguns têm preferências muito claras a favor dos homens ou das mulheres. Lembra da pastora alemã que tínhamos faz uns anos? Gracie. Desprezava aos homens, mas se transformava em uma gatinha assim que se aproximava de uma mulher.

— Sim — concordou Carter. — E s lembram do cachorrinho que tinha Lavinia?

— Lhasa Apso — disse Clint.

— Isso. Era uma coisinha adorável... até que um homem se aproximava para acariciá-lo. Então mostrava os dentes e não parava de latir.

— Matt deveria haver dado conta de que não podia casar-se com Lavinia depois de ver seu cão.

— O que diz! Todos pensávamos que estava apaixonados — recordou Carter.

— Estão desviando do assunto — disse Penny.

— Não sabia que estivéssemos tratando um assunto — respondeu Clint.

— Não nos desviamos, Penny — disse Carter. — Ao contrário, resolvemos o mistério. Temos um fantasma que não gosta das mulheres. Pode ser que seja uma fantasma e tenha ciúmes das garotas bonitas.

— Clara Issy adoraria saber que a considera uma garota bonita —respondeu Penny.

— Clara é um céu — respondeu Clint.

— Mas não pode dizer-se que seja uma menina — retrucou Penny.

— De qualquer forma, para mim é absurdo relacionar um acidente na biblioteca com um fantasma malvado do Melody House, existente ou não —sentenciou Carter.

— E, em qualquer caso, não penso partir a menos que me expulsem —disse Darcy e ficou de pé. — obrigada a todos por sua preocupação. Penny, como a biblioteca vai estar fechada, posso dar uma olhada nos livros que há na casa?

— É obvio, carinho. Pode utilizar meu escritório como se fosse seu —disse Penny. — Mesmo assim, preferiria que se fosse.

— Não acontecerá — disse Darcy sorridente. — Eu prometo.

— Jantamos às sete — anunciou Penny.

— Aqui estarei — assegurou Darcy justo antes de dirigir-se ao escritório de Penny.

A mulher tinha um dom de organização, pensou Darcy enquanto examinava as estantes. Os livros, as lendas, as histórias, os arquivos, tudo estava posto cronologicamente primeiro e depois por ordem alfabética. Permaneceu vários minutos sentada na poltrona do escritório de Penny, dando uma olhada nas estantes e dando voltas no que tinha ocorrido na biblioteca. Não acreditava que o fantasma da suite Lee fosse realmente mau; simplesmente devia estar frustrado. E Carter e Clint tinham reparado em um ponto importante: o fantasma só se apareceu para as mulheres.

O que significaria? Não tinha a menor ideia. Precisava ficar e se apressar.

Levantou e escolheu um volume que contava a história dos primeiros anos do Stoneyville. As primeiras páginas resultavam áridas, pois não incluíam mais que dados sobre os materiais que se utilizaram para construir os edifícios da cidade. Depois, de repente, narrava a triste historia do Melody, que tinha morrido nos braços de seu amante.

Melody foi sepultura em um funeral cristão. Seus pais lamentaram sua perda até seus últimos dias. De modo que o fantasma não parecia que fosse dela. Além disso, Melody nunca tinha dormido na suite Lee. Sempre tinha ocupado a suite Jackson.

Seguiu lendo e passou por cima de um montão de páginas com listas de nascimentos, mortes, batismos e casamentos. Entretanto, ao chegar a 1777, encontrou uma menção a um acontecimento misterioso. Ao parecer, os Stone tinham tido muitos filhos fora do casamentoo. Arabella Latham, a bisneta do irmão do construtor, Malachi Stone, nascido fruto de uma união ilícita, zangou-se com sua família por sua participação durante a Revolução. Malachi Stone morreu antes de que a casa estivesse terminada e se dizia que tinha emprestado muito dinheiro a seu irmão para que terminasse a casa. Seus herdeiros, legítimos ou não, ficaram sem um centavo.

Arabella, entretanto, envolveu-se em uma aventura apaixonada por Regam Stone, um primo legítimo do então proprietário da casa, Ryan Stone, e passava os dias ali, tomando o sol. Talvez quisesse herdar a casa e usar Regam para aproximar-se de Ryan. Este, em troca, estava apaixonado por uma jovem chamada Mary Anderson, que desafiou a sua família indo viver com ele. Arabella ficou furiosa ao inteirar-se de seu casamento e se convenceu de que devia convencer Regam d casar-se ela também. Ryan teve que alistar-se no exército para ir à guerra. A fim de estar junto a seu amado marido, Mary o seguiu por todo o país enquanto ele lutava.

Em algum momento daquela época, a ambiciosa Arabella desapareceu. Regam teve que ir à guerra e morreu no Monmouth. Ryan Stone, em troca, sobreviveu à guerra e retornou com sua amada Mary, que lhe deu nada mais e nada menos que onze filhos, dez meninas e um menino, o qual se transformou no herdeiro da casa.

— Arabella! — murmurou Darcy.

Fechou os olhos e esperou, tratando de abrir o máximo possível a mente. Pensou nos sonhos e as visões que a tinham tido. O homem que entrava na casa. A mulher que esperava. Fazia sentido, pensou. Se Arabella queria casar-se para tornar-se herdeira e Regam Stone só estava interessado em tê-la como amante, teriam discutido. E se eram tão apaixonados como a história contava, teriam sido discussões muito quentes.

Arabella conheceria segredos de seu amante com os que poderia chantageá-lo. Possivelmente tinha se transformado em uma carga para ele.

Um batida na porta a sobressaltou.

— Sim? — perguntou Darcy.

— Olá, esta aqui a muito tempo — disse Carter depois de por a cabeça para dentro da porta. — O jantar está pronto. Deram-lhe um bom golpe. Pode que não tenha quebrado nada, mas seria bom que conseguisse descansar.

— Obrigado, Carter — disse Darcy enquanto ficava de pé. Carter esperou na porta. Depois, quando Darcy estava a seu lado, passou um braço ao redor do ombro fraternalmente.

— Não está assustada, certo?

— Nem um pouco.

—Me alegro. Porque é impossível que o acidente da biblioteca esteja relacionado com os fantasmas daqui.

—Totalmente de acordo — assegurou Darcy. — Eram as tábuas, que estavam velhas.

Enquanto percorriam o corredor até o vestíbulo, abriu-se a porta de entrada. Matt estava de volta, tinha posto o uniforme. Darcy se sentiu um pouco estranha ao advertir como olhava o perto que estava de Carter. Possivelmente este também notou seu olhar, porque tirou o braço de seus ombros.

— Olá, agente esforçado — o saudou Carter. — Chega bem a tempo para o jantar.

Matt assentiu com a cabeça e olhou para Darcy.

— Você está bem?

— Não posso estar melhor — respondeu ela, fazendo um esforço por não explodir. — recordo que foi você que suportou todo o meu peso.

— Como não!, o delegado sempre tão valente! — disse Carter em brincadeira, embora Darcy parecia captar certa inveja em sua voz. — Claro que Darcy está bem. Depois de ter caido e nos braços de um homem forte e musculoso, verdade, Matt?

— O que você quiser — respondeu ele secamente.

— Matt!, que alegria! — exclamou então Penny, que acabava de sair ao vestíbulo. — Chegou a tempo para o jantar. Onde tinha se metido? Não atendia o celular e Shirley me disse que tinha saído da delegacia de polícia.

—Tinha que me ocupar de um assunto fora — respondeu Matt sem entrar em detalhes. — Podem começar o jantar sem mim. Vou tomar uma ducha rápida e me trocar. Se me desculpam — disse e subiu as escadas antes de que alguém pudesse responder.

— Bem, senhoritas? — Carter ofereceu um braço a cada uma.

—De verdade, Clint e vocês podem ser uns degenerados — disse Penny sorridente. — Mas também podem ser os homens mais encantadores.

—Tentamos ser encantadores — Carter olhou para Darcy e ofereceu o braço que ficava livre. — Vamos, me ajude a ser encantador.

Darcy sorriu e aceitou o braço.

— Deveria tirar essa barba, Carter — disse Penny então.

— Demorou muito conseguir que crescesse — respondeu ele.

— Mesmo assim, ficará muito mais bonito sem ela — replicou Penny.

— Mas sem ela não pareço com Jeb Stuart! — protestou Carter.

Penny suspirou e virou para Darcy:

— Diziam que Jeb Stuart deixava a barba quando estava no West Point, mas não porque ficasse bonito, mas sim porque lhe tampava a cara. Por isso que deixou crescer a barba. Mas em seu caso é ao contrário, Carter. Tem um rosto bonito. Deveria tirar a barba. Você o que diz, Darcy?

— Eu acredito — disse esta encolhendo os ombros — que toda pessoa deve fazer aquilo que lhe traz prazer.

Carter a olhou e sorriu.

— Esse é a essência de tudo, não é? Todos temos que fazer o que nos faça sentir felizes.

— Enquanto vivemos... e quando estivermos mortos — disse Penny. Logo sentiu um calafrio. — Darcy, sabe que gosto de você, mas quem dera partisse. Estou tão preocupada com você.

— Penny, há uma expressão que não é muito agradável, mas acredito que vem ao caso — respondeu Darcy. — Não vai passar, assim se acostume. De modo que já sabe: não vou, assim pode se acostumar.

Clint saiu da sala de jantar.

— Vocês me perdoem, mas o jantar está na mesa — anunciou.

— Já vamos — Penny foi até Clint e lhe acariciou uma bochecha. — Mas podemos esperar um minuto. Matt chegou. Está tomando banho e trocando-se.

— Então diz você ao cozinheiro — respondeu Clint.

Clint e Penny puseram-se a andar. Darcy fez gesto de segui-los.

Mas Carter a deteve.

— Darcy, há algo que me inquieta, e isso que eu não acredito em fantasmas. Mas possivelmente deveria pensar...

— A que se refere? — perguntou Darcy.

— Não sei. É uma sensação. Não acredito que haja um fantasma te perseguindo. Não acredito absolutamente. Mas...

—Mas?

—Sim tenho a sensação de que aqui você corre perigo — respondeu Carter. Tinha falado devagar, como se lhe custasse entender o que estava sentindo. Depois apagou a expressão de preocupação de seu rosto. — É muito bonita. Assim já imagina que por nós pode ficar toda a vida. Mas não como um fantasma, não é? Queremos que fique entre os vivos. Enfim, não sei o que digo. Vamos, princesa! O jantar está esperando.

Darcy agarrou o braço do Carter e caminhou com ele até a sala de jantar.

Então se sobressaltou.

Notou um calafrio pelas costas. E um estranho puxão... Como se alguém estivesse tentando afastá-la de Carter. Retê-la. Ficar com ela ali... A sós.

 

— Parece que as análise confirmam que o crânio é da pobre Amy, que tem um século correndo pelo bosque atrás de sua cabeça — disse Clint enquanto se servia mais purê de batatas. — O que significa que faremos uma cerimônia para enterrar o crânio com o resto do cadáver, não? —acrescentou olhando ao Matt.

— É obvio! — adiantou-se Penny.

— Não sei, deveria ser um ato discreto — comentou Matt. — Se celebrarmos uma cerimônia, começarão a vir jornalistas de todas partes e farão uma tempestade em um copo de agua.

— Matt, por favor! — exclamou desgostosa Penny.

Talvez estivesse exagerando, embora em parte tinha razão. Às pessoas adorava esse tipo de histórias. Possivelmente o New York Time não cobrisse a notícia, mas com certeza haveria muitos jornais menores que correriam para noticiar um assunto assim.

— Tampouco seria tão terrível. Estaria bem. Seria uma bonita forma de pôr fim à história — comentou Carter. — E os jornalistas teriam que escrever que por fim o fantasma descansa em paz. E que o bosque já não está encantado, não é, Darcy?

— O crânio deve ser enterrado com o resto do corpo — disse Darcy enquanto pegava o garfo. — E estaria bem celebrar uma missa oficial. Que seja algo íntimo ou aberto a todo o público não importa.

— Na verdade nada importa — disse Matt. Parecia irritado. O que era normal, dado que ele não acreditava em fantasmas.

— A questão não é se o fantasma da Amy esteve percorrendo o bosque ou não — disse Darcy, escolhendo as palavras com cuidado. — Enterram as pessoas em sinal de respeito pela vida que viveram e pelos seres queridos que deixaram para atrás. É verdade que Amy já não tem familiares vivos no lugar, ao menos que saibamos, mas em seu momento foi um ser humano. Uma garota desafortunada, tendo em conta como a assassinaram. Em minha opinião, deveríamos enterrar o crânio com o resto do corpo.

Matt pensou uns segundos antes de responder:

— Podemos enterrar o crânio perto de seu corpo. Mas Amy foi enterrada faz mais de um século. Ou seja no que estado está agora. O caixão seria de madeira, assim estará deteriorado. Mas sim, suponho que o correto é enterrá-la, assim faremos o que possamos — Matt olhou ao redor da mesa. — Vão a qualquer museu e já verão quanto restos encontram. A morte é a morte. Se seriamente existir alguma vida depois da morte, diria que está demonstrado que não necessitamos do corpo quando chegamos a ela.

— Matt, é tudo menos romântico — protestou Penny.

— O que tem de romântico em um assassinato?

— A satisfação de poder enterrá-la inteira depois de tantos anos —respondeu Penny com firmeza.

— Enterraremos o crânio perto do corpo, fique calma — disse Matt com cara chateada.

— E haverá uma cerimônia? — insistiu Penny em tom suplicante.

— O que você quizer, Penny. O que você quizer — rendeu Matt.

— Ouça, vocês alguma vez ouviu algo de uma mulher chamada Arabella? — perguntou então Darcy para mudar de conversa.

— Sim, há uma história sobre a Arabella — disse Penny. — Ao que parecer, era a filha bastarda de um Stone e tentou seduzir ao herdeiro legítimo, faz séculos. Muito maquinadora, ambiciosa, e todo isso. Mas ele estava casado com outra. E ela desapareceu, por quê?, tem lido algo sobre ela?

— Sim, agora mesmo, no escritório.

— Que eu saiba, não teve uma morte violenta — comentou excitada Penny.

— Mas desapareceu. Possivelmente a assassinaram. Poderia ser o fantasma que habita a suíte Lee.

— Se me desculparem — Matt se levantou. — Acredito que necessito tomar um pouco o ar.

— Matt! — queixou-se Penny.

Ele não respondeu. Pegou a cadeira à mesa e virou para Darcy:

— Está segura de que está bem?

Tinham conseguido ficar todo o jantar sem mencionar o incidente da biblioteca. Darcy suspirou.

— Estou bem — respondeu depois de suspirar.

— Se sentir cansada, se deite.

— Darcy, Matt tem razão — disse Clint.

— Estou bem — insistiu ela.

— Estou de acordo: para mim está muito mais que bem — brincou Carter.

Matt deu a volta e saiu da sala. Penny pôs as mãos sobre seu colo e voltou a olhar ao Darcy.

— Arabella! Já sei no que está pensando. Desapareceu... Porque a mataram. Assassinou-a seu amante, o traidor. Na suite Lee!

— Algo assim — disse Darcy.

— Nunca se encontrou seu cadáver — objetou Carter.

— E daí? Qualquer um que conhecesse o lugar podia desfazer-se dele. Antes não havia provas forenses nem a tecnologia de hoje — disse Penny. — Vejo todas as séries de investigação e polícia científica e sei muito disto —acrescentou olhando para Darcy.

Esta baixou a cabeça para ocultar um sorriso. Logo se dirigiu a Carter: —Temo que ainda hoje, com toda a tecnologia disponível, seguem desaparecendo muitos corpos. Muitos assassinatos ficam impunes.

— Suponho que sim — disse Carter encolhendo os ombros. — Por mim, podem julgar que aconteceu um crime. Se me desculparem, vou sair para jogar uma partida de bilhar. Alguém se arisca? — perguntou esperançoso.

— Esta noite não — respondeu Clint.

—Tem certeza? E você, Darcy?

— Não, obrigada — Darcy negou com a cabeça. — Talvez manhã.

—Não ponha essa cara de cachorro perdido — disse Clint rindo. — entendi que Delilah joga bilhar muito bem. Embora já saia que o Wayside está muito animado com ela.

— Pode ser que esteja, pode ser que não — respondeu Carter.

— Por que não a convida para sair diretamente? — sugeriu Darcy.

— Sim, já que não consigo nada te seguindo como um cachorrinho mulherengo, talvez a convide para sair.

Darcy sorriu. Estava convencida de que Carter brincava, mas se sentiu um pouco incômoda.

— Então, acredita que devo chamá-la para sair? — perguntou ele, sorridente, piscando um dos olhos.

— Me parece um bom plano — respondeu ela.

— Muito bem. Pensarei nisso. Enquanto isso, vou jogar uma partida, de qualquer jeito — disse e se despediu.

— Vá! — exclamou de repente Penny. — Me esqueci de pedir a ele que me ajudsse a recolher a louça do jantar.

— Eu ajudo e a recolheremos em dois minutos — disse Darcy, que ficou de pé e começou a empilhar os pratos.

Clint se levantou com ela.

— Suponho que eu não fugi a tempo — brincou.

— Jovenzinho trabalha um pouco — disse Penny enquanto agarrava uma caçarola e a levava a cozinha.

Darcy esfregou os pratos e Clint os secou. Terminaram e Matt não tinha retornado ainda.

Darcy se desculpou. Estava ansiosa por voltar para a suite Lee.

Uma vez lá, acendeu a luz enquanto fechava a porta. Olhou ao redor, fechou os olhos e tratou de encher-se das sensações que pudessem surgir.

A suite parecia tranqüila, silenciosa. Vazia.

— Arabella? — chamou-a em voz baixa. — Se cometeu alguma injustiça, podemos fazer com que se saiba. Não tem por que ser hostil. Estamos tentando te ajudar.

Não obteve resposta. Nenhuma brisa, nenhuma voz, nenhuma sensação de frio. Nada. O fantasma devia estar dormido. Duvidou uns instantes. Depois saiu para o terraço. Agarrou o corrimão e olhou a noite. Estava linda. Essa parte da Virginia era uma maravilha. Ao passar de uns minutos, voltou a entrar. Ligou o televisor e a surpreendeu que já tivessem começado os últimos programas da noite. Começou a despir-se para meter-se na cama, escolheu uma camiseta para dormir... e parou.

Matt iria vê-la. Tinha certeza.

Assim optou por uma camisola de seda azul claro, sentou-se na cama e olhou o televisor um momento, esperando. Mas essa noite a suite Lee parecia ausente.

— Não entendo nada — disse em voz alta. — É evidente que está procurando ajuda. Me deixe te ajudar. Ou só está zangada com os Stone pelo que te ocorreu, Arabella, e quer lhes fazer mal? Já não são as mesmas pessoas. Matt Stone não é o homem que te fez isto.

Mesmo assim... silêncio.

Suspirou, meteu-se na cama e se enrolou sob o lençol.

 

Matt não sabia de por que ficou no alpendre até tão tarde. Claro que mais de uma vez saía e sentava-se alí, sem fazer nada, contemplando a paisagem sob a luz da lua. Ajudava-o a ficar acalmo quando estava tenso. adorava Melody House. De fato, adorava Virginia. Era como se levasse nos gens a história desse lugar e a paisagem lhe devolvesse esse carinho em noites como aquela. Isso ou não queria ouvir mais tolices de Penny.

Carter tinha saído para jogar bilhar. Depois de um momento, Clint também se foi, alegando que estava um pouco nervoso e que sentiria bem ir ao Wayside.

Matt permaneceu fora um momento, depois entrou.

A casa estava em silêncio. Quem não tinha partido tinham ido prá cama.

Primeiro foi a sua suite, mas apenas ficou uns segundos. Saiu para terraço e, de novo, deteve-se uns minutos, vacilante, olhando a porta de Darcy. Estava fechada. Mas não acreditava que tivesse passado o ferrolho e não estava seguro de que se sentiria aliviado ou zangado quando confirmasse que tinha razão. Deveria fechá-la bem. Mas possivelmente tinha deixado a porta aberta para ele. Provou. Estava aberta. Devia entrar e gritar.

Matt entrou na suíte de Darcy, fechou e passou o fecho. Durante uns segundos, ficou quieto, de pé. Recordou que Darcy tinha tido um dia muito duro. Por muito que ela se empenhasse em aparentar que estava bem. Devia partir. Mas não ia fazê-lo. A televisão estava ligada, mas havia pouca luz. E Darcy estava dormindo. Aproximou-se da cama, avançando com sigilo.

Parecia uma heroína, com o cabelo vermelho sobre o travesseiro. Era alta, esbelta, de pernas longas, visíveis através da camisola. Sua postura oferecia uma bonita vista do decote. Seus braços agarravam o travesseiro de um modo... Nesse momento, Matt desejou ser o travesseiro.

— Darcy? — chamou-a com suavidade.

— Sim? — respondeu meio adormecida. Virou-se, abriu os olhos e sorriu ao ver Matt. — Olá, delegado Stone.

— Deixou o terraço aberto — disse enquanto se sentava junto a ela.

— Não é por presumir, mas supus que acabaria vindo — respondeu sorrindo mais ainda.

—Tem certeza... Certeza de que está bem? Depois do acidente de hoje — perguntou Matt.

Darcy continuou sorrindo. levantou e rodeou Matt com os braços, depois jogou a cabeça para trás e curvou as costas, enpinando o peito, como se o estivesse oferecendo.

— Muito bem. Quer que lhe demonstre? — perguntou com voz rouca.

Matt sentiu uma dor na virilha. Rodeou seu corpo com os braços, procurou os lábios de Darcy e a beijou. depois, sem separar-se de sua boca, despiu-se e procurou pontas do laço da camisola de Darcy. Desatou-o e o tirou por cima da cabeça. Por fim a apertou contra seu corpo, pele contra pele. Matt pensou que se afogaria com o doce aroma de seu sabão e a própria essência feminina de Darcy. Uma e outra vez, percorreu-a com as mãos sem deixar de saborear seus lábios. A excitação do contato era tão intensa que teve que se conter, tanto para ser um amante generoso como para prolongar a tortura do clímax.

Essa noite era Darcy quem tinha tomado a iniciativa. Espremia-o contra seu corpo, puchava-o, obrigava-o a ajoelhar-se e lhe beijava o torso. Suas mãos o acariciaram, apoderaram-se de sua ereção, na qual se entreteve até que Matt não agüentou mais e a fez rodar até ficar em cima dela. Seus corpos se uniram e começaram a mover-se com um ritmo vertiginoso, selvagem, doce e, finalmente, cru e explosivo. A força do clímax os deixou sem fôlego. Seus corpos tremiam, o coração pulsava descontrolado, nem sequer tinham forças para separar-se. Permaneceram unidos, caidos sobre a cama. Matt não queria soltá-la. Havia coisas que queria dizer e não podia. Em parte, desejou não havê-la conhecido, porque ele trabalhava com problemas reais e ela acreditava firmemente no que não existia. E além disso... Temia-a. Não porque fosse ruiva e elegante. Mas sim porque tinha algo... Algo, possivelmente, que desafiava todas suas convicções e punha a prova, portanto, suas forças.

Matt pensou em todas as mentiras que homens e mulheres trocavam na cama. Mas ela era muito fina para mentir. Mesmo assim...

— Fique calmo, não tem que dizer nada — disse ela. Matt ficou tenso. — Nunca esperei que fosse jurar amor eterno.

— Darcy...

— Não tem nada.

— Darcy...

— Digo que...

— Não, não me diga nada — a interrompeu Matt. — Só fique comigo. —Abraçou-a. Nenhum dos dois tentou falar de novo.

No sonho, ou em algum lugar escondido de sua mente, Darcy sabia que era outra pessoa. A mulher da habitação. No sonho anterior tinha conhecido à mulher e tinha tido conhecimento do princípio de uma cena com o homem. Principio ao que também se aproximou do ponto de vista do homem.

Essa noite voltava a vê-lo tudo com os olhos da mulher. Sentiu seu medo para ouvir o som. Perto, dentro da casa. Um ranger de madeira. A mulher parou, aguçou o ouvido e se perguntou por que um som tão corrente a assustava tanto. A casa estava acostumada a estar cheia de convidados. Essa noite não. E ao princípio se alegrou de que estivesse vazia. Nesse momento... Levantou-se, saiu da suite, correu para as escadas e olhou para baixo. cortou a respiração ao reconhecer o homem que havia no vestíbulo. Tinha entrado na casa. Ele pensava que tinha direito. Direito a tudo. E ela não. Era estranho: o homem a tinha olhado do vestíbulo muitas vezes. E tinha sorrido. Tinha contemplado a camisola dela e a tinha excitado só com seu olhar. Era um homem atraente, com bom corpo, sensual e transmitia força e segurança. Mas essa noite... Essa noite não sorriu.

Permaneceram se olhando uns segundos. Possivelmente uma eternidade. E então... Viu o que o homem levava nas mãos. E pelo modo em que o segurava, soube o que pretendia fazer. Quis pedir socorro, mas não gritou, pois sabia que ninguém a ouviria. Então começou a balbuciar, incapaz de acreditar na intenção com que ele tinha ido.

—Você... você me quer — murmurou. — Tem que... continuar me querendo. Não pode querer... não pode! As últimas palavras foram um sussurro. Uma súplica. Um intento de evocar tudo o que tinham compartilhado.

O homem continuou olhando-a. Não respondeu. Começou a subir as escadas. E ela fugiu. Primeiro correu à suite, em que tinha estado escrevendo. Mas ao tentar fechar, notou que o homem o impedia. Então viu o acendedor que estava pendurado na parede, agarrou-o com força e o golpeou na cabeça. O homem gritou e retrocedeu uns passos.

Aproveitou seu atordoamento para passar por ele e sair da suíte, desceu as escadas correndo. Arrastava a camisola branca. Escuridão total, uma nuvem de sombras envolveu as imagens.

Darcy estava acostumado a ver seus sonhos com certa nitidez. Às vezes, o desvanecimento das imagens despertava. E, outras vezes, o fato de despertar punha fim ao sonho. Era como se um instinto a avisasse para não ser testemunha de muitas coisas. Ou possivelmente lhe dava medo. Mas nesse momento não queria que a protegesse nenhum mecanismo de defesa automático. Mas... Estava-o perdendo. O sonho lhe escapava. Ia acordar.

Tentou evitá-lo. Sabia que tinha que ver o desenlace. Gritou em silêncio de pura frustração. Estava tão perto de conhecer o final! Tão perto de sentir o que a mulher havia sentido. Combateu tanto o medo de deixar escapar o sonho como o terror que a invadia. Levantou-se e pôs-se a correr para a porta gritando. Pensava que estava aberta. Chocou-se contra ela e despertou por completo.

— Darcy? — ouviu que a chamavam.

Sabia que Matt estava olhando-a, apesar de que lhe dava as costas. Sentiu uma profunda tristeza, pois sabia que ele a reprovaria com o olhar.

Virou-se, agarrou a camisola e a vestiu, saiu para terraço. Respirou fundo, deixando que o ar da noite enchesse seus pulmões.

Surpreendeu-a sentir as mãos de Matt sobre os ombros, sua presença cálida detrás dela.

— Está bem? — perguntou ele preocupado.

Darcy se perguntou o que teria feito enquanto dormia.

—Sim. Olhe, sinto muito, de verdade...

— Não, não o sinta. O que passou? — perguntou Matt. — O que foi?, ouviu algo?

— Não, nada. Só era um sonho.

— Conta-me..

— Não... não posso — mentiu. — Já esqueci.

— Darcy, por favor, conte

— Não posso. Apagou-se.

— Está bem. Então...

—Sei que não quer se misturar com isto... comigo. Não aconteceu nada, sério.

— Sério, Darcy, até te conhecendo como te conheço, apesar de ter visto o que vi, não estou certo em que acreditar. Mas eu adoraria que tentasse me contar algo mais.

Darcy deu a volta. Matt não a olhava com desagrado, tal como tinha esperado, a não ser com ternura. Por alguma razão, essa ternura a fez querer afastar-se. Matt não podia entendê-la. Seguia sem acreditar. Se acreditasse, ficaria com medo e se distanciaria.

— É muito difícil explicar algo que nem sequer eu mesma entendo —comentou.

— Eu entendo, mas me deixe te ajudar — Matt tirou uma mecha de cabelo que a brisa tinha levantado. — Sempre... você teve estas visões?

— Não.

— Então?

Darcy deu a volta de novo e se agarrou ao corrimão do terraço. A lua brilhava e, ao longe, banhava de azul as montanhas. O mundo inteiro parecia em paz. Só ela lutava uma batalha interna.

— Quando estava no colegial era muito amiga do filho do Adam Harrison, Josh. Era um garoto inteligente, divertido... encantador. Mas a maioria dos garotos o ignorava. Pensavam que era estranho. Não que ficava soltando profecias, mas havia momentos em que assustava um pouco. Sabia quando ia chover ou a nevar, quando se quebraria o gelo dos lagos quando estavam congelados. E outras coisas. De repente, ficava estudando para um exame quando não nos tinham avisado de que iriam fazê-lo, e ao entrar na classe nos pegavam de surpresa. Também adivinhou que o marido da professora Malone ia morrer. Não sabia tudo... não é que tivesse uma bola de cristal. Mas sim que havia ocasiões em que sabia coisas que não havia forma humana de antecipar.

— Agora que me dice, lembro que Adam tinha um filho, sim. Na verdade, Adam era mais amigo de meu avô — comentou Matt. — Onde está seu filho agora, Trabalha também para ele?

Darcy negou com a cabeça.

— Josh morreu.

— Há! Sinto muito — disse ele. — E… o que aconteceu então?

Darcy encolheu os ombros.

— Tivemos um acidente. Eu levava todo o colegial saindo com um garoto, mas rompemos justo antes da festa de formatura. Pedi o Josh que fosse ao baile comigo. Foi incrivel, mas Hunter tinha um idiota de um amigo e, depois do baile, enquanto voltávamos para casa, decidiu perseguir Josh com o carro para lhe dar um susto. O amigo do Hunter morreu também. Eu sobrevivi. e...

— E? — apressou-a ao ver que Darcy não continuava falando.

—No funeral, tive a sensação de que Josh me falava, de que podia vê-lo. Foi muito estranho, porque ele sabia que ia morrer. Mas me disse que não me preocupasse. Depois... bom, comecei a adivinhar coisas. Sabia onde estavam coisas que outros tinham perdido. No princípio não era tão mau. Só eram detalhes. Quanto às minhas conversas com o Josh, pensava que estava inventando, porque me recusava a aceitar a morte do Josh.

— Mas não estava inventando — disse isso ele com suavidade, olhando-a com curiosidade, em vez de com a hostilidade inicial.

— E comecei a ver outros fantasmas — afirmou sem rodeios.

Matt esboçou um ligeiro sorriso. Custou-lhe não rir dela.

— Que fantasmas?

— Como te disse, fui à Universidade de Nova Iorque — respondeu Darcy encolhendo-se de ombros.

— E?

— Um dia, ia andando por uma igreja muito antiga que havia perto de onde eu vivia, me encontrei com uma mulher. Parecia muito nervosa e embora meus pais já me tivessem pedido para não falar com desconhecidos, notei-a tão inquieta que lhe perguntei se tinha se perdido ou se podia ajudá-la em algo. A mulher me olhou como se tivesse visto um fantasma e me perguntou se de verdade podia vê-la. Disse-lhe que sim, claro, é obvio que podia. Tocou-me um ombro e pareceu como se fosse chorar e, ao mesmo tempo, muito aliviada. Então me rogou que encontrasse a sua neta, Charisse, e que lhe dissesse que os diamantes estavam na boneca da Shirley Temple. Disse-me que a neta estava na igreja nesse momento, mas que ela não podia vê-la. Pensei que estava perturbada e tratei de tranqüilizá-la. Assegurei-lhe que sua neta podia vê-la e que só tinha que falar com ela. Mas a mulher sacudiu a cabeça e ficou tão violenta que acabei lhe prometendo que entraria e falaria com a neta. Deixei-a na entrada e avancei uns passos para a igreja. Quando me virei, a mulher tinha desaparecido. Abri a porta e vi que se estava celebrando um funeral. Senti-me tola, assim saí em busca da mulher de novo. Mas não a encontrei. Voltei aonde vivia. Essa noite, enquanto dormia, despertei com som de um soluço. Quase me deu um enfarte. A mulher da igreja estava sentada aos pés de minha cama. Levei-me um susto que me pôs a tremer. Nem sequer podia gritar. Estava apavorada. Então, foi como se me esquecesse de meu próprio medo. A mulher chorava tão desconsoladamente que estirei um braço para acariciá-la. Olhou-me e me disse que tinha prometido falar com a Charisse, que sua neta sempre a tinha ajudado e não tinha nada; mas que não se importava, porque ela sabia que ia morrer e então sua neta poderia vender os diamantes e não faltaria dinheiro para seus filhos. Disse que Charisse se preocupou por ela quando outros se desentenderam. E isso apesar de que seu marido, Ben, morreu em um acidente de trem e a tinha deixado com três filhos para alimentar. Rogou-me que a ajudasse, que Charisse não podia ouvi-la. Então, de repente, tive a certeza de que a mulher estava morta e de que, de algum jeito, estava-me comunicando com ela como se fosse real.

— Possivelmente estava sonhando —bdisse Matt em tom neutro, sem dar a sensação de que a tomava por uma louca.

— Possivelmente. Mas a coisa não acaba aí — respondeu Darcy. — De repente, Josh estava também ali. Foi como se aparecesse atrás da mulher. E o via tão claramente como quando íamos ao colégio e nos encontrávamos na cafeteria. Josh me disse que a mulher necessitava de ajuda. Que ela podia comunicar-se comigo, mas não com sua neta. Que eu lhe fizesse esse favor.

— Assim disse para Josh que encontraria à neta — murmurou Matt com pouca convicção.

— Não — sorriu ela.

— Então?

— Não me lembro. Na manhã seguinte despertei, convencida de que tinha sido um sonho. Mas algo dentro de mim me fez duvidar. Voltei para a igreja e perguntei ao sacerdote se no dia anterior tinham celebrado um funeral ao que tivesse assistido uma mulher chamada Charisse. Disse-me que sim, que uma jovem chamada Charisse Whittaker tinha participado dos preparativos do funeral de sua avó, Lanie Beacon. Perguntou-me se era uma amiga de Charisse. Disse que não exatamente, mas que tinha conhecido a Lanie. Pareceu surpreso, pois parecia que Lanie estava a muito tempo doente. Perguntei-lhe se podia deixar uma nota para Charisse e escrevi que procurasse os diamantes na boneca de Shirley Temple. Prometeu-me que a entregaria.

— Ele Fez? — perguntou Matt.

Darcy assentiu com a cabeça. Matt não a estava tocando. Estava apoiado contra o corrimão, escutando-a, como se estivesse contando uma historia qualquer do passado.

— E então?

—Três dias depois, Charisse me ligou. Estava quase histérica de contente. Não sabia como me agradecer, ao que parece. encheu-se de dívidas pagando os remédios e o funeral de sua avó. Lanie tinha perdido a cabeça bastante antes de morrer, assim apenas tinha falado a Charisse de suas jóias. A neta sabia que tinha algumas, mas não tinha conseguido encontrá-las. Ao que parece, Lanie tinha uma pequena fortuna em jóias, presentes que sua mãe tinha feito de uns antepassados russos que tinham formado parte da nobreza. O caso é que Charisse estava muito agradecida e me perguntou como tinha sabido da boneca. Contei-lhe a verdade. Não deu a impressão de que desconfiasse. Seguiu me agradecendo e me perguntou se queria algum tipo de recompensa. Disse-lhe que não e que esperava que todo ficasse bem com seus filhos e com ela.

— Não quis te conhecer para te dizer obrigado? — perguntou Matt.

— Foi muito agradável... por telefone — Darcy não pôde evitar sorrir. — Mas não mostrou a menor intenção de me conhecer. Eu acredito que tinha medo.

— E depois?

— Depois... aconteceram-me mais coisas. Naquele tempo me interessava o mundo do teatro. Ia à universidade e, apesar do que tinha acontecido na festa de formatura, pensava que minha vida era perfeita. Estava contente. Vivia em Nova Iorque, a cidade das oportunidades. Saiu-me um trabalho em tempo parcial para a MTV, começaram a me chamar para desfiles de modelos. Ganhava bastante para ser estudante. Até que uma noite sonhei que estava com uma amiga no funeral de seu irmão. Foi tão real que no dia seguinte disse a minha amiga que sentia muito. Ela não soube a que me referia. Então me dei conta de que tinha sido um sonho. Mas o irmão da garota morreu umas semanas depois em um acidente em uma lancha. É obvio, fui ao funeral. E embora tenha aceitado minhas condolências, notei em seus olhos que ela não queria me ter perto. Para ela, era como se eu... tivesse provocado o acidente de algum jeito. Coincidia com que estava saindo com um rapaz. Estávamos namorando sério. E rompemos essa mesma noite. Senti-me mall. Como se eu fosse uma pessoa emprestável. No dia seguinte fui ao cemitério e embora não cheguei a ver o Josh, sei que o ouvi. Senti como se estivesse me fazendo companhia e me disse que tinha que ir ver seu pai. Recordei o amável que Adam tinha sido comigo no funeral do Josh. De repente, juro que me pareceu ver um desfile de fantasmas pelo cemitério. Lembro-me sobre tudo de um homem. Ia com um uniforme, embora não sei do que. Aproximei-me de sua tumba e vi que tinha morrido em 1780, pois estava escrito a data na lápide, mas consegui decifrar umas palavras. Dizia que era um herói da revolução. Assim comecei a dizer o agradecida estava toda a nação por tudo o que tinha lutado para nos dar a liberdade. O homem sorriu e desapareceu. Deixei de me sentir mal, assim no dia seguinte, fui em busca do Adam Harrison.

— E te disse que não estava louca, mas sim tinha um dom especial —disse Matt com um tom de voz que podia ser cético ou não.

— Esse dia não — respondeu sorridente Darcy. — Pôs-se a chorar e me perguntou pelo Josh. Disse que seguia como sempre, amável e disposto a ajudar os outros. Pediu-me que da próxima vez que o ouvisse ou visse dissesse o muito que o tinha amado e quanto tinha sido feliz com ele. Depois me disse que voltasse outro dia. Então começamos a colaborar. Voltei, realizei todo tipo de provas e conheci outras pessoas que trabalhavam para ele. Gente que tinha tido experiências similares às minhas e outras pessoas com outras... capacidades extrasensoriais. Pensei em deixar a universidade, mas Adam me sugeriu que terminasse. Disse-me que continuaríamos em contato e que me ofereceria um trabalho em tempo integral quando voltasse. Mas minhas inquietações tinham mudado. De repente, queria estudar Psicologia, para melhorar minha relação com quem tinha conflitos. E logo me interessou a História, a Arquitetura... Sou boa estudante. Não acredito que tenha um coeficiente intelectual prodigioso, mas sempre tirei boas notas. Assim estudei, tirei os diplomas que me interessavam... e voltei para o Adam.

Matt ficou calado, olhando-a. Possivelmente esperava que Darcy seguisse falando. A brisa seguia acariciando-os. Não havia mais que contar. E Darcy se surpreendeu ao dar conta de quanto estava nervosa pela reação que Matt pudesse ter. Inquietava-a que pudesse abandoná-la. Não nesse momento, imediatamente. Matt era um cavalheiro. Mas discretamente...

Darcy não queria dar importância. Sabia que não devia ter começado uma aventura com o Matt; que quando se mostrava para os homens, estes saíam espantados. Era consciente de que sempre ia assustar os outros.

— E? — murmurou Darcy já que Matt não dizia nada.

— Tem que ser reconfortante saber que ajuda a alguém — respondeu Matt. — Embora esse alguém esteja morto.

— Está zombando de mim? — perguntou ela na defensiva.

— Não.

— Mas você não acredita em fantasmas nem em feitos paranormais.

— Não posso dizer que seja um crente convencido — respondeu Matt sorridente. — Que, de repente, eu vá me pôr de joelhos e jurar que estava errado.

—vEntão?

— Acredito em você — disse ele.

A brisa soprou.

Devia ter entendido mau.

— O que disse? — sussurrou Darcy.

Matt se aproximou e a estreitou entre seus braços. Acariciou-lhe o queixo com o polegar. Olhou-a nos olhos.

— É uma mulher especial.

— Se não estar convencido de que há um mundo mais à frente do que este que vivemos, pensará que sou uma mentirosa — disse ela elevando o queixo. — Ou que estou louca.

— Não seria a primeira vez que se encontra uma explicação lógica para o que não parecia haver em princípio — respondeu Matt.

— Precisa de uma explicação científica para tudo?

— Talvez.

— E, entretanto, acredita em Deus e em uma vida superior — o desafiou ela, sorridente.

— Sim — respondeu ele depois de uns segundos de vacilação.

— E como explica Deus?

— Poderíamos nos enredar em uma discussão sobre o elo perdido, Darwin e muitas coisas a mais — disse ele.

— Mas você não consegue entender o que eu tento te explicar: nem tudo o que existe é visível. Deus não é visível. Assim... se houver um ser superior, a realidade pode ser mais ampla do que estamos acostumados a pensar.

— Que tal se eu disser que tentarei ter uma mente mais aberta? —perguntou Matt.

— Que tal se disser que é incrível? — respondeu Darcy sussurrando.

—De uma coisa eu estou certo — disse ele.

— Sim?

— É uma força da natureza — disse ele e Darcy sorriu.

Matt a levantou em braços e ela passou os braços ao redor de seu pescoço.

— Sinto-me bajulada — assegurou Darcy.

Matt retornou a suite.

Quando Darcy dormiu, caiu em um sonho tão profundo que não teve indício da menor visão.

 

— Adam!

Darcy ficou assombrada quando desceu as escadas na manhã seguinte e se encontrou com Adam Harrison na sala de jantar, compartilhando um chá com Penny.

— Aqui está minha garota! — Adam ficou de pé e sorriu para receber com um abraço de Darcy, que corria entusiasmada a seu encontro.

— Não sabia que vinha — disse ela quando se separaram. — Pensava que estava ocupado em Londres.

— E estava, mas parece que esse assunto terá que ser resolvido depois — respondeu Adam. — Não tive notícias sua, jovenzinha —acrescentou, como se estivesse lhe dando uma bronca.

— Adam, é você que tem um telefone celular para falar de qualquer parte do mundo. Podia ter me chamado você também — replicou ela sorridente.

— Sabe que sempre procuro deixá-la à vontade, exceto quando me chama para dizer que precisa de minha ajuda — disse Adam encolhendo os ombros.

— Por acaso mandei lhe uma mensagem telepática sem me dar conta? — perguntou Darcy arqueando uma sobrancelha.

— De verdade, pode fazê-lo? — perguntou Penny maravilhada.

Darcy riu e olhou para Penny sem deixar de sorrir.

— Não com certeza, não — lhe disse.

— Tudo é possível — assegurou Adam a Penny. — Mas não, vim porque, como disse, a situação em Londres se complicou e terei que resolvê-la em outra ocasião. E dado que o avô de Matt e eu éramos grandes amigos, pensei que devia vir para te dar apoio moral.

— Apoio moral? — perguntou Penny. — Mas você é o chefe da Investigações...

— Sim, mas não tenho nem a metade do talento que Darcy têm —assegurou Adam. — Me disseram ontem que teve uma queda espantosa —acrescentou, olhando Darcy com preocupação.

— Não foi nada. Umas tábuas podres. E nem sequer acredito que minha vida estivesse em perigo, no muito, poderia haver quebrado uns ossos.

— Alguma intuição a respeito? — perguntou Adam.

— Não acredito que nenhum fantasma tenha me atacado na biblioteca, se for isso a que se refere — respondeu Darcy. — A madeira estava podre. Ponto.

— Cento... Por certo, Penny me contou que levaste a cabo um achado estupendo no bosque — disse Adam.

— Não estou certa de se todo mundo consideraria que um crânio é um achado estupendo — respondeu Darcy sorridente.

— Uma pobre menina, assassinada brutalmente, poderá descansar em paz a partir de agora — disse Adam com um tom triste e sério ao mesmo tempo.

— Celebraremos uma cerimônia, fique Matt, querendo ou não —assegurou Penny.

— Matt não quer montar nenhum circo — disse Darcy.

— Perdão — disse Penny ao mesmo tempo que ficava de pé —, estava tão encantada com a chegada do Adam que me esqueci que seu café da manhã. Quer um café, coração?

— Penny, já sou grande. Sei como preparar um café — disse Darcy.

— Mas Penny é a perfeita anfitriã sulista — comentou Adam, lançando um olhar como que dizia para deixar que Penny lhe servisse o café.

— Eu o faço encantada — assegurou esta.

— Então, aceito mais encantada ainda uma xicara de café. Muito obrigado, Penny — disse Darcy.

Em seguida, Penny saiu sorridente da sala.

— E então? — perguntou Adam com o cenho franzido. — O que está acontecendo aqui?

— Adam, garanto que não sei. Normalmente os espíritos se alegram de encontrar a alguém com quem comunicar-se. Aqui... não sei.

— Josh não pôde te ajudar?

Tinha passado muito tempo, mas Adam acabou aceitando a morte de seu filho. Sempre tinha sabido que chegaria, embora nunca tenha se sentido como Darcy, para explicar como sabia, se o havia dito Josh ou tinha intuído ele. Durante muitos anos, Darcy tinha acreditado que Adam sentia dor por ela poder comunicar-se com Josh, e ele não. Mas, dores a parte, Adam sempre tinha sido um homem muito amável.

— Não — respondeu por fim. — É muito estranho, como se não pudesse entrar nesta casa. Como se algo o impedisse. Ajudou-me com o crânio da Amy, pude ver como a tinham assassinado. Mas tentei me pôr em contato com ele daqui e nunca pude.

— Sim, é estranho — murmurou Adam.

Darcy encolheu os ombros. Abriu a boca, mas a fechou antes de dizer algo. Penny retornava com sua xicara de café.

— Viu Matt? — perguntou Darcy a Adam depois de dizer obrigada a Penny.

— Um segundo. Tinha pressa para chegar à delegacia de polícia.

— É muito bom delegado — disse Penny.

— Você devia tê-lo avisado quando me enviou aqui — disse Darcy a Adam.

— Venha, com certeza que no final acabaram se dando bem.

Darcy se alegrou de que Adam não possuísse poderes extrasensoriais, embora começasse a acreditar que tinha desenvolvido muito a intuição, pelo tom divertido que tinha empregado.

— Suponho que ele se alegrou ao ver-lo — respondeu ela sem mais. — No inicio não achou graça que tivesse me enviado em seu lugar.

— Sim, claro que não se alegrou na hora — disse Adam. — E também está inquieto contigo.

— Por que diz isso?

—Tem medo de que te aconteça algo se continuar aqui.

Darcy se sentiu indignada. A noite anterior tinha aberto o coração para Matt e este havia dito que tentaria estar com a mente aberta. No dia seguinte, parecia que queria tirá-la de perto dele.

— Caí por culpa de umas tábuas de madeira que estavam podres. E ele não acredita em fantasmas. Assim, por que...?

Adam elevou uma sobrancelha ligeiramente, e justo para indicar que Penny os escutava. Nunca falavam de suas investigações na presença de mais pessoas.

— Matt está convencido de que alguém está fazendo brincadeiras —disse Penny.

—Tentar matar ou ferir uma pessoa não é precisamente uma brincadeira — respondeu Adam.

— Não me diga nada. É Matt, que é assim — repôs Penny. — Tudo lhe parece suspeito. Também acredita que há alguém por trás das aparições da suíte Lee. Alguém vivo.

Darcy permaneceu em silêncio, inquieta. Porque, essa noite, também tinha estado convencida de que havia alguém vivo rondando pelo terraço.

— Já começou a uzar as câmaras e os sensores? — perguntou Adam.

— Não, já me conhece — respondeu Darcy. — Antes eu gosto de passar um pouco de tempo sem máquinas.

— Certo, mas não acredita que é momento de usá-las?

Darcy assentiu com a cabeça, ao mesmo tempo que pensava que era uma sorte que não tivesse colocado nenhuma câmara de vídeo até então.

— Chamarei o Jenner logo. Acredito que é de quem vamos alugar os vídeos — disse Adam. — E agora, se nos desculpas, Penny, eu gostaria que Darcy me mostrasse o bosque.

— É obvio! — assegurou Penny. — Vão!, vão! Façam seu trabalho!

— Obrigado, Penny — murmurou Darcy enquanto abandonavam a sala de jantar.

Saíram logo depois da casa. Tinham deixado para trás o estábulo e se achavam a certa distância de Melody House quando Adam tomou a palavra:

— O que acredita exatamente que esta acontecendo na casa?

— Está abarrotada de fantasmas — respondeu ela sorridente. — Há um soldado, com certeza. E é de paz, acredito. E pode ser que esteja contente vigiando o lugar. Em geral, o ambiente é agradável.

—exceto na suíte Lee.

— Sim... Embora também senti algo estranho na sala uma vez — Darcy encolheu os ombros, — Não sei o que acontece, Adam. Não tem sentido. Tenho lido muito. Pesquisei, Há uma mulher que tinha uma aventura com o herdeiro da casa faz muitos anos. Mas o herdeiro se casou com outra mulher e a amante, Arabella, desapareceu. Ao menos nos arquivos. Não forma parte das lendas que Penny sabe. Mas tentei estabelecer contato com ela... e não responde. Como Josh, com o que tampouco consigo me comunicar na casa, ou na suíte Lee. Já disse que é muito estranho. Arabella deveria querer que a encontrasse para que se saiba que a assassinaram... se é que é o que aconteceu realmente.

Adam permaneceu em silêncio enquanto caminhava.

— Acredita que corre algum perigo? — perguntou depois de uns segundos.

Darcy se voltou e o olhou nos olhos.

— Adam, sabe que às vezes me assusto porque experimento o medo de coisas que ocorreram faz anos. E sim, despertei-me sobressaltada, mas não é nada novo, e estou empenhada em seguir até o final. Acredito que Arabella foi assassinada nessa suite. Em sonhos, tive vislumbres do que aconteceu. Várias vezes experimentei o que ocorreu do ponto de vista da mulher e do homem que foi atrás ela.

— Viu-lhes o rosto?

— Ainda não. Vi ele aproximando-se da casa. A ela, só a princípio, depois quando se dava conta de que ele tinha entrado — Darcy deu de ombros. — Ontem à noite o vi subir as escadas. Ia atrás dela. Estava furioso. E levava umas rédeas o suficientemente largas para estrangulá-la, que é o que acredito que acabou fazendo. Mas o sonho se desvanece antes do desenlace.

— Mas está perto.

— Muito perto.

— Deveria te vigiar enquanto dorme — comentou Adam.

Darcy pensou. Depois negou com a cabeça.

— Estou mais frustrada que assustada. Sério. Quero chegar até o final do sonho. Deveríamos pôr câmaras, sim. Possivelmente deveria tê-las posto faz dias. Pode ser que captemos algum som, mas não veremos nada, possivelmente uma névoa.

— Fiquei sabendo que celebraram uma sessão de espiritismo.

— Sim, e captei alguma presença paranormal, embora não graças a médium. Os fantasmas tinham que estar desesperados — disse Darcy sorridente. — Embora...

— Sim?

— Naquela noite senti a presença maligna na sala. Mas pelo visto alguém se dedicou a fazer brincadeiras e dar golpes na mesa.

— Quem?

— Não sei.

— Certo — disse Adam então.

— Certo, o que?

— Que vamos repetir a sessão de espiritismo.

— Adam, a mulher que veio levava a sério, mas não era uma médium autêntica — objetou Darcy.

— Calma. A médium assistirá à sessão. Quero recriá-la, que estejam presentes todos os que participaram naquela noite. Mas desta vez você será a médium.

— Quer saber quem deu os golpes na mesa? Desde já te digo que poderia ter sido Clint ou Carter. Inclusive Penny, que está empenhada em conseguir que Matt acredite em fantasmas.

— Eu me encarregarei de vigiar se alguém bater na mesa — disse Adam. — Para descobrir o fantasma, vamos ter que desmascarar primeiro os brincalhões.

— Há uma coisa que não encaixa — Darcy arqueou uma sobrancelha. — A maioria das vezes, os espíritos estão desejando nos contar o que ocorreu no passado, que se saiba a verdade. Isto é muito estranho.

— Já veremos o que ocorre na sessão de espiritismo quando você faz de médium e eu vigio — Adam girou, seguindo de volta para a casa. — Já passeei o bastante. Venha, temos que nos comunicar com os vivos esta tarde.

— Quer fazer a sessão esta noite? — perguntou Darcy.

— Para que deixá-lo para outro dia? — respondeu ele. — Se podemos organizá-la, faremos esta noite.

Matt desligou o telefone, grunhiu e apoiou a testa sobre a mesa.

Como sempre, Shirley escolheu esse momento para bater na porta e entrar em seu escritório.

— Matt? — chamou-o preocupada.

Ele levantou a cabeça e fez um gesto com a mão, indicando que não devia preocupar-se.

— Estou bem. Só tenho vontade de saltar de uma ponte.

—Ah... — disse Shirley alarmada.

— Não é nada. Adam Harrison veio e quer que repitamos a sessão de espiritismo esta noite.

Shirley se aproximou, sentou-se sobre um canto da mesa e ficou calada com ar pensativo.

— E o que tem de mau nisso? — perguntou por fim.

—Shirley, você já sabe que não acredito que haja algum fantasma no Melody House. Acredito que há uma pessoa de carne e osso fazendo brincadeiras por aí. Brincadeiras pesadas.

— Recebeu algum relatório sobre as tábuas da biblioteca? —perguntou ela.

— Sim, um refresco.

— O que?

— Que alguém derramou um refresco com algo ácido e estragou a madeira.

— Cairia até um menino, não?

— Sim, é o que parece — grunhiu ele.

— Matt, me parece que você está com alguma duvida? — disse Shirley. — Ou seja, por que não aceita que o que aconteceu na biblioteca não tem nada a ver com o que acontece em Melody House?

— Não tem lógica relacioná-lo.

— Mas você está convencido de que existe alguma relação, não?

— Sim.

— Por quê?

— Uma intuição, suponho.

— Sei.

— Pode-se saber o que significa isso? — perguntou Matt.

— Deixa eu fazer outra pergunta. Tinha entendido que sua chegada à biblioteca foi providencial. Chegou bem a tempo, antes que a senhorita Tremayne caísse. Por que acredita que foi à biblioteca?

— Acho que sabia que Darcy estava pendurada em uma viga e queria me assegurar de que tivesse uma boa queda — murmurou Matt com o cenho franzido.

— Vamos, Matt. Foi à biblioteca porque teve outra intuição. E como trabalham os policiais? Apoiando-se em intuições.

— Não exatamente. A intuição se ganha ao longo de anos de experiência.

— Chame-o como quer, de intuição, pressentimento... Você o aplica a seu trabalho de delegado e a senhorita Tremayne o aplica ao dela.

— Vamos, Shirley, você não acredita em fantasmas.

— Não sei no que acredito — respondeu ela. — Certamente, não poria a mão no fogo, mas tampouco afirmo que os fantasmas existam. É possível que sim e que a maioria de nós não seja capaz de percebê-los. Os cientistas dizem que só utilizamos uma parte muito pequena de nosso cérebro. Possivelmente pessoas com o cérebro um pouco mais desenvolvido captem coisas que outros não podem. Ouça, posso ir à sessão de espiritismo?

—Temo que não. Sinto muito, Shirley. Adam Harrison quer recriar a sessão anterior, que esteja só os que participaram da primeira. Mais ele, que estará observando. Mas te prometo que se decidem fazer sessões de espiritismo semanais, ponho você na primeira lista de convidados.

Às oito da noite, todos os que tinham assistido à primeira sessão de espiritismo tinham chegado a Melody House. David Jenner tinha preparado sua câmera, e Adam e Darcy tinham distribuído uma série de aparelhos pelo salão, fora para medir a temperatura em diversas partes ou para registrar as forças magnéticas.

Matt tinha ficado trabalhando até tarde, com a esperança de escapar dos preparativos. Mas aquela era sua casa e nada ocorreria sem ele. Subiu para tomar banho e trocar de roupa para descer às oito, enquanto Adam terminava de organizar a mesa a seu gosto.

Essa noite, Darcy seria a estrela do espetáculo.

Tinha tratado de não comportar-se de forma diferente com ela. Depois de tudo, era Adam que tinha ido tomar as rédeas. E a noite anterior tinha feito todo o possível por entender o que a fazia acreditar em tudo o que acreditava. Mas ao despertar não tinha podido evitar pensar que Darcy vivia em um mundo de sua própria invenção. Sabia que estava sendo parco em palavras e que isso devia ofendê-la.

Mas não gostava de ter que repetir a sessão de espiritismo, isso era tudo.

Elizabeth Holmes se aproximou dele e falou em voz baixa, mas com um ligeiro tom de recriminação:

— Matt, sabia o que estava fazendo. Estava perto, muito perto. Tinha que ter me deixado tentar de novo.

— Eles são profissionais, Liz — respondeu ele.

—Mas você não acredita em nada disto — replicou a mulher olhando-o nos olhos.

— Lizzie, pedi que eles viessem para que descubram o que esta acontecendo.

Mae se aproximou e lhe deu um beijo na bochecha.

— Matt!, Muito obrigada por me convidar de novo! É tão emocionante!

— Estabeleci contato. Sei que estabeleci contato — insistiu Liz.

Jason Johnstone se uniu a eles.

— Reconheço que estou intrigado. As coisas estão ficando interessantes desde que chegou a senhorita Tremayne, não é mesmo, Matt? Penso em cobrir a cerimônia quando enterrarem o crânio da pobre Amy.

— Perfeito! — respondeu Matt com sarcasmo.

— Entenda Liz, você nunca encontrou um crânio — disse Mae.

— Mas você estava aqui! Sabe que estabeleci contato com os mortos —protestou Liz.

Carter apareceu de mão dada a Delilah Dey.

— Nossa amiga está um pouco nervosa —bdisse ele.

— É tão misterioso! — Delilah sentiu um calafrio.

— Começamos? — Adam elevou a voz e todos se aproximaram. — Darcy, você ocupará o assento do meio. Clint e Carter, ficarão cada um ao lado dela. David, você se encarrega de gravar. Senhorita Dey... Delilah, sente-se junto a Carter. E Matt, ao lado de Delilah. Senhor Johnstone, você ficará perto de Penny, que vai se sentar junto a Clint. Matt, você e eu vamos ao final da mesa, com o Mae e Elizabeth entre nós.

Todos ocuparam suas posições tal como tinha indicado Adam. Penny se levantou um segundo para baixar a intensidade das luzes.

Adam manteve um tom cordial e alegre enquanto dava as instruções. Sempre tranqüilo, despreocupado, sensato. Não recomendou que a casa estivesse excessivamente escura. Era evidente que queria jogar luz na situação. Matt sentia certa admiração por ele. Sabia que Harrison não permitiria joginhos.

Por Acaso não era esse o motivo pelo que tinha permitido que a Investigações Harrison fosse a Melody House? Não, na veridade não. Tinha tido a esperança de que Adam se apresentasse e demonstrasse imediatamente que havia um microfone escondido na suíte Lee ou algo assim. Coisa que Matt não tinha encontrado. E isso que...

Ele era policial. Um bom policial. Se havia algum tipo de microfone, já teria localizado.

—Se fizerem o favor, seguraremos-nos pela mãos e começamos —disse Adam.

Todos obedeceram. Matt não sabia o que esperar. Será que Adam começaria a falar com voz tétrica e profunda?

Mas Adam proseguiu tão normal como se estivessem fazendo piquenique na praia.

— Recordem mantenham o contato com os companheiros e tenham sempre as mãos sobre a mesa. Se alguém se assustar muito, que grite e paramos.

— OH!, tenho medo! — brincou Clint.

— Eu também — disse Carter. — Menos mal que estou com a Delilah.

— Carter, seu vagabundo! — disse Delilah depos de soltar uma risadinha.

— Por favor!, assim não vamos conseguir nada! — protestou indignada Liz.

— Bem... estamos preparados? — interveio Adam. Não tinha dirigido ao grupo inteiro em realidade, a não ser a Darcy e nada mais.

Ela o olhou nos olhos. Estava relaxada, e muito atraente com os jeans e a blusa verde que vestia. Certamente não parecia uma médium.

—Darcy? — perguntou Adam. Ela assentiu e baixou a cabeça. Permaneceram em silêncio vários segundos. — Está Josh contigo?

— Está-me chamando, mas diz que não pode entrar — respondeu Darcy.

— Por que não pode entrar? — perguntou Adam.

— Não sabe por que exatamente. O espírito que há na casa é muito forte, as emoções são muito intensas. Há terror... e desconfiança.

— diga ao Josh que seja como sempre: amável, agradável.

Esperaram. Darcy negou com a cabeça e, de novo, ficaram em silêncio.

— Peça ao espírito que fale conosco diretamente — disse então Adam.

— Por favor, estamos aqui para falar com você — obedeceu Darcy depois umedecer os lábios com a língua. — Não sabemos o que aconteceu, mas queremos te ajudar.

Jason Johnstone moveu as pernas. Penny franziu o cenho. Todos olharam para Darcy.

Matt não sabia o que aconteceria a seguir. O que aconteceu o pôs de cabelos em pé.

— Socorro.

Foi Darcy quem falou, mas em realidade não era ela. Não era sua voz. Tinha os olhos fechados, a cabeça um pouco inclinada para baixo. Movia os lábios e saíam sons deles, mas não era a voz do Darcy absolutamente.

— Não acreditava... embora era violento... um assassino. Não acreditava que pudesse fazer algo assim.

Penny conteve a respiração.

— Fazer o que? — perguntou Adam. — Quem é, por favor? Não podemos te ajudar se não...

— Deus! — exclamou de repente Darcy com essa voz desconhecida.

— O que, por favor? — disse Adam.

— Não... não posso... respirar. O perigo... está aqui... conosco. Tem que vê-lo...

— Quem é? — voltou a perguntar Adam com suavidade.

Não se ouviu nada durante um minuto. Penny agarrava a mão de Matt tão forte que estava a ponto de quebrar algum osso. Tinha os olhos redondos e a boca aberta. Mae também olhava para Darcy com cara de assombro. Clint e Carter tratavam de aparentar indiferença, mas Matt estava seguro de que seu primo tinha medo.

Quanto a ele...

Sim, também tinha um pouco de medo. Uma inquietação estranha. Não queria acreditar em nada disso. A razão o impedia. E, entretanto, sentia algo. Algo que lhe dava calafrios.

Elizabeth Holmes parecia perplexa e tudo apontava que Delilah Dey seria primeira a gritar.

Então se ouviu um grito. Agudo, tão alto para quebrar os vidros. Foi Darcy e, ao mesmo tempo, não foi ela.

Todos deram um pulo.

— Mantenham as mãos unidas! — ordenou Adam. depois se dirigiu a Darcy. — Por favor, estamos aqui, queremos te ajudar.

Darcy sacudiu a cabeça.

— Por que tem tanto medo? — perguntou Adam.

— Não... não... — balbuciava Darcy.

— Por favor, precisamos saber...

— Não! — gritou Darcy aterrorizada. — Deus, me ajude!, por favor!

Depois, algo muito pior que qualquer grito. Sons engasgados, de asfixia, uma luta desesperada por respirar. Sons terríveis, reais.

Os sons de uma mulher assassinada. Os sons da morte.

 

Delilah Dey não agüentou mais. Deu um puxão e soltou a mão.

— Deus!, é horrível! Por favor, acendam a luz!, acabem com isto!

Matt se surpreendeu ao dar-se conta de que também estava espantado.

Todos se soltaram. Darcy olhou para Adam com expressão interrogativa.

— Temos que deixá-lo por esta noite — disse ele.

— Um Drink! Todos querem um Drink, certo? — ofereceu nervosa Penny. — Eu, certamente, necessito de um.

Levantou-se da mesa e o círculo se rompeu definitivamente. Delilah tremia como uma folha no outono. Jason Johnstone estava pálido. Até o Clint e Carter pareciam assustados.

Matt olhou para Darcy. Continuava tão formosa como sempre. Mas algo dentro dele o obrigava a recusá-la. A negar o que tinha visto. Tinha que ter sido... teatro! Era uma farsa, tudo era uma farsa. Darcy era bonita, elegante... e uma grande atriz. Isso ou estava meio louca. Como diabos tinha posto aquela voz? Porque era acreditável, sim, certamente que era acreditável. Ainda estava tremendo.

A morte era a morte. Havia visto muitos mortos e nunca retornavam à vida. Não importava o que tivesse visto ou ouvido. Darcy sabia que Matt a olhava. Embora estivesse atenta a Adam, sabia que Matt não tirava olho dela. Virou-se para ele quase com desprezo. Como se soubesse que Matt era um mentiroso. Todas as palavras ternas que havia dito na noite anterior eram falsas. Talvez estivesse encantado com sua beleza, mas era ele o primeiro farsante.

Darcy desviou o olhar sem lhe dirigir nenhuma palavra. Levantou-se como se nunca tivesse falado com uma voz que não era a sua, como se nunca tivesse soltado um grito que tinha paralisado a todo o salão.

— Penny, te dou uma mão. Também gostaria de um drink.

— E a mim também — disse Delilah.

— Gravou? — perguntou Adam ao David Jenner.

— Sim, senhor Harrison.

— Acredito que levarei a fita a meu quarto — disse Adam. Logo olhou os outros. — Se me desculparem.

Ninguém chegou a responder. Adam pegou a fita de David e partiu.

—Acredito que deveria ir para casa — murmurou Mae. Não tinha levantado e continuava pálida. — Oh! Não vim de carro, Delilah me. trouxe... Bom, então tomarei um drink também.

— Se quer ir, eu a levo — se ofereceu Matt. Levantou tão depressa que esteve a ponto de derrubar a mesa.

Era sua casa. Mas estava desejando sair dela.

Mae se despediu apressadamente e Matt a acompanhou até o carro.

— Mãe de Deus! — exclamou uma vez dentro enquanto Matt arrancava. — Nunca tinha passado tanto medo.

— Sim, ela é muito boa — disse Matt.

— Entrou em contato com os mortos! — disse assombrada ela.

— Não, quero dizer que é uma boa atriz — respondeu Matt.

— Vamos, Matt! Não acredita que ela inventou tudo?

—Sim — respondeu ele com teimosia.

— Não sei, é verdade que não a conheço tão bem quanto você...

— Disso não tenha dúvida — murmurou Matt com ironia.

— Mas nos dois sabemos que não é uma mentirosa dessas que vão dando falsas esperanças ou fingindo o que não é.

— Não acreditará de verdade que alguém pode falar com os mortos? —perguntou irritado Matt.

— Acredito no que vi esta noite.

— O que viu? Não viu nada — replicou ele. — Viu Darcy falar, respondendo ao que Adam lhe perguntava, e dando gritos como uma histérica, isso é tudo. Obteve alguma resposta?, Temos algum nome?, Alguma razão pela que essa mulher estivesse gritando e nos pedisse ajuda?

— Delilah interrompeu a sessão — recordou Mae.

—Darcy já esta aqui um bom tempo, mas continua sem ter nenhuma idéia do que acontece na casa.

— Sei, mas encontrou o crânio no bosque — respondeu ela. — E teve um acidente na biblioteca — acrescentou com o cenho franzido.

— Com certeza foi ela mesma que colocou algum ácido para que as madeiras se estragassem.

— Matt!

— Certo — disse ele. — Mas não foi mais que uma coincidência.

—Vamos, Matt, sei o que pensa. acredita que até a Penny pode estar fazendo brincadeiras para nos convencer de que a casa está encantada. Ou se não, outra pessoa, que seja. Acreditava que se trouxesse o Adam, em seguida descobriria o responsável pelo que estava passando. Mas desta vez não tem razão. Sempre pensei que era um bom delegado, que era inteligente e sabia escutar. Mas agora está obcecado. E sabe por quê? Porque tem medo — o encurralou Mae. Matt a olhou surpreso. Nunca a tinha ouvido falar com tanta ferocidade. — O que digo é verdade. E digo o que os outros não se atreveriam a dizer, porque conheci seus pais e sou muito velha para andar com tolices. Isso porque tenho muito carinho por você e me dá raiva ver que se comporta como um idiota.

— Mae, por favor...

— Não, por favor, você — interrompeu ela. — O que aconteceu?, o passado tem te dominado? Pode ser que Darcy seja ruiva, mas não é como Lavinia absolutamente. Desconfia dela porque sua ex-mulher podia te cravar uma adaga nas costas com um sorriso nos lábios; mas Darcy não é assim.

— Ouça! Se por acaso não se lembra, quando Lavinia veio para Stoneyville todo mundo pensava que era a criatura mais bela e adorável da terra.

— Pensamo isso durante dois segundos. Mas não entendíamos como chegou a se casar com ela. Estávamos espantados. Mas, que direito tínhamos de nos meter em sua vida?

— Bom, Mae, dá no mesmo. Obrigado por seu interesse — Matt tratou de encerrar a conversa.

— Darcy Tremayne não é como Lavinia — insistiu ela.

— Obrigado, Mae.

— É um idiota!

— Olhe, Mae, sinto muito, mas acredito que tudo isto é uma armação. É verdade, Darcy é diferente. É bonita... e é uma mulher maravilhosa. Estou certo de que ela acredita em tudo isto. Mas tem sonhos, se acorda no meio da noite e depois acredita que são reais. É absurdo.

Tinham chegado na casa de Mae. Ela saiu do carro, fechou de uma portada e o rodeou para olhar pelo lado do motorista.

—Todo mundo vê o que há entre vocês. Assim se for continuar sendo tão teimoso, pelo menos mantém o zíper da calça fechado.

— Mae... — disse ele zangado.

Mas ela afastou da janela.

— Obrigado por me trazer, Matt. Boa noite.

Depois deu a volta e se pôs a andar pelo atalho que levava a sua casa. Matt soltou um palvrão e deu um murro no volante. Depois colocou primeira e empreendeu a viagem de volta.

Darcy sempre guardava uma lembrança geral do que acontecia quando intervinha como médium em uma sessão de espiritismo, embora não pudesse precisar detalhes. Pelo jeito de como estavam comportando-se todos, estava segura de que tinha montado um bom espetáculo.

Ao que parece, tinha feito um favor a Carter, pois Delilah, que seguia com cara de espanto, estava grudada nele. Na verdade faziam um bom casal, pensou Darcy.

Penny tinha repartido drinks para todos. David Jenner parecia o menos impressionado, Clint a olhava com carinho; Elizabeth, com respeito; Penny, preocupada. Carter? Custava dizê-lo, pois estava ocupado tranqüilizando Delilah. Jason Johnstone a olhava pensativo e parecia aberto a qualquer possibilidade. Pensativo, mas não como se fosse uma extraterrestre.

Não como a tinha olhado Matt.

Tinha desaparecido. Embora, claro, era lógico que tivesse querido levar Mae a sua casa.

— Sempre foste assim? — perguntou-lhe Delilah.

— Assim como? — Darcy arqueou uma sobrancelha.

Sabia a que se referia Delilah, mas queria ouvi-la dizer com suas próprias palavras.

— Bom... — Delilah duvidou. — Assim... capaz de te comunicar com os mortos.

— Não — respondeu Darcy. — Tinha um amigo. Ele me ensinou.

— Bom, todos nos levamos um susto — interveio Clint. — Mas não paramos para nos perguntar o que conseguimos afinal com a sessão — acrescentou olhando ao Darcy.

—Temo que vou ter que ver a fita antes, Clint —disse ela negando com a cabeça.

— Então... é como se perdesse o conhecimento? — quis saber Jason.

— Não de tudo. Mas tampouco recordo com certeza o que se passou.

— Tinha outra voz — disse Delilah.

— Uma voz asustadora — apontou Carter.

— A questão é, do que tinha tanto medo a voz? — perguntou Penny.

— Exato. Como é possível que alguém que já está morto tenha tanto medo? — acrescentou Delilah.

Darcy encolheu os ombros e respondeu com cautela:

— Os fantasmas não são mais que espíritos que não foram capazes de deixar para atrás certos momentos de sua vida. Ou não aceitaram que estão mortos.

— Suponhamos que era Arabella — atravessou Penny — e que alguém a assassinou. Possivelmente acredita que podemos ajudá-la. E não podemos.

— Há uma linha muito fina entre a vida e a morte — disse Liz. — E os que morrem de forma violenta nem sempre sabem que cruzaram essa linha. Assim estão entre dois mundos. E ainda têm medo do que os assustava quando estavam vivos.

— Pode ser — a apoiou Darcy.

—Temos que descobrir do que tinha medo essa pobre criatura — disse Liz.

— Estou de acordo — Penny deu o último gole no uísque que se serviu. — Adam deveria nos ter deixado seguir esta mesma noite. Talvez podéssemos tentar outra vez agora.

— Agora não voltaremos a estabelecer contato — disse Darcy negando com a cabeça.

— Como sabe? — perguntou Carter.

— Porque se retirou — respondeu ela sem contribuir mais explicações.

— Está-nos vigiando? — quis saber Clint.

— Agora mesmo não sinto nada — respondeu Darcy.

—Vim em meu carro, mas não me atrevo a voltar sozinha para casa —disse Delilah dirigindo-se a Carter. — Estas estradas são muito escuras e vou pensando que há um fantasma me vigiando do banco de atrás.

— Se quiser te levo em seu carro para casa — se ofereceu Carter. — Para mim será um prazer.

— Eu te pego depois — disse Clint a Carter.

— Não se incomode. Eu procuro um táxi — respondeu este.

— Se não me incomodo! — provocou Clint

— Deixa, de verdade. Obrigado, mas prefiro voltar de táxi.

— Se insisti — Clint virou a cabeça para ocultar um sorriso.

— Estou esgotada — disse Liz depois bocejar. — Darcy, o que tem feito é assombroso. Pode me ensinar?

Mas seus poderes não conseguiam como quem seguia um curso de magia por correspondência. O que ela possuía podia ser um dom ou uma maldição.

— Não sei como ensiná-lo. Acredito que é questão de abrir a mente. Com certeza algum dia conseguirá — disse embora sabia que era mentira. Depois se levantou. — Me Desculpem. vou subir para ver Adam, a dar uma olhada na fita.

Subiu as escadas correndo.

Adam estava na suite Longstreet. Quando Darcy bateu na porta, convidou-a para entrar com voz distraída. Estava absorto vendo a fita quando entrou. Darcy o acompanhou. Ouviu a voz que tinha saído de sua garganta, o medo que transmitia.

— O que te parece? — perguntou ela.

— Acredito que é estranho que um fantasma esteja tão assustado.

— Acredita que pode ser Arabella?

— Não sei. Não tive oportunidade de pesquisar, como você —respondeu Adam.

— Amanhã te falarei tudo o que li sobre o assunto — assegurou Darcy.

—Matt continua convencido de que tudo isto é coisa de alguém que está vivo — comentou Adam, olhando-a nos olhos.

— Não sei, uma noite ouvi uns ruídos e reconheço que a mim mesma pareceu que os estava fazendo alguém vivo. Mas Matt estava comigo, percorreu o terraço inteiro e não encontrou ninguém.

— Pôde resguardar-se voltando a entrar na casa, não?

— Sim. Mas isso não explica os sonhos, as visões e outros fenômenos.

— Nos sabemos, você e eu. Mas Matt não acredita em nada disto —Adam sorriu. — De qualquer modo, é uma situação interessante. Por que ia querer alguém ficar fingindo que há fantasmas?

— A princípio pensava que poderia ser uma estratégia de Penny para atrair turistas — disse Darcy. — Ou talvez seja um dos rapazes, que está rindo a custa do Matt.

— Me conte mais deles: Clint e Carter, não?

— Clint é primo do Matt. Nasceu fora de matrimônio. Carter é um amigo. Acredito que está metido em negócio imobiliário.

— E o que faz Clint?

— A vagabundear, mais que nada. Penny está sempre brigando com ele.

— Como ganha a vida?

— Não sei. Talvez as custa de Matt.

— Certo — Adam assentiu com a cabeça. — Amanhã quero pesquisar um pouco. Depois, que tal um pouco de hipnose?

Darcy não gostava que a hipnotizassem, mas estava acostumado a dar bons resultados.

— Se não quiser, não faremos — se adiantou Adam ao vê-la exitar.

— Não sei, é só que às vezes... Ainda... — Darcy suspirou. — Adam, de verdade sou uma coisa tão estranha? As pessoas reagem como se fosse.

— Elizabeth Holmes está verde de inveja — recordou Adam, sorridente.

— Sim, mas vi como me olhavam todos esta noite.

— Viu como te olhava Matt — corrigiu ele.

— Bom... mas não era o único que me olhava assim.

— Parece que está se apaixonando por você — disse Adam. — Você no que acredita?

— Acredito que sente repulsão por mim.

— Acredito que está assustado — replicou ele.

— Matt Stone? Impossível.

— Não há nada impossível — Adam riu. — É um bom homem. Dê-lhe uma oportunidade.

— Uma oportunidade para quê?

— Para pensar Não é fácil aceitar algo assim — respondeu ele. — Por certo, está preocupado com você. Acredita que não deveria estar aqui.

— Estou bem.

— Diz que ontem à noite despertou morta de medo.

— É que não consigo ter as rédeas disto — Darcy franziu o cenho. — Estou mais frustrada que assustada. Adam, sério, estou a ponto de ver o final do sonho. Cada vez chego um pouco mais longe.

— Isso significa que há uma entidade que tenta nos dizer algo, mas ainda tem medo. Temos que tranqüilizá-la e para isso devemos nos assegurar de que sabemos quem é. Diz que pode ser Arabella, assim estamos muito perto.

— Na verdade, tenho a sensação de que este lugar está cheio de fantasmas — comentou Darcy sorridente.

— É provável. Mas outros fantasmas parecem felizes. Só estão vigiando a casa. Por certo, falando de vigilância, pedi ao David Jenner que instale umas câmaras em sua suite. tudo bem?

— É claro — disse Darcy. Tinha visto a cara de Matt essa noite. Com certeza não entraria em sua suíte.

— Bom, já sabe onde estou. Me chame se precisar. Ou se achar que pode precisar.

— Obrigada, Adam — Darcy lhe deu um beijo em uma bochecha

— Tem certeza de que está bem? Não te vi tão afetada desde... desde o começo.

— Estou bem — afirmou ela.

Mas não era verdade. Estava magoada. Claro que tinha merecido por se deixar ter expectativas com o Matt e envolver-se emocionalmente. Tinha que assumir que ela não era uma mulher normal e que seriam muito poucos os homens dispostos a aceitá-la tal como era.

Adam seguia olhando-a. Conhecia-a muito bem.

— Estou bem — repetiu Darcy.

— Talvez Matt Stone tenha razão.

— No que?

— Em dizer que é perigoso que fique aqui.

— Adam...

— Como explica o acidente da biblioteca?

— Adam, garanto que nenhum fantasma me seguiu até a biblioteca. Estava só quando o piso começou a ceder. Não foi mais que uma casualidade.

— Mesmo assim...

— Adam, estou perto, muito perto. Há uns detalhes que ainda não vejo, mas assim que os ver, teremos resolvido a situação. Estou certa. Boa noite. E, por favor, não se preocupe por mim.

Adam assentiu com a cabeça. Antes inclusive de que Darcy saísse da suite, rebobinou a fita para vê-la de novo.

Darcy foi para seu quarto. Parecia muito tranqüilo. Não sentiu ninguém observando-a. Depois se perguntou se o fantasma estaria esgotado. Talvez a sessão de espiritismo o tivesse deixado exausto, igual ao vivos que tinham participado dela.

— Me deixe te ajudar — disse em voz alta. — Não tem por que me fazer mal. Basta que reúna coragem para nos contar o que se passou.

Não obteve resposta. Darcy fechou as portas do terraço. Essa noite ninguém entraria em sua suite. Cansada, preparou a cama e se enfiou nela. O vazio a seu redor pareceu ensurdecedor.

 

Matt tinha voltado para o Melody House, mas permaneceu vários minutos sentado no carro, olhando a casa. Tijolos, cimento e pedra. Era uma casa, nada mais. Uma casa com história. Uma casa que amava. Como amava a Darcy. Porque estava se apaixonando por ela. Não.

Tinham passado um pouco de tempo juntos. Por muito bonita, elegante e inteligente que fosse, também era muito estranha. Capaz de fazer tremer as convicções mais arraigadas. Pensou na conversa com Mae e teve raiva. Fosse sua intenção ou não, Darcy não fazia nada a não ser perpetuar umas crenças absurdas. Talvez ela acreditasse em tudo o que dizia. O poder da imaginação era incalculável. Mas acreditar que um fantasma podia estar pondo em perigo a quem dormia na suite Lee...

Tinha conhecido muitos assassinos. A muitos. Homens que matavam por dinheiro. Homens e mulheres tão enganchados às drogas que apunhalavam a suas próprias mães para conseguir um dólar. Até assassinos que pensavam que Deus ou o diabo tinham ordenado matar. E depois, estavam aqueles que matavam pelo puro prazer de matar. Pessoas de carne e osso. Assassinatos mais reais e horríveis de que qualquer um pudesse imaginar. E tinha tratado com eles muito para acreditar que uma crueldade assim podia seguir dando-se em uma quinta dimensão.

E, entretanto...

Como diabos tinha intuído que devia ir à biblioteca o outro dia? Amaldiçoou em voz baixa e saiu do carro. Já tinha ausentado suficiente tempo da casa. E, para sua satisfação, encontrou-a vazia. Fechou com chave e subiu as escadas. Uma vez ali, deteve-se frente a suíte de Darcy. Essa noite não o esperaria. Sabia. E não tinha nada que ver com nenhum poder paranormal.

 

O sonho voltou. Tinha temido que chegasse, mas também estava ansiosa por chegar até o final e ver com claridade o que tinha acontecido.

Darcy entrou na mente do homem. Viu o que ele tinha visto no passado. Viu a mulher.

Apesar de estar furioso, não pôde evitar admirar sua beleza. Tinha visto nela tudo que tinha desejado em uma mulher. Gostava de seu rosto, as curvas de seu corpo, tenuamente iluminado pela luz da lua. Bastava um olhar para acender uma fogueira e era capaz de sussurrar palavras que podiam deixar louco a qualquer homem.

Podia tocar a um homem... E excitá-lo em menos de um segundo, manipular seus sentidos, meter-se em sua cabeça. E, sim, podia fazer muito mais. Estava correndo, mas parecia que o fazia a câmara lenta.

Ele estava recuperando do golpe que lhe tinha dado. Tinha que ficar de pé. A mulher fugia. Parecia tão inocente, tão frágil... Não podia deixá-la escapar.

Na verdade não era frágil nem inocente. Mas ele era muito mais forte. Seguiu-a.

E correu mais rápido. Estava revivendo o passado. Darcy levantou dormindo. Saiu correndo, abriu a porta pela qual o espírito da mulher tinha saído. Chegou ao corredor, ao corrimão e olhou para as escadas. Mas um som a sobressaltou. Sentiu então que a empurravam, com força, e esteve a ponto de cair rodando pelas escadas. Em questão de segundos, Darcy despertou. deu conta de que estava a ponto de perder o equilíbrio e se agarrou ao corrimão. Alguém real estava atrás dela no corredor. Tinha ouvido um som real. E umas mãos reais a tinham empurrado. Darcy se voltou. A porta de Matt se moveu. Estaria abrindo-se ou fechando-se?

Darcy permaneceu imóvel, com o coração na garganta. A porta abriu outro centímetro. E um instante depois apareceu Matt.

— O que faz aqui? — perguntou ele quase gritando.

Darcy engoliu em seco. Conhecia Matt. Ele não podia havê-la empurrado.

— Darcy!, o que aconteceu?

Mesmo assim, seguiu em duvida. Não podia contar Ela mesma não acreditava que a tivesse sido atacada por um fantasma. Por outro lado, tampouco tinha deixado de sonhar e despertou ao sentir-se em autêntico perigo. Se dissese que um homem ou um fantasma a tinha empurrado, Matt insistiria que ela corria perigo. Obrigaria a partir da casa. E não acreditava que fosse necessário. Darcy confiava em que seu instinto a protegeria.

Ou esperava que sim.

— Não podia dormir — mentiu. — Tentava... imaginar o que tinha acontecido aqui.

— Não deveria se apoiar contra um corrimão desse modo.

— Não? Suponho que não — Darcy largou o corrimão.

Matt estava tenso. Apertava os punhos.

— Não deveria passear pela casa de noite.

— Por que não?

— Já sabe que acredito que há uma pessoa por trás de toda esta história — respondeu Matt.

— Ah, sim?, quem? Penny, você talvez? Ou acaso Carter ou Clint entraram durante a noite? Talvez Sam, que cuida os cavalos?

— Não sei — disse ele frustrado. — A questão é que não deveria ficar andando pela casa de noite. Você menos que ninguém.

— Por que eu menos que ninguém?

— Porque tem mais imaginação que uma criança pequena

— Verdade?

— Vamos, Darcy! — exclamou Matt. — Esse é o problema, que você acredita emtudo o que diz.

— Ou seja, que preciso ir a um psiquiatra.

— É possível.

Suas palavras cravaram fundo em seu coração como se fossem lâminas.

— Por que está tão zangado comigo? — perguntou ela.

— Porque permitiu que isto acontecesse! — exclamou Matt.

Avançou um passo para Darcy, mas ela recuou.

— Não, Matt, eu não deixei que acontecesse nada. É você que deveria ir ao psiquiatra se acredita que estou inventando tudo isto. E agora, se me desculpar, quero voltar para a cama.

Darcy passou reto por ele e seguiu para a suíte Lee. Ao passar por ele, roçou-o. Matt não se moveu. Mas ela notou o calor que saía de seu corpo. Notou sua energia, sua vitalidade, sua força, suas emoções.

Seria isso o que pegava dos fantasmas?, essa especie de emoção, essa paixão e ódio?

Darcy empurrou a porta de sua suite e inspirou o aroma masculino de Matt. Maldição. Não estava inventando nada. Teve vontade de gritar. De dar a volta e começar a lhe dar murros no peito. Para que? Não poderia mudar sua forma de pensar.

— Darcy? — chamou ele com voz estrangulada.

— Boa noite, Matt.

Entrou na suíte e fechou a porta.

Essa noite não voltou a sonhar. Despertou com facilidade, embora com uma certa sensação de medo dentro do corpo. Uma sensação que não tinha nada que ver com nenhum fantasma. Tinha dormido bem o resto da noite, sem que ninguém a incomodasse.

Mas essa manhã, à luz do dia, lembrou do empurrão que tinham lhe dado. Alguém estava no corredor com ela de noite. Alguém vivo. Com intenções assassinas.

 

Embaixo, Darcy encontrou Adam no escritório de Penny. Estava examinando os livros sobre história e lendas que havia ali. Darcy bateu na porta e entrou.

— Bom dia — saudou ele, sorridente, olhando-a por cima dos óculos.

— Bom dia, Adam. O que encontrou?

— Bom, estive lendo tudo o que pude sobre a Arabella e sim é uma boa candidata... embora tampouco podemos estar cem por cento seguros. Eu gostaria de continuar investigando e depois, esta tarde, ou quando a noite chegar, te hipnotizar, se te parecer bem.

— Já te disse ontem à noite que tudo bem.

Adam assentiu com a cabeça e apontou para a mesa.

—Venha e tome um café. Matt está na delegacia de polícia, Penny saiu às compras... Acredito que Clara está por aqui. Algum plano para hoje?

Adam gostava de ler a sós. Darcy sabia. Estava sugerindo que fizesse seus próprios planos e que o deixasse trabalhar tranqüilo.

— De fato, há algo que eu gostaria de fazer.

— Sim?

— vou voltar para a biblioteca.

— Para? — perguntou Adam.

— A senhora O'Hara mencionou outra mulher a quem apareceu um fantasma na suíte Lee. Uma mulher que trabalhava como criada quando o avô do Matt morreu. Márcia Cuomo. Pedi a senhora O'Hara que deixasse um recado para que me chamasse, mas, ate agora, não ligou. Assim vou até lá e pedir o telefone ou o endereço da Márcia, e ver se posso falar com ela.

— Acredito que a biblioteca continue fechada. Os inspetores estão examinando toda a estrutura — a avisou Adam.

— Bom, então ligarei primeiro, talvez a senhora O'Hara atenda o telefone.

Adam assentiu com a cabeça e voltou a atenção ao livro que tinha entre as mãos.

Darcy foi à cozinha, como sempre, tinham deixado café preparado. serviu-se de uma xícara e depois subiu as escadas, de volta à suíte Lee. E, como sempre também, parou quando entrou e esperou. Mas essa manhã o fantasma não deu o menor sinal.

A telefonista do serviço de informação Telefónico a pôs em contato com a biblioteca. Atendeu a secretária eletrônica, mas a senhora O'Hara tinha deixado seu número particular de casa, se por acaso alguém precisava chamá-la com alguma urgência.

Não podia considerar uma urgência, embora Darcy começava a ficar nervosa com o fantasma ou o que queira que houvesse no Melody House.

A senhora O'Hara não se incomodou pela chamada e lhe deu encantada o telefone e o endereço de Marcia.

Já que esta não respondia, Darcy decidiu sair para dar uma volta de carro. Penny tinha levado o seu, mas Adam tinha ido com seu Navigator, que Darcy adorava. Desceu para perguntar se podia ir nele, concedida a permissão, subiu para pegar sua bolsa e as chaves de Adam.

Alguém tinha entrado para limpar sua suite. As portas do terraço estavam abertas. Darcy foi fechá-la, mas se deteve. Mudou de opinião e saiu um pouco ao encontro do sol e a brisa. de repente, sobressaltou-se com um ruído dentro da suíte de Matt. aproximou-se das portas do terraço que comunicavam com seu quarto. O ferrolho estava passado. Olhou através do vidro. Havia alguém na suite. Não podia vê-lo com claridade, porque o sol brilhava muito e tudo que distinguia que uma sombra.

Seria Matt?, teria voltado da delegacia de polícia por alguma razão? Levantou a mão para dar uma batidinha no vidro, mas pensou antes de fazê-lo. Não tinha nada do que falar com ele. Então, o homem olhou para ela. Darcy só pôde distinguir sua silhueta na escuridão, sem captar nenhum detalhe de seu rosto. Estava quieto, olhando-a fixamente. Devia ser Matt, e não gostaria de encontrar a espiando por seu terraço. Darcy deu a volta, retornou à suite Lee, pegou a bolsa e saiu. Estava a metade das escadas quando decidiu subir de novo. Ficou parada frente à porta do Matt e ouviu um ruído dentro. Chamou. Silêncio.

— Desculpe — se desculpou ela. — Não pretendia bisbilhotar em seu terraço. — Nada. — Matt?

Seguiu sem obter resposta. e lá dentro havia alguém.

— Está bem, sinto muito. Já vou despediu Darcy. Desceu as escadas e, uma vez no vestíbulo, exitou. Em uma mesinha de mármore havia um telefone. Aproximou-se, folheou a lista e localizou o número da delegacia de polícia. Discou e uma mulher atendeu.

— Poderia falar com o delegado, por favor? — perguntou Darcy.

— Neste momento não pode falar. Quer deixar uma mensagem? —respondeu a mulher.

— Quando voltará? — quis saber Darcy.

— Não, ele está na delegacia. Mas agora mesmo está ocupado. Em uma reunião. Digo-lhe que a chame?

Mas estava convencida

— Não, obrigado. Depois ligarei de novo. Darcy ia desligar. Exitou.

Teria jurado que ouvia um clique de telefone a mais, como se alguém estivesse escutando por outro aparelho. Desligou devagar. Virou-se para as escadas e as subiu com decisão. Elevou uma mão para bater na porta de Matt. A porta se entreabriu. Não a tinham fechado bem.

— Matt? — perguntou ao mesmo tempo que entrava. Deu uma olhada no local que usava como escritório. Depois se dirigiu ao quarto. Sabia que estaria vazio. Quem quer tinha estado lá dentro já tinha saido. Com o coração palpitando, voltou a descer as escadas. Tudo era muito, muito estranho. Mais estranho que comunicar-se com os mortos, em sua opinião.

 

— Alguém ligou? — perguntou Matt quando saiu da sala de reuniões.

Depois do acidente da biblioteca, tinha sugerido à Prefeitura que inspecionassem o estado de alguns edifícios antigos da cidade. Embora, no fundo, seguia sem acreditá no que tinham comunicado os peritos: que a madeira havia apodrecido por um simples refresco derramado.

— Chamou uma mulher, mas não se identificou — respondeu Shirley. — Tinha uma voz bonita. Acredito que era a senhorita Tremayne.

— Se era ela e quer algo, com certeza que ligara de novo — Matt encolheu os ombros. — Tenho que ir ao tribunal. Niles Walker voltou a sair nu o mês passado e quero me assegurar de que a família dele cuide como é devido. Me chame pelo celular se precisar.

— Certo.

Matt se pôs a andar. Depois parou. Amaldiçoou entre dentes.

— Shirley?

— Sim?

— Se Darcy Tremayne chamar e precisar de mim para qualquer coisa, assegure-se de lhe dar meu número.

— Assim o farei — Shirley ocultou um ligeiro sorriso. Depois franziu o cenho. — Acredita que está em perigo?

— Por que ia estar? — respondeu Matt.

E se deu conta de que sim, claro que acreditava que estava em perigo. E por que... Não tinha nem idéia. Uma intuição. Só que tinha decidido que não ia ter mais intuições. De repente, desejou não ter que ir ao tribunal. Estava preocupado. Tinha notado Darcy muito estranha na noite anterior, na escada. Tinha olhado como se ele a assustasse. Maldição!

— Até mais tarde, Shirley — se despediu.

— Até mais tarde — disse ela e seguiu com a papelada.

 

Adam estava sentado, perplexo. Darcy tinha razão: dava a impressão de que o fantasma era o espírito da Arabella. Uma mulher que se considerou com direito herdar Melody House e que seu amante a tinha repudiado para poder casar-se com outra.

E, entretanto...

Deixou os óculos de ler sobre a mesa e se esfregou os olhos. Darcy insistia em que havia algo mais, algo que não conseguia definir. Ainda. Acabaria vendo-o. Adam se levantou e se aproximou da janela. Estava preocupado. Estaria pondo Darcy em perigo? Não deveria explicar ao menos por que tinha tido tanto interesse em explorar Melody House?

Não podia, pensou e exalou um suspiro. Ainda não. Não podia influenciá-la, sugerir nada ou lhe dar pistas que poderiam apontar em direção errada. Tinha que esperar. Essa tarde, quando a hipnotizasse, poderiam avançar muito terreno. Olhou o relógio. Notou que o coração se acelerava. Deveria ter ido com ela.

Darcy se alegrava de ter saído. Depois de bater na porta da casa de estilo vitoriano, responderam. Parecia uma moça, de estatura mediana, cabelo negro, olhos azuis e bonito corpo. Mas tinha grandes olheiras, como se uma vida difícil a tivesse esgastado. Para alguns, devia-se ao peso de levar adiante uma casa, um marido e aos filhos com uma montanha de dívidas. Para outros, era o abuso do álcool, as drogas e o cigarro. Anos atrás, tinha sido uma mulher muito bonita, mas nesse momento parecia esgotada.

— Sim?, posso ajudá-la? — perguntou sorridente.

— Espero que sim — disse Darcy. — Sinto incomodá-la... Bem, sou investigadora de fenômenos paranormais.

O sorriso do Marcia Cuomo desapareceu. Começou a fechar a porta.

— Espere, por favor! A senhora O'Hara me deu seu nome, da biblioteca, e preciso que me ajude. Tenho entendido que não está louca nem nada do estilo — Darcy mordeu o lábio inferior. — Por favor, não vim brincar com você. Há mais pessoas que tiveram experiências estranhas em Melody House e preciso que me fale da sua.

Marcia exitou. Por fim, abriu-lhe a porta de novo.

— Entre, por favor.

Darcy entrou na casa. Era modesta, mas com bom gosto.

— Aceita um café?, chá? Não tenho nada mais forte — disse Marcia, olhando para Darcy ainda com receio. Mas logo suspirou, como se a expressão que viu no rosto do Darcy a tivesse suavizado. — Acabei entrando para Alcoólicos Anônimos. Não queria que voltassem a acreditar que não era uma pessoa confiável. Algo bom tinha que tirar de Melody House; saí dali e fui diretamente a uma reunião de Alcoólicos. O que te parece?

— Se for alcoólica, parece-me muito bem — respondeu Darcy

Marcia sorriu. Foi como se todas suas defesas se desvanecessem imediatamente.

— Posso servir um chá? — voltou a oferecer então, animando-se a ajudá-la.

—Sim, por favor.

Minutos depois, estavam sentadas no salão, com copos de chá gelado. Marcia mostrou algumas das antiguidades da casa, a qual tinha sido construída no final da década de 1870.

— Não é muito velha, ao menos para os edifícios que há por aqui. Mas quem a construiu foi um bisavô meu e... bom, quero mantê-la. aprendi muito de carpintaria. E meu filho vem de vez em quando, de Nova Iorque, para me dar uma mão.

—Tem um filho adulto?

—Tem vinte e dois anos — Marcia sorriu. —temo que fui uma dessas adolescentes que teve uma aventura no colegial e acabei com um filho de quatro anos aos vinte. O pai do Danny me ajudava um pouco, mas nunca nos casamos e morreu em um acidente trabalhista poucos anos depois de Danny nascer. Mas... enfim, agora vai tudo bem. Dany é estupendo. Foi à universidade e terminou e tem um bom trabalho na NBC. Me dá uma mão. Não aceito seu dinheiro, ainda não. Sei que viver em Nova Iorque é caro. Mas às vezes vem com um par de amigos e pintamos e fazemos algumas merlhoras.

— É genial — disse Darcy.

— Obrigado, é muito amável. Mas suponho que vieste por algum motivo.

— Sim — Darcy a olhou nos olhos. — Bem, acredito firmemente que há um fantasma na suíte Lee e eu gostaria que me contasse o que aconteceu com você lá..

— Bom, o caso é que naquele dia eu tinha bebido — disse Marcia encolhendo os ombros. — Sempre levava uma garrafinha para trabalhar. Eu adorava aquela casa. Trabalhava para o avô do Matt de vez em quando, conhecia os rapazes, já sabe, Matt, Clint, Carter... Até fingia que não via que eles levavam mulheres à suíte Lee. Diziam que estava encantada e.... Isso não importa. A questão é que um dia estava limpando e, de repente, senti que puxavam o meu cabelo. Não foi que a brisa que fez isso, não. Deram um puxão! Forte. Me virei. Acreditei que estava ficando louca. Então ouvi a voz: uma voz suave e suplicante. Pedia ajuda. No princípio pensei que os rapazes estavam fazendo uma brincadeira, assim gritei que parassem. Depois... achei ter visto algo. Como um brilho que saía da suíte e ía para as escadas. Assim que o segui... fui para as escadas e o seguinte que soube é que tinha caido rodando. Não quebrei o pescoço por milagre. Penny me encontrou e suponho que cheirava a álcool. Comecei a lhe contar o que tinha passado, que um fantasma tinha me empurrado. Penny morre de vontade de que haja fantasmas. Pensei que ela acreditaria. Mas acredito que até naquele momento não tinha dado conta de que bebia. Não me despediu. Só Matt podia me despedir: seu avô já tinha morrido. Mas bastou ver como Penny me olhava para saber que ninguém acreditaria em mim. Matt haveria dito que estava bêbada, com certeza. Disse a Penny que não voltaria e que se despedisse de Matt por mim. Penny me disse que procurasse ajuda e que não contaria nunca a Matt a razão pela qual eu tinha ido. Embora... há pessoas que sabe. Cathy O'Hara, da biblioteca, é uma Santa. Faz muitíssimos anos que não bebe, mas aos vinte era viciada em vodca. Ela me ajudou quando entrei em Alcoólicos Anônimos. Assim... sabe o que ocorreu em Melody House. Eu nunca voltei a falar do tema, embora fiquei sabendo que continuam acontecendo coisas estranhas.

— Pois, álcool ou não, eu acredito que se encontrou com um fantasma. Um fantasma perigoso. Mas ao menos serviu para ajuda-la.

— Sim, mudou minha vida — Marcia sorriu. — Mas te digo uma coisa: não penso em voltar a pôr os pés em Melody House. Jamais. E você... diz que viu o fantasma?

—Sei que há um fantasma na suíte e que está tentando de nos fazer entender algo. Acredito que é o fantasma de uma mulher que viveu ali faz muito. Arabella.

— Sim, possivelmente — disse Marcia.

—Te ocorre outra pessoa? — perguntou Darcy.

— Não... — Marcia encolheu os ombros. — Não sei. Eu estava a tempos trabalhando ali. E nunca havia sentido nada.

—Serio?

— Nada de nada.

— Não se lembra de mais nada que possa me ajudar?

— Quem dera. Mas já te disse que até então eu bebia. Não recordo nada mais. Quem dera pudesse te ajudar mais.

— acredite, ajudou muito — disse Darcy. — é hora de ir. Foi um prazer te conhecer. E muito obrigado.

— O prazer foi meu — disse Marcia.

— E…

— Se me lembrar de algo mais, prometo que te ligo. De lembranças aos rapazes de minha parte: ao Clint, Carter, Penny... e a Matt.

— Farei-o — Darcy fez um gesto de despedida com a mão enquanto ia para o carro. Sentia como se tivesse diante um punhado de peças de um quebra-cabeças.

A posição devia ser evidente e estava convencida que se esforçasse, conseguiria encaixá-las. Mesmo assim, continuava tendo a impressão de que faltava uma última peça. Quando o juiz decidiu postergar até o dia seguinte o julgamento, Matt ainda tinha tempo para voltar para a delegacia de polícia. Mas se deu conta de que não queria.

 

Adam nunca havia dito quanto pensava ficar em Melody House. Recordava que Adam tinha comentado que não podia determinar quantas horas necessitaria para acabar. Havia dito que não se preocupasse, que poderia continuar com seu trabalho sem interferências.

Mas> Certo, era verdade que não interferiam em sua vida. Mas estava com uma ansiedade absurda. Era mais que um pressentimento. Desejava estar em casa em todo momento.

Ficava nervoso que houvesse gente em casa. Embora sempre havia alguém em Melody House. A diferença era que não estavam alugando, nem tinham ido a uma das excursões de Penny. Mesmo assim, se precisassem alugar alguma suite, ainda tinham algumas livres. Podia fazê-lo. Mas não gostava até que... Até que o que quer que estivesse acontecendo se solucionasse e não voltasse a repetir-se. Virou o carro para casa e ligou o celular.

— Olá — saudou.

— Olá — respondeu Penny.

— Que tal por aí? — perguntou Matt.

— Pouca coisa. Eu estou no escritorio, fazendo umas chamadas. Nada emocionante, mas...

— Darcy está? — interrompeu ele.

— Sim, está tomando um chá com o Adam. Depois vão subir para suíte Lee.

—Está tudo bem?

— Perfeitamente.

— Ficou-se em casa todo o dia?

— Não, quando voltei da compra não estava.

— Onde esteve?

— Não tenho idéia, Matt. Não tenho costume de submetê-la a um interrogatório cada vez que entra em casa.

— Possivelmente deveria — murmurou ele. — Enfim. Chame um padre para que se encarregue do enterro do crânio amanhã.

— Amanhã? É muito precipitado, Matt! Não nos dará tempo de convidar ninguém, nem de avisar à imprensa.

— Exato.

— Matt!

— Penny.

— Está bem — grunhiu ela depois de uns segundos. — O que você quizer.

— Obrigado, Penny. Você é um céu.

— E você é um tirano.

— Sinto muito.

— O que foi isso? — perguntou então Penny.

— O que? — Matt franziu o cenho.

— Não sei... ouvi um golpe. vou ver. Adeus, Matt.

— Penny, não desligue...

Muito tarde. Matt tentou chamar de novo, mas caiu na secretária eletrônica. Soltou uma praga e pisou fundo no acelerador.

Adam sabia que era um bom hipnotizador, mas também sabia que não havia outra mulher como Darcy.

Tinham falado um momento quando tinha voltado de sua visita a Marcia Cuomo. Tinham repassado os distintos acontecimentos que tinham acontecido na casa e ambos estavam de acordo em que havia algo especial no medo e no desespero que sentia o fantasma. O que mais preocupava a Adam era que Josh não fosse capaz de entrar em Melody House. Sempre tinha guiado Darcy e Adam sabia que, às vezes, esta se sentia perdida sem ele.

— Há uma força que o mantém afastado. Não o entendo — disse Darcy negando com a cabeça.

Adam ficou calado uns segundos. Havia muitíssimas coisas que nunca entenderia. Ele nunca tinha tido a capacidade de percepção de Josh, que depois tinha passado a Darcy; mas sim tinha muita experiência no esotérico e o entristecia não poder comunicar-se com seu filho igual a ela. Sempre tinha reconhecido a quem tinha um talento especial e tinha sabido como orientá-los quando se sentiam confundidos e espantados por tais talentos.

Tinha aberto Investigações Harrison quando sua esposa, Carol, tinha morrido. Então, durante o funeral, seu filho havia dito que sua mãe estava ali, explicando que nunca os abandonaria de verdade, que continuaria com eles toda a vida. Adam tinha tentado fazer contato com ela por todos os meios, pois a dor da perda era devastadora. E embora não tivesse conseguido, não tinha duvidado de que seu filho tinha visto realmente a sua mãe, pois tinha contado coisas sobre a Carol que só ela sabia.

A perspectiva da morte nunca tinha assustado Josh. Sempre tinha acreditado que sua mãe iria a seu encontro, do mesmo modo que tinha claro que não estava destinado a viver muitos anos sobre a terra. A certeza do Josh a respeito a sua própria morte tinha deixado triste a Adam; entretanto, a serena aceitação de seu filho em saber que voltaria para junto a sua querida mãe tinha reconfortado ao Adam.

E embora seu filho não estivesse com ele, havia vezes que Darcy conseguia que sentisse como se Josh estivesse em uma suíte, brincando com eles, ajudando-os. Entretanto, dentro do reino dos mortos, Josh era um espírito jovem e ainda havia barreiras que não sabia superar. Adam pensava que Josh não podia aproximar-se dos ambientes totalmente malvados. Ele tinha sido muito bom para se aproximar da maldade. Tallvez, algum dia, teria forças para fazer frente. No momento, preferia ajudar a vencer a dor, a pena, o arrependimento ou a solidão.

— Adam, Josh não vai entrar nesta suíte — disse Darcy com suavidade.

— Se vir que está em perigo, despertarei imediatamente — assegurou ele.

— Confio em você plenamente — respondeu Darcy.

— vamos começar — disse Adam por fim depois dar uma piscadinha.

Estavam na suíte Lee; ela, deitada na cama; ele, sentado contra a parede.

Adam tinha optado por trabalhar estando sozinhos, sem ninguém que os interrompesse. Durante a sessão de espiritismo tinha havido muitas interferências.

— Relaxe, respire. Inspire, espire. Inspire, espire. Pense em um rio fluindo pela montanha, no doce gorgogeio da água. Não deixe que nada perturbe essa paz, a calma que cresce em seu interior com cada respiração — Adam não balançou nenhum pêndulo diante de Darcy, mas sim a levou para uma calma mental, aberta e limpa. — Não pense em nada, só sinta a água, o vento. Relaxe os músculos, se solte, note o ar, puro, fresco... Vai entrar em um estado de sonho lúcido, totalmente consciente. Deixe quem precisa falar através de você. Estará a salvo. Quando pronunciar a palavra “ruiva” despertará com facilidade. Sigua minha voz, escute a brisa, a água, deixe que as vozes penetrem em você...

Adam notava as mudanças à medida que Darcy entrava em um estado de consciência que não era sonho nem vigília.

— Há alguém — continuou ele. — Alguém que habita nesta suite e que possivelmente ronda pela casa às vezes. Alguém ferido, com muita dor. vim aqui escutá-lo.

Esperou.

Durante um momento, não houve resposta alguma. Então, a lista de telefones saltou de uma mesa e aterrissou com estrépito sobre o chão.

Em seguida, Darcy começou a falar.

—Socorro. Deus, socorro.

Era a voz que tinham ouvido durante a sessão de empirismo. O fantasma falava com desespero.

— Temos que saber quem é.

— Perigo... perigo...

Um som estranho, um gemido.

— Tem que nos dizer quem é — repetiu Adam com paciência.

— Medo...

— Não deve ter medo — Adam duvidou. — Já morreu. Nada pode te fazer mal.

— Não... continua aqui. Ele continua aqui.

— Quem? Temos que saber quem é você e quem é ele, e por que continua aqui. Não é Você que está fazendo mal às pessoas. É ele, verdade?

— Não.

Adam estremeceu. Ficou em silêncio.

Darcy começava a respirar com dificuldade. Tinha que seguir falando.

— Está fazendo mal às pessoas?

— Não. Aviso-as... procuro ensinar... Eles não sabem.

— É Arabella?

Os lábios do Darcy começaram a mover-se. Disse algo, mas Adam não conseguiu ouvi-lo. A porta da suite se abriu de repente.

— Deus! — exclamou Penny. — O que foi isso?

Adam franziu o cenho e sacudiu a cabeça.

— Deus! — repetiu Penny ao ver Darcy. Que continuava deitada na cama, com os olhos fechados. — Está bem?

— Sim.

—Tem certeza?

— Penny, por favor, fique em silêncio — pediu Adam.

— Cuidado... Eu conhecia... à garota... Acreditava... pelo poder, pelo dinheiro — disse Darcy.

— De quem fala? Por favor, tem que ser mais concreta — pediu Adam.

— Medo...

— Não tem que ter medo.

Darcy começou a retorcer-se.

— Adam! — assustou-se Penny.

Outra voz os interrompeu do corredor.

— Pode-se saber o que esta acontecendo?

Clint tinha subido as escadas e estava atrás do Penny.

— Preciso que saiam ou que fiquem em silêncio — disse Adam sem perder a calma.

— Mas... — argumentou Penny.

Adam a sossegou com um gesto de mão. Darcy estava cada vez mais inquieta, mas Adam estava seguro de que faltava muito pouco para saber a identidade do espírito e não queria pôr fim à sessão de hipnose.

— Não... não tem bom aspecto — disse Clint preocupado. — Deveria parar.

— Logo — respondeu Adam. — Quando estiver preparado.

Clint não pareceu convencido, mas fechou a boca e ficou em silêncio.

Darcy murmurou algo em voz baixa.

— Não te ouço — Adam se levantou da cadeira e se sentou na cama.

Darcy estava tensa. Tinha começado a suar. Retorcia sobre a cama, levando as mãos para o pescoço.

—Tem o que parar! — Clint entrou na suite.

— Aqui... — murmurou Darcy.

A porta se fechou com força. Adam viu que Matt Stone se juntou ao grupo.

— Que diabos está acontecendo! — perguntou.

Um sopro de vento abriu as portas do terraço de repente. Adam olhou. Pareceu ouvir um ruído ao outro lado da parede, bem atrás das portas.

— Aqui... conosco... Ajuda... Estou sozinha... Por favor... ajuda!

Darcy gritou.

— Pare! — ordenou Matt.

Darcy não parava de contorcer e de arquear as costas. Por um momento, foi como se algo a elevasse e estava levitando por cima da cama.

— Basta! — repetiu Matt com voz ensurdecedora.

Darcy começou a emitir o horrível som de asfixia da noite anterior. Estava ficando vermelha.

— Ruiva! — disse Adam.

Mas Darcy não reagiu. Parecia como se uma corda pendurada do teto puxasse ela para cima.

— Aqui!, ele está aqui! Está cego! — exclamou ela.

Aquí?, pensou Adam. Haveria dois espectros na suite e a pobre garota revivia sua própria morte cada vez que tentava pedir ajuda?

— Aqui! — gritou Darcy e voltou a soar como se asfixiasse.

Ouviam sua respiração, cada vez mais acelerada, mais breve... até que deixou de brigar. O corpo caiu sobre a cama...

Como se estivesse morrendo.

— Por Deus, pare isto agora mesmo! — disse Matt.

— Ruiva! — repetiu Adam.

Darcy ficou quieta. A tensão desapareceu. Seu rosto recuperou uma cor normal. Mas não abria os olhos.

Matt se aproximou da cama e a levantou nos braços. Parecia uma boneca... sem vida. Buscou-lhe o pulso no pescoço.

— Darcy!

Esta começou a piscar. Depois o olhou com desconcerto, sem dar-se conta sequer de que Matt a estava segurando.

— Darcy!

— Sim?

— Darcy, está bem? — perguntou ele tremendo.

—Sim, sim, estou bem.

Matt parecia apavorado. Amaldiçoou em voz alta. Voltou a posar sobre a cama e saiu da suite. Enquanto outros olhavam como partia, Adam voltou a ouvir um ruído ao outro lado da parede.

 

Darcy se deu conta de que Penny e Clint continuava olhando-a. Adam estava acostumado a tirá-la dos transes hipnóticos sem demora, mas dessa vez havia sentido um pouco desorientada; sobre tudo, porque ao abrir os olhos se viu nos braços do Matt. Notava-se que se assustou. Não sabia o que tinha ocorrido, mas era evidente que devia ter sido algo que demonstrava a existência de algo mais à frente do mundo dos vivos. Darcy sentiu raiva por que Matt se foi. Era óbvio que se negava a aceitar o que tinha visto com seus próprios olhos.

Darcy olhou ao Adam, mas este era o único da suite que não estava emprestando atenção. Levantou-se e avançava para o terraço.

— Darcy? Santo céu, Darcy! Está bem? — perguntou Clint. — Quer que chamemos um médico?, precisa de algo?

— Estou bem — garantiu ela. — De verdade. Se corro perigo, Adam me desperta do transe. E uma vez que despertei, estou perfeitamente bem. acreditem, por favor.

— O que... o que aconteceu — perguntou Clint depois assentir com a cabeça.

— Não sei.

— Não sabe nada?

—Temo que não. Descobrimos algo? — perguntou com interesse.

— Não... acredito que nada novo — respondeu Clint antes de consultar a Penny com o olhar.

— Foi como ontem à noite — disse esta. — Era muito impactante. Não... você não tem medo?

— Sinto muito. Devo haver sumido em um transe muito profundo. Não recordo nada — respondeu Darcy. — Estava seguindo as instruções do Adam e, de repente, estava nos braços do Matt.

Surpreendeu-a expressão zangada do Clint. Acreditou que estava zangado com ela, mas se equivocava.

— Matt pode ser muito imbecil. Mas, bom, é seu problema — Clint entrou na suíte e lhe ofereceu uma mão. Darcy a aceitou e se levantou—. Acredito que deveríamos sair daqui. Tudo bem?

— Sair?, os dois? — disse ela. Embora não recordava nada, estava custando um pouco a volta para o mundo dos vivos.

— Não estou pedindo um encontro. Recusaria — disse Clint sorridente. — Digo que deveríamos sair daqui. Penny, Adam, você, eu... Carter, se o encontrarmos. E Clara. Sam também. Todos. Acredito que precisamos sair desta casa um momento.

Adam retornou da terraço com o cenho franzido.

— Adam? — perguntou Darcy.

— Sim?

— Gostaria de sair?

— Para onde? — perguntou Adam.

— A qualquer lugar, fora de casa. Talvez para Wayside — disse Clint.

—Será divertido — o apoiou Penny, embora não soava muito convencida.

— É obvio — respondeu Adam sorridente.

— Vou ver quantos posso avisar. Nos encontraremos lá abaixo em três minutos?

— Por mim perfeito — disse Adam.

Penny e Clint saíram da suite.

— E então? — perguntou Darcy quando ficou a sós com o Adam.

— Estamos perto.

— É Arabella?

— Acredito que não — respondeu ele.

— Então? — Darcy franziu o cenho.

— Não sei. Mas estou de acordo com o que sentia: estamos muito perto e tem tanto medo que não é capaz de nos dizer quem é. Teremos que descobrir sozinhos.

—Mas é como se estivéssemos nos dando cabaçadas contra um muro — disse Darcy. — E temo que em qualquer momento vão nos expulsar daqui.

— Matt nunca te obrigaria a partir.

— Não viu como me olhe.

— Conheço o Matt — disse Adam. — Está tão assustado como o fantasma — acrescentou encolhendo os ombros.

— Mas não faz sentido.

— Quando se trata de assuntos de vivos, mortos e crenças, nada tem muito sentido.

— Pode que nos tenhamos nos rendido muito cedo. Agora que se partiram todos, podia me hipnotizar

— Não. Queira reconhecer ou não, estas experiências criam uma fonte de tensão muito grande para as repetir tão logo. E não estou seguro de que pudéssemos restabelecer contato de novo. Os espíritos tampouco têm uma energia ilimitada. Clint tem razão: será bom sair, fazer algo. Está pronta ou tem que se trocar?

— Para o Wayside? Acredito que vou bem vestida — respondeu. — Adam — acrescentou de repente, quando já estavam saindo da suite.

— Sim?

— O que fazia no terraço?

— Nada... fui dar uma olhada.

— Por?

— Parece que ouvi algo enquanto estava hipnotizada. Mas ao sair não havia nada. Terá sido um pássaro. Ou possivelmente há ratos.

— Ah, isso já me tranqüiliza — disse Darcy.

— Agora que tocou no assunto... O que fazem nestas casas antigas quando têm ratos?

— Põem armadilhas. Ou desratizarão. talvés tragam um gato.

— Exato!

— Exato, o que?

— Bem... nada, só estou pensando alto — respondeu Adam. — Venha, estou desejando conhecer o Wayside.

Finalmente, resultou que a idéia Clint não tinha sido tão má.

Matt tinha desaparecido, mas tinham localizado a Clara Issy, que estava dobrando lençóis na lavanderia, e Carter, no estábulo. E os dois gostavam de sair. Até o Sam se uniu ao grupo. Adam e Clara levaram seus carros, pois ela seguiria depois para sua casa e ele nunca bebia álcool. Entretanto, queria Darcy ou não, Adam estava empenhado em que ela sim tomasse um drink.

Quando chegaram, o Wayside estava lotado. Um grupo tocava country. As mesas de bilhar estavam ocupadas. Mae e dois ajudantes estavam atarefadíssimos. Carter desafiou a Darcy a uma partida de bilhar. Ela supôs que ele daria por certo que ganharia em questão de minutos, mas ia ter uma surpresa, porque não jogava mal.

David Jenner estava em uma das mesas quando chegaram. E Delilah Dey estava sentada no balcão. Uma vez que Carter tinha desafiado Darcy, mas era David quem tinha a mesa, Darcy sugeriu formar equipe com o David. Desse modo, Carter poderia pedir a Delilah que jogasse com ele. Delilah era muito bonita. E inteligente.

Mas não sabia jogar.

Darcy tinha pensado que a sessão de hipnose a distrairia, mas colocou três bolas dentro do triângulo com o golpe de saída. Minutos depois, David e ela saíram vitoriosos.

— Minha vez — disse Clint.

— Com quem joga? — perguntou Carter.

— Desta vez um contra um — disse Clint. — Darcy contra mim

— O que apostamos? — perguntou ela, deixando-se levar pelo espírito competitivo.

— Vejamos... um jantar. Você e eu, em um lugar que não seja este. E um filme.

— Vá, Darcy! — animou-a Adam.

— Posso ganhar — advertiu ela sorridente. Depois agarrou o taco e se inclinou para golpear a bola vermelha. Dessa vez, a partida foi mais acirrada. Parecia que não tinha fim. Todo o bar foi formando rodinhas ao redor da mesa e até os músicos deixaram de tocar para fazer coros, animar e seguir o jogo.

Darcy estava absorta, desfrutando do desafio. Clint era bom, muito bom. Quando Darcy venceu a primeira partida, ele pediu que decidissem o ganhador na melhor de três

Darcy perdeu a segunda. Começaram a terceira.

Clint começou e deixou as bolas em uma posição delicada. A única tacada possível de Darcy podia roçar a bola negra e derruba-la. Enquanto rodeava a mesa em busca do melhor ângulo, voltou a ter a sensação de que a observavam.

Era uma sensação familiar...

Mas não fantasmal.

Claro que a observavam. O bar inteiro a observava. E, entretanto... notava algo estranho. Exitou, endireitou as costas e olhou a seu redor.

Surpreendeu-a ver Matt no bar. Mas era o único que não a estava olhando. Estava sentado em uma banqueta, entre o Adam e Penny, conversando com o Mae, que estava atrás da barra.

— Senhorita Tremayne? — pressionou-a Clint, sorridente.

—acredita que vai ganhar, não é?

— Não o farei fácil.

— Ainda não disse minha última palavra — respondeu Darcy.

Não deixaria que Matt arruinasse o bom momento que estava passando. Com cuidado, voltou a concentrar-se na partida. Efetuou a tacada e conseguiu colocar a bola oito perto de uma fresta lateral. Um segundo depois, acertou-a levou a vitória.

Todos aplaudiram e a felicitaram. Darcy sorriu, olhou para Adam e pareceu que estava contente de vê-la estar divertindo-se.

Matt seguia sem olhá-la.

Clint deixou seu taco e partiu, mas retornou em seguida com duas cervejas, uma para cada um.

—Obrigada.

Ambos se recostaram contra a mesa. Clint a olhou, sorriu e sacudiu a cabeça.

— Assim também sabe jogar bilhar. Quem o ia imaginar?

— meu pai gostava — explicou ela.

— Supõe-se que eu seja muito bom — comentou Clint. De repente, aproximou-se dela. — Não olhe agora, mas Carter finalmente está jogando as charme para Delilah.

— Bom para ele — disse Darcy.

— Não fazem um mal casal — murmurou Clint —. Carter tem terras. É bom nos negócios. E ela está à frente da Prefeitura. Deve dar certo, não te parece?

Darcy assentiu com a cabeça e deu um gole a sua cerveja.

— E você o que quer da vida? — perguntou-lhe.

— Eu não sou mais que um pobre folgado que vive da generosidade de minha família? — respondeu ele depois soltar uma gargalhada.

— Eu não disse isso! — protestou Darcy.

— O caso é que faz um tempo que estou trabalhando em um projeto —disse ele. — Mas não conte a ninguém.

— Não posso contar a ninguém. Não sei nada do projeto.

— Sei... — Clint a olhou nos olhos. — E não pode ler a mente?

— Não.

— e... de verdade, você não sabe nada mais do que diz sobre o fantasma do Melody House?

— Não sei nada mais, não. Às vezes intuo coisas, mas não sei nada mais. E não adivinho o pensamento das pessoas.

— É uma sorte — disse ele.

— Por quê?

— Porque daria vontade de dar uma bofetada a muitos homens se soubesse o que estão pensando.

— Um pouco estranho, mas acredito que é um galanteio.

— Minha intenção era que fosse um galanteio — confirmou Clint. depois se aproximou e sussurrou no ouvido. — O que acha que faz Matt aqui?

—Tomando uma cerveja.

— Eu acredito que é incapaz de tirar o olho de cima de você.

— Pois eu acredito que ficaria encantado de não voltasse a me ver.

— Absolutamente — Clint negou com a cabeça. — Está caidinho por você. Quer lhe fazer ciúmes?

— Obrigado... mas não — Darcy sorriu.

— Está louco por você — insistiu ele. — E deveria reconhecê-lo

— Clint, eu também acredito que sente atraído para mim — disse Darcy depois fazer uma carícia na bochecha de Clint. — Mas a coisa não termina por aí.

— por que não?

— Não me suporta.

— O que ele não suporta é temer por você.

— Por mim ou a mim? — perguntou ela.

— Por você. Tinha que tê-lo visto ontem à noite, Darcy. Embora você também tenha me assustado — reconheceu Clint. — E hoje a tarde foi pior.

Darcy não respondeu. Limitou-se a dar um gole grande na cerveja.

— Darcy, poderia reviver um assassinato com tal realismo que você também acabasse morta?

— Não acredito.

— Não acredita?, ou não está certa?

— Só me deixo hipnotizar pelo Adam. E confio nele plenamente. Assim... ele sabe quando parar. Basta dizer uma palavra para que desperte do transe.

— Hoje não foi assim.

— O que quer dizer?

— Teve que pronunciar a palavra chave duas vezes para que a reconhecesse.

— Suponho que a primeira vez a diria em voz baixa.

— Disse alto — insistiu Clint. — Darcy, esta noite me fez passar medo. Sei que está decidida e que tem muita confiança, mas... talvez deveria deixar este caso. E se o fantasma, o espírito ou o que seja acaba te apanhando e não volta a si? Hoje parecia... que estava morrendo.

— Mas não me morri.

— Mesmo assim, não sente medo?

— Às vezes, muito.

— Então?, Por que o faz? — quis saber Clint.

— por que há policiais e bombeiros? Eu corro muito menos perigo que qualquer que um que trabalhe nestas profissões.

Clint suspirou, sacudiu a cabeça; mas a olhou com admiração.

— É uma boa garota, Darcy. Mas continuo acreditando que deveria se esquecer deste caso.

— Não posso — respondeu ela. — E você?, o que quer da vida? — voltou a perguntar, resolvida a mudar a conversa.

— Acredito que o vou conseguir dentro de pouco.

— O que?

— Tenho medo de dizer a alguém e estragar tudo — disse e soltou uma gargalhada. — Mas não sou tão desocupado como parece. Pergunte a Matt. Penny se ocupa da casa, Matt é o delegado. E Sam cuida dos cavalos e as terras. Mas, quem acha que se encarrega das pequenas coisas do dia? Eu localizo aos carpinteiros, encarrego-me de que se arrumem os telhados... Não sou tão atoa assim.

— Não sugeri que era — disse Darcy. — Só tenho curiosidade por saber o que é o que quer.

— Claro, como a casa é do Matt... — Clint se pôs-se a rir. — Não me olhe assim. Não tenho intenção de eliminar a minha família para me tornar no único Stone e herdeiro do Melody House. Nem sequer estou certo de ficaria com ela. Dá muitos problemas. Mantê-la é muito caro. Mas não se preocupe por mim. Eu também tenho algum título ou outro. Sabia que durante uns anos dava aulas?

— Não, o que ensinava?

— Inglês... Não olhe agora, mas o delegado está olhando. Quer lhe dar ciúmes?

— Não — recusou Darcy de novo.

— Pena — disse Clint sorridente. — Bom... o que fazemos agora? Pedimos algo para comer? Estou faminto.

— Boa idéia.

— Aí tem uma mesa livre. Vou chamar a outros.

Foram para a mesa que Clint tinha conseguido, reunindo o grupo de caminho. Adam e Matt estavam em meio de uma conversação, mas também se uniram a eles. Por muito furioso que Matt tivesse saído de casa, não dava a impressão de continuar zangado.

       Tampouco se aproximou muito de Darcy. Quando a conversação começou a girar em torno dos fantasmas do Melody House, Matt perguntou a Carter por seus negócios e Adam ajudou a desviar o tema. Foi um jantar agradável e, ao terminar, os bocejos indicaram que era hora de voltar para casa.

Darcy retornou com o Adam, Penny e Carter. Foram os primeiros em chegar. Darcy foi direto para a suíte Lee. Adam a acompanhou.

— Estará bem aqui? — perguntou-lhe.

— Perfeitamente — lhe assegurou ela.

— Se quiser, posso ficar na cadeira — disse Adam.

— Adam, se não deixar que voltem os sonhos, nunca verei o final.

— Mas tem certeza de que está bem, certo?

— Sim! E agora. Vá para cama — ordenou Darcy.

Adam deu um beijo na bochecha e partiu.

Darcy estava dormitando quando pareceu ouvir um movimento na terraço. Permaneceu na cama vários segundos, escutando.

Depois de um momento, levantou-se e foi para o terraço. Mas não abriu as portas. Parou e continuou escutando. Um som... algo se movia. Correu as cortinas. O coração o martelava contra o peito.

Havia alguém na terraço. Matt. Apoiava as mãos sobre o corrimão, à altura de sua própria suite, e estava olhando a noite.

Darcy exitou. Quis sair com ele. Mas não tinha razão alguma para fazê-lo.

Com tristeza, deu a volta e voltou para a cama.

 

A mulher de branco.

Essa noite, Darcy a viu: estava de pé, junto à cama. Como em uma neblina. Nada, não distinguia as facções de seu rosto.

Então, desapareceu.

E retornou o sonho. De algum modo, Darcy notava que a mulher estava se desesperando, cada vez mais ansiosa por explicar o que tinha ocorrido.

Darcy se introduziu dentro dela. E no passado. Corria.Tinha saído da suíte, estava no corredor, onde o homem a alcançou e a atirou no chão. Ela lutava, apesar de que sabia que o homem era muito mais forte. Mas sua vida corria perigo. O medo lhe dava forças: arranhava, dava murros, chutava. Conseguiu dar um soco na mandíbula e o deixou aturdido uns segundos. Liberou-se do homem, ficou de pé e desceu o primeiro degrau. Então notou que o homem a agarrava pelo cotovelo e voltava a derruba-la. Durante uns instantes, permaneceram no chão, ofegando. Notou que doía a cabeça e se deu conta de que a bateu contra o segundo degrau. O homem levantou e se colocou a seu lado. Olhava-a nos olhos. De repente, sua expressão se suavizou. Segurou-lhe uma mão e sussurrou que a tinha amado muito.

Ela aceitou a mão. Ambos se levantaram. E parecia uma noite qualquer, em que a paixão os transbordava, reconciliavam-se e eram incapazes de deixar de tocar-se. Continuava doendo a cabeça, mas tinha que ter sido uma briga mais.

O homem beijava os seus lábios, o pescoço, os lóbulos de orelha. Ela se estreitava contra seu torso. Deixou que ele a levantasse nos braços...

Votaram para suíte e a posou sobre a cama com ternura. Ela fechou os olhos e pensou que era uma relação muito apaixonada. O homem se afastou, mas ela sabia que tinha parado só para se despir podia sentir seu corpo pele contra pele. Mas... Silêncio, nada.

A lua iluminava a suite, mas as mãos do homem não a acariciavam. Um cão uivou. Foi um latido lastimoso... profético. Talvez caisse uma tormenta e ouvia-se trovões lá fora, como as descargas de paixão que os tinham unido. O vento soprava... mas o homem continuava calado. Ouviu-se um novo uivo. O seu corpo começava a esfriar levantou-se sobre os cotovelos...

O homem estava junto à mesa da suite. Não tinha tirado a roupa. Estava lendo o que ela tinha escrito. Quieto, com os olhos cravados nas palavras dela. Então virou-se para a mulher, devagar. Ela viu a ira que o consumia. Sentiu medo, pânico, terror...

— Não perdeu tempo — disse ele em voz alta.

Tinha que escapar. Mas não serviria de nada. Sua única oportunidade seria seguir o jogo, falar como se não visse o ódio de seu olhar.

— Estava zangada. Ia me abandonar.

— Uma mulher repudiada — disse ele enquanto se aproximava da cama. Nunca saberia o que teria ocorrido se essa noite não tivesse sentado para escrever. Talvez tudo tivesse acabado igual. O homem já tinha ido procurá-la com a intenção de matar.

— Uma mulher repudiada... mais serve morta que viva.

Não gritou. Não se incomodou. Amaldiçoou-o enquanto se aproximava. Amaldiçoou-o a ele e amaldiçoou a casa para toda a eternidade. Estavam a ponto de matá-la e ninguém saberia nunca o que tinha ocorrido. A verdade morreria com ela e com o tempo não seria mais que uma lenda. Procurou levantar-se e fugir uma vez mais. Mas não o conseguiu. O homem a apanhou.

Suas mãos... as mesmas mãos que a tinham acariciado com ternura e ardor se fecharam ao redor de seu pescoço. Apertaram. E apertaram.

Ela seguiu amaldiçoando enquanto se afogava. Jurou que, de algum modo, o homem pagaria pelo que estava fazendo. Jurou que se vingaria. Os lábios ficaram marrons, depois parou de respirar.

— Vingarei-me...

O homem continuou apertando, afundando o polegar no pescoço. Os pulmões estavam vazios. Não entrava ar... Tudo se obscurecia...E logo...

A morte.

 

Darcy despertou coberta de suor. Sentou sobre a cama. O televisor continuava ligado. A suíte estava fresca, aliviando o calor que sentia depois de tanto retorcer-se entre os lençóis.

Tinha chegado até o final. Tinha presenciado a morte da mulher. E, entretanto... Não tinha visto nada com claridade. Nenhum detalhe de seu rosto. Havia sentido as mãos que a estrangulavam, mas não tinha visto o estrangulador. Passou uma mão pelo cabelo. De repente, ficou quieta. Aí estava de novo. A mulher de branco. De pé junto à cama. A mulher virou, foi para a porta e fez um sinal a Darcy para que a seguisse. Darcy obedeceu.

 

Matt não conseguia dormir. Não parava de ver o Darcy, retorcendo-se e afogando-se sobre a cama. Tinha que dar uma volta na da casa.

Se tão decidido estava, por que não a expulsava de uma vez por todas? Não suportava mais. Por que permitia que ficasse? Porque tampouco suportava a idéia de que se fosse. Então?, acaso esperava que um dia Darcy se levantasse e reconhecesse que tudo era uma farsa?

Não aconteceria. E embora não fossem mais que invenções, ela o vivia tudo como se fosse real. Tinha medo por ela e não entendia por quê. Sentia medo de se afastar da casa quando Darcy estava dentro. Não acreditava que os fantasmas pudessem feri-la. Mas sim os vivos.

Virou-se outra vez na cama e então...

Pareceu ouvir a porta da suíte Lee abrir. Ficou quieto uns segundos, escutando. Nada. Não ouvia nada. Mas se levantou de qualquer jeito.

 

A mulher de branco saiu da suite, chegou ao corredor e se dirigiu às escadas. Darcy a seguiu. O fantasma começou a descer. Darcy se deteve.

A mulher se virou e voltou para fazer um gesto para que seguisse. De novo, Darcy obedeceu.

Começou a descer as escadas e, de repente, deu-se conta de que não só ia atrás do fantasma, mas também ela mesma, com a camisola branca, parecia uma réplica do espírito que flutuava pelas escadas. Estava descalça. Nem sequer tinha incomodado em calçar-se. Não tinha esperado que o fantasma fosse a tirá-la da casa. Mas dava essa impressão. Chegou ao vestíbulo e avançou para a saída.

Darcy ouviu que uma porta se fechava dentro da casa. exitou e começou a abrir os ferrolhos da porta principal. O espírito se deslizava sobre a grama para o estábulo e os edifícios anexos.

Darcy o seguiu. A lua iluminava a entrada de Melody House, mas uma vez no estábulo, a luz diminuía. De repente, o fantasma ficou quieto. Darcy também parou. O espírito começou a desaparecer em um dos edifício. Darcy correu atrás dele.

Chegou ao edifício e descobriu que o fantasma tinha sumido por completo. Darcy olhou a seu redor, perplexa, frustrada. Então ouviu um passo. E outro... Aproximando-se...

Darcy se pregou à parede do edifício e procurou uma porta para esconder-se lá dentro. Segurou a maçaneta, girou, mas a porta continuou fechada.

A lua projetava sombras estranhas. Formas que tomavam corpo e se desfiguravam. Mas uma sombra destacava sobre as demais.

A sombra de um homem. Ouviu um som. O homem segurava algo. Uma corda, umas rédeas… algo. Segurava as pontas com as ambas mãos.

Darcy já tinha vivido isso. Em um sonho. Quando o homem se aproximava da casa com intenções assassinas. Darcy conteve a respiração. A sombra continuou avançando. E ela também se moveu. Com supremo cuidado, virou na esquina do edifício e logo correu como se o diabo a perseguisse de volta para casa. Ao princípio, ouviu uns passos que a perseguiam.

Estava chegando ao alpendre. Subiu as escadas e fez uma careta de dor ao pisar em descalça sobre uma pedrinha solta. Perdeu o equilíbrio um instante, tempo para que a sombra que a perseguia a alcançasse.

Darcy quis gritar, mas não conseguiu que saísse a voz. Dois braços a apanharam.

— Darcy!

Ficou geada. Era Matt.

— Darcy!

Era Matt quem a tinha seguido?, a sombra que tinha visto?

— Darcy! — chamou ele de novo, sacudindo-a pelos ombros dado que Darcy não reagia.

— O quê?

— O quê? — repetiu Matt. — Posso saber o que faz aqui?

Pensou em responder que tinha seguido ao fantasma da suíte Lee, mas soube que ele não acreditaria.

— Nada, estava dando um passeio sob a lua.

Matt pos a mão sobre o coração.

—Tem o coração disparado.

— Saí para fazer exercícios.

— Descalça e de camisola? — Matt lançou um olhar severo.

— E você? O que faz aqui? — replicou ela.

— Tentando descobrir o que faz. E não me venha com o de passeio.

— por quê? Estou certa de que é mais fácil acreditar do que a verdade.

— O que aconteceu?, o fantasma te convidou para dar uma volta? —perguntou ele em tom zombador.

— Sim.

— E aonde foi?

— Desapareceu depois do edifício que pregado ao estábulo —respondeu Darcy. — Olhe, isto não tem sentido. Acredita que estou louca, Assim não importa o que diga. Assim se não se importa, eu gostaria de voltar para meu quarto.

Matt exitou. Darcy teve medo de que não a deixasse. De que recolhesse suas coisas e a expulsasse de casa.

Então, de repente, sentiu um calafrio. Possivelmente era Matt o responsável por todos os acontecimentos misteriosos que estavam ocorrendo no Melody House.

Mas não...

— Matt, por favor, me solte.

— Não quero que saia pra passear assim de noite — disse ele.

— Certo, podemos voltar para casa?

— Ouviu? Não quero que saia a passear assim de noite. Descalça. Meio nua.

— Não estou meio nua!

— À luz da lua, levar essa camisola é como ir nua, senhorita Tremayne.

— Sinto muito, não pretendia excitar os morcegos — respondeu Darcy. — Matt, por favor, posso entrar?

— Quando me escutar!

— Está bem. Já escutei: não quer que saia a passear de noite.

— Aconteça o que acontecer. Embora um fantasma convide para um passeio, está claro?

— Muito claro — assegurou Darcy.

Matt a soltou. Abriu a porta e ficou a um lado para deixá-la passar. Darcy entrou e subiu as escadas depressa, com a esperança de evitar mais pergunta e ordens, ao menos por essa noite.

Mas as luzes da escada estavam acesas e Penny estava de pé no vestíbulo.

— O que aconteceu? — perguntou.

— Darcy estava dando um passeio.

— Viu à mulher de branco! — exclamou Penny e agarrou Darcy pelos ombros. — disse isso: eu também a tinha visto. Baixando as escadas. Como se...

— Como se quisesse que alguém a seguisse — finalizou Darcy.

— A luz da lua pode dar falsas impressõs, Penny — disse Matt. — E não estou dizendo que esteja louca. Só acredito que tem tanta vontade de que haja fantasmas que acaba vendo o que não há. Mas já está bem por esta noite. Vamos deixar assim. Certo, Darcy?

— Sim — conveio ela.

Penny assentiu com a cabeça, deu a volta e começou a subir as escadas.

— Então, boa noite. Mas vai engolir suas palavras, Matt Stone. você verá. Vai engolir suas palavras.

— Boa noite, Penny — disse ele.

Darcy subiu um degrau. Sobressaltou-se, assustou-se inclusive, quando Matt pôs uma mão no ombro. Retirou-a quando ela se virou para olhá-lo.

— Darcy, estou realmente preocupado por você. Vi sua cara, na sessão de espiritismo e esta tarde. O que acontece se chegar até o final? Se vir como o assassino mata ao fantasma?

Matt tinha a habilidade de falar em um tom neutro, enigmático. Darcy não sabia se estava rindo dela ou se seriamente estava alarmado.

— Já vi o final do sonho — respondeu. — Esta noite, antes de que o fantasma me conduzisse para fora.

Deu a impressão de que Matt se afastava. Não fisicamente, mas... de repente havia mais distancia entre os dois.

— Então já contou o que ocorreu. Não deveria ser isto como quando descobriu o crânio? Não significa que já pode descansar em paz? —perguntou Matt e ela interpretou que estava desejando que tudo acabasse e Investigações Harrison se fosse de sua casa. Queria que “ela” partisse.

— Há algo mais, Matt. Quer nos contar algo mais.

— É Arabella da que falava?

— Não acredito.

— Então?

— Não sei. Mas estou a ponto de saber — Darcy deu a volta e começou a subir as escadas de novo.

Matt ficou olhando-a uns segundos. Darcy já tinha chegado à porta da suíte Lee quando se deu conta de tinha a alcançado.

De novo notou suas mãos sobre os ombros. Com força. Com raiva. Mas quando a virou e pôde ver os olhos, surpreendeu-a compreender que a raiva estava dirigida contra ele mesmo mais que para ela.

— Darcy, não entendo como é tão teimosa. Está brincando com fogo. Vai se queimar!

Ela abriu a boca para responder, mas não chegou a fazê-lo. Matt deixou de segura-la pelos ombros e fez uma carícia na bochecha. Depois a apertou contra o peito com uma mistura de ternura, paixão e instinto protetor. Ela teria gostado de poder afastá-lo, mas Darcy não ofereceu resistência. Abriu a boca, ofereceu os lábios e se pregou contra ele até sentir sua ereção. Permaneceram abraçados ali, diante da suite Lee fundidos em um beijo ardente e desesperado, até que Matt empurrou a porta. Entrou na suite, aproximou-se das câmaras e as desconectou.

Depois virou-se para ela, pôs um dedo sob o queixo e a levantou com suavidade.

— Se te acontecer algo...

— Não vai acontecer nada.

— Como pode estar tão segura?

— Matt! — Darcy acariciou o cabelo. — Sei o que faço, de verdade. E para você é uma farsa. Não acredita em nada disto. Por quê...?

—Tenho um pressentimento — disse ele com mais amargura que sarcasmo. — Uma de suas malditas intuições. E essa intuição me diz que deveria se esquecer de tudo isto.

Não teve tempo de responder, porque de novo Matt se viu tomado por uma necessidade transbordante de apoderar-se de seus lábios, quase com violência. Embora Darcy não tenha se importado. Pôs as mãos sobre os ombros e a camisola foi escorregando até cair no chão. Darcy sentiu o contraste entre o frescor da suíte e o fogo do corpo do Matt. Plantou as mãos sobre seu torso e notou que ele a empurrava até que ambos caíram sobre a cama, afundando-se nessa paixão abrasadora. Então sim pensou que poderia enlouquecer. De desejo. Matt acendia uma fogueira onde punha a mão, sussurrava com voz rouca palavras excitadas. Darcy o tocou com os dedos, com os lábios, com a língua, precisava que desse conta de que era parte dele. Precisava fundir-se com Matt para que nunca a esquecesse. Ele a cravou contra o colchão com uma ferocidade que a deixou sem respiração. Conduziu-a para um mundo quente e úmido no qual todas as sensações físicas, o suor, o aroma de Matt, a potência de seus braços, a textura dos lençóis, tudo se misturava exoticamente. Darcy arqueou as costas e o mundo explorou quando por fim o sentiu em seu interior, comprido, duro, inflexível. E, entretanto, nesse momento, encontrou-se pensando no sonho, na paixão se desesperada entre os dois...

E, depois, como tinha acabado matando o homem à mulher.

Sentiu um calafrio que esteve a ponto de se separar de Matt. Fechou os olhos e tentou acalmar-se. Estava com Matt, não com um fantasma. Era o delegado, não um assassino.

— Darcy?

— Matt — respondeu ela, afundando a cabeça contra o peito do Matt. Não queria que ele visse seus olhos.

— Está bem? — perguntou enquanto acariciava com ternura uma bochecha.

— Sim — sussurrou Darcy, comovida.

— Eu tenho medo — confessou Matt. — Sempre tenho medo quando te deixo sozinha.

— Posso cuidar de mim mesma — assegurou ela.

— Então, por que tenho tanto medo?

— Porque não confia em mim.

— Ou talvez confie sim, mais do que imagina. E por isso tenho medo.

— Há um fantasma, Matt — disse Darcy e depois ficou calada.

— Assusta-me — murmurou ele depois de uns segundos.

— Não parece que nascemos um para o outro — comentou Darcy. — Mas fico contente de ter te conhecido.

— Darcy...

— Por favor, não diga nada. Esta noite não. Só me abrace

— Não penso em sair daqui. Vou ficar toda a noite te abraçando. Vou estar te abraçando até que vá embora — disse ao mesmo tempo que a acariciava.

Uma carícia, um toque, um sussurro. Um homem sedutor. Contudo, Darcy não pôde evitar perguntar:

— Matt... seguiu-me até o edifício que há atrás do estábulo?

— Não, quando saí do alpendre você passou voando. por que?

— Nada. Só era curiosidade — mentiu Darcy.

Matt não disse nada mais.

Darcy ficou acordada. Tinha medo de dormir. De que o sonho se repetisse. De reviver... Toda essa paixão. Esse ódio. Ela seria a mulher.E ele, o assassino. Em algum momento acabou dormindo. E dessa vez não sonhou. Quando despertou, Matt já tina ido. Continuava saindo cedo.

Darcy levantou, tomou banho, vestiu-se e desceu as escadas. Chegava a tempo. Matt estava tomando o café da manhã com o Penny, Clint, Carter e Adam. Clara Issy a viu, sorriu e lhe serviu uma xicara de café.

— Continua dormindo nessa suite espantosa? — perguntou a criada.

— Na verdade é muito bonita.

— Alguma novidade? — quis saber Clara.

Darcy olhou a seu redor e rezou para que Matt não dissesse nada.

— Há um fantasma. E logo entenderemos o que quer nos contar —respondeu.

— diga que deixe de bater nas pessoas! — respondeu Clara.

—Tentarei.

— Hoje enterraremos o crânio — anunciou Penny então. — Pobre Amy! Esta tarde, à uma, voltará a estar inteira. Em paz. Um fantasma menos. Mas esta casa está cheia de fantasmas, não, Adam?

— São fantasmas bons — disse Adam depois deixar na mesa a xicara de café. — Mas alguns se sentem desgraçados. Permanecem vagando porque a casa significa muito para eles. E só alguns chegam a dar-se conta de que estão perdidos em uma espécie de limbo.

— Acredita que alguma vez fazem festas? —perguntou Carter.

— Os fantasmas? — disse Clint.

— Não sei, se todos habitarem a casa, talvez têm feito amigos.

— Falam uns com outros?

— Não sei, talvez sorteiam as suites, para ver quem assusta a quem...

— Desculpe, Adam — disse Carter. — Sei que isto é sério para você.

— Pode ser que estejam mantendo contato de alguma forma — disse Adam sorridente. — Não sei.

— Pergunto-me se algum vez seria capaz de ganhar de Darcy no bilhar — comentou Clint. — Que garota!, como joga!

—Obrigado —disse Darcy.

Deu a impressão de que Clint tentava desviar o tema de conversação, sabendo que deixava Matt nervoso.

— Reconheço que fiquei alucinado — admitiu Carter. — É bonita, vê o futuro e é uma campeã de bilhar.

— Deveria jogar com Matt — apontou Penny. — É o melhor.

— Algum dia jogaremos um campeonato — comentou depois deixar o guardanapo sobre a mesa. — Agora tenho que ir para delegacia de polícia. Vejo-os na igreja. E, Penny... por favor, me diga que não chamou todos os jornais.

— Não, Matt, não o fiz.

— Até mais tarde — despediu-se Matt por fim.

— A todos não. Só a alguns — acrescentou Penny quando ele partiu.

— Penny, Penny, Penny! — disse Carter, como falando uma menina pequena.

— Temo que não estavam muito interessados — comentou ela. — Só irá esse homem tão desagradável que Matt tem tanta raiva. E Jason Johnstone também escreverá um artigo, claro. Mas a cidade está esperando o sábado.

— O que vai acontecer no sábado? — perguntou Darcy.

— É o aniversário do Stone Gorge. Foi uma batalha importante. Com cavalaria e tudo. O Norte e o Sul se enfrentaram em uma pequena colina que há perto da estrada principal — explicou Carter. — No sábado haverá uma espécie de desfile, uma representação da batalha, ou algo assim. Será divertido.

— E educativo para os meninos — acrescentou Penny.

— Que interessante! — disse Darcy.— Onde iremos vê-lo?

— Na estrada que há do outro lado do bosque. Clint e eu lhe mostraremos. Clint e eu vamos participar de um dos exércitos. Este ano há poucos homens em nosso bando.

— Sim, nos acabaremos mortos — brincou Clint. Depois ficou de pé. — Bom, o enterro do crânio será a uma da tarde, não? Adam, importa-se se formos em seu carro? Assim cabemos todos. O Navigator é muito espaçoso.

— É claro.

— Aonde vai? — perguntou Penny.

— Sou um homem ocupado — respondeu Clint. — Estiveram enganados todos estes anos.

— Eu também tenho que trabalhar — disse Carter. — Nos encontramos no vestíbulo... às doze e meia?

Todos assentiram com a cabeça. Depois, Carter e Clint fizeram gesto de partir; mas Penny os deteve.

— Os pratos — recordou.

— Sim, senhorita — disse Clint, batendo continência, como se estivesse preparando para a batalha.

Darcy se levantou. Estava desejando ficar a sós com o Adam. Segurou seu prato e disse:

— Depois vamos a minha suíte.

Depois de quinze minutos, tinham terminado de limpar as louças, desembaraçaram-se de Penny e estavam sentados na suíte Lee.

— Adam, ontem à noite cheguei até o final do sonho.

— Bem. E? — Adam se aproximou da câmara e viu que estava desconectada. — Decidiu não gravá-lo?

— Desconectei depois. Talvez tenhamos gravado algo.

— Primeiro me conta — sugeriu ele enquanto sentava em uma cadeira.

— Estive dentro da vítima e do assassino. Eu senti suas emoções, mas não vi seus rostos. Não com claridade. Sei que eram amantes muito ardentes. Que algo deu errado. Acredito que o homem amava à mulher ou, ao menos, estava fascinado com ela sexualmente. Quando chegou a sua casa, estava pensando em assassiná-la. Viu-a, lutaram... e esteve a ponto de deixar tudo como estava. Mas ela estava zangada antes que ele chegasse. E tinha estado escrevendo. Então, o homem viu o que tinha escrito. E a matou. Aqui, sobre esta cama. Havia trazido uma correia, mas acabou estrangulando-a com suas próprias mãos.

— Assim seguimos sem saber quem são os protagonistas, mas sabemos o que aconteceu.

— O fantasma da mulher me pediu, depois do sonho, que a seguisse —continuou Darcy. — Saímos da suite, descemos as escadas e a segui para fora, até o edifício que há junto ao estábulo. Depois desapareceu.

— Vamos ter que pedir a Matt que nos dê permissão para escavar por aí — comentou Adam depois ficar calado uns segundos. Depois apontou para Darcy com um dedo como se estivesse repreendendo-a. — Como pode seguir ao fantasma para fora estando sozinha? Não ocorreu me avisar?

— teria perdido seu rastro — explicou ela.

— Estamos no mesmo corredor — Adam negou com a cabeça. —teria ouvido se me tivesse chamado.

— Não aconteceu nada — Darcy exitou. — Matt saiu.

— Bem.

— Adam, há algo mais. Ao chegar ao edifício, quando o fantasma desapareceu, não penetrou uma parede nem nada do estilo; simplesmente, desvaneceu-se. E senti medo. Então... vi uma sombra. A sombra de um homem, como se também estivesse seguindo o fantasma e se desalentasse quando desapareceu. Isso Ou...

— Ou?

— Ou estava me seguindo .

— Essa sombra, era etérea ou real?

— Não sei. Talvez real. Porque ouvi pisadas.

— E o que fez?

— Saí correndo.

— Para a casa?

— Sim. E então foi quando me encontrei com o Matt no alpendre.

— Tem certeza de que não era Matt quem te seguia? — perguntou Adam.

— Ele diz que não.

— Não parece muito convencida.

— Estou... acredito — disse Darcy. Adam sorriu. — Adam até que ponto conhece o Matt? Foi amigo de seu avô, certo?

— Sim — respondeu ele. — Conheci avô de Matt faz muitos anos. No exército. Passávamos as noites falando de fatos ocultos. Ele não acreditava muito em fantasmas, embora reconhecia que não sabia como explicar algumas das coisas que acontecia em Stoneyville. Nenhuma má. Nada perigoso. Havia muitas histórias de pessoas que tinham visto o fantasma de um soldado no salão de Melody House. Gente que dizia que as comportas se abriam e fechavam sozinhas. Ele se divertia com as lendas, mas nunca teve a sensação de que a casa estivesse encantada.

— Por isso tinha tanto interesse em que viéssemos a investigá-la?, Porque foi amigo dos Stone e conhecia o lugar?

— Mais ou menos.

Darcy não soube o que pensar. Adam nunca tinha mentido. E embora não acreditava que estivesse fazendo-o, tinha a impressão de que não estava contando toda a verdade.

Mas Adam continuaou falando antes de que ela pudesse perguntar outra coisa.

— Entendo que ontem à noite, quando voltou para casa, entrou nesta suíte com o Matt.

— Sim — disse ela ruborizada.

— e... nada mais?

Nada mais — respondeu Darcy, embora era uma pequena mentira. Sim que tinha tido a desagradável sensação de que ia reviver a paixão e a violência do sonho...

Mas Matt não era violento.

— Adam, preciso voltar a entrar no sonho. Preciso vê-lo com mais claridade. Não vejo os rostos, mas sei que há algo que vejo e não consigo reconhecer que me inquieta, e acredito que é a chave de tudo.

— O melhor é te hipnotizar de novo — respondeu ele. — Mas antes quero ver as fitas de vídeo. Levarei-as para minha suite. Provavelmente não haverá nada, já que estava dormindo. Por que não descansa um pouco e vê um momento de televisão, ou um livro, ou sai para dar uma volta?

Adam queria ver os vídeos sozinho. Era evidente. E ela também acreditava que não encontrariam nada nas fitas.

— Sim — Darcy levantou. — Em qualquer caso, lembre de que nos encontraremos lá embaixo, às doze e meia.

— Não me esquecerei.

Quando Adam saiu da suite, Darcy desceu as escadas. Penny devia estar em seu escritório. Tampouco havia rastro de Clara.

Saiu para o estábulo, para estar um momento com os cavalos. Enquanto os olhos se ajustavam à luz, surpreendeu-a encontrar-se com uma silhueta. Um homem estava junto a uma das cercas.

— Olá, Darcy, gosta de montar?

Era Carter. Darcy exalou aliviada.

— Não... Estava apenas vendo os cavalos, nada mais — respondeu ela e se aproximou de Carter. Estava junto a um cavalo chamado Azul da Meia-noite. — É o seu?

— Nenhum destes cavalos é meu. Mas quando monto aqui, este é meu companheiro.

— É bonito.

— Sim é, não é? Não vai acreditar nisso, mas Matt o encontrou nas montanhas. Estava desnutrido, tinha um aspecto horrível. Mas era um bom cavalo e Matt se deu conta. O trouxe e Sam cuidou dele. Isso faz uns meses. E olha-o agora! É um cavalo maravilhoso.

— Alegra-me que esteja aqui — comentou Darcy. — Pensava que estava ocupado — acrescentou então.

— Eu tinha que encontrar com o chefe da construtora de um imóvel que comprei — disse ele negando com a cabeça. — Mas me deu um bolo.

— Ah... acho estranho que tenha sua própria casa. Me parece que faz parte do Melody House.

—vÉ muito fácil formar parte do Melody House — respondeu Carter, — Aqui ainda fica essa coisa da hospitalidade sulista. E me sinto muito a vontade em Stoneyville.

— E com o Delilah Dey? — perguntou Darcy.

— É um encanto — Carter sorriu. — Não é você, é obvio, mas soube desde o começo que contigo não tinha nada que fazer. Matt tornou a ganhar.

— Não acredito que possa se queixar. Penny diz que teve muitas aventuras.

— Mas ainda não encontrei à mulher adequada — disse Carter.

— Isso não é fácil para ninguém.

— Sei... — Carter a olhou nos olhos. — As pessoas tem muitas caras, pode te enganar. Olhe a Lavinia, por exemplo. A princípio era atraente, doce. Veio numa das excursões que Penny organiza, conheceu Matt e, de repente, ficou. Faziam um casal maravilhoso. E logo se transformou em uma bruxa. acreditava que poderia obrigar a Matt a deixar tudo para partir com ela, e percorrer o mundo. Pouco a pouco, começou a ficar impossível. Bastava que Matt fosse amável com outra mulher para que Lavinia desse um espetáculo. Eram incríveis: tão logo os consumia a paixão como estavam desejando se matar. Depois... é curioso, parece que depois do divórcio ficaram amigos. Mas faz anos que não tornamos a ter notícias dela.

— Às vezes é melhor que o passado fiquei atrás em nossas vidas —disse Darcy encolhendo os ombros.

— Embora você não é como ela. Não se preocupe.

— Não estava preocupada.

— É ruiva.

— Há muitas ruivas no mundo.

— E ela também era alta e elegante.

— Mas eu não sou estista — respondeu Darcy. — Em todo caso, Eu gosto de Matt. Gosto de Todos. Mas levo uma vida estranha. E são poucas as pessoas que podem aceitá-la.

— É...é verdade pode ver o que outros não vêem? — perguntou ele.

— Carter, não há forma de explicar. Não tenho uma bola mágica. Não tenho visões sempre que quero. Às vezes estou receptiva e vejo coisas e outras vezes não.

Ele ficou calado uns segundos. Depois disse:

— Darcy, deveria ir embora daqui.

— Não posso acreditar que não esteja do meu lado!

— Estou. Acredito que é muito bonita e adorável, e não dá medo. Mas... não sei. Tenho a sensação de que... não está segura.

— por que não?

— Não sei, será que não é um bom lugar para as ruivas. Matt é um cara maravilhoso, mas talvez não o seja como homem adequado para você. E pode ser que em Melody House haja algum fantasma maligno, mas como não o vemos, não nos faz mal. E a você sim pode fazer isso — Com Matt. Acabara te fazendo mal — advertiu Carter.

— Carter, por favor. Não tenho medo de fantasmas.

Ele virou para ela e pôs as mãos em seus ombros.

— Darcy, é uma mulher muito valente. Bonita, segura de si mesma, incrível. Mas Melody House... Sério, acredito que deveria partir. Porque... esta muito envolvida.

— Em que me envolvi? — repetiu ela.

— Com Matt. Acabara se dando mal — advertiu Carter.

Darcy assentiu com a cabeça e pôs as mãos sobre as dele, que seguiam em cima de seus ombros. Deu-lhe um tapinha afetuoso e as tirou do ombro.

— Obrigado, Carter.

— Não me interprete mal, você é um cara maravilhoso.

— Mas não para você, não é isso?

— Terá que levar em conta a Lavinia — disse Carter. — É uma pena que não a conhecesse. Mas, claro, desapareceu.

— Estarei bem, mas muito obrigado por preocupar-se — respondeu ela e deu meia volta, disposta a partir.

— Darcy! — chamou-a Carter e ela se virou. — Não quero que soe estranho, mas... amo o Matt. Acredito que é um dos melhores homens que conheci em toda minha vida. Acredito que você também é uma grande pessoa. E talvez... talvez este lugar não seja bom para você. Por favor, como já disse... só me preocupo com os dois.

— Sei. Obrigado, Carter.

Depois partiu. Tinha sido uma conversa muito estranha e a tinha deixado inquieta.

Carter tinha falado de um modo estranho, com muitos rodeios. Embora a mensagem era evidente: Matt era seu amigo, um grande amigo.

Assim... Se Matt fizesse algo errado alguma vez, não seria ele quem iria a delatá-lo. Mas até que ponto seria leal a essa amizade? Teria insinuado que algo tinha acontecido realmente com Lavinia depois do divórcio?

Era absurdo. Com certeza não tinha sugerido que não haviam tornado a ter notícias da Lavinia porque tinha ocorrido algo.

E, entretanto... Enquanto retornava à casa, não pôde evitar recordar a estranha sensação que tinha tido a noite anterior. Paixão... E Depois violência.

 

A cerimônia para o enterro do crânio foi triste e singela. Todd Bellamy, o padre, era um homem alto, de cabelo cinza e voz clara, suave e ressonante.

Embora fazia séculos que a família não vivia ali e o tempo tinha corroido as lápides e não podiam ler, os arquivos tinham permitido ao coveiros escavar no lugar adequado. Matt explicou que já não havia caixão de madeira como o original, assim tinham enterrado o crânio em uma urna de ferro moderna, que fariam descender junto ao resto do cadáver, à altura da cabeça aproximadamente.

De modo que baixaram o crânio e o sacerdote fez uma oração e deu um pequeno discurso.

— Que todos os pecados do passado sejam perdoados, enquanto Amy descansa no quente seio de seu criador, que também ela encontre forças para perdoar. Seu tempo nesta terra foi breve. Que na glória do Senhor, encontre a paz e reze para que ninguém mais tenha uma morte tão violenta como a sua. Quem sofre na terra são recompensados no céu e ali, com toda segurança, Amy terá encontrado amor e felicidade. Agora, se inclinarem a cabeça...

Bellamy fez uma série de orações em favor da morta. Darcy abaixou a cabeça e se surpreendeu examinando o cemitério. Era um lugar bonito, adjunto da igreja. Estava cheio de tumbas, panteões e anjos. Estava certa que de noite teria um ambiente muito especial e que para a maioria das pessoas seria amedrontador.

Inclusive nesse momento, embora fosse dia e estavam no verão, as nuvens estavam cobrindo o céu. Ao chegar, o sol tinha iluminado o lugar, realçando o encanto histórico das Igrejas e os cemitérios. Mas o céu, cada vez mais encapotado, criava de repente um ambiente carregado, que recordava muitos os filmes de terror. Embora ninguém parecia alterar-se, como se todos ali estivessem acostumados ao velho e o histórico.

Sem levantar a cabeça, de relance, Darcy observou que a um lado, longe da igreja, havia um grupo de cadeiras cobertas por um toldo e distribuídas ao redor de uma tumba aberta.

Os mortos continuavam a ser enterrados naquele cemitério.

— Pó ao pó, terra à terra — disse o padre.

Matt tinha planejado a cerimônia com precipitação premeditada, de modo que não havia muitas pessoas. É obvio, estavam Sam, Clara, Penny, Carter, Clint, Matt, Adam e ele mesmo. Delilah Dey tinha ido em represenndo a Prefeitura. Também tinham apresentado Jason Johnstone, convidado por Matt especificamente, e um sujeito alto e magricela que dizia ser escritor. Mae estava encantada de ter podido ir ao ato e também a senhora O'Hara tinha escapado da biblioteca. E embora haviam algumas pessoas a mais, que Darcy não conhecia, em geral, Matt tinha conseguido que o enterro não tivesse muita repercussão.

— Amém! — disse o sacerdote. — Que o Senhor esteja com vocês. Podem ir em paz.

A cerimônia tinha terminado. Tão logo o padre tinha acabado falar um homem que dizia ser escritor se dirigiu ao Darcy:

— Senhorita Tremayne?

— Sim?

— Sou Max Aubry, do jornal local. Acima de tudo, bem-vinda a Stoneyville. Estamos encantados por tê-la aqui. Fiquei sabendo que foi você quem encontrou o crânio. Importa-se me contar como foi?

Darcy não teve tempo de responder. De repente, Clint estava a seu lado, protegendo-a como se fosse um bulldog.

— Sim importa, Aubry.

— O que esta acontecendo?, Estamos no reino dos Stone e não me contaram? — respondeu Aubry. — Clint, estamos nos Estados Unidos. Há liberdade de imprensa. Deixa que a senhorita responda.

— Posso falar com ele uns minutos. Esta tudo bem, Clint — disse Darcy.

—Vê? Quer falar — disse Aubry.

Clint olhou para Darcy, como dando uma advertência; mas depois encolheu os ombros, deu a volta e se afastou

— Darcy, carinho! — chamou-a então Penny. — Vamos ao Wayside comer algo.

—Podem ir, depois eu vou — respondeu Darcy. Viu que Matt e Adam estavam falando com o padre. Carter e Delilah estavam de mãos dadas e lendo lápides antigas.

— Podíamos nos aproximar do carvalho velho e assim seus dóbermans não me mordam os calcanhares — disse Aubry.

Darcy sorriu, convencida de que, por muito sensacionalista que fosse, poderia dar conta do jornalista.

O carvalho estava perto da tumba aberta. Darcy sentiu curiosidade pelo ocupante.

— A senhora Morrison — disse Aubry.

— Como diz?

— Que é a tumba da senhora Morrison. Tinha cem anos em seu último aniversário. Morreu faz uns dias enquanto dormia, rodeada de sua família. Todos a amavam — informou Aubry. — Bom, acredito que você é investigadora de acontecimentos paranormais. Localizou o crânio graças a uma visão?, Como o fez? Os fantasmas lhe falam? Às pessoas adora estas coisas.

— Na verdade, senhor Aubry, encontrei o crânio graças ao havia documentado sobre a lenda na biblioteca. Logo... não havia mais que deduzir onde teve lugar o assassinato e calcular quanto podia haver-se movido o crânio ao longo dos anos.

— Então não fala com os fantasmas? — perguntou ele, decepcionado.

Jamais permitiria que aquele homem a citasse afirmando que sim o fazia.

— A mente é prodigiosa, senhor Aubry. Mas não estamos acostumados a uzar todo nosso poder mental. Como o nome da empresa indica, Investigações Harrison leva a sério um grande trabalho de investigação. Às vezes descobrimos fraudes e outras vezes encontramos coisas para as que não temos resposta. De modo que se quer informar o que aconteceu, escreva que recolhi os detalhes da história na biblioteca.

— Onde teve um acidente — acrescentou Aubry. — Não se machucou?

— Não.

— O delegado a salvou, não?

— Sim, é uma sorte que estivesse aí.

O homem a olhava como se tratasse de lhe roubar mais informação. Darcy não se sentiu intimidada, a não ser desafiada.

— Um pouco estranho, não lhe parece?

— O que?

— Que o delegado estivesse na biblioteca — respondeu Aubry com impaciência.

— O que tem de estranho? Sabia que tinha ido ali para pesquizar. É normal que se aproximasse para ver como ia. Por sorte, chegou bem a tempo.

—Acredita que é possível que um fantasma, por medo do que possa descobrir, seguisse-a desde o Melody House para atacá-la na biblioteca e evitar que continuasse investigando? — perguntou Aubry.

— Senhor Aubry! — exclamou Darcy depois soltar uma gargalhada. — A madeira cedeu porque tinham atirado um refresco em cima! O ácido afetou as tábuas. Não, não acredito que um fantasma saísse de Melody House, penetrasse na biblioteca com um refresco e o derramasse no chão.

Aubry se ruborizou.

— Mas não se assustou?

— Quando o chão cedeu? É obvio.

— E agora não tem medo?

— Por que ia ter medo?

— Porque o fantasma deve pensar que se está metendo em seus assuntos.

— Senhor Aubry, não me lembro de ter dito que havia algum fantasma.

— Não negue — respondeu ele. — É evidente que Matt Stone a chamou para expulsar a um fantasma!

— O senhor Stone autorizou a Investigações Harrison a explorar Melody House porque tinha conhecimento de uma série de acontecimentos estranhos. Estamos investigando esses acontecimentos, pesquisando, igual fiz com o assassinato da Amy, que é o que me permitiu encontrar o crânio. Isso é tudo, senhor Aubry. Temo que não tenho nada mais que dizer.

— Por que acredita que a maioria desses incidentes tiveram lugar nos últimos anos? Acredita que os Stone querem fazer acreditar que há fantasmas para atrair turistas?

— Matt Stone não acredita em fantasmas, assim não pode inventá-los

— Não necessariamente. Não acredita em fantasmas, mas faria qualquer coisa para seguir adiante com Melody House — respondeu Aubry. — Não sei se souber que esteve casado com a Lavinia Harper. Era uma mulher muito rica. Desde que se divorciaram, não conta com o respaldo de seu dinheiro. Assim tem uma razão: problemas econômicos. Não é necessário acreditar em fantasmas para inventá-los.

—Sinceramente, estou convencida de que Matt não está inventando nada, senhor Aubry. Se tiver alguma pergunta mais, meu colega e fundador da empresa, o senhor Adam Harrison, está aqui. Talvez queira falar com ele.

— Onde está? — perguntou Aubry com secura.

— Estava com o padre — disse Darcy, apontando para a igreja.

— Obrigado! — despediu-se ele.

Darcy se apoiou contra o tronco do carvalho. Sentia-se cansada e, de novo, inquieta. Estava claro o que Aubry pensava.

Matt Stone se casou por dinheiro. Depois tinha se divorciado. Assim precisava de dinheiro. Lavinia tinha desaparecido. Se tivesse assassinado a sua esposa, não precisaria de dinheiro, não? Embora já não estivessem casados. divorciaram-se. Apertou os dentes. Dava-lhe raiva deixar que as pessoas a fizesse suspeitar de Matt. Não tinha sentido. Matt seria incapaz de fazer algo assim. Simplesmente, estava farta de todos os rumores que havia sobre o Melody House e queria descobrir o que acontecia. Por isso tinha chamado a Adam, não para atrair turistas.

Estava segura de que Matt tinha amado Lavinia. De que no princípio estava apaixonado por ela. Tinham tido uma relação de paixão... e ódio.

Como a que ela tinha presenciado em seus sonhos.

— É absurdo! — exclamou em voz alta.

Justo nesse momento desabou a tormenta. Primeiro caíram umas gotas na cabeça. Depois, o vento começou a soprar com força. De repente, as gotas se transformaram em um dilúvio. Darcy sabia que não devia permanecer debaixo de uma árvore. Os carros estavam do outro lado do muro, de modo que os alcançaria antes se molhasse muito. Caminhou para o muro, teria que rodear a tumba em que iam enterrar à senhora Morrison, a mulher centenária que havia falecido enquanto dormia.

Darcy baixou a cabeça e pôs-se a correr. Foi como uma corrida boa até o toldo que tinham colocado sobre a tumba. Não ouviu nada atrás dela. Nada absolutamente. Mas a chuva caía com força e o vento era ensurdecedor. Podia ter afogado o ruído de umas pegadas. E, entretanto, não soube que especie de força a apanhou enquanto passava junto à tumba. Só soube que a empurrou com tal força que a desequilibrou. Fez com que ela tropeçasse. Caisse... no buraco escuro. De dois metros de altura para ser exatos. Sobre a areia molhada da tumba.

 

A chuva caía com força. Matt viu Penny, que tinha posto o xale sobre a cabeça e corria para a porta do carona. Matt se espichou para abrir-la. Penny entrou e tirou o xale, que pouco que tinha conseguido protegê-la.

— Enchi o carro de água — se desculpou. — Quem ia imaginar que nos surpreenderia esta tormenta! Menos mal que é verão!, se fosse inverno não sei a que nos aconteceria! Enfim, vamos comer? Ficamos de nos encontrar no Wayside.

— Sim — disse Matt. — Onde estão outros?

— No carro do Adam. Ele dirigia.

— Darcy?

— Estará com ele também. Isso se não...

— Se não, o que? — perguntou ele.

— Max Aubry a tinha encurralada. E já conhece Darcy. Estava convencida de que podia arrumar ela sozinha com esse monstro. Clint tentou espantá-lo, mas... não se preocupe, Matt. Darcy não gosta de chamar a atenção com seu trabalho. Aubry não poderá escrever um de seus artigos sensacionalistas.

Darcy estava com o Max Aubry. Genial.

Matt pisou no acelerador com mais força da que tinha pretendido.

— Matt, não acontecerá nada.

— Sei, com certeza.

— Foi uma cerimônia bonita — comentou Penny. — Verdade que o padre era fabuloso?

—Sim.

—Vamos, Matt. Está claro que Aubry publicará algo. Dirá que por fim Amy pode descansar em paz. Que mais pode dizer?

— Ou seja. Podem dizer que o delegado do Stoneyville perdeu a cabeça e passou a contratar caça-fantasmas para solucionar problemas de sua jurisdição, porque não tem o talento para descobrir as coisas que estão diante de seu nariz.

— Aubry nunca escreveria algo assim — assegurou Penny. — Confie em mim. Darcy não dará material para jogar lenha na fogueira. É verdade que faz um tempo espantoso?, consegue enxergar bem?

— Sim, Penny, vejo a estrada. Tem certeza de que ficamos ir ao Wayside diretamente? Vamos estar ensopados.

— É então nos secaremos.

        Continuava chovendo a cântaros quando chegaram ao bar. Matt emprestou seu guarda-chuva a Penny, baixou a cabeça e pôs-se a correr para molha o menos possível.

Foram os primeiros a chegar. Nem sequer Mae tinha retornado ainda, embora Sim Jones sim, que estava substituindo-a, assegurou ao Matt que tinha reservado umas mesas para que pudessem sentar-se todos juntos.

— São da casa — disse Sim.

Penny e Matt sentaram, pediram café e ficaram a esperar que chegassem outros.

 

Doía-lhe uma têmpora. bateu contra terra dura ao cair na tumba e tinha perdido os sentidos. Não sabia durante quanto tempo, mas não podia ter sido mais de uns dois minutos.

Chovia com força e a terra estava fazendo barro. Quando conseguiu ficar de pé, viu que a água chegava já até os tornozelos.

—Socorro! — gritou tão alto como pôde. Mas algo lhe dizia que ninguém poderia ouvi-la... embora estivessem perto.

Darcy mordeu o lábio inferior, abraçou-se para dar calor. O sol estava totalmente coberto. Dentro daquele buraco profundo estava todo negro e o céu que via em cima era cinza.

Que diabos tinha acontecido? Um golpe de vento a tinha empurrado?, ou uma mão com muitíssima força? E por quê?

— Socorro! — gritou de novo.

Darcy começou a apalpar os laterais da parede, se por acaso havia algo em que agarrar-se para subir. Mas não encontrou nada. Tentou cravar os dedos na terra, mas se desfazia assim que a tocava. Saltou para alcançar a superfície da tumba. Conseguiu roçá-la com uma mão, mas em seguida escorregou.

Estava ensopada. tirou o cabelo dos olhos e parou para recuperar o fôlego. Alguém daria por sua faltava. Não é?

— Socorro!, socorro! de repente, sentiu pânico e começou a gritar desesperada. Uma vez mais, tentou sair da tumba. Um trovão estalou com fúria e o céu se obscureceu mais ainda. Estava dentro da água, tremendo de frio, esgotada. Apoiou-se contra uma lateral da parede e tentou acalmar-se para pensar.

A escuridão, a profundidade da tumba e o cheiro de terra molhada tinham conseguido assustá-la.

— Faz anos que falo com fantasmas! — sussurrou. — por que vou ter agora medo por estar em um cemitério?

Mas tinha medo. O chão estava cada vez mais enlameado e a lama lhe chegava já às panturrilhas. Pareceu sentir insetos rastejantes pela pele. Tinha frio. Era verão, mas não deixava de chover e o vento soprava e soprava. Seus dentes começaram a bater e a escuridão era tal que tinha a impressão de que estava encerrada não só na tumba, mas também dentro de um caixão. O celular.

Não se lembrou do celular, sorriu e se chamou tola por haver-se alarmado. Embora tinha levado um bom golpe na cabeça e era normal que custasse pensar com claridade. agachou-se e tratou de encontrar a pequena bolsa negra que tinha levado para a ocasião. A terra era puro barro. Também suas mãos estavam enlameadas quando conseguiu abrir a bolsa.

E o interior também o estava.

Encontrou o celular sem dificuldade. só esperava que funcionasse. Apertou os botões, limpou-os com delicadeza. Em vão. entrou água. Água que seguia subindo a seu redor. Furiosa, jogou o celular contra um lado da tumba. Não parava de chover. O dia estava cada vez mais escuro. O vento soprava com um uivo terrível.

Fechou os olhos com a esperança de ouvir alguém que lhe assegurasse que em seguida seria resgatada. Precisava que alguém lhe dissesse que não aconteceria nada, que iam tirá-la da tumba. E se...?

O mais normal tivesse sido que perdeu os sentidos totalmente ao cair. Que não o tivesse recuperado tão logo. E se supunha que devia haver ficado aí caida, sozinha, calada, perdida, enquanto os outros estavam certo que estava com outra pessoa? E se a tinha empurrado uma pessoa de verdade? E se essa pessoa voltasse...

— Socorro! — gritou de novo.

Fechou os olhos. Imaginou ossos flutuando. A escuridão voltava. Parecia acariciá-la. quanto mais nervosa ficava, mais visões tinha: cadáveres putrefatos aparecendo à tumba, vendo-a com vida, jogando-se para baixo. Escuridão, o barro a cravava ao chão, enterrando-a mais e mais enquanto a água subia...

—Não!, Darcy, não! — repreendeu-se. Iriam resgata-la. Alguém viria em seu auxílio.

— Josh? — sussurrou então. Não o viu, mas notou como se uma carícia cálida descendesse sobre ela. — Josh!, me ajude!

De novo, essa sensação de calidez e bem-estar.

— Calma — sussurrou Josh dentro da cabeça de Darcy.

— Fique comigo. Tenho medo — disse ela com suavidade.

Um relâmpago atravessou o céu de repente. Darcy ouviu a explosão e não imaginou o que seria até que ouviu o som de algo que se quebrava.

— Josh! — gritou.

Um rangido enorme encheu o ar e Darcy compreendeu o que tinha acontecido.

O raio tinha alcançado ao carvalho. Um segundo depois, Darcy gritou enquanto o tronco caía... aterrissando bem sobre o boca da tumba aberta.

 

Adam chegou com os que tinham ido em seu carro.

Clint, Clara e Sam.

— Onde estão outros? — perguntou Matt.

— Carter vem com o Delilah. Não demorarão muito. Vinham atrás de nós. Mae está estacionando a caminhonete, Jason Johnstone está ajudando ao David Jenner com a equipe. O padre não pode vir: tinha que terminar os preparativos de um funeral que, a princípio, celebra-se esta mesma tarde. A senhora O'Hara vinha em seu carro. e...

— Darcy, onde diabos está Darcy? — perguntou Matt.

— Não vinha contigo? — perguntou Adam.

— Esse inseto do Aubry a terá convencido para trazê-la em seu carro — grunhiu Clint.

— Foi com ele? — perguntou Matt.

— Sim... Bom, ao menos estava falando com ele — respondeu Clint.

Matt assentiu com a cabeça, levantou-se e se aproximou de uma das mesas de bilhar. Colocou as bolas com precisão. Agarrou o taco e golpeou a branca com tal força que as bolas do triângulo se distribuíram por toda a mesa.

— Peço alguma coisa para você, Matt? —perguntou Penny.

— Sim.

— O que quer?

— Comida.

— Matt?

— Um hambúrguer, Penny. Obrigado — acrescentou de um segundo.

— Matt, se quer chamo o jornal de Aubry e lhes peço seu celular —comentou Clint.

— Para que? — disse Matt, depois de interromper uma partida que tinha intenção de jogar ele sozinho. — Para chamá-lo e exigir que traga Darcy para cá?

— Devia ter ficado com ela — murmurou Clint.

— Não está acontecendo nada. Esse cara é idiota e não tem remédio; mas Darcy já é crescidinha e está em seu juízo perfeito. Em parte pelo menos — acrescentou com sarcasmo.

Clint ficou olhando-o um momento, tentando pensar algo que dizer. Por fim, levantou as mãos e se afastou. Matt foi colocando as bolas uma a uma sem falhar um só tiro. Quando terminou, acalmou-se um pouco. Mas estava zangado. E não estava seguro de se estava mais furioso consigo mesmo por não ter estado mais atento, com o Aubry por ser tão oportunista, ou com o Darcy por ser...

Deixou o taco e voltou para a mesa. Penny estava sentada na cadeira do lado. Anthony Larkin também se uniu a eles. Por sorte, Anthony não tinha interesse em falar do enterro do crânio. Estava emocionado com o desfile do aniversário da batalha.

— Vou montar o Geyser e embora os dois estejamos velhos, prometo-lhes que vamos dar uma surra nos mais jovens — avisou. — Você participa, Matt?

— Estarei com meu melhor uniforme de delegado, me assegurando de que a multidão não se alvoroçará muito e de que não briguem de verdade —respondeu Matt. Olhou a seu redor e viu que todos os que tinham ido ao cemitério já tinham retornado.

Carter e Delilah estavam juntos. A senhora O'Hara estava concentrada em uma conversa com o Adam. Os dois amantes da História. Formavam um casal maravilhoso.

— Ouça! — chamou-o Carter então. — Onde está Darcy?

— Não sei — respondeu ele.

— Continua com o verme do Aubry? — perguntou Deliah

—Tal como o dizem, parece que Darcy se tornou uma traidora —comentou Adam. De repente, olhou alarmado Matt. — Um momento, não acredito que esteja com ele absolutamente. Veio me amolar quando estava entrando no carro. De fato, tinha achado que vinha contigo, Matt.

— Foi falar com o padre para felicitá-lo pela cerimônia. Foi tão bonita!

— Darcy precisa de você...

Matt deu um salto e virou paraa ver quem tinha sussurrado essa última frase a seu ouvido.

Não havia ninguém. Ninguém absolutamente. A pessoa mais próxima era Penny e estava a mais de um metro.

— Quem disse isso? — perguntou.

Penny o olhou estupefata.

—Só disse que Darcy ficou com o sacerdote — disse à defensiva. — O que esta acontecendo? Por que está tão zangado?

—Talvez o jornalista voltasse para falar com ela — disse Adam, como se estivesse tratando de tranqüilizar-se. — Acabava de começar a chover e eu estava já em meu carro. Suponho que ele voltaria a procurá-la para levá-la no seu.

— Darcy... Darcy...

Matt ouviu o sussurro dentro da cabeça. Um sussurro premente. levantou-se de repente e correu para a saída.

— Vou procurá-la.

Adam Harrison se levantou, como se tivesse intenção de acompanhá-lo. Matt não o esperou. Não havia tempo que perder. Saiu do Wayside e pôs-se a correr para seu carro.

 

Os ramos do carvalho cobriam toda a boca da tumba e penetravam para baixo. Superado o terror inicial, Darcy tinha tentado usar a árvore para subir e escapar por algum buraco. Mas cada vez que tentava subir por um ramo, este escorregava em suas mãos e acabava caindo contra a água enlameada.

Estava imersa, suja e gelada. Perguntava se poderia sobreviver uma noite inteira naquele fosso. A tarde tinha caindo e o céu estava negro. Notou que algo a roçava na água e reprimiu um grito. Uma cobra.

Havia cobras venenosas na Virginia?, que espécie de criaturas haveria nas tumbas de um cemitério? Tinha que sair. Estava tremendo. Não podia dar rédea à imaginação. De novo, lhe apareceram imagens de mortos e fantasmas que dançavam diante dela. E saindo da terra. Sim, ela falaria com os fantasmas, mas estes não pareciam dispostos a falar com ela. Só estavam fazendo brincadeiras macabras para aterrorizá-la mais do que já estava.

A água lhe chegava à cintura.

—Flutuarei na água e poderei chegar à superfície disse em voz alta.

Uma vez mais, tentou agarrar um ramo da árvore. Parecia um ramo resistente. Apoiou um pé em uma lateral da tumba.

O pé escorregou no lodo e o ramo quebrou ao mesmo tempo. Ao cair, ficou com a cabeça sob a água. Levantou-se engasgada, cuspindo. E, de repente, um milagre.

—Darcy!

O teria imaginado ou seriamente tinha ouvido uma voz?

— Aqui!, aqui! Estou aqui!, socorro!

Silêncio. Não ouviu nada absolutamente. Não tinha gritado suficientemente alto e o vento e a chuva se levaram sua voz. Por outra parte, começava a ficar rouca.

— Darcy!

Não o estava imaginando. Era Matt.

Saltou, levantando o mais que pôde, e gritou:

— Matt!, aqui!, estou aqui, Matt! Por favor!

E então, por fim, começaram a retirar o carvalho.

— Deus, sim!, graças a Deus!, obrigado! — exclamou aliviada.

Depois olhou para cima. O céu estava negro. Só viu a silhueta do Matt.

Estava de pé, com as mãos nos quadris, olhando para baixo.

E, por um momento, Darcy se estremeceu. Matt. Como tinha adivinhado que estava aí... se não a tinha empurrado ele mesmo? Talvez não tinha ido salva-la. talvez estava a ponto de agachar-se para afunda-la na água e afogá-la.

Matt se ajoelhou junto à tumba. Já tinha pensado antes. Talvez a tinham empurrado de propósito para Depois...

Resgatá-la.

— Deus!, como diabos...? — disse ele. — Me dê a mão.

Matt não esperou. Baixou o braço e a agarrou. Ela se retraiu em um ato reflexivo.

— Está ferida? — perguntou ele nervoso.

— Não.

— Deixa que te tire daqui!

Darcy engoliu seco e deixou que Matt a agarrasse com força. Este se inclinou, passou-lhe um braço sob o ombro direito e depois a puxou com todas suas forças.

Ambos caíram a um lado da tumba. A chuva seguia martelando. Matt a olhou um segundo antes de levantar-se e oferecer uma mão para que também ela se levantasse.

— Está congelada! — disse. — Como diabos caiu na tumba? Não importa, vamos para casa.

Darcy não parava de tremer. Os joelhos não a sustentavam em pé. Matt a levantou nos braços, levou-a até o carro e a posou sobre o assento do carona.

— Como caiu em um buraco tão grande? Tinha que vê-lo — disse enquanto punha uma manta sobre os ombros. Mas não tinha caido. Tinham-na empurrado. Teria sido mesmo Matt?

— A chuva... ia correndo...

— Deus, Darcy! te olhe — Matt arrancou. — Está bem? Quebrou algo?, torceu alguma parte?

Só tinha um golpe na cabeça.

— Estou bem.

—Tem certeza? — Matt a olhou preocupado. — Este lugar não é bom para você.

— Estou bem — repetiu ela. Continuava chovendo, mas, a pouco, parecia que parava. — Matt?

— Sim?

— Como soube onde estava?

— O que quer dizer?

— Como me encontrou? O carvalho estava cobrindo a tumba. e... demorou um bom momento.

Matt franziu o cenho, a olhou de esguelha e voltou a atenção para estrada.

— Acreditávamos que tinha ido com o Max Aubry.

— O que?

— Clint disse que estava disposta a falar com ele, que podia se arrumar sozinha.

— E me arrumei sozinha.

— E depois íamos em muitos carros. Não me dei conta de que faltava até que Adam disse que Max Aubry tinha ido falar com ele quando já estava partindo.

— Entendo.

Chegaram em Melody House. Matt saiu do carro e o rodeou para lhe abrir a porta. Então, deteve-se e perguntou:

— Não irá dizer que um fantasma te empurrou para que caísse na tumba?

— Não. Absolutamente — respondeu ela.

— Venha, ajudo-te.

— Posso ir sozinha, obrigada. Desceu do carro e se endireitou. Mas o mundo parecia dar voltas a seu redor. Apertou os dentes. Doía-lhe a cabeça, bem na têmpora em que bateu ao cair.

— Você vai escorregar!, está tudo enlameado! — disse Matt com impaciência.

Um segundo depois, tinha-a levantado nos braços. Continuava gelada. Não podia lutar. Matt chegou até o alpendre, tirou a chave como pôde e abriu.

Entraram no vestíbulo, onde, muitos anos atrás, dois amantes tinham brigado ferozmente. Depois, o homem tinha levantado nos braços à mulher...

E a tinha levado a suíte Lee.

Como Matt a levava nesse momento. E igual ao passado, Matt a posou sobre a cama e deu a volta.

No passado, um homem se deu conta do que uma mulher sabia e podia contar dele. Virou-se para ela e tinha rodeado seu pescoço com as mãos até lhe tirar a vida.

Matt virou-se para ela.

— Maldição, Darcy! — disse brandamente.

E se aproximou dela.

 

— Estão demorando muito — disse Penny enquanto olhava seu prato vazio e o hambúrguer inteiro que tinha pedido para Darcy e Matt.

— Sim, bom, podemos pedir um café — sugeriu Deliah. — Não gostaria de um café?

— Quem dera soubéssemos onde está Darcy — murmurou

— Com certeza não lhe aconteceu nada! — disse Delilah.

— Estou certo de que estará bem — afirmou Carter.

— Então pediremos café. Já verão, antes de que terminemos terão retornado.

— E porquê demoram tanto? — insistiu Clint.

— Acredito que deveríamos voltar para Melody House o quanto antes — disse Adam.

Todos o olharam.

— Adam!, teve um pressentimento? — perguntou armada Penny. — Algo de errado?

— Calma, não tive nenhum pressentimento — respondeu ele. — Mas suponho que se Darcy ficou muito tempo sob a chuva, Matt a terá levado diretamente a casa.

— Lógico! — exclamou aliviada Penny. — Mae, diz-nos quanto é? Ou, melhor, coloque na conta do Matt?

— É obvio — disse Mae.

— Pois eu acredito que é melhor que peçamos um café — protestou Delilah. — E se acontecer de Matt acabar trazendo-a aqui?

— Isso é verdade — a apoiou Carter.

— Bom, eu volto para Melody House — disse Adam, depois de exalar um suspiro exasperado. — Vocês fique aqui. Assim, cobrimos todas as possibilidades. Quando chegar a casa eu ligo.

Pôs-se a andar para a porta. O telefone do bar soou e Sim respondeu:

— Olá... sim? — Sim afastou o telefone da boca — Senhor Harrison! Não tem que ir a nenhum lado. Já a encontrou. Matt está com ela. Caiu em uma tumba. Todos ficaram mudos. Um a um, olharam-se boquiabertos.

 

Darcy abriu o jato da ducha. Sentia-se estúpida. Tinha estado a ponto de dar um enfarte quando Matt se virou para ela na suíte Lee; mas nem sequer a tinha olhado.

— Não posso acreditar que me esqueci disso. — esqueci telefonar para avisar os outros que te encontrei. Tem certeza que está bem? Tenho a sensação de que não faço mais que te perguntar o mesmo, Darcy Porque não devia estar aqui. Anda, vai tomar uma ducha. Depois, se quiser, vamos para o Wayside. Estou certo de que outros terão terminado de comer, mas com certeza que vão quer te ver. Estou em minha suíte. Acredito que eu também vou tomar um banho.

Assim se foi. Sem violência nem paixão.

E nesse momento, fora já da tumba e superado o terror, sentia-se perdida. Tinham-na empurrado ou tinha sido o vento? Atirou a roupa diretamente no lixo. A saia e a blusa de seda nunca voltariam a ser as mesmas. Além disso, recordaria para sempre daquele incidente. Antes de meter-se sob a ducha, abriu o estojo de primeiro socorros e tomou vários comprimidos contra a dor de cabeça.

Jamais uma ducha tinha parecido tão deliciosa. A água saía quente, a toda pressão. Permaneceu sob o jato mais do que seria devido, mas saiu sem um pingo de barro, com o cabelo limpo e com as forças renovadas. A chuva tinha suavizado a temperatura, de modo que, apesar de estar no verão, Darcy colocou um pulôver fino e os jeans.

Então se perguntou se o fantasma estaria escondido, mas seguia observando-a. Tinha a sensação que a suíte estava temperada, não fria. Se havia algum fantasma, estaria de bom humor.

Saiu da suite ao mesmo tempo que Matt da sua.

— Pronta? Não temos pressa. Se alguém partir antes de que cheguemos, que parta. Tem o cabelo molhado ainda.

— Não tem importância, logo secará.

Matt assentiu com a cabeça e, com um gesto da mão, convidou-a a descer primeiro as escadas. Ficou desgostosa ao se dar conta de que tinha medo de deixar Matt atrás dela.

Desceu depressa, assegurando-se de manter certa distância dele. Ao abrir a porta, viram que tinha parado de chover. Mas a noite tinha caído e a escuridão parecia mais ameaçadora que nunca.

Matt não pareceu notá-lo. Saiu, foi para o carro e abriu a porta do carona. Darcy entrou.

Levavam vários minutos em silêncio, mas Matt se deu conta de que ela o olhava de esguelha com freqüência.

— Aconteceu algo? — perguntou ele.

— Não, não. Levei um bom susto, é obvio. Ninguém gosta de cair em uma tumba. E estava ensopada. Mas... já estou bem.

Matt não respondeu, mas Darcy sabia que ele continuava olhando-a, como se não acreditasse uma só palavra. Quando chegaram ao bar Wayside, desceu do carro sem dar tempo a que Matt abrisse a porta. Depois pôs-se a andar para a entrada, que se abriu de repente.

Clint foi o primeiro em sair. Correu a lhe dar um abraço e a levantou.

— Pobre! — exclamou olhando-a nos olhos. — Tínhamos ido e tínhamos te deixado em uma tumba!

— Clint, pode me colocar no chão. Estou bem.

— Darcy! — Adam foi o seguinte a sair. Não a levantou, mas também a espremeu contra seu peito.

— Estou bem. Graças a Deus que Matt veio para me tirar. Se não, seguiria lá, gritando.

— Bem feito, Matt! — felicitou-o Carter, que tinha saído depois de Adam. — Como a encontrou?

— Não pode se dizer que tenha sido um trabalho policial de altura —murmurou Matt. — Tínhamos deixado no cemitério e voltei para cemitério.

— Claro! — disse Penny depois sair do Wayside. — Darcy, carinho, pedi um hambúrguer para você. Espero que goste. Ou seja, leva conosco suficiente tempo e acredito que os caça-fantasmas não têm por que ser vegetarianos. Por que seriam? Não importa. Gosta de um hambúrguer?

— Gosto muito, Penny. Obrigado.

— Tem café quentinho te esperando na mesa! — gritou Mae de dentro.

— Obrigado! — respondeu Darcy de fora.

Clint abriu a porta. Carter a conduziu para dentro. Mae a interceptou, abraçou-a e a senhora O'Hara se aproximou com os olhos abertos.

— Pobrezinha! Parece que tem um ímã para os acidentes. Mas espero que não acredite que é coisa do Stoneyville. Este lugar é maravilhoso. Eu não gostaria que fosse embora com uma má impressão.

— Não se engane — disse Clint, sorridente, enquanto a acompanhava a mesa. — Todos acreditavam que tinha passado para o lado do inimigo. Bom, até eu também acreditei.

— Do inimigo?

— Max Aubry.

— Como ia com o Max Aubry?

—Disse que era uma caça-fantasmas e que podia falar com eles? —perguntou Penny.

— Não — Darcy notava que Matt a estava olhando. — Expliquei que Investigações Harrison se dedica a pesquisar e a tirar conclusões a partir do que averiguam, nada mais.

— Nós preocupados com o que podia dizer e estava em uma tumba. É horrível — murmurou Penny.

—Eu teria morrido — disse Delilah. — Teria desmaiado de medo. Mas você é você e suponho que disse aos ossos e aos fantasmas que se ficassem tranqüilos.

— Não —respondeu Darcy. — Estava assustada. Muito assustada. Foi uma experiência horripilante... até para mim.

— Esperemos que não tenha pegado uma pneumonia! — disse Mae. — Tome o café. Está quentinho. Uma sopa!, vou te preparar uma sopa!

— Que bom! — disse Matt. — Para mim também?

Carter separou um segundo do Delilah e fez uma carícia no bochecha de Darcy.

— Menos mal! — exclamou. Depois olhou para Matt assombrado. — Estava dentro da tumba e mesmo assim pode encontrá-la.

— Dentro e tampada pelo carvalho. Um raio o arrancou — disse Matt. — Mas já conhecem a Darcy, nunca se dá por vencida. Seguia gritando, assim não custou encontrá-la.

— Por que não chamou alguém? — perguntou Clint.

— O celular quebrou com a queda — explicou ela.

— Pior seria se tivesse quebrado você — disse Mae com alegria.

— Isso mesmo — Darcy riu.

— Tem certeza de que não esta se sentindo mal? — insistiu Clint.

— De verdade que não.

— Está claro que é muito mais valente que eu — comentou Delilah então. — E eu que me considerava uma mulher competente!

—Tenho certeza que é — respondeu Darcy.

— Que não se rendesse está claro — comentou Clint depois levantar uma mão de sua mãos. — Olhe como tem as Palmas.

— Claro que não me rendi — disse ela, soltando-se com delicadeza.

Sim trouxe a sopa. Cheirava maravilhosamente.

— Grande história!, menos mal que Max Aubry não está aqui, agora! —exclamou Delilah. — Imaginam o titulo? Caça-fantasmas jogada em uma tumba por desenterrar um crânio.

— Sim, é uma sorte que não esteja aqui — murmurou Matt.

— Eu sim estou — disse Jason Johnstone, — mas não se preocupe, Matt. Não tenho intenção de informar do acidente.

— Por que não? É uma notícia — atravessou Mae e Matt a fulminou com o olhar. — Embora melhor escreve sobre a cerimônia, que foi preciosa.

— Escreve o que viu — disse Matt olhando o Jason nos olhos. — A verdade.

— Enfim, receio que tenho que ir. Tenho que fazer umas chamadas —Delilah soltou um suspiro. — Obrigado por me acompanhar enquanto estávamos no cemitério, Carter. Reconheço que esse lugar me dá arepios.

— Delilah!, mas é um cemitério lindo! — disse Penny.

— Mesmo assim, põe-me nervosa — Delilah encolheu os ombros. — Bom, espero que realmente esteja bem, Darcy. Adeus a todos.

—Te levo até o carro — disse Carter.

Adam bocejou.

— Perdoem — se desculpou. — Não é a companhia. Já não sou jovem. Agora que sei que Darcy está bem, já vou. Vou tomar um banho de água quente. Alguém vem comigo?

— Eu vou — Clint ficou de pé. — Estão os dois juntos, assim que ninguém jantará sozinho — acrescentou, olhando a Matt e a Darcy.

— Eu também tenho trabalho — murmurou Penny.

— Estaramos bem, certo, Darcy? — disse Matt.

— Sim, claro.

O hambúrguer do Matt ficou frio, assim lhe serviram um novo junto com a que tinham pedido para Darcy. Quando terminasse de comer com certeza se sentiria muito mais segura. Mais calma. Muito menos receosa.

Os outros se foram. Até o Sim partiu para casa. Mae ficou atendendo no balcão.

Comeram em silêncio. Quando Matt tragou o último bocado, pôs o guardanapo sobre a mesa e olhou ao Darcy:

— Um bilhar?

— Um bilhar? — repetiu ela.

— Sim, já que é tão boa. Vamos ver se ganha — Matt ficou de pé e pegou Darcy por uma mão.

— Não sei se deveríamos jogar agora — resistiu.

— É obvio que devemos jogar — insistiu ele.

— Está bem.

— O que apostamos? — perguntou Matt. Mas não esperou a que Darcy respondesse. — Já sei: vamos jogar o jogo da verdade.

— O quê?

— Se você colocar uma bola, faz-me uma pergunta e eu tenho que responder a verdade. Se eu acertar, faço uma pergunta e responde a verdade — explicou Matt.

— Que tolice!

— Por que? — Matt a olhou nos olhos. — Não é capaz de dizer a verdade?

— Nunca te menti — replicou ela.

— Eu acredito que sim — respondeu ele em tom neutro. Colocou as bolas e se apartou. — primeiro as damas.

— Advirto-te que sou boa — avisou Darcy.

—Não duvido.

Darcy teve medo de que os nervos lhe impedissem de jogar bem. Não foi o caso. Rompeu o triângulo com força e colocou a bola três.

— Me pergunte algo — disse ele.

— Quem quis o divórcio? — perguntou Darcy detrás pensar uns segundos. — Lavinia ou você?

Matt arqueou uma sobrancelha, como se não tivesse esperado essa pergunta.

— Eu apresentei os papéis.

— Isso não responde à pergunta. Quem queria o divórcio?

— Eu. Joga — Matt apontou à mesa de bilhar. Darcy acertou outra bola.

— Alguma vez a amou de verdade?

Matt se encolheu de ombros.

— Vamos, é você quem escolheu o jogo.

—A princípio estava absolutamente encantado com ela. Se a amava? Não sei. Não nos demos tempo para descobri-lo.

Darcy penetrou outra bola.

— Alguma vez a odiou?

— Sim. Joga.

Essa vez, Darcy errou. Matt pegou seu taco. Não se incomodou nem em calcular o ângulo. Acertou sua primeira bola sem o menor esforço.

— Minha vez — disse. — Jura que não finge quando fala com outra voz?

— Sim — respondeu ela sem mais explicações.

— Embora seja sem se dar conta?

— Perdoa, mas já respondi a sua pergunta. joga.

Matt acertou outra bola. Darcy não estava segura nem se ele tinha olhado para a mesa.

— por que estava tão estranha ontem à noite no alpendre?

— Estranha?

— Tinha medo de mim.

—Sim, porque... —Darcy duvidou. — Pensava que tinham me seguido.

— por que mentiu?

— Essa é outra pergunta. joga outra vez.

Matt esteve a ponto de protestar, mas encolheu os ombros. De novo, acertou outra bola sem esforço aparente.

— Por que mentiu? — perguntou de novo.

— Não sei — Darcy negou com a cabeça. — Acho que pensava que era você quem tinha me seguido. Talvez para me dar um susto. Não estou certa.

— É a verdade? — perguntou ele.

— Estamos jogando o jogo da verdade — recordou Darcy.

Um brilho de algo apareceu nos olhos de Matt. Darcy se surpreendeu que falhasse o seguinte disparo. Pegou seu taco e acertou outra bola.

— Onde está Lavinia agora? — quis saber.

— Como diabos vou saber? — respondeu ele surpreso. — Talvez em Paris, Talvez em Londres. Se estiver nos Estados Unidos, faz séculos que não sei nada dela. Por que?

— Eu estou perguntando, não você — respondeu Darcy. Colocou outra bola e ficou olhando-o um bom momento.

— E então? — apressou-a Matt.

— Matou sua esposa? — perguntou Darcy com serenidade.

— O que?

— Responde!

— Não, não matei minha mulher.

Darcy olhou a situação das bolas, disparou e errou. Matt tomou seu taco e acertou outra bola, mas não formulou pergunta alguma. Recolheu a mesa e guardou seu taco.

— Assim acredita que matei minha esposa. Acredita que o fantasma é Lavinia... que a estrangulei na suíte Lee?

Darcy abriu a boca. E a fechou.

— Não... na verdade não. Mas queria estar segura. Matt... foi você quem me empurrou dentro da tumba?

— O que?

— Você ouviu! — exclamou irritada Darcy. — Foi você?

— Não! Não e mil vezes não! Por que diabos não me havia dito que alguém te tinha empurrado?

— Porque não estou segura de que me tenham me empurrado — Darcy baixou o olhar.

— Que diabos significa isso?

— Pode ser que tenham me empurrado. Mas talvez foi um golpe de vento.

— Não diga tolices.

— Não são tolices. Tinha começado a chover. Ventava muito. Eu ia correndo, sem olhar muito bem onde, e, de repente, estava caindo na tumba.

Matt se aproximou dela, cruzou os braços diante do peito e a olhou nos olhos.

— Genial. Acredita que sou capaz de te empurrar em uma tumba e de ter matado a minha mulher.

— Não... na verddade não.

— Mas chegou a suspeitá-lo.

— Um pouco.

— Quer que chame um táxi?

— O quê?

— Acredito que você também me ouviu. Perguntei se quiser que chame um táxi. Se por acaso tem medo de voltar comigo.

— Não — disse ela depois de engolir em seco.

—Tem medo de mim? — quis saber Matt.

— Não — assegurou ela.

— Certo — murmurou ele sem acreditar. — Ou seja, tinha suas dúvidas, mas na verdade não podia acreditar que eu fosse capaz de te fazer mal, não?

— Mais ou menos.

— Venha. Vamos a casa.

Matt lhe tirou o taco e o deixou sobre a mesa de bilhar.

— Mae!

— Já sei! — respondeu ela. — Coloco na sua conta!

— Obrigado!, Boa noite!

 

De vez em quando, a mera idéia de que Darcy tivesse pensado sequer que tinha matado a Lavinia o enfurecia tanto que dava vontade de parar o carro, sair e dar um murro no pára-brisa. De algum jeito, conseguiu conter-se. Tinha a sensação de que Darcy queria falar, mas não o fez.

Não até que chegaram a Melody House.

— Já estamos em casa — disse ele. Darcy assentiu com a cabeça, mas não se moveu. — Seja o que seja, diga de uma vez.

— Como me encontrou? — perguntou. E nessa ocasião, não soou como se estivesse acusando-o.

Não podia dizer a verdade. Que uma vozinha tinha sussurrado ao ouvido que estava em perigo.

— Darcy, não estava conosco. E o último lugar onde a tínhamos visto era o cemitério. Reconhece que é o lugar mais óbvio para ir te buscar.

— Suponho... mas encontrou a tumba apesar de que o carvalho estava em cima.

— Gritou. Eu escutei.

Darcy assentiu com a cabeça e, por fim, sorriu.

— Claro.

— Darcy, por que diabos suspeitava de repente que podia ter matado a Lavinia? — perguntou então Matt.

— Não sei.

— Partiu daqui bem viva.

— Não era uma espécie de patrocinadora do Melody House, inclusive depois de se divorciarem?

— Darcy, é uma história tão tópica que acaba sendo aborrecida —respondeu ele depois suspirar. — Nos conhecemos, sentimo-nos atraídos e nos casamos. Ela acreditava que eu estava disposto a entrar em seu mundo. Que poderia me transformar no que ela quizesse. Cada vez discutíamos mais e um dia me dei conta de que tinha cometido o maior engano de minha vida. Ela queria que viajasse com ela e neste momento de minha vida estou muito bem aqui. Nada mais. Acabamos como amigos. Nos demos conta de que nos tínhamos enganado. Mas já não a ódio. Não sei muito bem o que sinto por ela. Posso Localizá-la e perguntar se achar que precisa.

— Não queria me meter tanto... — Darcy negou com a cabeça. — Bom, talvez sim, sinto muito.

Continuavam sentados no carro quando a porta dianteira da casa se abriu.

— Matt?, tudo bem? Telefone para você. Jason Johnstone. Digo que te chame mais tarde?

— Não — respondeu Matt. — Já vamos.

Desceram do carro. Enquanto entravam em casa, Darcy perguntou a Penny onde estava Adam. Matt ficou uns passos pora trás e disse a Penny que responderia ao telefone de acima, em seu escritório.

— Olá, Jason — saudou Matt quando chegou na sua suíte. — Desculpe por te fazer feito esperar.

— Não importa. Podia ter chamado mais tarde. Só queria te dizer que escrevi sobre o que aconteceu esta tarde, mas acredito que você gostará.

— Olhe, Jason, sei que estou um pouco obcecado com isto dos fantasmas — disse Matt depois respirar profundamente. — Mas, sério, é um bom jornalista. Não deixe que minha opinião influa no que escreve.

—Garanto que escrivi o que vi — respondeu ele depois soltar uma gargalhada. — O único, isso sim, que Max Aubry o verá e no dia seguinte escreverá o que lhe der vontade. Trabalhamos em jornais rivais.

— Dá no mesmo, Jason. Não se preocupe.

— Só queria que soubesse de antemão.

— Obrigado.

—Vejo você no desfile.

— Estarei trabalhando.

— Não vais participar?

— Não posso. Ainda sou o delegado desta cidade.

— Bom, nos veremos lá.

— Obrigado, Jason.

Matt desligou e pareceu ouvir outro clique. Franziu o cenho. Quem podia ter escutado essa conversa? E por quê?

 

Darcy foi a suíte de Adam e se inquietou ao encontrá-lo espirrando. Tinha tido Josh já sendo velho, e tinham passado vinte e cinco anos, de modo que era normal preocupar-se com sua saúde.

— Resfriou-se — disse ela.

— Estou bem — respondeu Adam. — posso saber o que aconteceu esta tarde no cemitério?

— Acredite ou não, não sei.

— Como pode não sabê-lo?

— Porque estava um diluvio e soprava um vento impetuoso. O que disse no Wayside é a pura verdade. Ia correndo e, de repente, estava no fosso.

— Quer dizer que o vento te jogou?

— Talvez.

— Empurraram-lhe?

— É possível, não estou certa — respondeu enquanto Adam voltava a espirrar. — esta ficando mau.

— Não é nada. Só me resfriei um pouco, mas passará assim que me deitar na cama — respondeu ele. — Estava esperando que você voltasse.

— Juro-te que estou bem — disse Darcy sorridente. — Mas me preocupa.

— Primeiro o acidente da biblioteca. E agora isto — Adam sacudiu a cabeça. —.Eu não gosto disso, Darcy. Tratamos com fantasmas problemáticos antes, mas... aqui acontece algo estranho.

— Adam — disse ela depois encolher os ombros, — você conheceu a Lavinia Harper?

— Cuzamos uma ou duas vezes, por que?

— Simples curiosidade, suponho.

— Era rica, bonita, sempre estava organizando festas; mas, no fundo, não era uma mulher simpática nem generosa — respondeu Adam.

— Mas estava viva, não?

— O que quer dizer? — Adam franziu o cenho. — Sugere que poderia estar morta?

—Não, não — respondeu ela depressa. Muito depressa. — Quero dizer... Matt é um bom homem. Cabeça dura e cetico em ocasiões, mas ético...

— Acredita que o fantasma poderia ser da sua esposa?, que Matt a assassinou?

— Na verdade não acredito. Mas tampouco quero fazer o papel de tola. Faz séculos que ninguém sabe nada dela.

— Sei... É muito duro que pense algo assim de Matt; sobre tudo, estando apaixonada por ele — murmurou Adam. — Não acreita nele?

— Sim.

— Averiguaremos o paradeiro da Lavinia — prometeu Adam. — Terá que cobrir as costas.

— Adam... — Darcy exitou. — Vi muitas mulheres... apaixonar-se. E vi como perdem a cabeça. Não quero perder a perspectiva e fazer o papel de idiota por... estar apaixonada — reconheceu.

— Boa garota — disse Adam antes de espirrar de novo.

— Para cama! — ordenou ela. Depois lhe deu um beijo na bochecha. — Boa noite — disse enquanto saía da suite.

— Darcy.

— Sim?

— Não se preocupe. Encontraremos Lavinia — disse ele. — E não deixe de me chamar se precisar — acrescentou e voltou a espirrar.

— Prometido.

Depois, já em sua suíte, esteve dando voltas um bom momento, perguntando-se se Matt iria procurá-la essa noite. Não acreditava. Teria se ofendido. Darcy foi pegar uma camiseta, mas no final acabou optando pela camisola branca. ocorreu que, se essa noite descia pelas escadas e a via, pensaria que era o fantasma da dama de branco.

Ligou o televisor, mas não demorou para adormecer.

E o sonho retornou. Não o desenlace violento, a morte. Só a mulher, de pé aos pés da cama.

— Por favor — a ouviu sussurrar.

Depois, a mulher foi à porta e a atravessou.

Darcy despertou. Olhou a seu redor. levantou-se e foi atrás do fantasma com toda pressa. De novo, a mulher de branco a esperava na escada. Tinha descido a metade dos degraus. Darcy a seguiu. Então se deteve no corredor. Já tinha levado muitos sustos... Por outro lado, estava ansiosa por descobrir a verdade. Desceu por fim as escadas e agarrou um guarda-chuva que havia junto à porta. Depois, saiu da casa.

O fantasma a esperava no alpendre. Depois pôs-se a andar para o edifício que havia junto ao estábulo.

Essa noite entrou no edifício. Estava em bom estado, reparado e, por como cheirava, dava a impressão de que era usado para fumar. Darcy abriu a porta e olhou para a escuridão.