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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A COLÔNIA PERDIDA / Eion Colfer
A COLÔNIA PERDIDA / Eion Colfer

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Feliz não era uma palavra normalmente usada para descrever o guarda-costas de Artemis Fowl. Alegre e contente também raras vezes eram aplicadas a ele ou a pessoas que estivessem nas suas proximidades. Butler não chegou a ser um dos homens mais perigosos do mundo batendo papo com alguém que estivesse passando por acaso, a não ser que o papo fosse sobre rotas de fuga e armas escondidas.

Nesta tarde em particular, Butler e Artemis estavam na Espanha, e as feições eurasianas do guarda-costas pareciam ainda mais taciturnas do que de costume. O jovem patrão, como sempre, tornava seu trabalho mais complicado do que o necessário. Artemis havia insistido em que parassem na calçada do Passeig de Gràcia, em Barcelona, durante mais de uma hora ao sol da tarde, com apenas algumas árvores esguias oferecendo abrigo do calor ou de possíveis inimigos.

Esta era a quarta viagem sem explicação, em quatro meses, a locais no exterior. Primeiro Edimburgo, depois o Vale da Morte no oeste americano, seguido por uma caminhada extremamente árdua ao duplamente isolado Uzbequistão. E agora Barcelona. Tudo para esperar um visitante misterioso, que ainda não havia aparecido.

 

 

 

 

 

 

Era uma dupla estranha na rua movimentada. Um homem enorme e musculoso: quarenta e poucos anos, terno Hugo Boss, cabeça raspada. E um adolescente magro: pálido, cabelos pretos, olhos azuis grandes e penetrantes.

— Por que você precisa ficar circulando assim, Butler? — perguntou Artemis irritado. Sabia a resposta, mas segundo seus cálculos o visitante esperado em Barcelona estava um minuto atrasado, e ele deixou a irritação se transferir para o guarda-costas.

— Você sabe perfeitamente bem por quê, Artemis — respondeu Butler. — No caso de haver um atirador de elite ou um técnico de áudio num dos telhados. Estou circulando para dar o máximo de cobertura.

Artemis estava com clima para demonstrar seu gênio. Esse era um estado de espírito em que ele se encontrava com freqüência. E, por mais que essas demonstrações fossem satisfatórias para o garoto irlandês de 14 anos, podiam ser intensamente irritantes para qualquer um que estivesse do outro lado.

— Primeiro, é tremendamente improvável que haja um atirador de elite querendo me acertar. Encerrei oitenta por cento de minhas atividades ilegais e espalhei o capital numa carteira de investimentos extremamente lucrativa. Segundo, um técnico de áudio que esteja tentando nos escutar pode muito bem fazer as malas e ir para casa, já que o terceiro botão do seu paletó está emitindo um pulso de solinium que apaga qualquer fita de vigilância, seja humana ou do povo subterrâneo.

Butler olhou para um casal que passava fascinado pela Espanha e pelo amor jovem. O homem tinha uma câmera de vídeo pendurada no pescoço. Butler segurou o terceiro botão do paletó, cheio de culpa.

— Talvez tenhamos estragado alguns vídeos de lua-de-mel — observou.

Artemis deu de ombros.

— Um preço pequeno a pagar por minha privacidade.

— Havia um terceiro ponto a ser observado? — perguntou Butler, inocente.

— Sim — respondeu Artemis com alguma irritação. Ainda não havia sinal do indivíduo que ele estava esperando. — Eu ia dizer que, se existe um atirador num desses prédios, é naquele diretamente atrás. Portanto você deveria estar atrás de mim.

Butler era o melhor guarda-costas que existia, e nem ele conseguia ter cem por cento de certeza quanto ao telhado em que um possível atirador poderia estar.

— Ande. Diga como sabe. Sei que você está morrendo de vontade de contar.

— Muito bem, já que você pediu. Nenhum atirador iria se posicionar no telhado da Casa Milà, diretamente do outro lado da rua, porque é um local aberto ao público, de modo que o acesso e a fuga dele seriam gravados.

— Dele ou dela — corrigiu Butler. — Hoje em dia a maior parte dos pistoleiros é de mulheres.

— Dele ou dela — concordou Artemis. — Os dois prédios da direita estão um tanto cobertos por folhagens, então por que escolher uma situação dificultosa?

— Muito bem. Continue.

— Os prédios ao lado são de empresas financeiras, com adesivos de segurança particular nas janelas. Um profissional evitaria qualquer confronto para o qual não estivesse sendo pago.

Butler confirmou com a cabeça. Era verdade.

— E assim concluo logicamente que seu atirador imaginário escolheria o prédio de quatro andares atrás de nós. É residencial, de modo que o acesso é fácil. O telhado dá a ele ou ela uma linha de tiro direta, e a segurança é possivelmente fraca ou, o mais provável, inexistente.

Butler fungou. Artemis devia estar certo. Mas, no jogo da proteção, o devia estar não era nem de longe tão reconfortante quanto um colete à prova de balas.

— Você deve estar certo — admitiu o guarda-costas. — Mas só se o atirador for tão inteligente quanto você.

— Bem pensado.

— E imagino que você possa bolar um argumento convincente para qualquer um desses prédios. Só escolheu aquele para me manter fora de sua linha de visão, o que me leva a acreditar que a pessoa que você está esperando vai aparecer diante da Casa Milà.

Artemis sorriu.

— Muito bem, velho amigo.

A Casa Milà era uma residência do início do século XX desenhada pelo arquiteto art nouveau espanhol Antoni Gaudí. A fachada consistia em paredes e varandas curvas com grades de ferro retorcido. A calçada diante do prédio estava apinhada de turistas fazendo fila para um passeio pela casa espetacular durante a tarde.

— Nós vamos reconhecer o visitante no meio de todas essas pessoas? Tem certeza de que ele já não está aqui? Vigiando-nos?

Artemis sorriu, os olhos brilhando.

— Acredite, ele não está aqui. Se estivesse haveria muitos gritos.

Butler fez uma careta. Uma vez, só uma, gostaria de ter todas as informações antes de entrarem no jato. Mas não era assim que Artemis trabalhava. Para o jovem gênio irlandês, a revelação era a parte mais importante de suas tramas.

— Pelo menos diga se nosso contato estará armado.

— Duvido — respondeu Artemis. — E, mesmo que esteja, não ficará conosco por mais de um segundo.

— Um segundo? Vai se teletransportar do espaço, é?

— Do espaço, não, velho amigo — respondeu Artemis olhando o relógio de pulso. — Do tempo. — O garoto suspirou. — De qualquer modo, o momento passou. Parece que viemos aqui por nada. Nosso visitante não se materializou. A probabilidade era pequena. Obviamente não havia ninguém do outro lado da fenda.

Butler não sabia do que Artemis estava falando; ficou simplesmente aliviado por saírem daquele local inseguro. Quanto mais cedo voltassem ao aeroporto de Barcelona, melhor.

O guarda-costas pegou um celular no bolso e apertou um número na memória do aparelho. A pessoa do outro lado atendeu ao primeiro toque.

— Maria — disse Butler. — Coleta, agora.

— Sí — respondeu Maria rigidamente. Maria trabalhava para uma elegante empresa espanhola de limusines. Era extremamente bonita e capaz de partir um tijolo de concreto com a testa.

— Era a Maria? — perguntou Artemis, imitando perfeitamente uma conversa casual.

Butler não se enganou. Artemis Fowl raramente fazia perguntas casuais.

— Sim, era Maria. Você percebeu isso porque usei o nome dela quando falei. Geralmente você não faz tantas perguntas sobre um motorista de limusine. Foram quatro nos últimos 15 minutos. Maria vai nos pegar? Onde você acha que Maria está agora? Quantos anos você acha que Maria tem?

Artemis esfregou as têmporas.

— É essa porcaria de puberdade, Butler. Toda vez que vejo uma garota bonita desperdiço um valioso espaço mental pensando nela. A garota do restaurante, por exemplo. Olhei na direção dela umas dez vezes nos últimos minutos.

Butler deu uma olhada automática, de guarda-costas, para a garota em questão.

Tinha 12 ou 13 anos, não parecia estar armada e tinha cabelos louros com cachos extremamente enrolados. A garota escolhia estudadamente entre uma variedade de tapas enquanto um acompanhante, talvez o pai, lia o jornal. Na mesa havia outro homem que lutava para colocar duas muletas sob a cadeira. Butler avaliou que a garota não era ameaça direta à segurança deles, mas indiretamente poderia causar encrenca se Artemis não conseguisse se concentrar em seu plano.

Butler deu um tapinha no ombro do jovem patrão.

— É normal se distrair com garotas. É natural. Se você não estivesse tão ocupado salvando o mundo nos últimos anos, isso teria acontecido antes.

— Mesmo assim preciso controlar, Butler. Tenho coisas a fazer.

— Controlar a puberdade? — fungou o guarda-costas. — Se você conseguir isso, será o primeiro.

— Geralmente sou.

E era verdade. Nenhum outro adolescente havia seqüestrado uma criatura do povo subterrâneo, resgatado o pai da Mafyia russa e ajudado a acabar com uma rebelião de goblins antes dos 14 anos.

Uma buzina tocou duas vezes. Do outro lado da esquina, uma jovem sinalizou pela janela de uma limusine.

— É Maria — disse Artemis, e se conteve. — Quero dizer, vamos. Talvez tenhamos mais sorte no próximo local.

Butler foi na frente, parando o trânsito ao agitar a mão enorme.

— Talvez devêssemos levar Maria. Uma motorista em tempo integral tornaria meu serviço mais fácil.

Artemis demorou um instante para perceber que era provocação.

— Muito engraçado, Butler. Mas você estava brincando, não é?

— Sim, estava.

— Foi o que pensei, mas não tenho muita experiência com humor. A não ser com o Palha.

Palha Escavator era um anão cleptomaníaco que havia roubado de e para Artemis em ocasiões anteriores. Ele gostava de se achar uma criatura engraçada, e suas principais fontes de humor eram as próprias funções corporais.

— Se você chama aquilo de humor — disse Butler, sorrindo mesmo contra a vontade ao se lembrar do anão fedorento.

De repente Artemis se imobilizou. No meio de uma esquina movimentada.

Butler olhou furioso para as três pistas de trânsito urbano, cem motoristas impacientes buzinando com ferocidade.

— Sinto alguma coisa — ofegou Artemis. — Eletricidade.

— Por favor, poderia sentir isso do outro lado da rua? — perguntou Butler.

Artemis estendeu os braços e sentiu uma coceira nas palmas das mãos.

— Ele vem, afinal de contas, mas vários metros fora do alvo. Em algum lugar há uma constante que não é constante.

Uma forma surgiu no ar. Do nada, veio um amontoado de fagulhas e cheiro de enxofre. Dentro do amontoado apareceu uma coisa cinza-esverdeada, com olhos dourados, escamas grossas e grandes orelhas com chifres. Saiu de lugar nenhum para a rua. Ficou ereto e tinha um metro e cinqüenta de altura. Era humanóide, mas não havia como confundir aquela criatura com um ser humano. Ela farejou o ar usando as narinas com fendas, abriu uma boca de cobra e falou:

— Felicitações a Lady Heatherington Smythe — disse numa voz de vidro partido e aparas de aço. A criatura segurou a palma estendida de Artemis com a mão de quatro dedos.

— Curioso — disse o garoto irlandês.

Butler não estava interessado no curioso. Estava interessado em tirar Artemis de perto daquela criatura o mais rápido possível.

— Vamos — disse bruscamente, pondo a mão no ombro de Artemis.

Mas Artemis já havia ido embora. A criatura havia desaparecido tão rapidamente quanto chegara, levando o garoto. O incidente apareceria no noticiário mais tarde, mas, estranhamente, apesar das centenas de turistas armados de máquinas fotográficas, não haveria imagens.

 

A criatura era insubstancial, como se não se prendesse direito a este mundo. Seu aperto na mão de Artemis era macio com um núcleo duro, como osso enrolado em espuma de borracha. Artemis não tentou se soltar; estava fascinado.

— Lady Heatherington Smythe? — repetiu a criatura, e Artemis pôde notar que ela estava apavorada. — Pertenceria esta propriedade a ela?

Nem de longe uma sintaxe moderna, pensou Artemis. Mas era definitivamente inglês. E como um demônio exilado no Limbo aprende a falar inglês?

O ar zumbia, energético, e raios elétricos brancos estalavam ao redor da criatura, abrindo buracos no espaço.

Um rasgo temporal. Um buraco no tempo.

Artemis não estava completamente espantado com isso; afinal de contas, vira a Liga de Elite da Polícia subterrânea parar o tempo durante o cerco à Mansão Fowl. O que o preocupava era a probabilidade de ser levado para longe com a criatura, e neste caso as chances de ser devolvido à sua própria dimensão eram pequenas. A probabilidade de retornar ao seu próprio tempo eram mínimas.

Tentou chamar Butler, mas era tarde demais. Se é que a palavra tarde pode ser usada num lugar onde o tempo não existe. O rasgo havia se expandido, envolvendo Artemis e o demônio. A arquitetura e a população de Barcelona desbotaram lentamente como espíritos, sendo substituídas primeiro por uma névoa roxa, depois por uma galáxia de estrelas. Artemis sentiu um calor febril, depois um frio cortante. Tinha certeza de que, caso se materializasse completamente, seria transformado em cinzas, depois suas cinzas congelariam e se espalhariam no espaço.

O ambiente ao redor mudou num instante, ou talvez num ano; era impossível dizer. As estrelas foram substituídas por um oceano e eles estavam embaixo da água. Estranhas criaturas do fundo do mar vinham das profundezas, tentáculos luminosos cortando a água ao redor. Então houve um campo de gelo, depois uma paisagem vermelha, o ar se encheu de poeira fina. Por fim estavam olhando Barcelona de novo. Mas diferente. A cidade era mais nova.

O demônio uivou e trincou os dentes pontudos, abandonando qualquer tentativa de falar inglês. Por sorte Artemis era um dos dois seres humanos em qualquer dimensão que falavam gnomês, a língua do povo subterrâneo.

— Acalme-se, amigo — disse ele. — Nosso destino está selado. Aproveite esta linda vista.

O uivo do demônio parou abruptamente e ele largou a mão de Artemis.

— Fala língua das fadas?

— Gnomês — corrigiu Artemis. — E devo acrescentar que melhor do que você.

O demônio ficou em silêncio, olhando Artemis como se ele fosse algum tipo de criatura maravilhosa. Coisa que, claro, ele era. Artemis, de sua parte, passou o que poderiam ser seus últimos instantes na vida observando a cena ao redor. Estavam se materializando num prédio em construção. Era a Casa Milà, mas ainda não estava pronta. Operários se espalhavam em andaimes erguidos na frente do prédio, e um homem barbudo e moreno estava parado, olhando com desdém um papel com projetos arquitetônicos.

Artemis sorriu. Era o próprio Gaudí. Que incrível!

A cena se solidificou, as cores pintando-se mais luminosas. Agora Artemis podia sentir o ar seco espanhol e os cheiros mais fortes de suor e tinta.

— Com licença? — disse em espanhol.

Gaudí levantou o olhar dos projetos e sua cara de desdém foi substituída por uma expressão de incredulidade absoluta. Havia um garoto saindo do nada. Ao lado dele estava um demônio encolhido. O brilhante arquiteto absorveu cada detalhe da imagem, guardando-a para sempre na memória.

— Sí? — perguntou hesitante. Artemis apontou para o alto do prédio.

— O senhor projetou alguns mosaicos para o teto. Talvez queira repensá-los. São muito batidos.

Então o garoto e o demônio desapareceram.

 

Butler não havia entrado em pânico quando a criatura saiu do buraco no tempo. Afinal de contas, era treinado para não entrar em pânico, mesmo nas situações mais extremas. Infelizmente ninguém mais na esquina do Passeig de Gràcia havia cursado a Academia de Proteção Pessoal de Madame Ko, por isso todos entraram direto em pânico o mais ruidosa e rapidamente que puderam. A não ser a garota de cabelos encaracolados e os dois homens que estavam com ela.

Quando o demônio apareceu, o público ficou congelado. Quando a criatura desapareceu, todos se descongelaram explosivamente. O ar se rasgou com os sons de gritos. Motoristas abandonaram os carros ou simplesmente entraram com eles nas vitrines das lojas, para escapar. Uma onda de gente se afastou do ponto de materialização como se fossem repelidos por uma força invisível. De novo a garota e seus companheiros foram contra a tendência geral, correndo para o lugar onde o demônio havia aparecido. O homem com as muletas demonstrou uma agilidade extraordinária para quem supostamente estava ferido.

Butler ignorou o pandemônio, concentrando-se em sua mão direita. Ou melhor, no lugar onde sua mão direita estivera há um segundo. Logo antes de Artemis partir para outra dimensão, Butler conseguira segurar o ombro dele. Agora o vírus do desaparecimento havia reivindicado sua mão. Ele iria aonde Artemis estivesse. Ainda podia sentir o osso magro do jovem patrão.

Butler esperou que seu braço desaparecesse totalmente, mas não desapareceu. Só a mão. Ainda podia senti-la como se estivesse embaixo d’água, formigando. E ainda podia sentir Artemis.

— Não, você não vai — grunhiu ele, aumentando o aperto invisível. — Enfrentei muita dificuldade em todos esses anos para você simplesmente desaparecer agora.

E assim Butler enfiou a mão através das décadas e puxou o jovem patrão do passado.

Artemis não veio com facilidade. Era como arrastar uma pedra através de um mar de lama, mas Butler não era do tipo que desistia com facilidade. Firmou os pés e virou as costas para aquilo. Artemis saltou do século XX e pousou esparramado no XXI.

— Voltei — disse o garoto irlandês, como se tivesse simplesmente retornado de um passeio comum. — Que inesperado!

Butler pegou seu patrão e fez um exame rápido.

— Tudo está no lugar certo. Nada se partiu. Agora, Artemis, diga: quanto é vinte e sete vezes dezoito vírgula cinco?

Artemis ajeitou o paletó do terno.

— Ah, sei, você está verificando minhas faculdades mentais. Muito bem. Acho que é concebível que a viagem no tempo poderia afetar a mente.

— Só responda à pergunta! — insistiu Butler.

— Quatrocentos e noventa e nove vírgula cinco, se é que você quer saber.

— Vou aceitar sua palavra.

O guarda-costas gigante inclinou a cabeça de lado.

— Sirenes. Precisamos sair desta área, Artemis, antes que eu seja obrigado a provocar um incidente internacional.

Empurrou Artemis para o outro lado da rua até o único veículo que continuava parado ali. Maria estava meio pálida, mas pelo menos não havia abandonado os clientes.

— Muito bem — disse Butler abrindo a porta de trás. — Aeroporto. Fique fora da via principal o máximo possível.

Maria mal esperou até que Butler e Artemis fechassem os cintos de segurança para queimar pneus na rua, ignorando os sinais de trânsito. A garota loura e seus companheiros foram deixados na calçada.

Maria olhou para Artemis pelo espelho.

— O que aconteceu?

— Nada de perguntas — disse Butler rapidamente. — Olho na rua. Dirija.

Ele próprio sabia que era melhor não fazer perguntas. Artemis explicaria tudo sobre a estranha criatura e a fenda brilhante quando estivesse pronto.

Artemis permaneceu em silêncio enquanto a limusine abria caminho na direção das Ramblas e dali até o labirinto de ruas estreitas no centro de Barcelona.

— Como cheguei aqui? — perguntou por fim, pensando em voz alta. — Ou melhor, por que não estamos lá? Ou por que não estamos naquele tempo? O que nos ancorou neste? — Olhou para Butler. — Você está usando alguma coisa de prata?

Butler fez uma careta sem-graça.

— Você sabe que geralmente nunca uso jóias, mas aqui está. — Ele levantou o punho da camisa. Havia uma pulseira de couro com uma pepita de prata no centro. — Juliet mandou para mim. Do México. Parece que serve para afastar os maus espíritos. Ela me fez prometer que usaria.

Artemis deu um sorriso largo.

— Foi Juliet. Ela nos ancorou. — Ele bateu na pepita de prata no pulso de Butler. — Você deveria ligar para sua irmã. Ela salvou nossa vida.

Enquanto batia na pulseira do guarda-costas, Artemis notou algo em seus próprios dedos. Eram os seus dedos, sem dúvida. Mas estavam diferentes. Demorou um instante para notar o que havia acontecido.

É claro que ele fizera algumas teorizações sobre os resultados hipotéticos da viagem entre dimensões e concluiu que poderia haver alguma deterioração do original, como acontece com um programa de computador que foi copiado vezes demais. Conjuntos de informações podiam se perder no éter.

Pelo que dava para ver, nada havia se perdido, mas agora o indicador da mão esquerda era mais comprido do que o anular. Ou, mais exatamente, o indicador havia trocado de lugar com o anular.

Flexionou os dedos, experimentando.

— Hmm. Sou especial.

Butler grunhiu.

— Não diga.

 

A carreira de Holly Short como investigadora particular não estava acontecendo como ela havia esperado. Principalmente porque o programa de atualidades mais popular nos Elementos de Baixo havia transmitido não apenas um, mas dois especiais sobre ela nos últimos meses. Era difícil trabalhar disfarçada quando seu rosto vivia pipocando nas reprises da TV a cabo.

— Cirurgia? — sugeriu uma voz em sua cabeça.

Essa voz não era o primeiro sinal de loucura. Era seu parceiro, Palha Escavator, comunicando-se de seu microfone para o fone de ouvido dela.

— O quê? — perguntou Holly, a voz indo até seu próprio microfone, um minúsculo chip cor de carne grudado à garganta.

— Estou olhando um cartaz de seu rosto famoso e acho que você deveria fazer uma operação plástica se quisermos permanecer nos negócios. E estou falando de negócios de verdade, e não esse jogo de caçar recompensas. Os caçadores de recompensas são os mais baixos dentre os baixos.

Holly suspirou. Seu parceiro anão estava certo. Até os criminosos eram considerados mais dignos de confiança do que os caçadores de recompensa.

— Alguns implantes e uma mexida no nariz, e nem seu melhor amigo iria reconhecê-la — continuou Palha Escavator. — Afinal, você não é nenhuma rainha da beleza.

— Esquece — disse Holly. Ela gostava do rosto que tinha. Fazia com que se lembrasse do rosto de sua mãe.

— Que tal um spray de pele? Você poderia ficar verde, se disfarçar de duende.

— Palha? Você está posicionado? — disse Holly bruscamente.

— Estou. Algum sinal do duende-diabrete?

— Não, ele ainda não apareceu, mas virá logo. Então chega de papo furado e se prepare.

— Ei, agora nós somos sócios, e não criminoso e policial. Não preciso receber ordens suas.

— Prepare-se, por favor.

— Sem problema. Palha Escavator, miserável caçador de recompensas, cortando a conexão.

Holly suspirou. Algumas vezes sentia falta da disciplina do Esquadrão de Reconhecimento da Liga de Elite da Polícia. Quando uma ordem era dada, era obedecida. Se bem que, para ser sincera, Holly teria de admitir que havia se metido em encrenca mais de uma vez por ter desobedecido a uma ordem direta. Só havia sobrevivido no LEPrecon por tanto tempo por causa de algumas prisões de alto nível. E por causa de seu mentor, o comandante Julius Raiz.

Sentiu o coração se encolher ao lembrar, pela milésima vez, que Julius estava morto. Poderia ficar horas sem pensar nisso, e então sentia um choque — todas as vezes como se fosse a primeira.

Havia saído da LEP porque o substituto de Julius a acusou de assassinar o comandante. Holly achava que, com um chefe assim, poderia fazer mais bem ao Povo subterrâneo se estivesse fora do sistema. Estava começando a parecer que havia errado completamente. Em seu tempo de capitã na LEPrecon havia se envolvido no controle de uma revolução de goblins, na destruição de um plano para revelar a cultura do povo das fadas aos humanos e em recuperar tecnologia roubada por um Homem da Lama de Chicago. Agora estava rastreando um contrabandista de peixe que havia escapado sem pagar a fiança. Não era exatamente questão de segurança nacional.

— Que tal extensões de canelas? — disse Palha, interrompendo seus pensamentos. — Em horas você poderia ficar mais alta.

Holly sorriu. Por mais que seu parceiro fosse irritante, ele sempre era capaz de animá-la. Além disso, como anão, Palha tinha talentos especiais bastante úteis na nova linha de trabalho. Até recentemente ele havia usado essas habilidades para entrar em casas e sair de prisões, mas agora estava do lado dos anjos, pelo menos era o que jurava. Infelizmente todas as criaturas sabiam que a promessa de um anão a um não-anão valia menos do que o aperto de mão encharcado de cuspe que selava o acordo.

— Talvez você pudesse conseguir uma extensão de cérebro — respondeu Holly.

Palha deu um risinho.

— Ah, brilhante. Devo anotar isso no meu caderno de respostas inteligentes.

Holly estava tentando pensar numa resposta inteligente de verdade quando seu alvo apareceu na porta do quarto do motel. Era um duende-diabrete de aparência inofensiva, com no máximo 60 centímetros de altura, mas ninguém precisa ser alto para dirigir um caminhão de peixe. Os chefões do contrabando contratavam duendes-diabretes como motoristas e mensageiros porque eles pareciam inocentes e infantis. Holly havia lido o perfil daquele, e sabia que ele não era nem um pouco inocente.

Duda Dia fora preso na Trincheira de Atlântida por um esquadrão de duendes aquáticos da LEP. Havia escapado enquanto era levado de uma cela para o tribunal, e agora Holly o descobrira ali. A recompensa pela captura de Duda Dia daria para pagar seis meses do aluguel do escritório. A placa na porta dizia: Short e Escavator. Investigadores particulares.

Duda Dia saiu de seu quarto, fazendo uma careta para o mundo em geral. Fechou o zíper da jaqueta e foi para o sul, em direção ao bairro do comércio. Holly ficou vinte passos atrás, escondendo o rosto sob um capuz. Esta rua havia sido tradicionalmente um local barra-pesada, mas o Conselho estava colocando milhões de lingotes numa grande reforma. Em cinco anos não haveria mais o gueto de goblins. Gigantescas multibetoneiras amarelas estavam engolindo as velhas calçadas e colocando caminhos novos em folha atrás. No alto, duendes funcionários dos serviços públicos soltavam tiras solares queimadas do teto do túnel e substituíam por novos modelos moleculares.

O duende-diabrete seguiu o mesmo caminho dos últimos três dias. Andou pela rua até a praça mais próxima, pegou uma caixa de cozido de rato num quiosque e depois comprou um ingresso para o cinema 24 horas. Se agisse como sempre, Duda ficaria lá por pelo menos oito horas.

Não se eu puder impedir, pensou Holly. Estava decidida a resolver esse caso logo. Não seria fácil. Duda era pequeno mas rápido. Sem armas nem equipamentos de contenção, seria quase impossível segurá-lo. Quase impossível, mas havia um jeito.

Holly comprou um ingresso com o gnomo vendedor, depois ocupou um lugar duas fileiras atrás de seu alvo. O cinema estava bem silencioso nessa hora do dia. Havia talvez uns cinqüenta freqüentadores além de Holly e Duda. A maioria nem mesmo usava os óculos de cinema. Ali era somente um lugar onde passar algumas horas entre as refeições.

Estava exibindo a trilogia da Colina de Taillte. A trilogia contava a versão cinematográfica dos acontecimentos relacionados com a batalha da Colina de Tailltle, em que os humanos haviam finalmente obrigado as criaturas mágicas a irem para o subterrâneo. A parte final da trilogia havia abocanhado todos os prêmios AMP há dois anos. Os efeitos especiais eram esplêndidos, e havia até mesmo uma edição especial interativa, em que o espectador poderia se tornar um dos personagens secundários.

Assistindo ao filme agora, Holly sentiu a mesma pontada de perda, a de sempre. O Povo deveria estar vivendo acima do solo; em vez disso, continuava preso nessa caverna de alta tecnologia.

Ficou olhando as amplas cenas aéreas e as batalhas em câmara lenta por quarenta minutos, depois foi para o corredor e tirou o capuz. Em seus dias na LEP, simplesmente teria chegado atrás do duende-diabrete e cutucado as costas dele com sua Neutrino 3000, mas os civis não tinham permissão para portar nenhum tipo de arma, de modo que uma estratégia mais sutil precisaria ser empregada.

Chamou o duende-diabrete do corredor.

— Ei, você aí. Você não é Duda Dia?

O duende-diabrete pulou na cadeira. Grudou no rosto sua careta mais feroz e virou-a na direção de Holly.

— Quem quer saber?

— A LEP — respondeu Holly. Tecnicamente não havia se identificado como membro da LEP, o que seria se fingir de policial.

Duda franziu os olhos para ela.

— Conheço você. É aquela elfo. A que acabou com os goblins. Vi na TV digital. Você não é mais da LEP.

Holly sentiu as batidas no peito acelerando. Era bom estar de volta à ação. Qualquer tipo de ação.

— Talvez não seja, Duda, mas mesmo assim estou aqui para prender você. Vai se entregar sem fazer barulho?

— E passar alguns séculos na cadeia em Atlântida? O que você acha? — respondeu Duda Dia, caindo de joelhos.

O pequeno duende-diabrete havia saltado como uma pedra saindo de uma atiradeira, arrastando-se por baixo dos assentos, fintando para a esquerda e a direita.

Holly levantou o capuz e correu para a saída de incêndio. Duda estaria indo para lá. Era para onde ia todo dia. Todo bom criminoso verifica as rotas de fuga em todo prédio que visita.

Duda chegou à saída antes dela, jogando-se contra a porta como um cão ao passar por uma portinhola. Holly só pôde ver o borrão azul de seu macacão.

— Alvo a caminho — disse ela, sabendo que seu microfone na garganta captaria tudo que dissesse. — Indo para você.

Espero, pensou Holly, mas não disse isso.

Em teoria, Duda correria para seu buraco-esconderijo, um pequeno depósito na rua Cristal, onde havia uma pequena cama e um aparelho de ar condicionado. Quando chegasse lá, Palha estaria esperando. Era uma clássica técnica de caçada humana. Bater no capim e estar preparado para quando o pássaro voar. Claro, se você fosse humano, atiraria no pássaro e depois comeria. O método de captura de Palha era menos fatal, mas igualmente repulsivo.

Holly se manteve perto, mas não perto demais. Podia ouvir as batidas dos pés minúsculos do duende-diabrete no tapete do cinema, mas não podia ver o sujeitinho. Não queria vê-lo. Era vital que Duda acreditasse que havia escapado; caso contrário não iria para o buraco-esconderijo. Em seus dias na LEP não haveria necessidade dessa perseguição de perto. Ela teria acesso completo a cinco mil câmeras de vigilância espalhadas por Porto, para não mencionar cem outros equipamentos e geringonças do arsenal de vigilância da polícia. Agora eram somente ela e Palha. Quatro olhos e alguns talentos especiais de anão.

A porta principal ainda estava balançando quando Holly chegou a ela. Do lado de dentro, um gnomo ultrajado estava caído de bunda, coberto de molho de urtiga.

— Foi um garotinho — reclamava ele com um lanterninha. — Ou um duende-diabrete. Tinha cabeça grande, disso eu sei. Me acertou bem na barriga.

Holly se desviou dos dois, abrindo caminho para a praça do lado de fora. De fora em termos relativos. Tudo é dentro quando você mora num túnel. No alto, as tiras solares estavam ajustadas para imitar o meio da manhã. Ela podia acompanhar o progresso de Duda pela trilha de caos que ele deixara. O quiosque de rato estava virado. As bolotas de cozido verde-acinzentado se coagulavam nas pedras do calçamento. E pegadas verde-acinzentadas levavam ao canto norte da praça. Até agora Duda estava se comportando de modo bastante previsível.

Holly abriu caminho pela desorganizada fila de compradores de cozido, mantendo o olhar nas pegadas do duende-diabrete.

— Dois minutos — disse a Palha.

Não houve resposta, mas não deveria haver, pelo menos se o anão estivesse posicionado.

Duda deveria pegar o próximo beco de serviço e atravessar até a Cristal. Na próxima vez, decidiu ela, iriam perseguir um gnomo. Os duendes-diabretes eram rápidos demais. O Conselho do povo subterrâneo não gostava realmente dos caçadores de recompensas e tentava tornar a vida deles o mais difícil que pudesse. Não havia algo como licença para usar arma de fogo fora da LEP. Qualquer um com uma arma, sem distintivo, iria preso.

Holly virou a esquina esperando ver o final de um borrão de duende-diabrete. Em vez disso viu uma multibetoneira amarela, de dez toneladas, vindo na sua direção. Obviamente Duda Dia havia parado de ser previsível.

— D’Arvit! — xingou, mergulhando de lado. O rotor da frente da multibetoneira mastigou o pavimento da praça, cuspindo-o pela traseira em lajes perfeitas.

Ela rolou, terminando agachada, e estendeu a mão para a Neutrino que estivera em seu quadril até recentemente. Só encontrou ar.

A multibetoneira estava girando para uma segunda passagem, chacoalhando e sibilando como um carnívoro jurássico de metal. Pistões gigantescos martelavam e lâminas de rotor escavavam como foices qualquer superfície que caísse sob as lâminas. O entulho era empurrado para a barriga da máquina para ser processado e moldado nas placas aquecidas.

Isso me faz lembrar um pouco do Palha, pensou Holly. Engraçado o que passa na cabeça da gente quando a vida está em perigo.

Holly recuou da betoneira. Era grande, mas também lenta e pouco manobrável. Olhou para a cabine e ali estava Duda, manipulando habilmente as engrenagens. Suas mãos saltavam sobre botões e alavancas, arrastando o monstro metálico na direção de Holly.

Ao redor havia um pandemônio: consumidores berrando, sirenes de emergência tocando. Mas agora Holly não podia se preocupar com isso. Prioridade um: permanecer viva. Por mais que essa situação parecesse aterrorizante para o público em geral, Holly tinha anos de treinamento e experiência na LEP. Havia escapado de inimigos muito mais rápidos do que essa multibetoneira.

Por acaso estava enganada. A multibetoneira era lenta no todo, mas algumas de suas partes eram rápidas como um raio. Por exemplo, as abas de contenção — duas paredes de aço com 3 metros de altura que se projetavam dos dois lados do rotor frontal para conter qualquer entulho que pudesse ser atirado pelas lâminas do rotores.

Duda Dia, um motorista com instinto para qualquer veículo, viu a oportunidade e aproveitou. Desligou o equipamento de segurança e liberou as abas. Quatro bombas pneumáticas se pressurizaram de imediato e literalmente lançaram as abas contra a parede dos dois lados de Holly. Elas cravaram fundo, penetrando 15 centímetros na pedra.

A confiança de Holly escorreu para dentro das botas. Estava presa com cem lâminas curvas rasgando o chão à sua frente.

— Asas — disse Holly, mas somente sua roupa da LEP tinha asas, e ela havia aberto mão do direito de usá-la.

As abas continham o vórtice criado pela lâminas e o lançavam de volta contra si mesmo. A vibração era terrível. Holly sentiu os dentes tremerem nas gengivas. Podia ver tudo multiplicado por dez. Todo o seu mundo era feito de recepção ruim. Sob os pés, as lâminas mastigavam famintas o pavimento. Pulou para a aba da direita, mas ela era bem lubrificada e sua mão escorregou. A sorte foi igualmente ruim com a outra aba. A única saída possível era direto em frente, e essa não era de fato uma opção, principalmente com o rotor mortal à espera.

Holly gritou para Duda. Talvez sua boca tenha formado palavras de verdade, mas não dava para ter certeza, com todo aquele tremor e o ruído. Lâminas cortavam o ar, tentando agarrá-la. A cada passada arrancavam tiras do chão sob seus pés. Não restava muito chão. Logo ela estaria alimentando a multibetoneira. Seria despedaçada, passaria pelas entranhas da máquina e finalmente sairia como laje de calçamento. Holly Short literalmente faria parte da cidade.

Não havia o que fazer. Nada. Palha estava longe demais para ajudar e não era provável que algum civil tentasse subir numa betoneira enlouquecida, mesmo se soubesse que Holly estava presa entre as abas.

Enquanto as abas se aproximavam, Holly olhou para o céu gerado por computador. Seria bom morrer na superfície. Sentir o calor do sol de verdade esquentando a testa. Seria bom.

Então o rotor parou. Holly recebeu uma chuva de entulho meio digerido do estômago da máquina. Algumas lascas de pedra arranharam sua pele, mas foi só isso.

Limpou a sujeira do rosto e olhou para cima. Seus ouvidos zumbiam depois do silêncio do motor e os olhos estavam cheios de água por causa da poeira que pousava como neve.

Duda olhou da cabine. Seu rosto estava pálido mas feroz.

— Me deixe em paz! — gritou. A voz pareceu débil e minúscula aos tímpanos danificados de Holly. — Só me deixe em paz!

E sumiu, descendo rapidamente pela escada de acesso, talvez indo para o buraco-esconderijo.

Holly se encostou numa das abas, dando-se um momento para se recuperar. Minúsculas fagulhas de magia brotaram em seus muitos cortes, lacrando-os. Os ouvidos estalaram, gemeram e se flexionaram enquanto a magia atuava automaticamente nos tímpanos. Em segundos a audição havia retornado ao normal.

Precisava sair dali. E havia apenas um caminho. Por cima do rotor. Passando pelas lâminas. Encostou cautelosamente o dedo numa delas. Uma gota de sangue escorreu de um corte minúsculo, mas foi sugada de volta numa fagulha azul de magia. Aquelas lâminas iriam retalhá-la caso ela escorregasse, e não haveria mágica suficiente no subterrâneo para costurá-la de novo. Mas o rotor era a única saída, caso contrário teria de esperar até que o pessoal de tráfego da LEP chegasse. Já seria bastante ruim ter causado todo esse dano tendo a apólice de seguros da LEP para ajudar, mas como autônoma provavelmente seria jogada na cadeia por uns dois meses enquanto os tribunais decidiam de quê iriam acusá-la.

Passou os dedos entre as lâminas e segurou a primeira barra do rotor. Seria como subir uma escada. Uma escada muito afiada, potencialmente fatal. Pisou numa barra inferior e subiu. O rotor gemeu e baixou 15 centímetros. Holly se segurou, porque era mais seguro do que se soltar. Lâminas estremeciam a 2 centímetros de seus membros. Devagar e com firmeza. Nada de movimentos em falso.

Uma barra de cada vez, Holly subiu pelo rotor. Por duas vezes uma lâmina beliscou sua carne, mas os ferimentos não eram graves e foram rapidamente lacrados por fagulhas azuis. Depois de uma breve eternidade de concentração absoluta, subiu no capô. O capô estava imundo e quente, mas pelo menos não era mais afiado do que uma língua de centauro.

— Ele foi por ali — disse uma voz ao nível do solo. Holly olhou e viu um grande gnomo de testa franzida, com uniforme de funcionário dos serviços públicos, apontando para a rua Cristal.

— Foi por ali — repetiu o gnomo. — O duende-diabrete que me expulsou da minha betoneira.

Holly olhou para o funcionário corpulento.

— Aquele duende-diabrete minúsculo expulsou você? O gnomo quase ficou vermelho.

— Eu estava saindo, ele só me fez tropeçar. — De repente o gnomo se esqueceu do próprio embaraço. — Ei, você não é a Polly não-sei-das-quantas? Polly Pequena? É isso. A heroína da LEP.

Holly desceu a escada da cabine.

— Polly Pequena. Isso mesmo.

Caiu no chão já correndo, as botas pisando em pedrinhas de pavimento esmagado.

— Palha — disse ela. — Duda está indo na sua direção. Tenha cuidado. Ele é muito mais perigoso do que a gente pensava.

Perigoso? Talvez sim, talvez não. Não a havia matado quando teve a chance. Aparentemente o duende-diabrete não tinha estômago para o assassinato.

A brincadeira de Duda com a multibetoneira havia provocado um caos na praça. Policiais de trânsito, apelidados de Rodinhas, vinham de todos os lados — e os civis saíam para todos os lados. Holly contou pelo menos seis magnamotos da LEPtrânsito e duas radiopatrulhas. Estava mantendo a cabeça baixa quando um dos policiais de trânsito saltou da moto e segurou seu ombro.

— Viu o que aconteceu, mocinha?

Mocinha? Holly sentiu vontade de torcer a mão que estava em seu ombro e jogar o policial num reciclador de lixo ali perto. Mas não era hora de ficar ultrajada; precisava redirecionar a atenção dele.

— Ah, ainda bem que o senhor está aqui — trinou numa voz pelo menos uma oitava mais aguda do que a normal. — Ali, perto da multibetoneira. Tem sangue em toda parte.

— Sangue! — exclamou o Rodinha, adorando ouvir isso. — Em toda parte?

— Absolutamente em toda parte.

O policial de trânsito largou o ombro de Holly.

— Obrigada, mocinha. Deixe comigo.

Ele foi andando todo determinado em direção à betoneira, depois se virou de novo.

— Com licença, mocinha — disse ele com o reconhecimento brilhando no olhar, mas sem chegar de fato. — Eu não conheço você?

Mas a elfo com capuz havia desaparecido.

Ah, bem, pensou o Rodinha. Eu deveria ir olhar o sangue espalhado em toda parte.

Holly correu para a rua Cristal, mas tinha certeza de que não havia necessidade de pressa. Duda teria concluído que a coisa estava muito preta para ele revelar seu buraco-esconderijo, ou então Palha o havia pegado. De qualquer modo, estava fora do controle dela. De novo lamentou a perda do apoio da LEP. Em seus dias na equipe de reconhecimento, só seria necessária uma ordem rápida pelo microfone do capacete e todas as ruas da área estariam isoladas.

Desviou-se de um robô-gari e entrou na Cristal. A rua estreita era uma via de serviço para a principal praça de comércio e consistia principalmente em áreas de carga e descarga. O resto das unidades era alugada para depósito. Holly ficou surpresa ao encontrar Duda logo à frente, remexendo no bolso, presumivelmente para pegar o chip de acesso à sua unidade. Alguma coisa devia tê-lo atrasado um minuto. Talvez ele tivesse se escondido atrás de um caixote para evitar os Rodinhas. Tanto fazia. Holly tinha outra chance.

Duda levantou os olhos e Holly só precisou acenar.

— Bom dia — disse ela.

Duda balançou um punho minúsculo na direção dela.

— Você não tem coisa melhor a fazer, elfo? Eu só contrabandeio um pouco de peixe.

A pergunta penetrou fundo em Holly. Será que esse era realmente o melhor modo de ajudar o Povo? Sem dúvida o comandante Raiz queria algo mais dela. Nos últimos meses havia passado de operações de alta prioridade na superfície para caçar contrabandistas de peixe em becos. Era uma tremenda queda.

Mostrou as mãos a Duda.

— Não quero que você se machuque, portanto fique totalmente imóvel.

Duda deu um risinho.

— Me machucar? Você? Não é provável.

— Não — disse Holly. — Eu, não. Ele. — E apontou para o trecho de lama sob os pés de Duda.

— Ele? — Duda olhou para baixo, suspeitando de uma armadilha. Suas suspeitas estavam absolutamente corretas. O chão sob seus pés borbulhou ligeiramente enquanto a superfície da terra estremecia e corcoveava.

— O quê? — disse Duda, levantando um dos pés. Sem dúvida teria saído da área se tivesse tempo. Mas o que aconteceu em seguida foi muito rápido.

O chão fez mais do que simplesmente desmoronar, foi sugado por baixo de Duda com um som enjoativo, de algo sendo engolido. Uma fileira de dentes cortou a terra, seguida por uma boca enorme. Havia um anão na outra extremidade da boca, e ele cortou o chão como um golfinho saltando, impulsionado aparentemente por gás saído do traseiro. O círculo de dentes se fechou ao redor de Duda, engolindo-o até o pescoço.

Palha Escavator — claro, era ele — acomodou-se de volta no túnel levando o infeliz duende-diabrete. Devo dizer que Duda não parecia tão petulante como há um segundo.

— Um a-anão — gaguejou ele. — Achei que vocês não gostavam da lei.

Holly espiou no buraco.

— Geralmente não gostam. Mas Palha é exceção. Não se incomode se ele mesmo não responder. Ele poderia arrancar sua cabeça sem querer.

Duda se remexeu subitamente.

— O que ele está fazendo?

— Imagino que esteja lambendo você. O cuspe de anão endurece em contato com o ar. Assim que ele abrir a boca você vai estar tão trancado como um pinto no ovo.

Palha piscou para Holly. Era o máximo de vantagem que ele podia cantar naquele momento, mas Holly sabia que o anão passaria os dias seguintes alardeando suas habilidades.

Os anões podem abrir túneis por quilômetros de terra. Os anões têm traseiros a jato. Os anões podem produzir sete litros e meio de cuspe de pedra a cada hora. O que você tem? Além de um rosto famoso que vive estragando o seu disfarce?

Holly espiou no buraco, com o bico de uma das botas se curvando na beira.

— Tudo bem, parceiro. Bom trabalho. Agora, por favor, pode cuspir o fugitivo?

Palha ficou feliz em concordar. Jogou Duda na superfície da rua e depois saiu do buraco, reencaixando a mandíbula.

— Isso é nojento — gemeu Duda enquanto o cuspe viscoso se solidificava em seus membros. — E fede.

— Ei — disse Palha, injuriado. — O cheiro não é minha culpa. Se você tivesse alugado o depósito numa rua mais limpa...

— Ah, é, fedorento? Bem, pois é isso que eu penso de você. — Duda tentou fazer um gesto obsceno de duende-diabrete, mas felizmente o cuspe de pedra imobilizou seu braço antes que ele pudesse terminar.

— Muito bem, vocês dois. Parem com isso — disse Holly. — Temos 30 minutos para levar esse carinha à LEP, antes que o cuspe se solte.

Palha olhou por cima do ombro dela, para o fim do beco. Ficou subitamente pálido por baixo da cobertura de terra úmida e os pêlos de sua barba se eriçaram nervosamente.

— Sabe de uma coisa, parceira? Acho que não vamos precisar de 30 minutos.

Holly deu as costas para o prisioneiro. Havia meia dúzia de elfos bloqueando a entrada do beco. Eram da LEP, ou algo muito parecido. Usavam roupas comuns sem marcas ou insígnias de qualquer tipo. Mas tinham aparência oficial. A artilharia pesada aninhada em seus cotovelos atestava isso. Holly notou com algum alívio que nenhuma das armas estava apontada para ela ou Palha.

Uma elfo se adiantou, acionando o visor de seu capacete.

— Olá, Holly — disse ela. — Estivemos procurando você durante toda a manhã. Como vai?

Holly engoliu um suspiro de alívio. Era a comandante aérea Vinyáya, que há muito tempo apoiava Holly e Julius Raiz. Vinyáya havia aberto a trilha para todas as criaturas do sexo feminino nas forças policiais. Numa carreira de quinhentos anos, havia feito de tudo, de liderar uma equipe de resgate no lado oculto da lua a comandar os votos liberais no Conselho. Além disso, havia sido instrutora de vôo de Holly na academia.

— Bem, comandante — respondeu Holly.

Vinyáya assentiu para a massa de cuspe de pedra que ia se solidificando.

— Trabalhando, pelo que vejo.

— É. Este é Duda Dia. O contrabandista de peixe. Foi fisgado.

A comandante franziu a testa.

— Você terá de soltá-lo, Holly. Temos lesmas maiores para pegar.

Holly pôs a bota no peito de Duda. Sentia-se relutante em saltar para dentro das tramas da LEP, até mesmo a pedido de uma comandante aérea disfarçada.

— Que tipo de lesmas?

A testa de Vinyáya se franziu mais, parecendo um talho entre as sobrancelhas.

— Podemos conversar no carro, capitã? Os policiais regulares estão a caminho.

Capitã? Vinyáya havia se dirigido a ela usando o antigo posto? O que estava acontecendo aqui? Se os policiais regulares eram a LEP, quem eram essas criaturas?

— Não confio na força policial tanto quanto antes, comandante. A senhora precisa me dar alguma coisa antes de irmos a algum lugar.

Vinyáya suspirou.

— Primeiro, capitã, não somos da força. Pelo menos não da que você pensa. Segundo, quer que eu lhe dê alguma coisa? Vou lhe dar duas palavras. Quer tentar adivinhar quais são?

Holly soube imediatamente. Sentiu.

— Artemis Fowl — sussurrou.

— Isso mesmo — confirmou Vinyáya. — Artemis Fowl. Agora, você e seu parceiro estão preparados para vir conosco?

— Onde vocês estacionaram?

 

Vinyáya e sua misteriosa unidade obviamente tinham um orçamento considerável. Não apenas suas armas eram de último tipo, mas o transporte que usavam era muito diferente do normal da LEP. Segundos depois de raspar Duda Dia e prender um rastreador em sua bota, Holly e Palha estavam com os cintos de segurança fechados no banco de trás de uma limusine blindada. Não eram exatamente prisioneiros, mas Holly não pôde evitar a sensação de que não controlava mais seu destino.

Vinyáya tirou o capacete e balançou os longos cabelos prateados. Holly ficou surpresa.

A comandante sorriu.

— Gostou da cor? Estava cheia de ficar tingindo.

— Gosto. Combina com você. Palha levantou um dedo.

— Desculpe interromper a conversa fiada, mas quem são vocês? Não são da LEP, aposto minha aba de traseiro.

Vinyáya girou para encarar o anão.

— O que você sabe sobre demônios?

Palha verificou o frigobar do veículo e adorou encontrar frango-imitação e cerveja de urtiga. Pegou os dois.

— Demônios. Não muito. Nunca vi um.

— E você, Holly? Lembra-se de alguma coisa da escola?

Holly ficou intrigada. Aonde essa conversa poderia ir? Seria algum tipo de teste? Pensou em suas aulas de história na Academia de Polícia.

— Demônios. A oitava família do Povo das Fadas. Há dez mil anos, depois da batalha de Taillte, eles se recusaram a se mudar para o subterrâneo, optando por deixar sua ilha fora do tempo e viver lá, isolados.

Vinyáya assentiu.

— Muito bem. Assim eles juntaram seu círculo de feiticeiros e lançaram um feitiço temporal sobre a ilha de Hybras.

Palha arrotou.

— Eles desapareceram da face da terra. E desde então ninguém viu nenhum demônio.

— Não é bem verdade. Alguns andaram aparecendo no correr dos séculos. Na verdade um deles bem recentemente. E adivinhe quem estava lá para encontrá-lo?

— Artemis — disseram Holly e Palha ao mesmo tempo.

— Exato. De algum modo ele pôde prever o que nós não pudemos. Sabíamos o quando, mas o nosso onde errou por vários metros.

Holly se inclinou à frente. Interessada. De volta ao jogo.

— Temos algum filme de Artemis?

— Não exatamente — respondeu Vinyáya com uma expressão enigmática. — Se não se importa, deixarei a explicação para alguém mais qualificado do que eu. Ele está na base. — E ela não quis falar mais nada sobre o assunto. Algo tremendamente enfurecedor.

Palha não era paciente.

— O quê? Vai simplesmente tirar um cochilo? Qual é, Vinyáya, diga o que o pequeno Arty está aprontando.

Vinyáya não caiu na conversa.

— Relaxe, Sr. Escavator. Tome mais uma cerveja de urtiga ou água da fonte. — A comandante pegou duas garrafas no frigobar e ofereceu uma a Palha.

Palha examinou o rótulo.

— Derrier? Não, obrigado. Você sabe como eles põem as bolhas nesse negócio?

A boca de Vinyáya se retorceu com a sombra de um sorriso.

— Achei que ela era naturalmente carbonatada.

— Era o que eu pensava até me darem um trabalho de prisioneiro na fábrica da Derrier. Eles empregam todos os anões da cadeia. Fazem com que a gente assine contratos de sigilo.

Vinyáya ficou curiosa.

— Então ande, diga. Como eles colocam as bolhas? Palha tampou o nariz.

— Não posso dizer. Quebra de contrato. Só posso dizer que envolve um enorme tonel de água e vários anões usando nossos... bem — Palha apontou para o próprio traseiro — ... talentos naturais.

Vinyáya guardou cautelosamente a garrafa.

Enquanto Holly se recostava confortavelmente em sua poltrona de gel, desfrutando mais um papo furado de Palha, um pensamento incômodo vinha surgindo. Percebeu que a comandante Vinyáya tinha evitado responder à pergunta inicial do anão. Quem eram aquelas pessoas?

 

Dez minutos depois, a pergunta foi respondida.

— Bem-vindos ao quartel-general da Seção Oito — disse Vinyáya. — Desculpem meu jeito teatral, não é freqüente conseguirmos maravilhar as pessoas.

Holly não se sentia muito maravilhada. Eles haviam entrado num estacionamento de vários andares a alguns quarteirões da Delegacia Plaza. A limusine blindada seguiu as setas curvas até o sétimo andar, que ficava embaixo do teto de pedra áspera. O motorista parou na vaga menos acessível e mais escura e desligou o motor.

Ficaram sentados por vários segundos na escuridão úmida, ouvindo a água pingar das estalactites no teto.

— Uau — disse Palha. — Estou maravilhado. Acho que vocês gastaram todo o dinheiro no carro.

Vinyáya sorriu.

— Espere só.

O motorista fez uma rápida varredura de proximidade com um instrumento do painel e descobriu que a barra estava limpa. Então pegou um controle remoto infravermelho no painel e clicou-o através do teto plástico transparente, na direção da rocha acima.

— Rochas de controle remoto — disse Palha secamente, deliciado com a oportunidade de exercer seu músculo do sarcasmo.

Vinyáya não respondeu; não precisava. O que aconteceu em seguida fechou a boca de Palha. A vaga de estacionamento subiu hidraulicamente, catapultando o carro em direção à face da rocha acima. As rochas não saíram do caminho. Na mente de Holly não houve dúvida de que, quando a rocha batesse no metal, a rocha venceria. Claro, não fazia sentido que Vinyáya os trouxesse até aqui simplesmente para esmagar todo o grupo. Mas não houve tempo para pensar nisso no meio segundo que demorou até a limusine chegar à rocha dura e implacável.

Na verdade a rocha não era dura nem implacável. Era digital. Eles passaram através dela, chegando a uma vaga de estacionamento menor, dentro da rocha.

— Holograma — ofegou Holly.

Vinyáya piscou para Palha.

— Rochas de controle remoto — disse ela. Em seguida abriu a porta traseira e saiu num corredor com ar condicionado.

— Todo o quartel-general foi escavado na rocha. Na verdade, a maior parte da caverna já existia, só usamos laser num canto aqui e ali. Desculpem o estilo espionagem, mas é vital que o que fazemos aqui na Seção Oito permaneça em segredo.

Holly seguiu a comandante, passando por uma porta automática e um corredor liso. Havia sensores e câmeras a intervalos de alguns passos, e Holly soube que sua identidade fora verificada pelo menos uma dúzia de vezes antes de chegarem à porta de aço no fim do corredor.

Vinyáya mergulhou a mão numa placa de metal líquido no meio da porta.

— Metal flux — explicou, tirando a mão. — O metal é saturado de nano-sensores. Não há como passar pela porta sem autorização. Os nano-sensores lêem tudo, de minha impressão palmar ao DNA. Mesmo que alguém cortasse minha mão e enfiasse ali, os sensores leriam a falta de pulsação.

Holly cruzou os braços.

— Tudo isso é paranóia concentrada. Acho que posso adivinhar quem é seu consultor técnico.

A porta se abriu sibilando, e do outro lado estava exatamente a pessoa que Holly esperava ver.

— Potrus — disse com carinho, passando para abraçar o centauro.

Potrus abraçou-a calorosamente, batendo os cascos traseiros cheio de prazer.

— Holly — disse ele, segurando-a com os braços estendidos. — Como vai?

— Ocupada.

Potrus franziu a testa.

— Está meio magrinha.

— Você também, por incrível que apreça! — Holly deu uma gargalhada.

Potrus havia perdido um pouco de peso desde que ela o vira pela última vez. E seu pêlo estava brilhante e bem-cuidado. Holly deu um tapinha no flanco dele.

— Hmm. Você está usando condicionador e não está usando o chapéu de folha de alumínio à prova de sonda cerebral. Não me diga que há uma pequena centaura escondida em algum lugar por aí.

Potrus ficou vermelho.

— Ainda estamos no início, mas tenho esperança.

A sala estava apinhada, do chão ao teto, de equipamento eletrônico de última geração. Na verdade alguns estavam no piso e no teto, inclusive telas de gás do tamanho das paredes e um céu artificial, incrivelmente realista, no alto.

Potrus estava obviamente orgulhoso do que havia montado.

— A Seção Oito tem o orçamento. Eu tenho o melhor de tudo.

— E o trabalho antigo?

O centauro fez uma careta.

— Tentei trabalhar para Sool, mas não deu certo. Ele está destruindo tudo que o comandante Raiz construiu. A Seção Oito me contratou secretamente num fim de semana de encontros rápidos. Fizeram uma oferta e eu aceitei. Recebo bastante atenção por aqui, para não mencionar um salário enorme.

Palha havia farejado rapidamente ao redor e ficou irritado ao ver que não havia sequer uma migalha de comida na sala.

— Nada desse salário foi gasto em cozido de rato, não é?

Potrus levantou uma sobrancelha para o anão, que continuava coberto de terra do túnel.

— Não. Mas temos um chuveiro. Você sabe o que é um chuveiro, não sabe, Escavator?

Os pêlos da barba de Palha se eriçaram.

— Sim, sei. E também sei identificar um jumento quando vejo.

Holly ficou entre os dois.

— Tudo bem, vocês aí. Não precisam partir do ponto em que deixaram. Vamos guardar os insultos tradicionais até descobrirmos onde estamos e por que estamos aqui.

Palha sentou-se animado num sofá creme, totalmente cônscio de que sua sujeira gosmenta iria grudar na mobília. Holly sentou-se ao lado, mas não perto demais.

Potrus ativou uma tela na parede, depois tocou-a suavemente para navegar no programa que queria.

— Adoro essas novas telas de gás — riu ele. — Pulsos elétricos aquecem as partículas a diferentes temperaturas, fazendo o gás assumir diferentes cores, formando imagens. Claro que é muito mais complicado do que isso, mas estou facilitando para o condenado entender.

— Eu fui totalmente inocentado — discordou Palha. — Como você sabe muito bem.

— As acusações foram retiradas — observou Potrus. — Você não foi inocentado. É diferente. Um pouco.

— É: assim como um centauro e um jumento são coisas diferentes. Um pouco.

Holly suspirou. Era quase como nos velhos tempos. Potrus era o consultor técnico da LEP que a havia guiado em várias operações e Palha era o relutante auxiliar dos dois. Para um estranho, seria difícil acreditar que na verdade o anão e o centauro eram bons amigos. Ela achava que essas picuinhas irritantes eram o modo como as criaturas do sexo masculino de todas as espécies demonstravam afeto.

Uma imagem em tamanho real de um demônio saltou na tela. Seus olhos eram fendas e as orelhas coroadas de espinhos.

Palha deu um pulo.

— D’Arvit!

— Relaxe — disse Potrus. — É gerado por computador. Mas a imagem tem qualidade incrível. Garanto. — Potrus aumentou o rosto até ele preencher toda a tela.

— Um demônio macho totalmente adulto. Pós-metamorfose.

— Pós-metamorfose?

— Sim, Holly. Os demônios não crescem como as outras criaturas das fadas. São bastante bonitinhos até a puberdade, então o corpo passa por um espasmo violento e doloroso, ou metamorfose. Após oito ou dez horas, emergem como demônios de um casulo de gosma nutriente. Antes disso são simplesmente ninfas. Mas não os feiticeiros, esses nunca se metamorfoseiam. Sua magia floresce. Não os invejo. Em vez de espinhas e mudanças de humor, um demônio feiticeiro adolescente tem raios disparando dos dedos. Se tiver sorte.

— De onde eles disparam, se ele não tiver sorte? E o que isso tem a ver conosco? — perguntou Palha, indo direto ao que interessava.

— Tem a ver porque um demônio apareceu recentemente na Europa e nós não o encontramos primeiro.

— Foi o que ouvimos dizer. Agora os demônios estão voltando de Hybras?

— Talvez, Holly. — Potrus bateu na tela, dividindo-a em seções menores. Imagens de demônios apareceram em cada seção. — Esses demônios se materializaram momentaneamente nos últimos cinco séculos. Por sorte, nenhum ficou por tempo suficiente para ser capturado pelos Homens da Lama. — Potrus selecionou a quarta imagem. — Meu predecessor conseguiu segurar este durante 12 horas. Estava com um medalhão de prata e havia lua cheia.

— Deve ter sido um momento especial — disse Palha. Potrus suspirou.

— Você não aprendeu nada na escola? Os demônios são especiais dentre todas as criaturas da terra. Sua ilha, Hybras, é na verdade uma enorme rocha lunar que caiu durante o Triássico, quando a lua foi acertada por um meteorito. Pelo que podemos deduzir através de pinturas em cavernas do povo das fadas e de modelos virtuais, esta rocha lunar se chocou num jorro de magma e mais ou menos se fundiu à superfície. Os demônios descendem de microorganismos lunares que viviam dentro da rocha. São sujeitos a forte atração lunar física e mental; chegam a levitar durante a lua cheia. E é essa atração que os atrai de volta à nossa dimensão. Eles têm de usar prata para repelir o puxão lunar. A prata é a âncora dimensional mais eficaz. O ouro também funciona, mas algumas vezes você deixa pedaços de si mesmo para trás.

— Então suponha que acreditamos em todo esse papo furado de atração lunar interdimensional — disse Palha, esforçando-se ao máximo para encher o saco de Potrus. — O que isso tem a ver conosco?

— Tem tudo a ver conosco — respondeu Potrus bruscamente. — Se os humanos capturarem um demônio, quem você acha que serão os próximos a ficar sob o microscópio dele?

Vinyáya assumiu a história.

— É por isso que há quinhentos anos a Chefe do Conselho, Nan Burdeh, criou a Seção Oito para monitorar as atividades dos demônios. Por sorte, Burdeh era bilionária, e quando morreu deixou toda a fortuna para a Seção Oito. Daí, este ambiente impressionante. Somos uma divisão pequena e secreta da LEP, mas tudo que temos é do melhor. Com o passar dos anos nossa agenda cresceu, incluindo missões secretas que são importantes demais para dar a agentes comuns da LEP. Mas a demonologia continua sendo nossa prioridade. Por cinco séculos nossos melhores intelectos estiveram estudando os antigos textos dos demônios, tentando prever quando o próximo demônio vai aparecer. Em geral os cálculos são corretos e podemos conter a situação. Mas há 12 horas aconteceu alguma coisa em Barcelona.

— O que aconteceu? — perguntou Palha, uma pergunta razoável, para variar.

Potrus abriu outra janela na tela. A maior parte da imagem estava branca.

— Aconteceu isto.

Palha olhou para a janela digital.

— Uma tempestade de neve muito pequena?

Potrus balançou o dedo para ele.

— Eu juro que, se eu também não fosse tão fanático por zombarias, faria você ser expulso daqui sobre seu traseiro combustível.

Palha aceitou o elogio com um gesto gracioso de cabeça.

— Não, isto não é uma pequena tempestade de neve. É um branco. Alguém estava bloqueando nossos escópios.

Holly assentiu. Escópios eram os nomes vulgares dos rastreadores ocultos colocados nos satélites de comunicação humanos.

— Dá para ver que o que aconteceu na nossa tempestade de neve deve ter sido bastante incomum, porque os Homens da Lama ficaram muito ansiosos para se afastar.

Na tela, os humanos fora da zona de branco estavam correndo feito loucos para longe ou colidindo os carros em paredes.

— Os noticiários humanos informaram vários avistamentos de uma criatura parecida com um lagarto que surgiu do nada durante vários segundos. Claro que não há fotos. Eu havia calculado que aconteceria um aparecimento, mas seria a mais de um metro à esquerda, e havíamos posto um DL, desculpe, um projetor de distorção de luz. Infelizmente, apesar de termos acertado a hora, o local estava errado. De algum modo, quem estava dentro daquela esfera de interferência conseguiu a localização exata.

— Então Artemis nos salvou — observou Holly.

Vinyáya ficou perplexa.

— Salvou? Como?

— Bem, se não fosse por aquela interferência, nosso amigo demônio estaria agora em toda a Internet. E vocês acham que Artemis estava dentro da esfera de interferência.

Potrus riu, obviamente deliciado com sua própria inteligência.

— O pequeno Arty achou que podia ser mais esperto do que eu. Ele sabe que a LEP o mantém sob vigilância constante.

— Mesmo depois de prometer que não faria isso — observou Holly.

Potrus ignorou esse detalhe e foi em frente:

— Então Artemis mandou sósias ao Brasil e à Finlândia, mas nós pusemos um satélite em todos os três. Isso arrancou um bom naco do meu orçamento, garanto.

Palha gemeu.

— Vou arrotar ou cair no sono. Ou as duas coisas.

Vinyáya bateu com o punho na palma da outra mão.

— Muito bem. Já estou cheia deste anão. Vamos simplesmente jogá-lo numa cela por alguns dias.

— Você não pode fazer isso — reagiu Palha.

Vinyáya lhe deu um sorriso maligno.

— Ah, posso sim. Você não acreditaria nos poderes da

Seção Oito. Então cale a boca ou vai ouvir sua própria voz ricocheteando em paredes de aço.

Palha trancou a boca e jogou a chave fora.

— Então sabemos que Artemis estava em Barcelona — continuou Potrus. — E sabemos que um demônio apareceu. Artemis também esteve em vários outros locais de materializações possíveis, mas nenhum demônio surgiu. De algum modo ele está envolvido nisso.

— Como temos certeza? — perguntou Holly.

— Eis como — disse Potrus. Em seguida bateu na tela, ampliando um trecho do teto da Casa Milà.

Holly olhou a imagem por vários segundos, procurando o que quer que deveria enxergar.

Potrus deu uma dica.

— Este é um prédio de Gaudí. Você gosta de Gaudí? Ele desenhou alguns mosaicos lindos.

Holly olhou com mais intensidade.

— Ah, meu Deus — disse ela de repente. — Não pode ser.

— Ah, mas é. — Potrus riu e ampliou um mosaico específico do teto, até encher toda a tela de parede. Na imagem havia duas figuras saindo de um buraco no céu. Uma era obviamente um demônio, e a outra era claramente Artemis Fowl.

— Mas isso é impossível. Esse prédio deve ter cem anos.

— O tempo é a chave para essa coisa toda — disse Potrus. — Hybras foi retirada do tempo. Um demônio que seja sugado para fora da ilha vagueia pelos séculos como um nômade temporal. Esse demônio obviamente pegou Artemis e o levou para o passeio. Os dois devem ter aparecido para um dos artistas de Gaudí, ou talvez até para o próprio.

Holly empalideceu.

— Quer dizer que Artemis está...

— Não, não. Artemis está em casa, na cama. Nós tiramos um satélite de órbita para manter vigilância sobre ele 24 horas por dia, sete dias por semana.

— Como isso é possível?

Potrus ficou quieto, por isso Vinyáya respondeu à pergunta:

— Vou continuar daqui, porque Potrus não gosta de dizer as palavras. Não sabemos, Holly. Este caso deixa um monte de perguntas sem resposta. É aí que você entra.

— Como? Não sei nada sobre demônios.

Vinyáya assentiu habilmente.

— Sim, mas sabe muito sobre Artemis Fowl. Creio que vocês mantêm contato.

Holly deu de ombros.

— Bem, eu não diria que nós realmente...

Potrus pigarreou, depois colocou um arquivo de áudio no sistema.

“Ei, Artemis”, disse uma gravação da voz de Holly. “Tenho um probleminha que talvez você possa me ajudar a resolver.”

“Ficarei feliz em ajudar, Holly”, disse a voz de Artemis. “Espero que seja alguma coisa difícil.”

“Bem, há um duende-diabrete que eu estou querendo pegar, mas ele é rápido.”

Potrus desligou o arquivo.

— Acho que podemos dizer que você continua em contato.

Holly deu um sorriso sem-graça, esperando que ninguém perguntasse quem havia entregado um comunicador a Artemis.

— Tudo bem, eu ligo para ele de vez em quando. Só para ficar de olho. Em nome do bem maior.

— Independentemente dos seus motivos — disse Vinyáya — precisamos que entre em contato com ele de novo. Vá à superfície e descubra como ele pode prever o aparecimento de demônios com tanta precisão. Segundo os cálculos de Potrus, não deve acontecer um surgimento de demônio nas próximas seis semanas, mas gostaríamos de saber onde acontecerá o próximo.

Holly pensou longamente.

— Com que função irei contatar Artemis?

— Capitã, seu antigo posto. E claro que agora você estará trabalhando para a Seção Oito. Tudo que fizer para nós será sigiloso.

— Espiã?

— Espiã, mas com tempo livre excelente e seguro-saúde.

Holly virou o polegar na direção de Palha.

— E meu sócio?

O anão saltou de pé.

— Não quero ser espião. É perigoso demais. — Ele piscou maroto para Potrus. — Mas poderia ser consultor, em troca de pagamento.

Vinyáya fez uma careta de desprezo.

— Não estamos preparados para dar um visto de superfície a Escavator.

Palha deu de ombros.

— Bom. Eu não gosto de ir à superfície. Fica perto demais do sol e tenho a pele sensível.

— Mas estamos preparados para compensá-lo pela perda de rendimentos.

— Não sei se estou preparada para vestir o uniforme de novo — disse Holly. — Gosto de trabalhar com Palha.

— Vamos chamar esta missão de período de teste. Faça por nós. Veja se gosta do modo como atuamos.

Holly pensou.

— Qual é a cor do uniforme?

Vinyáya sorriu.

— Preto fosco.

— Tudo bem. Estou dentro.

Potrus abraçou-a de novo.

— Eu sabia que você ia aceitar. Sabia. Holly Short não resiste a uma aventura. Eu disse a eles.

Vinyáya prestou continência rigidamente.

— Bem-vinda a bordo, capitã Short. Potrus vai terminar de colocá-la em dia e mostrar seu equipamento. Espero que faça contato com o elemento o mais breve possível.

Holly devolveu a continência.

— Sim, comandante. Obrigada, comandante.

— Agora, se me dão licença, tenho uma reunião com um duende que conseguimos colocar dentro da tríade dos goblins. Ele tem usado macacão de escamas há seis meses e está tendo uma certa crise de identidade.

Vinyáya saiu, com a juba prateada ondulando. A porta automática se fechou com apenas um sussurro.

Potrus arrastou Holly de seu assento.

— Tenho tanta coisa para mostrar! — disse cheio de empolgação. — O pessoal daqui é maneiro, mas meio quadrado. Claro que dizem ohs e ahs, mas ninguém me aprecia como você. E o equipamento de campo! Você não vai acreditar. Espere só até ver os novos Macacões Difusos. E o capacete! Holly, esse negócio volta para casa sozinho. Construí uma série de minipulsionadores na camada de cobertura. Ele não voa, mas é capaz de ricochetear e rolar. O negócio está além da genialidade.

Palha cobriu os ouvidos.

— O mesmo velho Potrus. Modesto que só ele!

Potrus preparou um coice na direção de Palha, mas se conteve no último segundo.

— Vá com calma, Escavator. Eu posso estourar a qualquer momento. Sou meio animal, lembre-se.

Palha afastou o casco de seu rosto com um dedo.

— Não consigo evitar — gemeu. — Todo esse melodrama. Alguém precisa curtir.

Potrus se virou de novo para sua preciosa tela de parede. Escolheu e ampliou uma pintura representando a ilha de Hybras.

— Sei que tudo isso tem muito o estilo de história de espionagem, e sei que você acha que estou transformando um verme fedorento numa jibóia. Mas acredite, em algum lugar dessa ilha há um demônio insuspeito que está para fazer uma visita à Terra, contra a vontade, e tornar a vida muito difícil para nós.

Holly se aproximou da tela. Onde estaria aquele demônio relutante?, pensou. E será que ele fazia idéia de que estava para ser arrancado de sua dimensão e levado a outra?

Por acaso, as perguntas de Holly eram inexatas em dois sentidos. Primeiro, o demônio em questão não era de fato um demônio, era só um imp. E segundo, o imp em questão não era nem um pouco relutante. Na verdade, visitar a Terra era seu maior desejo.

 

Uma noite o Imp N° 1 sonhou que era um demônio. Sonhou que seus chifres eram curvos e pontudos. A pele áspera e blindada, e as garras suficientemente afiadas para rasgar a pele do dorso de um javali selvagem. Sonhou que os outros demônios se curvavam diante dele, depois saíam correndo para que ele não os machucasse em seus espasmos de batalha.

Naquela noite teve esse sonho magnífico, depois acordou e descobriu que ainda era apenas um imp. Claro, tecnicamente não teve esse sonho à noite. O céu sobre Hybras está para sempre tingido com o brilho vermelho do alvorecer. Mas o N° 1 pensava em seu período de descanso como noite, mesmo nunca tendo visto uma.

O Imp N° 1 vestiu-se depressa e saiu rapidamente ao corredor, para verificar seu reflexo no espelho do chalé, para o caso de ter se metamorfoseado durante o sono. Mas não havia mudança. Continuava a mesma figura pouco impressionante de sempre. Cem por cento imp.

— Grr — disse para a sua imagem, mas até mesmo o N° 1 do espelho era pouco convincente. E, se não conseguia amedrontar a si mesmo, não era uma criatura medonha e poderia muito bem arranjar emprego trocando fraldas de bebês imps.

Havia algum potencial no espelho. O Imp N° 1 tinha a estrutura de esqueleto geral de um demônio de verdade. Tinha mais ou menos a mesma altura de uma ovelha sentada sobre o traseiro. A pele era cinza como poeira lunar e salpicada de placas de blindagem. Runas vermelhas, em espiral, subiam pelo peito e pelo pescoço, atravessando a testa. Os olhos tinham impressionantes íris laranja e o queixo se projetava nobre, ou pelo menos ele gostava de pensar, se bem que outros o haviam chamado de queixudo. Tinha dois braços, ligeiramente mais compridos do que os de um humano médio de dez anos, e duas pernas, um pouco mais curtas. Dedos, oito nas mãos e oito nos pés. De modo que nada era estranho. Um rabo, mais propriamente um cotoco, mas excelente para cavar buracos se você estivesse procurando larvas. No todo, um imp típico. Mas aos 14 anos o N° 1 era o imp mais velho de Hybras. Ou melhor, mais ou menos 14 anos. Era difícil ser exato quando estava sempre amanhecendo. “A hora do poder”, como costumavam dizer os feiticeiros antes de serem sugados para as profundezas do espaço frio. A hora do poder. Interessante.

Hadley Shrivelington Basset, um demônio seis meses mais novo do que o N° 1, mas que já havia se transformando completamente, veio caminhando pelo corredor de ladrilhos a caminho do banheiro. Seus chifres em forma de saca-rolhas eram impressionantes e as orelhas tinham pelo menos quatro pontas. Hadley gostava de desfilar seu novo ser de demônio diante dos imps. Em geral os demônios nem deveriam dormir no chalé dos imps, mas Basset não parecia ter pressa de se mudar.

— Ei, imp — disse ele, batendo a toalha no traseiro do N° 1. Ela acertou com um estalo forte. — Vai se metamorfosear qualquer hora dessas? Talvez se eu deixar você com bastante raiva.

A toalha ardeu, mas o N° 1 não ficou com raiva. Só nervoso. Tudo o deixava nervoso. Esse era o seu problema.

Hora de uma rápida mudança de assunto.

— Bom dia, Basset. Belas orelhas.

— Eu sei — disse Hadley, dobrando as pontas uma depois da outra. — Quatro pontas, já, e acho que há uma quinta chegando. O próprio Abbot só tem seis pontas.

Leon Abbot, o herói de Hybras. O autoproclamado salvador dos demônios.

Hadley acertou o N° 1 de novo com a toalha.

— Não sente uma dor na cara quando olha o espelho, imp? Porque você está provocando uma dor na minha.

Ele pôs as mãos nos quadris, virou a cabeça para trás e riu. Era tudo muito teatral. Daria para pensar que havia um artista nos bastidores escrevendo os esquetes.

— Ei, Basset. Você não está usando nada de prata.

O riso parou, substituído por um gorgolejo como de um sapo. Shrivelington Basset disparou pelo corredor do chalé sem parar para provocar ninguém. O N° 1 sabia que matar as pessoas de medo não deveria lhe dar nenhuma satisfação, e geralmente não dava. Mas para Basset ele fizera uma exceção. Não usar prata é muito mais do que um desastre de moda para um demônio ou imp. Para eles poderia ser fatal, ou coisa pior. Poderia ser doloroso por toda a eternidade. Essa regra geralmente só se aplicava quando um imp ou demônio ficava perto da cratera do vulcão, mas por sorte Basset estava apavorado demais para se lembrar disso.

O N° 1 se enfiou de novo no dormitório dos imps mais velhos, esperando que os colegas de quarto ainda estivessem roncando. Não teve sorte. Estavam esfregando os olhos e já procuravam o alvo das zombarias diárias, que, é claro, era ele. Era de longe o mais velho no dormitório, ninguém mais havia chegado aos 14 anos sem se metamorfosear. Estava chegando ao ponto em que ele era um adereço permanente. A cada noite suas pernas se projetavam do pé da cama e o cobertor mal cobria as marcas lunares que redemoinhavam em seu peito.

— Ei, pirralho — gritou um. — Acha que vai se metamorfosear hoje? Ou será que vão crescer flores cor-de-rosa no meu sovaco?

— Vou olhar seu sovaco amanhã — disse outro com um risinho.

Mais abusos. Desta vez eram de dois imps de 12 anos tão bombeados que talvez se metamorfoseassem antes da hora das aulas. Mas estavam certos. Ele também escolheria a opção das flores cor-de-rosa.

Pirralho era seu apelido de imp. Eles não tinham nomes de verdade, só depois da metamorfose. Então recebiam um nome tirado do texto sagrado. Até o momento, ele precisava aceitar N° 1 ou Pirralho.

Deu um sorriso bem-humorado. Não adiantava antagonizar os colegas de dormitório. Mesmo sendo menores do que ele hoje, poderiam ser muito maiores amanhã.

— Estou me sentindo bombeado — disse, flexionando os bíceps. — Hoje vai ser meu dia.

Todo mundo no dormitório estava cheio de empolgação. No dia seguinte poderiam estar fora daquele quarto de uma vez por todas. Assim que se metamorfoseavam, eram transferidos para acomodações decentes, e nada em Hybras seria proibido.

— Quem a gente odiamos? — gritou um.

— Os humanos! — foi a resposta.

O minuto seguinte foi passado uivando para o teto. O imp N° 1 se juntou a eles, mas não estava sentindo aquilo de verdade.

Não deveria ser “quem a gente odiamos”, pensou. Deveria ser “quem a gente odeia”.

Mas este provavelmente não era um bom momento para dizer isso.

 

Às vezes o N° 1 desejava ter conhecido sua mãe. Esse não era um desejo muito demoníaco, por isso ele o guardava para si. Os demônios eram nascidos iguais, e o que quer que fizessem de si mesmos, era feito com garras e dentes. Assim que a fêmea punha um ovo, ele era jogado num balde de lama enriquecida com minerais e deixado para chocar. Os imps nunca sabiam quem eram seus familiares, portanto todo mundo era parente.

Mas mesmo assim, em alguns dias, quando sua auto-estima havia levado umas boas bordoadas, o N° 1 não conseguia deixar de olhar desejoso para a área das fêmeas, a caminho da escola, e se perguntar qual seria sua mãe.

Havia uma demônia com marcas vermelhas iguais às suas e rosto gentil. Freqüentemente ela sorria para ele, do outro lado do muro. Estava procurando o filho, havia percebido o N° 1. E, a partir desse dia, ele retribuía o sorriso. Os dois podiam fingir que haviam se encontrado.

O N° 1 nunca havia experimentado o sentimento de pertencer a alguma coisa. Ansiava pelo tempo em que poderia acordar e ficar ansioso pelo que viria em seguida. Esse dia ainda não havia chegado, e não era provável que chegasse, pelo menos enquanto morassem no Limbo. Nada mudaria. Nada poderia mudar. Bem, isso não era totalmente verdadeiro. As coisas podiam piorar.

A Escola dos Imps era um prédio baixo, de pedra, com pouca ventilação e praticamente nenhuma luz. Perfeito para a maioria dos imps. O fedor e o fogo enfumaçado os fazia sentir-se duros e guerreiros.

O N° 1 ansiava por luz e ar puro. Era diferente, como uma ponta nova na bússola. Ou talvez uma ponta antiga. O N° 1 costumava pensar que talvez ele fosse um feiticeiro. Tudo bem, não havia um feiticeiro na legião de demônios desde que eles haviam saído do tempo, mas talvez ele fosse o primeiro, e talvez por isso se sentisse tão diferente com relação a praticamente tudo. O N° 1 havia abordado sua teoria com o mestre Rawley, mas o professor deu-lhe um peteleco no buraco do ouvido e o mandou cavar larvas para os outros imps.

Havia outra coisa. Por que eles não podiam, pelo menos uma vez, ter uma refeição cozida? O que poderia haver de tão terrível num cozido macio e talvez alguns temperos? Por que os imps se deliciavam em mastigar a comida antes que ela parasse de se retorcer?

Como sempre, o N° 1 foi o último a chegar à escola. A outra dúzia de imps já estava no corredor, adorando a idéia de mais um dia caçando, arrancando peles, cortando carne e possivelmente até se metamorfoseando.

O N° 1 não se sentia particularmente esperançoso. Talvez hoje fosse o seu dia, mas duvidava. O espasmo da metamorfose era provocado pela sede de sangue, e o N° 1 nunca havia sentido a menor ânsia de machucar nenhuma outra criatura. Até se sentia mal pelos coelhos que comia, e algumas vezes sonhava que os pequenos espíritos deles o assombravam.

O mestre Rawley estava sentado em seu banco, afiando uma espada curva. De vez em quando cortava um naco do banco e grunhia de satisfação. A superfície da mesa estava coberta com várias armas para cortar, serrar e rasgar. E, claro, um livro. Um exemplar de A cerca viva de Lady Heatherington Smythe. O livro que Leon Abbot havia trazido do antigo mundo. O livro que salvaria a todos, segundo o próprio Abbot.

Quando Rawley havia afiado a lâmina até formar um crescente prateado, bateu com o punho da arma no banco.

— Sentem-se — rugiu para os imps. — E sejam rápidos, seus montes de cocô de coelho fedorentos. Tenho uma lâmina nova que estou doido para testar.

Os imps correram para seus lugares. Rawley não iria cortá-los, mas certamente não hesitaria em bater nas costas deles com a parte chata da espada. E, afinal de contas, talvez ele os cortasse.

O N° 1 se espremeu no fim da quarta fila. Pareça durão, disse a si mesmo. Um risinho de desprezo. Você é um imp!

Rawley cravou a espada na madeira e deixou-a ali, balançando. Os outros imps grunhiram. Impressionados. Tudo que o N° 1 conseguia pensar era: Metido a besta. E: ele estragou aquele banco.

— Então, sua lama de porcos — disse Rawley. — Querem ser demônios, não é?

— Sim, mestre Rawley! — berraram os imps.

— Acham que vocês têm o que é necessário?

— Sim, mestre Rawley!

Rawley abriu os braços musculosos. Jogou para trás a cabeçorra verde e rugiu:

— Bem, então deixem-me ouvir!

Os imps gritaram e bateram os pés, bateram com armas nas mesas e deram tapas nos ombros uns dos outros. O N° 1 evitou o máximo possível a balbúrdia, ao mesmo tempo em que se esforçava para parecer envolvido. Não era um truque fácil.

Por fim Rawley fez com que se acomodassem.

— Bem, veremos. Esta é uma manhã importante para alguns de vocês, mas para outros será apenas mais um dia de desonra, caçando larvas para as fêmeas. — Ele olhou diretamente para o N° 1. — Mas antes de começarmos a soltar gosma, temos de cochilar um pouco.

Grunhidos dos imps.

— Isso mesmo, menininhas. Hora da história. Nada para matar nem para comer, só o conhecimento pelo conhecimento. — Rawley encolheu os enormes ombros nodosos. — E uma perda de tempo, se vocês me perguntarem. Mas aqui eu cumpro ordens.

— Isso mesmo, mestre Rawley — disse uma voz junto à porta. — Você cumpre ordens.

A voz pertencia ao próprio Leon Abbot, fazendo uma de suas visitas-surpresa à escola. Abbot foi imediatamente rodeado por imps em adoração, implorando para receber um cachaço amigável no ouvido ou tocar sua espada.

Abbot suportou essa adoração por um momento, depois empurrou os imps para o lado. Tirou Rawley do local mais importante da sala e esperou silêncio. Não teve de esperar muito. Abbot era um espécime impressionante, mesmo que você não soubesse nada sobre seu passado. Tinha cerca de um metro e cinqüenta, com chifres curvos, parecendo de carneiro, projetando-se da testa. As escamas blindadas eram de um vermelho profundo e cobriam todo o tronco e a testa. Muito impressionante, e, claro, difícil de penetrar. Você poderia golpear o peito de Abbot com um machado o dia inteiro e não chegar a lugar nenhum. Na verdade, um de seus truques de festa era desafiar qualquer um no salão a machucá-lo.

Abbot jogou para trás sua capa de couro cru e bateu no peito.

— Muito bem, quem quer tentar?

Vários imps quase se metamorfosearam na hora.

— Façam filas, senhoras — disse Rawley, como se ainda estivesse no comando.

Os imps se empilharam na frente da sala e bateram em Abbot com punhos, pés, e testas. Todos os golpes ricochetearam. Para diversão de Abbot.

Idiotas, pensou o N° 1. Como se pudessem conseguir.

Na verdade o N° 1 tinha uma teoria sobre as escamas blindadas. Há alguns anos estivera brincando com uma escama descartada e havia notado que elas eram feitas de dezenas de camadas, o que tornava quase impossível rompê-las de frente, ao passo que se atacasse em ângulo com alguma coisa quente...

— E você, Pirralho?

O riso áspero de seus colegas de classe esmagou todos os pensamentos do N° 1.

O N° 1 se retorceu fisicamente, chocado, ao perceber que não somente Leon Abbot havia falado com ele, mas que tinha usado seu apelido do dormitório.

— Sim, senhor, perdão? O quê?

Abbot bateu no peito.

— Acha que pode atravessar as placas mais grossas de Hybras?

— Duvido que sejam as mais grossas — disse a boca do N° 1 antes que seu cérebro tivesse a chance de alcançá-la.

— Raahhr! Está me insultando, impzinho?

Ser chamado de impzinho era ainda pior do que ser chamado de Pirralho, O termo impzinho em geral era reservado para os que haviam acabado de sair do ovo.

— Não, não, claro que não, mestre Abbot. Só pensei que, naturalmente, alguns demônios mais velhos devem ter mais camadas nas escamas. Mas as suas são provavelmente mais fortes, sem camadas mortas por dentro.

Os olhos de Abbot se semicerraram na direção do N° 1.

— Você parece saber muito sobre escamas. Por que não tenta atravessar estas?

O N° 1 tentou rir, desconsiderando.

— Ah, realmente não acho...

Mas Abbot não estava sorrindo.

— Eu realmente acho, Pirralho. Traga esse cotoco de rabo aqui antes que eu dê licença ao mestre Rawley para ele fazer o que vem querendo há muito tempo.

Rawley arrancou sua espada do banco e piscou para o N° 1. Não foi uma piscadela simpática, do tipo “nós temos um segredo”, foi uma piscadela do tipo “vejamos o que há nas suas entranhas”.

O N° 1 foi com relutância à frente da sala, passando pelas brasas da fogueira da noite anterior. Espetos de madeira, para carne, se projetavam dos carvões. O N° 1 parou um instante, olhando os espetos afiados e pensando que, se tivesse coragem, um daqueles provavelmente serviria. Abbot acompanhou seu olhar.

— O quê? Acha que um espeto de carne vai ajudá-lo? — O demônio fungou. — Já fui enterrado em lava derretida uma vez, Pirralho, e ainda estou aqui. Traga um. Faça o pior que puder.

— Faça o pior que puder — ecoaram vários colegas do N° 1, com uma lealdade óbvia.

Com relutância, o N° 1 escolheu um espeto de madeira no fogo. O cabo era bastante sólido, mas a ponta estava preta e com flocos. O N° 1 bateu o espeto na perna para soltar a cinza.

Abbot pegou o espeto de carne na mão do N° 1 e levantou-o.

— Esta é a arma que você escolheu — disse zombando. — O Pirralho acha que está caçando coelhos.

Os gritos e zombarias se chocaram na testa franzida do N° 1 como uma onda. Podia sentir uma de suas dores de cabeça chegando. Sempre podia contar com que uma delas aparecesse quando era menos esperada.

— Isso provavelmente é má idéia — admitiu. — Eu simplesmente deveria bater nas suas placas blindadas como aqueles outros idiotas... quero dizer, como meus colegas.

— Não, não — disse Abbot, devolvendo o espeto. — Vá em frente, abelhinha, cutuque com seu ferrão.

Cutuque com seu ferrão, trinou o N° 1 numa insultuosa imitação do líder da legião. Claro que não trinou em voz alta. O N° 1 raramente confrontava alguém fora de sua cabeça.

Em voz alta, disse:

— Farei o melhor possível, mestre Abbot.

— Farei o melhor possível, mestre Abbot — trinou Abbot numa insultuosa imitação do N° 1, o mais alto que pôde.

O N° 1 sentiu gotas de suor descendo em espiral pelo cotoco de rabo. Realmente não havia uma boa saída para a situação. Se fracassasse, receberia mais um jorro de zombarias e leves danos pessoais. Mas se vencesse, perderia de verdade.

Abbot bateu no cocuruto de sua cabeça.

— Olá, Pirralho. Vamos em frente. Temos imps aqui esperando para se metamorfosear.

O N° 1 olhou para a ponta do espeto e deixou que o problema se resolvesse sozinho. Pôs a palma da mão direita no peito de Abbot. Depois, enrolando os dedos com força na parte grossa do espeto, girou-o para cima, penetrando numa das escamas blindadas de Abbot.

Girou devagar, concentrando-se no ponto de contato. A escama ficou suja de cinza, mas não houve penetração. Uma fumaça acre redemoinhou ao redor do espeto.

Abbot deu um risinho, deliciado.

— Tentando provocar um incêndio, é, Pirralho? Será que devo chamar os bombeiros?

Um dos imps jogou seu lanche em cima do N° 1. O pedaço de gordura, osso e cartilagem escorregou pela nuca.

O N° 1 insistiu, rolando o espeto entre o polegar e o indicador. Agora rolava mais depressa, sentindo que o espeto penetrava ligeiramente, queimando.

Sentiu a empolgação crescer. Tentou contê-la, pensar nas conseqüências, mas não pôde. Estava a ponto de obter sucesso. Ia realizar com o cérebro algo que todos aqueles idiotas não podiam fazer com músculos. Claro que iriam socá-lo e o Abbot inventaria alguma desculpa para solapar seu feito, mas o N° 1 saberia. E Abbot também.

O espeto penetrou apenas um pouco. O N° 1 sentiu a placa ceder, talvez apenas uma camada. O pequeno imp sentiu algo que nunca havia sentido. Triunfo. A sensação cresceu por dentro, irresistível, impossível de ser aplacada. Tornou-se mais do que um sentimento. Transformou-se numa força, reconstruindo alguns caminhos neurais esquecidos, liberando uma energia antiga dentro do N° 1.

O que está acontecendo?, perguntou-se o N° 1. Será que eu deveria parar? Será que posso parar?

Sim e não foram as respostas a essas perguntas. Sim, deveria parar, mas não, não podia. A força fluiu pelos seus membros, aumentando a temperatura. Escutou vozes entoando na mente. O N° 1 percebeu que estava cantando com elas. Cantando o quê? Não fazia idéia, mas de algum modo sua memória sabia.

A força estranha latejou nos dedos do N° 1 com o mesmo ritmo de seus batimentos cardíacos, depois pulsou para fora do corpo, penetrando no espeto. O espeto se transformou em pedra. A madeira se metamorfoseou em granito diante de seus olhos. O vírus de pedra se espalhou pelo cabo, ondulando como água. No clarão de uma fagulha, o espeto era totalmente feito de pedra. Expandiu-se ligeiramente na placa blindada de Abbot.

A expansão partiu meio centímetro da placa. Abbot ouviu o barulho, assim como todos os outros. O líder da legião de demônios olhou para baixo e percebeu instantaneamente o que estava acontecendo.

— Magia — sibilou. A palavra saiu antes que ele pudesse impedir. Com um giro maligno do braço, jogou o espeto para longe de seu tronco, na fogueira.

O N° 1 olhou para sua mão, que latejava. A energia continuava brilhando ao redor das pontas dos dedos, uma minúscula névoa de calor.

— Magia? — repetiu ele. — Isso significa que eu devo ser um...

— Feche essa boca idiota — interrompeu rispidamente Abbot, cobrindo com a capa a escama rachada. — Obviamente eu não quis dizer magia de verdade. Quis dizer truque. Você torceu o cabo daquele espeto para fazer com que ele estalasse, depois veio com oh, ah, como se tivesse conseguido alguma coisa.

O N° 1 puxou a capa de Abbot.

— Mas e a sua escama?

Abbot apertou a capa com mais força.

— E a minha escama? Não há nenhuma marca nela. Nem uma mancha. Você acredita em mim, não acredita?

O N° 1 suspirou. Aquele era Leon Abbot; a verdade não significava nada.

— Sim, mestre Abbot. Acredito.

— Pelo seu tom insolente, dá para ver que não acredita. Muito bem, então prove. — Abbot puxou a capa de volta, revelando a escama intocada. Por um momento o N° 1 pensou ter visto uma fagulha azul brincando onde a marca definitivamente estivera, mas então a fagulha desapareceu. Fagulhas azuis. Poderia ser magia?

Abbot cutucou o peito do imp com um dedo rígido.

— Já falamos disso, N° 1. Sei que você acha que é feiticeiro. Mas não existem feiticeiros; não existem desde que saímos do tempo. Você não é um feiticeiro. Esqueça essa idéia idiota e se concentre na metamorfose. Você é uma vergonha para sua raça.

O N° 1 ia se arriscar num protesto quando foi agarrado com força pelo braço.

— Sua lesmazinha escorregadia — gritou Rawley, o cuspe atingindo o rosto do N° 1. — Tentando um truque com o líder da legião. Volte ao seu lugar. Cuido de você mais tarde.

O N° 1 não podia fazer nada além de voltar ao seu banco e suportar os insultos dos colegas. E houve muitos, geralmente acompanhados por algo atirado ou um soco. Mas de algum modo ignorou as últimas humilhações, e em vez disso olhou a própria mão. A mão que havia transformado madeira em pedra. Poderia ser verdade? Será que ele era realmente um feiticeiro? E, se fosse, isso faria com que se sentisse melhor ou pior?

Um palito de dentes ricocheteou em sua testa e caiu no banco. Havia um pedacinho de carne cinzenta grudado na ponta. O N° 1 levantou os olhos e encontrou Rawley rindo para ele.

— Venho tentando tirar isso há semanas. Javali, acho. Agora preste atenção, Pirralho. O mestre Abbot está tentando educar vocês.

Ah, sim, a aula de história. Era incrível o quanto Leon Abbot conseguia se enfiar na história dos demônios. Ouvindo-o, dava para pensar que ele havia salvado sozinho a Oitava Família, apesar dos feiticeiros que atrapalhavam.

Abbot examinou as garras curvas na ponta de seus dedos. Cada uma poderia estripar um porco grande. Se as histórias de Abbot fossem verdadeiras, ele havia se metamorfoseado aos 8 anos enquanto lutava com um dos cães selvagens da ilha. Suas unhas haviam se transformado em garras durante a luta, lacerando o couro do cachorro.

O N° 1 achava essa história tremendamente improvável. Eram necessárias horas para se metamorfosear por completo, algumas vezes demorava dias, mas Abbot esperava que eles acreditassem que sua metamorfose fora instantânea. Besteira. Entretanto os outros imps babavam diante daquelas lendas de autoglorificação.

— De todos os demônios que lutaram na última batalha em Taillte — trovejou Abbot no que ele provavelmente achava que era uma boa voz para aulas de história, mas que o N° 1 considerava uma voz suficientemente chata para endurecer queijo mole —, eu, Leon Abbot, sou o último.

Muito conveniente, pensou o N° 1. Não restava ninguém para questionar. Também pensava: Você parece ter a idade que tem, Abbot. Comeu muitos barris de gordura de porco.

O N° 1 era um imp impiedoso quando estava de mau humor.

É da natureza dos feitiços de saída do tempo que o processo de velhice fique drasticamente mais lento. Abbot era um jovem macho quando os feiticeiros tiraram Hybras do tempo, de modo que o feitiço, combinado com os bons genes, o havia mantido vivo, com seu ego gigantesco, desde então. Possivelmente mil anos. Claro, mil anos no tempo normal. No tempo de Hybras, um milênio significava muito pouco. Uns dois séculos poderiam se passar num piscar de olho na ilha. Um imp podia acordar um dia e descobrir que tinha evoluído. Há um bom tempo, cada demônio e imp de Hybras acordou um dia com um cotoco de rabo onde o antigo, magnífico, estivera. Durante um período considerável, depois disso, os ruídos mais comuns na ilha eram o som de demônios caindo ou xingando ao se levantar de novo.

— Depois daquela grande batalha em que as falanges de demônios eram as mais corajosas e ferozes no exército do Povo — continuou Abbot sob os gritos de aprovação dos imps —, fomos derrotados devido a traição e covardia. Os elfos não queriam lutar e os anões não cavavam armadilhas. Não tivemos opção além de lançar nosso feitiço e nos reagruparmos até que chegasse o momento da volta.

Mais gritos, mais pés batendo.

Toda vez, pensou o N° 1. Temos de passar por isso toda vez? Esses imps agem como se nunca tivesse escutado essa história. Quando é que alguém vai se levantar e dizer: “Com licença. Isso é coisa velha. Vamos em frente.”

— E assim nós procriamos. Procriamos e ficamos fortes. Agora nosso exército tem mais de cinco mil guerreiros, certamente o bastante para derrotar os humanos. Sei disso porque eu, Leon Abbot, estive no mundo e retornei vivo a Hybras.

Aquela era a pepita de ouro de Abbot. Era ali que qualquer um que se levantasse contra ele se encolhia e era jogado longe. Abbot não tinha vindo diretamente para o Limbo com o resto de Hybras. Por algum motivo fora desviado para o futuro humano e depois sugado para Hybras. Tinha visto os acampamentos humanos e trazido seu conhecimento para casa. O modo como tudo isso aconteceu era meio nebuloso. Segundo Abbot, houvera uma grande batalha, ele havia derrotado uns cinqüenta homens, então um feiticeiro misterioso o havia tirado do tempo de novo. Mas não antes de ele pegar algumas coisas e trazer de volta.

Desde que os feiticeiros haviam sido explosivamente removidos da Oitava Família, ninguém sabia grande coisa sobre magia. Os demônios normais não tinham magia própria. Pensava-se que todos os feiticeiros tinham sido sugados para o espaço durante a transferência de Hybras da Terra para o Limbo, mas segundo Abbot um havia sobrevivido. Esse feiticeiro estava mancomunado com os humanos e só havia ajudado o líder dos demônios debaixo de fortes ameaças.

O N° 1 era um tanto cético quanto a essa versão dos acontecimentos. Em primeiro lugar porque vinha de Abbot, e em segundo porque os feiticeiros estavam sendo apresentados, de novo, sob uma ótica ruim. Os demônios pareciam esquecer que, se não fossem os feiticeiros, Hybras seria dominada pelos humanos.

Neste dia em particular, o N° 1 estava sentindo uma ligação especial com os feiticeiros e não gostou que a memória deles fosse sujada por aquele fanfarrão boquirroto. Não se passava um dia sem que o N° 1 passasse algum tempo rezando pela volta do feiticeiro misterioso que havia ajudado Abbot. E agora que tinha certeza da magia em seu sangue, rezaria com mais força ainda.

— A lua me separou do resto da ilha durante a grande jornada — continuou Abbot, os olhos semicerrados como se a lembrança o embalasse. — Fui incapaz de resistir aos encantos dela. Assim, viajei pelo espaço e pelo tempo até chegar ao mundo novo. Que agora é o mundo dos homens. Os humanos prenderam prata nos meus tornozelos, tentaram fazer com que eu me submetesse, mas eu não quis. — Abbot encolheu os ombros enormes e rugiu para o teto. — Porque sou da espécie dos demônios! E nós nunca nos submetemos!

Desnecessário dizer que os imps alucinaram. Toda a sala balançava com a agitação. Na opinião do N° 1, o desempenho de Abbot tinha sido fraquinho, na melhor das hipóteses. O discurso do nunca nos submeteremos era a página mais velha do livro do Abbot. O N° 1 esfregou as têmporas, tentando aliviar a dor de cabeça. Havia coisa pior pela frente, ele sabia. Primeiro o livro, depois a balestra, se Abbot não se desviasse do roteiro. E por que iria se desviar? Não tinha feito isso em todos os anos desde seu retorno do mundo novo?

— E assim eu lutei! — gritou Abbot. — Chutei para longe os grilhões e Hybras me chamou para casa, mas antes de partir para longe dos odiados humanos, lutei até o altar deles e roubei dois de seus objetos abençoados.

— O livro e o arco — murmurou o N° 1, revirando os olhos alaranjados.

— Conte o que o senhor roubou! — imploraram os outros, seguindo a deixa, como se não soubessem.

— O livro e o arco! — proclamou Leon Abbot, tirando os objetos de baixo da capa como que por magia.

Como que por magia, pensou o N° 1. Mas não magia de verdade, porque então Abbot seria um feiticeiro, e não podia ser, já que havia se metamorfoseado, e os feiticeiros não se metamorfoseavam.

— Agora sabemos como os humanos pensam — disse Abbot, balançando o livro. — E como eles lutam — proclamou, brandindo a balestra.

Não acredito nisso nem por um minuto, pensou o N° 1. Ou melhor, não acreditaria, se tivéssemos “minutos” no limbo. Ah, como eu gostaria de estar na terra com o último feiticeiro. Então seríamos dois, e eu descobriria o que realmente aconteceu quando Leon Abbot chegou.

— E armados desse conhecimento, podemos voltar quando o feitiço do tempo se esgotar. E retomar o Antigo País.

— Quando? — gritaram os imps. — Quando?

— Logo — respondeu Abbot. — Logo. E haverá humanos suficientes para todos nós. Serão esmagados como capim sob nossas botas. Vão arrancar as cabeças como flores de dente-de-leão.

Ah, por favor, pensou o N° 1. Chega de metáforas com plantas.

Era bem possível que o N° 1 fosse a única criatura em Hybras que ao menos tivesse pensado na palavra humana metáfora. Dizê-la em voz alta certamente lhe valeria uma surra. Se os outros imps soubessem que seu vocabulário humano também incluía palavras como poda e decoração, iriam amarrá-lo com certeza. Ironicamente ele havia aprendido essas palavras no A cerca viva de Lady Heatherington Smythe, que deveria ser um livro didático.

— Vão arrancar as cabeças — gritou um imp, e isso rapidamente se transformou num canto acompanhado por todos na sala.

— É, vão arrancar as cabeças — disse o N° 1, tentando, mas não havia sentimento em sua voz.

Qual é a minha motivação?, perguntou-se. Nunca sequer encontrei um humano.

Os imps subiram nos bancos, balançando-se num ritmo primitivo.

— Vão arrancar as cabeças! Vão arrancar as cabeças!

Abbot e Rawley os instigavam, flexionando as garras e uivando. Um cheiro enjoativo de suor inundou o ar. Gosma de metamorfose. Alguém estava entrando na fase de espasmo da metamorfose. A empolgação provocava a mudança.

O N° 1 não sentia nada. Nem mesmo um arrepio. Esforçou-se ao máximo, apertando as pálpebras, deixando a pressão crescer na cabeça, forçando pensamentos sangrentos. Mas os sentimentos verdadeiros despedaçavam as visões falsas de sede de sangue e carnificina.

Não adianta, pensou. Não sou esse tipo de demônio.

O N° 1 parou de cantar e sentou-se com a cabeça nas mãos. Não adiantava fingir; outro ciclo de mudança estava passando por ele e deixando-o para trás.

O mesmo não acontecera com os outros imps. A teatralidade de Abbot havia aberto um poço natural de testosterona, sede de sangue e fluidos corporais. Um a um, sucumbiram ao espasmo da metamorfose. Gosma verde fluía dos poros, lentamente a princípio, depois em jorros borbulhantes. Todos caíram, todos. Devia ser uma espécie de recorde, tantos imps se metamorfoseando simultaneamente. É claro que Abbot receberia o crédito.

A visão do fluido trouxe novas rodadas de uivos. E quanto mais os imps uivavam, mais rápido a gosma brotava. O N° 1 tinha ouvido dizer que os humanos levavam vários anos para passar da infância à vida adulta. Os imps faziam isso em algumas horas. E uma mudança assim iria doer.

Os uivos de exultação se transformaram em grunhidos de dor enquanto ossos se esticavam e chifres se enrolavam, os membros cobertos de gosma já se alongando. O cheiro era suficientemente doce para fazer o N° 1 engasgar.

Imps caíam no chão ao redor. Sacudiam-se por alguns segundos, depois seus fluidos os mumificavam. Eram encasulados como enormes insetos verdes, presos na gosma que endurecia. A sala de aula ficou subitamente silenciosa, a não ser pelos estalos do fluido nutriente se solidificando e um sussurro de chamas na lareira de pedra.

Abbot riu de orelha a orelha, um sorriso cheio de dentes que pareceu cortar sua cabeça ao meio.

— Uma boa manhã de trabalho, não acha, Rawley? Fiz todos se metamorfosearem.

Rawley grunhiu, confirmando, depois notou o N° 1.

— Menos o Pirralho.

— Bem, claro que não — começou Abbot, depois se controlou. — É. Sem dúvida, menos o Pirralho.

A testa do N° 1 queimava sob o exame de Rawley e de Abbot.

— Eu quero me metamorfosear — disse ele olhando os dedos. — Quero de verdade. Mas é o negócio do ódio. Simplesmente não consigo. E toda aquela gosma. Só de pensar nessa coisa em cima de mim fico meio nauseado.

— Meio o quê? — perguntou Rawley, cheio de suspeitas. O N° 1 percebeu que precisaria emburrecer a frase para o professor.

— Com enjôo. Meio com enjôo.

— Ah. — Rawley balançou a cabeça enojado. — A gosma deixa você com enjôo? Que tipo de imp você é? Os outros vivem para a gosma.

O N° 1 respirou fundo e disse em voz alta algo que sabia há muito tempo:

— Não sou como os outros. — A voz do N° 1 tremia. Estava à beira das lágrimas.

— Vai chorar? — perguntou Rawley, arregalando os olhos. — Isso é demais, Leon. Agora ele vai chorar. Como uma fêmea. Desisto.

Abbot coçou o queixo.

— Deixe-me experimentar uma coisa.

Ele remexeu num bolso da capa, prendendo disfarçadamente uma coisa sobre a mão.

Ah, não, pensou N° 1. Por favor, não. O Pedrinha não.

Abbot levantou o antebraço, com a capa pendurada em cima. Um minipalco. Um boneco humano mostrou a cabeça por cima da capa de couro. A cabeça do boneco era uma grotesca bola de argila pintada, com testa grande e feições desajeitadas. O N° 1 duvidava que os humanos fossem tão feios na vida real, mas os demônios não eram famosos por suas habilidades artísticas. Freqüentemente Abbot usava Pedrinha como incentivo visual para os imps com dificuldade para se metamorfosear. Desnecessário dizer que o N° 1 já fora apresentado ao Pedrinha.

— Grr — disse o boneco, ou melhor, disse Abbot, enquanto balançava o boneco. — Grr, meu nome é Pedrinha, o Homem da Lama.

— Olá, Pedrinha — disse o N° 1 debilmente. — Como vai? O boneco segurava uma minúscula espada de madeira.

— Não importa como eu vou. Não me importa como você vai, porque odeio todas as criaturas diferentes — disse Abbot numa voz esganiçada. — Eu as expulsei de suas casas. E se elas tentarem voltar, matarei todas.

Abbot baixou o boneco.

— Agora, como isso faz você se sentir?

Faz com que eu sinta que o demônio errado está comandando a legião, pensou o N° 1, mas em voz alta disse:

— Ah... com raiva?

Abbot piscou.

— Com raiva? Verdade?

— Não — confessou o N° 1, retorcendo as mãos. — Não sinto nada. É um boneco. Consigo ver seus dedos por baixo do material.

Abbot enfiou Pedrinha de novo no bolso.

— É isso. Já estou cheio de você, N° 1. Nunca vai ganhar um nome do livro.

Assim que se metamorfoseavam, os demônios recebiam um nome humano tirado de A cerca viva de Lady Heatherington Smythe. A lógica era que o aprendizado da língua humana e a posse de um nome humano ajudaria o exército de demônios a pensar como os humanos, e portanto a derrotá-los. Abbot podia odiar os Homens da Lama, mas isso não queria dizer que não os admirasse. Além do mais, politicamente, era boa idéia ter cada demônio de Hybras chamando uns aos outros por nomes humanos que Leon Abbot havia escolhido para eles.

Rawley agarrou a orelha do N° 1 e o arrastou do banco até os fundos da sala de aula. Uma grade de metal no piso cobria uma fossa de excremento, rasa e fedorenta.

— Vá trabalhar, Pirralho — disse carrancudo. — Você sabe o que fazer.

O N° 1 suspirou. Sabia bem demais. Não era a primeira nem a segunda vez que precisava suportar essa tarefa odiosa. Pegou um gancho com cabo comprido, preso à parede, e levantou a grade pesada de cima do buraco. O cheiro era ruim

mas não insuportável, já que uma crosta havia se formado na superfície da bosta. Besouros se arrastavam na película irregular, as pernas estalando como garras em madeira.

O N° 1 descobriu o buraco totalmente, depois escolheu o colega mais próximo. Não havia como dizer qual colega era, por causa do casulo de gosma. Os únicos movimentos eram pequenas bolhas de ar ao redor da boca e do nariz. Pelo menos ele esperava que fosse a boca e o nariz.

Abaixou-se, rolou o casulo pelo chão e jogou na fossa de excremento. O imp em metamorfose se chocou na crosta, levando consigo uma dúzia de besouros para a gosma embaixo. O fedor de bosta cobriu o N° 1 e ele soube que sua pele iria feder durante dias. Os outros teriam orgulho do cheiro da fossa, mas para o N° 1 era apenas outra vergonha.

Era um trabalho árduo. Nem todos os imps em metamorfose estavam imóveis. Vários lutavam dentro dos casulos, e por duas vezes garras de demônios furaram a crisálida verde a centímetros da pele do N° 1.

Ele persistiu, grunhindo alto na esperança de que Rawley ou Leon Abbot dessem uma força. Era uma esperança inútil. Os dois demônios estavam juntos, do outro lado da sala, examinando A cerca viva de Lady Heatherington Smythe.

Por fim o N° 1 rolou o último colega para a fossa. Ficaram ali empilhados como carne num molho grosso. O excremento rico em nutrientes iria acelerar a metamorfose, garantindo que todos alcançassem o pleno potencial. O N° 1 sentou-se no chão de pedra, recuperando o fôlego.

Sorte sua, pensou o N° 1. Enfiado em merda.

O N° 1 tentou sentir inveja, mas simplesmente estar perto da fossa o fazia engasgar; a idéia de ficar imerso nela, rodeado por imps encasulados, fez seu estômago dar uma reviravolta.

Uma sombra caiu sobre as pedras do piso diante dele, tremeluzindo à luz da lareira.

— Ah, N° 1 — disse Abbot. — Sempre imp, jamais demônio, hein? O que vou fazer com você?

O N° 1 olhou para os próprios pés, batendo com as garras de bebê no chão.

— Mestre Abbot. O senhor acha? Não há a mínima chance? — Ele respirou fundo e levantou os olhos para encontrar os de Abbot. — Eu não poderia ser um feiticeiro? O senhor viu o que aconteceu com o espeto. Não quero deixá-lo sem graça, mas o senhor viu.

A expressão de Abbot mudou instantaneamente. Num segundo ele estava bancando o mestre afável, no segundo seguinte suas cores verdadeiras apareceram.

— Não vi nada — sibilou, colocando o N° 1 de pé. — Nada aconteceu, seu odioso aborto da natureza. O espeto estava coberto de cinza, nada mais. Não houve transformação. Nem magia.

Abbot puxou o N° 1 suficientemente perto para que ele visse as lascas de metal presas entre seus dentes amarelados. Quando falou novamente, a voz parecia diferente. Com camadas. Como se todo um coro estivesse cantando em harmonia. Era uma voz que não poderia ser ignorada. Mágica?

— Se você é um feiticeiro, deveria realmente estar do outro lado, com seu parente. Não seria o melhor? Um salto rápido, era só isso que seria necessário. Entende o que estou dizendo, Pirralho?

O N° 1 assentiu, atordoado. Que voz linda! De onde tinha vindo? O outro lado, claro que era para lá que ele deveria ir. Um pequeno passo para um imp.

— Entendo, senhor.

— Bom. Assunto encerrado. Como diria Lady Heatherington Smythe... Pé direito à frente, jovem senhor, o mundo aguarda.

O N° 1 assentiu como sabia que Abbot queria, mas por dentro seu cérebro borbulhava junto com o estômago. Será que essa seria toda a sua vida? Jamais um momento de luz ou esperança. A não ser que ele atravessasse.

A sugestão de Abbot era sua única esperança. Atravessar. Antes o N° 1 jamais vira qual seria o interesse de pular numa cratera, mas agora a idéia parecia quase irresistível. Ele era um feiticeiro, disso não poderia haver dúvida. E em algum lugar lá fora, no mundo humano, havia outro como ele. Um irmão antigo que poderia lhe ensinar o caminho de sua espécie.

O N° 1 ficou olhando Abbot se afastar para exercer seu poder em outra parte da ilha, possivelmente humilhando as fêmeas na área delas, outro de seus passatempos prediletos. Mas será que Abbot era de todo mau? Afinal de contas, ele havia dado essa idéia maravilhosa ao N° 1.

Não posso ficar aqui, pensou o N° 1. Preciso ir ao vulcão.

A idéia se agarrou com firmeza ao seu cérebro. E em minutos havia abafado todas as outras idéias da sua cabeça.

Ir ao vulcão.

Aquilo martelava dentro do crânio, como ondas se quebrando no litoral.

Obedeça a Abbot. Vá ao vulcão.

O N° 1 espanou a poeira dos joelhos.

— Sabe de uma coisa? — murmurou consigo mesmo, para o caso de Rawley ouvir. — Acho que vou até o vulcão.

 

Artemis Fowl e seu guarda-costas Butler relaxavam num camarote particular do lado direito do palco do mundialmente famoso teatro Bellini, na Sicília. Talvez não fosse totalmente correto dizer que Butler relaxava. Ele parecia relaxar, como um tigre parece estar relaxado no instante anterior ao ataque.

Butler estava ainda menos satisfeito aqui do que em Barcelona. Pelo menos para a viagem à Espanha ele tivera alguns dias de preparação, mas neste passeio teve tempo apenas de se atualizar com suas rotinas de artes marciais.

Assim que o Bentley dos Fowl havia parado diante da Mansão Fowl, Artemis desapareceu em seu escritório, ligando os computadores. Butler aproveitou a oportunidade para malhar, tomar um banho e preparar o jantar: tortinhas de creme de cebola, costeletas de cordeiro gratinadas com alho e um crepe de cerejas para terminar.

Artemis deu a notícia durante o café.

— Precisamos ir à Sicília — disse brincando com os biscoitos no prato. — Tive uma dedução quanto aos números do feitiço de tempo.

— Quando? — perguntou o guarda-costas, listando mentalmente seus contatos na ilha do Mediterrâneo.

Artemis olhou o relógio Rado e Butler gemeu.

— Não olhe o relógio, Artemis. Olhe o calendário.

— Desculpe, velho amigo. Mas você sabe que o tempo é limitado. Não posso me arriscar a perder uma materialização.

— Mas no jato você disse que só haveria outra materialização dentro de seis semanas.

— Eu estava errado, ou melhor, Potrus estava errado. Ele deixou escapar alguns fatores novos na equação temporal.

Artemis havia posto Butler a par dos detalhes da Oitava Família enquanto o jato sobrevoava o Canal da Mancha.

— Permita-me demonstrar — disse Artemis. Em seguida pôs um saleiro de prata sobre seu prato. — Digamos que este saleiro seja Hybras. Meu prato é onde ela está: nossa dimensão. E seu prato é para onde ela quer ir: o Limbo. Está acompanhando até aqui?

Butler assentiu relutante. Sabia que, quanto mais entendesse, mais Artemis iria lhe contar, e não havia muito espaço na cabeça de um guarda-costas para a física quântica.

— Então os feiticeiros dos demônios queriam transferir a ilha do prato A para o prato B, mas não através do espaço, e sim através do tempo.

— Como você sabe tudo isso?

— Está no Livro das Criaturas — respondeu o adolescente irlandês. — Uma descrição com muitos detalhes, ainda que meio floreada.

O Livro era a bíblia das criaturas do subterrâneo, continha sua história e seus mandamentos. Artemis havia conseguido um exemplar com uma duende bêbada na Cidade de Ho Chi Min há alguns anos. Vinha se mostrando uma fonte valiosíssima de informações.

— Duvido que o Livro tenha muitos gráficos e mapas — observou Butler.

Artemis sorriu.

— Não, eu peguei os detalhes com Potrus, embora ele não saiba que está compartilhando informações.

Butler esfregou as têmporas.

— Artemis, eu alertei para você não mexer com Potrus. O negócio dos sósias já é bem ruim.

Artemis tinha plena consciência de que Potrus estava rastreando-o e rastreando qualquer um dos sósias que ele havia mandado. Na verdade ele só mandava os sósias para obrigar Potrus a gastar sua verba. Era a idéia de Artemis para uma piada.

— Não fui eu que comecei a vigilância — questionou Artemis. — Foi Potrus. Encontrei mais de uma dezena de coisas só no meu computador. Só fiz reverter a direção e entrar em alguns arquivos compartilhados dele. Nada secreto. Bem, talvez alguns. Potrus anda ocupado desde que saiu da LEP.

— Então o que os arquivos de Potrus lhe disseram? — perguntou Butler, resignado.

— Eles me falaram de magia. Basicamente, magia é energia e a capacidade de manipular energia. Para transportar Hybras do ponto A ao ponto B, os feiticeiros demônios usaram o poder de seu vulcão para criar um rasgo no tempo, ou um túnel. — Artemis enrolou seu lenço, formando um tubo, e enfiou o saleiro dentro. Em seguida depositou o saleiro no prato de Butler.

— Simples assim? — perguntou Butler em dúvida.

— Na verdade, não. De fato os feiticeiros fizeram um trabalho excepcional, considerando os instrumentos disponíveis na época. Tinham de calcular a energia do vulcão, o tamanho da ilha, a energia de cada demônio na ilha, para não mencionar a atração reversa da lua. É incrível que o feitiço tenha funcionado tão bem,

— Houve alguma encrenca?

— Sim. Segundo o livro, os feiticeiros induziram o vulcão, mas a força era demasiada. Eles não puderam controlá-la e o círculo mágico foi rompido. Hybras e os demônios foram transportados, mas os feiticeiros foram lançados para o espaço.

Butler assobiou.

— Isso é que é encrenca.

— É mais do que encrenca. Todos os feiticeiros demônios foram mortos, e assim agora o resto da legião está preso no

Limbo, mantido por um feitiço mágico que não deveria ter sido permanente, sem um feiticeiro para trazê-los de volta.

— Potrus não poderia ir pegá-los?

— Não. Seria uma missão impossível recriar as mesmas circunstâncias. Imagine tentar guiar uma pluma num tempestade de areia, depois pousar a pluma num grão específico de areia, só que você não sabe onde o grão está. E mesmo que soubesse onde o grão está, a magia dos demônios só pode ser controlada por um demônio. Eles são, de longe, os feiticeiros mais poderosos.

— Complicado — admitiu Butler. — Então diga por que esses demônios aparecem aqui, agora?

Artemis o corrigiu, balançando o dedo.

— Não somente aqui, e não somente agora. Os demônios sempre sentiram uma atração por seu mundo natal, uma combinação de radiação terrestre e lunar. Mas um demônio só poderia ser puxado de volta se estivesse na sua ponta do túnel temporal, a cratera, e sem usar uma âncora dimensional.

Butler brincou com sua pulseira.

— Prata.

— Isso mesmo. Bom, devido ao enorme aumento dos níveis de radiação em todo o mundo, o empuxo sobre os demônios é muito maior e chega ao nível crítico com maior freqüência.

Butler estava lutando para acompanhar. Algumas vezes não era fácil ser guarda-costas de um gênio.

— Artemis, achei que não iríamos entrar nos detalhes.

Mesmo assim Artemis continuou. Agora não pararia no meio da palestra.

— Acompanhe-me, velho amigo. Já estou quase chegando. E então o pico de energia acontece hoje em dia com mais freqüência do que Potrus imagina.

Butler levantou o dedo.

— Ah, sim, mas os demônios estão bem, desde que permaneçam longe da cratera.

Artemis levantou o dedo em triunfo.

— Sim! — exclamou. — É o que você pensaria. É o que Potrus pensa. Mas quando nosso último demônio saiu do lugar, repassei a equação de trás para a frente. Minha conclusão é que o feitiço temporal está se desgastando. O túnel está se desfazendo.

Artemis permitiu que o tubo do lenço se alargasse na mão.

— Agora a área de captação é maior, assim como a área de deposição. Em breve os demônios não estarão a salvo em nenhum local de Hybras.

Butler fez a pergunta óbvia:

— O que vai acontecer quando o túnel se desgastar totalmente?

— Logo antes de isso acontecer, demônios por toda Hybras serão arrancados da ilha, com ou sem prata. Quando o túnel desmoronar, alguns serão depositados na Terra, um número maior na lua, e o resto será espalhado pelo espaço e o tempo. Uma coisa é certa, não são muitos os que sobreviverão, e os que sobreviverem serão trancados em laboratórios e zoológicos.

Butler franziu a testa.

— Precisamos contar isso a Holly.

— É — concordou Artemis. — Mas por enquanto, não. Preciso de mais um dia para confirmar meus números. Não vou até Potrus tendo apenas uma teoria.

— Não me diga. Sicília, certo?

 

E assim, agora se encontravam no teatro Massimo Bellini e Butler não tinha nem meia idéia do motivo para estarem ali. Se um demônio se materializasse naquele palco, Artemis estava certo e o povo subterrâneo corria um grande risco. E se o Povo corria risco, só Artemis poderia ajudá-lo. Na verdade Butler sentia um forte orgulho porque seu jovem patrão estava fazendo algo por alguém, só para variar. Mesmo assim eles tinham apenas uma semana para terminar a tarefa e retornar à Mansão Fowl, porque dentro de sete dias os pais de Artemis voltariam de Rhode Island, onde Artemis Fowl Pai havia finalmente tomado posse de uma perna artificial bioíbrida, para substituir a que ele havia perdido quando a Mafiya russa explodiu seu navio.

Butler espiou do camarote para as centenas de arcos dourados e cerca de 1.300 pessoas desfrutando a apresentação noturna da Norma, de Bellini.

— Primeiro um prédio de Gaudí, agora este teatro — comentou o guarda-costas, as palavras audíveis apenas para Artemis, graças ao isolamento do camarote e ao volume estrondoso da ópera.

— Esses demônios nunca se materializam em algum lugar tranqüilo?

Artemis respondeu num sussurro:

— Simplesmente deixe a música sublime fluir sobre você, aproveite a apresentação. Não sabe como é difícil conseguir um camarote numa ópera de Vincenzo Bellini? Em especial a Norma. A Norma combina as exigências de uma soprano coloratura com as de soprano dramático. E a soprano é excelente, comparável à própria Callas.

Butler resmungou. Talvez fosse difícil para pessoas comuns conseguir um camarote no teatro, mas Artemis havia simplesmente ligado para seu amigo ambientalista bilionário, Giovanni Zito. O siciliano cedeu de boa vontade seu camarote em troca de duas caixas do mais fino Bordeaux. O que não era surpreendente, já que há pouco tempo Artemis havia investido mais de 10 milhões de dólares na pesquisa de purificação de água feita por Zito.

“Um siciliano bebendo Bordeaux?”, Artemis havia rido ao telefone. “Você deveria sentir vergonha.”

— Mantenha seu relógio apontado para o palco — ordenou Artemis, interrompendo os pensamentos de Butler. — São minúsculas as chances de que um demônio seja apanhado sem prata, mesmo longe da cratera, mas se um aparecer, quero que seja filmado, para provar a Potrus que minha teoria está correta. Se não tivermos provas incontestáveis, o Conselho do Povo jamais agirá.

Butler verificou que o vidro de seu relógio, que também servia como lente de câmera de vídeo, estivesse virado na direção do palco.

— Quanto à câmera, tudo bem, mas, se não se importa, não deixarei a música sublime fluir sobre mim. Já tenho bastante trabalho mantendo você em segurança.

O teatro Bellini era o pesadelo de um guarda-costas. Múltiplas entradas e saídas, mais de mil freqüentadores que se recusariam a ser revistados, centenas de arcos dourados que poderiam esconder um atirador e incontáveis nichos, passagens e corredores que provavelmente não apareciam na planta do teatro. Mesmo assim Butler tinha uma confiança razoável de que havia feito todo o possível para proteger Artemis.

É claro que havia certas coisas contra as quais os guarda-costas não podiam guardar, como Butler iria descobrir. Coisas invisíveis.

O telefone de Artemis vibrou baixinho. Em geral o garoto desprezava o tipo de pessoa que mantinha o telefone ligado durante uma apresentação, mas seu telefone era especial e ele nunca o desligava. Era o comunicador do povo subterrâneo, dado por Holly Short, com algumas modificações e acréscimos feitos pelo próprio Artemis.

O telefone tinha o tamanho e a forma de uma moeda de 25 centavos, com um cristal vermelho pulsando no centro. Era um onissensor que poderia se conectar com qualquer sistema, inclusive o corpo humano. Era disfarçado como um anel bastante espalhafatoso no dedo médio de Artemis. Artemis girou o anel de modo que o telefone ficou virado para a palma da mão, depois fechou os dedos médios, estendendo o polegar e o mindinho. O sensor decodificaria vibrações em seu mindinho e iria enviá-las como padrões de voz. Também usaria os ossos de sua mão para transmitir a voz de quem ligava para a ponta do polegar.

Para todo mundo Artemis parecia um garoto falando num telefone imaginário.

— Holly? — disse ele.

Butler ficou olhando enquanto Artemis ouvia por alguns instantes, desligava e girava o telefone de volta para a posição de anel.

Ele olhou fixamente para Butler.

— Não saque sua arma — disse.

O que, é claro, fez Butler levar a mão ao cabo da Sig Sauer.

— Está tudo bem — disse Artemis, tranqüilizando-o. — Há alguém aqui. Uma amiga.

A mão de Butler baixou ao lado do corpo. Ele sabia quem era.

Holly Short se materializou na poltrona forrada de veludo ao lado de Artemis. Seus joelhos estavam dobrados junto ao queixo e as orelhas pontudas cobertas por um capacete preto. Enquanto passava para o espectro visível, um visor de rosto inteiro se dividiu em seções e deslizou para dentro do capacete. Sua chegada entre os humanos foi coberta pela escuridão no teatro.

— Boa tarde, Rapazes da Lama — disse ela, sorrindo. Seus olhos castanho-claros brilharam marotos, ou, mais precisamente, élficos.

— Obrigado por ligar antes — disse Butler sarcástico. — Não queria assustar ninguém. Nada de tremeluzir?

Em geral, quando uma criatura do povo subterrâneo usava sua magia para se esconder, a única coisa visível era um ligeiro tremeluzir no ar, como uma névoa de calor. A entrada de Holly fora totalmente indetectável.

Holly deu um tapinha no próprio ombro.

— Roupa nova. Feita inteiramente de chips inteligentes. Vibra comigo.

Artemis examinou um dos chips, notando os microfilamentos no material.

— Trabalho de Potrus? É material da Seção Oito. Holly não pôde esconder a surpresa. Deu um soco brincalhão no ombro de Artemis.

— Como sabe sobre a Seção Oito? Não temos mais direito de manter segredos?

— Potrus não deveria me espionar — disse Artemis. — Onde há um caminho de ida, sempre há outro de volta. Acho que eu deveria lhe dar os parabéns pelo novo emprego. E a Potrus também. — Ele assentiu para a lente minúscula no olho direito de Holly. — Ele está nos olhando agora?

— Não. Está tentando deduzir como você sabe o que ele não sabe. Mas continuamos conectados.

— Imagino que você esteja falando de demônios.

— Pode ser.

Butler ficou entre os dois, interrompendo a disputa verbal que viria em seguida.

— Antes que vocês dois entrem em negociações, que tal um olá de verdade?

Holly deu um sorriso carinhoso para o guarda-costas enorme. Ativou as asas eletrônicas de sua roupa e pairou no nível do olhar dele. Beijou a bochecha de Butler e em seguida passou os braços ao redor da cabeça dele. Mal conseguiram envolvê-la totalmente.

Butler bateu no capacete de Holly.

— Belo equipamento. Nem um pouco o estilo comum da Liga de Elite da Polícia.

— Não — concordou Holly, tirando o capacete. — Esse material da Seção Oito está anos à frente do padrão da LEP. A gente recebe de acordo com o que paga, acho.

Butler pegou o capacete das mãos dela.

— Alguma coisa em que um velho soldado teria interesse?

Holly apertou um botão em seu computador de pulso.

— Verifique a visão noturna. É clara como... bem... o dia. E o incrível é que o filtro reage à luz que atravessa, de modo que não ficamos mais ofuscados com os flashes fotográficos.

Butler assentiu, apreciando. Historicamente, o pior defeito dos equipamentos de visão noturna era que deixavam os soldados vulneráveis a clarões súbitos de luz. Até uma chama de vela pode ofuscar o usuário momentaneamente.

Artemis pigarreou.

— Com licença, capitã. Vocês dois vão chorar lágrimas salgadas de admiração por um capacete durante toda a noite ou temos assuntos a discutir?

Holly piscou para Butler.

— Seu senhor chama. É melhor eu ver o que ele deseja.

Holly desativou as asas e se acomodou na poltrona. Cruzou os braços, olhando Artemis direto nos olhos.

— Tudo bem, Garoto da Lama, sou toda sua.

— Demônios. Precisamos falar de demônios. Os olhos de Holly perderam o brilho brincalhão.

— E por que você está tão interessado em demônios?

Artemis abriu dois botões da camisa e tirou uma moeda de ouro pendurada numa tira de couro. A moeda tinha um buraco circular no centro. Colocado ali por um tiro de laser de Holly.

— Você me deu isso depois de ter salvado a vida do meu pai. Eu lhe devo. Devo ao Povo. Então estou fazendo algo por ele.

Holly não ficou totalmente convencida.

— Geralmente, antes de fazer alguma coisa pelo Povo, você negocia um pagamento.

Artemis aceitou a acusação com uma ligeira confirmação de cabeça.

— É verdade. Era verdade, mas mudei.

Holly cruzou os braços.

— E?

— E é bom encontrar algo que Potrus deixou escapar, mesmo que eu tenha tropeçado nisso por acaso.

— E?

Artemis suspirou.

— Muito bem. Há outro fator.

— Foi o que pensei. O que você quer? Ouro? Tecnologia?

— Não. Nada disso.

Artemis se inclinou adiante na poltrona.

— Você tem alguma idéia de como é difícil ter tido todas aquelas aventuras empolgantes com a LEP e de repente não fazer mais parte do mundo?

— Sim. Na verdade tenho.

— Eu passei de salvar o mundo para estudar geometria em uma semana. Estou entediado, Holly. Meu intelecto não está sendo desafiado. Então, quando encontrei o evangelho dos demônios no Livro, percebi que havia um modo de me envolver sem afetar as coisas. Poderia simplesmente observar, e talvez refinar os cálculos de Potrus.

— Que na verdade não estão no Livro — observou Holly. — Nem venha com isso de “simplesmente observar”.

Artemis desconsiderou o argumento.

— Brincadeira inofensiva de hacker. Foi o centauro que começou. Assim comecei a viajar para avistamentos de materialização, mas nada aconteceu até Barcelona. Um demônio apareceu, é verdade, só que no lugar errado e tarde. Simplesmente tropecei nele. Estaria flutuando em espaço pré-histórico agora se Butler não tivesse me ancorado a esta dimensão usando prata.

Holly conteve um riso.

— Então foi sorte. O grande Artemis Fowl derrota o poderoso Potrus graças à sorte.

Artemis ficou incomodado.

— Acho que sorte bem informada é uma descrição melhor. De qualquer modo, isso não é importante. Refiz os cálculos usando os novos números, e minhas conclusões, se forem confirmadas, podem ser calamitosas para o Povo.

— Ande, conte. Mas com palavras simples; você não acreditaria na quantidade de ciência que tive de escutar hoje.

— É sério, Holly! — disse Artemis rispidamente. Sua reação foi seguida por um coro de “shhhhhiu” da platéia pedindo silêncio.

— É sério — repetiu ele em voz baixa.

— Por quê? Sem dúvida é apenas uma questão de compartilhar seus novos números e deixar Potrus cuidar do resto com projetores de distorção de luz, não é?

— Não exatamente. — Artemis se recostou de volta na poltrona. — Se um demônio aparecer naquele palco nos próximos quatro minutos, logo não haverá projetores suficientes. Se eu estiver certo e o feitiço temporal estiver se desfazendo, Hybras e todo mundo que está nela será logo arrastado de volta a esta dimensão. A maioria dos demônios não chegará viva, mas os que chegarem podem aparecer em qualquer lugar e a qualquer momento.

Holly voltou o olhar para o palco. Uma mulher de cabelos pretos sustentava notas ridiculamente agudas por um tempo ridiculamente longo. Holly imaginou se a mulher ao menos notaria um demônio saltando do ar por um segundo ou dois. Hoje não deveria haver materialização. Se houvesse, isso significaria que Artemis estava certo, como sempre, e que muitos outros demônios estavam a caminho. Se isso acontecesse, Artemis Fowl e Holly Short estariam enfiados até o pescoço de novo no negócio de salvar a raça do povo subterrâneo.

Holly olhou de lado para Artemis, que estava examinando o palco através de um binóculo de ópera. Ela jamais lhe diria, mas se um humano tivesse de se envolver com a salvação do Povo das Fadas, Artemis era provavelmente o melhor homem, ou garoto, para o serviço.

 

O N° 1 lutou para subir em direção à primeira crista de rocha na lateral do vulcão. Vários demônios passaram por ele na trilha, mas ninguém tentou convencê-lo a não ir. Na verdade, ele havia esbarrado em Hadley Shrivelington Basset, que se ofereceu para rabiscar um mapa num pedaço de casca de árvore. O N° 1 suspeitou que, se desse o grande salto dimensional, ninguém sentiria sua falta mais do que sentiria falta de um alvo de tiro com arco. A não ser talvez a demônia com marcas vermelhas que sorria para ele. A da área feminina. Talvez ela sentisse um pouco sua falta. O N° 1 parou ao perceber que o único demônio que se importaria quando ele fosse embora era alguém com quem ele nunca havia falado.

Gemeu alto. Que deprimente!

Continuou até passar pelo último aviso, que, com típica sutileza demoníaca, tinha a forma de um crânio de lobo pintado de sangue, sobre um pedaço de pau.

— O que isso deve significar? — murmurou o N° 1 enquanto passava pelo aviso. — Uma cabeça de lobo num pedaço de pau. Grande churrasco de lobo esta noite. Traga seu próprio lobo.

Churrasco. Outra palavra de Lady Heatherington Smythe.

O N° 1 sentou-se na encosta, sacudindo o traseiro para cavar uma pequena reentrância para o rabo. Melhor estar confortável antes de pular algumas centenas de metros na boca de um vulcão fumegante. Claro, mesmo que ele não fosse levado para o Novo País, não seria vaporizado pela lava. Não: provavelmente seria esmagado contra as rochas durante a descida. Que pensamento animador!

De seu assento na encosta, o N° 1 podia ver a boca serrilhada da cratera e os fiapos ritmados de fumaça que subiam para o céu como o hálito de um gigante adormecido. Era da natureza do feitiço de tempo que as coisas continuassem como se Hybras ainda estivesse ligada ao resto do mundo, embora num ritmo diferente. Assim o vulcão continuava borbulhando e ocasionalmente arrotava uma fina coluna de chamas, mesmo não havendo terra embaixo.

Se o N° 1 fosse honesto consigo mesmo, admitiria que sua decisão estava ficando abalada. Era fácil se imaginar pulando numa cratera interdimensional quando você estava enrolando seus colegas encasulados para dentro de uma fossa de excremento. Naquele momento, enquanto os flocos de cinza desciam sobre ele, pareceu que as coisas não poderiam ficar piores. E houvera algo na voz de Abbot que tornou a idéia irresistível.

Mas agora, sentado na crista, com um vento suave esfriando as placas peitorais, as coisas não pareciam tão ruins. Pelo menos ele estava vivo e não havia garantia de que a cratera levasse a qualquer lugar que não fosse a barriga do vulcão. Nenhum dos outros demônios havia retornado vivo. Eles retornavam, sem dúvida. Alguns engastados em blocos de gelo, alguns totalmente queimados, mas nenhum inteiro e saudável como o líder da legião. Mas, por algum motivo, quando o N° 1 pensava em Abbot, os muitos momentos de crueldade que havia sofrido sob a veneta do líder da legião pareciam nebulosos, era difícil concentrar-se neles. Só conseguia se lembrar da voz linda e insistente mandando-o atravessar.

Loucura da lua. Esse era o âmago da situação. A espécie dos demônios era atraída pela lua. A lua cantava para eles, agitando partículas em seu sangue. Eles sonhavam com ela à noite e rilhavam os dentes em sua ausência. A qualquer hora do suposto dia aqui em Hybras, os demônios podiam ser vistos parando para olhar o espaço onde a lua costumava estar. Ela fazia parte deles, uma parte viva e orgânica; e num nível atômico, um pertencia ao outro.

Ainda havia fiapos do feitiço de tempo na cratera. Tiras de magia que se enrolavam no topo da montanha agarrando qualquer demônio suficientemente idiota para ser apanhado sem prata. E codificada na magia estava a canção da lua, chamando os demônios de volta, atraindo-os com visões de luz branca e falta de peso. Assim que esses pálidos fiapos agarrassem a mente de um demônio, ele faria qualquer coisa para ficar mais perto da fonte. A magia e a loucura da lua fariam jorrar energia nos átomos de seu ser, vibrando seus próprios elétrons numa nova órbita, mudando a estrutura molecular, puxando-o pelo tempo e o espaço.

Mas havia apenas a palavra de Abbot, de que essa jornada terminaria na Terra. Poderia terminar na lua, e por mais que os demônios amassem a lua, sabiam que nada sobrevivia em sua superfície estéril. Os antigos diziam que os diabretes não poderiam voar perto dela sem morrer congelados, espiralando para a terra com asas congeladas e rosto azul.

Por algum motivo o N° 1 queria fazer a jornada hoje. Queria que a lua o chamasse para a cratera, depois o depositasse em algum lugar onde existisse outro feiticeiro. Alguém que iria lhe ensinar a controlar seus estranhos poderes. Mas, admitia arrasado, não tinha coragem. Não podia simplesmente se atirar numa cratera rochosa. A base do vulcão era atulhada dos cadáveres queimados dos que haviam imaginando que a lua os chamara. Como ele poderia saber se o poder da lua estava realmente chamando ou se era apenas um desejo?

Pousou o rosto nas mãos. Não havia nada para ele além de retornar à escola. Os imps na fossa precisariam ser virados, caso contrário sua cobertura poderia sofrer marcas de lividez devido ao excremento.

Suspirou. Não era a primeira vez que havia feito essa jornada de desespero. Mas agora realmente achava que iria em frente. Abbot estava na sua cabeça, instigando. Desta vez quase podia suportar a idéia das rochas correndo em sua direção. Quase.

Brincou com a pulseira de prata. Teria sido fácil tirar o adereço e simplesmente desaparecer.

Tire, então, pequenino, disse uma voz na sua cabeça. Tire e venha para mim.

O N° 1 não ficou surpreso com a voz. Na verdade era mais uma sensação do que uma voz. Ele próprio fornecia as palavras. Freqüentemente conversava cora vozes dentro da cabeça. Não tinha mais ninguém com quem falar. Havia Flanbard, o sapateiro, Lady Bonnie, a tecelã, e sua predileta, Bookie, a fofoqueira que sibilava.

Esta voz era nova. Mais firme.

Um instante sem prata e um novo mundo pode ser seu.

O lábio inferior do N° 1 se projetou enquanto ele pensava. Poderia tirar a pulseira só por um instante. Que mal faria? Não estava perto da cratera, e a magia raramente se afastava do vulcão.

Não há perigo. Nenhum perigo. Só um puxãozinho.

Agora a idéia ridícula havia dominado o N° 1. Tirar a pulseira poderia ser um treino para o dia em que ele finalmente reunisse coragem para sentir a loucura da lua. Seus dedos traçaram as runas da pulseira. Eram exatamente as mesmas marcas de seu peito. Um feitiço duplo. Repelindo a magia da lua. Remover uma significava que a força de suas próprias marcas era revertida, puxando-o direto para a lua.

Tire-a. Reverta o poder.

O N° 1 olhou seus dedos segurando a borda da pulseira. Estava atordoado, a cabeça zumbia. A voz nova havia coberto sua mente de névoa e estava dominando-o.

Nós estaremos juntos, você e eu. Você vai se banhar na minha luz.

Vai se banhar na minha luz?, pensou a última lasca de consciência do N° 1. Esta voz nova era uma tremenda canastrona. Bookie não vai gostar de você.

Tire, pequenino.

O N° 1 viu sua mão puxar a pulseira por cima dos dedos. Não tinha forças para impedir, não que quisesse isso.

Loucura da lua, percebeu com um tremor. Chegando até aqui. Como podia ser?

Algo nele sabia. A parte feiticeiro, talvez.

O feitiço de tempo está se rompendo. Ninguém está em segurança.

O N° 1 viu a pulseira, sua âncora dimensional, escorrer dos dedos e girar até o chão. Isso pareceu acontecer em câmara lenta — a prata fluía e ondulava como luz do sol através da água.

Sentiu a coceira que vem quando cada átomo de seu corpo está sobrecarregado de energia e é lançado numa forma gasosa. Na verdade deveria ser terrivelmente doloroso, mas o corpo não sabe de fato como reagir a esse tipo de dano celular, por isso lança uma coceira ridícula.

Não houve tempo para gritar. Tudo que o N° 1 pôde fazer foi desaparecer num milhão de minúsculos pontos de luz que rapidamente se teceram numa faixa apertada, seguindo o caminho a outra dimensão. Em segundos não restava nada para mostrar que o N° 1 um dia estivera ali, a não ser uma pulseira prateada girando.

Iria se passar muito tempo, relativamente falando, antes que alguém sentisse sua falta. E ninguém iria se importar o bastante para vir procurá-lo.

 

Olhando para Artemis Fowl, era de pensar pensaria que ele estava ali simplesmente pela ópera. Uma das mãos segurava um binóculo apontado fixo para o palco, a outra regia habilmente, acompanhando a partitura nota por nota.

— Maria Callas é reconhecida como a Norma mais seminal — disse ele a Holly, que assentiu educadamente, depois revirou os olhos para Butler. — Mas tenho uma confissão: prefiro Montserrat Caballé. Ela fez o papel nos anos 70. Claro, só tenho as gravações, mas para mim o desempenho de Caballé é mais robusto.

— É mesmo? — disse Holly. — Estou tentando me importar, Artemis. Mas achei que tudo iria acabar quando a gorda cantasse. Bem, ela está cantando, mas parece que não acaba.

Artemis sorriu, expondo os incisivos.

— Você deve estar pensando em Wagner.

Butler não participava do papo sobre ópera. Para ele aquilo era apenas mais uma camada de distração a ser descartada. Em vez disso decidiu testar o filtro de visão noturna do novo capacete de Holly. Se o filtro realmente podia superar o problema de ofuscamento, como Holly afirmava, ele teria de pedir a Artemis para lhe conseguir um.

Desnecessário dizer que o capacete de Holly não cabia na cabeça de Butler. Na verdade mal se encaixaria no punho dele, de modo que o guarda-costas desdobrou o lado esquerdo do filtro até poder olhar por ele, segurando o elmo junto à bochecha.

O efeito era impressionante. O filtro equalizava com sucesso a luz de todo o prédio. Ampliava ou diminuía, de modo que cada pessoa era vista sob a mesma iluminação. As do palco pareciam cobertas de maquiagem e as dos camarotes não tinham sombras para se esconder.

Butler examinou rapidamente os camarotes, satisfazendo-se ao ver que não havia ameaça presente. Viu muitos dedos limpando narizes e muitas mãos dadas, algumas vezes as duas coisas feitas pelas mesmas pessoas. Mas nada obviamente perigoso. Entretanto, num camarote do balcão, adjacente ao palco, havia uma garota com cabelos louros encaracolados, toda vestida para uma noite no teatro.

Butler se lembrou imediatamente da mesma garota no local da materialização em Barcelona. E agora estava ali também? Coincidência? Não existia isso. Na experiência do guarda-costas, se você visse um estranho mais de uma vez, ou ele estava seguindo você ou os dois estavam atrás da mesma coisa.

Examinou o resto do camarote. Havia dois homens atrás da garota. Um, de cinqüenta e poucos anos — pançudo, smoking caro — estava filmando o palco com seu celular. Era o primeiro homem de Barcelona. O segundo também estava ali — possivelmente chinês, magro, cabelo espetado. Aparentemente ainda não havia se recuperado do ferimento na perna e estava ajeitando uma das muletas. Girou-a, retirou uma ponta de borracha da base e depois aninhou-a sobre o ombro como se fosse um fuzil.

Butler entrou automaticamente entre Artemis e a linha de fogo do sujeito. Não que a muleta estivesse apontada para seu patrão; estava apontada diretamente para a direita do palco, a um metro da soprano. Exatamente onde Artemis esperava o aparecimento do demônio.

— Holly — disse ele em voz baixa e calma. — Acho que você devia acionar o escudo.

Artemis baixou o binóculo de ópera.

— Problemas?

— Talvez — respondeu Butler. — Mas não para nós. Acho que mais alguém conhece os novos números sobre as materializações e acho que estão planejando fazer mais do que observar.

Artemis bateu dois dedos no queixo, pensando depressa.

— Onde?

— Segunda fileira de camarotes. Ao lado do palco. Vejo uma possível arma apontada para o palco. Não é uma arma padrão. Talvez um fuzil de dardos modificado.

Artemis se inclinou adiante, segurando o parapeito.

— Eles planejam pegar o demônio vivo, se aparecer um. Neste caso vão precisar de uma distração.

Holly estava de pé,

— O que podemos fazer?

— É tarde demais para impedi-los — disse Artemis, franzindo a testa. — Se interferirmos, poderemos atrapalhar a distração, e neste caso o demônio será exposto. Se essas pessoas são inteligentes o bastante para estar aqui, pode ter certeza de que o plano delas é bom.

Holly pegou o capacete de volta, enfiando-o sobre as orelhas. Almofadas de ar se inflaram automaticamente para acomodar sua cabeça.

— Não posso deixar que seqüestrem uma criatura das fadas.

— Você não tem escolha — disse Artemis rispidamente, arriscando-se ao desprazer da platéia. — Na melhor hipótese, e mais provável, nada vai acontecer. Não haverá materialização.

Holly fez uma careta.

— Você sabe tanto quanto eu que a sorte nunca manda a melhor hipótese para a gente. Seu carma é ruim demais.

Artemis teve de dar um risinho.

— Está certa, claro. Pior hipótese: um demônio aparece, eles o ancoram com o fuzil de dardos, nós interferimos e na confusão o demônio é apanhado pela polícia local e todos terminamos presos.

— Não é bom. Então vamos simplesmente ficar sentados e olhar.

— Butler e eu vamos ficar sentados e olhar. Você vá até lá e grave o máximo de dados possível. E quando essas pessoas forem embora, vá atrás.

Holly ativou suas asas, que deslizaram para fora da mochila, estalando azuis enquanto o computador de vôo ativava uma carga através delas.

— Quanto tempo eu tenho? — perguntou enquanto ia desaparecendo.

Artemis olhou o cronômetro de seu relógio.

— Se você correr, nenhum.

Holly se lançou por cima da platéia, controlando a trajetória com o uso do joystick incrustado no polegar da luva. Invisível, ergueu-se acima dos humanos reunidos. Com a ajuda dos filtros do capacete podia ver claramente os ocupantes do camarote junto ao palco.

Artemis estava errado. Havia tempo para impedir isso. Só precisava desviar um pouco o fuzil do atirador. O demônio não seria ancorado e a Seção Oito poderia rastrear aqueles Homens da Lama à vontade. Era simplesmente questão de tocar o cotovelo do atirador com seu cassetete elétrico para fazê-lo perder controle de todas as funções motoras durante alguns segundos. Tempo suficiente para um demônio aparecer e desaparecer.

Então Holly sentiu cheiro de ozônio queimando e calor no braço. Artemis não estava errado. Não havia tempo. Alguém estava chegando.

O N° 1 apareceu no palco, mais ou menos intacto. A viagem havia lhe custado a última falange do indicador e uns dois gigabytes de memória. Mas eram principalmente lembranças ruins, e ele nunca fora muito bom com as mãos.

A desmaterialização não é um processo particularmente doloroso, mas por acaso a materialização é totalmente agradável. O cérebro fica tão feliz em registrar todos os bits e bobs essenciais do corpo juntando-se de novo que libera um jorro de endorfinas de satisfação.

O N°1 olhou para o lugar onde ficava seu indicador antes inteiro.

— Olhe — disse cantarolando. — Sem dedo.

Então notou os humanos. Montes de humanos, arrumados em semicírculos, subindo até o céu. Soube de imediato o que devia ser aquilo.

— Um teatro. Estou num teatro. Com apenas sete dedos e meio. Eu tenho apenas sete dedos e meio, não o teatro. — Esta observação provocou outro ataque de risinhos, e teria sido apenas isso para o N° 1. Ele teria sido arrancado até a próxima parada em seu passeio interdimensional se um humano perto do palco não tivesse um tubo apontado para ele.

— Tubo — disse o N° 1, orgulhoso de seu vocabulário humano, apontando com o dedo que não estava totalmente ali.

Depois disso as coisas aconteceram muito depressa. Um jorro de acontecimentos borrados como tiras de tinta colorida misturadas. O tubo relampejou; alguma coisa explodiu acima de sua cabeça. Uma abelha picou a perna do N° 1, uma fêmea deu um grito lancinante. Um rebanho de animais, talvez elefantes, passou diretamente abaixo dele. O mais desconcertante: o chão desapareceu debaixo de seus pés e tudo ficou preto. A escuridão era áspera contra seus dedos e seu rosto.

A última coisa que o N° 1 ouviu antes que seu negrume pessoal o levasse foi uma voz. Não era voz de demônio, o tom era mais leve. A meio caminho entre pássaro e javali.

— Bem-vindo, demônio — disse a voz, depois deu um risinho.

Eles sabem, pensou o N° 1, e teria entrado em pânico se o hidrato de cloro penetrando em seu organismo através de uma das pernas permitisse esse esforço. Eles sabem tudo sobre nós.

Então o soro do apagão acariciou seu cérebro, derrubando-o de um penhasco num profundo buraco negro.

 

De seu camarote, Artemis via os acontecimentos se desdobrando. Um sorriso de admiração repuxou os cantos de sua boca enquanto o plano se desenrolava tranqüilamente, como o mais caro tapete tunisiano. Quem quer que estivesse por trás daquilo, era bom. Mais do que bom. Talvez fossem parentes seus.

— Mantenha a câmera apontada para o palco — disse Artemis a Butler. — Holly vai filmar o camarote.

Butler estava doido para dar cobertura a Holly, mas seu lugar era ao lado de Artemis. E, afinal de contas, a capitã Short podia cuidar de si mesma. Certificou-se de que o vidro do relógio estivesse virado para o palco. Artemis jamais o deixaria esquecer se ele perdesse ao menos um nanossegundo de ação.

No palco, a ópera estava quase terminando. Norma levava Pollione até a pira, onde os dois seriam queimados. Todos os olhos estavam nela. A não ser os envolvidos no drama das criaturas.

A música era luxuriante e cheia de camadas, fornecendo uma involuntária trilha sonora para o drama da vida real que se desdobrava no teatro.

Tudo começou com um estalo elétrico na direita do palco. Praticamente imperceptível, a não ser que você estivesse esperando. E mesmo que alguns espectadores notassem o brilho, não ficaram assustados. Poderia facilmente ser uma luz refletida ou um dos efeitos especiais que esses diretores modernos gostam tanto de usar.

Então, pensou Artemis, sentindo a empolgação zumbir nas pontas dos dedos. Algo está chegando. Outro jogo começa.

O algo começou a se materializar dentro do envelope azul que estalava. Assumiu uma vaga forma humanóide. Menor do que o último, mas definitivamente um demônio, e definitivamente não era uma luz refletida. Inicialmente a forma era insubstancial, como um fantasma, mas depois de um segundo tornou-se menos transparente e mais pertencente ao mundo.

Agora, pensou Artemis. Ancore-o. E tranqüilize-o também.

Um fino tubo prateado se projetou das sombras do outro lado do teatro. Houve um pequeno estalo e um dardo saltou da boca do tubo. Artemis não precisou acompanhar a trajetória do dardo. Sabia que ia diretamente para a perna da criatura. A perna seria o melhor. Um bom alvo, mas provavelmente não seria fatal. Uma ponta de prata com algum tipo de coquetel nocauteador.

Agora a criatura estava tentando se comunicar, fazendo gestos loucos. Artemis ouviu alguns sons boquiabertos vindos da platéia quando espectadores notaram a forma dentro da luz.

Muito bem. Vocês a ancoraram. Agora precisam de uma distração. Algo espalhafatoso e alto, mas não particularmente perigoso. Se alguém se machucar, haverá investigação.

Artemis olhou para o demônio, agora sólido nas sombras. Ao redor dele a ópera ia em direção ao crescendo do quarto ato. A soprano lamentava histericamente e todos os olhares no teatro estavam fixos nela. Quase todos. Numa ópera sempre há alguns espectadores entediados, especialmente quando chega o quarto ato. Estes olhos em particular estariam vagueando pelo corredor, procurando alguma coisa, qualquer coisa que fosse interessante. Esses olhares pousariam no pequeno demônio na direita do palco, a não ser que fossem distraídos.

Bem na hora, um grande refletor se soltou do urdimento e balançou no cabo em direção à lona preta. O impacto foi espalhafatoso e alto. A lâmpada explodiu, lançando uma chuva de cacos de vidro no palco e no fosso da orquestra. O filamento da lâmpada luziu com clarão de magnésio, temporariamente ofuscando todos que olhavam para ele. O que significou quase toda a platéia.

Choveu vidro sobre a orquestra e os músicos entraram em pânico, fugindo em massa para os bastidores, arrastando os instrumentos. Uma cacofonia de cordas guinchando e instrumentos de percussão virados despedaçou qualquer eco da obra-prima de Bellini.

Bom, pensou Artemis, apreciando. A presilha e o filamento do refletor haviam sido preparados. O estouro de boiada da orquestra é um bônus de sorte.

Artemis notou tudo isso com o canto do olho. Seu foco principal estava no demônio minúsculo, perdido nas sombras atrás de um tapume de lona.

Bom, se fosse eu, pensou o adolescente irlandês, mandaria Butler jogar um saco preto sobre a criaturazinha, levá-lo para a porta de serviço e colocar num veículo de tração nas quatro rodas. Poderíamos estar na balsa para Ravena antes que a equipe do teatro trocasse a lâmpada.

O que aconteceu foi um pouco diferente. Um alçapão de palco se abriu sob o demônio e a criatura desapareceu numa plataforma hidráulica.

Artemis balançou a cabeça, admirado. Fabuloso. Seus misteriosos adversários deviam ter penetrado no sistema de computadores do teatro. E, quando o demônio apareceu, eles simplesmente ativaram o comando para abrir o alçapão correto. Sem dúvida havia alguém esperando embaixo para transferir o demônio adormecido para um veículo que esperava lá fora.

Artemis se inclinou sobre o corrimão, olhando a platéia abaixo. Todas as luzes do teatro estavam acesas, os espectadores esfregavam os olhos ofuscados e falavam naquele tom sem graça que acompanha o choque. Não se falava em demônios. Ninguém apontava nem gritava. Artemis havia testemunhado a execução perfeita de um plano perfeito.

Olhou para o camarote do outro lado do palco. Os três ocupantes se levantaram com calma. Estavam simplesmente indo embora. O show havia terminado e era hora de partir. Artemis reconheceu a garota bonita de Barcelona e seus dois guardiões. O homem magro parecia ter se recuperado do problema na perna, já que as muletas estavam enfiadas embaixo de um dos braços.

A garota tinha um sorriso satisfeito, do tipo que geralmente enfeitava o rosto de Artemis depois de uma missão bem-sucedida.

É a garota, percebeu Artemis surpreso. Ela é o cérebro aqui.

O sorriso da garota, um reflexo do sorriso dele, azedou Artemis. Não estava acostumado a ficar dois passos atrás. Sem dúvida ela acreditava ter a vitória. Podia ter vencido esta batalha, mas a guerra estava longe de terminar.

Está na hora de essa garota saber que tem um oponente.

Juntou as mãos, fingindo bater palmas.

— Brava — gritou. — Brava, ragazza!

Sua voz passou facilmente acima das cabeças da platéia. O sorriso da garota congelou nos lábios e seus olhos procuraram a fonte do elogio. Em segundos localizou o adolescente irlandês e seus olhares se fixaram um no outro.

Se Artemis estava esperando que a garota se encolhesse e tremesse ao vê-lo com seu guarda-costas, ficou desapontado. Tudo bem, uma sombra de surpresa passou sobre a testa dela, mas ela aceitou o aplauso com um movimento de cabeça e um aceno régio. Antes de sair, a garota disse duas palavras. A distância era grande demais para Artemis ouvir, mas mesmo que não houvesse treinado leitura labial há muito tempo, seria fácil adivinhá-las.

— Artemis Fowl— disse ela. Nada mais. Um jogo estava começando. Sem dúvida. Que intrigante!

Então aconteceu uma coisa engraçada. As mãos de Artemis, que batiam palmas, foram acompanhadas por outras em vários pontos do teatro. O aplauso cresceu a partir de um início hesitante. Logo os espectadores estavam de pé e os cantores perplexos foram obrigados a retornar várias vezes ao palco para agradecer.

Passando pelo saguão alguns minutos depois, Artemis achou tremendamente divertido escutar vários espectadores falando da direção pouco ortodoxa da última cena da ópera. O refletor explodindo, disse um deles, era sem dúvida uma metáfora da estrela de Norma que caía. Mas não, argumentou outro. O refletor era obviamente uma interpretação modernista da estaca em chamas que Norma estava para enfrentar.

Ou talvez, pensou Artemis enquanto passava pela multidão até encontrar uma leve névoa siciliana pousando na testa, o refletor explodindo fosse simplesmente um refletor explodindo.

 

A capitã Holly Short, da Seção Oito, seguiu os seqüestradores até um Land Rover Discovery, e de lá até a balsa para Ravena. O cativo fora transferido de um saco de lona para uma forte bolsa de golfe, que depois foi disfarçada com cabeças de vários tacos. Foi uma operação muito bem-feita. Três humanos adultos machos e uma fêmea adolescente. Holly só ficou um pouco surpresa ao ver uma menina envolvida. Afinal de contas, Artemis Fowl era pouco mais do que uma criança e conseguia se envolver em tramas muito mais complexas do que esta.

O Land Rover foi devolvido à locadora Herz na Itália, e de lá o grupo pegou uma cabine de primeira classe num trem-bala noturno seguindo pela costa oeste. Fazia sentido viajar de trem. Não seria necessário passar a bolsa de golfe por um aparelho de raio X.

Holly não precisava se preocupar com aparelhos de raio X, nem com nenhuma forma de equipamento de segurança humano. Usando seu Macacão Vibratório da Seção Oito, era invisível a qualquer tipo de raio que a polícia de fronteira poderia lançar em sua direção. O único modo de encontrar uma criatura com escudo acionado era acertar uma pedra por acaso, e mesmo então provavelmente você só receberia em troca um tapa no ouvido.

Holly entrou no vagão-dormitório e se acomodou num bagageiro vazio, sobre a cabeça da garota. Abaixo, os três humanos encostaram a bolsa de golfe na mesa e olharam para ela como se... como se houvesse um demônio dentro.

Três homens e uma garota. Seria fácil dominá-los. Ela poderia nocauteá-los com sua Neutrino, depois pedir que Potrus mandasse alguns técnicos para fazer apagamentos mentais. Holly estava doida para libertar o pobre demônio. Demoraria meros três segundos. A única coisa que a impedia eram as vozes em sua cabeça.

Uma dessas vozes pertencia a Potrus, a outra a Artemis.

— Mantenha a posição, capitã Short — aconselhou Potrus. — Precisamos ver até onde isso vai.

A Seção Oito havia se interessado muito pela missão de Holly desde o seqüestro do demônio. Potrus estava mantendo aberta uma conexão direta com seu capacete.

O capacete de Holly era à prova de som, mas mesmo assim ela ficava nervosa ao falar tão perto dos alvos. O truque nesta situação é treinar para falar sem nenhum dos gestos habituais que acompanham uma conversa. E mais difícil do que parece.

— Aquele pobre demônio deve estar aterrorizado — disse Holly, perfeitamente imóvel. — Preciso tirá-lo daqui.

— Não — interveio Artemis incisivamente. — Você precisa ver o quadro geral, Holly. Não temos idéia do tamanho dessa organização, ou o quanto eles sabem sobre o Povo Subterrâneo.

— Não tanto quanto você. Os demônios não andam com o Livro das criaturas. Não são muito ligados a regras.

— Pelo menos vocês têm algo em comum — disse Butler.

— Eu poderia usar o mesmer com eles — sugeriu Holly. O mesmer era um dos truques do saco de magia de toda criatura das fadas. Era um canto de sereia que poderia fazer qualquer humano abrir o bico de boa vontade. — Faria com que eles contassem o que sabem.

— E só o que eles sabem — observou Artemis. — Se eu estivesse comandando esta organização, todo mundo só saberia o que precisasse saber. Ninguém saberia tudo, a não ser eu, claro.

Holly resistiu à ânsia de bater em alguma coisa, frustrada. Artemis estava certo, claro. Ela precisava se conter e ver como a situação progrediria. Eles tinham de ampliar a rede o máximo possível para pegar todos os membros desse grupo.

— Vou precisar de apoio — sussurrou Holly. — Quantos agentes a Seção Oito pode mandar?

Potrus pigarreou, mas não respondeu.

— O que é, Potrus? O que está acontecendo aí embaixo?

— Ark Sool ficou sabendo do seqüestro.

A simples menção do nome daquele gnomo fez a pressão sangüínea de Holly subir alguns pontos. O comandante Ark Sool era o motivo para ela ter saído da LEP, para começar.

— Sool! Como ele descobriu isso tão depressa?

— Ele tem uma fonte em algum lugar da Seção Oito. Ligou para Vinyáya. Ela não teve alternativa além de revelar todos os fatos.

Holly gemeu. Sool era o próprio burocrata. Como diziam os anões, Ele não poderia tomar uma decisão nem se estivesse segurando um jarro d’água e sua aba de traseiro estivesse pegando fogo.

— Qual é o papo?

— Sool vai tentar limitação de danos. As paredes antiexplosão estão erguidas e as missões acima do solo foram canceladas. Nenhuma outra atitude deve ser tomada até que o Conselho se reúna. Se a bosta bater no circulador de ar, Sool não vai querer a culpa. Não sozinho.

— Política — cuspiu Holly. — Sool só se importa com sua preciosa carreira. Então vocês não podem me mandar ninguém?

Potrus escolheu as palavras com cuidado:

— Oficialmente, não. E ninguém oficial. Quero dizer, seria impossível para qualquer um, um consultor, digamos, passar pelas paredes antiexplosão levando algo que você possa precisar, se entende o que eu quero dizer.

Holly entendeu exatamente o que Potrus estava tentando dizer.

— É isso aí, Potrus. Eu estou sozinha. Oficialmente.

— Exato. Pelo que o comandante Sool tem conhecimento, você está simplesmente seguindo os suspeitos. Só deve agir se eles decidirem fazer revelações públicas. Neste caso suas ordens são (e aqui estou citando Sool) tomar o curso de ação menos complicado e mais permanente.

— Quer dizer, vaporizar o demônio?

— Sool não disse isso, mas é o que ele quer.

Holly desprezava Sool mais ainda a cada batida de seu coração.

— Ele não pode ordenar que eu faça isso. Matar uma criatura do Povo vai contra todas as leis do Livro. Não farei isso.

— Sool diz que não pode ordenar você oficialmente a usar força terminal contra uma criatura do Povo. O que está fazendo é uma recomendação não-oficial. Do tipo que poderia ter um grande efeito na sua carreira. É uma coisa capciosa, Holly. Na melhor das hipóteses a coisa toda vai ser resolver sozinha, de algum modo.

Artemis verbalizou a opinião de todos.

— Isso não vai acontecer. Não foi um rapto oportunista. Estamos lidando com um grupo organizado que sabe o que quer. Essas pessoas estavam em Barcelona e agora estão aqui. Elas têm um objetivo para esse demônio e, a não ser que sejam militares, aposto que implica revelação pública em troca de grandes quantias. Isso vai ser maior do que o monstro do Lago Ness, o Pé-grande e o Iéti misturados.

Potrus suspirou.

— Você está encrencada, Holly. A melhor coisa que poderia acontecer agora seria um belo ferimento não letal que a tirasse do jogo.

Holly se lembrou das palavras de seu antigo mentor. Não se trata do que é melhor para nós, disse Julius Raiz uma vez. E sim do que é melhor para o Povo.

— Algumas vezes não se trata de nós, Potrus. Vou dar um jeito nisso. Eu tenho ajuda, não é?

— Claro — confirmou o centauro. — Não é a primeira vez que salvamos o mundo subterrâneo.

O tom confiante de Potrus fez com que Holly se sentisse melhor, mesmo que ele estivesse centenas de quilômetros embaixo da terra.

Artemis os interrompeu:

— Vocês dois podem trocar histórias de guerra mais tarde. Não podemos nos dar ao luxo de perder uma palavra que essas pessoas digam. Se pudermos chegar antes ao destino delas, pode ser vantajoso.

Artemis estava certo. Não era hora de se desviar da questão. Holly fez uma rápida verificação de sistema nos instrumentos de seu capacete, depois apontou o visor para os humanos abaixo.

— Está captando isso, Potrus? — perguntou.

— Claro como cristal. Já contei sobre minhas novas telas de gás?

O suspiro de Artemis chacoalhou nos alto-falantes.

— Sim, contou. Agora fique quieto, centauro. Estamos numa missão, lembre-se.

— Como quiser, Garoto da Lama, olhe: sua namorada está dizendo alguma coisa.

Artemis tinha um vasto estoque de respostas ácidas à disposição, mas nenhum cobria insultos que tratassem de namorada. Ele nem sabia se era um insulto. E, se fosse, quem estava sendo insultado? Ele ou a garota?

 

A garota falava francês como só um nativo do país poderia.

— Tecnicamente — disse ela — o único crime do qual somos culpados é não pagar imposto alfandegário, e talvez nem isso. Em termos legais, como você pode seqüestrar uma coisa que supostamente não existe? Duvido que alguém tenha acusado Murray Gell-Mann de seqüestrar um quark, mesmo que o sujeito, conscientemente, carregasse um bilhão deles no bolso. — A garota deu um risinho abafado, fazendo seus óculos escorrerem para baixo de novo.

Ninguém mais riu, a não ser um garoto irlandês que escutava a 300 quilômetros de distância, no Aeroporto Internacional Fontanarossa, pronto para embarcar no último vôo da Alitalia para Roma. Roma, pensou Artemis, seria muito mais central do que a Sicília. Aonde quer que o demônio estivesse indo, Artemis poderia chegar lá mais depressa se partisse de Roma.

— Essa não foi ruim — comentou Artemis, depois repassou a piada a Butler. — Obviamente há diferenças nas situações, mas é uma piada, não uma aula de física quântica.

A sobrancelha esquerda de Butler se ergueu como uma ponte levadiça,

— Diferenças nas situações, era exatamente isso que eu estava pensando.

De volta ao trem-bala, um dos homens, o que teve a perna milagrosamente curada, se remexeu no estofado de curvim.

— A que horas chegamos a Nice, Minerva? — perguntou ele.

Essa única frase era uma mina de ouro de informação para Artemis. Em primeiro lugar o nome da garota era Minerva, presumivelmente por causa da deusa romana da sabedoria. Até agora um nome muito adequado. Em segundo, o destino deles era Nice, no sul da França. E terceiro, essa garota parecia estar no comando. Extraordinário.

A garota, que estivera sorrindo de sua piada sobre o quark, passou rapidamente à irritação.

— Nada de nomes, lembra? Há ouvidos em toda parte. Se uma única pessoa descobrir um único detalhe do nosso plano, tudo pelo que trabalhamos pode ser arruinado.

Tarde demais, Garota da Lama, pensou a capitã Holly Short de seu bagageiro. Artemis Fowl já sabe demais sobre você. Para não falar meu pequeno anjo da guarda, Potrus.

Holly deu um close no rosto da garota.

— Temos uma foto e um prenome, Potrus. Basta para você?

— Deve bastar — respondeu o centauro. — Tenho fotos dos homens também. Deixe-me passá-los no meu banco de dados.

Abaixo dela o segundo homem de Barcelona abriu o zíper do topo falso da sacola de golfe.

— Eu deveria verificar meus tacos — disse ele. — Ver se estão bem acomodados. Se começaram a sair do lugar, talvez eu deva colocar alguma coisa para que fiquem parados.

Tudo isso seria um código perfeitamente aceitável se não houvesse uma câmera apontada para eles.

O homem enfiou a mão na sacola e, depois de um momento tateando, puxou um pequeno braço e verificou a pulsação.

— Ótimo. Está tudo bem.

— Bom — disse Minerva. — Agora vocês devem dormir um pouco. Temos uma longa viagem pela frente. Vou ficar acordada um pouco, estou com vontade de ler. A próxima pessoa pode ler daqui a quatro horas.

Os três assentiram, mas ninguém se deitou. Só ficaram sentados, olhando a sacola de golfe como se houvesse um demônio dentro.

 

Artemis e Butler conseguiram uma bela conexão para Nice pela Air France, e às dez horas haviam se hospedado no Hotel Negresco e estavam desfrutando de café e croissants na Promenade des Anglais.

Holly não teve tanta sorte. Ainda estava empoleirada num bagageiro dentro de um trem. Não o mesmo bagageiro. Era seu terceiro, no total. Primeiro tiveram de fazer baldeação em Roma, depois de novo em Monte Cario, e agora finalmente iam para Nice.

Artemis estava falando com seu dedinho, que transmitia as vibrações para o telefone especial na palma da mão.

— Alguma dica sobre o destino final exato?

— Por enquanto, nada — respondeu Holly cansada e irritadiça. — Essa garota está controlando os adultos com mão de ferro. Eles têm medo de dizer qualquer coisa. Estou enjoada de ficar deitada nesse bagageiro. Parece que estou há um ano empoleirada em bagageiros. O que vocês dois estão fazendo? Artemis pousou gentilmente seu cappuccino descafeinado para não fazer barulho no pires.

— Estamos na Biblioteca de Nice tentando descobrir alguma coisa sobre essa tal de Minerva. Talvez possamos descobrir se ela tem alguma villa aqui perto.

— Fico feliz em saber — respondeu Holly. — Já estava imaginando vocês dois tomando chá na praia enquanto eu suo aqui.

A vinte metros de onde Artemis estava sentado, ondas batiam na praia como tinta esmeralda se derramando de um balde.

— Chá? Na praia? Não temos tempo para esses luxos, Holly. Há trabalho importante a fazer. — Ele piscou para Butler.

— Tem certeza de que estão na biblioteca? Acho que escutei barulho de água.

Artemis sorriu, gostando do diálogo.

— Água? Claro que não. A única coisa que flui aqui são informações.

— Está rindo, Artemis? Por algum motivo tenho a sensação de que você está com aquele seu risinho presunçoso.

Potrus interveio.

— Valeu a pena, Holly. Demorou um tempo, mas rastreamos nossa garota misteriosa.

O sorriso de Artemis desapareceu. Agora eram negócios.

— Quem é ela, Potrus? Para ser honesto, estou pasmo porque ainda não a conheço.

— A garota é Minerva Paradizo, 12 anos, nascida em Cagnes sur Mer, no sul da França. O homem é o pai dela, Gaspard Paradizo, 52 anos. Cirurgião plástico, de ascendência brasileira. Tem mais um filho, um garoto, Beau, de 5 anos. A mãe foi embora há um ano. Mora em Marselha com o ex-jardineiro.

Artemis ficou pasmo.

— Gaspard Paradizo é cirurgião plástico? Por que demorei tanto a encontrar esses dois? Deve haver registros, fotos.

— É isso aí. Não havia fotos na internet. Nem mesmo uma foto de jornais locais. Tenho a sensação de que alguém apagou sistematicamente cada traço digital dessa família que pôde encontrar.

— Mas ninguém pode se esconder de você, não é, Potrus?

— Isso mesmo. Fiz uma sondagem profunda e descobri uma imagem fantasma numa página de arquivo de uma TV francesa. Minerva Paradizo ganhou um concurso nacional de soletração quando tinha quatro anos. Sua namorada é incrível, Artemis. Já terminou o segundo grau e atualmente estuda para tirar dois diplomas universitários a distância. Física quântica e psicologia. Suspeito que já tenha doutorado em química, com nome falso.

— E os outros dois homens? — perguntou Holly, levando a conversa adiante antes que Potrus pudesse fazer outra brincadeira sobre namorada.

— O latino é Juan Soto. Chefe da Soto Segurança. Parece ser um legítimo agente de segurança. Não tem muita capacidade, praticamente nenhum treinamento. Nada com que nos preocuparmos.

— E o atirador?

— O cara da muleta é Billy Kong. Um sujeitinho maligno. Estou mandando um arquivo para o seu capacete. — Em segundos o alerta de e-mail soou no ouvido de Holly e ela abriu o arquivo no visor. Uma foto em 3D de Kong girou lentamente no canto superior esquerdo, enquanto a ficha criminal dele ia passando diante dos olhos.

Artemis pigarreou.

— Por acaso eu não tenho capacete, Potrus.

— Ah, sim, pequeno mestre da baixa tecnologia — disse Potrus, com a voz pingando condescendência. — Devo ler para você?

— Se seu cérebro poderoso puder suportar a simples verbalização.

— Certo. Billy Kong. Cresceu num circo, perdeu um olho lutando com um tigre...

Artemis suspirou.

— Por favor, Potrus, não temos tempo para brincadeiras.

— Claro — retrucou o centauro. — Como a de que você está numa biblioteca. Então, tudo bem: a verdade. Nasceu em Malibu, com o nome de Jonah Lee, no início dos anos 70. Família originária de Taiwan. A mãe se chamava Annie. Um irmão mais velho, Eric, morto numa briga de gangues. A mãe voltou com o garoto a Hsin-chu, ao sul de Taipei. Kong mudou-se para a cidade e se tornou um ladrão insignificante. Teve de partir nos anos 90 quando uma briga com um cúmplice se transformou em acusação de assassinato. Kong usou uma faca de cozinha contra o amigo. Ainda há um mandado de prisão contra ele, com o nome de Jonah Lee.

Holly ficou surpresa. Kong parecia bastante inofensivo. Era um homem magro com cabelo espetado, tingido com luzes. Parecia mais um membro de uma banda pop juvenil do que um assassino.

— Mudou-se para Paris e trocou de nome — continuou Potrus. — Estudou artes marciais. Fez plástica no rosto, mas não o bastante para escapar do meu computador.

Artemis baixou a mão do telefone e falou com Butler.

— Billy Kong?

O guarda-costas respirou fundo.

— Sujeito implacável. Tem uma pequena equipe bem treinada. São contratados como guarda-costas de pessoas que vivem perigosamente. Ouvi dizer que passou a atuar legitimamente e que estava trabalhando para um médico na Europa.

— Kong está no trem — disse Artemis. — Era o homem da muleta falsa.

Butler assentiu, pensativo. Kong era famoso nos círculos do submundo. Não tinha moral e faria qualquer tarefa, por mais desagradável que fosse, pelo preço certo. Seguia apenas uma regra: jamais parar até que o trabalho estivesse feito.

— Se Billy Kong está envolvido, as coisas ficam muito mais perigosas. Precisamos resgatar aquele demônio o mais rápido possível.

— Concordo — disse Artemis, levantando o telefone. — Temos um endereço, Potrus?

— Gaspard Paradizo tem um castelo no lado de Vence de Tourretes sur Loup, a 20 minutos de Nice.

Artemis terminou o cappuccino num só gole.

— Muito bem. Holly, encontramos você lá.

Artemis se levantou, ajeitando o paletó do terno.

— Butler, velho amigo, precisamos de equipamento de vigilância. Conhece alguém em Nice que possa ceder?

Butler abriu um celular fino como um biscoito.

— O que você acha?

 

Tourretes sur Loup é um pequeno povoado de artesãos empoleirado nas encostas mais baixas dos Alpes Marítimos. O castelo Paradizo fica mais no alto, num pico achatado abaixo da linha da neve.

Originalmente era do século XIX, mas havia passado por grandes reformas. As paredes eram de pedra sólida, as janelas eram reflexivas e provavelmente à prova de balas, e havia câmeras em toda parte. A estrada que ia até o castelo era típica da região: estreita e com curvas fechadas. Havia uma torre de observação no canto sul do prédio que dava a qualquer sentinela 360 graus de visão sobre qualquer linha de chegada. Vários homens patrulhavam os terrenos perto da construção principal e os jardins eram pontilhados de dunas cobertas de grama, mas não ofereciam cobertura nenhuma.

Artemis e Butler estavam escondidos numa fileira de arbustos na encosta adjacente. Butler examinou o castelo através de um binóculo potente.

— Você certamente pode pegá-los — observou o guarda-costas. — Acho que já vi este lugar num filme de Bond.

— Sem problema para você, não é?

Butler franziu a testa.

— Sou guarda-costas, Artemis. Um colete à prova de balas humano. Invadir castelos fortificados não é minha especialidade.

— Você me resgatou de locais mais seguros do que este.

— É verdade. Mas eu tinha informações, alguém de dentro. Ou então estava desesperado. Se tivesse de ir embora daqui, isso não iria me perturbar muito, desde que você fosse comigo.

Artemis deu um tapinha no braço dele.

— Não podemos ir embora, velho amigo.

Butler suspirou.

— Acho que não — Em seguida entregou o binóculo a Artemis. — Agora comece no canto oeste e vá para o leste.

Artemis levantou o binóculo e ajustou o foco.

— Estou vendo patrulhas formadas por duplas.

— A empresa de segurança particular de Soto. Sem armas visíveis, mas eles têm volumes sob os paletós. Treinamento básico, imagino. Mas com mais de vinte deles dentro e ao redor das construções seria muito difícil dominar todos. E, mesmo que eu dominasse, a polícia local chegaria em minutos.

Artemis moveu o binóculo alguns graus.

— Vejo um garotinho usando chapéu de caubói, dirigindo um carro de brinquedo.

— Deve ser Beau, o filho de Paradizo. Ninguém presta muita atenção nele. Vá em frente.

— Sensores nos beirais?

— Na verdade já pesquisei aquele modelo. Casulos de segurança de último tipo, lacrados. Circuito fechado, infravermelho, sensores de movimento, visão noturna. A coisa toda. Estava pensando em colocar na Mansão Fowl.

Havia pequenos alto-falantes espalhados pelo castelo.

— Sistema de som? Butler fungou.

— Gostaria que fosse. Aquelas são caixas waffle. Transmitem interferência. Nossos microfones direcionais são inúteis aqui. Duvido que até Potrus possa captar alguma coisa de dentro daquele prédio.

Holly tremeluziu, ficando visível ao lado deles.

— Está certo. Potrus tirou um dos nossos satélites invisíveis de órbita para olhar este local, mas vai demorar várias horas até que o castelo fique ao alcance de visão.

Butler afastou a mão do cabo da arma.

— Holly, eu gostaria que você não aparecesse assim. Sou guarda-costas. Fico nervoso.

Holly sorriu, dando-lhe um tapinha na perna.

— Eu sei, grandão. Por isso é que faço. Pense em mim como um treinamento constante.

Artemis mal afastou os olhos do binóculo.

— Precisamos descobrir o que está acontecendo aqui. Se ao menos pudesse colocar alguém dentro...

Holly franziu a testa.

— Não posso entrar numa habitação humana sem permissão. Vocês conhecem as regras. Se uma criatura entrar num prédio humano sem permissão, perde a magia, e isso depois de algumas horas de vômitos e cãibras dolorosas.

Depois das batalhas em Taillte, Fronde, o rei do Povo das Fadas, havia tentado manter as criaturas maldosas fora das habitações humanas impondo as geasa — ou regras mágicas — sobre as criaturas. Havia usado seus feiticeiros para criar um feitiço poderoso, impondo sua vontade. Qualquer um que tentasse violar essas regras ficaria mortalmente doente e perderia o poder mágico.

— E Butler? Você poderia emprestar a ele um tecido de camuflagem de Potrus. Ele ficaria praticamente invisível.

Holly balançou a cabeça.

— Há uma pirâmide de laser sobre todo o terreno. Mesmo com tecido de camuflagem, Butler interromperia os raios.

— Palha, então? Ele é criminoso, passou há muito do estágio de reação alérgica. Cãibras e vômitos não iriam afetá-lo.

Holly examinou o terreno com seu filtro de raio X.

— Este local é construído sobre rocha sólida e as paredes têm um metro de espessura. Palha jamais cavaria aí sem ser notado. — Sua visão de raio X pousou no esqueleto de um menino que dirigia seu pequeno carro elétrico. Ela ergueu o visor e enxergou Beau Paradizo ziguezagueando no terreno sem ser molestado.

— Palha não poderia entrar lá — disse ela sorrindo. — Mas acho que conheço alguém que entraria.

 

Palha Escavator caminhava pelo Bairro do Mercado de Porto, sentindo-se mais relaxado a cada passo. O Bairro do Mercado era uma área de bandidagem, na medida em que fosse possível existir uma área de bandidagem numa rua com duzentas câmeras e uma cabine permanente da LEP na esquina. Mas, mesmo assim, aqui os criminosos eram em maior número do que os civis, numa proporção de oito para um.

Meu tipo de gente, pensou Palha. Ou pelo menos era, antes de eu trabalhar com Holly,

Não que Palha se arrependesse de ter se juntado a Holly, mas algumas vezes sentia falta dos velhos tempos. Havia algo na atividade de ladrão que fazia seu coração cantar. A empolgação do roubo, a euforia do dinheiro fácil.

Não esqueça o desespero da prisão, lembrou seu lado prático. E a solidão da vida em fuga.

Certo. O crime não era só diversão e jogos. Tinha pequenos lados negativos, como medo, dor e morte. Mas Palha pudera ignorar essas coisas durante muito tempo, até que o comandante Julius Raiz foi morto por um criminoso. Até então, tudo havia sido um jogo. Julius era o gato e ele era o rato impossível de ser apanhado. Mas, com o fim de Julius, a volta a uma vida de crime seria como um tapa no rosto da memória do comandante.

E é por isso que gosto tanto do trabalho novo, concluiu Palha, feliz. Consigo passar pelas costas da LEP e bater papo com criminosos conhecidos.

Estivera assistindo a programas de entrevistas na sala de espera da Seção Oito quando Potrus veio trotando. Para dizer a verdade, Palha gostava de Potrus. Os dois trocavam fagulhas sempre que se encontravam, mas isso mantinha ambos na ponta dos pés, ou dos cascos, dependendo do caso.

Nesta situação, não houve tempo para trocas de insultos. Potrus explicou bruscamente a situação acima do solo. Eles tinham um plano, mas dependia da capacidade de Palha encontrar o duende-diabrete contrabandista, Duda Dia, e levá-lo de volta à Seção Oito.

— Vai dar um certo trabalho — observou Palha. — Na última vez em que vi Duda, ele estava raspando gosma de anão das botas. O sujeito não gosta muito de mim. Vou precisar de um estímulo.

— Diga àquele duende-diabrete que se ele nos ajudar estará livre. Eu entro no sistema e apago a ficha dele.

Palha ergueu as sobrancelhas peludas.

— É tão importante assim?

— É.

— Eu salvei esta cidade — resmungou o anão. — Na verdade, duas vezes! Ninguém apagou minha ficha. Esse duende-diabrete faz uma missão e bum: fica livre. O que eu ganho? Fico vendo como a gente distribui desejos.

Potrus bateu um casco, impaciente.

— Você recebe seu exorbitante pagamento pela consultoria. Sei lá. Ande logo com isso. Você tem algum modo de descobrir o Sr. Dia?

Palha assobiou.

— Vai ser diabolicamente difícil. Aquele duende-diabrete deve ter se enfurnado em algum lugar depois desta manhã. Mas tenho certas habilidades. Posso fazer isso.

Potrus olhou-o, irritado.

— É por isso que você está recebendo uma grana preta.

Na verdade, encontrar Duda não seria tão diabolicamente difícil como Palha havia fingido. A última coisa que ele havia feito antes de se despedir alegremente de Duda Dia foi enfiar uma pílula rastreadora na bota dele.

As pílulas rastreadoras tinham sido presente de Potrus. Ele gostava de passar sobras de equipamentos para Holly, para ajudá-la a manter a agência de pé. As pílulas eram feitas de um gel adesivo cozido que começava a derreter assim que você o tirava da embalagem. O gel grudava e adotava a cor de qualquer coisa com que entrasse em contato. Dentro havia um transmissor minúsculo que emitia radiação inofensiva durante até cinco anos. O sistema de rastreamento não era muito sofisticado. Cada pílula deixava sua assinatura nas embalagens individuais, de modo que a embalagem luzia sempre que refletisse a radiação específica. Quanto mais forte a luz, mais perto estava a pílula.

À prova de idiotas, havia zombado Holly, ao lhe dar as pílulas.

E elas estavam se mostrando à prova de idiotas. Apenas 10 minutos depois de sair da Seção oito Palha havia descoberto que Duda Dia se encontrava no Distrito do Mercado. Pelo que o anão percebia, sua presa estava em algum lugar num raio de 20 metros. O lugar mais provável era o bar de peixe do outro lado da rua. Os duendes-diabretes adoravam frutos do mar. Em especial crustáceos. Em especial crustáceos especialmente protegidos, como lagostas. Motivo pelo qual as habilidades de contrabandista de Duda eram tão requisitadas.

Palha atravessou a rua, ajustou a expressão do rosto para temível e entrou no Feliz Que Nem Marisco como se fosse o dono do lugar.

O bar era ostensivamente um pé-sujo. O piso era de tábuas nuas e o ar fedia a cavalinhas de uma semana atrás. O menu era escrito na parede com o que parecia sangue de peixe, e o único freguês parecia estar dormindo com a cara numa tigela de comida.

Um duende-diabrete garçom olhou irritado para Palha por trás de um balcão que ia até a altura dos joelhos.

— Há um bar de anões do outro lado da rua — disse ele.

Palha lançou um riso cheio de dentes.

— Ora, isso não é muito hospitaleiro. Eu poderia ser um freguês.

— Não é provável. Nunca vi um anão pagar pela comida. Era verdade. Os anões eram parasitas por natureza.

— Aí você me pegou — admitiu Palha. — Não sou freguês. Estou procurando alguém.

O garçom indicou o restaurante quase vazio.

— Se não está vendo, ele não está aqui.

Palha mostrou um brilhante distintivo temporário da LEP que Potrus lhe havia dado.

— Acho que eu deveria olhar mais de perto.

O garçom saiu correndo de trás do balcão.

— Eu acho que você talvez precise de um mandado para dar mais um passo, policial.

Palha o empurrou de lado.

— Não sou desse tipo de policial.

Palha seguiu o sinal do transmissor, passando pelo salão do restaurante até um corredor sujo e chegou aos banheiros, que eram piores ainda. Até Palha se encolheu, e ele se enterrava em lama para viver.

Um cubículo tinha uma placa de “com defeito” na porta. Palha se espremeu no espaço de tamanho adequado para duendes-diabretes e rapidamente localizou a porta secreta. Espremeu-se e entrou numa sala muito mais salubre do que a anterior. Havia uma saleta forrada de veludo, para guardar casacos, onde estava uma duende-dieabrete bastante surpresa, com vestido cor-de-rosa.

— O senhor tem reserva? — perguntou ela, hesitante.

— Mais do que uma. Para começar, você acha boa idéia colocar a entrada secreta de um restaurante ilegal num banheiro? Isso não me enganou, e acho que perdi o apetite.

Palha não esperou resposta. Em vez disso se abaixou para atravessar um portal baixo e entrou num opulento restaurante principal. Ali, dezenas de duendes-diabretes se refestelavam com fumegantes pratos de crustáceos. Duda Dia estava sozinho numa mesa para dois, quebrando uma lagosta com um martelo como se a odiasse.

Palha foi até lá, ignorando os olhares dos outros freqüentadores.

— Pensando em alguém? — perguntou ele, sentando-se numa minúscula cadeira de duende-diabrete.

Duda levantou os olhos. Se estava surpreso, escondeu bem.

— Em você, anão. Estou imaginando que esta pinça de lagosta é sua cabeça gorda.

Duda baixou o martelo com força, espirrando carne branca de lagosta sobre Palha.

— Ei, cuidado! Esse negócio fede.

Duda estava lívido.

— Isso fede! Isso fede! Eu tomei três banhos de chuveiro. Três! E não consigo tirar o fedor que saiu da sua boca. Ele me acompanha como um esgoto pessoal. Veja que estou comendo sozinho. Em geral fico numa mesa cheia de amigos, mas não hoje. Hoje estou fedendo a anão.

Palha permaneceu imperturbável.

— Ei, calma, rapazinho. Eu poderia me ofender.

Duda balançou o martelo.

— Está vendo alguém aqui que se importa em saber como você se sente? Ofendido ou não?

Palha respirou fundo. Seria uma negociação difícil.

— Tudo bem, tá certo, Duda. Entendi. Você é um cara realmente esperto. Um cara esperto demais. Mas tenho uma oferta.

Duda riu.

— Tem uma oferta para mim? Eu tenho uma oferta para você. Por que não tira seu fedor de anão daqui antes que eu quebre seus dentes com este martelo?

— Entendi — disse Palha irritado. — Você é um sujeitinho durão. E mau, também. E um anão teria de ser louco para se meter com você. Em geral eu ficaria aqui sentado umas duas horas, trocando insultos. Mas hoje estou ocupado. Uma amiga minha está com problemas.

Duda deu um riso largo, levantando uma taça de vinho num brinde fingido.

— Bem, anão, espero que seja aquela elfo escorregadia, a Holly Short. Porque não há ninguém que eu preferiria ver enfiada até as orelhas pontudas em alguma coisa perigosa.

Palha mostrou os dentes, mas não estava sorrindo.

— Na verdade eu pretendia falar com você sobre isso. Você atacou minha amiga com uma multibetoneira. Quase a matou.

— Quase — disse Duda, levantando um dedo. — Mas só dei um susto. Ela não deveria estar me perseguindo. Eu só contrabandeio uns caixotes de camarão. Não mato ninguém.

— Só dirige.

— Isso mesmo. Só dirijo.

Palha relaxou.

— Bom, Duda, sorte sua, porque sua habilidade de motorista é a coisa que está me impedindo de desencaixar meu maxilar e mastigar você como um desses bolinhos de camarão aí. E desta vez quem sabe por que lado você iria sair?

A bravata desapareceu imediatamente do rosto de Duda.

— Estou ouvindo — disse ele.

Palha conteve os dentes.

— Muito bem. Então você é capaz de dirigir qualquer coisa, não é?

— Absolutamente qualquer coisa. Não me importa se foi construída por marcianos, Duda Dia pode dirigir.

— Bom, porque vou fazer uma oferta. Não estou particularmente satisfeito com isso, mas preciso fazer de qualquer modo.

— Vai fundo, fedido.

Palha resmungou por dentro. Seu pequeno bando de aventureiros precisava de outro espertinho tanto quanto precisava de dez anos de azar.

— Preciso de você por um dia, para dirigir um veículo, para uma viagem. Faça isso e terá anistia.

Duda ficou impressionado. Era um trato impressionante.

— Então eu só preciso dirigir e vocês limpam minha ficha?

— É o que parece.

Duda bateu na testa com uma pata de lagosta.

— Isso é fácil demais; tem de haver algum galho.

Palha deu de ombros.

— Bom, vai ser acima do solo, e haverá um monte de Homens da Lama armados perseguindo você.

— É? — Duda riu através de um bocado de molho de lagosta. — Mas qual é o galho?

 

Quando Palha e Duda pousaram perto de Tourrettes sur Loup, o anão parecia em frangalhos, de tão nervoso.

— Ele é maluco — balbuciou, tombando da escotilha de um minúsculo casulo de titânio que fora pousado habilmente num trecho plano não muito maior do que um selo de correio. — O duende-diabrete é maluco! Me dá sua arma, Holly. Vou dar um tiro nele.

Duda Dia apareceu na escotilha e saltou agilmente no chão.

— Essa nave é fantástica — disse em gnomês. — Onde posso conseguir uma?

Seu riso se encolheu e morreu ao notar que a coisa que ele havia acreditado anteriormente ser uma árvore moveu-se e falou numa das primitivas línguas dos Homens da Lama.

— Imagino que esse aí seja o Duda Dia. Ele faz muito barulho, não é?

— Arkkkk! — disse Duda. — Grande Homem da Lama.

— É, é mesmo — disse outro Homem da Lama, ou talvez Garoto da Lama. Este era menor, mas de algum modo parecia ainda mais perigoso.

— Você fala gnomês? — perguntou o aterrorizado duende-diabrete, para o caso de o grande resolver devorá-lo por não ter sido educado.

— Sim — respondeu Artemis. — Falo, mas Butler não é tão fluente. Portanto, inglês, se você não se importa.

— Claro. Sem problema — disse Duda, agradecendo por ainda ter no cérebro a minúscula fagulha de magia necessária para alimentar seu dom para línguas.

Duda e Palha tinham voado por cima dos picos mais baixos dos Alpes Marítimos num casulo construído para cavalgar as explosões de magma do núcleo da terra. Aqueles transportadores possuíam escudos rudimentares, mas não se destinavam a viagens acima do solo. As instruções de Duda tinham sido para seguir os jorros de lava quente até um pequeno porto próximo a Berna, na Suíça, depois prender um par de asas e voar baixo o resto do caminho. Mas assim que se sentou atrás do volante do casulo, ele decidiu que seria muito mais rápido se fizessem a segunda parte da viagem a bordo da nave minúscula.

Holly ficou impressionada.

— Você voa bastante bem, para um contrabandista. Esses casulos se movem como um porco com três pernas.

Duda deu um tapa carinhoso numa barbatana de titânio.

— Ela é uma boa menina. Só é preciso tratá-la direitinho.

Palha ainda estava tremendo.

— Nós ficamos por um fio! Por um fio de ser incinerados. Perdi a conta depois das primeiras 12 vezes.

Duda deu um risinho.

— Não foi só isso que você perdeu, anão. Alguém vai ter de lavar os bancos lá dentro.

Holly encarou os olhos de Duda. Tudo bem, aqueles dois estavam jogando conversa fora, mas havia uma historiazinha entre eles.

— Você poderia ter me matado, duende-diabrete — disse Holly em tom chapado, dando ao pequeno contrabandista a chance de se explicar.

— Eu sei. Quase matei. Por isso está na hora de eu sair dos negócios. Rever a situação. Dar uma boa olhada nas minhas prioridades.

— Besteira — murmurou Holly. — Não acredito numa palavra.

— Nem eu — disse Duda. — Este é o meu papo para o comitê da condicional. Com os olhos grandes e lábio trêmulo, funciona sempre. Mas, sério, desculpe o negócio com a multibetoneira, policial. Eu estava desesperado. Mas você não correu perigo. Estas mãos são pura magia num volante.

Holly decidiu deixar para lá. Alimentar ressentimento só tornaria uma missão difícil quase impossível. E, de qualquer modo, agora Duda teria a chance de compensar para ela.

Butler ajudou Palha a ficar de pé.

— Como está indo, Palha?

Palha olhou para Duda.

— Vou ficar ótimo quando minha cabeça parar de rodar. Essa nave é construída para um ocupante, você sabe. Fiquei com esse macaquinho no colo por algumas horas. A cada vez que a gente passava sobre um calombo, ele me dava uma cabeçada no queixo.

Butler piscou para seu amigo anão.

— Bem, veja a coisa do seguinte modo: você precisou dar uma volta no ambiente dele, mas agora ele precisa dar uma volta no seu.

Duda captou o fim da frase.

— Uma volta? Que volta? Quem tem de dar uma volta?

Palha esfregou as palmas peludas.

— Vou gostar disso.

Deitaram-se lado a lado numa vala baixa acima do castelo. O terreno se inclinava suavemente para baixo e era pintalgado com as formas retorcidas de antigas oliveiras. O solo da superfície era seco e solto, mas razoavelmente gostoso, segundo Palha.

— A água alpina é muito boa — explicou ele, cuspindo um bocado de pedregulhos. — E as oliveiras dão um belo sabor à argila.

— Isso é ótimo — disse Artemis com paciência. — Mas na verdade só quero saber se você pode chegar à fossa séptica.

— Fossa séptica? — perguntou Duda, nervoso. — Por que estamos falando de fossas sépticas? Não vou entrar em nenhuma fossa séptica. Esqueçam o trato.

— Entrar, não — corrigiu Artemis. — Atrás dela. A fossa é a única cobertura antes do castelo propriamente dito.

Holly estava examinando o terreno com seu visor.

— A fossa é construída o mais perto da casa possível. Depois disso, só tem rocha. Mas você tem um belo veio de solo até aquele ponto. O que precisa fazer é atrair aquele garoto com chapéu de caubói para trás da fossa, com uma barra de chocolate, depois Duda ocupa o lugar dele.

— Depois o quê? Aquele carrinho de brinquedo não vai rápido a lugar nenhum.

— Não precisa ir, Duda. Você só precisa dirigi-lo para dentro da casa e enrolar isto em qualquer cabo de vídeo que encontrar.

Holly entregou a Duda um cabo com minúsculos espinhos na superfície.

— Isto é cheio de fibra ótica. Assim que estiver no lugar, vamos penetrar no sistema de vigilância deles.

— Podemos rebobinar até a barra de chocolate? — perguntou Palha. — Alguém tem uma?

— Aqui — disse Artemis, entregando-lhe uma barra com embalagem verde. — Butler comprou no povoado. A qualidade é muito baixa, não tem nem setenta por cento de cacau, de procedência razoável, por sinal, mas vai servir.

— E depois que o garoto comer o chocolate? — perguntou Palha. — O que eu faço com um garoto?

— Você não vai machucá-lo — disse Holly. — Só diverti-lo durante um minuto.

— Diverti-lo? E como vou fazer isso?

— Use seus talentos de anão — sugeriu Artemis. — As crianças pequenas são curiosas. Coma algumas pedras. Solte pum. O pequeno Beau vai ficar fascinado.

— Eu não poderia simplesmente dar um tiro nele?

— Palha! — disse Holly horrorizada.

— Não estou falando de matar. Só apagá-lo durante alguns minutos. As crianças gostam de tirar um cochilo. Estarei fazendo um favor.

— Apagá-lo seria o ideal — admitiu Holly. — Mas não tenho nada seguro, então você precisa mantê-lo ocupado por cinco minutos no máximo.

— Sou uma criatura fascinante, imagino — disse Palha. — E se acontecer o pior, sempre posso comê-lo. — Ele deu um riso largo diante da expressão chocada de Holly. — Brincadeirinha. Sério. Eu nunca comeria um Menino da Lama. São ossudos demais.

Holly cutucou Artemis, que estava ao seu lado.

— Tem certeza de que vai funcionar?

— É a sua idéia básica — respondeu Artemis. — Mas sim, tenho certeza. Há outras opções, mas não temos tempo. Palha sempre demonstrou iniciativa. Estou certo de que ele não vai nos deixar na mão. Quanto ao Sr. Dia, a liberdade dele está em jogo. Esse é um bom incentivo para agir.

— Chega de papo — disse Palha. — Estou começando a me queimar. Vocês sabem como a pele dos anões é sensível. — Ele se levantou e abriu a aba do traseiro das calças. (Onde mais ficaria uma aba de traseiro?) — Muito bem, duende-diabrete. Pule.

Duda Dia pareceu genuinamente amedrontado.

— Tem certeza? Palha suspirou.

— Claro que tenho. Está com medo de quê? É só um traseiro.

— É, talvez. Mas ele está rindo para mim.

— Talvez ele esteja feliz em vê-lo. Você não vai querer continuar aí se ele ficar com raiva.

Holly deu um soco no ombro de Palha.

— Esse é um hábito muito ruim — reclamou Palha, esfregando o braço. — Você deveria se consultar com alguém para falar desse problema da raiva.

— Pode cortar o papo furado, por favor? Estamos com pouco tempo!

— Tudo bem. Suba, duende-diabrete. Prometo que isso aí não vai morder.

Butler pôs o pequeno duende-diabrete nas costas de Palha.

— Só não olhe para baixo — aconselhou o guarda-costas. — Você vai ficar bem.

— É fácil para você falar — resmungou Duda. — Não é você que vai montar o redemoinho. Você não falou disso no restaurante, Escavator.

Artemis apontou para a mochila do duende-diabrete.

— Precisa mesmo, Sr. Dia? Não é muito aerodinâmico.

Duda segurou a alça.

— Ferramentas de trabalho, Garoto da Lama. Elas vão aonde eu for.

— Muito bem — disse Artemis. — Um conselho: entre e saia o mais rápido que puder.

Duda revirou os olhos.

— Uau, grande conselho! Devia escrever um livro.

Palha deu um risinho.

— Essa foi boa.

— E evite a família dele — continuou Artemis. — Especialmente a garota, Minerva.

— Família. Minerva. Saquei. Agora vamos, se quisermos ir, antes que eu perca a coragem.

O anão desencaixou o maxilar com estalos arrepiantes e mergulhou de cabeça no monte de terra. Era digno de ser ver, os maxilares parecendo foices, cortando a terra, cavando um túnel para o anão e seu passageiro. Os olhos de Duda estavam fechados com força e sua expressão era de choque absoluto.

— Ah, deuses — disse ele. — Deixem-me sair. Deixem-me...

Então haviam sumido, perdidos sob um cobertor de terra vibrando. Holly se arrastou até em cima do monte de terra, seguindo o progresso deles com seu visor.

— Palha é rápido — declarou ela. — Fico surpresa pensando em como conseguimos pegá-lo.

Artemis deitou-se ao lado dela.

— Espero que seja suficientemente rápido. A última coisa de que precisamos é que Minerva Paradizo acrescente um anão e um duende-diabrete à sua coleção.

 

Palha sentia-se bem, no subsolo. Este era o habitat natural dos anões. Seus dedos absorviam os ritmos da terra e eles o acalmavam. Os pêlos ásperos da barba, que na verdade eram uma série de sensores, cravavam-se na argila, penetrando em rachaduras, lançando pings e informando de volta ao cérebro. Ele podia sentir coelhos cavando a 800 metros à esquerda. Talvez pudesse pegar um na volta, para um tira-gosto.

Duda se agarrava como se quisesse salvar a vida. O rosto era uma careta de desespero. Teria gritado, mas isso significaria abrir a boca. O que estava fora de cogitação.

Logo abaixo dos dedos dos pés de Duda, o traseiro de Palha atirava uma mistura acelerada de terra e ar, lançando os dois mais fundo no túnel. Duda podia sentir o calor da reação subir pelas pernas. De vez em quando suas botas baixavam perto demais do exaustor do traseiro e Duda precisava puxá-las depressa para não perder um dedo.

Palha levou apenas um minuto para chegar junto à fossa séptica. Espremeu-se para fora da terra, tirando a lama dos olhos com os grossos cílios em forma de saca-rolha.

— Dê uma olhada — murmurou ele, cuspindo uma minhoca que se retorcia.

Duda se ergueu acima da cabeça do anão, segurando a mão sobre a própria boca para não soltar um grito. Depois de respirar fundo várias vezes, acalmou-se o suficiente para sibilar:

— Você gostou disso, não foi?

Palha encaixou o maxilar de novo, depois soltou um último jato de gás de túnel, que o fez saltar fora da terra.

— É o que eu faço. Digamos que estamos quites pela viagem de casulo.

Duda discordou.

— Digamos que eu ainda lhe devo uma por ter me engolido.

A picuinha provavelmente teria continuado, apesar da urgência da missão, se um garotinho num carro elétrico de brinquedo não tivesse surgido do outro lado da fossa.

— Olá. Sou Beau Paradizo — disse o motorista. — Vocês são monstros?

Duda e Palha se imobilizaram momentaneamente, depois se lembraram do plano.

— Não, garotinho — disse Palha, feliz porque ainda tinha a fagulha de magia necessária para falar francês. Tentou dar um sorriso cativante, algo que ele não passava muito tempo treinando diante do espelho. — Somos as criaturas mágicas do chocolate. E temos um presente especial para você. — Ele balançou a barra de chocolate, esperando que a apresentação teatral fizesse o doce barato parecer mais impressionante do que era.

— Criaturas mágicas do chocolate? — disse o garoto, descendo do carro. — Chocolate sem açúcar, espero. Porque eu fico superagitado quando como açúcar e papai diz que Deus sabe que já sou agitado demais sem isso, mas que mesmo assim ele me ama.

Palha olhou o rótulo. Dezoito por cento de açúcar.

— É. Sem açúcar. Quer um pedaço?

Beau pegou a barra inteira e a demoliu em menos de dez segundos.

— Vocês fedem. Especialmente você, cabeludo. Fede mais do que o vaso entupido da casa de tia Morgana. Criatura fedorenta.

Duda riu.

— Não é fantástico? O menino diz a verdade, Palha.

— Você mora num vaso entupido, Sr. Criatura Gorda do Chocolate?

— Ei — disse Palha, animado. — Que tal um cochilo? Gostaria de cochilar, garoto?

Beau Paradizo deu um soco na barriga de Palha.

— Eu já cochilei, seu idiota. Mais chocolate! Agora!

— Não bata em mim! Não tenho mais chocolate.

Beau deu-lhe outro soco.

— Eu disse mais chocolate! Senão chamo os guardas. E Pierre vai enfiar a mão na sua garganta e puxar as tripas. É o que ele faz. Ele me disse.

Palha deu um risinho.

— Gostaria de ver esse sujeito enfiar a mão nas minhas tripas.

— É mesmo? — perguntou Beau animado. — Vou chamar ele! — O menino correu para o canto da fossa. Movia-se com velocidade surpreendente, e os instintos de Palha assumiram o controle do cérebro. O anão saltou na direção do garoto, desencaixando o maxilar ao mesmo tempo.

— Pierre! — gritou Beau uma vez, mas não a segunda, porque Palha o envolveu com a boca. Tudo menos o chapéu de caubói.

— Não engula! — sussurrou Duda.

Palha revirou o garoto nas bochechas durante alguns segundos e depois cuspiu. Beau estava pingando e dormindo. Palha enxugou o rosto do menino antes que o cuspe de anão endurecesse.

— Sedativo na saliva — explicou, encaixando o maxilar. — É um negócio de predador. Você não caiu no sono ontem porque eu não cheguei à sua cabeça. Ele vai acordar totalmente revigorado. Vou descascar essa coisa quando endurecer.

Duda encolheu os ombros.

— Ei, o que me importa? Eu não gostei dele mesmo.

Uma voz veio por cima da fossa.

— Beau? Onde você está?

— Deve ser o Pierre. É melhor você ir andando, atraia-o para longe daqui.

Duda levantou a cabeça acima do muro da fossa. Um homem grandalhão vinha na direção deles. Bom, não tão grande quanto Butler, mas o suficiente para esmagar o duende-diabrete com uma das botas. O sujeito usava macacão preto de segurança com um boné da mesma cor. Um cabo de pistola aparecia entre os botões. O sujeito forçou a vista na direção da fossa.

— Beau? É você? — perguntou em francês.

— Oui. C’est moi— respondeu Duda num falsete trêmulo.

Pierre não se convenceu: a voz mais parecia de um leitão falante do que de um menino. Continuou vindo, enfiando a mão dentro do macacão em busca da arma.

Duda correu para o carro elétrico. No caminho, pegou o chapéu de caubói de Beau e enfiou na cabeça. Agora Pierre estava a apenas 12 passos e vinha acelerando.

— Beau? Venha cá agora. Minerva quer você dentro de casa.

Duda pulou por cima do capô para dentro do carro. Só de olhar viu que aquele brinquedo não iria se mover mais rápido do que uma caminhada, o que lhe seria de utilidade zero numa emergência. Puxou uma placa preta e chata de dentro da mochila e grudou-a no pequeno painel plástico do carro. Era um Mongocarregador, algo sem o qual nenhum contrabandista de respeito sairia de casa. O Mongocarregador era equipado com um computador potente, onissensor e uma bateria nuclear limpa. O onissensor penetrou no minúsculo chip do carro de brinquedo e captou seu funcionamento. Duda puxou um cabo retrátil da base do Mongocarregador e enfiou a ponta no conector de energia do carro embaixo do painel. Agora o carro de brinquedo era movido a energia nuclear. Duda apertou o acelerador.

— Agora está melhor — disse satisfeito.

Pierre rodeou o lado direito da fossa. Isso era bom, porque Palha e o adormecido Beau estavam onde ele não podia ver. Era ruim porque Pierre se encontrava diretamente atrás de Duda.

— Beau? — disse Pierre. — Tem alguma coisa errada? — Sua arma estava fora da roupa, apontada para o chão.

O pé de Duda pairou sobre o acelerador, mas ele não podia apertá-lo agora. Não com aquele capanga olhando para sua nuca.

— Nada errado... é... Pierre — trinou ele, mantendo o rosto escondido sob a aba do chapéu de caubói.

— Sua voz está estranha, Beau. Você está doente? Duda pisou de leve no acelerador, inclinando-se adiante.

— Não. Estou bem. Só imitando vozes engraçadas, como as crianças humanas fazem.

Pierre ainda estava cheio de suspeitas.

— Crianças humanas? Duda se arriscou.

— É. Crianças humanas. Hoje sou um extraterrestre que finge ser humano, portanto vá embora se não eu enfio a mão na sua garganta e puxo suas tripas.

Pierre parou, pensou um momento e se lembrou.

— Beau, seu malandro! Não deixe Minerva ouvir você falando assim. Não dou mais chocolate se você fizer isso.

— Puxo suas tripas! — repetiu Duda, acelerando suavemente sobre um leito de cascalho na direção da entrada de veículos.

O duende-diabrete tirou um espelho convexo adesivo na mochila e prendeu no pára-brisa. Ficou aliviado ao ver que Pierre havia guardado a arma e voltava ao seu posto.

Mesmo que isso fosse contra todos os seus instintos de contrabandista, Duda manteve a velocidade baixa na entrada de veículos. Seus dentes chacoalhavam enquanto ele seguia pelo piso de granito irregular. Um instrumento de leitura digital informou que ele estava utilizando um centésimo de um por cento da nova potência do motor. Duda lembrou-se bem a tempo de colocar o Mongocarregador no modo silencioso. A última coisa que precisaria era da voz eletrônica do computador reclamando de sua habilidade de motorista.

Havia dois guardas diante da porta principal. Eles mal olharam para baixo quando Duda passou rapidamente.

— Como vai, xerife? — perguntou um, rindo.

— Chocolate — guinchou Duda. Pelo pouco que sabia sobre Beau, parecia a coisa adequada a dizer.

Pisou de leve no acelerador para passar pela soleira, depois seguiu lentamente por um piso de mármore rajado. Os pneus patinaram, procurando se grudar à pedra lisa, o que era meio preocupante — poderia custar segundos cruciais no caso de ele ter de sair depressa. Mas pelo menos o corredor tinha largura suficiente para fazer um retorno se fosse necessário.

Duda seguiu pelo corredor, passando por filas de palmeiras enormes em vasos e várias obras de arte abstrata, até chegar ao fim do corredor. Havia uma câmera sobre uma passagem em arco, apontando direto para o corredor da frente. Um cabo saía da caixa e entrava num conduíte, que descia até a base da parede.

Duda levou o carrinho até o conduíte e saltou. Até agora sua sorte estava presente. Ninguém o havia questionado. Essa segurança humana era péssima. Em qualquer prédio das criaturas do subterrâneo, ele teria sido escaneado por laser pelo menos uma dúzia de vezes até agora. O duende-diabrete puxou um pedaço do conduíte, revelando o cabo embaixo. Demorou apenas alguns segundos para torcer o pedaço de fibra ótica ao redor do cabo de vídeo. Serviço feito. Sorrindo, Duda subiu de novo no carro roubado. Tinha sido moleza. Anistia em troca de cinco minutos de trabalho. Hora de ir para casa e curtir uma vida de liberdade, até quebrar as regras de novo.

— Beau Paradizo, seu moleque. Venha aqui agora mesmo!

Duda congelou momentaneamente, depois espiou pelo retrovisor. Havia uma garota atrás dele, olhando-o irritada, as mãos nos quadris. Esta devia ser Minerva, supôs. Se a memória não lhe falhava, ele deveria ficar longe de Minerva,

— Beau. Está na hora do antibiótico. Quer ficar com aquela infecção no peito para sempre?

Duda ligou o carro e foi na direção do arco, saindo da linha de visão da Garota da Lama. Assim que virasse a esquina, poderia pisar fundo no acelerador.

— Não ouse fugir de mim, Bobô.

Bobô? Não é de espantar que eu esteja fugindo, pensou Duda, Quem iria ao encontro de alguém que o chama de Bobô?

— Ah... chocolate? — disse o duende-diabrete cheio de esperança.

Foi a coisa errada. A garota conhecia a voz do irmão, e não era essa.

— Bobô? Tem alguma coisa errada com sua voz?

Duda xingou em silêncio.

— Infiquixão no peito? — disse ele.

Mas Minerva não engoliu essa, Tirou um walkie-talkie do bolso e foi rapidamente na direção do carro.

— Pierre, venha cá por favor. Traga André e Luis. — E depois disse a Duda: — Fique aí, Bobô. Tenho uma bela barra de chocolate para você.

Claro, pensou Duda. Chocolate e uma cela de concreto.

Pensou um segundo em suas opções e chegou a uma conclusão. A conclusão foi: prefiro escapar depressa a ser capturado e torturado até a morte.

Fui, pensou Duda, e pisou fundo no acelerador, lançando várias centenas de HPs no frágil eixo do carro. Teria talvez um minuto antes que o brinquedo se despedaçasse, mas até lá poderia estar longe daquela Garota da Lama e de suas transparentes promessas de chocolate.

O carro partiu tão depressa que deixou uma imagem de si mesmo onde estivera.

Minerva parou.

— O quê?

Havia uma esquina chegando rapidamente. Duda virou o volante o mais rápido que pôde, mas o jogo do veículo era amplo demais.

— Vou ter de ricochetear — disse com os dentes trincados.

Inclinou-se para a esquerda, tirou o pé do acelerador e bateu na parede de lado. No momento do impacto, mudou o peso de lugar e pisou no acelerador. O carro perdeu uma porta, mas disparou pela esquina como uma pedra saindo de uma atiradeira.

Lindo, pensou Duda assim que sua cabeça parou de zumbir.

Agora teria uns dez segundos antes que a garota o visse de novo, e quem sabia quantos seguranças haveria entre ele e a liberdade?

Estava num corredor longo e reto, dando numa sala de estar. Podia ver uma televisão na parede e a borda de cima de um sofá de veludo vermelho. Devia haver degraus descendo para aquela sala. Nada bom. Essa carro só conseguira suportar mais um impacto.

— Onde está o Bobô? — gritou a garota. — O que você fez com ele?

Agora não adiantava ser sutil. Era hora de ver do que o carrinho era capaz. Duda pisou fundo e partiu na direção de uma janela atrás do sofá de veludo. Deu um tapinha no painel.

— Você consegue, sua lixeirinha. Um pulo. É sua chance de ser um puro-sangue.

O carro não respondeu. Eles nunca respondiam. Mas algumas vezes, em ocasiões de extremo estresse e privação de oxigênio, Duda imaginava que eles compartilhavam sua atitude cavalheiresca.

Minerva virou a esquina do corredor. Estava correndo a toda velocidade e gritando num walkie-talkie. Duda ouviu as palavras prender, violência necessária e interrogatório. Nenhuma lhe pareceu boa.

As rodas do carro de brinquedo patinaram num tapete comprido e depois ganharam aderência. O tapete foi empurrado para trás como um pedaço de massa de pastel saindo da máquina. Minerva foi derrubada, mas continuou falando enquanto caía.

— Ele foi para a biblioteca. Derrubem-no! Atirem se for necessário!

Duda segurou com força o volante, mantendo a reta. Ia sair por aquela janela, fechada ou não. Entrou na sala a cento e dez quilômetros por hora, voando do degrau de cima. Não era má aceleração para um brinquedo. Havia dois seguranças na sala, sacando as armas. Mas não iriam atirar. Ainda parecia que o carro era dirigido por uma criança.

Panacas, pensou Duda. Então a primeira bala acertou o chassi. Tudo bem, talvez eles atirassem no carro.

Voou num arco suave em direção à janela. Mais duas balas arrancaram nacos de plástico do capô, mas era tarde demais para fazer o veículo minúsculo parar. Ele raspou o batente, perdeu um pára-choque e saiu pela janela aberta.

Alguém deveria estar filmando isso, pensou Duda enquanto trincava os dentes, esperando o impacto.

O choque o sacudiu do pé ao crânio. Estrelas dançaram diante de seus olhos por um momento, então ele estava de novo no controle, indo na direção da fossa séptica.

Palha estava esperando, seu louco halo de cabelos tremendo de impaciência.

— Onde você esteve? Estou ficando sem filtro solar.

Duda não perdeu tempo com uma resposta. Em vez disso soltou-se do carro quase demolido, pegando seu Mongocarregador e o espelho.

Palha apontou um dedo gordo para ele.

— Tenho mais algumas perguntas.

Uma bala disparada da janela aberta ricocheteou na fossa, arrancando lascas de concreto.

—- Mas elas podem esperar. Pule.

Palha se virou, apresentando as costas — e algo mais — a Duda. Duda pulou em cima, agarrando punhados da barba de Palha.

— Vai! — gritou ele. — Estão vindo atrás de mim!

Palha desencaixou o maxilar e mergulhou na argila como um torpedo peludo.

Mas, por mais rápido que fosse, ele e Duda não conseguiriam. Os seguranças armados estavam a dois passos de distância. Deviam ter visto Beau roncando suavemente e crivaram de balas o monte formado pelo túnel em movimento. Provavelmente teriam jogado também algumas granadas. Mas não fizeram isso porque neste exato momento o inferno estourou dentro do castelo.

Assim que Duda havia enrolado as fibras óticas ao redor do cabo de vídeo, centenas de minúsculos espinhos furaram a borracha, fazendo dezenas de fortes contatos com os fios no interior.

Segundos depois, no QG da Seção Oito, as informações jorravam no terminal de Potrus. Ele tinha sistemas de vídeo, de alarmes, caixas waffle e comunicações piscando em janelas separadas em sua tela.

Potrus riu, estalando os nós dos dedos como um concertista de piano.

Adorava aqueles velhos cabinhos de fibra ótica. Não eram tão chiques quanto os grampos orgânicos, mas eram duas vezes mais confiáveis.

— Tudo bem — disse num microfone sobre a mesa. — Estou no controle. Que tipo de pesadelo vocês gostariam de dar aos Paradizo?

No sul da França, a capitã Holly Short falou ao seu microfone do capacete:

— Tudo que você tiver. Soldados, helicópteros. Crie uma sobrecarga nas comunicações deles, arrebente as caixas waffle. Dispare todos os alarmes. Quero que eles acreditem que estão sendo atacados.

Potrus ativou vários arquivos fantasmas em seu computador. Os fantasmas eram um dos seus projetos de estimação. Ele baixava padrões dos filmes humanos — soldados, explosões, qualquer coisa — e os usava universalmente em qualquer local que escolhesse. Neste caso, mandou um esquadrão de forças especiais do exército francês, o Commandement des Opérations Spéciales, ou COS, ao sistema de circuito fechado dos Paradizo. Funcionariam muito bem, para começar.

 

Dentro do castelo, o chefe de segurança dos Paradizo, Juan Soto, tinha um probleminha. Seu probleminha é que alguns tiros esparsos estavam sendo dados na casa. Isso só podia ser visto como um probleminha se comparado ao problema bem grande que Potrus estava mandando para ele. Soto estava falando num rádio.

— Sim, Srta. Paradizo — disse ele, mantendo a voz calma. — Percebo que seu irmão pode estar desaparecido. Digo que pode estar porque pode ser ele que esteja no carro de brinquedo. Para mim, parece ele. Certo, certo, entendo. É incomum que carrinhos de brinquedo voem tão longe. Pode ser um defeito.

Soto resolveu dizer algumas palavras fortes aos dois idiotas que haviam disparado contra um carrinho de brinquedo obedecendo a ordens de Minerva. Não se importava com o quanto ela fosse inteligente, nenhuma criança daria ordens assim durante seu turno de trabalho.

Mesmo que a Srta. Minerva não estivesse perto do centro de segurança e não pudesse vê-lo, o chefe Soto adotou um rosto sério para o discurso que ia fazer.

— Bom, Srta. Paradizo, ouça-me — começou ele. Depois sua expressão mudou completamente quando o sistema de segurança pirou de vez.

— Sim, chefe, estou ouvindo.

O chefe segurou o rádio com uma das mãos e com a outra apertou numerosos interruptores em seu console de segurança, rezando para que aquilo fosse um defeito.

— Parece haver todo um esquadrão de COS vindo para o castelo. Meu Deus, há alguns na casa, helicópteros, as câmeras do telhado estão captando helicópteros. — De repente as transmissões guincharam através do monitor de faixa. — E temos conversas. Eles estão atrás da senhorita e de seu prisioneiro. Meu Deus, todos os alarmes foram disparados. Em todos os setores. Estamos cercados! Precisamos evacuar. Posso vê-los, na linha das árvores. Eles têm um tanque. Como trouxeram um tanque aqui em cima?

Do lado de fora Artemis e Butler assistiam ao caos provocado por Potrus. Sirenes rasgavam o ar alpino e homens da segurança corriam para os postos preestabelecidos.

Butler lançou algumas granadas de fumaça no terreno para aumentar o efeito.

— Um tanque — disse Artemis secamente em seu microfone. — Você mandou um tanque para eles?

— Você penetrou no sistema de áudio? — perguntou Potrus irritado. — O que mais esse seu telefone pode fazer?

— Jogar paciência e campo minado — respondeu Artemis com inocência.

Potrus grunhiu em dúvida.

— Falaremos disso mais tarde, Garoto da Lama. Por enquanto vamos nos concentrar no plano.

— Excelente sugestão. Tem algum míssil teleguiado fantasma?

 

O chefe de segurança quase desmaiou. O radar havia captado duas trilhas espiralando da barriga de um helicóptero.

— Mon Dieu! Mísseis. Estão lançando bombas inteligentes contra nós. Precisamos evacuar agora.

Abriu um painel de Perspex, revelando um interruptor laranja embaixo. Com apenas um instante de hesitação, apertou o interruptor laranja. Os vários alarmes foram imediatamente cortados e substituídos por um gemido contínuo. O alarme de evacuação.

No momento em que ele soou, os seguranças mudaram de rumo e foram para seus veículos designados ou para os dos patrões, e os residentes de nanossegurança do castelo começaram a reunir dados sobre tudo que era mais precioso para eles.

Do lado leste da casa, uma série de portas de garagem se abriu e seis BMW pretos com tração nas quatro rodas saltaram no pátio como panteras. Um deles tinha os vidros escurecidos.

Artemis examinou a situação pelo binóculo.

— Olhem a garota — disse ao microfone minúsculo na palma da mão. — A garota é a chave. Acho que o veículo com janelas escuras é dela.

A garota, Minerva, saiu pelas portas do pátio, falando calmamente num walkie-talkie. O pai vinha atrás, arrastando Beau Paradizo, que protestava. Billy Kong vinha no final, ligeiramente encurvado sob o peso de uma grande bolsa de golfe.

— Lá vamos nós, Holly. Está pronta?

— Artemis! Eu sou a agente de campo aqui — foi a resposta irritada. — Fique fora da minha faixa a não ser que tenha algo com que contribuir.

— Eu só estava pensando...

— Eu só estava pensando que você deveria mudar seu sobrenome para Fanático por Controle.

Artemis olhou para Butler, que estava deitado ao lado e não pôde deixar de ouvir a troca de palavras.

— Fanático por controle? Dá para acreditar?

— Que desplante de certas pessoas! — respondeu o guarda-costas, sem desviar os olhos do castelo.

À esquerda deles, um pequeno trecho de terra começou a vibrar. Lama, grama e insetos foram jogados para cima num jorro súbito, seguidos por duas cabeças. Uma de anão e uma de duende-diabrete.

Duda subiu nos ombros de Palha e despencou no chão.

— Vocês são doidos — ofegou, tirando um besouro do bolso da camisa. — Eu deveria ganhar mais do que a anistia por isso. Deveria ganhar uma pensão.

— Quieto, homenzinho — disse Butler com calma. — A segunda fase do plano está para começar e não quero perder isso por causa de vocês.

Duda ficou branco.

— Nem eu. Quer dizer, nem eu ia querer que você perdesse isso. Por minha causa.

Fora da garagem do castelo, Billy Kong abriu o porta-malas de um BMW e jogou a bolsa de golfe dentro. Era o carro de janelas escuras.

Artemis abriu a boca para dar uma ordem, depois fechou de novo. Holly provavelmente sabia o que fazer.

Sabia mesmo. A porta do motorista se abriu um pouquinho, aparentemente por vontade própria, depois se fechou de novo. Antes que Minerva ou Billy Kong pudessem ao menos piscar de surpresa, o 4X4 deu a partida e riscou uma tira de seis metros de borracha, cantando pneus na direção do portão principal.

— Perfeito — disse Artemis baixinho. — Agora, Srta. Minerva Paradizo, pretenso gênio do crime, vamos ver até que ponto você é inteligente. Sei o que eu faria nessa situação.

A reação de Minerva Paradizo foi um pouco menos dramática do que seria de esperar de uma criança que acabou de ver sua posse mais preciosa ser roubada. Não houve xiliques nem bater de pés. Billy Kong também desafiou as expectativas. Nem mesmo sacou uma arma. Em vez disso se agachou, passou os dedos pelo cabelo estilo mangá e acendeu um cigarro, que Minerva imediatamente arrancou de seus lábios e esmagou com o pé.

Enquanto isso, o 4X4 estava se afastando, disparando em direção ao portão principal. Talvez Minerva estivesse confiando que a barreira de aço reforçado seria suficiente para fazer o BMW parar. Estava errada. Holly já havia enfraquecido os parafusos com sua Neutrino. Um toque da grade do veículo seria mais do que suficiente para arrancar os portões da frente.

Se ele chegasse tão longe. Não chegou. Depois de ter esmagado o cigarro de Kong, Minerva pegou um controle remoto no bolso, digitou um código curto e apertou o botão de ENVIAR. Na cabine do BMW, uma carga minúscula detonou no sistema de fluxo de ar, liberando uma nuvem de sevofluorano, um potente gás do sono. Em segundos o carro começou a bambolear, atravessando os arbustos da entrada de veículos e abrindo um talho no gramado perfeito.

— Problemas — disse Butler.

— Hmm — murmurou Artemis. — Imagino que seja um sistema de gás. Ação rápida. Possivelmente ciclopropano ou sevofluorano.

Butler se ajoelhou, sacando a pistola.

— Devo ir até lá e pegá-los?

— Não. Não deve.

Agora o BMW andava feito louco, seguindo as descidas e subidas da topografia do terreno. Destruiu um trecho do campo de minigolfe, pulverizou um caramanchão e decapitou uma estátua de centauro.

Centenas de quilômetros abaixo do subsolo, Potrus se encolheu.

O veículo finalmente parou num canteiro de lavandas, com o nariz para baixo, as rodas de trás girando, cuspindo nacos de argila e desenraizando flores roxas de caule comprido como se fossem mísseis.

Bela ação, pensou Palha, mas manteve a idéia consigo mesmo, totalmente cônscio de que talvez esse não fosse o momento para provocar a paciência de Butler.

Butler ia se levantando. Sua arma estava na mão, tinha os tendões do pescoço esticados, mas Artemis o segurou com um toque no antebraço.

— Não — disse ele. — Agora não. Sei que seu impulso é de ajudar, mas não é a hora.

O guarda-costas recolocou a pistola Sig Sauer de volta no coldre, com uma careta.

— Tem certeza, Artemis?

— Confie em mim, velho amigo.

E, claro, Butler confiou, mesmo que seus instintos não tivessem tanta certeza.

Dentro do terreno, uma dezena de seguranças se aproximavam cautelosos do veículo, liderados por Billy Kong. O sujeito se movia como um gato, nos calcanhares.

A seu sinal, os homens correram para o carro, pegando de volta a bolsa de golfe e tirando Holly inconsciente do banco do motorista. A elfo foi algemada com tiras de plástico e carregada pelo jardim até onde Minerva Paradizo e seu pai estavam esperando.

Minerva retirou o capacete de Holly e se ajoelhou para examinar as orelhas pontudas. Através do binóculo, Artemis podia ver claramente que Minerva estava sorrindo.

Tinha sido uma armadilha. Era tudo uma armadilha.

Minerva enfiou o capacete embaixo do braço e depois andou rapidamente para a casa. Na metade do caminho, parou e se virou. Abrigando os olhos da claridade solar, examinou as sombras e os picos das colinas ao redor.

— O que ela está procurando? — especulou Butler em voz alta.

Artemis não ficou imaginando. Sabia exatamente o que aquela garota surpreendente queria.

— Está procurando por nós, velho amigo. Se esse fosse o seu castelo, talvez você tentasse imaginar onde um espião iria se esconder.

— Claro. E foi por isso que escolhi este lugar. A localização ideal seria bem mais acima, naquele agrupamento de rochas, mas também seria o primeiro local onde qualquer especialista em segurança colocaria uma armadilha. Esta seria minha segunda escolha, portanto foi a primeira.

O olhar de Minerva passou pelo agrupamento de rochas e pousou na fileira de arbustos onde eles estavam escondidos. Não podia vê-los, mas seu intelecto lhe dizia que estavam ali.

Artemis focalizou o rosto bonito da garota. Ficou espantando, pensando que podia apreciar as feições de Minerva mesmo enquanto sua amiga era carregada em cativeiro. A puberdade era uma força poderosa.

Minerva estava sorrindo. Seus olhos eram brilhantes e provocavam Artemis, atravessando a distância entre os dois. Falou com ele em inglês. Artemis e Butler, ambos especialistas em leitura labial, não tiveram dificuldade para interpretar sua frase curta.

— Captou isso, Artemis? — perguntou Butler.

— Captei. E ela nos pegou.

Sua vez, Artemis Fowl — tinha dito Minerva.

Butler se recostou na vala, batendo a lama dos cotovelos.

— Achei que você era único, Artemis, mas aquela garota é esperta.

— É — pensou Artemis. — É um tremendo gênio juvenil do crime.

Abaixo do solo, no quartel-general da Seção Oito, Potrus gemeu em seu microfone.

— Fantástico — disse ele. — Agora são dois.

 

O N 1 estava tendo um sonho lindo. No sonho, sua mãe fazia uma festa surpresa para ele, em homenagem à sua formatura no colégio de feiticeiros. A comida era esplêndida. Os pratos eram cozidos, e a maioria da carne já estava morta.

Ele ia estendendo a mão para um faisão lindamente apresentado, num cesto feito de tiras de pão de ervas, como o descrito no capítulo três de A cerca viva de Lady Heatherington Smythe, quando de repente a visão recuou para a distância, com se a própria realidade estivesse sendo esticada.

O N° 1 tentou acompanhar a festa, mas ela foi cada vez mais para longe, e agora suas pernas não obedeciam e ele não conseguia entender por quê. Baixou os olhos e viu, horrorizado, que tudo, das axilas para baixo, havia se transformado em pedra. O vírus da pedra estava se espalhando para cima, pelo peito e o pescoço. O N° 1 sentiu uma ânsia de gritar, e de repente ficou aterrorizado com a hipótese de a boca virar pedra antes que conseguisse. Ser petrificado para sempre e guardar aquele grito dentro de si seria o horror definitivo.

Abriu a boca e gritou.

Billy Kong, que estivera esparramado numa poltrona, vigiando, estalou os dedos para uma câmera no teto.

— O feio está acordado — disse ele. — E acho que quer a mãe.

O N° 1 parou de gritar quando ficou sem fôlego. Foi um certo anticlímax, começando com um uivo luxuriante e terminado num gemido fraco.

Tudo bem, pensou. Estou vivo e na terra dos homens. Hora de abrir os olhos e descobrir até que ponto estou enfiado no poço de excremento.

Abriu os olhos cautelosamente, como se pudesse ver alguma coisa grande e dura vindo para seu rosto em alta velocidade. O que viu foi que estava num pequeno cômodo vazio. Havia luzes retangulares no teto, que lançavam a luz de mil velas, e a maior parte de uma das paredes era ocupada por um espelho. Havia um humano, provavelmente uma criança, talvez fêmea, com uma ridícula cabeleira de cachos louros e um dedo a mais em cada mão. A criatura usava uma roupa ridiculamente pouco prática, estilo toga, e sapatos com solas esponjosas com relâmpagos engastados nas laterais. Havia outra pessoa. Um homem magro, de postura frouxa e riso de desprezo, que batia na perna com um ritmo entrecortado. Os olhos do N° 1 foram atraídos para o cabelo do segundo humano. Havia pelo menos meia dúzia de cores nele. O sujeito era um pavão.

O N° 1 decidiu que talvez devesse levantar as mãos vazias para mostrar que não tinha arma, mas é difícil fazer isso quando se está amarrado numa cadeira.

— Estou amarrado numa cadeira — disse com ar de desculpas, como se a culpa fosse dele. Infelizmente falou isso em gnomês, no dialeto dos demônios. Para os humanos, pareceu que ele estava tentando soltar um pigarro particularmente irritante.

Resolveu não falar de novo. Sem dúvida diria a coisa errada e os humanos teriam de executá-lo de modo ritual. Felizmente a fêmea parecia ansiosa para bater papo.

— Olá, sou Minerva Paradizo, e este homem é o Sr. Kong — disse ela. — Consegue me entender?

Era tudo algaravia para o N° 1. Nenhuma palavra reconhecível do texto de A cerca viva de Lady Heatherington Smythe.

Sorriu encorajador para mostrar como apreciava o esforço.

— Você fala francês? — perguntou a garota loura, depois mudou de língua. — Que tal inglês?

O N° 1 se empertigou. Essa última parte era familiar. Inflexões estranhas, sem dúvida, mas as palavras estavam no livro.

— Inglês? — repetiu ele.

Era a língua de Lady Heatherington Smythe. Que ela aprendera no colo da mãe. Explorada nas salas de aula de Oxford. Usada para professar seu amor imortal pelo professor Rupert Smythe. O N° 1 adorava o livro. Algumas vezes acreditava que era o único. Nem Abbot parecia apreciar as partes românticas.

— Sim — disse Minerva. — Inglês. O último falava bastante bem. E francês também.

Os bons modos deviam ser apreciados em algum lugar fora de um livro, é o que o N° 1 sempre havia pensado, por isso decidiu fazer uma tentativa.

Rosnou, o que era o modo educado de um demônio pedir para falar diante dos superiores. Não devia ser assim que os humanos interpretavam isso, porque o humano magricelo pulou de pé, tirando uma faca.

— Não, gentil senhor — disse o N° 1 rapidamente, juntando algumas frases de Lady Heatherington. — Rogo que embainheis vossa arma. Trago apenas jubilosas alvíssaras.

O humano magricelo ficou confuso. Falava inglês tão bem quanto qualquer americano, mas aquele pirralho estava falando algum tipo de absurdo medieval.

Kong montou sobre o N° 1, encostando a faca em sua garganta.

— Fale direito, feioso — disse o homem, decidindo experimentar o taiwanês.

— Gostaria de ser capaz de entender — disse o N° 1, tremendo. Infelizmente falou isso em gnomês. — O que... bem... eu almejaria exprimir...

Não adiantava. Citações de Lady Heatherington que ele geralmente usava em qualquer momento simplesmente não apareciam sob pressão.

— Fale direito ou morra! — gritou o humano em sua cara. O N° 1 gritou de volta para ele.

— Como posso falar direito, seu filho de um cachorro de três pernas? Eu não falo taiwanês!

Tudo isso foi dito em perfeito taiwanês. O N° 1 ficou perplexo. O dom das línguas não era algo que os demônios possuíssem. A não ser os feiticeiros. Mais uma prova.

Pretendia pensar nisso por alguns instantes, agora que o humano com a faca havia recuado, mas de repente a beleza da linguagem explodiu em seu cérebro. Até mesmo sua própria língua, o gnomês, fora severamente mutilada pelos demônios. Havia milhares de palavras que tinham sido banidas do uso regular porque não se relacionavam com matar coisas ou comê-las, e não necessariamente nesta ordem.

— Cappuccino! — gritou, surpreendendo todo mundo.

— O quê? — perguntou Minerva.

— Que palavra maravilhosa. E “manobra”. E “balão”.

O magricelo guardou a faca no bolso.

— Agora ele está falando. Se for como nos vídeos do outro, que você me mostrou, nunca vamos conseguir que ele se cale.

— “Cor-de-rosa” — exclamou o N° 1 deliciado. — Não temos uma palavra para essa cor na língua comum dos demônios. Cor-de-rosa é considerado pouco demoníaco, por isso a ignoramos. É um alívio poder dizer cor-de-rosa!

— Cor-de-rosa — disse Minerva. — Fabuloso.

— Diga — pediu o N° 1 —, o que é algodão-doce? Conheço as palavras, e parece... esplêndido... mas a imagem na minha cabeça não pode ser precisa.

A garota pareceu satisfeita porque o N° 1 podia falar, mas ligeiramente irritada por ele ter esquecido sua situação.

— Podemos falar mais tarde de algodão-doce, demoniozinho. Há coisas mais importantes a discutir.

— Sim — concordou Kong. -— A invasão dos demônios, por exemplo.

O N° 1 revirou a frase na cabeça.

— Desculpe, meus dons talvez não estejam totalmente desenvolvidos. O único significado que tenho para “invasão” é a entrada de uma força armada num território.

— Foi isso que eu quis dizer, seu sapo.

— De novo estou meio confuso. Meu novo vocabulário está dizendo que sapo é um... anfíbio... — O rosto do N° 1 ficou consternado. — Ah, sei, você está me insultando.

Kong fez uma careta na direção de Minerva.

— Acho que eu preferia quando ele falava como um filme antigo.

— Eu estava citando as escrituras — explicou o N° 1, gostando da forma daquelas palavras novas em sua boca. — O livro sagrado A cerca viva de Lady Heatherington Smythe.

Minerva franziu a testa, olhando para o teto enquanto pensava.

— Lady Heatherington Smythe. Por que isso é familiar?

— A cerca viva de Lady Heatherington Smythe é a fonte de todo o nosso conhecimento sobre os humanos. Lorde Abbot o trouxe para nós. — O N°1 mordeu o lábio, interrompendo a própria falação. Já havia dito muito. Aqueles humanos eram o inimigo, e ele lhes dera a planta baixa dos planos de Abbot. Planta baixa. Bela expressão.

Minerva bateu palmas uma vez, com força. Tinha encontrado a lembrança que estava procurando.

— Lady Heatherington Smythe. Meu Deus, aquele romance ridículo! Lembra, Sr. Kong?

Kong deu de ombros.

— Não leio ficção. Só manuais.

— Não, lembra-se do vídeo do outro demônio? Nós o deixamos pegar um livro: ele o carregava de um lado para o outro, como um cobertor de segurança.

— Ah, sim. Lembro. Bodezinho idiota. Sempre andando com aquele livro idiota.

— Sabe, você está se repetindo — disse o N° 1 falando nervoso. — Há outras palavras para dizer idiota. “Bronco”, “tapado”, “bestalhão”, “estúpido”, só para citar algumas. Posso falar em taiwanês, se você preferir.

Uma faca apareceu na mão de Kong como se viesse de lugar nenhum.

— Uau — disse o N° 1. — Isso é um verdadeiro talento. Na verdade, uma execução brilhante.

Kong ignorou o elogio, virando a faca de modo a segurar pela lâmina.

— Cale a boca, criatura. Ou isso vai penetrar entre seus olhos. Não me importa o quanto você seja valioso para a Srta. Paradizo. Para mim, você e as criaturas do seu tipo são simplesmente algo a ser apagado da face da terra.

Minerva cruzou os braços.

— Vou agradecer, Sr. Kong, se não ameaçar nosso convidado. Você trabalha para o meu pai e fará o que meu pai mandar. E tenho quase certeza de que meu pai lhe disse para manter um vocabulário educado.

Minerva Paradizo podia ser um talento precoce em muitas áreas, mas devido à idade, tinha experiência limitada. A partir dos estudos, sabia como ler linguagem corporal, mas não sabia que um hábil artista marcial podia treinar para controlar o corpo de modo que os sentimentos ficassem escondidos. Um verdadeiro discípulo da disciplina teria notado a tensão súbita dos tendões no pescoço de Billy Kong. Era o sujeito se controlando.

Ainda não, dizia sua postura. Ainda não.

Minerva retornou a atenção para o N° 1.

— Você disse A cerca viva de Lady Heathering Smythe?

O N° 1 confirmou com a cabeça. Estava com medo de falar, para o caso de sua boca vazar mais informações do que já havia feito até agora.

Agora Minerva falou para o grande espelho.

— Lembra, papai? O romance mais ridículo e cheio de frescuras, que dá vontade de evitar como se fosse a peste. Eu adorava quando tinha 6 anos. É sobre uma aristocrata inglesa do século XIX. Ah, quem é a autora?... Carter Cooper Barbison. A garota canadense. Tinha 18 anos quando escreveu. Não fez absolutamente nenhuma pesquisa. Fazia os nobres do século XIX falarem como se fossem do ano 1.500. Lixo completo, e por isso obviamente foi um sucesso mundial. Bem, parece que nosso velho amigo Abbot o levou para casa. Aquele demônio metido a besta conseguiu vendê-lo como se fosse a verdade do evangelho. Parece que fez o resto dos demônios cita Cooper Barbison como se ela fosse uma evangelista.

O N° 1 rompeu seu voto de não falar.

— Abbot? Abbot esteve aqui?

— Mais oui — disse Minerva, pousando as mãos nos joelhos. — Como você acha que soubemos como encontrá-lo? Abbot nos contou tudo.

Uma voz estrondeou num alto-falante de parede.

— Nem tudo. Os números dele estavam errados. Mas minha jovem gênio Minerva deduziu. Vou lhe dar um pônei por isso, querida. Da cor que você quiser.

Minerva acenou para o espelho.

— Obrigada, papai. Você já deveria saber que não gosto de pôneis. Nem de balé.

O alto-falante gargalhou.

— Esta é a minha menininha. Que tal uma viagem à Disney de Paris? Você poderia se vestir de princesa.

— Talvez depois do comitê de seleção — respondeu Minerva com um sorriso. Mas era um sorriso ligeiramente forçado. No momento não tinha tempo para sonhos com a Disney. — Depois de eu ter certeza da indicação para o Nobel. Temos menos de uma semana para interrogar nossos prisioneiros e organizar a viagem segura até a Academia Real em Estocolmo.

O N° 1 tinha outra pergunta importante.

— E A cerca viva de Lady Heatherington Smythe? Não é verdadeiro?

Minerva deu um riso deliciado.

— Verdadeiro? Meu queridinho. Nada poderia estar mais longe da verdade. Aquele livro é um testamento abominável da inventividade hormonal adolescente.

O N° 1 ficou perplexo.

— Mas eu estudei aquele livro. Durante horas. Representei cenas. Fiz figurinos. E você está dizendo que não existe a Mansão Heatherington?

— Não existe a Mansão Heatherington.

— Nem o maligno príncipe Karloz?

— Ficção.

O N° 1 se lembrou de uma coisa.

— Mas Abbot voltou com uma balestra, exatamente como no livro. Isso é prova.

Kong entrou na conversa; afinal de contas, esta era sua área de especialização.

— Balestras? Isso é história antiga, sapo. Hoje usamos coisas como esta. — Billy Kong sacou uma pistola de cerâmica de um coldre enfiado na axila. — Esta belezinha dispara fogo e morte. E temos outras muito maiores. Viajamos pelo mundo em nossos pássaros de metal e jogamos ovos explosivos sobre nossos inimigos.

O N° 1 fungou.

— Aquela coisinha dispara fogo e morte? Pássaros de metal que voam? Acho que vocês comem chumbo e sopram bolhas de ouro, também.

Kong não reagia bem ao cinismo, em especial vindo de uma pequena criatura reptiliana. Num movimento fluido, soltou a trava de sua arma e disparou três tiros, arrebentando o apoio de cabeça da cadeira do N° 1. O rosto do imp foi coberto de fagulhas e lascas, e o som dos tiros ecoou como trovão no espaço confinado.

Minerva ficou furiosa. Começou a gritar muito antes que qualquer um pudesse ouvi-la.

— Saia daqui, Kong. Fora!

Continuou gritando isso, ou palavras parecidas, até que os ouvidos de todos pararam de zumbir. Quando Minerva percebeu que Billy Kong estava ignorando as ordens, passou a falar em taiwanês.

— Eu disse para meu pai não empregá-lo. Você é um homem impulsivo e violento. Estamos realizando uma experiência científica. Este demônio não vai me servir se estiver morto, entende, seu imprudente? Preciso me comunicar com nosso hóspede, de modo que você precisa sair porque obviamente o está aterrorizando. Vá agora, eu aviso, caso contrário seu contrato será encerrado.

Kong coçou o nariz. Estava sendo necessário cada fiapo de paciência para não se livrar agora mesmo daquela criança resmungona e se arriscar com a segurança dela. Mas seria idiotice arriscar tudo porque não podia controlar o humor por mais algumas horas. Por enquanto teria de se contentar com mais insolências.

Kong tirou um pequeno espelho do bolso da calça e repuxou as mechas do cabelo cheias de gel.

— Vou agora, menininha, mas veja como fala comigo. Talvez venha a se arrepender.

Minerva formou um V e um C com as mãos.

— Vá se catar — disse.

Kong guardou o espelho, piscou para o N° 1 e saiu. O N° 1 não se sentiu reconfortado com a piscadela. No mundo dos demônios, você piscava para o oponente durante a batalha para deixar clara sua intenção de matá-lo em seguida. O N° 1 ficou com a clara impressão de que aquele humano de cabelo espetado tinha essa mesma intenção.

Minerva suspirou, demorou um momento se recompondo e retomou a entrevista com o prisioneiro.

— Vamos começar do princípio. Qual é o seu nome?

O N° 1 achou que era seguro responder.

— Não tenho nome de verdade, porque não me metamorfoseei. Antigamente me preocupava com isso, mas agora acho que tenho muito mais com que me preocupar.

Minerva percebeu que suas perguntas tinham de ser bem mais específicas.

— Como as pessoas chamam você?

— Quer dizer, as pessoas humanas? Ou os outros demônios?

— Demônios.

— Ah... certo. Eles me chamam de N° 1.

— N° 1?

— Isso mesmo. Não é grande coisa como nome, mas é só isso que tenho. E me consolo com o fato de que é melhor do que N°2.

— Sei. Bem, então, N° 1, acho que você gostaria de saber o que está acontecendo.

Os olhos do N° 1 estavam arregalados e imploravam.

— Sim, por favor.

— Há dois anos um membro da sua legião se materializou aqui. Simplesmente apareceu no meio da noite na estátua de D’Artagnan no pátio. Ele teve sorte em não ser morto. A espada de D’Artagnan cortou um dos seus braços. A ponta quebrou dentro.

— A espada era de prata? — perguntou o N° 1.

— Sim. Era. Mais tarde percebemos que a prata o ancorou nesta dimensão; caso contrário ele seria atraído para seus próprios tempo e espaço. Claro, o demônio era Abbot. Meus pais queriam chamar a polícia, mas eu os convenci a trazer a pobre criatura semimorta aqui para dentro. Papai tem uma pequena sala de cirurgia aqui, usada para os pacientes mais paranóicos. Ele tratou das queimaduras de Abbot, mas só percebemos a ponta de prata algumas semanas depois, quando o ferimento infeccionou e papai fez um raio X. Abbot era fascinante de se observar. Inicialmente, e por muitos dias, tinha fúrias psicóticas sempre que um humano se aproximava. Tentou matar todos nós e prometeu que seu exército viria exterminar a humanidade da face da terra. Tinha longas discussões consigo mesmo. Era mais do que uma personalidade dividida. Era como se houvesse duas pessoas num corpo. Um guerreiro e um cientista. O guerreiro ficava furioso e se sacudia, então o cientista escrevia cálculos na parede. Eu sabia que estava vendo uma coisa importante. Uma coisa revolucionária. Havia descoberto uma nova espécie, ou melhor, redescoberto uma antiga. E se Abbot realmente fosse trazer um exército de demônios, era meu dever salvar vidas. Humanas e de demônios. Mas é claro que sou apenas uma criança, então ninguém iria me ouvir. Mas se eu pudesse registrar isso e apresentar ao Comitê do Nobel em Estocolmo, poderia ganhar o prêmio de física e estabelecer os demônios como uma espécie protegida. Salvar uma espécie me daria uma certa satisfação, e nenhuma criança já recebeu esse prêmio, nem mesmo o grande Artemis Fowl.

Algo vinha deixando o N° 1 perplexo.

— Você não é um pouco jovem para estar estudando outras espécies? E é uma garota. Aquela oferta do pônei feita pela caixa mágica de voz pareceu bastante boa.

Minerva obviamente já havia encontrado esse tipo de atitude.

— Os tempos estão mudando, demônio — disse rispidamente. — As crianças são muito mais inteligentes do que antigamente. Estamos escrevendo livros, dominando computadores, despedaçando mitos científicos. Sabia que a maior parte dos cientistas nem reconheceria a existência da magia? Assim que adicionamos magia à equação da energia, quase todas as leis atuais da física se revelam tremendamente falhas.

— Sei — disse o N° 1, sem convencer a ninguém.

— Tenho a idade exata para este projeto — acrescentou Minerva. — Sou suficientemente jovem para acreditar em magia e velha o suficiente para entender como funciona. Quando eu apresentar você em Estocolmo e mostrarmos nossa tese sobre viagem no tempo e magia como energia elemental, será um momento histórico. O mundo terá de levar a magia a sério e se preparar para a invasão!

— Não existe invasão — protestou o N° 1.

Minerva sorriu, como faria uma professora de jardim de infância para uma criança mentirosa.

— Sei tudo a respeito dela. Assim que a personalidade guerreira de Abbot ficou dominante, ele contou sobre a Batalha de Taillte e como os demônios retornariam e travariam uma guerra terrível contra os Homens da Lama, como ele nos chamava. Havia um monte de sangue e desmembramento envolvido.

O N° 1 assentiu. Parecia mesmo coisa do Abbot.

— É o que Abbot acreditava, mas as coisas mudaram.

— Eu expliquei isso a ele. Expliquei que ele saltara pelo espaço e o tempo por 10 mil anos, e que desde então havíamos percorrido um longo caminho. Há mais de nós do que antigamente, e que não usávamos mais balestras.

— Não usavam? Não usam?

— Você viu a arma do Sr. Kong. Ela é apenas um exemplo minúsculo do tipo de armas que temos. Mesmo que toda a sua legião de demônios chegasse junta, armada até os dentes, demoraríamos apenas uns dez minutos para trancar todos.

— É isso que vocês vão fazer? Nos trancar?

— Esse era o plano, sim — admitiu Minerva. — Assim que Abbot percebeu que os demônios jamais poderiam nos derrotar, mudou de tática. Voluntariamente explicou a mecânica do túnel do tempo, e em troca eu lhe dei livros para ler e armas antigas para examinar. Depois de ler alguns dias, ele pediu para ser chamado de Abbot, por causa do general Leon Abbot, do livro. Eu soube que assim que apresentasse Leon Abbot em Estocolmo seria fácil conseguir verbas para uma força-tarefa internacional. Sempre que um demônio aparecesse, poderíamos ancorá-lo com prata e abrigá-lo numa comunidade artificial de demônios para ser estudado. O Zoológico do Central Park era minha localização preferida.

O N° 1 procurou a palavra “zoológico” em seu novo vocabulário.

— Os zoológicos não são para animais?

Minerva olhou para os pés.

— Sim. Estou repensando isso, em especial depois de conhecer você. Você parece bastante civilizado, não como o tal de Abbot. Ele era um animal. Quando chegou, nós cuidamos de seus ferimentos, restauramos sua saúde, e tudo que ele fez foi tentar nos comer, por isso não tivemos alternativa a não ser contê-lo.

— Então vocês não vão mais nos trancar num zoológico?

— Na verdade, eu não tenho escolha. A julgar pelos meus cálculos, o túnel do tempo está se desmanchando nas duas extremidades e se deteriorando ao longo do eixo. Logo qualquer cálculo será indigno de confiança e será impossível prever onde ou quando os demônios vão se materializar. Acho, N° 1, que sua legião não tem muito tempo antes de desaparecer por completo.

O N° 1 estava pasmo. Era mais informação do que qualquer pessoa poderia absorver num dia. Por algum motivo, a demônia com marcas vermelhas lhe veio à mente.

— Há algum modo de ajudar? Nós somos seres inteligentes, você sabe. Não somos animais.

Minerva se levantou e andou de um lado para o outro, esticando um de seus cachos em forma de saca-rolha.

— Andei pensando um pouco nisso. Não há nada que possa ser feito sem magia, e Abbot me disse que todos os feiticeiros morreram durante a transição.

— É verdade. — O N° 1 não mencionou que talvez ele fosse um feiticeiro. Algo lhe disse que esta informação era valiosa, e não era boa idéia revelar muita informação valiosa para uma pessoa que amarrou a gente numa cadeira. Já havia falado demais.

— Talvez, se Abbot soubesse do feitiço do tempo, não tivesse se mostrado tão ansioso para voltar a Hybras — supôs Minerva. — Papai lhe disse que havia uma lasca de prata em seu braço, e naquela mesma noite ele a arrancou com as unhas e desapareceu. Temos tudo gravado. Todo dia eu ficava pensando se ele havia conseguido voltar para casa.

— Conseguiu — disse o N° 1. — O feitiço do tempo o levou direto para o início. Ele nunca disse nada sobre este lugar. Só apareceu com o livro e a balestra, dizendo que era nosso salvador. Era tudo mentira.

— Bem — suspirou Minerva, e pareceu lamentar genuinamente. — Não tenho absolutamente nenhuma idéia de como salvar a legião. Talvez sua amiguinha lá na outra sala possa ajudar, quando acordar.

— Que amiguinha? — perguntou o N° 1, perplexo.

— A que nocauteou Bobo, meu irmão. A criaturinha que capturamos tentando resgatar você — explicou Minerva. — Ou, mais exatamente, tentando resgatar uma bolsa de golfe vazia. Ela parece uma criatura mágica. Talvez possa ajudar.

Quem ia querer resgatar uma bolsa de golfe?, pensou o N° 1.

A porta se abriu um pouquinho e a cabeça de Juan Soto apareceu.

— Minerva?

— Agora não — respondeu ela bruscamente, acenando para o homem sair.

— Telefone para você.

— Não estou para ninguém. Anote o número.

O segurança insistiu; entrou na sala, com uma das mãos sobre o bocal de um telefone sem fio.

— Acho que talvez você queira falar com esta pessoa. Ele diz que se chama Artemis Fowl.

— Vou atender — disse ela, pegando o aparelho.

O capacete de campo da LEPrecon é um equipamento incrível. O capacete de campo da Seção Oito, por outro lado, é um milagre da ciência moderna. Comparar os dois seria o mesmo que comparar uma espingarda de pederneira a um fuzil de atirador de elite com mira a laser.

Potrus havia se aproveitado totalmente de seu orçamento quase ilimitado para ceder a cada fantasia tecnológica e encher o capacete com cada peça de diagnóstico, vigilância, defesa e simplesmente coisas maneiras que pudesse enfiar ali dentro.

O centauro tinha um enorme orgulho de todo o pacote. Mas se fosse obrigado a escolher apenas um acréscimo para alardear, escolheria sempre as bolsas de ricochete.

As bolsas de ricochete, em si, não eram um acréscimo recente. Até os capacetes civis tinham bolsas de gel entre as cascas externa e interna, que proporcionavam um pouco de proteção extra no caso de choque. Mas Potrus havia substituído a casca rígida externa do capacete por um polímero mais maleável, depois havia trocado o gel eletrossensível por minúsculas gotas eletrossensíveis. As gotas podiam ser controladas com pulsos eletrônicos para se expandir, contrair, rolar ou se agrupar, dando ao capacete um sistema de propulsão simples, porém tremendamente eficaz.

Essa pequena maravilha não voa, mas pode ricochetear sempre que você quiser, tinha dito Potrus antes, quando Holly pegava seu equipamento. Só os comandantes recebem os capacetes voadores. Mas eu não os recomendaria; já aconteceu de o campo do motor alisar permanentes no cabelo. Não que eu esteja dizendo que você fez permanente. Ou que precisa fazer, por sinal.

Enquanto o N° 1 era interrogado por Minerva, Potrus estava flexionando os dedos sobre os controles remotos do capacete da Seção Oito de Holly. No momento o capacete estava trancado numa caixa-forte de aramado nos fundos do escritório da segurança.

Potrus gostava de cantar uma musiquinha enquanto trabalhava. Neste caso, a música era um clássico Curva do Rio: “Se parece um anão e cheira a anão, deve ser um anão (ou uma latrina vestida de macacão).” Era um título relativamente curto para uma música do gênero Curva do Rio, o equivalente do country humano.

 

Quando tenho coceira e não posso coçar,

Quando tem lesma no meu cozido de rato,

Quando minha careca começa a queimar

De ti me lembro de fato...

 

Por consideração, Potrus havia desligado seu microfone, de modo que Artemis não teria chance de ser contra sua cantoria. Na verdade estava usando uma antena muito antiga para mandar seu sinal, na esperança de que ninguém da Delegacia Plaza captasse a transmissão. A Cidade do Porto estava trancada, e isso significava que não poderia haver comunicações com a superfície. Potrus estava desobedecendo voluntariamente às ordens do comandante Ark Sool. E se divertia um bocado com isso.

O centauro pôs um par de óculos virtuais para enxergar tudo que estivesse diante do capacete. Não somente isso, mas a capacidade de janelas múltiplas dos óculos lhe dava visão traseira e lateral das câmeras do capacete. Potrus já tinha o controle dos sistemas de segurança do castelo; agora queria dar uma espiadinha nos arquivos de computador deles, algo que não poderia fazer do QG da Seção Oito, especialmente com a LEP querendo impedir que qualquer sinal saísse da cidade.

O capacete era naturalmente equipado com capacidade onissensora sem fios, mas quanto mais perto ele pudesse chegar de um disco rígido de verdade, mais rapidamente o serviço seria concluído.

Potrus apertou um comando em seu teclado virtual. Para qualquer um que estivesse olhando, pareceria que o centauro estava tocando um piano invisível, mas de fato os óculos virtuais interpretavam o movimento como teclas sendo apertadas. Uma pequena caneta a laser saiu de um compartimento oculto logo acima da almofada de ouvido direito do capacete de Holly.

Potrus apontou para o mecanismo de tranca da caixa de aramado.

— Carga de um segundo. Disparar. — Nada aconteceu, por isso Potrus xingou brevemente, ligou o microfone e tentou de novo.

— Carga de um segundo. Disparar.

Desta vez um raio vermelho pulsou da ponta da caneta e a fechadura derreteu, virando uma papa metálica.

É sempre bom ter o equipamento ligado, pensou Potrus, feliz porque ninguém havia testemunhado seu erro, especialmente Artemis Fowl.

Apontou para um computador de mesa do lado mais distante do escritório, com um olhar e três piscadelas.

— Computar ricochete — ordenou ao capacete, e quase imediatamente uma flecha animada apareceu na tela, mergulhando uma vez no chão e depois subindo até a mesa do computador.

— Executar ricochete — disse Potrus, e sorriu quando sua criação rolou, ganhando vida. O capacete bateu no chão com um ping de bola de basquete. Depois ricocheteou na sala, subindo diretamente na mesa do computador.

— Perfeito, você é um gênio — disse Potrus, parabenizando-se. Algumas vezes suas próprias realizações enchiam seus olhos de lágrimas.

Gostaria que Cavalline visse isso, pensou. E depois: Caramba, devo estar ficando seriamente ligado nessa garota.

Cavalline era uma centaura que ele havia encontrado numa galeria no centro da cidade. De dia era pesquisadora da PPTV e à noite era escultora. Uma dama muito inteligente, e sabia tudo sobre Potrus. Aparentemente Cavalline era grande fã do cobertor de humor, uma vestimenta multissensores, de massagem e homeopática, desenhada por Potrus especificamente para os centauros. De modo que falaram sobre isso durante meia hora. Uma coisa levou a outra e agora ele se pegava trotando com ela toda noite. Sempre que não havia uma emergência.

Coisa que há agora!, lembrou-se, voltando a atenção para o trabalho.

O capacete estava ao lado do teclado do computador humano, com o onissensor apontado diretamente para o disco rígido.

Potrus olhou para o disco rígido e piscou três vezes, selecionando-o na tela.

— Baixar todos os arquivos daí e de qualquer computador em rede — instruiu o centauro, e imediatamente o capacete começou a sugar informações do Apple Mac.

Depois de vários segundos, uma garrafa animada na tela dos óculos virtuais estava cheia até o gargalo, e arrotou. Transferência completa. Agora poderiam descobrir exatamente quanta informação aqueles humanos tinham e onde a estavam conseguindo. Mas ainda havia a questão dos arquivos de back-up. Esse grupo poderia ter gravado as informações em CDs ou até mandado por e-mail e guardado na Internet.

Potrus usou o teclado virtual para abrir uma pasta de carga de dados e mandar um vírus para o computador humano. A carga apagaria completamente todos os computadores da rede, mas antes disso correria por qualquer caminho da Internet explorado por aqueles humanos e apagaria completamente os sites. Potrus gostaria de ser um pouquinho mais delicado com isso e só apagar os arquivos relacionados com o povo das fadas, mas não podia se dar ao luxo de correr riscos com aquele grupo misterioso. O simples fato de terem evitado a detecção por tanto tempo era prova de que não poderia brincar com eles.

Esse era um grande vírus para penetrar num sistema humano. Provavelmente detonaria milhares de sites, inclusive o Google e o Yahoo, mas Potrus achava que não tinha outra opção.

Na tela de Potrus, a carga de dados apareceu como uma chama vermelha tremeluzente que ria maldosa enquanto mergulhava no jorro de dados do onissensor. Em cinco minutos os discos rígidos dos Paradizo seriam queimados, sem condições de conserto. E, como um bônus a mais, a carga também iria se ligar a qualquer equipamento de armazenamento que estivesse ao alcance do sensor e tivesse a assinatura da rede. E assim, qualquer informação guardada em CDs ou flash drives iria se desintegrar assim que alguém tentasse carregá-las. Era um negócio poderoso, e não havia firewall nem antivírus que pudesse impedir.

A voz de Artemis saiu de dois alto-falantes de gel sobre a mesa, interrompendo sua concentração.

— Há um cofre de parede no escritório. É onde Minerva guarda as anotações. Você precisa queimar tudo que haja dentro.

— Cofre de parede — respondeu Potrus. — Vejamos.

O centauro fez um exame com raio X na sala e encontrou o cofre atrás de uma fileira de estantes. Se tivesse tempo, ele gostaria de examinar todo o conteúdo, mas tinha um encontro marcado. Mandou para as entranhas do cofre um facho de laser concentrado com a largura de uma linha de pesca, reduzindo o conteúdo a cinzas. Esperava estar destruindo mais do que as jóias de família.

O exame por raio X não revelou mais nada promissor, por isso Potrus fez as contas do capacete girar, derrubando-o da mesa. Numa demonstração de virtuosismo com o teclado, usou o laser para escavar uma parte da base da porta do escritório enquanto o capacete ainda estava no ar. Em dois ricochetes coreografados, o capacete passou pelo buraco e saiu no corredor.

Potrus riu satisfeito.

— Nem tocou a madeira — disse ele.

O centauro baixou uma planta do castelo Paradizo e a sobrepôs na grade de sua tela. Havia dois pontos na grade. Um era o capacete, o outro Holly. Estava na hora de os dois se reunirem.

Enquanto trabalhava, Potrus cantou inconscientemente uma estrofe da cantiguinha Curva do Rio.

 

Quando minha sorte vai embora de fato,

Quando fico preso no buraco em que caí,

Quando um caminhão atropela meu gato,

Penso um pouquinho em ti.

 

Na superfície do planeta, Artemis se encolheu quando a canção ressoou em seu fone minúsculo e ao longo do polegar.

— Por favor, Potrus — disse em voz dolorida. — Estou tentando negociar na outra linha.

Potrus relinchou, surpreso. Havia se esquecido de Artemis.

— Algumas pessoas não têm Curva do Rio na alma — disse ele, desligando o microfone.

 

Billy Kong concluiu que trocaria uma palavrinha com a nova prisioneira. A fêmea. Se é que era mesmo fêmea. Como teria certeza de que classe de criatura era aquela? Parecia uma garota, mas talvez as garotas demônias não fossem como as humanas. Por isso Billy Kong achou que poderia perguntar àquilo o que, exatamente, aquilo era, dentre outras coisas. Se a criatura decidisse não responder, Kong não se importava. Havia modos de persuadir as pessoas a falar. Pedir com gentileza era um. Dar doce era outro. Mas Billy Kong preferia a tortura.

No início dos anos 80, quando Billy Kong ainda era o simples e velho Jonah Lee, havia morado na cidade costeira de Malibu, na Califórnia, com sua mãe, Annie, e o irmão mais velho, Eric.

Annie tinha dois empregos para manter os garotos e comprar seus tênis, por isso Jonah ficava com Eric à noite. Isso deveria ter dado certo. Eric tinha 16 anos, idade suficiente para cuidar do irmão mais novo. Mas, como a maioria dos garotos de 16 anos, tinha mais coisas em mente do que os irmãos menores. Na verdade, cuidar de Jonah estava interferindo seriamente com sua vida social.

O problema, como Eric percebia, era que Jonah era um garoto que gostava de ficar na rua. Assim que Eric saía para encontrar os amigos, Jonah ignorava as ordens do irmão mais velho e ia para a noite da Califórnia. E a rua não era lugar para um garoto de oito anos. De modo que o que Eric precisava era bolar um esquema que mantivesse Jonah dentro de casa e permitisse a Eric andar livre.

Descobriu a estratégia perfeita por acaso, uma noite, ao voltar para casa depois de uma discussão noturna com o outro namorado de sua namorada e os irmãos dele.

Pela primeira vez Jonah não havia se aventurado na rua, estava diante da televisão, assistindo a um programa de terror na TV a cabo pirata. Eric, que sempre havia sido impulsivo e abusado, tinha começado a sair com a namorada de um bandido da área. Agora a notícia havia se espalhado e a quadrilha estava atrás dele. Já haviam pegado meio pesado, mas ele tinha conseguido se livrar. Estava sangrando e exausto, mas ainda se divertindo um pouco.

— Tranque as portas — gritou para o irmão mais novo, arrancando-o do estupor diante da TV.

Jonah se colocou de pé num salto, os olhos se arregalando ao ver o nariz e o lábio sangrando de Eric.

— O que aconteceu?

Eric riu. Ele era desse tipo de pessoa — exausto, espancado, mas cheio de adrenalina.

— Eu fui... Tinha um monte de...

E então parou, porque a fagulha de uma idéia ricocheteava na sua cabeça. Ele devia estar parecendo bem machucado. Talvez pudesse usar isso para manter o pequeno Jonah dentro de casa enquanto a mãe estivesse trabalhando.

— Não posso contar — disse, esfregando uma mancha de sangue no rosto com uma das mangas da camisa. — Fiz um juramento. Só tranque as portas e feche as cortinas.

Em geral Jonah não tinha tempo para as armações teatrais do irmão, mas esta noite havia sangue e horror na TV, e ele podia ouvir passos na entrada de veículos.

— Droga, eles me encontraram — xingou Eric, espiando pela veneziana.

O pequeno Jonah segurou a manga da camisa do irmão.

— Quem encontrou você, Eric? Você tem de contar.

Eric pareceu pensar no assunto.

— Tudo bem — disse finalmente. — Eu pertenço a uma... é... sociedade secreta. Nós lutamos contra um inimigo secreto.

— Como? Tipo uma gangue?

— Não. Nós lutamos contra demônios.

— Demônios? — perguntou o pequeno Jonah, meio cético, meio morrendo de medo.

— É. Eles estão espalhados por toda a Califórnia. De dia são caras normais. Contadores e jogadores de basquete, coisas assim. Mas à noite eles tiram a pele e saem caçando garotos. Que ainda não são adolescentes.

— Que ainda não são adolescentes? Que nem eu?

— Que nem você. Exatamente que nem você. Encontrei uns demônios mastigando duas gêmeas. Deviam ter uns oito anos. Matei a maioria, mas alguns devem ter me seguido até em casa. Temos de ficar bem quietos para eles irem embora.

Jonah correu para o telefone.

— Vamos chamar a mamãe.

— Não! — disse Eric agarrando o telefone. — Quer que mamãe seja morta? É isso que você quer?

A idéia de sua mãe ser morta fez Jonah começar a chorar.

— Não. Mamãe não pode morrer.

— Exatamente — disse Eric com gentileza. — Você tem de deixar a matança dos demônios por minha conta e dos meus amigos. Quando você tiver 15 anos, vai fazer um juramento, mas até lá esse é o nosso segredo. Você fica em casa e me deixa cumprir meu dever. Promete?

Jonah assentiu, choramingando demais para conseguir dizer a palavra.

Assim os irmãos sentaram-se juntos no sofá enquanto os irmãos do namorado da namorada de Eric batiam na janela e o chamavam para fora.

Esse é um truque cruel, pensou Eric. Talvez eu deixe isso correr por uns dois meses. Vai manter o moleque longe de encrenca até tudo se acalmar.

A mentira funcionou bem. Jonah não colocou os pés para fora de casa depois do anoitecer durante semanas. Ficava sentado no sofá com os joelhos junto ao queixo, esperando Eric voltar com elaboradas histórias de matança de demônios. Toda noite ele temia que o irmão não retornasse, que os demônios o matassem.

Uma noite os temores se concretizaram. Os policiais disseram que Eric tinha sido morto por uma famosa gangue de irmãos que o andavam procurando. Tinha a ver com uma garota. Mas Jonah sabia que não era isso. Sabia que os demônios haviam feito aquilo. Tinham arrancado os rostos e matado seu irmão.

 

Assim Jonah Lee, atualmente conhecido como Billy Kong, foi ver Holly, carregando o peso das lembranças de infância. Em nome de sua sanidade, havia conseguido se convencer, no passar das décadas, que não existiam demônios, que seu irmão adorado havia mentido para ele. Essa traição lhe fizera mal durante anos, impedindo-o de formar relacionamentos duradouros e tornando muito mais fácil machucar pessoas. E agora essa louca da Minerva estava lhe pagando para ajudar a caçar demônios de verdade, e por acaso eles eram reais. Billy tinha visto com os próprios olhos.

Nesse estágio, Billy Kong não conseguia separar fato de ficção. Parte dele acreditava que havia sofrido um acidente ruim e que tudo isso eram alucinações do coma. Billy só tinha certeza de que, se houvesse a mínima chance de que aqueles demônios fossem os mesmos que haviam matado Eric, eles iriam pagar. Ele queria vingança.

 

Holly não estava muito satisfeita em bancar a vítima. Já tivera o bastante na Academia. Sempre que o currículo inventava um jogo de personagens, Holly, como a única garota da turma, era escolhida como refém, ou a elfo que estava indo sozinha para casa, ou a caixa de banco diante de um assaltante. Havia tentado ser contra, dizendo que tudo isso eram estereótipos, mas o instrutor respondeu que os estereótipos eram estereótipos por algum motivo, e ponha aquela peruca loura. Assim, quando Artemis propôs que ela se permitisse ser apanhada, Holly precisou de muita persuasão. Agora estava amarrada numa cadeira numa sala úmida do subsolo, esperando que algum humano viesse torturá-la. Na próxima vez em que Artemis tivesse um plano envolvendo alguém como refém, ele mesmo poderia fazer o papel. Era ridículo. Ela era capitã e tinha mais de 80 anos, e Artemis era um civil de 14. No entanto ele dava as ordens e ela obedecia.

Isso porque Artemis é um gênio tático, disse seu lado sensato.

Ah, cale a boca, respondeu eloqüente seu lado irritado.

E então Billy Kong entrou na sala e começou a irritar Holly ainda mais. Deslizou pelo piso como um fantasma pálido, com o cabelo cheio de gel, circulando ao redor de Holly várias vezes antes de falar.

— Diga uma coisa, demônio. Você pode arrancar o próprio rosto?

Holly o encarou.

— Com o quê? Meus dentes? Estou de mãos amarradas, imbecil.

Billy Kong suspirou. Ultimamente, todo mundo com menos de 1,50 metro de altura parecia achar que tem á prerrogativa de agredi-lo verbalmente.

— Você provavelmente sabe que eu não deveria matá-la — disse Billy, esticando as pontas dos cabelos. — Mas freqüentemente faço coisas que não deveria.

Holly decidiu abalar um pouquinho a confiança daquele humano.

— Sei disso, Billy, ou será que deveria dizer Jonah? Você fez um monte de coisas ruins no correr dos anos.

Kong deu um passo atrás.

— Você me conhece?

— Sabemos tudo a seu respeito, Billy. Estivemos vigiando você durante anos.

Isso não era estritamente verdadeiro, claro. Holly não sabia mais do que o que Potrus havia dito sobre Kong. Talvez ela não o tivesse provocado se soubesse de sua história com os demônios.

Para Billy Kong aquela declaração simples era a confirmação de tudo que Eric havia lhe dito. De repente os tijolos de suas crenças e compreensões desmoronaram e se despedaçaram sem esperança de conserto.

Era tudo verdade. Eric não havia mentido. Os demônios caminhavam na terra, seu irmão havia tentado protegê-lo e pagou com a vida.

— Você se lembra do meu irmão? — perguntou ele com a voz trêmula.

Holly presumiu que aquilo era um teste. Potrus havia mencionado um irmão.

— Sim. Lembro. Derek, não era?

Kong pegou um estilete no bolso do peito, segurando com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

— Eric! — gritou ele, o cuspe voando da boca. — Era Eric! Você se lembra do que aconteceu com ele?

De repente Holly ficou nervosa. Aquele Homem da Lama era instável. Ela só demoraria um segundo para escapar das amarras, mas talvez um segundo fosse tempo demais. Artemis havia requisitado que ela permanecesse amarrada pelo maior tempo possível, mas pela expressão de Billy Kong parecia que ficar amarrada seria um erro fatal.

— Você se lembra do que aconteceu com o meu irmão? — perguntou Kong de novo, balançando a faca como a batuta de um maestro.

— Lembro — disse Holly. — Ele morreu. Violentamente.

Kong ficou totalmente pasmo. Fervendo por dentro. Por vários instantes circulou pela sala, murmurando sozinho, o que não reconfortou Holly nem um pouco.

— É verdade. Eric não me traiu! Meu irmão me amava. Ele me amava e eles o pegaram!

Holly aproveitou essa falta de concentração para escapar das amarras plásticas que prendiam seus pulsos. Fez isso usando um antigo truque da LEP ensinado pela comandante Vinyáya na Academia. Esfregou os pulsos contra a borda áspera, provocando dois pequenos arranhões. Quando as fagulhas mágicas irromperam das pontas dos dedos para curar os ferimentos, desviou algumas para derreter o plástico, o bastante para arrebentá-lo.

Quando Kong a encarou de novo, ela estava desamarrada, mas escondendo esse fato.

Kong se ajoelhou diante de Holly até que os olhos dos dois estivessem no mesmo nível. Estava piscando rapidamente e sua pulsação fazia uma veia da testa bater. Falou devagar, numa voz abalada pela loucura e a violência mal reprimidas. Havia passado para o taiwanês, a primeira língua de sua família.

— Quero que você arranque o rosto. Agora.

Isso, pensou Kong, seria a prova final. Se esse demônio pudesse arrancar o rosto, ele iria esfaqueá-la no coração e danem-se as conseqüências.

— Não posso — disse Holly. — Minhas mãos estão amarradas. Por que você não arranca meu rosto para mim? Agora nós temos máscaras novas. Descartáveis. Elas saem com facilidade.

Kong tossiu, surpreso, balançando para trás nos calcanhares. Então se firmou e estendeu as mãos trêmulas. Suas mãos não tremiam de medo, e sim de raiva e tristeza por ter desonrado a memória do irmão ao acreditar no pior sobre ele.

— Na linha dos cabelos — disse Holly. — Só segure e puxe. Não se preocupe se rasgar.

Kong olhou para cima e os dois fizeram contato visual. Era tudo que Holly precisava para empregar o mesmer mágico.

— Esses braços não estão pesados? — perguntou ela, a voz cheia de camadas e irresistível.

A testa de Kong franziu de repente e as rugas se encheram de suor.

— Meus braços. O quê? Estão parecendo de chumbo. Como dois canos de chumbo. Não consigo...

Holly pressionou o mesmer um pouco mais.

— Por que você não os baixa? Vá com calma. Sente-se no chão.

Kong sentou-se no concreto.

— Só vou sentar um segundo. Ainda vamos fazer o negócio de arrancar o rosto. Mas daqui a um segundo. Estou cansado.

— Provavelmente está com vontade de conversar.

— Sabe de uma coisa, demônio? Sinto vontade de conversar. Vamos falar de quê?

— Esse grupo com o qual você está envolvido, Billy. Os Paradizo. Fale deles.

Kong fungou.

— Os Paradizo! Você só está lidando com uma Paradizo. E é a garota, Minerva. O pai dela é só o homem do dinheiro. Se Minerva quiser, Gaspard paga. Ele tem tanto orgulho da filhinha, o gênio, que faz o que ela mandar. Dá para acreditar que a garota o convenceu a manter todo o negócio dos demônios em segredo até depois de o conselho do Nobel dar uma olhada na pesquisa dela?

Esta era uma notícia muito boa.

— Quer dizer que ninguém fora desta casa sabe sobre os demônios?

— Praticamente ninguém dentro da casa sabe. Minerva é paranóica com a hipótese de algum outro cérebro agarrar seu trabalho. Os empregados acham que estamos guardando um prisioneiro político que precisa fazer plástica no rosto. Só Juan Soto, o chefe da segurança interna, e eu, ficamos sabendo a verdade.

— Minerva mantém registros?

— Registros? Ela anota tudo, e quero dizer tudo mesmo. Temos registro de cada ação dos demônios, até as idas ao banheiro. Ela tem cada tremor gravado em vídeo. O único motivo para não haver câmeras aqui embaixo é porque não estávamos esperando ninguém.

— Onde ela mantém as anotações?

— Num pequeno cofre no escritório da segurança. Minerva acha que eu não sei a combinação, mas sei. É o aniversário de Bobô.

Holly tocou um microfone adesivo grudado em sua garganta.

— Um cofre de parede no escritório de segurança — disse com clareza. — Espero que esteja captando isso.

Não houve resposta. Usar um fone de ouvido seria arriscado demais, por isso Holly teve de se virar com o microfone adesivo no pescoço e uma câmera de íris presa como lente de contato no olho direito.

Kong ainda estava com vontade de falar.

— Sabe, eu vou matar todos vocês, demônios. Tenho um plano. E é bem inteligente. A Srta. Minerva acha que vai a Estocolmo, mas isso jamais acontecerá. Só estou esperando o momento certo. Sei que a prata é a única coisa que mantém vocês nesta dimensão. Por isso vou mandá-los de volta e dar um presentinho para levarem.

Não se eu puder impedir, pensou Holly.

Kong meio que sorriu para ela.

— Vamos fazer o negócio de arrancar o rosto? Você consegue mesmo?

— Claro que consigo — disse Holly. — Tem certeza de que quer ver?

Kong assentiu, com o maxilar frouxo.

— Então, tudo bem. Olhe com atenção.

Holly levantou as mãos até o rosto, e quando as afastou, sua cabeça havia desaparecido. O corpo e os membros sumiram em seguida.

— Posso não somente arrancar o rosto — disse a voz de Holly vindo do ar. — Posso fazer isso com o corpo todo.

— É verdade — grasnou Kong. — É tudo verdade.

Então um minúsculo punho invisível cortou o ar, deixando-o inconsciente. Billy Kong caiu deitado no piso de concreto, sonhando que era Jonah Lee outra vez, e seu irmão estava diante dele, dizendo: “Eu disse, cara. Eu disse que os demônios existiam. Eles me assassinaram lá em Malibu. E o que você vai fazer agora?”

E o pequeno Jonah respondeu:

“Estou trabalhando nisso, Eric.”

 

Minerva pegou o telefone com o segurança.

— Aqui é Minerva Paradizo.

— Minerva, é Artemis Fowl — disse uma voz em francês perfeito. — Nós nos vimos numa ópera apinhada, na Sicília.

— Sei quem você é, quase nos encontramos em Barcelona também. E sei que é realmente você. Memorizei seu padrão e ritmo de voz a partir de uma palestra sobre política dos Bálcãs que você fez há dois anos no Trinity College.

— Muito bem. Acho estranho não ter ouvido falar a seu respeito.

Minerva sorriu.

— Não sou tão descuidada quanto você, Artemis. Prefiro o anonimato, até que tenha algo excepcional pelo qual serei reconhecida.

— A existência dos demônios, por exemplo — disse Artemis. — Isso seria excepcional.

Minerva segurou o telefone com força.

— Sim, jovem senhor Fowl. Seria excepcional. É excepcional. Então pode manter suas patas irlandesas longe da minha pesquisa. A última coisa de que preciso é um adolescente cabeçudo pirateando todo o meu trabalho no último segundo. Você teve seu próprio demônio, mas isso não bastou. Precisava tentar roubar o meu também. No momento em que o reconheci em Barcelona, soube que você estaria atrás do objeto da minha pesquisa. Também soube que tentaria nos excluir, colocando alguém escondido no carro. Era a coisa lógica a fazer, por isso preparei o veículo. Você nocauteou meu irmãozinho, também. Como pôde?

— Aparentemente eu lhe fiz um favor — disse Artemis em tom afável. — O pequeno Bobô é insuportável em todos os sentidos.

— Foi por isso que me ligou? Para insultar minha família?

— Não. Peço desculpas, foi infantilidade. Liguei para tentar fazer com que você ponha a cabeça no lugar. Há muito mais coisa em risco aqui do que um prêmio Nobel, sem querer diminuir a importância do prêmio, é claro.

Minerva deu um sorriso de quem sabia das coisas.

— Artemis Fowl, independentemente do que esteja fingindo, você me ligou porque seu plano fracassou. Mas se isso faz com que se sinta melhor, por favor, continue com seu discurso pelo bem da humanidade.

Lá fora, no penhasco acima do castelo Paradizo, Artemis franziu a testa. Aquela garota fazia com que ele se lembrasse de si próprio há 18 meses, quando a realização e a aquisição eram tudo, e a família e os amigos vinham em segundo lugar. Nesta ocasião, a honestidade era a melhor política.

— Srta. Paradizo — disse ele gentilmente. — Minerva. Escute alguns instantes; você sentirá a verdade do que digo.

Minerva deu um muxoxo.

— Por quê? Porque somos ligados?

— Na verdade, sim. Somos pessoas semelhantes. Cada um de nós é a pessoa mais inteligente em qualquer sala em que esteja. Ambos somos constantemente subestimados. Ambos somos decididos a brilhar em qualquer disciplina que busquemos. Ambos sofremos com o escárnio e a solidão.

— Ridículo — zombou Minerva, mas seus protestos pareceram ocos. — Não sou solitária. Tenho o meu trabalho.

Artemis insistiu.

— Sei como é, Minerva. E deixe-me dizer, não importa quantos prêmios você ganhe, não importa quantos teoremas você prove, não vai ser o bastante para fazer com que as pessoas gostem de você.

— Ah, me poupe de sua aula de psicologia amadora. Você não é nem três anos mais velho do que eu.

Artemis ficou magoado.

— Nem de longe é amadora. E, para sua informação, a idade costuma ser prejudicial para a inteligência. Escrevi um ensaio sobre o tema para a Psychology Today, sob o pseudônimo de Dr. Demen Ciace Nill.

Minerva deu um risinho.

— Saquei, demência senil. Muito bom.

Artemis sorriu também.

— Você é a primeira a sacar.

— Sempre sou.

— Eu também.

— Não acha isso cansativo?

— Incrivelmente. Quero dizer, o que há de errado com as pessoas? Todo mundo diz que eu não tenho senso de humor, então bolo um trocadilho perfeitamente claro a partir de uma condição psicológica bem conhecida e ele é ignorado. As pessoas deviam estar rolando nos corredores.

— Sem dúvida — concordou Minerva. — Isso me acontece o tempo todo.

— Eu sei. Adorei aquela piada do seqüestro do quark pelo Murray Gell-Mann, que você fez no trem. Analogia muito inteligente.

A conversa amável congelou.

— Como você ouviu aquilo? Há quanto tempo está me espionando?

Artemis ficou silenciosamente perplexo. Não havia pretendido revelar aquele fato. Era tremendamente improvável ele jogar conversa fora sobre trivialidades quando havia vidas em risco. Mas gostava da tal de Minerva. Ela era parecida com ele.

— Havia uma câmera de segurança no corredor do trem. Eu consegui a fita, mandei aumentar o ganho de imagem e li seus lábios.

— Hmmm. Não me lembro de uma câmera.

— Ela estava lá. Dentro de uma bolha de plástico vermelho. Lente olho de peixe. Peço desculpas por invadir sua privacidade, mas era uma emergência.

Minerva ficou quieta um momento.

— Artemis. Nós poderíamos ter muito a conversar. Não falo tanto assim com um garoto há... bem, nunca falei. Mas preciso terminar esse projeto. Pode me ligar de novo daqui a seis semanas?

— Seis semanas será tarde demais. O mundo será um lugar diferente, e possivelmente não será melhor.

— Artemis. Pára com isso. Eu estava começando a gostar de você, e agora voltamos ao ponto de partida.

— Só me dê mais um minuto. Se eu não puder convencê-la em um minuto, vou desligar e deixá-la com sua pesquisa.

— Cinqüenta e nove — disse Minerva. — Cinqüenta e oito...

Artemis se perguntou se todas as garotas eram tão passionais. Holly também podia ser assim. Quente num momento e gelada no outro.

— Você está mantendo duas criaturas em cativeiro. Ambas inteligentes. Nenhuma das duas é humana. Se expuser qualquer uma delas à comunidade científica mais ampla, a espécie delas será caçada. Você será responsável pela extinção de pelo menos uma espécie. É isso que deseja?

— É isso que eles desejam — retrucou Minerva. — O primeiro que resgatamos ameaçou matar todos nós e possivelmente nos comer. Disse que os demônios iriam retornar e apagar do mundo a escória humana.

— Sei tudo sobre Abbot — disse Artemis, usando o que havia aprendido com as câmeras de vigilância de Minerva. — Ele era um dinossauro. Hoje em dia os demônios jamais poderiam dominar os humanos. A julgar por meus cálculos temporais, Abbot foi levado 10 mil anos em seu próprio futuro e depois lançado de volta. Declarar guerra contra os demônios seria como declarar guerra contra os macacos. Na verdade os macacos seriam uma ameaça maior. Eles existem em maior número. E, de qualquer modo, os demônios nem podem se materializar totalmente, a não ser que nós atiremos montes de prata neles.

— Tenho certeza de que encontrarão um meio de solucionar isso. Ou um poderia atravessar acidentalmente, como Abbot, depois abrir os portões para o resto.

— Tremendamente improvável. É verdade, Minerva: quais são as probabilidades?

— Então Artemis Fowl quer que eu esqueça tudo sobre meu projeto Nobel e solte meus demônios cativos.

— Que esqueça o projeto, certamente — disse Artemis, olhando o relógio. — Mas não creio que haja necessidade de libertar seus cativos.

— Ah, é mesmo? E por quê?

— Porque imagino que já tenham ido embora.

Minerva girou para olhar o local onde o N° 1 estivera sentado. Estava vazio; seu demônio cativo havia desaparecido junto com a cadeira. Uma observação superficial lhe disse que toda a sala estava vazia, a não ser por ela.

— Onde ele está, Artemis? — gritou ela ao telefone. — Onde está a minha presa?

— Esqueça tudo isso — disse Artemis em voz suave. — Não vale a pena. Acredite em alguém que já cometeu erros. Ligo para você em breve.

Minerva apertou o telefone com força, como se fosse o pescoço de Artemis.

— Você me enganou! — disse ela, com a verdade subitamente baixando. — Você deixou que eu capturasse o seu demônio!

Mas Artemis não respondeu. Havia fechado o punho com relutância durante a conversa. Em geral, ser mais inteligente do que alguém lhe dava uma sensação quente e gostosa, mas enganar Minerva Paradizo só fez com que ele se sentisse desprezível. Era irônico que se sentisse como um vilão, agora que era quase um mocinho.

Butler olhou-o de seu ponto de observação no morro.

— Como foi? — perguntou ele. — A primeira conversa longa com uma garota da sua idade.

— Fabulosa — disse Artemis, a voz gotejando sarcasmo. — Estamos planejando o casamento para junho.

 

Quando Holly Short havia aberto a porta da cela improvisada no porão, descobriu seu capacete ricocheteando no mesmo lugar, diante dela, com uma imagem em 3D do rosto de Potrus projetado nele.

— Isso é arrepiante de verdade — disse ela. — Você não poderia simplesmente mandar uma mensagem de texto?

Potrus havia incluído um programa de ajuda em 3D no computador do capacete. Não foi surpresa para ela que o centauro desse as próprias feições ao módulo de ajuda.

— Perdi um pouco de peso desde que esse modelo foi construído — disse a imagem de Potrus. — Estive correndo. Todos os fins de tarde.

— Concentre-se — ordenou Holly.

Holly baixou o queixo e Potrus fez o capacete saltar sobre a cabeça dela. Holly o lacrou firme.

— Onde está o demônio?

— Suba a escada. Segunda porta à esquerda.

— Bom. Você apagou nossos padrões do sistema de segurança?

— Claro. O demônio está invisível e você não pode ser captada, não importando que tipo de lente eles usem.

Holly subiu aos saltos os degraus de tamanho para humanos. Teria sido mais fácil voar, mas ela havia deixado as asas do lado de fora, junto com o computador da roupa. Não havia necessidade de se arriscar a colocá-los em mãos humanas além das de Artemis. E mesmo isso havia exigido alguma reflexão.

Foi rapidamente pelo corredor, passou pela primeira porta à esquerda e se esgueirou pela segunda que estava entreaberta, captando a situação com um rápido exame da sala.

O demônio fora amarrado a uma cadeira e a garota humana estava ao telefone, de costas para ele. Havia um grande espelho bidirecional na parede. Holly usou seu visor térmico para se certificar de que havia um ocupante na sala ao lado, um homem grande. Parecia estar falando ao celular, e não virado para a cela do demônio.

— Devo atordoar a garota? — perguntou Potrus cheio de esperança. — Ela nocauteou você com o gás do sono. — Ele estava gostando um bocado do brinquedo novo. Era como um jogo de computador.

— Eu não fiquei inconsciente — disse Holly, com as palavras contidas pelo lacre do capacete. — Estava prendendo a respiração. Artemis havia me dito que ela usaria gás. A primeira coisa que fiz foi ventilar o carro.

— E aquele Homem da Lama na sala ao lado? — insistiu Potrus. — Posso focalizar o laser através do vidro. É um negócio bem inteligente.

— Cale a boca ou vai pagar por isso quando eu chegar em casa. Só atiramos em caso de emergência.

Holly rodeou Minerva, tendo o cuidado de não roçar na Garota da Lama nem pisar numa tábua solta. Um único estalo agora poderia estragar todos os planos. Agachou-se diante do pequeno demônio, que não parecia muito preocupado com a situação. O que ele estava fazendo era uma lista de palavras e dando um risinho depois de cada uma.

— “Cornucópia”, ah, muito boa — disse ele. — E depois: “Sanitário”. Gosto dessa. Hi-hi.

Maravilhoso, pensou Holly. Esse demônio obviamente perdeu algumas células cerebrais durante a transferência. Ela usou o comando de voz para digitar um texto no visor.

“Balance a cabeça se conseguir ler isso”, dizia o texto. Para o demônio, as palavras pareceram flutuar no espaço diante dele.

— “Balance a cabeça se conseguir...” — murmurou ele, depois parou e começou a balançar a cabeça furiosamente.

“Pára de balançar a cabeça!”, enviou Holly. “Sou uma elfa. Uma das Primeiras Famílias das criaturas das fadas. Vim resgatar você. Entendeu?”

Não houve resposta, por isso Holly enviou um comando.

“Balance a cabeça uma vez se tiver entendido.”

O demônio balançou a cabeça uma vez.

“Bom. Você só precisa ficar bem parado e em silêncio.”

Outro movimento de cabeça. O pequeno demônio estava entendendo.

Potrus havia transferido sua imagem para o interior do capacete de Holly.

— Pronta? — perguntou o centauro.

— Estou. Fique de olho no Homem da Lama na sala ao lado. Se ele se virar, pode atordoá-lo.

Holly enfiou a mão na manga do braço direito, pegando um pedaço de tecido de camuflagem entre o indicador e o dedo médio. Isso não é tão fácil como parece, quando uma criatura está escudada e vibrando em velocidades mais rápidas do que o olho humano pode acompanhar. Foi facilitado pelo uniforme da Seção Oito, que reduzia a quantidade de vibração necessária. Holly puxou e desdobrou um grande quadrado de tecido de camuflagem, que projetou automaticamente uma imagem aproximada do que deveria estar atrás. Cada gota do tecido de camuflagem era na verdade um diamante multifacetado, produzido pelas criaturas do subterrâneo, que podia refletir com precisão absoluta, independente do ângulo de visão.

Chegou perto do N° 1, depois levantou o pedaço de tecido. O tecido era equipado com tecnologia multissensor, então foi uma coisa simples Potrus apagar o N° 1 da projeção. Para Minerva pareceria que seu demônio cativo havia simplesmente desaparecido. Para o N° 1, pareceria que nada acontecera, e que esse era o resgate mais malfeito da história dos resgates.

Segundos depois Minerva se virou rapidamente para eles.

O N° 1 assentiu cumprimentando-a, e ficou pasmo ao perceber que Minerva não o enxergava.

— Onde ele está? Artemis? — gritou a garota ao telefone. — Onde está a minha presa?

O N° 1 pensou em dizer estou bem aqui!, mas decidiu que não deveria.

— Você me enganou! — guinchou Minerva. — Você deixou que eu capturasse o seu demônio!

Por fim a ficha caiu, pensou Holly. Agora vá revistar o castelo como uma boa menina.

Minerva saiu obedientemente da sala, gritando pelo pai. Na sala ao lado, papai Paradizo, ao ouvir os gritos da filha, fechou o celular e começou a se virar...

Potrus ativou o laser do capacete e deu-lhe um tiro no peito. Ele caiu no chão, embolado, o peito arfando com a respiração lenta dos inconscientes.

— Um doce — cantarolou o centauro. — Você viu? Nem sequer uma mancha no vidro.

— Ele estava indo para a porta! — censurou Holly, largando o tecido de camuflagem.

— Ele estava vindo para o vidro. Tive de atordoá-lo.

— Falaremos disso depois, Potrus. Não gosto de sua nova atitude violenta.

— Cavalline gosta que eu seja dominador. Ela me chama de seu garanhão.

— Quem? Olha, pára de falar! — sibilou Holly, derretendo as amarras do N° 1 com dois tiros rápidos de laser.

— Livre! — exclamou o imp, saltando de pé. — Liberado. Desamarrado. Sem restrições.

Holly desligou seu escudo e se revelou ao N° 1.

— Espero que isso seja um capacete — disse o N° 1. Holly tocou um botão e o visor deslizou para cima.

— É. Sou uma criatura das fadas, como você. Só que de uma família diferente.

— Um elfo! — exclamou oN°l, deliciado. —- Um elfo de verdade. Ouvi dizer que vocês cozinham a comida e gostam de música. É verdade?

— Ocasionalmente, quando não estamos tentando escapar de humanos assassinos.

— Ah, eles não são assassinos, pugnazes, homicidas e nem mesmo belicosos.

— Talvez não a que você conhece. Mas há um cara de cabelo esquisito no porão. E acredite, quando ele acordar vai ser assassino e todas essas coisas que você mencionou.

O N° 1 se lembrou de Billy Kong; também não tinha vontade de encontrá-lo de novo.

— Muito bem, elfo. E agora?

— Pode me chamar de Holly.

— Eu sou N° 1. E agora, Holly?

— Em seguida escapamos. Há amigos esperando por nós... é...N° l.

— Amigos? — perguntou o N° 1. Ele conhecia a palavra, claro, mas jamais havia imaginado que ela se aplicasse a ele. Era uma idéia calorosa, até mesmo nesta situação difícil.

— O que eu faço?

Holly o envolveu com o tecido de camuflagem, como se fosse um xale.

— Mantenha isso aí. Vai cobrir a maior parte de você.

— Incrível. Um manto de invisibilidade.

Potrus gemeu no ouvido de Holly.

— Um manto de invisibilidade? Esse é um equipamento de campo muito sensível. O que ele acha? Que algum feiticeiro tirou da axila?

Holly ignorou o centauro, algo que estava se tornando um hábito.

— Segure o tecido com uma das mãos. Agarre-se ao meu cinto com a outra. Precisamos sair daqui depressa. Só tenho magia suficiente para mais alguns minutos de escudo. Pronto?

As feições ansiosas do N° 1 saíram do xale de invisibilidade.

— Segurar o tecido. Agarrar o cinto. Entendi.

— Bom. Potrus, vigie nossa retaguarda. Vamos sair.

Holly acionou o escudo, depois saiu rapidamente pela porta aberta, puxando o N° 1. O corredor era ladeado por plantas altas em vasos e caros quadros a óleo, inclusive um Matisse. Holly podia ouvir humanos gritando em cômodos adjacentes. Havia atividade a toda volta, e poderiam se passar apenas alguns segundos até que algum Homem da Lama aparecesse naquele corredor.

O N° 1 lutava para acompanhá-la, as perninhas tropeçando atrás da capitã elfo super em forma. Parecia impossível que conseguissem escapar. A toda volta havia o barulho de passos se aproximando. O N° 1, meio distraído, prendeu o dedo do pé no tecido de camuflagem e pisou-o. Os circuitos eletrônicos do tecido estalaram e morreram. O demônio ficou tão visível quanto uma mancha de sangue num trecho de neve.

— Perdemos o tecido de camuflagem — disse Potrus.

Holly apertou os dedos. Sentia falta da pistola.

— Tudo bem. Agora só podemos correr. Potrus, pode soltar suas rédeas, se é que posso fazer uma analogia eqüina.

— Até que enfim — relinchou o centauro. — Acrescentei um joystick de casulo de jogo em meus controles. É pouco ortodoxo, mas muito preciso. Temos inimigos convergindo de todos os lados. Meu conselho é seguir reto. Vá ao fim do corredor e siga o caminho do nosso amigo Duda pela janela. Butler vai dar cobertura assim que estiverem ao ar livre.

— Tudo bem. Segure-se, N° 1. Aconteça o que acontecer, não se solte.

A primeira ameaça veio da frente. Dois seguranças viraram a esquina, com as armas estendidas.

Ex-membros da polícia, adivinhou Holly. Cobrindo as diagonais.

Os homens ficaram chocados ao ver o N° 1. Obviamente não faziam parte do círculo dos informados.

— Que diabo...? — disse um. O outro manteve o controle.

— Fique parado aí.

Potrus acertou os dois no peito com rápidos tiros de laser. A energia atravessou suas roupas e eles escorregaram pela parede abaixo.

— Inconscientes — ofegou o N° 1. — Comatosos, catalépticos, apagadões. — Ele percebia que botar o vocabulário para fora era um bom modo de enfrentar o estresse.

— Estresse. Pressão, tensão e ansiedade.

Holly o arrastava na direção da janela ainda aberta. Mais seguranças vinham pelos corredores laterais e Potrus os despachou com eficiência.

— Eu deveria ganhar pontos de bonificação por isso — disse ele. — Ou pelo menos uma vida livre.

Havia mais dois guardas na sala de estar, tomando um café expresso. Potrus os derrubou ali mesmo, depois disparou uma rajada de laser em leque para evaporar o café antes que batesse no tapete.

— É tunisiano — explicou ele. — Muito difícil de limpar. Agora eles podem simplesmente aspirar os grãos.

Holly desceu os degraus, entrando na sala.

— Algumas vezes acho que você não percebe a seriedade das missões de campo — disse ela, desviando-se de um enorme sofá de veludo.

O N° 1 tropeçou ao descer os degraus humanos atrás de sua salvadora. Apesar de todo o vocabulário novo, o imp não tinha muita certeza de como se sentia.

Com medo, claro. Grandes Homens da Lama com armas de fogo e coisa e tal. Empolgado, também. Ser resgatado por uma espécie de super-heroína elfo, que além disso era invisível. Dor na perna, não esqueça isso. O humano raivoso havia atirado na perna dele, com uma bala de prata, sem dúvida. Mas o N° 1 percebeu que faltava um sentimento no caldeirão. Um sentimento que havia sido forte nele desde que podia se lembrar. Insegurança. Apesar das cabriolas frenéticas ao redor, ele se sentia mais em casa neste planeta do que jamais havia se sentido em Hybras.

Uma bala passou zumbindo junto à sua orelha.

Mas, afinal de contas, talvez Hybras não fosse tão ruim.

— Acorda, Potrus! — censurou Holly. — Você deveria estar vigiando nossa retaguarda.

— Desculpe — respondeu o centauro, girando o laser e atirando na direção da porta. A segurança feminina deu um sorriso largo e despencou. No chão, começou a cantar uma cantiga de ninar, falando de cãezinhos e seus ossos.

— Que estranho — disse Potrus. — Aquela segurança está cantando.

— Acontece com freqüência — grunhiu Holly, subindo no parapeito da janela. — O laser apaga algumas funções, mas algumas vezes desperta outras.

Interessante, pensou o centauro. Uma arma da felicidade. Certamente vale investigar.

Holly baixou a mão e segurou o pulso do N° 1, puxando-o ao parapeito. Ficou pasma o ver que seus próprios braços não continuavam tão invisíveis como esperaria. A magia estava se desgastando. O escudo era um verdadeiro sifão de energia. Logo ela ficaria visível de novo, quer estivessem em segurança ou não.

— Quase lá — disse ela.

— E só atravessar o espaço verde aberto, não é? — perguntou o N° 1, demonstrando um verdadeiro dom para o sarcasmo.

— Gosto dele — observou Potrus.

Pularam no gramado. Agora o alarme fora realmente dado e jorravam seguranças das várias portas como bolinhas de isopor saindo de um rasgo num pufe.

— Pode pirar de vez, Potrus — disse Holly. — E cuide dos veículos deles também.

— Sim, senhora — respondeu Potrus, e começou a disparar.

Holly correu a toda velocidade, puxando o imp. Não havia tempo para pensar em capacidades físicas; ou ele acompanharia, ou seria arrastado. A caneta laser de seu capacete lançava tiro atrás de tiro, girando em arcos amplos para cobrir os seguranças que se aproximavam. Holly sentiu o calor da arma no topo da cabeça e decidiu mencionar a Potrus o sistema de resfriamento supostamente revolucionário do capacete, se conseguissem sair dessa.

Agora o centauro estava ocupado demais para bater papo. Através do fone, Holly só conseguia ouvir grunhidos e relinchos enquanto Potrus se concentrava no trabalho. Ele não estava mais preocupado com a precisão absoluta; havia coisas demais em que atirar. Disparava leques de energia que derrubavam meia dúzia de seguranças a cada rajada. Os seguranças ficariam perfeitamente bem dentro de meia hora, mas alguns talvez sofressem dores de cabeça, queda de cabelo, irritabilidade, perda de controle intestinal e outros efeitos colaterais variados durante alguns dias.

Potrus mirou em seguida nos veículos de tração nas quatro rodas, disparando vários pulsos em cada tanque de combustível. Os BMW explodiram em seqüência, dando cambalhotas espetaculares. A força do tiro apertava Holly e o N° 1 como uma mão gigante, fazendo com que andassem um pouco mais depressa. O capacete de Holly a protegia do barulho, mas a cabeça do pobre N° 1 iria zumbir durante um bom tempo.

A fumaça preta e densa saía dos motores destruídos e encobria o jardim bem-cuidado com mais eficiência do que granadas de fumaça. Holly e o N° 1 corriam logo à frente da linha de fumaça, na direção do portão principal.

— Portão — ofegou Holly ao microfone.

— Estou vendo — disse Potrus, derretendo as barras do portão de ferro fundido e arrancando-o das dobradiças. Ele despencou no chão com um grande estrondo de sino.

Um carro alugado parou, cantando pneus do lado de fora das colunas e a porta do carona se abriu.

Artemis estava dentro, estendendo a mão para o N° 1.

— Venha — disse com urgência. — Entre.

— Arrgh! — disse o N° 1. — Um humano!

Holly pulou para dentro do veículo e arrastou o N° 1 com ela.

— Tudo bem — disse ela, desligando o escudo para conservar o pouco de magia que restava. — Ele é amigo.

O N° 1 se agarrou às costas de Holly, tentando não vomitar. Olhou para a frente do veículo, onde Butler estava sentado.

— E ele? Por favor, diga que ele é amigo também.

Holly riu, subindo num banco.

— Sim, ele é amigo. O melhor.

Butler acionou a alavanca de câmbio.

— Apertem os cintos, meninos e meninas. Vamos ter uma perseguição de carros.

 

O sol estava se pondo enquanto Butler guiava habilmente o carro pelas curvas fechadas da Route de Vence. A estrada fora escavada na lateral da montanha, com povoados de pedras grudando-se acima e a Gorges du Loup bocejando embaixo. Era necessário um motorista hábil para fazer as curvas em alta velocidade, mas Butler já havia dirigido um veículo blindado da Ah Fahd através de um mercado apinhado no Cairo, de modo que as estradas alpinas não eram um desafio muito grande.

Por acaso não houve perseguição de veículos. A frota dos Paradizo estava pegando fogo, mutilada, parecendo montes invertidos na entrada de veículos do castelo. Não restava sequer uma motoneta para seguir o carro em fuga.

Butler verificava constantemente o retrovisor e só se permitiu um riso de satisfação quando passaram pelo posto de pedágio de Cagnes sur Mer.

— Estamos livres — declarou, acelerando na pista de alta velocidade da estrada. — Não restou um só veículo intacto na propriedade, nem o carro de brinquedo do pequeno Beau.

Artemis sorriu, abobalhado de tanto sucesso.

— Talvez devêssemos ter deixado para eles o maravilhoso equipamento do Sr. Dia.

Holly notou que o N° 1 estava todo feliz, examinando seu cinto de segurança.

— Feche o cinto — disse ela, enfiando a fivela na trava.

— Cinto — disse o N° 1. — Faixa, tira, prendedor. Por que você está com esses humanos?

— Eles vão nos ajudar — explicou Holly gentilmente.

O N° 1 tinha um milhão de perguntas e sabia exatamente como verbalizar cada uma delas. Mas no momento as palavras ficaram atrás das imagens, e o queixo quadrado e pronunciado do N° 1 caía cada vez mais enquanto ele olhava pela janela de vidro escuro, absorvendo as maravilhas da estrada moderna.

Holly aproveitou a oportunidade para ficar a par dos acontecimentos.

— Duda e Palha estão bem?

— Sim — confirmou Artemis. — Potrus estava ansioso para que devolvessem o transporte, já que ele o havia pegado sem licença. Não devemos estar mais do que algumas horas atrás deles. Quando vocês chegarem à estação de transportadores, a cidade já deve estar aberta. Eu não ficaria surpreso se você ganhasse uma medalha, Holly. Trabalho espetacular.

— Ainda há pontas soltas.

— É verdade. Mas nada que um apagamento mental da LEP não possa resolver. Não há qualquer prova física de que alguma coisa não-humana tenha causado essa devastação.

Holly se recostou no banco.

— Estou esquecendo uma coisa.

— Você está esquecendo os demônios. O feitiço deles está se desintegrando. A ilha deles se perderá no tempo. Ou já se perdeu. Eles entram e saem do tempo, fazendo contato como uma bola quicando.

O N° 1 captou uma palavra.

— Desintegrando?

— Hybras está condenada — disse Artemis com franqueza. — Seu lar será em breve arrastado pelo túnel do tempo, levando tudo. Quando digo em breve quero dizer na nossa extremidade. Na sua isso já pode ter acontecido, ou talvez aconteça dentro de um milhão de anos. — Ele estendeu a mão. — E, por sinal, meu nome é Artemis Fowl.

O N° 1 segurou a mão de Artemis, mordiscando o dedo indicador, como era costume dos demônios.

— Sou o N° 1. Imp. Não há nada que possamos fazer para salvar Hybras?

— Dificilmente haveria — respondeu Artemis, puxando o dedo de volta e verificando se havia alguma marca de mordida. — O único modo de salvar Hybras é trazê-la de volta à terra sob circunstâncias controladas. Infelizmente as únicas pessoas que poderiam fazer isso eram os feiticeiros, e todos morreram.

O N° 1 mordeu o lábio.

— Ah... bem, não tenho muita certeza, mas talvez eu seja um feiticeiro. Consigo falar línguas estranhas.

Artemis se inclinou adiante no banco, esticando o cinto de segurança.

— Falar línguas estranhas pode ser meramente uma aptidão. O que mais você consegue fazer?

— De novo, não tenho tanta certeza, mas talvez eu possa, quem sabe, ter transformado madeira em pedra.

— O toque da gárgula. Bom, isso é interessante. Sabe, N° 1, há uma coisa em você. Essas marcas. Você me parece familiar. — Artemis franziu a testa, irritado por não conseguir situar a lembrança. — Nós não nos encontramos antes, eu certamente lembraria. Mesmo assim há alguma coisa...

— Essas marcas são bastante comuns, em especial o hexagrama na testa. Os demônios costumam achar que me conhecem. Bom, e quanto a salvar Hybras?

Artemis assentiu.

— Claro. O melhor curso de ação é levar você para o subterrâneo. Eu só conheço teoria da magia superficialmente; Potrus tem especialistas que morreriam de vontade de examiná-lo. Tenho confiança que a LEP pode bolar um plano para salvar sua ilha.

— É verdade?

Butler os interrompeu, na frente do carro, cortando a resposta de Artemis.

— Temos um problema no castelo Paradizo — disse ele, batendo na tela de um laptop compacto conectado ao painel. — Talvez seja melhor você dar uma olhada.

O guarda-costas passou o computador por cima do ombro. A tela estava dividida em uma dúzia de janelas, as imagens da segurança do castelo Paradizo que ainda eram fornecidas pelo captador de dados de Potrus.

Artemis equilibrou o laptop nos joelhos, com os olhos brilhantes saltando peia tela.

— Minha nossa — disse pensativo. — Isso não é bom

Holly trocou de lugar para conseguir ver.

— Nem um pouco — concordou.

O N° 1 não estava preocupado demais com o computador. Para ele, era apenas uma caixa pequena.

— Nada bom — disse ele em tom meditativo, acessando o dicionário na cabeça. — Sinônimo de “ruim”.

Artemis não levantou os olhos.

— Exato, N° 1. Isso é ruim. Muito ruim.

 

Minerva Paradizo estava simplesmente furiosa. Aquele odioso garoto Fowl havia conseguido roubar o objeto de sua pesquisa bem debaixo de seu nariz. E depois de todo o dinheiro que seu pai havia gastado com a segurança, até mesmo contratando aquele desprezível Sr. Kong! Algumas vezes Minerva se perguntava se todas as pessoas do sexo masculino eram imbecis, a não ser seu pai, é claro.

O terreno estava um caos. O jovem Sr. Fowl havia deixado uma tremenda trilha de destruição. Os carros não passavam de metal retorcido. Os gramados estavam arados o suficiente para plantar legumes, e o cheiro de fumaça e óleo havia penetrado em cada canto de cada cômodo do castelo. Apenas um telefonema apressado à delegacia de polícia de Vence e algumas explicações improvisadas sobre um acidente com um gerador haviam impedido a chegada de um carro da polícia.

Assim que os incêndios estavam sob controle, Minerva convocou uma reunião dos funcionários no pátio. Compareceram Juan Soto, o chefe de segurança; seu pai, Gaspard; e, claro, Billy Kong. O Sr. Kong parecia mais agitado do que o normal.

— Demônios — murmurava o nativo de Malibu. — Verdade, é tudo verdade. Eu tenho uma responsabilidade para com meu irmão. Acabar o que ele começou.

Se Minerva estivesse prestando atenção às palavras de Kong, poderia notar um toque de mau-agouro nelas, porém estava ocupada se preocupando com seus problemas. E, na opinião de Minerva, seus problemas eram muito mais importantes do que os de qualquer outra pessoa.

— Será que podemos nos concentrar aqui, todo mundo? Vocês devem ter notado que meu projeto está em crise.

Gaspard Paradizo estava praticamente farto do projeto de Minerva. Até esse ponto havia lhe cedido um milhão e meio de euros, mas agora toda a sua propriedade fora quase destruída. Era realmente demais.

— Minerva, cherie — disse ele, ajeitando os cabelos prateados. — Acho que precisamos recuar um pouco. Talvez desistir enquanto não estamos muito prejudicados.

— Desistir, papai? Desistir? Enquanto Artemis Fowl realiza um projeto paralelo? Acho que não.

Gaspard falou de novo, desta vez com um pouco de aço na voz:

— Você acha que não, Minerva?

Minerva ficou ruborizada.

— Desculpe, papai. Estou furiosa, só isso. Aquele garoto irlandês entra aqui com suas tropas e arruina todo o nosso trabalho. É insuportável, não é?

Gaspard, como todos os outros, estava sentado junto a uma mesa de ferro fundido no pátio dos fundos, que dava para a piscina. Empurrou a cadeira para trás e circundou a mesa até o lugar onde a filha estava. Dali havia uma vista maravilhosa da garganta coberta de árvores que descia até Antibes. Nesta tarde ninguém estava muito interessado na paisagem.

— Acho, Minerva que fomos longe demais nesta questão — disse ele, curvando-se ao lado da filha. — Há forças desconhecidas atuando aqui. O perigo segue essas criaturas. E eu não posso mais permitir que você se coloque, ou que coloque outras pessoas, em perigo. Nós travamos uma luta nobre, e tenho tanto orgulho de você que meu coração quase explode; mas agora isso deve se tornar uma questão governamental.

— Não pode, papai. Não temos registros. Nem fontes. Nada. Todos os nossos arquivos e discos de computador foram queimados. Eles penetraram no cofre e queimaram tudo lá dentro. Acho que Artemis Fowl chegou a derrubar o Google e o Yahoo. Não adianta. Como seria se uma garotinha aparecesse no Departamento de Defesa falando de monstros no portão? Preciso de provas.

Gaspard se levantou com os joelhos estalando.

— Provas, pequenina? Aquelas criaturas não são criminosas. Eu vi você conversar com nosso visitante. Ele era alerta, inteligente, não tinha feito nada de errado. Não era um animal. Uma coisa é apresentar ao comitê do Nobel provas de uma invasão através do tempo, mas é outra coisa amarrar criaturas inocentes e inteligentes.

— Mas, papai! — implorou Minerva. — Mais uma tentativa. Preciso de um mês para reconstruir meu modelo de túnel do tempo, então poderei prever uma materialização.

Gaspard beijou a filha na testa.

— Olhe o seu coração, meu pequeno gênio. O que ele lhe diz?

Minerva fez uma careta.

— Olhar o meu coração? Honestamente, papai, não sou um Ursinho Carinhoso.

— Por favor, cherie. Você sabe que eu a amo e respeito seu gênio, mas só uma vez, não poderíamos ficar com a opção do pônei? Eu não poderia simplesmente chamar o Justin Timber-não-sei-das-quantas para tocar na sua festa de aniversário?

Minerva fumegou por alguns instantes, mas sabia que o pai estava certo. Não tinha nada que deter criaturas inteligentes. Era crueldade, nada mais do que isso. Em especial quando elas não pretendiam fazer mal. Mas não podia simplesmente desistir. Minerva resolveu em silêncio que Artemis Fowl seria seu próximo projeto. Iria descobrir tudo sobre o garoto irlandês e o que ele sabia sobre os demônios.

— Muito bem, papai — suspirou ela. — Por você, vou adiar meu prêmio Nobel. Pelo menos este ano.

Ano que vem será diferente, pensou. Quando eu souber o que Artemis Fowl sabe. Há mundos inteiros bem a meu alcance.

Gaspard abraçou a filha calorosamente.

— Bom. É melhor assim.

O cirurgião francês voltou à sua cadeira.

— Agora, Sr. Soto, relatório de danos.

O chefe de segurança espanhol consultou sua prancheta.

— Só tenho um relatório preliminar, Monsieur Paradizo. Suspeito que encontraremos danos durante muitas semanas. Os veículos estão completamente destruídos. Felizmente temos seguros de zona de guerra, então deveremos receber carros novos dentro de cinco dias úteis. Há estilhaços na piscina. Um pedaço rasgou o sistema da bomba e a parede, e estamos com um vazamento e não temos filtragem. Conheço um homem em Tourrettes sur Loup. Muito razoável, e ele pode ficar de boca fechada.

— E os homens?

Soto balançou a cabeça.

— Não sei com que eles nos acertaram. Algum tipo de pistola de raios. Como os marcianos. De qualquer modo, a maioria dos homens está de pé e em boas condições. Alguns têm dor de cabeça. Nenhum outro efeito colateral, a não ser Thierry, que passou a última meia hora no banheiro. Ouvimos um grito ou outro...

De repente Billy Kong saiu de seu devaneio balbuciante, batendo a palma da mão na mesa de ferro com tampo de vidro.

— Não. Isso não vai servir. De jeito nenhum. Preciso de outro demônio.

Gaspard franziu a testa.

— Essa experiência infeliz terminou. Eu nunca deveria ter permitido. Estava cego devido ao orgulho e à ambição. Não haverá mais demônios nesta casa.

— É inaceitável — disse Kong, como se fosse o patrão, e não o empregado. — O trabalho de Eric deve ser terminado. Eu lhe devo isso.

— Escute aqui, moço — disse Soto, sério. — O que você acha inaceitável não está em questão. Você e seus homens foram contratados para fazer um serviço, e esse serviço não inclui declarações sobre o que é aceitável ou não.

Enquanto ele falava, Kong verificou o cabelo no pequeno espelho que levava para todo canto.

— Você precisa entender uma coisa, Paradizo. Primeiro: não é você que manda aqui. Na verdade, não. Desde que meus homens e eu entramos para seu pequeno grupo. Segundo: geralmente eu não trabalho deste lado da lei. Minha especialidade é pegar o que quero por qualquer meio necessário. Só assinei o contrato para trabalhar de babá porque devo uma vingançazinha a esses demônios. Na verdade uma vingança enorme. Sei que a pequena Minerva só queria tirar fotos dos convidados e fazer um monte de perguntas psíquicas a eles, mas eu tenho meus próprios planos. Uma coisa um pouco mais dolorosa.

Gaspard virou a cabeça para Soto.

— Sr. Soto. Tem alguma resposta para essa declaração ultrajante?

— Tenho — disse Juan Soto indignado. — Como você ousa falar com Monsieur Paradizo deste modo? Você é empregado aqui, só isso. Na verdade, não é mais empregado. Seu contrato foi encerrado. Você tem uma hora para liberar seu quarto e sair daqui.

O riso de Billy Kong era perigoso como o de um tubarão.

— Ou então o quê?

— Ou então meus guardas vão retirá-lo. E eu gostaria de lembrar que há somente quatro homens em seu grupo e um número cinco vezes maior no meu.

Kong piscou para ele.

— Talvez. Mas meus quatro são os melhores.

Ele virou a lapela do paletó, revelando um pequeno microfone preso.

— Estou adiantando a programação — disse ao microfone. — Abram o cavalo.

Soto ficou perplexo. O que esse idiota estava falando? De cavalos?

— Onde você conseguiu esse microfone? É da caixa-forte? Os canais devem ficar liberados para as transmissões oficiais.

Mas Minerva captou a referência à Ilíada. Abrir o cavalo só poderia ser referir ao Cavalo de Tróia. Kong havia infiltrado traidores.

— Papai — disse ela com urgência. — Precisamos ir embora daqui.

— Ir embora? Esta é a minha casa. Concordei com quase tudo que você me pediu, cherie, mas isso é ridículo...

Minerva empurrou a cadeira para trás e correu ao redor da mesa.

— Por favor, papai. Estamos correndo perigo.

Soto deu um muxoxo.

— Mademoiselle não está correndo perigo. Meus homens vão protegê-la. Talvez a tensão do dia a tenha deixado alterada. Talvez devesse tirar um cochilo.

Minerva fez uma careta de frustração.

— Não conseguem ver o que está acontecendo aqui? O Sr. Kong deu um sinal aos homens dele. Provavelmente eles já estão no controle. Ele entrou no nosso meio como um lobo em pele de cordeiro.

Gaspard Paradizo tinha plena consciência da inteligência da filha.

— Soto? Isso é possível?

— Impossível! — declarou Juan Soto, mas por trás de seu rubor furioso havia um tom de palidez. Algo na calma sorridente de Kong o irritava. E, para dizer a verdade, ele não era exatamente o soldado que seu currículo dizia. É verdade que ele havia passado um ano nas forças de paz espanholas na Namíbia, mas ficou grudado a um jornalista durante toda a viagem e jamais participou de qualquer ação. Havia conseguido esse emprego com mero papo furado e um conhecimento rudimentar de armas e táticas. Mas se surgisse alguém que soubesse mesmo do que estava falando...

Soto levou a mão ao cinto, pegando um walkie-talkie.

— Impossível — repetiu. — Mas, para tranqüilizá-los, vou duplicar a segurança e instruir minha equipe a ficar alerta. — Ele apertou o botão de falar. — Informem em duplas. De cima para baixo.

Soto liberou o botão, enchendo o ar com estática. O sibilo vazio pareceu mais agourento do que um uivo de fantasma. Aquilo continuou por vários segundos. Soto tentou corajosamente manter uma confiança presunçosa, mas foi traído por uma gota de suor rolando pela testa.

— Defeito do equipamento — disse debilmente.

Billy Kong balançou a cabeça.

— Dois tiros — disse ao microfone de lapela.

Menos de um segundo depois, dois estampidos fortes ecoaram na propriedade.

Kong riu.

— Confirmação — disse ele. — Estou no controle aqui.

Soto havia se perguntado freqüentemente como reagiria diante de um perigo verdadeiro. Antes, quando acreditou que estavam sob cerco, havia entrado ligeiramente em pânico, mas seguiu os procedimentos. Agora era diferente.

Soto tentou sacar sua arma. Um pistoleiro treinado poderia fazer isso sem olhar para baixo. Soto não era suficientemente treinado. Quando olhou na direção do coldre, Kong já havia saltado sobre a mesa e o derrubado, inconsciente.

O chefe da segurança tombou de costas, com um suspiro afetado.

Kong sentou-se na mesa, com os cotovelos pousados nos joelhos.

— Preciso daquele demônio de volta — disse, pegando casualmente um estilete num bolso secreto na manga do paletó. — Como podemos encontrá-lo?

Gaspard Paradizo apertou Minerva nos braços, protegendo cada centímetro da filha.

— Se você machucá-la, Kong...

Billy Kong revirou os olhos.

— Não temos tempo para negociações, doutor.

Ele girou o estilete entre as pontas dos dedos, depois moveu rapidamente o pulso, atirando a arma contra Gaspard. O cabo do estilete bateu na testa do médico, que caiu como um casaco descartado, soltando Minerva.

Minerva se ajoelhou, aninhando a cabeça do pai.

— Papai? Acorde, papai. — Por um momento ela era uma menininha; então seu intelecto assumiu o controle. Verificou a pulsação do pai e bateu no ponto de impacto com o indicador e o dedo médio.

— O senhor tem sorte de não enfrentar uma acusação de homicídio, Sr. Kong.

Kong deu de ombros.

— Já enfrentei antes. É incrível como é fácil escapar das autoridades. Custa exatamente 10 mil dólares. Três para a plástica no rosto, dois para os novos documentos e cinco para um hacker bom de verdade criar um passado no computador para você.

— Mesmo assim, bastaria mais meio giro da sua faca e meu pai estaria morto, e não apenas inconsciente.

Kong pegou uma segunda lâmina do bolso na manga.

— Ainda há tempo. Agora diga como vamos encontrar nosso amiguinho.

Minerva se levantou encarando Kong, os punhos apertados em desafio.

— Escute, seu idiota. Aquele demônio foi embora. Não tenho dúvida de que os benfeitores arrancaram a bala de prata da perna dele assim que o puseram no carro. Ele voltou à ilha. Esqueça.

Kong franziu a testa.

— Faz sentido. É o que eu faria. Bom, então, tá legal, quando vai acontecer a próxima materialização?

Minerva deveria estar aterrorizada. Sua capacidade de fazer qualquer coisa, além de balbuciar e soluçar, deveria tê-la abandonado. Afinal de contas seu pai estava inconsciente e o homem que o havia posto nesse estado estava sentado na mesa do seu pátio, brandindo uma faca. Mas Minerva Paradizo não era uma garota de 12 anos comum. Sempre havia demonstrado uma compostura extraordinária em momentos de tensão. Assim, mesmo estando apavorada, era mais do que capaz de comunicar seu escárnio a Billy Kong.

— Onde você esteve nos últimos 30 minutos? — perguntou, depois estalou os dedos. — Claro, dormindo. Acho que vocês chamam isso de neutralizado. E por uma demônia minúscula. Bem, deixe-me informar o que aconteceu. Toda a nossa operação foi neutralizada. Não tenho pesquisas, nem cálculos, nem objeto de estudos. Estou começando do zero. Na verdade gostaria de estar começando do zero. Começar do zero seria a realização de um sonho. Na última vez me entregaram os cálculos do túnel do tempo. Desta vez tenho de deduzir sozinha. Bom, não me entenda mal, eu poderia fazer isso. Afinal de contas sou um gênio, mas isso vai demorar pelo menos 17 meses. No mínimo. Comprenez-vous, Monsieur Kong?

Billy Kong entendia, sem dúvida. Entendia que aquela figurinha insuportável estava tentando ofuscá-lo com ciência.

— Dezessete meses, é? E quanto tempo se você tivesse um pouco de incentivo?

— Incentivos não mudam as leis da ciência.

Kong saltou da mesa, pousando nos calcanhares sem emitir nenhum som.

— Achei que essa era a sua especialidade, mudar as leis da ciência. Esse projeto não era para mostrar que todos os cientistas do mundo são idiotas, menos você?

— Não é tão simples...

Kong começou a jogar a faca e pegá-la de volta, sem sequer olhar para ela. A arma girava parecendo um leque de prata no ar. Hipnótica.

— Estou tornando a coisa simples. Acho que você pode me conseguir um demônio, e acho que pode fazer isso em menos de 17 meses. Portanto eis o que vou fazer. — Ele se inclinou e levantou a cadeira de Juan Soto. O chefe de segurança tombou para a frente, na mesa.

— Vou machucar o Sr. Soto. É simples. Não há nada que você possa fazer para impedir. Esta é uma demonstração da minha seriedade. Para conectar você à seriedade da situação. E então você saberá que não estou de brincadeira. Portanto, depois disso, comece a falar. E se não começar a falar, vamos passar ao feliz concorrente número dois.

Minerva não tinha dúvida de que o concorrente número dois era seu pai.

— Por favor, Sr. Kong, não precisa disso. Estou dizendo a verdade.

— Ah, agora é por favor, não é? — disse Kong fingindo surpresa. — E Sr. Kong. O que aconteceu com idiota e imbecil?.

— Não o mate. Ele é um homem bom. Tem família.

Kong agarrou um punhado de cabelos de Soto e puxou a cabeça para trás. O pomo-de-adão do chefe se projetou como uma ameixa.

— Ele é um incompetente — rosnou Kong. — Veja com que facilidade o seu demônio escapou. Veja como foi simples para mim assumir o controle.

— Deixe-o viver — implorou Minerva. — Meu pai tem dinheiro.

Kong suspirou.

— Você não está entendendo, está? Para uma garota inteligente, você pode ser bem burrinha muitas vezes. Não quero dinheiro. Quero um demônio. Agora pare de falar e preste atenção. Não há sentido em tentar negociar.

O coração de Minerva se encolheu quando ela teve consciência de como estava sem saída. Em menos de uma hora havia passado para um mundo de escuridão e crueldade. E sua arrogância a havia levado a isso.

— Por favor. — Lutou para manter a compostura. — Por favor.

Kong mudou a posição da faca.

— Não vire a cara agora, menininha. Olhe e lembre quem é o chefe.

Minerva não conseguia desviar os olhos. Seu olhar estava preso naquele quadro terrível. Era como uma cena de um filme de terror, com trilha sonora e tudo.

Franziu a testa. A vida real não tinha trilha sonora. Havia música vindo de algum lugar.

O algum lugar era o bolso da calça de Kong. O telefone polifônico estava tocando a “Marcha do Toreador”, da Carmen. Kong tirou o telefone do bolso.

— Quem é? — disse rispidamente.

— Meu nome não é importante — disse uma voz jovem. — O importante é que tenho uma coisa que você quer.

— Como conseguiu este número?

— Tenho um amigo — respondeu a voz misteriosa. — Ele sabe todos os números. Agora vamos aos negócios. Acho que você está querendo negociar um demônio, não é?

 

Minutos antes, Butler havia parado no acostamento da saída do aeroporto e se enfiado no banco de trás, ao lado de Artemis e Holly. Juntos, haviam assistido pelo laptop minúsculo ao drama se desdobrando no castelo Paradizo. Artemis segurou os joelhos com força.

— Não posso permitir isso. Não vou deixar.

Holly pôs a mão sobre a dele.

— Não temos escolha, Artemis. Agora estamos livres. Essa luta não é nossa. Não posso me arriscar a expor o N° 1.

O franzido na testa de Artemis riscou uma linha do alto da sobrancelha até o osso do nariz.

— Eu sei. Claro. Mas, mesmo assim, como essa luta pode não ser minha? — Ele olhou incisivamente para Butler. — Kong vai matar aqueles homens?

— Sem dúvida — respondeu o guarda-costas. — Em sua mente, ele já fez isso.

Artemis esfregou os olhos, subitamente exausto.

— Eu sou responsável, indiretamente. Não posso ter a morte de um homem na consciência. Holly, faça o que tiver de fazer, mas preciso salvar aquelas pessoas.

— Consciência — disse o N° 1. — Que palavra linda! O sc no meio!

Era claro que o imp não estava realmente ouvindo a conversa, apenas captando algumas palavras. A incongruência daquela simples declaração fez Artemis olhar para o demônio. Seus olhos pousaram por um momento nas marcas do peito do N° 1. E de repente ele soube onde as tinha visto antes. Um plano lhe veio à mente como um raio disparando.

— Holly, você confia em mim? Holly gemeu.

— Artemis, não me pergunte isso. Sei que um dos seus planos ultrajantes está chegando.

— Você confia em mim?

— Confio — suspirou Holly. — Sim. Mais do que em qualquer pessoa.

— Bem, então confie que vou tirar todos nós dessa. Mais tarde explico.

Holly estava dividida. Essa decisão poderia afetar todo o resto de sua existência e a existência do imp. E o efeito poderia ser reduzi-las dramaticamente.

— Tudo bem, Artemis. Mas vou ficar de olho.

Artemis falou ao seu telefone-anel.

— Potrus, pode me ligar com o celular do Sr. Kong?

— Sem problema — respondeu o centauro no quartel-general da Seção Oito. — Mas vai ser a última coisa que faço por você. Sool rastreou minha linha de saída. Em 30 segundos serei cortado e vocês estarão sozinhos.

— Entendo. Complete a ligação.

Butler segurou o ombro de Artemis.

— Se ligar para ele, ele vai estar por cima. Kong vai querer escolher onde vocês vão se encontrar.

— Eu sei onde devemos nos encontrar. Só preciso convencer o Sr. Kong de que o local de encontro foi idéia dele. — Artemis fechou o punho, cobrindo o telefone. — Quietos. Está tocando.

— Quem é? — atendeu Kong rispidamente.

— Meu nome não é importante — disse Artemis. — O importante é que tenho uma coisa que você quer.

— Como conseguiu este número?

— Tenho um amigo — respondeu a voz misteriosa. — Ele sabe todos os números. Agora, vamos aos negócios. Acho que você está querendo negociar um demônio, não é?

— Então você deve ser o grande Artemis Fowl. O ídolo de Minerva. Estou enjoado de vocês, moleques inteligentes. Por que não podem simplesmente envenenar carros ou roubar coisas como moleques normais?

— Nós roubamos coisas. Só que são coisas maiores. Agora, está interessado no meu demônio ou não?

— Posso estar. O que você tem em mente?

— Uma troca limpa. Eu escolho um local público e nós fazemos a troca. Meu demônio pela sua garota.

— Você não vai escolher nada, moleque. Eu escolho o ponto de encontro. Você ligou para mim, lembra? E o que você quer com essa garota?

— A vida dela — disse Artemis simplesmente. — Não gosto de assassinatos; nem de assassinos. Você e seu pessoal saiam daí com uma refém e nós fazemos uma troca. É uma transação simples. Não diga que nunca libertou um refém antes.

— Sou um cara velho, moleque. Venho coletando resgates há anos.

— Que bom. Fico feliz em ver que podemos negociar. Bom, por que você não diz qual é seu local preferido? Eu vou estar com uma gravata cor de vinho, tá?, e peito sua coragem. Há cento e um modos de isso dar errado. Se for assim, a polícia dará um basta e, onde quer que você esteja, vai se dar mal.

No carro da fuga, Holly franziu a testa interrogativamente para Artemis. Jogar conversa fora não era do estilo dele. O garoto a acalmou com um olhar e um gesto de mão.

— Tá legal — disse Kong. — Acabo de pensar numa coisa. Você conhece o Taipei 101?

— Em Taiwan? — perguntou Artemis. — Um dos prédios mais altos do mundo? Você não está falando sério. Fica do outro lado do planeta.

— Falo tremendamente sério. Taipei é o meu segundo lar. Conheço muito bem. Você terá dificuldade para chegar lá no prazo, então não haverá truques. Vamos fazer a troca no deque de observação ao meio-dia, daqui a dois dias. Se você não aparecer, a garota pega o elevador expresso para baixo. Entendeu o que eu quis dizer?

— Entendi. Estarei lá.

— Bom. Não venha sozinho. Traga o feioso ou a fêmea. Não me importa. Só preciso de um.

— Já libertamos a fêmea.

— Certo. Então o cara. Você está vendo como é fácil negociar comigo. Sou um homem razoável, a não ser que tentem me enganar. Portanto não tente.

— Não se preocupe. Não farei isso.

E disse com tanta convicção que quem não o conhecesse acreditaria totalmente.

 

O Taipei 101 é um dos prédios mais altos do mundo. Alguns dizem que é o mais alto, contando-se o pináculo de 18 metros, mas outros argumentam que um pináculo não é um prédio, então tecnicamente o Taipei 101 só pode ser chamado de maior estrutura do mundo. De qualquer modo havia quatro prédios em construção, dois na Ásia, um na África e o quarto na Arábia Saudita, com as miras apontadas na coroa de maior prédio do mundo. Deste modo, a reivindicação de fama de Taipei podia ser fugaz.

Artemis e companhia haviam pousado no Aeroporto Internacional Chiang Kai-shek apenas três horas antes do prazo, num jato alugado. E ainda que Butler tivesse brevê, qualificado para vôos diurnos e noturnos em várias aeronaves, foi Artemis que pilotou na maior parte do caminho.

Pilotar ajudava-o a pensar, segundo ele. Além disso, ninguém iria interrompê-lo enquanto dava os últimos toques em seu plano audacioso. Artemis tinha plena consciência dos riscos envolvidos nessa trama específica. O elemento central era puramente teórico e o resto era tremendamente arriscado.

Pôs os outros a par dos detalhes no banco de trás de um Lexus alugado, na viagem de 40 minutos do aeroporto até o centro de Taipei. Todo o grupo parecia exausto, mesmo tendo comido e descansado no avião. Só o N° 1 estava animado. Para todo lugar aonde olhava, existiam novas maravilhas para ficar boquiaberto, e não podia imaginar que alguém poderia machucá-lo enquanto estivesse sob a proteção de Butler.

— A má notícia é que estamos perto do prazo final — disse Artemis. — Portanto não haverá tempo de montar uma armadilha.

— E a boa notícia, Artemis? — perguntou Holly, mal-humorada. Estava mal-humorada por alguns motivos. Tinha se vestido como uma garota humana porque Artemis lhe havia pedido para economizar sua magia para quando fosse necessária. Ela havia conseguido aumentar a energia mágica enterrando uma bolota de carvalho que mantinha pendurada no pescoço, mas a lua não estava cheia, então suas reservas de força eram limitadas. Também estava completamente afastada do Povo, e além de tudo isso não tinha dúvida de que Ark Sool iria enchê-la de acusações se algum deles conseguisse sobreviver à troca. Afinal de contas, ela havia levado o N° 1 para o outro lado do mundo em vez de escoltá-lo em segurança à Cidade do Porto.

— A boa notícia é que Kong não pode estar muito à nossa frente, portanto é improvável que tenha tempo de montar alguma armadilha também.

O Lexus entrou no bairro de Xinyi, e o Taipei 101 erguia-se da paisagem como um bambu gigante. Os prédios ao redor pareciam se encolher de espanto.

Butler esticou o pescoço para cima tentando ver o topo do edifício de mais de 480 metros de altura.

— Nós nunca fazemos nada pequeno, não é? Por que, ao menos uma vez, não temos um encontro num café de esquina?

— Eu não escolhi este prédio — disse Artemis. — Ele nos escolheu. O destino nos trouxe aqui.

Em seguida deu um tapinha no ombro de Butler e o guarda-costas parou na primeira vaga que pôde encontrar. Isso demorou vários minutos. O tráfego matinal em Taipei era intenso e lento, e cuspia fumaça como um dragão irritado. Muitos dos milhares de pedestres e ciclistas usavam máscaras contra poluição.

Quando o veículo parou, Artemis continuou dando os informes.

— O Taipei 101 é um milagre da engenharia moderna. Os arquitetos se inspiraram no humilde bambu. Mas o formato não manteria o prédio firme no caso de um terremoto ou ventos fortes, por isso os projetistas construíram uma estrutura de supercolunas com caixas de aço cheias de concreto e instalaram uma bola de aço, de 700 toneladas, como pêndulo de amortecimento de massa para absorver a força do vento. Engenhoso. O pêndulo balança, e não o prédio. Ele se tornou uma atração turística. Até dá para ver do deque de observação. Os donos cobriram a bola com 15 centímetros de prata maciça, que foi gravada pelo famoso artista taiwanês Alexander Chou.

— Obrigada pela aula de belas-artes — interrompeu Holly. — Agora, que tal informar sobre seu plano? Quero acabar com isso e tirar essa ridícula roupa de ginástica. É tão brilhante que tenho certeza que posso ser captada por satélite.

— Também não gosto muito desta roupa — disse o N° 1, que vestia uma bata larga e florida, cor de laranja. Ele havia concluído que o laranja definitivamente não lhe servia.

— A roupa é sua menor preocupação — observou Holly. — Acho que estamos para entregá-lo a um assassino sedento de sangue, não é, Artemis?

— Sim — confirmou Artemis — mas só por alguns segundos. Haverá pouco ou nenhum perigo para você. E, se minhas suspeitas estiverem corretas, é possível que consigamos salvar Hybras.

— Volte ao ponto em que vou correr perigo por alguns segundos — disse o N° 1, com a testa grossa se dobrando num franzido. — Em Hybras alguns segundos podem durar muito tempo.

— Aqui, não — disse Artemis no que esperava que fosse um tom de voz tranqüilizador. — Aqui alguns segundos é o tempo que você vai demorar para abrir a mão.

O N° 1 experimentou abrir os dedos algumas vezes.

— Ainda é bastante tempo. Há algum modo de reduzir?

— Na verdade, não. Se fizemos isso, poderemos sacrificar Minerva.

— Bem, ela me amarrou numa cadeira. — O N° 1 olhou os rostos chocados ao redor. — O quê? Estou brincando. Claro que vou fazer. Mas laranja de novo, não. Por favor.

Artemis sorriu, porém o sorriso não chegou aos olhos.

— Muito bem, sem laranja. Agora o plano. São duas partes. Se a primeira não der certo, a segunda é redundante.

— Redundante — disse o N° 1, quase inconscientemente. — Desnecessária. Supérflua.

— Exato. Então vou explicá-la quando for necessário.

— E a primeira parte? — perguntou Holly.

— Na primeira parte encontramos um assassino maligno e seu bando de capangas; e ele vai esperar que entreguemos o N° l.

— Então, o que fazemos?

— Entregamos o N° 1. — Artemis se virou para o imp ligeiramente nervoso. — O que acha do plano até agora?

— Bem, não gosto da primeira parte e não sei qual é a segunda. Portanto só espero que o meio seja excepcional.

— Não se preocupe — disse Artemis. — É.

 

O grupo pegou um elevador de alta velocidade do enorme saguão do Taipei 101 até o piso de observação. Tecnicamente, Holly e o N° 1 tinham recebido permissão para entrar no prédio por causa de uma pequena placa sobre a porta principal, que simplesmente convidava os visitantes a entrar e sair quando quisessem. E como não sentiu ânsias de vômito no elevador, Holly achou que a placa servia como convite.

— Elevadores Toshiba — disse Artemis, lendo um panfleto que havia apanhado no balcão de informações. — São os mais rápidos do mundo. Estamos nos movendo a 16 metros por segundo, então não devemos demorar muito mais de meio minuto para chegar ao 89° andar.

Artemis consultou o relógio quando as portas se abriram.

— Hmm. Bem na hora. Engenharia impressionante. Talvez eu arranje um desses para casa.

Saíram na área de observação, que tinha um restaurante na extremidade mais distante. Desse ponto elevado, os visitantes podiam circular todo o prédio e gravar vídeos da vista panorâmica. Era até possível enxergar a China, do outro lado do Estreito de Taiwan.

Por um momento, o grupo se esqueceu das preocupações e se permitiu ficar pasmo com a graça daquela estrutura enorme. O céu fora da janela se fundia quase sem emendas com o mar no horizonte. O N° 1 ficou especialmente pasmo. Girava em pequenos círculos, com a bata balançando ao redor das pernas.

— Chega de piruetas, homenzinho — aconselhou Butler, o primeiro a trazer a mente de volta ao trabalho. — Você está mostrando as pernas. E puxe essa touca para cima do rosto.

O N° 1 obedeceu, mas não estava satisfeito com a boina. Era sem forma e mole, e fazia sua cabeça parecer uma trouxa de roupa suja.

— Boa sorte, Holly — disse Artemis para o ar. — Vamos encontrá-la no 23° piso.

— Acabe com isso o mais rápido que puder — sussurrou Holly em seu ouvido. — Não tenho magia suficiente para um escudo muito prolongado. Mal consigo ficar invisível.

— Entendi — respondeu Artemis pelo canto da boca.

O pequeno grupo caminhou lentamente até a área do bar e ocupou uma mesa sob o enorme amortecedor de massa suspenso a pouco mais de um metro de altura sobre o piso do 88° andar. A bola de 700 toneladas era digna de se ver, como uma lua interior, a superfície gravada com tradicionais desenhos Yuanzhumin.

— Esta é a lenda de Nian — explicou Artemis num tom casual, enquanto Butler examinava o salão. — Um monstro feroz que se alimentava de carne humana a cada véspera de Ano-Novo. Para espantar Nian, eram acesas tochas e disparados fogos de artifício, porque sabia-se que Nian temia a cor vermelha. Daí os borrões de tinta vermelha. Parece provável, pelas imagens, que Nian era na verdade um troll. Chou deve ter baseado seu trabalho em relatos da época.

Uma garçonete veio à mesa.

— Li ho ho — disse Artemis. — Gostaríamos de um bule de chá oolong. Orgânico, se você tiver.

A garçonete piscou para Artemis, depois olhou para Butler, que continuava de pé.

— O senhor é o Sr. Fowl? — perguntou ela num inglês excelente.

— Sou o jovem Sr. Fowl — respondeu Artemis, batendo na mesa para chamar atenção. — Você tem alguma coisa para mim?

A garçonete lhe passou um guardanapo.

— Do cavalheiro junto ao balcão.

Artemis olhou ao longo do corrimão metálico em arco e do sistema de pára-choques que mantinha os clientes longe da bola prateada, e, mais importante, que mantinha a bola longe deles.

Billy Kong estava sentado a umas 12 mesas de distância, balançando as sobrancelhas na direção deles. Não estava sozinho. Ninguém mais balançava a sobrancelha, mas havia três homens na mesa com ele, e vários outros espalhados na área do bar. Minerva estava sentada no joelho de Kong. Ele a segurava com força, pelo antebraço. Os ombros da garota estavam tensos, mas havia desafio em sua boca.

— Então? — disse Artemis a Butler.

— Pelo menos 12 — respondeu o guarda-costas. — Billy deve ter amigos em Taiwan.

— Nenhum deles invisível, graças a Deus — disse Artemis, abrindo o guardanapo.

Mande a criatura à mesa reservada, dizia a mensagem no guardanapo. Vou mandar a garota. Nenhum truque, caso contrário pessoas vão se machucar.

Ele passou o guardanapo a Butler.

— O que acha?

Butler deu uma olhada sumária no recado.

— Acho que ele não vai tentar nada aqui. Há câmeras demais. Se a segurança não filmá-lo, um turista filmará. Se Kong tentar algo, será lá fora.

— E até lá deverá ser demais.

— É o que esperamos.

A garçonete voltou com uma bandeja de bambu com um bule de cerâmica com chá e três copos. Artemis se demorou servindo-se de um pouco do líquido fumegante.

— Como está se sentindo, N° 1 ?

— Minha perna dói um pouco.

— O efeito do analgésico está passando. Vou pedir a Butler para lhe dar mais uma dose depois. Está pronto para ir? Tudo vai ficar bem, garanto.

— Só preciso abrir a mão?

— Assim que estiver no elevador.

— Certo. Você quer que eu distraia o sujeito mau contando vantagem, como você faz com Holly?

— Não. Não será necessário. Só abra a mão.

— Devo aparentar medo?

— Seria adequado.

— Bom. Não deve ser problema.

Butler estava funcionando em modo de ação total. Geralmente ele se continha, andando com passo leve para não atrair a atenção. Mas agora estava de pé e retesado, pronto para saltar e agir. Seu olhar era feroz e músculos se inchavam no pescoço. Captou o olhar de Billy Kong e se fixou nos olhos dele. Mesmo do outro lado da sala apinhada, a hostilidade era palpável. Dois turistas psiquicamente sensíveis ficaram subitamente ansiosos e giraram a cabeça, procurando o banheiro mais próximo.

Quando terminou de encarar Billy Kong de cima a baixo, Butler se ajoelhou para dar as últimas instruções ao N° 1.

— Você só precisa ir até aquela mesa que está com a placa de reservada. Espere até Minerva chegar lá, depois continue e vá até Kong. Se eles o tirarem daqui imediatamente, conte até vinte e abra a mão. Se esperarem a gente sair, abra a mão quando a porta do elevador estiver fechada. Entendeu?

— Entendo tudo. Em qualquer língua que você fale.

— Está pronto?

O N° 1 respirou fundo. Podia sentir a cauda vibrando de ansiedade. Estivera meio atordoado desde o túnel do tempo. Como alguém podia absorver tudo aquilo? Arranha-céus, pelo amor dos deuses. Prédios que realmente arranhavam o céu.

— Estou pronto — disse ele.

— Então vá. Boa sorte.

O N° 1 começou sua jornada solitária de volta ao cativeiro. Uma enorme quantidade de humanos se apinhava ao redor, empolgados, suando, mastigando coisas, apontando máquinas uns para os outros.

Acho que devem ser câmeras.

O sol do meio-dia atravessava as janelas que iam do chão ao teto, refletindo-se na prata do amortecedor de massa, iluminando-o como uma bola de discoteca. Os tampos das mesas ficavam logo acima da sua cabeça. Garçons e garçonetes passavam rapidamente com bandejas cheias. Copos caíam, crianças gritavam.

Gente demais, pensou o N° 1. Ele precisou ficar nas pontas dos pés para ver o cartão dobrado com a palavra impressa. Levantou a aba da touca para enxergar direito. Estava começando a perceber que uma bata e uma touca não eram roupas típicas das Crianças da Lama, como Artemis havia dito.

Este é um disfarce horrível. Estou parecendo um monstro. Sem dúvida alguém verá que não sou humano. Gostaria de poder me escudar, como Holly.

Infelizmente, mesmo que o N° 1 pudesse controlar seus poderes mágicos recentes, escudar-se nunca havia sido uma arma no arsenal dos demônios feiticeiros.

O N° 1 deu um passo à direita, franzindo os olhos para enxergar além da claridade do gigantesco amortecedor de massa. Minerva estava se aproximando, dando pequenos passos cautelosos em direção à mesa reservada. Atrás dela, Kong se inclinou adiante na cadeira, com os dedos dos pés batendo de empolgação e ansiedade. Era como um cão preso à guia, com cheiro de raposa no nariz.

Minerva chegou. Levantou a aba da touca do N° 1 para verificar se era ele.

— A touca não é minha — disse o N° 1. — E certamente a bata não é minha.

Minerva segurou sua mão. Antes do seqüestro, ela era oitenta por cento gênio e vinte por cento menina de 12 anos. Agora era aproximadamente meio a meio.

— Desculpe por tudo. Por ter amarrado você e todo o resto. Achei que você tentaria me comer.

— Nem todos somos selvagens. E meus pulsos doeram por séculos. Mas perdôo você, acho. Desde que seus dias de amarrar estejam terminados.

— Estão. Sim. Garanto. — Minerva olhou por cima da cabeça do N° 1, para a mesa de Artemis. — Por que ele está me ajudando? Você sabe?

O N° 1 deu de ombros.

— Não sei bem. Holly, a nossa amiga, disse que tinha a ver com puberdade. Parece que você é bonita, mas, para ser sincero, não consigo ver isso.

A conversa foi interrompida por um assobio vindo de perto do balcão. Billy Kong estava ficando impaciente. O ex-empregado dos Paradizo chamou o N° 1 com o indicador.

— Preciso ir. Partir. Retirar-me.

Minerva assentiu.

— Tudo bem. Tenha cuidado. Vejo você em breve. Onde está? Na sua mão?

— É — respondeu o N° 1 automaticamente, e depois: — Como sabia?

Minerva continuou andando lentamente.

— Genialidade. Não pude evitar.

Este lugar está apinhado de gênios, pensou o N° 1. Só espero que o Sr. Kong não seja outro.

Continuou andando, tendo o cuidado de manter os pés e as mãos dentro da bata. A última coisa que queria era causar pânico, expondo seus dedos cinza e curtos. Se bem que talvez os humanos fizessem reverência e o adorassem. Afinal de contas, ele era incrivelmente bonito se comparado aos machos desengonçados daquela espécie.

Billy Kong era todo sorrisos quando o N° 1 chegou à mesa. No rosto dele um sorriso parecia o primeiro sintoma de uma doença. O cabelo estava espetado em pontas perfeitas. Mesmo no meio de um seqüestro, Kong ainda tinha tempo para o cabelo. Os cuidados pessoais dizem muito sobre uma pessoa.

— Bem-vindo de volta, demônio — disse ele, segurando o tecido da bata. — É um prazer ver você. Se é que é você...

— Se é que sou eu? — perguntou o N° 1, confuso. — Eu só posso ser eu.

— Perdão se não aceito sua palavra — fungou Kong, puxando para trás o babado da touca para olhar rapidamente o rosto do N° 1. — Se aquele moleque, o Fowl, tiver metade da inteligência que ouvi dizer, certamente vai tentar alguma coisa.

Kong examinou o rosto do imp, cutucando a placa da testa, puxando os lábios para trás para verificar as gengivas rosadas e os dentes brancos e quadrados. Por fim acompanhou com o dedo a runa na testa do N° 1 para se certificar de que não era pintada.

— Satisfeito?

— Praticamente. Acho que o pequeno Artemis não teve tempo de fazer uma troca. Eu o pressionei demais.

— Você pressionou todos nós demais — reclamou o N° 1. — Tivemos de voar até aqui numa máquina. Eu vi a lua de perto.

— Você está partindo meu coração, demônio. Depois do que fez com meu irmão, tem sorte de estar vivo. Algo que espero remediar nos próximos minutos.

O N° 1 girou a cabeça para olhar rapidamente os elevadores. Artemis, Butler e Minerva estavam a dois passos das portas.

— Não olhe para eles. Eles não podem ajudá-lo. Ninguém pode ajudá-lo.

Kong estalou os dedos e um sujeito musculoso se juntou a eles perto da mesa. Estava segurando uma grande mala de metal.

— Para o caso de você estar se perguntando, isto é uma bomba. Sabe o que é uma bomba, não sabe?

— Bomba — disse o N° 1. — Explosivo. Instrumento incendiário. — Seus olhos se arregalaram. — Mas isso poderia machucar alguém. Muitos alguéns.

— Exato. Mas não humanos. Demônios. Vou amarrar isso em você, ajustar o temporizador e depois mandá-lo de volta para a sua ilha. A explosão deve pelo menos reduzir bastante a população de demônios. Vocês não vão atravessar para cá, para suas pequenas caçadas de pesadelos, durante um bom tempo.

— Não farei isso — disse o N° 1, batendo o pé no chão.

Kong riu.

— Tem certeza de que você é um demônio? Pelo que ouvi dizer, o último era mais... demoníaco.

— Sou um demônio. Um demônio feiticeiro.

Kong se inclinou suficientemente perto para que o N° 1 sentisse o cheiro cítrico de sua loção pós-barba.

— Bom, pequeno Sr. Feiticeiro, talvez você possa transformar esta bomba num buquê de flores, mas duvido.

— Não preciso fazer nada, porque você não pode me fazer retornar a Hybras.

Kong pegou um par de algemas no bolso.

— Pelo contrário. Sei exatamente o que fazer. Descobri umas coisinhas no castelo. Só precisamos arrancar aquela bala de prata de sua perna, e Hybras vai sugá-lo de volta para casa.

O N° 1 olhou de novo para o elevador. A porta estava se fechando atrás de seus novos amigos.

— Quer dizer, esta bala de prata? — perguntou ele, mostrando a Kong o que estava escondido na sua mão.

— Ele tirou — ofegou Billy Kong. — Fowl tirou a bala.

— Tirou — concordou o N° 1. — Extraiu. Removeu.

Então largou a bala de prata e desapareceu.

 

Holly estivera agachada sobre o amortecedor de massa, olhando o desenrolar dos acontecimentos. Até agora tudo havia ocorrido segundo o plano. Minerva havia alcançado Artemis e Butler levou os dois para o elevador. Na outra extremidade do balcão, Billy Kong estava fazendo o seu número de psicopata sorridente. Quando tudo aquilo terminasse, aquele Homem da Lama teria de sofrer um apagamento mental. Haveria um bocado de pontas soltas para amarrar. Mas não era trabalho dela: não fazia mais parte da LEP. Depois disso, teria sorte se ficasse na Seção Oito.

Holly apertou um botão no computador de pulso, dando um zoom no N° 1. O imp levantou a mão esquerda. O sinal.

Era isso. Hora de testar as teorias. Era olá de novo ou adeus para sempre.

O plano de Artemis era arriscado porque seus cálculos eram teóricos, mas era a única chance de salvar a ilha dos demônios. E Artemis estivera certo até agora. Se Holly precisasse contar com as teorias de alguém, preferiria que fossem de Artemis Fowl.

Enquanto olhava o N° 1 largar a bala de prata e desaparecer, não pôde resistir a tirar uma foto do rosto de Kong com a câmera de seu capacete. A reação do sujeito foi inestimável. Eles dariam boas risadas com isso mais tarde.

Então ativou as asas, erguendo-se acima da gigantesca bola de prata, esperando sinais.

Segundos depois um leve retângulo azul começou a girar no topo da bola prateada, exatamente onde Artemis soube que isso aconteceria. O N° 1 estava retornando, exatamente como Artemis havia previsto.

Uma massa de prata tão grande, a menos de 3 metros, deve interromper a viagem do N° 1 para casa. Deve causar uma materialização momentânea no topo, onde a energia de campo do amortecedor é mais concentrada. Você, Holly, deve ficar lá para garantir que essa materialização momentânea se torne mais permanente.

Sobre o amortecedor de massa, a forma do N° 1 era visível dentro do retângulo reluzente. Ele parecia um tanto confuso, como se meio adormecido. Um braço penetrou neste mundo, segurando a realidade. Foi o que bastou para Holly. Ela saltou para baixo e prendeu uma pulseira de prata no pulso cinzento do N° 1. Os dedos fantasmagóricos se retorceram e se solidificaram. A solidez se acelerou ao longo do braço do N° 1 como tinta cinza, resgatando-o do limbo. Em segundos, onde houvera apenas espaço, agora se agachava uma criatura trêmula.

— Eu fui? — perguntou o pequeno imp, — Eu voltei?

— Sim e sim — respondeu Holly. — Agora fique quieto e cale a boca. Precisamos tirá-lo daqui.

O amortecedor de massa balançava lentamente, dissipando a força do vento que golpeava o Taipei 101. Holly se inclinou com o balanço, segurou o N° 1 e decolou verticalmente, tendo o cuidado de manter sua carga escondida pelas 700 toneladas de bala de prata.

O andar em cima era outro deque de observação, mas estava fechado para reformas. Um único trabalhador cortava carpete para colocar num canto, e não pareceu surpreso ao ver um imp vestido de bata chegar voando por cima do corrimão.

— Ei — disse ele. — É um imp de bata. Sabe de uma coisa, imp?

O N° 1 pousou no chão com um som oco.

— Não — respondeu cautelosamente. — Diga uma coisa.

— Não estou nem um pouco surpreso em ver você. Na verdade você é tão pouco notável que vou esquecer tudo a seu respeito assim que você tiver sumido.

O N° 1 se empertigou e ajeitou a touca.

— Vejo que você conversou com ele.

Holly desligou o escudo e passou a ser visível.

— Eu lhe dei um toque de mesmer. — Ela espiou por cima do corrimão, para o restaurante abaixo. — Venha cá, N° 1. Você vai gostar de ver isso.

O N° 1 encostou os dedos no vidro. Kong e seus capangas estavam criando caos embaixo, correndo na direção dos elevadores. Kong estava particularmente perturbado, empurrando turistas para fora do caminho e virando mesas.

— Provavelmente não temos tempo para isso — disse o N° 1.

— Provavelmente não — concordou Holly. Nenhum dos dois se mexeu.

— Ei, olhem — disse o trabalhador. — Outra criatura estranha. Que coisa pouco notável!

Só quando as portas do elevador Toshiba haviam se fechado atrás de Billy Kong e sua turma, Holly se virou para ir embora.

— Para onde, agora? — perguntou o N° 1, enxugando uma lágrima de felicidade do olho.

— Agora vamos à segunda fase — respondeu Holly, apertando o botão do elevador. — É hora de salvar Hybras.

— Aqui nada é monótono — disse o N° 1, correndo para dentro da caixa de metal. — Ei, é o meu primeiro lugar-comum!

 

Artemis e Butler tinham observado Minerva atravessando o restaurante na direção deles. A garota se portou com coragem considerável nas circunstâncias. Seu queixo estava erguido e ela mostrava uma expressão decidida no olhar.

— Butler, posso perguntar uma coisa? — disse Artemis.

Butler estava tentando ficar de olho em todas as pessoas do restaurante.

— Estou meio ocupado no momento, Artemis.

— Não é nada complicado. Só um “sim” ou “não”. Durante a puberdade é normal ter essas porcarias de sentimentos de atração em momentos tensos? Durante uma troca de reféns, por exemplo?

— Ela é bonita, não é?

— Extremamente. E divertida também. Lembra aquela piada do quark?

— Lembro. Um dia precisamos conversar sobre piadas. Talvez Minerva possa participar. E, respondendo à sua pergunta, é normal. Quanto mais estressante a situação, mais seu corpo bombeia hormônios.

— Bom. Então, de volta aos negócios.

Minerva não se apressou. Rodeou turistas e mesas enquanto ia firme na direção deles.

Quando chegou perto, Butler pôs a mão em seu ombro para firmá-la e orientá-la.

— Você costuma ser seqüestrada todo dia? — resmungou ele, guiando-a para o elevador.

Artemis foi atrás, olhando por cima do ombro para garantir que não estavam sendo seguidos. Kong nem olhava para eles, de tão feliz que estava com sua presa.

O elevador se abriu e o trio entrou. Na parede do elevador, a luz indicando o andar piscava rapidamente, descendo.

Artemis estendeu a mão para Minerva.

— Artemis Fowl II. Prazer em finalmente conhecê-la.

Minerva apertou sua mão calorosamente.

— Minerva Paradizo. Prazer. Você entregou seu demônio por mim. Agradeço. — Ela ficou ligeiramente ruborizada.

O elevador parou suavemente e as portas de aço se abriram praticamente sem um chiado. Minerva espiou para fora.

— Aqui não é o saguão. Por que não estamos indo embora? Artemis saiu no 40° andar.

— O trabalho aqui não está acabado. Preciso pegar nosso demônio de volta, e está na hora de você saber contra o quê você quase se meteu.

 

Artemis caminhou pelo saguão da Galeria Kimisichiog ladeado por Butler e Minerva. — Estamos numa galeria de arte — disse Minerva. — Temos realmente tempo para arte? Artemis parou, surpreso.

— Sempre há tempo para arte. Mas estamos aqui por causa de uma obra de arte muito especial.

— E qual é?

Artemis apontou para estandartes de seda pintada, penduradas do teto a intervalos regulares. Cada estandarte tinha uma única runa dramática e espiralada.

— Eu acompanho o que acontece no mundo da arte. Esta exposição, em particular, me interessa. A peça central são os restos de uma escultura fantástica. Um semicírculo de estranhas figuras dançando. Tem cerca de 10 mil anos de idade. Supostamente encontrada na costa da Irlanda, no entanto está aqui, em Taiwan, sendo exposta por uma petrolífera americana.

— Artemis, por que estamos aqui? Preciso ir para casa encontrar meu pai.

— Você não reconhece a runa? Não viu em algum lugar?

Minerva se lembrou imediatamente.

— Mais oui! Certainement. É a runa da testa do demônio. A mesmíssima.

Artemis estalou os dedos e continuou andando.

— Exato. Quando conheci o N° 1, soube que suas marcas pareciam familiares. Demorei um tempo para lembrar onde tinha visto antes, mas assim que soube ocorreu-me que talvez essa escultura não fosse escultura nenhuma.

O cérebro de Minerva disparou à frente.

— Era o círculo de feiticeiros. Do feitiço de tempo original.

— Exatamente. E se eles não foram lançados ao espaço? E se um deles teve o pensamento rápido de usar o toque da gárgula para transformar todos em pedra?

— E se o N° 1 é um feiticeiro, é o único que pode reanimá-los.

— Muito bom, Minerva. Você entende rápido. Jovem, rápida e arrogante. Me lembra alguém. Quem poderia ser?

— Não faço a menor idéia — disse Butler revirando os olhos.

— Mas como você armou isso? — pensou a garota francesa em voz alta. — O local de encontro foi idéia de Kong. Eu o ouvi falando ao telefone.

Artemis sorriu da própria inteligência.

— Enquanto ele estava pensando, eu disse: “Eu vou estar com uma gravata cor de vinho, tá?, e peito sua coragem. Há cento e um modos de isso dar errado. Se isso acontecer, a polícia dará um basta e, onde quer que você esteja, vai se dar mal.” Entendeu?

Minerva repuxou um cacho, pensativa.

— Mon Dieu/Você usou a força da sugestão. Tá e pei. Cento e um. Ta e on.

— Ou o que o subconsciente de Kong ouviu: Taipei 101, Taiwan.

— Brilhante, Artemis. Extraordinário. E, vindo de mim, isso significa alguma coisa.

— Foi brilhante — disse Artemis com sua característica falta de modéstia. — Aliado ao fato de que o segundo lar de Kong é Taiwan, tive uma confiança razoável em que daria certo.

Havia um homem de aparência preocupada no balcão de recepção da galeria. Vestia um terno azul-néon e tinha a cabeça totalmente raspada, a não ser por uma espiral de cabelos muito curtos na forma da runa do N° 1. Ele falava rapidamente em taiwanês num fone de ouvido com microfone, sem fio.

— Não, não. Salmão não serve. Lula e lagosta, foi o que pedimos. Mande para cá às oito horas ou eu desço aí, corto vocês e sirvo como sushi.

— Problema com o serviço de bufê? — perguntou Artemis num tom agradável quando o homem desligou o aparelho.

— Sim — respondeu ele. — A exposição abre esta noite e...

O sujeito parou porque havia olhado para ver quem falava e viu Butler.

— Bem, uau. Grande. Quero dizer, olá. Sou o Sr. Lin, curador da mostra. Em que posso ajudá-los?

— Esperávamos conseguir uma visita particular à exposição — disse Artemis. — Especificamente as figuras dançantes.

O Sr. Lin ficou tão surpreso que conseguiu pouco mais do que ficar ruborizado.

— O quê? Uma o quê? Particular? Não, não, não. Impossível, fora de questão. Isto é arte importante. Olhem minha cabeça. Olhem! Não faço isso por qualquer mostra.

— Sei disso, mas meu amigo aqui, o grandalhão, ficaria extremamente feliz se o senhor nos deixasse entrar por um minuto.

O Sr. Lin abriu a boca para responder, mas algo no corredor atraiu sua atenção.

— O que é aquilo? Aquilo de bata? Artemis não se incomodou em olhar.

— Ah, sim. Nós disfarçamos nosso demoniozinho amigo como uma criança vestida de bata.

O Sr. Lin franziu a testa e a espiral em sua cabeça se moveu.

— Demoniozinho amigo? Ah, é? Quem são vocês? São da revista Pop Arte Hoje? Esta é uma das armações pós-modernas de Dougie Hemler?

— Não. Ele é um demônio de verdade. Um feiticeiro demônio, para ser exato. A que está voando atrás dele é um elfo.

— Voando? Diga a Dougie Hemler que mandei informar que não há nenhuma chance... — Então ele viu Holly pairando acima da cabeça do N° 1. — Ah!

— Ah! — concordou Artemis. — Essa é uma boa reação. Agora, podemos entrar? É extremamente importante.

— Vocês vão arruinar a exposição?

— Provavelmente — admitiu Artemis.

O lábio do Sr. Lin tremeu enquanto ele falava.

— Então não posso deixar que entrem.

Holly saltou adiante, fechando o visor do capacete.

— Acho que o senhor pode nos deixar entrar — disse ela, com a voz cheia de camadas de magia. — Porque esses três humanos são seus amigos mais antigos. Você os convidou para dar uma espiadinha antes da abertura.

— E vocês dois?

— Não se preocupe conosco. Nem estamos aqui. Somos apenas inspiração para sua próxima mostra. Então, por que não nos deixa entrar?

O Sr. Lin balançou a mão na direção de Holly.

— Por que eu me preocuparia com vocês? Vocês nem estão aqui. São apenas uma idéia boba voando ao redor da minha cabeça. Quanto a vocês três, fico tão feliz por terem conseguido vir! Entrem, entrem. Esta exposição vai deixá-los fascinados.

— Não precisa nos gravar em vídeo — disse Holly. — Por que não desliga as câmeras da galeria?

— Vou desligar as câmeras da galeria, para dar um pouquinho de privacidade a vocês.

— Boa idéia.

O curador havia retornado a atenção para a pilha de cartazes sobre a mesa antes mesmo que a porta de segurança tivesse se fechado atrás de Artemis e seu grupo.

 

O salão de exposições era ultramoderno, com piso de madeira escura e venezianas. As paredes eram cheias de fotografias, ampliações gigantescas das figuras dançantes que estavam no centro. As figuras propriamente ditas estavam sobre um tablado, para tornar mais fácil enxergar os detalhes. Havia tantos refletores voltados para elas que praticamente não havia nenhuma sombra na pedra.

O N° 1 tirou distraidamente sua touca, aproximando-se da mostra num atordoamento, como se ele tivesse sido mesmerizado, e não o curador.

Subiu no tablado, acariciando a pele de pedra da primeira figura.

— Feiticeiros — sussurrou. — Irmãos.

A escultura era linda nos detalhes, no entanto horrenda no tema. Consistia em quatro criaturas num semicírculo dividido, no ato de dançar ou se encolher para longe de alguma coisa. Eram pequenas criaturas atarracadas, como o N° 1, com maxilares proeminentes, peitos largos e caudas curtas. Os corpos, os membros e as testas eram cobertos por runas retorcidas. Todos os demônios se davam as mãos, e o quarto se agarrava à mão cortada do próximo na fila.

— O círculo foi partido — disse o N° 1. — Algo deu errado.

Artemis subiu no tablado junto dele.

— Você pode trazê-los de volta?

— Trazê-los de volta? — perguntou o N° 1, cheio de espanto.

— Pelo que sei do toque da gárgula, ele pode transformar coisas vivas em pedra e trazê-las de volta. Você tem o toque; pode usá-lo?

O N° 1 esfregou as palmas das mãos, nervoso.

— Talvez eu tenha o toque. Entendeu, talvez, e esse é um talvez enorme. Eu transformei um espeto de madeira em pedra, pelo menos acho que era pedra. Talvez estivesse apenas coberto de cinza. Eu estava sofrendo muita pressão. Todo mundo olhando. Você sabe como é; talvez não saiba. Quantos de vocês já estiveram na escola dos imps? Nenhum, certo?

Artemis segurou o ombro dele.

— Você está falando demais, N° 1. Precisa se concentrar.

— É. Claro. Concentrar. Focalizar. Pensar.

— Bom. Agora veja se consegue trazê-los de volta. E o único modo de salvar Hybras.

Holly balançou a cabeça.

— Tremendo modo de afastar a pressão, gênio.

Minerva estava circulando pela exposição, atordoada.

— Essas estátuas são demônios de verdade. Eles estão entre nós há todo esse tempo. Eu deveria ter visto, mas Abbot não tinha essa aparência.

Holly pousou ao lado da garota, bem perto.

— Há espécies inteiras das quais você não sabe nada. Você quase ajudou a acabar com uma delas. Teve sorte. Se isso tivesse acontecido, uma dúzia de Artemis Fowls não bastaria para resgatá-la da polícia do povo subterrâneo.

— Sei. Já pedi desculpas. Podemos ir em frente?

Holly franziu a testa para ela.

— Fico feliz ao ver que você já se perdoou tão depressa.

— Guardar sentimentos de culpa pode ter um efeito negativo na saúde mental.

— Gênios mirins — resmungou Holly.

No tablado, o N° 1 estava pondo as mãos num dos demônios petrificados.

— Bom, lá em Hybras, eu só segurei o espeto e fiquei agitado, então a coisa começou. Não estava tentando transformá-lo em pedra.

— Você pode se agitar agora? — perguntou Artemis.

— O quê? Assim, sem mais nem menos? Não sei. Estou me sentindo meio enjoado, para ser sincero. Acho que a bata está me dando dor de cabeça. É colorida demais.

— E se Butler lhe desse um susto?

— Não é a mesma coisa. Preciso de uma pressão de verdade. Sei que o Sr. Butler não iria me matar.

— Eu não teria tanta certeza.

— Oh, ha, ha. Engraçado — disse o N° 1. — Dá para ver que terei de tomar cuidado perto de você.

Butler estava verificando sua pistola quando ouviu ruídos no corredor. Correu até a porta de segurança e espiou pelo pequeno retângulo de vidro reforçado.

— Temos companhia — declarou engatilhando a pistola. — Kong nos encontrou.

O guarda-costas deu um tiro na tranca eletrônica, fritando o chip e lacrando a passagem.

— Eles não vão demorar muito para abrir a porta. Temos de acordar esses demônios e sair daqui. Agora!

Artemis apertou o ombro do N° 1, assentindo para a porta.

— Isso é pressão bastante para você?

 

Do outro lado da porta de segurança, Kong e seus homens pararam ao ver um teclado soltando fumaça.

— Droga — xingou Kong. — Ele estourou a tranca. Teremos de abrir caminho a tiros. Não há tempo para planejamentos. Don, você está com a mala?

Don levantou a mala.

— Está bem aqui.

— Bom. Se por algum milagre houver um demônio aí, prenda a pasta ao pulso dele, bem apertado. Não quero perder outra chance.

— Tudo bem. Temos granadas, chefe. Podemos explodir a porta.

— Não — disse Kong rispidamente. — Eu preciso de

Minerva e não quero que ela seja ferida. Se alguém machucar a garota, eu machuco o alguém. Entendido?

Todo mundo entendeu. Não havia nada complicado naquilo.

 

Dentro da galeria, Artemis estava ficando meio ansioso. Havia esperado que Kong saísse do prédio imediatamente, mas o assassino devia ter visto um dos cartazes da exposição no elevador e chegado à mesma conclusão que ele.

— Alguma coisa? — perguntou ao N° 1, que estava distraidamente coçando o braço de uma estátua.

— Ainda não. Estou tentando.

Artemis deu um tapinha no ombro dele.

— Tente com mais empenho. Não tenho vontade de me envolver num tiroteio num prédio alto. No mínimo, todos iríamos parar numa prisão de Taiwan.

Muito bem, pensou o N° 1. Concentre-se. Encoste a mão na pedra.

Segurou com força o dedo do feiticeiro de pedra e tentou sentir alguma coisa. Pelo pouco que sabia dos feiticeiros, adivinhou que aquele era provavelmente Qwan, o mago idoso. A cabeça da figura de pedra era cercada por uma tira simples, com um desenho em espiral na frente, sinal de liderança.

Como deve ter sido terrível, refletiu o N° 1, ver seu lar se desmaterializar e ser deixado para trás. Saber que tudo foi culpa sua.

Não foi minha culpa!, estalou uma voz na cabeça do N° 1. Foi aquele demônio idiota, o N’zall. Agora, você vai me tirar daqui ou não?

O N° 1 quase desmaiou. Sua respiração saía em jorros curtos e explosivos e seu coração parecia escalar o peito.

Ande, jovem feiticeiro. Liberte-me! Estou esperando há muito tempo.

A voz, a presença, estava dentro da escultura. Era Qwan.

Claro que é Qwan. Você está segurando a minha mão. Quem você achou que era? Você não é idiota, é? Mas que sorte a minha, esperar dez mil anos e então aparecer um idiota.

— Não sou idiota! — respondeu bruscamente o N° 1.

— Claro que não — disse Artemis, encorajando. — Só se esforce ao máximo. Vou instruir Butler a segurar Kong pelo maior tempo possível.

O N° 1 mordeu o lábio e assentiu. Se falasse alguma coisa, poderia ficar confuso. E essa situação era suficientemente confusa sem que ele aumentasse a confusão.

Tentaria o poder do pensamento. Qwan estava falando na sua mente, talvez a coisa funcionasse no sentido inverso.

Claro que funciona!, disse Qwan. E que bobagem é essa sobre comida cozida? Só me liberte desta prisão.

O N° 1 se encolheu, tentando mentalmente esconder os sonhos sobre um banquete cozido.

Não sei como libertá-los, pensou. Não sei se consigo.

Claro que consegue, respondeu Qwan. Você tem magia suficiente para ensinar um troll a tocar um instrumento. Só deixe sair.

Como? Não faço idéia.

Qwan ficou quieto um momento, enquanto espiava rapidamente as lembranças do N° 1.

Ah, sei. Você é um noviço completo. Não teve nenhum treinamento. Tudo bem. Mesmo. Sem instrução especializada, você poderia ter explodido metade de Hybras. Muito bem, vou lhe dar uma leve cutucada na direção certa. Não posso fazer muita coisa daqui, mas talvez consiga fazer seu poder fluir. Vai ficar mais fácil depois disso. Assim que você estiver em contato com um feiticeiro, parte do conhecimento dele passa para você.

O N° 1 poderia ter jurado que as figuras de pedra haviam se movido um pouquinho, sozinhas, mas poderia ter sido sua imaginação. O que definitivamente não era sua imaginação foi a súbita sensação de frio e de perda que disparou por seu braço. Como se a vida estivesse sendo sugada dele.

Não se preocupe, jovem feiticeiro. Estou simplesmente sugando um pouco de magia para fazer as fagulhas correrem. A sensação é terrível, mas não vai durar.

Era realmente terrível. O N° 1 imaginou que morrer pedaço por pedaço seria algo assim, o que, de certa forma, era o que estava acontecendo. E nesta situação o corpo tenta se defender lutando contra o intruso. A magia que estivera adormecida dentro do N° 1 até recentemente explodiu de súbito em seu cérebro e saiu caçando o invasor.

Para o N° 1 era como se de repente ele tivesse todo um novo espectro de visão. Antes era cego, mas agora conseguia ver através das paredes. Claro, não era realmente uma espécie de visão de raio X, era uma compreensão de suas próprias capacidades. A magia fluía através dele como fogo líquido, expulsando as impurezas pelos poros. Soltando vapor através dos seus orifícios e fazendo luzir as runas do corpo.

Bom garoto, disse Qwan. Agora libere a força. Expulse-me.

O N° 1 descobriu que era capaz de fazer exatamente isso, controlar o fluxo mágico. Mandou-o atrás do fiapo emitido por Qwan, através dos próprios dedos e entrando nos de Qwan. A sensação de morte foi substituída por um zumbido de energia. Começou a vibrar, e a estátua também, soltando lascas de pedra como uma pele morta de cobra. Os dedos do velho feiticeiro não eram mais sólidos, e sim pele viva, respirando. Eles seguraram o N° 1 com força, mantendo firme a ligação.

É isso, garoto, você está conseguindo.

Estou conseguindo, pensou o N° 1, incrédulo. Isso está realmente acontecendo.

Artemis e Holly ficaram olhando espantados enquanto a magia se espalhava pelo corpo de Qwan, soltando a pedra de seus membros com estalos que pareciam tiros de pistola e com chamas laranja. A vida reivindicou a mão de Qwan, depois o braço, depois o tronco. Pedra caiu do queixo e da boca, permitindo que o feiticeiro respirasse pela primeira vez em dez milênios. Olhos azuis brilhantes se semicerraram por causa da luz e se fecharam com força. E a magia continuava correndo, explodindo cada lasca de pedra do corpo de Qwan. Mas em seguida parou. Quando as fagulhas da energia do N° 1 chegaram ao feiticeiro seguinte da fila, simplesmente chiaram e morreram.

— E os outros? — perguntou o N° 1. Sem dúvida poderia libertá-los também.

Qwan pigarreou e tossiu por vários instantes antes de responder.

— Mortos — disse ele, depois tombou no meio do entulho.

 

Do outro lado da porta de segurança da galeria, Kong estava esvaziando o terceiro pente de sua pistola automática no teclado da fechadura.

— A porta não vai agüentar muito tempo — disse Butler. — Vai ser a qualquer segundo.

— Você pode segurá-los? — perguntou Artemis.

— Não deve ser problema. Não quero deixar nenhum corpo aqui, Artemis. Imagino que a polícia já esteja a caminho.

— Talvez você devesse somente amedrontá-los um pouco.

Butler riu.

— O prazer será meu.

Os tiros pararam e a porta de segurança tombou ligeiramente, presa às dobradiças. Butler escancarou-a com rapidez, puxando Billy Kong para dentro. Depois fechou a porta de novo.

— Olá, Billy — disse ele, apertando o sujeito menor contra a parede.

Kong estava demente demais para sentir medo. Deu uma série de socos, e qualquer um seria fatal para uma pessoa comum. Eles ricochetearam em Butler como uma mosca ricocheteando num tanque de guerra. Isso não quer dizer que não doeram. As mãos treinadas de Kong pareciam ferros em brasa nos pontos de impacto. A única reação de Butler à dor foi uma ligeira tensão nos cantos da boca.

— Holly? — disse ele.

— Jogue — disse Holly, apontando sua Neutrino para um ponto do espaço.

Butler jogou Billy Kong diretamente para cima e Holly acertou-o no ar com um tiro de sua arma. Kong girou pelo chão, ainda dando socos espasmódicos.

— A cabeça da serpente está fora de ação — disse Artemis.

— Esperemos que o resto siga o mesmo caminho.

Minerva decidiu aproveitar a inconsciência de Billy Kong para se vingar um pouco. Foi até seu seqüestrador deitado.

— Você, Sr. Kong, não passa de um bandido — disse, chutando-o na perna.

— Jovem dama — disse Butler incisivamente. — Afaste-se. Ele pode não estar completamente apagado.

— Se meu pai tiver ao menos um fio de cabelo fora do lugar — continuou Minerva, sem perceber os avisos de Butler —, vou garantir pessoalmente que você passe o máximo de tempo possível na prisão.

Kong entreabriu um olho.

— Isso não é modo de falar com os empregados — grasnou ele, e enrolou dedos de aço nos tornozelos dela.

Minerva percebeu que havia cometido um erro drástico e decidiu que o melhor a fazer era gritar o mais esganiçadamente possível. E fez isso.

 

Butler estava dividido. Seu dever era proteger Artemis, e não Minerva, mas devido aos anos de trabalho com Artemis, e também a Holly, havia adotado inconscientemente o papel de protetor geral. Sempre que alguém corria perigo, ele ajudava a pessoa a escapar. E aquela garota idiota estava certamente em perigo. Perigo mortal.

Por que será que os inteligentes sempre se acham invencíveis?, pensou.

Assim Butler tomou uma decisão cujas conseqüências iriam assombrar seus sonhos e suas horas de vigília durante anos. Como guarda-costas profissional, sabia da inutilidade de pensar duas vezes nas próprias ações, mas nas noites à frente iria se sentar com freqüência diante da lareira, com a cabeça nas mãos, e repassar o momento na mente, desejando ter agido de outro modo. Independentemente de como agisse, os resultados seriam trágicos, mas pelo menos não seriam trágicos para Artemis.

Assim Butler agiu. Deu quatro passos para longe da porta, para soltar Minerva do aperto de Kong. Era uma coisa simples; o sujeito estava praticamente inconsciente. Parecia atuar numa espécie de energia psicótica. Butler simplesmente pisou com força em seu pulso e em seguida bateu com força entre os olhos, usando o nó do dedo indicador. Os olhos de Kong reviraram para trás na cabeça e seus dedos relaxaram como as pernas de uma aranha agonizante.

Minerva saiu do alcance de Kong.

— Foi muita idiotice minha. Desculpe.

— É um pouco tarde para isso — repreendeu Butler. — Agora, por favor, quer procurar um abrigo?

Todo o miniepisódio demorou cerca de quatro segundos, mas nesses quatro segundos aconteceu um monte de coisas do outro lado da porta de segurança. Don, que estava segurando a bomba, e recentemente havia levado um soco do chefe sem motivo, decidiu ganhar os favores de Kong entrando na galeria e atacando o gigante que estava lá dentro. Pôs o ombro na porta no instante exato em que Butler se afastava do outro lado. Para sua própria surpresa, entrou de cabeça na sala, seguido rapidamente por mais quatro capangas de Kong, brandindo várias armas.

Holly, que estava cobrindo a porta com sua Neutrino, não se preocupou indevidamente. Começou a se preocupar quando uma granada rolou para longe do emaranhado de homens e bateu em seu pé. Seria fácil para ela escapar, mas Artemis e o N° 1 estariam ao alcance da explosão.

Pense rápido!

Havia uma solução, mas era custosa em termos de equipamento. Enfiou a arma no coldre, tirou o capacete e o apertou sobre a granada, segurando-o ali com o peso do corpo. Era ura truque que havia usado antes com resultados variáveis. Esperava que isso não se tornasse um hábito.

Agachou-se como um sapo num cogumelo durante o que pareceu muito tempo. Notou, com o canto dos olhos, que um bandido com uma mala prateada estava dando um tapa no sujeito que havia atirado a granada. Talvez usar força mortal fosse contra as ordens.

A granada explodiu, lançando Holly num arco violento. O capacete absorveu a maior parte do choque e todos os estilhaços, mas ainda havia força suficiente para despedaçar os ossos dos tornozelos e fraturar um fêmur de Holly. Ela pousou nas costas de Artemis como um saco de pedras.

— Ai — disse ela, e apagou.

 

Artemis e o N° 1 estavam tentando ressuscitar Qwan.

— Ele está vivo — disse Artemis verificando a pulsação do feiticeiro. — Batimentos cardíacos firmes. Deve voltar a si logo. Mantenha contato firme, caso contrário ele pode desaparecer.

O N° 1 aninhou a cabeça do velho demônio.

— Ele me chamou de feiticeiro — disse lacrimoso. — Não estou sozinho.

— Mais tarde haverá tempo para um programa de entrevistas — disse Artemis bruscamente. — Precisamos sair daqui.

Agora os homens de Kong estavam dentro da galeria, e tiros foram disparados. Artemis confiava que Butler e Holly poderiam cuidar de alguns bandidos, mas essa confiança recebeu um golpe quando houve uma explosão súbita e Holly despencou em suas costas. O corpo dela foi envolvido instantaneamente por um casulo de luz azul. Fagulhas caíam do casulo como estrelas cadentes, procurando pelos ferimentos mais graves.

Artemis se arrastou, saindo de baixo dela e pousando a amiga gentilmente no chão ao lado de Qwan.

Agora os homens de Kong estavam embolados com Butler, e provavelmente se arrependendo de ter escolhido essa linha de atuação. Ele os atravessou como uma bola de boliche se chocando contra os pinos trêmulos, mas com economia de movimentos muito mais considerável.

Um deles conseguiu passar por Butler. Um homem alto com pescoço tatuado e uma mala de alumínio. Artemis achou que a mala não devia conter uma variedade de especiarias asiáticas, e percebeu que precisaria agir. Enquanto estava se perguntando o quê, exatamente, poderia fazer, o homem o mandou para longe. Quando conseguiu retornar ao lado de Holly, sua amiga estava sentada, grogue, e havia uma mala algemada no pulso dela. O homem que havia entregado a mala retornara à briga, onde durou menos de dez segundos antes que Butler o tirasse dela outra vez.

Artemis se ajoelhou ao lado de Holly.

— Você está bem?

Holly sorriu, mas foi com esforço.

— Mais ou menos, graças à magia. Mas estou seca, não resta nem uma gota. Portanto aconselho todo mundo a permanecer saudável até eu poder completar meu ritual. — Ela sacudiu o pulso, balançando a corrente.

— O que há nesta mala?

Artemis estava mais pálido do que de costume.

— Imagino que nada agradável. — Ele abriu os fechos e levantou a tampa. — E estou certo. É uma bomba. Grande e complicada. Eles conseguiram passá-la pela segurança, de algum modo. Provavelmente através de uma área ainda em construção.

Holly piscou, alerta, sacudindo a cabeça até a dor acordá-la.

— Certo. Bomba. Você consegue ver um cronômetro?

— Oito minutos. E contando.

— Você consegue desarmá-la?

Artemis franziu os lábios.

— Talvez. Preciso abrir o invólucro e entrar no mecanismo antes de ter certeza. Poderia ser um detonador direto ou podemos ter todo tipo de armadilhas.

Qwan se apoiou com dificuldade nos cotovelos, tossindo grandes bocados de poeira e cuspe.

— O que foi? Sou carne e osso depois de 10 mil anos e agora vocês estão dizendo que uma bomba vai me explodir em milhões de pedaços?

— Este é Qwan — explicou o N° 1. — É o feiticeiro mais poderoso do círculo mágico.

— Agora sou o único — disse Qwan. — Não pude salvar o resto. Só restamos nós dois, garoto.

— O senhor pode petrificar a bomba? — perguntou Holly.

— Vai demorar vários minutos até que minha magia esteja funcionando. De qualquer modo, o toque da gárgula só funciona com matéria orgânica. Plantas e animais. Uma bomba é cheia de componentes feitos pelo homem.

Artemis levantou uma sobrancelha.

— O senhor sabe sobre bombas?

— Eu estava petrificado. Não morto. Podia ver o que acontecia ao redor. As histórias que poderia contar a vocês! Vocês não acreditariam nos lugares onde os turistas grudam chiclete.

Butler empilhava corpos inconscientes contra a porta de segurança.

— Temos de sair daqui! — gritou ele. — A polícia está no corredor.

Artemis se levantou e deu uma dúzia de passos para longe do grupo, fechando os olhos.

— Artemis, não é hora de desmoronar — censurou Minerva, arrastando-se para fora de uma vitrine. — Precisamos de um plano.

— Pssiu, jovem dama — disse Butler. — Ele está pensando.

Artemis se deu 20 segundos para revirar o cérebro. O que conseguiu estava muito longe de ser perfeito.

— Muito bem. Holly, você precisa voar conosco para fora daqui.

Holly fez algumas somas de cabeça.

— Vão ser necessárias duas viagens, talvez três.

— Não temos tempo para isso. A bomba precisa ir primeiro. Há um monte de gente neste prédio. Eu devo ir com a bomba, já que há uma chance de desarmá-la. E os demônios também devem ir; é imperativo que não sejam levados sob custódia. Hybras se perderia.

— Não posso permitir isso — contrapôs Butler. — Tenho um dever para com seus pais.

Artemis falou sério com seu protetor:

— Estou lhe dando uma nova tarefa. Cuide de Minerva. Mantenha-a em segurança até podermos nos encontrar.

— Deixe Holly voar sobre o mar e largar a bomba — argumentou Butler. — Podemos montar uma missão de resgate mais tarde.

— Será tarde demais. Se não tirarmos estas criaturas daqui, os olhos do mundo estarão em Taipei. E, de qualquer modo, os mares da região estão apinhados de barcos de pesca. Este é o único modo. Não permitirei que humanos ou outras criaturas morram quando eu talvez possa impedir.

Butler não quis recuar.

— Escute o que você está dizendo. Está igualzinho a... a um sujeito bom! Você não vai ganhar nada com isso.

Artemis não tinha tempo para emoções.

— Nas palavras de HP Woodman, “O tempo está tiquetaqueando, portanto devemos ir”. Holly, amarre-nos em seu cinto, todos menos Butler e Minerva.

Holly assentiu, ainda ligeiramente em choque. Soltou uma quantidade de ganchos de seu cinto, desejando ter recebido um dos Cintos-lua de Potrus, que geravam um campo de baixa gravidade ao redor de tudo que era conectado a ele.

— Passe embaixo dos braços — instruiu ao N° 1. — Depois prenda de volta na argola.

Butler ajudou Artemis com sua tira.

— É isso aí, Artemis. Já estou cheio, juro. Quando chegarmos em casa, vou me aposentar. Sou mais velho do que pareço e me sinto mais velho do que sou. Chega de tramas. Promete?

Artemis forçou um sorriso.

— Vou simplesmente voar até o prédio ao lado. Se não puder desarmar a bomba, Holly pode levá-la sobre o mar e tentar descobrir um local seguro.

Os dois sabiam que Artemis não estava mentindo. Se ele não pudesse desarmar a bomba, não haveria tempo para encontrar um local seguro para largá-la.

— Aqui — disse Butler, entregando uma carteira de couro. — Minhas gazuas. Para que você possa ao menos penetrar no mecanismo.

— Obrigado.

Holly estava carregada até o queixo. O N° 1 e Qwan presos à cintura e Artemis amarrado à frente.

— Muito bem. Todo mundo pronto?

— Eu gostaria que minha magia retornasse — resmungou Qwan. — Iria me transformar de volta em estátua.

— Aterrorizado — disse o N° 1. — Pirando de vez. Morrendo de medo. Me borrando todo.

— Coloquialismos — disse Artemis. — Muito bom.

Butler fechou a mala.

— Um prédio ao lado. É só até lá que vocês precisam ir. Tire o painel e vá direto para o explosivo propriamente dito. Arranque o detonador, se for necessário.

— Entendido.

— Tudo bem. Não vou me despedir, só desejar boa sorte. Verei você assim que puder sair daqui usando conversa.

— Trinta minutos, no máximo.

Até aquele ponto, Minerva havia ficado para trás, envergonhada. Agora se adiantou.

— Sinto muito, Artemis. Eu não deveria ter chegado perto do Sr. Kong.

Butler levantou-a e a pôs de lado.

— Não, não deveria, mas agora não há tempo para desculpas. Só fique perto da porta e faça cara de inocente.

— Mas eu...

— Inocente! Agora!

Minerva cedeu, reconhecendo sensatamente que não era hora de discutir.

— Certo, Holly — disse Artemis. — Decolar.

— Verificando — disse Holly, ativando sua mochila. As asas lutaram por um momento com o peso extra e havia algo que Holly não gostou na vibração do motor, mas aos poucos o aparelho levantou os quatro acima do chão.

— Ótimo — disse ela. — Acho que estamos bem.

Butler cutucou o grupo voador na direção de uma janela. Aquilo tudo era tão arriscado que ele não estava acreditando que deixava acontecer. Era “ou vai ou racha”.

Levantou a mão e puxou a trava de segurança da janela. Todo o painel de 2 metros se escancarou, permitindo que o vento de alta altitude gritasse, entrando no prédio. De repente todo mundo ficou ensurdecido, sofrendo o ataque dos elementos. Era difícil enxergar alguém, e mais difícil ainda escutar.

Holly flutuou com o grupo para fora. Teriam sido chicoteados para longe se Butler não os segurasse por um segundo.

— Vá com o vento — gritou para Holly, soltando-os. — Faça uma descida gradual.

Holly assentiu. O motor da asa falhou por um segundo e eles caíram 2 metros. O estômago de Artemis se revirou.

— Butler — gritou ele, a voz fina e infantil no vento.

— Sim, Artemis, o quê?

— Se alguma coisa der errado, espere por mim. Não importando o que parecer, eu vou retornar. Vou trazer todos de volta.

Butler quase pulou atrás deles.

— O que você está planejando, Artemis? O que vai fazer?

Artemis gritou de volta, mas o vento pegou suas palavras, e o guarda-costas só pôde ficar parado, emoldurado por aço e vidro, gritando ao vento.

 

Caíram depressa. Um pouco mais depressa do que Holly gostaria.

As asas não agüentam, percebeu ela. Não agüentam o peso e o vento. Não vamos conseguir.

Bateu com um dedo na cabeça de Artemis.

— Artemis! — gritou ela.

— Eu sei — gritou de volta o garoto irlandês. — Peso demais.

Se caíssem agora, a bomba detonaria no meio de Taipei. Isso era inaceitável. Só havia uma coisa a fazer. Artemis não havia mencionado a opção a Butler, porque sabia que o guarda-costas iria rejeitar, mesmo que seu raciocínio parecesse razoável.

Antes que Artemis tivesse tempo de agir a partir de sua teoria, as asas de Holly engasgaram, sacudiram-se e morreram. Eles despencaram em queda livre, como um saco de âncoras, dando cambalhotas, perigosamente perto da parede do arranha-céu.

Os olhos de Artemis estavam escaldados pelo vento. Os membros dobrados para trás pelo vento forte, quase se partindo, e as bochechas inflavam a proporções cômicas, mas não havia nada engraçado em cair centenas de metros até a morte certa.

Não!, disse o cerne de aço de Artemis. Não deixarei que isso seja o fim.

Com uma determinação séria e física que devia ter aprendido com Butler, Artemis levantou os braços e segurou o braço do N° 1.0 objeto que procurava estava ali mesmo, quase em seu rosto, mas aparentemente impossível de ser alcançado.

Impossível ou não, preciso alcançá-lo.

Era como tentar fazer força contra a pele de um balão gigantesco, mas Artemis fez força.

O chão vinha subindo a toda velocidade, com os arranha-céus menores se projetando como lanças. E Artemis continuava fazendo força.

Por fim seus dedos se fecharam ao redor da pulseira de prata do N° 1.

Adeus, mundo, pensou. De um modo ou de outro.

E arrancou a pulseira, jogando-a longe. Agora os demônios não estavam mais ancorados a esta dimensão. Por um segundo não houve reação óbvia a isso, mas então, no momento em que passavam pelo primeiro dos arranha-céus mais baixos, um trapezóide roxo que girava lentamente se abriu no céu e os engoliu com tanta facilidade quanto uma criança pegando uma bala com a boca.

 

Butler cambaleou para trás, afastando-se da janela, tentando processar o que tinha visto. As asas de Holly haviam falhado, isso era claro, mas e depois? O quê?

Subitamente percebeu. Artemis devia ter um plano secundário; o garoto sempre tinha. Artemis nem ia ao banheiro sem uma segunda opção. Portanto eles não estavam mortos. Havia uma boa chance disso. Tinham simplesmente desaparecido na dimensão dos demônios. Butler precisaria ficar dizendo isso a si mesmo até acreditar.

Notou que Minerva estava chorando.

— Eles estão todos mortos, não é? Por minha causa.

Butler pôs a mão no ombro dela.

— Se estivessem todos mortos, seria por sua causa. Mas não estão. Artemis tem tudo sob controle. Agora levante o queixo, temos de sair daqui usando conversa, filha.

Minerva franziu a testa.

— Filha?

Butler piscou, mas não se sentia nem um pouco animado.

— Sim, filha.

Segundos depois, um esquadrão de policiais taiwaneses arrombou a porta, inundando o salão com uniformes azuis e cinza. Butler se viu olhando para os canos de uma dúzia de pistolas especiais da polícia. A maioria dos canos balançava um pouco.

— Não, seus idiotas — gritou o Sr. Lin, abrindo caminho entre os policiais. — Aquele não. Ele é um bom amigo. Aqueles outros, os inconscientes. Foram eles que invadiram a galeria; eles me derrubaram. É um milagre que meu amigo e sua...

— Filha — disse Butler rapidamente.

— E sua filha não tenham sofrido nada.

Então o curador notou a peça de exposição demolida e fingiu desmaiar. Quando ninguém correu para ajudá-lo, conteve-se, foi para um canto e soltou um gritinho.

Um inspetor que usava a arma ao estilo caubói foi até Butler.

— O senhor fez isto?

— Não. Não fui eu. Estávamos escondidos atrás de um caixote. Eles explodiram a escultura e começaram a lutar entre si.

— O senhor tem alguma idéia do motivo para essas pessoas quererem destruir a escultura?

Butler deu de ombros.

— Acho que eles se consideram anarquistas. Quem sabe o que esse povo pensa?

— Eles não têm documentos — disse o inspetor. — Nenhum. Acho isso meio estranho.

Butler deu um sorriso amargo. Depois de tudo que Billy Kong havia feito, só seria processado por danos contra propriedades. Claro, eles poderiam falar do seqüestro, mas isso provocaria semanas, talvez meses, de burocracia em Taiwan. E Butler não queria especificamente que alguém olhasse seu passado com muita intensidade, ou mesmo os vários passaportes falsos no bolso de seu paletó.

Então recordou algo. Algo sobre Kong, de uma conversa em Nice.

Kong usou uma faca contra o amigo, tinha dito Potrus. Ainda há um mandado de busca para ele, com o nome de Jonah Lee.

Kong era procurado por assassinato em Taiwan, percebeu Butler, e não havia nenhuma limitação de estatutos para o assassinato.

— Ouvi-os falando com aquele ali — disse apontando para Billy Kong, que continuava caído. — Chamaram-no de Sr. Lee, ou de Jonah. Ele era o chefe.

O inspetor ficou interessado.

— Ah, é mesmo? O senhor ouviu mais alguma coisa? Algumas vezes os menores detalhes podem ser interessantes.

Butler franziu a testa, pensando.

— Um deles falou alguma coisa, nem sei o que significa...

— Continue — insistiu o inspetor.

— Ele disse... deixe-me pensar. Disse: “Você não é um cara tão durão assim, Jonah. Você não faz uma marca no cabo há anos.” O que isso significa “fazer uma marca no cabo”?

O inspetor pegou um celular no bolso.

— Significa que esse homem é suspeito de assassinato. — Apertou um número na memória do aparelho. — Base? Aqui é Chan. Preciso que examinem o nome Jonah Lee nos registros, podem recuar alguns anos. — Ele fechou o telefone. — Obrigado, Sr...?

— Arnott — disse Butler. — Franklin Arnott, de Nova York. — Ele vinha usando o passaporte com o nome de Arnott há anos. O documento estava genuinamente amarrotado.

— Obrigado, Sr. Arnott, talvez o senhor tenha apanhado um assassino.

Butler piscou.

— Um assassino! Uau. Escutou isso, Eloise? Papai pegou um assassino.

— Muito bem, papai — disse Eloise, parecendo infeliz.

O inspetor se virou para continuar a investigação, depois parou.

— O curador disse que havia outra pessoa. Um garoto. É amigo de vocês?

— Sim. E não. É meu filho. Arty.

— Não estou vendo-o por aqui.

— Ele deu uma saidinha, mas vai voltar.

— Tem certeza?

Os olhos de Butler perderam o foco.

— Sim, tenho certeza. Ele disse isso.

 

A viagem entre dimensões foi mais violenta do que Artemis lembrava. Não havia tempo para refletir sobre as várias mudanças de cenário, e mal havia tempo para que seus sentidos registrassem visões, sons ou mudanças de temperatura. Foram arrancados de sua dimensão e arrastados através de buracos de minhoca feitos de espaço-tempo, com apenas a consciência intacta. Só uma vez se materializaram por um brevíssimo segundo.

A paisagem era cinza, nua e esburacada, e a distância Artemis pôde ver um planeta azul camuflado por uma cobertura de nuvens.

Era uma sensação nem um pouco natural, essa viagem fora do corpo e da mente. Como ainda tenho consciência?, pensou Artemis. Como isso tudo é possível?

E, mais estranho ainda, quando se concentrava, Artemis podia sentir os pensamentos dos outros em redemoinhos ao redor. Eram principalmente emoções amplas, como medo ou empolgação, mas depois de um tempo de ajustes mentais Artemis detectou pensamentos específicos também.

Havia Holly, imaginando se sua arma chegaria intacta. Típica soldado. E havia o N° 1, incomodando-se incessantemente, não com a viagem em si, mas com alguém que estaria esperando por ele em Hybras. Abbot. Um demônio chamado Abbot.

Artemis estendeu a mão e encontrou Qwan flutuando no éter. Sua mente era formidável, fazendo malabarismos com computações complexas e quebra-cabeças filosóficos.

Você está mantendo a mente ativa, jovem humano.

A consciência de Artemis percebeu que esses pensamentos eram direcionados a ele. O feiticeiro havia sentido sua sonda desajeitada.

Artemis podia sentir uma diferença entre a mente dele e a dos outros. Eles tinham algo diferente. Uma energia estranha. Era difícil explicar um sentimento sem sentidos, mas por algum motivo ele parecia ser azul. Um plasma azul, elétrico e vivo. Artemis permitiu que o sentimento forte fluísse em sua mente e foi instantaneamente abalado pela força daquilo.

Magia, percebeu. A magia está na mente. Bom, isso era algo que valia a pena saber. Recuou para seu próprio espaço mental, mas levou consigo uma amostra do plasma azul. Nunca se sabe quando um toque de magia será útil.

Materializaram-se em Hybras, dentro da própria cratera. A chegada foi seguida por um clarão de energia deslocada. O grupo estava na encosta enegrecida pela fuligem, ofegando e fumegando. O chão embaixo era quente ao toque, e o fedor ácido de enxofre ardia nas narinas. Logo a euforia da materialização se dissipou.

Artemis respirou hesitante, com o ar que saía da boca soprando pequenas nuvens de poeira. O gás vulcânico fez seus olhos lacrimejarem, e flocos chatos de poeira cobriram instantaneamente cada pedaço de pele exposta.

— Isso poderia ser o inferno — comentou ele.

— Inferno ou Hybras — disse o N° 1, ajoelhando-se. — Já peguei um pouco dessa cinza numa túnica. Não sai nunca.

Holly também estava de pé, fazendo uma verificação de sistemas em seu equipamento.

— Minha Neutrino está ótima. Mas não consigo um sinal de comunicação. Estamos por conta própria. E parece que perdi a bomba.

Artemis se ajoelhou, os joelhos estalando na crosta de cinza, liberando o calor que havia abaixo. Olhou o relógio e viu seu próprio rosto. O cabelo estava cinza, e por um segundo pensou que olhava seu pai.

Um pensamento lhe ocorreu. Eu me pareço com meu pai, um pai que talvez eu nunca mais veja. Mamãe. Butler. Só me resta uma pessoa amiga.

— Holly — disse ele. — Deixe-me olhar para você.

Holly não ergueu os olhos do computador de pulso.

— Agora não temos tempo, Artemis.

Artemis foi até ela, caminhando cautelosamente na crosta fina.

— Holly, deixe-me olhar para você — disse de novo, segurando os ombros dela.

Alguma coisa na voz de Artemis fez Holly parar o que estava fazendo e prestar atenção. Não era um tom que Artemis Fowl usasse com freqüência. Quase poderia ser classificado como ternura.

— Só preciso ter certeza de que você ainda é você. As coisas se embolam entre as dimensões. Na minha última viagem, tive uma troca de dedos.

E ergueu a mão para que ela visse.

— É estranho, eu sei. Mas você parece bem. Tudo presente e correto.

Alguma coisa relampejou no canto do olho de Artemis. Havia uma caixa de metal meio enterrada na cinza mais adiante, na parede da cratera.

— A bomba — sussurrou Artemis. — Pensei que havia se perdido na transferência de tempo. Houve um clarão quando nós pousamos.

Qwan correu até a bomba.

— Não. Aquilo foi deslocamento de energia. Principalmente minha. A magia é quase um outro ser. Ela flui para onde quiser. Parte da minha não fluiu de volta comigo no tempo e se incendiou na reentrada. Fico feliz em dizer que o resto do meu poder está operante e pronto para a ação.

Artemis ficou pasmo ao ver o quanto da linguagem daquele ser pré-histórico era semelhante ao jargão da NASA. Não é de espantar que não tenhamos a menor chance contra as criaturas das fadas, pensou. Elas estavam solucionando equações dimensionais quando ainda lascávamos pedras.

Artemis ajudou o feiticeiro a tirar a bomba do meio das cinzas. O cronômetro fora influenciado pelo salto temporal e agora marcava mais de cinco mil horas. Por fim um golpe de sorte.

Artemis usou as gazuas de Butler para examinar o mecanismo da bomba. Talvez pudesse desarmá-la se tivesse alguns meses, uns dois computadores e algumas ferramentas a laser. Sem essas coisas, havia tanta chance de desarmar aquele petardo quanto de um esquilo fazer um aviãozinho de papel.

— Esta bomba está perfeitamente operacional — disse a Qwan. — Só o cronômetro foi afetado.

O feiticeiro coçou a barba.

— Faz sentido. Aquele instrumento é relativamente simples, comparado à complexidade dos nossos corpos. O túnel dimensional não teria problema para montá-lo de novo. Já o cronômetro é outra coisa. Pode ser afetado por qualquer alteração temporal que encontrarmos aqui. Pode explodir a qualquer segundo ou não explodir nunca.

Nunca, não, pensou Artemis. Talvez eu não possa desarmar esta coisa, mas certamente posso explodi-la quando for necessário.

Holly espiou o equipamento mortal.

— Há algum modo de nos livrarmos dela? Qwan balançou a cabeça.

— Os objetos inanimados não podem viajar desacompanhados no túnel do tempo. Nós, por outro lado, podemos ser sugados de volta a qualquer momento. Precisamos arranjar um pouco de prata imediatamente.

Holly olhou para Artemis.

— Talvez alguns de nós queiramos ser sugados de volta.

— Talvez sim — disse Qwan. — Mas apenas sob certas condições. Se simplesmente se deixarem ir, quem sabe onde vão parar? Ou quando. Seu espaço e tempo naturais irão atraí-los, mas com o feitiço se deteriorando vocês podem chegar engastados em pedra, um quilômetro abaixo da superfície, ou podem ir parar na lua.

Era um pensamento sinistro. Uma coisa era dar uma rápida olhada de turista na superfície da lua. Outra bem diferente era ficar lá para sempre. Não que você saiba grande coisa sobre isso depois do primeiro minuto.

— Então estamos presos aqui? — perguntou Holly. — Ande, Artemis. Você tem um plano. Sempre tem.

Os outros se reuniram em volta de Artemis. Havia no garoto alguma coisa que sempre fazia as pessoas presumirem que ele era o líder. Talvez fosse o modo como assumia isso. Além do mais, nesta situação, ele era a pessoa mais alta do grupo.

O garoto sorriu brevemente. Então é assim que Butler se sente o tempo todo.

— Todos temos motivos para querer voltar — começou. — Holly e eu deixamos amigos e familiares que gostaríamos tremendamente de ver de novo. N° 1 e Qwan, vocês precisam tirar as pessoas desta dimensão. O feitiço está se desmanchando e logo nenhum lugar desta ilha será seguro. Se meus cálculos estiverem corretos, e sinto que estão, nem mesmo a prata pode ancorá-los aqui por muito mais tempo. Bom, vocês podem ir para onde o feitiço determinar ou nós podemos decidir quando dar o salto.

Qwan fez cálculos de cabeça.

— Não é possível. Foram necessários sete feiticeiros e um vulcão para mover a ilha até aqui. Para nos levar de volta, eu precisaria de sete seres mágicos. De preferência feiticeiros. E, claro, um vulcão ativo, coisa que não temos.

— Precisa ser um vulcão? Nenhuma outra fonte de energia daria certo?

— Teoricamente — concordou Qwan. — Então você está dizendo que poderíamos usar a bomba?

— É possível.

— Tremendamente improvável, mas possível. Mesmo assim ainda preciso de sete criaturas mágicas.

— Mas o feitiço já foi lançado — argumentou Artemis. — A infra-estrutura está aqui. O senhor não poderia se virar com um número menor?

Qwan balançou o dedo para Artemis.

— Você é um Garoto da Lama esperto. Sim, talvez eu pudesse me virar com um número menor. Claro, só saberíamos quando chegássemos.

— Quantos?

— Cinco. Cinco é o mínimo. Holly trincou os dentes.

— Só temos três, e o N° 1 é um novato. Por isso precisamos encontrar dois demônios com magia nesta ilha.

— Impossível — disse Qwan bruscamente. — Assim que um imp se metamorfoseia, é o fim de qualquer magia que ele possa ter. Só os feiticeiros, como eu e o N° 1, não metamorfoseamos. Por isso mantemos a magia.

Artemis espanou cinza do paletó.

— Nossa prioridade é sair desta cratera e encontrar um pouco de prata. Sugiro deixarmos a bomba aqui. A temperatura não é suficiente para acioná-la. E se ela explodir, o vulcão vai absorver parte da força. Se quisermos encontrar outra criatura mágica, sem dúvida teremos mais chance fora desta cratera. De qualquer modo, esse enxofre está me dando dor de cabeça.

Artemis não esperou a concordância. Virou-se e foi para a borda da cratera. Depois de um momento os outros foram atrás, lutando a cada passo através da crosta de cinzas. Aquilo fez Artemis pensar numa gigantesca duna de areia que ele havia subido com o pai uma vez. Aqui, cair teria conseqüências mais sérias.

Era uma caminhada difícil e traiçoeira. A cinza escondia fendas na rocha e pequenas aberturas que soltavam ar quente do vulcão. Fungos coloridos cresciam em amontoados ao redor daquelas aberturas e luziam nas sombras da cratera como lanternas de coral.

Ninguém falou muito durante a subida. O N° 1 murmurava grandes trechos do dicionário, mas os outros percebiam que esse era seu modo de manter o queixo erguido.

Artemis olhava para cima ocasionalmente. O céu tinha um vermelho do amanhecer e luzia no alto como um lago de sangue.

Esta é uma metáfora animadora, pensou. Talvez revele alguma coisa sobre o meu caráter o fato de um lago de sangue ser a única imagem em que posso pensar.

O corpo do N° 1 era o mais adequado para a subida íngreme. Tinha centro de gravidade baixo e podia descansar em seu cotoco de rabo, se necessário. Os pés grossos o ancoravam com segurança, e as placas blindadas que cobriam o corpo o protegeriam de fagulhas ou machucados no caso de uma queda.

Qwan estava obviamente sofrendo. O velho feiticeiro havia sido uma estátua durante os últimos 10 mil anos e ainda estava tentando tirar a ferrugem dos ossos. A magia ajudava um pouco no processo, mas nem mesmo a magia poderia apagar totalmente a dor. Ele se encolhia a cada vez que seu pé furava a crosta de fuligem.

Por fim o grupo chegou ao cume. Se o tempo havia passado, seria difícil dizer quanto. O céu continuava com o mesmo tom vermelho e todos os relógios haviam praticamente parado.

Holly correu à frente os últimos passos, depois levantou a mão direita, fechando o punho.

— Isso significa parar — disse Artemis aos outros. — É um negócio dos militares. Os soldados humanos usam exatamente o mesmo sinal.

Holly ergueu a cabeça acima da borda por um instante, depois voltou ao grupo.

— O que significa haver um monte de demônios subindo a montanha?

Qwan sorriu.

— Significa que nossos irmãos demônios viram o clarão da chegada e vieram nos receber.

— E o que significa se estiverem armados com balestras?

— Hmm — pensou Qwan. — Isso pode ser um pouco mais grave.

— Até que ponto? — perguntou Artemis. — Nós já enfrentamos trolls juntos.

— Tudo bem — disse Holly energizando sua arma. — Eles não são muito grandes. Vamos ficar bem. Mesmo.

Artemis franziu a testa. Holly só se incomodava em tranqüilizá-lo quando estavam profundamente encrencados.

— É tão ruim assim? — perguntou ele.

Holly assobiou, balançando a cabeça.

— Você não faz idéia.

 

Enquanto Artemis e seu grupo disparavam pelo túnel do tempo, Leon Abbot estivera reunido em conselho com os anciãos da legião. Era no conselho que todas as grandes decisões eram tomadas, ou, mais precisamente, onde Abbot tomava todas as grandes decisões. Os outros achavam que estavam participando, mas Leon Abbot tinha um jeito de convencê-los de seu modo de pensar.

Se ao menos soubessem, pensou ele, mordendo a parte interna da bochecha para impedir que um riso presunçoso se espalhasse pelo rosto. Iriam me comer vivo. Mas não podem saber, porque não resta ninguém vivo para contar. Aquele idiota do N° 1 foi o último, e já partiu. Que pena!

Abbot tinha algo grande planejado para hoje. Um grande avanço para a legião, o alvorecer de uma nova era. A era Leon Abbot.

Olhou para a mesa onde seus colegas demônios chupavam os ossos de um balde cheio de coelhos que até recentemente estavam vivos, e que ele trouxera para a reunião. Desprezava os outros membros do conselho. Todos. Eram criaturas fracas, idiotas, governadas pelos apetites básicos. O que precisavam era de liderança. Não de discussões, debates, apenas de suas palavras como lei, e só.

É claro que em circunstâncias normais os outros demônios poderiam não compartilhar sua visão de futuro. De fato, se ele sugerisse isso, provavelmente lhe fariam o que estavam fazendo com os coelhos. Mas aquelas não eram circunstâncias normais. Ele tinha certas vantagens quando se tratava de negociar com o conselho.

Na outra extremidade da mesa, Hadley Shrivelington Basset, recém-chegado ao conselho, levantou-se e rosnou alto.

Sinal de que queria falar. Na verdade, Basset preocupava Abbot um pouquinho. Estava se mostrando um tanto resistente à capacidade de persuasão comum de Abbot, e alguns dos outros começavam a prestar atenção nele. Abbot precisaria dar um jeito em Basset logo.

Basset rosnou de novo, pondo as mãos em concha ao redor da boca para garantir que as palavras fossem até a cabeceira da mesa.

— Eu desejaria falar, Leon Abbot. Eu desejaria que você escutasse.

Abbot suspirou cansado, sinalizando para o demônio ir em frente. Sem dúvida os jovens adoravam a formalidade.

— Acontecem coisas que me preocupam, Abbot. As coisas na legião não estão como deveriam.

Houve murmúrios de concordância ao redor da mesa. Nada preocupante. Logo os outros mudariam a cantiga.

— Somos conhecidos por nomes humanos. Cultuamos um livro humano. Acho isso repulsivo. Devemos nos tornar totalmente humanos?

— Já expliquei, Basset. Talvez um milhão de vezes. Você é tão bronco a ponto de minhas palavras não penetrarem em seu crânio?

Basset rosnou baixo. Aquelas eram palavras de luta. Líder de legião ou não, logo Abbot veria essas palavras enfiadas de volta na garganta.

— Deixe-me tentar de novo — continuou Abbot, batendo com as botas sobre a mesa, um insulto ainda maior contra Basset. — Aprendemos os costumes humanos para melhor os entendermos e os derrotarmos mais facilmente. Lemos o livro, treinamos com a balestra, usamos os nomes.

Basset não quis se submeter.

— Eu ouvi essas palavras um milhão de vezes, e todas as vezes elas me parecem ridículas. Não damos nomes de coelhos uns aos outros quando vamos caçar coelhos. Não vivemos em tocas de raposa quando caçamos raposas. Podemos aprender com o livro e a balestra, mas somos demônios, e não humanos. O meu sobrenome era Cartilagem. Este é um verdadeiro nome de demônio! Não essa coisa estúpida, Hadley Srivelington Basset.

Era um bom argumento, e bem apresentado. Talvez em circunstâncias diferentes Abbot teria aplaudido e recrutado o jovem demônio como tenente. Mas os tenentes acabam sendo desafiadores, e essa era uma coisa que Abbot não queria.

Abbot se levantou e andou lentamente por toda a extensão da mesa, olhando nos olhos de cada membro do conselho. A princípio os olhares chamejavam de desafio mas, quando Abbot começou a falar, esse fogo desbotou, sendo substituído por um opaco brilho de obediência.

— Você está certo, claro — disse Abbot passando uma unha ao longo de um dos chifres curvos. Um arco de fagulhas acompanhou o caminho da unha. — Tudo que você disse está exato. Os homens, aquele livro ridículo, a balestra. Aprender o inglês. É tudo uma piada.

Os lábios de Basset se enrolaram para trás sobre os dentes pontudos e brancos, e seus olhos castanho-amarelados se estreitaram.

— Você admite, Abbot? — Ele se dirigiu ao conselho. — Vocês o ouviram admitir?

Antes os outros haviam grunhido, aprovando o desafio do jovem macho, mas agora era como se tivessem perdido o ânimo de luta. Só conseguiam olhar para a mesa, como se as respostas para as questões da vida estivessem gravadas no grão da madeira.

— A verdade, Basset — continuou Abbot, chegando cada vez mais perto. — É que nunca vamos voltar para casa. Esta é nossa casa, agora.

— Mas você disse,..

— Eu sei. Eu disse que o feitiço iria acabar e que seríamos sugados de volta para o lugar de onde viemos, E, quem sabe, talvez até seja verdade. Mas não faço idéia do que acontecerá de fato. Só sei que, enquanto estivermos aqui, pretendo ficar no comando.

Basset ficou pasmo.

— Não haverá uma grande batalha? Mas nós treinamos há tanto tempo!

— É só distração — disse Abbot, balançando os dedos como um mago. — Fumaça e feitiços. Eu dei algo para as tropas se concentrarem.

— Então, o que vai acontecer? — perguntou Basset, perplexo.

— Concentre-se, imbecil. Pense. Enquanto houver uma guerra a ser planejada, os demônios estarão felizes. Eu proporcionei a guerra e mostrei como vencer. Portanto, naturalmente, sou um salvador.

— Você nos deu a balestra.

Abbot precisou parar para rir. Esse tal de Basset era realmente um tremendo idiota. Quase poderia ser confundido com um gnomo.

— A balestra — ofegou ele finalmente, quando sua gargalhada terminou. — A balestra! Os Homens da Lama têm armas que disparam a morte. Têm pássaros de ferro que voam, soltando ovos explosivos. E eles são milhões. Milhões! Só precisariam largar um ovo na nossa ilhazinha e nós desapareceríamos. E desta vez não existiria retorno.

Basset não sabia se deveria atacar ou fugir. Todas essas revelações doíam em seu cérebro, e tudo que os outros membros do conselho faziam era ficar ali parados, babando. Era quase como se estivessem enfeitiçados...

— Ande — disse Abbot, zombando. — Você está chegando lá. Esprema essa esponja cerebral.

— Você enfeitiçou o conselho.

— Nota dez! — grasnou Abbot. — Dêem um coelho cru a esse demônio!

— M-mas não pode ser — gaguejou Basset. — Os demônios não são criaturas mágicas, a não ser os feiticeiros. E os feiticeiros não se metamorfoseiam.

Abbot abriu os braços.

— E sem dúvida sou uma criatura magnificamente metamorfoseada. Seu cérebro dói? Isso é demais para você?

Basset puxou uma espada longa de dentro da bainha.

— Meu nome é Cartilagem! — rosnou ele, atacando o líder da falange.

Abbot empurrou a espada para o lado com o antebraço, depois deu um soco no oponente. Podia ser mentiroso e manipulador, mas também era um guerreiro temível. Basset era como um pombo atacando uma águia.

Abbot jogou o demônio menor no chão de pedras, depois se agachou sobre seu peito, ignorando os socos que Basset dava em suas placas blindadas.

— Isso é o melhor que você pode fazer, pequenino? Já fiz brincadeiras de rolar melhores com meu cachorro.

Segurou a cabeça de Basset entre as mãos e apertou até que os olhos do demônio mais jovem se esbugalharam.

— Agora eu poderia matar você — disse Abbot, com o pensamento lhe dando um prazer óbvio —, mas você é um macho popular entre os imps, e eles iriam me incomodar com perguntas. Por isso vou deixá-lo viver. De certa forma. Seu livre-arbítrio pertencerá a mim.

Basset não deveria ser capaz de falar, mas conseguiu gemer uma palavra:

— Nunca.

Abbot apertou com mais força.

— Nunca? Nunca, é o que você diz? Mas você não sabe que o nunca chega depressa aqui em Hybras?

Então Abbot fez o que nenhum demônio metamorfoseado deveria ser capaz: invocou a magia de dentro de si e deixou-a brilhar nos olhos.

— Você é meu — disse a Basset, com a voz irresistível, cheia de camadas de magia.

Os outros estavam tão condicionados ao mesmer que sucumbiam a apenas um pouquinho daquilo em sua voz, mas, para a mente jovem de Basset, Abbot estava invocando cada fagulha de magia em seu organismo. Magia que ele havia roubado. Magia que, segundo a lei das criaturas das fadas, jamais deveria ser usada para mesmerizar outra criatura das fadas.

O rosto de Basset ficou vermelho e a placa de sua testa estalou.

— Você é meu! — repetiu Abbot, olhando direto nos olhos cativos de Basset. — Nunca mais vai me questionar.

Para mérito de Basset, ele lutou contra o feitiço por vários segundos, até que o poder mágico estourou um vaso sangüíneo em seu olho. Então, enquanto o sangue se espalhava pela esclera alaranjada do olho, a decisão de Basset desbotou, sendo substituída por uma opacidade dócil.

— Sou seu — entoou ele. — Nunca mais vou questioná-lo. Abbot fechou os olhos por um momento, recolhendo a magia de volta. Quando os abriu de novo, era todo sorrisos.

— Isso é bom. Fico muito feliz em ouvir, Basset. Quero dizer, sua outra opção era uma morte rápida e dolorosa, então você está melhor mesmo como um cachorrinho bobo.

Ele ficou de pé e gentilmente ajudou Basset a se levantar.

— Você sofreu uma queda — explicou numa voz de médico falando com o paciente. — E estou ajudando-o a ficar de pé.

Basset piscou como se sonhasse.

— Nunca mais vou questioná-lo.

— Ah, isso agora não importa. Apenas sente-se e faça tudo que eu disser.

— Sou seu — disse Basset.

Abbot deu um tapinha suave em sua bochecha.

— E os outros disseram que nós não iríamos nos dar bem!

Abbot voltou ao seu lugar na cabeceira da mesa comprida. A cadeira tinha encosto alto e era feita de várias partes de animais. Acomodou-se, batendo nos braços da cadeira com as palmas das mãos.

— Adoro esta cadeira — disse ele. — Na verdade é mais um trono do que uma cadeira, o que me traz ao nosso negócio principal aqui hoje. — Abbot enfiou a mão sob uma aba de couro na cadeira e puxou uma coroa de bronze rústica.

— Acho que está na hora de o conselho me declarar rei vitalício — disse ele, colocando a coroa na cabeça.

Essa nova idéia de rei vitalício seria difícil de vender. Uma legião de demônios era sempre governada por quem estivesse mais em forma, e esse era um cargo muito temporário. Abbot só havia sobrevivido tanto tempo mesmerizando qualquer um que ousasse desafiá-lo.

A maior parte dos membros do conselho estava sob o feitiço de Abbot por tanto tempo que aceitou a sugestão como se fosse um decreto real; mas alguns dos mais jovens estremeceram com espasmos violentos, enquanto suas verdadeiras crenças lutavam com essa idéia nova e repugnante.

Abbot ajeitou a coroa ligeiramente.

— Chega de debates. Todos a favor digam graaaaagh!

— GRAAAAAGH! — uivaram os demônios, batendo na mesa com luvas de ferro e espadas.

— Todos saúdam o rei Leon — instigou Abbot.

— TODOS SAÚDAM O REI LEON! — imitou o conselho como se fossem papagaios ensinados.

A adulação foi interrompida por um soldado demônio que passou rapidamente pela cortina de couro da sala.

— Houve um... houve uma grande...

Abbot tirou rapidamente a coroa. A população ainda não estava preparada para aquilo.

— Houve o quê? — perguntou ele bruscamente. — Uma grande o quê?

O soldado parou, recuperando o fôlego. De repente percebeu que era melhor comunicar a grandiosidade do que havia acontecido na montanha, caso contrário Abbot poderia decapitá-lo por interromper a reunião.

— Houve um grande clarão.

Um grande clarão? Isso não parecia suficientemente grande.

— Deixe-me começar de novo. Um clarão gigantesco veio do vulcão. Duas equipes de caça estavam perto. Dizem que alguém atravessou para cá. Um grupo. Quatro seres.

Abbot franziu a testa.

— Seres?

— Dois demônios, talvez. Mas os outros dois, o caçador não sabe o que são.

Isto era sério. Abbot sabia. Aqueles seres poderiam ser humanos, ou, pior ainda, feiticeiros sobreviventes. Se fosse um feiticeiro, certamente descobriria o segredo de Abbot. Só seria necessário um demônio com poder de verdade, e seu domínio da legião acabaria. Esta situação precisava ser contida.

— Muito bem. O conselho vai investigar. Ninguém mais sobe lá.

O pomo-de-adão do soldado subia e descia nervosamente, já que daria más notícias.

— É tarde demais, mestre Abbot. Toda a legião está subindo o vulcão.

Abbot já estava passando pela porta antes que o soldado terminasse a frase.

— Sigam-me! — gritou aos outros demônios. — E tragam suas armas.

— GRAAAAGH!— rugiram os enfeitiçados membros do conselho.

 

Artemis ficou surpreso ao ver como se sentia calmo. Seria de pensar que um adolescente humano ficaria aterrorizado ao ver uma legião de demônios subindo para ele, mas Artemis estava mais nervoso do que aterrorizado e mais curioso do que nervoso.

Olhou para trás, por cima do ombro, para a cratera de onde haviam acabado de sair.

— E eu que achei que estava saindo do buraco — disse baixinho, depois sorriu da própria piada.

Holly escutou.

— Você certamente escolhe o momento certo para desenvolver um senso de humor.

— Eu geral eu estaria planejando, mas isto está fora das minhas mãos. É Qwan quem comanda.

O N° 1 os guiou ao longo da borda da cratera em direção a uma laje baixa. Havia uma haste de madeira enfiada no chão ao lado da laje, e pendurada na haste havia dúzias de pulseiras de prata. A maioria oxidada e coberta de fuligem.

O N° 1 tirou um punhado de pulseiras do topo da haste.

— Os saltadores dimensionais deixam isso aqui — explicou, entregando-as. — Para o caso de voltarem. Ninguém nunca voltou até agora. A não ser Leon Abbot, claro.

Qwan enfiou uma pulseira no braço.

— O salto dimensional é suicídio. Sem prata, um demônio jamais poderá ficar num local por mais do que alguns segundos. Vai vaguear pelo tempo e pelas dimensões até ser morto de fome ou exposto aos elementos. A magia é o único motivo para estarmos aqui. Estou pasmo ao ver que esse tal de Abbot conseguiu voltar. Qual é o nome de demônio dele?

O N° 1 olhou para a trilha da montanha, abaixo.

— O senhor mesmo pode perguntar. É aquele, o grande que vem abrindo caminho até a frente dos outros.

Holly estreitou os olhos para o líder da legião.

— O que tem chifres curvos e uma espada enorme? — perguntou.

— Ele está sorrindo? — perguntou o N° 1.

— Não.

— Então é Abbot.

 

Foi um encontro estranho. Não houve abraços, champanhe nem lembranças lacrimosas. Em vez disso, houve dentes à mostra, espadas desembainhadas e comportamento ameaçador. O último lote de imps estava especialmente ansioso para espetar os recém-chegados e provar seu valor. Artemis era o alvo número um do grupo. Imagine, um ser humano de verdade, vivo, aqui em Hybras. Ele não parecia muito forte.

Artemis e seu grupo haviam permanecido firmes na laje, esperando que os demônios viessem a eles. Os imps chegaram, ofegantes pela subida e simplesmente doidos para matar alguma coisa. Se não fosse Qwan, Artemis seria despedaçado no ato. Holly também teve algo a ver com a manutenção de Artemis vivo. Ela acertou a primeira meia dúzia de imps com uma carga suficientemente forte de sua Neutrino para mandá-los correndo de volta até o que achavam ser uma distância segura. Depois disso, Qwan conseguiu prendeu a atenção deles, conjurando um macaco multicolorido que dançava no ar.

Logo cada demônio capaz de subir a montanha havia feito isso, e todos olhavam o macaco mágico.

Até o N° 1 ficou em transe.

— O que é isso?

Qwan balançou os dedos, fazendo o macaco dar uma cambalhota.

— É uma simples criação mágica. Em vez de permitir que as fagulhas andem de um lado para outro instintivamente, eu as organizo numa forma reconhecível. É preciso tempo e esforço, mas com o tempo você também terá esse microcontrole.

— Não — disse o N° 1. — Eu quis dizer, o que é isso?

Qwan suspirou.

— Um macaco.

À medida que o número de demônios crescia, eles foram ficando mais e mais agitados. Os guerreiros entrechocavam os chifres numa demonstração de força. Batiam com os antebraços nas placas peitorais uns dos outros e faziam gestos como se estivessem afiando as espadas em pedras.

— Sinto falta de Butler — disse Artemis.

— Eu também — concordou Holly, examinando a multidão à procura da maior ameaça. Não era fácil decidir. Cada demônio da turba parecia prestes a se lançar contra os recém-chegados. Holly tinha visto modelos em 3D de demônios, é claro, mas nunca vira os de verdade. Os modelos eram bem exatos, mas não podiam capturar a sede de sangue nos olhos das criaturas nem os gemidos fantasmagóricos que saíam de seus narizes enquanto a febre da batalha os possuía.

Abbot abriu caminho até a frente do grupo e Holly apontou instantaneamente a arma para o peito dele.

— Qwan! — disse Abbot, obviamente espantado. — Você está vivo? Achei que todos os feiticeiros haviam morrido.

— Menos o que ajudou você — disse o N° 1, antes de conseguir se conter.

Abbot deu um passo atrás.

— Bem, é. Menos aquele.

Qwan fechou o punho e o macaco desapareceu.

— Conheço você — disse lentamente, vasculhando a memória. — Você esteve em Taillte. Você era um dissidente.

Abbot se empertigou.

— Isso mesmo. Sou Abbot, o dissidente. Nunca deveríamos ter vindo para cá. Deveríamos ter enfrentado os humanos cara a cara. Os feiticeiros nos traíram! — Ele apontou a espada para Qwan. — Vocês nos traíram!

Os outros demônios rosnaram e sacudiram as armas.

Abbot demorou um instante examinando os outros membros do grupo.

— Um humano! Isso é um humano. Você trouxe o inimigo à nossa porta. Quanto tempo vai demorar até que o resto deles venha em seus pássaros de metal?

— Pássaros de metal? — disse Artemis em gnomês. — Que pássaros de metal? Tudo que temos são balestras, lembra?

Seguiu-se um ooh coletivo, enquanto os demônios percebiam que aquele humano falava sua língua, embora com sotaque.

Abbot decidiu mudar de assunto. Aquele garoto estava encontrando furos em sua história.

— E trouxe um elfo também, feiticeiro. Com uma arma mágica. Os elfos nos traíram em Taillte!

Qwan estava ficando entediado com toda aquela representação.

— Eu sei, todo mundo traiu você em Taillte. Por que não dá a ordem em que está pensando? Você quer que todos nós sejamos mortos. Dê a ordem e veja se nossos irmãos demônios vão atacar o único ser que pode salvá-los.

Abbot percebeu que estava em terreno muito perigoso. Aquele grupinho venenoso precisava ser controlado. Rápida e definitivamente.

— Quer morrer tanto assim? Que seja, podem morrer. — Ele apontou a espada para o pequeno grupo, e estava para rugir Matem-nos ou talvez Morte aos traidores quando Qwan estalou os dedos. Fez isso de modo bem espalhafatoso, criando uma miniexplosão mágica.

— Agora me lembro de você. Seu nome não é Abbot. Você é N’zall, o idiota que arruinou o feitiço de tempo. Mas parece diferente. Essas marcas vermelhas.

Abbot se encolheu como se tivesse levado um soco. Alguns outros demônios mais velhos deram risinhos. O nome de demônio de Abbot não era falado com freqüência. Abbot ficava um pouco sem graça com ele, o que não era surpreendente, porque N’zall significava chifre pequeno na antiga língua dos demônios.

— É mesmo você, N’zall. Agora estou lembrando tudo. Você e aquele outro idiota, Bludwin, foram contra o feitiço de tempo. Queriam lutar contra os humanos.

— Ainda quero — rugiu Abbot, reagindo exageradamente depois da menção a seu nome verdadeiro — Há um aqui mesmo. Podemos começar com ele.

Agora Qwan sentia raiva, pela primeira vez desde que havia retornado à vida.

— Nós estávamos com tudo resolvido. Tínhamos um círculo de sete. Estávamos no vulcão, a lava ia subindo e tudo estava sob controle, então você e Bludwin pularam de trás de uma pedra e romperam o círculo.

O riso de Abbot soou oco.

— Isso nunca aconteceu. Você ficou longe por tempo demais, feiticeiro. Ficou louco.

Os olhos de Qwan ardiam com fagulhas mágicas e a magia ondulava por toda a extensão de seu braço.

— Eu fiquei como uma estátua de pedra durante 10 mil anos por sua causa,

— Ninguém acredita numa palavra disso, feiticeiro.

— Eu acredito — disse o N° 1. E havia alguns no grupo de demônios que também acreditavam. Estava nos olhos deles.

— Você tentou assassinar os feiticeiros! — continuou Qwan, acusando. — Houve algum abalo e Bludwin caiu no vulcão. Sua energia manchou o feitiço. Então você arrastou meu aprendiz, Qweffor, para dentro da lava também. Vocês dois entraram. Eu vi. — Qwan franziu a testa, tentando juntar tudo. — Mas você não morreu. Não morreu porque o feitiço já havia começado. A magia o transportou para longe antes que a lava pudesse derreter seus ossos. Mas para onde foi Qweffor? Para onde vocês foram?

O N° 1 sabia a resposta para essa pergunta.

— Ele foi para o futuro. Contou nossos segredos aos humanos em troca de um dos livros de histórias deles e de uma arma antiga tirada de um museu.

Abbot apontou a espada para ele.

— Eu ia deixar você viver, impzinho.

O N° 1 sentiu um nó de raiva no estômago.

— Como me deixou viver da última vez. Você me mandou pular na cratera. Você me mesmerizou!

Abbot estava numa situação difícil. Podia ordenar que o conselho atacasse, mas não poderia mesmerizar todo mundo.

Mas se deixasse Qwan continuar falando, cada um dos seus segredos poderia ser exposto. O que precisava era de tempo para pensar. Infelizmente tempo era algo que ele não tinha. Precisaria usar a inteligência e suas armas para sair dessa situação.

— Eu mesmerizei você? Não seja ridículo. Os demônios não têm magia. Nós abominamos a magia. — Abbot balançou a cabeça, incrédulo. — O que eu estou fazendo aqui, me explicando a um pirralho como você? Feche a boca, N° 1, ou eu a costuro e jogo você no vulcão.

Qwan não gostou de ver seu novo aprendiz sendo ameaçado.

— Já estou cheio de você, N’zall. Quer ameaçar feiticeiros? O N° 1, como você o chama, tem mais poder dentro do corpo do que você jamais terá.

Abbot riu.

— Pela primeira vez você está certo, velho feiticeiro. Não tenho poder dentro do corpo. Nenhuma fagulha de magia. O que tenho é o poder do meu punho e a força da legião atrás de mim.

Artemis estava se cansando daquela briga.

— Não temos tempo para isso — disse saindo de trás de Qwan. — O feitiço de tempo está se desfazendo e precisamos fazer preparativos para a viagem para casa. Para essa viagem, precisamos de toda a magia que pudermos conseguir. Inclusive a sua, N’zall, Abbot, ou sei lá qual é o seu nome.

— Não discuto com humanos — resmungou Abbot. — Mas, se discutisse, talvez repetisse que não tenho magia nenhuma.

— Ah, qual é — zombou Artemis. — Eu conheço os efeitos colaterais do mesmer. Inclusive as pupilas encolhidas e os olhos injetados. Alguns dos seus amigos aqui foram mesmerizados tantas vezes que praticamente não têm pupilas.

— E onde consegui essa magia?

— Você a roubou no túnel de tempo. Imagino que você e Qweffor foram literalmente fundidos pela combinação de lava e magia. Quando emergiu no passado recente da terra, você conseguiu manter um pouco da magia do feiticeiro.

Isso era forçar um pouco a barra, para todos os presentes. Abbot percebeu que não precisaria do mesmer para convencer ninguém de que a teoria daquele humano era ridícula. Podia destruir a argumentação do humano antes de destruí-lo.

Abbot fez um grande estardalhaço zombando de Artemis. Toda a coreografia de líder tribal, passando as unhas ao longo dos chifres e latindo em curtos jorros de gargalhadas. Em pouco tempo quase todo mundo estava rindo junto.

— Então, humano — disse ele quando o furor havia morrido. — Eu roubei magia no túnel do tempo. Você deve estar ficando louco, Garoto da Lama. Talvez porque eu vá ordenar que meus imps descarnem seus ossos e suguem o tutano. Mesmo que isso fosse possível, como você saberia? Como um humano saberia? — E Abbot deu um riso presunçoso, certo de que nenhuma resposta satisfatória poderia ser dada.

Artemis Fowl riu de volta para ele e apontou o dedo indicador para o céu. Na verdade era o dedo médio, devido à troca no túnel do tempo. Da ponta do dedo saltou uma fagulha azul que explodiu como um minúsculo fogo de artifício.

— Eu sei que a magia pode ser roubada. Porque eu mesmo roubei um pouco.

 

O melodrama foi recebido por um momento de silêncio perplexo, então Qwan gargalhou alto.

— Eu disse que você era inteligente, Garoto da Lama. Estava errado; você é excepcional. Mesmo no túnel do tempo, estava tramando. Roubou um pouquinho de magia, não foi?

Artemis deu de ombros, fechando os dedos sobre as fagulhas.

— Ela estava flutuando. Imaginei o que aconteceria se eu a absorvesse.

Qwan Semicerrou os olhos para ele.

— Agora sabe. Você mudou. É uma criatura mágica como nós. Espero que use seu dom com sabedoria.

— Exatamente o que a gente precisava — gemeu Holly. — Artemis Fowl com poderes mágicos.

— Acho que, se contarmos com o Sr. N’zall aqui, somos cinco seres mágicos. O bastante para reverter o feitiço de tempo.

Abbot estava acabado, e sabia disso. Os outros demônios o olhavam com curiosidade, imaginando se ele os estivera manipulando com o uso de magia. Até alguns membros do conselho mesmerizados estavam lutando para arrancar as correntes mentais. Iriam se passar apenas alguns minutos antes que os sonhos de reinado saíssem para sempre do seu alcance.

Só lhe restava uma opção.

— Matem todos eles! — rugiu, não tão ferozmente quanto gostaria. — Imps, vocês têm carta branca.

Os membros mesmerizados do conselho saltaram para a ação, não tão graciosos em batalha quanto seriam normalmente. Os imps ficaram tão deliciados com uma chance de matar alguma coisa com apenas duas pernas que saltaram adiante com alegria incontida.

— Sangue e entranhas! — uivou um, e todos acompanharam o grito. Não era particularmente eloqüente, mas dava o recado.

Holly não ficou especialmente preocupada. Sua Neutrino podia disparar tão rapidamente quanto ela podia mirar, e com ajuste de raio amplo poderia atordoar toda a fileira de demônios antes que eles causassem algum mal. Em teoria.

Empurrou Artemis de lado, postou-se e começou a disparar. Os raios saíam da pistola num padrão de cone aberto, fazendo os demônios saltarem no ar e mantendo-os caídos por pelo menos 10 minutos. A não ser pelos que estavam se levantando de novo imediatamente. O que parecia ser a maioria. Até os imps se livravam dos golpes como se fossem meros sopros de vento.

Holly franziu a testa. Isso não deveria estar acontecendo. E não ousava aumentar o ajuste por medo de causar danos permanentes. Coisa que ela não arriscaria sob nenhuma circunstância.

— Qwan? — disse ela. — Meus raios não estão fazendo muito efeito. Alguma idéia?

Holly sabia que os feiticeiros não eram muito úteis em situações de combate. Era contra seu credo causar mal, e só fariam isso nas situações mais terríveis. Quando Qwan suplantasse sua natureza pacifista, seria tarde demais.

Enquanto Qwan coçava o queixo, Holly continuou disparando. Cada pulsação derrubava um punhado de demônios, mas em segundos eles estavam outra vez de pé.

— Se o conselho foi mesmerizado eu posso curá-los — concluiu Qwan. — Mas o cérebro é delicado; preciso de contato direto.

— Não temos tempo para isso — disse Holly, disparando outra rajada. — Artemis, tem alguma idéia?

Artemis estava com a mão na barriga.

— Na verdade eu preciso de um banheiro. Há um segundo eu estava bem. Mas agora...

Holly realmente desejava que suas asas estivessem funcionando. Se pudesse ver os alvos de cima, seria muito mais fácil.

— Banheiro, Artemis? Isso é hora?

Um demônio conseguiu passar pelos disparos de laser. Estava suficientemente perto para que sentissem seu cheiro. Holly se desviou de sua maça que vinha girando e deu-lhe um chute no peito. O ar saiu dos pulmões da criatura num jorro e o demônio caiu ofegante.

— Preciso de um banheiro e sua Neutrino praticamente não está causando efeito. O tempo está acelerando. Estamos num surto. — Artemis segurou o ombro de Holly, fazendo com que uma rajada saísse alta demais.

— Preciso chegar à bomba. Ela pode explodir a qualquer momento.

Holly se soltou dele.

— Dica de segurança, Artemis: não mexa em mim quando eu estiver disparando. Qwan, pode conseguir um pouco de tempo para nós?

— Tempo — respondeu Qwan, sorrindo. — Sabe, é irônico nós precisarmos de tempo, porque...

Holly trincou os dentes. Por que sempre tinha de acabar junto dos intelectuais?

O N° 1 estivera igualmente aterrorizado e pensativo durante o ataque. Aterrorizado pelos motivos óbvios: desmembramento, morte dolorosa etc. Mas também estava pensativo. Era um feiticeiro. Devia haver alguma coisa que pudesse fazer. Se fosse antes de ter saído da ilha, estaria atordoado e inativo por esse ataque súbito e feroz. Agora esta nem era a pior coisa que havia enfrentado. Aqueles Homens da Lama da segurança do castelo. Os grandalhões de terno e paus de fogo, armas. O N° 1 podia vê-los na cabeça, claramente, como se estivessem aqui.

Em vez de deixar as fagulhas voarem instintivamente, eu as organizo numa forma reconhecível.

O N° 1 se concentrou nas figuras humanas que estavam em sua memória, envolvendo-as em magia, trazendo-as. Sentiu-as se solidificando como se o sangue da testa estivesse congelando. Quando a pressão ficou demasiada para a testa, soltou-a na realidade, conjurando imagens fantasmagóricas de uma dúzia de mercenários humanos atirando com armas automáticas. Foi uma visão espetacular. Até Abbot recuou. Os outros mais do que recuaram. Viraram-se e saíram correndo.

— Ótimo, Qwan. Bem pensado — disse Artemis. Qwan estava perplexo.

— Você consegue ler meus pensamentos? Ah, quer dizer, os soldados. Não fui eu. O N° 1 é um feiticeirozinho muito poderoso. Em dez anos poderia transportar esta ilha sozinho.

Abbot foi deixado a dez passos do grupo, com a espada na mão e uma tempestade de balas azuis cascateando ao redor. Para ser justo com o líder da legião, ele se manteve firme, encarando a morte certa ao estilo dos demônios: com uma espada na mão e uma careta feroz.

Qwan balançou a cabeça.

— Olhe só isso. Foi esse tipo de idiotice que nos colocou em encrenca, para começar.

Abbot tinha alguma experiência com magia e logo percebeu que aqueles humanos e seus mísseis eram meras ilusões.

— Voltem, seus idiotas — gritou para seus soldados. — Eles não podem machucar vocês.

Artemis deu um tapinha no ombro de Holly.

— Desculpe por mexer de novo em você, mas precisamos voltar à bomba. Todos nós. E, se possível, atrair Abbot para lá também.

Holly deu vários tiros no peito de Abbot para ganhar alguns minutos. O líder da legião voou para trás, como se um gigante houvesse batido com uma marreta em seu peito.

— Tudo bem. Vamos. Artemis, vá na frente, eu os seguro na retaguarda.

Voltaram para dentro da cratera, escorregando nos calcanhares através da crosta de cinzas. Fizeram um progresso mais rápido descendo, mas era igualmente traiçoeiro. Para Holly era mais difícil, porque estava descendo de costas, pronta para dar um tiro em qualquer um que pusesse ao menos um fio de cabelo sobre a borda da cratera.

Era uma cena para um pesadelo de uma criança de cinco anos. Cheiros penetrantes queimavam os olhos e a garganta, uma superfície que sugava os pés. E o som de respirações e batidas de coração. Para não mencionar o medo constante de os demônios estarem chegando.

As coisas estavam para piorar. A liberação da energia mágica deslocada de Qwan havia acelerado a deterioração do feitiço de tempo, que se encontrava a ponto de desmoronar por completo. Infelizmente isso aconteceria em ordem reversa, começando em Hybras. Artemis sabia disso, mas não tinha nenhum segundo livre para fazer qualquer cálculo. Supunha que aconteceria logo. E quem poderia dizer quando era o logo, num surto temporal?

Artemis percebeu que era mais do que uma suposição. Sabia que o colapso do túnel era iminente. Podia sentir. Agora estava em contato com a magia. Fazia parte dela e ela fazia parte dele.

Pôs o braço de Qwan sobre seu ombro, ajudando-o a prosseguir.

— Depressa. Temos de ir depressa. O velho feiticeiro assentiu.

— Você está sentindo? Caos no ar. Olhe o N° 1.

Artemis olhou para trás. O N° 1 estava praticamente grudado neles, mas tinha a sobrancelha franzida de dor e dava socos na testa.

— Ele é sensível — ofegou Qwan. — Puberdade.

De repente a puberdade humana não parecia tão ruim.

Holly estava com problemas. Seus anos de treinamento e experiência não a haviam preparado para o momento em que estaria entrando de volta num vulcão, guardando um humano e dois membros de uma espécie supostamente extinta, durante um surto temporal.

O surto estava causando um tumulto em suas funções corpóreas, mas também causava efeito em seus tiros. Estava disparando um fogo de cobertura contra a borda, mas vários disparos desapareciam no meio do ar.

Aonde aqueles disparos teriam ido?, pensou brevemente. Para o passado?

Grupos de imagens fantasmagóricas surgiam por um breve momento, dando a ilusão de que havia o dobro de demônios de antes. Além disso, ela subitamente sentiu uma fome dolorida e podia jurar que suas unhas estavam crescendo.

Os demônios de Abbot vinham depressa, e não num grupo unido como Holly havia esperado. Espalharam-se na borda da cratera e passaram por cima numa onda coordenada. Era uma visão temível, dezenas de guerreiros saltando, com as marcas brilhando à luz vermelha, dentes à mostra, chifres tremendo e gritos de batalha de gelar o sangue, ecoando nas paredes da cratera. Não era como lutar contra trolls. Os trolls tinham uma inteligência básica, mas aqueles demônios eram organizados e estavam preparados para a batalha. Já sabiam que deveriam se espalhar e evitar os tiros de laser.

Holly escolheu o líder da legião.

Olá, Abbot, pensou. Independentemente do que aconteça aqui, você vai para casa com dor de cabeça.

Disparou três tiros contra ele. Dois desapareceram, mas um acertou, fazendo Abbot cair na poeira.

Holly se esforçou, ampliando o arco de tiros o máximo possível, colocando o gatilho no automático. Se tivesse todo o seu equipamento de combate, não haveria problema. Algumas granadas de ofuscamento no instante certo atordoariam toda a onda de demônios, e um fuzil de pulsação poderia segurá-los por algumas centenas de anos, se necessário. Mas ali só possuía uma pistola, nenhum apoio e um surto temporal engolindo metade dos seus raios. Parecia uma tarefa impossível segurar Abbot e seus capangas por tempo suficiente para Artemis chegar à bomba. E, mesmo que conseguisse, o que aconteceria em seguida?

Os demônios continuavam vindo, abaixados e saltitando. Enquanto corriam, disparavam com suas balestras, e nenhum tiro era afetado pelo surto temporal. Claro que não seriam. Os raios da Neutrino eram calibrados para ter vida curta assim que fizessem contato com o ar; dissipavam-se depois de cinco segundos a não ser que fossem especificamente ajustados para mais tempo.

Felizmente as setas estavam caindo longe, mas não tanto quanto há alguns instantes. O tempo estava acabando em mais de um sentido.

Um grupo de imps ousados passou pelo arco de tiros de Holly. Seu método de avanço era idiota e suicida. Só a sorte imbecil os salvou de ter os crânios esmagados. Usando um escudo como trenó, três deslizaram pela encosta interna da cratera, sendo jogados de um lado para o outro pelas pedras e pelas mudanças na inclinação.

Num segundo estavam a 50 metros, no outro Holly pôde sentir o cheiro do suor que brilhava nas placas das testas. Holly girou o cano da arma na direção deles, mas era tarde demais. Nunca conseguiria. E mesmo que conseguisse, os outros usariam a distração para ganhar terreno.

Os imps estavam rindo para ela. Lábios repuxados sobre os dentes afiados e pontudos. Um estava especialmente agitado e tinha algum tipo de gosma saindo dos poros.

Os imps pareceram ficar suspensos no ar por um tempo enorme, e então alguma coisa aconteceu. O ar pulsou e a realidade se partiu momentaneamente em pontos coloridos como uma tela de computador defeituosa. Holly sentiu um enjôo no estômago e os imps desapareceram da existência, levando consigo um tubo de 2 metros de diâmetro da cratera,

Holly recuou para longe do buraco, que desmoronou sobre si mesmo.

O N° 1 caiu de joelhos e vomitou.

— Magia — ofegou ele. — Acabando. Agora a atração da Terra é mais forte do que a prata. Ninguém está seguro.

Artemis e Qwan estavam em condições um pouco melhores, mas só um pouco.

— Sou mais velho e tenho mais controle sobre minha empatia — disse Qwan. — Por isso não vomitei.

E tendo dito isso, vomitou.

Artemis nem deu tempo ao velho feiticeiro para se recuperar. O tempo estava surtando e se desenrolando ao mesmo tempo.

— Venha — disse ele. — Para a frente.

Holly ficou de pé, puxando o N° 1. Atrás deles, nas encostas, os demônios haviam se imobilizado ao ver os imps desaparecendo, mas agora avançavam de novo com determinação renovada. Sem dúvida acreditavam que Holly era responsável pelo desaparecimento de seus irmãos menores.

Estrondos temporais ecoavam ao redor da ilha enquanto nacos de Hybras giravam para o túnel do tempo. Alguns se materializariam na Terra e alguns no espaço. Era improvável que algum demônio azarado o bastante para ser transportado sobrevivesse. Principalmente sem magia concentrada para forjar uma bússola para eles.

Artemis se arrastou nos últimos passos até a bomba, caindo de joelhos ao lado. Limpou a cinza do cronômetro com a manga do paletó, depois passou um tempo examinando-o, assentindo com as piscadas do relógio digital.

Os números do relógio se comportavam de modo aleatório; saltando à frente, diminuindo a velocidade e até recuando ligeiramente. Mas Artemis sabia que haveria um padrão ali, em algum lugar. A magia era simplesmente outra forma de energia, e a energia se ajustava a certas regras. Era apenas questão de olhar o cronômetro e contar. Demorou um tempo, mais do que eles podiam permitir, mas finalmente Artemis percebeu a taxa de repetição. Passou os números rapidamente na cabeça.

— Estou vendo — gritou a Qwan, que estava de joelhos ao seu lado. — É principalmente para a frente. Uma hora por segundo numa contagem de quarenta, seguido por uma desaceleração para 30 minutos por segundo numa contagem de oitenta, depois um ligeiro salto para a frente no tempo, um minuto por segundo de volta durante uma contagem de dois. Então repete.

Qwan deu um riso débil.

— Qual foi o primeiro, mesmo?

Artemis se levantou, tirando a bomba de seu leito de cinzas e fungos.

— Não importa. Você precisa se preparar para transportar esta ilha. Precisamos de N’zall.

Holly recuou para o grupo, ainda disparando.

— Verei o que posso fazer.

Qwan assentiu.

— Tenho fé em você, capitã. Mas, afinal de contas, sou uma pessoa que costuma confiar, e veja aonde isso me levou.

— Onde o senhor quer que isto seja colocado?

Qwan olhou ao redor.

— Precisamos formar um círculo ao redor dela, de modo que deve ser algum lugar plano. Olhe, aquele ali. Ali.

Artemis começou a arrastar a bomba na direção do lugar indicado. Não era muito longe. Então todos poderiam ficar ao redor, num círculo, e olhá-la explodir.

Agora todo mundo tinha trabalho a fazer. A probabilidade de suas tarefas serem realizadas era ligeiramente menor do que a de acontecer um casamento entre um anão e uma goblin. E uma goblin preferiria comer os próprios pés a se casar com um anão.

Artemis deveria reposicionar a bomba. O N° 1 e Qwan estavam encarregados de lançar o feitiço, e Holly da tarefa pouco invejável de mantê-los todos vivos e convencer Abbot a se juntar ao grupo. E tudo isso enquanto a ilha se desintegrava ao redor.

O vulcão estava sendo literalmente despedaçado. Enormes trechos desapareciam no espaço como partes de um gigantesco quebra-cabeça em três dimensões. Dentro de 10 minutos não restaria nada para transportar.

Qwan segurou a mão do N° 1, guiando-o até o pequeno trecho plano.

— Muito bem, jovem colega. Aquela coisa que você fez lá em cima, com os soldados, foi boa. Fiquei impressionado. Mas isto aqui é grande. Sei que você está sentindo dor. É só porque agora é sensível à quebra do feitiço de tempo. Mas precisa ignorar isso. Temos uma ilha para transportar.

O N° 1 sentiu o rabo vibrar nervoso.

— Uma ilha? Uma ilha inteira?

Qwan piscou.

— E todo mundo que está nela. Sem pressão.

— O que vamos fazer?

— Só preciso de uma coisa sua. Invoque sua magia, cada gota. Deixe-a passar para mim e eu faço o resto.

Isso parecia bem fácil. Mas invocar a magia quando há setas voando e pedaços do ambiente desaparecendo era quase tão fácil quanto usar o banheiro sob comando com uma dezena de pessoas olhando. Pessoas que odiavam você.

O N° 1 fechou os olhos e tentou ter pensamentos mágicos.

Magia. Venha, magia.

Tentou abrir as mesmas portas na mente que havia aberto ao conjurar os soldados humanos. Para sua surpresa, descobriu que agora a magia vinha mais fácil, como se estivesse pronta para sair. A jaula fora aberta e a fera estava livre. O N° 1 sentiu o jorro de poder através dos braços, animando-o como uma marionete.

— Calma aí, grandão — disse Qwan. — Não precisa explodir minha cabeça. Ponha uma rédea nisso até a hora certa. — O velho feiticeiro gritou para Artemis, a voz fina quase apagada pelos estrondos sônicos: — Quanto tempo falta?

Artemis estava arrastando a bomba com alguma dificuldade, cravando os calcanhares na crosta e ofegando. Não conseguia afastar o pensamento de que Butler só precisaria jogar a mala da bomba sobre um dos ombros e levá-la até o platô.

— Conte até trezentos. Talvez 299. Desde que a deterioração se mantenha constante, o que deve acontecer.

Qwan havia parado de escutar depois das palavras trezentos. Segurou com força as mãos do N° 1.

— Daqui a 5 minutos vamos para casa. Hora de começar o mantra. — Qwan fechou os olhos e balançou a cabeça de um lado para o outro, murmurando na antiga língua dos demônios.

O N° 1 podia sentir o poder das palavras moldando a magia em círculos de fogo azul que subiam ao redor deles. Segurou-se ao novo mentor e se juntou a ele, repetindo o mantra como se sua vida dependesse disso. E, claro, dependia mesmo.

Agora Holly precisava atrair Abbot para o pequeno grupo e convencê-lo a se juntar ao círculo mágico. A julgar pelo modo como ele estava balançando sua espada espalhafatosa, era pouquíssimo provável que fizesse isso voluntariamente.

Nesse ponto, o ataque dos demônios estava muito descoordenado, com grandes trechos do terreno ao redor saltando para outra dimensão, mas Abbot e seus membros do conselho continuavam teimosos como sempre, avançando praticamente sem pausa quando algum deles desaparecia.

Holly sustentava o fogo, imaginando qual seria o melhor modo de se comunicar com o líder da legião. Era uma negociadora treinada, e por suas observações e pelo que o N° 1 havia dito, suspeitava de que Abbot tivesse Narcisismo Situacional Adquirido. Estava totalmente apaixonado por si mesmo e por sua importância na comunidade. Freqüentemente os narcisistas preferem morrer a aceitar o que viam como rebaixamento. Para Abbot, Holly representaria alguém que estava tentando tirá-lo do posto de líder da legião, e portanto alguém que precisaria ser destruída imediatamente.

Sensacional, pensou ela. Em qualquer dimensão você esteja, há sempre um macho cabeçudo tentando dominar o mundo.

Os demônios vinham avançando numa linha irregular. Abbot estava na frente, instigando suas tropas mesmerizadas. O céu vermelho se partia em fiapos entrelaçados atrás da cabeça dele. O mundo que Abbot conhecia estava terminando, e mesmo assim ele não abria mão do posto. Morte para todos antes da desgraça para ele.

— Contenha seus guerreiros, Abbot — gritou Holly. — Podemos falar sobre isso.

Abbot não respondeu. A não ser que uivar e bater os pés seja considerado resposta.

Agora os demônios estavam se espalhando ainda mais, flanqueando-a e evitando ser sugados em grupo para outra dimensão. Abbot deslizou à frente, cravando os calcanhares na crosta de cinza, inclinando o tronco para trás para evitar uma queda. Estava totalmente coberto de cinzas; até seus chifres de carneiro estavam cinza. Redemoinhos de cinzas vinham atrás, já que cada avanço levantava milhares de flocos.

Não há nada que eu possa fazer, pensou Holly. Esse cara não ouviria nem a própria mãe. Se ele soubesse quem era sua mãe.

Não havia saída. Teria de aumentar a carga e deixá-lo desacordado durante algumas horas. Qwan teria de colocar Abbot inconsciente no círculo de magia.

— Desculpe — disse ela, e aumentou o ajuste de potência, que ficava sobre o apoio do polegar, na arma.

Mirou com precisão treinada. O raio que pulsou para fora do cano da Neutrino era de um vermelho mais perigoso e deveria fazer com que Abbot desse umas duas cambalhotas.

Vou tentar não curtir essa visão, pensou Holly.

Foi uma visão que ela nunca chegou a curtir, porque nesse momento exato o surto temporal se reverteu durante uma contagem de dois. O raio desapareceu no passado e Holly sentiu como se estivesse vomitando enquanto seus átomos eram desarrumados de novo pela incerteza temporal. Captou um vislumbre de seu passado fantasmagórico uns 60 centímetros à esquerda. Fora de foco, versões passadas dos demônios vinham atrás deles como trilhas de velocidade. E depois o passado sumiu por mais um minuto.

Abbot continuava vindo. Agora estava perigosamente perto. Holly achava que tinha tempo para mais um tiro. E com alguma sorte o conselho dos demônios perderia sua unidade de objetivo quando o líder estivesse fora de ação.

Ajustou a mira e então o mundo se despedaçou diante dela como um espelho partido. Uma seção curva da terra subiu diante dela como um maremoto, em seguida se desmaterializou num jorro de partículas brilhantes. Holly captou um vislumbre de dimensões alternativas através das fendas. Havia um sol, espaço e criaturas com múltiplos tentáculos.

A simples quantidade de magia presente no ar espremeu sua cabeça como um torno. Ela notou vagamente Artemis e os outros sucumbindo à sobrecarga de magia.

Mas não podia sucumbir. Alguns demônios podiam ter sido sugados pelo túnel do tempo, mas talvez restassem outros. O ar tremeluziu e se acomodou. Riachos de poeira e rocha se derramaram do meio do ar. Enormes precipícios bocejaram ao redor, sem nada abaixo a não ser espaço vermelho. Agora havia mais vazio do que terra.

A maioria dos demônios havia sumido. A maioria, mas não todos. Abbot restava sozinho, rindo feito um maníaco, a espada estendida diante do corpo.

— Olá, elfo — disse ele, e cravou a espada no peito de Holly.

Holly sentiu o aço atravessar a delicada membrana de pele de elfo, entre a oitava e a nona costela, e se alojar um milímetro abaixo do coração. Era frio como gelo e mais doloroso do que as palavras podem descrever. Caiu para trás, escorregando da lâmina lisa, chocando-se na crosta de cinzas. O sangue jorrou como água de um vaso rompido. O próprio coração fazia o trabalho da gravidade, esvaziando suas veias a cada batida.

— Magia — ofegou através da dor. Abbot estava em júbilo.

— A magia não pode ajudá-la, elfo. Estive trabalhando nesta espada por muito tempo, para o caso de os feiticeiros aparecerem. Há feitiço suficiente neste aço para impedir todo um círculo mágico. — Ela balançou a espada enquanto falava. Cuspe voava de sua boca e o sangue de Holly pingava da lâmina, fazendo riscos na cinza.

Holly tossiu, e foi como se estivesse se partindo ao meio. A magia não podia ajudá-la. Só havia uma pessoa capaz disso.

— Artemis — disse com a voz débil e fina. — Artemis, me ajude.

Artemis Fowl olhou brevemente para ela, depois voltou o olhar para o cronômetro da bomba, deixando Holly Short para morrer no chão. E ela morreu.

 

Artemis estava puxando a bomba quando veio a grande transferência. O excesso de magia o acertou como um touro vindo a toda velocidade, jogando-o de joelhos. Por um instante, seus sentidos foram totalmente sobrecarregados e ele ficou ofegando num vácuo. A visão foi a primeira coisa a retornar, distorcida por lágrimas e estrelas.

Verificou o cronômetro da bomba. Faltavam três minutos, desde que o padrão não se desintegrasse. Olhou à esquerda, onde Qwan e o N° 1 estavam retornando ao trabalho de conjurar, enquanto sobre o ombro direito Holly sustentava os demônios que restavam. Ao redor, o mundo vibrava, saindo da existência. O ruído era feroz e o cheiro cobria suas narinas.

A bomba era suficientemente pesada para estalar os nós dos seus dedos, e não pela primeira vez Artemis desejou que Butler estivesse ali para pegar o peso. Mas não estava, e não estaria de novo se Artemis não continuasse em frente. Era um plano simples: levar a caixa até o platô. Objeto A ao ponto B. Não havia sentido em pensar a respeito.

Então Holly foi golpeada e o plano ficou muito mais complicado.

Com o canto do olho, Artemis viu a lâmina penetrando. E, pior ainda, ouviu o som que ela fez. Um estalo claro, como uma chave entrando numa fechadura.

Não pode ser real, pensou. Nós passamos por muita coisa juntos para que Holly seja levada tão depressa.

O som que a espada fez ao sair de Holly foi hediondo, além de qualquer imaginação. Artemis soube que levaria esse som para a sepultura.

Agora Abbot estava cantando vantagem.

— A magia não pode ajudá-la, elfo. Estive trabalhando nesta espada por muito tempo.

Artemis se deixou afundar sobre os calcanhares, sentindo a ânsia de se arrastar para perto de Holly. A magia não poderia ajudar Holly, mas talvez uma combinação de magia e ciência pudesse. Obrigou-se a ignorar os jorros de sangue vermelho intenso que escorriam do ferimento. Não havia nada no futuro de Holly Short além da morte.

No seu futuro atual. Mas o futuro poderia ser mudado.

O N° 1 e Qwan não tinham visto o ataque. Estavam profundamente concentrados, construindo os círculos azuis. Abbot ia na direção deles; a ponta da espada pingava sangue na cinza como uma caneta vazando, unindo os pontos de suas próximas vítimas.

Holly disse suas últimas palavras:

— Artemis. Artemis, me ajude.

Artemis olhou para ela. Uma vez. Brevemente. Não deveria ter olhado. A visão da amiga morrendo quase interrompeu sua contagem. E neste momento a contagem era a coisa mais importante.

Holly morreu sem um amigo para segurar sua mão. Artemis sentiu-a ir: outro dom da magia. Continuou contando, limpando as lágrimas nas bochechas.

Continue contando. É só isso que importa.

Levantou-se e foi rapidamente até a amiga caída. Abbot o viu. Apontou a espada na direção de Artemis.

— Você é o próximo, Garoto da Lama. Primeiro os feiticeiros, depois você. Assim que vocês tiverem isso, as coisas voltarão a ser o que eram.

Artemis o ignorou, assentindo com a contagem na cabeça, certificando-se de não correr. A contagem deveria ser exata, caso contrário tudo estaria perdido.

Abbot abriu caminho entre Qwan e o N° 1. Eles estavam tão concentrados que mal o perceberam. Com dois golpes de sua espada maldita, o serviço estava feito. O N° 1 caiu para trás, com magia azul escorrendo dos dedos. Qwan não caiu porque a ponta da espada de Abbot o mantinha de pé.

Artemis não olhou nos olhos de Holly. Não podia. Em vez disso, arrancou a arma de sua mão e apontou para longe.

Cuidado agora. O tempo é tudo.

Abbot arrancou a espada do peito de Qwan e o pequeno corpo tombou sem vida no chão. Três mortos em menos tempo do que o necessário para amarrar um sapato.

Artemis ignorou as últimas respirações, e o barulho ritmado nas cinzas lhe disse que Abbot estava chegando. Não que o demônio tentasse esconder isso.

— Voltei, humano. Por que não vê se consegue girar a tempo?

Artemis examinou o piso do vulcão ao redor de Holly em busca de pegadas. Havia muitas, mas apenas duas lado a lado, onde Abbot estivera ao dar o golpe. O tempo todo continuava contando, lembrando-se de seus cálculos.

Uma hora por segundo numa contagem de quarenta, seguido por uma desaceleração para 30 minutos por segundo numa contagem de oitenta, depois um ligeiro salto para a frente no tempo, um minuto por segundo de volta durante uma contagem de dois. Então repete.

— Talvez eu mantenha você. — Abbot riu e cutucou as costas de Artemis com a espada. — Seria bom ter um humano de estimação por perto. Eu poderia lhe ensinar alguns truques.

— Tenho um truque para você — disse Artemis, e deu um único tiro com a arma.

O tiro saiu do cano e foi lançado um minuto no passado, exatamente como o cálculo de Artemis. Desapareceu do presente e emergiu bem a tempo de acertar a imagem fantasmagórica de Abbot quando preparava o golpe de espada contra Holly.

O Abbot de um minuto atrás foi levantado e jogado contra a parede da cratera.

O Abbot do tempo atual mal teve tempo de dizer “O que aconteceu?” antes de desaparecer, não mais carne, meramente possibilidade não-realizada.

— Você não matou meus amigos — respondeu Artemis, mas estava falando consigo mesmo. — Isso nunca aconteceu.

Olhou para baixo, nervoso. Holly não estava mais ali. Graças a Deus.

Outro olhar rápido lhe disse que Qwan e o N° 1 estavam de novo construindo seu círculo mágico como se nada tivesse acontecido.

Claro que não. Nada aconteceu.

Artemis se concentrou na lembrança. Visualizou Abbot girando no ar. Envolveu o incidente em magia para preservá-lo.

Lembre-se, disse a si mesmo. O que havia acabado de fazer, o que agora não havia precisado fazer, e portanto não tinha feito. Só que, é claro, tinha. Esse tipo de incerteza temporal deveria ser esquecido em nome da sanidade, mas Artemis abominava abrir mão de qualquer de suas lembranças.

— Ei — disse uma voz familiar. — Você não tem um serviço a fazer, Artemis?

Era Holly. Provocando Artemis.

Artemis só pôde olhar para a amiga e sorrir. Ainda sentia a dor pela morte dela, mas isso iria se curar rapidamente, agora que Holly estava viva outra vez.

Holly pegou-o sorrindo.

— Artemis, dá para levar essa caixa para o platô? É um plano simples.

Artemis sorriu mais um pouco, depois se sacudiu.

— Sim. Claro. Colocar a caixa no platô.

Holly estivera morta, agora estava viva.

A mão de Artemis pinicava com a lembrança fantasma de uma arma que ele poderia segurado ou não há alguns instantes.

Haveria conseqüências para isso, pensou. Não se pode alterar o tempo sem ser afetado. Mas, quaisquer que fossem as conseqüências, vou suportá-las, porque a alternativa é terrível demais.

Voltou à sua missão, arrastando a bomba pelos últimos metros até o platô. Ajoelhou-se, encostou o ombro na mala e enfiou-a entre as pernas de Qwan e do N° 1. O N° 1 nem notou que Artemis estava ali. Agora os olhos do pequeno aprendiz de feiticeiro eram de um azul sólido, cheios de magia. As runas em seu peito luziam, depois começaram a se mexer, retorcendo-se como serpentes, subindo até o pescoço e girando na testa como uma rodinha de fogo de artifício.

— Artemis! Me dê uma mão com isto!

Era Holly lutando para rolar o corpo inconsciente de Abbot pela cratera irregular. A cada giro os chifres do demônio se agarravam na terra, cavando um pequeno rego.

Artemis foi com dificuldade até ela, as pernas doendo de tanto subir e descer. Segurou um chifre e puxou. Holly pegou o outro.

— Você atirou nele? — perguntou Artemis. Holly deu de ombros.

— Não sei. Talvez. Fiquei meio tonta ali durante um minuto. Deve ser o feitiço de tempo.

— Deve ser — respondeu Artemis, aliviado porque Holly não se lembrava do que havia acontecido. Ninguém deveria se lembrar da própria morte, ainda que ele sentisse interesse em descobrir o quê, exatamente, vinha em seguida.

O tempo estava correndo em todas as direções, inclusive para fora. De um modo ou de outro a ilha de Hybras não ficaria ali muito mais. Ou o feitiço de tempo iria despedaçá-la ou Qwan conseguiria segurar a energia da bomba e iria transportá-los de volta à Terra. Artemis e Holly arrastaram Abbot para o círculo, largando-o aos pés de Qwan.

— Desculpe ele estar apagado — disse Holly. — Era assim ou morto.

— Com este aí a escolha é difícil — disse Qwan, segurando um dos chifres de Abbot.

Artemis segurou o outro, e os dois colocaram Abbot numa posição ajoelhada. Agora eram cinco no círculo.

— Eu esperava cinco feiticeiros — resmungou Qwan. — Um feiticeiro, um aprendiz, um elfo, um humano e um egomaníaco roncando não era exatamente o que eu tinha em mente. Isso torna as coisas um pouco mais complicadas.

— O que podemos fazer? — perguntou Artemis.

Qwan estremeceu e uma película azul passou sobre seus olhos.

— D’Arvit! — xingou ele. — Este jovem é poderoso. Não posso segurá-lo por muito mais tempo. Mais 2 minutos assim e ele vai derreter nosso cérebro. Já vi isso acontecer uma vez. Líquido fervendo e escorrendo dos ouvidos. Horrível.

— Qwan! O que podemos fazer?

— Desculpe. Estou meio estressado. Muito bem. A coisa deve funcionar assim. Vou levantar todos nós, com a ajuda do júnior. Capitã Short, você está encarregada do onde. Artemis, você está encarregado do quando.

— Onde? — disse Holly.

— Quando? — disse Artemis simultaneamente.

Qwan segurou o chifre de Abbot com tanta força que ele estalou.

— Você sabe aonde esta ilha vai, Holly, visualize o lugar. Artemis, deixe o seu tempo chamá-lo. Permita que ele o atraia. Não podemos voltar ao nosso tempo. Isso causaria tantas incertezas que o planeta provavelmente cairia numa órbita menor e fritaria tudo que há nele.

— Aceito isso — disse Artemis. — Mas permitir que ele me atraia? Prefiro alguns fatos e números. Que tal trajetórias? Coordenadas espaciais?

Qwan estava entrando em transe.

— Nada de ciência. Somente magia. Sinta o caminho para casa, Artemis Fowl.

Artemis franziu a testa, perturbado. Sentir o caminho não era o modo como ele geralmente fazia as coisas. As pessoas que sentiam o caminho sem informações científicas sólidas em geral acabavam falidas ou mortas. Mas que opção ele tinha?

Era mais fácil para Holly. A magia sempre fizera parte de sua vida. Tinha sido uma de suas matérias na faculdade, e todos os policiais da LEP precisavam fazer cursos regulares durante o tempo de serviço. Segundos depois seus olhos estavam toldados com fagulhas azuis e sua magia interior havia acrescentado um círculo azul aos outros que pulsavam ao redor deles.

Visualize, pensou Artemis. Veja aonde você quer ir, ou melhor, quando você quer chegar.

Tentou, mas, embora a magia estivesse nele, não fazia parte dele. As outras criaturas estavam perdidas no feitiço, mas Artemis Fowl só podia olhar para a enorme bomba aos pés e se maravilhar pensando que estavam esperando que ela explodisse.

Agora é meio tarde para ter dúvidas, disse a si mesmo. Afinal de contas, o negócio de “usar a energia da bomba” tinha sido idéia sua.

Era verdade, ele havia conjurado algumas fagulhas antes. Mas era diferente; fizera aquilo sem pensar. As fagulhas haviam sido um floreio para enfatizar seu argumento. Aqui, sua magia poderia ser o que manteria todo mundo nesta ilha vivo.

Examinou cada membro do círculo. Qwan e o N° 1 vibravam com uma velocidade que não era natural. Seus olhos estavam azuis, e marcas giravam nas testas como miniciclones. A magia de Holly saía pelos dedos, cobrindo a mão numa luz azul quase líquida. Abbot, claro, estava inconsciente, mas seus chifres luziam azuis, e jorros contínuos de fagulhas saltavam deles, cascateando sobre o grupo como efeitos especiais num show de rock. Na verdade, todo o episódio não ficara deslocado num videoclipe.

Ao redor, a ilha sofria seu próprio trauma. O contínuo derretimento do túnel do tempo engolia pedaços cada vez maiores, levando-os para outras dimensões. Os círculos de energia que estalavam ao redor se fundiam para formar um hemisfério mágico. Mas não era perfeito; fendas cornam na superfície, ameaçando a integridade da estrutura.

Eu sou o problema, pensou Artemis. Não estou colaborando.

Sentiu-se à beira do pânico. Sempre que esse sentimento o dominava, ele ordenava à mente que mudasse de marcha e entrasse num clima meditativo. Fez isso agora, sentindo o coração diminuir o ritmo e a impossível loucura ao redor ir para longe.

Concentrou-se numa coisa: a mão de Holly na sua, segurando seus dedos com vida e energia. Os dedos de Holly estremeciam, lançando fiapos mágicos ao longo do braço de Artemis. Em seu estado de relaxamento, ele ficou receptivo e a magia dela incitou a sua, puxando-a do cérebro. Sentiu a magia se incendiar nos terminais nervosos, preenchendo-o, elevando sua consciência até outro lugar. Era uma experiência eufórica. Artemis percebeu que havia partes de seu cérebro se abrindo, partes que não eram usadas pelos humanos há milênios. Também percebeu que os humanos já haviam tido sua própria magia, mas se esqueceram de como usá-la.

Prontos?, perguntou Qwan, mas não em voz alta. Agora eles estavam compartilhando consciência, como havia acontecido no túnel. Mas esta era uma experiência mais clara, como ondas de rádio comparadas a uma comunicação digital.

Prontos, responderam os outros, ondas de pensamento se sobrepondo numa espécie de harmonia mental. Mas também havia desarmonia. E luta.

Não basta, pensou Qwan. Não posso lacrar o hemisfério. Preciso de mais de Abbot.

Os outros pressionaram com o máximo de força possível, mas nenhum tinha mais magia para dar. Abbot iria matá-los. E dormindo.

 

Olá? Quem está aí?, disse uma voz nova, algo que não se espera num círculo mágico fechado, mesmo que seja o seu primeiro.

Junto com a voz veio uma série de lembranças. Grandes batalhas, traição e um mergulho num vulcão feroz.

Qweffor?, disse Qwan. É você, garoto?

Qwan? Pode ser você? Também está preso aqui?

Qweffor. O aprendiz arrastado para o vulcão por Abbot, ainda na Terra. Qwan entendeu de imediato o que devia ter acontecido.

Não. Estamos de novo no círculo mágico. Preciso de sua força. Agora.

Ah, deuses. Mestre Qwan. Faz tanto tempo! Você não acreditaria no que este demônio come.

Força, Qweffor! Agora! Do outro lado poderemos conversar.

Ah, certo. Desculpe. É bom ouvir de novo os pensamentos de um feiticeiro. Depois de tanto tempo achei...

Força!

Desculpe. Já está indo.

Instantes depois uma forte pulsação de energia zumbiu no círculo. O hemisfério mágico se lacrou, tornando-se um sólido escudo de luz. Qwan redirecionou um pouquinho da magia para envolver a bomba. Um assobio fino emanou da pequena esfera dourada.

Dó agudo, pensou Artemis distraidamente.

Concentração!, censurou Qwan. Leve-nos ao seu tempo.

Artemis se concentrou nas coisas importantes que havia deixado para trás e percebeu que todas eram pessoas. Sua mãe, seu pai, Butler, Potrus e Palha. As posses que ele considerava importantes agora não significavam nada. A não ser, talvez, sua coleção de arte impressionista.

Deixe a arte de fora, Artemis, alertou Holly, caso contrário vamos parar no século XX.

Dezenove, respondeu Artemis. Mas entendi o que você quis dizer.

Pode parecer que toda essa picuinha era um desperdício de tempo valioso, mas ela aconteceu instantaneamente. Um milhão de imagens multissensoriais eram trocadas em caminhos mágicos que faziam os cabos de fibra ótica parecer tão eficientes quanto duas latas e um pedaço de barbante. Lembranças, opiniões e segredos eram desnudados para que todos vissem.

Interessante, notou Artemis. Se eu conseguisse recriar isto, poderia revolucionar o negócio das comunicações.

Você era uma estátua?, perguntou Qweffor. Estou lendo isso direito?

No meio do círculo, o cronômetro da bomba estava indo na direção do zero. Num segundo o cronômetro saltou pela última hora do relógio. Quando marcou zero, uma carga foi mandada a vários detonadores, inclusive três falsos, indo até um bloco de explosivo plástico do tamanho de um pequeno aparelho de TV.

Aí vem, emitiu Qwan.

A bomba explodiu, transformando a caixa de metal em um milhão de dardos supersônicos. O escudo interno conteve os dardos, mas absorveu sua energia cinética, acrescentando-a ao escudo externo.

Eu vi isso, pensou Artemis impressionado. Muito inteligente.

E, de algum modo, tinha visto. Algum tipo de visão lateral que permitia a todos verem os acontecimentos em seu próprio ritmo, e do ponto de vista que preferisse. Também permitia que sua mente se concentrasse totalmente em seu tempo real, ao mesmo tempo em que continuava apreciando o espetáculo. Artemis decidiu levar o terceiro olho para fora do círculo. O que quer que acontecesse àquela ilha deveria ser bem espetacular.

A explosão liberou a energia de uma tempestade elétrica num espaço do tamanho de uma barraca para quatro pessoas. Tudo dentro do espaço deveria ter sido vaporizado, mas as chamas e as ondas de choque foram contidas pela pequena esfera dourada. Ficaram rodando ali, atravessando em vários lugares. Sempre que isso acontecia, a força em fuga era atraída por um dos anéis azuis de poder e se grudava a eles como clarões de relâmpagos que iam das nuvens ao chão.

Artemis olhou alguns desses clarões atravessarem direto seu corpo e saírem do outro lado. Mas não se feriu; pelo contrário, sentia-se energizado, mais forte.

O feitiço de Qwan está me mantendo em segurança, pensou. É física simples — a energia não pode ser destruída, por isso ele a está transformando: energia mágica.

Era uma visão espetacular. A energia da bomba canalizava a magia dentro do círculo até que as chamas laranja rodopiantes fossem domadas pelas azuis. Gradualmente a força da bomba foi consumida e transformada por feitiçaria. Os círculos brilhavam com uma luz azul ofuscante e as figuras em seu interior pareciam compostas de energia pura. Brilhavam sem substância enquanto o feitiço de tempo revertido os dominava.

De repente os círculos azuis pulsaram, injetando uma onda de choque de magia dentro da própria ilha. Uma transparência se espalhou como água na superfície e abaixo. Pulso atrás de pulso, até que a transparência se espalhou além da cratera. Para os demônios, em seu povoado, devia parecer que o vulcão estava sendo devorado pela magia. O nada se espalhou a cada pulso, deixando apenas fagulhas douradas e reluzentes onde instantes atrás havia terra sólida.

A desmaterialização chegou à costa, e para além dos 10 metros de oceano trazidos para cá com a ilha. Logo não restaria nada além do círculo de magia, flutuando azul no ondulado espaço do Limbo.

Qwan se estendeu até eles. Concentrem-se agora. Artemis e Holly, levem-nos para casa.

Artemis apertou a mão de Holly com força. Estavam mais próximos do que nunca. Suas mentes eram uma só.

Artemis se virou e olhou para a amiga com os olhos azuis. Holly retribuía o olhar e estava sorrindo.

— Eu lembro — disse ela em voz alta. — Você me salvou.

Artemis sorriu também.

— Isso jamais aconteceu — disse ele.

E então suas mentes e corpos foram divididos até o nível subatômico e transportados pelas galáxias e milênios.

 

O espaço e o tempo não tinham nenhuma forma reconhecível. Não era como voar num balão numa linha de tempo e dizer: “Olhem, ali está o século XXI. Deixe-nos lá.”

Tudo era impressões e sentimentos. Artemis precisou trancar os desejos das centenas de demônios ao redor e se concentrar em sua bússola interna. Sua mente sentiria uma saudade de seu tempo natural, e ele simplesmente precisaria segui-la.

A saudade parecia, de modo vago, uma luz esquentando sua mente quando ele se virava na direção dela.

Bom, pensou Qwan. Vá para a luz.

Isso é uma piada?, perguntou Artemis.

Não, respondeu Qwan. Não faço piadas quando há centenas de vidas em jogo.

Boa política, pensou Artemis, e se virou para a luz.

Holly estava se concentrando em onde pousar a ilha. Achava isso incrivelmente fácil. Sempre havia guardado com carinho suas lembranças de estar acima do solo e agora podia invocá-las com clareza espantosa. Lembrou-se de um passeio escolar ao local onde Hybras estivera. Em sua mente, podia ver a praia ondulante, dourada e brilhando ao sol de verão. Podia ver o brilho azul-acinzentado do dorso de um golfinho rompendo as ondas para cumprimentar os visitantes do povo subterrâneo. Podia ver o negrume pintalgado de prata da água, no que os humanos chamavam de canal de Saint George. A luz de todas essas lembranças aquecia seu rosto.

Bom, emitiu Qwan. Vá...

Eu sei. Ir para a luz.

Artemis estava tentando colocar a experiência em palavras, para seu diário. Mas achou difícil, esta era uma experiência nova para ele.

Acho que só vou me concentrar em encontrar meu tempo, pensou.

Boa idéia, pensou Qwan.

Então você se transformou numa estátua? Era Qweffor de novo, doido para se atualizar.

Ah, pelo amor dos deuses, resmungou Qwan. Veja você mesmo. E mandou lembranças relevantes para seu antigo aprendiz.

Todo mundo no túnel recebeu uma representação cinemática da criação inicial do túnel do tempo, há 10 mil anos.

Em sua mente, sete feiticeiros pairavam acima da boca de um vulcão ativo, protegidos do calor por um círculo mágico. Era um negócio muitíssimo mais impressionante do que o improvisado círculo mágico que Artemis havia testemunhado antes. Aqueles feiticeiros eram confiantes, vestiam mantos elaborados. Seu círculo mágico era na verdade uma esfera de luz multicolorida. E mais, não precisavam sujar as botas na cinza; pairavam seis metros acima da boca do vulcão. Entoando em voz grave, lançavam raios e mais raios de magia no magma até que este começou a borbulhar e se convulsionar. Enquanto os feiticeiros se concentravam em induzir o vulcão, Abbot e seu parceiro Bludwin se esgueiraram de trás de um afloramento de rocha mais adiante. E mesmo que as peles dos demônios possam suportar um forte calor, ambos suavam profusamente.

Quase sem pausa para perceber como seu plano era imbecil e míope, os sabotadores saltaram de uma rocha em direção ao círculo abaixo. Bludwin, que era abençoado com os dons da idiotice e do infortúnio, errou todos os feiticeiros do círculo e mergulhou na lava sibilante. Seu corpo elevou ligeiramente a temperatura da lava superficial, não significativamente, mas o bastante para manchar o feitiço. Abbot agarrou Qweffor, arrastando-o para fora do círculo até a borda do vulcão. A pele de Abbot começou imediatamente a fumegar, e o pobre Qweffor, ainda num estupor da magia, estava tão desamparado quanto um recém-nascido sob o peso dele.

Tudo isso aconteceu no pior momento possível. Agora o feitiço se perdeu no vulcão e os feiticeiros não podiam mais controlá-lo, assim como um camundongo não pode segurar o oceano.

Um pilar de lava, estimulado pela magia, foi cuspido do vulcão — vermelho, laranja e magnífico — penetrando direto no caldeirão invertido de magia azul. Fazendo careta e com sofrimento óbvio, os feiticeiros converteram a rocha derretida em energia pura, bombeando-a de volta para o chão.

Abbot e Qweffor foram apanhados simultaneamente pela lava e pelo refluxo de magia. Qweffor, já num estado mágico insubstancial, desmoronou num amontoado de estrelas com a forma de um corpo, e as estrelas foram absorvidas pelo corpo de Abbot. Abbot se retorceu em agonia, tentando arrancar a própria pele por um breve momento. Então foi esmagado num dilúvio de magia e desapareceu.

Os feiticeiros mantiveram o feitiço pelo máximo de tempo que puderam, até que a maior parte da ilha havia sido transportada para outra dimensão. Mas a lava continuava chegando do fundo da terra, e com o círculo rompido eles não podiam conter sua força selvagem. Ela os varreu para o lado como um urso espantando insetos incômodos.

Os feiticeiros golpeados foram espiralando em ziguezague pelo ar, com a fumaça dos mantos em chamas riscando o caminho. A ilha havia sumido, a magia deles fora exaurida e o