Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A CONDESSA DE CHARNY 5º Volume / Alexandre Dumas
A CONDESSA DE CHARNY 5º Volume / Alexandre Dumas

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A CONDESSA DE CHARNY

5º Volume

 

A revolução sanguinolenta

       A revolução de 1789, isto é, a dos Necker, dos Sicyes e dos Bailly terminou em 1790, a dos Barnave, dos Mirabeau, dos Lafayette teve o seu fim em 1791.

       A grande revolução, a revolução sanguinária, a revolução dos Danton, dos Marat, dos Robespierre começava.

       Reunindo o nome destes três homens, não queremos confundir em uma só apreciação, pelo contrário, representam as suas individualidades bem distintas as três faces dos três anos que vão decorrer.

       Danton está encarnado em 1792.

       Marat em 1793.

       Robespierre em 1794.

       Demais os acontecimentos que vão seguir-se melhor nos demonstrarão o que eram estes homens; examinemos os acontecimentos e por eles veremos como lhe fazem face a Assembléia Nacional e a Comuna.

       O que narramos é da história, porque quase todos os personagens desta história, com pequenas excepções, dispuseram e figuraram a tempestade revolucionária.

       O que é feito dos três irmãos Charny, Jorge, Isidoro e Olivier?

       Morreram.

       O que é feito da rainha e de Andréia?

       Estão presas.

       O que é feito de Lafayette?

       Anda fugido.

       A 17 de Agosto Lafayette tinha convidado o exército a marchar sobre a capital para restabelecer a constituição, destruir o 10 de Agosto e restabelecer o rei.

       Lafayette, o homem leal, tinha perdido a cabeça como os outros; o que ele queria era conduzir directamente os prussianos e os austríacos a Paris.

       O exército repeliu-o por instinto, como dezoito meses depois repeliu Dumouriez.

       A história teria unido os nomes destes dois homens, se Lafayette detestado pela rainha, não houvesse tido a ventura de ser preso pelos austríacos e enviado a Olmutz.

       O cativeiro fez esquecer a deserção.

       A 18, Lafayette passou a fronteira.

       A 21 os inimigos de França, os aliados da realeza, contra os quais se vai fazer o 2 de Setembro; os austríacos que Maria Antonieta chamara em seu socorro, durante aquela clara noite em que a lua, passando pelos vidros da câmara da rainha, ia baixar sobre o seu leito, os austríacos atacavam Longwy.

       Depois de vinte e quatro horas de bombardeamento, Longwy rendeu-se.

       Na véspera de se render na outra extremidade da França levantava-se a Vendeia.

       O pretexto para esse levantamento era a obrigação dos eclesiásticos de prestarem juramento.

       Para fazer face a estes acontecimentos, a Assembléia nomeava Dumouriez para comandar o exército de Este e decretava a acusação de Lafayette.

       Também se decretava que todas as casas, excepto os edifícios públicos de Longwy, fossem destruídas logo que a cidade tornasse a entrar no poder da nação francesa.

       Fazia uma lei, que bania no território francês todo o padre, que não tivesse prestado juramento.

       Autorizava as visitas domiciliárias.

       Confiscava e punha à venda os bens dos emigrados.

       Entretanto, o que fazia a Comuna?

       Já dissemos quem era o seu oráculo: Marat.

       A Comuna guilhotinava na praça do Carroussel.

       Dava-lhe uma cabeça por dia, era muito pouco; mas numa brochura, que apareceu nos fins de Agosto, os membros do tribunal explicam o enorme trabalho, que haviam tido para obterem este resultado apesar de pouco satisfatório.

       É verdade que a brochura era assinada por Fouquier-Tinville.

       Vede pois com que sonhava a Comuna; agora mesmo vamos assistir à realização do seu sonho.

       Na noite do dia 23 é que apresentou o seu programa.

       Seguida por uma turbamulta, apanhada nos bairros mais ínfimos, a Comuna apresentou-se à meia-noite na Assembléia Nacional.

       O que exigia ela?

       Que os presos de Orleans fossem conduzidos a Paris para serem guilhotinados.

       Mas os presos de Orleans não tinham sido sentenciados.

       Esta falta, porém, não era sensível para a Comuna, que prescindia de tal formalidade.

       Demais, a festa do dia 10 de Agosto ia servir-lhe de auxílio.

       Sergent, artista da Comuna, e o director da festa, tinha já posto em cena a procissão da pátria em perigo, e vimos como se saiu.

       Desta vez Sergent há-de exceder-se.

       Trata de encher de luto, de vingança, de sede de sangue, a alma de todos aqueles que perderam no dia 10 de Agosto um ser, que lhe era querido.

       Defronte da guilhotina, que funcionava na praça do Carroussel, mandou construir uma pirâmide coberta de crepe, e na qual estavam escritos os assassínios de que acusam os realistas, a matança de Nancy, a matança de Nantes, a carnificina de Montauban, a carnificina do Campo de Marte.

       A guilhotina dizia: eu mato.

       A pirâmide dizia: Mata!

       Era um domingo, 27 de Agosto, cinco dias depois da insurreição da Vendeia, feita pelos padres; quatro dias depois da tomada de Longwy, da qual o general Clairfayt acabava de tomar posse em nome de Luís XVI. Foi então que a procissão se pôs em marcha às oito horas da noite, para aproveitar a misteriosa majestade, que as trevas dão a todas as coisas.

       Adiante, entre nuvens de perfumes queimados em todo o trânsito, iam viúvas e os órfãos do 10 de Agosto, vestidos de branco com os cintos pretos, levando em uma arca, feita pelo modelo da arca antiga, a petição que vimos ditada pela Srª. Roland, e escrita pela Keralio, cujas folhas ensangüentadas tinham sido encontradas no Campo de Marte, petição que desde o dia 17 de Julho de 1791, pedia a República.

       Depois seguiam-se gigantescos sarcófagos pretos, fazendo alusão aos carros cheios de cadáveres, que se enchiam nas Tulherias, e que transportavam para os diferentes bairros, gemendo com o peso dos cadáveres.

       Depois bandeiras de luto e de vingança, pedindo morte por morte.

       Seguia-se a lei, estátua colossal, de espada à cinta.

       Era seguida pelos juízes dos diferentes tribunais, à frente dos quais marchava o tribunal revolucionário do dia 10 de Agosto, aquele que se desculpava por fazer cair só uma cabeça em cada dia.

       Atrás dos tribunais ia a Comuna, a mãe sangrenta daquele tribunal, conduzindo nas suas fileiras a estátua da Liberdade, da mesma altura do que a da lei.

       Finalmente, fechava a marcha a Assembléia, levando as coroas cívicas que talvez consolem os mortos, mas que são insuficientes para os vivos.

       Tudo isto marchava lentamente, no meio dos sombrios cânticos de Chénier e da música severa, de Gossec, marchando lentamente como a vingança, mas como ela, com passo seguro.

       Parte da noite de 27 para 28 passou-se no complemento desta festa expiatória, festa fúnebre, da multidão, durante a qual a populaça, mostrando os punhos às Tulherias vazias, ameaçava as prisões, fortalezas de segurança, que tinham dado aos reis e aos realistas, em troca dos seus palácios e castelos.

       Finalmente, apagado o último lampião, reduzido a fumo o último archote, retirou-se o povo.

       Só ficaram as duas estátuas da Lei e da Liberdade para guardarem o imenso sarcófago.

       Mas como ninguém as guardasse a elas, ou fosse imprudência, ou sacrilégio, durante a noite, tiraram às estátuas os hábitos inferiores.

       No dia seguinte as duas pobres deusas eram menos do que mulheres.

       O povo vendo isto, deu um grito de raiva, acusou os realistas, correu à Assembléia, pediu vingança, apoderou-se das estátuas, tornou a vesti-las e levou-as em triunfo para a praça de Luís XV.

       Mais tarde, para ali as seguiu o cadafalso, que lhes deram no dia 21 de Janeiro uma terrível satisfação do ultraje, que lhes fora feito a 28 de Agosto.

       A 28 de Agosto a Assembléia fez a lei sobre as visitas domiciliárias.

       Começava a correr entre o povo o boato da junção dos exércitos prussiano e austríaco e da tomada de Longwy pelo general Clairfayt; por esta forma o inimigo chamado pelo rei, pelos nobres e pelos padres marchava sobre Paris, e supondo que nada o fizesse parar podia estar ali em seis dias de marchas.

       O que sucederia então a essa Paris, em ebulição como uma cratera e cujos choques abalavam o mundo havia três anos?

       O que tinha dito a carta de Bouillé, insolente gracejo, de que se tinham rido tanto e que ia tornar-se uma realidade.

       “Não ficaria pedra sobre pedra.”

       Ainda havia mais, falava-se como em coisa certa de um julgamento geral terrível, que depois de ter destruído Paris destruiria os parisienses.

       De que maneira e por quem seria dada esta sentença?

       Dizem-no os escritos do tempo.

       A mão sanguinolenta da Comuna vê-se claramente nesta legenda, que em lugar de escrever o passado, conta o futuro.

       E porque não se há-de dar crédito à legenda?

       Eis o que se lia numa carta achada nas Tulherias a 10 de Agosto, e que lemos no arquivo, onde ainda existe:

      

       “Os tribunais chegam atrás dos exércitos: juízes emigrados vão de caminho instaurando, no acampamento do rei da Prússia, os processos dos jacobinos e preparam-lhes as forcas. Portanto, quando os exércitos prussiano e austríaco chegarem a Paris está instaurado o processo, dada a sentença e só restará pô-la em execução.”

      

       Demais, para confirmar o que diz a carta, eis o que se lê no boletim oficial da guerra.

      

       “A cavalaria Austríaca aprisionou nos arredores de Sarrelouis os maiores patriotas e os republicanos conhecidos. Alguns hulanos apanharam membros da municipalidade, cortaram-lhes as orelhas e pregaram-lhas na testa.”

      

       Se se cometiam actos tais numa província inofensiva, o que sucederia na Paris revolucionária?

       O que lhes fariam não era segredo.

       Eis a notícia que por toda a parte se espalhava, contando-se pelas esquinas, derramando-se de cada centro para as extremidades.

       Levantar-se-á um grande trono para os reis aliados à vista do montão de ruínas, que terá sido Paris.

       Toda a população parisiense será empurrada, arrastada, levada cativa a chicote aos pés do trono.

       Ali, como no juízo final, será feita escolha entre os bons e os maus.

       Os bons, isto é, os realistas, os nobres; os padres, passarão à direita, e ser-lhes-á entregue a França para fazerem dela o que bem lhes parecer.

       Os maus, isto é, os revolucionários, passarão à esquerda, e ali acharão a guilhotina, instrumento inventado pela revolução, e pelo qual a revolução há-de morrer.

       A revolução, isto é, a França, não só a França, porque isso nada seria, pois que os povos são feitos para servir de holocausto às idéias, mas o pensamento da França.

       E por que motivo foi a França a primeira a pronunciar a palavra liberdade? Julgou proclamar uma causa santa: a luz dos olhos, a vida das almas. Disse: “Liberdade para a Europa; liberdade para o mundo.” Julgou fazer uma coisa grande emancipando a terra, mas ao que parece Deus condena-a; enganou-se; a Providência é contra ela; julgando-se inocente e sublime, era criminosa e infame; julgando cometer uma grande acção, cometeu um crime; portanto julgam-na, condenam-na, decapitam-na, arrastam-na às gemónias do universo, e o universo, pela salvação do qual ela morre, aplaude a sua morte.

       Não havia exemplo semelhante na história dos povos.

       Um único o de Jesus Cristo crucificado pela salvação do mundo, e morrendo no meio dos escárnios e insultos do mundo.

       Mas finalmente para sustentá-lo contra o estrangeiro, esse pobre povo encontra talvez algum apoio em si mesmo.

       Aqueles que ele adorou, aqueles a quem enriqueceu, aqueles a quem pagou, talvez o defendam.

       Não.

       O seu rei conspira com o inimigo, e do Templo onde está encerrado continua a corresponder-se com os prussianos e austríacos.

       A sua nobreza marcha contra ele às ordens dos príncipes.

       Os seus padres fazem revoltar os camponeses.

       Nas prisões onde estão metidos, os presos batem as palmas às derrotas da França.

       Os prussianos, entrando em Longwy, fizeram soltar gritos de alegria no Templo, na Abadia e na Force.

       Por isso Danton o homem das resoluções extremas, entrou bramindo na Assembléia.

       O ministro da justiça julga a justiça impotente e vem pedir que lhe dêem força, e então a justiça procederá apoiada na força.

       Danton sobe à tribuna, sacode a sua juba de leão, e estende a mão potente, que em 10 de Agosto arrombou as portas das Tulherias.

       – É preciso uma convulsão nacional, que faça retrogradar os déspotas – disse ele; – até aqui só temos tido uma guerra simulada mas não é de tão miserável brinquedo que se deve tratar agora. É mister que o povo corra, role em massa contra os inimigos para os exterminar de um só golpe. É mister ao mesmo tempo amarrar todos os conspiradores, para os impedir de fazerem mal.

       E Danton pede o recrutamento em massa, as visitas domiciliárias, as pesquisas nocturnas, com pena de morte contra todo aquele que se opuser às operações do governo provisório.

       E Danton obtém quanto pede.

       E se mais houvesse pedido mais obteria.

      

       “Nunca – diz Michelet – povo algum esteve mais próximo da morte. Quando a Holanda, ao ver Luís XIV às suas portas, não teve outro recurso senão inundar-se, esteve em menor perigo; tinha por si a Europa. Quando Atenas viu o trono de Xerxes sobre o rochedo de Salamina, perdeu terra, lançou-se a nado, e não teve senão água por pátria, esteve em menor perigo; esteve toda sobre a sua poderosa frota, organizada pelo grande Temístocles, e mais feliz do que a França, não tinha a traição no seu seio.”

      

       A França estava desorganizada, dissolvida, traída e entregue.

       A França estava como Efigénia sob o cutelo de Calchas.

       Os reis só esperavam a sua morte para soprarem nas velas o vento do despotismo.

       Estendia os braços aos deuses e os deuses estavam surdos.

       Mas, finalmente, quando sentiu tocá-la a mão da morte, por uma contracção violenta e terrível, dobrou-se sobre si mesma, depois, vulcão da vida, fez rebentar das suas entranhas esta chama, que pelo espaço de meio século esclareceu o mundo.

       É verdade que houve uma nódoa de sangue, que manchou este Céu.

       Vamos tocar nesta nódoa de sangue de 2 de Setembro, vamos ver quem derramou esse sangue, e se ele deve ser imputado à França.

       Mas primeiro, para fecharmos este capítulo, reproduzamos duas páginas de Michelet.

       Reconhecemo-nos impotentes ao pé deste gigante, e, como Danton, chamemos a força em nosso socorro.

       Vejam:

      

       “Paris parecia uma praça forte; tinha o aspecto de Lille ou de Estrasburgo. Por toda a parte corpos de guarda, sentinelas, precauções militares e prematuras, pois o inimigo ainda estava a cinqüenta léguas de distância. O que era mais sério, verdadeiramente tocante, era o sentimento de solidariedade, profunda, admirável, que se revelava por toda a parte; todos se falavam, todos oravam pela pátria, todos se faziam recrutadores, iam de casa em casa oferecendo armas, o que tinham a quantos podiam vestir farda; todos eram oradores, todos pregavam, todos discutiam, todos entoavam cânticos patrióticos. Quem deixava de ser autor no momento singular? Quem não imprimia? Quem não fixava nas paredes? Quem não era actor no grandioso espectáculo? Representavam-se as mais ingénuas cenas, em que todos figuravam; em toda a parte, nas praças, nos teatros de alistamento, nas tribunas, em volta das quais se inscreviam, tudo eram cânticos, gritos, lágrimas de entusiasmo ou de despedida, e por cima de tudo isto uma grande voz troava repercutindo em todos os corações, voz muda, e por isso mesmo mais profunda, a própria voz da França, eloqüente em todos os seus símbolos, patética no que havia de mais trágico, o estandarte santo e terrível do perigo da pátria desenrolado nas janelas do palácio do município, estandarte imenso, que flutuava ao vento e parecia fazer sinal às legiões populares para marcharem à pressa dos Pireneus ao Escalda, do Sena ao Reno."

       “Para se saber o que era este momento de sacrifício, seria mister ver em cada cabana, em cada habitação a patética separação das esposas, a dor cruel das mães, naquele segundo parto, mais cruel cem vezes do que aquele em que o filho fizera a primeira partida das suas entranhas ensangüentadas; haveria mister ver a pobre velhinha, com os olhos secos, o coração torturado, juntar à pressa alguma pobre roupa que o filho tem de levar, as parcas economias, os cobrezitos poupados pelo jejum e que a si mesma roubou para o filho, para esse dia de extrema dor.”

       “Dar os filhos a essa guerra, que se anunciava com tão fracas probabilidades de vantagem, imolá-los àquela situação extrema e desesperada, era mais do que a maior parte delas podia fazer; sucumbiam a estes pensamentos, ou então, por uma reacção natural, caíam em actos de furor, nada poupavam, nada temiam; em tal estado de espírito, nenhum terror tinha poder; que terror pode haver para quem deseja a morte?”

       “Contaram-nos que num dia, sem dúvida em Agosto ou Setembro, um bando destas mulheres furiosas encontraram Danton na rua, injuriaram-no como injuriariam a própria guerra, lançando-lhe em rosto toda a revolução, todo o sangue que se derramasse e a morte dos filhos, amaldiçoando-o, e pedindo a Deus que fizesse recair tudo sobre a cabeça dele. Danton não se admirou, e apesar de sentir em volta de si as unhas delas, voltou-se bruscamente, olhou para as mulheres e teve dó delas. Danton tinha muito ânimo, subiu a um marco e para as consolar, começou a injuriá-las na sua linguagem; as suas primeiras palavras foram violentas, burlescas, obscenas; e as mulheres ficaram interditas. O furor de Danton, verdadeiro ou simulado, desconcerta o furor delas; o prodigioso orador, instintivo e calculado, tinha por base popular um temperamento sensual e forte, todo feito para o amor físico, onde dominava a carne e o sangue. Danton, acima de tudo, era homem, havia nele muito do leão e do cão, bastante do touro, a máscara metia medo; a sublime fealdade de um rosto transtornado, tornava as suas palavras sacudidas, dardejadas pelo acesso, uma espécie de aguilhão selvagem.”

       “As massas, que prezam a força, sentiam diante dele o receio e simpatia que faz experimentar todo o ser poderosamente gerado, e demais sob aquela máscara violenta, furiosa, sentia-se bater um coração; acabava-se por desconfiar de uma coisa, era que aquele homem terrível, que só falava por ameaças, no fundo era um bom homem. As mulheres amotinadas em redor dele sentiram confusamente tudo isto e deixaram-no falar-lhes, dominá-las, assenhorear-se delas, e fez delas tudo quanto quis. Explicou-lhes grosseiramente para que serve a mulher, para que serve o amor, para que serve a geração; que se não geravam os filhos para si, mas para a pátria. Chegando a este ponto, elevou-se de repente, e deixando de falar para os outros, parecia que falava para si. Todo o coração lhe saiu, dizem, do peito com palavras de uma ternura violenta pela França, e pelo rosto singular, picado de bexigas parecendo as escórias do Vesúvio ou do Etna, começaram a correr-lhe grossas bagas, e essas bagas eram lágrimas. As mulheres não puderam conter-se; choraram a França, em lugar de chorarem os filhos, e soluçando fugiram, tapando a cara com os aventais.”

      

       Ó grande historiador, que vos chamais Michelet, onde estais?

       Em Nervi!

       Ó grande poeta que vos chamais Hugo, onde estais?

       Em Jersey!

 

A véspera do dia 2 de Setembro

       Quando a pátria se acha em perigo, tinha dito Danton, a 28 de Agosto, na Assembléia Nacional, tudo pertence à pátria.

       A 29, às quatro da tarde, ouvia-se tocar a rebate.

       Sabia-se do que se tratava; iam começar as visitas domiciliárias.

       O aspecto de Paris mudou a este rufar do tambor, como se fosse tocado por uma vara mágica.

       De populosa que era tornou-se deserta.

       Fecharam-se as lojas e as ruas foram ocupadas por patrulhas de sessenta homens.

       As barreiras foram guardadas e o rio também.

       As visitas começaram à uma hora da madrugada.

       Os comissários das secções batiam às portas da rua em nome da lei.

       E abriam-lhes as portas da rua.

       Batiam às portas de cada quarto, sempre em nome da lei.

       E abriam-lhes as portas de cada quarto.

       Abriam à força as portas das casas que não estavam habitadas.

       Apanharam duas mil espingardas e prenderam três mil pessoas.

       Tinham precisão de terror e conseguiram fazê-lo.

       Desta medida também nasceu uma coisa em que não haviam pensado, ou talvez tivessem pensado muito.

       As visitas domiciliárias abriram aos pobres as habitações dos ricos; os seccionários armados, que seguiam os magistrados, puderam contemplar atónitos as riquezas dos magníficos palácios, que ou eram habitados pelos donos, ou de que eles estavam ausentes, e isto não os iniciou à pilhagem, mas aumentou neles o ódio aos ricos.

       Foram tão pequenos os roubos, que Beaumarchais, então preso, conta que, apanhando certa mulher uma rosa nos seus magníficos jardins da rua de Santo António, quiseram lançá-la ao rio.

       E é de notar que isto sucedia no momento em que a Comuna acabava de decretar que aqueles que vendessem prata seriam punidos com a pena capital.

       Portanto eis a Assembléia substituída pela Comuna, que decretava a pena de morte.

       Acabava de dar a Chaumette o direito de abrir as prisões e de soltar os presos.

       Arrogava-se o direito de perdoar.

       Finalmente, acabava de ordenar que se afixasse à porta de cada prisão a lista dos presos, que continha.

       Era apelar para o ódio e para a vingança.

       Qualquer podia guardar a porta em que estava encerrado o seu inimigo.

       A Assembléia viu para que abismo a levavam.

       Iam, mau grado seu, molhar as mãos em sangue.

       E então quem?

       A Comuna, sua inimiga!

       A mais pequena coisa podia pois fazer rebentar terrível luta entre os dois poderes.

       Esta causa apareceu em conseqüência de uma nova crueldade da Comuna.

       A 20 de Agosto, dia das visitas domiciliárias, a Comuna, em conseqüência do artigo de um jornal, chamou à barra Girey-Dupré, um dos Girondinos mais ousados, porque era um dos mais moços.

       Girey-Dupré refugiou-se no ministério da guerra, porque não teve tempo para refugiar-se na Assembléia.

       Huguenin, presidente da Comuna, mandou atacar o ministério da guerra para lhe tirar à força o jornalista girondino.

       Ora a Gironda tinha a maioria na Assembléia, e esta, insultada em um dos seus membros, levantou-se altamente indignada.

       Chamou também à barra o presidente Huguenin.

       No dia 30 a Assembléia publicou um decreto, que dissolvia a municipalidade de Paris.

       Um facto, que prova o horror que o roubo ainda causava nessa época, contribuiu para o decreto que a Assembléia acabava de aprovar.

       Um membro da Comuna, ou um indivíduo que se dizia membro dela, tinha conseguido abrir o guarda-móveis e dele tirou uma pequena peça de artilharia, de prata, dádiva feita pela cidade a Luís XIV quando menino.

       Cambon, que tinha sido nomeado guarda dos bens públicos, soube deste roubo e chamou à barra o acusado; o homem não negou, não se desculpou e contentou-se com dizer: que receando que fosse roubado este objecto precioso, julgara que estava mais seguro em sua casa do que na de outro qualquer.

       Esta tirania da Comuna era insuportável, Louvet, o homem das iniciativas corajosas, era o presidente da secção da rua dos Lombardos e fez com que a sua secção declarasse que a Comuna estava incursa no crime de usurpação.

       Vendo-se apoiada, a Assembléia decretou então que o presidente da Comuna, Huguenin, que não queria comparecer à barra fosse a ela arrastado à força, e que dentro de vinte e quatro horas seria nomeado pelas secções de uma nova Comuna.

       O decreto foi promulgado a 30 de Agosto, às cinco horas da tarde.

       Contemos as horas, porque desde as cinco da tarde do dia 30 de Agosto, caminhámos para a carnificina do dia 12 de Setembro, e cada hora faz dar um passo para a deusa ensangüentada, de braços torcidos, de cabelos desgrenhados, chamada Terror.

       Todavia a Assembléia, por um resto de temor da sua formidável inimiga, declarava no acto de a dissolver, que ela bem merecera da pátria, o que não era na verdade muito lógico.

        Ornandum, tollendum! – dizia Cícero a propósito de Octávio.

       A Comuna fez como Octávio, deixou-se coroar, mas não consentiu que a dissolvessem.

       Passadas duas horas depois da publicação do decreto, Tallien, um triste escrivão, gabando-se de ser o homem de Danton, Tallien, secretário da secção das Termas, propôs que se marchasse contra a secção dos Lombardos.

       Ah! Desta vez era decerto a guerra civil; não era o povo contra o rei, os burgueses contra os aristocratas, as choupanas contra os castelos, as casas contra os palácios; era a secção contra secção, chuço contra chuço, cidadão contra cidadão.

       Ao mesmo tempo Marat e Robespierre, o último como membro da Comuna, o primeiro como amador, elevaram a voz.

       Marat pedia que fosse imediatamente aniquilada a Assembléia Nacional.

       Isto não causou admiração; todos estavam costumados a ver-lhe fazer semelhantes moções.

       Mas Robespierre, o denunciante vago e astuto, propôs que se pegasse nas armas, e não só que defendessem, mas que atacassem.

       Era mister que Robespierre sentisse grande força na Comuna para se pronunciar assim!

       Com efeito, a Comuna estava muito forte, porque naquela mesma noite, Tallien, seu secretário, foi à Assembléia com três mil homens armados de chuços.

       “A Comuna – disse ele – e só a Comuna, fez reassumir aos membros da Assembléia o grau de representantes de um povo livre; a Comuna fez publicar um decreto contra os padres conspiradores, e prendeu estes homens com quem ninguém se atrevia a tocar; a Comuna, ajuntou ele finalmente, terá purgado em poucos dias da sua presença o solo da liberdade.”

       Assim foi na noite de 30 e 31 de Agosto que a Comuna proferiu a primeira palavra de carnificina, na presença da mesma Assembléia, que acabava de a dissolver.

       Quem é que pronunciou esta primeira e tremenda palavra?

       Já o sabemos, foi Tallien, o homem que há-de fazer o 9 Thermidor.

       A Assembléia, é preciso fazer-lhe justiça, levantou-se.

       Manuel, o procurador da Comuna, conheceu que se tinham excedido muito; mandou prender Tallien e exigiu que Huguenin fosse dar uma satisfação à Assembléia.

       E todavia Manuel, apesar de mandar prender Tallien, de exigir que Huguenin desse satisfação, sabia muito bem o que ia suceder, porque eis o que fez o pobre pedante, espírito curto, mas coração honrado.

       Tinha na Assembléia um inimigo pessoal.

       Beaumarchais, grande escarnecedor, tinha zombado de Manuel; ora Manuel pensou que se Beaumarchais fosse morto com os mais, poderiam atribuir este assassínio a uma baixa vingança do seu amor próprio.

       Correu à abadia e mandou chamar Beaumarchais.

       Este, vendo-o, quis desculpar-se e dar explicações à sua vítima literária.

       – Não se trata de literatura, nem de jornalismo, nem de crítica; a porta está aberta, escape-se hoje, senão quer ser assassinado amanhã.

       O autor do Fígaro não esperou que lho repetissem.

       Meteu-se pela porta entreaberta e desapareceu.

       Supondo que ele tivesse apupado Callot de Herbois, comediante, em vez de ter criticado Manuel, autor, Beaumarchais era morto.

       Chegou o dia 31 de Agosto, este grande dia, que devia decidir entre a Assembléia e a Comuna.

       Isto é, entre os moderados e os terroristas.

       A Comuna queria conservar-se a todo custo.

       A Assembléia tinha-se demitido em favor de uma nova Assembléia.

       Era naturalmente a Comuna quem devia vencer.

       Demais, o movimento favorecia-a.

       O povo, sem saber aonde queria ir, queria ir a alguma parte.

       Impelido no dia 20 de Junho, lançado mais longe a 10 de Agosto, sentia uma vaga precisão de sangue e de destruição.

       É mister dizer, que Marat de um lado e Hébert do outro, lhe faziam andar a cabeça à roda.

       Só Robespierre, querendo recobrar a sua popularidade muito abalada, aconselhava a paz, apesar da França inteira querer a guerra. Não houve, nem o próprio Robespierre, quem se não fizesse novelista, e pelo absurdo das suas notícias, não ultrapassasse as mais absurdas.

       “Um partido poderoso – tinha ele dito – oferece o trono ao duque de Brunswick.”

       Quais eram neste momento os três partidos poderosos que lutavam?

       A Assembléia, a Comuna e os Jacobinos.

       E rigorosamente a Comuna e os Jacobinos poderiam ser considerados como um só partido.

       Não era nem a Comuna, nem os Jacobinos, Robespierre era membro do clube e da municipalidade e não era capaz de se acusar a si mesmo.

       Esse poderoso partido era portanto a Gironda.

       Já dissemos que Robespierre ultrapassava em absurdos os mais absurdos novelistas.

       Com efeito, que coisa poderá haver mais absurda do que acusar a Gironda, que tinha declarado guerra à Prússia e à Áustria, de oferecer o trono ao general inimigo.

       E quais eram os homens a quem acusavam?

       Os Vergniaud, os Roland, os Clavières, os Servan, os Gensonné, os Gaudet, os Barbaroux, não só conhecidos como bons patriotas, mas também as pessoas mais honestas da França.

       Mas há momentos, em que um homem como Robespierre diz tudo o que lhe vem à boca.

       E o pior é que há momentos em que o povo crê tudo.

       Estava-se a 31 de Agosto.

       O médico, que tivesse entre os seus dedos o pulso da França, teria sentido neste dia aumentarem-lhe a cada momento as pulsações.

       No dia 30, às quatro horas da tarde, a Assembléia tinha dissolvido a Comuna.

       O decreto ordenava que as secções haviam de nomear um novo conselho geral dentro de vinte e quatro horas.

       Por conseqüência, o decreto devia ser executado no dia 31 às quatro horas da tarde.

       Mas as vociferações de Marat, as ameaças de Hébert e as calúnias de Robespierre tornaram a Assembléia tão odiosa, que as secções não se atreveram a votar.

       Tomavam por protesto que o decreto não lhes tinha sido notificado oficialmente.

       A 31 de Agosto, a Assembléia foi informada de que o seu decreto da véspera não tinha sido executado, nem sequer o seria.

       Era mister apelar para a força. Quem sabia se a força seria pela Assembléia?

       A Comuna tinha por si Santerre, pelas relações de seu cunhado Panis; Panis era de mais a mais o fanático de Robespierre, que tinha proposto a Rebecqui e a Barbaroux nomear um ditador, e que lhe tinha dado a entender que era necessário que esse ditador fosse o Incorruptível.

       Santerre eram os bairros; os bairros eram o irresistível poder do Oceano.

       Os bairros tinham arrombado as portas das Tulherias, e muito melhor arrombariam as da Assembléia.

       Demais, a Assembléia temia, se se armasse contra a Comuna, ver-se abandonada não só pelos patriotas extremos, por aqueles que queriam a revolução a todo custo, mas também, o que era pior, ser sustentada contra a sua vontade pelos realistas moderados.

       Neste caso estava completamente perdida.

       Às seis horas foi a Assembléia avisada de que havia grande movimento em redor da Abadia.

       Acabavam de prender um Montmorin.

       O povo julgou que era o ministro que tinha assinado os passaportes, com que Luís XVI tentara fugir.

       Dirigiu-se amotinado à prisão, ameaçando fazer justiça por suas mãos se o Sr. de Montmorin não fosse condenado à morte.

       Custou muito fazer-lhe compreender a razão e atender à verdade.

       Durante toda a noite houve nas ruas de Paris terrível fermentação.

       Conhecia-se que o menor acontecimento seria capaz de no dia seguinte fazer tomar a esta fermentação proporções gigantescas.

       Este acontecimento, que diligenciamos contar com todos os pormenores, por ser um rasgo característico de um herói da nossa história, que há muito perdemos de vista, agitava-se nas prisões do Châtelet.

 

Em que novamente se encontra o Sr. Beausire

       No fim do dia 10 de Agosto tinha sido instituído um tribunal especial para sindicar dos roubos que pudessem ter sido cometidos nas Tulherias.

       O povo como conta Peltier, tinha fuzilado duzentos ou trezentos ladrões, que tinham sido apanhados em flagrante; mas devemos acreditar que a par destes havia outros tantos, ou mais, que tinham ocultado os roubos.

       No número desses honrados industriosos, achava-se o nosso antigo conhecido o Sr. Beausire, antigo oficial de sua majestade.

       As pessoas que conhecem os antecedentes do amante da jovem Oliva, do pai do menino Toussaint, não ficarão admirados de o encontrarem no fim deste grande dia, em que tinham que dar contas, não à nação, mas aos tribunais, da parte que nele haviam tomado.

       Com efeito, o Sr. Beausire havia entrado nas Tulherias envolto com a turbamulta.

       Era um homem de muito bom senso para cometer a loucura de ser o primeiro a entrar num sítio onde se corria perigo, mesmo de roldar com os outros.

       Não eram as opiniões patrióticas do Sr. Beausire que o levavam ao palácio dos reis, nem para ali chorar sobre a queda da realeza nem para aplaudir o triunfo do povo. Não, o Sr. Beausire ia ali como amador; elevado acima dessas fraquezas humanas, que se chamam opiniões, só tinha um fim, era ver se aqueles, que acabavam de perder um trono, não teriam perdido ao mesmo tempo alguma jóia mais portátil e mais fácil de se salvar.

       Entretanto para salvar as aparências, o Sr. Beausire tinha enfiado na cabeça um boné encarnado, tinha-se armado com um enorme sabre, e havia tingido as mãos no sangue do primeiro morto que encontrara, de sorte que este lobo, seguindo o exército conquistador, este abutre, adejando depois do combate sobre o campo de batalha, podia ser tomado por um vencedor.

       Foi com efeito por um vencedor que o tomaram aqueles que o ouviram gritando: Matem os aristocratas! e que o viram barafustando debaixo das camas, abrindo armários, até gavetas de cómodas para ver se estaria escondido nelas algum aristocrata.

       Mas ao mesmo tempo, e para desgraça do Sr. Beausire, achava-se nas Tulherias um homem que não gritava, que não procurava debaixo das camas, que não abria os armários, mas que, tendo entrado no meio do fogo, apesar de não estar armado juntamente com os vencedores, apesar de não ter vencido ninguém, passeava com as mãos atrás das costas, como se faz num jardim público em qualquer noite de festa, frio e tranqüilo, com o seu fato preto muito asseado e contentando-se em elevar de tempos a tempos a voz para dizer:

       – Não esqueçais, cidadãos, que não é digno matar as mulheres, nem tocar nas jóias.

       Enquanto àqueles que se contentavam com matar homens ou lançar móveis pelas janelas, não se julgava com direito de lhes dizer nada.

       Tinha conhecido logo à primeira vista que o Sr. Beausire não era destes.

       Portanto, às nove horas e meia, Pitou, que, como já sabemos, tinha obtido, a título de posto de honra, a guarda do vestíbulo do relógio, viu dirigir-se para ele, descendo a escada, uma espécie de gigante, colossal e lúgubre, que falando-lhe em política, mas como se tivesse recebido a missão de pôr em ordem a desordem e a justiça na vingança, lhe disse:

       – Capitão, não tarda que desça um homem de boné encarnado, sabre em punho e gesticulando muito; prendê-lo-á, mandará que lhe dêem busca pois furtou um estojo de diamantes.

       – Sim, Sr. Maillard – respondeu Pitou levando a mão ao chapéu.

       – Ah! Ah! – disse o antigo porteiro – conhece-me, meu amigo?

       – Julgo que o conheço – respondeu Pitou; – não se chama Maillard? Tomámos juntos a Bastilha.

       – É possível – disse Maillard.

       – Além disso, também estivemos em Versalhes nos dias 5 e 6 de Outubro.

       – Com efeito, lá estive.

       – Parece-me que sim, e a prova é que teve um duelo à porta das Tulherias com um guarda que não o queria deixar entrar.

       – Então – disse Maillard – há-de fazer o que lhe disse, não é assim?

       – Isso e outra qualquer coisa, tudo o que quiser. Ah! O senhor é um patriota!

       – Disso me gabo – respondeu Maillard – e é por essa razão que não devemos permitir que desonrem o nome, a que temos direito! Eis o nosso homem.

       Com efeito, neste momento, o Sr. Beausire descia a escada, agitando a grande catana e gritando: Viva a nação.

       Pitou fez sinal a Tellier, e a Maniquet, os quais, sem afectação se colocaram à porta, e ele foi esperar o Sr. Beausire no último degrau da escada.

       Este tinha percebido as precauções tomadas, e sem dúvida lhe deram cuidado essas disposições, porque parou, e como, se lhe tivesse esquecido alguma coisa, fez um movimento para tornar a subir.

       – Perdão! – disse Pitou – a saída é por aqui.

       – Ah! É por aqui?

       – E como há ordem de evacuar as Tulherias, tenha a bondade de sair.

       Beausire empertigou-se e continuou a descer a escada.

       Chegando ao último degrau, levou a mão ao boné, afectando o garbo militar.

       – Saibamos, camaradas – disse ele – passa-se por aqui ou não se passa?

       – Sim – disse Pitou – mas primeiramente tem que se sujeitar a certa formalidade.

       – Mas para quê, meu belo capitão?

       – É necessário que lhe dêem busca, cidadão.

       – Que me dêem busca!

       – Sim.

       – Dar busca a um patriota! Um vencedor, um homem que acaba de exterminar os aristocratas!

       – É a ordem que recebi – respondeu Pitou – portanto, camarada, embainhe a sua grande espada, que para nada serve agora, pois que os aristocratas estão mortos, e sujeite-se de bom grado, aliás terei de empregar a força.

       – A força – replicou Beausire... – Ah! Falas assim porque tens às tuas ordens vinte homens, porque, se estivéssemos sós...

       – Se estivéssemos sós, cidadão – disse Pitou – eis o que eu faria; agarrava no seu pulso com a mão esquerda, e tirando-lhe a espada com a direita parti-la-ia com o pé, porque não é digna de ser tocada por um homem de bem, a espada que foi empunhada por um ladrão.

       E Pitou, pondo em prática a sua teoria, agarrou no pulso do suposto patriota, tirou-lhe a espada e partiu-lha debaixo do pé, atirando para longe o punho.

       – Um ladrão! – exclamou o homem do boné encarnado; – um ladrão! Eu, o Sr. Beausire!

       – Passem revista a este homem – disse Pitou, entregando Beausire à sua gente.

       – Pois bem, procurem – disse ele, estendendo os braços como uma vítima – procurem.

       Não era precisa a permissão de Beausire para se proceder à busca, mas, com grande admiração de Pitou, e principalmente de Maillard, debalde lhe voltaram as algibeiras, e revolveram até as partes mais secretas; apenas se lhe encontrou um baralho de cartas, cujas figuras mal se percebiam, tão velho era, mas que estava certo, e uma pequeníssima soma de soldos.

       Pitou olhou para Maillard.

       Este encolheu os ombros, como se quisesse dizer:

       – Que quer?

       – Torne a dar busca – disse Pitou, que, como sabemos tinha por principal qualidade a paciência.

       Tornaram a procurar, mas a segunda busca foi tão inútil como a primeira; não se achou mais do que o baralho de cartas e onze soldos.

       O Sr. de Beausire triunfava.

       – E então – disse ele – sempre ficará desonrada uma espada por ter sido tocada pela minha mão?

       – Não senhor – respondeu Pitou – e a prova é que, se não ficar satisfeito com as desculpas que vou dar-lhe, um dos meus soldados lhe emprestará a sua e dar-lhe-ei quantas satisfações exigir.

       – Obrigado, mancebo – disse ele – obrou em conseqüência de uma instrução, e um antigo militar como eu, sabe que as instruções são uma coisa sagrada. Agora previno-o de que a Srª. Beausire deve estar em cuidado pela minha longa ausência, e se me é permitido retirar-me...

       – Sem dúvida – disse Pitou – está livre.

       Beausire cumprimentou com naturalidade e saiu.

       Pitou procurou Maillard, e não o vendo, perguntou:

       – Viram Maillard?

       – Parece-me – disse um dos soldados – que o vi subir a escada.

       – E não se enganou – disse Pitou – porque ele aí vem.

       Com efeito Maillard descia a escada e, graças às suas longas pernas, galgando os degraus dois a dois, depressa chegou abaixo.

       – E então – perguntou ele – achou alguma coisa?

       – Nada – respondeu Pitou.

       – Pois eu fui mais feliz, achei o estojo.

       – Então não tínhamos razão.

       – Pelo contrário, tínhamos razão.

       E Maillard, abrindo o estojo, mostrou um relógio de ouro, a que faltavam todas as pedras preciosas que dantes o ornavam.

       – Mas – disse Pitou – que quer isso dizer?

       – Isto quer dizer que o tratante desconfiou, e que tirando só os diamantes deitou fora o relógio.

       – Mas os diamantes?

       – Decerto achou meio de os esconder.

       – Oh! Que maroto!

       – Há muito que saiu? – perguntou Maillard.

       – Quando o senhor vinha descendo a escada transpunha ele a porta do pátio do meio.

       – E para que lado tomaria?

       – Parece-me que foi para o lado do cais.

       – Adeus, capitão.

       – Então já se retira, Sr. Maillard?

       – Quero ter a consciência tranqüila – disse o antigo porteiro.

       E abrindo como um compasso as compridas pernas, foi na pista de Beausire.

       Pitou ficou muito preocupado pelo que se acabava de passar, e ainda estava sob a influência desta preocupação, quando julgou reconhecer a condessa de Charny, e foi então que se passaram os acontecimentos, que contamos no seu lugar competente, não julgando dever complicá-los com um incidente, que na nossa opinião, devia ocupar outro lugar.

 

O purgante

       Por mais rápida que fosse a marcha de Maillard, não lhe foi possível apanhar Beausire, que tinha por si três circunstâncias favoráveis.

       Em primeiro lugar, dez minutos de avanço, depois a escuridão, e finalmente o grande número de pessoas, que transitavam de um para outro lado, e por entre as quais ele se meteu.

       Mas chegado ao cais das Tulherias o ex-porteiro do Châtelet continuou a caminhar; morava como já dissemos no bairro de Santo António, e tinha de seguir o cais até à Grève.

       No Pont-Neuf e no Pont-au-Change havia grande afluência de povo, porque tinham exposto os cadáveres na praça do palácio da justiça, e todos eram ali chamados pela esperança ou antes pelo receio de acharem ali um pai, um parente, um amigo.

       Maillard foi seguindo este caminho.

       À esquina da praça do palácio da justiça, tinha Maillard um amigo que era farmacêutico, a que naquela época se chamava ainda boticário.

       Maillard entrou na loja do seu amigo, assentou-se e começou a falar nos negócios, no meio dos cirurgiões, que andavam de um para outro lado, reclamando do farmacêutico adesivo, ungüentos, ataduras, finalmente tudo quanto é necessário para o tratamento dos feridos.

       Porque entre os mortos, reconhecia-se de tempos a tempos, por um gemido, algum desgraçado que ainda respirava, o qual era tirado imediatamente de entre os cadáveres, aplicavam-se-lhes todos os socorros e eram depois levados ao Hotel Dieu.

       Havia uma grande azáfama na loja do digno boticário.

       Mas Maillard não incomodava, pois era sempre recebido com prazer; em tais dias um patriota da têmpera de Maillard é muito estimado; por conseqüência, o boticário recebeu Maillard com toda a afabilidade, e ele, assentando-se e encolhendo as pernas, fez-se o mais pequenino que lhe era possível.

       Estava assim havia um quarto de hora quando entrou uma mulher de trinta e sete a trinta e oito anos, a qual sobre o trajo da mais abjecta miséria, conservava certo aspecto da antiga opulência, certo garbo, que traía a sua aristocracia, senão nativa, ao menos estudada.

       Mas o que impressionou Maillard foi a semelhança desta mulher com a rainha.

       A sua admiração foi de tal natureza, que teria dado um grito, se não tivesse sobre si o maior poder.

       A mulher levava pela mão um rapazito que teria sete a oito anos.

       Aproximou-se com certa timidez, procurando ocultar a miséria do fato, o que ainda a tornava mais saliente.

       Durante algum tempo foi-lhe impossível fazer-se ouvir tão grande era a concorrência; finalmente dirigindo-se ao dono do estabelecimento, disse:

       – Senhor, preciso de um purgante para meu marido!

       – Que purgante quer? – perguntou o boticário.

       – Aquele que lhe parecer, contanto que não custe mais de onze soldos.

       Esta quantia era precisamente a soma achada nas algibeiras do Sr. Beausire.

       – Mas por que motivo não há-de o purgante custar mais de onze soldos?

       – Porque é o dinheiro que meu marido pôde dar-me.

       – Faça uma mistura de ruibarbo e de jalapa e dê-a à cidadã; – disse o boticário ao seu primeiro ajudante.

       O primeiro ajudante foi fazer a preparação, enquanto o boticário aviava outras receitas.

       Mas Maillard, que não tinha distracção alguma, dedicou toda a atenção à mulher, que pedia o purgante por onze soldos.

       – Aqui tem, cidadã – disse o primeiro ajudante – aqui está o purgante.

       – Vamos, Toussaint – disse a mulher com voz pausada, que parecia ser-lhe habitual – dá os onze soldos, meu filho.

       – Aqui estão – disse o rapazito.

       E pôs a mão sobre o balcão.

       – Vem, mamã Oliva – disse ele – vem depressa, o papá espera. E puxando pela mãe, repetiu:

       – Vem, mamã Oliva, vem.

       – Perdão, senhora – disse o ajudante – mas aqui só estão nove soldos.

       – Como, só nove soldos! – disse a mulher.

       – Ora conte bem – disse o rapazito.

       A mulher contou e com efeito só havia nove soldos.

       – Que fizeste aos dois soldos, meu menino? – perguntou a mulher.

       – Não sei... Vamo-nos embora, mamã.

       – Tu deves sabê-lo, pois da minha mão recebeste o dinheiro.

       – Perdi-os – respondeu o rapazito; – vamos.

       – Tem um filho lindo, cidadã – disse Maillard – parece ter muita inteligência, mas é preciso tomar cuidado para que não dê em ladrão.

       – Em ladrão, senhor – disse a mulher muito admirada; – mas por quê?

       – Porque não perdeu os dois soldos, pois os tem escondidos dentro do sapato.

       – Eu – disse a criança – não tenho tal.

       A mamã Oliva, apesar dos gritos de Toussaint, descalçou-lhe o pé esquerdo e achou os dois soldos dentro do sapato.

       Deu os dois soldos ao ajudante, e saiu puxando pelo pequeno e ameaçando-o com um castigo que parecia terrível aos circunstantes, senão se lembrassem de quanto devia mitigá-lo a ternura maternal.

       O acontecimento, pouco importante em si mesmo, teria decerto passado despercebido no meio das circunstâncias graves em que se achavam, se a semelhança da mulher com a rainha não tivesse impressionado Maillard.

       Desta precaução resultou dizer ele ao seu amigo boticário quando o viu um momento desocupado:

       – Reparou?

       – Em quê?

       – Na semelhança da cidadã que daqui saiu.

       – Com a rainha? – disse o boticário rindo.

       – Ah! Também notou?

       – Há muito tempo.

       – Como, há muito tempo?

       – Sim, é uma semelhança histórica.

       – Não compreendo.

       – Não está lembrado da célebre história do colar?

       – Como quer que um porteiro do Châtelet esqueça tal história?

       – Então deve lembrar-se de uma certa Nicola Legay, conhecida pela menina Oliva.

       – Oh! Sim; representou para com o cardeal de Rohan o papel de rainha.

       – E que vivia com um tratante, um homem cheio de dívidas, um homem chamado Beausire.

       – Hein? – disse Maillard, pulando como se o tivesse mordido uma serpente.

       – Chamava-se Beausire – afirmou o boticário.

       – E é ao tal Beausire que ela chama seu marido?

       – É sim.

       – E é para ele o purgante que a cidadã levou.

       – O maroto talvez apanhasse alguma indigestão à força de comer e beber.

       – Um purgante! – repetiu Maillard, como quem busca descobrir um segredo e não quer perder o fio das idéias.

       – Sim um purgante – afirmou o boticário.

       – Ah! – disse Maillard, batendo na testa – encontrei o homem.

       – Que homem?

       – O dos onze soldos.

       – Mas quem é o homem dos onze soldos?

       – Ora! É o tal Beausire.

       – E diz que o encontrou?

       – Sim, se souber onde mora.

       – Onde mora sei eu.

       – Bom, então onde é?

       – Na rua da Judiaria, n.º 6.

       – É perto daqui?

       – São dois passos.

       – Muito bem! Já não me admira...

       – O quê?

       – Que o pequeno Toussaint roubasse dois soldos à mãe.

       – Como! Não se admira?

       – Não; é filho do tal Beausire, não é verdade?

       – É o seu retrato vivo.

       – Oh! Filho de gato mata rato; mas, querido amigo – continuou o Sr. Maillard – diga-me com a mão na consciência quanto tempo é preciso para que o purgante comece a fazer efeito?

       – Seriamente, deseja saber?

       – Sim, seriamente.

       – São precisas duas horas.

       – É quanto me basta.

       – Toma tanto interesse pelo Sr. Beausire.

       – Tanto que, receando que ele esteja mal, vou buscar...

       – O quê?

       – Dois enfermeiros. Adeus, querido amigo.

       E saindo da botica do seu amigo com um sorriso nos lábios, o único que jamais desenrugou aquele lúgubre rosto, tomou o caminho das Tulherias.

       Pitou estava ausente.

       Devemos estar lembrados de que ele no jardim seguira atrás de Andréia, que procurava o conde de Charny.

       Mas, na ausência do capitão, Maillard encontrou Maniquet e Tellier, que guardavam a porta.

       Ambos o reconheceram.

       – Ah é o Sr. Maillard? – perguntou Maniquet – então encontrou-o?

       – Não, mas sei onde é a toca.

       – Oh! É uma ventura – disse Tellier – porque sou capaz de apostar que tinha consigo os diamantes.

       – Pode apostar, cidadão – disse Maillard – porque ganha.

       – Muito bem – disse Maniquet – mas como se hão-de apanhar?

       – Com o seu auxílio podemos apanhá-los.

       – Oh! Cidadão Maillard, estamos às suas ordens.

       Maillard fez sinal aos dois oficiais para se aproximarem.

       – Escolham-me entre a sua guarda dois homens de confiança.

       – Como valentes?

       – Como honrados.

       – Oh! Então é escusado escolher, pode ser qualquer deles, disse Désiré.

       Depois voltando-se para a porta, bradou:

       – Dois homens para um serviço!

       Levantaram-se doze homens.

       – Vem cá, Boulanger – disse Maniquet.

       Aproximou-se um dos homens.

       – E tu também, Molicar.

       Perfilou-se o segundo ao lado do primeiro.

       – Quer mais gente, Sr. Maillard? – perguntou Tellier.

       – Bastam-me dois homens, venham meus valentes.

       Os dois homens seguiram Maillard.

       Maillard conduziu-os à rua da Judiaria e parou em frente da porta n.º 6.

       – É aqui – disse ele – subamos.

       Os dois soldados, guiados por Maillard, subiram a escada até ao quarto andar.

       Ali foram guiados pelos gritos de Toussaint, que ainda lastimava a correcção não maternal, mas paternal; porque a mãe batera-lhe; mas Beausire, vista a gravidade do caso, julgou dever intervir ajuntando alguns sopapos às pancadas que Oliva dava brandamente e como que contra vontade, no seu querido filho.

       Maillard quis abrir a porta.

       O fecho estava corrido.

       Bateu.

       – Quem é? – perguntou Oliva.

       – Abra em nome da lei – respondeu Maillard.

       Seguiu-se um diálogo em voz baixa, cujo resultado foi calar-se Toussaint, julgando que por causa dos dois soldos, que tinha roubado, a justiça se incomodava, enquanto Beausire, apesar de pouco tranqüilo, procurava tranqüilizar Oliva.

       Finalmente a Srª. Beausire decidiu-se, e abriu a porta no momento em que Maillard ia bater segunda vez.

       Os três homens entraram, causando grande terror a Oliva e a Toussaint, o qual foi esconder-se atrás de uma velha cadeira de palha.

       Beausire estava deitado; ao pé dele, em cima da mesa, alumiada por um velho candeeiro, estava uma garrafa, que Maillard viu com grande prazer estar despejada.

       Como Beausire tinha tomado o purgante, só faltava esperar pelo efeito dele.

       Pelo caminho Maillard havia explicado a Boulanger e a Molicar do que se tratava, de sorte que, entrando no quarto de Beausire, já sabiam o que deviam fazer.

       Portanto Maillard, depois de os ter postado, um de cada lado da cama de Beausire, disse-lhes:

       – Cidadãos, o Sr. de Beausire é exactamente como a princesa das Mil e uma Noites, que só falava quando a obrigavam, mas que, de cada vez que abria a boca deixava cair dela um diamante. Não deixem pois cair uma só palavra da boca do Sr. Beausire sem saber o que contém. Vou esperá-los à municipalidade; quando ele já não tiver nada que dizer, conduzi-lo-ão a Châtelet, onde o recomendarão da parte do Sr. Maillard, e irão depois ter comigo, levando o que ele tiver dito, à municipalidade.

       Os dois guardas nacionais inclinaram-se em sinal de obediência e colocaram-se à cabeceira da cama do Sr. Beausire.

       O boticário não se havia enganado; passadas duas horas, começou o efeito do purgante.

       O efeito durou mais de uma hora mas foi muito satisfatório.

       Às duas horas da madrugada, viu Maillard chegarem os seus dois homens.

       Traziam, pouco mais ou menos, o valor de cem mil francos em belos diamantes.

       Maillard depositou em seu nome e no dos dois guardas nacionais os diamantes sobre a secretária do procurador da Comuna, o qual lhe entregou um atestado, certificando que os cidadãos Maillard, Molicar e Boulanger tinham bem merecido da pátria.

 

O primeiro de Setembro

       Ora eis o que sucedera em conseqüência do acontecimento trágico-cómico, que acabámos de contar.

       O Sr. Beausire conduzido ao Châtelet tinha sido entregue a um júri encarregado especialmente de sindicar dos roubos cometidos no dia 10 de Agosto e seguintes.

       Não havia meio de negar, o réu fora apanhado em flagrante.

       Portanto, limitou-se a confessar humildemente a sua falta, e a implorar a clemência do tribunal.

       O tribunal mandou informar sobre os precedentes do acusado.

       Como a informação não lhe fosse favorável, foi condenado à exposição e a cinco anos de galés.

       O Sr. de Beausire debalde alegou que fora arrastado a este roubo por sentimentos honrosos, isto é, pela esperança de assegurar um futuro tranqüilo a sua mulher e a seu filho, e pelo desejo de se tornar homem honrado; nada disto foi capaz de comover o tribunal, e como dele não se podia apelar, a sentença devia ser executada no dia imediato ao da sua condenação.

       Ora, a desgraça permitiu que na véspera da execução da sentença, isto é, na véspera do dia em que o Sr. de Beausire devia ser exposto, entrasse para a prisão um dos seus antigos camaradas de trapaça; depois de se reconhecerem, seguiram-se as confidências.

       O recém-chegado dizia que fora preso em conseqüência de uma conspiração perfeitamente organizada que devia rebentar na praça de Grève, ou no palácio.

       Os conjurados deviam reunir-se em grande número, sob pretexto de verem a primeira exposição, que se realizasse naquela época; as exposições eram feitas ou na Grève, ou na praça do palácio; e ao grito de: Viva o rei! Vivam os prussianos! Morra a nação! deviam apoderar-se do palácio da municipalidade, chamar em seu socorro a guarda nacional, cujos dois terços eram realistas, abolirem a Comuna e operarem desta forma a contra-revolução.

       Infelizmente o preso amigo do Sr. Beausire, é que devia dar o sinal, e como os outros conjurados ignoravam a sua prisão haviam de ir à praça no dia da exposição do condenado, e como não ouvissem a ninguém gritar: Viva o rei! Vivam os prussianos! Morra a nação! não podia verificar-se o movimento.

       – E isto é tanto mais para lastimar – ajuntou o preso – porquanto nunca houve movimento mais bem organizado e com tantas probabilidades de ser bem sucedido.

       A prisão do amigo do Sr. Beausire por mais de um motivo era deplorável, pois que do meio do tumulto o condenado podia escapar e fugir.

       O Sr. de Beausire, apesar de não ter opinião, propendia contudo para a realeza; começou pois por deplorar amargamente, pelo rei, e por si, que não se verificasse o movimento.

       De repente bateu na testa.

       Acabava de ser iluminado por uma idéia súbita.

       – Mas – disse ele ao seu camarada – a primeira exposição que deve realizar-se é a minha.

       – Sem dúvida e então?

       – E dizes que não sabem da tua prisão?

       – Decerto que não.

       – Então os conjurados hão-de reunir-se como se não estivesses preso?

       – Sem dúvida.

       – De sorte que se alguém desse o sinal ajustado, a conspiração havia de rebentar?

       – Sim; mas quem queres tu que o dê estando eu preso, e sem poder ter comunicações para fora da prisão?

       – Eu – disse Beausire, no tom de Medeia na tragédia de Corneille.

       – Tu?

       –Sim, eu. Hei-de ser exposto, não é assim? Pois bem, gritarei: Viva el-rei! Vivam os prussianos! Morra a nação! Parece-me que não é muito difícil.

       O companheiro de Beausire ficou maravilhado.

       – Sempre disse – exclamou ele – que eras homem de génio.

       Beausire inclinou-se.

       – E se fizeres o que dizes – continuou o preso realista – não só hás-de ser solto e perdoado, mas também, como hei-de declarar que se deve a ti o bom êxito da conspiração, podes desde já contar com a bela recompensa que hás-de receber.

       – Não é disso que se trata – respondeu Beausire com ar desinteressado.

       – Ora essa, meu amigo! Aconselho-te a que não recuses a recompensa.

       – Se me aconselhas... disse Beausire.

       – Faço mais, convido-te a aceitá-la, e, se tanto for preciso, até o ordeno – ajuntou majestosamente o realista.

       – Pois aceitarei – disse Beausire.

       – Está bem – disse o conspirador – amanhã havemos de almoçar juntos, o director da prisão não há-de recusar este favor a dois amigos, e havemos de beber uma garrafa de vinho pelo bom êxito da conspiração.

       Beausire ainda tinha algumas dúvidas sobre a complacência do director da prisão, relativamente ao almoço do dia seguinte; mas almoçasse ou não com o seu amigo, estava decidido a cumprir a promessa que lhe tinha feito.

       Com grande satisfação sua foi-lhes dada a licença para almoçarem juntos.

       Foi servido o almoço aos dois amigos; mas não se limitaram a despejar só uma garrafa, veio segunda, terceira e quarta.

       À quarta já o Sr. Beausire estava um realista furioso. Felizmente foram buscá-lo para o conduzirem à praça de Grève antes que encetasse a quinta.

       Subiu ao carro, como se fosse a um carro triunfante, olhando desdenhosamente para essa multidão, a que ia causar terrível surpresa.

       Na esquina da ponte de Nossa Senhora, era esperado na passagem por uma mulher e uma criança.

       O Sr. Beausire conheceu a pobre Oliva lavada em lágrimas e o jovem Toussaint, o qual vendo seu pai entre os soldados gritou:

       – É bem feito, para que me bateu ele?

       Beausire enviou-lhe um sorriso de protecção, a que certamente teria juntado um gesto de mais majestade, se não tivesse as mãos presas atrás das costas.

       Sabia-se que o condenado expiava um roubo feito nas Tulherias, e como eram sabidas as circunstâncias em que fora feito e descoberto, ninguém sentia por ele compaixão.

       Portanto, quando o carro parou ao pé do pelourinho, a guarda teve muito trabalho para conter o povo.

       Beausire olhou para todo este movimento, para este tumulto, para esta multidão com um certo ar, que queria dizer:

       – Daqui a pouco vereis.

       Quando ele apareceu sobre o pelourinho, retumbou um hurra geral; todavia quando o carrasco despiu a manga do condenado, lhe pôs à mostra o ombro e se abaixou para tirar da fornalha o ferro em brasa, sucedeu o que sempre sucede, isto é, todos se calaram diante da suprema majestade da justiça.

       Beausire aproveitou a ocasião, e reunindo todas as suas forças, com voz sonora e retumbante, exclamou:

       – Viva o rei! Vivam os prussianos! Morra a nação!

       Por maior que fosse o tumulto, que o Sr. Beausire esperasse, o resultado excedeu muito as suas esperanças, e não foi um grito, foi um bramido que lhe respondeu.

       Toda a multidão deu um rugido e precipitou-se sobre o pelourinho.

       Desta vez a guarda não teve força para proteger o Sr. de Beausire, as fileiras foram rotas, o cadafalso invadido, o carrasco lançado abaixo do estrado, o condenado arrancado, não se sabe como, do poste e arremessado no devorador formigueiro que se chama multidão.

       Ia ser morto, esmagado, feito em pedaços, quando felizmente do alto da escada do palácio da municipalidade onde presidia à execução, se precipitou um homem cingido com uma banda.

       Era o procurador da Comuna, era Manuel.

       Neste homem havia um grande sentimento de humanidade, que algumas vezes era obrigado a ocultar, mas que se lhe escapava em circunstâncias como esta.

       Com grande custo chegou onde estava Beausire, estendeu a mão sobre ele, e com voz forte, disse:

       – Em nome da lei, reclamo este homem!

       O povo hesitou em obedecer; Manuel desenrolou a sua banda, e fê-la flutuar por cima da multidão bradando:

       – A mim, todos os bons cidadãos!1 Correram vinte homens, que se agruparam em volta dele.

       Beausire foi tirado, meio morto, das mãos do povo.

       Manuel fê-lo transportar para o palácio da municipalidade, mas dentro em pouco foi o palácio ameaçado seriamente, tão grande era o desespero do povo.

       Manuel apareceu à janela e disse:

       – Este homem é culpado, é certo, e de um crime para que não há perdão. Nomeai entre vós um júri, o qual se reunirá numa das salas do palácio da câmara e decidirá da sorte do criminoso. Seja qual for a sentença será executada; haja porém uma sentença.

       Não é curioso que na véspera do dia da mortandade das prisões, um dos homens acusados dessa mortandade use com perigo da vida tal linguagem?

       Há anomalias em política; explique-as quem puder.

       Este compartimento tranqüilizou a multidão; passado um quarto de hora, anunciaram a Manuel que estava escolhido o júri popular.

       O júri constava de vinte e um membros.

       Os vinte e um membros apareceram às janelas.

       – Estes homens são vossos delegados? – perguntou Manuel ao populacho.

       A resposta foi baterem palmas.

       – Está bem – disse Manuel – como há juízes far-se-á justiça.

       E como tinha prometido, instalou o júri numa das salas do palácio.

       O Sr. de Beausire, mais morto do que vivo, compareceu perante o tribunal improvisado.

       Procurou defender-se, mas o seu segundo crime estava tão bem provado como o primeiro, com a diferença de que, na opinião do povo, era mais grave.

       Gritar “viva o rei!” quando o rei, reconhecido por traidor, estava preso no Templo.

       Bradar “vivam os prussianos!” quando eles acabavam de tomar Longwy e estavam, quando muito, a sessenta léguas da capital.

       Gritar “morra a nação!” quando esta se estorcia no seu leito de morte; era isto um crime inaudito, que merecia supremo castigo.

       Portanto, o júri decidiu que o culpado não só seria condenado à morte, mas que para ligar a esta morte a vergonha que a lei tinha separado dela substituindo a guilhotina à forca, o Sr. Beausire, por revogação da lei, seria enforcado.

       E enforcado na mesma praça onde perpetrara o crime.

       Por conseqüência, o carrasco recebeu ordem de levantar a forca no mesmo cadafalso onde estava o pelourinho.

       A vista deste trabalho, e a certeza de que o criminoso não podia escapar, acabou de acalmar o povo.

       Eis pois um acontecimento que, como dissemos no fim de um dos capítulos precedentes, preocupava a Assembléia.

       O dia que se seguia era um domingo, circunstância agravante, e a Assembléia conheceu que tudo caminhava para a mortandade: a Comuna queria manter-se a todo preço, e a carnificina, isto é, o terror era um dos meios mais seguros para o conseguir.

       A Assembléia recuou diante da resolução novamente tomada.

       Publicou o seu decreto.

       Levantou-se então um dos membros da Assembléia e disse:

       – Não basta publicardes o vosso decreto; há dois ao promulgá-lo, dissestes que a Comuna bem merecera da pátria; o elogio é um vago, porque pode vir um dia em que digais que a Comuna bem mereceu da pátria, mas que todavia tal ou tal dos membros da Comuna não é compreendido no elogio, então será perseguido tal ou tal membro; é pois preciso dizer: não a Comuna, mas os representantes da Comuna.

       A Assembléia votou que os representantes da Comuna tinham bem merecido da pátria.

       Ao mesmo tempo que Robespierre emitia este voto, fazia à Comuna um longo e enérgico discurso, no qual dizia que, tendo a Assembléia, por infames manobras, feito perder ao conselho geral a segurança pública, o conselho geral devia retirar-se e empregar o único meio, que lhe restava para salvar o poder, isto é, entregar o poder ao povo.

       Robespierre era ambíguo e vago, mas terrível.

        Entregar o poder ao povo!

       Que significava esta frase?

       Era aceitar o decreto da Assembléia sujeitando-se à reeleição. Não era provável.

       Era depor o poder legal, e depondo-o declarar por esta mesma deposição que a Comuna, depois de ter feito o 10 de Agosto, se considerava impotente perante a continuação da grande obra revolucionária e encarregava o povo de a concluir?

       Ora, o povo sem freio, encarregado, com o coração cheio de vingança, de continuar a obra do 10 de Agosto, era a mortandade dos homens, que tinham combatido contra ele no dia 10 de Agosto, e que depois deste dia estavam encerrados nas diversas prisões de Paris.

       Eis o estado de Paris no 1.º de Setembro à noite, isto é, o estado em que se acha a atmosfera, quando sobre ela pesa uma tempestade, e quando se sentem, sobre todas as cabeças, os relâmpagos, e o raio.

 

Durante a noite de 1 para 2 de Setembro

       No 1.º de Setembro, às nove horas da noite, o oficioso de Gilberto – o título de criado tinha sido abolido como anti-republicano – o oficioso de Gilberto entrou no quarto dizendo:

       – Cidadão Gilberto, a sege está esperando à porta.

       Gilberto pôs um chapéu de abas largas, abotoou o casaco e dispôs-se para sair.

       Mas à porta estava um homem embuçado num capote e também com um chapéu de abas largas.

       Gilberto recuou um passo; na escuridão e em tais circunstâncias, todos são inimigos.

       Porém uma voz benévola pronunciou estas palavras:

       – Sou eu, Gilberto.

       – Cagliostro! – exclamou o doutor.

       – Bem; já se esqueceu de que não me chamo Cagliostro, mas sim o barão Zanone; é verdade que para o senhor não mudo de nome, nem de coração, querido Gilberto, e serei sempre pelo menos assim o espero, José Bálsamo.

       – Oh! Sim – respondeu Gilberto – e a prova é que ia a sua casa.

       – Disso desconfiava eu – disse Cagliostro – e é a razão por que venho aqui; deve pensar que, em ocasiões como a actual, não faço o que acaba de fazer o Sr. de Robespierre, não parto para o campo.

       – Pois eu receava não o encontrar, e dou-me por muito feliz com a sua presença; entre.

       – Aqui estou; agora diga o que pretende – respondeu Cagliostro, seguindo o doutor à casa mais retirada.

       – Assente-se, mestre.

       Cagliostro assentou-se.

       – Sabe o que se passa? – perguntou Gilberto.

       – Quer dizer, o que vai passar-se – respondeu Cagliostro – porque na ocasião estão todos sossegados.

       – Tem razão, mas está-se dispondo o quer que seja de terrível, não é assim?

       – Terrível, diz o senhor, mas o que é terrível, torna-se às vezes necessário.

       – Mestre – disse Gilberto – quando pronuncia tais palavras com o seu incrível sangue frio, realmente faz-me estremecer.

       – Que quer, Gilberto? Não sou mais de que um eco, já lho disse, eco da fatalidade.

       Gilberto baixou a cabeça.

       – Está lembrado, Gilberto, do que lhe disse no dia em que o vi em Bellevue, a 5 de Outubro, e quando lhe predisse a morte do marquês de Favras?

       Gilberto estremeceu.

       Ele, tão forte na presença dos homens e dos acontecimentos, sentia-se fraco como uma criança perante aquele misterioso personagem.

       – Já lhe disse – continuou Cagliostro – que o rei, se tivesse no seu pobre cérebro um grão de espírito de conservação, fugiria.

       – Pois bem – disse Gilberto – ele fugiu.

       – Ah! Sim; mas eu tinha-o dito enquanto ainda era tempo, e quando ele o quis fazer, como sabe, já não o era. Também sabe que ajuntei que se o rei, a rainha, os nobres resistissem, nós faríamos uma revolução.

       – Oh! – disse Gilberto com um suspiro – desta vez ainda tem razão, porque a revolução fez-se.

       – Não foi completa – replicou Cagliostro – mas fez-se meu caro Gilberto; também deve estar lembrado de que lhe falei num instrumento inventado por um amigo meu, o doutor Guillotin. Não passou pela praça do Carroussel? Lá está defronte das Tulherias esse instrumento, o mesmo que fiz ver à rainha no castelo de Taverney, numa garrafa; deve estar lembrado, pois estava lá um rapazote, mas já era amante da menina Nicola; a propósito, o marido de Nicola, o amável Sr. Beausire, acaba de ser condenado à forca, e lá está ela erguida defronte do palácio da municipalidade.

       – Sim – disse Gilberto – a guilhotina começou a funcionar, mas ainda não estão satisfeitos com a sua expedição, pois lhe ajuntam espadas, lanças e punhais.

       – Ouça-me – disse Cagliostro – há-de concordar numa coisa, e é que temos de tratar com teimosos e cruéis; deram-se aos aristocratas toda a sorte de advertências, que não serviram para nada: tomou-se a Bastilha, de nada serviu; fez-se o 20 de Junho, de nada serviu; fez-se o dia 10 de Agosto, de nada serviu; meteu-se o rei na Abadia, na Force, em Bicêtre, mas isto de nada serviu; o rei no Templo alegra-se com a tomada de Longwy pelos prussianos! Os aristocratas gritam na Abadia: “viva o rei! vivam os prussianos!” bebem vinho de Champanhe nas barbas do pobre povo, que bebe água; comem iguarias nas barbas do desgraçado povo, que não tem pão.

       Até o próprio rei da Prússia, a quem se escreveu dizendo-lhe:

       “Tomai conta, se passais de Longwy, um passo de mais no coração da França será a sentença de morte do rei.”

       Responde:

       “Por mais horrorosa que seja a situação da família real, os exércitos não devem retroceder; de toda a minha alma desejo chegar a tempo para salvar o rei de França, mas primeiro do que tudo é meu dever salvar a Europa.”

       E marcha sobre Verdum... É preciso acabar com isto.

       – Acabar com quê?! – exclamou Gilberto.

       – Com o rei, com a rainha e com os aristocratas.

       – Então quer assassinar o rei, a rainha e os aristocratas?

       – Oh! Não, isso seria um grande crime. É preciso julgá-los, condená-los, executá-los publicamente, como se fez a Carlos I; mas o que importa é desembaraçarmo-nos deles, o mais depressa possível.

       – E quem decidiu isso? Vejamos – exclamou Gilberto – foi a consciência, foi a honradez, foi a inteligência deste povo, em que fala? Quando tinha Mirabeau como génio, Lafayette como lealdade, Vergniaud como justiça, se tivesse vindo dizer-me, em nome dos seus homens, é preciso matar, eu teria estremecido, como hoje estremeço, mas teria duvidado. Hoje porém em nome de quem vem dizer-me isso? Em nome de um Hébert, negociante falido, de um Collot-d’Herbois, comediante apupado, de um Marat, espírito doente, a quem o médico manda sangrar todas as vezes que pede cinqüenta mil, cem mil, duzentas mil cabeças? Deixe-me, caro mestre, desconfiar desses homens medíocres, que precisam de crises rápidas e patrióticas. Esses maus taumaturgos, esses retóricos impotentes, que só se regozijam com as destruições rápidas, que se julgam mágicos hábeis, desfizeram a obra de Deus; só acham belo, grande, sublime, fazer retroceder o grande rio da vida, que alimenta o mundo, exterminado com uma palavra, com um gesto, fazendo desaparecer com um sopro o obstáculo vivo, que a natureza tinha gasto trinta, quarenta e cinqüenta anos a criar. Esses homens, querido mestre, são miseráveis, e o senhor não pertence a tal número.

       – Meu caro Gilberto – disse Cagliostro – está enganado, chama a tais indivíduos homens; faz-lhe muita honra, não são mais do que instrumentos.

       – Instrumentos de destruição.

       – Sim, mas em benefício de uma idéia, Gilberto, é a emancipação dos povos, é a liberdade universal, é a república, não a francesa, Deus me defenda de semelhante idéia, que é egoísta, mas a fraternidade do mundo. Não, esses homens não têm génio, mas têm o que é mais inexorável, o que é mais irresistível do que tudo isto, têm o instinto.

       – O instinto de Átila.

       – Precisamente, o instinto de Átila, que se intitulava o Martelo de Deus, e que vinha com o sangue bárbaro dos Hunos, dos Alanos e dos Suevos reformar a civilização humana, corrompida por quatrocentos anos de reinado dos Neros, dos Vespazianos e dos Heliogabalos.

       – Mas, finalmente – disse Gilberto – resumamos, em lugar de estar a falar em generalidades; onde o conduzirá a matança?

       – Oh! A uma coisa muito simples; a comprometer a Assembléia, a Comuna, o povo, todo Paris. É preciso manchar Paris de sangue, para que Paris, o cérebro da França, o pensamento da Europa, a alma do mundo, para que Paris, conhecendo que não há para ela perdão possível, se levante como um só homem, e expulse o inimigo do terreno sagrado da pátria.

       – Mas o senhor, que não é francês, o que tem com isso?! – exclamou Gilberto.

       Cagliostro sorriu.

       – É possível que o senhor, inteligência superior, uma organização potente, diga a um homem: Não te intrometas nos negócios da França, porque não és francês? Acaso os negócios da França, não são negócios de todo o mundo? Acaso a França pobre egoísta trabalha só para si? Acaso Jesus morreu só para os Judeus? Com que direito iria dizer a um apóstolo: “Tu não és Nazareno?” Ouça, Gilberto; discuti todas essas coisas com um génio muito mais forte do que o meu, do que o seu, com um homem ou um demónio chamado Althotas, num dia, em que ele calculava o sangue que era preciso derramar primeiro que o Sol se levantasse sobre a liberdade do mundo. Pois os raciocínios daquele homem não abalaram a minha convicção. Marchei, marcho, hei-de marchar, derrubando tudo o que encontrar diante de mim, gritando com voz sossegada, com olhar sereno: “Ai dos obstáculos, sou o porvir!”

       Vejo porém que tem que pedir-me o perdão de alguém, não é assim? Concedo-lhe o perdão que requer: diga-me o nome daquele ou daquela que pretende salvar.

       – Quero salvar uma mulher, que nem eu nem o senhor podemos deixar morrer.

       – Quer salvar a condessa de Charny?

       – Quero salvar a mãe de Sebastião.

       – Bem sabe que é Danton quem pode abrir e fechar as prisões.

       – Sim, mas também sei que pode dizer-lhe abra ou feche tal porta.

       Cagliostro levantou-se, chegou à secretária e traçou sobre um bocado de papel uma espécie de sinal cabalístico, e apresentando o papel a Gilberto, disse:

       – Aqui tem, meu caro, vá procurar Danton e peça-lhe o que quiser.

       Gilberto levantou-se.

       – Mas depois – perguntou Cagliostro – que tenciona fazer?

       – Depois do quê?

       – Depois dos dias que vão decorrer, quando chegar a vez do rei?

       – Tenciono fazer-me nomear, se puder, da nova convenção, e opor-me com todas as minhas forças à morte do rei.

       – Está bem – replicou Cagliostro – obra segundo os ditames da sua consciência; mas prometa-me uma coisa.

       – Qual é?

       – Já lá vai o tempo em que prometia sem condições.

       – Nesse tempo não vinha dizer-me que um povo se curava com o assassínio, uma nação com a carnificina.

       – Há-de prometer-me que depois de julgado e executado o rei, seguirá o conselho que eu lhe der.

       Gilberto estendeu-lhe a mão.

       – Todo o conselho que vier do senhor será precioso para mim.

       – E será seguido? –perguntou Cagliostro.

       – Juro que sim, se não for contra a minha consciência.

       – Gilberto é injusto – disse Cagliostro – tenho-lhe oferecido muito, e nunca exigi nada.

       – É verdade, e agora mesmo acaba de me conceder uma vida, que é mais preciosa do que a minha.

       – Pois vá, e que o génio da França, da qual é um dos mais nobres filhos, o guie.

       Cagliostro saiu; Gilberto seguiu-o.

       Gilberto meteu-se na sege, que estava à porta, e dirigiu-se ao ministério da justiça.

       Era ali onde estava Danton.

       Danton, como ministro da justiça, tinha pretexto especioso para não aparecer na Comuna.

       Demais, que precisão tinha de aparecer? Marat e Robespierre estavam lá.

       Robespierre não havia de consentir que Marat lhe passasse adiante: presos à matança, marchavam com o mesmo passo.

       Demais, vigiava-os Tallien o homem de Danton.

       Este esperava duas coisas:

       Supondo que se decidisse pela Comuna, um triunvirato com Marat e Robespierre;

       Supondo que a Assembléia se decidisse por ele, a ditadura como ministro da justiça.

       Não queria Robespierre e Marat.

       A Assembléia porém não o queria a ele.

       Quando o doutor Gilberto lhe foi anunciado, estava com ele a mulher, ou antes, digamos melhor, a mulher estava aos pés dele.

       A carnificina já era tão sabida, que a mulher estava aos pés de Danton suplicando-lhe que não a permitisse, que se opusesse.

       E quando se verificou a carnificina, a pobre senhora morreu de dor.

       Danton não lhe podia fazer compreender uma coisa, que todavia era bem clara.

       Era que ele nada podia contra as decisões da Comuna, sem uma autoridade concedida pela Assembléia.

       Com a Assembléia havia probabilidade de vitória.

       Sem a Assembléia era certa a derrota.

       – Morre! Morre! Se tanto é preciso – gritava a pobre senhora – mas poupa a carnificina.

       – Um homem como eu – dizia Danton – não morre inutilmente. Quero morrer mas quando a minha morte for útil à pátria.

       Anunciaram o Dr. Gilberto.

       – Não sairei daqui – disse a Srª. Danton – sem me prometeres que hás-de fazer todo o possível para impedir este abominável crime.

       – Então fica – disse Danton.

       A Srª. Danton deu três passos para trás, e deixou o marido ir ao encontro de Gilberto.

       Danton conhecia de vista e de reputação o ilustre médico.

       Foi ao encontro dele.

       – Ah! Doutor – disse Danton – chega a propósito, e se eu soubesse a sua morada, tê-lo-ia mandado chamar.

       O doutor cumprimentou Danton, e vendo uma senhora lavada em lágrimas, inclinou-se.

       – Aqui tem – disse o ministro – aqui tem minha mulher, a mulher do cidadão Danton, do ministro da justiça, que julga que sou assaz forte, eu só, para impedir os srs. Marat e o Sr. Robespierre, incitados pela Comuna, de fazerem o que quiserem, quero dizer, para impedir que eles matem, exterminem e destruam.

       Gilberto olhou para a Srª. Danton.

       Ela chorava com as mãos postas.

       – Senhora – disse Gilberto – permite-me que beije as suas mãos misericordiosas?

       – Bom – disse Danton – tens um reforço no doutor, Madalena.

       – Oh! Diga, senhor – exclamou a pobre mulher – que se ele permite um tão miserável crime, lança uma nódoa de sangue em toda a sua vida.

       – E se fosse só isso – disse Gilberto – se essa nódoa ficasse só na fronte de um homem, e que julgando que essa nódoa útil ao seu país, necessária à França, esse homem se imolasse, lançando a honra no abismo, como Décio lançou nele o corpo, não seria nada; o que importa em acontecimentos, como os actuais, a vida, a reputação, a honra de um cidadão? É porém uma mancha na fronte da França.

       – Cidadão – disse Danton – quando o Vesúvio trasborda, diga-me se há uma mão assaz potente para fazer recuar o Oceano?

       – Quando um homem se chama Danton, não se pergunta onde está tal homem, opera.

       – Oh! – disse Danton – é um insensato, e vou dizer-lhe aquilo que nunca confessaria a mim mesmo. Sim, tenho a vontade, tenho o génio! Sim, se a Assembléia quisesse, teria a força; sabe porém o que vai suceder? O que sucedeu a Mirabeau, o seu génio não pôde triunfar da sua reputação.

       Não sou o fanático Marat para inspirar terror à Assembléia, não sou o incorruptível Robespierre para lhe inspirar confiança; a Assembléia há-de negar-me os meios de salvar o estado; sofrerei a pena da minha má reputação, hão-de dizer em voz baixa que sou um homem sem moral, ao qual se não pôde dar nem por três dias um poder absoluto, inteiro, arbitrário; hão-de nomear alguma comissão de pessoas honradas, e durante este tempo começará a matança, e, como diz, o sangue de um milhar de culpados, o crime de trezentos ou quatrocentos bêbados, há-de correr sobre as cenas da revolução uma cortina vermelha, que há-de esconder as suas sublimes virtudes. Pois não – ajuntou Danton com um gesto magnífico – não há-de suceder assim. Serei eu o acusado e afastarei da França a maldição, que só pesará sobre a minha cabeça.

       – E eu? E teus filhos? – exclamou no auge do desespero a desgraçada senhora.

       – Tu – disse Danton – tu hás-de morrer, já o disseste, e não poderás ser acusada como minha cúmplice; enquanto a meus filhos, se chegarem a ser homens e se tiverem o coração do pai, usarão o meu nome com a cabeça altiva; mas se forem fracos e me renegarem, tanto melhor; os fracos não são da minha raça, e nesse caso sou eu que desde já os renego.

       – Mas ao menos – exclamou Gilberto – peça a tutoridade à Assembléia.

       – Julga que estive esperando pelo seu conselho? Mandei chamar Thuriot e Tallien, Srª. Danton, veja se já vieram e mande entrar Thuriot.

       A Srª. Danton saiu apressada.

       – Vou tentar fortuna diante do Sr. Gilberto – disse Danton – será testemunha ante a posteridade de que ao menos tentei.

       Neste momento tornou a abrir-se a porta.

       – Aqui está o cidadão Thuriot – disse a Srª. Danton.

       – Vem cá – disse Danton, estendendo a larga mão àquele que representava a seu lado o papel que o ajudante de campo desempenha ao lado do general. Há dias disseste na tribuna uma coisa magnífica. A revolução francesa não é só para nós, é para todo o mundo, e devemos dar conta dela a toda a humanidade. Pois então vamos tentar um último esforço para salvar esta revolução e para a conservar pura.

       – Fale – disse Thuriot.

       – Amanhã, quando se abrir a sessão, sei o que ali hás-de pedir.

       “Que seja elevado a trezentos o número de membros do conselho geral da Comuna, de maneira que, mantendo os eleitos do dia 10 de Agosto, possam os antigos ser assinados pelos modernos, e constituamos sobre uma base firme a representação de Paris, engrandecendo a Comuna, mas neutralizando ao mesmo tempo o seu poder. Se não passar esta proposta, se não puderes fazer compreender o meu pensamento, então entende-te com Lacroix, dize-lhe que entre francamente na questão, que proponha a pena de morte para todos aqueles que, directa ou indirectamente, recusarem executar ou se opuserem por qualquer forma às ordens dadas e às medidas tomadas pelo poder executivo; se a proposta passar, da ditadura, o poder executivo sou eu, reclamo-o, e se não quiserem dar-mo, tomo-o à força.”

       – Depois o que fará? – perguntou Gilberto.

       – Depois – respondeu Danton – pego numa bandeira, e em lugar do ensangüentado, o hediondo demónio da matança, que mando para as suas trevas, invoco o génio nobre e sereno das batalhas, que bate sem medo nem cólera, que encara em paz a morte; pergunto a todos esses bandos se é para assassinar homens desarmados que se reuniram; declaro infame todo aquele que ameaçar as prisões; talvez que alguns aprovem a matança, mas os assassinos são poucos: aproveito o entusiasmo que reina em Paris, envolvo o pequeno número dos assassinos no turbilhão dos voluntários, verdadeiros soldados, que só esperam uma ordem para partir, e levo-os para a fronteira, isto é, contra o inimigo.

       – Faça isso – disse Gilberto – e fará uma coisa grande, sublime, magnífica.

       – Oh! Meu Deus – disse Danton com indiferença, e encolhendo os ombros – não há nada mais fácil; ajudem-me e verão.

       A Srª. Danton beijou as mãos do marido.

       – Oh! Hão-de ajudar – dizia a virtuosa senhora – quem não será da tua opinião ouvindo-te falar assim?

       – Sim – respondeu Danton – infelizmente porém não posso falar assim, porque se me ouvissem, seria por mim que começaria a matança.

       – Pois bem – disse vivamente a Srª. Danton – melhor é morrer desse modo.

       – Falas mesmo como mulher. Morrendo eu o que seria da revolução entre aquele louco sanguinário chamado Marat, e o falso utopista que se chama Robespierre? Não, não devo, não quero morrer ainda, porque devo impedir a matança, e se o não puder conseguir, quero afastar da França esta nódoa e tomá-la sobre mim. Chama Tallien.

       Este entrou.

       – Tallien – disse-lhe Danton – pode ser que a Comuna me escreva amanhã convidando-me a ir à municipalidade; como é secretário da Comuna, arranje as coisas de maneira que eu possa provar que não recebi a carta de convite.

       – Diabo – disse Tallien – como hei-de arranjar isso?

       – Não sei. Disse-lhe o que desejo e o que quero; pertence pois ao senhor arranjar os meios. Venha, Sr. Gilberto, visto ter alguma coisa que me pedir.

       E abrindo a porta de um pequeno gabinete fez entrar Gilberto e seguiu-o.

       – Vejamos, doutor – perguntou Danton – em que lhe posso ser útil?

       Gilberto tirou da algibeira o papel, que lhe entregara Cagliostro, e apresentou-o a Danton.

       – Ah! Vem recomendado por ele; em que lhe posso ser útil? Que deseja?

       – A soltura de uma senhora, que está presa na Abadia.

       – Como se chama?

       – A condessa de Charny.

       Danton pegou num pedaço de papel e escreveu a ordem de soltura.

       – Aqui tem – disse ele – desejaria poder salvar todos os infelizes um por um.

       Gilberto inclinou-se.

       – Tenho o que desejava – disse ele.

       – Vá, Sr. Gilberto, se alguma vez carecer de mim, venha procurar-me imediatamente; sempre me julgarei feliz quando o obsequiar.

       Depois, empurrando-o brandamente para fora do gabinete, murmurou:

       – Ah! Se ao menos tivesse por vinte e quatro horas metade da reputação de homem honrado!

       E fechou a porta sobre Gilberto, dando um suspiro e limpando o suor, que lhe corria da fronte.

       Munido do precioso papel, que lhe restituía a vida de Andréia, Gilberto correu à Abadia.

       Apesar de já ser meia-noite, ainda alguns grupos estacionavam ao pé da prisão.

       Apresentou a ordem ao director.

       A ordem dizia que pusesse imediatamente em liberdade a pessoa que Gilberto designasse.

       O médico designou a condessa de Charny, e o director deu ordem a um chaveiro para que conduzisse o cidadão Gilberto ao quarto da presa.

       Gilberto seguiu o chaveiro, subiu atrás dele três lanços de escada e entrou num quarto alumiado por uma lamparina.

       Uma senhora, vestida de luto, pálida como o mármore, estava assentada ao pé da mesa, lia um pequeno livro de encadernação de chagrin, ornado com uma cruz.

       Ao lado dela ardia na chaminé um resto de fogo.

       Apesar do ruído que a porta fez ao abrir, não levantou a cabeça; apesar da bulha que Gilberto fez aproximando-se, não levantou os olhos.

       Parecia absorvida pela leitura, ou antes pelos pensamentos, porque Gilberto esteve diante dela dois ou três minutos sem lhe ver voltar uma página.

       O chaveiro retirara-se, puxando a porta para si.

       – Senhora condessa – disse Gilberto passado um instante.

       Andréia levantou os olhos, olhou por uns momentos sem ver, pois o véu do pensamento interceptava-lhe a pessoa que tinha diante de si; todavia foi-se esclarecendo gradualmente.

       – Ah! É o Sr. Gilberto – disse Andréia – que me quer?

       – Minha senhora, correm sinistros boatos a respeito das prisões.

       – Bem sei – disse Andréia – querem assassinar-nos; mas bem sabe, Sr. Gilberto, que estou pronta para morrer.

       Gilberto inclinou-se.

       – Venho buscá-la, minha senhora.

       – Vem buscar-me? – repetiu Andréia admirada: para me conduzir aonde?

       – Aonde quiser, minha senhora; está livre.

       E apresentou-lhe em seguida a ordem de soltura assinada por Danton.

       Leu-a, mas em vez de a entregar ao doutor conservou-a na mão.

       – Devia desconfiar disto, doutor – disse ela tentando sorrir.

       – De quê, minha senhora?

       – De que vinha para me impedir que eu morra.

       – Minha senhora, há no mundo uma existência mais preciosa para mim do que nunca foi a de meu pai, ou de minha mãe; é a sua.

       – E é essa a razão por que já faltou uma vez à sua palavra?

       – Não faltei à minha palavra, pois lhe enviei o veneno.

       – Por meu filho.

       – Não lhe tinha dito por quem o enviaria.

       – De sorte que se lembrou de mim, Sr. Gilberto, e foi por minha causa que entrou no covil do leão e se muniu com um talismã, que abre as portas das prisões.

       – Já lhe disse – minha senhora – que enquanto eu viver, hei-de evitar que se exponha à morte.

        – Oh! Contudo, desta vez – disse Andréia com um sorriso mais profundo do que o primeiro – desta vez tenho a certeza de que vou morrer.

       – Tentarei tudo para a salvar.

       Andréia, sem responder, rasgou em quatro a ordem de soltura e lançou-a no lume.

       – Experimente – disse ela.

       Gilberto deu um grito.

       – Sr. Gilberto – disse ela – renunciei à idéia do suicídio, mas não renunciei à da morte.

       – Oh! Senhora!... – exclamou Gilberto.

       – Senhor, decididamente quero morrer.

       Gilberto deixou escapar um gemido.

       – Tudo o que lhe exijo, Sr. Gilberto, é que procure o meu corpo e que o salve dos ultrajes, a que não escapou enquanto vivo. O Sr. de Charny repousa nos carneiros do castelo de Boursonne; foi ali que passei os únicos dias felizes da minha vida, desejo pois repousar ao pé dele.

       – Oh! Minha senhora, em nome do Céu, suplico-lhe...

       – E eu, senhor, em nome da desgraça imploro-lhe este favor.

       – Está bem, minha senhora – disse Gilberto – já me disse uma vez que em tudo lhe devo obedecer; retiro-me, mas não me dou por vencido.

       – Não se esqueça de qual é o meu desejo – disse a condessa.

       – Se não a salvar, farei o que me pede.

       E cumprimentando-a pela última vez, retirou-se.

       A porta fechou-se sobre ele com o som lúgubre que é peculiar às portas das prisões.

 

O dia 2 de Setembro

       Sucedeu o que Danton previra.

       Logo que se abriu a sessão, Thuriot fez na Assembléia a proposta que o ministro da justiça formulara na véspera.

       A Assembléia não a compreendeu.

       Em lugar de a votar às nove da manhã, a Assembléia discutiu-a, e quando procedeu à votação era uma hora depois do meio-dia.

       E Era muito tarde.

       Aquelas quatro horas retardaram um século a liberdade da Europa.

       Tallien foi mais esperto.

       Encarregado pela Comuna de dar ordem ao ministro da justiça, para ir à municipalidade, escreveu:

      

       Sr. ministro,

       “Logo que receber esta, apresentar-se-á no palácio da municipalidade.”

      

       Mas em lugar de pôr o sobrescrito para o ministro da justiça, dirigiu-o ao ministro da guerra.

       Esperavam Danton.

       Foi Servan que se apresentou muito embaraçado, perguntando o que queriam.

       Não lhe queriam absolutamente nada.

       Desfez-se o engano; mas a peça estava pregada.

       Já dissemos que a Assembléia votando à uma hora, votara tarde.

       Com efeito, a Comuna, que não demorava os seus negócios, tinha aproveitado o tempo.

       Que pretendia a Comuna?

       Queria a carnificina e a ditadura.

       Eis como procedeu.

       Como Danton tinha dito, os assassinos não eram numerosos.

       Na noite de 1 para 2 de Setembro, enquanto Gilberto tentava inutilmente tirar Andréia da Abadia, Marat enviava os seus cães aos clubes e às secções.

       Apesar de muito enraivecidos, tinham produzido pouco efeito nos clubes, e de quarenta e oito secções, somente duas, a secção de Robespierre e a do Luxemburgo, tinham votado a carnificina.

       Quanto à ditadura, a Comuna bem sabia que não podia apoderar-se dela se não com o socorro destes três nomes:

       Marat, Robespierre, Danton.

       Eis porque tinha mandado ordem a Danton para ir à municipalidade.

       Já vimos que Danton tinha previsto o golpe.

       Danton não recebeu carta, e por conseqüência não compareceu.

       Se a tivesse recebido, se o erro de Tallien não a fizesse ir parar ao ministro da guerra, em lugar de ir ter às mãos do ministro da justiça, talvez se não atrevesse a desobedecer.

       Não o vendo chegar, teve a Comuna de tomar um partido.

       Decidiu que se nomeasse uma junta de vigilância.

       A junta porém não podia ser nomeada senão de entre os membros da Comuna.

       Tratava-se todavia de fazer entrar Marat, na junta da matança; que era o verdadeiro nome que lhe pertencia.

       Mas como o haviam de conseguir? Marat não era membro da Comuna.

       Foi Panis quem se encarregou do negócio:

       Pelo seu patrono Robespierre, pelo seu cunhado Santerre tinha ele bastante peso na municipalidade; é fácil pois de compreender que Panis, ex-procurador, espírito falso e duro, pobre autor de alguns versos ridículos, não podia ter por si mesmo influência alguma: mas por causa de Robespierre e de Santerre, tinha tal peso na municipalidade que foi autorizado a escolher três membros para completar a junta de vigilância.

        Panis não se atreveu a exercer este poder.

       Tomou por adjuntos três dos seus colegas; Sergent, Duplaint, Jourdeuil.

       Estes também tomaram por adjuntos mais cinco:

       Deforgues, Lenfant, Guermeur, Leclerc e Dufort.

       O documento original tem estas quatro assinaturas: Panis, Sergent, Duplaint e Jourdeuil.

       Porém à margem lê-se um nome.

       É o de Marat, que não tinha direito a fazer parte da junta, por não ser membro da Comuna.

       Com este nome ficava entronizado o homicídio.2

       Vejamo-lo estender-se com todo o seu espantoso poder.

       Já dissemos que a Comuna não fizera como a Assembléia: não esteve com demoras.

       Às dez horas estava instaurada a junta de vigilância, e já tinha dado a sua primeira ordem.

       Essa primeira ordem foi para transferir da prefeitura para a Abadia vinte e quatro presos.

       Desses presos oito ou nove eram padres, isto é, usavam o mais execrando hábito, o mais odiado de todos o hábito dos homens que tinham organizado a guerra civil na Vendeia e no Meio-Dia.

       O hábito eclesiástico.

       Mandaram-nos buscar à prisão pelos federados de Marselha e Avinhão, meteram-nos nas seges a quatro e quatro, e partiram.

       O sinal da partida fora dado pelo terceiro tiro de peça de alarme.

       Era fácil de compreender a intenção da Comuna; aquela procissão lenta e fúnebre exaltaria a cólera do povo, e era provável que, no caminho, ou à porta da Abadia, seriam detidas as carruagens, a escolta seria forçada, os presos seriam assassinados, e então a carnificina seguiria o seu curso.

       Começando no caminho ou à porta da prisão, não pararia facilmente.

       Foi no momento em que as seis seges saíam da Comuna, isto é, da prefeitura de polícia, que Danton se lembrou de entrar na Comuna.

       A proposta feita por Thuriot tornara-se inútil; já dissemos que era muito tarde para aplicar à Comuna a decisão que acabava de ser tomada.

       Restava a ditadura.

       Danton subiu à tribuna; infelizmente estava só. Roland julgara-se muito honrado para acompanhar o seu colega.

       Procuraram com a vista Roland; não estava, ali.

       Viam a força, mas pediam inutilmente a moralidade.

       Manuel acabava de anunciar à Comuna o perigo de Verdun. Tinha proposto que os cidadãos alistados acampassem no Campo de Marte, naquela mesma noite, para o dia seguinte, logo ao amanhecer poderem marchar contra o inimigo.

       A proposta de Manuel foi bem recebida.

       Outro membro tinha proposto, visto a urgência do perigo, que se desse o tiro de alarme e se tocasse a rebate.

       Posta a votos a segunda proposta, também, foi aprovada.

       Era uma medida nefasta, homicida, terrível nas circunstâncias em que se achavam. O tambor, os sinos, a artilharia produzem um retumbar sombrio, vibrações fúnebres até nos corações mais sossegados; com muita razão o produziram portanto, em corações já tão violentamente agitados.

       Demais tudo aquilo era calculado.

       Ao primeiro tiro devia ser enforcado o Sr. Beausire.

       Anunciámos já, com a tristeza que anda anexa à perda de tão interessante personagem, que o Sr. Beausire foi enforcado quando soou o primeiro tiro.

       Ao terceiro tiro deviam as carruagens sair da prefeitura de polícia.

       O canhão ribombava de dez em dez minutos; aqueles que acabavam de ver enforcar o Sr. Beausire chegavam pois a tempo de ver os presos e de tomarem parte no assassínio.

       Tallien punha Danton ao facto de tudo o que se passava na Comuna.

       Sabia por conseqüência o perigo de Verdun, sabia a decisão do acampamento do Campo de Marte, sabia que se ia disparar o canhão de alarme e que se ia tocar a rebate

       Para replicar a Lacroix, que devia pedir a ditadura, tomou o pretexto da pátria em perigo, e propôs que fosse votado: que todo aquele que não quisesse servir, ou entregasse as armas, que fosse punido com pena de morte.

       Depois para não haver engano sobre as suas intenções, para não confundirem os seus projectos com os da Comuna, disse:

       “O rebate, que vamos ouvir, não é um sinal de perigo, é o sinal de carregar sobre os inimigos da pátria. Para os vencer, senhores, carecemos de audácia, de audácia e mais audácia, e a França será salva!”

       Estas palavras foram acolhidas com estrepitosos aplausos.

       Então Lacroix, levantando-se e pedindo a palavra, disse:

       “Seja punido com a morte todo aquele que, directa ou indirectamente recusar executar, ou se opuser, por qualquer maneira, às ordens dadas e às medidas tomadas pelo poder executivo.”

       A Assembléia compreendeu perfeitamente que o que dela exigiam era a ditadura.

       Aprovou na aparência, mas demorou a decisão, nomeando uma comissão de girondinos para redigir os decretos.

       Infelizmente, como Roland, os girondinos eram pessoas muito honradas para terem confiança em Danton.

       A discussão durou até às seis horas da tarde.

       Danton impacientou-se; queria o bem e obrigavam-no a deixar fazer o mal.

       Disse uma palavra em voz baixa a Thuriot e saiu.

       Que lhe disse ele?

       O lugar em que poderia encontrá-lo no caso da Assembléia lhe confiar o poder.

       Onde poderia encontrá-lo?

       No Campo de Marte, no meio dos voluntários.

       Qual era a sua situação no caso de lhe ser confiado o poder?

       Fazer-se reconhecer ditador por esta massa de homens armados, não para a matança, mas para a guerra, tornar a entrar com eles em Paris, e levar como em uma imensa rede os assassinos até à fronteira.

       Esperou até às cinco horas da tarde.

       Ninguém o procurou.

       O que sucedia entretanto às seges, em que iam os presos?

       Sigamo-las; vão lentamente, portanto depressa as alcançaremos.

       A princípio as seges em que iam fechados protegeram-nos.

       O instinto do perigo fez com que se mostrassem o menos possível às portinholas; mas os encarregados de os proteger eram os próprios que denunciavam; a cólera do povo não subia bastante depressa, e incitavam-no com palavras.

       – Olhem – diziam eles – eis os traidores, os cúmplices dos prussianos, eis os que entregam as nossas cidades, eis os que hão-de matar as suas mulheres e seus filhos se os deixarem aqui e forem para a fronteira.

       E todavia isto era impotente; os assassínios, como Danton tinha dito, eram poucos; era grande a cólera, muitos os gritos e ameaças, mas nada mais.

       Seguiam a linha do cais, o Pont-Neuf, a rua Dauphine, sem poderem cansar a paciência dos presos, sem poderem empurrar até ao assassínio a mão do povo.

       Estavam em Bussy, perto da Abadia. Ainda era tempo.

       Se deixassem recolher à prisão aqueles infelizes, se os matassem depois de entrarem, claro ficava que era uma ordem reflectida da Comuna e não a indignação espontânea do povo que os matava.

       A fortuna porém correu em socorro das más intenções, dos projectos sangrentos.

       Em Bussy havia um desses teatros, onde se faziam os alistamentos voluntários.

       Havia ali grande multidão.

       As seges tiveram de parar.

       A ocasião era bela, e se a deixassem passar, não se apresentaria outra.

       Um homem afastou a escolta, que não se opôs, subiu ao estribo da primeira carruagem com a espada na mão, e metendo-a muitas vezes ao acaso para dentro da carruagem, retirou-a cheia de sangue.

       Um dos presos levava uma bengala e com ela tentou aparar os golpes. Tocou por acaso na cara de um dos homens da escolta.

       – Ah! Marotos – exclamou este – nós protegemo-los e em paga levamos! A mim! Camaradas!

       Uns vinte homens, que só esperavam por este brado, saíram então de entre a multidão, armados com chuços e grandes facas amarradas em paus. Meteram as lanças e os paus pelas portinholas, e então começaram a ouvir-se gritos de dor, e a ver o sangue das vítimas correr pelo fundo das seges, deixando na rua um largo rasto.

       O sangue pede sangue. Começou a matança, que ia durar quatro dias.

       Os presos, que estavam na Abadia desde pela manhã, tinham notado nas fisionomias dos guardas e por algumas palavras que a estes tinham escapado, que se preparava alguma coisa sombria. Além disto, uma ordem da Comuna tinha feito adiantar uma hora a comida.

       O que queria dizer esta mudança nos hábitos da prisão? Com certeza alguma coisa funesta.

       Esperavam pois com ansiedade.

       Às quatro horas, o murmúrio longínquo da multidão começou a bater, como as primeiras vagas de uma maré, contra as muralhas da prisão; alguns presos começaram a ver seges por entre as grades das janelas que dão para a rua de Sainte-Marguerite.

       Então os bramidos de raiva e os gritos de dor começaram a entrar na prisão; o brado: “Aí vêm os assassinos!” espalhou-se pelos corredores, entrou nos quartos e penetrou nas mais profundas masmorras.

       Depois ouviu-se o grito:

       “Os suíços! Os suíços!”

       Na Abadia estavam cento e cinqüenta suíços. Com grande custo tinham sido defendidos da cólera do povo no dia 10 de Agosto; a Comuna conhecia o ódio do povo pelos uniformes encarnados.

       Era pois uma excelente maneira de levar o povo à matança, o fazê-lo começar pelos suíços.

       Gastaram quase duas horas na matança destes cento e cinqüenta infelizes.

       Morto o último, que foi o major Reading, cujo nome já mencionámos, chamaram os padres.

       Os padres responderam que estavam prontos para morrer, mas que queriam confessar-se.

       A exigência pareceu justa ao povo.

       O povo concedeu-lhe duas horas.

       Em que foram empregadas aquelas duas horas?

       Em formar um tribunal.

       Mas quem formou o tribunal? Quem o presidiu?

       Maillard.

 

Maillard

       O homem de 14 de Julho, o homem de 5 e 6 de Outubro, O homem de 20 de Agosto, devia também ser o homem de Setembro.

       Porém o porteiro de Châtelet devia querer dar ao assassínio um andamento solene com aparência de legalidade.

       Queria que os aristocratas fossem mortos.

       Mas queria que fossem mortos debaixo de toda a legalidade.

       Mortos em conseqüência de uma sentença dada pelo povo, que se considerava como único juiz infalível.

       Antes que Maillard instalasse o seu tribunal, já tinham sido mortas perto de duzentas pessoas.

       Só uma tinha escapado.

       O abade Sicard.

       Dois outros presos, saindo por uma janela no meio do tumulto, tinham-se encontrado no meio da junta da secção, que fazia as suas sessões na Abadia.

       Eram o jornalista Pariseau e Lachapelle, intendente da casa do rei.

       Os membros da secção fizeram assentar os fugitivos no meio deles e salvaram-nos assim.

       Não havia porém que agradecer aos assassinos, se estes dois últimos lhes escapavam.

       Já dissemos que uma das peças curiosas dos arquivos da polícia era a nomeação de Marat para a junta de vigilância.

       Outra não menos curiosa é o registro da Abadia, ainda hoje todo manchado com o sangue dos assassínios, que salpicava até os membros do tribunal.

       Procurai ver o registro, e a cada instante encontrareis nas margens:

        “Morte por sentença do povo, ou absolvido pela sentença do povo.”

       Esta última nota é assinada por Maillard e repetida quarenta e três vezes.

       Logo, Maillard salvou na Abadia a vida de quarenta e três pessoas.

       Agora, enquanto começa a exercer as suas funções, às nove ou dez horas da noite, sigamos dois homens, que saem dos Jacobinos e se encaminham para a rua de Sainte-Anne.

       São o grande sacerdote e o seu adepto, o mestre e o discípulo:

       Saint-Just e Robespierre.

       Saint-Just, que nos apareceu na noite da recepção de três novos adeptos na loja da rua Plâtrière.

       Saint-Just de tez duvidosa, demasiado clara para homem, muito pálida para mulher, de gravata alta e dura, mais frio do que o seu mestre.

       Quanto ao mestre, ainda sentia algumas emoções nestes combates de política em que o homem, a paixão com a paixão para o discípulo, o que se passa não é mais do que uma grande partida de xadrez.

       O resultado porém, do jogo, é a vida.

       Cuidado não ganhe ele, vós que jogais contra ele, pois será inflexível e nunca perdoará aos que perderem.

       Tinha dito pela manhã que provavelmente iria ao campo.

       O pequeno quarto de Saint-Just, mancebo, até poderíamos dizer ainda criança, talvez lhe parecesse mais seguro do que o seu, na terrível noite de 2 para 3 de Setembro.

       Ambos entraram em casa perto das onze horas.

       É inútil dizer em que falavam aqueles dois homens.

       Falavam no morticínio.

       Com a diferença porém de que um falava com a sensibilidade de um filósofo da escola de Rousseau; o outro com a sequidão de um matemático da escola de Condillac.

       Robespierre, como o crocodilo da fábula, algumas vezes chorava aqueles a quem condenava.

       Entrando em casa, Saint-Just tirou o chapéu, que pôs em cima de uma cadeira, tirou a gravata e despiu o casaco.

       – Que fazes? – perguntou-lhe Robespierre.

       Saint-Just olhou para ele tão admirado, que Robespierre repetiu:

       – Pergunto-te o que fazes?

       – Vou deitar-me – respondeu o mancebo.

       – Mas para que te vais deitar?

       – O que faz a gente quando se deita? Dormir.

       – Como? – exclamou Robespierre – lembras-te de dormir numa tal noite?

       – Porque não?

       – Quando caem ou vão cair milhares de vítimas, quando esta noite vai ser a última para tantos homens, que agora ainda respiram, mas que amanhã terão cessado de viver, tu pensas em dormir?

       Saint-Just, ficou por um instante pensativo.

       Depois, como se durante este curto momento de silêncio tivesse tirado do fundo do coração nova convicção, disse:

       – Sim, é verdade, sei isso, mas também sei que é um mal necessário, pois que tu mesmo o autorizaste. Imagina uma febre amarela, uma peste, um tremor de terra, e enumera uma infinidade de homens que caem sem benefício algum para a sociedade, ao passo que da morte dos nossos inimigos resulta segurança para nós. Aconselho-te pois a que te recolhas a tua casa, e a que te deites como eu e procures dormir como eu vou dormir.

       E dizendo estas palavras, o impassível e frio político meteu-se na cama.

       – Adeus – disse ele – até amanhã.

       E com efeito adormeceu.

       O seu sono foi tão longo, tão sossegado, tão pacífico como se não se passasse em Paris coisa alguma extraordinária.

       Adormeceu às cinco horas e meia da noite e acordou às seis da manhã.

       Saint-Just, acordando, viu entre si e a claridade uma espécie de sombra, era Robespierre.

       Julgou que Robespierre saíra na véspera e que voltara pela manhã.

       – Que é que te traz aqui tão cedo? – perguntou Saint-Just.

       – Eu não saí desde ontem – respondeu Robespierre.

       – Como! Não saíste?

       – Não.

       – Como! Não saíste?

       – Não.

       – Não dormiste?

       – Não.

       – Então como passaste a noite?

       – Em pé, com a cabeça encostada aos vidros, escutando a bulha da rua.

       Robespierre dizia a verdade. Ou por medo, ou por remorso, não tinha dormido sequer uma hora, sequer um minuto.

       Quanto a Saint-Just, não houve diferença entre o seu sono dessa noite e o das noites precedentes.

       Do outro lado porém do Sena, no centro mesmo da Abadia, havia um homem, que tinha dormido tanto como Robespierre.

       Esse homem estava encostado ao último postigo, que dava para o pátio, e quase perdido na penumbra da imensa sala.

       Eis o espectáculo que apresentava o interior daquela casa, transformada em tribunal.

       Em redor de uma vasta mesa carregada de espadas, de pistolas, e alumiada por duas lâmpadas de cobre, estavam assentados doze homens.

       Pelos seus rostos pálidos, figuras robustas, barretes encarnados, pelas lãs que lhe cobriam os ombros, reconhecia-se que eram homens do povo.

       Presidia-os um indivíduo, que estava com a cabeça descoberta, e trajava casaca preta e colete branco.

       Talvez fosse o único que soubesse ler e escrever; tinha diante de si papel, penas e um tinteiro.

       Estes homens eram os juízes da Abadia, juízes terríveis, que davam sentenças sem apelação, que no mesmo instante eram executadas por uns cinqüenta carrascos, armados de espadas e de chuços e que esperavam no pátio, nadando em sangue.

       O presidente era o porteiro Maillard.

       Tinha ido ali por livre vontade, ou mandado por Danton, que queria fazer nas outras prisões, nos Carmelitas, no Châtelet, na Force o que este fez na Abadia; salvar algumas pessoas?

       Ninguém o sabia.

       A 4 de Setembro, Maillard desapareceu; nunca mais se tornou a ver, nunca mais se ouviu falar nele, parecia ter morrido afogado em sangue.

       Entretanto, desde a véspera às dez horas presidia ao tribunal.

       Tinha chegado, arranjado a mesa, escolhido ao acaso doze juízes, tinha-se assentado, colocado seis juízes à direita, outros seis à esquerda, e a matança tinha continuado, mas desta vez com alguma regularidade.

       Lia-se no registro o nome de um preso, os chaveiros iam buscá-lo, Maillard contava a história da sua prisão; se o preso era condenado, Maillard contentava-se em dizer:

       – À Force!

       Então abria-se a porta, que dava para o pátio, e o condenado sucumbia aos golpes dos assassinos.

       Se, pelo contrário, o preso era absolvido, então levantava-se o negro fantasma, punha-lhe a mão sobre a cabeça e dizia:

       – Soltem-no.

       E o preso estava salvo.

       No momento em que Maillard se apresentava à porta da prisão, saiu-lhe ao encontro um homem.

       Às primeiras palavras que trocaram, Maillard reconheceu-o e em sinal, senão de submissão, pelo menos de condescendência, inclinara-se.

       Era homem de estatura gigantesca.

       Depois, entrando na prisão, arranjada a mesa, estabelecido o tribunal, disse:

       – Conserve-se aí, e quando aparecer a pessoa por quem se interessa faça-me sinal.

       O homem encostou-se à parede, e estava ali desde a véspera, mudo e imóvel, esperando.

       Este homem era Gilberto.

       Tinha jurado a Andréia não a deixar morrer, e procurava cumprir o seu juramento.

       No momento a que chegámos, tinha o tribunal interrompido as suas funções por um instante.

       Das quatro às seis horas da manhã, os assassinos e os juízes repousaram um pouco.

       Às seis comeram.

       Durante estas duas horas, três homens, os enterradores enviados pela Comuna, tinham chegado e tinham levado os cadáveres.

       Como porém no pátio havia a altura de três polegadas de sangue coalhado, como os pés escorregavam nele, como era necessário muito tempo para o lavar, trouxeram uns cem molhos de palha, que espalharam pelo pátio, cobrindo-o com o fato das vítimas, principalmente com o uniforme dos suíços.

       O fato e a palha absorviam o sangue.

       Mas enquanto dormiam juízes e assassinos, os presos velavam agitados pelo terror.

       Todavia, quando cessaram os gritos, tiveram um instante de esperança.

       Talvez só houvesse um certo número de condenados, designado aos assassinos; talvez que o assassínio se limitasse aos suíços.

       A esperança, porém, pouco durou, naqueles cérebros agitados.

       Às seis horas e meia da manhã tornaram a começar os gritos e a chamada.

       Então desceu um carcereiro, e disse a Maillard que os presos estavam prontos para morrer, mas pediam que os deixasse ouvir missa.

       Maillard encolheu os ombros, mas anuiu ao que queriam.

       Demais, estava tão ocupado a ouvir as felicitações que a Comuna lhe dirigia pela voz de um seu deputado.

       Este homem era um indivíduo baixo, de figura agradável, com uma pequena cabeleira.

       Era Billaud-Varennes.

       – Honrados cidadãos – disse ele aos assassinos – acabais de purgar a sociedade de grandes criminosos. A municipalidade não sabe como vos há-de agradecer: decerto deviam pertencer-vos os despojos dos mortos, isto porém pareceria um roubo: como indemnização desta perda, estou encarregado de oferecer a cada um de vós vinte e quatro libras que vos serão pagas imediatamente.

       E com efeito Billaud-Varennes, no mesmo instante, fez distribuir aos assassinos o salário do seu sanguinolento trabalho.

       Eis o que tinha acontecido, e o que explica esta gratificação da Comuna.

       Durante a noite de 2 de Setembro, alguns dos matadores não tinham meias nem sapatos, porquanto olhavam com inveja para o calçado dos aristocratas, e disto resultou mandarem pedir à Comuna a permissão de calçarem os sapatos dos mortos.

       A Comuna deferiu esta petição.

       Maillard, porém, logo percebeu que se julgavam dispensados de pedir.

       Por conseqüência pilhavam tudo.

       Não só sapatos e meias, mas tudo o que lhes parecia bom.

       Maillard não gostou desta ladroeira, e deu parte à Comuna.

       Esta era a causa da embaixada de Maillard e do silêncio em que era ouvida.

       Durante esse tempo os presos ouviam missa.

       O padre que a dizia era o abade Lenfant, pregador da capela real.

       O que ajudava à missa era Rastignac, escritor religioso.

       Eram dois anciãos de cabelos brancos, de rosto venerando, e cujas palavras exprimindo a resignação e a fé, tiveram benéfica influência sobre todos os desgraçados.

       No momento em que todos estavam de joelhos, recebendo a bênção do abade Lenfant, começou a chamada.

       O primeiro nome pronunciado foi o de um padre.

       Fez um sinal, acabou a sua oração e seguiu os que iam buscá-lo.

       Ficou outro, que continuou a fúnebre exortação.

       Depois chegou a vez dele.

       Os presos ficaram sem ter quem lhes ministrasse as consolações espirituais.

       Então começou entre estes homens uma conversação sombria, terrível, singular.

       Discutiam sobre a maneira de receber a morte e sobre as probabilidades de um suplício mais ou menos longo.

       Uns queriam apresentar a cabeça, para que caísse de um só golpe.

       Outros diziam que era melhor levantar os braços para que a morte fosse instantânea.

       Outros que era mais seguro porem as mãos atrás das costas, porque deste modo não apresentariam resistência alguma.

       Um mancebo saiu do grupo, dizendo:

       – Vou saber o que é melhor.

       E subiu a uma pequena torre, cuja janela de grades dava para o pátio, para estudar a morte.

       Depois voltou, dizendo:

       – Os que morrem mais depressa são os que têm a ventura de ser feridos no peito.

       Neste momento ouviram-se estas palavras seguidas de um suspiro:

       – Meu Deus! Vou ter convosco!

       Um homem acabava de cair e debatia-se sobre os degraus.

       Era o Sr. Chantereine, coronel da guarda constitucional do rei.

       Tinha levado três facadas no peito.

       Os presos então pegaram em facas, mas servindo-se delas com hesitação só conseguiram que um fosse morto.

       Entre os presos havia três mulheres.

       Duas jovens aflitas abraçadas a dois anciãos.

       Uma senhora vestida de luto, sossegada, resignada, orando e sorrindo.

       As jovens eram as meninas de Cazotte e de Sombreuil.

       Os anciãos eram os pais delas.

       A senhora vestida de luto era Andréia.

       Chamaram o Sr. de Montmorin.

       O Sr. de Montmorin, como o leitor deve estar lembrado, era aquele que tinha dado os passaportes para a fuga do rei; o Sr. de Montmorin era tão impopular, que já na véspera um mancebo estivera para ser morto por ter o mesmo apelido.

       O Sr. de Montmorin não tinha querido ouvir as exortações dos padres; ficara no seu quarto, furioso, desesperado, chamando os seus inimigos, pedindo armas, abalando os varões das janelas, desfazendo entre os dedos uma mesa de carvalho, cujas tábuas tinham duas polegadas de grossura.

       Tiveram de empregar a força para o levarem perante o famoso tribunal.

       Entrou pálido, com os olhos inflamados e com os braços hirtos.

       – À Force! – disse Maillard.

       O antigo ministro tomou a palavra no sentido que a devia ter, e julgou que se tratava de uma transferência.

       – Presidente – disse ele a Maillard – espero que me mande dar uma sege para me levar à Force, para assim escapar aos ultrajes dos assassinos.

       – Mande chamar uma sege para o Sr. conde de Montmorin, disse Maillard com toda a política.

       Depois, dirigindo-se ao ex-ministro:

       – Tenha a bondade de se assentar enquanto não chega a sege, Sr. conde de Montmorin.

       O conde assentou-se resmungando.

       Passados cinco minutos, anunciaram que a sege estava pronta.

       Este anúncio era feito por um comparsa, que compreendeu a parte que tinha a representar neste drama.

       Abriu-se a porta fatal, a que dava para a morte, e por ela saiu o Sr. de Montmorin.

       Mas apenas tinha dado três passos caiu ferido com mais de vinte punhaladas.

       Depois, seguiram-se outros presos, cujos nomes caíram no abismo do esquecimento.

       No meio de todos estes nomes obscuros, completamente desconhecidos, apenas um só se tornou notável, causando sensação.

       Foi o de Jacques Cazotte.

       De Cazotte, o iluminado, que dez anos antes da revolução tinha predito a cada um a sorte que o esperava, autor do Diabo amoroso, de Olivério, das Mil e uma frioleiras, imaginação louca, alma extática, coração ardente, que tinha abraçado com ardor a causa da contra-revolução, e que nas cartas ao seu amigo Pouteau, empregado na secretaria da lista civil, tinha exprimido opiniões, que, na hora a que se havia chegado, eram punidas com a morte.

       A filha servia-lhe de secretária, e quando o pai foi preso, Isabel Cazotte pedira para quinhoar a prisão com ele.

       Se a alguém era permitido ter opiniões realistas, era decerto a este cidadão de oitenta anos, cujos pés estavam enraizados na monarquia de Luís XIV, e que para adormecer o duque de Borgonha havia feito as duas canções, que se tornaram populares: No centro das Ardenas e Comadre, é preciso aquecer a cama.

       Mas estas razões só poderiam dar-se a filósofos e não a assassinos.

       Portanto, Cazotte estava já condenado antes de ser ouvido.

       Vendo o ancião de cabelos brancos, olhos inflamados e cabeça inspirada, Gilberto afastou-se da parede e fez um movimento para lhe sair ao encontro.

       Maillard viu este movimento.

       Cazotte avançava encostado à filha.

       Entrando ali, a menina Cazotte, compreendeu que estava na presença dos seus juízes.

       Então, afastando-se do pai, foi com as mãos postas implorar àquele tribunal sanguinário, com palavras tão doces que os juízes começaram a hesitar.

       A pobre menina conheceu que sob aquelas cascas grossas havia corações; mas que era preciso, para os tocar, descer até aos abismos. E guiada pela compaixão, neles se arremessou de cabeça baixa. Aqueles homens, que não sabiam o que eram lágrimas, choraram!

       Maillard enxugou com as costas da mão os olhos secos que, havia vinte e quatro horas, contemplavam a matança sem se abaixarem.

       Levantou-se e pôs a mão sobre a cabeça de Cazotte.

       – Soltem-no – disse ele.

       A jovem hesitava.

       – Não tenha medo, menina, seu pai está salvo – disse Gilberto.

       Levantaram-se dois juízes e acompanharam Cazotte até à rua, com medo de que algum erro fatal restituísse à morte a vítima, que acabavam de lhe tirar.

       Cazotte, ao menos por esta vez, estava salvo.

       As horas corriam e continuava a matança.

       Tinham trazido para o pátio bancos para os espectadores. As mulheres e os filhos dos assassinos tinham direito a assistir ao espectáculo. Demais, como os autores não se davam por satisfeitos, apesar de serem pagos queriam também ser aplaudidos.

       Às cinco horas da tarde, foi chamado o Sr. de Sombreuil.

       Este era como Cazotte, um realista muito conhecido, e era tanto mais impossível salvá-lo, quando sendo governador dos Jacobinos no dia 14 de Julho, havia atirado sobre o povo.

       Era uma dessas recordações que as massas guardam no fundo do coração.

       Os filhos estavam em país estrangeiro, no exército inimigo.

       Um deles, por tal forma se havia portado no cerco de Longwy, que tinha sido condecorado pelo rei da Prússia.

       Apareceu, nobre e resignado, de cabeça levantada, e com os cabelos brancos que lhe chegavam à farda, encostado também ao braço da filha.

       Desta vez nem Maillard se atreveu a dá-lo por inocente.

       Fazendo porém um esforço, disse:

       – Inocente ou culpado, julgo que seria indigno do povo se tentassem manchar as mãos no sangue deste velho.

       A menina de Sombreuil ouviu estas nobres palavras, que hão-de ter o seu peso na balança divina. Segurou o querido pai e puxou-o para a porta da vida, gritando: Salvo! Salvo!

       Não tinha sido pronunciada sentença alguma, nem condenando, nem absolvendo.

       As cabeças de dois ou três assassinos apareceram ao postigo para perguntarem o que deviam fazer.

       O tribunal ficou em silêncio.

       – O que quiserem.

       – Então – gritaram os assassinos – que a jovem beba à saúde da nação.

       Foi então que um homem de mangas arregaçadas e o rosto feroz, apresentou um copo à menina de Sombreuil, uns dizem que de sangue, outros, que simplesmente de vinho.

       A menina de Sombreuil gritou: “Viva a nação!” molhou os beiços no líquido, fosse ele qual fosse, e assim salvou o pai.

       Decorreram mais de duas horas.

       Depois a voz de Maillard, tão impassível evocando os vivos, como era a de Ninos evocando os mortos, pronunciou estas palavras:

       – A cidadã Andréia de Taverney, condessa de Charny!

       A este nome sentiu Gilberto dobrarem-se-lhe as pernas, faltar-lhe o coração.

       Uma vida, para ele mais importante do que a sua própria, ia ser julgada, ia ser condenada ou absolvida.

       – Cidadãos – disse Maillard aos membros do terrível tribunal – a que vai comparecer diante de vós é uma pobre senhora, outrora dedicada à Austríaca, mas cuja dedicação a Austríaca, ingrata como uma rainha, pagou com a ingratidão; tudo perdeu com esta amizade, fortuna e marido; ides vê-la vestida de luto, e a quem deve esse luto? À presa do Templo. Cidadãos, peço-vos a vida desta senhora.

       Os membros do tribunal fizeram um sinal de assentimento.

       Só um disse.

       – É preciso ver.

       – Então – disse Maillard – olhai!

       Com efeito, abriu-se a porta, e nas profundidades do corredor distinguiu-se uma mulher vestida de luto, com um véu preto tapando-lhe o rosto, e que avançava só e com passo firme.

       Parecia uma aparição desse mundo fúnebre, donde como diz Hamlet, ainda não voltou viajante algum.

       Aquela aparição fez estremecer os juízes.

       Chegada ao pé da mesa levantou o véu.

       Nunca pareceu aos olhos dos homens beleza mais incontestável e também mais pálida.

       Parecia uma divindade de mármore.

       Todas as vistas se cravaram nela; Gilberto ficou ansioso.

       Dirigiu-se a Maillard, e com voz ao mesmo tempo suave e firme, disse:

       – Cidadão, vós é que sois o presidente?

       – Sim, cidadã – respondeu Maillard admirado – porque, em vez de interrogar, era interrogado.

       – Sou a condessa de Charny, mulher do conde de Charny, morto no infame dia 10 de Agosto; sou uma aristocrata, uma amiga da rainha; mereci a morte e venho recebê-la.

       Os juízes deram um grito de surpresa.

       Gilberto empalideceu e coseu-se o mais possível com a parede, esperando escapar assim às vistas de Andréia.

       – Cidadãos – disse Maillard, que viu o espanto de Gilberto – esta mulher é louca, e a morte do marido fez-lhe perder a razão; deplorai-a e velemos pela sua vida: a justiça do povo não pune insensatos.

       Levantou-se e quis pôr a mão sobre a cabeça de Andréia, como fazia àqueles que declarava inocentes.

       Mas Andréia afastou a mão de Maillard e bradou:

       – Estou em todo o meu juízo, e se quereis perdoar a alguém, fazei esse favor a quem vo-lo pedir e que o mereça; mas não a mim, que não sou digna dele e que o recuso.

       Maillard voltou-se para Gilberto e viu este com as mãos postas.

       – Esta mulher é louca, repetiu este; soltem-na.

       E fez sinal a um membro do tribunal para a fazer sair pela porta da vida.

       – É inocente – gritou um membro do tribunal – deixai passar.

       Todos se afastaram para deixar passar Andréia; sabres, pistolas e lanças tudo se abaixou diante daquela estátua de luto.

       Mas depois de dar dez passos, enquanto Gilberto encostado à janela a via retirar, parou.

       “Viva o rei! – exclamou ela; – viva a rainha! Infâmia sobre o 10 de Agosto!”

       Gilberto deu um grito e saiu a correr para o pátio.

       Vira brilhar a folha de uma espada; mas, rápida como o raio, tinha desaparecido no corpo de Andréia.

       Chegou a tempo para a receber nos braços.

       Andréia voltou para ele os olhos já amortecidos e conheceu-o.

       – Bem lhe tinha dito que morreria, mau grado seu.

       Depois, com voz pouco ininteligível.

       – Ame Sebastião por nós ambos.

       Finalmente, com voz mais enfraquecida:

       – Ao pé dele, não é assim? Ao pé do meu esposo, eternamente.

       E expirou.

       Gilberto tomou-a nos braços e levantou-a.

       Cinqüenta braços nus e sujos de sangue ameaçaram-no ao mesmo tempo.

       Mas Maillard apareceu atrás dela, pôs-lhe a mão na cabeça e disse:

       – Deixai passar o cidadão Gilberto, que leva o cadáver de uma pobre mulher morta por engano.

       Todos se afastaram, e Gilberto carregado com o cadáver de Andréia, passou pelo meio dos assassinos, sem que um tentasse fechar-lhe a passagem, tão grande era o poder de Gilberto sobre a multidão.

 

O que se passava no Templo durante a carnificina

       A Comuna, autorizando a carnificina de que acabámos de dar um esboço, apesar do seu constante desejo de aterrar a Assembléia e a imprensa, tinha grande receio de que sucedesse alguma desgraça aos presos que estavam encerrados no Templo.

       Com efeito nas circunstâncias em que estavam as coisas, Longwy tomada, Verdun atacada, o inimigo a cinqüenta léguas de Paris, o rei e a família eram preciosos reféns para garantirem a vida dos mais comprometidos.

       Por conseqüência foram enviados ao Templo alguns comissários.

       Quinhentos soldados armados não eram suficientes para defender a prisão, que eles mesmos talvez abrissem. Alguém achou meio de a defender, meio mais seguro do que todas as lanças e espadas de Paris.

       Era cercar o Templo com uma fita tricolor, na qual se lia esta inscrição:

      

        “Cidadãos, vós, que ao desejo da vingança sabeis reunir o amor da ordem, respeitai esta barreira; é ela necessária à nossa vigilância e à nossa respeitabilidade!”

      

       Singular época em que se despedaçavam fortes portas, em que se quebravam valentes grades, e em que ajoelhavam diante de uma fita!

       O povo ajoelhou diante da fita tricolor do Templo e beijou-a. Nem um só a transpôs.

       O rei e a rainha não sabiam o que se passava em Paris a 2 de Setembro. É verdade que em volta do Templo havia fermentação maior do que a ordinária; não se admiraram, porém, porque já estavam habituados a estas crises.

       O rei jantava às duas horas. Jantou pois às duas horas como nos tempos normais; depois do jantar, desceu ao jardim, como costumava, com a rainha, com a princesa Isabel, com a princesa real e com o delfim.

       Durante o passeio aumentavam os clamores que se ouviam extraordinariamente.

       Um dos membros da municipalidade que seguia o rei, chegou-se ao ouvido de um dos seus colegas e disse-lhe, em voz tão baixa que Cléry não pudesse ouvir:

       – Fizemos mal em consentir neste passeio.

       Eram quase três horas, isto é, precisamente o momento em que começavam a matar os presos transferidos da Comuna para a Abadia e quando se disparava o canhão de alarme.

       O rei só tinha ao pé de si Cléry e Hue.

       O pobre Thierry, que vimos no dia 10 de Agosto ceder o seu quarto à rainha para nele ter uma conferência com Roederer, estava na Abadia e devia ser morto no dia 3.

       Parece que também era opinião do outro membro da municipalidade que tinham feito mal em deixar sair a família real, porque ambos deram ordem para que se recolhesse no mesmo instante aos seus aposentos.

       Foram obedecidos.

       Mas apenas se haviam reunido na câmara da rainha, entraram dois membros que não estavam de serviço naquele dia.

       Então um deles, egresso capucho, chamado Mateus, dirigiu-se ao rei, e disse-lhe:

       – Senhor, ignora o que se passa? A pátria está no mais iminente perigo.

       – Como quer que saiba coisa alguma aqui? – respondeu o rei; – estou preso e em segredo.

       – Então vou dizer-lhe o que não sabe; isto é que o inimigo entrou em Champagne, e que o rei da Prússia marcha sobre Châlons.

       A rainha não pôde reprimir um movimento de alegria.

       Apesar de muito rápido, o membro da municipalidade surpreendeu aquele movimento.

       – Oh! Sim – disse ele dirigindo-se à rainha – sim, sabemos que nós, nossas mulheres, nossos filhos havemos de morrer; mas por tudo ficareis responsáveis. Morrereis primeiro do que nós, e o povo será vingado!

       – Sucederá o que for da vontade de Deus – respondeu o rei; – tenho feito tudo pelo povo, não tenho nada de que me acusar.

       Então o mesmo membro voltando-se para o Sr. Hue, que estava ao pé da porta, disse:

       – Enquanto a ti, a Comuna encarregou-me de te prender.

       – A quem? – perguntou o rei.

       – Ao seu escudeiro.

       – Ao meu escudeiro! Qual deles?

       – Este.

       E designou Hue.

       – Hue! – disse o rei; – de que é acusado?

       – Isso não é comigo; há-de ser levado daqui esta tarde, e os seus papéis hão-de ser selados.

       Depois, saindo e dirigindo-se a Cléry, disse:

       – Tome cuidado e veja como se porta, pois lhe sucederá o mesmo, se não andar direito.

       No dia seguinte, 3 de Setembro, às onze horas da manhã, o rei estava reunido com a sua família no quarto da rainha quando um membro da municipalidade deu ordem a Cléry para subir ao quarto do rei.

       Manuel e alguns membros da Comuna já lá estavam.

       Todos os rostos exprimiam visivelmente grande inquietação. Manuel, como já dissemos, não era homem sanguinário e tinha um partido moderado, mesmo na Comuna.

       – Que pensa o rei da prisão do seu escudeiro? – perguntou Manuel.3

       – Sua majestade está com muito cuidado – respondeu Cléry.

       – Não lhe há-de suceder mal algum – respondeu Manuel – todavia estou encarregado de dizer ao rei que não torna a voltar e que o conselho se encarrega de o substituir. Pode participar esta medida ao rei.

       – Tenha a bondade, senhor – respondeu Cléry – de me dispensar de dar ao rei uma notícia, que sei lhe há-de ser dolorosa.

       Manuel reflectiu um instante.

       – Está bem – disse ele – vou ter com ele ao quarto da rainha.

       Com efeito desceu e falou ao rei.

       O rei ouviu com o seu sossego ordinário a notícia que o procurador da Comuna tinha a dar-lhe.

       Depois, com o rosto impassível que tinha no dia 20 de Junho e a 10 de Agosto, e que devia ter até ao cadafalso, respondeu:

       – Está bem, senhor, e dou-lhe os meus agradecimentos. Servir-me-á o escudeiro de meu filho, e se o conselho até isto me negar, servir-me-ei a mim mesmo.

       Depois, fazendo um ligeiro movimento com a cabeça, acrescentou:

       – A tudo estou resolvido.

       – Tem alguma reclamação a fazer? – perguntou Manuel.

       – Falta-nos roupa – disse o rei – o que é uma grande privação. Julga poder obter da Comuna que nos forneça aquilo de que carecermos?

       – Darei parte ao conselho – respondeu Manuel.

       E vendo que o rei não lhe perguntava notícias, saiu.

       À uma hora o rei mostrou desejos de passear.

       Durante estes passeios, surpreendiam sempre algum sinal de simpatia, feito de alguma janela, e isto era para eles uma consolação.

       Os membros da municipalidade não consentiram que a família real descesse.

       Às duas horas puseram-se à mesa.

       No meio do jantar ouviu-se o rufar dos tambores e muitos gritos.

       Os gritos aproximavam-se do Templo.

       A família real levantou-se e reuniu-se no quarto da rainha.

       O motim cada vez se aproximava mais.

       Qual era a causa de semelhante bulha?

       Estavam assassinando na Force, assim como tinham feito na Abadia.

       Com a diferença porém, que em lugar de Maillard era Hébert quem presidia.

       Portanto a matança era mais terrível.

       E todavia ali era mais fácil salvar os presos.

       Na Force havia menos presos políticos do que na Abadia, os assassinos não eram tantos, e os espectadores não estavam tão encarniçados.

       Mas em vez de ser como na Abadia, onde Maillard dominava a matança; ali era a matança que dominava Hébert.

       Na Abadia salvaram-se quarenta e duas pessoas, na Force nem seis.

       Entre os presos da Force estava a princesa de Lamballe.

       Vimo-la passar nos três últimos livros, que escrevemos, no Colar da Rainha, no Ângelo Pitou, e na Condessa de Charny, como a sombra dedicada de Maria Antonieta.

       Tinham-lhe muito ódio, chamavam-lhe a conselheira da Austríaca. Era sua confidente, sua amiga dedicada, alguma coisa mais, talvez, pelo menos, dizia-se; mas sua conselheira nunca.

       A delicada donzela de Sabóia, com a sua boca pequenina, com sorriso constante, era capaz de amar; assim o provou, mas aconselhar, aconselhar uma mulher viril, teimosa, dominadora como a rainha, repetimo-lo, isso nunca.

       À rainha tinha-a amado, como amara as Srª.s de Guémené, de Marsan e de Polignac; mas leviana e inconstante em todos os seus sentimentos, talvez lhe tivesse feito sofrer tanto como amiga, quanto a Charny amante.

       Com a diferença porém de que o amante tinha-se cansado, a amiga porém conservara-se sempre fiel.

       Ambos morreram por aquela a quem tinham amado.

       Devem lembrar-se dessa noite, que historiamos, no pavilhão de Flora. A Srª. de Lamballe recebia em sua casa, e a rainha via em casa da Srª. de Lamballe aqueles que não podia ver no palácio.

       Suleau e Barnave nas Tulherias. Mirabeau em Saint-Cloud.

       No 1.º de Agosto ainda ela estava em Inglaterra, e lá podia ter ficado gozando longa vida. A meiga e boa criatura, sabendo porém que as Tulherias estavam ameaçadas, foi ocupar o seu lugar junto da rainha.

       A 10 de Agosto, conduzida ao Templo com a rainha, foi logo transferida para a Force.

       Ali percebeu que o fardo excedia as suas forças. Tinha querido morrer conjuntamente com a rainha; assim talvez não lhe custasse a morte.

       Longe da rainha, não se sentia com força de morrer; esta não era da têmpera de Andréia.

       Estava doente de terror.

       A pobre criatura não ignorava o mal que lhe queriam. Encerrada em uma das casas altas da prisão com a Srª. de Navarra, tinha visto, na noite de dois para três, partir a Srª. de Tourzel.

       Isto equivalia a dizer-lhe:

       – Fica para morrer.

       Deitada sobre a cama, tapando a cabeça com a roupa, como faz uma criança quando tem medo, desmaiava a cada instante, e quando tornava a si, dizia:

       – Oh! Meu Deus, cuidei que já era a morte.

       E ajuntava:

       – Se a morte for como um desmaio! Não é, nem doloroso, nem difícil.

       A morte porém estava em toda a parte, no pátio, à porta, nas casas inferiores.

       Os gritos chegavam aos seus ouvidos: cheirava-lhe a sangue.

       Às oito horas da manhã abriu-se a porta.

       O seu medo porém desta vez foi tão grande que nem desmaiou, nem tapou a cabeça com a roupa.

       Voltou a cabeça e viu dois guardas nacionais.

       – Vamos, levante-se, senhora – disse brutalmente um deles – é necessário ir à Abadia.

       – Oh! Senhores – respondeu a princesa – não me é possível sair da cama, estou tão fraca que me seria impossível andar.

       Depois ajuntou com uma voz que mal se percebia:

       – Se é para me matarem, melhor é que seja aqui.

       Um dos homens disse-lhe então ao ouvido, enquanto o outro vigiava a porta:

       – Obedeça, senhora, queremos salvá-la.

       – Então retirem-se, para que me vista.

       Os homens retiraram-se.

       A Srª. de Navarra ajudou-a a vestir, ou antes vestiu-a.

       Passados dez minutos, os dois homens tornaram a entrar.

       A princesa estava pronta.

       Porém não podia andar.

       A pobre senhora estava num grande tremor.

       Encostou-se ao braço do guarda nacional, que lhe tinha falado ao ouvido, e desceu a escada.

       Chegando abaixo, achou-se de repente na presença do tribunal de sangue.

       Como já dissemos Hébert era o presidente.

       À vista daqueles homens de mangas arregaçadas, que se tinham constituído juízes, à vista daqueles homens manchados de sangue, que se tinham feito algozes, desmaiou.

       Interrogada três vezes, três vezes desmaiou sem poder responder.

       – Mas já lhe disse que a queria salvar – repetiu o homem que já lhe tinha falado.

       Esta promessa deu-lhe alguma força.

       – Como se chama? – perguntou Hébert.

       – Maria Luísa, princesa de Sabóia.

       – A sua qualidade?

       – Superintendente da casa da rainha.

       – Está ao facto das tramas da corte na noite de 10 de Agosto?

       – Não sei se houve tramas no dia 10 de Agosto, se as houve sou completamente estranha a elas.

       – Jure a liberdade, a igualdade, ódio ao rei, à rainha e à realeza.

       – Facilmente jurarei as duas primeiras coisas; as outras não me é possível, pois são contrárias ao meu coração.

       – Jure – disse o guarda nacional – aliás morre.

       A princesa estendeu as mãos, e por um instinto deu um passo para a porta.

       – Mas jure – disse o protector.

       Então como se temesse, pelo receio da morte, pronunciar aquele odioso juramento, pôs as mãos na boca, para comprimir as palavras que dela pudessem sair, mau grado seu.

       Por entre os dedos passaram alguns gemidos.

       – Jurou – disse o guarda nacional – que queria salvá-la.

       Depois, ajuntou em voz baixa:

       – Saia depressa, pela porta que está diante de si. Brade: “Viva a nação!” E está salva!

       Saindo achou-se nos braços de um assassino que a esperava.

       Era o grande Nicolau, o mesmo que tinha cortado a cabeça aos dois oficiais em Versalhes.

       Desta vez tinha prometido salvar a princesa.

       Arrastou-se para o que quer que era de informe e ensangüentado, dizendo-lhe em voz baixa:

       – Grite: “Viva a nação!” mas grite de maneira que se ouça.

       A princesa sem dúvida assim o ia fazer, quando, por desgraça, abriu os olhos.

       Achava-se defronte de um monte de cadáveres, sobre o qual um homem batia com os pés, fazendo escorrer sangue de todas as partes, como fazem os camponeses quando pisam uvas.

       – Que horror!

       Este grito não foi ouvido.

       Diz-se que o Sr. de Penthièvre, seu cunhado, tinha dado cem mil francos para a salvar.

       Empurraram-na para a estreita passagem que vai da rua de Saint-Antoine para a prisão, e que se chama a boca de saco dos padres, quando um miserável, um cabeleireiro chamado Charlot, que acabava de assentar praça de tambor num regimento de voluntários, lhe fez saltar o chapéu com a lança.

       Quereria somente tirar-lhe o chapéu ou quereria feri-la no rosto?

       O caso é que o sangue correu.

       O sangue provoca mais sangue.

       Um homem atirou uma pedrada à princesa.

       A pedra feriu-a na nuca.

       Estrebuchou, caiu e ficou de joelhos.

       Já não havia meio de a salvar.

       De todos os lados estavam espadas alçadas, chuços apontados.

       A princesa nem sequer deu um grito; estava morta na realidade desde que pronunciara as últimas palavras.

       Apenas expirou, talvez mesmo que ainda estivesse viva, precipitaram-se sobre ela. Num instante rasgaram-lhe o fato até à camisa, e palpitante ainda, achou-se nua.

       Um sentimento obsceno tinha presidido à sua morte e era a causa de assim a despirem.

       Queriam ver-lhe o belo corpo, a que as mulheres de Lesbos teriam rendido culto.

       Nua como Deus a tinha criado foi exposta sobre um marco.

       Colocaram-se quatro homens diante do marco, lavando e enxugando o sangue que corria por sete feridas.

       Um quinto apontava com uma vara para as belezas que, diziam, tinham outrora sido causa do seu favor, assim como agora tinham sido por certo a causa da sua morte.

       Ficou assim exposta desde as oito horas até ao meio-dia.

       Finalmente, um historiador cansa-se deste curso de história escandalosa feita sobre um cadáver.

       Veio um homem e cortou-lhe a cabeça.

       Ai! Aquele pescoço flexível e longo como o do cisne apresentava pouca resistência.

       O homem que cometeu este crime, talvez mais odioso sobre um cadáver do que sobre um ente vivo, chamava-se Grison. A história é a mais inexorável das divindades. Arranca uma asa; escreve um nome e o nome é votado à execração da posteridade.

       Este homem foi guilhotinado depois como capitão de uma quadrilha de ladrões.

       Outro, chamado Rodi, abriu-lhe o peito e arrancou-lhe o coração.

       Um terceiro, por nome Momin, tirou-lhe outra parte do corpo.

       Era por causa da sua amizade à rainha que assim mutilavam a pobre senhora?

       Era preciso que a rainha fosse muito odiada.

       Espetaram em lanças os três pedaços, que lhe tinham cortado do belo corpo, e encaminharam-se para o Templo.

       Uma multidão imensa seguia os três desalmados assassinos, e além de algumas crianças e de uns poucos de homens bêbados, vomitando sangue e injúrias, todos guardavam profundo silêncio.

       No caminho passaram pela loja de um cabeleireiro.

       Entraram.

       O homem que levava a cabeça foi pô-la em cima de uma mesa.

       – Frize-me esta cabeça – disse ele – vai ver a sua ama ao Templo.

       O cabeleireiro frisou os magníficos cabelos da princesa.

       Depois tornaram a pôr-se a caminho, com grande algazarra.

       Eram estes os gritos que a família real tinha ouvido quando estava à mesa.

       Os assassinos aproximavam-se; incitava-os a abominável idéia de mostrarem à rainha a cabeça, o coração e – o que é inacreditável – essa outra parte daquele belo corpo.

       Apresentaram-se pois no Templo.

       A fita tricolor fechava-lhes a passagem.

       Estes malvados, assassinos e profanadores, não se atreveram a saltar por cima de uma fita.

       Pediram para que uma deputação de seis assassinos, três dos quais levassem os pedaços do corpo, entrassem no Templo e torneassem a torre para mostrarem à rainha aquelas ensangüentadas relíquias.

       O requerimento era tão razoável, que foi deferido sem discussão.

       O rei estava assentado e fingia jogar o gamão com a rainha. Aproximando-se assim sobre pretexto do jogo, podiam ao menos dizer algumas palavras, sem que os membros da municipalidade os ouvisse.

       De repente viu o rei que um deles fechava vivamente a porta e que correndo para a janela puxava as cortinas.

       Era um tal Danjou, antigo seminarista, espécie de gigante, a quem chamavam, por causa da sua gigantesca estatura, o abade de seis pés.

       – Que há de novo? – perguntou o rei – e para que fecha a porta e corre as cortinas?

       O membro da municipalidade, vendo que a rainha estava com as costas voltadas para ele, fazia sinal ao rei para que não o interrogasse.

       Os gritos, porém, as injúrias, as ameaças chegavam-lhe aos ouvidos, apesar das portas e das janelas estarem fechadas. O rei logo viu que se passava alguma coisa terrível e pôs a mão sobre o ombro da rainha, para que se conservasse no seu lugar.

       Neste momento bateram à porta, e ainda que contra a vontade, Danjou foi obrigado a abrir.

       Eram os oficiais da guarda e alguns membros da municipalidade.

       O rei assustado perguntou:

       – Queiram dizer-me, senhores, a minha família está em segurança?

       – Sim – respondeu um homem com uniforme de oficial da guarda nacional. Mas espalhou-se o boato de que não está ninguém na Torre e de que fugiram todos. Portanto queiram chegar à janela para sossegar o povo.

       O rei, que ignorava o que se passava, não viu inconveniente em obedecer.

       Fez pois um movimento para chegar à janela.

       Mas Danjou deteve-o.

       – Não faça tal, senhor – disse ele.

       Depois, voltando-se para os oficiais da guarda nacional, disse:

       – O povo deve mostrar mais confiança nos seus magistrados.

       – Está bem – disse o oficial da guarda nacional – o que se quer é que cheguem à janela. É para lhes fazer ver o coração e a cabeça da princesa de Lamballe, e para lhes mostrar como o povo trata os seus tiranos. Aconselho-os a que cheguem à janela, se não querem que lhes tragam tudo aqui.

       A rainha deu um grito e caiu desmaiada.

       Todavia não tinha visto nada.

       O rei levantou-se ao grito da rainha, e vendo-a pálida e moribunda nos braços da princesa Isabel e da princesa real, disse:

       – Ah! Senhor, podia ter poupado tão grande desgosto à rainha.

       Depois apontando para o grupo das três senhoras, ajuntou:

       – Veja o que fez!

       O guarda nacional encolheu os ombros e saiu cantando a Carmagnole.

       Às seis horas entrou um homem para contar ao rei dois mil e quinhentos francos.

       Era o secretário de Pétion.

       Vendo a rainha em pé e imóvel, julgou que era em sinal de respeito por ele, e teve a bondade de lhe dizer que se assentasse.

       “Minha mãe sempre assim, estava – diz a princesa real nas suas Memórias – porque depois desta horrorosa cena, ficou em pé e imóvel, sem ver coisa alguma do que se passava no quarto”.

       O terror tinha-a tornado em estátua.

 

Valmy

       Agora afastemos por um instante os olhos destas horríveis cenas de carnificina, e sigamos nos grandes desfiladeiros de Argonne um dos personagens da nossa história, no qual neste momento descansam os destinos da França.

       É Dumouriez.

       Como já vimos, Dumouriez, saindo do ministério, reassumira o seu posto de general em actividade, e depois da fuga de Lafayette, recebeu o título de comandante em chefe do exército.

       Esta nomeação foi uma espécie de milagre de intuição da parte das diferentes facções.

       Com efeito Dumouriez era detestado por umas, e desprezado por outras; porém, mais feliz do que foi Danton no dia 2 de Setembro, reconheceu-se que podia salvar a França.

       Os girondinos que o nomearam, odiavam a Dumouriez; tinham-no feito entrar no ministério, e o general depois não fizera caso deles. Todavia, foram buscá-lo ao exército do Norte e nomearam-no comandante em Chefe.

       Os Jacobinos não só odiavam se não que também desprezavam Dumouriez. Contudo conheceram que a primeira ambição daquele homem era a glória, e que ele havia de vencer ou morreria. Robespierre, que não se atrevia a sustentá-lo, pela má reputação do general, fez com que Couthon sustentasse.

       Danton nem odiava nem desprezava Dumouriez. Era um destes homens de têmpera forte, que julgam as coisas de alto, que não curam das reputações e que estão prontos a aproveitar os próprios vícios, se os vícios, lhes podem dar os resultados, que as virtudes lhes recusam.

       Porém Danton, apesar de conhecer o partido que podia tirar de Dumouriez, desconfiava da estabilidade dele. Enviou-lhe dois homens; um foi Fabre d'Églantine, isto é, o seu pensamento; o outro foi Westermann, isto é o seu braço.

       Entregaram todas as forças da França àquele homem, o que parece um paradoxo, pois quase todos o alcunhavam de intrigante.

       O velho Cucker, soldado alemão, que tinha mostrado a sua incapacidade no começo da campanha, foi mandado a Châlons para levantar recrutas.

       Dillon, soldado valente, general distinto, mais elevado do que Dumouriez na hierarquia militar, recebeu ordem de lhe obedecer.

       Kellermann também foi posto às ordens daquele homem, a quem a França aflita entregava a espada, dizendo-lhe:

       “Só a ti conheço capaz de me defender; defende-me pois”.

       Kellermann rosnou, praguejou, mas obedeceu.

       Porém obedeceu mal. Foi preciso ouvir o estampido da artilharia para o tornar o que realmente era, um filho dedicado à pátria.

       Mas por que razão os aliados, cujas marchas deviam ser seguidas até Paris, paravam de repente depois da tomada de Longwy, e depois de se render Verdun?

       Entre eles e Paris estava levantado um espectro.

       O espectro era Beaurepaire.

       Beaurepaire, antigo oficial de carabineiros, tinha formado o batalhão de Marne e Loire, que comandava. No momento em que o inimigo pôs o pé em território francês, atravessou ele a França a marche-marche de Oeste a Leste.

       Encontrou no caminho um deputado patriota que voltava para a terra.

       – Que hei-de dizer da parte de vocês às suas famílias? – perguntou o deputado aos soldados.

       – Que morremos – respondeu uma voz.

       – Nenhum espartano marchando para as Termópilas deu resposta mais sublime.

       O inimigo chegou diante de Verdun, como já dissemos. Foi a 30 de Agosto de 1792. A 31 intimou a cidade para que se rendesse.

       Beaurepaire e os seus soldados queriam combater até à morte.

       O conselho de defesa, composto por camaristas e pelos principais habitantes da cidade, ordenou-lhes que se rendesse.

       Beaurepaire sorriu-se desdenhosamente.

       – Fiz juramento de antes morrer do que render-me. Sobreviverei à vossa vergonha e desonra, se assim o quereis, mas fico fiel ao meu juramento. Eis a minha resolução inabalável: Morro.

       E fez saltar os miolos.

       Este espectro era tão grande e mais terrível do que o gigante Adamastor.

       Então, os soberanos aliados, que julgavam pelo que lhes diziam alguns emigrados, que a França ia fugir diante deles, viram que a coisa era outra.

       Viam esta terra de França tão fecunda e povoada, transformada num deserto como tocada por vara mágica. Os cereais tinham desaparecido como se a terra os houvesse engolido.

       Só o camponês armado estava de pé no rego que sulcara. Os que tinham espingardas haviam pegado nas espingardas; os que só tinham fouces haviam pegado nas fouces; e os que unicamente tinham forcados haviam pegado nos forcados.

       Além disto o tempo tinha-se declarado pela França. Uma chuva copiosa molhava os homens, encharcava as terras e desfazia os caminhos.

       É verdade que esta chuva tanto caiu para uns como para outros, tanto para os franceses como para os prussianos.

       Porém era em socorro dos franceses e era hostil aos prussianos.

       O camponês, que para o inimigo só tinha a espingarda, o forcado ou a fouce, ou pior do que tudo isto, frutos verdes, o camponês tinha para os seus compatriotas escondido o copo de vinho, a garrafa de cerveja enterrada no celeiro e a palha seca, verdadeira cama do soldado, espalhada pelo chão.

       Cometeram-se faltas sobre faltas, e Dumouriez foi o primeiro que as cometeu; nas suas Memórias conta ele tanto as suas como as dos outros.

       Tinha escrito à Assembléia Nacional: os desfiladeiros de Argonne são as Termópilas da França; podeis porém estar descansados, mais feliz do que Leónidas, decerto não morrerei.

       E fez mal em guardar os desfiladeiros de Argonne porque um deles foi tomado e ele viu-se obrigado a retirar.

       Dois dos seus tenentes estavam perdidos. E ele também estava separado e quase perdido só com 15000 homens, e estes em tal desmoralização, que por duas vezes fugiram adiante de 1500 hussards. Só ele não desanimou, conservou sempre confiança e até alegria, escrevendo aos ministros: “Respondo por tudo”. E com efeito, perseguido, torneado, cortado, reuniu-se com os 10000 homens de Bournouville, e com os 15000 de Kallermann. Tornou a recobrar os seus generais perdidos e a 19 estabeleceu-se no campo de Saint-Menchould, estendendo à direita e à esquerda as mãos sobre 76000 homens, quando os prussianos só tinham 70000.

       É verdade que aquele exército muitas vezes murmurava. Às vezes, estava dois ou três dias sem pão.

       Então Dumouriez envolvia-se com os soldados e dizia-lhes amavelmente:

       – Meus amigos, o famoso marechal de Saxe fez um livro sobre a guerra, no qual diz que ao menos uma vez por semana é necessário fazer com que falte o pão aos soldados, para, em caso de necessidade, se tornarem menos sensíveis a esta privação.

       “Estamos neste caso, e somos menos dignos de lástima do que os prussianos, que estão defronte de nós, que passam às vezes quatro dias sem comer pão e que comem os cavalos que lhes morrem. Os meus soldados têm presuntos, arroz e farinha. Façam bolos, que a liberdade os cozerá!”

       Além disto ainda havia outra coisa pior; era a escória de Paris, a canalha de 2 de Setembro, que tinha sido empurrada para o exército. Todos estes miseráveis tinham ido cantando o Çá ira, gritando que não consentiriam de nenhum modo, nem dragonas, nem chapéus de plumas, nem hábitos de S. Luís.

       Chegaram assim ao campo, mas ficaram admirados por se verem isolados. Ninguém respondeu nem às suas ameaças, nem às suas proposições.

       O general anunciou uma revista para o dia seguinte.

       No dia seguinte os recém-chegados, por uma manobra de antemão preparada, acharam-se entre a cavalaria numerosa e hostil, pronta a acutilá-los, e a artilharia ameaçadora, pronta a metralhá-los.

       Então Dumouriez dirigindo-se a estes homens, que formavam sete batalhões, disse-lhes:

       – Vós outros, a quem não quero chamar nem soldados, nem cidadãos, nem meus filhos, vede diante de vós esta cavalaria, na vossa retaguarda a artilharia, isto quer dizer que estais entre o ferro e o fogo.

       “Tendes-vos desonrado por toda a sorte de crimes, e eu não consentirei aqui nem assassinos nem algozes. À menor desordem mando-vos fazer em pedaços. Se vos emendardes, se vos conduzirdes como este valente exército, em que tivestes a honra de ser admitidos, achareis em mim um bom pai. Sei que entre vós há malvados encarregados de vos impelir ao crime, despedi-os vós mesmos ou declarai-me quem são. Uns ficam responsáveis pelos outros”.

       E não só aqueles homens curvaram a cabeça e tornaram-se excelentes soldados; não só expulsaram os indignos, mas até fizeram em pedaços o miserável Charlot, que tinha ferido a princesa de Lamballe, e que lhe tinha espetado a cabeça numa lança.

       Foi nesta situação que esperaram Kellermann, sem o qual não se podia fazer nada.

       A 19 Dumouriez recebeu parte de que ele estava a duas léguas dali, à sua esquerda.

       Dumouriez enviou-lhe imediatamente as suas ordens.

       Mandou-lhe dizer que no dia seguinte fosse ocupar o campo entre Dampierre e l'Élise, atrás de Lauve.

       O sítio foi muito bem designado.

       Ao mesmo tempo que Dumouriez enviava esta ordem a Kellermann, via desenvolver diante de si sobre as montanhas da Lua o exército prussiano; de sorte que os prussianos achavam-se entre ele e Paris e portanto mais pertos de Paris do que ele.

       Havia toda a probabilidade de que os prussianos quisessem travar batalha.

       Por conseqüência, Dumouriez mandou dizer a Kellermann que tomasse posições de combate sobre as alturas do moinho, entre Valmy e Gizaucourt.

       Kellermann confundiu o seu campo com o campo do combate. Fez alto nas alturas de Valmy.

       Foi um grande erro.

       Nesta posição Kellermann não podia voltar-se sem fazer passar o seu exército por um estreito e grande desfiladeiro.

       Não podia dobrar sobre a esquerda de Dumouriez sem atravessar um imenso pântano.

       Não podia voltar para a direita senão por um vale profundo, onde seria esmagado.

       A retirada não lhe era possível.

       Seria isto o que tinha pretendido o velho soldado alsaciano?

       Um belo sítio para morrer ou vencer.

       Brunswick olhava atónito para os franceses.

       – Os que ali estão – disse ele ao rei da Prússia – estão decididos a não recuar.

       Mas fizeram crer ao exército prussiano que Dumouriez estava cortado, e asseguraram-lhe que este exército de vagabundos e miseráveis, como lhes chamavam os emigrados, se dispersaria aos primeiros tiros, que se disparassem.

       Tinham-se descuidado de fazer ocupar as alturas de Gizaucourt pelo general Chazot, que estava postado no caminho de Châlons, alturas donde teriam batido os prussianos pelo flanco.

       Os prussianos aproveitaram o descuido, e postaram-se ali.

       O dia nasceu muito enevoado. Mas pouco importava, porque os prussianos sabiam onde estava o exército francês.

       Estava nas alturas de Valmy e não podia estar noutra parte.

       Sessenta bocas de fogo foram disparadas ao mesmo tempo.

       Atiraram ao acaso, mas atiravam sobre as massas, e portanto pouco importava a pontaria.

       Muito custou a este exército, que sabia perfeitamente atacar, mas que não era capaz de esperar a pé firme, suportar o fogo.

       Demais o acaso foi contra os franceses.

       Os obuses dos prussianos incendiaram algumas carretas de pólvora.

       Os condutores saltaram dos cavalos para se colocarem ao abrigo da explosão.

       Tomaram-nos por fugitivos.

       Kellermann guiou o cavalo para este sítio, onde tudo era confusão e desordem.

       De repente viu-se cair ele e o cavalo como feridos por um raio.

       O cavalo fora atravessado por uma bala; o cavaleiro, felizmente não teve nada. Montou noutro cavalo, e reuniu os batalhões, que estavam em desordem.

       Davam onze horas da manhã e o nevoeiro começava a dissipar-se.

       Kellermann viu os prussianos, que formavam sossegadamente em três colunas para atacarem a plataforma de Valmy.

       Formou os seus soldados também em três colunas, e correndo toda a linha, bradou:

       – Soldados, nem um tiro; esperai o inimigo e recebei-o à baioneta.

       Depois, espetando o chapéu na ponta da espada, exclamou:

       – Viva a nação!

       Ao mesmo tempo todo o exército imitou o seu exemplo; todos os soldados espetaram os chapéus nas espadas, bradando: Viva a nação! O nevoeiro dissipou-se então de todo, e Brunswick viu aquele espectáculo extraordinário, singular, inaudito.

       Trinta mil franceses, imóveis, com a cabeça descoberta, agitando as armas e respondendo ao fogo do inimigo com o grito de “Viva a nação!”

       Brunswick abanou a cabeça. Se ele estivesse só, o exército prussiano não teria dado um passo; mas estava ali o rei; ele queria a batalha a todo o transe, era mister obedecer.

       Os prussianos avançaram com firmeza, o rei da Prússia e Brunswick seguiram-no com a vista.

       Transpuseram o espaço que os separava dos inimigos com a firmeza de um velho exército de Frederico.

       Cada homem parecia ir preso por um anel de ferro ao que o precedia.

       De repente parecia que a serpente se partira pelo meio, mas os soldados logo tornaram a unir-se.

       Passados cinco minutos, estava de novo partida e outra vez ligada.

       Vinte peças de Dumouriez tomavam-nos de flanco com um fogo mortífero.

       A cabeça não podia subir puxada continuamente para trás pelas convulsões do corpo que estava sendo esmagado pela metralha.

       Brunswick viu que era uma batalha perdida, e mandou tocar a retirar.

       O rei porém mandou carregar, pôs-se à frente dos soldados, e levou a sua dócil e valente infantaria até debaixo do fogo de Kellermann e do Dumouriez.

       Ele caiu sobre as linhas francesas.

       O quer que era de luminoso e esplêndido adejava sobre o exército da França.

       Era a fé.

       Brunswick disse:

       “Depois das guerras da religião nunca se viram fanáticos como estes”.

       Eram deveras fanáticos sublimes, fanáticos pela liberdade.

       Os heróis de 93 vinham começar esta grande conquista da guerra, que devia terminar pela conquista os espíritos.

       A 20 Dumouriez salvava a França.

       No dia seguinte a Convenção emancipava a Europa, proclamando a república!

 

O dia 21 de Setembro

       A 21 de Setembro, ao meio-dia, antes que fosse conhecida em Paris a vitória alcançada na véspera por Dumouriez, abriram-se as portas da sala do Manejo, e viu-se entrar lenta e solenemente, lançando uns aos outros olhares interrogadores, os setecentos e quarenta e nove membros que compunham a nova Assembléia.

       Destes só duzentos eram da antiga Assembléia.

       A Convenção nacional tinha sido eleita sob a impressão das notícias de Setembro. Poderia julgar-se que fosse uma Assembléia reaccionária; mas ainda tinham sido eleitos muitos nobres; tendo um pensamento democrático, convidados os criados a votarem, alguns tinham votado nos amos.

       Os novos deputados eram quase todos burgueses, médicos, advogados, professores, padres ajuramentados, literatos, jornalistas e negociantes.

       O espírito de toda esta gente era irrequieto e Vacilante; quinhentos representantes, pelo menos, não eram girondinos, nem montanheses. Os acontecimentos é que deviam determinar o lugar que ocupariam na câmara.

       Todos eram unânimes neste duplo ódio.

       Ódio contra os dias de Setembro.

       Ódio contra quase todos os deputados de Paris, que tinham sido a causa dos acontecimentos daqueles dias.

       E parecia que o sangue derramado corria pelo meio da sala do Manejo e isolava os montanheses do resto da Assembléia.

       O próprio centro, como para se afastar do regato, vermelho, pendia para a direita.

       É porque a montanha (referimo-nos aos homens e aos sucessos que acabam de ocorrer) apresentava um aspecto terrível.

       Primeiro, nos bancos inferiores estava toda a Comuna.

       Acima da Comuna estava a célebre junta de vigilância.

       Depois, da junta de vigilância como uma hidra de três cabeças, estavam três rostos terríveis, três máscaras profundamente caracterizadas.

       Primeiro do que todos, a fria e impassível figura de Robespierre, com a pele que parecia pergaminho, a testa curta e os olhos piscos e tapados pelos óculos, de mãos estendidas sobre os joelhos, à maneira das figuras egípcias talhadas no mais duro de todos os mármores, no pórfiro, Robespierre, que parecia ser o único que tinha a chave do enigma da revolução, mas a quem ninguém se atrevia a perguntar coisa alguma.

       Junto a ele Danton, com o rosto transtornado, boca à banda, com a sua máscara imóvel, caracterizado por uma sublime lealdade, com o corpo fabuloso, metade homem, metade touro, quase simpático apesar de tudo isso, porque se sentia o que fazia bater aquele coração, profundamente patriótico, coração a que as mãos sempre obedeciam, ou para derrubar um inimigo, que estivesse em pé, ou para o levantar, se estivesse no chão.

       Depois, ao lado daqueles dois rostos de tão diferente expressão, atrás deles, por cima deles aparecia, não um homem, não é possível à criatura humana assumir tanta fealdade, mas um monstro, uma quimera, uma visão terrível e ridícula.

       Marat.

       Marat, de cor acobreada, manchado de sangue e de bílis, de olhos indolentes, boca largamente rasgada, disposta para lançar, ou antes para vomitar a injúria, com o nariz torcido, vaidoso, aspirando pelas ventas abertas o bafo da popularidade.

       Marat, trajando como o mais esfarrapado dos seus admiradores, com um lenço sujo à roda da cabeça, com os sapatos cheios de tombas, com umas calças muito grosseiras e cheias de lama, com uma camisa, que deixava ver o descarnado peito; com uma gravata preta, sebenta; com as mãos grosseiras, sempre ameaçadoras, e nos intervalos das suas ameaças, metendo os grossos dedos pelas crinas que lhe cobriam a cabeça.

       Este todo, tronco do gigante sob pernas de anão, era hediondo, e quem o via queria logo afastar dele os olhos com horror.

       Mas os olhos não se afastavam tão depressa que não lessem sobre tudo: 2 de Setembro, e então a vista ficava fixa nele como sobre outra cabeça de Medusa.

       Eis os homens que os girondinos acusavam de aspirarem à ditadura.

       Eles, pela sua parte, acusavam os girondinos de quererem federalismo.

       Dois homens que estão presos por opiniões e interesses diferentes à narração que empreendemos, estavam assentados nos dois lados da câmara.

       Billot e Gilberto.

       O Dr. Gilberto na extrema direita, entre Lanjuinais e Kersaint.

       Billot na extrema esquerda, entre Thuriot e Couthon.

       Por que assim digamos, os membros da antiga Assembléia legislativa, escoltavam a revolução.

       Iam abdicar solenemente e entregar os poderes, de que estavam munidos, nas mãos dos seus sucessores.

       Francisco de Neufchâteau, último presidente da Assembléia, subiu à tribuna e tomou a palavra:

      

       “Representantes da nação, a Assembléia legislativa acabou os seus trabalhos e depõe o poder nas vossas mãos.”

       “O fim dos vossos esforços será dar aos franceses liberdade, justiça e paz. A liberdade, sem a qual não podem viver; a justiça, o mais firme fundamento da liberdade; a paz, o único fim da guerra.”

       “LIBERDADE, JUSTIÇA, PAZ, estas três palavras foram gravadas pelos gregos no templo de Delfos.”

       “Vós as gravareis em todo o terreno da França”.

      

       A Assembléia legislativa tinha durado um ano e viu três acontecimentos enormes e terríveis: O 20 de Junho, o 10 de Agosto, os 2 e 3 de Setembro.

       Deixava à França a guerra com duas potências do Norte.

       A guerra civil da Vendeia.

       Uma dívida de duzentos milhões de assinados.

       E a vitória de Valmy, ganha na véspera, e ainda de todos ignorada.

       Pétion foi nomeado presidente por aclamação.

       Condorcet, Brissot, Rabant, Saint-Étienne, Vergniaud Camus e Lasource foram nomeados secretários.

       Cinco girondinos por cada seis.

       Quase toda a Convenção, excepto trinta ou quarenta membros, queria a república.

       Mas os girondinos tinham decidido numa reunião, em casa da Srª. Roland, que não se admitiria discussão sobre a mudança de governo, senão em tempos e também certo lugar.

       Isto é, depois de se apoderarem das comissões da constituição.

       Mas em 20 de Setembro, no mesmo dia da batalha de Valmy, outros combatentes davam também uma batalha decisiva.

       Saint-Just, Lequínio, Panis, Billaud-Verennes, Collot D'Herbois e alguns outros membros da futura Assembléia jantavam no Palais-Royal.

       Resolveram que no dia seguinte a palavra República seria lançada aos seus inimigos.

       – Se a levantarem – disse Saint-Just – estão perdidos, porque fomos nós os primeiros que pronunciámos tal palavra. Se não a aceitam perdidos estão, porque opondo-se a este desejo do povo serão esmagados pela impopularidade, que reuniremos sobre as nossas cabeças.

       Collot-d’Herbois encarregou-se da moção.

       Portanto, logo que Francisco Neufchâteau entregou os poderes da antiga Assembléia à nova, Collot-d’Herbois pediu a palavra.

       Foi-lhe concedida.

       Subiu à tribuna e disse:

      

       “Cidadãos representantes, proponho que o primeiro decreto da Assembléia, que acaba de se reunir, seja a abolição da realeza”.

       Mal foram pronunciadas estas palavras elevou-se na sala e nas tribunas uma aclamação estrondosa.

       Só se levantaram dois opositores, dois republicanos muito conhecidos.

       Barrére e Quinette.

       Pediram que esperasse pelo voto do povo.

      

       “O voto do povo? Para quê? – perguntou admirado um pobre cura de aldeia – para que serve deliberar, quando todos estão de acordo?”

       “Os reis são na ordem moral o que os monstros são na ordem física; as cortes são as oficinas de todos os crimes; a história dos reis é o martirológio das nações”.

      

       Perguntaram quem era o homem que acabava de fazer aquela curta mas enérgica história dos reis.

       Poucos o conheciam. Chamava-se Grégoire.

       Os girondinos sentiram o golpe, que tão certamente lhes era dirigido.

       Iam ser preferidos pelos montanheses.

       – Não acaba a sessão enquanto não estiver redigido o decreto – gritou do seu lugar Ducos, o amigo e discípulo de Vergniaud. O decreto não carece de ser discutido, depois dos esclarecimentos do dia 10 de Agosto. Todas as considerações que podem fazer-se ao vosso decreto da abolição da realeza serão a história dos crimes de Luís XVI.

       Portanto, o equilíbrio achava-se restabelecido, os montanheses tinham pedido a abolição da realeza, mas os girondinos tinham pedido com instância o estabelecimento da república.

       A República não foi decretada; foi votada por aclamação unânime.

       Não só se lançavam no futuro para fugirem do passado, mas até iam buscar o que não conheciam pelo ódio que tinham àquilo que conheciam.

       A proclamação da República respondia a uma grande necessidade popular.

       Era a consagração da longa luta, que o povo tinha sustentado desde as Comunas; era a abolição da Jacquerie, dos Maillotins, da Liga, da Fronda, da Revolução, era o povo coroado em detrimento da realeza.

       Dir-se-ia, tão grande era a liberdade com que cada cidadão respirava, que acabavam de tirar do peito de todos o peso da realeza.

       As horas de ilusão foram curtas, mas magníficas; julgavam proclamar somente uma República e acabavam de consagrar uma revolução.

       Não importa, tinham feito uma grande coisa, que ia por mais de um século abalar o mundo.

       Os verdadeiros republicanos, ao menos os mais puros, aqueles que queriam a república isenta de crimes, aqueles que no dia seguinte iam ornar a fronte com o triunvirato, Danton, Robespierre e Marat, os Girondinos, estavam no cúmulo da alegria.

       A República era a realização do seu mais querido voto; acabavam, graças a ela, de recuperar, sobre as ruínas de vinte séculos, o tipo dos governos humanos.

       A França tivera uma Atenas no tempo de Francisco I e Luís XIV, com eles a tornar-se uma Esparta.

       Era um sonho belo, sublime.

       Para o festejarem, reuniram-se à noite em casa do ministro Roland, onde se achavam Vergniaud, Gaudet, Louvet, Pétion, Boyer-Fonfrède, Barbaroux, Gensonné, Grangeneuve, Condorcet; convivas que, no fim de um ano, deviam reunir-se num banquete ainda mais solene.

       Ali, voltando todos as costas ao dia seguinte, fechando os olhos ao futuro, lançaram voluntariamente o véu sobre o Oceano desconhecido onde entravam, e onde ouviam bramir esse abismo que, semelhante ao Maelstrom das fábulas orientais, devia engolir quando não fosse o navio, ao menos os pilotos e os marinheiros.

       Por todos eles o seu pensamento incarnara, tomara um corpo, uma forma, um aspecto; a jovem república, como Minerva, saía armada com o capacete e com a lança.

       Que mais se podia pedir?

       Durante as duas horas que durou o solene banquete, houve uma infinidade de elevados pensamentos, atrás dos quais se agrupavam grandes acontecimentos; estes homens falavam na sua vida como numa coisa que já não lhes pertencia, mas sim à nação; se fosse preciso, até a fama abandonariam.

       Havia mesmo alguns que na sua louca embriaguez viam abrir-se-lhe diante dos olhos os horizontes azulados e infinitos, que só em sonhos aparecem.

       Estes eram mancebos ardentes, que na véspera tinham entrado na mais poderosa de todas as lutas, na luta da tribuna.

       Eram Barbaroux, Rabecqui, Ducos, e Boyer-Fonfrède.

       Havia outros que pensavam e faziam alto no meio do caminho, recobrando forças para o que lhes faltava andar.

       Eram os que se tinham curvado sob os trabalhosos dias da legislativa.

       Eram os Gaudet, os Gensonné, os Grengeneuve, os Vergniaud.

       Havia finalmente outros, que, vendo-se chegados ao termo da sua carreira, compreendendo que a sua popularidade os abandonava, deitados à sombra das tenras folhas da nova árvore republicana, perguntavam com melancolia se valia bem a pena, tornarem a levantar-se, cingir os rins, pegar novamente no bordão dos viageiros para irem tropeçar no primeiro obstáculo.

       Eram Roland e Pétion.

       Mas aos olhos de todos aqueles homens qual era o chefe do futuro, qual era o principal autor, qual seria o futuro moderador da jovem república?

       Era Vergniaud.

       No fim do jantar, encheu o copo, levantou-se e disse:

       – Amigos, uma saúde.

       Todos se levantaram.

       – À eternidade da república!

       Todos repetiram:

       – À eternidade da república!

       Ia levar o copo à boca, quando a Srª. Roland exclamou:

       – Espere!

       Tinha ao peito uma rosa fresca, que acabava de abrir como a nova era, em que entravam.

       Tomou-a, e como teria feito uma ateniense no copo de Péricles, desfolhou-a no copo de Vergniaud.

       Vergniaud sorriu tristemente, despejou o copo e voltou-se para Barbaroux, que estava à sua esquerda, dizendo:

       – Ai de mim! Grande receio tenho de que esta alma generosa se engane; não são folhas de rosa, mas ramos de cipreste que temos de deitar esta noite no nosso vinho. Bebendo como brinde a uma República, cujos pés estão banhados no sangue de Setembro, Deus sabe se esta saúde é feita à nossa morte; não importa, porém – ajuntou ele, lançando para o Céu um olhar sublime – ainda que em lugar deste vinho fosse o meu sangue, bebê-lo-ia à liberdade e à igualdade.

       – Viva a República! – repetiram em coro todos os convivas.

       No momento, pouco mais ou menos em que Vergniaud fazia esta saúde, e em que os outros convivas lhe respondiam com o grito de “Viva a República” tocavam as trombetas defronte do Templo, e seguia-se um grande silêncio.

       Então do seu quarto, cujas janelas estavam abertas, o rei e a rainha puderam ouvir um membro da municipalidade que, com voz firme, sonora, retumbante, proclamava a abolição da realeza e o estabelecimento da República.

 

A lenda do rei mártir

       Tem-se visto com que imparcialidade temos, servindo-nos sempre da forma do romance, posto aqui perante os olhos dos nossos leitores o que houve de terrível, de cruel, e de bom, de grande e belo nos homens e nos acontecimentos que se sucederam.

       Hoje os homens de que falámos, estão mortos; só os acontecimentos – imortalizados pela história – os acontecimentos que não morrem, estão ainda de pé.

       Não importa; nós podemos evocar da sepultura todos esses cadáveres que nela estão deitados, e dos quais poucos morreram tendo preenchido os fins da sua vida; podemos dizer a Mirabeau, tribuno, levanta-te; a Luís XVI, senhor, levantai-vos; levantai-vos vós todos, a quem chamavam Favras, Lafayette, Bailly, Fournier o Americano, Jourdain corta-cabeças, Maillard, Théroigne de Méricourt, Barnave, Bouillé, Gamain, Pétion, Manuel, Danton, Robespierre, Marat, Vergniaud, Dumouriez, Maria Antonieta, a Srª. Campan, Barbaroux, Roland, a Srª. Roland, o rei e a rainha, artistas, operários, tribunos, generais, assassinos, e publicistas, levantai-vos, e dizei se não vos apresentei à minha geração, ao povo, principalmente às mulheres, isto é, às mães de nossos filhos, a quem de todo o coração quero contar a história.

       Nós podemos dizer aos acontecimentos ainda de pé nos dois lados da estrada que temos percorrido: “Grande e luminoso dia 14 de Julho; sombrias e ameaçadoras noites de 5 e 6 de Outubro; sangrenta borrasca do Campo de Marte, em que a pólvora se misturou com o raio e o estampido dos canhões com o ribombar do trovão; profética invasão de 20 de Junho; terrível vitória de 10 de Agosto; execrável memória dos dias 2 e 3 de Setembro, tentei absolver-vos ou condenar-vos?”

       E os homens e os acontecimentos responderão:

       – Procuraste a verdade sem ódio, sem paixão; conservastes-te fiel a todas as glórias do passado, insensível a todos os deslumbramentos do presente, confiado em todas as promessas.

       Sede absolvido, se não louvado.

       Pois bem! O que temos feito, não como juiz escolhido, mas como narrador imparcial, vamos fazê-lo até ao fim, do qual, cada passo mais nos aproxima rapidamente; corremos pelo declive dos acontecimentos, e há pouco onde parar desde 21 de Setembro, dia da morte da realeza, até 21 de Janeiro, dia da morte do rei.

       Ouvimos a proclamação da República, feita debaixo das janelas da prisão real pela voz forte do membro da municipalidade Lubin, e esta proclamação levou-nos ao Templo.

       Entremos pois no sombrio edifício, que encerra um rei tornado homem, uma rainha que ficou rainha, uma virgem que virá a ser mártir, e duas pobres crianças, inocentes pela idade; senão pelo nascimento.

       O rei estava no Templo, e quiseram tornar-lhe vergonhosa a prisão, que ocupava?

       Não.

       Pétion teve primeiramente a idéia de o transportar ao centro da França, de lhe dar Chambord e de o tratar como rei deposto.

       Supondo que todos os soberanos da Europa impunham silêncio aos ministros, aos seus generais, aos seus manifestos, e se contentavam de ver o que se passava em França, sem quererem intrometer-se na política interna dos franceses, essa deposição, de 10 de Agosto, essa existência num belo palácio, num belo clima, no meio do que se chama o jardim da França, não era decerto um castigo bem cruel para o homem que expiava não só as suas faltas, mas as de Luís XV e de Luís XIV.

       A Vendeia acabava de levantar-se. Objectou-se portanto que poderia dar-se algum golpe atrevido pelo Loire.

       A razão pareceu mais que suficiente, e nunca mais se falou em Chambord.

       O Luxemburgo, palácio florentino de Maria de Médicis, com a sua polidez, com os seus jardins rivais dos das Tulherias, era uma residência não menos conveniente para um rei deposto, que a de Chambord.

       Objectaram que o palácio tinha subterrâneos, que davam para as Catacumbas. Talvez que isso não passasse de um pretexto da Comuna, que queria ter o rei debaixo da mão; não era um pretexto um tanto ou quanto plausível.

       A Comuna votou pois pelo Templo.

       Por isto entendia-se, não a torre do Templo, mas o palácio, antiga comendadoria dos chefes de uma ordem, uma das casas de recreio do conde de Artois.

       No momento de trasladação, talvez mais tarde, depois de Pétion conduzir a família real ao palácio, depois de ali estar instalada, quando Luís XVI fazia as suas disposições de arranjo de casa, chegou uma denúncia à Comuna; em conseqüência disso enviaram Manuel para mudar a última vez a determinação da municipalidade e para ser substituído o castelo pela torre. Manuel chegou a examinar o local destinado para residência de Luís XVI e de Maria Antonieta e desceu muito envergonhado.

       A torre estava incapaz de ser habitada; ocupada só por uma espécie de porteiro, apresentava lugar insuficiente, quartos estreitos, e leitos imundos e cheios de bichos.

       Havia em tudo isso mais fatalidade do que premeditação infame da parte dos juízes.

       A Assembléia Nacional pela sua parte, não tinha regateado a respeito das despesas do rei. O rei comia muito; não é uma censura que lhe fazemos; é do temperamento dos Bourbons serem grandes comilões; porém o rei comia em ocasiões impróprias. O rei comia e com grande apetite, enquanto nas Tulherias estavam matando os seus servidores; não só os juízes que lhe lançavam em rosto o comer em ocasiões de aflição, mas o que é mais grave, a história, a implacável história registrou-o nos seus arquivos.

       A Assembléia Nacional tinha votado 500.000 libras para despesas de cozinha do rei.

       Durante os quatro meses que o rei esteve no Templo, a despesa foi de 40.000 libras por mês.

       Trezentos e trinta e três francos por dia; verdade é que em assinados, mas nessa época nos assinados perdia-se apenas 6 ou 8 por cento.

       Luís XVI tinha no Templo três criados e treze empregados de ucharia.

       O seu jantar constava todos os dias de quatro entradas, de dois assados, cada um de três peças, de quatro pratos de meio, de três compotas, de três pratos de fruta, de meia garrafa de Bordéus, meia garrafa de malvasia e de meia garrafa de Madeira.

       Ele e o delfim eram os únicos que bebiam vinho; a rainha e as princesas só bebiam água.

       Por este lado, materialmente, o rei não era digno de lástima.

       Mas o que lhe faltava era ar, onde passear, sol e sombra.

       Habituado às caçadas de Compiègne e de Rambouillet, aos parques de Versalhes e do grande Trianon, Luís XVI achou-se de repente reduzido, não a um pátio, não a um jardim, não a um passeio, mas a um terreno seco, nu, com quatro canteiros de erva seca, com algumas árvores miseráveis e desfolhadas pelo vento do Outono.

       Todos os dias, às duas horas, o rei passeava ali com a sua família. Enganámo-nos: todos os dias era ali o rei passeado com a sua família.

       Era inaudito, cruel, feroz; mas menos feroz, menos cruel do que os subterrâneos da inquisição em Madrid, do que o segredo do conselho dos Dez em Veneza, do que as masmorras de Spielberg.

       Notai bem isto: não desculpamos a Comuna, assim como não desculpamos os reis; dizemos porém que o Templo não era mais do que uma represália, terrível, fatal, porque de um julgamento faziam uma perseguição, de um culpado, um mártir.

       Qual era porém o aspecto dos diferentes personagens, que empreendemos seguir nas fases principais da sua vida?

       O rei, com a vista míope, as faces encovadas, os beiços caídos, com andar pesado e balanceando, parecia um bom rendeiro ferido por algum revés; a sua melancolia era a de um agricultor, a quem uma tempestade destruísse as sementeiras.

       A atitude da rainha era, como sempre, altiva e soberanamente provocadora, tinha inspirado amor no tempo da sua grandeza, na hora da sua desgraça inspirou dedicação.

       Piedade não, a piedade nasce da simpatia, e a rainha nada tinha de simpática.

       A princesa Isabel, com o seu vestido branco, símbolo da pureza da sua alma e do seu corpo, com os cabelos louros, agora mais lindos porque não andavam empoados, com uma fita azul na cintura, parecia o anjo da guarda de toda a família.

       A princesa real, apesar dos encantos da sua idade, causava pouco interesse; toda Austríaca como sua mãe, toda Maria Antonieta e Maria Teresa, já tinha o olhar, o desprezo, a fereza das raças reais e das aves de presa.

       O pequeno delfim, com os cabelos de ouro, com a tez branca, um pouco doente, era interessante; tinha todavia o olhar duro, compreendia tudo, seguia as indicações que lhe dava a mãe, e tinha às vezes ditos, que chegavam a arrancar lágrimas, dos olhos dos seus algozes.

       A pobre criança chegou a impressionar o próprio Chaumette, essa fuinha de focinho comprido, essa doninha de óculos.

       – Hei-de mandá-lo educar – dizia ele ao Sr. Hue escudeiro do rei – mas é preciso afastá-lo da família, para que perca a idéia da jerarquia.

       Com efeito a Comuna era ao mesmo tempo cruel e imprudente, cruel por rodear a família real de maus tratos, de vexames e até de injúrias.

       Imprudente, por deixar presenciar o espectáculo da sua crueldade.

       Todos os dias mandavam para o Templo guardas novos, sob o nome de municipais; entravam inimigos encarniçados do rei, saíam inimigos de Maria Antonieta, mas quase todos deplorando o rei, deplorando as crianças, glorificando a princesa Isabel.

       De feito, o que viam no Templo? Em lugar do lobo, da loba e dos lobinhos, viam uma família de burgueses, a mãe um pouco altiva, uma espécie de Elmira, que nem sequer sofria que lhe tocassem no vestido, mas de tiranos nem sinal.

       Como passava a família os dias no Templo? Digamo-lo, segundo Cléry.

       Lancemos em primeiro lugar a vista sobre a prisão, que depois a dirigiremos sobre os presos.

       O rei estava encerrado na torre pequena.

       A torre pequena ficava encostada à grande, sem comunicação interior: formava um quadrilongo, flanqueado por duas torrinhas, numa das quais havia uma escada, que do primeiro andar ia dar a uma galeria sobre a plataforma.

       Na outra torrinha ficavam os gabinetes, que correspondiam a cada andar da torre.

       O corpo do edifício tinha quatro andares; o primeiro constava de uma antecâmara, uma casa de jantar, e um gabinete onde havia uma biblioteca de mil e quinhentos volumes.

       O segundo andar era dividido, quase da mesma maneira; a casa maior era o quarto da rainha e do delfim; a outra casa, separada da primeira por uma antecâmara muito escura, era ocupada pela princesa real e pela princesa Isabel.

       Era preciso atravessar esta antecâmara para entrar no gabinete da torrinha, que não era outra coisa senão o que os ingleses chamam Walter-Closett, e era comum à família real, aos membros da municipalidade e aos soldados.

       O rei habitava no terceiro andar, com a mesma divisão de casas, aproximadamente. Dormia na câmara grande. O gabinete da torrinha servia-lhe de gabinete de leitura; ao lado ficava uma cozinha separada por uma casa escura, e era a que tinham habitado nos primeiros dias, antes que fossem separados do rei, os srs. de Chamilly e de Hue, e em que depois da partida deste último tinham posto selos.

       O quarto andar estava fechado.

       Em baixo ficavam as cozinhas, de que não se serviam.

       Agora vejamos como a família real vivia neste estreito palácio.

       O rei levantava-se ordinariamente às seis horas da manhã; fazia a barba a si. Cléry penteava-o e vestia-o. Depois de vestido e penteado, passava ao gabinete de leitura, isto é, à biblioteca dos arquivos da ordem de Malta que, como já dissemos, continha mil e quinhentos, talvez possamos dizer mil e seiscentos volumes.

       Um dia o rei, procurando ali livros, mostrou com o dedo ao Sr. de Hue as obras de Voltaire e de Rousseau.

       O rei disse em voz baixa:

       – Veja! São estes os dois homens que deitaram a perder a França.

       Entrando na biblioteca, Luís XVI ajoelhava e rezava cinco ou seis minutos, depois lia até às nove horas. Entretanto, Cléry arranjava o quarto do rei, preparava o almoço e descia ao quarto da rainha.

       Ali assentava-se o rei e passava o tempo traduzindo Virgílio ou alguma ode de Horácio.

       O rei tinha-se aplicado ao latim para continuar a educação do filho.

       Esta casa era muito pequena e a porta estava sempre aberta.

       O membro da municipalidade estava no quarto de dormir e pela porta aberta via o que o rei fazia.

       A rainha não abria a porta senão quando chegava Cléry, e isto para que, estando fechada, o membro da municipalidade não pudesse entrar no quarto.

       Então Cléry penteava o príncipe, arranjava a toilette da rainha, e passava ao quarto da princesa Isabel e da princesa real para fazer o mesmo serviço.

       Este momento de toilette, rápido e precioso ao mesmo tempo, era aquele em que Cléry podia participar à rainha e às princesas o que se passava fora; um sinal que ele fazia, indicava que tinha alguma coisa que dizer; a rainha ou uma das princesas conversava então com o membro da municipalidade, e Cléry aproveitava a distracção deste para dizer depressa o que tinha a dizer.

       Às onze horas, a rainha, as duas crianças e a princesa Isabel subiam ao quarto do rei, onde estavam servindo o almoço; entretanto Cléry arranjava os quartos da rainha e das princesas. Um homem e uma mulher por apelido Tison que para ali foram, sob pretexto de ajudarem a Cléry no seu serviço, mas realmente para servirem de espiões da família real e dos membros da municipalidade, fingiam ajudar o escudeiro do delfim.

       Um deles, o marido, antigo comissário das barreiras, era um velho duro e mau, incapaz de possuir sentimento algum de humanidade.

       A mulher amava muito uma filha que tinha, e enlevada por este amor denunciou a rainha com a esperança de tornar assim a ver a filha.

       Às dez horas da manhã descia o rei ao quarto da sua esposa e ali passava o dia; ocupava-se quase exclusivamente na educação do delfim, fazia-lhe repetir alguma passagem de Corneille ou de Racine, dava-lhe lição de geografia e exercitava-o em desenho de perspectiva em que era hábil.

       Havia três anos que a França estava dividida em departamentos, e era com especialidade esta geografia que o rei ensinava ao seu filho.

       A rainha, pela sua parte, curava da educação da princesa real, educação que algumas vezes interrompia para cair em sombrias e profundas meditações; então a princesa real, para a deixar toda entregue àquela dor desconhecida, que ao menos tinha o lenitivo do pranto, afastava-se nos bicos dos pés, fazendo sinal ao irmão para que estivesse calado.

       A meditação da rainha durava mais ou menos tempo; aos cantos das pálpebras apareciam as lágrimas, que, deslizando pela face iam cair-lhe sobre as mãos emagrecidas, e então a prisioneira quase sempre livre no domínio imenso do pensamento, no campo ilimitado das recordações, saía de repente do seu sonho, e olhando em volta de si, tornava a entrar de cabeça curvada na sua prisão.

       Ao meio-dia, as três princesas entravam no quarto da princesa Isabel para mudarem de vestido.

       O pudor da Comuna tinha reservado este momento para a solidão; nenhum membro da municipalidade seguia as presas.

       À uma hora, descia a família real ao jardim.

       Era sempre acompanhada por quatro membros da municipalidade e por um chefe da legião da guarda nacional.

       Como no Templo haviam muitos operários ocupados em demolir as casas e em construir paredes novas, os presos não podiam andar senão pela rua dos castanheiros.

       Cléry também acompanhava a família real e dava algum exercício ao delfim, jogando com ele a péla.

       Às duas horas subiam à torre: Cléry servia o jantar e todos os dias a estas horas, Santerre ia ao Templo acompanhado por dois ajudantes de campo, e visitava então escrupulosamente os quartos do rei e da rainha.

       O rei dirigia-lhe a palavra algumas vezes.

       A rainha nunca.

       Tinha esquecido o 20 de Junho e quanto devia àquele homem.

       Depois do jantar desciam ao primeiro andar: o rei jogava as damas ou o gamão com a rainha.

       Então jantava Cléry.

       Às quatro horas o rei acomodava-se para dormir a sesta numa marquesa ou numa grande poltrona. Então seguia-se o mais profundo silêncio; as princesas pegavam num livro ou nalguma obra de agulha, e todos ficavam imóveis, até o pequeno delfim.

       Luís XVI passava da vigília ao sono quase sem transição.

       As necessidades físicas, já o dissemos, imperavam no rei.

       O rei dormia regularmente a sesta por hora e meia ou por duas horas.

       Quando acordava, continuava a conversação, chamava-se Cléry, que nunca estava longe e vinha ensinar a ler o delfim. Acabada a lição, conduzia o príncipe ao quarto da princesa Isabel, e ali jogava com ela a péla.

       Chegada a noite, todos se assentavam a uma mesa: a rainha lia então em voz alta alguma coisa própria para divertir as crianças; a princesa Isabel substituía a rainha quando estava cansada.

       A leitura durava até às 8 horas. A esta hora ceava o delfim no quarto da princesa Isabel; a família real assistia a esta ceia, enquanto o rei, pegando numa colecção do Mercúrio que achara na biblioteca, divertia-se a fazer com que os filhos adivinhassem charadas e enigmas.

       Depois do delfim cear, a rainha fazia-o rezar esta oração:

       “Deus Omnipotente, que me criastes e resgatastes, adoro-vos; conservai a vida de meu pai e das pessoas da minha família; protegei-nos contra nossos inimigos: dai à Srª. de Tourzel forças para suportar o que sofre por nossa causa”.

       Depois da oração, Cléry, despia e deitava o delfim; uma das princesas ficava com ele até que adormecesse; era neste momento que Cléry, se tinha algumas notícias que dar à família real lhe dizia o que sabia.

       No Templo não entrava jornal algum; mas todos os dias por ali passava um pregoeiro, que anunciava as notícias; Cléry ouvia-as e contava-as ao rei.

       Às nove horas ceava o rei.

       Cléry levava numa bandeja a ceia da princesa, que estava ao pé da cama do delfim. Depois da ceia, o rei entrava no quarto da rainha, dava-lhe, assim como a sua irmã, a mão em sinal de despedida, abraçava as crianças e retirava-se à biblioteca, onde lia até à meia-noite.

       As princesas fechavam-se nos seus quartos; um dos membros da municipalidade ficava na casa que separava os dois quartos; o outro acompanhava o rei.

       Cléry colocava então a sua cama junto da do rei; este esperava para se deitar que chegasse o membro da municipalidade, que entrava de serviço, para ver se o conhecia e se já o tinha visto.

       Os membros da municipalidade eram rendidos às onze horas da manhã, às cinco da tarde e à meia-noite.

       Este género de vida, sem mudança alguma, durou até 30 de Setembro.

       Bem se vê que era triste a situação, e tanto mais digna de compaixão porquanto era resignadamente suportada.

       Portanto os mais desalmados tornavam-se dóceis ao ver isto.

       Iam ali para vigiar um tirano abominável, que tinha arruinado a França, assassinado os franceses, e chamado os estrangeiros, e uma rainha, que tinha reunido as lubricidades de Messalina às devassidões de Catarina II.

       E encontravam um bom homem, vestido grosseiramente, que se confundia com o seu escudeiro, que comia bem, bebia bem, jogava o gamão, ensinava latim e geografia ao filho e dava charadas e enigmas a decifrar a sua mulher e a sua irmã.

       Uma senhora, sem dúvida soberba e desdenhosa, mas digna, sossegada, resignada, ainda mais bela ensinando a filhinha a bordar, o filho a rezar, falando docemente aos criados, e tratando o escudeiro por meu amigo.

       Os primeiros momentos eram de ódio. Cada um destes homens, vindo com sentimento de animosidade começava a dar curso a estes sentimentos, e a pouco e pouco ia-se compadecendo.

       Saindo de sua casa pela manhã ameaçador e com a cabeça levantada, recolhia-se à noite triste e cabisbaixo.

       A mulher esperava-o curiosa.

       – Ah! És tu? – dizia ela.

       – Sim – respondia ele laconicamente.

       – E então viste o tirano?

       –Vi.

       – É muito feroz?

       – Parece um rendeiro do Marais.

       – Que faz ele? Há-de estar desesperado, maldizendo a república...

       – Passa o tempo a ensinar os filhos a jogar o gamão com a irmã, e a decifrar enigmas para distrair a mulher.

       – Então o desgraçado não tem remorsos?

       – Vi-o comer, e come como um homem que tem a consciência tranqüila; vi-o dormir, e afianço que não tem pesadelos.

       Então a mulher do membro da municipalidade também se tornava pensativa.

       – Mas então – dizia ela – não é tão cruel e culpado como se diz?

       – Quanto a culpado, não sei; cruel, afianço que não é.

       – Pobre homem! – dizia a mulher.

       Eis o que sucedia, quanto mais a Comuna abatia o preso, quanto mais queria mostrar que era um homem como outro qualquer, mais compaixão causava àqueles que o reconheciam por seu semelhante.

       Esta compaixão às vezes manifestava-se directamente ao rei, ao delfim e à rainha.

       Um dia, estava um canteiro fazendo buracos nas ombreiras da antecâmara para ali colocar enormes ferrolhos. Enquanto o canteiro almoçava, divertia-se o delfim a brincar com a ferramenta.

       Então o rei tomou o martelo e o escopo das mãos do menino, e, como serralheiro hábil que era, ensinou-lhe a servir-se daquela ferramenta.

       O canteiro, do sítio em que estava assentado e onde comia o seu pão e um pedaço de queijo, viu admirado o que se passava.

       Não se tinha levantado na presença do rei ou da rainha.

       Levantou-se diante do homem e da criança.

       Depois, aproximando-se ainda com a boca cheia, mas com o chapéu na mão, disse:

       – Está bem! Quando sairdes desta torre, podeis gabar-vos de terdes trabalhado na vossa própria prisão.

       – Ah! – respondeu o rei – quando e como sairei?

       O delfim pôs-se a chorar, o canteiro enxugou uma lágrima. O rei deixou cair o martelo e o escopo, e retirou-se ao seu quarto, onde por muito tempo passeou de um lado para o outro.

       Noutro dia, um soldado estava de sentinela à porta do quarto da rainha.

       Era um homem grosseiro, mal vestido, mas asseado.

       Cléry estava só no quarto lendo.

       A sentinela olhava para ele com profunda atenção.

       Passado um instante, Cléry vendo que o seu serviço o chamava a outra parte, levantou-se e quis sair.

       Mas a sentinela, apresentando-lhe a arma, disse-lhe em voz baixa, tímida, e quase trémula:

       – Não se passa.

       – Por quê? – perguntou Cléry.

       – Porque me deram ordens para o não perder de vista.

       – A mim! – disse Cléry; – decerto está enganado.

       – Não é o rei?

       – Ah! Não conhece o rei?

       – Nunca o vi, senhor; e a falar a verdade, antes queria vê-lo em outra parte e não aqui.

       – Fale baixo – disse Cléry.

       Depois, designando uma porta continuou:

       – Vou entrar naquele quarto e então verá o rei, está assentado ao pé da porta a ler.

       Cléry entrou no quarto e disse ao rei o que acabava de se passar.

       Então o rei levantou-se e passeou de uma casa para outra, para que o pobre homem o visse à sua vontade.

       Portanto, não duvidando de que era por sua causa que o rei se incomodava, disse a Cléry:

       – Ah! Senhor! Como o rei é bom; quanto a mim, não posso acreditar de maneira alguma que fizesse todo o mal que nos dizem.

       Outra sentinela, colocada no fim da rua do jardim, por onde passeavam, fez um dia compreender à família real que tinha algumas notícias a dar-lhe.

       Na primeira volta do passeio ninguém lhe entendeu os sinais.

       Mas na segunda volta, chegou-se a ele a princesa Isabel para ver se queria falar-lhe.

       Mas, fosse timidez ou respeito, o mancebo, que tinha figura distinta, ficou calado.

       Porém dos olhos escaparam-se-lhe duas lágrimas, e apontou com o dedo para um monte de entulho, onde provavelmente estava escondida uma carta.

       Cléry, sob pretexto de procurar o quer que fosse para o delfim, começou a revolver o entulho; porém os membros da municipalidade, desconfiando sem dúvida do que fazia, mandaram-no retirar e proibiram-lhe, sob pena de ser separado do rei, de tornar a falar às sentinelas.

       Mas nem todos eram assim. Muitos tinham o ódio e a vingança tão arraigados no coração, que este espectáculo de uma desgraça real, suportada com tanta resignação, não os comovia.

       Assim, por contraste aos exemplos de tristeza e de enternecimento, que apontamos, o rei e a rainha tiveram algumas vezes que suportar grosserias, insultos e até ameaças.

       Um dia um membro da municipalidade de serviço ao pé do rei, chamado James, professor de inglês, fez o propósito de andar atrás do rei, como se fora a sua sombra, e não o deixava.

       O rei entrou no seu gabinete de leitura, o membro da municipalidade entrou também e assentou-se.

       – Senhor – disse então o rei com a sua doçura habitual – os seus colegas estão no costume de me deixar só, porque ficando a porta aberta podem ver o que faço.

       – Os meus colegas – respondeu James – fazem o que entendem e eu o que quero.

       – Far-lhe-ei observar – replicou o rei – que a casa é tão pequena que mal podem estar aqui duas pessoas.

       – Então passe para outra maior – respondeu brutalmente o membro da municipalidade.

       O rei levantou-se sem dizer mais nada e entrou no seu quarto vendo-o seguir o professor inglês, que continuou a observá-lo até ao momento em que foi rendido.

       Uma manhã o rei tomou o membro da municipalidade, que estava de guarda, por aquele que vira na véspera; já dissemos que à meia-noite eram rendidos.

       Foi ter com ele e disse-lhe com ar de interesse:

       – Tenho muita pena de que se esquecessem de o vir render – disse o rei.

       – Que quer dizer? – perguntou brutalmente o guarda.

       – Quero dizer que deve estar cansado.

       – Senhor – respondeu-lhe o guarda, que se chamava Meunier – venho aqui para vigiar o que faz e não para que se ocupe do que faço.

       Depois, enterrando o chapéu na cabeça e aproximando-se do rei, ajuntou:

       – Ninguém, e o senhor menos do que qualquer outro, tem o direito de se intrometer comigo.

       Uma vez a rainha aventurou-se a dirigir a palavra a um membro da municipalidade.

       – Em que bairro mora, senhor? – perguntou ela a um desses homens que assistia ao jantar.

       – O meu bairro é a pátria – respondeu este desdenhosamente.

       – Mas parece-me – respondeu Maria Antonieta – que a pátria é a França.

       – Sim – replicou o membro da municipalidade – menos a parte em que está o inimigo, que chamaste.

       Alguns dos comissários nunca falavam do rei, da rainha, das princesas ou do delfim sem ajuntarem alguma palavra obscena ou alguma praga grosseira. Um dia um dos membros da municipalidade chamado Turlot, disse a Cléry em voz mais alta para que o rei ouvisse:

       – Se o carrasco não guilhotinasse esta família sagrada, eu mesmo a guilhotinava.

       Saindo para o passeio, o rei e a família real tinham de passar por muitas sentinelas, algumas das quais estavam postadas no interior da torre.

       Quando passavam os membros da municipalidade e os chefes, as sentinelas apresentavam armas.

       Mas quando passava o rei, ou descansavam as armas, ou voltavam as costas.

       O mesmo faziam os guardas do serviço exterior; quando o rei passava cobriam-se e assentavam-se.

       Mas os insultos ainda iam mais longe.

       Certo dia uma sentinela, não contente com apresentar a arma aos membros da municipalidade e de não a apresentar ao rei, escreveu na porta da prisão:

      

       “A guilhotina está permanente e espera o tirano Luís XVI”.

      

       A invenção era nova e por isso teve imitadores.

       Dentro em pouco as paredes do Templo, e principalmente as da escada por onde subia e descia a família real, foram cobertas de inscrições no género desta:

      

       “A Srª. Veto há-de dançar”.

       “Nós ensinaremos o porco gordo”.

       “Abaixo o cordão vermelho! É necessário estrangular os lobinhos!”

      

       Depois passaram a fazer desenhos que designavam a sua significação.

       Um destes desenhos representava um homem na forca.

       Por baixo liam-se estas palavras:

      

       “Luís tomando um banho de ar”.

      

       Mas os atormentadores mais encarniçados eram dois comensais do Templo.

       Um era o sapateiro Simão, o outro o porta-machado Rocher.

       Simão acumulava, não só era sapateiro, mas também guarda; não só guarda, mas um dos comissários encarregados de inspeccionar os trabalhos e dependências do Templo.

       Com este tríplice título nunca saía da torre.

       Este homem, a quem as crueldades exercidas sobre o delfim tornaram célebre, era o insulto personificado; todas as vezes que aparecia diante dos presos era para os injuriar.

       Se o escudeiro reclamava alguma coisa em nome do rei, então replicava:

       – Vamos com isso; que o Capeto peça de uma vez tudo o que precisa; não estou por sua causa para subir duas vezes a escada.

       Rocher esse não era mau homem; no dia 10 de Agosto tinha à porta da Assembléia Nacional tomado o delfim e fora pô-lo sobre a mesa do presidente.

       Rocher, de seleiro, que era, passou a oficial no exército de Santerre, depois a porteiro da torre.

       Usava uniforme de porta-machado com bigodes e barbas compridas, um boné de pêlo na cabeça, uma larga espada ao lado, e um cinto com um grande molho de chaves.

       Tinha sido colocado na torre por Manuel, e estava ali mais para velar sobre o rei e sobre a rainha, para impedir que lhe fizessem mal, do que para lho fazer. Parecia-se com uma criança a quem dão a guardar uma gaiola com passarinhos, recomendando-lhe que não consinta que lhes façam mal, e que se distrai em arrancar-lhe as penas.

       Quando o rei pedia para sair, era Roeher quem se apresentava à porta, mas não abria senão depois do rei ter esperado muito, revolvendo um grande molho de chaves, depois, puxando os ferrolhos com fracasso e depois de aberta a porta, descendo rapidamente, ia pôr-se ao pé do postigo com o cachimbo na boca, e a cada pessoa que saía, principalmente às senhoras, lançava-lhes ao nariz uma baforada de fumo.

       Estas miseráveis fraquezas tinham por testemunhas os guardas nacionais, que em lugar de se oporem a estes vexames, muitas vezes tomavam cadeiras, como para assistirem a um espectáculo.

       Isto animava Rocher, que ia dizendo por toda a parte:

       – A Maria Antonieta fazia-se soberba, mas obriguei-a a humilhar-se; a Isabel e a pequena fazem-me a sua cortesia; o postigo é tão pequeno que não podem deixar de se curvar.

       Depois ajuntava:

       – Todos os dias lanço-lhes no nariz a uma ou a outra, uma baforada do meu cachimbo. A irmã perguntou o outro dia aos nossos comissários:

       – Porque está o Rocher sempre a fumar?

       – Naturalmente porque gosta – responderam eles.

       Há em todas as grandes expiações, entre o suplício infligido aos pacientes e a morte, um homem que lhes faz beber o vinagre e o fel.

       Para Luís XVI chamava-se Rocher ou Simão; para Napoleão chamava-se Hudson-Lowe.

       Mas quando o condenado sofreu a pena, depois que o paciente acabou com a vida, são estes homens que poetizam o seu suplício, que santificam a sua morte.

       Santa Helena seria Santa Helena sem o seu carcereiro de farda encarnada?

       O Templo seria o Templo sem o porta-machado e sem o sapateiro?

       Eis os verdadeiros personagens da lenda; por isso pertencem às longas e sombrias narrações populares.

       Mas por mais desgraçados que fossem os presos, restava-lhes uma consolação.

       Estavam juntos.

       A Comuna porém resolveu separar o rei da sua família.

       A 26 de Setembro, cinco dias depois de proclamada a república, Cléry soube por um membro da municipalidade que o quarto, que destinavam ao rei, no grande pátio, dentro em pouco estaria pronto. Cléry com bastante dor transmitiu esta notícia a seu amo.

       Mas este, com o seu ânimo habitual, respondeu:

       – Procura saber com antecedência o dia dessa triste separação e dá-me parte.

       Mas Cléry, como não soube nada, nada pôde dizer ao rei.

       No dia 29, às seis horas da manhã, entraram seis membros da municipalidade no quarto da rainha, no momento em que toda a família ali estava reunida; iam, por ordem da Comuna, tirar aos presos as penas, o papel e a tinta.

       A visita foi passada não só às casas, mas às próprias pessoas dos presos.

       – Quando precisar de alguma coisa – disse um dos membros da municipalidade chamado Charbonnier – o seu escudeiro descerá e escreverá o que quiser num registro, que ficará na sala do conselho.

       O rei e a rainha não fizeram a menor observação; deram tudo o que tinham em si.

       As princesas e os criados seguiram o exemplo.

       Foi só então que Cléry, por algumas palavras que apanhou a um dos membros, soube que o rei seria transferido naquela mesma noite para a torre grande.

       Ele disse à princesa Isabel o que tinha dito ao rei.

       Não se passou nada de novo até à noite. A cada ruído, a cada porta que se abria, palpitavam os corações dos presos, que estavam com as mãos estendidas e unidas em ansioso aperto.

       O rei demorou-se mais do que costumava no quarto da rainha, mas afinal teve que se retirar.

       Finalmente abriu-se a porta e entraram os seis membros da municipalidade, que tinham vindo pela manhã, e apresentaram ao rei uma nova ordem da Comuna.

       Era a ordem oficial para ser transferido para a torre grande.

       Desta vez a impassibilidade do rei falhou.

       Aonde o conduziria aquele novo passo? À via terrível e sombria.

       Portanto as despedidas foram longas e dolorosas.

       Entravam no misterioso e desconhecido.

       Por isso despediram-se em convulsões e lágrimas.

       Finalmente, foi o rei obrigado a acompanhar os membros da municipalidade. Nunca a porta, fechando-se sobre ele, soltou um som tão lúgubre.

       Era tal a pressa de causar aos presos esta nova dor, que nem tempo deram para se acabar de preparar o quarto do rei.

       A pintura e a cola fresca davam ao quarto um cheiro insuportável.

       O rei deitou-se, sem deixar ouvir uma queixa.

       Cléry passou a noite numa cadeira ao pé dele.

       Pela manhã Cléry, segundo o costume, vestiu o rei; depois quis dirigir-se à pequena torre para vestir o delfim.

       Mas um dos membros da municipalidade, chamado Véron, opôs-se-lhe e disse:

       – Não pode ter comunicação com os outros presos.

       O rei não torna a ver seus filhos.

       Cléry desta vez não teve ânimo para transmitir a fatal notícia ao rei.

       Às nove horas, o rei, que ignorava o rigor da sua posição, pediu para ser conduzido para onde estava a sua família.

       – Não temos ordem para isso – disse um dos comissários.

       O rei insistiu, mas eles não responderam e retiraram-se.

       O rei ficou só com Cléry; o rei assentado e Cléry encostado à parede; ambos se mostravam aflitos.

       Passada meia hora, entraram dois membros da municipalidade.

       Seguiu-os o servente de um café, que levava ao rei um pedaço de pão e uma limonada.

       – Senhores – perguntou o rei – não poderei jantar com a minha família?

       – Saberemos o que a Comuna determina, disse um deles.

       – Mas se não é permitido descer, não o poderá fazer o meu escudeiro? Meu filho está a seu cargo, e nada obsta a que ele continue a servi-lo.

       O rei pedia isto tão simplesmente e com tão pouca animosidade, que aqueles homens, admirados, não sabiam que responder-lhe.

       Aquele tom, aquelas maneiras, aquela resignação estavam tão longe daquilo que esperavam que olhavam uns para os outros como aturdidos.

       Contentaram-se com responder que o negócio não dependia deles e retiraram-se.

       Cléry ficou imóvel, encostado à parede, e olhando para o amo com profunda aflição.

       Viu o rei pegar no pão, que lhe tinham levado, e parti-lo ao meio.

       Depois dando-lhe metade:

       – Meu pobre Cléry – disse o rei – parece que se esqueceram do seu almoço. Tome metade do meu pão, a outra metade é suficiente para mim.

       Cléry recusou, mas como o rei tanto insistisse, tomou o pão, porém, ao pegar-lhe não pôde deixar de chorar.

       O rei também chorou.

       Às dez horas, os membros da municipalidade acompanharam os operários, que trabalhavam no quarto em que o rei estava preso.

       Então um dos membros, chegando-se ao rei com certa compaixão, disse:

       – Senhor, acabo de assistir ao almoço da sua família e estou encarregado de lhe participar que todos estão de saúde.

       O rei sentiu o coração aliviado, a compaixão daquele homem fez-lhe bem.

       – Obrigado – respondeu ele – e, para ser completo o favor, peço-lhe que também diga à minha família que estou bom. Mas agora diga-me se poderei obter alguns livros, que deixei no quarto da rainha. Se me for permitido, grande favor faz enviando-mos.

       O membro da municipalidade tinha muita vontade de aceder ao desejo do rei, mas ficou embaraçado, porque não sabia ler.

       Finalmente, confessou o seu embaraço a Cléry, pedindo-lhe que o acompanhasse para lhe dizer quais eram os livros que o rei queria.

       Cléry era feliz. Tinha assim meio de levar à rainha notícias do marido.

       Luís XVI fez-lhe sinal com os olhos.

       Esse sinal continha todas as recomendações possíveis que podia fazer-lhe.

       Cléry achou a rainha no seu quarto com a princesa Isabel e com os filhos.

       As senhoras choravam.

       O delfim começava também a chorar, mas as lágrimas depressa secam nos olhos das crianças.

       Vendo entrar Cléry, a rainha, a princesa Isabel, e a princesa real interrogaram-no, não com voz mas com gestos.

       O delfim correu para ele, dizendo:

       – É o meu bom Cléry.

       Infelizmente, Cléry só podia dizer algumas palavras reservadas. Os membros da municipalidade tinham entrado com ele no quarto.

       A rainha porém não pôde conter-se e dirigindo-se directamente a eles, disse:

       – Oh! Senhores, seja-nos concedido o favor de estarmos todos os dias com el-rei, quando mais não seja, só por alguns instantes.

       As outras senhoras não falavam, mas punham as mãos.

       – Senhores – disse o delfim – deixem tornar para aqui o meu pai, e eu pedirei a Deus pelos senhores.

       Os membros olhavam uns para os outros sem responderem. Este silêncio arrancava suspiros e ais dos peitos das senhoras.

       – Oh! – dizia aquele que tinha falado ao rei – por minha vida, ao menos hoje ainda hão-de jantar juntos.

       – E amanhã? – perguntou a rainha.

       – Senhora – respondeu o membro da municipalidade – a nossa conduta é subordinada às ordens da Comuna. Amanhã havemos de fazer o que a Comuna nos ordenar.

       Depois, voltando-se para os seus colegas, perguntou:

       – São desta opinião, cidadãos?

       Estes fizeram com a cabeça um sinal de adesão.

       A rainha e as princesas, que esperavam este sinal com ansiedade, deram um grito de alegria.

       Maria Antonieta pegou nos filhos e apertou-os contra o coração.

       A princesa Isabel, levantando as mãos ao Céu, deu graças a Deus.

       Esta alegria por muito inesperada arrancava pranto e suspiros como se fosse uma dor.

       Um dos membros da municipalidade não pôde conter as lágrimas.

       Simão, que estava presente, disse:

       – Parece-me que os diabos das mulheres são capazes de me fazer chorar.

       Depois, dirigindo-se à rainha, disse:

       – Não chorava assim, quando mandou assassinar o povo no dia 10 de Agosto.

       – Ah! Senhor – respondeu Maria Antonieta – o povo está muito enganado a respeito dos nossos sentimentos. Se nos conhecesse melhor, decerto faria como aquele senhor, choraria por nós.

       Cléry pegou nos livros, que o rei pedia, e saiu. Tinha pressa de dar a boa notícia ao amo; mas os membros da municipalidade também tinham pressa.

       O jantar foi servido no quarto do rei. Toda a família real para lá foi levada. Foi um jantar de festa. Julgavam ter conseguido muito por conseguirem mais um dia.

       Com efeito, tinham conseguido muito, porque nunca mais se tornou a falar na ordem da Comuna, e o rei continuou, como dantes, a ver a sua família durante o dia e a comer na companhia dela.

 

Mestre Gamain reaparece

       Na mesma manhã do dia em que estas coisas se passavam no Templo, um homem que trajava carmanhola e barrete vermelho e andava encostado a uma muleta, apresentou-se ao ministro do interior.

       Roland, por muito acessível que fosse, era obrigado a ter, como se fosse ministro de uma monarquia, em lugar de ser ministro de uma república, porteiros na sua ante-sala.

       O homem da muleta, da carmanhola e do barrete vermelho, foi pois obrigado a parar na ante-sala do porteiro, que lhe fechava a passagem, dizendo:

       – Que pretende, cidadão?

       – Desejo falar ao cidadão ministro – respondeu o homem da muleta.

       Havia quinze dias que os títulos de cidadão e cidadã, tinham substituído o tratamento de senhor e senhora.

       Os porteiros sempre são porteiros, isto é, personagens muito tolos, insolentes e pretensiosos; falamos, bem entendido, dos porteiros dos ministérios.

       O porteiro respondeu em tom protector:

       – Meu amigo, saiba uma coisa, e é que não se fala assim ao cidadão ministro.

       – Mas então como se fala ao cidadão ministro, cidadão porteiro? – perguntou o homem da muleta.

       – Oh! Fala-se-lhe quando se tem um bilhete de audiência.

       – Julgava que isso sucedia, como se diz, na época do tirano, mas no tempo da república, num tempo em que todos os homens são iguais, isso cheira-me um tanto a aristocracia.

       Esta observação fez reflectir o porteiro.

       – E não é muito agradável – continuou o homem da muleta – vir de Versalhes para prestar serviço ao ministro e não ser recebido por ele.

       – Então vem prestar serviço ao cidadão Roland?

       – Venho sim.

       – Mas que género de serviço vem prestar-lhe?

       – Venho denunciar-lhe uma conspiração.

       – Bem; é coisa de que temos sempre por cá abundância.

       – Ah!

       – Vem pois de Versalhes para isso?

       – Venho sim.

       – Pois pode voltar para Versalhes.

       – Pois voltarei, mas o seu ministro há-de arrepender-se de não me ter recebido.

       – É a ordem que tenho. Escreva-lhe e volte com uma ordem de audiência. Assim pode a coisa arranjar-se.

       – É a sua última palavra?

       – Sim, cidadão.

       – Parece que é mais difícil ser admitido à presença do cidadão Roland, do que obter audiência de sua majestade Luís XVI.

       – Que diz?

       – O que disse está dito.

       – Vejamos, o que diz?

       – Digo que houve um tempo em que eu entrava nas Tulherias quando queria.

       – Como?

       – E bastava para isso dizer o meu nome.

       – Então como se chama? É o rei Frederico Guilherme, ou o imperador Francisco?

       – Não; não sou um tirano, um negociante de escravos, um aristocrata; sou simplesmente Nicolau Cláudio Gamain mestre dos mestres.

       – Mestre de quê?

       – De serralharia. Não conhece Nicolau Cláudio Gamain, antigo mestre serralheiro do Sr. Capeto?

       – Como, o cidadão, é que é...

       – Nicolau Cláudio Gamain.

       – Serralheiro do ex-rei Luís?

       – Isto é, mestre de serralharia do rei, entenda bem, cidadão.

       – Era isso o que eu queria dizer.

       – Pois sou eu em carne e osso.

       O porteiro olhou então para os camaradas como para os interrogar.

       Estes responderam com um gesto afirmativo.

       – Então – disse o porteiro – isso é outra coisa.

       – O que é que entende por outra coisa?

       – Entendo que vai escrever o seu nome num bocado de papel, e que vou levá-lo imediatamente ao cidadão ministro.

       – Escrever, escrever, já não era o meu forte antes dos patifes me envenenarem. Agora porém ainda é pior. Veja em que estado me pôs o arsénico.

       E Gamain mostrou as pernas torcidas, a espinha vertebral desviada, e a mão contraída como uma garra.

       – Como! Foram eles que o puseram nesse estado? Pobre homem.

       – Eles mesmos; venho denunciar isso ao ministro, assim como outras coisas mais. Como dizem que se vai fazer o processo daquele patife, o que tenho a dizer talvez seja útil à nação, nas circunstâncias em que se acha.

       – Pois bem, assente-se e espere, cidadão; vou dizer o seu nome ao cidadão ministro.

       E o porteiro escreveu num bocado de papel:

       “Cláudio Nicolau Gamain, antigo mestre serralheiro do rei, pede ao cidadão ministro uma audiência para lhe fazer uma revelação importante”.

       Depois entregou o papel a um dos seus camaradas, cuja posição especial era anunciar quem vinha.

       Passados cinco minutos, voltou o outro porteiro, dizendo:

       – Venha comigo, cidadão.

       Gamain fez um esforço, que lhe arrancou um grito de dor, levantou-se e seguiu o porteiro.

       O porteiro conduziu Gamain, não ao gabinete oficial do ministro, do cidadão Roland, mas ao gabinete do ministro verdadeiro, a cidadã Roland.

       Roland estava em pé encostado à chaminé.

       O porteiro anunciou o cidadão Nicolau Cláudio Gamain.

       Este apareceu à porta.

       O mestre serralheiro nunca tivera, mesmo no tempo da sua melhor saúde e mais elevada fortuna, um físico muito vantajoso.

       Mas a doença, de que era vítima, e que era um reumatismo articular, torcendo-lhe os membros e desfigurando-lhe o rosto, nada tinha ajuntado à beleza da sua fisionomia.

       O resultado foi que nunca homem honrado e, – importa dizê-lo, ninguém melhor do que o ministro Roland merecia o título de homem honrado – dizemos pois que disso resultava nunca se ter achado um homem honrado de rosto perfeito e tranqüilo em presença de um patife mais vil e imundo.

       Por conseqüência o primeiro sentimento do ministro foi uma profunda repugnância.

       Mediu o cidadão Gamain da cabeça aos pés, e vendo que ele tremia encostado à muleta, um sentimento de piedade para com os seus semelhantes, supondo todavia que o cidadão Gamain fosse semelhante do cidadão Roland, um sentimento de compaixão fez com que as primeiras palavras que o ministro dirigiu ao serralheiro fossem:

       – Assente-se, cidadão, parece-me estar incomodado.

       – Oh! Muito – respondeu Gamain assentando-se. – Estou assim desde que a Austríaca me envenenou.

       A estas palavras um sentimento de profunda repugnância contraiu o rosto do ministro, que trocou um olhar de indefinível expressão com a Srª. Roland, metida no vão da janela.

       – E foi para denunciar esse envenenamento que veio aqui? – perguntou o ministro.

       – Para lhe denunciar isso e mais alguma coisa.

       – E traz a prova das suas denúncias?

       – Ah! Quanto a isso, bastará vir comigo às Tulherias, que lá lhe mostrarei o armário.

       – Que armário?

       – O armário onde o patife escondia o seu tesouro. Oh! Eu devia ter desconfiado disso, quando, acabado o trabalho, a Austríaca com a sua voz melíflua me disse: “Aqui tens, Gamain, estás suado, e isto há-de fazer-te bem”. Eu devia ter desconfiado que o vinho tinha veneno.

       – Veneno!

       – Sim – respondeu Gamain com expressão de profundo ódio – porque os homens que ajudam os reis a esconder os seus tesouros não vivem muito tempo.

       Roland aproximou-se de sua mulher e interrogou-a com os olhos.

       – Isto tem algum fundamento – disse ela. Agora é que me recordo do nome deste homem: era o serralheiro predilecto do rei.

       – E o tal armário?

       – Quanto a isso pergunte-o a ele.

       – A respeito do tal armário? – replicou Gamain, que tinha ouvido. Ah! eu vou dizer-lhes o que é. É um armário de ferro fechado com uma fechadura de segredo, e no qual estão escondidos os papéis e o ouro do cidadão Capeto.

       – E como conhece a existência desse armário? – perguntou Roland com curiosidade.

       – Porque ele me mandou buscar e ao meu companheiro a Versalhes, para fazer servir uma fechadura, que ele tinha feito, mas que não estava capaz.

       – Mas esse armário sem dúvida foi arrombado e roubado no dia 10 de Agosto?

       – Oh! – disse Gamain – não corria esse perigo.

       – Como, não corria esse perigo?!

       – Não; desafio a quem quer que seja, a não ser ele ou eu para que o ache, e principalmente para que o abra.

       – Está certo disso?

       – Certo e certíssimo: está tal qual, como na hora em que saí das Tulherias.

       – E em que época ajudou o rei Luís XVI a fechar o tal armário?

       – Não o posso dizer precisamente, mas foi três ou quatro meses antes da partida de Varennes.

       – E como foi a coisa? Vamos, meu amigo, desculpe-me, o caso parece-me tão extraordinário, que merece que eu saiba todos os pormenores antes de proceder à investigação do tal armário.

       – Oh! Os pormenores são fáceis de dar, cidadão ministro: O Capeto mandou-me buscar a Versalhes; minha mulher não queria deixar-me sair, a pobre mulher tinha um pressentimento. Ela dizia-me: “O rei está em má posição, vais comprometer-te por sua causa”. Mas eu respondi-lhe: “Visto mandar-me procurar para negócios do meu ofício, e como é meu discípulo, devo ir”. “Bom – respondeu ela – olha que neste negócio anda política; não tem o rei mais nada que fazer neste momento senão fechaduras”.

       – Seja breve, meu amigo – disse Roland. De sorte que apesar da opinião de sua mulher?...

       – Oh! Melhor teria feito se lhe desse ouvidos, porque decerto não estaria no estado em que estou; mas hão-de pagar-mo.

       – Então...

       – Ah! Sim, tornemos ao armário.

       – Sim, meu amigo, e nada de episódios, todo o meu tempo pertence à república, e o tempo é curto.

       – Então ele mostrou-me a fechadura de um cofre, que tinha feito, mas que não estava capaz, porque, se estivesse, não me teria mandado chamar, o traidor.

       – E mostrou-lhe uma fechadura, que não servia? – replicou o ministro, insistindo para manter Gamain na questão.

       – Ele perguntou-me:

       “–Porque não anda ela, Gamain?”

       – Respondi-lhe: “Senhor, é preciso que eu veja a fechadura.”

       – Ele disse: “Tens razão”.

       – Então examinei a fechadura, e disse-lhe:

       “– Sabe por que não anda?”

       “– Não – respondeu ele – e foi para mo dizeres que te mandei chamar”.

       – Pois bem, ela não servia. Siga bem o meu raciocínio, porque, não sendo tão forte em serralharia como o rei, talvez não lhe seja possível compreender-me, e primeiramente é preciso que lhe diga que diferença há entre uma fechadura de cofre e uma fechadura, por exemplo, de porta.

       – Isso para mim é o mesmo – respondeu Roland; – como disse, não sou tão forte em serralharia como o rei, e não conheço a diferença que há entre as diversas fechaduras.

       – A diferença eu lha vou fazer tocar com o dedo.

       – Não é preciso.

       – A razão por que a fechadura não fechava! Quer também que lho diga?

       – Faça o que quiser – disse Roland, que começava a crer que o melhor era abandonar Gamain à sua prolixidade.

       – Pois bem, não fechava porque a lingüeta da fechadura topava com uma mola de segredo, entende?

       – Perfeitamente – disse Roland, que não percebia uma palavra.

       “– Agora percebo – disse-me o rei. Então faze o que eu não soube fazer; não és tu o meu mestre?”

       “– Oh! Senhor, não só sou o seu mestre, mas o mestre dos mestres”.

       – E depois?

       – Depois, atirei-me ao trabalho, enquanto o Sr. Capeto conversava com o meu rapaz, que sempre desconfiei ser um aristocrata disfarçado. No fim de dez minutos, estava a fechadura pronta. Então desci com a porta de ferro para o que era destinada a fechadura, e disse ao rei:

       “– Está pronta, senhor.”

       “– Então vem comigo, Gamain.”

       Eu segui-o; ele conduziu-me primeiro ao seu quarto depois a um corredor escuro, que dava para a alcova do delfim. Ali era tão grande a escuridão, que teve de acender uma vela. Nessa ocasião, disse-me o rei:

       “– Pega nesta luz, Gamain, e alumia-me.”

       – Ele tomava a liberdade de me tratar por tu. Então levantou um pano do forro, atrás do qual havia um buraco, com dois pés e meio de diâmetro. Depois, como notasse o meu espanto, disse:

       “– Fiz este segredo para guardar dinheiro; agora, Gamain, é preciso pôr-lhe esta porta de ferro para que destinei a fechadura.”

       “– Isso não há-de levar muito tempo – respondi.”

       – Pus a porta no seu lugar e empurrei-a, ela fechava-se por si. Depois caía o forro no seu lugar. E boas-noites, nada de armário.

       – E julga, meu amigo – perguntou Roland – que o armário não tinha outro fim senão o de ser um cofre forte, e que o rei se tivesse dado a tanto trabalho só para esconder dinheiro?

       – Espere: ele queria enganar-me; o tirano julgava-se mais fino do que eu. Eis o que se passou:

       “– Ora vamos – disse o rei – ajuda-me a contar o dinheiro, que quero meter neste armário”.

       E contámos dois milhões de luíses, que metemos em quatro sacos de couro; mas enquanto eu contava o dinheiro vi com o rabo do olho o escudeiro que trazia papéis e mais papéis.

       – Que dizes a isto, Madalena? – perguntou Roland a sua mulher, chegando-se para ela de maneira que Gamain não o ouvisse.

       – Digo que esta revelação é da mais alta importância, e que não se deve perder um só instante.

       Roland tocou a campainha.

       Apareceu o porteiro.

       – A carruagem está pronta? – perguntou o ministro.

       – Está sim, cidadão.

       – Mande-a chegar.

       Gamain levantou-se.

       – Ah! – disse ele muito vexado; não me quer mais nada, cidadão?

       – Porque me diz isso?

       – Porque manda chegar a carruagem: pois os ministros no tempo da república ainda têm carruagem?

       – Os ministros de todos os tempos hão-de ter carruagem: a carruagem para um ministro não é luxo, é economia.

       – Economia de quê?

       – Economia de tempo; da coisa mais cara e preciosa que há no mundo.

       – Então quer que volte aqui?

       – Para quê?

       – Para quê? Para o conduzir onde está o armário e mostrar-lho.

       – É escusado.

       – Como! É escusado?

       – Decerto, pois acabo de mandar chegar a carruagem para ir lá.

       – Mas para ir aonde?

       – Às Tulherias.

       – Pois vamos lá?

       – Já.

       – Ainda bem.

       – Mas a propósito – disse Roland.

       – De quê?

       – A chave?

       – Que chave?

       – A do armário; é provável que Luís XVI a não deixasse na porta.

       – Decerto, pois não é tão estúpido como parece, o gordo Capeto.

       – Então leve ferramenta.

       – Para quê?

       – Para abrir o armário.

       Gamain tirou da algibeira uma chave nova.

       – E então que é isto? – perguntou ele.

       – Uma chave.

       – A chave do armário, que fiz de cor; tinha-a estudado bem, desconfiando que um dia me seria precisa, o que não me enganei.

       – Este homem é um grande miserável – disse a Srª. Roland ao marido.

       – Julgas pois...– disse este com hesitação.

       – Julgo que não temos direito na nossa posição, de recusar qualquer informação, que a fortuna nos envie para chegar ao conhecimento da verdade.

       – Aqui está, aqui está – dizia Gamain mostrando a chave.

       – E julga – disse Roland com repugnância que lhe não era possível encobrir – que essa chave, feita de memória, depois de passados dezoito meses, abrirá o armário?

       – Sim, cidadão, e sem dificuldade, assim o espero. Para que sou eu o mestre dos mestres?

       – A carruagem do cidadão ministro está à porta – disse o porteiro.

       – Queres que vá contigo? – perguntou a Srª. Roland.

       – Decerto, se houver papéis, a ti é que os hei-de confiar. Não és tu a pessoa mais honrada que conheço?

       Depois voltando-se para Gamain, disse:

       – Venha.

       Gamain seguiu resmungando:

       – Não te tinha eu jurado que mo havias de pagar, meu Capeto!

       – Pagar o quê?

       O bem que o rei lhe tinha feito.

 

A retirada dos prussianos

       Enquanto a carruagem do cidadão Roland roda para as Tulherias; enquanto Gamain acha o armário oculto; enquanto, conforme a promessa que tinha feito, a chave que fizera de memória abre com maravilhosa facilidade o armário de ferro; enquanto o armário de ferro patenteia o depósito fatal, que lhe fora confiado, e que, apesar dos papéis entregues pelo rei à Srª. Campan, havia de ter cruel influência sobre os destinos dos presos do Templo; enquanto o ministro Roland leva esses papéis para casa, os lê um por um, procurando em todos eles uma prova da venalidade, tão denunciada por Danton, vejamos o que faz o antigo ministro da justiça.

       Dizemos o antigo ministro da justiça, porque a primeira coisa que Danton fez nos Jacobinos, o primeiro acto com que ele se estreou na Convenção, foi pedir a demissão.

       Tinha subido à tribuna e dissera:

      

       “Antes de exprimir a minha opinião sobre o primeiro decreto, que a Convenção deve promulgar, seja-me permitido resignar no seu seio as funções que me tinham sido confiadas pela Assembléia legislativa. Recebi-as ao som do canhão. Agora está feita a junção dos exércitos, está operada a junção dos representantes, não sou mais do que mandatário do povo e é nesta qualidade que vou falar”.

      

       Danton poderia juntar a estas palavras: “A junção dos exércitos está feita, e os prussianos foram batidos”, porque estas palavras foram pronunciadas a 21 de Setembro, e a 20, isto é, na véspera, verificara-se a batalha de Valmy.

       Mas Danton não o sabia.

       Contentou-se pois em dizer:

      

       “Desfaçamos estes vãos fantasmas de ditadores, com que quiseram afrontar o povo: declaremos que não há constituição – senão a que por ele foi aceita. Até hoje tem sido agitado, era preciso despertá-lo contra os tiranos; agora que as leis sejam tão terríveis contra aqueles que as violaram, quanto foi o povo aniquilando a tirania! Que eles castiguem todos os culpados! Abjuremos toda e qualquer exageração, declaremos que a propriedade territorial e industrial será eternamente mantida”.

      

       Danton, com a habilidade ordinária, respondia em duas linhas aos dois grandes receios da França.

       A França receava pela sua liberdade e pela sua propriedade.

       E coisa singular, quem mais receava pela propriedade eram os novos proprietários.

       Eram aqueles que tinham comprado na véspera e que ainda deviam metade da sua aquisição.

       Eram estes que se haviam tornado conservadores, muito mais do que os antigos nobres, do que os antigos aristocratas, do que os antigos proprietários, pois estes preferiam a sua vida aos seus imensos domínios, e a prova é que tinham abandonado principalmente todos os bens para salvarem a vida, ao passo que os compradores de bens nacionais, os proprietários da véspera preferiam à vida um pequeno canto de terra, defendiam-na com a espingarda na mão, e não havia nada no mundo que os fizesse emigrar.

       Um dia, nos Jacobinos, Chalot soltara uma palavra imprudente, que não tinha escapado aos proprietários. Tinha dito que se Marat não aconselhava a divisão da propriedade, é porque não julgava os homens assaz virtuosos.

       Era preciso fazer esquecer essa impressão, riscar aquela imprudência; tranqüilizar não só os que eram proprietários da véspera, mas também os que iam sê-lo no dia seguinte.

       Porque o grande pensamento da revolução era este:

       É mister que todos os franceses sejam proprietários; a propriedade nem sempre torna o homem melhor, mas torna-o mais digno, dando-lhe o sentimento da independência.

       Portanto, todo o génio da revolução resumia-se nestas palavras de Danton:

       “Abolição de toda a ditadura”;

       “Conservação de toda a propriedade”;

       Como ponto de partida:

       O homem tem direito de se governar a si mesmo.

       Conclusão:

       O homem tem direito de conservar o fruto da sua livre actividade.

       E quem vinha dizer isto?

       O homem do 20 de Junho, do 10 de Agosto, do 2 de Setembro, isto é, o gigante da tempestade e da destruição.

       O gigante fazia-se piloto e deitava ao mar estas duas âncoras de salvação das nações:

       A liberdade e a propriedade.

       A Gironda porém não o compreendeu; a Gironda tinha invencível repugnância pelo... como diremos? – pelo fácil Danton.

       Vimos que lhe recusou a ditadura, quando ele a pedia para evitar a carnificina.

       Levantou-se pois um girondino, e em vez de aplaudir o homem de génio, que acabava de formular os dois grandes receios da França e de a tranqüilizar, formulando-os, gritou a Danton:

       – Todo aquele que tentar consagrar a propriedade, compromete-a; até o tocar-lhe para a tornar firme é abalá-la. Portanto a propriedade é anterior a todas as leis.

       A Convenção elaborou estes dois decretos:

      

       “Não pode haver outra Constituição, senão a adoptada pelo povo.”

       “A segurança das pessoas e das propriedades está sob a salvaguarda da nação.”

       Isto era e não era assim.

       Não há nada mais terrível em política do que o quase.

       A demissão de Danton foi aceita.

       O homem que se julgava assaz forte para tomar a responsabilidade dos actos de Setembro, isto é, o terror de Paris, o ódio do povo das províncias, a execração do mundo, era um homem decerto bem poderoso.

       Efectivamente dirigia-se ao mesmo tempo os fios da diplomacia, da guerra e da paz.

       Dumouriez, e por conseqüência o exército, estava nas suas mãos.

       A notícia da história de Valmy chegou a Paris, e causou grande alegria. Chegara ali nas asas da águia, e por conseqüência era considerada mais definitiva do que na realidade era.

       Daqui resultava que um receio supremo, a França passava a uma suprema audácia.

       Os clubes só respiravam guerras e batalhas.

       Visto ter sido vencido o rei da Prússia, porque não estava ele preso, amarrado, ou pelo menos na outra margem do Reno?

       Eis o que todos diziam em voz alta.

       E em voz baixa:

       É muito simples, Dumouriez é um traidor; está vendido aos prussianos.

       Dumouriez já recebia uma recompensa de um grande serviço feito à ingratidão.

       O rei da Prússia porém não se considerava batido.

       Tinha atacado as alturas de Valmy e não as pudera tomar; eis tudo.

       Cada exército conservou o seu campo.

       Os franceses, que desde o começo da campanha constantemente tinham retirado, perseguidos por pânicos, por derrotas e reveses, tinham feito frente ao inimigo: nada mais.

       A perda de homens fora quase igual.

       Eis o que se não podia dizer à França, a Paris, à Europa, pela necessidade que os franceses tinham de uma grande vitória; mas eis o que Dumouriez mandava dizer a Danton por Westermann.

       Os prussianos não tinham sido batidos, nem tão-pouco tinham retirado; tanto que doze dias depois de Valmy, ainda estavam nos mesmos acampamentos.

       Dumouriez tinha escrito para saber se devia aceitar algumas propostas do rei da Prússia, no caso dele as apresentar.

       Esta pergunta teve duas respostas.

       Uma do ministério, soberba, oficial, ditada pelo entusiasmo da vitória.

       Outra prudente e tranqüila, mas dada só por Danton.

       A carta do ministério era altiva.

       Dizia:

      

       “A república não trata com o inimigo senão depois de ter evacuado o seu território”.

      

       A de Danton dizia:

       “Contanto que os prussianos evacuem o território, negociai com eles seja por que preço for”.

      

       Negociar não era coisa fácil na disposição de espírito em que se achava o rei da Prússia: quase ao mesmo tempo em que chegava a Paris a notícia da vitória, chegava a Valmy a notícia da abolição da realeza e da proclamação da república.

       O rei da Prússia estava furioso.

       Aquela invasão, feita com o fim de salvar o rei da França e que até ali só tivera como resultado o 10 de Agosto, o 2 e o 21 de Setembro, isto é o cativeiro do rei, a carnificina dos nobres e a abolição da realeza, tinha feito entrar Frederico Guilherme nos seus acessos do mais sombrio furor.

       Queria combater, custasse o que custasse, e tinha dado ordem, para se travar uma batalha decisiva no dia 29 de Setembro.

       Como se vê estava longe de abandonar o território da república.

       A 29, em lugar do combate, houve um conselho.

       Demais Dumouriez estava pronto para tudo.

       Brunswick, muito forte em palavras, era muito prudente quando se tratava de lhe substituir os factos; Brunswick ainda era mais inglês do que alemão, tinha casado com uma irmã da rainha de Inglaterra, e por isso tanto recebia inspirações de Berlim, como de Londres.

       Se a Inglaterra o decidisse a bater-se, batia-se com os dois braços, um pela Prússia, outro pela Inglaterra.

       Mas, se os ingleses, meus senhores, não desembainhassem a espada, estava ele pronto a embainhar a sua.

       Ora a 29, Brunswick apresentou no conselho cartas de Inglaterra e da Holanda, que mostravam que estas potências recusavam unir-se à coalizão.

       Além disso, Custine marchava sobre o Reno e ameaçava Coblentz; e tomada Coblentz, a porta para tornar a entrar na Prússia estava fechada ao rei.

       Depois, havia uma coisa mais grave, mais séria do que tudo isto; por acaso este rei da Prússia tinha ali uma amante, a condessa de Lichenau.

       Ela tinha seguido o exército como todos os outros, como Goethe, que esboçava no carro de sua majestade prussiana as primeiras cenas do Fausto; a condessa contava com um famoso passeio militar, e queria ver Paris.

       Em Spa teve ela conhecimento da batalha de Valmy, e dos perigos que correra o seu real amante.

       A bela condessa receava soberanamente duas coisas: as balas dos franceses e os sorrisos das francesas.

       Escreveu cartas sobre cartas, e o post-scriptum destas cartas, isto é, o resumo do pensamento daquela que as escrevia, era a palavra: Volta!

       O rei da Prússia na realidade só era retido pela vergonha de abandonar Luís XVI.

       Todas estas considerações operaram sobre ele, porém as mais importantes foram as lágrimas da bela condessa e o perigo que corria Coblentz.

       Todavia, não deixou de insistir para que soltassem Luís XVI; Danton deu-se pressa em lhe enviar todas as ordens da Comuna, mostrando que o preso estava rodeado de bons tratamentos.

       Isto bastou ao rei da Prússia, que como se vê, não era difícil de contentar.

       Os amigos do rei da Prússia afirmam que antes de se retirar fez com que Dumouriez e Danton lhe dessem a sua palavra de salvarem o rei.

       Não há nada que prove esta asserção.

       A 29 de Setembro o exército prussiano operou a sua retirada e andou uma légua.

       A 30 outra légua.

       O exército francês escoltava-o como para lhe fazer as honras do país, acompanhando-o.

       Todas as vezes que os soldados franceses queriam atacar, os homens de Danton tratavam de os puxar para trás.

       Que saíssem de França era tudo o que Danton queria.

       A 29 de Outubro estava satisfeito este patriótico desejo.

       A 6 de Novembro o canhão de Jammapes anunciava o juízo de Deus sobre a revolução francesa.

       A 7 abria a Gironda o processo do rei.

       Uma coisa quase semelhante tinha-se passado seis semanas antes.

       A 20 de Setembro tinha ganho Dumouriez a batalha de Valmy.

       A 21 era proclamada a república.

       Cada vitória tinha sido coroada, e fazia dar à França mais um passo no caminho da revolução.

       Desta vez era o passo mais terrível. Aproximavam-se do fim ignorado ainda, tendo, durante três anos, caminhado às escuras.

       Que viam no horizonte? Um cadafalso. E ao pé dele? Um rei.

       Naquela época toda material, e em que os interesses superiores do ódio e da destruição suplantavam as idéias elevadas de alguns espíritos superiores, em que um homem como Danton, isto é, que tomava sobre si os ensangüentados dias de Setembro, era acusado de ser o chefe dos indulgentes, era muito difícil que a idéia prevalecesse sobre o facto.

       Ora, eis o que não compreenderam os homens da Convenção, ou que só compreenderam certos homens, uns claramente, outros por instinto.

       O que se devia fazer era o processo da realeza e não o do rei.

       A realeza era uma abstracção sombria; um mistério ameaçador, em que ninguém cria: um ídolo dourado por fora: um desses níveos sepulcros, de que fala Cristo, e que são por dentro cheios de vermes e de podridão.

       Mas o rei era outra coisa. Era um homem pouco interessante nos dias da prosperidade, mas que tinha engrandecido nos dias de cativeiro. A sua sensibilidade tinha-se desenvolvido com as desgraças que o feriam, e até sobre a rainha o prestígio da adversidade tornara-se tal, que, ou fosse nova intuição, ou fosse arrependimento, a prisioneira do Templo chegara, não a amar – aquele pobre coração torturado devia ter perdido quanto contivera de amor, como vaso rachado que a pouco e pouco perde o líquido que contém; – mas a adorar, a venerar, no sentido religioso da palavra, aquele rei, aquele príncipe, aquele homem, cujos apetites materiais, cujos instintos inferiores, tantas vezes lhe tinham feito subir o sangue ao rosto.

       Um dia, entrando o rei no quarto da rainha, achou-a a lavar o quarto do delfim que estava doente.

       Parou à porta, deixou pender a cabeça para o peito e disse suspirando:

       – Oh! Senhora! Que trabalho para uma rainha de França! Oh! Se em Viena vissem o que está fazendo! Oh! Quem diria que unindo a minha sorte com a sua, a faria descer tão baixo?

       – E não tem em nenhuma conta – respondeu Maria Antonieta – a glória de ser a mulher do melhor e do mais perseguido dos homens?

       Eis o que respondia a rainha, isto sem testemunhas, julgando não ser ouvida de um pobre escudeiro, que seguia o rei, e que, semelhante a pérolas pretas, guardava estas palavras para fazer um diadema, não para a cabeça do rei, mas para a cabeça do condenado.

       Outro dia, encontrando o rei sua irmã a princesa Isabel, que, por não ter tesoura, cortava com os dentes a linha de um vestido da rainha, que estava cosendo, disse-lhe:

       – Ai, minha irmã, que contraste com a linda casa de Montreuil, onde não lhe faltava nada!

       – Ai, meu irmão – respondeu a santa princesa – acaso posso lastimar alguma coisa, quando, compartilho as suas desgraças?

       E tudo isto era conhecido, tudo isto se espalhava, tudo isto bordava de arabescos a sombria lenda do mártir.

       A realeza, ferida de morte, mas o rei conservado vivo, era um pensamento grande e potente, que só entrou na cabeça de poucos homens, e que não se atreveram, tão impopular era, a exprimi-lo.

       – Este povo precisa que o salvem – diz Danton nas Carmelitas – mas não carece que o vinguem.

       – Sem dúvida, é preciso julgar o rei – diz Gregório à Convenção, mas ele tem feito tanto para ser desprezado, que não há lugar para o ódio.

       Paygne escreveu:

      

       “Quero que se faça o processo, não de Luís XVI, mas de todos os reis. Desses indivíduos temos um em nosso poder, ele nos esclarecerá sobre a conspiração geral. Há também fortes prevenções contra o Sr. Guebfe, eleitor do Hanover, na sua qualidade de rei de Inglaterra; se o processo geral da realeza demonstrar que ele compra os alemães, paga com dinheiro inglês ao Landgrave de Hesse o execrando traficante de carne humana, será uma justiça para com a Inglaterra estabelecer bem esse facto. A França, tornada republicana, tem interesse em tornar universal a revolução. Luís XVI é muito útil para demonstrar a todos a necessidade das revoluções”.

      

       Por conseqüência, os espíritos elevados, Thomas Paygne, e os grandes corações, Danton e Gregório, estavam de acordo neste ponto.

       Não se devia pois fazer o processo do rei, mas sim o dos reis, e sendo necessário, chamar como testemunha para esse processo Luís XVI.

       A França republicana, isto é maior, devia proceder em seu nome e em nome dos menores, isto é, dos povos submetidos à realeza.

       Então a França não julgaria como juiz terrestre, seria um juiz divino, pairaria nas esferas superiores, e a sua palavra não subiria até ao trono como um salpico de lama e de sangue, cairia como um raio sobre os reis.

       Suponde este processo público, apoiado por provas, começando por Catarina II, assassina do marido e verdugo da Polónia;

       Suponde as particularidades daquela vida monstruosa, posta a público como o cadáver da princesa de Lamballe, e isto em vida;

       Vede a Pasifaa do norte amarrada ao pelourinho da opinião pública, e dizei se semelhante processo não seria de grande instrução para os povos.

       Que afinal o que há de bom no que se não fez, é poder-se fazê-lo ainda.

 

O processo

       Os papéis do armário de ferro, entregues por Gamain, a quem a Convenção concedeu uma pensão de 1.200 libras por esta bela acção, que morreu cheio de reumatismo e pungido de dores, que cem vezes lhe fizeram lastimar a guilhotina, a que tinha ajudado a subir o seu real discípulo, o armário de ferro, com grande despeito do Sr. e da Srª. Roland, nada continha contra Dumouriez nem contra Danton.

       Só comprometia o rei e os padres.

       Denunciava o limitado e ingrato espírito de Luís XVI, que só odiava os que o tinham querido salvar.

       Necker, Lafayette, Mirabeau!

       Também não continha nada contra a Gironda.

       A discussão sobre o processo começou a 13 de Novembro.

       Quem abriu essa discussão terrível? Quem se fez porta-machado da montanha? Quem adejou por cima da sombria Assembléia como Anjo do extermínio? Quem se arrojou a tal?

       Foi um mancebo que a 20 de Julho de 1792, isto é, quatro meses antes, escrevia a um seu amigo esta singular carta:

      

       Meu caro Dubigny:

       Depois que estou em Paris ardo numa febre republicana, que me devora e consome: envio pelo mesmo correio a sua irmã uma carta; é uma desgraça não poder ficar em Paris, pois me sinto fadado para as idéias do século; companheiro de glória e de liberdade, pregue nas suas secções que o perigo o inflama, vá visitar Camilo Desmoulins, abrace-o da minha parte, mas diga-lhe que nunca mais me tornará a ver, diga-lhe que estimo o seu patriotismo, mas que o desprezo a ele, porque lhe penetrei na alma e percebi que desconfiou de mim entretanto, peça-lhe que não abandone a boa causa e recomende-lhe isto bem, pois ainda não tem a audácia da virtude. Adeus. Sou superior à desgraça, tudo suportarei, mas hei-de dizer a verdade; são todos uns fracos, que nunca souberam apreciar-me; a minha palma há-de florescer e há-de obscurecê-los, infames! Sou um maroto, um celerado, porque não tenho dinheiro para lhes dar; arranquem-me o coração e comam-no, tornar-se-ão o que não são: Grandes! Ó Deus! Será preciso que Bruto feneça esquecido longe de Roma! Entretanto, o meu partido está tomado: se Bruto não matar outros, matar-se-á a si.

       Adeus.

      

       Mas quem era este rapaz que se apelidava Bruto?

       Um mancebo de vinte e quatro anos enviado à Convenção antes da idade requerida.

       Nascera numa das partes mais selvagens da França, em Nièvre; havia nele a seiva áspera e amarga, que faz, senão os grandes homens, pelo menos, os homens perigosos; era filho de um pobre soldado que em conseqüência de trinta anos de serviço, fora elevado à Cruz de S. Luís, enobrecido como tal com o título de cavaleiro; era por natureza triste e grave; a sua família tinha poucos bens no departamento de Aisne, em Blérancourt, e habitava uma modesta casa que estava longe da mediocridade dourada de Horácio.

       Enviado a Reims para estudar direito, foi mau estudante, e mau poeta; fez um poema à maneira do Orlando Furioso, e da Donzela, intitulado o Organt. Publicado sem sucesso em 1789, foi o poema reimpresso em 1792, porém da mesma maneira sem sucesso.

       Tinha pressa em sair da sua província, como se pode ver pela carta, que citámos. Foi procurar Camilo Desmoulins, o célebre jornalista, que tinha na sua mão os futuros poetas desconhecidos.

       Este homem de espírito, de brio e desenvolto, viu uma manhã entrar em sua casa um estudante soberbo, pedante, cheio de pretensões, de palavras lentas e graduadas, caindo a uma e uma como as gotas de água que passam por uma rocha; quanto ao rosto, tinha olhos azuis, e a tez branca e pálida: a sua estada em Reims talvez tivesse dado ao estudante em direito a escrofulosa doença, que os reis tinham pretensão de curar em Reims, no dia da sagração; a barba ficava-lhe perdida no meio de uma enorme gravata, apertada, quando todos a traziam larga e flutuante, como para dar ao carrasco a facilidade de a desatar, a figura era ridícula, automática e parecendo uma máquina, se não se tornasse terrível como um espectro, e tudo isto coroado com uma testa tão estreita que os cabelos quase lhe nasciam ao pé dos olhos.

       Camilo Desmoulins viu pois uma manhã entrar em sua casa esta esquisita figura, que logo se lhe tornou antipática.

       O mancebo leu-lhe os versos, e entre outros pensamentos sociais, disse-lhe que o mundo estava vazio desde o tempo dos romanos.

       Os versos pareceram-lhe maus, o pensamento falso, e zombou do poeta, e o poeta filósofo, teve de retirar-se à sua solidão de Blérancourt, batendo à Tarquínio – diz Michelet, o grande retratista desta espécie de homens – as papoulas com uma chibata, vendo talvez numa Desmoulins, noutra Danton.

       Mas chegou-lhe a vez; a vez nunca falta a certos homens.

       A sua idéia, o seu burgo, a sua pequena cidade estava muito ameaçada de perder um mercado com o qual ganhava muito.

       O mancebo, apesar de não conhecer Robespierre, escreveu-lhe pedindo que apoiasse a reclamação comunal, que lhe remetia, oferecendo ao mesmo tempo para poder ser vendida toda a sua pequena fortuna. O que fazia rir Camilo Desmoulins, fazia pensar Robespierre; chamou para junto de si o jovem fanático, estudou-o e reconheceu-lhe a têmpera desses homens, com que se fazem as revoluções, e pela sua influência nos jacobinos fez com que fosse nomeado membro da Convenção, apesar de não ter a idade marcada na lei.

       O presidente do corpo eleitoral, João de Brey, protestou, e com o protesto apresentou a certidão do baptismo.

       Com efeito o rapaz só tinha vinte e quatro anos e três meses.

       Mas a influência de Robespierre fez desaparecer esta reclamação.

       Foi em casa desse rapaz que Robespierre passou a noite de 2 de Setembro.

       Foi esse rapaz que dormiu, enquanto Robespierre não pregou olho.

       Esse rapaz era Saint-Just.

       – Saint-Just – dizia-lhe um dia Camilo Desmoulins – sabes o que Danton diz de ti?

       – Não.

       – Diz que trazes a cabeça como a de um Santo Sacramento.

       Um pálido sorriso contraiu a boca feminina do moço.

       – Bem – disse Saint-Just – e eu hei-de fazer-lhe trazer a dele como S. Dinis.

       E cumpriu a palavra.

       Saint-Just desceu lentamente do cume da montanha, subiu lentamente à tribuna e pediu a palavra.

       Pediu – enganámo-nos – não pediu, ordenou a morte.

       Foi atroz o discurso que pronunciou aquele rapaz pálido com lábios de mulher.

       Assina-o quem quiser, imprima-o quem puder, que a nós falece-nos o ânimo.

       – O rei não deve ser julgado demoradamente – disse ele – deve ser morto.

       Deve ser morto, porque não há leis para o julgar; ele mesmo as destruiu. Deve ser morto, como um inimigo, pois que só os cidadãos são julgados; para julgar o tirano, seria preciso dar-lhe primeiro o foro de cidadão. Deve ser morto, como um criminoso, apanhado em flagrante delito, com a mão no sangue; demais, a realeza é um delito eterno; um rei está fora da natureza; entre o povo e o rei não há nenhuma relação natural.

       E falou assim uma hora sem se animar, sem se esquentar, com voz e gestos de pedante, e rematando cada frase com estas palavras, que caíam com um peso singular, e que produziam nos ouvintes uma impressão igual à do ferro da guilhotina.

        “Deve ser morto”.

       O discurso produziu um efeito terrível; não houve um só juiz que não sentisse, ao ouvi-lo, penetrar-lhe até ao coração o frio do aço.

       O próprio Robespierre se assustou ao ver o seu discípulo, o seu pupilo plantar, tanto além dos postos republicanos, os mais avançados, o sanguinolento estandarte da revolução.

       Desde então, o processo não só foi decidido, mas Luís XVI foi condenado.

       Quem tentasse salvar o rei expunha-se à morte.

       Danton teve esta idéia, mas faltou-lhe o ânimo para a pôr em prática. Tivera bastante patriotismo para reclamar o nome de assassino não teve porém bastante estoicismo para aceitar o de traidor.

       O processo começou a 11 de Dezembro.

       A 7 tinha ido ao Templo um membro da municipalidade à frente de uma deputação para falar ao rei.

       Aí leu aos presos uma sentença, que ordenava que lhes tirassem as facas, navalhas de barba, tesouras, canivetes, finalmente todos os instrumentos cortantes, que é costume tirar aos condenados.

       Entretanto a mulher de Cléry foi vê-lo; levava na sua companhia uma amiga. Como de costume mandaram descer o escudeiro à casa do conselho. Ela fingiu que falava com o marido em negócios domésticos, mas enquanto falava em voz alta a amiga dizia em voz baixa:

       – Terça-feira que vem é o rei levado à Convenção. Vai começar o processo. O rei poderá escolher advogados. Tudo isto é certo.

       O rei tinha recomendado a Cléry que não lhe ocultasse nada. Por pior que fosse a notícia, o fiel servidor tomou a resolução de lha dizer. À noite, enquanto o despia, participou-lhe o que sabia.

       Até ajuntou que enquanto durasse o processo tinha a Convenção decidido separá-lo da família.

       Quatro dias restavam a Luís XVI para combinar com a rainha os meios de se corresponderem. Cléry oferecia-se a arriscar tudo para o conseguir.

       O rei ia responder quando entrou o membro da municipalidade.

       No dia seguinte, quando o rei se levantou, não teve Cléry tempo de continuar a conversação. O rei subiu com o filho para almoçar com as princesas, Cléry seguiu-os. Depois do almoço, conversou muito com a rainha, e um olhar doloroso desta indicou a Cléry do que se tratava.

       O rei pôde ainda agradecer-lhe a fidelidade e dedicação.

       – Continue – disse ele – a fazer a diligência para descobrir o que querem fazer de mim. Não receie afligir-me. Combinei com a minha família não nos darmos por sabedores do que se passa para o não comprometer.

       Porém, quanto mais se aproximava o dia do processo, mais desconfiados se tornavam os membros da municipalidade, e Cléry não pôde dar aos presos outras notícias senão as que continha um jornal, que alcançou.

       Este jornal continha o decreto que mandava comparecer o rei a 11 de Dezembro na sala da Convenção.

       A 11 de Dezembro, logo às cinco horas da manhã, começaram a tocar os tambores em Paris.

       As portas do Templo abriram-se para dar passagem à cavalaria e à artilharia. Se a família real ignorasse o que estava para acontecer, decerto se assustaria com esta bulha; todavia fingiu que não sabia, e pediu explicações aos comissários de serviço.

       Estes negaram-se a dá-las.

       Às nove horas, o rei e o delfim subiram ao quarto das princesas para almoçarem.

       Passaram juntos mais uma hora, mas à vista dos membros da municipalidade. No fim de uma hora tiveram de se separar.

       O delfim não sabia nada; tinham querido poupar-lhe esta dor. Adorava o pai, que se fizera criança, para ser seu companheiro nos brinquedos, e se tornara estudante, para ser professor. O menino insistiu nessa ocasião para jogar com o pai; este, apesar da sua crítica sorte, quis dar-lhe essa satisfação.

       O delfim perdeu todas as partidas, e ficou três vezes no n.º 16.

       – Maldito n.º 16! – exclamou ele – creio que me acarreta desgraça.

       O rei nada respondeu, mas o facto impressionou-o como um funesto acontecimento.

       Às onze horas, enquanto o rei ensinava o filho a ler, entraram dois membros da municipalidade, e disseram a sua majestade que iam buscar o delfim para o levar a sua mãe.

       O rei quis saber os motivos desta espécie de rapto.

       Os comissários contentaram-se com responder-lhe que executavam as ordens do conselho da Comuna.

       O rei abraçou o filho e encarregou Cléry de o levar a sua mãe.

       Cléry levou o menino e voltou.

       – Onde deixou meu filho? – perguntou o rei.

       – Nos braços da rainha – respondeu Cléry.

       Neste momento entrou um dos comissários.

       – Senhor – disse ele – o cidadão Chambon (era o sucessor de Pétion), maire de Paris está no conselho e não tarda aqui.

       – Que me quer ele? – perguntou o rei.

       – Não sei – respondeu o membro da municipalidade; – e saiu, deixando o rei só.

       O rei passeou muito pelo quarto e depois assentou-se à cabeceira do leito. O membro da municipalidade estava com Cléry na casa próxima e dizia-lhe, talvez por ironia:

       – Não me atrevo a entrar no quarto do preso com medo de que ele me interrogue.

       Todavia era tal o silêncio, que reinava no quarto, que o comissário ficou com cuidado por não sentir o rei. Entrou brandamente e achou Luís XVI tapando a cara com as mãos e muito preocupado. Todavia, sentindo de repente abrir a porta, voltou-se e perguntou em voz alta:

       – Que me quer?

       – Receava – respondeu o membro da municipalidade – que estivesse incomodado.

       – Muito obrigado – respondeu o rei; – não estou incomodado, mas sensibilizou-me em extremo a maneira por que me tiraram meu filho.

       O membro da municipalidade retirou-se.

       Já era uma hora, quando apareceu o maire. Ia acompanhado pelo novo procurador da Comuna, Chaumette, pelo secretário, Coulombeau, por muitos membros da municipalidade, por Santerre e pelos ajudantes de ordens deste.

       O rei levantou-se.

       – Que me quer, senhor? – perguntou ele dirigindo-se ao maire.

       – Venho aqui – respondeu o maire – em virtude de um decreto da Convenção.

       O secretário desenrolou o papel e leu:

       “Decreto da Convenção Nacional, que ordena que Luís Capeto...”

       A esta palavra o rei interrompeu-o, dizendo:

       – Capeto não é o meu nome, mas sim de um dos meus antepassados.

       Depois, como o comissário quisesse continuar a leitura, acrescentou:

       – É inútil, senhor, pois já li o decreto num jornal.

       Então voltando-se para o comissário, disse:

       – Teria desejado, que os comissários me tivessem deixado meu filho durante as duas horas, que passei a esperá-los, tornando-me mais agradável o tempo que esperei. Não me admiro porém, este tratamento é a continuação do que recebo há quatro meses. Vou segui-lo, não por obedecer à Convenção, mas porque os meus inimigos dispõem da força.

       – Então venha – disse Chambon.

       – Só peço tempo para pôr um casaco, por cima deste fato; Cléry o meu casaco!

       Cléry entregou ao rei o que ele pedia.

       Chambon saiu adiante, o rei seguiu-o.

       No fundo da escada o rei lançou um olhar inquieto para as espingardas, para as lanças e sobretudo para os cavaleiros azuis, cuja organização ignorava.

       Depois lançou um último olhar para a torre e partiu.

       Chovia.

       O rei ia numa carruagem e parecia senhor de si.

       Passando pelas portas de Sain-Martin, e pelas de Saint-Denis, perguntou qual delas tencionavam demolir.

       Entrando nos Bernardos, Santerre pôs-lhe a mão no ombro e levou-o à barra, ao mesmo lugar, e à mesma cadeira, onde tinha jurado à Constituição.

       Todos os deputados tinham ficado assentados no momento da entrada do rei.

       Só um, quando o rei passava por defronte dele, se levantou e o cumprimentou.

       O rei admirado voltou-se e conheceu Gilberto.

       – Bons-dias, Sr. Gilberto – disse o rei.

       Depois dirigindo-se a Santerre:

       – Conhece o Sr. Gilberto? Noutro tempo foi o meu médico. Não lhe há-de querer mal por me ter cumprimentado, não é assim?

       Procedeu-se ao interrogatório.

       Ali o prestígio da desgraça começou a desaparecer diante da publicidade.

       O rei não só respondeu às perguntas que lhe foram dirigidas, mas respondeu mal, hesitando, negando, chicanando, como poderia fazer um advogado de província advogando uma questão de serventia rural.

       O rei não se dava bem com o aparato público.

       O interrogatório durou até às cinco horas.

       Às cinco horas foi o rei conduzido à sala das conferências, onde esperou pela carruagem.

       O maire chegou-se ao rei, e perguntou:

       – Quer tomar alguma coisa?

       – Muito obrigado – disse o rei – não quero nada.

       Mas pouco depois, vendo um granadeiro puxar por pão e dar metade dele a Chaumette, procurador da Comuna, aproximou-se deste e disse-lhe:

       – Quer ter a bondade de me dar um bocado do seu pão?

       Como falasse baixo, Chaumette recuou e disse-lhe:

       – Fale em voz alta, senhor.

       – Oh! Posso falar em voz alta – disse o rei com um sorriso triste – Peço um bocado de pão.

       – Com todo o gosto – respondeu Chaumette.

       E ofereceu-lhe o pão.

       – Aqui tem, tire o que quiser, é um almoço de espartiata. Se tivesse uma raiz dar-lhe-ia metade.

       Desceram ao pátio.

       Os que ali estavam, vendo o rei, entoaram a canção da Marselhesa:

 

Q'un sang impur abreuve nos sillons!

      

       Luís XVI empalideceu e entrou na carruagem.

       E pôs-se a comer, mas só a côdea do pão. Ficava-lhe nas mãos o miolo e não sabia o que fazer dele.

       – Ah! – disse o rei – é mal feito desperdiçar assim o pão, quando é tão raro.

       – Como sabe que é raro, se nunca lhe falta? – perguntou Chaumette.

       – Sei que é raro porque este que me deram cheira um pouco a terra.

       – Minha avó – replicou Chaumette – costumava dizer: “Rapaz, não se deve perder uma migalha de pão, porque não és capaz de fazer nascer outra igual”.

       – Sr. Chaumette – replicou o rei – segundo me parece, sua avó era uma mulher de juízo.

       Depois ambos se calaram.

       Daí a pouco perguntou o rei:

       – Que tem, senhor, está tão pálido?

       – Efectivamente – respondeu Chaumette – não me sinto bem.

       – Talvez que lhe cause enjôo o balanço da carruagem – observou o rei.

       – Talvez.

       – Nunca embarcou?

       – Fiz a guerra com Lamothe-Picquet.

       – Lamothe-Picquet era um valente.

       E o rei calou-se.

       Em que pensava ele? Na sua bela marinha vitoriosa na Índia; no seu porto de Cherburgo, conquistado ao Oceano; no esplêndido uniforme de almirante, tão diferente do que trajava naquela hora; na sua artilharia que salvava todos os dias de prosperidade.

       Estava longe de tudo isto o pobre Luís XVI.

       Metido naquela carruagem incómoda, caminhando a passo por entre ondas de povo, com a barba crescida, trajando um casaco pardo, e dizendo com essa memória automática das crianças e dos Bourbons:

       – Esta é a rua de tal; aquela é a rua de tal; estoutra é a rua de tal.

       Chegando à rua de Orleans, disse:

       – Ah! Esta é a rua de Orleans.

       – Diga a rua da Igualdade – responderam-lhe.

       – Oh! Sim, por causa do Sr. infante...

       E não acabou, calou-se, e desde a rua da Igualdade até ao Templo não anunciou mais palavra.

 

A lenda do rei mártir

       O primeiro cuidado do rei, logo que chegou ao Templo, foi pedir que o conduzissem a sua família.

       Responderam-lhe que não havia ordem para isso.

       Luís compreendeu que, como os condenados à morte, era posto de segredo.

       – Previnam ao menos a rainha de que cheguei – disse ele.

       E sem fazer caso dos quatro membros da municipalidade, pôs-se a ler.

       O rei ainda tinha uma esperança, e era que à hora da ceia se reuniria com a família.

       Debalde esperou, não apareceu ninguém.

       – Ao menos – disse o preso – meu filho passará a noite no meu quarto pois está aqui o que lhe pertence?

       Infeliz! Nem ao menos a respeito do filho tinha a certeza, que afectava ter.

       Não responderam a essa pergunta, como tinha sucedido com as outras.

       – Vamos – disse o rei – então deitemo-nos.

       Cléry despiu o rei, como costumava.

       – Oh! Cléry – disse o rei – estava longe de esperar as perguntas que me fizeram.

       E com efeito, quase todas as perguntas feitas ao rei versavam sobre o armário de ferro, e como o rei ignorasse a traição de Gamain, estava longe de pensar que o armário tivesse sido descoberto.

       Todavia, logo que se deitou, adormeceu com essa tranqüilidade que em certas circunstâncias parecia letargia.

       Não sucedeu o mesmo à sua família.

       Esta maneira de tratarem o rei era para ela muito significativa.

       Era o segredo dos condenados.

       De mais a mais o delfim tinha o seu leito no quarto do rei.

       A rainha deitou o menino na sua cama e esteve toda a noite de pé à cabeceira do leito.

       A sua dor era tão sombria, esta atitude parecia-se tanto com a da estátua de uma mãe, ao pé do túmulo do filho, que a princesa Isabel e a princesa real resolveram passar ali a noite assentadas em cadeiras.

       No dia seguinte, pela primeira vez, implorou a rainha os seus guardas.

       Pediu duas coisas:

       Ver o rei e receber os jornais para estar ao facto do processo.

       Estas duas súplicas foram levadas ao conselho.

       Uma, a dos jornais, foi recusada.

       A outra foi concedida, mas só em parte.

       A rainha não podia ver o marido, nem a irmã o irmão.

       Mas os filhos podiam ver o pai, com a condição de que não veriam mais nem a mãe nem a tia.

       Participou-se este ultimatum ao rei.

       Reflectiu um instante.

       Depois, com a sua habitual resignação, respondeu:

       – Não, por maior que seja a ventura que me daria a presença de meus filhos, renunciarei a ela; além disso, o grande negócio que me ocupa, impedir-me-ia de lhes prestar os devidos cuidados; nada, ficarão com sua mãe.

       Em conseqüência desta resposta, fizeram a cama do delfim no quarto da rainha, que nunca mais deixou os filhos até ao dia em que foi condenada pelo tribunal revolucionário, assim como o rei o foi pela Convenção.

       Era preciso procurar meios de se comunicarem.

       Foi Cléry quem se encarregou de organizar as correspondências, sendo ajudado nisso por Turgy, criado das princesas.

       Turgy e Cléry encontravam-se no exercício das suas funções.

       A vigilância porém dos membros da municipalidade tornava impossível falarem-se.

       O que unicamente podiam dizer era:

       – O rei passa bem.

       A rainha e as princesas passam bem.

       Todavia Turgy habilmente conseguiu entregar um bilhete a Cléry.

       – Deu-mo a princesa Isabel envolto no seu guardanapo – disse ele.

       Cléry foi imediatamente levar o bilhete ao rei.

       As letras tinham sido traçadas a bico de alfinete.

       Havia muito tempo que as princesas não tinham nem papel, nem penas, nem tinta.

       Continha o seguinte:

      

       “Nós passamos bem, meu irmão; escreva-nos”.

      

       O rei respondeu, porque depois que se abrira o processo tinham-lhe restituído penas, papel e tinta.

       Depois entregou o bilhete aberto a Cléry.

       – Leia, meu pobre Cléry – disse ele – e verá que não contém coisa que possa comprometê-lo.

       Cléry recusou respeitosamente lê-lo e tornou a dá-lo ao rei, conforme este lho entregara.

       Passados dez minutos tinha Turgy a resposta.

       No mesmo dia Turgy, passando pelo quarto de Cléry, atirou para dentro um novelo de fio.

       Dentro do novelo ia um bilhete da princesa Isabel.

       Cléry enrolou o fio em redor de um bilhete e meteu-o no armário da louça.

       Turgy tirava-o e metia as respostas no mesmo sítio.

       Porém todas as vezes que o seu escudeiro lhe dava novas provas de fidelidade o rei abanava a cabeça tristemente, dizendo:

       – Tome cuidado, olhe que se compromete.

       O meio era com efeito muito precário.

       Cléry procurou outro.

       Os membros da municipalidade entregavam as velas em pacotes atados com um nastro.

       Cléry foi ajuntando cuidadosamente o nastro, e logo que teve porção suficiente, participou ao rei que tinha um meio de tornar a correspondência mais activa.

       Esse meio era entregar o nastro à princesa Isabel, e como a janela do quarto desta ficava por cima da do quarto de Cléry, podia à noite atar os bilhetes ao nastro e do mesmo modo receber as respostas.

       Além disso, à mesma fita podiam atar-se penas, papel e um vidro com tinta, o que dispensaria as princesas de escreverem com bicos de alfinetes.

       Por esta forma eram mais regulares as notícias.

       Todavia, a posição do rei tinha piorado muito depois que comparecera na Convenção.

       Acreditava-se geralmente em duas coisas:

       Ou que, segundo o exemplo de Carlos I, cuja história o rei muito bem sabia, o rei recusaria responder à Convenção;

       Ou que, se respondesse fá-lo-ia feramente em nome da realeza, não como um acusado, que se sujeita a uma sentença, mas como um cavalheiro que aceita um desafio e levanta a luva.

       Infelizmente Luís XVI não era de natureza assaz real para tomar qualquer destes dois partidos.

       Respondeu, como já dissemos, mal, timidamente, desastradamente, e acabou por pedir um advogado.

       Depois de uma deliberação tumultuosa, que se seguiu à partida do rei, foi-lhe então concedido o advogado.

       No dia seguinte, quatro membros da Convenção foram ao Templo perguntar ao rei que advogado escolhia.

       – O Sr. Target – respondeu o rei.

       Os comissários retiraram-se e preveniram o Sr. Target da honra que lhe fazia o rei.

       Coisa inaudita, incrível, este homem de grande valor, antigo membro da Constituinte, um dos que tivera parte mais activa na redacção da Constituição, teve medo.

       Recusou timidamente, mostrando-se fraco, empalidecendo de receio perante o seu século, para corar de vergonha perante a posteridade.

       Mas no dia imediato àquele em que o rei compareceu na Convenção recebeu o presidente a seguinte carta:

       

       “Cidadão presidente:

       Ignoro se a Convenção concederá um defensor a Luís XVI; se assim suceder desejo que Luís XVI saiba que, se me escolher, estou pronto a aceitar essa missão. Não peço que deis parte do meu oferecimento à Convenção; estou longe de me considerar personagem de grande importância para que ela se ocupe de mim; mas fui chamado duas vezes ao conselho daquele que foi meu senhor, no tempo em que isso era a ambição de todos; devo-lhe o mesmo serviço, quando isso era uma função, que muitos julgam perigosa.

       Se conhecesse meio possível de lhe fazer saber as minhas intenções, não tomaria a liberdade de me dirigir a vós.

       Lembrei-me, porém, de que, pela vossa posição, tereis, melhor do que ninguém, meio de lhe participar este oferecimento”.

       “Sou com respeito, etc., etc.”

        “Malesherbes”.

      

       Chegaram ao mesmo tempo duas representações no mesmo sentido.

       Uma de certo advogado de Troyes, chamado Sourdat.

       “Sou – dizia ele – levado a defender Luís XVI pela convicção que tenho da sua inocência”.

       Outra de uma tal Olímpia de Gouges, célebre improvisadora meridional, que ditava as suas comédias, porque, diziam, não sabia escrever.

       Olímpia de Gouges fizera-se advogada das mulheres, queria que lhes dessem os mesmos direitos que aos homens, que pudessem ser eleitas deputadas, discutir as leis, assim como declarar a paz e a guerra.

       Apoiava a sua pretensão com uma palavra sublime:

       – Porque não hão-de as mulheres subir à tribuna; não sobem também ao cadafalso?

       E com efeito a ele subiu a pobre criatura, mas no momento em que lhe foi lida a sentença, tornou-se mulher, isto é, fraca, e querendo aproveitar o benefício da lei, declarou-se grávida.

       O tribunal fê-la passar por uma consulta de médicos e de parteiras.

       O resultado da consulta foi que se havia gravidez era muito recente para que se pudesse conhecer.

       Diante do cadafalso tornou-se homem e morreu como deve morrer uma mulher da sua qualidade.

       Enquanto a Malesherbes, era o mesmo Lamoignon do Malesherbes, que tinha sido ministro com Turgot, e que com ele caíra; era homem baixo, de 70 a 72 anos, de figura vulgar, e até caricata, e estava longe de fazer julgar – diz Michelet – que fosse capaz de mostrar um heroísmo dos tempos da antiguidade.

       Diante da Convenção nunca tratou o rei senão por senhor.

       – O que é que te dá o atrevimento de assim falares diante de nós? – perguntou um dos membros da Convenção.

       – O desprezo da morte – respondeu simplesmente Malesherbes.

       E com efeito, desprezava bem a morte, para a qual marchou conversando com os seus companheiros, e como se devesse, segundo a expressão de Guillotin, sentir uma ligeira fresquidão quando a recebesse. O porteiro de Monceaux, para onde eram levados os corpos dos supliciados, certificou singularmente este desprezo.

       Na algibeira das calças do corpo do decapitado achou o relógio; marcava duas horas.

       Segundo o seu costume, tinha-lhe dado corda ao meio-dia, isto é, precisamente à hora que saiu para o cadafalso.

       O rei, na falta de Target, escolheu Malesherbes e Tronchet, e estes, como o tempo era pouco, tomaram por adjunto o advogado Deséze.

       A 14 de Dezembro anunciaram ao rei que tinha permissão para comunicar com os seus advogados, e que naquele mesmo dia receberia a visita do Sr. Malesherbes.

       A dedicação deste ancião impressionou-o muito.

       Vendo aproximar-se com uma simplicidade sublime aquele ancião de setenta e dois anos, o coração do rei quase que estalou, e abrindo os braços e lavado em lágrimas, disse:

       – Meu caro Sr. de Malesherbes, por favor, venha abraçar-me.

       E depois de o ter afectuosamente apertado ao coração, continuou:

       – Sei qual é a sorte que me está reservada; e espero a morte, com toda a tranqüilidade estou preparado para a receber! Marcharei para o cadafalso com passo firme.

       O rei, depois de algumas dificuldades suscitadas pelos membros da municipalidade, pôde, finalmente, em virtude do decreto da Convenção, comunicar secretamente com os seus defensores.

       A 15 de Dezembro anunciaram uma deputação.

       Era composta por quatro membros da Convenção.

       Era Valazé, Cochon, Grandpré e Duprat.

       Vinte e um deputados tinham sido nomeados para examinarem o processo do rei. Todos quatro faziam parte dessa comissão especial.

       Traziam ao rei o acto de acusação e as peças relativas ao seu processo.

       A verificação destas peças levou todo o dia.

       Cada uma das peças foi lida pelo secretário.

       Lida cada uma das peças, Valazé dizia:

       – Tem conhecimento deste papel?

       O rei respondia sim ou não.

       Estava tudo dito.

       Passados alguns dias, voltaram os mesmos comissários, e leram ao rei cinqüenta e uma peças novas, que ele assinou como as precedentes.

       Ao todo cento e cinqüenta e oito peças, de que lhe deixaram cópia.

       Neste tempo foi o rei atacado por uma fortíssima constipação.

       Lembrou-se do cumprimento de Gilberto no momento de entrar na Convenção.

       Mandou pedir à Comuna que consentisse que fosse visitado pelo seu antigo médico.

       A Comuna não consentiu.

       – Não beba o Capeto água gelada – disse um dos seus membros – que já não se constipa.

       Era a 26 que o rei havia de aparecer pela segunda vez à barra da Convenção.

       Tinha a barba muito crescida.

       Luís pediu as suas navalhas. Foi isso objecto de negociação. Afinal foram-lhe dadas com a condição de que se serviria delas diante de quatro membros da municipalidade.

       A 25 às onze horas, o rei começou a fazer o seu testamento.

       Esta peça é por tal forma conhecida, que apesar de comovente e cristã, não a queremos de forma alguma consignar aqui.

       Dois testamentos têm atraído a nossa atenção.

       O testamento de Luís XVI, que se achava em face da república, e só via a realeza.

       E o testamento do duque de Orleans, que se achava em face da realeza e só via a república.

       Citaremos apenas uma frase do testamento de Luís XVI, Cada qual vê – dizem – não segundo na realidade das coisas, mas segundo o ponto de vista em que está colocado.

      

       “Termino – escreveu o rei – declarando perante Deus e os homens que não tenho de que acusar-me por nenhum dos crimes que me assacam”.

      

       Mas como foi que Luís XVI, a quem a posteridade deu uma reputação de homem honrado, reputação que talvez deva a essa frase, sendo perjuro a todos os seus juramentos, fugindo para o estrangeiro, e deixando um protesto contra os juramentos feitos; tendo discutido, anotado, e, apreciado os planos de Lafayette e de Mirabeau; quase a comparecer perante Deus, e pronto, como ele diz, a ser julgado; crendo por conseqüência em Deus, na sua justiça, na remuneração das boas e más acções, pôde dizer:

        “Que não tinha que acusar-se pelos crimes que lhe assacavam?”

       Pois bem, a própria construção da frase explica isto perfeitamente.

       Luís XVI não diz:

       – Os crimes, que me assacam são falsos.

       Diz:

       – Não tenho que acusar-me pelos crimes, que me assacam.

       E isso não é a mesma coisa.

       Luís XVI, no momento de caminhar para o cadafalso, mostrou que ainda era discípulo do Sr. de Lavauguyon.

       Dizer:

        Os crimes, que me assacam são falsos, era negar esses crimes.

       E Luís XVI não podia negá-los.

       Dizer: Não tenho que acusar-me pelos crimes que me assacam.

       Era em rigor: Os crimes existem, mas não me acuso deles.

       E porque não se acusava?

       Porque estava colocado, como há pouco dissemos, no ponto de vista da realeza.

       Porque os reis, pela sua elevada posição, pelo sagrado da sua legitimidade, pelo direito divino, em que consideram, não vêem os crimes, e sobretudo os crimes políticos, sob o ponto de vista em que os julgam os outros homens.

       Assim, para Luís XI a revolta contra o pai não é um crime, é a guerra a bem do público.

       Assim, para Carlos IX, o S. Bartolomeu não é um crime, é uma medida aconselhada pela salvação pública.

       Assim, aos olhos de Luís XVI, a revogação do édito de Nantes não é um crime, é simplesmente uma razão de Estado.

       O próprio Malesherbes, que então defendia o rei, sendo outrora ministro e querendo reabilitar os protestantes, achou em Luís XVI uma resistência obstinada.

       – Não – respondeu-lhe o rei – não: a proscrição dos protestantes é uma lei de Estado, é uma lei de Luís XIV; não ultrapassemos os limites.

       – Senhor – respondeu Malesherbes – a política nunca deve prevalecer contra a justiça.

       – Mas – exclamou Luís XVI – como homem que não percebe, como é que a revogação do édito de Nantes é um atentado contra a justiça? A revogação do édito de Nantes não foi para a salvação do Estado?

       Assim, para Luís XVI a perseguição dos protestantes, excitada por uma velha devota e por um juiz odiento, aquela medida atroz, que fez correr sangue a jorros nos vales Cevelones, que acendeu as fogueiras de Nimes, de Alby, de Béziers, não era um crime, era, pelo contrário, uma razão de Estado.

       Além disso, havia ainda outra coisa, que era preciso examinar no ponto de vista real.

       É que um rei, nascido quase sempre de uma estrangeira, é quase sempre estrangeiro para o seu povo.

       Governa e nada mais.

       E como o governa?

       Por intermédio dos seus ministros.

       Por esta razão, o povo não só não é digno de ser seu parente, não é digno de ser seu aliado, mas nem sequer é digno de ser governado directamente pelo rei. Ao passo que os soberanos estrangeiros são parentes e aliados do rei, que não tem parentes nem aliados no seu reino.

       Bourbons de Espanha, Bourbons de Nápoles, de Itália, todos são da mesma origem.

       Henrique IV era primo de Luís XVI.

       O imperador de Áustria era seu cunhado; os príncipes de Sabóia eram seus aliados.

       Luís XVI era saxónio por parte da mãe.

       Ora, lembrando-se o povo de impor a Luís XVI condições, que este julgou que não era do seu interesse seguir, a quem chamou Luís XVI contra os seus vassalos revoltados?

       Aos seus primos, aos seus cunhados, aos seus aliados; para ele, os espanhóis e os austríacos não eram inimigos da França, pois que eram parentes e amigos dele; e no ponto de vista da realeza, o rei é a França.

       O que vinham defender aqueles reis?

       A causa santa, inatacável, quase divina, da realeza.

       Esta era a razão porque Luís XVI não se acusava pelos crimes, que lhe assacavam.

       Portanto, o egoísmo real fez nascer o egoísmo popular, e o povo, que tinha levado o ódio à realeza, a ponto de suprimir Deus, por lhe dizerem que a realeza emanava de Deus, tinha também, em virtude de alguma razão de Estado, apreciado, sob o seu ponto de vista, e fizera o 14 de Julho, os 5 e 6 de Outubro, o 20 de Junho e o 10 de Agosto.

       Não dizemos o 2 de Setembro, pois não foi o povo que o fez, foi a Comuna.

 

A lenda do rei mártir

       Chegou o dia 26 e encontrou o rei preparado para tudo, mesmo para a morte.

       O rei tinha feito o seu testamento na véspera, e receava, não se sabe porquê, ser assassinado quando no dia seguinte fosse à Convenção.

       A rainha sabia que o rei ia à Convenção pela segunda vez.

       O movimento das tropas, o rufar dos tambores assustá-la-iam em extremo, se Cléry não tivesse achado meio de lhe participar a causa.

       Às dez horas da manhã, partiu o rei, guardado por Chambon e Santerre.

       Chegado ao local do edifício onde funcionava a Convenção, teve que esperar uma hora.

       O povo vingava-se de ter tido por antecâmara, pelo espaço de quinhentos anos, o Louvre, as Tulherias e Versalhes.

       Realizava-se uma discussão, a que o rei não podia assistir.

       Uma chave, entregue por ele, no dia 12, a Cléry, tinha sido apanhada nas mãos do escudeiro.

       Lembraram-se de experimentar a chave no armário de ferro e servia-lhe.

       A chave tinha sido apresentada a Luís XVI, que respondera:

       – Não a conheço.

       Segundo a probabilidade, ele mesmo é que a tinha forjado.

       Foi nestas pequenezas que o rei não teve grandeza alguma.

       Acabada a discussão, o presidente anunciou à Assembléia que o acusado e os seus defensores estavam prontos para comparecer.

       Deu-se ordem para Luís XVI entrar na sala.

       Entrou o rei, acompanhado por Malesherbes, por Tronchet e por Desèze.

       – Luís – disse o presidente – a Convenção decidiu que seria hoje ouvido.

       – O meu advogado vai ler-lhes a minha defesa – disse o rei.

       Seguiu-se profundo silêncio; toda a Assembléia compreendia que se devia dar algumas horas de atenção àquele rei, cuja realeza aniquilavam, àquele homem, cuja vida cortavam.

       Além disso, a Assembléia, onde havia espíritos superiores, talvez esperasse ver suscitada uma grande discussão; prestes a deitar-se no sepulcro ensangüentado, talvez que já envolta na mortalha, a realeza ia levantar-se de repente, aparecer com a majestade dos moribundos, e dizer algumas palavras, que a história registra e que os séculos repetem.

       Não sucedeu porém assim; ao contrário de toda a expectativa, o discurso do advogado Desèze foi simplesmente um discurso de advogado.

       Era contudo bela a defesa daquela causa, a defesa daquele herdeiro de tantos reis, que a fatalidade levava perante o povo, não só em expiação dos seus próprios crimes, mas para expiar os crimes e as faltas de uma raça inteira.

       Parece-nos que se naquela ocasião fôssemos o advogado Desèze não teríamos falado como ele falou, mas sim com mais alma.

       Devia apelar para S. Luís, para Henrique IV, e estes dois grandes chefes da raça é que deviam lavar Luís XVI das fraquezas de Luís XIII, das prodigalidades de Luís XIV e da devassidão de Luís XV.

       Não aconteceu porém assim.

       Desèze não procurou comover. Não se tratava de ser conciso, mas poético; era necessário dirigir-se ao coração e não ao raciocínio.

       Mas talvez que, acabado este discurso, Luís XVI, tomasse a palavra, e já que ia defender-se, o fizesse como rei, digna, grandiosa e nobremente.

       “Senhores – disse ele – acabam de lhes expor os meus meios de defesa, portanto não os repetirei: falando-lhes talvez pela última vez, declaro que a minha consciência não me acusa de coisa alguma, e que os meus defensores lhes disseram a verdade.”

       “Nunca receei que a minha conduta fosse examinada publicamente, mas estala-me o coração por encontrar no acto de acusação que quis fazer derramar o sangue do povo, e sobretudo o serem-me atribuídas as desgraças do dia 10 de Agosto.”

       “Confesso que as multiplicadas provas, que em todos os tempos dei, do meu amor pelo povo, e a maneira por que me conduzi, me pareciam dever provar que receava pouco expor-me para poupar o seu sangue e para afastar de mim semelhante imputação.”

      

       Ora, enoja ver o sucessor de sessenta reis, o neto de S. Luís, de Henrique IV, de Luís XIV não achar outra coisa que responder ao seus acusadores.

       Quanto mais a acusação era injusta no vosso entender, senhor, mais eloqüente devia tornar-vos a indignação.

       Devíeis deixar alguma coisa à posteridade, quando mais não fosse uma sublime maldição sobre os vossos carrascos.

       Portanto, a Convenção admirada, perguntou:

       – Não tem mais nada a juntar à sua defesa?

       – Não – respondeu o rei.

       – Pode retirar-se.

       Luís retirou-se.

       O rei foi conduzido a uma das salas contíguas à Assembléia.

       Ali abraçou o Sr. Desèze; e como o advogado estivesse em suor, mais pela comoção do que pela fadiga, Luís XVI aconselhou-lhe que mudasse de camisa, e ele mesmo aqueceu a que o advogado vestiu.

       Às cinco horas, voltou ao Templo.

       Naquela mesma tarde foi procurado pelos seus defensores no momento em que se levantava da mesa.

       Ofereceu-lhes alguns refrescos, que só Desèze aceitou.

       – Então, senhor de Malesherbes – disse o rei – bem vê que não me tinha enganado quando lhe disse que a minha condenação estava decidida, muito antes de eu ser ouvido.

       – Senhor – respondeu Malesherbes – ao sair da Assembléia fui rodeado por pessoas, que afirmaram que não morrereis, senão no meio delas e dos seus amigos.

       – Conhece essas pessoas, senhor? – perguntou o rei.

       – Pessoalmente não as conheço, mas se as tornar a ver, talvez conheça alguma.

       – Pois bem, faça diligência por encontrar algumas, e diga-lhes que nunca lhes perdoarei a mínima gota de sangue derramada por minha causa. Não quis que se derramasse quando podia conservar-me o trono e a vida, muito menos o quero agora, que já fiz o sacrifício tanto de um como da outra.

       O Sr. de Malesherbes prometeu voltar à Convenção logo que saísse do Templo, e efectivamente demorou-se muito pouco com o rei e saiu para cumprir a ordem, que lhe fora dada.

       Chegou o 1.º de Janeiro de 1793.

       Preso e no segredo, Luís XVI só tinha na sua companhia um único servidor.

       Pensava tristemente neste isolamento quando Cléry se lhe aproximou da cama.

       – Senhor – disse ele em voz baixa – peço licença de lhe apresentar os meus ardentes votos pelos fins das desventuras de vossa majestade.

       – Aceito os seus desejos, Cléry – disse o rei estendendo-lhe a mão.

       Cléry pegou na mão do rei e cobriu-a de beijos e de lágrimas.

       Depois o rei levantou-se e vestiu-se.

       Neste momento entraram os membros da municipalidade.

       Luís procurou entre eles aquele, cuja fisionomia denotava alguma compaixão, e aproximando-se dele, disse-lhe:

       – Oh! Senhor, faça-me um grande obséquio.

       – O que é?

       – Ir saber notícias da minha família e apresentar-lhe os meus bons desejos pelo ano que começa.

       – Eu vou – respondeu o membro da municipalidade muito enternecido.

       – Obrigado – disse o rei; – espero que Deus lhe pagará o favor que me faz.

       – Mas – disse o outro membro a Cléry – porque não pede o preso que o deixem ver a sua família? Agora, que já estão acabados os interrogatórios, parece-me que não haverá dificuldade para o conseguir.

       – Mas a quem se há-de o rei dirigir?

       – À Convenção.

       Passado um instante, voltou o membro que tinha ido ao quarto da rainha.

       – Senhor – disse ele – a sua família agradece os seus votos e dirige-lhe os dela.

       O rei sorriu tristemente e disse:

       – Que dia de ano bom!

       À noite, Cléry participou ao rei o que lhe dissera o membro da municipalidade.

       O rei reflectiu um instante, e depois de alguma hesitação, disse:

       – Não, daqui a alguns dias não me hão-de recusar essa consolação; quero esperar.

       A religião católica inflige aos seus eleitos terríveis macerações do coração.

       A sentença devia ser promulgada a 16.

       O Sr. de Malesherbes esteve muito tempo com o rei, e saiu ao meio-dia dizendo que voltaria o mais depressa possível a dar-lhe conta do que se passasse.

       A votação devia recair sobre três questões terrivelmente simples:

       1.º Luís é culpado?

       2.º A decisão da Convenção deve ser submetida à ratificação do povo?

       3.º Qual deve ser a pena?

       Era porém preciso, para que o futuro visse bem que, se não se votava sem ódio, ao menos votava-se sem medo, era preciso que a votação fosse nominal.

       Um girondino, por nome Birotteau, pediu que cada representante subisse à tribuna e desse em voz alta o seu voto.

       Um montanhês, Leonardo Bourdon, foi mais longe; pediu que fossem assinados os votos.

       Finalmente, um deputado da direita, chamado Royer, pediu que as listas fizessem menção dos ausentes em comissão, e que todos os que estavam ausentes sem ser em comissão, fossem censurados e os seus nomes enviados aos departamentos.

       Começou então a grande e terrível sessão, que devia durar três dias e três noites.

       A sala apresentava singular aspecto, pouco em harmonia com o que se ia passar.

       O aspecto da sala não dava idéia alguma do drama terrível.

       O fundo tinha sido transformado em camarotes, onde as mais lindas mulheres de Paris, cobertas de veludo e de peles, tomavam gelados.

       Os homens cumprimentavam-nas, conversavam com elas, voltavam aos seus lugares, e dali faziam sinais; parecia um espectáculo.

       O lado da montanha, principalmente, fazia-se notar pela sua elegância; era entre os montanheses que tinham assento os milionários: o duque de Orleans, Lepelletier de Saint-Fargeau, Hérault de Séchelles, Anacharsis Clootz, o marquês de Châteauneuf.

       Todos estes senhores tinham tribunas reservadas para as suas amantes, que chegavam cobertas de fitas tricolores, com bilhetes, ou com cartas de recomendação aos porteiros, que lhes franqueavam as tribunas.

       As galerias reservadas para o povo estiveram constantemente cheias; bebia-se ali e comia-se como nas casas de pasto, e conversava-se como nos clubes.

       Ao primeiro quesito: Luís é culpado?

       Seiscentas e oitenta e três vozes responderam:

       – Sim.

       Ao segundo quesito: A decisão da Convenção deve ser submetida à ratificação do povo?

       Duzentas e oitenta e uma vozes votaram pela apelação para o povo.

       Quatrocentas e vinte e três votaram contra.

       Depois chegou o terceiro quesito, o quesito grave, o quesito supremo: Qual deve ser a pena?

       Quando chegaram a este quesito eram oito horas da noite do terceiro dia, dia do mês de Janeiro, triste, chuvoso e frio.

       Todos estavam aborrecidos, fatigados, impacientes; a força humana, tanto nos actores como nos espectadores, sucumbia a quarenta e cinco horas de permanência.

       Cada deputado subiu à tribuna e pronunciava uma destas quatro palavras:

       A prisão, o exílio, a morte com apelação para o povo, ou a morte simplesmente, sem apelação.

       Tinha-se proibido qualquer sinal de aprovação, ou de reprovação, todavia quando nas galerias ouviam outras palavras que não fossem morte, murmuravam.

       Filipe-Igualdade subiu à tribuna e disse:

       – Unicamente ocupado do meu dever, convencido de que todos aqueles que intentaram, ou que de futuro intentem contra a soberania do povo merecem a morte, voto pela morte.

       Depois de pronunciadas estas palavras, seguiram-se murmúrios, assobios, e apupada.

       No meio deste acto terrível, apareceu Duchâtel, um deputado que estava doente; vendo-o aparecer com o barrete de dormir, e com um chambre vestido, a Assembléia pôs-se a rir.

       Disse duas palavras: a Assembléia estremeceu.

       O moribundo vinha votar pela morte.

       Vergniaud, presidente no dia 10 de Agosto, ainda era presidente a 17 de Janeiro.

       – Cidadãos – disse ele – ides exercer um grande acto de justiça; espero que a humanidade vos aconselhará a guardar o mais profundo silêncio; depois da justiça falar, deve fazer-se ouvir a humanidade.

       E leu o resultado do escrutínio.

       De setecentos e vinte e um votantes, trezentos e oitenta e sete votam pela morte; uns sem apelação, outros com apelação.

       Havia pois mais pela morte do que pelo exílio cinqüenta e três votos.

       Tirando porém destes cinqüenta e três votos os quarenta e seis, dos que tinham votado pela morte com apelação, restava somente pela morte imediata uma maioria de sete votos.

       – Cidadãos – disse Vergniaud com inflexão de profunda dor – declaro em nome da Convenção que a pena que ela pronuncia contra Luís Capeto é de morte.

       Foi na noite de sábado 19, que se votou a pena de morte, mas só no domingo, 20, às três horas da manhã, é que Vergniaud pronunciou a sentença.

       Entretanto Luís XVI, privado de toda a comunicação, sabia contudo que a sua sorte se decidia, e só, longe de sua mulher e de seus filhos, que tinha recusado ver para mortificar a alma, como um anacoreta mortifica a carne, entregava com indiferença, pelo menos na aparência perfeita, a sua vida ou a sua morte nas mãos do Omnipotente.

       No domingo pela manhã, às seis horas, entrou o Sr. de Malesherbes. O rei já estava levantado, mas estava encostado a uma mesa tapando o rosto com as mãos.

       O ruído que o seu advogado fez ao entrar tirou-o da meditação em que estava.

       – E então? – perguntou o rei.

       O advogado não teve força para responder; mas o rei, pelo abatimento do rosto, logo viu que estava tudo acabado.

       – Condenado à morte – disse Luís; – estava certo disso.

       Então abriu os braços e apertou contra o peito o Sr. de Malesherbes, que estava lavado em lágrimas.

       – Sr. de Malesherbes – disse ele – afirmo-lhe que há dois dias tenho constantemente investigado se durante o meu reinado mereci a censura de meus vassalos. Pois juro-lhe com toda a sinceridade do meu coração, como um homem que vai aparecer perante Deus, que sempre desejei a felicidade do meu povo, e que nunca formei um só voto que lhe fosse contrário.

       Tudo isto se passava diante de Cléry, que estava lavado em pranto; mas o rei, tendo dó dele, levou o Sr. de Malesherbes para o seu gabinete, onde se demorou uma hora.

       Depois saiu, abraçou o seu defensor, pediu-lhe que voltasse à tarde, e despediu-se.

       As lágrimas borbulhavam nos olhos do rei.

       – Este bom velho comoveu-me muito – disse ele a Cléry; – mas o que tem?

       Esta pergunta era motivada por um tremor geral que se apoderara de Cléry, desde que o Sr. de Malesherbes, ao entrar, lhe dissera que o rei tinha sido condenado à morte.

       Então Cléry para ocultar, quanto lhe fosse possível, ao rei o estado em que se achava, preparou tudo o que era necessário para o rei fazer a barba.

       O rei pôs o sabão, e Cléry estava diante dele com a bacia nas mãos.

       De repente foi o rei acometido por grande palidez; Cléry, receando que estivesse incomodado, pôs de parte a bacia e dispunha-se a sustê-lo, mas o rei pegou-lhe nas mãos e disse-lhe:

       – Vamos, vamos, ânimo!

       E barbeou-se tranqüilamente.

       O rei esteve no seu quarto até à hora do jantar; às duas horas abriu-se a porta, era o conselho executivo que vinha intimar a sentença ao preso.

       À frente do conselho vinham Garat, ministro da justiça; Lebrun, dos negócios estrangeiros; Grouvelle, secretário do conselho; o presidente e o procurador geral, o síndico dos departamentos, o maire e o procurador da Comuna, o presidente e o acusador público do tribunal criminal.

       Santerre ia adiante de todos.

       – Anuncia o conselho executivo! – disse ele a Cléry.

       Cléry dispunha-se a obedecer; mas o rei, que tinha sentido passos, poupou-lhe o trabalho: abriu a porta e apareceu no corredor.

       Então Garat, com o chapéu na cabeça, tomou a palavra e disse:

       – Luís, a Convenção Nacional encarregou o conselho executivo provisório de lhe intimar os decretos de 15, 16, 17, 19 e 20 de Janeiro; o secretário do Conselho vai lê-los.

       Então Grouvelle desenrolou o decreto e leu com voz trémula:

 

Artigo 1.º

      

       “A Convenção declara Luís Capeto, último rei dos franceses, culpado da conspiração contra a liberdade da nação, e de atentado contra a segurança geral do Estado.”

 

Art. 2.º

      

       “A Convenção Nacional decreta que Luís Capeto sofrerá pena de morte.”

 

Art. 3.º

      

       “A Convenção Nacional declara nulo o acto de Luís Capeto levado à barra pelos seus advogados, e qualificado de apelação para a nação, da sentença contra ele dada pela Convenção.”

 

Art. 4.º

      

       “O conselho executivo provisório notificará o presente decreto a Luís Capeto, e tomará as medidas de polícia e de segurança necessárias para assegurar a execução da sentença dentro de vinte e quatro horas, contadas depois de feita a intimação, e dará conta de tudo à Convenção Nacional, logo depois de executada.”

      

       Durante a leitura, o rosto do rei conservou-se perfeitamente tranqüilo, a sua fisionomia só indicou dois sentimentos completamente distintos.

       A estas palavras: culpado de conspiração, um sorriso de desprezo contraiu-lhe os lábios, e a estas: sofrerá pena de morte, dirigiu ao Céu um olhar, que parecia pôr o condenado em comunicação com Deus.

       Acabada a leitura, o rei deu um passo para Grouvelle, pegou no decreto, dobrou-o, meteu-o na carteira, da qual tirou outro papel, que entregou a Garat dizendo:

       – Sr. ministro da justiça, rogo-lhe queira entregar imediatamente esta carta à Convenção Nacional.

       E como o ministro hesitasse:

       – Vou lê-la disse o rei.

       E leu a seguinte carta com uma voz, que contrastava com a de Grouvelle.

      

       “Peço três dias para me preparar a comparecer perante Deus. Peço para isto autorização para ver livremente a pessoa, que eu indicar aos comissários da Convenção, e que esta pessoa esteja ao abrigo de todo o receio e de todo o cuidado pelo acto de caridade, que desempenhe comigo.”

       “Peço para ser desembaraçado da contínua vigilância, que o conselho geral estabeleceu há dois dias.”

       “Peço para neste intervalo poder ver a minha família sem testemunhas; desejava também muito que a Convenção Nacional se ocupasse já da sorte da minha família e que permitisse que ela se retirasse livremente para aonde julgasse a propósito.”

       “Recomendo à beneficência da nação todas as pessoas que estavam ao meu serviço; há muitas que tinham empregado toda a sua fortuna nos seus cargos, e como não têm outras rendas, devem estar na miséria; nos recolhimentos e hospícios havia muitas mulheres, velhos e crianças que viviam do que eu lhes dava.”

       “Feita na torre do Templo, a 20 de Janeiro de 1793.”

       “Luís.”

      

       Garat pegou na carta.

       – Senhor – disse ele – esta carta vai já ser entregue à Convenção.

       Então o rei puxou de novo pela carteira e dela tirou uma tira de papel.

       – Se a Convenção me conceder o que peço, eis aqui a morada da pessoa que desejo.

       Efectivamente no papel estava escrita a morada pela letra da princesa Isabel.

      

       “O Sr. Edgeworth de Firmont, rua do Bac, n.º 483.”

      

       Depois, como não tivesse mais nada que dizer nem que ouvir, o rei deu um passo para trás como no tempo em que dava audiência, indicando com este movimento que a audiência estava terminada.

       Os ministros e todas as pessoas que os acompanhavam saíram.

       – Cléry – disse o rei ao seu escudeiro, o qual para se suster, tinha sido obrigado a encostar-se à parede – pede o meu jantar.

       Cléry passou à casa de jantar para executar a ordem do rei; achou ali dois membros da municipalidade, que lhe deram um decreto pelo qual era proibido ao rei servir-se de facas e de garfos.

       Só uma faca devia ser confiada a Cléry para cortar o pão e a carne a seu amo na presença de dois comissários.

       A ordem foi repetida ao rei, porque Cléry não se quis encarregar de lha participar.

       O rei partiu o pão com os dedos e a carne com a colher.

       Contra o seu costume, comeu pouco, e o jantar só durou alguns minutos.

       Às seis horas anunciaram o ministro da justiça; precedia-o Santerre.

       O rei levantou-se para o receber.

       – Senhor – disse o ministro da justiça – entreguei a sua carta à Convenção, e ela encarregou-me de lhe notificar a seguinte resposta:

      

       “É livre a Luís chamar o ministro do culto que lhe parecer.”

       “Ver a sua família livremente e sem testemunhas.”

       “A nação magnânima e sempre justa, ocupar-se-á da sorte da sua família.”

       “Aos credores da sua casa serão concedidas justas indemnizações.”

      

       O rei fez um movimento com a cabeça e o ministro retirou-se.

       Mas os membros da municipalidade fizeram-no parar.

       – Cidadão ministro – disseram eles – como poderá Luís ver a família?

       – Em particular – respondeu Garat.

       – É impossível; por um decreto da Comuna, nós não o podemos perder de vista nem de dia nem de noite.

       A coisa com efeito era intrincada. Todavia conciliou-se tudo, decidindo-se que o rei veria a família na casa de jantar, de maneira que pudesse ser visto pelas vidraças, mas podia fechar a porta para não ser ouvido.

       Entretanto, o rei dizia a Cléry:

       – Veja se ainda aí está o ministro da justiça e chame-o.

       O ministro entrou.

       – Esqueceu-me perguntar – disse o rei – se o Sr. Edgeworth de Firmont estava em casa e quando poderei vê-lo.

       – Trouxe-o na minha carruagem; está no conselho e já aí vem.

       Efectivamente, neste momento aparecia à porta o Sr. Edgeworth de Firmont.

 

A lenda do rei mártir

       O Sr. Edgeworth de Firmont era o confessor da princesa Isabel.

       Havia perto de seis semanas que o rei, prevendo a sua condenação, pedira à irmã conselho sobre a escolha do padre que devia acompanhá-lo, e a princesa lavada em lágrimas, recomendou-lhe o abade de Firmont.

       Este digno eclesiástico, inglês de origem, tinha escapado à carnificina de Setembro, e tinha-se retirado a Choisy-le-Roi, com o nome de Essex. A princesa, que estava ao facto disto, tinha-o mandado prevenir e esperava que estivesse em Paris no momento da condenação.

       Não se enganara.

       O abade de Firmont recebeu a missão com uma alegria resignada, pois não ignorava o perigo que corria o padre não ajuramentado que acompanhasse o rei ao cadafalso.

       Portanto a 21 de Dezembro escrevia a um dos seus amigos de Inglaterra:

      

       “O meu desgraçado amo lembrou-se de mim para dispor à morte. Se a iniqüidade do seu povo o levar a cometer tal parricídio, eu mesmo disponho a morrer, porque estou convencido de que o furor popular não me há-de deixar sobreviver a esta horrível cena. Estou porém resignado; a minha vida nada é, se, perdendo-a, puder salvar aquele a quem sirvo.”

      

       Tal era o homem que só devia desamparar Luís XVI no momento, em que este deixasse a terra pelo Céu.

       O rei mandou-o entrar para o seu gabinete, e dirigindo-se aos comissários disse:

       – Tenham a bondade de me conduzir à minha família.

       – Não é possível – disse um dos comissários; – mas se o deseja virá ela aqui.

       – Pois bem, contanto que a possa ver no meu quarto, livremente e sem testemunhas.

       – No seu quarto não, mas na casa de jantar.

       – Mas parece-me que o decreto da Convenção me permite vê-la sem testemunhas.

       – É verdade: ninguém o ouvirá, porque a porta estará fechada, mas pelos vidros não o perderemos de vista.

       – Está bem, mande descer a minha família.

       Os comissários saíram e o rei passou à sala de jantar.

       – Cléry – disse o rei – traga uma garrafa com água e um copo, para o caso da rainha ter sede.

       Havia em cima da mesa uma garrafa com água gelada, que um membro da Comuna tinha censurado ao rei.

       Cléry portanto só ali pôs um copo.

       – Traga água comum – disse o rei: – a rainha não está costumada à água gelada e podia fazer-lhe mal. Diga ao Sr. abade de Firmont que não saia do meu gabinete; a sua presença poderia produzir grande impressão na rainha.

       Às oito horas e meia abriu-se a porta.

       A rainha vinha adiante trazendo o filho pela mão; seguia-se-lhe a princesa Isabel e a princesa real.

       O rei abriu os braços, e todos ao mesmo tempo neles se lançaram chorando.

       Cléry saiu e fechou a porta.

       Durante alguns minutos reinou profundo silêncio, interrompido só por suspiros.

       Depois a rainha fez um movimento para levar o rei para o seu quarto.

       – Não – disse ele – só aqui a posso ver.

       A família real já sabia qual fora a sentença, mas ignorava os seus pormenores.

       Então o rei tudo lhe contou, desculpando os que o faziam morrer, e mostrando à rainha que nem Pétion, nem Manuel tinham votado pela morte imediata.

       A rainha não podia falar, porque lhe embargavam a voz os soluços.

       Deus dava uma indemnização ao pobre preso; fazia com que na sua última hora todos o adorassem, até a rainha.

       Como se pode ver na parte romântica desta obra, a rainha facilmente se deixava arrastar para o lado pitoresco da vida.

       Tinha essa imaginação viva, que, muito mais do que o temperamento material, torna as mulheres imprudentes. A rainha durante toda a sua vida foi imprudente; imprudente nas suas amizades, imprudente nos seus amores.

       O seu cativeiro no Templo salvou-a no ponto de vista moral. Voltou às puras e santas afeições de família, de que a tinham afastado as paixões da sua mocidade; e como fazia tudo apaixonadamente, veio a amar apaixonadamente na desgraça aquele homem, que achara vulgar nos dias da prosperidade.

       Varennes e o 10 de Agosto tinham-lhe mostrado o rei como um homem sem iniciativa, sem resolução, quase fraco. No Templo começou a perceber que não só como mulher julgara mal o marido, senão que como rainha tinha julgado mal o rei.

       No Templo viu-o sossegado, paciente aos ultrajes, doce e firme como Cristo. Portanto, por isso mesmo que muito o desprezara, muito o amou depois.

       – Ai de mim! – disse o rei ao abade de Firmont; amá-la eu tanto! E ser por ela tão ternamente amado!

       Nesta última entrevista a rainha deixou-se arrastar por um sentimento, que se parecia com o remorso. Quis levar o rei para o seu quarto, para estar um instante a sós com ele, e como visse que não era possível levou-o para o vão de uma janela.

       Ia sem dúvida lançar-se-lhe aos pés e pedir-lhe perdão, mas o rei, que a compreendeu, não consentiu, e tirando o testamento da algibeira, disse:

       – Leia, minha muito amada mulher.

       E apontou-lhe para o seguinte parágrafo:

       “Peço a minha esposa que me perdoe todos os males, que sofreu por minha causa, todos os desgostos que poderia causar-lhe durante a nossa união, assim como pode estar certa de que não guardo reserva contra ela, se julgar ter alguma coisa de que se acusar.”

       A pobre rainha pegou nas mãos do marido e beijou-as. Havia um perdão bem misericordioso naquela frase, como pode estar certa de que não guardo reserva contra ela, uma grande delicadeza nestas palavras, se julgar ter alguma coisa de que se acusar.

       Assim morria perdoada a pobre Madalena real; o seu amor pelo rei, apesar de tardio, valia-lhe a misericórdia divina e humana e o perdão era-lhe dado não em voz baixa e misteriosamente, como uma indulgência de que o rei se envergonhava, mas alta e publicamente.

       Quem se atrevia agora a acusar aquela, que ia apresentar-se à posteridade com a auréola do martírio e com o perdão do seu marido?

       Ela conheceu isto; compreendeu que desde aquele momento, estava forte perante a história; mas tornou-se mais fraca na presença daquele a quem amava tão tarde e a quem muito sentia não ter amado mais cedo.

       Não eram lágrimas, não eram palavras que se escapavam do peito da desgraçada senhora; eram soluços, eram gritos entrecortados. Dizia que queria morrer com seu marido, e que, se lhe recusassem essa graça, deixar-se-ia morrer de fome.

       Os membros da municipalidade, que não ouviam nada, mas que pelos gestos compreendiam que aquele que ia morrer é que consolava os que sobreviviam, não se puderam conter; primeiramente afastaram a vista, mas como ouviam gemidos, tornaram-se francamente homens e puseram-se a chorar.

       Aquela cena pungente e dolorosa durou duas horas menos um quarto.

       Finalmente, às dez horas e um quarto, o rei foi o primeiro a levantar-se. Então, mulher, filhos, irmã, agarraram-se a ele como os frutos a uma árvore. O rei e a rainha levavam o delfim pela mão; a princesa real à esquerda de seu pai, levava-o agarrado pela cintura: a princesa Isabel, do mesmo lado que a sobrinha, tinha pegado no braço do rei; a rainha, e era a que tinha direito a mais consolações, porque era a menos pura, tinha passado o braço ao pescoço do marido, e todo aquele grupo doloroso caminhava no meio de gemidos, de soluços e de gritos, por entre os quais só se ouviam estas palavras:

       – Havemos de tornar a ver-nos não é assim?

       – Sim, sim, fique descansada.

       – Amanhã às oito horas?

       – Prometo que sim.

       – Mas porque não há-de ser às sete horas? – perguntou a rainha.

       – Pois será às sete horas – respondeu o rei, – mas... Adeus... Adeus...

       E pronunciou este adeus com voz tão expressiva, que se conhecia que as suas forças estavam esgotadas.

       O mesmo sucedia à princesa real, que deu um suspiro e caiu desmaiada.

       A princesa Isabel e Cléry levantaram-na.

       O rei sentia que lhe competia ser forte.

       Arrancou-se dos braços da rainha e do delfim, e entrou no seu quarto, gritando:

       – Adeus! Adeus!

       Depois fechou a porta.

       A rainha soluçando foi colocar-se à porta, não se atrevendo a pedir ao rei que abrisse, mas chorando e dando ais profundos.

       O rei teve ânimo de não sair.

       Os membros da municipalidade convidaram a rainha a retirar-se, afirmando-lhe que no dia seguinte poderia ver seu marido às oito horas.

       Cléry queria levar a princesa real até ao quarto da rainha, mas ao segundo degrau, os membros da municipalidade obrigaram-no a retirar-se.

       O rei já estava com o seu confessor no gabinete da torre, e o confessor contava-lhe a maneira como tinha sido conduzido ao Templo.

       Eis o que contou o abade:

       Prevenido pelo Sr. de Malesherbes de que o rei havia de recorrer a ele no caso de ser condenado, o abade de Firmont, com perigo de vida, voltara a Paris, e depois da sentença esperara na rua do Bac.

       Às quatro horas da tarde, apresentara-se em sua casa um desconhecido, que lhe entregara um bilhete do Conselho executivo, concebido nestes termos:

      

       “Tendo o Conselho executivo de comunicar ao cidadão Edgeworth de Firmont um negócio de mais alta importância, convida-o a comparecer no lugar das sessões.”

      

       O desconhecido tinha ordem para acompanhar o padre. À porta esperava-os uma carruagem.

       O abade partiu com o desconhecido.

       A carruagem parou nas Tulherias.

       O abade achou os ministros em conselho. Logo que ele apareceu, levantaram-se.

       – É o Sr. abade Edgeworth de Firmont? – perguntou Garat.

       – Sim – respondeu o abade.

       – Bem – continuou o ministro; – tendo-nos Luís Capeto testemunhado o desejo de que o acompanhe nos seus últimos momentos, nós mandámos procurá-lo para saber se quer prestar-lhe o serviço que ele exige do senhor.

       – Já que o rei se lembrou de mim, é meu dever obedecer-lhe.

       – Nesse caso – disse o ministro – venha comigo ao Templo.

       E entrou com o abade na sua carruagem.

       Acabando o abade de falar – disse o rei:

       – Senhor, esqueçamos tudo para só pensarmos na minha salvação.

       – Senhor – respondeu o abade – estou pronto a fazer quanto me for possível, e espero que Deus suprirá o meu pouco mérito. Mas não seria uma grande consolação para vossa majestade ouvir missa e comungar?

       – Sim – respondeu o rei – e acredite que compreenderia todo o valor de semelhante graça. Mas há-de expor-se a esse ponto?

       – Isso é comigo e tenho a peito provar a vossa majestade que sou digno da honra que me fez, escolhendo-me para seu consolador. Dê-me o rei carta branca e eu respondo por tudo.

       – Vá, senhor – disse o rei.

       O abade Edgeworth inclinou-se e saiu, pedindo para ser conduzido à sala do Conselho.

       – Que quer? – perguntaram os membros da municipalidade.

       – Aquele que vai morrer amanhã deseja antes de morrer ouvir missa e comungar.

       Os membros da municipalidade olharam atônitos uns para os outros: nem sequer passava pela idéia a possibilidade de lhes pedirem semelhante coisa.

       – Mas aonde é – disseram eles – que se há-de achar a esta hora um padre e ornamentos de igreja?

       – O padre já nós temos, sou eu; quanto aos paramentos, a igreja mais próxima os fornecerá.

       Os membros da municipalidade hesitaram.

       – Mas – disse um deles – se fosse um engano?

       – Que engano? – perguntou o abade.

       – Se, sob pretexto de fazerem comungar o rei, quisessem envenená-lo?

       O abade olhou fixamente para aquele que emitia esta dúvida.

       – Não se admire – continuou o membro – a história oferece-nos bastantes exemplos a este respeito para nos aconselhar que sejamos circunspectos.

       – Senhor, quando aqui entrei fui apalpado escrupulosamente para verem se eu trazia veneno. Se amanhã o tiver, só dos senhores o poderei ter recebido.

       Convocaram os membros, que estavam ausentes e deliberaram.

       O que o rei queria foi concedido debaixo de duas condições:

       A primeira era que o abade faria um requerimento, que assinaria.

       A segunda que a cerimónia estaria acabada no dia seguinte às sete horas.

       O abade fez o requerimento e assinou-o.

       Depois foi dizer ao rei que os seus desejos estavam satisfeitos.

       O abade esteve com o rei desde as dez horas até à meia-noite; chegada essa hora, disse o rei:

       – Estou cansado e desejo dormir, porque preciso adquirir forças para amanhã.

       Depois chamou Cléry.

       O escudeiro apareceu, despiu o rei, e quis enrolar-lhe os cabelos.

       Mas o rei disse-lhe com um sorriso:

       – Não vale a pena.

       Depois deitou-se, e quando o escudeiro ia correr as cortinas, disse-lhe:

       – Cléry, chama-me às cinco horas.

       Apenas pousou a cabeça no travesseiro, logo adormeceu, tão poderosas eram naquele homem as necessidades materiais.

       O Sr. de Firmont deitou-se na cama de Cléry.

       Este passou a noite numa cadeira.

       O sono de Cléry foi aflito.

       Logo que se levantou, a primeira coisa que o escudeiro fez foi acender o lume.

       A bulha que fez acordou o rei.

       – Já são cinco horas, Cléry? – perguntou ele.

       – Senhor, já deram em muitos relógios, mas no do castelo ainda não.

       Então Cléry chegou-se ao leito.

       – Dormi bem, e bastante precisava, o dia de ontem fatigou-me horrivelmente. Onde está o Sr. de Firmont?

       – Está deitado na minha cama.

       – Então onde dormiste?

       – Nesta cadeira.

       – Tenho pena, pois decerto ficaste incomodado.

       – Oh! Senhor, acaso podia lembrar-se de mim em semelhante momento!

       – Ai, meu pobre Cléry!

       E estendeu-lhe a mão, em que o pobre escudeiro pegou lavado em pranto.

       O fiel servidor começou então a vestir o rei pela última vez.

       Depois de vestido penteou-o.

       Entretanto, Luís XVI tirou um sinete do relógio e meteu-o na algibeira da vestia, pôs o relógio sobre o fogão, e tirando um anel do dedo, meteu-o na mesma algibeira em que guardara o sinete.

       No momento em que Cléry vestia a casaca, que era a mesma da véspera, o rei tirou dela a sua carteira, a luneta, e a caixa de rapé, e pôs tudo em cima do fogão ao lado da bolsa; todos estes preparativos eram feitos diante dos membros da municipalidade, que tinham entrado no quarto do rei, logo que viram luz.

       Deu meia hora, depois das cinco.

       – Cléry – disse o rei – acorde o Sr. de Firmont.

       O Sr. de Firmont já estava acordado e levantado, ouviu a ordem dada a Cléry e portanto entrou.

       O rei cumprimentou-o e pediu que o seguisse ao seu gabinete; entretanto Cléry arranjava o altar.

       Era a cómoda do quarto coberta com uma toalha.

       Quanto aos paramentos da igreja e vestimentas do oficiante, tinham sido achadas, conforme dissera o abade Edgeworth, na primeira igreja a que se dirigiram.

       Esta igreja era a dos Capuchos do Marais, ao pé do palácio de Soubise.

       Preparado o altar Cléry foi prevenir o rei.

       – Poderá ajudar à missa? – perguntou-lhe Luís.

       – Parece-me que sim, ainda que não sei bem as respostas.

       Então o rei deu-lhe um livro de missa, que abriu no introitum.

       O Sr. de Firmont já se estava paramentando no quarto de Cléry.

       Cléry tinha colocado diante do altar uma grande cadeira e diante desta uma almofada; mas o rei fez-lha tirar e foi ele mesmo buscar outra mais pequena de que se servia ordinariamente para rezar as suas orações.

       Logo que entrou o sacerdote, os membros da municipalidade, que sem dúvida receavam manchar-se com o contacto de um homem da igreja retiraram-se para a casa próxima.

       Eram seis horas, quando começou a missa.

       O rei ouviu-a, desde o princípio até ao fim, de joelhos e no mais profundo recolhimento.

       Depois da missa, o rei comungou, e o abade Edgeworth, deixando-o entregue às suas orações, foi ao quarto de Cléry despir os paramentos.

       O rei aproveitou esse momento para agradecer a Cléry e para se despedir dele, depois entrou no seu gabinete.

       O abade de Firmont foi ter com ele.

       Cléry assentou-se em cima da cama a chorar.

       Às sete horas saiu o rei do gabinete e chamou Cléry.

       Cléry correu.

       O rei conduziu-o ao vão de uma janela e disse-lhe:

       – Há-de entregar este sinete a meu filho e este anel a minha mulher; diga-lhes que os deixo com muita pena. Este papel encerra os cabelos de todos os membros da nossa família, também lho entregará.

       – Mas – perguntou Cléry – vossa majestade não quer tornar a ver a sua família?

       O rei hesitou um instante como se o coração o abandonasse para ir ter com ela.

       Mas, por último, disse:

       – Não, decididamente, não. Sei muito bem que tinha prometido vê-la esta manhã, mas quero poupar-lhe a dor de tão cruel separação. Cléry, dir-lhe-á quanto me custa partir sem receber os seus últimos abraços.

       E dizendo estas palavras enxugou as lágrimas.

       Depois com a mais dolorosa expressão, acrescentou:

       – Cléry, há-de fazer-lhes as minhas últimas despedidas, não é assim?

       E tornou a entrar no seu gabinete.

       Os membros da municipalidade tinham visto o rei entregar a Cléry os diferentes objectos, que enumerámos. Um deles reclamou-os mas outro propôs que deixassem Cléry depositário deles até à decisão do conselho.

       Esta proposta prevaleceu.

       Passado um quarto de hora o rei tornou a sair do gabinete.

       – Cléry – disse ele – pergunte se é possível servir-me duma tesoura.

       E tornou para o gabinete.

       – O rei pode servir-se de uma tesoura? – perguntou Cléry aos membros da municipalidade.

       – Para que a quer?

       – Não sei.

       – Pois pergunte-lho.

       Um dos membros entrou no gabinete e achou o rei de joelhos diante do abade de Firmont.

       – Pediu uma tesoura – disse ele; – para que é?

       – Para Cléry me cortar os cabelos.

       O membro da municipalidade desceu à sala do Conselho.

       Deliberaram por espaço de meia hora e por último recusaram.

       O membro subiu e disse:

       – O conselho recusou.

       – Não lhe pegaria, e Cléry corta-me os cabelos na sua presença. Peço-lhe que vá dizer isto.

       O membro tornou a descer, expôs o que o rei lhe dissera, mas o conselho persistiu em recusar.

       Então um dos membros da municipalidade chegou-se a Cléry e disse-lhe:

       – Parece-me que é tempo de te dispores a acompanhar o rei ao cadafalso.

       – Para quê, meu Deus? – perguntou Cléry muito trémulo.

       – Para o ajudares a despir; não és seu escudeiro?

       – Oh! Não é preciso – disse outro – o carrasco exerce bem essas funções.

       O dia começava a despontar, e já em todas as secções de Paris se ouvia tocar o tambor.

       Este som penetrava na torre e gelava o sangue do abade de Firmont e de Cléry.

       Mas o rei, mais sossegado do que eles, escutou por um instante; depois disse com todo o sangue frio:

       – Provavelmente é a guarda nacional que começa a reunir.

       Passado algum tempo, entraram no Templo os destacamentos de cavalaria. Ouviu-se o tropel dos cavalos e as vozes dos oficiais.

       O rei escutou de novo e com o mesmo sossego.

       – Parece-me que se aproximam – disse ele.

       Das sete às oito horas da manhã, foram, sob diversos pretextos bater à porta do gabinete, e de cada vez o abade Edgeworth temia que fosse a última.

       Mas de todas as vezes o rei ia à porta, respondia tranqüilamente às pessoas que iam interrompê-lo, e voltava para os pés do seu confessor.

       O abade não via as pessoas que iam importunar o preso, mas ouvia-as.

       Uma vez ouviu uma que dizia:

       – Oh! Oh! Tudo isso era bom quando era rei, mas agora já não o é.

       O rei voltou com a mesma tranqüilidade e disse simplesmente:

       – Veja como esta gente me trata, meu padre; porém é necessário sofrer.

       Bateram de novo e o rei foi à porta.

       Desta vez voltou dizendo:

       – Esta gente em toda a parte vê punhais e veneno. Muito mal me conhecem. Matar-me seria uma fraqueza. Julgam que não sei morrer.

       Finalmente, às nove horas, aumentando a bulha, abriram-se as portas com estrondo e Santerre entrou acompanhado de sete ou oito membros da municipalidade e com dez gendarmes, que formou em duas linhas.

       A este movimento, saiu o rei do gabinete sem que fosse preciso baterem-lhe à porta.

       – Vêm buscar-me?

       – Sim, senhor.

       – Peço um minuto.

       E tornando a entrar fechou a porta.

       – Desta vez está tudo acabado, meu padre, disse ele, lançando-se de joelhos diante do confessor; dê-me a sua última bênção e peça a Deus que me dê forças até ao fim.

       Dada a bênção, o rei pôs-se em pé, e abrindo a porta do gabinete dirigiu-se aos membros da municipalidade e aos gendarmes que estavam no quarto.

       Todos tinham o chapéu na cabeça.

       – O meu chapéu, Cléry – disse o rei.

       Cléry lavado em pranto apressou-se em obedecer.

       – Há entre os senhores – perguntou o rei – algum membro da Comuna? É o senhor julgo eu.

       E dirigiu-se a um membro da municipalidade chamado Jacques Roux, padre ajuramentado.

       – Que quer? – perguntou este.

       O rei tirou da algibeira o seu testamento.

       – Peço-lhe que entregue este papel à rainha... a minha mulher.

       – Não viemos aqui para ser teus criados, mas para te conduzir ao cadafalso.

       O rei recebeu a injúria com a mesma humildade, com que Cristo a receberia, e com a mesma doçura que o homem Deus; voltando-se para outro membro da municipalidade chamado Gabeau, perguntou:

       – E o senhor também me recusa este favor?

       E como este hesitasse, o rei acrescentou:

       – Oh! Pode lê-lo; contém disposições que desejo que a Comuna conheça.

       O membro pegou-lhe.

       Então, vendo Cléry, o qual, receando como o escudeiro de Carlos I, que seu amo tremesse de frio e julgassem que era medo, lhe apresentava o chapéu e o casaco, disse-lhe:

       – Não, Cléry, quero só o chapéu.

       Cléry deu o chapéu ao rei, que aproveitou esta ocasião para lhe apertar pela última vez a mão.

       Depois, com esse tom de comando, que na sua vida tão raras vezes havia tomado, disse:

       – Partamos, senhores!

       Foram as últimas palavras que pronunciou na prisão.

       Na escada encontrou Mathay, porteiro da torre, que na antevéspera achara no seu quarto assentado diante do fogo, e a quem dissera com mau modo que saísse dali.

       – Mathay – disse o rei – antes de ontem fui um pouco arrebatado consigo, não me queira mal.

       Mathay não lhe respondeu e voltou-lhe as costas.

       O rei atravessou o primeiro pátio a pé, e atravessando-o voltou-se duas ou três vezes para dizer adeus com a vista ao seu único amor, a sua esposa; à sua amizade, a sua irmã; à sua única alegria, os seus filhos.

       À entrada do pátio achava-se uma carruagem pintada de verde: à portinhola estavam dois gendarmes. Quando o rei se aproximou, um deles meteu-se dentro da carruagem, depois entrou o rei, que fez sinal ao abade para se assentar a seu lado. O outro gendarme também entrou e fechou a portinhola.

       Correram então dois boatos.

       Sendo o primeiro, que um desses gendarmes era um padre disfarçado.

       O segundo, que ambos os gendarmes tinham recebido ordem de assassinar o rei à primeira tentativa que ele fizesse para o salvar.

       Nenhuma destas asserções tinha fundamento.

       A carruagem partiu às nove horas e um quarto.

       Ainda uma palavra sobre a rainha, sobre a princesa Isabel e sobre as duas crianças de quem o rei, ao partir se despedira com a vista, através das paredes da prisão.

       Na véspera à noite, depois da entrevista, ao mesmo tempo grata e terrível, a rainha apenas tivera tempo para despir e deitar o delfim. Deitou-se vestida em cima da cama, e durante aquela longa noite de Inverno a princesa Isabel e a princesa real ouviram-na tiritar de frio e de dor.

       Às seis horas e um quarto abriu-se a porta da alcova das princesas; tinham ido ali buscar um livro de missa.

       Então toda a família se preparou, crendo que, conforme a promessa feita na véspera pelo rei, dentro em pouco iria ter com ele; mas correu tempo, e a rainha e as princesas, sempre de pé, ouviram bulha por diversas vezes, a qual produziu nelas o mesmo efeito que produzira no confessor, e em Cléry, escudeiro do rei. Ouviram abrir e fechar portas; ouviram os gritos do populacho, que rondava a saída do rei, finalmente sentiram o tropel dos cavalos e o rodar da artilharia.

       Então a rainha caiu sobre uma cadeira dizendo:

       – Foi-se sem nos dizer adeus!

       A princesa Isabel e a princesa real puseram-se de joelhos.

       Tinham esperado que fosse só o exílio ou a prisão, e essa esperança esvaiu-se; depois tinham esperado que fosse concedida a apelação, e essa esperança desfez-se; finalmente, esperavam ainda um golpe desesperado, durante o trânsito, e essa esperança também ia desaparecer.

       – Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! – gritava a Rainha – e este último apelo de desespero à divindade era tudo quanto ela podia dizer.

       Entretanto ia rodando a carruagem.

       As ruas estavam quase desertas; as lojas fechadas, e não aparecia pessoa alguma nem às portas nem às janelas.

       Um decreto da Comuna proibia aos cidadãos que não fizessem parte da milícia armada, atravessarem as ruas, que desembocavam no boulevard, ou aparecerem às janelas quando passasse o rei.

       Uma atmosfera pesada e chuvosa só deixava ver uma floresta de lanças, no meio das quais brilhavam algumas baionetas. Na frente da carruagem, ia cavalaria e na frente desta tambores.

       O rei queria falar com o seu confessor, mas não o podia fazer por causa da bulha.

       O abade de Firmont emprestou ao rei o seu breviário.

       À porta de Saint-Denis levantou a cabeça, parecendo-lhe que havia grande movimento entre a multidão.

       Com efeito, uma dúzia de mancebos, desembocando da rua de Beauregard, acabavam de se precipitar com a espada em punho entre esta multidão, gritando:

       – A nós os que querem salvar o rei.

       Três mil conjurados deviam responder àquele brado levantado pelo barão de Batz, aventureiro conspirador.

       Deu corajosamente o sinal; de mais de três mil conjurados só lhe responderam doze.

       O barão de Batz e os conjurados aproveitaram a confusão causada pela sua tentativa e escaparam-se pelas ruas próximas ao arrabalde de Saint-Denis.

       Fora este movimento que distraíra o rei das suas orações: mas foi de tão pequena importância, que a carruagem nem sequer parou.

       Só parou quando chegou ao seu destino.

       Logo que o rei percebeu que tinha cessado o movimento, inclinou-se ao ouvido do sacerdote e disse-lhe:

       – Se não me engano já chegámos.

       O abade de Firmont ficou silencioso.

       Neste momento, um dos três irmãos Sanson, carrascos de Paris, foi abrir a portinhola.

       O rei, detendo-o e pondo a mão sobre o joelho do abade de Firmont, disse em tom de comando:

       – Recomendo-lhe este senhor; depois da minha morte preserve-o de qualquer injúria; é ao seu cuidado que o confio.

       Entretanto tinham-se chegado os outros dois algozes.

       – Sim, sim – disse um deles – deixe-o por nossa conta; vamos agora ao que interessa.

       Luís apeou-se.

       Então os ajudantes do carrasco quiseram despi-lo.

       Mas Luís repeliu-os desdenhosamente e começou a despir-se só.

       Por um instante ficou o rei só no meio do círculo que se tinha feito: tirou o chapéu, a gravata e a sobrecasaca.

       Depois aproximaram-se os algozes.

       Um deles tinha na mão uma corda.

       – Que quer? – perguntou o rei.

       – Quero amarrá-lo.

       – Oh! Isso nunca, tal não consentirei.

       Os executores elevavam a voz; ia travar-se aos olhos do público uma luta, corpo a corpo, que ia tirar à vítima o mérito de seis meses de coragem e de resignação, quando um dos irmãos Sanson, comovido, mas obrigado a executar a sua terrível obrigação, aproximou-se em tom respeitoso e disse:

       – Senhor, com este lenço.

       O rei olhou para o seu confessor.

       Este fez um esforço para falar e disse:

       – Senhor, será mais uma semelhança entre vossa majestade e o Deus que vai ser a recompensa do vosso martírio.

       O rei levantou os olhos para o Céu com suprema expressão de dor, e disse:

       – Sim, é preciso o seu exemplo para se poder sofrer uma tal afronta.

       E voltando-se para os carrascos, estendeu-lhe resignado as mãos e disse:

       – Façam o que quiserem, despejarei o cálix até às fezes.

       Os degraus do cadafalso eram altos e escorregadios; subiu-os encostado ao sacerdote. Por um instante sentiu este o peso do corpo do rei no seu braço, e receou alguma debilidade no último momento.

       Mas, chegando ao último degrau, o rei escapou-se por assim dizer da mão do seu confessor, como a alma se lhe ia escapar do corpo, e correu para o outro lado da plataforma.

       O rei estava muito vermelho e animado.

       Os tambores rufavam e ele impôs-lhe silêncio com um olhar.

       Pronunciou com voz forte as seguintes palavras:

       – Morro inocente de todos os crimes que me imputam; perdôo aos autores da minha morte, e peço a Deus que o sangue que ides derramar não caia nunca sobre a França.

       – Rufai, tambores! – gritou uma voz, que por muito tempo se julgou ser a de Santerre, mas que foi do Sr. de Beaufranchet, conde de Oyrt, filho de Luís XV e da cortesã Morphise.

       Era tio natural do condenado.

       Os tambores rufaram.

       O rei bateu o pé.

       – Calai-vos – disse com voz terrível – ainda tenho, que falar.

       Mas os tambores continuaram a rufar.

       – Façam o seu dever, berravam os homens, que cercavam o cadafalso, dirigindo-se aos executores.

       Estes atiraram-se ao rei, que voltou a passos lentos para o cutelo, olhando para o ferro, cujo desenho ele mesmo tinha dado havia um ano.

       Depois as suas vistas dirigiram-se para o sacerdote, que orava de joelhos à borda do cadafalso.

       Seguiu-se um movimento uniforme atrás dos dois postes da guilhotina; a redouça girou, sentiu-se uma pancada e não se viu mais do que um grande jacto de sangue.

       Então um dos executores, agarrando na cabeça do executado mostrou-a ao povo, aspergindo o cadafalso com o sangue real.

       A esta vista os homens das lanças deram brados de alegria, e precipitando-se molharam no sangue, uns as lanças, outros as espadas, e os que tinham lenços também os ensoparam.

       Depois deram o brado de: “Viva a república!”

       Mas pela primeira vez, este grande grito que tinha feito estremecer de alegria os povos, extinguiu-se sem eco.

       A república tinha na fronte uma dessas nódoas fatais que nunca se apagam.

       Acabava, como disse mais tarde um grande diplomata, de cometer mais que um crime, acabava de cometer um erro.

       Em Paris houve profundo sentimento, que em alguns degenerou em desespero.

       Uma mulher afogou-se no Sena, um cabeleireiro degolou-se, um livreiro endoideceu, um oficial morreu duma apoplexia.

       Quando se abriu a sessão, leu o presidente a carta de um homem que pedia que lhe fosse entregue o corpo de Luís XVI para o enterrar ao pé do de seu pai.

       Restavam o corpo e a cabeça separados um da outra.

       Vejamos que fim tiveram.

       Não conhecemos narrações mais terríveis do que o próprio texto de uma acta.

       Eis a que foi lavrada no dia da execução.

 

Acta do enterro de Luís Capeto

      

       “A 21 de Janeiro de 1793, II ano da república francesa, nós abaixo assinados, administradores dos departamentos de Paris, munidos de poderes pelo conselho geral do departamento, em virtude das ordens do conselho executivo provisório da república francesa, dirigimo-nos às nove horas da manhã a casa do cidadão Récaves, cura de Santa Madalena, e encontrando ali o dito cura, perguntamos-lhe se tinha dado cumprimento às ordens recomendadas na véspera pelo conselho executivo e pelo departamento para o enterro de Luís Capeto. Respondeu-nos que tinha executado o que fora ordenado pelo conselho executivo e pelo departamento, e que estava tudo preparado.”

       “Dali, acompanhados, pelos cidadãos Redard e Damoreau, ambos coadjutores da paróquia de Santa Madalena encarregados pelo cidadão cura de procederem ao enterro de Luís Capeto, dirigimo-nos ao cemitério da dita paróquia, situado na rua d'Ànjou-Saint-Honoré, onde reconhecemos terem sido executadas as ordens por nós dadas na véspera ao cidadão cura, em virtude da comissão que tínhamos recebido do conselho geral do departamento.”

       “Pouco depois foi deposto no cemitério na nossa presença, por um destacamento de gendarmaria a pé, o cadáver de Luís Capeto, que reconhecemos, tendo a cabeça separada do tronco; notámos que a cabeça tinha os cabelos cortados pelo lado de trás, e que o cadáver não trazia gravata nem casaca, nem sapatos. Trazia camisa, vestia de cor parda, calções e meias da mesma cor.”

       “Assim vestido, foi deposto num caixão; desceram-no à cova, que imediatamente encheram, e tudo foi disposto e executado segundo as ordens dadas pelo conselho executivo provisório da república francesa, e tudo assinámos com os cidadãos Récaves, Renard, e Damoreau, cura e coadjutores de Santa Madalena.”

      

                        “Leblanc, administrador do departamento.”

                        “Dubois, administrador do departamento.”

                        “Damoreau, Rócaves, Renard.”

      

       Portanto, Luís XVI foi morto e enterrado a 21 de Janeiro de 1793.

       Tinha de idade trinta e nove anos, cinco meses e três dias.

       De reinado dezoito anos.

       Esteve preso cinco meses e oito dias.

       O seu último desejo não foi cumprido, e o seu sangue não só caiu sobre a França, mas sobre toda a Europa.

 

A desordem

       A morte de Luís XVI deixou a França rodeada de inimigos. Todas as potências quebraram as suas relações com ela, e à Prússia, do Império, e ao Piemont, que já a guerreavam, uniram-se a Inglaterra, a Holanda e a Espanha.

       As que ainda se conservavam neutrais eram a Suécia e a Dinamarca, porque não distraíam as suas vistas da Rússia, que se ia entretendo em desmembrar a Polónia.

       Terrível era a posição da França.

       Odiada pelas outras nações depois da carnificina de Setembro, e principalmente depois da execução do rei, achava-se por assim dizer, cercada por toda a Europa como se fosse uma simples cidade. A Inglaterra atacava-a pelos Pirinéus, o Piemont e a Áustria pelos Alpes, a Holanda e a Prússia pelo norte dos Países-Baixos.

       Só por um único ponto do alto do Reno até ao Escalda, avançavam contra a república francesa duzentos e cinqüenta mil combatentes.

       Os exércitos franceses eram repelidos em toda a parte, Miaczinski tinha sido obrigado a abandonar Aix-la-Chapelle, e havia retirado sobre Liège, Steinge, e Neuilly, tendo recuado até Liburgo. Miranda, que estava sitiando Maestricht, recolhera para Tongres. Valence e Dampierre, reduzidos a tentar uma retirada, tinham perdido uma grande parte do material do seu exército.

       Mais de dez mil homens haviam desertado do exército, espalhando-se pelo interior do país. Finalmente, a Convenção que tinha posto toda a sua esperança em Dumouriez, enviou-lhe ordem para que abandonasse as margens do Biesboos, onde estava preparando um desembarque na Holanda, para ir tomar o comando do exército estacionado no Mosa.

       A França, como se fosse um corpo animado, sentia em Paris, que era o coração da república, cada golpe que a invasão, a derrota ou a traição lhe vibrava aos membros mais afastados.

       Cada vitória enchia todos de alegria.

       Aos reveses sucediam-se brados de terror.

       Grande foi pois o tumulto motivado pela notícia da derrota dos exércitos franceses.

       A 9 de Março houve na Convenção uma sessão muito agitada e tumultuosa, e Danton sempre pronto a propor coisas que pareciam impossíveis, mas que sempre se efectuavam, subindo à tribuna, exclamou:

       Faltam-vos os soldados, dizeis vós! Ofereçamos a Paris uma ocasião de salvar a França, peçamos-lhe trinta mil homens, e mandemo-los a Dumouriez, e assim não só salvaremos a França, mas ficará a Bélgica segura e conquistaremos a Holanda.

       Esta proposta foi recebida com estrepitosos aplausos e produziu singular entusiasmo.

       Todas as secções abriram registros, e foram avisados todos os seus membros para se reunirem à noite.

       Para evitar qualquer distracção, deu-se ordem para se fecharem os espectáculos públicos.

       Na casa da municipalidade foi içada uma bandeira preta como sinal de perigo.

       Antes da meia-noite estavam arrolados nos registros trinta e cinco mil nomes.

       Sucedeu porém desta vez, como sucedera nos dias de Setembro; os voluntários quando iam inscrever os seus nomes, pediam que antes de partirem fossem punidos os traidores.

       Os traidores, para eles, eram os contra-revolucionários.

       Esta palavra porém, era susceptível de toda a latitude, que lhe quisessem dar os partidos exaltados, que naquela época dilaceravam a França.

       Verdadeiramente os traidores eram sempre os mais fracos.

       Ora, como naquela ocasião os mais fracos eram os girondinos, resolveram os montanheses que fossem somente traidores os girondinos.

       A 10 de Março, nem um só deputado da montanha faltou à sessão.

       Os jacobinos armados acabavam de entrar nas galerias, depois de terem mandado sair as mulheres, quando se apresentou o maire acompanhado pelos conselheiros da municipalidade.

       Vinha participar o grande número de voluntários que se tinham inscrito, e ao mesmo tempo repetia o pedido feito na véspera, para ser nomeado um novo tribunal extraordinário, que julgasse os traidores no mais curto prazo de tempo.

       A Assembléia pediu em altos brados que fosse nomeada uma comissão especial para dar imediatamente o seu parecer sobre o assunto.

       Com efeito, reuniu-se a comissão, e Roberto Lindei participou à Assembléia o seguinte resultado:

       “Que ia ser nomeado um tribunal, composto de nove juízes que decidiriam independentemente de formalidades, e procurariam por toda e qualquer maneira obter a convicção dos crimes; que seria dividido em duas secções sempre permanentes, e que se procederia a pedido da Convenção, ou de seu motu-próprio, contra todos aqueles que procurassem desvairar o povo.”

      

       Era muito ilimitado, era infinito, como se vê, o poder deste tribunal.

       Os girondinos conheceram que era a sua sentença de extermínio, e por isso bradaram todos:

       – Antes queremos morrer do que consentir em que se estabeleça uma tal inquisição veneziana.

       Os montanheses, em resposta a esta exclamação, pediram votos em altas vozes.

       – Sim – gritou Féraud – sim, votemos para dar a conhecer ao mundo quais são os homens que pretendem assassinar a inocência em nome da lei.

       Procedeu-se com efeito à votação e contra o que todos esperavam, decidiu a maioria:

       1.º Que houvesse jurados;

       2.º Que os jurados fossem escolhidos em número igual pelos departamentos;

       3.º Que fossem nomeados pela Convenção.

       No momento em que estas três propostas acabavam de ser aprovadas, ouviu-se grande vozearia.

       A Convenção não se mostrou admirada, pois estava acostumada às visitas populares.

       Todavia o presidente ordenou que fossem saber o que pretendiam.

       Era uma deputação de voluntários que, tendo-se juntado no Terreiro, pedia vénia para fazer desfilar a sua gente na presença da Convenção.

       Abriram-se as portas, que imediatamente deram entrada a mais de seiscentos bêbados armados todos de espadas, pistolas, espingardas e chuços e que pediam em altos berros a morte dos traidores.

       – Sim – respondeu Collot-d’Herbois, um façanhudo montanhês – sim, meus amigos, apesar das intrigas, salvar-vos-emos a vós e à liberdade.

       E olhou para os girondinos de uma maneira, que bem lhes dava a entender que não estavam ainda livres de perigo.

       Depois de fechada a sessão, correram os montanheses todos aos seus clubes, propondo que os traidores fossem declarados fora da lei e mortos naquela mesma noite.

       O ministro Louvet morava na rua de Saint-Honoré, próximo dos jacobinos.

       Sua mulher, ouvindo grande vozearia, saiu à rua, entrou no clube e ouvindo a proposta foi participá-la ao marido.

       Louvet armou-se e saiu imediatamente para reunir os amigos; achou-os porém todos ausentes e o criado de um disse-lhe que estava em casa do maire Pétion.

       Dirigiu-se pois a casa do maire, e com efeito encontrou-os ali muito tranqüilos deliberando sobre uma proposta, que contavam fazer aprovar na seguinte sessão.

       Louvet dá-lhes parte do ocorrido, diz-lhes o que estão tramando os jacobinos, e propõe-lhes que se adopte também alguma medida enérgica.

       Logo que acabou de falar, Pétion levantou-se com a sua costumada impassibilidade, foi à janela, abriu-a, olhou para o Céu, estendeu o braço, e tirando para dentro a mão encharcada, disse:

       – Está chovendo; esta noite não há novidade.

       Pela janela, meia aberta, entraram as últimas vibrações do sino que dava as dez horas.

 

O dia 10 de Março

       Eis pois o que se passava em Paris naquele mesmo dia e na véspera; eis o que se estava passando durante aquela noite e é o motivo por que, no meio do silêncio e da escuridão, as casas destinadas a abrigar os vivos, tornadas mudas e sombrias, pareciam unicamente sepulcros povoados de mortos.

       Patrulhas numerosas de guardas nacionais marchando em silêncio e precedidas por vedetas de baioneta calada; magotes de cidadãos das secções, armados conforme cada um tinha podido, e encostando-se uns aos outros, percorriam as ruas.

       Além destes, algumas patrulhas de gendarmes rondavam em todos os recantos e faziam fechar as lojas que se encontravam abertas.

       Tudo isto era feito, porém com tais precauções, que bem se via quanto desconfiavam uns dos outros.

       As patrulhas não se cruzavam sem trocarem santo e senha. E ainda assim, depois de passarem, iam olhando para traz, como se receassem ser de improviso atacadas pela retaguarda.

       Naquela noite, em que Paris estava entregue a um desses terrores horríveis, tantas vezes repetidos; naquela noite, em que se tramava em segredo dar cabo dos revolucionários frouxos, que depois de votarem pela morte do rei não queriam votar pela da rainha; naquela noite, repetimos, atravessava Paris a passos tímidos uma mulher embrulhada num mantelete de chita sarapintada, e de rosto coberto com um capuz.

       Quem era a heroína que assim se aventurava pelas ruas de Paris em noite tão terrível?

       É o que mais tarde saberemos.

       Caminhava encostada às casas da rua de Saint-Honoré, metendo-se nos vãos das portas ou nos recantos todas as vezes que deparava com alguma patrulha, contendo a respiração quando esta passava, e quando a via distante, prosseguia o caminho a passo precipitado.

       Já tinha andado sem mau encontro a rua de Saint-Honoré, quando, depois de voltar a esquina da rua Grenelle, se viu de repente no meio de uma patrulha de voluntários, os quais, tendo participado do jantar do Terreiro, tinham exaltado o seu patriotismo com copiosos brindes.

       A pobrezinha, logo que viu os voluntários, deu um grito e tentou escapar pela rua do Coq.

       – Olá! Cidadã! – gritou o chefe dos voluntários, pois os dignos patriotas, obedecendo à necessidade tão natural do homem de ter quem o comande, já tinham escolhido chefes. – Olá! Onde vais tu?

       A mulher não respondeu, e continuou a fugir precipitadamente.

       – Apontem! – disse o chefe – é um homem disfarçado, é um aristocrata que foge!

       E em seguida, o som dos gatilhos de duas ou três espingardas manejadas por mãos algum tanto vacilantes, deu a conhecer à pobre mulher que a ordem fatal ia ser executada.

       – Não! Não! – exclamou ela parando logo e voltando atrás, – não, cidadão, está enganado, não sou homem.

       – Pois então chega à fala – disse o chefe – e responde-me categoricamente. Onde vais tu tão depressa, bela ave nocturna?

       – Eu, cidadão, não vou a parte nenhuma... volto para a minha casa.

       – Ah! Voltas para tua casa.

       – Sim.

       – Pessoas de bem não costumam voltar para casa tão tarde, cidadã.

       – Fui visitar uma parente minha que está doente.

       – Coitadinha! – disse o chefe fazendo um gesto, que assustou aquela que fora interrogada; – e onde está o bilhete?

       A mulher ficou pasmada.

       – O bilhete! O que significa isso, cidadão? Que quer dizer o que me pede?

       – Não leste o decreto da municipalidade?

       – Não.

       – Nem ao menos o ouviste apregoar?

       – Também não. Oh! Meu Deus! Que diz o decreto?

       – Minha rica, já não se diz meu Deus diz-se Ente Supremo.

       – Perdão! Foi engano... É um costume antigo.

       – É mau costume, é costume de aristocrata.

       – Pois bem, eu tratarei de me emendar, cidadão. Mas ia dizendo...

       – Dizia que o decreto da municipalidade determina que, depois das dez horas da noite, não se possa sair à rua sem bilhete de civismo. Vens prevenida com ele?

       – Não.

       – Deixaste-lo em casa da parenta.

       – Não sabia que não se podia sair sem o bilhete.

       – Pois então vamos até à primeira estação que encontrarmos, lá darás as tuas explicações ao capitão, e se forem satisfatórias, terás dois soldados para te escoltarem até casa, quando não, lá ficarás até que se saiba quem és. Ombro esquerdo frente, ordinário, marche!

       O grito de susto que preferiu a presa, logo deu a conhecer ao chefe dos voluntários que a pobre mulher muito receava o tal exame.

       – Oh! Oh! – disse ele – estava capaz de jurar que apanhámos algum pássaro mais fino. Vamos, vamos para a frente, minha fidalguinha.

       E o chefe, pegando no braço da cativa, enfiou-o no seu e foi-a levando apesar dos seus gritos e lamentações, para a estação do palácio da Igualdade.

       Tinham chegado próximo à barreira dos Sargentos, quando de repente um mancebo de elevada estatura, e embuçado num capote, desembocou da rua dos Petits-Champs, no momento em que a presa suplicava aos guardas que a soltassem. O chefe, sem querer ouvi-la, arrastou-a brutalmente. A mulher deu um grito motivado pelo susto e pela dor.

       O mancebo, que viu a luta e ouviu os gritos, atravessou logo a rua e achou-se em frente do grupo.

       – Que bulha é esta, que pretendem dessa mulher? – perguntou ele ao que parecia o chefe.

       – Não é da tua conta, não te intrometas onde não te chamam, mete-te com a tua vida e deixa-me.

       – Quem é essa mulher, cidadãos, e que pretendem dela? – repetiu o mancebo em tom mais imperioso.

       – E tu, quem és, que assim nos interrogas?

       O mancebo abriu o capote e deixou ver as dragonas e uma farda militar.

       – Sou oficial – disse ele – como podem ver.

       – Oficial... De quê?

       – Da guarda cívica.

       – E que temos nós com a guarda cívica? – respondeu um dos do bando. – Nós cá não conhecemos oficiais da guarda cívica.

       – Que diz ele? – perguntou outro voluntário com a inflexão de voz vagarosa e sarcástica própria do popular parisiense quando se vai esquentando.

       – Digo – redargüiu o mancebo; – que se as dragonas não podem obrigá-los a respeitar o oficial, a minha espada os obrigará a respeitar as dragonas.

       Ao tempo que dizia estas palavras, o defensor da jovem mulher deu um passo atrás, e desembaraçando-se das dobras do capote, fez brilhar ao clarão do candeeiro uma larga e rija espada de infantaria. E logo, com um movimento rápido, que bem mostrava estar habituado às lutas daquela natureza, agarrando o chefe dos voluntários pela gola do jaleco e apontando-lhe a espada ao peito, disse:

       – Agora conversemos como bons amigos.

       – Porém, cidadão... – disse o chefe dos voluntários procurando soltar-se.

       – Olha que te aviso que ao menor movimento teu ou dos teus homens, atravesso-te com a espada.

       Durante este tempo, dois dos homens ainda tinham a mulher agarrada.

       – Perguntaste-me quem eu era – continuou o mancebo – e não tinhas direito para o fazer, porque não estás à frente de uma patrulha regular. Contudo vou satisfazer-te: chamo-me Maurício Lindey, fui comandante de uma bataria no 10 de Agosto, sou tenente da guarda nacional e secretário da secção dos Irmãos e Amigos. Será isto bastante?

       – Ah! Cidadão tenente – respondeu o chefe ainda subjugado pela espada, cuja ponta se lhe ia tornando cada vez mais sensível – isso é outro caso. Se és na realidade o que dizes, isto é, um bom patriota...

       – Ora ainda bem, lá me queria parecer que acabaríamos por nos entender depois de algum cavaco – disse o oficial. – Agora responde, por que motivo gritava esta mulher e o que querias tu?

       – Vamos levá-la à casa da guarda.

       – Por que razão?

       – Porque não traz bilhete de civismo, e o último decreto da municipalidade manda que sejam presos os indivíduos, que forem encontrados nas ruas de Paris depois das dez horas, sem bilhete de civismo. Esqueceste porventura que a pátria está em perigo, e que a bandeira preta foi içada na casa da municipalidade?

       – O motivo por que a bandeira preta ondeia na casa da municipalidade em sinal da pátria estar em perigo, é porque duzentos mil escravos estão marchando contra a França – replicou o oficial – e não porque uma mulher anda fora pelas ruas de Paris. Porém, não importa, cidadãos; em vista do decreto da municipalidade, estão no seu direito, e se me tivessem dado logo essa resposta, a nossa explicação teria sido mais breve e menos complicada. É bom ser patriota, mas também não é mau ser cortês, parece-me que os oficiais, que os cidadãos devem respeitar primeiro do que todos, são os que eles próprios elegeram. Agora podem levar a mulher.

       – Oh! Cidadão – exclamou, agarrando o braço de Maurício, a mulher, que durante toda a contenda havia mostrado grande aflição. – Oh! Cidadão! Não mo abandone assim à mercê desses homens grosseiros e embriagados.

       – Pois bem – disse Maurício – aqui está o meu braço, acompanhá-la-ei com eles até à estação.

       – À estação – repetiu a mulher com susto – à estação! E por que motivo me conduz à estação, se eu não fiz mal a ninguém?

       – Não é porque tenha feito mal – disse Maurício – que a levam para a estação, nem porque suponham que seja capaz de o fazer; é porque o decreto da municipalidade determina que ninguém possa sair sem o bilhete, que não traz.

       – Mas senhor, eu não sabia...

       – Cidadã, encontrará na estação pessoas muito capazes, que tomarão em consideração as razões que tem a alegar, e de quem nunca deve recear, podendo ir tranqüila.

       – Senhor – disse a jovem mulher, apertando com força o braço do oficial – não são só insultos que eu temo, é a morte: se me levam à estação, estou perdida.

 

A mulher misteriosa

       Foi de tal modo expressiva a voz da desconhecida quando disse a Maurício que estava perdida se a levassem à estação, que o mancebo estremeceu.

       As palavras da desconhecida vibraram-lhe no coração como uma chama eléctrica.

       Depois de alguns momentos de hesitação, voltou-se para os voluntários, que estavam consultando sobre o que lhes competia fazer.

       Envergonhados por terem cedido a um só homem, estavam tratando dos meios de tirar a desforra, o que não era dificultoso, pois eram oito contra um; três armados com espingardas, os outros com pistolas e chuços.

       Maurício só tinha a espada, portanto a luta não podia ser igual.

       A desconhecida percebeu do que se tratava, porque deu um suspiro e deixou pender a cabeça para o peito como que desmaiada.

       Maurício conservava ainda a espada desembainhada; para ele o número era coisa a que não dava importância.

       Combatido pelos sentimentos de humanidade, que o induziam a dar protecção ao fraco, e pelos seus deveres de patriota, que lhe aconselhavam que entregasse a mulher, não sabia a que se decidisse.

       Quando assim estava irresoluto, cintilaram uns poucos de canos de armas, e ouvira-se a marcha compassada de uma patrulha à esquina da rua dos Bons-Enfants.

       O chefe da patrulha que chegava, vendo um ajuntamento, mandou fazer alto e bradou com voz forte:

       – Quem vem lá?

       – Camarada! – respondeu Maurício, e ajuntou: parece-me que é o Lorin.

       O indivíduo assim nomeado avançou e aproximou-se a passo dobrado seguido por oito soldados.

       – Ah! És tu, Maurício – disse o cabo de esquadra: que andas a fazer pelas ruas a estas horas, maganão?

       – Saí neste instante da secção dos Irmãos e Amigos.

       – Sim, e agora vais para a das irmãs e amigas; isso já eu sabia.

      

                       Eu irei, oh! minha bela,

                       quando a meia-noite der,

                       com devoção e cautela,

                       às escuras, sem temer,

                       abrir portas que te fecham,

                       nem sequer ver-te me deixam.

      

       – Então! Adivinhei?

       – Não, meu amigo, estás completamente enganado; voltava direito para casa quando encontrei esta cidadã lutando para se livrar das mãos dos cidadãos voluntários; acudi-lhes e perguntei-lhe o motivo por que pretendiam prendê-la.

       – Bem se vê que não tens perdido os bons costumes, – disse Lorin:

      

                       De cavaleiros franceses,

                       eis seu timbre, sua nobreza.

      

       E depois, voltando-se para os voluntários:

       – E qual era a razão por que queriam prender esta mulher – perguntou o cabo da esquadra que era todo dado às musas.

       – Já dissemos ao tenente – respondeu o chefe do bando – que é por não trazer bilhete de civismo.

       – Olhem que grande crime! – disse Lorin – e por isso fizeram tamanho sarapatel?

       – Não sabes então qual é a ordem que deu a municipalidade? – perguntou um dos voluntários.

       – Bem sei! Bem sei! Porém há outro decreto que anula esse de que falas.

       – Que decreto é?

       – É este:

      

                       Pelo amor decretado está no Pindo,

                       e no Parnaso, monte às musas dado,

                       que à graça, à mocidade, a um gesto lindo,

                       não pode ser o trânsito vedado,

                       de senhas, ou bilhetes desistindo.

      

       – Então que me dizes a este decreto, cidadão? Parece-me que não é falto de galantaria.

       – Sim, mas não me parece que sirva para o caso. Em primeiro lugar, ainda não vi no Moniteur; em segundo não estamos nem no Pindo, nem no Parnaso; e em terceiro, finalmente, pode muito bem acontecer que a cidadã não seja jovem, nem engraçada, e que não tenha lindo gesto.

       – Aposto, pelo contrário, que é lindíssima – respondeu Lorin. – Vejamos, cidadã, mostra a este que fui eu quem ganhei, para trás o teu capuz para que todos possam ajuizar se estás ou não compreendida no decreto.

       – Ah! Senhor – disse a mulher encostando-se a Maurício. – Protegeu-me há pouco contra os meus inimigos, livre-me agora dos seus amigos.

       – Vejam como ela se esconde – disse o que comandava os voluntários. – Cá por mim ninguém me tira da cabeça que é alguma espiã dos malditos aristocratas, alguma velhaca, ou alguma perdida dessas que andam vadiando de noite pelas ruas.

       Estas palavras fizeram muita impressão na desconhecida.

       Obrigou Maurício a dar um passo, e disse-lhe com voz muito comovida:

       – Oh! Senhor, olhe para mim, e diga-me se o meu rosto inculca alguma daquelas coisas que acaba de ouvir?

       E deitando o capuz para trás fez-lhe ver um rosto encantador.

       O mancebo nem sequer em sonhos tinha visto coisa que pudesse igualar o que acabava de ver.

       Maurício ficou atónito e como que assombrado.

       – Lorin – disse ele em voz baixa ao cabo de esquadra – faz com que te entreguem esta mulher para a levares para a tua estação; podes fazê-lo porque estás à frente de uma patrulha regular.

       – Percebo – respondeu o cabo de esquadra – a bom entendedor meia palavra basta.

       E voltando-se para a desconhecida:

       – Ora vamos, minha bela, visto não querer mostrar-nos se estás ou não compreendida no decreto que citei, é preciso que nos acompanhe.

       – Que o acompanhe? – disse o chefe dos voluntários.

       – Sim, pois vamos levar a cidadã à estação, em que estamos, que é na casa da câmara, e lá indagaremos quem seja.

       – Nessa não caio eu – disse o chefe dos voluntários – eu é que a apanhei, comigo é que há-de ir.

       – Cidadãos! Cidadãos! – disse Lorin – não me façam esquentar.

       – E que temos nós com as tuas esquentações?

       – Podem custar-lhes caro.

       – Nós, é que somos os verdadeiros soldados da república, pois que enquanto aqui ficam a patrulhar pelas ruas, vamos nós às fronteiras derramar o nosso sangue.

       – Pois tomem cuidado, olhem que podem derramá-lo antes de lá chegar; e para não lhes suceder tal desgraça dou-lhes de conselho que sejam mais corteses.

       – A cortesia é boa para aristocratas, e nós cá timbramos em ser verdadeiros sem cuecas.

       – Não digam tolices, nem indecências diante desta senhora – respondeu Lorin. – Talvez seja alguma inglesa. Não leve a mal esta minha suposição, linda avezinha das trevas – continuou o cabo de esquadra voltando-se para a desconhecida:

      

                       Já um poeta o disse e nós agora,

                       indigno eco, o vamos repetindo;

                       é um ninho a Inglaterra,

                       de cisnes cor de marfim,

                       no meio das águas mansas,

                       duma lagoa sem fim.

      

       – Ah! Agora te apanhei, meu taful – disse o chefe dos voluntários; – acabas de confessar que és um assalariado pela Inglaterra, um agente de Pitt...

       – Cala-te tolo: como não percebes nada de versos, vou falar-te em prosa. Dá-me atenção: como vês, somos pacíficos guardas nacionais, porém somos todos filhos de Paris, e como tais, quando nos chega a mostarda ao nariz damos para baixo como cegos.

       Maurício voltou-se então para a desconhecida e disse:

       – Senhora, veja o estado a que isto chegou por sua causa, vai travar-se uma luta, vai correr o sangue de dez ou doze homens. Pese em sua consciência se merece tanto sacrifício a causa que defende.

       – Senhor – respondeu com as mãos postas a desconhecida – só uma coisa posso dizer-lhe, e é que são três as desgraças que a minha prisão pode causar; peço-lhe que antes de se apartar de mim me atravesse o coração com uma espada, e que lance o meu corpo ao Sena.

       – Está bem, senhora – respondeu Maurício; – tome sobre mim toda a responsabilidade.

       E largando a mão da jovem, que tinha entre as suas, disse, voltando-se para os guardas nacionais.

       – Cidadãos, como seu oficial, como patriota, como francês, ordeno-lhes que dêem protecção a essa mulher. E tu, Lorin, se algum destes canalhas disser uma só palavra, dá-lhe para baixo.

       – Preparar! Apontar! – disse Lorin.

       – Ah! Meu Deus! Meu Deus! – disse a desconhecida puxando o capuz, e encostando-se a um marco de pedra – Meu Deus! Protegei-o.

       Os voluntários quiseram resistir. Um deles deu um tiro de pistola e atravessou com a bala o chapéu de Maurício.

       – Calar baionetas! – gritou Lorin. – A eles rapazes!

       Travou-se então no meio das trevas uma briga, que durou alguns instantes. Apesar do estampido de dois ou três tiros, e dos gritos e blasfémias, ninguém acudiu. Apenas duas ou três janelas se abriram, mas logo se tornaram a fechar.

       Os voluntários, que eram menos e mal armados, num instante ficaram gravemente feridos, os outros quatro estavam arrumados à parede, tendo cada um deles uma baioneta apontada ao peito.

       – Ora bem – disse Lorin – agora tenho esperanças de que hão-de ficar mansos como cordeiros. Tu, cidadão Maurício, ficas encarregado de levar essa mulher à estação da municipalidade. Olha que me respondes por ela.

       – Não te dê cuidado – respondeu Maurício.

       E acrescentou a meia voz:

       – Hás-de dar-me o santo e a senha.

       – Essa é uma dos diabos – respondeu Lorin, coçando na orelha. – O santo e a senha!... Não sei se...

       – Então tens medo de que eu abuse?

       – Também pouco se me dá – respondeu Lorin – faze deles o que te parecer.

       – Então dizes–mo ou não?

       – Espera que já te falo; vou primeiramente pôr a andar estes peraltas. E olha que antes de nos afastarmos quero dar-te um conselho de amigo.

       – Pois vai que eu espero.

       E Lorin voltou-se para os guardas nacionais, que ainda estavam de guarda aos voluntários.

       – Digam-me se já estão satisfeitos? – perguntou ele.

       – Sim, girondino do diabo – respondeu o chefe.

       – Estás enganado, meu amigo – respondeu o cabo de esquadra com todo o sossego – aqui onde nos vês somos muito melhores patriotas do que tu, pois somos do clube dos Termópilas, de cujo patriotismo ninguém se atreverá a duvidar.

       Depois, voltando-se para os seus soldados, com voz de trovão, continuou:

       – Larguem os cidadãos.

       – Parece-me contudo – disse o chefe dos voluntários – que não podes duvidar de que a mulher é suspeita...

       – Se fosse suspeita teria procurado evadir-se durante a nossa briga.

       – Parece-me que o cidadão Termópila tem razão – disse um dos voluntários.

       – Contudo se for suspeita, daqui a pouco o saberemos, porque o meu amigo vai levá-la à estação, enquanto nós vamos beber à saúde da nação.

       – O quê? Nós vamos beber! – disse o chefe dos voluntários.

       – Vamos, sim, porque tenho as goelas muito secas, e quero levá-los a uma taberna asseadíssima, onde costumo ir, à esquina da rua do Louvre.

       – E porque não falaste logo assim? Todos estamos arrependidos por ter duvidado do teu patriotismo; e para provar o que digo, abracemo-nos em nome da nação e da lei.

       – Pois sim abracemo-nos – disse Lorin.

       E os voluntários e guardas nacionais abraçaram-se com entusiasmo. Naquele tempo havia tanta facilidade em dar um abraço como em dar uma cutilada.

       – Agora, amigos, vamos à rua do Louvre – gritaram todos ao mesmo tempo.

       – E nós ficamos aqui – disseram os feridos com voz lastimosa; – assim nos abandonaram sem dó?

       – Dessa não sou eu capaz! Abandonar – disse Lorin – uns valentes como vocês, que sucumbiram pelejando pela pátria; verdade é que foi contra patriotas, mas isso não importa, porque, foi engano. Entretanto cantem a Marselhesa, que sempre é uma distracção:

      

                       Alons, enfants de la patrie,

                       Le jour de gloire est arrivé!

      

       Depois, aproximando-se de Maurício, que esperava com a desconhecida à esquina da rua do Coq, enquanto os voluntários e patriotas, de braços dados, se dirigiam para a praça da Igualdade, disse-lhe:

       – Maurício, vou dar-te um conselho que te prometi. Em vez de ires com essa cidadã, que todavia julgo encantadora, é melhor que venhas connosco, porque podes comprometer-te; eu cá sempre desconfiei das mulheres bonitas, que vagueiam pelas ruas de Paris à meia-noite...

       – Oh! Senhor – disse a desconhecida – não me julgue pelas aparências.

       – Ora, lá se serviu da palavra senhor, o que é um grande erro, percebe cidadã? E estou a repreendê-la e a tratá-la na terceira pessoa!

       – Pois sim, cidadão, prometo que hei-de corrigir-me; mas deixa o teu amigo continuar a obra de caridade que começou.

       – Qual?

       – A de acompanhar-me até minha casa para livrar-me de algum mau encontro.

       – Maurício; Maurício! Vê em que te metes, olha que é um grande comprometimento.

       – Bem sei; mas que queres tu que faça? Se eu abandonar esta mulher, não dará dois passos sem que seja presa por alguma patrulha.

       – É verdade, senhor, quero dizer cidadão, se for contigo escaparei de grandes perigos.

       – Não a ouves? Diz que escapará de grandes perigos; logo, receia muito.

       – Ora vamos, meu querido Lorin, sejamos justos; se é uma aristocrata, o mal está feito, porque a defendemos; se é uma patriota devemos-lhe protecção.

       – Perdão, perdão, meu querido, mas sempre te direi, nem que pese a Aristóteles, que a tua lógica é muito estúpida. Estás como aquele que diz:

      

                       Íris minha razão roubou inteira,

                       e quer em mim agora achar prudência.

      

       – Lorin – disse Maurício – peço-te que não me quebres os ouvidos com as tuas citações poéticas. Agora falemos sério; queres ou não dar-me o santo e a senha?

       – Olha, Maurício, colocas-me na colisão ou de sacrificar o meu dever à amizade, ou a amizade ao meu dever. Mas afinal de contas quem paga é o dever, pois será o sacrificado.

       – Pois então decide, ou uma coisa ou outra; mas há-de ser já.

       – Prometes não abusar?

       – Prometo.

       – Isso só não me serve, jura.

       – Mas sobre que hei-de jurar?

       – Sobre o altar da pátria.

       Lorin tirou o chapéu, e apresentou-o a Maurício com o laço para cima; e Maurício como se fosse na pedra da ara, prestou, com toda a seriedade, o juramento exigido sobre aquele altar improvisado.

       – Bom, agora eu te digo, o santo e a senha são: Gallia e Lutecia. Alguns, como já me sucedeu, hão-de dizer-te Gallicia e Lucrecia; não faças porém caso, porque todas essas palavras são romanas.

       – Obrigado, Lorin – disse Maurício.

       Depois voltando-se para a desconhecida:

       – Agora estou à sua disposição cidadã.

       – Boa jornada! – disse-lhe Lorin, tornando a encaixar na cabeça o que servira de altar da pátria; – e fiel às suas propensões anacreônticas, retirou-se cantarolando:

      

                       Enfim, minha Leonor, tu conheceste

                       esse gozo encantado que temias;

                       inda sonhando-o, desejando-o mesmo!

                       Tu, que até a gozá-lo o receavas,

                       diz-me agora, Leonor, que hás nele achado

                       Que possa haver-te sustos inspirado?

 

Um beijo a olhos fechados

       Maurício, quando se viu só com a desconhecida, ficou um tanto perturbado.

       O receio de ser logrado, os atractivos de tão grande beleza, e uma espécie de remorso por ter faltado aos seus deveres de republicano exaltado, tudo isto o fez hesitar no momento de oferecer o braço à mulher misteriosa.

       – Para onde a hei-de acompanhar, cidadã? – perguntou Maurício.

       – Ah! Vou para muito longe.

       – Mas para que lado se dirige?

       – Para o lado do jardim botânico.

       – Muito bem, quando quiser podemos ir.

       – Oh! Meu Deus! – disse a desconhecida – custa-me muito o incómodo que lhe dou; e se não fosse a desgraça que me sucedeu, e o grande perigo a que me vejo exposta, decerto não me atreveria a abusar assim de tanta generosidade.

       – Mas, finalmente, minha senhora – disse Maurício, esquecendo no calor da conversa de servir-se do tratamento decretado pela república – diga-me porque anda a tais desoras pelas ruas de Paris? Parece-me que somos as únicas pessoas que transitam pelas ruas.

       – A razão já lhe disse: fui fazer uma visita ao bairro de Roule. Não soube o que hoje aconteceu, porque o sítio é muito retirado.

       – Sim – resmungou Maurício – esteve em casa de algum ex-fidalgo, foi visitar algum aristocrata. Confesso, cidadã, que está fazendo escárnio da minha condescendência em a proteger.

       – Eu! Por que motivo?

       – Não pode deixar de ser; tem por protector um republicano, que está atraiçoando a sua própria causa; acha pouco?

       – Mas – disse com vivacidade a desconhecida – sou tão boa republicana como o cidadão o pode ser.

       – Se assim é, cidadã, para que se serve de mistérios? Porque não diz francamente donde vem?

       – Oh! Senhor! Para que é tanta insistência?

       A desconhecida pronunciou com tanta expressão de pudor a palavra senhor, que Maurício julgou ter adivinhado os sentimentos, que ela ocultava.

       – Não pode deixar de ser – disse consigo – esta mulher volta de alguma entrevista amorosa.

       E esta idéia, sem saber porquê, magoou-lhe o coração.

       Desde esse momento não deu mais palavra.

       Iam então próximos à rua de la Varrerie. Até ali só tinham encontrado três ou quatro patrulhas, que sem dificuldade os deixaram passar, depois de Maurício lhes dizer o santo e a senha; mas finalmente encontraram uma, cujo oficial era um pouco mais impertinente.

       Neste caso, além do santo e da senha, Maurício disse o nome e a morada ao oficial.

       – Quanto a ti – respondeu este – estou satisfeito, mas a cidadã...

       – Então que tens que dizer à cidadã?

       – Quem é?

       – É... Minha irmã.

       O oficial deixou-o passar.

       – É casado? – perguntou a desconhecida.

       – Não, cidadã; porque me faz essa pergunta?

       – Porque se o fosse – respondeu ela rindo – podia ter dito que era sua esposa.

       – Minha senhora – replicou o mancebo – o nome de esposa é um título sagrado, que não se deve dar a qualquer, e como deve compreender, eu não tenho a honra de a conhecer.

       Desta vez foi a desconhecida que ficou silenciosa e sentiu grande aperto no coração.

       Iam atravessando a ponte Maria.

       A desconhecida quanto mais caminho adiantava, mais apressava o passo.

       Passaram depois a ponte Tournelle.

       Chegando ao cais de S. Bernardo – disse Maurício:

       – Parece-me que está no seu bairro, minha senhora?

       – Não há dúvida, cidadão; mas é aqui principalmente, que mais preciso do seu socorro.

       – Na verdade, minha senhora, é singular exigir que eu não seja indiscreto, quando tudo concorre para provocar a minha curiosidade. Parece-me que este seu procedimento não é de pessoa generosa, e contudo parece-me que bastante mereço a sua confiança. Não me fará a honra de dizer-me quem é?

       – Eu, senhor – respondeu a desconhecida sorrindo – sou uma mulher a quem salvou de grande perigo e que lhe há-de ser grata.

       – Não exijo tanto; dispenso tanta gratidão e antes queria saber como se chama.

       – Não me é possível dizê-lo.

       – Contudo, se a tivessem levado à estação havia de dizê-lo por força.

       – Nunca! Nunca! – exclamou a desconhecida.

       – Nesse caso, seria presa.

       – A tudo estou resignada.

       – Porém uma prisão hoje...

       – É o caminho para o patíbulo, bem o sei.

       – E preferia o patíbulo?

       – Antes a morte de que ser traidora... Dizer o meu nome seria uma traição.

       – Oh! Bem pensava que o papel que estou representando está em pouca harmonia com as minhas idéias republicanas.

       – O papel que está representando é o de um homem generoso. Encontrou uma pobre mulher insultada por alguns homens grosseiros, interveio, e apesar dela pertencer à classe do povo, para não a tornarem a insultar, acompanhou-a até ao miserável bairro, onde ela reside, e nada mais.

       – Na aparência assim é; quanto a ser do povo, acreditá-lo-ia, se não a tivesse visto, se não ouvisse as suas expressões; mas pela sua beleza e pelo seu espírito facilmente se conhece ser pessoa fina; é precisamente a distinção das suas maneiras, que procura disfarçar com esse trajo que me fez acreditar que saiu a estas horas para algum fim misterioso; não me responde... pois bem, não falemos mais nisso. Ainda fica muito longe a casa?

       Saíam então da rua do Sena e entravam na rua dos Fossos de Saint-Victor.

       Neste ponto a desconhecida parou e disse:

       –Vê além aquele edifício escuro? – e apontou para uma casa situada além dos muros do jardim botânico; quando lá chegarmos, temos de nos separar.

       – Dê-me as suas ordens, senhora, que estou pronto a obedecer-lhe.

       – Então está enfadado comigo?

       – Eu! Nem por pensamentos; se bem que, se o estivesse, pouco lhe devia importar.

       – Pelo contrário, importava-me, pois ainda me resta pedir-lhe um favor.

       – Qual é?

       – É uma despedida franca e afectuosa... Uma despedida de amigo.

       – Uma despedida de amigo! É extrema a honra que me faz. Deve porém confessar que é singular pretender que nos apartemos como amigos, e não me dizer o nome e morada para ter o gosto de a tornar a ver.</