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A CONVOCATÓRIA / John Grisham
A CONVOCATÓRIA / John Grisham

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

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A CONVOCATÓRIA

 

Chegou pelo correio, correio normal, à maneira antiga, já que o juiz tinha quase oitenta anos e desconfiava de instrumentos modernos. Correio electrónico ou até faxes, nem pensar. Não usava um atendedor de chamadas e nunca gostara de telefone. Martelava as letras com os dois dedos indicadores, uma tecla desengonçada de cada vez, curvado sobre a sua velha Underwood manual, pousada numa escrivaninha de tampo corrediço sob o retrato de Nathan Bedford Forrest. O avô do juiz combatera com Forrest em Shiloh e por todo o Sul Profundo, e para ele não havia na história figura mais venerada. Durante trinta e dois anos, o juiz recusara tacitamente fazer julgamentos a 13 de Julho, dia do aniversário de Forrest.

Veio com outra carta, uma revista e duas facturas, e foi colocada, como todos os dias, na caixa de correio do professor Ray Atlee, na Faculdade de Direito. Reconheceu-a imediatamente porque aqueles envelopes faziam parte da sua vida desde que se conhecia. Era do pai, um homem a quem ele também chamava juiz.

O professor Atlee analisou o envelope, indeciso quanto a abri-lo ali ou esperar um pouco. Boas notícias ou más, com o juiz nunca sabia, embora o velho estivesse a morrer e as boas notícias fossem raras. Era fino e parecia conter apenas uma folha de papel; e nisso não havia nada de estranho. O juiz era sóbrio na palavra escrita, embora tivesse sido outrora conhecido pelos seus discursos arrebatados em tribunal.

Tratava-se de uma carta de negócios, lá isso era certo. O juiz não era de conversa fiada, odiava a bisbilhotice e o paleio ocioso, escrito ou falado. Tomar chá com ele no alpendre seria reviver o combate da Guerra Civil, provavelmente em Shiloh, em que iria atirar mais uma vez as culpas da derrota dos Confederados às botas brilhantes e imaculadas do general Pierre T. Beauregard, um homem que ele odiaria até no céu, se, por acaso, lá se encontrassem.

Ia morrer em breve. Com setenta e nove anos, a sofrer de cancro de estômago. Era obeso, diabético, grande fumador de cachimbo, sofria do coração, sobrevivera a três ataques e padecia de males menores, que o tinham atormentado toda a vida e que agora apertavam o cerco para o matar. A dor era constante. Durante o último telefonema três semanas antes, uma chamada feita por Ray, porque o juiz achava que as chamadas interurbanas eram um roubo, o velho parecia fraco e cansado. Tinham falado durante menos de dois minutos.

O remetente era dourado em relevo: Juiz Chanceler Reuben V. Atlee, 25 th Chancery District, Ford County Courthouse, Clanton, Mississipi. Ray enfiou o envelope na revista e começou a andar. O juiz Atlee já não tinha o cargo de juiz chanceler. Fora-lhe retirado, por votação, havia nove anos, uma amarga derrota da qual nunca se recomporia. Trinta e dois anos de diligente serviço àquela gente, e tinham corrido com ele em favor de um homem mais novo com anúncios na rádio e na televisão. O juiz recusara-se a fazer campanha. Afirmava que tinha demasiado trabalho, e que o mais importante era que as pessoas o conheciam bem e, se quisessem reelegê-lo, o fariam. A sua estratégia parecera demasiado arrogante. Conseguira apanhar Ford County, mas levara uma surra nos outros cinco condados.

Levaram três anos para o afastarem de tribunal. O seu gabinete, no segundo andar, sobrevivera a um incêndio e escapara a dois restauros. O juiz não permitira que lhe tocassem com tinta ou martelo. Quando os inspectores do condado o convenceram, por fim, que ou saía ou era despejado, ele encaixotou o esforço de três décadas de ficheiros inúteis, de notas, de velhos livros poeirentos que levou para casa e empilhou no escritório. Quando o escritório ficou cheio, enfileirou-os no corredor, na sala de jantar e até no vestíbulo.

Ray acenou com a cabeça a um aluno que estava sentado no átrio. Fora do gabinete falou a um colega. Lá dentro, fechou a porta à chave atrás de si e colocou o correio no centro da secretária. Despiu o casaco, pendurou-o na porta do fundo, passou por cima do monte de volumosos livros de Direito sobre os quais andava a passar havia meio ano e murmurou para consigo o propósito diário de organizar aquele local.

A sala tinha 3,5 por 4 metros, com uma pequena secretária e um pequeno sofá, ambos cobertos com trabalho suficiente para levar a supor Ray como um homem muito atarefado. Não era. No segundo semestre estava a dar uma parte da lei Antitrust. E devia estar a escrever um livro, outro volume chato e maçudo sobre monopólios que não seria lido por ninguém, mas que iria aumentar-lhe o pedigree. Detinha o cargo, mas como todos os professores que se prezam, regulava-se pelo lema da vida académica «publicar ou morrer».

Sentou-se à secretária e empurrou os papéis para o lado.

O envelope era dirigido ao professor N. Ray Atlee, Universidade da Virgínia, Faculdade de Direito, Charlottesville, Virgínia. Os «es» e os «os» estavam esborratados. Havia uma década que precisava de uma nova fita na máquina. O juiz também não se fiava em códigos postais.

O N era de Nathan, como o general, mas poucas pessoas o sabiam. Uma das suas maiores discussões tinha sido por causa da decisão do filho de abandonar totalmente o Nathan e singrar na vida apenas como Ray.

As cartas do juiz eram sempre mandadas para a Faculdade de Direito, nunca para o apartamento do filho na baixa de Charlottesville. O juiz gostava de títulos e de endereços importantes e queria que as pessoas de Clanton, até os trabalhadores dos Correios, soubessem que o seu filho era professor de Direito. Era desnecessário. Havia treze anos que Ray ensinava e escrevia, e os interessados em Ford County sabiam-no.

Abriu o envelope e desdobrou uma única folha de papel. Também ela tinha pomposamente em relevo o nome do juiz, o título e a morada anterior, mais uma vez sem o código postal. O velho tinha, possivelmente, uma provisão ilimitada de papel de carta.

Era dirigida a Ray e ao seu irmão mais novo, Forrest, os dois únicos rebentos de um casamento mal sucedido que terminara em 1969 com a morte da mãe. Como sempre, a mensagem era breve:

 

Por favor, organiza-te para estares no meu escritório no domingo, 7 de Maio, às 17 h., para discutirmos a administração do meu património.    

       Cumprimentos, Reuben V. Atlee

 

A assinatura inconfundível tinha encolhido e parecia tremida. Durante anos fora inscrita em ordens e sentenças que tinham mudado inúmeras vidas. Sentenças de divórcio, custódia de crianças, cessação de direitos parentais, adopções. Ordens que decidiam contestações de testamentos, contestações de eleições, disputas por terras, litígios de anexação. O autógrafo do juiz fora bem conhecido e sinónimo de autoridade; agora era o gatafunho vagamente familiar de um velho doente.

Mas, doente ou não, Ray sabia que lá estaria presente no escritório do pai à hora marcada. Acabara de ser convocado, e, por mais irritante que fosse, sabia que ele e o irmão iriam rojar-se aos pés do Meritíssimo para ouvirem mais uma palestra. Era típico do juiz escolher um dia que lhe fosse conveniente sem consultar mais ninguém.

Estava na natureza do juiz e, aliás, talvez na da maior parte dos juizes, estabelecer datas de audiências e prazos com pouco respeito pela conveniência dos outros. Essa mão pesada era estudada e até necessária quando enfrentavam agendas sobrecarregadas, litigantes relutantes, advogados ocupados, advogados preguiçosos. Mas o juiz lidara com a família de uma maneira muito semelhante à que usava na sala de tribunal, e essa era a principal razão pela qual Ray Atlee estava a ensinar Direito na Virgínia e não a exercer no Mississipi.

Leu a convocatória outra vez, depois pô-la de lado, em cima de um monte de assuntos correntes a tratar. Caminhou até à janela e olhou lá para fora, para o pátio, onde tudo estava em flor. Não se sentia zangado nem azedo, apenas frustrado por o seu pai conseguir mais uma vez uma tal imposição. «Mas o velho estava a morrer», disse para consigo. «Deixa lá. Não haveria muito mais viagens a casa.»

A herança do juiz estava envolta em mistério. O principal bem era a casa - gasta e anterior à guerra, e que pertencera ao mesmo Atlee que combatera ao lado do general Forrest. Numa rua sombria da velha Atlanta valeria bem um milhão de dólares, mas não em Clanton. Estava no meio de cinco acres mal cuidados, a uns três quarteirões da praça principal. Os soalhos cediam, o telhado metia água e as paredes não viam tinta desde que Ray nascera. Ele e o irmão podiam vendê-la talvez por uns cem mil dólares, mas o comprador tinha de gastar o dobro para torná-la habitável. Nenhum deles jamais lá viveria; aliás, Forrest não punha os pés naquela casa havia muitos anos.

A casa chamava-se Maple Run, como se fosse uma grande propriedade com pessoal e calendário social. O último trabalhador fora Irene, a criada. Morrera quatro anos antes, e desde então ninguém mais aspirara os soalhos ou tocara na mobília envernizada. O juiz pagava a um delinquente local vinte dólares por semana para cortar a relva e fazia-o com grande relutância. Na sua esclarecida opinião, oitenta dólares por mês era um roubo.

Quando Ray era pequeno, a mãe referia-se à casa como Maple Run. Nunca jantavam em casa, mas em Maple Run. A sua morada não era a dos Atlees na 4.a Avenida, mas Maple Run na 4.a Avenida. Poucas pessoas em Clanton tinham casas com nome.

Ela morreu de um aneurisma e depuseram-na numa mesa na sala da frente. Durante dois dias toda a cidade passou por lá e desfilou pelo alpendre da frente, atravessando o vestíbulo e a sala para prestar a última homenagem, seguindo depois para a sala de jantar para o ponche e os biscoitos. Ray e Forrest esconderam-se no sótão e amaldiçoaram o pai por tolerar um tal espectáculo. Era a sua mãe que jazia lá em baixo, uma mulher bonita e jovem, agora pálida e hirta num caixão aberto.

Forrest sempre lhe chamara Maple Ruin (*). Os bordos amarelos e vermelhos que outrora ladeavam a rua tinham morrido de alguma doença desconhecida. Os seus tocos apodrecidos nunca tinham sido arrancados. Quatro carvalhos gigantescos derramavam sombra no relvado da frente. Deixavam cair toneladas de folhas, demasiadas para que alguém pudesse juntá-las com o ancinho. E pelo menos duas vezes por ano os carvalhos perdiam um ramo que caía e tombava sobre qualquer parte da casa, de onde podia ser ou não ser removido. A casa ali permanecia ano após ano, década após década, a sofrer pancadas, mas sem nunca cair.

Ainda era uma bonita casa, em estilo georgiano com colunas, outrora um monumento a quem a construiu, e agora uma triste lembrança de uma família em decadência. Ray não queria ter nada a ver com ela. Para ele, a casa estava cheia de recordações desagradáveis e cada regresso ali deprimia-o. Não podia, certamente, suportar o buraco negro financeiro da manutenção de uma propriedade que devia ser demolida. Forrest preferia incendiá-la a ficar com ela.

 

(') - Sarcasmo evidente, já que Ruin significa «Ruína». (N.R.)

 

Porém, o juiz queria que Ray ficasse com a casa e a mantivesse na família. Isto fora discutido em termos vagos ao longo dos últimos anos. Ray nunca reunira a coragem suficiente para perguntar «Que família?». Não tinha filhos. Havia uma ex-mulher, mas nenhuma perspectiva de uma actual. O mesmo acontecia com Forrest, excepto que esse tinha uma estonteante colecção de ex-namoradas e um acordo actual de alojamento com Ellie, uma pintora e ceramista, de cem quilos e doze anos mais velha.

Era um milagre biológico Forrest não ter tido filhos, mas até ali não se lhe descobrira nenhum.

A linha de sangue dos Atlee ia-se esgotando até chegar a um triste e inevitável fim que não preocupava minimamente Ray. Vivia a sua vida por si e não pelo pai ou pelo glorioso passado da família. Regressava a Clanton só para os funerais.

Os outros bens do juiz nunca tinham sido discutidos. A família Atlee fora rica outrora, mas muito antes de Ray nascer. Tinham tido terra, algodão, escravos, caminhos-de-ferro, bancos, cargos políticos, a habitual lista de bens dos Confederados que no final do século xx nada significava. Contudo, outorgava aos Atlee o estatuto de «família abastada».

Quando Ray tinha dez anos sabia que a sua família tinha dinheiro. O seu pai era juiz e a sua casa tinha nome, e no Mississipi rural isto significava que era realmente um miúdo rico. Antes de morrer, a mãe fizera o possível por convencer Ray e Forrest de que tinham mais do que a maior parte das pessoas. Viviam numa mansão. Eram presbiterianos. Passavam férias de três em três anos na Florida. Iam ocasionalmente jantar ao hotel Peabody em Memphis. As suas roupas eram mais bonitas.

Depois Ray foi aceite em Stanford e a bolha rebentou quando o juiz disse:

- Não tenho dinheiro para tal.

- O que pretende dizer com isso? - perguntou Ray.

- Isso mesmo que disse. Não tenho dinheiro para pagar Stanford.

- Não estou a perceber.

- Então, vou ser directo. Podes ir para a faculdade que bem entendas. Mas se fores para Sewanee, então eu pago.

Ray foi para Sewanee sem a bagagem do dinheiro de família, sendo sustentado pelo pai, que lhe dava uma mesada que mal cobria as aulas, os livros, o internato e as obrigações da associação de estudantes. A Faculdade de Direito era em Tulane, onde Ray sobrevivia como criado de mesa num restaurante de ostras no Quarteirão Francês.

Durante trinta e dois anos o juiz ganhara o ordenado de chanceler, que era dos mais baixos da região. Em Tulane, Ray leu um relatório sobre remunerações judiciais e ficou triste por saber que os juizes do Mississipi ganhavam cinquenta e dois mil dólares por ano, enquanto a média nacional era noventa e cinco mil.

O juiz vivia sozinho, gastava pouco na casa, não tinha vícios, a não ser o cachimbo, e preferia o tabaco barato. Conduzia um velho Lincoln, a sua comida era de má qualidade mas em quantidade e usava os mesmos fatos escuros desde os anos 50. O seu vício era a caridade. Poupava o dinheiro e depois dava-o.

Ninguém sabia quanto dinheiro o juiz doava anualmente. Dez por cento iam, automaticamente, para a Igreja Presbiteriana. Sewanee recebia dois mil dólares por ano, e o mesmo os Filhos dos Veteranos Confederados. Essas três dádivas eram um ponto mais que assente. As restantes não.

O juiz Atlee dava a quem pedisse. Uma criança deficiente a precisar de muletas. Uma equipa de estrelas que tivesse de viajar para um torneio estadual. Uma iniciativa do Rotary Club para vacinação de bebés no Congo. Um abrigo para cães e gatos abandonados em Ford County. Um novo telhado para o único museu de Clanton.

A lista era interminável, e para receber um cheque bastava escrever uma pequena carta e pedir. O juiz Atlee mandava sempre dinheiro e sempre o fizera desde que Ray e Forrest saíram de casa.

Ray estava a vê-lo agora, perdido na confusão e no pó na sua escrivaninha de tampo corrediço, a matraquear curtas notas na sua Underwood e a colá-las nos seus envelopes de chanceler com cheques quase ilegíveis, passados sobre o First National Bank de Clanton - cinquenta dólares aqui, cem ali, um pouco a todos até ter desaparecido todo.

O património não era complicado porque havia muito pouco a inventariar. Os velhos livros de Direito, mobília gasta, dolorosas fotografias e recordações de família, arquivos e documentos há muito esquecidos - tudo um monte de lixo que daria uma bela fogueira. Ele e Forrest iam vender a casa pelo melhor preço possível e ficariam satisfeitos por resgatar alguma coisa do último dinheiro da família Atlee.

Ia telefonar a Forrest, mas essas chamadas eram sempre fáceis de adiar. Forrest era uma catástrofe viva e com pernas, um rapaz de trinta e seis anos cuja mente fora morta por todas as substâncias legais e ilegais conhecidas da cultura americana.

«Que família», resmungou Ray para consigo.

Meteu um cancelamento da aula das onze no correio e foi tratar da sua terapia.

 

Primavera em Piedmont, céu limpo e calmo, os contrafortes mais verdes todos os dias, o Shenandoah Valley a mudar enquanto os agricultores cruzavam e recruzavam os seus sulcos perfeitos. Previa-se chuva para o dia seguinte, embora não houvesse previsão de fiar, na Virgínia.

Com quase trezentas horas em cima, Ray começava todos os dias com um olho no céu enquanto corria quatro quilómetros. A corrida podia fazê-la com chuva ou sol, mas voar não. Prometera a si próprio (e à sua companhia de seguros) que não voaria de noite e que não se arriscaria a meter-se em nuvens. Noventa e cinco por cento dos acidentes com aviões ligeiros davam-se com mau tempo ou escuridão, e ao fim de quase três anos de voo Ray ainda estava decidido a ser cobarde. «Há pilotos velhos e pilotos ousados, mas não há pilotos ousados velhos», dizia o ditado. Acreditava convictamente nisso.

Além disso, a Virgínia central era demasiado bela para ser sobrevoada no meio de nuvens. Esperava pelo tempo ideal, sem vento a empurrá-lo e a complicar as aterragens, sem neblina a toldar o horizonte e a fazê-lo perder-se, sem a ameaça de trovoadas ou de humidade. O céu limpo enquanto fazia ojogging determinava, geralmente, o resto do seu dia. Podia atrasar ou antecipar o almoço, cancelar uma aula, adiar a investigação para um dia de chuva ou uma semana de chuva. Com a previsão certa, aí ia Ray direito ao aeroporto.

Era na parte norte da cidade, uma viagem de quinze minutos desde a Faculdade de Direito. Na Docker's Flight School recebeu o mesmo cumprimento rude de Dick Docker, Charlie Yates e Fog Newton, os três pilotos marines reformados que eram os proprietários da escola e tinham treinado a maior parte dos pilotos particulares da zona. Reuniam-se todos os dias no Cockpit, uma fila de velhas cadeiras de cinema na sala da frente da escola de pilotagem, e ali bebiam café aos litros e contavam histórias de voos e mentiras que aumentavam de hora a hora. A todos os clientes e alunos era impingida a mesma quantidade de abusos verbais, quer gostassem quer não, e era pegar ou largar, pois a eles tanto se lhes dava. Recebiam boas reformas.

A chegada de Ray fazia desencadear a última ronda de anedotas de advogados, nenhuma das quais era especialmente engraçada, e todas elas arrancavam risos na parte final.

- Não admira que não tenham alunos - disse Ray enquanto preparava a papelada.

- Onde vai? - perguntou Docker.

- Vou só abrir uns buracos no céu.                

- Vamos avisar o controlo de tráfego aéreo.

- Julgo que têm mais que fazer.

Dez minutos de insultos e de impressos de aluguer e Ray estava pronto para partir. Por oitenta dólares à hora, podia alugar um Cessna que o levaria a 500 metros acima do solo, para longe de pessoas, telefones, trânsito, alunos, investigações e, naquele dia, até do seu pai moribundo, do irmão maluco e da inevitável confusão que o esperava em casa.

Havia pontos de amarração para trinta aeronaves ligeiras na placa geral de estacionamento. A maior parte deles eram Cessnas de asa alta e trem de aterragem fixo, continuando a ser os aviões mais seguros jamais construídos. Mas havia outros aparelhos mais bonitos. Ao lado do seu Cessna de aluguer estava um Beech Bonanza, uma beleza de um só motor com duzentos cavalos, que Ray conseguiria manobrar num mês com um pouco de prática. Voava quase a mais setenta nós do que o Cessna, com equipamentos extra e aviónica capazes de fazer inveja a qualquer piloto. E o pior ainda era que o Cessna estava à venda - 450 000 dólares - fora da tabela, claro, mas não assim tão fora. O dono construía centros comerciais e queria um King Air, segundo a última análise do Cockpit.

Ray afastou-se do Bonanza e concentrou-se no pequeno Cessna arrumado a seu lado. Fog Newton, seu instrutor, começara cada lição com uma história terrível de morte e fogo causados por pilotos demasiado apressados ou preguiçosos no uso de checklists.

Depois de ter a certeza de que todas as peças exteriores e superfícies estavam em ordem, abriu a porta e lá dentro apertou o cinto. Terminou a lista de procedimentos de descolagem e chamou a torre. Tinha antes dele um voo de passageiro habitual, e dez minutos depois de ter trancado as portas teve autorização de descolagem. Levantou suavemente e virou para oeste, em direcção a Shenandoah Valley.

A 4000 pés, atravessou Afton Mountain, não demasiado baixo. Alguns segundos de turbulência de montanha sacudiram o Cessna, mas não era nada de extraordinário. Depois de ter passado os contrafortes e sobrevoado as terras de cultivo, o ar tornou-se calmo e silencioso. A visibilidade era, oficialmente, de 35 quilómetros, embora a esta altitude conseguisse ver muito mais longe. Não havia tecto, nem uma nuvem em lado nenhum. A 5000 pés, os picos da Virgínia ocidental erguiam-se lentamente no horizonte. Ray concluiu os procedimentos em voo, regulou a mistura de combustível para velocidade normal de cruzeiro e descontraiu-se, pela primeira vez, desde o momento em que rolara na pista para a descolagem.

A conversa por rádio desapareceu e não ia voltar a ouvi-la senão quando ligasse à torre de controlo de Roanoke, 45 quilómetros para sul. Decidiu evitar Roanoke e ficar em espaço aéreo não controlado.

Ray sabia, por experiência própria, que os psiquiatras trabalhavam por duzentos dólares à hora na zona de Charlottesville. Voar era uma pechincha e muito mais eficaz, embora houvesse um psiquiatra muito bom que lhe sugeria que escolhesse rapidamente um novo hobby. Ia consultar o tipo, porque tinha de consultar algum. Exactamente um mês depois de a ex-senhora Atlee ter pedido o divórcio, deixado o emprego e saído da sua casa da cidade levando apenas a roupa e as jóias, tudo feito com uma implacável eficiência em menos de seis horas, Ray saiu do psiquiatra pela última vez, dirigiu-se ao aeroporto, entrou a cambalear no Cockpit e recebeu o seu primeiro insulto de Dick Docker ou Fog Newton, não se lembrava de qual.

O insulto soube-lhe bem, alguém se interessava por ele. Seguiram-se mais, e Ray, estonteado e confuso como estava, encontrara um lar. Já lá iam três anos em que cruzara os céus claros e solitários das Blue Ridge Mountains e de Shenandoah Valley, acalmando a sua fúria, derramando algumas lágrimas, confessando a sua conturbada vida a um assento vazio a seu lado. Ela foi-se embora, repetia-lhe o assento vazio.

Há pessoas que se vão embora e, a certa altura, voltam. Outras partem e resistem a uma dolorosa reconsideração. Contudo, algumas partem com uma tal determinação que nunca mais olham para trás. A saída de Vicki da sua vida fora tão bem planeada e a forma de executá-la com tal sangue-frio, que o primeiro comentário do advogado foi «Desiste, pá».

Ela descobrira um negócio melhor, como um atleta em fim de carreira. Aqui tens o novo equipamento, sorri para as câmaras, esquece a velha arena. Numa manhã, enquanto Ray estava a trabalhar, ela foi-se embora numa limusina. Atrás dela ia uma carrinha com as suas coisas. Vinte minutos depois entrava na sua nova casa, uma mansão, numa quinta de criação de cavalos a este da cidade onde Lew, o Liquidatário, a esperava de braços abertos e um contrato antenupcial. Lew era um abutre de empresa, cujos raids lhe tinham rendido meio milhar de milhões ou coisa assim, segundo as investigações de Ray, e aos sessenta e quatro anos tinha arrumado as botas, deixara Wall Street e por qualquer razão escolhera Charlottesville como novo ninho.

Algures pelo caminho esbarrara com Vicki, fizera-lhe uma proposta, engravidá-la com o filho que Ray esperara que fosse o seu, e agora com uma mulher vistosa e outra família queria ser levado a sério como um novo Peixe Graúdo.

«Basta», disse Ray em voz alta. Ele falava alto a 5000 pés e ninguém lhe respondia.

Calculava e tinha esperança de que Forrest estivesse limpo e sóbrio, embora esses pressupostos, em geral, estivessem errados, e tais esperanças fossem muitas vezes goradas. Após vinte anos de recuperações e recaídas, era duvidoso que o seu irmão conseguisse vencer a sua dependência. E Ray tinha a certeza de que Forrest devia estar falido, a condição mais que ajustada aos seus hábitos. E, estando falido, devia andar à procura de dinheiro, como o da herança do seu pai.

O dinheiro que o juiz não dera para fins de caridade e crianças doentes, tinha-o enfiado pelo buraco negro da desintoxicação de Forrest. Tanto dinheiro fora perdido nisso, ao longo de tantos anos, que o juiz tinha praticamente excomungado Forrest da sua relação pai-filho, como só ele sabia fazer. Durante trinta e dois anos tinha posto termo a casamentos, retirado crianças aos pais, dado crianças a famílias de acolhimento, banido para sempre pessoas mentalmente doentes, mandado pais delinquentes para a prisão - todo o tipo de sentenças drásticas e de longo alcance, obtidas apenas com a sua assinatura. Quando acedeu à magistratura, a sua autoridade fora-lhe concedida pelo estado do Mississipi, mas, mais tarde, durante a sua carreira, só aceitava ordens de Deus.

Se havia alguém capaz de banir um filho, essa pessoa era o chanceler Reuben V. Atlee.

Forrest fingia não se importar com o banimento. Tinha-se como um espírito livre e gabava-se de não ter posto os pés na casa de Maple Run durante nove anos. Visitara uma vez o juiz no hospital, depois de um ataque cardíaco, quando os médicos reuniram a família. Espantosamente, estava sóbrio nessa altura. «Cinquenta e dois dias, mano», murmurara orgulhosamente para Ray quando se acotovelavam no corredor da UCI. Era um quadro de pontuação ambulante quando a recuperação estava a resultar.

Se o juiz tinha planos de incluir Forrest na sua herança, ninguém ficaria mais espantado do que Forrest. Mas com a possibilidade de o dinheiro ou os bens estarem para mudar de mãos, Forrest iria aparecer à procura dos restos e das migalhas.

Por cima do desfiladeiro de New Ri ver, perto de Beckley, Virgínia ocidental, Ray deu a volta e virou para trás. Embora voar custasse menos do que a psicoterapia, também não era barato. O taxímetro estava a contar. Se ganhasse a lotaria comprava o Bonanza e voava por todo o lado. Devia ter uma licença sabática dentro de dois anos, uma folga dos rigores da vida académica. Esperava-se que terminasse o seu tijolo de oitocentas páginas sobre monopólios e havia uma firme hipótese de que isso pudesse acontecer. O seu sonho, porém, era comprar um Bonanza em leasing e desaparecer nos céus.

Vinte quilómetros a oeste do aeroporto, chamou a torre de controlo e foi orientado para se enquadrar no tráfego. O vento era fraco e variável, a aterragem ia ser canja. Na aproximação final, com a pista a 1500 metros lá em baixo e Ray com o seu pequeno Cessna a deslizar numa descida perfeita, surgiu no rádio outro piloto. Identificou-se ao controlador como «Challenger-dois-quatro-quatro-delta-mike» e estava a 28 quilómetros para norte. A torre deu-lhe autorização de aterragem, a seguir à manobra do Cessna.

Ray afastou os pensamentos sobre o outro avião o suficiente para fazer uma aterragem perfeita, depois virou na pista de aterragem e começou a rodar para a pista lateral.

Um Challenger é um jacto privado de construção canadiana com oito a quinze lugares sentados, dependendo da configuração. Voa de Nova Iorque a Paris sem parar, num estilo esplêndido e com a sua hospedeira a servir bebidas e refeições. Um novo custa qualquer coisa como vinte e cinco milhões de dólares, dependendo de uma interminável lista de opções.

O 224DM era de Lew, o Liquidatário, que o devia ter surripiado de uma das muitas infelizes empresas que atacara e espoliara. Ray vira-o aterrar atrás de si e por um segundo desejou que se despenhasse e incendiasse mesmo ali na pista para ele poder gozar o espectáculo. Não se despenhou, e enquanto ele se dirigia a toda a velocidade pelo corredor lateral para o terminal particular, Ray viu-se, de repente, encurralado.

Vira Vicki duas vezes em vários anos, depois do seu divórcio, e não queria, certamente, vê-la agora, sobretudo estando ele dentro de um Cessna com vinte anos, enquanto ela descia a escada do jacto dourado. Talvez ela não viesse a bordo. Talvez fosse apenas Lew Ro-dowski voltando de mais um ataque.

Ray fechou a mistura de combustível, o motor desligou-se, e quando o Challenger se aproximava dele começou a enterrar-se o mais possível no assento do piloto.

Quando deslizou e parou a menos de trezentos metros do sítio onde Ray se escondia, um Suburban preto e brilhante entrou na pista, um pouco depressa de mais, de luzes acesas, como se um personagem da realeza tivesse chegado a Charlottesville. Dois jovens de camisas verdes iguais e calções de caqui saltaram de lá, prontos a receberem o Liquidatário e quem mais viesse a bordo. A porta do Challenger abriu-se, a escada desceu, e Ray a espreitar por cima do painel de instrumentos e com uma vista completa, viu fascinado um dos pilotos descer primeiro, carregando dois grandes sacos de compras.

A seguir, Vicki com os gémeos. Tinham agora dois anos, Simmons e Ripley, pobres crianças que tinham recebido primeiros e últimos nomes incaracterísticos, porque a mãe era uma idiota e o pai já tinha procriado outros nove antes deles e provavelmente não se importava com os nomes que tinham. Eram rapazes, disso tinha Ray a certeza, porque vira na coluna de eventos de um jornal local - nascimentos, mortes, assaltos, etc. Tinham nascido no Hospital Martha Jefferson sete semanas e dois dias depois de o impecável divórcio dos Atlees ter sido decretado e sete semanas e três dias depois de uma Vicki muito grávida ter casado com Lew Rodowski, o quarto desfile dele pela coxia central ou o que quer que eles tivessem utilizado nesse dia, na quinta de criação de cavalos.

De mão bem dada com os rapazinhos, Vicki desceu os degraus. O meio milhar de milhões de dólares assentava-lhe bem -jeans justos, de marca, nas pernas altas, pernas que se tinham tornado visivelmente mais magras desde que entrara para ojet-set. Vicki tinha ar de estar soberbamente subalimentada - braços da grossura do osso, traseiro pequeno e achatado, faces macilentas. Não conseguiu ver-lhe os olhos porque estavam escondidos por trás de vendas escuras, do último grito de Hollywood ou Paris, uma delas à escolha.

O Liquidatário não estava subalimentado. Esperava impacientemente por trás da actual mulher e da actual ninhada. Ele gabava-se de correr maratonas, mas pouco do que dizia nos jornais era verdade. Era atarracado e com uma volumosa barriga. Metade do cabelo já desaparecera e a outra metade estava grisalha da idade. Ela tinha quarenta e um anos e podia passar por trinta. Ele tinha sessenta e quatro e parecia ter setenta, ou pelo menos foi o que Ray pensou, com grande satisfação.

Por fim, entraram no Suburban enquanto os dois pilotos e os dois motoristas carregavam e tornavam a carregar bagagem e grandes sacos do Saks e do Bergdorf. Apenas um saltinho a Manhattan para fazer compras, no Challenger eram quarenta minutos.

O Suburban afastou-se velozmente, o espectáculo acabara e Ray endireitou-se no Cessna.

Se não a odiasse tanto, teria ali ficado sentado durante muito tempo a reviver o seu casamento.

Não tinha havido avisos, discussões, nem mudança de temperatura. Apenas se lhe deparara um melhor negócio.

Abriu a porta para poder respirar e apercebeu-se de que o colarinho estava molhado de suor. Limpou as sobrancelhas e saiu do aeroplano.

Pela primeira vez, que se lembrasse, desejou não se ter aproximado do aeroporto.  

 

A Faculdade de Direito era ao lado da Faculdade de Gestão, e ficavam ambas no extremo norte do campus que se alargara muito, desde a antiquada cidade universitária que Thomas Jefferson concebera e construíra.

Para uma universidade que reverenciava a arquitectura do seu fundador, a Faculdade de Direito era mais um exercício moderno do campus, quadrado e baixo, de tijolo e vidro, tão neutro e sem imaginação como muitos outros edifícios dos anos 70. Mas dinheiro recente tinha renovado e reorganizado a paisagem de maneira mais agradável. Estava entre as Dez Mais, como toda a gente que ali trabalhava e estudava sabia. Algumas das universidades da Ivy League estavam classificadas acima dela, mas nenhuma outra universidade estatal. Atraía um milhar dos melhores estudantes e um corpo docente brilhante.

Ray estava satisfeito por ensinar Lei de Títulos de Crédito, na Northeastern University, em Boston. Alguns dos seus escritos chamaram a atenção de uma comissão de investigação, uma coisa levou à outra, e a possibilidade de mudar-se para o Sul, para uma universidade melhor, tornou-se atraente. Vicki era da Florida, e embora prosperasse na vida citadina de Boston, não conseguia adaptar-se aos Invernos. Ajustaram-se rapidamente ao ritmo mais lento de Charlottesville. Ele ganhou posição e ela um doutoramento em línguas neolatinas. Estavam a discutir a questão dos filhos quando o Liquidatário irrompeu no filme.

Outro homem engravida a nossa mulher, leva-a, e bem gostaríamos de fazer-lhe algumas perguntas. E, se calhar, também algumas a ela.

Por essa razão, nos dias seguintes à partida dela não conseguia dormir, mas à medida que o tempo passava apercebeu-se de que não iria enfrentá-la.

As perguntas desvaneceram-se, mas ao vê-la no aeroporto regressaram. Ray estava a interrogá-la novamente enquanto arrumava o carro na Faculdade de Direito e voltava para o seu escritório.

Recebia no seu gabinete até ao fim da tarde, e não era preciso marcação. Tinha a porta aberta e qualquer aluno podia entrar. Estava-se no princípio de Maio, mas os dias estavam quentes. As visitas dos alunos tornaram-se raras. Releu a convocatória do pai e mais uma vez ficou incomodado com toda aquela habitual dureza.

Às 5 da tarde fechou o gabinete à chave, saiu da Faculdade de Direito e caminhou a pé até a um complexo desportivo intramuros, onde os alunos do terceiro ano estavam a jogar pela faculdade num segundo jogo de uma série de três jogos de softball. Os professores tinham sido massacrados no primeiro jogo. Os segundo e terceiro jogos não eram necessários para determinar qual era a melhor equipa.

Cheirando-lhes a sangue, os alunos do primeiro e segundo ano enchiam as pequenas bancadas e penduravam-se na grade ao longo da linha da primeira base, onde a equipa da faculdade estava amontoada para uma desnecessária conversa de encorajamento, antes do jogo. No campo da esquerda alguns dos primeiros anos, de reputação duvidosa, estavam em magote em cima de duas grandes geleiras, e a cerveja já corria.

Não há melhor sítio para se estar na Primavera do que num campus universitário, pensava para consigo Ray, enquanto se aproximava do campo e procurava um lugar agradável para assistir ao jogo. Raparigas de calções, uma geleira sempre por perto, ares festivos, festas-surpresa, a proximidade do Verão. Ele tinha quarenta e três anos, era livre e queria voltar a ser estudante. Ensinar mantém-nos jovens, diziam todos, talvez enérgicos e intelectualmente despertos, mas o que Ray queria era sentar-se ali numa geleira com os que faziam algazarra e meter-se com as raparigas.

Um pequeno grupo de colegas seus flanava por trás da baliza, sorrindo desportivamente enquanto o corpo docente ocupava o campo com uma formação nada marcante. Alguns iam a coxear. Metade usava uma espécie de joelheira. Localizou Carl Mirk, um reitor adjunto e o seu amigo mais íntimo, encostado ao gradeamento, de gravata sem nó e casaco sobre o ombro.

- Que tristeza de grupo - disse Ray.

- Espera até vê-los jogar - disse Mirk. Cari era de uma pequena cidade do Ohio, onde o pai era o juiz local, um santo local, o avô de todos. Também Cari fugira e jurara nunca mais voltar.

- Perdi o primeiro jogo - disse Ray.

- Foi um alarido. Dezassete a zero ao fim de dois tempos.

O batedor da frente dos estudantes deu a primeira pancada para o lado vazio da esquerda do campo, um duplo rotineiro, mas quando o fielder e ofielder esquerdo encurralaram a bola, pontapearam-na duas vezes, disputaram-na, depois lançaram-na para o centro do campo, o corredor caminhou para a base e soou o apito final. Os arruaceiros do lado esquerdo do campo ficaram histéricos. Os das bancadas berravam por mais erros.

- Vai piorar - disse Mirk.

E piorou. Ao fim de mais uns desastres em campo, Ray já vira o suficiente.

- Saio da cidade no princípio da próxima semana - disse entre duas batidas. - Fui chamado a casa.

- Vê-se logo que estás todo excitado - disse Mirk. - Outro funeral?

- Ainda não. O meu pai convocou a família para discutir a herança.

- Lamento.

- Não lamentes. Não há muito a discutir, nada por que lutar, por isso, provavelmente vai ser feio.

- O teu irmão?

- Não sei quem vai arranjar mais problemas, se o pai se o irmão.

- Vou pensar em ti.

- Obrigado. Vou informar os meus alunos e deixar-lhes trabalhos. Tudo tem de ficar organizado.

- Partes quando?

- No sábado, devo regressar terça ou quarta-feira, mas sabe-se lá.

- Nós cá estaremos - disse Mirk. - E esperemos que esta série esteja acabada.

Uma bola mole lançada pelo chão rolou sem ser tocada por entre as pernas do batedor.

- Acho que já acabou - disse Ray.

 

Nada azedava mais a disposição de Ray do que pensar em ir a casa. Havia cerca de um ano que lá não ia, e, se nunca mais lá voltasse, mesmo assim seria demasiado cedo.

Comprou um burrito num pronto-a-comer mexicano e comeu numa esplanada perto do ringue de patinagem no gelo, onde geralmente se reunia o grupo de góticos de cabelo preto que assustavam as pessoas normais. A velha Rua Principal era um centro comercial para peões - muito simpática, com cafés, lojas de antiguidades e alfarrabistas - e se o tempo estivesse agradável, como geralmente estava, os restaurantes prolongavam-se para o exterior para longas refeições à noite.

Quando voltara a ficar só, Ray abandonara a agradável casa de cidade e mudara-se para a baixa, onde a maior parte dos edifícios tinha sido renovada, para ter um alojamento de estilo mais urbano. O seu apartamento de seis divisões ficava por cima de uma loja de carpetes persas. Tinha uma pequena varanda sobre o centro comercial e, pelo menos, uma vez por mês recebia os seus alunos para uma refeição de vinho e lasanha.

Era quase noite quando meteu a chave à porta que dava para o passeio e arrastou os pés em passos barulhentos, casa adentro. Sentia-se muito só - sem companheira, sem cão e sem peixinho dourado. Nos últimos anos conhecera duas mulheres que achara atraentes e não namorara nenhuma. Sentia-se demasiado assustado para romances. Uma atrevida aluna do terceiro ano, chamada Kaley, andava a atirar-se a ele, mas ele tinha as defesas em alerta. A sua pulsão sexual estava tão adormecida que pusera a hipótese de pedir conselho médico ou de usar drogas milagrosas. Acendeu as luzes e observou o telefone.

Forrest telefonara, um acontecimento realmente raro, mas não totalmente inesperado. Era típico de Forrest, tinha simplesmente ligado sem deixar um número. Ray preparou um chá sem teína e pôs uma música de jazz, tentando fazer tempo enquanto se preparava para a chamada. Estranho que uma conversa telefónica com o seu único irmão exigisse tanto esforço, mas conversar com Forrest era sempre deprimente.

Não tinha esposas, filhos, nada em comum senão um nome e um pai.

Ray martelou os números da casa de Ellie em Memphis. Tocou durante muito tempo antes que atendesse.

- Está, Ellie, fala Ray Atlee - disse em tom agradável.

- Oh - resmungou ela, como se eleja tivesse ligado oito vezes. - Ele não está.

Estou óptimo, Ellie e tu? Óptimo, obrigado por perguntares. É bom ouvir-te. Como está o tempo por aí?

- Estou a responder ao telefonema dele.

- Como eu disse, ele não está.      

- Eu ouvi. Não tem outro número?

- Para quê?

- Para o Forrest. Este ainda é o melhor número para apanhá-lo?

- Acho que sim. Ele fica cá a maior parte das vezes.

- Por favor, diz-lhe que eu telefonei.

Eles tinham-se conhecido num centro de desintoxicação, ela da bebida, e Forrest de uma panóplia completa de substâncias proibidas. Nessa altura pesava cinquenta quilos e afirmava que vivera durante quase toda a sua vida adulta a vodka. Tinha-o abandonado, saíra de lá limpa, triplicara o peso e Forrest acabara por ser parceiro no negócio. Mais mãe do que namorada, tinha-o num quarto na cave da sua antiga casa, uma lúgubre e velha casa vitoriana na parte média de Memphis.

Ray ainda estava agarrado ao telefone quando ele tocou.

- Ei, mano - perguntou. - Ligaste?

- Para responder à tua chamada. Como vai isso?

- Bom, estava muito bem, até receber uma carta do velho. Recebeste também?

- Chegou hoje.

- Ele pensa que ainda é juiz e que nós somos dois pais delinquentes, não achas?

- Ele será sempre o juiz, Forrest. Falaste com ele? Fungou e fez uma pausa.

- Não falo com ele pelo telefone há dois anos, e não ponho os pés lá em casa há tantos anos que já nem me lembro. E não tenho a certeza se lá vou no domingo.

- Vais.

- Já falaste com ele?

- Há três semanas. Fui eu que liguei, não foi ele. Parecia muito doente, Forrest, não me parece que ande por cá muito mais tempo. Acho que devias pensar seriamente...

- Não comeces, Ray. Não estou para ouvir um sermão. Houve um hiato, um silêncio pesado em que os dois inspiraram.

Sendo um viciado de uma família importante, Forrest ouvira sermões, recebera lições e fora sobrecarregado de conselhos, não pedidos, desde que se lembrava.

- Desculpa - disse Ray. - Vou lá estar. E tu?

- Acho que sim.

- Estás limpo? - Era uma pergunta muito pessoal, mas tão rotineira como «Que tal está o tempo?». Com Forrest a resposta era sempre directa e verdadeira.

- Há cento e trinta e nove dias, mano.

- Óptimo.

Era e não era. Cada dia sóbrio era um alívio, mas estar a fazer contas ainda ao fim de vinte anos era desanimador.

- E estou também a trabalhar - disse orgulhosamente.

- Que maravilha. E que tipo de trabalho?

- Ando atrás de sinistrados para uns advogados que procuram casos de acidentes, um grupo de sacanas ranhosos que fazem publicidade na televisão por cabo e andam de volta dos hospitais. Arranjo-os e depois recebo a comissão.

Era difícil avaliar um trabalho tão miserável, mas, no caso de Forrest, qualquer emprego era uma boa notícia. Fora fiador, notificador, agente de cobranças, de segurança, investigador, e uma vez ou outra chegara a experimentar todas as funções nos níveis mais baixos da profissão legal.

- Não está mal - comentou Ray.

Forrest começou a contar uma história que envolvia uma cena de encontrões na sala de urgências de um hospital, e Ray começou a distrair-se. O seu irmão já trabalhara como segurança num bar de strip-tease, uma vocação de curta duração já que foi espancado duas vezes numa noite. Passara um ano a dar a volta ao México numa Harley-Davidson nova; quem custeara a viagem, nunca ficou claro. Tentara partir pernas por conta de um agiota de Memphis, mas mais uma vez se mostrou deficiente quando se tratava de usar a violência.

Emprego honesto nunca atraíra Forrest, embora, com toda a franqueza, quem o entrevistava ficasse geralmente desinteressado devido ao seu registo criminal. Dois delitos menores relacionados com droga, ambos antes de ter completado vinte anos, mas mesmo assim eram manchas para sempre.

- Vais falar com o velho? - perguntou.

- Não, vou visitá-lo no domingo - respondeu Ray.

- A que horas chegas a Clanton?

- Não sei. Por volta das 5, creio. E tu?

- Deus mandou às 5, não foi?

- Sim, foi.

- Então eu vou lá estar a qualquer hora depois das 5. Até breve, mano.

Ray andou à volta do telefone na hora seguinte, decidindo que sim, que ia telefonar ao pai e dizer apenas olá, e depois decidiu que não, que tudo o que podia dizer agora podia ser dito mais tarde e em pessoa. O juiz detestava telefones, especialmente os que tocavam de noite e interrompiam a sua solidão. A maior parte das vezes recusava-se simplesmente a atender. E se atendia era geralmente tão desagradável e resmungão que quem telefonava arrependia-se da iniciativa.

Devia estar de calças pretas e camisa branca, com pequeninos buracos da cinza dos cachimbos, e a camisa estaria bastante engomada porque o juiz sempre as usara assim. Para ele, uma camisa de popelina branca durava uma década, independentemente do número de nódoas e de buracos de cinza, e era lavada e engomada todas as semanas na Mabe's Cleaners na praça. A gravata seria tão velha como a camisa e o desenho devia ser tristonho e com pouca cor. E suspensórios em azul-escuro, sempre.

Estaria ocupado à secretária, no escritório, sob o retrato do general Forrest e não sentado no alpendre à espera da chegada dos filhos. Queria que eles pensassem que tinha trabalho, mesmo num domingo à tarde, e que a chegada deles não era assim tão importante.

 

A viagem de carro até Clanton levava quinze horas, aproximadamente, indo com os camionistas pela congestionada estrada de quatro faixas e enfrentando os engarrafamentos em redor das cidades, e podia fazer-se num dia em caso de pressa. Ray não tinha.

Meteu algumas coisas no porta-bagagens do seu Audi TT descapotável de dois lugares que tinha havia menos de uma semana, e disse adeus a ninguém, porque na verdade ninguém se importava quando ia e vinha, e partiu de Charlottesville. Não iria exceder os limites de velocidade e, se possível, evitaria a estrada de quatro faixas. Era esse o seu propósito - uma viagem sem sobressaltos. No assento vazio a seu lado tinha mapas, um termo com café forte, três charutos cubanos e uma garrafa de água.

A uns minutos a oeste da cidade virou à esquerda no Blue Ridge Parkway e começou a serpentear para sul no topo dos contrafortes. O TT era um modelo de 2000, que fora criado um ou dois anos antes. Ray lera, dezoito meses antes, o anúncio da Audi de um carro desportivo novinho em folha, e fora a correr encomendar o primeiro da cidade. Ainda estava para ver outro, embora o vendedor lhe garantisse que iriam tornar-se populares.

Num miradouro, baixou a capota, acendeu um cubano, sorveu o café e depois arrancou novamente à velocidade máxima de oitenta à hora. No entanto, a essa marcha, Clanton não passava ainda de uma miragem.

Quatro horas mais tarde, à procura de gasolina, Ray deu consigo parado num semáforo da rua principal de uma pequena cidade da Carolina do Norte. Três advogados passaram pela sua frente, a falarem ao mesmo tempo e de pastas quase tão gastas e usadas como os seus sapatos. Olhou para a esquerda e reparou num tribunal. Olhou para a direita e viu-os entrar num restaurante. De repente, sentiu fome de comida e de sons de pessoas.

Estavam num compartimento perto da montra principal, ainda a falar enquanto mexiam o café. Ray sentou-se a uma mesa, não muito longe, e pediu uma sanduíche-clube a uma empregada mais velha que decerto os servia há anos. Um copo de chá gelado, uma sanduíche, e ela anotou tudo com grande pormenor. O cozinheiro ainda é, provavelmente, mais velho, pensou.

Os advogados tinham estado em tribunal toda a manhã a regatearem por causa de um pedaço de terra nas montanhas. A terra foi vendida, seguiu-se um processo em tribunal, etc, etc, e agora iam ter um julgamento. Tinham convocado testemunhas, citado precedentes ao juiz, discutido tudo quanto os outros tinham dito e, de maneira geral, tinham-se exaltado, a ponto de precisarem de um intervalo.

E era isto que o meu pai queria que eu fizesse, disse Ray quase em voz alta. Estava escondido atrás do jornal local, a fingir que lia, mas a escutar os advogados.

O sonho do juiz Reuben Atlee era que os seus filhos terminassem o curso de Direito e voltassem para Clanton. Ele ia reformar-se da magistratura e abririam em conjunto um escritório na praça principal. Ali, seguiriam uma vocação honrosa e ele ensiná-los-ia a serem advogados - advogados cavalheiros, advogados rurais.

Advogados falidos, era o que Ray imaginava. Como todas as pequenas cidades do Sul, Clanton estava a abarrotar de advogados. Amontoavam-se nos edifícios de escritórios do outro lado do largo do tribunal. Mandavam na política, nos bancos, nos clubes cívicos, nas direcções das escolas e até nas igrejas e nas pequenas associações. Num quadro daqueles, onde iria ele encaixar-se?

Durante as férias de Verão da Faculdade de Direito, Ray trabalhara no escritório do pai. Sem ordenado, claro. Conhecia todos os advogados de Clanton. No conjunto, não eram más pessoas. Mas eram demasiados.

A viragem de Forrest para os maus caminhos deu-se cedo e veio ainda servir de mais uma pressão sobre Ray para seguir o velho numa vida de digna pobreza. Porém resistiu a tal pressão e quando Ray acabou o primeiro ano da Faculdade de Direito prometeu a si próprio que não iria ficar em Clanton. Levou outro ano a ganhar coragem para dizer ao pai que esteve oito meses sem lhe falar. Quando Ray se licenciou na Faculdade de Direito, Forrest estava preso. O juiz Atlee chegara tarde em relação ao início, sentara-se na fila de trás, saíra cedo e não dissera nada a Ray. Foi preciso o primeiro ataque cardíaco para se reunirem.

Mas o dinheiro não foi a razão principal que fez Ray fugir de Clanton. Atlee & Atlee nunca chegou a iniciar-se, porque o sócio júnior queria livrar-se da sombra do sénior.

O juiz Atlee era um homem gigantesco numa cidade pequena.

Ray encontrou gasolina no limite da cidade e depressa regressou às montanhas, pela alameda arborizada, a conduzir a 80 à hora. Às vezes a 70. Parava nos miradouros e admirava a paisagem. Evitava as cidades e estudava os mapas. Todas as estradas levavam, mais cedo ou mais tarde, ao Mississipi.

Perto da fronteira estadual da Carolina do Norte descobriu um velho motel que anunciava ar condicionado, TV por cabo e quartos limpos por 29,99 dólares, embora a placa estivesse arqueada e enferrujada nas pontas. A inflação chegara com a televisão por cabo, porque o quarto agora era a 40 dólares. Ao lado ficava o café aberto toda a noite, onde Ray engoliu bolinhos de massa, a especialidade da noite. Depois do jantar sentou-se num banco à porta do motel, fumou outro charuto e ficou a ver os carros que ocasionalmente passavam.

Do outro lado da rua e a uns 80 metros havia um velho cinema dríve-in abandonado. O toldo caíra e estava coberto de trepadeiras e ervas daninhas. O grande ecrã e as barreiras a toda a volta do perímetro havia muitos anos que estavam a desmoronar-se.

Clanton tivera outrora um dríve-in assim, ao fim da estrada principal, à entrada da cidade. Era propriedade de uma cadeia do Norte e oferecia aos residentes a típica lista de malandrices de praia, filmes de terror, acção de Kung-fu, filmes que atraíam a camada mais nova e davam aos pregadores algo de que se queixarem. Em 1970, os poderes do Norte decidiram poluir novamente o Sul enviando filmes indecentes.

Tal como a maior parte das coisas boas e más, a pornografia chegou tarde ao Mississipi. Quando o toldo anunciou The Cheerleaders passou despercebido ao trânsito. Quando lhe foi acrescentado XXX no dia seguinte, o trânsito parou e os ânimos exaltaram-se nos cafés em redor da praça. Abriu numa noite de segunda-feira para uma pequena multidão curiosa, um pouco entusiasmada. As críticas, na escola, foram favoráveis, e na terça-feira grupos de adolescentes estavam escondidos no matagal, muitos com binóculos, incrédulos, a verem. Depois da reunião para oração de quarta-feira, os pregadores tinham tudo organizado e lançaram um contra-ataque, que assentava mais em coacção do que em estratégias astuciosas.

Servindo-se do método dos que reivindicam direitos civis, um grupo pelo qual não nutriam qualquer simpatia, levaram os seus rebanhos para a estrada em frente do drive-in com cartazes, e ali cantaram hinos, rezaram e escrevinharam à pressa as matrículas dos carros que tentaram entrar.

O negócio secou como uma torneira. Os tipos da empresa do Norte apresentaram uma queixa sumária, procurando uma indemnização. Os pregadores apresentaram também uma e não foi de admirar que tudo isto acabasse na sala de tribunal do Meritíssimo Reuben V. Atlee, um membro de longa data da Primeira Igreja Presbiteriana, descendente dos Atlee que tinham construído o santuário original, e nos últimos trinta anos o catequista de uma aula de velhas ovelhas negras que se reuniam na cozinha da cave da igreja.

As audiências duraram três dias. Como nenhum advogado de Clanton queria defender The Cheerleaders, os proprietários foram representados por uma grande firma de advogados de Jackson. Uma dúzia de habitantes argumentou contra o filme e em nome dos pregadores.

Dez anos mais tarde, quando estava na Faculdade de Direito em Tulane, Ray estudou a opinião do pai no caso. Seguindo os casos federais do momento, a sentença do juiz Atlee protegeu os direitos dos contestadores, com certas restrições. E citando um caso recente de obscenidade sentenciado pelo Supremo Tribunal dos EUA, permitiu que o espectáculo continuasse.

Judicialmente, a opinião não podia ser mais perfeita. Politicamente, não podia ter sido mais incorrecta. Ninguém ficou satisfeito. O telefone tocava durante a noite com ameaças anónimas. Os pregadores denunciaram Reuben Atlee como traidor. «Espera até às próximas eleições», ameaçavam lá dos púlpitos.

As cartas choveram no Clanton Chronicle e no The Ford County Times, todas a fustigarem o juiz Atlee por permitir tal porcaria numa comunidade impoluta. Quando o juiz se fartou, finalmente, de críticas, decidiu falar. Escolheu um domingo na Primeira Igreja Presbiteriana como momento e local, e a notícia espalhou-se rapidamente, como sempre acontecia em Clanton. Perante uma casa cheia, o juiz Atlee avançou confiante pela coxia, até aos degraus atapetados e ao púlpito. Tinha mais de um metro e oitenta, era forte, e o seu fato preto conferia-lhe uma aura de imponência. «Um juiz que conta votos antes do julgamento devia queimar a toga e fugir para a fronteira do condado», começou autoritariamente.

Ray e Forrest estavam sentados tão afastados quanto possível, num canto do coro, ambos quase a chorar. Tinha implorado ao pai que os deixasse faltar ao serviço religioso, mas faltar à igreja não era permitido em circunstância alguma.

Explicou aos menos informados que os precedentes legais tinham de ser seguidos, independentemente de perspectivas e opiniões pessoais, e que os bons juizes têm de cumprir a lei. Os juizes fracos seguem a multidão. Os juizes fracos actuam por votos e vêm depois clamar por irregularidade quando as suas sentenças cobardes são conduzidas para instâncias superiores.

«Chamem-me o que quiserem», disse a uma multidão silenciosa, «mas cobarde não sou».

Ray ainda ouvia as palavras, ainda via o pai ali à distância, de pé, sozinho como um gigante.

Ao fim de cerca de uma semana os queixosos cansaram-se e o filme pornográfico seguiu o seu curso. Kung-fu voltou com uma vingança e toda a gente ficou satisfeita. Dois anos mais tarde, o juiz Atlee recebeu os seus habituais oitenta por cento de votos em Ford County.

Ray atirou o charuto para um arbusto e encaminhou-se para o quarto. A noite estava fresca, por isso abriu a janela e escutou os carros que saíam da cidade e se sumiam colinas adentro.

 

Todas as ruas tinham uma história e cada edifício uma recordação. Os que tiveram a bênção de infâncias maravilhosas podem percorrer de carro as ruas da sua cidade-natal e sentir felicidade por recuar no tempo. Os outros são empurrados pelo dever e partem o mais depressa possível. Ao fim de quinze minutos de permanência em Clanton, já Ray queria ir-se embora.

A cidade mudara e não mudara. Nas estradas que conduziam até ela, os edifícios pobres de metal e as casas móveis amontoavam-se tanto quanto possível junto às estradas para terem o máximo de visibilidade. Ford County não tinha qualquer divisão por zonas. Um proprietário rural podia construir qualquer coisa sem licença, sem inspecção, sem código, sem aviso aos proprietários adjacentes, sem nada. Só as suiniculturas e os reactores nucleares exigiam aprovações e papeladas. O resultado era um aglomerado desordenado de cortar-e-construir que estava a tornar-se cada ano mais feio.

Mas nas zonas mais antigas, perto da praça, a cidade não mudara nada. As ruas compridas e sombrias estavam tão limpas e arranjadas como quando Ray as percorria de bicicleta. A maior parte das casas ainda era das pessoas que ele conhecia, ou, caso essas pessoas tivessem falecido, os novos donos mantinham a relva cortada e as persianas pintadas. Apenas algumas estavam descuidadas. Uma mão-cheia delas tinha sido abandonada.

Esta zona, mergulhada profundamente na Bíblia, tinha uma regra, ainda que não escrita, para que pouco fosse feito aos domingos excepto ir à igreja, ficar sentado à porta, visitar os vizinhos, descansar e descontrair-se como Deus queria.

Estava enevoado, bastante fresco para Maio, e enquanto dava a volta ao seu território a fazer tempo até à hora marcada, tentava apoiar-se nas boas recordações de Clanton. Havia o Dizzy Dean Park onde jogara na selecção juvenil pelos Pirates, e ali estava a piscina pública onde nadara todos os Verões, excepto em 1969, quando a cidade preferiu encerrá-la a receber crianças negras. Havia as igrejas - baptista, metodista e presbiteriana - em frente umas das outras na intersecção da Second com a Elm Street como sentinelas cansadas e com os seus campanários a competirem em altura. Agora estavam vazias, mas dentro de cerca de uma hora os mais fiéis iriam reunir-se para as cerimónias da noite.

A praça estava tão sem vida como as ruas que levavam até lá. Com oito mil pessoas, Clanton tinha tamanho suficiente para atrair os armazéns de revenda que tinham arruinado tantas cidades pequenas. Mas aqui as pessoas mantiveram-se fiéis ao comerciantes da baixa, e não havia em toda a praça um único edifício vazio ou entaipado - o que não era um pequeno milagre. O pequeno comércio estava no meio de bancos, escritórios de advogados e cafés, todos fechados por ser o dia do Senhor.

Foi avançando devagarinho pelo cemitério e observou o talhão dos Atlee na parte mais velha, onde os túmulos eram mais imponentes. Alguns dos seus antepassados tinham construído monumentos aos seus mortos. Ray sempre pensara que o dinheiro da família que ele não conhecera devia estar enterrado naqueles túmulos. Estacionou e foi a pé até à campa da mãe, coisa que havia anos fazia. Estava sepultada entre os Atlee, no extremo do talhão de família, porque fizera parte dela por pouco tempo.

Em breve, dentro de menos de uma hora, estaria sentado no gabinete do juiz a sorver um chá de má qualidade e a receber instruções sobre como devia o pai, exactamente, descansar em paz. Iam ser dadas muitas ordens, com muitas sentenças e directivas, porque o juiz era um grande homem e preocupava-se profundamente com a forma como seria recordado.

Continuando a avançar, Ray passou pelo depósito de água que trepara duas vezes, da segunda vez com a polícia à espera cá em baixo.

Fez uma careta ao ver o seu velho liceu, um local que nunca mais visitara desde que de lá saíra. Por trás estava o campo de futebol, onde Forrest Atlee correra muito à frente dos seus adversários e quase se tornara famoso antes de ser expulso da equipa.

Faltavam 20 minutos para as 5, era domingo, 7 de Maio. Era tempo da reunião de família.

 

Não havia sinal de vida em Maple Run. O relvado da frente tinha sido aparado nos últimos dias, e o velho Lincoln, preto, do juiz estava estacionado nas traseiras, mas, tirando essas duas provas, não havia sinal de que alguém ali viesse há muitos anos.

A fachada da casa era dominada por quatro grandes colunas sob um pórtico, e quando Ray lá vivia aquelas colunas estavam pintadas de branco. Agora estavam verdes de trepadeiras e hera. As glicínias corriam livremente pelo topo das colunas e pelo telhado. As ervas daninhas asfixiavam tudo - canteiros, arbustos e caminhos.

As recordações pesavam, como sempre que ele entrava lentamente nessa via e abanava a cabeça ao ver o estado da que fora outrora uma bela casa. E assaltava-o sempre a mesma vaga de culpa. Ele devia ter ficado, devia ter ido trabalhar com o velhote e ter fundado a Atlee & Atlee, devia ter casado com uma rapariga da terra e ter procriado meia dúzia de descendentes que viveriam em Maple Run, onde adorariam o juiz e o fariam feliz até à velhice.

Bateu com a porta com quanta força tinha, para advertir quem tivesse de ser advertido, mas o barulho caiu suavemente sobre Maple Run. A casa ao lado, para leste, era outra relíquia ocupada por uma família de solteironas que iam morrendo havia décadas. Era também uma casa anterior à guerra, mas sem as trepadeiras e as ervas daninhas, e era completamente sombreada por cinco dos maiores carvalhos de Clanton.

Os degraus da frente e o pórtico frontal tinham sido varridos recentemente. Encostada perto da porta, levemente aberta, estava uma vassoura. O juiz recusava-se a ter a casa fechada, e como se recusava também a ter ar condicionado deixava portas e janelas abertas todo o dia.

Ray respirou fundo e empurrou a porta até esta bater no travão da porta e fazer barulho. Entrou e esperou que o cheiro o atingisse, qualquer que ele fosse desta vez. Havia anos que o juiz tinha um velho gato com maus hábitos, e a casa sofria os resultados. Mas o gato já desaparecera, e o cheiro não era totalmente desagradável. O ar estava quente, poeirento e cheio do pesado odor a tabaco de cachimbo.

- Está alguém em casa? - perguntou, mas não muito alto. Ninguém respondeu.

O átrio, tal como o resto da casa, estava a servir para armazenar caixas de velhos dossiers e papéis a que o juiz se agarrava como se fossem importantes. Estavam ali desde que o tribunal o irradiara da sala de audiências. Ray olhou para a direita, para a sala de jantar, onde nada mudara em quarenta anos, e deu a curva para o corredor também atafulhado de caixas. Mais uns passos leves e espreitou para o escritório do pai.

O juiz estava a dormitar no sofá.

Ray recuou rapidamente e dirigiu-se para a cozinha, onde, surpreendentemente, não havia pratos sujos no lava-loiça e as bancadas estavam limpas. A cozinha estava geralmente uma confusão, mas, naquele dia, não. Encontrou uma gasosa light no frigorífico e sentou-se à mesa a tentar decidir se devia acordar o pai ou adiar o inevitável. O velho estava doente e precisava de descansar, por isso Ray sorveu a bebida e ficou a ver o relógio por cima do fogão a avançar lentamente para as 5 da tarde.

Forrest ia aparecer, tinha a certeza. A reunião era demasiado importante para ser desperdiçada. Nunca chegara a horas na vida. Recusava-se a usar relógio e afirmava nunca saber que dia era, e muita gente acreditava nele.

Às 5 em ponto, Ray decidiu que estava farto de esperar. Viajara muito tempo por causa daquele momento, e queria tratar do assunto. Entrou no escritório, reparou que o pai não se movera, e durante um longo minuto ou dois ficou ali parado, sem querer acordá-lo, mas sentindo-se ao mesmo tempo um intruso.

O juiz vestia as mesmas calças pretas e a mesma camisa engomada que usava desde que Ray se lembrava. Suspensórios em tom azul-es-curo, sem gravata, peúgas pretas. Perdera peso e a roupa engolia-o. Tinha o rosto magro e pálido, o cabelo fino, penteado para trás liso e brilhante. As mãos estavam cruzadas ao nível da cintura e eram quase tão brancas como a camisa.

Ao lado das mãos, presa ao cinto do lado direito, estava uma pequena embalagem branca de plástico. Ray aproximou-se com um passo silencioso, para ver melhor. Era uma embalagem de morfina.

Ray fechou os olhos, depois voltou a abri-los e olhou em volta da sala. A escrivaninha de tampo corrediço por baixo do general Foster não mudara desde que ele nascera. A velha máquina de escrever Underwood ainda ali permanecia, com um monte de papéis ao lado. A poucos metros estava a grande secretária de mogno, deixada pelo Atlee que combatera com Forrest.

Sob o olhar austero do general Nathan Bedford Forrest, e ali no meio de uma sala intemporal, Ray começou a perceber que o pai não estava a respirar. Compreendeu isso lentamente. Tossiu e não houve a menor reacção. Depois inclinou-se e tocou no pulso esquerdo do juiz. Não sentiu o pulso.

O juiz Reuben V. Atlee estava morto.

 

Havia uma cadeira de verga, antiga, com uma almofada rota e uma manta puída nas costas. Nunca ninguém a usara a não ser o gato. Ray recostou-se nela, porque era o sítio que tinha mais perto para se sentar, e durante muito tempo ficou ali sentado em frente do sofá, esperando que o pai começasse a respirar, acordasse, se endireitasse no assento, assumisse o comando e dissesse: «Onde está o Forrest?»

Mas o juiz estava imóvel. A única respiração em Maple Run eram os esforços bastantes elaborados de Ray para se controlar. A casa estava em silêncio e o ar parado ainda mais pesado. Olhou fixamente para as mãos pálidas tranquilamente pousadas e esperou que subissem ligeiramente. Para cima e para baixo, muito lentamente enquanto o sangue começava novamente a pulsar e os pulmões a encherem-se e a esvaziarem-se. Mas nada aconteceu. O pai estava hirto como uma tábua, com os pés e as mãos juntos, o queixo no peito, como se soubesse, quando se estendeu, que a sua última sesta ia ser eterna. Tinha os lábios unidos, num esboço de sorriso. O forte medicamento parara a dor.

Quando o choque começou a desaparecer, surgiram as perguntas. Há quanto tempo estaria morto? Teria sido o cancro que o matou ou o velhote tinha enfiado a morfina? Que diferença fazia? Teria encenado isto para os filhos? Onde diabo estava Forrest? Não é que desse alguma ajuda.

Sozinho, com o pai, pela última vez, Ray debatia-se com as lágrimas e com as habituais e massacrantes perguntas como, porque não vim mais cedo ou mais frequentemente, porque não escrevi, não telefonei, e a lista podia continuar, se ele deixasse.

Em vez disso, moveu-se por fim. Ajoelhou-se silenciosamente ao lado do sofá, apoiou a cabeça no peito do juiz, murmurou, «Amo-o, pai» e depois disse uma curta oração. Quando se pôs de pé tinha lágrimas nos olhos e não era isso que queria. O irmão mais novo ia chegar dali a pouco e Ray estava decidido a gerir a situação sem emoção.

Na secretária de mogno viu o cinzeiro com dois cachimbos. Um estava vazio. O fornilho do outro estava cheio de tabaco e fora recentemente fumado. Estava ligeiramente quente, pelo menos Ray assim achou, embora não tivesse a certeza. Imaginava o juiz a tirar uma fumaça enquanto arrumava os papéis da secretária, não queria que os rapazes encontrassem tanta confusão, depois quando a dor atacou estendeu-se no sofá, um pouco de morfina para aliviar e então deixou-se ir à deriva.

Ao lado da Underwood estava um dos envelopes oficiais do juiz, e tinha dactilografado na frente «Última vontade e testamento de Reuben V. Atlee». Por baixo tinha a data da véspera, 6 de Maio de 2000. Ray pegou-lhe e saiu da sala. Descobriu outra gasosa light no frigorífico e foi até ao alpendre da frente, onde se sentou na cadeira de baloiço e ficou à espera de Forrest.

Devia telefonar para a agência funerária e mandar tirar o pai antes de Forrest chegar? Debateu-se furiosamente com esta questão durante um momento e depois leu o testamento. Era um documento simples, de uma só página e sem surpresas.

Decidiu esperar até às 6, e se entretanto Forrest não chegasse telefonaria para a funerária.

O juiz ainda estava morto quando Ray voltou ao escritório o que não constituiu uma surpresa total. Colocou novamente o envelope ao lado da máquina de escrever, remexeu em mais alguns papéis e a princípio sentiu-se esquisito ao fazer isso. Mas ia ser o gestor testamentário de seu pai, e em breve estaria encarregado de toda a papelada. Ia inventariar os bens, pagar as contas, ajudar a governar o que restava do dinheiro de família dos Atlee, através da homologação do testamento, e pôr um ponto final em tudo isso. O testamento dividia tudo entre os dois filhos, por isso a herança ia ser limpa e relativamente fácil.

Enquanto via as horas e esperava pelo irmão, Ray passeava à volta do escritório, e cada passo seu era observado pelo general Forrest. Ray não fazia barulho, tentando não incomodar o pai. As gavetas da escrivaninha de tampo corrediço estavam cheias de material de papelaria. Um monte de correio actual encontrava-se em cima da secretária de mogno.

Por trás do sofá havia prateleiras apinhadas de tratados de Direito que pareciam esquecidos há décadas. As prateleiras eram de nogueira e eram uma oferta de um assassino que fora libertado da prisão pelo avô do juiz, no final do século, segundo a tradição familiar, que segundo a regra era inquestionável, até surgir Forrest. As prateleiras assentavam num armário comprido de nogueira que não tinha mais do que um metro de altura. O armário tinha seis portas pequenas e era utilizado para arrumação. Ray nunca olhara lá para dentro. O sofá estava em frente do armário, escondendo-o quase dos olhares.

Uma das portas do armário estava aberta. Lá dentro, Ray via uma pilha ordenada de caixas de arquivo da Blake & Son, as mesmas que via desde que se lembrava. Blake & Son era uma antiga empresa gráfica de Memphis. Quase todos os advogados e juizes do estado compravam cartas timbradas e envelopes na Blake & Son, e assim o fariam para sempre. Agachou-se e passou por trás do sofá para ver melhor. Os espaços de arrumação eram apertados e escuros.

Uma caixa de envelopes sem tampa fora deixada onde estava a porta aberta, apenas a uns centímetros do chão. Porém não tinha envelopes. A caixa estava cheia de dinheiro - notas de cem dólares. Centenas delas muito bem arrumadinhas numa caixa com uns 30 centímetros de largura por 45 centímetros de comprimento e talvez 12 centímetros e meio de altura. Pegou na caixa e era pesada. Havia mais umas dúzias delas encafuadas no fundo do armário.

Ray tirou outra da colecção. Também ela estava cheia de notas de cem dólares. E a terceira também. Na quarta caixa, as notas estavam enroladas em cintas de papel amarelo com a inscrição «$2,000». Contou rapidamente cinquenta cintas.

Cento e seis mil dólares.

Gatinhando por trás do sofá, com cuidado para não lhe tocar e não incomodar ninguém, Ray abriu as outras cinco portas do armário. Havia, pelo menos, vinte caixas verde-escuro da Blake & Son.

Pôs-se de pé e caminhou para a porta do escritório, e depois atravessou o vestíbulo até ao alpendre da frente para apanhar ar. Sentia-se tonto, e, quando se sentou no último degrau, uma grande gota de suor rolou-lhe pela cana do nariz e caiu-lhe nas calças.

Embora não fosse possível pensar claramente, Ray conseguiu fazer um cálculo rápido. Partindo do princípio de que havia vinte caixas e de que cada uma tinha, pelo menos, cem mil dólares, então o que estava escondido devia ultrapassar de longe aquilo que o juiz juntara em trinta e dois anos de funções. A sua função de chanceler foram a tempo inteiro, nada por fora e pouca coisa desde a sua derrota nove anos antes.

Não jogava, e, que Ray soubesse, nunca comprara uma única acção.

Aproximou-se um carro vindo do fundo da rua. Ray ficou imóvel, temendo, por momentos, que fosse Forrest. O carro passou, Ray pôs-se de pé num salto e correu ao escritório. Levantou uma ponta do sofá e afastou-o uns 15 centímetros das prateleiras, depois fez o mesmo do outro lado. Ajoelhou-se e começou ajuntar as caixas da Blake & Son. Quando tinha uma pilha de cinco, levou-as, passando pela cozinha, para um compartimento por trás da copa onde Irene costumava guardar as vassouras e as esfregonas. As mesmas vassouras e esfregonas ainda lá estavam, evidentemente intactas desde a morte de Irene. Ray afastou as teias de aranha e colocou as caixas no chão.

O armário das vassouras não tinha janela, e não podia ser visto da cozinha.

Da casa de jantar observou a alameda da frente, não viu nada, depois correu ao escritório, onde empilhou um monte de sete caixas da Blake & Son e levou-as para o armário das vassouras. Voltou à janela da casa de jantar, não havia ninguém, voltou ao escritório onde o juiz estava a arrefecer a cada momento. Mais duas viagens até ao armário das vassouras e o trabalho estava pronto. Vinte e sete caixas, no total, todas guardadas em segurança, onde ninguém as encontraria.

Eram quase 6 horas quando Ray foi ao carro buscar o seu saco. Precisava de uma camisa e de umas calças limpas. A casa estava cheia de sujidade e pó, e tudo aquilo em que tocava o deixava mascarrado. Lavou-se e secou-se com uma toalha na única casa de banho do andar inferior. Depois arrumou o escritório, voltou a pôr o sofá no lugar e foi de divisão em divisão à procura de mais armários.

Estava no segundo andar, no quarto do juiz com as janelas levantadas a revistar os guarda-fatos quando ouviu um carro na rua. Correu lá para baixo e conseguiu esgueirar-se para o baloiço do alpendre, enquanto Forrest estacionava o Audi. Ray respirou fundo e tentou acalmar-se.

O choque da morte de um pai era suficiente para um dia. O choque do dinheiro deixara-o a tremer.

Forrest trepou os degraus tão lentamente quanto possível, com as mãos enfiadas nas calças de peitilho. Brilhantes botas de tropa com atacadores verde-vivo. Sempre diferente.

- Forrest - disse Ray baixinho, e o irmão voltou-se para ele.

- Olá, mano.

- Ele está morto.

Forrest parou e por um momento observou-o, depois fixou o olhar na rua. Trazia um velho blazer castanho por cima de uma T-shirt vermelha, um conjunto que ninguém, a não ser Forrest, se atreveria a usar. Como o primeiro autoproclamado espírito livre de Clanton, sempre se esforçara por ser cool, pr' à frente, avant-garde, inconformista.

Estava um pouco mais gordo, mas o peso não lhe ficava mal. O cabelo comprido, cor-de-areia, estava a ficar grisalho mais depressa do que o de Ray. Usava um boné de basebol dos Cubs, bastante gasto.

- Onde está? - perguntou Forrest.

- Lá dentro.

Forrest abriu a porta de rede, e Ray entrou atrás dele. Parou à porta do escritório e pareceu hesitar quanto ao que fazer a seguir. Enquanto Forrest olhava para o pai, inclinou a cabeça ligeiramente para um lado e, por um momento, Ray pensou que ele ia desmaiar. Apesar de querer mostrar-se sempre duro, as emoções de Forrest estavam sempre à flor da pele. Murmurou «Oh, meu Deus» e depois foi desen-gonçadamente até à cadeira de verga onde se sentou a olhar incrédulo para o juiz.

- Está mesmo morto? - conseguiu por fim perguntar.

- Está, Forrest.

Engoliu com força, lutou para conter as lágrimas e disse por fim.

- A que horas cá chegaste?

Ray estava sentado num banco e voltou-se para encarar o irmão.

- Acho que por volta das 5. Entrei aqui, pensei que estava a dormitar, mas depois percebi que estava morto.

- Lamento que tivesses de ter dado com isto - disse Forrest limpando o canto dos olhos.

- Alguém teria.

- O que fazemos agora?                                                        

- Vamos chamar a agência funerária.

Forrest fez um sinal afirmativo como se soubesse que era exactamente isso que tinha de ser feito. Levantou-se lentamente e foi até ao sofá com um andar inseguro. Tocou na mão do pai.

- Há quanto tempo está morto? - perguntou. A sua voz era rouca e forçada.

- Não sei. Há umas duas horas.

- O que é isto?                                                                    

- Uma embalagem de morfina.

- Achas que tomou de mais?

- Espero que sim - disse Ray.

- Acho que devíamos ter estado aqui.

- Não vamos começar com isso.

Forrest olhou em volta da sala como se nunca lá tivesse estado. Foi até à escrivaninha de tampo corrediço e olhou para a máquina de escrever.

- Acho que afinal já não precisa de uma fita nova - comentou.

- Acho que não - respondeu Ray, olhando para o armário que estava atrás do sofá. - Está ali um testamento, se quiseres ler. Foi assinado ontem.

- O que é que diz?

- Dividimos tudo. Eu sou o gestor testamentário.

- Claro que és tu o testamentário. - Passou para trás da secretária de mogno e deitou um rápido olhar à pilha de papéis que a cobriam. - Há nove anos que não punha os pés nesta casa. Custa a crer, não custa?

- Custa.

- Passei por cá uns dias depois da eleição e disse-lhe que lamentava que os eleitores o tivessem deixado de fora, depois pedi-lhe dinheiro. Tivemos uma troca de palavras.

- Vá lá, Forrest, deixa-te disso agora.

As histórias de disputas entre o juiz e Forrest nunca mais acabavam.

- Nunca recebi esse dinheiro - resmungou enquanto abria a gaveta da secretária. - Acho que temos de verificar tudo.

- Sim, mas não agora.

- Faz tu isso, Ray. Tu és o testamentário. O trabalho sujo é contigo.

- Temos de chamar a agência funerária,

- Preciso de um copo.

- Não, Forrest, por favor.

- Deixa-me em paz, Ray. Bebo um copo sempre que quiser.

- Isso já ficou provado milhares de vezes. Anda, vou chamar a agência funerária e esperamos no alpendre.

 

Chegou primeiro um polícia, um jovem de cabeça rapada com aspecto de que lhe tivessem interrompido a sesta de domingo para o chamarem ao serviço. Fez umas perguntas no alpendre da frente e depois foi inspeccionar o corpo. Era preciso tratar da papelada, e, enquanto o faziam, Ray fixou o olhar num jarro de chá instantâneo com muito açúcar.

- Causa da morte? - perguntou o polícia.

- Cancro, doença cardíaca, diabetes, velhice - disse Ray. Ele e Forrest balançavam-se lentamente na cadeira de baloiço.

- Chega-lhe? - perguntou Forrest, como um ar de vivaço. Qualquer respeito que pudesse ter tido por polícias já desaparecera há muito.

- Querem autópsia?

- Não - disseram em uníssono.

Preencheu os impressos e pediu as assinaturas de Ray e Forrest. Enquanto se afastava, Ray disse:

- A notícia vai alastrar que nem fogo.

- Na nossa linda cidadezinha, não.

- Custa a crer, não custa? As pessoas aqui não são nada mexeriqueiras.

- Quanto a mim, já lhes dei que fazer durante vinte anos.

- Lá isso é verdade. Estavam lado a lado, os dois com um copo vazio.

- Então o que reza o testamento? - perguntou por fim Forrest.

- Queres ver o testamento?

- Não, diz-me só.

Ele fez a listagem dos bens: a casa, a mobília, os livros, e seis mil dólares no banco.

- É tudo?

- É tudo quanto ele mencionou - disse Ray, evitando a mentira.

- Há com certeza mais dinheiro do que o que diz aí - disse Forrest pronto para começar a procurar.

- Acho que o deu todo - disse Ray calmamente.

- E a pensão de reforma?

- Ele cobrou-a na totalidade quando perdeu a eleição, esse foi um erro crasso. Custou-lhe dezenas de milhares de dólares. Desconfio que ele deu tudo.

- Não vais lixar-me, pois não, Ray?

- Deixa-te disso, Forrest, não há nada por que lutar.

- Há dívidas?

- Ele disse que não tinha nenhumas.

- Mais nada?

- Podes ler o testamento, se quiseres.

- Agora não.

- Ele assinou-o ontem.

- Achas que planeou tudo?

- Parece que sim.

Uma carreta preta da Magargel 's Funeral Home parou em frente de Maple Run e depois entrou devagar na alameda.

Forrest inclinou-se para a frente, com os cotovelos nos joelhos, o rosto nas mãos, e começou a chorar.

 

Atrás da carreta vinha o médico legista do condado, Thurber Foreman, na mesma pickup Dodge vermelha que conduzia desde que Ray andava na faculdade, e atrás de Thurber vinha o reverendo Silas Palmer da Primeira Igreja Presbiteriana, um escocês pequeno e sem idade que baptizara os dois filhos de Atlee. Forrest esgueirou-se e foi esconder-se no quintal, enquanto Ray foi ao encontro do grupo no alpendre da frente. Foram apresentadas as condolências. Mr. B. J. Magargel, da funerária, e o reverendo Palmer pareciam estar quase a chorar. Thurber vira inúmeros corpos. Porém, neste não tinha interesse financeiro, e pareceu indiferente, pelo menos de momento.

Ray levou-os até ao escritório onde observaram respeitosamente o juiz Atlee, o tempo suficiente para Thurber o declarar oficialmente morto. Fê-lo sem palavras, mas com um simples aceno de cabeça para Mr. Magargel com uma burocrática inclinação de queixo que queria dizer: «Está morto. Agora pode levá-lo.» Mr. Magargel acenou afirmativamente, também, concluindo assim um ritual silencioso que de longa data efectuavam juntos.

Thurber apresentou uma única folha de papel e fez as perguntas básicas. O nome completo do juiz, a data de nascimento, a naturalidade, o parente mais próximo. Pela segunda vez, Ray disse que não à autópsia.

Ray e o reverendo Palmer afastaram-se e tomaram lugar à mesa da sala de jantar. O pastor estava muito mais emocionado do que o filho. Adorava o juiz e proclamava-se seu amigo íntimo.

Uma cerimónia religiosa digna de um homem da estatura de Reuben Atlee iria atrair muitos amigos e admiradores e tinha de ser bem planeada.

- Reuben e eu falámos nisso não há muito tempo - disse Palmer, em voz baixa e arrastada, parecendo que ia sufocar a qualquer momento.

- Acho bem - comentou Ray.

- Ele escolheu os hinos e as leituras e fez uma lista dos que deviam carregar o féretro.

Ray ainda não pensara nesses pormenores. Talvez lhe tivessem ocorrido, se não tivesse tropeçado em dois milhões em dinheiro. O seu cérebro sobrecarregado ouvia Palmer e apanhava a maior parte das suas palavras, depois iria voltar-se para o armário das vassouras e começar a remexer novamente. Começou a ficar nervoso por Thurber e Magargel estarem sozinhos com o juiz no escritório. «Calma», ia dizendo para consigo.

- Obrigado - disse sinceramente aliviado por se terem encarregado dos pormenores. O ajudante de Mr. Magargel empurrou uma maca pela porta da frente, passou pelo vestíbulo e debateu-se para fazê-la virar para o escritório.

- E ele queria um velório - disse o reverendo. Os velórios eram tradicionais, um prelúdio necessário a um funeral condigno, especialmente entre as pessoas mais velhas.

Ray fez um sinal afirmativo.

- Aqui em casa.

- Não, aqui não - apressou-se Ray a dizer.

Quando ficasse só, queria inspeccionar cada centímetro da casa à procura de um espólio maior. E estava preocupado com o que já estava escondido no armário das vassouras. Quanto é que lá estaria? Quanto tempo ia levar a contá-lo? Seria verdadeiro ou falso? De onde provinha? O que fazer com ele? Para onde levá-lo? A quem dizer? Precisava de algum tempo sozinho para pensar, para resolver as coisas e desenvolver um plano.

- O seu pai foi muito directo quanto a isto - disse Palmer.

- Desculpe, reverendo. Faz-se o velório, mas aqui não.

- Posso perguntar porque não?

- A minha mãe.

Sorriu e disse:- Lembro-me da sua mãe.

- Colocaram-na em cima da mesa na sala da frente e durante dois dias a cidade desfilou por aí. O meu irmão e eu escondemo-nos lá em cima e amaldiçoámos o meu pai por esse espectáculo. - A voz de Ray era firme e o olhar irado. - Não vamos ter um velório nesta casa, reverendo.

Ray estava a ser absolutamente sincero. Estava também preocupado em resguardar a casa. Um velório exigiria uma limpeza cuidadosa da casa feita por uma empresa de limpezas, a preparação da comida por uma de catering e as flores arranjadas por uma florista. E toda essa actividade começaria de manhã.

- Compreendo - concordou o reverendo.

O ajudante foi o primeiro a sair, recuando, a puxar a maca que era suavemente empurrada por Mr. Magargel. O juiz foi coberto da cabeça aos pés por um lençol branco, cuidadosamente enfiado por baixo dele. Com Thurber atrás, levaram-no, atravessando o alpendre da frente e descendo os degraus, o último dos Atlee a viver em Maple Run.

Meia hora mais tarde, Forrest surgiu algures de detrás da casa. Trazia um copo alto e transparente, cheio de um líquido castanho de aspecto duvidoso que não era chá.

- Já foram? - perguntou, olhando para a alameda.

- Já - respondeu Ray. Estava sentado nos degraus da frente a fumar um charuto. Quando Forrest se sentou ao lado dele, o cheiro a malte azedo seguiu-o de perto.

- Onde é que descobriste isso? - perguntou Ray.

- Ele tinha um esconderijo na casa de banho. Queres?

- Não. Há quanto tempo sabias disso?

- Há trinta anos.

Tinha uma dúzia de sermões na ponta da língua, mas Ray afastou-os. Tinham sido pregados muitas vezes falhando sempre, evidentemente, porque ali estava Forrest a beberricar o bourbon ao fim de cento e quarenta e um dias de sobriedade.

- Como está a Ellie? - perguntou Ray depois de uma longa fumaça.

- Doida que se farta, como sempre.

- Irei vê-la no funeral?

- Não, deve estar com uns cento e quarenta quilos. O seu limite é setenta quilos. Se tem menos de setenta, sai de casa. Acima de setenta, fecha-se em casa.

- Quando é que teve menos de setenta?

- Há três ou quatro anos. Encontrou um médico maluco que lhe deu uns comprimidos. Conseguiu ir até aos sessenta quilos. O médico foi preso e ela recuperou oitenta. Cento e quarenta são o seu máximo. Pesa-se todos os dias e fica descabelada se o ponteiro da balança passa dos cento e quarenta.

- Disse ao reverendo Palmer que íamos ter um velório, mas aqui em casa não.

- Tu és o testamentário.

- Concordas?

- Claro.

Um grande golo de bourbon, outra longa fumaça de charuto.

- E que é feito daquela lingrinhas que te deu com os pés? Como se chama ela?

- Vicki.

- Sim, Vicki, detestei essa cabra logo no dia do casamento.

- Quem me dera ter feito o mesmo.

- Ela ainda anda por aí?

- Sssim, via-a a semana passada, no aeroporto, a sair do seu jacto particular.

- Ela casou com esse traque velho, um vigarista de Wall Street, não foi?

- Esse mesmo. Vamos falar de outra coisa.

- Foste tu que puxaste a conversa sobre mulheres.

- É sempre um grande erro.

Forrest engoliu outra bebida e depois disse:

- Vamos falar em dinheiro. Onde está ele?

Ray sobressaltou-se ligeiramente e o seu coração parou, mas Forrest estava a olhar fixamente para o relvado da frente e não reparou. De que dinheiro estás a falar, querido irmão?

- Ele deu-o.

- Mas porquê?

- Era o dinheiro dele, não o nosso.

- E porque não havia de deixar algum para nós?

Não muitos anos antes, o juiz confidenciara a Ray que ao longo de quinze anos gastara mais de noventa mil dólares em honorários legais, custas de tribunal e na recuperação de Forrest. Podia deixar o dinheiro para Forrest beber e ressonar ou podia dá-lo, em vida, a instituições de caridade ou a famílias necessitadas. Ray tinha uma profissão e sabia tomar conta de si.

- Deixou-nos a casa - disse Ray.

- O que vai acontecer-lhe?

- Vendemo-la, se quiseres. O dinheiro vai para o monte com tudo o mais. Cinquenta por cento vão para impostos. A aprovação oficial do testamento vai levar um ano.

- E em conclusão?

- Temos sorte se partilharmos cinquenta mil daqui a um ano.

Claro que havia outros bens. O espólio estava inocentemente guardado no armário das vassouras, mas Ray precisava de tempo para analisá-lo. Seria dinheiro sujo? Deveria ser incluído no testamento? Se assim fosse, iria criar problemas tremendos. Primeiro, tinha de ser explicado. Em segundo lugar, metade ia ser consumida pelos impostos. Terceiro, Forrest ia encher os bolsos de dinheiro e, provavelmente, matar-se-ia com ele.

- Então vou receber vinte e cinco mil dentro de um ano? - perguntou Forrest.

Ray não percebia se ele estava ansioso ou aborrecido.

- Mais ou menos.

- Queres a casa?

- Não, e tu?                      

- Safa, não. Nunca mais cá volto.                          

- Deixa-te disso, Forrest.

- Ele correu comigo, sabes, disse que eu já envergonhara esta família o suficiente. Disse-me que nunca mais pusesse os pés nesta propriedade.

- E pediu desculpa.

Um golo rápido e respondeu:

- Pediu. Mas este sítio deprime-me. Tu és o testamentário, trata disso. Manda-me apenas um cheque quando o testamento estiver homologado.

- Devíamos, pelo menos, dar a volta às coisas dele juntos.

- Não vou tocar-lhes - disse, e pôs-se de pé. - Quero uma cerveja. Já lá vão cinco meses, e quero uma cerveja. - Ia falando, enquanto se encaminhava para o carro. - Também queres uma? - perguntou.

- Não.

- Queres boleia?

Ray queria ir para proteger o irmão, mas sentiu uma necessidade mais forte de ficar ali sentado e proteger os bens dos Atlee. O juiz nunca fechava a casa à chave. Onde estavam as chaves?

- Eu espero aqui - disse.

- Como queiras.

 

O visitante seguinte foi uma surpresa. Ray estava na cozinha a esgravatar nas gavetas, à procura das chaves, quando ouviu uma voz forte a berrar na porta da frente. Embora não a ouvisse há anos não teve dúvidas de que era a de Harry Rex Vonner.

Abraçaram-se, um abraço de urso de Harry Rex e um aperto esquivo de Ray.

- Lamento - repetiu Rex várias vezes.

Era alto, com peito e estômago grandes, um grande urso desmazelado que adorava o juiz Atlee e era capaz de fazer qualquer coisa pelos seus filhos. Era um advogado brilhante preso a uma cidade pequena, e fora a Harry Rex que o juiz Atlee recorrera nos problemas legais de Forrest.

- Quando é que chegaste? - perguntou.

- Por volta das 5. Dei com ele no escritório.

-Tenho estado em julgamento há duas semanas, não tenho falado com ele. Onde está o Forrest?

- Foi comprar uma cerveja.

Ficaram ambos a digerir a gravidade do facto. Sentaram-se nas cadeiras de balanço junto ao baloiço.        

- É bom ver-te, Ray.

- E a ti também, Harry Rex.

- Nem acredito que está morto.                        

- Nem eu, pensei que ia ficar eternamente aqui. Harry Rex limpou os olhos com a manga e murmurou:

- Lamento muito. Não consigo acreditar. Vi-o há duas semanas, parece-me. Andava por aí, astuto como uma raposa, com dores mas sem se queixar.

- Tinham-lhe dado um ano de vida, doze meses atrás. Mas pensei que ia aguentar-se.

- Também eu. Era um gajo duro.        

- Queres um chá?

- Era bom.

Ray foi à cozinha e serviu dois copos de chá instantâneo gelado. Levou-os até ao alpendre e disse:

- Este não é grande coisa.

Harry Rex bebeu um golo e concordou.

- Pelo menos está fresco.

- Vamos ter velório, Harry Rex, e não vamos fazê-lo aqui. Tens alguma ideia?

Pensou apenas um segundo, depois recostou-se com um grande sorriso.

- Vamos pô-lo no tribunal, no primeiro andar, na rotunda, em câmara ardente, como um rei ou coisa assim.

- Estás a falar a sério?

- Porque não? Ele ia adorar. Toda a cidade podia desfilar por lá e prestar a última homenagem.

- Gosto da ideia.

- É brilhante, acredita. Vou falar com o sheriff para ele aprovar. Toda a gente vai adorar. Quando é o funeral?

- Na terça-feira.

- Então temos um velório amanhã à tarde. Queres que eu diga algumas palavras?

- Claro. Porque não organizas tudo?

- Pronto. Já escolheram um caixão?

- íamos escolher amanhã de manhã.

- Escolham carvalho. Esqueçam essas tretas de cobre e latão. Enterrámos a minha mãe, no ano passado, num de carvalho, e foi a coisa mais bonita que já vi. O Magargel pode mandar vir um de Tupelo em duas horas. E deixem-se também de sepulcros. Isso é só roubalheira. As cinzas às cinzas, o pó ao pó, é enterrá-los e deixá-los apodrecer, é assim que tem de ser. Os episcopais é que fazem as coisas como deve ser.

Ray estava um pouco estonteado com tantos conselhos, mas, mesmo assim, ficou agradecido. O juiz não falara em caixão, mas desejava especificamente um sepulcro. Queria uma bela pedra tumular. Afinal era um Atlee e queria ser enterrado entre os outros grandes.

Se havia quem soubesse da vida do juiz era Harry Rex. Enquanto viam as sombras descerem sobre Maple Run, Ray disse, com o ar mais natural possível:

- Parece que ele deu todo o dinheiro.

- Não me surpreende. E a ti?

- Não.

- No funeral vão estar centenas de pessoas que foram tocadas pela sua generosidade. Crianças aleijadas, pessoas doentes sem seguro, crianças negras que ele mandou para a faculdade, todos os quartéis de bombeiros voluntários, associações cívicas, a equipa das estrelas, o grupo escolar destinado à Europa. A nossa Igreja mandou alguns médicos para o Haiti e o juiz deu-nos mil dólares.

- Quando começaste a ir à igreja?

- Há dois anos.

- Porquê?

- Tenho outra mulher.

- Em quantas já vais?

- Quatro, mas gosto mesmo desta.

- Que sorte a dela.

-Ela está muito contente.

- Agrada-me esse velório no tribunal, Harry Rex. Toda essa gente que referiste pode prestar a sua homenagem em público. Há muito onde estacionar e não têm de preocupar-se com os lugares sentados.

- É brilhante.

Forrest virou para o caminho de entrada e travou a fundo a centímetros do Cadillac de Harry Rex. Arrastou-se para fora e avançou pesadamente para eles na semi-escuridão, transportando o que parecia ser uma grade de cerveja.      

 

Quando ficou sozinho, Ray sentou-se na cadeira de verga em frente do sofá e tentou convencer-se de que a vida sem o pai não seria muito diferente da vida longe dele. Esse dia custaria a chegar, mas iria encarar a situação com simplicidade, e prosseguir com um pequeno luto. « Iria fingir », dizia para consigo, «ia arrumar as coisas do Mississipi e voltava a correr para a Virgínia».

O escritório estava iluminado por uma lâmpada fraca sob o abat-jour de um candeeiro poeirento em cima do tampo corrediço, e as sombras eram longas e escuras. Amanhã ia sentar-se à secretária e mergulhar na papelada, mas esta noite não.

Esta noite precisava de pensar.

Forrest fora-se embora, arrastado por Harry Rex, ambos embriagados. Forrest, como era típico, ficou tristonho e queria meter-se no carro e ir para Memphis. Ray sugeriu que ficasse simplesmente ali.

- Dorme no alpendre, se não quiseres dormir em casa-disse-lhe, mas sem forçar. Insistir só iria provocar uma discussão. Harry Rex disse que em condições normais convidaria Forrest a ficar, mas a nova esposa era dura, e dois bêbados eram talvez de mais.

- Fica cá - disse Harry Rex, mas Forrest não se movia. Já era suficientemente teimoso quando estava sóbrio, depois de uns copos era intratável. Ray tinha visto isso mais vezes do que gostaria de lembrar-se e ficou sentado e calado enquanto Harry Rex discutia com o irmão.

A questão ficou arrumada quando Forrest decidiu que ia alugar um quarto no Deep Rock Motel a norte da cidade.

- Costumava lá ir quando andava com a mulher do presidente da câmara, há quinze anos - disse ele.

- Está cheio de pulgas - disse Harry Rex.

Saíram uns minutos depois das onze, e a casa ia ficando, minuto a minuto, mais silenciosa.

A porta da frente tinha um ferrolho e a do pátio tinha um trinco. A porta da cozinha, a única nas traseiras da casa, tinha uma maçaneta fraca com uma fechadura que já não funcionava. O juiz não sabia manejar uma chave de parafusos e Ray herdara essa falta de habilidade manual. Todas as janelas foram fechadas e aferrolhadas e tinha a certeza de que a mansão Atlee nunca estivera tão segura desde há décadas. Se necessário, dormiria na cozinha, de guarda ao armário das vassouras.

Tentou não pensar no dinheiro. Sentado no santuário do pai, congeminava uma notícia necrológica não oficial.

Atlee fora eleito para o cargo de juiz do 25º Chancery District em 1959 e desde então reeleito por uma avalancha de votos de quatro em quatro anos até 1991. Trinta e dois anos de bons serviços. Como jurista, o seu registo era impecável. Raramente o Tribunal de Relação de Segunda Instância modificara uma das suas decisões. Os seus colegas pediam-lhe muitas vezes para ouvir em audiência casos ímpares nos seus distritos. Era um orador convidado na Faculdade de Direito Ole Miss. Escrevera centenas de artigos sobre o exercício, os procedimentos e as tendências. Recusara, por duas vezes, nomeações para o Supremo Tribunal do Mississipi; muito simplesmente, não queria abandonar o seu lugar na sala de tribunal.

Quando não usava a toga, o juiz Atlee participava em todas as questões locais - política, trabalho cívico, escolas e igrejas. Poucas coisas em Ford County eram aprovadas sem o seu aval, e poucas coisas a que se opôs foram postas em prática. Em várias ocasiões participou em todos os conselhos locais, reuniões, conferências e comissões adhoc. Seleccionou silenciosamente candidatos para cargos oficiais e ajudou silenciosamente a derrotar aqueles que não estavam nas suas boas graças.

No seu tempo livre, o pouco que tivera, estudou História, a Bíblia, e escreveu artigos sobre Direito. Não jogara sequer uma vez basebol com os filhos, nem nunca os levara a pescar.

A mulher, Margaret, precedera-o na morte, uma morte súbita por aneurisma, em 1969. Os dois filhos sobreviver-lhe-iam.

E algures durante este percurso conseguira guardar uma fortuna em dinheiro.

Talvez o mistério do dinheiro se esclarecesse ali na secretária, algures no meio das pilhas de papéis ou talvez escondido nas gavetas. O pai deixara, com certeza, uma pista, se não uma explicação directa. Tinha de haver um rasto. Ray não se lembrava de ninguém em Ford County com um valor líquido de dois milhões de dólares e ter isso em dinheiro vivo era impensável.

Tinha de contá-lo. Naquela noite, conferira-o duas vezes. Só contar as vinte e sete caixas da Blake & Son tinha-o deixado angustiado. Ia esperar até de manhã cedo, quando já havia muita luz e antes que a cidade começasse a mexer-se. Iria tapar as janelas da cozinha e tirar uma caixa de cada vez.

Pouco antes da meia-noite, Ray encontrou um pequeno colchão num quarto do rés-do-chão e arrastou-o até à sala de jantar, colocou-o a meio metro do armário das vassouras, de onde podia ver a alameda de entrada da frente e a casa ao lado. No andar de cima descobriu a Smith & Weston de calibre .38, do juiz, na gaveta da sua mesa de cabeceira. Com uma almofada que cheirava a mofo e um cobertor de lã que cheirava a bafio, tentou em vão dormir.

 

O ruído seco vinha do outro lado da casa. Era uma janela, embora Ray levasse minutos a acordar, a aclarar as ideias e aperceber-se de onde estava e o que estava a ouvir. Um som de bicada, depois um abanar mais forte, depois o silêncio. Um longo silêncio enquanto ele se endireitou no colchão e agarrou a .38. A casa estava muito mais escura do que queria, porque todas as lâmpadas se tinham fundido e o juiz fora demasiado avarento para substituí-las.

Demasiado avarento. Vinte e sete caixas de dinheiro.

Ouviu-se outra vez o barulho, demasiado firme e demasiado rápido para serem folhas ou ramos a baloiçarem ao vento. Tap, tap, tap e depois um forte empurrão ou encontrão como se alguém tentasse abri-la.

Havia dois carros na alameda - o de Ray e o de Forrest. Qualquer palerma podia ver que a casa tinha gente lá dentro, fosse quem fosse o palerma não queria saber. Provavelmente também tinha uma arma e sabia, com certeza, manejá-la melhor do que Ray.

Ray deslizou pelo átrio de barriga no chão, meneando-se como um caranguejo e respirando como um maratonista. Parou no corredor escuro e escutou o silêncio. Maravilhoso silêncio. «Vai-te embora», dizia para consigo. «Por favor, vai-te embora».

Tap, tap, tap, e continuou a rastejar para o quarto das traseiras com a pistola apontada à sua frente. Estava carregada? Perguntava-se, demasiado tarde. Com certeza, o juiz tinha a pistola carregada na mesa de cabeceira. O barulho era mais forte e provinha de um pequeno quarto que outrora usavam para hóspedes, mas que havia décadas guardava caixas e tralha. Empurrou levemente a porta com a cabeça e não viu senão caixotes de cartão. A porta abriu-se mais e bateu num candeeiro de pé, que se inclinou para a frente e foi cair perto da primeira das três janelas escuras.

Ray quase começou a disparar, mas reteve a munição e a respiração. Ficou quieto no soalho de madeira arqueado, durante o que lhe pareceu uma hora, a suar, a escutar, a sacudir aranhas sem ouvir nada. As sombras subiam e desciam. Uma leve brisa agitava todos os ramos lá fora, e, algures lá em cima, perto do telhado, um ramo roçava suavemente na casa.

Afinal era o vento. O vento e os velhos fantasmas de Maple Run, um local de muitos espíritos, segundo a sua mãe, porque era uma velha casa onde tinham morrido dúzias de pessoas. «Tinham enterrado escravos na cave», dizia ela, «e os seus espíritos não descansavam e vagueavam por ali.»

O juiz detestava histórias de fantasmas e refutava-as todas.

Quando Ray se sentou, por fim, tinha os cotovelos e os joelhos dormentes. Com o passar do tempo acabou por pôr-se de pé e encostar-se à ombreira da porta, olhando para as três janelas, com a arma em riste. Se tivesse havido mesmo um intruso, o barulho tinha-o assustado. Mas quanto mais tempo Ray ali ficava, mais se convencia de que o barulho fora apenas do vento.

A ideia de Forrest fora melhor. Por mais sujo que fosse Deep Rock, devia ser mais tranquilo do que este local.

Tap, tap, tap, e ele atirou-se outra vez para o chão, mais uma vez atingido pelo medo, só que desta vez era pior, porque o barulho vinha da cozinha. Tomou a decisão táctica de gatinhar em vez de rastejar e quando chegou ao átrio tinha os joelhos a arder. Esperou junto das venezianas que davam para a casa de jantar e esperou. O chão estava escuro, mas uma ténue luz vinda do alpendre brilhava fraca por entre as persianas e estendia-se por paredes e tecto.

Não foi a primeira vez que se perguntou o que fazia ele, um professor de Direito de uma prestigiada universidade, escondido no escuro da casa da sua infância, armado, enlouquecido de medo, pronto a explodir, e tudo porque queria proteger um monte de dinheiro em que tinha tropeçado. «Responde lá a esta», disse para consigo.

A porta da cozinha dava para um pequeno patamar de madeira. Alguém andava lá fora, a arrastar os pés, mesmo junto à porta, ouvia passos nas tábuas. Então a maçaneta rangeu, a que era frágil e tinha o fecho avariado. Fosse quem fosse tomara a decisão de entrar pela porta, em vez de se esgueirar por uma janela.

Ray era um Atlee e este terreno era o seu. Ali era também Mississipi, onde as armas eram usadas para protecção. Nenhum tribunal deste estado se oporia a uma atitude drástica numa situação destas. Agachou-se ao lado da mesa da cozinha, fez pontaria ao sítio da janela por cima do lava-loiça e começou a apertar o gatilho. Um tiro barulhento, disparado no escuro, vindo lá de dentro e estilhaçando uma janela, iria, com certeza, aterrorizar qualquer assaltante.

Quando a porta rangeu novamente, apertou com mais força o gatilho, o cão deu um estalo e nada aconteceu. A arma não tinha balas. A câmara rodou, carregou novamente e não houve disparo. Em pânico, Ray agarrou no jarro de chá vazio que estava em cima do balcão e atirou-o contra a porta. Para seu grande alívio, fez mais barulho do que qualquer arma. Louco de medo, carregou num interruptor e continuou a correr para a porta, brandindo a arma e a gritar «Saiam já daqui!». Quando a escancarou e não viu ninguém, expirou com força e recomeçou a respirar.

Durante meia hora varreu vidros, fazendo tanto barulho quanto possível.

 

O polícia chamava-se Andy e era sobrinho de um tipo com quem Ray fizera o liceu. Essa relação esclareceu-se nos primeiros trinta segundos após a sua chegada, e, depois de terem estabelecido essa ligação, falaram de futebol, enquanto a parte exterior de Maple Run era inspeccionada. Não havia sinais de intrusão nas janelas do rés-do-chão. Nada na porta da cozinha a não ser vidros partidos. Lá em cima, Ray procurou balas, enquanto Andy ia de compartimento em compartimento. Qualquer das buscas não deu nada. Ray fez café e beberam-no no alpendre, a conversarem calmamente às primeiras horas da manhã. Andy era o único polícia que protegia Clanton nessa altura, e confessou que não era, efectivamente, necessário.

- Nunca acontece nada numa manhã de segunda-feira tão cedo. As pessoas estão a dormir, a preparar-se para o trabalho -, confessou.

Um bocado instado, passou em revista a cena do crime em Ford County - roubos de aparelhagens sonoras, brigas em bares ordinários de música country, droga em Lowtown, a zona dos negros. «Durante quatro anos, não houvera um crime», disse ele orgulhosamente. Uma agência bancária tinha sido roubada dois anos antes. Continuou a tagarelar e tomou uma segunda chávena. Ray continuava a servi-lo e, se necessário, a fazer mais até o Sol nascer. Sentia-se confortado com a presença de um carro-patrulha bem sinalizado estacionado em frente da casa.

Andy foi-se embora às 3.30. Durante uma hora, Ray ficou deitado no colchão, a olhar para os buracos do tecto e agarrado a uma arma inútil. Lutava com o sono, congeminando estratégias para proteger o dinheiro. Não eram esquemas de investimento, esses podiam esperar. Mais premente era tirar o dinheiro do armário das vassouras, levá-lo para fora de casa para qualquer local seguro. Seria obrigado a levá-lo para a Virgínia? Não podia deixá-lo em Clanton, pois não? E quando podia contá-lo?

A certa altura, o cansaço e o esgotamento emocional do dia venceram-no e adormeceu. As batidas voltaram, mas ele já não as ouviu. A porta da cozinha, que estava agora segura com uma cadeira encravada e um pedaço de corda, foi abanada e empurrada, mas Ray continuou a dormir.

 

Às 7.30 a luz do Sol acordou-o. O dinheiro ainda lá estava, intacto. Tanto quanto via, as portas e janelas não tinham sido abertas. Preparou uma cafeteira de café, e, enquanto tomava a primeira chávena na mesa da cozinha, tomou uma decisão importante. Se alguém andava atrás do dinheiro, então não podia deixá-lo, nem por um momento.

Mas as vinte e sete caixas da Blake & Son não cabiam no seu pequeno Austin descapotável.

O telefone tocou às 8. Era Harry Rex, a dizer que Forrest fora entregue no Deep Rock Motel, que o condado só permitia a cerimónia na rotunda do tribunal naquela tarde às 4.30 e que já tinha contratado um soprano e uma guarda de honra. E estava a preparar o elogio fúnebre do seu querido amigo.

- E quanto ao caixão? - perguntou.

- Vamos encontrar-nos com o Magargel às 10 - respondeu Ray. - Óptimo. Não se esqueçam de escolher carvalho. O juiz iria gostar. Falaram de Forrest durante uns minutos, a mesma conversa que já tinham tido muitas vezes. Quando desligou, Ray começou a apressar-se. Abriu as janelas e as persianas para poder ver e ouvir alguns visitantes. A notícia de que o juiz Atlee tinha morrido ia-se espalhando pelos cafés da praça, e era certamente possível que aparecessem visitas.

A casa tinha demasiadas portas e janelas, e não podia estar de guarda o dia todo. Se alguém andava atrás do dinheiro, podia apanhá-lo. Por um milhão de dólares, uma bala na cabeça de Ray seria um investimento sólido.

Tinha de tirar de lá o dinheiro.

A trabalhar em frente do armário das vassouras, tirou a primeira caixa e despejou o conteúdo num saco de lixo. Seguiram-se mais oito caixas e quando já tinha cerca de um milhão de dólares no saco número um levou-o para a porta da cozinha e espreitou lá para fora. As caixas vazias voltaram para o armário por baixo das prateleiras dos livros. Encheu mais dois sacos de lixo. Recuou o carro até ao patamar, tão perto da cozinha quanto possível, e depois inspeccionou a paisagem à procura de olhos humanos. Não havia. Os únicos vizinhos eram as solteironas da casa ao lado que nem conseguiam ver a televisão no seu próprio cubículo. A correr da porta para o carro, meteu a fortuna no porta-bagagens, empurrou os sacos para um lado e para outro, e, quando parecia que a porta não ia fechar-se, bateu com ela, mesmo assim. Deu um estalido e trancou-se, e Ray Atlee sentiu-se muito aliviado.

Não tinha a certeza de conseguir descarregar o espólio na Virgínia e carregá-lo desde o estacionamento, atravessando a rua pedonal, muito frequentada, até ao seu apartamento. Pensava nisso mais tarde.

 

O Deep Rock tinha uma sala de jantar, um local quente e gorduroso que Ray nunca visitara, mas era o sítio perfeito para comer na manhã seguinte à da morte do juiz Atlee. Os três cafés da praça iam estar cheios de mexeriquice e histórias sobre o grande homem, e Ray preferia manter-se afastado.

Forrest estava com um aspecto decente. Ray já o vira muito pior. Tinha a mesma roupa e não tomara duche, mas isso em Forrest não era invulgar. Tinha os olhos vermelhos, mas não inchados. Disse que tinha dormido bem, mas que precisava de gordura. Os dois encomendaram bacon e ovos.

- Pareces cansado - disse Forrest engolindo o café. Ray sentia-se mesmo cansado.

- Estou bem. Duas horas de descanso e estou pronto para marchar.

Olhou pela janela para o seu Audi, que estava estacionado tão perto do restaurante quanto possível. Dormiria dentro daquela coisa, se fosse preciso.

- É estranho - disse Forrest. - Quando estou limpo, durmo como um bebé. Oito ou nove horas por noite, a dormir bem. Mas quando não estou limpo, cinco horas já é uma sorte. E não é um sono muito profundo.

- É curioso... quando estás limpo pensas na próxima rodada de copos?

- Sempre. Vai crescendo, como o sexo. Podemos passar sem ele um tempo, mas a pressão vai aumentando e temos de ter algum alívio, mais cedo ou mais tarde. Bebida, sexo, drogas, tudo isso acaba por apanhar-me.

- Estiveste limpo durante cento e quarenta dias.

- Cento e quarenta e um.

- Qual foi o recorde?

- Catorze meses. Saí da recuperação há uns anos, daquele grande centro de desintoxicação que o velho pagou, e aguentei-me muito tempo. Depois fui-me abaixo.

- Porquê? O que é que te fez ir abaixo?

- É sempre o mesmo. Quando se é dependente pode fracassar-se em qualquer altura, em qualquer lado e por qualquer razão. Ainda não conceberam a carrinha de polícia que consiga deter-me. Sou um viciado, mano, pura e simplesmente.

- Ainda estás na droga?

- Claro. Ontem à noite foram uns copos e umas cervejas, hoje à noite o mesmo, o mesmo amanhã. No fim da semana já estou com material pior.

- E queres isso?

- Não, mas sei que vai acontecer.

A empregada trouxe-lhes a comida. Forrest pôs rapidamente manteiga numa tosta e deu uma grande dentada. Quando conseguiu falar, disse:

- O velho morreu, Ray, consegues acreditar?

Ray também estava ansioso por mudar de assunto. Se continuassem a falar dos fracassos de Forrest, em breve estariam a discutir.

- Não, pensava que estava preparado para isso, mas não estava.

- Quando o viste pela última vez?

- Em Novembro, quando foi operado à próstata. E tu?

Forrest salpicou os ovos mexidos com Tabasco e pensou na pergunta.

- Quando é que ele teve o ataque de coração?

Tinha havido tantos problemas de saúde e operações que eram difíceis de lembrar

- Ele teve três.                                                            

- Aquele em Memphis.

- Esse foi o segundo - recordou Ray. - Foi há quatro anos.

- Deve ter sido. Passei algum tempo com ele no hospital. Com os diabos, era a menos de seis quarteirões. Achei que era o mínimo que podia fazer.

- De que é que falaram?

- Da Guerra Civil. Ele ainda pensava que tinha ganho.

Sorriram por isso e comeram em silêncio durante uns momentos. O silêncio acabou quando Harry Rex os descobriu. Serviu-se de uma tosta, enquanto contava os últimos pormenores da esplêndida cerimónia que estava a preparar ao juiz Atlee.

- Toda a gente quer ir lá a casa - disse com a boca cheia.

- É incomportável - disse Ray.

- É o que estou a dizer-lhes.

- Querem receber visitas hoje à noite?

- Não - disse Forrest.

- Devemos? - perguntou Ray.

- É o adequado, quer em casa quer na funerária. Mas, se não querem, não há problema. As pessoas não vão ficar chateadas e deixar de vos falar.

- Vamos fazer o velório no tribunal e uma cerimónia fúnebre, não chega? - indagou Ray.

- Acho que sim.

- Não vou ficar toda a noite sentado numa agência funerária a abraçar velhinhas que andam a falar de mim há vinte anos - disse Forrest. - Tu podes, se quiseres, mas eu não vou lá estar.

- Esqueçamos isso - sugeriu Ray.

- Falas como um verdadeiro executor testamentário - disse Forrest com um sorriso irónico.

- Testamentário ? - perguntou Harry Rex.

- Sim, havia um testamento na secretária dele, datado de sábado. Um simples testamento holográfíco e uma página que deixava tudo a ambos, a lista de bens, e a nomear-me testamentário. E quer que tu trates da homologação, Harry Rex.

Este parou de mastigar. Esfregou a cana do nariz com o dedo gorducho e olhou para o outro lado do restaurante.

- É estranho - comentou, obviamente confuso com qualquer coisa.

- O quê?

- Fiz-lhe um longo testamento há um mês.

Todos tinham parado de comer. Ray e Forrest trocaram olhares que não transmitiam nada porque nenhum deles tinha a mínima ideia do que o outro estava a pensar.

- Acho que mudou de ideias - comentou Harry Rex.

- O que constava no outro testamento? - perguntou Ray.

- Não posso dizer. Ele era meu cliente, por isso é confidencial.

- Oh amigos, agora estou perdido - avisou Forrest. - Desculpem-me por não ser advogado.

- O único testamento que interessa é o último - disse Harry Rex.

- Revoga todos os anteriores, por isso o que quer que o juiz tenha posto no testamento que eu preparei é irrelevante.

- Porque não podes dizer-nos o que estava no outro testamento?

- perguntou Forrest.

- Porque eu, como advogado, não posso discutir o testamento do cliente.

- Mas o testamento que preparaste já não serve, pois não?

- Não, mas mesmo assim não posso falar dele.

- Isso é idiotice - afirmou Forrest, e olhou fixamente Harry Rex. Os três inspiraram fundo e deram uma grande dentada.

Ray percebeu imediatamente que tinha de ver o outro testamento e muito em breve. Se referia o espólio encontrado no armário, então Harry Rex sabia. E se sabia, o dinheiro seria rapidamente retirado do porta-bagagens do pequeno TT descapotável e voltado a guardar nas caixas da Blake & Son e posto no sítio de onde saíra. Seria então incluído na herança, que era um registo público.

- Não há uma cópia do teu testamento no escritório dele? - perguntou Forrest, dirigindo-se a Harry Rex.

- Não

- Tens a certeza?

- Estou relativamente certo - afirmou Rex. - Quando se faz um novo testamento destrói-se, fisicamente, o antigo. Não se quer que alguém encontre o antigo e vá homologá-lo. Há pessoas que mudam o seu testamento todos os anos, e os advogados devem queimar os anteriores. O juiz achava que se deviam queimar os testamentos revogados, porque passou trinta anos a arbitrar contestações de testamentos.

O facto de o seu amigo íntimo saber algo sobre a morte do pai e não ter vontade de partilhá-lo fez arrefecer a conversa. Ray decidiu esperar até ficar a sós com Harry Rex para apertá-lo. ...

- O Magargel está à espera - disse a Forrest.

- Parece que vai ser divertido.

 

Empurraram o belo caixão de carvalho pela ala este do tribunal, num esquife coberto de veludo roxo. Mr. Magargel ia à frente, enquanto o ajudante empurrava. Atrás do caixão iam Ray e Forrest, e atrás deles um grupo de escuteiros com bandeiras e fardas de caqui bem engomadas.

Como Reuben V. Atlee combatera pelo seu país, o caixão estava coberto com a bandeira nacional. E, devido a isso, um contingente de Reservistas do regimento local pôs-se em sentido quando o capitão reformado Atlee foi colocado no centro da rotunda do tribunal. Harry Rex estava lá à espera, com um belo fato escuro, à frente de uma longa fila de arranjos florais.

Todos os advogados do condado estavam também presentes, e, por sugestão de Harry Rex, formavam um cordão numa zona especial perto do caixão. Toda a cidade, funcionários públicos, empregados do tribunal, polícias e subdelegados da polícia lá estavam, e quando Harry Rex deu um passo em frente para começar, a multidão aproximou-se mais. Lá em cima, nos segundo e terceiro andares do tribunal, outra multidão debruçava-se no gradeamento de ferro e espreitava cá para baixo.

Ray usava um fato azul-marinho novinho em folha que comprara algumas horas antes no Pope's, o único alfaiate de cidade. Por trezentos e dez dólares fora o mais caro da loja, e sobre o preço de etiqueta fizeram um desconto de dez por cento, por insistência de Mr. Pope. O fato novo de Forrest era cinzento escuro. Custara duzentos e oitenta dólares, sem desconto, e fora também pago por Ray. Forrest não usava um fato havia vinte anos, e jurara que não ia usá-lo no funeral. Só uma descompostura de Harry Rex o fizera ir ao Pope's.

Os filhos ficaram numa extremidade do caixão, Harry Rex na outra, e, próximo do centro, Billy Boone, o porteiro do tribunal, um homem sem idade, colocara o retrato do juiz Atlee. Fora pintado dez anos antes por um artista local, gratuitamente, e toda a gente sabia que o juiz não gostara especialmente dele. Pendurara-o nos seus aposentos, por trás da sala de audiências, atrás da porta para que ninguém o visse. Depois da sua derrota, os senadores do condado colocaram-no na sala principal, bem alto, por cima do assento do juiz.

Tinham mandado imprimir programas para a «Despedida do juiz Reuben Atlee». Ray observou o seu atentamente, porque não queria estar a olhar para a multidão à volta. Todos os olhos estavam postos nele e em Forrest. O reverendo Palmer fez uma oração palavrosa. Ray insistira em que a cerimónia fosse breve. Havia um funeral no dia seguinte.

Os escuteiros deram um passo em frente com a bandeira e encabeçaram a reunião com a Jura de Fidelidade, então a irmã Oleda Shumpert da Igreja do Espírito Santo em Cristo avançou e fez uma interpretação lamentosa do cântico Shall We Gather at the River, a solo, porque não precisava de acompanhamento. As palavras e a melodia fizeram vir as lágrimas aos olhos de muitos, incluindo Forrest, que ficou próximo do ombro do irmão, de queixo descido.

Ao lado do caixão, ouvindo o eco da sua voz forte a ressoar na rotunda, Ray sentiu, pela primeira vez, o peso da morte de seu pai. Pensou em todas as coisas que podiam ter feito juntos, agora que eram adultos, e todas as coisas que não tinham feito quando ele e Forrest eram rapazes. Mas ele vivera a sua vida e o juiz vivera a dele, e isso agradara a ambos.

Não era justo ressuscitar o passado, agora que o velho estava morto. Não se cansava de dizê-lo para consigo. Era natural que na altura da morte desejasse que ele tivesse feito mais, mas a verdade é que o juiz tinha guardado ressentimento durante anos depois de Ray ter saído de Clanton. E, infelizmente, depois de abandonar o tribunal tornara-se um recluso.

Foi um momento de fraqueza, mas Ray endireitou as costas. Não ia flagelar-se por ter escolhido um caminho que não era o que o pai queria.

Harry Rex começou o que prometera ser um breve elogio fúnebre.

- Estamos hoje aqui reunidos para nos despedirmos de um velho amigo - começou. - Todos sabíamos que este dia ia chegar, e todos rezávamos para que não chegasse. - Sublinhou os momentos altos da carreira do juiz, depois falou da primeira vez que estivera na frente daquele grande homem, trinta anos antes, quando Harry Rex tinha acabado de sair da Faculdade de Direito. Estava a tratar de um divórcio incontestado, que ele conseguiu, sem saber como, perder.

Todos os advogados tinham ouvido a história cem vezes, mas ainda conseguiam dar uma boa gargalhada no momento certo. Ray deitou-lhes um olhar rápido e começou a analisá-los como grupo. Como podia uma cidade tão pequena ter tantos advogados? Conhecia cerca de metade. Muitos dos mais velhos conhecera-os em pequeno, e quando era estudante estavam já reformados ou tinham morrido. Muitos dos mais jovens nunca os tinha visto.

Claro que todos o conheciam. Era o filho do juiz Atlee.

Ray começou a compreender lentamente que a sua saída apressada de Clanton logo após o funeral seria apenas temporária. Teria de voltar muito em breve, para fazer uma breve apresentação em tribunal com Harry Rex e começar a homologação, preparar um inventário e tratar de mais meia dúzia de obrigações como testamentário do pai. Isso era fácil e rotineiro, e levaria apenas alguns dias. Mas esperavam-no semanas ou talvez meses até decifrar o mistério do dinheiro.

Algum dos advogados que ali estavam saberia alguma coisa? O dinheiro proviria de um cenário judicial, não seria assim? O juiz não tinha outra vida além do Direito. Mas, ao pensar nisso, Ray não conseguia imaginar uma fonte suficientemente rica para gerar o tipo de dinheiro que tinha agora escondido no porta-bagagens do seu pequeno carro. Eram advogados pobretanas de província, todos a esgatanharem-se para pagarem as contas e para empurrarem o parceiro do lado para fora. Ali não havia dinheiro grosso. A empresa Sullivan tinha oito ou nove advogados que representavam os bancos e as companhias de seguros e ganhavam apenas o suficiente para poderem conviver com os médicos no country club.

Não havia um advogado no condado que ganhasse bom dinheiro. Irv Chamberlain, que ali estava com os seus óculos grossos e um capachinho mal feito, possuía milhares de acres que tinham passado de geração em geração, mas não conseguia vendê-los porque não havia compradores. Além disso, constava que andava metido nos novos casinos em Túnica.

Enquanto Harry Rex continuava a falar em tom monótono, Ray concentrou-se nos advogados. Alguém sabia do dinheiro. Seria algum distinto membro do tribunal de Ford County?

A voz de Harry Rex começou a fraquejar, e era altura de terminar. Agradeceu a todos a sua presença e anunciou que o juiz ia ficar em câmara ardente até às 22. Encaminhou o cortejo para começar por onde se encontravam Ray e Forrest. A multidão avançou obedientemente para a ala este e formou uma fila que serpenteava até ao exterior.

Durante uma hora, Ray foi obrigado a sorrir, apertar mãos e agradecer delicadamente a todos por terem vindo. Ouviu dúzias de curtas histórias sobre o pai e as vidas que o grande homem influenciara. Fingia recordar-se dos nomes de todos os que o conheciam. Abraçou velhinhas que nunca tinha visto. O cortejo avançava lentamente passando por Ray e Forrest, depois pelo caixão, onde cada pessoa parava e olhava desoladamente para o mau retrato do juiz e passando depois à ala ocidental onde esperava o livro de condolências. Harry Rex andava por ali, orientando a multidão como um político.

A certa altura durante esta provação, Forrest desapareceu. Murmurou qualquer coisa a Harry Rex sobre ir para casa, para Memphis, e sobre estar com um cansaço mortal.

Por fim, Harry Rex murmurou para Ray:

- Há uma fila que dá a volta ao tribunal. Eras capaz de estar aqui toda a noite.

- Tira-me daqui - respondeu Ray num murmúrio.

- Precisas de ir à casa de banho? - perguntou Harry Rex em voz suficientemente alta para os que estavam mais próximos, na fila, ouvirem.

- Preciso - respondeu Ray, já a afastar-se. Afastaram-se vagarosamente, a cochicharem com ar importante, e enfiaram-se por um estreito corredor. Uns segundos depois desembocaram nas traseiras do tribunal.

Afastaram-se, no carro de Ray, claro, contornando primeiro a praça e observando a cena. Uma multidão enorme esperava pacientemente para prestar a última homenagem ao juiz.

 

Vinte e quatro horas em Clanton, e Ray já estava desesperado para ir-se embora. Depois do velório, jantou com Harry Rex no Claude's, o restaurante negro do lado sul da praça, onde o prato especial de segunda-feira era galinha no churrasco e feijão guisado tão picante que serviam chá gelado ao litro. Harry Rex estava a rever-se no êxito da sua grande despedida ao juiz e depois de jantar estava ansioso para voltar ao tribunal e acompanhar o resto do velório.

Forrest, evidentemente, saíra da cidade ao fim da tarde. Ray esperava que estivesse em Memphis, em casa com Ellie, a portar-se bem, mas conhecia-o de ginjeira. Quantas vezes iria soçobrar antes de morrer? Harry Rex disse que havia uma probabilidade de cinquenta por cento de que Forrest aparecesse, no dia seguinte, no funeral.

Quando Ray ficou sozinho, partiu no carro, saiu de Clanton e dirigiu-se para oeste, sem um destino específico. Havia novos casinos ao longo do rio, numa extensão de uns cem quilómetros, e em todas as viagens que fazia de volta ao Mississipi ouvia cada vez mais conversas e mexericos sobre esta novíssima actividade do estado. O jogo legalizado chegara ao estado com menor rendimento per capita do país.

A hora e meia de Clanton, parou para meter gasolina e, enquanto o fazia, reparou num novo motel do outro lado da estada. Era tudo novo no que até há bem pouco tempo foram campos de algodão. Nova estrada, novos motéis, restaurantes de pronto-a-comer, bombas de gasolina, cartazes, tudo dos casinos a um quilómetro e meio de distância.

O motel tinha quartos em dois andares, com portas que davam para o parque de estacionamento. Parecia ser uma noite calma. Pagou 39,99 dólares por um quarto duplo no rés-do-chão, virado para trás, onde não havia outros carros ou camiões. Estacionou o Audi tão próximo do quarto quanto possível, e em segundos meteu os três sacos do lixo lá dentro.

O dinheiro cobria uma cama. Não se deteve a admirá-lo porque estava convencido de que era dinheiro sujo. E, provavelmente, estava marcado de alguma maneira. Talvez fosse falso. Fosse o que fosse, não devia guardá-lo.

Todas as notas eram de cem dólares, algumas novinhas em folha e nunca usadas e outras pouco tinham circulado. Todas estavam pouco gastas e nenhuma era datada de antes de 1986 ou de depois de 1994. Cerca de metade estava em maços de duzentos dólares, e Ray contou essas primeiro - cem mil dólares em notas de cem, maços de cerca de 40 centímetros de espessura. Contou o dinheiro em cima de uma cama, depois arrumou-o em filas e secções. Ia fazendo aquilo muito lentamente, o tempo não era problema. Quando tocava no dinheiro esfregava-o entre os dedos polegar e indicador e até o cheirava para ver se era falso. Parecia ser mesmo autêntico.

Trinta e uma secções, mais uns restos - 3 118 000 dólares para ser exacto. Recuperado, como um tesouro escondido, na casa em ruína de um homem que ganhara metade daquela quantia em toda a sua vida.

Era impossível não admirar a fortuna que tinha espalhada à sua frente. Quantas vezes na vida teria oportunidade de olhar para três milhões de dólares? Quantos outros tinham tido essa oportunidade? Ray sentou-se na cadeira com a cara entre as mãos, a olhar para as filas arrumadas de dinheiro, entontecido pelos pensamentos quanto à sua origem e destino.

Uma porta de um carro a bater sobressaltou-o. Aquele era um local excelente para ser roubado. Quando se viaja com três milhões em dinheiro, toda a gente é um potencial ladrão.

Meteu-o novamente nos sacos, enfiou-os no porta-bagagens e dirigiu-se para o casino mais próximo.

O seu envolvimento no jogo não ia além de um passeio de fim-de-semana a Atlantic City com dois outros professores de Direito, que tinham lido um livro sobre jogos de dados bem sucedidos e estavam convencidos de que podiam ganhar à banca. Não ganharam. Ray raramente jogava cartas. Encontrou um lugar numa mesa de black-jack de cinco dólares e ao fim de dois dias infelizes numa masmorra barulhenta ganhou sessenta dólares e jurou não voltar. As perdas dos seus colegas nunca foram reveladas, mas aprendeu que os jogadores mentem muitas vezes sobre os seus êxitos.

Para uma noite de segunda-feira, havia uma multidão apreciável no Santa Fe Club, um barracão construído à pressa, do tamanho de um campo de futebol. Uma torre ligada a ele alojava os hóspedes, muitos deles reformados do Norte que nunca tinham sonhado pôr os pés no Mississipi, mas que eram agora atraídos pelas inúmeras máquinas de moedas e pelo gin gratuito, enquanto jogavam.

No bolso tinha cinco notas tiradas de cinco secções diferentes do espólio que contara no quarto do motel. Encaminhou-se para uma mesa de black-jack vazia, onde a croupier estava quase a dormir, e colocou a primeira nota na mesa.

- Jogue - disse.

- A jogar cem - disse a croupier por cima do ombro, onde não estava ninguém para ouvi-la. Pegou na nota, esfregou-a desinteressadamente e depois pô-la em jogo.

Deve ser verdadeira, pensou, e descontraiu-se um pouco. Ela vê-as todo o dia. Baralhou as cartas, deu-as, chegou imediatamente aos vinte e quatro, depois pegou na nota tirada ao tesouro enterrado do juiz Atlee e depositou duas fichas pretas. Ray jogou as duas, uma aposta de duzentos dólares, nervos de aço. Deu as cartas rapidamente e, com quinze à vista, fez um nove. Ray tinha agora quatro fichas pretas. Em menos de um minuto ganhara trezentos dólares.

A fazer soar as fichas no bolso, passeou pelo casino, primeiro pelas máquinas de moedas, onde o público era mais velho e contido, quase em morte cerebral, sentados nos seus banquinhos, a puxarem a alavanca para baixo repetidamente e a olharem tristemente o ecrã. Nas mesas de dados estavam ao rubro, e um turbulento grupo de pescoços vermelhos dava instruções que para ele não faziam sentido. Por um momento, observou, completamente confuso pelos dados, as apostas e as fichas a mudarem de mãos.

Noutra mesa vazia de black-jack, deitou a segunda nota de cem, agora com um toque de jogador mais sabido. O croupier levou-a junto do rosto, levantou-a à luz, esfregou-a e deu alguns passos até ao chefe de sala, que desconfiou imediatamente dela. O chefe de sala apresentou um dispositivo de ampliação que enfiou no olho esquerdo e analisou a nota como um cirurgião. Quando Ray estava disposto a abrir caminho e fugir entre a multidão ouviu um deles dizer: «É boa!» Não tinha a certeza de qual deles o dissera, porque estava a olhar desesperadamente à volta do casino à procura de guardas armados. O croupier voltou à mesa e colocou o dinheiro suspeito em frente de Ray, que disse: «Jogue». Segundos depois a rainha de ouros e o rei de espadas estavam a olhar para Ray e ele ganhara o seu terceiro jogo seguido.

Como o croupier estava bem acordado e o seu supervisor tinha feito uma cuidadosa análise, Ray decidiu resolver a questão de uma vez por todas. Tirou as outras três notas de cem dólares do bolso e pô-las em cima da mesa. O croupier inspeccionou cada uma cuidadosamente, depois encolheu os ombros e disse:

- Quer trocar?

- Não. Jogue-as.

- A jogar trezentos em dinheiro - disse o croupier em voz alta, e o chefe de sala espreitou por cima do ombro dele.

Ray ficou-se num dez e num seis. O croupier acertou num dez e num quatro e, quando voltou o valete de ouros, Ray ganhou o seu quarto jogo. O dinheiro desapareceu e foi substituído por seis fichas pretas. Ray agora tinha dez dessas, mil dólares, e continuava a saber que as outras trinta mil notas encafuadas no porta-bagagens do carro não eram falsas. Deixou uma ficha para o croupier e foi buscar uma cerveja.

O bar de desportos elevava-se uns centímetros acima, de modo que quem quisesse podia tomar uma bebida e acompanhar toda a acção em baixo. Ou poder-se-iam ver jogos de basebol profissional ou da NASCAR, ou bowling em qualquer das dúzias de ecrãs. Mas não podiam fazer-se apostas; ainda não era permitido.

Estava consciente dos riscos que o casino apresentava. Agora que o dinheiro era real, a questão era se estaria marcado de qualquer maneira. As suspeitas do segundo croupier e do seu supervisor seriam, provavelmente, suficientes para levar os rapazes lá de cima a examinarem as notas. Tinham Ray no vídeo, disso estava certo, tal como todas as outras pessoas. A vigilância do casino era extensa; sabia-o pelos seus dois amigos que tinham tentado arruinar a banca na mesa de dados.

Se o dinheiro levantasse suspeitas, facilmente podiam localizá-lo. Não podiam?

Mas onde mais poderia mandar examinar o dinheiro? Entrar no First National em Clanton e estender ao caixa algumas notas? «Não se importa de dar uma olhadela a estas, Mrs. Dempsey, e ver se são boas ou não?» Nenhum caixa de Clanton viu alguma vez dinheiro falso, e à hora do almoço já toda a cidade saberia que o filho do juiz Atlee andava por ali a fazer investigações secretas com uma mão-cheia de dinheiro suspeito.

Pensou esperar até regressar à Virgínia. Iria falar com o seu advogado, o qual poderia encontrar um perito que examinasse uma amostra do dinheiro, tudo na maior confidencialidade. Mas não podia esperar tanto tempo. Se o dinheiro fosse falso, queimava-o. Se não fosse, não sabia o que fazer com ele.

Bebeu a cerveja lentamente, dando-lhes tempo para mandarem cá abaixo dois gorilas de fatos escuros que iriam até junto dele e diriam: «Tem um momento?» Não conseguiam trabalhar tão depressa e Ray sabia-o. Se o dinheiro estivesse marcado levariam dias até estabelecerem a ligação entre ele e o sítio de onde viera.

Supondo que era apanhado com dinheiro marcado. Qual era o seu crime? Ele tirara-o de casa do seu falecido pai, um local que lhe fora legado a ele e ao irmão. Ele era o executor testamentário, que em breve iria ser responsabilizado pela protecção dos bens. Tinha meses para o declarar ao tribunal de homologação e às finanças. Se o juiz tinha acumulado aquele dinheiro por meio ilícitos, então paciência, agora estava morto. Ray nada tinha feito de errado, pelo menos até ao momento.

Levou o que tinha ganho para a primeira mesa de black-jack e apostou quinhentos dólares. A croupier chamou a atenção do seu supervisor, que se aproximou a passo lento, com os nós dos dedos na boca e a dar umas pancadinhas na orelha, elegantemente, como se quinhentos dólares numa jogada de black-jack acontecesse todos os dias no Santa Fe Club. Recebeu um ás e um rei e a croupier fez deslizar na mesa setecentos e cinquenta dólares para junto dele.

- Quer beber alguma coisa? - perguntou o chefe de sala, todo ele um sorriso de dentes estragados.

- Uma cerveja Beck's - disse Ray, e apareceu uma empregada de bar, saída não sabia de onde.

Apostou cem dólares na jogada seguinte e perdeu. A seguir empurrou rapidamente três fichas para a jogada seguinte e ganhou. Ganhou oito das dez jogadas seguintes, alternando as apostas entre cem e quinhentos dólares, como se soubesse exactamente o que estava a fazer. O chefe de sala mantinha-se atrás da croupier. Tinham um potencial marcador de cartas nas mãos, um jogador profissional de black-jack, um dos que deviam ser observados e filmados. Os outros casinos iriam ser avisados.

Se eles soubessem...

Perdeu apostas consecutivas de duzentos dólares, então, por puro divertimento, de uma só vez empurrou dez fichas para uma jogada arrojada e destemida de mil dólares. Tinha mais três milhões no porta-bagagens. Aquilo eram tremoços. Quando duas damas aterraram ao lado das suas fichas, manteve uma cara de jogador profissional, como se estivesse habituado a ganhar assim há anos.

- O senhor deseja jantar? - perguntou o chefe de sala.

- Não - respondeu Ray.

- Podemos arranjar-lhe qualquer coisa?

- Um quarto, seria boa ideia.

- Um especial ou uma suite?

Qualquer parvo teria dito «Uma suite, claro», mas Ray conteve-se.

- Qualquer quarto serve - disse.

Não fazia tenção de ali ficar, mas depois de duas cervejas achou que era melhor não conduzir. E se fosse mandado parar por um polícia local? E que faria o polícia se fosse inspeccionar o porta-bagagens?

- Com certeza. Vou tratar de registá-lo - disse o chefe de sala. Na hora seguinte ficou ela por ela. A empregada do bar parava ali

de cinco em cinco minutos oferecendo bebidas, tentando descontraí-lo, mas Ray estava agarrado à primeira cerveja. Numa entrega, contou trinta e nove fichas pretas.

À meia-noite começou a bocejar e lembrou-se de como dormira pouco na noite anterior. Tinha a chave do quarto no bolso. A mesa tinha um limite de mil dólares por jogada; se assim não fosse tinha jogado tudo de uma vez e saído com uma aura de glória. Colocou dez fichas pretas em círculo e com público à volta fez black-jack. Outras dez fichas, e a croupier aumentou-as para vinte e duas. Agarrou nas fichas, deixou quatro à croupier e foi à caixa. Estivera no casino três horas.

Da janela do quarto do quinto andar conseguia ver o parque de estacionamento, e como o seu carro desportivo estava à vista sentiu-se obrigado a ficar de guarda. Cansado como estava, não conseguia adormecer. Puxou uma cadeira para a janela e tentou dormitar, mas não conseguia deixar de pensar.

Teria o juiz descoberto os casinos? Seria o jogo a fonte da sua fortuna, um viciozinho lucrativo que ele escondera?

Quanto mais Ray dizia para consigo que a ideia era forçada, mais convencido ficava de que encontrara a origem do dinheiro. Que soubesse, o juiz nunca jogara na Bolsa, e, se tivesse, se fosse outro Warren Buffet, porque haveria de guardar os lucros em dinheiro debaixo das prateleiras? Além disso, a papelada seria volumosa.

Se tivesse vivido uma vida dupla de um juiz que se aproveitasse de situações, não haveria três milhões de dólares para roubar no rol das causas de um tribunal rural do Mississipi. E aceitar subornos implicaria muitas outras pessoas.

Tinha de ser do jogo. Era uma actividade em dinheiro. Ray acabara de ganhar seis mil dólares numa noite. É verdade que fora sorte de principiante, mas, de qualquer forma, não era jogar? Talvez o velho tivesse jeito para as cartas ou os dados. Talvez tivesse ganho um dos grandesjackpots das máquinas de moedas. Vivia sozinho e não dava contas a ninguém.

Podia ter conseguido.

Mas três milhões de dólares em sete anos?

Os casinos não exigiam papelada para ganhos substanciais? Impressos para impostos e coisas assim?

E porquê escondê-lo? Porque não o deu, como fez ao resto do dinheiro?

Pouco depois das 3, Ray desistiu e abandonou o quarto com que fora obsequiado. Dormiu no carro até ao nascer do Sol.

 

A porta da frente estava ligeiramente entreaberta, e às 8 da manhã, sem ninguém a viver lá, era sem dúvida um sinal de mau agoiro. Ray ficou a olhar para ela durante muito tempo, sem ter a certeza se queria entrar, mas sabia que não tinha alternativa. Abriu-a mais, cerrou os punhos como se o ladrão pudesse ainda lá estar, e inspirou fortemente. A porta abriu-se, a ranger a cada centímetro que avançava, e, quando a luz caiu no monte de caixas do vestíbulo, Ray viu pegadas de lama no chão. O assaltante entrara pelo relvado das traseiras, onde havia lama, e por qualquer razão optara por sair pela porta da frente.

Ray tirou lentamente a pistola do bolso.

As vinte e sete pastas verdes da Blake & Son estavam espalhadas pelo escritório do juiz. O sofá estava virado. As portas do armário que ficava por baixo das prateleiras estavam abertas. A escrivaninha de tampo corrediço parecia não ter sido tocada, mas os papéis da secretária estavam espalhados pelo chão.

O intruso tinha tirado as caixas, abrira-as e, ao vê-las vazias, tinha-as nitidamente espezinhado e atirado com elas num acesso da raiva. Da maneira como as coisas estavam, Ray sentiu a violência e isso enfraqueceu-o.

O dinheiro podia levá-lo a ser morto.

Quando conseguiu mexer-se, compôs o sofá e apanhou os papéis. Estava ajuntar as caixas quando ouviu qualquer coisa no alpendre da frente. Espreitou pela janela e viu uma velhinha a bater à porta da frente.

Claudia Gates conhecera o juiz como ninguém. Fora a sua taquígrafa judicial, secretária, motorista e muitas outras coisas, segundo os mexericos que corriam desde que Ray era criança. Durante mais de trinta anos, ela e o juiz tinham viajado juntos pelos seis condados do 25º Distrito, saindo muitas vezes de Clanton às 7 da manhã e regressando muito depois de anoitecer. Quando não estavam na sala de audiências, partilhavam o gabinete do juiz no edifício do tribunal, onde ela dactilografava os relatórios enquanto o juiz tratava da papelada.

Um advogado chamado Turley surpreendera-os uma vez numa situação comprometedora durante a hora do almoço no escritório e cometera o terrível erro de contar aos outros. Perdeu todos os casos no Tribunal da Chancelaria durante um ano e não conseguia arranjar um cliente. O juiz Atlee levou quatro anos para conseguir excluí-lo do foro.

- Olá, Ray - disse ela através da porta de rede. - Posso entrar?

- Claro - respondeu ele, e abriu mais a porta.

Ray e Claudia nunca tinham gostado muito um do outro. Ray sempre achara que ela recebia a atenção e o afecto que ele e Forrest não recebiam, e ela considerava-o também uma ameaça. No que se referia ao juiz Atlee, ela encarava tudo e todos como uma ameaça.

Tinha poucos amigos e ainda menos admiradores. Era ríspida e dura porque passara a vida a assistir a julgamentos. E era arrogante por ser confidente do homem importante.

- Lamento - disse ela.

- Também eu.

Quando passavam pelo escritório, Ray fechou a porta e disse:

- Não entre aí.

Claudia não reparara nas pegadas do intruso.

- Sê simpático comigo, Ray - pediu.

- Porquê?

Foram até à cozinha, onde ele serviu café, e sentaram-se um em frente do outro.

- Posso fumar? - perguntou Claudia.

- Não me importo - respondeu. Fuma até sufocares, velhota. Os fatos escuros do pai traziam sempre aquele cheiro acre dos cigarros dela. Ele permitia-lhe que fumasse no carro, no gabinete, no escritório dele e provavelmente na cama. Em todo o lado, excepto na sala de audiências.

A respiração áspera, a voz arrastada, as incontáveis rugas acumuladas em redor dos olhos, ah, as satisfações do tabaco.

Estivera a chorar, o que na sua vida não era um acontecimento insignificante. Quando servira de escriturário do pai, Ray tivera a infelicidade de assistir a uma audiência de um caso repugnante de abuso de uma criança. O testemunho fora tão triste e lamentável, que toda a gente, incluindo o juiz e os advogados, se comoveu até às lágrimas. Os únicos olhos secos na sala de audiências eram os da velha Claudia de rosto pétreo.

- Não consigo acreditar que ele está morto - disse, lançando uma baforada de fumo para o tecto.

- Ele tem estado a morrer há cinco anos, Claudia. Não é surpresa nenhuma.

- Mesmo assim é triste.

- É triste, mas para o fim ele estava a sofrer. A morte foi uma bênção.

- Ele não me deixava vir vê-lo.

- Não vamos desenterrar a história, está bem?

A história, dependendo da versão em que se acreditava, mantivera os murmúrios em Clanton durante quase duas décadas. Uns anos depois da morte da mãe de Ray, Claudia divorciou-se do marido, por razões que nunca ficaram claras. Uma parte da cidade acreditava que o juiz lhe prometera casar com ela depois do divórcio. A outra parte acreditava que o juiz, um Atlee dos quatro costados, nunca tencionara casar com uma plebeia como Claudia, e que ela se divorciara porque o marido a apanhara metida com outro homem. Passaram-se anos em que ambos beneficiaram de uma vida de casados sem a papelada e a efectiva coabitação. Ela continuou a pressionar o juiz para se casar, ele continuou a adiar as coisas. Claro que ele ia obtendo o que queria.

Por fim ela fez-lhe um ultimato, o que provou ser uma má estratégia. Os ultimatos não impressionavam o juiz Atlee. No ano anterior a ele ter sido corrido do cargo, Claudia casou com um homem nove anos mais novo. O juiz despediu-a imediatamente, e os cafés e clubes de tricô não falavam de outra coisa. Ao fim de alguns anos instáveis, o marido mais novo morreu. Ela ficou só e o juiz também. Mas ela atraiçoara-o voltando a casar, e ele nunca lhe perdoou.

- Onde está o Forrest? - perguntou ela.

- Deve chegar daqui a pouco.

- Como vai ele?                      

- É o Forrest.

- Queres que me vá embora?

- É consigo.

- Preferia falar contigo, Ray. Preciso de falar com alguém.

- Não tem amigos?

- Não. O Reuben era o meu único amigo. contraiu-se quando ela lhe chamou Reuben. Ela enfiou o cigarro entre os lábios vermelhos pegajosos, de um vermelho-claro pelo luto, não o vermelho por que outrora fora conhecida. Tinha, pelo menos, setenta anos, mas aguentava-se bem. Ainda direita e magra e com um vestido justo que nenhuma mulher de setenta anos, em Ford County, se atreveria a usar. Tinha diamantes nas orelhas e um no dedo, embora ele não soubesse se eram verdadeiros. Usava também uma bela gargantilha e duas pulseiras de ouro.

Era uma galdéria envelhecida, mas ainda um vulcão em actividade. Havia de perguntar a Harry Rex com quem andava ela actualmente. Ele serviu mais café e perguntou:

- De que é que quer falar?

- De Reuben.

- O meu pai morreu. Não gosto de história.

- Não podemos ser amigos?

- Não, sempre nos desprezámos. Não vamos agora dar beijos e abraços à beira do caixão. Porque haveríamos de fazê-lo?

- Sou uma velha, Ray.

- E eu vivo na Virgínia. Hoje temos o funeral, mas depois nunca mais voltamos a ver-nos. Sendo assim...

Ela acendeu outro cigarro e chorou um pouco mais. Ray estava a pensar na confusão do escritório e no que diria a Forrest se ele aparecesse agora e visse as pegadas e as caixas espalhadas. E, se Forrest visse Claudia sentada à mesa, era capaz de lhe saltar ao pescoço.

Embora não tivessem provas, Ray e Forrest suspeitavam havia muito tempo que o juiz lhe pagava mais do que a tabela em vigor para os taquígrafos judiciais. Um extra pelos extras que ela fazia. Não era difícil ter-lhe aversão.

- Quero apenas qualquer coisa para recordação. É tudo - disse ela.

- Quer lembrar-se de mim?              

- Tu és o teu pai, Ray. Estou agarrada aqui.

- Anda à procura de dinheiro?

- Não.                                                  

- Está falida?

- Não estou garantida para o resto da vida, não.

- Aqui não há nada para si.  

- Tem o testamento dele?

- Tenho, e o seu nome não é referido.

Ela voltou a chorar, e Ray tentou pôr água na fervura. Ela tivera o dinheiro durante vinte anos enquanto ele servia à mesa e sobrevivia com margarina, a tentar aguentar-se mês a mês na Faculdade de Direito sem ser desalojado do apartamento barato. Ela tivera sempre um Cadillac novo, enquanto ele e Forrest conduziam calhambeques. Eles tinham de viver como filhos de boas famílias pobres, enquanto ela tinha o guarda-roupa e as jóias.

- Ele sempre prometeu olhar por mim - disse ela.

- Ele quebrou essa promessa há muitos anos, Claudia. Desista.

- Não posso. Amava-o muito.

- Era sexo e dinheiro, não era amor. Prefiro não falar nisso.

- O que é que há no testamento?                          

- Nada. Ele deu tudo.    

- Ele o quê?

- Já me ouviu. Sabe como ele gostava de passar cheques. Ficou pior desde a sua saída de cena.

- E a reforma? - Agora já não estava a chorar, tratava-se de negócio. Os seus olhos verdes estavam secos e brilhantes.

- Ele levantou-a toda no ano em que saiu de actividade. Foi um tremendo logro financeiro, mas ele fê-lo sem meu conhecimento. Estava furioso e semilouco. Recebeu o dinheiro, viveu com parte dele e deu o resto aos Escuteiros, Escuteiras, Lions Clube, Filhos da Confederação, Comissão para Preservação dos Campos de Batalha, sei lá que mais.

Se o pai era um juiz corrupto, coisa em que Ray não queria acreditar, então Claudia saberia do dinheiro. Era óbvio que não sabia. Ray nunca desconfiara que ela sabia, porque, se soubesse, o dinheiro não teria ficado escondido no escritório. Se ela tivesse tido desconfiança dos três milhões de dólares, toda a gente no condado o saberia. Se ela tivesse um dólar, tinha de mostrá-lo. Com o ar infeliz com que estava do outro lado da mesa, Ray desconfiava que teria muito poucos dólares.

- Pensei que o seu segundo marido tivesse algum dinheiro - disse Ray com uma crueldade um bocadinho exagerada.

- Também eu - respondeu ela conseguindo sorrir. Ray soltou uma risadinha. Então riram-se os dois, e o gelo derreteu-se definitivamente. Ela sempre fora conhecida pela sua rudeza.

- Nunca o encontrou, hã?

- Nem um cêntimo. Era um tipo bonito, nove anos mais novo, percebe...

- Lembro-me dele. Um verdadeiro escândalo.

Ele tinha cinquenta e um anos, era bem-falante e tinha um plano de fazer dinheiro no petróleo. Durante quatro anos fez furos à doida e acabou sem nada.

Ray riu-se ainda mais alto. Naquele momento não conseguia lembrar-se de jamais ter tido uma conversa sobre sexo e dinheiro com uma mulher de setenta anos. Ficou com a impressão de que ela devia ter muitas histórias. Os maiores êxitos de Claudia.

- Tem bom aspecto, Claudia, ainda está a tempo de mais um.

- Estou cansada, Ray. Velha e cansada. Tinha de domesticá-lo e tudo. Não vale a pena.

- O que aconteceu ao número dois?

- Esticou com um ataque de coração, e eu nem mil dólares consegui.

- O juiz deixou seis.

- É tudo?- perguntou incrédula.

- Nada de acções, de títulos, nada senão uma velha casa e seis mil dólares no banco.

Ela baixou os olhos, abanou a cabeça e acreditou em tudo o que Ray estava a dizer. Não tinha qualquer indicação sobre o dinheiro.

- O que vais fazer com a casa?

- O Forrest quer deitar-lhe fogo e receber o seguro.

- Não era má ideia.

- Vamos vendê-la.

Ouviram um barulho no alpendre e depois bater à porta. O reverendo Palmer viera para tratar da cerimónia fúnebre, que iria começar dentro de duas horas. Claudia abraçou Ray e caminharam até ao carro dela. Voltou a abraçá-lo e disse-lhe adeus.

- Lamento que ele não tenha sido melhor para ti - murmurou ela, enquanto ele lhe abria a porta do carro.

- Adeus, Claudia. Vemo-nos na igreja.

- Ele nunca me perdoou, Ray.

- Eu perdoo-lhe.

- Perdoas, mesmo?

- Sim, está perdoada. Agora somos amigos.

- Muito obrigada. - Abraçou-o pela terceira vez e desatou a chorar. Ele ajudou-a a entrar no carro, sempre um Cadillac. Antes de pôr o motor a trabalhar disse. - Ele alguma vez te perdoou, Ray?

- Não me parece.

- A mim também não.

- Mas agora não é importante. Vamos enterrá-lo.

- Ele era capaz de ser um velho sacana, não era? - perguntou ela a sorrir por entre as lágrimas.

Ray teve de rir. A ex-amante de setenta anos do seu falecido pai acabara de chamar ao grande homem, sacana.

- Era - concordou Ray. - Era mesmo capaz.

 

Empurraram o juiz Atlee pela coxia central, no seu belo caixão de carvalho, e colocaram-no no altar, em frente do púlpito, onde o reverendo Palmer esperava de sotaina preta. O caixão permaneceu fechado, para grande desilusão dos assistentes, muitos deles ainda agarrados ao antigo ritual sulista de ver o falecido uma última vez, num estranho esforço para maximizar o desgosto. «Não, de maneira nenhuma», dissera delicadamente Ray, a Mr. Magargel, quando ele lhe perguntou se abria. Quando tudo estava no seu lugar, Palmer estendeu lentamente os braços, a seguir baixou-os, e a multidão sentou-se.

No banco da frente, à sua direita estava a família, os dois filhos. Ray vestia o fato novo e parecia cansado. Forrest trazia uns jeans, um casaco de camurça preto e parecia visivelmente sóbrio. Atrás deles estava Harry Rex e os outros que iam transportar o caixão e mais atrás um triste grupo de antigos juizes, também eles não longe de darem entrada no caixão. No banco da frente para o lado esquerdo estava todo o tipo de autoridades - políticos, um ex-governador. Dois magistrados do Supremo Tribunal do Mississipi. Clanton nunca vira tanto poder junto ao mesmo tempo.

O santuário estava apinhado, com pessoas ao longo das paredes por baixo dos vitrais. O coro lá em cima estava cheio. Num andar abaixo, o auditório fora preparado com instalação sonora e encontravam-se aí mais admiradores e amigos.

Ray estava impressionado com a multidão. Forrest olhava constan-temente para o relógio. Chegara quinze minutos antes e fora censurado por Harry Rex, não por Ray. Disse que o fato novo estava sujo e que Ellie lhe comprara o casaco de camurça preto havia anos e que o achava muito bem para a ocasião.

Ela, com os cento e quarenta quilos não saía de casa, e Ray e Harry Rex estavam gratos por isso. De qualquer modo, ela conseguira mantê-lo sóbrio, mas no ar pairava a tormenta. Por mil razões, Ray só queria ver-se de regresso à Virgínia.

O reverendo fez uma curta e eloquente mensagem de agradecimento pela vida daquele grande homem. Depois apresentou um coro juvenil que ganhara honras nacionais num concurso em Nova Iorque. O juiz Atlee dera-lhes três mil dólares para a viagem, segundo Palmer. Cantaram dois cânticos que Ray nunca ouvira, mas cantaram-nos primorosamente.

O primeiro elogio fúnebre - e só haveria dois e curtos, conforme instruções de Ray - foi feito por um velhinho que mal conseguira chegar ao púlpito, mas, uma vez ali, surpreendeu a multidão com uma voz cheia e forte. Andara na Faculdade de Direito com o juiz cem anos antes. Contou duas histórias sem graça e a voz forte começou a enfraquecer.

O reverendo leu uma passagem das Escrituras e disse palavras de conforto pela perda de um ente querido, apesar de ser um velho que vivera uma vida plena.

O segundo elogio fúnebre foi feito por um jovem negro chamado Nakita Poole, de certo modo uma lenda em Clanton. Poole provinha de uma família violenta da parte sul da cidade, e se não fora um professor de Química do liceu ele teria desistido no nono ano, tornando-se mais um caso estatístico. O juiz conheceu-o durante um feio caso de família em tribunal e interessou-se pelo rapaz. Poole era excepcionalmente dotado para Ciências e Matemática. Acabou como primeiro da turma, candidatou-se às melhores faculdades e foi aceite em todas. O juiz escreveu influentes cartas de recomendação e puxou todos os cordelinhos possíveis. Nakita escolheu Yale, e a sua bolsa de estudo cobria tudo menos dinheiro para gastos. Durante quatro anos, o juiz Atlee escrevia-lhe todas as semanas e em cada carta havia um cheque de vinte e cinco dólares.

- Não fui eu o único a receber cartas e cheques - disse para uma multidão silenciosa. - Éramos muitos.

Nakita era agora médico e ia para a África durante dois anos em trabalho voluntário.

- Vou sentir a falta daquelas cartas - concluiu, e todas as senhoras na igreja tinham as lágrimas nos olhos.

O médico legista, Thurber Foreman, falou a seguir. Era uma figura obrigatória em funerais em Ford County, havia muitos anos, e o juiz queria especificamente que ele tocasse bandolim e cantasse Just a Closer Walk with Thee. Cantou lindamente e conseguiu fazê-lo enquanto chorava.

Forrest começou, por fim, a limpar os olhos. Ray olhava fixamente o caixão e pensava de onde teria vindo o dinheiro. O que teria feito o velho? O que é que pensara, exactamente, que aconteceria ao dinheiro depois de morrer?

Quando o reverendo terminou uma mensagem muito breve, os que transportam o caixão retiraram o juiz Atlee do santuário. Mr. Magargel acompanhou Ray e Forrest pela coxia até aos degraus da entrada para uma limusina que aguardava atrás do carro funerário. A multidão espalhou-se cá fora e dirigiu-se para os carros para fazer o cortejo até ao cemitério.

Como muitas cidades pequenas, Clanton adorava o cortejo fúnebre. Todo o trânsito parou. Os que não seguiam de carro no cortejo ficavam nos passeios a olhar tristemente o carro funerário e a interminável fila de carros atrás dele. Todos os agentes empart-time estavam fardados e a bloquearem qualquer coisa, uma rua, um beco e locais de estacionamento.

O carro funerário fê-los dar a volta ao tribunal, onde a bandeira estava a meia-haste, e os funcionários do tribunal do condado estavam alinhados no passeio da frente e baixaram a cabeça. Os comerciantes da praça saíram para se despedirem do juiz Atlee.

Foi sepultado no talhão dos Atlee, ao lado da sua esposa há muito esquecida e entre os antepassados que ele tanto venerava. Seria o último Atlee a voltar ao pó em Ford County, embora ninguém o soubesse. E, com certeza, ninguém se interessava. Ray seria cremado e as suas cinzas espalhadas pelas Blue Ridge Mountains. Forrest reconhecia que estava mais perto da morte do que o seu irmão mais velho, mas não tinha ainda assente os pormenores finais. A única coisa certa era que não seria enterrado em Clanton. Ray era partidário da cremação. Ellie gostava da ideia de um mausoléu. Forrest preferia não se deter no assunto.

 

Os acompanhantes amontoavam-se por baixo e em redor de uma tenda carmesim da Magargel Funeral Home, que era demasiado pequena. Cobria a campa e quatro filas de cadeiras de abrir e fechar. Eram precisas cem.

Ray e Forrest sentaram-se com os joelhos quase a tocarem no caixão e, atentos, enquanto o reverendo Palmer ultimava tudo. Sentado numa cadeira de abrir e fechar à beira da campa do pai, Ray achou esquisitas as coisas em que pensava. Queria ir para casa. Sentia saudades das aulas e dos alunos. Sentia saudades de voar e da vista de Shenandoah Valley a 5000 pés de altitude. Estava cansado e irritável, e não queria passar as próximas duas horas ali no cemitério em conversas fiadas com pessoas que se lembravam dele quando nascera.

A esposa do pregador pentecostal disse as últimas palavras. Cantou Amazing Grace, e durante cinco minutos o tempo parou. A sua bela voz de soprano ecoou pelas colinas suaves do cemitério, confortando os mortos e dando esperança aos vivos. Até os pássaros pararam de voar.

Um rapaz do Exército com uma trompete tocou Taps, e toda a gente chorou muito. Dobraram a bandeira e deram-na a Forrest que estava a chorar e a suar com o maldito casaco de camurça. Quando as últimas notas se perderam no bosque, Harry Rex começou a berrar ordens atrás deles. Ray inclinou-se para a frente e tocou no caixão. Disse um adeus silencioso, depois assentou os cotovelos nos joelhos e o rosto nas mãos.

O funeral desmembrou-se rapidamente. Era hora de almoço. Ray pensou que, se ficasse ali sentado a olhar para o caixão, as pessoas iriam deixá-lo ali sozinho. Forrest lançou um braço pesado em redor dos seus ombros e, juntos, pareciam poder ficar ali até anoitecer. Harry Rex recuperou a compostura e assumiu o papel de porta-voz da família. De pé, fora da tenda agradeceu às autoridades por terem vindo, felicitou Palmer pela excelente cerimónia, elogiou a mulher do pregador por tão bela interpretação, disse a Claudia que não podia ficar sentada ali com os rapazes, que devia avançar, pôr-se a andar. Os coveiros esperavam junto de uma árvore próxima, de pás na mão.

Depois de todos terem partido, incluindo Mr. Magargel e a sua gente, Harry Rex caiu numa cadeira em frente de Forrest, e durante muito tempo ficaram ali os três, a olhar, sem quererem ir-se embora. O único som era o de uma enxada algures à distância, à espera. Mas Forrest e Ray não se importavam. Quantas vezes se enterra um pai? E que importância tem o tempo para um coveiro?

- Que grande funeral - disse por fim. Era um perito nessas questões.

- Ele ter-se-ia sentido orgulhoso - comentou Forrest.

- Ele adorava um belo funeral - acrescentou Ray. - Mas detestava casamentos.

- Eu adoro casamentos - afirmou Harry Rex.

- Quatro ou cinco? - perguntou Forrest.

- Quatro e ainda não parei.

Um homem com farda de funcionário da câmara aproximou-se e perguntou:

- Querem que o desça agora?

Nem Ray nem Forrest souberam o que responder. Harry Rex não tinha dúvida.  

- Sim, por favor - disse.

O homem rodou uma manivela por baixo do tapete rolante da sepultura. Muito lentamente, o caixão começou a descer. Ficaram a olhá-lo até repousar lá no fundo, na terra vermelha.

O homem retirou as correias, o tapete rolante, a manivela, e desapareceu.

- Acho que acabou - comentou Forrest.

 

O almoço consistia em tamales e gasosas num drive-in da periferia, longe dos locais cheios de gente onde alguém iria, sem dúvida, interrompê-los com algumas palavras amáveis sobre o juiz. Sentaram-se à grande mesa de madeira sob um largo chapéu-de-sol e ficaram a ver os carros passar.

- Quando regressam? - perguntou Harry Rex.

- Logo de manhã - respondeu Ray.

- Temos trabalho a fazer.

- Eu sei. Vamos fazê-lo hoje à tarde.

- Que tipo de trabalho? - perguntou Forrest.

- Coisas da homologação do testamento - informou Harry Rex. - Abrimos o testamento dentro de duas semanas, quando o Ray puder voltar. Temos de dar uma volta aos papéis do juiz e ver o trabalho que lá há.

- Parece um trabalho para o executor testamentário - disse Forrest.

- Podes ajudar.

Ray estava a comer e a pensar no carro, estacionado numa rua concorrida perto da igreja presbiteriana. Ali, devia estar seguro.

- Ontem à noite fui a um casino - anunciou com a boca cheia.

- A qual? - perguntou Harry Rex.

- Santa Fé qualquer coisa, o primeiro onde cheguei. Já lá estiveste?

- Já estive em todos - disse, como se nunca mais lá tivesse voltado. Com excepção de drogas ilícitas, Harry Rex já experimentara todos os vícios.

- Eu também - acrescentou Forrest, um homem sem excepções. :.. - Como te saíste? - perguntou Forrest.

- Ganhei dois mil no black-jack. Eles até me cederam um quarto.

- Eu paguei esse maldito quarto e, se calhar, até o andar todo - confessou Harry Rex.

- Eu adoro as bebidas de borla - disse Forrest. - Vinte dólares, um espumante.

Ray engoliu com força e decidiu lançar o isco.

- Descobri uns fósforos de Santa Fé na secretária do velho. Andaria ele a meter lá o nariz?

- Claro - afirmou Harry Rex. - Ele e eu costumávamos ir lá uma vez por mês. Ele adorava os dados.

- O velho? - perguntou Forrest. - A jogar?

- Sssim.

- Então aí está o resto da minha herança. O que ele não deu, jogou.

- Não, ele era até um bom jogador.

Ray fingiu estar tão chocado como Forrest, mas ficou satisfeito por ter conseguido a primeira pista, por mais ténue que fosse. Parecia quase impossível que o juiz tivesse arrecadado uma tal fortuna a jogar dados uma vez por mês.

Ele e Harry Rex continuariam a conversa mais tarde.

 

À medida que se aproximava do fim, o juiz fora cuidadoso a organizar as suas coisas. Os registos importantes estavam no escritório e encontraram-se facilmente.

Primeiro revistaram-lhe a secretária de mogno. Uma das gavetas tinha dez anos de extractos bancários, todos muito arrumados por ordem cronológica. As suas declarações de rendimentos estavam noutra. Havia grossos livros-razão cheios de anotações de donativos que fizera a todos quantos lhe tinham pedido. A maior gaveta estava cheia de dossiers em papel-manila do tamanho de uma folha de carta, dúzias deles. Dossiers de impostos sobre propriedades, registos clínicos, velhos contratos e títulos, contas a pagar, conferências judiciais, cartas dos seus médicos, a pensão de reforma. Ray passou os montes de dossiers sem os abrir, exceptuando as contas a pagar. Havia uma de 13,89 dólares a Wayne's Lawnmover Repair, datada da semana anterior.

- É sempre estranho mexermos nos papéis de alguém que acabou de morrer - disse Harry. - Sinto-me sujo, como se fosse um bisbilhoteiro.

- Mais como um detective à procura de pistas - disse Ray. Estava de um lado da secretária e Harry Rex do outro, sem gravata e de mangas arregaçadas, com montes de provas à sua frente. Forrest era aquela ajuda habitual. Emborcara metade de uma embalagem de seis à sobremesa do almoço e agora estava a curti-la no baloiço do alpendre da frente.

Mas estava ali, em vez de estar perdido numa das suas reconhecidas farras. Tinha desaparecido tantas vezes ao longo dos anos, que, se tivesse faltado ao funeral do pai, ninguém em Clanton ficaria surpreendido. Mais uma nódoa negra naquele maluco do filho de Atlee, mais uma história para contar.

Na última gaveta encontraram bugigangas pessoais - canetas, cachimbos, retratos do juiz com os seus amigos em reuniões de magistrados, umas fotografias de Ray e Forrest de há alguns anos, a sua certidão de casamento e a certidão de óbito da mãe. Num velho envelope por abrir estava presa com um clip a notícia da sua morte no Clanton Chronicle, com a data de 12 de Outubro de 1969, complementada com uma fotografia. Ray leu-a e estendeu-a a Harry Rex.

- Lembras-te dela? - perguntou Ray.

- Sim, fui ao seu funeral - respondeu a olhar para ela. - Era uma senhora bonita, que não tinha muitas amigas.

- Porquê?

- Era do Delta, e a maior parte dessas pessoas têm sangue azul. Era o que o juiz queria numa esposa, mas aqui não funcionou muito bem. Ela julgou que estava a casar rica. Nessa altura, os juizes não deixavam os seus créditos por mãos alheias, e ela teve de esforçar-se muito para ser melhor do que toda a gente.

- Não gostavas dela.

- Não gostava especialmente. Ela achava que eu era mal educado.

- Calcula.

- Eu gostava do teu pai, Ray, mas não houve muitas lágrimas no funeral dela.

- Vamos tratar de um funeral de cada vez.

- Desculpa.

- O que é que havia no testamento que lhe preparaste? No último? Harry Rex poisou a notícia necrológica em cima da secretária e recostou-se na cadeira. Olhou para a janela por trás de Ray e falou baixinho.

- O juiz queria criar uma fundação de modo que quando esta casa fosse vendida o dinheiro fosse para lá. Eu seria o gestor testamentário e, como tal, teria o prazer de fazer uns donativos a ti e a ele. - Com um sinal de cabeça apontou para o alpendre. - Mas os seus primeiros cem mil seriam devolvidos à herança. Era quanto o juiz achava que Forrest lhe devia.

- Que catástrofe.

- Tentei dissuadi-lo.

- Felizmente, queimou-o.

- Sim, é verdade. Ele sabia que era má ideia, mas achava ser a melhor maneira de proteger Forrest de si próprio.

- Há vinte anos que estamos a tentar.

- Ele pensou em tudo. Ia deixar-te tudo, deixá-lo completamente de fora, mas sabia que isso ia criar atritos. Depois ficou irritado porque nenhum de vós jamais viveria aqui, por isso pediu-me que fizesse um testamento em que deixava a casa à igreja. Nunca o assinou, então o Palmer chateou-o por causa da pena de morte e ele pôs a ideia de lado, disse que ia vendê-la antes de morrer e dar o dinheiro para obras de caridade.

Esticou os braços para cima, até a espinha estalar. Harry Rex tinha sofrido duas operações às costas e raramente se sentia confortável.

- Estou a pensar por que razão ele te chamou e ao Forrest para decidirem os três o que fazer ao património.

- Então, porque fez ele um testamento de última hora?

- Nunca o saberemos, pois não? Talvez se tenha cansado da dor. Suspeito que se tornou dependente da morfina, como a maior parte das pessoas no fim. Talvez soubesse que estava a morrer.

Ray olhou o general Nathan Bedford Forrest naqueles olhos que fixavam intensamente o escritório do juiz, pendurado naquele lugar alto, durante quase um século. Ray não tinha dúvida de que o pai optara por morrer no sofá para que o general o ajudasse a passar por isso. O general sabia. Sabia como e quando o juiz morrera. Sabia de onde provinha o dinheiro. Sabia quem entrara à força na noite anterior e revirara o escritório.

- Ele nunca incluiu a Claudia em nada? - indagou Ray.

- Nunca. Ele era capaz de guardar um ressentimento e tu sabes.

- Ela passou por cá esta manhã.

- O que queria ela?

- Acho que vinha à procura de dinheiro. Disse que o juiz sempre prometera olhar por ela e queria saber o que estava no testamento.

- Disseste-lhe?

- Com todo o prazer.

- Ela fica bem. Nunca te preocupes com essa mulher. Lembras-te de Walter Sturgis, de Karraway, um negociante de sucata durante anos, avarento como tudo? - Harry Rex conhecia toda a gente do condado, as trinta mil almas: negros, brancos e agora mexicanos.

- Julgo que não.

- Consta que tem meio milhão em dinheiro, e ela está a ver se o apanha. Ele anda armado em rapaz da moda com camisas de golfe e a comer no country club. E diz aos amigos que toma Viagra todos os dias.

- Eh, rapaz.- Ela vai dar cabo dele.

Forrest mexeu-se no baloiço do alpendre e as correntes chiaram. Calaram-se um momento, até tudo ficar em silêncio lá fora. Harry Rex abriu um dossier e disse:

- Aqui está a avaliação. Mandámo-la fazer o ano passado a um tipo de Tupelo, provavelmente o maior avaliador no Norte do Mississipi.

- Quanto?

- Quatrocentos mil.

- Vendida.

- Achei que ele avaliou por cima. Claro que o juiz pensou que a propriedade valia um milhão.

- Claro.

- Acho que trezentos é mais razoável.

- Não vamos conseguir nem metade disso. Em que se baseou a avaliação?

- Está aqui. Metros quadrados, acres, atractivos, comparações, o costume.

- Dá-me uma comparação. Harry Rex folheou a avaliação.

- Aqui está uma: uma casa, quase da mesma época, da mesma dimensão, no limiar de Holly Springs, vendida há dois anos por oitocentos mil.

- Isto não é Holly Springs.

- Não, não é.

- Esta é uma cidade anterior à guerra, com muitas casas velhas.

- Queres que processe o avaliador?

- Claro, vamos atrás dele. Quanto davas tu por esta casa?

- Nada. Queres uma cerveja?

- Não.

Harry Rex arrastou-se até à cozinha e regressou com uma lata grande de Pabst Blue Ribbon.

- Não sei porque compra ele esta coisa - murmurou, engolindo depois um quarto dela.

- Foi sempre a marca sua preferida.

Harry Rex espreitou pelas persianas e só viu os pés de Forrest pendurados no baloiço.

- Não me parece que esteja muito preocupado com o testamento dopai.

- É como a Claudia. Só quer um cheque.

- O dinheiro matá-lo-ia.

Era tranquilizador ouvir Harry Rex partilhar esta convicção. Ray esperou que ele voltasse à secretária porque queria olhá-lo atentamente nos olhos.

- O juiz ganhou menos de nove mil dólares no ano passado - disse Ray a olhar para uma declaração de rendimentos.

- Ele estava doente - acrescentou Harry Rex, esticando e torcendo as volumosas costas e voltando a sentar-se. - Mas ainda este ano esteve a julgar processos.

- Que tipo de processos?

- De todo o tipo. Tivemos aquele do governador de extrema-direita, um nazi, há uns anos...

- Eu lembro-me dele.

- Gostava de rezar sempre que fazia campanha, valores de família, antitudo, excepto armas. Aconteceu que gostava de mulheres, e a mulher apanhou-o, uma grande sujeira, bronca das grossas. Os juizes locais em Jackson não queriam intervir no caso por razões óbvias, por isso pediram ao juiz para entrar naquilo e arbitrar a coisa.

- Chegou a julgamento?

- Oh, sim, um grande e feio julgamento. A mulher apresentou provas da culpabilidade do governador, que pensou poder intimidar o juiz. Ela ficou com a casa do governador e a maior parte do dinheiro. A última vez que soube dele estava a viver por cima da garagem do irmão, com guarda-costas, claro.

- Nunca viste o velho intimidado.

- Nunca. Nem uma vez em trinta anos.  

Harry Rex estava de volta da sua cerveja e Ray olhava para outra declaração de rendimentos. Tudo estava calmo, e, quando ouviu Forrest ressonar novamente, Ray disse:

- Descobri um dinheiro, Harry Rex.

Os olhos dele não revelaram nada. Nem conspiração, nem surpresa, nem alívio. Não pestanejaram, nem olharam fixamente. Esperou e por fim encolheu os ombros e disse:

- Quanto?

- Uma caixa cheia. - Seguir-se-iam as perguntas, e Ray tentara prevê-las.

Mais uma vez, Harry Rex esperou, e depois fez mais um inocente encolher de ombros.

- Onde?

- Ali, naquele armário por trás do sofá. Eram notas, numa caixa, cerca de noventa mil dólares.

Até ali não dissera mentira nenhuma. Não dissera toda a verdade, mas não estava a mentir. Ainda não.

- Noventa mil dólares? - disse Harry Rex, um pouco alto de mais e Ray fez um sinal de cabeça indicando o alpendre.

- Sim, em notas de cem dólares - disse em voz baixa. - Tens ideia de onde veio?

Harry Rex bebeu uns tragos da lata, depois franziu os olhos para a parede e disse por fim:

- Não faço ideia.

- De jogo? Disseste que ele sabia lançar dados.

Mais um trago.

- Sim, talvez. Os casinos abriram há seis ou sete anos e ele e eu íamos uma vez por semana, pelo menos no princípio.

- Deixaste de ir?

-Bem queria. Aqui para nós, eu ia lá a toda a hora. Jogava tanto que não queria que o juiz soubesse, por isso, quando ele e eu íamos lá, eu jogava pouco. Da vez seguinte, ia lá às escondidas e perdia outra vez tudo.

- Quanto é que perdeste?

- Vamos falar do juiz.

- Certo, ele ganhava?      

- Geralmente. Numa noite boa, ganhava uns dois mil dólares.

- É numa noite má?

- Quinhentos. Era o seu limite. Se estava a perder, sabia quando parar. É esse o segredo do jogo, temos de saber quando devemos desistir e temos de ter coragem para nos afastarmos. Ele sabia. Eu não.

- Ele ia lá sem ti?

- Sim, vi-o lá uma vez. Uma noite fui lá sorrateiramente e escolhi um novo casino, eles já têm uns quinze, e enquanto estava a jogar aquilo do black-jack, as coisas começaram a aquecer numa mesa de dados, não muito afastada. Na confusão vi o juiz Atlee. Estava com um boné de basebol para não o reconhecerem. Os seus disfarces nem sempre resultavam, porque ouvi falatório na cidade. Vai muita gente aos casinos, e houve quem o avistasse.

- Ia com que frequência?

- Sabe-se lá? Ele não dava satisfações a ninguém. Eu tinha um cliente, um desses rapazes do Higginbotham que vende carros usados, e ele disse-me que viu o juiz Atlee na mesa de dados às 3 da manhã no Treasure Island. Por isso, calculei que o juiz se escapasse para lá a horas esquisitas para que a malta não o visse.

Ray fez as contas rapidamente. Se o juiz jogasse três vezes por semana, durante cinco anos, e ganhasse dois mil dólares de cada vez, os seus ganhos andariam por volta de meio milhão.

- Poderia ter arrecadado noventa mil? - perguntou Ray. Parecia uma quantia tão pequena.

- Tudo é possível, mas porque os esconderia?

- Diz-me tu.

Ficaram a pensar naquilo um bocado. Harry Rex acabou a cerveja e acendeu um charuto. Uma lenta ventoinha de tecto por cima da secretária espalhou o fumo. Ele lançou uma baforada de fumo em direcção à ventoinha e disse:

- Tens de pagar impostos sobre os ganhos e, se calhar, como não queria que ninguém soubesse que jogava, talvez guardasse segredo.

- Mas os casinos não exigem papeladas quando se ganha determinada quantia?

- Eu nunca vi porcaria de papelada nenhuma.

- Mas se tivesses ganho?

- Sim, exigem. Tive um cliente que ganhou onze mil nas máquinas de cinco dólares. Deram-lhe o impresso dez-noventa-e-nove, uma declaração para IRS.

- E no jogo de dados?

- Se ganhares mais de dez mil em fichas, de uma vez, então mete papelada. Se for abaixo de dez, não há nada. É o mesmo que as transacções em dinheiro num banco.

- Duvido que o juiz quisesse registos.  

- Tenho a certeza de que não.

- Nunca falou no dinheiro, quando vocês estavam a tratar do seu testamento?

- Nunca. O dinheiro é um segredo, Ray. Não sei explicar. Não faço ideia do que ele estava a pensar. Com certeza, sabia que ia ser encontrado.

- Certo. A questão agora é o que fazemos com ele.

Harry Rex acenou afirmativamente com a cabeça e enfiou o charuto na boca. Ray recostou-se e ficou a olhar para a ventoinha. Durante muito tempo pensaram os dois sobre o que fazer ao dinheiro. Nenhum queria sugerir que continuasse, simplesmente, escondido. Harry Rex decidiu ir buscar outra cerveja. Ray disse que também bebia uma. À medida que os minutos passavam, tornava-se claro que não iria falar mais do dinheiro, naquele dia. Dentro de semanas, quando o testamento fosse aberto e fosse feito o inventário de bens, podiam voltar ao assunto. Ou talvez não voltassem.

Durante dois dias, Ray debatera-se sobre se devia ou não falar a Harry Rex no dinheiro, não a fortuna toda, mas apenas uma amostra. Depois de fazê-lo, ficaram-lhe mais perguntas do que respostas.

Tinha-se feito uma ténue luz sobre o dinheiro. Ojuiz gostava de dados e era bom ao jogo, mas parecia improvável que pudesse ter ganho 3,1 milhões de dólares em sete anos. E fazê-lo sem ter papelada e sem deixar rasto parecia impossível.

Ray voltou aos registos de impostos enquanto Harry Rex remexia nos livros dos donativos.

- A que técnico de contas vais recorrer?

- Da terra, não.

- Não, vou ficar longe dos tipos daqui. É uma cidade pequena.

- Parece-me que os registos estão bem - disse Ray, fechando a gaveta.      

- Vai ser fácil, excepto a casa.

- Vamos pô-la à venda, quanto mais depressa melhor. Não vai ser uma venda rápida.              

- Qual o preço a pedir?

- Vamos começar por trezentos.

- Vamos gastar dinheiro a repará-la?

- Não há dinheiro, Harry Rex.

 

Antes de anoitecer, Forrest anunciou que estava cansado de Clanton, cansado de morte, cansado de andar a deambular por aquela velha casa deprimente de que nunca gostara especialmente, cansado de Harry Rex, de Ray, e que ia voltar para Memphis onde o esperavam mulheres fogosas e festas.

- Quando voltas? - perguntou Ray.

- Dentro de duas ou três semanas.

- Para a homologação do testamento?

- Sim - respondeu Harry Rex. - Vamos ter uma audiência rápida com ojuiz. És bem-vindo, mas não é obrigatório.

- Eu não vou ao tribunal. Já lá fui o suficiente.

Os irmãos encaminharam-se para o carro de Forrest.

- Estás bem? - perguntou Ray, mas apenas por se sentir obrigado a mostrar preocupação.

- Estou óptimo. Até breve, mano - disse Forrest com pressa de ir-se embora antes que o irmão deixasse escapar alguma coisa estúpida. - Telefona-me quando voltares - disse.

Pôs o carro a trabalhar e arrancou. Ray sabia que ele ia encostar algures entre Clanton e Memphis, numa espelunca com um bar e uma mesa de bilhar, ou talvez numa loja de cerveja onde pudesse comprar uma grade e ir bebendo enquanto conduzia. Forrest sobrevivera ao funeral do pai, de forma impressionante, mas a pressão vinha a acumular-se. O desabamento não ia ser bonito.

Harry Rex estava com fome, como sempre, e perguntou a Ray se não lhe apetecia bagre frito.

- Nem por isso.

- Bom, há um novo restaurante no lago.

- Como se chama?

- A Cabana do Bagre do Jeter.

- Estás a brincar.                                        

- Não, é delicioso.

Jantaram numa plataforma vazia avançada sobre um pântano, na parte de trás do lago. Harry Rex comia bagre duas vezes por semana, e Ray uma vez em cinco anos. A cozinheira era especialista no polme e no óleo de amendoim, e Ray sabia que ia ser uma noite longa, por várias razões.

Dormiu com uma arma carregada na cama do seu velho quarto, lá em cima, com as janelas e as portas trancadas e três sacos de lixo cheios dinheiro aos pés. Com tal aparato, era difícil olhar à volta, na escuridão, e invocar quaisquer recordações agradáveis de infância, que em situação normal viriam à superfície. Nessa época, a casa era escura e fria, especialmente depois da morte da mãe.

Em vez de recordar, tentou dormir contando pequenas fichas pretas, de cem dólares cada, retiradas de mesa de jogo pelo juiz e levadas aos caixas. Contou com imaginação e ambição, e não se aproximou sequer da fortuna com que estava deitado.

 

A praça de Clanton tinha três cafés, dois para brancos e um para negros. A frequência do Tea Shoppe compunha-se sobretudo de pessoal da banca, justiça e comércio, mais do género colarinho branco, onde a conversa era um bocadinho mais séria - bolsa, política, golfe. Claude's, o café-restaurante de negros, estava ali havia quarenta anos e tinha a melhor comida.

O Coffee Shop era preferido por agricultores, polícias e operários que falavam de futebol e de caça aos pássaros. Era o preferido de Harry Rex, tal como de alguns advogados que gostavam de comer com as pessoas que defendiam. Abria todas as manhãs às 5, excepto aos domingos, e às 6 estava cheio. Ray estacionou perto dele no largo e trancou o carro. O Sol erguia-se pouco a pouco por cima das colinas para leste. Ia conduzir durante umas quinze horas, e esperava estar em casa por volta da meia-noite.

Harry Rex escolheu uma mesa à janela e um jornal de Jackson que tinha sido tão reorganizado e dobrado que já não ia servir para mais ninguém.

- Há notícias? - perguntou Ray. Não havia televisão em Maple Run.

- Nem uma linha - resmungou Harry Rex com os olhos presos aos editoriais. - Eu mando-te todas as notícias da necrologia. - Deslizou sobre a mesa um suplemento amarrotado do tamanho de um livro de bolso.  

- Queres ler isto?

- Não, tenho de ir.

- Vais comer primeiro?

- Sim.

- Olá, Dell ! - Harry Rex gritou para o outro lado do café. O balcão, os compartimentos e as outras mesas estavam cheias de homens, só homens, todos a comer e a falar.

- A Dell ainda cá está? - perguntou Ray.

- Ela não envelhece - disse Harry Rex, a acenar. - A mãe dela tem oitenta anos e a avó tem cem. Ainda vai cá estar por muito tempo depois de termos morrido.

Dell não gostava que lhe gritassem. Chegou ao pé deles com um bule de café e uma atitude que se desvaneceu quando percebeu quem era Ray. Abraçou-o e disse:

- Há vinte anos que não te via.

Depois sentou-se, apertou-lhe o braço e começou a dizer que tinha muita pena do juiz.

- Foi um grande funeral, não foi? - perguntou Harry Rex.

- Não consigo lembrar-me de outro melhor-disse ela, como se Ray devesse sentir-se confortado e impressionado.

- Obrigado - respondeu ele com os olhos marejados de lágrimas, não de tristeza, mas da mistura de perfumes baratos que pairavam à volta dela.

Então ela levantou-se de um salto e disse:

- O que vão comer? É por conta da casa.

Harry Rex escolheu panquecas e salsichas, para os dois, um monte delas para ele e um pequeno para Ray. Dell desapareceu levando atrás de si uma espessa nuvem de aromas.

- Tens uma longa viagem pela frente. As panquecas vão colar-se às costelas.

Ao fim de três dias em Clanton, tudo se lhe colava às costelas. Ray estava desejoso de umas grandes corridas pelo campo à volta de Charlottesville e de uma cozinha muito mais leve.

Para seu grande alívio, mais ninguém o reconhecia. Não havia outros advogados no café àquela hora, e mais ninguém conhecia suficientemente bem o juiz para ter ido ao funeral. Os polícias e os mecânicos estavam demasiado ocupados com as suas piadas e mexericos para olharem em volta. Espantosamente, Dell manteve a boca fechada.

Depois da primeira chávena de café, Ray descontraiu-se e começou a apreciar as ondas de conversas e de risos que o rodeavam.

Dell regressou com comida que chegava para oito; panquecas, salsichas que pareciam um porco inteiro, um tabuleiro de brioches massudos, uma tigela de manteiga e outra de doce caseiro. Quem quereria comer brioches com panquecas? Ela deu-lhe umas palmadinhas no braço e disse:

- E era um homem muito amoroso. - E foi-se embora.

- O teu pai era muitas coisas - disse Harry Rex, ensopando as panquecas quentes em, pelo menos, um quarto do doce caseiro. - Mas amoroso é que não era.

- Não, não era - concordou Ray. - Ele alguma vez aqui veio?

- Não, que eu me lembre. Não tomava pequeno-almoço, não gostava de ajuntamentos, detestava conversa fiada e preferia dormir até tão tarde quanto possível. Não me parece que fosse o seu tipo de lugar. Nos últimos nove anos, não andou muito aqui pelo largo.

- Onde é que a Dell o conheceu?

- Em tribunal. Uma das filhas dela teve um bebé. O pai da criança já tinha família. Uma grande confusão. - Conseguiu, não sei como, enfiar na boca uma dose de panquecas que chegavam para engasgar um cavalo. A seguir, uma dentada de salsicha.

- E, é claro, tu estavas metido nisso.

- Claro. O juiz tratou-a bem. - Chom, chom.

Ray sentiu-se obrigado a meter uma grande garfada na boca. Com o melaço a pingar por todos os lados, inclinou-se para a frente e levou um garfo pesado à boca.

- O juiz era uma lenda, Ray, sabes. As pessoas que o rodeavam adoravam-no. Nunca teve menos de oitenta por cento de votos em Ford County.

Ray fez um sinal afirmativo enquanto se debatia com as panquecas. Estavam quentes e engorduradas, mas não especialmente saborosas.

- Se gastarmos cinco mil dólares na casa - disse Harry Rex sem mostrar a comida na boca -, depois receberemos várias vezes mais. É um bom investimento.

- Cinco mil para quê?

Limpou a boca com um gesto longo.  

- Limpa primeiro aquela porcaria. Borrifa-a, defuma-a, limpa os soalhos, paredes e mobília e põe-na a cheirar melhor. Depois pinta o exterior e o andar de baixo. Arranja o telhado para os tectos não ficarem manchados. Corta a relva, arranca as ervas daninhas, alinda-a. Posso arranjar aqui gente que faça isso. - Meteu outra garfada na boca e esperou que Ray reagisse.

- Só temos seis mil dólares no banco - disse Ray.

Dell passou a correr e conseguiu, sem se saber como, voltar a encher as duas chávenas de café e dar uma palmadinha no ombro de Ray, sem atrasar um passo.

- Tens mais, nessa caixa que encontraste - disse Harry Rex, espetando outra fatia de panquecas.

- E então, gastamo-lo?

- Estive a pensar nisso - afirmou engolindo café. - A verdade é que estive acordado toda a noite a pensar nisso.

- E?

- Há duas questões, uma é importante, a outra não. - Uma dentada rápida de modestas dimensões, com o garfo e a faca a ajudarem-no a falar, e prosseguiu: - Primeiro, de onde é que ele veio? É isso que queremos saber, mas não é assim tão importante. Se ele assaltou um banco, está morto. Se arruinou os casinos e não pagou impostos, está morto. Se apenas gostava do cheiro do dinheiro e o amealhou ao longo dos anos, continua morto. Percebes?

Ray encolheu os ombros como se estivesse à espera de alguma coisa complicada. Harry Rex aproveitou a pausa no seu monólogo para comer salsicha, depois recomeçou a esfaquear o ar.

- Em segundo lugar, o que vais fazer com isso? Aí está que é importante. Estamos a pensar que ninguém sabe do dinheiro, certo?

Ray fez um sinal afirmativo e disse:

- Certo. Estava escondido.

Ray parecia ouvir as janelas a serem abanadas. Parecia-lhe ver as caixas da Blake & Son espalhadas e amolgadas.

Não pôde deixar de olhar para o seu TT descapotável, cheio e pronto a partir.

- Se incluis o dinheiro no inventário de bens, metade vai para o IRS.

- Eu sei, Harry Rex. E tu o que farias?

- Não sou a pessoa indicada para perguntares isso. Ando em guerra com o IRS há dezoito anos e adivinha quem está a ganhar? Eu, não. Lixa-os.                                        

- É esse o teu conselho como advogado?

- Não, como amigo. Se quiseres aconselhamento jurídico, digo-te que todos os bens têm de ser reunidos e devidamente inventariados, segundo o Código do Mississipi, conforme regulado e rectificado.

- Obrigado.

- Eu agarrava nuns vinte mil, incluía-os no património para pagar as primeiras despesas, depois esperava muito tempo para dar a Forrest a sua metade do resto.

- Bom, a isso chamo aconselhamento jurídico.

- Ná, é apenas bom senso.

O mistério dos brioches ficou esclarecido quando Harry Rex os atacou.

- Vai um brioche? - perguntou, embora estivessem mais perto de Ray.

- Não, obrigado.

Harry Rex abriu dois ao meio, pôs-lhe manteiga, acrescentou-lhe uma espessa camada de geleia e, depois, no último momento, meteu-lhe um pedaço de salsicha.

- Tens a certeza?

- Sim, tenho. O dinheiro pode estar marcado de alguma maneira?

- Só se for dinheiro de resgate ou de droga. Não me parece que Reuben Atlee estivesse metido nessas coisas, não achas?

- Certo, gasta cinco mil.

- É o que vou fazer.

Um homem baixinho com calças e camisa de caqui a condizer parou junto da mesa e, com um sorriso quente, disse:

- Desculpe, Ray, mas eu sou Loyd Darling. - Estendeu a mão enquanto falava. - Tenho uma quinta a este da cidade.

Ray apertou-lhe a mão e soergueu-se. Mr. Loyd Darling tinha mais terra do que qualquer outra pessoa de Ford County. E dera catequese a Ray.

- Tenho muito gosto em vê-lo - disse Ray.

- Sente-se, por favor - disse, empurrando, suavemente, o ombro de Ray para baixo.

- Só queria dizer que lamento pelo juiz.

- Obrigado, Mr. Darling.

- Não havia melhor homem do que Ray Atlee. Os meus pêsames.

Ray fez um aceno afirmativo com a cabeça. Harry Rex parara de comer e parecia prestes a chorar. Então Loyd foi-se embora, e o pequeno-almoço foi retomado. Harry Rex entrou numa história de guerra sobre o abuso do IRS. Depois de mais uma ou duas garfadas, Ray estava empanturrado, e, enquanto fingia ouvir, pensava em todas as boas pessoas que tanto admiravam o seu pai, todos os Loyd Darlings que reverenciavam o velho.

E se o dinheiro não viesse dos casinos? Se tivesse sido cometido um crime, qualquer ilegalidade cometida pelo juiz? Ali sentado entre a multidão do café, a olhar para Harry Rex, mas sem ouvi-lo, Ray Atlee tomou uma decisão. Prometeu a si próprio que, se alguma vez descobrisse que o dinheiro agora encafuado no porta-bagagens do carro fora obtido pelo pai de uma maneira menos ética, ninguém viria a sabê-lo. Não iria profanar a reputação fulgurante do juiz Reuben Atlee.

Fez um contrato consigo mesmo, apertou a mão, fez um pacto de sangue, jurou por Deus. Ninguém saberia.

Despediram-se no passeio em frente de mais um escritório de advogados. Harry Rex deu-lhe um forte abraço e Ray tentou retribuir, mas tinha os braços colados ao corpo.

- Não acredito que ele se foi - disse Harry Rex com os olhos mais uma vez húmidos.

- Eu sei, eu sei.

Afastou-se a abanar a cabeça e a lutar contra as lágrimas. Ray saltou para o seu Audi e deixou o largo sem sequer olhar para trás. Dentro de minutos estava no limiar da cidade, passou pelo drive-in onde tinham sido estreados filmes pornográficos e pela fábrica de sapatos em que o juiz arbitrara uma greve. Passou por tudo, até se encontrar no campo, longe do trânsito, longe da lenda. Olhou para o velocímetro e apercebeu-se de que ia a mais de cento e quarenta à hora.

 

Devia evitar a polícia, bem como colisões por trás. A viagem era longa, mas a hora de chegada a Charlottesville era crucial. Demasiado cedo haveria trânsito de peões na zona comercial. Demasiado tarde, a patrulha nocturna podia vê-lo e fazer perguntas.

Depois da fronteira do Tennessee, parou para meter gasolina e ir à casa de banho. Tinha bebido demasiado café. E comera demasiado.

Tentou ligar a Forrest pelo telemóvel, mas não atendeu. Não achou nem bom nem mau presságio, com Forrest nada era previsível.

De novo em andamento, manteve a velocidade nos noventa, e as horas começaram a passar. Ford County esfumava-se numa outra vida. Toda a gente tinha de ser de algum lugar, e Clanton não era um lugar tão mau para não lhe chamar a sua terra. Mas, se nunca mais voltasse a vê-la, não se sentiria infeliz.

Os exames acabavam dentro de uma semana, seguia-se a formatura uma semana depois, e vinham as férias de Verão. Como era suposto estar a fazer investigação e a escrever, não ia dar aulas durante os próximos três meses. O que significava ter muito pouco que fazer.

Iria voltar a Clanton e fazer juramento como executor testamentário de seu pai. Iria tomar todas as decisões que Harry Rex lhe pedira que tomasse. E iria tentar decifrar o mistério do dinheiro.

 

Com bastante tempo para planear os passos a dar, não ficou surpreendido quando nada correu bem. O momento de chegada foi adequado, 23.20, quarta-feira, 10 de Maio. Tivera esperança de estacionar ilegalmente na berma do passeio, a poucos metros da porta do rés-do-chão do seu apartamento, mas outros condutores tinham tido a mesma ideia. Nunca o passeio estivera tão bloqueado com uma fila de carros, e, para sua aflitiva satisfação, cada um deles tinha uma multa debaixo do limpa-pára-brisas.

Podia estacionar na rua enquanto corria para trás e para a frente, mas isso ia trazer-lhe problemas. O pequeno estacionamento atrás do seu prédio tinha quatro lugares, um reservado para ele, mas trancavam o portão às onze horas.

Por isso, foi obrigado a usar uma garagem escura e quase comple-tamente abandonada a uns três quarteirões; um silo grande e cavernoso que estava esgotado durante o dia e lugubremente vazio à noite. Pensara nessa alternativa aceitando-a e afastando-a durante muitas horas, enquanto conduzia para norte e para leste a planear a ofensiva, e essa era a menos atraente de todas as opções. Era o plano D ou E, nos últimos lugares da lista de formas como pretendia transferir o dinheiro. Estacionou no primeiro andar, tirou o saco de viagem, fechou o carro e com grande angústia deixou-o lá ficar. Saiu apressadamente, a deitar olhares rápidos em redor, como se houvesse bandos armados a espreitar e à sua espera. As pernas e as costas estavam rígidas da viagem, mas tinha trabalho a fazer.

O apartamento estava exactamente como o deixara, o que era um estranho alívio. Trinta e quatro mensagens esperavam-no, certamente colegas e amigos a darem os pêsames. Iria ouvi-las mais tarde.

No fundo de um pequeno armário do vestíbulo, debaixo de um cobertor, de um poncho e de outras coisas que tinham sido atiradas lá para dentro, o que não era o mesmo que terem sido colocadas ou arrumadas, descobriu um velho saco de ténis Wimbledon em que não mexia havia dois anos. Além de malas de viagem, que ele achava poderem parecer demasiado suspeitas, aquele era o saco maior de que se lembrava.

Se tivesse uma arma tê-la-ia enfiado no bolso. Mas o crime era raro em Charlottesville, e ele preferia viver sem armas. Após o episódio de domingo em Clanton, ainda tinha mais medo de pistolas e coisas do género. Deixara as armas do juiz escondidas num armário em Maple Run.

Com o saco ao ombro, fechou a porta da rua e tentou caminhar o mais naturalmente possível pela rua pedonal da baixa. Estava muito bem iluminada, havia um ou dois polícias de ronda, e os peões àquela hora eram os miúdos caprichosos de cabelo verde, um passeante ocasional e alguns vadios a encaminharem-se para casa. Charlottesville era uma cidade calma depois da meia-noite.

Um aguaceiro tinha caído não muito antes da sua chegada. As ruas estavam molhadas e o vento soprava. Passou por um jovem casal que ia de mãos dadas, mas não encontrou mais ninguém no caminho para a garagem.

Pensara em transportar simplesmente os próprios sacos de lixo ao ombro, como o Pai Natal, um de cada vez, e caminhar apressadamente, desde onde estava estacionado até ao apartamento. Conseguia transportar o dinheiro em três idas e vindas e reduzir a sua exposição na rua. Duas coisas o impediam. E se um deles se rompesse e caísse um milhão de dólares no asfalto? Todos os vagabundos e noctívagos iriam surgir dos becos, atraídos, como tubarões, pelo sangue. Segundo, a imagem de alguém a transportar sacos que pareciam ser de lixo para um apartamento, em vez de para fora dele, podia parecer suficientemente estranha para atrair a atenção da polícia.

- O que tem no saco, senhor? - podia perguntar o polícia.

- Nada. Lixo. Um milhão de dólares. - Nenhuma resposta parecia correcta.

Então, o plano era ser paciente, aproveitar todo o tempo necessário, transportar o espólio em pequenos carregamentos e não se preocupar com quantas viagens tinha de fazer, porque o factor menos importante era o cansaço de Ray. Podia descansar mais tarde.

A parte assustadora era a transferência do dinheiro de um saco para outro, enquanto estava debruçado sobre o porta-bagagens tentando não parecer culpado. Felizmente, a garagem estava deserta. Enfiou o dinheiro no saco de ténis até mal conseguir correr o fecho éclair, depois fechou o porta-bagagens com força, olhou em volta como se tivesse asfixiado alguém e saiu.

Talvez levasse um terço de um saco de lixo, uns trezentos mil dólares. Muito mais do que suficiente para ser preso ou esfaqueado.

Descontracção era o que pretendia desesperadamente, mas não havia nada de fluido nos seus passos ou movimentos. Com os olhos fixos em frente, embora eles quissessem mover-se rapidamente para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda, nada podia escapar. Um adolescente assustado, de piercings no nariz, passou a cambalear, completamente pedrado. Ray caminhou ainda mais depressa, sem saber se tinha coragem para mais oito ou nove caminhadas até à garagem.

Um bêbado, num banco escuro, berrou-lhe qualquer coisa ininteligível. Ele deu um salto para a frente, depois recompôs-se e sentiu-se agradecido por não trazer uma arma. Naquele momento, era capaz de ter disparado para qualquer coisa que mexesse. O dinheiro tornava-se mais pesado a cada quarteirão que passava, mas conseguiu fazê-lo sem incidentes. Espalhou o dinheiro em cima da cama, trancou todas as portas possíveis e encaminhou-se novamente para o carro.

Durante a quinta caminhada, viu-se confrontado com um velho demente que saltou da sombra e perguntou:

- Que raio andas a fazer?

Segurava algo escuro na mão. Ray pensou que era uma arma para matá-lo.

- Sai da frente - disse-lhe com um ar tão rude quanto possível, mas sentia a boca seca.

- Não páras de andar para a frente e para trás - berrou o velho. Cheirava muito mal, e os seus olhos brilhavam como os de um demónio.

- Mete-te na tua vida. - Ray nunca parara de andar, e o velho estava na sua frente a cambalear. O idiota da aldeia.

- Qual é o problema? - disse uma voz áspera atrás deles. Ray parou e um polícia aproximou-se, de casse-tête na mão.

Ray desfez-se em sorrisos.

- Boa noite, senhor guarda.

Respirava com dificuldade e o seu rosto estava suado.

- Ele anda a tramar alguma! - Berrou o homem. - Anda para trás e para diante, para trás e para diante. Vai para lá e leva o saco vazio, vem para cá e traz o saco cheio.

- Calma, Gilly - disse o polícia, e Ray respirou fundo. Ficou horrorizado por alguém ter estado a observar, mas aliviado por esse alguém ser o tolo do Gilly. Entre todos os personagens da rua do comércio, Ray nunca vira este.

- O que leva no saco? - perguntou o polícia.

Era uma pergunta estúpida, a pisar terreno muito falso, e, por uma fracção de segundo, Ray, o professor de Direito, considerou a hipótese de fazer uma prelecção sobre operações stop, buscas, apreensões e interrogatórios policiais permissivos. Porém, deixou passar e suavemente disse a frase que preparara.

- Joguei ténis esta noite no Boar's Head. Tenho um problema no tendão de jarrete e ando a caminhar a ver se me passa. Moro ali. - Apontou para o seu apartamento a dois quarteirões dali.

O polícia voltou-se para Gilly e disse:

- Não podes andar a gritar com as pessoas, Gilly, já te disse. O Ted sabe que andas cá fora?

- Ele tem alguma coisa naquela mala - disse Gilly numa voz muito mais calma. O polícia ia-o afastando dali.

- Sim, é dinheiro - disse o polícia. - Tenho a certeza de que o tipo é um assaltante de bancos e de que tu o apanhaste. Bom trabalho.

- Mas vai vazia e vem cheia.

- Boa noite para o senhor - disse o polícia por cima do ombro.

- Boa noite. - E Ray, o jogador de ténis lesionado, foi coxeando mesmo durante meio quarteirão para o caso de haver outros personagens a espreitar no escuro. Quando atirou a quinta carga para cima da cama, tirou uma garrafa de whisky de um pequeno bar e serviu-se de uma boa dose.

Esperou duas horas, bastante tempo para Gilly voltar para Ted, de quem esperava que lhe desse o medicamento e o prendesse para o resto da noite, e talvez se fizesse tempo para uma mudança de turno, com um polícia diferente a patrulhar. Duas longas horas, durante as quais imaginou todos os cenários possíveis envolvendo o seu carro estacionado na garagem. Roubo, vandalismo, fogo, rebocado por um pronto-socorro enganado, tudo o que era imaginável.

Às 3 da manhã saiu do seu apartamento dejeans, botas de marcha e uma camisola de marinheiro com VIRGÍNIA escrita no peito. Trocara a mala de ténis vermelha por uma pasta de cabedal gasta, que não levava tanto dinheiro, mas que também não chamava a atenção da polícia. Ia armado com uma faca de cortar carne enfiada no cinto, por baixo da sweatshirt, pronta a ser puxada num ápice e usada em tipos como Gilly ou qualquer outro assaltante. Era um disparate e ele sabia-o, mas também não estava em si, e apercebia-se bem disso. Tinha um cansaço de morte, sem dormir pela terceira noite consecutiva, um pouco estonteado com os três whiskies, decidido a conseguir guardar o dinheiro em segurança e com medo de ser interceptado.

Até os vagabundos tinham desistido, às 3 da manhã. Mas entrou na garagem, viu algo que o aterrorizou. No extremo da rua pedonal, a passar por baixo de um candeeiro, estava um grupo de cinco ou seis adolescentes negros. Moviam-se lentamente na sua direcção, a gritarem, a falarem alto, a procurarem arranjar problemas.

Era impossível fazer mais meia dúzia de transportes sem esbarrar com eles. O plano final foi criado naquele sítio.

Ray pôs o Audi a trabalhar e saiu da garagem. Deu a volta e parou na rua ao lado dos carros estacionados em infracção, na berma, junto à porta do seu apartamento. Desligou o motor e as luzes, abriu o porta-bagagens, agarrou o dinheiro. Cinco minutos depois, toda a fortuna estava lá em cima, onde era o seu lugar.

 

Às 9 da manhã, o telefone acordou-o. Era Harry Rex.

- Levanta-me esse rabo da cama, rapaz - resmungou. --Como foi a viagem?

Ray deslizou para o outro lado da cama e tentou abrir os olhos.

- Maravilhosa - respondeu.

- Falei ontem com um avaliador de propriedades, Baxter Redd, um dos melhores que aqui temos. Ele deu uma volta pela propriedade, viu os pormenores, sabes, que barafunda. De qualquer modo, quer ficar-se pelo valor da avaliação, quatrocentos mil, e acha que podemos conseguir pelo menos duzentos e cinquenta. Ele recebe os habituais seis por cento. Está?                                                    

- Sim.

- Então diz alguma coisa, certo?

- Continua.        

- Ele concorda que precisamos de alguma massa para arranjá-la, uma pequena pintura, um enceramento do chão, uma bela fogueira ia ajudar. Recomendou uma empresa de limpezas. Está?

- Sim. - Harry Rex já se levantara há horas e reabastecera-se, certamente, com outro banquete de panquecas, brioches e salsichas.

- Bom, já contratei um pintor e um homem para arranjar o telhado. Vamos precisar de uma injecção de capital, brevemente.

- Eu volto aí dentro de duas semanas, Harry Rex, isso não pode esperar?

- Claro. Estás na ressaca.

- Não, estou apenas cansado.

- Bom, mexe esse rabo, já passa das 9 aí.

- Obrigado.

- Por falar em ressacas - disse, falando subitamente mais baixo e com palavras mais suaves. - O Forrest telefonou-me ontem à noite.

Ray pôs-se de pé e arqueou as costas.

- Não pode ser boa coisa - comentou.

- Não, não é. Estava cheio, não sei se era droga ou álcool, provavelmente ambos. Seja o que for em que anda metido, é em quantidade. Falava tão arrastado que julguei estar a cair adormecido, depois espevitou e amaldiçoou-me.

- E o que queria ele?

- Dinheiro. Agora não, disse, afirmou que não estava falido, mas está preocupado com a casa e o testamento, e quer ter a certeza de que não o lixas.

- Lixá-lo?

- Ele estava pedrado, Ray, por isso não podes estar contra ele. Mas ele disse umas coisas muito feias.

- Estou a ouvir.

- Estou a dizer-te para que saibas, mas, por favor, não te zangues. Duvido de que se lembre amanhã de manhã.

- Diz lá, Harry Rex.

- Disse que o juiz sempre te favoreceu e que te fez o seu executor testamentário, que sempre tiraste mais do velho, que o meu papel é vigiar-te e proteger os interesse dele no testamento, porque vais tentar lixá-lo com o dinheiro, etc.

- Não tardou com isso, pois não? Ainda agora estivemos com ele aí.

- Não.

- Não estou surpreendido.

- Mantém-te em guarda. Ele está numa farra e pode telefonar-te com a mesma treta.

- Já ouvi isso antes, Harry Rex. Não é ele o culpado dos seus problemas. Há sempre alguém para o safar. Um viciado típico.

- Ele julga que a casa vale um milhão, e diz que o meu papel é consegui-lo, senão vai ter de contratar o seu próprio advogado, blá, blá, blá. Não fiquei aborrecido. Ele estava passado.

- É digno de pena.

- Pois é, mas quando sair de lá do fundo e ficar sóbrio dentro de uma ou duas semanas, então sou eu quem lhe dirá das boas. Ficamos entendidos.

- Desculpa, Harry Rex.

- Faz parte do meu trabalho. É uma das alegrias da advocacia.

Ray fez um bule de café, uma mistura italiana forte de que gostava muito e cuja enorme falta sentira em Clanton. A primeira chávena estava quase bebida quando o seu cérebro despertou.

Qualquer aborrecimento com Forrest iria seguir o seu curso. Apesar dos seus muitos problemas era basicamente inofensivo. Harry Rex iria tratar do testamento e haveria uma divisão igual de tudo o que restara. Dentro de cerca de um ano. Forrest iria receber um cheque de mais dinheiro do que jamais vira.

A imagem de uma empresa de limpeza agindo à vontade em Maple Run preocupou-o, por momentos. Estava a ver uma dúzia de mulheres a zumbir por ali como formigas, felizes por terem tanto que limpar. E se deparassem com outro tesouro perversamente deixado para trás pelo juiz? Um colchão recheado de dinheiro? Armários cheios de dinheiro? Mas não era possível. Ray revirara todos os cantos da casa. Se encontramos três milhões de dólares escondidos ficamos motivados para procurar debaixo de cada tábua. Abrira até caminho entre teias de aranha na cave, uma masmorra em que nenhuma empregada de limpeza se atrevia a entrar.

Serviu-se de outra chávena de café forte e foi até ao quarto, onde se sentou numa cadeira e ficou a olhar para os montes de notas. E agora?

Por entre a confusão dos últimos quatro dias, concentrara-se apenas em levar o dinheiro para o sítio onde não fosse localizado. Agora havia que planear o próximo passo e tinha poucas ideias. Tinha de ser escondido e protegido, disso tinha a certeza.

 

Havia um grande arranjo floral no centro da sua secretária, com um cartão de condolências assinado pelos catorze alunos da sua cadeira átAntitrust. Cada um escrevera um pequeno parágrafo de pêsames e leu-os todos. Ao lado das flores havia um monte de cartas dos seus colegas da faculdade.

Depressa se espalhara a notícia de que estava de volta, e ao longo de toda a manhã os mesmos colegas passaram por lá para um breve cumprimento, dar-lhe as boas vindas e lamentar a perda. Na maior parte dos casos o corpo docente era um grupo coeso. Podiam discutir com os melhores deles sobre questões políticas da universidade, mas não tardavam a unir-se em momentos problemáticos. Ray ficou muito satisfeito por voltar a vê-los. A mulher de Alex Duffman mandou um tabuleiro dos seus famosos biscoitos de chocolate, cada um a pesar meio quilo e que estava provado acrescentar mais três à nossa cintura. Naomi Kraig trouxe um raminho de rosas do seu jardim.

Ao fim da manhã, Cari Mirk passou por lá e fechou a porta. Era o amigo mais íntimo de Ray na faculdade, e o percurso de ambos até à Faculdade de Direito fora notavelmente semelhante. Eram da mesma idade e ambos tinham um pai juiz numa pequena cidade e que tinha governado o seu pequeno condado durante décadas. O pai de Cari ainda estava no activo e sempre com o ressentimento de o filho não ter voltado para exercer advocacia no escritório da família. Porém, parecia que o ressentimento se ia desvanecendo com os anos, enquanto o juiz Atlee teria levado o seu para a cova.

- Conta-me como foi - disse Carl. Não tardaria a ser ele a fazer a mesma viagem até à sua cidade-natal no Norte do Ohio.

Ray começou pela casa tranquila, demasiado tranquila, recordava-se agora. Descreveu a cena de quando deparou com o juiz.

- Encontraste-o morto? - perguntou Cari. A narrativa continuou, e então ele perguntou: - Achas que ele apressou um pouco as coisas?

- Espero que sim. Estava a sofrer muito.

- Bolas!

A história desenrolou-se em grande pormenor, enquanto Ray recordava coisas em que não pensava desde o domingo anterior. As palavras brotavam, a narração tornou-se terapêutica. Carl era um excelente ouvinte.

Forrest e Harry Rex foram coloridamente descritos.

- Não temos personagens dessas em Ohio - disse Carl. Quando contavam as histórias de cidades de província, geralmente a colegas das grandes cidades, exageravam os factos e os personagens tornavam-se maiores. Mas não era o caso de Forrest e Harry Rex. A verdade era suficientemente colorida.

O velório, o funeral, o enterro. Quando terminou com o Taps e a descida do caixão, ambos tinham os olhos marejados. Carl pôs-se de pé num salto e disse:

- Que bela maneira de partir. Lamento.

- Estou contente por ter terminado.

- Bem-vindo sejas. Vamos almoçar amanhã.

- O que é amanhã?

- Sexta-feira.

- Muito bem, almoço.

Para a cadeira de Antitrust do fim da tarde, Ray mandou vir pizzas do pronto-a-comer e comeu-as no pátio com os alunos. Estavam lá treze dos catorze. Oito acabariam o curso dentro de duas semanas. Os alunos estavam mais preocupados com Ray e com a morte do pai do que com os exames finais. Sabia que isso ia mudar, muito em breve.

Terminada ã pizza, mandou-os embora e eles espalharam-se. Kaley ficou para trás, como andava a fazer nos últimos meses. Havia um rígido espaço interdito entre corpo docente e alunos, e Ray Atlee não queria entrar por ele. Estava demasiado satisfeito com o seu trabalho para se meter com uma aluna. Porém, dentro de duas semanas, Kaley já não seria uma aluna, mas uma licenciada, e não estaria abrangida pelo regulamento. O namorico tinha pegado um pouco - uma pergunta séria depois da aula, uma ida ao seu gabinete para ir buscar um trabalho que lhe faltava, e sempre aquele sorriso nos olhos que se demoravam sempre um pouco mais de tempo.

Ela era uma aluna média com um rosto encantador e um traseiro de fazer parar o trânsito. Jogara hóquei em campo e lacrosse em Brown, pelo que mantinha uma linha esbelta e atlética. Tinha vinte e oito anos, era viúva, sem filhos e com montes de dinheiro que recebera da empresa construtora do planador em que o seu falecido marido voava, quando se despenhou a poucas milhas da costa em Cape Cod. Encontraram-no a dezoito metros de profundidade, ainda com o cinto de segurança e as duas asas partidas ao meio. Ray investigara o relato do acidente na Internet. Descobriu também o processo de tribunal que ela tinha posto em Rhode Island. O prémio de seguro deu-lhe quatro milhões à cabeça e quinhentos mil por ano nos próximos vinte anos. Ele guardara essa informação para si.

Depois de ter perseguido os rapazes nos primeiros dois anos da Faculdade de Direito, agora perseguia os homens. Ray sabia de pelo menos dois outros professores que estavam a apanhar com a mesma rotina do ficar para trás. Um deles era casado. Evidentemente, eram todos tão cautelosos como Ray.

Foram passeando até à entrada principal da Faculdade de Direito, falando vagamente do exame final. Ela ia-se aproximando mais à vontade a cada namorisco, a preparar-se para a zona crítica, com o exclusivo de saber onde até onde queria ir com aquilo.

- Gostava de ir voar qualquer dia - anunciou.

Tudo menos voar. Ray pensou no seu jovem marido e na sua morte horrível, e por um momento não conseguiu pensar em nada para dizer. Por fim com um sorriso respondeu:

- Compre um bilhete.

- Não, não, consigo, num aviãozinho. Voar para qualquer lado.

- Algum lugar em especial?

- Apenas dar umas voltas por um momentos. Estou a pensar em aprender.

- Estava a pensar numa coisa mais tradicional. Talvez almoço ou jantar depois de acabar o seu curso. - Ela aproximara-se mais, de modo que quem passasse por eles naquele momento, não teria dúvida de que eles, aluna e professor estavam a discutir uma actividade ilícita.

- Eu acabo o curso dentro de catorze dias - disse ela, como se não pudesse esperar todo esse tempo para saltarem os dois para o saco.

- Então, convido-a para jantar daqui a quinze dias.

- Não, vamos infringir a regra agora, enquanto ainda sou aluna. Vamos jantar antes de eu acabar o curso.

Ele esteve quase a dizer que sim.

- Acho que não. A lei é a lei. Estamos aqui porque a respeitamos.

- Oh, claro. É tão fácil esquecer. Mas marcamos um encontro?

- Não. Vamos marcar um encontro.

Ela lançou-lhe outro sorriso rápido e afastou-se. Ele tentou esforçadamente não admirá-la enquanto se afastava, mas era impossível.

 

A caravana alugada veio de uma empresa de mudanças a norte da cidade, a sessenta dólares por dia. Tentou conseguir uma tarifa de meio dia porque só ia precisar dela por umas horas, mas eram sessenta mesmo. Conduziu-a exactamente durante quatro décimos de um quilómetro e meio e parou no Chaney's Self-Storage, um conjunto extenso de novos rectângulos de blocos de aglomerado de escória rodeado por uma corrente e arame afiado e brilhante. Câmaras de vídeo nos postes de iluminação observavam todos os seus movimentos, enquanto ele arrumava e se encaminhava para o escritório.

Havia muito espaço disponível. Um módulo de dez por dez custava quarenta e oito dólares por mês, sem aquecimento, sem ar, uma porta corrediça e muita iluminação.

- É à prova de incêndio? - perguntou Ray.

- Absolutamente - disse a própria Mrs. Chaney, a soprar para longe o fumo do cigarro que tinha entalado nos lábios, enquanto preenchia impressos. - É tudo bloco de cimento. - Estava tudo em segurança no Chaney's. Possuíam vigilância electrónica, explicou, enquanto abrangia com um gesto de mão quatro monitores numa prateleira à sua esquerda. Numa prateleira para a direita estava uma pequena televisão onde havia pessoas a lutar e a gritar, num estilo de discussão à Springer, que agora era uma rixa. Ray sabia qual a prateleira que recebia mais atenção.

- Guardadas durante vinte e quatro horas - disse ela, continuando a preencher a papelada. - O portão fica sempre fechado. Nunca tivemos um arrombamento, e se isso acontecer temos todo o tipo de segurança. Assine aqui. Catorze B.

Seguro de três milhões de dólares, Ray disse para consigo enquanto escrevinhava o seu nome. Pagou por seis meses em dinheiro e pegou nas chaves do 14 B.

Estava de volta duas horas mais tarde com seis novas caixas de armazenamento, uma pilha de roupa velha e um ou dois paus de mobília sem valor que comprara num mercado de rua, do centro, para dar autenticidade. Estacionou no beco em frente do 14 B e trabalhou depressa para descarregar e armazenar a sua tralha.

O dinheiro estava encafuado em sacos de congelador de quilo e meio, com fecho éclair bem apertado para impedir que o ar e a água entrassem, cinquenta e três ao todo. Os sacos de congelador foram arrumados no fundo das seis caixas de armazenamento, depois cuidadosamente tapadas com papéis e arquivos e notas de investigação que achara úteis até muito recentemente. Agora os seus meticulosos arquivos serviam para um fim mais importante. Uns velhos livros de bolso foram atirados lá para dentro como medida de precaução.

Se, por acaso, um ladrão entrasse no 14 B, iria provavelmente abandoná-lo depois de uma revista superficial às caixas. O dinheiro estava bem escondido e tão protegido quanto possível. À excepção de um cofre-forte num banco, Ray não se lembrava de melhor lugar para ter o dinheiro seguro.

O que iria acontecer em último caso ao dinheiro era um mistério que aumentava de dia para dia. O facto de estar agora escondido em segurança na Virgínia dava-lhe pouco conforto, contrariamente ao que esperara.

Observou as caixas e a outra tralha durante um momento, sem se sentir propriamente ansioso por ir-se embora. Prometeu a si próprio que não ia passar por lá todos os dias, para ver como estavam as coisas, mas mal fez a promessa começou a duvidar dela.

Prendeu a porta de correr com outro cadeado. Quando partiu, o guarda estava acordado, as câmaras a trabalhar e o portão trancado.

Fog Newton estava preocupado com o tempo. Tinha um piloto instruendo a atravessar a região, ida a Lynchburg e volta, e, segundo o radar, as trovoadas estavam a avançar rapidamente. Não se esperavam nuvens e não houve previsão meteorológica durante o briefing do aluno, anterior ao voo.

- Quantas horas tem? - perguntou Ray.

- Trinta e uma - disse Fog com ar sério. Não era experiência suficiente para lidar com tempestades. Não havia aeroportos entre Charlottesville e Lynchburg, apenas montanhas.

- Não vais voar pois não? - perguntou Fog.

- Quero ir.        

- Esquece. Esta tempestade está a fechar-se muito rapidamente. Vamos ver.

Nada assustava mais um instrutor do que um instruento a voar com mau tempo. Cada voo de treino atravessando a região tinha de ser cuidadosamente planeado - rota, tempo, combustível, condições atmosféricas, aeroportos secundários e procedimentos de emergência. E cada voo tinha de ser aprovado, por escrito, pelo instrutor. Fog já uma vez não deixara Ray levantar, porque havia uma ligeira possibilidade de gelo depositado sobre a aeronave a 5000 pés, num dia perfeitamente claro.

Caminharam pelo hangar até à placa de estacionamento onde estava um Lear a estacionar e a desligar os motores. Para oeste, para além da base das montanhas havia a primeira ameaça de nuvens. O vento levantara-se nitidamente.

- Rajadas de 10 a 15 nós - disse Fog. - Um vento cruzado. Ray não queria tentar uma aterragem nessas condições.

Por trás do Lear estava um Bonanza a taxiar para a placa e, quando ele se aproximou, Ray reparou ser aquele que andava a cobiçar nos últimos dois meses.

- Ali está o teu avião - disse Fog.

- Quem me dera - respondeu Ray.

O Bonanza estacionou e parou o motor perto deles, e quando a placa ficou em silêncio Fog acrescentou:

- Ouvi dizer que ele baixou o preço.

- Quanto?

- Qualquer coisa como quatrocentos e vinte e cinco. Quatrocentos e cinquenta era um pouco exagerado.

O dono, que viajava sozinho, arrastou-se para fora e tirou as malas lá de trás. Fog estava a olhar para o céu e para o relógio. Ray não tirava os olhos do Bonanza, enquanto o dono trancava a porta e o deixava em paz.

- Vamos dar uma volta com ele - disse Ray.

- Com o Bonanza!

- Claro. Quanto é o aluguer?

- É negociável. Conheço bem o tipo.

- Vamos alugá-lo por um dia. Vamos a Atlantic City e voltamos. Fog esqueceu as nuvens que se aproximavam e o instruendo novato.

Voltou-se para Ray e perguntou:

- Estás a falar a sério?

- Porque não? Ia ser divertido.

Além de voar e do póquer, Fog poucos mais interesses tinha.

- Quando?

- No sábado. Depois de amanhã. Saímos cedo e voltamos tarde.

Fog ficou, de repente, mergulhado nos seus pensamentos. Olhou para

o relógio e outra vez para oeste. Duck Doker gritou de uma janela:

- O Yankee Tango está a 18 quilómetros de distância. «Graças a Deus», murmurou Fog para consigo e visivelmente descontraído. Ele e Ray encaminharam-se para o Bonanza para verem mais de perto. - Sábado, hã? - disse Fog.

- Certo, todo o dia.

- Vou ter com o dono. Tenho a certeza de que vamos chegar a acordo.

O vento abrandou por um momento, e o Yankee Tango aterrou com pouco esforço. Fog descontraiu-se ainda mais e conseguiu sorrir.

- Não sabia que gostavas de acção - disse enquanto atravessavam a placa.

- Apenas um pouco de black-jack, nada de sério - respondeu Ray.

 

A solidão do final de uma manhã de sexta-feira foi quebrada pela campainha. Ray dormira até tarde ainda a tentar recuperar da fadiga da viagem de regresso. Depois de três jornais e quatro cafés estava quase completamente acordado.

Era uma caixa enviada por Federal Express de Harry Rex, e estava cheia de cartas de admiradores e recortes de jornais. Ray espalhou-os em cima da mesa da casa de jantar e começou pelos artigos. O Clanton Chronicle tinha um artigo de primeira página de quarta-feira que apresentava uma foto digna de Reuben Atlee, de toga preta e martelo de juiz. A fotografia tinha, pelo menos, vinte anos. O cabelo do juiz era mais farto e escuro. O título dizia JUIZ REUBEN ATLEE MORRE AOS 79 ANOS. Havia três artigos na primeira página. Um era uma notícia necrológica floreada. Outro, uma compilação de comentários dos seus amigos. O terceiro era um tributo ao juiz e ao seu espantoso dom da caridade.

O Ford County Times trazia também uma fotografia, tirada apenas alguns anos antes. Nela, o juiz Atlee estava sentado no seu alpendre principal segurando o cachimbo, parecendo muito mais velho, mas com um raro sorriso. Vestia uma casaco de malha e parecia um avô. O repórter conseguira persuadi-lo a uma reportagem, com a artimanha de uma conversa sobre a Guerra Civil e Nathan Bedford Forrest. Havia a sugestão de um livro em preparação, sobre o general e os homens de Ford County que tinham lutado com ele.

Os filhos de Atlee mal eram referidos nas histórias sobre o pai. Referirem-se a um implicava referirem-se a outro, e muita gente de

Clanton queria evitar tocar em Forrest. Era obviamente doloroso que os filhos não fizessem parte da vida do pai.

«Mas podíamos ter feito», disse Ray para consigo. Fora o pai que escolhera muito cedo ter um reduzido envolvimento com os filhos, não fora o contrário. Este velho maravilhoso, que dera tanto a tanta gente, tivera pouco tempo para a família.

Os artigos e as fotografias deixaram-no triste, o que era frustrante porque não planeara estar triste naquela sexta-feira. Tinha-se aguentado muito bem, desde a descoberta do corpo do pai cinco dias antes. Em momentos de desgosto e tristeza, fora buscar ao fundo de si mesmo a força para morder o lábio e avançar sem se deixar abater. A passagem do tempo e a distância de Clanton ajudara-no muito, e agora vindas de nenhures tinham chegado as mais tristes recordações.

As cartas tinham sido trazidas por Harry Rex da caixa postal em Clanton, do tribunal e da caixa de correio de Maple Run. Algumas eram dirigidas a Ray e Forrest e outras à família do juiz Atlee. Havia longas cartas dos advogados que tinham exercido perante o grande homem e se inspiraram na sua paixão pela lei. Havia cartões de condolências de pessoas que, por qualquer razão, tinham ido à presença do juiz Atlee num divórcio, adopção, ou questão juvenil, tendo a sua atitude justa mudado as suas vidas. Havia mensagens de pessoas de todo o estado -juizes em funções, velhos colegas de faculdade, políticos que o juiz Atlee ajudara ao longo dos anos e amigos que queriam apresentar pêsames e dar os seus testemunhos.

A maior quantidade provinha daqueles que tinham beneficiado da caridade do juiz. As cartas eram longas, calorosas e todas semelhantes. O juiz Atlee mandara, discretamente, dinheiro de que necessitavam desesperadamente e, em muitos casos, causara uma alteração drástica na vida de alguém.

Como podia um homem tão generoso morrer com mais de três milhões de dólares escondidos por baixo das prateleiras. Enterrou, com certeza, mais do que o que deu. Talvez a doença de Alzheimer tivesse entrado na sua vida ou outra doença que passara despercebida. Teria resvalado para a loucura? A resposta fácil era que o velhote simplesmente perdera o juízo, mas quantas pessoas loucas conseguiam amealhar aquela quantia de dinheiro?

Depois de ter lido umas vinte cartas e cartões, Ray fez uma pausa. Foi até à varanda que dava para a rua comercial do centro e ficou a olhar os peões lá em baixo. O pai nunca visitara Charlottesville, e embora tivesse a certeza de que lhe pedira para visitá-lo, não se lembrava de um convite específico. Nunca tinham viajado juntos para lado nenhum. Havia tanta coisa que podiam ter feito.

O juiz sempre falara em conhecer Gettysburg, Antietam, Buli Run, Chancellorsville e Appomatox, e tê-lo-ia feito se Ray tivesse mostrado interesse. Mas Ray não estava interessado em reiniciar uma estranha guerra, e mudara sempre de assunto.

A culpa atingiu-o com força e não conseguia afastá-la. Que estúpido egoísta fora.

Havia um cartão encantador de Claudia. Agradecia a Ray ter falado com ela e concedido o seu perdão. Adorara o pai dele durante anos, e o desgosto acompanhá-la-ia até à morte. Por favor telefona-me, pedia, depois despedia-se com beijos e abraços. E, segundo Harry Rex, tinha o namorado actual a Viagra.

A nostálgica viagem a casa terminou abruptamente com um simples cartão anónimo que lhe fez parar o pulso e pôr as barrigas das pernas em pele de galinha.

O único envelope do monte tinha um cartão com as palavras «Sentidos pêsames» por fora. Colado por dentro estava um pequeno quadrado de papel com uma mensagem escrita à máquina que dizia: «Seria um erro gastar o dinheiro. O IRS está apenas à distância de um telefonema.» O envelope tinha o carimbo de Clanton, quarta-feira, o dia a seguir ao funeral, e estava endereçado à família do juiz Atlee em Maple Run.

Ray pô-lo de lado enquanto analisava os outros cartões e cartas. Naquela altura já eram todos iguais e já lera o suficiente. O cor-de-rosa ficou ali como uma arma carregada, à espera que ele lá voltasse.

Repetiu a ameaça na varanda, enquanto se agarrava ao gradeamento e tentava analisar as coisas. Murmurou as palavras na cozinha, enquanto fazia mais café. Deixara o cartão em cima da mesa de forma a poder vê-lo de qualquer sítio do seu refúgio desordenado.

Voltando à varanda, observou o trânsito de peões aumentar à medida que o meio-dia se aproximava, e qualquer pessoa que olhasse para cima podia ser alguém que soubesse do dinheiro. Enterrem uma fortuna, depois apercebam-se de que estão a escondê-la de alguém, e a imaginação pode chegar à loucura.

O dinheiro não lhe pertencia e era, sem dúvida, o suficiente para o fazer esconder-se, ser seguido, observado, denunciado e até agredido.

Riu-se então da sua paranóia. «Não vou viver assim», disse, e foi tomar um duche.

Fosse quem fosse sabia exactamente onde o juiz escondera o dinheiro. Tenho de fazer uma lista, disse Ray para consigo, enquanto se sentava na beira da cama, nu, com a água a pingar no chão. O condenado que cortava a relva uma vez por semana. Talvez tivesse falinhas mansas, se fizesse amigo do juiz e passasse tempo lá em casa. Era fácil entrar. Quando o juiz se escapava para os casinos, talvez o cortador de relva se esgueirasse para dentro de casa e surripiasse.

Claudia estava no topo da lista. Ray imaginava-a facilmente a entrar à vontade em Maple Run, sempre que o juiz se retirava. Não se dorme com uma mulher durante anos cortando-se depois com ela sem ter uma substituta. As suas vidas tinham estado tão ligadas que era fácil imaginar que o seu romance continuava. Ninguém estivera mais perto de Reuben Atlee do que Claudia. Se havia alguém que sabia de onde esse dinheiro tinha vindo esse alguém seria ela.

Se tivesse querido uma chave da casa, podia tê-la, embora não precisasse de chave. A sua visita na manhã do funeral podia ter sido de revista e não de pêsames, embora tivesse representado bem. Dura, esperta, sensata, insensível e velha, mas não demasiado velha. Durante cinco minutos demorou-se a pensar em Claudia e convenceu-se de que era ela que andava atrás do dinheiro.

Dois outros nomes vieram-lhe à cabeça, mas Ray não podia incluí-los na lista. O primeiro era Harry Rex, e mal murmurou o nome sentiu-se envergonhado. O outro era Forrest, mas também esse era uma ideia ridícula. Forrest não entrava naquela casa havia nove anos. Admitindo, apenas por admitir, que ele soubera do dinheiro, por qualquer razão, nunca lá o teria deixado. Se Forrest apanhasse três milhões em dinheiro faria muito mal a si e aos que o rodeavam.

A lista exigiu grande esforço, mas havia poucas conclusões. Queria ir dar uma corrida rápida, mas em vez disso meteu umas roupas velhas em duas fronhas e foi ao Channey's, onde as descarregou no 14 B. Não tinham tocado em nada, as caixas estavam exactamente onde as tinha deixado. O dinheiro lá estava, bem escondido. Enquanto se atardava por ali, sem querer ir-se embora até ao último segundo, foi assaltado pela ideia de poder estar a deixar um rasto. Era óbvio que alguém sabia que ele o tirara do escritório do juiz. Por um montante daqueles podiam até contratar detectives particulares para seguirem Ray.

Podiam segui-lo de Clanton a Charlottesville, do seu apartamento até ao Channey's Self-Storage.

Amaldiçoou-se por ser tão negligente. Pensa, homem! O dinheiro não te pertence!

Fechou à chave, tão bem quanto possível, o 14B. Enquanto atravessava a cidade de carro, para ir almoçar com Carl, olhava pelos espelhos e observava outros condutores, e, ao fim de cinco minutos daquilo, riu-se de si próprio e jurou que não iria viver como um animal ferido.

Eles que fiquem com a porcaria do dinheiro! Menos uma coisa com que preocupar-me. Que arrombassem o 14B e o assaltassem. Isso não iria afectar a sua vida. Não iria mesmo.

 

O tempo estimado de voo para Atlantic City era de oitenta e cinco minutos no Bonanza, exactamente trinta e cinco minutos mais rápido do que o Cessna que Ray costumava alugar. No domingo, de manhã cedo, ele e Fog fizeram uma cuidadosa inspecção prévia sob a supervisão intrometida e por vezes disparatada de Dick Docker e Charlie Yates, que andavam em redor do Bonanza com as suas canecas de mau café, como se fossem voar em vez de ficarem apenas a ver. Não tinham instruendos naquela manhã, mas o mexerico que corria no aeroporto era que Ray ia comprar o Bonanza e que eles tinham de verificar pessoalmente as coisas. Os mexericos de hangar são como os boatos de mesa de café.

- Quanto é que ele quer agora? - perguntou Docker dirigindo-se a Fog Newton que estava acocorado por baixo da asa a esvaziar o colector de combustível, à procura de água e sujidade nos depósitos.

- Baixou para quatrocentos e dez - disse Fog, com ar de importância, porque era ele que estava encarregado deste voo, não eles.

- Ainda é muito - respondeu Yates.

- Vais fazer uma oferta? - perguntou Docker a Ray.

- Mete-te na tua vida-ripostou Ray sem olhar. Estava a verificar o óleo do motor.

- Esta é a nossa vida - disse Yates, e riram-se todos.

Apesar da ajuda que não fora pedida, a inspecção prévia ficou concluída sem problema. Fog trepou primeiro lá para dentro e apertou o cinto do assento do lado esquerdo. Ray seguiu-o para o direito e, quando fechou a porta com força, a trancou e pôs os auriculares, soube que encontrara a máquina voadora perfeita. O motor de duzentos cavalos arrancou suavemente. Fog verificou lentamente os níveis, os instrumentos e os rádios, e quando terminaram a lista de procedimentos antes do voo, chamou a torre. Ia levantar e depois entregava-o a Ray.

O vento estava suave e as nuvens altas e esparsas, um dia quase perfeito para voar. Levantaram da pista a 130 quilómetros à hora, recolheram o trem de aterragem e subiram 800 pés por minuto até chegarem à altitude de cruzeiro que lhes competia, de 6000 pés. Nessa altura, Ray tinha os comandos e Fog ia a explicar o piloto automático, o radar de tempo, o sistema de prevenção de colisões de tráfego.

- Está recheado! - disse Fog mais de uma vez.

Fog voara em caças da Marinha, profissionalmente, mas nos últimos dez anos fora relegado para os pequenos Cessna em que ensinara Ray e mais outros mil a voar. O Bonanza era o Porsche monomotor, e Fog estava deliciado por ter oportunidade de pilotar um. A rota indicada pela torre de comando levou-os exactamente para sul e leste de Washington, para fora do espaço aéreo apinhado em redor de Dulles e Reagan National. A 55 quilómetros de distância e mais dois de altura, poderiam ver a cúpula do Capitólio, depois estariam por cima do Chesapeake com a silhueta dos edifícios de Baltimore à distância. A baía era linda, mas o interior do avião era mais interessante. Ray estava a pilotar sem auxílio do piloto automático. Manteve a rota, à altitude prevista, falou com a torre de controlo de Washington e ouvia a tagarelice contínua de Fog sobre os níveis de desempenho e as características do Bonanza.

Os dois pilotos queriam que o voo durasse horas, mas Atlantic City era pouco mais adiante. Ray desceu a 4000 pés, depois a 3000 e a seguir mudaram para a frequência de aproximação. Com a pista à vista, Fog assumiu os comandos e deslizou para uma aterragem suave. A taxiar para a placa de estacionamento passaram por duas filas de pequenos Cessna, e Ray não pôde deixar de pensar para si mesmo que esse tempo já lá ia. Os pilotos andavam sempre à procura de novos aviões, e Ray já encontrara o seu.

O Casino preferido de Fog era o Rio, na plataforma de tábuas, como os outros. Combinaram encontrar-se para almoçar no segundo andar de uma cafetaria, e afastaram-se rapidamente um do outro. Cada um deles queria jogar em particular. Ray vagueou por entre as máquinas de moedas e avistou as mesas. Era sábado e o Rio estava muito frequentado. Deu a volta e parou nas mesas de póquer. Fog estava no meio de uma multidão à volta de uma mesa, perdido nas suas cartas e com um monte de fichas nas mãos.

Ray tinha cinco mil dólares no bolso - cinquenta das notas de cem que tirara ao acaso do monte escondido que arrastara desde Clanton. O seu único objectivo naquele dia era deixar dinheiro nos casinos, ao longo da plataforma de madeira, e certificar-se de que não era falso, não estava marcado, nem era detectável de maneira alguma. Depois da sua visita a Túnica na noite de segunda-feira, estava bastante seguro de que o dinheiro era verdadeiro.

Agora, quase esperava que estivesse marcado. Se assim fosse, talvez o FBI o detectasse e lhe dissesse de onde viera o dinheiro. Ele não fizera nada de errado. A parte culpada tinha morrido. Que viessem os agentes federais.

Encontrou uma cadeira vaga na mesa de black-jack e pôs na mesa cinco notas para as fichas.

- Verdes - disse como um veterano.

- Trocar quinhentos - disse o croupier, mal levantando os olhos.

- Troca - foi a resposta do chefe de sala. As mesas estavam animadas. As máquinas de moedas tilintavam lá atrás. Um jogo de dados, lá ao fundo, estava ao rubro, com os homens a gritarem para os dados.

O croupier pegou nas notas e deteve-se um momento. Os outros jogadores olharam com uma admiração desinteressada. Estavam todos a jogar fichas de cinco e de dez dólares. Amadores.

O croupier meteu as notas do juiz, todas válidas, na caixa do dinheiro e contou vinte fichas verdes de vinte e cinco dólares para Ray, que perdeu metade delas nos primeiros quinze minutos e saiu para ir buscar um gelado. Perdera duzentos e cinquenta, e não estava minimamente preocupado.

Aventurou-se junto das mesas de dados e observou a confusão. Não podia imaginar o pai a dominar um jogo tão complicado. Onde é que alguém aprendia a jogar dados em Ford County, Mississipi?

Segundo um pequeno guia de jogo que apanhara numa livraria, uma aposta básica é aposta segura, e quando ganhou coragem abriu caminho por entre dois outros jogadores e colocou as dez fichas restantes na linha de apostas. Os dados rolaram e marcaram doze, o dinheiro foi arrastado pelo croupier e Ray saiu do Rio para ir visitar o Princess, mesmo ao lado.

Por dentro, os casinos eram todos iguais. Velhotes a olharem com ar desamparado para as máquinas de moedas. Moedas a tilintar nos tabuleiros, apenas as suficientes para os manter presos. Mesas de black-jack, cheias de jogadores subjugados a beberem cerveja e whisky gratuitos. Jogadores a sério amontoados em redor das mesas a gritarem para os dados. Alguns asiáticos a jogarem na roleta. Empregadas de bar com trajes ridículos a mostrarem a pele e a servirem bebidas.

Escolheu uma mesa de black-jack e repetiu o processo. As cinco notas seguintes passaram na inspecção do croupier. Ray apostou cem dólares na primeira jogada, mas, em vez de perder rapidamente o dinheiro, começou a ganhar.

Tinha demasiado dinheiro por testar no bolso para perder tempo a acumular fichas, por isso, quando duplicou o dinheiro, tirou mais dez notas e pediu fichas de cem dólares. O croupier informou o chefe de sala, que fez um sorriso rasgado e disse «Boa sorte». Uma hora depois levantou-se da mesa com vinte e duas fichas.

O próximo da sua volta era o Fórum, um local antiquado, com um cheiro a tabaco velho, parcialmente mascarado com desinfectante barato. A frequência também era velha, porque, como depressa percebeu, a especialidade do Fórum eram máquinas de vinte e cinco cêntimos, e as que eram de mais de sessenta e cinco davam direito a pequeno-al-moço, almoço ou jantar grátis, à escolha. As empregadas de bar iam já além dos quarenta e tinham desistido da ideia de mostrar a carne. Andavam apressadamente por ali com o que parecia serem fatos de treino com ténis a condizer.

O limite do black-jack era de dez dólares a jogada. O croupier hesitou quando viu o dinheiro de Ray cair na mesa, e levou a primeira nota à luz como se tivesse descoberto por fim um falsificador. O chefe de sala inspeccionou-a também, e Ray ia ensaiando as frases sobre ter obtido aquela nota ali na rua, no Rio.

«Troca-a», mandou o chefe de sala, e o momento passou. Perdeu trezentos dólares numa hora.        

 

Fog afirmou que estava a arruinar o casino, quando se encontraram para comer uma sanduíche. Ray tinha menos de cem dólares, mas, como todos os jogadores, mentiu e disse que tinha um bocadinho mais. Concordaram em partir às cinco horas de regresso a Charlottesville.

O último dinheiro de Ray foi trocado por fichas numa mesa de cinquenta dólares no Canyon Casino, o mais moderno daquela plataforma de madeira. Jogou durante algum tempo, mas depressa se cansou e foi até ao bar de desportos, onde bebeu uma gasosa e ficou a ver o pugilismo em Las Vegas. Os cinco mil dólares que trouxera para Atlantic City tinham sido cuidadosamente passados pelo sistema. Iria sair com quatro mil e setecentos e um enorme rasto. Fora filmado e fotografado em sete casinos. E em dois tivera de preencher papelada quando trocara as fichas por dinheiro no balcão do caixa. Noutros dois tinha usado os cartões de crédito para fazer pequenos levantamentos, apenas para deixar mais provas.

Se o dinheiro do juiz fosse detectável, saberiam quem ele era e onde encontrá-lo.

Fog ia calado enquanto se dirigiam para o aeroporto. A sua sorte virara para sul durante a tarde.

- Perdi uns duzentos - acabou por confessar, mas o seu abatimento dizia que perdera muito mais.

- E tu? - perguntou.

- Eu tive uma boa tarde. Ganhei o suficiente para pagar o aluguer do avião.

- Não foi mau.

- Não creio que pudesse pagá-lo em dinheiro, ou podia?

-O dinheiro ainda é legal-disse Fog, empertigando-se um pouco. Durante os procedimentos que precedem o voo, Fog perguntou se Ray queria ir no assento esquerdo.

- Chamemos-lhe uma lição - disse. A perspectiva de uma transacção em dinheiro levantou-lhe o moral.

Atrás de dois voos de ligação, Ray taxiou o Bonanza, colocou-o em posição e esperou que o tráfego abrandasse. Sob o olhar atento de Fog, começou a rolar para a descolagem, acelerou até aos 130 quilómetros por hora e depois descolou suavemente. O motor turbo parecia duas vezes mais potente do que o do Cessna. Subiram sem dificuldade para os 7500 pés e, em breve, estavam no topo do mundo.

 

Dick Docker estava a dormitar no Cockpit quando Ray e Fog entraram para entregarem a caderneta de bordo e devolverem os auriculares. Pôs-se em sentido num salto e encaminhou-se para o balcão.

- Não os esperava tão cedo - murmurou, semiadormecido, enquanto tirava a papelada de uma gaveta.

- Ele arruinou o casino - disse Ray.

Fog metera-se no escritório da escola de pilotagem.

- Tcchh, nunca ouvi uma dessas. Ray ia folheando a caderneta de voo.

- Pagas agora? - perguntou Dick, a escrevinhar números.

- E quero um desconto por pagamento em dinheiro.

- Não sabia que tínhamos esse.

- Sabes, sabes, são dez por cento.

- Podemos fazê-lo. Sim, é o velho desconto de pronto pagamento. - Pensou novamente e disse: - Ao todo são mil trezentos e vinte dólares.

Ray estava a contar o dinheiro do seu maço de notas.

- Não tenho vinte. Aqui tens trinta. Enquanto Dick estava a conferir o dinheiro disse:

- Esteve cá um tipo hoje, a meter o bedelho. Disse que queria lições e, não sei como, falou no teu nome.

- Quem era ele?

- Nunca o tinha visto.

- Porque referiu o meu nome?

- Foi um bocado esquisito. Eu estava a dar-lhe a lista de preços e assim e, sem mais nem menos, perguntou se tinhas um avião. Disse que te conhecia não sei de onde.

Ray tinha as duas mãos pousadas no balcão.          

- Soubeste o nome dele?

- Perguntei. Dolph qualquer coisa, não foi muito claro. Começou a agir de uma maneira suspeita e acabou por ir-se embora. Fiquei a vê-lo. Parou junto do teu carro, no estacionamento, andou à volta dele, como se quissesse assaltá-lo e depois foi-se. Conheces algum Dolph?

- Nunca conheci nenhum Dolph.

- Eu também não. Nunca ouvi falar em nenhum Dolph. Como te disse, foi esquisito.

- Qual era o aspecto dele?

-Cinquentão, pequeno, magro, o cabelo grisalho, liso e brilhante, penteado para trás, olhos escuros como um grego ou coisa assim, do tipo vendedor de automóveis e botas de biqueira pontiaguda.

Ray abanava a cabeça. Nem um pista.

- Porque não lhe deste um tiro? - perguntou Ray.

- Pensei que era um cliente.

- Desde quando és simpático para os clientes?

- Vais comprar o Bonanzal

- Nná. Estou só a sonhar.

Fog voltou e felicitaram-se pela bela viagem prometendo repetir, como de costume. Enquanto conduzia de regresso, Ray ia observando cada carro e cada movimento.                         .

Andavam a segui-lo.

 

Passou-se uma semana, uma semana em que nem o FBI nem os inspectores de Finanças lhe bateram à porta, mostrando o distintivo e fazendo perguntas sobre o dinheiro apanhado em Atlantic City, uma semana sem sinais de Dolph ou de qualquer outra pessoa a segui-lo, uma semana da rotina normal de uma corrida de oito quilómetros de manhã e das aulas de Direito depois disso.

Tinha voado no Bonanza três vezes, cada lição com Fog à sua direita, e cada lição paga a pronto e em dinheiro.

«Dinheiro de jogo», dizia ele com um sorriso, e não era mentira. Fog estava ansioso por voltar a Atlantic City e recuperar o que perdera. Ray não tinha interesse nenhum, mas não era má ideia. Podia gabar-se de outro dia bom nas mesas de jogo e continuar a pagar em dinheiro as suas lições de pilotagem.

O dinheiro estava agora no 37F - o 14B estava também alugado a Ray Atlee, e ainda tinha roupas velhas e mobília barata; o 37F estava alugado a NDY Ventures, assim chamado em honra dos três instrutores da Docker's. O nome de Ray não constava em parte nenhuma da papelada do 37F. Alugara-o por três meses, com pagamento em dinheiro.

- Quero isto confidencial - dissera a Mrs. Chaney.

- Aqui é tudo confidencial. Temos de tudo - disse ela com um olhar cúmplice como se quisesse dizer «Não me interessa o que está a esconder. Pague-me e pronto».

Levara para lá uma caixa de cada vez, arrastando-a penosamente à noite, a coberto da escuridão, com um segurança a observar de longe.

O espaço de armazenamento 37F era idêntico ao 14B, e quando as seis caixas ficaram arrumadas em segurança jurou novamente deixá-las em paz e não passar por lá todos os dias. Nunca pensara que andar a arrastar três milhões de dólares pudesse ser um trabalho tão pesado.

Harry Rex não telefonara. Mandara outra embalagem por serviço de entregas com mais umas quantas cartas de condolências. Ray sentiu-se na obrigação de lê-las todas ou, pelo menos, lê-las em diagonal para o caso de haver uma segunda carta misteriosa. Não havia.

Os exames começaram e acabaram, e depois dos exames de finalistas a faculdade ficava em silêncio durante o Verão. Ray despediu-se dos seus alunos, de todos menos de Kaley, que, depois do último exame, informou Ray ter decidido ficar em Charlottesville durante o Verão. Voltou a pressioná-lo para um encontro qualquer antes de terminar o curso. Só pelo divertimento.

- Estamos à espera que deixes de ser aluna - disse Ray, contendo-se para resistir. Estavam no seu gabinete com a porta aberta.

- Isso é daqui a uns dias - insistiu ela.

- Pois é.

- Então vamos escolher a data.

- Não. Primeiro a licenciatura, depois marcamos uma data.

Deixou-o com o mesmo sorriso e olhar prolongado e Ray percebeu que ela ia dar problemas. Cari Mirk deu com ele a segui-la, pelo átrio, com o olhar, enquanto se afastava àejeans muito justos e disse:

- Nada má.

Ray ficou um pouco atrapalhado, mas continuou a olhar.

- Anda atrás de mim - disse.                                                  

- Não és o único. Tem cuidado.

Estavam os dois de pé no corredor junto à porta do gabinete de Ray. Carl estendeu-lhe um envelope esquisito e acrescentou:

- Pensei que poderias divertir-te com isto.

- O que é?            

- É um convite para o Baile do Busardo.                

- O quê? - Ray estava a tirar o convite do envelope.

-- O primeiro Baile do Busardo e talvez o último. É uma gala em benefício da vida das aves no Piedmont. Olha para os anfitriões.

Ray leu lentamente:

- Vicki e Lew Rodowski convidam-no cordialmente...

- O Liquidatário anda agora a salvar as nossas aves. Comovente, não é ?

- Cinco mil dólares por casal!

- Acho que é um recorde para Charlottesville. Foi enviado ao reitor. Ele está na lista A, nós não. Até a mulher dele ficou chocada com o preço.

- A Suzie é à prova de choque, não é?

- Ou pensávamos que era. Querem duzentos casais. Vão angariar cerca de um milhão e mostrar a toda a gente como fazer as coisas. É esse o plano. A Suzie diz que estão com sorte se conseguirem trinta casais.

- Ela não vai?

- Não, e o reitor ficou muito aliviado. Acha que é o primeiro bailarico de cerimónia a que faltam nos últimos dez anos.

- Abrilhantado pelos Drifters? - disse Ray, enquanto analisava o resto do convite.

- Isso vai custar-lhe uns cinquenta mil.

- Que parvo.

- É assim Charlottesville. Um palhaço qualquer berra lá de Wall Street, arranja uma mulher nova, compra uma grande quinta com cavalos, começa a atirar dinheiro pela janela e arma-se em mandão numa pequena cidade.                                                                      

- Bem, eu não vou.                                                            

- Não foste convidado. Guarda-o.

Carl foi-se embora, e Ray voltou para a sua secretária, de convite na mão. Pôs os pés em cima da secretária, fechou os olhos e começou a sonhar acordado. Estava mesmo a ver Kaley de provocante vestido preto sem costas, de rachas até acima das coxas, grande decote em V, garganta linda de morrer, treze anos mais nova do que Vicki, muito mais elegante, a rebolar-se e a agitar-se ao som dos ritmos Motown dos Drifters, enquanto toda a gente olhava e perguntava «Quem diabo é aquela?».

E, como resposta, Vicki ver-se-ia obrigada a arrastar o velho Lew para a pista de dança, Lew de smoking de costureiro, que não conseguia esconder-lhe a barriguinha saliente; Lew, com fios de cabelo grisalho acima das orelhas; Lew, o velho bode a tentar comprar respeito poupando aves; Lew, com as costas com artrite e pés lentos que se movem como um camião de lixo; Lew, orgulhoso da sua mulher-troféu com o seu vestido de um milhão de dólares, que revela demasiado dos seus ossos magnificamente escanzelados.

Ray e Kaley pareceriam muito melhor, dançariam muito melhor mas, e então, o que é que tudo isso provaria?

Uma bela cena para imaginar, mas era de desistir. Agora que tinha dinheiro não ia desperdiçá-lo num disparate assim.

A viagem de carro para Washington era apenas de duas horas, e mais de metade era bastante bonita e agradável. Mas o seu método preferido de viajar mudara. Ele e Fog levaram o Bonanza em trinta e oito minutos até Reagan National, onde lhes foi relutantemente permitido aterrar, apesar de terem uma vaga previamente aprovada. Ray saltou para um táxi, e quinze minutos depois estava no Ministério das Finanças na Pennsylvania Avenue.

Um colega da Faculdade de Direito tinha um cunhado com certa influência no Ministério do Tesouro. Tinham sido feitos telefonemas, e Mr. Oliver Talbert recebeu o professor Atlee, no seu gabinete, bastante confortável, no DGI, Departamento de Gravura e Impressão. O professor estava a fazer investigação num projecto vagamente definido e precisava de menos de uma hora do tempo de alguém. Talbert não era o cunhado, mas tinham-lhe pedido que tomasse o seu lugar.

Começaram com o tema da falsificação, e, em traços largos, Talbert explicou os problemas correntes, quase todos tinham a ver com a tecnologia - basicamente, as impressoras de jacto de tinta e a moeda falsificada feita em computador. Tinha amostras de algumas das melhores imitações. Com uma lente apontou as imperfeições - a falta de pormenor na testa de Ben Franklin, a teia de linhas cruzadas que atravessavam o desenho de fundo, a tinta a escorrer nos números de série.

- Este é bom material. E os falsificadores estão a melhorar cada vez mais.

- Onde é que encontrou esta? - perguntou Ray, embora a pergunta fosse completamente irrelevante. Talbert olhou para a etiqueta que estava no verso do mostruário.

- No México - disse, e nada mais.

Para ultrapassar os falsificadores, o Ministério do Tesouro estava a investir muito na sua tecnologia. Impressoras que dão às notas um efeito quase holográfico, marcas de água, tintas que mudam de cor, desenhos impressos de linhas finas, retratos aumentados e descentrados e scanners que conseguem detectar uma falsificação em menos de um segundo. O método mais eficiente até então era um que ainda não tinha sido usado. Mudar simplesmente a cor do dinheiro. Ir do verde ao azul ao amarelo e depois ao rosa. Recolher as velhas e inundar os bancos com as novas, e os falsificadores não conseguiriam acompanhar, pelo menos na opinião de Talbert. - Mas o Congresso não vai permitir - disse abanando a cabeça.

Detectar o dinheiro verdadeiro era a principal preocupação de Ray e a certa altura chegaram lá. O dinheiro não está de facto marcado, por razões óbvias. Se o burlão pudesse olhar para as notas e ver marcas, então a armadilha destruir-se-ia. Marcar significava apenas registar números de série, outrora uma tarefa muito maçadora, por ser feita manualmente. Contou uma história de rapto e resgate. O dinheiro chegou apenas minutos antes de ser planeada a entrega. Duas dúzias de agentes do FBI trabalharam furiosamente para tomarem nota dos números de série das notas de cem dólares. - O resgate era de um milhão de dólares e acabou-se-lhes simplesmente o tempo - contou. -Conseguiram registar cerca de oitenta mil, mas foi o suficiente. Apanharam os raptores um mês depois com algumas das notas marcadas e isso desmascarou-os.

Mas um novo scanner tornara o trabalho muito mais fácil. Fotografa dez notas ao mesmo tempo, cem em quarenta segundos.

- Depois de registarem os números de série, como descobrem o dinheiro?-perguntou Ray tomando notas num bloco amarelo de advogado. Talbert estaria à espera de outra coisa?

- De duas maneiras. Primeiro, se apanhamos o burlão com o dinheiro, juntamos simplesmente dois e dois e prendemo-lo. É assim que o DEA e o FBI apanham os traficantes de droga. Apanham um traficante de rua, fazem um acordo com ele, dão-lhe vinte mil em notas marcadas para comprar coca ao seu fornecedor, e depois apanha-se o peixe graúdo com o dinheiro do Estado.

- E se não apanham o patife? - insistiu Ray, não podendo, ao fazê-lo, deixar de pensar no seu falecido pai.

- Essa é a segunda maneira, e é muito mais difícil. Uma vez o dinheiro retirado de circulação pela Reserva Federal, uma amostra dele é regularmente passada pelo scanner. Se encontrarem uma nota marcada, pode ser localizada recuando até ao banco que a entregou. Mas nessa altura é tarde de mais. Por vezes, uma pessoa com dinheiro marcado utiliza-o num local comum durante um certo período de tempo, e apanhámos alguns patifes assim.

- Parece muito demorado.

- É verdade - concordou Talbert.

- Li uma história, há alguns anos, sobre caçadores de patos que deram com um avião acidentado, um dos pequenos - disse Ray com naturalidade. A história tinha sido ensaiada. - Havia dinheiro a bordo, parece que era quase um milhão de dólares. Calcularam que era dinheiro de droga e ficaram com ele. Acontece que tinham razão, o dinheiro estava marcado e em breve começaria a aparecer na sua pequena cidade.

- Acho que me lembro disso - concordou Talbert. Eu devo ser bom, pensou Ray.

- A minha pergunta é: podiam eles ou podia qualquer outra pessoa que encontra dinheiro apresentá-lo simplesmente ao FBI, ao DEA ou ao Tesouro para ser passado no scanner e ver se estava marcado, e, se estava, de onde provinha?

Talbert coçou o queixo com o dedo ossudo e pensou na pergunta, depois encolheu os ombros e respondeu:

- Não vejo porque não poderiam? Porém o problema é óbvio. Podiam correr o risco de ficar sem o dinheiro.

- Tenha a certeza de que não é um caso comum - disse Ray, e riram-se os dois.

Talbert tinha uma história sobre um juiz de Chicago que andava a extorquir aos advogados pequenas quantias, quinhentos ou mil dólares por cada tiro, para retirar processos da agenda e para decisões amigáveis. Fez isso durante cinco anos até o FBI ter uma dica. Apertaram alguns dos advogados e convenceram-nos a alinhar. Foram tirados os números de série das notas e, numa operação que durou três anos, foram passados por baixo da secretária, para as mãos pegajosas do juiz, trezentos e cinquenta mil. Quando se fez a rusga, o dinheiro tinha desaparecido. Alguém avisou o juiz. O FBI acabou por encontrar o dinheiro na garagem do irmão do juiz no Arizona, e foram todos presos.

Ray deu consigo a remexer-se. Seria coincidência ou estaria Talbert a tentar dizer-lhe alguma coisa? Mas à medida que a narrativa avançava descontraiu-se e tentou apreciá-la, apesar de estar tão próxima. Talbert não sabia nada sobre o pai de Ray.

Num táxi, de regresso ao aeroporto, Ray fez as contas no seu bloco de advogado. Para um juiz como o de Chicago, levaria dezoito anos, a roubar a uma média de cento e setenta e cinco mil por ano, a acumular três milhões. E isso era Chicago, com centenas de tribunais e milhares de advogados ricos a tratarem de casos que valiam muito mais do que os do Mississipi. O sistema judicial ali era uma área onde as coisas podiam escapar, onde se podia fechar os olhos e deixar andar. No mundo do juiz Atlee, meia dúzia de pessoas faziam tudo, e, se fosse oferecido ou tirado dinheiro, toda a gente o saberia. Três milhões de dólares não podiam ser tirados do 25º Chancery District, porque, para começar, nem essa quantia existia no sistema.

Decidiu que era necessária mais uma viagem a Atlantic City. Iria levar ainda mais dinheiro e espalhá-lo na engrenagem. Um teste final. Tinha de ter a certeza de que o dinheiro do juiz não estava marcado.

Fog ia ficar radiante.

 

Quando Vicki fugiu e foi viver com o Liquidatário, um amigo do professor recomendou-lhe Axel Sullivan como especialista em divórcios. Axel mostrou-se um bom advogado, mas pouco pôde fazer no aspecto legal. Vicki partira, não ia voltar, e não queria nada de Ray. Axel organizou a papelada, recomendou um bom psiquiatra e fez um bom trabalho para ajudar Ray a ultrapassar a provação. Segundo Axel, o melhor detective da cidade era Corey Crawford, um ex-polícia negro, reformado antecipadamente, por um espancamento.

O escritório de Crawford era por cima de um bar do irmão, perto do campus universitário. Era um belo bar, com ementa e janelas sem pintura, música ao vivo nos fins-de-semana, sem qualquer tráfico inconveniente a não ser o do corretor de apostas que trabalhava com a malta da faculdade. Mas, mesmo assim, Ray estacionou a três quarteirões de distância. Não queria ser visto a entrar no edifício. Uma tabuleta que dizia INVESTIGAÇÕES CRAWFORD apontava para as escadas de um dos lados do edifício.

Não havia secretária, ou pelo menos não estava lá. Chegou dez minutos mais cedo, mas Crawford estava à espera. Tinha trinta e muitos, a cabeça rapada e uma cara bem-parecida, mas sem nenhum sorriso. Era alto e magro e a roupa cara assentava-lhe bem. Tinha uma grande pistola presa à cintura, num coldre de cabedal preto.

- Acho que ando a ser seguido - começou por dizer Ray.

- Não é um divórcio? - estavam frente a frente, sentados a uma pequena mesa no pequeno escritório que dava para a rua.

- Não.

- Quem quereria segui-lo?

Ele tinha ensaiado uma história sobre problemas de família no Mississipi, um pai falecido, umas heranças que podem ou não concretizar-se, parentes invejosos, uma história vaga que Crawford não pareceu engolir. Antes que pudesse fazer perguntas, Ray contou-lhe o caso de Dolph, no aeroporto, e deu-lhe a descrição dele.

- Parece-me ser Rusty Wattle - disse Crawford.

- Quem é esse?

- Um detective de Richmond, não é grande coisa. Faz alguns trabalhos por aqui. Baseado no que me disse, não me parece que a sua família fosse contratar alguém de Charlottesville. É uma pequena cidade.

O nome de Rusty Wattle foi devidamente registado e trancado para sempre na memória de Ray.

- Haverá possibilidade de esses tipos maus do Mississipi quererem que saiba que está a ser seguido? - perguntou Crawford.

Ray parecia completamente desconcertado, por isso Crawford continuou.

- Às vezes somos contratados para intimidar, para assustar. Parece que o Wattle ou lá quem seja queria que os seus amigos do aeroporto lhe fizessem uma boa descrição. Talvez tenha deixado um rasto.

- Acho que é possível.

- Que quer que eu faça?

- Que descubra se anda alguém a seguir-me. Se anda, quem é, e quem lhe paga para isso.

- As duas primeiras podem ser fáceis. A terceira pode ser impossível.

- Vamos tentar.

Crawford abriu um dossiêr fino.

- Levo cem dólares à hora - disse a olhar Ray nos olhos, à procura de indecisão. - Mais despesas e um sinal de dois mil.

- Prefiro o negócio em dinheiro - disse Ray devolvendo-lhe o olhar. - Se for aceitável.

Houve o primeiro esboço de um sorriso.

- Na minha actividade, o dinheiro é sempre preferível. Crawford preencheu alguns espaços em branco num contrato.

- Irão pôr o meu telefone em escuta e coisas do género? - perguntou Ray.

- Vamos investigar tudo. Arranje outro telemóvel, digital, e não o registe no seu nome. A maior parte dos nossos contactos vai ser por telemóvel.

- Que surpresa - murmurou Ray, pegando no contrato, analisando-o e assinando-o.

Crawford voltou a metê-lo no dossier e regressou ao bloco de notas.

- Na primeira semana, vamos coordenar os seus movimentos. Tudo será planeado. Siga a sua rotina normal, apenas tem de comunicar-nos para podermos ter as pessoas em campo.

Vou ter um engarrafamento atrás de mim, pensou Ray.

- É uma vida muito monótona - disse. - Faço jogging, vou trabalhar, às vezes vou pilotar um avião, sozinho, não tenho família.

- Outros locais?

- Às vezes faço almoço, jantar, não sou homem de pequeno-almoço.

- Está a dar-me música - disse Crawford, quase sorrindo. - Mulheres?

- Quem me dera. Talvez uma hipótese ou duas, nada sério. Se encontrar alguma, dê-lhe o meu nome.

- Esses mauzões do Mississipi andam à procura de alguma coisa. O que é?

- É uma família antiga com uma quantidade de tralha que passou de geração em geração. Jóias, livros raros, cristais, pratas.

Deu um tom natural, e desta vez Crawford engoliu.

- Bom, já estamos a chegar a algum lado. Tem alguns bens da herança de família?                                                                  

- Tenho.

- Está aqui?

- Encafuado no Chaney's Self-Storage, em Berkshire Road.

- Quanto vale?

- Nem de perto o que os meus parentes julgam.

- Atire um número.

- Meio milhão, já por cima.

- E tem direito legítimo a isso?

- Digamos que a resposta é sim. Senão, teria de contar-lhe a história da família, que podia levar as próximas oito horas e ficávamos os dois com uma enxaqueca.

- Muito bem.

- Crawford terminou um longo parágrafo e estava pronto para arrumar as coisas.

- Quando é que pode ter o telemóvel?

- Vou tratar disso agora.

- Óptimo. E quando podemos inspeccionar o seu apartamento.

- A qualquer momento.

Três horas depois, Crawford e um companheiro a quem chamava Booty acabaram aquilo a que se chamava uma revista geral. Os telefones de Ray não estavam com escutas. Os ventiladores não escondiam câmaras ocultas. No sótão atafulhado não encontraram microfones nem monitores escondidos atrás das caixas.

- Está limpo - informou Crawford, quando saiu.

Não se sentia muito limpo quando se sentou na varanda. Abrimos a vida a estranhos, embora escolhidos e pagos por nós, e sentimo-nos comprometidos.

O telefone estava a tocar.

 

Forrest parecia sóbrio - voz forte, palavras claras. Quando disse «Olá, mano», Ray escutou para ver em que estado ele estava. Agora era instintivo, ao fim de anos de telefonemas a todas as horas, de todos os lados, de muitos dos quais Forrest nunca se lembrava. Disse que estava bem, o que queria dizer estar sóbrio e limpo, sem bebida nem drogas, mas não disse há quanto tempo. Ray não queria perguntar.

Antes que algum deles mencionasse o juiz, o testamento, a casa, Harry Rex, Forrest explodiu:

- Tenho um novo negócio.

-Conta lá - disse Ray recostando-se na cadeira reclinável. A voz, do outro lado, estava cheia de entusiasmo. Ray tinha muito tempo para ouvir.

- Já ouviste falar do Benalatofix ?

- Não.

- Nem eu. O nome por que é conhecida é Skinny Ben. Diz-te alguma coisa?                    

- Não, desculpa.

- É um comprimido para emagrecer, lançado por uma empresa chamada Luray Products, da Califórnia, uma grande organização privada de que nunca ninguém ouviu falar. Nos últimos cinco anos, os médicos têm andado a receitar os Skinny Ben como loucos, porque o medicamento funciona. Não é para a mulher que quer perder nove quilos, mas faz maravilhas a favor dos verdadeiros obesos, falando de financiadores e objectivos justificados. Está?

- Sim, estou a ouvir.

- O sarilho é que, após um ano ou dois, as pobres mulheres ficam com problemas nas válvulas cardíacas. Dezenas de milhares delas receberam tratamento, e a Luray está a ser processada que é um disparate, na Califórnia e na Florida. A Food and Drug entrou nisto há oito meses, e a Luray retirou os Skinny Ben do mercado.

- Onde é que queres chegar, exactamente, Forrest?

- Agora sou especialista em rastreio médico.

- E o que faz um especialista em rastreio médico?

- Obrigado por perguntares. Hoje, por exemplo, estive numa suite de hotel em Dyersburg, Tennessee, a ajudar essas gorduchas a andarem num tapete rolante. O médico, pago pelos advogados que me pagam, analisa-lhes a capacidade cardíaca e, se elas não estiverem em boa forma, adivinha o que acontece?                                          

- Tens um novo cliente.            

- Exactamente. Hoje arranjei quarenta.

- Quanto é que rende um caso em média?                     ;

- Cerca de dez mil dólares. Os advogados com quem estou agora a trabalhar têm oitocentos casos. São oito milhões de dólares, os advogados recebem metade, as mulheres são novamente lixadas. Bem-vindo ao mundo dos processos em massa por responsabilidade civil.

- E tu, o que ganhas com isso?

- Um ordenado base, um bónus por novos clientes e um bocadinho da fatia final. Pode haver meio milhão de casos, por isso estamos a lutar para os caçar todos.

- Isso são cinco mil milhões de dólares em indemnizações.

- A Luray tem oito, líquidos. Todos os advogados de acusação

do país estão a falar dos Skinny Ben.

- E não há problemas éticos?

- Já não há ética, mano. Andas na lua. A ética é para pessoas como tu ensinarem aos alunos que nunca irão usá-la. Detesto ser eu a dizer-te isto.

- Já ouvi isso antes.

- Bom, eu estou a descobrir ouro. Julguei que quererias saber.

- É bom sabê-lo.

- Anda alguém aí a tratar dos Skinny Benl

- Que eu saiba não.

- Abre bem os olhos. Estes advogados estão ligados a outros em todo o país. É assim que a história dos processos em massa por responsabilidade civil funciona, segundo estou a aprender. Quanto mais casos houver numa classe, maior será a compensação.

- Eu passo a palavra.

- Até breve, mano.

- Tem cuidado contigo, Forrest.

 

O telefonema seguinte veio pouco depois das 2.30 da manhã, e como todos os telefonemas a uma hora dessas, o telefone parecia tocar eternamente, durante o sono e depois. Ray conseguiu, por fim, pegar-lhe e acender a luz.

- Ray, fala Harry Rex, desculpa telefonar.

- O que é? - perguntou, sabendo bem que não era coisa boa.

- O Forrest. Passei a última hora a falar com ele e com uma enfermeira do Hospital Baptista em Memphis. Ele está lá, com o nariz partido, creio.

- Rebobina isso, Harry Rex.

- Ele foi a um bar, embebedou-se, meteu-se numa briga, o costume. Parece que escolheu o tipo errado, e agora estão a coser-lhe a cara. Querem que ele lá fique de noite. Tive de falar com o pessoal de lá e garantir o pagamento. Pedi-lhes que não lhe dessem analgésicos, nem medicamentos. Não fazem ideia de quem ali têm.

- Desculpa estares metido nisto, Harry Rex.            

- Já estive outras vezes e não me importo. Mas ele é maluco, Ray. Começou outra vez a falar da herança e de como está a ser lixado na parte que lhe cabe e essas tretas. Sei que ele está bêbado e tudo isso, mas ele não se calava com o assunto.

- Falei com ele há cinco horas e estava bem.

- Bom, deve ter-se encaminhado logo para o bar. Por fim, tiveram de sedá-lo para lhe coserem o nariz, senão teria sido impossível. Só me preocupo é com todas as drogas e essas coisas. Que trapalhada.

- Desculpa, Harry Rex - disse Ray novamente porque não se lembrou de mais nada para dizer. Houve um silêncio, enquanto Ray tentava organizar as ideias. - Ele estava óptimo umas horas atrás, limpo, sóbrio, pelo menos parecia.

- Telefonou-te? - perguntou Harry Rex.

- Sim, estava entusiasmado com um novo trabalho.

- Aquela treta dos Skinny Benl                            

- Sim. Aquilo é trabalho a sério?

- Acho que sim. Há um punhado de advogados aqui atrás desses casos. A quantidade é crucial. Contratam tipos como o Forrest para andarem por aí a arrebanhá-los.

- Deviam ser irradiados da Ordem.

- Metade de nós devia sê-lo. Acho que tens de voltar cá. Quanto mais depressa pudermos abrir o testamento, mais depressa acalmamos o Forrest. Detesto estas acusações.

-Tens uma data de tribunal?

- Podemos fazê-lo na quarta-feira da próxima semana. Acho que devias ficar cá uns dias.

- Estava a tencionar fazer isso. Marca, que eu aí estarei.

-Vou notificar o Forrest dentro de um dia ou dois, tentar apanhá-lo sóbrio.

- Desculpa, Harry Rex.

Não era de admirar que Ray não conseguisse adormecer. Estava a ler uma biografia quando o telemóvel novo tocou. Tinha de ser engano.

- Está? - disse em tom desconfiado.

- Ainda está acordado? - perguntou a voz funda de Corey Crawford.

- É que o meu telefone não pára de tocar. Onde está?

- Estamos a vigiar. Está bem?

- Estou bem. São quase 4 da manhã. Vocês nunca dormem?

- Passamos muito pelas brasas. Se fosse a si mantinha as luzes apagadas.

- Está mais alguém a ver as minhas luzes?

- Ainda não.

- Óptimo.

- Estamos apenas a verificar.

Ray apagou as luzes da parte da frente do apartamento e voltou para o quarto, onde se pôs a ler com a ajuda de um pequeno candeeiro. Ainda lhe custou mais a adormecer por pensar que estavam a cobrar-lhe mil dólares por noite.

«É um investimento sensato», dizia para consigo.

Exactamente às 5 da manhã esgueirou-se pelo corredor como se alguém lá na rua pudesse vê-lo, e fez café às escuras. Enquanto esperava pela primeira chávena, chamou Crawford, que parecia grogue, o que não era de surpreender.

- Estou a fazer café, é servido? - perguntou Ray.

- Não é boa ideia, mas obrigado.

- Olhe, eu vou voar esta tarde até Atlantic City. Tem uma caneta?

- Tenho, diga lá.

- Levanto da pista principal num Beech Bonanza branco, número de cauda oito-um-cinco-romeo, às 3 da tarde, com um instrutor de voo chamado Fog Newton. Vamos passar a noite no Canyon Casino e voltamos amanhã por volta do meio-dia. Deixo o meu carro no aeroporto, trancado como habitualmente. Mais alguma coisa?

- Quer que vamos a Atlantic City?

- Não, não é necessário. Lá, eu ando muito em movimento, e vou tentar estar atento à retaguarda.

 

O consórcio foi organizado por um dos companheiros de voo da Dick Docker's. Foi constituído à volta de dois oftalmologistas com clínicas na Virgínia ocidental. Tinham ambos acabado de aprender a pilotar e precisavam de fazer viagens de ida e volta mais rápidas. O amigo de Docker era um consultor de aplicação de pensões, que precisava do Bonanza cerca de doze horas por mês. Um quarto sócio ajudaria a arrancar com o negócio. Cada um poria cinquenta mil dólares como um quarto do capital, depois subscreveria um empréstimo bancário para o que faltava ao preço de compra, que estava agora em trezentos e noventa mil dólares, não sendo provável que descesse mais. A promissória estendia-se por seis anos e iria custar a cada sócio oitocentos e noventa dólares por mês.

Equivalia a cerca de onze horas num Cessna para o piloto Atlee.

Quanto a benefícios, havia uma desvalorização e o potencial aluguer quando os sócios não estivessem a usar o avião. Quanto ao lado negativo, havia os custos do hangar, combustível, manutenção e uma lista que parecia demasiado extensa. Do que o amigo de Dick Docker não falara e que tinha também um lado muito negativo era da possibilidade de entrar no negócio com três estranhos, dois dos quais eram médicos.

Mas Ray tinha cinquenta mil dólares, e podia arranjar oitocentos e noventa por mês e queria desesperadamente o avião que considerava, secretamente, como seu.

Os Bonanza mantinham o valor, segundo um relatório bastante persuasivo que vinha agrafado à proposta. A procura tinha-se mantido elevada no mercado de aviões usados. O registo de segurança do Beech era o segundo depois do Cessna, sendo praticamente tão sólido como este. Ray andou com o contrato de sociedade durante dois dias, a lê-lo no gabinete, no apartamento, ao balcão do almoço. Os outros três parceiros já tinham entrado. Só tinha de assinar em quatro sítios, e ficaria dono do Bonanza.

Na véspera de partir para o Mississipi, analisou o contrato pela última vez, mandou tudo às urtigas e assinou os papéis.

 

Se os maus estivessem a observá-lo, estavam a fazer um belo trabalho a encobrir o seu rasto. Ao fim de seis dias a tentar descobrir quem o seguia, Corey Crawford era de opinião de que não havia ninguém atrás dele. Ray pagou-lhe três mil e oitocentos em dinheiro e prometeu telefonar-lhe se voltasse a sentir-se desconfiado.

Com o pretexto de armazenar mais tralha, ia ao Chaney's Self-Sto-rage todos os dias ver o dinheiro. Arrastava para lá caixas com qualquer coisa que pudesse encontrar no apartamento. Tanto o 14B como o 37F iam ganhando o aspecto de um velho sótão.

Na véspera de sair da cidade, foi ao escritório da recepção e perguntou a Mrs. Chaney se alguém tinha deixado vago o 18R. Sim, dois dias antes.

- Gostava de alugá-lo - disse.

- Já são três - respondeu ela.

- Vou precisar do espaço.

- Porque não aluga uma das unidades maiores?

- Talvez mais tarde. Por agora, vou usar três das pequenas.

A ela, tanto lhe fazia. Ele alugou o 18R em nome de Newton Aviation e pagou seis meses de aluguer em dinheiro. Quando tinha a certeza de que ninguém estava a ver, tirou o dinheiro do 37F para o 18R, onde as caixas já estavam à espera. Eram feitas de vinyl revestido de alumínio e com garantia de resistir ao fogo até temperaturas elevadas. Eram também à prova de água e trancavam-se. O dinheiro coube em cinco delas. Como medida de precaução, Ray lançou umas mantas, cobertores e roupas por cima das caixas para que tudo parecesse um pouco mais normal. Não sabia quem estava a tentar impressionar com a naturalidade da sua pequena sala, mas parecia-lhe melhor assim desarrumada.

Muito do que andava a fazer ultimamente era para outros. Um caminho diferente de casa para a Faculdade de Direito. Um novo circuito de jogging. Um café diferente. Uma nova livraria do centro, onde folhear livros. E sempre atento a qualquer coisa não habitual, a deitar um olhar ao retrovisor, uma volta repentina quando caminhava ou corria, uma espreitadela por entre as prateleiras quando entrava numa loja. Havia alguém atrás de si, sentia-o.

Decidira jantar com Kaley antes da sua partida para o Sul, por uns tempos, e antes de ela se ter tornado tecnicamente uma ex-aluna. Os exames tinham acabado, qual era o mal? Ela ia ficar por ali no Verão e ele estava decidido a dedicar-se-lhe, com grande cuidado. Cuidado, porque era isso o que as mulheres tinham dele. Cuidado pelo que lhe parecia ver de potencial nesta.

Mas o primeiro telefonema para o número dela foi um desastre. Atendeu uma voz masculina, uma voz mais jovem, achou Ray, e fosse quem fosse não ficou muito satisfeito por Ray ter telefonado. Quando Kaley veio ao telefone foi brusca. Ray perguntou se podia telefonar num momento melhor. Ela disse que não, que depois lhe ligava.

Ele esperou três dias e depois cortou-a da lista, coisa que conseguiu fazer tão facilmente como mudar a folha do calendário para o mês seguinte.

Por isso, partiu de Charlottesville sem deixar nada por fazer. No Bonanza, com Fog, voou durante quatro horas para Memphis, onde alugou um carro e foi procurar Forrest.

 

A sua primeira e única visita a casa de Ellie Crum acontecera pelo mesmo motivo que desta vez. Forrest fora-se abaixo, desaparecera, e a família estava com curiosidade em saber se estaria morto ou preso em qualquer lado. O juiz estava ainda em funções nessa altura, e a vida era normal, incluindo a procura de Forrest. Claro que o juiz estava demasiado ocupado para ir procurar o filho mais novo; e porque havia de fazê-lo se isso podia ser feito por Ray?

Era uma casa velha em estilo vitoriano na midtown de Memphis, uma herança do pai de Ellie, que fora próspero. Não herdara muito mais. Forrest fora atraído pela ideia de fundos de poupança e dinheiro de família autêntico, mas ao fim de quinze anos já perdera a esperança. Nos primeiros dias do acordo vivera no quarto principal. Agora a sua instalação era na cave. Viviam outras pessoas na casa, dizia-se que todos eles eram artistas em dificuldades, à procura de abrigo.

Ray estacionou junto ao passeio na rua. Os arbustos precisavam de ser aparados e o telhado estava velho, mas a casa envelhecia agradavelmente. Forrest pintava-a todos os anos em Outubro, sempre num conjunto de cores estonteantes sobre o qual ele e Ellie discutiam ao longo de um ano. Agora era de um azul-claro contornado a vermelho e cor de laranja. Forrest disse que um ano havia de pintá-la cor de pato-marreco.

Uma jovem com pele de branca de neve e cabelo preto recebeu-o à porta com um rude «Sim?». Ray estava a vê-la através de uma porta de rede. Atrás dela, a casa era escura e lúgubre, tal como da última vez.

- A Ellie está? - perguntou Ray tão asperamente quanto possível.

- Está ocupada. Quem quer falar com ela?

- Sou Ray Atlee, irmão do Forrest.

- Quem?

- O Forrest, ele vive na cave.

- Ah, esse Forrest. - Ela desapareceu e Ray ouviu vozes algures nas traseiras da casa.

Ellie estava vestida com um lençol branco, com traços e manchas de barro e água e com umas aberturas para a cabeça e os braços. Estava a limpar as mãos a um pano da loiça sujo, ficando contrariada por o seu trabalho ter sido interrompido.

- Olá, Ray - disse ela como uma velha amiga e abriu a porta.

- Olá, Ellie - ele seguiu-a pelo vestíbulo até à sala.

- Trudy, traz-nos um chá, sim? - gritou. Onde quer que Trudy estivesse não respondeu. As paredes da sala estavam cobertas com a mais extravagente colecção de vasos e jarras que Ray já vira. Forrest disse que ela esculpia dez horas por dia e não conseguia desembaraçar-se do material.

- Sinto muito pelo teu pai - disse ela. Sentaram-se em frente um do outro a uma pequena mesa de vidro. A mesa estava instavelmente assente em três cilindros fálicos, cada um com um tom diferente de azul. Ray tinha medo de tocar-lhe.

- Obrigado - respondeu ele formalmente. Nem telefonemas, nem cartões, nem cartas, nem uma palavra de condolências, apenas agora murmurada, naquele encontro circunstancial. Em fundo ouvia-se vagamente uma ópera.

- Calculo que procures o Forrest - afirmou ela.

- Sim.

- Não o tenho visto, ultimamente. Ele vive na cave, sabes, e entra e sai como um velho gato. Hoje de manhã mandei uma das raparigas lá abaixo espreitar, e ela disse que calculava que ele tivesse saído por uma semana ou coisa parecida. A cama não é feita há cinco anos.

- Isso é mais do que eu queria saber.

- E não tem telefonado.

Trudy chegou com o tabuleiro do chá, outra das criações horrorosas de Ellie. E as chávenas eram uns pequenos recipientes desirmanados, com grandes pegas.

- Nata e açúcar? - perguntou Ellie, servindo e mexendo.

- Só açúcar.

Ela estendeu-lhe a sua infusão e ele recebeu-a com as duas mãos. §e a deixasse cair esmagava um pé.

- Como está ele? - perguntou Ray depois de Trudy sair.

- Ora bêbado, ora sóbrio, é o Forrest.

- Drogas?

- Nem fales nisso. Não vais querer saber.

- Tens razão - respondeu Ray, sorvendo o seu chá. Tinha um sabor a pêssego e uma gota chegava. - Ele andou metido numa briga a noite passada, soubeste alguma coisa? Acho que partiu o nariz.

-Já o tinha partido antes. Por que razão os homens se embebedam e se batem? - Era uma boa pergunta para a qual Ray não tinha resposta. Ela bebeu um golo de chá e fechou os olhos para saboreá-lo. Muitos anos antes, Ellie Crum fora uma bela mulher. Mas agora, nos quarenta e muitos, deixara de esforçar-se.

- Não gostas dele, pois não? - perguntou Ray.

- Claro que gosto.

- Não, a sério?

- Isso é importante?

- Ele é meu irmão. Mais ninguém se interessa por ele.

- Tivemos sexo do melhor nos primeiros anos, mas depois perdemos o interesse. Engordei, agora estou demasiado ocupada com o meu trabalho.

Ray deitou um olhar em redor da sala.

- E além disso, sexo há sempre - disse, indicando com a cabeça a porta por onde Trudy entrara e saíra. - Forrest é um amigo, Ray. Acho que, até certo ponto, o amo. Mas é também um dependente que parece decidido a ficar toda a vida assim, e, a certa altura, sentimo-nos frustrados.

- Eu sei. Acredita que eu sei.

- E eu acho que é um dos raros. Tem força suficiente para se levantar no último momento possível.

- Mas não é suficientemente forte para dar-lhe com os pés. Provavelmente, é mais feliz lá em baixo, pensou Ray. Agradeceu-lhe o chá e o tempo, e ela acompanhou-o à porta. Ela ainda ali ficou por trás da porta de rede, quando ele se afastava já a correr.

 

O testamento de Reuben Vincent Atlee foi aberto, para homologação, no tribunal a que ele presidira durante trinta e dois anos. Lá em cima, na parede apainelada a carvalho por trás da bancada do juiz, um juiz Atlee de rosto duro olhava de alto os procedimentos por entre a bandeira norte-americana e a do estado do Mississipi. Era o mesmo retrato que tinha sido colocado perto do seu caixão durante o velório no tribunal três semanas antes. Agora estava de volta ao lugar que lhe pertencia, num sítio onde iria ficar, indubitavelmente, pendurado para sempre.

O homem que pusera termo à sua carreira e o mandara para o exílio e a reclusão em Maple Run era Mike Farr de Holly Springs. Fora reeleito uma vez e, segundo Harry Rex, estava a fazer um trabalho credível. O chanceler Farr reviu a petição da nomeação de legatário e analisou o testamento de uma página apenso à documentação.

O tribunal estava cheio de advogados e funcionários num corrupio, a preencherem papéis ou a falarem com os clientes. Era um dia destinado a questões incontestadas e a moções rápidas. Ray sentou-se na fila da frente enquanto Harry Rex ficara na bancada dos juizes a murmurar, de vez em quando, com o chanceler Farr. Ao lado de Ray estava Forrest, que, exceptuando as equimoses desvanecidas por baixo dos olhos, parecia tão normal quanto possível. Insistira em que não estaria presente quando fosse feita a homologação do testamento, mas uma descompostura de Harry Rex convencera-o do contrário.

Voltara por fim a casa de Ellie, o habitual regresso das ruas, sem dizer uma palavra a ninguém sobre onde estivera ou o que andara a fazer. Ninguém queria saber. Não houve referência a trabalho nenhum, por isso Ray depreendeu que a sua breve carreira como especialista em rastreio médico para os advogados do caso Skinny Ben tinha terminado.

De cinco em cinco minutos, um advogado curvava-se na coxia, estendia a mão e dizia a Ray que o pai fora um bom homem. Claro que era esperado que Ray conhecesse todos, visto que eles o conheciam. Nenhum falou a Forrest.

Harry Rex fez um sinal a Ray para se juntar a eles na bancada do juiz. O chanceler Farr cumprimentou-o calorosamente.

- O seu pai era um bom homem e um grande juiz - disse inclinando-se.

- Obrigado - respondeu Ray. «Então, porque disse, durante a campanha, que ele era demasiado velho e ultrapassado?» Teve vontade de perguntar. Tinham passado nove anos e pareciam cinquenta. Com a morte do seu pai, tudo agora em Ford County tinha décadas.

- É professor de Direito? - perguntou o chanceler Farr.

- Sim, na Universidade da Virgínia. Aprovou com um aceno de cabeça e perguntou:

- Todos os outros herdeiros estão presentes?

- Sim, senhor - respondeu Ray. - Somos apenas o meu irmão Forrest e eu.

- E leram ambos este documento de uma página que significa a última vontade e testamento de Reuben Atlee?

- Sim, senhor.

- E não há objecção a que este testamento seja homologado?

- Não, senhor.

- Muito bem. Segundo este testamento nomeio-o executor testamentário dos bens do seu falecido pai. Será hoje feito um aviso a credores e publicado num jornal local. Dispenso o termo de responsabilidade. O inventário e a contabilização serão feitos de acordo com os estatutos.

Ray ouvira o pai murmurar aquelas instruções uma centena de vezes. Levantou os olhos para o juiz Farr.

- Mais alguma coisa, Mr. Vonner?

- Não, Meritíssimo - disse.

- Os meus sentimentos, Mr. Atlee.    

- Obrigado, Meritíssimo.

Foram almoçar ao Claude's e pediram peixe frito. Ray regressara dois dias antes e já sentia as artérias entupidas. Forrest tinha pouco a dizer. Não estava limpo e o seu organismo estava poluído.

Os planos de Ray eram vagos. Queria visitar alguns amigos naquele estado, disse. Não havia pressa em regressar à Virgínia. Forrest deixou-os depois de almoço e disse que ia voltar para Memphis.

- Vais ficar em casa da Ellie? - perguntou Ray.

- Talvez - foi a sua única resposta.

 

Ray estava sentado no alpendre, à espera de Claudia, quando ela chegou às 5 em ponto. Foi ter com ela ao carro onde parara e olhara para a tabuleta da Realtor 's For Sale no jardim da frente, perto da rua.

- Tens de vendê-la? - perguntou.

- Ou a vendo ou dou-a. Como estás?

- Estou bem, Ray. - Conseguiram abraçar-se com um mínimo de contacto. Ela estava vestida para a ocasião com calças de pregas, mocassins, uma blusa de xadrez e um chapéu de palha, como se tivesse acabado de sair do jardim. Os lábios eram vermelhos, o rímel perfeito. Ray nunca a vira sem estar devidamente arranjada.

- Fico satisfeita por teres telefonado - disse ela, enquanto avançavam os dois lentamente pelo caminho de entrada.

- Hoje fomos ao tribunal e abrimos o testamento.

- Lamento, deve ter sido duro para ti.

- Não foi muito mau. Conheci o juiz Farr.

- Gostaste dele?

- Achei-o bastante simpático, apesar da história.

Ele pegou-lhe no braço e conduziu-a pela escada acima, embora Claudia estivesse em forma e conseguisse trepar montanhas, apesar dos dois maços por dia.

- Lembro-me dele quando estava acabadinho de sair da Faculdade de Direito - disse ela. - Não distinguia um queixoso de um réu. Reuben podia ter ganho aquela corrida, sabes, se se tivesse mexido.

- Vamos sentar-nos aqui - disse Ray apontando para as duas cadeiras de balanço.

- Limpaste a casa - comentou, admirando o alpendre.

- Foi tudo feito pelo Harry Rex. Contratou os pintores, os operários dos telhados e uma empresa de limpeza. Tiveram de limpar o pó da mobília com agulheta de areia, mas agora pode respirar-se.

- Importas-te que fume? - perguntou.

- Não. - Não interessava, ela fumava independentemente de ele autorizar.

- Estou tão feliz por teres telefonado - disse novamente, acendendo um cigarro.

- Tenho chá e café - informou Ray.

- Chá gelado, por favor, limão e açúcar - disse, cruzando as pernas. Estava empoleirada na cadeira de balanço como uma rainha, à espera do chá.

Ray lembrou-se dos vestidos justos e das pernas bem feitas de há muitos anos, quando ficava sentada por baixo da bancada do juiz a escrevinhar elegantemente em estenografia, enquanto todos os advogados da sala a olhavam.

Falaram do tempo, como fazem as pessoas do Sul quando há um vazio na conversa ou quando não há nada mais de que falar. Ela fumava e sorria imenso, verdadeiramente feliz por Ray se ter lembrado dela. Ela estava a agarrar-se. Ele estava a tentar resolver um mistério.

Falaram de Forrest e de Harry Rex, dois assuntos de peso, e quando ela já lá estava havia meia hora, Ray abordou por fim o assunto.

- Encontrámos algum dinheiro, Claudia - disse, e deixou as palavras a pairar no ar. Ela absorveu-as, analisou-as e avançou cautelosamente.

- Onde?

Era uma excelente pergunta. Encontraram onde, no banco com registos e tudo? Encontraram onde, encafuado no colchão sem deixar rasto?

-No seu escritório, em dinheiro. Foi deixado lá por alguma razão.

- Quanto? - perguntou ela, mas não demasiado depressa.

- Cem mil. - Observou a cara e os olhos dela atentamente. Registaram surpresa, mas não choque. Ele tinha a conversa preparada e insistiu. - Os seus registos são meticulosos, os cheques anotados, os depósitos, os livro-razão com todas as despesas, e este dinheiro parece não ter origem.

-Ele nunca guardava muito dinheiro - disse Claudia, lentamente.

- Também me lembro disso. Não faço ideia de onde este veio, tu fazes?

- Nenhuma - respondeu ela sem pestanejar. - O juiz não mexia em dinheiro. Ponto final. Passava tudo pelo First National Bank. Ele esteve no conselho de administração durante muito tempo, lembras-te?

- Lembro-me muito bem. Ele tinha alguma coisa por fora?

- Tal como?

- Isso pergunto eu, Claudia, conhecia-lo melhor do que ninguém e conhecias a sua actividade.

- Era completamente dedicado ao trabalho. Para ele, ser chanceler era uma grande vocação e trabalhava muito nisso. Não tinha tempo para mais nada.

- Incluindo a família - disse Ray e desejou imediatamente não o ter dito.

- Ele adorava os filhos, Ray, mas era de uma geração diferente.

- Vamos deixar-nos disto.

- Vamos.

Fizeram um intervalo, e ambos se recompuseram. Nenhum queria ficar-se pela família. Era ao dinheiro que prestavam atenção. Um carro avançou lentamente pela rua e pareceu parar o tempo suficiente para os ocupantes verem a tabuleta «Vende-se» e olharem demoradamente para a casa. Um olhar foi suficiente, porque aceleraram.

- Sabias se ele jogava? - perguntou Ray.

- O juiz? Não.

- Custa a acreditar, não custa? O Harry Rex levava-o aos casinos uma vez por semana, durante uns tempos. Parece que o juiz tinha sorte naquilo, e o Harry Rex não.

- Ouvem-se boatos, especialmente sobre advogados. Alguns já se meteram lá em apuros.                                        

- Mas não ouviste nada sobre o juiz?

- Não. Ainda não acredito.          

- O dinheiro veio de algum lado, Claudia. E algo me diz que era sujo, senão tê-lo-ia incluído na relação de bens.

- E se o tivesse ganho ao jogo tê-lo-ia considerado dinheiro sujo, não achas? - De facto, ela conhecia o juiz melhor do que qualquer pessoa.

- Acho, e tu ?

- Parece-me mesmo coisa do Reuben Atlee.

Acabaram essa ronda de conversa e fizeram um intervalo, os dois a balançarem suavemente na sombra fresca do alpendre da frente, como se o tempo tivesse parado, nenhum deles incomodado pelo silêncio. Estar sentado no alpendre permitia grandes silêncios, enquanto se organizavam os pensamentos, ou enquanto não se pensava em nada.

Então Ray, ainda a avançar com um argumento não escrito, reuniu coragem para fazer a pergunta mais difícil do dia.

- Preciso de saber uma coisa Claudia e, por favor, sê honesta.

- Eu sou sempre honesta. É um dos meus defeitos.    

- Nunca pus em causa a integridade do meu pai.

- Nem deves pôr agora.

- Ajuda-me nisto, está bem?

- Continua.

-Havia alguma coisa por fora: um pequeno extra de um advogado, uma fatia do bolo de um litigante, algum por baixo da mesa, como dizem os Ingleses?

- De maneira nenhuma.

- Estou a deitar barro à parede, Claudia, a ver se pega. Não se encontram cem mil dólares em belas notas novinhas encafuados numa prateleira. Quando morreu tinha seis mil dólares no banco. Porquê ter cem mil escondidos?

- Era o homem mais ético do mundo.

- Acredito.

- Então pára de falar de subornos e coisas assim.

- Com todo o gosto.

Ela acendeu outro cigarro e ele saiu para encher os copos de chá. Quando voltou ao alpendre, Claudia estava mergulhada nos pensamentos, com o olhar a alongar-se pela rua. Ficaram a balançar por um momento.

Por fim ele disse:

- Acho que o juiz quereria que ficasses com alguma parte dele.

- Oh, achas?

- Sim. Vamos precisar de parte dele agora para acabarmos de arranjar a casa, provavelmente uns vinte e cinco mil. E se tu, eu e o Forrest dividirmos o resto?

- Vinte e cinco mil a cada um?        

- Sssim. Que te parece?

- Não vais apresentá-lo na relação de bens? - perguntou ela. Conhecia a lei melhor do que Harry Rex.

- Porquê dar-me a esse trabalho? É dinheiro, ninguém sabe e, se o declararmos, metade vai para impostos.

- E como é que o explicavas? - perguntou ela, como sempre, um passo à frente. Costumavam dizer que Claudia tinha o caso resolvido antes de os advogados começarem as alegações.

E se aquela mulher adorava dinheiro. Roupas, perfumes, sempre o último modelo de um carro e tudo com que sonhava uma estenógrafa de tribunal, mal paga. Se ela estivesse a receber uma pensão do Estado não podia ser muito.

- Não pode ser explicado - disse Ray.

- Se for de jogo tens de emendar todas as suas declarações de rendimentos dos últimos anos - apressou-se ela a dizer. - Que trapalhada.

- Uma verdadeira trapalhada.

A trapalhada foi silenciosamente posta de lado. Ninguém saberia jamais da sua parcela do dinheiro.

- Uma vez tivemos um caso - contou Claudia estendendo o olhar pelo relvado da frente. - Em Tippah County, há trinta anos, um homem chamado Childers possuía um pedaço de quinta. Morreu sem deixar testamento. - Fez uma pausa e puxou uma longa fumaça. - Tinha um rancho de filhos e descobriram-lhe dinheiro escondido por toda a casa, no escritório, no sótão, num alpendre de arrumações por trás da casa, na lareira. Foi uma autêntica caça aos ovos da Páscoa. Depois de terem vasculhado cada centímetro da casa, contaram-no e dava quase duzentos mil dólares. Isto, de um homem que não pagava a conta do telefone e usava o mesmo fato-macaco havia anos. - Outra pausa e outra fumaça. Podia contar histórias destas sem parar. - Metade dos filhos queria dividir o dinheiro e fugir, e outra metade queria dizer ao advogado e incluir o dinheiro na relação de bens. A notícia espalhou-se, a família assustou-se e acrescentou o dinheiro à relação de bens do velho. Os filhos brigaram muito. Cinco anos mais tarde todo o dinheiro tinha desaparecido: metade para o Estado e metade para os advogados.

Calou-se, e Ray esperou uma solução.

- Qual é a conclusão? - perguntou.

- O juiz disse que foi uma pena, disse que os filhos deviam ter ficado com o dinheiro e dividi-lo. Afinal pertencia ao pai.

- Parece-me justo.

- Ele detestava o imposto sucessório. Porque há-de o Governo ficar com uma boa parte dos teus bens lá porque morres? Ouvi-o resmungar por causa disso, durante anos.

Ray tirou um envelope de trás da cadeira de balanço e estendeu-lho.

- Estão aí vinte e cinco mil em dinheiro.

Ela olhou para o envelope e depois para ele com incredulidade.

- Aceita-o - disse Ray aproximando-o mais dela. - Ninguém irá saber.

Ela aceitou e por um segundo não foi capaz de falar. Tinha os olhos cheios de lágrimas, e isso para Claudia significava que havia grandes emoções em jogo.

- Obrigada - disse, e apertou o dinheiro com mais força.

 

Muito depois de ela se ter ido embora, Ray ainda estava sentado na mesma cadeira, a balançar no escuro, muito satisfeito consigo por ter eliminado Claudia dos suspeitos. A sua pronta aceitação dos vinte e cinco mil dólares era uma prova convincente de que não sabia nada da fortuna muito maior.

Mas não havia suspeito para tomar o seu lugar na lista.

 

O encontro tinha sido combinado através de um antigo aluno de Direito da Virgínia, agora sócio de uma megafirma nova-iorquina, que por sua vez era assessora de um grupo de jogo que explorava os Canyon Casinos em todo o país. Foram feitos contactos, trocados favores, torcidos braços ligeira e muito diplomaticamente. Era na delicada área da segurança, e ninguém queria pisar o risco. O professor Atlee só precisava do essencial.

O Canyon estava no rio Mississipi, em Túnica County, desde meados dos anos 90, tendo chegado na segunda vaga de construção e sobrevivido ao primeiro abanão. Tinha dez andares, quatrocentos quartos, 24 000 metros quadrados de oportunidades de jogo e obtivera êxito com vários espectáculos da Motown. Mr. Jason Piccolo, um vice-pre-sidente qualquer do escritório central em Las Vegas, estava presente para receber Ray, e com ele estava Alvin Barker, chefe de segurança. Piccolo tinha trinta e poucos anos e vestia-se como um modelo de Armani. Barker andava pelos cinquenta, ostentando o aspecto de um velho polícia gasto com um fato de má qualidade.

Começaram por lhe oferecer um passeio rápido, que Ray declinou. No mês anterior já vira casinos suficientes para toda a vida.

- Quantos dos andares superiores estão fora do alcance? - perguntou.

- Bom, vamos ver - disse Piccolo delicadamente, e conduziram-no desde as máquinas de moedas e das mesas até ao átrio por trás dos compartimentos dos caixas. Subiram as escadas e passaram por outro átrio, pararam numa sala estreita com uma grande parede forrada a espelhos. Do outro lado havia uma grande sala baixa, cheia de mesas redondas com monitores de circuito-fechado. Havia dúzias de homens e mulheres colados aos ecrãs, que pareciam recear perder alguma coisa.

- Este é o grande observatório - dizia Piccolo. - Aqueles tipos da esquerda estão a observar as mesas de black-jack. No centro, dados e roleta, para a direita, máquinas de moedas e póquer.

- E o que estão a observar?

- Tudo. Absolutamente tudo.

- Faça-me a lista.  

- Cada jogador. Observamos os grandes apostadores, os profissionais, os contadores de cartas, os aldrabões. Repare no black-jack. Aqueles tipos ali são capazes de observar dez mãos e dizer se um jogador está a contar cartas. Esse homem de casaco cinzento analisa as caras, à procura dos jogadores sérios. Hoje andam por aqui, amanhã em Las Vegas, depois escondem-se durante uma semana e reaparecem em Atlantic City ou nas Bahamas. Se fizerem batota ou contarem cartas, ele detecta-os quando se sentam. - Era Piccolo que falava. Barker observava Ray como se fosse um potencial batoteiro.

- Qual é a proximidade do plano da câmara? - perguntou Ray.

- Suficientemente próxima para ler o número de série de qualquer nota. Apanhámos um batoteiro o mês passado, porque reconhecemos um anel de diamante que já usara antes.

- Posso entrar ali? - Lamento.

- E quanto às mesas de dados?

- O mesmo. É um problema maior porque o jogo é mais rápido e mais complicado.

- Há batoteiros profissionais nos dados?

- São raros. O mesmo acontece com o póquer e a roleta. A batota não é um grande problema. Preocupamo-nos mais com os roubos dos empregados e os erros na mesa.

- Que tipo de erros?

- A noite passada um jogador de black-jack ganhou uma jogada de quarenta dólares, mas o nosso croupier cometeu um erro e tirou-lhe as fichas. O jogador reclamou e chamou o chefe de sala. Os nossos homens cá em cima viram o que aconteceu e corrigimos a situação.

- Como?

- Mandámos um tipo da segurança lá abaixo com instruções para pagar ao cliente quarenta dólares, pedir-lhe desculpa e oferecer um jantar grátis.

- E o croupierl

- Tem uma boa folha, mas mais uma asneira e vai para a rua.

- Então fica tudo registado?

- Tudo. Cada mão, cada lançamento de dados, cada moeda. Temos uma centena de câmaras a funcionar neste momento.

Ray caminhou ao longo da parede e tentou aperceber-se do nível de segurança. Parecia haver mais gente a vigiar cá em cima do que a jogar lá em baixo.

- Como é que um croupier pode fazer batota com tudo isto? - perguntou abrangendo-os com um gesto de mão.

- Há sempre maneiras - disse Piccolo e deitou um olhar de entendimento a Barker. - Muitas maneiras. Apanhamos um por mês.

- Por que motivo observam as máquinas? - perguntou Ray, mudando de assunto. Queria matar algum tempo com perguntas ao acaso porque lhe tinham prometido apenas uma visita lá acima.

- Porque observamos tudo - respondeu Piccolo. - E porque houve casos em que menores ganharam jackpots. Os casinos recusaram-se a pagar e ganharam causas em tribunal, porque tinham vídeos que mostravam os menores a escaparem agachados para darem lugar a adultos. Quer beber alguma coisa?

- Claro.

-Temos uma salinha secreta com uma vista melhor.

Ray seguiu-os por mais um lanço de escadas até a uma pequena varanda com vista da sala de jogo e da sala de vigilância. Uma empregada de mesa surgiu do nada e anotou os pedidos de bebidas. Ray pediu um cappuccino. Águas para os seus anfitriões.

- Qual é a vossa maior preocupação de segurança? - perguntou Ray. Estava a olhar para uma lista de perguntas que tirara do bolso do casaco.

- Contadores de cartas e croupiers de mãos pegajosas - respondeu Piccolo. - Aquelas fichas pequenas são muito fáceis de meter nos punhos e nos bolsos. Cinquenta dólares por dia são mil dólares por mês, livres de impostos, claro.

- Quantos contadores de cartas vê aqui?

- Cada vez mais. Agora há casinos em quarenta estados, por isso há mais gente a jogar. Temos extensos ficheiros sobre suspeitos contadores de cartas, e, quando pensamos que temos cá um, pedimos-lhe simplesmente que saia. Temos direito de fazê-lo, sabe?

- Qual foi o vosso maior ganhador num dia? - perguntou Ray.

Piccolo olhou para Barker que disse:

- Excluindo as máquinas?

- Sim.

- Tivemos um tipo que ganhou um e oitenta dele, aos dados, numa noite.

- Cento e oitenta mil?

- Certo.

- E o maior perdedor?

Barker recebeu a água que a empregada trazia e coçou a cara por um momento.

- O mesmo tipo perdeu duzentos mil três noites depois.

- Têm ganhadores regulares ? - perguntou Ray, olhando para as notas como se estivesse a fazer mesmo uma investigação académica.

- Não percebo bem o que quer dizer - respondeu Piccolo.

- Digamos que um tipo vem cá duas ou três vezes todas as semanas, joga cartas ou dados, ganha mais do que perde e com o tempo arrecada uns bons proventos. Com que frequência assistem a isso?

- Muito raramente, senão não estávamos neste negócio - concluiu Piccolo.

- É extremamente raro - corroborou Barker. - Um tipo pode ganhar durante uma semana ou duas. Concentramo-nos nele, observamo-lo de perto, não há nada de suspeito, mas está a levar o nosso dinheiro. Mais cedo ou mais tarde vai arriscar de mais, fará algo estúpido, e nós vamos reaver o nosso dinheiro.

- Oitenta por cento perdem com o tempo - acrescentou Piccolo. Ray mexeu o cappuccino e consultou as notas.

- Um tipo chega aqui. É completamente estranho, aposta mil dólares na mesa de black-jack e quer fichas de cem dólares. O que acontece cá em cima?

Barker sorriu e estalou os nós dos dedos.

- Ficamos atentos. Observamo-lo durante alguns minutos, para ver se ele sabe o que está a fazer. O chefe de sala pergunta se ele quer ser tributado ou inscrever-se e, se quiser, tomamos nota do nome. Se ele disser que não, então oferecemos-lhe um jantar. A empregada dos cocktails irá trazendo sempre bebidas, mas se ele não beber é outro sinal de que pode ser um caso sério.

- Os profissionais nunca bebem enquanto jogam - acrescentou Piccolo. - Podem mandar vir uma bebida para disfarçar, mas limitam-se a brincar com ela.

- O que é inscrever-se?

-Alguns jogadores querem uns extras - explicou Piccolo. -Jantar, bilhetes para um espectáculo, descontos nos quartos e todo o tipo de gulodices que podemos proporcionar. Esses têm cartões de sócios que vamos monitorizando para ver quanto estão a jogar. O tipo da sua hipótese não tem cartão, por isso perguntamos-lhe se quer aderir.

- E se ele disser que não?

- Não há problema. A toda a hora temos estranhos a entrar e sair.

- Mas tentamos mantê-los vigiados - confessou Barker. Ray escrevinhou qualquer coisa sem nexo na sua folha dobrada.

- Os casinos partilham a sua vigilância? - perguntou, e pela primeira vez Piccolo e Barker mostraram-se embaraçados, simultaneamente.

- O que quer dizer com partilhar? - perguntou Piccolo com um sorriso que Ray retribuiu e a que Barker se apressou a corresponder.

Enquanto os três sorriam, Ray disse:

- Bom, outra hipótese sobre o ganhador regular. Digamos que o tipo joga uma noite no Monte Carlo, na seguinte no Treasure Cove, na outra no Alladin e por aí fora, até aqui. Passa por todos os casinos e ganha mais do que perde. E isto mantém-se durante um ano. O que é que podem saber sobre este tipo?

Piccolo fez um aceno afirmativo a Barker, que estava a beliscar os lábios entre o polegar e o indicador.

- Podemos saber muito - confessou.

- Quanto? - insistiu Ray.

- Diz lá - disse Piccolo a Barker que começou a falar, relutantemente.

- Podemos saber o seu nome, morada, profissão, número de telefone, automóvel, banco. Saber onde está todas as noites, quando chega, quando parte, quanto ganha, quanto perde, quanto bebe, se jantou, se deu gorjeta à empregada e, se deu, quanto deu e se gratificou o croupier.

- E têm ficheiros sobre essa gente?

Barker olhou para Piccolo que fez um sinal afirmativo, muito lentamente, mas não disse nada. Começavam a calar-se porque ele estava a aproximar-se de mais. Pensando bem, do que precisava era de dar uma volta. Encaminharam-se para a sala, onde, em vez de olhar para as mesas, Ray olhava para cima, para as câmaras. Piccolo apontou o pessoal da segurança. Estava perto de uma mesa de black-jack onde um miúdo que parecia um adolescente brincava com montes de fichas de cem dólares.

- Ele é de Reno - murmurou Piccolo. - Deu cabo da banca em Túnica, a semana passada, a nós, levou-nos trinta mil. Muito muito bom.

- E não conta as cartas - sussurrou Barker, entrando na conspiração.

- Há pessoas que têm, simplesmente, dom para isto, como no golfe ou na cirurgia cardíaca - disse Piccolo.

- Já passou por todos os casinos?

- Ainda não, mas estão todos à espera dele. - O miúdo de Reno deixava Barker e Piccolo muito nervosos.

A visita findou num salão onde beberam gasosas e arrumaram as coisas. Ray terminara a sua lista de perguntas que levavam à apoteose.

- Tenho um favor a pedir - disse aos dois.

- Claro, o que quiser.

- O meu pai morreu há umas semanas, e temos razões para crer que andava por aqui metido, a jogar dados, talvez a ganhar muito mais do que perdia. Isso pode ser confirmado?

- Como se chamava? - perguntou Barker.

- Reuben Atlee, de Clanton.

Barker abanou a cabeça em sinal negativo e tirou um telemóvel do bolso.

- Quanto? - perguntou Piccolo.

- Não sei, talvez um milhão ao longo de anos. Barker ainda estava a abanar a cabeça.

- De modo nenhum. Conheceríamos bem alguém que ganhasse ou perdesse essa quantidade de dinheiro. - Então, Barker perguntou pelo telefone à pessoa que o atendeu se podia investigar um tal Reuben Atlee.

- Acha que ganhou um milhão de dólares? - perguntou Piccolo.

- Ganhou e perdeu - respondeu Ray. - E, repito, é o que calculamos.

Barker fechou o telefone com força.

- Não há registos de qualquer Reuben Atlee, em parte alguma. Não há hipótese de ter jogado essa quantia por aqui.

- E se ele nunca tivesse vindo a este casino? - perguntou Ray, tendo a certeza da resposta.

- Saberíamos - disseram em uníssono.

 

Era o único a fazer jogging de manhã, em Clanton, e por isso recebia olhares curiosos das senhoras que estavam a tratar dos seus canteiros, das empregadas a varrer os alpendres e do colaborador temporário que estava a cortar a relva no cemitério quando ele passou perto do talhão de família dos Atlee. A terra estava a assentar em volta do juiz, mas Ray não parou nem sequer abrandou para inspeccionar. Os homens que tinham aberto a sepultura estavam a abrir outra. Todos os dias em Clanton havia um nascimento e uma morte. As coisas pouco mudavam.

Ainda não eram 8 horas e o sol já estava quente e o ar pesado. A humidade não o incomodava porque crescera com ela, mas também não sentia a sua falta.

Descobriu as ruas sombrias e fez por ali o caminho de regresso a Maple Run. Ojeep de Forrest estava lá, e o seu irmão estava estirado no baloiço do alpendre.

- É um bocado cedo para ti, não é? - disse Ray.

- Até onde correste? Estás coberto de suor.

- Isso acontece quando se vai correr debaixo de calor. Oito quilómetros. Tens bom aspecto.

E tinha. Olhos claros e não inchados, barbeado, tomara duche e trazia calças brancas de peitilho.

- Estou a seco, mano.

- Que maravilha. - Ray sentou-se na cadeira de balanço, ainda a suar e a respirar pesadamente. Não ia perguntar há quanto tempo Forrest estava sóbrio. Não podia ser há mais de vinte e quatro horas.

Forrest saltou do baloiço e puxou a outra cadeira de balanço para perto de Ray.

- Preciso de uma ajuda, mano - afirmou, sentado na beira da cadeira.

«Cá vamos nós outra vez», disse para consigo Ray.

- Estou a ouvir-te.

- Preciso de ajuda - atirou novamente, a esfregar as mãos energicamente como se as palavras fossem dolorosas.

Ray já vira isto antes e não tinha paciência.

- Vá lá, Forrest, o que é? - Acima de tudo, o dinheiro. Depois disso, havia várias possibilidades.

- Há um sítio onde quero ir, a cerca de uma hora daqui. É na floresta, isolado, muito bonito, com um pequeno lago no centro, quartos confortáveis.

Tirou do bolso um cartão de visita amarrotado e estendeu-o a Ray. Alcorn Village. Instalações para tratamento de alcoolismo e drogas. Um serviço da Igreja Metodista.

- Quem é Oscar Meave?-perguntou Ray, olhando para o cartão.

- Um tipo que eu conheci há anos. Ajudou-me, e agora está nesse local.

- É um centro de desintoxicação.

- Desintoxicação, reabilitação, unidade de drogas, desintoxicação de alcoólicos, termas, rancho, aldeia, prisão, enfermaria de doentes mentais, o que quiseres. Não me interessa. Preciso de ajuda, Ray. Agora. - Tapou o rosto com as mãos e começou a chorar.

- Certo, certo - disse Ray. - Conta lá os pormenores. Forrest limpou os olhos e o nariz com as mãos e inspirou profundamente.

- Telefona ao tipo e pergunta se têm um quarto - disse com a voz a tremer.

- Quanto tempo vais ficar?

- Quatro semanas, creio. O Oscar diz-te.

- E quanto custa?

- Cerca de trezentos dólares por dia. Estava a pensar se podia pedir-te emprestado por conta da minha parte nesta casa. Pede ao Harry Rex que pergunte ao juiz se há alguma maneira de arranjar algum dinheiro agora.

As lágrimas caíam-lhe pelo canto dos olhos.

Ray já vira lágrimas, de outras vezes. Ouvira os pedidos e as promessas, e, por mais duro e cínico que tentasse ser naquele momento cedeu.

- Vamos fazer alguma coisa. Vou telefonar a esse tipo agora.

- Por favor, Ray, quero ir agora.

- Hoje?

- Sim, eu, umm, não posso voltar para Memphis. - Baixou a cabeça e passou os dedos pelo cabelo comprido.

- Anda alguém atrás de ti?

- Sssim. Tipos maus - afirmou fazendo um sinal afirmativo de cabeça.

- Não é a polícia?

- Não, são muito mais beras do que a polícia.

- Sabem que estás aqui? - perguntou Ray, olhando em volta Quase já via traficantes de droga, bem armados, atrás dos arbustos.

- Não, não fazem ideia de onde estou.

Ray pôs-se de pé e entrou em casa.

Como a maior parte das pessoas, Oscar Meave lembrava-se de Forrest. Tinham trabalhado juntos num programa federal desintoxicação em Memphis, e, embora ficasse triste por saber Forrest precisava de ajuda, ficou, mesmo assim, satisfeito por falar com Ray sobre ele. Ray tentou explicar o melhor possível a urgência da questão, embora não soubesse pormenores e não fosse provável ter alguns. O pai morrera três semanas antes, disse Ray, já a apresentar desculpas.

- Traga-o cá - disse Meave. - Vamos arranjar-lhe um sítio.

Saíram da cidade daí a trinta minutos no carro alugado de Ray,

O jeep de Forrest ficou estacionado nas traseiras da casa, por precaução.

- Tens a certeza de que esses tipos não vão andar a farejar por aqui? - perguntou Ray.

- Não fazem ideia de onde sou - respondeu Forrest. Tinha a cabeça amparada ao encosto de cabeça e os olhos escondidos por trás de uns estrambólicos óculos de sol.

- Quem são eles, ao certo?

- Uns tipos muito simpáticos de Memphis Sul. Ias gostar deles,

- E deves-lhe dinheiro?

- Devo.                                                                

- Quanto?            

- Quatro mil dólares.

- E para onde foram esses quatro mil dólares?

Forrest deu uns toques suaves no nariz. Ray abanou a cabeça frustrado e furioso, e mordeu a língua para evitar outro sermão azedo. Deixa andar mais alguns quilómetros, disse para consigo. Agora estavam no campo, terra de cultivo dos dois lados.

Forrest começou a ressonar.

Isto ia ser outra história de Forrest, a terceira vez que Ray carregava com ele e o arrastava para a desintoxicação. Da última vez, já lá iam doze anos, o juiz ainda estava em funções com Claudia ainda a seu lado, e Forrest usava mais drogas do que qualquer pessoa daquele estado. As coisas tinham sido normais. A Brigada de Narcóticos tinha-lhe deitado a rede, mas, por uma incrível sorte, Forrest conseguira esgueirar-se por entre as malhas. Tinham suspeitas de que ele traficava, o que era verdade, e se o tivessem apanhado ainda estaria preso. Ray levara-o para um hospital público perto da costa, onde o juiz puxara os cordelinhos para que o internassem. Ali, dormiu durante um mês e depois saiu.

A primeira viagem fraternal para a reabilitação fora durante os anos em que Ray frequentara Direito, em Tulane. Forrest apanhara uma overdose de uma tremenda mistura de comprimidos. Fizeram-lhe uma lavagem ao estômago e deram-no quase como morto. O juiz mandara-o para um estabelecimento perto de Knoxville com portões trancados e arame farpado. Forrest ficou lá uma semana antes de fugir.

Estivera duas vezes na prisão, uma vez numa de menores, outra já numa de adultos, embora só tivesse dezanove anos. A sua primeira detenção foi exactamente antes de um jogo de futebol de liceu, na noite de sexta-feira, o desempate, em Clanton, com toda a cidade à espera do pontapé de saída. Tinha dezasseis anos, um júnior, um guarda-redes e defesa de todas as ligas de clubes, um kamikaze que adorava atrasar e abrir caminho com o capacete. A Brigada de Narcóticos apanhou-o no vestiário e levou-o algemado. O susbtituto era um novato inexperiente, e, quando a equipa de Clanton foi massacrada, a cidade nunca perdoou a Forrest Atlee.

Ray estava no banco dos réus com o juiz, ansioso como toda a gente, por causa do jogo. «Onde está o Forrest?», começaram as pessoas a perguntar durante a fase de aquecimento. Quando foi atirada a moeda ao ar já ele estava na cadeia municipal a ser fotografado e a tirarem-lhe as impressões digitais. Descobriram catorze onças de marijuana no carro dele.

Passou dois anos num estabelecimento para jovens e foi libertado no dia em que fez dezoito anos. Como é que o filho de um proeminente juiz, com dezasseis anos, se torna passador de droga numa pequena cidade do Sul sem qualquer história de drogas? Ray e o pai fizeram essa pergunta milhares de vezes um ao outro. Só Forrest sabia a resposta. E havia muito que decidira guardá-la para si. Ray ficava-lhe agradecido por ocultar a maior parte dos seus segredos.

Depois de uma bela sesta, Forrest acordou e anunciou que precisava de beber qualquer coisa.

- Não - disse Ray.

- Um refrigerante, juro.

Pararam numa loja de província e compraram gasosas. Como pequeno-almoço Forrest comeu um pacote de amendoins.

- Alguns deste sítios têm boa comida - disse quando já iam novamente em andamento. Forrest o guia turístico de centros de desintoxicação. Forrest o crítico da Michelin para estabelecimentos de reabilitação.

- Geralmente perco uns quilos - disse a mascar.

- Eles têm lá ginásios e coisas do género? - perguntou Ray, incentivando a conversa. Não lhe apetecia, efectivamente, discutir os privilégios dos diversos centros de recuperação de droga.

- Alguns têm - disse Forrest afectadamente. - A Ellie mandou-me para aquele sítio na Florida, perto da praia, muita areia e água, muita gente rica. Três dias de lavagem ao cérebro e depois faziam-nos mexer o rabo. Caminhadas, bicicletas, marchas de resistência, pesos se quiséssemos. Fiquei com um belo bronze e abati sete quilos. Mantive-me limpo durante oito meses.

Na sua triste vidinha, tudo era delimitado por hiatos de sobriedade.

- Foi a Ellie que te mandou? - perguntou Ray.

- Sssim, foi já há uns anos. A certa altura ela tinha alguma massa, não muita. Eu tinha batido no fundo, e foi naquela época em que ela gostava de mim. Era um sítio simpático, mas algumas das supervisoras eram aquelas miúdas da Florida de saias curtas e pernas compridas.

- Tenho de ir verificar isso.

- Vai-te lixar.

- Estava a brincar.

- Há aquele local no Oeste para onde vão todas as estrelas, a Hacienda, é o Ritz. Salas luxuosas, spas, massagens diárias, chefes de cozinha que conseguem fazer grandes refeições a mil calorias por dia. E as supervisoras são o melhor de tudo. É do que eu preciso, mano, seis meses na Hacienda.

- Porquê seis meses?

- Porque preciso de seis meses. Experimentei dois meses, um mês, três semanas, duas semanas, não chega. Para mim, são seis meses totalmente fechado, com total lavagem ao cérebro, total terapia e a minha própria massagista.

- Quanto custa?

Forrest assobiou e revirou os olhos.

- Diz um número. Não sei. Temos de ter vários milhões e duas recomendações para lá entrar. Calcula, uma carta de recomendação. «Às pessoas finas da Hacienda: Eu, abaixo assinado, recomendo vivamente o meu amigo Doofus Smith como doente do vosso belo empreendimento. Doofus bebe vodka ao pequeno-almoço, snifa coca ao almoço, lancha heroína, e, à hora de jantar, está geralmente em coma. Tem o cérebro frito, as veias dilaceradas e o fígado acabado. Doofus é o vosso tipo de pessoa e o seu velho é dono de Idaho.»

- E eles aceitam pessoas por seis meses?

- Não tens ideia, pois não?

- Acho que não.

- Alguns da coca precisam de um ano. Para os heroinómanos ainda é mais.

E qual é o teu veneno actual? Queria Ray perguntar, mas depois não quis.

- Um ano? - disse.

- Sssim, totalmente fechados. E depois, quanto ao dependente, tem de ser ele a conseguir. Conheço tipos que estiveram na prisão três anos sem droga e quando saíram telefonaram primeiro ao traficante do que às mulheres ou às namoradas.

- O que lhes acontece?

- Não é bonito. - Atirou o resto dos amendoins para a boca e sacudiu as mãos uma na outra fazendo voar o sal.

 

Não havia tabuletas a desviarem o trânsito para Alcorn Village. Seguiram as indicações de Oscar até estarem completamente certos de que estavam perdidos no meio das montanhas, e depois viram um portão à distância. Ao fim de um caminho bordejado de árvores, um complexo estendia-se à sua frente. Era tranquilo e resguardado, e Forrest deu-lhe nota alta, à primeira vista.

Oscar Meave veio ao átrio do edifício da administração e conduziu-os a um gabinete de acolhimento, onde ele próprio tratou da primeira papelada. Era supervisor, administrador e psicólogo, um ex-de-pendente que se curara há anos e fizera dois doutoramentos. Usava jeans, sweatshirt, ténis, pêra e dois brincos e tinha as rugas e os dentes falhados de uma vida anterior dura. Mas a sua voz era suave e amistosa. Exalava aquela compaixão dura de alguém que estivera já onde Forrest estava agora.

O preço era trezentos e vinte e cinco dólares por dia, e Oscar recomendava um mínimo de quatro semanas.

- Depois disso, veremos em que ponto está. Tenho de fazer algumas perguntas muito duras sobre o que o Forrest tem andado a fazer.

- Eu não quero ouvir essa conversa - afirmou Ray.

- Não vais ouvir - respondeu Forrest. Estava resignado com o martírio que aí vinha.

- E pedimos metade do dinheiro à cabeça - informou Oscar. - A outra metade, quando o tratamento estiver concluído.

Ray sobressaltou-se e tentou lembrar-se do saldo da conta à ordem que tinha na Virgínia. Tinha muito dinheiro, mas não era altura de usá-lo.

- O dinheiro vai vir do testamento do meu pai. Pode demorar uns dias - disse Forrest.

Oscar estava a abanar a cabeça.

- Não há excepções. A nossa política é metade agora.

- Não faz mal - interveio Ray. - Eu passo um cheque.

- Quero que isso seja descontado na herança - disse Forrest. - Não vais pagar isto.

- A herança pode reembolsar-me. Vai dar. - Ray não tinha a certeza de como ia dar, mas ia deixar Harry Rex preocupar-se com isso. Assinou os papéis de fiador. Forrest assinou no fim da página, enumerando todos os sins e os nãos.

- Não podes sair durante vinte e oito dias - disse Oscar. - Se saíres perdes todo o dinheiro pago e nunca mais voltas. Entendes?

- Entendo - respondeu Forrest. Quantas vezes já passara por isto?

- Estás aqui porque queres, certo?

- Certo.

- Ninguém está a obrigar-te? -Ninguém.

Agora que o martírio começara, era tempo de Ray se ir embora. Agradeceu a Oscar, abraçou Forrest e partiu mais velozmente do que chegara.

 

Ray tinha agora a certeza de que o dinheiro fora junto desde 1991, o ano em que o juiz fora destituído por votos. Claudia ainda por lá estivera até ao ano anterior, pelo que nada sabia do dinheiro. Não viera de suborno e não viera do jogo.

Nem viera sequer de investimentos habilidosos, feitos às escondidas, porque Ray não encontrara um único registo de que o juiz tivesse comprado ou vendido alguma vez uma acção ou um título. O contabilista contratado por Harry Rex para reconstituir os registos e organizar a declaração final de rendimentos também não encontrara nada. Disse que o rasto do juiz era fácil de seguir, porque tudo fora sempre tratado através do First National Bank de Clanton.

«Isso é o que tu julgas», disse Ray para consigo.

Havia quase quarenta caixas de velhos dossiers inúteis espalhadas pela casa. O serviço de limpeza tinha-as empilhado no escritório do juiz e na sala de jantar. Levou algumas horas, mas por fim descobriu o que procurava. Duas das caixas continham as notas e a investigação - os «processos de julgamento» como o juiz sempre lhes chamara - dos casos a que presidira como chanceler desde a sua derrota em 1991.

Durante um julgamento, o juiz escrevia ininterruptamente nos blocos amarelos do tribunal. Anotava datas, tempos, factos relevantes, qualquer coisa que o ajudasse a chegar à opinião final sobre o caso. Muitas vezes fazia uma pergunta a uma testemunha e usava frequentemente as suas notas para corrigir os advogados. Ray ouvira-o mais do que uma vez gracejar no seu gabinete de juiz, claro, que as notas o ajudavam a manter-se acordado. Durante um longo julgamento enchia vinte blocos do tribunal, com as suas notas, cópias de casos em que os advogados se baseavam, ou cópias de secções do Código, estatutos e até petições que não entravam no processo judicial oficial. À medida que os anos passavam, os dossiers de julgamentos tornaram-se cada vez mais inúteis e agora enchiam quarenta caixas.

Segundo as suas declarações de rendimentos, desde 1993, recebera rendimentos provenientes de julgamento de casos como juiz-chanceler especial, casos que mais ninguém queria julgar. Não era raro nas zonas rurais haver uma disputa demasiado violenta para um juiz eleito. Uma das partes apresentava uma moção a pedir que o juiz se escusasse, e ele passava pela rotina de tomar a questão para si, reafirmando a sua capacidade de ser justo e imparcial, independentemente dos factos e dos litigantes, depois, com relutância, afastava-se e passava-a a um velho colega de outra zona do estado. O chanceler especial intervinha sem a bagagem de qualquer conhecimento anterior e sem os olhos postos na reeleição, e fazia a audição do caso.

Em algumas jurisdições, os chanceleres especiais estavam habituados a aliviar os arquivos dos processos judiciais. Por vezes, substituíam um juiz doente. Quase todos estavam reformados. O estado pagava-lhes cinquenta dólares à hora, mais despesas.

Em 1992, o ano seguinte à sua derrota, o juiz Atlee não tivera qualquer ganho extra. Em 1993 foram-lhe pagos 5800 dólares. No ano com maior actividade, 1996, declarara 16 300 dólares. No ano anterior, 1999, recebera 8760 dólares, mas estivera quase sempre doente.

O rendimento total como chanceler especial era de 56 590 dólares, num período de seis anos, e todos eles tinham sido incluídos nas declarações de rendimentos.

Ray queria saber que tipos de casos o juiz tinha julgado nos últimos anos. Harry Rex referira um-o divórcio sensacionalista de um governador com assento parlamentar. O processo desse caso tinha setenta e cinco centímetros de espessura, incluindo recortes dos jornais de Jackson com fotografias do governador, a sua, em breve, ex-mulher e uma mulher que se julgava ser a sua paixão do momento.

O julgamento durou duas semanas, e o juiz Atlee, segundo as suas notas, pareceu divertir-se muito.

Houve um caso de anexação próximo de Hattiesburg que durara duas semanas e irritara toda a gente envolvida. A cidade estava a crescer para oeste e de olhos postos em algumas das principais áreas industriais. Foram apresentadas queixas, e dois anos depois o juiz Atlee reuniu todas as partes para um julgamento. Havia também artigos de jornal, mas ao fim de uma hora a rever, Ray estava aborrecido com aquela confusão toda. Não podia imaginar-se a presidir àquilo durante um mês.

Mas, pelo menos, envolvia dinheiro.

O juiz Atlee passou oito dias em 1995 a presidir ao tribunal na pequena cidade de Kosciusko, a duas horas de distância, mas, pelos seus arquivos, parecia que nada de consequente tinha chegado a julgamento.

Houve uma terrível colisão de um camião-cisterna em Tishomingo County em 1994. Cinco adolescentes ficaram encarcerados num carro e morreram carbonizados. Como eram menores, a jurisdição era do Tribunal da Chancelaria. Um chanceler com assento parlamentar era aparentado com uma das vítimas. Outro chanceler estava a morrer de um tumor cerebral. Foi convocado o juiz Atlee e presidiu a um julgamento que durou dois dias até que fosse decidida a indemnização de 7 400 000 dólares. Um terço foi para os advogados dos adolescentes e o resto para as suas famílias.

Ray poisou o dossier no sofá do juiz, ao lado do caso de anexação. Estava sentado no chão do escritório, no chão recentemente encerado, sob o olhar vigilante do general Forrest. Tinha uma vaga ideia do que estava a fazer, mas não tinha verdadeiramente um plano de como proceder. Percorrer os dossiers, escolher os que envolviam dinheiro e ver onde o trilho podia conduzir.

O dinheiro que encontrara escondido ali, a menos de três metros, viera de algum lado.

O telemóvel tocou. Era de uma empresa de alarmes de Charlottesville com uma mensagem gravada de que estava a dar-se o arrombamento do seu apartamento. Pôs-se de pé num salto, enquanto a mensagem estava a terminar. O mesmo telefonema iria simultaneamente para a polícia e para Corey Crawford. Dali a segundos telefonou-lhe Crawford e disse-lhe «Vou já para lá» e parecia que ia a correr. Eram quase 9,30, hora local. 10,30 em Charlottesville.

Ray andou de um lado para o outro em casa, totalmente impotente. Passaram-se quinze minutos antes de Crawford voltar a telefonar-lhe.

- Estou cá. Com a polícia - disse. - Alguém forçou a porta lá de baixo e depois a do teu escritório. Isso fez disparar o alarme. Não tiveram muito tempo. Onde é que vamos inspeccionar?

- Não tenho nada de especialmente valioso aí - disse Ray, tentando adivinhar o que poderia querer o ladrão. Não havia dinheiro, jóias, arte, armas de caça, ouro ou prata.

- A televisão, a aparelhagem sonora, o micro-ondas, está tudo aqui - disse Crawford. - Espalharam livros e revistas, derrubaram a mesa junto ao telefone da cozinha, mas estavam com pressa. Alguma coisa de especial?

- Nada que me lembre. - Ray ouvia o rádio da polícia a pairar em fundo.

- Quantos quartos? - perguntou Crawford enquanto avançava pelo apartamento.

- Dois. O meu é à direita.

- Todas as portas do armário estão abertas. Andavam à procura de alguma coisa. Fazes ideia de quê?

- Não - respondeu Ray.

-Não há sinais de intrusão no outro quarto - informou Crawford, e depois começou a falar com os dois polícias. - Espere um momento - pediu a Ray, que estava na porta principal, a olhar, imóvel, através da porta de rede e a tentar pensar qual era o meio mais rápido para voltar a casa.

Os polícias e Crawford concluíram ter sido uma incursão rápida feita por um ladrão muito bom que foi surpreendido pelo alarme. Forçou as duas portas, com um mínimo de estragos, percebeu que havia um alarme, correu pela casa à procura de qualquer coisa em especial, e, como não a encontrou, deu uns quantos pontapés de fúria e fugiu... podiam ter sido mais do que um.

- Tem de vir cá para dizer à polícia se falta alguma coisa e fazer um relatório - disse Crawford.

- Estou aí amanhã. Pode deixar a casa em segurança esta noite?

- Sim, vou pensar em qualquer coisa.

- Telefone-me depois de os polícias saírem.

Sentou-se nos degraus da frente e ficou a ouvir os grilos, enquanto estava ansioso por ir ao Chaney's Self-Storage, sentar-se lá às escuras, com uma das armas do juiz, pronto para desfazer alguém que se aproximasse. Quinze horas de distância, de carro. Três e meia de avião particular. Telefonou a Fog Newton e ninguém respondeu.

O seu telefone sobressaltou-o novamente.

- Ainda estou no apartamento - disse Crawford.

- Não me parece que isso seja por acaso - disse Ray.

- Falou em alguns valores, coisas de família no Chaney's Self Storage. Sssim. Há alguma possibilidade de poder vigiar esse local esta noite?Eles têm segurança, guardas, câmaras, não estão mal apetrechados. - Crawford parecia cansado e pouco entusiasmado com a ideia de dormitar num carro toda a noite.

 

- É capaz de fazer isso?

- Não posso lá entrar. Tem de ser-se cliente.

- Vigie a entrada. - Crawford resmungou e suspirou.

- Sim, eu vou verificar ou talvez chame um tipo para fazer vigilância.

- Obrigado. Telefono-lhe logo que chegue à cidade, amanhã. Telefonou para o Chaney's, mas ninguém atendeu. Esperou cinco

minutos, telefonou outra vez, contou catorze toques e depois ouviu uma voz.

- Segurança do Chaney's, fala Murray.

Ele explicou muito delicadamente quem era e o que pretendia. Tinha três unidades alugadas e estava um pouco preocupado porque alguém vandalizara o seu apartamento no centro da cidade e pedia se Murray podia dar uma atenção especial aos 14B, 37F e 18R. Com certeza, respondeu Mr. Murray que parecia estar a bocejar ao telefone.

- Estava só um bocadito nervoso - explicou Ray.

- Não há problema - murmurou Murray.

 

Foram precisas uma hora e duas bebidas para o nervosismo acalmar. Ele não estava nada perto de Charlottesville. Sentia a necessidade urgente de saltar para um carro alugado e partir a toda a velocidade pela noite dentro, mas passou-lhe. Preferiu dormir e tentar encontrar um avião no dia seguinte. Mas dormir era impossível, por isso voltou aos dossiers dos processos.

O juiz dissera uma vez que percebia pouco da lei de demarcação de zonas, porque havia pouca demarcação de zonas no Mississipi e, possivelmente, nenhuma no 25º Chancery District. Mas, por qualquer meio, alguém o convencera a julgar um caso de demarcação de zona ferozmente disputado na cidade de Columbus. O julgamento durou seis dias e, quando acabou, um telefonema anónimo ameaçara abater o juiz, segundo as suas notas.

As ameaças não eram invulgares e dizia-se que ele andou anos e anos de pistola na pasta. Dizia-se que Claudia também usava uma. Era preferível levar um tiro do juiz do que da sua estenógrafa, dizia a sabedoria popular.

O caso de demarcação de zona fez sono a Ray. Mas foi então que ele descobriu uma falha, o buraco negro de que andava à procura, e esqueceu o sono.

Segundo as declarações de rendimentos, o juiz recebera 8110 dólares em Janeiro de 1999 para julgar um caso no 27º Chancery District. O 27º englobava dois condados em Gulf Coast, uma parte do estado pela qual o juiz se interessava pouco. Mas Ray achou muito estranho o facto de ele ter ido voluntariamente para lá durante um período de dias. Ainda mais estranho era a ausência de um processo do julgamento. Procurou em duas caixas e não descobriu nada relacionado com o caso da costa, e, mal contendo a curiosidade, remexeu nos outros trinta e oito. Esqueceu o seu apartamento e o auto-armazenamento e se Mr. Murray estava acordado ou vivo sequer, e quase se esqueceu do dinheiro.

Faltava um processo de tribunal.

 

O voo da US Air partia de Memphis às 6,40 da manhã, o que significava que Ray tinha de sair de Clanton antes das 5, e implicava que dormisse cerca de três horas, o costume em Maple Run. No primeiro voo, dormitou em viagem e depois no aeroporto de Pittsburgh e no voo de transferência. Inspeccionou o seu apartamento e depois caiu a dormir no sofá.

Não tinham tocado no dinheiro. Não houvera entradas sem autorização em nenhum dos seus pequenos compartimentos de armazenagem no Charney's. Não havia nada fora do normal. Trancou-se no 18R, abriu as caixas à prova de fogo e à prova de água e contou cinquenta e três geleiras.

Sentado no chão de cimento com três milhões de dólares espalhados à sua volta, Ray Atlee admitiu finalmente quão importante o dinheiro se tornara. O verdadeiro terror da noite anterior fora a hipótese de perdê-lo. Agora tinha medo de deixá-lo.

Nas últimas semanas, sentira mais curiosidade em saber o preço das coisas, o que o dinheiro podia comprar, como podia crescer, se fosse investido de forma conservadora ou agressiva. Por vezes, pensava em si como sendo rico, para logo afastar tais pensamentos. Mas eles estavam sempre presentes, apenas submersos e a virem à tona com maior frequência. As perguntas estavam, lentamente, a ter resposta - não, não era falso, não era detectável, não fora ganho em casinos e não fora extorquido a advogados e litigantes do 25º Chancery District.

E o dinheiro não devia ser partilhado com Forrest porque ele iria matar-se com ele. Não, não devia ser incluído no testamento por várias e boas razões.

Uma a uma as opções iam sendo eliminadas. Era capaz de se ver obrigado a ficar com ele.

Deram uma pancadinha na porta de metal e ele quase gritou. Pôs-se de pé atabalhoadamente e perguntou:

- Quem é?

- O segurança - foi a resposta, e a voz era vagamente familiar. Ray caminhou por cima do dinheiro e estendeu a mão para a porta, que entreabriu não mais de trinta centímetros. Mr. Murray estava a sorrir-lhe.

- Está tudo bem por aí? - perguntou, mais como um porteiro do que como um guarda armado.

- Tudo bem, obrigado - respondeu Ray com o coração ainda gelado.

- Se precisar de alguma coisa, diga.

- Obrigado pela noite passada.

- Só estava a fazer o meu trabalho.

Ray voltou a empacotar o dinheiro, voltou a trancar as portas e atravessou de carro a cidade com um olho no espelho retrovisor.

O dono do seu apartamento mandou uma equipa de carpinteiros mexicanos reparar as duas portas arrombadas. Martelaram e serraram pela tarde fora, depois aceitaram uma cerveja gelada, quando acabaram. Ray conversou com eles e tentou afastá-los do seu escritório. Havia um monte de correio em cima da mesa da cozinha e, depois de tê-lo ignorado durante grande parte do dia, sentou-se a tratar dele. Havia contas a pagar. Catálogos e correio sem interesse. Três bilhetes de condolências.

Uma carta do IRS, dirigido a Mr. Ray Atlee, executor testamentário de Reuben V. Atlee e com o carimbo de Atlanta com a data de dois dias antes. Analisou-a, atentamente, antes de abri-la devagar. Uma única folha em papel oficial, de um tal Martin Gage, Departamento de Investigação Criminal, na secção de Atlanta. Dizia assim:

 

               Prezado Mr. Atlee,

Como executor testamentário de seu pai, é-lhe exigido por lei que submeta todos os bens para fins de avaliação e taxação. A ocultação de bens pode constituir fraude fiscal. O dispêndio de bens não autorizado é uma violação das leis do Mississipi e possivelmente também das leis federais.

                     Martin Gage

                     Investigador Criminal

 

O seu primeiro instinto foi telefonar a Harry Rex para saber o que fora comunicado ao IRS. Como executor testamentário tinha um ano a partir da data da morte para apresentar a última declaração e, segundo o contabilista, eram facilmente conseguidas prorrogações.

A carta trazia a data do dia seguinte àquele em que Harry Rex fora a tribunal abrir o testamento. Porque havia o IRS de ser tão rápido a responder? Como tinham até sabido da morte do juiz Reuben Atlee?

Mas, em vez disso, telefonou para o gabinete cujo número vinha no cabeçalho. A mensagem gravada deu-lhe as boas-vindas ao mundo do IRS, secção de Atlanta, mas teria de telefonar mais tarde, porque era sábado. Ligou-se à Internet, e na lista de Atlanta encontrou três Martin Gage. O primeiro para quem ligou estava fora, mas a mulher disse que ele não trabalhava para o IRS, felizmente. O segundo telefonema não foi atendido. O terceiro apanhou Mr. Gage a jantar.

- Trabalha para o IRS? - perguntou Ray, depois de se ter apresentado cordialmente como professor de Direito e pedir desculpa pela intromissão.

- Sim, trabalho.

- Investigação Criminal?

- Ssssim, já há catorze anos.

Ray descreveu a carta e depois leu-a textualmente.

- Eu não escrevi isso - disse Gage.

- Então quem escreveu? - Lançou Ray e desejou, de imediato, não o ter feito.

- Como é que posso saber? Pode mandar-ma por fax? Ray olhou para o fax e, pensando rapidamente, disse:

- Claro, mas o meu aparelho está no escritório. Posso fazer isso na segunda-feira.

- Faça a digitalização e mande-me por e-mail - sugeriu Gage.

- Umm, o meu scanner está avariado. Mando-lhe por fax na segunda-feira.

- Certo, mas alguém está a gozar consigo, amigo. Essa carta não

é minha.

Ray sentiu subitamente voltade de se livrar do IRS, mas Gage estava

agora totalmente envolvido.

- Vou dizer-lhe mais uma coisa - continuou -, fazer-se passar por um agente do IRS é um crime federal e agimos energicamente. Faz ideia de quem seja?

- Não faço ideia.

- Provavelmente, foi buscar o meu nome a uma lista da Internet, foi a pior coisa que fizemos. Liberdade de informação e essas tretas.

- Provavelmente.

- E o testamento já foi aberto. ,     -Há três dias.

- Há três dias?

- Essa declaração de bens só é esperada dentro de um ano.

- Eu sei.

- O que é que está no testamento?

- Nada. Só uma casa velha.

- Deve ser algum maluco. Mande-me isso por fax, na segunda-feira, que eu depois telefono-lhe.

- Obrigado.

Ray poisou o telefone na mesa de café e perguntou-se porque teria, exactamente, telefonado ao IRS.

Para verificar a carta.

Gage nunca receberia uma cópia. E dentro de mais ou menos um mês teria esquecido o assunto. E dentro de um ano nem se lembraria de alguém o ter referido.

Talvez a atitude menos inteligente até ao momento.

 

Forrest entrara na rotina de Alcorn Village. Eram-lhe permitidos dois telefonemas por dia, sujeitos a gravação, explicou ele.

- Não querem que telefonemos aos nossos traficantes.

-Não tem graça - disse Ray. Era o Forrest sóbrio de fala arrastada e suave e espírito claro.

- Porque estás na Virgínia? - perguntou.

- É onde vivo.

- Pensei que estavas de visita a alguns amigos aqui, velhos colegas da faculdade.

- Vou voltar em breve. Como é a comida.

- Como num lar, gelatina três vezes ao dia, mas sempre de cor diferente. É mesmo bera. Por mais de trezentos dólares por dia é um roubo.

- Há miúdas giras?

- Uma, mas tem catorze anos, é filha de um juiz, acreditas? Temos aquele raio de reuniões de grupo uma vez por dia, em que cada um zurze quem quer que o tenha metido na droga. Falamos dos nossos problemas. Ajudamo-nos uns aos outros. Com os diabos, já sei mais do que os conselheiros. É a minha oitava desintoxicação, mano, acreditas?

- Parece mais do que isso - disse Ray.

- Obrigado por me ajudares. Sabes o que me mete mais raiva?

- O que é?

- Sou mais feliz quando estou limpo. Sinto-me óptimo, sinto-me esperto, sou capaz de fazer qualquer coisa. Por isso detesto-me quando ando pelas ruas a fazer todas aquelas coisas estúpidas como a outra escumalha. Não sei porque faço isso.

- Pareces óptimo, Forrest.

- Gosto deste sítio, tirando a comida.

- Óptimo. Estou orgulhoso de ti.

- Podes vir ver-me?

- Claro que vou. Dá-me só dois dias.

Apanhou Harry Rex, que estava no escritório, onde passava geralmente os fins-de-semana. Com quatro mulheres à perna, tinha boas razões para não estar muito tempo em casa.

- Recordas-te de o juiz ter julgado algum caso, na costa, no princípio do ano passado? - perguntou Ray.

Harry Rex estava a comer qualquer coisa e a dar estalos com a língua, ao telefone.

- Na costa? - Detestava a costa, achava que ali eram todos um bando de broncos mafiosos.

- Foi pago por um julgamento lá, em Janeiro do ano passado.

- O ano passado esteve doente - disse Harry Rex, engolindo algo líquido.

- O cancro foi-lhe diagnosticado em Julho.

- Não me lembro de caso nenhum na costa - disse, e deu uma dentada noutra coisa qualquer. - Isso espanta-me.

- A mim também.

- Porque andas tu a mexer nos arquivos dele?

- Estou apenas a verificar os seus registos de honorários e a comparar com os dossiers de julgamentos.                  

- Porquê?

- Porque sou o seu executor testamentário.

- Desculpa. Quando é que voltas cá?

- Dentro de uns dois dias.

- Olha, esbarrei com a Claudia hoje, já não a via há meses, e chega à cidade cedo, estaciona um Cadillac preto, novinho em folha, perto do Café para que toda a gente veja e depois passa metade da manhã a dar volta pela cidade. Que belo trabalho.

Ray não pôde deixar de sorrir ao pensar em Claudia a correr para o comerciante de automóveis com os bolsos cheios de dinheiro. O juiz sentir-se-ia orgulhoso.

O sono vinha em pequenas sonecas no sofá. As paredes estalavam com mais força, os ventiladores e os canos pareciam mais activos. As coisas moviam-se e depois paravam. Na noite a seguir à do assalto, todo o apartamento estava suspenso à espera de outro.

 

Esforçando-se muito por parecer natural, Ray fez uma longa corrida no seu circuito preferido pela zona comercial da baixa, descendo a Rua Principal até ao campus, subindo a Observatory Hill e voltando para trás, dez quilómetros ao todo. Almoçou com Cari Mirk no Bizou, um pequeno restaurante a três quarteirões do seu apartamento e depois tomou café num quiosque de rua. Fog tinha reservado o Bonanza para um voo de treino às 3 da tarde, mas com a chegada do correio toda a rotina foi alterada.

O envelope, manuscrito, vinha endereçado a ele, não trazia nada no verso, tinha o carimbo de Charlottesville e a data do dia anterior. Um pau de dinamite, pousado ali em cima da mesa, não lhe teria parecido mais suspeito. Lá dentro havia uma folha de papel de carta dobrada em três, e quando a abriu todos os sistemas ficaram bloqueados. Durante um momento não conseguiu pensar, respirar, sentir ou ouvir.

Era uma fotografia digital, a cores, da frente do compartimento 14B do Chaney's, impressa em computador, em papel de cópia comum. Sem palavras, avisos ou ameaças. Nenhum deles era necessário.

Quando conseguiu recuperar o fôlego começou a suar, e a sensação de dormência desvaneceu-se o suficiente para que uma forte dor lhe trespassasse o estômago. Estava tonto, por isso fechou os olhos, e, quando voltou a abri-los e olhou novamente para o retrato, estava a tremer.

O seu primeiro pensamento, o primeiro de que conseguiu lembrar-se, foi que não havia coisa alguma no apartamento que não pudesse dispensar. Podia deixar tudo, mas, mesmo assim, encheu uma maleta.

Três horas mais tarde entrou num concorrido local de paragem de camiões a leste de Knoxville. Ficou no parque de estacionamento durante muito tempo, enfiado no seu descapotável a ver os camionistas chegarem e partirem, e a observar as entradas e saídas do pequeno café. Havia uma mesa junto à montra, que era a que ele queria, e, quando vagou, trancou o Audi e entrou. Da mesa ficou a vigiar o carro a uns quinze metros, recheado com três milhões em dinheiro.

Devido ao aroma, depreendeu que a especialidade do café era gordura. Mandou vir um hambúrguer e começou a escrevinhar as suas opções num guardanapo.

O lugar mais seguro para o dinheiro era num banco, num grande cofre para lá de paredes grossas e câmaras, etc. Podia dividir o dinheiro, espalhá-lo por diferentes bancos em várias cidades entre Charlottesville e Clanton, deixando um rasto complicado. O dinheiro podia ser transportado, discretamente, para lá, numa pasta. Uma vez fechado no cofre, estava em segurança para sempre.

O rasto seria extenso, pensou. Impressos de aluguer, o devido BI, residência, telefones, apresento-lhe o nosso novo vice-presidente, em reunião com estranhos, câmaras de vídeo, registos de cofres e sabe-se lá o que mais, porque Ray nunca escondera, até então, nada num banco.

Passara por diversos locais de auto-armazenamento ao longo da interestadual. Hoje em dia estavam por todo o lado e, por alguma razão, encravados tão perto da estrada principal quanto possível. Porque não escolher uma ao acaso e parar, pagar em dinheiro e reduzir a papelada ao mínimo? Podia ficar um dia ou dois em Podunktown, descobrir mais umas caixas à prova de incêndio no comércio local, pôr o dinheiro em segurança e depois escapar-se. Era uma boa ideia, porque o seu torturador não esperava.

E era uma ideia estúpida porque ia deixar lá o dinheiro.

Podia levá-lo para Maple Run e enterrá-lo na cave. Harry Rex podia avisar o xerife e a polícia para estarem atentos a estranhos suspeitos a rondarem a cidade. Se um agente aparecesse a segui-lo seria caçado em Clanton, e a Dell no Café já saberia todos os pormenores ao amanhecer. Ali não se podia tossir sem que três pessoas apanhassem a nossa constipação.

Os camionistas vinham por vagas, a maior parte a falar alto quando entrava, ansiosos por conviver após quilómetros de solitária reclusão.

Parecem todos iguais, de jeans e botas pontiagudas. Um par de ténis passou e chamou a atenção de Ray. Calças de caqui, sem jeans. O homem vinha sozinho e sentou-se ao balcão. No espelho, Ray viu a sua cara, e já a vira antes. Larga até aos olhos, estreita no queixo, nariz comprido e achatado, cabelo com gel, mais ou menos trinta e cinco anos. Algures por Charlottesville, mas impossível de situar.

Ou seria agora suspeita toda a gente?

Se fugirmos com a nossa presa, como um assassino com a sua vítima no porta-bagagens, muitas caras parecem familiares e malévolas.

O hamburger chegou, quente a fumegar, coberto de batatas fritas, mas ele tinha perdido o apetite. Recomeçou a escrever no terceiro guardanapo. Os outros não o tinham levado a lado nenhum.

De momento, as suas opções eram limitadas. Como não queria perder o dinheiro de vista, conduziria toda a noite, parando para tomar café, talvez encostando para uma soneca, e chegaria a Clanton de manhã cedo. Logo que estivesse novamente no seu ambiente, as coisas iam tornar-se mais claras.

Esconder o dinheiro na cave era má ideia. Um curto-circuito, um raio, um fósforo perdido, e a casa lá se iria. Era mais desfavorável do que favorável.

O homem do balcão não olhara ainda para Ray, e, quanto mais Ray olhava para ele, mais convencido estava de que não tinha razão. Era uma cara comum, do tipo que se vê todos os dias e de que raramente nos lembramos. Estava a comer bolo de chocolate e a beber café. Era estranho, às 11 da noite.

 

Entrou em Clanton às 7 da manhã. Tinha os olhos vermelhos, estava desfeito de cansaço, a precisar de um duche e de dois dias de descanso. Durante a noite, enquanto não estava a observar cada par de faróis que vinha atrás dele e a esbofetear-se para se manter acordado, sonhara com a solidão de Maple Run. Uma grande casa vazia só para si. Podia dormir em cima, em baixo ou no alpendre. Não havia telefones a tocar, ninguém a incomodá-lo.

Mas os operários do telhado tinham outros planos. Já iam com o trabalho adiantado quando, ele chegou, os camiões, escadas e ferramentas cobriam o relvado da frente e bloqueavam o caminho de entrada. Encontrou Harry Rex no Café, a comer ovos escalfados e a ler dois jornais ao mesmo tempo.

- O que estás aqui a fazer? - perguntou, mal levantando os olhos. Não tinha acabado os ovos nem os jornais, e não pareceu muito entusiasmado por ver Ray.

- Se calhar, tenho fome.

- Estás com um aspecto desgraçado.

- Obrigado. Não conseguia dormir lá, por isso vim para cá.    

- Estás estoirado.

- Pois estou.

Baixou por fim o jornal e espetou a faca num ovo que parecia coberto de molho picante.  - Conduziste toda a noite, desde Charlottesville?

- São só quinze horas.

Uma empregada trouxe-lhe café. - Quanto tempo tencionam trabalhar os teus operários no telhado?

- Estão lá?

- Ah, sim. Pelo menos uma dúzia deles. Apetecia-me dormir durante os próximos dois dias.

- São aqueles rapazes do Atkin. São rápidos, a menos que comecem a beber e a brigar. Um deles caiu de uma escada, o ano passado, e partiu o pescoço. Apanhou-lhe trinta mil de indemnização por acidente de trabalho.

- Então, afinal, para que os contrataste?

- São baratos, como tu, Sr. Executor Testamentário. Vai dormir para o meu escritório. Tenho um esconderijo no terceiro andar.

- Com cama?

Harry Rex olhou em volta como se as linguareiras de Clanton estivessem a aproximar-se. - Lembras-te da Rosetta Rhines ?

- Não.

- Foi a minha quinta secretária e terceira mulher. Foi aí que comecei.

- Os lençóis estão limpos?

- Quais lençóis? É pegar ou largar. É muito sossegado, mas o chão abana. Foi assim que fomos apanhados.

- Desculpa ter perguntado - disse Ray sorvendo um grande golo de café. Estava com fome, mas não pronto para um banquete. Queria uma tigela de flocos com leite magro e fruta, uma coisa sensata, mas seria ridicularizado se pedisse uma comida tão leve no Café.

- Vais comer? - rosnou-lhe Harry Rex.

- Não. Temos de armazenar algumas coisas. Todas aquelas caixas e mobília. Conheces algum sítio.

- Nós?

- Pronto. Eu preciso de um sítio.

- É só lixo. - Deu uma dentada na bolacha e carregou-a de salsicha, Cheddar e o que parecia ser mostarda. - Queima-o.

- Não posso queimá-lo, pelo menos agora.

- Então faz tudo o que os bons executores testamentários fazem. Guarda-o durante dois anos, depois dá tudo ao Exército de Salvação, e eles queimam o que não quiserem.

- Sim ou não? Há um armazém na cidade?

- Não andaste na escola com aquele maluco do filho dos Can-trell?

- Havia dois.

- Não, havia três. Um foi atropelado pela Greyhound ali perto de Tobytown. - Um grande sorvo de café, depois mais ovos.

- Um local de armazenagem, Harry Rex.

- Estamos irritados, não estamos?

- Não, é da privação de sono.

- Ofereci-te o meu ninho de amor.

- Não, obrigado. Vou tentar a minha sorte com os operários do telhado.

- O tio deles é o Virgil Cantrell, fui eu que tratei do divórcio da sua segunda mulher e ele transformou a velha estação de comboios num armazém.

- É o único sítio na cidade?

- Não, o Lundy Staggs arranjou uma dessas unidades de mini-armazém a oeste da cidade, mas inundaram-se. Eu cá não ia lá.

- Qual é o nome desse? - perguntou Ray, cansado do Café.

- Armazém da estação. - Outra dentada de bolacha.

- Junto à linha do comboio?

- Isso mesmo. - Começou a sacudir uma garrafa de Tabasco por cima do restante monte de ovos.-Normalmente tem algum espaço, até instalou uma sala estanque para protecção contra incêndios. Mas não vás à cave.

Ray hesitou, sabendo que devia ignorar o isco. Olhou para o carro estacionado em frente do tribunal e perguntou por fim: - Porquê?

- Ele tem o filho lá.

- O filho?

- Sim. Também é maluco. O Virgil não conseguiu interná-lo em Whitfield e não podia pagar uma espelunca privada, por isso lembrou-se de fechá-lo na cave.

- Estás a falar a sério?

- Estou, que raio. Disse-lhe que não era contra a lei. O rapaz tem tudo: quarto, casa de banho, televisão. E é bestialmente mais barato do que pagar mensalidade numa casa de doidos.

- Como se chama? - perguntou Ray, aprofundando mais.

- Pequeno Virgil.

- Pequeno Virgil?

- Pequeno Virgil.

- Que idade tem o Pequeno Virgil?

- Não sei, uns quarenta e cinco ou cinquenta.

Para grande alívio de Ray, não havia nenhum Virgil presente quando ele entrou na estação. Uma mulher forte, de macacão, disse que Mr. Cantrell saíra para uns recados e só voltaria dentro de duas horas. Ray fez perguntas sobre o espaço de armazenagem, e ela ofereceu-se para lhe mostrar as instalações.

Uns anos antes, um remoto tio do Texas viera visitá-los. A mãe de Ray esfregara-o e dera-lhe lustro até ao exagero. Com grande ansiedade foram até à estação buscar o tio. Forrest era bebé e deixaram-no em casa com a ama. Ray lembrava-se perfeitamente de esperar na plataforma, a ouvir o apito do comboio, de vê-lo aproximar-se e de sentir a excitação da multidão que esperava. Nesse tempo, a estação era um local concorrido. Quando andava no liceu fecharam-na com tábuas, e os jovens marginais faziam dela ponto de paragem. Estava quase destruída quando foi invadida pela cidade com uma recuperação mal pensada.

Agora era um conjunto de compartimentos, cortados em fatias e distribuídos por dois andares, com tralha inútil amontoada até ao tecto.

Por toda a parte se empilhava madeira e tábuas para parede, como prova de intermináveis obras. O chão estava coberto de serradura. Uma rápida volta por lá convenceu Ray de que o local era mais inflamável do que Maple Run.

- Temos mais espaço na cave - disse a mulher.

- Não, obrigado.

Saiu para ir-se embora, e a passar velozmente na Taylor Street ia um Cadillac preto, novinho em folha, a brilhar ao sol da manhã, sem uma mancha de pó ou de sujidade, e Claudia, ao volante, com óculos escuros à Jackie Onassis.

Ali sob o calor matinal, a ver o carro acelerar pela rua, Ray sentiu a cidade de Clanton desabar sobre si. Claudia, os Virgil, Harry Rex e as suas mulheres e secretárias, os filhos do Atkins a construírem o telhado, a beberem e a brigarem.

«Estarão todos doidos ou serei só eu?»

Entrou no carro e saiu do armazém da estação, fazendo voar o cascalho atrás de si. No limite da cidade, a estrada terminava. Para norte estava Forrest, para sul estava a costa. A vida não ia ficar mais simples por visitar o irmão, mas ele prometera.

 

Dois dias depois, Ray chegou à costa do golfo do Mississipi. Havia em Tulane amigos da Faculdade de Direito que queria visitar, e pensava seriamente passar algum tempo com os seus velhos fantasmas. Ansiava por umpo 'boy de ostra do Franky & Johnny junto do desembarcadouro, uma muffaletta do Maspero em Decatur no Quarter, uma cerveja Dixie no Chart Room em Bourbon Street e café de chicória e beignets no Café du Monde, todos os seus velhos fantasmas de há vinte anos.

Mas o crime andava à solta em Nova Orleães, e o seu belo carrinho desportivo podia ser um alvo. Ladrões não o apanhariam, e muito menos os agentes da lei, porque se mantinha exactamente dentro dos limites estabelecidos. Era um condutor perfeito, obedecia a todas as leis, observando cuidadosamente todos os carros.

O trânsito fê-lo abrandar na auto-estrada 90, e durante uma hora escapou-se para leste por Long Beach, Gulfport e Biloxi, saudando veementemente a praia, passando pelos novos e rutilantes casinos situados à beira-mar e por novos hotéis e restaurantes. O jogo atingira a costa tão depressa como chegara às terras agrícolas em redor de Túnica.

Atravessou a baía de Biloxi e entrou em Jackson County. Perto de Pascagoula, viu um anúncio luminoso intermitente que acenava aos viajantes para que parassem ali para Tudo-o-que-Conseguirem-Comer, por 13,99 dólares. Era uma espelunca, mas o estacionamento estava bem iluminado. Primeiro observou-a bem, e viu que podia sentar-se a uma mesa junto da janela e estar atento ao carro. Tornara-se já um hábito.

Havia três condados ao longo do golfo. Jackson no leste e na fronteira com o Alabama, Harrison no meio e Hancock a oeste junto à Luisiana. Um político local saíra-se bem em Washington e não parava de fazer fluir os fundos para os estaleiros de Jackson County. O jogo pagava as despesas e a construção de escolas em Harrison County. E fora Hancock, o menos desenvolvido e populoso, que o juiz Atlee visitara em Janeiro de 1999, para um caso de que ninguém na sua terra sabia.

Depois de um lento jantar, étoufée de lagostins e rémoulade de camarões com umas ostras cruas à mistura, voltou a andar ao acaso pela baía, atravessando Biloxi e Gulfport. Na cidade de Pass Christian descobriu o que procurava - um motel novo e simples com portas que abriam para fora. A vizinhança parecia segura, o parque de estacionamento estava meio cheio. Pagou sessenta dólares em dinheiro, por uma noite, e encostou a traseira do carro à porta, tanto quando podia. Mudara de ideias quanto a não usar arma. Um som estranho durante a noite e saltava de lá num instante com a .38 do juiz, agora carregada. Estava perfeitamente preparado para dormir no carro, se fosse preciso.

 

Hancock County recebeu o nome de John, o da ousada assinatura da Declaração de Independência. O seu tribunal fora construído no centro da baía de St. Louis e fora praticamente varrido pelo furacão Camille, em Agosto de 1969.O centro do furacão passou mesmo por Pass Christian e pela baía de St. Louis, e não houve edifício que escapasse a danos graves. Morreram mais de cem pessoas e muitas nunca foram encontradas.

Ray parou para ler uma lápide histórica no relvado do tribunal, depois voltou-se mais uma vez e olhou para o seu pequeno Audi. Embora os registos do tribunal fossem geralmente públicos, sentia-se nervoso. Os empregados Clanton vigiavam os seus registos e controlavam quem entrava e saía. Não tinha a certeza do que procurava nem por onde começar. Porém, o maior medo era do que poderia encontrar.

No gabinete do Tribunal Especial, demorou-se apenas o tempo suficiente para chamar a atenção de uma jovem bonita com um lápis no cabelo.

- Posso ajudá-lo? - perguntou em voz arrastada.

Ele segurava um bloco oficial como se isso o credenciasse, de certo modo, e lhe abrisse as portas certas.

- Vocês aqui mantêm registos dos julgamentos? - perguntou, esforçando-se muito por sublinhar, entretanto, o «vocês aqui».

Ela franziu a testa e olhou para ele como se tivesse cometido um pequeno delito.

- Temos minutas de cada sessão - disse ela lentamente, porque, obviamente, ele não era muito esperto. - E temos os próprios dossiers de tribunal. - Ray ia escrevinhando. Ela adiantou após uma pausa: - E há transcrições de julgamentos registadas pelo estenógrafo do tribunal, mas essas não as temos aqui.

- Posso ver as minutas? - perguntou, agarrando-se à primeira coisa que ela mencionou.

- Claro. De que período?

- Janeiro do ano passado.

Ela deu dois passos para a direita e começou a procurar com as pontas dos dedos num arquivo. Ray olhou em volta o grande gabinete onde várias senhoras estavam às suas secretárias, umas a baterem teclas, outras a arquivar e outras ao telefone. A última vez que vira o gabinete do Tribunal Especial em Clanton só havia lá um computador. Hancock County estava adiantado dez anos.

A um canto, dois advogados beberricavam café em copos de papel e murmuravam sobre assuntos importantes. À sua frente estavam os livros de assentos de há dois séculos. Tinham ambos óculos de leitura encavalitados no nariz, com as pontas das hastes desgastadas, e presos com grossos nós. Estavam a verificar títulos de propriedade, por duzentos dólares cada consulta rápida, uma de uma dúzia de tarefas monótonas levadas a cabo por legiões de advogados de província. Um deles reparou em Ray e deitou-lhe um rápido olhar de desconfiança.

Eu podia ser um daqueles, pensou Ray para consigo.

A jovem agachou-se e tirou um grande livro de assentos cheio de folhas de computador impressas. Passou as páginas, depois parou e rodou-o no balcão.

- Aqui está - disse apontando. - Janeiro de 99, duas semanas de julgamentos. Tem aqui o registo dos processos judiciais que se estende por diversas páginas. Esta coluna indica a decisão final. E, como verá, a maior parte dos casos continuou pelo período de Março. Ray ia olhando e ouvindo.

- Algum caso, em especial? - perguntou ela.

- Lembra-se de um caso que foi presidido pelo juiz Atlee de Ford County? Acho que ele esteve aqui como juiz extraordinário? - perguntou em tom natural. Olhou para ele como se lhe tivesse pedido para ver a sentença de divórcio dela.

- É jornalista? - perguntou, e Ray quase deu um passo atrás.

- Tenho de ser? - perguntou. Outras duas empregados da secretaria pararam o que estavam a fazer e olhavam-no de testa franzida.

Ele esboçou um sorriso forçado.

- Não, mas o caso foi muito importante. Está aqui - disse apontando novamente. Na lista estava referido apenas como Gibson contra Miyer-Brack. Ray fez um sinal afirmativo como se tivesse descoberto exactamente o que queria.

- E onde está o processo? - perguntou.

- É grande - comentou ela.

Seguiu-a até uma sala cheia de armários de metal preto que continham milhares de processos. Ela sabia exactamente onde dirigir-se.

- Assine aqui - pediu-lhe, estendendo-lhe um bloco de mola com uma folha de livro-razão. - Só o seu nome e a data, eu trato do resto.

- Que tipo de caso foi? - perguntou, enquanto ela preenchia os espaços em branco.

- Morte por negligência. - Abriu uma gaveta comprida e apontou de uma ponta à outra. - É tudo isto. As alegações começam aqui, depois a descoberta, depois a transcrição do julgamento. Pode levá-lo para aquela mesa, mas não pode levá-lo para fora da sala. Ordens do juiz.

- Que juiz?

- O juiz Atlee.

- Ele morreu, sabe?

Enquanto se afastava ela disse:

- Não é uma notícia assim tão má.

O ar da sala desapareceu com ela, e Ray levou alguns segundos até retomar os pensamentos. O processo tinha um metro de espessura, mas não se importou. Tinha todo o resto do Verão.

Clete Gibson morreu em 1997, com sessenta e um anos. Causa da morte, paragem renal. Causa da paragem renal, um medicamento chamado Ryax fabricado pela Miyer-Brack, segundo as alegações da acusação, e que foram consideradas verdadeiras pelo Meritíssimo Reuben V. Atlee, que presidiu como juiz extraordinário.

Mr. Gibson tomara Ryax durante oito anos para combater o excesso de colesterol. O medicamento era receitado pelo seu médico e comprado na farmácia, ambos também acusados pela viúva e pelos filhos. Após ter tomado o medicamento durante cinco anos, começou a ter problemas de rins, que foram tratados por uma equipa de médicos diferentes. Na altura, o Ryax era um medicamento relativamente novo que não tinha efeitos secundários conhecidos. Quando os rins de Gibson deixaram totalmente de trabalhar, não se sabe como, ele travou conhecimento com um certo Mr. Patton French, advogado. Isto aconteceu pouco antes da sua morte.

Patton French trabalhava na French & French, em Biloxi. O cabeçalho de uma carta da firma enumerava outros seis advogados. Além do fabricante, médico e farmacêutico, os réus incluíam também um vendedor local de medicamentos e a sua empresa de corretagem em Nova Orleães. Todos os réus estavam ligados a grandes empresas, incluindo alguns pesos-pesados de Nova Iorque. O processo foi controverso, complicado e até feroz, por vezes, e Mr. Patton French e a sua pequena empresa de Biloxi travaram uma impressionante guerra contra os gigantes da outra parte.

Miyer-Brack era um gigante farmacêutico suíço, uma empresa privada, com interesses em sessenta países, segundo o depoimento do seu representante americano. Em 1998, os seus lucros foram de 635 milhões sobre receitas de 9,1 milhares de milhões. Esse depoimento levou uma hora a ler.

Por uma razão qualquer, Patton French decidira apresentar queixa de morte por negligência no Tribunal da Chancelaria, o tribunal de equidade, em vez de no Tribunal Itinerante, onde a maior parte dos julgamentos era feita pelo júri. Por estatuto, os únicos julgamentos com júri feitos na Chancelaria eram de impugnação de testamentos. Ray assistira a várias dessas infelizes questões, enquanto fora empregado administrativo do juiz.

O Supremo Tribunal tinha jurisdição por duas razões. Primeiro, Gibson tinha morrido e o seu testamento era uma questão para a Chancelaria. Em segundo lugar, tinha um filho menor. A questão legal de menores era da competência do Tribunal da Chancelaria.

Gibson tinha também três filhos não menores. A queixa podia ter sido apresentada tanto no Itinerante como na Chancelaria, uma das centenas de peculiaridades da lei do Mississipi. Ray pedira uma vez ao juiz que lhe explicasse este enigma e, como sempre, a resposta fora simples: «Temos o melhor sistema judicial do país.» Todos os velhos chanceleres julgavam o mesmo.

Dar aos advogados a opção de escolha quanto a onde apresentar queixa não era uma particularidade de qualquer estado. A escolha do foro era um jogo que se praticava no mapa nacional. Mas quando era apresentada queixa no Tribunal da Chancelaria de Hancock County por uma viúva do Mississipi rural contra um potentado suíço que criava um medicamento produzido no Uruguai, levantava-se uma bandeira vermelha. Os tribunais federais estavam em posição de tratar desses processos extensos, e a Miyer-Brack e o seu exército de advogados tentaram, de forma simpática, transferir o caso. O juiz Atlee manteve-se inabalável, tal como o juiz federal. Os réus locais foram incluídos, pelo que a transferência para um tribunal federal pôde ser negada.

Reuben Atlee ficou encarregado do caso, e quando conduziu o assunto para julgamento, a sua paciência com os advogados de defesa estava por um fio. Ray teve de sorrir perante certas decisões de seu pai. Eram rígidas, chegando até a ser brutais, e destinadas a pôr em ebulição o exército de advogados que circulavam em redor dos réus. As regras modernas sobre julgamentos rápidos nunca tinham sido necessárias na sala de audências do juiz Atlee.

Era evidente que o Ryax era um produto mau. Patton French encontrou dois técnicos que arrasaram o medicamento, e os especialistas que o defendiam não passavam de porta-vozes da empresa. O Ryax baixava o colesterol a níveis espantosos. Passara rapidamente pelas aprovações, depois mergulhou no mercado onde se tornou extremamente popular. Dezenas de milhares de rins estavam agora estragados. E Mr. Paton French conseguira também agarrar a Miyer-Brack.

O julgamento durou oito dias. Contra as objecções da defesa, os processos começavam todas as manhãs precisamente às 8.15. E estendiam-se muitas vezes até às 20, desencadeando mais objecções que o juiz Atlee ignorava. Ray vira isto muitas vezes. O juiz era apologista do trabalho árduo, e, sem um júri a quem apaparicar, era brutal.

A sua decisão final era datada de dois dias depois de a última testemunha ter deposto, um forte golpe a favor da celeridade judicial. Era evidente que permanecera em Bay St. Louis e ditara uma decisão de quatro páginas ao escrivão do tribunal. Também isto não surpreendeu Ray. O juiz detestava adiamentos na decisão de casos.

Tinha também as suas notas para se basear. Durante oito dias de testemunhos ininterruptos, o juiz devia ter enchido trinta blocos de tribunal. A sua decisão era suficientemente pormenorizada para impressionar os especialistas.

A família de Clete Gibson teve direito a 1,1 milhão por danos reais, o valor da sua vida, segundo um economista. E, para castigar a Miyer-Brack por ter impingido um produto tão mau, o juiz atribuiu 10 milhões por perdas e danos. A opinião era uma severa acusação da negligência e ambição da empresa, sendo perfeitamente óbvio que o juiz Atlee ficara profundamente perturbado pelos métodos da Miyer-Brack. Mesmo assim, Ray nunca soubera que o pai tivesse recorrido a uma indemnização por perdas e danos.

Houve o habitual fluxo de moções pós-julgamento, todas elas rejeitadas pelo juiz em parágrafos duros. A Miyer-Brack queria que a indemnização por perdas e danos fosse retirada. Patton French queria que fossem aumentadas. As duas partes receberam uma repreensão escrita.

Estranhamente, não houve recurso. Ray estava à espera de que houvesse. Folheou duas vezes a secção pós-julgamento, depois voltou a vasculhar toda a gaveta. Era possível que o caso tivesse ficado por fim resolvido, e tomou nota para perguntar à empregada. Surgira uma discussão desagradável sobre honorários. Patton French tinha um contrato assinado pela família Gibson para lhe dar cinquenta por cento do que auferissem. Como sempre, o juiz achara que era excessivo. No Supremo, os honorários ficavam ao critério do juiz. O seu limite fora sempre os trinta e três por cento. As contas eram fáceis de fazer, e Mr. French lutou muito para cobrar o seu dinheiro bem ganho. O Meritíssimo

não se moveu.

O julgamento da Gibson fora efectuado pelo juiz Atlee, no seu melhor, e Ray sentiu-se orgulhoso e sentimental. Era difícil perceber que aquilo se passara quase um ano e meio antes, quando o juiz sofria de diabetes, doença cardíaca e provavelmente cancro, embora o último levasse seis meses a ser descoberto.

Admirava o velho guerreiro.

Com a excepção de uma senhora que estava a comer melão à secretária e a fazer outra coisa em computador, os empregados tinham ido almoçar. Ray saiu dali e foi procurar uma biblioteca.

 

De uma espelunca de hamburgers em Biloxi, ligou para a sua caixa de correio telefónico de Charlottesville e ficou a saber que tinha três mensagens. Kaley telefonara a dizer que gostava de jantar. Um descarte rápido, e ficou livre dela para sempre. Fog Newton telefonou a dizer que o Bonanza estava livre para a próxima semana e que precisavam de ir voar. E Martin Gage, do IRS de Atlanta, apareceu ainda à procura do fax da carta falsa. «Continua a procurar», disse Ray para consigo.

Estava a comer uma salada embalada, a uma mesa de plástico cor de laranja vivo, do outro lado da auto-estrada em frente da praia. Não se lembrava da última vez que se sentara sozinho numa espelunca de comida de plástico, e agora estava ali porque tinha o carro perto e bem à vista. Além disso, o local abarrotava de mães jovens com os filhos, um grupo, geralmente, alvo de pouca criminalidade. Por fim, desistiu da salada e telefonou a Fog.

A Biblioteca Pública de Biloxi era em Lameuse Street. Servindo-se de um mapa que comprara numa loja de conveniência, descobriu-a e estacionou numa fila de carros perto da entrada principal. Como era seu hábito agora, parou, observou o carro e todos os elementos que o rodeavam, antes de entrar no edifício.

Os computadores estavam no primeiro andar, numa sala toda envidraçada, mas infelizmente sem nenhuma janela para o exterior. O principal jornal da costa era o Sun Herald, e, através de um serviço de armazenamento de notícias, os seus ficheiros podiam ser consultados até 1994. Foi consultar o de 24 de Janeiro de 1999, o dia seguinte ao veredicto do juiz Atlee. Não era de surpreender que lá estivesse um artigo, na primeira página da secção da cidade, do veredicto de 11,1 milhões em Bay St. Louis. E não era surpresa ver que Mr. Patton French tinha muito a dizer. O juiz Atlee recusara-se a fazer comentários. Os advogados de defesa declaravam-se chocados e prometiam recorrer.

Havia uma fotografia de Patton French, um homem de uns cinquenta e cinco anos, rosto redondo e ondas no cabelo grisalho. A medida que a notícia se desenrolava tornava-se óbvio que ele telefonara para o jornal a dar a novidade e que se sentia encantado por poder pairar. Foi um «julgamento árduo». As acções dos réus eram «ousadas e gananciosas». A decisão do tribunal fora «corajosa e justa». Outro recurso seria «apenas mais uma tentativa para atrasar a justiça».

Já ganhara muitas causas, gabava-se, mas este fora o seu maior veredicto. Interrogado sobre a recente enxurrada de elevadas indemnizações, desvalorizou qualquer sugestão de que a decisão fosse um pouco escandalosa.

- Um júri em Hinds County entregou quinhentos milhões de dólares há dois anos - disse. E noutras partes do estado, júris esclarecidos estavam a atingir réus que eram gananciosas empresas de sucesso, com dez milhões aqui e vinte milhões ali. - Esta indemnização é legalmente defensável em toda a linha - declarou.

A sua especialidade, disse, à medida que a história se desenrolava, era a fiabilidade farmacêutica. Tinha quatrocentos casos só de Ryax e estavam ajuntar-se-lhes mais todos os dias.

Ray fez uma pesquisa da palavra Ryax dentro do Sun Herald. Cinco dias depois do artigo, a 29 de Janeiro, havia um anúncio de página inteira em letra negra que começava com a maldosa pergunta: Já tomou Ryaxl Por baixo dela havia dois parágrafos que pormenorizavam a recente vitória de Patton French, advogado perito em julgamentos, a especializar-se em Ryax e noutros medicamentos problemáticos. Um rastreio de vítimas iria ter lugar no hotel Gulfport nos dez dias seguintes, e os testes seriam efectuados por médicos especializados. O rastreio seria grátis para os que respondessem. Sem quaisquer condições, ou, pelo menos, nenhuma era referida. Em letras bem visíveis no rodapé da página havia a informação de que o anúncio fora pago pela firma de advogados Fench & French com morada e número de telefone dos escritórios em Gulfport, Biloxi e Pascagoula.

A pesquisa da palavra revelou um anúncio quase idêntico datado de 1 de Março de 1999. A única diferença era a hora e o local do rastreio. Outro anúncio vinha na edição de sábado de Sun Heraldde, 2 de Maio de 1999.

Durante quase uma hora, Ray aventurou-se para lá da costa, e descobriu os mesmos anúncios no Clarion-Ledger de Jackson, no Times - Picayune de Nova Orleães, no Hattiesburg American, no Mobile Register, no Commercial Appeal de Memphis e no The Advocate de Baton Rouge. Patton French lançara um assalto generalizado e frontal ao Ryax e à Miyer-Brack.

Convencido de que os anúncios de jornal podiam estender-se por todos os cinquenta estados, Ray cansou-se daquilo. Por um palpite, fez uma pesquisa na web sobre Mr. French, e foram-lhe dadas as boas-vindas ao site da própria firma, uma impressionante peça de propaganda.

Havia agora catorze advogados na firma, com escritórios em seis cidades e a expandirem-se hora a hora. Patton French tinha uma biografia lisonjeira de uma página, capaz de confundir os mais frágeis. O seu pai, o velho French, parecia ter oitenta anos ou mais, e ganhara o estatuto de sénior, o que quer que isso significasse.

A ponta-de-lança da empresa era a sua apaixonada representação de pessoas prejudicadas por maus medicamentos e maus médicos. Negociara brilhantemente a maior indemnização do Ryax até ao momento - 900 milhões por 7200 clientes. Agora andava a martelar a Shyne Medicai, fabricante do Minitrin, o mais largamente utilizado e obscenamente lucrativo medicamento para a hipertensão que a FDA tinha retirado devido a efeitos secundários. A firma tinha quase dois mil clientes do Minitrin e estava a rastrear mais, todas as semanas.

Patton French tinha atingido a Clark Pharmaceuticals com um veredicto do júri de oito milhões de dólares, em Nova Orleães. O medicamento em causa era o Kobril, um antidepressivo que fora largamente relacionado com a perda de audição. A firma tinha acordado para os primeiros 1400 casos ligados ao Kobril, a quantia de 1400 milhões de dólares.

Dizia pouco sobre os outros membros da firma, dando a nítida impressão de que era o espectáculo de um só artista com um esquadrão de lacaios nas salas das traseiras, deitando a mão a milhares de clientes que andaram a arrebanhar pelas ruas. Havia uma página com os compromissos de participação de Mr. French como orador, uma com o seu extenso calendário de julgamentos e duas páginas de calendários de rastreio, que cobriam nada menos do que oito medicamentos, incluindo o Skinny Ben, a pílula de emagrecimento de que Forrest falara.

Para melhor servir os seus clientes, a firma French comprara um Gulfstream IV e havia uma enorme fotografia a cores, numa pista, algures, com Patton French, evidentemente, posando perto do focinho do avião, de fato escuro, com um sorriso de desafio, preparado para saltar para bordo e ir bater-se pela justiça em qualquer parte. Ray sabia que aquele avião custava cerca de trinta milhões, com dois pilotos a tempo inteiro e uma lista de despesas de manutenção capaz de aterrorizar um contabilista.

Patton French era um desavergonhado poço de ego.

O avião foi a gota de água, e Ray saiu da biblioteca. Recostado no seu carro, marcou o número da French & French e cumpriu as ordens do gravador - cliente, advogado, juiz, outros, informação sobre rastreio, paralegais, as primeiras quatro letras do último nome do seu advogado. Três secretárias que trabalhavam diligentemente para Mr. French foram passando a chamada até chegar a uma delas encarregada das marcações.

Exausto, Ray disse:

- Queria encontrar-me mesmo com Mr. French.

- Ele está fora - respondeu, surpreendentemente delicada. Claro que estava fora. - Certo, oiça - disse Ray em tom rude.

- Só digo isto uma vez. O meu nome é Ray Atlee. O meu pai era o juiz Reuben Atlee. Estou aqui em Biloxi e queria falar com Patton French. Deu-lhe o número do seu telemóvel e arrancou. Foi até ao Acropolis, um casino de mau gosto em estilo Las Vegas com um tema grego, mal feito, mas com o que ninguém absolutamente se importava. O estacionamento estava concorrido, e havia seguranças de serviço. Não era certo que estivessem a vigiar alguma coisa. Descobriu um bar com vista para a sala, e bebia o seu refresco quando o telemóvel tocou.

- Mr. Ray Atlee - disse a voz.

- O próprio - respondeu Ray comprimindo mais o telefone no ouvido.

- Daqui French Patton. Gostei muito que tivesse ligado. Desculpe por eu não estar.

- Tenho a certeza de que é um homem ocupado.

- De facto sou. Está na costa?

- Neste momento estou sentado na Acropolis, um lugar maravilhoso.

- Bom, estou a regressar, estive em Naples para uma reunião do advogado dos queixosos com uns advogados importantes da Florida.

Cá vamos nós, pensou Ray.

- Lamento o que aconteceu ao seu pai - disse French, e o sinal falhou um bocado. Provavelmente estava a quarenta mil pés, a jacto, para casa.

- Obrigado - respondeu Ray.

- Estive no funeral. Vi-o lá, mas não tive oportunidade de falar-lhe. Um homem encantador, o juiz.

- Obrigado - repetiu Ray.

- Como está o Forrest?

- Como é que conhece o Forrest?

- Sei quase tudo, Ray. A minha preparação pré-julgamento é meticulosa. Reunimos informação às carradas. É por isso que ganhamos. A propósito, ele agora anda limpo?

- Tanto quanto sei - respondeu Ray irritado por um assunto particular ser trazido assim naturalmente à conversa como se fosse o tempo. Mas sabia pela web que o homem não tinha qualquer espécie de delicadeza.

- Óptimo, olhe, eu devo chegar aí amanhã. Estou no meu iate, por isso a velocidade é menor. Podemos almoçar ou jantar?

Não tinha visto qualquer iate na página web de Mr. French. Devia ter sido uma distracção. Ray preferia uma hora para café a duas para almoço ou um jantar ainda mais longo, mas ele era o convidado.

- Como quiser.

- Deixe as duas possibilidades em aberto, se não se importa. Estamos a apanhar um certo vento de frente, aqui no golfo, e não tenho a certeza de quando vou chegar. A minha pequena pode telefonar-lhe amanhã?

- Claro.

-Vamos discutir o julgamento Gibson?

- Sim, a menos que haja outra coisa.

- Não, tudo começou com o Gibson.

 

De regresso à Easy Sleep Inn, Ray semi-assistiu a um jogo de basebol, sem som, e tentou ler enquanto esperava que o Sol se escondesse. Precisava de dormir, mas não conseguia aconchegar-se na cama antes de escurecer. Apanhou Forrest à segunda tentativa e estavam a discutir as alegrias da recuperação quando tocou o telemóvel.

- Eu volto a telefonar-te - disse Ray, e desligou.

Mais uma vez tinha um intruso no apartamento. Um assalto em curso, disse a voz do computador da empresa de alarmes. Quando a gravação se calou, Ray abriu a porta e olhou para o carro, estava a menos de seis metros. Ficou com o telemóvel na mão e esperou.

A empresa de alarmes telefonou também a Corey Crawford, que lhe ligou quinze minutos depois com o mesmo recado. Pé-de-cabra na porta da rua, pé-de-cabra na porta do apartamento, uma mesa derrubada, luzes acesas, todos os aparelhos contados. O mesmo polícia a preencher o mesmo relatório.

- Não há aí nada de valor - disse Ray.

- Então, porque continuam a assaltar? - perguntou Corey.

- Não sei.

Crawford chamou o senhorio, que prometeu arranjar um carpinteiro para consertar as portas. Depois de sair o polícia, Corey esperou no apartamento e ligou novamente para Ray.

- Isto não é coincidência - afirmou.

- Porque não?

- Não estão a tentar roubar nada. É intimidação, e pronto. O que é que se passa?

- Não sei.

- Acho que sabe.

- Juro.

- Acho que não está a dizer-me tudo.

Lá disso podes ter a certeza, pensou Ray, mas aguentou-se.

- É por acaso, Corey, descontraia-se. É algum desses miúdos do centro, de cabelos cor-de-rosa epiercings nos lábios. São drogados à procura de um dólar fácil.            

- Eu conheço a zona. Não são miúdos.

- Um profissional não voltava, se soubesse do alarme. Foram duas pessoas diferentes.

- Não me parece.

Concordaram em discordar, embora ambos soubessem a verdade.

Rebolou-se no escuro durante duas horas, incapaz sequer de fechar os olhos. Por volta das dez, foi dar uma volta e deu consigo de regresso ao Acropolis, onde jogou roleta e bebeu mau vinho até às duas horas da manhã.

Pediu um quarto que desse para o estacionamento, não para a praia, e da janela do terceiro andar vigiou o carro até adormecer.

 

Dormiu até a empregada dos quartos se fartar de esperar. A saída era ao meio-dia, sem excepções, e quando a empregada bateu com força à porta, às 11.45, ele berrou qualquer coisa lá de dentro e saltou para o duche.

O carro parecia óptimo, não havia sinais de intrusão, mossas ou riscos na traseira. Abriu o porta-bagagens e espreitou rapidamente: três sacos de plástico preto atafulhados de dinheiro. Tudo estava normal até se sentar ao volante e ver o envelope enfiado por baixo do limpa-pára-brisas na sua frente. Ficou imóvel a olhá-lo e parecia que ele, a sessenta centímetros de distância, lhe devolvia o olhar. Branco liso, formato normalizado, sem marcas visíveis, pelo menos do lado encostado ao vidro.

Fosse o que fosse, não podia ser bom. Não era um folheto de uma casa de pizzas ao domicílio ou de um palhaço qualquer à procura de trabalho. Não era uma multa por ter expirado o tempo de estacionamento, porque este era gratuito no casino Acropolis.

Era um envelope com qualquer coisa dentro.

Rastejou lentamente para fora do carro e olhou em volta a ver se tinha a sorte de avistar lá alguém. Levantou o limpa-pára-brisas, pegou no envelope e analisou-o como se pudesse ser uma prova crucial num julgamento de homicídio. Depois entrou novamente no carro, porque imaginou que alguém estaria a vê-lo.

Lá dentro estava outra folha dobrada em três, outra imagem digital de computador, esta do compartimento 37F da Chaney's Self-Storage em Charlottesville, Virgínia, a 1200 quilómetros e pelos menos dezoito horas de distância de carro. A mesma máquina, a mesma impressora, o mesmo fotógrafo, sem dúvida, que sabia, com certeza, que o 37F não fora o último compartimento que Ray usara para esconder o dinheiro.

Embora estivesse demasiado entorpecido para se mexer, Ray afastou-se a toda a velocidade. Acelerou pela auto-estrada 90 a observar tudo o que tinha atrás, depois, de repente, virou à esquerda e entrou numa rua pela qual seguiu em direcção a norte, durante um quilómetro e meio até parar, de repente, num parque de estacionamento de uma lavandaria automática. Ninguém o seguia. Durante uma hora observou todos os carros e não viu nada de suspeito. Por uma questão de conforto, a pistola estava a seu lado no banco, preparada para a acção. E ainda mais reconfortante era o dinheiro, guardado apenas a alguns centímetros. Tinha tudo aquilo de que precisava.

 

O telefonema da secretária de Mr. French chegou às 11.15. Assuntos cruciais tinham-se conjugado para tornar o almoço impossível, mas um jantar cedo seria um prazer. Ela perguntou se Ray vinha ter ao escritório do grande homem por volta das 4 da tarde, e dali sairiam para o jantar.

O escritório, cuja imagem beneficiada aparecia no web site, era uma imponente casa georgiana que dava para o golfo, num terreno comprido sombreado por carvalhos e com musgo. As casas vizinhas eram do mesmo tipo de arquitectura e da mesma época.

As traseiras tinham sido recentemente transformadas em parque de estacionamento com altas paredes de tijolo em volta e câmaras de vigilância a esquadrinharem para trás e para a frente. Um portão de metal abriu-se para Ray e foi fechado atrás de si por um guarda, vestido como um agente dos Serviços Secretos. Estacionou num sítio reservado, e outro guarda acompanhou-o até às traseiras do edifício, onde uma equipa estava ocupada a pôr ladrilhos, enquanto outra plantava arbustos. Estava a desenrolar-se uma importante remodelação do escritório e das instalações.

- O governador vem dentro de três dias - murmurou o guarda.

- Ah -disse Ray.

O gabinete pessoal de French era no segundo andar, mas ele não estava lá. Estava ainda no seu iate, no golfo, explicou uma graciosa e jovem morena num vestido caro e justo. Conduziu-o ao gabinete de Mr. French e pediu-lhe que esperasse numa parte da sala junto às janelas. Esta estava apainelada com carvalho amarelado e tinha sofás de cabedal, cadeiras e otomanas suficientes para mobilarem um pavilhão de caça. A secretária era do tamanho de uma piscina e coberta de modelos de grande iates, à escala.

- Ele gosta de barcos, hã? - Disse Ray olhando em volta. Esperavam que se mostrasse impressionado.

- Sim, gosta. - Com um controlo remoto abriu um armário e um enorme ecrã deslizou para fora. - Ele está numa reunião, mas não vai demorar-se. Quer tomar alguma coisa? - perguntou ela.

- Agradeço um café simples.

Havia uma câmara pequenina no canto superior direito do ecrã e Ray calculou que ele e Mr. French iam falar via satélite. A sua irritação por esperar estava a aumentar, lentamente. Em situação normal, já estaria em ebulição naquela altura, mas estava preso ao espectáculo que se desenrolava à sua volta. Nele, era um personagem. «Descontrai-te e desfruta», disse para consigo. «Tens muito tempo.»

Ela voltou com o café, que foi, evidentemente, servido em bela porcelana, com F&F gravado no exterior da chávena.

- Posso ir lá fora? - perguntou Ray.

- Com certeza. - Ela sorriu e voltou para a sua secretária. Havia uma varanda comprida que se estendia à frente de várias

janelas. Ray foi bebendo o café junto ao gradeamento e apreciou a vista. O largo relvado da frente terminava na auto-estrada, e, para lá desta, havia a praia e a água. Não havia casinos à vista, não havia grande coisa no que respeitasse a desenvolvimento. Lá por baixo dele, no alpendre da frente, alguns pintores tagarelavam, de um lado para o outro, enquanto mudavam as escadas de posição. Tudo naquele local parecia e tinha o toque de novo. Patton French tinha acabado de ganhar a lotaria.

- Mr. Atlee - chamou ela, e Ray deu um passo para dentro do escritório. No ecrã estava a cara de Patton French, ligeiramente despenteado, de óculos de ler encavalitados no nariz, com os olhos franzidos por cima deles.                  

- Ora cá estamos - berrou. - Desculpe o atraso, Sente-se ali, por favor, Ray, para eu poder vê-lo.

Fez um sinal, e Ray sentou-se.

- Como está? - perguntou French.

- Bem, e o senhor?

-Óptimo. Desculpe a confusão, a culpa foi minha, mas estive numa daquelas tramadas conferências telefónicas toda a tarde, e não conseguia escapar-me. Estava a pensar que era mais calmo aqui no barco, para jantarmos, que acha? O meu chefe de cozinha é muito melhor do que qualquer coisa que haja aí em terra. Estou apenas a trinta minutos de distância. Tomamos um copo, só os dois, e depois temos um longo jantar e falaremos sobre o seu pai. Vai ser agradável, prometo-lhe.

Quando por fim se calou, Ray perguntou:

- O meu carro fica em segurança aqui?

- Claro. Que diabo, está numa zona privada. Mando os guardas Sentarem-se no raio do carro, se quiser.

- Certo. E vou a nado?

- Não, tenho barcos. O Dickie trá-lo.

Dickie era o mesmo jovem robusto que acompanhara Ray até ao edifício. Agora acompanhava-o lá para fora onde o esperava um Mercedes prateado muito comprido. Dickie conduziu-o como um tanque pelo meio do trânsito até à marina de Point Cadet, onde cerca de cem pequenos barcos estavam acostados. Um dos maiores era, por acaso, de Patton French. Chamava-se Lady of Justice.

- O mar está calmo, vai levar só uns vinte minutos - disse Dickie, enquanto subiam para bordo. Os motores estavam a trabalhar. Um empregado de mesa com um sotaque acentuado perguntou a Ray se queria uma bebida.

- Uma gasosa light - respondeu Ray.

Largaram e aceleraram pelos corredores de acesso, deixando para trás a marina até se afastarem do cais. Ray subiu ao convés superior e ficou a ver a linha de costa desvanecer-se à distância.

 

Ancorado a dez milhas de Biloxi estava o King ofTorts, um iate de 42 metros com uma tripulação de cinco pessoas e instalações de luxo para uma dúzia de amigos. O único passageiro era Mr. French, que esperava para cumprimentar o seu convidado.

- É um verdadeiro prazer, Ray - disse-lhe enquanto lhe sacudia a mão para cima e para baixo, e depois lhe apertava os ombros.

- O prazer é todo meu - disse Ray, sem se mover, porque French gostava de contacto próximo. Era uns três ou cinco centímetros mais alto, com uma cara agradavelmente bronzeada, de penetrantes olhos azuis que se franziam, mas não pestanejavam.

- Estou tão satisfeito por ter vindo - disse French, apertando a mão de Ray. Confrades não podiam ter-se saudado com maior afecto.

- Fica aqui, Dickie - berrou para o convés inferior. - Siga-me, Ray - pediu, e afastaram-se subindo um pequeno lanço para o convés principal, onde um empregado de casaco branco estava à espera, com uma toalha engomada e com F&F bordado, perfeitamente dobrada sobre o braço. - O que é que vai tomar? - perguntou a Ray.

Suspeitando que French não fosse homem para se ficar por bebidas leves, Ray respondeu:

- Qual é a especialidade da casa?                                

- Vodka gelado com uma pitada de lima.  

- Vou provar - acedeu Ray.

- É um belo vodka novo, da Noruega. Vai adorar. - O homem conhecia os seus vodkas.

Tinha vestida uma camisa preta de linho, abotoada no pescoço e calções de linho cru, perfeitamente engomados, e que caíam muito bem na sua silhueta. Havia uma ligeira barriga, mas era corpulento de peito e os seus braços tinham o dobro do tamanho normal. Adorava o cabelo, porque não conseguia tirar as mãos dele.

- E que tal o barco? - perguntou, insinuando a silhueta com um gesto de mão da proa à ré. - Foi construído por um príncipe saudita, desses menores, há uns aninhos. Aquele burro mandou pôr-lhe uma lareira, dá para acreditar? Custou-lhe uns vinte milhões e ao fim de um ano trocou-o por um com 67 metros.

- É espantoso - disse Ray tentando parecer suficientemente espantado. Nunca estivera perto do mundo dos iates, e, depois deste episódio, suspeitava que ia mantê-lo para sempre à distância.

- Construído por italianos - disse French batendo com os dedos na balaustrada de uma madeira tremendamente cara.

- Por que razão fica aqui ao largo, no golfo? - perguntou Ray.

- Sou um tipo do estilo offshore, ha, ha. Está a perceber? Sente-se.

French apontou, e instalaram-se os dois em duas grandes cadeiras de convés. Quando estavam acomodados, French indicou a costa com a cabeça. - Mal se vê Biloxi, e já é perto que chegue. Faço mais trabalho aqui num dia do que no escritório durante uma semana. Além disso, ando a mudar-me de uma casa para outra. Tenho um divórcio a decorrer. É aqui que me escondo.

- Lamento.

- Este é agora o maior iate de Biloxi e a maior parte das pessoas é capaz de localizá-lo. A minha mulher actual pensa que eu o vendi, e, se me aproximo demasiado da costa, o viscoso advogadozinho dela é capaz de vir a nado para lhe tirar uma fotografia. Dez milhas é suficientemente perto.

Os vodkas gelados chegaram, em copos estreitos e altos, com F&F gravado dos lados. Ray bebeu um pequeno golo, e a mistura foi a queimá-lo até aos dedos dos pés. French bebeu um grande golo e estalou os lábios.

- O que é que acha? - perguntou orgulhoso.

- Belo vodka - disse Ray. Não se lembrava da última vez que tivesse bebido um.

-Dickie trouxe peixe-espada fresco para o jantar. Parece-lhe bem?

- Óptimo.

- E as ostras são boas nesta altura.

- Eu andei na Faculdade de Direito em Tulane. Tive três anos de ostras frescas.

- Eu sei - disse French, tirando um rádio pequeno do bolso da camisa e informando alguém lá em baixo do que tinham escolhido para o jantar. Olhou para o relógio e decidiu que iriam jantar dentro de duas horas.

- Andou na faculdade com o Hassel Mangrum - disse French.

- Andei. Ele tinha um ano de avanço.

- Temos o mesmo preparador físico. O Hassel tem-se safado bem, aqui na costa. Começou cedo com os tipos do amianto.

- Não sei nada do Hassel há vinte anos.

- Não perde grande coisa. Tornou-se um parvo, suspeito que já era um parvo na Faculdade de Direito.

- Era. Como sabe que frequentei a faculdade com o Mangrum?

- Investigação, Ray, investigação aturada. - Ele sorveu novamente o vodka. O terceiro golo de Ray foi-lhe direitinho ao cérebro.

- Gastámos uma quantidade de massa a investigar o juiz Atlee, a sua família, os seus antecedentes, as suas sentenças, as sua situação financeira, tudo quanto pudemos descobrir. Nada de ilegal ou de intrusivo, atenção, apenas o trabalho antiquado de detective. Soubemos do seu divórcio. Como é que ele se chama? Lew, o Liquidatário ?

Ray limitou-se a fazer um sinal afirmativo. Queria dizer algo depreciativo sobre Lew Rodowski e repreender French por andar a esgravatar no seu passado, mas, por um segundo, o vodka estava a bloquear-lhe os sinais. Por isso, acenou afirmativamente.

- Sabíamos o seu salário como professor de Direito. É um registo público, na Virgínia.

- Sim, é.

- Não é um mau salário, Ray, mas também é uma óptima Faculdade de Direito.

- Isso é verdade.

- Escavar o passado do seu irmão foi uma grande aventura.

- Acredito que sim. Até foi uma aventura para a família.

- Lemos todas as sentenças do seu pai em processos de indemnização por danos e de morte por negligência. Não havia muitos, mas apanhámos pistas. Ele era conservador nas indemnizações atribuídas, mas também favorecia o pequeno, o trabalhador. Sabíamos que ele seguiria a lei, mas também sabíamos que os velhos chanceleres moldam muitas vezes a lei para ela se adaptar ao seu conceito de justiça. Eu tinha empregados a fazer o trabalho chato, mas lia todas as suas decisões importantes. Era um homem brilhante, Ray, e sempre justo. Nunca discordei de uma das suas opiniões.

- Escolheu o meu pai para o caso Gibson?

- Escolhi. Quando tomámos a decisão de apresentar a queixa no Tribunal da Chancelaria e tentámos fazê-lo sem júri, decidimos também que não queríamos que fosse um chanceler local a julgá-lo. Temos três. Um deles é aparentado com a família Gibson. Outro recusa-se a julgar outras causas que não sejam divórcios. Outro tem oitenta e quatro anos, está senil e não sai de casa há três anos. Por isso, procurámos em todo o estado e encontrámos três substitutos potenciais. Felizmente, o meu pai e o seu andaram, há sessenta anos, em Sewanee e depois na Faculdade de Direito em Ole Miss. Não eram íntimos havia anos, mas mantinham-se em contacto.        

- O seu pai ainda está no activo?

- Não. Agora está reformado na Florida, a jogar golfe todos os dias. Sou o único dono da firma. Mas o meu velho foi até Clanton, sentou-se no alpendre da frente com o juiz Atlee, falou da Guerra Civil e de Nathan Bedford Forrest. Até foram de carro a Shiloh, caminharam por lá durante dois dias - o ninho do vespão, o lago sangrento. O juiz Atlee ia sufocando quando se deteve onde o general Johnston

tombou.

- Estive lá uma dúzia de vezes - disse Ray com um sorriso.

- Não se fazem pedidos a um homem como o juiz Atlee. Meter cunhas, como se dizia antigamente.

- Uma vez, ele meteu um advogado na cadeia por isso - disse Ray. - Antes de começar o julgamento, o tipo tentou pedir pelo seu caso. O juiz meteu-o na cadeia durante meio dia.

- Esse foi aquele tipo, o Chadwick, de Oxford, não foi? - disse French com ar convencido, deixando Ray sem fala.

- De qualquer forma, tínhamos de deixar bem marcada no juiz Atlee a importância do processo do Ryax. Sabíamos que ele não queria vir até à costa para julgar o caso, mas tinha de fazê-lo se acreditava na causa.

- Ele detestava a costa.

- Nós sabíamos isso, acredite, era uma grande preocupação. Mas ele era um homem de grandes princípios. Depois de termos lá revivido a guerra, durante dois dias, o juiz Atlee concordou, relutantemente, em

julgar o caso.

- Mas não é o Supremo Tribunal que nomeia os chanceleres extraordinários? - perguntou Ray. O quarto golo pareceu deslizar sem queimar, e o vodka á sabia melhor.

French afastou a pergunta com um encolher de ombros.

- Claro, mas temos amigos.

No mundo de Patton French, qualquer pessoa podia ser comprada.

O empregado de mesa voltou com novas bebidas. Não é que fossem precisas, mas mesmo assim trouxe-as. French era demsiado frenético para ficar sentado durante muito tempo.

- Deixe-me mostrar-lhe o barco - disse, e saltou da cadeira sem qualquer esforço. Ray deslizou cuidadosamente da cadeira a tentar equilibrar o copo.

 

O jantar foi no camarote do comandante, uma sala da jantar apainelada a mogno e adornada com modelos de veleiros antigos e canhoneiras e mapas do Novo Mundo e do Extremo Oriente, e ainda uma colecção de mosquetes antigos ali metida para dar ideia de que havia séculos que o King ofTortsjá existia. Era no convés principal por trás da ponte, separada por um corredor estreito da cozinha, onde um cozinheiro vietnamita trabalhava arduamente. A zona formal de jantar era em volta de uma mesa oval de mármore à qual podia sentar-se uma dúzia de pessoas e que pesava, pelo menos, uma tonelada, o que levou Ray a interrogar-se como é que o King ofTorts se mantinha a flutuar.

Naquela noite, apenas duas pessoas se sentavam à mesa do comandante, e lá por cima havia um pequeno lustre que baloiçava com a ondulação. Ray estava num extremo e French no outro. O primeiro vinho da noite foi um borgonha branco que, depois do escaldão de dois vodkas gelados, era insípido para Ray. Para o seu anfitrião, não. French deitara abaixo três vodkas, esvaziara completamente os três copos, e a sua língua começava a enrolar-se um pouco. Mas saboreou toda a sugestão de fruta no vinho, até sentiu o cheiro do tonel de carvalho e, como todos os snobs do vinho fazem, teve de passar esta útil informação a Ray.

- Ao Ryax - disse French, inclinando-se com o copo num brinde demorado. Ray tocou no seu copo, mas não disse nada. Não era noite para ele dizer muito, bem o sabia. Limitava-se a ouvir. O seu anfitrião havia de embriagar-se e dizer o suficiente.

- O Ryax salvou-me, Ray - disse French fazendo rodar o vinho no copo e admirando-o.

- De que maneira?

- De todas. Salvou a minha alma. Adoro dinheiro, e o Ryax fez-me rico. - Um pequeno golo, seguido pelos indispensáveis estalar dos lábios e rolar dos olhos. - Perdi aquela onda do amianto há vinte anos. Aqueles estaleiros de Pacagoula usaram amianto durante anos, e dezenas de milhares de homens adoeceram. E eu perdi isso. Estava demasiado ocupado a processar médicos e companhias de seguros e a fazer bom dinheiro, mas não vi o potencial de processos colectivos de responsabilidade civil. Está pronto para umas ostras?

- Estou.

French carregou no botão; o empregado apareceu com dois tabuleiros de ostras cruas em metade da concha. Ray misturou rábano no molho de cocktail e preparou-se para o festim. Patton estava a rodar o vinho no copo e demasiado ocupado a falar.

- Depois veio o tabaco - disse tristemente. - Muitos dos advogados, mesmo daqui. Achei que eram malucos, com os diabos, toda a gente achou, mas processaram as grandes tabaqueiras de quase todos os estados. Tive oportunidade de saltar para a arena com eles, mas tive demasiado medo. É difícil confessar isto, Ray. Estava demasiado assustado para entrar no jogo.

- O que queriam eles? - perguntou Ray, metendo de seguida a primeira ostra e sal fino na boca.

- Um milhão de dólares para ajudar a financiar o processo. E eu tinha um milhão de dólares na altura.

- De quanto era a indemnização? - perguntou Ray a mastigar.

- Mais de trezentos mil milhões. O maior estratagema financeiro e legal da história. As tabaqueiras compraram praticamente os advogados que se quiseram vender. Um suborno gigantesco, e eu perdi-o. - Parecia prestes a chorar porque perdera um suborno, mas rapidamente se recompôs com um prolongado golo de vinho.

- Belas ostras - disse Ray com a boca cheia.

-Há vinte e quatro horas, estavam a cinco metros de profundidade. - French serviu mais vinho e concentrou-se no seu prato.

- Qual teria sido o retorno do seu milhão de dólares? - indagou Ray.

- Duzentos para um.

- Duzentos milhões de dólares?

- Sssim. Fiquei doente durante um ano. Muitos advogados daqui ttttnbém ficaram doentes. Conhecíamos os jogadores e acobardámo-nos.

- Depois veio o Ryax.

- Sim, é verdade.

- Como é que o descobriu? - perguntou Ray, sabendo que a pergunta ia exigir outra resposta tortuosa e que ele ficaria livre para comer.

- Estava num seminário de advogados de barra, em St. Louis. Missouri é um belo local, mas está quilómetros atrás de nós no que se refere a processos colectivos de responsabilidade civil. Ou seja, que diabo, tivemos aqui durante anos os tipos do tabaco e do amianto, a queimarem dinheiro e a mostrarem a toda a gente como se fazia! Eu tomei um copo com este velho advogado de uma pequena cidade nos Ozarks. O filho dele é professor de Medicina na Universidade da Colúmbia e estava a trabalhar no Ryax. A sua investigação apresentava resultados horríveis. O raio do medicamento destrói os rins, e, como era tão novo, não havia historial de processos judiciais. Descobri um especialista em Chicago e ele descobriu Clete Gibson através de um advogado de Nova Orleães. Depois começámos a rastrear e tornou-se uma bola de neve. Só precisávamos de um grande veredicto.

- Porque não quiseram um julgamento com júri?

- Adoro júris. Adoro provocá-los, falar com eles, influenciá-los, manipulá-los e até comprá-los, mas são imprevisíveis. Eu queria um cadeado, uma garantia. Queria um julgamento rápido. Os rumores sobre o Ryax estavam a espalhar-se que era uma loucura, e imagine um molho de advogados de processos colectivos de responsabilidade civil, esfomeados, a ouvirem o mexerico de que o medicamento se tornara mau. íamos ter casos às dúzias. O tipo com o primeiro grande veredicto iria ficar no lugar da frente, sobretudo se viesse da zona de Biloxi. A Miyer-Brack é uma empresa suíça...

- Eu li o processo.

- Todo?

- Sim, ontem no tribunal de Hancock County.

- Bom, esses europeus estão aterrorizados com o nosso sistema de processos colectivos de responsabilidade civil.

- E não devem estar?

- Sim, mas no bom sentido. Mantêm-os honestos. O que devia aterrorizá-los era a possibilidade de um dos seus malditos medicamentos ser problemático e poder causar dano às pessoas, mas isso não é preocupação quando há milhões em jogo. São precisas pessoas como eu, para mantê-los honestos.

- E eles sabiam que o Ryax era mau?

French enfiou outra ostra, engoliu com força, bebeu mais de dois decilitros de vinho e disse por fim:

- Vamos do princípio. O medicamento era tão eficaz a baixar o colesterol que a Miyer-Brack e a FDA se apressaram a comercializá-lo. Era outro medicamento miraculoso e funcionou muito bem durante uns anos, sem efeitos secundários. Então, zás! O tecido dos nefrónios... sabe como funcionam os rins?

- No interesse desta discussão, digamos que não sei.

- Cada rim tem cerca de um milhão de pequenas unidades de filtragem chamadas nefrónios, e o Ryax continha um composto químico que basicamente os desfazia. Nem toda a gente morreu, como o pobre Mr. Gibson, e há vários graus de danos. Mas são todos permanentes. O rim é um órgão espantoso, que por vezes consegue a autocura, mas não depois de um ataque de cinco anos com Ryax.

- Quando é que a Miyer-Brack soube que havia problema?

- É difícil dizer exactamente, mas mostrámos ao juiz Atlee alguns documentos internos do pessoal do laboratório aos seus gestores executivos, a recomendar precaução e mais investigação. Cerca de quatro anos após a entrada do Ryax no mercado, com resultados espectaculares, os cientistas da empresa ficaram preocupados. Então as pessoas começaram a ficar mesmo doentes, e até a morrer, e nessa altura já era demasiado tarde. Do meu ponto de vista, tínhamos de encontrar o cliente perfeito, o que conseguimos, o foro perfeito, e encontrámos, e tínhamos de actuar depressa antes que outro advogado conseguisse um grande veredicto. Foi aí que o seu pai entrou.

O empregado retirou as conchas das ostras e apresentou uma salada de caranguejo. Outra garrafa de Borgonha, escolhida na adega do barco, pelo próprio Mr. French.

- O que aconteceu depois do julgamento do Gibson? - perguntou Ray.

- Eu não teria projectado melhor. A Miyer-Brack soçobrou totalmente. Aqueles palhaços arrogantes ficaram lavados em lágrimas. Tinham um zilhão de dólares em dinheiro e estavam dispostos a comprar os advogados dos queixosos. Antes do julgamento, eu tinha quatrocentos casos e nenhum poder. Depois, tinha cinco mil casos e um veredicto de onze milhões de dólares. Telefonaram-me centenas de advogados. Passei um mês a percorrer o país num Learjet, a assinar contratos de co-representação com outros advogados. Um tipo de Kentucky tinha uma centena de casos. Outro de St. Paul tinha oitenta. E assim por diante. Então, cerca de quatro meses depois do julgamento, fomos para Nova Iorque para a grande conferência sobre liquidação dos montantes. Em menos de três horas acordámos em seis mil casos por setecentos milhões de dólares. Um mês depois fizemos outro acordo de mil e duzentos por duzentos milhões.

- Qual foi a sua percentagem? - perguntou Ray. Teria sido uma pergunta indelicada se tivesse sido feita a qualquer pessoa, mas French estava desejoso de falar dos seus honorários.

- Cinquenta por cento do máximo obtido para os advogados, a seguir as despesas, e o resto para os clientes. Esta é a parte má de um contrato de contingência: temos de dar metade ao cliente. De facto, tive outros advogados com quem negociar, mas safei-me com trezentos milhões e alguns trocos. E a vantagem dos processos colectivos por responsabilidade civil, Ray. Apresentamo-los em bloco, acordamos numa carrada e ficamos com metade da compensação máxima.

Não estavam a comer. Havia demasiado dinheiro no ar.- Trezentos milhões em honorários ? - perguntou Ray incrédulo.

French estava a bochechar com vinho.

- Não é uma maravilha? Vem tão depressa que não consigo gastá-lo todo.

- Mas parece que está a dar-lhe bastante ar.

- Isto é a ponta do icebergue. Nunca ouviu falar num medicamento Chamado Minitrin ?                

- Vi o seu site na web.

- A sério? O que achou?

- Bastante vistoso. Dois mil casos de Minitrin.

- Três mil, agora. É um medicamento para a hipertensão, com efeitos secundários perigosos. Produzido pela Shyne Medical.

Ofereceram cinquenta mil por cada caso e eu recusei. Catorze mil casos de Kobríl, o antidepressivo que julgamos causar perda de audição. Nunca ouviu falar dos Skinny Bem ?    

- Ouvi.

- Temos três mil casos de Skinny Ben. E mil e quinhentos...

- Eu vi a lista. Depreendo que o site está actualizado.

- Claro. Sou o novo Rei dos Processos por Responsabilidade Civil deste país, Ray. Toda a gente me telefona. Tenho outros treze advogados na minha firma e preciso de quarenta.

O empregado de mesa voltou para levantar os restos. Colocou o peixe-espada na frente deles e trouxe o vinho seguinte, embora a garrafa anterior estivesse ainda a meio. French efectuou, outra vez, o ritual da prova, e, por fim, quase relutantemente, fez um sinal de aprovação. A Ray pareceu ter um sabor muito semelhante aos dois anteriores.

- Devo tudo ao juiz Atlee - disse French.

- Como?

- Ele teve a coragem de fazer a citação correcta para manter a Miyer-Brack em Hancock County, em vez de permitir-lhe escapar para o Tribunal Federal. Ele percebeu a questão e não teve receio de castigá-los. O tempo é tudo, Ray. Menos de seis meses depois de ele ter ditado a sentença, eu tinha trezentos milhões de dólares na minha mão.

- Ficou com tudo?

French tinha uma garfada perto da boca. Hesitou um segundo, depois meteu o peixe na boca, mastigou durante um momento, e disse:

- Não percebo a pergunta.

- Acho que percebe. Deu algum dinheiro ao juiz Atlee?

- Dei.

- Quanto?

- Um por cento.

-Três milhões de dólares.

- E uns trocos. Este peixe está delicioso, não acha?

- Acho. Porquê?

French pousou a faca e o garfo e alisou as madeixas outra vez com as duas mãos. Depois limpou-as ao guardanapo e rodou o vinho no copo.

- Acho que há muitas perguntas. Porquê, quando, como, quem.

- É bom a contar histórias. Vamos lá ouvir.

Outra volta com o copo e um golo com satisfação. - Não é o que pensa. Embora eu pudesse ter subornado o seu pai ou qualquer outro juiz para essa sentença; já o fiz antes e fá-lo-ei de bom grado outra vez. Faz parte das despesas gerais. Mas, francamente, sentia-me tão intimidado por ele e pela sua reputação, que não consegui abordá-lo com a proposta. Ter-me-ia metido na prisão.

- Tê-lo-ia deixado apodrecer na prisão.

- Sim, eu sei, e o meu pai convenceu-me disso. Por isso agimos com seriedade. O julgamento foi a maior guerra possível, mas a verdade estava do meu lado. Ganhei e ganhei em grande, agora estou a ganhar ainda mais. No final do Verão passado, depois de termos assentado e de o dinheiro ter sido transferido, quis fazer-lhe uma oferta. Eu não me esqueço dos que me ajudam, Ray. Um carro novo aqui, um condomínio ali, um saco de dinheiro por um favor. Jogo duro e protejo os meus amigos.

- Ele não era seu amigo.

- Não éramos amigos, nem confrades, mas no meu mundo nunca tive amigo maior. Foi ele que começou tudo. Imagina quanto dinheiro fiz nos cinco anos seguintes?

- Choque-me outra vez.

- Meio milhar de milhões. E devo tudo ao seu velhote.

- Quando é que terá que lhe chegue?     um advogado de tabaco, aqui, que fez mil milhões. Tenho de apanhá-lo, primeiro.

Ray precisava de uma bebida. Observou o vinho como se soubesse o que procurava, e a seguir sorveu-o. French estava no peixe.

- Não creio que esteja a mentir - disse Ray.

- Eu não minto. Engano e suborno, mas não minto. Há uns seis meses, quando andava à procura de aviões, barcos, casas de praia e cabanas de montanha e novos escritórios, ouvi dizer que tinham diagnosticado um cancro ao seu pai e que era grave. Quis fazer alguma coisa por ele. Sabia que ele não tinha muito dinheiro e parecia estar apostado em dar o que tinha.

- Então, mandou-lhe três milhões em dinheiro?

- Sim.

- Sem mais nem menos?            

- Sem mais nem menos. Telefonei-lhe dizendo que ia a caminho uma encomenda. Quatro encomendas como acabou por ser, quatro gandes caixas de cartão. Um dos meus rapazes foi lá numa carrinha e deixou-as no alpendre. O juiz Atlee não estava em casa.

- Notas não marcadas?

- Porque havia de marcá-las?

- E ele o que disse?                         .

- Nunca recebi uma palavra dele e também não queria.

- O que é que ele fez?

- Você é que sabe. É filho dele, conhece-o melhor do que eu. Diga-me você o que fez ele ao dinheiro.

Ray afastou a cadeira da mesa e, com o copo de vinho na mão, cruzou as pernas e tentou descontrair-se.

- Achou o dinheiro no alpendre e, quando se apercebeu do que era, aposto que o amaldiçoou.

- Céus, espero que sim.

- Entrou no vestíbulo, onde as caixas se foram juntar a dúzias de outras. Tencionava pegar nele e levá-lo a Biloxi, mas passou um dia ou dois. Estava doente e fraco, e não conduzia muito bem. Sabia que estava a morrer, e tenho a certeza de que esse fardo mudou a sua perspectiva sobre uma série de coisas. Ao fim de algum tempo decidiu esconder o dinheiro, o que fez, e planeou entretanto trazê-lo novamente para cá e, de caminho, dar-lhe umas boas chibatadas no seu traseiro de corrupto. O tempo passou e ele piorou.

- Quem descobriu o dinheiro?

- Eu.                              

- Onde está?

- No porta-bagagens do meu carro, no seu escritório. - French soltou uma longa e sonora gargalhada.

- Voltou para o local de proveniência - disse entre duas inspirações.

- Foi uma grande volta. Encontrei-o no gabinete dele depois de ter dado com ele morto. Alguém tentou entrar à força e apanhá-lo. Levei-o para a Virgínia e agora está de volta, e essa pessoa veio atrás demim.

O riso parou imediatamente. Limpou a boca com um guardanapo.

- Quanto é que descobriu?

- Três milhões, cento e dezoito mil.

- Com um raio! Ele não gastou um cêntimo.

- E não o mencionou no testamento. Deixou-o simplesmente escondido no armário por baixo das prateleiras.

- Quem é que tentou o assalto?

- Tinha esperança de que você soubesse.

- Parece-me bem que sim.

- Por favor, diga-me.

- Essa é outra longa história.

 

O empregado trouxe uma selecção de puro whisky de malte para o convés superior, onde French os instalara para mais um copo de despedida e outra história, com as luzes de Biloxi a tremeluzir à distância. Ray não bebia whisky e não sabia nada mesmo de puro whisky de malte, mas entrou no ritual por saber que French ia ficar ainda mais embriagado. A verdade agora fluía em torrente, e Ray queria-a toda.

Ficaram-se pelo Lagavulin devido ao gosto a fumaça, o que quer que isso significasse. Havia outros quatro, alinhados como velhas sentinelas altivas com as suas insígnias particulares, e Ray jurou quejá bebera o suficiente. Ia sorvê-lo e cuspi-lo e, se tivesse oportunidade, deitava-o borda fora. Para seu grande alívio, o empregado serviu pequeníssimas quantidades em pequenos copos muito espessos suficientemente pesados para partir soalhos.

Eram quase dez horas, mas parecia muito mais tarde. O golfo estava escuro, não havia outros barcos à vista. Um vento suave soprava de sul e baloiçava ligeiramente o King of Torts.

- Quem sabe do dinheiro? - perguntou French, dando estalidos com os lábios.

- Eu, você e quem quer que o tenha levado.

- É esse o homem.

- Quem é ele?

Um novo trago, mais um estalido. Ray levou o whisky aos lábios e desejou não o ter feito. Apesar de estarem dormentes ainda lhe arderam todos.

- Gordie Priest. Trabalhou para mim durante uns oito anos, primeiro como informador, depois como batedor e por fim como correio de dinheiro. A família dele vive, desde sempre, na costa, sempre na marginalidade. O pai e os tios trabalhavam com lotaria ilegal, prostitutas, contrabando de bebidas, cabarés, nada legal. Faziam parte daquilo a que dantes se chamava a máfia da costa, um grupo de patifórios que não queriam trabalho honesto. Há uns vinte anos controlavam algumas coisas por aqui, agora passaram à história. A maior parte deles foi presa. O pai de Gordie, um homem que eu conheci muito bem, foi morto a tiro à porta de um bar, perto de Mobile. Um grupo bastante miserável, de facto. A minha família conhecia-o havia anos.

Estava a dar a entender que a família dele fizera parte daquele bando de vigaristas, mas não podia dizê-lo. Eles tinham sido os advogados que sorriam para as câmaras e faziam os negócios na sala das traseiras.

- Gordie foi preso quando tinha uns vinte anos, uma quadrilha de carros roubados que cobria uma dúzia de estados. Contratei-o quando ele saiu e com o tempo tornou-se um dos melhores batedores da costa. Era especialmente bom nos casos offshore. Conhecia os tipos das burlas, e quando havia uma morte ou um ferimento ele agarrava o caso. Eu dava-lhe uma boa percentagem. Temos de cuidar bem dos nossos batedores. Num ano paguei-lhe mais de oitenta mil, tudo em dinheiro. Estoirou-o, claro, em casinos e mulheres. Adorava ir para Las Vegas e embebedar-se durante uma semana e deitar fora dinheiro como se fosse um ricaço. Agia como um idiota, mas não era estúpido. Andava sempre aos altos e baixos. Quando estava teso, mexia-se e fazia algum dinheiro. Quando tinha dinheiro esforçava-se por perdê-lo.

-Tenho a certeza de que isso vem ao meu encontro - sugeriu Ray.

- Espere - disse French. - Depois do caso Gibson, no princípio do ano passado, o dinheiro veio em catadupas. Eu tinha favores a pagar. Uma quantidade de dinheiro a ser transportado por aí. Dinheiro aos advogados que me mandavam os seus casos. Dinheiro aos médicos que estavam a rastrear milhares de novos clientes. Nem tudo era ilegal, atenção, mas muita gente não queria registos. Cometi o erro de me servir do Gordie como correio. Achei que podia confiar nele. Pensei que seria leal. Enganei-me.

French terminara uma prova e estava pronto para outra. Ray declinou e fingiu continuar entretido com o Lagavulin.

- E ele levou o dinheiro até Clanton e deixou-o no alpendre da frente? - perguntou Ray.

- Levou, e três meses depois disso roubou-me um milhão de dólares e desapareceu. Tem dois irmãos, e, ao longo dos últimos dez anos, cada um dos três esteve preso, por ocasiões diversas. Excepto agora. Agora estão em liberdade condicional e andam a tentar extorquir-me bom dinheiro. A extorsão é um crime grave, sabe, mas eu não posso propriamente queixar-me ao FBI.

- O que o faz crer que ele anda atrás dos três milhões de dólares?

- Escutas. Apanhámo-lo há uns meses. Contratei uns tipos muito sérios para encontrarem o Gordie.                  

- O que lhe faz se o encontrar?

- Oh, ele tem a cabeça a prémio.

-- Com um assassino contratado, é isso?

- Sim.

E, ao ouvir isto, Ray estendeu a mão para outro puro whisky de malte.

 

Dormiu no barco, num grande quarto algures debaixo de água, e quando encontrou o caminho para o convés principal o Sol já ia alto a leste, e o ar já estava quente e pegajoso. O comandante disse «bom dia» e apontou para a frente, onde foi encontrar French a berrar ao telefone.

O fiel empregado de mesa surgiu do nada e trouxe-lhe um café. O pequeno-almoço seria servido lá em cima, no convés principal no mesmo cenário dos puros whiskies de malte, agora debaixo de um toldo por causa da sombra.

- Adoro comer ao ar livre - declarou French enquanto se juntava a Ray. - Dormiu dez horas.

- A sério? - perguntou Ray olhando novamente para o relógio, que já estava com a hora da costa ocidental. Estava num iate no golfo do México sem ter a certeza do dia ou da hora, a um milhão de milhas de casa, e agora com o fardo de saber que havia gente muito má atrás de si.

A mesa estava cheia de pães e cereais.

- O Tin Lu, lá em baixo pode preparar-lhe qualquer coisa que queira - disse French. - Bacon, ovos, waffles, sêmola.

- Assim está óptimo, obrigado.

French estava fresco e em forma, já a organizar um novo dia exaustivo com a energia que só podia advir da perspectiva de meio milhar de milhões de dólares em honorários. Trazia uma camisa de linho branca, abotoada em cima como a preta que usara na véspera, calções e sapatos de vela. Os seus olhos estavam claros e vivos.

- Acabei de agarrar outros três mil casos de Minitrin - disse enquanto deitava uma generosa quantidade de cerais numa grande tigela. Todos os pratos tinham o obrigatório monograma F&F estampado.

Ray já estava farto de processos colectivos por responsabilidade civil.

- Óptimo, mas estou mais interessado em Gordie Priest.

- Havemos de encontrá-lo. Já estou a fazer chamadas.

- Ele está provavelmente na cidade. - Ray tirou uma folha de papel dobrada do bolso de trás. Era a fotografia do 37F que encontrara na véspera no limpa-pára-brisas. French olhou para ela e parou de comer.

- E isto é na Virgínia?

- Sssim, o segundo de três compartimentos de aluguer. Descobriram os primeiros dois, tenho a certeza de que sabem do terceiro. E sabiam exactamente onde eu estava ontem de manhã.

- Mas não sabem, obviamente, onde está o dinheiro. Senão tinham-no simplesmente tirado do porta-bagagens do seu carro enquanto estava a dormir. Ou tê-lo-iam feito encostar algures entre Clanton e aqui, e tinham-lhe metido uma bala num ouvido.

- Não sei o que estão a pensar.

- Eu sei, com certeza. Pense como um patife, Ray. Pense como um assassino.

- Para si é capaz de ser fácil, mas para outras pessoas é mais difícil.

- Se Gordie e os irmãos soubessem que tinha três milhões de dólares no porta-bagagens do seu carro, sacavam-no. Tão simples como isto.

- Nada é simples - comentou Ray.

- O que quer fazer ? Deixar o dinheiro comigo ?

- Sim.

- Não seja estúpido, Ray. Três milhões de dólares, livres de impostos.

- Não me servem de nada, se levar a dita bala no ouvido. Eu tenho um salário muito bom.

- O dinheiro está seguro. Deixe-o estar onde está. Dê-me algum tempo para eu encontrar esses rapazes, e serão neutralizados.

A neutralização fez desaparecer qualquer apetite que Ray tivesse.

- Coma, homem! - berrou French, quando Ray ficou imóvel.

- Não tenho estômago para isto. Dinheiro sujo, patifes a entrarem no meu apartamento, a perseguirem-me por todo o Sudeste, escutas, assassinos contratados. Que tenho eu a ver com isto?

French não parou de mastigar. Tinha os intestinos forrados a latão.

- Descontraia-se e o dinheiro será seu - disse.

- Não quero o dinheiro.                                              

- Claro que quer.

- Não, não quero.

- Então dê-o ao Forrest.

- Que desastre...

- Dê-o para fins de beneficência. Dê-o à sua Faculdade de Direito. Dê-o para qualquer coisa que o faça sentir-se bem.

- Porque não o dou simplesmente ao Gordie para que ele não me dê um tiro? French deu descanso à colher e olhou em volta como se estivessem a espiar.

- Pronto. Ontem à noite localizámos o Gordie em Pascagoula - disse numa voz uma oitava abaixo. - Estamos mesmo no seu encalço, certo? Acho que vamos apanhá-lo dentro de vinte e quatro horas.

- E vai ser neutralizado?

- Vai ser congelado.

- Congelado?

- Gordie vai passar à história. O seu dinheiro fica em segurança. Espere um pouco apenas, certo?

- Agora queria ir- se embora.

French limpou o leite magro do lábio inferior, depois pegou no mini-rádio e disse a Dickie que preparasse o barco. Minutos depois estavam prontos a embarcar.

- Olhe bem para isto - disse French estendendo-lhe um envelope de papel-manila de oito por doze.

- O que é isto?

- Fotografias dessa malta dos Priest. Para o caso de esbarrar com eles.

 

Ray ignorou o envelope até parar em Hattiesburg, a noventa minutos a norte da costa. Meteu combustível e comprou uma horrível sanduíche embrulhada em película aderente, depois arrancou, com pressa de chegar a Clanton, onde Harry Rex conhecia o xerife e todos os seus ajudantes.

Gordie tinha um esgar especialmente ameaçador, que fora captado pelo fotógrafo da polícia em 1991. Os irmãos, Slatt e Alvin, não eram mais bonitos. Ray não conseguia distinguir o mais velho do mais novo, não que isso interessasse. Nenhum dos três se parecia entre si. Má cepa. A mesma mãe, mas com certeza, diferentes pais.

Podiam ficar cada um com um milhão, não se importava. Mas que o deixassem em paz.

 

As montanhas começavam entre Jackson e Memphis, e a costa parecia a muitos fusos horários de distância. Muitas vezes pensara como podia um estado tão pequeno ser tão diverso: a região do Delta ao longo do rio com a riqueza do seu algodão e campos de arroz, com a pobreza que ainda espantava os forasteiros; a costa com a sua mistura de imigrantes e esquecidos, a descontracção de Nova Orleães; e as montanhas onde a maior parte dos condados ainda tinha a Lei Seca e a maioria das pessoas ainda ia à igreja ao domingo. Uma pessoa das montanhas nunca entenderia a costa e nunca seria aceite no Delta. Ray sentia-se feliz por viver na Virgínia.

Patton French era um sonho, continuava a dizer para consigo. Um cromo de outro mundo. Um palerma enfatuado a ser comido vivo pelo seu próprio ego. Um mentiroso, um corruptor, um patife desavergonhado.

Depois deitou uma olhadela ao banco do lado e viu a cara sinistra de Gordie Priest. Aquele brutamontes e os irmãos fariam qualquer coisa pelo dinheiro que Ray ainda andava a transportar pela região.

Estava a uma hora de Clanton e novamente dentro da área de captação de uma antena, quando o seu telemóvel tocou. Era Fog Newton e estava muito agitado.

- Onde diabo tens estado metido? - perguntou.

- Nem irias acreditar.

- Tenho estado a telefonar-te toda a manhã.      

- O que há, Fog?

- Temos tido aqui um certo alvoroço. A noite passada, depois de ter fechado o tráfego aéreo geral, alguém se introduziu na pista e colocou um engenho incendiário na asa esquerda do Bonanza. Bum. Por acaso, um guarda do terminal principal viu a chama e trouxeram o carro dos bombeiros rapidamente.

Ray encostara à berma da Interestadual 55. E parou. Resmungou algo para o telefone enquanto Fog continuava a falar.

- Mesmo assim houve danos graves. Claro que foi fogo posto. Estás aí?

- Estou a ouvir - disse Ray. - Que tipo de danos?

- A asa esquerda, o motor e a maior parte da fuselagem, provavelmente uma perda total, para fins de seguro. O investigador de fogo posto já cá está. Os tipos do seguro também cá estão. Se os depósitos estivessem cheios teria sido uma bomba.

- Os outros proprietários já sabem?

- Sim, já todos saíram de casa. Claro que são os primeiros na lista de suspeitos. A tua sorte é estares fora da cidade. Quando voltas?

- Em breve.

Dirigiu-se a uma saída e entrou na gravilha de uma estação de serviço para camiões, onde ficou parado ao calor durante muito tempo a olhar para baixo, de vez em quando, para Gordie. O bando Priest movia-se depressa. Ontem de manhã em Biloxi, em Charlottesville a noite passada. Onde estarão agora?

Lá dentro, bebeu café e ficou a ouvir o tagarelar dos camionistas. Para mudar de assunto, telefonou para Alcorn Village para saber de Forrest. Estava no seu quarto a dormir o sono dos justos, como ele disse. Era espantoso, disse, quanto dormia na recuperação. Queixara-se da comida, e as coisas tinham melhorado um pouco. Ou fora isso ou passara a gostar de gelatina rosa. Perguntou quanto tempo podia ficar, como um miúdo na Disneylândia. Ray respondeu-lhe que não tinha a certeza. O dinheiro que outrora parecera interminável, parecia agora em risco.

Não me deixes sair, mano - implorou. - Quero ficar na recuperação para o resto da vida.

Os rapazes de Atkins tinham acabado o telhado em Maple Run, sem incidentes. O local estava vazio quando Ray chegou. Telefonou a Harry Rex e instalou-se.

- Vamos tomar uma cerveja no alpendre, hoje à noite – sugeriu Ray.

Harry Rex nunca recusara um convite daqueles.

 

Havia uma superfície plana com erva espessa a seguir ao passeio em frente da casa, e, depois de uma cuidada ponderação, Ray decidiu que era o local para uma lavagem. Estacionou o pequeno Audi ali, de frente para a rua, com a traseira e o porta-bagagens a um passo do alpendre. Descobriu um velho balde de lata na cave e uma mangueira furada, no alpendre de trás. Sem camisa, nem sapatos chapinhou durante duas horas sob o quente sol da tarde, a esfregar o descapotável. A seguir encerou-o e poliu-o durante uma hora. Às cinco da tarde, abriu uma garrafa de cerveja gelada e sentou-se nos degraus, a admirar a sua obra.

Telefonou para o número do telemóvel particular que Patton French lhe dera, mas é claro que o homem importante estava demasiado ocupado. Ray queria agradecer-lhe a hospitalidade, mas o que realmente lhe interessava era saber se tinham feito progressos no congelamento do bando Priest. Não iria fazer essa pergunta directamente, mas um fala-barato como French iria, de bom grado, dar a notícia, se a tivesse.

French tinha-se provavelmente esquecido dele. Não se importava se os Priest caçavam Ray ou qualquer outro. Precisava de fazer meio milhar de milhões em habilidosos processos colectivos por responsabilidade civil, o que lhe absorvia todas as energias. Se se acusasse um tipo como French de subornos ou assassínios contratados, ele arranjava cinquenta advogados, comprava todos os empregados administrativos, juiz, delegado do Ministério Público e jurados.

Telefonou a Corey Crawford e recebeu a notícia de que o senhorio mandara reparar mais uma vez as portas. A polícia tinha prometido manter o local sob vigilância nos próximos dias, até ele regressar.

A carrinha entrou lentamente na vereda de acesso à casa, pouco depois das 6 da tarde. Um rosto sorridente saltou de lá com um envelope fino dos de correio expresso, que Ray ficou a olhar fixamente muito antes de ter sido entregue. O documento de transporte aéreo era um impresso-tipo da Faculdade de Direito da Universidade da Virgínia, endereçado à mão a Mr. Ray Atlee, Maple Run, 816 Fourth Street, Clanton, MS, datado de 2 de Junho, o dia anterior. Tudo nele era suspeito.

Ninguém da faculdade tinha a morada de Clanton. Nada, vindo de lá, seria suficientemente urgente para pagarem uma entrega por correio especial. E não conseguia lembrar-se de qualquer razão para a faculdade lhe mandar fosse o que fosse. Abriu outra cerveja e regressou aos degraus da frente, onde agarrou a maldita coisa e a abriu, rasgando.

Um envelope simples, branco, com a palavra «Ray» manuscrita por fora. E lá dentro, uma outra das já familiares fotografias da Chaney's Self-Storage, desta vez a frente do compartimento 18R. No fundo, com uma esquisita fonte de letras desirmanadas, estava um mensagem: «Não precisas de um avião. Pára de gastar dinheiro.»

Aqueles tipos eram mesmo, mesmo muito bons. Mas bastava detectar os três compartimentos no Chaney's e tirar-lhes umas fotografias. Era repugnante e estúpido incendiarem o Bonanza. Porém, o mais estranho naquele momento era a sua capacidade de subtrair um documento de envio por avião da secretaria da Faculdade de Direito.

Após um longo momento de choque, descobriu uma coisa que devia ter sido imediatamente óbvia. Como tinham descoberto o 18R, sabiam também que o dinheiro não estava lá. Não estava no Chaney's, nem no seu apartamento. Tinham-no seguido da Virgínia a Clanton, e, se parasse em qualquer lado para esconder o dinheiro, eles sabê-lo-iam. Talvez tivessem andado a remexer em Maple Run, enquanto ele estava na costa.

A rede, para eles, estava a fechar-se de hora a hora. Todas as pistas se iam ligando e todos os pontos unindo-se. O dinheiro tinha de estar com ele, e Ray não tinha para onde fugir.

Tinha um salário muito confortável e regalias como professor de Direito. O seu estilo de vida não era dispendioso, e decidiu ali mesmo no alpendre, descalço e sem camisa, a sorver uma cerveja na humidade do fim de tarde, de um dia quente de Junho, que preferia continuar com seu estilo de vida. A violência que ficasse para os parceiros de Gordie Priest e para os assassinos contratados por Patton French. Ray não estava no seu elemento.

De qualquer modo, o dinheiro era sujo.

- Porque estacionaste no jardim da frente - resmungou Harry Rex, enquanto subia os degraus pesadamente.

- Lavei-o e deixei-o lá - respondeu Ray. Tinha tomado duche e vestido uns calções e uma T-shirt.

- Não se consegue dobrar a intransigência de algumas pessoas. Dá cá uma cerveja.

Harry Rex tinha estado toda a tarde a batalhar em tribunal, um divórcio difícil em que as questões de peso eram qual o cônjuge que fumara mais droga em dez anos e qual deles dormira com mais gente. Estava em causa a custódia de quatro filhos, e nenhum dos pais era competente.

- Já estou velho para isto - disse, muito cansado. À segunda cerveja já estava a escabecear.

Harry Rex controlava o rol das causas de divórcio em Ford County e havia vinte e cinco anos que assim era. Casais em litígio corriam muitas vezes para ver qual dos seus membros o contratava primeiro. Um agricultor de Karraway fizera-lhe um pagamento antecipado para o ter disponível para a próxima separação. Ele era brilhante, mas era capaz também de ser vil e mau. Isso exercia um forte atractivo em acaloradas guerras de divórcio.

Mas o trabalho estava a cobrar o seu preço. Como todos os advogados de cidades pequenas, Harry Rex ansiava pelo grande tiro. O grande processo de indemnização por perdas e danos com honorários de contingência de quarenta por cento, algo para poder reformar-se.

Na noite anterior, Ray estivera a beber vinhos caros num iate de vinte milhões de dólares construído por um príncipe saudita e propriedade de um membro do foro do Mississipi que estava a urdir planos de mil milhões de dólares contra multinacionais. Agora bebia uma Bud num baloiço enferrujado com um membro do foro do Mississipi que passara o dia a discutir custódia e pensão de alimentos.

- O agente imobiliário veio mostrar a casa hoje de manhã - disse Harry Rex. - Telefonou-me à hora de almoço, acordou-me.

- Quem é o potencial interessado?

- Lembras-te daqueles rapazes, os Kapshaw lá perto de Rail Springs?

- Não.

- Bons rapazes. Começaram a fazer cadeiras num velho celeiro, há dez anos, talvez doze. Uma coisa levou a outra e venderam a um grande grupo de mobiliário da Carolina. Cada um deles ficou com um milhão de dólares. O Junkie e a mulher andam à procura de casas.

- Junkie Kapshaw?

- Sim.

- Mas ele está apertado que nem a fita do chapéu do Dick e não vai pagar quatrocentos mil por esta casa.

- Não o censuro.

- A mulher dele é maluca de todo e pensa que quer uma casa antiga. O agente imobiliário tem a certeza de que vão fazer uma oferta, mas vai ser baixa, provavelmente de cento e setenta e cinco mil.

Harry Rex estava a bocejar.

Falaram de Forrest por um momento, depois ficaram em silêncio.

- Acho que é melhor ir-me embora - disse. Após três cervejas, Harry Rex preparou-se para a retirada.

- Quando vais voltar para a Virgínia?-perguntou, levantando-se com esforço e esticando as costas.

-Talvez amanhã.

- Telefona-me - pediu, bocejando novamente.

Ray viu as luzes do carro dele desaparecerem na rua, e ficou novamente completamente sozinho. O primeiro barulho foi um farfalhar de folhagem nos arbustos perto do limite da propriedade, provavelmente um velho cão ou gato à caça, mas por mais inofensivo que fosse, assustou Ray e ele correu lá para dentro.

 

O ataque começou pouco depois das 2 da manhã, à hora mais escura da noite, quando o sono é mais pesado e as reacções mais lentas. Ray estava morto para o mundo, embora o mundo pesasse muito na sua mente cansada. Estava num colchão no átrio, de pistola ao lado e com os três sacos de lixo com o dinheiro ao lado da sua cama improvisada.

Começou com um tijolo que atravessou a janela, um estoiro que fez estremecer a velha casa e espalhou vidros e destroços pela mesa da casa de jantar e os soalhos recém-encerados. Era um golpe bem desferido, e no momento certo, de alguém que não estava a brincar e provavelmente já o fizera antes. Ray endireitou-se como um gato vadio ferido e teve sorte de não se atingir com um tiro quando estendeu a mão à procura da pistola. Atravessou o átrio bem agachado, bateu num interruptor e viu o tijolo pousado com ar sinistro ao lado de um rodapé perto do guarda-loiça.

Servindo-se de uma colcha, varreu os estilhaços e pegou cuidadosamente no tijolo, novo, com arestas afiadas. Preso a ele por dois elásticos grossos estava um bilhete. Tirou os elásticos olhando para o que restava da janela. As suas mãos tremiam tanto que nem conseguia ler o bilhete. Engoliu com força, tentou respirar e concentrar-se no bilhete manuscrito.

Dizia apenas: «Põe o dinheiro onde o encontraste e sai de casa imediatamente.»

Tinha a mão a sangrar, um pequeno corte com um pedaço de vidro, era a mão com que disparava, se é que faria tal coisa, e, no horror do momento, pensou como poderia proteger-se. Agachou-se nas sombras da sala de jantar, dizendo para consigo para respirar e pensar com clareza.

De repente, o telefone tocou e assustou-se outra vez. Segundo toque e foi atabalhoadamente até à cozinha onde uma luz fraca por cima do fogão o ajudou a agarrar o telefone.

- Está? - berrou para o auscultador.

- Põe lá outra vez o dinheiro e sai de casa - disse uma voz calma e dura, que nunca ouvira, mas que, segundo pensou, no atordoamento momentâneo, tinha um ligeiro toque de sotaque da costa.

- Agora, antes que te magoes!

Quis gritar «Não» ou «Parem com isso» ou «Quem é você?» Mas a sua indecisão fê-lo hesitar, e desligaram. Ficou sentado no chão, e de costas para o frigorífico passou rapidamente em revista as suas opções, por menos que fossem.

Podia telefonar à polícia. Apressar-se a esconder o dinheiro, encafuar os sacos debaixo da cama, mudar o colchão, esconder o bilhete mas não o tijolo, e comportar-se como se alguns delinquentes estivessem a vandalizar uma velha casa, apenas por diversão. O polícia daria a volta com uma lanterna e ficaria por lá durante uma hora ou duas, mas acabaria por ir-se embora.

Os Priest não se iriam embora. Tinham-se pegado a ele como cola. Podiam esconder-se por momentos, mas não se iriam embora. E eram muito mais astutos do que o guarda-nocturno de Clanton, e muito mais imaginativos.

Telefonaria a Harry Rex. Acordava-o, dizia-lhe que era urgente, fazia-o vir lá a casa e despejava a história toda. Ray queria desesperadamente falar com alguém. Quantas vezes quisera abrir-se com Harry Rex? Podiam dividir o dinheiro ou incluí-lo no testamento ou levá-lo para Túnica e jogarem aos dados durante um ano.

Mas porquê pô-lo também em perigo? Três milhões eram suficientes para causarem mais do que uma morte.

Ray tinha uma arma. Porque não conseguia proteger-se? Podia repelir os atacantes. Quando eles entrassem pela porta ele iluminaria a casa. O tiroteio iria alarmar os vizinhos e toda a cidade lá apareceria.

Só era precisa uma bala, mas um pequeno míssil bem apontado que ele nunca veria, e que provavelmente sentiria apenas por um ou dois minutos. Já decidira que não queria morrer. A vida na sua cidade era demasiado boa.

Quando a batida cardíaca atingiu o auge e sentiu o pulso começar a diminuir, outro tijolo entrou pela pequena janela da cozinha por cima do lava-loiça. Deu um salto, gritou, deixou cair a arma e depois deu-lhe um pontapé enquanto avançava de forma atabalhoada para o átrio. De gatas, arrastava consigo os três sacos de dinheiro para o escritório do juiz. Arredou o sofá das prateleiras e começou a atirar os maços de notas outra vez para o armário onde encontrara, da primeira vez, o maldito despojo. Suava, praguejava e esperava outro tijolo ou talvez o primeiro ataque de armas. Depois de estar tudo metido novamente no seu esconderijo, pegou na pistola e destrancou a porta da frente. Correu para o carro, trancou-o, deixou sulcos no relvado da frente e terminou a sua fuga.

Estava incólume e, nesse momento, era a sua única preocupação.

 

A norte de Clanton, a terra mergulhava nas águas paradas do lago Chatoula, e numa faixa de três quilómetros a estrada era direita e lisa. Conhecida apenas como The Bottoms, fora durante muito tempo a pista de corridas de corredores noctívagos, ébrios, rufias e desordeiros em geral. A sua maior proximidade da morte, antes daquele momento, fora no liceu quando se vira no assento traseiro de um Pontiac Firebird cheio de gente conduzido por um tal Bobby Lee West, bêbado e a fazer corrida com um Camaro conduzido por um Doug Terring ainda mais bêbado, os dois carros a voarem a 160 à hora atravessando The Bottoms. Ele afastara-se daquilo, mas Bobby Lee morrera um ano depois, quando o seu Firebird saiu da estrada e chocou com uma árvore.

Quando atingiu a faixa recta de The Bottoms, carregou no acelerador do seu TT e deixou-o soltar-se. Eram 2,30 da manhã, com certeza estava toda a gente a dormir.

Elmer Conway estava realmente a dormir, mas um grande mosquito sugara-lhe sangue da testa e com isso acordara-o. Viu luzes, um carro aproximava-se rapidamente, ligou o radar. Levou quase seis quilómetros até conseguir parar aquela coisita estrangeira, e por isso Elmer estava zangado.

Ray cometeu o erro de abrir a porta e sair, e não era isso o que Elmer tinha em mente.

- Quieto, palerma! - berrou Elmer, por cima do tambor do seu revólver de serviço, que, conforme Ray rapidamente percebeu, estava apontado à sua cabeça.

- Calma, calma - disse com as mãos no ar, num gesto de rendição total.

- Afaste-se do carro - rosnou Elmer, com a arma apontada a um ponto perto da linha central.

- Não há problema, acalme-se - disse Ray, arrastando os pés para os lados.

- Como se chama?

- Ray Atlee, filho do juiz Atlee. Pode baixar a arma, por favor? Elmer baixou a arma uns centímetros, o suficiente para o disparo ,tingir Ray no estômago e não na cabeça.

- Tem matrícula da Virgínia - disse Elmer. - Eu vivo na Virgínia.

- E é para lá que vai? - É sim senhor. - Qual é a pressa? - Não sei, só...   - Registei-o a 180.

- Desculpe.

- Desculpe uma ova. Isto é condução perigosa. - Elmer aproximou-se um passo. Elmer esquecera-se do corte na mão e não se apercebera de outro no joelho. Elmer tirou a lanterna e observou-lhe o corpo de alto a baixo. - Porque está a sangrar?

Era uma boa pergunta e, nesse momento, no meio da auto-estrada escura, com uma lanterna apontada à cara, Ray não conseguia pensar na resposta adequada. A verdade levaria uma hora a contar e ira parar a ouvidos descrentes. Uma mentira tornaria as coisas piores.

- Não sei - murmurou.

- O que é que há no carro?

- Nada.                                                                      

- Claro.

Algemou Ray e pô-lo no assento traseiro do carro-patrulha de Ford County, um Impala castanho com pó no guarda-lamas, sem tampões, uma série de antenas montadas no pára-choques traseiro. Ray observava, enquanto ele dava a volta ao TT e olhava lá para dentro. Quando Elmer acabou, rastejou para o assento da frente, mas sem se voltar disse:

- Para que é a arma?

Ray tentara enfiar a pistola por baixo do assento do passageiro. Era, evidentemente, visível de fora.

- Protecção.                                            

- Tem licença?    

- Não.

Elmer ligou para a central e fez um extenso relatório da sua última detenção. Concluiu com «Vou levá-lo para aí», como se acabasse de apanhar um dos mais procurados.

- E o meu carro? - perguntou Ray, quando davam a volta para trás.

- Vou mandar um reboque.

Elmer acendeu as luzes vermelhas e azuis e fez o conta-quilómetros chegar aos cem.

- Posso telefonar ao meu advogado?

- Não.

- Vá lá. É só uma infracção de trânsito. O meu advogado pode ir ter comigo à cadeia, pagar a caução, e dentro de uma hora posso voltar à estrada.

- Quem é o seu advogado?

- Harry Rex Vonner.

Elmer resmungou, e o seu pescoço ficou mais grosso.

- Filho da mãe, limpou-me quando foi o meu divórcio.

Depois disto, Ray recostou-se e fechou os olhos.

 

Ray vira, de facto, o interior da prisão de Ford County, por duas vezes, lembrou-se, enquanto Elmer o conduzia pelo passeio da frente. Das duas vezes levara papéis a pais desleixados que havia anos não pagavam pensão de alimentos dos filhos, e o juiz Atlee tinha-os mandado prender. Haney Moak, o carcereiro, ligeiramente atrasado mental, com uma farda demasiado grande, ainda lá estava no balcão da entrada, a ler revistas policiais. Fazia também o papel de expedidor do turno da noite, por isso sabia das transgressões de Ray.

- Filho do juiz Atlee, hã? - disse Haney com um sorriso malévolo. Tinha a cabeça inclinada para o lado e os olhos tortos, e sempre que Haney falava era um autêntico desafio manter o contacto visual.

- Sim, senhor - disse Ray delicadamente, à procura de amigos.

- Era um bom homem - disse enquanto avançava para trás de Ray e lhe abria as algemas.

Ray massajou os pulsos e olhou para o agente Conway que estava ocupado a preencher impressos e com um ar muito oficioso.

- Negligente e sem autorização de porte de arma.

- Não vais engavetá-lo, pois não? - disse Haney a Elmer, em tom muito áspero, como se Haney fosse agora responsável pelo caso, e não o agente.

- Podes ter a certeza - replicou Elmer, e a situação ficou imediatamente tensa.

- Posso telefonar a Harry Rex Vonner? - pediu Ray.

Haney apontou com a cabeça um telefone pendurado na parede, como se não se importasse nada. Olhava fixamente Elmer. Os dois tinham, obviamente, uma história que não era bonita.

- A minha cadeia está cheia - disse Haney.

- Dizes sempre isso.

Ray marcou rapidamente o número de casa de Harry Rex. Passava das três da manhã. A actual Mrs. Vonner atendeu ao terceiro toque. Ray pediu desculpa pelo telefonema e perguntou por Harry Rex.

- Ele não está - disse ela.

Não está fora da cidade, pensou Ray. Seis horas antes, estava ele no alpendre da frente.

- Posso perguntar onde está?

Lá atrás, Haney e Elmer estavam praticamente a gritar um com o outro.

- Está em casa dos Atlee - disse ela lentamente,  

- Não. Ele saiu de lá há horas. Estive lá com ele.  

- Não. Acabaram de telefonar. A casa está a arder.

Com Haney no banco de trás, voaram pelo largo com luzes e sirenes a funcionar no máximo. A dois quarteirões já viam as chamas.

- Deus nos acuda - disse Haney lá atrás.

Poucos acontecimentos excitavam tanto Clanton como um bom fogo. Os dois autotanques da cidade estavam lá. Dúzias de voluntários corriam de um lado para o outro, pareciam gritar todos. Os vizinhos juntavam-se nos passeios do outro lado da rua.

As chamas já saíam pelo telhado. Quando Ray pisou a linha de água e avançou para o relvado da frente sentiu o inconfundível cheiro a gasolina.

 

Afinal, o ninho de amor não era um mau local para uma soneca. Era um quarto comprido e estreito com pó e teias de aranha e uma lâmpada pendurada no meio do tecto abobadado. A janela solitária devia ter sido pintada algures no século passado, e dava para a praça. A cama era uma antiguidade de ferro, sem lençóis nem cobertores, e ele tentou não pensar em Harry Rex e nas suas desventuras naquele colchão. Em vez disso, pensou na velha casa de Maple Run e na forma gloriosa como passara à história. Quando o telhado ruiu, meia Clanton estava lá. Ray ficara sentado, sozinho, no ramo inferior de um sicômoro do outro lado da rua, escondido de todos, a tentar, em vão, extrair queridas recordações de uma infância maravilhosa que simplesmente não existira. Quando as chamas irrompiam de todas as janelas não pensava no dinheiro que estava na secretária do juiz, nem na mesa de casa de jantar da mãe, mas apenas no velho general Forrest a olhar fixamente com aqueles seus olhos penetrantes.

Três horas de sono e estava acordado às 8. A temperatura subia rapidamente naquele antro de iniquidade e sentiu passos pesados virem na sua direcção.

Harry Rex escancarou a porta e acendeu a luz.

- Acorda, amigo. Querem-te lá em baixo na prisão - rosnou. Ray baloiçou os pés para o chão.

- A minha fuga foi natural.

Tinha perdido Elmer e Haney no meio da multidão e partira simplesmente com Harry Rex.

264

- Disseste-lhes que podiam revistar o teu...

- Disse.

- Isso foi uma estupidez. Que raio de advogado és tu? - Puxou uma cadeira desdobrável de madeira que estava encostada à parede e sentou-se junto da cama.

- Não havia nada a esconder.

- És estúpido, sabias? Revistaram o carro e não encontraram nada.

- Era isso que eu esperava.

- Nem roupas, nem um saco, nem bagagem, nem escova de dentes, absolutamente nenhuma prova de que estavas simplesmente a sair da cidade para ires para casa, conforme a tua versão oficial.

- Eu não deitei fogo à casa, Harry Rex.

- Bom, és um excelente suspeito. Foges no meio da noite, sem roupas, sem nada, conduzes como um morcego a fugir do inferno. À velhota Larrimore, lá do fundo da rua, vê-te passar a toda a velocidade no teu carrito esquisito e cerca de dez minutos mais tarde chegam os carros de incêndio. És apanhado pelo agente mais estúpido deste estado a 180, a conduzires como louco para fugires de cá. Defende-te.

- Não lhe deitei fogo.

- Porque é que partiste às 2.30?

- Alguém atirou uma pedra pela janela da casa de jantar. Assustei-me.

- Tinhas uma arma.

- Não queria usá-la. Preferia fugir a atingir alguém.

- Estiveste no Norte demasiado tempo.            

- Não vivo no Norte.

- Como te cortaste assim?

- O tijolo partiu a janela, percebes, e quando fui ver cortei-me.

- Porque não chamaste a polícia?

- Entrei em pânico, queria ir para casa, por isso parti.

-E dez minutos depois alguém rega a casa com gasolina e atira-lhe um fósforo.                                                                

- Não sei o que fizeram.

- Eu condenava-te.

- Não, tu és o meu advogado.

-Não, eu sou o advogado do testamefltário, que, por acaso, «caba de perder o seu único bem.

- Há o seguro de incêndio.

- Sssim, mas não podes recebê-lo.

- Porque não?

- Porque, se apresentas queixa, vão fazer-te uma investigação por fogo posto. Se dizes que não o fizeste, eu acredito. Mas não creio que alguém mais acredite. Se vais atrás do seguro, então esses tipos caem-te em cima com uma vingança.

- Eu não lhe peguei fogo.                                                  

- Óptimo, então quem foi?

- Quem quer que tenha atirado o tijolo.

- E quem poderia ser?

- Não faço ideia. Talvez um tipo para quem um divórcio tenha acabado mal.

- Brilhante. E esperava nove anos para se vingar do juiz, que, por acaso, está morto. Não quero estar na sala de tribunal quando disseres essa ao júri.

- Não sei, Harry Rex. Juro que não fui eu. Esquece o dinheiro do seguro.

- Não é assim tão fácil. Só metade é que é tua, a outra metade pertence ao Forrest. Ele pode reclamar o prémio de seguro. Ray respirou fundo e coçou a barba curta.

- Ajuda-me nesta, certo?

- O xerife está lá em baixo com dois dos seus investigadores. Vão fazer algumas perguntas. Responde devagar, diz a verdade, blá, blá. Eu vou lá estar, por isso vai devagar.

- Ele está aqui?

- Na minha sala de reuniões. Pedi-lhe que viesse cá para podermos fazer isto agora. Acho que precisas mesmo de sair da cidade.

- Estava a tentar.

- As acusações de condução perigosa e de porte de arma indevido vão ser adiadas uns meses. Dá-me algum tempo para resolver o rol de causas. Agora tens problemas maiores.

- Não incendiei a casa, Harry Rex.

- Claro que não.

Saíram do quarto e começaram a descer os degraus inseguros para o segundo andar.

- Quem é o xerife? - perguntou Ray, por cima do ombro.

- Um tipo chamado Sawyer.      

- Bom tipo?        

- Não interessa.                                      

- Tens intimidade com ele?          

- Fiz o divórcio do filho.

A sala de reuniões era uma bela balbúrdia de grossos livros de Direito atirados para as prateleiras, para os cadeirões e para a própria mesa comprida. Dava impressão de que Harry Rex passava horas de fastidiosa investigação. E não passava.

Sawyer não era minimamente delicado, nem o seu ajudante, um italiano pequeno e nervoso chamado Sandroni. Italianos eram raros no Nordeste do Mississipi, e, durante as tensas apresentações, Ray reparou num sotaque do Delta. Os dois eram só profissionalismo, com Sandroni a tomar notas cuidadosamente, enquanto Sawyer sorvia café fumegante de um copo de papel e observava todos os movimentos que Ray fazia.

A chamada a comunicar o incêndio fora feita pela Mrs. Larrimore às 2.34, aproximadamente dez a quinze minutos depois de ela ter visto o carro de Ray a sair da Fourth Street à pressa. Elmer Conway comunicou por rádio às 2.36, dizendo que ia no encalço de um idiota qualquer que ia a 180 em The Bottoms. Visto estar reconhecido que Ray ia em excesso de velocidade, Sandroni passou muito tempo a esclarecer o seu trajecto, as suas velocidades estimadas, os semáforos, algo que o fizesse abrandar àquela hora da manhã.

Depois de a rota de saída de Ray estar determinada, Sawyer comunicou por rádio com o agente, que estava sentado em frente do entulho de Maple Run, e disse-lhe para percorrer exactamente o mesmo caminho às mesmas velocidades estimadas e para parar em The Bottoms, onde Elmer estava novamente à espera.

Vinte minutos depois, o agente ligou e disse que estava com Elmer.

Por isso, em menos de vinte minutos, disse Sandroni, quando começou a recapitular:

- Alguém, partimos do princípio de que esse alguém não estava ainda na casa, não é Mr. Atlee? Alguém entrou com o que era evidentemente uma grande quantidade de gasolina e ensopou a casa toda, tão cuidadosamente que o comandante dos bombeiros disse que nunca sentira um cheiro tão forte a gasolina, e depois deitou-lhe um fósrforo ou talvez dois, porque o comandante dos bombeiros tinha quase a certeza de que o fogo tivera mais do que um ponto de origem, e, depois de atirados os fósforos, este incendiário fugiu no meio da noite. Certo, Mr. Atlee?

- Não sei o que fez o incendiário - respondeu Ray.

- Mas os tempos estão certos?

- Se o diz.

- Digo-o.

- Continue - rosnou Harry Rex do extremo da mesa.

A seguir era o móbil. A casa estava segura em 380 000 dólares, incluindo o recheio. Segundo o agente imobiliário, que já fora consultado, este tinha feito uma oferta de compra de 175 000 dólares.

- É uma bela diferença, não é, Mr. Atlee? - lançou Sandroni.

- É.

- Já avisou a sua companhia de seguros? - perguntou Sandroni.

- Não, pensei esperar até abrirem os escritórios. Acredite ou não, há pessoas que não trabalham ao sábado - disse Ray.

- Com os diabos, o autotanque ainda está lá fora. Temos seis meses para apresentar queixa - disse Harry Rex para ajudar.

As bochechas de Sandroni ficaram vermelhas, mas conteve-se. Continuando, analisou as suas notas e disse:

- Vamos falar de outros suspeitos.

Ray não gostou da utilização da palavra «outros». Contou a história do tijolo pela janela ou, pelo menos, a maior parte da história. E do telefonema a avisá-lo que saísse imediatamente.

- Verifiquem as gravações telefónicas - desafiou-os. E como medida de precaução, contou-lhes a história anterior de um louco qualquer a matraquear nas janelas na noite em que o juiz morreu.

- Bom, já têm que chegue - disse Harry Rex após trinta minutos. Por outras palavras, o meu cliente não responde a mais perguntas.

- Quando sai da cidade? - perguntou Swayer.

- Estou a tentar sair há seis horas - respondeu Ray.

- Muito em breve - disse Harry Rex.

- Podemos ter mais algumas perguntas a fazer.

- Volto cá sempre que for preciso - afirmou Ray.

Harry Rex foi-os enxotando pela porta da frente e depois voltou à sala de reuniões e disse:

- Acho que és um sacana de um mentiroso.

 

O velho carro de bombeiros desaparecera, o mesmo que Ray e os amigos seguiam quando eram adolescentes e estavam aborrecidos nas noites de Verão. Um voluntário de T-shirt suja estava a dobrar as mangueiras de incêndio. A rua estava uma confusão, com lama espalhada por todo o lado.

Maple Run estava deserta a meio da manhã. A chaminé do lado leste ainda estava de pé, e a seu lado havia um pequeno pedaço de parede carbonizada. Tudo o resto se desmoronara, ficando um montão de escombros. Ray e Harry Rex contornaram o entulho e foram até ao quintal, onde uma fila de velhas nogueiras-de-pecan protegiam os limites das traseiras da propriedade. Ficaram sentados à sombra, em cadeiras metálicas de jardim que um dia Ray pintara de vermelho, a comerem tamales.          

- Eu não deitei fogo a esta casa - disse por fim Ray.

- Sabes quem foi? - perguntou Harry Rex.

- Tenho um suspeito.

- Diz-me, com um raio.

- Chama-se Gordie Priest.

- Ah, esse!

- É uma longa história.

Ray começou pelo juiz morto no sofá e a descoberta acidental do dinheiro, teria sido afinal um acidente? Contou tantos factos e pormenores quantos os que lhe ocorriam e pôs todas as perguntas que há semanas andavam a roê-lo. Pararam de comer. Ficaram a olhar fixamente os destroços incandescentes, mas estavam demasiado absortos para o verem. Harry Rex estava estupefacto com a narrativa. Ray estava aliviado por ter contado. De Clanton a Charlottesville e de um lado para o outro. Desde os casinos em Túnica a Atlantic City e novamente de regresso a Túnica. Para a costa e Patton French e a sua perseguição de um milhar de milhões de dólares, tudo por conta do juiz Reuben Atlee, um simples servidor da lei.

Ray não escondia nada e tentava lembrar-se de tudo. O assalto ao seu apartamento em Charlottesville, apenas para o intimidarem, pensava. A má ideia da compra de uma quota de um Bonanza. E por aí fora, enquanto Harry nada dizia.

Quando acabou, o seu apetite desaparecera e estava a transpirar. Harry Rex tinha um milhão de perguntas a fazer, mas começou por perguntar:

- Porque havia ele de incendiar a casa?

- Talvez para encobrir a sua pista, não sei.    

- Esse tipo não deixou pistas.

- Talvez fosse o último acto de intimidação.

Ficaram a ruminar naquilo. Harry Rex acabou o tamale e disse:

- Devias ter-me contado.

- Eu queria ficar com o dinheiro, certo? Eu tinha três milhões de dólares em dinheiro, nas minhas mãozinhas pegajosas, e era maravilhoso. Era melhor do que sexo, melhor do que qualquer coisa que já experimentei. Três milhões de dólares, Harry Rex, todos para mim. Estava rico. Senti-me ganancioso. Senti-me corrupto. Não queria que tu, nem o Forrest, nem o Governo, nem ninguém no mundo soubesse que eu tinha esse dinheiro.

- O que ias fazer com ele?

- Espalhá-lo por bancos, por uma dúzia deles, nove mil dólares de cada vez, nada de papelada que pudesse alertar o Governo, deixá-lo amontoar-se durante dezoito meses e depois investi-lo com a ajuda de um profissional. Tenho quarenta e três anos; dentro de dois anos, o dinheiro estaria lavado e a trabalhar bem. Iria duplicar de cinco em cinco anos. Quando tivesse cinquenta anos seriam seis milhões. Aos cinquenta e cinco, doze milhões. Aos sessenta teria vinte e quatro milhões de dólares. Tinha tudo planeado, Harry Rex. Estava a ver o futuro.

- Não te martirizes. O que fizeste foi normal.        

- Não me parece normal.

- És um péssimo vigarista.

- Sentia-me péssimo e já estava a mudar. Já me via num avião e num carro desportivo mais chique e a viver num local mais bonito. Há muito dinheiro em Charlottesville e estava a pensar fazer um vistão. Country clubs, caça à raposa...

- Caça à raposa?      

- Sssim.

- Com aquelas polainas e o chapéu?

- A saltar sebes num cavalo selvagem, atrás de uma matilha de cães que perseguem uma raposa de quinze quilos que nunca veremos.

- Porque quererias fazer isso?                

- Porque o quer alguém?

- Eu fico-me pela caça aos pássaros.

- De qualquer modo era, literalmente, uma carga, andei a arrastar o dinheiro de um lado para o outro durante semanas.

- Podias ter deixado algum no meu escritório. Ray acabou um tamale e sorveu uma coca-cola.

- Achas que sou estúpido?

- Não, acho que tens sorte. Esse tipo joga a sério.

- Sempre que fechava os olhos, via a bala vir direita à minha testa.

- Olha, Ray, não fizeste nada de errado. O juiz não queria o dinheiro, nem sequer no testamento. Levaste-o porque julgavas que estavas a protegê-lo e a salvaguardar a sua reputação. Apanhaste um maluco que o queria mais do que tu. Vendo bem, até tiveste sorte de não teres sofrido com todo este episódio. Esquece.

- Obrigado, Harry Rex. - Ray inclinou-se para a frente e observou um bombeiro voluntário que se afastava. - E quanto ao fogo posto?

- Vamos resolver isto. Se reclamar o seguro, a companhia de seguros vai investigar. Vão suspeitar de fogo posto e as coisas vão ficar feias. Deixemos passar uns meses. Se não pagarem, então movemos uma acção em Ford County. Não vão arriscar-se a um julgamento com júri numa acção contra o Estado, posta por Reuben Atlee no seu próprio tribunal. Acho que vão chegar a acordo antes do julgamento. Podemos ter de ceder um pouco, mas vamos conseguir um bom acordo.

Ray pôs-se de pé.

- Quero mesmo ir para casa - disse.

Sentiam o ar espesso de calor e fumo enquanto contornavam a casa.

- Estou farto - afirmou Ray, dirigindo-se para a rua. Conduzia agora à velocidade permitida por The Bottoms. Elmer Conway não se avistava em lado nenhum. O Audi parecia mais leve com o porta-bagagens vazio. Aliás, tal como ele próprio, alijara a carga. Ray desejava ardentemente a normalidade de sua casa.

Temia o encontro com Forrest. A herança do pai acabara de esfumar-se, e o fogo posto iria ser difícil de explicar. Talvez fosse melhor esperar. A recuperação estava a processar-se calmamente e Ray sabia, por experiência, que a menor complicação podia fazer Forrest descarrilar. Deixaria passar um mês. E depois outro.

Forrest não ia voltar a Clanton, e, no seu mundo sombrio, podia até nunca ouvir falar do fogo. Seria melhor ser Harry Rex a dar-lhe a notícia.

A recepcionista de Alcorn Village deitou-lhe um olhar curioso quando ele se registou. Leu revistas durante muito tempo no salão escuro onde os visitantes esperavam. Quando Oscar Meave entrou tranquilamente, com um ar pesaroso, Ray soube exactamente o que acontecera.

- Ele foi-se embora ontem ao fim da tarde - disse Meave enquanto se agachava junto à mesinha de café que estava na frente de Ray. - Tentei contactá-lo durante toda a manhã.

- Perdi o meu telemóvel ontem à noite - contou Ray. No meio de tudo o que deixara para trás quando as pedras estavam a cair, não podia acreditar que se esquecera do telemóvel.

- Inscreveu-se na caminhada pelas serras, um trilho natural de nove quilómetros que tem feito todos os dias. É por trás da propriedade e não tem vedação, mas Forrest não constituía um caso de risco de segurança. Pelo menos, não achávamos. Nem posso acreditar.

Ray acreditava. O seu irmão andara a fugir de centros de desintoxicação durante quase vinte anos.

- Este não é propriamente um estabelecimento de detenção - continuou Meave. - Os nossos doentes, ou querem cá ficar, ou não resulta.

- Compreendo - disse Ray suavemente.

- Ele ia tão bem - prosseguiu Meave, obviamente mais perturbado do que Ray. - Completamente limpo e muito orgulhoso disso.

Tinha como que adoptado dois adolescentes, ambos em recuperação pela primeira vez. Forrest trabalhava todas as manhãs com eles. Esta não a percebo.

- Pensei que o senhor é um ex-toxicodependente. Meave estava a banar a cabeça.

- Eu sei, eu sei. O dependente deixa quando o dependente quer deixar, e não antes.

- Já viu alguém que não conseguisse simplesmente deixar? - perguntou Ray.

- Não podemos admitir isso.

- Eu sei que não podem. Mas, aqui para nós, tanto o senhor como eu sabemos que há dependentes que nunca vão dar com os pés naquilo.

Meave encolheu os ombros com relutância.

- Forrest é um desses, Oscar. Vivemos nisto há vinte anos. ; -Eu tomo isto como um fracasso pessoal.

- Não faça isso.

Caminharam lá para fora e conversaram um pouco na varanda. Meave não conseguia parar de pedir desculpa. Para Ray, não era nada que não esperasse.

Pela estrada sinuosa até à auto-estrada principal, Ray ia pensando como pudera o irmão sair simplesmente a pé das instalações que ficavam a doze quilómetros da cidade mais próxima. Mas a verdade é que ele fugira de locais mais afastados.

Iria voltar para Memphis, para o seu quarto na cave de Ellie, e voltar para a rua onde os passadores estariam à sua espera.

A próxima chamada telefónica podia ser a última, mas Ray esperava-a havia muitos anos. Doente como estava, Forrest demonstrara uma espantosa capacidade de sobreviência.

Ray estava agora no Tennessee. A Virgínia era a seguir, a sete horas de distância. Com um céu claro e sem vento, pensou como seria agradável voar, zunindo, a cinco mil pés no seu Cessna preferido, alugado.

 

As duas portas eram novas, sem pintura e muito mais pesadas do que as antigas. Ray agradeceu silenciosamente a despesa extra ao seu senhorio, embora soubesse que não haveria mais assaltos. A perseguição terminara. Não haveria mais olhares rápidos por cima do ombro. Não haveria mais escapadelas até ao Chaney's para jogar às escondidas. Não haveria mais conversas em surdina com Corey Crawford. E não haveria mais dinheiro ilícito para transportar, com que sonhar, e literalmente, a carregar. O alívio desse fardo fê-lo sorrir e caminhar um pouco mais depressa.

A vida ia tornar-se novamente normal. Longas corridas ao calor. Longos voos solitários sobre Piedmont. Até estava ansioso pela sua descurada investigação para a dissertação sobre monopólios que prometera fazer no próximo Natal ou no seguinte. Tinha abrandado o interesse pela questão de Kaley e estava pronto para fazer uma tentativa ao jantar. Agora era legal, já terminara o curso, e ela parecia demasiado atraente para desistir sem um esforço decente.

O seu apartamento estava na mesma, o estado habitual, visto que não vivia lá mais ninguém. Além da porta, não havia sinais de uma entrada forçada. Sabia agora que o assaltante não fora, de facto, um ladrão, quisera apenas atormentar e intimidar. Gordie ou um dos seus irmãos. Não tinha a certeza de como tinham dividido entre eles as tarefas, nem isso lhe interessava.

Eram quase onze horas. Fez um café forte e começou a remexer no correio. Não havia mais cartas anónimas. Nada, além das habituais contas e solicitações.

Havia dois faxes no tabuleiro. O primeiro era um recado de um ex-aluno. O segundo de Patton French. Estivera a tentar telefonar, mas o telemóvel de Ray não estava a funcionar. Escrevera em papel de carta timbrado do King of Torts, enviara o fax, certamente, das águas cinzentas do golfo, onde French ainda escondia o barco do advogado da sua mulher, no processo de divórcio.

Boas notícias na frente de segurança? Não muito depois de Ray ter partido da costa, Gordie Priest fora «localizado», com os seus dois irmãos. Ray poderia telefonar-lhe? O seu assessor havia de encontrá-lo.

Ray esteve agarrado ao telefone durante duas horas, até que French lhe telefonou de um hotel em Fort Worth, onde tinha uma reunião com uns advogados da Ryax e da Kobril.

- Talvez arranje aqui uns mil casos - disse, incapaz de conter-se.

- Óptimo - respondeu Ray. Estava decidido a não ouvir mais tagarelice sobre processos colectivos por responsabilidade civil e acordos de quantias exorbitantes de dólares.

- O seu telefone é seguro? - perguntou French.

- Sim.

- Certo, oiça. O Priest já não constitui ameaça. Encontrámo-lo pouco depois de você partir, deitado bêbado com uma velha namorada com quem anda há muito tempo. Encontrámos também os irmãos. O seu dinheiro está seguro.

- Quando é que os encontraram, precisamente? - perguntou Ray. Estava inclinado sobre a mesa da cozinha com um grande calendário aberto à frente. Neste caso, o tempo era crucial. Tomara notas nas margens, enquanto esperava pelo telefonema.

French pensou um segundo. - Umm, deixe ver. Que dia é hoje?

- Segunda-feira, 5 de Junho.

- Segunda-feira. Quando é que partiu da costa?

- Às 10 da manhã de sexta-feira.

- Então, foi na sexta-feira depois de almoço.

- Tem a certeza?

- Claro que tenho a certeza. Porque pergunta?

- E depois de tê-lo encontrado, não houve maneira de poder ter saído da costa?

- Confie em mim, Ray. Eles nunca mais vão sair da costa. Encontraram aqui, umm, uma morada permanente.

- Não quero esses pormenores. - Ray sentou-se à mesa a olhar fixamente o calendário.

- O que há? Algum problema? - perguntou French.        

- Sim, pode dizer-se isso.

- O que foi?

- Alguém deitou fogo à casa.

- Do juiz Atlee?

- Sim.

- Quando?

- Depois da meia-noite, sábado de madrugada.

Houve uma pausa enquanto French assimilava isto.

- Bom, não foram os Priest, isso posso garantir-lhe.

Como Ray não disse nada, French perguntou:              

- Onde está o dinheiro?

- Não sei - resmungou.

Uma corrida de oito quilómetros não fez nada para lhe aliviar a tensão. Embora, como sempre, fosse capaz de planear as coisas e reorganizar as ideias. A temperatura era superior a trinta e dois graus, e, quando voltou ao seu apartamento, estava encharcado em suor.

Agora que contara tudo a Harry Rex era reconfortante ter alguém com quem partilhar as últimas. Ligou para o seu escritório em Clanton e foi informado de que tinha ido ao tribunal a Tupelo e que só estaria de volta tarde. Telefonou para casa de Ellie, em Memphis, mas ninguém se deu ao trabalho de atender. Telefonou para Oscar Meave em Alcorn Village, e, contando não ter notícias sobre o paradeiro do irmão, recebeu exactamente o que esperava.                                      

Tanto melhor, para a vida normal.          

 

Após uma tensa manhã de negociações para trás e para a frente nos corredores do Tribunal de Lee County, a altercar sobre questões como quem ficava com o barco de esqui, quem ficava com a cabana no lago e quanto iria pagar por acordo de uma quantia global, o divórcio ficou acordado uma hora depois do almoço. Harry Rex era o advogado do marido, um cowboy exaltado com a esposa número três que achava que ele sabia mais de divórcios do que o advogado dele. A esposa número três era uma loura burra nos seus vinte e muitos, que o apanhara com a melhor amiga. Era a típica história sórdida, e Harry Rex estava cansado de toda aquela confusão, quando se encaminhou para a mesa do juiz e apresentou um acordo de partilha de bens arduamente disputado.

O juiz era um veterano que divorciara milhares.

- Lamento muito pelo juiz Atlee - disse baixinho enquanto começava a rever os documentos. Harry Rex fez apenas um sinal afirmativo. Estava cansado e com sede, e já a sonhar com uma geladinha, quando regressasse a Clanton, pela estrada interior. A sua loja de cerveja preferida na zona de Tupelo era no limite do condado.

- Trabalhámos juntos, durante vinte anos - ia dizendo o juiz.

- Um bom homem - afirmou Harry Rex.

- Está a tratar do testamento? -Estou sim.

- Dê lá os meus cumprimentos ao juiz Farr.

- Darei.

A papelada estava assinada, o casamento misericordiosamente terminado e os esposos hostis enviados para as suas casas neutras. Harry Rex estava fora do tribunal e ia a meio caminho do carro quando um advogado correu atrás dele e o fez parar no passeio. Apresentou-se como Jacob Spain, advogado, um dos mil de Tupelo. Estivera na sala de audiências e ouvira por acaso o juiz mencionar o juiz Atlee.

- Ele tem um filho, Forrest, não tem?-perguntou Spain.

- Dois filhos, Ray e Forrest. - Harry Rex respirou fundo e preparou-se para uma breve conversa.

-Joguei futebol americano contra Forrest no liceu. Aliás, ele partiu-me a clavícula com uma pancada fora de tempo.

- Isso é mesmo do Forrest.

-Eu joguei em New Albany. Forrest era caloiro quando eu já andava no último ano. Viu-o jogar?

- Sim, muitas vezes.

-Lembra-se desse jogo lá contra nós, quando ele atirou a bola ao longo de mais de duzentos e setenta metros, no primeiro tempo? Quatro ou cinco touchdowns, creio.

- Lembro-me - respondeu Rex e começou a ficar impaciente. Quanto tempo iria durar aquilo?

- Naquela noite eu jogava como defesa mais recuado e ele disparava passagens de bola para todo o lado. Apanhei uma antes do intervalo, corri com ela para fora das linhas e ele atingiu-me enquanto eu estava no chão.

- Era uma das suas jogadas preferidas. Dá-lhes com força e dá-lhes tarde, fora o lema de Forrest, especialmente àqueles defesas suficientemente infelizes para interceptarem um dos seus passes.

- Acho que foi preso na semana seguinte - continuou Spain. - Foi uma perda. Aliás, vi-o aqui em Tupelo há algumas semanas, com o juiz Atlee.

A impaciência passou. Harry Rex esqueceu-se da geladinha, pelo menos, de momento.

- Quando é que foi isso? - perguntou.

- Mesmo antes de o juiz morrer. Foi uma cena estranha. Deram alguns passos e foram pôr-se à sombra de uma árvore.

- Estou a ouvir - disse Harry Rex, desapertando a gravata. Já tirara o blazer azul-marinho, amachucado.

- A mãe da minha mulher está a tratar-se de cancro da mama na Clínica Taft. Numa segunda-feira à tarde, na Primavera, levei-a lá para mais um tratamento de quimioterapia.

- O juiz Atlee ia à Taft. Eu vi as contas - esclareceu Harry Rex.

- Sim, foi lá que o vi. Acompanhei-a lá dentro, tinha de esperar, por isso fui para o carro fazer uma série de chamadas. Enquanto estava lá sentado, vi o juiz Atlee chegar num grande Lincoln preto, conduzido por alguém que não reconheci. Estacionaram apenas dois carros à minha frente e saíram. O condutor pareceu-me então conhecido: um tipo grande, bem constituído, cabelo comprido com um andar altivo que eu já vira. De repente, percebi que era Forrest. Percebi pela maneira como caminhava e se movia. Usava óculos escuros e um boné puxado para a cara. Entraram e, segundos depois, Forrest saiu.

- Que tipo de boné?

- Azul-claro, dos Lobitos, creio.

- Já o vi.

- Estava muito nervoso, como se não quisesse ser visto por ninguém. Desapareceu no meio de umas árvores ao lado da clínica, mas eu conseguia distinguir dificilmente o seu contorno. Ficou ali escondido. A princípio, pensei que podia estar a aliviar-se, mas não, estava apenas a esconder-se. Ao fim de mais ou menos uma hora, entrei, esperei, por fim fui buscar a minha sogra e fui-me embora. Ele ainda lá estava no meio das árvores.

Harry Rex tirara a sua agenda-plano do bolso.

- Em que dia foi isso? - Spain tirou a dele, e, como fazem todos os advogados ocupados, compararam as suas actividades recentes. - Segunda-feira, 1 de Maio - afirmou Spain.

- Isso foi seis dias antes de o juiz ter morrido - concluiu Harry Rex.

- Tenho a certeza de que foi essa a data. Foi uma cena estranha.

- Bom, ele é um tipo muito estranho.

- Ele não anda a fugir à justiça ou coisa do género, pois não?

- Actualmente não - disse Harry Rex, e conseguiram ambos soltar uma gargalhada nervosa.

De repente, Spain teve pressa de ir-se embora.

- Bem, se o vir, diga-lhe que ainda estou zangado por causa do pontapé fora de tempo.

- Dir-lho-ei - disse Harry Rex, e ficou a vê-lo afastar-se.

 

Mr. e Mrs. Vonner deixaram Clanton numa manhã enevoada de Junho, no seu novo utilitário desportivo com tracção às quatro rodas que prometia gastar mais de 20 aos 100 e ia carregado de bagagem para um mês na Europa. Porém o destino era o distrito da Colúmbia, uma vez que Mrs. Vonner tinha lá uma irmã que Harry Rex não conhecia. Passaram a primeira noite em Gatlinburg e a segunda em White Sulphur Springs, na Virgínia ocidental. Chegaram a Charlottesville por volta do meio-dia, fizeram a volta obrigatória por Jefferson's Monticello, caminharam pelos terrenos da universidade e tiveram um jantar invulgar, num antro de uma faculdade, cuja especialidade era hamburger com ovo estrelado. O tipo de comida de Harry Rex.

Na manhã seguinte, enquanto ela dormia, foi dar uma volta pelo centro comercial da baixa. Encontrou a morada e esperou.

Uns minutos depois das 8 da manhã, Ray deu um nó duplo nos atacadores dos seus sapatos de corrida, muito caros, espreguiçou-se no quarto sujo e desceu a escada para a sua corrida diária de sete quilómetros. Lá fora, o ar estava quente. Julho não vinha longe, e o Verão já chegara.

Virou uma esquina e ouviu uma voz conhecida chamar: - Ei, rapaz.

Harry Ray estava sentado num banco, com uma chávena de café na mão e um jornal, por ler, a seu lado. Ray estacou e levou uns segundos a recompor-se. As coisas não se encaixavam.

Quando conseguiu mexer-se, foi até junto dele e disse:

- O que estás tu exactamente a fazer aqui?

- Traje giro - disse Harry Rex, observando os calções, a velha T-shirt, o boné vermelho de corredor e o último grito em óculos desportivos. - Eu e a minha mulher estamos de passagem, vamos para D.C. Ela tem lá uma irmã que acha que eu quero conhecer. Senta-te.

- Porque não telefonaste?

- Não queria incomodar-te.

- Mas devias ter telefonado, Harry Rex. PodíarrK* jantar* m mostro-te a cidade.

- Não é esse tipo de viagem. Senta-te.

Ray sentou-se ao lado de Harry Rex, mas cheirou-lhe a chatice.

- Não acredito nisso - murmurou.

- Cala-te e ouve.

Ray tirou os óculos de corrida e olhou para Harry Rex.

- É mau?

-Digamos que é curioso. - Contou-lhe a história de Jacob Spain sobre Forrest escondido entre as árvores na clínica de oncologia, seis dias antes de o juiz morrer. Ray ouvia incrédulo e ia escorregando no banco. Por fim, inclinou-se para a frente com os cotovelos nos joelhos e a cabeça pendurada.

- Segundo os relatórios médicos - dizia Harry Rex -, ele tomou a embalagem de morfina nesse dia, 1 de Maio. Não sabemos se foi a primeira dose ou um reforço, os relatórios não são claros. Parece que Forrest o levou-o a tomar a boa droga.

Houve um longo silêncio enquanto uma mulher jovem e bonita passava, obviamente à pressa, bamboleando-se lindamente na saia justa, enquanto caminhava rapidamente. Um golo de café e continuou:

- Sempre suspeitei daquele testamento que encontraste no escritório. O juiz e eu falámos sobre o seu testamento nos seus últimos seis meses de vida. Não creio que tivesse engendrado outro, mesmo antes de morrer. Analisei demoradamente as assinaturas, e, na minha opinião inexperiente, a última é uma falsificação.

Ray aclarou a voz e disse:

- Se Forrest o levou a Tupelo, é seguro pensar que Forrest esteve lá em casa.

- Em toda a casa.  

Harry Rex contratara um detective de Memphis para procurar Forrest, mas não havia vestígios, nem rasto dele. De dentro do jornal tirou um envelope.

- Então, há três dias, chegou isto.

Ray tirou de lá uma folha de papel e desdobrou-a. Era de Oscar Meave, em Alcorn Village, e dizia:

«Caro Mr. Vonner: Não tenho conseguido contactar Ray Atlee. Sei do paradeiro de Forrest, se por acaso a família não souber. Telefone, se quiser falar. É tudo confidencial. Cumprimentos, Oscar Meave.»

- Por isso, telefonei-lhe imediatamente - disse Harry Rex deitando uma olhadela a outra jovem. - Tem um ex-doente que é agora conselheiro num rancho de recuperação no Oeste. Forrest inscreveu-se lá há uma semana, foi muito inflexível quanto à sua privacidade e disse que não queria que a sua família soubesse onde estava. Isto acontece, evidentemente, de vez em quando, e as clínicas estão presas a um compromisso. Têm de respeitar a vontade dos doentes, mas, por outro lado, a família é crucial para a recuperação geral. Por isso, estes conselheiros passam a palavra entre eles. Meave decidiu dar-te a informação.

- No Oeste, onde?

- Montana. Um local chamado Rancho Morningstar. Meave diz que é do que o rapaz precisa: muito bonito, muito afastado, instalações fechadas para os casos difíceis, disse que ele vai lá ficar um ano.

Ray endireitou-se e começou a esfregar a testa como se, por fim, ali tivesse levado um tiro.

- E é claro que esse sítio é caro - acrescentou Harry Rex.

- Claro - murmurou Ray.

Não houve mais conversa, pelo menos sobre Forrest. Ao fim de uns minutos, Harry Rex disse que se ia embora. Dera o recado, não tinha mais nada a dizer, pelo menos naquele momento. A mulher estava ansiosa por ver a irmã. Talvez da próxima vez pudessem ficar mais tempo, jantar ou coisa assim. Deu uma palmadinha no ombro de Ray e deixou-o ali.

- Vemo-nos em Clanton - foram as suas últimas palavras. Demasiado fraco e tonto para uma corrida, Ray ficou sentado no

banco no meio da zona comercial da baixa, com o apartamento por cima dele, perdido num mundo em que as peças se moviam rapidamente. O trânsito de peões recomeçava quando comerciantes, banqueiros e advogados se apressavam em direcção ao trabalho, mas Ray não os via.

Cari Mirk leccionava dois capítulos da lei de seguros em cada semestre, e pertencia ao foro judicial da Virgínia, tal como Ray. Discutiram a entrevista ao almoço e concluíram ambos que fazia apenas parte de um inquérito de rotina, nada de preocupante. Mirk iria atrelar-se e fingir que era o advogado de Ray.

O investigador do seguro chamava-se Ratterfield. Receberam-no na sala de reuniões da Faculdade de Direito. Ele tirou o casaco, como se fosse estar ali horas. Ray estava dejeans e com um pólo. Mirk estava igualmente informal.

- Geralmente, gravo isto - disse Ratterfield, todo ele muito profissional, enquanto tirou um gravador, colocando-o entre ele e Ray. - Tem alguma objecção? - perguntou quando o gravador já estava colocado.

- Acho que não - disse Ray.

- Carregou no botão, consultou as suas notas e depois começou uma introdução, para o gravador. Era um inspector de seguros independente, contratado pela Aviation Underwriters, para investigar uma reclamação de seguro apresentada por Ray Atlee e três outros proprietários por danos num Beech Bonanza de 1994, a 2 de Junho. Segundo o investigador público de fogo posto, o avião foi deliberadamente incendiado.

Para começar, precisava do historial de voo de Ray. Ray tinha o seu diário de bordo, e Ratterfield examinou-o minuciosamente, não encontrando nada com o mínimo interesse.

- Não há avaliação de instrumentos - disse a certa altura.

- Estou a trabalhar nisso - respondeu Ray. - Catorze horas no Bonanza!

- Sssim.

Passou depois aos titulares da sociedade e fez perguntas sobre o acordo que os unira. Já entrevistara os outros proprietários, e eles tinham apresentado contratos e documentos. Ray mostrou a papelada. -

Mudando de agulha, Ratterfield perguntou:  

-Onde estava a 1 de Junho?

- Em Biloxi, Mississipi - respondeu Ray com a certeza de que Ratterfield não fazia ideia de onde isso ficava.

- Quanto tempo lá esteve?

- Alguns dias.

- Posso perguntar porque estava lá?

- Claro - disse Ray e depois entrou numa versão abreviada das suas recentes idas a casa. A sua versão oficial da ida à costa era uma visita a amigos, velhos camaradas do seu tempo de Tulane.

- Tenho a certeza de que há pessoas que podem confirmar que esteve lá a 1 de Junho - insinuou Ratterfield.

- Várias pessoas. Além disso tenho recibos de hotel. Parecia convencido de que Ray estivera no Mississipi.

- Os outros proprietários estavam todos em casa quando o avião ardeu - disse, virando uma página para uma lista de notas dactilografadas. - Todos têm álibis. Se partirmos do princípio de que é fogo posto, temos de encontrar primeiro um motivo e depois quem o fez. Tem alguma ideia?

- Não faço ideia de quem fez tal coisa - apressou-se Ray a dizer, com convicção.

- E quanto ao motivo?

- Tínhamos acabado de comprar o avião. Porque quereria algum de nós destruí-lo?

- Talvez para receber o seguro. Às vezes acontece. Talvez um dos sócios tenha reconhecido que estava num acordo acima das suas posses. A massa não é pouca, quase duzentos mil em seis anos, perto de novecentos dólares por mês para cada sócio.

- Já sabíamos isso duas semanas antes quando fizemos o contrato - disse Ray.

Andaram às voltas, por momentos, com o assunto delicado das finanças pessoais de Ray - salário, despesas, compromissos. Quando Ratterfield pareceu convencido de que Ray podia suportar a sua parte no negócio, mudou de assunto. - Este fogo no Mississipi - disse, analisando um relatório qualquer. -- Fale-me dele.

- O que é que quer saber?

- Está lá sob investigação de fogo posto?

- Não.

- Tem a certeza?

- Sim, tenho. Pode telefonar ao meu advogado, se quiser.

- Já telefonei. E o seu apartamento foi assaltado duas vezes nas últimas seis semanas.

- Não tiraram nada. Foram ambos apenas arrombamentos.

- Está a ter um Verão excitante.

- Isso é uma pergunta?

- Parece que anda alguém atrás de si.

- Repito, isso é uma pergunta?

Foi a única fricção da entrevista, e tanto Ray como Ratterfield encheram o peito de ar.

- Há mais alguma investigação de fogo posto no seu passado? Ray sorriu e respondeu:

- Não.

Quando Ratterfield virou outra página e não havia nada nela, perdeu rapidamente o interesse e começou os movimentos para arrumar as coisas.

- Os nossos advogados vão estar, certamente, em contacto - concluiu, enquanto desligava o gravador.

- Espero ansiosamente - respondeu Ray. Ratterfield pegou no casaco e na pasta e saiu. Depois de ele sair, Cari disse:

- Acho que sabes mais do que contas.

- Talvez - disse Ray. - Mas nada tem a ver com o fogo aqui ou o fogo lá.

- Já me chega o que ouvi.

 

Durante quase uma semana, uma sequência de frentes estivais manteve os tectos de nuvens baixos e os ventos demasiado perigosos para pequenos aviões. Quando as previsões meteorológicas generalizadas apresentaram apenas ar seco e calmo em todo o lado, excepto em South Texas, Ray partiu de Charlottesville num Cessna e iniciou a mais longa travessia do país da sua curta carreira de pilotagem. Evitando o espaço aéreo congestionado e procurando pontos de referência fáceis, lá em baixo, voou para oeste atravessando Shenandoah Valley para entrar na Virgínia ocidental e no Kentucky, onde se reabasteceu numa pista de mil e duzentos metros, não longe de Lexington. O Cessna conseguia manter-se no ar durante cerca de três horas e meia antes que o mostrador do combustível ficasse abaixo do quarto de depósito. Aterrou novamente em Terre Haute, atravessou o rio Mississipi em Hannibal e parou para pernoitar em Kirksville, Missouri, onde se instalou num motel.

Era o primeiro motel, depois da odisseia com o dinheiro, e era precisamente por causa do dinheiro que voltava a um motel. Estava também no Missouri e, enquanto no seu quarto ia mudando de canal sem som, recordava a história de Patton French ter tropeçado no Ryax durante um seminário sobre processos por responsabilidade civil, em St. Louis. Um velho advogado de uma pequena cidade dos Ozarks tinha um filho que leccionava na Universidade da Colúmbia, e o filho sabia que o medicamento era mau. E, devido a Patton French e à sua insaciável ganância e corrupção, ele, Ray Atlee, estava agora em outro motel numa cidade onde não conhecia absolutamente ninguém.

Uma frente estava a avançar sobre o Utah. Ray levantou voo antes do nascer do Sol e subiu acima dos 5000 pés. Afinou o painel de instrumentos e abriu um grande copo de café puro, fumegante. Voou mais para norte do que para oeste na primeira etapa, e em breve estava sobre os milheirais do Iowa.

Sozinho, a 1800 metros acima da terra, no ar fresco e calmo das primeiras horas da manhã e sem um único piloto a tagarelar no rádio, Ray tentou concentrar-se na tarefa que o esperava. Mas era mais fácil preguiçar, gozar a solidão, a paisagem, o café e o acto solitário de deixar o mundo lá em baixo. E era muito agradável afastar os pensamentos sobre o seu irmão.

Após uma paragem em Sioux Falis, voltou-se novamente para oeste e seguiu a Interestadual 90 que atravessa todo o estado do Dakota do Sul antes de circundar o espaço limitado em redor de Mount Rushmore. Aterrou em Rapid City, alugou um carro e fez uma longa viagem atravessando o Parque Nacional de Badlands.

O Rancho Morningstar era algures nas colinas a sul de Kalispell, embora o seu web site fosse propositadamente vago. Oscar Meave tentara, mas sem êxito, apontar a sua localização exacta. No final do terceiro dia da sua viagem, Ray aterrou depois de escurecer em Kalispell. Alugou um carro, descobriu onde jantar e um motel, e passou horas a estudar mapas de rotas aéreas e de estradas.

Levou outro dia a voar a baixa altitude em redor de Kalispell e das cidades de Woods Bay, Polison, Bigfork e Elmo. Atravessou o lago Flathead meia dúzia de vezes e estava pronto a desistir da guerra aérea e a mandar avançar as tropas terrestres quando descobriu um recinto qualquer perto da cidade de Somers no lado norte do lago. A mil e quinhentos pés de altitude sobrevoou o local e descobriu uma vedação de correntes, verde, quase escondida nos arbustos e praticamente invisível do ar. Havia pequenos edifícios que pareciam ser alojamentos, um maior, talvez a administração, uma piscina, campos de ténis, um celeiro com cavalos a pastar ali perto. Andou às voltas o tempo suficiente para levar algumas pessoas do complexo a pararem o que estavam a fazer e para olharem para cima, fazendo pala sobre os olhos.

Encontrá-lo no solo era quase tão difícil como do ar, mas, no dia seguinte, ao meio-dia, Ray estacionava junto ao portão sem qualquer identificação, olhando para um guarda armado que o observava furioso.

Após algumas perguntas tensas, o guarda admitiu por fim que sim, que encontrara o local que procurava.

- Não permitimos visitantes - disse com ar peremptório.

Ray criou uma história de uma família em crise e sublinhou a urgência de encontrar o irmão. O procedimento, segundo informou o guarda num resmungo, era deixar o nome e número de telefone, havendo uma vaga hipótese de alguém lá de dentro o contactar. No dia seguinte estava a pescar trutas no rio Flathead quando o telemóvel soou. Uma voz hostil de uma tal Allison, do Morningstar, perguntou por Ray Atlee.

Quem esperaria que fosse?

Ele confirmou ser Ray Atlee e ela prosseguiu, perguntando o que desejava da sua instituição.

- Tenho aí um irmão - disse tão delicadamente quanto possível. - Chama-se Forrest Atlee e gostaria de vê-lo.

- O que o leva a crer que ele está aqui? - perguntou.

- Está aí. Sabe que ele está aí. Eu sei que ele está aí, por isso podemos acabar com estes jogos?

- Vou ver, mas não espere outra chamada.

Desligou, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. A desagradável voz seguinte pertencia a Darrel, administrador de qualquer coisa. Apareceu ao fim da tarde, enquanto Ray caminhava por um trilho em Swan Range, perto de Hungry Horse Reservoir. Darrel foi tão brusco como Allison.

- Apenas meia hora, trinta minutos - informou Ray. - Às 10 da manhã.

Uma prisão de alta segurança teria sido mais agradável. O mesmo guarda revistou-o ao portão e inspeccionou o carro.

- Siga-o - disse o guarda.

Outro guarda, num carrinho de golfe, esperava-o no estreito caminho, e Ray seguiu-o até a um pequeno parque de estacionamento, perto do edifício da frente. Quando saiu do carro, Allison esperava-o, desarmada. Era alta e bastante masculina, e Ray nunca se sentira fisicamente mais subjugado do que quando ela lhe deu o obrigatório aperto de mão. Acompanhou-o em passo de marcha até lá dentro, onde não havia qualquer preocupação em ocultar as câmaras de filmar. Levou-o até a uma sala sem janelas e passou-o a um rabugento funcionário de categoria desconhecida que, com o toque ágil de um manuseador de bagagens, escarafunchou e sondou todas as dobras e fendas, excepto na zona genital, onde, por um horrível momento, Ray pensou que pudesse também dar um golpe seco.

- Venho apenas ver o meu irmão - protestou por fim Ray, e, ao fazê-lo, esteve perto de levar uma bofetada com as costas da mão.

Depois de minuciosamente revistado e desinfectado, Allison veio ter novamente com ele e levou-o por um corredor curto até a uma sala lúgubre que parecia ter tido paredes almofadadas. A única janela estava na única porta, e, apontando-a, Allison disse em tom severo:

- Nós ficamos a ver.

- A ver o quê? - perguntou Ray.

Ela lançou-lhe uma expressão carregada e pareceu prestes a derrubá-lo.

Havia uma mesa quadrada no centro da sala, com duas cadeiras uma de cada lado.

- Sente-se aqui - ordenou, e Ray instalou-se no lugar designado. Durante dez minutos ficou a olhar para as paredes de costas para a porta.

Por fim, esta abriu-se, e Forrest entrou sozinho, solto, sem algemas, sem corpulentos guardas atrás. Sem uma palavra, sentou-se em frente de Ray e juntou as mãos em cima da mesa, como se fosse altura de meditar. O cabelo desaparecera. Um corte à escovinha tirara-lho todo, excepto uma camada que não tinha mais do que poucos milímetros, e por cima das orelhas a tosquia chegara ao couro cabeludo. Estava bem barbeado e parecia uns dez quilos mais magro. A camisa larga era cor-de-azeitona escuro, abotoada até abaixo, com um pequeno colarinho e dois grandes bolsos, quase de aspecto militar.

Coube a Ray dizer as primeiras palavras:

-Este local é um acampamento militar.

- Espera-se que seja - respondeu Forrest muito lenta e suavemente.

- Fazem-te lavagem ao cérebro?

- É exactamente isso que fazem.

- Ray estava ali por causa do dinheiro e decidiu abordar a questão de caras.

- Então, o que é que te dão por setecentos dólares por dia? - começou por perguntar.

- Uma vida nova.

Ray fez um sinal de aprovação à pergunta. Forrest olhava-o fixamente, sem pestanejar, sem expressão, olhando apenas fixamente quase com um ar perdido para o irmão, como se fosse um estranho.

- E estás aqui durante doze meses ?

- Pelo menos.

- Isso é um quarto de milhão.

Encolheu os ombros, como se o dinheiro não fosse problema, como Se pudesse ficar ali durante três ou cinco anos.

- Estás sedado? - perguntou Ray para provocá-lo.

- Não.                                                                  

- Comportas-te como se estivesses sedado.

- Não estou. Eles aqui não usam medicamentos. Não sei porquê, e tu? - A sua voz ganhou um pouco de vivacidade.

Ray estava preocupado com o tiquetaque do relógio. Allison iria voltar precisamente ao trigésimo minuto para pôr termo à coisa e acompanhar Ray até à saída do edifício e à saída do recinto, de uma vez para sempre. Precisava de muito mais tempo para abranger as questões entre eles, mas agora era precisa eficiência. «Vai direito ao assunto», disse para consigo. «Vê até que ponto ele vai confessar.»

- Peguei no testamento do velho - disse Ray. - E peguei na convocatória que mandou, aquela que nos chamava a casa a 7 de Maio e analisei a assinatura dele nas duas. Acho que são falsificações.

- Ainda bem para ti.

- Não sei quem fez a falsificação, mas suspeito que foste tu.

- Processa-me.

- Não negas?

- Que diferença faz ?

Ray repetiu aquelas palavras, a meia voz e com repugnância, como se só dizê-las o irritasse. Houve um longo silêncio, enquanto o relógio fazia tiquetaque.

- Eu recebi a minha convocatória na quarta-feira. Fora enviada na segunda-feira, de Clanton, no mesmo dia em que o levaste à Clínica Taft em Tupelo para ir buscar uma embalagem de morfina. Pergunta: como conseguiste dactilografar a convocatória na sua velha Underwood manual?

- Não tenho de responder às tuas perguntas.

- Claro que tens. Tu montaste esta fraude, Forrest. O mínimo que podes fazer é dizer-me como foi. Ganhaste. O velho está morto. A casa foi-se. Tu tens o dinheiro e eu vou-me embora, em breve. Diz-me o que aconteceu.

- Ele já tinha uma embalagem de morfina.

- Certo. E tu levaste-o para ir buscar outra ou um reforço ou o que quer que fosse. Não é essa a questão.

- Mas é importante.                  

- Porquê?

- Porque ele estava pedrado. - Houve uma pequena interrupção na encenação da lavagem ao cérebro quando ele tirou as mãos de cima da mesa e desviou o olhar.

- Então ele estava a sofrer-disse Ray, tentando provocar alguma emoção, nesse momento.

- Sim - respondeu Forrest sem sombra de emoção.

- E se mantivesses o controlo da morfina, ficavas com a casa?

- Mais ou menos isso.

- Quando voltaste lá pela primeira vez ?

- Não sou grande coisa para datas. Nunca fui.

- Não te faças parvo comigo, Forrest. Ele morreu no domingo.

- Eu fui lá no sábado.

- Então oito dias antes de ele morrer?

- Sim, acho que sim.

- E porque voltaste lá?

Ele cruzou os braços no peito, baixou o queixo, os olhos e a voz.

- Ele chamou-me - começou por dizer-e pediu-me que fosse visitá-lo. Fui lá no dia seguinte. Não conseguia acreditar a que ponto ele estava velho, doente e só. - Suspirou e levantou os olhos para o irmão. - A dor era terrível. Mesmo com os analgésicos, o seu estado era mau. Sentámo-nos no alpendre e falámos da guerra e de como as coisas teriam sido diferentes se Jackson não tivesse morrido em Chancellorsville, as mesmas batalhas que continuava eternamente a reviver. Mudava constantemente de posição para afastar a dor. Às vezes até lhe tirava o fôlego. Mas ele queria falar. Nunca enterrou o machado, nem tentou compor as coisas. Não sentia necessidade de fazê-lo. O facto de eu estar ali era quanto lhe bastava. Dormi no sofá do escritório, e durante a noite acordei ao ouvi-lo gritar. Estava no chão do quarto, com os joelhos encostados ao queixo, a tremer de dor. Voltei a metê-lo na cama, ajudei-o a tomar a morfina e, por fim, consegui que ficasse calmo. Eram cerca das 3 da manhã. Eu estava desvairado. Comecei a deambular pela casa.

A narrativa ia abrandando, mas o relógio não.

- E foi então que descobriste o dinheiro - disse Ray.

- Que dinheiro?

- O dinheiro que está a pagar os setecentos dólares diários, aqui.

- Oh, esse dinheiro.

- Esse dinheiro.

- Sim, foi quando o encontrei, no mesmo sítio que tu. Vinte e sete caixas. A primeira tinha cem mil dólares, por isso fiz alguns cálculos. Não tinha qualquer ideia sobre o que fazer. Fiquei ali sentado durante horas, a olhar para as caixas todas, inocentemente, enfiadas nos armários. Pensei que ele podia sair da cama, atravessar o vestíbulo e apanhar-me a olhar para todas aquelas caixinhas e tinha esperança de que isso acontecesse. Assim ele poderia explicar as coisas. - Voltou a pôr as mãos em cima da mesa e olhou fixamente para Ray outra vez. - Porém, ao nascer do Sol já tinha um plano. Decidi que ia deixar-te tratar do dinheiro. És o primogénito, o filho preferido, o irmão mais velho, o menino de ouro, o estudante brilhante, o professor de Direito, o executor testamentário, aquele em que ele mais confiava. Vou ficar a observar o Ray, disse para comigo, vou ver o que ele faz ao dinheiro, porque o que quer que ele faça deve ser a coisa certa. Por isso, fechei o armário, arrastei o sofá até lá e tentei agir como se nunca o tivesse encontrado. Estive quase a fazer a pergunta ao velho sobre ele, mas achei que, se ele quisesse que eu soubesse, ter-me-ia dito.

- E quando dactilografaste a minha convocatória?

- Nesse dia, mais tarde. Ele estava inconsciente, no quintal das traseiras, debaixo das nogueiras-de-pecan, na sua rede. Sentia-se bastante melhor, mas nessa altura já estava dependente da morfina. Não se lembrava bem da últiima semana.

- E na segunda-feira levaste-o a Tupelo?

- Sim. Ele tinha andado a conduzir, mas já que eu estava lá, pediu-me que o levasse.

- E tu escondeste-te no meio das árvores, perto da clínica, para que ninguém te visse.

- Essa é muito boa. Que mais sabes?

- Nada. Só tenho perguntas. Telefonaste-me na noite em que recebi a convocatória pelo correio, disseste que também tinhas recebido uma. Perguntaste-me se eu ia telefonar ao velho. Eu disse que não. O que teria acontecido, se eu lhe tivesse telefonado?

- Os telefones não funcionavam.

- Porquê?