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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A COSTA DOS MURMÚRIOS / Lidia Jorge
A COSTA DOS MURMÚRIOS / Lidia Jorge

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

O noivo aproximou-se-lhe da boca, a princípio encontrou os dentes, mas logo ela parou de rir e as línguas se tocaram diante do fotógrafo. Foi aí que o cortejo sofreu um estremecimento de gáudio e furor, como se qualquer desconfiança de que a Terra pudesse ter deixado de ser fecundada se desvanecesse. Já não estavam junto de nenhum altar, mas no terraço do Stella Maris cujas janelas abriam ao Índico. No terraço, obviamente, não havia janelas, apenas pilares sobre os quais se estendia uma cobertura suave mas suficientemente protectora para se poder receber um cortejo daquela importância e quantidade. O fotógrafo subiu a cadeiras e desceu até ao chão, de modo a ficar completamente estendido para apanhar o beijo em todas as posições. Por isso, o noivo continuava com os olhos fechados, e ela só de vez em quando abria os seus, e o cortejo aplaudia incessantemente como no final duma ária subtil que certamente não se ouvirá jamais. Pressuroso, o fotógrafo pediu que o noivo tomasse a noiva nos seus braços e a levantasse à altura do peito, junto da vedação que impedia que as pessoas, uma vez debruçadas, caíssem ao Índico.

 

 

 

 

Era majestoso. Ela obedeceu - encostou a cabeça ao ombro do noivo, e o noivo olhou ternamente para o rosto dela. Descidos e lânguidos, os olhos dele tinham alguma coisa líquida de peixe quando abriam e fechavam. Ainda aí o cortejo batia palmas, e havia quem transpirasse e tivesse as mãos enrubescidas de tanto aplaudir. Aquele era um momento cheio de encanto.

Então a noiva que tinha chegado apenas na noite anterior, mas a quem todos já chamavam simplesmente Evita, abriu os olhos, e mais do que a quantidade dos convidados, surpreendeu-se com o tamanho exemplar da mesa. As lagostas vermelhas e abertas ao meio estavam dispostas conforme um numeroso cardume. As papaias amarelas estavam cortadas em feitio de coroa de rei e coroavam a toalha inteira. Os ananases formavam uma pinha no centro, como se fosse o leque dum fantástico e emplumado peru. Ela aproximou-se desse peru, pondo o véu completamente para trás e rindo cada vez mais. Mas de facto, o local que Evita, docemente empurrada pelo noivo, deveria ocupar, não era ao centro - disse o fotógrafo com um gesto amplo - antes na cabeceira, onde havia um bolo de sete andares, com um ramo armado em forma de chuva. Um criado extraordinariamente negro, vestido de farda completamente branca, trouxe uma bandeja com uma espada. A espada era do noivo. Evita pegou na espada e fendeu o âmago do bolo até à tábua. Quando a espada bateu na tábua, acorreu de entre as mulheres uma delas de vestido sem costas com duas espátulas de cozinha. O Comandante da Região Aérea, que era marido da mulher das espátulas, avançou em primeiro lugar com o seu pratinho para receber uma trancha e aproveitou para estreitar a mão do noivo. O noivo era só alferes e o longo abraço que se seguiu ao aperto de mão, dado desse modo pelo Comandante da Região Aérea, perturbou-o a ponto de estremecer sob a pressão do punho do coronel, ali de passagem a caminho de Mueda. Nunca pela cabeça dum alferes miliciano tinha passado o sonho de que, no dia do seu casamento, houvesse um Comandante de Região que o viesse abraçar, e tudo isso foi captado pelo fotógrafo que tinha subido agora a uma mesa de apoio com toalha, junto da vedação. Daí até que chegasse a orquestra foi só um breve tilintar de copos. Um chupar de tâmaras. Os convidados de novo irromperam em aplausos.

E redobraram ainda as palmas quando a pequena orquestra de instrumentos quase todos de sopro começou a soar, tocados por quatro brancos e um negro. O negro ao tocar tinha as bochechas inchadas como se quisesse explodir. Toda a música era uma explosão que rebentava na tarde. O Comandante da Região Aérea, de passagem para Mueda, abandonou a mulher das espátulas e tomou a noiva, o noivo tomou a mulher das espátulas que havia acompanhado o marido só para conhecer Six-Miles e regressar logo no avião da manhã, e seguiram-se os pares que, dando à volta da mesa imensa.

Rodavam, rodavam os pares. Foi há vinte anos, e ainda não era hábito os pares dançarem desenlaçados uns diante dos outros como outrora os espadachins. Pelo contrário, enlaçados e rodando, todo o espaço que sobejava da longa mesa foi ocupado com a trajectória das ancas, embora sobejassem mulheres apoiadas na grade, porque não se estava em tempo de paz completa. Ainda era de tarde, ainda o Sol estava bem amarelo e suspenso por cima do Índico, e a cidade da Beira, prostrada pelo calor à borda dos cais, era tão amarela quanto o ananás e a papaia. A noiva suspirou não de cansaço ou de sono mas de deslumbramento, e depois desse suspiro, o Comandante da Região Aérea começou a falar bem alto, como se esperava que falasse.

«África é amarela, minha senhora» - disse o Comandante, apertando pelo carpo a mão de Evita. «As pessoas têm de África ideias loucas. As pessoas pensam, minha senhora, que África é uma floresta virgem, impenetrável, onde um leão come um preto, um preto come um rato assado, o rato come as colheitas verdes, e tudo é verde e preto. Mas é falso, minha senhora, África, como terá oportunidade de ver, é amarela. Amarela-clara, da cor do whisky!»

Rodavam, rodavam sempre, ela de braços muito abertos, estendidos, levantados, para alcançar o alto da farda onde deveria poisar de leve os dedos da mão, em forma de vespa. Aliás, a noiva, sempre de braços abertos como antigamente, quando se fazia adeus a um transatlântico, dançou com um outro coronel, depois com dois majores, e em seguida com três capitães, rindo imenso. Quando teve pausa, nem se lembrava qual deles lhe tinha dito:

«Ainda é cedo para ter verificado, mas verá que esta é uma das poucas regiões ideais do Globo! Admire a paisagem, e verá que para ser perfeita, só faltam uns quantos arranha-céus junto à costa. Temos tudo do século dezoito menos o hediondo fisiocratismo, tudo do século dezanove à excepção da libertação dos escravos, e tudo do século vinte à excepção do televisor, esse veneno em forma de écran. Com uns vinte arranha-céus, a costa seria perfeita!»

Evita quereria lembrar-se de qual dos oficiais tinha feito a síntese, mas as fardas, para além das riscas que envolviam as mangas, eram extremamente parecidas. As vozes, sendo diferentes, igualavam-se no mesmo modo de intensificar as últimas sílabas como se falassem para serem ouvidos à distância, na amplidão aberta da parada. Quando sussurravam, era com os gestos que sussurravam, e daí que não se lembrasse mais qual deles havia feito aquela admirável síntese. Quem teria sido? Evita não pôde perguntar-se mais do que durante um breve instante. Aproximava-se um par singular quando a mesa já começava a perder a frescura inicial por algumas cascas e muitos pratos retirados dos seus lugares simétricos. Evita tinha os olhos presos do par.

À primeira vista, a singularidade do par provinha sobretudo dela, pois ele apenas parecia transportar mais condecorações do que seria de admitir num homem da sua idade. Grandalhão. Ela, porém, destacava-se de tudo e de todos - dos objectos, da mesa, da fruta, da pinha dos ananases, de todas as coisas cortadas e perfeitas que ainda ali se encontravam. Destacava-se por ela mesma e pela cabeleira que era constituída por uma espécie de molho audaz de caracóis flutuantes que lhe caíam de todos os lados, como uma cascata cor de cenoura, enquanto os cabelos das outras mulheres, por contraste, eram dum castanho-escuro, sarraceno, ora passado a ferro pelas costas abaixo, ora em balão tufado do feitio duma moita, como então se usava. Evita conseguiu perceber também que entre a cor das unhas e a cor do cabelo, apenas havia um tom intermédio. Isso quando ela estendeu a mão. Na mão havia um anel que brilhava intensamente. A singularidade dela não se comparava com a dele.

«Apresento-te um herói» - disse o noivo, como se finalmente tivesse chegado alguém por quem estava definitivamente à espera.

«Que é isso? Gostei mas foi da forma como vocês se beijaram ali, boca na boca. Quem beija assim não é gago»

- disse o capitão.

Mas o capitão não continuou porque se ouvia o Comandante da Região Aérea, sobraçando uma garrafa, dizer para algumas mulheres de vestidos sem costas que o tomavam - «Oh! Oh! A guerra! Se não fosse a guerra, mesdames, até a calmaria criaria pedra!» E como o comandante avançasse dizendo isso, o noivo e o capitão não puderam trocar outra palavra.

Pena! Ainda era muito cedo para se fechar a tarde, ainda era muito cedo para se falar de guerra, que aliás não era guerra, mas apenas uma rebelião de selvagens. Ainda era muito cedo para se falar de selvagens - eles não tinham inventado a roda, nem a escrita, nem o cálculo, nem a narrativa histórica, e agora tinham-lhes dado umas armas para fazerem uma rebelião... Era muito cedo para se falar do Império, e a orquestra começou a tocar de novo, embora suave, e a voz grave dum branco sem instrumento de sopro cantou, imitando a voz dum negro - Please, please, please, get out from here tonight... O frequente contacto entre os oficiais portugueses e os da África do Sul permitia a todos manejar correctamente o inglês, não só em termos de guerra. O próprio Comandante da Região Aérea, que sabia distinguir os momentos de serviço dos momentos de cognac, disse em voz muito alta, abafando toda a música - Please, get out from here tonight, na direcção indiscutível dos recém-casados. O fotógrafo aproveitou o riso cúmplice dos noivos. Era um homem sensível, o fotógrafo, e por isso agora já não queria apanhar a mesa nem o bolo. Se apanhasse, o bolo apareceria na fotografia com o aspecto crenado dum coliseu romano em ruína. Os noivos, conduzidos pelo fotógrafo, só agora reparavam que havia ao lado dos ananases uma salva com um envelope, e para cima desse envelope, o capitão atirou de longe um molho de chaves. Devia ser perfeito em basquete porque as chaves atingiram o meio do envelope.

O cortejo percebeu que era o empréstimo do descapotável branco que ia naquele molho de chaves e aplaudiu de novo, dizendo coisas picaras de orelha a orelha. O noivo compreendeu completamente a orquestrazinha, o sussurro dos imensos convidados e a pressa do fotógrafo, querendo todos expulsá-los dali, muito antes de chegar a noite. Entornava-se de facto uma atmosfera amarela-clara da cor do whisky, quando foram postos na extremidade do terraço, por entre gargalhadas.

«Achas que os enganámos?» - perguntou Evita no elevador que descia como uma flecha.

«Perfeitamente» - disse o noivo, já no descapotável. «Ficaram a pensar que nos vamos deitar um com o outro pela primeira vez. Grandes pensadores!» - O descapotável partiu com um ronco. Era admirável tudo o que tinha acontecido naquele terraço, mas nada terminava ali. Tudo estava por começar como no momento em que a tempestade inicia o primeiro sopro.

E assim a noiva deitou a cabeça na cintura do noivo. Agora, sem malas nem roupas compridas - tinham-nas deixado no pequeno quarto do Stella - sentiam-se libertos pelas estradas da cidade da Beira que eram planas, como se traçadas sobre a recta duma superfície palustre. Os mangais pareciam vermelhos e cobriam todas as línguas de areia completamente por arrotear. O noivo estava ansioso de planura e quis sentar-se num bar de pau e caniço que sobraçava o mangal. Quando apareceu um bando de aves voando rente ao lodo do mangal - e foi assim que se sentaram - o noivo quis que ela ficasse quieta, mas ele descalçou-se e entrou pelo bando de aves que eram cor de fogo, pernaltas, e pareciam deslocar-se ainda sob o instinto formidável do Génesis. Evita ficou a ver como de facto tudo era laranja e amarelo, mesmo o noivo. À aproximação do noivo, nem todos os pássaros levantaram voo. Com as patas imóveis, erectas, muitos ficaram com os pescoços compridos como alças, dobrando-os e desdobrando-os por cima dos papos. Tinham os olhos postos nos pedaços de peixe do lodo, e não se importavam com o noivo que lhes acenava com os sapatos, gritando imenso. Alguns pareciam haver perdido a arguta visão de pássaro, e só se afastavam quando o noivo lhes queria tocar. Quando saiu do lodo, o noivo trazia as pernas sujas até acima dos joelhos e havia sido tomado por uma energia irrazoável. Ele saltava entre o mar e a areia, com as calças na mão, e a areia e o mangal, tanto quanto o mar, eram cor de scotch e cor de pruma.

«Eh! Black!» - gritou imenso na direcção do bar.

Como se estivesse à espera, um rapaz apareceu munido dum pano, rindo com formidáveis dentes. Aproximou-se, curvou-se e começou a limpar as pernas do noivo cheias de areia e lodo. Esfregava, esfregava, mas as manchas resistiam e o noivo ria e então, voluntariamente, o black foi buscar um recipiente de água e acabou por lhe limpar os pés com um outro pano. O black ajoelhou-se no estrado de pau para limpar um a um os dedos do noivo, e quando terminou, retirou-se de recuo, com o recipiente na mão, rindo intensamente e entornando a água. Tremendo e rindo, desapareceu na porta, fechou a porta. Os noivos olhavam-se cheios de ternura. Para além deles não estava ninguém no pequeno bar de caniço, e como o fim do dia era de mais, podiam beijar-se só para eles mesmos, pela boca e pelas orelhas, impelidos sem dúvida pelo instinto de nidificação que suspirava do mundo.

«Voltamos?» - disse ele à beira de desmaiar.

«Claro» - disse ela. Começava a fazer escuro total, à excepção duma barra vermelha. Nessa altura, já perto do Stella Maris, haviam começado grandes correrias de negros, e o barulho dos pés contra a terra atingia o terraço. As luzes intensas do hotel, naquela noite, não se espelhavam no Índico só porque a maré estava vazando e a areia secava enquanto uma onda ia e vinha, e o cortejo estava ainda todo dançando e comendo e bebendo, quando se começaram a ouvir correrias pela avenida e gritos do lado do Chiveve, o braço de mar. Mas por isso não valia a pena suspender absolutamente nada do que se estava a fazer e que era dançar e rir intensamente.

«O que é?» - perguntou um convidado, olhando o escuro.

«Possivelmente é já o grito da noiva» - respondeu um major, rindo imenso com imensos dentes amarelos, um deles sustido por uma anilha de oiro. E continuou a dançar com o par. Mas Evita e o noivo encontravam-se na zona oposta da costa e regressavam pelas ruas de trás ao pequeno quarto onde a música do terraço chegava perfeitamente. Enovelaram-se um no outro. O noivo disse «Chiu! Separa-nos do outro quarto de dormir apenas um tabique». Foram então para o quarto de banho que era enorme. Atapetaram o chão da amplíssima casa de banho com toalhas retiradas do toalheiro.

«É duro, o chão?» - perguntou o alferes.

«Não, que ideia, apenas liso mas como a superfície dum lago!»

«Que subitamente tem uma onda».

«Várias ondas...»

De repente ouviu-se outro grito, embora fosse o primeiro que os noivos ouviam. «Não tenhas medo» - disse o noivo, saindo de dentro da noiva e espreitando pela abertura da janela. «É apenas o rate dum carro». Continuaram estendidos na superfície atoalhada da casa de banho enorme, o noivo como se fosse de plástico, aderente, moldado à noiva. Eles não podiam saber, nem lhes convinha saber, o que entretanto era conhecido no terraço. Aí, a atenção centrava-se naquelas correrias que ora recrudesciam ora ficavam engolidas pelo barulho persistente do mar.

«Deixá-los correr» - disse um tenente que já se tinha desfardado e estava agora em camisa com o peito descoberto. «São os senas e os changanes esfaqueando-se. Que se esfaqueiem. São menos uns quantos que não vão ter a tentação de fazer aqui o que os macondes estão a fazer em Mueda. Felizmente que se odeiam mais uns aos outros do que a nós mesmos. Ah! Ah!...» O tenente ainda era um jovem e ria imenso, pensando nos changanes e nos senas às catanadas, os pretos uns contra os outros. O preto do quinteto não tinha problema porque não era nem changane nem sena. Era um mineiro que tinha sido encontrado a vaguear pelo Cabo, e por isso mesmo não sabia uma palavra de português, nem de changane, nem de sena. Estava inocente, e só dizia bem, secundando o branco - Please, get out from here tonight. Todos dançavam e riam descontraidamente no alto do terraço. Agora já tinham descoberto o descapotável parqueado em baixo e imaginavam os noivos estendidos no pequeno quarto, ali tão perto. Mas imaginavam mal. Ninguém podia suspeitar que para fugirem da proximidade do tabique, se tivessem refugiado nos frescos mosaicos onde ela, Evita, via e sentia um lago agitado por vagas. Evita julgou que caía uma tempestade e que o soalho que representava o lago, em princípio liso e frio como um mosaico, sofria a ondulação dum mar. Era um sono leve, era um sono transpirado que sem saberem como, acontecia quando a orquestra, esgotada havia muito, tinha deixado de fazer estremecer a messe e a manhã ameaçava romper a oriente.

«Búfalos?» - perguntou Evita erguendo-se dos turcos, tomada pela sensação absoluta de que estava em África.

«Não, meu amor, crianças» - disse o noivo espreitando pela porta. De facto, pelo corredor, várias crianças passavam correndo em camisa de dormir. Atrás, duas mulheres em robes brancos e descalças a caminho do elevador que conduzia ao terraço. As mulheres corriam com os chinelos de quarto nas mãos. Os chinelos eram enfeitados com penugem de ganso.

«Está toda a gente no terraço!» - disse uma das mulheres em robe, virando o rosto esfuziado. Apesar da luz frouxa do corredor, reconheciam-se nos rostos duas das pessoas do cortejo, e nos chinelos que agitavam, a penugem de ganso. Era impossível não ser envolvido. Os noivos também vestiram robes leves, e muito enlaçados, subiram ao terraço. A noiva ia pensando, enquanto o elevador rapidamente partia, como seria bom se houvesse um dirigível cortando o céu. O noivo tapou-lhe a boca com os dedos

- sonhar sim, mas não tanto. O elevador abriu. A meio do terraço ainda estava a mesa a que tinha sido retirado o banquete e a toalha, mas permanecia o resguardo, e além da mesa, encostado ao gradeamento, existia o cortejo, à excepção do Comandante da Região Aérea e da mulher com espátulas. Estavam todos em trajes menores, assemelhando-se nisso extremamente à mesa.

«O que será?» - perguntou o noivo.

«Seja o que for, esta é uma noite secreta e memorável».

Aproximaram-se do cortejo. Já tinha evaporado a incerta luz da madrugada, já era manhã, o cortejo olhava para a barra e havia alguns pares de binóculos que passavam de mão em mão. Mas não era para a barra que estavam a olhar e sim para o Chiveve, o braço de mar que ali defronte fazia uma profunda poça, para onde, durante a noite, a água tinha arrastado corpos de gente afogada. Imensos, incontáveis afogados. Mas de que barco? Não se sabia, nem se dava conta de ter havido tempestade que justificasse essa calamidade. Eram inúmeros os afogados. Dois grandes dumpers de lixo tinham vindo, antes de o Sol nascer, varrer a tragédia da vista da cidade, e várias carroçarias abertas não tinham sido suficientes para carregar tanto afogado. Nenhum dos presentes - e eram quase tantos quantos no cortejo da tarde anterior - havia presenciado o movimento, mas evocava-se a cor branca das plantas dos pés dos negros, sobressaindo dos dumpers que os levavam. Sabia-se também que muitos eram estivadores, homens de potentes músculos, bons nadadores, que facilmente teriam enfrentado as ondas alterosas no caso de as ter havido, e como o mar não estava raso mas apenas se movia com mediana vaga, a situação parecia absurda. Fosse como fosse, o porto corria o risco de ficar parado. «Por mim, mataram-se à catanada e foram-se atirando ao mar. Só quem desconhece as matanças sazonais, não aventa essa hipótese como a mais provável» - disse o major.

«Pode ser».

Assim, pelo menos, tudo ficaria explicado. O leito do que parecia ser um rio sem o ser - porque o fluxo da água girava ao contrário dum rio - estava cinzento e baço como costuma ficar a água do mar quando pára, mas a mulher dum capitão piloto-aviador dizia distinguir dali uma nítida coloração escarlate. Ela passava os binóculos e pedia que olhassem na direcção duns barracões enegrecidos que se desmantelavam na margem. Outras, pelo contrário, estavam a ver um lastro enorme, não propriamente vermelho, mas cor de ferrugem, a cor que o sangue toma diluído na água do sabão.

«Parece que além, às portas do cabaré, ainda estão pilhas deles. Ora enxerguem...» - disse um oficial em robe de seda, fumando cachimbo. Ele indicou a direcção apontando a bola do fornilho e todos viram. Não era preciso utilizar binóculos para se enxergar o Moulin Rouge alvejando as pás, lançadas na claridade da manhã. Contudo, nada mais se distinguia entre os telhados e as varandas. De facto, entre um pouco de ramaria e as casas, parecia distinguir-se um amontoado de gente tombada. As cinco velas do moinhozinho eram cinco dedos espetados.

«Numa noite destas devíamos ter ficado acordados. Nunca mais vamos experimentar a emoção que poderíamos ter tido!» - A mulher do capitão piloto-aviador tinha os binóculos do marido colados aos olhos e mexia continuamente no regulador. Ela estava ansiosa por que as horas passassem para ver se o mainato que a servia não seria uma das vítimas levadas pelos dumpers. Aliás, todos aguardavam essa hora, cada qual pelo seu mainato que já imaginavam de pés hirtos, olhos fechados para sempre, dentro dum terrível carro de transportar lixo. Mas ainda só se trabalhava com suposições, porque a razão verdadeira, essa ainda ninguém sabia.

«Por mim, não tenho dúvidas!»

O major de dentes amarelos, também num belo robe de seda, mas com um dragão pintado nas costas, não tinha dúvidas, e lembrava que os povos vencidos por vezes se suicidam colectivamente. E referiu o que tinha acontecido ao Império Inça, nos Andes, depois da morte de Atahualpa Yupanki. Ora no fundo, toda a gente sabia que se estava a convergir para Mueda e qual o significado disso. Porque não admitir que os povos autóctones daquela terra não se quisessem suicidar? E não seria um gesto nobre? Suicidarem-se colectivamente como as baleias, ao saberem que nunca seriam autónomos e independentes? Nunca, nunca, até ao fim da Terra e da bomba nuclear? O major abriu os braços e o dragão desenrugou a potência da sua língua vermelha, pintada.

«Olhem além, como recolhem um deles, estendido!» gritou dramaticamente junto ao gradeamento, quase caindo sobre a praia do Índico, uma mulher de alferes em liseuse. Todos olhavam à vista desarmada para a correria dum dumper que evoluía na margem. Afinal, durante a noite, haviam pressentido algo de deslumbrante, mas exaustos do cortejo, tinham mergulhado num sono estúpido sem darem importância às corridas que passavam sob as janelas do hotel Stella Maris. Tinha sido pena! Aliás, por que razão haviam sido tão céleres em recolher os corpos? Essa era uma pergunta colectiva mas que só alguns formulavam.

«Deviam tê-los deixado expostos e apodrecidos à luz do dia, para que se pudesse compreender a nossa causa, a nossa presença, a nossa determinação» - disse um páraquedista em pijama de risca que na altura coxeava bastante.

«Sim, se ninguém fotografou nem escreveu, o que aconteceu durante a noite acabou com a madrugada - não chegou a existir. A rádio provincial nem um som sobre o assunto» - disse outro pára-quedista, esse já completamente fardado de número dois. Dava pequenas palmadas no receptor, ainda na esperança de que fosse a máquina que estivesse a funcionar mal. Vários dos circunstantes tinham-se virado para o rouco som da rádio.

«Devíamos comprar o jornal» - disse o que coxeava.

«O jornal? O Hinterland!» - Uma mulher de alferes não conseguia deixar de ser cínica, ainda que não tencionasse ser, rindo para cima da mesa quase desnuda do banquete. «Oh, esse jornal, esquece, esquece! É quase uma crueldade falar nesse jornal!»

E nisto um dos dumpers desapareceu ao longe. As raparigas em chinelo, com penugem de ganso em forma de pompom, estavam prestes a tombar à praia de tanto procurarem seguir um dos carros que viam e entreviam correndo entre os cruzamentos das ruas. O major dos dentes amarelos e anilha doirada segurou em ambas com toda a ternura de que os seus braços eram capazes. Como se depreende, a ternura e o entendimento eram o contraponto daquele arrebatador espectáculo, cujo auge, acontecido durante a noite, era preciso imaginar. A imaginação despertava a ternura.

Ternura? Sim, e amor, e excitação. Os noivos, por exemplo, sentiram que não estavam ali a fazer nada em comparação com o que poderiam fazer se recolhessem ao pequeno quarto. Afinal, o noivo era um dos que dentro de escassos dias sairia para Mueda. O prenúncio de vitória que chegava daquela forma tão evidente na noite do seu próprio casamento, impelia-o para o amor como as sementes para a terra. O noivo receou que o seu robe se abrisse e se descompusesse. A sua espingarda de carne irrompesse no terraço como um ramo que se solta. Comprimia-a, mas enquanto os outros enxergavam com binóculo, ele pressentia as coisas sem as olhar e metia as mãos como duas centopeias pelo decote da noiva até se apoderar dos dois montículos de Evita. Aliás, ali mesmo, no terraço, podiam ambos soltar pequenos gemidos sem que ninguém desse por isso, uma vez que todos soltavam os seus, ainda que aparentemente por outros motivos. Quando o major dos dentes amarelos se voltou, segurando as duas raparigas de alferes que evitava que caíssem à praia, viu os noivos colados contra a mesa. Aí a noiva achou de mais.

«Vamos?» - disse Evita.

«O. K.» - disse o noivo com imensa dificuldade em pronunciar palavras completas. Deviam voltar ao local donde todos aqueles ruídos os haviam arrancado. Voltaram, e mal transpuseram a porta, tiveram o cuidado de descer as janelas para simularem, pelo dia fora, a continuação implacável da noite.

Porque de facto, no exterior, de repente a luz do dia inundava tudo com uma claridade cruel, e um dumper continuava a correr de cá para lá, não sendo portanto o afogamento apenas um fenómeno nocturno. Era o momento mais emocionante porque tinha chegado o instante de se descer ao hall para esperar os mainatos. Alguns comensais passavam rapidamente pelos quartos, e vestiam-se adequadamente até com sapatos e cinto, mas a maior parte desceu como estava, em leves trajes de noite, e foi assim, no hall do Stella Maris, repleto de luz e convulsionado, que os mainatos foram contados e faltavam quatro. Não compareciam quatro! Onde estariam esses quatro? Teriam ido de olhos fechados uns sobre os outros a caminho da vala comum? - «Mas porquê, porquê?»

A resposta foi dada por um homem que vinha a chegar de táxi por haver emprestado o descapotável aos noivos. Ele sabia porquê. Quando bateu a porta do táxi e pôs o pé no primeiro degrau da portaria, soube-se que ele saberia explicar o caso. Como não haveria de saber? Tinha a camisa de algodão aberta, já transpirado àquele hora, e via-se-lhe sob a camisa uma profunda cicatriz que se lhe abria no peito à altura da quinta costela, envolvia todo o flanco e desaparecia no meio das costas com um remate de carne do feitio dum punho espalmado. Era o capitão das imensas condecorações, o que possuía a tal mulher de cabelo ruivo em cachão.

«Não temos nada a ver com esta cegada» - disse ele. «E para já tudo o que devemos fazer é manter-nos à distância».

«Mas porquê?»

«Porque aí esses gajos, os blacks, descobriram no porto um carregamento de vinte bidons de álcool metílico que iam a caminho duma tinturaria, e pensaram que era vinho branco, e descarregaram-nos ontem de tarde, e abriram os bidons, e beberam todos, e distribuíram pelos bairros de caniço, e agora uns estão lerpando e outros vão cegar. Os que a maré trouxe foram só os que o mar encontrou, recolheu à beira e deitou. As praias vão mas é ficar coalhadas deles quando chegar a noite. Vocês vão ver. Os blacks! Vê-se mesmo que são ideias de blacks!»

«Verdade?»

A explicação do capitão Jaime Forza Leal, com a camisa aberta sobre a nesga da cicatriz, era inesperada, mas ao mesmo tempo tão reveladora que várias pessoas do cortejo se sentiram a princípio chocadas pela estupidez, depois sentiram ódio pela estupidez e a seguir indiferença pela estupidez. Não se conseguia ter solidariedade com quem morria por estupidez como aqueles blacks. Entreolharam-se estupefactos. Já não importava quantos mainatos não tinham regressado ao seu subtil emprego. Já não importava - e mulher de oficial que vertesse uma lágrima, furtiva que fosse, por qualquer mainato desaparecido durante aquela noite, deveria ser considerada estúpida. De repente, as roupas de dormir em que a maioria se encontrava no hall roçagaram duma outra maneira. Tudo pareceu distinto do que tinha sido imaginado, ficando de súbito aquela madrugada sem piedade e sem beleza, já que havia um caso de estupidez atrás. Esse molho acre, e sudoroso, a estupidez. Como era possível?

Sim, muito possível. Era uma colónia de cafres aquela que estavam a defender de si mesma. O major dos dentes amarelos não tinha dúvida e arrependia-se de ter deixado que pela cabeça lhe tivesse passado a ideia dum acto heróico análogo ao do povo de Atahualpa Yupanki, em semelhante colónia. Mas deveriam abandoná-la? Ele deu uma passada na direcção do busto de Jaime Forza Leal onde resplandecia a cicatriz de guerra. Era pena que o Comandante da Região Aérea andasse a mostrar Six-Miles à mulher, pois de outra forma aproveitariam para o encostar à parede e fazê-lo dizer, ali mesmo no hall, o que pensava. O capitão Forza Leal sorria. Aliás, aquilo era domingo, o tempo era amplo como sempre compete ao domingo, poderiam regressar todos ao terraço, pedir ao Gerente que mandasse servir lá em cima o almoço, e se possível o jantar, para não perderem a cena de barbárie que estava afinal ocorrendo entre o Chiveve e o mar.

Subiram então de novo até ao último piso, agora em roupas normais para aquele excessivo Verão, a fim de poderem observar a estupidez sob a forma de mortos cor de azeite. Como o conhecimento tinha dado origem à frieza e ao distanciamento, aquela parecia-lhes ser uma cena de caça. Ora muito bem - mas como resolver a situação da colónia? Daquela colónia dramática do feitio dum coração alongado? O major dos dentes amarelos suspirou, já sem robe. «Oh, isso agora é para quem tiver esperteza!» E quem tinha? Tinha-a felizmente o General. O major havia colocado o seu binóculo sobre a mesa, emborcado como um funil precioso que acariciava rindo, mostrando aquele arozinho doirado. O General? Mas era conhecida a opinião do General sobre a travagem demográfica que deveria ser planificada contra a explosão dos cafres. Nisso os bóeres estavam a ser uns cretinos de sussurro bíblico e biblicamente haveriam de se arrepender. Como é que os bóeres não aplicavam métodos de contensão demográfica contra os cafres? A cafraria estava a avançar sobre os bóeres como a sombra duma pesada nuvem. E no entanto conheciam os métodos.

«Mas que métodos?» - perguntou uma mulher de tenente de longo cabelo passado a ferro.

«Por favor, minha senhora! Nunca ouviu falar de esterilização compulsiva? E de esterilização persuasiva? Nunca ouviu falar da oferta dum rádio, dum simples rádio a troco da castração voluntária? Nunca ouviu? Por mim, minha senhora, estou com o nosso General - bastaria apenas anular os serviços de assepsia, para a natalidade inflectir como uma linha que se some!»

O capitão piloto-aviador ria. Havia descrença no seu lábio de piloto rindo.

«O black não vai nisso! Nem pense, meu major. O black adora propalar a espécie porque sabe que é preciso fazer muitos e rápidos para ficar com uns quantos! O black pensa assim. O black pensaria que se passasse lá na floresta com um rádio dando música americana, a troco da castração, até os animais saberiam que ali estava um black que não colaboraria mais com a propalação da espécie. O black teria vergonha de passar diante dos pombos e das galinhas do mato com todos aqueles ovos. Ele não distingue objecto de sujeito e julgaria que os pombos arrulhavam daí em diante contra a sua coisa inerte...» - falava o capitão piloto-aviador, que sobrevoava tudo e tinha astuta vista de pássaro sobre os efeitos. A um piloto não se podem dizer certas fantasias porque ele conhece a Terra. E agora já estavam a tomar o digestivo do almoço, o próprio Forza Leal tinha ido a casa buscar a mulher, e comiam todos olhando de vez em quando para aquela barra e aquele mar donde partiam dumpers com gente. A claridade do dia era coisa preciosa. Com a ajuda dos binóculos, até se distinguiam os pedais do dumper.

«E os noivos?» - perguntou alguém que se tinha debruçado sobre o gradeamento e havia visto o descapotável ainda no mesmo local, arrumado entre os outros carros.

«Ora ora, os noivos - deixá-los dormir e sonhar!»

De facto, enquanto tudo isso se passava, os noivos, deitados sobre os turcos depostos, acordavam e dormiam, acordavam e dormiam. O sono e a rebentação iam e vinham como as vagas. Estavam estendidos no chão largo que separava a banheira da sanita e a sanita do bidé, e como já se disse, dormiam e acordavam abraçados, e para que a ilusão de líquido fosse perfeita, as toalhas onde se estendiam eram cinzentas da cor das vagas. O noivo fechou completamente os olhos.

«Este é o dia de mais elevado produto da minha vida»

- disse ele.

Evita não se mexeu, surpreendida. «Produto? Mas tu disseste produto? Ah, meu amor, que bom, vê-se bem que ainda és um estudante de Matemática!» - Ela abraçou-o efusivamente. Ele prendeu-lhe o pulso.

«Eu, um estudante de Matemática? Nunca mais!» Para que Evita não falasse, ele tapou-lhe a boca com a boca quando ela ia pronunciar de novo o M de Matemática. E assim estiveram, até que se fez tarde e os noivos decidiram voltar ao terraço, gozar agora um pouco do cair do dia, reparar na barra e nos guindastes, pois por certo já não havia mais mortos pelas praias - pensaram ingenuamente os noivos. Os noivos subiram para a tarde, emagrecidos, e só havia passado um dia. «Já um dia?»

- disse ele.

De facto, o Sol tinha feito o seu giro e estava na posição em que de véspera o tinham encontrado, quando haviam subido ao terraço seguidos pelo cortejo. A mesa do banquete, que havia sido feita pela junção das várias que salpicavam agora o recinto inteiro, era só uma lembrança, mas Evita disse ao noivo que a memória não tinha fim, e que enquanto fosse viva haveria de ver a mesa intacta ocupando o terraço - era apenas uma questão de se considerar a realidade subjectiva como a mais concreta. Não tinha pena nenhuma. Aliás, pelas parcelas da mesa as pessoas estavam sentadas, conversando e olhando para o fluido do céu e do mar como se estivessem na esplanada dum aeroporto marítimo, e pelos tampos ainda havia comida sobejada do dia anterior. Pedaços do enorme bolo enfeitado em forma de chuva andavam agora espremidos nas mãos das crianças. Esfarelados pelo chão onde as crianças faziam patim. Triste? Não! «Tudo está em tudo»

- disse a noiva. Por exemplo - não havia música mas era como se houvesse. Infelizmente as mesas, dispostas pelo terraço em esquadria quase perfeita, proibiam que se voltasse a dançar. Proibiriam mesmo? Não se poderia girar entre os intervalos delas desde que os pares se enlaçassem, parecendo apenas uma figura como nas sombras? Ou era a ausência de música real que impedia?

«Nada nos impede» - disse Evita.

O noivo não precisou ouvir mais nada e logo captou o corpo da noiva para o interior dos seus braços, e ela mergulhou o nariz no seu peito pouco peludo, aninhada, de olhos fechados como se ainda estivesse nos turcos, e se sentisse ser levada e caída. O noivo vigiava-lhe a nuca com os olhos semicerrados como janelas descidas sobre toda a paisagem que não fosse a nuca, e ambos irromperam, sem outra música aparente que não fosse o tantam da água e o marulhar das vozes, pelo terraço fora. Não era preciso mais. O exemplo dos noivos rapidamente contagiou o tenente da camisa aberta, o major dos dentes amarelos, o piloto realista e muitos mais, todos vestidos à paisana, antes de saberem o momento exacto de uns partirem para Mueda e outros para o Chai. Pegavam nas mulheres, e desviando-se habilmente das mesas em quadrícula, tal como os noivos, rodopiavam impelidos pela lembrança do dia anterior. Tornando-se aquele dia muito mais vivo e brilhante do que o dia anterior, pois agora havia tempo para esmiuçar outro instante além do presente. O irrequieto e voraz presente. E foi assim - mesmo o capitão Forza Leal, tão austero com a sua mulher ruiva, rodopiou com ela e chegou ao ponto de lhe colocar a mão no meio das nádegas que ela tinha bem feitas como duas metades de ameixa, embora as usasse cingidas, e quase não as movimentasse acima das pernas nuas. O cabelo mais comprido da mulher do capitão, esticado pelos possantes dedos dele, deveria chegar ao sítio onde se separavam as duas metades da drupa. A tarde desaparecia quente e clara como um bafo só imaginado.

O Sol no trópico de Capricórnio girava na calote contrária do céu. «Onde estamos, meu Deus?» - perguntou Evita.

«A caminho do último cálculo» - disse o noivo.

«Depois diz que não, que nunca mais queres voltar à Mat...» - A felicidade dela era tanta que humedecia a camisa dele sem o desejar. A felicidade dos outros, dançando, também era idêntica.

«Ainda haverá mortos, pela praia?» - perguntou Evita que não queria levantar a cabeça da camisa.

«Amainou» - disse o noivo sem se desembaraçar da noiva, mas levando os binóculos aos olhos. O capitão fazia o mesmo gesto em simultâneo. Quem sabe se a mulher dele não teria colocado uma pergunta idêntica? Também a ruiva do cabelo cheio de laçadas parecia ter adormecido nos braços de Forza Leal. Mas nem todos tinham saúde ou idade para aguentarem a força da imaginação exigida pela alma, para se atingir a volúpia da dança slow slow sem nenhuma orquestra real. O pára-quedista lesionado, por exemplo, não podia manter-se em pé por mais tempo, tendo de segurar a mulher e a muleta em simultâneo. Começou a falar. Aliás, não incomodava nada ouvir falar, era até uma espécie de fundo que desdramatizava a intensidade da música interna.

«África Austral? Que África Austral? Moçambique está para a África Austral como a Península Ibérica está para a Europa - estão ambas como a bainha está para as calças».

«E a culpa? E a culpa?» - perguntou o major também já sentado, mostrando aqueles risonhos dentes sobre a mesa.

«Deles, da qualidade dos blacks que nos calharam em sorte!» - disse o pára-quedista lesionado. «Se tivéssemos tido uns blacks fortes, tesos, aguerridos, nós, os colonizadores, teríamos saído da nossa fraqueza. Eles é que são os culpados, e se lhes parecemos fortes é porque eles mesmos são extremamente fracos. Só temos de os recriminar...»

Um par encalhou numa mesa, mas nada escorregou nem partiu, apenas estremeceu.

«Tenha cuidado com o que diz» - disse o major dos dentes amarelos. «Olhe que se deve ter sempre cuidado com o que se diz». E a tarde punha-se tão bem, os dumpers de novo se enchiam de gente mas tão cadenciados como se carregassem terra. Ao fundo, visto dali quando acaso se abriam os olhos, tudo estava tão descido, tão suave e tão essencial como a síntese do álcool, a reprodução da amiba. Uma imagem de cinema obtida há muito só com uma palmeira. Apetecia não ter ser. A mulher mais linda do terraço concitava a vista dos homens sem mulher, que também os havia, e até de alguns com a mulher ali, diante da testa, porque há desejos irreprimíveis, inveja de coisas próximas inalcançáveis, mesmo quando se tem o cônjuge presente, bebendo diante de nós. Ora não admirava, porque a mulher do capitão Jaime Forza Leal atraía a vista e o suor como um farol atrai, quando visto o facho a partir do mar. Como se chamava ela? E precisaria ter nome? O alferes Luís Alex explicou à noiva - «Oh se tem! Até tem epíteto - chama-se Helena por baptismo, Forza Leal por casamento, mas todos a tratam por Helena de Tróia. Não olhes para lá!» O noivo juntou as mãos enlaçadas ao olho direito de Evita.

Mas naturalmente que Helena de Tróia tinha de concitar o olhar. Naturalmente que o capitão reparou nos olhares que choviam como dardos. Naturalmente o capitão esbofeteou a mulher. Ainda mais naturalmente - porque tinha a ver com a dinâmica e a cinética - a mulher ficou encostada ao ferro da varanda que separava o Stella do Índico. Com a face esbofeteada, era naturalmente cada vez mais linda. Naturalmente uma lágrima caiu por um dos seus olhos, porque o outro estava coberto por uma das muitas madeixas do farto cabelo rubro. Naturalmente o marido se aproximou dela, e a puxou para si, e ela entregou a cara, a lágrima e o cabelo, encostando tudo isso ao ombro dele, naturalmente.

«Tens inveja?» - perguntou Evita.

«Alguma, a começar pela cicatriz. Repara como o meu

capitão usa uma camisa de algodão egípcio tão transparente que se vislumbram os pontos da cicatriz. Ele ganhou aquela cicatriz numa bolanha da Guiné. De lá sim, de lá é que se trazem cicatrizes com alguma dignidade!» - A mulher do capitão colocava a mão agora no ponto em que a cicatriz terminava de forma violácea. Naturalmente, os outros pares procuravam imitá-los, mas era difícil imitar, e as bofetadas não conseguiam ter aquele impacto violento e estético que havia sido obtido pelo capitão do noivo. Mesmo assim, uma mulher - uma das duas raparigas que de manhã usavam chinelos com pluma de ganso - sob o impacto da mão fechada do marido, embateu fortemente no gradeamento e quase saltava pela borda fora, agora por motivo bem diverso do da manhã! Mas se saltasse, não morreria apesar de estar no décimo primeiro piso do hotel Stella. Porque morreria? De qualquer modo, o marido amparou-a com um golpe de judo. O reencontro pareceu maravilhoso. No momento em que inevitavelmente se encontraram, trocaram todos os líquidos que ali era possível trocar - um fio de sangue escorria do orifício do ouvido dela. Pingava no chão. Olharam para longe. Ah, sim, longe, um dumper evoluía!

«Descobri» - disse o major dos dentes amarelos, pondo-se em pé. «Descobri a cadência dos carros de lixo

- quando têrn um carregamento de cinco unidades, o condutor regressa à vala!» O major usava calça amarela de quadris muito altos, como no tempo em que se punha suspensório. Era antigo, o major, e tinha o charme também antigo de quando os homens se curvavam até à cintura, mostrando a cabeça oleada se queriam cumprimentar uma mulher. Continuava a ser uma pessoa encantadora e aberta ao Mundo. Veja-se como era o primeiro que descobria a cadência! De facto, o dumper fugia agora através da paisagem cortada por casas, portas, uns pés de árvore, uns tapumes ao fundo. Via-se passar e desaparecer, desaparecer e passar na direcção do vazadoiro. O pára-quedista lesionado que não podia dançar nem bater, ao contrário do major, via a vida com sua lista roxa.

«Estou em crer que estamos aqui mas é a defender os interesses de Paris, Londres, Bombaim. Nem sequer são os interesses de Lisboa!» - O pára-quedista colocou o dedo no olho direito e mostrou a mucosa vermelha da pálpebra. Quando se via a vida roxa, não se entendia com clareza o Mundo e as relações entre os continentes. Lisboa estava a parecer ao tenente uma aldeia com sinos.

«Aí está você a dizer de novo impropérios! Tome mas é cuidado, que eu sou um africanista, eu conheço o que se passa em África como a ponta dos meus dedos. Alguma coisa me diz, por exemplo, que vem a caminho uma praga de gafanhotos! Você vai ver, seu céptico!» - disse o major.

E a noite iria cair em breve, cair vermelha e negra como um tapete que cai duma janela sideral e encobre os astros mais brilhantes. Não, não iria haver lua, embora a maré estivesse ampla e batesse mesmo rente como se fosse cheia. Iria cair como uma colcha que se desprende, imensa e abissal. Demoravam a acender as luzes da cidade. E para quê acendê-las? Devia-se deixar as sombras ocultarem as árvores pelas suas próprias sombras, deixar que a Terra com o seu contraste natural entre o claro e o escuro devolvesse às pessoas a noção das rotações planetárias - a noite com o escuro, o dia com a luz, depois o escuro definitivo quando chegasse a nossa noite. Era tão maravilhoso ver anoitecer sem música, sem bolo, sem fotógrafo, sem preocupação de cortejo, depois do cansaço do corpo pelo rodopiar slowly entre as mesas, que nunca deveria acender-se uma luz. Aliás, era domingo, e a noite poderia ser eterna e não se pensaria nem no destino remoto do Império nem no teatro próximo da ventosa Mueda.

«E o dumper, continuará a passar?»

«Que passe ou não passe é o mesmo - se gostamos que passe imaginamos que passa, se não gostamos imaginamos que não passa. Que os recolham todos enquanto dormimos. Você não acha?»

O pára-quedista, mas um outro que não o lesionado, não pôde deixar de sorrir - «Oh, oh, vê-se mesmo que o meu major não conhece a força das balas! Veria lá na zona dos Paus, se tudo é tão somente uma questão de mais ou menos imaginação. Ouvi-lo falar pode ser perigoso para o exército, meu major!»

Mas de repente as luzes acenderam-se. Os únicos pares que ainda continuavam a dançar eram os noivos e os Forzas, quando elas apareceram ao cimo dos candeeiros, ferindo a vista. Não feriram, contudo, durante muito tempo porque elas traziam alguma coisa de novo, tão de novo que obrigou esses dois últimos pares a separarem-se. Acesas abruptamente, as lâmpadas começaram a perder a intensidade, a perder, a perder, e dentro de instantes, o seu palor era extremamente dúbio e singular.

«Estão a ficar verdes!»

«Completamente verdes! O que estará acontecendo?»

O major desprendeu duas enormes gargalhadas.

«Digam agora que eu não percebo, vejam se são capazes! Eu não disse que estava a caminho uma chuva de gafanhotos?» - O major levantou-se e passou entre os capitães operacionais cheio de confiança na força do seu crânio. Uma curta madeixa - porque não deixavam usar mais longa, infelizmente - caía de forma breve sobre o seu sobrolho. O major dos dentes amarelos pegou numa espécie de pingalim que de vez em quando usava para lembrar a sua proveniência de Cavalaria. O major apontou com o pingalim - «Vejam, é uma nuvem de gafanhotos que passa abaixo do nível superior do Stella. Como o nevoeiro nas falésias da Europa. Reparem como as luzes os ofuscam, reparem como cheira a quitina quebrada, reparem como eles volitam, afocinham e caem! Reparem, meus senhores, minhas senhoras, no movimento contínuo dos gafanhotos! Ouvem o barulho das asas?»

O major estava a ser invadido por um grande entusiasmo enquanto a atmosfera esverdinhava, e junto de cada candeeiro havia uma bola ténue que sumia. Do conjunto dessas bolas de luz filtrada pelas asas móveis dos ortópteros, chegava ao terraço a semiobscuridade dos tanques. Por instantes, porém, o verde-limo da luz era tão vivo que conseguia anular os objectos vermelhos do terraço. Havia-os - alguns carros de encaixar de crianças, um ramo de rosas que sobejara do dia anterior, o fio de sangue que ressumava da orelha daquela rapariga batida pelo marido e que ia caindo à praia, tudo isso era vermelho. Sobretudo os vergões que muitas delas tinham pelas caras. Os cinco dedos da mão de Forza Leal ainda estariam visíveis como se esculpidos na face esquerda de Helena de Tróia, se não tivesse aterrado sobre a cidade da Beira, a plana, a palustre, a indica cidade da Beira, essa nuvem intensa de gafanhotos subvoando o Stella Marls.

O Gerente de Messe subiu ao terraço - «Devíamos convidar o nosso Comandante da Região Aérea a ver o espectáculo daqui de cima. Porque não?»

Ele estava instalado com a figura das espátulas num local muito mais luxuoso mas muito menos alto. Não demorou vinte minutos que o Comandante da Região não entrasse pela porta do elevador. A chuva de gafanhotos estava agora a atingir o auge, e teria sido importante enxergar tudo isso, ver as luzes das avenidas passarem de mais verde a menos verde como nos dias em que as nuvens brancas passam pela atmosfera, em extremo sossego, só que Deus não quis. O ajudante de campo do Comandante chamou os oficiais a um canto, improvisou um pequeno briefing no escuro verde duma ponta do terraço, e explicou por gestos discretos, como entre os negros envenenados com metanol, existia um branco. Embora a tropa devesse permanecer quieta como uma planta, deixando às autoridades civis o encargo de se desembaraçarem. A eles competia Mueda, Montepuez, o Chai! - concluiu o ajudante-de-campo.

«Um branco?» - Mas como podia um branco ter-se deixado estupidamente envenenar por metanol e aceitar dormir entre negros o último sono, escolher o dumper por último transporte até à última morada? Um suspiro verde como as asas dos gafanhotos girava agora pelo terraço.

«Tenhamos esperança» - disse o Comandante da Região Aérea que se revelava tão bom apaziguador durante a agitação quanto tinha sido folgazão nos momentos da boda. Ele queria que se tivesse imensa esperança e se observasse o fenómeno dos gafanhotos com imensa paz. Aliás, ao longo da marginal começavam a surgir fogueiras, uma aqui, outra ali, outra ainda mais além, e a brisa que soprava do lado do Oriente inclinava as chamas, atiçava-as, mas não as desprendia nem criava perigo algum. Podiam inclinar-se e iluminar o chão, cheio de verde treva. Metodicamente explodiam em fila como se houvesse um silencioso exército preparado só para acender fogueiras - também elas verdes - um exército que esperasse, de praga a praga, a noite dos gafanhotos.

«Repare, Senhor Comandante» - disse o major dos dentes amarelos. «São fogueiras que os nativos acendem para nelas assarem este tipo de insectos. Esta noite é para eles uma noite de grande manjar!» - O Comandante deixou-se rir despreocupadamente.

E tudo poderia ter continuado, embora houvesse aquele boato dum branco envenenado, assim calmo, assim verde, assim cheio de música interna, e assim teria terminado a boda de Evita com o alferes Luís, mas como há pouco se deu a entender, o homem põe e Deus dispõe. De forma que, no meio desse sussurro constituído por homens observadores e mulheres doridas, que levavam de vez em quando a mão à cara, à orelha, crianças excitadas dando pequenos gritos de coelho, e toda aquela vida nocturna, e todo aquele esplendor verde, e todas aquelas roupas brancas, amarelas, ocres, da cor dos safaris, da cor de África, pulvurenta África, apareceu um repórter vindo pela escada. A informação, venha ela de que lado vier, sempre incomoda, porque sempre constitui um perigo de se ficar com uma parte do nosso corpo invisível à vista. Ninguém gosta que a informação chegue, sobretudo quando se está à vontade. Mas a princípio, quando se soube que era um homem do Hinterland, ninguém se moveu. E para quê? Só que o repórter começou a querer instalar-se, a escolher posição, a estudar o ângulo, a tomar nota sobre um papel, vendo, espreitando no escuro verde, porque o carro deveria passar por ali, com um branco estendido entre negros, tão envenenado por metanol quanto os primeiros que o mar tinha trazido. Não, aquela não era uma boa notícia, nem sequer inofensiva, muito menos desejável. O repórter, com a máquina fotográfica às costas, deveria sair dali, ir procurar surpreender o movimento da carreta onde quisesse, menos ali, entre pessoas que se divertiam e observavam serenamente. O repórter mostrou a carteira da profissão, esse passaporte que lhe dava entrada no corpo invisível das intenções pessoais. Fora! O repórter começou a defender-se com voz demasiado baixa, só depois a foi levantando, mas ousava dizer umas coisas, falar em compromissos, promessas aos leitores, locais ideais para fotografar dumpers que passavam. Desejava observar o acompanhamento visto de cima.

«Com este escuro verde? Porque não vai lá para baixo, para a porta?»

«Compreendam - apanhar isto de longe e no escuro é a melhor forma de traduzir o modo como todos desejamos ver o fenómeno! É ou não é?» - disse o jornalista.

Ah, não enganava ninguém, não! Aquele era um exemplar acabado dos repórteres típicos da época. De aspecto sórdido, de camisa aberta no peito por falta de botões, esfiampada nos punhos, e que fazia blague tão bem como qualquer jornalista cínico do mundo ocidental de então! Mesmo a África tinha chegado esse jeito. Há vinte anos, o que parece vinte séculos, já alguns tiques se tinham tornado universais, e um deles era o descaramento dos repórteres. Quando tinha começado isso? Como fazia verde em torno das lâmpadas, em torno das fogueiras! Como na obscuridade do terraço, parecia ficar frisado o cabelo das mulheres jovens que o passavam a ferro! As que detinham penteados em feitio de moita deixavam-nos esboroar. O capitão Forza Leal disse ao Comandante que se não ia a bem, ia a mal. Ele mesmo dispunha, ali naquele terraço, de três alferes e um tenente, treinados para o que desse e viesse. Um deles, sob o seu comando, apenas com a ponta do sapato, poderia imediatamente colocar lá em baixo, junto às fogueiras dos gafanhotos, aquele rapaz de olhar cínico. Evita disse ao noivo - «Não vás!» O noivo, porém, aproximou-se mais do que ninguém daquele diálogo rápido. Desde quando Luís Alex não era o primeiro dos oficiais de Forza Leal? Tinha casado no dia anterior, mas a Pátria era a Pátria, e o casamento era o casamento. Evita viu - embora a luz fosse esverdeada - aquele brilho que sempre conduz o homem até ao último esforço do músculo, à última orelha do cavalo, à última colina da montanha, brilhar intensamente no olhar do noivo. Não era desagradável ver, embora o repórter já atravessasse o terraço de mãos no ar, o gravador tivesse caído, a câmara fotográfica estivesse pendurada pelas costas e não pela barriga, e a fralda da camisa tivesse saído para fora das calças. Tinha a forma duma figura vexada, e o Luís Alex, que fazia questão de desembaraçar-se sozinho daquela silhueta de motim, seguia-o com um vulto na mão. Era assim - o capitão Jaime Forza Leal, estivesse onde estivesse, encontrava-se sempre precavido. O que o noivo levava na mão como um brinquedo, era uma arma e tinha sido dada pelo marido da mulher ruiva. Ela mesma abriu a mala e retirou de lá o revólver, tudo num ápice, perfeito. Não valia a pena pois ninguém descer, era exactamente para isso que o alferes se tinha oferecido, para proporcionar a calma e a paz ali no terraço onde ele tinha feito a boda e agora se via a luz das lâmpadas e as fogueiras passarem de verde-musgo a verde-coqueiro e a verde-esmeralda. Em paz, enquanto esse branco - que poderia vir a caminho ou não - no meio de negros era puxado por um carro do lixo. Quando passasse, se passasse, ele mesmo já quereria estar lá em cima, com o braço sobre os ombros de Evita. Deveria aproveitar porque em breve teria de voltar a Mueda para aquela operação definitiva, após a qual viria a paz. A paz, a paz, a paz - devia repetir-se várias vezes. E de cima?

” De cima ficou a ver-se o repórter a caminhar à frente do alferes, o alferes a correr atrás do repórter, num gesto que pareceu a alguns um tanto imprudente, e depois, entrando numa manobra já completamente excessiva, levar o repórter a saltar o paredão e a entrar no escuro do mar. As fogueiras estavam espalhadas mas não proporcionavam boa observação porque não só eram verdes, como apenas iluminavam por auréolas. A última vez que se viu o alferes a atravessar uma dessas clareiras de luz verde, corria ele atrás das pernas do repórter. Todos o tinham visto. Depois ambos desapareceram e ouviu-se um ruído parecido com um fósforo de metal que deflagra, fez-se silêncio no terraço, e a atmosfera cheirou a pólvora.

«Terá atirado para o ar?» - perguntou a mulher do capitão, sem obter a resposta articulada de ninguém. O silêncio era a resposta que melhor traduzia a dúvida. O Comandante cortou o silêncio.

«Foi um excesso do alferes, um homem habituado à contra-subversão em terreno. Mas é você, capitão, quem deve participar por escrito» - disse ele.

E esperaram que o alferes voltasse, subisse o paredão, atravessasse a marginal, entrasse no hall do Stella Maris, subisse pelo elevador, regressasse ao seio da família ofendida com o seu excesso, para que o deslize fosse conversado. Tinham todos os olhos pregados no paredão que apesar de tudo alvejava embora de verde-garrafa, mas ele não vinha. Esperaram vinte, trinta minutos, supondo que o noivo tivesse querido regressar com notícias concretas sobre o homem branco encontrado na margem entre os outros. O dumper passou com os negros estendidos, entre eles não vinha o branco. O branco apareceu depois, aos ombros de brancos e amarelos, que acenavam para o alto do Stella Maris, querendo que descessem, sem se compreender muito bem porquê. Era imenso o acompanhamento que seguia atrás do homem branco, e Forza Leal jurava ter visto de entre a multidão quase silenciosa, erguer-se um punho levantado. Aliás, por vezes, o acompanhamento seria completamente silencioso se não fossem os pés. Os pés dos que acompanhavam o homem branco estendido faziam estalar a quitina dos gafanhotos como se pisassem copos. Os estalidos eram idênticos, salvo nas bermas onde os gafanhotos tombados já eram tantos que se havia criado um tapete de asas, e o acompanhamento parecia pisar areia.

Evita começou a chorar baixinho. Era maravilhoso tudo se conjugar daquela maneira. Que astros estariam com que astros, lá acima da atmosfera, por cima do manto de ozono, para que acontecesse tudo de forma tão harmoniosa? Desceu-se à praia com archotes e pilhas eléctricas contra os quais os verdes insectos do tamanho de facas vinham dar a última trombada das suas efémeras vidas. Tombavam. E felizmente que tinham decidido procurar o noivo daquele modo, porque se chegassem meio minuto depois, já aquela onda sem grande espuma que aí vinha poderia ter levado o corpo do alferes, e quando o trouxesse, passados três dias, já não apresentaria a integridade necessária para ser vestido de alferes, nem exposto diante dum anjo de pedra, nem no transepto da Sé, o local do templo onde mais passava uma corrente de ar. Assim, a onda não o roubou. Evita pôde abeirar-se dele, lavar-lhe o buraco da testa por onde a bala havia entrado pelo próprio punho do alferes, e beijá-lo na boca até ser manhã. Verde toda a noite. O Comandante da Região Aérea desceu à praia e disse a Evita - «Por vezes, África deixa de ser amarela da cor do scotch para ser de variegadas cores... Sorry, sorry...» Mas porque ninguém era malévolo no Stella Marls, ninguém acusou o repórter que farejava por cima do paredão. Todos, incluindo Evita, compreendiam que o excesso de harmonia, felicidade e beleza provoca o suicídio mais do que qualquer estado. Infelizmente, muito infelizmente, as guerras eram necessárias para equilibrar o excesso de energia que transbordava da alma. Grave seria proporcionar demasiada felicidade. Então o terraço foi fechado para que não se voltasse a sentir idêntica chamada de esplendor. Evita sentiu-se vítima duma lição tão subtil que intransmissível, sobretudo quando do cortejo, posto em semicírculo, e onde as ondas chegavam sem espuma, o major surgiu, deu um passo em frente e se curvou até aos joelhos - «Madame, os meus respeitos!» Ela voou no primeiro avião civil. O corpo dele seguiu depois, num barco militar.

 

É um relato encantador. Li-o com cuidado e concluí que nele tudo é exacto e verdadeiro, sobretudo em matéria de cheiro e de som - disse Eva Lopo. Para o escrever desse modo, deve ter feito uma viagem trabalhosa a um tempo onde qualquer outro teria dificuldade em regressar. Pelo que me diz respeito, o seu relato foi uma espécie de lamparina de álcool que iluminou, durante esta tarde, um local que escurece de semana a semana, dia a dia, à velocidade dos anos. Além disso, o que pretendeu clarificar clarifica, e o que pretendeu esconder ficou imerso.

Imerso, claro, o que não poderia ser doutro modo. O sentido da sua recordação, atendendo ao que recorda, mantém-se tão inviolável quanto o é, por exemplo, a razão profunda do pêssego. Nessa matéria, é um erro imaginar que as pessoas sejam superiores às aves, às trutas ou aos pêssegos. No pêssego, como em qualquer outro corpo, tudo converge para um caroço inquebrável que existe dentro e fora de todo o caroço, e que não se vê nem se acha na implosão dos frutos, nem na explosão deles até às coisas siderais. Sabe bem como um pêssego peludo, no meio dum prato, é um razoável mistério. Ora bem, não será perverso dizer a quem pretender achar o âmago dessa pequena recordação, que não o acha, mesmo que, um a um, persiga os passos de todas as figuras que patinharam nesse Verão secreto, até ao último instante. Misterioso como o pêssego

- uma memória fluida é tudo o que fica de qualquer tempo, por mais intenso que tenha sido o sentimento, e só fica enquanto não se dispersa no ar. Embora, ao contrário do que pensa, não ignore a História. Acho até interessante a pretensão da História, ela é um jogo muito mais útil e complexo do que as cartas de jogar. Mas neste caso, porque insiste em História e em memória, e ideias dessas que tanto inquietam? Ah, se conta, conte por contar, e é tudo o que vale e fica dessa canseira! Se é com uma outra intenção, deixe-se disso - reprima-se, deite-se, tome uma pastilha e durma a noite toda, porque o que possa ficar da sua memória sobre a minha memória não vale a casca de um fruto deixado a meio dum prato. Como lhe disse, maravilha-me esse relato sobretudo pela verdade do cheiro e do som.

Não, não é pouco o cheiro e o som.

Se entender apenas o cheiro da fruta que lá tão rapidamente apodrecia, ou o som do mar tão idêntico em todo o mundo, sim, seria. Pense, porém, como o som das figuras pode ser a sua voz, o perfume delas pode ser tão intenso que constitua sem querer o halo perfeito das suas almas. Há outras coincidências para além do cheiro e do som.

Aconselho-o, porém, a que não se preocupe com a verdade que não se reconstitui, nem com a verosimilhança que é uma ilusão dos sentidos. Preocupe-se com a correspondência. Ou acredita noutra verdade que não seja a que se consegue a partir da correspondência? Por favor, estamos longe do tempo em que se acreditava no Universo como uma criação saída dum espírito preocupado com a inteligência e a verdade, quando tudo - julgava-se - se reflectia em tudo como uma amostra, um espelho e um reflexo. As estrelas seriam da mesma matéria intensa da película do seu calcanhar. O futuro do seu calcanhar poderia estar projectado na chama duma distante estrela. Ideias de grandeza. A si, a mim, que fomos onde fomos, estivemos onde estivemos, basta-nos uma correspondência pequenina, modesta, que ilumine apenas um pouco da nossa treva, coisas tão corriqueiras como as que fazem coincidir o princípio da vida com o início dum caminho com pedras, e logo o fim dele com o último bocejo. Coisinhas assim, sem outro alcance ou pretensão. Um encontrão, um sorvo, uma panela com sua tampa, que coincidam as arestas com as arestas, os nomes com os gestos e as coisas, não é de facto já uma conquista razoável?

Não, não vou dizer que as figuras estão erradas, e que é indiferente que estejam erradas, de modo nenhum. Tudo está certo e tudo corresponde. Veja por exemplo o major. Esse magnífico major. Está tão conforme que eu nunca o vi, e no entanto reconheço-o a partir do seu relato como se fosse meu pai. Reconheço-o obviamente porque os dentes dele estavam numa outra boca, o pingalim numa outra mão, os cabelos oleados andavam despegados do pingalim e dos dentes, numa outra pessoa, que de facto se inclinava de mais quando uma mulher passava. Madame... era um sussurro que saía com frequência da boca do Gerente de Messe que não tinha nada a ver nem com a testa nem com o pingalim. Ah, como admiro essa figura que encontrei espalhada por várias! E o noivo? Como compreendeu o noivo, tapando a boca de Evita com a boca, no momento em que ela ia pronunciar o M de Matemática! Claro que não foi bem assim, mas a correspondência é perfeita. A tal pequena, humilde e útil correspondência que não nos deixa navegar completamente à deriva. Às vezes quase, contudo. Ou Evita.

Embora eu tivesse descrito Evita como um olho intenso, observando, nada mais que um olho. Aliás, ela chegou a apaixonar-se por olhos isolados como ilhas fora do corpo. Evita seria para mim um olho ou um olhar. Nunca suspeitei de que alguém tivesse sido testemunha de que Evita tivesse tomado banho, partido chávenas, formulado desejos, ou que alguma vez tivesse estado no centro das exclamações. Soberbo! Agora vejo-a, por sua acção, atravessando o hall do Stella Maris, e fico com algum apreço por ela, e tenho mesmo saudade dela, da boca dela que então usava nua, do tempo em que tinha a cintura estreita disse Eva Lopo. Reparo também que no seu relato o terraço tem muito mais importância do que o hall, o que me espanta, porque o jornalista nunca esteve no terraço. Ele conheceu o Stella a partir do hall mas presumo que facilmente tenha imaginado o terraço até por ser, de todo o hotel, o sítio mais perto dos cometas. Sim, lembrando-me do terraço, acho que todas as noites passava pelo céu a cabeleira dum cometa. Nascia a ocidente e punha-se a oriente, ao contrário da Lua e do Sol, e por isso é inútil perguntar-me se esse hotel era importante nas nossas vidas.

Claro que era importante. Teria bastado esse belo nome de evocação marítima, brilhando acima das palmeiras, para que tivesse a sua importância. No entanto, como sabe, o Stella Marís era importante por outras razões e fez muito bem não ter desiluminado a verdade intrínseca do terraço, com o que sabia sobre o edifício inteiro. Omitiu, fez bem. Não esqueci, porém, como o Stella mantinha todo o fragor dum hotel decadente transformado em messe, de belíssimo hall. Era aí, no hall, largo como um recinto de atracagem, e filtrado pelos panos brancos das janelas, que os homens abastados que desciam pelos Trans-Zambezian Railways, vinham espalhar até à década de cinquenta, as inumeráveis malas, os longos dentes de elefante. Antes de tomarem os paquetes e partirem a negociar, em língua inglesa. O sussurro dum tempo colonial doirado vinha ali aportar, e por isso ainda se falava do modo como as banheiras primitivas eram assentes no chão por pés em forma de garra. Nessa altura, ainda os negros não podiam, ou não queriam, encontrar os colonos brancos no mesmo passeio das ruas. Quando falavam, jamais viravam as costas, curvando-se às arrecuas até desaparecerem pelas portas, se entravam nas casas. Ah, desse tempo de banheiras com pé de garra, importadas da Europa! Que cheiro antigo, que cheiro a arte a envelhecer e a passar! A rebelião ao Norte, porém, tinha obrigado a transformar o Stella em alguma coisa de substancialmente mais prático, ainda que arrebatadoramente mais feia. Dificilmente se poderia imaginar nas banheiras quadrangulares que conheci e o jornalista não conheceu - disse Eva Lopo - cravadas no chão como rocha, e nos polibãs do feitio de escarradeiras, as vasilhas de banho que ali tinha havido, em feitio de berço, sobre as quatro unhas de leão de que se falava no terraço. Desse tempo, ainda havia no meio da cada banheira um jarro de zinco para quando a água faltava, e faltava muito. Só a muito custo se poderia imaginar que no sítio do balcão corrido, com almofada de espuma, tivesse existido um balcão com cacifos trabalhados com minúsculas sereias, um frasco de quinino e um cesto com bananas. Mas um espírito é um espírito, e o Stella Marís, como sabe, mantinha o seu, até porque o espírito dum recinto provém sobretudo da luz, e a luz não tinha mudado porque os vidros das janelas ainda haveriam de permanecer inteiros, por alguns anos. As janelas ainda eram as mesmas, quadriculadas e altas. O Índico também não era substancialmente diferente, só de longe em longe bramindo a sério, e de resto chiando um pouco, apenas na maré montante. Bem como o vento quente, pelas tardes. Lembro-me de como se ouvia o vento quente passar, com os ouvidos debaixo da água da banheira.

Claro que também teve a sua importância, a banheira.

Conseguia-se dormir dentro dela com as pernas esticadas entre a cabeceira e os pés. Foi daí que o alferes me tirou, por exemplo, e quando me tirou, senti-me uma pena, uma cortiça, um daqueles objectos leves, inexplicáveis, que uma pessoa se sente quando é retirada por alguém de dentro duma banheira. Havia três dias que só tomávamos o pequeno-almoço que um criado em tronco nu vinha deixar à porta do pequeno quarto com casa de banho enorme.

Aliás, você nem esqueceu o pormenor do quarto - nos arranjos a que o hotel havia sido sujeito, tinham dividido umas enormes salas de canto em dois quartos cada, um deles com a primitiva casa de banho. A nossa era uma delas. Entre os dois quartos havia um tabique, e no lado oposto ao tabique ficava a banheira com seu plástico e seu varão. Era pena que o alferes não quisesse repor-me na água. De dentro da banheira ouvia-se a corrente de ar mover e abanar as roupas estendidas numa varanda próxima. Esse era um som furioso e doce, e estranho, como um uivo numa sala de jantar. Eu estava a ouvi-lo, e ficaria assim atenta até que fosse outra vez noite e manhã, e o rapaz do pequeno-almoço deixasse a bandeja à porta. Nunca havia pressentido um sopro idêntico de vento - morno, desabalado, zunindo, um uivo quente que saísse da goela duma jarra, no meio duma sala de jantar. Tinha a impressão de que a Terra se havia abandonado a um outro tempo, com uma outra formação de banheiras e de sons. O noivo aproximou-se e retirou-me da banheira. Também ele tinha emagrecido, as patilhas pareciam mais fartas e os olhos mais escuros. Qualquer mulher se teria pendurado ao pescoço dele com suspiros semelhantes aos das rajadas que vinham do Índico - disse Eva Lopo. Ele levou-me até à janela donde se viam os estendais bater e rasgar.

Ele perguntou-me - «Angustia-te?»

Eu respondi - «De modo nenhum». E como a nossa compreensão ainda era perfeita, acrescentei - «De modo nenhum, Évariste Galois!»

O noivo deixou-me escorregar por si abaixo. «Não me chames isso» - disse ele. «Já lá no terraço me chamaste isso e eu me calei, mas agora digo-te que nunca mais quero que me voltes a chamar Evaristo Galois!»

«Gostavas».

«Nunca gostei, mas suportava, só que não quero suportar de novo» - disse ele, com os olhos muito abertos e muito escuros. «Nunca pedi a ninguém que me chamasse essa anomalia de nome». Sentou-se com as mãos nos joelhos, com os lábios unidos, as comissuras tensas.

Mas não valia a pena explodir se não queria que lhe voltasse a chamar Évariste Galois. Ele é que tinha dito quando nos havíamos conhecido, e removia equações de quarto e quinto grau, diante duma chávena de café, a uma mesa da Ideal das Avenidas. Ele é que tinha dito, desde o primeiro instante, que estava à beira de encontrar uma solução globalizadora para que o Galois só tinha descoberto soluções intervaladas e acidentais. Embora retomando Galois, pacientemente, supunha estar a caminho de ficar em breve, face a face, com uma lei indomável que resolvesse todas as equações de qualquer grau, desde as mais simples às mais infinitamente complexas. Toda a gente lhe chamava Galois por causa disso. Ele mesmo é que tinha falado da clarividência desse rapaz, da sua última noite de clarividência. Ele é que tinha dito que trocaria a vida inteira por uma noite de clarividência. Nas cartas, não raro assinava por Evaristo Galois. Tinha sido o professor de Álgebra, a quem ele expunha a investigação que fazia e de que falava na Ideal, que o tinha comparado, no ímpeto e na determinação, a Galois. Já alferes e ainda vivia com a ideia de divulgar um critério universal que dizia ter descoberto para resolver as equações de grau superior a quatro. E o professor de Álgebra não o tinha compreendido.

Mas agora parecia haver perdido a memória de tudo isso, ali no pequeno quarto de África. Não fazia mal, alguma vez se perde a memória do que desejámos, e o noivo podia perdê-la já, mas de facto complicava bastante haver-se esquecido assim. Então se nos fôssemos esquecendo do que desejávamos descobrir, e depois de como nos chamávamos, e a seguir de que país éramos, como iríamos combinar as horas de sair, ou o momento da fazer compras? Assinar papéis, contratos, horas de voo? Claro que tudo isso andava ligado por uma ténue linha que de repente se poderia quebrar, e que apesar de ser tão ténue, ainda permitia uma pequena correspondência de modo a não boiarmos à face da terra como lama, até boiarmos de facto como lama. Mas era de mais. Então não se lembrava de me haver pedido que lhe procurasse uma biografia completa do tal Évariste Galois? O melhor era vermos se éramos capazes de encontrar as roupas, experimentar se nos serviam, sem termos necessidade de enfiar as calças pelos braços, as camisas pelas pernas. Sair dali pelas portas, entregar as chaves do descapotável ao seu dono através das mãos, e verificar as horas a que eles estariam no hall à nossa espera através das agulhas do relógio. O noivo pediu a Evita que se calasse - porque ficava tão céptica perante tudo? Evita não sabia que o cepticismo destruía o amor? Sobretudo em África, onde a vida brotava sem ser preciso pensar? Onde as coisas eram tão espontâneas que dispensavam estradas, ruas, planeamentos? O noivo pediu a Evita que se vestisse, calçasse e se entregasse à vida de uma cidade de África. Sim, estou a ver essa plana cidade de África. Nesse tempo, Evita era eu.

Se vejo algumas cenas vivas? Claro que revejo cenas vivíssimas.

Cenas bestialmente vivas, com corridas, vozes, insinuações, sucessos, aves, céu, terra e mar - disse Eva Lopo. Recordo com precisão, sem qualquer tipo de esforço, até com uma enorme alegria, o momento em que descemos ao hall, e entre grupos que conversavam pelos sofás, encontrámos, à hora prevista, Helena e Forza Leal a quem o noivo entregou as chaves. Estou a ouvir como nos propuseram que déssemos uma volta sentados no banco de trás do descapotável, estou a ver como as palmeiras se curvavam, como Helena saltou para o seu banco, como amarrou o cabelo num lenço. Estou a ver o capitão conduzir com guinadas intensas a partir do arranque, estou a vê-lo passar junto de nativos estendidos que fugiam em sobressalto. Estou a ouvir o noivo rir. Havia de facto gente deitada de bruços, de forma incomum, sobre os passeios mais afastados da circulação, e outros mesmo pareciam estar acampando só com o corpo, por cima de pedaços de jardim quer cena mais viva? Imagine os nativos saltando à passagem do descapotável. A meio da marginal, porém, para onde as ondas arrojavam espuma, os indígenas começavam a rarear, e o capitão abrandou a marcha. Passava-se perto dum clube.

«Tinha pensado irmos ali ao Clube, mas o sacana do black que fazia aqueles cocktails também lerpou».

«Como é que lerpou?»

«Sabe-se lá! Com as versões mais estúpidas como é que vamos saber? Foi naquela noite» - disse o capitão.

«Meu capitão» - disse o noivo. «Estou aqui a pensar, a pensar...»

«O quê?»

«Estava aqui a pensar que se em vez de irmos ao Clube fôssemos fazer um pouco de gostinho ao dedo talvez não fosse errado».

O capitão riu enormemente à voz do noivo.

«Ah, seu sacana, não me diga que você ficou com o material no porta-bagagens estes dias todos para nada!»

«Não tive tempo, meu capitão» - Agora ria o noivo no banco de trás.

E logo uma segunda cena - disse Eva Lopo. Lembro-me de o capitão inverter o sentido da marcha até perto duma vegetação que parecia ser um canavial. O vento fazia das canas uma espécie de cabeleira de duna, que se esfiava e batia, esfarrapava as folhas como um cabelo que se sacode. A mulher do capitão tinha saído do carro e todas as roupas dela, bem como o lenço e o cabelo, eram sacudidos pelo mesmo ímpeto na direcção do canavial. Além da mulher do capitão e do canavial que pareciam ser levados por uma força que não conseguiam suster, havia latas que rolavam pela praia, que iam e vinham, chocavam e produziam ruídos. Ambos desfardados, o capitão e o noivo olhavam intensamente as latas. O noivo encarou o capitão.

«Meu capitão, deixe as latas - se formos até àquele barzinho que fica para lá da Ponta Gea, acho que vamos ter uma surpresa».

O capitão ficou incrédulo - «Uma surpresa na Ponta Gea»?

«Não, meu capitão, muito para lá, muito para lá...»

Pouco convencido, o capitão retomou a estrada, deixou para trás as latas do canavial, e o carro tomou a direcção do barzinho de pau, até que o capitão afrouxou e perguntou ao noivo, fingindo desafiar a mulher - «E se fôssemos pôr as mulheres em casa, para fazermos o gosto ao dedo à vontade?» Foi a vez de Helena representar - protestou, não quis, desejava muito ver o que era isso de fazer o gosto ao dedo, e pedia, encostando-se ao ombro do capitão, que não voltasse para trás, que não a fosse pôr em casa. Ele fingia ir. Mas depois condescendeu - «Vais então ver o que é fazer um gosto ao dedo». O carro estacionou na direcção do barzinho de pau e caniço, o capitão abriu o porta-bagagens e disse à mulher que apalpasse certa coisa que estava ali embrulhada numa espécie de serapilheira. Ele queria que por apalpação ela adivinhasse.

«São alfaias!» - disse ela.

«Não!»

«É uma mesa desmontada» - disse ela ainda. Via-se perfeitamente que conhecia o conteúdo da serapilheira, mas representava não conhecer - era tudo representado.

«Também não!»

«É uma peça do motor do barco!»

«Ora bolas, também não...» - O capitão fingiu desistir, puxou pela serapilheira e apareceram quatro armas.

Helena de Tróia representou ter medo, e com a mão na boca, começou a correr pelo areal fora, enquanto o capitão a chamava. O areal estava deserto e a bandeira vermelha acenava na ventania tanto quanto as roupas de Helena correndo. «Aqui!» - disse o capitão com um assobio. Ao som do assobio, Helena de Tróia começou a aproximar-se, com olhar amedrontado, em ziguezague, fingindo ter medo de ver as armas. «Aqui!» - disse ele de novo. O capitão tinha posto a serapilheira na areia como um lanche, e desembrulhava agora as munições. O noivo também estava ajoelhado mas o capitão só falava na direcção da mulher. «Estás a ver?» - disse ele, fazendo saltar uma pistola para o meio da mão. «Esta é uma Star, calibre 9, uma bonequinha derrubante proibida a civis. Uma defesa pessoal como não há outra. Só que por vezes a mola do carregador fica pasmada». A mulher do capitão apertava o lenço que o vento levava. «Não quero ver, já disse que não quero ver...»

- dizia ela sem deixar de rir, fingindo querer atirar-se ao chão. Com o joelho sempre em terra, como o noivo, ele fez rodar a pistola no polegar e apanhou-a no ar com a mão aberta. Disse ainda - «Um tipo atingido com uma brincadeira destas dá um salto para trás que nem uma lebre, o tipo projecta, o tipo zumba». Helena de Tróia apontou com a ponta do dedo, com voz de criança que interpela.

«E esta aqui, tão grande?»

«Esta é uma Armlite, calibre sete, sessenta e dois. Dá para tiro a tiro e rajada» - disse ele, levando essa arma à cara. «E esta é uma Kalashnikov. Você lembra-se desta Kalashnikov, não se lembra, ó Luís?» Tal como o alferes, o capitão também tinha patilhas, ainda que menores, mas com a particularidade de mexerem como duas escovas. Estava a mexê-las. Encarou a mulher que se tinha debruçado sobre a serapilheira.

«E agora, quantas faltam aqui?»

«Não sei!»

«Não sabes? Sabes!»

«Não sei não!»

«Sabes!» - disse ele levantando-se. Ela simulou atirar-se ao chão. «Sabes ou não sabes?» Helena baixou a cabeça até às armas.

«Sei, falta só uma!»

«Diz mais alto, diz para eles ouvirem!»

«Falta uma» - gritou ela. «Falta o revólver» - Helena de Tróia fugiu pela areia que se levantava sob as suas passadas e caía longe. «Aqui!» - gritou de novo o capitão. Como ela regressasse, ele escolheu finalmente a Armlite.

Logo se seguiu outra cena, muito viva.

É que ainda se tinha de percorrer uma ponta de areal até se atingir o bar de pau onde o alferes anunciava a surpresa, mas ou fosse pela ventania ou por outra razão qualquer, o bar de pau e caniço estava despovoado. Um tacho velho rebolava junto ao estrado. O noivo deu uma volta chamando pelo black mas não descortinou ninguém. Entretanto, seguido pela mulher, o capitão já se encontrava a olhar para a fita de lodo que precedia o mar. Diante, imóvel, estava uma colónia de pássaros pousados no lodo como dias antes, mas enquanto na tarde do casamento eles voavam e corriam, batiam as asas com ligeireza, à aproximação do noivo, agora as aves pareciam resistir unidamente ao vento, ou dormir com as cabeças sob as asas, sustentadas numa pata só. Vistas sobre o lodo e o mar, constituíam uma toalha de penas que flutuava.

O capitão estava ofuscado, o capitão tinha os olhos presos das aves que flutuavam e benzeu-se. «Bolas, que você acha com cada coisa!» - disse assombrado para o alferes. O capitão estava a engatilhar a arma e não desviava a vista da toalha de pássaros.

«Tiro a tiro ou rajada?» - perguntou ele com a arma ajustada à cinta. Fez o cano da espingarda correr primeiro na direcção do mar, depois baixou na direcção do lodo, colocou a arma na posição de rajada, e fazendo a mira, o capitão percorreu a colónia da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Helena escondeu a cara no braço do noivo e eu vejo sobretudo o noivo. Estou a ver o noivo diante das aves cor de fogo intensamente unidas. Estou a ver porque à medida que eram atingidas eram chutadas por um coice e iam tombar longe, esperneando, e é difícil esquecer. As não atingidas, porém, permaneciam na mesma posição, com o pescoço enrolado no papo e a perna única, direita como um pau. O facto de as não atingidas permanecerem imóveis tocou o noivo. «Maravilhoso!» - disse ele. Já viu, meu capitão, como aquelas não se movem? As camelas? Como se estão lixando umas para as outras, as grandessíssimas filhas das camelas?»

«Já» - disse o capitão, sacudindo qualquer coisa que parecia encravar a arma antes da segunda rajada.

 

Quarta cena, mais viva ainda, como ampliação da anterior. Estou a ouvir o capitão sacudir a arma como se tivesse descoberto um ruído profano naquele engenho, a mulher dele com as mãos agarradas ao lenço como se não quisesse ouvir, o noivo atrás do capitão, como se lhe fosse a sombra. A mulher, porém, quer ver as aves, vai na direcção do lodo e volta. Estou a ver vivissimamente - a colónia foi atingida em parte mas o todo não se moveu. As aves sobreviventes estão de novo a agrupar-se e as abatidas estão ficando cada vez mais enterradas no lodo onde se somem como panos. É apenas uma espécie de tapete passageiramente arruinado que estremece. Porque os pássaros não atingidos, acordados só por um instante, logo lançaram a segunda pata ao lodo e se uniram, pisando os corpos das que se sumiam e deixavam de ser vistas. Fez-se uma nova colónia unida que nem deixava de parecer menor do que a anterior. O noivo perguntou - «Mais uma, meu capitão?» O capitão, porém, tinha desencravado a arma e passava-a ao noivo. O noivo agradeceu - pôs o joelho em terra, deitou-se de bruços, e ajeitando o carregador que roçava na areia, fez mira e varreu a nova colónia da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, como se quisesse dizimar o último pássaro. Vejo os últimos pássaros espantados desaparecerem, diminuírem pouco a pouco, como os sonhos vermelhos que sobrevêm ao amanhecer. E agora? Agora não havia mais nada para fazer ali. Trancaram a arma, enrolaram-na como as outras na sarapilheira e puseram-se a andar na direcção do descapotável. O noivo inspeccionava o ar. «Algum problema?» Não, nenhum problema, pois que problema haveria de haver? A costa estava vazia de gente, a avenida vazia de carros, poder-se-ia ter disparado um canhão costeiro de trinta e dois centímetros, que o vento e a distância impediriam que se ouvisse.

«E as penas?»

«Que penas?»

«Amanhã a bicharada há-de estar podre e há-de haver penas!

O noivo ria - «Amanhã? Amanhã a esta hora já houve duas marés, meu capitão. Deixe-se disso, deixe de pensar em penas!» O noivo ria com uma fala desconhecida, tão desconhecida que se tornava imperioso espreitar-lhe a voz. Pensando bem, era a única emissão do corpo que poderia conter o segredo da sua mudança. Mas para espreitar a voz teria de espreitar os dentes por onde saía. Se me aproximasse dos dentes e da língua do noivo, eu não teria acesso ao segredo da alma através da voz? Aproximei-me imenso dos seus dentes e fiquei a ver moverem-se os lábios que gritavam daquele modo para o capitão, os dentes que ora apareciam ora desapareciam sob a cobertura dos lábios, e fascinava-me não reconhecer um único som do noivo, como se dele, ele mesmo, só houvesse de facto o corpo como uma concha fechada e a alma tivesse desaparecido. Durante a ausência a concha se tivesse aberto e um outro espírito tivesse entrado e falasse agora pela mesma língua embora com outra linguagem. Mas não se podia pedir demasiado ao noivo - no meio daquela aragem quente, o noivo só reparou que eu me tinha fascinado pela sua boca, e então, aproveitando uma guinada nos passos do capitão, aproximou os dentes e a boca.

E houve uma quinta cena, vivíssima, com dois andamentos. Vejo-a.

Ao passarmos aos ziguezagues perto do bar de pau e caniço, o noivo deve ter-se lembrado da tarde recente em que o black lhe havia lavado os pés.

«Eh, blackl» - gritou.

Ninguém respondia. O noivo admirou-se, depositou a serapilheira - era ele quem conduzia a serapilheira para o descapotável - e trepou ao estrado. Um bidão estava encostado ao que parecia ser uma cozinha miserável dum bar de negro. Virando o bidão, percebeu que tinha sido aberto à martelada. Então baixou-se e aproximou o nariz do buraco do bidão. Esteve a cheirar. O noivo chamou o capitão e o capitão também cheirou. A mulher do capitão foi puxada para cima do estrado para que também cheirasse.

Cheirava a alguma coisa doce e perfumada como um verniz. Devia-se inquirir junto do rapaz daquela espelunca onde teria ele ido buscar o bidão de verniz. «Onde se terá metido o filho da mãe do blackl»

«Pelos vistos lerpou, meu capitão. Deu ou vendeu a mistela, e depois bebeu e rebentou por aí!»

O noivo agitou o bidão, entornou o bidão, o líquido rapidamente se espalhou pelo estrado e se sumiu na areia. O capitão ajudou, com o pé. Estavam a fazer muito bem, estavam a evitar chatices com a polícia e ao mesmo tempo a cumprirem um dever, entornando o resto do líquido.

Olhando para trás e assobiando, o bar de pau e caniço, com o bidão tombado, parecia ir cair por terra e desconjuntar-se sob as rajadas. Os dois homens estavam a assobiar, e um deles, o capitão, parecia regressar com uma alegria incontrolável. Rapidamente se chegou à beira duma vivenda e o capitão parou para retirar a mulher e colocá-la em terra. Para tanto, pegou-a ao colo, como nas caricaturas das núpcias antigas, e depois de ela haver dado uns gritos, ter esperneado e o lenço ter-se perdido, ele passou-a sobre a sebe, sem abrir o portão, e deixou-a cair, lindíssima, cheia de cabelos, na relva do jardim. Foi assim que comecei a lidar com Helena de Tróia, tal como você a revela nos Gafanhotos - esperneando num fato de caqui amarelo à caçadora, a ser depositada na relva dum jardim de vivenda.

Claro que foi nessa altura que apareceu o General. Mas o que pode essa figura fazer por si ou pelos seus relatos? Não se deveria preocupar com o General. Também não foi o Comandante da Região Aérea quem dançou com Evita no terraço, e no entanto nenhuma outra pessoa poderia ter dançado com ela tão intensamente. Quando vejo o General, agora à distância - disse Eva Lopo - penso que, tanto o Comandante da Região quanto o General, constituíam, naquele tempo e para aquele local de África, uma imagem de energias renováveis. Assim como de um outro modo o eram o hall, o terraço, o descapotável, o lodo ou as aves do lodo. Espaços irradiantes de energias renováveis. O General sobretudo, a esta distância que escurece, iluminado de repente pela sua curiosidade, constitui um espaço móvel e irradiante em deslocação através do hall. Sim, acho que foi nesse mesmo dia, no dia das cenas que lhe contei. Fui vê-lo passar. Ah, como eu estou a vê-lo passar, deixe-o ir, deixe-o passar enquanto o noivo se perfila, enquanto o noivo empalidece! Como o noivo está erecto, como o noivo sua, como o noivo move a patilha! Como o noivo é outro, cheirando a aves, patas, penas, emocionado e de perfil. Vendo o General passar.

Quando vi o General no hall, pela primeira vez - haveria de ver segunda - o General não falou, não acenou, só passou. Tinha mandado evacuar o hall, mas sem se saber como, o hall estava cheio de gente que o queria ver. O General ficou satisfeito - aquilo já se assemelhava a uma aclamação - mas teve de se mostrar íntegro e descontente. Apareceu na porta, e seguiu com vasta passada pelo hall, com o bastão na mão, perseguido pelos ajudantes-de-campo, e vários comandos, entre eles o da Região Aérea. Seguiu grave, seguiu selecto, a caminho dum compartimento fechado à chave, onde se fez o briefing de passagem. Óbvio que ninguém soube o que foi dito e escrito no briefing, mas também ninguém duvidou da intensidade do que havia sido projectado. A movimentação era geral. As melhores forças de Terra, Mar e Ar iriam convergir para Cabo Delgado, essa terra de selvagens, perto da mosquitagem do Tanganhica, o coió inóspito onde o soviete tinha encontrado o côncavo necessário para pôr o ovo. Assim, o General, atravessando o hall do Stella Maris, não era só um homem, era também um desenho, simbolizando uma potente bota cujo tacão desferia uma faísca e esmagava o ovo. Destruía o ovo. Nunca ninguém tinha aparecido com um passo tão indomável quanto o do General. A passada dum homem indomável tem mais consequências do que se pode imaginar. A energia das passadas propaga-se a uma velocidade ainda hoje desconhecida, com uma vibração também ainda por determinar. Então as mulheres, de que me aborrece lembrar os nomes, nesse dia, ficaram ainda mais tagarelas do que o habitual, e durante essa noite, houve notícia de que oficiais de reputação impecável - cujos nomes também me aborrece lembrar - tiveram de bater nas suas mulheres. Para não se falar nas crianças. Também a elas a energia do General tinha chegado de forma desusada, e uma, se não estou em erro, partiu um frasco e bebeu champô. As pessoas inteligentes e reflexivas - havia-as imaginaram, passeando pelo hall, como seria a energia dos soldados ao verem passar, entre fileiras, o corpo, o zigoma, o bastão do seu General - disse Eva Lopo. Que mais quer saber?

Ah, o noivo! Ele cobriu os ombros da noiva com os braços, depois de ver o General no hall, e voltou ao quarto a bater com o sapato esquerdo no soalho, como se fosse uma bota, e depois de entrar no quarto, começou a andar de lá para cá, entre a cómoda e a cama. Vejo o noivo de camisa aberta entre a cama e a cómoda. Ele tem um brilho nos olhos, ele muda de calçado, ele ataca as botas, ele sente que o quarto de dormir onde está não comporta o ímpeto da sua passada, abre a porta do quarto de banho, vai e vem entre a sanita e a cama, há uma espécie de carreira de tiro, no soalho, ele bate a bota esquerda, ora no mosaico ora no soalho, e subitamente o noivo pára. Pára no meio do quarto, senta-se na cama, mostra-se abatido, o noivo curva-se e põe a cabeça entre as mãos.

«Coitado do nosso General! Viste bem o nosso General? Coitado dele, coitado de todos aqueles velhotes que viste passar no hall!»

«Coitados porquê?»

«Já viste que é a última possibilidade que têm de se distinguir? Já viste que não voltam a ter outra? E viste como esse sentimento de última chance deve ser atroz?» - O noivo imaginou-se na vez deles e começou a ficar triste, a meio do quarto.

Triste, sim. Triste, porque estava a imaginar como seria atroz chegar a uma idade em que o corpo começa a abandonar o seu esplendor, sem nunca se ter tido a sorte de haver participado numa acção militar a sério, com tiros, perigo de morte, fogo real. Falando de olhos abertos postos nas botas, meditava em voz alta na injúria que o Estado fazia em privar gente de ser feliz. Lembro-me, ainda que para nada, de o ver andando de lá para cá entre a janela e a porta do exíguo quarto, lamentando os rapazes que tinham vivido no tempo em que as instituições haviam crescido lentamente, com passo de lagarta e segurança de boi, a caminho de qualquer coisa que os paisanos de então haviam tomado como radicalmente certa e definitiva. Qualquer coisa abstracta, com muita honra, muita decência, muita pobreza, que os pintores apologéticos da altura tinham traduzido por uma avenida larga, com as linhas de fuga a terminarem num chafariz donde o Sol nascia, em ordem irreprimível. A ordem - o noivo achava, triste era umapalavra de pedra que nesse tempo rescendia do chão, não precisando de ser mantida. Essa fora a pouca sorte, por exemplo, da geração de homens que naquela tarde tinham atravessado o hall, no momento em que escurecia. Eles nunca tinham tido a oportunidade de se distinguir com um disparo de pistola sequer, quanto mais com um centímetro de cicatriz semelhante à do capitão Forza Leal. A nação estava cheia de gente que nunca assistira a outra cena de combate que não fosse a dum ridículo distúrbio à porta duma taberna, dois bêbedos com dois galos na testa, dois menos bêbedos pegando os outros pelas costas. E de resto, só paz, uma dormente paz. A paz do país, no tempo do General, deveria ter parecido uma pedreira adormecida. Estava triste.

Estava triste e não parava, pensando na multidão dos rapazes portugueses traídos que haviam visto as rugas preguearem os olhos, com as armas paradas. Sobretudo depois da Segunda Guerra, num país que a não tinha tido

- o noivo lembrava, o noivo sabia História, o noivo queria que eu reparasse, que me lembrasse dos campos metropolitanos. Serras, trigais, penedias, casais a perder de vista, e em sítio nenhum a imagem de uma chaminé destruída nem de uma usina queimada, nem sequer de um buraco negro no solo para se dizer que por ali havia passado o inimigo. O que era uma terra sem a memória activa do inimigo? - perguntou o noivo. Sem a memória do seu inimigo contemporâneo, um contemporâneo é contemporâneo de quê? Se ao menos houvesse uma lápide que indicasse o local duma bomba, pelo menos ter-se-ia dado a esses homens a ilusão de que tinham alguma coisa com a Guerra, essa necessidade da Ciência, da Arte e da própria Matemática. O noivo, calçado de botas, via agora a Matemática como um sucedâneo da guerra. Estava a dizê-lo em tom veemente, indo e vindo entre a cama e os apetrechos da casa de banho, fazendo um perfeito direita-volver quando chegava junto das pias brancas. Evita encheu-se de coragem, vendo o noivo despedir-se e acenar cada vez mais longe - disse Eva Lopo.

«Quer isso dizer que nunca mais voltas à Matemática?»

«Não!» - disse o noivo. Creio que era tarde, creio que havíamos aberto as janelas que davam para um terraço de serviço, a avenida enviesada, ao fundo, e por elas entrava o vento quente e saía como entrava, gritando, mexendo os papéis e as roupas. Quando o noivo era impelido por um sentimento forte, abria as janelas. «Nunca!» - disse o noivo, como se a Matemática, de onde tinha saído por desespero, lhe parecesse, sob a atmosfera de África, um local a que havia aportado desde criança por desesperado engano.

«Mas então?»

«Descobri-me» - disse ele. «Tu não podes imaginar, Evita, como eu tenho intuição para este tipo de combate. Há um ano que ando em missão, e os melhores resultados entre as companhias são os da companhia do meu capitão, e na companhia do meu capitão, é o meu pelotão o que faz os resultados mais palpáveis». O noivo transpirava e tinha a camisa aberta, o flanco descoberto, como se acabasse de produzir um desses resultados. «Evita» - disse dobrando as pernas pelos joelhos e esfregando as mãos dela no pequeno quarto. Tinha a voz embargada. «Diz-me

- Tu achas, tu querias, tu não te importavas que eu tivesse uma cicatriz como a do meu capitão?» - A emoção dele era verdadeira, porque ao dizer isso tinha ficado rígido, sobre o joelho, no meio do pequeno quarto. Disse Eva Lopo.

Claro que você teria cometido um erro se tivesse posto o noivo no terraço, ajoelhado, a fazer essa pergunta, a manifestar esse desejo. Ainda bem que não soube e não sofreu a tentação. Ao contrário do que pensa, não teria sido nem deslumbrante nem verdadeiro, ainda que real. O alferes ter-se-ia tornado, por imitação, numa figura de inspiração cómica, o que nunca foi. É a imitação que faz andar o mundo, mas uma vez representada, logo se torna matéria para todas as comédias. Não se esqueça que era por imitação que o alferes Luís queria a cicatriz, tal como as mulheres do Stella Maris se tinham tornado tagarelas, os homens brilhantemente mais violentos tinham batido nas mulheres, as crianças, mais imaginativas, tinham sugado champô. As guerras, os heroísmos das guerras, as grandes horas de silêncio trágico, os dedos rápidos diante dos estrondos das metralhadoras têm pois a ver com coisas simples como seja a barriga dum homem a passar num hall, com o cinto colocado no derradeiro furo, o zigoma descaído, a caminho duma reunião de estratégia, ou o pio dum pássaro que um dia, perdido na memória alguém matou - disse Eva Lopo. Quer melhor matéria de comédia? Em vez de tudo isso, fez bem ter posto a dançar aquela gente repleta de encantamento, à luz invisível dos cometas.

Explico-lhe - disse ela.

O pequeno quarto estava mergulhado no escuro, mas pelo cheiro sentia-se que ia amanhecer, e adivinhava-se que lá fora as palmeiras deveriam estar quietas, como de plástico, saindo da madrugada. Uma espécie de choro começou a aproximar-se da rua de areia com mangueiras que atingia a avenida perto do Stella Maris. O noivo abriu a janela e apareceu um cortejo rebocando um morto. O grupo avançava, gemia alto, e alguém do grupo assobiava prolongado como se quisesse dizer alguma coisa mais articulada do que a voz. Era uma mulher quem assobiava e o assobio parecia o silvo dum comboio fendendo a madrugada. Seis ou sete pessoas caminhavam atrás dos que transportavam o morto e da mulher que assobiava. O morto ia envolvido em capulanas que não o sustinham completamente, e os pés dele rojavam pelo chão, e a cabeça pendia, desamparada, quando passou sob a janela. O pescoço do morto era enorme, e no fim dele baloiçava a cabeça. Mas porquê? Por que razão podiam recolher aquela cabeça e não a recolhiam? Porque podiam chamar o dumper e não o chamavam? O noivo sabia - não recolhiam nem chamavam porque o que passava não era um morto mas um assassinado por eles mesmos, como manobra de desestabilização e dissuasão em relação ao plano de Cabo Delgado - disse o noivo. Com um enorme estrondo, o noivo puxou a fita da persiana e deixou as lamelas caírem no peitoril duma só vez, sobre o acompanhamento. O quarto ficou escuro.

«Mas tu achas que eles se matam a eles mesmos?»

«Eles mesmos? Mas quais eles mesmos? Pensas que só há uma etnia de norte a sul? És doida, fervem as etnias!»

E o noivo explicou, com a persiana descida e a luz acesa, como as guerrilhas urbanas também podiam começar assim, atacando-se uns aos outros para depois atacarem quem culpassem. Era dos livros mais primários sobre luta subversiva. Havia porém quem percebesse de contra-subversão. O noivo ainda estava de licença, ainda podia dormir as manhãs descansado, mas o noivo desejou fardar-se, pôr o relógio, recomeçar o trabalho. Se tinham passado por ali com um morto mal atravessado em cima duns panos para desestabilizarem e confundirem, o efeito era oposto - pelo menos, um alferes de licença, quase licenciado em Matemática, fardava-se, movia as patilhas e partia ainda antes das sete da manhã, voluntariamente, sem que ninguém lho pedisse.

Disse Eva Lopo.

Não, não me pergunte se o alferes suspeitava dos afogados. Como referiu, os afogados não eram afogados. A princípio julgou-se isso, porque o mar trazia-os, empurrava-os para terra com a última espuma, ora até ao paredão ora até à lama do Chiveve. Mas ainda na primeira noite se soube que o desastre se devia ao álcool metílico. Só na messe havia três médicos que o diagnosticaram. Nos Gafanhotos refere que eles iriam aparecendo em cardume, de bruços, apenas com os olhos fechados. Seria uma bela morte, uma morte inteira e unida que não existe senão como desejo. Na realidade, os que vieram por mar, apareceram inchados e batidos pelas águas até delirem os membros. Nuvens de mosquitos os cortejavam como se fossem peixe apodrecido. Zumbiam em redor com o mesmo fragor e não era agradável ver, não por nada, apenas porque tudo isso acontece normalmente no segredo da terra. Mas logo começaram a cair em qualquer parte da cidade, de forma pouco metódica - um, seis, três por noite. Não, não se sabia pelos noticiários mas pelos mainatos. Os noticiários omitiam e a maior parte das mulheres que falavam no terraço concordava com a omissão. Era uma questão de justiça - se se omitia a morte e o sofrimento dos soldados portugueses atingidos em combate, por que razão se haveria de alarmar as pessoas mais sensíveis com a notícia da morte voluntária de uns negros ávidos de álcool? Se morriam, morriam. O dumper os levava da vista, as palmeiras continuavam agitando ao vento as folhas, muito mais flexíveis e perenes do que as vidas.

 

Um dos pontos comoventes dos Gafanhotos é sem dúvida a cicatriz do capitão. Como percebeu tão bem a fosforescência dessa marca do capitão? Sim, cheguei a vê-la. Já a tinha avistado sob as camisas que ele usava mais transparentes do que ninguém, e obviamente que essa costura não me era indiferente - disse Eva Lopo. Claro que me seduzia o seu significado embora não me deixasse de seduzir o exagero da sua forma. Quanto ao significado, porém, eu e o noivo divergíamos como duas margens. O significado que ele lhe atribuía era tão amplo que eu tinha desistido de o abarcar. O significado que eu lhe dava condensava-se num curto pensamento - quando o capitão passava com a camisa transparente, eu imaginava estar a ver o último homem do século que se revisse na sua cicatriz. Hoje, como sabe, ou pela cirurgia plástica que recose e refaz, ou pela ameaça das coisas nucleares espalhadas por esse mundo, que descosem e desfazem logo tudo duma vez por todas, transportar uma cicatriz não constitui nenhum distintivo precioso. A cicatriz foi uma bela marca enquanto se lutou com uma arma de lâmina, de que as balas acabaram por ser o sucedâneo projéctil, e esteve por isso na base de grandes duelos, profundas admirações, redundantes amores. Depois, a meio do século, caiu. Até sem explicação, caiu. Como caiu o chapéu, o suspensório, o cinto-ligas. Assim desapareceu o significado das cicatrizes de guerra que se confundem completamente com os sinistros da estrada. Mas há vinte anos, nas colónias de África, ainda se admiravam as cicatrizes, e Forza Leal fazia bem em ter no guarda-fato meia dúzia de camisas transparentes. O último homem de qualquer coisa passava, com uma dessas camisas, e sentava-se no terraço ao lado da sua mulher, nesses primeiros dias de África. Mas é preciso entender o que significava para o noivo.

O noivo voltava tarde, fardado, demorava a desfardar-se assobiando no grande quarto de banho, e por fim atingia o terraço já cheio de escuridade e de gente. Pela cidade as luzes acendiam frouxas, como num subúrbio. Os telhados e as varandas emergiam na penumbra esverdeada das árvores ralas onde a lua entrava quando havia lua. Fosse qual fosse o subterfúgio que usasse, o noivo acabava por deixar à vista a preocupação definitiva.

«Estás a ver as casas dos civis?» ;

«Claro!

«E pensas que os civis são nossos aliados?

«Que remédio!»

«Enganas-te - são nossos detractores. Para além de nos invejarem».

«E o que invejam?»

«A nossa independência, a nossa sobriedade, o nosso espírito de corpo, as nossas distinções, até as nossas cicatrizes» - O noivo escorropichava um líquido. «A cicatriz do meu capitão». Acabava aquele copo de refrigerante, pedia outro. «Nunca te falei de como ele ganhou aquela cicatriz? Sim, já te falei, já te disse que foi perto de Caboiana».

Claro que havia contado, mas o noivo tinha várias formas de descrever a mesma versão, porque nunca havia duas versões diferentes. Umas vezes contudo condensava até ao essencial, outras alargava como se tivesse estado presente, tivesse visto e tivesse participado. Não, o noivo não tinha participado porque tinha sido muito antes do encontro do noivo com Forza Leal. Mas o noivo sabia de tudo, como, por onde e por que razão. O noivo parecia ter viajado com o capitão, ter sido a roupa, o bafo ou o pensamento do próprio capitão. O noivo sabia que o seu capitão havia sido ferido ao som duma Kalashnikov quando atravessava o charco duma bolanha imensa, perto de Caboiana, três anos atrás, na Guiné. Ele seguia então em homem-primeiro, depois da exaustão duma travessia através dum lodo imenso, literalmente cor de esterco. Um esterco que tinha marés como o mar. Havia sido através dum renque de vegetação também dessa cor que o tiro da Kalashnikov tinha soado. Quando o capitão, então tenente, se tinha virado para se proteger lá na bolanha, já a bala lhe havia atravessado o corpo - o noivo conhecia o instante.

Já o tinha atravessado porque a bala havia entrado no peito do capitão com um furo mínimo, por entre duas costelas da frente, e fora sair entre duas de trás, através duma ferida do tamanho duma mão aberta. Entre a entrada e a saída da bala da Kalashnikov, se tinha jogado, durante vários meses, a vida do capitão. Uma pequena agulha presa a um mostrador ficara a oscilar como uma gadanha de cabo comprido por cima da cabeça dele. O capitão guardava várias fotografias em que aparecia de cara completamente devastada. Ah, se Evita visse as fotografias! Tinha sido durante esse tempo que o Comandante da Região havia mandado lavrar um louvor em que propunha ao tenente exangue o equivalente à medalha mais alta do agraciamento público. Havia razões - não só o capitão tinha avançado pela bolanha em homem-primeiro quando podia não ser, não só porque carregava às costas o transmissor que o radiotelegrafista já não conseguia fazer flutuar, com o peso da lama, como ainda pelo facto de ter dito, antes de tombar, ai o objectivo, ai o objectivo. O objectivo fora um paiol escondido entre sarças e palmeiras, do outro lado da maré da bolanha, em Caboiana. Cachos de minúsculas moscas faziam fila para entrar nos olhos dos combatentes, e o tiro atingira-o no momento da suprema coragem. Muitos invejosos - tinha havido invejosos - haviam dito que o Comandante da Região propusera o galardão, numa tarde em que tinha havido notícia de que a infecção persistente indicava que o tenente Forza não voltaria a ver a quadratura duma parada. E não seria preciso adivinhar muito para se saber que no mesmo dia, à sombra dumas escassas cervejas quentes, vários haviam sonhado alto com a voz do funeral-arma, e o tenente Forza Leal descendo no caixão de chumbo. No entanto, se o Comandante só tinha proposto a condecoração para acalmar as contas do Império com um moribundo que continuava ainda em cima do lençol a dizer o objectivo, o objectivo, saíra-lhe o tiro pela culatra, e por certo que havia passado várias noites sem dormir. O corpo do capitão tinha começado a travar uma luta vigorosa com a terra, quando já se ouviam as pazadas, e decorridos seis meses, o pulmão decepado do capitão do noivo realojara-se atrás dos outros órgãos com a velocidade dum espírito. Fora desse modo que ele havia ganho a cicatriz. A cicatriz lilás, que abria no peito, dava a volta ao flanco, para terminar a meio das costas.

Não inventava - praticamente toda a gente do Stella Maris sabia, mas o noivo vivia com outra emoção esses factos, por certo contados pelo capitão, em locais onde não havia nada para fazer, nem ver, e restava contar. Não o disse explicitamente, mas era para que visse a cicatriz que íamos à praia defronte da casa de Jaime Forza Leal. Levou-me a ver a cicatriz como se mostra uma paisagem, um recanto, se vai até um miradoiro para tirar uma fotografia. «Vês ali?» - disse ele.

Vejo. Pela beira do mar anda o capitão e anda Helena. Helena é uma bela mulher, mas a cicatriz de Forza é mais. Falamos disso, a opinião é do noivo. O noivo pergunta se não tem razão. Dou-lha toda. Contente, pede-me que me imagine alferes, que me imagine soldado, combatente, que me imagine às ordens do capitão. É difícil imaginar. Mas ele pede, tem o cabelo molhado, colado à cabeça, e as patilhas espetam muito, põem-lhe as maçãs do rosto salientes como pêras. Não é mais a pessoa com quem fiz namoro, a primeira pessoa com quem me deitei na carruagem do comboio, atravessando uma planície com lua. Era Primavera, brilhavam uns pedaços de serra ao fundo. Ele viajava com uma pastinha cheia de notas sobre as equações de grau superior. A pastinha escorregou sobre nós, caída da bagageira nos solavancos da carruagem, abriu, espalhou as equações. O noivo suspendeu o impulso que o arremetia sobre o vestido de Evita, na nesga de luar que o pano do janelim fazia entrar. «A pasta?» - disse ele. «Onde está a pasta?» E o noivo havia suspendido, o noivo havia apanhado os papéis um a um, acertado a sequência dos cálculos, fechado a pasta, pedido a Evita que deitasse a cabeça não só sobre o pulôver dele, mas também sobre os cálculos. Evita deitou. «Imagina se eu os perdesse!» - o Luís sopesava, demorava a regressar ao corpo, pensando nessa hipótese remota de se perderem cálculos. Só regressou quando a Lua se punha, já não se via nenhuma falda de serra, era só planície, o comboio apitava estafado, tinha de ser agora porque podia amanhecer, o revisor podia vir. Só então o alvoroço, os beijos, o contrato com a natureza. Lembrava-se de a mão dele, durante o selo com a natureza, se dividir e partilhar entre o cabelo de Evita e a pasta dos cálculos, tactear tanto uma como outra com o mesmo despudor. «Não foge» - tinha-lhe dito. A pasta não fugia, ela era uma ligação, a mais poderosa, ela continha um animal que balia entre folhas escritas de incógnitas, chamando para o mesmo ponto ignorado do Universo, aquele mesmo ponto para onde o inquieto carneiro balia nessa madrugada sem sossego. Seus pobres cornos contra uma dimensão que desconhecia. Para aí mesmo íamos nós, e a pasta nos ligava como uma prancha - Agora não é mais ele. Não vale a pena fingir. Como posso apalpar nele a figura que Evita quis? Não és mais a pessoa com quem fiz namoro, e muito mais do que namoro, amor até esgotar, à socapa das imensas velhas que guardavam o pudor da nossa geração com uma faca do tamanho duma catana. Não és mais o mesmo. Ele diz-me exactamente o mesmo. Estamos deitados lado a lado na areia, mas a cicatriz do capitão separa-nos, nesse dia de praia, apesar do fascínio que exerce como coisa derradeira. Como um hall se liga a um General, uma banheira se liga a um noivo, nunca se sabe o que desune um casal moço, deitado na areia.

Sim, eles dois eram menos moços, mas mais unidos. Tinham um bote a motor que Forza aproximava da beira. Helena não sabia nadar, mas agitava-se na água e acenava quando o via. Ele vinha em direcção a ela, ela avançava até atingir a água pelo nível dos ombros, e ele em cima do bote. Roncava o bote, era como se a viesse buscar, e depois passava em tangente e atingia o largo. Ficava de costas. Ela gritava - «Jaime, Jaime, estou aqui!» De novo ele fazia a curva, traçava a tangente, ela saltava, uma onda pequena bastava para a engolir, ela de braços esticados, gritando aqui, aqui, ele se ia de novo, o motor resfolegava na água a uns metros. Não chegava a fazê-la entrar. Regressava no bote, chamava-a para ela puxar o bote. Ela corria à beira, empurrava o bote para fora, saltava e compunha o cabelo, como se naquela simulação de vai não vai no pequeno barco existisse um divertimento exaltante. Era uma bela mulher, despida lembrava um pombo, como outras lembram uma rã e outras uma baleia. Não era só a voz que lembrava um pombo, a chamar pelo barco, mas era também a perna, o seio, alguma coisa estava espalhada por ela que pertencia à família das columbinas. Talvez o cabelo vermelho, talvez a pele leitosa. Os dois, ele e ela triunfantes, entendidos. A união deles era um triunfo. Ele com o bote, com ela e com a praia junto à casa, a cicatriz, era a perfeição do triunfo na vida. Essa sensação, por mais ingredientes desusados que tivesse, era tão forte que se transmitia a todos os elementos circundantes. A areia onde estávamos deitados até ela mesma seria uma emanação desse triunfo se o noivo não estivesse nostálgico vendo aquela alegria. Talvez Evita fosse injusta e o noivo mantivesse a mesma sede de resolução das coisas inextrincáveis, como antigamente tinha com as várias incógnitas e com o cálculo infinitesimal. Para quem tem a sede de infinito, é possível que tanto se comova com a dispersão das galáxias como com a rigidez do mármore. Helena deveria despertar no noivo, com aquela voz de pomba, a imagem do feminino absoluto, e daí até ao amuo com a sua realidade onde estava eu, Evita, ia um passo - disse Eva Lopo. O noivo não ria nem para mim nem para o mar, só conseguia rir para o capitão. O noivo pegou no bote, amarrou o bote, ficámos na praia amarrando tudo isso, para que eles pudessem ir sós até à entrada de casa. Ele adiante com a toalha ao ombro, em grandes passadas, ela mais atrás, com um saco. Ela sentou-se na areia para calçar as sandálias, ele já ia no alto dum pequeno morro. Virou-se, assobiou por ela com o tal assobio tremido, de ordem e chamamento. Ela pegou no saco e correu, escorregando e caindo. Aproximou-se da estrada e dele também. A união deles não se revestia do modelo que Evita havia colhido nas salas de cinema de Lisboa com imensa fita francesa, com casais cheios de distúrbio, e no entanto, surpreendentemente, Helena e Forza tinham uma alegria doméstica triunfante, tudo neles triunfava como um arco erigido à porta duma casa. Entraram pela portinha de ferro, os mainatos vieram, Helena acenou da porta com o cabelo molhado, a fieira dos dentes luziu e pareceu, na atmosfera do meio-dia, um reclame ao elixir estival da felicidade. Entraram na porta de casa, fecharam-na, no ar havia harmonia - como um pêndulo bom vai, vem, promete. Lembro-me.

Prefere a harmonia? Eu também, é por isso que tanto estimo a paz que se respira na noite dos Gafanhotos. Em relação ao que estava dizendo, aqui a tem - Nessa tarde mesmo encontrámo-nos na Marisqueira. Até aí só nos tínhamos visto e agido em comum, mas ainda não tínhamos falado. O capitão levava a camisa mais transparente que sempre lhe vi. Também o noivo e o capitão se entendiam perfeitamente no acto de escolher os mariscos. A Marisqueira àquela hora abarrotava de gente que falava e ria, e para se passar por entre as mesas era preciso encolher a barriga sob o perigo de se espalharem as cascas. Helena sentou-se na minha frente, mas era difícil entabular uma conversa. As palavras eram simples, contudo, ao chegarem ao meio da mesa, pareciam ter pé e murchavam. Alguma coisa nos dispersava a partir do meio da mesa sem intenção premeditada de ninguém. Mas não receie, logo veio a harmonia. O capitão evocou as noites do mato, a luta contra as formigas, as abelhas assassinas que caíam em enxame sobre a pessoa ao passar, a morte dum excelente homem sob as abelhas. Evocou casos menos tristes, respostas interessantes via rádio, desencontros, mas mesmo quando o capitão falava de questões mortais, conseguia falar do seu remate como de peripécias com final feliz. Então eu lembrei-me de perguntar se era sempre assim, se afinal não havia confrontos reais, entre pessoas e pessoas, se não morria gente. Se não havia afinal um massacre inútil. Claro que eu poderia ter perguntado outra coisa, como seria, por exemplo, o rugido do leão na savana, a altura das árvores. Só para perguntar, para dizer alguma coisa no interior da Marisqueira. Estava longe de min a intenção de provocar desarmonia. Eu, então conhecida por Evita, o nome de som mais frágil de que há memória, procurar perturbação, a primeira vez que me sentava com o noivo e o seu capitão? De modo nenhum - disse Eva Lopo. Mas o capitão olhou para o lado como se atingido por uma grande surpresa.

«Luís Alex, você tem de tirar a mulher daquele vespeiro» - disse Forza. E virando-se para mim - «Aposto que você já deu ouvidos ao que se diz lá no vespeiro do Stella Marisl»

O noivo parecia ter ficado perdido. «O que disse ela?»

- perguntou o noivo.

«Você deveria perguntar mas é como são os sul-africanos em combate. Esses sim, desses é que você deveria querer saber. Saberia o que é um verdadeiro conceito de combate. Pergunte ao seu marido e não a mim como fazem os loirinhos que nos ajudam! Pergunte aqui ao seu marido!»

O noivo ria.

«Esses sim, aquilo é que é sempre a matar. E que matar! Vê-se mesmo que vêm duma outra raça, muito mais pragmática, muito mais metódica, muito mais bife...» disse o capitão.

O capitão comia pernas de marisco que Helena partia com turquês. O noivo anuía ao sentimento que movia o capitão. Estavam ambos de acordo que havia gente muito mais eficaz em combate do que aquele que era praticado por eles mesmos em Cabo Delgado. Helena, a bela Helena, também parecia estar de acordo, todos tínhamos de estar de acordo em relação a isso. Aliás, estávamos todos de acordo também em que o vento nos perseguia quando nos encontrávamos. Olhámos para fora da Marisqueira e de facto, olhando mesmo distraidamente, todos deveríamos encontrar o vento a bater, os toldos a voar, a areia fugindo. Era forçoso que olhássemos os quatro na mesma direcção, mas sem dúvida que nenhum de nós via o mesmo vento a bater, os mesmos toldos a voar, a mesma areia escorregando e fugindo. O cálculo infinitesimal - era impossível Luís Ferreira Alexandre ter esquecido também todo o cálculo infinitesimal - teria de condicionar a imagem dum número finito de grãos, na poeira que se levantava além do toldo. Ainda que fosse uma nuvem incontável e finita, para nada, absolutamente para nada, se levantava e caía, e o noivo sabia-o. Nem eu me lembraria dela, se através da nuvem de poeira o toldo não se tivesse rasgado, e se o proprietário não tivesse saído, completamente desgraçado. Ou se, ao regressar à sua loja, o homem da Marisqueira não se tivesse vindo carpir junto do capitão. A vida estava ruim, o vento, o clima, o marisco, as pessoas, os criados. Disse o marisqueiro.

Oh, os criados, os filhos da mãe dos criados! Todos queriam trabalhar na Marisqueira para escorropicharem os copos. Apanhavam com cada piela escorropichando o resto dos copos! Mas naquela noite, dois tinham rebentado. «Além» - o marisqueiro indicava com a mão, e era de facto logo ali. O marisqueiro não sabia, mas achava que, insatisfeitos com o escorropichadoiro dos copos, tinham ido beber a mistela que haviam roubado no porto. Era doloroso para um industrial, que havia encomendado trinta barris de metanol, saber que andavam a escorrer agora pela goela de negros que os tinham pilhado. O marisqueiro era solidário com todas as pessoas pilhadas, ofendidas e hostilizadas - «Dê-lhes, meu capitão, dê-lhes lá no Norte, casque-lhes bem!» O capitão não respondeu, mas a sua sombra, Luís Alex, o noivo.

«A gente faz o que pode, senhor marisqueiro».

Eles comiam e amontoavam as cascas sobre os pratos, contudo, por vezes, as cascas caíam e Helena apanhava e compunha, como se estivesse ali sobretudo para desempenhar esse papel e sentisse felicidade nesses gestos. Era ela quem chegava os pratos e zelava por que não se perdesse a turquês entre as cascas. De vez em quando, Helena ficava ausente de todas aquelas conversas entrecortadas do capitão com o noivo. Parecia-me uma pessoa que tivesse entrado na Marisqueira por engano. Por entre o barulho que fazia dentro e fora, perguntei-lhe - «Sabe o que significa o seu nome?»

Helena de Tróia começou a rir - «Não, não sei.»

«Nunca lhe disseram Haec Helena!»

«Não, nunca» - disse ela com pestanas inocentes a baterem ao longo dos olhos, afastada agora dos crustáceos e da turquês que lhes quebravam tão bem as eriçadas patas. Quis que Helena soubesse.

«Dizer Haec Helena é o mesmo que dizer eis a causa do conflito - gosta?»

O capitão lavava nesse tempo os dedos numa galheta de água e afastava com o dedo mínimo os pedaços de limão. Ficou a olhar para Evita, como quem olha de longe para uma pessoa que reconhece. «O que quer isso dizer?» - perguntou o herói. Depois, incompreensivelmente, secou os dedos no pano enrodilhado e atirou o pano para o meio das cascas. «Gosto de si, acho que você pode ir lá a casa para passarem umas tardes juntas, falarem das vossas coisas». Como começou, terminou, empurrando a mesa, saindo da mesa e Helena a sair depois dele. Havia nessas saídas de mesa, por entre as pessoas que enchiam a Marisqueira, imensa harmonia. Já à porta, como se Helena não existisse, pôs-se a olhar a areia do ar. «Porra que parece a Austrália!» - disse o herói. Sim, disse, mas poderia ter dito outra coisa oposta, poderia até ter falado de Rommel, ou de Napoleão no Egipto, ou recuar até César em Tapsos, como poderia ter dado um bocejo ou um estrondoso suspiro, que tudo seria igual, tudo seria esquecido, nada valeria o mais leve risco do seu lápis sobre um papel intacto, se quissesse retirar dessa tardezinha de harmonia doméstica, numa marisqueira em África, uma conclusão. Não por ele, nem por si, nem por mim, mas apenas porque a memória é uma fraude para iludir o olvido cor de pó. Porque insiste em agitar a matéria real de que são feitos os heróis? Prefiro o seu relato onde a harmonia rescende do que é necessariamente passageiro - disse Eva Lopo.

Não, as pessoas não falavam com ímpeto arrebatado e nem punham à vista umas das outras o sentimento de confiança que possuíam - tinham-no discretamente, e em vez de o traduzirem de forma clara como lhe conto, faziam contas pacatas, quase à socapa. Forza Leal, por exemplo, abraçou Helena pelo pescoço e disse que quando viesse contava fazer-lhe um filho macho, íamos passando pelo porto entre pilhas de madeira lingada que vinham do hinterland desembocar ali para exportação. O capitão nunca disse que queria voltar mais herói do que iria partir - isso seria tão desusado dizer como utilizar quasi, quão ou vitupério, mas era exactamente nesse regresso que deveria estar a pensar quando abriu os braços diante da água encardida do porto, cheia de sombras de guindastes.

«Isto vai ser o maior entreposto de madeira de África, você vai ver, Luís!»

O alferes que caminhava atrás com Evita pelo pescoço, tal como o capitão caminhava com Helena, achou que nem só isso. «E a pesca? Quando houver uma independência branca, capitão, isto vai ser o fim. Isto vai ser a maior exportadora de lagosta do Mundo!Helena caminhava adiante, pelo braço do capitão. Por vezes o capitão levava-a mesmo à beira de água e curvava o braço de tal modo em feitio de alavanca, em torno do pescoço dela, que a fazia guinchar. Só quando ela se debatia à beira da água suja, o capitão a largava. Era já um filho macho que se fazia sem palavra.

Percebia também que ninguém falava em guerra com seriedade. O que havia ao Norte era uma revolta e a resposta que se dava era uma contra-revolta. Ou menos do que isso - o que havia era banditismo, e a repressão do banditismo chamava-se contra-subversão. Não guerra. Por isso mesmo, cada operação se chamava uma guerra, cada acção dessa operação era outra guerra, e do mesmo modo se entendia, em terra livre, o posto médico, a manutenção, a gerência duma messe, como várias guerras. As próprias mulheres ficavam com sua guerra, que era a gravidez, a amamentação, algum pequeno emprego pelas horas da fresca. Uma loja de indiano e de chinês era uma guerra. «Como vai aqui a sua guerra?» - já tinha o noivo perguntado a um paquistanês que vendia pilhas eléctricas de mistura com galochas e canela. A meio do passeio que se fazia pelo porto, Forza Leal ainda disse - «Aqui a Helena é muito caseira. A sua mulher, ó Luís, é que lhe pode ir lá ajudar a passar a guerra...» A desvalorização da palavra correspondia a uma atitude mental extremamente sábia e de intenso disfarce. Porque um navio enorme, naquela tarde da Marisqueira, estava engolindo uma fila interminável de soldados verdes, que partiam em direcção ao Norte, e que desacostou do cais sem um gemido, sem um apito, e se fez ao largo com a serenidade dum pedaço de gelo que se desprende e vai, foi o Luís quem disse - «Lá vão eles para a nossa guerra!» Aí, ainda eu pensei que a palavra pudesse ter sido momentaneamente sustida no seu sentido inicial, uma vez que os soldados não tinham ninguém que se despedisse deles naquele cais aberto cheio de madeira lingada, e no entanto, muitos tinham tirado lenços brancos e acenavam ao porto e à terra que deixavam. Viam-se os braços dos soldados verdes acenando. Alguns tinham tirado os barretes castanhos e também acenavam com eles, enquanto o navio largava sem sussurro, dava uma volta e começava a diminuir intensamente. Os lenços cada vez mais pequenos acenando, desfraldados diante de ninguém e de nada, lembravam-me a partida de todas as vidas desprendendo-se do seu último cais, sem hipótese de regresso, a caminho do absurdo do fim. Não era aquele um sentimento de guerra?

Mas não durou muito esse sentido suspenso da palavra guerra - o capitão tinha quatro bilhetes para um filme muito bom que dizia muito mal da Rússia, a despeito da beleza da neve que caía sobre tróicas. Então procurámos os lavabos antes da sessão das nove, e o Luís pediu dinheiro trocado para pagar à menina dos mictórios que não recebia nada pela sua guerra.

Para que você saiba - sempre que falar de guerra, estes dois sons, carregados de pedradas germânicas, têm vários sentidos - um deles encapotado na sua desvalorização intermédia e depois absoluta. Um outro tem a ver com a compreensão do capitão pela sua bonita mulher que nunca ninguém soube onde fora achada. Um terceiro liga-se a momentos genuínos, em que ninguém pronunciava a palavra guerra, embora uma leve alusão pudesse suscitar um significado superior de sacrifício definitivo que as criancinhas, mesmo elas, se não compreendiam suspeitavam disse Eva Lopo. Lembro-me da preparação e uso a palavra nos vários sentidos. O sentido de guerra colonial não é pois de ninguém, é só nosso.

O hall prepara-se. As crianças correm com uma excitação enorme porque elas - até elas - sabem que os pais vão partir e que a guerra vai terminar. É a última vez que vão, elas serão testemunhas e terão imenso para contar. Quando forem velhas, e os dentes caírem pela última vez, definitiva, ainda as crianças hão-de recordar aquele movimento onde já não passa o General que está a entrar agora num hall em Porto Amélia, mas onde não deixa de passar. Ele está passando, está a chamar, todos têm confiança no que está dentro da cabeça desse homem, mesmo as crianças descuidadas, captando, como ninguém mais capta, a euforia secreta desse momento decisivo. No Stella Maris as crianças são divinas. Eu gosto delas. Estão tão inocentes quanto as pedras perante o saber, ainda que algumas já tenham sido levadas à confissão, nas sextas-feiras primeiras de cada mês. Mesmo essas falam disso com olhos inocentes quando se aproximam. Deitam a língua de fora, entortam os olhos, empurram-se umas às outras com uma disponibilidade total. Ainda não estão tocadas pelo conhecimento que o demónio dá. Amo-as assim, como se o demónio que nessa altura está em mim, Evita, se excitasse mais com a proximidade das suas bochechas. Algumas passam as bochechas pela minha mão. Não me lembro do nome duma delas sequer. Juvénia, Berta, Arlindo, talvez. A esta hora já cresceram, já copularam, já deram filhos inocentes e já participaram há muito do conhecimento que o demónio vermelho e retorcido dá. Gosto delas mas não tenho piedade delas, sei que são um estádio transitório. A criança não existe, é a sombra dum retrato, toda a legislação feita sobre a criança é um atentado à sombra e ao retrato. Não sei porque me lembro delas. Ah, sim - pela excitação magnífica do hall antes da partida secreta para Cabo Delgado, e a certeza de que elas haveriam de mandar para a terra das palavras imundas os actos heróicos de seus pais, se um dia, antes de perderem os dentes, se lembrarem, a um pôr de sol chuvoso, dessa partida triunfal.

Acho que pensava nisso e só por isso me sentava junto das crianças.

«Vê-se, Evita, que você adora crianças. Vê-se que vai ter muitas» - disse uma das raparigas que passava a cabeça a ferro. Estava grávida e sentava-se no hall com seu feto enorme poisado nos joelhos. O noivo estreitou-me as mãos.

Também ele se quis exprimir - «Gosto de te ver entre crianças. Fico em paz». E fez um pacífico silêncio, fumando no hall.

Mas o noivo encarou-me - «Ouve, agrada-te ficar aqui, nesta messe, neste acampamento de ciganos sem burro?»

«Sim».

«Não preferias ficar numa casa perto da casa do nosso capitão?»

«Não».

«Porque não?»

Porque a ideia de ficar sozinha numa casa em África, a lutar contra os mosquitos, as baratas, as aranhas, as paredes, provocava-me um arrepio involuntário.

«Vem, não perdemos nada, vamos ver a casa» - Helena de Tróia e o capitão possuíam a chave, e levaram-nos a uma casa extremamente perto das dunas com canavial. A casa parecia intacta e era quase sumptuosa. As traseiras davam para o mar. Entre o mar e casa havia uns pinheiros, e agarrado a um deles, também existia um bote a motor. Abriram a porta - no hall havia sapatos, canas de pesca, recados, como se os donos tivessem saído para tomarem limonada e estivessem de volta. Ouvia-se-lhes o bafo, de volta. Na sala havia quadros, estantes, cadeiras estofadas, as coisas naturais do repouso, e vários quartos. Sobre a maior cama, no meio dos quartos, uma gravura oitocentista dizendo em helvético dourado - Lês Plaisirs de Ia Pêche. A cozinha completa, os quartos de banho com toalhas penduradas à espera de mãos. Aquilo não era uma oferta, era um pedido. Pediam-me que ocupasse aquela cama, aquela sala, aquela cozinha, aquelas toalhas. O capitão foi directo.

«Fugiram, foram-se embora. Sonhavam noite sim noite não que iam ser degolados. Tinham um problema psíquico, entendeu? Eram chanfrados. Num dia de acesso furioso, compraram bilhetes como se fossem de férias e rasparam-se. E esta? Puseram-se na alheta. Não vão voltar. Mas os gajos até pagam a manutenção - têm aí dois mainatos pagos, você só teria de estar aqui, ocupar isto sem dar com a língua nos dentes».

Havia de facto dois mainatos sentados na sebe, segurando o queixo com a mão. Pensava nos proprietários. Porque não tinham os proprietários feito baús de porão, e não tinham regressado como se deveria regressar, explicando o motivo? Dois mainatos, relva, o mar a bater, o bote a motor. Não, Evita não desejava experimentar aquele recinto quase sumptuoso. No portão, uma placa de metal dizia em caracteres iridescentes - CAVE CANES. Deviam ter tido imensos mastins, pelas argolas das correntes ainda penduradas. Não tinham, contudo, sido suficientes para amparar os pesadelos lilases dos donos daquela casa. O capitão disse ao noivo - «Com jeito vai». O alferes procurou o jeito junto duma janela. Ainda não tinha esquecido tudo do tempo das equações, ainda se lembrava do meu apego pelas planícies e pelo mar. Da janela da cozinha via-se o mar movendo-se, mais longe do que no Stella, mas em contrapartida com outra solidão. Era impossível. Não me interessava experimentar o dorso dos homens que riam cheios de dentes brancos, sentados na sebe do jardim que se deflagrava apesar de tudo. Era uma prova de força que não me inspirava nem me atraía. Não me dizia respeito. Não me via a gritar da porta pelas torneiras, pelas compras, pelas relvas. O capitão desesperou - «Irra, que a sua mulher é de força!» Enquanto esperava que o alferes me tocasse com qualquer argumento, Forza vasculhou as garrafas, mas Helena apontou para duas Old Parr que estavam sobre a mesa central, poisadas com copos e balde para gelo. A um gesto de Forza, Helena baixou-se e começou a servir whisky que o capitão bebia puro. Helena foi para a cozinha ver se encontrava algum gelo. Os copos estavam servidos. Então o capitão levou o seu à boca antes de chegar o gelo e cuspiu - «Que mistela é esta, ó Luís? Prove isto aqui!» O noivo provou e cuspiu.

O noivo encarou o capitão de frente, saboreando primeiro e depois cheirando - «Isto é daquela mistela, meu capitão!»

«Quem é que você acha que pôs?» «E eu sei?»

O capitão rolhou as garrafas - «Oiça aqui, isto não nos diz respeito. Não vimos nada, não provámos nada».

Helena de Tróia não deixava de olhar para as pequenas garrafas. O capitão insistia ao sair - «Isto não nos diz respeito, isto não é a nossa guerra, está a ouvir, ó Luís? Nada de se meter numa guerra onde não é chamado. Você agora só tem uma guerra que é lá em Cabo Delgado. Quanto a isto só há uma coisa a fazer - bico calado e mais nada». E o capitão deu várias voltas àquelas imensas chaves que tiniam.

Então o noivo disse-me já no interior do pequeno quarto do tabique - «Dentro de três dias saio para o mato com os meus homens e o meu capitão».

O noivo estava recostado na cama e tinha posto os pés à americana sobre a cómoda. «Parto dentro de três dias, bem sabes para onde, mas antes tenho de acertar uma coisa muito importante contigo».

O noivo tinha posto os olhos nas pontas das botas. «O que serias capaz de fazer por mim?» O tom daquela pergunta prometia um diálogo definitivo - continha um anzol como na pesca. Disse-lhe que por ele eu faria o razoável.

«O que é isso?» - perguntou ele. «O que é o razoável?» Era muito difícil assim, em matéria tão vaga, explicar o que era o razoável. Então ele foi prático de vez e disse o que pretendia. Começou por ser amplo e universal como a premissa dum teorema - «Escuta, não é só importante ser - é também importante parecer». Até aí eu compreendia, ainda que pensasse que a aparência derivava naturalmente do ser. «Não!» - disse ele. «Essa ideia leva as pessoas a tomarem atitudes frouxas, confiadas na sua integridade! Ora os maldosos espreitam as pequenas brechas por onde a integridade descuidada deixa pequenas brechas».

Disse-lhe que não, que a atitude de vigilância da pessoa sobre si mesma era tão desonesta como uma castração e equivalia a uma desconfiança da pessoa sobre si, a um conhecimento de fragilidade. Disse que só os frágeis se autopuniam desse modo. «Não!» - disse o noivo. «Essa é a mentalidade dos devassos, e é aí que eu acho que tens de recuar!» Era digno de ser fixado o que o noivo dizia sobre a devassidão teórica de que me acusava. Possivelmente, o noivo nunca teria tido um espírito matemático, e tão só um conflito com o rigor verdadeiro. Talvez fosse o oposto do que eu pensava. Talvez ele outrora se embrenhasse na escala dos problemas cada vez mais complexos, apenas por desconfiar da simplicidade.

«Pelo contrário» - disse o noivo. «Isto é uma luta contra o complexo à procura da unidade». Podia ter pensado outra coisa distinta, mas pensei nesta - no facto de ele já ter atingido a unidade na síntese do tiro.

«Dizes bem, o tiro!» - saltou o noivo retirando os pés da cómoda. «O tiro é a síntese da História. O nuclear já é a morte da História». E claro que também o noivo poderia ter dito exactamente o oposto, e ter até defendido o nuclear como o tiro absoluto, último, definitivo e completo, o tiro dos tiros, a beleza final. Mas o noivo que atirava contra macondes amedrontados, de matacanha nas unhas, dentes afiados à pedrada, como no tempo anterior ao do ferro e do arado, tinha naturalmente visões recuadas para a sua época. Eu podia ter dito outra coisa, mas para já tinha de dizer alguma, e disse que afinal ele havia começado por querer formular um pedido, e tinha acabado por me ameaçar com um tiro. Oh, como Evita era cínica, como sabia que ele não a ameaçava com um tiro! - disse Eva Lopo.

Ele gritou no meio do quarto - «Irra que a minha mulher é de força!»

Evita não podia deixar de rir. Como deixaria? Pobres daqueles que, tendo vocação para imitarem alguém, nunca encontraram o modelo na vida. Pensar nessa orfandade é quase tão pungente quanto pensar na orfandade real. Talvez o noivo tivesse escolhido bem - o que teria sido do alferes se tivesse ficado a imitar a harmonia dos números, a braços com uma mimese tão impossível de alcançar! Pensar nisso criava um peso. Era um peso palpável atravessado pelo rumor pegajoso do mar. Mas não podia deixar de rir, mesmo assim, porque o noivo estava a imitar as frases do

capitão. Obviamente que a cada gargalhada as pontas

opostas do barco, onde cada um de nós se sentava, mais se afastavam, e esticavam e esticavam até o casco ameaçar

rebentar e partir. Não partiu - disse Eva Lopo.

Não, não partiu. Não partiu porque do lado de lá do tabique alguém começou aos gritos e aos murros com o tabique, exigindo silêncio. Alguém histérico, com certeza, alguém que precisava bater e esmurrar alguma coisa antes de adormecer. Esse exagero despropositado acabou por unir as pontas do barco que nos levava. Unia-nos contra os murros do tabique. O noivo queria ir lá fora, sair do quarto, bater na porta do outro quarto, partir a cara a quem tinha esmurrado o tabique. Era magnífica a patilha do noivo, indo e vindo, enquanto ameaçava. Segurei-lhe na manga, ele não foi, tudo ficou como se o noivo tivesse acatado o pedido de silêncio feito a murro do outro lado de lá, mas era diferente, porque ficámos em silêncio, do mesmo lado. E o pedido inicial não foi formulado.

Iria ser dentro de dois dias. O noivo chegou, não despiu o camuflado. Vejo-o. Está tamborilando os dedos na cómoda que cheira a cera como toda a madeira do quarto. Vejo-o de novo.

O noivo começou a fazer marcha de parede a parede, no exíguo quarto, levanta agora o joelho o mais alto possível e regressa em seguida, poisa primeiro o calcanhar e depois, sem ruído, a ponta do pé. É o percurso já conhecido da cama à sanita. Repete, repete. De tanto repetir, percebe-se que o noivo quer eliminar o ruído que ainda sobeja para andar em silêncio total. As moscas que entram agora pela janela com o apaziguamento do vento, e voam de novo à procura da saída, são o alvo da passagem. O noivo está imóvel e em frente do voo das moscas, deixa-as aproximarem-se-lhe dos olhos, e do nariz, deixa-as poisarem e levantarem de novo. O noivo tem a mão em concha, dá uma guinada com a mão, apanha uma ou duas moscas, espreme-as, deita-as ao chão, esmaga-as. Penso que me quer impressionar. Para mostrar que não me impressiona, saio. Para o noivo, porém, aquele não é um gesto do obverso. Percebo porque o noivo se embosca no quarto de banho enorme, e sai de lá agachado, correndo até à pequena mesa-de-cabeceira onde pára, mesmo quando eu não estou. Junto duma parede existe um guarda-fato que assenta em pés em forma estilizada de parra. Uma das parras não existe e o guarda-fato coxeia. Coxeia com o peso do noivo quando ele se mete entre a roupa que pende dos cabides, fica escondido, e depois sai. O noivo de facto experimenta entrar e sair sem ruído. Sai de lá, quando eu estou entrando no quarto, sai curvado como detrás duma sebe. Tem as mãos na posição de quem segura uma arma, sem arma nenhuma verdadeira.

Mas porque mata moscas? Porque se embosca no armário? E por que razão faz duma régua uma espingarda e fica emboscado de régua fora, como se fosse o cano duma espingarda e a porta fosse um inimigo? A resposta é evidente como um coqueiro no meio dum largo. A agitação do alferes é patética como um cuspo contra a maré. Sinto imensa solidariedade com todos nessa leveza de cuspo. Encosto a cabeça no ombro do alferes. O alferes abraça-me, fecha-me completamente nos seus braços cheios de ginástica. Diz-me - «Fica então aqui, à minha espera, não saias do nosso quarto, quero que esperes por mim». Não formula o pedido duma só vez, vai formulando. Promete-me um mainato que durma em baixo, à sombra do gradeamento do Stella Maris. Que suba à hora das refeições com a marmita que eu deverei colocar sobre a cómoda que terá de fazer de mesa. Levando a torneira da água quente ao máximo, ela sairá fervendo e com ela eu poderei fazer café, sem precisar de sair para tomar. A roupa, o mainato a levará suja e a trará lavada. Para que diabo serve um mainato pago pelo noivo senão para fazer esses insignificantes recados?

«Eu sabia que sim, eu sabia» - disse o noivo que revejo. Encontro-me fechada dentro de dois braços de ginasta, encontro-me balançando dum lado ao outro, conforme o corpo dele balança, ele diz minha querida, e enquanto nos apertamos e balançamos, tecemos a nossa teia involuntária, a nossa baba involuntária, aranhas esperando a nossa a mosca. Útero, pénis, coração apressado têm o seu movimento involuntário. Pena, pena, não constituirmos uma aranha só, como os casais do hall, um cônjuge ventrículo do outro. É uma maçada, eu não vou dizer que sim, eu vou dizer-lhe - «Não, tem paciência mas isso não».

O noivo suspende os movimentos, lembra a primeira vez quando a pasta deslizou no comboio e por motivos opostos tudo ficou suspenso. «Não!» - disse ainda. Do outro lado do tabique também arrastam sacos e ouve-se bater na parede. Agora percebo que se trata dum quarto de passagem porque os socos são diferentes, mais miúdos, menos tensos. O tabique abana sob o protesto dos vizinhos. Sobre a cama o noivo tem o bornal espalhado. A bússola, as meias, as cuecas, um carregador, uns binóculos, uma faca de mato. O noivo vai ao quarto de banho onde existe uma faca de fruta. Tem um gume fino, um pequeno cabo preto, coloca-o entre os lábios como se a fosse limpar desse modo, introdu-la na boca e puxa-a. Quando a puxa, um dos lábios fica a sangrar. É um corte fino, não profundo, que não sangra logo, é um corte necessário para que, passados instantes, um fio de sangue corra pela boca abaixo do noivo. O noivo vem até muito perto, olha-me de imensamente perto - é uma ameaça.

Percebo que é uma ameaça. Beijo-o na boca mas continuo a dizer que não. E como é madrugada e o jeep já apitou, à porta do Stella Maris, o noivo enfia o camuflado, aperta o cinturão verde, amarra o cano das botas, sustenta as ligas de elástico. Os passos que ele produz sem o menor ruído, pelo corredor fora, contrastam com os apitos que vêm do jeep. Apita de novo. Uma voz alarve grita.

«O gajo quer ir no avião da hortaliça!»


Passadas duas horas, o primeiro avião levanta voo, já está no ar, na direcção do sonho do General - disse Eva Lopo.

 

Definitivamente, a verdade não é o real, ainda que gémeos, e nos Gafanhotos só a verdade interessa. Por isso não teria sido útil introduzir o gesto do alferes com a faca na boca e o sangue a abrir e a alastrar como uma estranha flor, no alto do terraço onde as figuras dançaram com um frenesi tão autêntico. Lembrar-me desse baile verdadeiro, que nunca teve os pares enlaçados daquele jeito tão útil, provoca-me na alma um sonho salvador. As curiosidades que lhe conto, estas imperfeitas lembranças, se não conduzem à demonstração da verdade deslumbrante dos Gafanhotos, serão tão inúteis como era o vaguear do alferes, irrequieto, pelo quarto fora. A verdade deve estar unida e ser infragmentada, enquanto o real pode ser - tem de ser porque senão explodiria - disperso e irrelevante, escorregando, como sabe, literalmente para local nenhum. Veja o que teria sido se soubesse que a propulsão do hall era rival da propulsão do terraço. Que desperdício, que desunidade! Ainda bem que não soube. Escusou ser tentado a introduzir um parágrafo que apresentasse o hall sem combatentes, depois do movimento que convergia para Cabo Delgado, como um espaço eunuco. Escusou, por exemplo, ter de se referir ao telefonista Bernardo.

E para quê o Bernardo nos Gafanhotos! Claro que teria de haver um qualquer telefonista - podia era não ser um telefonista tão singular. Não lamente, pois. A singularidade atrai o relator como a peça de carne atrai o cão. Você não ficaria ileso. Se tivesse conhecido o telefonista, como ele impediria a linearidade da sua invenção, como ele agitaria, no meio dos afogados nus, o seu corpo distinto, trajado de branco e azul! Como criaria trambolhões na harmonia da sua verdade! - disse Eva Lopo. Não perdeu nada, só ganhou. Ele atendia com a voz pausada, própria de quem aprendeu a domar o PBX com a perícia dum caçador de leopardo. Espreitava, ria-se, ria imenso com as cavilhas do PBX, e tinha-se tornado uma figura tão simbólica quanto uma bandeira, ou mais do que uma bandeira, uma extensa alegoria. João Bernardo ao telefone era um conjunto de vários símbolos e não se conseguia olhá-lo de longe, quando se atravessava o hall para tomar o pequeno-almoço, sem reparar como nele vinham confluir as vontades indomáveis dos Príncipes de Avis, com sua mãe severa, seus retratos trocados, seus barretes polémicos, empurrando os barcos até ao último ponto da esfericidade da Terra. Lá, no último porto, fora encontrado o Bernardo. O Bernardo podia representar sozinho a conquista que, a partir desse impulso uníssono duma só família, tinha sido perpetrada através da História, precisamente para que os povos entendessem que a salvação estava além da História, se acaso rezassem. Tinha sido uma senda difícil, mas havia valido a pena. Via-se a partir da porta do hall, porque o Bernardo tinha umas contas penduradas duma cavilha do PBX e rezava. Este era um poderoso símbolo. Mas tinha mais.

Quando o aparelho deixava de tocar por um pouco, ele costumava ser chamado do posto do telefone para explicar como o seu tio era um caçador de leopardos, e tinha sido mandado matar pelo feiticeiro. Era importante que ele explicasse, ali, diante de toda a gente que se abanava intensamente no hall, para que se compreendesse como uma enorme selvajaria batia tambores no interior de África donde vinha a rebelião. Era também curiosa a confusão entre o pai e o tio, uma vez que o tio desempenhava as funções de pai, o que provava como os laços humanos poderiam ser promíscuos e confusos, quando não havia escrita. O Bernardo, essa figura que não caberia no seu relato, abanava a cabeça, negando, mas rindo imenso. Pediam-lhe que contasse. Contava e bem. Poucas palavras para contar, mas em contrapartida introduzia a voz do leopardo rugindo e depois morrendo, imitava o batuque, as profecias do feiticeiro e a morte do tio-pai. Ah, como o tio tinha batido as palmas no chão, negando, e depois, como no sítio da sepultura tinham enterrado uma estaca para dar planta e árvore! O Bernardo sabia chorar com a voz, sem chorar, era um guincho fininho, engasgado, que fazia rir. Não se deveria rir, aquela era a sua forma de contar. Devia ter-se em conta que não o fazia nem por estupidez nem por falta de memória. O telefonista conseguia precisamente fixar os números para onde ligava, à segunda vez que ligava, e espantava o hall com essa inteligência rememorativa. Era a prova de que África podia guardar memória de si mesma se quisesse e dispusesse. E depois, finalmente depois, ele lera um símbolo que extravasava de si porque significava *que os portugueses o aceitavam, e permitiam que os segredos do PBX passassem pelos ouvidos escuros dum sobrinho-filho de caçador de leopardos.

«Só caçou um. Mas o feiticeiro pensou que ele tinha o poder do mal e mandou matar...» - dizia choradinho, afável.

Ele era o símbolo do território, da pátria, da flora e da fauna da nação. Provava ainda o poder dessa simbologia, pesada como uma coroa, a forma como todos se lhe dirigiam por tu. Bernardo tu, Bernardo tu... Dizer tu ao Bernardo era prova de que o mundo social estava concertado, como o Sol e a Lua estão. O Bernardo ria, como um símbolo enfeitado de PBX, para rir. Não constava sequer que o Bernardo bebesse como outros bebiam, e até nisso se podia ver um símbolo, era só uma questão de pensar. E no entanto, sem explicação, sem aviso, junto ao balcão dos telefones, o símbolo sentiu-se mal, deu uns roncos, caiu no chão e morreu.

Evita não teve a sorte de observar o que precedeu a queda, só o viu estendido, quando o médico militar, o Dr. Ronaldo já pendia o ouvido sobre o peito simbólico do Bernardo, e uma grávida, poisada no sofá, gemia agarrada à barriga. Várias mulheres, que Evita conhecia desde o cortejo, olhavam vidradas para o sobrinho do caçador de leopardo. Uns cozinheiros em tronco nu, com pedaços de massa na mão, estavam aglomerados a uma porta. Nunca havia reparado naquela porta que dava para a entranha da cozinha. O médico abriu o olho do símbolo, fechou-o, compôs a boca, alongou os braços. Era claro como o dia que jorrava no hall, que o símbolo também tinha bebido álcool metílico, e o médico queria que todos os ajudantes de cozinha em tronco nu que espreitavam, se aproximassem para ver o que acontecia a quem bebia veneno de bidões. Mas os ajudantes, de calção, não se aproximavam. Automaticamente, como uma prensa, um deles amassava bola de carne na palma da mão. O médico Ronaldo pediu um pano, e o cozinheiro trouxe uma toalha de mesa antes que chegasse um lençol. Vejo o símbolo da integração desfeito por metanol sob a mais comprida toalha da copa. Um círculo de gente meditando sobre a precariedade dos telefonistas, um magote negro à porta, continuando a bater massa nas palmas das mãos.

Vejo, mas reconheço como o PBX desligado, com o mar lá fora a bater, seria um estorvo trágico na paz dos Gafanhotos. Nesse relato, mesmo quando já não morrem afogados, é como se morressem, o que é uma ideia extraordinariamente feliz. Um desaparecer suave, para quem imagina que a água invade os tecidos como uma esponja a bebe, e depois a escorre, sem alarde nem dor. Sorte que não o tivesse conhecido.

Se teve consequências? Teve, mas nada que fira o som duma palavra da sua narrativa tão conforme. Coisa simples que durou dois dias.

Como lhe disse, o hall era um espaço eunuco - restavam os médicos, os administrativos e os lesionados. As mulheres mandaram os filhos correr ao ar livre e planearam em conjunto uma liga semelhante à de Pamela Hanssen, mas dirigida contra os efeitos do metanol. Uma delas, que tinha uma sarda muito perto do olho, disse, vivamente emocionada - «Teria vergonha de me olhar ao espelho, se soubesse que morria uma pessoa intoxicada debaixo do mesmo tecto onde moro, e não levantasse um dedo para resolver a situação».

De facto, levantaram vários dedos. Lembro-me, sem qualquer interesse para si. Ainda chegou a haver duas reuniões e ergueram-se muitos dedos contra o metanol. Mas era extraordinariamente difícil pôr em prática um plano de emergência, quando o surto de bebedeira de álcool metílico ia necessariamente chegar ao fim. A rapariga da sarda, a primeira a propor, foi a primeira a desistir. Eles tinham roubado apenas vinte bidões e havia dez dias que caía gente. Ora os bidões não eram poços sem fundo que eternizassem a situação. Para quê ligas, para quê alarmes? Estavam mulheres de tenentes- coronéis e majores iluminando o embrião da liga que findava. Combinaram, contudo, ficar de alerta, e dar conta de qualquer informação que surgisse, viesse donde viesse.

Uma delas tinha trazido um bolo. Esfaquearam o bolo, comeram-no às postas, no final da reunião.

Seria um bolo terrível se no seu relato o tivesse feito emborcar na mesa! Como desfearia o de Evita, o de andares, o que tinha uma planta de arame em forma de chuva! Não guarde - dobre, rasgue, deite fora.

Não, o dedo de Helena com a unha cor de cenoura, um ponto abaixo da cor do cabelo, não se levantou. Ela não morava ali, morava longe. Eu queria imenso que ela morasse para sempre muito longe. Desde que tinha chegado que tudo me parecia extremamente visível. A temperatura tornava os corpos revelados, a humidade revelava-os à velocidade dos fungos. O noivo, no centro da crueza, batia os pés, tudo parecia destilar a crueza própria de quando se visita a estrumeira duma casa, os canos subterrâneos duma cidade. A cave com ratos dum palacete. Evita achava que Helena era a única figura encontrada naquela costa que deveria manter-se longe como uma abstracção, e no Stella Maris acontecia tanto acidente real, tanta fruta gasta, o ar estava tão inundado de realidades vivas e informes como pudins e intrigas, e sabia-se tanto dos esgotos da cidade numa manhã de Stella, que ela desejava manter alguma coisa longe, com a transparência duma abstracção.

Mas Helena de Tróia era a abstracção de quê?

Pensava-se melhor nadando numa praia, ainda que a água estivesse morna como caldo. Longe, se não a voltasse a ver incitando o abate de flamingos, se não voltasse a partir patas de crustáceos com turquês, ela poderia ser o corpo que servisse de abstracção, em simultâneo, da Beleza, da Inocência e do Medo, e assim tudo ficaria explicado. Os cépticos têm suas crenças. Evita pensou numa divindade a quem se sacrificasse a inocência, e que simbolizasse essas três forças tão precárias e tão violáveis, reunidas. Pensava, nadando. Os gregos, pais dos nossos mitos, não inventaram essa fragilidade nem a malevolência dessa fragilidade. Se as três abstracções estivessem reunidas, tudo se explicaria desde os pássaros vermelhos à cena do barco, e assim ela não era malévola mas frágil. Via Helena frágil, uma pomba frágil, e pensava, nadando, Evita, no destino dos frágeis - os frágeis contêm o farol onde costumam aterrar as aves mais nocturnas. Que ninguém deplore - nadava Evita a olhar para um pequeno morro de areia. É a lei da lente brilhante e do pio da ave. Tanto uma como outra para nada, mas é.

Só que a casa dela, tanto quanto o morro e a portada não eram abstracção. Nem a casa, nem as plantas que enchiam o acesso à casa, nem o portão, nem os mainatos. Fazia um calor intenso, não se movia um pasto, a tensão arterial batia frouxa como o sangue azul do lagarto. Alguma coisa estava à beira do desmaio, a forma mais abreviada de se entender o colapso. Olhando pelo gradeamento, de costas para a praia, a casa de Helena era tão real que se parecia com a vivenda do sono, a casa onde alguém se tivesse deixado adormecer para uma sesta de longos anos, enquanto as árvores ganhavam ramos e frutos - e silêncio. O silêncio seria total se não houvesse o mar tão perto, miando. Aliás, esse mesmo miado acrescia a imagem de sono que enchia a casa dormente. Dois mainatos estavam estendidos à sombra do descapotável e um terceiro, que também aparecia sonolento, saiu da ombreira da ” porta de serviço e disse, quase sem mover a boca, que esperasse. Ele mesmo bateu com os dedos no gradeamento da porta principal, mas sem energia, como se de facto dormisse, e uma mainata apareceu de dentro com um pano amarrando toda a cabeça e toda a testa até aos olhos. Também não era uma abstracção - disse Eva Lopo. A única abstracção seria a hesitação de Evita ao entrar - não devias ter vindo, não devias ter vindo. Estava contudo demasiado próximo do enigma para recuar. Foi essa mainata quem a conduziu até um longo living onde havia uma excessiva frescura, e dentro da frescura estava Helena. Evita não devia ter entrado na frescura. Evita era eu.

Explicar por que razão não devia ter entrado é tarefa

difícil. Repare que houve um primeiro momento em que ”ela não se arrependeu de ter entrado. Helena de Tróia estava sentada e vestida com o que parecia ser uma camisa de dormir, mas era antes um vestido de interior cingido, branco, que brilhava na obscuridade como papel prateado. A gravidade de Helena estava tão perto da abstracção imaginada que intimidava pela coincidência, e Evita permaneceu à porta. Mas Helena pedia que entrasse - entrou. Os primeiros instantes foram embaraçosos porque Helena continuava a corresponder à abstracção. Helena de Tróia mantinha a voz de columbina, mas de columbina que arrulhou num outro tempo e dele só guardou a melodia. Falava lentamente, não se percebia o que falava porque mal se ouvia no fundo do fresco, embora se percebesse que se ocupava do fim trágico do telefonista. Dizia coisas sobre ele, que Evita ouvia em fragmentos por intimidação, e percebia, no intervalo da intimidação, que Helena de Tróia se lembrava da voz dele quando atendia, e contava como ele lhe havia fornecido números para onde ela tinha querido ligar e ele sabia de cor. A sua consternação era enorme. Falando desse modo, tão baixo, ela era a pessoa imóvel, muda, com uma ave ao ombro, dois olhos de vidro cintilantes que a tinham trazido ali por instinto de sobrevivência, e sentiu-se presa da imagem de que mal via mover os lábios no sofá. E só para que o sentimento não fosse completo, Evita estava dividida entre duas ideias que se excluíam - não sabia se a imagem de Helena de Tróia existia porque ela mesma a imaginava, se, porque Helena existia, ela a estava imaginando. Era uma dor agradável porque se poderia prolongar indefinidamente e nunca obteria resposta. Mas foi tudo imensamente rápido porque Evita obteve resposta. Nem deu tempo a que os mainatos lá fora pegassem pela segunda vez no sono, à sombra chata do descapotável. A princípio a resposta ainda foi lenta mas logo se tornou brutal.

Helena tomou a voz vulgar das pessoas que falam de si para o sítio imaginário donde sopram os desgostos. «Agora vamos pensar neles» - disse ela, referindo-se a Forza Leal e ao noivo. «É terrível esta separação. É ou não é?» - Helena de Tróia puxou por um lenço até aí escondido e aproximou-o dos olhos antes de ter lágrimas. Logo teve lágrimas. «É uma separação terrível de que eu tenho um medo terrível!» Já tinha abundantes lágrimas e já se assoava. Passou o lenço pelos vários sítios da cara e enrolou o lenço em torno daquilo que assoava. O lenço mudou de cor e ficou entalado nos dedos de Helena de Tróia. Ela enrolava e desenrolava uma ponta. «Sinto-me mal, imensamente mal. E você, como se sente?» - Helena não era uma abstracção.

Ela mesma respondeu - «Ah, eu sabia que você teria de se sentir muito mal com a partida dum rapaz para a

guerra. Imensamente mal» - Helena limpava o nariz enrubescido pelo lenço e abria agora desmesuradamente os olhos como uma Minerva inocente, sem memória. «Mas você sabe que há quem se sinta muito bem? É um horror pensar na alma das mulheres que se sentem bem com a partida deles! Devem ter a alma dura e crua, e negra como um tição. Você, pelo contrário, você não. É de companheiras como você e eu que eles precisam». Mas Helena ainda falava tão baixo, com tanta pausa, que a consonância entre a sonolência exterior da casa e a languidez dela era absoluta. Possivelmente a mulher do alferes não deveria ter entrado numa hora de tanto calor. Não seria possível sair? «Oh, não, pelo contrário! Fique aí - não se esqueça que esta vai ser a última vez que ficamos sem eles, porque finalmente estão pondo um ponto final nesta estúpida guerra» - Helena estendeu-se, viam-se-lhe as unhas dos pés da cor das da mão. Tomava uma nova velocidade, cada ’vez mais longe de qualquer mito e qualquer abstracção. «Duvida que vai ter um fim? Como duvida? Toda esta movimentação tem essa finalidade, o General sabe muito bem o que está a fazer e qual é esse fim. Ele sabe bem que é reunindo todos os recursos em simultâneo que se obtém o que se pretende. Você não sabe o que se pretende?» «Na generalidade».

«Ah, pois, você só sabe na generalidade. O Jaime diz que se pretende a conexão entre as forças de Ar, Terra e Mar, com o apoio das máquinas de Engenharia. Ah, mas dizem que são brutais as máquinas de Engenharia que vão trabalhar em conexão. Não ouviu falar? O Jaime diz que o General recrutou todo o Estado-Maior e mobilizou todos os recursos logísticos e de transporte, e requisitou material de bivaque e munições como ninguém até hoje requisitou. E tudo está a avançar para o centro, em Cabo Delgado, para se desinfestar a zona. Ele sabe. Oh, como o General sabe! Com aqueles olhinhos de porco, como ele sabe! O processo da ratoeira que ele está a armar em Cabo Delgado é um ovo de Colombo em matéria de contraguerrilha. Veja se já alguém foi capaz de armar o processo da ratoeira com tanta habilidade!» - Era muito interessante que aquela voz saísse dum corpo que dormindo seria a personificação da pomba. O corpo calou-se, estendeu um pé que era branco e leitoso, evocando a maciez da pomba. Era tão difícil continuar sentada no fresco daquela sala à beira do Índico como ficar de pé sobre a procela. Mas porque não dizer que tudo iria correr muito bem?

«Não diga isso. Vai acontecer entretanto uma coisa terrível!»

«Terrível?»

«Sim, sim, muito terrível» - Helena olhou nos olhos, assustada, como se ouvisse uma ave lúgubre piar à porta. Baixou a voz, com o olhar intenso e grande. «Você não sabe que se esperam cinquenta baixas do nosso lado, mesmo que se obtenha um bom resultado? É quase um crime chamar-se um bom resultado a um resultado com cinquenta baixas! Só que cinquenta baixas numa operação desta envergadura, não é nada, e no entanto, são cinquenta baixas e isso é terrível!» «Feridos e mortos?»

«Mortos, só mortos serão cinquenta, fora os feridos que vão ser o triplo. É terrível!»

«Sim, é terrível, e no entanto não se pode fazer nada». Helena pareceu sentir calor - puxou o vestido e descobriu os dois pés descalços. As unhas pareciam dez ovos pintados.

«Acha que não se pode fazer nada? Oh, não diga isso, pode-se sim! Pode-se muito - escrevendo-lhes, acompanhando-os, sentindo-os, olhando-lhes para as fotografias, sendo solidários com eles em pensamento! Você não acredita na força do pensamento? A força do pensamento transmite-se e propaga-se, ajuda ou desajuda conforme a onda que se transmite e se faz propagar - seria terrível que acontecesse alguma coisa ao Jaime, pelo meu lado. Ao alferes Luís pelo seu. Seria ou não seria?» «Seria extraordinariamente terrível». Helena retirou o lenço feito no pequeno molho húmido e pô-lo sobre a mesa. O vidro da mesa era amplo e quadrangular e assentava sobre a boca aberta de quatro peixes de lábios enormes, quase monstruosos. Os lábios monstruosos constituíam oito línguas sobre as quais o vidro assentava. Os rabos dos peixes eram feitos de simulação de escamas revoltas, e os torsos dos peixes curvavam-se em S como as ancas das madonas barrocas. Os peixes tinham os olhos redondos, furiosamente abertos, do tamanho do lenço enrodilhado que a beleza de Forza voltava a pôr. Helena ajeitou o lenço.

«Enfim» - disse ela. «Cinquenta baixas só é muita baixa quando se pensa no luto de cinquenta famílias, nos sinos, nas salvas, nas tumbas - fico em carne de galinha quando penso nas tumbas. Mas não é nada, absolutamente nada, quando se imagina que vai terminar uma rebelião armada que tem ceifado inocentes de todas as cores apenas com cinquenta baixas!»

«Acha então que é possível haver mais baixas?» Helena ficou surpreendida, esteve um tempo à espera, criou uns vincos que nunca antes lhe tinha visto entre as sobrancelhas e perguntou - «Você, qual é a sua percepção?» E parecendo revoltada contra a ideia - «Como é que você acha que ainda poderia haver mais baixas?» Helena debruçou-se sobre a mesa e o ar retiniu. Ao toque da sineta de prata, a mainata apareceu, calçada e de soquete, vestida de criada europeia, embora mantendo o lenço na cabeça. «Tudo vai mudar depois desta guerra do General»

- disse Helena. «Você fez mal em não ter aproveitado a casa. Porque não aproveitou a casa? Pelo Jaime, assim que houver uma independência branca, vai logo haver uma lei que proíba o regresso de quem abandonou as casas, de quem fugiu, de quem não acreditou nos comandantes. Você deveria ter aproveitado. O Stella Maris pode arruinar uma pessoa como você. Oh, como pode arruinar uma pessoa desprevenida como você! O que é que lhe aconteceu? Teve receio por causa do conteúdo das garrafas de whisky? Mas é o que vai suceder se as casas começam a ficar abandonadas...» Com a mainata silenciosa, pondo os sapatos enormes e calhandramente pelo chão de mármore, Helena começou então a percorrer o longo living onde havia de tudo, desde um canto de trofeus a um canto de leitura, e a um canto de música. Via-se pelos livros que tinha sido uma casa de gente italiana.

«Sim, eram» - disse ela. «Era um engenheiro italiano, um engenheiro de minas que adorava caça. Teve o bom gosto de deixar quase tudo intacto, mesmo os trofeus de caça» - A mainata continuava com os pés comprimidos naqueles sapatos que ela fazia deslizar como patins pesados que não descolava do chão, com a bandeja à cintura, como se fosse uma mesa ambulante, e que se deslocasse presa por um fio à cintura da dona. Deslocava-se assim pelo living onde agora era evidente existir uma lembrança romana que tivesse empalidecido e sobrevivido através dos desertos e das florestas até chegar ali, mas havia. Entre dois nichos com frontão triangular, estava a janela mais larga do living. Não entrava qualquer ruído de fora pela trepidação do climatizador que pingava gotas sobre a relva do jardim. Helena começou a falar com a cara encostada ao vidro. Agora eu podia vê-la com objectividade porque não estava mais no ângulo incómodo da abstracção, antes percorria os canos e o local dos ratos, escondidos sob os pés da beleza.

Helena virou-se com a agilidade duma cauda - «Percebi, no outro dia, que você já sabe que me chamam Helena de Tróia. Como ficou a saber?» Disse-lhe que não me lembrava como tinha sabido mas assegurava-lhe que me parecia tratar-se dum bonito nome. Muito elogioso.

«Mas no outro dia, se não me engano, você falou de conflito.»

Disse-lhe que era um provérbio antigo, um provérbio que associava o nome de Helena à disputa pela beleza e só valorizava o que era disputado.

«Você disse disputa pela beleza, não disse?» De novo Helena pareceu ser tomada de ansiedade como se as ondas chochas que batiam lá fora tivessem alastrado até ao living e a quisessem elevar contra o lustre do tecto. Essa ilusão provinha da forma como andava dum lado para o outro, fazendo o pescoço comprido e levando as mãos à altura da cabeça. Não falava para mim que lhe devia causar a impressão duma pequena bóia em risco permanente de esvaziar. Nem para a mainata que não devia ter ouvidos sob a intensidade daquele lenço amarrado como uma rolha. Falava para a divindade dela, que deveria estar por ali, pulverizada entre loiças e metais. - «Ah não! Desta vez quero acompanhar o Jaime até às últimas consequências. Desta vez não quero sair daqui enquanto o Jaime não voltar. Já percebeu que desejo ficar fechada em casa enquanto o Jaime não estiver? Sim, enquanto ele não voltar não quero sair daqui custe o que custar. Nem que lá para diante eu grite e dê em doida, e enfie os olhos para dentro, e cuspa para as paredes, e me faça em pó, não tenciono sair daqui! Quero ser solidária com o Jaime até ao fim, partilhar com ele o empreendimento dele, as habilidades dele e o comando dele. A minha alma, eu aprisiono-a aqui, embora não esteja aqui, esteja lá. Sem que ele me tenha pedido, sem que ele me tenha dito um som, um aceno de incitamento sequer. Aqui, fechada, privada de liberdade por vontade minha, privada de ar livre por ditame meu. Quero eu mesma fazer a minha prisão!, Só assim eu o vou acompanhar.

Começava a ser glorioso ver e ouvir. Oxalá Helena não esgotasse a energia como os comediantes mais sensíveis geralmente esgotam, e aquele espectáculo durasse por muito tempo.

«Mas não será que estou a fazer muito pouco? Não deveria eu diminuir o raio de acção dos meus passos, cingir-me a um compartimento só, traçar à minha volta um círculo e ficar no meio? Esperar lá sem sair do meio? Esperar imóvel como uma estaca?» - Como a voz dela se movia e ondulava fugindo da mainata, a mainata atrás, ela à frente, ela na direcção da mesa dos peixes, eu receava esquecer o que aprendia, e tudo o que tinha no momento era vontade de fixar e aprender. Repetia em voz baixa com receio de esquecer. Primeiro - mesmo as casas que parecem ter estado adormecidas desde a Primeira Guerra Mundial, podem conter no interior pessoas agitadas por complexos de culpa irrazoáveis. Segundo - pode-se admirar e até ovacionar, em determinadas circunstâncias, um homem em que se reconhece olho de porco. Terceiro - pelo menos uma mulher na Terra ainda sonha com uma guerra convencional, ou nuclear que seja, pelas proporções do corpo. Era pena não conseguir alinhar mais conclusões. O rumor da saia de Helena, com aquela mainata atrás, aqueles bolos em forma de berlinde, aquele refresco com uma palha, as lágrimas, o lenço, as monstruosas bocas dos quatro peixes sustentando o vidro, tudo me impedia de concluir. Pensar que poderia não ter dito Haec Helena e ter ficado privada daquele cenário de fim de época, ou de ciclo, ou de espécie, fazia-me arrepiar como se tivesse estado com o corpo suspenso sobre a boca dum poço donde me houvessem salvo - disse Eva Lopo. Ah, Os Gafanhotos passam bem, obrigado, com a ausência total da nossa relação! Mas a vida, a nossa, pequenina e desvairada, seria pobre sem estes momentos de representação intensa. «Bye!» disse a Helena. Mas já agora não se deve ficar suspenso.

Helena chamou-me. Desta vez foi ela quem telefonou, pedindo-me que fosse a sua casa com urgência. Estava sentada no mesmo local mas tinha um outro vestido de interior. Também era branco mas duma outra textura, mais pesada, e colava ao corpo como se fosse duche. O corpo dela parecia molhado. Alguma coisa do pombo estava molhada e humedecida, e talvez por isso o pensamento de Helena de Tróia fosse mais claro e esclarecedor. A mainata apareceu enrolada no pano e Helena, sucinta, mandou-a sentar mas lá fora, encostada à porta do living que era de vidro fosco. Era aí que a mainata se deveria sentar. Helena estava sem lenço nenhum e também, ao contrário do dia anterior, não parecia possuir intensa tristeza. Helena de Tróia tinha mandado chamar Evita para esclarecer um ponto importante. Melhor - para corrigir uma informação que na convulsão do dia anterior havia deixado imprecisa.

Não era verdade que jamais Jaime Forza Leal não lhe tivesse pedido o sacrifício de ficar fechada em casa. Tinha havido tempo em que o capitão, antes de sair, diante do bornal, do carregador e das ligas, lhe pedia que não saísse à rua durante a sua ausência. Ah, que pedidos, que lutas, que enervamentos! Helena lembrava, e corrigia o que tinha dito no dia anterior. Pois bem, até que um dia ele tinha acendido o isqueiro, e havia começado a passar o dedo pela chama, à espera da promessa dela. Uma vez, ele tinha deixado o dedo indicador sobre o isqueiro e ela havia tido a sensação de que do dedo já se desprendia um cheiro a fogo e a gordura queimada. Não, não tinha chegado a ver o dedo do Jaime arder, nem sequer mudara de cor verdadeiramente, mas esse cheiro sim. Lembrava-se terrivelmente desse cheiro. Tinha agarrado o dedo dele e lambido com o seu cuspo, refrescado o dedo queimado com a sua própria boca. Sim, ela tinha jurado, tinha feito a promessa com o dedo dele regado pelas suas lágrimas e pelo seu cuspo. Ah, mas tudo isso havia acontecido no ano anterior, quando era tão imperfeita! Nessa altura, ele tinha chegado a entalar uma lâmina de faca no meio da boca, deixado que por ela escorresse um fio de sangue para que Helena visse e entendesse o que deveria fazer. Dizia lembrar-se da impressão que lhe havia causado a imagem do capitão apertando a faca na boca, puxando a faca entre os lábios apertados. Lembrava-se disso como se tivesse ocorrido na véspera. Fora terrível, terrível.

«Fez então o juramento?»

«Sim, fiz» - disse ela. «Hoje culpo-me por ter exigido essas provas para ceder. Só que então eu era muito imperfeita».

Aliás, chamara-me para me esclarecer sobre isso. De facto, agora estava encerrada em casa por livre vontade, mas infelizmente, insistia, tinha havido tempo em que o Jaime precisava indicar-lhe o caminho dessa forma tão explícita, e ela, cega, não via nada. Apetecia-lhe pôr uma venda nos olhos, de vergonha que nutria por si mesma.

Como podia ela mesma ter sido tão insensível à força e à glória em combate? Helena tinha os braços abertos sobre o sofá, como um Cristo, ou um pombo a quem atam cada asa em sua estaca. O climatizador zunia e ela apertava os dentes, sem dúvida, contra si própria. Era um interessante combate.

«É indescritível a força dum homem que interioriza o combate. Três, quatro dias antes das saídas para o mato, o Jaime começa a caminhar com tão pouco peso pela casa que quase se transforma em sombra. Surpreende-me no quarto de banho mesmo quando fecho a porta, parece que estuda a forma de entrar pelas portas trancadas. Por vezes anda aí agachado entre os móveis, entre os armários, entra e sai dos armários, sem provocar ruídos, e durante esses dias deixa de falar, concentra-se em silêncio. Quando ele fala, fala tão baixo que se custa a ouvir. Outras vezes faz apenas gestos tão rápidos que me perturbo para os decifrar, sobretudo à mesa. Ele reduz as ideias às palavras mais simples do vocabulário, à frase mais simples das frases. Viver com um herói é uma aventura muito especial».

«E nunca pega numa régua ou numa travessa de cadeira, e faz de espingarda?»

Helena de Tróia parecia não ver nem ouvir - «Ah, tem de se compreender! Não se pode viver com um homem com uma cicatriz de combate com a profundidade da que tem o Jaime, como se se vivesse com um farmacêutico! As mulheres que imaginam que viver com um herói é uma festa com bastante whisky, é porque não têm a noção do esforço que é preciso concentrar para se distinguir um homem em combate. Pobre do homem que não encontra a companheira do seu combate...»

Helena de Tróia fala com a voz macia das columbinas, ainda tem os braços abertos ao longo do sofá, mas não deixa de fazer apologia. Estica os pés, está outra vez descalça, os dedos dos pés são de novo dez amêndoas de Páscoa coloridas. Os dez dedos pintados estão apoiados no tampo da mesa onde os peixes, os tais peixes têm os olhos verdadeiramente esbugalhados e as escamas estão revoltas como se fossem arraçados de iguana. Helena de Tróia suspende, transpira, suspira. Interrompe.

«Você é muito triste. Porque é você assim tão triste?»

Sim, sei que pareço triste mas não sou. Nem posso perceber porque pareço triste porque me escapa a verdadeira razão. Mas se não me escapasse e se soubesse, não seria para dizer a Helena de Tróia a quem me une apenas um homem por ser a imitação de outro homem. Triste, porque pareço triste sem o ser? A razão que conheço não lha posso dar. Pareço triste porque a minha mãe me fez escorregar assim sobre este mundo. Tal como outros nascem para dançar enquanto por aqui se deslocam, e outros para bater sola, há os que nascem para parecerem tristes, o que é um subterfúgio pacífico de descomprometimento. Helena de Tróia não percebe que o que vê não é tristeza, é outra vida além da tristeza - a minha mãe me pôs no mundo tendo-me dado por invólucro um cueiro de cinismo. Ela não teve culpa de me oferecer esse babeiro de cachorro com o qual revesti o rosto. Com ele conto ir até à última morada. Quando percebeu que o faro dos meus olhos me impedia de dormir, e me arrastava atrás de pistas suspeitas que sempre conduzem ao afastamento da casota quente e fofa, foi enorme o seu desapontamento. Você omite-o nos Gafanhotos para meu sossego. Também não posso dizer a Helena a verdade. Tudo o que posso fazer a favor de Helena é ficar a olhá-la do fundo dos meus olhos amarelos sem a punir, sem a morder e lhe ladrar. Não lhe posso dizer que entrei ali à procura duma abstracção e que ela apunhalou a minha esperança. Ficar quieta, imóvel, perante tanta confissão untada de tanto pathos, é a minha recompensa. «Estou só a ouvi-la, Helena, e estou triste, só porque estou a ouvi-la!»

Mas Helena de Tróia é alegre. Helena grita pela mainata, os olhos dela brilham enquanto grita. Toca o sino. Quer a mainata já ali, com a bandeja, os copos, as águas, o limão e aquela garrafa que tem desenhada a cabeça dum javali.

«A Odília sabe?»

«Sabe» - diz a mainata. De súbito, como o General ficou ao longo de tempo ligado ao hall, o noivo ligado à faca da fruta, o capitão às rajadas sobre os pássaros vermelhos, assim nós duas ficamos ligadas pela cabeça do javali da Gordon’s, Distilled London Dry Gin. «Olha, olha - de repente, você, Evita, já não está triste!» Diz ela, ondulando aquele vestido que parecia molhado, e pestanejando os pombos. Ela volta a encher os copos, contento-me com a sombra da sombra, fico quieta, enquanto ela tem um riso que me parece bom. Consinto o mínimo do mínimo, não é necessário mais do que essa medida de serenidade. Não se vêem dali, do fundo da mastaba onde estamos, mas eu imagino, as ondas indo e vindo, e voltando, as ondas que não consistem em nada além da própria água, e contudo se agitam como se fossem independentes, e tivessem existência própria. Apetecia troçar das ondas que se não viam, mas se imaginavam. Involuntárias, fugazes, esplendorosas. Fui vê-las - disse Eva Lopo. Helena queria ir mas não foi porque se trancou por Forza Leal.

Escute, lembro-me da luminosidade amarela e verde do momento em que a praia ficava só e o areal me parecia original como no princípio da vida que se imaginava. Gostava da praia no momento em que ficava independentemente só. O instante da luz em que ainda não fechou a noite, mas nenhuma pegada já transparece. Animais como nós e as gaivotas gostam da praia só. Mas a praia não está só, alguém deixou um saco, alguém perdeu um saco e as ondas que sobem àquela hora, sem perturbação, levam-no e trazem-no, enjeitam-no na areia. Vão buscá-lo. O saco tem uma asa, a asa move-se, depois recolhe. Depois o saco de repente vira-se e vai para longe como se mergulhasse pela última vez para não ser devolvido. Ficou agora parado, direito. Pego no saco, não é um saco vazio, tem qualquer coisa que rebola, dentro. Duvido se devo ou não devo abrir. Não devo abrir. Devo ir-me embora e deixar o saco que bóia, mas não o suficiente para se pensar que não contenha alguma coisa. Dois cães passam correndo, farejam o saco, um deles ergue a perna e urina o saco. O outro cheira. O outro regressa. Os dois começam a escavar sob o saco. Um dos cães começa a latir a partir do saco enquanto o outro cão abana o rabo na maré. De repente penso em Moisés. Moisés não viria mais num cesto de vime. Moisés viria sem dúvida num saco de napa. Só que num cesto de vime, um recém-nascido respira, e urina e chora e pode manter-se vivo ao longo duma margem até que a lavadeira o veja. Num saco de napa, com fecho corrido, o mesmo recém-nascido morreria. Um recém-nascido poderia estar a morrer dentro do saco. Precipito-me para o saco, abro-o, revolvo-o. O saco contém palha-da-china ainda enxuta e uma garrafa de álcool metílico. É veneno. Moisés deu à costa em forma de veneno.

Não sabia ainda que era veneno, mas abria-a, cheirei-a. Tive um pressentimento, que é a forma mais subtil de enganar o caos. Cheirei a garrafa embrulhada como uma oferta. A garrafa era um desses vasilhames de plástico vulgar de refrigerante a litro, rolhada a lata, a que tinham colocado um rótulo de vinho. E foi aí então que pela primeira vez se atravessou o jornalista - o jornalista ficará agarrado a essa garrafa, como o noivo ficou preso à faca da fruta, Helena à cabeça desenhada dum javali, o General ao hall do Stella. Quer dizer - estou olhando para a garrafa e cheirando e encontro o odor do bidão daquele bar do black, na tarde de pássaros abatidos no mangai. Exactamente - o líquido que eles entornaram no estrado cheira exactamente ao conteúdo da garrafa, e existe um crime. Vários crimes. Sei das garrafas de Old Parr postas na mesa da casa abandonada. Ninguém me pode tirar a certeza de que levo dentro do saco a prova do crime. Mas obviamente que este crime não tem a ver com o General. O General apenas tinha preconizado que se estabelecesse uma ordem na natalidade nativa, que se encontrasse uma rolha, um pano, uma bisnaga que impedisse a natalidade, agora ameaçando explodir com o advento da assepsia na África portuguesa. Um processo que rachasse a curva da natalidade a meio. O General não tinha, não poderia ter colocado rótulos de vinho em garrafas com veneno. O General apenas tinha sido arauto dum desejo e dum movimento, e de resto, naturalmente corroborado pelas intempéries das duas estações, do infortúnio e da inclemência sazonal de África. Ora o homem que consegue ser o arauto de alguma coisa, mesmo das intempéries, é sempre mais sábio do que os restantes, e por isso, o General merecia o respeito de todos os que tinham conhecimento do esforço que esse homem desenvolvia para tecer a técnica da ratoeira em Cabo Delgado. Agora que alguém, que por certo nunca tinha ouvido um discurso do General, nunca tinha lido uma página dos seus artigos sobre a natalidade dos nativos, nem jamais ouvira falar dessa filosofia de pensamento que o General havia desenvolvido, os envenenasse, já ultrapassa tudo o que seria de prever. A partir desse momento, o General transformava-se num futurólogo caro, e por isso merecia redobrado respeito - Evita pensava, quando pôs o saco em cima duma pequena mesa do jornal, e foi recebida por um jornalista depois de muita espera, à hora do jantar.

O Correio do Hinterland era a imitação dum jornal, mas à hora do jantar havia a azáfama, própria dum jornal verdadeiro. Algumas pessoas corriam e não tinham tempo, algumas pessoas suavam, e as grandes pás da ventoinha tinham mais moscas que metal. As pás não rodavam, o jornalista que apareceu tinha a camisa aberta até ao cinto e Evita entregou-lhe a suspeita do crime. Entregou com desconfiança. Muita, mas o homem também olhou desconfiado para a garrafa.

«E se não é álcool metílico?»

«Cheire» - disse-lhe.

Cheirou - «Bem, por mim tanto faz, nunca pus o nariz em álcool metílico. Um momento».

Voltou - «Parece que sim, que é mesmo álcool metílico.

O homem começou a tirar umas notas sobre um papel rasgado duma folha. O facto de escrever sobre essa tira de papel afogava em insignificância o valor da prova do crime. Não podia acreditar que aquele homem estivesse a tomar a sério o que lhe dizia e que escrevesse sobre uma tira daquelas. Era um contacto infeliz, e provava-o o que ele disse, quando outro, desabotoado como ele, lhe bateu nas costas. O jornalista que rabiscava o papel torto, disse-lhe, virando a boca donde caía a cinza do cigarro - «Há sempre uma garrafa, um isqueiro ou um sapato para nos lixar as noites.

«Ai lá que há, há!»

O outro abalou. De repente,o jornalista encarou-a. «E onde?»

«Não sei dizer onde».

«Não sabe dizer onde?» «

O jornalista começou a desconfiar - «Terá de dizer exactamente onde».

Só poderia dizer onde, indo lá. Desconhecia o nome das praias, toda a costa lhe parecia igual, dum lado tinha mais pássaros, do outro canas, do outro portos, mas topónimos não conhecia. Então o jornalista abriu a porta do carro e pediu a Evita que fosse indicar, por favor, exactamente onde. Evita achava que o jornalista ia pensando Aqui está como uma pessoa com alguma imaginação enche uma garrafa com uma mistela, mete-a num saco, emborca-o no mar, retira-o e vai chatear a cabeça de quem trabalha. Mas como vou descobrir se ela diz a verdade? Evita achava que pensava o jornalista. Quando o carro atingiu o paredão que dava para o local onde tinha encontrado o saco, e ela lhe indicou a direcção da praia, e se ofereceu para ir ao local exacto - agora o Índico já se espraiava na direcção do paredão - ele devia estar a pensar. Esta inventou isto. Não tem a mínima hipótese de ser um achado verdadeiro - eles bebem dos bidões, voluntariamente. Ninguém enche garrafas com veneno e as deita ao mar. E depois - Só a mim, só a mim... Porque o jornalista abanava a cabeça como se pensasse exactamente isso. Evita gostaria imenso de poder confirmar a suspeita sobre aquele riso cínico do homem abanando a cabeça.

Confirmou facilmente. De facto, as notícias sobre o caso de dia para dia ocupavam menos espaço pela usura da novidade, embora o número de mortos levados pelo dumper se mantivesse, e apesar dos indícios que tinha fornecido, não se referiam nem de leve à suspeita de crime. Aquele era um assunto encerrado. Ninguém saberia de nada no Stella Maris. A ideia duma intriga, duma reunião, duma liga e dum bolo comido às fatias antes da hora do jantar seria ainda mais triste do que a nesga de papel dobrada em quatro partes que o jornalista tinha enfiado na algibeira da camisa, de mistura com os fósforos, para nada. Disse Eva Lobo, por Fim...

 

Mas porque me pergunta pelos nomes verdadeiros das pessoas que dançavam durante esses dois dias no terraço? Porque insiste nesse hotel?

Devíamos deixar esse hotel em paz - as pessoas defendem-se, casam-se, descasam-se, atiram-se às passagens de nível, poupam durante dez anos para visitarem a Tailândia, e depois contam umas aí, outras se sobrevivem. Deixam uma carta escrita, pelo menos. Desempenham o papel de serem donos de si. Um edifício não. É possível que o Stella Marts hoje já tenha uma racha que lhe abra de meio a meio a frontaria, talvez um cardo já lhe saia das pedras e o piano tenha sido feito às pranchas para com elas se fazer uma jangada de pesca. Talvez os fios eléctricos pendam das paredes como as teias, e se entrelacem com as raízes que entretanto cresçam do dia para a noite, e andem e penetrem, pontiagudas, como focinhos de animais. Quem sabe? Talvez as formigas tenham feito um celeiro no local onde há vinte anos existiam bares. Na banheira donde os noivos tiravam as mulheres nuas a escorrerem água, talvez exista uma mancha de ferrugem do feitio dum braço. Talvez o hall sustente dificilmente só um pedaço de friso. Talvez tenha caído tudo com a última tempestade de areia. A capitulação da electricidade tenha agigantado as noites sobre o terraço derrubado. O toldo amarelo há muito se tenha feito às tiras e tenha ido enterrar-se na salsugem da maré. Em redor das paredes existam pequenos montes de vidro que luzam como agulhas quando o sol esquina. Talvez, de noite, as portadas das janelas batam. Por elas os pássaros dos tectos saiam e entrem, piando, deixando o pavimento coberto das neves saídas dos seus cus. O que mais hei-de dizer sobre uma ruína? Acrescentar talvez que é impossível suster uma ruína só com a vontade.

No entanto, no tempo a que se refere o seu relato, esse edifício inspirava e expirava entre os dias e as noites conforme uma rotina ocidental - os cafés borbulhavam nas máquinas ao amanhecer, as saladas esverdinhavam à hora do jantar. Havia umas argolas onde deixar a chave pendurada até à hora normal de recolher. Os episódios familiares abriam e fechavam também como um acto de respiração. Que logo desencadeava um outro. Sucediam enquanto se dava a marcha triunfal sobre o coração mortal da guerrilha em Cabo Delgado, de que se sabia pouco em nada, mas de que se não duvidava. Eram tão intensos que poderia ter sido criado um Correio do Stella, com mais proveito e exemplo do que o jornal da cidade. Quando não chegavam a ser episódios com seu drama, sua intriga, seu enigma e desfecho, havia pelo menos descrição de caracteres, ou sinuosidades deles com os nomes, as anedotas, as gargalhadas. Pensando bem, é impossível que por transitório que tudo seja - uma agulha de gramofone raspando a água

- que certo quarto do Stella, agora verde, não conserve o vagido daquele bebé a quem a mãe deixou as nádegas ficarem em carne viva. Ah, como ladrava fininho no berço aberto, enquanto a mãe dormia! Como a mulher do Ramos - aí tem um nome verdadeiro - fora punida! Não haverá um vagido de menino gritando duma parede? Pode ser a mais soturna, a mais verde. Não ficou em sítio algum do Stella a sua assinatura vocal? Talvez a esse vagido se sobreponha a voz de Elisa Ladeira.

Aí tem outro nome real. Ouço a voz de Elisa Ladeira chegar até ao quarto do tabique, chamando durante uma noite de intensos mosquitos - Bandido, bandido... Se algum pedaço de balcão desmantelado estiver a chamar bandido, é Elisa Ladeira contra o seu marido alferes. Ele tinha começado a visitar o Moulin Rouge e tinha trazido até à porta do quarto, onde a mulher legítima dormia rodeada de jarras de porcelanas da China para trazer para a Europa, uma loira starlet com meias de palhetas. Por onde tinha passado, aos pulinhos, a starlet havia largado um perfume perfeitamente escandaloso. Elisa Ladeira tinha saído até ao corredor, atraída por aquele cheiro que lhe havia entrado por debaixo da porta, tinha visto ainda a anca da bailarina rebolar ao fundo e havia corrido ao balcão do quarto que dava sobre a avenida. «Bandido!» - gritava ela. O alferes tinha vindo ao quarto buscar a máquina de barbear, a colónia e umas roupas frágeis para se mudar. Se existe um pedaço de balcão, é natural que dele ainda saia um bafo desse cheiro ou desse ódio. E o elevador? É natural que na empena onde corria o elevador para baixo e para cima, só exista um buraco. Eva Lopo, nos seus dias de crença, não pode deixar de acreditar que não ressoem no buraco os gritos da mulher do Astorga, a voz do próprio Astorga batendo na mulher - eis novos nomes reais. Os gritos dela ressoam por todo o Stella porque o elevador atravessava a meio o edifício. Ah, ele teve o punho muito mais rápido, a mão muito mais pesada do que a transfiguração que dele você fez nos Gafanhotos*. O real aconteceu à porta do elevador, e foi muito mais empolgante. A mulher jorrou sangue por sítios muito mais incomuns. Também me lembro dos bicos da tesoura.

É impossível que a esplanada térrea do Stella não guarde sinal da tesoura que uma garota atirou do terraço para ouvir o ruído. A tesoura caiu aberta, fez vibrar todo o toldo, ficou espetada e pendurada sobre a cabeça da mulher do Fonseca. Era uma das cabeças melhor toucadas, em feitio de colmeia. Sem desmanchar a colmeia, ela vomitou um líquido. Como a menina da tesoura foi castigada, fechada, amarrada atrás duma janela! A mulher do Fonseca quis que essa garota ficasse lá enquanto ela contava como tinha visto uma tesoura passar de bicos abertos diante dos seus olhos. Enquanto aquela imagem não passasse, ela não deixaria de exigir à mãe da garota que a mantivesse sequestrada atrás da janela. Já tudo desapareceu antes que tenham desaparecido todos os objectos? E assim, nada restará da imagem amarela do tenente Gois? Em nenhuma perna de cadeira, em nenhuma sombra de toldo? Lembro-me da mulher do tenente Gois - disse Eva Lopo.

A mulher do tenente Gois era das melhores rendilheiras do Stella. Os dedos dela engoliam novelos de linha, e no colo caíam-lhe rendas, dum dia para o outro, do tamanho de aventais, sobretudo quando o Gois não estava. Ora ela teve a alegria - deixou cair a renda - de o saber de volta, quando julgava que ele estava a participar na marcha sobre o coração da guerrilha. Voltava com um ataque de paludismo que degenerava em alguma coisa que o transformava em roxo e amarelo. Feliz dela, a rendilheira, porque ele tinha voltado nem tão bem que pudesse regressar à marcha sobre Miteda, Nancatári, Nangololo, nem tão mal que não pudesse ir vê-lo e segui-lo de perto, com a sua renda. A mulher dum capitão, o Pedro Deus - havia um capitão chamado Deus - achava porém que tinha acontecido o pior possível ao tenente Gois. Nem havia ficado suficientemente doente que pudesse ser tomado como sinistrado, nem suficientemente ileso para que pudesse voltar ao combate - ele jamais teria um louvor, agora que a guerra ia acabar! Ele jamais seria um homem condecorado. Um tenente que terminava a guerra colonial sem uma medalha ao peito teria de enterrar a farda, no futuro, se não queria ficar vexado perante os filhos. A mulher do capitão Deus era a mesma da sarda e da liga semelhante à de Pam Hanssen mas contra o uso do metanol. Ainda hoje deve haver um sussurro qualquer nas paredes rachadas do hall que lembre a voz da mulher do capitão Pedro Deus, passando a palavra secreta, a condenação eterna sobre o futuro do tenente Gois... Ah, o cheiro a ferro! - disse Eva Lopo.

Na lavandaria, no local mais húmido do Stella, onde dizem que ficaram fungos do tamanho de salsas, é forçoso que haja ainda um cheiro a ferro de engomar. Se houver, são elas, as mulheres mais novas, curvadas sobre as tábuas, passando os cabelos a ferro umas às outras. Estendidas sobre as tábuas, com o papel vegetal sobre as madeixas, o ferro deslizando sobre o papel, até fumar. Quietas, de mãos pousadas, agarradas à tábua, com o pescoço estendido. Tinham a pose das ovelhas nos sacrifícios antigos, a tábua era um frágil altar. Tão soberbo era esse espectáculo na lavandaria do Stella, que não pode ter desaparecido sem deixar um rasto. Quero que as cabeças passem mas os seus cabelos fiquem. Que permaneçam entre os líquenes da lavandaria. Só por mais um dia, essas cabeleiras grandes, descoladas das cabeças, que bóiem como estavam, sem ter absolutamente nada a ver com o que continham atrás das testas, as cabeleiras exteriores a elas fazendo voltas como rabos de cometas. Que bóiem sobre o bafio dos fungos. Permanecei, ferros de engomar, fumos de papel, rumor dos seus cabelos - disse Eva Lopo.

Errado - disse Eva Lopo. Não é porque alguém chama que alguém responde. Não é porque alguém quer que a obra é feita. Só por vezes. De nada vale querer que existam nos escombros os fantasmas. Para quê desejar que permaneçam nos escombros os fantasmas? Com verdadeira noção de passagem, dizem que o balcão do hall foi arrancado e empurrado para a rua e levado para um local adequado. Fizeram dele um abrigo para os galos, uma sebe contra as osgas ou um cagadoiro para os meninos. No sítio onde as mulheres de cabelos passados a ferro deixavam os subtis recados, existe um cagadoiro para meninos. Gosto dessa vingança do tempo, que sempre deve acontecer rápida sob os nossos olhos, para se poder retirar o sentido da passagem para local nenhum que é o local para onde desembocam todas as passagens. A acrescentar alguma coisa a Os Gafanhotos, proponho que suspenda o baile onde todas as coisas eram eróticas como a própria procriação, e que as paredes comecem a rachar e as raízes a crescer, e os vidros a tombarem com estilhaços para que se entenda que tudo era completamente letal como a própria morte. A sobrevivência não passa dum fruto da nossa cabeça - disse Eva Lopo.

Não passa, mas prefere saber o que aconteceu depois. Claro que depois da partida do noivo, o pequeno quarto do tabique tinha alargado, o que era um fenómeno do silêncio. Eu deixava que entrasse todo o silêncio que a proximidade do mar permitia. Além disso, só os insectos e as chamas que eu acendia contra os insectos. Então, do outro lado de lá, o cair dum atilho de bota se tornava audível. Ou um brevet que tombasse agarrado a uma camisa e fosse de piloto. É aí que entra um piloto. A mulher do piloto Fernandes já trazia um nome do local donde vinha

- todos a conheciam por Mosca Morta. Era deplorável imaginar que tivesse caído sobre essa mulher sequinha e séria um anexim tão malévolo. Diziam que se exprimia com a dificuldade duma mosca morta. Mas de noite ela falava imenso, e ouvia-se através do tabique - «Mentira, mentira, já tens demasiadas horas de voo!» E falava muito, embora baixo, porque devia ter a noção do tabique. A última vez que foi visto, o piloto estava no terraço e retraçava aperitivos. As mulheres do Ladeira e do Zurique, ambas de cabelo passado a ferro, aproximaram-se do piloto. Havia generalidades que eram conhecidas mesmo pelas crianças, mas era diferente ouvir-se alguma coisa da boca de quem vinha de sobrevoar o teatro da guerra. O piloto não precisava recordar o que se sabia.

Sabia-se perfeitamente que naquele momento, enquanto estavam ali a comer aperitivos, os maridos deveriam estar em Cabo Delgado, conduzindo os soldados à frente das máquinas da Engenharia, na mira de avançarem na direcção do centro do círculo, tornando o círculo cada vez mais fechado, mais terrivelmente fechado, e os rebeldes cada vez mais feridos, recuando, julgando nas suas mentes primitivas

que sempre haveria uma frincha por onde fugir, até que chegassem à indefectível conclusão de que estavam cercados por todos os lados menos por um, que era o céu. Aí, eles haveriam de se dividir ao meio. Os que, no acto de desespero, haveriam de queimar eles mesmos as suas palhotas, dando tiros para o ar, e os que pelo contrário, haveriam de depor as armas, entregar-se miseravelmente como reféns e como denunciadores dos outros. As mulheres do terraço estavam à volta do piloto Fernandes, e escutavam o cheiro da metralha, pressentiam as bombardas do helicanhão, as bazucadas sobre as bases cheias de armas soviéticas e chinesas, desesperadamente abandonadas. Dali, do terraço do Stella, os macondes vencidos estavam cercados por todos os lados menos por um, que era o céu - isso as senhoras sabiam.

«Oh, oh, isso pensam as senhoras!» - disse o Fernandes que retraçava aperitivo. A mulher dele estava presente e faladora, negando completamente aquele triste epíteto de Mosca Morta. «Pelo céu, também, minhas senhoras. Oh, como é que pensam que não estão também cercados pelo céu!» O piloto explicou numa noite singularmente amena, como pelo céu azul do planalto, depois do arraial de artilharia e da FAP, andavam dois Dakotas com altifalantes, chamando os rebeldes à razão. Os rodesianos estavam a ser fantásticos no auxílio prestado.

«E como chamam à razão?» - quis saber a mulher do Zurique, bastante grávida. Era simples, o altifalante deitava do avião abaixo persuasivas palavras - «Guerrilheiro, rende-te, nós somos os teus verdadeiros amigos, e a nossa pátria é só uma, a portuguesa. Pega nas tuas mulheres, nos teus bens, nos teus sobrinhos e família, teu tio, teu pai, tua mãe, e rende-te à tropa portuguesa. O português é teu amigo, o que os outros dizem são falsas panaceias...» O piloto retraçava o aperitivo, explicando como fora difícil traduzir para maconde a palavra panaceia, uma língua que só tinha vocábulos como fogo, água, cabaça, rato, chitala... Os Dakotas estavam a semear a floresta de milhares e milhares de folhetos, com dizeres apelando aos sentimentos de paz que ainda devia haver no espírito belicoso do povo maconde. Era uma chuva de prospectos pedindo aos guerrilheiros que depusessem armas e se entregassem nos postos de água e nos quartéis. Em troca, eles teriam uma palhota já feita, teriam segurança completa, escola, padre e milho. O piloto dizia que os Dakotas poderiam vir a largar várias toneladas de roupa europeia, perfumes e artigos de higiene, por cima do planalto e por toda a floresta circundante. Ah, que soberba imagem! Que lindíssima chuva de géneros, a do piloto! Como uma ratoeira que por fim desarma a tampa e cai do céu. E depois? Viria a paz. Todas olhavam para o céu.

«E o Mundo vai finalmente reconhecer-nos, senhor capitão?» - perguntou a mulher dum outro capitão ausente, com o cabelo em colmeia.

«O Mundo não é a ONU, minha senhora!» - disse o piloto-aviador com a testa mais branca que o rosto. Continuava a comer e a regar o aperitivo, embora metodicamente. Só um bafo de vento agitava o terraço, e as mulheres, quase todas vestidas de branco, tinham os braços colados de humidade. Mesmo assim, a noite era amena. As mulheres que estavam no terraço - ainda com as mesas intactas, o toldo estendido, o bar aberto - ouvindo o piloto que tinha ido a Mueda, apesar dos segredos invioláveis que ele guardava, sabiam que estavam em fila, esperando que os seus homens desempenhassem um papel histórico naquela marcha, à excepção da mulher do Gois, a da renda. «Minhas senhoras, dentro de dois meses a guerrilha acabou!» - disse o piloto.

A mulher dele abraçou-o pelo pescoço, e ele consentiu, e pareciam jamais haverem discutido além do tabique. Abraçados, foram os dois passear diante do Stella Maris, pela avenida fora. Ele atirava uma pedrinha adiante do sapato, voltava atrás, ela sempre agarrada ao braço dele. Na mão, ele levava ainda castanhas de caju que retraçava disse Eva Lopo. Passearam durante muito tempo. Nem importava quanto, porque depois tudo aconteceu à velocidade invulgar dos relâmpagos e com a contiguidade das trepadeiras. Nessa noite só ouvi uma vez Mosca Morta dizer «Tens demasiadas horas de voo...» De madrugada a água correu, o piloto saiu, ouviu-se nitidamente o som da sola do sapato ao longo do corredor. Entre um momento e outro, tinha havido apenas uma noite particularmente ausente de mosquitos. Entre a madrugada e as onze, foi apenas uma manhã de imensas ceras espalhadas pelo chão, algumas serviçais de bata azul espalhando-as, e depois podia ter sido doutro modo, mas não foi. Primeiro alguns passos no corredor, uma espécie de tropel abafado, a porta do quarto contíguo aberta como as igrejas, os cemitérios, os tribunais, os locais onde facilmente as coisas são decisivas. Logo uma carrinha à porta do Stella Maris, e as malas da mulher do piloto Fernandes a entrarem encavalitadas umas nas outras. A mulher do Fernandes levava dois filhos, e ao lado dela o padre. Um capelão manso que se sentava só na ponta do assento, como se tivesse estado à espera de se sentar ao lado da viúva, desde sempre, para lhe falar fatalmente das palavras do Deuteronómio.

Breve? Abruptamente breve - tinha sido durante a manhã quando sobrevoava Tete. Mas ele ia para Tete ou para Nacala? Pensava-se que ia para Nacala, mas a verdade é que tinha feito o DC4 cair no brasido de Tete. Tinha-se incendiado, e ninguém sabia se antes, se depois de chegar ao chão. Que importava? Importava que dele se tinham retirado com uma pinça as ilhós do cinto e o brevet da farda, depois do fogo. A viúva, para já, podia contar com essas cinzas. Breve? Mais do que breve - simultâneo. Tinha acontecido enquanto os sabonetes deslizavam nas tinas sobre as criancinhas, e a manteiga se estendia pelas torradas. Como sempre acontece. Enquanto os pilotos e os co-pilotos se despenham e os aviões explodem com o fogo, os sabonetes deslizam e a manteiga escorre. A indiferença dos actos uns pelos outros, na simultaneidade, não é a melhor prova do bondoso caos? - disse Eva Lopo.

Houve uma avalanche de gente que me procurou no quarto do tabique. O Stella Marts, o célebre, o de outrora, fervia no lume daquela desgraça. As raparigas - umas que haviam gritado bandido aquando da starlet, e outras que faziam renda como quem desdobra aventais - entraram pelo pequeno quarto dentro, mas foi a mulher do Gerente quem perguntou - «Você ouviu alguma coisa através do tabique?»

«Nunca ouvi nada».

«Nem uma palavra?»

«Sim, ouvi - mentira, mentira, tens demasiadas horas de voo...»

A mulher do major ficou desapontada porque constava que a Mosca Morta tinha a ambição de ser a mulher do piloto com o maior número de horas de voo. O capitão só obedecia. O capitão teria substituído um outro piloto que deveria ter feito o voo. Esse tinha uma ambição mais moderada. Assim, os dois co-pilotos tinham perdido a vida pela ambição dela, e tudo teria ficado justificado. Mas se a Mosca Morta havia dito - mentira, mentira, tens demasiadas horas de voo, então não era verdade que fosse ela quem lho exigia. Infelizmente não tinha sido ela quem o tinha mandado para a morte, mas ele mesmo. O desapontamento era enorme por parte das mulheres que invadiam o pequeno quarto que uma semana atrás fora do noivo. Sentiam-se abatidas como as frutas podres, porque não havia quem culpar. Era terrível ter de imaginar que a morte do piloto com quem tinham estado a conversar na noite anterior, tivesse sido um acto tão estúpido quanto uma tempestade que se abate sobre as vivendas e dana as flores. Pobres das raparigas de cabelo passado a ferro, as mais novas! Como elas desapareciam no fundo do corredor do nosso andar, taciturnas, sem conseguirem culpar nada além do engenho eléctrico incendiado no brasido de Tete! As de cabelo em forma de colmeia suportavam melhor porque muita morte inútil já tinha ficado por explicar. A mulher do major, porém, voltou atrás, trazendo consigo duas ou três das raparigas de cabelo comprido - «Você tem a certeza de que não ouviu antes ela dizer mentira, mentira, não tens demasiadas horas de voo?»

A cara da mulher do major, que usava colmeia, pedia suplicante que eu dissesse que sim, ou que ao menos levantasse a dúvida. Mas o que ela pedia era muito mais fundo do que o seu pedido - nem tinha a ver com a substituição duma palavra pela outra. O que ela pedia era que eu confirmasse uma ordem de severidade, e logo de justiça, e logo de correlação entre maldade e castigo que eu não podia confirmar. A mulher do major não podia conceber que a Mosca Morta houvesse dito mentira, tens demasiadas horas de voo, e que mesmo assim, procurando proteger o vício do piloto, não tivesse sido poupada nem pela viuvez, nem pela presença do padre, sentado a seu lado com umas contas na mão. Nem pela imagem daquelas tristes cinzas reduzidas a umas ilhós. Desejava que ela e as outras soubessem que eu mentiria se fosse necessário, mas nunca para corroborar uma crença que não tinha a ver absolutamente nada com a tempestade do mundo.

«Juro, ouvi várias vezes ela dizer exactamente como já reproduzi - nem mais uma palavra nem menos uma palavra» - disse Eva Lopo que havia dito.

Também Helena telefonou. O desaparecimento violento do piloto fazia com que me tivessem transformado numa espécie de vestal - era a crença de que a proximidade do tabique permitia ter penetrado no limiar que antecedia a brutalidade do desfecho em Tete. Mas eu só tinha ouvido distintamente a frase que já havia repetido até à exaustão. Helena de Tróia também era varrida pelo mesmo ímpeto e queria que eu fosse encontrá-la na casa onde se mantinha fechada. A voz dela estava esganiçada como se o seu pombo estivesse aflito. Apanhou-me à porta, ainda antes da sucessão dos mainatos. Ouviu a frase da Mosca Morta, decompô-la palavra a palavra como se contivesse um código.

«Bom» - disse ela. «Quer dizer que nunca vamos saber se era a mulher que o incitava, se era a mulher que o coibia».

«E é importante?»
«Muito importante. Só assim poderíamos determinar se esse homem é uma baixa em combate ou uma vítima área comum. Não é o mesmo» - Tinha um vestido quase transparente, muito acima do joelho mas a alma transparecia-lhe muito mais que o corpo. Fazia cálculos tão vivos de perna traçada que a alma ofuscava o corpo.

«É completamente diferente haver ainda cinquenta baixas por acontecer ou haver quarenta e nove» - disse ela. «Cinquenta homens abatidos em dois meses ainda é muito homem abatido» - Helena parou, para olhar os peixes que sustentavam o vidro. «No entanto, se pensarmos que estão envolvidos seis mil homens, e que cada companhia tem à volta de cento e vinte, isso significa que a hipótese de baixas por companhia fica reduzida a um homem...» Helena olhava fixamente os peixes, depois o sino e depois o vidro.

«Não, não pode ser! Esses cinquenta homens têm de estar localizados entre as companhias de assalto, que não são mais de seis, se tanto. Em seis companhias, a percentagem por companhia sobe assustadoramente. A hipótese de se ser abatido eleva-se para oito, nove homens por companhia de assalto». Helena falava para si mesma - numa companhia de cento e vinte homens, a possibilidade de se atingir o comandante seria de oito a cinco centésimos, atendendo a que nem sempre andavam no meio da coluna. Dizia Helena de Tróia. Já como alferes, a percentagem subia. Como alferes a possibilidade de se ser atingido subia, uma vez que caminhava no mato entre homem-terceiro e homem-sétimo. Jaime Forza Leal fora atingido em tenente quando estava em homem-primeiro, posição que nunca mais poderia voltar a ocupar ainda que o Jaime o desejasse. Só quem não conhecia o Jaime Forza Leal. Mas atendendo a que estavam envolvidos seis mil homens e que se previam cinquenta baixas, isso significava que só se contava com a baixa de três oficiais. Helena atingiu o ponto culminante - o piloto Fernandes seria então um número a incluir nessas baixas?

«Acho que não».

«Também acho» - Helena tinha a alma toda de fora como uma chama que se revela e consome o objecto a que foi ateada. O corpo tinha desaparecido da elipse do olhar. Ela disse - «É interessante que você ache exactamente o que eu acho!» Transida por uma espécie de alegria calada. Estávamos com a mainata. Calçada de sapatos brancos, a mainata estava do lado de lá da porta, esperando, via-se-lhe a silhueta embaciada pelo vidro. Helena foi tomada por uma espécie de júbilo. «Vai-te embora daí!» - disse ela, sacudindo o sino. «Pareces-me uma sombra atrás da porta da minha vida!» - gritou para o ar. A mainata desapareceu da mancha do vidro. Helena falou para o interior da sala, a voz bateu nos peixes - «Nasci para ser feliz, e a figura negra dessa mainata atrás da porta, por mais que a vista, lembra-me o fim de alguma coisa, uma espécie de morrer de dia, lá longe, nos países com frio!» Arrepiou-se com a imagem do frio. «Diga-me de novo que o piloto não pode ser entendido como uma baixa, diga-me de novo o que lhe disse a mulher. De facto ela costumava dizer mentira, mentira, tens bastantes horas de voo... Sinto-me tão feliz por você ter interpretado exactamente como eu! Acho que o destino nos fez encontrar por alguma coisa...»

Depois Helena de Tróia quis saber como iam as mulheres do Stella. Perguntou por elas uma a uma, interessou-se pelas roupas delas, pelos penteados, pelas reacções, quis saber se apareciam a todas as refeições, a todos os jantares. Comparou. Concluiu que nenhuma das que deveriam sacrificar-se pelos ausentes estava a sacrificar-se. Helena de Tróia levantou-se, foi à janela que ficava entre os dois nichos de frontão triangular. Em frente, o mar estava mudo pela distância e pela vibração do climatizador. Dentro da mastaba onde nos encontrávamos fazia frio. O calor que caía fora e se via era como num filme, com o sol caindo fora da vista, deixando fixado um rubor intensamente vermelho. A areia em linha completamente recta era rosada, e o mar azul e vermelho. A estrada era também uma fita recta, mas ficava escondida. No meio das fitas rectas que davam a ilusão de que tudo além da janela até ao fim do mundo era recto, paralelo e vermelho, passavam figuras de pessoas negras - quatro figuras negras, duas curvadas sob o peso da terceira, e a quarta atrás. A que seguia atrás levantava os braços no céu vermelho, mas não se ouvia nada, deliciosamente nada do que pudesse dizer. Percebia-se que a terceira figura, como o homem da madrugada visto do quarto do tabique, tinha o pescoço pendido. As pernas abanavam e caíam na linha recta que a estrada fazia contra a areia. O grupo poisou a terceira figura no chão. A quarta acercou-se, fez-se um novelo sobre a terceira, desapareceu atrás da linha da estrada. Depois, as duas primeiras figuras levantaram a terceira acima das cabeças, a terceira foi posta sobre os ombros, e a quarta seguiu, com os braços esticados na direcção do céu que enrubescia como um incêndio. Se Helena dissesse alguma coisa? Oxalá não dissesse. Permaneceu calada, com os dez dedos espalhados pelo vidro, sem proferir um nome. Com o cabelo encharcado de cor vermelha como o fundo onde as figuras passavam. Oxalá não passassem. Oxalá sustivessem o andamento no meio da linha por onde andavam. A terceira figura, sobre os ombros das outras, tinha os braços pendidos, as pernas moles, a cabeça derrotada. Devia estar quente. Helena disse, arrepiando-se no frio do living - «Ainda deve estar quente». Depois disse, quando as quatro figuras desapareceram do ângulo de visão - «Arrastam-no, não querem o dumper». Eva. pena que falasse. Helena de Tróia não deveria ter língua, deveria ser muda, nunca deveria falar.

Sim, no seu relato nunca fala.

Obrigado porque nunca fale e sobretudo porque nunca se entende porque nunca fala.

Mas na manhã seguinte chamou-me pelo telefone e falou. O pombo da sua voz prolongava a inflexão do dia anterior, não a última mas a inflexão do momento em que tinha reconhecido que estávamos em sintonia absoluta quanto à tomada da baixa do piloto como uma baixa fora das previsões. A sua voz crepitava de intimidade quase doméstica, e pela primeira vez me chamava para junto de si, com aquela voz de pombo. Estou a ouvi-la. É um belo dia. Tem nesse dia o vestido amplo da segunda vez. Porque gosta de se vestir daquele modo tão imperativo? Nesse dia ela não fala nem daquele patriotismo sem pátria de que costuma falar, nem do heroísmo abstracto, sem substância, que costuma ter. Não - Helena de Tróia nesse dia fala do que deveria ter falado desde sempre. Fala de meias, cuecas, lingerie. Vêem-se-lhe os dentes a rir quando toca nesses panos sem peso. Os dentes dela nasceram, mudaram e cresceram para rir quando apalpa certas rendas de lingerie. Fala de vernizes, de cabelos, mexe nos cabelos, estica as unhas, põe os dois pés cheios de unhas sobre o tampo da mesa com peixes. Fala das máscaras de beleza feitas com frutos tropicais. Sobretudo a papaia, ela acha que não existe melhor fruto ao cimo da terra para amaciar a pele e a tornar brilhante como a papaia. Mostra o cadinho onde mexe com pauzinhos a papa do limão e da papaia. Agora representa que mexe, agora representa que aplica, agora representa como a pessoa enquanto aplica uma máscara não se pode rir. Precisamente - agora ri, agora encolhe-se, agora sacode o cabelo, puxa as pernas, enrola-as sobre o sofá. Estou a vê-la num novelo com a boca sobre os joelhos. Estou a ouvi-la às gargalhadas sobre algum tema hilariante que não sei o que é. Estou a ouvi-la a ela e às pancadinhas da mainata no vidro da sala que se dirigem a ela. Mas a mainata pode dar pancadinhas. Para que serve uma mainata vestida, calçada, durante a tarde inteira senão para fazer alguma coisa como dar pancadinhas? Vejo Helena de Tróia virar-se por fim, ouço-a dizer - «O que é?» E a mainata iniciar um lamurio, contorcer o seu lamurio além da porta. Vejo Helena virar-se, perder a paciência, prever que a mainata tenha partido algum vidro. A mainata não partiu, não, a mainata está enroscada sobre si, as saias brancas, europeias, que lhe pendem da cintura como um repolho, têm as bainhas pelo chão. Bate com uma mão na outra, perto do chão, está lamuriando com gritos para que Helena vá ver o Mateus Rose. O Mateus Rose está mal, está morrendo debaixo de descapotável. Ou melhor - o Mateus Rose já morreu.

É ali mesmo, naquele momento que fico a saber - a mainata tem um nome decente, tem um nome de gente, chama-se Odília, mas os mainatos têm nome de vinhos. Não, não foi o capitão que pôs de moto próprio, eles é que o desejaram. O que ainda está quente sob o descapotável chama-se Mateus Rose - é assim que a mainata o chora, com um alto grito. O companheiro que dormia ao lado sob o descapotável chama-se Adão Terras Altas, mas o outro, o que usa calção de caqui, chama-se Camilo Alves. Camilo Alves não chora nem grita, está de pernas afastadas, calado, ’parecendo sonolento, como sempre que Evita bate à porta da casa do capitão. Helena de Tróia debruça-se sobre o morto, chora a morte não o morto, a imagem do vestido amplo de mulher branca, aberto como o leque dum deslumbrante pavão sobre o corpo negro do seu mainato estendido no jardim verde, é uma imagem cheia de esplendor.

Não tenho dúvidas - é essa imagem que me faz entrar no Hinterland e pedir para falar com o homem que me atendeu no outro dia. Eu tenho lido o jornal, ele regista os óbitos, descreve-os e localiza-os, fala em mais três, mais quatro, na sequência do furto dos bidões de álcool efectuado no porto, refere as entidades sanitárias que estão alerta, mas não há o primeiro acento na mais pequena palavra que indique a suspeita de que existem garrafas dentro de sacos largados nas praias, ou garrafas colocadas sobre mesas de gente que partiu para férias eternas. Nem que existam garrafas dessas a vender pelas cantinas. É uma indecência, de facto quem sabe ler já sabe o que se passa mesmo sem ler. Contudo, é incivil que não se escreva e se deixe grassar a verdade em forma de boato - Estou dizendo porque afinal até Helena sabe. No jardim da vivenda, ela pergunta a Adão Terras Altas, antes de vir o dumper, onde está a garrafa. O Adão Terras Altas mente, diz que não sabe, que não viu garrafa nenhuma, mas procurando no jardim, além da garagem do descapotável, entre duas roseiras, está uma garrafa vazia. Adão Terras Altas chora, Adão Terras Altas guincha, ele não sabe nem bebeu. Viu, viu beber, mas não viu comprar nem achar. Só viu o Mateus Rose, adoecer e morrer, contorcido, escondendo-se debaixo do descapotável.

Hinterland - Estou na recepção e falo baixo, mas sei o suficiente desse jornal para poder dizer ao jornalista, que não escreveu uma linha sobre a suspeita, que está a ser financiado pela África do Sul. Por um magnata da África do Sul, se não for até pelo governo desse país. Não sou parva, percebo tudo, sei com as vistas largas que a África do Sul quer que a extrema do poder branco passe pelas colónias portuguesas, que enquanto a agitação se der a partir de Nangololo, Miteda, Capoca, Nancatári e Mueda, não se dará no Soweto nem no Cabo. Digo que a Liga de Pam Hanssen não é uma ajuda à mãe portuguesa, é uma traição ao mundo branco e ao mundo negro. Estou subindo de tom, e o jornalista a rir. Pode rir, porque antes de eu sair dali com a garrafa na mão - tenho a garrafa do Mateus Rose na mão - vou dizer o que penso dos jornalistas que sabem que se está a cometer um crime público, calculado, sem que ninguém levante a voz. Sou por que as coisas se devam saber através dos jornais e não através da polícia. Digo que desconfio das boinas da polícia, do seu ar gingão. Todas as pessoas civilizadas, entre a polícia e a informação, preferem a informação. Foi por isso que eu, que sou civilizada, preferi um jornal à polícia. «Ouviu?» - disse Evita.

«Mas você ouviu?»

Ele está a rir. Agora falo alto, a imagem esplendorosa de Helena de Tróia espalhando o vestido sobre o seu mainato morto com espuma, leva-me a dizer tudo. O seu choro convulsivo, o suor no pescoço que escorre sobre o morto, lá fora ao calor, e se confunde com as lágrimas, até que o dumper apareça, incita-me. Incitam-me as plantas dos pés do Adão Terras Altas, espetados no ar, como se fizessem adeus ao chão de África. O dumper levando-o com um ruído de lata batendo, insolene, na estrada paralela ao mar. Não compreendo que pensamento cínico habitualmente me leva a estabelecer sobre o mundo, para sempre chegar à conclusão de que a culpa é um corpo celeste que existe além de nós e independentemente de nós. Não compreendo porque penso assim, e contemplando o que é nocivo, nunca culpe. Nunca saiba o que é nocivo. O meu olhar de cão sobre os actos não contém a ferocidade necessária à luta, só ao riso. Agora porém, eu culpo. Quero culpar aquele homem especado a rir de mim e da garrafa, encostado à mesa da recepção, sob as pás amarelas e sujas presas do tecto. Você é culpado. São tantos os efeitos da culpa do jornalista que não consigo enumerá-los, e no entanto quereria. Apetece-me bater na culpa personificada por esse homem mas não consigo atirar-me à cara dum homem que está a rir. Posso, porém, vingar-me da mesa, porque entre ele e a mesa não há distância, fazem ambos parte dum mundo cheio de culpa que salta e rebola, de indiferença. É sobre a mesa que desfecho os punhos. A mesa, porém, oscila pouco, muito menos do que quereria. Quereria que a mesa oscilasse e partisse. Não parte. Bato mais, choro curvada sobre a mesa, porque não se parte. Vim enganada parar naquela costa - o que me chamou, ou me empurrou, quis que sofresse a desilusão sobre todas as coisas daquela costa. Porque não salta uma perna da mesa de forma a mostrar essa desilusão? Bato na mesa que salta, assento um baque no coração da mesa como na cara da culpa. Não me importo que a mão inche. Naquele momento não é o metanol espalhado que me importa, mas a mesa que não obedece e não salta quanto eu quero.

O jornalista disse - «Ficou estúpida? Está aí a insultar toda a gente para quê? Também é preciso ter cuidado com a língua». Mas o jornalista fez um sinal que esperasse. Ligou a ventoinha e arrumou a mesa. As pás da ventoinha começaram a agitar o ar pesado de cheiro a tinta, químico e papel que vinha da gráfica. Voltou, pediu-lhe que o seguisse, procurou o carro. Não caía nenhum fim de tarde sem precedente - caía sim a noite, abrupta, sem interrupção, quase negra, como se vista do interior de um saco. O jornalista abriu a porta por dentro, já sentado, como os homens que vivem sem ter tempo. Ela entrou e já ele arranca, acelera o motor, sai pela avenida que tem enormes covas, dá guinadas para evitar as covas, mas ainda não choveu, ainda salta pó que não se vê, contudo sabe na língua porque as janelas vão abertas, ambas de par em par. Ele pára diante duma espécie de doca que afinal é foz e é nascente do braço de mar, conforme se queira. O Moulin Rouge tem as tristes pás no ar, ela está virada para as pás, ele está de costas, é agora que ela vê que ele não é um homem novo, nem um homem branco, nem um homem estúpido.

O jornalista disse - «Fique a saber que todas as quintas-feiras eu arrisco tudo pela verdade, fique a saber que às quintas-feiras tudo o que tenho fica em perigo e eu mesmo fico ameaçado. Se todos os dias arrisco, há certos dias em que não tenho mais nada para arriscar - arrisco tudo, completamente tudo». O jornalista depois pareceu desembaraçar-se dum sentimento que afinal estava a ser comum. Ele disse - «Não tem razão. Ah, se soubesse como não tem razão! Aposto que lê só as gordas e forra o cesto dos papéis com as gordas e as magras». Evita, lembro-me - «É imperdoável». Estavam dentro do carro, a olhar para o cabaré das velas lanceoladas. Ele «Bom, uma pessoa tem um caso determinante na vida, mas o mais determinante acontece uterinamente. É aí que as coisas se decidem». Evita - «Caramba, parece um genocídio».

- «Há formas, há excelentes formas e medíocres formas». Evita - «Trouxe-me até aqui para balbuciar o silogismo do absurdo? Olhe que comparar a luta armada com um crime por envenenamento é o mesmo que confundir o código da honra com uma resma de papel manchado».

- «Calma, a mãe morreu, o pai morreu. Isto tudo para que compreenda alguma coisa de África...» Evita, lembro-me - «Eu não tenho nada a ver com a luta armada ou desarmada, não luto.» Ele, quando estavam de facto muito perto do cabaré com portada ainda deserta - «Meu pai era médico, minha mãe lavadeira». Evita - «Claro, orgulho, então?» Ele - «O pai morreu bem, morreu na esteira duma palhota ao lado duma negrinha a quem não conseguiu sacar o cabaço. A minha mãe batia roupa na pia. Gosto imenso do cheiro das pias porque ela era uma boa mãe». Evita - «Quero subir ao alto dum prédio e dizer em voz alta...» Ele - «Mas o quê, o quê?» Evita - «Que estão aqui a envenenar pessoas pela calada. A Universidade deu-me a crença na voz que clama do alto dum prédio. A voz que clama no deserto mas clama». Estavam diante do Moulin Rouge e ele perguntou - «Panfletos?» Evita - «Nada de panfletos, só clamar. Porque pensa você que Jan Palach se queimou em Praga? Você pensa que foi pela pátria checa? Não foi, foi por outra pátria que ele achou que havia para além daquela pátria pela qual se queimou na praça». O jornalista, com os olhos brilhando.

- «O quê? Quer dizer, sua farsante, que não esteve ali a esmurrar a mesa por causa dos meus patrícios mortos por metanol? Esteve por uma outra coisa?» «É» - disse ela. «Esse e o outro - o grande envenenamento que cai sem se saber donde, sobre todas as coisas». O jornalista pareceu desapontado. «Bom, desista - pense em níveis mais reais. Apesar de tudo consigo ser mais realista, caramba...»

«Agora não tenho mais nada para lhe dizer, mas para que compreenda, já lhe expliquei que o meu pai era médico. Sim, isso já disse mas ainda não disse que para o fim da vida só não fez filhos na papisa de Roma porque não a apanhou no consultório. O meu pai fez filhos, fez, fez. Foi fazendo, como se quisesse alcançar a eternidade através da reprodução» - disse ele. «Eu fui um desses». Evita, lembro - disse Eva Lopo. «Como é triste o Moulin Rouge, como imagino pobres e feias as putas do Moulin Rouge».

Ele - «Uma pessoa quando chega não compreende. Não são feias não as putas desse cabaré». Lembro Evita - «O seu caso é assim tão linear?» Ele - «Sou livre de dizer o que quero no jornal, mas é preciso saber escrever sem denunciar nem iludir. Difícil, pombinha...»

Sim, é natural que tenha havido uma conversa calma, pacata, que tenha começado com a invocação da coragem e tenha terminado no processo da ascendência familiar. A verdade é que me lembro de fragmentos. E para quê mais? Os Gafanhotos nem identificam o jornalista, nem lhe dão uma voz pessoal, e no entanto, fica-se a perceber que é o desencadeador daquela última noite.

Convenhamos que me lembro imperfeitamente, o que não deve ter nenhum significado secundário. O traço mais nítido dessa noite que caía sem lua, nem estrelas, nem luminosidade, é o momento em que lhe indico onde mora Helena de Tróia. O jornalista deixou-me à porta da casa de Helena onde um magote de rapazes falava em sena. As luzes estavam todas acesas, e Helena, que se tinha vestido de cinzento-escuro, estava sentada no sofá, em frente da mesa dos peixes. Ainda estava em estado de choque e ouvia a voz do Mateus Rose circular no ar.

«O Mateus Rose já se foi, não existe mais» - acabei por dizer.

Mas Helena recusava-se a acreditar, falando baixo. Dizia que ainda lhe ouvia os guinchos que costumava soltar enquanto lavava o carro. Tinha sido tão inteligente - dizia Helena - que havia aprendido a ligar o descapotável com o seu pé preto. Helena precisava confessar-se e dizer que era sensível a todas as pessoas da Terra em quem ela reconhecia um sopro de pensamento, como acontecia nas pessoas pretas. Ela dizia que não duvidava que tivessem alma. Tinha até rezado pela alma de todas as pessoas que estavam a ver vitimadas pelo álcool metílico, e Helena estava a chorar pelos seus grandes olhos castanhos, quase verdes, a qualidade da alma do Mateus Rose. Só depois da tragédia acontecida em sua casa, ficara Helena a saber que também o rapaz jardineiro dum vizinho tinha sido retirado numa rede de pesca e levado às costas através da praia. Não, o do dia anterior, que ambas tinham visto pela janela, quando o céu estava completamente incendiado como se tivesse atravessado um talho, era um outro caso, sem rede de pesca. Helena tinha medo e não queria passar a noite sozinha.

Helena abandonou-se ao medo.

Porque se abandona ao medo? Seguro-lhe nas mãos, imobilizo-as e digo-lhe que não tema, que tudo é pacífico. Ela responde que nada é pacífico. Ela, por exemplo, sente que quer ser uma pessoa de bem, uma pessoa boa, e não consegue, porque tudo é violento, andar, respirar, chorar pelos mainatos é violento. Morrer é a maior violência. «Vou passar a noite inteira com os olhos abertos com medo da morte do Mateus Rose».

«Que disparate, o Mateus Rose tem os olhos fechados».

«Ele tem, mas eu quero passar a noite inteira de olhos abertos, a vida inteira, a vida que houver além desta vida, eu quero passar de olhos completamente abertos, não quero mais voltar a dormir».

Helena não consegue suster os olhos abertos, fecha-os e adormece, estendida no sofá. Era assim que ela devia ter estado sempre - ruiva, branca, cinzenta, com o climatizador desligado, a alma ausente do ponto de encontro com o corpo que sobressalta, e se encolhe, e resvala do sofá. A alma que a habita vem de um local tão afastado do seu verdadeiro ser como naquela noite em que dorme, não fala. Helena respira e suspira e nem isso ela deveria fazer - deveria estar quieta, ter o peito imóvel, a garganta inclinada. O cabelo cobre-lhe em parte a cara, só se lhe vê a boca, fechada. Não se deve apunhalar ninguém enquanto dorme, pensando que a pessoa mantém o sono quieto, eternamente. Pelo contrário, a pessoa ainda tem oportunidade de abrir os olhos com espanto, agitar-se e cair, com um baque. A pessoa que apunhala para ter a felicidade de aprisionar o instante absoluto, logo vê como foi traído pela natureza da lâmina e o estrondo do baque. Não é possível suspender o instante supremo que separa a vida da morte. O segredo estaria aí. Mas escapa - disse Eva Lopo.

Repare contudo como nada disso se pode pensar nem dizer no alto do terraço do Stella Maris. Aí, como sabe, Helena tinha os olhos postos apenas na vida interior, a que decorria entre os braços de Forza e a assistência que prestou ao noivo. No terraço, Helena nunca verdadeiramente se moveu nem acordou. Mas Helena acordou.

Helena acordou sobressaltada, com os olhos redondos, postos na porta - «Dormi?» Percebeu que sim. Então Helena disse - «Percebo que você não gosta que eu fale. É assim com todas as pessoas? Fica muda com toda a gente, ou é só com algumas?» Já definitivamente acordou. Está pestanejando com os olhos postos a nível da boca dos peixes. Eles ficam menos nítidos com a luz da madrugada, mas não são menos escamudos. O corpo deles continua a fazer um S - Helena continua a pensar no mainato. «Sabe, este era o meu mainato, o único que eu contratei e escolhi, e foi logo esse que se embebedou com aquela horrível coisa! Todos os outros são escolha do Jaime. Você sabia que é o Jaime quem escolhe os mainatos?» - Parece contudo conformada, não volta a dizer que deseja ficar para sempre de olhos abertos. Parece querer fazer acreditar que esse impulso de permanecer para sempre de olhos abertos para não entrar no reino dos mortos foi apenas uma manobra involuntária do sono. Oxalá não levante a voz, não se espreguice, não respire demasiado fundo, não se levante desgrenhada. Evita não quer olhar, nem ouvir. Mas não tem que recear porque Helena continua a falar baixo e há uma cumplicidade na sua voz que chega a intimidar. Helena pega-me na mão.

«Chiu! - disse ela. Venha».

Helena levou-me atrás de si até um recinto que parecia não fazer parte da casa e que tinha acesso através dum corredor que não dava para outra divisão além daquela. As portas estavam fechadas e as janelas corridas - era a hora mais fresca do dia, a que precedia o alvorecer, mas mesmo assim, estufava. Porque estufava, todos os cheiros se misturavam, podendo distinguir-se desde o primitivo odor da tinta que estampava o tecido da janela, até ao cheiro dos coiros, até ao cheiro das diferentes madeiras. Era contudo um cheiro poderoso - o do coiro - que exalava mais forte, engolindo todos os outros, o que não admirava, porque o chão estava atapetado de peles de zebra, e as paredes estavam enfeitadas de setas, máscaras e tambores. O tecto tinha um desenho de forma estrelada construído em setas. Helena de Tróia começou a transpirar sobre o lábio «Chiu! Este é o canto do Jaime. Diz o Jaime que tudo isto tem um alto valor antropológico». Depois aproximou-se da secretária que ocupava o local onde se esperaria ver um animal embalsamado. Subiu à secretária, alcançou a boca duma máscara, meteu lá o dedo, e com a ponta da unha, retirou uma chave. De fora veio um ruído que a fez sobressaltar. Helena sobressaltou-se. Desceu, correu à janela com a mão em cima do coração. «Não foi nada, não foi ninguém». Helena retomou a chave, dirigiu-se ao cofre. Rodou o segredo, devagar, a porta soltou-se, e de dentro, Helena começou a tirar envelopes. «Você vai ver aqui o que o Jaime diz ser um segredo de Estado!» - falava com intensa responsabilidade, o peso secreto de se conhecer um documento - disse Eva Lopo.

Pergunta-me se não tive conhecimento directo. Não directamente, apenas conheci algumas roupas sujas - disse depois Eva Lopo. E para quê conhecer directamente? Querer desconhecer não é uma cobardia, é apenas colaborar com a realidade mais ampla e mais profunda que é o desconhecimento. Aflige imenso o esforço que se faz para atingir umas centenas de quilómetros de papel onde se julga deixar selado o conhecimento. Papiro, pedra, papel, sinais, bibliotecas. Lembro a de Alexandria. Ah, Biblioteca de Alexandria, como eu te estimo tanta vez incendiada! disse Eva Lopo. O conhecimento subtil dos teus papiros amarelos, queimados, transformados em caracóis de fumo, escreveu ao longo dos séculos quilómetros e quilómetros de desconhecimento. A vida passa ao lado, vai correndo a caminho do reino obscuro das areias e das pedras. Estimo os países de vocação metafísica total, os que não investem na fixação de nada. Que queimam ou deixam voar, quando as manhãs ventosas de Outono chegam, tudo o que pode ser objecto de conhecimento - disse ainda Eva Lopo. Aprecio imenso esse esforço de tudo apagar para se colaborar com o silêncio da Terra. Pegue nestas palavras, leve-as para o terraço, ponha-as na boca da noiva na noite d’Os Gafanhotos.

É assim que me lembro, ainda que para nada - disse de novo Eva Lopo - das caixas e dos envelopes selados que saíram do cofre. Estavam envolvidos em papel de plástico com armas dum exército dum país diferente e etiquetados com palavras também em língua diferente. Os envelopes dizia simplesmente spoilt, mas as caixas, essas, estavam rotuladas em caracteres grandes - TO BE DESTROYED. Helena avisou, no entanto, que para já não havia intenção de queimar. Quando houvesse uma independência branca, aqueles seriam os documentos que haveriam de atestar quem tinha e não tinha ido à guerra. Blablá mesmo escrito era uma coisa, enquanto a cara na película era outra - tinha dito o Jaime. Queimariam sim, no caso de haver uma volta diferente, mas o Jaime não acreditava em voltas diferentes. Por dentro das caixas havia envelopes, e dentro dos envelopes, amarradas com elásticos, as fotografias arrumavam-se por operações. Em cada envelope, às vezes manuscrito, lia-se spoilt. Helena começou a passar os envelopes. Devia conhecer as fotografias como um bom estudante conhece a sua sebenta. Ela ia seleccionando, ia dizendo baixo, não interessa, não interessa... Parou num envelope que dizia Tigre Doido para além de spoilt. Helena passou-me esse envelope, com o olho pregado ora na porta ora na janela, daquele quarto de caça. Vejo - as primeiras dez são fotografias de colunas normais. A pessoa que as tirou deveria ter sido uma das últimas porque apanhou, em terreno quase descoberto, as cabeças de inúmeros soldados em longa fila, sobressaindo acima das gramíneas. Há fotografias prosaicas com soldados comendo deitados, outros enterrando latas. Numa outra estão fugindo e abandonando os bornais e as espingardas. Helena explica que se tratou dum ataque de formiga. Na fotografia seguinte, de facto, um soldado ri, mostrando uma espingarda sem bandoleira. Helena diz - «Começa aqui!» Helena mostra. Numa fotografia tremida, um negro esfarrapado está a ser segurado pelos braços, mas não se lhe vê o rosto porque está de costas. Vê-se na seguinte o rosto, mas não se lhe distinguem bem as feições nem a fotografia está legendada. Na seguinte, o capitão examina uma arma. Helena explica - «É uma Kalash que temos aqui em casa. Você sabia que temos uma Kalashnikov em casa?» Novamente a coluna, a vegetação rasteira, e em seguida os soldados figuram entre umas árvores sem copa que parecem ter sido queimadas. Não, não devem ter sido queimadas, são mesmo assim. Está legendado - Zona dos Paus com paisagem de paus. No meio desses paus, sem copa, é a primeira vez que distingo o noivo. Helena retira essa fotografia do molho e suspende a fotografia onde se lhe vê nitidamente a cabeça. Tem a barba crescida e a boina espalmada na testa, o noivo. Depois só silhuetas, só figuras andando, depois o tipo negro sem camisa, de calções esfarrapados, à frente.

«Este é o mesmo a quem tiraram a arma» - explica Helena. «Não viu atrás?»

Helena faz questão de mostrar atrás, mas logo a seguir o homem negro dos calções esfarrapados aparece a ser amarrado pelo pescoço numa espécie de pano. «É a camisa dele» - explica. A fotografia seguinte representa uma árvore alta, sem folhas, como se realmente queimada, e um grande galho donde pende o negro, pelo pescoço, baloiçando sem camisa. A seguinte tem a mesma árvore, o mesmo galho, o mesmo negro, mas agora não tem nem calças nem camisa. O negro baloiça no galho da árvore, rodeado por soldados. Helena segura a fotografia. «Disse o Jaime que as calças dele escorregaram e que ejaculou para cima do capim, em frente dos soldados portugueses! O Jaime diz que nunca mais acontece - agora vão amarrar sempre as calças de quem for enforcado, para se pouparem a cenas dessas!» - disse ela. «Passe» - disse, com um olho na porta, outro na janela. Passou outro pacote. Agora havia outro pacote que dizia Víbora Venenosa. Eram imagens de incêndios, aldeias em chamas, sem qualquer referência. O fotógrafo deveria gostar dos rolos de fumo. As seguintes tinham referência, localização, e número de palhotas destruídas - destruídas trinta, oitenta e três... Também traziam coordenadas. Agora no meio das palhotas incendiadas havia soldados correndo. Adiante, novo pacote. Estávamos sentadas num sofá de pano onde Helena ia empilhando e desempilhando. Helena mostrou-me com precaução o pacote que dizia spoilt como os outros e Víbora Venenosa III. Mais rostos, mais cabeças de soldados escondidos entre sarças, mais incêndios, e logo a imagem dum homem caído de bruços, depois dois telhados, e sobre um dos telhados de palha, um soldado com a cabeça dum negro espetada num pau. Viam-se vários corpos sem cabeça à beira duma chitala, um bando de galinhas avoejava sobre eles na mesma fotografia. Helena passou. Helena tomou a seguinte e mostrou o soldado em pé, sobre o caniço. Via-se nitidamente o pau, a cabeça espetada, mas o soldado que a agitava não era um soldado, era o noivo. Helena de Tróia disse - «Vê aqui o seu noivo?» Ela queria que Evita visse. Era claro como a manhã que despontava que Helena de Tróia me havia trazido até àquela divisão da casa para que eu visse sobretudo o noivo.

Agora o noivo estava no primeiro plano do fotógrafo. O noivo aparecia com um cabrito às costas, a rir imenso, as orelhas separadas emergindo do barrete, depois entre duas mocinhas negras de cabeças penteadas com inúmeras marrafas, logo por cima do ombro dum velho tatuado, e em seguida a oferecer um cigarro a um rapaz ainda novo que ria aceitando o cigarro da mão do noivo. A admiração do fotógrafo deveria ter sido recente - o noivo e o capitão ocupavam os primeiros planos duma forma abusiva. O Lobo Assanhado, pacote dez, sempre spoilt, representava feridos estendidos no chão, depois o momento em que dois deles se erguiam, e um deles ficava definitivamente estendido entre o mato. As sequências eram exactas e o fotógrafo uma pessoa atenta, talvez corajosa. Mas na fotografia seguinte, o noivo estava ajoelhado diante dum homem que não levantava a cabeça do mato. O noivo tinha a arma ao lado como se a houvesse deposto. Cobria a cara com as mãos, o noivo. «Foi quando o Singer morreu» disse Helena, sempre sobressaltada, sempre em voz baixa. «Mas ficou o Husqvarna - eram os dois limpezas!» disse ela. Percebo. O alferes Luís está chorando pelo melhor soldado da limpeza.

Helena passou a outro envelope, Salamandra Roxa, spoilt. Fotografias vulgares, documentos sem interesse que Helena põe de lado, só os rostos em primeiro plano mostram as barbas crescidas e a fadiga dos olhos. Depois as fotografias encolhiam o tamanho dos homens, o fotógrafo deveria estar longe, percebia-se que assaltavam alguma coisa. Havia uma que só revelava manchas, e logo na fotografia seguinte, surgia uma velha ao lado de Forza Leal. Dava-lhe pelo cotovelo, e a ndona do beiço era do tamanho dum prato. O capitão ria ao lado da velha que na fotografia parecia uma pele, uma espécie de bexiga seca enfiada em paus. «Vire» - disse Helena, espreitando a rua que havia clareado completamente. A legenda era clara - Nancatári, a velha das setas. Helena pôs-se a rir e indicou o tecto. «Está a ver aqui as setas?» - Helena aproximou a cara da velha com ndona. «Nunca se fica a saber o que acontece concretamente à velha das setas» - disse ainda. Percebia-se contudo, pela sequência que a velha tinha sido transportada para dentro dum Unimog, diante dum molho de setas, mas depois desaparecia, para surgir numa outra fotografia de maiores dimensões, como se tirada por outra máquina, sentada junto dum muro que deveria ser de Mueda. Atrás, estava a Administração, e uma espécie de hangar, um pedaço do aquartelamento de Mueda. Logo outra de idênticas dimensões, com um mar de granadas e um morteiro oitenta e dois, de galga estendida, entre uma floresta de metralhadoras. Atrás, retratando-se para o futuro, as pequeniníssimas cabeças dos soldados. «Passe, passe!» - disse Helena, enervada com a lentidão com que a outra olhava para aquela quantidade de material capturado.

«Isto é infindável! Eles também estão armados até aos dentes».

«Veja esta» - disse Helena. Era um envelope que Helena tinha retirado para o lado. «Esta foi a operação Espadarte Raivoso, uma operação anterior àquela em que o Singer do seu noivo morreu. Repare como ainda estava vivo o Singer». Via-se o Singer diante duma fileira de homens e mulheres atados a uma corda, e ele puxando pela corda. «Passe!» - A corda era cada vez mais longa porque cada vez apareciam mais pessoas amarradas a ela. Helena de Tróia já deveria ter passado os dedos por ali dezenas de vezes, porque sabia de cor quantos prisioneiros estavam amarrados em cada fotografia com o Singer. «Vê aqui esta com uma barriga tão grávida? Olhe aqui nesta, como já tem ao colo o bebé. Perguntei, mas o Jaime nunca me disse para onde levaram o bebé. São catorze pessoas. Vê o Singer do seu noivo? Nas fotografias seguintes não se vê mais nem o Singer nem o Husqvarna, a não ser nesta» - Helena passou, o Singer e o Husqvarna vão juntos, cada um com sua faca de mato. «Passe!» - disse ela a olhar para a janela por onde o sol já entrava. Passei - as últimas mostravam, ainda que a fotografia estivesse com manchas, um cemitério esparso de pessoas negras. Ainda outra e outra. Helena puxou uma lupa da secretária. «Veja aqui» Percebia-se que tinham sido amarradas pela boca e apunhaladas. «E aqui o seu noivo» - disse ela mostrando outra. - E aqui o noivo, e ali o noivo, e ao virar de cada fotografia, cansado, a rir, com as orelhas espetadas, a enterrar latas ou a fugir das formigas, o noivo por tudo e por toda a parte. Luís Alex, o noivo, por entre vultos, por entre sombras. E quando Helena se sobressaltou com um ruído exterior, os pacotes foram empurrados para debaixo do sofá, e tanto os retratos quanto os coiros, as setas e os tambores, tudo ficou sob sombras.

Vejo sombras.

Não, não coloque o noivo, os alferes e o seu capitão entre essas sombras, quando os levar a dançar com as mulheres. A verdade é que nessa noite eles desviavam-se de todas as sombras, e elas colocavam o nariz nos seus ombros, e era imenso o perfume dos sabonetes que rescendia pela atmosfera. Sem música, como se estivessem no silêncio do mato e da floresta, mas lá em cima, no pino do Stella Maris. Nessa noite queríamos dançar descansadamente, só com o olhar dividido entre o céu e o mar, tornados da mesma cor. Lembre-se que nem víamos os ortópteros para prestarmos atenção ao que ia na nossa alma. O langor que subia pelo corpo até fazer unir as bocas. Por favor, evite todas as sombras. Tem-se feito um esforço enorme ao longo destes anos para que todos nós o tenhamos esquecido. Não se deve deixar passar para o futuro nem a ponta duma cópia, nem a ponta duma sombra.

Aliás, no seu relato, enquanto acontece aquela hora de espera, em que não se sabe contra quem foi atirado um tiro, nem por quem, ainda que se deduza - toda a gente dançava, e os gafanhotos empalideciam a luz - e por fim todos desceram à praia, inclusive o Comandante da Região Aérea, teria sido preferível que tivessem utilizado esse tempo para procurarem o noivo no lodo do Chiveve. Poderiam ter acompanhado Evita até ao pequeno jardim de árvores ralas, que nessa noite mal se divisariam, para espreitarem pelo paredão a fauna e a flora do lodo do Chiveve. Deveriam ter descido com lanternas, e aquele major, síntese de tantas criaturas, ele mesmo poderia ter divisado Luís Alex entre os caranguejos do lodo. A minúcia das pilhas eléctricas seria imensa e o verde dessa noite poderia ser iluminado duma outra forma. Se o encontrassem aí em vez de o terem recolhido das ondas lambidas do mar, o impacto teria sido diverso.

Assim, ela foi obrigada a esperar pela manhã para ver o Chiveve, e aproximou-se do paredão donde se via a margem repleta de caranguejos pardos. Alguns deles eram tão ousados que se aproximavam do paredão e mostravam nitidamente os dois pontos negros dos olhos. Evita pegou num calhau e atirou a um dos animais que pastava ao sol, e logo vários em redor se enfiaram em pequenas luras de lodo. Não soube durante quanto tempo esteve debruçada sobre o paredão atirando pequenos calhaus e esperando o regresso dos animais. Eles aproximavam-se da lura e colocavam as forças dianteiras de fora. Havia um momento em que se detinham sobre a boca da lura e logo se punham ao sol ainda calmo da manhã. Evita não sabia por que razão os caranguejos lhe lembravam soldados. Não havia ligação nenhuma entre os bichos decápodos e os soldados de quatro membros, e no entanto não conseguia deixar de ver nos animais que faziam aquele jogo com os calhaus, miniaturas dos soldados. Sabia, contudo, que não era isso que desejaria pensar, que o seu pensamento a enganava e a tinha ali retida para que não atingisse outro local da imaginação. Ela atirava os calhaus, mas nunca acertava na mais pequena pata de caranguejo. E atirava, atirava. Os animais alapardados com o solo mal se moviam. Pensou então que estava apenas ali por estar, como antigamente gostava de se sentar diante de quadros ou diante de janelas por onde a água de Inverno corria. Porque não haveria de gostar de ver caranguejos pardos, atarracados, viverem com a barriga e a cabeça agarrada ao lodo? Lembrava-se da mãe, da fina voz da mãe - «As almas boas são atraídas pelas paisagens grandiosas, como os grandes prados, os grandes rios, porque são grandiosas como elas!»

Mas quem poderia desmentir a grandiosidade daquele lodo imenso cheio de detritos e de roscas, e de tacões de sapatos? Quem media a grandiosidade das paisagens? Ou a grandiosidade dos cálculos, ou das pessoas elas mesmas? Isto é - quem determina a hierarquia da lâmina onde fenece a mesquinhez e se inicia a grandiosidade? De novo não havia nenhuma fronteira, ou ela era impercéptil e irrelevante e ninguém podia indicar se era grandiosidade ou mesquinhez o impulso das pessoas que degolavam as cabeças das outras e as espetavam em paus, e as agitavam em cima das habitações dos próprios degolados. Sempre assim fora. O Condestável tê-lo-ia feito, o Fundador muito pior, também os melhores heróis dos Sérvios, dos Tártaros e dos Saxões e dos Bávaros. Se a Terra tivesse memória, quantos cantos da terra ficariam isentos da lembrança dessas cenas de degola? Poucos, porventura um ou outro pedaço de mar, e mesmo assim, seria necessário não contar com o horizonte. Desse modo, Luís Alex, nem sequer era insigne apenas um bravo que cortava cabeças e as enfiava num pau, subia às palhotas e ameaçava a paisagem, como os melhores de entre os Godos, os Árabes, os Hunos.

Mas ela conhecia o percurso de Luís Alex, e o que tentava era achar finalmente o momento, o brilho, a palavra que desencadeava na pessoa o gosto de degolar. Se achasse isso através do que conhecia do noivo, o antigo aluno de Matemática com quem tinha privado de tão perto, ela julgaria ser capaz de compreender as hordas dos bárbaros de todos os tempos, mesmo os calados e sem espada de quem ninguém fala, nem se guardam fotografias comprometedoras. Mas era sem dúvida uma enorme ambição - disse Eva Lopo.

Não, não se encontrava em nenhum terraço onde chovesse uma nuvem intensa de gafanhotos. Luís Alex costumava tomar café numa pastelaria da Avenida da República, ainda com bancos. É aí que o vejo. A pesquisa que fazia desmedidamente sobre as equações de grau superior ao quarto haviam-no feito descurar as outras cadeiras. Em vésperas do exame de Astronomia, Luís Alex, passou a tarde na pastelaria concentrado sobre álgebra. No dia seguinte reprovou no exame. Na tarde em que reprovou em Astronomia, só tinha um fio de voz, mas de novo voltou às equações de quinto grau. «Chumbaram-me» - disse ele, mas também chumbaram o Galois. Os Matemáticos da Politécnica chumbaram-no, e obrigaram-no a que perdesse a paciência e atirasse uma esponja à cara dos professores. Estava inquieto, quase orgulhoso, e quando uns tipos avançaram pela pastelaria dentro, o Luís Alex disse cheio de tenacidade - «Uma merda, pá, chumbaram-me em Astronomia!» Um dos que chegava, porém, vinha emocionado e varreu com o punho os papéis e as chávenas da mesa. Os criados pararam.

«Uma merda, pá, estás tu aqui a encornar esta coisa e os nossos amigos a morrerem em África, pá! Não tens vergonha, pá?» - E falaram dum tipo que era campeão de vela, todos se lembravam, e que tinha morrido não se sabia como. Mas Luís Alex, imperturbável, quando eles saíram, tinha-se debruçado sobre as equações. Ficava muito tempo imóvel, diante do papel, como se o quadrângulo dele fosse revelador, e depois atirava-se à folha e enchia-a de ângulo a ângulo. Reprovou em Estatística e Probabilidades - «Queres chumbar a tudo?»

«Não» - disse ele, cabisbaixo, com as mãos imóveis. «Tenho de te dizer uma coisa - ter de fazer instrução e tropa, e guerra, e tudo isso, impede-me de pensar. Odeio tanto essa vida que não consigo pensar!» «Devias não pensar, por isso mesmo». «Mas penso» - tinha ele dito. «E acho que se quiser fazer alguma coisa em Matemática, tenho de fazer quanto antes, essa vida, essa tropa».

Nos dias seguintes, Luís Alex voltou às equações. Era Verão em Lisboa, havia imensos pássaros chilreando no Campo Grande. Poderia reprovar um ano sem ter de fazer a tropa necessariamente. Toda a gente sabia disso. Ela afagava essa ideia, acolhida na cava do seu braço. De repente, ele começou a andar impelindo-a para junto dum lagozinho com pato - «Ouve!»

«Se é necessário fazer o que me impede de fazer o que mais quero, devo quanto antes fazer aquilo que me impede. Desejo ardentemente a tropa, para voltar de novo à Matemática, e mostrar àqueles caras de cão como existe uma solução, uma fórmula para resolver Galois. Aliás, eu acho que a tenho aqui!» - Luís Alex fazia vibrar a pasta.

«Quer dizer que começaste a desejar a instrução e a tropa?»

«Sim, sim, como um meio para atingir um fim. Quanto mais depressa, mais cedo vou ficar com a vida livre. A vida inteira para a Matemática» - Imaginava essa vida inteira, com as mãos cheias de fúria pelos ombros de Evita. Na manhã seguinte, Luís Alex entrou na porta de armas do quartel onde estava um soldado com pernas abertas, chapéu de ferro, perto duma casinha de pau.

Mas quando se tinha dado a mudança de Luís Alex? No momento em que reprovou em Astronomia? No momento em que soube da morte do campeão de vela? No momento em que entrou no quartel pela porta guardada pelo soldado de chapéu de ferro? Guardaria ele uma bola de enxofre à espera de se incendiar e a Matemática era apenas o aquecimento? Ou pelo contrário, a combustão deveria ter sido acendida nos riscos da Matemática e o aquecimento precipitado deflagrara a chama no momento errado do percurso? O mesmo nervo que o impelia à pesquisa de uma fórmula algébrica generalizadora dentro da teoria dos grupos seria aquele que o estava levando para cima duma palhota com uma cabeça de negro, ensanguentada, aspargindo, enfiada num pau? Possivelmente o impulso seria igual pensou. Impelido por outra situação, talvez Einstein tivesse fuzilado gente em vez de descobrir tempos físicos e astrofísicos. Os carrascos de Auschwitz poderiam ter estado perto duma importante descoberta no domínio da Bioquímica, e a prova é que se haviam interessado tão vivamente pela decomposição dos corpos. Assim, a ciência e o crime poderiam ter entre si apenas uns passos de dança ou umas flexões de ginástica. Entre o bem e o mal uma mortalha de papel de seda. Pensava junto ao paredão. Claro que não era noite nem a chuva dos ortópteros se fazia sentir. Em vez dum poente remansoso, o calor do dia e a humidade do ar punham as ideias lentas como sapos. «Sendo assim, tanto faz - tudo é idêntico a tudo» - pensou transitoriamente, sem saber ainda se deveria voltar ao jogo com os caranguejos, se telefonar ao jornalista.

Não, o jornalista nunca ficou a saber que foi objecto dessa alternativa. Porque saberia? Ele apareceu com o Hinterland aberto em cima do volante. Vejo-o aí, com o jornal espalhado, a fechá-lo, a entregá-lo, a dizer que lesse e visse como ele arriscava tudo, pelo menos às quintas-feiras. Era uma quinta-feira. Folheei o jornal enquanto ele fumava, com solenidade distraída, e depois me perguntava, incrédulo, se não via nada. Por mais que folheasse, não via nada relacionado com a única coisa que nos unia - uma notícia de crime público. «Não vê nada? Mesmo nada?» Não via, não. Intrigava-me que ele estivesse pedindo que visse umas colunas onde arriscava a vida pela divulgação dessa suspeita, e por invisualidade minha, não percebesse onde se encontrava. Ele desistiu. Pegou nas folhas, rasgou-as, saiu do carro e atirou-as ao porco braço de mar.

Sim, concordo - não há memória de nenhuma passagem dessas n’Os Gafanhotos. Lá, depois de descer abaixo, o jornalista não fala, só se sabe que corre e fareja, prisioneiro da luminosidade verde, e das ondas. Na realidade, o jornalista sentou-se no paredão a ver as folhas do seu jornal ficarem escuras e as letras transparecerem, depois derreterem e sumirem. O jornalista tinha tido uma amante que se exibia no melhor espectáculo de sempre do Moulin Rouge, o show Ôba-Ôba. Esse espectáculo era tal que à mais aplaudida, depois das três da madrugada, era-lhe enfiado no ânus a miniatura das velas do Moulin Rouge, suspensa numa vareta de metal - a vareta é que era enfiada no ânus. Facilmente se enfiava a vareta através dos buraquinhos do maillot. O compere metia com um só golpe de mão. O compere ou um fazendeiro de algodão que trouxesse o montante exigido para essa subtileza de palco. Ah, como era difícil o fazendeiro de algodão encontrar o buraquinho exacto do maillot! Como se aproximava, ensaiava, desistia! Que risos, que gargalhadas. Mas infelizmente nem sempre terminava da melhor maneira - duas das raparigas haviam sido encontradas no Chiveve, de madrugada, esganadas pelo pescoço, com as miniaturinhas enfiadas, a boiar «Era lindo?» - perguntou Evita. «Comme ci comme ca» - disse o jornalista. «Uma delas, a Giselle, minha amiga especial, foi assaltada por um exército de caranguejos» - disse ele. «E você, porque procura tão desesperadamente o que procura?»

Como o General tinha ficado agarrado ao hall, Helena à cabecinha do javali, os dois oficiais às aves vermelhas do mangai, o jornalista estava definitivamente ligado às garrafas de veneno. Era, contudo, a única pessoa que lhe tinha dito - Porque procura tão desesperadamente o que procura? Que som dessa pergunta lhe alfinetava o balão do seu tumor inchado e o espremia? Evita saiu do paredão dos caranguejos e encostou-se à camisa de xadrez do jornalista. Fazia um calor tão intenso que as pálpebras custavam a abrir. Via-se tudo com as pálpebras descidas. Só por um instante. O jornalista por certo que estava a ver mas era o seu jornal derreter-se, a sua amiga delir-se, a sua comunicação não encontrar local, mas de qualquer forma ele conseguia dizer o que nem de longe você esboça no seu relato, felizmente - «Deixe-se disso. Entregue-se à alegria - há sempre matéria para a alegria. O seu problema é não deixar falar o corpo» - disse o jornalista.

Vejo um intenso momento de alegria.

De repente chove no Búzi. Chove na Beira. As pessoas que estão dentro do café levantam-se para ver a chuva. Levantei-me para ver a chuva cair, em bolas e em fumo pela primeira vez na vida. As árvores a três metros são vultos que não se distinguem. Sinto uma alegria intensa por presenciar essa cascata a cair do céu. Vendo-a, compreende-se o mistério da floresta, o sussurro dos animais imperadores da imensa parte da Terra onde os animais são os únicos imperadores sem necessidade de memória. É isso que estou dizendo ao jornalista. Sinto que aquela chuva acorda na alma a saudade dum paraíso perdido, o órgão do ser mais selvagem que se encontra na alma, sinto que a alma é um animal selvagem com a vocação do império das florestas impenetráveis. Digo ao jornalista que o céu habita a floresta impenetrável, que uma chuva desmedida rega e pára sobre o local donde vimos e para onde vamos com um sussurro de folhas. Que há momentos em que não me importa a verdade. Digo já então que tudo são folhas e tudo é breve e volante como as folhas. Estou dizendo ao jornalista que aquele é um momento selvagem. Dois carros vão deslizando com pessoas trancadas lá dentro. A enxurrada alaga-as, a enxurrada bóia-as, aquela é uma chuva para ser vencida só pelos animais imperadores. Estou a ver. De repente a chuva estanca, sai da enorme poça que é a praça central um cheiro acre a resina ou cola. A chuva não lavou as coisas, misturou as coisas - no chão onde a água rapidamente esgotou, estão pedaços de árvore, objectos que bóiam, uma sementeira de folhas, uma página da floresta. Digo isso ao jornalista por mais nada a não ser porque sinto que ele permite que eu diga isso em voz alta. Digo também isso ao jornalista. A chuva tornou-me loquaz e incontinente. Sobretudo porque já estou no carro do jornalista e ele conduz, através da avenida onde a água chia, correndo, e vamos à procura dos canaviais. A água salta sob as rodas do carro, a alegria de ver o carro ora atingido pela lama, ora atingido pela água é um sentimento novo e despudorado. O mar está girando necessariamente a água salgada com o mesmo ruído. O canavial curva-se, abatido sob o peso das duas águas. O jornalista pergunta-me onde eu quero ir, eu indico sempre a zona dos canaviais, mas não é em direcção alguma da terra que quero ir, e sim sobre o vasto limite das águas. As águas lavam-me, comprimem-me, dividem-me. É na direcção duma coisa abstracta e absoluta que eu peço ao jornalista que aponte o carro, mas é na direcção concreta e vegetal dos canaviais que aponto. No seu relato teria sido um erro ter feito chover água sem cor, sobre a chuva verde, cheia de asas, que caiu sobre o terraço - como fazer recolher os pares, encharcar-lhe as roupas, sem que os cabelos ficassem escorridos e as roupas transparentes? Os próprios gafanhotos não teriam onde abrigar-se e morreriam de patas para o ar, asas unidas como morrem todos os gafanhotos. Que pena seria ver, no redemoinho das enxurradas, rodopiarem, esquecidos! Assim, essa tempestade de água desabou sobre a Beira e sobre o Búzi para ser vista e não ser lembrada - disse Eva Lopo.

Nesse dia, há contudo um motivo explícito para nos encontrarmos dentro do Fiat, perto das canas dobradas sob o peso da chuva. Foi ali, naquela casa, que eu vi as primeiras garrafas venenosas. Eram duas Old Parr, colocadas sobre uma mesinha de vidro, quando a casa estava abandonada. A casa continua, no entanto, a ser mantida. Por isso as janelas ainda têm todos os vidros, as trepadeiras continuam espalhadas pelo muro, a placa de metal está pedindo em latim que se tenha cuidado com os cães. O jornalista sai do carro para ver de perto e regressa por cima das poças de água. Tem a certeza que não é a única casa que está abandonada e sabe isso pelo movimento do porto, ainda que estejam fugindo sem bagagem. É possível que aquelas vivendas sem carro à porta, atrás duns tufos de verde, estejam também abandonadas. Com a lentidão com que o carro avança pelas poças de água, mesmo das vivendas com carros e mainatos, se desprende a sensação de que os donos delas adormeceram muito antes da chuva. As folhas, os paus, os bichos com asas que estão pelos pátios e cobrem as poças, igualaram tudo, foi uma espécie de revolução da água - disse Eva Lopo.

> «Ouça, pomba, este é um momento de disfarce - os momentos que precedem o fim são de disfarce do fim. Veja como eles disfarçam o abandono, como eles protegem a retirada, como eles pagam de longe a manutenção das casas. Mesmo na retirada, têm espírito de grupo, retiram unidos em classe. Mas é individualmente que eles farejam os locais do sangue, da crise e da decadência através duma antena que ainda não se descobriu onde se localiza. No nariz? Na orelha? Farejam e fogem. Se quer ver o progresso duma cidade, vá aos bairros pobres - mas se quer ver a segurança duma época, vá espreitar pelas grades dos bairros opulentos. Pobre duma terra quando começa a ser abandonada pelos ricos» - disse o jornalista. «O burguês rico é o único da espécie humana que tem a antena afinada para prever o derramamento de sangue sobre uma terra».

Falávamos no carro parado - disse Eva Lopo. À volta, o mar de poças e paus, e não distante, o verdadeiro mar, batendo. «Vamos?» O carro começou a andar, mas logo parou numa poça que era larga e afinal também era funda. O carro rosnava em primeira, e de novo se adensava a segunda tempestade de água. Por fim, o carro deu um solavanco, mas já a chuva desabava com a violência da hora anterior. Era preciso procurar abrigo, e perto um edifício com telheiro estava no meio da areia. Dirigimo-nos para lá porque a água caía de novo em cascata. Lembro-me temos os vidros quase fechados porque a chuva salta, o vapor de água acumula-se nos vidros, estamos a morrer de calor. Quando estamos a morrer de calor na aba da igreja, um padre negro com sotaina a arrastar pelo chão, colarinho branco, cabelo branco, vem dizer que temos de sair dali. A princípio o padre preto fala em português, depois em inglês, está indignado, pensa que estamos escondidos para nos beijarmos, o jornalista explica muita vez que nos estamos a abrigar da chuva, o padre abre imenso os braços, estica sobretudo um deles, o direito, e expulsa-nos. O jornalista curva-se, o jornalista ri. O carro fica imobilizado pela chuva fora dos olhos do ministro de Deus, fora da aba da sua santa morada. O jornalista diz que é assim mesmo, que nas sociedades disfarçadas todo o entendimento é um crime, se possível um crime sexual. Ele diz que não tenho de me admirar, ele acha que eu devo saber que o sexo é como Deus - o sítio secreto da expressão secreta a que se atribui tudo o que não tem explicação. Depois o jornalista diz que está admirado que eu não saiba isso, que me há-de fazer ver e provar que assim é. Sob aquela intensa chuva, o jornalista acha que qualquer entendimento pode ser entendido como um crime.

O Fiat não anda, a água enxurra pelos escoadoiros. Estamos a escassos metros de onde o padre nos expulsou. Atrás da igreja, onde a água encontra uma represa, formou-se uma larga poça que gira e é engolida pelo escoadoiro. Donde estamos vêem-se dois pés chegarem com a água, depois o corpo, em seguida os braços esticados. É uma mulher que vem esticada de qualquer local vizinho da

igreja e vem bater com os pés à porta da santa morada. O jornalista sai do carro, empurra a água, quer levantar o corpo da mulher, não consegue levantar. Bate à porta lateral da igreja com os punhos, o padre reaparece, ampara os braços estendidos da mulher. Colocam-na sobre os ladrilhos onde a água chega em aspersão como numa rega, e depois o padre junta as mãos e mia latim.

Mas nada disso teria agora importância se o jornalista não tivesse dito - «Vai ser preciso primeiro morrer um paquistanês e depois um mulato claro para se poder dar o devido relevo a isto. Não deve é morrer um branco». Evita disse - «Oh, tudo é igual - agora mesmo andam soldados pelas nascentes do Muera à procura de pistas, os caranguejos estão metidos nas luras, e as feras dormem ou caçam». Ele guiava completamente encharcado - «Tudo é igual mas não tanto, pombinha - pense no Chade, pense em como os franceses não deixaram fechadura em porta, nem prego em parede, mas já foi, já aconteceu. A prova de que não é tudo igual...» Não havia prova. «Preocupa-me tanta água duma só vez» - disse ela. «Não se preocupe - Deus dorme no lago Niassa, mas em geral quando o Zambeze mata três, quatro mil, acorda.» Evita - «Nunca o disse, nunca o escreveu?» O jornalista parava junto à mangueira. Agora ficava cada vez mais longe do Stella Maris num cruzamento onde a água, também aí, hesitante, estendia a barriga lisa na direcção das várias ruas. «Nos regimes como este, mesmo caindo aos pedaços, não se escreve, cifra-se. Não se lê, decifra-se».

«Sobretudo às quintas-feiras?»

«Sempre, mas sobretudo nesse dia da semana. Custa-me a acreditar que você não veja!» - respondeu ele.

Não quero dizer com isso que o jornalista tenha sido um homem inocente. Nos Gafanhotos ele é uma figura sem peso, e no entanto é uma figura manhosa. Na realidade da vida era uma pessoa perfeita, isto é, uma pessoa com medo - disse Eva Lopo.

Mas toda aquela água arrebatada «é engano. Em poucas horas haveria apenas lagunas cor de azeite, com a intensidade suficiente para que os mosquitos aí pusessem os seus milhões imensuráveis de ovos. Antes porém, fez-se uma tarde estranha, com uma luz cor de sebo. No hall não havia chaves pelos cacifos, o que significava que as pessoas tinham recolhido aos quartos. Havia dias que eu espreitava o movimento das chaves da mulher do Gois, de visita ao Hospital, todas as tardes. Também as chaves deles não se encontravam à vista. Então Evita subiu ao andar dos Gois - disse Eva Lopo. E ia pensando no que iria dizer, sobretudo como iria começar. A determinação que levava era contudo tão intensa que tinha a certeza de espontaneamente encontrar maneira.

A mulher apareceu sem renda, com uma criança sem fralda, espalhando o sexo pelo chão. Gatinhava, a criança. Evita começou por aí - «Ah, que linda criança!»

A rapariga rendilheira apanhou a criança do chão e começou a rir, mostrando-a - «Foi, tivemos muita sorte com esta criança!» E beijava-a com sofreguidão, pelas orelhas e pelos cabelos, enquanto a criança se mexia. «Entre» disse ela.

Pela porta que tinha aberta, via-se parte da cama do casal e os pés do Gois. Os dois pés estendidos, descalços, a saírem das calças, quietos como duas testemunhas que podem depor e querem depor. Mas quereriam depor, os pés do Gois? Evita desejaria imenso ajoelhar-se aos pés do Gois. Chorar sobre os pés dele, pedir-lhe que testemunhasse o que ela desejava ouvir duma testemunha. Quer dizer - não queria que ele testemunhasse, mas apenas que confirmasse o seu desejo íntimo de anular o que sentia. Mal se lembrava do rosto do Gois, embora tivesse a ideia de o ter visto, fardado, com a rapariga que depois seria a das rendas, no dia do casamento. Mas agora queria colocarse de cócoras sobre o que via dos pés desse Gois e imaginava que transpondo a porta e seguindo com a vista a pessoa estendida, encontraria uma cabeça sobre uma almofada, que lhe dissesse - «Não, isso não foi assim!» Tinha-se esquecido da rapariga que passava as rendas e o cabelo a ferro, e mesmo da criança que estava agora presa no parque, cujo debrum de plástico roía.

«Ele está melhor?» - perguntou à rapariga das rendas. Ainda não tinham entrado no quarto. Ela deixou que umas lágrimas lhe assomassem aos olhos e indicou a porta deveria entrar? Deveria ajoelhar-se diante do Gois? Teria ele a cara ampla e serena de quem pode dizer - Isso não corresponde à verdade. Volte para o seu quarto, depois para o seu aeroporto, depois para a terra onde desejar, com a alma aliviada. Volte, volte. Ele teria a cara serena, como têm as testemunhas que fitam o juiz, e o juiz logo compreende que são aquelas as testemunhas enviadas pela verdade. Deveria entrar?

«Entre» - disse o doente. Estava amarelo, e tinha um dente encavalitado. Mas tudo dependeria do que dissesse.

«Melhor?»

«Já não volto lá desta vez» - disse o alferes.

«E isso é bom ou é mau para si?»

A mulher estava debruçada sobre o parque onde a criança mordia avidamente o plástico. A mulher respondia com um choro miúdo que caía sobre o parque de plástico. «Desculpem se os magoo» - disse Evita, mostrando-se disposta a sair.

«Ah, não, fique, ainda ninguém sabe que ele voltou para casa, ainda ninguém o veio ver! Ele gosta de conversar!»

- o Gois pôs uma almofada sob a cabeça. Aceitava mal o revés, o seu dente encavalitado sublinhava perfeitamente essa penúria. Evita dobrou o estado de emoção familiar, e sentou-se entre o convalescente e a mulher a quem a criança queria alcançar a renda. Deixou decorrer algum tempo.

«Pena que você não esteja a participar. Você é tão fotogénico, e desta vez não vai ficar. Que vocês têm um bom fotógrafo...»

«É o Costa».

«E uns bons limpezas».

«Melhor não há - o Singer e o Husqvarna eram a melhor equipa de limpeza que já se viu. O Singer, infelizmente, já lerpou!

«Sim, o Luís teve um grande desgosto».

«Como uma criança. Em meu entender exagerou. Não se deve mostrar aquela fraqueza seja diante de que homem for do nosso pelotão. De facto o Singer tinha acabado de ser útil à companhia como nunca ninguém tinha sido, e a seguir lerpou. Coisas da guerra. Quem lá vai, dá e leva».

«Essa operação, salvo erro, foi lá perto do rio Litinguinha».

«Não senhor, foi para os lados do rio Sinhéu. Aí coordenadas 39.45 11.30, se não estou em erro. Ah, mas foi uma coisa muito bem feita. Note-se - todos nós estávamos em desacordo com o nosso capitão». «Mesmo o Luís?»

«O Luís não sei, que ele é incondicional pelo capitão. Mas foi difícil. A malta ajudou a nascer um garoto preto. O filho da puta nasceu mesmo à meia-noite, e a malta sentiu-se com aquilo. A malta mandou os lenços de assoar para embrulhar o garoto. A malta quando ouviu o garoto chorar aqueceu duas latas de leite com as mãos, esfregando com as mãos na lata. Como calcula não se pode fazer fogo de noite, e a malta ali, tec tec com as mãos a aquecer o leite para o puto. Mas o filho da puta é que não quis comer. Estávamos no mato com catorze prisioneiros amarrados à corda, e logo a grávida se lembrou de ter o miúdo!» «Mas porque foi necessária a limpeza?» «É que os gajos não andavam. Uns porque eram velhos de pé boto, outros porque tinham perdido as unhas, a outra grávida, aquela parida. Quem arrastava tanta gente atrás? A termos de atravessar só de noite, com a lua, no meio duma zona infestada de palhotas até à escola de milícias? Só havia uma hipótese - limpeza!» «Era importante, a escola de milícias?» «Se era importante?» - o Gois soltou uma gargalhada da almofada onde estava. «Então o Luís não lhe disse? Foi o pelotão dele que assaltou, até - apanhámos três guerrilheiros vivos, fizemos dez mortos reais, cinco prováveis. Armadilhámos todos os corpos, destruímos a escola, e material foi um arraial de material. A escola, só a escola daquelês filhos da mãe tinha cento e trinta palhotas, três recintos de treino, cinco parrots, cinco casas de chefes, várias placas com dizeres, três casas de guarda, e até uma zona de WC. Está tudo fotografado e croquisado, caramba!»

«E o miúdo?»

«Sim, o miúdo chorava, parecia uma hiena miando. Um contratempo do catano. O tempo a passar, a passar, a manhã a vir e o objectivo a fugir e a escapar! Só andávamos de noite. Já não disse? O meu capitão não quis saber

- mandou chamar o Singer e o Husqvarna».

«Os limpezas».

«Exacto. E a malta entretanto cheia de cio pelo miúdo. Porque enfim, a malta tinha visto aquilo nascer, precisamente em cima da meia-noite, o miúdo era já a mascote da malta, e já tínhamos combinado o nome do puto, o miúdo ia ficar com a gente e haveria de se chamar Jesus Cristo. Mas o capitão lá pensou que se ia o objectivo e decidiu limpar os catorze da corda mais a grávida e mais o miúdo. Ou isso ou o objectivo. Imaginem o que era voltar a Namua e Mueda com uma corda cheia de prisioneiros, um garoto chamado Jesus Cristo e termos falho um objectivo escola de milícias já ali a cinco quilómetros de marcha!»

«Então o Singer e o Husqvarna pegaram nas faquinhas de mato, e os prisioneiros sem saberem uns dos outros foram passando por um talude como se fossem largados no mato e tal e tal...» - disse Evita. Ela era eu - disse Eva Lopo.

«Bem, você não me peça para contar tudo - limpeza é limpeza!»

A mulher dele ergueu-se da renda e da criança - «Pois é, é por isso que vocês são castigados e levam na touca!»

«Mas levam na touca o quê?» - perguntou o Gois, irritado com a mulher. «Você quer que haja guerra e não se leve na touca? Quem vai à guerra dá e leva, e quem mais dá é quem mais medra e pronto...»

«Claro, isto é como em tudo» - disse Evita, como se nada fosse. Evita era eu - disse Eva Lopo.

«Claro, aí essa estúpida é que está a dizer que é bem feito levarmos na touca. Infelizmente foi o Singer quem levou na touca. Mas aí se viu a grandeza do nosso capitão. O tipo é mesmo chefe! Se tivesse perguntado à malta quem é que estava de acordo com a limpeza, daquela vez, ninguém estava, e aí nisso é que se vê o faro dum bom chefe!»

«Ficaram então lá, todos de cabecinha ao léu, atrás dum talude, dumas árvores. O chão tinha relva alta, não tinha?»

«Perto do Sinhéu, em Junho, na! Atrás dum talude sim, mas se tinha erva ou não tinha erva, não me lembro. Acho que tinha. O Costa é que andou aí com as fotografias. O filho da puta não se farta de fazer fotografias!»

«Devem-nas destruir» - disse a mulher da renda e da criança.

«Oh, oh! Onde é que isso já está! Graças a Deus que os tipos da informação estão cozidos com quem tem mais mãos a lavar do que a tropa regular. Senão este pequeno episódio podia ser um perigo. Mas não há azar. Só que se eles soubessem, com fotografias, tudo... Podia dar pano para mangas. O que não iriam dizer lá para fora

- que primeiro a tropa tinha ajudado a nascer um puto, que tinha mudado a operação de Víbora Dois para Natividade Um porque um garoto nasceu à meia-noite, e no dia seguinte, ao meio-dia, já o garoto estava de cabeça fora! Fariam disso uma bonita história. Então não fariam? Eles não entendem que quem vai à guerra dá e leva!»

«Muito perigoso. Não me diga que também fotografaram o enforcado!» - disse Evita. Evita era eu.

«Que raio, o Luís conta-lhe tudo! Ela aí está a ouvir coisas pela primeira vez» - O Gois falava rápido com o dente encavalitado, imóvel. Os lábios do Gois é que encolhiam e murchavam, sustinham-se em forma de ovo e depois em forma de bananas finas - «Não me fale desse enforcado!»

«O que aconteceu a esse enforcado?» - perguntou a rapariga da renda.

«O que costuma acontecer aos enforcados. Perdeu o controle, borrou-se todo».

«Ouvi dizer que não se tinha borrado».

«Bom, o homem deixou cair o trapo das calças, e depois...»

«Já contaste, já contaste!» - gritou a mulher. «Entesou-se e ejaculou para cima de vocês! Ele devia ter feito outra coisa para cima de vocês. Não gosto que se fale disso perto do nosso filho. Não gosto desta conversa! Ouviste?» - A rapariga tomava a criança nos braços e beijava-a pelo cabelo e pelo pescoço curto donde pendia a chucha atada por um fio.

«Que é isso?» - disse o Gois. «Pois fica a saber que é uma porra que uma guerra seja feita só com os homens. Uma guerra deve envolver homens, mulheres e crianças, e velhos, e coxos e doentes e tudo. Esta história de só uns a fazerem para os outros sobreviverem com cara de anjo beato, para acusarem precisamente os que fazem a guerra para os anjos beatos ficarem em paz, é mesmo uma grande porra! Pois isto devia-se saber! Isto há-de saber-se!»

«Se se fez, deve-se saber. Porque há o bom, e há o mau - não me esqueço da história da velha das setas» - disse Evita. Evita era eu.

«Vês? A Evita compreende, e sabe da velha das setas. Fomos ou não fomos bons? Fomos ou não fomos magnânimos? Imagina a puta da velha entrincheirada lá quase para o paralelo do Ingolonga, atrás da porta da palhota, a deitar setas. Uma delas foi espetar-se no peito dum furriel. O furriel voltou com um buraco no peito para Mueda, que a malta não sabia como se tirava uma seta. A malta atirou-se à filha da puta da seta e vá de puxar. Tanto puxou que largou, e deixou um buraco do feitio dum punho. Desgraçou o gajo todo. E a puta da velha, da cor duma batata, lá dentro com mais de cinquenta setas para fazer frente à malta. Pois sabem o que o meu comandante fez? Aquele homem tem piada, é um fino. Mandou coroar a velha com umas lianas e fê-la entrar em Mueda em cima dum Unimog como se fosse rainha! Repare que o meu comandante de companhia tem muita noção de honra, e uma velha que enfrenta gente da tropa armada até às unhas, com setas, e com o neto morto lá dentro da palhota, e que consegue enfiar uma seta daquelas no peito dum furriel, merece ser coroada e condecorada, pertença a que sociedade pertença. O capitão Forza tirou dezenas de fotografias junto da velha. Queria que se erguesse à velha um monumento feito de ervas. Por vezes o meu capitão também é maluco. Tá bem? E teve pena de ter de .a entregar à Administração. No dia seguinte, infelizmente, não havia mais velha». «Não foi para o aldeamento?»

«Não foi. A velha era avó ou bisavó de guerrilheiros, a velha sabia de mais. Aquilo deram-lhe uma caqueirada mais forte e pronto. Estenderam a puta da velha coroada!» «Gala-te, Gois, tu estás doente, Gois!» - disse a rapariga da renda. «Não vês como estás a fazer-me sofrer?» O miúdo escorregava os dois melõezinhos das nádegas pelos braços da rendilheira, subia, descia, esfregava-se sem cessar.

«Fala só por ti, ouviste?» - disse ele, o dente imóvel, sobraçando o outro, parecia imensamente saliente. Mas os pés eram os mesmos, estavam esticados, e Evita conseguia imaginá-los separados do corpo onde havia o dente. Mesmo que os imaginasse separados, aos ouvidos de Evita já tinham outra voz. Evita era eu - disse Eva Lopo.

«E o Luís? Também se fotografou com a velha das setas?»

«O Luís e todos nós. Nunca se tinha visto uma velha com uma ndona tão grande agarrada ao beiço. Tatuada que parecia um tapete. Quem não tirou? O Singer ainda era vivo - só esse ficou em cinco. O estupor do Singer ainda era vivo e achava que em vez de a passarem à Administração, ele é que a deveria limpar» - O Gois ria. «Não é que o Singer dizia - eu faço limpinho, meu capitão, esta velha merece limpinho...? Ah, mas o Luís também é vivaço!»

«Sim, o Luís costuma subir às palhotas com cabeças espetadas em paus, não costuma?»

«Não, isso não - só o vi uma vez, e porque o capitão mandou para fazer escorraçar uns afoitos que andavam por ali. Ele até hesitou. Mas dessa vez, portou-se bem, subiu limpinho. Ele gosta é de atirar contra o olho do eu das galinhas. Galinhas e galos. Até lhe chamamos Luís Galex».

«E a Matemática, as equações de grau superior, ele nunca falou nisso?»

O Gois abriu imensamente os olhos - «A Matemática?»

«Ele nunca falou que descobriu uma fórmula algébrica para a resolução de todas as equações?»

«Ele, o Luís Alex? Não, nunca. Mas porquê? Descobriu, mas descobriu quando?»

«Em tempo, achava que tinha descoberto».

Agora a rapariga tinha posto a renda num monte para se dedicar à refeição da criança. A criança, contudo, virava constantemente a cabeça, e a rapariga enfiava-lhe o comer ora pelos olhos ora pela orelha. Havia um mar de comer ralo espalhado pelo quarto. O Gois ainda disse - «Não, eu sabia que ele estava a acabar qualquer curso, mas desconhecia que fosse dado a números. Eu até pensei que o gajo era dado a Letras. Foi o gajo quem fez o grito de guerra da nossa companhia!»

«Não cantes isso!» - gritou a mulher, desistindo de enfiar o comer e levando a mão ao ouvido. «Eu grito, eu vou-me embora se tu cantas isso». Mas o Gois fechou os dois lábios sobre o dente, e cantou com voz grossa, os olhos marejados.

O Gois encheu-se de tristeza quando acabou de balbuciar o último verso - «Desculpe, minha senhora, desculpe!»

Não, não introduza um discurso destes no seu relato. Seria tão grosseiro como sentar o menino de sexo espalhado sobre a mesa do banquete. Não lhe chame Gois, não lhe chame nada. Vista-o como se vestia então um caçador especial, mas sem boina, e ponha-lhe a pele pálida de ter estado doente e acamado. O dente recolhido. Não precisa fumar, até porque na realidade não fumou. A mulher dele pode ter um vestido rosa, mas claro, o decote pode ser grande, mas decente, a saia pode ser justa, mas comprida, os seios volumosos ainda com um resto de leite, mas pouco. Ele roda-a lá num canto menos iluminado do terraço e ainda não chegou a chuva de insectos. Ele olha para a atmosfera que ainda não esverdinhou, e vê um cometa atravessar o escuro. O cometa atravessa o céu no sentido contrário ao andamento do Sol e da Lua, e leva uma cabeleira, nesse instante, que ora é em espiral como um caracol ora tem a forma duma lambida e duma pincelada. Estão levando os negros envenenados sobre dumpers, mas é tão longe dali, para o lado do braço de mar, que se torna muito mais distinto o palor do cometa e o seu rangido no firmamento, do que o barulhinho de lata desses carros de caixa aberta. Ela receia a mensagem dos cometas, e mesmo de vestido cor-de-rosa a arrastar pelo chão, não consegue deixar de dizer - «Meu amor, se um dia nos culpam?» O caçador reage como deve reagir - mete a vista para dentro, olha a mulher de longe, afastando-a dos seus braços só por um instante, segura na boina que tem fora da cabeça, põe a boina na cabeça, e sem chamar à mulher nem estúpida, nem cabra, nem filha dum catano, deve dizer «Querida, mas que culpa?» E para que todo o terraço oiça, o caçador deve dizer em voz muito alta, de modo a desafiar o cometa que vai riscando o firmamento, enquanto não desce o manto dos gafanhotos - «Tu não és culpada, eu não sou culpado, nenhum dos nossos camaradas é culpado. Este terraço está completamente inocente! Culpados foram os padres, os polícias, a tua mãe, o meu pai, os nossos professores da escola primária com aqueles mapas! Culpados, minha querida, é o Comandante da Região Aérea, o Comandante da Unidade, o nosso General, o Presidente da República, o Presidente do Conselho! Oh, até chegar a nós a nossa parcela de culpa, ainda falta um firmamento inteiro!»

Obviamente que deve ser um discurso destemido, e tem de demonstrar a coragem dos caçadores. Ela deve descansar o cabelo passado a ferro no ombro dele, as narinas sobre o fato cor de lagarto, e os dois devem descer ao quartinho - «O bebé está a dormir. Vamos mas é copular os dois, no nosso quartinho, meu amor!» E assim, quando os gafanhotos chegarem, alguns pares deverão estar ausentes para que a cena seja verosímil e até real.

Então a noiva concluiu. Primeiro - aos olhos de Deus e dos pássaros, a beleza dos caranguejos pardos é um produto muito mais perfeito do que as áleas talhadas dos jardins de Versailles. Segundo - os jornalistas só são sensíveis aos óbitos, e só os têm em conta quando significam um ponto de rotura. De resto é uma rotina como a meteorologia ou o furto. Terceiro - Luís Ferreira Alexandre não é um matemático, mas antes um letrista da guerra colonial. Quarto - não é possível discernir o momento em que o destino da pessoa escolhe a estrada. Quinto - os aviões devem levar compulsivamente as pessoas, das costas onde nada do que se ouve é verdadeiro e nada do que se vê é transparente. Mesmo que para isso as tenham de levar da própria vida.

Assim, as mulheres estavam no hall do Stella Marts, quando surgiram no ar dois helicópteros com seu som de ralador de batata, cortando as nuvens. Os moscardos cortaram uma perpendicular à costa e depois duma guinada à esquerda, no alto do céu, baixaram voo na direcção do hospital. Então eu tive a certeza de que o telefone tocaria para mim. Tocou. Agora havia um outro telefonista que mal conseguia conter um quinto da simbologia do Bernardo. Era uma pessoa vulgar porque aparentemente tinha tudo o que o outro tinha, mas nem era sobrinho de caçador de leopardo, nem era capaz de narrar com vozes de animais, nem decorava números. Para chamar alguém ao telefone tinha de tocar com a mão na pessoa que queria chamar. Mas o telefonista nem precisava de tanto - eu sabia que era Helena de Tróia quem chamava. Gritava ao telefone, tinha retomado a natureza habitual. Valia a pena ir? Valia. Se valia a pena conhecer as humidades de Luís Alex, porque não haveria de valer a pena conhecer a transpiração de Helena de Tróia?

Helena disse à mainata - «Vai, vai à cozinha, vai dormir na cozinha. Odília pode sentar, encostar e dormir na cozinha». Helena de Tróia trancou a porta da sala devagar, quase sem ruído - «Tenho estado ao telefone. Você não sabe, Evita. Chegaram cinco feridos roxos, estão vários feridos amarelos espalhados por hospitais e há três mortos, só entre ontem e hoje. Perfizeram hoje mesmo quinze baixas reais, há três prováveis, entre os feridos roxos, e vinte sete feridos entre roxos e amarelos. Mas não há nenhum oficial atingido. Quantos se previam pelas nossas contas?» «Três».

«Três, você fixou. Faltam três oficiais serem atingidos»

- Os grandes olhos de Helena de Tróia pareciam querer devorar uma ideia. Percebia-se que poderia deixar resvalar a ideia pela boca fora, mas estava pintada e sustinha.

«Faltam três, mas as probabilidades são falíveis» disse Evita.

Helena enteiriçou-se - «Você acha que faltam menos de três?»

«Falo só que podem falhar as previsões. As previsões não são certezas, são apenas probabilidades».

A mulher de Forza Leal ficou trespassada de angústia, a olhar para os pés que mantinha no ar, apoiados sobre o vidro dos peixes. Percebia-se que descia ao fundo das dúvidas secretas, mas logo emergia delas, cavalgando no sonho - «Não acredito que se acabe uma guerra de secessão sem a morte de oficiais».

«Ah, já viu?» - Helena de Tróia fixou a mão sob o olhar. No gesto enérgico de fechar e abrir a mão, percebia-se que ascendia agora à tona das esperanças quentes. «Nunca saí de dentro destas paredes, você sabe que nunca saí» - disse Helena, e depois continuou. «Por solidariedade imensa com o projecto dele. Estou cansada e gorda de me sacrificar por ele, pelo projecto dele» - Helena de Tróia pôs-se de pé, séria, como se fosse dizer uma violenta verdade. Afinal era apenas uma intensa pergunta. «Agora, Evita, que tudo está a correr bem, você, Evita, é que vai dizer se eu mereço a vida dum homem bom!» Ela caminhava à volta da mesa - «Sabe, eu acho que nenhuma mulher é verdadeiramente bonita se não merece a morte dum homem bom! Veja, olhe se eu mereço!»

Helena dirigiu-se ao móvel branco, cheio de pratos, que se arquitravava em frente e desatou as alças do vestido de interior. O vestido deslizou, ficou-lhe aos pés, e num ápice ela surgiu despida, como um fruto escorregadio se despela. Só tinha slip, e Helena começou a andar para diante e para trás, colocando a mão na cintura, levantando um braço, e depois outro, expondo um osso da anca, como uma actriz no momento da primeira representação. Colocou-se em bicos dos pés, as pernas adelgaçaram sobre os pés em ponta, a cintura cavou, ela encolhia a cintura, sustinha a respiração. Depois, baixou-se sobre o vestido, correu com o vestido à frente, como se acabada a demonstração, tivesse agora pudor, vestiu-se sempre atrás do vestido, e voltou ao lugar junto da mesa dos peixes. Parecia querer esconder-se atrás dessa mesa, mas a imagem de Helena de Tróia despida, movendo-se no meio da sala, enchia a sala como um gás que se espalha. Não se podia comprimir. Era o corpo que se espalhava, não era a voz nem a alma. E do corpo eram as partes, o pé, a perna, o braço, o pescoço, que se espalhavam, isoladamente, como se procurassem um local onde se expor. Eram partes feitas para ser vistas, colocadas cada uma sobre o seu plinto, e encontravam-se agarradas umas às outras pela inquietação da sua dona. A calma de Helena era uma cinta de inquietação. A alma de Helena parecia ter-se reduzido a um breve pipilar constituído por uma única dúvida, a dúvida que a fazia ter os olhos pregados da opinião que ouviria sair pela ranhura dos meus dentes. Percebia que não desviava os olhos do local onde Evita tinha os lábios.

«Não sabe? Como não sabe?»

Helena de novo arrebatou a roupa e expôs-se nua, agora com o slip na mão. «Porque não diz nada? Porquê? Porquê?»

«Acho que sim, acho que você merecia o sacrifício de várias pessoas, vários animais, várias espécies».

«Não sei se Deus gostaria» - disse pensativamente, vestindo-se pensativamente, como se fosse para ser vista em várias direcções, por um público pensativo. Helena agora estava vestida, o pano do vestido pendurado pelas alças. Tocou o sino, esperou, tocou de novo. A mainata não aparecia. Helena foi à porta da sala, possivelmente até à cozinha, voltou enfadada. «Você foi testemunha - eu não disse para sentar na cozinha? Que podia ficar a dormir na cozinha? Você ouviu! Não está! Tem alma mas é selvagem, e nem cem anos conseguem recuperar o atraso de inteligência, dela e dos que são como ela. Eu disse-lhe aí um dia que podia dormir na soleira da porta. Foi isso que ela fixou, e deve estar a dormir encostada à soleira».

Estava. Helena abriu a porta, acordou-a, repreendeu-a. Disse-lhe que trouxesse o lanche sem tocar em nada com a mão. «Odília tem sabão, lava primeiro. Depois põe luva. Hoje serve com luva. Olhe que eu espreito a Odília!» A mainata afastou-se, e quando finalmente voltou, além dos grandes sapatos estendidos pelo soalho, trazia nas mãos duas luvas brancas, enormes, do tamanho de luvas de homem, segurando a bandeja. «Odília está perdoada. Pouse, pode deixar e ir».

Não, não inveje essa imagem - disse Eva Lopo. Nãoacho que a realidade ganhe com o aparecimento de Helena de Tróia toda nua, no alto do terraço do Stella Marts. Nesse caso, para não iludir a verdade, teria de fazer incidir todas as luzes dos gafanhotos sobre os ombros dela até ficar verde, a sua pele cor de pombo. O capitão teria de pedir desculpa aos camaradas, e seria a partir dela que teria de ser exercido o excesso da violência. É fácil imaginar Helena com os cabelos vermelhos da cabeça em forma de árvore de copa frondosa, os do púbis em forma de guardanapo, mas não seria fácil dar um destino à sua nudez. Atirava-se para dentro dum dumper! Colocava-se no transepto bafiento duma igreja matriz? Ao mar, não, que o mar castiga e desfeia a ponto de não se reconhecer mais uma única fotografia.

Helena tinha desligado o telefone e o climatizador, tinha aberto a janela e por ela entrava o cheiro de milhares de frutos frescos e frutos apodrecidos, entre uns e outros só umas horas de permeio, e a fragância do mar não era suficiente para engolir essa mistura simultânea. Helena de Tróia não falava, devia ter entendido que eu desejava que não dissesse uma palavra sequer e essa era uma grande prova de afeição, não duvidava. Mesmo assim, ela perguntou - «Não quer voltar a ver as fotografias?»

Não, não valia a pena. As cenas desenrolavam-se sob os nossos olhos. Bastava olhar para fora e reparar nas ruas. Reparávamos. Na avenida em frente um machimbombo parou fora da paragem e o condutor desceu.

«Será avaria?» - perguntou Helena de Tróia.

Algumas pessoas desceram também. Toda a gente que descia, fazia-o lentamente. Helena não podia sair, estava na sua prisão perpétua de dois meses, fazendo o seu fetiche, o seu negócio secreto com a divindade da beleza e da morte, e por isso não podia ir ver o machimbombo parado. De facto, ao descerem, as pessoas olhavam um dumper que passava. Helena estava prisioneira atrás da janela, e pela estrada, o dumper passava sem sinal, sem sino, sem regozijo nem mágoa, só passava. Ia vazio. Conduzia-o um homem negro com chapéu de aba. Parecia um rei conduzindo o seu motor. As pessoas que desciam acenavam ao condutor, mas ele, do alto da sua realeza mortal, não dizia uma palavra. Passava. O choque das nossas civilizações parecia tão banal e tão lento quanto o feito pela sedimentação dum rio. O condutor do machimbombo não arrancava, olhando o dumper. O trabuquejo daquela vasilha enchia a avenida, a areia, o mar, o horizonte, o poente, com seu condutor, seu rei sentado, sua coroa de caqui na cabeça. Era bom e definitivo imaginar que tudo iria embrulhado no novelo escorregadio do esquecimento - Essa é uma ideia onde se mergulha como num banho tépido para passar os dias. Há momentos, porém, que agitam o banho tépido como uma vaga. Tinha pensado não voltar a procurar o jornalista - disse Eva Lopo.

Procurei o jornalista.

Disse-lhe que tinha visto o dumper, e que dentro do pequeno quarto do Stella, quando fechava os olhos só via e ouvia esse carro passando. Os mosquitos que entravam e eu matava pela noite fora só zuniam o ruído do dumper. O barulho do vento correndo por cima das casas, do vento assobiando depois das quatro como eu tanto gostava, o sacudir das roupas estendidas, agora só zuniam e gritavam o ruído do dumper. Via esse carro por toda a parte. E a minha curiosidade - não era o meu pedido - consistia em querer saber por que razão ele era o encarregado do dossier e não falava no dumper.

«Às vezes são dois» - disse ele.

«Mas é horrível não se denunciar. Compreenda!»

«Denuncio como posso» - disse ele.

«Compreendo - você fez um pacto com alguém».

O jornalista dava enormes gargalhadas, era quase insultuosa a forma como ria.

«Um pacto? Eu um pacto com alguém! O problema é não ter feito pacto nenhum com alguém!» - E ria à palavra pacto que só por si parecia desencadear o efeito duma comédia inteira nas gargalhadas do jornalista. «O.K., eu fiz um pacto, mas não fui eu que o escolhi. A existir, foi ele que me escolheu a mim. E há muitos anos, pombinha, tantos quantos meu pai me fez na barriga de minha mãe, pombinha!»

Então o jornalista gostou de lembrar, a propósito, o Morais. Disse que havia dias tinha sido a festa de despedida desse seu amigo, um rapaz do jornal que de repente tinha ficado com a ideia fixa de cortar com África, as calamidades de África, as suas mulheres de África. Ia da Beira para Lisboa e de Lisboa para Copenhaga. Não sabia dizer porque ia para essa terra. Talvez porque tivesse visto uma estampa com o incêndio do Christiansborg, talvez o bombardeamento de 1801, talvez a qualidade da cerveja, talvez uma fotografia com imensa neve e imenso frio, talvez a ideia de que Copenhaga fosse antípoda de todas as cidades de África. Mas para ir a Copenhaga, teria de ir a Lisboa, e para tomar o avião para Lisboa, precisava deixar o carro em Lourenço Marques - tinha de fazer a viagem da Beira para Lourenço Marques. Demoraria um dia de sol. A festa prolongou-se até de manhã. Deixou-se dormir durante o dia. Ele tinha-lhe telefonado - Tenho de ir. Mas fiz bem dormir, tanto faz viajar durante um dia como durante uma noite. Assim, só fico com doze horas de atraso. Porreiro! Despedi-me dele no princípio da noite - contou o jornalista. A alegria dele por se desembaraçar de África, das mulheres de África, das pannes eléctricas de África, do Saab de África, faziam dele um homem feliz. Sozinho, sem um jornal de África, sem um filho de África. Iria viajar durante a noite inteira até se despedir, finalmente, em Lourenço Marques, dos mosquitos de África. A meio da noite, próximo duma zona de caça, em velocidade moderada, o carro capotou. Não ficou ninguém para contar. Os pés dentro das peúgas e dos sapatos foram encontrados perto do carro, com um rojeiro de sangue. Terminou onde nunca imaginou terminar - nos buchos, nos intestinos dos animais de África. Terminou em merda espalhada por um sertão de África.

«É uma outra ordem de ideias» - disse Evita.

«Não é não» - disse ele. «É a mesma, não há duas ordens de ideias, só há uma. Pois bem, tendo esse amigo meu terminado em merda pelo sertão de África, bebi durante dois dias. Fiquei com a cabeça inchada. Fui a um médico que conhecia do café. Ele sabia, também ele estava abalado. Devemos ficar - disse ele. Afinal temos aqui a nossa vida, as nossas mulheres, as nossas crianças, sair daqui é espalhar pelo mundo o nosso remorso de ter abandonado África. Seríamos uns pródigos, os piores dos pródigos. Por mim, conto manter-me com a minha piscina, a minha casa, os meus amigos, o meu barco, os meus doentes, os meus bastardos. A minha mulher compreensiva que todas as tardes dá pão com marmelada, à porta de trás, aos meus bastardos. Mantenha-se - disse ele. Mantive-me. Voltei para casa, a minha pobre casa onde não consigo retirar os tufos de baratas, com a ideia de que também possuía um jardim, um barco, uma enorme casa relvada, pão, marmelada e piscina. Ele disse-me - Não esqueça então o papelote azul para o atestado. Comprei o papel azul e fui bater-lhe à porta pelo atestado que cobrisse os efeitos da piela, e bem podia bater. Atrás da casa, a mulher compreensiva, com a ajuda dos mainatos, retirava o corpo dele da piscina. Tinha-se afogado, com uma carta escrita, o testamento feito, nas águas azuis do que dois dias antes parecia ser o seu supremo bem. Tinha-se amarrado a si mesmo, as pernas e os braços, antes de mergulhar na água azul da piscina».

«Você acha que tudo é a mesma coisa?»

«É tudo a mesma coisa. Há dias quem o dizia era você, e hoje sou exactamente da sua opinião» - disse ele.

«Agora sou eu quem pensa o contrário - tudo é igual a tudo mas há pequenas diferenças que justificam que se espere. Não vale a pena uma pessoa manietar-se e afogar-se dentro duma piscina. Afinal a chuva cai aqui como em lugar nenhum, e há uma magia especial nas noites e na areia, na vida visível e na invisível. Compreendo que se ame este lugar. Acho que é o medo de que ele mude, ou do que poderá sofrer até mudar, que cria esses sentimentos excessivos».

«E você? Você também fez um pacto de que nunca falou, pombinha?»

«Pacto nenhum. Os meus pais sempre foram funcionários públicos, mas têm fogão eléctrico, um carro, uma casinha de madeira na praia, restaurante uma vez por mês, missa uma vez por semana. Sempre conheci tudo medido, controlado, feliz, saudável, retratos, postais de férias, boas-festas, televisão de grande écran. Fizeram mesmo um seguro de vida em favor da filha assim que nasceu. Aos vinte anos recebi um bónus porque ninguém tinha morrido nem se tinha acidentado. Tudo fruto do seu labor, da sua honra, da sua economia e do dever cívico controlado. Porque precisaria de pacto?»

«E a filha única?»

«Ainda voltando a eles, que são idênticos, felizes, e que esperavam que eu fosse um produto harmónico, quero informá-lo que os desiludi - a harmonia deles levou-me a que por vezes os negasse, os recusasse e dirimisse. Essa foi a grande surpresa. Não possuo drama senão o que vem do pensamento, mas pensando, sou contra eles. O meu pacto é diferente porque nasço de duas coisas unidas. O problema é que em tempos me apaixonei por um rapaz inquieto à procura duma harmonia matemática, e hoje estou esperando por um homem que degola gente e a espeta num pau».

«Porque não denuncia?» - perguntou o jornalista. Estávamos dentro do Fiat, mesmo em frente da casa de Theo Spinarolis.

Ele gostava de aí se colocar, quando também se cansava do braço de mar. Dizia que não sentia a vida tão selvagem quando via uma inscrição que lhe lembrava a mão aberta do Peloponeso. E insistia em perguntar por que razão eu não denunciava. Eu que tão bem enumerava garrafas com metanol, que tanta pena sentia dos que passavam deitados nos dumpers, que tinha gritado lá na recepção do jornal que desejava ir ao terraço duma casa para denunciar esse crime, por que razão não subia ao terraço duma casa e não gritava diante do Chiveve, com uma voz que chegasse até ao porto e aos guindastes, que estavam no Norte a fazer cenas de degola e de massacre? Claro que eu insistia na ideia de que havia um entendimento que não tinha a ver com a consciência das pessoas mas com as coisas subterrâneas que as pessoas contêm. O jornalista ficou fora de si, falando, evocando momentos em que tudo se conjugava para que tudo se calasse, e a sobrevivência não fosse feita por pactos mas por instintos. Ele haveria de me mostrar como a degradação da vida e dos sentimentos e até do corpo era uma roda que girava por si e por vezes ficava em queda livre - disse ele. O jornalista disse ainda, deixando-me cada vez mais longe do Stella Maris, para que ninguém tomasse o nosso entendimento por crime, sob umas árvores, que não tardaria a procurar-me. Apesar de tudo gostava de falar comigo. Apesar dos pactos imaginados.

Disse-me ainda antes de se despedir, tomando-me as mãos - «O que você nota não são causas e efeitos mas soberbas simultaneidades.»

Verifiquei que tinha razão - disse Eva Lopo.

Quer saber como se teciam as simultaneidades nunca visíveis nos Gafanhotos? Pense então em Zurique.

O tenente Zurique estava em Cabo Delgado, mas sendo assim, pense bem no Zurique. Pense em como lentamente, calmamente, a mulher do tenente Zurique começou a fazer a dilatação num quarto do Stella - disse Eva Lopo. Desceu com outras mulheres que lhe transportavam o saco e lhe chamaram o táxi. A mulher do Zurique tinha tudo preparado, e lenta, calmamente, sentou-se no sofá da entrada, ostentando aquele saco que havia nove meses preparava. Mas à sua volta começou a alastrar uma mancha, e percebeu-se - ela a princípio não percebeu - que lhe tinham rebentado as águas. Tudo calmamente - o táxi demorava um pouco, mas não fazia mal. Três garotos negrinhos corriam atrás dum, mas podiam não apanhar já aquele, porque ainda iria demorar. Aliás, se não fossem questões de pudor e assepsia, tudo estava a correr tão bem, que poderiam mandar retirar as pessoas, o telefonista, e ali mesmo, no hall por onde tinha passado o General, a mulher do Zurique poderia ter o filho. Estava tudo tão simples, tão fácil. Mas não. A última dilatação - tudo estava a acontecer sem dores, apenas uma moinha no rim como se tivesse levantado um peso, um móvel - ela desejava que se desse na paz muito branca duma clínica. Já tinham telefonado pela manhã, e esperava-a um quarto amplo, arejado, com vista para o mar. «Com uma linda vista para o mar» - tinha dito a empregada da clínica. Muito bem. Já aí vinha o táxi, era comovente tanta dignidade, tanta calma, a mulher dum tenente-coronel achou que ia nascer um homem. Se fosse mulher, aliás, teria de pagar multa em whisky por ser mulher. Se fosse homem, seria ele, o tenente Zurique quem receberia um bónus em whisky. Não se podia, em parte nenhuma do mundo, exigir a militares que tivessem mentalidade de sufragistas. A mulher do | tenente-coronel tinha tido três filhos, conhecia as barrigas, achava que aquela barriga só poderia dar homem. Tão ”calma, tão digna, a mulher do tenente Zurique lá tão longe, no Norte! A mulher do tenente-coronel traçava sobre uma folha de papel, no hall, o horóscopo do filho do tenente Zurique, a nascer dentro de meia hora, naquela hora e latitude.

«Longa vida, feliz vida» - disse a mulher do tenente-coronel, desenhando sobre o papel rodelas, rectas e estrelas. Mas qualquer horóscopo logo se esgota em dez minutos, e todas as presentes conheciam os seus. Então o hall deixou de ser preenchido com horóscopos para se encher de partos, enquanto se esperava pela notícia da mulher do Zurique. A mainata dela estava à porta vigiando o táxi que trouxesse a notícia. Tão calmamente. Também poderia aparecer por telefone. Por uma via ou por outra, elas ficariam a saber em segundo lugar, um lugar privilegiado para se saber. Estavam a trocar impressões sobre as dores, sobre os tempos, as fotografias que tinham permitido que se tivessem tornado sagrados esses momentos das suas vidas. Era comovente ouvi-las - disse Eva Lopo. Eu estava de lado mas ouvia-as. Não tinha filho, não desejava ter, não me via mãe de nenhuma coisa, por isso um parto não me lembrava ninguém que nascesse de mim, mas eu nascendo de alguém. Recordava os relatos da minha mãe, das amigas da minha mãe, sobre a forma de ter os seus filhos, e eram exactamente como os daquelas mulheres de cabelos em forma de moita e de cabelos passados a ferro que estavam ali reunidas sob o mesmo gesto comum de abrirem as pernas e deixarem escapulir, sobre a face da Terra, um animal com vagidos. Um momento sem dúvida impreciso, indecifrável e intangível. Estava pensando nisso, ouvindo as mulheres, o que era encantador ouvir.

Extremamente encantador - lembravam-me ninhos e charcos com seus ovos. Lembravam-me crocitos e a vida andando entre seu cio e postura - disse Eva Lopo. Mas isso lembrava-me a mim, e por certo não lembrava a mais ninguém. Estava a pensar nisso, quando a mainata da porta atirou alguma coisa ao chão e começou aos gritos. Os seus gritos entravam pelo hall e batiam nas paredes onde pairava a imagem impoluta do General. Batiam nas paredes, vibravam as paredes, os caixilhos, e tudo isso estremecia quando entrou um capitão da Administração, em camisa desabotoada, e disse que era infame - a criança do tenente Zurique tinha morrido na recepção da clínica.

Perfeitamente infame! Tinham-no deixado morrer na recepção da clínica enquanto discutiam o depósito que se tinha de deixar à entrada. Ela não tinha levado o depósito, desconhecia totalmente essa prática, ela tinha o marido no mato, lá na guerra, ao Norte, ele estava lá sob as ordens do General. Mesmo assim, não a tinham deixado entrar na clínica, e haviam exigido que uma das acompanhantes desse o dinheiro para a mulher do Zurique poder atravessar o hall, fechado ao fundo como um castelo. As duas juntaram o dinheiro, mas não tinham o suficiente. A criança começou a puxar, saiu na cadeira da recepção, a mulher do Zurique sentada na cadeira, agarrada às traves, tinha tido a criança morta e havia rasgado até ao esfíncter. Tinha destruído o esfíncter. Não havia palavras - havia uma hora que ela tinha estado ali, calma, a deixar que as águas lhe corressem lenta e inconscientemente, na superfície do sofá. Não era uma coincidência dolorosa?

Mas o jornalista foi brutal - «Não se preocupe, é menos um. Devemos enterrar os mortos e cuidar dos vivos. Venha ver os meus como estão vivos!»

Estava particularmente feliz. Também o ar parecia desanuviado, e no entanto tinha morrido uma criança naquela situação invulgar. Mas não seria tudo invulgar, mesmo a alegria exuberante do jornalista? Ele punha uma camisa de xadrez completamente nova porque ainda se lhe viam as dobras, e o colarinho não assentava. Cheirava a goma, a cola ou a resina. Não cheirava contudo só esse odor que exalava da camisa. O jornalista deveria ter lavado a cabeça em água de colónia e os dois cheiros tornavam irrespirável o interior do Fiat, sobretudo quando o carro entrou numa estrada de terra batida e os prédios começaram a rarear. Por vezes era necessário fechar por inteiro os vidros. A partir de determinado momento, depois do rarear de habitações, duas fileiras de casas térreas com telhado de zinco começaram a aparecer como jogadas na água. As duas fileiras de casas elevam-se acima das poças de lama cor de barro. Por vezes, o sol brilhava sobre essa cor e chispava uma estrela vermelha, depois uma fita surpreendentemente azul, onde a água era mais funda, e as casinhas aproximavam-se, elevadas acima do solo, com alpendre escuro, os mosquiteiros despregados.

«É um bairro de negros?»

«Não, é uma rua de putas».

Avançámos pelo meio da rua. Havia miúdos seminus pendurados dos gradeamentos. Não corriam nem guinchavam, olhavam só, seguiam com a vista à espera do local onde deveríamos parar. O jornalista parou. De dentro surgiram primeiro duas crianças brancas que correram a esconder-se, e em seguida uma maior do que as primeiras, com a criança mais pequena de todas ao colo, surgiu levantando o mosquiteiro. Parecia, de qualquer forma, uma criança com a sua boneca. À transparência dos vidros, viam-se as quatro a olhar.

«Suba» - disse ele.

Subi àquela plataforma que gingava. As crianças abriram o mosquiteiro e entraram, e ouvia-se a voz da mãe - tinha de ser a mãe - falar imensamente alto. O jornalista havia subido com uma caixa na mão, atada por um fio. Falavam, eu não devia entrar, deveria antes descer e meter-me no carro. A minha presença seria intrusa e despropositada - a mulher era alta e estava de costas, por certo ainda não tinha dado pela intrusa. Mas via-se - havia uma sebe de mercearias sobre a mesa do compartimento separado da rua por um vidro e uma rede mosquiteira. «Dois quilos de açúcar? Só dois quilos de açúcar? Como quer que faça o mingau para os seus filhos?» - gritava a mulher mãe das crianças, imensamente alta, além do mosquiteiro. Mas ao descer daquele local onde me sentia intrusa, a plataforma gingou, o ferro daquilo tudo mexeu como se fosse uma habitação palustre mal assente no lodo. A mulher e as crianças vieram à porta, refluíram, e o jornalista saiu a correr e a rir, com a mulher à frente dos filhos, atirando-lhe objectos às pernas. Parecia um jogo. Não era um jogo. Só era um jogo para o jornalista que ria imenso dentro do carro. A mulher alta desceu daquela casa para o meio das poças, sozinha, quase nua, com os grandes braços ameaçando o carro. Tenho a ideia duma mulher altíssima, que de repente ia ficar menor, menor, e ainda menor, até desaparecer. Desapareciam as casas, as lagunas, os filhos do jornalista, a mulher ameaçando.

«Era a mais linda puta da rua» - disse ele. «Deu-me para a encher de filhos. Isto só a mim!» E ria. O jornalista estava a fumar outro tabaco. Percebia-se que era princípio de mês, o próprio tablier marcava o dia dois, no calendário. Mas era impossível imaginar de costas a mulher alta, de braços levantados como uma planta, no meio dos charcos e das duas filinhas de casas térreas, desaparecendo, desaparecendo. Essa figura aparecia de frente, agigantava-se na direcção do carro e barrava todo o caminho de lama, com as duas pernas abertas, segurando o carro.

«Porque não volta para trás? Pelo amor de Deus, porque não volta para trás? Volte, volte!» - O jornalista conduzia ainda sobre charcos que espirravam de onde em onde.

«Não posso, pombinha! Agora tenho de ir ver a minha negra. Você vai ver o que é uma boa negra. Não há melhor colo, melhor cheiro, melhor mamilo que o duma negra. Com esta não há perigo, você pode entrar, pode sentar-se, que ela compreende que ninguém pertence a ninguém nem mesmo os filhos. Ela sabe que tudo isto é uma embrulhada, mas não tem angústia com a embrulhada. Ah, esta é que me descansa! É tão boa a minha negra!»

«Também tenho quatro da negra - dois são gémeos e todos mais bonitos do que os da branca. Quer dizer - os outros são quase brancos e estes quase negrinhos! Mas não gosto de empates - quatro a quatro não é conta. Se não morre nenhum dum lado, tenho de fazer um quinto do outro lado».

«E visita-os só no princípio do mês?»

«Não - visito-os sempre que tenho pilim».

«Não é verdade isso que disse sobre o desempate!»

«Propositadamente não».

Ele conduzia agora na direcção do Maquinino onde uns prédios se levantavam ainda em estruturas, por meio de montes de vigas e areia. Betoneiras redondas estavam roncando àquela hora do dia, mas o afã era pouco como se os operários se tivessem deitado. Havia no ar um cheiro a cimento fresco quase nauseabundo. «Bom, não vai pensar que tenho a família a viver dentro duma betoneira! Moram ali!» Era um dos prédios ainda por pintar, todo cor de betão, que já estava povoado de roupas a secar. Tudo aquilo era novo e no entanto parecia um barco velho embandeirado. O jornalista parou à porta. «É aqui mesmo. Não quer ajudar-me?»

«Acho a sua tragédia brutal!»

«Ah, não fale agora, não? Ajude-me a tirar esse saco aí!» - Saiu com o saco. Devia pesar quanto a caixa, mas levava-o mais lesto. Não demorou a subir nem a aparecer à janela com a negra. Era um segundo andar. Estava vestida de azul-eléctrico e ria na varanda do andar, no meio das janelas ainda inacabadas. Lembrava um postal que ilustrasse uma ideia especial de progresso, de abraço entre as raças, feito nos andaimes duma casa a construir já em escombros. O tempo falava por si com uma veemência enorme de princípio e fim em simultâneo. Nada melhor para ilustrar a sociedade sem tempo. Ela levou os filhos, quase tão negros quanto ela, a acenarem na direcção do carro. Os gémeos estavam divididos pelos dois braços da mãe e a mãe distribuía beijos à esquerda e à direita com tanto ímpeto que os fazia estrebuchar. A natureza estava imensamente certa. O jornalista triunfante desceu, vinha contando o dinheiro que sobrava. Antes de entrar no carro, dobrou as notas, meteu-as no bolso da camisa, e dirigimo-nos, ele sempre alegre, na direcção do Hinterland. «Espere-me aqui, cerca das onze» - disse ele.

Ah, não se preocupe com o seu relato! Por mais que estime o jornalista e a sua figura cheia de filhos secretos, ele deve manter-se n’Os Gafanhotos com a sobriedade que lhe conferiu. Deixe-o ficar incógnito e indecifrável tal como foi na vida. Esqueça, ignore, retire da sua cabeça.

Ele chegou às onze. A noite continuava quente como o dia. «Vamos?» - disse ele.

«Onde?»

«Vamos até ao Moulin Rouge. Venha ver!»

Tinha imenso que ver. Era um espectáculo sem tempo nem lugar, ainda mais exaltante do que as casas em construção. Ao menos que tivesse lugar. Havia gestos de artistas que eram idênticos aos dos saltimbancos das feiras do princípio do século, curvados sobre o gargalo duma garrafa. Vários outros, de opulentas coxas lembravam cozinheiros medievais esquartejando um capão. A cadeira, onde a primeira rapariga da noite se desnudava até ficar só com uma parra, lembrava o assento dum foguetão. Tudo bem - o jornalista chamou uma daquelas que se contorcia de coxas pesadas e que punham um avental do feitio dum abano e encostou a cabeça dele às coxas dela. Ele caiu-lhe no colo. Um homem enorme, com um ventre enorme e sem cabelo, aproximou-se por trás, com algum álcool.

«Devias estar lá fora» - disse esse tal. «Vai ali a carreta com dois, e tu é que tens o dossier a teu cargo, grande sacana! És ou não és tu quem tem isso a cargo?»

O jornalista empurrou-o. Ele caiu sobre a mesa - era uma cena sem tempo e sem rumor. O jornalista pegou na mulher do abano e deixou a mesa. O outro ficou em seu lugar. Punha um cigarro no canto da boca e fazia-o mover, sem ajuda da mão, para o canto oposto. «Veja lá se consegue» - disse ele. «É difícil, é preciso treino». O homem do cigarro, que se movia como uma lagarta tesa de canto a canto do lábio, insinuou alguma coisa que podia explicar tudo - «Aquele está na sua peugada. Quando encontra uma garota, vem logo aqui fazer ciúmes com uma destas. Em geral a garota fica mordida de ciúmes e acaba por ser papada por ele por volta da madrugada. É assim, a psicologia das garotas...»

O gordo movia aquela lagarta dum canto para o outro dos lábios, e na ponta da lagarta, uma luzinha brilhava. Era incomensuravelmente belo o movimento da pequena luzinha do cigarro rodando na boca do gordo. Uma pequena orquestra a tocar Get out from here tonight - cantava a voz dum branco imitando um negro. Como se estivesse num bar de Louisiana, e o calor que caísse fosse o calor que cai sobre os negros do Mississipi, derramado pelo lençol de Louisiana, o branco tinha o dorso nu e também suava e caía para trás e para diante, com um som de metais que eram só saudade ou só disfarce. Eu inclinava-me mais para disfarce - ou saudade de qualquer espectáculo americano que tivesse visto num filme desses anos, também eles feitos sobre a saudade de outros anos e de outras saudades. Quem disse que a saudade é um sentimento português? - perguntava o gordo. A saudade é um sentimento tão universal que até os esquimós o têm. Mas nós tivemos a desgraça de uns minhotos em tempos o terem aprisionado dentro duma palavra como vinho no interior duma garrafa.

E enquanto o branco se contorcia em suor, nitidamente com saudade de alguma coisa longínqua, o gordo emocionou-se até às lágrimas. Era espantoso como de toda aquela montanha de pessoa, dois olhos sobressaíam enormes e escuros como os que só houve nos ideais retratos românticos sobre aqueles que o retratista imaginava puro espírito. No meio de todo esse volume que se virava na cadeira, rolavam esses dois olhos ideais, compungidos. Era possível retirar os olhos de todo esse mar de gordura e colocá-los sobre a mesa - aqui a íris, ali o humor, a córnea, as pestanas pestanudas. Mexia no olho, beijava aquele olho intenso, castanho, dolorido como o olho dum bom cão que viajou para dentro dum mar de sopa, e não tem patas nem pêlo nem faro nem esqueleto nem cauda, e mantém, lúcido e triste, o seu olhar de cão fiel e bom, vendo afogar o dono. Exactamente a imagem dum Cristo animal retirado da sua raça e consubstanciando-se noutra natureza. Ah, a natureza daquele olho perdido ali na palma da mão! Era impossível não avançar com o dedo, não espetar o dedo na pálpebra daquele olho que navegava perdido na bola de sopa. O gordo agarrou o dedo. Enquanto isso, o branco que desejava ser negro para cantar com timbre verdadeiro Get out from here tonight, torcia-se sobre o pequenino palco. Era impossível Evita manter-se impassível. Nela também o corpo se agitava e doía e queria. Tudo estava excitantemente perdido. Evita achou que de facto a sua boca se orientava na direcção do olho castanho e pestanudo do homem que estava escanchado na sua mesa. O Moulin Rouge estava cheio e fervia como um tacho inchado de tanto lume. A orquestra, como diz no seu relato - disse Eva Lopo - enchia o ar de harmonia e de fulgor, ainda que só praticamente tivesse pratos e um sopro. Longe do Stella Maris. De resto, tudo o que você disse foi exacto. Das mesas que nessa noite rebentavam em copos, todas as pessoas repetiam o que o homem das bochechas inchadas, que explodiam, cantava a solo, desesperadamente.

«Get, get, get...» - disse o intenso olho pestanudo. «Get, pois» - disse Evita.

Foram. Saíram os dois pela porta do Moulin Rouge. O jornalista não se encontrava no Moulin, nem a tal gorda do avental de abanico. Estava tudo certo - cada um de nós tinha a sua noite e o seu gordo. «Mostre-me os seus olhos» - disse Evita. O gordo estava sisudo, mas sentado no carro como um buda em pedais. «Agora quando chegarmos lá, vou-te partir ao meio» - disse o buda. Conduzia devagar, mas não era porque o carro não arrostasse com o seu peso, e sim porque ele não conseguia engatar a terceira. O carro dele era ainda mais velho do que o do jornalista e estrebuchava pela noite. Não se via memória de polícia, só havia umas palmeiras abanando as palmas. Um negro embrulhado num cobertor deitado à entrada da sua rua - «Tira-te, pá, que te mato!» O negro não se levantava. «Deixa, não importa, ficas aqui mesmo ao pé do negro». O carro ficou à entrada da rua, junto do corpo do negro. Ele saiu e deu um ligeiro pontapé no negro Não se mexia, mas era tarde para examinar se estava vivo se morto.

Também era tarde para telefonar para aquele idiota que tinha ficado no Moulin Rouge a dizer-lhe que havia mais um, estendido. Ele também o que escrevia? Escrevia só o necessário para não ofender a Imprensa. O jornalista gordo encarou Evita ainda na rua - «Sabe que ele tem uma coluna num dia da semana? Uma coluna de caca que ninguém decifra?» Ora, ora, não ia estragar a noite com isso! Agora não lhe via os olhos, só lhe ouvia a voz, porque subiam uma escada que cheirava a ferro. De repente, sem lhe ver os olhos, Evita sentiu-se ser levada por um túnel sem saída, mas logo se acendeu uma luz e o olho isolado da bola apareceu, escuro e pestanudo. Bem, bem, tudo bem. Olhos nos olhos, boca na boca, como os mosquitos depois das chuvas. A boca dele cheirava ao que cheiraria uma garrafa de whisky se a garrafa de whisky em vez de rolha tivesse uma boca. «Além da boca, além do whisky, além da morte, o desejo implacável da vida» - mas não era um pensamento com palavras. Fazer amor com aquele homem encontrado no Moulin Rouge era como nadar numa tina cor de azeite. Cheia de líquido. O azeite parecia resvalar para um local repleto de abismo fundo onde corria um rio de azeite. Ela escorregava pelo abismo, caindo, escapando e caindo, à espera de que uma alavanca, compensadora do desespero e do abismo, abrisse uma porta para as portas luminosas sem azeite. A única corda que levava agarrada na mão, era a imagem dos olhos que encimavam aquele corpo enorme, que nunca antes tinha visto na cidade, como uma pétala saindo do alto dum gigante cacto feito de corpo. Olhos, olhos - mas ainda ele teria os olhos? E se os tivesse perdido? Ou nunca os tivesse tido, como justificaria a si mesma encontrar-se ali a olhar para as pálpebras? Aproximou a luz violenta dos olhos que o gordo tinha fechados - o gordo resfolegava um sono pesado como a própria noite que fazia. O único gesto de pudor do gordo consistia em esconder os olhos sob as pálpebras. Havia alguma coisa de virgem nesse gesto de omitir o corpo. Dorme, gordo - mesmo que não quisesse tratá-lo desse modo, não conhecia o seu nome. Estaria ali, em algum sítio do quarto?

Vejo, evidentemente que vejo ainda que para nada disse Eva Lopo. A porta está aberta e por ela sai a única luz que está em casa. É um candeeiro de bicha que está curvado sobre um tapete, aos pés da cama. Ela não quer de modo nenhum acordar a pessoa de quem procura a identidade para finalmente deixar de o tratar por gordo. Armários, roupas espalhadas, chaveiros, paredes descascadas cobertas de recortes de jornais. Agora percebo que o gordo tanto desdenhe o jornalista. Tudo se explica à luz pastosa, abafada pela capacha onde fica o candeeiro de bicha - o homem que está deitado tem admiração mórbida pelo jornalista do metanol. Ali está, às quintas-feiras ele tem de facto uma coluna, ela está assinada por Álvaro Sabino, a parede inteira está repleta de tiras de jornal. A coluna tem um título irónico ou de disfarce. A parede, onde possivelmente existe uma mancha na pintura - e a mancha deve ser enorme - está forrada com um título que se repete de canto a canto. A COLUNA INVOLUNTÁRIA encima cada um dos papéis pendurados como lenços. Não, nunca tinha reparado. Como poderia alguma vez reparar numa coluna escrita quase sem pontuação nem alinhamento, referindo um estado tão oposto à vida do jornalista? Inquieta como ouvir da voz do Gois a canção de guerra feita pelo noivo. O gordo ressona como um ralo. Ainda ouço distintamente, enquanto a porta abre e depois tranca.

O jornalista esperava ao fundo da rua. Para se passar por ele havia que ultrapassar o carro do rapaz gordo que dormia em casa. O negro já não estava estendido mas estava a sua manta, e o jornalista encontrava-se sobre o lancil, esperando. «Bem feito» - disse ele. «Agora, por mais que faça, já pertence a esta terra e a este lugar. Muito bem feito!» - disse ele triunfante, mas eu preferi atravessar a cidade a pé, ainda sem sol e já sem treva, o que fazia da atmosfera uma lonjura branca. O jornalista ainda foi atrás mas não ultrapassou o sítio das mangueiras.

«Não apareça mais» - disse Evita.

Ele apareceu. Vinha divertido, quando parou à tarde debaixo das mesmas mangueiras e contou como o gordo, de manhã, ao acordar, não se lembrava onde havia deixado o carro, não sabia de quem era a água-de-colónia que lhe saía da cama, não se recordava de quem tinha trazido do Moulin Rouge. «Vê, vê?» - disse ele.

Felizmente que alguém condensava em doze horas o que por vezes levava sessenta e mais a acontecer. Mas que diferença fariam aos olhos de Deus doze horas ou sessenta anos? E quem dizia Deus, dizia ervas, dizia caranguejos pardos, seres que nem nome tinham. O carro andava. Estávamos de novo diante da casa de Theo Spinarolis, e o jornalista olhava para a porta trancada. O que nos unia era apenas a ideia de que havia uma contradição na linguagem que era o espelho da contradição que particularmente em cada um acontecia. Por isso havia um desacordo que não era falso mas só aparente. Assim, Evita achou que felizmente o gordo não se lembrava de nada. Gostava que esse episódio que decorrera do Moulin Rouge, estivesse a mostrar como o esquecimento era a única vassoira irreprimível. «Irreprimível nada - ele logo se lembra. Você quer é passar por aqui e ficar ilesa de tudo. É uma esperteza que não resulta» - disse o jornalista.

Mas o Moulin tinha tido um outro efeito porque proporcionava o reconhecimento da coluna das quintas-feiras. De facto, nesse dia, a primeira página falava de civilidades, apertos de mão, governadores optimistas com o processo, toda a primeira página era um feliz augúrio. Também se falava em três bêbedos vitimados, mais três, dizia a coisa impressa, como se cansada de falar de mais. E assim, a exposição dos cães num hotel era mais importante, várias vezes, do que três bêbedos caídos pela rua.

Aliás, assim acontece em toda a parte e pode dar que pensar enquanto se toma um pequeno-almoço, mas nada de grave, apenas uma imagem das vidas interiores. Seria até natural que na noite em que choveram os seus ortópteros, você pusesse na boca daquelas raparigas que tanto se emocionaram com os primeiros mortos, quando ainda eram tomados por afogados comuns, pedaços da longa coluna que o jornalista publicou numa dessas quintas-feiras.

Ressuscitem, pessoas cor de barro venham da vossa morada só de pó julgar o jagudi que vos matou Não me perguntem se o sol é inocente também eu não sei quem vos matou...

Não, não eram encontros singulares os que tínhamos, durante a ausência do noivo - disse Eva Lopo. Era apenas uma conversa boa. Ele queria que nos encontrássemos cada vez mais longe. Havia um café sob uma espécie de palmar em miniatura. Eu não gostava de quebrar o silêncio, não porque não houvesse com quê, mas porque o silêncio falava, era mais articulado do que a voz. Um murmúrio provindo da aragem invisível ondulava no ar com as ondas amplas, e falava, mas tudo para se ouvir imensamente pouco. Lembro-me de o jornalista dizer - «Isto é uma voz!» Ela disse - «Não, é um ruído». Ele insistia «Não, é uma voz da natureza, eu ouço a articulação». «Japonês?» - perguntou. «Musical, sem pátria» - disse ele. «Então não é articulado, é um ruído pré-histórico, megalítico, sumptuosamente surdo e sem sentido» - disse Evita. Ela era eu. «Ouve» - disse ele. «Estamos a precisar de dormir os dois!» Ela, lembro-me dela também - «É, há quem fale do roncar nocturno como duma voz musical, sem pátria. Distinguem-se os homens pelo rir, pela fala, pelo estalar dos dentes. Mas há certos ruídos que são universais - o ronco nocturno». Ele - «Pareces-me uma mulher fria». «Uma ova!» - disse ela. «Não deveria estar ninguém a morrer envenenado por metanol, isso é que não devia!» O jornalista impacientou-se - «Não devia era estar ninguém a morrer por degola!» Pairava de facto um silêncio que era articulado. E assim voltávamos ao princípio, sem noção de que tudo o que era importante se resolvia à margem da constatação.

De forma que a realidade foi outra e aconteceu de mistura com os esfíncteres da mulher do Zurique.

Nunca se poderão na verdade dissociar esses dois planos - o que aconteceu sobre o portal da casa de Theo Spinarolis e o que foi acontecendo aos músculos circulares do ânus da mulher do Zurique. Esse foi um caso que sempre me fez pensar nos pequenos músculos que existem atrás do curso da História - disse Eva Lopo. Quando eu ia a chegar próximo do portal onde o Fiat costumava parar, por ser perto de tudo o que se tinha tornado caro ou significativo - o braço de mar, o lodo com os caranguejos pardos, as pás do Moulin Rouge - o dumper estava chegando, com seu rei de coroa de caqui, e fazia manobras. Mas quem tinha chamado o Dumper um magote de gente de várias raças envolvia o portal, e sobre o portal havia um branco, não havia um negro. Muitos já o tinham reconhecido. O branco era o pianista do Grande Hotel Central, e esse não podia ir num dumper. Quem tinha telefonado aos serviços sanitários a solicitar essa vasilha? Quem? Quem? Por certo o miserável dum preto! Gente gritava em volta do cadáver do velho que usava o cabelo comprido, branco, liso, espalhado pelas lajes como uma velha crina. Quem fora o miserável? Havia negros presentes, alguns deles vinham da pesca com uns covos e ficavam a olhar, mas logo se afastaram do círculo porque nenhum deles assumia a chamada do dumper para transporte dum homem branco.

«Uma ambulância!» - disse alguém entre os brancos. «Uma ambulância, não - o meu carro...» Apareceram vários carros. Foi escolhido o mais amplo para que o pianista do Grande Hotel Central pudesse ir o mais direito possível, se possível, sentado como se ainda estivesse vivo. Mas o corpo do velho pianista deixava pender a cabeça exactamente como os negros que rolavam e pendiam por cima das redes quando eram encontrados nas praias e levados até à avenida onde os aguardava o dumper. O pianista foi estendido e a cabeça amparada no banco de trás do mais amplo carro que apareceu na praça. Era a única forma condigna de tratar os dedos que toda a vida se tinham movido sobre um teclado. Ele havia tocado La Cumparsita, Caminito Amigo, Dio Come Ti Amo, tinha enchido o salão do Grande Hotel Central, mesmo nas noites de mosquitos e chuva de baratas, dum frufru interior de vida, fricção e amor. Quantos sexos não se tinham eriçado, quantas bocas não se tinham unido, húmidas, ao som provocado por aqueles dedos que se tinham fechado sobre o carpo de cada mão! Unir as duas mãos do pianista sobre o peito, era mais do que um dever, era uma sagração. O morto foi levado, como morto excepcional. Era contudo demasiado excepcional, porque dentro de poucas horas se” soube que o velho pianista, um branco, como qualquer negro, tinha ingerido álcool metílico.

Onde? Como? No Stella não havia lugar para outra preocupação além do insucesso da mulher do Zurique. Ninguém que se encarregasse de saber como e onde o velho pianista tinha encontrado esse líquido para beber. Era uma questão longínqua, essa. Perturbava sim que a mulher do Zurique tivesse perdido o filho e estivesse à morte. Falava-se num processo especial feito aos lorpas daquela clínica com os quartos virados para o Índico, a troco do triplo do valor. Uma casa de fazer contas, e não de fazer operações, consultas e partos. Deviam ter uma prensa, um molde, e fabricar dinheiro directamente em vez de o extorquirem de forma tão vil. A insensibilidade duma clínica daquele tipo deveria levá-la ao encerramento. Tinham deixado uma mulher ter um filho e rasgar até ao esfíncter superior anal por causa duns milhares de escudos a depositar à entrada. Como se pessoas decentes, e parturientes com um saco preparado desde meses, fossem vigaristas encartadas. A indignação do Stella não deixava que ninguém se preocupasse com o facto de um branco, um velho pianista de salão, ter sido vitimado por metanol. O que era isso? O mesmo líquido que tinha abatido o telefonista Bernardo? O Stella já tinha tido a sua vítima por álcool metílico, agora tinha uma outra vítima, mas vítima de alguma coisa bem mais subtil e desgastante. Sim, lembravam-se do pianista. Contudo, pelos cadeirões do hall, a indignação estava com a imagem duma mulher que imaginavam pálida como uma fatia de queijo, chorando entre almofadas pouco brancas dum hospital civil, onde toda a África podia entrar.

Abriu-se o rádio no Stella Maris. Esperava-se que dele irrompesse uma música doce, triste, capitosa como a imagem da mulher do Zurique sem filho, com tudo destruído até ao alto esfíncter, e apareceu a voz duma mulher explicando como reconhecer o álcool metílico - incolor, de cheiro muito agradável, perto do verniz e do perfume, miscível com a água, miscível com o álcool ordinário, com o éter, dissolvente de resinas, matérias corantes, gorduras» substituto de álcool ordinário na preparação de vernizes e tintas. Era altamente tóxico, a não ingerir. Disfarçado em garrafas de rótulos vários. Mão criminosa o roubou do porto e o engarrafou. Brigadas sanitárias passarão nos bazares, nas cantinas, nos cafés e todos os locais de venda ao público - dizia a voz. A voz sumia, a música fermentava, a voz aparecia de novo.

No Stella Maris o álcool da madeira não tinha entrado. Procurou-se até debaixo das camas. O barista podia servir em balão aquecido qualquer brandy, podia encher os copos com aguardentes em gelo batido sem risco nenhum. O whisky podia entrar e sair. Bebeu-se de mais no Stella, durante esse dia - as mulheres disponíveis do Stella, bebendo alguma coisa, falaram das qualidades da mulher do Zurique como quem fala de ausentes queridos, a quem se perdoam todos os pecados e de quem se idealizam as feições. Chegariam a ver voltar a mulher do Zurique? E o tenente Zurique, com a mulher de músculos anulares desfeitos e um bebé fechado numa caixa, não deveria vir da guerra onde estava? Tinham mandado um rádio a chamar da guerra esse tenente, e essa atitude era tão comovedora e tão inusitada, que não se conseguia pensar em mais nada, nos corredores do Stella. Como poderiam interessar-se pelo cortejo que saía da Sé?

Um grande cortejo saía da Sé, dava voltas pelas ruas, encaminhava-se para o cemitério, e à passagem, pelas lojas, irrompia música. Dentro do caixão que saía da casa de Deus e passava entre música, ia o pianista do Grande Hotel Central, deitado, com a entranha queimada por metanol. Nunca mais as valsas, os tangos, os pêlos do peito dos homens contra os seios pontiagudos das mulheres, nunca mais a volúpia dos pescoços rodando debaixo das cabeças, levando as cabeças a ver as janelas do Grande Hotel Central ainda rodarem, mesmo depois de terminarem as valsas e os tangos. E porquê? Porque uma mão criminosa tinha posto, sem dúvida pela madrugada, um copo de álcool da madeira dentro da taça por onde o pianista costumava ainda tomar o seu licor. A indignação era geral mas ao Stella Maris apenas chegava a notícia dum enterro com música. O edifício inteiro estava com a tristeza da destruição dum esfíncter - disse Eva Lopo.

Também disse que foi muito difícil ver o tenente Zurique entrar pelo hall com um fumo no braço sem pensar em esfíncter. Todas as pessoas que vieram ao hall pensaram o mesmo e disseram-no abertamente. Porque não se diria? Era demasiado triste para ficar guardado no segredo do pensamento - Eis que um homem escolhe uma mulher entre as mulheres, ela passa o cabelo a ferro todas as manhãs e todas as tardes, deita-se na cama certa noite com o cabelo pendido e direito como uma cauda de cavalo ou um rabo de sereia, eis que o tenente Zurique se deita sobre ela, é o décimo terceiro dia do mês lunar da rapariga. O grão sem peso nem vista que ele deposita passa de semente a embrião e de embrião a feto, aponta no ducentésimo septuagésimo dia o alto da cabeça fora do escuro, fica entalado, contorce-se, entorta o pescoço e morre, e de tudo isso sobeja a imagem duma mulher hospitalizada com os esfíncteres rasgados. A imagem desses anéis rotos e inchados é tudo o que sobeja dessa viagem quando se vê o tenente Zurique chegar com um fumo. Triste, não é? Só que nesse momento ainda nenhuma parte dessa teiazinha entrou na teia da História. Mas entrará. De momento, contudo, ainda é apenas a imagem mais preciosa que as mulheres do Stella Maris têm para pôr em comum, na sequência do insucesso. Durante os três dias que medeiam o insucesso e a chegada do tenente, elas informaram-se sobre o significado correcto desses músculos, e perceberam que não eram exclusividade dos locais que a mulher do Zurique tinha rasgado. Mas não vão agora pensar que também os possuem na boca. De ora avante, esfíncter será apenas o equivalente ao que está rasgado, para que se entendam durante as longas conversas que fazem sobre a questão. É por isso que têm sido conhecidas e desnudadas todas as afecções possíveis de terem e sofrerem os órgãos que rodeiam os esfíncteres, ou para onde eles desembocam e dão. A mulher do tenente-coronel, que havia feito aquele horóscopo, descobriu em público como o marido apresenta perto do esfíncter uma protuberância rósea. E aí poder-se-ia pensar que o sentido da noite de amor do tenente Zurique e sua mulher havia atingido o seu maior sentido. Foi o que pensou Evita. Que tudo estava equilibrado, que de alguma coisa sempre sobejava alguma coisa, por algum tempo. Era por isso mesmo que a vida existia. Desta vez, fora o que sobejara duma noite de amor do tenente, oferecido à colectividade do Stella Maris pela ganância duma clínica, enquanto os mosquitos se evolavam da terra como se não precisassem de ovo. O bafo da terra os soltava e desprendia - pensava Evita. Eis tudo. Mas não era tudo, não. Outra coisa era relevante e não se via. É que a descida à cova do velho pianista produzia som e alastrava.

Então o tenente Zurique, com o fumo no braço apareceu com os olhos distantes, piscando rápido as pálpebras. Sentou-se numa mesa, só, e ainda que todos os presentes espalhados pelas outras mesas tivessem tido o impulso de se atirarem para cima das cadeiras vazias que rodeavam a mesa onde o Zurique estava sentado, todos se reprimiram. Aliás, o tenente não era naquele momento apenas a pessoa que tinha uma mulher com um insucesso invulgar e por isso vinha da guerra. Depois do Gois, ele era o único que descia do Norte e podia falar do andamento da ratoeira. Afinal esse assunto não era ainda mais importante do que o esfíncter? Sim, era. Por isso o Gerente achou bem que a abordarem o Zurique, o fizessem em nome das questões impessoais. Ele mesmo se aproximou do balcão onde o tenente bebia, piscando os olhos. Muita gente se aproximou.

«Então como vai isso?» - perguntou o Gerente. «Menos mal».

«Menos mal como, se toda a gente diz que vai bem?» «Mal porque o inimigo não tem colaborado» - disse o tenente Zurique.

«Não tem colaborado?» - perguntou ainda o Gerente.

«Não, não tem. O inimigo tem-se refugiado, fugido, escapado, não tem dado luta. Pior do que isso - estava preparada uma campanha de acção psicológica e social para se receberem milhares de famílias e até agora só se entregou uma velha cega com um neto!» - O tenente Zurique possivelmente estava a ver a realidade com as cores do seu fumo. Falava com a velocidade duma metralhadora.

«Mas você só sabe o que está a acontecer com a sua companhia!» - disse a mulher do tenente-coronel que lhe havia feito o horóscopo do filho. «Você onde tem estado?»

Sabia-se que o Zurique estava enfiado num buraco, sem movimento, e que por isso dificilmente poderia ter uma visão de conjunto. De qualquer forma não era agradável ouvi-lo. Aliás, agora sabia-se tudo sobre aquele homem como se a sua vida se tivesse entornado pelas escadas do Stella sem hipótese de ser apanhada com um pano. Toda a gente sabia que ele se encontrava numa cova aberta pela Engenharia, perto das nascentes do Muera. Ele, o pelotão dele e a companhia inteira de que fazia parte. Pessoa muito próxima do comandante dessa companhia estava ali a ouvir. Por isso se sabia muito mais do que ele estava a pensar. Até se sabia que toda a companhia fora obrigada a fugir desse buraco feito pela Engenharia por causa dum horrível ataque de matacanha. Sabia-se que estavam praticamente isolados. Como iria ele poder avaliar a operação em geral? O que se passava com os outros?

«Mas você onde está?» - insistiu a senhora.

«Pelo amor de Deus, minha senhora, não lhe posso dizer onde estou! São segredos de guerra!»

«E a Engenharia?»

«Sim, tem aberto caminhos. Mas não lembraria ao diabo fazer uma guerra de assalto a bases com as máquinas D7 e D 8 a roncarem estrepitosamente pela floresta, durante o dia, e mandarem dois Dakotas roncar mensagens intermináveis durante a noite!»

O tenente inesperadamente só tinha palavras tristes para dizer sobre uma marcha que caminhava triunfante na direcção do âmago da guerrilha. Aliás, essa conversa poderia ser bastante perniciosa e felizmente que as crianças estavam lá fora fazendo gingar os baloiços e não adivinhavam o que se passava ali, no bar. Compreendia-se que o tenente estivesse abalado, mas não se aceitava que essa impressão ficasse no ar. A mulher de um outro capitão que havia assaltado uma das principais bases pediu licença para intervir. Estou a ouvi-la intervir. Ora passava o cabelo a ferro e o deixava estendido, ora o apanhava com uns ganchos em forma de rolo. Ela desprendeu o rolo para intervir. Não para fazer mal àquele homem com fumo, mas para que não se espalhasse um falso alarme, em véspera de terminar a guerra e talvez em vésperas de se assistir a uma independência branca. O ar condicionado fervia, a mulher de cabelo espalhado pediu-lhe que se informasse. Pelo menos ali, todos sabiam que já haviam penetrado em todos os santuários do inimigo, que já haviam ocupado as palhotas onde até o Mondlane e a Janet tinham pernoitado e dormido. Palhotas-hospital, palhotas-secretaria, palhotas-destacamento feminino, palhotas-casa-das-armas, mastro de bandeira, tudo isso de todas as bases já tinha sido violado. Como dizia ele uma coisa dessas? Como? Era natural que o capitão daquele homem tão decepcionado soubesse do seu estado de espírito ainda antes do regresso! E então a mulher do capitão que falava, a mulher do Pedro Deus, deu uma volta ao cabelo, e de novo o segurou com ganchos. Depois o Zurique deve ter-se sentido sumir. Talvez tenha até sido o momento mais triste de toda a sua história ali pelo bar e pelo hall. O tenente Zurique, sempre piscando os dois olhos, dirigiu-se com o fumo e com o copo para o sofá onde a mulher tinha começado a rebentar as águas. Era preciso não dizer nada ao tenente, porque de novo aquela era uma coincidência trágica. E o que é a tragédia senão uma deslumbrante coincidência?

Sobre o Diário do Hinterland! Nada de especial, sobretudo nada que importe ou esclareça o relato da noite d’Os Gafanhotos. Aconteceu apenas o que era de prever. A primeira página estava ocupada com o caso dos bidões de álcool metílico, e as fotografias do pobre pianista borracho, actuando com a melena desgrenhada sobre o teclado, enchiam três colunas. Havia depoimentos sobre a vida artística do pianista, tantos que davam volta às páginas e acabavam nas centrais. Nas centrais, até as garrafas apareciam alinhadas e etiquetadas, e por baixo delas fosforescia o perigo e a denúncia dum enorme crime. Claro, havia um grande crime! Só é bonito recordar por causa da metáfora. A metáfora abana, a metáfora luz. O jornalista é um pequeno símile no meio da metáfora que luz electricamente enquanto a sepultura do pianista se cobre de flores - disse Eva Lopo.

Agora explico-lhe finalmente como os músculos invisíveis podem ter um desempenho especial na organização dos factos históricos. Veja como o rasgão do esfíncter da mulher do Zurique teve importância no decorrer da acção. O rasgão e o respectivo humor do tenente acabaram por preencher de tal modo todos os sussurros do Stella Maris, que não foi possível alguém aperceber-se do significado verdadeiro daquele enterro de pianista. Sabia-se apenas que tinha havido uma montanha de flores - cravos, rosas, gipsófilas, crisântemos provenientes da África do Sul que um avião tinha trazido na madrugada em que o pianista ia descer à cova. Mas ninguém podia imaginar que cada pé de flor continha duas palavras - uma de saudade em relação ao defunto e outra de vingança contra as forças armadas. Obviamente que por natureza a saudade anda perto do amor, e a vingança aloja-se inteira na casa do ódio. Ninguém poderia imaginar que existia uma onda de ódio sobre o Stella Maris. Quem podia imaginar que cada pé de flor deixado no cemitério tivesse duas intenções, duas mensagens, uma dirigida para dentro da terra e a outra contra os vidros das janelas do Stella Maris! É domingo, lembro-me, e há um silêncio extravagante no ar porque ninguém passa na marginal.

Não passa um carro, nem um bafo, nem um bicho, só o mar está perto. Só o mar, mas mesmo esse com pouca espuma, pouco ruído, pouca onda. Um chichichi ténue que sobe, se encrespa, e logo morre, cadenciado, mudo, presto e sem energia. Esse silêncio absurdo da manhã de domingo leva as pessoas a subirem ao terraço, e a interpretarem-no como o sucedâneo do luto. É natural que tenha sido o funeral intenso, a tristeza de se ter perdido esse homem de quem se fala, mas que quase ninguém viu. Então de repente, de toda aquela placidez de domingo, irrompem as buzinas. Começa-se primeiro a ouvir de longe como se um arraial festivo acontecesse, e os poucos casais que havia pelo Stella debruçam-se primeiro das janelas e em seguida do terraço. Saem a ver. Mas não demoram a voltar. O primeiro que volta é o médico Ronaldo, e volta com os vidros do carro partidos como se tivesse capotado. Algumas pessoas tinham levado os binóculos para o terraço e assestam-nos nos vidros do carro que capitula em baixo, e passam-nos depois no rosto do médico ainda surpreendido. Os outros carros que regressam vêm inteiros porque não se aproximaram tanto da gincana que avançava - o médico de facto tinha-se aproximado de mais pelo hábito das urgências. Era contra a tropa que se estava a postar a gincana. O Gerente da messe apareceu no terraço e pediu que se sentassem ou recolhessem aos quartos. Mas como era possível alguém afastar-se da grade do terraço que dava para o Índico? Aquele não era o momento mais emocionante da vida de muitos que ali se encontravam? Para as crianças não era um desafio nas suas infâncias? E o que queriam as pessoas que formavam a gincana? Quem eram? De que acusavam o Stella Marís Que motivos tinham para avançar apitando contra uma instalação pacífica?

«Há dois motivos, mesdames» - disse o Gerente. «O remoto é que tarda a independência branca. O próximo foi a história do velho do Grande Hotel Centrall»

Mas que velho? Que história era essa de serem culpados sem conhecerem nem o velho nem o interior do Hotel Central! Lembravam-se vagamente de ouvir falar dum pianista mas tudo isso aos pedaços, entremeado com a imagem dolorosa do esfíncter rasgado e do efeito sobre a forma tétrica como o Zurique via a grande marcha em direcção ao coração da guerrilha em Cabo Delgado. Alguém, contudo, de repente, teve uma reminiscência. Sim, lembravam-se, era um velho de cabelo branco, comprido, que se despenteava para cima do piano do Grande Hotel Central, próximo da meia-noite, um que só tocava La Cumparsita. Era por causa desse velhote que havia uma gincana furiosa? Bom, mas o que tinha o Stella Maris, com seus vidros, seus baloiços, suas varandas, a ver com a vida ou a morte dessa criatura? Era simples - o pianista tinha morrido depois de ingerir álcool metílico daqueles bidões que os rapazes negros haviam roubado e haviam engarrafado e espalhado pelos bares para matar os brancos.

«E os negros? E o dumper que tem andado aí a levá-los?»

Vejo - o rumor da gincana só abrandou porque os carros ficaram parados em volta como num cerco. Homens de fato de caqui, morenos e de testa particularmente brilhante, tinham saído dos assentos dos carros com suas mulheres e filhos adolescentes mascando chewing-gum. Mas predominavam os cavalheiros. Eles propriamente é que saíam. E de repente, um daqueles que tinha um pé em terra, outro dentro do carro, apitando sempre, saltou para fora e fez um gesto obsceno para o alto do terraço. Então as partes ficaram-se olhando, devorando, trocando um rumor de raiva que rangia. Quem primeiro quebrasse o silêncio capitulava ou declararia oficialmente o desentendimento. A mulher do médico dos vidros estilhaçados não se susteve. Gritou - «Vão tomar banho!» Então de dentro de todos os carros os seus ocupantes saíram em grupo, convergiram na direcção do portal. Havia agora um silêncio quase tão intenso quanto durante a manhã. «Armas!»

- disse um dos homens de testa luzidia.

«Oh, amigos, mas que armas?» - perguntou de cima uma voz de oficial que em tempos tinha sido sargento.

«As armas que vocês têm para nada!»

«Não temos!»

«Têm!» - disse o que devia ser porta-voz.

«Oh cavalheiro, vá à polícia ou vá ao quartel, e procure lá por armas, não aqui!» - O antigo sargento tinha de facto uma voz gutural que enchia a rua e repercutia por cima do metal dos carros.

«Queremos as armas que vocês têm para defendermos as nossas casas, as nossas terras, os nossos artistas!»

Artistas? Que artistas? Houve um frémito de hilariedade no terraço do Stella Maris. De baixo, uma voz desarticulou-se.

«Porcos, sujos e ladrões, vivendo à barba longa sem fazer nenhum! Fora daqui!»

Lembro-me. A mulher do antigo sargento Fonseca estava sob o braço do seu marido, mas mesmo assim, a sua voz não deixou de sair, tremeluzindo, palhetando aquela atmosfera suspensa. Ela disse, resumindo o conteúdo «Vão à merda!» Só isso.

Não podia ser diferente - a gincana refluiu com os braços no ar, e afluiu sobre o portal do Stella Maris com pedras arrancadas donde era possível arrancar, pedaços de cimento retirados do pavimento, e muitos começaram a atirar tudo isso contra as janelas quadriculadas. Ouviam-se de dentro as pedradas a estilhaçar os vidros enquanto se descia pelas escadas. Estavam a praticar, injustamente, uma revolta enorme. Não compreendiam aqueles ultras que gritavam lá em baixo e partiam miseravelmente as janelas de quadrícula do Stella Maris, que a tropa se encontrava em Cabo Delgado sob as ordens do General? Decapitando finalmente a rebelião? Queriam que os seus homens fossem omnipresentes como Deus? Dava raiva e ódio saber que vendo os ultras as cabeças das mulheres e das crianças desaparecerem do terraço já se teriam, naquele momento, sentido vencedores. E afinal os sistemas de segurança não funcionavam? Não eram proibidas ali manifestações como em Portugal metropolitano? De facto, ninguém conseguia descer aos quartos, atropelando-se uns aos outros num corredor onde havia semiobscuridade. Era possível espreitar dali sem ser visto, como nos castelos medievais, a movimentação entre a parede e o Índico. No entanto, embora já não se ouvissem estoiros, os carros pareciam não circular. «Você não devia ter dito aquele merda...» Também sobre isso, embora as perguntas fossem idênticas, as respostas eram diferentes. «Não, ela devia ter dito muito mais!» E o corredor ficou dividido entre os que eram a favor de que a mulher do Fonseca tivesse dito a palavra e os que eram contra ela Vamos esperar calmamente aqui, afinal estamos todos do mesmo lado. Eles já saíam apitando, já se ouvia de vez em quando um pouco das ondas a subirem perto. Mas só de onde em onde, quando a energia da gincana, dando a volta à planura da cidade, com tão poucos semáforos, esmaecia.

Foram mas voltaram. Correram as ruas durante toda a noite. O morto tinha mais ruído pela sua morte, do que música havia ouvido na vida inteira - disse Eva Lopo.

Que memória histórica, que testemunho? Esqueça de novo, esqueça - disse Eva Lopo. De facto, entre o que disse a mulher do antigo sargento e o que deu aos galegos Deuladeu Martins, caído do regaço do alto da muralha, não há diferença.

Agora me lembro. Você poderia não fechar apenas o terraço, em sinal de luto pelo noivo, mas antes abrir o Stella Maris à ruína, a partir das janelas atingidas pelos ultras. Exacto - não as recomponha mais, não mande lavar nem varrer o local onde a gincana provocou a arruaça. Não pinte a porta onde as pedradas fizeram as mossas. Deixe a fechadura arrancada definitivamente sem qualquer reparação no trinco para que dois anos depois seja mais fácil escancarar as portadas, e fazer o balcão da recepção passar a caminho do cagadoiro dos meninos. Deixe a ruína pegar com a deslumbrante noite dos gafanhotos verdes que choveram, subtil e de mansinho, como nos países frios a neve cai. Deixe - disse Eva Lopo.

É tudo uma questão de tempo, sim, eu sei - disse ela ainda. Não me deixe regressar àquela manhã de Faculdade.

Nem à aula parda do professor Milreu. Porque me leva à aula do Milreu? Ele começava o curso no fim do Outono quando as folhas das árvores, pelas ruas, mais criam a melancolia do tempo. Como recapitulava o conceito de História, começava pela noção de tempo. Que se tinha visto o tempo como um brinquedo para os deuses pagãos, sem forma geométrica definida, para além da ideia dum novelo de fio. Que depois se havia visto o tempo como uma linha quebrada entre o bem e o mal. Que depois, em tempo de orgulho, se havia visto como uma linha recta sem fim, como as rectas mas dirigida para um sol brilhante, correndo adiante, sempre adiante da linha do tempo. Que depois se havia visto como uma espiral, menos orgulhosa que a recta mas mais pusilânime, dirigida também para um local de que não se previa o fim. E que era aí que tínhamos ficado no dia anterior. Então o professor Milreu perguntou

- «E agora, meus senhores?» - Na verdade éramos trinta mulheres e três homens. E agora, que conceito de tempo? Que conceito de História? O Professor olhou por baixo dos óculos, para ele mesmo auscultar o tempo na nossa cara. Nós, porém, éramos borbulhas do tempo e falávamos como ele.

«O artístico» - disse timidamente um dos três homens da aula, o mais jovem, o mais esguio. «O tempo da forma dos objectos, da sombra dos objectos, do cheiro e do gosto dos objectos, Senhor Doutor, o tempo psicológico dos bolos de Proust, o que varia afinal conforme o homem, o gato, o cão. O artista reconhece que o mesmo objecto tem vários tempos diferentes, e mais do que isso - cria os tempos diferentes com intencionalidade!» O Milreu riu imenso, com uma pequenina gargalhada que se prolongou por algum tempo. «Quer dizer que o seu tempo não é artístico mas antes zoológico. Ora o que distingue o homem dos animais é sobretudo a noção de tempo! Onde foi arranjar um tempo para os cães?» Mas o segundo homem do curso era cego. Terrivelmente cego e batia nas portas e nas carteiras com o seu pau de cego. «Zoológico, não» - disse o terrivelmente cego. «Biológico sim, Senhor Doutor!» Ria, o cego ria. Via, o cego via. E depois o terceiro homem, de cinquenta anos, quase avô, que estudava História, só agora que o barulho dos filhos finalmente tinha desaparecido entre os peixes e as carnes, e o tinha deixado livre por uns anos, como uma pausa entre duas doenças incuráveis e crónicas, esse disse - «Senhor Doutor, existe o tempo desencontrado do Planeta dos Macacos...» Não, o Milreu não tinha visto essa ficção, ele não via ficção, um bom universitário, um bom académico, não se deve divertir com as ficções burlescas de Hollywood. O tempo d’O Planeta dos Macacos O professor Milreu virou a cabeça para o outro lado. E as damas? Não dizem nada, as damas?

Já havia damas grávidas, outras tinham casado e estavam engravidando a cada noite que passava, outras solteiras, querendo engravidar rapidamente. Outras ainda só tinham as primeiras declarações de amor, mas já era para o engravidamento que estendiam o pescoço. A natureza pipilava de furor na minha aula de História Contemporânea. O que diriam as damas? - «Ora, queremos casar, Senhor Doutor, ter os nossos filhos, as nossas casas, esperar por que os nossos maridos voltem da guerra colonial, Senhor Doutor!» O professor Milreu, perante tanto silêncio das damas, do serôdio, do cego, do jovem que era esguio como um bambu, ele, o Milreu, que era padre mas não usava sotaina, disse em suma, depois duma longa exposição «Deus! Talvez o tempo do futuro seja o de Deus novamente. Não serve a espiral porque conduz à luta de classes, não serve a recta porque conduz à sobranceria, não serve a linha quebrada porque conduz à falta de iniciativa, muito menos o novelo de linha porque conduz à arbitrariedade. O momento que passa é de perplexidade e dispersão. Não vejo outra saída para o conceito de tempo senão o do amor de Deus. O verbo é a sua pessoa. O tempo é o seu regaço...» Era a nossa aula de História Contemporânea. Lembro-me do coração a saltar dentro do peito como um puma - batia nos ouvidos e queria saltar pelos ouvidos. «Eu acho» - disse eu. «Que existe um conceito de tempo relativo, conforme as esferas, os planetas, as estrelas, as galáxias, as diferentes coroas do Universo. Tempos diferentes que relativizam todos os tempos. Então o tempo é uma ilusão. Isto é - não é nada!» - disse eu com a voz cortada pelo puma. O Milreu olhou-me fixamente, sem óculos. «Falou, você falou! Sabe que é a primeira vez que fala? Mas errou. Einstein é só um físico, fique a saber, e é uma história que já está contada, e só diz respeito à velocidade ela mesma, e por cima de tudo está Deus!» - A sua batina invisível, preta, vibrava sobre o fato cor de cinza e tinha cauda como antigamente os fatos das viúvas. As mãos do Milreu vibravam também pelo ar, não de desamor a mim ou às pessoas, mas por amor à sua ciência descritiva. Ele ainda disse - «O seu conceito ainda é mais dispersivo do que aquele que foi apresentado pelo seu primeiro colega que falou! Se pegarmos na sua visão, a de você aí, e analisarmos bem o que disse, veremos como depressa se demonstra que eu tenho razão!»

Depois eu abandonei o curso - disse Eva Lopo. É possível que a baba verde em que envolvo os testemunhos e a sobrevivência tenha a ver com essa aula. Quem sabe? Mas também não é um mistério. Só para lhe explicar que no meu conceito de História cabe a influência dos músculos invisíveis que baixam e levantam o ânus. Pois se não fosse esse acidente com o corpo da mulher do Zurique, o Stella não se teria alheado da morte do pianista, a gincana não teria sido imprevista e as portas não teriam sido metidas dentro. Obviamente, ao voltar, o General também não teria sido tão radical na conferência de Imprensa que deu no hall, o local a que ficará ligado, como o noivo à banheira, ou Forza às aves do mangal.

 

O jornalista pegou nos pulsos de Evita, e com eles bem apertados em ambas as mãos cor de terra, pediu-lhe que saísse daquela casa cheia de janelas e de sombras, onde a gincana partia vidros cada noite que passava. Ele tinha pensado que as coisas haveriam de correr de maneira diferente, que primeiro seria um mulato escuro atingido pelo logro do metanol, depois um mulato claro, em seguida um indiano rico, e só depois um branco miserável. Pois ao contrário do que os engarrafadores deveriam ter previsto, haviam saltado directamente dos negros do dumper para um branco miserável, sem atravessarem os intermédios. Tinha sido uma surpresa também para ele, mas maior surpresa havia sido para quem fomentava a situação. A gincana, para o jornalista, continha portanto um amplo sinal de medo. Por isso mesmo o jornalista estava exultante e tremia. Encontrava-se naquele ponto em que se dizem palavras desencontradas e se formulam desejos não sentidos, sendo contudo intensamente verdadeiros e reais. Ele tinha uma determinação verdadeira.

«Devias fugir de lá!»

Agora a camisa nova do jornalista já não parecia tão nova. Mas a voz dele era mais vibrante do que no dia em que a tinha levado aos dois lares e por fim ao Moulin Rouge. Corria e continuava a apertar as mãos de Evita, no intervalo das consecutivas mudanças de velocidade que fazia, apesar da planura da terra. «Vem morar comigo!» dizia ele. «Para sempre?» - perguntava ela para o ouvir. «Claro que para sempre. É convite que se faça só por um dia?» O jornalista quereria obviamente que ela dissesse não posso. Ela dizia - «Não posso». Ele ficava amuado, representando por inteiro parte do que sentia. Abrandava a marcha como se amuado. «Não tenhas medo!» - disse ela. «Medo, eu?» Mas estás a ofender-me! Tu é que não tens coragem, tu é que não queres, receias a presença dum homem com tanta raiz na terra como eu. Devo parecer-te uma árvore!» Ela percebia que parte do que ele dizia era verdade. Então poderia dizer - «É verdade, eu receio!» Ele exultava - «Vês? Vês?» E voltava à velocidade. Passavam velozmente pela estrada que corria ao longo da duna e do canavial, pelo renque de vivendas onde havia a casa antes abandonada, e lá muito adiante, deveria haver um bar de pau e uma língua de mangal com uma colónia de pássaros cor de fogo. «Devias vir comigo. Queres vir comigo?» - perguntava o jornalista. E conduzia, fugindo do rumor da gincana que não parava de soar.

Mas onde estava o bar de pau? Seria pela velocidade a que iam que não se via uma única tábua desse pequeno bar? Nem uma tábua, nem um bidão, nem um tacho como se entretanto tivessem passado várias monções? A areia estava varrida, sem pessoa, sem bicho, nem sequer uma tábua. O jornalista disse-lhe - «Pela tua saúde, estou a dizer-te que abandones aquela casa e venhas viver comigo. Ouve, escuta!» De facto a ponta de areia onde o capitão tinha poisado o joelho com as armas e donde havia dado aqueles gritos deveria ser ali, por onde Evita levava o jornalista a abrandar a marcha, agora que não havia vento. Deveria ter sido perto que o capitão teria gritado naquele dia de vento - Aqui! Aqui! E tinha apontado para a bainha das calças, o sítio para onde se deveria ter dirigido, curvada, representando, Helena de Tróia. Não se via mais essas pontas de areia donde haviam disparado sobre os pássaros. O jornalista arrancava. Agora ele estava emocionado porque sentia que os apitos da gincana eram a voz que clamava por uma fera que não dormia. «Chegou a hora! Não tarda a hora! Eles apitam, mas contra eles mesmos apitam e contra eles mesmos acordam a fera que nem está adormecida - tem os olhos apenas fingidamente fechados!»

«És desses, não és?» - perguntou Evita. «Tens afinal os olhos abertos!»

«Sim, sou, sabes bem que sou! Ah! O que custa o disfarce!»

O jornalista acabou por dizer, desviando-se da gincana que corria agora ela, paralela ao mar - «Custa a crer que nunca tenhas percebido que tenho uma coluna às quintas-feiras. Nunca reparaste no meu nome numa coluna especial, com um título bem irónico?» O jornalista puxou pela memória e disse que na quinta-feira seguinte Evita poderia finalmente ler a COLUNA INVOLUNTÁRIA. O jornalista disse ao som brutal da gincana todo o poema longo, longo, que deveria encher uma coluna de alto a baixo de página. Dizia-o, era em verso livre e contava ser facilmente decifrável por todos os que esperavam uma alteração definitiva. Perguntava depois se não era lindo, se não estava bem transfigurado. Entretanto, a gincana tinha passado, só se ouviam ao longe as buzinas, e ele repetiu o início e deu a conhecer o desenvolvimento. Sobre os que passavam apitando em gincana, pouco ou quase nada da sua verdade se poderia dizer, no Hinterland.

Quando a gincana parar, e depois desaparecer - disse Eva Lopo - Helena pode chamar-me. Foi isso exactamente que aconteceu. Não, Helena não teve medo. Ela e os mainatos, sob a ameaça dos apitos, estiveram pela primeira vez do mesmo lado. É quase cómico que uma circunstância imprevisível, dias antes, tenha tornado sócias pessoas tão diferentes como é Helena de Tróia e os seus mainatos. Existe um novo mainato que não tem nome de vinho - ele chegou à porta de Helena para substituir o Mateus Rose, dizendo que desejava ser chamado dali em diante por Seven-Up. É esse mesmo que abre o portãozinho de entrada. E Helena de Tróia? E Odília?

Odília está lá dentro, mas em vez de me encaminhar para o living, leva-me para o terraço de trás. É aí que está Helena sobre uma bicicleta pedaleira, metendo a barriga para dentro, o peito para fora, a cintura apertada por um lenço. Um maillot preto. Não pára de pedalar. Pergunta-me se engordou. Só dois centímetros, está perfeita. A anca redonda mas lisa, a perna forte mas magra. «Alguma coisa boa tem de me acontecer» - diz ela. Como é bom ouvi-la. Tinha saudades. Só ela é completa, contém várias, nenhuma fala como a outra, e todas movem o mesmo corpo. O.K. Pedala. A mainata retira-lhe a fita do cabelo, que tomba. Ela pára só por instantes. Amarra de novo a fita. «Tem de acontecer alguma coisa!» E pedala. «É incrível como até agora só houve vinte baixas em Cabo Delgado! Sabe a quantos oficiais correspondem vinte baixas? Meio oficial. Sabe quantos morreram? Um! Morreu um oficial Comando!» Ela continua a pedalar. Porque haveria de interromper para dizer que já morreu um oficial, mas apenas um? Quer dizer que ainda tem esperança? Está pedalando. Não faz excessivo calor mas é natural que lhe caiam bagas de suor como estão caindo. A imobilidade acaba por trazer gorduras para sítios do corpo que as não devem ter. Helena chama.

«Odília!»

Odília vem. O turco, por favor. Pedala sempre. «Preciso que aconteça alguma coisa em Cabo Delgado!» - Queria que fosse ela a dizer-me a verdade, mas resiste e pedala sempre. Não pára. Daria para correr quilómetros e quilómetros numa bicicleta com rodas, ao longo do mar, daria para atingir o porto ou para chegar àquele local onde Forza Leal fez o gosto ao dedo com tanta veemência. Envolve-se no turco, está obcecada não pela gincana que dois dias antes lhe parou à porta e a ameaçou, mas por qualquer coisa que aconteça em Cabo Delgado. Vai para o duche, pede-me que a veja nua, que lhe diga se a imobilidade dentro de casa a desgraçou. Não desgraçou. Entra no duche. Uma coisa que rebente lá em Cabo Delgado, agora que a guerra vai terminar e que poucos serão os que vão voltar a Mueda e aos locais da guerrilha. Onde houve, ou está deixando de haver guerrilha. Fico a ver Helena duchar-se, falando. Sob a água que está correndo, Helena é só corpo e voz. Parece não ter espírito nem memória sob o sabão. Se não tivesse, se não manchasse a imagem do seu corpo com a conspurcação da sua fala, eu iria ajoelhar-me e passar um dedo pela pele nua de Helena que acena como o velo dum pombo. Mas fala, mas arrulha como um pombal completo, e chama pela sua pitança desmesuradamente, com o alvoroço de vários pombais. Veja-se - pôs um robe de crepe e agita-se chamando nomes grosseiros ao General que está dirigindo, por um óculo de longo alcance, as operações entre Mueda, Miteda e Sagal. É aí que ela quer, e sempre quis, que rebente uma mina debaixo dos pés de Forza Leal tão explosiva que o deixe desfeito. Não era difícil adivinhar - disse Eva Lopo. Helena veste-se, fala, ri e mente.

Mas porque mente? Porque termina as imprecações do duche e vem acenar à porta do salão italiano dizendo que engordou por sacrifício em favor do sucesso de Forza? Não há refeição nem perplexidade gerada pelos efeitos da gincana automóvel em volta do Stella Maris que me desviem dessa questão. O pequeno quarto do tabique, ultimamente silencioso, é demasiado estreito para uma grande insónia. Recapitulo tudo - descapotável e ventania, pássaros cor de fogo, lanche na Marisqueira, os nossos encontros trancados em volta da mesa dos peixes, as fotografias preparadas para arder, e encontro tudo em harmonia, a formar feitio e alinhamento, como o direito duma capacha. Tudo tem uma ligação com tudo, e o que não tem não é relevante. Ela por ele, ele por ela, a casa, os mainatos para a vigilância dela, o aprisionamento dela em troca da libertação que aspira, por rebentamento dele. Quer dizer - afinal tudo se entende, apenas foi preciso descobrir, porque ela nunca esclareceu. E porque não? Evita não foi capaz de desencadear, da junção das partes de Helena de Tróia, aquela que se exprime com sinais de columbina, a confiança necessária a tanto. Houve contudo a noite em que Helena dormiu no sofá, e a madrugada em que abriu o cofre. No entanto, para o mais importante, o definitivo, Helena não encontrou confiança. Então Evita deixou-se vencer pelo cansaço e só acordou quando julgou ouvir de novo o barulho do dumper. Mas não era o barulho do dumper - era o barulho dum tiro. As janelas do Stella abriram-se e uma criança começou a chorar, seguida de outra ainda. As janelas iluminadas espelhavam-se na areia molhada, como línguas. As janelas fechavam-se, embora algumas resistissem. Parecia a voz do Gois, sobressaindo do choro piano da criança, a dizer ainda para a rua deserta - «Foi tiro de revólver! Então eu não conheço todos os tiros que andam por aí?»

Revejo Helena no areal, vestida com fato de caqui, os cabelos apanhados por um lenço. Revejo o areal ainda com bar de pau, o noivo ajoelhado diante das armas, as aves cor de fogo ainda não estão presentes mas é como se estivessem, e o capitão soltando assobios, e exigindo a Helena que reconheça a arma que não está dentro da serapilheira. Helena de Tróia tinha dito que faltava o revólver. Teria sido revólver que Helena havia dito?

Fechou-se a última janela do Stella Maris e calou-se o último garoto choroso. Sim, sim - disse Eva Lopo. Dirigi-me pela primeira vez à casa de Helena de Tróia sem que ela me chamasse. Na noite d’Os Gafanhotos, Helena abriu a mala, retirou o revólver, entregou-o sinteticamente ao alferes, e tudo se passou no terraço, mas agora a sua curiosidade é igual à minha - para nada, tão igual e tardia quanto a minha.

Não estava no salão - estava na cama, deitada, cheia de dores musculares de tanto pedalar. A cama dela e do capitão - por certo a cama do engenheiro italiano que gostava de caça - parecia uma pista onde um helicóptero pudesse aterrar. Mas Helena não desejava ouvir falar de helicópteros, porque tinha passado vários dias com o climatizador desligado à espera de os ouvir, e só tinha dado conta do ruído da gincana. Quando a gincana se calava, o céu ficava tão silencioso como sempre havia estado antes do invento da aviação. Helena estava dorida de músculos. Mais do que isso - tinha um queixume intenso contra o céu que não continha um ruído que não fosse reflectido pelos motores da terra. Helena não parecia surpreendida com o assalto que Evita lhe fazia pela manhã. Tinha a voz baixa e não demorou a dizer que pressentia agora que Cabo Delgado pudesse terminar sem que nada acontecesse. A tristeza dela era quase profunda. Os cabelos continuavam vermelhos embora menos tratados. Espalhavam-se pela almofada como o leque dum pombo. Porque não dizê-lo se me lembrava essa ave? Se me lembra sempre? Eu sabia, eu tinha a maldade das crianças ainda por conspurcar de conhecimento civil. Eu trazia a ideia.

«Esta noite fomos acordados no Stella com um tiro de revólver».

Helena ergueu-se com a velocidade da pomba que apanhou uma pedrada.

«Um revólver? Mas quem atirou? Como soube que era um revólver?»

Disse-lhe o que tinha ouvido. Achava que nunca na minha vida havia visto um revólver. Disse-lhe como era espantoso que se andasse em Faculdades cuja matéria fundamental eram as guerras - as histórias de todas as matérias da minha Faculdade eram fruto e consequência de guerras, e contudo nunca se tinha visto uma pistola ou revólver numa sala da minha Faculdade.

Helena de Tróia distinguiu - «Calma, uma pistola não é um revólver!»

O quarto tinha também umas estreitas janelas junto do tecto para a corrente de ar se fazer, sem interferir sobre a cama. Estavam abertas, e Helena mandou fechá-las ao toque daquele sino - Odília e o sino seguiam Helena de Tróia. Então Helena saiu de cima daquela cama refrescada pela corrente, e aproximou-se duma cómoda de cujo gavetão retirou um revólver. Estou a vê-lo posto sobre a dobra do lençol, e Helena rodando o tambor, com os olhos ora na porta ora na janela que dava para a praia. «Nunca tinha visto um revólver?» - perguntou. «Tem várias vantagens sobre a pistola - não encrava, e roda. Porque roda, o tiro sempre parte, e no entanto, precisamente porque roda, permite o tiro intermitente. Repare como o tambor pode não ter as balas todas!» - Helena esfregou a arma na dobra do lençol e começou a explicar o funcionamento dum revólver sobre a pequena Smith Wesson que mantinha na mão. «Mas para quê um tiro de revólver no Stella, se o tiro de revólver é um tiro curto? Devem ser os da gincana para amedrontar as pessoas! Estava tudo em tão grande silêncio para se ouvir assim?» - Helena embrulhou a pequena arma no mesmo pano donde a tinha retirado. Percebia-se que poderia fechar-se ali a sabedoria de Helena sobre armas, se por acaso fosse guardada a Smith Wesson. Travei-lhe a mão.

«Não a tinha naquele dia em que fomos lá àquela praia para matar o passaredo todo. Pois não?»

«Não, acho que não tinha» - Helena levantou-se para guardar a pequena arma de tambor junto das outras. Todas, embrulhadas, enchem o gavetão. Fico a ver - a sua curiosidade é igual à minha. Ela volta, receio que não fale, que se arrependa, que se tranque no último instante. Trancar-se-á? A sua curiosidade é igual à minha, só que você está longe, não pode passar-lhe a mão pela testa, nem beijar-lhe o cabelo. Eu pude. Evita pôde. Como sabe, eu fui Evita - um nome que parece frágil se associado à inocência. Evita contudo já tinha pêlo vermelho, sua barbicha de bode. Estendeu-lhe a mão.

Helena prepara-se, segura-se à minha mão, encosta o molho dos caracóis espigados no meu ombro. Solta o choro. Até o seu choro tem alguma coisa de pomba que não porá ovos. Uma pomba real que se sacode. Só o seu desgosto é genuinamente importante. Cai da cara dela uma torrente de lágrimas. Sei que vai chorar alguém que é só a sua pessoa. Não tenho dúvida que a pessoa chorada é ela mesma perdida no reflexo que teve em alguém. Já diz que um homem bom morreu por sua culpa. O que quer dizer é que um homem importante morreu pela beleza dela. Não sei se era importante, entre os soluços de Helena que perdeu o controlo da porta e da janela, sei que era despachante. Mas para Helena mais significativo do que ter sido despachante é não ser capaz de o descrever. Eu não quero que descreva, quero que diga o resto, tudo o que fica para além da descrição do que sem dúvida, na voz de Helena, foi o grande amor da sua vida. Claro que foi - já o diz entre o choro. Percebo sobre a cama que Helena agita e molha que vai falar dum terramoto acontecido na sua vida, ali, naquela costa. Nada terá de original. Todas as pessoas, mesmo as mais serenas, mesmo as que se comportam na vida como vinhas, guardam na memória o momento dum terramoto de que contam pormenores como se tivessem acontecido ontem, ao atravessarem a rua. Claro que Helena tem vários lenços, assoa-se, limpa-se, explica sobre a minha mão que também limpa que o despachante era um homem bom, era um homem que a amava e ela sabia que a amava porque ele a via. Ora Helena desejava ser amada pelos olhos duma pessoa que não só a visse como fosse capaz de dizer que a via. Isto é - Helena guardava a verdadeira definição do amor. Ele era um homem que a entendia e lhe elogiava cada osso, cada músculo, cada forma do seu corpo em movimento. Tinha às vezes a impressão de que não era um homem mas uma voz de homem. Lembrava-se dele, da última vez que lhe tinha ouvido a voz. Depois Helena, que se mantinha renovando o choro para cima da cama, falava de intensas banalidades - como tinha conhecido o Jaime, ingénua como perua, como tinha andado no colégio das Irmãs, como tinha e como tinha... Essa era a arqueologia que Helena poderia omitir. Não omitia, mas logo lhe pus a questão relevante. Helena estava a dizer que ela e o despachante tinham obviamente pensado fugir.

«E o Jaime?»

«Comprou os mainatos. Ninguém me tira da cabeça que não foi obra dos mainatos!» - Tinha começado, no entanto, por ser o dia mais feliz da sua vida. Sentia-se boa, magra, leve, havia passado pelo apartamento do despachante. Mas quando havia voltado, tinha metido a chave à fechadura, entrado naturalmente, dado ordens ao pessoal, naturalmente, e havia vindo também naturalmente até ali, àquele quarto onde nos encontrávamos - Helena olhou, cheia de medo, para as paredes do quarto. E depois tinha-se despido e metido no duche, e deixado as roupas soltas, espalhadas por ali. Não se lembrava do que pensara no duche, mas devia ser alguma coisa de intensamente agradável porque se lembrava de que tinha cantado debaixo da água que corria. Ao sair do quarto de banho, ainda cantava. Mas olhou para o chão e não encontrou a roupa que havia deixado ali. «Ali, aos pés da cama» - disse ela, sem lágrima nenhuma, com estupefacção, a olhar para o local onde havia deixado a roupa. Tinha-se posto a olhar à volta, e tinha visto pela porta do guarda-fato, semiaberta, o cano da Armlite apontado pela frincha. O Jaime tinha saltado de dentro do armário, curvado, com o cano à volta, a roupa interior marcada pela passagem do despachante, suspensa da mão, e tinha-lhe colocado a espingarda entre os olhos. O buraco frio, redondo, oco, pesado, entre os olhos. O Jaime queria o nome. A princípio acho que me queria matar, mas depois queria só o nome. «Dei o mome, Deus sabe que dei o nome!» - disse Helena, cheia de medo. O pornbo da sua vida encolhido sob as patas. O Jaime mandara abrir as portas de toda a casa. Escancarava mesmo as que nunca haviam sido abertas, e voltava ao quarto - «Se quiseres, sai». Ora eu devia ter saído, mas não era capaz de me mover daqui, enquanto as portas batiam. Os mainatos ficaram encarregados de deixar as portas abertas. Anoiteceu e a casa de portas abertas, janelas abertas, sem uma luz acesa. Até que o Jaime voltou com dois capangas. Era de madrugada e o Jaime acendeu poucas luzes. Os dois capangas seguravam junto à garagem o despachante sem os dentes. A cara estava literalmente deformada, o despachante reconhecia-se apenas pelo cabelo que era comprido. O Jaime pegou no revólver e fomos levados ambos diante do revólver para a casa das alfaias, atrás da garagem. O Jaime disse para o despachante «Um de nós está a mais!» O Jaime tem o sentido da realidade. «É o acaso que vai decidir! Sou ou não sou uma pessoa de honra? Quem o acaso escolher deve ficar com ela!»

- Os capangas prepararam o Smith, um deles jogou o acaso fazendo girar a arma, e eu percebi que tudo estava correcto e que era a sério, que o Jaime era de facto um homem de honra. Não duvido que o revólver estivesse bem preparado. Entregaram-no ao amante sem dentes. A boca dele tinha inchado até aos olhos e cuspia cor-de-rosa. Estava de cócoras, cuspindo, e olhava-me de vez em quando espantado. Ah, o espanto dele era uma acusação sem medida! Deus sabe que eu não conseguia olhar para ele. Sobretudo porque eu percebia que a sorte não estava do seu lado. A madrugada estava contra o despachante e eu sentia-o. Ele Colocou o Smith Wesson junto à testa e premiu. Não disparou. O meu amante suspirou como se estivesse salvo. Passaram a arma ao Jaime. O Jaime colocou sob o queixo, lá na casa das alfaias. Premiu, não disparou - disse Helena. Helena de Tróia tinha a cara escondida sob os cabelos. A voz saía debaixo deles, como o estrebuchar da pomba. Não vale a pena espreitar a pomba. Tudo é previsível, deixe chorar. Chora, chora. Como é bom o choro, as lágrimas do choro têm uma força motriz que nenhum rio tem - arrancam, levam, conduzem os sedimentos, pousam-nos nos locais exactos, colocam-nos nas margens da consciência, nos pegos da memória, criam sebes, conduzem o caudal para sítios que as lágrimas querem, que as lágrimas sabem. Helena fará destas lágrimas o tapete de verdura onde há-de rebolar-se com o seu novo amor. Se entretanto o capitão não usar o revólver duma outra forma, e não mandar o barco descarregar a carga com uma outra pessoa. Mas agora as suas lágrimas são sinceras. Helena chora-as e elas escorregam até ao colo. É preciso perguntar.

«E depois?»

Depois os capangas meteram o despachante no nosso bote a motor, e foram despejá-lo no mar. Regressaram com o bote vazio, ainda antes de o Sol nascer. Passados três dias, metade do despachante deu à costa, longe daqui, tão delido que nem se soube que tinha sido baleado. Ninguém tinha dado pela falta do despachante. Só os intervenientes conheceram a verdade. O despachante espalhado pelo mar.

Helena chegou ao fim? Chegou. Tem uma memória boa, o seu rosto chorou bem. Por isso você pode colocá-la com os olhos inchados regressando aos braços de Forza Leal, no terraço de Stella Maris. Pode colocá-la com os olhos tão vermelhos quanto o cabelo sem receio de falsear nem a memória nem a realidade. Pode ser ela também a entregar a arma ao noivo. Mas aí, porque já passou alguma parte da noite, e os gafanhotos já encheram de verde a atmosfera da costa, Helena terá retomado as suas pestanas, as suas unhas e os seus vestidos. Na realidade, ela chorava sobre a cama.

Não, não regresse já à conferência que teve lugar no salão do Stella. Entretanto o jornalista não deixou de existir, e pôde surpreender uma pessoa debaixo das mangueiras. Ele é cuidadoso, ele sabe das histórias que não são publicadas mas são conhecidas. Ele sabe que há quem faça roleta com revólveres, e outras coisas mais, e deite longe, ao mar, as pessoas abatidas. A vegetação dos mangais constitui uma sepultura romântica e natural. Ele sabe que tem oito filhos, toma precauções, espera sob as mangueiras. Mas ao contrário do último dia, o jornalista está triste. Detesta África onde as enzimas e as bactérias acendem a reprodução em estufa e se expandem à velocidade da luz. As pessoas nascem mais, morrem mais, e a história natural é trágica e nunca é escrita. E para quê ser escrita se não tem remédio? É preciso o jornalista estar em baixo para não acreditar na escrita. Sim, está em baixo e quer abandonar África. Pergunta quando Evita deixa África. Naquele dia ele está derrotado, tem a camisa recentemente comprada bem suja. Evita lembra aquela garota quase branca, a que segurava o irmão mais novo, lá na casa das poças? Tem tifo e vai morrer. Dizem que não, mas ele sabe que vai morrer. E Evita lembra a negrinha de blusa azul-fosforescente? Esqueceu de tomar a pílula, esqueceu o mês, vai ter o quinto filho para viver lá, naquela varanda. Nunca foi tão sucinto, o jornalista. Mas porque se agita? Acaso não desempatou?

«Sim, sim, perversidade, desempatei» - disse, com as duas mãos no volante do carro parado. É escusado insistir, o jornalista não chega a sair da ralura das mangueiras.

Esta é a última vez que vejo o hotel Stella Maris. Se ninguém mais voltar a mostrar-me uma narrativa sobre esse tempo, se nunca mais evocar esta lembrança à luz duma lâmpada ocasional como a sua, o Stella inteiro, iluminado à beira do Índico, que foi de vidro, areia e cal, acabará aqui. O seu pequeno fulgor, que eu penso existir ainda dentro da cabeça de cem, duzentas pessoas vivas, brilhando com a intensidade com que nesta hora brilha na minha cabeça, acendido pela sua lâmpada - disse Eva Lopo - acabará à medida que as pessoas se forem deitando nas marquesas e os médicos forem dizendo, com seus terríveis assentos de morte, condenado. E assim, o Stella, que não é outra coisa mais do que esse breve fulgor que estoira de ano a ano, de biénio em biénio, a propósito dum cheiro ou duma carta, será enterrado pouco a pouco, aos pedaços, à medida que a geração que o viu suspire e acabe. E pronto - mas hoje, pela força dessa evocação verdadeira, ainda brilha, ainda está todo iluminado, ao cair de noite, morna como o dia. O jornalista contou-lhe. De outra forma, como poderia ter imaginado com tanta precisão a sua chuva?

Gente que nunca vi antes enche o patamar e o hall, e dentro, a porta do salão está aberta, como se tivesse sido franqueada para se ver, da luz do hall, uma cópia da Invencível Armada em luta contra a sagaz flotilha de Drake. O fumo que envolve a armada invencível enche o quadro até à talha. As cadeiras estão postas como ouvintes. As paredes têm as janelas cobertas por veludos verdes, agarrados por bolas de passamanaria, pesadas como sinos. É a primeira vez que as mulheres de alferes espreitam para dentro do salão das festas. O Gerente curva-se - a calva luzidia dele brilha com as lâmpadas e ele diz imensamente Mesdames, por favor...

«Lindo, lindo anoitecer!» - diz uma mulher de major, sem costas.

«Não sou africanista, mas ouso dizer que em África, nunca vi um pôr de Sol assim, tão rubro!»

«Sim, major!»

Há coronéis, tenentes-coronéis, majores, vestidos a rigor e com medalhas. Várias senhoras com vestidos sem costas entram pela porta aberta em quatro dobras, e vão parar na direcção do óleo da Invencível Armada que fumega entre as talas cor de oiro. Têm colares de pérolas que apertam nos pescoços como mãos. Cabelos penteados contra a natureza como ramos. A mesa onde estão flores do Cabo tem as pernas retorcidas como tornos, como roscas. A sala sua e ondeia. Não se poderá ligar o climatizador porque o ruído poderá aniquilar a voz de quem vai orar. Quem ora? Ainda não chegou. Chegará dentro de instantes, acompanhado da mulher, de dois óculos escuros e dum bordão. Silêncio - É um cego triunfal quem vai orar. As últimas cadeiras, junto das portas, só agora são ocupadas pelas mulheres dos alferes, porque sobejaram. Se não tivessem sobejado, as mulheres deles teriam de ficar em pé, junto das portas. Mas sobejam e felizmente, porque passaram a tarde na lavandaria passando a ferro os cabelos, à espera que sobejassem. Quando o cego chega junto da mesa onde não tacteia porque é amparado pelos passos da sua vestal, pode-se ver que em todas as paredes da sala estão espalhados quadros sobre a memorável noite ibérica que foi a de 28 de Junho de 1588. Não importa que seja a imagem dum desastre - a estética consome o desastre e redime-o em grandeza. O tenente, agora capitão, provém de formação térrea, pertenceu à arma de Cavalaria. Dois anos atrás, ao longo duma picada, quando desempenhava funções que nada tinham a ver com a sua lembrança equestre, o coice duma granada. Nos olhos. Podia ter sido noutra parte do corpo, e logo nos olhos. Mas um homem com cérebro inteiro, formado sob a arma proeminente da Cavalaria, reage como reagiu o pulmão de Forza Leal - lembra-se? E muitos outros. Talvez seja necessária a guerra para se compreenderem certos fenómenos de defesa e ataque do corpo e da alma. Foi assim, estou a ver - disse Eva Lopo. Desde que ficou sem visão, entregou-se à História, o tenente-capitão. A demonstração que traz, naquela noite, já ele apresentou diante de várias mesas, pelas várias províncias ultramarinas. O seu título é abrangente como um círculo

- Portugal d’Aquem e d’Alem Mar É Eterno. Em todas as cidades tem sido oportuno, mas onde mais do que ali, quando a incompreensão dos ultras levou à organização de gincanas contra a soberania, apenas por causa da morte dum velho pianista?

Só que ainda não se disse tudo - disse Eva Lopo. Para além dos olhos, o cego também foi atingido a nível da cabeça, embora guarde grandes tufos de cabelo jovem e brilhante. Falar da eternidade dum império sem ver, e com cabelo em peladas, cria na sala o temor de quando se faz aproximar a temporalidade do absoluto. Mas tudo bem as rosas do Cabo ondeiam. A mulher arrasta a jarra para um canto não só porque ondeiam, como pelo facto de o braço do tenente ter o impulso dum cavaleiro que monta. Ele diz no primeiro impulso - desde sempre os homens fizeram a guerra. Enumera as armas - paus, ossos, pedras, dentes de animais. Descreve a horda humana nua, cheia de paus, ossos, dentes. Não demora muito a dizer que desde sempre os povos da Ibéria se manifestaram aguerridos e belicosos, tendo começado com cajados, fundas e pedras. Pouco demorou a chegar a D. Afonso Henriques, já com a terrível espada. E logo o Infante com barco, e logo Dona Filipa de Vilhena com os filhos, e logo o Mapa-Cor-de-Rosa com o hino. E logo diz colónias, e logo províncias, e entre elas o cavaleiro cego rapidamente destaca Moçambique, e quem fala de Moçambique tem de falar de Gungunhana, e Bonga, e Mussa Quanto. E logo depois uma lista por ordem alfabética de diferentes tribos, uma outra lista de diferentes intrusos. Uma outra ainda sobre a luta entre as tribos, os cativos e a venda dos cativos. E assim, as flores, mesmo postas no canto mais afastado da mesa, ondulam sob o sopro do tenente-capitão de Cavalaria que prevê o esmigalhamento dum mapa que só está unido dentro duma linha quebrada, porque ele, o recém-historiador, está ali. Estão as damas, os cavalheiros, os oficiais, os soldados que não estão ali, estão necessariamente espalhados dentro do limite da enorme linha quebrada, para que seja possível a união, impensável sem a presença de todos os que estão ali, os que não estão mas era como se estivessem. Já tinham estado e haveriam de estar. «Há quem não entenda...» - disse ele. Era uma óbvia alusão aos acontecimentos da gincana tão recente e aos seus vários tiros de intimidação. As mãos da primeira fila, quando se ouviu sair ao lado das rosas a palavra de desentendimento, começaram a aplaudir. De facto era ingrato e inoportuno um protesto desses quando se fazia um esforço triunfante e definitivo em Cabo Delgado, para se esmagar a rebelião sangrenta. Eram palmas sem exuberância que batiam continuamente, como se os donos das mãos falassem com as palmas e dissessem de forma articulada sim, sim, sim, estamos entre duas incompreensões, mas resistimos. Talvez porque as palmas fossem firmes, mas não exuberantes, embora contínuas, dava para rodar a cabeça e reparar que lá fora, a luz dos candeeiros da rua estava a passar de amarelo a esverdeado por acção duma chuva de ortópteros que chegava - disse Eva Lopo. Foi aí.

Eva Lopo ficou suspensa - Que bem descreveu os gafanhotos! Lindos, brilhantes, fosforescentemente verdes, rondavam perto das lâmpadas que iluminavam as portas. Chegava-se-lhes a divisar a renda das asas, mesmo dali, enquanto se estava sentado, e o discurso do cavaleiro historiador avançava na direcção dos últimos parágrafos mentais. Apetecia apagar as luzes das flâmulas brancas das paredes

- para que estavam acesas as flâmulas se o orador não precisava ler, nem poderia jamais servir-se da luz? - e ouvir o resto na penumbra, ou às escuras, vendo a luminosidade verde dos candeeiros entornar-se pela avenida da beira-mar, e chegar até ali, como a aba dum vestido longo. Infelizmente ninguém ousava ceder ao impulso. Mas toda a gente procurava fechar os olhos e desviava a cabeça para fora, ainda que ouvisse o que se dizia ali dentro com a maior pertinácia. Aliás, o que acontecia fora, e dentro, não era uma e a mesma coisa? O orador, que não sabia que uma chuva de gafanhotos se desprendia sobre a costa, tinha atingido o auge da perenidade nas palavras do seu discurso.

«O Planeta é eterno, Portugal faz parte do Planeta, o Além-Mar é tão Portugal quanto o solo pátrio do Aquém, estamos pisando solo de Além-Mar, estamos pisando Portugal eterno!»

Havia obviamente uma parcela que se tinha perdido, entre as palmas e os gafanhotos, e que tinha a ver com a demonstração da eternidade da Terra. Mas não fazia mal, as palmas estrugiam de novo, eram definitivas, e não importava a parcela perdida do pensamento do cavaleiro cego sobre a eternidade do Planeta onde Portugal era eterno, e as províncias eternas também. De repente, tudo parecia imóvel e de cristal, sem princípio nem fim, comandado pela vontade do tenente-capitão. Aliás - disse Eva Lopo

- tudo estava traçado desde o início, através daquele título. Só tinha ocupado hora e meia a demonstrar, e como toda a demonstração é um esforço que se faz contra o caos, a conferência acabava de ser a demonstração da ordem.

Assim que terminou, porém, alguém disse que voavam gafanhotos, que se ia apagar a luz, que viesse ele ver. Obviamente que houve imensos abraços e apoios, e incentivos a continuar a investigação que ele haveria de prosseguir, auxiliado pelos atentos olhos da sua mulher. Mas logo depois disso, foi levado até ao pátio térreo. Esse pátio era a varanda natural para onde davam as portas do salão de festas do Stella. A partir das portas via-se a luz quase azul das lâmpadas. O cego, sinistrado de guerra, disse «Lindo, lindo, como é verde!» Todos aqueles vestidos, todos aqueles colares, todas aquelas cabeleiras estavam postas no pátio, movendo-se e falando-se. Era preciso ter sorte na vida para acontecer tanta coisa boa em simultâneo. O que pensariam agora as pessoas da gincana? Eles tinham ficado mudos, quietos, cheios de paciência institucional, e haviam demonstrado a superioridade da instituição. Ali estavam, dias depois, com os ferrolhos das portas reparados, a vidraria refeita, as mossas repintadas, mostrando a superioridade das suas vidas, por vezes mártires. Por vezes festivas. Que abrissem bem as portas! Contra os candeeiros, estalavam os gafanhotos. O Índico era um mar de asas de gafanhotos e a atmosfera da costa era uma paisagem aquática montando. «Lindo, lindo, como é verde!» - dizia o rapaz, cavaleiro, completamente cego, e que se deslocava agora com o auxílio dum pingalim. Batia com a ponta no chão repetindo - «Como é lindo!»

Ah, sim, coincide duma maneira surpreendente também tudo o que diz quanto às fogueiras! Não mude um traço. As fogueiras não apareceram logo, mas foram surgindo à medida que os nativos compreenderam que se tratava duma verdadeira chuva de animais e não apenas dum chuvisco. Cerca das onze horas a avenida encheu-se de fogueiras que luziam, paralelas à maré do mar. Eles corriam nas sombras verdes da noite, e assavam gafanhotos nas brasas como se não corressem para caçar e comer, mas caçassem e estrugissem gafanhotos, apenas para correr e dançar. A linfa queimada dos gafanhotos enchia a noite, por conseguinte enchia o terraço térreo do Stella onde se servia whisky e rum. No entanto, não havia vento.

Não, não deve retirar o vento. Ele existiu no dia em que Forza e o noivo mataram o bando da passarada.

Percebo - refere-se ao tempo que você misturou e driblou. Marimbe-se no tempo.

Dançaram sim. Não dançaram nessa noite, mas tinham dançado na outra, quando eu estive lá com o jornalista e saí com o gordo. Quando a atmosfera ainda andava chocaIhante de dumpers. Quando eu andava tão triste que só via caranguejos. Estavam lá os oficiais com suas mulheres e também cantavam dos cantinhos escuros - Get out from here tonight.

Fez muito bem não ter despido o pianista branco. Para já, nesse caso, não corresponderia à verdade. Já lhe disse que não viajou no dumper, mas num carro funerário repleto de flores importadas da África do Sul, durante uma noite, em avião fretado. O cortejo funéreo fazia caracóis. Mas fez bem não ter despido o pianista branco porque um branco despido, mesmo à distância, é uma figura cheia de bigodes, pelas axilas, pelo queixo, pelo púbis. Nunca atinge a discrição dum negro, todo ele da mesma cor. Deus o cozinhou num caldeirão mais perfeito, ou o deixou numa situação mais de graça. Ah, que triste teria sido, se tivesse feito passar o velho de La Cumparsita nu, azul e branco, exposto sobre uma carroça mecânica de lixo!

Sim, um cego agitando-se na sua noite, no alto do seu terraço, não ficaria desajustado. Mas retirar-lhe-ia as peladas de cabelo. Bem sabe como as pessoas gostam de falar em abstracto dos sinistrados da guerra. Poderia atribuir-lhe a frase que tantas vezes realmente disse, apesar de não ver a sombra dum único insecto - «Como é lindo!» Livre-se, porém, de lhe colocar na boca esse título real. Quem iria acreditar que um oficial falasse durante hora e meia da eternidade de Portugal d’Aquem e d’Além-Mar? Injuriariam o seu relato por atentado à verdade.

Não, eu não invento.

Procure no Arquivo Militar. Chegue à porta de armas do Museu, entregue o seu cartão ao soldado, vire à direita, em frente dos azulejos e duns canos de fogo, desça as escadas, suba as escadas, suba ainda, ao alto encontra um corrimão.

Peça - é sempre gente simpática, a que guarda a História. Escreva um papel pedindo o acesso aos reservados. Se lhe concederem o privilégio, passados uns dias, volte para consulta. Faça o mesmo percurso, peça a caixa CHIV - 3 269. T. Um soldado apertado numa botas pode trazê-la. Meta as mãos nos farelos da história, veja como ela empalidece implacavelmente nas caixas, como morre e murcha, e os seus intérpretes vão. Vão, sim, a caminho do fim do seu tempo, cada vez mais rápido, cada vez mais escuro, sem que nada importe - nem as grandezas, nem os crimes. Muitos crimes cheios de dever, que é o que faz a grande história. Verá que um capitão de Cavalaria pronunciou há vinte anos uma conferência na messe Stella Maris subordinada ao título, várias vezes referenciado, Portugal d’Aquem e d’Alem Mar É Eterno - disse Eva Lopo. Obviamente que nem à margem se registou que nessa noite teve início uma chuva de gafanhotos sobre a cidade.

Mas a mulher do capitão que pronunciou a conferência veio segredar-lhe alguma coisa ao ouvido. O cego ficou paralisado a pensar. Pediu à mulher que o levasse junto do Gerente. O major, naquele instante - era perto da meia-noite - encontrava-se com um gafanhoto preso por uma pinça, mostrando as patas posteriores, as saltadeiras, numa roda de oficiais superiores bastante interessados. Com a pinça, ele arredava as asas, e um coronel condecorado fazia incidir um foco de luz sobre as alavancas do insecto. Encontravam-se sob as arcadas, onde a chuva de gafanhotos só chegava em salpicos, mas donde o cair e o voar em volta dos candeeiros se via perfeitamente. O conferencista sinistrado aproximou-se pela mão da mulher e disse que desejava dar-lhe uma palavrinha em particular. O Gerente afastou-se para o lado sem perder o gafanhoto de vista. «Senhor major, fiquei agora a saber que a sala onde eu estive a pronunciar a minha conferência está decorada com vários quadros do desastre da Invencível Armada!» o oficial cego apoiava-se dramaticamente no seu pingalim.

«Mas trata-se duma armada invencível, capitão...»

«Que foi vencida miseravelmente pelos ingleses, senhor major! Como podem decorar uma casa destas com as cenas duma armada que foi desbaratada e vencida a despeito do nome?»

O Gerente ainda tinha o ortóptero entre a pinça, esperneando. Parecia estupefacto e sem saída. Mas o major disse, olhando para a mulher do conferencista - «Bom, sabe, como esta trapalhada da guerra agora chegou ao fim, e só falta essa gente toda regressar de Cabo Delgado, você vai ver como a população anglófona cai toda aqui! Nunca fica mal dar a imagem de que se reconhece o papel do vencedor do passado. Você não acha que é uma boa forma de mostrar que os ressentimentos estão enterrados?» Depois, com o braço livre sobre as costas do sinistrado «Mas vamos ter em conta o seu reparo!»

O capitão baixou a cabeça, sorrindo numa direcção diferente de onde sorria a cabeça do Gerente. Se o casal quisesse, poderia aproximar-se para ouvir o que ele estava a dizer. O Gerente voltou imediatamente para o seu canto, e continuou a mostrar como aquelas patinhas curvadas faziam o bicho saltar. Chegavam senhoras a esse canto e o tenente-coronel fez incidir de novo a pilha sobre o animal. E a noite continuou extremamente semelhante à noite que descreveu no seu relato, com a mesma volúpia e o mesmo amor.

Não estavam contudo os homens mais moços, os que poderiam elevar a atmosfera até um tom erótico menos comprimido, só estava o Gois que não voltava ao mato. Então as mulheres defenderam-se. Resolveram deixar as arcadas donde viam a noite entre todo aquele rumor formal e quase culto, para poderem passear à chuva. Elas subiram aos quartos para buscar protecção, e desceram convenientemente calçadas e munidas de abrigos ligeiros, próprios para os climas tropicais. Atravessaram o hall, atingiram a marginal e puseram-se a passear sobre o paredão, de guarda-chuvas abertos. Viam-se de longe os cabelos delas passados a ferro à luz das lâmpadas verdes. Não é descritível a força que certas imagens contêm. Vejo-as passar de guarda-chuvas claros, abertos, e sobre eles caírem gotas e gotas de gafanhotos voando. Vejo a mulher do Gois com o filho, beijando-o sob o guarda-chuva. O Gois ri do pátio, mostra o dente que tem encavalitado, mas a alegria de ver o filho ao colo da mulher sob o guarda-chuva fá-lo dizer donde está - «Olá, bebé, psst!» A mulher do Zurique está sem filho. Mas já anda bem, já corre, e a sua silhueta permite esquecer que, quando se move, sob as saias existem esfíncteres recentemente rasgados. Como os negros deixaram de beber metanol e o dumper deixou de passar, e mesmo a gincana aplacou a raiva de apitar de noite, muitos já esqueceram que ela esteve na base duma crónica. Também está Elisa Ladeira. É outra das que correm sobre o paredão ao lado das fogueiras. Essa corre liberta - quando o marido está no mato, nenhuma starlet se aproxima do seu apartamento, com aquele cheiro imundo de mulher da vida. E outras raparigas de que não me lembro os nomes, mesmo que lhe queira ser útil. Posso assegurar contudo, que aquele deve ter sido o dia mais interessante das suas domésticas vidas.

 

Mas deixemos a chuva. Helena telefonou para o hall, e eu voltei à casa italiana. Deveria não ter voltado, mas voltei. Todo o epílogo começou aí. Voltei, pisando centenas, milhares de gafanhotos caídos. As formigas levavam-nos e comiam-nos. Os gafanhotos arrastados pelas forças das formigas lembravam miniaturas de estátuas egípcias carregadas por escravos, a caminho das areias. Havia pelas ruas um mar de formigas puxando gafanhotos. Era impossível o pé não os pisar, a caminho da casa de Helena. O machimbombo passava o rodado sobre eles como os tornados passam sobre os campos e as praias. Tudo tinha semelhança com tudo, a caminho da casa de Helena.

Parei à entrada. Havia um bulício de água sobre as folhas e a atmosfera estava cinzenta, quase roxa. Choveu? Não, não choveu verdadeiramente, mas dir-se-ia que os mainatos estão a regar alguma coisa saturada de água. Pelo corpo dos mainatos a água escorre e leva-lhes os calções pelas pernas abaixo. Seven-Up segura os seus no último instante. É por isso que a mainata Odília ri. Helena tem de trancar as janelas para não ouvir nem ver o espectáculo da rega. São dez da manhã. Faz dois meses e meio que Helena não sai do recinto heptagonal da casa italiana. Helena tem o cabelo tão comprido que nem dá para empeçar.

Ou não o empeça e não arma sobre o empeço dos caracóis, porque a sua tristeza, como no di anterior, ainda é descomunal. Diz, como se falasse duma doença incurável, que esperou e não aconteceu - Agora já não acredita. Desistiu de acreditar.

Fico a olhá-la. Evita sabia que um demónio a espreitava para lhe entregar para a mão a forquilha do garfo dentado. Um demónio metafísico, reluzente, encarnado. Evita avaliava quanto a árvore da sabedoria era do demónio, e a erva da inocência pertencia a Deus e seus correligionários. Helena está triste, desceu à simplicidade, e por isso está com Deus, está sob a alçada da sua santa guarda. Evita está espreitando junto da peluda barriga do demónio. É por isso que Helena só diz o que Evita sabe antecipadamente que Helena vai exarar - Helena deseja morrer.

Quer morrer, porque não suportará o regresso de Jaime contra quem se fechou em casa durante oitenta dias, negociando o desaparecimento de Jaime, negociando com Deus. A religiosidade de Helena atrai e perturba. Nem sempre, contudo, Deus negoceia com as pessoas coisinhas preciosas como pensões de viuvez, medalhas póstumas, cerimónias lindas com viúvas de guerra ouvindo as salvas e as morteiradas. Helena não foi ouvida, e por isso vai querer morrer. Ela já recebeu a notícia de que chegou um rádio com um texto indestrutível - eles vão voltar dentro de três dias, e nada, absolutamente nada, aconteceu. Helena, contudo, quer aniquilar-se quando os mainatos estiverem bêbedos como cachos. Quer embebedá-los com bom vinho, para quando acordarem, já ela estar definitivamente morta, e acordando eles possam ir correndo, chamar o capitão à base, com os seus enormes pés pretos e descalços. Quando o capitão chegar, ela não quer estar viva.

O demónio? Pois o demónio sabe, não ri mas sabe que não é verdade, sabe que ela não quer morrer, ela só quer imaginar como a chorariam depois de morta, para se certificar do choro, da pena e da impossibilidade de ser substituída no coração das pessoas que a estimam, que a conhecem e amam. Helena de Tróia diz que quer matar-se com aquela veemência, só porque quer viver. Morrer significaria ter a coragem de renunciar à imaginação de que se é amado, e Helena não tem coragem - ela é a pessoa mais débil que inspira e expira naquela costa. Evita sabe - o diabo não ri, o diabo espera.

Helena despe-se para morrer a morte fingida. De costas, tira a camisa, fica nua, quer que mais uma vez uma pessoa pense que é impossível encontrar uma mulher assim, quer que a descreva, que a elogie, que bendiga o fragmento da Natureza que ela encerra e constitui. Mostra os braços, a veia azul deles, espreme-a, diz que vai à tina, que vai abrir a veia azul para dentro da tina, que me quer ali para eu a ver abrir os rios principais do seu corpo. Imagina a água morna da tina passar de incolor a cerise, e de cerise a vermelho intenso. Imagina que se esvai como uma planta, que eu a tomo, pálida como um puré de ananás, e a coloco na cama, vestida de azul. Imagina que há um momento em que todos a abandonamos, eu, os mainatos do vinho, e que pela janela aberta entram os mosquitos, as formigas, as vorazes formigas de África, as baratas voadoras do tamanho de pássaros, que batem nas janelas às trombadas como os pássaros, e a chuva dos gafanhotos. E cada espécie, a seu modo, com sua espécie de mandíbula, a rata, a engole e devora. Devora?

Helena sobressaltou-se. Sentou-se na borda da tina, o italiano tinha-a feito de mármore, é um belo recipiente oval aquele onde Helena está sentada com o vestido azul nos joelhos, de encontro ao peito nu. Não, não... Tinha chegado ao limite. Nesse quarto, rejeita a última etapa, transpira, ultrapassa as patas de todos esses animais indecentes de África, enxota-os e sacode-os, quer-se incólume. Tem de escolher outro dia, recomeçar, reiniciar outra vez aquela imagem, porque o seu desejo de morte é duma furiosa vitalidade. Evita adorava ver a vitalidade.

«Você está a imaginar um projecto lindo, adoro ouvir um projecto assim, com tanta coragem, tanta beleza! Cumpra, por favor, esse plano! Tatá!» - disse-lhe. Deixo-a sozinha na borda da banheira como no início está o embrião, ou o ovo. Deixo-a. Atravesso o quintal onde os mainatos ainda riem, os calções ainda escorrem.

Mas não decorrem vinte e quatro horas que eu não reatravesse o living sem ar condicionado. Pela manhã o telefone tocou e não era Helena de Tróia, era a sua mainata. Será que Helena cortou a veia? Engoliu um frasco? Usou uma das cinco armas que tem dentro do gavetão? Esfaqueou a carótida? Já atravessei o living. Os peixes no meio da sala romana, a que Helena dá nome inglês, parecem um molho de répteis, apodos feridos, debatendo-se sob o vidro. Sem ar condicionado, a sala é uma estufa onde amadurecem os objectos. Ao atravessá-la, creio que se o climatizador se mantiver desligado, nascerá um bolor até ao tecto. Tudo o que for de metal oxidará até ficar verde-esmeralda, tudo o que for coiro curtirá até ficar podre, e os tecidos que pendem aqui e além criarão manchas ruivas como as verónicas. Não consigo deixar de ver essa catástrofe dos objectos sob o calor. Sinto que também é um disfarce e uma mentira aquele tipo de sala, numa terra onde as papaias deixam cair os frutos do tamanho de melões, com um plof de saco. Oxalá Helena tenha o ar condicionado ligado dentro do quarto, de outra forma receio vê-la rodeada de bolor sobre as mãos, ver sair dos seus lençóis fungos do tamanho de arbustos. Se cortou a carótida o sangue já se decompôs e ferveu em redor da bela adormecida. A bela adormecida, em África, deveria ser acordada pelo príncipe dentro duma luminosa floresta de fungos. «Entra!» - diz ela de dentro. Não morreu.

Vou entrar. Dentro do quarto Helena tem o climatizador ligado, ele vibra até, embora Helena viva tenha a persiana quase descida, e através dela apenas se veja uma sombra esfumada do mar. De vez em quando, porém, através do zunido do climatizador, o fumo do mar ergue-se, e dentro do quarto parece ouvir-se o rebentamento da onda. O mar desenrola-se pela praia como o cabelo vermelho de Helena se espalha pela almofada de cambraia. Toda a dobra do lençol é de renda. Procuro o vestígio do seu tormento na dobra do lençol, numa prega da cambraia, numa franja do cabelo. Não encontro, não tem. Helena mostra a placidez da neve, lembra uma princesa de pedra deitada sobre a tampa do seu sarcófago. Coberta de neve. Sou obrigada a rodeá-la, a vê-la de perto, a olhá-la de lado e de frente. Uma mulher que se sabe bela como Helena não atravessa drama, não tem tragédia. Não pode ter tragédia quem tem o perfil de Helena, e a perna de Helena. Ela pôs uma perna fora do lençol. Os músculos gémeos de Helena não se vêem, por mais que Helena comprima o peito do pé. Tenho a perna de Helena na minha mão, peço-lhe que a curve para ver a actuação dos gémeos. A perna apenas toma um pouco mais de volume e engrossa. Passa-se o mesmo com a coxa. Helena abre e fecha a coxa. O seu slip é tão escasso que melhor fora não o ter. Helena puxa os joelhos, senta-se, levanta o assento, retira o slip, escorre-o pelas pernas sempre unidas, estende-se. O braço move-se como uma sombra imaginada.

«Tranca a porta» - diz Helena.

Vista da porta, Helena assemelha-se a um narciso com uma mosca no meio. A mosca tem a cor dos cabelos da cabeça de Helena, senão mais arruivada ainda. É a primeira vez na vida que vejo uma mulher sem slip, no meio dum lençol. Não me surpreende contudo a mulher de que conheço o ser, mas a beleza que é seu acidente. Pergunto-me da porta o que pensará o caçador de pretos ao atravessar a porta e ao olhar para Helena. Procuro traçar uma ligação fortuita enquanto não me movo da porta - o caçador deve vê-la como um alvo que vai ser ferido com a bala mais tensa que traz à cintura. Penso que o capitão só pode sentir o aríete de carne que traz à cintura como uma bala. O que é o capitão mais do que um bom matador de pretos com um código de honra e uma folha de sacrifício? Não sei o que esse homem foi - possivelmente até procurou na harmonia dos números um senso de que também desistiu. Nada do que penso é um julgamento, mas apenas uma contestação. Agora, se o capitão entrasse, ele seria o bom matador, cicatrizado, com uma grande bala folicular à cintura. Mas se Helena de Tróia em vez de encontrar um capitão num baile de Carnaval tivesse encontrado um talhante? Seria que o talhante a via como uma rês? Seria que amá-la seria procurar nela a carne do bife mais tenro? Com a ponta da sua faca de carne? E o homem do lixo? Como seria o homem do lixo? Veria o homem do lixo Helena como uma peça de entulho a cobrir de estrume? O homem do lixo enterrá-la-ia sob si mesmo, e o seu sexo seria apenas a forquilha que a ia enterrando de estrume? Helena a desaparecer sob uma fina camada de lixo, e depois a sumir, a encobrir o corpo sob o olvido de montanhas de estrume, era a ideia mais implacável que me chegava, vendo-a branca, tensa, disposta. Helena como um objecto de amor mutável conforme quem a procura? Ou no amor alguma coisa imutável de ser a ser, uma natureza guardada sem mudança no esconderijo da natureza? É isso - escondido. Pensei. Pensei no coveiro. O que faria o coveiro se lhe fosse dito que se dirigisse àquele quarto, trancado, climatizado, guardado diante do mar, onde o ar zunia, e chegasse com a pá e o alferce? Seria que o coveiro quereria enterrar Helena? Sim, quereria enterrar Helena. Deitando-se sobre Helena, quereria enterrá-la, ele, o homem do lixo, o talhante ou o caçador de negros, todos a quereriam enterrar. Essa imagem tornava-se insuportável vista da porta onde eu me encontrava, fechada a porta atrás da cintura, como se receasse que alguém a abrisse quando me afastasse da maçaneta. Era insuportável porque eu traçava escalas que corriam para cima e para baixo, imaginava no topo das escalas os sublimes, os salvadores da humanidade, os médicos devotos, os poetas, os prémios da paz, via-os entrarem naquele sarcófago, onde ela se encontrava, colocarem os pés no local onde eu os tinha, e só continuava a imaginá-los caminhando na direcção de Helena, arrastando o alferce e uma pá, uma enxada, e ouvia a terra bater, bater, sob a lâmina fria, o som saindo e arremetendo-se contra as paredes faiscantes do cemitério cheio de ciprestes amarelos da minha cidade, que eram sem dúvida idênticos aos do cemitério dos brancos da cidade da Beira. O raso cemitério da Beira é que era igual aos grandes e sinistros da minha cidade. O demónio, peludo e terno na maciez do seu carácter defensor da invulnerabilidade, sacudia a anca de gato bravo, abandonava o seu posto, dava passagem a um fio de sofrimento. Não conseguia conter, por isso mesmo, a dimensão do grande diante do pequeno, nem do longínquo diante do próximo - disse Eva Lopo. Também diante de Helena tudo era igual a tudo. Helena estava perto do tape-tape do alferce, e os homens que a poderiam amar lindamente dispensavam uma tarde das suas vidas para aquele momento solene, abriam a funda cova do esquecimento, como se quisessem retirar dela mil toneladas de mármore, e logo partiam. Ou a pedreira era tão funda que não permitia o mármore, e por isso, apenas colocavam Helena, partiam. Não tinha ficado estúpida - Evita era eu. Ela sabia que era o despeito pela imperfeição do amor que a fazia castigar assim a parte da humanidade nascida com sexo comprido, por imperfeição do amor. Helena também sabia e dizia, com a sua leve inteligência de pombo, as palavras exactas. A sua inteligência devia ter suado gotas para o dizer.

«Vamos vingar-nos deles?»

Helena falava bem. A nudez devia clarificar-lhe a cabeça por dentro como um detergente com enzolves. «Sorry, sorry» - disse em inglês, para afugentar a inteligibilidade, na esperança de que, usando essas duas palavrinhas, aquele novelo não doesse, antes se desfiasse por si, às escuras, e parasse.

«Mas porquê?» - Helena de Tróia juntou as pernas, sentou-se no côncavo dos seus tecidos leves, pôs as mãos nos joelhos, e sobre as mãos, o queixo de pomba.

Não posso, Helena. Se me aproximasse de ti até te tocar, mergulharia num lodo cor de sangue. A natureza ou simplesmente o padre a quem me mandaram durante a meninice para me dizer junto das orelhas terríveis chis rolados, ou outra coisa qualquer como uma pedra ou um lenço encontrados por acaso num passeio, me impedem que te toque para outra intenção que não seja a de te contemplar. Fecho os olhos e prevejo uma espécie de catástrofe vermelha a partir da tua almofada de renda, que se alargaria até chegar ao mar azul para o tingir por inteiro dessa cor. Seria necessário voltar à mamada inicial para corrigir este defeito. Ou mesmo antes, porque não possuo nenhuma parte de corpo que te leve a enterrar no fundo do mármore, Helena de Tróia. O que amo em ti não tem enterro nem aspira a isso. Os homens sim, fazem-me feliz porque me enterram e me tornam mortal. Quero que um homem se ponha em cima de mim para me sentir mortal. Com uma gadanha e uma pá, e me enterre e me empurre até ao local donde se extrai o mármore, quando a terra fecha. Um homem com cinco membros erectos que me envolva como uma aranha envolve a mosca até esse pedaço de terra congelada, enterrada e por polir. Entre ti e mim a identidade é um espelho que nos reflecte e implacavelmente nos isola.

«Mas porque precisas de alguém e não sou eu?» - Helena de Tróia parecia querer voltar ao choro. Antes que chore, que derreta a sua inteligência de pombo em gotas de água e cloreto de sódio, que lhe molhem as mãos com tantas unhas, preciso abrir a porta atrás da cintura nunca cheguei a mover-me da porta - e sair dali. Helena grita pela mainata.

«Odília!»

Não, não é preciso gritar. Eu sei ir. Pensemos em coisas justas, claras, como é o facto de estar o jardim em frente danificado pelos gafanhotos que se abateram sobre a verdura. É difícil caminhar sem que as solas escorreguem por cima dos gafanhotos tombados. Evita-se um, tomba-se noutro. Há ainda os que volteiam e batem na cara dos transeuntes como se nos tomassem por coisas transparentes - «Adeus, Helena de Tróia.

Não, nunca entrei pela porta do jornalista, mas sei que é aquela que está em frente, castanha, descascada. Ele é a única pessoa que conheço a quem poderei dirigir-me para pedir solidariedade, nessa manhã em que uma peguenhenta humidade sai da terra e não do mar nem do seu braço cor de lodo. Faz uma espécie de frio peguenhento também. O jornalista tem um robe pelo joelho, acaba de acordar. Estendo-lhe os braços - «Tremes?» Estou de facto a tremer. Aninho-me nele procurando a força dos cinco membros da aranha que me levem até ao fundo do celeiro de mármore. Aproximo a boca da boca do jornalista. Ele tem mau hálito, deve ter pelo menos um dente podre. O jornalista deve sabê-lo, porque põe a cara de lado. Não lhe largo a cara, espero sentir sob o robe o inchaço do seu quinto membro. Com essa vela içada, ele pode conduzir-me onde eu sozinha não posso entrar. O jornalista não se deixa inchar. Quer ir lá dentro lavar a boca. Mas antes de ir, senta-se porque o jornalista do Hinterland quer calma, quer compreender, quer falar a uma distância tal que não se lhe entorne o mau hálito sobre o meu nariz. Vamos lá a ver, afinal o que se passa? O jornalista vai lavar-se, volta vestido e calçado, batendo o tabaco sobre a unha. As meias dele dentro dos sapatos são um tranca à intenção com que entrei. Ele está no seu direito de calçar meias e pôr cinto - ele quer saber, quer compreender, tem todas as actividades intelectuais vivas depois da água nos dentes. Ele é um mar de inteligência que vai e vem, conforme fala e pergunta. Não lhe posso dizer nada assim trancado - penso que o amor é uma incompreensão, a beleza é um estorvo do amor, a fala o pior instrumento.

«Não é, não!» - diz ele, destrancando-se.

A casa era pequena e suja como a sua entrada, e o jornalista tinha plena consciência disso. Mesmo cheio de consciência, o jornalista desnudou-se e fez-me mortal disse Eva Lopo.

Acha que esses são os passos que não deveriam ter sido dados? Faz bem achar. No seu relato eles estão tão ausentes quanto os anéis de Júpiter estão das laranjeiras da Terra. Imagine o que seria se seguisse a realidade, e fizesse o jornalista sentar-se, logo a seguir ao almoço desse dia, no hall do Stella Maris, com o cabelo penteado, uma calça nova, uma revista debaixo do braço. Vejo-o - folheia a revista, cruza a perna, toda a gente do Stella sabe que está uma pessoa esperando obstinadamente por mim, no hall - disse Eva Lopo.

Ele vinha e sentava-se, e esperava, e não se importava com os olhares irradiantes de quem passava. O jornalista parecia estudar as portas que davam para o hall, passava a vista pela da entrada que havia sido escaqueirada pela gincana e agora parecia nova, e embora não fizesse ruído, punha os lábios no feitio de quem assobia. As mulheres dos alferes passavam lentas por entre os sofás e olhavam-no no pescoço. Acho que ele sentia o olhar e quanto mais assobiava, sem assobiar, mas rescendia a colónia e a medo. Vejo-o à distância - tinha uma pose triunfante de quem vem de atravessar com um pau, dentro de si, o frágil animal do medo que dormita dentro do homem, agarrado ao coração do homem. No excesso da’colónia havia a compensação do suor do esforço. No exagero da roupa vincada, havia o contraponto da camisa amarrotada onde punha a mão para se debater contra o bicho gelatinoso do medo. A paz dos seus olhos não era paz - era a desistência do tormento. Ele sentava-se ali, não por mim - disse Eva Lopo. Mas para encontrar um pretexto para rebentar a bolha da sua vida. Ele procurava forma de cortar com África, as mulheres de África, os filhos inumeráveis desse tempo de África. Isso é que ele procurava. Um salto, uma transfiguração, um corte, uma desistência. Mas podia procurá-la noutro sítio e seguir as pisadas dos seus precedentes, em vez de se colocar no meio do hall com uma determinação apaixonada no olhar.

«Não é verdade!» - dizia ele. Mas eu sabia que era.

 

Era óbvio que, como uma papaia vermelha aberta a meio duma toalha branca - o jornalista levantava-se quando me via, tomava o à-vontade de quem se familiarizou até ao ponto de poder olhar sem distância para todas as partes do meu corpo. Tinha ficado mais esbelto, e a tez tinha escurecido, os olhos aumentado, o amarelo dos seus olhos tinha-se acendido, e junto da brancura da camisa nova, o escuro deles havia alcançado um outro brilho. Sofria uma transformação, como as mulheres e os pássaros machos antes do cio e da cópula. O cinto tinha encolhido, as calças ele as havia mandado vincar como papel para aparecer no hall. Florescia, e no entanto eu conhecia o formato do bicho do seu medo. Era simples - um factor exterior ao bicho iria chegar, e ele aguardava que todas as coisas decidissem por ele menos ele. Sentado no hall, o jornalista dizia - «Quero imenso ver chegar os gajos!»

«É assim tão importante?»

«É importante porque não são três ou quatro companhias que chegam - para mim, é um país invasor que atravessa o país invadido, de onde vai ser expulso sem julgar!» - O jornalista alargava a dimensão que atribuía à sua espera. «É a força dum continente ocupando o outro!» Dizia sentado no hall, o sítio da ocupação. Mas quanto mais alargava a dimensão das palavras para situações impessoais, mais a sua pessoa, vestida, calçada, de perna traçada, existia e reclamava por si só. Então eu empurrava-o - disse Eva Lopo. Mandava-o embora, ou não aparecia e encontrava-me depois com ele na casa da porta verde onde rastilhavam as baratas. Era um frufru de trapo vivo andando que rojava sob os móveis. Mas nem sempre se ouvia porque o jornalista punha-se à máquina e escrevia sob o matraquear das teclas, pedaços de frase que iriam constituir a COLUNA INVOLUNTÁRIA.

«De qualquer modo, não tens nada contra o Luís» dizia-lhe.

«Contra ele não, mas contra todos eles, sim!»

«Deixa-me vê-lo de frente, não te metas, não te aproximes - dá um prazo».

«Um prazo, mas que prazo?»

«Também eu quero vê-los voltar».

Voltaram. Lembro-me dos soldados no dia em que voltaram. As esplanadas povoaram-se de rapazes magros que partiam copos nas paredes - as nódoas de cerveja ficavam coladas nas empenas em forma de chuva. Em poucas horas amontoaram-se intensamente pedaços de vidro partido, aos cantos dos bares. Traziam a pele cor de azeitona e quando não partiam copos e garrafas mandavam piropos a toda a pessoa que passasse na rua e tivesse uma fenda rodeada de pêlos. Por vezes mandavam-nos mesmo a quem ainda não os tinha. Havia meninas das escolas, algumas extraordinariamente brancas, cor de leite, que andavam nos colégios das madres freiras e adoravam ouvir. Saltavam o gradeamento. As ruas encheram-se de guinchos. Os gafanhotos por varrer estavam espalmados pelo pavimento como manchas de óleo. Em certos troços sem asfalto, onde não haviam sido nem varridos nem pisados, formavam extensos tapetes à espera dos soldados. À porta do Moulin Rouge, os gafanhotos foram varridos e amontoados, e depois levados para longe, para que a entrada ficasse limpa. Vejo-a limpa e livre. Nem negros bêbados mortos por metanol, nem gafanhotos caídos. Os soldados amontoavam-se à porta como se a casota do cabaré com as pazinhas lanceoladas fosse gare de caminho-de-ferro com intensa partida e chegada. Tudo está em ordem - estes vieram porque estiveram lá para assaltar, correr e caçar. Então estes merecem vir e depois voltar se for caso disso. Por enquanto, à cautela, ainda terão de voltar. Também a tropa de quadrícula, que ficou por lá encerrada nos aquartelamentos, ainda irá ficar durante uns dois anos, renovados os contingentes, que obviamente tenderão a diminuir, com o fim da guerra e a independência branca. Mas essa não é uma tropa guerreira e não terá cabaré - essa é uma tropa pacaça apenas necessária para estar. Esses é que irão permanecer nos locais recônditos até à pacificação absoluta.

«Mas será que não se pode já falar de pacificação absoluta, Senhor General?» - era uma das questões que estavam a colocar ao General.

Meu Deus, se não chamavam àquele estado de ordem pacificação absoluta, então as pessoas tinham da paz um ideal de planeta sem sussurro de vida. «Ora essa!» - disse o General.

Numa acção daquela envergadura, apenas tinham perecido trinta e cinco homens, quando se previam para cima de cinquenta! Oficiais só haviam sido atingidos quatro, e desses, só dois tinham tido morte, o que era verdadeiramente assinalável. Apenas dois! Além disso tinham-se atingido os santuários fundamentais do inimigo, capturado armas, munições, víveres, desfeito culturas por incêndio e bombardeamento, afugentado vinte mil macondes espavoridos com a invasão - não era um êxito? O General não tropeçava numa única sílaba de tal modo a verdade se impunha e a realidade borbotava. Aliás, era comovente dizer. Fazíamos o nosso Vietnam sozinhos, com o Mundo contra nós, quando defendíamos a Civilização Ocidental. Mas quando os americanos perdessem a guerra no Vietnam porque eles haveriam de a perder - Portugal teria há muito vencido a guerra das suas províncias por determinação dos altos comandos.

O General está a dizer tudo isso no hall onde antigamente os ingleses, descidos pela Trans-Zambezian-Railways, vinham espalhar os curvos dentes de elefante. Está no hall, e aí ficará sempre. É escusado deambular por outros lugares da Terra. Está aí, ficou aí, há vinte anos que não sai daí, dando a conferência de Imprensa rodeado por altas patentes militares. Mas as outras patentes desapareceram do hall, à medida que esse recinto foi rachando e morrendo. Só o General persiste de pé, falando, dizendo coisas como estas que neste momento recordo. Por isso mesmo não se deve falar da forma como põe a mão, nem do brilho dos olhos, os tais olhos de que Helena, nos dias de grande disfarce, disse parecerem-se com os de uma figura demasiado gordurosa para permanecer ainda durante mais um momento de lembrança, dando a conferência de Imprensa. Aliás, as portas não foram fechadas, e por isso, além da fileira de homens sagazes que estão emoldurando a conferência para a tornar marcial, há também uma moldura de mulheres que habitam o Stella para a tornarem emotivamente verídica. Nunca se sabe quando Lisboa recusa uma vitória atingida a tantos milhares de quilómetros. É preciso testemunhar. Infelizmente as crianças, essas, fizeram demasiado barulho e tiveram de sair dali a pontapé. Pena que assim tivesse sido - os seus olhos cheios de películas virgens por impressionar seriam os melhores testemunhos.

Mas está a Imprensa. O General é um homem de triunfo, e se é um bom estratego, também se suspeita que seja um bom homem de Estado. Quando um homem de Estado fala, deve olhar especialmente para a equipa de TV que lhe ilumina o rosto com uma luz crua de foguete. Infelizmente essa será a parte que não passará ali naquela África que não tem TV. É na direcção do olho do foguete que o General mais directa e sucintamente fala. Puseram-lhe o micro entre dois botões, e pediram-lhe que fosse breve, mas ele alarga-se demasiado. Como conter em poucas palavras uma guerra que demorou meses a executar e uma vida inteira a engendrar enquanto saber? Alonga-se

Ppelo hall, mas não faz mal - haverá um mapa bem visível sobre as bases atingidas para que o Mundo saiba como as N.T. estiveram lá, incluindo ele que foi depois pôr os dois pés que Deus lhe deu, e ele pôde mostrar, no santuário dos santuários do inimigo. Agora o General vai rodar para a direita. Atenção - ele assinala com o dedo o sítio onde Miteda tem seu vale. Bate em Miteda - foi ali. Desmantelado, foragido, desaquartelado, devemos ter pena do inimigo mas permanecer, apesar de tudo, implacáveis contra a sua maldade. E isso porque o General sabe que a semente da revolta não é biodegradável. As altas patentes têm as bocas fechadas, os olhos descidos, os rostos cortados à faca. Por essa razão a tropa de quadrícula manter-se-á ainda durante dois anos. Estão no hall, ainda estão agora mesmo, enquanto houver quem se lembre da conferência ao vivo, como num sonho em movimento.

Aliás, naquele instante, toda a gente que está no hall sabe que o General sonha com o momento em que se tornará, por direito, presidente daquele estado, quando for estado. Mas aí é que se levanta um problema. Disse, já depois de dispensada ^ equipa de TV com o olho do foguete apagado. Como se vai passar até à autonomia branca? As coisas são como são. Ou Lisboa é a favor da Civilização Ocidental de que faz parte e cede a uma autonomia branca, ou é a favor do desmantelamento da Civilização Ocidental e manterá tudo na mesma e a guerra continuará.

«É assim que eu penso, se é que me dá licença!» diz um cavalheiro também fardado, de costas, andando.

«Ora aí está!» - Estão fora da responsabilidade da conferência de Imprensa. Estão em grupo, avançando e recuando pelo hall. Pois bem, mantendo-se as coisas como estão, Lisboa arrisca-se a ser o primeiro desalinhado da Civilização Ocidental, no esplendor de achados seculares como o soneto, a ogiva, ou a vacina bacteriológica. Se Lisboa insistir, os homens prudentes continuarão a abandonar as vivendas e a partir discretamente, dizendo que é para voltar. Abandonarão Six-Miles, o Régulo Luís, aquele amplo e estimável porto de atracagem, só para se falar daquela costa. E os cafres encarregar-se-ão, em menos dum ano, de desfazer os catorze versos do soneto, os arcos cruzados da ogiva, o segredo da inoculação da vacina. O General andava pelo hall, profetizando como um rabi. «Estas paredes, meus amigos, servirão apenas de abrigo a morcegos, esse balcão é capaz de ser levado e feito às travessas para com elas acenderem fogueiras! Não tenham dúvidas que a electricidade será apenas uma lembrança que houve na cabeça dos cafres...» - Obviamente que o General está a desabafar, já não está a dar nenhuma conferência de Imprensa. O Gerente já se aproximou.

«Senhor General, por favor!» - O Gerente corou. Há um beberete colocado ao fundo, na parede que dá acesso à copa. Um beberete? Mas o General não tem nem fome nem sede. Quem quiser comer que coma. Das altas janelas do Stella que eu não voltarei a ver jamais com a placidez desse dia, e que em breve hão-de começar a ficar frágeis como se agitadas por um permanente vendaval, o General vê pela primeira vez o mar, naquela tarde. O General comove-se, o que não é uma comoção qualquer, porque a comoção dum general sempre implica uma acção imediata

- o General deseja ver o mar. O Gerente manda abrir imediatamente os panos brancos para que o General admire aquela paisagem marinha. O Gerente diz que o Stella Maris está colocado no local onde deveriam ter eregido o farol.

«E onde eregiram?»

«Estupidamente, na ponta do Mácuti!»

«Mas o mar está verde!» - diz o General. Continua rodeado pelos homens sagazes que o seguem desde o primeiro instante do hall, todos com bocas tensas, e que o escutam. «Porque tem esta cor tão verde?»

«Não sabe, meu General, que tem havido nas últimas noites invasões de gafanhotos quase inestancáveis? Uns passam, mas outros caem e formam um tapete!» - Um general consegue ouvir perfeitamente a explicação dada por um major, quando a isso se dispõe.

Mas mesmo ouvindo essa explicação, o General está pensativo. Os generais também têm o direito de estar pensativos depois das vitórias. Uma luta envolve demasiados componentes vitais para que não se sinta uma melancolia arrebatada, semelhante a um choro de mulher, quando se chega ao fim.

«Bom, não importa - agora que atingimos o que desejávamos e esta guerra chegou praticamente ao fim, porque não aliar-se o mar, pela cor, à nossa esperança?» - Via-se o mar, francamente plácido como uma ribeira, rojar matéria verde à praia, uma toalha de verdura diferente de qualquer alga. Não havia vagas, era só ir e vir, espraiar. Entretanto, em frente do hall por onde o General espreitava o mar, começaram a chegar jeeps com oficiais encardidos, que regressavam tal e qual como os soldados, escuros e esgalgados. Eles não deveriam entrar pelo hall, não por nada, mas apenas pelo cheiro. Estavam a ouvir essas determinações, em pé diante dos bornais, integrados na paisagem que o General também via, sem dúvida, com um sentimento indecifrável. Os oficiais encardidos e esgalgados destroçavam pelo pátio. A paisagem que se via da janela ficou livre e um dos comandantes que seguia o General perguntou então se ele sempre achava que a independência branca acabava com os conflitos, e se nesse caso, a classe voltava ao mesmo estado de obscuridade e miséria de antigamente, quando um oficial não podia fazer por ano mais do que uma festa de aniversário em casa. Nem comprar uma revista. Era uma pergunta corajosa.

«Vá a direito!» - disse o General, no hall onde ficará para sempre.

«Quer dizer - haja ou não haja independência branca, o que vai ser de nós, em paz?» - Era um cavalheiro mais jovem que o General cerca duns dez anos, tinha o cabelo todo, os dentes todos, era natural que se interessasse. O General compreendeu e deu a resposta aos que se aproximavam porque lhes interessava ouvir a réplica. O General era um homem culto, e a cultura serve para tirar a pessoa culta de embaraços, de outra forma para que serviria? Para nada - não valeria a pena ser culto. O .General deveria ter aprendido a recitar quando era pequenino daquela forma exaltada que fazia estremecer os soalhos de madeira desse tempo, escondidos sob as capachas. Então ele disse como se estivesse a afugentar a trovoada para longe, sobre capachas.

«Há mais de vinte cinco séculos, Homero escreveu Deixai que cada homem marche para a linha da frente Quer se morra quer se viva. Eis como a guerra e a batalha beijam e murmuram!» - O General espalhou assim os trovões.

«Obrigado, meu General!»

Os jornalistas já tinham abalado pela porta havia muito

- aliás, eram bem poucos, micros só tinha havido três os rapazes da TV carregavam aquela traquitana dos fios às costas e saíam dobrados. Não, não valia a pena estar a massacrar o General sobre a interpretação que dava aos mortos pelo álcool metílico ou à revolta dos ultras pelo abate involuntário dum pianista. Mas o General é que estava informado de tudo e explicou que era natural que os povos se aniquilassem naturalmente, na sequência do desaparecimento dum chefe. Afinal os chefes deles estavam a degladiar-se entre si. O General lembrava a bomba recente que havia deflagrado na cabeça de Mondlane. E foi aí e não no terraço que se falou no povo de Atahualpa Yupanki. Mas o General riu imenso «Bom, bom, Mondlane não foi Atahualpa, por favor, meus senhores! É quase indecente comparar um imperador com um bandido!» - O hall estava cheio de gente disciplinada, conversando, e dois dos oficiais esgalgados, em frente, ainda aguardavam passagem. Havia os que pegavam no bornal e entravam por trás, pelas portas de serviço, aquelas imundas portas por onde de madrugada passavam, esfoladas, as reses a caminho da cozinha.

Mas você não deverá aproveitar deste passo uma única palavra. Tudo o que você recorda, vinte anos depois, está conforme com a noite sintética que vimos lá em cima. Para quê acrescentar mais? Sim, existe a imagem do noivo vista pela lembrança do jornalista. É nele que se baseia quando os faz descer pelas escadas, o noivo com a arma de Forza na mão, o repórter com a câmara às costas. Ora pelo contrário, o noivo, tendo também tomado a entrada das reses esfoladas, subiu as escadas.

Entrou pela porta do pequeno quarto, atirou o bornal para cima da cama, a boina para cima da cómoda. Eu esperava vir encontrá-lo metido no guarda-fato, ou vasculhando as roupas interiores, ou atrás do plástico da enorme casa de banho. Mas não - eu cheguei antes e ele nem faz o menor movimento de inspecção do quarto. Ficou com os braços postos na cintura - «Sabes se o gajo ainda está a dar a conferência de Imprensa?»

Digo-lhe que sim. Sei que os jornalistas já saíram mas tudo me parece ainda ser conferência. Olhando melhor, o alferes parece ter acabado de atravessar a lama e o lodo. O alferes não vem contente. «Como foi isso?» - pergunto-lhe.

O noivo embaça, sentado na cama, quando fala não tem mais voz de noivo, mudou-a, de repente o noivo tem voz de mulher. «Foi uma grandessíssima merda!» - gritou ele.

«Como uma merda?»

«Dois meses e meio» - disse o noivo cada vez mais com voz de mulher. «Dois meses e meio metidos naquele buraco sem hipótese de ninguém se distinguir! Na minha companhia, só se louvássemos o tratador dos cães que dispensámos à chegada. Assim que vimos o buraco! Dois meses e meio dentro duma cova, de castigo, sem água!» O noivo pegou no bornal e na boina como se quisesse acolher a alma sobre os dois objectos restantes. Começou a chorar abertamente, e era espantoso como chorava e as lágrimas do noivo tombavam nas ilhós do bornal. Era a primeira vez que via Luís Alex chorar. Chorava com soluços e com gritos.

«Mas não foi então uma vitória?»

«Foi uma vitória, uma merda. Para ser a vitória da bilha do General não foi a vitória de mais ninguém!»

«Mas acabaram com isso ou não?»

«Não, não!» - disse o noivo com a voz cada vez mais fina a ponto de se engasgar como se a voz estreitasse até ser fio e o fio enrolasse como linha. «Daqui a pouco vamos tê-los por aí espalhados por Tete, por Manica, por Sofala, por toda a parte. Foi um bluff! Pergunta ao meu capitão!» - Contudo, a voz, que se afinava até ao ponto de parecer ferida e arranhada por um alfinete, não traduzia a menor inflexão de debilidade. Pelo contrário, estrangulada daquele modo na boca do alferes, parecia ser um sinal de intensa fúria ou fortaleza. Quando se levantou para abrir o duche, o andar do noivo era a confirmação dessa impressão de energia. Aliás, demorou algum tempo a retomar a voz debaixo da água corrente. Sob as unhas, o noivo tinha várias matacanhas, e no lábio - porque o lábio esticava quando o noivo fazia aquela estranha voz de fêmea - um fio de sangue que não estancava, feito sem faca nenhuma que se visse, corria. O grande quarto de banho era pequeno para tanto lixo e tanto cheiro. A um canto, entre a banheira e a longínqua sanita, as fardas estavam tesas como alumínio e ficavam em pé como armaduras. As meias tinham só o cano, as cuecas tinham delido no fundo.

«Alguém devia então ir ao hall dizer isso mesmo - dizer que mente!»

«Dizer a quem?» - O noivo continua fêmeo, chorando sob o duche. «Dizer aos jornalistas? Uns porcos, umas bestas! Foram lá, estiveram lá e tivemos de fazer uma guerra fingida entre nós para eles imaginarem! Oh, os jornalistas!»

O duche varava o corpo enegrecido do noivo, cavado a meio da barriga por uma gaiva funda, até que se sentou na banheira e dormiu com a água a correr. Dormia com pequenos saltos, abria e fechava os olhos com uma velocidade intensa. Depois deixava-os fechados, respirando fundo, movendo os músculos da cara e dos braços, com gestos sem sentido, incontrolados, como um gato bravo ao sol, sonhando e dormindo. As veias temporais batiam. As mãos do noivo que ele tinha cruzado sobre o peito escorregavam, e quando isso acontecia, ele estremecia na água e apanhava-as sobre o peito como se as recuperasse. Como dois músculos. Era impossível falar com um homem que se tinha transformado num músculo atento aos ruídos. Mas Eva Lopo teria de lhe dizer - Olha, vou-me embora quanto antes, escuta bem, não quero mais... Podia depois explicar as razões a um rapaz que não tinha resíduo daquele que antes havia conhecido com a pasta, à mesa do café, desenhando letras miúdas de x e y e z, à espera de encontrar uma fórmula que pusesse esses mesmos sinais alinhados duma outra maneira, e que desse modo atingisse um segredo escondido pelos números do Universo? Não podia. O rapaz que dormia sobressaltado na banheira não se interessava por nada que estivesse escondido, e essa tinha sido a sua decadência maior. Não, não era a degola em si que o aniquilava, nem a voz intensa de mulher que fazia para se queixar. Era a certeza de que ele não penderia mais sobre um quadrângulo de papel queixando-se da resolução numérica, a limitação da resolução numérica. E o que queres? Uma solução globalizadora que resolva cinco, seis, sete, dez incógnitas. Dez incógnitas ou um número infinito de incógnitas? Então ele debruçava-se para cima da mesa do café, olhava para a Avenida da República, e dizia

- «Um dia hei-de encontrá-la, face a face. Será que não a encontrei já?» Sim, sempre foram importantes as banheiras.

O alferes abriu os olhos do fundo da banheira «Evita, não me voltes a chamar isso, não me voltes a chamar Galois. Passou, passou».

«É, agora eu sei que te chamam de modo diferente. Agora eu sei que te chamam Luís Galex. Ouvi dizer que acertas na cloaca das galinhas que voam nos acampamentos quando vocês chegam. Dizem que não há melhor que tu. Também sei que fizeste a letra do hino da companhia. Sei pouca coisa».

«Sim, fiz» - disse Luís Galex. Não havia a menor emoção, como não havia também nem orgulho nem repulsa pelo que dizia. Estava tudo certo, tudo como se poderia prever. Mas como dizer-lhe? Se lhe dissesse, desencadearia uma faca na boca, uma voz de mulher? Também podia ficar passivo, estendido na banheira, sob aquele rumor. Eu deveria dizer-lhe enquanto a água corria, e era tanta a que corria pela torneira sobre a cabeça do noivo quanta a que saía pelo ralo. É agora - pensava. Mas o noivo virou-se, fechou a água, e tudo ficou em silêncio no meio do cheiro forte da cera do chão, e do sujo das roupas, amontoadas a um canto. Era indiferente ser agora ou ser mais logo. O noivo lavado, envolvido na toalha, esticou-se sobre a cama do pequeno quarto - dormia de novo, a sono solto, acordando em sobressaltos. Quando acordasse, assim que abrisse os olhos, eu haveria de lhe dizer - Escuta, tenho alguma coisa importante para te dizer, ainda que nada nesta vida valha a importância que em certos momentos julgamos, por exemplo, a infidelidade ter. Ele haveria de se sentar, puxar toda a memória da nossa vida passada a dois, os nossos anos recentes, ardentes e viçosos. Então? O quarto passava a escuro, mergulhava no tom lilás das noites, o noivo dormia, respirava como um motor disciplinado para soprar de trinta em trinta segundos. Também o quarto respirava. Eva Lopo fechou os olhos - É agora! Mas não era ainda. Acordar o noivo? Fazê-lo estremunhar, dar um salto? Procurar o local da G3? Pôr-se em guarda? No entanto, era aquele o melhor momento. Pelo Stella corria água para dentro de todas as banheiras. Ouvia-se a água correr em cascatas. Do quarto do lado, o do tabique, saíam vozes de rapazes galhofando com a água. Mas o alferes acordava e dormia, num outro estado diferente da exaustão. Agora? O quarto estava sumido numa cor mais ténue que o lilás e menos escura do que o negro. Lembro-me - alguém bateu à porta. O alferes deu um salto, pôs-se em guarda, curvado, nu sobre a cama, só que de fora bateram outra vez e ele se endireitou e disse extraordinariamente alto - «Quem é? Quem é?» O sobressalto fazia-o engolir em seco e ouvia-se o barulho das maxilas movendo-se. Do lado de lá, uma voz miada dizia alguma coisa indistinta, repetindo-a.

«Um momento!» - gritou o noivo, enfiando as calças como se tivesse sucedido um bombardeamento.

«É o telefone para a senhora» - disse o pequeno negro que batia, quando a porta se abriu.

«O telefone?» - O noivo falava do telefone como dum aparelho estranho.

«Si, si» - disse o pequeno negro.

O quarto não tinha telefone e quando havia uma chamada, o processo era esse - bater à porta, segurar a linha, ir à recepção.

«Está alguém ao telefone!» - disse o noivo, perplexo no meio do quarto, ainda com o cabelo húmido, mas já sem voz de mulher. «Quem estará ao telefone?» o «Não sei». -ií «Bom, vamos lá ver».

O noivo tinha uma enorme pressa como se houvesse, de facto, uma notícia de bombardeamento, mas eu queria imenso que a pessoa, que eu sabia quem era, se cansasse até lá chegarmos. Preferia ter-lhe dito antes, sem ser desencadeado por um telefone. Queria ao menos que as vozes deles se desencontrassem para eu poder falar em paz. O noivo caminhava à pressa, adiante - «O telefone, mas quem poderá ser ao telefone?» Quando chegámos ao hall do Stella Marts, o substituto do Bernardo estava no posto.

«Desligou, mas deixou mensage».

O alferes arrebatou a mensagem - telefonou cavalheiro, volta a ligar. O alferes leu. Lia de trás para diante e de diante para trás, lia em voz alta - «Cavalheiro? Que cavalheiro? Porque volta a ligar? Quem é este cavalheiro?» Estava no hall, em pé, lendo a mensagem como se ela contivesse o anúncio duma granada. «Quem é este cavalheiro?» - Não, não podia dizer agora, naquele instante, nem talvez nos próximos. O alferes voltava de facto reduzido a um músculo que tem lembrança vaga de haver um espírito.

«Andaste com um cavalheiro?» - perguntou o noivo.

«Não».

«Como se justifica este telefonema?»

«Não sei».

«Não sabes? Diz aqui - Telefonou cavalheiro, volta a ligar!»

«Só se for a pessoa com quem eu falei por causa daquelas garrafas do álcool metílico, aquela história que te contei numa carta. Não recebeste?»

«É. Essa vergonha, tudo só para nos incriminarem a nós» - disse o noivo, dobrando o cabo, saindo do círculo. Começando a andar na direcção do pequeno quarto, para de novo cair sobre a cama, agora vestido, como tinha ido ao hall, com o sexo coberto, o cinto apertado.

Evita era eu - disse Eva Lopo. Durante um instante, depois de haverem voltado do hall com o papel com o recado escrito na mão, e de novo o noivo se ter estendido, ela ainda pensou que poderia afinal não lhe dizer nada, antes pelo contrário, ainda estava a horas de lhe desapertar o cinto, tocar-lhe no sexo tão insignificante sob as roupas, e recomeçar alguma coisa que estava selada com a mesa da Ideal das Avenidas. Era estranho que pensasse isso, achava ela. Que se mexesse no sexo do noivo e ele crescesse e o noivo se virasse e a tomasse e a conduzisse até ao local onde ela se sentia desfazer em terra, a Matemática estaria metida nisso tudo como um número fosforescente que se infiltrasse entre a carne e os ossos, e com ela viria a alegria das tardes de espera, e a intensidade do olhar do noivo, e o tempo anterior ao dia em que o Campo Grande tinha um lago só com um pato, o momento em que ela anuiu e achou que sim, que já que havia alguma coisa que o impedia de fazer o que mais desejava, e que essa coisa era irreparável, que se deveria fazer o que era irreparável para se alcançar o que se desejava. Ela gostaria de voltar a esse instante da vida, perto do lago e do grasnar do pato.

A cauda do pato agitava-se no quarto, e ela ia estender a mão para desapertar o cinto, mover o caderno da Matemática, procurar um momento anterior. Era isso talvez que devesse fazer em vez de lhe contar e dizer que não podia mais, que desistia dele e da nova figura dele para sempre

- Mas o noivo saltou, pôs-se em guarda, o seu peito arfava contido como se estivesse no meio do mato e um projéctil, não uma mão, lhe passasse por cima do sexo. No escuro do quarto.

«Fui eu» - disse Evita.

«Ah, foste tu!» - O alferes voltou-se para o lado e entregou-se de novo ao sono.

Não, se eu fosse a si não voltaria a abrir o quarto dos noivos, como diz ser sua intenção. Obviamente que não os encontraria mais deitados sobre os turcos, no meio do quarto de banho, para que não se ouvisse além do tabique. Também ela não voltou mais a perguntar se eram búfalos o que passava em tropel pelo corredor - claro que eram crianças felizes porque os pais tinham chegado. Sim, faziam algazarra, e algumas delas disputavam de porta a porta os resultados objectivos de cada pai. Mas depois dos banhos e de todas as águas correntes, do rumor intenso do regresso, o Stella Maris mergulhou no silêncio.

A partir daí, não o vejo mais por fora, mas ainda o ouço por dentro. Não, ainda não racha, as empenas ainda não se dobram para a terra, e as paredes exteriores ainda não esboroam de salitre. Ainda vão demorar cinco anos o que são cinco anos aos olhos dos morcegos ou de outros mamíferos voadores, amantes da noite? - para que uns fujam pelas traseiras, os outros corram de madrugada para o aeroporto repleto. Os caixotes atravanquem e se empilhem no salão onde foi dada a conferência. Haverá caixotes empilhados até às talas doiradas que encaixilham os passos da Invencível Armada, tão eloquente. Ainda estamos a algumas posturas - pensando por exemplo no tempo dos flamingos - do momento em que, já desalojado o Stella, barcos de grande e pequeno calado venham de outras zonas do Globo arrebanhar todo o pescado, toda a lagosta que se move nas águas da costa, deixando-a árida, com o fundo queimado. Ainda estamos longe do momento em que os barcos dos portos ficarão parados por falta de peças, os guindastes não puxem mais as madeiras lingadas por falta de óleo, a electricidade se extinga por falta de lâmpadas. Mas vem a caminho esse momento intenso, e há quem o sinta, deitado ao lado dum noivo - disse Eva Lopo. Pressente-se sobretudo quando o Stella mergulha no sono, e só se ouve o mar.

Ouço o mar, pela décima milionésima vez ouço o Índico durante a noite, não tenho culpa de não dormir durante as imensas noites - disse Eva Lopo. Mas há mais quem não durma. O silêncio do Stella é falso porque, ao menor movimento, as janelas irão iluminar-se e espelhar-se na praia. Foi isso exactamente o que aconteceu. Antes que o ruído fosse mandado lá do seu local, já o noivo está dobrado no meio da cama, olhando, como um bicho que foi cacetado, para todas as frinchas de luz. Uma mulher no Stella começou a gritar. Também ao lado, no quarto do tabique, os dois alferes que lá pernoitam, acordam e mexem-se. Possivelmente também estão de cócoras no meio das camas, com os braços em riste, a olhar as frinchas. Cuidado! É uma mulher que está gritando, agora mais nitidamente. Não, não é verdade - não há nenhuma cena de revólver. Eu é que oiço por ouvir, mas não há. É só bofete e chapada, talvez um soco de punho fechado como num ring, coisa sem importância. Ouve-se distintamente a repercussão dos impactos como se fosse ao lado, no quarto do tabique, no entanto, o som provém duma outra empena. O noivo acende a luz. Já toda a gente acendeu a luz e abriu a janela. Vê-se pela areia molhada a sombra do velho hotel iluminado.

«Vou ver o que é!» - diz o alferes movendo-se para as calças.

«Não, pelo amor de Deus, não!» „ O noivo ’deve pensar que lhe falou um capitão, porque não saiu, ficou à escuta, com as calças por apertar, imóvel, ouvindo os gritos e o choro, e a voz de homem.

«É o Deus» - disse ele.

O choro abafa-se. Alguém deve ter posto uma almofada na boca da mulher do Pedro Deus, aquela rapariga que tinha uma sarda, aquela mesma que queria fundar uma liga contra o metanol semelhante àquela que Pam Hanssen liderava a partir de Durban a favor dos pés e das meias do soldado português. O que estará acontecendo a essa rapariga que tão bem tinha defendido a operacionalidade do marido contra o despeito entristecido do tenente Zurique? A voz dessa mulher, de quem não me lembro o nome, extinguia-se, o rumor desfez-se, as luzes começaram a apagar-se, a areia a ficar homogénea. Mas os rapazes do lado ainda entram. Ouve-se distintamente dizerem - «Tanta merda por uma história de cornos.» São alferes solteiros os que desta vez estão ao lado. Riem. Falam enquanto se deitam de novo. Ouvem-se as camas mover-se, mas do que dizem só uma palavra é distinta

- cornos, cornos. Dizem do lado de lá a palavra com o r rolado e o s trissibilante. O noivo está sentado, ainda não retirou as calças. Ao som daqueles cornos tão repetidos que se ouvem entre gargalhadas vibrantes por não haver mais rumor, o alferes fecha as calças. Diz pensativamente, matando um mosquito que zumbe na luz ainda acesa - «Não te digo que isto é um acampamento de ciganos sem burro?»

E depois - «Cada vez mais admiro o meu capitão! Ele seria incapaz duma cena destas».

«O que faria o teu capitão?»

«O meu capitão faria o que fez - encontrou a mulher com um despachante na cama, e o meu capitão resolveu o caso à roleta russa, com acaso e com revólver. Não houve gritos, nem denúncias, nem confusão - ali, acaso é acaso, sorte é sorte. Ficou ele, pronto, ninguém soube, tudo bem. Agora ela não pia, nem tuge nem muge, nem pode!»

«Achas bem?»

«Não. Hoje o meu capitão também não procederia assim. O meu capitão está mais duro, mais realista. Hoje despacharia a mulher e não o despachante!»

«E tu?»

«Eu? Se tu me enganasses, eu hesitaria entre fazer o que o meu capitão fez, e o que ele pensa que faria agora, se voltasse atrás ou a situação se repetisse. Também estou duro, céptico e realista. Sobretudo depois desta operação».

O noivo vestiu completamente as calças e deitou-se sobre a cama, vestido. Era um tempo tão intenso, o conhecimento cruzava-se tão velozmente sobre a cabeça, que não era possível registar. Evita dizia - primeiro, segundo, terceiro, mas só enunciava a ordem dos conhecimentos, não conseguia deduzi-los, preencher as casas abertas pelos números.

Não, nem à distância. Cada momento fica marcado, até que acabe, com o estigma do seu alvoroço inicial. É uma questão de velocidade. E então?

Pensei descer ao hall - disse Eva Lopo. Queria pegar no telefone e avisar o jornalista, e para isso teria de descer sozinha. Mas o alferes Luís Alex, que não me tocava desde que tinha vindo na tarde da conferência de Imprensa, acordava ao meu menor rumor. Apanhou-me junto à porta, seguiu-me. Descemos os dois, comemos os dois, abrimos os dois o jornal Hinterland. Sentados - ele ficou com a primeira página, cheia de largura a largura com a cara do General. Vinha ali tudo, desde o que o General tinha dito, tinha feito, onde tinha ido, até à declaração da pacificação absoluta. O alferes não tinha mais paciência para ler, ardiam-lhe os olhos, doía-lhe a cabeça. Pediu-me que lesse. Lia, porque não haveria de ler? O alferes abanava a cabeça e comentava, ouvindo. Não, já não tinha mais pena dos velhinhos que não tinham ido a nenhuma guerra, agora achava indecentes esses velhinhos que comandavam mal, faziam fugir o inimigo em vez de o surpreender, que nem acabavam a guerra nem a desenvolviam e vinham mentir nas conferências de Imprensa. Fingiam. Eram uns fingidos esses velhinhos que eu tinha visto no hall, bem vestidos e bem lavados - o alferes falava porque tinha dificuldade em ouvir ler. Eu lia notícias sobre quantidades de madeira, pecuárias, estradas, furos hertzianos, aterros, asfaltagens de que se dava conta existirem e acontecerem pelo hinterland fora. «Tudo mentira» - dizia o alferes, emagrecido, de pernas cruzadas, pelo hall. «Mais alguma coisa que interesse?» - perguntou ele. Sim, eu li a notícia dos gafanhotos - pelo hinterland, estavam passando desde há dias pragas de gafanhotos vorazes, tão vorazes, tão devastadores que cobriam as terras, e quando se levantavam, faziam nuvens tão grandes que assombravam. Estavam comendo todos os jardins, hortas e palmares, por onde passavam, deixando alguns campos tão secos e queimados como se lhes tivessem posto fogo.

«Custa a crer que não nos tenham incriminado a nós»

- disse o alferes, árido, como esses campos. «Também custa a crer que o escrevam, já que não dizem uma verdade. Mas se dizem essa, é porque lhes convém, é porque são gafanhotos e não pessoas» - O estudante de Matemática árido, árido como se o tivessem queimado.

«Nem tudo é assim» - disse eu. «Vês aqui a COLUNA INVOLUNTÁRIA!»

Sentia-me atraída para convergir os dados da vida como você se sente para os fazer culminar no fim do seu caso. A mim, parecia-me que, aproximando de propósito as pontas inflamáveis, as adiava tolerantemente. Eu sei, a isso se chama o apelo das coincidências que sempre envolve as figuras inocentes do destino. Essa é uma componente que atrai o narrador como um bicho abatido atrai o condor. Mas nada disso tem paralelo com a minha intenção - aquilo era a vida, ali, esparramada no hall, e eu não era inocente. Sentia apenas que caminhávamos para um momento culminante do percurso. Não iria haver outro, e durasse o que durasse, teria de ser belo como um fogo preso que se desprende. «Ouve aqui» - disse eu. Estávamos sentados perto do cadeirão onde o jornalista se sentava, depois do almoço, enganado, julgando que estava à minha espera. Comecei a ler uma COLUNA INVOLUNTÁRIA, na direcção do alferes com a melhor voz que conseguia chamar.

Oh, como choviam esmeraldas

voadoras! O Céu incendiou-se de verde onde nem era necessário - todas as fogueiras da costa tomaram essa cor, mesmo as que inchavam nos nossos corações! E o que fazer com os nossos corações inchados, senão deitarmo-nos sobre alguma verde relva, ou a morena areia

verde-sombra, e empalarmo-nos uns aos outros? Não conhecíamos outro modo verdadeiro que não resultasse nesse gesto de imortalidade.

Oh, como nos deitámos e nos deitámos! Foi assim, que toda a terra se fez relva, e toda a relva se fez cama. Deitámo-nos e deitámo-nos uns com os outros em toda a dimensão das nossas vidas. Soltámos todos os movimentos, mesmo os mais escondidos de nós mesmos. E vimos dos leitos onde estávamos desenhar-se no Céu espelhado a Terra redonda, toda verde. Não nos interessava o resto do Mundo. Assestámos os nossos óculos só para o desenho dos nossos continentes e vimos. Vimos, à luz das esmeraldas voadoras o desenho de África sacudir-se de sob a Europa que decúbito deitada sobre África, desde sempre a possuía. Vimos África estender a perna sobre a Europa e empalá-la como um macho empola, a boca da Europa, gemendo, amornecida. Os cometas com seus rabos sinistros, amarelos passavam e passavam, murmurando. Quando passavam mais de perto, parávamos para os ouvirmos fazendo as nossas verdes figas. Assim, libertados à luz das esmeraldas...

«Pára! Pára!» - disse o alferes. «Quem é o gajo?» «Ninguém que se conheça - é um tal Álvaro Sabino». «Pára, repete lá - quem é que empala? África empala a Europa, é ou não é?»

«Pois é!» - disse o antiquíssimo estudante de Matemática. «Esse pasquim está cheio de gente black power. Aposto que é um cabrão dum branco querendo o poder do preto! Mas espera - o gajo diz aí, ora lê de novo, que desde sempre a Europa possuiu a África? Cabrão, cabrão»

- disse o estudante antiquíssimo de Cálculo Infinitesimal. «Antes do século XVI a Europa estava deitada em cima da África? Então porque não inventaram nada além de se venderem e se matarem? Então porque não inventaram a escrita, nem a roda, nem a arquitectura nem a toponímia? Espera, espera, esse cabrão merecia com o black power na cara! Mentirosos, impostores do futuro!»

O antigo estudante, criador actual de letras de canções de mato, não tinha paciência para ler, mas de facto decifrava de ouvido todas as metáforas. Eu estava errada tinham-no transformado num músculo animado por um pedaço de espírito que nunca lhe tinha pertencido - era um pedaço de espírito estrangeiro e exterior. Saímos do hall, passeámos ao sol porque fazia pouco calor, o tempo também lá mudava. E por fim, o alferes parecia já ter esquecido o incidente do jornal. «Felizmente que ninguém lê nada disso, ninguém perde tempo com loucuras dessas. A realidade é sempre mais forte» - O alferes passava adiante.

Sim, falemos de Álvaro Sabino. Porque não?

Não, não utilize a visão do jornalista para pôr fim à sua narrativa verdadeira. Fez bem não utilizar. Eu compreendo que vinte anos depois ele tenha guardado essa visão na memória. Compreendo que ele desejasse que assim tivesse sido. Cumprindo os passos que eu lhe havia contado sobre o fim do despachante, ele imaginou que dois capangas o iriam buscar a casa pelos ombros, o enfiavam num carro, o levavam algemado para uma sala cujas janelas dessem para o assoreado braço de mar. Muito bem a sala para onde foi levado teria só uma mesa rodeada por seis cadeiras. Foi isso que ele lhe contou? Encontrou-me a mim, já sentada, branca, com os olhos amarelos, no meio da cena vermelha. Sim, era vermelha porque as cadeiras de espaldar eram estofadas de veludo dessa cor - disse Eva Lopo. A uma ponta da mesa estava o capitão Jaime Forza Leal, a outra a sua linda mulher, também pálida, ainda que nela ficasse bem, porque tinha os olhos verdes, o cabelo quase rubro. O noivo estava no meio, em frente da cadeira vazia onde o jornalista deveria sentar-se. A restante cadeira destinava-se a um dos capangas, o que fazia a sorte, os outros ficavam de pé. O noivo olhou para a Smith & Wesson carregada, no meio da mesa com duas balas. O jornalista disse que sim, que ele foi o primeiro a usar a arma. Pegou nela depois de movido o tambor, aproximou-a do parietal, dique! Nada. O jornalista lembrava-se da cena que eu lhe havia contado em que tinha intervindo o despachante. O jornalista estava cheio de coragem. O noivo levou a arma à cabeça, dique! Nada. Então o jornalista contou-lhe ter sentido os esfíncteres do ânus amolecerem, e ter percebido que à sua volta um cheiro a fezes se evolava a partir do tampo da sua própria cadeira, ter sentido o cheiro alargar-se e encher o compartimento alugado para aquele fim. Em frente, no braço de mar, estava uma barca com um rapaz negro, sentado, esperando. Fazia lua, via-se o contorno do negro, esperando na água.

«Cheira aqui a merda» - disse o capitão.

«O jornalista cagou-se» - disse um capanga.

«Cagou-se de medo» - disse o noivo, cheio de serenidade.

O jornalista olhou para Evita. Ela era eu - disse Eva Lopo. Não, o jornalista não descia a nenhum local indigno. Eu conhecia o significado desse cheiro. Mas à distância conheço-o melhor. Como podia o jornalista imaginar que eu o reprovava? Esse foi o momento em que ele se fez irmão verdadeiro de toda a África negra do seu tempo e o seu coração bateu acelerado. O tempo não conta para as aves. Dentro de poucos anos, exactamente três - os flamingos mal terão tempo de pôr seis ou sete ovos - será esse o cheiro que se desprenderá de Wiriamu, Juwau, Mucumbura, será esse o cheiro que se desprenderá dos abatidos, dos queimados, dos que ficaram a arder ainda vivos, aqueles que hoje têm a escassa memória numa escultura de vidro, espetada na terra, como um pau, com meia dúzia de ossos lá metidos para exemplo. Erro do escultor! A escultura exacta deveria ser um amplo caldeirão de fezes evolando-se permanentemente, não como símbolo, mas como matéria real do nosso mais amplo e subtil sofrimento. O jornalista sabe-o, por isso se descreve assim. Foi isso que sempre nos uniu - a mesma compreensão do sofrimento. Nunca dançámos, nunca comemos pela mesma colher à luz duma lâmpada baixa, nunca fizemos compras para trocarmos e nos oferecermos. Estivemos sempre juntos, porém, no local para onde escorre o sentido do sofrimento. Pois bem - pode sujar de fezes a cadeira vermelha antes de levantar pela segunda vez o Smith, lembrando-se do despachante.

«Porco!» - disse o segundo capanga.

Passados vinte anos, não desejaria voltar a ver o jornalista senão para lhe perguntar se estaria de acordo comigo quanto à escultura de massacre de Wiriamu, essa hipótese de um caldeirão de fezes reais. Há um momento em que ainda não se perdeu a dignidade e já se ganhou a lucidez do fim, um breve instante na vida, o de maior tensão e maior dor, de comparação entre o projecto e o seu extermínio, em que a resposta orgânica é essa. O jornalista sabe, ele disse-me, diante do paredão, que Cristo não fez outra coisa no jardim das oliveiras quando se sentou com a pálida face no côncavo da mão e chorou para dentro dela. «Pai, pai, porque não afastas de mim esse cálice?» - Essa foi a forma de traduzir a verdade orgânica. Também Cristo sentiu que os esfíncteres do seu corpo se delassavam e saía, pelo seu ânus carnal, a matéria que define o nosso medo. Esse é o momento da História cristã da maior humanidade. As guerras feitas durante o tempo cristão poderiam, pelo menos essas, ter sido evitadas, se em vez dum corpo místico imaterial, Cristo tivesse sido apresentado sentado, chorando no monte das suas fezes entre árvores e azeitonas. Assim o jornalista.

Durante o terceiro clique, de facto, ele molhou o tampo da cadeira vermelha, de veludo, e a sala íntima do Grande Hotel Central naquela madrugada encheu-se desse cheiro. É o jornalista quem o diz? É porque foi. Está finalmente a caminho daqueles dias de Inhaminga em que os homens do Stella hão-de mandar subir aos camiões famílias inteiras, populações inteiras, nas imediações de Inhaminga, na direcção das valas e dos bulldozers. Os oficiais hão-de falar do cheiro insuportável que se desprenderá dos camiões que os levaram. Hão-de dizer que mal subiam às carroçarias deixavam sair esse cheiro nauseabundo, e que depois se sentavam em cima para cobrir, envergonhados do seu corpo. Famílias inteiras, populações inteiras. Depois, depois, quando os pássaros já tiverem feito três ninhadas. Mas é para lá que se dirige, pois, o jornalista. Eu entendo. Eu sabia do seu sentimento porque tínhamos falado disso a propósito da História e da mulher do Zurique.

«Rodem mais uma vez o tambor» - pediu ele.

«Eu rodo» - disse eu, para fazer alguma coisa, da minha cadeira vermelha.

«Não, não» - disse o capitão. «O capanga é que roda».

O capanga rodou, o tiro não partiu, o jornalista caiu sobre o charco da sua cadeira. O capanga enervou-se. Queria que o autor da merda fosse o morto. Rodou várias vezes o revólver, entregou-o ao noivo. Luís Alex juntou-o à testa e o tiro partiu.

Faça o que entender com o medo do jornalista. Sabe o que penso - a responsabilidade é sua.

Houve de facto uma ligeira diferença, mas nem uma nem outra visão deveriam atravancar uma narrativa onde tudo termina tão bem, tão oficialmente que o Stella Maris aparece fechado por cima, pelo terraço, por excesso de felicidade e não por excesso de violência. Tudo termina tão bem, tudo está tão escondido, tão enevoado à luz ortóptera dos candeeiros! Tudo termina tão conforme aspersões suaves que foram feitas! Até um major pede desculpa por África, segundo ele, ser já de variegadas cores! Pesar-me-ia que fosse manchar com esse cheiro verdadeiro, de que nunca se gosta de falar, um tempo tão memorável! Disse-me que admirava formas suaves. - Como pode ser atraído pela salvação tão amarga do jornalista?

Ofereço-lhe, contudo uma ligeira diferença. Porque houve uma ligeira diferença, embora aí eu não tenha mais autoridade para afirmar nada, porque as vozes se esbatem, à medida que o fim se aproxima devagar, com um pezinho de seda. Dificilmente represento uma ou outra voz, e nenhuma delas tem força para se opor ao depoimento do jornalista. Vejo ainda Forza Leal. Dum outro modo, antes de tudo isso.

Vejo-o com o noivo, ao fim da tarde, creio que está curvado sobre o jardim onde os gafanhotos roeram plantas, rosas, comeram leiras de relva do jardim que foi do italiano. Não tem camisa e esbraceja. Creio que está perplexo com a falta de atenção da mulher. Como é que ela não percebeu que se tinha tratado duma praga de gafanhotos? Chegou e encontrou-a de cama, fechada, sem se ter apercebido que a praga havia poisado e devorado o jardim! Não, Helena não está na sala dos peixes. Na sala só estão os peixes mesmo debaixo do vidro. Também não está próximo da bicicleta pedaleira, nem sob a pérgola do terraço. Também não se encontra na sala da caça onde eu vi as fotografias, e que se encontra aberta por Forza Leal. O noivo e o capitão puxam um caixote que diz em letras azuis - TO BE DESTROYED, desenhadas numa cinta de exército estrangeiro.

«Eh, blackl» - grita para o Adão Terras Altas que se aproxima com uma vassoira e um balde. «Leva esta coisa para além! Eh! Corre!» - o black empurra para o meio do recinto acimentado. «Além, blackl Não vê, sua inteligência de black, que isso é para queimar e que não queima em cima de cimento! Mais além, black, isso, isso! Pode ser no meio da relva. Não vê, sua inteligência de black, que a relva até devia ser queimada!» - O capitão dirige-se para o local onde o Adão Terras Altas pôs a caixa. O noivo vai atrás com um isqueiro. Ambos se curvam sobre a caixa, retiram pacotes, acendem-nos pelos vértices, colocam-nos dentro do caixote que rapidamente toma fogo, constitui durante uns minutos uma fogueira razoável, e depois encurta e apaga.

O noivo esgaravata com um pau as cinzas que restam dos pacotes. A biblioteca de Alexandria da nossa imaginação fica limitada a uma escala tão diminuta que mete dó e apetece dormir ou morrer. Não vem nenhum rumor de dentro de casa.

Vem sim, vem um rumor de dentro de casa, embora eu não o oiça. Sei, porque Odília, que veio ver a fogueira, passa a correr. Não, não tem luva, não tem farda preta e branca como é hábito ter ao fim das tardes. Pergunto por Helena ao capitão, receando que nunca mais oiça a sua voz de pombo, chamando. O capitão anda dentro e fora, dizendo que está bem, que veio encontrá-la na cama, mas que gosta das mulheres que ficam na cama. É o sítio delas. Ele está abotoando a camisa, cobre com ela a cicatriz. Fala distraído, e é mentira que tenha dito que Helena deveria ficar para sempre metida na cama. Mas é verdade que disse que as mães, filhas, sobrinhas, mulheres legítimas e ilegítimas, onde devem ficar, quando um homem sai, é obviamente na cama. Esse é o sítio delas. É para esse local que elas devem regressar quando acaso fogem de casa, é para aí que devem dirigir-se quando a vida se perturba e o mundo oscila, é aí que elas devem estar encolhidas, quando se regressa de longe. Deitadas, doentes, com os dois braços junto da cabeça ou do peito. Também se pecam, deve ser na cama e devem ser encontradas na cama, e aí devem ser mortas quando encontradas pecando. Não, ele serve-se abundantemente de whisky, mas está sóbrio, e não é verdade que tenha pedido que eu vá lá dentro. Ela não quererá, e eu também não. Assim não nos veremos mais. Estou a ser servida de Gin Gordon’s com tónica, no living dos peixes. Custa-me saber que Helena sucumbirá deitada numa cama, esperando por uma mão que ela não tem nem é capaz de alcançar. Nem a de Deus chegou, apesar do seu hábil negócio feito a troco de tanta coisa que amava. O Deus de Helena de Tróia não se comoveu, sabe de Helena muito mais do que eu, mas pode ainda menos.

«Não, ela está de cama. Helena não vem» - disse o capitão, já na segunda tarde. Contou Eva Lopo.

O capitão assobiou da porta e o Camilo Alves apareceu correndo, com as longas pernas nuas, o blusão de caqui aberto. «E os outros, pá?» O capitão assobiou de novo. Seven-Up e Adão Terras Altas apareceram em calção e camisas abertas, correndo também. O capitão gritou na direcção da praia - «Eh! Busca!» Em fila, os três mainatos começaram a correr em direcção à praia. Vejo o capitão dirigir-se para o alto do morro de areia que fica em frente da casa, além da estrada donde sempre se viu a praia.

O capitão estende o braço, o noivo o olhar. Eles falam como se eu não existisse. É a última vez que os oiço falar, ou quase a última. Começo a despedir-me das suas falas. Os negros mainatos tomam, ao fundo da areia em maré vazia, cada um o seu bidão, rolam os três bidões na areia, e esperam. Ainda oiço o assobio do capitão com o gesto amplo do braço para que tomem a estrada. Eles rolam os bidões pela areia até atingirem a avenida, e pela estrada já vêm outros rolando bidões. O barulho que fazem é intenso e ensurdece, e lembra o tropel de cavalos de lata que tivessem ficado apodos durante um sonho. Cada bidão leva um ou dois moços rolando-o, agachados, de cabeças baixas, rolando e correndo. Os bidões saltam-lhes das mãos e rolam por si. Vêem-se os pés dos rapazes correndo atrás. Não, ainda ouço o capitão porque fico a saber que todo aquele contingente de rapazes, correndo com bidões e latas e paus, deve deslocar-se até à Munhava para lá da rua direita que atravessa esse bairro. É aí a fronteira marcada pelos donos das vivendas. Lá, depois de Munhava, deve ficar a fronteira a partir de onde não devem passar os gafanhotos. Se houver nova chuva, os jardins ficarão ameaçados, mesmo as palmeiras e as relvas para onde corre água durante o ano inteiro apesar de faltar em muitos locais a maior parte dos meses. Claro que ainda oiço o capitão pedir ao alferes que repare como eles transportam os bidões que contiveram o álcool metílico sem se aperceberem de nada. O capitão ri. O alferes pergunta - «Vai chegar aqui o barulho dessa cegada?»

«O que é preciso é que chegue lá, que a praga não passe de lá para cá, isso sim! Mas claro que vamos ouvir daqui o barulho da cegada».

Há porém um momento em que um reflexo acontece e ilumina um pouco da sombra que avança, silenciosa, sem ruído, um momento em que recua e pára. Ainda não nos separámos desde o dia da conferência da Imprensa no hall. Mas o noivo acorda antes do meio-dia, com os olhos inchados. Esteve a esfregá-los durante imenso tempo, e depois de se arranjar, disse que ia andando, e que me esperava lá. Antes de sair, contudo, olhou para dentro do grande quarto de banho onde eu me vestia - disse Eva Lopo.

«Põe-te bonita» - disse ele.

«Para quê se só dormes?»

«Não durmo só, vais ver» - O alferes piscou um olho como antigamente costumava fazer. Mexeu a patilha também, mas não fazia mal. Com o cabelo demasiado curto, as orelhas ficavam salientes, as maçãs do rosto altas.

Não fazia mal. O alferes tinha piscado o olho como antigamente. Saiu assobiando. Não era emoção por imaginar o reinicio de alguma coisa perdida, mas apenas a surpresa de ver alguém voltar à sombra do seu lugar. Mudei de roupa duas vezes - quem iria saber se mudando de roupa eu não ajudaria a encontrar o fio da vida de Luís Alex que alguém tinha desenrolado e mandado para longe?

Desci com a primeira roupa - tinha-me vestido e despido três vezes. Mas ele não estava no hall. Também não estava na sala de jantar. Está no bar - pensei. Também não estava no bar. Nem no terraço térreo. Tomei o elevador até ao último andar - tinham fechado havia dias a varanda porque soprava uma espécie de frio que abanava os toldos. Agora os toldos estavam enrolados e tinham sido recolhidos. Desci - porque não? Mas o alferes não estava. Em seu lugar, as mulheres faziam uma sebe de costas no meio do hall. Não veria mais os cometas. Subi ao quarto e esperei - disse Eva Lopo. Há momentos em que só se deve esperar. Muitas horas, toda a tarde, toda a noite, toda a manhã seguinte. Lembro-me do telefone - note que telefonava mas só para esperar. Atendeu-me o rapaz gordo - «Lembra-se de mim?» Acho que se reconhecia perfeitamente a voz. «Pois o Álvaro não está! Têm andado aí uns gajos à procura dele, até já foram bater lá à minha porta. No meio disso, o Álvaro pôs-se na alheta, meteu-se no avião esta manhã!» - Parecia estar a ver a cara gorda do gordo com aqueles olhos castanhos, doces, perdidos na cara. «Mas eu fiquei em lugar dele, pombinha, eu não tenho medo de gente armada!»

- dizia do lado de lá. «Não, o Álvaro não deixou recado para ninguém...» - disse ainda. «Decepcionada?» - perguntou.

Era um telefonema feito no meio do hall, com o descendente do Bernardo à escuta, de dentes à mostra. Decepcionada, de modo nenhum - Álvaro Sabino tinha feito bem, eu regozijava-me com isso. Com tanto filho, tanta mulher, tanta raiz, tanta matéria radicular presa ao fundo da sua vida, ele fez bem ter fugido da cidade onde um alferes andava à solta, num descapotável, assolado pela honra dum capitão, com a mala cheia de armas. Claro que fez bem. Quem disse que não fez? Nunca chamou mortos aos mortos, nunca chamou veneno ao metanol, nunca chamou crime aos assassínios, mesmo aos gafanhotos Álvaro Sabino tinha chamado esmeraldas voadoras, e se até ao nosso coito ele havia chamado Europa decúbito sobre África, obviamente que ao desafio deveria ter chamado passagem de avião. Sem reservas, estou dizendo ao rapaz gordo que tinha encontrado no Moulin Rouge. O rapaz gordo às gargalhadas do lado de lá. Ainda aprecio os seus olhos.

Como vê, o primeiro clique ficou dado, e foi em vão. Não, obviamente - se gosta da cadeira vermelha, e estima tanto a cor desse assento, o cheiro verdadeiro que rescendeu dele, deixe estar. Nunca se sabe o que um homem ou uma mulher estão sentindo e ao que estão cheirando, sentados, tomando chá, numa cadeira de avião. Gosto que o jornalista, vinte anos depois, se declare sobrevivente duma cadeira vermelha. A teoria tem uma força vital que ultrapassa a vida. A teoria e o conto.

Não me lembro de mais nada. Lembro-me do som dos bidões contra os gafanhotos. Ainda tive a esperança de que esse tinido de latas que soprava lá da Munhava não fosse suficiente para lhes desviar a rota. Ah, mas sim, foi! Não voltaram a cair e a voar. Aquele tantam que se ouvia tinha obrigado a nuvem verde que vinha no ar a desviar-se para sul. Depois foi tão óbvio que não tem remate, claro.

O clique mortal aconteceu assim - o descapotável era pesado, o corpo do noivo era leve. O descapotável ficou à beira de água, o alferes não. Como pelos embriagados por metanol que caíam à água, esperou-se três dias. O pessoal do Stella Maris estava em festa porque podia descer à praia, com uma vítima na água e um culpado sentado na areia. Creio que não falseio a realidade se disser que o próprio Gerente de Messe veio até à água, descalçou as botas, molhou-se até aos joelhos, e quando voltou, baptizado por esse sacrifício, pôde dizer a umas mulheres de alferes de cabelo especialmente passado a ferro - «Mesdames, este alferes foi vítima duma indecente história de putedo!» Mas para compensar essa última palavra, fechada como um forno, enquanto esperava na areia, houve imagens que passaram e de que me lembro viva, alegremente - um bando de aves vermelhas passou. A flamingagem passando lembrava-me um bonito dia, não muito longe.

Voavam rente às águas, com as patas encolhidas e os pescoços tortos estendidos. Houve outra imagem de retorno aos locais primitivos - um navio desceu cheio de soldados, a caminho do porto. Ninguém os esperava, eles agora já sabiam, já tinham ido, já tinham voltado. - Nem todos obviamente voltavam por seus pés e por seus olhos. Estavam na amurada só os que traziam todos os órgãos nos lugares aparentes, mas não acenavam nenhum lenço. O navio descia em silêncio absoluto - não apitava, não roncava, não tremia. Por mais que soubesse que tudo era transitório e as terras sem dono absolutamente nenhum, não conseguia deixar de ver, naquele barco, um pedaço de pátria que descia. Pena que algumas crianças chilreiem. Elas também não me falam. Também elas já julgam saber, já julgam julgar. Viravam os seus focinhozinhos inocentes contra Eva Lopo, a noiva. Alongam-se as cores, os cheiros e as vozes. A frouxa polícia marítima manda dizer que se encontrou o corpo do alferes, muito para lá da Ponta Gea - Deixe ficar aí, suspenso, sem qualquer sentido útil, não prolongue, não oiça as palavras. A pouco e pouco as palavras isolam-se dos objectos que designam, depois das palavras só se desprendem sons, e dos sons restam só os murmúrios, o derradeiro estádio antes do apagamento - disse Eva Lopo, rindo. Devolvendo, anulando Os Gafanhotos.

 

                                                                                Lidia Jorge

 

 

                      

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