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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A CRUZADA DO OURO /David Gibbins
A CRUZADA DO OURO /David Gibbins

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

As duas águias douradas, vindas do oeste, sobrevoaram majestosamente a cidade, e com suas batidas de asas lentas e vigo­rosas pareciam estar voando resolutamente em direção ao pódio. Sob a luz pastel da aurora suas sombras davam a impressão de ondular e ampliar-se sobre os templos e monumentos do Fórum, como duas freqüentadoras do Hades que viessem assumir seu lugar de direito à mesa da vitória. No último instante, as águias baixaram o vôo e viraram para o norte ao longo da Via Sacra. O homem com a coroa de louros, sozinho na praça, sentiu o roçar de suas asas, viu os reflexos purpúreos que saíam de suas garras e as mechas brilhantes onde a sua plumagem havia sido pincelada de dourado. Elas eram o seu par premiado, descendente de pode­rosas águias, que trouxera para Roma depois de um outro triunfo, muitos anos antes, arrebatadas de seus ninhos nos desolados cumes das montanhas nas orlas setentrionais do império. Agora, enquanto ele as observava se erguer majestosas sobre o centro da cidade, suas asas agitavam-se como numa corrente ascendente gerada pela emanação da concentração de pessoas que se atro­pelavam de cada lado da Via Sacra, bem abaixo. No ápice de seu vôo elas pareciam ficar imóveis, como se o próprio Júpiter tivesse descido e as acolhesse em seu abraço. Em seguida, com um grito rouco, elas arremeteram levemente para cima e mergulharam velozmente com as asas fechadas, precipitando-se sobre o Templo Capitolino, e sumiram de vista em direção às legiões concentradas no Campo de Marte.

No silêncio trêmulo que se seguiu, todos os olhares se concentraram no pódio. O homem tirou o manto que lhe cobria a cabeça, da maneira costumeira, e ergueu o braço direito, com a palma da mão à mostra. O presságio tinha sido favorável. O maior triunfo de todos os tempos podia começar.

Quando o som monótono do rufar do tambor da procis­são começou a ecoar do Campo de Marte, um escravo subiu ao pódio e estendeu a mão.

"Recém-saída da casa da moeda, princeps!”

O homem pegou a moeda e rapidamente a virou, impa­ciente para não perder nada do espetáculo. Ergueu a moeda acima da cabeça, de modo que ela ficou emoldurada pelo arco triunfal do início da Via Sacra, o lugar onde a procissão iria aparecer. Ele podia ver que a moeda era um denário de prata, cunhado com os espólios de guerra trazidos do porto fluvial em Óstia ape­nas um dia antes. Piscou e leu a inscrição ao redor da beirada. IMP CAESAR VESPASIANUS AUG. Imperador César Augusto Vespasiano, detentor de poder tribunício, cônsul pela terceira vez, pontífice máximo. Ele era imperador havia menos de um ano, e as palavras ainda faziam seu coração estremecer. Viu a ima­gem no centro da moeda e resmungou. Ela mostrava uma figura pesada, um homem calvo, avançado em anos, com um queixo saliente e o nariz aquilino, rugas ao redor dos olhos e da boca e vincos na testa. Não era uma visão bonita, mas o seu murmúrio foi de satisfação. Ele havia ordenado que seu retrato fosse deliberadamente feito no antigo estilo da República Romana, com imperfeições e tudo, em contraste com o de seu ultrajante prede­cessor, Nero, cujas imagens em estilo grego efeminado estavam sendo eliminadas em todo o império. Vespasiano era vigoroso, corajoso e honrado, um homem próximo da terra. Um romano de antigas maneiras.

Ele arremessou a moeda para cima e segurou-a no alto de modo que os primeiros raios de sol atrás de si brilhassem na prata. No centro mostrava-se uma mulher curvada, chorando, o cabelo arrumado à maneira oriental. Ao lado dela havia um legionário romano típico, idêntico àqueles que se alinhavam na Via Sacra neste dia. Aos pés da mulher estava a palavra que ele tinha man­dado colocar em todas as moedas, a palavra que tornava este dia um triunfo coroado.

 

 

 

 

                       Judéia capturada.

Naquele momento, a multidão, silenciada pelo vôo das águias, explodiu num crescente e imenso alarido. O insistente rufar dos tambores que vinha do Circo Máximo repentina­mente tornou-se um som estrondoso. Através do arco emer­giu um enorme elefante branco; o seu corpo movia-se de lado a lado da Via quase alcançando as mãos dos espectadores que procuravam tocá-lo. Montados no elefante estavam dois escravos núbios, com seus braços musculosos batendo em uníssono sobre tambores presos de cada lado do animal. Imediatamente atrás vinham seis vestais virgens, os cabelos presos em tranças, com suas vestes brancas tremeluzentes como se fossem emissárias do próprio céu. Em seguida vinha uma coorte da guarda pretoriana, resplandecente com seus peitorais pretos e elmos emplumados; eram gigantes em meio aos homens, recrutados entre os mais admiráveis guerreiros de todo o Império Romano. Depois o iní­cio de uma longa procissão de homens e meninos, senadores e cavaleiros e membros da própria família de Vespasiano, todos vestidos com togas púrpuras entrelaçadas com fios de ouro. Entre eles, a curtos intervalos, surgiam veículos puxados a cavalo com grandes pilhas de riquezas fabulosas, sobre padiolas e pedestais, e outras suspensas no alto por escravos de todos os cantos do império.

Vespasiano observou enquanto esses veículos passavam lentamente e cada nova maravilha despertava um suspiro de admiração da multidão. Havia magníficas estátuas de deuses em bronze revestido de ouro, suntuosos tesouros reais dos reinos do Leste, escravas com os cabelos soltos usando pesados colares de ouro da Gália e da Alemanha, montículos de esmeraldas e de dia­mantes de além do Indus, tapeçarias de seda brilhante da longín­qua região chamada Thina. Todas as maravilhas que anterior­mente os homens tinham de viajar para ver estavam presentes hoje em um único lugar, esta cidade eterna.

Apenas Vespasiano sabia que muitos desses tesouros estavam sendo vistos pela última vez. Ao lado dele no pódio ha­via uma fina placa de mármore preparada por seus arquitetos, sua superfície gravada com água-forte com um intricado plano da cidade dominada por uma imensa estrutura elíptica. Quando o último dos veículos passou, Vespasiano olhou para além da pro­cissão em direção à Casa Dourada de Nero, a cabeça com coroa de flores do Colosso monstruoso de Nero apenas visível acima dos topos dos templos. Naquele local, Vespasiano construiria um vasto anfiteatro, o maior que a cidade jamais vira, o primeiro dos muitos projetos que planejara dar ao povo de Roma com os espó­lios conquistados.

Em seguida, enfileirada, vinha uma extravagante procissão de anões e deformados, caprichos que os deuses haviam criado para o seu próprio divertimento, selecionados por todo o impé­rio. Alguns eram carregados no alto em bandejas de prata como leitões para uma festa, crianças com cabeças em forma de bulbos, outras com membros atrofiados, e ainda indivíduos com elefan­tíase. Havia até um monstro com um único olho em sua testa, como se fosse um ciclope. Em seguida vinha um anão maníaco e tagarela dirigindo um carro para ser puxado por quatro cavalos, uma quadriga imperial, só que esta era arrastada por bodes. O anão estava vestido como um deus grego, com uma asa dourada absurdamente pesada, e trazia um cartaz com as palavras damna-tio memoriae, De Maldita Memória. Era uma paródia grotesca do odiado Nero. Vespasiano deu uma palmada em suas coxas e gar­galhou com a multidão. Ele era um homem do povo. Isso não era apenas um triunfo, mas, sim, entretenimento em escala épica. E o melhor ainda estava por vir.

Houve um intervalo na procissão e depois se ouviu um som de trombetas. Através do arco chegaram dois cavaleiros cavalgando lado a lado, ambos com adornos vermelhos e usando uma coroa de folhas de louro feita com diademas, exatamente como a do imperador. A multidão irrompeu em estrondoso aplauso, e Vespasiano sentiu uma vaga de nostalgia enquanto observava seus filhos Tito e Domiciano receberem a aclamação. O espetáculo seguinte deixou a multidão emudecida, e o próprio Vespasiano sentiu seu queixo cair. Depois dos cavaleiros veio uma sucessão de imensos estrados sobre rodas, cada um puxado por uma parelha de touros brancos com grinaldas e transportando um imenso cenário com a altura do arco. Cada cenário representava um quadro vivo das cenas de guerra, com prisioneiros e legionários desempenhando seus papéis. Um mostrava uma zona rural devas­tada e seus ocupantes dominados com as espadas. Outro mostrava as máquinas de cerco quebrando um imenso muro, os ocupantes da cidade defendendo-se valentemente de cima. Outros represen­tavam cenas de total destruição. Soldados inimigos aniquilados no campo de batalha. Famílias inteiras cometendo suicídio em uma cidadela no alto de um rochedo em vez de se render. Um grande templo derrubado e destruído em uma conflagração, os sacerdo­tes trancados em seu interior. Uma legião triunfante marchando por uma cidade arruinada, prisioneiros algemados e carretas car­regadas com o resultado das pilhagens levadas a reboque. Cenas de desolação tão cruéis que até mesmo a multidão de romanos sedenta de sangue curvou-se de vergonha, em silêncio, e rugiu sua aprovação apenas depois que a última cena tinha passado.

O triunfo estava rumando inexoravelmente para seu clímax. Fm seguida vieram os prisioneiros, homens, mulheres e crianças, centenas deles acorrentados juntos e encurralados entre fileiras de legionários armados de lanças. Segundo uma prática respeitada ao longo do tempo, eles estavam bem vestidos com mantos púr­puras, uma maneira de ocultar seus ferimentos e fazê-los parecer adversários mais formidáveis. Vespasiano inclinou-se para frente e examinou-os atentamente. Estes eram de raça diferente da dos bár­baros selvagens que ele tinha trazido da Grã-Bretanha havia trinta e cinco anos. Josefo, o informante judeu de Vespasiano, lhe con­tara que seu povo acreditava que seu Deus viera com os romanos para purificar o seu templo e destruir Jerusalém, como punição pela corrupção. No entanto, esse parecia ser um povo orgulhoso; man­tinham a cabeça erguida, não havia cativos subjugados pelo abati­mento. No meio deles estava Simão, o rabino líder, algemado entre dois legionários, um belo homem de barba lutando para caminhar ereto e dando a impressão de desdenhar seu destino. Quando che­gou à frente do pódio, ele ergueu seus olhos escuros para o impe­rador, e por um segundo Vespasiano sentiu sua alma trespassada, um momento fugidio de inquietação que ele logo deixou de lado.

Um novo soar das trombetas assinalou o clímax da pro­cissão. Vespasiano desviou o olhar dos prisioneiros e fitou o arco. Josefo tinha lhe contado sobre os espólios do templo e ele estava ansioso para vê-los. Agora eles se aproximavam, não empilhados de maneira extravagante em carretas como os primeiros tesouros, mas carregados individualmente para que pudessem ser vistos de modo apropriado. Primeiro passou o cortinado sagrado que separava o santuário do resto do templo. Depois vieram as vestes dos sumos sacerdotes, pesados vestuários tingidos com a preciosa púrpura de Tiro e enfeitados com jóias brilhantes. Em seguida, os pergaminhos de seu antigo testamento, as leis sagradas que Josefo chamava de Pentateuco. Após isso, passou uma longa procissão de objetos rituais do santuário, cálices, travessas, vasilhas de ablução, tudo inteiramente de ouro, e logo atrás uma mesa de ouro car­regada por quatro legionários, envolta na fumaça dos incensários presos em cada lado. Quando o pesado aroma de canela e cássia se espalhou pelo pódio, Vespasiano se viu transportado para os seus primeiros dias de soldado no Leste. Ao abrir os olhos, ele se depa­rou com uma aparição que o deixou boquiaberto de admiração.

Através da fumaça que se prolongava na frente do arco surgiu um tesouro jamais visto em Roma. Josefo o havia descrito em detalhes, mas Vespasiano não esperava ver uma tal quantidade de ouro, tão difícil de ser carregada que eram necessários doze legionários para suportá-la sobre os ombros. Quando eles emergi­ram da fumaça, o objeto começou a ficar visível; era brilhante e da altura de um homem, ou ainda maior. Elevando-se de uma base octogonal dupla havia uma coluna afilada ornada, e, de cada lado, braços estendiam-se simetricamente para cima até o mesmo nível. Era como um enorme tridente de Netuno, deus dos mares, só que aqui as extremidades dos dentes terminavam em lamparinas decoradas, sete ao todo. Quando os transportadores ultrapassaram o arco, surgiu um escravo com uma tocha que usou para acender o incenso em cada lamparina, enviando uma densa fumaça branca que caía rapidamente sobre a multidão de cada lado da Via Sacra e a envolvia como uma névoa do alvorecer.

Vespasiano sabia que esta era a menorá, o símbolo mais sagrado do Templo Judaico. Josefo lhe havia contado que o número sete tinha significado especial para o seu povo e remon­tava aos dias de seus primeiros profetas. Ele dissera que despo­jar o templo da menorá seria o mesmo que um inimigo roubar a estátua da loba do Capitólio, uma profanação inimaginável que arrasaria o coração de toda Roma.

Uma súbita agitação à direita desviou o olhar da mul­tidão da menorá. Ela havia se saciado à vontade com o ouro e agora estava gritando por sangue. Vespasiano sabia o que viria em seguida, um ato transformado em ritual desde os dias de Rómulo e Remo. Ao longe, ao pé da colina Capitolino, ele podia ver onde a multidão havia se dividido em duas para formar um amplo círculo ao redor de uma horrível abertura no solo; a agitação da turba era contida por um destacamento da guarda pretoriana, com as espadas empunhadas. Ali haviam morrido Jugurta, inimigo da República Romana, Vercingetórix, o gaulês, os comandantes britânicos que o próprio Vespasiano havia arrastado até o local. Ele podia ver onde os prisioneiros judeus estavam formados ao redor da beirada do círculo, sem as correntes, mas imóveis e em silêncio. No centro, o homem de barba estava sendo atormentado como um cachorro, espancado e aguilhoado pelos guardas que o cer­cavam como se fosse um animal num anfiteatro. Ele fazia tudo o que podia para permanecer ereto e digno, mas não ofereceu resis­tência quando lhe arrancaram a túnica e um nó corrediço lhe foi violentamente colocado ao redor do pescoço. A multidão zom­bava enquanto ele era perfurado com as lanças e empurrado para o buraco. Repentinamente, o homem caiu e desapareceu de vista. Naquele momento, a cena foi iluminada por um ofuscante feixe de luz, o sol havia se erguido acima do Templo de Marte, o deus da guerra, atrás de Vespasiano, e refletia de maneira deslumbrante a menorá e os demais espólios de ouro reunidos na praça pública.

A multidão explodiu em vivas. Este era um novo bom presságio.

Vespasiano lembrou-se dos olhos escuros e virou impassivelmente o rosto para o oeste.

Vamos terminar com isso.

Durante alguns instantes houve um calmo silêncio, como quando as águias tinham sobrevoado o Fórum, depois um homem encapuzado emergiu de uma cova segurando algo em suas mãos. A multidão rugiu. Agora era a vez dos outros prisioneiros. Vespasiano olhava desapaixonadamente enquanto as crianças eram separadas de seus pais e levadas para a frente. Uma mulher desmaiou e foi segura pelos cabelos e decapitada no local. Um homem correu atrás de seu filho e foi pisoteado por um dos núbios até se trans­formar em uma massa sangrenta. As crianças foram arrastadas até a beira do buraco em grupos de três e tiveram o pescoço cor­tado, seus pequenos corpos sendo em seguida atirados no abismo. Depois as mulheres, e então os homens. Estes foram decapitados, gladiadores com elmos que ocultavam seus rostos desciam suas enormes espadas curvadas em uníssono, cada golpe do aço acom­panhado por uma única batida de tambor, como se eles fossem remadores em uma galera. Os corpos se empilhavam mis sobre os outros. O aço subia e descia sob o clarão da luz do sol. A multi­dão se agitava, saciando-se com sangue. Vespasiano olhou de novo para a menorá. Os sete prisioneiros que ele havia ordenado manter à parte estavam pendurados em postes do outro lado do buraco, os corpos nus pintados de carmesim. Eles iriam voltar para a sua casa no deserto da Judeia e contar sobre a vingança de Roma, sobre o saque de seus objetos mais sagrados que agora se encontravam nas caves do vencedor. Enquanto Roma mantivesse o tesouro do Templo eles nunca ousariam levantar-se contra ela. Qualquer per­turbação e sua luz orientadora seria extinta para sempre. Essa era a maneira de agir de Roma.

Os executores haviam cumprido seu trabalho. Agora, o triunfo podia começar de verdade, dias de festejos e jogos, piedade e aclamações. Mesmo antes de a multidão expressar sua exaltação, os touros que tinham arrastado as carroças com os tesouros foram conduzidos ao Templo de Júpiter, e já o altar e a estátua da loba estavam salpicados com o sangue do primeiro sacrifício.

Vespasiano voltou-se para deixar o pódio, ainda girando a moeda entre os dedos. Retirou dos ombros o manto púrpura e entregou-o para ser carregado por dois escravos. Ele iria se juntar a seus filhos Tito e Domiciano, a cavalo, na retaguarda da procis­são, dirigida por uma fileira de sacerdotes para o altar inferior do Templo de Júpiter, onde se realizariam seus rituais habituais de pontífice máximo. Antes de abandonar o local, ele olhou mais uma vez para a placa de mármore e fez um voto. A era de conquistas ter­minaria. Esta seria uma era de reconstrução, um retorno da deca­dência para as virtudes de seus ancestrais. Nesse mesmo local onde se encontrava construiria um Templo de Paz, um templo maior do que qualquer outro. Ali ele guardaria para sempre o tesouro do povo vencido. Recordou novamente aqueles olhos escuros. Ele faria tudo o que estava em seu poder para que a menorá nunca mais desfilasse em triunfo pelas ruas de Roma. Voltou-se para ir, depois hesitou e atirou a moeda longe, no meio da multidão, observando-a descrever um grande arco diante do tremeluzir do ouro e desaparecer para sempre dentro da história.

 

               "Acho que encontramos alguma coisa!"

Jack Howard levantou o olhar da mesa onde estava o mapa para os minaretes de Istambul que se erguiam no horizonte, depois desviou os olhos para baixo, de onde vinha um grito exci­tado da coberta de proa. Ele pousou rapidamente o compasso náutico que estivera usando e se dirigiu em passo vacilante até a porta da ponte de comando para observar melhor. Tinha estado nervoso durante toda a manhã, aguardando sem muita esperança que este fosse o dia, e agora seu coração disparava com a excitação. Quando viu o que estava acontecendo, ele voltou e desceu as pas­sarelas de desembarque, com seus degraus de metal, para alcançar o ancoradouro ao lado do navio. Segundos depois, estava misturando-se com a tripulação. Seu colete azul-marinho de pescador destacava-se em meio aos jalecos que ostentavam o logotipo da IMU, a Universidade Marítima Internacional.

"Certo. O que conseguimos?"

Antes que o chefe da tripulação respondesse, um dos mergulhadores veio à tona agitando a água transparente do ancoradouro na proa do barco. Jack inclinou-se sobre o parapeito da balaustrada para observar enquanto o mergulhador retirava o respirador de boca e injetava uma rajada de ar dentro de seu colete estabilizador.

veneziano", disse ele, ofegante. "Tenho certeza disso. Eu vi as marcações."

O mergulhador calibrou o seu colete e desapareceu sob as águas. Jack observou as bolhas que subiam do tubo de escape e as de três outros mergulhadores que estavam dirigindo a plata­forma de elevação para a superfície. Era uma operação potencial­mente traiçoeira, com o Sea Venture mantendo posição contra uma corrente de cinco nós na superfície. Uma leve oscilação na corrente e os mergulhadores e sua preciosa carga seriam atirados em uma das correntezas mais fortes do mundo.

Jack estreitou os olhos quando a luz do sol brilhou nas ondas, suas feições bronzeadas e severas se enrugaram enquanto mantinha a atenção no lugar onde o mergulhador havia desapa­recido. Atrás dele, o maquinário na coberta de proa zumbiu, pro­duzindo o som de uma pancada ao entrar em ação, e então o guin­daste inclinou-se com o peso de sua carga. Lenta e inexoravelmente, o cabo ergueu-se do leito do mar trinta metros abaixo, gemendo de modo alarmante enquanto a corrente se ajustava. A tripulação, apoiada no parapeito, pareceu prender a respiração enquanto o cabo rangia ao subir centímetro por centímetro. Por fim, as cor­rentes esticadas, presas em cada canto da plataforma, apareceram e Jack soube que estavam salvos. O Sea Venture fora posicionado com o lado que dava para o ancoradouro ao abrigo da correnteza, de frente para o litoral da antiga cidade. E a elevação da plataforma estaria agora protegida pelo grande calado do navio.

Das profundezas obscuras começou a surgir uma forma oblonga. Jack sentiu a agulhada familiar da excitação, a descarga de adrenalina que sempre experimentava nesses momentos. Apesar de ter estado presente a alguns dos maiores achados arqueológicos já realizados, ele nunca deixava de sentir a palpitação que tomava conta de si a cada nova descoberta. Até mesmo o objeto mais mundano podia permitir uma perspectiva completamente nova sobre o passado, proporcionar concreticidade a eventos significa­tivos, apenas lembrados obscuramente através do mito e da histó­ria. Enquanto observava atentamente, com as mãos agarradas ao parapeito, os quatro mergulhadores emergiram e os quatro cantos da plataforma se içaram das ondas. Quando viu o que se encon­trava no meio da plataforma, a tripulação irrompeu em aplausos dissonantes. Os meses de planejamento e os dias e dias de esforço tinham valido a pena.

"Bingo." O chefe da tripulação sorriu para Jack. "Você tinha razão de novo."

"Isso não teria sido possível sem o trabalho duro de vocês."

Era uma arma enorme, um canhão, aparentemente de bronze, com pelo menos dois metros de comprimento. Sua parte superior, já completamente livre da sujeira dos séculos, brilhava como ouro. Jack pôde perceber de imediato que era de um tipo primitivo, sua parte posterior cilíndrica ornada afunilando-se em forma octogonal na parte dianteira. Ele havia visto armas como esta, datadas do século XVI, retiradas da nau almirante do rei Henrique VIII, Mary Rose, em Portsmouth, e em naufrágios da armada espanhola. Mas esta parecia mais velha, muito mais antiga. Depois que o guindaste lentamente girou seu carregamento sobre o parapeito e o depositou na coberta de proa, Jack foi até o canhão para dar uma olhada mais de perto, enquanto a tripulação amon­toava-se ansiosamente atrás dele. Jack ignorou os respingos de lama da mangueira que limpava o canhão enquanto se abaixava e estendia as mãos com reverência para tocá-lo.

"O Leão de São Marcos", disse ele. "É veneziano, certa­mente."

Apontou para uma peça fundida em relevo perto da cula­tra da arma. A imagem era inequívoca, um leão alado, olhando de frente, envolto em uma frondosa grinalda. Subitamente, Jack levantou a outra mão para ordenar ao tripulante que fechasse o esguicho de modo a impedir o fluxo de água.

"Há uma marca da fundição", disse, excitado. "Em frente ao orifício da mecha."

"É uma data." O chefe da tripulação inclinou-se sobre fack, protegendo os olhos da luz forte e ofuscante. "Anno domini. A seguir, números romanos. Quase não consigo distingui-los, M, C, D..."

"1453", exclamou um dos outros.

"Meu Deus", disse Jack baixinho. "O Grande Cerco." Ele não precisava explicar essa data; seu significado havia sido repetido para a tripulação durante algumas curtas preleções. 1453. O ano da maior luta entre o Oriente e o Ocidente, um grande con­flito de gigantes na encruzilhada entre a Europa e a Ásia. O ano do último e moribundo suspiro do Império Romano, seu domínio restringido a esse promontório desafiador desde seu apogeu mil e quinhentos anos atrás, quando Roma controlava a maior parte do mundo conhecido. Durante um momento Jack sentiu um frisson de energia enquanto pressionava a mão contra o metal frio da arma. Olhou ao longo da linha do cano do canhão para a cidade, seus minaretes e cúpulas elevando-se como jóias cravejadas de uma miragem. Ele estava tocando na própria história, levado para o passado com uma proximidade que nenhum livro jamais pode­ria proporcionar.

Depois de um momento, Jack ficou em pé e arqueou as costas, sua altura se destacando de quase toda a população. "Ela é uma peça de campo, uma arma de cerco, muito maior do que as de retrocarga de combate transportadas nos barcos daquele pe­ríodo. Em minha opinião, estamos olhando para uma das armas usadas pelo sultão Mehmet II e pelos turcos otomanos para des­truir as defesas da cidade." Fez um gesto em direção ao litoral, onde os vestígios dos muros destruídos à beira do mar de Bizâncio eram pouco visíveis, sua altura impressionante depois reduzida por um terremoto e o progresso moderno. "Os otomanos teriam usado quaisquer armas sobre as quais conseguissem pôr a mão. Essa havia sido fundida em Veneza um pouco antes daquele ano, depois, talvez, capturada por piratas em batalhas, em seguida usada contra as forças de Bizâncio concentradas atrás daqueles muros, inclusive contra os próprios venezianos. A mídia turca vai gostar disso."

Quando a tripulação se dispersou e voltou ao seu traba­lho, Jack olhou de novo para o emblema na arma. Como os seus antepassados na Inglaterra, capitães-de-mar e exploradores que tocaram os pontos mais distantes do globo, os venezianos eram aventureiros marítimos que espalharam seus tentáculos através do mundo mediterrâneo, instalando até uma colónia de mercadores ali em Constantinopla. O mundo deles era feito de comércio e especulação e não de imperialismo e conquistas. No entanto, eles foram responsáveis por um dos maiores crimes na história da civi­lização, um crime que havia conduzido Jack a esse local e o qual ele estava determinado a decifrar antes que a expedição terminasse.

 

De volta à ponte de comando, Jack reassumiu seu lugar diante da mesa onde se encontrava o mapa e enrolou as mangas da camisa. Tinha sido uma fria manhã de domingo, mas o sol estava começando a aparecer rapidamente enquanto a névoa marinha se erguia. Ele examinou Tom York, o capitão mais antigo da IMU, um homem de cabelos brancos esmeradamente trajado, que estava conferenciando com o segundo oficial do navio, um estoniano recentemente designado que chegara com credenciais impecáveis da academia de marinha mercante russa. York olhou atentamente para Jack e inclinou a cabeça para a janela da ponte de comando, de onde estivera observando a cena na coberta de proa.

"Como hipótese, eu diria metade do século XV." York havia começado uma carreira notável na Marinha Real como oficial da ciência da artilharia, e desde então vinha desenvolvendo um conhecimento em arsenal naval antigo que se provou indispen­sável nos projetos da IMU. "Mal posso esperar para olhar mais de perto. Deve ser bem do início da artilharia naval. Mas muito recente para nós."

Jack concordou. "1453, para ser preciso. Quase duzentos e cinqüenta anos mais tarde. Estamos olhando para algo de estilo anterior ao da época em que as armas foram usadas no mar. É um achado extraordinário e não quero diminuir o ânimo da tripula­ção, mas temos um longo caminho a percorrer antes de alcançar os cruzados."

Jack olhou de modo pensativo para a praia, sua visão momentaneamente obscurecida por uma balsa demasiado api­nhada que passava perigosamente perto do local da escavação. No brilho da fosforescência deixada na esteira da balsa, a cidade atrás parecia estar flutuando em uma nuvem, como uma aparição celestial. Era uma das imagens supremas da história, uma repre­sentação visual da sobreposição de algumas das maiores civiliza­ções que o mundo já conheceu. Para o olhar de Jack era como um corte transversal feito em um sítio arqueológico, desempenhan­do as funções de camada construída sobre camada, só que aqui tudo estava em desordem, as seqüências da história todas entrela­çadas e sem nenhum corte nítido. No nível inferior se encontra­vam os restos quebrados e rachados dos muros de Constantinopla, planejados inicialmente pelo imperador Constantino, o Grande, quando ele mudou sua capital para cá, no século IV d.C., e aban­donou Roma ao declínio e à ruína. Acima dos muros elevava-se a ladeira da muito mais antiga acrópole grega de Bizâncio, um nome que sobreviveu como sendo o termo para o império cristão da Idade Média baseado em Constantinopla, cujas raízes remonta­vam a Roma. Acima disso erguia-se o vasto esplendor do Topkapi, o primeiro palácio dos sultões, o centro da cidade dos turcos oto­manos, renomeada Istambul depois da derrota dos bizantinos em 1453 e o núcleo brilhante do Estado mais poderoso do mundo medieval. Mais alto ainda, acima das poucas casas remanescentes da velha Istambul, erguiam-se os minaretes e as cúpulas em cascata da igreja de Santa Sofia, antigamente a maior de todas as catedrais cristãs no Oriente, mas, depois de 1453, um local sagrado do Islã. E em algum lugar, jack sabia, era possível, apenas possível, que a expansão da cidade escondesse a evidência de uma migração, bem no início da história, de colonizadores de civilizações precoces que haviam escapado de suas cidadelas da Atlântida quando ela fora inundada pelas enchentes distantes do leste no mar Negro.

Ele mal podia acreditar que fazia apenas seis meses desde que ele e Katya tinham se perdido nos caminhos labirínticos da cidade. Fora uma época de extrema alegria, gozando a descoberta de uma vida, mas ao mesmo tempo um período de vazio e de perda. Para Katya tinha havido a devastadora descoberta sobre o criminoso império de seu pai, uma revelação que pesou muito sobre ela, apesar de todos os esforços de Jack, e a fez voltar para a Rússia para liderar um ataque contra o comércio ilegal de anti­guidades. Para Jack, a sensação de perda pessoal tinha sido mais aguda, e ele ainda a experimentava. Eles ficaram juntos quando a busca por Peter Howe finalmente fora interrompida. Jack lem­brava-se do amigo de infância cada vez que via Tom York, sua claudicação era um legado da mesma batalha armada. Jack insis­tira em ficar no Sea Venture, sobre a Atlântida, até a busca ser finalmente abandonada. Durante muitos dias depois disso, sentiu que sua ambição tinha sido sepultada no mar Negro com o nau­frágio do Seaquest, que ele não tinha o direito de arriscar a vida dos outros em aventuras. Foi Katya quem lhe devolveu a con­fiança quando eles ficaram absorvidos na história de Bizâncio durante os longos dias em que, juntos, exploraram Istambul. Ela o persuadiu a despertar de novo um sonho infantil que nutrira junto com Peter Howe, um sonho de um fabuloso tesouro per­dido que o tinha consumido por inteiro depois que ele e Katya se separaram no aeroporto, um sonho que trouxera Jack ao local onde se encontrava agora. "Consegui!"

Jack despertou de seu transe e correu até a origem do ala­rido na sala de navegação atrás da ponte de comando. No interior escurecido ele pôde ver onde o radar e os consoles de estabilização da posição haviam sido empilhados de cada lado para dar lugar a um complexo arranjo de dispositivos eletrônicos que rodeava a ula descomunalmente grande do computador. Em meio a tudo isso, esquecido de sua presença, estava sentado um homem de cabelo preto, bronzeado, com um físico de jogador de rúgbi, os olhos grudados na tela e as têmporas pressionadas por fones de ouvido com antenas.

"Muito bom você ter finalmente perdido um pouco de peso", disse Jack. "Senão teríamos que escavar para tirá-lo daí."

"O quê?" Costas Kazantzakis lançou-lhe um olhar impaciente e voltou-se para a tela. Jack gritou de novo as palavras para se fazer ouvir.

"Ok, ok." Costas tirou os fones de ouvido e inclinou-se para trás no pequeno espaço que tinha disponível. "Ah, bem, o apuro que passei durante minha passagem por aquele túnel embaixo da água é o responsável por isso. Eu ainda tenho as feridas. Se algo deu certo naquele projeto foi que os deuses da Atlântida me advertiram para perder algumas calorias."

Costas esticou o pescoço, olhou ao redor e notou o pulôver de Jack salpicado de lama. "Estava brincando de novo?"

"Arma de cerco. Veneziana. 1453."

Costas resmungou, depois subitamente recolocou os fones de ouvido quando na tela apareceu um caleidoscópio de cores. Jack olhou com orgulho enquanto seu amigo ficava absorvido de novo em sua tarefa. Costas era um engenheiro brilhantemente inventivo, com um Ph.D. em tecnologia de submersíveis da IMU, e tinha acompanhado Jack em muitas de suas aventuras desde a fundação da universidade, uma década antes. Sua ciência intrin­cada era um complemento perfeito para a arqueologia de Jack. Costas não gostava das complexas seqüências entrelaçadas da história e das incertezas das interpretações. Para ele, os únicos problemas significativos eram os que podiam ser resolvidos pela ciência, e a única complexidade aparecia quando os aparelhos não funcionavam direito.

"O que está acontecendo?"

Uma outra figura havia aparecido na porta e comprimia-se ao lado de Jack, sua constituição física definitivamente mais corpulenta. Maurice Hiebermeyer parecia estar com um permanente brilho de suor, apesar de seus shorts largos e a camisa aberta. Jack voltou-se e acenou para cumprimentá-lo.

"Acho que Costas, finalmente, pegou esse negócio para trabalhar."

Jack sabia o que vinha a seguir. Hiebermeyer tinha sobrevoado o mar de helicóptero na noite anterior, vindo do Instituto de Arqueologia em Alexandria, como uma ave de rapina lançando-se sobre o alvo, esperando que Jack já estivesse de olho no futuro, depois de chegar à conclusão de que os problemas para fazer escavações na enseada de Istambul eram intranspo­níveis. A última vez que haviam conversado fora no convés do Sea Venture, seis meses atrás, quando Hiebermeyer mencionara um outro achado extraordinário de escrita antiga na necrópole das múmias, a mesma que já produzira o papiro da Atlântida, e desde então ele estivera bombardeando a IMU com mensagens via telefone e e-mails.

Ele atrapalhou-se com uma pasta de papéis que estava carregando. "Jack, nós precisamos..."

"Isso terá de esperar." Jack lançou um sorriso compla­cente para o corpulento egiptólogo. "Estamos muito ansiosos aqui e devemos nos concentrar. Sinto muito, Maurice. Espere apenas até isto terminar." Voltou-se para a tela e Hiebermeyer permane­ceu em silêncio.

"Sim!"

A tela oscilou com cores e os dois homens se postaram atrás de Costas para ter melhor visão. Eles estavam olhando para uma imagem de vídeo, uma massa cinza iluminada por holofotes e um braço com pinça sendo estendido para o interior dela.

"Estamos agora a cerca de dezesseis metros abaixo do fundo do mar, cinqüenta e um metros de profundidade absoluta de nossa posição atual." Costas retirou os fones de ouvido e inclinou-se para trás enquanto ralava. "Dentro de poucos segundos a imagem vol­tará a ser por sonar e o furão entrará de novo em operação."

“Furão?”

Costas olhou para Hiebermeyer, desculpando-se, e esten­deu-lhe um modelo de plástico que estava segurando como se tosse um talismã, uma curiosa forma cilíndrica que mostrava uma leve semelhança com o veículo operado por controle remoto que eles haviam usado para explorar a aldeia neolítica no mar Morto. "Uma combinação de veículo operado por controle remoto, um aspirador de pó subaquático e um sonar que funciona abaixo do fundo do mar", entusiasmou-se ele. "É controlado daqui por inter­médio de um cordão umbilical e consegue vasculhar dentro de um sedimento com uma precisão extremamente aguçada, enviando imagens tão nítidas quanto um escâner MRI. No momento, o furão está escavando em um sedimento de terra, terra desmoronada, toneladas dela. Estamos à beira do canal que passa velozmente pelo Bósforo, mas mesmo assim há uma enorme quantidade de sedimentos, vários metros por século. Necessitamos ir mais fundo se quisermos ter alguma chance de encontrar o que queremos. O peso daquela corrente vai afundar tudo ainda mais."

"Ah, a corrente", murmurou Hiebermeyer. "Reavive minha memória."

Jack se deslocou até um mapa amarelo do almirantado, das cercanias de Istambul, pregado na parede atrás de Costas. A posição deles estava claramente marcada na beirada exterior do estuário que atravessava a cidade, sua forma sinuosa de cimitarra definia o promontório de Bizâncio e formava um dos maiores ancoradouros naturais do mundo. Para os antigos gregos isso era a Chrysoceras, o Chifre de Ouro, como se um touro mitológico gigantesco houvesse se engastado no Bósforo em seu esforço para alcançar o mar Negro, um significado que até então não se per­dera para os três homens, com as imagens da Atlântida ainda fres­cas em suas mentes.

Jack pegou uma caneta e traçou uma leve linha desde a entrada até o estuário. "Durante o período bizantino, o Chifre de Ouro ficava fechado em épocas de emergência por uma gigantesca barreira flutuante de um quilômetro de comprimento e enormes elos de ferro, grosseiramente forjados, sustentados em pilares e barcaças. A corrente ficava presa aqui, em uma torre próxima à extremidade dos muros da cidade, onde o estuário encontra o Bósforo, e aqui, a cerca de trezentos metros de nós na praia de Gaiata. A corrente é registrada pela primeira vez no século VIII d.C. e teve um papel famoso no Grande Cerco de 1453, mas conhecemos apenas duas ocasiões em que ela pôde ser rompida. A primeira foi no século XI, quando um grupo de vikings, supos­tamente mercenários, lançou seus drakar sobre ela. A segunda ocasião é mais definida, em 1204, quando galeras venezianas a quebraram com um aríete. A corrente foi reconstruída, mas uma parte rompida pode ter ficado perdida no fundo do mar. Se pudermos achá-la, então teremos encontrado a camada-alvo com a pilhagem que estamos procurando e entraremos em operação."

"O primeiro elo em nossa história." O trocadilho de Costas mal deu para esconder a sua ansiedade, seus dedos batucavam levemente sobre a escrivaninha e os olhos se movimentavam rapi­damente de um canto ao outro da tela. A imagem tornou-se escura e a única indicação de que o furão estava operando era o calibra­dor de profundidade no canto, deslocando-se ciclicamente com lentidão agonizante ao longo de cinco centímetros de perfuração.

"Como você pode estar tão seguro sobre a localização?" Hiebermeyer deixou a sua própria busca de lado e começou a se interessar pelo projeto.

"Isso sempre foi controverso, mas um manuscrito do século XV, descoberto no arquivo Topkapi no ano passado, dá uma posição fixa exata entre os monumentos conhecidos e o contorno da costa."

"Eu não gosto disso." Costas deu uma olhada no relógio da parede e mexeu-se desconfortavelmente em seu assento. "Se aquele canhão era de 1453, então temos pelo menos cinco metros de sedimento compactado para escavar antes de estarmos, de alguma maneira, próximos da camada-alvo. E temos apenas vinte minutos antes de o Sea Venture ter de alterar sua posição."

Jack também expressou sua preocupação e comprimiu os lábios. Esse projeto era diferente de todos os outros em que haviam trabalhado, uma brincadeira constante de gato e rato em um dos cursos de água navegável mais superlotados do planeta. Eles tinham um intervalo de seis horas, a cada dia, autorizado pelas autoridades portuárias, mas mesmo assim repetidamente tinham de alterar sua posição para deixar uma barcaça ou um navio de carga passar, alguns com carregamentos tão pesados que suas hélices agitavam o sedimento do fundo. Jack tinha total confiança na habilidade de Tom York para eliminar erros de localização na navegação, e o sistema de posicionamento dinâmico do Sea Venture fazia que ele reencontrasse coordenadas precisas com facilidade. Mas não havia proteção para a escavação no fundo do mar, nem, mais importante ainda para Costas, qualquer garantia de que sua amada invenção não ficaria atolada junto com todos os outros detritos da história.

Hiebermeyer sentiu a tensão e insistiu com Jack. "Então, o que é este seu sonho de infância?"

Jack respirou profundamente, aquiesceu, e fez um gesto para que Hiebermeyer o seguisse até um console onde havia um computador, do outro lado da sala. Era uma história que ele havia contado uma centena de vezes antes, para a tripulação, para a imprensa, em suas repetidas tentativas para obter patrocínio para o projeto do Conselho de Diretores da IMU e das autori­dades turcas, mas, ao falar disso, nunca deixava de experimentar um arrepio de excitação que lhe subia pela espinha dorsal.

"O Grande Cerco de 1453 foi um dos momentos decisi­vos da história", começou Jack. "O dobre fúnebre ao maior impé­rio jamais visto no mundo, o evento que deu ao Islã um ponto de apoio na Europa. Mas, para a cidade de Constantinopla, um evento mais calamitoso havia ocorrido dois séculos e meio antes. Profanações e pilhagens em grande escala, uma atrocidade hor­renda mesmo para os padrões medievais. E os que o perpetraram não eram infiéis, mas sim cristãos, cruzados da Santa Cruz, nada menos que isso."

"Os cruzados", disse Hiebermeyer. "É claro."

"Na época em que eles não faziam isso somente pela Terra Santa."

"Lembre o que o professor Dillen sempre insistia conosco em Cambridge", murmurou Hiebermeyer. "Que os maiores crimes contra a cristandade sempre foram causados pelos próprios cristãos." Os dois homens tinham sido contemporâneos quando estudantes universitários, e quando Jack voltou para completar seu doutorado, depois de um estágio na Marinha Real, eles estu­daram juntos a história cristã e judaica sob o famoso mentor.

"A data era 1204", continuou Jack. "O papa Inocêncio III havia requerido os serviços de uma quarta cruzada, mais uma expedição destinada a libertar Jerusalém dos infiéis. A maneira como os nobres cavaleiros chegaram a se desviar de sua causa para saquear o local que abrigava o maior tesouro da cristandade oriental é uma das narrativas épicas mais apavorantes da história."

A pequena tela na frente deles subitamente se iluminou com uma imagem reconhecível no mundo inteiro, quatro cavalos esplendidamente ornamentados com cobre dourado parados jun­tos na frente de um belo cenário arquitetônico.

"Os Cavalos de São Marcos", exclamou Hiebermeyer.

"Alguns turistas deixariam cair suas câmeras se soubessem a verdade sobre como essas esculturas chegaram a Veneza." Jack agora andava a passos largos, suas palavras tingidas pela fúria. "Os líderes das cruzadas precisavam de gente para levar de navio os cavaleiros e seu equipamento através do Mediterrâneo para a Terra Santa. E quem melhor que os venezianos, o maior poder marítimo da época? Mas os venezianos tinham outras idéias escondidas nas mangas. O Império Bizantino estabelecido em Constantinopla havia começado a invadir o território próximo a Veneza no mar Adriático, e os venezianos não gostavam disso. Mercadores venezianos em Constantinopla tinham sido assassi­nados. Alguns anos antes, o doge veneziano Dandolo fora aprisionado pelos bizantinos, que o cegaram, e estava secretamente inclinado a vingar-se. Além disso, os cruzados se mostraram inca­pazes de conseguir o dinheiro para pagar a sua passagem depois de embarcarem, tornando-se virtualmente escravos dos venezia­nos. Acrescente a isto um pretendente ao trono bizantino entre a hierarquia de cruzados e o cenário está pronto. O papa Inocêncio III encontrou-se inadvertidamente como o patrocinador do saque da segunda cidade da cristandade, o ponto focal da Igreja oriental. Logo que chegaram a Constantinopla, os cruzados esqueceram-se da Santa Cruz e se comportaram como qualquer outro exército saqueador da Idade Média, somente que com uma ferocidade e um barbarismo sem iguais, mesmo para aquele período."

"O que aconteceu?"

"Imagine um exército sem controle chegando a Londres e começando a roubar todas as estátuas públicas, a profanar a abadia de Westminster, a esvaziar o Museu Britânico, a queimar a Biblioteca Britânica. Todos os símbolos da nação e os tesouros do império perdidos em uma única investida violenta encharcada de sangue. Em Constantinopla, os guerreiros sagrados aplicaram seus muito alardeados fervores cristãos nas grandes igrejas. Santa Sofia, sobretudo, entre elas, foi saqueada de suas relíquias de milhares de anos de cristianismo. Eles destruíram as bibliotecas, originárias de antigas bibliotecas de Alexandria e Éfeso, uma perda incalculável para a civilização. Pilharam o hipódromo, o antigo anfiteatro de corrida que representava a imagem da cidade, deixando ape­nas fragmentos de esculturas que ainda podem ser encontradas ali hoje e alguns poucos monumentos muito grandes para serem roubados."

"O obelisco egípcio de Tutmés III", disse Hiebermeyer, concordando com um gesto de cabeça.

Jack apontou para a tela. "Sabemos que Constantinopla era a herdeira de todos os grandes tesouros da civilização ociden­tal. Artefatos de valor incalculável que haviam estado no Egito e na Grécia e no Oriente Próximo foram de início trazidos para Roma quando o império se expandiu. Depois, quando a capital se deslocou para Constantinopla, muitos desses tesouros se desloca­ram também, enviados através do Mediterrâneo, de Roma para Constantinopla. Os Cavalos de São Marcos podem originalmente ter sido criações gregas do século V, embelezando, talvez, o famoso santuário em Olímpia. Cinco séculos depois eles estão em Roma, no topo de um triunfal arco de Nero no Fórum, como parte de um grupo de esculturas que mostrava o imperador dirigindo uma quadriga. O arco foi destruído por Vespasiano, mas a imagem sobrevive nas moedas de Nero. Quatro séculos depois, eles esta­vam aqui em Constantinopla, talvez no hipódromo ao lado do obelisco. E lembre que Constantinopla nunca fora saqueada antes de 1204. Os tesouros que conhecemos por relatos de testemunhas oculares e que foram pilhados pelos cruzados só dão uma indica­ção do que se encontrava ali. Um pouco da pilhagem foi fundida para fabricar lingotes e moedas. Outros tesouros, como os Cavalos de São Marcos, foram enviados por navio para Veneza e para as pátrias dos cruzados, França, Espanha, Países Baixos, Inglaterra, onde as relíquias desse crime podem ainda estar nas grandes cate­drais e mosteiros. E outros objetos, principalmente antiguidades com simbolismo pagão, foram profanados e arremessados no Chifre de Ouro." Ele fez uma pausa. "Quando eu e Peter Howe ficamos pela primeira vez obcecados por essa história, convencemo-nos de que um dos maiores tesouros sem dono no mundo pode estar no fundo do mar debaixo de nós bem agora."

Houve uma súbita agitação atrás deles quando Costas aproximou sua cadeira da tela do vídeo. Os olhos de Hiebermeyer permaneceram de maneira pensativa na imagem dos cavalos e ele colocou a mão no ombro de seu amigo.

"Você diz que qualquer coisa da antiga Grécia pode ter sido trazida para cá", disse ele calmamente. "No ano passado, depois de nossa pequena aventura no mar Negro, eu fui chamado a Roma para traduzir um texto egípcio hierático encontrado no local do Templo da Paz de Vespasiano, perto do lugar onde os fragmen­tos de mármore com o projeto da cidade foram encontrados. O texto provou fazer parte de uma série de placas de bronze fixas na colunata do recinto, cada uma com um texto idêntico em todas as principais línguas do Império Romano. Latim, grego, aramaico, egípcio, você pode nomeá-las todas. Eram proclamas listando as vitórias de Vespasiano e os triunfos de Roma. Seu tema era a Guerra dos Judeus."

Jack desviou o olhar de Costas e encarou Hiebermeyer de frente, os olhos escuros insondáveis. O outro homem falou, hesi­tante.

"Você está pensando o que eu estou pensando?"

Jack permaneceu calado.

"Meu Deus." O sotaque alemão de Hiebermeyer tornou-se mais acentuado, e sua voz estava oscilando. "Os tesouros judaicos do Tabernáculo. Vespasiano os colocou no Templo da Paz, para nunca serem expostos de novo em um desfile. Eles se tornaram lenda." Sua voz tornou-se um sussurro. "Será que eles podem ter sido secretamente enviados por mar para Constantinopla antes da queda de Roma?"

"Este pensamento me ocorreu", disse Jack baixinho.

Hiebermeyer retirou seus óculos de pequenas lentes redon­das e secou a testa. "Os receptáculos sagrados do santuário interior. A mesa de ouro. A menorá." Ele parecia ter dificuldade para pronunciar a última palavra, e ofegou de maneira rouca. "Você faz idéia daquilo em que estamos nos metendo?"

"Sim", disse Jack.

"Não estamos apenas falando de tesouros fabulosos. Estamos falando de coisas de grande importância contemporânea. A menorá é o símbolo do moderno estado de Israel. Qualquer alusão de que estamos em busca do tesouro do Templo Judaico e o resultado poderia ser explosivo. Literalmente."

"Isto não irá além destas quatro paredes", afirmou Jack.

Naquele momento ouviram um grito e uma série de imprecações animadas típicas do Brooklyn vindas do outro con­sole. Jack e Hiebermeyer rapidamente voltaram para suas posi­ções atrás de Costas, e o segundo oficial do navio apareceu ao lado deles. Jack olhou curiosamente para o homem e depois voltou a fixar a tela. Eles puderam ver imediatamente por que Costas estava tão radiante. A tela havia se transformado em uma imagem fantás­tica, multicolorida, as linhas e contornos do escâner tão definidos como os de um desenho em um computador a três dimensões. No centro havia sinais inequívocos de atividade humana, uma massa escura e torcida incrustada no sedimento. Era uma imensa argola de metal, de pelo menos um metro de comprimento, uma figu­ra em forma de oito, grosseiramente soldada no meio. Uma segunda argola estava presa a ela e prolongava-se para fora da tela à direita, mas o prolongamento à esquerda estava marcado e dobrado onde a argola adicionada havia sido quebrada.

"Fantástico!" Jack deu uma palmada no ombro de Costas. Ele estava muito contente, sua mente já disparava para o estágio seguinte da busca, mas os olhos permaneceram grudados na tela quando a câmera se movimentou para a extremidade do metal exposto a fim de obter um efeito panorâmico. Preso no final da argola havia um fragmento de madeira, evidentemente madeira de lei de navio, um pedaço de tábua do revestimento exterior em que apareciam fileiras de protuberâncias escuras regularmente espaçadas onde os rebites de ferro haviam sido preservados por mais de oitocentos anos pelo lodo anaeróbico. A respiração de Jack e de Hiebermeyer tornou-se ofegante ao se dar conta do que estava enroscado na argola, uma massa branca semelhante a ramos desnudos de uma árvore. Era um esqueleto humano comprimido violentamente, os braços presos em ângulos grotes­cos através do metal, o crânio distorcido e quase irreconhecível, mas ainda recoberto por uma coloração marrom-ferrugem onde outrora houvera um capacete cónico bem ajustado com uma proteção para o nariz.

"Aqui estão os grilhões e uma de suas vítimas", comentou Costas. "Agora é hora de sair daqui."

Costas ativou um controle e libertou o umbilical exata­mente quando o maquinário do navio começou a pulsar. Jack e Hiebermeyer o deixaram e saíram da sala de navegação para jun­tar-se a York na ponte de comando. Jack queria transmitir as novas tias descobertas para a tripulação durante o período em que o Sea Ventare era obrigado a ficar fora do local, antes que a rota marítima ficasse de novo disponível para eles. Ele olhou pela janela para o carregador de minério que esperava para navegar a passa­gem e para as baixas arcadas da ponte Gaiata, sua rodovia alvo­roçada com o tráfego da manhã e as balaustradas apinhadas de pescadores esperançosos, abstraídos dos verdadeiros tesouros que podiam estar debaixo deles. As águas encrespadas, outrora nave­gadas pelas barcaças de lazer dos imperadores e sultões, brilhavam de novo agora, como resultado de uma grande operação de lim­peza feita na última década. Quando Jack olhou além da ponte de comando para o horizonte resplandecente, experimentou outra vez a fascinação que arrastara a ele e Katya para desvendar os profundos segredos da cidade. Porque, apesar de todo o seu caos e de sua história sombria, essa cidade viera a simbolizar esperança, o lugar onde Jack revivera sua paixão pelos mistérios do passado que o estimulavam desde a infância.

Olhou para baixo quando as águas cintilantes na proa do Sea Venture se agitaram em desordem por causa dos estabilizadores do motor a jato do navio. Ele estava alegre, além da expectativa, pelo fato de que tinham feito a descoberta que podia demonstrar o seu sonho, um ponto de partida para achados ainda mais sensacionais nos dias vindouros. A corrente os colo­cava direto no momento-chave na história, e mostrava que eles estavam nos limites exteriores do ancoradouro onde os espólios do saque de Constantinopla haviam sido despejados. Tudo que tinham de fazer agora era encaminhar-se para o Chifre de Ouro e poderiam fazer uma descoberta preciosa. Mas, como sempre, o júbilo de Jack era temperado por ansiedade. A pressão havia começado. Ainda tinham um longo caminho a percorrer. Ele sabia que teriam de continuar a mostrar sua carga para as autoridades se elas fossem prosseguir com a limitação de horários para usar as rotas prescritas para os navios; a arma e a corrente provavam que ele tinha razão, mas isso também aumentava as expectativas. Olhou de novo para as águas do Chifre de Ouro, protegendo os olhos contra o brilho ofuscante, e rezou fervorosamente para que aquilo correspondesse às suas expectativas.

 

Maria de Montijo mudou de posição quase imperceptí­vel mente sobre o banco e fechou os olhos. Esse havia sido o dia mais longo que já passara no recinto da catedral, e, apesar da adrenalina que a sustentara hora após hora, ela sabia que sua concentração em breve começaria a diminuir. Lá fora, a tarde cinzenta e melancólica, como era comum na Inglaterra, estava começando a escurecer, e ela podia ouvir o insistente tamborilar da chuva nas vidraças da janela. Endireitou as costas, piscou com dificuldade e levantou a paleta com os instrumentos de limpeza até a beirada da moldura. No total silêncio do aposento, o tempo parecia permanecer imóvel, e toda sua atenção estava foca­lizada no padrão intrincado de tinta revelado pela minúscula luz a apenas alguns centímetros de seu rosto. Respirava lenta e deliberadamente, e ao final de cada exalação dirigia o seu pincel com uma firmeza alcançada através de anos de experiência. Depois de quinze minutos, ela afastou-se e estendeu a paleta para seu assistente.

"É isso aí", disse ela. "Terminamos."

Cuidadosamente, ela puxou a lâmpada de maneira a revelar toda a inscrição, o produto de mais de uma semana de trabalho esmerado. Com a pátina de séculos removida, as letras se tornaram pretas e nítidas como se tivessem sido aplicadas apenas alguns dias antes.

 

Tuz ki cest estorie ont. Ou oyront ou lirront ou ueront. Prient a ihesu en deyte. De Richard de Holdingham o de Lafford eyt pite. Ki latfet e compasse. Ki ioie en cel li seit done.

 

A ortografia não familiar do francês arcaico só servia para aprofundar o mistério do homem que a havia composto. Depois de um momento de contemplação, Maria voltou-se de maneira encorajadora para seu assistente, um jovem esbelto que usava óculos com armação de metal e que se inclinou impacientemente para a frente para fazer a tradução.

"Todos aqueles que possuem esta obra, ou que a ouvem, lêem, ou vêem, rezem para que Jesus em sua divindade tenha compaixão de Richard de Holdingham e de Sleaford, que a iniciaram e a concluí­ram, para que lhes seja concedida a bem-aventurança no céu."

Parecia apropriado que as últimas palavras de Richard também fossem as deles, que eles devessem terminar sua tarefa no mesmo lugar em que o escriba levantou pela última vez sua pena do pergaminho, quase setecentos anos antes.

 

Vinte minutos mais tarde, Maria parou no centro da sala e olhou mais uma vez para o mapa antes de colocá-lo atrás do vidro protetor. Com a pequena lâmpada removida, a fraca luminosidade da sala parecia acentuar a aparência antiga do velino, as sombras e as ondulações mostravam onde a pele de bezerro havia encolhido e enrugado com o passar dos anos.

Normalmente o trabalho de limpeza dos manuscritos teria sido deixado para a sua equipe técnica no instituto em Oxford. Mas, quando chegou o telefonema de um novo programa de res­tauração do Mappa Mundi na catedral de Hereford, a tentação fora demasiado grande. Era a chance de uma vida, a oportunidade de trabalhar no maior manuscrito com iluminuras existente do século XIII, de tocar com suas próprias mãos o mapa medieval mais importante e celebrado do mundo.


Quando seus olhos se acostumaram com a escuridão, o contorno familiar começou a tomar forma. Quase preenchendo o imenso pergaminho quadrado havia um globo com mais de um metro e vinte de diâmetro. No centro estava Jerusalém, e abaixo dela a forma em T do Mediterrâneo que divide a Ásia, a África e a Europa. As Ilhas Britânicas localizavam-se abaixo, à esquerda, e no espaço atrás ficava a inscrição que ela havia recuperado. Por Ioda parte no mapa havia centenas de desenhos em miniatura, com legendas em latim e francês, alguns dos quais ilustrando his­tórias bíblicas e outros representando criaturas bizarras e lugares míticos.

Era uma cornucópia de fato e fantasia, a expressão suprema da mente medieval. Embora estivesse também cercada por ignorância. Na sua seqüência, e na certeza que demonstrava, o mapa parecia ser a última declaração sobre o mundo do homem, apesar de não haver absolutamente nada além da fina faixa de oceano que cercava a cristandade. Para Maria, a figura de Cristo, colocada na parte superior, parecia estar sendo julgada, não apenas na morte, mas também na vida, por homens arrogantes o bastante para pensar que as incontáveis maravilhas com as quais haviam abarrotado seu Mappa Mundi representavam algo como a totali­dade da criação de Deus.

 

"Doutora De Montijo. A senhora deve vir imediata­mente."

A figura esmerada em trajes clericais alcançou Maria quando esta caminhava rapidamente pelo átrio da catedral, com o guarda-chuva aberto por causa do eterno chuvisco inglês. Ela deveria estar de volta a Oxford naquela noite e dispunha de pouco tempo para pegar o trem.

"É melhor que isso seja importante", disse ela, o leve sota­que espanhol dando uma cadência animada à sua voz. "Estou escalada para dar um seminário sobre Richard de Holdingham no meu instituto, dentro de três horas, e preciso de tempo para prepará lo."


"Talvez isso tenha de esperar", o pequeno homem ofegou, excitado. "Os operários na antiga Biblioteca Acorrentada acaba­ram de fazer uma descoberta extraordinária. Seu assistente já se encontra com eles."

Juntos, Maria e o clérigo se aproximaram do pórtico norte da catedral. Com seu matiz cor de mel, o arenito desbotado dos pilares fazia Hereford parecer menos ameaçadora do que muitas grandes catedrais da Inglaterra, apesar de, mesmo assim, quando eles entraram, o efeito ser apavorante. Maria olhou para a nave, depois para o altar e em seguida para o espaço cavernoso entre eles, sua visão emoldurada pelos pilares maciços que de cada lado se elevavam até alcançar os arcos menores do clerestório e os ven­tiladores espalhados no teto da abóbada bem acima. Enquanto seguia o clérigo em direção à nave lateral norte da igreja, ela foi invadida pelo odor de pedra úmida e um leve indício de decom­posição, como se o cheiro repugnante de putrefação que havia permeado a catedral por tanto tempo tivesse deixado uma aura que demorava a desaparecer muito tempo depois que as últimas criptas funerárias tinham sido lacradas.

A nave tinha mudado pouco desde a última vez que Richard de Holdingham passara por ela. Ela esbarrou num pilar e experimentou uma sensação de intimidade, como se tivesse vol­tado atrás no passado para seguir de perto as pegadas do grande homem. Nos dias dele, era utilizada a alvenaria pesada dos nor­mandos havia apenas um século, no entanto, uma igreja monás­tica estivera nesse mesmo lugar desde o reinado anglo-saxão de Mércia. Era a igreja catedral de Santo Etelberto, o rei da Ânglia Oriental, que havia sido perfidamente assassinado nas vizinhan­ças. Nos dias de Richard, a igreja também atraiu peregrinos que vieram de todas as regiões próximas para prestar homenagem a Thomas Becket, o arcebispo martirizado em Canterbury, cujo relicário esmaltado também havia sobrevivido através dos sécu­los, outro dos grandes tesouros da catedral, junto com o Mappa Mundi.

Depois de passar o transepto norte, eles alcançaram a nave do coro; ali o mapa fora exibido durante o século passado até ser removido para o lugar onde se encontrava agora, em um museu exterior construído especialmente para essa finalidade. Imediatamente oposta ao espaço vazio na parede, havia uma porta baixa na estrutura exterior da catedral. Através dela podia-se ver uma escada em espiral.

"O trabalho de reconstrução está quase completo", disse o clérigo. "Isto é apenas uma precaução." Ele entregou a Maria um capacete amarelo de segurança e colocou um em si mesmo, o qual pareceu um tanto inapropriado por cima de sua batina marrom. Enquanto ela o seguia subindo os degraus espiralados, as palavras dele ressoavam como um eco amortecido.

"Uma catedral de arenito é como um navio de madeira", ele explicou. "Mantenha um velho casco de navio em uso por um tempo bastante longo e todos os madeiramentos precisarão ser trocados. Como o HMS Victory. O arenito não é um material de construção durável. Quando mudamos a biblioteca tivemos a oportunidade de substituir algumas pedras bastante danificadas."

Estavam se aproximando do aposento que tinha sido ocu­pado pela mundialmente famosa Biblioteca Acorrentada, uma fabu­losa coleção que incluía raros incunábulos, livros impressos antes de 1500, assim como 227 volumes manuscritos, começando com "inestimável Hereford Gospels do século VIII. Tanto os livros como as caixas às quais estiveram acorrentados estavam agora, restaurados, no museu que também alojava o Mappa Mundi, que também estivera guardado nessa biblioteca.

Depois de subir ao nível do clerestório, eles se comprimiram para passar um grande número de blocos recém-extraídos e pararam na entrada do aposento. Com os finos raios que a luz do dia lançava através das fendas das janelas eles podiam apenas imaginar os trechos mais claros nas paredes, onde as prateleiras de livros se encontravam antes. Em vez de uma biblioteca, o aposento agora se parecia com um ateliê de pedreiro medieval, com instru­mentos de cortar e fragmentos de alvenaria deteriorada espalha­dos por todo o chão.

Do outro lado, um grupo de operários aglomerava-se diante de uma área de luz brilhante na parede. A luz vinha de um buraco de onde dois blocos de alvenaria haviam sido retirados, deixando um espaço que dava passagem apenas para alguém esguio. Naquele momento apareceu uma cabeça, os cabelos loiros desgrenhados e os óculos cheios de poeira.

"Maria! Você não vai acreditar nisto."

Jeremy Haverstock tinha sido seu melhor aluno de doutoramento, um grande conhecedor de línguas germânicas antigas, mas havia ficado enclausurado em Oxford escrevendo sua tese e agora aparecia estar se deleitando com a sensação de aventura. Ela o convidara para vir a Hereford para que fizesse uma pausa, e para que compartilhasse de uma experiência única. Desde sua vinda da América ela o encorajara a viajar bastante para conhecer bibliotecas monásticas antigas, embora ele ainda tivesse aquele entusiasmo contagioso de um turista tocando a história pela pri­meira vez. Maria sorriu consigo mesma quando ela e o clérigo abriram caminho em meio aos detritos e abaixaram as máscaras contra poeira de seus capacetes.

"É sua carreira que está em jogo", disse ela. "Qualquer coisa menos que uma bíblia da Ordem de Santo Agostinho e você terá de fazer o seminário sem ajuda."

"É melhor do que isso. Muito melhor." Quando eles se aproximaram, ela pôde ver que o rosto de Jeremy estava marcado pelo suor, apesar do frio do aposento. Ele deslocou mais um dos blocos de alvenaria e esgueirou-se para dentro da parede. Sigam-me.

 

Momentos depois, Maria estava se espremendo ao lado dele, com seu cabelo castanho ondulado e sua jaqueta de couro cobertos de poeira. Qualquer irritação que ela pudesse ter sentido evaporou-se instantaneamente quando viu o que havia diante deles. O ope­rário tinha aberto uma passagem para um espaço de cerca de um metro dentro da maciça parede exterior da catedral. De sua posição curvada, Maria pôde ver que eles estavam agachados acima de uma escada espiralada arruinada, uma relíquia de alguma fase anterior tia construção, que havia sido bloqueada muito tempo antes. Três degraus abaixo deles, o poço da escada estava obstruído com detri­tos, uma mistura de escombros que pareciam ser de arenito gasto e que estavam cobertos por uma camada de poeira vermelha. Com o corpo curvado, Maria aproximou-se para olhar mais atentamente, o holofote disposto diretamente atrás de sua cabeça.

"Es estupendo!” As palavras de sua língua natal, o espanhol, saíram involuntariamente, enquanto ela olhava, boquiaberta, sem acreditar.

"Você vê o que quero dizer?" Jeremy colocou-se impaciente ao lado dela. "É como a caverna de Aladim."

Os detritos não eram pedaços de alvenaria descartados, mas uma grande quantidade de pergaminho amarelado e pardo, alguns compactados como papel machê, mas muitos deles bem preservados e com letras plenamente visíveis.

"É como se fosse uma lixeira da biblioteca", disse Jeremy. "fragmentos rasgados, livros danificados sem possibilidade de teparação. São todos escritos à mão e nenhum deles parece ser posterior ao século XIII. Os registros arquitetônicos consideraram esta escada supérflua e ela foi fechada algum tempo depois de o transepto norte ter sido completado no século XIV."

Maria deslocou-se para o lado e apontou para o lugar na frente do holofote que havia ficado nas sombras, obscurecido por sua cabeça. Ela estava repentinamente tremendo de excitação.

"Olhe", ela exclamou. "Nem tudo são fragmentos. Há um volume in-fólio intacto."

Jeremy o alcançou com seu braço longo e cuidadosamente retirou o livro com capa de couro do meio dos pergaminhos rasgados. Enquanto ele o segurava, Maria gentilmente soprou a poeira e abriu a velha capa marrom.

"Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum."

Ela leu lentamente as palavras em voz alta, sua mente vacilando diante do espanto. "A história eclesiástica do povo inglês, de Beda, o Venerável. E ainda em latim, o que significa que se trata de uma das cópias originais. Século IX ou talvez VIII."

Jeremy retirou algumas folhas de pergaminho que tinham ficado grudadas na capa de trás do volume. Com as folhas empoei­radas equilibradas nas mãos, ele começou a sussurrar baixinho para si mesmo, os olhos movendo-se para cá e para lá ao longo do texto. Maria observava, mergulhada em conjecturas, quando subi­tamente ele silenciou.

"O que é?" ela perguntou.

"Incrível", ele sussurrou. "Uma continuação do século XII da Crônica anglo-saxônica. Ela menciona o rei Henrique II e o rei João. Este deve ser o último documento existente em inglês arcaico, a língua que os normandos tentaram suprimir com muito empenho. Isso prova de uma vez por todas minha tese de que as tradições anglo-saxônicas eram mantidas vivas nos scriptoria secretos das catedrais durante o período medieval. Se isso não me der o doutorado, nada mais me dará."

Maria examinou a cena diante deles, notando mais outros volumes intactos no local de onde tinham removido o de Beda.

"Isto era mais do que uma lixeira", ela afirmou baixi­nho. "Sempre foi um mistério o fato de essas duas obras origi­nais sobre a história anglo-saxônica não constarem da biblioteca Hereford, dentro de uma coleção com manuscritos litúrgicos que remontam ao século VIII. Talvez isso tenha sido feito por um bibliotecário extremamente zeloso que, adaptando-se às condi­ções, dava espaço nas prateleiras para obras mais recentes. Mas pode ter significado mais do que isso, uma seleção deliberada das obras de história anglo-saxônica da biblioteca, uma tentativa de ocultar qualquer coisa que a aristocracia normanda conside­rava subversiva."

Ela fechou o livro cuidadosamente e o abrigou em seus braços, enquanto olhava preocupada para os fragmentos de per­gaminho que haviam se partido e esmigalhado onde Jeremy havia retirado o livro do seu local de repouso.

"Vamos levar o Beda e aquelas páginas da Crônica", foram as ordens de Maria. "Mas todo o resto deve permanecer in situ e a entrada precisa ser lacrada de novo até conseguirmos obter uma equipe de conservação. Não podemos expor ao ar nenhum outro pergaminho." Ela observou atentamente Jeremy, que estava lim­pando os óculos com uma expressão séria no rosto. "E eu o per­dôo", ela sorriu maliciosamente. "Você talvez tenha encontrado por acaso o maior tesouro sem dono da história inglesa antiga."

Quando se viraram para sair, Jeremy percebeu uma forma anômala projetando-se sobre o mar de fragmentos de pergami­nhos. Era uma das extremidades de um rolo de pergaminho dani­ficado, algo que podia ser ainda mais antigo do que os volumes manuscritos encadernados. Ele foi incapaz de se conter e incli­nou-se para pegá-lo bem no instante em que Maria começava a se arrastar para fora.

Ele pigarreou sugestivamente e Maria olhou para trás em direção à luz brilhante de tungstênio. Ela percebeu a expressão culpada no rosto dele e depois o rolo de mais ou menos um metro colocado em cima das páginas da Crônica.

"Devemos deixá-lo", ela disse de maneira brusca.

"Não, se você ainda quiser dar aquele seminário hoje à noite."

A curiosidade de Maria foi espicaçada e ela voltou-se para ele. Jeremy havia desenrolado dez centímetros do rolo de pergaminho e segurava-o de modo que ela pudesse vê-lo. Era visível uma área onde havia um grande círculo inscrito, e dentro dele ela pôde distinguir formas esmaecidas que se pareciam com croquis e inscrições escritas com firmeza.

Maria sabia para o que estava olhando mesmo antes de se aproximar do pergaminho. Em sua própria tese de doutorado, dez anos antes, ela havia argumentado que o Mappa Mundi de Hereford era uma cópia, o trabalho de um notável artista, mas não de um estudioso. Era a única maneira de considerar o seu erro mais evidente, a palavra AFFRICA escrita no lugar de Europa e EUROPA no lugar de África. O bispo de Hereford havia encomendado o mapa a Richard de Holdingham, que preparou um projeto em sua sede, na catedral de Lincoln, mas a versão final foi completada em sua ausência por um artista, de Hereford, hábil em caligrafia e iluminuras, mas não muito instruído ou preciso. Sua ignorância se revelava nos detalhes mais finos, pelas pequenas liberdades que assumia por causa de propósitos estéticos à custa da credibilidade no que se refere a peculiaridades na ortografia e na geografia.

Agora, para seu espanto, ela sabia que estava diante do original preparado pelo próprio Richard, o cartógrafo e monge cuja visão do mundo a havia fascinado desde os seus dias de estudante. Ela olhou com reverência para o resultado criado pela mão hábil e precisa que colocara legendas por todo o mapa. Logo abaixo da mão esquerda de Jeremy, onde ele segurava o rolo danificado, encontravam-se as letras apagadas da palavra EUROPA, correta­mente colocadas sobre a França e a Itália. Ao lado de sua mão direita, com a qual ele segurava o rolo aberto, localizavam-se as formas alongadas das Ilhas Britânicas, com Hereford e Lincoln exibidas de maneira proeminente.

Quando Jeremy movimentou os dedos da mão direita para a beirada do pergaminho, Maria percebeu algo estranho.

"Meu Deus", ela ofegou. "O exergo. Ele não está aqui."

A decoração elaborada que preenchia o espaço entre a esfera do mundo e as beiradas quadradas do pergaminho no Mappa Mundi terminado havia sido, claramente, a criação apenas do próprio artista, um local para aspectos decorativos de menor interesse para Richard, embelezamentos que poderiam ter sido feitos por encomenda para satisfazer os caprichos das autorida­des da catedral. Isto explicava o bizarro desfile de imagens, desde caçadores e clérigos até referências aos imperadores romanos, que o artista deve ter colocado juntos a esmo, tirados de outros mapas e manuscritos que havia visto. No canto, Maria observou que a dedicatória que ela havia limpado com tanta dificuldade no Mappa Mundi estava faltando, então ela também devia ter sido o trabalho do artesão e não o do próprio mestre. Richard deve ter visitado a catedral para discutir a encomenda, mas claramente não havia estado presente no momento da dedicatória. Isto resolvia o mistério de como os continentes nomeados erradamente tinham podido permanecer, enganos que Richard certamente nunca teria tolerado. Ela sentiu uma pontada de desapontamento quando olhou para o espaço vazio, uma sensação de que Richard não estava mais tão seguramente ao seu alcance, que ele havia dado um passo atrás em direção às regiões sombrias do passado.

Quando Jeremy se deslocou ligeiramente, ela percebeu que no mosqueado marrom e amarelo do pergaminho, onde deveria constar a dedicatória, havia uma forma definida.

"Desloque o pergaminho para a luz", disse ela. "Há algo aqui."

A imagem apagada do desenho surgiu. Tratava-se de uma área de terra, uma imagem irregular não muito maior do que as Ilhas Britânicas, introduzida no canto do pergaminho.

"Essa terra está além do oceano exterior que circunda o mundo, de modo que ela não pode fazer parte do mapa", disse Maria. "Ela deve ser um dos esboços de Richard para um dos continentes. Olhe, é possível ver onde ele utilizou uma faca para ras­par a tinta e tentar apagar o desenho."

Jeremy estava esticando a cabeça para ver melhor, sua madeixa de cabelo loiro e liso quase tocando o rosto de Maria.

"Não tenho muita certeza", ele murmurou. "Parece algo vagamente familiar, mas não do Mappa Mundi. Talvez se eu olhar do lado certo possa ter uma melhor..."

Enquanto suas palavras eram emitidas, ambos olharam um para o outro com espanto.

"O Mapa de Vinland", sussurrou Maria.

Com o coração disparado, ela tirou sua lente de aumento e começou a examinar as linhas. Apenas poucas semanas antes eles tinham assistido a uma conferência na Universidade de Yale sobre a mais recente evidência indicando uma data para o famoso Mapa de Vinland, um desenho que agora se pensava ser uma falsificação, mas que se baseava em um mapa perdido que precedia Colombo em cerca de quinhentos anos, um mapa que mostrava um contorno da costa que, dizia-se, havia sido descoberta pelos vikings séculos antes a oeste da Groenlândia.

"É inacreditável", exclamou Maria. "É exatamente o mesmo. Aqui está o rio que conduz ao lago e o grande braço de mar mais abaixo. E a legenda parece idêntica, em latim medieval."

Com a lente de aumento, o borrão apagado no topo se tornou legível: Vinlanda Insula a Byarno repa et Leipho socijs.

"A ilha Vinland", murmurou Jeremy. "Descoberta por Bjarni e Leif ao mesmo tempo."

"Isto prova sem dúvida a autenticidade da imagem no Mapa de Vinland." Maria estava ruborizada com a excitação. "Mas se essa é verdadeiramente a mão de Richard de Holdingham, então seu mapa data de mais de dois séculos antes do Mapa de Vinland. Você pode esquecer a história inglesa antiga durante algum tempo. Você pode ter acabado de descobrir a mais antiga descrição conhecida da América do Norte."

Eles se fitaram com um assombro perplexo. O Mappa Mundi e aquele croqui datavam do século XIII, quase três séculos antes das viagens européias para a descoberta do Novo Mundo, centenas de anos antes que os primeiros mapas da costa americana fossem desenhados, conforme se pensava.

"Há outros escritos mais abaixo."

Maria tinha focalizado a parte superior da representação e deixara de registrar uma segunda inscrição meio apagada do outro lado do desenho. Ela deslocou a lente de aumento alguns centímetros para baixo.

"Isto definitivamente não está no Mapa de Vinland", disse ela. "Não está escrito em alfabeto romano, mas também não em latim ou francês. Parece mais com escandinavo antigo."

Maria passou a lente para Jeremy e segurou o mapa para ele, reconhecendo tacitamente sua perícia maior na linguagem dos vikings.

"Há uma runa curiosa aqui", ele murmurou. "Ela está colocada no início da inscrição como a letra em iluminura de um texto medieval. Uma simples haste com braços de cada lado, dirigidos para cima. Parece simétrico. Cinco, talvez sete braços no total, incluindo a haste. Muito estranho."

"Você pode distinguir mais alguma coisa?"

"Harald Sigurdsson" Ele fez uma pausa e olhou para cima. "Este é Harald Hardraade, conhecido como Harald, o Severo, rei da Noruega. Morto na batalha de Stamford Bridge em sua tentativa de tomar o trono inglês em 1066, apenas algumas semanas antes da conquista dos normandos."

"Não é possível", murmurou Maria, sem acreditar. "Continue."

"Harald Sigurdsson nosso rei com seus companheiros intrépidos alcançou essas regiões com o tesouro de Michelgard", ele traduziu lentamente. "Ali eles festejaram com Thor no Valhala e esperaram o final da batalha de Ragnarok."

Ele ergueu o olhar para Maria com descrença.

"Michelgard não era o nome viking para Constantinopla?"

Durante um instante ela ficou estupefata demais para conseguir falar. Depois, deixou o pergaminho enrolar-se e o passou para Jeremy.

"Guarde isso com extremo cuidado. Não diga uma pala¬vra a ninguém." Ela pegou o volume de Beda e com dificuldade andou apressadamente em direção à parede, pegando seu celular enquanto se movia. No momento em que ela estava prestes a curvar-se para passar, Jeremy gritou muito excitado.

"Aquela runa", ele disse. "Eu sabia que já a tinha visto antes. Ela não é absolutamente uma runa. Não posso imaginar por que diabos estaria aqui, mas só pode ser uma coisa. Ela é o símbolo da menorá judaica."

 

"É inacreditável", disse Jack. "Eu sabia que Harald Hardraade e os vikings haviam estado em Constantinopla, mas nunca sonhei que tivessem atravessado o Atlântico. Isto coloca Cristóvão Colombo na sombra de uma vez por todas."

"Você já me deixou perdido", replicou Costas. "Os vikings em Constantinopla?"

Jack tomou um gole de seu café e levantou-se. "Espere aqui."

Os dois homens haviam estado na Inglaterra por menos de uma hora, tinham pegado um vôo ao alvorecer, da Turquia para a Estação Aeronaval Real situada em Culdrose, e sido transferidos, com um helicóptero Lynx, para o campus da vizinha Universidade Marítima Internacional. Costas havia planejado esse retorno para a Inglaterra vários dias antes, sabendo que, uma vez que o escavador debaixo do fundo do mar, no Chifre de Ouro, estivesse totalmente operacional, ele seria necessário para dar assistência técnica a outro projeto de campo da IMU, no momento perto da Groenlândia. Para Jack, a decisão tinha se dado apenas na noite anterior, em seguida ao extraordinário telefonema de sua amiga Maria de Montijo, que estava em Hereford. Ele havia convocado um encontro de emergência dos funcionários da escavação e havia pedido a Hiebermeyer para assumir a supervisão arqueológica, sabendo que Maurice ficaria secretamente deliciado em aceitar um papel bem além daquele que lhe era usualmente permitido nos desertos do Egito.

"É melhor você se apressar." Costas retirou um celular de seu macacão todo salpicado de óleo e verificou uma mensagem. "Eles são esperados a qualquer momento."

Jack aquiesceu e caminhou do pátio onde estavam sentados até a porta aberta de seu escritório. Parou a fim de olhar para trás por cima da ampla curva de Carrick Roads, o sinuoso estuário que se afastava da extremidade da Cornuália em direção ao canal da Mancha e ao oceano Atlântico. Desse ponto, gerações de seus ancestrais iniciaram viagens marítimas para moldar o destino da Inglaterra e fazer fortuna. Os Howard haviam lutado com Drake contra o exército espanhol e, sob o comando de Nelson, em Trafalgar, haviam trazido riquezas das índias e mapeado os lugares mais distantes dos oceanos.

Jack sentiu uma onda de certeza invadi-lo enquanto observava a cena, sabendo que estava mantendo uma tradição de família que remontava a mil anos antes, desde a época anterior à conquista da Inglaterra pelos normandos. Fora o pai de Jack quem decidira doar a propriedade da Cornuália para a novata Universidade Marítima Internacional, mas a IMU tinha sido sonho de Jack e ele a vira dar frutos. Com um financiamento generoso dado por Efram Jacobovich, um velho amigo que se tornara magnata de software, a mansão e as construções exteriores haviam se transformado em um local de pesquisa moderno que utilizava os métodos e as tecnologias mais avançados, e rivalizava com os melhores institutos oceanográficos do mundo. Além do estuário, o velho estaleiro havia se expandido em um complexo de engenharia espaçoso, completo, com uma doca seca para os navios de pesquisa da IMU, bem como um tanque experimental para estudo com submersíveis. Em uma colina coberta por bosques, contígua ao complexo, ficava o elegante edifício neoclássico da Howard Gallery, uma das principais coleções particulares de arte do mundo e também um local para mostras itinerantes do Museu Marítimo da IMU de Cartago, no Mediterrâneo. Apenas algumas semanas antes, Jack havia inaugurado uma de suas mostras mais surpreendentes, uma exibição deslumbrante dos achados de um naufrágio minoano da Idade do Bronze que eles tinham desenterrado no ano anterior. Um pôster publicitário mostrando o disco de ouro e a magnífica escultura da cabeça de touro encontrada no naufrágio adornava a parede que dava para a porta quando Jack entrou em seu escritório, uma antiga sala de visitas do século XVI que agora era o centro das pesquisas e das explorações da IMU pelo mundo inteiro.

Alguns momentos depois Jack saía com um mapa da Europa que ele desenrolou e prendeu na mesa do pátio usando as xícaras de café. Costas puxou a cadeira para perto, enquanto Jack passava a mão pelo mapa desde a Escandinávia até o mar Negro.

"Os bizantinos os chamavam de varegues", disse Jack. "Altos, loiros, bárbaros horripilantes do Norte que serviam como mercenários na lendária guarda varegue do imperador bizantino, a sucessora da guarda pretoriana da antiga Roma. Na época de Hardraade, a guarda varegue era formada sobretudo por vikings, guerreiros nórdicos cujo comportamento justificava plenamente sua reputação. Eles saqueavam e queimavam em suas andanças ao longo do Mediterrâneo, disfarçados como servidores comuns para o imperador cristão, mas na verdade eram heróis que retornavam para a sua pátria, no Norte, cheios de histórias de derramamento de sangue e saques. Na época em que eles foram derrotados pelos cruzados, durante o saque de Constantinopla em 1204, muitos da guarda eram ingleses, descendentes dos guerreiros anglo-saxões que haviam escapado da Inglaterra em seguida à batalha de Hastings em 1066, quando William da Normandia derrotou o rei Harold da Inglaterra."

"Você quer dizer o outro Harold?", perguntou Costas.

Jack fez que sim. "Havia sangue viking em todos os concorrentes ao trono da Inglaterra em 1066. Os normandos eram homens do Norte, descendentes dos vikings que tinham se estabelecido na França no século anterior. Os ancestrais anglo-saxões do rei Harold da Inglaterra eram, eles mesmos, migrantes da Dinamarca e da Alemanha do Norte. Mas o único viking de sangue puro entre os concorrentes em 1066 era Harald Hardraade, rei da Noruega. Ele era o mais temido de todos, e tinha aprendido sua arte décadas antes como chefe da guarda varegue em Constantinopla."

Costas mediu a distância no mapa com a mão e sacudiu a cabeça. "Dista mais de três mil e duzentos quilômetros da Noruega."

"Ao mesmo tempo que os vikings estavam começando a explorar o oeste, indo para a Ilhas Britânicas e além delas, estavam também rumando para o leste", explicou Jack. "A partir do século VIII d.C., os comerciantes escandinavos começaram a penetrar nos rios da Europa central e oriental, do Vístula no Báltico até o Dnieper no mar Negro. Eles buscavam riquezas incalculáveis, os fabulosos tesouros do Oriente, uma procura por prata e pedras preciosas que os levou para a Ásia Central e bem profundamente para dentro do mundo do Islã. Finalmente eles fundaram o reino viking de Rus, a origem da Rússia moderna. De sua fortaleza em Kiev, eles estavam muito perto do lugar chamado Michelgard, a Cirande Cidade, uma jornada perigosa pelo Dnieper, mas a chave para riquezas jamais sonhadas."

"Foi assim que chegaram a Constantinopla?" perguntou Costas.

Jack sorriu. "É verdade. Se você não acreditar, basta olhar para os acúmulos de tesouros descobertos em sua pátria, a Escandinávia, cheia de moedas de prata árabes que os vikings adquiriram na troca por peles, escravos e âmbar."

Jack podia ver Costas olhando de maneira duvidosa para a distância entre a Noruega e a Istambul de hoje. "Se você ainda não estiver convencido, dê uma olhada nisto." Jack lhe passou uma fotografia em preto-e-branco que mostrava um parapeito de mármore polido, a superfície coberta com grafito antigo. "Aqueles símbolos lineares na beirada? São runas, letras vikings, provavelmente do século XI. Elas estão muito danificadas para ser decifradas completamente, mas um nome pode ser distinguido. ‘Halfdan esteve aqui', ou algo parecido. Pode adivinhar onde se encontra? A cada ano, milhares de turistas passam por ela, a urna distância que poderiam chegar a tocá-la. Está em um nicho na parede logo acima da nave de Santa Sofia, no coração da antiga Constantinopla. É quase certo que Halfdan era um dos guarda-costas varegues, e, de acordo com a data, ele pode ter sido um dos homens de Harald Hardraade."

Quando terminou de falar, um ruído que vinha do leste foi se tornando cada vez mais alto e reverberante, e um helicóptero Lynx surgiu das nuvens para logo depois descer no heliporto perto da costa. "Vou acreditar em sua palavra." Costas sorriu e devolveu a fotografia. "Bem, agora, acho que devemos cumprimentar nossos convidados."

Poucos minutos depois, os dois homens estavam nas proximidades do heliporto quando as duas turbinas Rolls-Royce Gem foram desligadas e o principal rotor do Lynx estremeceu e parou. A primeira figura a sair do compartimento de passageiros foi uma mulher surpreendentemente atraente vestindo uma jaqueta de couro e jeans, os longos cabelos castanhos presos em um coque frouxo. Maria de Montijo era uma das mais velhas amigas de Jack, fazia parte de um grupo unido que incluía Maurice Hiebermeyer e Efram Jacobovich, todos eles tendo se conhecido quando eram estudantes em Cambridge. Maria e Jack se ajudaram mutuamente em tempos difíceis e isso criara um laço estreito entre eles. Jack a envolvera no projeto do Chifre de Ouro desde o início, e fazia sentido que fosse a primeira pessoa a ser chamada por ela depois das novas sobre a espantosa descoberta na catedral de Hereford.

As morenas feições hispânicas de Maria abriram-se em um sorriso enquanto abraçava Jack e, logo em seguida, Costas. "Jack, você já conhece Jeremy, meu orientando americano de doutorado." O jovem esbelto que apareceu atrás de Maria afastou o cabelo loiro do rosto e estendeu a mão. Eles haviam se encontrado várias vezes antes, quando Jack visitara o Instituto para Estudos Medievais em Oxford, para traduzirem um manuscrito de Topkapi recém-descoberto, o relato de uma testemunha ocular sobre o cerco de Constantinopla pelos cruzados, que continha a localização exata e crucial da corrente através da enseada. Jack ficara impressionado com a facilidade de Jeremy com o grego medieval, e não tinha motivos para duvidar do julgamento entusiasmado de Maria sobre seu potencial.

"Há quanto tempo você está fora dos Estados Unidos?", perguntou Costas de maneira amigável.

"Três anos." Jeremy observou atentamente o homem baixo através de seus óculos. "Eu tenho uma bolsa de estudos esperando por mim em Princeton, mas parece que não sou capaz de ir embora deste lugar."

"Conheço esse problema", disse Costas. "Eu continuo tentando, mas a cada tentativa ele encontra algum motivo para me manter aqui." Virou a cabeça para Jack e sorriu. "Felizmente, trabalhar para uma organização internacional significa que não fico preso no laço da garoa inglesa o ano todo."

"Cavalheiros, permitam-me apresentar-lhes o padre Patrick O’Connor." Maria fez um gesto em direção ao helicóptero e eles se viraram para observar a figura que estava sendo ajudada pelo piloto. Em um contraste chocante com o traje de vôo e o capacete de piloto, ele usava a inconfundível sotaina preta dos sacerdotes jesuítas, e estava carregando duas pastas gastas de couro. Depois de acenar para o piloto, ele caminhou a passos largos, de maneira confiante, atravessando o heliporto. Colocou as pastas no chão e apertou firmemente a mão de Jack. "Doutor Howard. Encantado em conhecê-lo, finalmente. Maria contou-me tudo a seu respeito, e é claro que eu o vi na tevê logo depois das descobertas notáveis que fez no ano passado."

Jack olhou atentamente para o outro homem. O sotaque tinha um resquício de dialeto irlandês, mas podia facilmente ser de Boston. Ele supôs que O'Connor fosse um cinqüentão jovial; os cabelos que lhe restavam eram cinzentos e cortados rente, mas tinha um rosto que havia sido exposto às intempéries e o corpo saudável de um homem que não passara a vida toda em mosteiros.

"Maria contou-me que você tem um Ph.D. em história antiga da Igreja", disse Jack.

"Trinity College, Dublin, depois Heidelberg", replicou O’Connor. "Em seguida encontrei minha vocação. Passei vinte anos na América Central, sobretudo no México, fazendo o que os jesuítas fazem melhor: construindo escolas, atendendo os doentes, tentando levar a humanidade para locais onde, por vezes, é difícil encontrar qualquer traço dela."

"E depois você encontrou o mundo acadêmico de novo."

O'Connor aquiesceu. "Há cinco anos. Eu já tinha feito minhas viagens profissionais e solicitei um período de férias na Biblioteca do Vaticano. Para minha alegria ofereceram-me uma posição sob medida no Departamento de Antiguidades, como inspetor de construções antigas e arqueologia. A oferta cobria a fiscalização de tudo o que havia em Roma sob o controle do Vaticano até a época da Renascença, e me deixava com bastante tempo livre para a minha própria pesquisa. Estive em Oxford para ouvir o seminário de Maria sobre Richard de Holdingham e o Mappa Mundi, uma de minhas áreas de interesse especial. Acredito que tenho algo para oferecer."

"É essa a razão pela qual estamos aqui", disse Jack. "Vamos ao trabalho."

Depois de um rápido café no pátio, Jack os conduziu ao seu escritório. Quase toda a extensão da antiga sala de visitas estava ocupada com uma mesa de madeira maciça, a sua superfície de carvalho nodoso fora feita com madeira de lei supostamente recuperada de navios que haviam trazido os invasores normandos para a Inglaterra. Sempre que se sentava à mesa, Jack sentia o poder de sua ascendência ilustre, como se os seus ancestrais que haviam tramado guerras e viagens de descobertas, nessa mesma mesa, lhe proporcionassem uma companhia espectral e o encorajassem. Nesse momento, em lugar de compassos náuticos e mapas em pergaminho, a mesa estava coberta com instrumentos de exploração do século XXI, estações de trabalho computadorizadas e consoles de comunicações. A isto Maria acrescentou uma grande pasta dobrável em papel manilha preto, que ela deixou em uma extremidade da mesa; na outra, Jack ergueu uma tela de vídeo ligada a um laptop que ele abriu ao lado da pasta preta.

Costas chegou ofegante depois de uma visita apressada ao complexo de engenharia, e então Jack fechou a porta atrás dele e diminuiu as luzes. Maria e O'Connor sentaram-se na extremidade da mesa, com Jeremy de um lado e Jack e Costas do outro.

"Há algo que não lhes contei pelo telefone, porque queria mostrar-lhes isso pessoalmente." Maria falava lentamente, as mãos pousadas no canto da pasta dobrada de papel manilha. "O padre O'Connor estava em Oxford quando eu cheguei de Hereford na noite de anteontem, e eu o pus imediatamente a par de minha descoberta. Ele é a maior autoridade do mundo nisso que vocês estão prestes a ver."

Quando Maria estava a ponto de levantar a capa da pasta, O'Connor colocou a mão sobre a dela. "O que discutirmos aqui deve permanecer em segredo", disse ele calmamente. "Chegará o momento em que essa história poderá ser manchete de jornal, mas até lá o vazamento da menor informação poderia pôr tudo em perigo. E não estou falando apenas de arqueologia. Vidas estão em jogo aqui, talvez inúmeras vidas."

Ele soltou a mão de Maria e olhou para os outros, todos concordaram. Maria olhou de novo para ele e levantou a capa, abriu-a para revelar uma folha protetora de papel tecido sobre uma prancha branca e dura. Ela retirou o papel e eles viram a imagem que a havia paralisado no aposento perdido da catedral dois dias antes. Costas soltou um longo assobio e Jack levantou-se e esticou o pescoço para ver melhor. O velino tinha cerca de um metro quadrado, e havia sido colocado sob uma lâmina transparente de poliuretano. Mesmo depois de setecentos anos na poeira do aposento da catedral, a tinta ainda estava escura e o contorno do mapa claramente preservado.

"Fantástico", murmurou Jack. "Não tenho visto o Mappa Mundi há muito tempo, mas isto é totalmente familiar. Pode-se distinguir claramente a forma em 'T' do Mediterrâneo e o mar Vermelho dividindo os continentes, com a Ásia no topo e Jerusalém no centro. E a Europa e a África estão corretamente indicadas."

O'Connor concordou. "Não tenho dúvidas de que este é o original de Richard de Holdingham. O seu croqui, feito em Lincoln, e depois embelezado com iluminuras em Hereford. Olhe agora para o canto esquerdo inferior."

Jack já havia visto as linhas delicadas do texto e do desenho para os quais Maria apontava, mas queria primeiro compreender o mapa inteiro. Agora ele olhava atentamente para a imagem além da margem ocidental do mundo, uma imagem muito diferente da dedicatória inscrita nesse lugar no mapa de Hereford.

"Meu Deus, elas realmente são runas", disse ele, excitado. "Eu estou um pouco enferrujado, mas essa deve ser uma." Ele apontava para a menor das duas inscrições e olhou para Jeremy, que aquiesceu e recitou de memória.

"Harald Sigurdsson nosso rei com seus companheiros intrépidos alcançou essas regiões com o tesouro de Michelgard. Ali eles festejaram com Thor no Valhala e esperaram o final da batalha de Ragnarok."

"Ragnarok é a batalha mítica no final dos tempos, quando os guerreiros no Valhala buscarão a glória final", contou Maria. "A segunda inscrição e o desenho são virtualmente idênticos ao Mapa de Vinland, que mostra o contorno da costa descoberto por Leif Ericsson do outro lado da Groenlândia, por volta do ano 1000 d.C. Sigurdsson era o nome de família de Harald Hardraade. A implicação disso é que Hardraade e seus companheiros, na verdade, alcançaram a América uma ou duas gerações depois que os primeiros vikings já a tinham tornado conhecida."

"Com o tesouro de Michelgard, de Constantinopla", murmurou Jack, excitado. "É por isso que estamos aqui. Eu só queria saber o que ele levou. É muito improvável que tenha sido uma carga de navio com bronzes clássicos."

"Olhe atentamente para aquelas runas", disse O'Connor. "Então você compreenderá a razão de estarmos aqui."

Jack examinou cuidadosamente o texto de cima a baixo, desde a tinta mais nítida das linhas inferiores até as inscrições mais apagadas acima. Os símbolos pareciam ser uma versão-padrão do futhark, o alfabeto rúnico nórdico cujo nome corresponde às suas primeiras seis letras. Ele não viu nada excepcional até chegar ao símbolo apagado no início da inscrição, um símbolo que havia sido desenhado ligeiramente maior, como a primeira letra de um manuscrito com iluminuras.

Ele pegou a lente de aumento oferecida por Jeremy e inclinou-se para examinar mais de perto. "Essa, definitivamente, é estranha", ele disse. "Ela parece ser um símbolo futhark para a letra F com os braços dirigidos para cima de cada lado, só que aqui ela tem três braços em vez de dois e está repetida simetricamente do outro lado."

Jeremy sacudiu a cabeça com impaciência. "Esqueça as runas por um momento. Pense fora do padrão."

Jack ergueu os olhos e fitou Jeremy de modo inexpressivo, depois tornou a olhar o desenho. Subitamente, sua boca abriu-se e ele quase deixou cair a lente de aumento.

"A menorá?

"Foi Jeremy quem a notou primeiro", disse Maria depois de um silêncio. "Eu estava completamente envolvida com aquele mapa extraordinário."

"Uma distração compreensível", comentou Costas sorrindo para ela.

"Os ancestrais de meu pai eram judeus sefardis", replicou ela baixinho. "Expulsos da Espanha pelo rei cristão não muito tempo depois que seus cruzados estavam tentando salvar a Terra Santa. Uma das grandes ironias da história."

Jack sentou-se lentamente, seu rosto mostrava uma incompreensão espantosa.

O'Connor empurrou o laptop na direção de Jack e colocou um CD no drive. "Desculpe-me por interromper", ele disse. "Mas, se estamos falando sobre a menorá, precisamos saber algo de sua história. Acontece que o mistério do perdido tesouro judaico do templo é outra de minhas paixões especiais."

 

Momentos depois, uma visão espetacular da antiga Roma apareceu na tela, na outra extremidade da mesa. No primeiro plano, um arco de mármore, perfeitamente proporcionado, elevava-se por vários andares de altura, sua superfície corroída ornada com esculturas em relevo. Eles podiam discernir troféus, estandartes, coroas de louro e vencedores alados em pé sobre globos. No pano de fundo aparecia indistintamente a vasta fachada do Coliseu.

"O legado mais duradouro da dinastia flaviana de imperadores, Vespasiano e seus filhos Tito e Domiciano", disse O'Connor. "O Arco de Tito fica sobre a Via Sacra no centro de Roma. O Coliseu foi financiado com os espólios da Guerra dos Judeus, e inaugurado por Tito em 80 d.C. Ele foi construído perto do colosso de Nero, uma estátua monstruosa recoberta de bronze que deu o nome ao anfiteatro."

"Mas não até o período medieval", interpôs Jeremy. "O nome Coliseu aparece pela primeira vez na Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum de Beda, o Venerável, no século VIII d.C." Ele olhou encabulado para o grupo. "Um outro de nossos achados na biblioteca Hereford."

"A Guerra dos Judeus", disse Costas. "Uma outra desculpa para violação e pilhagem em escala colossal?"

"Ela foi bem terrível, mesmo para padrões romanos", replicou O'Connor. "Provavelmente uma proporção maior da população judaica foi aniquilada na guerra de 66 a 70 d.C. do que durante o holocausto nazista, ou mortos em batalha ou passados a fio de espada em uma orgia de vingança que durou mais de três anos. Mas a história é mais complexa do que se pode pensar. O Estado judeu gozou de um grau incomum de autonomia sob Roma, e houve vínculos próximos com os imperadores. O rei Herodes Agripa da Judéia foi educado em Roma e era amigo do imperador Cláudio. Uma geração mais tarde, o historiador judeu Josefo tornou-se confidente de Vespasiano, tendo trocado de lado durante a rebelião. Ele é malvisto porque os judeus nunca o perdoaram, mas seus escritos são inestimáveis, pelo fato de ter sido a única testemunha ocular a relatar a guerra e o triunfo de Roma em 71 d.C."

E o arco?

"Construído no local de um arco anterior, exatamente onde a procissão triunfal se tornou visível, pela primeira vez, para a enorme multidão que esperava no Fórum." Ele bateu numa tecla e deu um close com a lente zoom em uma inscrição no ático do arco acima da passagem. "Senatus Populusque Romanus", ele leu. "O Senado e o Povo de Roma, para o Divino Tito, filho do Divino Vespasiano, Vespasiano Augusto. Isto mostra que o arco era dedicado pelo imperador Domiciano, que sucedeu seu irmão Tito em 81 d.C. Com algumas exceções evidentes, como Nero, o título Divino só era conferido aos imperadores depois de sua morte. A escultura no teto da passagem até mostra a deificação de Tito, dirigindo-se para o céu nas costas de uma grande águia."

"O triunfo era um assunto familiar", acrescentou Jack, seu comportamento agora novamente próximo ao normal, depois do choque que experimentara ao ver o símbolo da menorá. 'De acordo com a tradição, Vespasiano era o principal oficiante como imperador na época, mas o senado romano votou um triunfo duplo ao reconhecer Tito como general vitorioso. Domiciano estava aumentando seu próprio prestígio ao honrar as gloriosas realizações de seu irmão e de seu pai."

O'Connor passou por uma seqüência de tomadas, cada uma levando-os mais para perto do arco, como se ele estivesse passeando ao longo da Via Sacra a partir do Coliseu. Através da passagem sob o arco eles puderam distinguir o coração da antiga Roma, a desordem de ruínas no antigo Fórum com suas colunas despedaçadas, vestígios de tribunais de justiça e de templos e as fortes paredes de tijolos do Palácio do Senado. Além da praça pública se localizava a colina Capitolino, onde as fundações do Templo de Júpiter ficaram enterradas debaixo do palácio medieval construído por Michelangelo e do extravagante Monumento de Vitório Emanuel que dominava o horizonte moderno de Roma.

"E agora a parte incrível", entusiasmou-se O'Connor. "É aqui que a história antiga realmente se torna viva para mim, mais ainda do que na arena do Coliseu. Quando se fica parado debaixo do arco é como se aqueles poucos momentos da alvorada, dois mil anos atrás, estivessem sendo continuamente interpretados de novo, impressos no mármore. Dá para sentir a exaltação dos vitoriosos, a fúria mal contida da multidão, o terror dos condenados. Podemos ouvir a batida do tambor, sentir a vibração da procissão. Isto nunca deixa de me dar um calafrio na espinha."

Ele parou em uma imagem de um painel em relevo carcomido. "Na parede da passagem através do arco, do lado direito, de frente para a praça", ele explicou. "Podemos ver Tito em uma quadriga, um carro com quatro cavalos, conduzida pela deusa Roma. O sacerdote atrás dele está carregando longas machadinhas, fasces, que serão usadas para sacrificar touros castrados nos degraus do Templo de Júpiter."

Ele bateu de novo na tecla. "E isto se encontra do lado esquerdo."

O'Connor reclinou-se na cadeira enquanto eles absorviam a cena. Ela mostrava-se fragmentada e gasta, mas a parte central estava suficientemente visível. Era uma das obras-primas da escultura em relevo de Roma. Do lado direito havia um arco triunfal em três quartos de vista, com duas quadrigas no topo. No segundo plano viam-se cartazes afixados sustentados no alto como estandartes, com espaços vazios onde outrora haviam sido pintadas algumas inscrições com os nomes de cidades e de povos derrotados na guerra. Debaixo das inscrições, havia a imagem que por quase dois mil anos tinha incentivado o ardor de um povo determinado a reconstruir seu templo mais sagrado, e de seus inimigos, que juraram fazer tudo o que estivesse em seu poder para impedir que isso ocorresse. Ela mostrava uma procissão de soldados vestidos com túnicas, coroados com grinaldas de vitória, carregando duas padiolas, e cada uma delas sustentava um objeto ornamentado levantado de modo que todos pudessem ver. À direita, dirigindo-se para o arco, havia uma mesa decorada com trombetas, o grande altar do Templo Judaico. A esquerda, no primeiro plano, uma forma extraordinária, mas inconfundível, uma coluna afilada com três braços de cada lado curvando-se para cima em semicírculos concêntricos, sendo que cada braço terminava no mesmo nível e era completado com um remate elaborado na forma de uma lamparina.

Costas soltou um assobio baixo. "Isso é que é castiçal."

"A menorá." O'Connor falou com uma excitação mal contida. "O símbolo mais reverenciado do judaísmo, colocado imediatamente na frente do santuário no Templo. A menorá representa a luz de Deus, e lembra as pessoas do antigo símbolo de sete braços: a Árvore da Vida. A menorá do Templo era um dos tesouros mais sagrados do povo judeu, sendo superada apenas pela Arca da Aliança."

"Era muito antiga?", perguntou Costas.

"Há os que acreditam que a menorá do Templo era a própria menorá do Tabernáculo, ordenada por Deus quando instruiu Moisés no Monte", disse O'Connor. "A tradição rabínica conta que Deus mostrou a menorá envolta em fogo, e que a luz divina irradiava em ouro puro. A primeira menção da menorá encontra-se no Pentateuco, o Antigo Testamento judaico. No Livro do Êxodo, Deus instrui os israelitas sobre a forma de seu santuário no deserto, sobre o Tabernáculo, a base do Santo dos Santos no Templo construído pelo rei Salomão em Jerusalém mil anos antes da chegada dos romanos." Ele fechou os olhos e recitou de memória. "E faça um candelabro de ouro puro. E dos seus lados sairão seis braços; três braços do candelabro saindo de um de seus lados e três braços do outro. E faça as lamparinas em número de sete, para dar luz diante dele. De um talento de puro ouro ele deverá ser feito."

"Um talento." Costas esfregou o queixo pensativo. "Isto equivalia a quanto?"

"O talento de que fala a Bíblia tinha cerca de trinta e quatro quilos, setenta e cinco libras", replicou O'Connor. "Mas não considere isso como valor nominal. Um talento era a maior unidade de peso comumente usada, e provavelmente foi empregada no Antigo Testamento de maneira figurativa, para representar o maior peso que as pessoas pudessem prontamente quantificar."

"Foram necessários pelo menos dez soldados romanos para erguer a menorá, cinco de cada lado." Costas olhava atentamente a imagem na tela. "A base parece ter pelo menos um metro de diâmetro, e estou supondo que também era de ouro. Se o arco foi esculpido apenas uma década depois do triunfo, então muitas pessoas em Roma viram o original, e assim a escultura provavelmente não é um exagero. Com a base, eu suponho que estamos olhando para cento e trinta, talvez cento e sessenta quilos de ouro, quatro ou cinco talentos pelo menos. Isso equivale a milhões de dólares com o valor dos lingotes nos dias de hoje."

"É de um valor incalculável", disse O'Connor concisamente. "Um símbolo de nacionalidade, de todo um povo. Ninguém jamais valorizará a menorá apenas em termos monetários."

"Mas esse é certamente o ponto." Jeremy voltou-se e olhou para O'Connor, sua voz nervosa, mas persistente. "Os vikings não ligavam a mínima para símbolos de nacionalidade. Costas tem razão de considerá-la em termos monetários. Na pátria dos vikings, a prata era o metal precioso predominante, e o ouro era um prêmio extraordinário. Dificilmente ele será encontrado em reservas vikings escondidas. Cento e trinta quilos de ouro assegurariam para Harald Hardraade o lugar de homem mais poderoso de toda a Escandinávia. Então, dada a oportunidade de uma pilhagem rápida, ele e seus companheiros optaram pelos maiores objetos em ouro que puderam encontrar. Substitua os vikings pelos romanos carregando a menorá e você terá o instantâneo de uma noite tempestuosa no Chifre de Ouro quase mil anos depois."

Jack concordava enquanto ouvia Jeremy falar, e sentia aumentar o respeito que sentia pelo conhecimento do jovem. "Uma imagem extraordinária. Mas, antes de nos voltarmos para os vikings, vamos tentar compreender como, diabos, a menorá foi parar em Constantinopla."

 

Meia hora mais tarde, Jack estava parado, ao lado de Maria e Jeremy, diante de um edifício das proporções de um hangar de aeronaves, uma construção de pedra tirada da beira do estuário. O'Connor havia pedido um intervalo para pesquisar algumas referências-chave no banco de dados da IMU, e Jack aproveitara a oportunidade para dar com os outros um breve passeio pelo campus. Eles tinham chegado ao complexo de engenharia justo a tempo de ver abrir-se a porta do depósito principal e um estranho dispositivo aparecer sobre a plataforma com roletes puxada pelo caminhão.

"Meu último filhote", gritou uma voz. "Venham até aqui e deixem-me mostrá-lo."

Eles olharam o interior cavernoso e viram Costas comandando uma equipe de operários atrás do caminhão; seu macacão estava coberto com uma nova camada de óleo e sujeira. Ele tinha saído do encontro ao mesmo tempo que O'Connor e achava-se agora completamente absorvido em seu trabalho. No hangar via-se uma desordem incrível de projetos técnicos, alguns ainda na prancha de desenho e outros nitidamente em estágio experimental. Através do facho de luz de um maçarico, Jack pôde perceber a forma danificada do ADSA, o Anthropod Autônomo para Mar Profundo, que o salvara do naufrágio do Seaquest apenas seis meses antes. Dispostos de cada lado encontravam-se os Aquapods, os submersíveis de um só lugar através dos quais ele e Costas viram pela primeira vez as paredes cobertas de lama da Atlântida, sua carapaça de metal ainda com faixas amarelas por causa das águas sulfurosas do mar Negro.

"Estamos quase prontos para começar a operar", explicou Costas. "Uma verificação final nos sistemas e estará pronto."

Jack e Maria abriram caminho na direção de Costas através de pilhas de aparelhagens e de projetos semi-acabados, enquanto Jeremy vinha na retaguarda. Costas levantou a mão para desligar um gerador e o ruído contínuo e sinistro cessou. Ele os chamou com um gesto por cima do dispositivo puxado pelo caminhão, o rosto brilhando de excitação. "Vocês podem ter visto algo parecido com isto em nossas fotos do Chifre de Ouro", disse ele para Maria e Jeremy. "O furão, o perfurador que funciona por baixo do fundo do mar e que estamos usando para escavar através do leito das águas até as camadas medievais. Eu ainda não tenho um nome para este dispositivo, mas ele faz um trabalho similar. Descobriram a diferença?"

"Deixe-me dar uma olhada", Jeremy estendeu o pescoço, olhando com muita atenção para a extremidade da frente do dispositivo. Ele resmungou, parou para olhar debaixo da armação e depois se endireitou, ignorando a mancha de graxa que tinha aparecido em sua jaqueta de tweed. Levantou os óculos e olhou de soslaio para Costas. "Ele corta através do gelo."

"Muito bem", Costas ergueu as sobrancelhas e piscou para Jack. "Continue."

"Ele tem um elemento elétrico ao redor da borda", disse Jeremy. "Suponho que seja um elemento superaquecido que usa materiais semicondutores, provavelmente em uma matriz de cerâmica. E a caixa atrás parece ser um aparelho laser de alta potência."

"Estou impressionado. Muito bom para um historiador da Idade Média. Você está no negócio errado."

"Quando eu solicitei a bolsa de estudos Rhodes, podia escolher entre engenharia ou anglo-saxões, nórdicos e celtas. Minha escola era muito conservadora."

"Você escolheu o que ninguém quer fazer."

"Eu discordo", disse Maria. Todos riram e Jeremy olhou tristemente para o dispositivo. Costas bateu com a mão cheia de óleo nas costas de Jeremy e voltou-se para Jack.

"Estamos despachando o dispositivo, por via aérea, esta noite", ele disse, agora sério. "Recebi um telefonema de James Macleod alguns minutos atrás e ele disse que as condições do gelo são perfeitas. Se esperarmos um ou dois dias, o derretimento por causa do verão pode tornar o experimento muito arriscado. Estou voando para a Groenlândia amanhã de manhã para supervisionar a instalação do aparelho. E há algo mais. Ele mencionou um velho do lugar que afirma ter visto no gelo madeiras de lei que pertenceram a navios antigos. Algo relacionado com expedições européias que voltaram, antes da Segunda Guerra Mundial. Macleod estava convencido de que você deveria ver o sujeito e depressa. Aparentemente ele está bastante debilitado. Sei que isso acarreta um bocado de desvio na sua viagem de volta a Istambul, mas você pode querer dar uma olhada de perto."

Ao voltar ao escritório, Jack pegou o celular e girou a cadeira de modo a ficar de frente para a mesa de conferência. Depois de conversar com Maurice Hiebermeyer e Tom York no Sea Venture, sentiu-se mais tranqüilo, certo de que a escavação no Chifre de Ouro poderia continuar por quarenta e oito horas sem sua presença. O prêmio maior, ele sabia agora, poderia estar em outro lugar, onde nunca teria imaginado, mas o Chifre de Ouro podia ainda conter tesouros de inestimável valor histórico. Depois da descoberta do canhão e da corrente, a equipe estava bastante eufórica e já havia começado a usar a sonda para penetrar nos sedimentos do ancoradouro, mas isto vinha sendo feito sem um prévio planejamento e poderiam se passar dias antes que eles tivessem sucesso.

"Muito bem", disse Jack. "O que vocês conseguiram?"

O'Connor sentou-se com um pequeno livro de capa verde aberto diante de si, onde se via um texto em grego de um lado e um em inglês do outro. Costas havia se desculpado por não comparecer, mas Maria e Jeremy sentaram-se cheios de expectativa ao lado de Jack.

"Em seu livro As Guerras dos Judeus, Josefo nos conta que Vespasiano trancou os tesouros no Templo de Júpiter", começou O’Connor. "Mas nós sabemos que eles foram transferidos para o Templo da Paz quando este ficou pronto, alguns anos mais tarde, ainda no reinado de Vespasiano. Depois disso, a menorá não foi mencionada durante centenas de anos."

"Mas certamente o imperador deve ter desejado exibir seu saque em todas as oportunidades, nos desfiles e festivais da cidade", protestou Maria.

"Vespasiano era a personificação suprema das virtudes imperiais dos romanos", interpôs Jack. "Conquistar, estabilizar, construir. Quando jovem, ele havia comandado uma legião durante a conquista da Grã-Bretanha, e como imperador supervisionou a conquista da Judéia. Em seguida ele estabilizou o império depois do reinado desastroso de Nero. Então estava inteiramente absorvido pelas construções. O Templo da Paz, os monumentos em praça pública danificados pelo grande incêndio em 64 d.C., no reinado de Nero, sobretudo o Coliseu. Ele não precisava proclamar seus triunfos em altos brados."

"Pode haver outras razões", disse O'Connor cuidadosamente. "Vocês sabem, há um aspecto estranho no relato que Josefo faz sobre o triunfo: ele relata apenas a execução de Simão, o carismático líder judeu que foi levado acorrentado para Roma. Não há nada acerca do destino das centenas dos demais judeus capturados, homens, mulheres e crianças. Alguns de nós acreditamos que houve uma orgia de assassinatos no final da procissão, uma cena tão aterrorizante que Josefo não conseguiu descrevê-la. Afinal, aquele era o seu povo, e ele nunca renunciou à fé judaica. Quando Vespasiano assistiu ao massacre, ele também condenou a cena. O imperador era um soldado velho e rijo, tão cruel com seus inimigos como qualquer romano, mas era bem conhecido por seu ódio contra o derramamento de sangue gratuito. Talvez ele tenha inventado um mau augúrio como desculpa para nunca celebrar de novo o triunfo contra os judeus, instruindo em segredo os sacerdotes para manter a menorá trancada para sempre."

"E assim os vestígios desaparecem", disse Maria.

"Tudo o que temos para prosseguir está em Procópio." O'Connor mostra o livro à sua frente. "Ele foi uma testemunha ocular da última grande tentativa para reunir o Império Romano, quando o general Belisário recapturou Roma dos vândalos e godos que haviam infestado as províncias ocidentais no século V d.C."

"Surpreende-me que a menorá tenha sobrevivido por tanto tempo em Roma sem ser roubada", disse Jack. "Aqueles não foram exatamente séculos de paz e harmonia. Pense em Cômodo, o filho demente de Marco Aurélio. Ele pensava ser o deus Hércules e derreteu a maior parte do tesouro imperial para pagar torneios de gladiadores. Ou a anarquia do século III, quando houve mais de trinta imperadores em cinqüenta anos. O Templo da Paz era um repositório bem conhecido de espólios de guerra, e suas tesourarias certamente foram abertas para encontrar ouro com que pagar os exércitos mercenários de cada novo pretendente ao trono."

"Realmente." O'Connor fez uma pausa, depois olhou de modo penetrante para Jack e baixou o tom da voz. "Devo pedir-lhe para manter o que vou dizer dentro destas quatro paredes. A resposta está olhando para nós na imagem do Arco de Tito. Nos anos 1970, uma inspeção feita com sonar por uma equipe de conservação revelou um aposento secreto no ático, atrás da inscrição com dedicatória."

O queixo de Jack caiu. "Você está sugerindo que a menorá estava escondida dentro do arco?"

O'Connor hesitou de novo, depois procurou algo dentro de sua sotaina e retirou um envelope marrom. "Poucos sabem que o Arco de Tito está sob o controle do Vaticano, um dos muitos monumentos antigos em Roma consagrados pela Igreja na Idade Média como uma forma de estampar a autoridade do papa em tudo que era pagão. Meu predecessor no Departamento de Antiguidades do Vaticano tentou incessantemente conseguir que abrissem o aposento, mas a cada vez sua solicitação era rejeitada pelos cardeais. Acredito que a sua persistência foi a principal razão paia que o demitissem do Vaticano. Eu finalmente consegui isso no mês passado durante o programa de trabalho habitual de reparação no arco. Uma noite, o chefe da Conservação e eu estávamos sozinhos no andaime inspecionando o andamento dos serviços, e uma pedra contígua ao aposento caiu. Um acidente, é claro, você compreende."

Jack ergueu as sobrancelhas enquanto O'Connor retirava ama fotografia do envelope e a estendia para o outro lado da mesa, sua mão conservando-se sobre a foto enquanto olhava para Jack. "Não é apenas o meu trabalho que está em jogo aqui. Há mais, muito mais."

Maria e Jeremy estenderam o pescoço enquanto Jack pegava a fotografia. Ela mostrava uma imagem tirada com luz de lanterna dentro de um pequeno aposento, as paredes polidas e descoloridas com faixas marrons e verdes. No chão havia restos de matéria apodrecida, salpicada com fragmentos de madeira e tecido. Parecia ser a tumba de um faraó egípcio aberta pela primeira vez, depois de ter sido saqueada muito tempo antes na Antiguidade.

"Eu consegui entrar lá dentro e peguei um punhado daquele material, que analisei secretamente", disse O'Connor tranqüilamente. "Era madeira de acácia, a madeira dura mencionada no Antigo Testamento. Foi provavelmente usada para fazer uma padiola, algo que requeria bastante força para sustentar peso. E a seda era tingida com a púrpura de Tiro, o valioso corante derivado da concha marinha encontrada nas costas do Líbano."

"Meu Deus", murmurou Maria. "O Véu do Templo, o cortinado sagrado do Santo dos Santos, usado para ocultar o santuário do resto do Templo."

O'Connor concordou. "Provavelmente utilizado pelos romanos para envolver a menorá e a mesa de ouro."

"Nesse caso, elas estavam dentro do arco todo o tempo, diretamente acima do símbolo da menorá na escultura em relevo." Jack sacudiu a cabeça com espanto. "Os sacerdotes devem tê-las transportado do Templo da Paz, sob o segredo da escuridão, para muito perto, ao alcance de uma pedrada."

"E então, centenas de anos depois, um dos zeladores deixou escapar o segredo, talvez usando a revelação do tesouro como um meio de troca vantajoso para salvar sua própria pele quando houve a invasão dos bárbaros", disse O'Connor. "Roma foi devastada pelos godos, sob o comando de Alarico, em 410 d.C., e depois de novo pelos vândalos em 455. De acordo com Procópio, o rei vândalo Giseric capturou os tesouros judaicos e levou-os para Cartago, no norte da África, e depois o general bizantino Belisário tirou Cartago dos vândalos em 533 e enviou os tesouros, por navio, para Constantinopla. Procópio nos conta que o imperador bizantino Justiniano foi dominado pela compaixão e devolveu os tesouros para Jerusalém, mas não acredito em nada disso. Não há registro confiável de que os tesouros do Templo estejam de novo na Terra Santa."

"Então a menorá realmente estava em Constantinopla." Maria olhou atentamente para O'Connor. "Será que a história de seu retorno para Jerusalém foi uma ocultação da verdade, uma pista falsa?"

"É muito provável", replicou O'Connor. "Procópio se tornou o chefe da prefeitura de Constantinopla, e era membro da corte interna de Justiniano. Os rituais e as superstições da Roma pagã continuaram durante o período cristão, e os imperadores da idade dourada eram venerados. Talvez as instruções de Vespasiano para ocultar a menorá ainda tivessem poder através dos séculos, e a história do retorno dos tesouros para Jerusalém fosse uma maneira de manter secreta sua presença em Constantinopla. E simplesmente o fato de os bizantinos serem cristãos não significava que eram mais simpáticos aos judeus do que os romanos dos dias de Vespasiano. Acredito que a menorá ficou trancada por mais quinhentos anos, talvez bem profundamente nas catacumbas da nova catedral de Justiniano, a Santa Sofia em Constantinopla."

"Há quem acredite que os tesouros judaicos nunca saíram dc Roma, mas que foram secretamente capturados pelas autoridades papais e estão escondidos até hoje no Vaticano." Jack lançou um olhar penetrante para O'Connor, sem saber quanto o outro homem podia revelar. "Mesmo antes das invasões bárbaras, a Igreja tinha começado a se apropriar de templos em Roma e a despojá-los de seus artefatos, logo depois da conversão de Constantino ao cristianismo no século IV d.C."

O'Connor fez uma breve pausa antes de replicar com voz baixa, mas deliberada. "É verdade que o Vaticano oculta tesouros, Obras de arte de valor inestimável que não são vistas há gerações. Há passagens fechadas nas catacumbas de São Pedro que nem eu cheguei a ver." Ele olhou solenemente para Jack. "Mas posso lhe assegurar que a menorá não se encontra entre esses tesouros. Se fosse assim, eu não estaria aqui, agora. As autoridades papais me teriam feito jurar manter segredo. Lembre nossa história. Os tesouros do Templo judaico representam o último triunfo da cristandade, retribuição pela cumplicidade dos judeus na morte de Cristo. Se nós os mantivéssemos, isso deveria ser o segredo mais bem guardado do mundo. Qualquer informação que vazasse e haveria guerra."

"Guerra?" perguntou Jeremy, cético.

"Total ruptura nas relações entre o Vaticano e Israel. Animosidades antigas entre judeus e cristãos prevaleceriam através do mundo, reacendendo o anti-semitismo e o ultra-sionismo em uma escala terrível. E se o tesouro retornasse a Jerusalém, ele acenderia a faísca da luta final no Oriente Médio que tememos há muito tempo. Alguns judeus ortodoxos acreditam que a restituição da menorá para Jerusalém seria o primeiro passo para a reconstrução do Templo, no lugar atualmente ocupado pela mesquita Al-Aqsa, um dos locais mais sagrados do Islã. A menorá daria a Israel total confiança no seu destino, conferindo poderes aos fundamentalistas e persuadindo os indecisos. E o mundo árabe saberia de uma vez por todas que suas exigências nunca seriam alcançadas por meio de negociação."

"É curioso que os nazistas nunca tenham vindo procurar os tesouros em Roma", disse Jack.

"A Segunda Guerra Mundial foi um período negro para a Igreja", disse O'Connor de maneira severa. "O papa nunca deu a Hitler uma desculpa para saquear o Vaticano. Mas houve muitos outros batendo às nossas portas desde então. Sionistas fantasiosos, teóricos de conspirações, caçadores de tesouros que acreditam estar no caminho para encontrar o Santo Graal. Eu posso lhes assegurar que todos eles entraram em becos sem saída."

Naquele momento houve um alvoroço e Costas irrompeu na sala. "Sinto interromper", disse ele, ofegante. "Mas acho que você deve ver isto." Apressou-se em entregar um pedaço de papel para Jack. "Lembra-se daquelas madeiras com a corrente no Chifre de Ouro? Você achou que elas pareciam um pouco estranhas."

"Camadas superpostas, unidas com rebites de ferro." Jack se esforçou para desviar sua mente da menorá e focalizá-la no achado do dia anterior. "São mais encontradas na tradição de construção de navios na região noroeste da Europa durante o início do período medieval. Seria uma construção estranha para uma galera de Veneza de 1453."

"Bem, aqui está sua resposta." Costas inclinou-se para a frente, muito excitado. "A amostra que tiramos acaba de ser analisada. Trata-se de carvalho escandinavo. E é da proa de um drakar viking, não de uma galera do Mediterrâneo. Parece que ele se partiu na corrente, provavelmente sem provocar o afundamento do barco. E verifique a data calculada pelos anéis da árvore."

"1042, um ano a mais ou a menos", leu Jack, com a mente perplexa e espantada.

Jeremy soltou um grito e levantou-se, incapaz de conter-se. "Isto se ajusta perfeitamente! Harald Hardraade escapou de (Constantinopla em 1042. Seu navio pode ter sido construído um ano antes, nas praias do Báltico. Vocês não encontraram a corrente do saque de Constantinopla de 1204. O que vocês encontraram foi a corrente afundada por um bando de mercenários vikings Um século e meio antes, quando eles aumentavam a propulsão do barco para sair do Chifre de Ouro."

Costas olhou para a imagem dos soldados carregados com o saque na procissão triunfal sob o arco. "E agora sabemos o que podia ter fornecido ao seu barco o peso para quebrar aqueles grilhões."

"A menorá." Jack sacudiu a cabeça e depois sorriu ampla-mente para Costas. "Eu devo cumprimentá-lo por isso. E também à ciência."

 

Jack olhou pela janela ao seu lado enquanto a aeronave se inclinava a estibordo e a visão da extensão do oceano aparecia dramaticamente. O céu estava claro e sem nuvens nesse início de manhã, e o sol iluminava as ondas cerca de nove mil metros abaixo. Fazia meia hora, desde que tinham feito uma parada para reabastecer em Reykjavik, que não viam terra, mas, depois de passarem pelo Círculo Ártico, o mar tornou-se cada vez mais salpicado de branco. Algumas das formas eram enormes, grandes placas brancas circundadas por turquesa onde o iceberg continuava por centenas de metros debaixo da água. Agora os icebergs estavam unidos pelo mar de gelo, um mosaico rachado de branco até onde a vista conseguia alcançar, e Jack pôde distinguir as primeiras extensões de terra adiante deles, na direção oeste. Ele inclinou-se para a ocupante do assento à sua frente e apontou pela janela.

"Dá para ver a calota de gelo da Groenlândia."

"É de tirar o fôlego."

O rosto de Maria estava radiante de excitação, e Jack sentiu de novo que fizera bem em convidá-la para vir com eles. Depois que O'Connor viajara para Roma, três dias antes, Jack telefonara a James Macleod para avisar que acompanharia de perto o trabalho de Costas e sua descoberta no gelo. Havia mais, muito mais, um desenvolvimento de fatos excitantes nos últimos dias que agora tornava a visita de Jack imperativa. O furão de gelo havia trazido uma amostra que tornava o relato de um navio enterrado no gelo algo mais concreto do que uma simples lenda local. Jack também ficara sabendo de um achado que necessitaria da perícia de Maria e Jeremy, e ambos ficaram contentes com a oportunidade de juntar-se a ele, durante alguns dias, em um dos principais navios de pesquisa da IMU, para um dos mais extraordinários projetos que jamais haviam empreendido.

Agora todos se encontravam acomodados em um Embraer BEM-145XR reformado, o jato regional da IMU usado para transporte pessoal ao redor do mundo. Do outro lado do corredor, Jeremy estava curvado atrás de uma pilha de papéis e livros, digitando tranqüilamente em um laptop. Jack fechou a Introdução ao escandinavo antigo que estivera lendo e olhou pela janela. Durante os últimos dias tinha ficado absorvido por Harald Hardraade, alimentando uma paixão de criança. Do lado da família de sua mãe, Jack descendia do povo da costa de Yorkshire, alto, loiro e com um sotaque que ainda retinha um ritmo escandinavo, e Jack sempre sentira uma forte afinidade com seus ancestrais nórdicos. Harald Hardraade era o maior de todos os heróis vikings, no entanto a sua vida não fora completa. Um homem que seria rei, cujo destino parecia demasiado grande para ser realizado mesmo por ele. Com uma decisão rápida, Harald poderia ter ganhado a batalha de Stamford Bridge e a história da Inglaterra e do mundo inteiro leria sido diferente. Jack havia dirigido sozinho, no dia anterior, até o lugar perto de York, tinha caminhado pelos campos barrentos procurando o local onde Harald havia empunhado sua acha-de-armas pela última vez. Ele sentiu-se próximo de Harald, quase sentira uma presença, no entanto voltara estranhamente insatisfeito. Algo não estava muito certo.

Defronte a ele, na aeronave, Costas estava afundado no assento, roncando espasmodicamente, a cabeça pendendo devagar ale o peito e depois erguendo-se de novo. Ele ficara durante toda a noite no laboratório de engenharia, aperfeiçoando a explorado no gelo, e ainda vestia seu macacão da IMU favorito e já bem esfarrapado. Com a barba curta e o cabelo emaranhado, parecia-se mais do que nunca com seu avô, um pescador de esponja grego que fizera fortuna com exportações, mas que havia insistido para que a família permanecesse próxima às suas raízes. Era um legado que Costas havia involuntariamente desenvolvido com a habilidade de um artista.

Jack sorriu para Maria quando Costas roncou e se mexeu, e ambos desviaram o olhar para a janela. A costa da Groenlândia oriental apareceu como uma linha irregular de rochas entre o mar e as camadas de gelo, os afloramentos expostos de granito envolviam braços de mar cheios de placas brancas espalhadas. Logo eles se encontraram diretamente sobre a própria capa de gelo, um carpete de um branco brilhante que ondulava até o horizonte, sua superfície pontilhada com bolsões de água derretida que brilhavam como pedras de turquesa na manhã ensolarada. Era uma das paisagens mais ameaçadoras do mundo, no entanto possuía uma beleza que evocou o explorador em Jack e o fez compreender o que impulsionara os aventureiros nórdicos que pela primeira vez navegaram para essas praias mil anos atrás.

"Há uma coisa que não compreendo." Costas havia despertado subitamente com um solavanco, como se não tivesse havido um hiato na conversa que estavam tendo uma hora antes. "Harald Hardraade foi morto na Inglaterra, em 1066. Certo? Então, como a inscrição no mapa sugere que ele morreu em algum outro lugar?"

Jack lançou um olhar espantado para Costas e ambos fitaram Jeremy, que estava desarranjando uma pilha de papéis e parecia completamente absorto em seu trabalho.

"Jeremy?", chamou Maria.

"Hum?"

"A batalha de Ragnarok na inscrição no mapa. Como isso se ajusta com o fato de Harald ter morrido na de Stamford Bridge?"

"Oh, o fraseado, provavelmente, era apenas figurativo", disse Jeremy descartando o fato. "Todos os guerreiros vikings mortos em batalha vão para o Valhala, onde servem a Odin e esperam a prova final contra a maldade, em Ragnarok. O Valhala era concebido como estando a oeste, além da borda do mundo. A inscrição não implica necessariamente que Harald e seus homens morreram ali."

"E o tesouro de Michelgard?"

"Receio não poder ajudá-la com isso."

"Jeremy, você está com meu exemplar de Sturluson?" Havia um toque de irritação na voz de Maria quando Jeremy lhe estendeu um livro sem olhar para ela, sua atenção de novo focalizada no computador. Maria pegou o livro e o entregou para Costas. A capa trazia a imagem de um cavaleiro montado em seu cavalo, usando uma armadura de cota de malha e um capacete descerrado bem ajustado, com proteção para o nariz, e carregando um grande escudo losangular.

"Parece um cruzado", disse Costas.

"Você não está longe", replicou Maria. "É uma cena de uma tapeçaria na Noruega, que data do século XII, cerca de cem anos após a morte de Harald. Mas, na ausência de qualquer retrato dele, isso dá uma boa idéia do aspecto de Harald e seus homens. A guarda varegue em Constantinopla era formada por vikings, de nascimento e educação, e eles traziam consigo a terrível acha-de-armas dos nórdicos. A acha era a matéria-prima que constituía as lendas de homens altos, implacáveis, apavorantes na batalha. Os varegues tiraram vantagem da reputação de seus ancestrais, vikings que tinham violado e pilhado em todos os lugares por onde passaram na Europa ocidental, e haviam até navegado pelo Mediterrâneo para aterrorizar a Itália e a França. Mas os varegues também eram bons indivíduos cosmopolitas que passaram a vida adulta em Constantinopla, a cidade mais sofisticada no mundo medieval, servindo aos imperadores bizantinos. Suas armaduras e os ornatos de efeito não pareceriam deslocados nas cruzadas, e teriam falado tanto grego como escandinavo. Harald Hardraade chegou mesmo a tomar parte em operações militares na Terra Santa."

"Na Terra Santa?" Costas pareceu incrédulo. "Mas eu pensei que as cruzadas não haviam começado antes do final do século XI. Quer dizer, uma geração após a morte de Harald!"

"Você poderia chamar Harald Hardraade de o primeiro cruzado", disse Maria com os olhos brilhando de entusiasmo. "Ele nasceu pagão, e certamente não estava procurando redenção por seus pecados, mas serviu aos interesses da Igreja cristã na Terra Santa. Você deve entender, Costas. As cruzadas como as conhecemos são apenas uma parte da história, contada a partir do ponto de vista ocidental. A Igreja bizantina e seus guerreiros vinham tentando tirar o controle que os árabes exerciam na Terra Santa havia séculos. No ano 1036, o imperador bizantino Miguel concluiu um tratado com o califa do Egito para permitir a restauração da igreja do Santo Sepulcro, o santuário erguido sobre o lugar da sepultura de Cristo em Jerusalém. Um ano mais tarde, Harald Hardraade conduziu a guarda varegue para escoltar os artesãos até Jerusalém. A cena poderia ter saído direto das cruzadas, cavaleiros altos e loiros curvados sob o peso da armadura movendo-se através do deserto, exceto que Harald estava sendo bem-sucedido em pacificar a Terra Santa. Todas as cidades e castelos da Palestina se renderam a ele sem uma luta sequer, e ele libertou as estradas dos ladrões e bandidos. Ofereceu tesouros para o santuário do Santo Sepulcro, provavelmente sob as instruções do imperador bizantino. Ele até se banhou no rio Jordão, como todo bom peregrino."

"Você pode levar o caso adiante." Jeremy havia abandonado seu trabalho e estava agora totalmente centrado em Maria. "Depois de Jerusalém, Harald Hardraade participou de operações militares durante três anos no interesse do imperador bizantino no Mediterrâneo central, na Sicília e na Itália. Naquela época, a Sicília era um emirado islâmico, capturado pelos árabes na grande guerra santa dos maometanos, quando as armadas muçulmanas tomaram a Terra Santa e foram vitoriosas até a Espanha. Harald estava liderando um exército sob o estandarte da cruz contra os infiéis, para pedir terras para a Igreja. Os bizantinos chamavam seus inimigos de sarracenos, os mesmos oponentes que os cruzados enfrentaram algumas gerações mais tarde. A guerra de Harald era a de cristãos contra muçulmanos, a primeira e a maior explosão do conflito que inflamou os cruzados e continua até hoje. Hardraade era o líder mais temido de todas as forças cristãs, mais ainda do que Ricardo, Coração de Leão, e Balduíno de Flandres nas cruzadas. Para os árabes, Hardraade era Ra'd Shamaal, o Trovão do Norte."

"Ele não era qualquer um", murmurou Costas. "E você disse que ele era originalmente da Noruega?"

Maria acenou com o livro que havia pegado de Jeremy. "Esta é a nossa fonte principal, A saga do rei Harald, escrita por um poeta da Islândia, Snorri Sturluson, no início do século XIII. Faz parte da Heimskringla, a história dos reis da Noruega. Ele nos dá a única descrição de como era Harald: imensamente alto, cabelos e barba loiros, e longos bigodes, um viking clássico. O autor conta que ele nasceu Harald Sigurdsson, no ano de 1015. Depois adotou o nome Hardraade, literalmente 'Monarca Inflexível', Harald, o Severo. Sua doutrinação nos métodos de guerra começou cedo, aos quinze anos, quando lutou ao lado de seu meio-irmão rei Olaf, o Santo, na batalha de Stiklestad contra o exército norueguês rival. Olaf foi morto e Harald escapou para o leste em exílio, primeiro na Suécia e depois em Novgorod e Kiev para servir como mercenário para o rei Iaroslav de Rus."

"Como ele foi para Constantinopla, então?", perguntou Costas olhando para o mapa.

"Bem, as pilhagens eram mais ricas ali. Com dezoito anos, Harald chegou a Constantinopla para juntar-se à guarda varegue. Ele ascendeu rapidamente para ser atrologus, chefe da guarda, e durante nove anos saqueou através do Mediterrâneo em nome do imperador bizantino. Em 1042 fugiu de Constantinopla. Ele estava abarrotado com os saques que havia feito e reclamou o trono da Noruega. Vinte e quatro anos mais tarde, durante os quais ele devastou a Dinamarca e governou a Noruega com mão de ferro, sua ambição dirigiu-o para o fatal encontro com o rei Harold da Inglaterra na batalha de Stamford Bridge. Foi uma carreira encharcada de sangue do começo ao fim, mas ao longo do caminho Harald defendeu seu patrimônio hereditário e tornou-se um dos governantes mais temidos e mais ricos no mundo medieval."

"É provável que tenha visitado Vinland", murmurou Jack. "A Islândia e a Groenlândia eram predominantemente colonizações nórdicas, descobertas pelos vikings noruegueses, e um rei como Harald Hardraade gostaria de exercer sua influência sobre elas. O fator glória também deve ser considerado. Uma viagem para Vinland teria sido um feito ousado que aumentaria ainda mais a sua reputação de guerreiro destemido e aventureiro."

"Ele não seria o único grande homem a tentar isso", disse Maria. "Os anais da Islândia mencionam um bispo da Groenlândia que iniciou uma viagem para Vinland. Ele desapareceu para sempre, sumiu da história."

"Isso não parece se encaixar." Jack parecia perturbado. "Se Harald fez uma viagem para Vinland, então ele sobreviveu, retornando para a Noruega a tempo de participar da batalha em 1066. Ele teria tudo a ganhar em proclamar seu sucesso, declarando sua pretensão sobre as colônias vikings ocidentais e exaltando sua coragem. Essa é a matéria-prima das narrativas épicas, no entanto não há nada disso na Heimskringla. Tudo o que temos é uma referência secreta num mapa na catedral de Hereford. Isso não faz sentido."

"Seu tesouro, os bens que ele saqueou com os varegues", disse Costas. "O que sabemos sobre isso?"

"É uma história fantástica." Maria folheou o livro até encontrar uma página e deixou-o aberto. "Escutem isto: Seu acúmulo de tesouros era tão imenso que ninguém na Europa setentrional havia visto coisa parecida de posse de um só homem antes. Durante sua estada em Constantinopla, Harald por três vezes tomou parte na pilhagem de palácios: era costume então, quando um imperador morria, os varegues terem a permissão de saquear o palácio — eles eram designados para esquadrinhar todos os palácios onde os tesouros do imperador eram mantidos e pegar livremente tudo sobre o que pudessem pôr as mãos."

"Acho que é o preço que é preciso pagar para manter a lealdade dos mercenários", disse Costas.

"Isto significa que os varegues não apenas tinham tudo o que pudessem carregar dos palácios sempre que um imperador morria, mas também que eles conheciam a localização dos tesouros que permaneciam fora de vista. Afinal, seu trabalho principal em Constantinopla consistia em defender o tesouro imperial. Mas o relato de Snorri sobre o saque aos palácios é sem dúvida exagerado, algo que agradaria aos leitores vikings. Os maiores tesouros devem, é claro, ter permanecido trancados a sete chaves."

"Você está falando sobre a menorá", disse Costas.

Maria concordou com veemência. "Mas espere o resto da história. Ela fica melhor ainda. Em 1042, depois de mais de uma década a serviço do imperador, Harald já estava farto de operações militares. Ele já conseguira toda a fama e saques que desejava, e estava inclinado agora a reivindicar a Noruega. Assim, quando do seu último retorno das guerras para Constantinopla, ele renunciou à chefia da guarda varegue. O imperador, Miguel Calafates, era um homem fraco que parece ter concordado com isso, mas a imperatriz Zoé ficou furiosa. Ela já tinha um ressentimento contra Harald. Aparentemente ele havia pedido para se casar com sua bela sobrinha, Maria, mas Zoé recusou. A história contada depois pelos varegues diz que a própria Zoé desejava Harald, e foi por essa razão que ela ficou tão aborrecida quando soube que ele queria partir de Constantinopla."

"Um triângulo amoroso", zombou Costas. "O Trovão do Norte finalmente encontrou seu par."

"Harald foi atirado à prisão, mas obteve sua liberdade através de uma dama misteriosa, talvez outra amante. A história prossegue contando que Harald convocou seus varegues e que eles impuseram um castigo terrível ao imperador, cegaram-no em sua própria cama. Na mesma noite, Harald irrompeu no quarto de Maria e a raptou. Snorri conta a seguir: Eles foram até onde estavam as galeras varegues e pegaram duas delas. Remaram para o Bósforo, onde chegaram até as correntes de ferro que se estendiam através do estreito. Harald disse a seus remadores para remarem com toda a força, e, aos outros, que corressem para a parte de trás da galera com todos os equipamentos. Dessa maneira, as galeras passaram por cima das correntes. Logo que a força cinética foi gasta e eles ficaram empacados em cima das correntes, Harald disse aos homens para correrem para a frente, para a proa. A galera de Harald, com o peso, inclinou-se para a frente e escorregou para fora das correntes; mas a outra galera ficou presa nas correntes e quebrou na parte de trás. Muitos tripulantes pereceram, mas alguns foram salvos do mar."

"É isso aí", disse Jeremy, excitado. "O que eu estava dizendo ontem. As madeiras que vocês encontraram na corrente no Chifre de Ouro eram do segundo navio de Harald. Snorri não diz que ele, na verdade, afundou, o que explica que você só tenha encontrado a madeira quebrada na corrente. A caveira com o capacete deve ser de um dos varegues afogados."

"O que aconteceu com a sua xará?", perguntou Jack a Maria.  

"De acordo com Snorri, Maria foi libertada incólume quando eles alcançaram o mar Negro, e até lhe foi dada uma escolta para voltar a Constantinopla. Talvez o seu seqüestro tenha sido a maneira que Harald usou para mostrar o seu desprezo para Zoé, mas ele já tinha mudado de idéia e estava planejando casar-se com a filha do rei Iaroslav, Elizabeth, provavelmente sua namorada em Kiev antes que se juntasse aos varegues." Maria sorriu para Jack. "Mas outros pensam que Maria ficou com ele, e foi sua amante e seu verdadeiro amor até o final."

"Então você acha que a menorá foi roubada na mesma noite?" Persistiu Costas.

"Sim. Se os varegues tiveram tempo de raptar Maria, também tiveram tempo de apanhar o maior tesouro proibido que sabiam que deveria estar em Constantinopla."

"Isso talvez explique o símbolo da menorá no mapa que está em Hereford." Costas desviou o olhar, perdido em pensamentos. "Se os vikings estavam apenas interessados no tesouro como metal precioso, então parece estranho que a forma da menorá ainda tivesse significado anos mais tarde quando Richard de Holdingham escreveu aquela inscrição rúnica. Talvez o fato de ser um tesouro proibido, e não uma pilhagem de palácio, tivesse dado maior significado para a menorá. Ela pode ter se tornado um símbolo das proezas de Harald, sua virilidade, um espólio resultante de vitória como nos dias de Roma, para ser continuamente proclamado em altos brados pelos vikings em narrativas épicas e festejos. Quando eles voltaram para suas casas, a história daquela última noite em Constantinopla deve ter proporcionado aos varegues ofertas de drinques ilimitados pelo resto de suas vidas."

Todos se voltaram para Jeremy, que desviou o olhar e fitou o computador, depois olhou diretamente para Costas. Esperou um momento antes de falar, seu tom estava estranhamente perturbado. "Você provavelmente tem razão. Mas esta pode ser apenas uma parte da história."

Naquele momento, a voz do piloto chegou pelos alto-falantes da cabine para anunciar que eles estavam descendo em Kangerlussuaq, a antiga base aérea dos Estados Unidos que agora servia como principal centro internacional da Groenlândia na costa oeste. Jack olhou pela janela e viu que eles tinham cruzado a borda da calota de gelo da Groenlândia e estavam agora se aproximando do estreito de Davis, o amplo canal de oceano entre a Groenlândia ocidental e o arquipélago ártico do Canadá. Abaixo deles encontravam-se fiordes sinuosos e extensões de verde que subitamente faziam que a colonização dessas margens pelos vikings se tornasse plausível, um pensamento inconcebível na estéril costa leste. Quando a aeronave se inclinou lateralmente e virou para o leste, eles se alinharam com o braço de mar mais comprido de todos, Sondre Stromfjord, onde se situava a desolada e gélida colônia de Kangerlussuaq espalhada pelo vale na sua cabeceira. Alguns minutos mais tarde, o trem de aterrissagem baixou e Jack pôde ver duas aeronaves estacionadas em compartimentos do antigo campo de aviação militar no centro do vale; a primeira era um Antonov NA-74, um jato de transporte que os havia precedido com o precioso aparelho de Costas, e, a segunda, o helicóptero Lynx que trazia o logotipo da Universidade Marítima Internacional.

 

"Estamos sobrevoando o fiorde gelado agora. Dêem uma olhada e verão as extremidades dos icebergs através da névoa."

James Macleod tirou momentaneamente a mão do cyclic e apontou, adiante de Jack, para os picos entalhados de branco que pareciam cumes de montanhas distantes através das nuvens. No compartimento de passageiros, Maria e Jeremy inclinaram-se para a frente para seguir o olhar de Jack. Com três horas de diferença horária em relação à Inglaterra, ainda era de manhã cedo ali, e o sol não chegara a evaporar a névoa marinha que aparecia quando o ar frio que caía rapidamente da calota de gelo encontrava o ar mais quente que subia do oceano. Quando havia sol de verão, era mais quente a nove mil metros de altura do que sobre a superfície da calota de gelo. Mas, mesmo assim, a temperatura era de alguns graus abaixo de zero e todos eles vestiam trajes de vôo isolantes, bem como capacetes, uma precaução contra a turbulência quando o helicóptero encontrava as correntes térmicas de ar sobre a terra exposta e sobre a água ao longo do contorno da costa.

"Temos quinze minutos até o heliporto ficar desimpedido. Tempo suficiente para um rápido passeio turístico."

Assim que aterrissaram, Macleod viera encontrá-los na pista em Kangerlussuaq e os havia escoltado até o helicóptero Lynx que esperava por eles. Tinham levado pouco menos de uma hora para voar na direção norte até o fiorde gelado Ilulissat, na costa oeste da Groenlândia, quase duzentos e cinqüenta quilômetros ao norte do Círculo Ártico. Eles haviam seguido um pesado helicóptero de transporte Chinook baseado fora da remanescente base aérea americana em Thule, na Groenlândia, um gesto de boas-vindas que era parte da contribuição do governo dos Estados Unidos para o projeto da IMU. Costas decidira voar no Chinook para vigiar o transporte do equipamento, e Jack podia imaginar a ansiedade do outro consumindo-o enquanto ele ficava sentado no compartimento de carga observando o fruto do trabalho de meses suspenso em um cargueiro bem em cima do vazio. Alguns momentos antes eles tinham observado quando o Chinook desceu em meio da névoa marinha no coração do fiorde.

"Foi desse lugar que saiu o iceberg que afundou o Titanic", disse Macleod; seu pesado sotaque irlandês ficava mais acentuado no interfone. "Esta é uma das correntes glaciais que se movem mais rapidamente no mundo." Ele girou o helicóptero para o leste, ficando de frente para o fiorde, e voou com velocidade máxima durante alguns minutos, até que a névoa clareou e permitiu-lhes ver a calota de gelo se erguendo à frente deles como uma cúpula vasta e rígida. "A geleira de Ilulissat, o ponto de maior pressão da calota de gelo; é aqui que a geleira desliza para descarregar gelo dentro do oceano. Podemos ver onde o deslizamento de gelo começa agora."

Macleod manejou os controles e virou o Lynx, fazendo um grande arco, em direção ao oceano. Quando olharam para fora, eles puderam ver em que ponto as ondulações sem emenda da calota de gelo começavam a quebrar e produzir fendas, formando um fluxo ondulado que parecia encrespar-se em direção ao oeste.

"Acreditem ou não, aquela coisa está se movendo a uma velocidade incrível, quase doze mil e oitocentos metros por ano", disse Macleod. "Essas fendas são causadas pela pressão da geleira quando ela se desloca contra o leito de rocha, em locais cerca de novecentos metros abaixo. É como um rio fluindo através de corredeiras. E agora vamos para a parte divertida."

Ele mergulhou o nariz do helicóptero e eles estavam subitamente lançando-se em direção à geleira, a visão da superfície fendida aparecendo aos poucos com suas concavidades e fissuras. No que parecia ser o último momento, Macleod nivelou o helicóptero e quase imediatamente eles foram envolvidos pela névoa marinha, a geleira apenas fugazmente visível quando o rotor girou, e afastaram-se da névoa para descobrir porções de branco e lendas abertas de um azul profundo.

"De fato, estamos a mais de cento e cinqüenta metros acima da geleira", Macleod lhes asseverou. "Observem a imensidão sem limites." Durante alguns minutos eles voaram apenas por instrumentos, enquanto continuavam a mover-se através da névoa, e depois Macleod empurrou para trás o cyclic e abaixou o helicóptero até o altímetro indicar apenas setenta e cinco metros acima do nível do mar. "Aqui estamos."

Quando ele deixou o Lynx parado no ar, a névoa se abriu e uma imagem espetacular se materializou diante dos olhos dos tripulantes. Era uma vasta parede de gelo, que se elevava quase até a altura do helicóptero e se estendia de cada lado até onde podiam enxergar. Em vez de uma face abrupta de gelo compactado, a parede era uma massa fragmentada de torres e canyons, fendida por faixas de azul onde a água derretida havia escorrido da superfície e congelado de novo. A massa inteira parecia inacreditavelmente frágil e instável, como se o mais leve cutucão pudesse convertê-la em cascata.

"A extremidade principal da geleira", anunciou Macleod. "Ou melhor, o conjunto de icebergs que foram separados dela e bloquearam a ponta do fiorde. A extremidade da própria geleira está a mais de cinco milhas náuticas a leste daqui, em direção da calota de gelo, de onde nós viemos."

"É apavorante." A voz de Jeremy chegou com estalidos pelo interfone, e por uma vez parecia que não tinha palavras para se expressar. "Então é daqui que vêm os icebergs do Atlântico Norte?"

"Noventa por cento deles", replicou Macleod. "Vinte bilhões de toneladas a cada ano, o suficiente para afetar os níveis dos mares. Aquela parede de gelo pode parecer bem estática, mas ela começou a aumentar de velocidade recentemente e, de fato, se move em nossa direção a cerca de cinco metros por hora. Alguns dos maiores icebergs serão empurrados mais ou menos intactos, mas quase todos eles soltam crias, produzindo icebergs menores e pequenas placas bastante temidas chamadas growlers. Quase dez mil grandes icebergs saem do fiorde, a cada ano, para a baía de Disko. Eles fazem um movimento no sentido anti-horário em relação à corrente em torno da baía de Baffin e depois flutuam para o sul até os Grandes Recifes da Terra Nova e para o leste até a Islândia."

"Um deles está dando cria agora", disse Jack subitamente.

Inesperadamente uma enorme placa de gelo separou-se do precipício bem na frente deles, o barulho do deslocamento audível mesmo acima do estrondo do rotor do helicóptero. A placa de gelo escorregou direto para dentro da água e desapareceu completamente, depois emergiu quase com toda a sua altura antes de sumir de novo, agitando-se para cima e para baixo até que apenas um ápice pontudo ficasse visível acima da mistura de fragmentos de gelo dos icebergs.

"Entendi o que significa os icebergs ficarem com a maior parte debaixo da água", disse Jeremy com um tom ainda apavorado. "Os maiores devem se acumular ao longo do fundo do fiorde."

"Isso é exatamente o que acontece. Algumas vezes eles se arrastam ao longo do leito do mar, outras vezes se deslocam aos trambolhões." Macleod puxou uma pequena tela de vídeo situada no teto acima do assento do piloto e digitou no teclado, revelando uma imagem da batimetria do fiorde.

Jack assobiou. "Consideravelmente profundo."

"Acima de mil metros."

"Aquele pico debaixo da água que aparece na imagem, através da foz do fiorde", disse Jack. "Suponho que é onde o contorno do fiorde alcançou sua extensão máxima, não?"

"Os dinamarqueses que se estabeleceram aqui no século XVIII lhe deram o nome de Isfjeldsbanken, o limiar", replicou Macleod. "Uma enorme soleira de sedimento destruída pela geleira. A sua ponta tem apenas duzentos e vinte metros de profundidade, de modo que os icebergs maiores ficam presos nela. Até recentemente, o congestionamento de icebergs que obstruíam o fiorde marcava a extremidade do limiar de gelo."

"Mas atualmente o derretimento de gelo ocorre várias milhas mais perto da calota de gelo em que estamos agora?"

"Correto." Macleod digitou um comando e sobre a tela uma outra imagem apareceu, mostrando uma foto do fiorde tirada de satélite. "Cortesia da NASA, uma imagem tirada do satélite Landsat. A seqüência de linhas vermelhas através dos fiordes mostra a saída das crias da geleira entre 2001 e 2005. Ao mesmo tempo a geleira acelerou-se dramaticamente, quase dobrando sua velocidade. E medições por altimetria a laser, feitas por avião, têm mostrado que a geleira encolhe mais de quinze metros por ano."

"Aquecimento global", disse Jeremy.

"Más notícias para o meio ambiente, mas boas para nós." Macleod fechou a tela e engatou de novo o cyclic, fazendo o helicóptero dar uma volta em direção a oeste e voando através da névoa para longe da parede de gelo. "Más notícias porque sugere que o aquecimento global tem um efeito mais dramático sobre a calota de gelo do que muitos temiam. Boas porque isso nos permite trabalhar no próprio fiorde e realizar pesquisas que nunca antes foram possíveis."

"E agora estamos no verão", disse Jack. "Estou supondo que isso aumenta a velocidade das crias e a desintegração do gelo ao longo da parte anterior da geleira, não é?"

"É por isso que eu queria você aqui agora", replicou Macleod. "Mais alguns dias e estaremos fechando as portas. Trabalhamos na borda da geleira de várias maneiras."

Vinte minutos mais tarde, Macleod puxou o cyclic para trás e o Lynx começou a descer sobre a linha de icebergs pontudos perto da ponta do fiorde. O coração de Jack começou a acelerar quando ele viu a superestrutura de um navio surgir fora da névoa. Macleod pegou o intercomunicador terra-mar, mas, antes de pressionar a tecla, voltou-se e olhou para Jack.

"E agora chegou o momento de você saber por que eu o fiz andar metade do mundo para chegar a este lugar."

O homem na cela da prisão ergueu lentamente a cabeça e prestou atenção para detectar qualquer sinal de vida, mas não ouviu nada. Fazia já mais de cinco anos que ele não ouvia nada, a não ser os sons de seus carcereiros. Fechou os olhos e respirou lenta e profundamente, imune ao odor de fezes, urina e vômito que havia muito tempo impregnara a estrutura da prisão. Tinha sido enviado para cumprir sua sentença na pátria de seu avô, em uma prisão vazia abandonada pelo Gulag, poupando-lhes a preocupação de colocá-lo em um confinamento solitário. A privação tensorial não lhe causava receio, seu treinamento o havia ensinado a excluir a realidade do confinamento e a viver num mundo de sua própria criação. Vagarosamente pendeu a cabeça de um lado e depois do outro e em seguida inclinou-se sobre o tabuleiro de xadrez, a única indulgência que havia pedido a seus capturadores. Apoiou os cotovelos sobre a mesa e levantou as mãos unidas, em suas luvas sem dedos, esfregando-as para combater o frio úmido que penetrava na cela durante o ano todo. Pela milésima vez ele estendeu a mão e pegou um pequeno peão branco, com a forma de um guerreiro viking com cota de malha e escudo, e colocou-o diante do rei cristão.

"Xeque-mate", ele disse baixinho.

Reclinou-se na cadeira com a lentidão exagerada de um homem cujos menores movimentos tinham se tornado sua maior preocupação, era sua maneira de preencher as horas solitárias de mais um dia. Ele ergueu devagar a mão esquerda até o rosto e passou o indicador pela cicatriz que ia da órbita ocular até o maxilar inferior, testando a si mesmo contra a dor que sentia a cada vez. Do maxilar moveu a mão até a parede atrás de si, e começou a percorrer com o dedo as linhas feitas com incisões de grafite, seu ritual de hora em hora, recitando baixinho as palavras como um estudioso com um texto sagrado. "Paul Kruger", ele murmurou. "Hauptsturmführer, Leibstandarte Adolf Hitler. Kurt Hausser, Sturmbannführer, Panzergrenadier-Division Das Reich. Otto Lehmann, Brigadeführer, Panzer-Division Wiking." Ele sabia os nomes de cor, nomes dos verdadeiros heróis da Grande Guerra Patriótica, cruzados na luta contra o Leste, os sobreviventes capturados de Kharkov e Kursk e incontáveis outras batalhas, enviados para cá, mais de meio século antes pelos russos, em sua última parada antes da execução miserável no aposento no fim do corredor. Nomes como o de seu avô. Mas o seu avô tivera mais sorte, durante um tempo.

Fechou os olhos e ergueu a mão para as runas entalhadas que cruzavam os nomes, sabendo exatamente onde colocar seus dois dedos para delineá-las, depois para cima, e então para baixo, linhas tão profundamente esculpidas que os guardas soviéticos desistiram de tentar raspá-las décadas atrás. Elas eram as inscrições que ele gostava de percorrer com os dedos, o símbolo da ordem de seu avô, Schutzstaffel, a SS. Ele deixou a mão cair lentamente quando os dedos se afastaram das linhas e pressionou a orelha contra a parede fria e úmida, sentindo que estava realmente se comunicando com os cavaleiros do passado, irmãos em armas que deixaram sua última marca nessa parede para dar-lhe força, guiá-lo em sua busca para encontrar o tesouro mais sagrado, e deixar descansar tudo o que tinha passado diante dele e falhado.

"Anton Poellner." O homem despertou de um poço de negrume quando a voz falou em tom alto através da janela da porta. Ele se apressou a ficar ereto enquanto os ferrolhos eram tirados e a porta fazia barulho ao abrir-se. Um oficial com boné de pala mostrava a silhueta entre dois guardas contra a luz irritante do corredor atrás deles.

"Anton Poellner." O oficial repetiu seu nome, e o homem na cela levantou a mão contra a luz antes de replicar lentamente em inglês.

"O que você quer?"

"Por ordem do Tribunal Criminal Internacional para a Antiga Iugoslávia", disse o oficial, falando em lituano. "Caso número IT-99-37b, o Promotor Público do Tribunal contra Anton Poellner, antigo mercenário pago do exército servo-bósnio. Acusado pelo artigo 7 com base em responsabilidade criminosa individual, por genocídio e crimes contra a humanidade." O oficial fez uma pausa, depois ergueu um documento que trazia na mão. "Sob a convenção de anistia assinada no ano passado em Haia, o seu caso foi revisto na Corte de Apelação." O oficial abaixou o papel e falou com desgosto evidente. "Você está livre para sair."

Ele estalou os dedos e os dois guardas ajudaram o homem a se erguer, atirando um velho sobretudo soviético sobre ele enquanto o levantavam. O homem piscou furiosamente contra a luz enquanto eles o empurravam pela porta da cela, depois colocaram grilhetas em seus pés pela última vez e o empurraram pelo corredor. Ele era o último ocupante de uma prisão condenada, e, enquanto o eco das correntes ressoava através das celas vazias, era como se os fantasmas do passado estivessem impulsionando-o, sabendo que ele era a sua última esperança de que alguém escapasse.

Na última porta eles tiraram as grilhetas de seus pés e o empurraram, sem dizer palavra, para o mundo exterior. Estava garoando e inadequadamente frio para um início de verão, mas o homem levantou seu rosto pálido e sorriu, enquanto deixava a chuva cair em sua pele. Pegou a mochila que tinham jogado ao seu lado e começou a andar lentamente para o portão de saída e a estrada além dele, retomando o andar com as passadas largas de um homem acostumado a marchar. Fora do portão, colocou a mochila nos ombros e enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo, esperando pelo carro que ele sabia que viria. Minutos depois, um Mercedes escuro saiu das sombras, a porta traseira do veículo abriu-se ao parar na sua frente. Sem olhar para a prisão uma última vez, ele entrou no carro.

"Bem-vindo de volta", disse uma voz em inglês vinda do assento dianteiro. "Suas instruções."

Enquanto o carro partia, foi-lhe entregue um envelope. O homem sentiu o maço de papéis dentro dele, mas antes retirou um objeto que estava solto no fundo. Era um anel de ouro, lustroso por causa da idade, e quando o segurou sentiu seus lábios pousarem sobre o símbolo, como faziam desde a infância, um símbolo tão diferente daquele em sua cela na prisão, embora tão familiar. Ele deslizou o anel no indicador de sua mão direita e retirou o maço de papéis. O primeiro deles era uma imagem de jornal impressa em seu cérebro por mais de cinco anos, mostrando um homem de idade usando uma braçadeira com a suástica, deitado em uma poça de sangue. Ele olhou para o rosto morto e depois para fora, para o céu sombrio, e murmurou para si mesmo: "Hora do acerto de contas".

"Lá está ele agora", disse Jack, excitado. "É a primeira vez que o vejo em mar aberto. É como reencontrar um amigo perdido há muito tempo, que renasceu."

O Seaquest II tinha sido licenciado apenas três meses antes, e o projeto no oeste da Groenlândia, no centro do gelo, era sua primeira excursão oficial como navio de pesquisa em oceano profundo da Universidade Marítima Internacional. Desde que seu antecessor fora perdido no mar Negro, seis meses antes, Jack estivera determinado a encontrar um substituto, e decidira renomear um navio já reservado para a IMU em um estaleiro na Finlândia. Enquanto o Seaquest original e seu navio irmão Sea Venture tinham derivado do navio de pesquisa russo, classe Akademik, destinado originalmente para vigilância submarina acústica durante a Guerra Fria, o Seaquest II se baseava em um conceito inteiramente novo planejado a partir das especificações da IMU. Suas características técnicas incluíam um sistema de posicionamento dinâmico, usando propulsores laterais e controle de lastro capaz de manter a estabilidade do navio em praticamente quaisquer condições marítimas, o que era vital para manter a posição e realizar explorações de busca, bem como para manter o nível da plataforma para o trabalho de laboratório. O navio podia lançar veículos operados por controle remoto e submersíveis, usando guindastes de convés ou um ancoradouro interno que permitia saída subaquática. Como todos os navios da IMU, ele tinha uma capacidade defensiva, com um compartimento retrátil para alojar armas debaixo da coberta de proa. E, crucial para a pesquisa polar, um casco resistente a gelo que lhe permitia singrar o mar através dos pedaços de gelo que obstruíam as águas da costa norte do Círculo Ártico mesmo no início do verão.

Jack ainda estava lançando um olhar crítico sobre a arrumação do convés quando o Lynx pousou no heliporto e os rotores estremeceram antes de parar por completo. Enquanto os tripulantes que os esperavam amarravam o trem de aterrissagem ao convés, Jack tirou seu capacete e soltou o cinto de segurança. O sol estava evaporando a névoa marinha e à sua frente ele podia ver todo o comprimento da superestrutura, brilhando branca na translúcida luz ártica. Jack estava de novo em seu elemento, e sua excitação tornou-se visível quando ele se reclinou e sorriu para Maria e Jeremy. "Bem-vindos ao Seaquest II. Aqui é onde começa a verdadeira diversão."

 

James Macleod conduziu-os diretamente do heliporto através da entrada do hangar e, descendo uma escada no corredor, para dentro das entranhas do navio. A eles juntou-se Costas, que fora baixado do Chinook da Força Aérea Americana quinze minutos antes e estivera atarefado tirando dos engradados sua aparelhagem na coberta de popa. Seu aspecto mostrava que ele precisava de uma semana de sono, mas, com as mangas arregaçada nos braços robustos e novas manchas de graxa em seu amado macacão, era evidente que ele não iria perder um instante antes que seu equipamento estivesse pronto para entrar em operação.

Eles alcançaram o convés inferior e Macleod os introduziu, através de uma porta, em uma sala de conferência brilhantemente iluminada, ao mesmo tempo que fazia gestos para que parassem ao lado de uma tela de projetor à direita da porta. À frente deles, um grupo heterogêneo de cerca de trinta homens e mulheres, todos sentados em cadeiras de plástico; alguns se mantinham bastante absorvidos em suas conversas e outros curvavam-se sobre laptops e folhas impressas. Todos eles olharam quando Macleod entrou, e Jack pôde ver vários homens loiros barbados com a bandeira dinamarquesa em seus casacos de pele, um par de rostos nativos da Groenlândia, e um certo número de homens e mulheres vestindo os suéteres azul-marinho da Força Aérea Americana. Jack acenou de maneira cortês para um homem na fila da frente, que fazia parte do contingente da IMU; sentado languidamente na cadeira e mexendo em suas costeletas, ele achava-se tão perdido em seus pensamentos que quase não percebeu o gesto de Jack. Lanowski era um brilhante engenheiro que se tornara indispensável para a IMU desde que o haviam roubado do MIT, mas ele tinha um jeito calculado para irritar quase todos que cruzavam seu caminho.

"Pessoal, todos vocês devem estar familiarizados com Jack Howard, meu colega na IMU. Pelo menos através das notícias na TV." Jack parecia nitidamente desconfortável, e Macleod apontou para os outros três. "Doutora Maria de Montijo e seu orientando Jeremy Haverstock, de Oxford, embora tenha nascido nos Estados Unidos. E Costas, que vocês já conhecem."

Eles olharam com evidente curiosidade para Jack, um rosto familiar mesmo para os que não o conheciam pessoalmente. Costas sorriu para alguns velhos amigos, vários dos quais chegaram a conhecê-lo muito bem quando ele tomara parte na apresentação do projeto, algumas semanas antes no campus da IMU na Cornuália.

"Nós somos uma equipe internacional, como se pode ver", disse Macleod. "Oficialmente, o projeto se desenvolve em colaboração com a NASA e a Vigilância Geológica da Dinamarca e da Groenlândia, e há também um par de pessoas da Patrulha Internacional do Gelo. Todos nós nos ocupamos com a nossa própria especialidade, glaciologia, biologia, paleoclimatologia, mas estamos estabelecendo uma associação para angariar recursos básicos. A IMU fornece o navio de pesquisa; a NASA, o satélite que fornece imagens, e a VGDG, a fotografia aérea e as medições de altitude por laser. Uma grande parte do trabalho consiste apenas em monitoração, certificar-se de que as condições do gelo são suficientemente seguras para obtermos as amostras de que necessitamos. Com a fusão de verão quase em plena atividade, estamos trabalhando contra o relógio. Eu quis que vocês estivessem aqui para podermos nos apresentar e ter um breve encontro inicial. Se houver perguntas, podem colocá-las."

"Não quero segurar ninguém, então apenas poucas perguntas", disse Jack. "A calota de gelo da Groenlândia, o gelo no interior. Podemos ter um rápido resumo de sua idade e significado?"

"A maior parte dele data dos últimos duzentos e cinqüenta mil anos, e muito do gelo em Ilulissat provém dos últimos cem mil anos", disse Lanowski afastando do rosto os cabelos que lhe chegavam à altura do ombro. "Ele é um sobrevivente resistente da última glaciação do período quaternário."

"E o que isto significa?" perguntou Maria.

"Significa o Período Glacial que todos conhecemos, aquele que terminou dez mil anos atrás, quando os lençóis de gelo desapareceram", explicou Lanowski, suspirando impacientemente. "O período quaternário é um termo geológico que abarca o recente Período Glacial, que começa cerca de um milhão e oitocentos mil anos atrás, envolvendo muitos episódios de avanço e de retração do gelo. Temos estado em um daqueles períodos quentes durante os últimos dez mil anos."

"Então, o que torna a Groenlândia tão especial?"

"Há inúmeras geleiras ao redor do mundo que datam do Período Glacial, e, é claro, há as calotas de gelo polares", disse Macleod. "Mas a calota de gelo da Groenlândia é o último remanescente dos lençóis de gelo continental que cobriam o hemisfério norte até dez mil anos atrás. Trata-se de uma fantástica janela para o passado, tão excitante para mim como qualquer de suas descobertas arqueológicas."

"E isto nos traz para o porquê de vocês estarem aqui", disse Jack.

"Estamos ainda nos primeiros dias, mas os resultados são muito promissores", disse um dos cientistas dinamarqueses. "Estamos olhando, sobretudo, para bolhas de ar presas no gelo quando este se formou, preservando assim um detalhado registro das condições da atmosfera no Período Glacial. A parte fronteira que vem se fragmentando está agora expondo áreas de gelo formadas muito recentemente, numa onda de frio que precedeu a Grande Fusão dez mil anos atrás. É uma oportunidade sem paralelo, a primeira vez que qualquer pesquisa como esta torna-se possível."

"O aquecimento global tem suas vantagens", disse Costas ironicamente.

"Não podemos fazer o relógio retroceder agora, então vamos tentar obter todo o conhecimento disto que pudermos", replicou o dinamarquês.

"Uma pergunta", disse Maria. "Vocês não conseguiriam fazer com que eu fosse a qualquer lugar perto daquela parede que está se fragmentando, que acabamos de ver na geleira. Como é que conseguem suas amostras?"

"Nós perfuramos núcleos, da mesma forma que um técnico em sedimentologia ou um prospector de petróleo em terra", disse Macleod. "Cada faixa de gelo representa um período glaciário, algumas vezes centenas ou milhares de anos. É um pouco como a dendrocronologia, a descoberta da idade de uma árvore pela contagem dos anéis." Macleod voltou-se e olhou atentamente para Jack. "O que nos traz para o porquê de você estar aqui."

"Ainda estou confusa", insistiu Maria. "Vocês ainda têm de se aproximar do gelo para perfurar um núcleo."

"Tudo será revelado." Macleod sorriu para ela e começou a ir em direção à porta, acenando para agradecer ao grupo reunido e voltando-se para Jack. "Siga-me."

 

O Seaquest II era um pouco menor que o seu predecessor, mais econômico em espaço de modo a maximizar a eficiência do combustível e a resistência, mas, com um deslocamento de pouco mais de sete mil toneladas, ele ainda era um dos maiores navios flutuantes de pesquisa, e eles levaram uns bons cinco minutos para alcançar o convés superior onde se encontravam as acomodações. Sem se deter, Macleod apontou para uma fileira de cabines com seus nomes pintados nas portas, suas bagagens já acomodadas ali dentro. No final do corredor, eles entraram em um aposento que ocupava todo o final dianteiro do convés de acomodações, diretamente abaixo da sala de navegação e da casa do leme. O layout havia sido idéia de Jack, o que proporcionava uma sala dedicada ao controle e à observação para os assessores do projeto, evitando assim os problemas de partilhar o espaço na ponte de comando com a tripulação, o que tinham experimentado recentemente no Sea Venture no Chifre de Ouro. A sala tinha uma cadeira de diretor colocada num estrado no centro, uma cópia exata da tela de radar que havia na ponte de comando, quatro estações de computadores dispostas em arco a partir do estrado, e assentos para observação com telescópios de alta potência colocados contra as janelas, uma tela inclinada contínua que cobria a parte dianteira e as laterais da sala. A névoa tinha sumido por completo e eles obtiveram uma vista deslumbrante do mar em direção ao oeste, uma extensão azul-escura salpicada de fragmentos de branco, a forma baixa da ilha Disko apenas visível da proa a estibordo e a costa canadense do estreito de Davis em algum lugar além do horizonte.

Tinham sido seguidos, desde o convés inferior, pela forma bamboleante de Lanowski e por um dos cientistas da Groenlândia, uma mulher esquimó de impressionante aparência que apontou para a máquina de café quando eles entraram na sala. Macleod resmungou, depois concordou e começou a servir o café para todos e a distribuir canecas fumegantes. Jack apertou a mão do capitão, que tinha descido os degraus que levavam até a ponte de comando para cumprimentá-los, um antigo oficial da marinha canadense que havia passado a vida conduzindo patrulhas do Ártico para o golfo do México. Jack teria tempo, mais tarde, para encontrar todos os tripulantes, muitos deles velhos amigos e veteranos do primeiro Seaquest, pessoas com as quais sentia uma afinidade especial.

A mulher groenlandesa sentou-se perto de Lanowski na estação de computação do lado direito da sala, posicionando seu laptop no canto disponível da escrivaninha e dispondo seus papéis e livros ordenadamente no chão para dar aos outros um espaço para ficarem ali. Segundo a linguagem corporal tratava-se nitidamente de uma aliança desconfortável, com Lanowski curvado diretamente na frente da tela da estação principal, rodeado por seus papéis, sem fazer concessão a ela.

"Eu sabia que devia ter trazido meu próprio hardware", resmungou Lanowski. "Alguém deveria ter testado essas coisas antes de instalá-las. Eu posso também processar os números à mão."

Jack ergueu os olhos para a mulher e ela forçou um sorriso. "Eu estou interessada na biologia do fundo do mar; Lanowski faz as simulações", ela disse. "James nos colocou juntos desde o início do projeto."

Ela lançou para Macleod um olhar malevolente, e ele se voltou rapidamente para os outros. "Sinto muito. Eu deveria tê-la apresentado. Esta é a doutora Inuva Nannansuit, do Levantamento Topográfico Geológico. É natural de Ilulissat, a cidade no promontório, então ela cresceu com a geleira em seu quintal. Ela tem sido de uma ajuda fantástica para a equipe."

"Então, o que temos?", disse Jack.

"Está lá atrás da popa, mas o capitão está virando o navio para nos proporcionar uma ampla vista na direção de estibordo. Vai demorar mais uns cinco minutos. Estamos usando o sistema de posicionamento dinâmico, porque não queremos que o movimento da água causado pela hélice principal perturbe o que estamos prestes a ver."

"E aquele iceberg perto da costa, adiante de nós", disse Maria apontando para a proa do navio. "Ele tem uma faixa preta no topo. Aquilo é sedimento antigo da geleira?"

"Bem percebido, mas não é", disse Macleod. "Se você olhar para o iceberg, ele é polido e redondo, como uma escultura, bem diferente dos icebergs cheios de fendas e de entalhes que vimos quando sobrevoamos o fiorde."

"Ele deve ter rolado", disse Costas.

"Correto. Vimos isso acontecer na noite passada. Uma das visões mais apavorantes que se possa imaginar, um quarto de milhão de toneladas dando uma cambalhota na água. Você não iria querer ficar em nenhum lugar perto de uma dessas partes fragmentadas quando isso acontece."

"É claro" disse Maria. "Esse escuro é do fundo do mar!"

"Exatamente. Quando nós chegamos, quinze dias atrás, este iceberg estava encalhado contra o limiar no lado norte do fiorde, mas já sabíamos pelo sonar de varredura lateral que a parte submersa havia sofrido erosão e perdido muito de sua massa. Era só uma questão de dias antes que ele começasse a rolar, e nos mantivemos bem afastados. Alguns dos icebergs se comportam dessa maneira, outros são empurrados totalmente rijos através do limiar. Mas sempre é possível dizer se eles se parecem com esculturas de Henry Moore ou com castelos de gelo da Disneylândia."

"Você quer dizer como aquele", disse Jack.

Eles seguiram o seu olhar para estibordo quando uma vasta parede de gelo tornou-se visível, distante cerca de quatrocentos metros e nitidamente mais alta do que a superestrutura do navio. Ela tinha o mesmo aspecto contorcido e entalhado que a frente da geleira, com fendas como veias do mais profundo azul que indicavam onde a água derretida havia congelado em seu interior, exceto em uma vasta área plana no centro onde a parede se inclinara suavemente desde o topo. O iceberg era imenso, pelo menos meio quilômetro de diâmetro, e bloqueava uma grande extensão da entrada para o fiorde ao longo da linha do limiar subaquático.

Eles olharam assustados, e Macleod quebrou o silêncio. "Lembrem, três quartos daquela coisa estão sob a água. Vocês estão olhando para um quilômetro cúbico e meio de água congelada, pelo menos um milhão e meio de toneladas."

Costas soltou um longo assobio. "Isto manteria os estoques de gelo de todos os bares do mundo até o próximo século."

"A simples vazão de um dia dessa geleira seria suficiente para suprir Nova York com água por um ano. Vinte milhões de toneladas por dia. Estamos falando de impacto total aqui."

"Icebergs planos desse tamanho são bem raros no Ártico", disse Inuva. "Nós achamos que isto está acontecendo de novo por causa do aquecimento global, que faz com que a geleira regrida até um ponto em que a fratura ocorra. Este é o maior iceberg que já vi em toda a minha vida."

"Por que ele não se dividiu?" perguntou Costas.

"Houve apenas uma ocorrência em que ele se fragmentou, ali onde se pode ver aquela face polida", disse Macleod. "Mas o centro, surpreendentemente compacto, gelo glacial sólido, só pode ser quebrado com explosivos. Ele é ideal para nós. Aquela face do fragmento que se separou do núcleo de gelo é relativamente segura para trabalharmos nela. Se olharem com atenção, poderão ver um par de Zodiacs ali, com a equipe de perfuração, bem agora."

"Não compreendo." Jeremy tinha estado absorvendo tudo, tranqüilamente, desde que chegara ao navio, mas agora havia recuperado sua curiosidade natural. "Como impedir aquela coisa de cair e esmagá-los?"

"É aqui que as condições realmente trabalham a nosso favor", disse Macleod, entusiasmado. "Sem a pressão da península de gelo atrás deles, os icebergs que ficam presos na soleira são muito mais seguros para se trabalhar. A geleira é muito mais perigosa para se retirar uma parte central dela, principalmente agora que está circulando a tal velocidade. Os icebergs que flutuam pelos fiordes acham-se fora de questão, porque eles estão se movimentando e, quando se encontram além do fiorde, não apenas estão se movimentando, mas também são mais propensos a cair. Então, um iceberg relativamente recente preso na soleira é ideal para nós. É uma oportunidade única, mas a janela está se fechando depressa."

"Há quanto tempo ele está aí?", perguntou Jack.

"Cerca de três meses. Lanowski tentou uma simulação mostrando o iceberg progredir pelo fiorde e ficar obstruído contra a soleira. Há alguma chance de ver isto?"

"Você tem sorte." Lanowski murmurou irritado para si mesmo, enquanto digitava uma seqüência de teclas, e depois relaxou visivelmente. "Finalmente."

A tela exibia uma simulação isométrica do fiorde em 3-D, com a geleira em uma extremidade e o arco do limiar na outra. O iceberg era mostrado pousado perigosamente sobre a soleira, sua vasta magnitude subaquática era visível agora, mas com o leito do mar caindo para profundidades maiores de cada lado.

"Você pode ver a correnteza do canal", disse Inuva. "Aquele sulco no leito do mar conduzindo em direção à soleira. À medida que desgastam o fundo, os icebergs pulverizam o leito do mar, transformando tudo em poeira. Criam um biótopo estéril, destituído de vida. Mas o material de amostra que pudemos retirar daqui nos diz algo mais; que ele, na verdade, beneficia a diversificação das espécies, permitindo a regeneração da vida, como uma floresta depois de devastada pelo fogo. E há outros fatores positivos. James disse que vocês, durante o vôo, viram um iceberg fragmentando-se. Cada vez que isso acontece, a subida à superfície gera hospedeiros de nutrientes. Estes foram campos de pescaria incrivelmente ricos para meus ancestrais."

"Uma bióloga", resmungou Lanowski. "Era bem o que eu precisava."

Inuva olhou de modo fixo e penetrante para Lanowski, e Jack continuou rapidamente. "Quão estável é aquela coisa?"

"Eu criei uma simulação das condições do gelo no fiorde para o período planejado do projeto, desde duas semanas atrás até amanhã", disse Lanowski. "Tudo aconteceu exatamente como eu predisse. Isso deve lhe dar uma idéia do que estamos vendo agora." Pressionou uma tecla e eles observaram passar rapidamente na tela algumas dezenas de imagens diferentes sobre o mesmo cenário de fundo, mostrando a geleira retrocedendo de maneira alarmante e uma procissão de icebergs tombando na soleira.

"Há alguns anos isso levaria uma estação inteira. Agora acontece em duas semanas." Lanowski levantou seus pequenos óculos redondos e olhou atentamente para Jack. "No momento, o iceberg está excelente. Há flutuação diurna na parte limítrofe do encalhamento, cerca de três metros quando a maré se movimenta para baixo e para cima, portanto, a abrasão irá retirar gelo suficiente na parte do fundo para desequilibrar o iceberg. Bem, agora o pior caso de todo o cenário é um evento de fragmentação especial, em que é perdido mais gelo debaixo da água do que acima da superfície, o que faz o iceberg ficar com o pico pesado. Então, digamos, se, em uma maré alta, tivermos um terremoto, ou uma tempestade, ou gelo da geleira descendo para o fiorde e pressionando por detrás, isso poderia empurrar o iceberg contra a soleira e derrubá-la."

"Quais são as probabilidades disso?"

"Não estamos prognosticando grandes fragmentos de gelo descendo para o fiorde, pelo menos nos próximos dias. Um terremoto também está fora de questão. Uma tempestade é uma possibilidade. Há uma tempestade excêntrica que poderia afetar o movimento da água contra a soleira."

"Uma piteraq", disse Inuva baixinho.

"Uma o quê?" indagou Costas.

"Uma piteraq. Ela ocorre quando o ar frio desce da calota de gelo e encontra o ar mais quente do mar."

"É claro. James falou sobre isso quando estávamos voando."

Lanowski os ignorou e continuou. "Mas não houve nenhuma tempestade dessa magnitude por quase setenta anos. A última registrada foi em 1938."

"E a fragmentação?" quis saber Jack.

"É aqui que a simulação fracassa", disse Lanowski. "Eu não consigo prevê-la com antecedência." Ele olhou consternado para o chão, como se as limitações da ciência fossem um fracasso pessoal, depois relaxou os ombros e deu a Jack um olhar de derrotado. "Tudo o que posso dizer é que as chances aumentam com o calor do verão, sobretudo agora, com as vinte e quatro horas de luz diurna durante o verão ártico. Depois de quarenta e oito horas seguindo um curso particular, eu recomendaria cessar todo o trabalho no iceberg e advertir o capitão para reposicionar o navio pelo menos a duas milhas da costa."

Macleod voltou-se para Jack com certa urgência em sua expressão. "Essa é a maior razão para começarmos." Ele agradeceu a Inuva e lhe entregou um rádio receptor e transmissor da cadeira de comando, que ela levou consigo ao sair pela porta lateral em direção à superfície do convés. "Enquanto Inuva estabelece a parte final de seu roteiro, acho que estamos prontos para lhes mostrar de que realmente trata este projeto." Ele tentou sem resultado chamar a atenção de Lanowski, em seguida levou-os até uma estação de trabalho do outro lado da sala, onde um sujeito grandalhão com camisa xadrez e jeans estava posicionando um grande tubo de metal, parecido com aqueles usados para guardar mapas de tamanho descomunal.

"Don Cheney, o mais antigo glaciologista da NASA", disse Macleod. "Don, mostre-nos o que você conseguiu."

Eles apertaram-se as mãos rapidamente e pararam formando um arco atrás da mesa e do monitor do computador. Cheney tirou cuidadosamente parte de um cilindro interno do tubo e colocou-o sobre a mesa na frente deles, um tubo de plástico transparente de cerca de um metro de comprimento e dez centímetros de diâmetro. Sentou-se diante da estação de trabalho e inclinou-se para a frente, apoiando-se sobre os cotovelos, batendo no tubo com um lápis e falando à maneira arrastada do Texas.

"Para quem nunca viu nenhum, este é um núcleo de gelo", ele começou. "Foi retirado ontem do iceberg. É, sobretudo, gelo glaciário, o material com aspecto enevoado contendo minúsculas bolhas mas também faixas azul-claras de água de gelo derretida. Conseguimos uma faixa de água derretida com contaminação moderna, hidrocarbonetos provenientes de emissões de fábricas e de motores. Em algum momento no século passado aquela geleira se abriu, depois fechou-se muito rapidamente. Isso acontece. Nós traçamos a linha de fratura até a superfície do iceberg, é o único ponto relativamente fraco no núcleo."

"Pensamos em usar explosivos para quebrar o iceberg ao longo daquela linha, mas rapidamente desistimos da idéia", disse Macleod. "Isso provavelmente teria destruído o que encontramos."

"O que é?", indagou Costas.

Cheney puxou o tubo mais um metro para fora do invólucro e apontou. "Estávamos quase retirando o núcleo ontem e desativando o projeto, mas então um dos camaradas da NASA localizou isto."

A parte final do núcleo era totalmente diferente das faixas de gelo, uma massa de material fibroso preto e marrom de cerca de meio metro de comprimento.

"Isso não tem nada a ver com o sedimento do leito do mar na época", explicou Macleod.

"Isso é madeira!", exclamou Costas.

"Correto. Enterrada em uma camada de gelo que tem mil anos de idade, desde o tempo em que uma outra fenda se fechou. A estrutura está muito compactada, e um pouco dela parece carbonizada, não podemos dizer se por causa de fogo ou por decomposição. Mas achamos que obtivemos uma seqüência de anéis na árvore de cerca de trinta anos. Tenho um outro núcleo do mesmo lugar e que foi enviado para a Cornuália no Embraer que os trouxe esta manhã. Devemos ter o resultado do laboratório de dendrocronologia da IMU ainda esta noite."

"Pode ser um tronco de árvore local", disse Costas sacudindo a cabeça. "Não há árvores deste tamanho crescendo em lugar nenhum na Groenlândia, e menos ainda é possível encontrá-las no topo de uma calota de gelo."

Macleod olhou firmemente para Cheney. "Don, mostre-lhes o que foi escaneado."

Cheney acenou concordando e girou o monitor da estação de trabalho para que todos pudessem ver claramente. Digitou um comando e uma imagem parecida com um escaneamento feito por ultra-som apareceu na tela, com faixas e manchas em diferentes tons de cinza que tremulavam para dentro e para fora do foco.

"Uma imagem de alta resolução também tirada pelo sonar", Cheney falou arrastado. "Ela mostra a parte superior do iceberg, logo atrás da face fragmentada. Os tons de cinza devem-se principalmente a diferenças na densidade do gelo, entre o gelo glaciário formado durante o período quaternário e o gelo formado por fusão, neve de superfície e gelo que derreteram e formaram fissuras na geleira para depois congelar de novo. Mas há algo mais aí dentro, e é enorme."

Ele bateu em uma tecla e um outro escaneamento apareceu na tela, dessa vez dominado por uma massa negra no centro. Ele movimentou o cursor vagarosamente através de uma série de fotografias, mostrando diferentes ângulos enquanto o sonar se movia da lateral para o topo da geleira. Na imagem final, espantado, Jack quase deixou cair sua caneca de café.

"Você deve estar brincando", ele sussurrou.

"Este é o verdadeiro assunto", disse Macleod. "Eu lhe contei ontem sobre a madeira, por telefone, mas acabamos de perceber o que era essa imagem quando processamos os dados poucas horas atrás. Passamos o sonar de novo sobre o iceberg hoje de manhã, e cada escaneamento vertical dá uma imagem idêntica a esta."

"Meu Deus", disse Costas. "Isto parece um navio!"

"Não podemos imaginar o que mais poderia ser. Ele tem cerca de vinte metros de comprimento, com ampla largura e proa e popa simétricas. Com o escaneamento horizontal ele parece plano. Parece que não há surpresas debaixo de todo aquele gelo."

"A auréola que você percebe ao redor dele é água derretida congelada, circundando o navio como um casulo", disse Cheney. "Isto é a coisa mais danada de estranha que já se viu."

"Talvez ele estivesse em chamas quando se incrustou no gelo", disse Jeremy baixinho.

"Sim, certo", replicou Cheney. "O que quer que seja, nunca vi nada parecido com isto antes."

"Você tem certeza de que a madeira vem do navio?" Os olhos de Jack permaneceram fixados na imagem enquanto falava.

"Certeza absoluta", disse Macleod. "O centro inativo. A quilha virada para cima, se é isto que ela é."

"E tem mil anos?"

"Sim, a água derretida, congelada ao redor do navio, tem mil anos de idade", replicou Macleod.

"Então esse navio pode ser o primeiro drakar dos vikings descoberto no hemisfério ocidental", disse Jack com o coração acelerado pela excitação. "Eu tinha esperado por uma coisa quase tão irrealizável como esta quando você me contou sobre a madeira. Isto poderia ser fantástico, um dos naufrágios mais surpreendentes jamais encontrado."

"Eu lhe disse que tinha razão em fazê-lo vir até aqui", disse

Costas.

"Nunca duvidei de você."

"Eu sabia como você estava fascinado por uma exploração viking", disse Macleod. "Pela possibilidade de descobrir um naufrágio viking no Novo Mundo."

"Os nativos inuit aqui não constroem navios de madeira, e não há outro desenho da Europa, daquela época, que se pareça com este", disse Jack. "Isto combina perfeitamente com a colonização nórdica da Groenlândia naquele período. Mas como um navio pode ter ido parar em uma geleira, formada a milhas distante da costa, me escapa completamente."

"É um motivo que necessita ser examinado com mais cuidado", disse Macleod sugestivamente.

"Deixe-me ver." Costas passou a mão pela barba e inclinou-se sobre Cheney, examinando a escala do escaneamento. "Isto se encontra a cerca de trezentos metros para dentro do iceberg a partir daquela face dianteira, e a cerca de cinqüenta metros abaixo do atual nível do mar, está certo? Acho que o núcleo estará bem compacto e será improvável um desmoronamento do túnel, mas nós gostaríamos de ir por dentro da água para evitar introduzir bolsas de ar no interior do iceberg."

"Pensamos da mesma forma."

"Quais são os riscos?" perguntou Jack. "Quero dizer, as probabilidades de haver um desmoronamento?"

"Lanowski é o homem das simulações, e ele já disse quase indo", replicou Macleod. "Tudo o que posso acrescentar é que é agora ou nunca. Uma vez que este iceberg ultrapassar a soleira e sair em alto-mar, não haverá mais chance. Tudo está preparado; temos apenas de seguir adiante."

"Graças a Deus eu não tenho seguro de vida", murmurou Jack. "Imagine tentar vender a idéia dessa aventura para o seu corretor."

"Provavelmente isso não é mais perigoso do que mergulhar dentro de um vulcão ativo", disse Costas tristemente.

"Não. Você não pode. Isto é loucura." O rosto de Maria ficou paralisado de horror quando ela percebeu o que eles estavam planejando fazer, e ela olhou de um para outro à espera de um sinal de que tudo era apenas uma brincadeira. Jack olhou para ela, desculpando-se, e depois lançou um olhar para Costas, que sorriu para ele em retorno.

"Ok. Isto está bastante bom para mim." Macleod olhou para Inuva, que havia devolvido o rádio-receptor e esperava pacientemente atrás deles. "Enquanto a equipe no iceberg está posicionando os seus aparelhos, vamos dar um rápido passeio até a praia."

 

Uma hora mais tarde, a poderosa forma do iceberg apareceu gradualmente diante deles, uma parede branca entalhada cortada por faixas translúcidas azuis e verdes. Jack fechou o zíper de seu traje de sobrevivência cor de laranja, ajustou o colete salva-vidas e voltou-se para olhar as linhas lustrosas do Seaquest II desaparecendo atrás da esteira deles. Ao seu lado encontrava-se Maria, agarrada à corda de segurança, e Macleod lhe deu um olhar tranqüilizador do lado oposto da ponte flutuante.

"Este passeio é um pouco tipo montanha-russa, mas Henrik é um especialista. Ele brincou nessas águas toda a sua vida."

O tripulante dinamarquês sorriu e ficou em pé na frente do Evinrude 120, na parte externa do navio, segurando a corda do cabo de atracação esticado em uma mão e o acelerador na outra. Ele começou a dirigir o Zodiac como se fosse uma carruagem, mm saltos verticais sobre os fragmentos de gelo que cobriam o mar, sem fazer esforço, balançando a enorme máquina de um lado para outro a fim de evitar os growlers que estavam traiçoeiramente à espreita, logo abaixo da superfície. Depois de se movimentar por cinco minutos entre os fragmentos de gelo, eles alcançaram um par de bóias vermelhas, a entrada para um dique flutuante que mantinha uma grande área na frente do iceberg livre de gelo. Quando vagarosamente venceram os últimos cem metros até o iceberg, viram dois homens subindo na enorme parede diante deles usando ganchos de ferro e machadinhas de gelo, suas formas diminutas contra a vasta magnitude do iceberg. Eles já podiam sentir o frio que irradiava do gelo, uma aura refrigerada que fez Maria arrepiar-se. Ela insistira em juntar-se a eles para o passeio, mas agora se sentia debilitada, como se tivesse se afastado demasiado dentro de um mundo além de sua experiência.

"O iceberg parece uma coisa viva", disse ela. "Quase como se respirasse."

"A exalação fria, na verdade, mostra que ele está derretendo, e depressa", disse Macleod. "Dentro em breve, mesmo a face do fragmento à nossa frente ficará muito perigosa para se trabalhar nela."

Eles chegaram a uma doca flutuante que ficava a cerca de vinte metros do iceberg, a forma balançante de um Aquapod submersível visível em um dos lados e dois Zodiacs no outro. Um conjunto emaranhado de cabos estava sendo baixado da doca para dentro do mar e um grupo de homens encontrava-se ali perto vestindo E-suits pretos da IMU, trajes secos próprios para qualquer ambiente, que prolongariam sua sobrevivência mesmo nessas águas frígidas se algo desse errado. Depois de alguns instantes, o cabo parou e uma forma familiar separou-se do grupo, acenando para eles e indo pela plataforma até o Zodiac.

"Bom trabalho, rapazes. Fiz tudo o que podia aqui."

Com uma agilidade que não correspondia à sua estrutura corpulenta, Costas pulou da plataforma para o Zodiac, aterrissando com uma queda estrepitosa nas tábuas em frente a Jack. Ele os havia precedido, indo meia hora antes até o iceberg, e estava nitidamente fatigado. Cambaleou e despiu o E-suit até o peito, sentou-se e procurou acalmar-se durante um instante, depois vestiu a jaqueta laranja de proteção contra o vento e o colete salva-vidas que um tripulante lhe entregou.

"Estou pronto para ir."

O tripulante desatracou o Zodiac e girou rumo à linha do dique flutuante, dirigindo lentamente para o oceano e depois mudando subitamente de direção para a direita logo que passaram pelas bóias da entrada. Cinco minutos depois, o dique flutuante estava fora de vista e a extremidade norte do iceberg atrás deles. Macleod propôs ao tripulante para dirigir por um curto caminho dentro do fiorde e depois diminuir a velocidade e parar a máquina. Sem o barulho do motor de popa, repentinamente tudo pareceu sobrenatural, uma ilusão de serenidade, como se ao cruzar o limiar subaquático eles tivessem entrado em um mundo de fantasia de gelo, como se tivessem se tornado uma coisa única junto com os altaneiros palácios de cristal que os rodeavam.

"Não se iludam", disse Macleod. "Há forças titânicas operando aqui."

Como numa deixa, o silêncio foi cortado por um tremendo estrondo seguido por uma onda de choque de percussão através do ar e por um som intenso e potente, quando uma parede de gelo deslizou da geleira bastante distante na extremidade da calota polar. O som parecia ressoar em todos os icebergs presos no fiorde, um coro sinistro de ecos, competindo para atingir o Zodiac, vindos de todas as direções e depois tornando-se gradativamente mais baixos, como um longo suspiro. No silêncio sobrenatural que se seguiu, os icebergs ao redor deles pareciam até mesmo mais aterradores, suas próprias estaturas mais insignificantes e impotentes.

"O mar com freqüência fica plácido desse jeito no verão", disse o tripulante. "Mas, ao mesmo tempo, essa também é a época em que a geleira fica mais ativa. E quanto mais quente ficar por aqui, maior a probabilidade de ocorrer uma colisão com o ar frio que vem da calota polar. Isso acontece muito rapidamente."

Ele apontou para o horizonte do lado leste do fiorde, para uma faixa de céu sobre o gelo que poderia ser azul-escura ou cinza-escura, mas a atenção de todos rapidamente desviou-se para um growler do tamanho de um carro, bem à frente deles. O pequeno iceberg havia subitamente começado a balançar de um lado a outro, uma visão alarmante que parecia desafiar a razão naquele mar gelado. Ele balançava cada vez mais agressivamente e depois caiu, revelando uma superfície esculpida e polida, e enviando uma ondulação progressiva de água para o fiorde. Os fragmentos de gelo aumentaram repentinamente ao redor deles como um monte de vidros quebrados, e outros growlers ergueram-se, desconfortavelmente próximos, saídos das profundezas. "Isso foi alarmante", disse Maria.

"Vocês ainda não viram nada", replicou Macleod. "Quando um enorme iceberg gira, às vezes não se sente grande coisa por aqui, mas uma onda de maré de dez metros pode alcançar a praia. Você não gostaria de vagabundear pelas praias por aqui."

"Não fale tão cedo", disse Costas. "Queremos que nosso iceberg fique tranqüilo e bem-comportado pelo menos durante as próximas quarenta e oito horas."

Jack olhou de novo para a massa de gelo cheia de rangidos, e depois para o fiorde e em direção à geleira. Os icebergs que não estavam presos no limiar pareciam deslizar majestosamente em direção ao mar aberto, mas os que estavam dentro era como se estivessem desorganizados, espremidos e impedidos de se deslocar, suas extremidades entalhadas ainda em estado rústico e não buriladas depois da violência de seu nascimento. O poder do lugar era ainda mais apavorante porque muito do que havia ali permanecia invisível, como os violentos distúrbios de atividade que pulsavam ocultos, sem interrupção, nas profundezas, cada vez que uma placa de gelo caía dentro do oceano, uma constante expansão de poder nunca visto dessa maneira em nenhum outro lugar da Terra. Para Jack, isto era uma nova medida da fragilidade humana frente à natureza, um limite que ele parecia estender cada vez mais a cada novo projeto.

Macleod fez um aceno para o tripulante, que deu o sinal de partida e ligou o motor. O Zodiac virou-se em direção ao mar aberto e depois acelerou indo para a praia, sua esteira agitando os fragmentos de gelo que se estendiam pelo fiorde em grandes ondulações. O tripulante encontrou um trecho de água clara e acelerou bastante, fazendo o Zodiac traçar um amplo arco em direção ao promontório cheio de penhascos que assinalava a extremidade norte do fiorde. Jack segurou-se no cordão de segurança e recostou se na ponte flutuante onde estava sentado perto da parte anterior da embarcação, deixando a água fria borrifar seu rosto e sentindo o gosto forte do sal em sua boca. Fazia vários meses desde a última vez que tinha mergulhado e sentia falta do gosto do mar. Ele viu Maria lhe sorrir quando ela se segurou na corda ao seu lado, e observou quando Macleod e Costas desviaram a cabeça e puseram seus capuzes para não receber os borrifos. Jack lembrava de seu último mergulho com Costas, nas entranhas profundas do vulcão, seis meses antes, um mergulho que tinha reavivado seu pior trauma. O mergulho que tinham planejado agora era mais confinante ainda, e seria um dos mais extraordinários que jamais haviam empreendido. Os temores ainda estavam presentes, mas sob controle, e tudo o que ele sentia agora era uma sensação de entusiasmo irresistível. O projeto do Chifre de Ouro havia reacendido sua paixão por arqueologia, mas tinha sido dirigido da ponte de comando de um navio, fora removida uma etapa crucial para a revelação da história com as suas próprias mãos. Ele estava com vontade de ir para debaixo da água de novo, para ser o primeiro a ver e tocar os fabulosos tesouros perdidos durante séculos nas profundezas do oceano.

Quando o motor parou, o ruído ensurdecedor na parte externa à embarcação foi substituído por um coro sinistro de uivos e latidos, e eles perceberam que o vale adiante tinha cachorros amarrados a postes, alguns deles ladrando de fome e outros devorando nacos de carne que lhes haviam sido deixados em seus cercados enlameados.

"Os groenlandeses ainda usam trenós de cachorros no inverno", disse Macleod, agora com o capuz puxado para trás. "Grande parte do terreno é muito desigual para ser percorrido por um snow-mobile, e a calota polar fica muito afastada de uma estação de combustível. Eles mantêm os cachorros presos durante todo o verão e atiram neles quando ficam muito velhos para trabalhar. Não são animais aos quais eles se apegam, não são animais de estimação."

"Estou me lembrando que, quando fizeram escavações na última colônia abandonada pelos groenlandeses nórdicos, foram encontrados ossos de cachorros com marcas de corte, devem ter servido para uma refeição final", disse Jack. "Os ancestrais desses cachorros."

"Talvez seja por isso que estão latindo", disse Costas.

Maria olhou com apreensão para os cachorros depois que os outros já tinham subido na proa para descer até a praia de seixos, e Jack estendeu a mão para persuadi-la a juntar-se a eles. Rapidamente, Macleod os conduziu para um terreno mais alto, acima da zona de perigo devido aos deslocamentos de icebergs, depois respondeu a uma chamada em seu rádio receptor e transmissor e estendeu-o para Maria. Ela falou brevemente, depois devolveu o aparelho para Macleod e retomou seu lugar perto de Jack.

"Era Jeremy", informou ela. "Ele permaneceu a bordo para terminar de analisar o Mappa Mundi. Acredita que conseguiu algo mais. Pode ser realmente excitante, mas necessitamos de um pouco mais de tempo."

"Seria bom que sua análise estivesse pronta quando terminarmos nosso mergulho", disse Jack. "Precisamos sentar e planejar para onde iremos a partir daqui."

"Eu ainda não posso acreditar que vocês farão isso", disse Maria olhando com preocupação para ele. "À vezes acho que você tem vontade de morrer."

"Esta é a primeira vez que participa de um trabalho de campo com a IMU", sorriu Jack. "Como James disse, você ainda não viu nada."

Apesar do calor do sol de verão, eles não tiraram o traje de sobrevivência, fechado até em cima por causa dos insetos, e seguiram Macleod na praia, pela rocha escarpada e erodida, em direção à depressão no vale. Não havia vegetação alta, mas a rocha açoitada pelos ventos dos cumes vizinhos estava recoberta por viçosos leitos de musgo e grama que acarpetavam o chão do vale.

"As ruínas à frente são da antiga Sermermiut", disse Macleod. "Um lugar sagrado para os inuit locais. Pessoas que viveram aqui há pelo menos quatro mil anos, desde que os primeiros groenlandeses atravessaram pela primeira vez o mar gelado vindos do Ártico canadense. A cidade de Ilulissat fica acima do cume, para o norte, mas só foi fundada em 1741 com a moderna ocupação dinamarquesa da Groenlândia. Os dinamarqueses a chamavam de Jacobshavn, mas o nome groenlandês é um pouco mais apropriado."

"O que significa Ilulissat?" perguntou Costas.

"Icebergs."

Costas resmungou, e eles andaram com dificuldade pelo caminho, passando por uma depressão pantanosa em direção ao antigo local, afastando as nuvens de mosquitos que pareciam erguer-se do pântano como uma neblina. "E os vikings?"

"Para os nórdicos, todo este trecho da costa até a calota polar era Nordrseta, os campos de caça boreais, um lugar proibido onde dificilmente foram encontrados quaisquer vestígios de vikings." Macleod parou, esperando que Costas o alcançasse. "Os nórdicos só se estabeleciam permanentemente onde pudessem ter a esperança de conseguir um tradicional estilo de vida escandinavo, criação de gado e agricultura básica. Na Groenlândia, isso significava fixar-se nos vales férteis dos fiordes perto da extremidade sul, onde Erik, o Ruivo, chegou com sua família no início do século XI. Muitos dos colonos vieram da Noruega e da Islândia. Conseqüentemente, havia centenas de propriedades rurais, uma população que chegava a vários milhares de pessoas, e elas até construíram rústicas igrejas de pedra quando se converteram ao cristianismo."

"O que aconteceu com elas?" indagou Costas.

"Um dos maiores mistérios do passado", respondeu Macleod. "Permaneceram durante gerações comerciando marfins de morsa e peles com a Europa, mas o último contato conhecido foi no século XV, quando a Igreja Católica enviou uma expedição para a Groenlândia em 1721, para verificar se eles ainda eram bons cristãos, crentes em Deus, mas não encontraram sinais deles."

"Acreditem ou não, os cruzados foram provavelmente um motivo do desaparecimento", disse Maria.

"Hum?", disse Costas. "Os cruzados?"

"Em 1124, o rei norueguês Sigurd Jorsalfar estabeleceu uma diocese episcopal na Groenlândia. Isso significava que ele podia impor taxas aos colonizadores nórdicos, aumentando muito a miséria deles. Sigurd era conhecido como 'O Cruzado', um dos numerosos escandinavos que se juntaram aos cruzados no século XI. Ele teve a audácia de extorquir uma taxa especial para as cruzadas na Groenlândia, em todas as partes. Os groenlandeses as pagavam com presas de morsas e peles de ursos polares."

"Essas coisas devem ter sido úteis em Jerusalém", ironizou Costas. "Os cruzados foram realmente uma loucura global."

"A Igreja indubitavelmente era um fardo econômico", disse Macleod. "Mas há quem pense que os nórdicos na Groenlândia foram destruídos pelos nativos, ou por piratas ingleses, ou até pela peste negra. Eu acho que as condições ambientais foram a causa maior. A chamada Pequena Idade do Gelo do período medieval bloqueou as rotas marítimas que eram sua linha vital de comunicação com a pátria, com gelo permanecendo no mar durante todo o verão ao redor das costas. O frio também deve ter destruído sua agricultura, e talvez eles fossem incapazes ou não quisessem adaptar-se ao modo de vida nativo e sobreviver da caça e da pesca."

"Assim, o último dos vikings foi morto por causa da mudança de clima", comentou Costas. "Não foi um fim glorioso para um guerreiro de elite, não é?"

"Vamos esperar e ver", murmurou Jack. "Pode ser que os verdadeiros guerreiros entre eles tivessem se deslocado mais para o oeste."

As ruínas do antigo local estavam quase irreconhecíveis, montículos de grama e círculos baixos de rochas não trabalhadas colocadas no chão, algumas delas quase absorvidas pelo sedimento aluvial e outras expostas em trechos de pântanos ricos em turfas. Em uma pequena plataforma em direção à orla marítima havia uma barraca baixa e abobadada de cerca de três ou quatro metros e meio de largura, sua estrutura feita de barbatana de baleia e coberta com camadas de peles de foca e de couro de boi-almiscarado. Um fino fragmento de fumaça erguia-se de um buraco no centro.

"Algumas dessas pedras formam círculos para as tendas e eram colocadas para protegê-las do vento", explicou Macleod.

"Podem ser encontradas por todo o Ártico, são a principal evidência de antigas habitações. As pessoas não viveram neste local durante gerações, mas ele é um lugar santificado para os inuit de Ilulissat. Algumas vezes, os mais idosos que permaneciam próximos dos velhos costumes vinham aqui para se preparar para morrer. Suas famílias erigiam tendas tradicionais dentro dos círculos sagrados de pedra de seus ancestrais, quando sabiam que seu fim estava próximo."

Uma matilha de cães esquimós brancos e magros estava presa às estacas que rodeavam as tendas, e quando Macleod levou os companheiros adiante, os cachorros forçaram as correntes e babaram ameaçadoramente para eles. Maria parou, mas Jack conduziu-a com cuidado, mantendo-a longe do alcance das correntes. Os rosnados haviam alertado os ocupantes da tenda, e uma ponta dela abriu-se revelando uma mulher groenlandesa que usava um casaco curto forrado de pele de foca, o cabelo preto preso na nuca e enfeitado com contas. Quando olharam com atenção, reconheceram Inuva, que havia deixado o Seaquest II com um Zodiac, uma hora antes deles. Ela acalmou os animais e acenou para Macleod, que se ajoelhou e trocou algumas palavras com a mulher antes que a ponta de pele da tenda se fechasse de novo.

"Inuva é a filha do grande homem." Macleod virou-se para os outros e falou baixinho. "Ele conhece dinamarquês, mas falará apenas em Kalaallisut, o dialeto inuit local, de modo que Inuva irá traduzir para nós. Seu nome é Kangia, que é também o nome para fiorde gelado. Ele tem bem mais do que oitenta anos agora, uma idade muito avançada para esse povo. Eles levam uma vida árdua. Em sua juventude, ele era um dos caçadores mais renomados de Ilulissat, aventurando-se por centenas de milhas ao longo da extremidade da calota polar com seus cães, remando seu umiak, o barco de peles, muito além do último assentamento ao norte."

Passaram pela ponta de pele da tenda, enquanto Macleod a mantinha aberta, depois ele os seguiu para dentro. Os olhos de Jack ficaram irritados por causa da fumaça acre que subia do piso da lareira, alimentada por placas de excremento seco de boi-almiscarado. Macleod fez um sinal para que eles se sentassem sob a fumaça em um círculo de peles arrumadas ao redor do fogo. Quando os olhos se acostumaram com a escuridão, puderam ver que o outro extremo da tenda estava ocupado por um trenó de madeira, os varões escurecidos pela idade, lindamente esculpidos com formas harmoniosas de animais. Sentado no canto, envolto em mantas, havia um homem inuit idoso, seu rosto coriáceo e sulcado pelo tempo com o longo cabelo branco espalhado livremente sobre os ombros. Quando o homem olhou para eles, puderam ver que seus olhos estavam embaçados por causa da cegueira provocada pela neve e que sua pele tinha a palidez cinzenta daqueles que se aproximam da morte. Com grande esforço, ele começou a falar, e Inuva traduzia os sons leves e com estalidos da língua nativa da Groenlândia cada vez que ele fazia uma pausa.

"Meu pai diz que desde tempos imemoriais seu povo tem vivido aqui, e forasteiros vieram e se foram", disse ela suavemente. "Agora já chegou quase o momento de ele ir embora e encontrar os trenós puxados por cachorros de seus ancestrais, quando eles atravessam rapidamente a calota polar, com destino a toda a eternidade." O velho estendeu uma mão mirrada para fora das mantas e pegou uma fotografia rasgada no trenó ao seu lado, acenando silenciosamente para Macleod enquanto lhe passava a foto.

"Aqui é onde nós estamos", disse Macleod. "Inuva lhe contou sobre nosso navio de pesquisa no fiorde, e foi ela quem me chamou para encontrar Kangia dois dias atrás. Dêem uma olhada na foto."

Macleod passou a fotografia para Jack, enquanto Maria e Costas se aproximaram para ver melhor. Era uma imagem esmaecida, em preto-e-branco, de um grupo de homens vestidos com roupas polares completas, parados ao lado dos trenós de madeira carregados com equipamentos e rodeados por cães.

"Algum tempo antes da Segunda Guerra Mundial, a julgar pelos equipamentos", disse Jack. "Talvez nos anos 1920 ou 1930." Fie parou e olhou mais atentamente. "Este homem idoso no centro. Não é Knud Rasmussen? Sei que ele nasceu em Jacobshavn."

"Kangia era um dos que treinavam os cachorros. Ele é o rapaz à esquerda."

"Então Kangia conhecia Knud Rasmussen!" Jack fitou com admiração o velho inuit, depois olhou para Costas. "Um dos mais célebres exploradores polares, metade dinamarquês, metade inuit. A primeira pessoa que atravessou toda a calota polar da Groenlândia."

"Rasmussen era como um pai para Kangia e encorajou-o a manter os costumes antigos. Kangia o venerava e admirava o seu respeito pelas tradições nativas. O que é mais do que se pode dizer em favor desses personagens antigos." Macleod pegou uma fotografia impermeabilizada do bolso interior de sua jaqueta e passou-a adiante. "Kangia também me deu esta foto."

"AhnenerbeV A expressão de Jack tornou-se subitamente séria.

"Correto. Eu escaneei a foto e fiz algumas pesquisas antes de você chegar. Uma expedição alemã veio para Jacobshavn em 1938, um ano antes da guerra. Eles precisavam de treinadores de cachorros, e Kangia era uma escolha óbvia."

A fotografia mostrava dois homens europeus parados diante de um cenário de rocha e gelo. Pela forma do promontório, o local era nitidamente Sermermiut, próximo de onde se encontravam agora, mas a fila de icebergs formava uma parede contínua ao longo do limiar do fiorde, e a foto tinha sido tirada mais de cinqüenta anos atrás, antes que a geleira começasse a involuir. Ambos os homens estavam vestidos com apetrechos de expedição da época, suéteres grossos, jaquetas de lã pesadas e calças enfiadas em meias que iam até os joelhos. O homem à direita era alto e bem-apessoado, talvez com cerca de 35 anos, com fartos cabelos loiros, mas estava parado um pouco afastado do outro, como se relutasse em ser fotografado. O outro homem era baixo, cabelos pretos, feições contraídas, com uma perna dobrada e a mão direita apoiada sobre o joelho. Com a mão esquerda segurava um par de compassos, com calibre para medições, sobre a cabeça de um jovem inuit, sentado de maneira embaraçada sobre uma rocha à sua frente, reconhecido como Kangia por causa da foto anterior. Parecia um caçador posando com seu troféu, só que a situação era um pouco mais deprimente do que isso. Em seu braço esquerdo o homem usava uma faixa vermelha com o símbolo preto da suástica.

Jack olhou para Costas. "Ahnenerbe significa 'Herança Ancestral'. Era um departamento da SS estabelecido antes da guerra pelo Reichsführer Heinrich Himmler, o representante de Hitler. Dedicado à investigação das origens ancestrais da raça ariana."

"Que diabos estavam eles fazendo aqui?"

"Acredite ou não, provavelmente procurando pela Atlântida." Jack lançou um olhar irônico para Costas. "Os nazistas acreditavam que os arianos eram descendentes diretos dos atlantes. No final dos anos 1930, a Ahnenerbe enviou expedições pelo mundo todo, para o Tibete, para as profundezas da América Central, para o Ártico. Eles acreditavam poder encontrar os mais puros descendentes dos atlantes nas regiões mais remotas, em áreas afastadas do resto da humanidade. Uma de suas técnicas era a frenologia, que media as cabeças procurando os assim chamados aspectos arianos. É isso que esse retardado mental está fazendo na foto. A ciência era medieval, mas os antropólogos genuínos recrutados pela Ahnenerbe tinham de se curvar às obsessões dementes do Reichsführer. Eles até a chamavam de Cruzada de Himmler."

Macleod acenou concordando. "Sim", disse ele. "E uma expedição para a Groenlândia era duplamente bizarra. Os nazistas também estavam obcecados com a Welteislehre, a Teoria do Mundo de Gelo, uma fantasia cosmológica inventada por um austríaco demente na virada do século. Era uma das teorias esquisitas que ganhou adeptos depois da Primeira Guerra Mundial, a qual parecia oferecer estrutura e explicação para um mundo que havia ficado maluco. De acordo com a teoria, tudo no universo era uma luta perpétua entre o gelo e o fogo. A raça ariana original tinha nascido em uma região de gelo e havia se espalhado pelo mundo por meio de inundações e terremotos. Que lugar melhor para encontrar evidências dos arianos originais do que a calota polar da Groenlândia, o último grande remanescente da Idade do Gelo?"

"Isso teria sido ridículo se não fosse pelo racismo maligno subjacente à tudo que a Ahnenerbe fazia", disse Jack. "Como eles contavam para Himmler apenas o que este queria saber, suas atividades ajudavam a solidificar seu ponto de vista sobre a superioridade ariana. Lembrem que ele era o arquiteto-chefe da Solução Final, a destruição dos judeus."

"Então, esses dois sujeitos eram nazistas." Costas havia pegado a fotografia e a estava examinando junto com Maria.

"De acordo com Kangia, o de cabelo besuntado com a faixa no braço era uma pessoa completamente sórdida que discursava constantemente sobre Hitler e tratava os groenlandeses como cachorros", disse Macleod. "Mas o outro sujeito parece ter sido mais razoável, tentando aparentemente se mostrar amigável com Kangia, ressaltando a sua importância na expedição. Ele estava fascinado pelas tradições orais dos groenlandeses e prometeu visitá-los sozinho um dia para registrá-las. Aparentemente tornou-se um excursionista decente, deslocando-se de trenó puxado por cachorros, e ganhou o respeito dos groenlandeses. Os dois alemães se detestavam e raramente conversavam entre si."

"Você tem alguma idéia de quem eles eram?" Inuva falou baixinho da beira da cama onde estava sentada, ouvindo, com a mão na testa de seu pai.

Macleod voltou-se para ela. "Os registros da expedição desapareceram misteriosamente do quartel-general da Ahnenerbe durante a deflagração da guerra, de modo que esta foto e as memórias de Kangia são tudo o que temos para prosseguir. Eu a escaneei e passei por e-mail para a biblioteca da IMU ontem. Eles não tiveram condições de identificar o homem baixo, é um rosto que se parece com o de milhares de outros assassinos, mas o outro sujeito é uma outra história."

"É claro. Eu o reconheço agora", exclamou Maria repentinamente. "O loiro. Não é Rolf Künzl, o renomado arqueólogo?"

"Correto."

"Um dos fundadores da arqueologia viking", disse Maria, entusiasmada. "Sua tese de doutorado sobre a colonização nórdica permanece como uma espécie de referência para o assunto. Uma carreira precocemente interrompida pela guerra."

"Então, você sabe o que aconteceu com ele."

"A conspiração de Von Stauffenberg" - replicou Maria.

Macleod concordou. "Ele era um em meio aos inúmeros estudiosos recrutados à força pela Ahnenerbe para sustentar as fantasias nazistas sobre a raça ariana original. Künzl não tinha outra escolha a não ser participar do jogo, muito embora desprezasse abertamente as facções lunáticas que compunham a Ahnenerbe, sobretudo os estudiosos fracassados e malucos que deviam suas carreiras aos nazistas."

"Os lunáticos dirigiam o asilo", murmurou Costas.

Macleod concordou novamente. "Mas Künzl nunca foi recrutado para a SS porque ele pertencia a uma velha família militar prussiana, um oficial da reserva na Wehrmacht, e conseguiu com adulações escapar dos tentáculos de Himmler quando a guerra começou. Ele lutou dois anos sob o comando de Rommel no deserto, alcançando o posto de coronel e ganhando a Cruz de Ferro, mas depois foi chamado de volta a Berlim e lhe foi dado um cargo inferior. Himmler parece tê-lo escolhido para provocar uma intimidação especial, acusando-o repetidas vezes de ter roubado registros da expedição para a Groenlândia e escondido o que tinham achado. Mas Himmler deve ter perdido a paciência com ele em setembro de 1944, pois Künzl foi detido e enforcado com uma corda de piano, ao lado de Stauffenberg, pela tentativa de assassinato de Hitler."

"Um dos mocinhos", murmurou Costas.

"Nenhum dos conspiradores era santo", replicou Macleod. "Künzl havia sido um dos mais ativos comandantes de tanques alemães no Africa Korps, e suas mãos estavam sujas com o sangue de muitos aliados. Ele conhecia a orientação política racial dos nazistas por causa de seus dias na Ahnenerbe e, aparentemente, não havia feito nada a respeito. Mas ele detestava Hitler e queria que a guerra terminasse antes que destruísse a Alemanha. Se olharem para o outro homem na fotografia, poderão ver de onde vinha a repugnância de Künzl pelos nazistas."

Kangia subitamente começou a falar, os tons com estalidos leves preenchiam a tenda como se um vento suave estivesse agitando as peles de foca. Procurou a fotografia e Costas entregou-a a ele, e todos ficaram observando enquanto o velho passava o dedo pela imagem do homem mais alto. Inuva inclinou-se atentamente sobre a foto enquanto o pai falava, e depois olhou para os outros.

"Passados três dias de expedição, eles alcançaram a extremidade da calota polar, na direção norte a partir daqui, e descobriram um caminho para subir até o topo do gelo. Depois de um dia arrastando os trenós através do gelo, eles foram de repente impedidos de continuar por uma piteraq, uma tempestade com fortes ventos."

Kangia ouviu sua filha repetir a palavra groenlandesa e repentinamente ficou animado, com as sombras de seus braços formando arcos contra a parede da tenda enquanto ele gesticulava na luz bruxuleante do fogo.

"Era uma tempestade violenta, a pior que meu pai já tinha visto", disse Inuva. "A expedição estava na extremidade norte da geleira, onde uma corrente de gelo afluente começou a deslizar em direção ao fiorde. Os dois alemães insistiram em atravessá-la rumo à geleira e procuraram abrigo atrás de um cume de gelo, em uma das sinuosidades onde a geleira se curvava. Mas os groenlandeses se recusaram a ir, sabendo que era muito perigoso, e permaneceram desafiadoramente com os cachorros na calota polar exposta, amontoando-se atrás dos trenós."

O velho homem juntou os punhos, separou-os enquanto fazia um som de estalo, e depois falou de novo com a filha. "Ouviu-se um barulho forte", ela traduziu. "A geleira havia se separado e os dois homens desapareceram dentro dela. Eu, Kangia, fui o único bastante corajoso para rastejar em meio ao vento até a extremidade da fenda, e olhei para baixo, através da neve em redemoinho, e vi um espetáculo incrível."

O velho estava seguindo as entonações da filha e acenando enfaticamente com a cabeça, mas de repente ele tossiu com dificuldade e deitou sobre a pilha de peles com o rosto cinza e contraído.

"Ele não tem muito tempo agora." Inuva acariciava gentilmente o braço de seu pai, e depois olhou para Macleod desculpando-se. "Acho que vocês devem ir embora."

Macleod concordou lentamente e começou a levantar-se, mas o velho estendeu o braço vacilante e falou de novo, as palavras agora eram quase inaudíveis. A filha inclinou-se para ficar mais perto e depois traduziu de novo.

"Estava muito abaixo, tão na profundeza quanto os icebergs são altos." Macleod sentou-se enquanto ele falava. "No fundo da fenda havia a proa de um navio, curvando para cima com um aspecto alarmante, o madeiramento escurecido e velho. Eu, Kangia, soube o que era assim que o vi. A lenda que era contada falava de gigantes revestidos de aço, Kablunat, que vieram do outro lado do mar e engastaram um de seus grandes navios pousados sobre o gelo. Eu, Kangia, ouvi a história de meu avô quando era menino, dentro desse mesmo círculo, na tenda." O velho homem parou e tossiu, e Inuva olhou para os outros. "Nossos ancestrais inuit, os thule, chegaram aqui vindos do Ártico canadense para se estabelecer, cerca de oitocentos anos atrás, depois que as pessoas nativas que viviam aqui tinham morrido. Mas os caçadores thule já tinham vindo aqui antes disso, e tinham encontrado os gigantes barbados que viviam em casas de pedra no sul da Groenlândia. Meus ancestrais os chamavam de Kablunat"

"Meu Deus", sussurrou Jack. "Um navio dentro do gelo. Não pode ser."

"Espere. Há mais." Inuva levantou a mão e ouviu de novo o que dizia o velho. "O gelo começou a mover-se debaixo de mim", ela traduziu. "Eu, Kangia, atirei uma corda e icei os dois homens. A fenda fechou-se com um estrondo assim que eles saíram. O navio havia desaparecido no gelo. A piteraq continuou por muitos dias e nós retornamos para Ilulissat. Esse foi o fim da expedição. Os alemães navegaram para sua terra e nunca mais os vi."

O velho procurou algo debaixo das cobertas que Inuva tinha colocado sobre ele e tirou um pacote envolto em pele branca de foca. Com as mãos trêmulas estendeu-o e Macleod o pegou, curvando solenemente a cabeça enquanto fazia isso. À vista do velho entregou-o para Jack, que segurou com cuidado o couro macio em suas mãos e olhou de modo inquisitivo para Macleod.

"É por isso que você tinha de vir pessoalmente", disse Macleod. "Quando falei com Kangia, dois dias atrás, ele me contou que tinha um objeto que queria passar adiante. Eu lhe disse que você era nosso chefe, e ele falou que só você poderia recebê-lo dele."

Jack olhou para o velho e curvou a cabeça de modo solene, e depois, com muito cuidado, começou a desembrulhar o pacote. Maria e Costas aproximaram-se para ver melhor, enquanto o embrulho de pele de foca era aberto. Maria suspirou, o rosto pálido por causa da excitação.

"É uma pedra de runa!"

O objeto era uma placa polida verde-escura, um pouco mais comprida do que a mão de Jack, toscamente quadrada nos cantos e com a superfície superior plana. Havia três linhas de runas rusticamente inscritas nela, vários símbolos reconhecidos por Jack quando ele a levantou em direção à luz.

"Isso é fantástico", murmurou Maria. "As runas estão escritas em escandinavo antigo, não há dúvida sobre isso. Há alguns símbolos estranhos e eu não reconheço as palavras, mas Jeremy será capaz de ajudar."

"Meu pai me contou a história, mas nunca me mostrou isso", murmurou Inuva. "Só há uma igual a essa no museu em Upernavik, a centenas de milhas ao norte daqui, encontrada em um monte de pedras erigido sobre um túmulo distante em um lugar chamado Kingigtorssuaq. Ele é o achado viking mais famoso da Groenlândia, a pedra de runa mais boreal jamais encontrada no Ártico."

"Espere para ouvir de onde essa vem", disse Macleod. "Quando Kangia salvou os dois alemães da fenda, eles estavam lutando por algo, mas o homem mais baixo escorregou e quase despencou. Kangia o viu golpear o outro com uma faca, mas o homem deixou-a cair na fenda. Ele estava furioso por causa de algo mais que havia perdido, mas, com a tempestade ficando violenta de novo, tornou-se uma questão de vida ou morte tirá-los dali e a briga foi esquecida. Antes de eles deixarem a calota polar, Künzl deu esta pedra a Kangia para que a guardasse. Ele disse que a pedra viera do navio no gelo. Künzl aparentemente contou aos nazistas que a havia deixado cair na fenda, mas o homem pequeno suspeitava que Künzl ainda estava com ela e ficou examinando seus pertences no meio da noite. Künzl contou a Kangia que era uma pedra sagrada e que ele nunca deveria contar ao outro homem que a pedra estava em seu poder. Kangia detestava o nazista e ficou muito contente em cumprir sua promessa."

"Künzl deve tê-la traduzido", murmurou Maria. "Ele era o melhor especialista em runas de sua época, um expert em escritas nórdicas. Naqueles poucos momentos desesperados na fenda, ele deve ter lido algo que o fez decidir nunca a deixar cair nas mãos dos seus desprezados colegas da SS na Ahnenerbe"

"Künzl disse a Kangia que, se não lhe fosse possível voltar para a Groenlândia, Kangia deveria manter a pedra oculta pelo resto de sua vida, e passá-la apenas para alguém em quem seu coração pudesse confiar. A guerra selou o destino de Künzl, e agora você é o homem confiável."

Enquanto eles estavam conversando, a mão de Kangia caíra sobre seu peito e ele havia começado a respirar com sons desiguais pouco profundos, os olhos semi-fechados e fitando o teto. Inuva voltou-se e olhou para eles com uma expressão de urgência. "Agora realmente chegou a hora de irem embora."

Macleod fez que sim e todos eles se levantaram para sair, inclinando-se em fila única sob a ponta da pele da entrada. Jack ficou por último, e antes de sair voltou-se e ajoelhou-se ao lado do velho, falando tranqüilamente com ele e dizendo algumas palavras para sua filha. Ele tocou na mão de Kangia antes de se levantar e seguir Maria para fora, para as ruínas açoitadas pelo vento da antiga colônia.

"O que você disse a ele?" perguntou Maria.

"Desejei a ele e seus cachorros uma boa viagem através do gelo, aonde quer que sua jornada os levasse. Disse-lhe que ele estava certo ao entregar seu tesouro para nós, que manteríamos sua confiança como sagrada."

Inuva apareceu na entrada da tenda para se despedir.

"O que vai acontecer com ele?" perguntou Maria com voz suave.

"Depois que o xamã vier, nós o ajudaremos a ir até o alto despenhadeiro para contemplar o fiorde, até o lugar que chamamos Kasllingekloften. Nós o deixaremos ali, e amanhã ele terá partido."

"Você quer dizer que ele se suicida?", perguntou Maria em voz baixa.

"Em Kaellingekloften nós nos reunimos todos os anos para ver o sol aparecer pela primeira vez na geleira depois das semanas de escuridão do inverno, e no mesmo lugar aqueles que estão cansados da vida pulam para as profundezas geladas do fiorde para se juntar ao espírito do mundo. Esta é a maneira tradicional. Meu pai terminou o que tinha de fazer aqui e agora ele está ansioso para ir para a sua próxima jornada."

Ela abaixou os olhos e entrou na tenda, fechando a abertura atrás de si.

Mais acima, em um rochedo, um cachorro ergueu a cabeça para o oeste e uivou, e depois puxou com força sua corrente quando os viu, achatando a cabeça como uma hiena e deixando os dentes à mostra em seu rosnado. Maria estremeceu e envolveu-se mais em seu casaco, aproximando-se de Jack enquanto passavam pelo caminho rochoso em direção ao mar.

"O que é?" ele perguntou.

"Uma antiga lenda nórdica." Ela fez uma pausa antes de contar, enquanto eles passavam por um trecho pantanoso. "O temido lobo Fenrir, nascido de uma ninhada monstruosa gerada por uma giganta, irmão da serpente do mundo Jormungard e da criatura Hei, guardiã dos mortos. Odin ouviu uma profecia de que o lobo e seus parentes um dia destruiriam os deuses, então ele acorrentou Fenrir a uma rocha. Thar liggr hann til ragnawks, ali ele espera até Ragnarok, até a prova final no fim do mundo, quando então descarregará sua vingança sobre os deuses."

"Este é um cachorro de trenó, não um lobo", disse Jack.

"Eu sei. É irracional." Maria lançou um olhar para a figura distante do cachorro que ficara para trás e voltou-se rapidamente para seguir pelo caminho. "Mas eu sinto como se tivesse alcançado a beirada daquele mundo de mito, um limiar entre o mundo que os vikings conheciam e um mundo que nem os seus deuses podiam controlar. Os vikings que vieram para cá devem ter sentido a mesma coisa, um pressentimento quando olharam por sobre o mar gelado para o oeste, perguntando-se se o horizonte continha riquezas e uma nova vida ou o pesadelo de Ragnarok. É como se eles estivessem sendo avisados de que outros haviam passado pelo caminho diante de nós e não tinham voltado."

Jack colocou o braço nos ombros de Maria e estreitou-a, procurando tranqüilizá-la. "Eu tomaria isto como um bom presságio. Se Fenrir está aqui, então devemos estar na pista certa." Ele sorriu e lhe entregou o pacote embrulhado que o velho lhe havia dado. "De todo modo, as lendas antigas vão ter de esperar um pouco. Você tem um trabalho feito sob medida para você. Quanto antes pudermos conseguir a tradução das runas, melhor será."

"Os groenlandeses nórdicos viram tempestades como aquelas, sabe, as piteraqs", disse Maria. "Há um fragmento de um poema, que aparece repetidas vezes, chamado Norõrsetudrápa, acerca destas terras nórdicas de caça. É algo como: Fortes rajadas das paredes das montanhas brancas entrelaçam as águas, e as filhas das ondas, criadas com a geada, rasgam o manto em pedaços, regozijando-se na tempestade. Este é praticamente o único escrito que sobreviveu da Groenlândia nórdica, preservado em uma narrativa épica da Islândia."

"Não se preocupe", disse Jack. "Seremos cuidadosos."

Poucos minutos mais tarde, eles alcançaram a costa e subiram no Zodiac que estava à sua espera. Já era quase noite então, mas, na perpétua luz do sol do verão ártico, era impossível determinar exatamente a hora do dia; com efeito, Jack se sentia vagamente desorientado. Depois de ter ajudado Maria a subir na proa e quando estavam de novo acomodados nas plataformas flutuantes infláveis, Macleod fez um sinal ao tripulante e o Evinrude começou a roncar. Eles fecharam o zíper dos trajes de sobrevivência e ajustaram o colete salva-vidas quando o tripulante virou em sentido contrário e depois girou, fazendo um grande arco na baía; por sua vez, a hélice foi deslocando os fragmentos de gelo enquanto o Zodiac procurava uma passagem em meio às placas flutuantes de gelo. Quando rodearam o promontório na altura da cabeça do fiorde, o iceberg surgiu dramaticamente, impedindo o progresso da frota de Zodiacs que estavam alinhados em toda a sua extensão, carregados com equipamentos e técnicos. Costas examinou a cena com ansiedade e eles se apressaram em direção ao Seaquest II, depois Costas relaxou visivelmente e olhou para Jack. Fez um sinal de polegar para cima e gritou contra o barulho do motor e do vento, e suas palavras se perderam, exceto o refrão excitado e familiar que Jack ouvia ao longo de todos os anos que estavam juntos.

"Está na hora de se aprontar."

"Todos os sistemas estão funcionando. Estamos prontos para ir."

Costas colocou de lado seu telefone de ouvido e sorriu para Jack. Do lado de fora da cúpula de plexiglas eles podiam ver dois tripulantes na plataforma soltando as cordas de travamento, e o Aquapod começou a sacudir desconfortavelmente na superfície enquanto seguia em direção ao iceberg. Costas ativou rapidamente os jatos de água e inverteu o comando do submersível de novo para a sua posição de descida. Era quase meia-noite, mas, sob o sol contínuo, a cúpula tinha começado a esquentar, e Jack procurou o termostato em seu E-suit.

"Não ajuste demais a temperatura." Costas limpou as gotas de suor da testa. "Vamos esfriar rapidamente assim que submergirmos."

A atividade agitada na plataforma, de quando eles haviam partido, agora parecia fazer parte de um outro tempo e lugar, e eles ouviram quando o último dos Zodiacs que carregava a tripulação apressou-se para fora da zona de perigo retornando para o Seaquest II. Agora eles encontravam-se praticamente sozinhos, o seu último contato humano estava à espera no DSRV, aninhado contra o iceberg, trinta metros abaixo. Costas apertou suas correias, verificou o painel de instrumentos e segurou os controles. Com sua cúpula em forma de bolha e os tanques tubulares de lastro de cada lado, o Aquapod para dois ocupantes não era diferente de um pequeno helicóptero, uma impressão aumentada pelo sistema multidirecional de propulsão com jatos de água que lhe proporcionava uma agilidade maior ainda do que a de seu correspondente no ar.

"Você pode dar adeus à superfície agora", disse Costas.

"Pelo menos ainda teremos a luz do dia quando voltarmos", murmurou Jack.

"Isto é algo a ser considerado também."

Costas abriu os tanques de lastro e um aquecedor de água entrou em ação de cada lado do Aquapod, produzindo uma efervescência enquanto o submersível lentamente se equilibrava na água e começava a mergulhar. Durante alguns instantes, quando o nível do mar se ergueu sobre a cúpula à sua frente, eles ficaram olhando para dois mundos, ambos assustadores em sua magnitude. Acima deles havia a forma muito alta do iceberg, familiar agora, embora ainda excitante, suas nuanças de azul e de verde refratadas através das partículas de fragmentos de gelo que se acumulavam na cúpula. Abaixo deles havia um mundo tão variado quanto o espaço exterior, um mundo que a natureza nunca pretendeu que eles invadissem. As águas do Ártico eram espantosamente claras, com visibilidade que se estendia por cem metros ou mais em todas as direções, e a parede curvada do iceberg se estendia abaixo deles até onde podiam enxergar nas profundezas geladas do fiorde. Era uma visão estupenda, e durante alguns instantes eles a fitaram estupefatos, em silêncio, enquanto a cúpula deslizava sob a superfície.

"Merda!" exclamou Costas subitamente. "Assumindo ação evasiva!"

Costas acionou o propulsor e virou o Aquapod em direção ao iceberg. Pelo canto do olho, Jack viu o que Costas havia percebido a tempo. Havia uma agitação rítmica na água vinda de dentro do fiorde, um redemoinho em câmara lenta que estava avançando inexoravelmente na direção deles. Quanto mais desciam, maior ele se mostrava, como um pesadelo do qual não havia jeito de escapar. Jack lembrou rapidamente o aviso de Maria sobre o lobo Fenrir e o fim do mundo, sobre forças que nem os deuses conseguiam controlar. Eles saíram a jato para baixo até ficarem quase verticais, mergulhando direto no negrume do abismo. "Segure-se!", gritou Costas.

Uma parede branca em forma de foice apareceu subitamente para fora do tumulto, uma aparição que avançou para eles com velocidade aterradora e depois passou na frente da cúpula poupando-os por apenas alguns centímetros. Eles foram jogados violentamente para um lado, e Costas lutou para impedir que o Aquapod se movesse descontrolado em espiral, depois endireitou o submersível e o fez parar. Acima deles puderam vislumbrar a placa gigante de gelo enquanto ela rolava em direção ao mar aberto, girando para longe até que apenas uma nuvem de bolhas sobrou para marcar o seu avanço.

"Essa passou perto", disse Costas.

"Eu pensei que tudo isso tivesse terminado seis meses atrás", disse Jack com um tom queixoso. "Uma vida tranqüila e contemplativa cuidando do jardim e escrevendo minhas memórias."

"Sim, certo", replicou Costas. "De todo modo, precisamos de um pouco de excitação para provocar uma descarga de adrenalina para aquilo que vamos fazer em seguida."

Agora que a água estava calma de novo, eles olharam ao redor, e ambos ficaram calados. Tinham mergulhado até uma profundidade de quase cem metros e o DSRV estava agora acima deles, com dois mergulhadores pouco visíveis do lado de fora e rastos de bolhas prateadas subindo pelo gelo em direção à superfície. A imensa face do iceberg ocupava toda a vista na frente deles, porém havia que considerar o fato de que a essa profundidade todas as cores haviam desaparecido, com exceção do azul. O iceberg tinha um matiz surrealista, um brilho azul-celeste que o fazia parecer uma miragem. Fies podiam perceber imensas concavidades onde a corrente fizera o gelo sofrer erosão, e vastas marcas de sedimento e de fragmentos de rocha nos pontos em que o iceberg roçara contra a lateral do fiorde. E abaixo deles, muito abaixo, e quase indistinta na escuridão, eles puderam distinguir uma paisagem sepulcral de seixos rolados e ondulações, um cume sombrio que descia para dentro de um espaço infinito de negrume do outro lado. Era uma paisagem marinha selvagem e cheia de sulcos feitos pelo gelo, e eles sabiam que era um dos lugares mais perigosos em todos os oceanos.

"O limiar do fiorde gelado", murmurou Jack. "Podemos ser os primeiros a vê-lo."

"Apavorante", murmurou Costas.

"Não é um lugar onde eu queira ir", replicou Jack.

"Recebido e entendido." Costas voltou sua atenção para o painel de instrumentos e injetou uma rajada de ar nas câmaras flutuadoras, conduzindo o Aquapod em direção ao iceberg até que ficasse diretamente abaixo do DSRV. "Ben, aqui é o Aquapod Um, são e salvo. Estaremos com vocês dentro de cinco minutos. Fim."

 

O DSRV que equipava o Seaquest II tinha como característica uma pequena doca interna, um tanque aberto interior que permitia à cúpula do Aquapod se erguer dentro de uma câmara na parte traseira do submersível. Quando Jack olhou para cima, para o bojo do DSRV, observou a porta corrediça da doca abrir-se e viu a forma vacilante de uma figura olhando para eles de dentro da câmara. Dois mergulhadores apareceram de cada lado do Aquapod e engancharam quatro cabos de ancoragem que lentamente os içaram. Quando atingiram a superfície e a cúpula se abriu dentro do espaço restrito, eles foram recebidos pelo rosto amável de Ben Kershaw, anteriormente da Marinha Real, que havia estado no meio da ação no mar Negro seis meses antes e tinha recentemente se tornado o comandante-chefe de segurança do Seaquest II. Jack esticou-se e pegou a mão estendida para ajudá-lo a subir, depois o cumprimentou calorosamente quando se encontrou sobre o passadiço estreito que rodeava a doca.

"Eu achava que se passaria algum tempo antes que o visse de novo dentro de um submarino."

"Qualquer trabalho é válido." Ben parecia sério. "Está tudo bem?"

"Tivemos de fugir de um growler."

"Nós percebemos. Achávamos que vocês eram um caso perdido. O fiorde tornou-se mais ativo nas últimas vinte e quatro horas, com mais pedaços grandes e grossos de gelo como aquele fragmento que saiu da geleira."

"Quero que vocês saiam daqui logo que tivermos ido embora", disse Jack.

"E se vocês precisarem cair fora?"

Jack foi firme. "Podemos subir até a superfície e acender uma luz. Temos o rádio-bóia. Não quero ninguém na zona de perigo se este iceberg se deslocar. Quero que o DSRV volte ao navio. Já tivemos muitas perdas no último ano, e não quero pôr a vida de ninguém mais em risco."

"E eu?" Costas lançou a Jack um olhar de falsa indignação quando saiu do Aquapod e se agachou perto deles.

"Oh, você é dispensável. Já deveria saber disso a esta altura."

"Sim, e há sempre Lanowski que pode assumir meu lugar."

Jack fez uma careta e os outros dois homens riram, todos eles sentindo um alívio na tensão que experimentavam "Ok, decisão tomada", disse Jack. "Prometo que vou cuidar de você como um pai cuida do filho. Agora, vamos começar a trabalhar."

Jack seguiu Ben através da escotilha que separava a câmara da doca do compartimento principal do DSRV, sua alta compleição física obrigando-o a dobrar-se ao meio no espaço confinado. Ao lado, no piso circular onde o DSRV podia acoplar-se a um submarino danificado, havia dois conjuntos idênticos de equipamentos de mergulho, e Costas parou diante deles para fazer um rápido inventário. Jack seguiu Ben mais alguns metros até a estação de comando, na parte dianteira do submersível, e Costas juntou-se a eles logo em seguida. Eles cumprimentaram o tripulante que estava sentado na cadeira de piloto com um conjunto de monitores e o painel de instrumentos à sua frente, depois agacharam-se de cada lado de Ben, atrás do console de navegação, enquanto ele ativava a tela.

"Nós plotamos a rota mais adequada", disse Ben. "O ideal seria vocês entrarem pelo lugar mais raso, mas aqui estaremos protegidos por uma cadeia de cumes no gelo contra qualquer fragmento que saia do iceberg. Nós usaremos nitrox para vocês respirarem, o que lhes dará um maior tempo de permanência no fundo do que teriam apenas com ar, a trinta metros de profundidade."

"Umbilical?", perguntou Jack.

"Correto. Vamos conectá-los com os cilindros no DSRV. Dessa maneira conservarão o gás que já estão carregando consigo."

"É essencial não deixar que o gás vaze para o interior do iceberg", disse Jack. "Lanowski foi claro sobre isso."

"Não tenha receio", interrompeu Costas. "Estive brincando no quartel-general com um pequeno equipamento eletrônico. Não há problemas com a descarga do gás expelido quando você mergulha para examinar um naufrágio, certo? Você pode impedi-lo de se acumular e danificar o que quer que seja lançando-o através de uma mangueira que fica boiando acima, deixando-o sair em um lugar mais alto do que o naufrágio. A dificuldade surge no sentido contrário, quando de baixo você vai para uma estrutura que está acima."

"Você o bombeia para fora."

"Certo. Vamos estar conectados com duas mangueiras, uma que nos traz o nitrox e outra que extrai o gás expelido e o leva para fora do iceberg. Não tenho certeza de como isso vai funcionar no frio." Costas esfregou as mãos em antecipação. "Vai ser divertido tentar."

"Deixe-me adivinhar. Vocês ainda não o testaram!"

"Você não consegue icebergs no canal da Mancha."

Jack desviou-se de Costas e apontou para a tela, que mostrava no computador uma simulação isométrica do DSRV junto ao iceberg, com uma linha vermelha pontilhada subindo em um ângulo de 45 graus a partir do DSRV e depois se nivelando com uma linha horizontal que terminava numa massa escura perto do centro do iceberg.

"Eu suponho que vamos atingir dez metros abaixo do nível do mar tão rapidamente quanto for possível, depois abandonar o umbilical e trocá-lo pelos respiradores", disse Jack.

"Correto", replicou Ben. "Gostaríamos de equipá-los com os últimos respiradores de circuito fechado e mistura de gás, elaborados pela IMU, mas há um grande perigo de congelamento e muita coisa pode dar errada. Nessa hora, acho que a velha tecnologia é melhor. Vocês vão usar os nossos confiáveis respiradores de circuito semi-fechado, com uma mistura de oxigênio e nitrox configurada para lhes dar duração máxima naquela profundidade. O dióxido de carbono será absorvido, mas não o nitrogênio, então haverá um aumento no contra-pulmão que precisará encontrar uma saída. Mas a fração de nitrox é pequena e isto não deverá acontecer até que saiam do iceberg. Vocês não irão produzir nenhuma descarga de gás dentro do iceberg."

"Apenas tenham cuidado para se manter acima de dez metros", acrescentou Costas. "Estaremos respirando acima de oitenta por cento de oxigênio, e a mistura se torna tóxica sob pressão inferior a dez metros. No caso de distração e de uma descida mais profunda, não haverá nem tempo para perceber, ocorrerá uma convulsão seguida de morte."

"Vocês terão a mistura-padrão de trimix nos cilindros consoles, nas costas, fornecendo misturas respiratórias para utilização em profundidades maiores que cento e vinte metros", disse Ben. "Os reguladores têm uma cobertura anti-congelamento no primeiro estágio, então devem ser seguros. Mas este é um sistema de circuito aberto, que produz descarga de gás dentro do iceberg. Serve estritamente para emergências."

"Ok", disse Jack. "Agora conte sobre o seu perfurador de gelo. Nada técnico, só quero saber como operá-lo."

Vinte minutos mais tarde, Jack e Costas sentaram-se de cada lado do tanque da doca, munidos com os equipamentos necessários, como mergulhadores se preparando para entrar no gelo através de um buraco. O Aquapod tinha sido levado embora dez minutos antes pelos dois mergulhadores que os assistiram na doca quando chegaram. Agora, os únicos membros da tripulação que restavam eram Ben e o piloto, e eles já tinham começado a realizar os procedimentos finais de checagem para partir em seguida.

"Nós ficaremos aqui até vocês retirarem o umbilical", disse Ben. "Depois estarão sozinhos."

Jack acenou concordando, enquanto se sentava munido do equipamento de mergulho, seu cabelo preto marcado onde havia sido comprimido ao experimentar o capacete. Do outro lado, Costas, estufado como um balão, lutava para controlar o regulador de inflar de seu E-suit, e Jack tentou reprimir um sorriso ante a aparência de seu amigo. Por cima dos E-suits, os dois homens vestiam respiradores compactos presos como pequenas mochilas em seus peitos, e nas costas carregavam consoles amarelos de forma aerodinâmica que continham três cilindros de alta pressão com oxigênio, nitrogênio e hélio, bem como pesos integrados. Ben terminou a segunda checagem completa de todos os equipamentos e depois se agachou ao lado do tanque entre os dois homens. "Eu tenho de ser sincero com você, Jack. É minha obrigação como chefe de segurança. Aquelas madeiras podem também ser de um antigo barco pesqueiro de baleias. O risco que vocês vão enfrentar pode ser demasiado alto."

"Eu sei aonde você quer chegar, Ben, e aprecio isto", disse Jack. "Mas é um risco calculado. Podemos rir de Lanowski, mas confio em seu julgamento sobre esse risco."

"Ok, a decisão é de vocês." Ben olhou para Costas, que aquiesceu firmemente. Sem maiores discussões, Jack e Costas colocaram seus capacetes amarelos de Kevlar, e Ben foi até cada um deles fechando os capacetes no pescoço, ativando as headlamps duplas de ambos os lados e verificando se os respiradores com os suprimentos de trimix estavam no lugar. Jack e Costas vestiram as luvas e cuidaram para que ficassem bem ajustadas para impedir a entrada de água, depois pressionaram os consoles de controle de temperatura em seus ombros para assegurar-se de que a conexão de calor químico para suas mãos estava funcionando. Finalmente colocaram suas nadadeiras, perturbando as nuvens de névoa que saíam em redemoinho do tanque gelado quando encontravam o ar quente do compartimento. Quando estavam prestes a fechar o visor dos capacetes, o rosto do outro tripulante apareceu através da escotilha.

"Mensagem do Seaquest II. Para você, Jack. Algo que tem a ver com anéis de árvores."

"Leia-a para nós, está bem?" disse Jack.

O tripulante ajoelhou-se segurando um impresso. "Do Laboratório de Dendrocronologia da IMU, 0212 GMT. A amostra da madeira retirada no fiorde Ilulissat é de carvalho escandinavo, possivelmente norueguês. Apresenta extensa carbonização causada por fogo. Equiparada com a seqüência de três anéis de árvores do noroeste da Europa indica a data de 1040 d.C., com um erro de aproximação de mais ou menos dez anos."

"Viva!" Jack deu um soco no ar com sua mão enluvada. "Aqui está sua resposta. Eu sabia disso em minhas entranhas durante todo o tempo. Esta pode ser uma das principais descobertas arqueológicas deste século."

Olhando para baixo, para a água, Jack franziu os lábios, depois olhou para Costas com um brilho no olhar. Quando saíram do DSRV, Jack procurou ver a superfície acima deles e a luz do sol, a despeito da sensação incômoda de claustrofobia que sempre experimentava nessas ocasiões, mas agora ele estava avançando lentamente em direção ao iceberg para desvendar seus segredos. Apanhou o umbilical que estava enrolado ao seu lado, as duas mangueiras de acoplamento unidas como uma coisa só, e conectou o encaixe que permanecia livre debaixo do queixo no seu capacete. Observou enquanto Costas fazia o mesmo, depois os dois homens fecharam com segurança seus visores e ligaram o intercomunicador. Jack saiu do banco e sentou-se com as pernas suspensas sobre o abismo, a claridade espantosa da água fazia-o sentir-se como um pára-quedista prestes a saltar da aeronave. Ele e Costas já estavam num outro mundo, o intercomunicador apenas audível entre eles. Jack fez um sinal de ok para Ben e virou o polegar para baixo para indicar que estava descendo, depois olhou para Costas.

"Pronto para ir?"

"Pronto para ir."

O homem vestido com a sotaina preta caminhava de maneira confiante pela entrada principal do Palácio Apostólico, sua roupa de padre jesuíta em total conformidade com a dos outros suplicantes que se moviam pela porta de entrada. Ele havia deixado a multidão em São Pedro para trás, e já tinha passado pelo primeiro cordão de segurança nas portas de bronze que conduziam para fora da praça. Agora estava se aproximando do verdadeiro coração do Vaticano, o quartel-general do Colégio dos Cardeais, o centro a partir do qual a Santa Sé exercia sua influência bem além de Roma para todas as partes do globo.

À sua frente, dois guardas suíços estavam parados diante da porta, resplandecentes em sua elegância vistosa com alabardas entrecruzadas, uma imagem que poderia ter saído direto da Renascença, exceto pelas submetralhadoras Heckler & Koch penduradas discretamente em suas costas. Um oficial da guarda pegou a identidade do jesuíta e começou a examiná-la, comparando a barba preta e os olhos sem expressão com a foto na carteira. Apesar do calor do início do verão, o rosto estava pálido e contraído, mas era um semblante de estudioso muito comum dentro das paredes fechadas dos gabinetes do Vaticano. O oficial voltou se para um secretário ao seu lado, eles verificaram o nível de autorização em um computador de mão. O oficial soltou uma exclamação de surpresa e imediatamente devolveu o cartão ao jesuíta.

"O senhor está livre para entrar."

Os guardas ergueram as armas e o jesuíta passou por eles, evitando a habitual revista corporal e o detector de metais. Caminhou direto ao longo de um corredor no andar térreo, depois virou à esquerda no final e continuou até chegar a uma porta decorada de uma capela privada, a entrada caracterizada por suportes de velas votivas de cada lado. Ele bateu uma vez e abriu a porta. Na luminosidade da luz de vela viu um outro homem ajoelhado diante do altar simples no final da capela. O homem fez o sinal-da-cruz e levantou-se, depois se voltou para a porta. Era alto e encurvado, com cabelos brancos, e vestia o traje episcopal completo de cardeal, com uma cruz de ouro pendurada na frente de sua sotaina vermelha. Tinha um rosto sem idade, benigno, de quem havia passado muitos anos em ordens santas, mas com um traço severo nos olhos. Era uma expressão apropriada para um homem como ele, um homem cuja ambição o levara até o limiar do poder supremo na Igreja Católica.

"Eminência." O jesuíta curvou-se ligeiramente, depois fechou a porta atrás de si.

"Monsenhor."

Os dois homens falavam em inglês, o jesuíta com uma pronúncia meio arrastada que poderia ser sul-africana e o cardeal com um leve sotaque do norte da Europa.

"Ele está aqui?"

"Foi o segundo que esteve presente na abertura da câmara. Nós suspeitamos e ele confessou. A Santa Sé tem técnicas de persuasão refinadas há séculos."

"E o outro?"

"Ele é a sua próxima tarefa."

O jesuíta adiantou-se e ajoelhou-se na frente do cardeal. Este rapidamente tirou o santo anel do dedo médio de sua mão direita e substituiu-o por um outro, um anel pesado, de superfície plana que brilhou à luz da vela enquanto estendia a mão. O jesuíta segurou a mão e beijou-a, fechando os olhos enquanto seus lábios tocavam na forma familiar, e com a outra mão sentiu o seu próprio anel pendurado no pescoço debaixo da sotaina. Ele levantou-se, fez o sinal-da-cruz e afastou-se reverentemente para trás em direção à porta, sem se voltar, então parou por um momento e ergueu a mão direita para o cardeal, sussurrando palavras em uma língua que soava de maneira sobrenatural, palavras nunca antes murmuradas nesse local sagrado, que pareciam blasfêmias contra tudo que esse lugar representava.

"Hann til ragnaroks?

O jesuíta fechou a porta da capela atrás de si e começou a andar pelo longo corredor, seus passos ecoando fora das paredes do palácio. Saiu em um pátio aberto, erguendo as mãos em prece quando dois oficiais passaram na direção oposta, depois se encaminhou para uma entrada despretensiosa a uma certa distância à frente, do outro lado. Os sinos de São Pedro subitamente começaram a ressoar através da atmosfera silenciosa da cidade, afirmando a soberania da Santa Sé, como faziam desde os dias do Império Romano. Acima dele, as paredes do pátio emolduravam o céu, duas grandes aves de rapina circulavam bem acima, e ele podia ouvir o ruído surdo e prolongado, enfadonho, da cidade do lado de fora. Passou pela entrada e olhou rapidamente para trás, depois levantou a sotaina e subiu a escada para o primeiro andar. No corredor à frente havia estátuas enfileiradas, quadros de avisos e cartazes anunciando exposições, mas não se viam pessoas, era dia de folga do pessoal do museu. O jesuíta foi até uma porta com luz acesa no interior, bem onde lhe haviam indicado, e notou a palavra Conservatori escrita acima do lintel.

Ele parou, não por hesitação, mas para apreciar o momento. Nas sombras permaneceu com a cabeça curvada. Sessenta e cinco anos antes seus antepassados quase derrubaram estas paredes, pararam pouco antes de capturar o Vaticano em sua passagem triunfal por Roma. Agora ele faria alguns acertos, deixaria sua marca. O jesuíta abriu a mão esquerda e levou-a ao rosto, passando o dedo indicador pela cicatriz irregular que pulsava debaixo de sua barba, pressionando-a fortemente até encolher-se de dor. Ele deslizou de novo sua mão esquerda para dentro da sotaina, e com a mão direita bateu três vezes na porta.

"Entre", disse uma voz abafada, em italiano.

O jesuíta abriu a porta e depois a fechou atrás de si. O aposento estava apinhado de livros e manuscritos, com um computador no outro extremo. No primeiro plano havia uma escultura em relevo de pedra fragmentada, e na frente dela estava sentado um homem de meia-idade vestindo jeans e uma camisa esporte, inclinado sobre um notebook.

"Monsenhor." O homem terminou o que estava escrevendo e ergueu o olhar, sua expressão era alerta e inteligente. "Eu não esperava ser interrompido hoje. O que posso fazer pelo senhor?"

"O senhor é o chefe responsável pela manutenção do museu?" O jesuíta falou em italiano.

"Sim, sou eu."

"Esteve presente na descoberta da câmara secreta no Arco de Tito, junto com o padre O'Connor?"

O outro homem repentinamente pareceu evasivo e atirou seu notebook ao chão. "Agora todos parecem saber. Mantivemos segredo pelo bem da Igreja. Desejaria nunca ter encontrado aquela câmara."

"Eu também."

A Beretta provida de silenciador atirou duas vezes, e o homem caiu para trás em sua cadeira com uma horrível expressão de surpresa no rosto. Ele estremeceu, tombou ao chão e ficou imóvel, com o braço largado desajeitadamente sobre a testa, os olhos abertos e espantados. O jesuíta tirou a mão esquerda da sotaina e lentamente ergueu-a até o rosto. Ele passou o dedo sobre a cicatriz em sua face, repetidas vezes, com o máximo de força de que era Capaz, fazendo caretas de prazer ao observar o sangue sair do peito do homem e acumular-se nas placas frias de pedra debaixo dele.

Haverá mais.

 

"Ativar a sonda de gelo agora."

Costas voltou-se para Jack enquanto falava pelo inter-comunicador, e os dois homens trocaram um sinal de ok. Pela quinta vez Jack lançou um olhar crítico sobre o equipamento de Costas. Assim que largassem o umbilical ficariam absolutamente dependentes de seus sistemas de respiração e um do outro, sem nenhuma outra opção garantida, nenhuma via de escape de emergência para a superfície. O equipamento da IMU comportava os mais recentes métodos e tecnologias disponíveis, com um sólido sistema de computador de apoio que tinha a tarefa de calcular a mistura respiratória e a velocidade de subida sem nenhuma intervenção deles. O sistema havia sido testado em condições de calor extremo seis meses antes, dentro de um vulcão submerso, mas era a primeira vez que seria utilizado em águas tão geladas, quase no ponto de virar gelo.

"Assuma sua posição."

Jack saiu do lugar onde tinha ficado suspenso por uma mão e agarrou a barra de metal ao lado de Costas. Eles eram como dois alpinistas subindo em uma vasta parede de gelo, pareciam pigmeus por causa da imensidão do iceberg. Abaixo deles, o gelo descia por centenas de metros dentro do abismo, onde o declive do limiar desviava abruptamente até profundezas inimagináveis, até um lugar de escuridão gelada onde nenhum ser humano ousara entrar.

"Há apenas um método seguro", disse Costas. "Ao menor sinal de movimento no iceberg nós passamos a usar o trimix. Se este bebê se puser a girar para fora do limiar, nós iremos para baixo. Lembre que o trimix nos fornece gás respirável até cento e vinte metros. Isso nos daria pelo menos alguma margem."

Jack fez outro sinal de ok e verificou as três mangueiras que alimentavam as aberturas em seu capacete. O nitrox que estavam respirando agora era a melhor opção nessa profundidade, sua reduzida carga de nitrogênio permitia passar mais tempo no fundo do que o ar comprimido, mas a carga aumentada de oxigênio o tornava mais tóxico abaixo de trinta metros. Ele era alimentado pelo tubo umbilical que ficava pendurado debaixo deles e seria levado de volta ao DSRV, sua imagem tranqüilizadora ainda posicionada alguns metros abaixo deles. A segunda mangueira levava ao respirador em seu peito, um sistema independente que seria ativado quando eles alcançassem dez metros de profundidade. Com seu cilindro de oxigênio integral a alta pressão, o sistema poderia sustentá-los durante várias horas, e era o gás ideal para águas rasas. Como o nitrox umbilical com seu sistema de ventilação, o respirador não produziria descarga de gás dentro do iceberg, todo gás exalado seria reciclado através do sistema. A terceira mangueira levava aos cilindros de trimix em suas costas, um sistema de gás variável que substituía o hélio pelo nitrogênio e podia dilatar seu invólucro de profundidade até o limite máximo possível para gases respiráveis.

Mas o trimix era uma opção no caso de alguma falha, e iria produzir descarga de gás dentro do iceberg. Na verdade, eles sabiam que seu equipamento de segurança era o último recurso. Se o iceberg se movesse para fora do limiar, sua enorme massa deslizaria para baixo da água, sua base mergulharia subitamente centenas de metros nas profundezas. Se o movimento do gelo não os esmagasse, a pressão de uma descida repentina dentro do abismo os mataria instantaneamente.

Jack não quis pensar nessa possibilidade e focalizou a atenção no estranho dispositivo à sua frente. Eles tinham acabado de abrir a gaiola protetora que os mantinha diante do iceberg e haviam prendido a rádio-bóia que planejavam soltar para a superfície logo que emergissem de novo. A sonda já estava em parte enfiada, em forma de cunha, dentro do gelo, tendo sido posicionada antes por dois mergulhadores que eles tinham visto do Aquapod. Encostado diretamente no gelo havia um aro de metal com dois metros de diâmetro, a largura do túnel que o dispositivo iria escavar. O túnel seria grande apenas o suficiente para que os dois homens pudessem avançar lado a lado, sem muito espaço de sobra. O componente superaquecido no tubo era complementado por um arranjo de facas acionadas por laser e por microondas que provinham do corpo principal do dispositivo, um tubo cilíndrico com um metro de diâmetro diretamente na frente deles. Um pequeno, mas poderoso jato de água funcionaria como um funil para afastar a água recém-derretida e impulsionar o dispositivo para a frente. Na face de trás, acima do trilho de guia, uma tela LED à prova de água brilhava com um tom verde-vivo.

"Vamos manter o cabo de força ligado ao DSRV por todo o tempo que pudermos, bem como o cabo de fibra ótica", disse Costas. "Normalmente o piloto do DSRV será capaz de ver tudo o que nós vemos na tela, mas, antes que o DSRV se movimente para ir embora, teremos de soltar o cabo de força e operar a sonda com a bateria integral." Ele ajustou uma grande bússola debaixo da tela, depois voltou-se e examinou Jack através de sua máscara. "Você está bem?"

"Este novo sistema de aquecimento do E-suit está funcionando maravilhosamente." Jack havia experimentado um choque de frio quando entrara na água ao sair do DSRV, e Costas se lembrou do efeito debilitante do rasgo provocado por um tiro de revólver, que quase terminara com a vida de seu amigo em um mergulho muito diferente, na profundeza do mar Morto, seis meses antes.

"Sem a serpentina de tubos a água no túnel ficaria, na verdade, abaixo de zero", disse Costas alegremente. "A água da geleira é doce, de modo que gela mais rapidamente do que a água salgada. Seríamos transformados em gelo antes que você pudesse dizer uísque com gelo."

"Obrigado pelo pensamento", Jack olhou com algum ceticismo para a serpentina, uma trepadeira oscilante de microfilamentos pendurada debaixo deles. Ela se desenrolaria do equipamento quando eles entrassem e impediria a água recém-derretida de congelar de novo e enterrá-los dentro do iceberg.

"Isso deve funcionar", acrescentou Costas. "Em teoria."

"Deixe-me adivinhar. Eu não deveria nem mesmo dizer isto."

Os olhos de Costas fitaram Jack rapidamente enquanto sua mão alcançava o ombro e pressionava o canal exterior em seu console de comunicação. "Ben, estamos a caminho. Tempo estimado de chegada, com desengate a dez metros de profundidade, vinte minutos. Fim."

Jack observava as suas nadadeiras enquanto o buraco de entrada dentro do iceberg ia ficando distante, uma mancha de azul pouco luminosa obscurecida pelo turbilhão de microfilamentos aquecidos que se arrastavam atrás deles. Girando em torno do centro estava o cabo da bateria e o umbilical que lhes trazia o nitrox e sugava para fora a descarga de gás usado, sua corda de segurança para o mundo de fora. Jack ergueu a cabeça e olhou fascinado como o perfurador esculpia um túnel perfeitamente polido através do gelo, avançando para cima num ângulo de 45 graus a uma velocidade de mais de dois metros por minuto. Ele não tinha a sensação da temperatura da água em seu E-suit, mas a mudança de leitura no termostato de seu regulador ambiental revelava a rajada de água quente que estava sendo lançada para fora do perfurador que impelia a máquina para dentro do gelo. À frente deles suas lâmpadas iluminavam a parede do túnel, um deslumbrante espetáculo de brancura, no entanto Jack sabia que sem a luz artificial eles estariam entrando em um mundo de total escuridão, cercado por todos os lados por uma quantidade inimaginável de gelo que bloqueava os últimos vestígios de raios de sol acima deles.

"Ok", disse Costas. "Alcançamos dez metros de profundidade da água externa ao iceberg. Vou parar de subir e desengatar."

Costas ajustou os controles de produção de calor no painel à sua frente, diminuindo a atuação dos componentes inferiores de modo que o perfurador derreteria mais gelo acima e gradualmente ficaria na horizontal. Jack observava o progresso na tela LED, uma imagem isométrica 3-D do iceberg, idêntica àquela que Lanowski lhes havia mostrado no primeiro dia. A imagem tinha sido gerada pela equipe de superfície usando sonar de ultra-alta freqüência e fora criada a partir de milhares de pontos de dados onde as ondas sonoras haviam encontrado uma resistência diferencial proveniente de fendas congeladas e fissuras no iceberg. Lanowski tinha demarcado um ponto bem localizado para a entrada e para o itinerário de modo a minimizar a chance de seguir uma fissura de água derretida congelada e romper o iceberg, e até agora o seu planejamento havia dado certo. O gelo pelo qual haviam passado era todo ele formado pelo gelo branco nebuloso da geleira, tão duro como uma rocha, formado mil anos atrás nas profundezas da Idade do Gelo.

Costas reabriu o canal externo no receptor do seu intercomunicador. "Ben, aqui é Costas. Você está me ouvindo, câmbio?"

"Costas, aqui é o DSRV, estamos ouvindo você alto e claro, câmbio."

"Nós alcançamos o ponto de desengate. Câmbio."

"Recebido e entendido. Nós teremos vocês na tela enquanto se mantiverem conectados. Fiquem sabendo que recebemos um aviso meteorológico do capitão do Seaquest II. Há algum distúrbio térmico na extremidade da calota polar, uma massa de ar frio vinda do leste. Pode não ser nada significativo, mas o capitão está se afastando cerca de uma milha do fiorde como medida de segurança. Vocês têm a opção de abortar a operação. Câmbio."

Jack e Costas se entreolharam através dos visores. "Nós vamos continuar", replicou Costas. "Estamos a cinqüenta metros apenas de nosso alvo e não vamos demorar. Estaremos fora daqui dentro de uma hora. Mas você deve ir embora agora. Câmbio."

"Recebido e entendido. Enviem para a superfície a rádio-bóia quando saírem do iceberg, e nós os recolheremos. Estamos esperando para receber o umbilical. Câmbio."

Costas moveu um interruptor no painel de controle à sua frente e retirou o cabo de força do perfurador de gelo. Durante um instante alarmante o dispositivo parou, e Jack quase pôde ver a água ao seu redor começar a congelar. Depois a tela LED e o sistema de luz dianteira se reativaram quando a bateria começou a funcionar e a água a ficar novamente iluminada.

Os dois homens se viraram um para o outro dentro do espaço estreito do túnel, seus visores separados por poucos centímetros. Costas falou então por meio do procedimento que eles haviam praticado repetidas vezes antes de deixar o DSRV, cada homem verificando visualmente o outro enquanto eles prosseguiam metodicamente.

"Engatar respirador."

Jack imitou o que Costas fazia e abriu a válvula de saída do respirador em seu peito, depois girou o botão sob o seu capacete que ativava o fluxo de gás dentro da máscara de borracha de silicone que selava o nariz e a boca. A primeira entrada de oxigênio nos pulmões causou-lhe um formigamento nos braços e pernas, um efeito revigorante que ele apreciava sempre que usava respiradores. Segurou a mangueira umbilical com a mão direita e com a outra mão fechou a entrada de nitrox do capacete, e então seu corpo entalou-se com os cotovelos desajeitadamente contra a parede do túnel, pressionando Costas. "Desengatar umbilical."

Simultaneamente, os dois homens puxaram as mangueiras de nitrox de seus capacetes e jogaram-nas no chão do túnel, e Costas soltou o cabo de força que estivera segurando. Enquanto sugavam nos respiradores, os dois homens observaram o conjunto de tubos do umbilical deslizar atrás de si e desaparecer na curva do túnel, seguindo o caminho de entrada em direção ao mar aberto. A trepadeira de microfilamentos conservava o líquido do túnel ondulado e oscilante, como se eles estivessem rodeados por uma brisa, depois o líquido gradualmente tornou-se mais estável, espalhando-se por toda a extensão do túnel.

"Ben, estamos desengatados. Estaremos fora de alcance de comunicação assim que atingirmos aquela massa de água derretida congelada. Esperamos tomar uma bebida quente quando voltarmos. Câmbio."

"Recebido e entendido. Boa sorte. Fim."

Eles estavam agora completamente isolados do exterior, dependentes apenas um do outro e do sistema de equipamentos que cobria seus corpos. Enquanto Jack observava o umbilical desaparecer, sentiu uma certa aflição, um sinal de advertência de sua secreta vulnerabilidade como mergulhador, a claustrofobia que estava sempre à espreita e com a qual tinha de lutar constantemente. Anos antes ele quase morrera em uma mina submersa, tendo se salvado apenas porque partilhara o sistema de respiração com Costas, e o trauma fora reavivado no labirinto de Atlântida, quando seu ferimento o deixou fraco e vulnerável. Ele sabia que Costas estava ciente de sua batalha e a ligação sem palavras entre os dois homens era uma fonte de força. Jack agarrou o trilho de guia atrás da sonda e forçou-se a se concentrar na excitação que o esperava a frente.

"Estamos absolutamente no alvo", disse Costas. "Verifique nossa tela."

Diretamente à frente deles, a tela LED exibia uma forma anômala, a imagem criada pela leitura do sonar ao redor da massa de água derretida no coração do iceberg que havia iludido Cheney e a equipe da NASA. Mesmo o sonar de ultra-alta freqüência tinha falhado em penetrar mais além, e desse ângulo a forma extraordinária que tinha estado tão clara nas imagens do sonar vertical não era perceptível. No centro da massa escura havia fios de retícula vermelha onde o perfurador de gelo tinha tirado amostra da madeira, e ligeiramente acima uma retícula verde que assinalava o alvo deles.

"Lembre-se, vamos tirar fotos, pegar tudo que pudermos, e depois ir embora", disse Costas. "Não há tempo para fazer ciência hoje."

"Por uma vez estou de acordo com você", disse Jack. "Agora que temos a data indicada pelos anéis da árvore, tudo de que preciso é confirmar o que isto é e provar sua origem. Mais um par de amostras de madeira e caímos fora."

"Enquanto você estiver fazendo isso vou usar o perfurador para derreter um espaço acima da zona-alvo, apenas suficientemente grande para girar este bebê e orientá-lo para voltar para casa. Posso até saborear aquela bebida que Ben está preparando para nós."

"Vamos fazer isto."

Os dois homens seguraram-se lado a lado atrás do trilho de guia, enquanto Costas reativava o dispositivo, e segundos depois ele começou a escavar o túnel em direção à zona-alvo. O perfurador, agora, era um veículo autônomo, livre de qualquer corda que o ligasse com o mundo exterior. Ele os estava levando para a frente como uma espécie de veleiro em câmara lenta, penetrando cada vez mais no coração do iceberg. Costas se concentrava em mantê-los acima do limite de dez metros para impedir a toxicidade do oxigênio. À medida que progrediam, Jack sentia seu entusiasmo aumentar, como se o oxigênio e a adrenalina de que ele necessitara para dominar sua ansiedade o tivessem preenchido com uma irresistível alegria. As minúsculas bolhas que davam ao gelo uma opacidade leitosa estavam efervescendo na água derretida, e Jack subitamente percebeu que, ao redor deles, as únicas propriedades que favoreciam a vida tinham sido liberadas das profundezas da Idade do Gelo. O ar era o mesmo que havia sido respirado pelos ancestrais humanos mais remotos, aqueles grupos de caçadores que tinham perambulado pela extremidade dos lençóis de gelo milhares de anos antes da civilização. Jack sabia que iria sentir um arrepio de excitação à medida que o alvo se aproximasse, mas esta era uma sensação inesperada, o sentimento extraordinário de nadar por um túnel do tempo, o que seria impossível de ser experimentado em qualquer outro lugar da Terra.

"É isso aí." Repentinamente o gelo branco à frente do perfurador tornou-se uma parede tão transparente quanto vidro, refratando um azul profundo quando suas headlamps o iluminaram. "Gelo de água derretida", disse Costas. "Esse é o primeiro que encontramos. Este gelo deve ser de uma daquelas fendas na geleira que Lanowski nos mostrou."

Ele dirigiu a sonda por mais dois metros à frente até o gelo claro rodeá-los, e depois parou. Quando o turbilhão do jato de água diminuiu, Jack percebeu que estavam acima de uma massa escura logo abaixo do gelo, e ele podia vê-la curvando-se para cada lado da neblina azul. Mergulhou até o chão do túnel para observar melhor, sua headlamp pressionada diretamente contra o gelo.

"Bem, vou ser condenado às penas eternas."

"O que foi?" Costas soltou a sonda e desceu para o lado de Jack, os corpos se tocando naquele espaço estreito.

"Madeiras de lei", disse Jack, excitado. "Um monte delas. É a lateral de uma embarcação, um navio de madeira. Posso distinguir rebites, fileiras de rebites de ferro enferrujado ao longo das pranchas. E as pranchas estão sobrepostas e presas com pregos revirados. É isso aí. Conseguimos para nós uma embarcação viking."

"Impressionante", disse Costas, os olhos brilhando através da máscara para Jack. "E as madeiras estão pretas, carbonizadas, como as da amostra analisada, retirada do centro do iceberg. Toda essa parte de pranchas de madeira foi carbonizada. Essa embarcação pegou fogo."

"Um navio queimado dentro do gelo", murmurou Jack. "Você se lembra de Kangia, sua história sobre a antiga lenda inuit?"

"Ela explica o gelo claro que envolve este navio, a imagem que eles conseguiram com o sonar", disse Costas. "Não se trata apenas de água derretida de uma fenda que preencheu o lugar e congelou. Acho que essa embarcação estava queimando quando afundou no gelo. O gelo e a neve caindo sobre as madeiras devem ter extinguido o fogo rapidamente, mas não antes de derreter esta cavidade na geleira."

"Antes de irmos embora eu quero ter alguma idéia de suas dimensões", disse Jack.

"O ponto-alvo está oito metros à nossa frente. Isso deve lhe dar a idéia de que você necessita. Uma vez chegando ali, vou voltar direto."

Momentos depois, Costas parou de novo. A extremidade de uma grande madeira enegrecida tinha aparecido no lado esquerdo do túnel, e ele ajustou o curso do perfurador para evitar colidir com ela. Quando passaram por perto, puderam ver que se curvava para cima e estava soberbamente esculpida com figuras de animais agonizantes e formas abstratas interligadas em uma ampla faixa ao longo da beirada.

"Estilo de urnas", disse Jack, excitado. "Graças a Deus que Maria me deu um curso recapitulando tudo sobre arte viking na noite passada. Tenho certeza de que isto é norueguês, um novo estilo desenvolvido em torno da metade do século XI." Ele voltou-se e olhou através do gelo para o local onde a madeira se estendia acima deles. "Esta é a base da proa. Dê uma olhada nisso."

Costas o seguiu e dirigiu a headlamp através do gelo até o topo da madeira. Ele soltou um assobio baixo através do regulador quando viu a escultura no topo, uma forma escura petrificada no gelo, no limite de sua visibilidade, uma cabeça rosnando com orelhas achatadas que se projetavam por pelo menos um metro à frente da proa curvada do navio.

"Deve ser Fenrir, o deus-lobo", disse Jack em tom baixo, lembrando de novo de Maria. "Ele parece ser o guardião desse lugar."

Quando ambos se voltaram e foram lentamente para a frente, uma imagem fabulosa revelou-se embaixo deles, como se estivessem flutuando sobre um quadro de grandes dimensões, em escala completa, de um naufrágio em uma exibição de museu. A imagem estava espantosamente nítida, e de cada lado eles conseguiam perceber pelo menos cinco metros até que o gelo se tornasse demasiado azul. Algumas partes da madeira estavam notavelmente intactas, outras chamuscadas e esmagadas pelo gelo que deve ter caído sobre o casco antes que a água derretida congelasse e o protegesse. Jack tirava fotos continuamente com a câmera digital integrada ao seu capacete, e murmurava descrições técnicas cada vez que algum elemento novo do navio aparecia.

"Esta é uma construção clássica do oeste da Escandinávia, completamente compatível com o século XI", disse Jack, depois de alguns minutos. "É um navio a vela com um casco mais largo e um calado maior do que as imagens de um drakar viking apresentadas nos filmes de Hollywood, mas naquele tempo um navio de guerra, movido a remos, não era necessário por aqui. Eram bons para deslizar sobre as ondas a grande velocidade e promover rápidos desembarques para piratarias, mas eles tinham uma baixa curvatura de convés e inundavam facilmente em águas profundas. Você ia querer um barco que pudesse transportar pessoas e suprimentos através do Atlântico norte, uma vez que não raro poderia ter de passar semanas no mar."

"Ele foi reparado", disse Costas olhando através do gelo. "Há uma parte perto da proa onde as pranchas foram trocadas, onde a carpintaria parece diferente. Talvez tenha colidido com um iceberg. E olhe, aqui há um remo."

"Este é um remo de pilotagem, um leme lateral", disse Jack, olhando para o remo perfeitamente preservado no convés assoalhado e empenado debaixo deles. "Os vikings não tinham lemes fixos, então um grande remo ficava preso à popa do navio. Parece que esse foi deliberadamente guardado a bordo, perto da proa, não da popa. Esta embarcação não estava no mar quando desapareceu. E há mais. Dê uma olhada nisto. É incrível."

Quando ultrapassaram a área da proa, eles começaram a ver formas que não eram madeira de lei, mas itens que pareciam ter sido dispostos em uma pilha que conduzia a uma estrutura escura no centro do casco onde deveria existir uma base de mastro. Havia aglomerados amorfos claramente identificáveis, quando passaram por eles, como peles e couros, travessas de madeira ao lado de vários utensílios. Costas ajustou rapidamente o rumo quando o perfurador de gelo passou raspando por cima de um grande jarro de cerâmica quebrado e disposto no meio das peles.

"Uma ânfora." Jack pegou um caco da tampa que tinha boiado na água derretida e guardou-o dentro do seu E-suit. "Uma ânfora de vinho do leste do Mediterrâneo, do período bizantino. Na Groenlândia. Isso é estranho."

"Acho que eles tinham de se manter aquecidos naquelas noites geladas do Ártico", disse Costas. "De todo jeito, eu achava que os vikings eram bebedores de cerveja."

"Alguns deles eram muito viajados, lembre-se, e devem ter adquirido hábitos estrangeiros peculiares." A mente de Jack estava a toda e ele começava a pensar o impensável. "Posso estar errado, mas estava pensando..." Naquele momento, um outro objeto apareceu dentro do túnel de água derretida abaixo deles, um grande cabo de madeira com a ponta ainda enfiada no gelo. Costas ajustou o jato de água durante o tempo necessário para que mais gelo se derretesse ao redor do objeto, e Jack puxou-o e segurou-o no espaço exíguo entre eles.

"Nossa mãe!" disse Costas.

Era uma enorme acha-de-armas com uma única lâmina cortante, presa a um grosso cabo de pelo menos um metro e meio de comprimento. A extremidade brilhava como ouro e estava ornada com entalhes de ambos os lados.

"Ela é dourada", murmurou Jack, com a voz rouca pela excitação. "Isso foi o que preservou o ferro da corrosão. Uma técnica comum para fazer uma arma parecer de ouro, mas mantendo sua funcionalidade com o metal mais duro por baixo."

"Do meu lado da lâmina há símbolos", disse Costas.

"Do meu também." Jack virou o seu lado para uma posição horizontal a fim de que Costas pudesse ver. A superfície estava gravada com uma forma grande como um pingente que respeitava as linhas da extremidade da acha, um longo pedúnculo baixando em alongamentos simétricos que ocupavam a largura do metal acima da lâmina. A forma exterior era simples, mas estava decorada por dentro de maneira elaborada, com desenhos curvilíneos em espiral e formas de animais extravagantes; sobressaía-se a cabeça de um lobo rosnador no ápice da forma. Jack apontou para uma fileira de símbolos logo acima da lâmina do machado.

"Mjollnir." O que?

"As letras são gregas, mas o nome é nórdico. O símbolo mais poderoso dos vikings, a arma invencível do maior de seus deuses, sua única esperança de derrotar o mal na batalha de Ragnarok. Mjollnir, o martelo de Thor."

"O que é o pássaro acima dele?"

Jack olhou com mais cuidado. "Não posso acreditar no que estou vendo. Isto é a águia de duas cabeças. Uma cabeça significa a antiga Roma, a outra a nova Roma, Constantinopla. Este é o símbolo imperial do imperador bizantino." Jack fez uma pausa, depois olhou para Costas através do visor, os olhos iluminados pela admiração. "Acabamos de encontrar uma das armas mais famosas da história, uma acha-de-armas da guarda varegue."

"Isso faz sentido. Olhe para isto." Costas virou a acha de modo que Jack pudesse olhar o outro lado.

"Runas!" O coração de Jack estava disparando, ele sugava o oxigênio do respirador com dificuldade. "E não apenas runas antigas quaisquer. Não sou um expert, mas acontece que conheço isso como a palma de minha mão. Elas são idênticas àquelas existentes na igreja de Santa Sofia, em Constantinopla. É a assinatura de Halfdan, o viking que inscreveu seus símbolos pagãos na catedral mais sagrada da cristandade oriental em algum momento do século XI."

"Então encontramos a acha-de-armas de Halfdan." A voz de Costas soava sem emoção, mas a sua expressão era de incredulidade. "Em um iceberg da Groenlândia. Esse sujeito certamente viajou muito."

"Há ainda uma coisa que preciso verificar aqui", disse Jack. "Deveria haver um alicerce para o mastro e uma viga mestra no centro do casco, mas em vez disso há uma espécie de estrutura retangular. Estou com uma idéia do que seja, mas necessito vê-la com meus próprios olhos. Depois sairemos daqui."

"Recebido e entendido." Costas reativou o jato de água e começaram a avançar por cima da estrutura escura, alguns metros à frente deles. Jack segurou a acha por um momento, mal acreditando no que haviam encontrado, e depois a colocou sobre os ombros debaixo das correias dos cilindros de trimix, puxando cuidadosamente o cabo até que a extremidade da acha dourada ficasse pressionada com segurança longe do tubo do regulador. Ele voltou-se e colocou as duas mãos no trilho de guia, olhando atentamente enquanto a beirada da estrutura retangular aparecia debaixo deles e começavam a ver o que continha dentro: uma forma sepulcral e sombria que parecia completamente diferente de tudo por que tinham passado antes. Aos pés da estrutura, Jack subitamente viu uma outra pilha fantástica de artefatos, um capacete cônico dourado no topo de uma armadura de cota de malha dourada, e abaixo deles um traje escarlate dobrado com bordado em ouro, evidentemente um manto. Quando estavam prestes a passar pelo meio da estrutura, Costas moveu a alavanca do controle e a sonda parou.

"Estou recebendo uma leitura de aviso no sismógrafo", disse Costas. "Provavelmente trata-se apenas de uma oscilação no aparelho, mas preciso parar para ter certeza."

Jack olhou com um desconforto súbito para a luz vermelha piscando na parte mais baixa da tela. Não podia sentir nada incomum, mas os microfilamentos que se arrastavam atrás dele pareceram flutuar por mais tempo que o habitual depois que o jato de água foi desligado.

"Definitivamente há algo acontecendo", disse Costas.

Exatamente nesse instante houve um chiado horrível, seguido por uma série de vibrações violentas que fizeram com que Jack, nervoso, batesse os dentes e sentisse um tremor incontrolável passar pelo corpo. A água começou a vibrar, até que tudo o que conseguia ver de Costas e da sonda de gelo era um borrão sem forma.

"Santa Mãe de Deus, estamos..."

As palavras de Costas eram abafadas por um barulho agudo aterrador, como se eles estivessem sendo atacados de todos os lados por espíritos dementes que predissessem a morte. Lascas de gelo começaram a saltar das paredes do túnel, girando através da água como estilhaços de metralha. Uma delas prendeu-se na coxa esquerda de Jack, cortando a estrutura de Kevlar como se fosse manteiga e fixando-se na carne. Tudo o que Jack sentiu foi uma dormência, enquanto observava, em choque, a água se encher com rodopiantes filamentos vermelhos. Depois houve um brusco rangido e a sonda de gelo silenciou, toda a sua parte dianteira acabou esmagada e impossível de ser reconhecida por uma alteração sísmica no gelo.

Tudo ficou silencioso. Costas tentou freneticamente reativar a sonda, mas sem êxito. O espaço tinha se tornado mais estreito, seus corpos estavam comprimidos um contra o outro com muito pouco espaço para fazer qualquer movimento. As costas de Jack estavam curvadas na parte do fundo do túnel com sua máscara facial contra o gelo acima da misteriosa estrutura retangular embutida abaixo deles.

Com a sonda paralisada, agora a única luz provinha de suas headlamps. Com um esforço sobre-humano, Jack conseguiu virar a cabeça para olhar o túnel atrás de si. O que viu confirmou seu pior medo. O túnel havia sido totalmente bloqueado, fechado por alguma alteração tectônica no gelo. O espaço em que eles estavam era apenas um metro maior que seus corpos e estava diminuindo rapidamente. Jack observou com horror a água congelar ao redor de seus pés. Os fragmentos de gelo que pareciam sair do nada refratavam sua visão como em um caleidoscópio, e ele via Costas como fragmentado em milhares de formas e de cores. Jack tentou mover a mão em direção ao amigo, mas já havia resistência em demasia. Uma terrível onda de certeza passou por ele. Eles ficariam congelados dentro do gelo antes de morrer, um pesadelo vivente da pior espécie.

"Estamos afundando!", gritou Costas. "Mude para trimix!"

Jack mal tinha registrado o movimento, mas subitamente ele tornou-se mais forte, maior do que qualquer coisa que havia acontecido antes, um balanço brusco gigantesco que o pressionou firmemente dentro dos fragmentos de gelo e em contato com a parede do túnel. Com toda a sua força ergueu o braço através da mistura semi-líquida em vias de solidificação e alcançou a válvula debaixo de seu capacete, sentindo que Costas estava tentando fazer o mesmo. Com uma lentidão agonizante, ele girou a válvula para abri-la, enquanto Costas fechava seu respirador; após isso Costas afastou a mão e procurou sua própria válvula. Segundos depois, as primeiras bolhas de descarga de gás usado estouraram em meio aos fragmentos de gelo, algumas juntaram-se com a água, e o resto foi para cima para formar bolsas de ar contra o teto do túnel. A bolsa de ar aumentou rapidamente quando Costas começou a soltar ar, e Jack lentamente ergueu-se até ela enquanto o iceberg rolava. No instante em que ele subiu à tona, as gotículas de líquido sobre sua máscara congelaram, uma mistura de água e de sangue que deu à sua visão um matiz sobrenatural. Ele estava agora quase completamente paralisado, incapaz de mover seus membros, e a cada respiração a compressão do gelo contra seu peito tornava mais difícil inalar. Ele sabia que tinha pouco tempo. Esticou-se para a direita, mas não conseguiu ver Costas. O intercomunicador dentro de seu capacete estava mudo, e tudo o que podia ouvir era o sugar de sua própria respiração e um terrível romper e triturar ao longe, o barulho de forças titânicas dentro do iceberg que os havia enterrado sem esperança de salvação.

Quando Jack começou a perder a consciência, vislumbrou algo no teto da bolsa de ar, depois percebeu que era um reflexo de sua própria forma no gelo. Sua respiração tornou-se pouco profunda, rápida e áspera, e ele sentiu a cabeça vazia, entrando e saindo da consciência enquanto seu corpo ansiava por oxigênio. A forma acima dele começou a assumir um aspecto oscilante e surreal, como se fosse algo mais do que um simples reflexo. Através do reflexo listrado de sangue de sua máscara, ele viu um crescente manto vermelho onde deveria haver um E-suit, e em lugar de um capacete de mergulho havia um rosto barbado emoldurado por longos cabelos dourados. Os olhos eram sombras escuras, escavadas na palidez cinza do rosto, mas eles pareciam estar perfurando-o. Em seu delírio, Jack viu um braço estendido, uma mão enegrecida brilhando como ouro acenava, chamando-o para mais perto. Jack havia encontrado o que estivera procurando, o antigo guerreiro que tinha perdido a consciência dentro deste navio, o fantasma do Valhala que viera levá-lo em seu abraço. Ele fechou os olhos diante da imagem enquanto uma poderosa ruptura despedaçou o gelo, parecendo atirá-lo muito além do presente para um esquecimento misericordioso.

A pesada porta de ferro no antigo castelo fechou-se silenciosamente atrás dos três homens enquanto eles estavam na escuridão do corredor, os olhos acostumando-se gradualmente com a tênue luz que vinha da escadaria adiante. Sem dizer palavra, eles vestiram os mantos escarlates que haviam sido deixados para seu uso na entrada, amarraram os cordões enfeitados com ouro na cintura e, puxando os capuzes sobre a cabeça, caminharam em fila única para o topo da escada. Os seus movimentos denotavam uma desenvoltura espontânea, como se tivessem estado ali muitas vezes antes. Eles se encontravam muito abaixo dos alicerces do castelo, no interior de um lugar secreto desbastado na rocha viva nos dias em que os drakar vikings ainda controlavam os fiordes. Durante gerações, os únicos passos que ecoaram por esses corredores eram os da irmandade. Quando os três homens começaram a descer, a rocha úmida parecia exsudar uma essência do passado, como se a porosa pedra calcária preservasse dentro de si a emanação de seus venerados ancestrais, uma comunhão com o espírito do mundo que parecia arrastá-los para os verdadeiros portões do próprio Valhala.

No final das escadas, eles entraram em um aposento circular, seu santuário interior. De início, ficaram subjugados pela aura, ofuscados por uma dúzia de tochas ligeiramente espaçadas em volta do aposento, as chamas enviando colunas de fumaça negra que subiam em espiral para a cúpula acima em forma de arco. Depois começaram a distinguir as paredes ao redor, uma arcada de doze pilares cortados na rocha e um corredor circundante do outro lado. Sobre cada pilar havia uma terrível acha-de-armas, atada à rocha com tiras de couro torcidas, as lâminas irradiando a luz com lampejos de ouro. Acima de cada acha ficava pendurada a armadura de cota de malha e o capacete cônico, os visores com seus olhos vazios oscilando para fora e para dentro das sombras quando as luzes das tochas se moviam em direção à parede. No chão, em frente aos pilares, havia doze cadeiras idênticas, suas pesadas estruturas de carvalho esculpidas com formas de animais girando em turbilhão, e inscrições rúnicas, e no centro do aposento via-se uma mesa circular maciça, sua madeira polida e escurecida pelo tempo. Incrustado na madeira havia um círculo solar com doze raios, dando coesão à simetria do aposento em relação a um símbolo esculpido, obscurecido pelas sombras, bem no vértice do desenho.

Os três homens entraram silenciosamente e assumiram seus lugares atrás das cadeiras em diferentes pontos ao redor da mesa, juntando as mãos à sua frente e curvando a cabeça antes de se sentar. Todas as cadeiras estavam ocupadas agora, exceto uma, diretamente oposta à entrada, o pilar atrás dela iluminado por uma tocha dupla e a acha reluzindo como se tivesse acabado de ser afiada.

A figura de capuz sentada à esquerda da cadeira vazia ficou em pé devagar e ergueu a mão direita, revelando uma cicatriz profunda que se prolongava por sua palma. Ele falava em inglês, a voz grave e profunda. "Herr professor. Sua Excelência. Senhor presidente. Bem-vindos. O félag está quase completo."

Ele sentou-se e colocou a mão esquerda sobre a mesa. No seu dedo indicador havia um anel brilhante, trançado em ouro com um sinete, a superfície impressa com um símbolo linear semelhante às runas desenhadas sobre a cadeira atrás dele.

"Durante trinta gerações até hoje, mantivemos o fogo de Thor aceso pelo retorno de nosso rei", disse ele. "Agora as forças que querem nos destruir novamente ameaçam a santidade do félag. Vamos desencadear todos os poderes à nossa disposição para salvaguardar nosso tesouro, para encontrar nossos bens herdados do rei dos reis." Fez um gesto em direção à cadeira vazia ao seu lado. "Mas, antes que o conselho se inicie, devemos completar nosso círculo."

Uma figura encapuzada emergiu da reentrância escura do corredor atrás da cadeira vazia. Sob a luz da tocha dupla seu manto parecia chamejante, brilhando com o laranja profundo do fogo. Suas mãos estavam juntas à frente e seu rosto oculto dentro do capuz.

"Você realizou a tarefa que lhe foi indicada?"

"Ela começou."

"Aproxime-se."

O homem deu um passo à frente, junto ao pilar, até ficar no mesmo nível que a acha, a lâmina brilhante a apenas alguns centímetros de sua cabeça. Ele levou a mão direita ao rosto, puxando o capuz para trás e revelando uma pele pálida e lábios finos. Uma cicatriz branca entalhada atravessava sua face desde a órbita do olho até o queixo.

"Você está ligado por juramento a vingar seu avô, nosso sofrido companheiro que foi o último a ocupar essa cadeira", disse o homem que estava à mesa. "A luta sangrenta não terminará até que o último de nossos inimigos esteja morto. Você procurará se informar do que eles sabem, e extinguir seu conhecimento junto com eles. Você realizará terrível vingança. Você honrará o félag e ganhará seu lugar nesta mesa."

O homem ao lado do pilar passou fortemente o dedo pela cicatriz em sua face, estremecendo ligeiramente. Inclinou-se em direção à mesa e a sombra de um sorriso passou por seus lábios. Ergueu a palma direita até a lâmina e puxou-a nitidamente para baixo, pressionando a palma fortemente no aço até o sangue jorrar. Então enfiou a mão sangrenta dentro de seu manto e tirou um anel de ouro idêntico ao usado pelo homem que estava à cabeceira da mesa, e em seguida adiantou-se e sentou-se. Os outros levantaram as mãos em concordância, revelando anéis idênticos e palmas com cicatrizes.

Um conduto de fogo acendeu-se subitamente debaixo da mesa, iluminando o símbolo no centro. Ao redor deles as chamas brilhavam através do vidro incrustado que formava o círculo do sol, uma luz laranja que pulsava por sobre as figuras encapuzadas do outro lado da parede, iluminando as lâminas das achas e os capacetes vazios com um bruxuleante brilho laranja. Eles tinham sido reunidos pelos espíritos dos félag que haviam morrido, a irmandade sagrada, guerreiros chamados de sua festividade eterna no Valhala para vestir mais uma vez sua armadura em prontidão para a batalha.

O símbolo era uma árvore da vida. Com sete braços, ela iluminaria seus caminhos até a revelação final dos fatos no fim dos tempos, quando eles, por fim, manejariam suas achas-de-armas ombro a ombro com seu rei.

As doze figuras encapuzadas inclinaram-se para a frente até seus anéis se tocarem, o sangue de um ungindo os outros, gotejando por suas mangas e sobre o símbolo no centro da mesa. Quando seus punhos estavam todos se tocando, a figura que havia falado primeiro voltou a se manifestar.

"Hann til ragnawks?

 

Jack parecia estar acordando seu pior pesadelo. Ele percebeu, de início, que estava consciente quando reconheceu o som de sua própria respiração, um barulho de sugar, áspero, seguido pela afobação da exalação de gás usado de seu regulador de descarga. Tornou-se gradualmente ciente de seu corpo, a dor atenuada da antiga ferida provocada por um tiro no quadril e uma dor mais aguda em sua perna. Parecia que estivera no limbo por uma eternidade, pairando entre um mundo de sonho e algum tipo de realidade, mas, quando abriu os olhos e viu o mostrador digital de horas dentro de seu visor, deu-se conta de que se haviam passado apenas alguns minutos. A vista além parecia pura alucinação, um padrão caleidoscópico, fragmentado, esboçado em trepadeiras vermelhas. Fechou os olhos e instantaneamente confrontou uma outra imagem, uma impressão em sua mente que se recusava a ir embora. Uma forma como um fantasma que se projetava na frente dele, como se Jack estivesse flutuando sobre seu próprio corpo envolto em mortalha e enterrado no gelo. A imagem se afastava quando Jack parecia flutuar mais alto acima dela, trazendo uma sensação narcótica e irresistível de alívio, mas algo dentro dele estava lutando desesperadamente para voltar, como se a imagem de sua própria morte fosse seu único salva-vidas.

O som áspero de sua descarga de gás usado tornou-se um redemoinho borbulhante e depois um assobio alto. Jack abriu os olhos e viu uma linha diagonal atravessando o centro do seu visor. Ele percebeu que estava deitado parcialmente dentro da água, e que a visão que tivera alguns momentos antes era a luz de sua headlamp refratando-se através de uma mistura de fragmentos de gelo e seu próprio sangue. A lâmpada agora brilhava acima da água e ele podia ver uma parede de gelo a apenas alguns centímetros de seu rosto. Com cuidado virou a cabeça para a direita, ajeitando a lâmpada até que pudesse ver todo o comprimento de seu corpo. Ele estava dentro de uma cavidade do tamanho de um carro pequeno, e na parte superior havia uma bolsa de ar criada pela descarga de gás. Em lugar da superfície polida da parede do túnel criado pelo perfurador de gelo, as paredes eram entalhadas e quebradas, grandes placas de gelo que pareciam ter sido compactadas de modo violento. Algumas das placas eram nebulosas e outras quase transparentes, criando a ilusão de que a câmara se estendia em fissuras e túneis ao redor do gelo branco.

Por um momento passageiro a mente de Jack vagueou de novo e ele se sentiu protegido e salvo, como se a câmara que havia se aberto e que o tinha protegido do impacto esmagador do gelo fosse sua derradeira salvação. Depois a realidade voltou e ele sentiu um frio terrível. De alguma forma o gelo havia arrebentado quando o iceberg tinha rolado e lhe havia sido dada uma prorrogação, mas esta poderia ser apenas temporária. À medida que mais água era deslocada pela descarga de gás usado, ele podia sentir a mistura de fragmentos de gelo ao redor da parte inferior de seu corpo engrossar, imobilizando-lhe as pernas. Para seu horror ele percebeu que estava sendo congelado vivo de novo, só que dessa vez o fim não seria rápido, mas longo, uma agonia protelada metade dentro e metade fora da bolsa de ar, pois sua respiração expelia gás gradualmente e ele sufocaria com sua própria descarga.

Um barulho estalou ao redor de sua cabeça e lhe deu um solavanco, trazendo-o de volta à vida. O intercomunicador soltou um ruído e depois estabilizou-se com sons de grunhidos e tensões. Parecia inacreditável, um pequeno milagre. "Jack, você pode me ouvir?"

"Costas." A voz de Jack soava peculiar, estranhamente distante para os seus próprios ouvidos, e depois ele lembrou que o trimix continha hélio. "Onde diabos você está?"

"Eu posso vê-lo, mas você não pode me ver. Tente se virar. Você deve conseguir sair fora da água, senão dessa vez estamos perdidos."

A voz de Costas era uma medida reasseguradora de realidade, calma e comedida apesar da situação desesperadora. Jack reuniu toda a sua energia e ergueu-se sobre os cotovelos. Ele conseguiu girar o tronco ligeiramente para a direita e seus braços ficaram livres, mas seus pés e pernas estavam quase congelados dentro do gelo. Era como lutar contra lama grudenta e cada vez que ele puxava parecia apenas que se enterrava ainda mais.

"Isto não adianta", ele arquejou. "Mal posso mover minhas pernas."

"Você pode alcançar a mochila de cilindros?"

"Acho que sim."

"Ok. Puxe aquela acha e deixe-a no canto perto de sua cabeça."

Jack fez como Costas o instruíra, puxando a acha pelo cabo de madeira, com cuidado, de onde ela havia escorregado atrás das correias do cilindro. Ele mal podia se dar conta de que estava segurando uma acha-de-armas varegue de um navio viking, uma descoberta que agora parecia pura fantasia. Quando por fim retirou a acha, a superfície da mistura tinha congelado solidamente ao redor do seu peito, e a umidade de sua descarga de gás usado havia provocado a formação de uma camada de gelo sobre seu visor.

"Não consigo mais enxergar", ele exclamou, tentando permanecer racional e calmo para impedir o pânico. "A pressão vai aumentar aqui, agora que não há mais água para ser substituída por gelo, e a umidade da minha descarga de gás está congelando a parte superior do meu corpo também. Isso pode terminar mais depressa do que pensei."

"Fique deitado de costas e empurre o cabo da acha tão alto quanto puder acima de sua cabeça. O perfurador de gelo está enterrado na cavidade, e posso ver os filamentos da serpentina congelados no gelo debaixo de você. Se pudermos reativar a bateria, então seremos capazes de derreter o gelo em sua volta."

Jack segurou a ponta cortante da acha e empurrou-a tão longe quanto podia, junto a uma saliência de gelo que se elevava em ângulo ligeiramente mais alto, acima da mistura de fragmentos de gelo. De início não sentiu resistência, mas, no limite de seu alcance, a base do cabo atingiu algo sólido. "Ok. É isso mesmo", disse Costas. "Agora, tente cerca de quinze centímetros à sua esquerda."

Jack esforçou-se de novo e cutucou o bastão no lugar indicado. Subitamente sentiu algo ceder, e uma aura verde tornou-se visível através do gelo do seu visor.

"Ótimo. Você conseguiu. O principal componente do perfurador foi esmagado quando as coisas ficaram meio confusas por aqui, mas a serpentina é operada por uma bateria separada que parece intacta. Tudo que temos de fazer agora é esperar."

"Como você está?" perguntou Jack quando abaixou o braço, forçando-se para não pensar no que o rodeava.

"Muito bem. Preso na armadilha da Idade do Gelo. Siga Jack Howard e veja o mundo."

"Fale seriamente, não posso vê-lo."

"De início eu não consegui compreender. Se o iceberg tivesse virado, nós estaríamos centenas de metros abaixo, esmagados sem saber de nada. Depois eu vi a sonda de gelo e percebi o que havia acontecido. Nós rolamos trezentos e sessenta graus e voltamos a ficar eretos de novo. Qualquer que seja a força que estava por trás dessa coisa, ela fez o iceberg dar uma cambalhota bem sobre o limiar. Suponho que ele ainda está empacado na extremidade exterior da soleira, mas escorregou mais para o fundo do que na sua posição original. Meu aferidor de profundidade mostra cento e vinte e três metros, quase no limite do nosso gás trimix. Se o iceberg tivesse flutuado para o mar, ele teria virado de novo e estaríamos além dessa profundidade, mortos para sempre. Isso pode acontecer a qualquer momento."

"Um pensamento tranqüilizante."

"Antes de rolarmos... você viu o que eu vi?"

"Era Halfdan. O sujeito cujas runas estão inscritas na acha. Estávamos diretamente sobre o esquife no centro do navio, onde seu corpo devia ser queimado. Devemos ser as únicas pessoas vivas que viram um guerreiro viking em carne e osso. Fantástico."

"Sim, fantástico. Ele me assombrou. Vamos esperar que não nos juntemos a ele."

"Você tem algum plano?"

"Vamos fazer isso passo a passo. A primeira coisa é conseguir descongelar."

Na calmaria que se seguiu, Jack percebeu o total silêncio do iceberg, quebrado apenas pelo barulho de sua respiração, em contraste com a ensurdecedora cacofonia de alguns minutos antes, quando o gelo se rompeu e se dividiu. De alguma forma, a quietude acentuava a qualidade sepulcral da câmara e fazia lembrar toda a monstruosidade da situação deles. Ambos estavam aprisionados no interior de um iceberg, encerrados dentro de um milhão de toneladas de gelo duro como rocha, no limite da profundidade de sobrevivência e com a probabilidade de uma queda fatal no abismo. Jack começou a sentir-se nervoso, e quando fitou o gelo a poucos centímetros de sua cabeça começou a experimentar a antiga claustrofobia ameaçando no limite de sua consciência. A espreita, logo abaixo dos sentimentos mais superficiais, havia o receio de que ele seria tomado pelo pânico, como quase acontecera quando Costas o mantivera avançando pelos túneis da Atlântida seis meses antes. Ele sabia que as brincadeiras de Costas mantinham sua mente focalizada, que o seu amigo o conhecia muito bem, e forçou-se a concentrar-se em pequenas coisas, nos mínimos passos que eventualmente poderiam conduzi-los à salvação.

"Consegui movimentar-me", disse Jack. "Posso mover meu pé."

"Excelente. Tente girar em minha direção."

A camada de gelo do visor de Jack estava começando a derreter, e agora ele podia ver mais nitidamente. A serpentina de microfilamentos da sonda estava fazendo seu trabalho, e a superfície começava a liquefazer-se. Ele arqueou as costas e flexionou as pernas, causando uma fisgada de dor e um súbito espasmo de estremecimento. Pela primeira vez examinou o ferimento em sua coxa esquerda, a lança de gelo enterrada era apenas visível através do rasgão em seu E-suit. O gelo havia entorpecido quase toda a dor e estancado o ferimento, mas, mesmo assim, o sangue perdido o havia deixado perigosamente vulnerável ao frio. Ele se ergueu de lado, tirando as pernas fora da água e arrastando-se até onde podia subir na saliência, depois esfregou o visor e olhou para a parede talhada de gelo que se encontrava atrás de si.

A visão com que se defrontou era surrealista. Ele podia ver Costas, embora fosse uma imagem que desafiava os sentidos. O amigo parecia estar deitado ali perto, a um fácil alcance, no entanto estava separado por uma parede transparente de gelo. A cada minúsculo movimento Costas parecia se fragmentar em miríades de formas, refratado pelos numerosos planos no gelo. Jack subitamente vislumbrou o rosto de Costas, o capacete amarelo, de início, parecendo grotescamente alongado, mas depois reduzindo-se até se tornar mais semelhante ao normal.

"Estou separado de você por cerca de um metro", disse Costas. "Quando recobrei a consciência estava flutuando dentro de uma fissura. Tentei alcançá-lo, mas só consegui chegar até aqui. Estou tão próximo de congelar quanto possível, porém, na verdade, sem solidificar. Isto aqui é gelo derretido, daquela fenda da geleira acima do navio. É mais fácil de cortar do que o gelo da geleira. Como você está se virando com a acha?"

Jack, de súbito, viu um raio de esperança. "Você sabe, usar o machado é minha principal ocupação fora da temporada de pesquisa, quando eu desapareço nas florestas. Quando digo para todos que estou escrevendo. Este exercício me faz esquecer de tudo."

"Muito bem. Vamos ver o que você é capaz de fazer. Se você conseguir quebrar e forçar uma passagem, então a água do seu lado entrará e resolverá o assunto. A serpentina não derreterá o gelo glacial, mas ela pode manter líquido esse gelo parcialmente derretido. Há uma bolsa de ar de cerca de quinze centímetros ao meu redor, provocada pela descarga de gás usado."

"Para onde vai o resto?"

"Fissuras e fendas acima de mim. O gelo pode parecer sólido, mas ele é, na verdade, um aglomerado de placas que foram caindo."

Jack rolou sobre si mesmo até ficar deitado com o rosto para baixo, por cima da saliência. Com a mão esquerda agarrou a borda para não escorregar dentro da mistura de água e gelo, e com a mão direita ergueu-se e pegou a acha. Soltou-se, deslizando para dentro dos fragmentos de gelo até ficar de joelhos no fundo com a superfície na altura de seu peito. Ele lutou para remover suas nadadeiras, puxando-as pelas correias que as prendiam, depois puxou o machado para baixo com as duas mãos e girou-o de modo que o corte ficasse acima dele. Em pé no meio da mistura de fragmentos de gelo, sua alta estatura curvada sob o teto, ele mal tinha espaço suficiente para manejar a acha dando pequenas pancadas, além disso, cada golpe iria exigir um esforço extra, pois ele lutava para manter o equilíbrio e o momentum.

"Aqui vamos nós." Ele colocou a lâmina da acha no gelo logo acima do nível da água, na frente do rosto de Costas, e deu um pequeno balanço. A lâmina estava sem fio, mas o metal ainda tinha a força de mil anos atrás, e era a força do impacto que importava mais do que a extremidade cortante. Quando a acha bateu, ela quebrou um pedaço de gelo e provocou marcas de fratura como uma teia a partir do ponto de impacto, reduzindo a visão que Jack tinha de Costas a um mosaico sem significado. "Eu mal consigo fazer isso", arquejou Jack. "Dez centímetros a menos de espaço e eu não conseguiria manter o equilíbrio."

Lenta e deliberadamente, ele começou a cortar o gelo, cada golpe arrancando um novo pedaço e cada balanço enviando um choque de dor através de sua perna. Com o esforço adicional de manter o peso de seus cilindros acima da água, o seu empenho logo começou a ter efeitos, e ele passou a respirar o trimix a uma velocidade alarmante. Jack tentou ignorar a leitura digital dentro de seu visor e focalizar a atenção na tarefa que tinha pela frente. Ele estava usando uma técnica-padrão de habitante das florestas, cortando em forma de cunha acima e abaixo da linha-base. Como cada pancada aprofundava o buraco, Jack começou a tirar pedaços mais grossos da parede entre eles, de tal forma que faltavam apenas alguns centímetros para alcançar Costas e o buraco já estava grande o suficiente para permitir que ele passasse.

Quando tomou posição para o golpe crítico, suas pernas subitamente fraquejaram e ele escorregou de novo na mistura de fragmentos de gelo, deixando cair a acha. Percebeu então que não havia apenas perdido o equilíbrio, mas que fora derrubado por uma força maior. Endireitou-se e viu a superfície da água balançando violentamente, e ouviu rangidos e estalidos. Repentinamente a água começou a subir e Jack observou uma fissura escura abrir-se no teto da câmara.

"A bolsa de ar está indo embora", ele exclamou. "Ela está escapando para cima." Ergueu a acha para fora da mistura de gelo e lançou-a mais uma vez contra a abertura, mas sem resultado. "O buraco já está debaixo da água. Não consigo um impulso."

Ele deslizou contra a parede de trás da câmara, a acha caiu de sua mão e Jack ficou olhando, impotente, enquanto o nível da água subia acima de seu visor e alcançava o teto. Menos de um minuto depois que o estalido fora ouvido, tudo o que sobrou foi o tumulto das bolhas que subiam saídas de sua descarga de gás usado e que rapidamente se dissipavam através da fenda depois de cada exalação. O leitor de temperatura em seu visor assinalava dois graus abaixo de zero, abaixo do ponto de congelamento da água. Ele se dava conta, com uma certeza que lhe causava náuseas, que a serpentina nunca conseguiria aquecer a quantidade de água que agora enchia a câmara, que apenas a parte inferior ao redor dos filamentos permaneceria líquida.

Os fragmentos de gelo começaram a se formar de novo diante de seus olhos. Jack sentiu a água endurecer ao redor dos braços e da cabeça. Estava acontecendo tudo de novo, um tormento diabólico que ele estava fadado a suportar repetidas vezes, um pesadelo revivido. Fitou com os olhos arregalados enquanto o gelo começava a encapsulá-lo mais uma vez. Começou a hiper-ventilar, como se o seu corpo quisesse que ele sugasse sua última reserva de trimix e deslizasse na escuridão, um esquecimento misericordioso diante do prolongado horror que havia diante de si.

"O seu oxigênio! Corte a mangueira do oxigênio!"

A voz o trouxe de volta para a realidade. Ele percebeu instantaneamente o que Costas queria dizer. Com dificuldade, empurrou com força a mão esquerda através da pasta fluida de água quase congelada e apanhou a faca que mantinha em uma bainha em seu peito, colocando a extremidade serrilhada contra as duas mangueiras debaixo de seu capacete. Por um instante aterrorizante ele esqueceu qual era a do trimix e qual a do oxigênio; o efeito narcótico do nitrogênio, a essa pressão, iludia sua mente. Sua cabeça estava quase imóvel e ele era incapaz de olhar para as mangueiras. Fechou os olhos e decididamente agarrou a da esquerda, levando a lâmina para debaixo do ponto em que a mangueira se ligava ao capacete.

"O que sobrou dentro do seu cilindro de oxigênio irá encher a câmara o suficiente para clarear o buraco e permitir mais uma série de pancadas", disse Costas. "Mas, pelo amor de Deus, não o respire. Oitenta por cento de oxigênio nesta profundidade seria morte instantânea."

Jack cortou a mangueira e uma fonte aquecida de bolhas irrompeu na câmara. A água baixou rapidamente até o nível do peito e ele ergueu-se de novo, a mangueira cortada dançava e assobiava na frente dele. Puxou a acha para fora da mistura de gelo e visou o buraco. Com toda a sua força, Jack deu um impulso em direção ao gelo, libertando um grande pedaço. Ele podia ver Costas empurrando com toda a sua força a barreira restante. Jack freneticamente afastou para o lado o pedaço flutuante de gelo e preparou-se para outra pancada. Bem nesse momento o assobio do seu oxigênio vacilou, e o nível de água começou a subir de novo, inexoravelmente. Ele tinha uma última chance. Mirou acima da linha fraturada de onde o pedaço de gelo saíra, depois relaxou completamente, com os olhos colados no lugar do impacto. Posicionou a acha para trás e levou-a à frente com toda a força, provocando uma pulverização de fragmentos de gelo quando a lâmina passou pela água que subia e bateu com força no gelo. Depois ele caiu bruscamente e começou a ofegar sem controle, soltando bolhas aquecidas com a descarga de gás enquanto a água se elevava e o submergia de novo.

A ponta de uma nadadeira apareceu fora do gelo. Jack sentiu uma cutucada em seu corpo e houve uma agitação na superfície. Havia funcionado. Um outro pedaço de gelo passou flutuando, e uma grande forma escura emergiu ao seu lado como uma foca curiosa. Os olhos de Costas fitaram Jack. "Estou contente em vê-lo."

"Graças a Deus você perdeu peso", disse Jack debilmente. "Eu não reservei um quarto duplo."

Um jato vermelho encheu a água entre eles quando Jack se virou no espaço confinado. "Como está sua perna?" perguntou Costas.

"Esta é a menor de minhas preocupações." Jack examinou o nível da água acima deles. "O seu oxigênio", ele disse com urgência. "Corte a mangueira e teremos mais alguns minutos."

"Nada disso", disse Costas. "Minha mangueira foi golpeada quando o iceberg rolou. O pedaço de gelo que a cortou quase me decapitou." Ele se mexeu até ficar deitado paralelamente a Jack e as duas cabeças, agora, olhavam para a extremidade onde a sonda de gelo estava enterrada. Os limites confinados da câmara se tornaram ainda mais aparentes, mal dava para conter os dois e seus equipamentos. Agora estavam completamente submersos, lascas de gelo resultantes dos esforços de Jack flutuavam ao redor deles, e Jack podia ver os filamentos da serpentina emaranhados, na parte de baixo. Costas inclinou-se para retirar suas nadadeiras e depois se arrastou para detrás da sonda. "Ela está lampejando cor de âmbar", ele disse. "A bateria está quase no fim. Se continuarmos por aqui, ficaremos dentro do gelo. Permanentemente." Ele escorregou para trás e lutou para tirar algo do bolso de sua coxa no E-suit. "Aqui, segure isto para mim." Jack pegou o pequeno pacote, depois olhou para Costas.

"C-4 explosivo?"

"Você adivinhou. Sempre carrego um pouco em caso de emergência."

"Você vai nos explodir?"

"Dar umas pancadas no gelo profundo." Costas continuava a remexer no bolso, depois retirou um mini-detonador transceptor. "Tenho certeza de que estamos dentro da fenda da geleira onde Kangia e aqueles nazistas viram o navio. O gelo transparente é água derretida que fechou a fenda. Ele é mais fraco do que o gelo da geleira que o circunda, e fragmentou-se quando o iceberg se deslocou. Esta é a única chance que temos."

"Qual é a nossa posição de descompressão?"

"Não é boa. Parece que estamos baixando em profundidade. Deve haver um outro nível de água interno na fenda acima de nós, abaixo do nível do mar que circunda o iceberg. De qualquer maneira isto está descendo. Com esta velocidade estaremos na zona de perigo em menos de cinco minutos."

"Esta é mais ou menos a quantidade de trimix que ainda temos."

"Se não congelarmos antes. Com a serpentina sem funcionar, a água já está começando a engrossar. É tempo de pôr mãos à obra."

De repente, Jack tremeu violentamente. A água era a mais fria que jamais conhecera, ainda mais fria do que a das profundezas do oceano. Houve um outro chiado agourento no gelo, e a lenda acima deles começou a se fechar perceptivelmente. Costas virou o corpo e olhou para cima, movendo sua headlamp ao longo da fraca luz prateada das bolhas de descarga que se alinhavam no teto. "Não era isso que eu esperava que acontecesse", disse ele baixinho. Um breve alarme agudo soou vindo da sonda, e a luz cor de âmbar desapareceu. "Nem era isso." Ele virou-se de novo e pegou a acha no chão da câmara, estendendo-a para Jack. "Você alcança mais longe do que eu. Na parte mais larga da lenda acima da sonda. Preciso que você empurre o C-4 tão alto quanto puder. Ele já está armado."

Jack segurou o objeto marrom em uma mão e o cabo da acha na outra. Costas agachou-se, ficando debaixo de Jack, e depois ergueu-se empurrando as pernas do amigo, forçando uma nova saída de sangue da coxa de Jack. Este tratou de ignorar a dor e torceu a parte superior do corpo de modo que seu visor ficasse diante da fenda acima da sonda. Com o ímpeto das bolhas que escapavam pelo visor, ele só tinha uma percepção fugaz da dimensão da fenda, mas parecia nitidamente uma chaminé estreita que se estendia bem acima deles, uma fenda entre placas de gelo. Ele empurrou o C-4 tão para cima quanto podia com sua mão esquerda, introduzindo-o à força na chaminé. Depois Jack pegou a acha com muito cuidado e enfiou o cabo de madeira dentro da chaminé, com Costas impedindo-o de escorregar. Quando sentiu que havia encontrado resistência, ele empurrou fortemente para cima, deslocando o C-4 e pressionando-o tão alto quanto podia para dentro da chaminé.

"Ok. É o mais alto que consigo alcançar."

Jack caiu prostrado ao lado de Costas, e os dois lutaram contra os fragmentos congelados até ficar tão longe quanto possível da chaminé, apertando-se um contra o outro no canto oposto da câmara. Jack virou a acha ao contrário e enfiou-a de novo sob as correias, e ambos se inclinaram para recolocar as nadadeiras. Jack envolveu fortemente Costas em seus braços, e ficaram visor contra visor. "Aonde quer que formos dessa vez, estamos indo juntos."

"Semper Fidelis!”

Jack sacudiu a cabeça. "Você nunca deixa de me surpreender. Latim também."

Costas segurou o transceptor entre eles.

"Pronto?"

"Pronto."

Um violento tremor os sacudiu, acompanhado por um som agudo e furioso que fez os dentes de Jack baterem. Ao redor deles o gelo se deslocava em todas as direções, vibrando de maneira confusa. A cacofonia foi substituída por uma explosão ensurdecedora e Jack sentiu como se o corpo estivesse levando milhares de socos. Ele pressionou o visor firmemente contra o de Costas, protegendo o vidro vulnerável dos fragmentos de gelo que estavam voando ao redor deles. Quase simultaneamente suas headlamps explodiram, e eles ficaram mergulhados em uma escuridão bizarra e trêmula, quebrada apenas pelo verde borrado das leituras digitais dentro de seus capacetes. Algo grande ergueu-se de um dos lados de Jack e por um instante ele sentiu que estava prestes a ser esmagado, e então, como por milagre, a coisa passou. Ele experimentou um ataque de tontura e percebeu que estavam fazendo acrobacias, girando sem parar em uma agitação de gelo e água, totalmente impotentes enquanto a fenda da geleira se abria e se separava.

"Vamos subir!", gritou Costas. "Pelo amor de Deus, não segure a respiração. Seus pulmões explodiriam dentro de segundos."

A respiração de Jack começou a ficar apertada. No turbilhão de redemoinhos não havia referencial, nenhuma referência visual. Ele forçou-se a se concentrar na leitura digital dentro de seu visor, seus braços firmemente agarrados em Costas e suas pernas entrelaçadas. Jack pôde apenas fazer uma leitura de profundidade de dez metros, eles estavam subindo vertiginosamente. As imagens lhe deram algo a que se agarrar, e ele estava vagamente ciente de que o perigo de embolia pulmonar era devido ao risco da formação de bolhas pelo mal da descompressão. Eles estavam subindo muito depressa.

Repentinamente eles chegaram à superfície. Havia luz de novo, uma luz crepuscular forte, e Jack podia ver além de Costas um apavorante mundo azul. Eles estavam flutuando em um vasto caldeirão de gelo, pelo menos da largura e comprimento do Seaquest II, com paredes brancas transparentes erguendo-se de todos os lados ao seu redor. Jack sentiu-se um pigmeu diante daquela enormidade. Arqueou o pescoço e olhou para a fonte de luz bem acima. Era uma fina nesga de cinza onde as paredes de gelo quase se juntavam, uma primeira ligação com o mundo exterior. O cinza estava entremeado de preto e azul brilhante e parecia estar passando numa velocidade enorme.

"Deve ser uma daquelas tempestades que chegam da calota polar", disse Costas. "Foi isso que empurrou o iceberg."

"Uma piteraq!'

Eles se agarraram um ao outro enquanto se balançavam em círculo no centro do caldeirão de gelo. As luzes de aviso de descompressão estavam piscando com sua cor de âmbar, indicando que eles tinham tentado fazer mais do que era possível e estavam agora sujeitos ao grave perigo das bolhas. Jack tentou reconhecer alguns sinais, formigamento em um cotovelo ou uma súbita onda de náusea, ciente de que os últimos seis meses sem mergulhar haviam reduzido sua resistência. Ele verificou seu medidor de pressão de trimix e viu o indicador pairando sobre o zero. "Estou sem ar", ele disse. "Se houver mais mergulho, vamos ter de dividir o respirador."

"Enganche em mim."

Jack puxou a mangueira umbilical por cima da mochila de cilindros de Costas e pressionou a válvula em uma entrada debaixo de seu capacete. Com um assobio agudo, o capacete encheu-se de novo com gás respirável, com composição próxima ao do ar atmosférico depois que o computador ajustou as proporções levando em conta a profundidade em que estavam. Jack percebeu que havia estado respirando com o cilindro vazio, e fechou os olhos para se concentrar em respirar várias vezes profundamente.

"Isso deve nos dar cerca de dez minutos", disse Costas. "Preferiria passá-los a dez metros de profundidade para aumentar a margem de descompressão, mas não podemos nos dar esse luxo. Vamos ter de nos apressar."

O movimento na água havia parado dramaticamente, deixando a superfície calma de uma maneira sobrenatural depois do tumulto que os havia lançado fora da sepultura de gelo, bem abaixo. "A fenda da geleira deve ter se aberto quando o iceberg se deslocou, estilhaçando todo o gelo formado de água derretida dentro dela", disse Costas. "Depois as paredes se fecharam de novo quando o iceberg encontrou resistência, provavelmente a extremidade do limiar em direção ao mar." Ele olhou em volta de novo, o cenário agora assustadoramente quieto. "Eu tenho um mau pressentimento sobre isto. Vamos ficar juntos."

Como em resposta ao palpite, o silêncio foi substituído por um abalo estilhaçante e gelo e água se desintegraram com um outro som de arrepiar. Jack tornou-se ciente de uma cortina de gelo ruindo ao redor deles, pontas cortantes que caíam na água como estilhaços de metralha. Concentrou toda a sua energia em segurar Costas de maneira firme, sabendo que o amigo se afogaria caso a mangueira, que era a única coisa que poderia mantê-lo vivo, se rompesse. Jack reviu por um instante o corpo no gelo, a sua alucinação, depois despertou para uma realidade pior. Eles estavam despencando com uma velocidade angustiante, deslizando em redemoinhos de gelo triturado, como se estivessem sendo sugados de volta até onde se encontrava o guerreiro congelado e o lugar que quase havia sido seu merecido castigo final. A água precipitava-se a uma tal velocidade que eles, em sua queda livre, ficavam suspensos ora fora e ora dentro da água, tombando sem peso contra os pedaços de gelo estilhaçados à sua volta. Costas puxou Jack para mais perto, esforçando-se para não ser tragado pela força centrípeta do redemoinho, e pressionou seu visor contra o de Jack. "Segure firme. Pode ser que eu consiga reverter o fluxo."

Repentinamente, a água formou vagalhões ao redor deles e ambos ficaram profundamente imersos dentro dela. Durante um instante aterrador, Jack sentiu o ar ser suprimido de seus pulmões por alguma força que estava trabalhando contra o redemoinho, impelindo-os de novo para cima. Então, eles saíram com ímpeto da água, saltando em uma nuvem de fragmentos de gelo que os atirou para o alto dentro de uma fenda acima do caldeirão. Eles colidiram com uma parede de gelo e deslizaram para cima, cada um tentando desesperadamente agarrar algo para se segurar. Depois começaram a escorregar para baixo de novo, sem controle, até que atingiram uma borda que os manteve precariamente contra a parede. Quando se agacharam, com seus trajes gotejantes, sobre a plataforma gelada, a nuvem de fragmentos e de gelo pulverizado caiu novamente no caldeirão agitado, na base da fenda muito abaixo deles.

"Que diabos foi isso?", arquejou Jack perscrutando atentamente uma queda livre de pelo menos trinta metros.

"O C-4", disse Costas de modo exuberante. "Nós fomos impelidos para fora daquela câmara antes que eu tivesse chance de explodi-lo, mas ele se mostrou útil, no fim das contas." Ele mostrou o minidetonador transceptor no bolso de sua coxa. "Muito bem. Estou com frio e com fome. Vamos sair daqui."

"É melhor fazer isso depressa. Dê uma olhada naquilo."

Com uma fascinação amedrontada, eles observaram atentamente o abismo de gelo muito abaixo. Ele estava começando a se estreitar outra vez, as paredes comprimiam a mistura de gelo e empurravam-na para cima. Quando os pedaços maiores de gelo eram apanhados no estreitamento, eles explodiam com uma ressonância perturbadora, enviando fragmentos letais bem para o alto da fenda. Eles sabiam que, se fossem agarrados de novo pelo redemoinho, isso significaria morte instantânea dessa vez, seus corpos retalhados pelo gelo que voava e depois esmagados quando a fenda da geleira os pegasse como um moedor de carne. Inexoravelmente, de modo aterrador, o buraco se estreitava e estava se fechando em cima deles, avançando como uma coisa viva, suas entranhas mortais vomitando jatos de gelo despedaçado e estilhaçado, movendo-se com velocidade espantosa para a parte de cima da fenda, mesmo durante os poucos momentos em que ficaram observando.

"É isso aí", gritou Costas acima do estrondo. "Não há segunda chance desta vez." Eles se apoiaram na borda e olharam para cima. A luz do céu no topo da fenda estava a cerca de cinqüenta metros acima e as faixas acinzentadas que se moviam rapidamente estavam agora claramente visíveis em um cenário de fundo azul. De repente, a nuvem se dividiu e surgiu uma forma escura, obscurecendo a fenda, um holofote ofuscante dirigido diretamente sobre eles. Depois a forma deu uma guinada violenta, arrastando algo acorrentado atrás de si, e passou rapidamente sobre a fenda.

"É o Lynx", gritou Costas, excitado. "Eles estão tentando deixar cair um guincho."

"Eu lhes disse para ficar fora disso. Eles estão abusando da sorte voando contra esse vento."

"Eles não podem fazer quase nada."

"Não há maneira de eles descerem aquele cabo até aqui. Devem estar esperando, desejando que consigamos ir até a entrada da fenda."

Jack olhou para baixo. O espaço aberto estava agora terrivelmente próximo deles, não mais do que vinte metros abaixo, os fragmentos do gelo que explodia quase alcançando a borda. Ele olhou de novo para cima. A fenda era polida como vidro e não havia onde se agarrar. A euforia que se manifestara ao ver o helicóptero transformou-se subitamente em horror. Era um novo pesadelo, um retorno à situação em que chegara a esbarrar com a morte, anos atrás, na mina inundada, quando o final do túnel parecia estar à vista, mas, por mais que tentasse, freneticamente, nadar em direção à saída, ele parecia permanecer sempre afastado dela, à mesma distância.

Jack subitamente sentiu como se estivesse sendo pressionado contra a parede. Olhou de novo para cima, depois algo tornou-se claro para ele. "A fenda da geleira. Não se supunha que fosse vertical?"

"Por Deus, o iceberg está rolando!"

Houve um grande balanço brusco quando o iceberg tombou e tudo ficou silencioso. A fenda havia parado de fechar, não mais do que dez metros abaixo deles. Através da luz do céu eles estavam olhando diretamente para o promontório onde haviam visitado o idoso inuit no dia anterior. Jack se surpreendeu pensando que este iria ser um dia perfeito e que o vento estava deixando a terra banhada em uma luz cintilante. Em seguida sentiu de novo o horror. Eles tinham de alcançar o alto da fenda ou iriam morrer. Quando o iceberg rolasse de novo, a luz do céu iria parar debaixo da água e seriam levados para o abismo ao atingir o limiar, selando seus destinos em um instante.

"A acha!" Costas o sacudiu. "A acha!"

Jack voltou à realidade. Mantendo o braço esquerdo ao redor de Costas, com o outro ele soltou a acha das correias. Sua mão estava pegajosa por causa do sangue que grudara nela ao esfregar a coxa, e a acha escorregou, sendo resgatada graças à mão firme de Costas. Eles suspenderam juntos a acha e depois a vibraram contra a rampa de gelo fazendo um grande arco acima deles.

"Ela vai agüentar", Jack ofegou. "Puxe-se para cima." Ele esticou o corpo, suas nadadeiras ainda fincadas na borda, mas seus cotovelos e joelhos prontos para descobrir qualquer ondulação no gelo, qualquer coisa que o impedisse de escorregar. Eles içaram-se segurando no cabo de madeira, depois sacudiram-no freneticamente até que se soltasse. Durante alguns segundos ficariam completamente sem ter onde se segurar, presos apenas pela tensão de seus corpos contra o gelo. Costas olhou para Jack e fez um gesto de acordo. Jack deixou a acha deslizar e depois a ergueu, ela fez um arco acima de suas cabeças, raspando levemente a parede da fenda, depois se introduziu com força no gelo um metro e meio acima da cabeça deles. Quando Jack levantou a cabeça para libertar o machado para um novo golpe, ele viu um mergulhador vestido de preto pendurado por um cabo não mais do que cem metros além do iceberg, e percebeu que o barulho que estava ouvindo era o estrondo das turbinas do Lynx.

Houve um novo balanço brusco e um ruído surdo e prolongado vindo da fenda atrás deles. O barulho do helicóptero foi abafado por um imenso chiado no gelo. As paredes da fenda se estreitaram. A acha estava erguida, mas não havia mais espaço para um novo golpe. Mais um balanço provocou um aumento repentino de fragmentos de gelo vindos da fenda, caindo sobre eles, depois tudo aconteceu subitamente. A luz do céu foi obscurecida por causa de uma agitação da água, um redemoinho que sugava e que se erguia na direção deles, e, de repente, eles estavam escorregando sem controle, caindo verticalmente em direção à luz do céu quando esta incidiu dentro do abismo. Jack colidiu com a água do mar que entrava no iceberg com um imenso estrondo, a acha ainda se arrastando atrás dele, depois foi carregado pela força da água que caía em cascata da boca até as entranhas da fenda. Os fragmentos de gelo que quase tinham sido seu castigo merecido os empurraram para fora do iceberg, impelindo-os em uma queda desvairada bem quando as paredes de gelo comprimiram-se e selaram a fenda da geleira pela última vez.

Ainda não tinha terminado. Jack viu uma vasta parede branca entalhada avançando na direção deles, estendendo-se até onde sua vista podia alcançar em cada direção. A fenda da geleira já estava muito abaixo, assinalada apenas por fluxos de bolhas subindo ao lado do iceberg, evidenciando a imensidão negra do abismo. Quando o iceberg rolou, Jack teve a ilusão de estar subindo vertiginosamente, embora seu corpo lhe dissesse exatamente o oposto. "Isto está nos puxando para baixo", gritou Costas com a voz distorcida. "Encha o seu traje de ar e nade!"

Jack pressionou o inflador e começou a mover as nadadeiras com dificuldade, a mão esquerda agarrada ao ombro de Costas. O leitor de profundidade mostrava que eles estavam se movendo muito pouco. Ainda se encontravam sob o domínio do iceberg, sendo sugados para baixo. Jack olhou para cima e viu o sol brilhando nas ondas, torturantemente perto. Ele sentiu de novo um frio na boca do estômago. Tendo sobrevivido ao iceberg, eles estavam prestes a morrer dentro do alcance da visão da superfície. Isto não podia estar acontecendo. Ele começou a hiperventilar, a gastar o oxigênio que restava no cilindro de Costas. Sua respiração começou a comprimir-se.

"Estou soltando seus tanques." Costas estava respirando com dificuldade, uma grande nuvem de bolhas rodeava sua descarga de gás, e ele movia furiosamente as nadadeiras enquanto desconectava as mangueiras desnecessárias de Jack e sacudia a fivela de soltura rápida na sua mochila de cilindros, enviando o respirador de oxigênio e a mochila console com os cilindros vazios de trimix para um mergulho dentro das profundezas. "Vou fazer a mesma coisa com os meus cilindros", ele arquejou. "De todo modo, só temos cerca de mais um minuto de ar e isto não está nos fazendo bem. Fique preparado para desconectar sua mangueira. Pare de mover as nadadeiras agora e, quando eu der o aviso, respire cinco vezes profundamente."

"Estou me segurando em você", disse Jack, com a respiração saindo em arfadas rápidas. "Se você for para baixo, eu vou com você."

Costas desconectou seu respirador e ele desapareceu de vista. Com a mão esquerda, Costas sacudiu a fivela de soltura rápida de sua mochila e manteve-a no lugar, e com a mão direita encontrou o engate da mangueira debaixo de seu capacete. Eles já estavam indo verticalmente para baixo, sugados cada vez mais fundo pelo iceberg que rolava, as suas chances diminuindo a cada metro que caíam dentro do abismo.

"Agora!" Jack deu cinco respirações profundas, depois arrancou o umbilical. Simultaneamente, Costas soltou sua mangueira e a mochila. Com o braço esquerdo de Jack apoiado no ombro de Costas, eles começaram a nadar com determinação para cima, dando grandes impulsos com suas nadadeiras, Jack ainda agarrando a acha com sua mão direita. Durante alguns momentos ele se sentiu bem, sua circulação sanguínea cheia de oxigênio, lembrando de soltar o ar enquanto subia. Depois a fadiga de sua fuga começou a se evidenciar e ele sentiu o primeiro sinal de desconforto. Eles estavam subindo regularmente, um metro a cada dois segundos, mas faltavam ainda mais de vinte metros para chegar à superfície. Qualquer pausa na movimentação das nadadeiras e eles seriam tragados para baixo outra vez. Jack começou a sugar no vazio, seus pulmões ofegando instintivamente em busca de mais ar, aspirando cada último resíduo de ar do capacete.

Suas pernas começaram a falhar, enfraquecidas por falta de oxigênio. Ele estava começando a desmaiar, dominado pela exaustão. Não ia conseguir chegar à superfície. Jack parou de tentar subir, e num último ato de consciência lutou para libertar-se do aperto de Costas, ao perceber que seu amigo ainda continuava forte, desesperado para lhe dar alguma chance de alcançar vivo a superfície.

De repente, Jack experimentou uma sensação estranha, um leve solavanco. Tinha parado de movimentar as nadadeiras, mas ainda estava sendo impelido para cima. Ele estava vagamente ciente de que o iceberg tinha parado de se mover. Por instinto encontrou a válvula de descarga para soltar o ar de seu traje e parar de subir verticalmente. Depois se encontrou na superfície, cego pela luz. Abriu o capacete e o removeu violentamente, respirando com dificuldade o ar fresco, todo o seu ser concentrado em reabastecer sua força vital. Assim que pôde, ele girou e examinou as ondas, protegendo os olhos contra a luminosidade. Depois de alguns segundos ansiosos, Jack percebeu uma cabeça de cabelos emaranhados oscilando nas ondas cerca de três metros adiante.

"Você está bem?", ele perguntou arquejando.

"Bem, pelo menos aquele pequeno nado resolveu nosso problema de descompressão." A voz de Costas soava estranha pelo intercomunicador, anasalada por causa do frio. Ele olhava para além de Jack, parecendo esquecido do que o rodeava, completamente concentrado em dois calibradores que estava segurando fora da água. "Mas há uma pequena discrepância nas leituras, isso é incrivelmente aborrecido, preciso consertar isso."

Jack conseguiu sorrir. Ele inclinou a cabeça para trás, deixando o sol brincar em seu rosto. Podia ouvir o helicóptero descendo acima dele, e sentir a água espirrando quando o mergulhador que viera resgatá-los caiu no mar. Jack abriu um olho e viu a lâmina dourada brilhando nas ondas ao seu lado, a recompensa que ele tinha se recusado a largar. Subitamente sua extraordinária descoberta no iceberg voltou-lhe à memória e uma descarga de adrenalina passou por ele. Jack fechou os olhos, a mente agora disparando excitada. Uma onda passou por ele, uma sacudidela revigorante de frio que deixou água salgada pingando de seus lábios. O gosto era bom.

 

"Isto é algum machado de gelo que você conseguiu lá embaixo?"

"Espere até ouvir o que mais nós encontramos."

James Macleod estava acabando de aplicar uma compressa sobre o ferimento na coxa de Jack. Seu E-suit estava escorregadio por causa do sangue fresco, mas a compressa estancou o sangue. Jack inclinou-se para trás, apoiando-se no anteparo, seu rosto sulcado pelo cansaço, e ajustou o capacete de vôo e os fones de ouvido. Nos intervalos da conversa, respirava profundamente no regulador de oxigênio que lhe havia sido dado assim que fora içado para o compartimento de carga do Lynx.

"Você não quer ouvir as probabilidades que Lanowski calculou contra a sobrevivência de vocês."

"Não, não quero." Jack estava totalmente exausto, mas sentia que tinha de continuar falando para lhes contar o que havia acontecido.

"Quando a piteraq nos atingiu, ficamos completamente paralisados. Inuva havia nos contado que ela poderia ser terrível, mas eu não fazia idéia do que iríamos enfrentar. Nem conseguimos tirar o helicóptero do hangar. Foi aterrador, como espíritos gritando acima de nós."

"Nós vimos isso da fenda."

"Quando o iceberg rolou, toda a situação ficou descontrolada. A onda de deslocamento atingiu a praia e varreu a tenda onde encontramos Kangia. O xamã local ainda estava lá. Assim que deixarmos vocês a bordo do Seaquest II, o helicóptero sairá para fazer uma busca, mas não há muitas esperanças."

"Inuva?" perguntou Jack.

"Ela está bem. Estava com Lanowski."

Macleod interrompeu a conversa para ajudar o tripulante, que agia como um controlador de carga, a içar uma outra figura gotejante através da porta aberta do compartimento de carga. Segundos depois, Costas estava acomodado, com as correias presas, ao lado do assento de Jack, vestindo seu capacete de vôo e sugando agradecido no regulador de oxigênio que lhe havia sido entregue.

"Você está bem?", perguntou Jack.

Costas sugou mais algumas vezes e depois baixou o regulador, dando a Jack um olhar aflito.

"Ah, deixe-me adivinhar." Jack olhou de novo com exagerada simpatia. "O seu perfurador de gelo."

"Meses de pesquisa e de aperfeiçoamentos", disse Costas tristemente. "E aquele era apenas o protótipo. Terei de construir o próximo inteiramente a partir do nada."

"Não há pressa no que me diz respeito", replicou Jack. "Acho que eu acabo de apagar da minha lista o mergulho dentro de icebergs." Ele se voltou para Macleod. "Qual é o seu plano de contingência?"

"Quando vimos que o iceberg tinha rolado trezentos e sessenta graus, pensamos que havia uma chance. Lanowski se lembrou da antiga fenda acima do navio. Foi tudo idéia dele, fez um modelo da provável linha de ruptura, calculando até a carga explosiva de que necessitaríamos para dinamitá-la e abri-la."

"Você teve que deixar tudo por conta do rapaz", murmurou Costas.

"Então era isto que Ben estava fazendo", disse Jack. Macleod acenou concordando. "Ben se ofereceu como voluntário para levar a carga explosiva para baixo. Ele tentou uma dúzia de vezes, mas não conseguiu aproximar-se o suficiente da fenda. O vento estava nos empurrando e tínhamos de lutar para manter o helicóptero em posição. Depois nós vimos vocês dentro da fenda. Ele estava tentando enfiar o cabo quando o iceberg começou a rolar de novo."

"Rapazes, vocês são heróis", disse Costas.

Macleod sacudiu a cabeça e sorriu. "Somos apenas o serviço secundário. Não sei como conseguiram fazer o que fizeram."

Naquele momento, o controlador de carga içou outra figura através da porta, e guardou o guindaste com o gancho em seu lugar. Ben removeu sua máscara e olhou ansiosamente para Jack e Costas. Ele lhes fez um sinal de ok de mergulhadores, e eles responderam da mesma forma.

"Ok, Andy." Macleod bateu no anteparo atrás do assento do piloto. "Precisamos sair daqui antes que a coisa termine de rolar. Estamos prontos."

"Recebido e entendido."

Os outros prenderam os cintos nos assentos, na parte traseira do compartimento de carga. Quando o helicóptero lançou-se à frente e estremeceu ao ganhar velocidade, Costas estendeu a mão para a acha que estava apoiada nas pernas de Jack. "A propósito, obrigado por me salvar do congelamento profundo."

"Eu lhe devia, parece que me lembro de uma pequena ajuda, algum tempo atrás, dentro de um vulcão."

Costas olhou de um jeito cordial para seu amigo e fez um gesto de assentimento, seu rosto subitamente marcado pelo cansaço. Jack recostou-se no assento e respirou profundamente no regulador, sentindo-se revigorado a cada respiração, sabendo que o oxigênio estava limpando o seu sistema respiratório ao retirar o excesso de nitrogênio do corpo. A sua direita podia ver a imensa forma do iceberg, que parecia sólido como uma montanha, e à esquerda a forma cintilante do Seaquest II, mais distante na baía. Ele estava arrebatado pelo sentimento de entusiasmo que havia experimentado ao subir à superfície. Durante meses, desde que haviam voltado do mar Negro, ele se sentira importunado por uma incerteza secreta de que o prêmio não mais justificava o risco, que não via mais vantagem nele. Agora sabia que havia retornado ao lugar a que pertencia. Fechou os olhos e caiu imediatamente em um sono sem sonhos.

 

"Minhas desculpas", disse Lanowski. "Não fiz as contas com a tempestade."

"Você nos deu todas as advertências", replicou Jack. "Foi uma opção minha."

Jack e Costas estavam sentados na coberta de proa do Seaquest II, reclinados contra a balaustrada do ancoradouro onde, sem cerimônia alguma, o helicóptero os havia baixado com o guindaste junto com Macleod, alguns minutos antes. O navio estava mantendo posição na baía de Disko, cerca de uma milha a oeste da entrada do fiorde, e Jack podia ver a ponta do iceberg além da balaustrada de estibordo oposta a eles. Mesmo a esta distância era uma visão apavorante, e eles tinham sido lembrados de seu poder estupendo, no helicóptero, quando uma placa maciça de gelo tinha se separado dentro da baía, enviando uma nova onda de grande impacto para a costa onde eles haviam desembarcado no dia anterior para visitar o velho inuit. Eles tinham tido uma sorte extraordinária pelo fato de o iceberg ter dado uma volta completa de 360 graus e porque a enorme força da tempestade havia recolocado o iceberg na posição vertical e deixado que ele se empoleirasse precariamente na borda exterior do limiar. Na vez seguinte que rolasse, ele se movimentaria bruscamente e ficaria daquela maneira, comprimindo quaisquer bolsas de ar remanescentes até desaparecerem debaixo de centenas de metros de água do mar congelada.

Lanowski tinha sido o primeiro da equipe científica a aparecer na coberta de proa, juntando-se aos membros da tripulação que tinham controlado o guindaste do helicóptero e estavam agora ajudando Jack e Costas a tirar os E-suits. Maria juntou-se rapidamente a eles, e seu olhar de alívio transformou-se em preocupação quando viu a coxa de Jack. O médico de bordo já estava em cena, retirando a bandagem e passando coagulante na ferida.

"Não é tão feio quanto parece." Jack estremeceu quando o médico fez uma sutura e depois segurou uma ponta ensangüentada de gelo. "A natureza providenciou sua própria compressa gelada."

"Você tem muita sorte", disse o médico. "Por pouco não pegou a artéria femural."

"É fantástico." Lanowski estava sacudindo a cabeça e rindo consigo mesmo, num mundo só seu. "Enquanto vocês estavam fora, Inuva e eu esquematizamos onde a expedição de 1930 deve ter encontrado a embarcação na calota polar. Agora serei capaz de usar meu quociente de fluxo da geleira para localizar o ponto onde os vikings arrastaram o navio sobre o gelo para a pira funerária. Um dos fiordes afluentes ao norte de Ilulissat, eu diria, onde a calota polar é mais acessível a partir do mar." Ele levantou os óculos acima do nariz e olhou atentamente para Jack. "Ter um conhecimento tão aproximado da data dentro do iceberg é a maior descoberta de toda a expedição. Isso proporcionará uma confirmação independente para a minha teoria de fluxo, pela primeira vez teremos certeza sobre a velocidade do fluxo do gelo durante os últimos mil anos. Valeu bem o esforço de vocês. Congratulações."

"Nós encontramos um drakar viking, homem", disse Costas, exasperado. "Uma das descobertas arqueológicas mais sensacionais de todos os tempos. Um pouco mais excitante do que a velocidade de fluxo do gelo glacial."

Lanowski olhou para ele com olhos sonhadores, com a mente já bem longe em um mundo de figuras e equações. Ele pegou uma calculadora de bolso e começou a digitar furiosamente as teclas, olhando para cima ocasionalmente e murmurando debaixo dos bigodes. Costas sacudiu a cabeça com descrença, enquanto a figura desajeitada arrastava os pés, sem dizer palavra, para a sala de computadores no convés superior.

"Conversa com uma mente de via única."

"Mas uma mente brilhante." Jack sorriu para a figura gotejante de seu amigo. "É por isso que somos uma equipe. Eu não conseguiria competir com ele."

Jeremy apareceu ao lado de Maria, e ela o empurrou para a frente de Jack.

"Estamos traduzindo a pedra de runa que Kangia lhe deu, aquela que os alemães encontraram na fenda", disse ele timidamente.

"Brilhante. Conte-nos o que descobriu."

"É uma runa do oeste nórdico, do século XI, bem distinta das runas usadas na Inglaterra e na Dinamarca naquela época."

"E?"

"Seu nome era Halfdan."

"Nós sabemos. Um veterano da guarda varegue em Constantinopla." Jack levantou o objeto que tinha estado apoiado em seus joelhos, e de repente Jeremy o reconheceu. Ele olhou boquiaberto, enquanto Jack apontava para a inscrição rúnica na lâmina da acha.

"Cacete!" Jeremy subitamente esqueceu sua timidez. "Elas são idênticas às runas Halfdan em Santa Sofia, em Istambul."

"Ele é o nosso homem."

"Sujeito alto, no começo da meia-idade, cabelo loiro comprido e barba", interrompeu Costas. "Um pouco gasto pela exposição ao tempo e chamuscado nas extremidades, mas por outro lado em muito bom estado para um camarada que não foi movido durante mil anos. Acabamos de encontrá-lo, a meio caminho do Valhala."

"Hum?"

Costas apontou o polegar para a entrada do fiorde. "Dentro do iceberg. Ele está no gelo. Nós estávamos em cima da câmara fúnebre quando o iceberg rolou. A pira funerária deve ter se extinguido quando a embarcação caiu no gelo, e as chamas lamberam apenas as extremidades. Eu acho que a runa de pedra repousava sobre o seu corpo."

Um tripulante passou pelos outros e entregou um pedaço de papel para Jack. Ele o leu rapidamente e depois olhou ao longe, um sorriso então apareceu em seu rosto. "Eu sabia!"

"O quê?", perguntou Costas.

"Um pressentimento que tive antes de nosso mergulho. Um pressentimento pessoal, assim não contei a vocês. Lembram-se da data da dendrocronologia para as madeiras do navio, 1040, dez anos mais, dez anos menos? Por alguma razão, tudo que pude pensar a respeito era sobre a fuga de Harald Hardraade de Constantinopla. Se as narrativas épicas estão corretas, a fuga ocorreu muito perto de uma data média, em 1042."

"E?"

"Eu pedi ao laboratório da IMU para fazer uma comparação entre os fragmentos de madeira que conseguimos da corrente submersa, encontrada em Constantinopla, e a madeira que o perfurador de Macleod trouxe do drakar. Uma verificação completa, identificações das espécies, características dos anéis das árvores, especificações sobre fibras e celulose."

"Continue."

"Elas não são apenas da mesma espécie, carvalho norueguês", disse Jack, excitado. "É incrível. Elas são, de fato, da mesma árvore. Pranchas cortadas radialmente do mesmo tronco."

"Pare. Espere um pouco." Costas mantinha uma mão à sua frente, tentando pôr seus pensamentos em ordem. "Deixe-me entender isto. Você está sugerindo que um dos navios que Harald Hardraade usou para escapar de Constantinopla com a princesa e o tesouro é o mesmo navio que acabamos de ver aprisionado em um iceberg na Groenlândia?"

Jack deu um estranho olhar para Costas e depois começou a fazer que sim com a cabeça.

"É claro." Costas estalou os dedos de repente e olhou de novo para Jack. "O trabalho de reparação no casco." Ele olhou para os outros. "Nós encontramos uma parte das pranchas que foram habilmente substituídas perto da proa. Isso está fotografado. Presumo que tenha sido um dano provocado por colisão com gelo ou rocha, mas é exatamente onde a embarcação deve ter se chocado contra a corrente do ancoradouro quando fugiam de Constantinopla." Ele sacudiu a cabeça, incrédulo, e voltou-se para Jack. "Então, se esse é um dos navios de Harald, onde está o tesouro?"

"Eles certamente não iriam colocá-lo em uma pira funerária", disse Jack. "E não sabemos em que data isso aconteceu. O Halfdan que vimos era um homem mais velho, e ele pode ter navegado por aqui anos depois de sua aventura em Constantinopla, talvez buscando uma nova vida para si mesmo na colônia da Groenlândia. Nessa época Harald devia ser o rei da Noruega e o tesouro dos dias em que era varegue deveria estar seguro em sua fortaleza em Trondheim."

Naquele momento ouviu-se o estrondo de um choque vindo da direção do fiorde, seguido por um imenso som de queda que reverberou através das águas silenciosas. Uma outra placa gigantesca de gelo tinha se separado do iceberg, caindo fora de vista nas profundezas e depois emergindo de novo como uma baleia de superfície flutuando nas águas da baía.

"E o drakar?”, Macleod fez um sinal com a cabeça em direção ao iceberg, com um senso de urgência em sua voz. "Não temos muito tempo agora. Seria arriscado aproximar-se dele de novo, mas poderíamos tentar uma nova varredura por sonar."

Jack levantou a acha de seus joelhos, virando-a até que a luz do sol brilhasse no dourado da lâmina. Olhou de modo pensativo para a arma durante um momento, depois fitou Maria, sabendo que ambos estavam se lembrando da visita ao velho inuit no dia anterior e da apreensão dela acerca de Eenrir, o deus-lobo nórdico esculpido na proa, que agora sabiam ser o espírito guardião do drakar.

"Eu tirei centenas de fotos", replicou Jack. "É suficiente para uma reconstrução fotogramétrica completa. Não há jeito de ninguém aproximar-se daquele iceberg de novo. Quando encontramos Halfdan, ele estava a caminho do Valhala. Acho que devemos deixá-lo terminar a viagem."

"E a acha?"

Mais uma vez, Jack pegou o cabo em sua mão. "Eu considerarei Mjollnir como um empréstimo", disse ele. "A acha acompanhou Halfdan em todas aquelas batalhas lado a lado com Harald Hardraade, e nos tirou de algumas dificuldades. Ela ainda representa o que os vikings chamavam de sorte-de-batalha. Algo me diz que os antigos deuses nórdicos estão favoravelmente dispostos em relação a nós, e este é um dos melhores indícios que temos. Se Halfdan ainda tinha a sua preciosa acha-de-armas dos seus dias em Constantinopla, então quem sabe o que mais os vikings poderiam ter trazido de lá."

"Isso me fez lembrar de algo." Costas, de repente, deu um salto, ficou em pé e procurou alguma coisa dentro do bolso do seu E-suit. "Tirei isto do gelo bem quando as coisas estavam ficando descontroladas lá embaixo. Tinha me esquecido completamente." Retirou o objeto e eles puderam ver que era uma outra arma, um punhal do tamanho de uma pequena faca de caça com uma lâmina brilhando como aço e uma empunhadura decorada. Quando ele a levantou, a lâmina brilhou, e os tripulantes que estavam andando a esmo pelo convés agruparam-se ao redor do grupo, prendendo a respiração de espanto.

"Deixe-me ver isso com mais cuidado", disse Macleod. "Algo não está certo."

Quando Costas passou o punhal para Macleod, pôde perceber o que lhe chamara a atenção, e seu espanto tornou-se descrença.

"Uma suástica", exclamou um dos tripulantes.

Macleod girou o punhal em suas mãos. "Bem como eu pensava", ele murmurou. "Eles encontraram o drakar. Olhe para o punho da espada. Uma caveira e ossos cruzados embaixo, o símbolo da caveira humana. Este é um punhal nazista, uma arma usada apenas por um membro jurado da SS."

Fez-se um silêncio chocado e depois uma mulher na tripulação falou baixinho. "Alguém poderia explicar como um punhal nazista foi parar em uma embarcação viking dentro de um iceberg na Groenlândia?"

Macleod devolveu o punhal a Costas e olhou para Jack. "Acho que chegou o momento de contar para a tripulação a história inteira."

Naquele momento houve um balanço brusco e súbito no convés, uma sensação incomum em um navio com um sistema de estabilização dinâmica de tecnologia de ponta. O mar permanecia completamente calmo e coberto com uma névoa da cor do aço depois da tempestade. Em seguida alguém gritou do parapeito a estibordo. "É o iceberg! Ele está rolando!"

Todos, com exceção de Jack e Costas, convergiram para o parapeito oposto para observar a embocadura do fiorde. Muito embora o navio estivesse afastado mais de uma milha, o espetáculo era apavorante, uma demonstração empolgante de uma força da natureza que nenhuma intervenção humana poderia jamais controlar. Através da névoa eles viram a imensa face dianteira do iceberg cair para um nível abaixo do limiar subaquático e rolar por sobre a beirada, as erupções entalhadas de gelo no topo da geleira sendo substituídas por ondulações suaves esculpidas pelo mar, na base do iceberg, e estriadas com o preto do limiar. Quando o iceberg se estabilizou, Jack e Costas souberam que o drakar agora estava perdido para sempre no fundo do abismo, o guerreiro morto em batalha destinado a navegar para o sul ao longo da antiga rota marinha dos vikings em direção ao Novo Mundo e encontrar seu lugar de descanso eterno, quando o iceberg derretesse em algum canto remoto do Atlântico. O iceberg quase havia sido a tumba deles também, e Jack se deu conta de que estava se agarrando à acha enquanto ele e Costas descansavam junto à amurada e observavam o iceberg sair flutuando majestosamente em direção ao mar aberto.

A perna de Jack pulsava, e ele se sentia todo dolorido. Ele e Costas lentamente terminaram de retirar seus E-suits, estavam ambos dominados pela exaustão. Jack viu Maria e Jeremy tendo uma discussão acalorada, como se ela estivesse tentando persuadi-lo de algo, depois se separaram do grupo que estava ao lado do parapeito a estibordo e voltaram para a coberta de proa, Jeremy andando lentamente atrás de Maria. Macleod juntou-se a eles, e Jack olhou atentamente para Jeremy quando eles se aproximaram.

"Você não nos contou o que diz o resto da runa de pedra."

"Eu estava chegando nisso", Jeremy pegou um computador de mão de seu bolso, ativou a tela e pigarreou. "Prepare-se para se surpreender."

"Continue."

"Há três linhas de runas, no total, raspadas no quartzo cor de ardósia pela mesma mão. Como eu já disse, elas são nórdicas e do século XI, o que é condizente com a hipótese de o nosso guerreiro ser o mesmo Halfdan que traçou seu nome na Santa Sofia em Constantinopla."

"Bem, o que ela diz?"

Jeremy pigarreou de novo. "Tive de acrescentar alguns conectivos para fazer sentido, mas eis a essência: Halfdan morreu aqui em conseqüência de ferimentos recebidos na batalha contra o rei da Inglaterra perto de Yorvik. Halfdan lutará de novo para Odin em Ragnarok. Harald Sigurdsson, seu rei, fez estas runas no inverno depois da batalha. O Lobo leva Halfdan para o Valhala. O Águia navega para o oeste, para Vinland."

Fez-se um silêncio atordoante. Jack interrompeu-se, enquanto terminava de despir o seu E-suit, e olhou fixamente para Jeremy. "Harald Sigurdsson. Este é Harald Hardraade."

"A inscrição no Mappa Mundi de Hereford sugere que ele esteve aqui", disse Maria. "Agora temos certeza."

Jeremy concordou. "O Lobo deve ser o nome do navio que estava no gelo. O Águia, o outro navio, que navegou para Vinland. Este é o nome da colônia viking em Newfoundland, o posto avançado viking mais distante no oeste e o único conhecido na América do Norte."

"Espere um minuto." A mente de Jack estava repentinamente vacilando, atônita. "Yorvik era o nome viking para a cidade de York, sete milhas a oeste de Stamford Bridge. A batalha só pode ser a de Stamford Bridge em 1066, entre o rei Harold Godwinson da Inglaterra e o rei Harald Hardraade da Noruega."

"Correto."

"Assim nos relatam os livros de história", replicou Jeremy baixinho. "Mas lembre que não há relato de primeira mão da história. Os eventos daquele ano foram completamente eclipsados pela conquista normanda, e os anais normandos provavelmente não iriam exaltar uma vitória inglesa. Muito do que sabemos vem de uma breve menção na Crônica anglo-saxônica e no Heimskringla, a história semítica dos reis da Noruega, escrita na Islândia quase dois séculos depois. A cópia da Crônica que encontramos na biblioteca de Hereford a menciona, mas apenas em algumas linhas."

"Há nisso muita oportunidade para omissão, até um encobrimento da verdade", murmurou Costas.

"Meu Deus." Jack afundou contra o parapeito, sua face gotejando com água do mar e suor. "Então Harald Hardraade sobreviveu a Stamford Bridge. Isso altera tudo. De alguma maneira, ele e os guerreiros que sobreviveram vieram até aqui, nos mesmos dois navios que usou para escapar de Constantinopla vinte anos antes. Vocês se lembram do tesouro de Michelgard, aquela referência incrível no mapa em Hereford? Harald devia ter esse tesouro consigo quando foi para a Inglaterra, pronto para uma procissão triunfal através de York e de Londres que nunca aconteceu. Em vez disso, ele navegou com o tesouro depois da derrota, levando-o consigo e com os seus seguidores que sobreviveram, para o oeste, procurando uma terra além dos limites do mundo viking." Jack ergueu a acha de Halfdan nas mãos, depois deu um sorriso cansado, mas triunfante. "Acho que conseguimos mais uma peça de sorte-de-batalha. Eu sabia que estava certo em vir para cá."

"Então você vai gostar de ficar com isto." Costas estava lutando para pegar algo no fundo de seu bolso interno, no E-suit, e retirou um pequeno nódulo de gelo. "Pensei que tivesse deixado isso cair quando o iceberg rolou, então não o mencionei. Eu o encontrei desprendido acima da câmara funerária, perto daquele punhal nazista."

Ele entregou o objeto gotejante para Jack, que o revirou em seus dedos e depois o passou para Maria. Um aro brilhante de ouro sobressaía-se do gelo, e Maria o olhou com cuidado. "É um anel, um desenho viking", ela murmurou. "Ouro entrelaçado, uma miniatura de uma pulseira ou de um colar. Mas eu nunca vi nenhum com um sinete como este." Ela apertou o gelo no calor da palma de sua mão e começou a esfregá-lo, revelando gradualmente o ouro ali encoberto. Depois de alguns instantes, levantou-o contra a luz do sol. "Posso ver a superfície do sinete. Ela tem um desenho impresso. É..." Sua voz fraquejou, depois ela recuperou a compostura. "Jack, diga-me que não estou vendo coisas."

Ela passou-lhe o anel e Jack olhou através do gelo que ainda estava colado ao sinete. A forma que estava embaixo era imprecisa, refratada pela luz do sol em uma miríade de formas, mas o contorno era inequívoco.

“A menorá”.

Ele fitou a forma de sete braços, o coração se acelerando, excitado. Algo assombroso estava acontecendo. Primeiro o navio dentro do gelo provou ser viking, a nave funerária de um guerreiro varegue. Um homem que havia servido com Harald Hardraade, cuja última jornada para o extremo distante do mundo ocorreu em um dos mesmos navios que Hardraade usou para fugir de Constantinopla, um navio que havia navegado pelo Chifre de Ouro no mesmo local onde Jack e Costas estiveram a bordo do Sea Venture apenas alguns dias antes. E agora isto, uma ligação com um dos maiores tesouros perdidos da Antiguidade, algo que Jack supunha ter desaparecido para sempre depois de Stamford Bridge.

"Não deposite todas as suas esperanças nisso, ainda", disse Costas baixinho. "Isso pode não ser o que parece."

"O que você quer dizer?"

Costas havia se aproximado de Jack e estava examinando, dentro do anel, a face interior do sinete. "Como Maria disse, diga-me que não estou vendo coisas."

Jack sacudiu o anel e soltou um suspiro. Era uma forma tão familiar quanto a menorá, mas só podia ser moderna. Eles tinham estado olhando para ela no punhal, apenas alguns minutos antes. Era uma suástica.

Jack ergueu o olhar lentamente, sua alegria substituída por uma completa perplexidade. Maria olhou para ele e depois se voltou para Jeremy, seu rosto endurecido. "Chegou a hora", disse firmemente para o rapaz. Ela agachou-se entre Jack e Costas, enquanto Jeremy permanecia em pé, levemente inquieto e parecendo mais pálido do que de hábito.

"Jack", Maria disse baixinho, "sobre a expedição nazista. Há mais coisas que você precisa saber. Há forças em jogo aqui muito mais sombrias do que nós jamais teríamos imaginado, Jeremy tem algo para lhe dizer."

 

Maria e Jeremy conduziram Jack e Costas através da imponente entrada oeste da abadia de lona e ao longo das lajes gastas da nave. Fazia frio lá dentro, era uma pausa refrescante da atmosfera tépida de verão que havia fora, e a janela leste acima do altar iluminava o interior com uma luz magnífica. Parado em uma das laterais, um homem alto e loiro, com os braços cruzados sobre o peito e uma mão no queixo, olhava de maneira contemplativa para a janela. Quando avistou Jack, deu a impressão de saber quem ele era e apontou para uma porta do lado oposto onde se encontrava. Jack acenou em reconhecimento e seguiu os outros dois através de uma entrada baixa, de pedra, para um pátio aberto do claustro que ficava na parte de trás.

"O padre O'Connor está esperando por nós", disse Jeremy. "Há muito tempo ele é membro da Comunidade de Iona e tem um quarto na ala norte, para onde se retira para pesquisar e escrever quando pode sair do Vaticano."

"Você confia nele?", perguntou Costas, com a voz soando alto no claustro. "Quero dizer, não sabemos bem quem ele é."

Maria parou e voltou-se bruscamente para ele. "Você não estaria aqui se eu não confiasse nele."

"Ok." Costas viu Jack fazendo um gesto para ele mudar de assunto. "Sinto muito. É que é um longo caminho para vir até aqui."

"Ele insistiu para nos encontrar aqui." A voz de Maria ainda estava cortante, e ela parou para pegar seu celular. "Encontro-me em seguida com vocês. Tenho de fazer uma chamada urgente. Jeremy conhece o caminho."

Naquela manhã eles voaram no Embraer da IMU da Groenlândia até Glasgow, na Escócia, e depois pegaram o helicóptero que estava esperando e voaram cem milhas a noroeste, para a ilha Mull. Fazia apenas vinte e quatro horas desde que Jack e Costas tinham escapado dos perigos do iceberg, e os dois homens dormiram sem emitir um som durante a maior parte do trajeto. Em Mull, eles tomaram o caminho de peregrinação bem conhecido para a ilha sagrada lona, pegando a balsa para atravessar o estreito canal até Port Ronain, depois subindo pela aldeia até as edificações da abadia em seu cenário de prados com o mar azul brilhante atrás. Quando olharam para a abadia, Jeremy explicou que a construção estava nesse lugar desde o tempo em que São Columba havia chegado da Irlanda, quase 1500 anos antes; ela havia sobrevivido aos ataques dos vikings, à Reforma e ao abandono, e era de novo um mosteiro florescente e um dos locais mais sagrados das Ilhas Britânicas.

Passaram ao longo da aléia ensolarada do claustro por uma outra porta baixa, e subiram uma escada de madeira até um corredor no ático com janelas que davam para a abadia. Jeremy bateu a uma porta e um momento depois eles ouviram o ruído de uma tranca sendo aberta e da corrente sendo retirada.

"Cavalheiros. Bem-vindos."

O padre O'Connor os convidou para entrar, depois trancou de novo a porta atrás de si. Em lugar de sua sotaina de jesuíta ele passara a usar um manto marrom simples de monge, e com o cabelo aparado e a cruz de madeira pendurada em seu peito, o religioso parecia saído direto da Idade Média. Tinha a aparência pálida e cansada, mais velha do que quando o tinham visto três dias antes na Cornuália. O aposento era pequeno, cheio de livros e papéis empilhados, e eles puderam ver onde O'Connor tinha estado trabalhando em um laptop pousado em uma escrivaninha no canto. Atravessaram o aposento com cuidado e sentaram-se em cadeiras de madeira colocadas em semicírculo diante da escrivaninha. Acima da pequena lareira no lado oposto, Jack reconheceu uma reprodução em escala menor do Mappa Mundi de Hereford, e sobressaindo-se ao lado dele havia uma cópia escaneada do exemplar do mapa que Jeremy e Maria tinham encontrado na escadaria selada na catedral de Hereford, mostrando a extraordinária imagem do Novo Mundo no canto esquerdo inferior.

"Vamos direto ao ponto", disse O'Connor. "Foi uma jornada longa."

"Obrigado", disse Jack. Ele abriu a maleta que estivera carregando, tirou o punhal nazista e o anel de ouro com o símbolo da menorá e os colocou na escrivaninha diante de O'Connor. O homem olhou para os objetos e retrocedeu ligeiramente, desviando os olhos. Mas depois ergueu o olhar, fitando Jack.

"Primeiro devo desculpar-me com Jeremy por causa do fardo que coloquei sobre ele. Confiei nele um ano atrás, quando veio pela primeira vez para estudar as inscrições rúnicas em Iona. Eu tinha estado procurando um colega mais novo, um estudioso que pudesse continuar a pesquisa. Eu o fiz jurar segredo, mas lhe disse, quando nos encontramos na Cornuália, que talvez tivesse chegado o momento em que precisaríamos revelar tudo para você. Nem mesmo Maria sabia disso até ontem."

"O que quer que seja, o senhor poderia nos ter dito quando discutimos o Mappa Mundi e a menorá", disse Jack, impaciente.

"Eu tinha de estar seguro a seu respeito. Acredite-me, estou do seu lado e temos um inimigo comum."

"Não sei de nenhum inimigo."

O'Connor mudou de posição na cadeira, olhou com aversão para os objetos diante de si, e depois inclinou se para a frente sobre os cotovelos. "Vamos começar com os nazistas. Como provavelmente já adivinhou, você não é o primeiro a procurar pela menorá."

"Eu nunca achei que fôssemos", disse Costas alegremente. "Coisas como essas não acontecem. Alguém, em algum lugar, deve ter procurado por ela. As pessoas nunca esquecem um tesouro perdido."

O'Connor sorriu fracamente e depois seu semblante se tornou severo. "Não é tão evidente como parece à primeira vista. E não é um jogo. A melhor maneira de lhes mostrar contra o que estamos lutando é lhes contar sobre os personagens daquela expedição da Ahnenerbe em 1938."

"Nós sabemos sobre Künzl, mas ainda estamos tentando identificar o sujeito com a braçadeira." Relaxando ligeiramente, Jack tirou cópias das fotografias que Kangia lhe dera e lançou-as sobre a escrivaninha.

"Posso ajudá-los a esse respeito", disse O'Connor calmamente. "Desde o escândalo da omissão do papa Pio XII em condenar os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, o Vaticano tem sido particularmente suscetível quanto a isto. Há pouco tempo assumi o controle desse assunto como porta-voz do Vaticano sobre o holocausto. Oficialmente, nós estabelecemos contato com grupos judeus e detemos criminosos de guerra sobreviventes. Muitos daqueles que escaparam da punição estão agora mortos, infelizmente, mas ainda tentamos fazer coisas que são necessárias pelo bem da história."

"Não posso imaginar nenhum deles fazendo isso passando por São Pedro", disse Costas, de modo implacável.

"Deus fará o julgamento final", replicou O'Connor. "Mas certamente há um lugar especial no inferno para aqueles que assassinam crianças."

Eles ouviram uma batida na porta e O'Connor levantou-se e olhou através do visor antes de destrancá-la e deixar Maria entrar. Ela sentou-se na cadeira vazia perto de Jack e eles a fitaram com olhos esperançosos. Parecia pálida e distraída. "Eu estava certa", disse ela. "Acabei de falar com um velho amigo que trabalha no Centro do Holocausto Wiesenthal em Berlim." Jack subitamente lembrou-se das origens judaicas de Maria, as raízes sefarditas de seu pai. "O nosso nazista era um estudante fracassado em Heidelberg, com pretensões de se tornar um famoso antropólogo. Juntou-se à SS em 1933. Depois da expedição da Ahnenerbe, ele se ofereceu como voluntário para as Totenkopfverbände da SS, as unidades da Caveira. Aquelas que dirigiam os campos de concentração. Seu nome era Andrius Reksnys."

"Não era alemão?", perguntou Jack.

"Lituano", ela replicou.

"Havia muitos fora da Alemanha querendo atender ao chamado de Himmler", disse O'Connor. O celular de Maria tocou, ela olhou para eles desculpando-se e desapareceu rapidamente pela porta. O'Connor digitou em seu laptop e clicou em uma série de Websites. "Eu conheço esse homem", disse baixinho. "Aqui está ele."

Virou a tela para que todos pudessem ver e leu de um documento escaneado, traduzindo do alemão.

 

O Comandante da Polícia de Segurança e do Serviço de Segurança, Berlim,

5 de novembro de 1941 55 cópias

(51ª. cópia)

Relatório URSS da Situação Operacional N- 129a

Einsatzgruppe D

Local: Nikolaiev, Ucrânia

Adendo ao Relatório No. 129 relativo à atividade dos Einsatzkommandos em libertar locais de judeus e extermínio de grupos guerrilheiros. SS-Sturmbannführer Andrius Reksnys executou pessoalmente 341 judeus. Revisão total para as duas últimas semanas: 32,108.

"Einsatzgruppen." O’Connor expressava as palavras com repugnância. "O esquadrão da morte móvel de Himmler. Responsável por assassinar mais de um milhão de judeus soviéticos, entre outros."

 

"Como esse monstro escapou da perseguição?" perguntou Jack.

"A história de sempre." Havia um vestígio de fúria na voz de O'Connor. "De modo chocante, poucos dos Einsatzkommandos foram levados aos tribunais. No violento ataque final da Rússia em 1945, Reksnys disfarçou-se como um soldado raso da Wehrmacht e voou para o oeste para entregar-se aos britânicos. Houve suspeitas durante seu interrogatório, mas nada concreto. Quando foi solto em 1947, sob o nome de Schmidt, ele recuperou seu filho de um orfanato e foi para a Austrália. Juntos, eles fizeram fortuna com mineração de opalas perto de Darwin. Depois, em meados de 1960, ele vendeu seu negócio sem aviso e desapareceu."

"E o filho?", perguntou Jack. "Certamente ele era muito jovem para ter estado na guerra."

"Pieter Reksnys tinha seis anos de idade em 1941", replicou O'Connor. "Mas há o relato de uma testemunha ocular, um sobrevivente judeu, no julgamento do Einsatzgruppen, em Nuremberg em 1947, que mencionava um menino com uniforme da Juventude Hitlerista acompanhando o Sturmbannführer Reksnys em seu trabalho. É um relato de arrepiar, um dos piores do julgamento. Aparentemente, o menino recarregava a Luger de seu pai entre cada série de execuções, e até efetuava algumas ele mesmo. Foi esse relato que praticamente estabeleceu a conexão quando a Interpol envolveu-se no assunto nos anos 1990, e conduziu à pista de Andrius e Pieter Reksnys no México, onde o filho dirigia um cartel de antiguidades e drogas. Ele agora está no início de seus setenta anos e ainda se encontra no México."

"Por que demorou tanto?", perguntou Costas, incrédulo. "Por que levou tanto tempo para identificá-los?"

"Contrariamente à versão de Hollywood, caçar criminosos de guerra nazistas nunca foi uma prioridade no Ocidente depois do final dos anos 1940", replicou O'Connor. "As principais agências de inteligência, a CIA e a SIS britânica, ficaram completamente envolvidas na espionagem da Guerra Fria. Elas sabiam tudo sobre Eichmann e Mengele e os outros nazistas que escaparam para a América do Sul e Central, mas poucos acreditaram que eles constituíam uma ameaça. Apenas os israelenses fizeram sérios esforços para levar alguns deles aos tribunais."

"E agora nós colhemos as recompensas", murmurou Costas.

"Não completamente." O'Connor abriu uma gaveta e colocou uma fotografia encapada em plástico sobre a mesa. "Vocês provavelmente não se lembrarão disso. Uma nota ao pé de uma página de jornal, cerca de oito anos atrás, mas atualmente é o nazista morto de maior importância desde Eichmann."

A foto era uma imagem chocante de um homem morto, deitado de costas em uma poça de sangue, os olhos e a boca escancarados e o rosto contorcido de dor. Tratava-se de um homem já de idade, com roupas pretas, e seu braço direito estava apoiado sobre a testa; visível através da mancha de sangue havia uma braçadeira vermelha com uma suástica preta.

"Ele usava aquela braçadeira na privacidade de sua casa", disse O'Connor. "Um nazista irredutível até o final. Caso vocês não tenham percebido, esse é Andrius Reksnys. Atiraram em seu estômago para se assegurarem de uma morte lenta, para lhe dar tempo de ficar realmente assustado com o que viria em seguida."

"Mossad?", perguntou Costas.

"Há ligação com os israelenses", replicou O'Connor baixinho. "Mas esta foi uma operação independente."

"O que você está dizendo?"

O rosto de O'Connor estava branco. Ele falava friamente. "Andrius Reksnys era um adepto inescrupuloso do demônio. Todos os esforços da lei internacional falharam em levá-lo a julgamento. Ele merecia enfrentar o julgamento da humanidade, bem tomo o de Deus."

"Você está dizendo que o Vaticano comanda um esquadrão da morte?", disse Costas, incrédulo.

"A Santa Sé não se limita apenas à orientação espiritual", disse O'Connor. "Durante séculos nossa sobrevivência dependeu de força no mundo dos homens, de poder para persuadir o relutante a submeter-se a Deus. Olhe para a minha própria ordem, os jesuítas. Ou os cruzados. Ou a Inquisição. Durante séculos, o Vaticano supervisionou a rede de inteligência secreta de maior sucesso no mundo, e nunca desistiu de usá-la."

"Os cruzados de modo algum foram um episódio glorioso, mesmo se a intenção estivesse correta no início", resmungou Costas. "Não posso imaginar que o saque de Constantinopla era bem o que o papa tinha em mente."

"Você ficaria surpreso", disse O'Connor. "O papado sempre teve de resistir para não ser arrastado demais para dentro do mundo secular, perdendo de vista o plano espiritual que une todos os cristãos. No tempo da quarta cruzada, o Vaticano havia desenvolvido um problema real com a Igreja do Oriente, cismáticos que ele encarava como heréticos. Isto transformou-se em hostilidade, e, como todas as hostilidades, levou os antagonistas a perder a razão. Alguns partidários do saque de Constantinopla até transformaram a pilhagem em um propósito real de Deus para a cruzada, punição aos bizantinos por se desviar do verdadeiro caminho."

"O sentimento foi retribuído na mesma moeda", acrescentou Jeremy. "A testemunha ocular Niketas Choniates chamou os cruzados de precursores do Anticristo, principais agentes de seus feitos premeditados e impiedosos."

"A Santa Sé sempre encarou a tentação a partir do lado sombrio", continuou O'Connor. "Aqueles que lutam contra o demônio podem facilmente acabar fazendo o trabalho do diabo. Os cruzados eram o último desafio da Idade Média, e nem sempre o superamos. Tendências monstruosas têm explodido dentro da história em nossos momentos de fraqueza. Há aqueles entre nós que sentem que temos um débito por ter falhado em impedir o maior mal de todos, o holocausto nazista."

"Então a morte de Reksnys não tem nada a ver com a menorá", disse Jack.

O'Connor fez uma pausa, depois levantou-se. "Temo ter confundido vocês. A morte dele tem tudo a ver com a menorá. Por favor, acompanhem a história comigo."

Houve outra batida na porta, e O'Connor fez Maria entrar de novo. Ela sentou-se, dedilhando seu celular. "Tive notícias de Hereford", disse ela parecendo séria. "Notícias fantásticas. Minha equipe do Instituto Oxford terminou de desenterrar os manuscritos da escada selada. É surpreendente, o maior tesouro de manuscritos anglo-saxões jamais descoberto. É como encontrar uma biblioteca romana na Villa dei Papiri em Herculano, e vai ser um enorme trabalho juntar todas as partes de novo." Ela olhou para Jeremy, que se inclinava para a frente, extasiado. "A menos que esteja muito apressado para voltar aos Estados Unidos, haverá trabalho em tempo integral esperando depois disso tudo."

"Sim, por favor", disse Jeremy.

"Então por que você está com essa cara?", perguntou Costas.

"É por causa de outra coisa que eles encontraram." Maria subitamente pareceu tensa. "Bem no fundo da escada, enterrado debaixo de todos os papéis e velinos, havia o esqueleto de um homem, um homem alto, vestido com uma sotaina de monge. Centenas de anos de idade, medieval. Seus membros estavam retorcidos como se ele tivesse sido atirado lá dentro. E a parte de trás da caveira estava despedaçada."

Fez-se um silêncio atordoado, e O'Connor deu alguns passos em direção ao Mappa Mundi na parede, antes de voltar o rosto para eles. "É como eu suspeitei. Na primavera de 1299, Richard de Holdingham, cartógrafo, veio para este mesmo lugar, para a ilha lona. Ele estava acompanhando seu mestre doente, Jacobus de Voragine, arcebispo de Gênova, em sua jornada final. Mais tarde, Richard foi para o sul, para Hereford, supervisionar a conclusão do mapa que havia iniciado quinze anos antes. Havia erros nas inscrições que ele desejava corrigir. Havia deixado um exemplar do mapa, um croqui para os monges de Hereford trabalharem, e quem fazia as iluminuras não tinha muita instrução. E agora sabemos, pelo seu próprio exemplar pessoal, aquele que Jeremy e Maria encontraram, que ele queria adicionar mais coisas, que havia um acréscimo secreto que ele queria fazer no canto esquerdo inferior do mapa, onde os monges depois acrescentaram uma inscrição nomeando-o como cartógrafo." O'Connor parou diante da lareira, pensando profundamente. "Sabemos que ele passou sua última noite no palácio do bispo Swinfield em Bromyard, e que andou pela última vez no caminho para Hereford como um peregrino. Depois disso desapareceu da história. As correções nunca foram feitas. Nunca mais se ouviu falar nele."

"O senhor acha que ele foi assassinado?", perguntou Maria, trêmula.

"Não tenho dúvida a respeito."

"Senti-me tão próxima dele", Maria sussurrou, sua voz sacudida pela emoção e as mãos agarrando a cadeira. "Eu estudei seu mapa a vida toda, e nunca me senti tão perto dele quanto naquela noite na catedral. Era quase como se ele estivesse ali."

"Um assassinato?" Costas pareceu confuso. "E o que esse sujeito estava fazendo em Iona? Alguém pode me contar o que se passa aqui?"

"Sim", disse O'Connor abrindo uma gaveta. "Ouça-me."

Alguns minutos depois, O'Connor sentou-se de novo na cadeira e deixou os outros estudarem os mapas que ele estava lhes mostrando. Aberto sobre a escrivaninha havia um grande mapa em escala do norte da Grã-Bretanha, e ao lado ele havia colocado um plano da batalha de Stamford Bridge em 1066. No mapa maior tinha traçado uma linha desde a costa de Yorkshire, perto de Stamford Bridge, para cima até a ponta norte da Escócia e para baixo na direção da costa oeste até a ilha Mull.

"Então Harald Hardraade veio aqui para lona, depois da batalha." A mente de Jack estava vacilando enquanto lutava para compreender o que O'Connor tinha acabado de lhes dizer. Ele sentou-se em sua cadeira e os outros o imitaram

"Ele deve ter ficado numa situação infernal", disse Costas. "Bastante má para que os soldados ingleses que lutaram contra ele assumissem que ele tinha morrido no campo de batalha."

"Foi um milagre ele sobreviver à jornada", replicou O'Connor. "Ele foi bem cuidado depois. Havia cerca de trinta de seus guerreiros no total, quase todos gravemente feridos, muitos da antiga guarda varegue. Eles foram conduzidos em duas grandes embarcações a remo por servos leais. Alguns morreram no caminho, outros em Iona."

As partes estavam começando a se encaixar na mente de Jack. "Quando Harald finalmente deixou lona para navegar para o oeste, havia um contingente de soldados que foram deixados para trás, seguidores leais que esperavam o retorno de seu rei."

O'Connor olhou para Jack de modo astuto e confirmou. "Eles chamavam a si mesmos um félag” ele disse. "Um termo nórdico antigo para uma irmandade, uma sociedade secreta."

"E quem fazia parte do félag?”, perguntou Jack

"De início eram alguns dos companheiros de Harald, sobreviventes feridos de Stamford Bridge que vieram com ele para a ilha sagrada, mas escolheram ficar para trás quando seu rei navegou para o oeste. Eram homens mais jovens, guerreiros que Harald havia educado desde os dias da guarda varegue, homens que ainda tinham ambição e fogo dentro de si para dar à causa. Entre eles podiam estar vários dos próprios filhos de Harald. Rapidamente agruparam outros ao seu redor, nunca mais do que vinte. A intenção que haviam jurado era manter a chama ardendo pelo retorno de seu rei, fazer tudo que estava em seu poder para garantir que um verdadeiro viking mais uma vez governasse a Inglaterra."

"Isso não era muito realista depois de 1066", disse Jack.

"Eles odiavam os normandos e os sucessores franceses da dinastia Plantageneta. Depois de poucas gerações, a causa dos félag tornou-se a causa dos ingleses. Lembrem-se, já havia muito sangue viking na Inglaterra, entre aqueles que se chamavam anglo-saxões. O rei viking Canuto governou a Inglaterra no tempo em que Harald era jovem, e havia enormes áreas de terras onde as invasões dos vikings haviam propiciado a formação de colônias e casamentos entre pessoas de raças diferentes: na Ânglia Oriental, na Nortúmbria, aqui nas ilhas ocidentais. Então era natural que os ingleses, outrora os inimigos dos vikings de Harald, em Stamford Bridge, se unissem com eles na causa comum contra os normandos."

"Eles não podiam de maneira realista ter esperado o retorno de Harald."

O'Connor sacudiu a cabeça. "Isto se tornou um suporte místico, uma força de ligação que fez do félag uma das sociedades secretas de maior sucesso na Idade Média. Aqueles poucos companheiros originais tinham jurado para seu rei que nunca revelariam sua sobrevivência ou sua ida para o oeste, para que os normandos não o seguissem ou fizessem represálias. Depois de poucas gerações, quando o retorno do rei nesta vida tornou-se impossível, eles começaram a procurar juntar-se a Harald na grande batalha de Ragnarok, a prova final entre o bem e o mal na mitologia nórdica. Mais uma vez ficariam ombro a ombro com seu soberano, empunhando achas-de-armas ao seu lado, vencendo seus inimigos e espalhando o medo como haviam feito nos dias de glória dos varegues. Seu mantra sagrado, o juramento que os ligava na irmandade, tornou-se hann til Ragnaroks, a expressão nórdica antiga para 'até Ragnarok', até nos encontrarmos no final dos tempos."

"Assim o nome Harald Hardraade passou para a história."

"Não exatamente." O'Connor foi até a estante de livros e entregou um volume para Jack. "Geoffrey de Monmouth, Historia Regum Britanniae, História dos reis da Bretanha. Um best-seller medieval, a maior parte imaginária."

"E?"

"O livro responsável pela lenda romântica do rei Artur."

"Bom Deus", murmurou Jack. "É claro. O único e futuro rei.

"Geoffrey era um dos félag, um par de gerações depois da morte de Harald. Eles haviam jurado nunca mencionar o nome de seu rei, mas na metade do século XII o félag tinha começado a entrar na sociedade inglesa. Diante da opressão normanda tornou-se um expediente para expandir a fantasia de um antigo rei britânico, um líder heróico que um dia voltaria para libertar seu povo. Descontando a ficção romântica, você terá alguns fatos sólidos."

"Em lugar de rei Artur, leia Harald Hardraade", murmurou Jack. "No lugar de Cavaleiros da Távola Redonda, leia guarda varegue."

"É o que você disse sobre a Atlântida", acrescentou Costas. "Atrás de cada mito há alguma realidade."

"Sim, mas as pessoas têm debatido o mito da Atlântida durante eras", replicou Jack. "Este é um acontecimento inesperado." Ele voltou-se para O'Connor. "Então, os félag não eram todos apenas místicos?"

"De jeito nenhum. Ao desposar a causa inglesa, eles ganharam adeptos facilmente, e, à medida que as gerações passavam, o félag chegou a representar a maior e a melhor parte dentre aqueles que pretendiam ter raízes vikings e anglo-saxônicas. Eles tinham pouca esperança de se infiltrar na aristocracia normanda, de modo que na época que o último dos varegues originais morreu, muitos dos félag eram clérigos, pagãos disfarçados. A Igreja era o único lugar onde os ingleses de sangue viking e anglo-saxão ainda podiam exercer poder, e o félag a utilizava para maior vantagem própria. No final do século XII, sua influência alcançava Roma, e seus membros incluíam clérigos na Europa com conexões inglesas, jacobus de Voragine, o mestre de Richard de Holdingham e um dos clérigos mais antigos na Itália, era o filho bastardo de uma mãe inglesa que afirmava descender do rei Canuto. Em várias ocasiões, o félag teve até membros no Colégio de Cardeais no Vaticano."

"Então Richard de Holdingham era um dos félag", disse Maria com a voz baixinha.

"Ele foi o último félag verdadeiro, descendente direto de Hardraade."

"Félag verdadeiro?"

O'Connor fez uma pausa, claramente perturbado. "Logo no início houve um cisma, um lado sombrio. Você pode comparar isso à luta na Igreja, da qual falávamos há pouco, contra a tentação do diabo. Não sabemos quando aconteceu ou quem foi, mas houve alguém que viu a menorá com seus próprios olhos, um dos companheiros originais que havia escolhido ficar para trás. Um Judas em meio aos félag. A menorá já tinha sido um símbolo secreto de realeza para o próprio Harald, valendo muito mais para seu prestígio do que o seu peso em ouro. Depois da partida de Harald, o seu valor como um símbolo do félag tornou-se ainda mais elevado, uma outra parte do ritual que os mantinha juntos. Mas, onde alguns viam uma causa sagrada, outros viam ouro. Isto atraiu cobiça, ganância."

"Como o Santo Graal", sugeriu Costas. "Para alguns uma busca mística, uma alegoria de alguma grande revelação sobre o cristianismo. Para outros, um cálice dourado."

"Exatamente. Para aqueles que não podiam resistir, a busca pelo tesouro de Harald tornou-se soberana, uma obsessão. Secretamente, eles estabeleceram sua própria irmandade, seu próprio félag, com a única intenção de encontrar a menorá. Aqueles que permaneceram verdadeiros sentiram a força maligna no meio deles. Informações preciosas sobre a viagem de Harald retornaram do outro lado do oceano ocidental, informações que puderam ser escondidas daqueles que as utilizariam com más intenções. O conhecimento era sempre confiado a um único homem, que o transmitiria para o próximo indicado, do mestre para o aprendiz, durante todo o tempo que a linhagem pudesse ser sustentada."

"Estou começando a compreender", disse Jack lentamente. "Jacobus de Voragine, Richard de Holdingham."

O'Connor confirmou. "Eles foram os últimos. De algum modo, a linhagem foi sustentada por uma centena de anos em seguida às suas grandes crises, em 1170. Naquele ano Thomas Becket, arcebispo de Canterbury, foi assassinado pelos seguidores do rei Henrique II em sua própria catedral. A supremacia de Becket havia sido o período de maior poder para o verdadeiro félag, e sua morte foi o início do fim."

"Thomas Becket era um membro do félag? perguntou Jack, atônito.

"E o mantenedor do conhecimento", disse O'Connor. "Os cavaleiros que o abateram não estavam apenas procurando vingança para Henrique II."

"Eles conseguiram o que queriam?"

"Ele recusou-se a voltar atrás, e em sua ira eles o assassinaram. Os cavaleiros foram ultrajados na Inglaterra e juntaram-se à terceira cruzada, para buscar ostensivamente absolvição por seu crime. Ficaram conhecidos como os Cavaleiros da Mão Ensangüentada, porque todos aqueles homens tinham cicatrizes atravessando-lhes a palma da mão onde se haviam cortado para firmar um pacto de sangue. Sua busca havia adquirido sua própria mística, seus próprios rituais, embora sua fidelidade à causa de Harald Hardraade fosse apenas um pretexto. Eles começaram a procurar os outros tesouros judeus que Harald havia deixado para trás quando escapou de Bizâncio com seus companheiros varegues. A mesa de ouro do Templo Judaico, a Mesa do Pão da Proposição."

"Mas isso era em Constantinopla."

O'Connor aquiesceu. "Antes que pudessem chegar lá, os cavaleiros foram todos massacrados por Saladino e seus guerreiros muçulmanos diante das paredes de Jerusalém. Mas alguém conseguiu chegar em Constantinopla, uma geração mais tarde, em 1204."

"Essa é a data da quarta cruzada", disse Costas. "Aquela que estávamos procurando no Chifre de Ouro. Os grilhões e tudo."

Repentinamente fazia frio no aposento da cela, uma brisa fria penetrando através de um buraco na janela. A mente de Jack estava acelerando. "Espere aí. O saque de Constantinopla. Aquele foi Balduíno de Flandres. Você está dizendo..."

"Foi ele, o próprio. Quando jovem, Balduíno havia estado em Roma, e tinha visto o Arco de Tito na praça pública. O arco havia se tornado um local de peregrinação para os félag, um santuário sagrado. Richard de Holdingham indubitavelmente esteve ali. Eles não apenas viram a imagem da menorá, mas também os outros tesouros sendo carregados pelos soldados romanos. Sabiam qual era o aspecto da mesa de ouro. Balduíno não se afastou da cruzada para Constantinopla por acidente, apenas para fazer o trabalho sujo dos venezianos. Mas outros, aqueles félag verdadeiros, conheciam a intenção de Balduíno e foram para lá em segredo antes dele. Eles ainda eram varegues na guarda imperial em Constantinopla, homens para quem o nome de Hardraade era santificado, uma lenda dos dias gloriosos. Estavam dispostos a pegar o tesouro que sobrara e afundá-lo em uma localização secreta no ancoradouro antes que os cruzados chegassem. Todos os varegues morreram no cerco, e a localização foi perdida."

"Heureca", murmurou Costas. "Não é mau para nós. Talvez Maurice Hiebermeyer tenha algo para procurar no Chifre de Ouro, afinal de contas."

"Na época da quarta cruzada, o cisma no félag havia se transformado em uma hostilidade sangrenta sem reservas", continuou O'Connor. "Procurou-se vingar a morte de Thomas Becket, e o ciclo recomeçou. Mesmo aqueles que ainda defendiam a causa verdadeira perderam de vista sua nobreza e viviam temendo por suas vidas. Como muitas sociedades secretas, eles haviam se voltado para si mesmos e começaram a se autodestruir. Richard de Holdingham devia saber que era um homem marcado desde que voltara de lona, uma vez que ele tinha colocado o corpo de seu mestre em meio a tochas na embarcação, cumprindo o ritual félag consagrado, enviando-o para o Valhala no mesmo lugar que seu rei saiu para navegar. Seus inimigos sabiam que Jacobus devia ter passado o conhecimento para Richard antes de morrer. Richard não tinha aprendiz. Seu último ato havia sido ter sua inscrição no Mappa Mundi, a transferência de seu segredo para o futuro, para ser descoberto e decifrado por alguém quando as trevas passassem. E, com a morte de Richard, a linhagem terminou."

"Você acha que ele cedeu nos momentos finais, quando ficou diante da morte na Biblioteca Acorrentada?", perguntou Jack.

Maria olhou para ele, seu rosto pleno de emoção. "Ele tinha o espírito de Thomas Becket dentro de si. Deve ter percebido que ia morrer, não importava o que fizesse. Acho que ele foi forte até o fim. Felizmente seu atacante deve ter falhado em reconhecer o que valia aquele exemplar do mapa, ou talvez Richard tinha tido tempo de escondê-lo na biblioteca durante os instantes antes de ser atacado."

"Ele nunca poderia ter adivinhado que se passariam mais de setecentos anos", murmurou Jack.

"E eu temo que as trevas ainda estejam conosco", disse O'Connor.

"Bem!" Costas estava girando o anel, e o segurou no alto no meio deles com o símbolo da menorá claramente visível. Ele apontou com a outra mão para a suástica no punhal. "E agora a questão realmente importante. Como vamos passar do misterioso assassinato medieval para esses bandidos do século XX?"

 

Jack sentou-se extasiado no aposento de livros alinhados da velha abadia, surpreso com o que ouvia. Pensamentos amontoavam-se em sua mente, e ele lutava para separá-los. Estivera ciente de que estavam na pista de Hardraade desde a revelação do mapa, que um fio ligava sua descoberta no Chifre de Ouro de Istambul à embarcação dentro do gelo na Groenlândia, mas nunca poderia ter adivinhado que a ilha sagrada lona fosse um outro elo na corrente. E agora O'Connor estava contando outra história, que progredia além da excitação da descoberta para um mundo de trevas e de perigo.

"Com o fim das cruzadas, e o surgimento do Império Otomano, qualquer esperança de encontrar o tesouro remanescente em Constantinopla parecia perdido", prosseguiu O'Connor. "Para o oeste, todo o contato com a Groenlândia rompeu-se, e a terra prometida descoberta pelos vikings foi esquecida. Na época das viagens européias de descoberta, no final do século XV, o último dos Cavaleiros da Mão Ensangüentada estava morto fazia tempo. No entanto, o mito persistiu, passado de pai para filho no maior segredo pelos descendentes dos félag através da Europa e eventualmente na América. No século XIX, todos a quem a história foi transmitida pensaram tratar-se de fantasia, não mais histórica do que as histórias do rei Artur e da Távola Redonda, e mantinham sua promessa apenas para sustentar uma lenda romântica. Depois, de algum modo, a história alcançou os ouvidos de um inventor austríaco pirado, obcecado com a Teoria do Mundo de Gelo."

"Ouvimos falar disso", interrompeu Costas. "A razão pela qual os nazistas foram para a Groenlândia."

"Então esse personagem redescobriu o félag? perguntou Jack.

"Um de seus colaboradores, um empreendedor lituano chamado Piotr Reksnys, pai de Andrius. Um indivíduo sórdido."

Costas fez uma careta. "Que família!"

"A época era perfeita", continuou O'Connor. "As primeiras décadas do século XX viram um ressurgimento de interesse pelos vikings e a herança nórdica, na Alemanha e através do norte da Europa. Depois da insanidade da Primeira Guerra Mundial, o félag se tornou um movimento para apoiar a idéia da supremacia racial em meio a um povo que havia perdido seu rumo. As sociedades secretas floresceram e começaram a atrair os assassinos e fantasistas que sonhavam com um novo Reich na Europa. Elas levaram à formação da sociedade mais hedionda de todas, a Schutzstaffel de Himmler, a SS, acrescida com uma ilustre e inventada ascendência nórdica e alguns rituais. A idéia de um félag reconstituído se ajustava perfeitamente a esse mundo maligno, só que, de modo distinto dessas outras organizações, o félag tinha alguma ressonância histórica."

"E uma meta diferente", comentou Jack.

"A menorá", disse O'Connor. "Eles tinham todas as pompas de uma sociedade suprema, mas isto era apenas para exibição. Estavam obcecados em encontrar a menorá."

Costas pegou o anel. "Então era sobre isto?"

O'Connor brandiu a mão descartando o que Costas dissera. "Isso é uma fraude. Reksnys inventou que esses anéis eram uma espécie de herança antiga, forjados com o ouro do tesouro de Harald, mas não era verdade. Eles são fabricações típicas da época. Reksnys sabia que os reis vikings gostavam de dar anéis, deixando como herança colares de prata e pulseiras para os seus seguidores fiéis. Como os nazistas, ele era obcecado pelas óperas de Wagner, com o Ciclo do Anel, o Nibelungenlied, a lenda de Ragnarok e a queda dos deuses nórdicos. Reksnys reviveu o mantra da antiga irmandade, hann til Ragnamks. Eles eram fost-broedralag, irmãos jurados, e chamavam a si mesmos de companheiros de sofrimento, o antigo nome viking para remador. Devia haver doze deles, e Reksnys até mesmo remodelou um castelo na Noruega e persuadiu o mais importante daqueles irmãos de que o castelo havia sido um antigo lugar de encontro dos félag, o qual estava abarrotado com armaduras e achas-de-armas vikings forjadas, supostamente deixadas pelos precursores varegues. Ele até reconstituiu a forma mais extrema de punição usada pelos nórdicos, reservando-a para os membros do félag que se afastassem de seu juramento de lealdade."

Maria parecia horrorizada. "Você está falando da águia de sangue?"

O'Connor aquiesceu. "A embarcação de Harald se chamava Águia. O guardião dos félag era a águia gigante Hraesvdg. O ritual da águia de sangue devia ser realizado em seu nome, como um rito de sacrifício."

"Era o equivalente nórdico de enforcamento, estripamento e esquartejamento", disse Jeremy. "Apenas sem o enforcamento e o esquartejamento."

"O contorno de uma águia era esculpido nas costas da vítima, enquanto ainda estava viva", disse Maria baixinho. "Depois eles tiravam as costelas e arrancavam os pulmões."

"Deus todo-poderoso." Até mesmo Costas estava sem palavras.

"Eles ainda não o tinham usado com alguém deles", disse O'Connor. "Mas no julgamento do Einsatzgruppen um dos judeus sobreviventes mencionou um boato sobre um dos oficiais SS ter feito algo parecido com isso em um grupo de prisioneiros, usando seu punhal cerimonial." O'Connor olhou para o objeto em cima de sua escrivaninha com desgosto. "Mesmo entre os horrores do holocausto, havia alguns em que era difícil acreditar, e ninguém fora deixado vivo para confirmá-los. Mas eles tinham sido usados na área de operações de Reksnys."

"Eu realmente estou começando a gostar desse cara", murmurou Costas.

"E havia um outro aspecto, algo que marcava os félag para onde quer que fossem." O'Connor fez uma pausa. "Eles faziam um corte transversal na palma da mão, um sinal de lealdade sangüínea. Acreditavam ser os Cavaleiros da Mão Ensangüentada, renascidos."

"A SS, a Ahnenerbe, a busca das civilizações arianas perdidas, da Atlântida", murmurou Jack. "Isto tudo era um pretexto perfeito para o félag, um disfarce para atingir sua meta."

O'Connor concordou. "Andrius Reksnys, o filho, era um nazista fanático. O retrato que o velho inuit fez dele é típico. Um sádico real e amedrontador. Mas ele era um dos membros mais fanáticos do félag, imerso na obsessão desde a infância."

"Por quê?", perguntou Jack.

"Porque não se tratava apenas de algo místico. Havia uma meta, uma busca. Eles imaginaram que Harald Hardraade devia ter se dirigido para a Groenlândia. Então estudaram as Sagas groenlandesas e a Saga de Erik, o Ruivo, que mostram que o nordrset, a região norte que começa ao redor da baía de Disko, teria sido o posto de concentração de tropas para futuras viagens para o oeste. Quando ouviram que o explorador Knud Rasmussen estava planejando uma expedição à calota polar groenlandesa em Ilulissat, eles aproveitaram a chance. Na época, Himmler tinha se tornado obcecado pela Teoria do Mundo de Gelo e uma civilização polar perdida, e não houve problemas para autorizar uma equipe da SS Ahnenerbe a se juntar à expedição de Rasmussen."

"E Rolf Künzl? Como ele se encaixa nisso?"

"Era completamente inocente em relação às metas do félag. Foi ele quem mapeou a viagem descrita nas narrativas épicas. Ele era o expert mundial dos vikings no Ocidente, o companheiro ideal de Reksnys. Eles o usaram. E quando souberam que Künzl havia encontrado um indício no gelo, algo que depois escondeu, ele foi condenado."

"A pedra de runa na embarcação", disse Costas.

O'Connor aquiesceu de novo. "Künzl era suficientemente esperto para saber que havia encontrado algo de significado grandioso, e o fato de que Reksnys estava tão desesperado para pôr as mãos sobre o achado bastava para ele. Künzl detestava Reksnys e os nazistas com igual fervor. Então decidiu dar a pedra de runa para o velho inuit guardá-la. Künzl não sabia nada sobre os félag, mas havia começado a desconfiar que estava lidando com algo mais do que apenas a loucura nazista. Ele e Reksnys haviam lutado naquela fenda da geleira, e daquele momento em diante deve ter se dado conta de que essa era uma hostilidade sangrenta, um duelo até a morte. Essa sempre foi a fraqueza do velho félag. Os assassinos de Thomas Becket e de Richard de Holdingham sabiam que seus segredos iam com eles para o túmulo. Na sua sede de vingança, os assassinos perderam as metas de vista. Depois que a guerra começou, Künzl ficou a salvo enquanto estava lutando no Africa Korps, mas, quando ele foi detido com os conspiradores de Von Stauffenberg, Andrius Reksnys finalmente teve sua chance. Usou sua considerável perícia para tentar extrair o que pudesse de Künzl com tortura nas câmaras da Gestapo. Ele falhou, e em sua raiva deixou-o ser executado junto com os outros. Deve ter suposto que Künzl, o grande estudioso, teria deixado algum registro escrito, mas descobriu que ele havia destruído todos os seus papéis pessoais, e que todos os registros da expedição tinham desaparecido do quartel-general da Ahnenerbe no início da guerra."

"Uma pergunta", disse Maria baixinho. "A menorá teria significado tudo para os nazistas. O símbolo derradeiro do domínio sobre a raça que estavam determinados a destruir. Eles a teriam empunhado como triunfo, da maneira que os romanos fizeram com os judeus dois mil anos antes. O que Reksnys teria feito se tivesse encontrado a menorá?"

O'Connor levantou-se de novo e olhou pensativo para o mapa. "A busca pela menorá era mantida em segredo, nem mesmo Himmler tinha conhecimento do fato. Se Himmler tivesse descoberto algo sobre a menorá e os félag, que a busca lhe estava sendo ocultada, então Reksnys provavelmente teria sofrido o mesmo destino que Künzl. Para responder sua questão, devemos nos deslocar para os dias de hoje. Não estamos lidando com neonazistas aqui. Nada tão banal. O félag ainda está conosco, tão forte como sempre foi. E a menorá tem ainda mais poder hoje do que nos dias sombrios da década de 1940. Eles podiam levar todo mundo a pagar-lhes resgate por ela. A Igreja Católica, o Estado judeu, os Estados árabes. Grupos extremistas de todos os credos."

"Oferecê-la em leilão pelo maior lance", murmurou Costas.

"Então é realmente de cobiça que se trata e não de ideologia", disse Maria.

"Foi isso que provocou o cisma no félag quase mil anos atrás", replicou O'Connor com a cara fechada. "Cobiça e poder."

"Como você sabe de tudo isso?" Costas deixou escapar. "Quero dizer, se é tudo tão secreto, como um historiador jesuíta no Vaticano tem acesso a esse tipo de informação?"

"Esta era para ser minha última revelação." O'Connor respirou profundamente, subiu a manga direita de sua sotaina e estendeu a mão em direção a eles, com a palma à mostra. Todos soltaram um suspiro de espanto. Atravessada diagonalmente havia uma cicatriz branca entalhada.

"A mão ensangüentada", sussurrou Maria. "Eu pensava que esse fosse apenas um ferimento antigo."

"Vocês podem relaxar." O'Connor abaixou a manga e afundou-se na cadeira. "Não sou mais um deles. Meu avô era um inventor americano que fazia parte do círculo da Teoria do Mundo de Gelo, não menos excêntrico do que seu fundador, mas provavelmente um pouco menos doido."

"Meu Deus", exclamou Maria. "Você nunca me contou sobre isso. Pensei que em sua família todos fossem acadêmicos."

"Foi um período estranho", disse baixinho O'Connor, olhando para o chão. "O mundo começou a enlouquecer algumas décadas antes da Primeira Guerra Mundial, e ainda não estamos fora dessa loucura." Ele ergueu o olhar e sorriu debilmente para Maria. "Meu avô era um cientista, mas meteu-se em uma porção de facções tolas, como muitos acadêmicos de seu tempo, e praticamente deixou essa obsessão em especial consumi-lo. Como meu pai antes de mim, prestei juramento ao félag em minha juventude, passei através de todo o ritual de iniciação. Eu detestava aquilo, odiava os falsos rituais e, assim que descobri a conexão nazista, decidi cair fora. Descobri minha vocação como jesuíta, e não podia conciliar isso com ser membro do félag. O félag sempre professou ser pagão, desprezar o cristianismo mesmo quando trabalhava com ele. Acredito que eles esperavam que eu retornasse para o rebanho, viam-me como um recurso futuro e útil dentro da Igreja. Eles concordaram em me deixar sair com um voto de silêncio. Esse é um voto que agora quebrei."

"Mas você não está atado por seus rituais absurdos", disse Jack.

"De fato." O'Connor olhou para baixo e depois fitou Jack diretamente. "Mas eu alimentei o fogo da vingança. Ao longo dos anos, juntei tudo que pude sobre Andrius Reksnys. Eu meramente desprezava o félag, mas com Reksnys era diferente. Quanto mais eu descobria sobre suas atividades assassinas com o Einsatzgruppen, mais determinado me tornava para trazê-lo diante da justiça, mesmo se isso significasse quebrar o meu voto de silêncio. A memória de Rolf Künzl me fez seguir adiante. Eu me apropriei do credo da antiga guarda varegue, de um dos primeiros félag, de que o nosso destino é predeterminado, que Ragnarok é inevitável, assim, o que importa é nossa conduta neste mundo. Esta foi minha única herança dos velhos costumes. Um tanto em desacordo com a minha vocação jesuíta, mas colocou-me em ligação com a nobreza do primeiro félag e deu-me forças."

"Você não pode ter feito tudo sozinho", disse Jack. "Outra pessoa atirou em Reksnys."

"Assim que entrei no Vaticano, eu trouxe um pequeno grupo de companheiros confiáveis para a Igreja. Um deles está aqui na abadia hoje. Vocês talvez o tenham visto na igreja. Jeremy era para ser um outro. Nós nos aproximamos para reunir evidências suficientes contra Reksnys, mas não ficamos próximos o bastante. Tínhamos resolvido que ele deveria experimentar o horror antes da morte."

"Você despertou de novo o ciclo de hostilidade sangrenta", murmurou Maria.

"Às vezes a justiça é mais bem servida pelos velhos costumes."

"E o félag sabe quem você é?"

"Anteriormente eu lhes contei que o félag, em seu apogeu, no século XI, infiltrou-se no Vaticano. Hoje novamente há uma pessoa, agora entre os meus superiores, que sabe sobre a menorá, que descobriu sobre a nossa busca."

"Como?" perguntou Costas.

"Uma pessoa bem informada."

Jack experimentou um arrepio de certeza. "Eu sei de quem se trata. Isto tem me incomodado desde o Chifre de Ouro. O segundo oficial do Sea Venture, o estoniano recém-contratado. Ele estava escutando da ponte de comando quando discutimos sobre a menorá pela primeira vez."

"Ele esteve AWOL dois dias atrás", disse Costas, chateado. "Não íamos incomodá-lo com isso, Jack, mas Tom York me contou quando lhe telefonei esta manhã."

O'Connor aquiesceu desoladamente e continuou. "Eu sabia que a Santa Sé faria tudo que estivesse em seu poder para impedir que a localização da menorá fosse revelada, mas depois percebi que havia mais do que isso em jogo. O félag faria de tudo para saber o que nós sabemos, para se opor e nos destruir e continuarem a busca eles mesmos. E há um deles que devemos temer mais que todos."

"Quem?", perguntou Jack.

"O neto. Andrius Reksnys está morto, seu filho Pieter está hibernando em algum lugar da América Central. O neto ainda está livre. Creio que ele é agora um membro jurado do félag. Ele é um matador. Herdou o gene da família."

"Tal avô, tal neto", disse Jack baixinho.

"O pai, Pieter, não é melhor", disse O'Connor. "Lembre-se de sua educação precoce na frente russa. Mas ele parece estar completamente empenhado em dirigir sua organização criminosa na América Central. O neto é quem preocupa. Ele é o guerreiro do félag, o homem de frente. Cresceu imerso em todos os rituais, e o félag tornou-se o seu credo. Acreditou em tudo o que eu rejeitei. Tem usado muitos pseudônimos, mais recentemente Poellner, Anton Poellner. Entre os félag, ele chama a si mesmo Loki, o nome de um deus nórdico particularmente sórdido. Seu absurdo credo guerreiro o levou a se exercitar como um mercenário, e ele deixou um rastro de sangue através dos conflitos nos Bálcãs. Ele aperfeiçoou suas habilidades como terrorista num campo de treinamento no leste do mar Negro, em Abecásia."

"Acho que sabemos onde fica", disse Costas.

"Quando seu avô foi assassinado, ele seguiu com uma violência particularmente assassina para Kosovo e baixou sua guarda. Foi detido pelo SAS e condenado em Haia como criminoso de guerra. Cinco anos atrás foi enviado para a prisão perpétua na Lituânia, o país que ele afirma ser sua pátria. Abriram uma prisão desativada do Gulag especialmente para ele, um lugar onde oficiais capturados da SS foram mantidos durante anos depois da guerra antes de serem executados. Então, há um mês, um novo juiz decidiu que a evidência contra ele era insuficiente, e o colocaram em liberdade." Os lábios de O'Connor tremeram de desgosto. "Ele era apenas uma criança quando eu abandonei o félag, mas ainda posso lembrar de seu rosto. Seu pai havia se recusado a cortar a palma de sua mão antes que chegasse o momento certo, então Loki agitou-se com raiva e cortou o próprio rosto com um machado. Ele escarnecia de mim com aquilo, enfiando seu dedo bem dentro da ferida até que eu gritasse. Isso costumava me dar pesadelos. E agora ele está de volta. Ele sabe que fui eu quem perseguiu o seu avô. É a hostilidade sangrenta que o impele. Agora, o pouco tempo que temos é precioso."

Jack olhou para O'Connor. "O que fará agora?"

"Vou ficar aqui. Roma é muito arriscada."

"O que o senhor quer dizer?"

"Algo mais aconteceu." O'Connor parecia preocupado, o rosto voltado para o solo. "Eu queria pô-lo a par do contexto antes de lhe dizer. Há um outro assassinato. Um recente dessa vez."

"Onde?"

"No Vaticano. Faz dois dias. A polícia acredita que foi algo realizado pela máfia, porque a vítima estava na frente de batalha contra o mercado negro de antiguidades."

"Quem era ele?"

"O chefe da Conservação."

"Você quer dizer o homem que, junto com o senhor, esteve na câmara secreta no Arco de Tito?"

"Alberto Bellini. Um dos grandes estudiosos modernos da escultura romana. Uma grande perda. A única pessoa na Santa Sé em quem eu podia confiar."

"O senhor acha..."

"Eu não acho. Eu sei. Alberto era um homem que assumia estar envolvido na guerra pública contra a máfia, que precisava de guardas armados cada vez que saía do Vaticano, mas que não teve força interior quando ficou trancado em um aposento com aqueles que o confrontaram. Ele me confessou que, na noite antes de seu assassinato, eles o haviam obrigado a contar a nossa descoberta noturna no arco e o nosso interesse pela menorá. Isso me colocou na linha de fogo. E quer dizer que vocês também. Estou com medo."

"Você sabe quem está por trás de tudo isto no Vaticano?"

"Há uma espécie de Inquisição interna, dirigida pelos cardeais. Isso sempre existiu. Mas esta é mais sinistra, muito perversa, como pude perceber. Não tenho certeza de quem se trata, mas faço uma idéia. O félag vem mudando desde que o abandonei, mais de quarenta anos atrás. Sei quem são alguns deles. O juiz que libertou Loki dos crimes de guerra é um." O'Connor de novo agarrou sua cadeira com fúria. "Tudo o que posso dizer agora é que ele é surpreendentemente poderoso dentro do Vaticano. Ele pode me esmagar por um capricho. Não tenho nada para atribuir com certeza a ele, mas tenho o suficiente para chamar a atenção sobre suas atividades quando eu for a público a respeito deste assunto. Do que tenho certeza é que não foi a máfia que assassinou Alberto. Vocês provavelmente podem adivinhar quem eu acho que seja, e ele não vai parar por aí."

"Há alguma coisa que você possa fazer agora?"

"Acho que estou a salvo aqui, por enquanto. A ilha sagrada ainda mantém alguma santidade, mesmo entre os novos félag. Mas a situação toda se tornou muito complexa para lidarmos com ela sozinhos. A hostilidade sangrenta deve ser uma coisa do passado. Estamos falando aqui de assassinato, claro e simples. E se, de alguma forma, eles puserem a mão sobre a menorá, se ela ainda existe, então o estranho assassinato parecerá um assunto trivial. O Oriente Médio irá se inflamar como nunca antes, se o grande símbolo da fé judaica for acrescentado a tudo isso. Ninguém sairá ileso, judeus, árabes, a Igreja Católica."

"O senhor tem alguma documentação?"

"Está tudo aqui." O'Connor passou de leve a mão pela pasta em sua cadeira. "Uma cópia impressa. Não posso confiá-la a um computador. Loki é a chave. Ele trabalha sozinho, com horrível rapidez. Seus mestres são os grandes e os bons, juízes, altos membros da Igreja, políticos. Já estão longe os dias em que os félag podiam todos vestir capacetes e empunhar achas-de-armas, por mais que fantasiem sobre isso. Não há outros como Loki. Se pudermos detê-lo, então teremos o tempo de que precisamos."

"Interpol."

O'Connor aquiesceu. "Posso me valer de algumas influências. Temos alguns amigos em altos postos. Uma autorização para uma captura internacional, um alerta de segurança global. Mas eu preciso de tempo, pelo menos dois dias para reunir um dossiê. Seria um horrível tiro pela culatra se a solicitação fosse rejeitada, a não ser que a história da busca pela menorá também se tornasse pública."

"Isso nos dá um prazo apertado", disse Jack, pensativo. "Dois dias ou todos vão começar a se comportar de maneira descontrolada. Essa é uma meta das mais difíceis."

"Algo me faz confiar em você."

"Deixe-me ajudá-lo, Patrick." Maria inclinou-se para a frente em sua cadeira, olhando para O'Connor e depois para Jack. "Acho que fiz tudo o que podia por você no Seaquest II, Jack. Eu estava pensando em ficar aqui, de todo jeito, e dar mais uma olhada naquela pedra de runa, ver se há algo que deixamos passar. Mas isso é mais importante. O padre O'Connor precisa de toda a ajuda que puder obter."

"Posso me beneficiar de sua ajuda", disse O'Connor. "Nós trabalhamos bem juntos no passado."

"Você é bem-vinda para ficar conosco, Maria", disse Jack. "Mais do que bem-vinda. Eu deveria ter deixado isso mais claro."

"Jeremy pode assumir o papel de expert na expedição", replicou Maria. "Se ainda há algo mais a ver com vikings e o Novo Mundo, ele é o nosso homem."

"Ok", disse Jack, uma vacilação ansiosa passou por seu rosto. "Apenas trate de ter cuidado."

 

O'Connor tinha uma última coisa para lhes mostrar. Conduziu Jack e Maria até uma área gramada do lado de fora em frente à abadia, deixando Costas e Jeremy atrás, no claustro, para escanear de novo o mapa de Hereford que tinha acabado de chegar. Através da névoa do começo da noite que agora envolvia a ilha, Jack vislumbrou os afloramentos rochosos que surgiam nos arredores, uma imagem inalterada desde os dias dos vikings. O'Connor os levou ao longo do pavimento com pedras arredondadas de Sràid nam Marbh, a Rua dos Mortos, passando por Reilig Odhráin, o consagrado cemitério dos reis. No caminho, Jack parou ao lado da grande cruz de pedra de São Martin, sua forma exposta às intempéries, ainda em pé onde tinha sido erigida mais de mil anos antes. Pôs a mão sobre a pedra e sentiu a sinuosidade da serpente esculpida no granito quase dois séculos antes da batalha de Stamford Bridge, quando os piratas do norte não eram senão boatos distantes para os monges da ilha. Ele sentiu um arrepio por estar nas imediações, a mesma excitação que o possuíra ao ver a embarcação dentro do gelo. Harald Hardraade passara por aquele caminho, vira aquela cruz. Jack repentinamente vislumbrou uma imagem do rei ferido sendo carregado num esquife para a abadia e os seus seguidores machucados afastando-se do navio encalhado no canal abaixo. Sentiu que havia perseguido Hardraade por toda parte, no Chifre de Ouro, no fiorde gelado, mas nunca se sentiu tão perto dele, nunca teve tanta certeza de que o rastro à frente os estava arrastando para seguir o grande rei dentro do desconhecido.

Eles caminharam em silêncio, perdidos em seus próprios pensamentos, digerindo o que se havia passado antes. Meia hora mais tarde, alcançaram o lado ocidental da ilha, uma ampla baía ornada com praias douradas. O'Connor os levou até uma duna e encontrou um lugar para se sentar, com Jack e Maria de cada lado. A névoa havia se erguido para revelar uma longa vista aberta para o oeste, os profundos raios cor de laranja do pôr do sol assinalando o seu caminho em direção ao horizonte. O'Connor acendeu um cachimbo, dando algumas baforadas, depois começou a falar calmamente.

"Aqui é Carnus Cül an t'Saimh, a baía nas Costas do Oceano", ele disse. "Depois de dias à beira da morte, eles trouxeram Harald para este lugar, temerosos de que uma palavra sobre sua sobrevivência transpirasse para os normandos. Eles trouxeram seus navios, o Águia e o Lobo, e empurraram-nos para a praia. Então encheram-nos com provisões e colocaram Harald em sua liteira no centro do Lobo. Halfdan, o Destemido, seu companheiro mais antigo, jazia gravemente ferido aos seus pés, pronto para morrer se seu rei começasse a declinar."

"Wergild", murmurou Maria. "Um homem podia entregar a sua vida para Odin para salvar a vida de seu senhor."

"Os monges os ajudaram a puxar as embarcações para o raso. Aqueles do grupo de Harald que ainda estavam bem e capazes manejaram os barcos, arrastando os longos remos através das cavilhas. Os mastros estavam armados e as velas desfraldadas. Daqui Harald e seus companheiros de remo navegaram para a história, observados pelos monges de lona e o pequeno grupo de fiéis que havia ficado para trás para manter o fogo aceso."

"Para onde foram os navios?" perguntou Maria.

O'Connor fez uma pausa, tirou o cachimbo da boca e apontou-o em direção ao horizonte ocidental, depois recitou tranqüilamente de memória:

 

But now farewell. I am going a long way.

With these thou seêst — if indeed I go —

(For all my mind is clouded with a doubt)

To the island-valley of Avilion;

Where falls not hail, or rain or any snow,

Nor ever wind blows loudly; but it lies

Deep-meadowed, happy, fair with orchard-lawns

And bowery hollows crowned with summer sea,

Where I will heal me of my grievous wound.

 

So said he, and the barge with oar and sail

Moved from the brink, like some full-breasted swan

That, fluting a wild carol ere her death,

Ruffles her pure cold plume, and takes the flood

With swarthy webs. Long stood Sir Bedivere

Revolving many memories, till the hull

Looked one black dot against the verge of dawn,

And on the mere the wailing died away.

 

"Tennyson, A morte de Artur”, exclamou Jack, sacudindo a cabeça, maravilhado. "Uma bela visão vitoriana da morte, mas se o que você diz é verdade, a versão romântica da lenda de Artur tem tudo a ver com essa situação."

"Substitua Avalon por Vinland e você terá a terra prometida, o paraíso terrestre", disse O'Connor. "A história da descoberta do Novo Mundo de Leif Ericsson teria penetrado na corte de Harald muito antes de sua decisão de invadir a Inglaterra e teria intrigado um homem tão viajado. Ele estivera sedentário durante anos, exceto por viagens guerreiras ocasionais para a Dinamarca e a Suécia, e deve ter experimentado a sede de correr o mundo. Talvez tivesse planejado uma expedição através do oceano ocidental mesmo antes de Stamford Bridge. Ele queria uma última aventura, uma última grande viagem que o levasse a uma descoberta, algo que lhe desse a glória de seus dias de juventude com a guarda varegue. Com sua derrota em Stamford Bridge, a viagem se tornava imperativa. Os relatos haviam sugerido uma terra de grande abundância, de viçosos prados e florestas sem fim para a construção de navios, as duas coisas que os vikings cobiçavam acima de tudo. E não havia por que voltar para a Noruega. Seu prestígio ficaria abalado se ele retornasse vivo, ao passo que a morte lhe asseguraria seu lugar entre os heróis. O Heimskringla até registra que seu exército remanescente na Noruega jurou fidelidade eterna a ele depois que as notícias de sua derrota chegaram, mesmo quando pensaram que estivesse morto."

"E ele tinha seu tesouro", disse Jack.

"Cofres de tesouros", disse O'Connor. "Certamente não estavam indo para o Novo Mundo em busca de ouro. Eles já tinham tanto que nem necessitavam de lastro extra. Moedas de prata, dezenas de milhares delas, dirhams árabes, centavos ingleses de Canuto e Ethelred, moedas do império de Harald e outras. Colares de prata e de ouro, peças de herança tradicional de seus ancestrais. E todos os saques de Harald de seus dias com os varegues no Mediterrâneo, alguns deles derretidos, outros ainda intactos. Relicários religiosos de valor inestimável e jóias antigas. E, para coroar tudo isto, o maior tesouro do reino de Harald, o tesouro que havia sido dignificado por suas façanhas ao escapar de Constantinopla, que chegara a valer muito mais do que seu peso em ouro."

"A menorá", murmurou Jack.

"Se Vinland é o local de colonização dos vikings em L'Anse aux Meadows, em Newfoundland, então fica bem na direção oeste a partir daqui, a mais de duas mil milhas de mar aberto", disse Maria. "Assim, o que a nossa embarcação estava fazendo na baía de Baffin, em Ilulissat?"

"Isto se encontra nas sagas", replicou Jack. "Leif Ericsson encontrou Vinland navegando primeiro para a costa oeste da Groenlândia, depois atravessando para Helluland e Markland. Esses locais correspondem à ilha Baffin e Labrador, e o ponto de parada na Groenlândia deve ter sido na baía de Disko, no ponto menos largo do estreito de Davis. Harald estava seguindo a melhor recomendação disponível sobre a navegação."

"Isto é o que Künzl deve ter planejado em 1930", disse O'Connor.

"Então eles enfrentaram o vento em Ilulissat?", perguntou Maria.

"Provavelmente foram forçados a permanecer na grande massa de gelo flutuante que obstruía o mar. Devem ter chegado no outono. A luz ficava escassa e as embarcações congeladas por causa do líquido pulverizado. Macleod diz que a neve parcialmente derretida começa a se formar em outubro, e quando endurece ela pode cortar madeiras como um serrote. Atravessar o vento deve ter sido árduo, mas eles eram homens fortes acostumados com coisas difíceis. Provavelmente alguns dos vikings groenlandeses locais estavam com eles, habitantes das colônias ao sul, empregados como guias e caçadores. Eu não ficaria surpreso de eles terem acampado na mesma baía ao lado do fiorde gelado onde nos encontramos com Kangia, entre os círculos de pedra que protegiam a antiga tenda."

"Devia ser especialmente difícil para os feridos", disse Maria.

"Muitos devem ter morrido na viagem e no acampamento. Na época em que Halfdan morreu, acho que o número deles estava tão reduzido que foram facilmente capazes de dispensar uma das embarcações para o sepultamento, o Lobo, o navio que você viu no gelo. Não havia braços suficientes para dirigir dois navios."

"Então como a notícia voltou?", perguntou Maria. "Dois séculos mais tarde, Richard de Holdingham sabia que eles tinham alcançado Vinland, estava bastante confiante para desenhá-la em seu mapa. A arqueologia indica que L'Anse aux Meadows teve vida bastante curta, foi abandonada bem antes de 1066, então não parece que eles fizessem viagens regulares para adquirir suprimentos e essas viagens pudessem ter passado as informações."

"Jack estava certo sobre os groenlandeses", replicou O'Connor. "Eles tinham simpatia por Harald, um companheiro norueguês, principalmente quando perceberam que ele não tinha a intenção de subjugá-los e permanecer ali. Ele os fez jurar segredo, e a prata que lhes deu manteve seu comércio com o Velho Mundo próspero durante as gerações futuras. Sabemos disso porque o félag enviou uma expedição em busca de Harald, várias gerações mais tarde. Erik Gnupsson, bispo da Groenlândia e um dos félag, convenceu seus paroquianos de que ele era um seguidor leal de Harald, e tomou conhecimento disto que acabei de contar. Disseram-lhe que Harald prometera deixar uma indicação do caminho em Vinland se ele e seus companheiros decidissem navegar para o sul. Devem ter contado isso para Richard no maior dos segredos, mas nada, além disso. Erik Gnupsson navegou para Vinland, mas nunca mais se ouviu falar dele. Não houve outra expedição e a localização de Vinland ficou perdida para a história. Mesmo para os groenlandeses ela se tornou uma espécie de Avalon, uma terra prometida mítica» dirigida pelo antigo e futuro rei."

"Isto me lembra algo", disse Maria. "A história do rei Artur. E sua rainha, Guinevere. A menorá não foi a única coisa que Harald roubou de Constantinopla."

"Ah. Eu estava me perguntando quando você iria perguntar isso." O'Connor bateu seu cachimbo sobre a areia e sorriu para ela, seus olhos se encontraram. "A lenda conta que Harald estava interessado em uma mulher de cabelos curtos, vestida com uma túnica e calças compridas de homem. A história nos relata que, anos antes, Harald havia libertado a princesa e a mandara de volta para Constantinopla depois da fuga. Mas nós sabemos que sua xará nunca foi seqüestrada, ela era uma participante voluntária. Foi Maria quem libertou Harald e seus soldados da guarda varegue da prisão na noite anterior à fuga deles. Ela ficou com Harald e enfrentou com ele todas as dificuldades, durante todo o tempo de seu casamento de conveniência com a princesa Elizabeth de Kiev, ajudando-o em tudo que era preciso em seu caminho para a monarquia. Ela o amansou, tornou-se a verdadeira luz-guia de sua vida. E em sua última tentativa para alcançar o poder, para conquistar a Inglaterra em 1066, Maria o acompanhou, até um reino onde ela poderia ao menos ter assumido seu direito hereditário de princesa. Harald planejava instalá-la como sua consorte, torná-la rainha da Inglaterra."

"Harald tinha cinqüenta e um anos em 1066; ela talvez fosse dez anos mais jovem", disse Maria. "Havia alguma outra mulher em um dos navios quando eles partiram para Vinland?"

"Maria era a única."

"Não era o melhor planejamento para estabelecer uma nova colônia."

"A mentalidade viking", sorriu Jack. "Roube o que precisar quando chegar ao local. E lembrem-se, era quase certo que estivessem meio desesperados por causa da dor e da exaustão, incapazes de pensar direito. Muitos deles provavelmente acreditaram que estavam indo para o Valhala."

A órbita do sol começou a mergulhar no oceano, a oeste, lançando um brilho laranja sobre os leitos de rocha erodida que se sobressaíam das rampas de cada lado da baía. Olharam silenciosamente para o mar, absorvendo a irradiação muda do anoitecer. "Contam que a ilha sagrada é banhada pela luz brilhante dos anjos", disse O'Connor. "É uma luz que se vê em lugares como este, onde o céu e a terra parecem se encontrar, e em lugares onde a crosta da presença humana tem sido removida até a rocha que está debaixo ficar exposta. O coração do Fórum em Roma, o monte Sião em Jerusalém."

"Os dois lugares onde a menorá esteve", disse Maria.

"Foi o que pensei", murmurou O'Connor.

Jack inclinou-se para a frente, os olhos repentinamente brilhantes enquanto fitava o horizonte. "A menorá esteve aqui, com Harald, neste mesmo lugar", ele disse. "Desde que vi Halfdan no gelo, eu sabia que estávamos na pista certa, quase como se alguma coisa quisesse que fosse assim. Tudo de que precisamos agora é de algum indício, algo mais concreto acerca de para onde eles foram depois de deixar o fiorde gelado."

O'Connor olhou para Jack de modo penetrante, acendendo seu cachimbo de novo. "Halfdan lhe deu sua sorte-de-batalha, lembra? Ele passou a chama adiante. De alguma forma penso que há mais à nossa frente."

Eles estavam começando a se levantar quando Jeremy veio em sua direção quase aos saltos ao longo da areia, e puderam ver também a figura corpulenta de Costas a uma certa distância do jovem. Jeremy parou na frente deles, ruborizado e excitado, seu entusiasmo de volta com força total.

"Bem, o que é?", disse Jack amigavelmente. "Alguma outra coisa que você tem mantido escondida?"

"Não exatamente." Jeremy estava se esforçando para recuperar o fôlego. "O Mappa Mundi. Enquanto vocês estavam no iceberg. Eu sabia."

"Acalme-se", disse Jack. "Não se afobe."

Jeremy ficou de joelhos e tirou uma folha enrolada de sua maleta, depois respirou profundamente várias vezes e começou a recuperar a calma. "Perdão. Mas esta é a coisa mais excitante até agora."

"Então?"

"Aquelas horas que passei em minha cabine. Evitando vocês todos", disse Jeremy desculpando-se. "Bem, eu estava estudando com atenção a versão digital do mapa que encontramos em Hereford. O exemplar de Richard, com resolução de mil e duzentos pontos por polegada. Alguma coisa estava me incomodando, algo que eu achava que tinha visto quando Maria e eu desenrolamos o mapa pela primeira vez no aposento da catedral." "Continue."

"Pedi ao nosso laboratório de imagem em Oxford para fazer um escaneamento multiespectral. Dêem uma olhada."

Jack pegou a folha e a desenrolou em seu colo. Era uma imagem ampliada do canto esquerdo inferior do exemplar do Mappa Mundi, mostrando uma imagem extraordinária de Vinland e do Novo Mundo que eles examinaram pela primeira vez na Cornuália alguns dias antes, com uma inscrição que se referia a Leif Ericsson e outra, a Harald Hardraade e ao tesouro de Michelgard. Jack de repente notou o que Jeremy queria dizer. "Há um outro desenho por baixo!"

"Aqui está ele, isolado e aumentado. Costas me ajudou a fazê-lo." Jeremy lhe entregou uma outra folha, e Maria e O'Connor se debruçaram para olhar. Era um traçado linear e simples, uma profunda forma em U com a linha curvando-se e voltando-se para trás de cada lado e diminuindo, e dois círculos irregulares na frente.

"É Vinland!", exclamou Maria. "É exatamente a mesma imagem que foi superposta no mapa, apenas em uma escala maior. A forma em U é a baía, e Vinland está assinalada na cabeça da baía no mapa superposto. Eu estive na colônia viking em L'Anse aux Meadows, em Newfoundland, no ano passado. O sítio arqueológico situa-se na cabeça da baía, exatamente onde Vinland está assinalada aqui, e estes são os promontórios que se estendem de cada lado até o estreito de Belle Isle. Aqueles círculos são as ilhotas da costa. Pequena Ilha Sagrada e Grande Ilha Sagrada. Elas deviam representar sinais cruciais para os vikings."

"Isto é que é tão fantástico", disse Jeremy.

"O que você quer dizer?", perguntou Jack.

"Dê uma boa olhada na ilha maior." Jeremy lhe estendeu uma lente de aumento. "Ali, onde parece haver um borrão."

Jack deslocou o desenho para o lado e olhou de novo para a imagem escaneada. "Posso ver o sinal de uma cruz, definitivamente trata-se de uma cruz", murmurou Jack. "E essa mancha ao lado. São letras?"

"Runas."

A excitação de Jack crescia. "Tradução?"

"Há duas linhas", disse Jeremy. "Mesmo com a imagem ampliada mal consigo lê-las, mas tenho quase certeza. A primeira linha diz Haraldi konungi, Harald o rei. A segunda linha tem duas palavras, ouro e Michelgard, o ouro de Michelgard. Trata-se de Constantinopla, é claro."

"Bom Deus."

"Richard de Holdingham deve ter feito este esboço ao começar, mas depois pensou melhor. O desenho é muito exato, revela muitas coisas. Então, ele o riscou e desenhou um mapa genérico mostrando Vinland, com a inscrição de Leif Ericsson. Depois pensou de novo e, apesar de tudo, decidiu acrescentar uma referência a Harald Hardraade, a de que ele havia estado nesses lugares com o tesouro de Michelgard."

"O primeiro croqui está nos contando algo", murmurou Jack. "Está nos contando algo incrivelmente preciso."

"A cruz marca o local." O'Connor sorriu abertamente, pela primeira vez desde que o conheciam. "Isto subitamente faz tudo valer a pena."

Costas surgiu de repente saindo de trás de uma duna, parecendo ligeiramente agitado depois de sua marcha a passos largos pela ilha. "O helicóptero voltou", ele ofegava quando se juntou aos companheiros. "Macleod quer saber se vocês vão retornar ao Seaquest II ou voltar para Istambul. Estão parados na baía de Disko aguardando instruções. Eles estão programados para navegar para o norte e prosseguir com as pesquisas na extremidade da calota polar, e alguns cientistas estão nitidamente ansiosos para partir." Costas subitamente percebeu a folha de papel no colo de Jack e ajoelhou-se para olhar mais de perto. "Um mapa do tesouro. É o meu favorito. Onde ele está?"

Jack olhou para Costas com um brilho familiar nos olhos, e depois apontou o dedo para a órbita incandescente cor de laranja no horizonte.

"Em direção a oeste, cerca de duas mil e trezentas milhas. Você pode dizer a Macleod para desenterrar uma cópia de Sagas de Vinland que deixei com ele. Lá se encontra como estabelecer uma rota para Vinland."

O'Connor levantou-se. "Parece que está na hora de vocês irem embora, não é?" Ele apertou a mão de Jack. "Não sei aonde meu caminho irá me conduzir", ele disse. "Faça apenas uma coisa por mim, pode ser, Jack?"

"Pode dizer."

"Descubra o que aconteceu com a menorá."

Jack sorriu e colocou a outra mão sobre o ombro de O'Connor. "Faremos o melhor que pudermos. As coisas estão indo muito bem desde que Halfdan emprestou-me sua acha. Acho que essas descobertas podem ter sido um pouco por conta da sorte-de-batalha." Subitamente Jack tornou-se muito sério. "E você deve tomar o maior cuidado."

Trinta e seis horas mais tarde, Jack estava deitado em uma escuridão de breu no chão de terra do outro lado do Atlântico, protegido em um saco de dormir e separado da umidade por um isolante térmico. Deslocou suas roupas enroladas, à guisa de travesseiro, para uma posição mais confortável e olhou para dentro da escuridão. Ao seu lado, Costas roncava sonoramente, e ele podia ouvir um sussurro ocasional de Jeremy perto de seus pés. Ele havia aproveitado a oportunidade para passar a noite em uma pousada viking reconstruída, uma estrutura de paredes grossas, com a forma de um bloco, feita inteiramente com terra e uma camada de cobertura de torrões de turfa, no mesmo local onde Leif Ericsson e seu grupo de aventureiros nórdicos ergueram seu primeiro abrigo rústico nas costas da América do Norte, mil anos antes. Mas para Jack foi uma noite agitada, repleta de sonhos mal-definidos. Sua mente ainda estava cheia do relato extraordinário que O'Connor lhes fizera em Iona, no dia anterior, de uma sociedade secreta que havia existido durante séculos e viera associar-se com o pior horror dos tempos modernos. Cada vez que Jack adormecia, as mesmas imagens penetravam em sua mente, deuses-lobos mostrando os dentes e águias girando, os sete braços do candelabro e a pavorosa suástica, imagens que não pareciam mais ser fragmentos deslocados da história, mas que se entrelaçavam para contar uma história cheia de potência e perigo.

Jack acordou com uma caneca fumegante de café perto de seu rosto. Costas lhe deu um pontapé gentil e inclinou o rosto não barbeado para o amigo. "Saia da cama", ele disse alegremente. "Nós só conseguimos este lugar para o período da manhã. O pessoal do Parks Canadá precisa abri-lo para um grupo de turistas ao meio-dia."

Jack resmungou e levantou-se rapidamente, colocando os jeans, o suéter azul de pescador e amarrando as botas. Vacilou enquanto esfregava o ferimento na coxa, sua herança do iceberg. Com a entrada da luz do sol através da abertura baixa, ele podia ver Jeremy enrolando o isolante térmico e o saco de dormir. Haviam chegado na noite anterior quando já estava escuro, e pela primeira vez Jack podia apreciar as dimensões do seu alojamento: alongado e baixo, construído inteiramente de terra com torrões de turfa em cima de uma estrutura de madeira, com chão de barro batido e telhado coberto de piche. Jack avaliou que a construção poderia ter acomodado vinte ou trinta pessoas, vários grupos familiares aglomerados ao redor de núcleos igualmente espaçados ao longo do aposento. Devia ter sido um lugar úmido, escuro, fétido e sem distinção de classe social durante os longos meses de inverno. Ele podia compreender por que os vikings sempre ansiavam pelo ar livre e o mar, durante os meses de verão, conduzindo seus rebanhos e embarcando em longas viagens de pirataria e exploração.

Jack tomou o café e saiu pela entrada para o mundo exterior, piscando ao encontrar a luminosidade da manhã ensolarada. Na grama, a pouca distância, estava o helicóptero Sea King branco e vermelho da Guarda Costeira Canadense, um Sikorsky S-61N que os havia trazido para a remota península norte de Newfoundland, na baía de Goose, em Labrador, o campo de aviação mais próximo onde o jato Embraer da IMU conseguira aterrissar. Jack virou-se de costas para o helicóptero e olhou ao seu redor. A construção comprida era uma de três edificações cobertas com torrões de turfa reconstruídas ao lado da colônia viking original, a poucos metros do prado onde as três habitações comunais e uma oficina de ferreiro primitiva tinham sido desenterradas por arqueólogos noruegueses que haviam descoberto o local em 1960. Eles tinham encontrado apenas baixas saliências estreitas e compridas onde antes havia paredes de torrões de turfa, marcas antigas de buracos de postes e covas de fogo e um punhado escasso de artefatos, mas era o suficiente para provar conclusivamente que os vikings tinham estado ali. Jack olhou através do viçoso pasto até o litoral, e, além, para as ilhotas rochosas com sua vegetação esparsa defronte do horizonte norte. O local não tinha nenhum dos esplendores de uma antiga sepultura ou uma cidade perdida, mas havia sido uma das maiores descobertas de todos os tempos, uma prova irrefutável de que aventureiros do Velho Mundo tinham visitado a América quinhentos anos antes de Cristóvão Colombo. Era a primeira colônia européia conhecida na América do Norte além da Groenlândia, o primeiro lugar onde haviam fundido ferro no Novo Mundo. E agora Jack sabia que eles estavam habilitados a abrir um capítulo inteiramente novo na história do local, um episódio que nem poderia ter sido sonhado antes da descoberta do Mappa Mundi. Quando terminou o café, sentiu a escuridão da noite ir embora e começou a tremer de excitação.

"É difícil acreditar que Iona fica a mais de duas mil milhas em direção ao leste." Jeremy apareceu com os cabelos desgrenhados através da porta de entrada da habitação e parou ao lado de Jack esfregando os olhos e segurando um café. "Mas aqui parece inalterado, não é? Este deve ter sido um terreno familiar para os vikings."

"Isto deve ser uma casa de turfa até para você", disse Jack com malícia no olhar.

"Minha mãe era canadense, da Nova Escócia", replicou Jeremy. "Visitar este local quando era criança foi o que me inspirou a estudar arqueologia nórdica. É espantoso como são poucas as pessoas que visitam este lugar, muito embora seja classificado como Patrimônio Mundial da UNESCO. Leia alguns livros de história e você ainda ficará pensando que o envolvimento com a América do Norte começou com John Cabot em 1497."

"Mas os vikings não ficavam no mesmo lugar por muito tempo." Costas havia escutado as palavras de Jeremy, enquanto juntava os sacos de dormir fora da habitação, e veio juntar-se a eles. "Eu achava que L'Anse aux Meadows fosse mais um posto avançado, um acampamento sazonal."

Jeremy aquiesceu. "Se nos restringirmos apenas à arqueologia, este local foi ocupado no máximo durante poucas estações, depois, talvez, visitado esporadicamente alguns anos mais tarde. As três habitações comunais podem ter acomodado acima de cem pessoas, então, talvez tenha havido uma tentativa de estabelecer uma colônia permanente. Havia mulheres aqui também, e animais domésticos. Mas isto não durou. Estamos falando de algo em torno do ano 1000 d.C., talvez um pouco mais tarde. A Islândia foi colonizada a partir da Noruega perto do final do século IX, a Groenlândia por Erik, o Ruivo, cerca de um século mais tarde, então, provavelmente, foi daí que os colonizadores vieram. O estilo de casa feita com torrões de turfa é típico da Islândia e da Groenlândia daquele período. Leif Ericsson era o filho de Erik, o Ruivo, como o nome indica."

"Eles provavelmente estavam testando os limites de seu mundo", refletiu Jack. "Os fenícios fizeram o mesmo. Os postos avançados mais distantes dos fenícios datam dos períodos mais iniciais de exploração e todos tinham vida curta. Mogador no oeste da África, Cornuália na Grã-Bretanha. Um potencial atraente de comércio, mas bastante distante e vulnerável demais para durar muito tempo. Parece que aqui a história se repete."

"Esse é um bom modelo", disse Jeremy passando a mão pelos cabelos. "As escavações feitas aqui nos anos 1970 revelaram muitas evidências de trabalho em madeira, para preparação de cepos e pranchas adequados para a construção de navios. É um pouco difícil de imaginar agora, mas havia densas florestas de árvores que perdiam as folhas no inverno e se erguiam eretas nos prados. Isto devia parecer uma mina de ouro para os islandeses e groenlandeses, que não tinham florestas próprias e precisavam importar madeiras grandes da Escandinávia. Eles reparavam seus navios aqui e podem até ter construído novas embarcações, mas a maior parte da madeira era provavelmente enviada para a Groenlândia e a Islândia."

"Estou perplexo", disse Costas. "Com toda aquela madeira, mais a grande pastagem e a pesca, por que eles não estabeleceram uma colônia permanente?"

"Scraelings", disse Jack.

"Quem?"

"O nome nórdico para as pessoas nativas, os índios", replicou Jeremy. "Significa patifes, e isso explica a atitude viking. Havia uma população bastante grande em Newfoundland naquela época, e suas canoas de guerra, arcos e flechas faziam que eles fossem mais do que um simples jogo para os vikings. A arqueologia não nos fornece muita informação, mas as sagas nos contam histórias hediondas. Quando Leif Ericsson chegou pela primeira vez, as relações com os nativos podem ter sido tensas desde o princípio. Logo ocorreram confrontações, choques violentos. O assassinato ocasional de um lado ou de outro pode ter se transformado em guerra total, com mais grupos distantes juntando-se aos nativos e os vikings sendo logo dominados pela pura força de um contingente maior de inimigos. Eles provavelmente tinham de centralizar toda a sua energia para proteger este local, para construir uma paliçada de madeira ao redor de suas habitações. Seria impossível cuidar de animais domésticos, ou mesmo caçar e pescar, e, com seu estado de saúde enfraquecido, a defesa teria sido mais importante. Eles seriam incapazes de derrubar as árvores e preparar a madeira para mandar de volta à pátria, que era o principal motivo pelo qual estavam aqui. As sagas nos contam que Thorvold, o irmão de Leif, foi morto por uma flecha, e isso pode ter sido o sinal para pôr fim à colônia."

"Isso se parece com a história dos colonos puritanos na América, em Jamestown", disse Jack. "Confinados por nativos hostis, torturados por doenças e fome."

"Há uma história ainda mais tenebrosa", Jeremy tirou uma brochura usada de seu bolso. "Estas são as Sagas de Vinland, passadas de boca em boca e finalmente escritas na Islândia no século XIII. Elas são difíceis de ser lidas como história, são algumas vezes contraditórias e confusas, mas a descoberta deste local prova que se baseiam em viagens reais. De acordo com as Sagas groenlandesas, um outro escrito de Erik, o Ruivo, sua irmã Freydis organizou uma expedição para Leifsbúõir, 'Casas de Leif', o nome que eles davam à colônia Vinland. Era formada por dois navios: um com cerca de trinta groenlandeses, o outro com mais ou menos o mesmo número de islandeses. Assim que desembarcaram, houve algum tipo de disputa, talvez envolvendo mulheres, alguma hostilidade profundamente enraizada, que levou Freydis e os groenlandeses a lutar com furor frenético e assassinar todos os islandeses com uma violência medonha. A própria Freydis assassinou as cinco mulheres islandesas, e provavelmente seus filhos também. Se isso realmente aconteceu, esse feito sombrio com certeza ocorreu à noite, dentro de uma dessas casas comunais."

"Hostilidade sangrenta", murmurou Jack lembrando de seu sono perturbado. "Espero que esta não seja a herança mais permanente dos vikings."

"Temos datas confiáveis para quaisquer desses acontecimentos?" perguntou Costas.

"As datas fornecidas por carbono 14 parecem corretas para a fundação da colônia, em torno de 1000 d.C., sendo que a outra expedição contada nas sagas ocorreu mais ou menos durante os quinze anos seguintes. A expedição de Freydis pode ter sido a última."

"Até Harald Hardraade."

"É isto que vamos descobrir aqui." Jack esfregou as mãos diante da expectativa, e olhou para o mapa compacto que Jeremy tinha colocado ao lado de sua maleta. "Chegou o momento de olharmos para aquele mapa de novo."

 

Vinte minutos mais tarde, eles estavam parados na praia, a poucas centenas de metros do sítio arqueológico. Atrás deles ficava a suave ondulação dos prados que cercavam a colônia viking, e de cada lado a costa fazia curvas ao redor dos campos baixos invadidos pela maré da baía. Ao lado deles, dois tripulantes da Guarda Costeira Canadense estavam preparando uma leve embarcação inflável Zodiac que haviam trazido do helicóptero. Jack protegeu os olhos e fitou o mar. A luz era transparente, com a claridade que eles tinham visto no fiorde gelado, e a brisa trazia consigo um resquício de ar frio que emanava do gelo, ao norte, mesmo em junho. Por um instante, Jack se pegou pensando no iceberg, distante no fiorde, perguntando-se se ele havia finalmente derretido em algum lugar perto dessas costas e colocado Halfdan para descansar na trilha de seus companheiros. Afastou o pensamento e o focalizou sobre a massa rochosa baixa que era visível a alguns quilômetros da praia.

"A Grande Ilha Sagrada", ele murmurou. "Por causa dela viemos para cá."

"Não há dúvida sobre a identificação." Jeremy estava segurando uma cópia do croqui feito por Richard de Holdingham e comparando-o com a fotocópia do mapa do almirantado local. "Pelo que Maria me ensinou, Richard era um estudioso esmerado e teria transcrito o mapa tão precisamente quanto podia, copiando-o, provavelmente, de um croqui original que de alguma forma chegou até ele vindo da Groenlândia." Subitamente deixou o croqui de lado e correu até uma elevação próxima, onde uma nuvem de vapor subia de um pequeno fogão de acampamento.

"Então, o que exatamente estamos procurando?", perguntou Costas. "Cerâmica, moedas, a estranha acha enferrujada?"

Jack sorriu para o amigo. "Nada disso. Oito anos de escavações em L'Anse aux Meadows nos anos 1960 deram como resultado exatamente quatro artefatos nórdicos. Um pino de bronze, uma lâmpada a óleo de pedra, uma rosca em espiral e um fragmento de metal dourado. E isto em uma comunidade que deveria ter cerca de cem pessoas e ficou aqui durante vários anos. Os nórdicos pegavam o que deixavam cair e não jogavam nada fora. Se Harald Hardraade decidiu deixar algo, podemos encontrá-lo. Senão, certamente não acharemos nada."

Jeremy veio andando com cuidado pela grama carregando duas tigelas de madeira e colheres e as deu para Jack e Costas. "Eu mesmo as esculpi quando era criança", disse orgulhosamente. "São cópias exatas de tigelas nórdicas da Groenlândia. E o que há dentro delas também é autêntico."

Costas examinou com suspeita a massa grossa em sua tigela e a remexeu com a colher. "Parece bem velha", ele disse. "E cheira a resina de usina. Isto é comida?"

"É minha própria receita." Jeremy fingiu ignorá-lo. "Baseada na análise dos locais de lixo dos nórdicos. Farinha grossa de cevada, amendoim e casca de pinheiro. Uma espécie de mingau. É muito bom, na verdade."

"Onde está o seu?"

"Não dá para esperar. Comam já."

"Muito bem." Costas cheirou sua colher e deu uma lambida para experimentar. "Deus todo-poderoso. Uma gororoba, é tudo o que se pode dizer."

"Isso é tudo que vão conseguir. A experiência viking completa. A comida moderna não é permitida em L'Anse aux Meadows."

Costas resmungou, e Jeremy voltou-se para Jack, que havia rapidamente terminado o que tinha na tigela e estava de novo olhando para o mapa.

"Este era o lugar sem volta", disse Jack. "Se de fato vieram até este lugar distante, nenhum dos homens de Harald voltou vivo para casa. Tinham uma passagem só de ida para o fim do mundo."

"E os seus guias?" perguntou Costas de boca cheia, lançando um olhar maldoso sobre Jeremy.

"Duvido que algum dos groenlandeses tenha acompanhado Harald até aqui", replicou Jack. "Sem uma embarcação de sobra, depois do sepultamento de Halfdan, eles não teriam como retornar, e mesmo em Ilulissat precisariam esperar para ser resgatados pelos caçadores nórdicos e pescadores que iam até Norõrseta no verão."

"Ajudem-me a lembrar", disse Costas. "Nós estamos aqui por causa do mapa e da descrição de Vinland fazendo referência a Harald Hardraade no Mappa Mundi. Como a informação de que Harald esteve aqui voltou para a Inglaterra, para os félag e Richard de Holdingham tantos anos mais tarde?"

"Pelo que O'Connor estava nos contando, aquele bispo que veio para a Groenlândia no início do século XII, e que era membro do félag, deu um jeito de persuadir os nórdicos locais a relatar a expedição de Harald. Os guias que voltaram do fiorde gelado para a colônia ocidental na Groenlândia devem ter contado sobre a partida de Harald para Vinland, e a historia provavelmente passou de geração a geração. Se a historia da Islândia é algo a ser contado, os groenlandeses devem ter uma rica tradição de sagas, algumas delas transmitidas de maneira secreta. Nenhuma das sagas sobreviveu ao misterioso desaparecimento dos groenlandeses poucos séculos mais tarde."

"E aquela cruz no mapa, o xis que marca o local?", quis saber Costas. "Se aquele sinal realmente marca algo ali, como os groenlandeses ficaram sabendo?"

"É fácil", disse Jeremy. "Os nórdicos deixavam marcas nos caminhos, indicações para a navegação. Elas eram essenciais para retraçar as viagens em uma área tão grande e tão pouco explorada. Alguns dos montes de pedras ao redor da baía de Baffin, atribuídos aos inuit, podem de fato ter sido erguidos pelos nórdicos. As Sagas groenlandesas até nos contam como Thorvold, aquele que foi morto pelos índios, ergueu uma quilha de navio como um marco, em um promontório, em algum lugar na direção nordeste daqui. Ele se tornou conhecido como Kjalarnes, o cabo da Quilha."

"Então você está sugerindo que a Grande Ilha Sagrada era um marco conhecido."

"Acho que ela era mais do que isto", disse Jack. "Porque o fato de a ilha estar destacada de maneira tão precisa no mapa sugere algo mais, algo estreitamente associado com o progresso de Harald. Isto é apenas uma suposição, mas eu imagino que Harald prometeu aos guias groenlandeses, antes de deixar Ilulissat, que deixaria algum marco assinalando seu progresso. Um lugar óbvio para os groenlandeses sugerirem era o seu próprio marco de navegação para Leifsbúôir, na Grande Ilha Sagrada, um local que Harald poderia facilmente encontrar. Os groenlandeses podem nunca se ter aventurado até aqui para descobrir se ele o havia feito mesmo, mas a memória da promessa de Harald sobrevivia."

"Vamos ver se o marco está esperando por nós, então." Costas deu para Jeremy a tigela vazia, depois fez um gesto em direção à mochila. "Você tem um pouco de licor de mel ou cerveja para fazer essa coisa descer?"

"Receio que você esteja sem sorte. Mas o que consegui é também autêntico. É uma espécie de iogurte líquido fermentado, feito de leite de vaca e que eles deixam em tonel aberto durante algumas semanas. É melhor quando servido quente. Se você me der um minuto com o fogão..." Costas já estava a meio caminho da praia, deixando para trás o seu pedido e erguendo as mãos defensivamente. Jack sorriu para Jeremy e moveu a cabeça em direção ao Zodiac. "Acho que o café-da-manhã terminou." Alguns momentos mais tarde, eles estavam fechando os zíperes de seus trajes de sobrevivência e vestindo os coletes salva-vidas que lhes haviam sido entregues por Costas para a viagem. Ajudaram a empurrar o barco até um ponto e depois pularam para dentro, sentando-se nos pontões enquanto um dos tripulantes acionava a manivela na parte externa do barco. Enquanto se movimentavam vagarosamente através da baía, eles se voltaram e observaram a linha da costa afastando-se.

"A maré está alta", Jeremy gritou acima do barulho do motor. "Quando ela está baixando, toda esta baía se torna terra seca. Os vikings pegavam salmão colocando armadilhas na maré baixa, depois voltavam na maré alta seguinte. Os homens de Harald não tiveram problemas para estocar alimento."

O tripulante acelerou quando deixaram a baía, e eles saíram do lugar raso e transparente para o resplendor verde-escuro do mar aberto. A sua frente, a ilha ficou subitamente iluminada por um feixe brilhante de luz do sol que saía de uma abertura entre as nuvens que começavam a encher o céu.

"Um fragmento de Mjollnir" disse Jeremy.

“O que?”

"Os nórdicos acreditavam que raios e feixes de luz eram fragmentos arremessados de Mjollnir. O martelo de Thor", gritou Jeremy. "É em geral um bom presságio."

"Não conte mais nenhum agouro nórdico", replicou Costas. "Estou começando a sonhar com cachorros-lobos e águias de sangue."

"Não se preocupe." Jack sorriu para Costas através dos borrifos. "Você vai superar isto. E logo terá os pés de novo apoiados firmemente sobre o solo."

 

Vinte minutos mais tarde, eles estavam parados no lado protegido contra o vento na Grande Ilha Sagrada, no pico mais ao norte de Newfoundland, despindo os trajes de sobrevivência que deixaram com o tripulante ao lado do Zodiac. A ilha adiante deles tinha cerca de um quilômetro de comprimento e meio de largura, e era formada de afloramentos rochosos intercalados com áreas de lamaçal e prados. Em vários pontos ela se erguia em cumes baixos que Jack estava inspecionando com um binóculo leve.

"Meu esporte favorito", Costas suspirou alegremente, e deu um chute com suas botas de marcha. "Uma caça ao tesouro."

"Não há equipamentos sofisticados desta vez." Jack abaixou os óculos e olhou para Costas enquanto amarrava as botas. "O terreno é inútil para um estudo de geofísica, e aquilo que estamos procurando provavelmente não vai se mostrar. De todo jeito é a única maneira pela qual sempre encontrei um tesouro."

"Então, o que estamos procurando?"

"Algo no ponto mais alto, ou um ponto proeminente do lado do mar. Mas a sua sugestão é melhor que a minha. Um monte de pedras erigido como um marco, ou camadas de pedras dispostas no chão de maneira muito regular e que podem ser de uma pilha que se desmanchou. Mas, se for um marco de madeira como aquela quilha descrita na saga, então provavelmente estamos sem sorte."

Os três se espalharam por uma área de cerca de vinte metros e começaram a subir para o centro da ilha, Jack no meio dos dois. O terreno não era difícil de atravessar, mas tratava-se de uma mistura desagradável de rochas e de terra encharcada que os fez lembrar sua caminhada através de lona poucos dias antes. Depois de escalar a primeira pequena elevação, Costas parou subitamente e olhou para o chão. Jack percebeu seu movimento e correu até ele. "Conseguiu algo?"

"É sobre os vikings de Harald."

"Continue." Jack relaxou e olhou cheio de expectativa para Costas.

"Nenhuma mulher. Quero dizer, além da dama de Harald, e ela obviamente era proibida aos outros".

"Maria disse isso. Mas lembre que eles não estavam planejando estabelecer uma colônia. De acordo com seus propósitos, estavam indo de uma batalha para outra, para sua derradeira prova final. Se encontrassem algo no caminho, ótimo, se não, eles tinham um objetivo maior. Além do mais, dificilmente estariam em boas condições físicas e mentais."

"Você está preocupado com ela?" perguntou Costas. "Maria, quero dizer?"

Jack ficou em silêncio por um instante, depois replicou. "Ela sabe cuidar de si. É O'Connor que está na linha de fogo."

Duas horas mais tarde, eles tinham percorrido a ilha toda e não haviam encontrado nada. Jack perdera de vista os outros dois e encontrou-se vagando ao longo da costa rochosa no lado oeste da ilha. Começava a sentir-se deslocado, e a lembrança de seus sonhos perturbados da noite anterior estava passando por sua mente. Pela primeira vez ele se perguntou seriamente se tinham chegado ao final de sua trilha. Para os arqueólogos que haviam seguido os vikings antes, este local desolado açoitado pelos ventos fora um cenário de triunfo, de euforia, que fazia até os minúsculos fragmentos de resíduos nórdicos em L'Anse aux Mcadows parecerem tão excitantes como o tesouro do rei Tutankhamon. No entanto, a trilha havia terminado. Nada conclusivo fora encontrado mais para o oeste ou para o sul, nenhuma evidência de exploração ou de colônia viking.

Jack agachou-se na praia, encontrou um seixo achatado e atirou-o longe para dentro do mar, observando os respingos até desaparecerem. Talvez este fosse realmente o fim do mundo nórdico, o marco de delimitação da vida após a morte. Quem sabe fora aqui que encontraram sua batalha mística no fim dos tempos, seu Ragnarok. Desde Iona, Jack sentira uma extraordinária afinidade com Harald Hardraade, como se este fosse seu companheiro espiritual, presente do outro lado da linha divisória. Maria lhe contara que os nórdicos acreditavam que aqueles que sentiam sede de correr o mundo seguiam os atalhos deixados por seus ancestrais, por seus companheiros espirituais, e Jack começava a experimentar a sensação de estar sendo arrastado por esta outra presença. Agora, subitamente, sentia-se abandonado na ilha deserta, girando em um nevoeiro de incerteza, sem nenhuma pista para seguir de imediato.

Talvez isto fosse exatamente o que o próprio Harald sentira neste ponto. Jack pensou de novo no mapa, no navio dentro do gelo, na grande acha de Halfdan. Não era tudo fantasia. Isto realmente acontecera. Devia haver algo mais ali. Ele pressionou a mão contra a rocha sólida da ilha, desejando desistir de seus segredos. Lembrou de novo da acha. "A sorte-de-batalha", sussurrou para si mesmo. Depois se levantou e andou a passos largos resolutamente de volta para os cumes baixos da ilha, percebendo os outros dois juntos em uma placa de rocha que descia em direção à praia leste. Jack os alcançou em poucos minutos, depois lhes passou sua garrafa de água antes de ele mesmo tomar um gole. "Temos uma hora antes que comece a maré cheia e devemos ir embora. Alguma sugestão?"

"Acabei de dizer para Costas", disse Jeremy. "Há algo me incomodando. Algo a respeito daquele mapa." O jovem tirou o mapa de Richard de Holdingham e colocou-o sobre a rocha, depois se sentou e ficou olhando para ele com as mãos entrelaçadas acima da cabeça. Subitamente deu um pulo. "Tenho sido um estúpido", exclamou. "O que eu disse sobre Richard, como ele era meticuloso. Olhe atentamente para este croqui. Não é uma cruz, um xis. Isto é o símbolo do martelo de Thor, a haste com os dois braços formando uma ponta no topo."

"Legal", disse Costas com o rosto inexpressivo. "Mas no que isso nos ajuda?"

"Vamos supor que eles encontraram uma rocha com aquela forma, e colocaram seu monte de pedras ali. Talvez não fosse o melhor local para um sinal de advertência, mas isto é exatamente o que um nórdico teria feito. Seria uma afronta para Thor ignorá-lo."

"Acabo de encontrá-lo", exclamou Costas de repente. "Dêem uma olhada ao redor de seus pés."

Os três olharam para baixo e perceberam que a placa sobre a qual estavam em pé possuía uma regularidade peculiar em sua forma. Eles não a teriam notado sem algum tipo de sugestão, mas quando andaram ao redor dela puderam ver em um dos ângulos uma clara semelhança com o símbolo do martelo de Thor.

"Muito bem", disse Jeremy, excitado. "O que temos depois dessa marcação são provavelmente runas. Olhem debaixo de quaisquer saliências que puderem encontrar, em qualquer lugar abrigado."

Ele pulou para um dos lados da placa e começou a trabalhar ao longo da extremidade, examinando a superfície gasta do granito com muito cuidado. Depois de apenas alguns segundos, inclinou-se debaixo de uma saliência e ouviu-se um grito abafado de alegria. Jack pulou para perto dele, e Jeremy pegou sua mão e pressionou-a contra o lado inferior da placa. "Você pode senti-la?"

Jack movimentou as mãos sobre a rocha bruta e úmida e começou a sentir depressões lineares interligadas, como linhas escavadas. "Sim!"

"Você tem uma lanterna?"

Costas chegou até onde eles estavam e pôs uma mini-lanterna Maglite nas mãos de Jeremy. Ele se agachou debaixo da saliência e iluminou a rocha. "Duas runas", ele disse. "Uma é a terceira runa do futhark o som TH. Com apenas duas runas aqui, sugiro que não estamos olhando para as letras de uma palavra, e sim para o significado simbólico da runa, que neste caso é águia."

"Águia", disse Jack, excitado. "Será que isso significa o navio de Harald?"

"A segunda se liga a ela", disse Jeremy. "É melhor você dar uma olhada." Ele se ergueu e passou a lanterna para Jack, que se agachou e tomou o lugar de Jeremy debaixo da rocha. Jack iluminou direto para cima e viu os sete braços, símbolo da menorá. Fitou a rocha como se estivesse paralisado, quase sem respirar. Mal podia acreditar no que via. O próprio Harald Hardraade devia ter estado nesse mesmo lugar, olhando para as marcas que seus homens haviam feito, talvez a última pessoa que as tinha visto até agora. A rocha escavada com as antigas inscrições rúnicas parecia-se com a superfície das pedras esculpidas que Jack vira dois dias antes em lona, embora ele tivesse visto o símbolo da menorá esculpido em pedra apenas no Arco de Tito, em Roma. A imagem que olhava agora parecia desafiar todos os parâmetros convencionais da história. Era incrível. Ele tinha que piscar com força para lembrar-se de que estava a milhares de milhas longe de lona e de Roma, do outro lado do Atlântico.

Quando Jack saiu de debaixo da rocha, mostrava um amplo sorriso, e bateu nas costas de Jeremy enquanto lhe apertava a mão. "Isto está indo muito bem", ele disse. "Muito bem mesmo. Congratulações, Jeremy."

"O que as runas significam?", perguntou Costas.

"O Águia, o navio de Harald, mais o símbolo de seu tesouro", replicou Jack.

"Harald esteve aqui."

"Algo assim."

"Então isso realmente aconteceu." Jeremy deixou-se cair na grama ao lado da rocha, exultante, mas esgotado. "Isto reescreve completamente os livros de história. Vinland não era apenas um obscuro posto avançado, mas um lugar visitado pelo maior dos reis da era viking."

"E ele foi além", murmurou Jack.

"O que aconteceu aqui?" indagou Costas observando atentamente, de mau humor, a praia baixa que estava começando a ficar enlameada com a chuva. "Quero dizer, se este lugar esquecido por Deus era um verdadeiro paraíso para os nórdicos, por que Harald não ficou aqui?"

"Os nórdicos acreditavam piamente no mundo dos espíritos" disse Jeremy. "A barreira entre o mundo deles e o mundo dos espíritos era porosa, facilmente violada. O deus-lobo, o deus-águia, o malvado deus Loki, qualquer um deles podia aparecer no mundo real com vários disfarces visíveis apenas para aqueles com seid, uma espécie de segunda visão. Os espíritos da morte podiam assombrar um local. Talvez Harald e seus homens tenham sentido uma presença maligna quando chegaram aqui."

"Não é preciso ter uma segunda visão", disse Costas. "Mesmo depois de meio século ainda devia haver todos os esqueletos, sobretudo se eles ficaram presos dentro das habitações comunais."

"Os homens de Harald provavelmente se sentiram compelidos a reunir os ossos e cremá-los, e depois queimar e enterrar tudo que pudessem", disse Jeremy. "E estas runas possivelmente têm um significado duplo, uma magia protetora para manter os espíritos deste lugar na baía, e defender Harald e seus homens do que havia adiante. Elas eram um feitiço rúnico, uma galdrastafir" Ele se levantou e procurou debaixo da saliência passando os dedos sobre as linhas escavadas na rocha. "Uma runa pode ser o bico da águia, uma outra o dente de um lobo, uma terceira o martelo de Thor."

"E uma pode ser a menorá", acrescentou Jack baixinho.

"Quanto mais a vejo, mais acredito que a menorá se tornou a própria runa de Harald, não apenas um símbolo de sua proeza e realização, mas também uma espécie de talismã, algo relacionado com o seu próprio destino."

"Sua sobrevivência em Stamford Bridge poderia se parecer um pouco com um pequeno milagre", disse Jack, "Como um guerreiro viking, Harald teria esperado por uma morte gloriosa em batalha, mas o fato de ter sido poupado pode ter sugerido que uma batalha maior ainda o esperava. Em seu estado semi-demente, é possível que ele e seus homens já tivessem cruzado o limite para dentro do mundo dos espíritos, mas acreditassem estar vendo presságios de seus próprios destinos na prova final de Ragnarok."

"Lembrem o que disse o padre O'Connor", replicou Jeremy. "Os nórdicos acreditavam em predestinação, no fato de que o destino se fixa no nascimento. Talvez Harald sentisse que o seu ainda estava por vir, e estava sendo dirigido para diante, para morrer uma morte condizente com a imagem suprema do herói nórdico."

"Muito bem, rapazes, vocês me deixaram desorientado", disse Costas. "Tudo o que quero saber é para onde vamos daqui."

Jack aquiesceu e pareceu sério. "Bem, uma coisa que eles tinham condições de fazer aqui era se reabastecer com água e comida e realizar algum reparo necessário no navio. Uma das primeiras coisas que os arqueólogos encontraram nos anos 1960 foi uma oficina de ferreiro, onde o ferro local era derretido e transformado em rebites. E algumas daquelas lascas de madeira encontradas perto da praia podem ter sido deixadas pelos homens de Harald, quando faziam substituições de pranchas do casco."

"E então para onde ir? Leste ou sul?"

"Ir para o oeste pelo estuário do São Lourenço significaria percorrer uma grande distância contra o fluxo do rio", disse Jeremy. "E ir mais adiante naquela direção os deixaria aterrorizados ao alcançar a extremidade do mundo e mergulhar dentro de Ginnungagap, o grande abismo."

"Não seria exatamente o glorioso fim que eles tinham em mente", disse Costas. "Então estamos falando em ir para o sul?"

Jack concordou, depois voltou-se e agachou-se de costas para a rocha enquanto tirava um computador de mão de sua mochila. Ele olhou para Jeremy. "É a minha vez de me desculpar por esconder algo. Eu já estou um passo à frente." Levantou a tela e ativou o computador, e Costas e Jeremy agacharam-se ao seu lado. Depois de alguns segundos, a imagem isométrica de um drakar apareceu na tela.

"Lanowski me mandou este e-mail ontem, tarde da noite, depois que vocês dois estavam dormindo", disse Jack. "É uma imagem em 3-D do nosso navio viking dentro do gelo, baseada em dados fotogramétricos que conseguimos dentro do iceberg. Supondo que o Lobo e o Águia fossem embarcações irmãs, isto nos dá uma boa idéia da aparência do drakar que trouxe Harald e seus homens para Vinland."

Jack movimentou a imagem para lhes proporcionar vistas isométricas diferentes, e deu alguns doses para revelar detalhes. Viram um navio bem-proporcionado com um único mastro de vela quadrada, com viga mestra mais ampla do que na maioria dos navios, a proa e a popa erguendo-se simetricamente. Eles podiam observar que cada carreira de tábuas do casco havia sido feita de várias pranchas, a extremidade inferior de cada uma sobrepondo-se ao exterior da que estava abaixo e presa a ela por rebites e pregos bem colocados. A quilha era funda, com as pranchas inferiores em ângulos abruptos, dando à embarcação boa resistência contra as correntes laterais. Abaixo das amuradas havia remos igualmente espaçados, e na popa um remo de pilotagem em um bojo projetado, exatamente como Costas e Jack tinham visto no navio dentro do gelo. Lanowski tinha omitido a escultura soberba que havia adornado cada haste da proa, mas desfraldada na popa havia uma bandeira branca que, sob um exame atento, revelava o logotipo da IMU e uma imagem araneiforme de um candelabro com sete braços.

"Meu Deus", murmurou Costas. "O sujeito teve senso de humor, afinal de contas."

"Depois de passar o inverno no fiorde gelado, eles devem ter tido de reparar seu navio para a viagem ao sul", disse Jack. "Lembrem que o navio era uma embarcação respeitável pelos padrões vikings, o mesmo navio que Harald usara para escapar do Chifre de Ouro vinte e cinco anos antes. Eles possivelmente tiveram o seu trabalho de reparo interrompido ao irem para o alternar outra vez depois de sobreviver à viagem desde lona, e depois ao ficarem presos no gelo durante todo o inverno."

"De qual estação do ano estamos falando?"

"Os paleoclimatologistas da equipe de Macleod ficaram bem excitados com os núcleos de gelo que trouxeram do iceberg onde o navio estava preso. Ao que parece, o inverno de 1066 a 1067 na Groenlândia foi particularmente duro, prognosticando a Pequena Idade do Gelo do período medieval. Deve ter sido em maio ou mesmo no início de junho, antes que o estreito de Davis ficasse livre do gelo flutuante."

"Uma vez que decidiram fixar-se em um navio, o Águia, eles podiam usar as pranchas do outro navio para fazer reparos", disse Costas.

"Foi exatamente o que Lanowski encontrou quando estudou as fotos", disse Jack. "Vigas mestras e até uma parte da quilha foram removidas da área da proa."

"E o material de calafetagem?"

"Eles só podiam sobreviver no inverno caçando e pescando no gelo", disse Jack. "Estou convencido de que havia groenlandeses nórdicos com eles, homens que eles tinham levado a bordo da colônia ocidental da Groenlândia para servir de guias. Eles mostrariam aos homens de Harald como cobrir as madeiras com gordura de baleia, de modo a lacrá-las e protegê-las de moluscos que furam os cascos, e fazer cordas com os bigodes e as peles de morsa."

"E eles devem ter-lhes dito que não havia esperança em navegar para o norte", sugeriu Costas.

"Em teoria, os vikings poderiam ter navegado pela passagem norte-oeste através do Ártico para o estreito de Bering, mas não há evidências de que tenham ido para o oeste, para a baía de Baffin", replicou Jeremy. "Há uma pequena quantidade de artefatos nórdicos em sítios inuit, ao norte, até a ilha Ellesmere, na extremidade da calota polar, mas eles foram recolhidos por caçadores inuit de naufrágios ou de colônias nórdicas abandonadas na Groenlândia. Isso se parece com as evidências colhidas pela condenada expedição de Franklin para encontrar a passagem norte-oeste em 1845, uma dispersão torturante de achados absorvidos por uma outra cultura."

"É uma espécie de assombração", murmurou Costas. "Por toda parte onde passamos, é como se estivéssemos na trilha dos vikings, no entanto, é como se eles não tivessem estado bem aqui. Acho que estou começando a acreditar naquele mundo dos espíritos."

Jack virou de novo a cabeça para a linha da costa atrás deles e a localização de L'Anse aux Meadows. Em sua imaginação ele via o navio viking, com a vela enrolada, içada e impressionante na maré baixa do estuário. "Você pode ter certeza de que estiveram aqui. E lembre-se do nosso drakar dentro do gelo."

"Então concordamos que eles alcançaram este lugar em, digamos, fim de julho de 1067?", perguntou Jeremy.

"Uma vez que o gelo flutuante se foi e o clima se estabilizou, seria uma passagem relativamente fácil através do estreito de Davis, vindo de Ilulissat, e pela costa da ilha Baffin e Labrador até este local, seguindo a rota indicada pelos groenlandeses", disse Jack. "Fora dessa rota é uma passagem em meio a icebergs, mas eles poderiam ter reunido remadores bem preparados para abrir um caminho que os manteria longe da área de perigo. É provável que tenham tido um vento estável e favorável durante todo o caminho, na popa ou no quadrante. Mesmo em mares turbulentos, uma embarcação como essa seria capaz de superar tempestades; ela era bastante flexível para curvar-se com as ondulações do mar, e tinha um bordo livre bastante alto para impedir que o casco afundasse sob o peso do gelo. E os nórdicos eram navegadores extremamente hábeis. Eles tinham uma espécie de pedra do sol, um feldspato refrativo que captava a luz polarizada em tempo nublado e lhes indicava onde estava o sol, mas na maior parte do tempo navegavam com base em seus sentidos, por causa de um conhecimento íntimo do mar e das estrelas. Se Harald fosse alguma vez apanhado por um desses perenes nevoeiros desta costa, ele se manteria em curso pelo cheiro da terra, a lufada de vento com o perfume das florestas de pinheiros."

"E você realmente pensa que Vinland era sua terra prometida?" insistiu Costas, olhando com ar de dúvida para a praia. "Isto parece desolado e medonho para mim."

"Não é assim que deve ter parecido para os primeiros vikings que vieram até aqui. Neste lugar há todos os ingredientes para uma vida boa." Jack fez uma pausa, e olhou pensativo para o continente. "Mas na época de Harald havia trevas pairando sobre o continente, uma mortalha lançada pelos crimes cometidos por Freydis. Os groenlandeses deviam conhecer esses crimes e podem até ter advertido Harald para se manter afastado. Meio século depois dos eventos descritos nas sagas, Vinland pode ter adquirido uma reputação sinistra, um lugar para onde as pessoas iam, mas de onde raramente retornavam. Os nórdicos eram os aventureiros mais valentes da região, contudo formavam um grupo bem supersticioso, e para eles este local era maligno, amaldiçoado. Eles não teriam desejado ficar aqui."

"E aqui havia os scraelings?

Jack concordou. "A essa altura, os homens de Harald possivelmente se limitavam a um total de trinta, talvez apenas a metade disso, bem abaixo do número de pessoas que o navio comportava. Devem ter ficado sabendo dos scraelings pelos groenlandeses nórdicos. Provocar qualquer tipo de confrontação teria sido suicídio. Com certeza eles entraram de maneira despercebida na baía, sem serem impedidos, pegaram a madeira e o ferro de que precisavam, tiraram resina de pinheiro para calafetar, mataram alguns veados para fazer vestimentas e para comer, apanharam toda a quantidade de peixes e carne e frutas silvestres que podiam carregar. O seu último ato deve ter sido queimar e aplainar o lugar que ocuparam e depois parar na ilha para deixar sua marca, antes de seguir para Leifsbúõir, indo embora para sempre."

"E então se dirigiram para o sul", disse Costas.

"Pela costa de Newfoundland, através da Nova Escócia, talvez ao longo da costa oriental dos Estados Unidos", disse Jack. "Você se lembra do programa de simulação que Mustafá fez para ilustrar o êxodo do mar Negro, o progresso diário dos refugiados da Atlântida? Eu pedi a Lanowski que o usasse para ilustrar o progresso de um navio viking ao longo dessa rota, incluindo tudo o que sabemos sobre o drakar, a estação provável e as condições do tempo no século XI. O nosso novo capitão canadense do Seaquest II conhece essas águas como a palma de sua mão e pôde acrescentar sua valiosa experiência. Os vikings eram como os antigos marinheiros mediterrâneos. Eles mediam seu progresso em corridas diárias, doegr. Com a preponderância de correntes e ventos atrás deles, eles teriam feito um rápido progresso para o sul. Num prazo de três semanas poderiam ter rodeado a faixa de terra da Flórida e alcançado o Caribe."

"O Caribe?" Costas assobiou. "Incrível."

"É apenas uma conjetura", disse Jack. "Para onde quer que tenham ido, eles devem ter desembarcado em terra para se reabastecer com água e alimento, talvez uma semana ou dez dias depois que deixaram este lugar. Vamos supor que, assim que desembarcaram, encontraram nativos outra vez, e não se sentiram encorajados a tentar permanecer mais tempo. Então, depois de outra semana ou dez dias, eles estavam em um lugar oposto a este, a Geórgia e a Flórida. A linha da costa deve ter parecido crescentemente inóspita, um terreno não familiar de vegetação tropical e arbustos densos. Mas o retorno não seria fácil contra as correntes e os ventos, apesar da total confiança em sua vela, e muito poucos estavam aptos a manejar os remos para manter um ritmo de avanço. Com desespero crescente, podem ter continuado para o sul. Isto é pura especulação, é claro, mas eles podem mesmo ter navegado através de Florida Keys, indo até o Caribe. Se isso aconteceu, é possível que os ventos predominantes os tenham levado para a direção sul-oeste, e mesmo para um local tão distante como a América Central."

"Considerando a saída de Constantinopla, esse é um caminho danado de comprido."

Jack de repente lembrou seus preciosos dias com Katya em Istambul, seis meses antes, os dois absorvidos no passado labiríntico da cidade, suas discussões sobre como as aléias remotas da história podiam conduzir às mais extraordinárias aventuras de descoberta. Por um instante, ele sentiu uma pontada de arrependimento, mas depois foi dominado por uma onda de excitação. "Um caminho bem longo, de fato", disse ele. "Mas olhe onde estamos agora, como estamos longe da pátria deles. A presença viking aqui em L’Anse aux Meadows está totalmente documentada, corroborada pela arqueologia. Tudo é possível."

"Meio enlouquecidos por causa da sede e do cansaço, alguns deles ainda estropiados por seus ferimentos em Stamford Bridge", murmurou Jeremy. "Esta é uma imagem incrível. Eles devem ter ficado aterrorizados, mas estimulados, temerosos de a qualquer momento chegar inesperadamente ao fim do mundo, mas aproximando-se a cada dia de Ragnarok, da prova final onde se juntariam à corajosa batalha de Odin e Thor pela última vez, com suas grandes achas-de-armas. Para nós o trópico parece benigno, mas para os vikings ele deve ter sido uma visão do inferno, um aglomerado de aura vermelha que parecia arrastá-los para mais perto de seu destino."

Costas levantou-se e olhou para o nordeste, através do estreito em direção à praia de Labrador e o mar aberto do Atlântico. As nuvens estavam se formando e a névoa marinha começava a esconder a costa. De repente, ele apontou para uma forma branca no horizonte que aparecia e desaparecia na cerração. "É o Seaquest II", gritou ele, excitado. "E o Lynx está a caminho."

Jack olhou para o mar. Ele arriscara um pouco sua reputação ao persuadir Macleod a parar com o projeto do fiorde gelado e navegar para o sul para encontrá-los, esperando que eles fossem para algum lugar mais distante depois de L'Anse aux Meadows. Normalmente, Jack nunca exercia alguma autoridade sobre seus colegas dos demais departamentos da IMU, e felizmente Macleod havia desenvolvido um forte interesse pela arqueologia depois de ter trazido Jack primeiro para Ilulissat. Mas as condições para pegar núcleos de gelo se tornaram rapidamente insustentáveis à medida que o verão progredia, e tinham surgido sérios rumores de desagrado entre os cientistas convidados. Jack pressionou os lábios e durante os momentos seguintes ficou observando enquanto a mancha escura do helicóptero se tornava reconhecível e o estrondo do seu rotor enchia a baía. O aparelho ficou ociosamente suspenso, e depois desceu sobre os apoios na parte rasa perto do Zodiac. Depois que a turbina parou, eles observaram as figuras de Ben e Andy, protegidos com capacetes, emergirem e caminharem para cumprimentar os dois guardas costeiros canadenses.

"Para onde vamos daqui?", perguntou Costas. "Parece que a trilha está bem ampla."

"Precisamos de algo mais", disse Jack, com a testa franzida. "Eu esperava que houvesse algo mais, algum pequeno indício. Mas de qualquer forma não há nada para se seguir adiante. Isso significa que posso voltar para onde está o padre O'Connor e dar-lhe o sinal para soltar sua história para a imprensa e a Interpol. Ele e Maria, por ora, devem ter acabado de compilar o dossiê sobre os félag, e não obtivemos o suficiente aqui para justificar retardar a nossa volta. Enquanto a descoberta da menorá parecia provável, a preocupação dominante de O'Connor era que chegássemos antes ao local para impedir que ela caísse em mãos erradas. Agora devemos nos concentrar completamente em deter aquele personagem Loki. A vida de O'Connor pode depender disso."

"Eu não quero estar presente quando você tiver de dizer a Macleod para dar meia-volta e retornar para o fiorde gelado." Costas agachou-se para ajustar as botas e inclinou-se contra a beirada coberta de grama debaixo da placa de rocha. Subitamente ouviram um som de queda e um fluxo de imprecações em grego. Onde Costas havia estado, tudo que eles puderam ver eram suas botas que emergiam de um montículo de grama.

"Você está bem?", Jack deu a volta e examinou ansiosamente o buraco escuro que havia se formado debaixo da rocha. Ele e Jeremy começaram freneticamente a retirar os torrões de terra e as pedras que haviam prendido as pernas de Costas.

"Apenas o costumeiro orgulho ferido." A voz estava abafada e foi seguida por um silêncio. "Mas nós encontramos um novo amigo."

Quando a parte superior do corpo de Costas apareceu, eles se depararam com uma visão assombrosa. Na pequena cavidade, na frente de seu rosto, havia um esqueleto humano agachado. Recobrindo os ossos viam-se os restos esfarrapados de uma roupa de pele de animal, e o crânio ainda mostrava tufos de longos cabelos brancos.

Jeremy inclinou-se para a frente, ainda agachado, para um olhar mais cuidadoso. "Minha paleopatologia está um pouco enferrujada, mas eu diria que é um homem, talvez no fim da meia-idade."

"Scraeling?” perguntou Costas.

Jeremy sacudiu a cabeça. "A fisionomia é européia. E este sujeito é alto, bem mais de um metro e oitenta. Ele pode ser um dos primeiros exploradores ingleses ou franceses, mas eu diria que esses ossos são mais velhos ainda, realmente velhos. Acho que encontramos um nórdico."

Jack fechou os olhos e oscilou ligeiramente. Bem que poderia ser. Jack rezou para que sua sorte se mantivesse.

"Aquelas são feridas feitas nos ossos", disse Costas.

"Eu vi algumas como essas antes, em sepultamentos de guerreiros vikings, na Inglaterra", disse Jeremy. "Ferimentos de batalha causados por achas e espadas. Não são do tipo das que ocorrem num confronto com os scraelings, que não têm armas com beiradas de metal. Este sujeito foi bem severamente cortado. Há algumas cicatrizes estranhas que podem ser ferimentos posteriores, particularmente aquelas marcas de argolas ao redor de seus punhos, como se ele tivesse sido agrilhoado. Mas todos os ferimentos de batalha que posso ver parecem bem curados, muito tempo antes de ele morrer."

Jack olhou pensativo para o esqueleto. "Vocês estão pensando o mesmo que eu?"

"Lembre que havia outros nórdicos por aqui", advertiu Jeremy. "Mas é possível, apenas possível, que tenhamos encontrado um dos homens de Harald, um outro para juntar-se com Halfdan. A coisa que me deixa perplexo é a idade dos ferimentos. Se ele morreu em sua viagem vindo do fiorde gelado, as marcas de talhos nos ferimentos obtidos em Stamford Bridge, no outono anterior, ainda seriam recentes nos ossos. Estas foram curadas anos antes, talvez décadas."

"E isto não é um sepultamento", disse Jack. "Este camarada arrastou-se até aqui e enfiou-se dentro do buraco com aquelas pedras. É por isso que seus ossos não saíram daí de dentro."

"Isto pode ajudar." A voz abafada de Costas chegou de debaixo da pedra, onde ele tinha espremido a parte superior do seu corpo no espaço diante do esqueleto e estava tateando com cuidado, no escuro, debaixo da caixa torácica. Ergueu cuidadosamente dois objetos e estendeu o maior. Jack o pegou sem pensar, sua mente ainda concentrada no enigma confuso do esqueleto. "Bem, o que é isso?"

Costas emergiu para ver os outros dois fitando boquiabertos o objeto na mão de Jack. Era um pingente liso, do tamanho de um pires pequeno, e estava esculpido em uma lustrosa pedra verde, sem dúvida jade. A superfície ondulada e curvilínea parecia um desenho abstrato, mas, quando olharam atentamente, puderam distinguir olhos, um bico, asas estilizadas.

"Santo Deus", Jeremy sussurrou. "É o deus-águia maia."

Costas rastejou para fora e limpou-se. "Maia", ele disse de modo fleumático. "México, o Iucatã. Templos na selva e sacrifícios humanos. Estou certo?"

"Impossível." Jack limpou com cuidado uma película de sujeira dos dois discos de prata que formavam os olhos da águia. Ele olhou para os outros, sacudiu a cabeça e passou o pingente para Jeremy. "É impossível. Diga-me que não estou vendo coisas."

"São duas moedas", disse Jeremy calmamente. "Muito bem. Vamos ser imparciais a respeito disso. A da esquerda é uma moeda viking da Inglaterra, um centavo quadrifólio do rei Canuto. Olhem, é possível ler CNUT REX ANGLO, com o busto coroado." Ele virou o pingente. "Podem ver no lado oposto. ARNCETEL OEO, cunhado por um homem chamado Arncetel em York. Canuto reinou de 1016 a 1035, mas suas moedas eram valiosas por causa de sua pureza e foram encontradas em tesouros escondidos através da Escandinávia pelo menos até o período de 1066."

"E a outra?", perguntou Costas.

"Aquela é romana. É assunto seu, Jack."

Jeremy devolveu o pingente e Jack olhou atentamente a moeda da direita. "É um denário de prata do imperador Vespasiano" ele disse. "IMP CAESAR VESPASIANUS AUG. Um retrato particularmente excelente da cabeça de Vespasiano, com verruga e tudo, além da coroa de louros."

"Você me deixou desconcertado de novo", disse Costas. "Você disse Vespasiano? O imperador romano?"

"Moedas romanas antigas, de ouro ou prata, algumas vezes eram encontradas nos tesouros guardados dos vikings", disse Jeremy. "Saqueadas de antigas tesourarias, trazidas como curiosidade pelos varegues que vinham do Mediterrâneo."

Jack ergueu as sobrancelhas, depois virou o pingente. Limpou o reverso da moeda delicadamente com o dedo, e depois sufocou um suspiro. "Bom Deus. É uma moeda Judaea Capta. Uma das moedas cunhadas a mando de Vespasiano, depois da conquista romana da Judéia, em 70 ou 71 d.C." Virou o pingente para a luz e eles puderam ver claramente a figura de uma mulher sentada diante de um legionário romano típico, e abaixo deles a única palavra gravada IVDAEA.

"Não é atrás disso que estamos?" perguntou Costas. "Quero dizer, o tesouro perdido do Templo de Jerusalém?"

"Posso estar loucamente errado", disse Jack com entusiasmo, "mas acho que conseguimos duas moedas do tesouro de Harald Hardraade. Como elas entraram na formação desse pingente é um completo mistério. Aconteceu algo extraordinário, algo que trouxe este homem de volta para cá, anos depois, de volta a um lugar onde viera da primeira vez com o navio de Harald. E sim, é atrás disso que estamos. Isto é fantástico. Esta moeda pode ter sido cunhada com a prata saqueada do Templo junto com a menorá. Quem sabe ela até foi tocada pelo próprio imperador Vespasiano. Pode ter sido por pura coincidência que Harald tivesse essa moeda em seu tesouro, mas eu duvido. Harald conhecia sua história, havia estado em Jerusalém. Em sua própria mente e naquela de seus seguidores, qualquer coisa associada com a menorá e o tesouro do Templo podia acrescentar esplendor ao seu nome. Eu realmente sinto neste momento que estamos nas pegadas de Harald. Este é o nosso melhor achado até agora, talvez seja o mais perto que jamais chegaremos da própria menorá."

"Talvez não seja ainda o melhor achado", disse Costas com uma piscadela. "Dê uma olhada nisto." Ele estendeu a mão nas sombras debaixo da rocha e pegou um segundo objeto que havia encontrado com o esqueleto. "Acho que é uma outra pedra de runa."

Muito excitado, Jeremy pegou a lâmina de rocha e a examinou atentamente. Um lado havia sido grosseiramente alisado e estava coberto com linhas apagadas. "Semelhante à pedra de runa encontrada pelos nazistas no drakar", ele murmurou. "O mesmo futhark básico daquele período, mas traçado por uma mão diferente. As runas foram realmente apenas raspadas na superfície, talvez tenha sido o último ato desse sujeito enquanto ele estava agachado debaixo da rocha."

"Pode ser que ele tenha voltado para cá para fazer isso, para deixar um registro", disse Costas. "Talvez estivesse mantendo a promessa que Harald fez para os groenlandeses."

"Há algo legível?", indagou Jack.

"É mais fácil para mim transliterar as runas em nórdico antigo, usando o alfabeto-padrão." Jeremy puxou um caderno de anotações de sua mochila, e eles ficaram observando enquanto ele escrevia rapidamente uma linha clara de símbolos numa página, regressando ocasionalmente para fazer correções.

 

Par var oroefi ok strandir langar ok saudar. Rak Pá skip Peirra um haf innan. Sandar hvitir vioa Par sem Prier fóru ok ósoebratt.

 

"Não consigo ler a primeira linha completamente, mas ela tem a palavra doegr, corridas, e a runa para o número vinte. Eu acho que significa que eles navegaram vinte corridas, ao longo de uma costa com praias compridas e areias. Depois seu navio, o skip, dirigiu-se por toda parte pelo oceano interior, um haf innan. Em seguida eles chegaram a uma terra plana, coberta com florestas, com extensas areias brancas por onde quer que andassem, e inclinando-se suavemente em direção ao mar. As duas últimas linhas também não estão claras, mas a primeira delas parece falar de uma terra de fogo e luz."

"É exatamente como você disse, Jack", exclamou Costas. "Vinte corridas, vinte dias, os levam ao longo da orla marítima ao leste. É uma costa com grandes extensões de praias e areias, sobretudo quando você chega à Flórida. O oceano interno. Isso soa exatamente como sendo o Caribe."

"Navegaram por toda parte", falou Jack com uma excitação crescente. "Julho, agosto, é o início da estação de furacões. Eles podem ter sido levados pelos ventos direto através do mar, podem ter perdido todo o sentido de onde estavam."

"Depois a terra plana coberta com florestas", disse Jeremy. "Quando eu era pequeno, nós navegamos pela península do Iucatã, no México. É isto exatamente o que se vê. Ela é incrivelmente plana, um platô de pedra calcária apenas alguns metros acima do nível do mar, coberta com arbustos densos e floresta virgem e rodeada por praias brancas e brilhantes."

"E quente como o inferno durante o verão", acrescentou Costas. "Uma terra de fogo e de luz."

"Isto não é apenas uma suposição desvairada. Tudo está começando a se ajustar." Jack ergueu o pingente de jade, depois olhou intensamente para Jeremy. "E o que tem na linha final?"

Jeremy soltou um profundo suspiro e fitou Jack, seu rosto ruborizado pela excitação. "Eu consegui entender três palavras. A primeira é a palavra nórdica para o mundo dos mortos, o abismo cheio de água na extremidade do mundo, Ginnungagap. A segunda é Ragnarok. A terceira, nunca a vi antes no nórdico antigo. É um nome próprio, o nome de um local. Ukilabnal, ou algo próximo a isto. Parece que Harald e seus homens atingiram o dia de ajuste de contas nesse lugar, sua prova final na beirada do mundo dos mortos."

"Isso não foi assim para o nosso amigo." Costas apontou com o polegar para o esqueleto. "Aposto que ele desejava ter ido para o Valhala junto com seus companheiros."

"Esse nome significa alguma coisa para você?", perguntou Jack.

"Oh, sim." A voz de Jeremy estava rouca, e mal conseguia pronunciar as palavras. "Antropologia 101. Felizmente meu orientador, antes de eu me formar, obrigou-me a manter minhas opções em aberto. Introdução à Civilização da América Central."

"Continue."

"No século XI, Uukil-abnal era o nome de Chichén Itzá, o maior centro cerimonial dos maias, exatamente no centro da selva do Iucatã."

"Nossa! Quem diria!"

Costas soltou um suspiro de satisfação. "Por fim." Ele levantou-se, arqueou as pernas fortemente onde elas haviam ficado presas e olhou com desgosto para a garoa que o envolvia. "Vocês, rapazes com sangue viking, podem ter algum tipo de atração por todo esse mistério, mas ele apenas me deixa frio." Voltou-se para Ben e Andy, que estavam andando por perto, e sorriu amplamente para eles. "Aprontem as malas, rapazes. Estamos indo para o México."

Maria teve o primeiro pressentimento de que algo estava errado logo antes da meia-noite. Ela estava debruçada sobre um laptop em uma cela de monge, a três portas do estúdio do padre O'Connor, no claustro medieval na ilha Iona. Tinham decidido trabalhar até tarde e encerrar o assunto, dois longos dias depois de ela ter acenado para Jack e aos demais no helicóptero. Ela estivera olhando para a fotografia pregada na parede à sua frente, a extraordinária imagem do pingente que Jack lhe enviara por e-mail de L'Anse aux Meadows no dia anterior. Maria estava cheia de vontade de voltar, de juntar-se a Jack de novo. Pela terceira e última vez estava trabalhando sobre o documento que ela e O'Connor tinham preparado sobre os félag, esforçando-se para manter os olhos focalizados na tela. Em alguns minutos poderia copiar o arquivo para O'Connor e ir ter com ele para uma correção final, e eles o passariam por e-mail para o seu contato da Interpol, na Áustria. Sentia-se cansada, esgotada como nunca, mas estava começando a sentir um certo alívio. Ainda não se encontravam fora de perigo, mas pelo menos ela tinha persuadido O'Connor a deixar o mosteiro na manhã seguinte e acompanhá-la para a segurança do Seaquest II.

O primeiro sinal havia sido um som surdo e abafado no corredor. Não um motivo óbvio para alarme, mas Maria estava irritadiça por causa do cansaço e do nervosismo. Ela se voltou para a porta, ligeiramente entreaberta, e o corredor escuro depois dela. Tudo havia ficado quieto de novo. Ela tinha começado a se acostumar com o silêncio do mosteiro, mas algo estava diferente. Sentiu um súbito arrepio, um pressentimento de medo.

Então, sem aviso, a porta se escancarou. Uma mão enluvada apareceu e agarrou a porta antes que ela batesse contra a parede. Depois uma figura negra avançou sobre ela com a velocidade de um raio, a cabeça abaixada. Maria não teve tempo de reagir. Uma mão estapeou sua cabeça e torceu de maneira selvagem sua orelha, enquanto a outra tampava-lhe a boca. A mesa foi arremessada contra a parede e um pé esmagou o seu laptop. Ela foi violentamente puxada para trás, através da porta e para o corredor. A mão estava úmida contra sua boca, grudenta e quente. Sua orelha foi torcida de novo e ela ficou cega pela dor, os olhos cheios de água, incapaz de respirar. Subitamente ela foi solta e atirada com o rosto para a frente contra a parede, as mãos presas atrás de si. Uma fita adesiva lhe foi passada pela boca e punhos. O assaltante mantinha o corpo pressionado contra o dela e puxou-lhe o cabelo para trás. Maria podia sentir a aspereza de sua pele contra a dela, o cheiro metálico de seu hálito.

Durante um momento horrível não houve nenhum movimento. Maria começou a tremer descontroladamente. Sua respiração voltou, aos poucos, e ela passou a inspirar penosamente pelo nariz. Sentia-se claustrofóbica, quase sufocando. O seu assaltante resfolegou, puxou-a para o lado até ela quase cair, depois arrastou-a aos solavancos por uma porta aberta e segurou-a firmemente por trás. Ela sentia o hálito dele contra sua orelha, o cheiro repugnante.

"Fale sobre isto." As palavras eram gritadas dentro de sua orelha, o sotaque indefinido. Maria piscou fortemente para limpar os olhos. Ela estava no estúdio de O'Connor. Através da obscuridade distinguia a vela na cornija da lareira, a cópia do Mappa Mundi na parede de trás. A chama estava bruxuleando na tinta do mar Vermelho, e parecia estar lançando uma aura vermelha sobre o resto do mapa. Maria sentiu a cabeça vazia, estava prestes a desmaiar. Piscou de novo, tentando desesperadamente clarear o túnel vermelho ao redor de sua visão. Ela via a vela sobre a escrivaninha, aquela que tinha acendido para ele uma hora antes. Olhou para baixo. Sua respiração saía em movimentos rápidos. Então ela parou.

Havia alguém no chão. Ela sentiu os joelhos dobrarem, e seu assaltante puxou-a para cima, apertando-a até ela sentir vontade de vomitar.

Ela olhou para baixo novamente.

Padre O'Connor.

Seu coração deu um solavanco de horror. A vela lançava uma sombra no chão, e, de início, tudo o que ela viu foi uma forma escura. Depois começou a distinguir sua cabeça. Sua boca estava coberta com fita adesiva, os olhos bem abertos. Ela se esforçou para fazer um barulho, para falar com ele, mas seu assaltante tampou-lhe o nariz. Certamente O'Connor devia vê-la, devia perceber que ela estava tentando comunicar-se. Permanecia imóvel, o olhar fixo. Ele estava deitado de bruços, a cabeça debaixo da escrivaninha, os braços e as pernas bem abertos. Vestia sua sotaina marrom de monge.

Então ela se deu conta. A cor do mapa. A umidade grudenta em seu rosto. O gosto metálico.

Era sangue.

Ela olhou outra vez para O'Connor. Algo estava terrivelmente errado. O escuro em suas costas não era absolutamente sua sotaina. Então ela soube, com uma certeza enjoativa.

A águia de sangue.

Ela olhou freneticamente de um lado para o outro, os olhos se ajustando à escuridão. Havia sangue por toda parte. Encharcando o resto da sotaina, formando uma poça debaixo do corpo do padre, esguichado e salpicado sobre a escrivaninha e os livros, em traços arroxeados e manchados sobre o teto.

Ela olhou outra vez. Podia ver o buraco escancarado, a forma. De ombro a ombro, e para baixo nas costas. As asas e a cauda. Em cada lado ela via coisas demasiado medonhas para serem registradas. Massas informes de carne sangrenta. Série de ossos rachados, a caixa torácica. Pilhas de órgãos em forma de bulbos, como sobras não aproveitadas de uma rês abatida no balcão de um açougueiro.

Maria gritou, mas nenhum som saiu de sua boca.

O assaltante empurrou a mão debaixo do queixo de Maria e comprimiu sua face com muita força contra a dela. Ela mal podia ver o rosto dele, o sorriso ofensivo, os olhos desbotados e assassinos, as manchas de sangue seco. Ele começou a esfregar o seu rosto contra o dela, a barba dele raspava-lhe a pele como se fosse lixa, pressionando-a cada vez mais com a maciez de uma cicatriz que ia da órbita até o maxilar, enquanto ofegava pesadamente, arreganhando os dentes de maneira obscena para a carnificina no chão. Ela podia sentir a excitação dele, cheirar a adrenalina. Sua mente começou a se fechar, procurando o esquecimento em face do horror.

"Isto foi pelo meu avô", sussurrou a voz. "O'Connor estava consciente quando cortei fora seus pulmões. Ele sabia o que estava acontecendo. A hostilidade sangrenta terminou. Agora chegou a hora de reivindicar meu prêmio."

Ele a puxou pelas pernas e arrastou-a de novo através da porta. A última coisa que ela sentiu foi a dor pulsante em seu rosto, o seu próprio sangue misturando-se com o de O'Connor. Depois só houve escuridão.

 

Jack manobrou o Zodiac com habilidade em direção à praia, permitindo que a embarcação deslizasse com o seu próprio peso dentro da depressão entre as ondas e depois ativando o motor até que o barco ficasse na crista da onda seguinte. Acima deles o céu estava salpicado de nuvens altas movendo-se rapidamente em direção ao sul, e eles eram impelidos por um forte vento que se dirigia à praia e que se tinha fortalecido durante toda a manhã, erguendo ondas rápidas. O ar apresentava a mesma qualidade translúcida que eles tinham visto no Ártico, mas nem o vento podia disfarçar a intensidade abrasadora do sol quando este os envolvia, o clarão cegando seus olhos desacostumados. Atrás deles, as ondas de arrebentação por cima dos recifes acentuavam a forma lustrosa do Seaquest II, que estava mantendo posição em águas profundas a uma milha da praia.

Para Jack era divertido sentir o borrifo do mar de novo, depois de cinco dias confinado durante a longa viagem para o sul desde Newfoundland ao longo do mar que beirava o leste dos Estados Unidos indo para o Caribe. Era a mesma coisa onde quer que estivesse, no Ártico, no Chifre de Ouro, na praia de lona ou na Grande Ilha Sagrada, uma exaltação que invadia sua alma cada vez que experimentava o gosto do mar. Ficou em pé, a mão esquerda segurando o acelerador e a direita o cabo de atracação da proa, e fez um gesto para que os outros dois viessem para a frente e ficassem prontos. Logo antes de entrar na arrebentação, ele desligou o motor de popa e ergueu-o, deixando a hélice fora da água. Costas e Jeremy pularam na água, de cada lado, segurando o Zodiac contra o movimento de fluxo e refluxo das ondas de arrebentação até que ele fosse empurrado por um redemoinho para perto de um banco de areia. Giraram o Zodiac até que a proa apontasse para as ondas e esperaram enquanto Jack atirava a âncora. Assim que se asseguraram de que tudo estava sob controle, eles se dirigiram à praia, os macacões de mergulho pretos da IMU encharcados da água quente do oceano e os cabelos emaranhados e ensopados.

Eles se encontraram em uma praia estreita, tendo atrás uma linha contínua de selva espinhosa, os troncos retorcidos e fragmentos espalhados de corais mortos e a herança de madeiras flutuantes deixadas pelo severo furacão do ano anterior.

"Arbustos xerófitos", disse Jeremy, ofegante. "Bem-vindos ao Iucatã. Não é realmente uma floresta tropical, mas uma selva no verdadeiro sentido da palavra."

"Solo improdutivo, você quer dizer." Costas arriscou alguns passos dentro da vegetação rasteira e emaranhada, e saiu depressa, retirando de maneira irritada uma teia de aranha e mosquitos-pólvora do rosto. "Troco a Groenlândia pelo Caribe qualquer dia, mas como uma civilização conseguiu desenvolver-se aqui está além de minha compreensão."

"A chave para o desenvolvimento maia era a água fresca." Jeremy conduziu Costas ao longo da praia até que chegaram à fonte do banco de areia, um canal de água extraordinariamente clara com cerca de três metros de largura que cortava a selva e fluía para o mar. "O lugar está cheio disso. Alguns desses rios se desenvolvem subterraneamente, através de um espantoso sistema de cavernas' que estão bem afastadas da costa. Vou poder lhe mostrar isso ainda hoje."

"Você já esteve aqui?"

"Fiz viagens para pesquisa científica de campo quando era estudante. Transpirando na selva, medindo ruínas cobertas de vegetação, sendo devorado vivo."

"Você deveria aprender a mergulhar", disse Costas secamente.

"Isto é o que Jack estava me dizendo. Ele disse que você é um instrutor de mergulho com técnica avançada, um dos melhores. Talvez eu queira aprender quando tudo isso tiver terminado."

"Será um prazer. Eu só não faço idéia de como mergulhar dentro de um iceberg."

"Vou deixar a emoção da descoberta para os seus camaradas." Jeremy sorriu. "Eu só estou nisso por causa da arqueologia."

"Qual era aquele lugar, o nome maia que havia na runa que estava com meu amigo debaixo daquele monte de pedras?" Costas limpou o suor que estava começando a lhe escorrer pelo rosto.

"Uukil-abnal", replicou Jeremy. "O nome que no século XI era dado a Chichén Itzá, o sítio arqueológico mais famoso do Iucatã. Uma cidade fantástica e enorme sobressaindo-se na selva. Pirâmides e tudo mais. Acho que vai ser a nossa próxima parada."

Jack apareceu depois de ter ancorado o Zodiac na rebentação, e eles começaram a despir seus macacões de mergulho até a cintura.

"Bela praia", comentou Costas. "Mas um pouco desolada."

"Cortês chegou aqui em 1519", replicou Jack. "Mas os conquistadores deram uma olhada e deixaram este lugar completamente de lado. Eles só conquistaram o interior do Iucatã anos mais tarde."

"Posso ver por quê." Costas esforçou-se para tirar a parte de cima de seu macacão de mergulho, depois recuou quando uma rajada de vento jogou areia em cima dele. "Então você acha que Harald Hardraade esteve aqui?"

"Lanowski fez um cálculo bem ajustado dos locais onde o drakar pode ter encontrado terra firme pela primeira vez depois de ter sido empurrado pelo noroeste estivo vindo de Florida Keys", disse Jack. "Nós escolhemos este lugar em especial por causa do rio. Os vikings deviam estar desesperados para encontrar água fresca, e teriam sido capazes de arrastar seu drakar para a enseada. Também a margem do rio é um bom lugar para seguir um caminho maia para o interior."

"Aqui podia até ter sido uma praia de desembarque dos maias, um ancoradouro", acrescentou Jeremy. "Muitas das maiores povoações maias estão bem longe do oceano, mas eles eram competentes marinheiros. Eu vi quadros mostrando grandes canoas de guerra que eram tranqüilamente do tamanho de um drakar nórdico."

"Não era exatamente o que Harald e seus homens estavam esperando", disse Costas.

"Se eles estavam apreensivos acerca dos scraelings, esses camaradas daqui os fariam tremer na base, os intrépidos vikings, guerreiros ou não", replicou Jeremy. "Os vikings podem ter sonhado com a prova final em Ragnarok, mas, uma vez que perceberam a realidade do que os aguardava, eles podem ter pensado melhor."

"Provavelmente não havia escolha nessa etapa", disse Jack. "O navio deles devia estar em frangalhos depois da viagem e a fome provavelmente os estaria consumindo. Eles estavam fadados a fazer uma parada por aqui. Meu palpite é que começaram a se embrenhar na selva."

"Eu estava querendo perguntar", disse Costas. "Aquele sujeito, Pieter Reksnys, o filho do nazista, pai de Loki. Ele também não acabou vindo para o México?"

"Aparentemente, quando O'Connor era um missionário jesuíta na América Central, nos anos 1960, ele ficou sabendo tudo sobre o paradeiro de Reksnys." Jack levantou a mão até os olhos, protegendo-os do clarão do sol. "Mas O'Connor estava evitando chamar a atenção sobre si próprio, então evitou um encontro. Havia um preço por sua cabeça entre os félag, mesmo então. Ao que parece, quando Andrius Reksnys e seu filho venderam a mina de opala na Austrália, eles foram primeiro para a Costa Rica. Ela era um abrigo para nazistas fugitivos. Depois, quando a caçada aos nazistas começou a diminuir, no final dos anos 1960, o Reksnys mais velho voltou para a Europa, para o remoto castelo em Obersaltsburg, onde o alvejaram cinco anos atrás."

"O velho homem morto, na foto dos jornais, com a suástica na braçadeira."

"Correto."

"O'Connor disse mais alguma coisa a respeito disso?"

"Não quando falei com ele", disse Jack. "O'Connor não quis revelar quem eles usaram, e nós não precisamos saber. Talvez ele mude de opinião. Mas disse que não sentia arrependimento. Acho que ele acreditou que era seu dever, como um dos primeiros membros do félag, fazer correções e cuidar para que a justiça agarrasse os Reksnys."

"Isso é justo."

"O jovem Reksnys, Pieter, aquele que ajudava seu pai Andrius a realizar as execuções SS, tinha dinheiro mais do que suficiente para retirar-se e devotar-se a proporcionar a seu próprio filho a mesma visão distorcida do mundo. Mas, como muitas dessas figuras, ele não conseguia manter seus dedos longe do crime organizado, sobretudo nessa área onde todos acabam entrando."

"Drogas? Armas?", perguntou Costas.

"Ele meteu o nariz em toda parte, mas interessou-se cada vez mais pelo mercado negro de antiguidades, excluindo praticamente todo o resto. Isto se tornou sua obsessão, e era altamente lucrativo. Desde os anos 1960 havia grande demanda na América e na Europa por antiguidades da América Central, por cerâmica decorada, ouro, jade, pedra esculpida. Segundo O'Connor, Reksnys já tinha posto os olhos sobre o Iucatã mesmo antes de se abrir o comércio para investidores estrangeiros."

"Ele está aqui?", perguntou Costas olhando para a selva. "Bem debaixo de nossos narizes?"

"Este lugar era como uma mina de ouro não explorada. Mesmo agora, as autoridades mexicanas têm grandes problemas para policiar a área, especialmente as rotas da selva, que pertencem a estrangeiros como Reksnys. E, assim como a máfia, que dirige a indústria de turismo, sujeitos como Reksnys têm inúmeras conexões entre os políticos e a polícia. Há uma corrupção infernal aqui. Existem literalmente centenas de lugares maias não localizados em mapas, através da selva, para serem explorados à vontade se os poucos policiais corretos e os arqueólogos puderem ser mantidos ocupados."

"Alguém tem alguma idéia de onde Reksnys opera?"

"Ele é muito esquivo, mora entrincheirado em local afastado. Mas sabemos que é proprietário de uma grande área de selva no norte do Iucatã, entre a costa onde estamos agora e um lugar no interior de Chichén Itzá."

Costas assobiou. "Parece uma incrível coincidência."

"Não há jeito de os félag terem estabelecido contato com o Iucatã, a não ser por puras conjecturas. A única pista que temos para este local é o pingente de jade de L'Anse aux Meadows, e não há evidências de que alguém o tenha encontrado antes de nós. Mas se há algo aqui, se Harald e seus homens realmente estiveram aqui, então Reksnys pode ter se deparado com esse achado por pura sorte. Provavelmente ele tem mais homens a seu serviço do que a soma dos arqueólogos existentes em todo o Iucatã. Minha esperança é que, se chegarmos a alguma coisa, isso ocorra em uma das zonas arqueológicas policiadas e não aqui na selva."

"Então a menorá seria sua peça predileta", murmurou Costas. "Não apenas como um artefato sagrado para os félag, mas de um ponto de vista profissional. Ele sabe exatamente como comercializá-la pela oferta mais alta."

"Esta é a única coisa que realmente assusta O'Connor. E lembrem que não estamos falando apenas de colecionadores particulares. Uma vez mais o mundo terá de combater um nazista influenciando o curso da história judaica."

"Como Maria está se saindo?"

O rosto de Jack se iluminou por um instante. "Deve estar esperneando por ter perdido a agitação em L'Anse aux Meadows, mas planejando juntar-se a nós, a menos que não encontremos nada. Eu ficaria contente em vê-la longe de Iona."

"E aqui conosco."

"Há homens demais por aqui."

"Você sabe que ela é muito próxima ao padre O'Connor."

“Eu sei”.

"Eu quero dizer muito íntima."

"Eu sei." Jack fez uma pausa. "Acho que começou depois daquela conferência em Oxford, antes que eles nos mostrassem o Mappa Mundi”.

"Algo além daquela força maligna no Vaticano pode estar tentando atingi-lo."

"O'Connor tem andado na corda bamba de muitas maneiras. Mas Maria foi sempre muito discreta." Jack fez outra pausa e olhou para baixo. "De todo jeito, ela é uma de minhas mais velhas amigas. Eu a conheci antes mesmo de ter a honra de ser apresentado a vocês."

"Foi o destino", disse Costas. "Onde você estaria sem a minha assistência técnica? Nunca cruzei com alguém mais incompetente com computadores. E eu estaria empacado em alguma prisão sem janelas em Silicon Valley, ganhando toneladas de dinheiro, mas sem um pingo de diversão." Tentando pegar um mosquito, ele deu um tapa violento em seu pescoço, e desviou a cabeça quando o vento soprou um redemoinho de areia que os atingiu como a rajada de uma fornalha. "Nada de icebergs, nada de férias na praia."

"E sem psicopata assassino em sua cola", replicou Jack. "Eu apenas confio em Deus que O'Connor contate a Interpol antes de Loki encontrá-lo."

"Qual é o seu plano de retirada se tudo der errado?"

Jack lançou um olhar atormentado para Costas quando eles começaram a puxar o Zodiac de novo para a arrebentação. "Eu não tenho um plano."

Três horas mais tarde, depois de um percurso acidentado ao longo do caminho na selva, eles chegaram à entrada de Chichén Itzá, cerca de sessenta quilômetros para o interior partindo da praia. As ruínas da antiga cidade cobriam uma vasta área, embora apenas o recinto central houvesse sido desobstruído da selva e restaurado. Estruturas de pedra calcária cinza erigiam-se acima de três abóbadas à frente, mas Jack sabia que ao redor deles havia ruínas submersas na vegetação rasteira que tinha sepultado a cidade durante séculos depois que fora abandonada. Algumas das imagens pareciam surpreendentemente familiares, pirâmides e templos com colunatas, mas outras não, plataformas para sacrifícios, terríveis esculturas humanas e animais híbridos, imagens que pareciam de um outro planeta. Era sinistro, como se algo não se encaixasse, como se eles estivessem entrando em um cenário de filme do antigo Egito ou da Mesopotâmia, no qual fora feita uma tentativa para se ter uma precisão histórica, mas muita coisa houvesse sido deixada para a imaginação de um roteirista que se baseara em alguma ficção científica particularmente lúgubre.

Jack estava no banco da frente de um veículo de quatro rodas que lhes fora cedido pelas autoridades arqueológicas mexicanas, e quando abriu a porta foi cumprimentado por um oficial que os introduziu no local. Poucos dias antes, um tremor de terra tinha causado preocupações sobre a estabilidade das antigas estruturas, e o local havia sido fechado para os turistas enquanto avaliações eram realizadas. Jack agradeceu ao oficial e encontrou um lugar na sombra para abrir o mapa. Costas juntou-se a ele. Eles estavam usando short, camiseta e botas para selva, mas o calor do verão era opressivo e Costas já estava gotejando de suor.

"Pensando com carinho no nosso iceberg?", perguntou Jack divertindo-se.

"De jeito nenhum", Costas estufou-se, mas parecia aflito e acalorado debaixo de seu chapéu panamá. "Você se lembra que eu sou grego? O calor está no sangue."

"Muito bem."

Jeremy foi até eles depois de conversar em espanhol com o oficial, e apontou para uma rota no mapa. "Eu fui obrigado a passar um verão aqui antes de me formar em um treinamento de projeto de campo, antes que conseguisse me safar", disse ele com pesar. "Vou tentar fazer um relato equilibrado, mas devo lhes dizer que este lugar me dá pesadelos. Os vikings foram terapia depois disso."

"Que período de tempo estamos procurando?", perguntou Costas.

"Os maias formaram uma das grandes civilizações primitivas, como vocês sabem", disse Jeremy. "Eles floresceram aqui em torno de 300 a 900 d.C., que abrange o período do final do Império Romano até a era viking. Mas, lá pelo meio do século XI, este local foi dominado pelos toltecas, uma casta guerreira do norte. Os maias ainda estavam aqui, mas eles se tornaram a classe social mais baixa, escravizados e brutalizados. Os toltecas assolaram o Iucatã mais ou menos na mesma época que Harald estava deixando a guarda varegue. Muito do que se vê aqui não é maia, mas data do período tolteca."

Eles caminharam ao longo de uma picada sob a abóbada da selva, passando por um iguana ocasional e um bando de macacos com rabos enrolados, seus guinchos competindo com os gritos roucos dos tucanos, e pássaros pretos de olhar maligno. O calor era inacreditável, muito mais úmido do que Jack havia experimentado em sítios arqueológicos no Mediterrâneo, e ele se esforçava para imaginar pessoas que viviam uma vida normal em um lugar tão distante dos melhores efeitos do mar. Depois de alguns minutos, eles se depararam com um recinto amplo e gramado rodeado por colossais construções em pedra. Era uma visão extraordinária, a imagem característica de uma antiga civilização da América Central, dominada por um templo imponente que se erguia em degraus enfileirados como uma pirâmide.

"Não tente me dizer que essas pessoas não eram influenciadas pelos egípcios", disse Costas enxugando o suor do rosto.

"Esta é a pirâmide Kukulkan, o ponto principal de Chichén Itzá." Jeremy os deixou passar pela pirâmide enquanto falava. "Mas aquela construção lá adiante é onde a maior parte dos sacrifícios ocorria", disse ele. "O Templo dos Guerreiros. Pode-se ver o altar de pedra no alto, onde as vítimas vivas eram amarradas e seus corações extraídos violentamente."

"Delicioso", resmungou Costas. "Mas acho que todo esse tipo de coisas era exagerado pelos espanhóis."

"Nada disso." Jeremy os levou para o lado norte do recinto, passando por uma estrutura onde Jack viu um hieróglifo esculpido em uma pedra que parecia estranhamente familiar. Jeremy o viu hesitar e o chamou. "O deus-águia. É exatamente o mesmo que há no pingente de jade de L'Anse aux Meadows. Tenho certeza de que veio daqui." Ele parou ao lado da construção seguinte, uma ampla plataforma de pedra quase da sua altura, e esperou que os outros dois o alcançassem. "Vocês perguntaram sobre sacrifício. Este local é um dos meus favoritos. É chamado Tzompantli, a Plataforma das Cabeças. As cabeças em decomposição dos inimigos eram mostradas aqui e, apenas no caso de que necessitem ser lembrados, eles as esculpiam ao redor da beirada." Eles viram que as laterais da plataforma estavam cobertas com centenas de cabeças com olhares sinistros, os maxilares abertos e os olhos arregalados de terror e angústia. "Para coroar tudo, é preciso imaginar que todas as construções aqui, a pirâmide e o Templo dos Guerreiros, esta plataforma, estavam pintadas de vermelho."

"Com sangue humano, eu presumo." Costas passou o dedo sobre uma das cabeças e fez uma careta. "Eu sei que tivemos nossos episódios ruins, o Coliseu romano, a Inquisição espanhola e tudo mais, mas genocídio e assassinato em massa nunca foram institucionalizados, nunca fizeram parte do nosso modo de vida. Para essas pessoas era normal. Se você nascesse aqui, então deveria ser sacrificado. Havia algo profundamente disfuncional nessa sociedade."

"Os maias desenvolveram um enorme progresso", replicou Jeremy com cuidado. "Uma arte e uma arquitetura surpreendentes, uma organização econômica fenomenal. Estados que competiriam facilmente com as primeiras cidades-Estado do Oriente Próximo."

"Quatro mil anos antes dos maias", disse Jack.

"E os maias não tinham bronze", acrescentou Costas.

"Ou ferro, ou rodas."

"Certo." Jeremy sorriu de um jeito esquisito. "Esta sociedade foi o apogeu do que estava acontecendo na América antes da conquista espanhola. Mas tudo se tornou titica de galinha quando os toltecas apareceram. Eles eram guerreiros terríveis da antiga América Central, os SS da época. Tudo que escutaram sobre os astecas, aqueles relatos de sacrifícios em massa registrados pelos conquistadores espanhóis no século XVI, multipliquem várias vezes e regressem quinhentos anos atrás. Imaginem o coração das trevas, o apocalypse now, este é o local. Os próprios maias não eram exatamente contrários ao sacrifício humano, mas quando os toltecas chegaram, eles transformaram este local num campo de morte."

"Não é de admirar que Reksnys tenha se estabelecido aqui", murmurou Costas. "Ele devia sentir-se em casa."

"O fato é que para os europeus medievais este local deve ter parecido uma visão do inferno", disse Jack. "Para os vikings, ele teria ultrapassado seus piores pesadelos sobre o fim do mundo, sobre Ragnarok. Para qualquer prisioneiro trazido para cá, isso significava uma passagem apenas de ida para o inferno de Dante."

"Há algo mais que eu queria que vissem", disse Jeremy caminhando vivamente. "Sigam-me." Eles passaram pela Plataforma das Cabeças e saíram do recinto central, depois seguiram Jeremy por um amplo caminho cerimonial que descia em declive pouco inclinado, através da selva, em direção ao norte. Após cerca de duzentos metros, eles subiram uma ladeira rochosa irregular e pararam à beira de uma plataforma erodida. A frente deles havia um vasto buraco de escoamento de água, com cerca de cinqüenta metros de largura e vinte de profundidade, sua borda se salientava em meio a folhagens viçosas e as paredes de calcário recuavam para o interior através de uma série de saliências estriadas. A poça no fundo era de um verde fétido e estava coberta por uma densa camada de algas e vegetação caída. Não havia ponto de acesso para a água e eles podiam perceber que qualquer infeliz que escorregasse da plataforma não conseguiria escapar.

"O Cenote de Sacrifício em Chichén Itzá", murmurou Jack. "Sempre quis vê-lo."

"Cenote?" indagou Costas.

"É um termo espanhol para a palavra maia dzonot, que significa Poço Sagrado, Poço de Sacrifício", explicou Jeremy. "Eu estava falando sobre isso na praia. Todo o Iucatã era antigamente um recife de coral, depois tornou-se um platô de pedra calcária durante a Idade do Gelo, quando o nível do mar baixou. Durante milhares de anos a água da chuva impregnou o calcário e formou um grande labirinto de cavernas e túneis, preenchidos com estalactites e estalagmites. Depois, no fim da Idade do Gelo, oito mil anos atrás, o nível do mar subiu de novo e o sistema foi inundado. Cavernas com tetos que permaneceram acima da água finalmente desmoronaram, criando buracos de escoamento como este."

"E os tremores de terra?"

"Nós estamos exatamente ao sul de um local que sofreu um grande impacto de meteorito, a cratera de Chicxulub, que fica por baixo de uma grande área do norte do Iucatã."

"Aquele impacto que destruiu os dinossauros?" perguntou Costas olhando ao seu redor simulando alarme. "Existe algo ruim que não aconteceu aqui?"

Jeremy sorriu. "O desastre dos dinossauros é verdadeiro. A beirada é assinalada por um anel de cenotes, muitos deles desmoronaram e se transformaram em buracos de escoamento. Ninguém, na verdade, sabe por que, mas a cratera que fica por debaixo tem uma espécie de efeito desestabilizante sobre a pedra calcária."

"Um paraíso para mergulhadores de caverna."

"Isto é incrível", entusiasmou-se Jeremy. "Mergulhadores exploraram cinqüenta sistemas, ao longo de cem quilômetros. Alguns deles são rios subterrâneos que correm para o mar. Debaixo do calcário, o rio é um cristal límpido, é como nadar em um aquário cheio de formações de calcita espetaculares. Mas também é letal. Ele me impediu de aprender a mergulhar quando estive aqui como estudante. Mais mergulhadores morreram aqui do que em qualquer outro lugar do mundo."

"Os toltecas teriam aprovado", disse Jack.

"Deixe-me adivinhar", disse Costas. "Eles também sacrificaram humanos aqui."

"O Poço de Sacrifício foi dragado pela primeira vez para procurar artefatos nos anos 1930, mas depois, nos anos 1950, ele foi um dos primeiros sítios arqueológicos a ser explorado usando mergulhadores", replicou Jack. "Houve outras expedições. Cousteau esteve aqui. Os depósitos mais profundos ainda estão inexplorados, mas um grande número de artefatos foi encontrado, tais como vasilhas de cerâmica, ouro, jade. Quase todos eles foram atirados intactos para dentro do poço, depositados ritualisticamente. E foram encontrados esqueletos humanos. Centenas deles."

"A história se repete por todo o Iucatã", acrescentou Jeremy. "Cenotes eram a fonte de água fresca para os maias, mas também eram entradas para o inferno. Eles sacrificavam guerreiros, donzelas, crianças. Aquela pequena construção mais adiante é a temazcal, uma espécie de sauna onde as vítimas eram ritualmente purificadas. As saliências de pedra pelas quais acabamos de passar eram os assentos dos espectadores, onde a elite tolteca podia sentar-se e assistir."

"Acho que a variedade é o tempero da vida", murmurou Costas com repugnância. "Depois de ter visto milhares de corações removidos violentamente ali atrás no templo, pode-se desejar uma mudança de cenário."

Um oficial apareceu suando e ofegando atrás deles no caminho processional, acenando com um celular e pedindo para Jeremy pegá-lo. Jeremy hesitou, sabendo que havia sido considerado equivocadamente o líder do grupo. Ele olhou para Jack, que sorriu e lhe fez um gesto para ir em frente. Quando Jeremy subiu com o oficial para encontrar um lugar melhor para atender à chamada, Jack se voltou e examinou com cuidado a beirada da plataforma. A poça parecia estranhamente benigna, mas por um instante sua respiração se contraiu quando sentiu o horror das vítimas, mil anos atrás, colocadas na beirada do inferno.

"Você diz que ainda há material aí embaixo?" Costas enxugou o brilho do suor do rosto, depois olhou de modo inquisitivo para Jack.

"A maioria dos artefatos e dos ossos que estavam por cima foi retirada, mas ainda há depósitos profundamente enterrados onde se podem encontrar os objetos mais pesados."

"Você está pensando o mesmo que eu?"

"Seu perfurador que funciona abaixo do fundo do mar", replicou Jack com um sorriso. "Talvez, se as coisas derem certo no Chifre de Ouro, possamos abordar as autoridades mexicanas e sugerir umas operações por aqui."

"Você acha que há alguma chance?"

Jack esfregou o queixo e semicerrou os olhos para se defender do clarão da rocha. "Pelo que Jeremy andou nos contando, este é o lugar onde troféus de guerra podem ter sido apresentados aos deuses. Vamos imaginar que Harald e sua tripulação desembarcaram em algum lugar ao norte daqui, depois foram capturados."

"Céus, espero que não", disse Costas. "Isto seria uma enorme decepção depois de tudo pelo que passaram."

"Para os vikings que não tiveram a sorte de morrer em batalha, havia apenas um destino. Os guerreiros teriam seus corações extirpados violentamente ali no templo. Quaisquer servos que sobrevivessem podiam ser escravizados. Talvez o seu amigo, de alguma forma, tenha feito uma viagem comprida e difícil para voltar ao monte de pedras erigido como marco."

"As cicatrizes em seus punhos e tornozelos", disse Costas. "Grilhões."

Jack aquiesceu. "Outros podem ter sido trazidos para este lugar para serem sacrificados. Uma procissão espetacular do templo até o cenote, o clímax de um ritual de vitória. Exatamente como o triunfo do imperador romano. Aniquilar os vikings teria sido um grande negócio para os toltecas, a vitória sobre os gigantes loiros e barbados com suas terríveis armas de ferro. Eles chegaram aqui como deuses estrangeiros, e os toltecas os venceram. Os espólios de guerra devem ter sido apresentados aos deuses."

"A menorá teria sido um sacrifício bem espetacular."

"Quanto você calcula que ela pesava? Cento e cinqüenta, talvez cento e setenta e cinco quilos?"

"Esta é uma tremenda quantidade de ouro para jogar fora."

"É uma tremenda quantidade." Jack olhou para o verde na poça debaixo deles, depois de novo para Costas. "E os toltecas realmente gostavam do seu ouro."

Jeremy reapareceu sobre o cume do calcário e começou a descer na direção deles. O jovem estava cambaleando ligeiramente e sentou-se pesadamente sobre a rocha. Eles podiam ver que Jeremy estava com o rosto pálido.

"O calor está lhe fazendo mal." Costas olhou preocupado para ele e lhe estendeu sua garrafa de água. "Beba isto e vamos para a sombra."

"Não é isso." A voz de Jeremy estava rouca, quase inaudível, e ele deixou a garrafa escorregar por entre os dedos. "Acabei de falar com Ben. Receio ter más notícias." Ele olhou para Jack com o rosto aflito. "As piores."

Jack sentiu um aperto de horror no estômago. Tentou preparar-se. Havia confiado que eles derrotariam as dificuldades.

"A ligação era de lona", Jeremy parecia desnorteado, enxugando o suor de seus olhos. Sua voz era apenas um sussurro. "É sobre o padre O'Connor. Ele foi assassinado. E Maria desapareceu.

Mais tarde, quanto tempo se passara ela não podia dizer, Maria recobrou a consciência de um aterrador abismo de trevas, sua mente tentando com dificuldade sair de um horror esquecido que a havia arrastado implacavelmente. Ela se sentia inacreditavelmente exausta, gastara a energia em sua luta contra o demônio sem rosto de seus sonhos, no entanto sentia-se também subjugada pelo entorpecimento que se segue ao sono profundo. Pelo que parecia uma eternidade ficou deitada imóvel, entrando e saindo da consciência, esperando que seu corpo respondesse. Ela se dava conta da respiração e sentia a dureza da superfície debaixo de si, o pescoço rígido. Encontrava-se deitada em posição fetal sobre o lado direito. Estava escuro, mas não tão negro quanto em seus sonhos. Pelo canto do olho viu o tremeluzir de uma vela. A parede à sua frente estava coberta de formas, cores. Ela via manchas vermelhas.

Sua respiração parou. Ela ficou rígida. O estúdio de O'Connor. Fechou os olhos bem apertados, ansiando outra vez pelas trevas, qualquer coisa que pudesse apagar uma realidade em que mal podia acreditar, um horror que ela tentava desesperadamente repelir para dentro de seus sonhos.

Maria sentiu uma dor ardente em sua face esquerda. Um leve toque parecia passar por ela, a alusão de uma brisa. Repentinamente emitiu um grito agudo e sentou-se assustada, com o coração batendo descompassado e o sangue martelando em seus ouvidos, fora de si, esfregando o rosto enquanto engatinhava para trás. Ela bateu em uma parede, respirava com grandes aspirações profundas e desiguais, depois ouviu o esvoaçar de asas baixando sobre ela e desaparecendo em direção ao alto.

Ergueu a mão e sentiu uma umidade pegajosa em sua bochecha, depois olhou para cima. A vela revelou um teto pontudo, muito alto, feito de pequenos blocos de pedra cobertos com porções de reboco. Parecia antigo, decadente. No ápice, ela pôde distinguir uma série de figuras pretas penduradas em fileira.

Eles estiveram se alimentando dela.

Começou a ter enjôos, segurando os braços apertados contra o estômago e inclinando-se para um lado. Sentiu o hálito metálico de novo. Tentou levantar-se, com repetidas ânsias de vômito, desesperada por algo para reparar a repugnância que sentia, a mácula de morte e violação que dominava completamente todos os seus pensamentos, isso era tudo que podia lembrar do que havia se passado antes.

Ela desistiu, tentou se acalmar, estava ofegante. Fechou os olhos, a bochecha sangrando fortemente pressionada contra a parede úmida, procurando recuperar as forças desesperadamente. Ela transpirava muito, o suor escorria pelo sangue endurecido em sua face. Olhou para baixo. Estava vestindo apenas suas calças caqui e uma camiseta rasgada e suja. Alguém havia arrancado seu suéter. Seu relógio havia sumido. Ela estava queimando, febril. De súbito, sentiu-se terrivelmente desidratada, desesperada por uma bebida, e começou a lamber o suor e o sangue em seus lábios.

Esforçou-se para se endireitar de novo, engoliu forte e forçou-se a olhar em volta. Tudo parecia úmido, coberto com um limo esverdeado. Ela se encontrava em um aposento retangular de cerca de dez metros de comprimento e cinco de largura. Havia uma espécie de via de acesso em uma extremidade, uma abertura profunda na escuridão.

Maria pensou nas construções que conhecia em lona, a antiga capela no lado norte, o refeitório. Rapidamente ela os descartou. O chão onde se encontrava era de rocha natural, de pedra calcária pela aparência, polida em alguns lugares, mas nada como o leito de rocha em Iona. No centro havia uma placa de madeira, como uma tampa, como se ali fosse um poço. A tampa parecia feita de uma exótica madeira dura, mais escura ainda do que um carvalho antigo. Na outra extremidade do aposento encontrava-se um amontoado de pedra e cal que havia caído, atravancando o espaço do teto até o chão. Dos remendos brancos na alvenaria ela podia ver onde as pedras tinham sido recentemente removidas, atiradas sobre o chão. Onde a parede de alvenaria se projetava, ela estava coberta com tábuas de madeira, uma tela rústica protetora que se estendia do outro lado, por três metros mais ou menos em direção ao centro do aposento.

Maria levantou-se com as costas apoiadas na parede, sentindo-se como se estivesse alcoolizada e sem firmeza. Ficou parada por um instante enquanto uma onda de tontura passava, depois, de maneira hesitante, caminhou para onde havia visto as manchas de cor. O calor estava sufocante, era como caminhar em uma sauna. Uma coisa era certa, ela não estava mais nas ilhas ocidentais da Escócia. As paredes pareciam tão antigas quanto as do mosteiro, mas todo o resto lhe dizia que ela havia sido levada para algum lugar inacreditavelmente afastado de lona. Era uma possibilidade que sua mente simplesmente se recusava a analisar mais.

Cambaleou até a parede oposta. A simples vela que proporcionava a única iluminação estava em uma pequena pedra plana diante dela. Maria a pegou, lançando sombras em uma dança enlouquecida ao redor do aposento, depois a segurou com ambas as mãos para parar de sacudi-la e examinou a parede.

Sua boca abriu-se de espanto.

Piscou fortemente. Ela sabia que seu corpo quase não tinha mais reservas de energia, que estivera sem comer e beber por horas, dias. Ela podia estar alucinando. Olhou de novo.

As manchas vermelhas estavam ali, de fato. Eram de sangue. Mas não sangue de verdade como no estúdio de O'Connor. Este era um horror de um tipo diferente. Ela viu sangue espirrando de pescoços, sangue jorrando de corpos, sangue derramando em uma rampa cor de chumbo em direção a uma ladeira cheia de degraus.

Era um afresco, uma parede pintada com barbaridades inimagináveis, uma execução em massa. Vítimas nuas estavam sendo levadas para um templo no alto. Lá em cima, elas eram retalhadas e mantidas no chão do altar, as mãos do carrasco mergulhavam em suas vísceras, uma outra figura erguia no alto um coração extirpado. Maria sentiu seu estômago ficar convulsionado de novo. O executor era um gigante medonho, estava despido até a cintura e tinha uma testa larga e achatada e um nariz aquilino, usava uma tanga e um elaborado adorno de cabeça. Acima dele havia símbolos estilizados. Jaguares, pássaros, monstros exóticos. O que estava diretamente acima do executor pareceu subitamente familiar. Maria lembrou-se do momento que o pesadelo havia começado, quando ainda estava em seu estúdio em lona examinando a figura do deus-águia no pingente que Jack lhe enviara.

Ela piscou fortemente tentando registrar o que estava vendo. Deu alguns passos vacilantes para trás, a vela oscilando em suas mãos. A direita ela podia ver as vítimas reunidas como prisioneiros depois de uma batalha. A pintura na parede era nitidamente uma narrativa, uma progressão de cenas em uma história, indo da direita para a esquerda. Ela olhou de novo para o teto. Tentou pôr em ordem seus pensamentos, pensar como alguém cuja mente estivesse altamente treinada. Como se fosse em outra vida, ela lembrou seus anos com um professor orientador, quando, junto com Jack, assistira a aulas sobre a história da arquitetura, no tempo em que ainda não eram formados. Uma abóbada apoiada em modilhões. Uma grande civilização havia construído todas as suas abóbadas dessa maneira, nunca havia aprendido a fazer um arco. Uma civilização famosa por sua arquitetura, infame por sua crueldade.

Maria olhou outra vez para a parede. Abóbadas apoiadas em modilhões. Cenas narrativas da direita para a esquerda. guerreiros medonhos com testas achatadas. Os símbolos, hieróglifos. Sacrifício humano em um altar de templo, sacrifícios em escala prodigiosa. Ela começou a pensar no inacreditável.

Os maias.

Cambaleou para trás, atingida por uma onda de vertigem, depois reuniu suas forças e deu alguns passos para a direita, até parar ao lado da tampa de madeira. Maria segurou a vela contra a parede. Ela estava parada entre duas cenas, as primeiras da pintura. A cena do início mostrava um combate naval com longas canoas repletas de guerreiros, uma delas com uma vela quadrada. A cena seguinte exibia uma batalha sangrenta, dessa vez em terra. Guerreiros vestidos de maneira idêntica à do executor estavam lutando com outros guerreiros, aqueles que logo seriam feitos prisioneiros. Todos tinham as testas achatadas, mas os vencidos eram ainda maiores, gigantes. Todos estavam de peitos nus. Em primeiro plano havia mortos de ambos os lados, alguns desmembrados, outros dentro de um rio, aparentemente subterrâneo. Os vitoriosos seguravam clavas e maças, os vencidos, espadas e achas.

Maria se imobilizou. Espadas e achas.

Ela olhou mais de perto. Começou a tremer e obrigou-se a firmar a vela. As cabeças inclinadas dos vencidos não mostravam testas, mas o protetor de nariz dos capacetes. Embora despidos até a cintura, usavam perneiras, não os saiotes e as tangas dos vencedores. Tinham barba. E eram loiros. Eles carregavam espadas largas e enormes e achas de uma única lâmina.

Achas-de-armas varegues.

Maria cambaleou. Era como se estivesse sonhando o capítulo final da história que a absorvera nos últimos dias, um capítulo tão extraordinário que só podia ser fantasia. Ela desejava que Jack estivesse ali, perto dela, sua calma, a voz tranqüilizante dizendo-lhe que tudo isso era material de ficção. Olhou de novo para a cena de sacrifício, para o altar e o executor, onde a parede parecia estar esvaindo-se em sangue. Ficou tonta de novo e agachou-se contra a outra parede, fechando fortemente os olhos, tentando com desespero acordar outra vez em sua cela em Iona, sentir a respiração quente e firme de alguém ao seu lado.

 

"Doutora De Montijo. É bondade sua ter vindo. Os efeitos da droga vão diminuir em breve." Uma voz dirigia-se a ela, uma voz real. "Você está no México."

Maria sacudiu-se, já semi-acordada. "Sim", disse ela, a palavra saiu-lhe antes mesmo que registrasse o que estava acontecendo. "Eu sei."

"Como?" A voz soou aguda, irritada. Maria tentou levantar-se, mas escorregou contra a parede na qual havia estado apoiada. Não conseguia ver nada, sua visão cegada por uma tocha que incidia diretamente em seu rosto.

Sua boca estava completamente seca, e sua voz era um grasnido. "Eu descobri."

A tocha abaixou-se e Maria viu um homem baixo, rijo, parado diante dela, o cabelo preto alisado para trás. Supôs que ele tivesse cerca de setenta anos, o cabelo era obviamente tingido, embora seu físico fosse de um homem trinta anos mais jovem. Os olhos tinham um tom cinza desbotado.

A verdade ficou clara para Maria. Olhou para ele com repugnante certeza, mal podendo acreditar que se encontrava, finalmente, em sua presença. Tudo o mais, seu estado assustador, mesmo a morte de O'Connor desapareceu de sua mente. Era ele. Ela lutou para controlar suas emoções, para manter-se fria. Subitamente estava plenamente acordada. "Pieter Reksnys. Vejo que seu pai lhe ensinou muito bem. Lituano, acho? A raça vencedora."

Uma mão moveu-se rapidamente e agarrou o pescoço de Maria como um torniquete, mostrando uma agilidade surpreendente para um homem de sua idade. Ele a puxou em sua direção e levantou-a, segurando-a quase acima do solo. Através da dor sufocante, Maria sentiu algo familiar, um repelente cheiro em seu hálito, um odor conhecido. "Nunca fale outra vez de meu pai, sua judia", disse ele com tom agudo. "E não pense que ele foi o único que puxou o gatilho, na época. Eu me divertia muito com as crianças." Deixou Maria cair e parou muito próximo enquanto ela tossia, com ânsia de vômito. "Eu só queria que o meu próprio filho já tivesse nascido na época. Teria deixado seu avô orgulhoso."

Ele chutou Maria para que virasse e ficasse de costas, esfregando ostensivamente seu sapato no chão depois disso. Maria viu uma outra figura avançando para ela. Sua cabeça mantinha-se abaixada e as mãos entrelaçavam-se e separavam-se. Seus movimentos repulsivos eram familiares. Ele a agarrou pelos cabelos e arrastou-a por sobre a tampa de madeira, chutando esta com força para o lado e empurrando Maria para o buraco. Ela não conseguia enxergar nada a não ser trevas, uma abertura profunda que deixou passar uma rajada de ar mais frio, como se houvesse água em algum lugar bem abaixo.

"Não se preocupe." Ela foi puxada para cima até ficar de pé e ver a horrível cicatriz. "Eu reservei a águia de sangue para o seu namorado. Quando eu a atirar no inferno você nem morrerá. Pelo menos era isso o que os toltecas diziam para as suas vítimas." A voz era rouca, asquerosa, menos refinada que a de seu pai. Ele fez como se fosse empurrá-la e depois a puxou de volta com brutalidade. "Meu tipo de gente." Ele riu, um cacarejo alto, insano, depois atirou-a para o chão. "Por enquanto você pode ser de alguma utilidade para o félag. Aproveite suas pequenas férias em seu refúgio enquanto pode."

"O verdadeiro félag morreu setecentos anos atrás." Maria ergueu a cabeça e tentou fitar Loki. "Os homens de Harald Hardraade nunca teriam admitido uma escória como você. Eles nem o considerariam digno de uma hostilidade sangrenta."

Loki quis atacar Maria, mas Reksnys o segurou, impedindo-o. "Ainda não", ele murmurou. Voltou-se para Maria, desculpando-se com um jeito zombeteiro. "Meu filho ainda tem essas noções românticas. Ele pensa que está na SS."

"É muito fraco para isso."

Loki fez menção de atacá-la de novo e mais uma vez Reksnys o segurou. "O nosso félag era um meio para um fim. Nada mais, nada menos. E parece provável que riremos por último no que se refere a Harald Hardraade."

Loki mostrou os dentes e deu meia-volta afastando-se abruptamente. Dirigiu-se rapidamente para fora saindo pela entrada lateral do aposento. Maria rastejou de novo até a parede. Reksnys lhe deu uma pequena garrafa de água. "Então agora nos conhecemos. Preciso de auxílio de um especialista. Você vai me ajudar."

Reksnys pegou uma câmera digital e apontou-a para ela. Maria começou a perder os sentidos, caindo no chão, depois olhou para Reksnys e lembrou o que ele e seu filho haviam feito. O'Connor havia garantido que fosse feita justiça contra o pai de Reksnys, arriscara sua vida nisso e pagara o preço derradeiro. Ela devia a ele fazer tudo que estivesse em seu alcance para terminar aquele trabalho. E devia isso também a si mesma.

Ela seria forte.

 

Jack estava parado pensativo na sala de controle do Seaquest II, bebendo um café e observando uma chuva distante no mar. O céu estava coberto de ameaçadoras nuvens cinzentas; as altas nuvens que eles tinham visto na praia, naquela manhã, tinham sido substituídas por uma massa escura que vinha do Caribe. Quando o sol brilhava através dela, cortinas de luz dependuravam-se e entrelaçavam-se, misturando-se no céu como as luzes do norte que tinham visto na Groenlândia, mas pesadas com o presságio do tempo que iria fazer.

"Parece que vamos pegar um pouco de chuva." O capitão canadense do Seaquest II subiu até onde estava Jack, examinando atentamente o mar com seus binóculos. "Estamos quase entrando na estação dos furacões. Como precaução, estou encerrando as atividades. Começamos a nos distanciar da costa e vou prender o helicóptero no hangar."

Jack resmungou. Não eram as notícias que ele desejava ouvir. "Obrigado. Faça o que tem de fazer."

O capitão se afastou para a ponte de comando e James Macleod levantou-se do console de computador onde estivera avaliando dados do fiorde gelado. Todos no aposento estavam cientes da presença de Jack, mas haviam se mantido à distância. Alguns deles tinham estado no primeiro Seaquest e se lembravam da perda de Peter Howe no mar Negro, de como Jack havia assumido pessoalmente a responsabilidade. Maria tinha sido muitíssimo popular entre a tripulação, bem como entre os cientistas, durante a estada deles no fiorde gelado. Até mesmo Lanowski estava calado, e passava de modo calmo para Jack uma série de dados, impressos pelo computador, sobre o drakar no iceberg que havia corrigido a partir das imagens fotogramétricas.

Macleod foi para o lado de Jack perto da janela. "Quanto tempo você acha que ficaremos aqui?", perguntou baixinho.

Jack voltou-se e olhou para ele com o rosto cansado e distante, depois fitou o mar novamente. "Eu não sei, James. Não sei exatamente." Ele pressionou os lábios e pôs o café de lado. Eles tinham voltado a bordo já fazia quase seis horas e ainda não havia nenhuma palavra de Iona. Tudo o que tinham para prosseguir na busca era uma breve mensagem, por telefone, para o quartel-general da IMU, enviada pelo companheiro de O'Connor, o homem que Jack lembrava ter visto rapidamente no mosteiro. Ao que parecia a polícia estava mantendo o assassinato completamente encoberto, e nada vazara para os meios de comunicação. Mas não havia dúvidas sobre os fatos. O padre O'Connor estava morto, e Maria desaparecera.

"Devemos assumir que ela foi seqüestrada." Ben estava dentro do alcance da conversa deles e fora postar-se do outro lado de Jack. "Enquanto não há um corpo, é assim que devemos considerar."

"Eu sei." Jack soltou o ar violentamente, depois se afastou do parapeito com as mãos nos quadris, o seu jeito habitual havia voltado. "Precisamos nos prender a isso. Temos de supor que logo teremos mais notícias. Até lá não há nada que possamos fazer. Devemos manter uma situação normal." Olhou para Macleod, com uma expressão soturna, mas determinada. "Aqui está sua resposta. Meu plano depois de visitar Chichén Itzá era conferir toda a evidência possível sobre o norte do Iucatã, da segunda metade do século XI até a época em que Harald pode ter estado aqui. Pinturas nas paredes, hieróglifos, estruturas. Qualquer coisa que possa proporcionar uma pista." Apontou para Jeremy, de costas para eles, curvado sobre uma tela no canto e rodeado por livros abertos. "Designei Jeremy para verificar isto desde o momento que voltamos."

"Ele está muito abalado", murmurou Macleod.

"Ele venerava O'Connor", disse Jack calmamente. "E Maria é sua orientadora. Para alguém como ele, isso é como puxar o tapete de debaixo de seus pés."

"Ele agora tem a nós", replicou Macleod.

"É um bom rapaz", disse Jack.

Costas tinha estado digitando na estação de trabalho perto de Jeremy, e inclinou-se na cadeira quando eles olharam para lá. "Jack, há algo aqui para examinar com interesse. Eu pulei os trâmites usuais e entrei em contato com o sujeito da IMU responsável pelo Caribe, Jim Hales, e Grand Cayman. Você sabe que ele é um velho camarada meu do laboratório de pesquisa de submersíveis da Marinha dos Estados Unidos. Ele foi direto para a cidade do México e os responsáveis nos deram o sinal verde para ir a Chichén Itzá. É espantoso como esse sujeito se livra da burocracia. Em qualquer momento que você quiser iniciar um projeto naquele cenote, eu tenho os números de telefones de contato."

"Isso soa como um plano." Jack encontrou o olhar de Costas e soube que ambos sentiam a necessidade de se manter numa atitude positiva, ir em frente. "Vou fazer um pedido para termos prioridade para usar o perfurador que funciona abaixo do fundo do mar depois que ele tiver terminado o trabalho no Chifre de Ouro. Jeremy, você está conosco nisso?"

Jeremy olhou para eles, pálido e distraído. "Hum? Se Maria me deixar." Ele subitamente se conteve, e a sala ficou silenciosa.

"Ela deixará", disse Jack com firmeza.

Jeremy tentou com dificuldade manter uma expressão corajosa. "De todo jeito não tenho certeza de que o Poço de Sacrifício seja o lugar onde quero ter minha primeira experiência de mergulho em água profunda."

"Não se preocupe." Costas colocou a mão sobre o ombro de Jeremy. "Vamos primeiro mergulhar onde há alguns corais."

Uma luz vermelha começou a acender no meio da sala. Ben olhou para Jack com o rosto profundamente sério. "Para a ponte de comando." Os dois homens saíram rapidamente da sala de controle e subiram a escada, seguidos por Costas. O capitão estava atarefado e ocupado junto com o oficial-chefe em olhar pelo binóculo, mas imediatamente fez um gesto em direção à sala de mapas. "Mensagem prioritária no canal de segurança." Ben foi o primeiro a entrar na sala e pegou o rádio-receptor, falando rapidamente e depois colocando-o de lado. "Era do quartel-general da IMU. Há uma mensagem por e-mail. Ela é dirigida a vocês em um site de segurança e nos deram uma senha."

Costas já estava sentado ao computador na mesa de mapas. "Ok. Estamos conectados. Endereço?" Ben o leu e Costas digitou no teclado. "Senha?"

Ben hesitou, depois olhou para Jack. "Menorá."

Costas soltou um assobio baixo. "Bem, isto revela o jogo."

Os nós dos dedos de Jack estavam brancos quando ele agarrou a cadeira de Costas, e sua voz soava rouca. "Nós supúnhamos com quem estávamos nos defrontando. Esse e-mail confirma nossas suspeitas."

"Ele está endereçado a você, Jack." Costas inclinou-se para o lado para deixar Jack ler o curto e-mail que apareceu na tela.

 

Para: Jack Howard

Você e Kazantzakis devem vir pelo Zodiac esta madrugada, à uma hora, no local de desembarque na praia que visitaram esta manhã. Tragam equipamentos para mergulhar em caverna. Vocês mesmos vendarão seus olhos e esperarão nossa chegada. Qualquer tentativa de envolver segurança ou estabelecer contato com alguém e sua colega será executada.

 

"Maria está viva", respirou Jack, aliviado. "Graças a Deus."

"O local de desembarque na praia", murmurou Ben. "Não me surpreende que eles soubessem onde estávamos. Provavelmente foram informados pela polícia mexicana. Se foi Reksnys quem enviou o e-mail, ele deve ter olhos espreitando por toda parte ao longo dessa costa."

"E equipamento para caverna", murmurou Costas. "O que diabos significa isto? Eu não vou mergulhar na caverna enquanto estiver chovendo. Todos os bolsões de ar vão ser alagados."

"Eles devem ter encontrado algo", disse Jack.

"Aquela senha?"

"Espero realmente que não."

"Maria está em algum lugar por aqui, perto de nós", disse Ben. "Eles devem tê-la trazido de lona para cá. Reksnys tem um jato particular, e seu próprio esconderijo na selva. Essa é uma das poucas coisas que você não disfarça de uma vigilância por satélite. E ele deve ter sido informado que o Seaquest II estava vindo para cá mesmo antes de eles chegarem a Iona."

"Suponho que o ataque tenha sido feito por um só homem", disse Jack desoladamente.

"Loki."

"Eles nos enviaram uma foto. É melhor nos prepararmos." Costas clicou em um anexo abaixo da mensagem, e uma cena começou a surgir. A foto fora tirada com flash dentro de uma espécie de aposento com um chão de pedras irregulares e velhas paredes cobertas com algo esverdeado. Quando a imagem se abriu, eles puderam ver uma figura caída no chão, uma mulher. Era aterrorizante, uma imagem de tortura, o tipo de cena que vazava do Iraque e buracos do inferno inenarráveis do Terceiro Mundo. Ela estava imunda, usando uma roupa parcialmente rasgada no peito. O cabelo preto enrodilhado no pescoço, e os braços com manchas verdes do chão. Ela tinha tentado olhar para a câmera, mas desistira na hora do flash. Os olhos apresentavam-se inchados e fechados, a boca estava salpicada de branco, e ela tinha uma escoriação horrenda na bochecha da qual gotejava sangue e pus.

Jack sentiu um choque brusco ao reconhecê-la. "Maria." Ele se sentiu mal fisicamente. Suas mãos escorregaram de trás da cadeira e ele sentou-se pesadamente em um banco que havia ao lado. Olhou de novo para a imagem. Seu horror transformou-se em fúria, em raiva descontrolada.

O capitão apareceu na porta. "Mensagem de Iona. Há um policial judicial que tem licença para falar conosco." O capitão olhou para a tela, com hesitação.

"Estou indo." A voz de Jack era fria, sem emoção.

Dez minutos depois, Jack estava de volta à sala de controle. Apenas Jeremy se encontrava ali. Macleod e Lanowski haviam ido para o convés da ponte de comando alguns minutos antes. Jeremy estava silencioso diante da tela, trabalhando quietamente, ocupado em imprimir imagens da web e anotando endereços das páginas de arte tolteca. Acima dele, a janela estava pontilhada com as primeiras gotas de chuva e Jack pôde ver que o tempo estava piorando rapidamente. Ele parou, sentindo-se completamente esgotado pelo que acabara de ouvir, olhou de novo para Jeremy e depois caminhou em meio aos consoles. Puxou uma cadeira e virou-a para sentar-se de costas para a janela, depois examinou com cuidado as imagens de Jeremy.

"Bom trabalho", ele disse baixinho. "Eu nunca conseguiria interpretar esse material. Não estudei arqueologia da América Central como você."

"Eu fiz uma descoberta realmente interessante." Jeremy passou uma folha de papel para Jack. "Você se lembra da antiga profecia asteca sobre o retorno do rei-deus Quetzalcóatl? Quando os espanhóis chegaram a Tenochtitlán, no México Central, em 1519, o imperador Montezuma pensou que Cortês fosse Quetzalcóatl. Essa foi uma das razões por que a conquista espanhola ocorreu tão rapidamente."

"Continue."

"Bem, Quetzalcóatl era um tolteca, um rei semi-lendário. De acordo com a lenda asteca no tempo de Montezuma, ele havia sido exilado do seu reino cinco séculos antes, e prometera retornar da terra do sol nascente."

"Cinco séculos antes", refletiu Jack. "Isso o coloca no século XI, diretamente no nosso período."

"Certo. A terra do sol nascente, na direção leste a partir da área central asteca, no vale do México, era quase certamente a península do Iucatã. Há alguma confirmação histórica sobre isso, porque foi mais ou menos na época que os toltecas invadiram Chichén Itzá."

Jack olhou firme para Jeremy, ia começar a falar, depois resolveu deixá-lo continuar.

"As coisas ficam realmente intrigantes quando você olha para as fontes maias", disse Jeremy.

"O que sabemos dos últimos anos dos maias provém, sobretudo, dos Livros de Chilam Balam o Profeta Jaguar, escritos na maior parte por escribas locais em alfabeto latino depois da conquista espanhola. Cada um deles é relacionado a uma comunidade diferente no Iucatã norte, um pouco como as sagas na Islândia. Uma das profecias mais extraordinárias refere-se à chegada de homens barbados do leste."

"Você está me acompanhando? Muitos estudiosos descartaram isso como um embelezamento posterior do livro. Alguns dos livros não foram escritos até o século XVIII ou XIX. Mas um outro livro acaba de ser encontrado, dentre todos os lugares possíveis, logo nos arquivos do Vaticano em Roma. Ele parece ser o primeiro de todos os livros conhecidos, em parte registrado em escrita maia, e, aparentemente, foi confiscado pelos primeiros jesuítas missionários no Iucatã no século XVI. O livro contém lendas e profecias da comunidade ao norte de Chichén Itzá. Há a mesma história de homens barbados, mas com uma alteração. Nessa narrativa eles têm um rei, e ele luta uma grande batalha contra os opressores dos maias, presumivelmente os toltecas. Depois ele desaparece no mundo de baixo, e os maias esperam o seu retorno. Esta pode ser a origem da profecia Quetzalcóatl dos astecas, exceto que na história maia ele é chamado Wukub Kaqix, a monstruosa divindade-pássaro, o deus-águia."

Jack olhou para a figura do pingente de jade pregada ao lado do monitor. "Há uma bela imagem-modelo disponível."

"Mas também é o nome do navio de Harald Hardraade, o Águia. Nas sagas nórdicas há alguns indícios de que, quando os vikings vão para a guerra sem intenção de retornar, queimam suas embarcações; eles às vezes cortam a proa dos navios e as carregam como estandartes de batalha. Este era o sinal de que lutariam até a morte, de que tinham apenas passagem de ida para o Valhala. Era uma maneira de provocar medo nos corações de seus inimigos. Talvez tenha sido isto que aconteceu aqui, e os maias locais perceberam."

"Fantástico. Isto é fantástico, Jeremy. Isto é exatamente o que estávamos procurando." Subitamente Jack inclinou-se para a frente e pôs a cabeça entre as mãos, toda aparência de bonomia desaparecera. Ele não podia mais esconder os fatos de Jeremy. "Há algo que preciso lhe contar. Tivemos notícias de Iona."

"Eu sei." Jeremy falou suavemente, e pôs de lado o livro que estava segurando. Jack olhou para ele. Jeremy parecia muito mais velho que o entusiástico estudante recém-formado que ele conhecera uma semana antes. "Eu soube no momento em que ouvi que O'Connor tinha sido assassinado. Ele me falou disso, preparou-me para isso. Eu sei o que aconteceu em lona." Jeremy fez uma pausa, tentou falar, depois as palavras saíram como um sussurro rouco. "A águia de sangue?

 

Já passava da meia-noite, provavelmente era quase uma hora da madrugada. A escuridão se fazia sentir quando Jack e Costas saíram sem fazer barulho do Seaquest II e dirigiram o Zodiac para a praia, alcançando o local do encontro pouco antes da hora marcada. Tudo o que Jack podia ouvir agora era o barulho incessante da chuva, o som que subia num crescendo e caía de novo enquanto a água do temporal os encharcava. A umidade era implacável. Jack sabia que estava em um veículo pequeno, possivelmente um de quatro rodas pelo barulho que fazia, curvado no assento de trás ao lado de Costas. Por um tempo que pareceu uma eternidade, mas que deve ter sido de apenas meia hora, eles ficaram pulando e colidindo entre si em uma trilha bastante acidentada rumo a algum lugar dentro da selva. O ferimento na coxa de Jack latejava. Eles tinham seguido as instruções escrupulosamente e esperado vendados atrás do Zodiac com seus equipamentos de mergulho. O seqüestrador tinha chegado sem dizer palavra, apressando-os para dentro do veículo sem revelar nada sobre si mesmo ou para onde estavam indo. Era enervante, mas Jack sentia-se seguro tendo Costas chocando-se ao seu lado e praguejando a cada sulco e buraco.

Desde que haviam recebido o e-mail com o ultimato, Jack soubera que eles ficariam sozinhos, que deveriam seguir as ordens dos seqüestradores de Maria e confiar na sorte. O que quer que os aguardasse, parecia certo que envolveria mergulho. E com o caminho que estavam tomando agora, supor que fosse em algum lugar afastado da costa parecia plausível. Cenotes, rios subterrâneos. A chuva estava começando a irritar Jack. Com uma tempestade dessas, as águas de inundações poderiam ser perigosamente altas, preenchendo as cavernas subterrâneas. E, por estarem perto do mar, as correntes de água fresca que tornavam o Iucatã parecido com um favo de mel possivelmente se tornariam traiçoeiramente fortes, sugando a água da chuva através dos labirintos de canais calcários e ejetando-a para o mar.

O veículo parou e Jack voltou rapidamente para a realidade. Ele foi puxado pela porta e guiado através de um solo acidentado, escorregando na vegetação molhada. A chuva era torrencial, martelando seus sentidos. Depois encontrou-se dentro de uma espécie de abrigo, fora da chuva, mas com vapor quente. Costas chocou-se atrás dele, e Jack ouviu quando seus equipamentos foram retirados. Em seguida, empurraram-no de novo para a frente. Sua venda foi tirada, fazendo-o piscar e vacilar. Com movimentos rudes colocaram-lhe uma fita adesiva ao redor dos pulsos. Ele estava em algum lugar escuro, com luz de vela. Avistou Costas próximo, à sua esquerda, e um homem diante deles. Jack imediatamente soube quem era. Pieter Reksnys era o retrato escarrado de seu pai Andrius, o homem que Jack havia visto na foto da equipe SS Ahnenerbe na Groenlândia, a foto que Kangia tinha dado a Macleod.

Kangia. O fiorde gelado. Tudo isso parecia estar a um zilhão de milhas distante, antes que atravessassem uma fronteira para chegar até aqui, a este lugar onde o inferno e seus demônios pareciam ser muito mais do que apenas um pesadelo medieval.

Jack olhou ao seu redor. Eles estavam em um aposento, uma sala de pedra, talvez de alguma igreja muito antiga. O local era tão quente como uma sala de caldeiras, e Jack estava molhado de suor. O teto era alto, sustentado sobre modilhões. Havia um buraco circular no chão. A parede ao seu lado estava pintada, centelhas vívidas de cores reveladas pela luz da vela.

Então ele viu Maria.

Ele tinha tentado se preparar, olhara para a fotografia enviada por e-mail antes que eles deixassem o Seaquest II, mas a realidade ainda era chocante. Ela estava sentada, apoiada na parede oposta ao mural, atordoada, oscilando ligeiramente, as pernas e os pulsos estavam amarrados juntos. A boca estava coberta com fita adesiva. A face exibia vários arranhões e estava inchada, e na bochecha via-se uma ferida causada por espancamento. Seus olhos se encontraram.

Jack tentou controlar sua raiva. "Ele fez isso a você?"

Maria olhou para ele suplicante, depois sacudiu a cabeça, apontando para alguém atrás de Jack. Ele virou-se e viu a outra pessoa além deles no aposento, o homem que os havia apanhado na praia. Devia ser Loki. O mesmo cabelo alisado para trás, a magreza, as feições maldosas, os olhos desbotados. Tal pai, tal filho. Loki arreganhou os dentes quando viu que Jack olhava para ele, voltou-se para a luz, passou um dedo pela bochecha pressionando-a. Então Jack lembrou a descrição de O'Connor. A cicatriz.

Costas ficara olhando horrorizado para Maria, e então de repente lançou-se contra Loki. A resposta foi pavorosamente flexível, rápida e natural como a de um animal de caça. Loki imobilizou Costas com um golpe de luta-livre e estava puxando sua cabeça para cima e de um lado para o outro. Levantando-o do chão sem fazer força, apesar do peso maior de Costas.

"Solte-o." Jack ouviu a voz de Reksnys pela primeira vez, áspera e dissonante, um sotaque indefinido com um toque do Leste europeu. Loki obedeceu a seu pai e empurrou Costas para longe. Jack fitou Loki. Este era o assassino implacável descrito por O'Connor, um operador independente que gostava de trabalhar sozinho, no entanto, ele era totalmente subserviente a seu pai. A raiva não era a sua única fraqueza.

Costas ergueu-se, fazendo ostensivamente caretas de repugnância, limpando seu ombro com as costas da mão no lugar em que Loki o segurara. Loki olhou com sarcasmo e retirou-se para um canto distante do aposento para ficar à espreita. Reksnys puxou uma pistola, imediatamente reconhecida por Jack como sendo uma Luger da época nazista, e apontou-a para as pernas de Maria.

"Primeiro um joelho, depois o outro. Depois trato do meu assunto." Sua voz tinha uma aspereza repelente. "Ou vocês param com as tolices."

De início, não houve reação de Costas, depois uma aquiescência carrancuda. Maria tinha ficado como uma folha branca à vista da pistola, e a fitava estupidificada.

Reksnys voltou-se para Jack. "Eu quero que você examine aquela parede pintada. Com muito cuidado."

Jack olhou impassível para ele. Depois se voltou para Maria, que concordou debilmente, resmungando através da fita adesiva em sua boca, encorajando-o. Jack lançou a Reksnys um olhar de desprezo e depois se virou para o mural. Ele era bidimensional, sem profundidade. Outrora tinha sido uma deslumbrante explosão de cores, marrons profundos, vermelhos e verdes, num fundo azul e amarelo. Jack imediatamente captou a seqüência narrativa, os vitoriosos e os vencidos. À direita ele viu uma mescla de embarcações, guerreiros vestidos de maneira elaborada com as testas achatadas, embarcações com os remos dispostos simetricamente. Uma embarcação com a vela quadrada, guerreiros diferentes.

Uma vela quadrada.

A cena seguinte era uma batalha feroz na selva. Alguns lutavam em terra firme, outros em um rio de correnteza rápida e parecia que estavam debaixo do solo. Corpos mutilados jaziam por toda parte. Os vitoriosos carregavam atlatls, lanças e escudos quadrados com a figura de um deus da guerra. Eram comandados por um guerreiro-águia, um gigante musculoso que usava uma máscara de águia com um olho fixo, asas nas costas e grandes e violentas garras nos pés. Seus guerreiros traziam ornatos para a cabeça feitos com pele de jaguar, braceletes nos tornozelos e nos pulsos, pesados colares de jade e pingentes nas orelhas. Lutavam com clavas e caíam sobre suas vítimas com olhos enfurecidos e aterradores. Os oponentes tinham escudos redondos e vermelhos, proteções para a cabeça diferentes, e armas diferentes também.

Jack examinou de novo as armas com atenção. Ele olhou para Maria de soslaio. A amiga devia ter ficado paralisada por esta cena, olhando para ela quando estava deitada no chão, antes da chegada deles. Ela também devia ter visto o que ele acabara de ver. Maria acenou para ele quase imperceptivelmente. Ela tinha visto. Ele voltou-se.

Agora ele compreendia.

Jack não demonstrou nada em sua expressão. Ele se moveu para a esquerda. Os guerreiros capturados estavam no chão, alguns deitados de costas, outros ajoelhados. Alguns estavam agrilhoados, homens que não estavam vestidos como guerreiros, servos capturados sendo levados para servir como escravos pessoais por cada um dos guerreiros vitoriosos. Jack pensou no esqueleto viking em L'Anse aux Meadows, no homem que de alguma maneira fez a longa e difícil viagem de três mil milhas para o norte, que quase viajou de volta para o seu próprio mundo. Era desse pesadelo que ele estava fugindo.

A cena seguinte dominava a pintura. Jack viu imagens horrendas de morte, de mutilação. No topo de uma plataforma construída em terraços estava parado um rei-sacerdote usando a máscara do deus-águia. Ele estava dando as sentenças para aqueles vencidos na batalha. No degrau inferior havia prisioneiros sofrendo torturas, as unhas de seus dedos sendo arrancadas. Alguns degraus acima, um prisioneiro erguia as mãos pedindo misericórdia em vão e um outro estava estendido nos degraus, desmaiado, sangrando profusamente pelos dedos. No topo, o sacerdote mergulhava uma faca no peito da vítima, arrancando-lhe o coração, a alma ascendendo do altar para o céu numa trilha sangrenta. Uma cabeça cortada repousava em um leito de folhas, e outras caíam em uma cascata de sangue pelos degraus. Ao redor de tudo isso havia fogo, piras flamejantes de incenso. O ritual não era restrito aos infelizes prisioneiros de guerra. Debaixo de uma divindade com cara de caveira, os guerreiros toltecas ofereciam seu próprio sangue saído de ferimentos auto-infligidos, derramando-se sobre seus corpos. Em uma mesa de pedra ao lado do rei havia Ires mulheres magnificamente enfeitadas e com as cabeças raspadas, e uma serva lhes oferecia um instrumento para fazer sair sangue. Uma mulher estava puxando uma corda enfeitada com pregos por um buraco feito em sua língua. Ao lado dela um nobre fazia a mesma coisa através de seu pênis.

Jack virou-se. Reksnys olhava de soslaio para ele desfrutando suas reações. "Eu mesmo encontrei esta construção, anos atrás, quando adquiri esta terra", disse ele. "É um templo na selva, um aposento onde se realizavam sacrifícios acima de um cenote sagrado." Ele acenou a cabeça em direção ao buraco negro no centro do chão. "Percorri esta selva durante anos, procurando por um achado como este. O que eu descobri é realmente notável. Nós, no félag, suspeitávamos da existência de uma coisa como esta, mas nunca havia evidência."

"Evidência de quê?" perguntou Jack.

Reksnys ignorou-o. "Nossas fontes nos contaram que você estava procurando a menorá."

"Fontes", disse Jack com escárnio. "Você quer dizer que torturou o padre O'Connor."

"O'Connor foi de grande auxílio para nós", replicou Reksnys com a voz subitamente aguda. "Mas não da maneira que você pensa. No Vaticano ele se tornou menos cuidadoso. Penetrar no Arco de Tito foi um passo demasiado ousado. O'Connor tinha um superior que informava tudo o que ele fazia. Nós já sabíamos sobre esta mulher."

Ele apontou Maria com a cabeça e, ao ver o meio sorriso de Jack, de repente estreitou os olhos. "Esta informação lhe é inútil agora. Não haverá conseqüências se eu lhe contar ou não, e estou apenas partilhando a história de minha descoberta com você como um companheiro arqueólogo."

Jack olhou de um lado para outro. "Não vejo nenhum arqueólogo aqui."

Reksnys fingiu não ter ouvido. "Soubemos que você foi até a Groenlândia. É claro que sabemos sobre o navio dentro do gelo, descoberto por meu pai com a expedição da Ahnenerbe em 1930. Pouco antes de morrer, ele me contou a história completa, como Künzl roubou a pedra de runa dele e tentou matá-lo com sua adaga da SS na fenda. Felizmente meu pai tinha uma memória fotográfica e pôde reproduzir os símbolos para um conhecedor de runas, em nosso proveito, mais tarde, depois da guerra."

"Tenho certeza de que a memória de todas as mulheres e crianças que ele assassinou na frente oriental o mantinham acordado de noite", disse Jack de maneira extremamente fria.

"Apenas para contá-las." Reksnys resfolegou, depois continuou. "Algo me fez lembrar deste pequeno templo, algo sobre um vislumbre que tive anos atrás sobre aquela cena de batalha, o aparecimento de guerreiros vindos do mar. Quando eu o encontrei, o templo estava tragado pela selva e cheio de entulho. Nenhum dos maias locais se aproximava deste lugar. Algo absurdo a respeito de um deus-águia, o retorno de um rei. Eu me lembrei de Harald Hardraade, a menorá. O principal sonho dos félag. Era apenas possível. Limpei o templo sozinho, pedra por pedra."

Ele parecia contente consigo mesmo de um modo infantil. "Isso tem sido um passatempo muito satisfatório."

"Não faça joguinhos comigo", disse Jack friamente, olhando de novo para trás. "Isto é mais do que um passatempo. É uma obsessão. E é ilegal."

Reksnys olhou zangado para Jack e estalou os dedos. Loki aproximou-se como um raio, ficando frente a frente com Jack, empurrando-o para trás, a cicatriz lívida em sua face voltada para ele. Loki estava nitidamente acostumado a intimidar os que eram mais fracos do que ele, mas Jack era uma cabeça mais alto e olhava para Loki desdenhosamente.

"Basta." Reksnys vociferou o comando e Loki gritou palavras ásperas com as mãos se entrelaçando e se afastando, os olhos voltados para seu pai como um cachorro fitando o dono. "Vai haver tempo para isso mais tarde." Loki foi embora rapidamente, e Reksnys voltou-se para o mural. "E agora a razão pela qual você está aqui." Ele caminhou e levantou o grande painel de madeira no lado esquerdo da parede, junto ao entulho. "Aqui."

Era a cena final. Uma procissão estava sendo guiada para longe da base do templo. Era a única cena que não estava encharcada de sangue, embora as figuras fossem mais espalhafatosas ainda, mais extravagantemente ornadas do que antes. Algumas eram humanas, outras sobrenaturais. Músicos cantavam e batiam o ritmo com trombetas, cabaças e chocalhos. Uma carapaça de tartaruga aberta revelava um deus vertendo líquido de um jarro. Outros emergiam de uma carapaça de caranguejo, das mandíbulas de uma serpente. Guerreiros e mulheres moviam-se em meio a filas de portadores de tochas. Um jaguar comia um coração humano. Uma comitiva de mascarados fazia representações, contorcendo-se, serpenteando de um lado para outro, um deles vestido como crocodilo e um outro como caranguejo, com enormes pinças erguidas bem no alto. Um time de jogadores de bola, com cinturões protetores e joelheiras, colidiam entre si, um deles sendo levado de volta para o templo por um sacerdote que praticava sacrifícios. Acima da procissão viam-se postes onde haviam sido espetadas caveiras humanas. Algumas estavam esfoladas, caveiras lúbricas como as esculturas em Chichén Itzá. Outras eram vítimas mais recentes, com o cabelo e a carne ainda revestindo-as. Cabelos amarelos. Barbas.

Diante do cortejo havia um espaço que Reksnys deixara coberto com um tecido protetor. Mas conduzindo até ele havia uma fileira de mulheres vestidas de branco, com as testas achatadas e cabelos vermelhos atados atrás, adornadas com imensos penteados e penas verdes do pássaro sagrado quetzal, caindo em tranças pelas costas.

Era uma procissão triunfal. Uma outra imagem passou como um flash pela mente de Jack, uma imagem que parecia inacreditavelmente distante do mundo do Iucatã. O Arco de Tito em Roma. A procissão através do Fórum. O triunfo de Vespasiano sobre os judeus.

Jack deu alguns passos para a esquerda, os olhos de Loki seguiram-no com cuidado. A representação final ainda estava em parte escondida pelo entulho, mas era bastante clara. Tratava-se de uma forma abstrata, como um caldeirão, sua extremidade assinalando o fim do caminho processional. Eram as mandíbulas do mundo de baixo, gigantescas, escancaradas, ávidas por sacrifícios.

Chichén Itzá. O Cenote de Sacrifício.

Reksnys foi para perto do tecido e colocou a mão no canto inferior. "Acredito que isto é onde nos encontramos agora." Ele falava com Jack como se fossem colegas arqueólogos. "O mundo de baixo, o fim da procissão. Todos sabemos quem foram os vencedores. Acredito que a procissão da vitória terminou onde estamos parados agora, na entrada para este cenote abaixo de nós." Ele falou de modo confiante, com a convicção incondicional do ignorante. Jack encontrou o olhar de Maria de novo. Dessa vez ela sacudiu a cabeça. Jack olhou de novo. Ele percebeu que não havia nada na pintura para identificar o lugar. Poderia ser uma das dezenas de locais cerimoniais dos toltecas. A única conexão que eles tinham com Chichén Itzá era a inscrição na runa de pedra de L'Anse aux Meadows. E isso Reksnys não sabia, estava em segurança, trancada a chave, a bordo do Seaquest II.

"Eu descobri o que você estava a ponto de encontrar apenas três dias atrás, logo antes de o félag cobrar sua vingança daquele que nos traiu. Uma feliz coincidência para a sua colega que está aqui." Reksnys sacudiu sua pistola em direção a Maria. "Soubemos que o seu navio estava no Caribe e supusemos que nossos caminhos estavam convergindo. Eu pensei que poderíamos nos beneficiar da sua perícia. Esta é a única razão pela qual meu filho não praticou sua arte sobre ela também."

Reksnys ficou de costas para a parede, depois com um rápido movimento levantou o tecido.

Fez-se um silêncio espantado. Jack sentiu seu queixo cair, depois recobrou a compostura. Algo que Maria dissera uma vez voltou a ele, algo sobre a erudição rabínica.

Traçado pelo dedo divino. Traçado por um dedo de fogo.

Era a menorá.

Sete braços, sete hastes amarelas brilhando como se estivessem em chamas, irradiando esplendor como raios de luz. Na frente da procissão triunfal, erguida diante do Poço de Sacrifício.

Jack olhou para Maria, que fitava a imagem em transe, como se estivesse retirando forças dela.

Abruptamente, Reksnys deixou o tecido cair, escondendo a imagem, e soltou um riso rouco. "Chocado?"

"Eu percebi que você não olhou para ela", disse Jack friamente. "Ou não conseguiu."

"Eu a desprezo. Não desejo olhar, eu mesmo, para esse objeto. Ele é um meio para um fim." Reksnys acenou para Loki, que puxou Maria e apertou-a contra si. Reksnys manteve-a à distância de seu braço, cutucando-a com o cano de sua Luger, um olhar de aversão em seu rosto. Depois ele encostou a arma na parte estreita de suas costas apontando-a para baixo. "Eu sei exatamente como fazê-lo. Uma morte lenta, prolongada. Tenho muita experiência com esse tipo de coisa." Ele apontou com a cabeça para os respiradores e as mochilas de mergulho colocadas ao lado do buraco no chão. Olhou para Jack. "Você é o mais famoso explorador mundial debaixo d'água, não?" Sua voz saía com desprezo e escárnio. "Agora você e seu amigo irão para o mundo de baixo descobrir o que desejo."

Jack bateu na água com um som retumbante, e o eco ressoou pelas paredes da caverna. Costas o havia precedido e já estava pondo em funcionamento um reconhecedor subaquático, o arco de luz da sua headlamp iluminava agora um dos lados. Jack rapidamente liberou o mosquetão colocado na corda e deu um puxão. A corda começou a subir, e Jack seguiu o brilho do metal do mosquetão enquanto este era içado pelo estreito feixe de luz até o buraco no teto calcário quase vinte metros acima. Ele e Costas haviam se equipado no aposento antigo apenas alguns minutos antes, vestindo o equipamento que Reksnys lhes ordenara trazer do Seaquest II. Jack recusou-se a divulgar qualquer um de seus pensamentos sobre a parede pintada, e Maria tinha permanecido obstinadamente calada no aposento mesmo depois que a fita adesiva fora retirada de sua boca.

Jack estava convencido de que a cena com a menorá mostrava o Poço de Sacrifício em Chichén Itzá, não neste local. No entanto, todas as indicações eram de que Reksnys tinha razão em pensar que o túnel diante deles continha alguma pista sobre a última parada de Harald Hardraade. A localização do templo acima da caverna, a representação da batalha na selva com o rio correndo abaixo dele, um local de tradição maia.

Não houve oportunidade de estabelecer contato com a equipe de segurança, que ficara de prontidão desde que ele e Costas haviam deixado o Zodiac duas horas antes. Jack sabia que o Lynx estava no ar em algum lugar a pouca distância da praia, mas Ben e Andy não podiam fazer nada até que Jack e Costas tivessem encontrado uma maneira de enviar por rádio suas coordenadas e confirmar que a situação de Maria era bastante segura para uma intervenção. Jack tinha lançado a Maria um olhar tranqüilizador antes de colocar seu capacete, havia permanecido frio e sereno enquanto Loki o introduzia pelo buraco. Mas sua mente estava tumultuada, acelerada, cheia de adrenalina diante da perspectiva do que poderia haver adiante, embora examinasse todas as possibilidades que poderiam ocorrer se voltassem de mãos vazias. No momento as opções eram poucas e nada boas.

A voz de Costas chegou pelo intercomunicador. "Há um rio subaquático correndo de um extremo a outro no fundo desta câmara, cerca de oito metros abaixo de você. A corrente é bem perigosa. Não são exatamente condições de mergulho recomendadas em caverna."

"Recebido e entendido", replicou Jack flutuando na superfície e seguindo a área de luz que assinalava o avanço de Costas. Ele testou o seu compensador de flutuabilidade e rodou um sistema de verificação no computador que controlava o seu suprimento de gás. Eles estavam usando respiradores de circuito semi-fechado, sistemas de misturas variáveis de gás que lhes possibilitavam ir até profundidades maiores que aquela permitida pelo oxigênio puro ou pelo ar. Era uma precaução, porque não esperavam que o sistema da caverna excedesse a profundidade máxima de trinta metros, típica dos cenotes do Iucatã.

"Lembre-me acerca do cálcio carbonato", disse Jack.

Costas foi para a superfície ao lado de Jack inflando o colete de flutuação em sua mochila e ajustando o intercomunicador no capacete. "Pedra calcária dissolvida", ele disse. "Durante a Idade do Gelo, tudo aqui estava acima da água. Foi quando as estalactites e estalagmites que agora estão debaixo da água se formaram. Depois, no fim da Idade do Gelo, o nível do mar subiu e as cavernas ficaram inundadas. Deixe algo acima da água em uma dessas cavernas e ele ficará revestido de calcário. Jogue-o na água e ele permanecerá como novo. Estamos descendo em água doce, cerca de quinze metros abaixo, quando nos deparamos com água salgada."

Jack olhou para cima para o fino feixe de luz que fluía do teto, e para as perigosas paredes laterais que ele mal pudera examinar ao descer. A corda e o dispositivo que haviam usado para descê-los agora tinham sido puxados de novo, para esperar seu retorno. Ele pensou em Maria e respirou profundamente no respirador. Fez um sinal de ok para Costas. "Certo. Vamos continuar avançando." Esvaziaram o ar de seus coletes e foram para debaixo da superfície, com Jack seguindo Costas logo acima da corrente. Fazia mais frio do que no mar, justificando seus macacões de mergulho completos, mas era refrescante depois do calor tórrido lá de cima. Ambos tinham headlamps triplas em seus capacetes, e os feixes de luz revelaram uma cena impressionante quando eles chegaram mais perto. As estalagmites erigiam-se da base da caverna em agrupamentos, revestindo as cavernas e as grutas. A água era clara como cristal, a mais clara que Jack jamais vira, tremeluzindo com cores pastéis. Eles desceram mais e flutuaram na corrente, os braços esticados e as nadadeiras estendidas para mantê-los estáveis. Segundos depois, passaram impetuosamente sob uma saliência para dentro de um túnel escuro, deixando para trás a luz sombria da entrada do aposento.

"Quando não está chovendo, este túnel fica parcialmente acima da água", disse Costas. "Pode-se notar a linha da água nas paredes ao nosso lado, com uma nova formação de cálcio sobre elas. Parece que normalmente havia espaço suficiente para uma pequena canoa ou jangada."

Costas pegou um lightstick do tamanho de um lápis, dobrou-o para misturar as substâncias químicas e jogou-o dentro de uma fenda. Jack observou o brilho esverdeado desaparecer atrás deles e Costas pegou mais meia dúzia de lightsticks. "Suponho que vamos querer voltar por este caminho", disse ele. "A corrente enfraquece perto do teto, de modo que não haverá problema."

Jack virou-se e viu uma abóbada de rocha sem nenhuma das ondulações reveladoras das bolsas de ar. Eles tinham avançado pelo menos duzentos metros desde a entrada, talvez mais. "Algum palpite sobre quanto falta?", ele perguntou.

"Calculo que estamos procurando por outra câmara, de algum modo acessível a partir da câmara de entrada. Se este túnel mergulhar para baixo da linha da água, então estamos na trilha errada." Enquanto Costas falava, a passagem começou a fazer exatamente o oposto, erguendo-se e alargando-se, e seus feixes de luz refletiam o lado inferior de um poço de água que se expandia acima deles até onde podiam enxergar. "Ei!, rápido."

Eles subiram à superfície e olharam ao redor, intimidados. Encontravam-se dentro de uma outra caverna enorme, com pelo menos cinqüenta metros de largura, estendendo-se em uma grande cúpula que atingia o chão da selva. Era como Jack imaginava que o cenote sagrado em Chichén Itzá devia ser, antes que o teto de pedra calcária cedesse. Diferentemente da entrada da outra câmara, esta estava escura como breu, sem abertura visível para a superfície. Nadaram lentamente através do poço, com suas luzes refletindo formas fantásticas que os deslumbravam como esculturas no gelo. Estalagmites surgiam das profundezas como respiradouros vulcânicos sob o mar, algumas delas unindo-se a estalactites para formar colunas contínuas como os pilares de alguma grande catedral. Eles podiam perceber a força da natureza ainda trabalhando. A água da chuva infiltrando-se pelo teto de pedra calcária e gotejando nas formações expostas, adicionando um novo esplendor de minerais em um processo que começara milhares de anos antes que a história humana tocasse esse lugar pela primeira vez.

No centro havia uma ilhota, do tipo que parecia ser resultado inteiramente de crescimento calcário. A superfície era feita de um arranjo de formas que lembrava uma cidadela fantástica. Enormes trepadeiras penduravam-se sobre ela vindas bem de cima, as raízes fossilizadas de árvores mortas havia muito tempo.

Quando a rampa para a ilhota se tornou visível, Costas foi até o fundo, cerca de oito metros abaixo. Ele subitamente parecia estar sendo puxado para um lado, e Jack o viu agarrar uma estalagmite e içar-se para a rampa até libertar-se da correnteza e poder nadar livremente.

"Isso foi assustador." Costas parou cerca de cinco metros abaixo de Jack, para recuperar o fôlego. "Nunca seremos capazes de nadar contra essa corrente. Dê uma olhada à direita e verá para onde ela vai."

Jack olhou com atenção para um ponto diretamente oposto à entrada do túnel. Ele pôde ver uma leve perturbação onde o rio subaquático passava com ímpeto através da câmara, saindo sob uma saliência perto da base da caverna cerca de vinte metros à frente. Era um buraco negro, um lugar proibido sem nenhum sinal de luz adiante. Jack percebeu como chegara perto de perder Costas. Fechou os olhos e praguejou consigo mesmo. Como era freqüente em mergulho, era a decisão casual e as condições enganosamente benignas que quase sempre tinham conseqüências fatais. Jack não havia pensado duas vezes quando Costas decidiu descer, embora o perigo fosse tão grande quanto aquele que tinham enfrentado no iceberg ou nos túneis da Atlântida. E em mergulho em cavernas raramente havia uma segunda chance, não havia retorno depois de uma iniciativa errada.

"Jack, encontrei algo." Costas estava um pouco acima na rampa, mas a parte superior de seu corpo estava entalada em uma fissura. Jack mergulhou para perto dele, mantendo um olhar cauteloso sobre a corrente poucos metros abaixo. Costas emergiu em uma nuvem de sedimento fino e estendeu um objeto para Jack. "Dê uma olhada nisso."

Era um osso de maxilar humano. Um osso pequeno, de criança. Estava escurecido pela idade, mas perfeitamente preservado. Costas estendeu o resto do crânio para o companheiro, e Jack pôde ver as órbitas dos olhos, as linhas onde os ossos do crânio ainda não tinham se fundido. "Eles estão por toda parte", disse Costas. "Centenas deles." Jack olhou ao redor. Deitados sobre os sedimentos, empilhados nas bases das estalagmites, fazendo caretas debaixo das saliências. Crânios, ossos de pernas, costelas. Ele estendeu a mão para o sedimento e puxou para fora um pequeno pingente de jade, modelado como o maxilar escancarado de algum animal mítico, como a imagem do mundo de baixo na parede pintada no templo. Deu uma olhada através das águas translúcidas para o buraco negro onde o rio desaparecia, e de repente sentiu uma certeza deprimente.

"Sacrifício humano", disse ele. "Os toltecas deviam descer junto com suas vítimas pelo buraco no teto exatamente onde estávamos, depois remar até esta câmara. Aqui era o limite de seu mundo de baixo, o mais próximo desse mundo que podiam chegar. Quando a corrente estava forte, depois de uma tempestade, eles podiam atirar suas vítimas dentro das próprias entranhas do mundo de baixo, observá-las serem sugadas dentro do buraco negro e para fora da existência terrestre. Este deve ter sido o último lugar de sacrifício."

"Parece que não somos capazes de ir além daqui", murmurou Costas. "Estou começando a ansiar pelos vikings de novo."

"Você pode estar com sorte."

"O que quer dizer?"

"Rampa acima, cerca de três metros. Na extremidade da ilha."

Havia um esqueleto distinto dos outros, com desgaste diferente nos dentes. Ele havia sido perversamente esmagado, como se a vítima tivesse sofrido um golpe violento na face. Mas não era o esqueleto que havia atraído o interesse de Jack. Era o que estava usando.

Um capacete de metal dourado, em forma de cone, com uma longa proteção de nariz.

O coração de Jack começou a acelerar. Ele deslizou com suavidade até o fundo, levantando nuvens de sedimento fino. Potes maias, intactos. Mais ossos humanos. Um disco brilhante, de ouro, coberto com hieróglifos. Uma empunhadura que sobressaía de um facão, coberta por uma camada de ferro. Uma empunhadura de espada. Ao lado dela um longo bastão de madeira, um brilho de metal na extremidade.

Com uma excitação crescente, Jack arrastou-se para fora da água, Costas atrás dele. Os dois homens livraram-se rapidamente dos respiradores e das nadadeiras e os guardaram num canto. Com os capacetes removidos, eles podiam ouvir o barulho da caverna, a água gotejando no poço, o bater de asas de morcegos, sons sinistros aumentados e distorcidos pelo eco. Escalaram até uma plataforma plana e examinaram a ilha subterrânea. Ela tinha cerca de dez metros de diâmetro, elevando-se em forma de cone no meio, coberta de uma acreção macia. O centro era formado por uma única e gigantesca estalagmite, erguendo-se do chão da caverna até perto do teto, onde a queda do cálcio infiltrado havia sido maior. Ao redor viam-se estalagmites que se haviam formado mais recentemente à medida que a estrutura do teto mudava, algumas abaixo das raízes de árvores calcificadas que estavam dependuradas ao redor delas como uma fantástica mortalha.

Jack estava carregando um farolete, e circulou-o pela ilha antes de colocar a mão na estalagmite mais próxima. Ela tinha uma forma peculiar, parecendo quase se curvar acima deles; a julgar pela aparência, não era mais extraordinária do que qualquer outra coisa que estavam vendo ao redor.

"Meu Deus." A voz de Jack estava vibrando, ecoando.

"O que é?"

Jack deu uns passos cambaleantes para trás, depois incidiu o farolete sobre a estalagmite. Ele lembrava o que Jeremy sugerira quando falaram pela última vez. Sua voz estava tensa por causa do assombro. "Lembra do nosso drakar dentro do gelo?"

Costas seguiu seu olhar, perplexo, e depois ofegou. O topo da estalagmite tinha uma forma de bulbo que se prolongava em curva. Eles estavam olhando para a proa de um navio viking, os detalhes de sua superfície perdidos debaixo de um milênio de acreção, mas a forma era inequívoca. Era uma visão espantosa.

"Eles devem tê-la trazido consigo do navio", murmurou Jack. "Erigiram-na aqui, um último estandarte de batalha." Ele dirigiu o farolete para a forma bulbosa no topo. "O Aguiar

"Olhe dos dois lados", exclamou Costas. "Eu posso estar eirado, mas adio que é um muro de proteção."

Jack viu uma linha de solidificação de cerca de um metro de altura estendida em arco diante da entrada da caverna. Costas tinha razão. A linha de junção das duas superfícies estava ondulando com uma regularidade chocante, feita com semicírculos idênticos, cada um com a extensão de uma mão. Três de um lado do pilar da proa e quatro do outro. Eles pareciam ter estado cobertos de gelo. Abaixo deles havia longas formas quadradas que poderiam ter sido vigas, talvez uma viga mestra recuperada do navio. Jack lembrou-se de Jeremy contando-lhe sobre defesas vikings construídas com vigas de navio. Ele olhou para o muro, para o espaço atrás deste, a partir do qual os defensores deveriam ter oferecido resistência. Era a visão mais espantosa de todas. Contra o baluarte estava a forma espectral de um homem, apoiado em suas costas, os membros separados. Ele já fora uma caveira, mas agora estava coberto com uma camada tão grossa de sedimentos que parecia estar coberto de carne de novo, como uma das formas de gesso dos corpos da Pompéia romana.

Estava usando um capacete. A forma cônica, a proteção de nariz, apenas distinguível na acreção. Havia um escudo, emergindo em um ângulo como se tivesse sido marretado. O homem tinha sido alto, pelo menos da altura de Jack.

Jack o fitava, paralisado.

Podia ser ele?

Ele inclinou-se de novo sobre o muro de proteção fossilizado, sua voz rouca de emoção. "Na parede pintada, havia aquele rio debaixo da batalha na selva. Eu acho que é onde estamos agora. Acho também que foi onde o drama final foi interpretado. O último lugar onde esteve Harald Hardraade."

"Você acha que os inimigos na pintura eram realmente vikings?"

"A imagem da menorá aponta para isto."

"Então foi até aqui que Harald avançou por mar."

"Vamos imaginar uma dúzia deles, não muitos mais", disse Jack. "O tamanho do exército vencido que se vê na pintura foi provavelmente um exagero, uma maneira de fazer a vitória parecer maior." Ele fez uma pausa para reunir seus pensamentos. "Eles entraram para o interior com tudo que puderam trazer, suas armas e armaduras, seus tesouros, tudo que podiam facilmente recuperar e carregar do navio para construir um refúgio. Um pouco como Cortês e seu pequeno bando de conquistadores centenas de anos mais tarde, somente que com a intenção de jamais retornar."

"Então eles dão de cara com os habitantes locais."

"Os maias ficam deslumbrados, pensam que eles são deuses, salvadores que chegaram para libertá-los dos toltecas. Mas as notícias se espalham até os toltecas, até o chefe supremo de Chichén Itzá. Ele envia um exército e há uma batalha desesperada na selva. Os poucos sobreviventes procuram um refúgio, um lugar seguro final. Rorke's Drift, o Álamo. No Iucatã, se o que se quer é um lugar seguro, é preciso ir para o subterrâneo. Eles descobrem o templo na selva, talvez tenham sido enviados para cá pelos maias. Percorrem seu caminho pela rota do sacrifício. Iluminam o caminho com tochas ardentes, talvez queimem seu madeiramento na ilha. Guerreiros vikings totalmente preparados para a batalha, prontos para defender sua muralha de proteção no fim do mundo, envoltos em fogo. Mas duvido que os toltecas tenham ficado amedrontados. Assim que os toltecas os encontram e os seguem, trata-se apenas de uma questão de tempo antes de eles serem completamente dominados."

"Espero que, para o bem deles, não tenham sido feitos prisioneiros."

"O único sobre o qual sabemos algo é o seu amigo de L'Anse aux Meadows. Provavelmente um servo. Jeremy contou-me que os toltecas às vezes pegavam os servos de seus inimigos para ser seus escravos, uma maneira de caracterizar o seu domínio sobre os vencidos. Pode-se ver isso na parede pintada. Talvez ele fosse um desertor. Alguns dos vikings deviam estar semi-loucos, morrendo de fome. Talvez ele tenha contado aos toltecas sobre este lugar. Talvez tenha escapado anos mais tarde e a viagem de volta a L'Anse aux Meadows seria uma espécie de reparação. Nunca saberemos. Mas ele não foi o único a sobreviver. A julgar pela pintura, vários dos guerreiros de Harald passaram pelo horror derradeiro, foram levados a Chichén Itzá para sacrifício." "Com a menorá."

Jack lembrou de repente a imagem de tirar o fôlego que tinham visto na pintura, a irradiação flamejante. "Reksnys está errado. Estou convencido de que a menorá não está aqui. Os toltecas podem ter deixado aqui armas vikings como oferendas, mas acho que eles tiraram a menorá do local de batalha e a levaram consigo. Sabemos que os toltecas não ofereceram todos os tesouros de Harald para os deuses, porque temos aquelas duas moedas incorporadas ao pingente de jade de L'Anse aux Meadows."

"O que nos deixa com um problema."

"Reksnys vai ficar desapontado."

"Não podemos voltar de mãos vazias", disse Costas. "No melhor dos casos estaremos ganhando tempo, mas provavelmente não muito. As chances são de que voltaríamos para aquele buraco de novo, mortos antes de atingirmos a água. Como o próprio Reksnys disse, Maria só está viva por causa de um capricho. Assim que ele descobrir que não temos a menorá, seremos eliminados. Estas pessoas são sempre assim." Costas olhou para Jack. "Ele permitirá que o temperamento do filho se manifeste."

"Eles podiam tentar nos seguir aqui embaixo."

"Loki poderia. Havia no aposento um par de velhos equipamentos de mergulho, equipamentos que Reksnys trouxera antes de aparecer a oportunidade de nos utilizar, e Loki poderia facilmente seguir a trilha de luzes através do túnel. Mas se ele decidir vir atrás de nós é porque está furioso. Isso significaria a morte para Maria."

"Você está pensando o mesmo que eu?"

"Não temos escolha alguma."

"Esses sistemas de rios subaquáticos sempre se elevam em algum lugar", Costas disse tristemente. "Mas poderiam ser milhas."

"Poderia ser menos."

Cinco minutos depois eles se sentaram, completamente equipados, em um lugar raso, suas luzes acesas de novo nos capacetes. Acostumados com a ressonância do aposento, suas vozes soavam baixas e distantes através do intercomunicador. Costas terminou de examinar o respirador de Jack, depois olhou atentamente para ele. "Você está pronto para enfrentar isto?"

"Todas as outras opções estão excluídas. Não há saída da caverna."

"Ok. Estamos procurando luz natural, qualquer vestígio. Agora já passam das cinco da manhã, então logo virá a aurora. Vamos deixar a corrente nos levar. Pelo menos teremos certeza de que sairemos em algum lugar. Podemos ir?"

"Vamos lá."

Eles deslizaram para a água e desceram em direção à escuridão. Depois que haviam tomado a decisão, Jack não se permitiu pensar em nada além da natureza prática das coisas que eles estavam executando. Poucos minutos antes, isto tinha parecido morte certa, uma via de mão única que quase matara Costas. Agora haviam resolvido segui-la. Ele olhou para a escuridão escancarada do túnel à frente. Sua mente não aceitava a possibilidade de fracasso. Este lugar tinha todos os ingredientes de seu pior pesadelo, e esta era a única maneira de enfrentá-lo. Ele se manteria concentrado. Pensou em Maria.

Subitamente foram tragados pela correnteza. O corpo de Jack havia sido virado e ele lutava para se endireitar, levemente ciente da enorme velocidade, as estalagmites luminosas aparecendo e desaparecendo como gigantescas sentinelas brancas de cada lado. Então se viram no túnel, girando loucamente, escuridão por toda volta. O túnel parecia correr por linhas sinuosas e rodar como uma besta selvagem, procurando um caminho por entre as obstruções de calcita, listavam completamente à mercê da correnteza, confiando que o fluxo os impediria de ir de encontro às paredes calcárias. Jack forçou a cabeça para a frente até seu corpo alinhar-se com o túnel. Costas estava à sua esquerda, e ambos estenderam os braços numa tentativa desesperada para usar as mãos como hidrofólios. Formas bulbosas apareciam saídas do nada, reveladas pelo feixe de luz de suas headlamps, e depois de passarem a apenas alguns centímetros desapareciam atrás deles. Subitamente, Jack tornou-se cônscio de uma bifurcação adiante deles, um alargamento no túnel dividido por uma coluna, um pilar branco contra o qual iriam colidir a uma velocidade espantosa.

"O lado direito do túnel!", gritou Costas. "Posso ver luz!"

Jack desviou repentinamente as mãos para a direita, obrigando seu corpo a seguir o fluxo principal da corrente. Isso não serviu de nada. No último segundo ele puxou violentamente as mãos para evitar esmagá-las contra a coluna e ambos entraram pelo lado esquerdo do túnel, uma cova estreita e escura com paredes lisas como numa queda no gelo. Jack bateu violentamente em Costas e sentiu uma dor torturante em sua coxa, no lugar de seu ferimento. Durante um instante aterrador ele estava de novo dentro do iceberg. "Curva errada", gritou Costas. Jack agarrou-se a ele, podia ver seu rosto atrás do visor, desvairado. "Este é um canal lateral", exclamou Costas. "O canal principal estava fluindo em direção à superfície. Eu vi luz."

A corrente no canal começou a mover-se em círculos, depois diminuiu de velocidade. Mesmo assim era impossível nadar contra ela, e eles estavam sendo puxados para baixo, inexoravelmente. Tentaram agarrar-se às paredes, sem sucesso. De repente tudo ficou distorcido, enevoado, algo que Jack havia visto no fiorde gelado quando a água fresca de gelo derretido da geleira formava uma camada acima da água do mar. Era uma luz fraca, fugidia, e a mudança nos índices de refração estavam deixando seus sentidos confusos. Começou a sentir-se desorientado.

"Droga", exclamou Costas. "Isto corresponde a uma variação no grau de salinidade. Estamos abaixo do nível do mar."

Era como se eles tivessem passado para uma outra dimensão, para dentro de um mundo mais escuro. As formações de cálcio haviam desaparecido agora, e a vista à frente era desoladora, medonha. O fluxo intenso e direcional da luz parecia estreitar o túnel, aumentando o desconforto de Jack. O túnel era elíptico, com cerca de cinco metros de largura, mas o teto havia baixado e um profundo leito de cascalho erguia-se do chão. Eles ainda estavam descendo, suas luzes perfurando um buraco na escuridão. "Quarenta metros de profundidade", disse Costas. "Os sistemas de cavernas no Iucatã atingem, no máximo, cinqüenta metros. Vamos ter de voltar logo para cima." Jack olhou para o seu medidor de profundidade. Quarenta e seis metros. Cinqüenta e dois metros. O teto e o chão estavam quase convergindo, e os dois homens estavam entalados ali agora, fazendo buracos no cascalho para conseguir espaço. Então, chegaram a uma parada, levantando uma nuvem de sedimento. Jack dirigiu sua headlamp para a fenda à frente, uma fresta a apenas alguns centímetros acima do cascalho. Era um beco sem saída. Eles estavam presos em uma armadilha.

Costas se colocou ao lado de Jack, seu respirador chocando-se contra o teto e seu corpo comprimido contra o cascalho. "Algo não está certo", disse ele. "Estamos sendo puxados para baixo por uma corrente, e isso deve dar em algum lugar. E este monte de cascalho se curva nos lados, modelado por um movimento de água. Deve haver uma saída."

Ele empurrou-se para o lado direito do monte de cascalho e para dentro de um estreito canal no fundo, enfiando-se ali até que apenas suas nadadeiras aparecessem. Jack fechou os olhos, depois os abriu de novo, concentrado-se em pequenas coisas, como a forma de um fóssil na pedra calcária a apenas poucos centímetros do seu rosto. Olhou para baixo na direção em que Costas havia desaparecido. Ele podia ver que a fenda estava livre de sedimento. Varrida pela corrente. Costas tinha razão.

"Jack, siga-me." Ele passou a seguir as instruções, enfiando as mãos dentro do cascalho e içando-se na lateral do túnel. Sentia o fluxo de água e via a luz à frente. "Isso vai para cima", disse Costas, excitado. Jack seguiu lentamente, comprimindo-se contra o seixo rolado que lhe obstruía a passagem. Quase não havia espaço para se mover, e ele só podia executar um movimento sinuoso, colidindo a mochila do respirador contra as paredes de pedra. O túnel à frente era mais estreito ainda, como um cano de drenagem, liso e cilíndrico onde a corrente o desgastara, mas com apenas um metro de diâmetro. Jack nunca havia estado em um espaço tão estreito. Era mais do que claustrofóbico. Não havia jeito de eles voltarem, com a corrente pressionando-os por trás, e qualquer bloqueio no túnel agora selaria seus destinos. As nadadeiras de Costas estavam poucos centímetros à sua frente. Jack examinou seu medidor de profundidade e permaneceu concentrado. Fitou a rocha que estava bem perto de seu rosto, depois o medidor de profundidade. Quarenta e um metros. Trinta e sete metros. Eles estavam subindo, lenta, mas seguramente. Depois o túnel deu uma virada pronunciada para cima e eles se encontraram em uma câmara, um vasto espaço preenchido com formas sombrias, grandes colunas que se elevavam como gigantes vestidos de branco, chamando-os com gestos para fora do mundo de baixo. Bem acima, Jack podia ver uma luz fraca, esverdeada, distinta dos feixes brancos de suas headlamps. Fechou os olhos de novo, uma onda de alívio passando através dele, o coração batendo não com medo, mas com alegria. Ele ergueu-se ao lado de Costas na câmara, a água era tão clara que eles pareciam estar suspensos no meio do ar como figuras de alguma cena de apoteose. Depois subiram ao topo da caverna, apenas dez metros abaixo da superfície da água, atingindo a fenda na rocha de onde podiam ver brilhar a luz da aurora.

Mas ainda não havia acabado. A fenda era estreita e apertada, mal dava para um deles. Não havia outra saída da câmara.

"Por que isto sempre parece acontecer quando mergulho com você?", perguntou Costas. "Da próxima vez vamos mergulhar em mar aberto para variar."

"Se houver uma próxima vez." Jack olhou para a brecha escura aberta abaixo deles, depois para a fenda acima. Ele podia ver folhagens, as formas oscilantes de árvores beirando a superfície da água. Seu coração ainda estava batendo, mas não mais com excitação. Este era um lugar ridículo para morrer.

"Teremos que nadar para lá", disse Costas. "Você vai primeiro."

"De jeito nenhum. Você terá de contrair-se e eu posso ajudar empurrando-o através da fenda."

Costas tirou as correias de seu respirador e deixou-as dependuradas abaixo dele. Empurrou o corpo até onde pôde dentro da fissura, cerca de dois metros acima de Jack, depois abriu o capacete e deixou cair o equipamento. Passou por Jack, mergulhando verticalmente e desaparecendo no negrume. Jack arrastou-se atrás de Costas e tentou empurrá-lo pelas pernas. Nada aconteceu. Ele sentiu-se subitamente impotente, aterrorizado com a possibilidade de que pudesse observar seu amigo morrer, apenas a poucos metros da superfície, preso por suas pernas. Então Costas deu um forte impulso com as nadadeiras e saiu com ímpeto para cima. Jack fez uma pausa para recuperar o fôlego, desamarrou as correias de seu respirador e deixou-as dependuradas ao seu lado, respirou profundamente cinco vezes e depois abriu o capacete e deixou o equipamento cair. Içou-se através da rocha, os olhos abertos para a cerração indistinta da luz do dia através da água, e conseguiu sair fora. Outro impulso de suas nadadeiras e atingiu a superfície em um emaranhado de algas verdes. Em um pequeno poço sob folhagens e vegetação rasteira.

Costas estava ofegando num canto do poço, parecendo o monstro da lagoa negra. Ele limpou o limo do rosto, mergulhou a cabeça e sacudiu-a violentamente, depois se levantou fora da água e ofereceu uma mão para Jack. "É bom você se limpar, se não quiser apavorar os nativos."

Depois que Jack saiu e se sacudiu, Costas procurou no bolso de cima de seu macacão e retirou um dispositivo metálico fino, do tamanho de uma calculadora de bolso. Deu-lhe uma batidinha na frente que fez saltar uma antena, e depois aproximou o dispositivo do ouvido.

"Às vezes você se parece com uma maleta de truques", arquejou Jack.

"Um guia GPS combinado com um rádio-receptor e transmissor" revelou Costas. "Tudo que preciso fazer agora é ativar o sinal rádio-telefônico de SOS e Ben nos localizará. Posso tentar estabelecer uma conexão de rádio e falar com ele quando soubermos qual é a situação."

Eles tinham subido ao lado de uma trilha acidentada na selva. Estava chovendo, uma alternância de chuva torrencial com garoa. Costas ativou a bússola em seu dispositivo e rapidamente escolheu uma direção. Dez minutos depois eles moveram-se lentamente sobre a cúpula de calcário que cobria o cenote e aproximaram-se do templo de pequena altura. O jipe que os havia trazido estava no final da trilha. Jack viu um menino, um maia local, brincando na estrada, mas ele não os tinha visto. Rodearam a construção furtivamente e cada um ficou de um lado da entrada, com as costas contra a parede, à escuta. Não conseguiam ouvir nada. Jack podia sentir o sal de seu suor juntando-se com a água no rosto. Ele olhou para Costas e aquiesceu. Os dois homens entraram pelas laterais no aposento, mantendo-se nas sombras, pressionando os olhos para enxergar com a luz da vela. Não havia sinal de Maria ou de Loki. O único ocupante era um homem sentado no tanque de mergulho, de costas para eles, limpando uma pistola. Jack fez um gesto para Costas e voltou para a entrada, vigilante. Costas rastejou até o homem e colocou o braço em torno de seu pescoço, tampando-lhe a boca. A pistola caiu com um estrépito. Costas puxou o homem para perto e falou com rispidez.

"Onde é mesmo que estávamos?"

 

Vinte minutos depois, o barulho da chuva foi sobrepujado pelo ruído ensurdecedor dos motores do Lynx quando ele pairou suspenso, varrendo o chão da selva com a corrente de ar. Dois homens estavam dependurados, descendo com guinchos através da densa folhagem, e logo atrás deles vinha uma caixa vermelha de primeiros socorros. Assim que se encontraram a salvo no chão, o Lynx inclinou-se para a frente e desapareceu de novo nas nuvens. Jack correu de onde estava abrigado para tirar a caixa da vegetação rasteira e depois foi rapidamente ajudar Ben.

"Não sabíamos o que esperar", gritou Ben acima do barulho do aguaceiro, colocando no coldre a pistola que trazia engatilhada na mão. "Quando Costas nos enviou por rádio as coordenadas GPS, nós estávamos apenas a cerca de três milhas de vocês, voando num padrão de busca para o interior da costa. O disfarce que imaginamos foi que essa era uma vistoria aérea de relíquias arqueológicas a pouca distância da costa. Jeremy veio junto como o único arqueólogo a bordo. E só porque ele insistiu. Não é muito conveniente voar sem ser convidado no espaço aéreo mexicano, cheio de armas, sobretudo à noite; por isso, estou só com a minha pistola Glock. Mas agora os encontramos, o Lynx voltou para pegar uni lime completo de segurança e nós contatamos a polícia."

"Loki desapareceu", gritou Jack. "Obedeceu às ordens de seu pai para nos seguir na caverna. Levou Maria consigo. Não confiou em nós. Mas Reksnys é todo seu."

"Vou ter de realizar uma varredura de perímetro, isto é prioritário."

Jeremy moveu-se em meio à vegetação do local onde havia aterrissado com os óculos cobertos de vapor e chutando um monte de trepadeiras. Jack os conduziu através da vegetação entrelaçada, para longe da trilha, depois direto até o templo. Na entrada eles sacudiram a água e Jeremy limpou os óculos. Lá dentro, Costas estava parado com a Luger apontada para uma forma amordaçada e deitada no chão com o rosto para baixo, os pulsos e a boca firmemente presos com fita adesiva. Jeremy saltou, passando por eles, e foi até a parede pintada olhando cuidadosamente a imagem da menorá, agora revelada, e para a cena de batalha. "Vikings", ele entusiasmou-se, os óculos enchendo-se de vapor de novo. "Vocês estavam certos. Fantástico. E olhe. Tenho certeza de que esta é uma mulher."

"Há tempo para isto depois." Jack fez um gesto para Costas, que lhe deu a Luger enquanto Ben ajoelhava-se sobre Reksnys e amarrava os pulsos presos com mais uma tira de plástico. "Costas precisa de ajuda para operar o guincho, Jeremy." Jack passou-lhe a pistola. "Você sabe manejar isto?"

"Passei seis meses na ROTC em Stanford", disse Jeremy tirando os óculos de novo. "Um mal compreendido senso de dever depois do 11 de setembro. Isto realmente não é o tipo de coisa que me agrada."

Jack aquiesceu. "Lembre quem é esse cara. Lembre do que ele fez para O'Connor e Maria."

"Meu avô trouxe um destes da guerra." Jeremy recolocou os óculos e pegou a Luger, puxou a culatra para examinar a câmara e depois a soltou. Ele ajoelhou-se e apertou a Luger nas costas de Reksnys, puxando sua cabeça brutalmente para trás e inclinando-se em sua orelha. "Meu amigo Costas contou-me que você ameaçou Maria com isto. Uma morte longa, muito lenta." Ele puxou Reksnys para que ficasse em pé e empurrou-o para a porta, desaparecendo com ele na chuva. Ben olhou para Jack. "Acho que não temos que nos preocupar com ele."

"Ok. Vou descer para buscar Maria" disse Jack.

"Não sozinho."

"Não há outra possibilidade. Não temos como recuperar os respiradores agora. Reksnys tinha aqui dois equipamentos de mergulho como medida de segurança. E Loki levou um. Parece que ele usou o regulador octopus para permitir que Maria respirasse no mesmo tanque. O equipamento que nos restou não tem um octopus, e de todo o jeito o tanque não tem ar suficiente que possa ser compartilhado por mim e Costas para ir e voltar da caverna."

"Eu posso entrar em contato com o Lynx e conseguir um equipamento do navio por transporte aéreo."

"Não há tempo. Temos tido sorte até agora." Jack ergueu o cilindro de ar e o colocou nas costas, e ajustou ao mesmo tempo a jaqueta de estabilização em seu tórax. "Loki vai ficar furioso. Teria feito melhor se tivesse ficado aqui, e ele sabe disso. O cara é independente. Seu pai é um brigão maligno, mas em comparação é um amador. Loki fica dividido entre obedecer cegamente a toda a tolice do félag, e os seus instintos malvados. Foi forçado a ir para um lugar onde ele não fica no controle como gosta. Essa é nossa chance. Mas também significa que ele vai ser imprevisível. E tenho de agir agora. Não quero que ele volte para a câmara abaixo de nós e descubra o que aconteceu. Maria não duraria nem um segundo. Se ela ainda estiver viva."

"Você não tem uma arma."

"Vou improvisar."

"Farolete?"

"Costas e eu deixamos lightsticks químicos para assinalar o caminho."

"Boa sorte." Jack resmungou quando Ben passou a corda sob os seus braços. Costas verificou o ar e o cinto com os pesos, depois segurou Jack pelos ombros, olhando-o direto nos olhos. "Sorte-de-batalha", ele disse.

"Sorte-de-batalha." Jack ajustou a máscara, sentou-se na beirada do buraco e depois deu um impulso em direção ao poço escuro abaixo de si. Costas e Ben imediatamente começaram a descê-lo. Jack estava concentrado, todo o seu ser aplicado em seu objetivo. Ele atingiu a água com o regulador na boca e imediatamente mergulhou em direção ao túnel, seguindo a trilha de lightsticks que tinham deixado cair no chão da caverna apenas uma hora antes. O túnel parecia menos opressivo agora, e quando olhou à frente ele viu a extraordinária luminosidade das paredes de calcita onde elas estavam iluminadas pelos lightsticks, formações fantásticas de estalagmites e estalactites que apareciam indistintamente de cada lado como esculturas abstratas de gelo.

Dez minutos depois de entrar na água, ele viu o poço de luz à frente que assinalava a última câmara. A luz era diferente, mais intensa do que a iluminação química. Jack alcançou a extremidade da câmara, as bolhas de sua descarga de gás usado cascateando ao longo do teto acima dele, e com cuidado subiu para a superfície, colocando apenas a cabeça para fora da água. No centro da caverna, ele podia ver as bizarras formações de cálcio da ilhota, a cerca de vinte metros à sua frente. A luz estava vindo do lado oposto da ilhota e brilhava dirigindo um feixe largo contra o teto.

As bolhas de seu regulador poderiam denunciá-lo. Por um momento Jack maldisse sua decisão de livrar-se de seus respiradores no rio subaquático. Teria de nadar na superfície, esperando não ser percebido.

Tirou a máscara e a prendeu na jaqueta, depois olhou ao redor procurando algo com que escurecer o rosto, algo para absorver o clarão se um farolete fosse apontado em sua direção. Estendeu o braço com cuidado e esfregou com a mão uma superfície plana bem diante dele. Cheirou a mão e franziu o nariz. Nitrato de potássio. Excremento de morcego. Ele pegou mais um pouquinho da rocha e esfregou por todo o rosto, tomando cuidado para não fazer barulho.

Jack inflou o colete estabilizador, soprando ar no bocal para evitar o ruído do alimentador de baixa pressão do seu regulador, depois começou a nadar lentamente em direção à ilhota.

Alcançou o meio do caminho. Podia sentir a força do rio subaquático, muito mais forte agora do que quando ele e Costas decidiram segui-lo. Uma luz girando em volta passou por seu rosto. Ele gelou. Ela girou de novo, e Jack recomeçou a nadar. Se fosse descoberto agora, não teria nenhuma chance. Supôs que Loki estava armado. Tudo dependia da surpresa.

Jack atingiu a extremidade da ilhota. Ouviu uma voz do outro lado, aumentada e distorcida na câmara, mas inequivocamente masculina. Um tom ameaçador e ríspido. Jack tirou o tanque e as nadadeiras e aproximou-se silenciosamente do lugar onde ele se lembrava de ter mergulhado com Costas e de terem visto a primeira pista extraordinária. Alcançou o lugar raso. O objeto se destacou facilmente, liberado da acreção, tão bem preservado na água fresca como aquele que ele tinha encontrado no gelo. Jack saiu da água, gotejando e enegrecido em seu macacão de mergulho, e pegou o objeto.

Uma acha-de-armas varegue.

Jack caminhou rapidamente até os contornos salientes da acreção, grato por estar usando botas de neoprene que aderiam bem à superfície. Passou pelo muro de proteção viking fossilizado, a estrutura arqueada da proa do navio, a forma fantasmagórica do guerreiro capturado. Do topo olhou para o outro lado da ilhota. Loki estava lá, distante não mais de dez metros. Ele estava parado de costas para Jack, com as pernas abertas sobre Maria, que se encontrava deitada de costas olhando para cima de maneira desafiadora. Loki segurava uma pistola na mão esquerda, uma Browning High Power. Na outra mão apontava uma lâmina contra o coração dela, uma espada. Era a espada varegue que Jack e Costas tinham visto na água perto da acha.

Jack sentiu um arrepio de horror. A história nunca havia realmente cessado neste lugar. Ele estava assistindo a algo enraizado na pedra do Iucatã, impossível de exorcizar. Um sacrifício humano.

Com uma velocidade relampejante, Jack lançou-se sobre Loki, brandindo com força a acha, atingindo violentamente o braço esquerdo de Loki com um único golpe. A pistola voou para a água ainda presa na mão, girando juntas e desaparecendo na escuridão. Loki paralisou-se chocado, depois se virou para encarar Jack com o rosto contraído de surpresa e raiva. O coto estava jorrando sangue. Ele deixou cair a espada, cambaleou, ergueu a outra mão até o rosto, depois cambaleou outra vez e apanhou a espada. Repentinamente explodiu em ação, arremetendo contra Jack com uma confusão terrível de velocidade e metal flamejante. Jack quase foi pego de surpresa, mal teve tempo de levantar a acha. Aço colidindo com aço, chocando-se com estrondo, triturando, reverberando um som que não ecoava no local havia mil anos. O corpo de Jack estremecia ao aparar os golpes, mas ele sustentava a luta. Era apenas uma questão de tempo antes que seu oponente falhasse. Loki já estava muito fraco para impedir o corpo de ir junto com a espada, balançando, girando quando ele se esforçava para recuperar o equilíbrio. Ele ficou parado de novo, tomado por uma fúria de dor, chorando e ofegando, incitando Jack com a ponta da espada, cambaleando para trás e se aproximando da beirada da água.

A raiva de Loki havia lançado a sombra de sua própria ruína. Ele poderia ter permanecido na superfície com seu pai, deixar a mente governar, preservar sua eficiência letal.

Jack avaliou o peso que tinha em sua mão, exatamente como havia feito uma vez antes, quando uma outra acha de cabo longo e com uma única lâmina tinha salvado suas vidas dentro do iceberg.

Sorte-de-batalha.

Endireitou-se e deu dois passos à frente. Quando girou a acha, pensou ter visto runas cintilando diante de si, runas no lugar onde o nome de Halfdan estava escrito na outra acha, runas que começavam com a mesma letra nórdica.

A acha-de-armas de um poderoso rei. O trovão do Norte.

A acha veio cortando o ar e atingiu Loki no lado da cabeça, depois pulou da mão de Jack e foi dando cambalhotas para dentro da água acima do rio subaquático. A cabeça de Loki oscilou para trás e depois para a frente como a de uma marionete. Durante um instante aterrador ele pareceu não ter sido atingido. Em seguida a cicatriz de seu rosto dividiu-se, separou-se aberta através da órbita do olho. Jack podia ver os ossos dos maxilares e os dentes, exibindo caretas horríveis como nas caveiras esculpidas em Chichén Itzá. Então surgiu o sangue, denso, caindo em gotas que se espalharam rocha abaixo.

Loki deu um passo à frente, depois escorregou no sangue, caindo pesadamente, a cabeça batendo forte contra a lateral de uma estalagmite. Ele ergueu-se tendo seu único braço como apoio, e ficou oscilando, cambaleante. O lado de seu rosto apresentava-se agora completamente fendido e o globo ocular estava pendurado para fora. A respiração era desarmônica, errática, e ele gemia horrivelmente. Jack podia ver onde a acha havia cortado profundamente seu cérebro. Loki cambaleou uma última vez e caiu na água com estrondo, levando consigo a espada. Durante um momento ele ficou boiando no meio da água, seu único olho fitando Jack cegamente, ainda vivo, tentando já sem forças agarrar-se à superfície. Depois caiu mais profundamente e a correnteza o levou, arrastando-o para as trevas, fora de vista, sugado pelo mundo de baixo.

Ele se fora.

Jack deslizou para perto de Maria e eles ficaram na beirada do poço. Ele estava tremendo com a adrenalina depois do choque. A mulher agarrava-se ferozmente a ele. A agitação na água acalmou-se e o único som era o gotejar da água de chuva infiltrando-se pelo teto, o som aumentado na caverna, mas suavemente rítmico depois do eco do choque dos aços. Quando o tremor de Jack diminuiu, Maria olhou para a água cristalina a alguns centímetros de seu rosto. Ela a alcançou e puxou algo para fora, um pedaço de rocha polida livre da acreção. Eles podiam ver inscrições em sua superfície, rabiscos. Ambos se sentaram.

"É uma pedra de runa", sussurrou Maria.

"Você consegue lê-la?"

"Ela é grosseira, executada a toda pressa", murmurou Maria. "Como a última coisa escrita no diário de uma expedição condenada."

"Tente." Jack parecia exausto, sua voz era um mero sussurro.

Maria fez uma pausa, murmurou algumas palavras para si mesma, depois leu em voz alta. "Apenas Ulf, Finn e Halldor sobraram. Os scraelings se apoderaram da outra câmara. Thor nos protege. Hann til ragnamks."

Jack se sentia despojado de emoção, muito esgotado para responder. Tudo que pôde fazer foi estender a mão e tocar a pedra gotejante.

"Talvez o próprio Harald tenha rabiscado isto, seu último ato antes que os toltecas o pegassem", disse Maria. "Foi como se a batalha de Stamford Bridge se repetisse, só que dessa vez foi realmente o fim." Olhou de novo para as formas espectrais na plataforma atrás de si, depois para a escuridão na água onde Loki desaparecera. Ela estremeceu de maneira involuntária. "Eles foram até onde era humanamente possível ir, direto para a entrada do inferno."

"Eu posso sentir o que eles sentiram", murmurou Jack. "Nós estamos no limiar do mundo dos espíritos aqui, no próprio limite. Algo em mim quer seguir por aquela passagem, ir atrás de Loki. É como uma força maligna me puxando para lá, querendo que eu aceite o desafio. Sinto-me tão próximo de Harald como jamais me senti, realmente próximo." Jack olhou ao redor, para as sombras bruxuleantes nas paredes da caverna, depois se sacudiu e levantou o tanque de ar de Loki, de onde ele o havia deixado, perto da beirada da água, para as costas de Maria. "E eu sei que este não é um lugar onde desejamos ficar."

"Isto ainda não acabou", disse Maria.

"Você tem bastante ar. Há uma linha de sinalizadores até a entrada. É muito fácil. Eu vou estar logo atrás de você."

"Eu não quis dizer isto."

Jack deu um ajuste final às correias em seu ombro. Jogou água em seu rosto para limpar as manchas escuras e sentou-se ao lado dela. Maria começou a falar, lentamente de início, de maneira hesitante, depois fluindo com facilidade, como se estivesse contando algo que nunca contara antes, mas que havia repetido inúmeras vezes em sua mente. Durante os minutos seguintes, Jack ouviu a história mais pavorosa que jamais poderia ter imaginado, uma história que fazia os monstros do mundo de baixo parecerem tão poderosos como aparentavam para os vikings, que parecia dar forma ao mal à espreita nesse lugar transformando-o em uma força demasiado nociva para ficar incontestada.

 

Vinte minutos depois, Jack içou-se para fora do buraco do poço no aposento com a pintura. Costas agachou-se na frente dele, ofegante depois de ter operado o guincho. Maria estava sentada, seu corpo gotejando água no chão de pedra poucos metros adiante. Apesar do calor, ela tremia ligeiramente, e Costas lhe passou uma toalha e uma jaqueta da IMU junto com uma garrafa de água. Assim que viu que ela estava a salvo, Jack se virou e dirigiu-se a Costas.

"Qual é a nossa posição?"

"Os mexicanos estão aqui", ofegou Costas. "Chegaram dois caras em um jipe há dez minutos. Eles são judiciales, sujeitos em trajes simples. Bastante repulsivos, se quer a minha opinião. Disseram que um helicóptero está a caminho. Aparentemente toda esta área é território de Reksnys, mas estamos bem afastados de seu complexo principal. Parece que ele não confiava em ninguém, nem mesmo em seus próprios seguranças, a ponto de não contar sobre este local. Alguns nativos vivem na selva, maias, mas eles estão do nosso lado. Assim que mais policiais chegarem e o Lynx voltar do Seaquest II com uma equipe de segurança completa, poderemos relaxar. Ben está realizando uma grande varredura do perímetro enquanto conversamos."

Jack moveu a cabeça em direção ao buraco. "Você provavelmente percebeu que o nosso amigo Loki não se juntou a nós."

Costas ergueu as sobrancelhas. "Permanentemente?"

"Ele foi tentar um recorde de resistência de mergulho em caverna. Sem ar."

"O mundo de baixo tolteca", disse Costas baixinho. "Não é um lugar onde eu queira passar a eternidade."

Jack puxou Costas de lado e conversou com ele na escuridão, no fundo do aposento, falando muito concentrado. Costas, ocasionalmente, olhava para Maria com a expressão cada vez mais severa. Depois de alguns minutos, Jack fez um gesto para Maria juntar-se a eles. Costas lhe passou algo envolto em tecido que ela verificou rapidamente e escondeu dentro de sua jaqueta.

Jeremy apareceu de repente na entrada, sem ar e desvairado. "Rápido. Pelo amor de Deus. Reksnys escapou. Ele pegou uma criança local. Está ameaçando matá-la."

"Como diabos..."

"A polícia mexicana o desamarrou, depois ele e o menino desapareceram, saíram correndo."

"Droga."

Houve uma repentina agitação do lado de fora e Reksnys apareceu, empurrando à frente um menino de cerca de cinco anos, os pais perturbados suplicando em espanhol atrás dele. Jeremy afastou os pais para trás enquanto Reksnys mantinha um cinto de couro ao redor da garganta do menino. Ele se exibiu na frente deles, com a cabeça erguida e um olhar de escárnio, depois arrastou o menino, como se fosse um animal, para o centro do aposento.

"Posso quebrar seu pequeno pescoço em um segundo. Apenas assim." Ele estalou os dedos de sua mão livre. Então pareceu esquecer a audiência e falou com uma alegria quase infantil. Subitamente olhou ao redor. "Onde está meu filho?"

"Saiu para nadar."

Reksnys não conseguiu assimilar o que Costas havia dito e puxou o menino para perto de si. "Cómo te llamas?"

O menino estava demasiado aterrorizado para replicar.

Reksnys levantou o menino até diante de seu rosto. "Cómo te llamas!"

O menino sussurrou em meio às lágrimas. "Daniel."

"Daniel." Reksnys deixou o menino descer e puxou-o de novo contra si, o cinto bem apertado ao redor de seu pescoço. "Um nome interessante para um maia. Quando eu era jovem, conheci alguns meninos com esse nome. Daniel, Doron, Menachem. E também havia algumas menininhas com eles. Mas não durante muito tempo." Reksnys olhou com escárnio de novo, depois fitou Maria cheio de suspeitas, enquanto ela se afastava dos outros e dava alguns passos em direção à parede, até o lugar onde havia recuperado a consciência depois do pesadelo de sua vinda de Iona. Ela parou encarando Reksnys, as pernas ligeiramente afastadas.

"Eu acho", ela disse, "que antigamente você achava muito mais fácil usar isto."

Lenta mas deliberadamente, ela levantou a Luger e a apontou para a cabeça de Reksnys, ambas as mãos segurando a coronha e o indicador esquerdo tocando no gatilho.

Jeremy fitava Maria, chocado.

Reksnys olhou de novo com escárnio. "Você não sabe como

usá-lo."

Ela soltou o fecho de segurança do lado esquerdo da arma. "Oh, eu sei sim."

"Ela não está carregada."

"Jack?" disse Maria sem mover os olhos.

Jack pegou uma pequena caixa com as palavras Parabellum nove milímetros impressas em um dos lados e mostrou o interior semi-vazio. "Nós encontramos isto em seu bolso", ele disse. "Você se lembra?"

Reksnys estava desdenhoso. "Solte a arma ou o menino morre."

Maria começou a recitar as palavras que havia memorizado quando criança. "Relatório da Situação Operacional da URSS, No. 29ª”, ela disse baixinho. "Localização Einsatzgruppe D.: Nikolaiev, na Ucrânia. Adendo ao Relatório No. 129 referente à atividade dos binsatzkommandos liberando os locais de judeus e exterminando os grupos partidários. O SS-Sturmbannführer Andrius Reksnys executou pessoalmente 341 judeus. Total corrigido para as duas últimas semanas: 32.108."

Fez-se um silêncio espantado. Maria mantinha a Luger levantada na altura da cabeça de Reksnys. Ele permanecia perfeitamente imóvel, olhando para ela com fria repugnância, o cinto esticado e movendo-se ligeiramente contra o pescoço do menino.

"14 de maio de 1943", continuou Maria. "Uma bela manhã de primavera. As flores estavam desabrochando por toda parte, os pássaros cantavam. A última alinhada na frente da vala era uma jovem família, um pai, uma mãe grávida e quatro crianças pequenas. Você se lembra? O seu pai deixou você matar as crianças."

"Impossível." Reksnys cuspiu as palavras, olhando de maneira conspiratória para os outros. "Esta mulher está louca. Não havia testemunhas. Nunca houve."

"Era sua primeira vez", continuou Maria, de modo prático. "Você não tinha muita experiência com a Luger. Três dias depois, a criança mais jovem arrastou-se para fora de entre os corpos, uma bala alojada em seu crânio. Uma doce menininha, chorando indefesa sob o sol de primavera." Lágrimas estavam escorrendo pelas faces de Maria, mas sua voz não vacilava. "Uma soldada alemã a encontrou e teve pena dela. Ela ficou em sua unidade durante todo o caminho de volta para Berlim, sendo cuidada pelos alemães, os homens enojados com o que a SS havia feito. Quando eles foram todos mortos em ação, a menina foi resgatada por um soldado inglês. Anos mais tarde, ela casou-se com um diplomata espanhol e teve uma filha. Na última primavera eu a trouxe de volta para Nikolaiev, para ficar mais uma vez naquele prado encantador, com seus irmãos e irmãs, seus amados pai e mãe. Ela contou que eles a tinham perdido, tinham ficado desesperados para achá-la e protegê-la." Maria conteve-se com dificuldade, enxugando suas lágrimas, mas olhando de maneira inflexível para o cano da arma. "Aquela menininha era minha mãe."

"Tolice." Reksnys puxou o menino para si, seus olhos movimentando-se de um lado para o outro, a voz repentinamente demente e bem aguda. "Não acreditem em uma palavra do que ela diz. Ela é uma judia."

O aposento estava mortalmente silencioso. Reksnys subitamente parecia nervoso, começou a tremer, a face pálida e o suor escorrendo. Ele empurrou o menino. Jack o agarrou e o levou às pressas para a entrada. Reksnys cambaleou e depois se endireitou, tentando recuperar a compostura. "Você já tem o menino." Ele passou as mãos trêmulas pelos cabelos, alisando-o para trás. O homem estava lutando para fazer sua voz parece normal de novo, para soar conciliatória. "Agora é hora de acabar com essa tolice. Você já tem o que quer. A polícia nunca vai conseguir me acusar de nada. Todos podemos ir embora. Onde está meu filho?"

"Em uma viagem sem volta para o inferno", disse Costas.

"Onde está o meu filho?" Reksnys não conseguia compreender, os olhos injetados de sangue e pasmados, acometidos de pânico. Houve um outro silêncio, e ele olhava freneticamente de um rosto a outro, depois cambaleou para o lado. "Não."

Maria mirou a arma, lenta e deliberadamente, mantendo-a o tempo todo apontada para a cabeça de Reksnys. Sua voz estava fria, sem emoção. "Ajoelhe-se. Rosto para a parede."

Reksnys perdeu o controle. Caiu de joelhos com os lábios tremendo e os olhos transfigurados de terror. Uma mancha escura apareceu em suas calças e espalhou-se pelas pernas. "Não, eu lhe imploro. Não isto."

"Eu sou uma judia", falou Maria baixinho.

Ouviu-se um estalo amortecido. A cabeça de Reksnys moveu-se para trás e ele caiu ao chão, tomado de espasmos. Uma golfada de sangue jorrou. Durante um instante esteve consciente, os olhos bem abertos, as pernas contraindo-se horrivelmente. Depois ficou imóvel. A mancha de sangue na parede começou a escorrer, filetes vermelhos que tingiam as cores esmaecidas das cenas de sacrifício e fluíam em seguida até o chão para juntar-se à poça que se havia formado.

Reksnys começou a se mexer de novo. Todos olharam consternados. Ele parecia estar de novo tomado de espasmos, arrastando-se como uma boneca de trapos, movendo-se em direção a Maria. Ela deixou a arma cair e desmaiou, aparentemente paralisada. Jack a agarrou, puxando-a para longe. De repente, o chão sacudiu violentamente. Jack mal pôde se dar conta do que estava acontecendo. Depois lembrou-se. Chichén Itzá. O tremor de terra alguns dias antes. Reksnys não voltou à vida de novo. Terremoto.

Uma fenda apareceu na parede, dividindo a pintura. Uma cacofonia de arrebentar os ouvidos ressoou pela caverna abaixo. Jack ficou ciente de uma investida frenética para a entrada, de arrastar Maria para fora, de ver as águas subirem num grande movimento de onda atrás de si e de recuar de novo para o buraco da caverna que havia ali quando o templo ainda existia.

Mais tarde observou enquanto Maria abria os olhos. Ele viu a água escorrendo de seu rosto, viu a luz do sol aparecendo por entre a abóbada de vegetação emaranhada acima, ouviu os pássaros gritando. Jack respirou profundamente, saboreando a corrente de ar frio e limpo que se seguiu à chuva. Ele pensou na mãe de Maria, em O'Connor.

Tudo terminara.

"São vinte e três metros desde a beirada da plataforma até a superfície da água, alguns centímetros a mais ou a menos. Vamos precisar equipar um guindaste bastante elaborado para receber a maquinaria operacional."

"Se eles conseguiram fazê-lo nos anos 1950, podemos também fazer o mesmo agora. Confio na sua engenhosidade."

"Como sempre, eu apenas fiz o plano da coisa."

Costas puxou uma grande cópia heliográfica de um tubo de papelão e desenrolou-a em cima do calcário quente, prendendo um cano com o telêmetro a laser que estava segurando. Jack resignava-se a fazer uma exposição técnica detalhada, mas então foi salvo pelo aparecimento de Jeremy e Maria no final do caminho processional.

"Almoço." Jeremy pulou para a rocha carregando uma pequena geladeira, e inclinou-se sob a lona impermeabilizada que eles tinham montado para se proteger do sol. Haviam se passado dois dias inteiros desde que a tempestade tinha caído, e o ar ainda estava limpo e fresco, mas naquela manhã o calor havia retornado como para uma desforra, e a umidade era sufocante.

Jeremy abriu a geladeira e espalhou a comida e a bebida sobre a mesa quando Jack chegou perto. Costas estava resmungando para si mesmo na beirada da rocha, mas desistiu à vista da comida e enrolou a cópia heliográfica. Os homens se sentaram com Maria recostada na rocha atrás deles.

"O que você tem para mim desta vez?", perguntou Costas. "Alguma iguaria tolteca? Coração humano em conserva, talvez?"

Jeremy falou entre dois bocados. "Nada disso. Apenas uma antiga e boa comida mexicana." Ele voltou-se para Jack. "Os turistas vão voltar esta tarde." Ele engoliu a comida e tomou um grande gole de água. "O tremor que nos atingiu na selva quase não foi registrado aqui, então eles pensam que este local é seguro. É danado de quente para trabalhar aqui, de todo jeito." Ele partiu um outro pedaço de pão, e fez um gesto em direção ao buraco profundo do Poço de Sacrifício, debaixo da plataforma onde Jack e Costas tinham estado. "Nós realmente vamos fazer isto?"

"Mais tarde neste ano", disse Jack. "Tenho certeza de que ainda há um material fabuloso aqui embaixo."

"Eu já planejei tudo." Costas estava brilhando de suor debaixo de seu chapéu panamá, a boca cheia de comida. "Venham para cá quando tiverem terminado e eu lhes mostrarei."

"Eu teria gostado de ver o lugar da última resistência de Harald, o local que vocês encontraram", disse Jeremy. "Lá no outro cenote."

"Acho que não vai dar", murmurou Jack. "A entrada está bloqueada com centenas de toneladas de pedras, e na outra direção teria de lutar contra uma corrente impossível. Nós encontramos o lugar da última batalha de Harald, o seu Ragnarok, e isto basta. Algo me diz que eu estaria forçando a minha sorte se voltasse lá de novo."

"É um lugar sombrio." Maria estremeceu. "Você não ia querer ir até lá."

"Trata-se apenas de um bando de estalagmites, de todo jeito", disse Costas.

Jeremy examinou de maneira incerta a superfície esverdeada do buraco de escoamento na frente deles. "Se vocês estão pensando em me mandar para baixo neste buraco aqui como alternativa, não contem comigo. Este lugar já me assombra bastante como ele é."

"Você pode pelo menos vir conosco na expedição como fornecedor de comida."

"Maria?" Jeremy estendeu o pescoço por cima da mesa para olhar para ela. "A biblioteca Hereford, quero saber. Será que posso ausentar-me durante meu contrato?"

Maria colocou sua garrafa de água de lado e deu um sorriso cansado. Jack ficara observando-a cuidadosamente do outro lado da mesa. Ela estivera dormindo ou descansando quase todo o tempo desde a morte de Reksnys. A equipe médica do Seaquest II tratara do ferimento em seu rosto, que estava agora coberto com gaze branca. Não ficaria cicatriz, o que seria uma herança pavorosa. Psicologicamente era um outro assunto. Jack sabia, por experiência própria, que a perda de O'Connor a atingiria mais duramente quando ela voltasse para casa, com tempo para refletir. E, apenas dois dias atrás, Maria estivera com uma arma apontada para a cabeça do homem que havia ordenado o assassinato, e que a havia traumatizado muito tempo antes que ela encontrasse O'Connor. Jack a via sob nova luz desde que ela havia revelado a terrível verdade sobre o passado de sua família. Jack tinha conhecido a mãe dela anos antes, quando ele e Maria eram estudantes, e tinha suposto que ela era sefardi como seu marido. Ele nunca teria adivinhado o seu passado. Como muitos sobreviventes do holocausto, a mãe de Maria encontrara uma maneira de bloquear o horror em sua memória e só havia deixado que ele a dominasse quando soube que estava morrendo. Isto explicava a força de Maria, mas também sua inquietação, sua relutância em se comprometer com alguém. Expor o trauma que ela havia internalizado durante toda a vida iria transformá-la. A prova final com Reksnys havia dado um certo desfecho ao problema, trazendo sua própria hostilidade sangrenta a um fim, mas tinha sido uma experiência chocante e deixara Maria abalada. Afortunadamente, a polícia mexicana ficara feliz de mudar de lado quando viu quem estava ganhando, e Maria tinha se transformado em heroína por ter salvado a vida do menininho. Apenas Jack, Costas e Jeremy foram testemunhas da cena final.

Maria fitou Jeremy. "O trabalho tem o seu nome nele, mas, se passar mais tempo com esses sujeitos da IMU, você será fisgado para sempre." Ela lhe deu um outro sorriso cansado e depois olhou para Jack. "Quais são as últimas novas sobre a menorá?"

"Estive pensando sobre a simetria da história", replicou Jack.

Costas lançou um olhar alarmado e contraiu-se. "Oh, não. Filosofia, não. Está na hora de voltar às minhas cópias heliográficas."

"Não. Espere. É importante, talvez seja a chave da história inteira." Costas sentou-se pesadamente enquanto Jack punha em ordem seus pensamentos. "Pensei nisso quando vi a pintura da procissão tolteca para o Poço de Sacrifício, tão incrivelmente similar à procissão romana pelo Arco de Tito mil anos antes. Pense em todos os lugares diferentes onde a menorá esteve, em todas as culturas diferentes. O símbolo supremo do povo judeu, só perdendo, em importância, para a Arca da Aliança. Então ela é seqüestrada pelos imperadores romanos e torna-se um objeto de prestígio para eles também. Depois os bizantinos. Em seguida Harald Hardraade e os vikings. A cada vez ela poderia ter sido derretida, mas não foi. Para os romanos ela representava um símbolo de conquista, de superioridade. Para os bizantinos tratava-se de um dos tesouros acumulados às escondidas que os ligavam à antiga Roma, às antigas virtudes. Para Harald Hardraade ela era um símbolo da sua proeza pessoal, e então tornou-se algo mais místico, quase um talismã. Nessa época, o seu significado judaico original já estava perdido, mas ela ainda tinha um significado quase sobrenatural, o poder de moldar o destino dos homens."

Costas estivera ouvindo atentamente. "A quarta cruzada, o saque de Constantinopla", ele disse. "É isto aí. Todo aquele material que estávamos procurando, as antigas obras de arte. Algumas delas têm valor de prestígio como você diz, transformado dentro de uma cultura diferente. Os Cavalos de São Marcos em Veneza, originalmente uma antiga escultura, mas depois o símbolo de uma cidade-Estado medieval, algo que os seus autores nunca poderiam sonhar que fosse possível."

"Você captou o significado que quero dar."

"E o outro material, as obras de arte abandonadas no Chifre de Ouro. Nenhum valor de prestígio."

"Ou o simbolismo de que era perigoso, indesejável. Para os cruzados, como para o Vaticano, o poder simbólico da menorá completou um ciclo inteiro, de volta às suas origens judaicas. É por isso que eu acreditava que havia uma chance de encontrá-la no Chifre de Ouro."

"Então, depois dos vikings nos deslocamos para os toltecas", disse Costas. "Percebo para onde você está se dirigindo."

"Os toltecas eram grandes em matéria de símbolos de vitória, símbolos de proezas e domínio", disse Jack. "Realmente grandes. Basta olhar para a arquitetura deste lugar, a escultura. E eles gostavam do seu ouro. Talvez não tenham oferecido a menorá aos deuses no final da procissão, mas a tenham escondido em outro lugar, algo para ser mostrado apenas nas cerimônias mais sagradas. Pense no imperador Vespasiano mil anos antes, na procissão triunfal no Fórum de Roma. Como os toltecas, ele sacrificou seus prisioneiros de guerra, os judeus capturados. Ele podia ter sacrificado seu tesouro também, fundindo-o para que se transformasse em moedas. Em lugar disso, ele o trancou no Templo da Paz."

"O Templo dos Guerreiros", murmurou Jeremy. "Este era o lugar mais sagrado dos toltecas, mas certamente não um templo de paz. Ele era mais como o castelo de Wewelburg, na Bavária, o quartel-general da SS."

"Não era exatamente o que Vespasiano tinha em mente", disse Maria.