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A DAMA DAS CAMÉLIAS / Alexandre Dumas
A DAMA DAS CAMÉLIAS / Alexandre Dumas

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A DAMA DAS CAMÉLIAS

 

Existia no ano da graça de 1845, nesses anos de abundância e de paz em que todos os dotes da inteligência, do talento, da beleza e da fortuna aureolavam a França, uma ela e jovem mulher dotada da mais encantadora figura, cuja simples presença fazia despertar certa admiração, de mistura com uma espécie de diferença, em todo aquele que, ao vê-la pela vez primeira, não lhe conhecia o nome nem a profissão. Nela se conjugavam, e da forma mais natural, o olhar inocente, os modos provocantes, o andar simultaneamente petulante e honesto da mulher da mais alta sociedade. Tinha um ar grave, o seu sorriso era senhoril, e só de vê-la caminhar, poder-se-ia dizer o que um dia disse Eneviou de uma dama da corte: "Evidentemente, se não é duquesa, é uma mulher de vida fácil".

Ai! Esta não era duquesa. De humilde nascimento, e com os dezoito anos que então teria, precisava, na verdade, de ser ela e atraente para subir tão alto e com tanta facilidade.

Recordo-me de a ter encontrado um dia, pela primeira vez, no abominável átrio de um teatro de Boulevard, mal iluminado e repleto dessa multidão barulhenta que geralmente aprecia os melodramas de sensação. Viam-se ali mais lusas que casacas, mais gorros do que chapéus de plumas, e mais casacos coçados do que fatos novos. Ali falava-se de tudo, de arte dramática e de batatas fritas; das peças do Ginásio e do pão-de-ló do Ginásio. Pois quando esta mulher apareceu à entrada daquele lugar estranho, o! brilho dos seus olhos como que impregnou de graça tanta coisa ridícula, apenas com o poder do seu olhar. Pisava aquele soalho lamacento como se, na verdade, atravessasse o Boulevard num dia chuvoso; erguia a saia instintivamente, para não tocar naquela lama seca, e sem pretender mostrar --para quê?--o seu pé em calçado, que rematava uma perna bem torneada coberta por meia de seda de ponto aberto, miudinho. No conjunto, a sua toilette coadunava-se l em com aquele talhe flexível e jovem; o rosto, dum belo oval, um pouco pálido, justificava a graça que ela derramava em redor como um suave perfume.

Entrou, pois, atravessou, de cabeça erguida, por entre aquela multidão assombrada, e eu e Liszt ficámos muito surpreendidos ao vê-la sentar-se familiarmente no banco onde estávamos, pois nunca nenhum de nós lhe tinha falado. Mulher espirituosa, de gosto apurado e de bom senso, dirigiu-se logo ao grande artista, dizendo-lhe que o ouvira havia pouco e que a sua música a deixara extasiada. Ele, entretanto, como esses instrumentos sonoros sensíveis ao primeiro sopro da brisa de Maio, escutava, enlevado, aquela ela linguagem cheia de ideias, aquela !íngua sonora, eloquente e sonhadora ao mesmo tempo. Com esse instinto maravilhoso de que é dotado, e essa grande prática das mais altas esferas sociais, e do escol artístico, ele perguntava a si próprio quem seria aquela mulher desconhecida, de modos tão familiares e tão nobres, que se lhe dirigia assim inopinadamente e que, logo após trocarem as primeiras palavras, o tratava com certa altivez, como se lhe tivesse sido apresentado em Londres, nas salas da rainha ou da duquesa de Sutherland.

Entretanto, tinham ecoado na sala as três pancadas solenes do contra-regra, e o toyer esvaziara-se de toda aquela chusma de espectadores e critiqueiros. A desconhecida ficara só connosco e com a sua companheira. Aproximara-se mesmo do fogo e estendera os pés tiritantes na direcção das achas ardentes, de forma que a podíamos apreciar à nossa vontade, desde as pregas bordadas da saia de baixo aos caracóis do cal elo negro. A sua mão enluvada mais parecia uma pintura; o seu lenço era maravilhosamente ornado de fina renda; nas orelhas ostentava duas pérolas do oriente capazes de causar inveja a uma rainha.

Trazia todos esses pequenos requintes de elegância como se tivesse nascido entre sedas e veludos, sob qualquer teto dourado dos bairros elegantes, com uma coroa sobre a ca eça e um mundo de aduladores a seus pés. Assim, o seu porte correspondia a linguagem, o seu pensamento ao sorriso, a sua toilette à pessoa, e em vão se procuraria nas mais altas camadas sociais uma criatura que estivesse em mais ela e mais completa harmonia com a sua personalidade, os seus hábitos e as suas aliciantes conversas.

Entretanto Liszt, muito espantado por encontrar tal maravilha em semelhante lugar e por aquele galante entreacto de tão terrível melodrama, entregava-se inteiramente à sua fantasia.

Ele não é apenas um grande artista, mas também um homem eloquente. Se ia falar às mulheres, passando como elas de uma ideia à outra, e escolhendo as mais opostas. Adora o paradoxo, conversa em tom sério, ou burlesco, e ser-me-ia impossível dizer com que arte, com que tacto, com que gosto infinito ele percorreu, com essa mulher cujo nome não conhecia, todas as gamas vulgares e todos os floreios elegantes da conversação quotidiana.

Levaram assim a conversar todo o terceiro acto do referido melodrama, pois a mim dirigiram-se apenas uma ou duas vezes, por cerimónia; mas como me encontrava precisamente num desses momentos de mau humor em que toda a espécie de entusiasmo é vedado à alma humana, aceitei como certo que aquela dama me achava completamente insípido e absurdo, e tinha toda a razão.

Passou esse Inverno e depois o Verão, e no outono seguinte outra vez, mas então em todo o esplendor de um espectáculo de benefício, em plena ( pera, vimos, de súbito, abrir-se, com estrondo, um dos camarotes do proscénio, e aparecer na frente, com um ramalhete na mão, essa mesma beleza que eu vira no Boulevard. Era ela! Mas, nessa noite, o seu vestuário constituía o expoente máximo da moda feminina, e brilhavam nela todos os esplendores da conquista. o seu penteado era primoroso, e nos belos cabelos viam-se diamantes e flores misturados com essa graça estudada que lhes dava o movimento e a vida; no colo e braços nus ostentava colares, pulseiras e esmeraldas. Na mão segurava um ramalhete: de que cor? Não me seria possível dizê-lo; é necessário possuir olhos de mancebo e imaginação de criança para distinguir a cor verdadeira de uma flor sobre a qual se debruça um rosto formoso. Na nossa idade, apenas atentamos na beleza da face e no brilho do olhar, pondo-se de parte os acessórios; e se, por acaso, nos entretemos a tirar consequências, tiramo-las da própria pessoa, o que, na verdade, já nos dá bastante que fazer. Nessa noite acabava Duprez de lutar com essa voz rebelde, cuja insurreição definitiva já pressentia; mas só ele tinha esse pressentimento, o público ainda nem sequer o suspeitava.

Apenas, na parte mais atenta do auditório, alguns conhecedores adivinhavam a fadiga que a habilidade ocultava e compreendiam os esforços que o artista fazia para se enganar a si próprio.

A formosa rapariga de que falo era decerto um hábil juiz, pois, passados os primeiros minutos de atenção, viu-se que não cedia à fascinação habitual; desviou-se de súbito para o fundo do camarote e, de binóculo na mão, pôs-se a examinar a fisionomia da sala.

Conhecia certamente muitos dos espectadores mais distintos.

Bastava atentar no movimento do seu binóculo para se perceber que aquela formosa espectadora poderia contar várias histórias acerca de rapazes da melhor aristocracia; olhava ora para um, ora para outro, igualmente, não prestando a este mais atenção do que àquele, indiferente a todos, sendo, contudo, correspondida, com um sorriso, com um gesto imperceptível ou com um olhar vivo e rápido, a atenção que se dignava conceder-lhes. Do fundo dos camarotes escuros e do meio das cadeiras de orquestra, outros olhares, ardentes como vulcões, eram vibrados à linda rapariga, mas esses passavam-lhe despercebidos. Se, finalmente, por acaso o seu binóculo se dirigia para as senhoras da verdadeira sociedade parisiense, notava-se, de súbito, na sua atitude uma espécie de ar resignado e humilde que fazia pena. Pelo contrário, se por infelicidade o seu olhar incidia sobre alguma dessas raparigas de rosto encantador e de reputação duvidosa, que nos dias solenes usurpam os melhores lugares do teatro, voltava a cal eça com amargura.

o seu companheiro--pois dessa vez estava com um homem--era um guapo mancebo meio parisiense, que conservava ainda algumas opulentas relíquias da casa paterna que viera devorar, jeira a jeira, nesta cidade de perdição. Ainda na aurora da vida, o jovem orgulhava-se de possuir aquela beldade no seu apogeu, e sentia-se honrado por mostrar que ela era muito sua e importuná-la com todas essas pequenas coisas tão gratas a uma rapariga quando vêm do objecto amado, e tão desagradáveis quando dirigidas a uma alma distraída... Escutavam-no sem o ouvir, olhavam-no sem o ver... Que teria ele dito? A jovem não o sabia, mas tentava responder; e as poucas palavras que proferia, vazias de sentido, constituíram para ela verdadeira fadiga.

Deste modo, sem darem por isso, não se encontravam sozinhos naquele camarote cujo preço representava o pão de uma família para seis meses. Entre eles colocara-se o companheiro inseparável das almas doentes, dos corações feridos, dos espíritos fatigados: o tédio, esse imenso Mefistófeles das Margaridas errantes, das Clarisses perdidas, de todas essas divas, filhas do acaso, que caminham na vida, ao abandono.

Aquela pecadora, rodeada das adorações e homenagens da juventude, sentia-se, pois, enfadada, mas esse mesmo enfado deve servir-lhe de perdão e desculpa, porque foi o castigo das suas breves prosperidades. o tédio constituiu o grande mal da sua vida. Infeliz! A força de ver despedaçadas as suas afeições, de obedecer à necessidade de ligações efémeras e de passar de um amor a outro, sem saber porque abafava tão depressa essa inclinação nascente e essas ternuras ao despontarem, tornara-se indiferente a tudo, esquecendo o amor de ontem e não pensando mais no de hoje do que na paixão de amanha.

Desgraçada ! Precisava de solidão . . . e via-se importunada.

Precisava de silêncio... e os seus ouvidos fatigados escutavam incessantemente as mesmas palavras! Queria sossego... e arrastavam-na a festas e a tumultos. Desejaria ser amada... e diziam-lhe que era bela! Abandonava-se assim, sem resistência, àquele turbilhão que a devorava! Que mocidade!... E como é compreensível aquele dito de M e de Lenclos, quando, no auge da prosperidade, semelhante à das fábulas, amiga do príncipe de Condé e de Madame de Maintenon, exclamava com um profundo suspiro de pesar: "Se me tivessem proposto tal vida, teria morrido de dor e de susto ! "

Acabada a ópera, a formosa mulher saiu; o espectáculo estava ainda em meio. Iam actuar em seguida Bouffé, M.lle Déjazet e os cómicos do Palais-Royal, sem falar no baile em que devia dançar Carlota, leve e encantadora, então nos seus primeiros tempos de celebridade e poesia... Ela não quis esperar pelo vaudeville; preferiu sair e dirigir-se para casa, quando tantas pessoas dispunham ainda de três horas de divertimento, ao som daquela música e alumiadas por aqueles lustres acesos!

Vi-a sair do camarote e embrulhar-se ela própria na capa forrada de pele de arminho. o rapaz que a acompanhava parecia contrariado, e como já não se podia exibir com aquela mulher, pouco lhe importava que ela sentisse frio. Lembro-me até de a ter ajudado a puxar a capa para cima dos alvíssimos ombros, e ela olhou-me, sem me reconhecer, com um ligeiro sorriso doloroso, dirigido ao jovem aristocrata que naquele instante se entretinha a pagar à mulher que a ria os camarotes e a mandar-lhe trocar uma moeda de cinco francos.

--Pode guardar tudo--disse ele à mulher, saudando-a com bom modo.

Vi-a depois descer a grande escada da direita, com o vestido branco que fazia sobressair a sua capa vermelha, e o lenço amarrado acima da testa, que lhe passava por baixo do queixo; a renda, ciosa, caía-lhe um pouco sobre os olhos; mas que importava isso?

A jovem representara o seu papel, o seu dia acabara, e já não pensava na sua beleza... Provavelmente, o rapaz naquela noite não passou da porta.

Uma coisa digna de reparo e que depõe a seu favor, é que essa mulher, que na juventude gastou ouro e prata às mãos-cheias--pois aliava o capricho à beneficência e tinha em pouca conta esse vil metal que lhe custava tão caro--não foi heroína de nenhuma dessas histórias de ruína e de escândalo, de jogo, de dívidas ou de duelos, como tantas outras mulheres, em iguais circunstâncias, teriam provocado à sua passagem.

Pelo contrário, em torno dela só se falava da sua beleza, dos seus triunfos, do seu vestuário, das modas que sabia inventar e das que impunha. Nunca se contaram casos de fortunas desaparecidas, de prisões por dívidas e de traições--complementos ordinários desses tenebrosos amores—em que o seu nome estivesse envolvido. A volta daquela rapariga, que a morte tão cedo arrebatou, havia uma certa ordem, uma espécie de decência irresistível. Levou vida à parte, mesmo nesse mundo que habitava, e numa região mais calma e serena, embora, infeliz dela, vivesse onde tudo se perde.

Vi-a pela terceira vez na inauguração do Caminho de Ferro do Norte, nessas festas que Bruxelas ofereceu à França, desde então tornada sua vizinha e comensal. Nesse cais, imenso entroncamento dos caminhos de ferro de todo o Norte, a Bélgica reunira todos os seus esplendores: os arbustos das suas serras, as flores dos seus jardins, os diamantes das suas coroas. Uma multidão incrível de uniformes, condecorações, diamantes e ricos vestidos enchiam o recinto numa festa como jamais se tornará a ver. Aquela festa da indústria e da viagem, do ferro domado e da chama obediente tinham acorrido a nobreza francesa e a alemã, a da Bélgica espanhola, a da Flandres e a da Holanda, ostentando as suas antigas jóias, contemporâneas de Luís XIV e da sua corte, todas as colossais e maciças fortunas da indústria, e algumas parisienses elegantes que lembravam borboletas numa colmeia de abelhas.

Naquela estranha confusão, encontravam-se representadas todas as forças e todas as graças da criação, desde o carvalho à flor, desde o carvão de pedra à ametista. No meio desse movimento dos povos, dos reis, dos príncipes, dos artistas, dos ferreiros e das grandes notabilidades femininas da Europa, viu-se aparecer, ou melhor dizendo, vi aparecer, mais pálida ainda e mais branca do que habitualmente, aquela mulher encantadora, já ferida pela doença invisível que a devia levar à sepultura.

Entrara nesse baile, apesar do seu nome, e graças à sua deslumbrante formosura! A verdade é que atraía todos os olhares, era alvo de todas as homenagens. Um murmúrio de lisonja saudava-a onde quer que aparecia, e mesmo os que a conheciam inclinavam-se à sua passagem; ela, entretanto, sempre tão calma e alheada no seu desdém habitual, aceitava essas homenagens, como se elas Lhe fossem devidas. Não se admirava, antes pelo contrário, de pisar os mesmos tapetes que a rainha pisara! Mais que um príncipe parou para a contemplar, e os seus olhares disseram-lhe o que as mulheres tão bem compreendem: "Acho-te bela e é com pena que te deixo! "

Nessa noite dava o braço a um estrangeiro, um recém-chegado louro como um alemão, impassível como um inglês, bem vestido, muito apertado na sua casaca, muito empertigado, que julgava praticar, naquele momento -- adivinhava-se-lhe pelo andar--, um desses actos audaciosos que os homens se lançam em rosto até ao fim da vida.

A atitude daquele homem para com a sensitiva que lhe dava o braço era, na verdade, displicente. Ela apercebia-se do facto, com esse sexto sentido que possuía, e redobrava de altivez, porque o s u maravilhoso instinto dizia-lhe que quanto mais aquele homem se admirasse da sua própria acção, mais insolente se devia ela mostrar, e com mais desprezo espezinhar os remorsos desse jovem exasperado.

Poucas pessoas decerto compreenderam quanto deve ter sofrido então aquela mulher sem nome pelo braço de um homem sem nome--de um homem que parecia dar mostras de desaprovação e cuja atitude ameaçadora denotava claramente uma alma inquieta, um coração indeciso, um espírito pouco sossegado. Mas esse anglo-alemão viu-se cruelmente castigado dos seus desgostos íntimos, quando a nossa parisiense se encontrou, na sinuosidade de um grande caminho de luz e de verdura, com um seu amigo-um amigo despretensioso que apenas Lhe pedia, de tempos a tempos, um dedo da sua mão e um sorriso dos seus lábios; um artista da nossa sociedade, um pintor que sabia melhor do que ninguém, apesar do pouco contacto que mantinha com ela, quanto era digna de ser tomada como perfeito modelo de todas as elegâncias e de todas as seduções da mocidade.

--oh! Já que está aqui, dê-me o seu braço e dancemos ! E, largando o braço do cavalheiro que a acompanhava, começou a dançar uma valsa a dois tempos, que é a própria sedução quando pertence a Strauss e chega até nós toda enamorada das margens do Reno alemão, sua verdadeira pátria! Ela dançava maravilhosamente, em andamento nem demasiado vivo, nem demasiado lânguido, obedecendo tanto à cadência interior como ao compasso; mal tocava com o seu leve pé naquele solo elástico, ora arrebatada, ora serena, e com os olhos fitos nos do seu par.

Fez-se roda em torno do gracioso par, e todos queriam ser tocados por aqueles belos cabelos que acompanhavam o movimento rápido da valsa, e sentir o roçar daquele diáfano vestido impregnado de ténues perfumes; e, pouco a pouco, o círculo foi-se apertando e os restantes pares, uns após outros, abandonaram a dança para os verem. . . E foi então que o jovem alto que a trouxera àquele baile, a perdeu de vista na multidão e debalde tentou descobrir de novo aquele braço encantador, ao qual com tanta repugnância tinha dado o seu... o braço e o artista sumiram-se definitivamente.

Dois dias após esta festa, com um tempo esplêndido, a essa hora encantadora em que as montanhas cobertas de verdura deixam penetrar o sol, ela seguiu de Bruxelas para Spa.

então que vemos acudir ali toda a espécie de doentes felizes, que vêm descansar das fadigas causadas pelas festas do Inverno passado, a fim de melhor se prepararem para os divertimentos do Inverno futuro. Em Spa apenas se conhece a febre do baile e não há outros pesares senão os da ausência nem outros remédios além da tagarelice, a dança, a música, a emoção do jogo, à noite, quando a Redoute se ilumina com todas as suas luzes e o eco das montanhas repete, em mil tonalidades, os sons fascinantes da orquestra.

A parisiense foi ali acolhida com uma afabilidade bastante rara nessa aldeia um tanto esquiva, que abandona de bom grado a Baden, sua rival, as beldades sem nome, sem marido e sem posição oficial. Também em Spa o espanto foi geral quando se soube que uma mulher tão nova estava seriamente doente, e os médicos, aflitos, confessaram que, com efeito, raramente

tinham encontrado maior resignação aliada a tanta coragem.

Foi zelosa e cuidadosamente interrogada acerca da sua doença, e, após uma consulta séria, aconselharam-lhe calma, repouso, sono e silêncio, os mais belos sonhos de toda a sua vida! Ao ouvir tais conselhos, sorriu e abanou a cabeça com ar de incredulidade, pois bem sabia que tudo lhe era possível, menos o gozo dessas horas escolhidas de que dispõem certas mulheres e que só a elas pertencem. Prometeu, contudo, obedecer durante alguns dias e sujeitar-se àquele regime de isolamento. Mas, baldados esforços ! Viram-na, pouco depois, ébria e doida de fictícia alegria, atravessar a cavalo as mais difíceis passagens e espantar com a sua alacridade essa alameda das Sete Horas, que já a vira pensativa, lendo à sombra das árvores.

Não tardou a tornar-se na leoa daqueles lugares encantadores.

Presidiu a todas as festas, dava movimento aos bailes, impunha às orquestras as suas árias favoritas e, à noite, à hora em que tão bem lhe teria feito um pouco de sono, assustava os mais intrépidos jogadores com os montes de ouro que se acumulavam na sua frente e que perdia de súbito, indiferente a lucros ou perdas. Recorrera ao jogo como um suplemento da sua profissão, como um meio de matar as horas que a matavam a ela.

Tal como era, contudo, teve ainda a ventura, coisa rara, de conservar amizades no jogo cruel da sua vida. E mesmo um dos sinais dessas ligações funestas é não deixarem atrás de si senão cinza e pó, vaidade e nada!

Quantas vezes o amante passou junto da amante sem a reconhecer, e quantas vezes a infeliz gritou por socorro, mas em vão!... Quantas vezes aquela mão que segurou flores se estendeu debalde pedindo esmola e o pão duro!

Não foi isto o que aconteceu à nossa heroína; caiu sem soltar um lamento e, mesmo depois da queda, encontrou auxílio e protecção entre os adoradores apaixonados dos seus belos dias. Esses homens que tinham sido rivais, e talvez inimigos, reconciliaram-se para velarem à cabeceira da doente, para expiar as noites de loucura com noites sérias, quando a morte se aproxima, para que o véu se rasgue e a vítima ali deitada e o se cúmplice compreendam por fim, a verdade desta grave exclamação: "Vo ride ?til us". Ai das que riem! Isto é, ai das alegria profanas, ai dos amores vagabundos, ai das paixões volúveis, ai da juventude que se deixa arrastar por mau caminho, porque, ao atingir certas sinuosidades desse caminho, tem por força de retroceder e mergulhar nos abismos onde secai aos vinte anos.

Assim morreu ela, docemente embalada e consolada por mil palavras tocantes, por mil desvelos fraternais; já não tinha amantes... nunca tivera tantos amigos, e, contudo, não sentiu saudades da vida. Sabia o que a esperava se recuperasse a saúde, e que lhe seria mister levar de novo aos lábios descorados essa taça do prazer cujas fezes experimentara prematuramente. Morreu, pois, em silêncio, ainda mais oculta na morte do que se mostrara na vida, e depois de tanto luxo e tantos escândalos, teve o supremo bom-gosto de querer ser enterrada ao romper do dia, num sítio escondido e solitário, sem pompa, sem ruído, tal como uma honesta mãe de família que fosse reunir-se ao seu marido, ao seu pai, à sua mãe e aos seus filhos, e a tudo quanto amava, nesse cemitério que fica além.

Contra sua vontade, no entanto, sucedeu que a sua morte foi uma espécie de acontecimento; falou-se dela durante três dias, o que é muito para esta cidade das paixões científicas e das festas sempre repetidas e nunca saboreadas.

Ao fim de três dias escancarou-se a porta fechada da sua casa.

As grandes janelas que davam para o Boulevard, mesmo em frente à igreja da Madalena, sua patrona, deixaram outra vez penetrar o ar e o sol naquele recinto onde ela se extinguira. Dir-se-ia que a jovem mulher ia voltar a casa. Nem entre as cortinas de seda, nem nas ricas tapeçarias de reflexos vivos, nem sobre os Gobelins onde as flores pareciam desabrochar e em que o seu pé infantil mal tocara, se conservava o mais leve sinal do aroma da morte.

Cada móvel daquele sumptuoso aposento encontrava-se ainda no mesmo lugar; o leito em que ela morrera estava levemente amachucado. A cabeceira, um tamborete conservava o sinal dos joelhos do homem que lhe fechara os olhos. Aquele relógio antigo que marcava as horas a Madame de Pompadour e a Madame du Barry, continuava a soar como dantes; os candelabros de prata encontravam-se carregados de velas preparadas para a última conversação da noite; nas jardineiras a rosa-de-todo-o-ano e a murta cheirosa debatiam-se, por sua vez, com a morte. Morriam à falta de um pouco de água... tal como a sua dona tinha morrido à míngua dum pouco de felicidade e de esperança.

Ai! Nas paredes viam-se suspensos os quadros de Diaz, que ela fora uma das primeiras a considerar o verdadeiro pintor da Primavera, e o seu retrato desenhado por Vidal. Este fizera de tão bela cabeça uma cabeça encantadora e casta, de infinita elegância, e após a morte dela só quis retratar mulheres honestas. Abrira em favor daquela uma excepção, que bastou para fazer a reputação do pintor e do modelo!

Ali tudo ainda falava dela! os pássaros cantavam na sua gaiola dourada. Através dos vidros transparentes dos armários de Boule, viam-se reunidas--escolha admirável e digna dum antiquário exímio e rico--as mais raras obras-primas da manufactura de Sèvres, as mais delicadas pinturas de Saxe, os esmaltes de Petitot, as estátuas nuas de Klinstadt, as Pampines de Boucher. Ela gostava daquelas pequenas galanterias, graciosas, elegantes, onde o próprio vício tem o seu espírito, a inocência as suas nudezes; encantavam-na os pastores e as pastoras de porcelana, os bronzes florentinos, as manufacturas de barro, os esmaltes, todos os requintes do gosto e do luxo das sociedades dissipadas. Via nesses objectos de arte outros tantos emblemas da sua beleza e da sua vida.

Mas ai! Ela própria constituía também um ornamento inútil, uma fantasia, um brinquedo frívolo que se quebra ao primeiro choque, um produto brilhante de uma sociedade na agonia, uma ave de arribação, uma aurora momentânea.

Esta mulher levara tão longe a ciência do bem-estar interior e a adoração da sua pessoa, que nada se podia comparar com os seus vestidos, a sua roupa branca, os mínimos pormenores dos objectos de uso, pois o adorno da sua beleza era, afinal, a mais querida e a mais encantadora ocupação da sua juventude.

ouvi as senhoras da melhor sociedade e as mais requintadas elegâncias de Paris manifestarem o seu espanto perante a arte e o bom-gosto que ela tivera na escolha dos mais insignificantes objectos de toucador. o seu pente atingiu um preço louco; a sua escova de cabelo foi paga a peso de ouro.

Até as próprias luvas já usadas tiveram pretendente, tal a delicadeza da sua mão. Venderam-se botins que ela usara, e as senhoras honestas disputaram entre si o direito a calçar aquele sapatinho de Gata Borralheira. Tudo se vendeu, inclusive o seu xaile mais velho, que já tinha três anos, a sua arara de brilhante plumagem, que repetia uma breve melodia demasiado triste, ensinada pela dona, os seus retratos, as suas cartas de amor, os seus cabelos. Tudo se foi, e a família, que desviava o olhar quando aquela mulher passeava em carruagem brasonada, ao galope dos seus cavalos ingleses, arrecadou triunfalmente todo o ouro resultante desses despojos. Não guardou para si nada do que lhe pertencera. Santa gente!

Tal era essa mulher à parte, mesmo nas paixões parisienses, e podem calcular qual o meu espanto quando apareceu este livro de interesse tão palpitante, e sobretudo duma veracidade tão recente e tão jovem, intitulado: A Dama das Camélias. A princípio falou-se dele como se fala ordinariamente de páginas impregnadas da sincera emoção da mocidade, e todos se compraziam em dizer que o filho de Alexandre Dumas, mal saído do colégio, já seguia com passo seguro a brilhante carreira do seu pai. Havia nele a mesma vivacidade e emoção interior; tinha o mesmo estilo vivo, rápido, e o diálogo, tão fácil e variado, desenvolvia-se com essa naturalidade que dá aos romances do grande escritor o encanto, o gosto e o acento da comédia.

O livro obteve, assim, um grande êxito; mas em breve os leitores, recordando a impressão fugitiva que a sua leitura lhes causara, verificaram que A Dama das Camélias não era um romance feito no ar, que aquela mulher devia ter existido, e muito recentemente; que esse drama não era fruto da imaginação, mas, pelo contrário, uma tragédia íntima cuja representação fora um facto e fizera verter verdadeiro sangue.

Então, todos procuraram saber o nome da heroína, a sua posição social, a sua fortuna e quanto se relacionara com os seus amores. o público, que tudo quer saber, e que afinal tudo sabe, teve, pouco a pouco, conhecimento de cada um desses pormenores, e, lido o livro, sentia desejos de o reler; e, naturalmente, aconteceu que, uma vez conhecida a verdade, o interesse da narração aumentou.

Ora aqui está como acontece, por uma felicidade extraordinária, que este livro, impresso como um fútil romance destinado a vida efémera, se reimprime agora, com todas as honras de um livro aceite por todos! Leiam-no, e reconhecerão nos seus mínimos pormenores a sensibilizante história com que este jovem tão bem dotado fez uma elegia e um drama com tantas lágrimas, tanta felicidade e tanto êxito.

Sou de opinião que só é possível criar personagens depois de conhecer bem os homens, assim como não se pode falar uma língua sem primeiro a estudar devidamente. ora, como não atingi ainda a idade em que se inventa, limito-me a contar.

Pode, pois, o leitor convencer-se da verdade desta história, cujas personagens continuam vivas, excepto a heroína.

De resto, há em Paris testemunhas da maior parte dos factos que vou narrar resumidamente, as quais os confirmariam se o meu testemunho não bastasse. Por uma circunstância particular, só eu os podia escrever, porque fui o único confidente dos últimos pormenores, sem os quais seria impossível fazer uma narrativa interessante e completa.

Eis como esses pormenores chegaram ao meu conhecimento.

No dia 12 do mês de Março de 1841, li na Rua Laffitte um grande edital amarelo que anunciava a venda em hasta pública de móveis e de ricos objectos de arte a qual e efectuava em consequência de um óbito.

o edital não mencionava o nome da pessoa falecida, mas a venda devia fazer-se na Rua d'Antin, m o 9, no dia 18, do meio-dia às cinco horas.

O edital dizia, além disso, que se podia, nos dias 13 e 14, visitar a casa e ver os móveis.

Fui sempre amador de curiosidades e fiz logo tenção de não perder esse ensejo, senão de as comprar, pelo menos de as ver.

No dia seguinte dirigi-me à Rua d'Antin, n.o 9 Era muito cedo, mas já andavam a visitar o aposento muitos homens, e mesmo numerosas senhoras que, embora vestidas de veludo, cobertas de caxemiras e com os seus trens elegantes à porta, contemplavam com espanto, e até com admiração, o luxo exposto diante dos seus olhos.

Não tardei a perceber essa admiração e esse espanto, porque, tendo-me posto a examinar também, reconheci facilmente que me encontrava no aposento de uma mulher que estivera por conta de homens. ora, se há coisa que as senhoras da alta sociedade desejam ver (e achavam-se lá senhoras da alta sociedade), são as casas destas mulheres, cujos trens salpicam de lama todos os dias os seus, que têm como elas e ao lado delas o seu camarote na ( pera e nos Italianos, e ostentam em Paris a insolente opulência da sua beleza, das suas jóias e dos seus escândalos.

Aquela em casa de quem eu me encontrava, já morrera; as mais virtuosas senhoras podiam, por conseguinte, entrar até no seu quarto. A morte purificara o ar dessa cloaca esplêndida, e demais tinham por desculpa, - dela precisassem, que vinham a um leilão sem saberem a quem pertencia a casa. Haviam lido uns editais, queriam visitar aquilo que eles anunciavam e fazer de antemão a sua escolha--nada mais simples--, o que as não impedia de procurar, no meio de todas aquelas maravilhas, os rastos dessa vida impura de que lhes tinham feito, sem dúvida, tão estranhas narrativas.

Infelizmente os mistérios haviam morrido com a deusa e, apesar de toda a sua boa vontade, essas senhoras apenas surpreenderam o que estava à venda e nada absolutamente do que se vendia em vida da inquilina.

De resto, não faltava ali que arrematar. A mobília era soberba: móveis de pau-rosa e de Boule, jarras de Sèvres e da China, estatuetas de Saxe, cetins, veludos e rendas, de tudo havia naquela casa.

Passeei pelo apartamento e segui as honestas curiosas que me tinham precedido. Estas encaminharam-se calmamente para um quarto forrado de pano persa, e, quando eu ia a entrar também, elas saíram a sorrir, como que envergonhadas dessa nova curiosidade. Maior foi, então, o meu desejo de visitar esse aposento. Tratava-se do quarto de vestir, com as suas mais minuciosas particularidades, em que parecia ter-se desenvolvido no mais alto grau a prodigalidade da morta!

Numa grande mesa encostada à parede, uma mesa de seis pés de comprimento e três de largura, brilhavam todos os tesouros de Aucoc e de odiot. Via-se ali uma colecção magnífica e nem um só desses mil objectos, tão necessários aos arrebiques e preparos de uma mulher como aquela em cuja casa estávamos, era de outro metal que não ouro ou prata. Contudo, essa colecção só se pudera fazer a pouco e pouco, e não fora um só amante que a completara.

Eu, que não me espantava ao ver o quarto de vestir de uma impura, divertia-me a examinar-lhe as minuciosidades, quaisquer que elas fossem, e reparei que todos esses objectos magnificamente cinzelados tinham iniciais muito variadas e muito coroas diferentes.

Olhava para todas estas coisas, cada uma das quais representava um pecado da pobre rapariga, e dizia comigo que Deus fora clemente com ela, pois permitira que não lhe chegasse o castigo ordinário, e a deixara morrer no seu luxo e na sua beleza, antes da velhice, a primeira morte dessas infelizes.

Efectivamente, que há mais triste que a velhice do vício, sobretudo na mulher? Não encerra dignidade alguma e não inspira o mínimo interesse. Esse arrependimento eterno, não do mau caminho que se seguiu, mas dos cálculos mal feitos e do dinheiro mal empregado, é uma das coisas mais tristes que podemos ouvir. Conheci uma antiga mulher perdida a quem só restava do seu passado uma filha, mas tão bonita como, no dizer dos seus contemporâneos, fora sua mãe. Essa pobre criança, a quem a mãe nunca dissera "Tu és minha filha" senão para lhe ordenar que sustentasse a sua velhice como ela mesma lhe sustentara a infância, essa pobre criatura chamava-se Luísa, e, obedecendo à ordem materna, entregava-se sem vontade, sem paixão, sem prazer, como trabalharia num ofício, se alguém se tivesse lembrado de lho ensinar.

A vida permanente da devassidão, uma devassidão precoce, alimentada pelo estado sempre doentio daquela rapariga, apagara-lhe na alma a compreensão do bem e do mal que Deus lhe dera talvez, mas que ninguém cuidara de desenvolver.

Jamais esquecerei aquela rapariga que passava nos boulevards quase todos os dias à mesma hora. Sua mãe acompanhava-a sempre, como uma verdadeira mãe acompanharia a sua verdadeira filha.

Muito novo ainda, eu estava pronto a aceitar para mim a fácil moral do meu século. Lembro-me, contudo de que a vista daquela vigilância escandalosa me inspirava tédio e desprezo.

Junte-se a isto que nunca um rosto de virgem teve semelhante expressão de inocência, semelhante expressão de melancólico sofrimento.

Dir-se-ia uma imagem da Resignação.

Um dia o rosto dessa rapariga iluminou-se. No meio das devassidões cujo programa sua mãe elaborava, pareceu à pecadora que Deus lhe concedia uma ventura. E porque é que Deus, afinal, que a criara sem força, a havia de deixar sem consolação, esmagada pelo peso doloroso da sua vida? Um dia percebeu que estava grávida, e o que ainda havia nela de casto, estremeceu de alegria. A alma tem estranhos refúgios.

Luísa correu a levar a sua mãe essa notícia que tanto a alegrara. Uma vergonha o que vamos dizer--contudo não estamos a inventar imoralidades, apenas referimos um facto verdadeiro, que talvez fosse melhor calarmos, se não achássemos necessário de tempos a tempos revelar os martírios desses entes a quem condenam sem os ouvirem e desprezam sem julgamento--; é vergonhoso, repetimos, mas a mãe respondeu à filha que o que tinham já não bastava para duas e que muito menos chegaria para três; que filhos nessas condições são absolutamente inúteis e que uma gravidez representa tempo perdido.

No dia seguinte, uma parteira, que designamos apenas como a amiga da mãe, veio ver Luísa, que esteve alguns dias de cama e se levantou mais pálida.

Três meses depois um homem teve dó dela e empreendeu a sua cura física e moral, mas o último abalo fora demasiado violento, e Luísa morreu em consequência do desmancho que fizera.

A mãe vive ainda. Como? Sabe-o Deus.

Esta história acudira-me ao espírito, enquanto contemplava os objectos de prata. Eu passara certo tempo, nestas reflexões, pois já me encontrava no apartamento sozinho com um guarda que da porta examinava com atenção se eu não furtava alguma coisa.

Aproximei-me do digno homem a quem inspirava tão graves preocupações.

-- O senhor podia dizer-me--perguntei-lhe eu-o nome da pessoa que aqui morava?

--Margarida Gautier.

Conhecia essa rapariga de nome e de vista.

-- O quê! -- exclamei. -- Margarida Gautier morreu?

--Sim, senhor.

--Quando?

--Há três semanas, parece-me.

--E porque deixam visitar os seus aposentos?

--Entenderam os credores que isso concorreria para favorecer o leilão. Assim, cada qual pode ver antecipadamente o efeito que fazem os estofos e os móveis, o que, como sabe, sempre anima a compra.

--Então ela deixou dívidas?

--oh! Imensas...

--Mas a venda chega para as cobrir?

--Ainda sobeja.

--Então para onde vai o resto?

--Para a família.

--Ela tinha família?

--Parece que sim.

--Muito obrigado.

O guarda, tranquilizado acerca das minhas intenções, cumprimentou-me e eu saí.

"Pobre rapariga!--dizia comigo mesmo ao entrar em casa.—Deve ter morrido bem tristemente, pois no seu mundo com a saúde desaparecem sempre os amigos."

E, involuntariamente, compadeci-me da sorte de Margarida Gautier.

Talvez isto pareça ridículo a muita gente, mas tenho uma indulgência enorme pelas pecadoras e não me dou sequer ao trabalho de discutir essa indulgência.

Certo dia, indo buscar um passaporte à prefeitura.

Vi numa das ruas adjacentes uma rapariga que dois gendarmes levavam presa. Ignoro o que essa rapariga fizera, apenas posso dizer que chorava a bom chorar, beijando uma criança de meses de quem a prisão a separava. Desde esse dia nunca mais soube desprezar uma mulher sem a ouvir.

O leilão estava marcado para o dia 18.

Houve um dia de intervalo entre as visitas e a venda para dar aos armadores e estofadores tempo de despregarem as tapeçarias, os cortinados, etc.

Nessa época, voltava eu de uma viagem. Era muito natural que me não tivessem dado a notícia da morte de Margarida como uma dessas grandes novidades que os amigos contam sempre a quem regressa à capital das novidades.

Margarida era bonita, mas quanto mais a vida requintada dessas mulheres dá que falar, menos barulho se faz em redor da sua morte. São destes sóis que se põem como nasceram --isto é, sem esplendor. A sua morte, quando morrem novas, consta ao mesmo tempo a todos os seus amantes, porque em Paris quase todos os amantes de uma rapariga muito conhecida são íntimos. Trocam-se algumas recordações a seu respeito e a vida de uns e de outros continua sem que esse incidente lhes arranque sequer uma lágrima.

Hoje, quando se tem vinte e cinco anos, as lágrimas são uma coisa tão rara, que se não podem dar a qualquer. Mesmo os parentes que pagam para serem chorados, só recebem, quando muito, pranto correspondente ao custo.

Quanto a mim, apesar do meu monograma se não encontrar em nenhum dos objectos do toucador de Margarida, essa indulgência instintiva, essa piedade natural que acabo de confessar, faziam-me pensar na sua morte mais tempo do que ela talvez fosse merecedora.

Lembrava-me de ter encontrado Margarida muitas vezes nos Campos Elísios, onde vinha assiduamente, todos os dias, num coupé azul, puxado por dois magníficos cavalos baios, e haver então notado nela certa distinção pouco vulgar entre as suas semelhantes, distinção que uma beleza verdadeiramente excepcional ainda mais realçava.

Estas desgraçadas criaturas vão sempre, quando saem, acompanhadas não se sabe por quem. Como nenhum homem consente em ostentar, publicamente, o amor nocturno que lhes consagra, e elas têm horror à solidão, levam consigo ou aquelas que, menos felizes, não têm carruagem, ou algumas dessas velhas

elegantes, cuja elegância não se explica, e a quem todos se podem dirigir sem receio, quando se querem obter algumas informações, sejam quais forem, acerca da mulher que elas acompanham.

Não acontecia assim com Margarida. Aparecia nos Campos Elísios sempre só, na sua carruagem, em que se escondia o mais possível, de Inverno envolta num grande xaile de caxemira, de Verão com uns vestidos singelíssimos; e, apesar de encontrar no seu passeio favorito muitos homens que ela conhecia, quando por acaso lhes dirigia um sorriso, só eles o notavam, e só uma duquesa poderia sorrir assim.

Não passeava desde a meia laranja até à entrada dos Campos Elísios, como fazem e faziam todas as suas colegas. os dois cavalos levavam-na com uma enorme rapidez ao bosque. Ali, apeava-se, andava uma hora a pé, tornava-se a meter no seu coupé e voltava para casa a todo o trote da sua parelha.

Todas estas circunstâncias, de que eu fora algumas vezes testemunha, me passavam pela memoria, e lamentava a morte dessa rapariga como se lamenta a destruição total de uma formosíssima obra.

Ora, era impossível ver uma beleza mais encantadora do que a de Margarida.

Alta e delgada até ao exagero, possuía no supremo grau a arte de fazer desaparecer esse descuido da natureza pelo modo singelo com que se arranjava. o seu xaile, cuja ponta tocava no chão, deixava escapar por ambos os lados os largos folhos de um vestido de seda, e o espesso regalo que lhe escondia as mãos e ela apertava ao peito estava rodeado de pregas tão habilmente dispostas, que a vista mais exigente nada tinha a censurar quanto ao contorno das linhas.

A cabeça, uma maravilha, era objecto de garridice especial.

Pequenina, parecia que sua mãe, como diria Musset, a fizera assim para a tornar mais perfeita.

Imaginem num oval de indescritível gentileza uns olhos negros encimados por umas sobrancelhas de tão pura curva, que pareciam pintadas; velem esses olhos com umas fartas pestanas que, ao cerrarem-se, projectavam sombras no róseo matiz das faces; tracem um nariz fino, direito, engraçado, de narinas um pouco abertas por uma aspiração ardente para a vida sensual; desenhem uma boca regular, cujos lábios se descerravam graciosamente, deixando ver uns dentes alvos como o marfim; dêem à epiderme esse aveludado colorido que reveste os pêssegos em que não tocou mão profana, e obtêm assim o conjunto dessa encantadora cabeça.

os cabelos, negros como azeviche, não sei se naturalmente ondeados, abriam-se na fronte em dois largos bandós, e perdiam-se na nuca, deixando ver uma nesga das orelhas, onde brilhavam dois diamantes que valiam quatro a cinco mi francos cada um.

Como é que o seu ardente viver deixava ao rosto de Margarida e expressão virginal, infantil até, que o caracterizava, é fenómeno que não compreendemos, mas que somos forçados a reconhecer.

Margarida possuía um maravilhoso retrato, da autoria de Vidal, o único homem cujo lápis a sabia reproduzir. Esse retrato, que durante alguns dias tive à minha disposição, mostrava tão espantosa semelhança com o original, que me serviu para dar estas informações, para algumas das quais talvez a minha memória não bastasse.

Alguns dos pormenores deste capítulo só mais tarde chegaram ao meu conhecimento, mas escrevo-os desde já para não ter de voltar a referi-los, quando principiar a história dramática desta mulher.

Margarida assistia a todas as primeiras representações e passava todas as noites nos bailes ou nos espectáculos. De cada vez que se representava uma peça nova, tinha-se a certeza de a ver lá, com três coisas que a não largavam nunca, e que ocupavam sempre o peitoril da sua frisa: o binóculo, um saco de bombons e um ramo de camélias.

Durante vinte e cinco dias do mês as camélias eram brancas, e nos outros cinco, vermelhas; jamais se soube o motivo desta variedade de cores, que os frequentadores do teatro onde ela ia habitualmente e os seus amigos tinham notado como eu.

Nunca lhe haviam visto outras flores que não fossem camélias.

Por isso, no estabelecimento da Barjon, a sua florista, acabaram por denominá-la Dama das Camélias. E o apelido pegara-lhe.

Eu sabia, além disso, como todos os que vivem numa certa roda, em Paris, que ela fora amante dos rapazes mais elegantes, que o dizia alto e bom som, e que eles mesmos se gabavam do facto, o que só provava que tanto Margarida como esses jovens se sentiam satisfeitos.

Contava, no entanto, que havia três anos, pouco mais ou menos, desde uma viagem que fizera a Bagnères, vivia apenas com um velho duque estrangeiro, imensamente rico e que tentara desprendê-la o mais possível da sua vida passada, coisa a que ela, de resto, parecia resignar-se sem grande custo.

Eis o que me contaram a esse respeito.

Na Primavera de 1842, Margarida estava tão fraca, tão mudada, que os médicos receitaram-lhe o uso das águas, e ela partiu para Bagnères.

Aí, entre os doentes achava-se a filha desse mesmo duque, a qual não só tinha a mesma doença, mas também um rosto tão parecido com o de Margarida, que podiam ser tomadas por duas irmas. A jovem fidalga, porém, estava no último grau da tuberculose e sucumbia poucos dias depois da chegada de Margarida.

Certa manha, o duque, que ficara em Bagnères como se fica na terra onde jaz sepultada parte do próprio coração, viu Margarida numa alameda.

Pareceu-lhe que via passar a sombra de sua filha e, dirigindo-se para ela, pegou-lhe nas mãos, beijou-as a chorar e, sem lhe perguntar quem era, pediu-lhe licença para a ver e amar no seu doce vulto a imagem da filha morta.

Margarida, sozinha em Bagnères com a sua criada de quarto e não tendo o mínimo receio de comprometer a sua reputação, concedeu ao duque o que ele lhe pedia.

Achavam-se em Bagnères pessoas que a conheciam e que foram oficiosamente avisar o duque da verdadeira posição de Margarida Gautier. oi um golpe para o velho, porque aí cessava a parecença com sua filha, mas já era tarde. A jovem passara a constituir uma necessidade do seu coração, e o único pretexto, a única desculpa para ele viver ainda.

Não lhe fez a mínima censura, não lhe assistia o direito de lha fazer, mas perguntou-lhe se se sentia com forças para mudar de vida, tendo-lhe oferecido em troca desse sacrifício todas as compensações que pudesse desejar. Ela prometeu.

Devemos dizer que, nessa época, Margarida, natureza entusiástica, estava doente. o passado aparecia-lhe como uma das causas principais da sua doença, e uma espécie de superstição lhe fez esperar que Deus lhe deixaria a beleza e a saúde em troca do seu arrependimento e da sua conversão.

Efectivamente as águas, os passeios, a fadiga natural e o sono tinham-na restabelecido quase por completo quando chegou o fim do Estio.

o duque acompanhou Margarida a Paris, onde continuou a ir vê-la como em Bagnères.

Essa ligação, cuja verdadeira origem e verdadeiro motivo se ignoravam, causou aqui verdadeira sensação, pois o duque, conhecido pela sua enorme riqueza, fazia-se agora notar pela sua prodigalidade.

atribuía-se à libertinagem, frequente nos velhos ricos, essa aproximação do duque e da jovem mulher. Supôs-se tudo, menos a verdade.

Contudo, o afecto desse pai por Margarida tinha um motivo tão casto, que quaisquer outras relações que não fossem relações do coração lhe pareciam um incesto, e nunca lhe dissera uma palavra que sua filha não pudesse ouvir.

Longe de nós o pensamento de fazer da nossa heroína um ser diferente do que era. Diremos, pois, que, enquanto estivera em Bagnères, a promessa feita ao duque não custara cumprir, e ela cumprira-a; mas, logo que voltou a Paris, pareceu a essa rapariga, habituada a uma vida de dissipação, aos bailes e até às orgias, que a sua soledade, interrompida unicamente pelas visitas periódicas do duque, a faria morrer de aborrecimento, e os bafejos ardentes da sua vida de outrora vinham a um tempo inflamar-lhe a cabeça e o coração.

Acrescentemos que Margarida voltara dessa viagem mais bela do que nunca, que tinha vinte anos e que a doença, adormecida, mas não vencida, continuava a inspirar-lhe esses desejos febris que são quase sempre o resultado das doenças de peito.

O duque teve, pois, uma grande dor no dia em que os seus amigos, constantemente à espreita para surpreenderem um escândalo da parte de Margarida, com quem ele se estava a desacreditar, como eles diziam, lhe vieram contar e provar que, às horas em que ela tinha a certeza de que o duque não podia ir vê-la, recebia visitas, e que essas visitas se prolongavam muitas vezes até ao dia seguinte.

Margarida, interrogada pelo duque, tudo lhe confessou, aconselhando-o, sem pensamento reservado, a não se importar mais com ela, pois não se sentia com força de satisfazer os seus compromissos e não queria continuar a receber os benefícios de um homem a quem enganava.

o duque passou oito dias sem aparecer, mas não pôde mais, e, no oitavo dia, veio suplicar a Margarida que continuasse a recebê-lo, prometendo-lhe aceitá-la como ela era e jurando-lhe que, embora morresse de dor, não lhe faria uma única censura.

Assim estavam as coisas em Novembro ou Dezembro de 1842, quer dizer, três meses depois do regresso de Margarida.

No dia 18, à uma hora, dirigi-me à Rua d'Antin. No portão já se ouvia o grito dos pregoeiros.

A casa estava cheia de curiosos.

Achavam-se ali todas as celebridades do vício elegante, sorrateiramente examinadas por algumas senhoras nobilíssimas, que haviam aproveitado mais uma vez o pretexto da venda para poderem ver de perto mulheres com quem nunca teriam tido ocasião de se encontrar, e cujos fáceis prazeres talvez invejassem em segredo.

A duquesa de E... acotovelava a menina A... um dos mais tristes exemplares das nossas cortesãs; a marquesa de F... hesitava em comprar um móvel que estava a ser disputado pela Sr.a D... a mulher adúltera mais elegante e mais conhecida da nossa época; o duque d'Y... que passa em Madrid por se arruinar em Paris, em Paris por se arruinar em Madrid, e que, afinal de contas, não gasta nem sequer os seus rendimentos, enquanto conversava com a Sr.a M... uma das nossas mais engraçadas folhetinistas, que de tempos a tempos tem a bondade de escrever o que diz e de assinar o que escreve, trocava olhares confidenciais com a Sr. de N... essa gentil passeante dos Campos Elísios, quase sempre vestida de cor-de-rosa ou de azul, e cuja carruagem é puxada por dois grandes cavalos negros, que Tony lhe vendeu por dez mil francos e... que ela lhe pagou; enfim, a famosa R... que consegue, só com o seu talento, o dobro do que conseguem as mulheres da alta sociedade com o seu dote e o triplo do que as outras alcançam com os seus amores, viera, apesar do frio, fazer algumas compras, e não era para ela que se olhava menos.

Poderíamos ainda citar as iniciais de muitas outras pessoas reunidas nesta sala, e bastante espantadas de se encontrarem juntas; mas receamos cansar o leitor.

Digamos apenas que toda a gente mostrava uma alegria doida e que entre todas as pessoas que ali se viam, havia várias que tinham conhecido a falecida, e não pareciam lembrar-se dela.

Riam-se todos muito; os leiloeiros gritavam a bom gritar, os mercadores, que tinham invadido os bancos dispostos diante das mesas de venda, tentavam debalde impor silêncio para fazerem negócio tranquilamente. Nunca houve reunião mais variada, nem mais ruidosa.

Insinuei-me humildemente no meio desse tumulto que me entristecia ao lembrar-me que se efectuava ao pé do quarto onde expirara a pobre criatura, cujos móveis se vendiam para lhe pagarem as dívidas. Tendo vindo mais para examinar do que para comprar, olhava para as caras dos fornecedores que ordenavam a venda, e cujas fisionomias se alegravam de cada vez que um objecto chegava a um preço que eles não esperavam.

Honrada gente que especulara com a prostituição dessa mulher, que ganhara com ela cem por cento, que perseguira com papéis selados os últimos momentos da sua vida, e que vinha depois da sua morte colher os frutos dos seus honestos cálculos, juntamente com os juros do seu vergonhoso crédito!

Com que razão os antigos davam o mesmo deus aos mercadores e aos ladrões!

Vestidos, xailes de caxemira, jóias, iam-se vendendo com uma rapidez incrível. De tudo isso nada me servia. Continuei, pois, à espera.

De repente ouvi gritar: --Um volume perfeitamente encadernado, com filete dourado nas folhas, intitulado: Manon Lescaut. Tem alguma coisa escrita nas primeiras páginas. Dez francos.

--Doze--pronunciou uma voz, depois de longo silencio.

--Quinze--disse eu.

Porquê? Não sei. Talvez por causa do alguma coisa escrita.

--Quinze!--repetiu o leiloeiro.

--Trinta--proferiu o primeiro arrematante, com um tom que parecia desafiar uma oferta maior.

Aquilo transformara-se numa luta.

--Trinta e cinco! --bradei eu, no mesmo tom.

--Quarenta.

--Cinquenta.

--Sessenta.

--Cem.

Confesso que, se quisesse produzir efeito, teria obtido um êxito completo, porque em seguida a este lanço estabeleceu-se um silêncio geral, e olharam todos para mim, a fim de saberem quem era esse sujeito que parecia tão resolvido a possuir o volume.

Decerto o modo como eu pronunciara a última palavra convencera o meu antagonista; preferiu, por conseguinte, abandonar um combate que apenas servira para me obrigar a pagar o volume por um valor dez vezes superior, e, inclinando-se, disse muito graciosamente, embora um pouco tarde: --Cedo.

Como ninguém dissera mais nada, foi-me adjudicado o livro.

Receando que houvesse nova teimosia que o meu amor-próprio talvez sustentasse, mas que faria decerto grande mal à minha bolsa, mandei apontar o meu nome, pôr de parte o volume, e saí. Dei, decerto, muito que pensar às pessoas que foram testemunhas desta cena e que perguntaram, sem dúvida, mas às outras com que fim viera eu pagar cem francos por um livro que podia ter comprado em qualquer parte por dez ou quinze francos, quando muito.

Uma hora depois, já eu tinha mandado buscar a minha compra.

Na primeira página estava escrita à pena, e com u. na letra elegante, a dedicatória do donatário deste livro. Constava apenas destas palavras:

Manon a Margarida humildade.

Tinha a seguinte assinatura: Armando Duval.

Que queria dizer aquela palavra: Humildade?

desconhecia, Manon em Margarida, na opinião Gesse Armando Duval, uma superioridade de impuíca ou de coração?

A segunda interpretação era a mais verosímil, pois a primeira não passaria de insolente franqueza, e Margarida não a aceitaria, qualquer que fosse a opinião que de si mesma

formasse.

Saí de novo e só voltei a pensar nesse livro à noite, quando me deitei.

Manon Lescau é, sem dúvida, uma tocante história em que não há uma única particularidade que eu desconheça, e contudo, quando dou com esse volume, a simpatia que por ele tenho atrai-me logo, abro-o, e convivo pela centésima vez com a heroína do abade Prévost. ora esta heroína é tão verdadeira, que me chega a parecer que a conheci. Nestas novas circunstâncias, a espécie de comparação feita entre ela e Margarida dava um novo atractivo a essa leitura, e à minha indulgência juntou-se certa piedade, e quase um vago amor pela pobre rapariga a cuja herança eu devia este volume. Manon morrera num deserto, é verdade, mas morrera nos braços do homem que a amava com todas as energias da sua alma, que lhe abriu a cova, regou-a com as suas lágrimas e nela sepultou o seu próprio coração, enquanto Margarida, pecadora como Manon, e talvez convertida como ela, morrera no seio de um luxo sumptuoso, a avaliar pelo que eu vira, no ambiente do seu passado, mas também no meio desse deserto do coração, muito mais árido, muito mais vasto, muito mais agreste do que aquele em que fora sepultada Manon.

Efectivamente, Margarida, como eu o soubera por alguns amigos conhecedores das últimas circunstâncias da sua vida, não vira sentar-se uma só consolação real à sua cabeceira nos dois meses que durara a sua lenta e dolorosa agonia.

Depois de Manon e de Margarida passava o meu pensamento para aquelas que eu conhecia, e que via encaminharem-se, a cantar, para uma morte quase sempre invariável.

Pobres criaturas! Se somos culpados amando-as, não o somos decerto lamentando-as. Lamentam o cego que nunca viu os raios da luz do dia, o surdo que nunca ouviu os acordes da Natureza, o mudo que nunca pôde exprimir a voz da sua alma, e não querem, com um falso pretexto de pudor, lamentar essa cegueira do coração, essa surdez da alma, essa mudez da consciência que enlouquecem a infeliz aflita e a tornam involuntariamente incapaz de ver o bem, de ouvir o Senhor e de falar a língua pura do amor e da fé?

Hugo escreveu Marion de Lorme, Musset Bernerette, Alexandre Dumas Fernanda, os pensadores e os poetas de todos os tempos trouxeram à cortesã a ob1ata da sua misericórdia, e algumas vezes um grande homem as reabilitou com o seu amor e até com o seu nome. Se insisto tanto neste ponto, é porque muitos daqueles que me vão ler estão já prontos talvez a repelir este livro, em que receiam ver apenas uma apologia do vício e da prostituição, e a idade do autor contribui sem dúvida ainda para motivar esse receio. Desenganem-se os que assim pensarem e continuem, se só esse receio os detinha.

Estou simplesmente convencido do princípio seguinte: A mulher a quem a educação nunca ensinou o bem, abre Deus quase sempre duas veredas que lá a conduzem; essas veredas são a dor e o amor. São difíceis; as que procuram segui-las ensanguentam os pés e rasgam as mãos, mas deixam ao mesmo tempo nas urzes do caminho os efeitos do vício e chegam ao fim nessa nudez de que ninguém se envergonha perante Deus.

Aqueles a quem se deparam essas viajantes audaciosas devem ampará-las e dizer a todos que as encontraram, pois, tornando público o facto, mostram o caminho.

Não se trata de pôr simplesmente à entrada da vida dois postes, um com esta inscrição: Estrada do em, o outro com este aviso: Estrada do mal, e dizer aos que se apresentam: "Escolham"; é necessário mostrar, como faz Cristo, os caminhos que levam da segunda à primeira estrada: aqueles que se tinham deixado seduzir pelas aparências; e, sobretudo, convém que o princípio desses caminhos não seja demasiado doloroso e não pareça completamente impenetrável.

o cristianismo lá está com a sua maravilhosa parábola do filho pródigo para nos aconselhar indulgência e perdão. Jesus tinha um imenso amor por essas almas que as paixões dos homens feriam e cujas chagas se comprazia em curar tirando o bálsamo das próprias chagas. Era assim que dizia a Madalena: "Muito te será perdoado, porque muito amaste"--sublime perdão que devia despertar uma fé sublime.

Porque havemos de mostrar-nos mais rígidos do que Cristo?

Porque é que, aferrando-nos obstinadamente às opiniões desta sociedade que se faz dura para que a julguem forte, havemos de repelir com ela almas que vertem sangue das feridas por onde, como o sangue mau de um enfermo, foge o mal do seu passado, almas que esperam apenas mão amiga que as trate e lhes torne convalescente o coração?

É à minha geração que me dirijo, àqueles para quem as teorias de M. de Voltaire felizmente já não existem, àqueles que percebem, como eu, que a humanidade está há quinze anos num dos seus mais impetuosos movimentos. A ciência do bem e do mal foi definitivamente adquirida, a fé reconstruiu-se; restitui-se-nos o respeito das coisas santas; e, se o mundo não se torna completamente bom, pelo menos está já melhor. Os esforços de todos os homens inteligentes tendem para o mesmo fim, e todas as grandes vontades se associam ao mesmo princípio; sejamos bons, sejamos jovens, sejamos verdadeiros! O mal não passa de vaidade; orgulhemo-nos do bem, e sobretudo não percamos a esperança!

Não desprezemos a mulher que não é nem mãe, nem irma, nem filha, nem esposa. Não restrinjamos a nossa estima à família, nem a indulgência ao egoísmo. Se o Céu rejubila mais com o arrependimento de um pecador, do que com cem justos que nunca pecaram, procuremos alegrar o Céu. Pode pagar-nos com usura.

Deixemos no nosso caminho a esmola do nosso perdão àqueles que os desejos terrestres perderam, e a quem salvará, talvez, uma divina esperança, pois, como dizem as boas velhinhas quando aconselham algum remédio da sua lavra, se não fez bem, mal não pode fazer.

Deve parecer, decerto, grande audácia da minha parte querer fazer brotar estes grandes resultados do magro assunto que trato; mas sou daqueles que acreditam que em pouco tudo está.

A criança é pequena e encerra o homem; o cérebro é estreito e abriga o pensamento; o olho é um ponto e abrange léguas.

Dois dias depois, estava completamente concluída a venda.

Rendera cento e cinquenta mil francos, os credores tinham repartido entre si os dois terços, e a família, composta de uma irma e de um segundo-sobrinho, herdara o resto.

A irma abrira uns olhos muito pasmados, quando o procurador lhe escrevera a comunicar-lhe que lhe tocavam cinquenta mil francos de herança.

Havia seis ou sete anos que aquela rapariga não via a irma, pois um belo dia esta desaparecera de casa, sem que se soubesse como nem onde vivera, desde o momento da sua desaparição. Partira, pois, a toda a pressa para Paris, e fora grande o espanto dos que conheciam Margarida ao verem que a sua única herdeira era uma gorda e bonita rapariga do campo, que nunca até então saíra da sua aldeia.

Viu-se, assim, rica de um momento para o outro, sem sequer saber de que fonte lhe viera tão inesperada fortuna.

Voltou para a sua aldeia, disseram-mo depois, levando da morte de sua irma uma grande tristeza, compensada, todavia, pela colocação da sua herança a quatro e meio por cento, operação que realizara imediatamente.

Todas estas circunstâncias que tinham sido repetidas em Paris, a cidade mãe do escândalo, principiavam a esquecer, e eu já quase esquecera também completamente a parte que tomara nesses acontecimentos, quando um novo incidente me fez conhecer a vida toda de Margarida e me informou de particularidades tão interessantes, que me apeteceu escrever esta história. E escrevi-a.

Havia três ou quatro dias que a casa de Margarida, despejada completamente, estava para alugar, quando, certa manha, tocaram a campainha da minha porta.

O meu criado, ou antes o meu porteiro, que me servia de criado, foi abrir e trouxe-me um bilhete, dizendo-me que a pessoa que lho entregara desejava falar-me.

Lancei os olhos ao bilhete e li nele estas duas palavras: Armando Duval.

Pareceu-me que já ouvira ou lera este nome, e efectivamente não tardei a lembrar-me da primeira folha do volume de Manon Lescaut.

Que me quereria a pessoa que dera esse livro a Margarida?

Mandei-a entrar imediatamente.

Vi então um rapaz loiro, alto, vestido com um fato de viagem, que parecia não ter largado havia alguns dias, e que nem mesmo se dera ao trabalho de escovar à chegada a Paris, pois estava coberto de poeira.

o Sr. Duval, intensamente comovido, não fez o mínimo esforço para esconder a sua comoção, e foi com as lágrimas nos olhos e uma tremura na voz que me disse: --Desculpe-me, peço-lhe, a minha visita e o meu fato, mas além de não haver grande cerimónia entre rapazes, desejava tanto vê-lo hoje, que nem mesmo me demorei a ir à hospedaria para onde mandei as minhas malas, e corri a sua casa, receando, apesar de ser tão cedo, não o encontrar.

Convidei o Sr. Duval a sentar-se ao pé do fogão, o que ele fez, tirando da algibeira um lenço com o qual escondeu o rosto por alguns momentos.

--Não pode adivinhar decerto--disse ele, suspirando tristemente--o que lhe quer este visitante desconhecido, a semelhante hora, com semelhante fato e chorando desta maneira. Venho simplesmente pedir-lhe um grande favor.

--Queira explicar-se; asseguro-lhe que estou completamente à sua disposição.

--Assistiu ao leilão de Margarida Gautier?

Ao proferir estas palavras, a comoção, que esse rapaz conseguira dominar por alguns instantes, irrompeu e forçou-o a tapar os olhos com as mãos.

--Devo parecer-lhe bem ridículo--acrescentou ele--; torno a pedir-lhe desculpa e creia que não esquecerei a paciência com que tem a bondade de me escutar.

--Se esse favor que, segundo parece, lhe posso fazer—redargui eu--consegue acalmar um pouco o desgosto que o aflige, diga-me depressa o que deseja, e encontrará em mim um homem que terá o maior prazer em obsequiá-lo.

Era simpática a dor do Sr. Duval, e sem saber porquê, estava com vivos desejos de lhe ser agradável.

Disse-me então:

--Comprou algum objecto no leilão de Margarida?

--Comprei um livro.

--Manon Lescaut?

--Exato.

--Ainda tem esse livro em seu poder?

--Está no meu quarto.

Ao ouvir isto, Armando Duval pareceu aliviado de um grande peso e agradeceu-me como se eu já houvesse principiado a prestar-lhe um serviço, conservando esse volume.

Levantei-me, fui ao meu quarto buscar o livro e entreguei-lho.

--É isto mesmo--disse ele, olhando para a dedicatória da primeira página e folheando o volume--, é isto mesmo.

E duas lágrimas como punhos rolaram-lhe pelas faces e foram cair nas páginas.

--Pois bem, senhor--prosseguiu, erguendo a ca eça e olhando para mim, sem tentar ocultar-me que chorara, e que estava quase a chorar de novo--, tem muito empenho em conservar este livro?

--Porquê?

--Porque venho pedir-lhe que mo ceda.

--Desculpe a minha curiosidade--repliquei então--; mas foi o senhor que o deu a Margarida Gautier?

--Fui.

--É seu este livro, leve-o. Folgo imenso em restituir-lho.

--Mas --tornou Armando Duval, enleado--, devo ao menos entregar-lhe o dinheiro que ele lhe custou.

--Dê-me licença que lho ofereça. o preço de um volume num leilão daquele género é uma bagatela, e nem já me lembro quanto dei por este.

--Deu cem francos.

--É exacto--disse eu, por minha vez enleado.-Como o soube?

--Nada mais simples. Esperava estar em Paris a tempo de assistir ao leilão de Margarida, e só cheguei esta manha.

Queria por força ficar com um objecto que lhe tivesse pertencido, e corri a casa do leiloeiro, pedindo-lhe licença de examinar a lista dos objetos vendidos e dos nomes dos compradores. Vi que o senhor adquirira este livro e resolvi pedir-lhe que mo cedesse, embora o preço por que o comprara me fizesse recear que uma recordação qualquer o ligasse à posse desse volume.

Falando assim, Armando parecia evidentemente temer que eu tivesse conhecido Margarida da mesma forma que ele a conhecera.

--Só conheci Margarida Gautier de vista--disse-lhe--; a sua morte causou-me a impressão que causa sempre a um rapaz a morte de uma mulher bonita que ele gostava de encontrar. Quis comprar uma coisa qualquer no seu leilão, e embirrei em disputar este volume, não sei porquê, talvez pelo gosto de enraivecer um sujeito que se mostrava obstinado em cobrir-me o lanço e parecia desafiar-me. Repito-lhe, pois, que está à sua disposição e peço-lhe de novo que o aceite. para que o não receba de mim como eu o recebi de um pregoeiro, e sirva de penhor de mais amplo conhecimento e de mais íntimas relações entre nós.

--Perfeitamente,disse Armando, estendendo-me a mão e apertando a minha-- aceito e ficar-lhe-ei agradecido toda a minha vida.

Eu tinha deveras vontade de interrogar Armando acerca de Margarida, porque a dedicatória do livro, a viagem daquele rapaz, o seu desejo de possuir o volume despertavam a minha curiosidade; mas receava, interrogando o meu visitante, parecer que recusara o seu dinheiro apenas para ter o direito de me meter nos seus assuntos particulares.

Dir-se-ia ter adivinhado o meu desejo, porque me perguntou:

--Leu este volume?

--Todo.

--Que pensou das duas linhas que eu escrevi?

--Pensei que aos seus olhos a pobre rapariga a quem dera esse livro saía da categoria ordinária, pois não pude ver nessas linhas apenas um cumprimento banal.

--E tinha razão. Essa rapariga era um anjo. olhe --disse-me ele--, leia esta carta.

E estendeu-me um papel, que parecia terem relido bastantes vezes.

Abri-o, e eis o que ele continha:

"Meu querido Armando, recebi a tua carta; conservaste bom o teu coração, por isso dou graças a Deus.

"Sim, meu amigo, estou doente, com uma dessas doenças que não perdoam; mas o interesse que ainda tens a bondade de tomar por mim diminui muito o meu sofrimento.

"Não viverei, sem dúvida, tempo bastante para ter a felicidade de apertar a mão que escreveu a boa carta que acabo de receber, e cujas palavras bastariam para me curar, se alguma coisa o pudesse fazer. Não te verei porque já estou perto da morte e centenas de léguas te separam de mim. Pobre amigo! A tua Margarida de outros tempos acha-se muito mudada, e talvez seja melhor não voltares a vê-la, do que vê-la como ela está.

Perguntas-me se te perdoo? oh! com todas as forças da minha alma, porque o mal que me quiseste fazer, não era senão uma prova do amor que tinhas por mim. Há um mês que estou de cama, e tanto desejo conservar a tua estima, que todos os dias escrevo o diário da minha vida, desde que nos deixámos até ao momento em que já não terei força para mexer a pena.

"Se o interesse que tens por mim é verdadeiro, Armando, quando voltares vai a casa de Júlia Duprat. Ela te entregará este diário. Ali encontrarás a razão e a desculpa do que se passou entre nós. A Júlia é deveras minha amiga; muitas vezes conversamos a teu respeito. Estava presente quando a tua carta chegou; chorámos ambas ao lê-la.

"No caso de não me teres dado notícias tuas, estava encarregada de te entregar esses papéis quando voltasses a França. Não me agradeças. Esta recordação diária dos únicos momentos felizes da minha vida faz-me um bem enorme e, se deves encontrar nesta leitura a desculpa do passado, para mim ela constitui contínuo alívio.

"Queria deixar-te alguma coisa que me trouxesse sempre presente no teu espírito, mas tudo está penhorado em minha casa e nada me pertence.

"Percebes, meu amigo? Vou morrer, e ouço do meu quarto os passos do guarda que os credores puseram na sala, para que ninguém leve coisa alguma e nada me fique no caso de eu não morrer. Espero que só vendam tudo quando eu acabar.

"oh! os homens são impiedosos! ou antes, engano-me, Deus é que é justo e inflexível.

"Meu querido, meu amado Armando, vem ao leilão, e compra alguma coisa, porque, se eu pusesse de parte o mínimo objecto para ti e o soubessem, seriam capazes de te processar por crime de furto de objectos penhorados.

"Triste vida é esta que eu deixo!

"Como Deus seria bom se permitisse que eu te tornasse a ver antes de expirar! Segundo todas as probabilidades, adeus para sempre, meu querido Armando!

"Perdoa-me se te não escrevo mais, mas os que dizem que me hão-de curar, esfalfam-me com sangrias e a minha mão recusa-se a prosseguir

 

"Margarida Gautier. "

Efetivamente as últimas palavras eram quase ilegíveis.

Restituí a carta a Armando, que acabava de a reler sem dúvida no seu pensamento como eu a lera no papel.

--Quem acreditaria que foi uma mulher perdida que escreveu isto!

E, comovidíssimo com as suas recordações, contemplou por algum tempo a letra da carta que acabou por levar aos lábios.

--E quando penso -- tornou ele-- que esta mulher morreu sem me ser dado tornar a vê-la, e que jamais a voltarei a ver! Quando penso que fez por mim o que uma irma não faria, não perdoo a mim próprio tê-la deixado morrer assim! Morta! Morta, a pensar em mim, a escrever e a pronunciar o meu nome, pobre e querida Margarida!

E Armando, dando livre curso aos seus pensamentos e às suas lágrimas, estendia-me a mão e continuava:

--Achavam-me decerto muito criança se me vissem lamentar-me assim por causa de semelhante morta; é que não sabem o que eu fiz sofrer a essa mulher como fui cruel, como ela foi boa e resignada! Julgava eu que só a mim cabia perdoar, e acho-me hoje indigno do perdão que ela me concede. oh! Daria dez anos da minha vida para chorar uma hora a seus pés.

Sempre difícil consolar uma dor que se não conhece, e contudo eu sentia tão viva simpatia por aquele rapaz, ele fazia de mim com tanta franqueza o confidente do seu desgosto, que julguei que a minha palavra lhe não seria indiferente, e disse-lhe: --Não tem parentes, não tem amigos? Não desespere, vá vê-los, e eles o consolarão, porque eu apenas posso lamentá-lo.

--E justo--disse ele, levantando-se e passeando a passos largos no meu quarto--, estou a aborrecê-lo. Desculpe-me, não me lembrava que lhe deve ser indiferente a minha dor e que o estou a importunar com coisas que não podem nem devem interessar-lhe.

--Engana-se no sentido que dá às minhas palavras. Estou inteiramente ao seu dispor; lamento apenas não poder acalmar o seu desgosto. Se a minha companhia e a dos meus amigos o podem distrair, se, numa palavra, precisa de mim seja para o que for, quero que saiba o gosto imenso que terei em Lhe ser agradável.

--Perdão, perdão--disse-me ele--, a dor exagera as sensações.

Deixe-me ficar ainda alguns minutos, dê-me tempo de enxugar as lágrimas, para que os basbaques da rua não olhem para este rapazola a chorar como se olha para uma curiosidade. Acaba de me fazer o mais feliz possível dando-me este livro. Nunca saberei como agradecer o que lhe devo.

--Concedendo-me um pouco da sua amizade, dizendo-me a causa do seu desgosto. A gente consola-se contando o que padece.

--Tem razão; mas hoje preciso tanto de chorar, que só lhe diria palavras sem nexo. Um dia lhe contarei esta história, e verá se tenho ou não razão para chorar por esta pobre rapariga. E agora--acrescentou, esfregando pela última vez os olhos e vendo-se ao espelho--diga-me que me não acha parvo de mais e permita-me que torne a visitá-lo.

Os olhos daquele rapaz reflectiam tanta bondade e meiguice, que tive vontade de o abraçar. Tornaram, porém, a arrasar-se de lágrimas e, ao perceber que eu reparava, ele desviou a vista.

--Vamos!--aconselhei eu.--Coragem!

--Adeus!--disse ele então.

E, fazendo um esforço inaudito para não chorar mais pareceu evadir-se do que sair de minha casa.

Ergui a cortina da minha janela e vi-o subir para o cartolet que o esperava à porta; mas apenas entrou, desfez-se em lágrimas e escondeu a cara no lenço.

 

Muito tempo passou sem ouvir falar de Armando, mas, em compensação, várias vezes me falaram de Margarida.

Como decerto já repararam, basta que o nome de uma pessoa que devia ser-nos sempre desconhecida ou indiferente se pronuncie uma vez diante de nós, para que logo saibamos alguma coisa a seu respeito, e todos os amigos nos contem factos a que antes nunca se tinham referido.

Descobrimos então que essa pessoa quase nos pertencia, apercebemo-nos de que passou muitas vezes na nossa vida sem que déssemos por isso; e encontramos, nos factos que nos referem, coincidências, afinidades reais com determinados acontecimentos da nossa própria existência. Não estava eu positivamente nesse caso com Margarida, porque a tinha visto e encontrado, conhecia o seu rosto e os seus hábitos; contudo, depois desse leilão, o seu nome soara tão frequentemente aos meus ouvidos, e nas circunstâncias que narrei no último capítulo, ligava-se esse nome a um desgosto tão profundo, que o meu espanto crescera aumentando-me a curiosidade.

Daí resultara que eu já me não encontrava com os meus amigos, a quem nunca falara de Margarida, sem Lhe dizer:

--Conheceram uma rapariga chamada Margarida Gautier?

--A Dama das Camélias ?

--Justamente.

--Muito!

Esses "muito" eram às vezes acompanhados de sorrisos que não deixavam a menor dúvida acerca da sua significação.

-- O que era essa rapariga, afinal?--continuava eu.

-- Uma boa rapariga.

-- Mais nada?

-- Oh! meu Deus, tinha talvez mais algum espírito e mais um bocadinho de coração do que as outras.

--E nada sabem de particular a seu respeito?

--Arruinou o barão de G...

--Só isso?

--Foi amante do velho duque de. . .

--Era, realmente, sua amante?

--Dizem; ele, em todo o caso, dava-lhe muito dinheiro.

Sempre as mesmas generalidades.

Contudo eu tinha curiosidade de saber alguma coisa a respeito da ligação de Margarida e de Armando.

Encontrei um dia um daqueles que vivem continuamente na intimidade das mulheres conhecidas. Interroguei-o.

--Conheceste Margarida Gautier?

Respondeu-me com o mesmo muito.

--Que era ela?

--Uma bonita e excelente rapariga. Tive imensa pena quando soube da sua morte.

--Não teve um amante chamado Armando Duval?

--Um rapaz alto e louro?

--Sim.

--Teve.

--E esse Armando o que vinha a ser?

--Um rapaz que comeu com Margarida o pouco que tinha, creio, e que se viu obrigado a deixá-la. Dizem que era doido por ela.

--E ela?

--Também o amava multo, segundo consta, mas como estas raparigas costumam amar. Não se lhes deve pedir mais do que o que elas podem dar.

--Que foi feito do Armando?

--Não sei. Conhecemo-lo muito pouco. Esteve cinco ou seis meses com Margarida, mas no campo Quando ela voltou, ele partiu.

--E nunca mais o tornaste a ver?

--Nunca.

Também eu não voltara a ver Armando. Chegara a perguntar a mim próprio se, quando se apresentara em minha casa, por ocasião da recente morte de Margarida, não exagerara o seu amor de outrora e, por conseguinte, a sua dor, e dizia comigo que talvez já houvesse esquecido a morta e juntamente com ela a promessa que me fizera de uma segunda visita.

Essa suposição seria bastante verosímil a respeito de outro qualquer, mas no desespero de Armando eu vira notas sinceras, e, passando de um extremo a outro, imaginei que o desgosto se transformara em doença; se eu não tinha notícias dele, era porque estava doente ou até talvez já não pertencesse ao número dos vivos.

Involuntariamente, interessava-me por esse rapaz. Talvez houvesse nesse interesse um certo egoísmo; talvez eu tivesse entrevisto por baixo dessa dor uma tocante história de coração; talvez, enfim, o meu desejo de a conhecer contribuísse muito para o cuidado que me inspirava o silêncio de Armando. Como Duval não voltava a minha casa, resolvi ir procurá-lo. Não era difícil de encontrar um pretexto; infelizmente não sabia onde morava, e nenhuma das pessoas que eu interrogara mo pudera dizer.

Fui à Rua d'Antin. Talvez o porteiro de Margarida soubesse onde morava Armando.

Era um porteiro novo. Tal como eu, desconhecia a morada do rapaz. Informei-me então em que cemitério fora enterrada Margarida Gautier, e soube que o seu corpo repousava no Montmartre.

Raiara Abril e estava um tempo lindo, os túmulos já não deviam ter esse aspecto doloroso e desolado que lhes dá o Inverno. O calor era já bastante para que os vivos se lembrassem dos mortos e os visitassem. Fui ao cemitério, dizendo comigo: "Bastará que eu olhe para o túmulo de Margarida para ver se a dor de Armando ainda subsiste, e talvez saiba então o que é feito dele. "

Entrei na casa do guarda e perguntei-lhe se no dia 22 do mês de Fevereiro uma mulher chamada Margarida Gautier fora enterrada no cemitério Montmartre.

O homem folheou um livro volumoso, onde estão inscritos e numerados todos os que entram nesse último asilo, e respondeu-me que efectivamente, no dia 22, ao meio-dia, uma mulher desse nome ali fora enterrada.

Pedi-lhe que mandasse alguém conduzir-me ao túmulo, pois não há meio de a gente dar com o que procura nessa cidade dos mortos que tem as suas ruas como a cidade dos vivos. o guarda chamou um jardineiro a quem deu as indicações necessárias e que o interrompeu, dizendo:

--Bem sei... bem sei. oh! o túmulo é fácil de conhecer!--continuou, virando-se para mim.

--Porquê?--perguntei-lhe.

--Porque tem flores muito diferentes das outras.

--Você é que cuida do túmulo?

--Sou, sim, senhor, e bem desejava que todos os parentes cuidassem dos seus defuntos como o rapaz que me recomendou esta campa.

Depois de dar algumas voltas, o jardineiro parou e disse-me:

--Cá estamos.

Efectivamente achava-me diante de um canteiro de flores que ninguém diria ser um túmulo, se o não afirmasse um branco mármore com um nome inscrito.

O mármore achava-se colocado em posição vertical, um gradeamento de ferro limitava o terreno comprado, e esse terreno estava coberto de camélias brancas.

--Que diz a isto?--perguntou o jardineiro.

--Muito bonito.

--E sempre que uma camélia murcha tenho ordem de a renovar.

--E quem lhe deu essa ordem?

--Um rapaz que chorou bastante a primeira vez que aqui veio; amigalhote da defunta, sem dúvida, pois parece que era uma pecadora, e bem bonita, segundo dizem. o senhor conheceu-a?

--Conheci.

--Como o outro--disse o jardineiro, com um riso malicioso.

--Não, nunca lhe falei.

--E vem vê-la; isso é que é muito bonito da sua parte, pois os que vêm visitar a pobre rapariga não enchem o cemitério.

--Não vem ninguém?

--Ninguém, a não ser uma vez aquele rapaz.

--Só uma vez?

--Sim, senhor.

--E não voltou mais ?

--Não, mas voltará quando regressar.

--Então saiu em viagem?

--Sim, senhor.

--E sabe aonde ele foi?

--Parece-me que foi a casa da irma da menina Gautier.

--Fazer o quê ?

--Pedir autorização para mandar desenterrar a morta e trasladá-la para outro sítio.

--Porque a não deixa ele aqui?

--O senhor bem sabe que há sempre umas ideias em relação aos mortos. Nós cá estamos a ver isto todos os dias. Este terreno foi comprado apenas por cinco anos, e o tal rapaz quer uma concessão perpétua e um terreno maior; fica muito melhor na parte nova.

--A que é que chama parte nova?

--Aos terrenos que estão a vender-se, à esquerda. Se o cemitério tivesse sido sempre tratado como agora, não existia igual no mundo; mas ainda há muito que fazer para que esteja como deve estar. Depois há gente tão ratona!

--Que quer você dizer com isso?

--Quero dizer que há pessoas que têm uma soberba que é uma coisa por demais. Assim, esta menina Gautier parece que andou na pandega, perdoe a expressão. Agora a pobre rapariga está morta e resta dela o mesmo que daquelas de quem não há nada a dizer e que nós regamos todos os dias; pois olhe, quando os parentes das pessoas enterradas ao seu lado souberam da pessoa de que se tratava, não se lhes encasquetou na cabeça dizerem que se oporiam a que a pusessem aqui, e que devia haver terrenos à parte para estas mulheres como para os pobres? Viu-se já uma coisa assim? Eu passei-lhes uma descompostura! ora imagine; uns ricaços que vêm visitar os seus defuntos quatro vezes por ano, que trazem eles mesmos as flores... e veja o senhor que flores!... que olham à despesa feita com aqueles que dizem chorar, que estampam nos túmulos lágrimas que eles nunca derramaram, e que fazem questão com a vizinhança! Talvez o senhor não acredite, mas sempre lhe direi que não conheci esta rapariga, não sei o que ela fez, mas tenho afeição à pobre pequena, cuido dela, e levo pelas camélias apenas o seu justo valor. A minha defunta predilecta. Não há remédio senão termos cá a nossa afeição aos mortos, porque o trabalho é tanto, que mal temos tempo de criar outras afeições.

Eu olhava para esse homem, e alguns dos meus leitores perceberão, sem que eu precise explicar-lhes, a comoção que senti ao ouvi-lo. Ele reparou nisso decerto, porque continuou: --Dizem que havia homens que se arruinavam por esta rapariga, e que ela tinha amantes que a adoravam. Pois muito bem! Quando me lembro de que não há nem um que lhe venha aqui comprar uma flor, acho isto curioso e triste. E ainda assim esta não tem razão de queixa, pois sempre tem o seu túmulo, e se há um só que se lembre dela, esse ao menos paga pelos outros. Mas temos aqui muitas raparigas do mesmo género e da mesma idade que se atiram para a vala comum, e olhe que me rasga o coração ouvir cair os seus pobres corpinhos na terra. E não há uma só criatura que se lembre delas, depois de morrerem. Este nosso ofício não é lá dos mais alegres, principalmente quando se tem um bocadinho de coração. Então que quer? Este sentimento é mais forte do que eu. Tenho uma filha de vinte anos, e quando aparece aqui alguma da sua idade, lembro -me dela e aflijo-me, quer a morta seja uma fidalga, quer seja uma vadia. Mas eu estou a maçá-lo com as minhas histórias, e não veio cá decerto para as ouvir. Disse-me que o trouxesse ao túmulo da menina Gautier, trouxe-o; há alguma coisa mais em que lhe possa ser prestável?

--Sabe onde mora o Sr. Armando Duval?

--Sei, mora na Rua de... pelo menos aí é que eu tenho ido buscar o dinheiro das flores.

--obrigado, meu amigo.

Deitei um último olhar a esse túmulo florido, cujas profundidades eu desejaria sondar para ver o que a terra fizera da formosa criatura que lhe confiaram, e afastei-me com tristeza.

--o senhor quer falar ao Sr. Duval?--tornou o jardineiro, que ia ao meu lado.

--Quero.

--O que estou certíssimo de que ele ainda não voltou, de contrário já cá tinha vindo.

--Então acredita que Armando se não esqueceu de Margarida?

--Não só acredito, como apostaria que deseja trasladá-la apenas com o fim de tornar a vê-la.

--Como assim?

--A primeira coisa que ele me disse quando veio ao cemitério foi: "Que hei-de eu fazer para voltar a vê-la?" Só podia conseguir o seu objectivo trasladando-a, e informei-o acerca de todas as formalidades que tinha de preencher para o efeito.

Como sabe, para passar os mortos de um túmulo para outro é necessário reconhecê-los, e só a família pode autorizar essa operação a que tem de presidir um comissário da Polícia. Para obter essa autorização é que o Sr. Duval foi a casa da irma da menina Gautier, e a sua primeira visita, evidentemente, há-de ser ao cemitério.

Tínhamos chegado à porta; agradeci de novo ao jardineiro, metendo-lhe algumas moedas na mão, e dirigi-me à casa que ele me indicara.

Armando não voltara ainda.

Deixei-lhe duas linhas escritas, pedindo-lhe que fosse ter comigo apenas chegasse, ou que me dissesse onde o poderia encontrar.

No dia seguinte, pela manha, recebi uma carta de Armando Duval. Informava-me do seu regresso e pedia-me que passasse por sua casa, acrescentando que estava tão fatigado, que lhe era impossível sair.

 

Fui encontrar Armando de cama.

Ao ver-me, estendeu-me a sua mão ardente.

--Está com febre--disse-lhe eu.

--Não é nada, a fadiga de uma viagem rápida, simplesmente.

--Vem de casa da irma de Margarida?

--Venho. Quem lho disse?

--Sei-o. E conseguiu o que desejava?

--Consegui; mas quem o informou da minha viagem e do fim que ela tinha?

--o jardineiro do cemitério

--Viu o túmulo?

Quase me não atrevi a responder. o tom dessa frase provava-me que quem o proferira continuava sob a emoção que eu presenciara e que por muito tempo ainda esse sentimento atraiçoaria a sua vontade, sempre que o seu pensamento ou a palavra de outro lhe recordasse de novo tão doloroso assunto.

Limitei-me, pois, a responder com um sinal de cabeça.

--Está bem tratado?--perguntou Armando.

Duas grossas lágrimas deslizaram pelas faces do doente, que desviou a cabeça para mas esconder. Fingi que as não via e procurei mudar de conversa.

-- á três semanas saiu de Paris-- disse-lhe ela

Armando passou a mão pelos olhos e respondeu-me:

--Três semanas certas.

--Fez uma longa viagem.

--oh! Não levei este tempo todo a viajar; estive doente quinze dias, senão já teria regressado há muito; mas, apenas cheguei à aldeia, vi-me obrigado a ficar de cama, com um ataque de febre.

--E voltou para Paris sem estar bem curado.

--Se me demorasse mais oito dias naquela terra, já tinha morrido.

--Mas agora, que está de volta, deve tratar-se; os seus amigos virão vê-lo, e serei eu o primeiro, se mo permitir.

--Levanto-me daqui a duas horas.

--Isso é uma imprudência.

--Não pode deixar de ser.

--Que negócio tem assim tão urgente?

--Preciso de ir a casa do comissário da Polícia.

--Porque não encarrega outra pessoa dessa missão que o pode fazer piorar?

--É a única coisa capaz de me pôr bom. Preciso de vê-la. Logo que soube da sua morte, e sobretudo desde que ,-i o seu túmulo, deixei de dormir. Não posso imaginar que esteja morta uma mulher que eu deixei tão nova e tão bonita. Preciso de me certificar com os meus próprios olhos. Quero ver o que fez Deus desse ente que eu tanto amei, e talvez a repugnância do espectáculo substitua o desespero da recordação. Acompanha-me, sim? Se lhe não custa muito.

--Que lhe disse a irma?

--Não me disse nada. Fez-lhe muito espanto ir um estranho comprar um terreno e mandar fazer um túmulo para Margarida, e assinou imediatamente a autorização que eu lhe pedia.

--Faça o que eu lhe digo; espere que esteja curado para proceder à trasladação.

--Descanse, que não hão-de faltar-me as forças. Demais, eu endoidecia se não levasse a cabo o mais depressa possível esta resolução, cujo cumprimento se tornou uma necessidade da minha dor. Juro-lhe que só poderei sossegar depois de ver Margarida.

Talvez seja uma sede da febre que me queima, um sonho das minhas insónias, um resultado do meu delírio; mas embora tenha, depois, de me fazer trapista como o Sr. de Rancé, hei-de vê-la.

--Percebo isso--disse eu a Armando Duval--e estou às suas ordens; já viu a Júlia Duprat?

--oh! Vi-a logo que cheguei a Paris.

--Ela entregou-lhe os papéis que Margarida lhe deixara?

--Aqui estão eles.

Armando tirou um rolo de papéis de sob o travesseiro, e tornou a metê-lo lá imediatamente.

--Sei de cor o que esses papéis dizem. Há três semanas que os releio dez vezes por dia. Há-de lê-los também, mas daqui a mais tempo, quando eu estiver mais sossegado e puder fazer-lhe perceber a alma e o coração que esta confissão revela. Agora tenho um obséquio a pedir-lhe.

--Diga.

--Tem lá em baixo alguma carruagem?

--Tenho.

--Quer então fazer-me o favor de pegar no meu passaporte e ir ao correio saber se há alguma carta para mim? Meu pai e minha irma decerto escreveram-me para Paris, mas nem tive tempo de procurar a correspondência, tal a precipitação com que parti.

Quando voltar, iremos ambos prevenir o comissário da Polícia de que a cerimónia se processará amanha.

Armando entregou-me o seu passaporte e dirigi-me à Rua J. J. Rousseau.

Havia duas cartas dirigidas a Duval. Recebi-as e voltei.

Quando reapareci, já Armando estava vestido e pronto para sair.

--obrigado!--disse-me, pegando nas duas cartas.--Sim--acrescentou depois de olhar para os sobrescritos--, sim, são de meu pai e de minha irma. Devia causar-lhes a maior estranheza o meu silêncio.

Abriu as cartas e mais as adivinhou do que as leu, pois eram de quatro páginas cada uma, e ele dobrou-as daí a poucos instantes.

--Vamos--disse ele.--Respondo amanhã.

Fomos à casa do comissário da Polícia, a quem Armando entregou a procuração da irma de Margarida.

O comissário deu-lhe em troca um aviso para o guarda do cemitério; combinou-se que a trasladação se realizaria no dia seguinte, às dez horas da manha, que eu iria buscar Armando uma hora antes e que seguiríamos juntos para o cemitério.

Confesso que também tinha curiosidade de assistir a esse espectáculo e que nessa noite não dormi.

A avaliar pelos pensamentos que me perturbavam, a noite devia parecer interminável a Armando.

Quando entrei no dia seguinte às nove horas em casa dele, estava horrivelmente pálido, mas parecia calmo.

Sorriu-se para mim e estendeu-me a mão.

As suas velas tinham ardido todas, e, antes de sair, Armando pegou numa carta muito volumosa, dirigida a seu pai e confidente, sem dúvida, das impressões da noite.

Meia hora depois chegávamos a Montmartre.

O comissário já nos esperava.

Encaminhámo-nos lentamente para o túmulo de Margarida. O comissário ia adiante, eu e Armando seguíamo-lo a alguns passos.

De vez em quando sentia estremecer o braço do meu companheiro, como se de súbito um calafrio lhe percorresse o corpo. Olhava então para ele; Armando percebia o meu olhar e sorria-me, mas, desde que saíramos de casa, não havíamos trocado uma única palavra.

Um pouco antes de chegar ao túmulo, Armando parou para enxugar o rosto inundado por grossas bagas de suor.

Aproveitei-me desta paragem para respirar, pois também eu tinha o coração comprimido, como se mo apertasse uma turquês.

Donde vem o poderoso prazer que sentimos nestes espectáculos?

Quando chegámos ao túmulo, já o jardineiro tirara todos os vasos de flores e o gradeamento de ferro e dois homens cavavam a terra.

Armando encostou-se a uma árvore e olhou. Parecia que toda a sua vida se lhe concentrava nos olhos.

De súbito uma das duas enxadas rangeu ao bater numa pedra.

ouvindo este ruído, Armando recuou como se sentisse uma comoção eléctrica e apertou-me a mão com tanta força, que me magoou.

Um coveiro pegou numa larga pá e despejou a cova a pouco e pouco. Depois, quando só ficaram as pedras com que se cobre o caixão, atirou-as para longe uma a uma.

Eu observava Armando, pois receava a cada minuto que as sensações, que visivelmente concentrava, o despedaçassem; mas ele continuava com os olhos fitos e muito abertos como um louco, e só um ligeiro tremor nas faces e nos lábios provava que estava prestes a sofrer violenta crise nervosa.

Por mim, só posso dizer uma coisa: que lamentava deveras ter ido.

Quando o caixão ficou completamente a descoberto, o comissário disse aos coveiros:

--Abram.

Os homens obedeceram, como se fosse a coisa mais fácil deste mundo.

o caixão era de carvalho, e eles puseram-se a desaparafusar a parte superior que servia de tampa. A humidade da terra enferrujara os parafusos, e não foi sem esforço que se abriu o caixão. Exalou-se logo um cheiro infecto, apesar das plantas aromáticas com que estava ornamentado.

--Oh! meu Deus! meu Deus!--murmurou Armando. E ainda empalideceu mais.

os próprios coveiros recuaram.

Uma grande mortalha branca envolvia o cadáver de que desenhava algumas sinuosidades. Essa mortalha estava quase completamente comida numa das pontas e deixava passar um pé da morta.

Eu ia perdendo os sentidos, e no momento em que escrevo estas linhas, a lembrança da cena ainda me aparece na sua imponente realidade.

--Não nos demoremos!--disse o comissário.

Então um dos dois homens estendeu a mão, pôs-se a descoser a mortalha e, pegando-lhe pelas pontas, descobriu bruscamente o rosto de Margarida.

Era terrível de ver, e é horrível de contar.

os olhos não eram já senão dois buracos, os lábios tinham desaparecido e os dentes brancos estavam fincados uns nos outros. os longos cabelos muito negros e secos achavam-se colados às fontes e velavam um pouco as verdes cavidades das faces; apesar disso, eu reconheci, naquele rosto, o rosto branco e alegre que tantas vezes vira.

Armando, sem poder desviar os olhos dele e levando o lenço à boca, mordia-o.

A mim pareceu-me que um círculo de ferro me apertava a cabeça, um véu cobriu-me os olhos, os ouvidos zumbiram-me e o mais que pude fazer foi abrir um frasquinho que trouxera à cautela e respirar fortemente os sais que ele encerrava.

No meio desse estonteamento, ouvi o comissário dizer a Armando Duval:

--Reconhece?

--Reconheço--respondeu surdamente o rapaz.

--Então fechem e levem--ordenou o funcionário policial.

Os coveiros atiraram a mortalha para cima do rosto da morta e fecharam o caixão; pegaram-lhe cada um por seu lado e dirigiram-se para o sítio que lhes fora designado.

Armando ficara imóvel. o seu olhar conservava-se pregado naquela cova vazia; estava pálido como aquele o cadáver que acabávamos de ver. Dir-se-ia petrificado.

Percebi o que ia suceder quando a dor diminuísse com a ausência do espectáculo, e por conseguinte deixasse de o conter.

Aproximei-me do comissário.

--A presença deste senhor--perguntei-lhe eu, apontando para Armando--é necessária ainda?

--Não--tornou-me ele--, e até lhe aconselho que o leve, porque me parece doente.

--Venha!--disse então a Armando, dando-lhe o braço.

--Que é?--inquiriu, olhando para mim como se não me conhecesse.

--Acabou--acrescentei eu--, vamos embora, meu amigo. Está pálido, tem frio, dá cabo de si com estas comoções.

--Tem razão, vamos lá -- respondeu maquinalmente, mas sem dar um passo.

Então agarrei-lhe no braço e arrastei-o comigo.

Deixava-se levar como uma criança, murmurando apenas de quando em quando: --Viu os olhos?

E voltava-se como se essa visão o chamasse.

o seu andar, contudo, passou a ser sacudido; parecia avançar só aos repelões; os dentes batiam uns nos outros, as mãos estavam frias, apoderava-se de todo o seu corpo uma violenta agitação nervosa.

Falei-lhe, não me respondeu.

Tudo o que podia fazer era deixar-se levar.

A porta encontrámos uma carruagem; já era tempo.

Apenas se sentou, aumentou-lhe o calafrio e teve um verdadeiro ataque de nervos, no meio do qual, com receio de me assustar, murmurava, apertando-me a mão:

--Não é nada! Não é nada! o que eu queria era chorar.

E eu sentia que o seu peito se entumescia, que o sangue lhe afluía aos olhos, mas que as lágrimas não saíam.

Fiz-lhe respirar o frasquinho de sais que trouxera e quando chegámos a casa dele só o calafrio se manifestava ainda.

Com auxílio do criado deitei-o. Mandei acender um lume fortíssimo no seu quarto e corri a chamar o meu médico, a quem contei o que acabava de se passar.

Veio imediatamente.

Armando estava vermelho, delirante, e balbuciava palavras sem nexo, das quais só o nome de Margarida se ouvia distintamente.

--Então?--perguntei ao médico, logo que ele examinou o doente.

--Tem uma febre cerebral, nem mais nem menos, e é uma felicidade, pois me parece, Deus me perdoe, que ele estava quase a enlouquecer. Felizmente a doença física há-de vencer a doença moral, e daqui a um mês, provavelmente, estará curado.

 

As doenças como a que atacara Armando têm uma coisa boa: ou matam depressa, ou se vencem também rapidamente.

Quinze dias depois dos acontecimentos que acabo de contar, Armando entrara em franca convalescença, e estávamos ligados um ao outro por estreita amizade. Eu quase que não saíra do seu quarto durante todo o tempo da doença.

A Primavera espalhava com profusão as suas flores, as suas folhas, as suas aves e as suas canções, e a janela do meu amigo abria-se alegremente para o jardim, cujas saudáveis exalações o vinham acariciar.

O médico permitira que ele se levantasse e ficávamos muitas vezes a conversar sentados ao pé da janela aberta, à hora em que o sol está mais quente, do meio-dia às duas.

Nem por sombras lhe falava em Margarida, receando sempre que esse nome despertasse uma triste recordação adormecida debaixo da aparente serenidade do enfermo; mas Armando, pelo contrário, parecia ter gosto em falar dela, não já como outrora, com as lágrimas nos olhos, mas com um meigo sorriso que me tranquilizava acerca do estado da sua alma.

Eu já notara que desde a sua última visita ao cemitério, depois do espectáculo que lhe provocara aquela crise violenta, dir-se-ia que a doença fizera trasbordar a medida da dor moral e que a morte de Margarida já lhe não aparecia com o aspecto do passado. Da certeza adquirida resultara uma espécie de consolação, e para expulsar a sombria imagem que muitas vezes se lhe representava, mergulhava nas lembranças felizes da sua ligação com Margarida, e parecia não querer já aceitar outras.

O corpo estava demasiado exausto devido ao acesso e até à cura da febre para permitir ao espírito uma comoção violenta, e a alegria primaveril e universal que rodeava Armando, levava o seu pensamento, sem ele querer, para as imagens risonhas.

Sempre se recusara obstinadamente a informar sua família do perigo que correra, e, quando já estava salvo, ainda seu pai ignorava a sua doença.

Uma tarde tínhamo-nos demorado à janela mais tempo que de costume; o tempo estivera magnífico e o sol adormecia num crepúsculo brilhante de azul e ouro. Apesar de nos encontrarmos em Paris, a verdura que nos cercava parecia isolar-nos do mundo, e só de quando em quando a bulha de alguma carruagem perturbava a nossa conversa.

--Foi pouco mais ou menos nesta época do ano, e na noite que se seguiu a um dia como este, que conheci Margarida – disse Armando, escutando os seus próprios pensamentos e não as palavras que eu lhe dirigia.

Não respondi.

Então voltou-se para mim e disse:

-- Olhe que quero contar-lhe esta história; fará com ela um livro em que ninguém acreditará, mas que talvez seja interessante fazer.

--Contar-me-á isso mais tarde, meu amigo -- tornei-lhe -- depois de completamente restabelecido.

--A tarde está quente, já comi o meu peito de galinha--declarou ele, sorrindo--; a febre desapareceu, não temos que fazer, vou contar-lhe tudo.

--Já que assim o quer, escuto.

--Uma história muito simples--acrescentou ele, então--e que eu lhe contarei seguindo a ordem dos acontecimentos. Se fizer com isto algum livro, conte-a como quiser.

Eis o que ele me disse, e à sua tocante narrativa quase me limitei a mudar algumas palavras.

--Sim--tornou Armando, deixando cair a cabeça para o espaldar da sua poltrona--, sim, era por uma tarde como esta! Eu passara o dia no campo com um dos meus amigos, Gastão R... Ao cair da noite regressámos a Paris, e, não sabendo o que havíamos de fazer, tínhamos entrado no Teatro das Variedades.

No intervalo saímos, e no corredor vimos passar uma mulher alta que o meu amigo cumprimentou.

--Quem foi que tu cumprimentaste? -- perguntei-lhe.

--Margarida Gautier--respondeu.

--Parece-me muito mudada porque a não reconheci--disse com uma comoção que depois percebera.

--Esteve doente. A pobre rapariga não há-de durar muito.

Lembro-me destas palavras como se mas tivesse dito ontem.

Preciso que saiba, meu amigo, que havia dois anos que o aspecto dessa rapariga, quando a encontrava, me causava uma impressão estranha.

Sem que soubesse porquê, eu empalidecia e o coração batia-me com violência. Há um amigo meu que se ocupa de ciências ocultas e que chamaria ao que eu sentia a afinidade dos fluidos; simplesmente creio que era meu destino apaixonar-me por Margarida e que já o pressentia.

A verdade é que aquela rapariga me causava uma impressão real, que vários dos meus amigos disso haviam sido testemunhas e rido muito ao reconhecerem donde me vinha essa impressão.

A primeira vez que a vira fora na Praça da Bolsa, à porta de Susse. Estava ali parada uma cabeça descoberta, donde se apeara uma mulher vestida de branco. Acolhera-a um murmúrio de admiração à sua entrada na loja. Eu fiquei pregado no sítio onde estava, desde que ela entrou até que saiu. Através das vidraças, vi-a escolher na loja o que lá ia comprar. Eu podia entrar, mas não me atrevia. Não sabia quem era aquela mulher e receava que adivinhasse a causa da minha entrada na loja e com isso se ofendesse. Contudo não acreditava na dita de tornar a vê-la.

Achava-se elegantemente ataviada: trazia um vestido de musselina com muitos folhos, um xaile da Índia, quadrado, com os cantos bordados a ouro e a flores de seda, um chapéu de palha de Itália e um único bracelete--grossa cadeia de ouro, que principiava a estar em moda nessa época.

Subiu para a caleça e partiu.

Um dos caixeiros da loja ficou à porta, seguindo com o olhar a carruagem da elegante compradora. Aproximei-me dele e pedi-lhe que me dissesse o nome daquela mulher.

-- A menina Margarida Gautier--respondeu-me.

Não me atrevi a perguntar-lhe onde morava e afastei-me.

Não me fugiu do espírito a lembrança daquela visão -- porque era uma verdadeira visão—como me tinham fugido tantas outras que eu já tivera, e procurava por toda a parte aquela branca mulher tão regiamente formosa.

Daí a dias houve uma grande representação na pera Cómica. A primeira pessoa que vi num camarote de proscénio foi Margarida Gautier.

O rapaz com quem eu estava também a reconheceu, porque me disse, indicando-a:--olha para aquela linda rapariga.

Naquele momento, Margarida deitava o binóculo para o nosso lado; viu o meu amigo, sorriu-se para ele e fez-lhe sinal para que a fosse visitar.

--Vou dar-lhe ao boas-noites--disse-me ele-e já volto.

Não pude deixar de lhe dizer:

--l s bem feliz.

--Porquê?

--Porque vais falar a essa mulher.

--Estás apaixonado por ela?

--Não -- repliquei, corando, pois não sabia verdadeiramente o que havia de pensar a esse respeito--; mas desejava conhecê-la.

--Vem comigo que eu apresento-te.

--Pede-lhe primeiro licença.

--oh! Não é preciso fazer cerimónia com ela; vem daí.

O que ele dizia fazia-me pena. Estava receoso de adquirir a certeza de que Margarida não merecia o que eu experimentava por ela.

Há num livro de Alphonse Karr, intitulado Am Rauchen, um homem que segue à noite uma mulher elegantíssima e por quem à primeira vista se apaixonou, tão bonita lhe pareceu. Para beijar a mão dessa mulher, sente-se com força de tudo empreender, vontade para tudo conquistar, coragem para fazer seja o que for. Quase se não atreve a olhar para a nesga da perna airosa que ela descobre para não macular o vestido com o contacto da terra. Enquanto o homem cisma em tudo o que faria para possuir essa mulher, ela pára à esquina de uma rua, à porta de uma casa, e pergunta-lhe se quer subir.

Ele baixa a cabeça, atravessa a rua e vai-se embora muito triste.

Lembrava-me deste episódio, e eu, que ansiava sofrer por aquela mulher, receava que ela me aceitasse desde logo e me desse prontamente um amor que eu desejaria pagar com uma longa espera ou com um grande sacrifício. Somos assim, nós os homens; e bom é que a imaginação deixe aos sentidos essa poesia e que os desejos do corpo façam tais concessões aos sonhos da alma.

Enfim, se me dissessem: "Hás-de possuir essa mulher esta noite e ser morto amanha", eu aceitava. Se me dissessem: "Dá dez luíses e serás seu amante", eu recusava e chorava, como uma criança que vê desvanecer-se ao acordar o castelo entrevisto durante a noite.

Contudo, queria conhecê-la, era um meio, e talvez o único, de saber o que havia de pensar a seu respeito.

Disse, pois, ao meu amigo que fazia empenho em que ela lhe desse licença para me apresentar; e andei pelos corredores, pensando que não tardaria a receber-me, e eu não saberia o modo como havia de afrontar os seus olhos.

Procurava ligar antecipadamente as palavras que havia de dizer-lhe.

Que sublime criancice é o amor!

Um instante depois apareceu o meu amigo.

--Espera-nos--disse-me ele.

--Está sozinha?--perguntei.

--Tem lá outra mulher.

--Não estão homens?

--Não.

--Vamos. o meu amigo dirigiu-se para a porta do teatro.

--Não é por aí--observei.

--Vamos buscar doces, que ela pediu-mos.

Entrámos numa confeitaria mesmo junto da C pera.

A minha vontade era comprar a loja toda, e estava já a cismar como havia de organizar um presente bom, quando o meu amigo pediu:

--Um quarto de uvas cristalizadas.

--Sabes se ela gosta?

--Não come outro doce, todos nós sabemos.

--Ah! --continuou ele, quando saímos.--Sabes a que mulher eu te apresento? Não imagines que é duquesa, é simplesmente uma pecadora, o mais pecadora que se pode ser, meu caro amigo; não faças cerimónia, diz tudo o que te vier à cabeça.

--Bem, bem--balbuciei eu, seguindo-o e dizendo comigo que ia curar-me da minha paixão.

Quando entrei no camarote, Margarida ria às gargalhadas.

Preferia que ela estivesse triste.

O meu amigo apresentou-me. Margarida inclinou ligeiramente a cabeça e disse: -- Os meus doces?

--Aqui estão.

Pegou no saquinho e olhou para mim. Baixei os olhos e corei.

Margarida inclinou-se para o ouvido da sua vizinha, disse-lhe algumas palavras em voz baixa e ambas desataram a rir.

Era eu, sem dúvida, a causa daquela hilaridade, e com isso redobrou o meu enleio. Nessa época tinha por amante uma burguesinha, muito terna e sentimental, cujo afecto e cujas cartas melancólicas me faziam rir.

Pelo que agora se passava comigo compreendi quanto decerto a magoara, e durante cinco minutos amei-a como nunca se amou uma mulher.

Margarida comia as suas uvas sem se importar comigo.

O meu companheiro não quis deixar-me nessa posição ridícula.

--Margarida--disse ele--, não se espante de o Sr. Duval não lhe dirigir a palavra; transtornou-lhe tão completamente a cabeça, que não encontra termos para exprimir a impressão que recebeu.

--o que me parece, meu amigo, é que trouxe cá este senhor, para não vir sozinho.

--Se assim fosse--acudi eu então--, não teria instado com Ernesto para que lhe pedisse licença para me apresentar.

--Talvez não fosse senão um meio de demorar o momento fatal.

Não é necessária longa convivência com as mulheres do género de Margarida para se saber que têm gosto em dizer sensaborias e em chacotear com as pessoas que vêem pela primeira vez. É sem dúvida uma desforra das humilhações que frequentemente lhes infligem os que elas vêem todos os dias.

Por isso, para lhes responder é necessário estar um pouco habituado à sua sociedade, o que não acontecia comigo. Depois, a ideia que eu tivera de Margarida fazia-me exagerar a importância do seu motejo. Da parte dessa mulher nada me era indiferente. Levantei-me, pois, dizendo-lhe com uma alteração de voz que me foi impossível esconder:

--Se é isso o que pensa de mim, minha senhora, só me resta pedir-lhe perdão da minha indiscrição e despedir-me, assegurando-lhe que a não repetirei.

Cumprimentei-a e saí.

Apenas fechei a porta, ouvi terceira gargalhada. o meu desejo era que alguém nesse momento me acotovelasse.

Voltei para a minha cadeira.

Daí a pouco subiu o pano.

Ernesto tornou para o pé de mim.

--Que foste tu fazer, rapaz!--exclamou ele, ao sentar-se.--Elas julgaram que estavas doido.

--Que disse Margarida, quando eu saí?

--Riu-se a perder e assegurou-me que nunca vira pessoa mais ratona do que tu. Mas não te dês por batido; o que não deves é conceder a estas raparigas a honra de as tomares a sério. Não sabem o que é elegância nem galantaria: são como os cães, que, quando se lhes põem perfumes, acham que cheiram mal e vão rebolar-se no chiqueiro.

--Afinal, que me importa?--repliquei eu, procurando tomar um tom desenvolto.--Não tornarei a ver essa mulher e, se me agradava antes de a conhecer, agora que a conheço já não me interessa.

-- Ora adeus! Não perco a esperança de te ver um dia destes no fundo do seu camarote e de ouvir dizer que te arruínas por ela. E farás muito bem, pois, apesar de malcriada, é uma linda e apetitosa rapariga.

Felizmente levantou-se o pano e o meu amigo calou-se. É-me impossível dizer o que se representou. Apenas me lembra que, levantava os olhos para o camarote, donde saíra tão bruscamente, e via a cada momento aparecerem lá novos visitantes.

Estava longe, contudo, de não pensar já em Margarida. Outro sentimento se apoderava de mim. Precisava de fazer esquecer o seu insulto e o meu ridículo, assim me parecia, e dizia comigo que, embora tivesse de gastar tudo quanto possuía, havia de conquistar essa mulher e reaver o lugar que tão depressa abandonara.

Antes de terminar o espectáculo, Margarida e a sua amiga saíram do camarote.

Involuntariamente levantei-me.

--Vais-te embora?--inquiriu Ernesto.

--Vou.

--Porquê?

Nesse momento reparou que estava vazio o camarote.

--Vai, vai--disse ele--; estimo que sejas feliz, ou antes?

que sejas mais feliz.

Ai ouvi na escada um rugir de sedas e um rumor de vozes.

Afastei-me e vi passar, sem que me vissem, as duas mulheres e os dois rapazes que as acompanhavam.

No peristilo do teatro apresentou-se-lhes um criadito.

--Vai dizer ao cocheiro que espere à porta do Café Inglês--ordenou-lhe Margarida.--Vamos a pé até lá.

Minutos depois, passeando no Boulevard, vi a uma das janelas de um dos grandes gabinetes do restaurante, Margarida, encostada à sacada, a desfolhar uma a uma as camélias de um ramalhete.

Um dos dois homens inclinava-se sobre o seu ombro e falava-lhe baixinho.

Fui para a Casa Dourada, para as salas do primeiro andar, e não perdi de vista a maldita janela.

A uma hora da manha, Margarida metia-se na sua carruagem com os seus três companheiros.

Tomei um ca riolet e segui-a.

A carruagem parou na Rua d'Antin, n.o 9.

Margarida apeou-se e entrou para a casa, sozinha.

Era decerto um mero acaso, mas esse acaso tornou-me bem feliz.

Desse dia em diante encontrei muitas vezes Margarida em espectáculos, nos Campos Elísios. Ela sempre com a mesma alegria, eu sempre com a mesma comoção.

Passaram-se, porém, quinze dias sem eu a tornar a ver em parte alguma. Encontrei-me com Gastão a quem pedi notícias suas.

--Pobre rapariga! Está muito doente--respondeu ele.

--Que tem ela?

--Que tem? Sofre do peito e, como a vida que leva decerto não a pode curar, está de cama, e não tarda a ir para o outro mundo.

Muito estranho é o coração! Quase me alegrou aquela doença.

Fui todos os dias saber notícias da doente, sem inscrever o meu nome, nem deixar o meu bilhete. Soube assim da sua convalescença e da sua partida para Bagnères.

O tempo foi correndo; a impressão, senão a lembrança, pareceu apagar-se, pouco a pouco, na minha alma. Viajei; outras ligações, outros hábitos, outros trabalhos foram tomando o lugar deste pensamento, e, quando me lembrava dessa primeira aventura, não queria já considerá-la senão como uma destas paixonetas que se têm quando se é muito novo e que se esquecem pouco tempo depois.

Demais, pouco merecimento haveria em triunfar dessa recordação, porque eu perdera Margarida de vista desde a sua partida, e, como lhe disse, quando passou ao pé de mim, no corredor do Variedades, não a reconheci.

Ia de véu, é certo; mas, por muito espesso que este fosse, dois anos antes não precisaria de vê-la para a reconhecer; adivinhava-a.

Mas isso não impediu o meu coração de palpitar ao saber que era ela; e os dois anos passados sem a ver e todos os seus resultados desvaneceram-se como o fumo, só com o roçar do seu vestido.

No entanto--continuou Armando, depois de uma pausa--, embora percebendo que ainda estava apaixonado, sentia-me forte, e no meu desejo de tornar a encontrar-me com Margarida, entrava também uma certa vontade de lhe mostrar que lhe era agora superior.

Que singulares caminhos segue e que singulares razões dá a si próprio o coração para chegar onde quer!

Como não pude demorar-me muito tempo nos corredores, voltei para o meu lugar na superior, lançando uma rápida vista de olhos pela sala, para ver em que camarote ela estava.

Encontrava-se na frisa do proscénio e sozinha. Achei-a mudada, como lhe disse; já não encontrava na sua boca o seu sorriso desdenhoso. Sofrera; padecia ainda.

Embora se estivesse já em Abril, achava-se toda coberta de veludo, como no Inverno.

Eu olhava para ela tão obstinadamente, que o meu olhar atraiu o seu.

Encarou-me por instantes, pegou no binóculo para me ver melhor e pareceu-lhe sem dúvida que me reconhecia, sem poder dizer positivamente quem eu era, porque, quando largou o binóculo, vagueou nos seus lábios um sorriso, esse encantador cumprimento das mulheres, para corresponder à saudação que parecia esperar de mim; mas não lhe correspondi, para me mostrar superior, mostrar-lhe que a esquecera, ao passo que ela se lembrava de mim.

Julgou haver-se enganado e desviou a cabeça.

Subiu o pano.

Vi muitas vezes Margarida no teatro, mas nunca a vi prestar a mínima atenção ao que se representava.

A mim também o espectáculo me interessava pouco, e só pensava naquela mulher, fazendo todo o esforço para que ela o não percebesse.

Foi assim que a vi trocar olhares com a pessoa que ocupava a frisa defronte da sua; voltando-me nessa direcção, reconheci logo uma mulher com quem eu tinha bastante confiança.

Essa mulher, também uma antiga pecadora, quisera entrar no teatro, mas não conseguira fazer carreira. Depois, estribada nas relações que mantinha entre os elegantes de Paris, estabelecera-se com uma casa de modas.

Percebi que seria esse um meio excelente para me aproximar de Margarida e aproveitei uma ocasião em que ela olhava, para a cumprimentar com os olhos e com a mão.

Conforme eu previra, fez-me sinal de que a fosse visitar.

Prudência Duvernoy--assim se chamava a proprietária da casa de modas--era uma destas quarentonas gorduchas, com quem não é necessária grande diplomacia para se conseguir que elas digam o que se quer saber, sobretudo quando o que se pretende é tão simples como o que eu lhe ia perguntar.

Aproveitei um momento em que ela recomeçara a sua conversa mímica com Margarida para lhe dizer:

--Para quem está a olhar dessa maneira?

--Para Margarida Gautier.

--Conhece-a?

--Sou sua modista, e ela é minha vizinha.

--Então a Prudência mora agora na Rua d'Antin?

--No n.o z. A janela do quarto de vestir de Margarida deita

para a janela do meu.

--Dizem que é uma encantadora rapariga.

--Não a conhece?

--Não, mas gostava de a conhecer.

--Quer que eu lhe diga que venha ao meu camarote?

--Não, prefiro que me apresente.

--Em casa dela?

--Sim.

--Mais difícil.

--Porquê?

--Porque é protegida por um velho duque muito ciumento.

--Protegida, não acho mau.

--Sim, protegida--tornou Prudência.--o pobre velho ficaria muito atrapalhado se tivesse de ser seu amante..

Prudência contou-me então como é que Margarida travara conhecimento com o duque em Bagnères.

--Por isso--continuei eu--que ela está aqui sozinha?

--Justamente.

--Mas quem a acompanha a casa?

--Ele.

--Então vem buscá-la?

--Daqui a um instante.

--E à Prudência, quem a acompanha?

--Ninguém.

--Acompanho-a eu.

--Mas parece-me que está com um amigo.

--Então acompanhamo-la nós.

--Quem é esse seu amigo?

--E um belo rapaz, muito engraçado e que há-de ficar satisfeitíssimo por travar conhecimento com a minha amiga.

--Está dito; vamo-nos embora todos depois desta peça, porque a última já eu conheço.

--Bem, vou prevenir o meu amigo.

--Vá... ah!--exclamou Prudência, no momento em que eu ia sair.--Lá entrou o duque na frisa de Margarida.

Efectivamente, um homem de sessenta anos acabava de se sentar por trás de Margarida e entregava-lhe um saquinho de doces, que ela começou logo a despejar, sorrindo. Depois chegou-o para a frente do camarote, dirigindo a Prudência um gesto que podia significar:

--Quer?

--Não--respondeu Prudência, também mimicamente.

Margarida puxou o saquito para si e, voltando-se, pôs-se a conversar com o duque.

A narrativa de todos estes pormenores parece uma verdadeira criancice, mas tudo o que se refere àquela rapariga está tão presente na minha memória, que não posso deixar de o recordar hoje.

Desci a prevenir Gastão do que acabava de combinar para ele e para mim.

Aceitou.

Deixámos as nossas cadeiras e dirigimo-nos à frisa da Sr.a Duvernoy.

Mal tínhamos aberto a porta da superior quando fomos obrigados a deter-nos para darmos passagem ao duque e Margarida que se iam embora.

Daria dez anos da minha vida para estar no lugar desse velhote.

Quando chegou ao Boulevard, fê-la subir para um faetonte, que ele mesmo guiava, e desapareceram, ao trote de dois soberbos cavalos.

Entrámos na frisa de Prudência.

Terminada a peça, saímos e metemo-nos num fiacre que nos levou à Rua d'Antin mo z. Ao chegarmos à porta de sua casa, Prudência convidou-nos a subir para nos mostrar o seu estabelecimento, que eu não conhecia e de que parecia estar muito orgulhosa. Imagine com que entusiasmo eu aceitei.

Parecia-me que a pouco e pouco me ia aproximando de Margarida.

Não tardei a puxar a conversação para esse assunto querido.

--o velho duque está em casa da sua vizinha? --perguntei a Prudência.

--Não; ela deve estar só.

--Mas, nesse caso, aborrece-se horrorosamente --acudiu Gastão.

--Passamos quase sempre as noites juntas, ou, quando vem para casa, chama-me. Nunca se deita antes das duas horas da manha; não consegue adormecer mais cedo.

--Porquê?

--Porque está doente do peito e quase sempre com febre.

--Não tem amantes?--perguntei.

--Nunca vejo ficar lá pessoa alguma quando me vou embora; mas não juro que não entre alguém depois de eu sair; muitas vezes encontro r casa dela, à noite, um certo conde de N... que imagina ganhar muito vindo visitá-la às onze horas da noite e mandando-lhe quantas jóias ela quer; Margarida, porém, não o pode ver nem pintado. Faz mal, porque é um rapaz muito rico.

Eu farto-me de lhe dizer: " filha, olha que é o homem de que tu precisas". Qual história! Ela, que habitualmente atende o que eu lhe digo, vira-me as costas e responde-me que o não pode aturar porque é muito tolo. Será tolo, não digo o contrário; mas era uma posição para ela, enquanto o duque pode morrer de um dia para o outro. os velhos são egoístas; a família está sempre a censurar a sua afeição por Margarida; duas razões para ele lhe não deixar nada. Eu bem lhe prego moral, e ela diz que, se o duque morrer, então pensará no conde.

"Pois olhe que é pouco divertido--continuou Prudência—viver como ela vive. Eu cá por mim é que me não resignava, essa lhe juro eu, e mandava passear o velhote.   insípido o gebo; chama-lhe filha, trata-a como uma criança e não a larga. Estou certa de que a estas horas anda algum dos seus criados a rondar a rua para ver quem sai e sobretudo quem entra.

--ora a pobre Margarida! --exclamou Gastão, sentando-se ao piano e tocando uma valsa.--Dessa é que eu não sabia. Mas havia algum tempo que me parecia menos alegre.

--Caluda, caluda!--recomendou Prudência. pondo o ouvido à escuta.

Gastão interrompeu-se.

--Está a chamar por mim, creio.

Escutámos.

Efectivamente uma voz chamava por Prudência.

--Bom, meus senhores, vão-se embora -- convidou a Sr.a Duvernoy.

--Ah! Assim é que se atendem as visitas?--disse Gastão, rindo.--Havemos de nos ir embora só quando nos apetecer. Mas porque é que nos havemos de ir embora?

--Porque vou para casa de Margarida.

--Esperamos aqui.

--Não pode ser.

--Então vamos lá também.

--Ainda menos.

--Eu conheço Margarida--disse Gastão--, estou no meu direito de lhe ir fazer uma visita.

--Mas o Armando não a conhece.

--Apresento-o.

--Impossível.

ouviu-se de novo a voz de Margarida, que continuava a chamar Prudência.

A proprietária da loja de modas correu ao seu quarto de vestir. Eu e Gastão seguimo-la. Ela abriu a janela.

Escondemo-nos de modo que nos não vissem de fora.

--Há dez minutos que te estou a chamar--disse Margarida da sua janela, num tom quase imperioso.

--Que me queres tu?

--Quero que venhas para cá imediatamente.

--Porquê?

--Porque o conde de N... não me sai de casa, e eu não o posso aturar.

--Agora não posso lá ir.

--Quem te impede?

--Tenho cá em casa dois rapazes que se não querem ir embora.

--Diz-lhes que tens de sair.

--Já lho disse.

--Então deixa-os aí em casa; em te vendo sair, não terão remédio senão ir-se embora.

--Depois de terem posto tudo de pernas para o ar.

--Mas que querem eles?

--Querem ver-te.

--Como se chamam?

--Um conheces tu; é o Sr. Gastão de R...

--Ah, sim, conheço. E o outro?

--Armando Duval. Não o conheces?

--Não, mas podes trazê-los. Antes isso que o conde. Estou à tua espera, vem depressa.

Fechou a janela e Prudência fez o mesmo.

Margarida, que se lembrara por um instante do meu rosto, não se recordava do meu nome. Preferi uma lembrança que me fosse desvantajosa a esse esquecimento.

--Eu bem sabia--disse Gastão--que ela havia de ficar satisfeitíssima por nos receber.

--Satisfeitíssima não é o termo mais próprio –respondeu Prudência, pondo o xaile e o chapéu--e recebe-os apenas para conseguir que o conde se vá embora. Vejam se se mostram mais amáveis do que ele; de contrário, eu bem conheço Margarida, é capaz de se pôr de mal comigo.

Seguimos Prudência que descia a escada.

Eu tremia; tinha a impressão de que aquela visita havia de ter grande influência na minha vida.

Ainda estava mais perturbado do que na noite da minha apresentação no camarote da opera Cómica.

Quando cheguei à porta do aposento que o meu amigo já conhece, o coração batia-me com tanta força, que até nem podia pensar.

Ouvíamos alguns acordes de piano.

Prudência tocou a campainha.

O piano calou-se.

Uma mulher, que parecia mais uma dama de companhia do que uma criada de quarto, veio abrir-nos a porta.

Passámos para a sala, da sala para o toucador, que era nessa época exactamente o mesmo que o meu amigo viu depois.

Estava um rapaz encostado ao fogão.

Margarida, sentada ao piano, deixava correr os dedos pelas teclas e começava trechos que não levava ao fim.

Era bem uma cena de tédio: para o homem, em consequência da sua nulidade; para ela, devido à presença de tão lúgubre personagem.

Ao ouvir a voz de Prudência, Margarida levantou-se, e, dirigindo-se a nós depois de trocar com a Sr.a Duvernoy um olhar de agradecimento, disse-nos:

--Entrem, meus senhores, e sejam bem-vindos.

--Boas noites, meu caro Gastão--saudou Margarida o meu companheiro.--Folgo imenso em vê-lo. Porque não me foi visitar à minha frisa no Variedades ?

--Receei ser indiscreto.

--Os amigos--e Margarida carregou nestas palavras como se quisesse dar a perceber aos presentes que, apesar do modo familiar com que o acolhia, Gastão não era nem fora nunca senão um amigo--, os amigos nunca são indiscretos.

--Dá-me licença que lhe apresente o Sr. Armando Duval?

--Já tinha autorizado Prudência a fazê-lo.

--Eu, minha senhora--disse, inclinando-me e conseguindo articular uns sons pouco inteligíveis--, já tive a honra de lhe ser apresentado.

os olhos encantadores de Margarida pareceram perscrutar a sua memória, mas não se lembrou ou fingiu não se lembrar.

--Minha senhora --tornei eu-- agradeço-lhe imenso ter esquecido essa primeira apresentação, pois mostrei-me bem ridículo e decerto pareci-lhe muito aborrecido. Foi há dois

anos, na ópera Cómica; encontrava-me eu na companhia de Ernesto de...

--Ah! Bem me lembro!--respondeu Margarida

com um sorriso.--Não era o senhor que estava ridículo. Eu é que estava impertinente, como ainda hoje sucede muitas vezes, mas, enfim, não tantas como nesse tempo. Já me perdoou, não é verdade?

E estendeu-me a sua mão, que eu beijei.

--Só a conheço há dois meses--replicou o conde.

--Verdade--tornou ela.--Imagine que tenho o mau costume de querer atrapalhar as pessoas que vejo pela primeira vez.

Uma perfeita tolice. Segundo o meu médico, isso deve-se ao facto de andar sempre nervosa e adoentada. Peço-lhe que acredite no que ele diz.

--Mas parece estar com óptima saúde.

--oh! Estive muito doente.

--Bem sei.

--Quem lho disse?

--Ninguém o ignorava. Vim muitas vezes pedir notícias suas, e com muita satisfação soube da sua convalescença.

--Nunca me entregaram o seu cartão.

--Se eu nunca o deixei!

.--Seria um rapaz que vinha todos os dias saber como estava e que não quis nunca dizer o seu nome?

--Exactamente.

--Então é mais do que indulgente, é generoso. o conde não faria semelhante coisa--acrescentou ela, voltando-se para o Sr. de N... e depois de me ter lançado um desses olhares com os quais as mulheres completam a sua opinião acerca de um homem.

--Só a conheço há dois meses--replicou o conde.

--E este senhor só me conhece há cinco minutos. Não sabe dizer senão disparates.

As mulheres são implacáveis com os homens que não m m

o conde corou e mordeu os beiços.

Tive dó dele, porque parecia estar enamorado como eu; e a dura franqueza de Margarida devia afligi-lo muito, sobretudo em presença de dois desconhecidos.

--Tocava piano quando entrámos--disse eu então, para mudar a conversa--; não me quer dar o gosto de me tratar como um velho amigo continuando a tocar?

--oh!--exclamou Margarida atirando-se para o canapé e fazendo-nos sinal, a mim e ao meu amigo, para nos sentarmos ao pé dela.--Gastão bem sabe como eu toco. Serve apenas para quando estou sozinha com o conde, mas não quero fazer-lhes sofrer semelhante suplício...

--Tem, então, por mim essa preferência?--redarguiu o Sr. De N... num tom que procurava tornar fino e irónico.

--Pois faz mal em ma criticar, porque é a única.

Estava decidido que o pobre rapaz não poderia dizer uma palavra. Deitou a Margarida um olhar verdadeiramente suplicante.

--Olha lá, Prudência--continuou ela--, fizeste o que te tinha pedido?

--Fiz.

--Muito bem. Logo mo contas. Não te vás embora sem conversarmos, preciso de te falar.

--Estamos, sem dúvida, a ser indiscretos--acudi eu então—e agora que obtivemos, ou antes, que obtive uma segunda apresentação, para fazer esquecer a primeira, vamo-nos retirar, Gastão e eu.

--Isso é que não; não foi por causa dos senhores que eu disse isto. Pelo contrário, quero que fiquem.

O conde tirou um relógio muito elegante e viu as horas.

--Tempo de ir até a o clube--declarou.

Margarida não deu resposta.

O conde deixou o fogão e aproximou-se dela.

--Adeus, minha senhora.

Margarida levantou-se.

--Adeus, meu caro conde. Já se vai embora?

--Vou. Tenho medo de a aborrecer.

--Não me aborrece hoje mais do que nos outros dias. Quando volta cá?

--Quando mo permitir.

--Então, adeus!

Era cruel, devo confessar.

o conde tinha, felizmente, muito boa educação e um excelente carácter. Limitou-se a beijar a mão que Margarida lhe estendia distraidamente e a sair depois de nos cumprimentar.

No momento em que transpunha a porta, olhou para Prudência.

Esta encolheu os ombros com um modo que significava: Que quer? Fiz tudo quanto pude."

--Nanine!--bradou Margarida.--Alumia o senhor conde.

ouvimos abrir e fechar a porta.

--Enfim! - exclamou Margarida, reaparecendo.--Foi-se; este rapaz irrita-me os nervos.

--Minha querida filha--disse Prudência--, és má deveras com o pobre; e ele sempre tão bom, tão obsequioso. Aqui está na pedra do teu fogão um relógio que ele te deu e que lhe não custou menos de mil escudos, tenho a certeza.

E a Sr.a Duvernoy, que se aproximara do fogão, brincava com o objecto em que falava e lançava-lhe uns olhares ardentes de cobiça.

--Minha querida -- replicou Margarida, sentando-se ao piano -- quando peso de um lado o que o conde me dá e do outro o que ele me diz, acho que me paga as visitas muito barato.

--o pobre rapaz está apaixonado por ti.

--Se tivesse de dar atenção a todos os que estão apaixonados por mim, não dispunha de tempo nem para jantar.

E correu os dedos pelo piano. Depois, voltando-se, disse-nos:

--Querem tomar alguma coisa? Eu não desgostava de tomar um ponche.

--E eu de comer uma perna de galinha--declarou Prudência--; se nós ceássemos?

Assentiu Gastão.

--Está dito, vamos cear.

--Não, não; ceamos aqui.

Tocou a campainha. Apareceu Nanine.

--Manda vir uma ceia.

--o que hei-de mandar buscar?

--o que quiseres. Mas já, sem demora.

Nanine saiu.

--Isso mesmo --proferiu Margarida, pulando como uma criança -- vamos cear. Sempre é muito maçador o pateta do conde!

Quanto mais eu via esta mulher, mais me enlevava. Tinha uma formosura de endoidecer. Até na sua magreza havia sedução.

Eu estava extático.

Custar-me-ia a explicar o que se passava em mim. Sentia-me cheio de indulgência pela sua vida, cheio de admiração pela sua beleza. A prova de desinteresse que ela dava, não aceitando um homem novo, elegante e rico, pronto a arruinar-se por ela, desculpava-lhe, aos meus olhos, todos os erros passados.

Havia naquela mulher como que uma certa candura. Via-se que estava ainda na virgindade do vício. o seu andar firme, a sua estatura flexível, as suas narinas róseas e abertas, os seus grandes olhos em torno dos quais corria ligeiramente uma penumbra azul, denotavam uma dessas naturezas ardentes que espalham em torno de si um perfume de voluptuosidade, como os frascos do oriente que, por mais bem fechados que estejam, deixam fugir o perfume que encerram.

Enfim, ou por natureza, ou em consequência do seu estado mórbido, passavam de quando em quando pelos olhos de Margarida relâmpagos de desejo cuja expansão seria uma revelação do Céu para quem ela amasse. Mas os que haviam amado aquela rapariga já não tinham conta, e os que ela amara ainda não podiam contar-se.

Em resumo, reconhecia-se em Margarida a virgem que um acaso perdera, e a perdida que outro acaso transformaria em virgem mais enamorada e mais pura. Havia também nela orgulho e independência: dois sentimentos que, em sendo feridos, são capazes de fazer o mesmo que o pudor. Eu não pronunciava palavra, dir-se-ia que a alma me passara toda para o coração e o coração para os olhos.

--Então--tornou ela de súbito--era o senhor que vinha saber notícias minhas quando eu estava doente?

--Era.

--Sabe que é uma bonita acção? E que hei-de fazer para lhe mostrar o meu agradecimento?

--Dar-me licença de a visitar de tempos a tempos.

--Quantas vezes quiser, das cinco às seis, das onze à meia-noite. olhe lá, Gastão, toque o Convite à valsa.

--Para quê?

--Para me dar prazer em primeiro lugar, e depois porque não sou capaz de o tocar sozinha.

--Então que é que a atrapalha?

--A terceira parte, a passagem em sustenido.

Gastão levantou-se, dirigiu-se para o piano e principiou a tocar essa maravilhosa melodia de Weber, cuja música estava aberta na estante. Margarida, com uma das mãos pousada no piano, olhava para o caderno da música, seguia cada nota que acompanhava baixinho com a voz e, quando Gastão chegou à passagem que ela lhe indicara, cantarolou correndo os dedos pelas costas do piano:

--Ré, mi, ré, dó, fá, mi, ré, aí está o que eu não posso fazer. Torne a principiar.

Gastão recomeçou, e depois Margarida disse-lhe:

--Agora deixe-me experimentar.

Tomou o lugar dele e tocou também; mas os seus dedos rebeldes enganavam-se sempre numa das notas que acabo de indicar.

--Incrível--declarou ela, com verdadeira intonação de criança--que eu não consiga tocar esta passagem! Querem acreditar que estou às vezes até às duas horas da manha a martelar este trecho? E quando me lembra que o pateta do conde o toca sem música e admiravelmente, chego a convencer-me de que é por isso que me dano com ele.

E recomeçou, sempre com o mesmo resultado.

--os diabos levem Weber, a música e o piano! --exclamou,

atirando com o caderno pelos ares.-Pode admitir-se que eu não seja capaz de tocar oito sustenidos a fio?

E cruzava os braços, olhando para nós e batendo o pé.

Subiu-lhe o sangue às faces e entreabriu-lhe os lábios uma ligeira tosse.

--Vamos, vamos!--disse Prudência, que tirara o chapéu e alisava os bandós diante do espelho.-Não te exaltes, que te faz mal; vamos cear, que sempre é melhor; estou a morrer de fome.

Margarida tocou de novo a campainha. Depois tornou a sentar-se ao piano e começou a cantar a meia voz uma canção libertina em cujo acompanhamento não se atrapalhou.

Gastão sabia essa canção e cantaram-na numa espécie de dueto.

--Não cante essas indecências--disse eu familiarmente a Margarida e em tom de súplica.

--Ah! Como é casto!--tornou-me ela, sorrindo e estendendo-me a mão.

--Não é por mim, é por si.

Margarida fez um gesto que parecia dizer: "oh! Eu há muito tempo que atirei a castidade pela janela fora.

Naquele momento apareceu Nanine.

--Está pronta a ceia?--perguntou Margarida.

--Sim, minha senhora, não tarda.

--A propósito--disse Prudência--, ainda não viu a casa; venha, que eu mostro-lha.

Como sabe, o salão era uma maravilha.

Margarida acompanhou-nos um bocado. Depois chamou Gastão e dirigiu-se com ele para a sala de jantar, a ver se a ceia estava pronta.

--olha!--exclamou em voz alta Prudência, tirando uma figura de Saxe de uma prateleira.--Não te conhecia este sujeito.

--Qual?

--Um pastor que tem na mão uma gaiola com um pássaro.

--Se gostas, leva-o.

--Não te quero privar...

--Eu tencionava dá-lo à minha criada, porque o acho horrível; mas, se te agrada, leva-o.

Prudência só viu o presente e não o modo como era feito. Pôs o seu pastor de banda e levou-me ao quarto de vestir, onde, mostrando-me duas miniaturas colocadas uma defronte da outra, disse:

--Este é o conde de G... que esteve apaixonadíssimo por Margarida. Foi ele que a lançou nesta vida. Conheceu-o?

--Não. E este?--perguntei, apontando a outra miniatura.

-- o visconde de L. . . Teve de se safar.

--Porquê?

--Porque estava quase arruinado. Pois gostava deveras de Margarida!

--E ela decerto gostava muito dele.

--Uma rapariga tão original, que nunca a gente sabe o que há-de pensar a seu respeito. Na noite do dia em que ele se foi embora, estava no teatro como de costume, e no entanto tinha chorado no momento da partida.

Quando entrámos na sala de jantar, Margarida estava encostada à parede, e Gastão, segurando-lhe nas mãos, falava-lhe em voz baixa.

--Está doido--respondia-lhe Margarida.--Sabe perfeitamente que o não quero para nada. Quando se conhece durante dois anos uma mulher como eu, não é no fim desse tempo que se lhe pede para se ser seu amante. As mulheres como nós ou nos entregamos logo ou nunca. Vamos, meus senhores, para a mesa.

E, escapando-se das mãos de Gastão, Margarida fê-lo sentar-se à sua direita e a mim à sua esquerda. Depois disse a Nanine:

--Antes de te sentares, recomenda lá dentro que não abram a porta se ouvirem tocar a campainha.

Esta recomendação era feita à uma hora da manha.

Bebeu-se muito, não se comeu pouco e houve risadas à farta naquela ceia. No fim de alguns instantes a jovialidade descera aos seus últimos limites, as palavras que uma certa roda acha galhofeiras e que emporcalham sempre a boca que as diz, estalavam de tempos a tempos com grandes aclamações de Nanine, de Prudência e de Margarida. Gastão divertia-se francamente;

era um rapaz de excelente coração mas cujo espírito fora falseado pelos primeiros hábitos. Durante um momento quisera atordoar-me, tornar o coração e o pensamento indiferentes ao espectáculo que tinha diante dos olhos, e participar daquela alegria que parecia um dos manjares da refeição. Mas a pouco e pouco isolara-me dessa bulha, deixara de despejar o meu copo e quase entristecera ao ver essa gentil criatura de vinte anos beber, falar como um marujo e rir com tanto mais gosto quanto mais escandaloso era o que se dizia.

Contudo, essa alegria, esse modo de falar e de beber que me pareciam nos outros convivas resultados da devassidão, do hábito ou da força, em Margarida considerava-os uma necessidade de esquecer, uma febre, uma irritabilidade nervosa. A cada copo de vinho de Champanhe, cobriam-se-lhe as faces de uma vermelhidão febril, e a ligeira tosse que se manifestara no princípio da ceia, tornara-se afinal tão forte, que a obrigava a deitar a cabeça para as costas da cadeira e a comprimir o peito com as mãos, todas as vezes que um novo acesso a sacudia.

Penalizava-me o mal que deviam fazer àquela frágil organização tais excessos quotidianos.

Sucedeu, finalmente, uma coisa que eu previra e receava.

Quando a ceia se aproximava do seu termo, Margarida teve o mais forte acesso de tosse desde que eu entrara. Parecia que o seu peito se dilacerava interiormente. A pobre rapariga fez-se cor de púrpura, fechou os olhos com a dor e levou aos lábios o guardanapo que uma gota de sangue avermelhou. Então levantou-se e correu para o seu quarto de vestir.

--Que tem Margarida?--perguntou Gastão.

--Que tem? Riu-se de mais, e está a deitar sangue pela boca.

Não é nada, acontece-lhe isto todos os dias. Não tarda aí.

Deixemo-la só, que é o que ela prefere.

Eu é que não me pude conter e, com grande espanto de Prudência e de Nanine, que me chamavam, fui ter com Margarida.

O quarto onde ela se refugiara estava apenas iluminado por uma vela posta em cima de uma mesa. Recostada num grande canapé, com o vestido aberto, tinha uma das mãos sobre o coração e a outra pendente. Em cima da mesa achava-se uma bacia de prata meia de água, na qual se viam fios de sangue.

Margarida, muito pálida e com a boca entreaberta, procurava respirar. De vez em quando soltava um longo suspiro, que, ao exalar-se, parecia aliviá-la um pouco e a deixava durante segundos numa sensação de bem-estar.

Aproximei-me, sem que ela fizesse um movimento; sentei-me e peguei na mão que descansava no canapé.

--Ah! Estava aí!--disse-me com um sorriso.

Parece que eu tinha o rosto desfigurado, pois Margarida acrescentou:

--Também está doente?

--Não; mas diga-me: continua a sofrer?

--Muito pouco--e enxugou com um lenço as lágrimas que a tosse fizera afluir-lhe aos olhos--; agora já estou acostumada a isto.

--Mata-se, minha senhora--disse-lhe então, com voz comovida-- bem desejava ser seu parente, seu amigo, para a impedir de cometer tantas imprudências.

--Ah! Não vale a pena assustar-se--replicou ela, em tom um pouco amargo.--Veja se os outros se importam. Sabem perfeitamente que este mal não tem cura.

Em seguida levantou-se, pegou na vela, foi pô-la em cima da pedra do fogão e viu-se ao espelho.

--Como estou pálida!--exclamou, acolchetando o vestido e passando os dedos pelos cabelos despenteados.--ora adeus!

Vamos para a mesa. Vem daí?

Mas eu tinha-me sentado e não me mexia.

Compreendeu a comoção que esta cena me causara, porque se aproximou de mim e disse-me, estendendo-me a mão.:

--Então! Venha.

Peguei-lhe na mão, beijei-a, molhando-a involuntariamente com duas lágrimas por muito tempo reprimidas.

--Sempre é muito criança!--disse ela, sentando-se ao pé de mim.--Está a chorar! Que tem?

--Pareço-lhe decerto muito piegas, mas o que acabo de ver causou-me um mal atroz.

--Que bondade a sua! Mas que quer? Eu não posso dormir, não tenho remédio senão distrair-me um pouco. E depois, raparigas como eu... mais uma, menos uma, que importa? Dizem-me os médicos que o sangue que eu deito pela boca vem dos brônquios.

Eu finjo que os acredito, e não posso fazer mais para lhes ser agradável.

--Ouça!--tornei-lhe, com uma expansão que não pude reprimir.--Ignoro qual será a influência que há-de exercer na minha vida, mas o que sei é que não há neste momento uma única pessoa, nem mesmo minha irma, por quem me interesse tanto como pela Margarida. E este sentimento data da primeira vez em que a vi. Pois bem, em nome do Céu, peço-lhe que se trate e que não continue com esta vida.

--Se me tratasse, morria. o que me sustenta é esta vida febril que levo. Depois, isso de tratamento é bom para as senhoras sérias, que têm família, que têm` amigos; mas nós, desde que não podemos servir nem para a vaidade, nem para o prazer dos nossos amantes, vemo-nos abandonadas, e as longas noites sucedem-se aos longos dias. Eu bem o sei, pois estive dois meses de cama; ao fim de três semanas, já ninguém me procurava.

--Bem sei que lhe não sou na; a --disse-lhe eu--, mas, se quisesse, minha senhora, tratava-a como um irmão, não a deixava e havia de a curar. Quando tivesse recuperado as forças, voltaria para este viver que leva agora, se assim o desejasse; mas, estou certo disso, preferiria uma existência tranquila que a faria mais feliz e lhe conservaria a beleza.

--Pensa assim esta noite, porque o vinho lhe dá tristeza; mas aposto que não teria a paciência de que se gaba.

--Permita-me que lhe lembre, Margarida, que esteve doente dois meses e que durante esse tempo vim todos os dias saber notícias suas.

--É verdade. Mas porque não subia?

--Porque não era seu conhecido.

--Com uma rapariga como eu não se faz cerimónia.

--Faz-se sempre cerimónia com uma mulher; pelo menos é essa a minha opinião.

--Então tratava-me?

--Tratava.

--Passava todos os dias comigo?

--Passava.

--E todas as noites?

--Enquanto a não enfastiasse.

--Que nome dá a tudo isso?

--Dedicação.

--E donde vem essa dedicação?

--Da simpatia irresistível que me inspira.

--Está então apaixonado por mim? Diga-o já, que é muito mais simples.

--É possível, mas, se tiver de lho dizer um dia, não há-de ser hoje.

--o melhor é não mo dizer nunca.

--Porquê?

--Porque dessa confissão só podem resultar duas coisas.

--Quais?

--ou eu não aceitar, e ficar de mal comigo, ou aceitá-lo e o senhor ficar com uma triste amante: uma mulher doente, nervosa, triste, ou alegre com uma alegria mais triste do que a tristeza; uma mulher que está sempre a deitar sangue pela boca e gasta cem mil francos por ano. É muito bom para um velho ricaço como o duque, mas bem fastidioso para um rapaz como Armando. E a prova é que todos os rapazes que tenho tido por amantes me deixaram depressa.

Eu não respondia, escutava. Essa franqueza, que era quase uma confissão, essa vida dolorosa que eu entrevia debaixo do véu dourado que a mascarava e a cuja triste realidade a pobre rapariga fugiu lançando-se na devassidão, na embriaguez e na insónia, tudo isso me impressionava tanto, que não atinava com uma palavra.

--Bom! --continuou Margarida.-- Estamos a dizer criancices.

Dê-me cá a sua mão e vamos para a sala de jantar. É bom que se ignore o que significa a nossa ausência.

--Vá, se quiser; mas peço-lhe licença para ficar aqui.

--Porquê?

--Porque a sua alegria faz-me mal.

--Prometo-lhe estar triste.

--olhe, Margarida, deixe-me dizer-lhe uma coisa, que decerto lhe têm dito muita vez, e que o hábito de ouvir a impedirá talvez de acreditar, mas que nem por isso é menos verdadeira e que eu talvez nunca lhe repita.

--Que é?...--perguntou ela com o sorriso que anima as jovens mães quando escutam uma loucura de seus filhos.

--É que, desde que a vi, não sei como nem porquê, tem ocupado um lugar na minha vida; é que, por mais que eu expulsasse a sua imagem do meu pensamento, ela aí voltava sempre; e que, ainda hoje, quando a encontrei depois de passar dois anos sem a ver, adquiriu no meu coração e no meu espírito um ascendente maior que nunca; é que, enfim, agora que me recebeu, que a conheço, que sei tudo quanto há de estranho na sua individualidade, se tornou indispensável para a minha existência, e que enlouquecerei não só se me não amar, mas se me não deixar amá-la.

--O desgraçado! Dir-lhe-ei o que dizia a senhora D...: então é muito rico! Mas não sabe que eu gasto, pelo menos, seis a sete mil francos por mês e que esta despesa se tornou necessária à minha vida? Que o arruinava em dois dias e que a sua família tinha de o dar por pródigo para lhe tirar o gosto de viver com uma criatura como eu? Goste muito de mim como bom amigo, mas doutro modo não. Venha visitar-me para rirmos, para conversarmos, mas não exagere o que eu valho, porque não valho muito. Tem um bom coração, precisa de ser amado, mas a sua mocidade e a sua sensibilidade tornam-no incapaz de viver no nosso mundo. Arranje uma mulher casada. Tá vê que sou boa rapariga e que lhe falo francamente.

--Que diabo estão vocês aqui a fazer?--bradou Prudência, que não tínhamos sentido entrar e que aparecia no limiar do toucador, com o cabelo em desalinho e o vestido um pouco desacolchetado.

Vi logo que esse desarranjo era obra de Gastão.

--Estamos a conversar em coisas sérias--disse

Margarida.--Deixa-nos, que já lá vamos.

--Bem! Bem! Conversem, meus filhos -- respondeu Prudência, indo-se embora e fechando a porta para acentuar mais o tom em que pronunciara as suas últimas palavras.

--Pronto, está arrumado --tornou Margarida quando ficámos sós--, já não gosta de mim.

--Sairei de Paris.

--Pois as coisas estão neste ponto?

Tinha-me adiantado tanto, que já não podia recuar, e, demais, essa rapariga transtornava-me. Esse misto de alegria, de tristeza, de candura, de prostituição, até essa doença que decerto desenvolvia a sensibilidade das suas impressões da mesma forma que a irritabilidade dos nervos, tudo me fazia compreender que, se logo à primeira eu não adquirisse império sobre essa índole leviana e fácil no esquecimento, estava perdida para mim.

--Mas então fala sério?--perguntou ela.

--Muito sério.

--Porque mo não disse mais cedo ?

--Quando havia de lho dizer?

--No dia seguinte àquele em que me foi apresentado na opera Cómica.

--Estou convencido de que me receberia muito mal, se eu tivesse cá vindo.

--Porquê?

--Porque me portara estupidamente na véspera.

--Isso é verdade. Já me tinha amor nessa época?

--Tinha.

--o que o não impediu de ir deitar-se e dormir muito sossegado depois do espectáculo. Bem sabemos o que são esses grandes amores.

--Pois está perfeitamente enganada. Sabe o que fiz na noite da pera Cómica?

--Não.

--Esperei-a à porta do Café Inglês. Segui a carruagem em que saiu, com os seus três amigos, e, quando a vi apear-se e entrar sozinha em casa, fiquei bem feliz.

Margarida desatou a rir.

--De que se ri?

--De nada.

--Diga-mo, peço-lhe, senão acreditarei que continua a brincar comigo.

--Não se zanga?

--Com que direito me havia de zangar?

--Pois bem, havia uma excelente razão para que eu entrasse sozinha em casa.

--Qual era?

--Estava lá alguém à minha espera.

Se ela me houvesse dado uma facada, não me teria feito tanto mal. Levantei-me e, estendendo-lhe a mão, disse:

--Adeus !

--Eu bem sabia que se zangava. os homens querem sempre saber por força o que deve magoá-los.

--Mas asseguro-lhe --acrescentei friamente, como se pretendesse provar que me encontrava curado para sempre da minha paixão--, asseguro-lhe que não estou zangado. Era naturalíssimo que alguém a esperasse, como é naturalíssimo que eu me vá embora às três da manha.

--Também tem alguém que o espere em sua casa?

--Não, mas preciso de me retirar.

--Então adeus.

--Põe-me fora?

--Nem por sombras.

--Para que me magoou, nesse caso?

--Como é que o magoei?

--Dizendo-me que estava alguém à sua espera.

--Não pude deixar de me rir com a ideia de se ter sentido tão

feliz por me ver entrar em casa sozinha, quando havia tão boas razões para que eu assim procedesse.

--Muitas vezes uma criancice causa-nos grande alegria, e é uma maldade destruí-la, quando, deixando-a subsistir, se pode tornar ainda mais feliz aquele que a sente.

--Mas então com quem pensa que está a tratar? Nem sou uma virgem nem uma duquesa. Conheço-o apenas desta noite e não lhe devo contas das minhas acções.

Admitindo que eu venha a ser um dia sua amante, é preciso que saiba que tenho tido muitos outros amantes. Se já me faz cenas de ciúmes antes, o que será depois, se esse depois vier a existir? Nunca vi um homem assim.

--Porque nunca ninguém a amou como eu.

--Francamente, ama-me, então, muito?

--O mais que se pode amar, creio.

--E isso dura desde?...

--Desde uma vez que a vi apear-se de uma caleça e entrar no Susse, há três anos.

--Galante, sabe? Mas que hei-de eu fazer para me mostrar agradecida por tão vivo amor?

--Amar-me um poucochinho --respondi com uma palpitação no coração que chegava quase a não me deixar falar; porque, apesar dos sorrisos semizombeteiros com que acompanhara toda esta conversa, parecia-me que Margarida principiava a partilhar a minha perturbação, e que se aproximava a hora que há tanto tempo eu esperava.

--Sim, e o duque?

--Qual duque?

--o meu velho ciumento.

--Não saberá coisa alguma.

--E se souber?

--Perdoa-lhe.

. Qual história! Abandona-me. E que será feito de mim?

--Então não se arrisca por causa de outros a ser abandonada?

--Como o sabe?

--Porque a ouvi recomendar que não deixassem entrar esta noite pessoa alguma.

--Verdade; mas esse a quem me referia é um amigo sério.

--Com quem se não importa muito, tanto assim que lhe proíbe a entrada a estas horas.

--Não mo deve censurar, porque foi para os receber, a si e ao seu amigo.

A pouco e pouco aproximara-me de Margarida, passara-lhe os braços em torno da cintura e sentia o seu corpo flexível pesar ligeiramente nas minhas mãos unidas.

--Se soubesse como a amo!--dizia-lhe em voz baixa.

--Deveras?

--Juro-lhe.

--Pois bem! Se me promete fazer todas as minhas vontades, sem me dizer uma palavra, sem me fazer uma observação, sem me interrogar, talvez eu o ame também.

--Juro o que quiser.

--Mas já o previno de que quero fazer tudo o que me der na cabeça, sem lhe dar satisfações acerca da minha vida. Há muito tempo que procuro um amante moço, sem vontade, apaixonado sem desconfiança, amado sem direitos. Nunca o pude encontrar. Os homens, em vez de se darem por satisfeitos quando se lhes concede por muito tempo o que eles mal esperavam alcançar uma vez só, pedem então à sua amante contas do presente, do passado, e até do futuro. A medida que se vão habituando a ela, querem dominá-la, e são exigentíssimos exactamente quando se lhes dá tudo quanto eles desejam. Se me resolver a tomar agora um novo amante, exigirei que ele possua três qualidades bem raras: confiança, submissão e discrição.

--Terei tudo o que quiser.

--Veremos.

--E quando o veremos?

--Daqui a dias.

--Daqui a dias porquê?

--Porque sim--disse Margarida, soltando-se dos meus braços e tirando de um grande ramalhete de camélias vermelhas que lhe tinham trazido pela manha, uma flor que me meteu na botoeira--, porque nem sempre se podem executar os tratados no dia em que se assinam.

Era fácil de compreender.

--E quando a torno a ver?--inquiri, apertando-a nos meus braços.

--Quando esta camélia mudar de cor.

--E quando sucederá isso?

--Amanha, das onze para a meia-noite. Contente? --Ainda mo pergunta?

--Nem uma palavra de tudo isto, nem ao seu amigo, nem a Prudência, nem a ninguém.

--Prometo-lho.

--Agora dê-me um beijo e vamos para a sala de jantar.

Estendeu-me os lábios, alisou de novo a cabelo, e saímos desse quarto, ela a cantar, eu meio doido.

A entrada da sala parou e disse-me em voz baixa:

--Há-de parecer-lhe estranho que eu me mostre assim pronta a aceitá-lo de um momento para o outro. Sabe qual o motivo?

Depois, pegando-me na mão e pondo-a em cima do seu coração, cujas palpitações violentas e repetidas senti, continuou:

--Que, como hei-de viver menos tempo do que as outras, jurei que havia de viver mais depressa.

--Não me fale assim, suplico-lhe.

--oh! Console-se--continuou ela rindo.--Por muito pouco tempo que eu viva, sempre hei-de viver mais que o seu amor.

E entrou, a cantar, na sala.

--onde está Nanine?--perguntou, vendo Gastão e Prudência sós.

--A dormir no teu quarto, esperando que te vás

deitar--respondeu Prudência.

--Desgraçada! Dou cabo dela! Vamos, meus senhores, retirem-se, que são bem horas.

Dez minutos depois, eu e Gastão saímos. Margarida deu-me um aperto de mão e ficou só com Prudência.

--Então -- perguntou-me Gastão quando chegámos à rua--, que dizes de Margarida?

--Um anjo e estou doido por ela.

--Já o suspeitava; disseste-lho?

--Disse.

--E ela prometeu-te alguma coisa?

--Não.

--Já a Prudência não é a mesma coisa.

--Prometeu?

--Fez mais, meu caro! E olha que não é má gordanchuda da Prudência, embora o pareça!

Quando chegou a este ponto da sua história, Armando interrompeu-se.

--Faz-me o favor de fechar a janela?--pediu ele. --Entretanto, vou deitar-me. Começo a sentir frio.

Fechei a janela. Armando, que estava ainda muito fraco, tirou o roupão e meteu-se na cama, deixando durante alguns instantes poisar a cabeça no travesseiro como um homem cansado por longo passeio, ou agitado por penosas recordações.

--Deve ter falado de mais--disse-lhe.--Quer que me vá embora e o deixe dormir? outro dia me contará o fim da sua história.

--Aborrece-o?

--Pelo contrário.

--Então vou continuar; se me deixasse só, não dormi.

Quando entrei na minha casa--recomeçou ele sem precisar de se concentrar, tão presentes estavam ainda no seu pensamento todos esses pormenores-não me deitei; pus-me a reflectir na aventura daquele dia. o encontro, a apresentação, o compromisso de Margarida para comigo, tudo fora tão rápido, tão inesperado, que em certos momentos me parecia ter sonhado. Não era, contudo, a primeira vez que uma rapariga como Margarida prometia entregar-se a um homem no dia seguinte àquele em que ele lhe fazia esse pedido.

Por mais que insistisse nesta reflexão, a primeira impressão que a minha futura amante me fizera, continuava a subsistir.

Teimava em não a ter na conta de uma rapariga como as outras e, com a vaidade tão comum a todos os homens, estava pronto a acreditar que ela partilhava invencivelmente por mim a atracção que eu sentia por ela.

Contudo, eu tinha diante dos olhos exemplos bem contraditórios e ouvira dizer muitas vezes que o amor de Margarida se tornara um artigo mais ou menos raro, segundo a estação.

Por outro lado, porém, como havia de conciliar essa reputação com as negativas continuadas de que era vítima o jovem conde que tínhamos encontrado em casa dela? Dir-me-á que o conde lhe desagradava e que, como o duque pagava esplendidamente, se resolvesse arranjar outro amante, preferiria um homem com quem simpatizasse. Mas então porque não aceitava ela Gastão, bonito rapaz, espirituoso e rico, e parecia aceitar-me a mim, que achara tão ridículo a primeira vez que me vira?

Verdade que há incidentes de um minuto que valem mais que a corte de um ano.

De quantos estávamos na ceia, fora eu o único que se incomodara quando ela se levantou da mesa. Seguira-a tão comovido, que o não pudera ocultar; chorei ao beijar-lhe a mão. Esta circunstância, reunida com as minhas visitas quotidianas durante os dois meses da sua doença, levara-a talvez a ver em mim um homem diferente dos que conhecera até então, e é possível que se julgasse capaz de fazer por um amor, que se exprimia daquela maneira, o que tantas vezes fizera por outros, sem receio de quaisquer consequências.

Todas estas suposições, como vê, eram bastante verosímeis; mas qualquer que fosse a razão do seu consentimento, havia uma coisa certíssima: consentira.

Ora eu estava apaixonado por Margarida, ia possuí-la, não lhe podia pedir mais nada. Contudo, repito-lhe, apesar de tratar-se de uma impura, eu fizera deste amor, talvez para a poetizar, um amor tão desesperado, que quanto mais se aproximava o momento em que eu nem sequer já teria necessidade de ter esperança, mais duvidava.

Não fechei os olhos toda a noite.

Nem já me conhecia. Estava meio doido. Umas vezes parecia-me que não tinha qualidades nem riqueza, nem elegância para possuir semelhante mulher; outras, sentia-me cheio de vaidade com a ideia dessa posse. Depois começava a recear que Margarida tivesse por mim apenas um capricho de alguns dias, e, pressentindo qualquer desgraça num rompimento rápido, pensei que talvez fizesse melhor em não ir nessa noite a casa dela, .e em partir comunicando-lhe por escrito os meus receios. Daí passava para esperanças sem limites, para uma confiança absoluta. Imaginava coisas incríveis. Pensava que essa rapariga me deveria a sua cura física e moral, que passaria toda a minha vida com ela, e que o seu amor me tornaria mais feliz que todos os virginais amores.

Enfim, nem lhe posso repetir os mil pensamentos que me subiam do coração ao cérebro, e que a pouco e pouco se apagaram no sono que me salteou quando já era dia claro. Acordei às duas horas. o dia estava magnífico. Que me recorde, nunca a vida me parecera tão bela nem tão cheia. As lembranças da véspera ocorriam-me ao espírito, sem sombras, sem obstáculos, e alegremente escoltadas pelas esperanças da noite. Vesti-me à pressa.

Sentia-me contente e capaz de todas as boas acções. De quando em quando pulava-me o coração de amor e de alegria. Já me não importava com as razões que me tinham preocupado antes de adormecer, via apenas o resultado, só pensava no momento em que devia tornar a ver Margarida.

Foi-me impossível ficar em casa. o meu quarto parecia-me pequeno de mais para conter a minha felicidade; precisava da natureza inteira para me expandir.

Saí.

Passei pela Rua d'Antin. o coupé de Margarida esperava-a à porta; dirigi-me para o lado dos Campos Elísios. Mesmo sem as conhecer sequer, senti ternura por todas as pessoas que encontrava.

Como o amor nos torna bons!

Havia uma hora que eu passeava dos cavalos de Marly até à meia-laranja, e da meia-laranja até aos cavalos de Marly,

quando vi de longe a carruagem de Margarida; não a reconheci, adivinhei-a.

Ao dobrar a esquina dos Campos Elísios, ela mandou parar, e um rapaz alto saiu de um grupo, onde conversava, para lhe ir falar.

Conversaram alguns instantes; o rapaz voltou para os seus amigos, os cavalos puseram-se de novo em marcha e eu, que me aproximara do grupo, pudera reconhecer no rapaz que falara com Margarida o conde de G... cujo retrato eu vira e que Prudência me designara como sendo o homem a quem Margarida devia a sua posição.

Fora a ele que ela proibira a entrada em sua casa na véspera; supus que mandara parar a carruagem para lhe explicar a razão de tal atitude, e tive a esperança de que ao mesmo tempo inventasse novo pretexto para não o receber na noite seguinte.

Como se passou o resto do dia, ignoro-o completamente; andei, fumei, conversei, mas do que disse, das pessoas que encontrei, não tinha às dez horas da noite a mínima lembrança. Apenas me recordo de que fui para casa, passei três horas a arranjar-me e a preparar-me e olhei cem vezes para o meu relógio de algibeira e para o de parede que havia no meu quarto. Infelizmente estavam certos um pelo outro.

Quando deram dez horas e meia, pensei que era tempo de partir.

Eu morava nessa época na Rua de Provença. Segui a Rua de Monte Branco, atravessei o Boulevard, tomei pela Rua de Luís-o-Grande, Rua de Porto Mahon e cheguei à Rua d'Antin. olhei para as janelas de Margarida. Havia luz.

Toquei à campainha.

Perguntei ao porteiro se Margarida estava em casa Respondeu-me que nunca regressava antes das onze horas ou onze e um quarto.

olhei para o meu relógio.

Julgava ter vindo muito devagar, e afinal gastara apenas cinco minutos a percorrer o trajecto da Rua de Provença a casa de Margarida.

Então comecei a passear nesta rua sem lojas e, a essas horas, deserta.

Daí a meia hora Margarida chegou. Apeou-se do seu coupé, olhando em torno de si como se procurasse alguém.

A carruagem afastou-se a passo, porque a cavalariça e a cocheira não eram no prédio. No momento em que Margarida ia tocar a campainha, aproximei-me e saudei-a:

-- Olá, Mademoiselle! -- Ah! É o senhor?--exclamou ela num tom que não mostrava grande prazer em encontrar-me ali.

--Não me autorizou a vir hoje visitá-la?

--É verdade; tinha-me esquecido.

Estas palavras lançavam por terra todas as minhas reflexões daquela manha, todas as esperanças que acalentara durante o dia. Contudo, principiava a habituar-me a essas maneiras, e não me fui embora, o que, evidentemente, teria feito dias antes.

Entrámos.

Nanine abrira a porta.

--Prudência já está em casa?--perguntou Margarida.

--Não, minha senhora.

--Vai lá dizer que venha cá logo que chegue. Antes de ires, apaga o candeeiro da sala e, se vier alguém, responde que ainda não regressei a casa nem regressarei esta noite.

Via-se claramente que algo preocupava Margarida ou talvez a aborrecera qualquer importuno. Eu não sabia como agir nem que dizer. Ela dirigiu-se para o lado da sua alcova; eu fiquei onde estava.

--Venha--convidou-me Margarida.

Tirou c chapéu e a capa de veludo que arremessou para cima da cama. Depois deixou-se cair numa grande poltrona ao pé do lume, que conservava aceso até ao princípio do Verão, e perguntou, brincando com a corrente do relógio:

--Então que me diz de novo?

--Nada, a não ser que fiz mal em vir esta noite.

--Porquê ?

--Porque parece contrariada, e é muito natural que eu a aborreça.

--Não me aborrece. o que estou é doente. Passei um dia horroroso, não dormi e tenho uma enxaqueca atroz.

--Quer que eu me retire para se meter na cama? --Oh! Pode deixar-se estar. Se eu quiser deitar-me, deito-me perfeitamente diante de si.

Naquele momento tocaram a campainha.

--Quem vem por aí ainda?--exclamou ela, com um movimento de impaciência.

Instantes depois tocaram de novo.

--Não há ninguém que vá abrir; tenho de ir eu mesma.

Efectivamente levantou-se, dizendo-me:

--Espere aqui.

Atravessou a casa, e senti abrir-se a porta da entrada. Pus o ouvido à escuta. A pessoa a quem ela abrira a porta parou na sala de jantar. As primeiras palavras reconheci logo a voz do jovem conde de N. . .

como está esta noite?--inquiria ele.

--Mal--respondeu secamente Margarida.

--Incomodo-a ?

--Talvez.

--Como me recebe! Que mal lhe fiz eu, minha querida Margarida?

--Meu caro amigo, não me fez nada. Estou doente, preciso de me deitar; peço-lhe, pois, que tenha a bondade de ir-se embora.

Isto de não poder entrar à noite em minha casa sem o ver aparecer cinco minutos depois incomoda-me sobremaneira. Que quer? Que eu seja sua amante? Já lhe disse cem vezes que não, que me aborrece horrorosamente e que pode ir bater a outra porta. Repito-lhe hoje pela última vez: não o quero para nada.

Fica entendido. Agora adeus. olhe, aí vem Nanine que o vai alumiar. Boas noites !

E sem acrescentar mais palavra, sem escutar o que o pobre rapaz balbuciava, ela voltou para o quarto e fechou violentamente a porta por onde também Nanine entrou quase logo.

--Ouve bem --disse-lhe Margarida--, hás-de dizer sempre a esse pedaço de asno que não estou em casa, ou que o não quero receber. Sinto-me cansada, afinal, de ver constantemente certos tipos que me vêm pedir a mesma coisa, que me pagam e se julgam quites comigo. Se as mulheres que entram no nosso vergonhoso ofício soubessem o que isto é, faziam-se criadas de servir. Mas qual! Arrasta-nos a vaidade de termos vestidos, carruagens, diamantes; acredita-se no que se ouve, e a pouco e pouco se vai gastando o coração, o corpo, e a beleza; inspiramos o terror que inspiram as feras, o desprezo que se vota aos parvos. Não nos cerca senão uma gente que sempre nos tira mais do que nos dá, e um belo dia rebentamos como cães vadios, depois de perdermos os outros e nos perdermos a nós próprias.

--Então, minha senhora, sossegue!--aconselhou Nanine.—Está hoje muito nervosa.

--Este vestido abafa-me --tornou Margarida, arrancando os colchetes do corpete--; dá-me um penteador. Então, essa Prudência?

--Ainda não tinha vindo, mas assim que ela chegar mandam-na cá à senhora.

--Aí temos outra--continuou Margarida, despindo o vestido e envergando um penteador--, aí temos outra que quando precisa de mim não me larga e que não é capaz de me prestar desinteressadamente um serviço qualquer. Sabe que espero a resposta esta noite e que a quero por força, que estou inquieta, e tenho a certeza de que se foi divertir sem se importar comigo para nada.

--Talvez a demorassem.

--Manda-me um ponche.

--Minha senhora--disse Nanine--, não sabe que lhe faz mal?

--Deixa fazer. Traz também fruta, um empadão ou uma asa de frango, uma coisa qualquer, enfim; mas já, que estou com fome.

Escuso de lhe dizer a impressão que aquela cena me causava.

Adivinha-a, no é verdade?

--Vai cear comigo--disse-me ela.--Entretanto, pegue num livro, que eu demorar-me-ei um momento no meu quarto de vestir.

Acendeu as velas de um candeeiro, abriu uma porta que ficava aos pés da cama e saiu.

Fiquei a pensar na vida daquela rapariga e o meu amor cresceu com a piedade que me inspirou.

Passeava no quarto a cismar, quando Prudência entrou.

--Olá! Por aqui?--exclamou ela.--onde está Margarida?

--No quarto de vestir.

--Então espero-a. Sabe que ela gosta imenso do senhor?

--Não sabia.

--Ela não lhe disse nada?

--Não.

--Então que vem cá fazer?

--Venho visitá-la.

--A meia-noite?

--Isso que tem?

--Maganão !

--Pois olhe! Margarida recebeu-me muito mal.

--Verá que o recebe agora melhor.

--Parece-lhe?

--Trago-lhe uma boa notícia.

--Estimo. Então ela falou-lhe em mim?

--Ontem à noite, ou antes, hoje de madrugada, quando o Armando saiu com o seu amigo... A propósito: esse seu amigo como está?

Chama-se Gastão R. . . , não é?

--Exactamente--respondi, sem poder deixar de

sorrir, ao lembrar-me da confidência que Gastão me fizera e vendo que Prudência mal lhe sabia o nome.

--Um galante rapaz. Que faz ele?

--Goza vinte e cinco mil francos de renda.

--Ah! sim? Pois muito em! Voltando à vaca fria: Margarida interrogou-me a seu respeito. Perguntou-me quem era, em que se ocupava, as amantes que tinha tido; enfim, o que se pode perguntar acerca de um homem da sua idade. Eu disse-lhe tudo quanto sei, acrescentando que era um excelente e encantador rapaz, e aí está.

--Muito obrigado. Agora diga-me outra coisa: de que a incumbiu ela ontem?

--De nada. o que ela dizia era para mandar o conde em ora. Mas para hoje é que me incumbiu de uma coisa, e trago-lhe a resposta.

Neste momento saiu Margarida do quarto de vestir, trazendo uma elegantíssima touca, ornada de tufos de fitas amarelas, conhecidos nas esferas da moda por choux.

Estava encantadora.

Calçava umas chinelinhas de cetim nos pés nus e dava os últimos retoques no arranjo das unhas.

--Então--disse ela ao ver Prudência--, falaste com o duque?

--Pudera.

--E que resposta te deu? Deu-me. . .

--Quanto ?

--Seis mil.

--Trouxeste-os ?

--Trouxe.

--E mostrou-se contrariado?

--Não.

--Pobre homem!

Esse pobre homem!" foi dito num tom impossível de reproduzir. Margarida pegou nas seis notas de mil francos.

--Era tempo --disse ela. Prudência, precisas de dinheiro ?

--Filha, tu bem sabes que depois de amanha é o dia 15. Se pudesses emprestar-me trezentos ou quatrocentos francos, fazias-me um grande favor.

--Manda cá amanha pela manha. Já é tarde para mandar trocar.

--Não te esqueças.

--Fica descansada. Ceias connosco?

--Não. o Carlos está lá em casa à minha espera.

--Então continuas doida por ele?

--Nem tu imaginas, minha querida. Até amanha. Adeus, Armando.

E a Sr.a Duvernoy saiu.

Margarida abriu uma gaveta e atirou lá para dentro as notas do Banco.

--Dá-me licença que me deite? --pronunciou ela, sorrindo e dirigindo-se para a cama.

--Não só lhe dou licença, mas suplico-lho.

Atirou para os pés da cama a colcha de rendas que a co ria e deitou-se.

--Agora, venha sentar-se ao pé de mim e conversemos—convidou ela.

Prudência tinha razão. A resposta que trouxera, alegrara Margarida.

--Perdoa-me o meu mau humor desta noite? --disse, pegando-me na mão.

--Perdoo-lhe seja o que for.

--E ama-me?

--Doidamente.

--Apesar do meu mau génio?

--Apesar de tudo.

--Jura-mo?

--Se juro!--disse-lhe eu, baixinho.

Nanine entrou nesse momento, trazendo pratos, uma galinha fria, uma garrafa de bordéus, morangos e dois talheres.

--Não lhe mandei fazer ponche--informou Nanine--porque o bordéus é que lhe não faz mal. o senhor não acha?

--Decerto --respondi, ainda todo perturbado com as últimas palavras de Margarida e com os olhos ardentemente cravados no seu rosto encantador.

--Bem--ordenou ela--, põe tudo isso na mesa pequena e chega-a aqui para o pé da cama. Nós cá nos servimos. Passaste três noites em claro, hás-de estar a cair com sono. Vai-te deitar, não preciso de mais nada.

--Quer que feche a porta à chave?

--Pudera! E olha lá, não te esqueças de recomendar que amanha não deixem entrar ninguém antes do meio-dia.

Pelas cinco da manha, quando a luz do dia principiou a branquear os cortinados, Margarida disse-me:

--Vou pôr-te lá fora, perdoa; não há remédio. o duque vem todas as manhas. Quando ele aparecer, dir-lhe-ao que estou a dormir, e é provável que ele espere que eu acorde.

Agarrei na cabeça de Margarida, cujos cabelos em desalinho ondeavam em torno dela, dei-lhe um último beijo e perguntei-lhe:

--Quando te torno a ver?

--ouve--disse ela--, pega naquela chave doirada que está em cima do fogão e abre a porta. Traz-ma depois e vai-te embora.

Receberás durante o dia uma carta e as minhas ordens, pois sabes que tens te obedecer cegamente.

--E se eu já te pedisse uma coisa?

--O quê?

--Que me deixasses ficar com esta chave.

--Nunca fiz a ninguém o que me pedes.

--Mas faz-me isso a mim, pois juro que os outros não te amavam como eu te amo.

--Bem, fica com ela, mas já te previno de que só de mim depende que te não sirva para nada.

--Porquê?

--Porque a porta tem ferrolhos por dentro.

--Má!

--Mando-os tirar.

--Amas-me então um poucochinho?

--Não sei como isto foi, mas parece-me que sim. Agora vai-te embora. Estou a cair com sono.

Conservámo-nos alguns segundos nos braços um do outro e saí.

As ruas estavam desertas, a grande cidade dormia ainda, uma doce frescura corria por esses bairros que o barulho dos homens ia invadir daí a algumas horas.

Parecia-me que essa cidade adormecida era minha. Procurava na memória os nomes daqueles cuja felicidade eu até então invejara, e não me lembrava de um só sem me julgar mais feliz do que ele.

Ser amado por uma casta menina, ser o primeiro a revelar-lhe esse estranho mistério do amor, constitui, sem dúvida, uma grande felicidade, mas é a coisa mais simples deste mundo.

Apoderar-se de um coração que não está habituado aos ataques é entrar numa cidade aberta e sem guarnição. A educação, o sentimento dos deveres e a família são fortíssimas sentinelas, mas não há sentinelas tão vigilantes que as não engane uma menina de dezasseis anos a quem, pela voz do homem que ela ama, a natureza dá esses primeiros conselhos de amor tanto mais ardentes quanto mais puros parecem.

Quanto mais a donzela acredita no bem, mais facilmente se entrega, senão ao seu amante, pelo menos ao amor. Com efeito, como não desconfia, não tem força, e fazer-se amar por ela é um triunfo que qualquer homem de vinte e cinco anos poderá conseguir quando quiser. Que isto é verdade, prova-o o facto de rodearem as raparigas novas de baluartes e vigilância! Os conventos não têm muros bastante altos, as mães, fechaduras bastante fortes, a religião, deveres bastante estreitos para meter todas essas aves encantadoras na sua gaiola, sobre a qual nem sequer se dão ao trabalho de lançar flores. Por isso, como elas hão-de desejar esse mundo que se esconde, como devem escutar a primeira voz que através das grades lhe vem contar os seus segredos, e abençoar a mão que primeiro levantar uma ponta do véu misterioso!

Mas ser realmente amado por uma pecadora é batalha bem mais difícil de ganhar. Nelas o corpo gastou a alma, os sentidos queimaram o coração, a devassidão brindou os sentimentos. As palavras que se lhe dizem, sabem-nas há muito tempo, os meios que se empregam conhecem-nos, até o amor que inspiram já elas o venderam. Amam por ofício e não por entusiasmo. Guardam-nas melhor os seus cálculos do que a uma virgem a sua mãe e o seu convento. Por isso inventaram a palavra "capricho" para designar esses amores sem tráfico que têm de tempos a tempos como descanso, como desculpa, ou como consolação; assemelham-se aos usurários que põem a saque mil indivíduos, e que imaginam redimir tudo emprestando um dia vinte francos a um pobre diabo que está a morrer de fome, sem exigirem juros e sem lhe pedirem recibo.

Depois, quando Deus concede o amor a uma mulher que pecou, esse amor, que parece ao princípio um perdão, torna-se quase sempre para ela um castigo. Não há absolvição sem penitência.

Quando uma criatura, que tem o seu passado todo a acusá-la se sente de súbito salteada por um amor profundo sincero, irresistível, de que nunca se julgaria capaz, quando confessou esse amor, como o homem assim amado a domina! Como se sente forte com esse direito cruel de lhe dizer: "Não fazes por amor mais do que fazias por dinheiro".

Elas então não sabem que provas hão-de dar. Uma criança, conta a fábula, costumava divertir-se num campo a gritar "Socorro! Socorro!" para desviar uns trabalhadores das suas ocupações.

Um belo dia, porém, foi atacada por um urso e gritou, mas aqueles que com tanta frequência tinham sido enganados não acreditaram na sinceridade daquele apelo, e a fera devorou-a. Acontece o mesmo com estas desgraçadas raparigas quando amam a sério. Mentiram tanta vez, que já ninguém as quer acreditar, e são, no meio deste remorso, devoradas pelo seu amor.

Daí essas grandes dedicações, essas austeras penitências de que algumas deram o exemplo.

Mas quando o homem que inspira essa paixão redentora tem a alma bastante generosa para a aceitar sem se lembrar do passado, quando se lhe entrega, quando ama, enfim, como é amado, esgota todas as comoções terrestres, e depois desse amor o seu coração ficará fechado para outro qualquer.

Essas reflexões não as fazia eu nessa manha, ao regressar a casa, pois não poderiam ser senão o pressentimento do que me ia acontecer, e, apesar do meu amor por Margarida, não entrevia semelhantes consequências; faço-as hoje. Como está tudo irrevogavelmente acabado, resultam naturalmente do que sucedeu.

Mas voltemos ao primeiro dia desta ligação. Quando entrei em casa, sentia uma alegria louca. Ao lembrar-me de que tinham desaparecido as barreiras colocadas pela minha imaginação entre mim e Margarida, que a possuía, que ocupava um pouco do seu pensamento, que guardava na minha algibeira a chave do seu quarto e o direito de me servir dessa chave, sentia-me contente com a vida, ufano de mim próprio, e amava Deus, que me permitira tudo isto.

Um dia um rapaz passa na rua, acotovela uma mulher, olha-a, volta-se e segue o seu caminho. Não conhece essa mulher que tem prazeres, desgostos, amores de que ele não participa de modo algum. Não existe para ela, e talvez, se lhe falasse, essa mulher o escarnecesse como Margarida escarneceu de mim.

Passam-se semanas, meses e anos, e de súbito, seguindo cada um o seu destino numa ordem diferente, põe-nos a lógica do acaso em frente um do outro. A mulher de que falamos torna-se amante desse homem e ama-o! Como? Porquê? As suas duas existências confundem-se numa só, a intimidade começou e já lhes parece que existiu sempre, e tudo que precedeu se apaga da memória dos dois amantes. 1 curioso, devemos confessá-lo.

Quanto a mim, já não me lembrava como é que vivera antes da véspera. Todo o meu ser exultava de júbilo ao lembrar-me das palavras trocadas durante essa primeira noite. ou Margarida era hábil na arte de enganar, ou tinha por mim uma dessas paixões súbitas que se revelam logo no primeiro beijo, e que às vezes também, é certo, morrem como nasceram.

Quanto mais nisso pensava, mais me convencia de que Margarida não tinha razão alguma para fingir um amor que não sentisse, e que as mulheres podem amar de dois modos, resultantes, por vezes, um do outro: amam com o coração ou com os sentidos.

Frequentemente arranjam um amante apenas para obedecerem à vontade dos sentidos, e aprendem, sem o esperar, o mistério do amor imaterial, passando a viver só do coração. Quantas vezes uma rapariga procura no casamento unicamente a reunião de dois afectos puros, e recebe essa súbita revelação do amor físico, essa conclusão enérgica das mais castas impressões da alma!

Adormeci no meio desses pensamentos e fui acordado por uma carta de Margarida, carta que dizia o seguinte:

"Aí lhe mando as minhas ordens. Esta noite no Vá vill . Venha no terceiro intervalo.

Meti o bilhete numa gaveta, para ter sempre a realidade à mão, no caso de eu duvidar, como me sucedia às vezes.

Como não me dizia que a fosse ver de dia, não me atrevi a apresentar-me em casa dela; mas tinha tamanho desejo de a encontrar antes da noite, que fui aos Campos Elísios, onde, como na véspera, a vi passar para baixo e para cima.

As sete horas estava no Vaudeville.

Nunca entrara tão cedo num teatro.

Todos os camarotes se foram enchendo sucessivamente. Só se conservava vazia a frisa do proscénio.

No princípio do terceiro acto, senti abrir-se a porta dessa frisa em que eu estava com os olhos constantemente fitos, e Margarida apareceu.

Veio logo para a frente do camarote, procurou na superior, viu-me e agradeceu-me com o olhar.

Estava nessa noite maravilhosamente bela.

Era eu a causa dessa garridice? Amava-me bastante para supor que quanto mais formosa viesse mais feliz me tornaria?

Ignorava-o ainda; mas se fora essa a sua intenção, conseguira-o, pois, quando se mostrou, ondularam as cabeças umas para as outras, e o actor então em cena olhou também para aquela que assim perturbava os espectadores só com a sua aparição.

E eu tinha a chave da casa dessa mulher, que dentro de três ou quatro horas ia de novo ser minha!

Censuram-se os que se arrruínam por actrizes ou por mulheres a quem se paga. o que me espanta é que não façam por elas vinte vezes mais loucuras. É preciso ter vivido como eu essa vida para saber quando as pequenas vaidades de todos os dias que elas proporcionam ao. amante engastam fortemente no seu coração, já que não temos outra palavra, o amor que ele lhes consagra.

Prudência tomou depois lugar na frisa, e sentou-se ao fundo um homem que eu reconheci pelo conde de G. . .

Ao vê-lo senti um calafrio no coração.

Sem dúvida, Margarida reparara na impressão que me produzira a presença desse homem na sua frisa, pois sorriu-se para mim outra vez e, voltando as costas ao conde, começou a fingir que ouvia a peça com muita atenção. No terceiro intervalo voltou-se e pronunciou algumas palavras. o conde saiu do camarote e Margarida fez-me sinal para que a fosse visitar.

--Boas noites--saudou-me ela quando eu entrei. E estendeu-me a mão.

--Boas noites--disse eu, dirigindo-me a Margarida e a Prudência.

--Sente-se.

--Estou a tirar o lugar a alguém. o senhor conde de G. . . não volta?

--Volta. Mandei-o buscar doces para podermos conversar um instante a sós. A Sr.a Duvernoy está no segredo.

--Sim, meus filhos--confirmou Prudência--, mas estejam descansados, que não digo nada.

--Que tens tu esta noite?--perguntou-me Margarida, levantando-se e vindo ao fundo do camarote. E, na sombra, deu-me um beijo na testa.

--Estou um pouco incomodado.

--Vai-te deitar--disse ela com esse modo irónico que tão bem se harmonizava com a sua fina e espirituosa cabeça.

--Deitar-me onde?

--Na tua casa.

--Bem sabes que não dormia.

--Então não venhas para aqui fazer-te amuado por teres visto um homem no meu camarote.

--Não é por isso.

--É , sim, que eu bem percebo. Não tens razão, e não falemos mais em semelhante coisa. Vai, depois do espectáculo, para casa de Prudência e deixa-te lá estar até te chamarem.

Entendes?

--Sim.

Eu podia lá desobedecer!

--Ainda me amas?--perguntou ela.

--Coisa que se pergunte

--Pensaste em mim?

--Todo o dia.

--Sabes que decididamente estou com medo de estar apaixonada por ti? Pergunta antes a Prudência.

--Ah! -- respondeu a gordanchuda da Duvernoy--. Chega a ser maçador.

--Agora volta para o teu lugar. o conde não tarda e é escusado que te encontre aqui.

--Porquê?

--Porque te é desagradável vê-lo.

--Não é tal. Mas se me tivesses dito que desejavas vir ao Vaudeville esta noite, eu podia perfeitamente, como ele, mandar-te este camarote.

--Trouxe-mo, infelizmente, sem eu lho pedir, oferecendo-me a sua companhia. Como muito bem sabes, era-me impossível recusar. Apenas podia escrever-te, Armando, a comunicar-te aonde ia, para que me viesses ver, e porque eu também gostava imenso de te tornar a ver mais cedo. Mas, se é assim que me agradeces, deixa estar que aproveitarei a lição.

--Procedi mal, perdoa-me.

--ora muito bem, agora, para seres bonito, volta para o teu lugar, e principalmente não armes em sentimental.

Deu-me de novo um beijo e eu saí.

No corredor encontrei o conde, que voltava para o camarote.

Tornei para a minha cadeira.

Afinal de contas, a presença do senhor de G... no camarote de Margarida era a coisa mais simples deste mundo. Fora seu amante, oferecia-lhe um camarote, acompanhara-a ao teatro--tudo naturalíssimo; e desde que eu tinha por amante uma rapariga da classe de Margarida, não havia remédio senão aceitar-lhe os hábitos.

Isso não impediu que durante o resto da noite me considerasse um desgraçado. Quando saí do teatro estava tristíssimo, depois de ter visto Prudência e Margarida meterem-se no trem que à porta as esperava.

Todavia, um quarto de hora depois, batia à porta da Sr.a Duvernoy, que acabava de chegar.

--Chegou quase ao mesmo tempo que nós--disse-me Prudência.

--É verdade--respondi eu maquinalmente. onde está Margarida?

--Em casa.

--Sozinha?

--Com o senhor de G. . .

Comecei a passear febrilmente na sala.

--Que é que tem?

--Acha que seja muito divertido ter de estar à espera que o senhor de G... saia do quarto de Margarida?

--o Armando não é nada razoável. Veja bem que Margarida não pode pôr o conde no meio da rua. o conde de G... esteve muito tempo com ela, deu-lhe sempre muito dinheiro, e ainda lho dá.

Margarida gasta mais de cem mil francos por ano; tem muitas dívidas. o duque manda-lhe quanto ela lhe pede, mas ela é que nem sempre se atreve a pedir-lhe quanto precisa. Não pode ficar de mal com o conde, que lhe dá os seus dez mil francos por ano, pelo menos. Margarida, meu caro amigo, ama-o sinceramente; mas esta ligação, no interesse de ambos, não deve ser uma ligação séria.

"Não é com os seus sete ou oito mil francos de renda que o Armando há-de sustentar o luxo dessa rapariga; não chegava para a carruagem. Aceite Margarida como ela é, quero dizer, como uma rapariga linda e inteligente; seia seu amante um ou dois meses; dê-lhe flores, bolos e camarotes; mas não se lhe meta outra coisa na cabeça, nem lhe faça ridículas cenas de ciúmes. Sabe perfeitamente com quem está a tratar. Margarida não é nenhuma donzela virtuosa. o Armando agrada-lhe, ama-o deveras. Não se importe com o resto. Acho graça às suas susceptibilidades, quando apanhou a amante mais agradável de Paris! Tem uma mulher que o recebe num quarto magnífico, coberta de diamantes, e que, se o Armando quiser, não lhe custa nem um real, e ainda não está contente. Que diacho! Olhe que é pedir muito.

--Tem razão, mas, bem contra minha vontade, a ideia de que esse homem é seu amante faz-me um mal que ninguém imagina.

--Em primeiro lugar--prosseguiu Prudência--, sabe se ele ainda é seu amante? É simplesmente um homem de que ela precisa e nada mais. Há dois dias que lhe fecha a porta. Veio esta manha, e Margarida não pôde deixar de lhe aceitar o camarote e de consentir que ele a acompanhasse. Trouxe-a a casa, subiu um pedaço, e a prova de que não fica é que o Armando está aqui à espera. Tudo isto é naturalíssimo, parece-me a mim. E, depois, diga-me uma coisa: não aceita o duque?

--Pois sim, mas esse é um velho, e tenho a certeza de que Margarida não é amante dele. Além disso, muitas vezes aceita-se uma ligação e não se aceitam duas. Essa facilidade parece-se muito com o cálculo e aproxima o homem que nisso consente, embora por amor, daqueles que fazem desse consentimento um ofício e desse ofício um rendimento.

--Ah, meu caro, ainda está muito atrasado! Quantos tenho eu visto, e dos mais nobres, dos mais elegantes, dos mais ricos, fazer o que estou a aconselhar-lhe, e sem esforço, sem vergonha, sem remorsos ! Casos desses sucedem todos os dias.

Como queria que as mulheres de Paris, que estão por conta, sustentassem o luxo em que vivem, se não tivessem dois ou três amantes ao mesmo tempo? Não há riqueza, por mais considerável que seja, que possa só por si ocorrer às despesas de uma mulher do feitio de Margarida. Uma fortuna de quinhentos mil francos de rendimento é em França uma riqueza enorme. Pois, meu caro amigo, quinhentos mil francos não bastavam, e eu lhe digo porquê: um homem com uma fortuna assim possui casa posta com pompa, cavalos, carruagens, caçadas, amigos; muitas vezes é casado, tem filhos, joga, viaja, eu sei lá! Esses hábitos acham-se por tal forma radicados, que não lhe é possível desfazer-se deles sem passar por se ter arruinado ou sem fazer escândalo. Feitas bem as contas, apesar dos seus quinhentos mil francos de rendimento, não pode dar a uma mulher mais de quarenta a cinquenta mil francos por ano, e já isso é muito.

Pois muito bem! Vêm outros amores completar a despesa anual dessa mulher. Para Margarida, ainda a situação é mais cómoda; acertou por um milagre do Céu com um velho que possui uma fortuna de dez milhões, a quem morreram a mulher e a filha, que apenas tem sobrinhos, também ricos, e que lhe dá tudo quanto ela quer sem lhe pedir coisa alguma em troca.

Margarida, porém, é que lhe não pode pedir mais de sessenta a setenta mil francos por ano, e tenho a certeza de que, se lhe pedisse mais, ele, apesar da sua riqueza e da afeição que lhe consagra, não lho dava.

"Todos esses rapazes de Paris. que têm os seus vinte ou trinta mil francos de rendimento, quer dizer, apenas o bastante para viverem na roda que frequentam, sabem perfeitamente, quando são amantes de uma mulher no género de Margarida, que ela, com o que lhe dão, não podia pagar nem sequer a renda da casa e os ordenados dos criados. Não lhe dizem que o sabem, fingem ignorar tudo, e, quando estão fartos, vão-se embora. Se têm a vaidade de carregar com tudo, arruínam-se como uns patetas e vão dar cabo do canastro para a África, depois de deixarem cem mil francos de dívidas em Paris. Imagina que a mulher lhes fica, por isso, muito agradecida? Nem por sombras. Pelo contrário, diz que lhes sacrificou a sua posição e que, enquanto esteve com eles, não fez senão perder dinheiro. Ah!

Acha ignóbeis estes pormenores? Pois são verdadeiros. O Armando é um rapaz encantador, de quem sou muitíssimo amiga.

Vivo há vinte anos com esta espécie de mulheres, sei o que elas são e o que valem, e não desejo vê-lo tomar a sério o capricho que inspirou a uma bonita rapariga.

"Depois, admitamos que o amor que Margarida lhe consagra seja tão forte que a leve a renunciar ao conde e ao duque, no caso de este se aperceber da sua nova ligação e lhe dizer a ela que escolha entre os dois. Seria enorme o sacrifício que ela lhe faria, incontestavelmente. E o Armando que sacrifício igual lhe poderia fazer? Quando a saciedade viesse, quando não estivesse já para a aturar, enfim, como a indemnizaria de tudo o que lhe fizera perder? De modo nenhum. Tê-la-ia isolado do mundo em que estavam a sua fortuna e o seu futuro, e ela, que lhe sacrificara os melhores anos da sua existência, ver-se-ia esquecida. ou, então, o Armando portar-se-ia apenas como um homem ordinário, atirando-lhe à cara com o seu passado; dir-lhe-ia que, abandonando-a, procedia como os amantes que ela tivera, e deixá-la-ia entregue a uma miséria certíssima; ou mostrar-se-ia homem de bem, e julgando-se obrigado a conservá-la na sua companhia, condenava-se a uma inevitável desgraça, porque essa ligação, desculpável num rapaz, já o não é num homem de idade madura.

Constitui um obstáculo para tudo, nem consente família nem ambição, esses segundos e últimos amores do homem. Acredite no que lhe digo, meu amigo, aceite as coisas pelo valor que elas têm, as mulheres pelo que elas são, e não dê a uma rapariga de vida fácil o direito de se apresentar como sua credora, seja no que for.

Era justíssimo o raciocínio, e nunca eu supusera Prudência capaz de raciocinar assim. Tive de lhe dar razão. Apertei-lhe a mão e agradeci-lhe os seus conselhos.

--ora vamos!--disse ela.--Afaste essas malditas teorias e alegre-se. A vida é encantadora, a questão está no modo como a encaramos. Consulte o seu amigo Gastão. Esse é que me parece compreender o amor como eu. Do que deve convencer-se, de contrário não passará de um rapaz insípido, é de que aqui ao pé de nós há uma formosa rapariga que espera impacientemente a saída do homem que está em sua casa, que pensa no Armando, que lhe reserva a sua noite e que o ama, tenha a certeza. Agora venha para a janela comigo, para vermos sair o conde, que não tardará a ceder-lhe o lugar.

Prudência abriu uma janela, e apoiámo-nos à sacada, um ao lado do outro.

Ela olhava para as raras pessoas que passavam e eu meditava.

Tudo o que ela dissera me zumbia na cabeça, e não podia impedir-me de confessar que ela tinha razão; mas o verdadeiro amor que eu dedicava a Margarida não se acomodava facilmente com essa razão. Por isso eu soltava de quando em quando uns suspiros que faziam Prudência virar-se e encolher os ombros, como um médico que perde a esperança de salvar o doente.

"Como a rapidez das sensações nos faz sentir que a vida deve ser curta!--pensava.--Conheço Margarida há dois dias apenas, só é minha amante desde ontem, e já invadiu por tal forma o meu pensamento, o meu coração e a minha alma, que a visita desse conde de G... constitui para mim uma tortura."

Enfim o conde saiu, meteu-se na sua carruagem e desapareceu.

Prudência fechou a janela.

No mesmo instante, chamava-nos Margarida.

--Venham depressa, estão a pôr a mesa--dizia ela--; vamos cear.

Quando entrei em casa dela, Margarida correu para mim, saltou-me ao pescoço e beijou-me com todas as suas forças.

--Continua a estar casmurro?--perguntou ela.

--Nada, isso já acabou --respondeu Prudência.-- Preguei-lhe moral, e ele prometeu-me ter juízo.

--ora ainda bem!

Sem querer, deitei os olhos para a cama. Não estava desmanchada. Margarida, essa pusera já o penteador branco.

Sentámo-nos à mesa.

Encanto, meiguice, expansão, tudo Margarida possuía, e eu via-me forçado a reconhecer às vezes que lhe não podia pedir mais nada; que muita gente se julgaria feliz no meu lugar e que, como o pastor de Virgílio, não tinha senão de saborear os ócios que um deus, ou antes, que uma deusa me concedia.

Tentei, por conseguinte, pôr em prática as teorias de Prudência e mostrar-me tão alegre como as minhas duas companheiras; mas o que era nelas natural, em mim exigia esforço, e o riso nervoso que eu tinha e com que elas se enganaram, tocava muitas vezes as raias do pranto.

Enfim, acabou a ceia, e eu fiquei só com Margarida que, conforme o seu costume, foi sentar-se no tapete diante do lume, a olhar com tristeza para a chama do fogão.

Meditava! Em quê? Não sei. Eu olhava para ela com amor e quase com terror, ao pensar no que estava disposto a padecer por sua causa.

--Vem sentar-te ao pé de mim--disse ela, de repente.

Deitei-me ao seu lado.

--Sabes em que eu pensava?

--Não.

--Numa combinação que descobri.

--Que combinação é?

--Não me é possível confiar-ta ainda, mas posso dizer-te o que dela resultaria. Se as coisas corressem à medida dos meus desejos, conseguiria estar livre daqui a um mês, não dever nada a ninguém e ir passar contigo o Verão ao campo.

--E não podes revelar-me de que meio te servirás?

--Não. Bastará apenas que me ames como eu te amo, e tudo acabará bem.

--E descobriste, sem auxílio alheio, essa combinação?

--Descobri.

--E hás-de executá-la sozinha ?

--As maçadas serão todas para mim--declarou Margarida, com um sorriso que nunca esquecerei--, mas repartiremos os lucros.

Não pude impedir-me de corar ao ouvir a palavra "lucros".

Lembrei-me lo o de Manon Lescaut comendo com Des Grieux o dinheiro do senhor de B...

Respondi num tom um pouco duro e levantando-me:

--Permite-me, querida Margarida, que só aceite quinhão nos lucros das empresas que eu imagine e explore.

--Que significa isso?

--Significa que desconfio muito de que o senhor conde de G...

será teu sócio nessa feliz combinação de que não aceito nem os lucros nem os encargos.

--o senhor não passa de uma criança. Julguei que me tinha amor, mas vejo que me enganei. Está bem.

Ao mesmo tempo levantou-se, abriu o piano e pôs-se a tocar o Convite à valsa, até àquela famosa passagem em tom maior, que sempre a atrapalhava.

Era por hábito, ou para me lembrar o dia em que nos tínhamos conhecido? o que sei é que me voltaram as recordações com essa melodia e aproximando-me dela, agarrei-lhe na cabeça e beijei-a.

--Perdoas-me?--perguntei-lhe.

--Bem vês que sim --respondeu ela--; mas repara que estamos apenas no segundo dia e que já tenho alguma coisa a perdoar-te. Cumpres bem mal as tuas promessas de cega obediência.

--Que queres tu, Margarida? Amo-te demasiado e tenho ciúmes do mais leves dos teus pensamentos. o que me propuseste ainda agora, endoidecia-me de alegria se o mistério que o precede não me confrangesse o coração.

--ora pois, raciocinemos -- tornou ela, agarrando-me nas mãos e olhando para mim com o seu sorriso encantador a que me era impossível resistir.-Amas-me, e não te desagradaria passares sozinho comi o no campo três ou quatro meses; eu também gostaria imenso dessa solidão a duo... não só gostaria, mas far-me-ia bem à saúde. Não posso sair de Paris por tanto tempo sem pôr os meus negócios em ordem, e os negócios de uma mulher como eu são sempre muito embrulhados. Pois muito bem!

Encontrei modo de tudo conciliar, os meus negócios e o meu amor por ti... sim, por ti, não te rias! Tenho a loucura de te amar! E tu que fazes? Tomas esses ares de superioridade e dizes-me frases empoladas. Criança, três vezes criança, lembra-te só de que te amo, e não te importes com o resto.

Fica entendido?

--Estou sempre de acordo com tudo quanto tu queres, bem sabes.

--Então, antes de um mês, já nós estaremos aí para alguma aldeia, a passear à borda da água e a beber leite. Parece-te estranho que eu fale assim, eu, Margarida Gautier. E que, quando esta vida de Paris, que parece tornar-me tão feliz, não me queima, enfastia-me, e tenho então súbitas aspirações a um viver mais tranquilo que me recordaria a minha infância. Todos tivemos infância, sejam quais forem os sítios a que venhamos parar. oh! Descansa, que não vou dizer-te que sou filha de um coronel reformado e que fui educada em Saint-Denis. Sou uma rapariga do campo e há seis anos ainda não sabia escrever o meu nome. Estás já mais tranquilo, não é verdade? Porque foste tu o primeiro a quem eu me dirigi para partilhares comigo a alegria deste desejo que me ocorreu? Decerto por haver reconhecido que o amor que me consagravas era todo para mim, enquanto o dos outros constituíra sempre mero capricho. Tenho ido muitas vezes ao campo; mas nunca como desejava. É contigo que eu conto para alcançar esta fácil ventura. Não sejas mau e concede-ma. "Ela com certeza não chega a velha, e um dia havia de me arrepender de lhe não ter feito a primeira coisa que me pediu e que era tão fácil conceder-lhe", é assim que deves pensar.

Que podia eu responder a tais palavras, sobretudo com a lembrança de uma primeira noite de amor à espera de segunda?

Uma hora depois, tinha eu Margarida nos braços e, se ela me mandasse cometer um crime, obedecer-lhe-ia.

As seis horas da manha, antes de sair, disse-lhe:

--Até à noite.

Beijou-me com mais força, mas não me respondeu.

Durante o dia recebi uma carta que dizia o seguinte:

"Querido filho, estou um nadinha incomodada e o médico recomenda-me repouso. Tenciono deitar-me cedo esta noite e não posso receber-te. Mas, para te recompensar, espero-te amanha ao meio-dia. Amo-te.".

A primeira palavra que me veio aos lábios foi: Engana-me!

Senti na testa um suor frio, porque eu já amava tanto aquela mulher, que a desconfiança não podia deixar de transtornar-me doidamente.

Contudo, eu devia esperar quase todos os dias esse acontecimento com Margarida, e o mesmo me sucedera muitas vezes com as minhas outras amantes, sem que isso me desse grande cuidado. Donde vinha, pois, o domínio que aquela mulher tomava sobre a minha vida?

Lembrei-me, então, visto que tinha a chave da casa dela na minha algibeira, de ir vê-la como de costume.

Desse modo, depressa saberia a verdade, e se encontrasse um homem na sua companhia, esbofeteava-o.

Entretanto fui aos Campos Elísios, onde me demorei quatro horas. Margarida não apareceu. A noite entrei em todos os teatros que ela costumava frequentar. Não estava em nenhum. As onze horas dirigi-me à Rua d'Antin.

As janelas de Margarida não tinham luz. Ainda assim toquei à campainha.

o porteiro perguntou-me aonde ia.

--A casa de Margarida Gautier--disse-lhe.

--Ainda não veio.

--Eu espero-a lá em cima.

--Não está ninguém em casa.

Evidentemente, eram ordens que ele recebera e por cima das quais eu podia passar, pois tinha a chave; mas receei um escândalo ridículo, e saí.

Mas não fui para casa. Não era capaz de sair daquela rua e não podia perder de vista a casa de Margarida. Parecia-me que ainda tinha de saber algumas coisas de novo, ou, pelo menos, que se iam confirmar as minhas suspeitas.

Pela meia-noite, um coupé que eu conhecia perfeitamente parou diante do número 9.

o conde de G... apeou-se e entrou na casa, depois de mandar embora a carruagem.

Por um momento ainda esperei que, tal como a mim, lhe diriam que Margarida não estava em casa e que não tardaria a vê-lo sair; mas às quatro horas da manha eu continuava ali à espera.

Tenho sofrido muito há três semanas, mas nada comparável, creio, ao que sofri naquela noite.

 

Mal cheguei a casa, comecei a chorar como uma criança. Não há homem algum que não tenha sido enganado ao menos uma vez na vida e que não saiba o que se sofre.

Sob o peso dessas resoluções da febre, que sempre nos julgamos capazes de pôr em prática, concluí que precisava de romper imediatamente com tais relações amorosas, e esperei com impaciência o dia, para ir reservar um lugar na mala-posta e voltar para Junto de meu pai e de minha irma, duplo amor de que eu estava certo e que não me enganaria.

Não queria partir, contudo, sem que Margarida soubesse bem porque me afastava. Só um homem que decididamente já se não importa com a sua amante, a deixa sem lhe escrever.

Fiz e tornei a fazer de cabeça mais de vinte cartas.

Relacionara-me com uma mulher semelhante a todas as da sua espécie, poetizara-a de mais, ela tratara-me como um estudantinho, empregando, para me enganar, um estratagema de uma simplicidade insultante, claro. Venceu o meu amor-próprio.

Devia deixar essa mulher sem lhe dar a satisfação de saber quanto eu sofria com esse rompimento, e eis o que lhe escrevi com a minha letra mais elegante e os olhos rasos de lágrimas de raiva e de dor:

 

"Minha querida Margarida:

"Espero que a sua indisposição de ontem fosse coisa de pouca importância. As onze horas da noite fui saber como estava e responderam-me que ainda não voltara para casa. o conde de G... teve mais sorte do que eu, pois apareceu instantes depois, entrou, e às quatro horas da manha ainda não tinha saído.

"Perdoe-me as poucas horas aborrecidas que lhe fiz passar e esteja certa de que nunca esquecerei os momentos felizes que lhe devo.

"Gostaria de ir hoje saber como estava, mas tenciono partir para casa de meu pai.

"Adeus, minha querida Margarida! Não sou tão rico, que possa amá-la como eu queria, nem tão pobre, que possa amá-la como era sua vontade. Esqueça, pois, um nome que lhe deve ser quase indiferente, como eu esqueço uma felicidade impossível para mim.

"Mando-lhe a sua chave de que nunca me servi e que pode ser-lhe útil, se estiver muitas vezes doente como ontem".

Como vê, eu não tivera força de terminar a carta sem uma ironia atrevida, o que provava quanto estava ainda apaixonado.

Li e reli dez vezes essa carta, e a ideia de que magoaria Margarida sossegou-me um pouco. Procurei mostrar-me forte nos sentimentos que aquelas linhas afectavam e quando às oito horas entrou o criado no meu quarto, entreguei-lhe a missiva, para que a levasse imediatamente ao seu destino.

--Devo esperar pela resposta?--perguntou José (o meu criado chamava-se José, como todos os criados).

--Se Lhe perguntarem se tem resposta, diga que não sabe e espere.

Ainda esperava que Margarida me responderia.

Como somos pobres e fracos!

Durante o tempo todo que o meu criado andou lá por fora, estive numa agitação extrema. Umas vezes, ao lembrar-me do modo como Margarida se me entregara, perguntava a mim próprio com que direito lhe escrevia uma carta atrevida quando ela me podia responder que não era o conde de G... que me enganava, mas eu que enganava o conde de G.... raciocínio que permite a muitas mulheres terem uns poucos de amantes. outras vezes, ao pensar nos juramentos dessa rapariga, queria convencer-me de que era ainda branda de mais a minha carta e de que não havia expressões bastante fortes para estigmatizar uma mulher que se ria de um amor tão sincero como o meu. Depois dizia comigo que andaria melhor se, em lugar de lhe escrever, tivesse ido de dia a sua casa e saboreado dessa forma as lágrimas que a faria chorar.

Enfim, perguntava a mim mesmo o que ela me responderia, já pronto a acreditar na desculpa que me desse.

José voltou.

--Então?--inquiri.

--A senhora--redarguiu ele--estava deitada e ainda dormia, mas, assim que ela tocar a campainha, entregam-lhe a carta e, se houver resposta, cá vem ter.

Ainda dormia!

Vinte vezes estive quase tentado a mandar buscar a carta, mas dizia sempre comigo:

"Talvez já lha tenham entregado, de modo que pareceria que me arrependi."

A medida que se aproximava a hora a que era verosímil que ela me respondesse, mais eu lamentava ter-lhe escrito.

Deram dez horas, onze horas, meio-dia.

Ao meio-dia estive quase a ir a casa dela, como se nada se tivesse passado.

Enfim, já não sabia o que havia de imaginar para sair do círculo de ferro que me estreitava.

A uma hora ainda esperava.

Então pensei, com essa superstição da gente que espera, que, se eu saísse um pedaço, talvez à volta encontrasse resposta.

As respostas que se esperam com impaciência chegam sempre quando a gente não está em casa.

Saí, por conseguinte, com o pretexto de ir almoçar.

Em vez de me dirigir ao Café Foy, à esquina do Boulevard, como de costume, preferi o Palais-Royal, a fim de passar pela Rua d'Antin. Apenas avistava ao longe uma mulher, imaginava logo que era Nanine que me trazia a resposta. Atravessei a Rua d'Antin sem encontrar sequer um moço de recados. Cheguei ao Palais-Royal e entrei no restaurante Véry. o criado fez-me comer, ou antes, serviu-me tudo quanto quis, porque eu não comi nada.

Os meus olhos, involuntariamente, estavam sempre cravados no relógio.

Vim para casa, convencido de que ia encontrar uma carta de Margarida.

o porteiro não recebera nada. Tinha ainda esperança no meu criado. Este, desde que eu saíra, não vira ninguém.

Se Margarida tencionasse responder-me, já o teria feito há muito tempo.

Então comecei a sentir pena de ter escrito uma carta naqueles termos. o que eu devia era calar-me absolutamente, porque a sua inquietação faria decerto com que ela desse um passo qualquer; não me vendo aparecer à hora que me marcara na véspera, perguntaria a razão da minha ausência, e só então é que eu devia ter-lha dado. Dessa forma ela não podia deixar de desculpar-se e o que eu queria era que ela o fizesse. Sentia já que acreditaria em quaisquer razões que ela me apresentasse, e que tudo preferiria a não voltar a vê-la.

Cheguei a acreditar que viria ela própria a minha casa. Mas passaram as horas e... nada.

Decididamente, Margarida não era como todas as mulheres, pois há bem poucas que, recebendo uma carta como a que eu acabava de escrever, não respondam alguma coisa.

As cinco horas, corri aos Campos Elísios.

"Se a encontrar--pensava eu--, afecto um ar indiferente, e terá de ficar convencida de que já não penso nela. "

A esquina da Rua Real, vi-a passar na sua carruagem; o encontro foi tão súbito, que empalideci. Não sei se ela notou a minha comoção. Eu estava tão perturbado, que só vi a sua carruagem.

Não continuei a passear nos Campos Elísios. olhei para os cartazes dos teatros, porque ainda alimentava a esperança de a ver.

Havia no Palais-Royal uma primeira representação. Margarida ia lá com toda a certeza.

As sete horas, já eu estava no teatro.

Encheram-se todos os camarotes, porém Margarida não apareceu.

Então, saí do Palais-Royal e entrei em todos os teatros onde ela ia com mais frequência: no Vaudeville, no Variedades, na pera Cómica.

Não estava em parte nenhuma.

ou a minha carta a magoara tanto, que não pensara em espectáculos, ou tinha medo de se encontrar comigo e queria evitar uma explicação.

Era o que a minha vaidade me segredava no Boulevard, quando encontrei o Gastão, que me perguntou donde eu vinha.

--Do Palais-Royal.

--E eu venho da pera. Julgava até encontrar-te

--Porquê ?

--Porque estava lá a Margarida.

--Ah! Estava?

--Estava.

--Sozinha ?

--Não, com uma das suas amigas.

--Mais ninguém?

--O conde de G... demorou-se um instante no camarote, mas afinal ela saiu do teatro com o duque. Eu esperava a todo o instante ver-te aparecer. Havia ao pé de mim uma cadeira que esteve vazia toda a noite. Supus até que eras tu que a tinhas alugado.

--Mas porque hei-de eu ir aos sítios onde Margarida vai?

--Essa é boa! Pois se és seu amante!...

--E quem te disse isso?

--Prudência, que encontrei ontem. Dou-te os meus parabéns. E uma bonita amante que não apanha quem quer. Conserva-a, porque dá honra a um homem.

Esta simples reflexão de Gastão bastou para me mostrar quanto eram ridículas as minhas susceptibilidades.

Se o houvesse encontrado na véspera e ouvido da sua boca aquelas palavras, com toda a certeza não tinha escrito a tola carta dessa manha.

Estive quase tentado a ir a casa de Prudência e mandá-la dizer a Margarida que lhe queria falar. Mas receei que ela, para se vingar, me respondesse que não me podia receber, e voltei para casa, passando pela Rua d'Antin.

Perguntei de novo ao meu porteiro se chegara alguma carta para mim.

Nada!

"Decerto quis ver se eu daria algum novo passo e se retractaria hoje a minha carta--pensei, ao deitar-me--, mas vendo que lhe não escrevo, escreve-me amanha.".

Foi sobretudo nessa noite que me arrependi do que fizera.

Estava só em casa, sem poder dormir, devorado pela inquietação e pelo ciúme, ao passo que, se eu deixasse seguir às coisas o seu verdadeiro curso, encontrar-me-ia então ao pé de Margarida e ouvi-la-ia dizer-me as palavras encantadoras que só ouvira duas vezes, e que me abrasavam na minha solidão.

o que tornava horrível a minha situação era o facto de o raciocínio me dizer que eu não tinha razão nenhuma.

Efectivamente, tudo indicava que Margarida me consagrava verdadeiro amor. Em primeiro lugar, esse projecto de passar o Verão comigo no campo; depois, essa certeza de que nada a obrigava a ser minha amante, pois os meus haveres não bastavam para as suas necessidades e nem sequer para os seus caprichos.

Por conseguinte, a única esperança dela era encontrar em mim um afecto sincero, capaz de a descansar dos amores mercenários no meio dos quais vivia. E logo no segundo dia eu destruía essa esperança e pagava com atrevidas ironias o amor que aceitara durante duas noites. o meu procedimento, mais que ridículo, era, pois, desairoso. Não pagara sequer a essa mulher, e por isso não me assistia o direito de a censurar pela vida que levava; parecia, pelo contrário, retirando-me logo ao segundo dia, um parasita do amor, que receia que lhe apresentem a conta do jantar.

O quê! Havia trinta e seis horas que eu conhecia Margarida, apenas vinte e quatro que era seu amante, e já me mostrava ciumento? Em lugar de m julgar muito feliz por ela repartir comigo, já queria tudo para mim, obrigando-a a despedaçar as relações do seu passado que constituíam os rendimentos do seu futuro? De que podia eu acusá-la? De nada. Comunicara-me que não se sentia bem, quando me podia dizer cruamente, com a hedionda franqueza de certas mulheres, que tinha um amante a receber; e, em vez de acreditar na sua carta, em vez de ir passear por todas as ruas de Paris, excepto pela Rua d'Antin, em vez de passar a noite com os meus amigos e de me apresentar no dia seguinte à hora que ela me indicava, fazia cenas de ciúme, andava a espioná-la, e julgava puni-la não a tornando a ver! Ela, porém, devia até sentir-se satisfeitíssima com esta separação, devia ter-me na conta de um verdadeiro pedaço de asno, e o seu silêncio nem chegava a ser despeito: era desprezo.

Se antes de dar aquele passo eu tivesse mandado a Margarida um presente que lhe não deixasse a mínima dúvida acerca da minha generosidade e me autorizasse, tratando-a como uma cortesã, a julgar-me quite com ela, isso sim. Mas não! Não quisera ofender com a mais leve aparência de tráfico, já não digo o amor que ela tinha por mim, mas o amor que eu lhe dedicava. E, se esse amor era tão puro, me não admitia a ideia da partilha, não podia pagar com um presente, por mais belo que fosse, a felicidade que lhe haviam dado, apesar de bem pouco duradoura.

Era o que eu pensava à noite e o que a cada instante me via tentado a ir dizer a Margarida.

Quando amanheceu, ainda não pegara no sono, sentia-me febril; era-me impossível pensar noutra coisa que não fosse em Margarida.

Como percebe, precisava de tomar uma resolução definitiva: ou pôr de lado a lembrança daquela mulher ou, então, os meus escrúpulos, isto se ela por acaso ainda consentisse em receber-me.

Ora o senhor sabe muito bem que adiamos sempre uma resolução definitiva; por isso, na impossibilidade de ficar em minha casa, e não me atrevendo a ir procurar Margarida na sua, imaginei um meio de me aproximar dela, meio que o meu amor-próprio podia atribuir ao acaso, se desse resultado.

Eram nove horas; corri a casa de Prudência que me perguntou a que devia visita tão matinal.

Não me atrevi a dizer-lhe francamente o que me levava lá.

Respondi-lhe que saíra cedo para reservar um lugar na diligência de C..., que era a terra em que residia meu pai.

--É bem feliz--disse-me ela--em poder sair de Paris com este lindo tempo.

olhei para Prudência, perguntando a mim mesmo se ela estava a zombar de mim.

o seu rosto, porém, mostrava-se sério.

--Vai dizer adeus a Margarida? --tornou ela, sempre com a maior seriedade.

--Não.

--Faz bem.

--Acha?

--Se já rompeu com ela, para que há-de tornar a vê-la?

--Já sabe do nosso rompimento?

--Margarida mostrou-me a sua carta.

--E que disse ela?

--Disse: "Minha querida Prudência, o seu protegido não é lá

muito bem-educado. Estas cartas pensam-se, mas não se escrevem."

--E em que tom lhe disse ela isso?

--A rir, e acrescentou: "Ceou duas vezes em minha casa, e nem sequer me faz a sua visita de digestão."

Aí está o efeito que tinham produzido a minha carta e o meu ciúme. Senti-me cruelmente humilhado na minha vaidade e no meu amor.

--E que fez ela ontem à noite?

--Foi à opera.

--Bem sei. E depois?

--Ceou em casa.

--Sozinha?

--Com o conde de G. . . creio eu.

Assim, o meu rompimento em nada alterara os hábitos de Margarida.

É nestas circunstâncias que há pessoas que nos dizem: "Não pense mais nessa mulher que não o ama. "

--Estimo bem saber que Margarida não se aflige por minha causa--pronunciei, com um sorriso forçado.

--E tem carradas de razão. o senhor fez o que devia. Foi mais ajuizado do que ela, pois essa rapariga amava-o, não falava senão no Armando, e era capaz de fazer alguma doidice.

--Se me ama, porque me não respondeu?

--Por perceber que fazia muito mal em o amar. Depois, as mulheres permitem às vezes que se engane o seu amor, mas nunca que se fira a sua vaidade, e fere-se sempre a vaidade de uma mulher quando, ao fim de dois dias de relações, a abandonam, sejam quais forem as razões que se aleguem para esse rompimento. Eu conheço Margarida; era mais fácil morrer do que responder-lhe.

--Então que hei-de eu fazer?

--Nada. Margarida vem a esquecê-lo. o Armando há-de esquecê-la também. E não terão nada de que se acusarem mutuamente.

--E se eu lhe escrevesse a pedir-lhe perdão?

--Não faça semelhante coisa, senão ela perdoa

Estive quase a abraçar Prudência.

Um quarto de hora depois, estava eu em casa a escrever a Margarida.

"Um homem que se arrepende de uma carta que escreveu ontem, que se irá embora amanha se lhe não perdoa, desejaria saber a que horas poderá depor a seus pés, Margarida, o seu arrependimento.

"Quando a encontrará sozinha?... Porque bem sabe que as confissões devem ser feitas sem testemunhas. "

Dobrei esta espécie de madrigal em prosa e mandei-o por José, que o entregou à própria Margarida, dizendo-lhe ela que depois responderia.

Saí um instante apenas para ir jantar, e às onze horas da noite ainda não recebera resposta.

Resolvi não me torturar mais tempo e ir-me embora no dia seguinte.

Em vista desta resolução, e certo de que, se me deitasse. Não dormiria. comecei a fazer as malas.

 

Havia perto de uma hora que eu e o José fazíamos os meus preparativos de partida, quando tocaram com violência à campainha.

--Vou abrir?--inquiriu o José.

--Abre--ordenei eu, perguntando a mim mesmo quem poderia vir àquela hora, e não me atrevendo a supor que se tratasse de Margarida.

--São duas senhoras--disse-me José, entrando.

--Somos nós, Armando--gritou uma voz que eu logo conheci ser a de Prudência.

Saí do meu quarto.

Prudência, de pé, olhava para as poucas curiosidades da minha sala. Margarida, sentada no canapé, reflectia.

Quando entrei, dirigi-me a ela, ajoelhei, peguei-lhe nas mãos e, comovidíssimo, exclamei:

--Perdão!

Beijou-me na testa e disse-me:

--É a terceira vez que lhe perdoo.

--Tencionava ir-me embora amanha.

--E como é que a minha visita o pode fazer mudar de resolução?

Eu não venho para o impedir de deixar Paris. Venho porque não tive tempo de lhe responder durante o dia todo, e não quis que me julgasse zangada consigo. E a Prudência era de opinião que eu não viesse, pois talvez o incomodasse.

--Incomodar-me, Margarida! Como?

--Ora essa! Podia estar com alguma mulher –respondeu Prudência--, e não seria muito agradável para ela ver aparecerem mais duas.

Durante essa observação, Margarida olhava para mim com atenção.

--Minha querida Prudência--respondi--, não sabe o que diz.

--A sua casa é muito bonita--replicou a Sr.a Duvernoy--. Pode ver-se o quarto de dormir?

--Pode.

Dirigiu-se para o meu quarto, não tanto para o visitar como para emendar a tolice que acabava de dizer e deixar-nos sós, a Margarida e mim.

--Porque veio com a Prudência? --perguntei então.

--Porque estava comigo no espectáculo, e eu queria, quando saísse daqui, ter alguém que me acompanhasse.

--Então não me tinha a mim?

--Bem sei, mas além de não querer incomodá-lo, estava certa de que, indo comigo até à minha porta, me pediria para entrar, e como não podia fazer-lhe a vontade, dando-lhe, assim, o direito de se queixar de uma recusa minha...

--E porque não podia receber-me?

--Porque sou muito vigiada, e a mais leve suspeita prejudicar-me-ia grandemente.

--Não há outra razão?

--Se houvesse, dizia-lha; já não estamos em circunstâncias de termos segredos um para o outro.

--Margarida, não quero meter-me por atalhos para chegar àquilo que tenho para lhe dizer. Francamente, ama-me um poucochinho ?

--Muito.

--Então porque me enganou?

--Meu amigo, se eu fosse a duquesa fulana, se dispusesse de duzentas mil libras de rendimento, fosse sua amante, e ao mesmo tempo tivesse outro homem, estava o Armando no pleno direito de me perguntar porque o engano; mas sou Margarida Gautier, tenho quarenta mil francos de dívidas, gasto cem mil francos por ano, e não possuo um soldo de meu... A sua pergunta passa, por conseguinte, a ser ociosa e a minha resposta inútil.

--É justo--admiti, deixando cair a cabeça no regaço de Margarida--, mas quero-lhe como um doido!

--Pois, meu amigo, era necessário que me quisesse menos ou me compreendesse mais. A sua carta magoou-me muito. Se estivesse livre, em primeiro lugar não receberia o conde anteontem, ou se o recebesse, seria eu própria a implorar-lhe perdão, em lugar de mo pedir a mim, como há momentos fez, e não teria para o futuro outro amante senão o Armando. Julguei por um momento que poderia ter esta felicidade durante seis meses; o Armando não quis; desejava, a todo o transe, conhecer os meios. oh, meu Deus! os meios eram facílimos de adivinhar. Era maior do que imagina o sacrifício que eu fazia empregando-os.

Podia dizer-lhe: preciso de vinte mil francos; como estava apaixonado por mim, havia de os arranjar, com risco de mos lançar depois em rosto. Preferi não lhe dever nada, e o Armando não percebeu esse melindre. Nós, quando temos um bocadinho de coração, damos às palavras e às coisas uma extensão e um desenvolvimento que as outras mulheres ignoram.

Se me conhecesse bem, dar-se-ia por felicíssimo com o que eu lhe prometesse e não me perguntaria o que fiz anteontem. As vezes somos obrigadas a comprar uma satisfação para a nossa alma à custa do nosso corpo, e sofremos muito mais quando, depois, essa satisfação nos foge.

Eu escutava Margarida e olhava para ela com admiração. Quando me lembrava de que essa maravilhosa criatura, cujos pés eu outrora loucamente ambicionara beijar, consentia em me fazer entrar no seu pensamento, em me dar um papel na sua vida, e que eu não me contentava ainda com o que me concedia, perguntava a mim mesmo se o desejo dos homens tem limites, pois, satisfeito tão prontamente como fora o meu, ainda desejava mais.

--É verdade--tornou ela.--Nós, criaturas do acaso, temos desejos caprichosos e amores inconcebíveis. Damo-nos ora por uma coisa, ora por outra. Há pessoas que se arruínam sem obter de nós coisa alguma, e outras que nos conquistam com um ramo de flores. o nosso coração tem caprichos: é a sua única distracção e a única desculpa. Entreguei-me a ti mais depressa do que a nenhum outro homem, posso jurar-te. E porquê? Porque, vendo-me deitar escarros de sangue, pegaste-me na mão, porque choraste, porque foste a única criatura humana que se dignou ter dó de mim. Vou dizer-te uma loucura: eu tinha dantes um cãozito que olhava para mim com um ar muito triste quando eu tossia. Foi o único ser que amei.

"Quando morreu, chorei mais do que quando morreu minha mãe. É verdade que ela passara doze anos da sua vida a bater-me. Pois a ti amei-te logo, tanto como tinha amado o meu cão. Se os homens soubessem o que se pode obter com uma lágrima, seriam mais amados e nós menos ruinosas.

"A tua carta desmentiu-te, revelou-me que o teu coração não tinha perspicácia. Prejudicou-te mais no meu amor do que tudo quanto me pudesses fazer. Era ciúme, é verdade, mas ciúme irónico e insolente. Eu já estava triste, quando recebi essa carta. Tencionava receber-te ao meio-dia, almoçar contigo, apagar enfim com a tua presença um pensamento incessante que me afligia e que, antes de te conhecer, não me incomodava.

"Depois --continuou Margarida--, tu eras a única pessoa diante da qual eu julgara perceber logo que podia pensar e falar livremente. Todos os que rodeiam as mulheres como eu têm interesse em perscrutar as suas mínimas palavras, em tirar uma consequência das suas mais insignificantes ações.

Naturalmente, não temos amigos. Temos amantes egoístas que gastam os seus bens, não por nós, como eles dizem, mas para satisfazer a sua vaidade.

"Esses querem que estejamos alegres quando se sentem bem dispostos; de boa saúde quando desejam cear; cépticas como eles. É-nos defeso termos coração, sob pena de nos vaiarem e de perdermos o crédito.

"Não pertencemos a nós próprias. Não somos pessoas, somos coisas. ocupamos o primeiro lugar no seu amor-próprio, o último na sua estima. Temos amigas... como Prudência, que foram como nós e que conservam hábitos de prodigalidade que a sua idade não comporta. Passam então a ser nossas amigas, ou antes nossas comensais. A sua amizade chega ao servilismo, nunca ao desinteresse. Só nos dão conselhos lucrativos. Pouco lhes importa que tenhamos mais dez amantes, contanto que lucrem com isso uns vestidos ou um bracelete, e possam de tempos a tempos passear na nossa carruagem, ou ir ao teatro para o nosso camarote. Ficam-nos com os ramalhetes da véspera, pedem-nos emprestados os nossos xailes. Nunca nos fazem um favor, por mínimo que seja, sem que lho paguemos pelo dobro do seu valor. Bem viste na noite em que Prudência me trouxe seis mil francos que eu encarregara de solicitar do duque para mim; pediu-me logo emprestados quinhentos francos que nunca me paga, ou que me paga em chapéus que nem chegam a sair das caixas.

Não podemos ter, pois, ou antes, não podia eu ter senão uma felicidade: era, triste como às vezes me sinto, doente como estou sempre, encontrar um homem bastante superior para não me pedir contas da minha vida, e para ser amante das minhas impressões muito mais do que do meu corpo. Esse homem encontrara-o no duque, mas o duque é velho e a velhice não protege nem consola..Julgara poder aceitar a vida que ele me dava; mas que queres? Morreria de tédio, e afinal para se ser consumido tanto faz a gente arrojar-se a um incêndio como asfixiar-se com carvão.

"Então surgiste-me tu, moço ardente, feliz, e tentei fazer de ti o homem que eu invocara no meio da minha ruidosa solidão.

Eu amava em ti não o homem que eras, mas o homem que devias ser. Não aceitas esse papel, rejeita-lo como indigno de ti, és um amante vulgar; fazes o mesmo que os outros: paga-me e não falemos mais nisso. "

Margarida, que essa longa confissão fatigara, atirou-se para as costas do canapé e, a fim de extinguir um débil acesso de tosse, levou o lenço aos lábios e até aos olhos.

--Perdão, perdão!--murmurei eu.--Já percebera tudo isso, mas queria ouvir-to dizer, minha Margarida adorada. Esqueçamos o resto e lembremo-nos apenas disto: pertencemos um ao outro, somos novos e amamo-nos.

Margarida tirou a minha carta do corpete do vestido e, entregando-ma, disse-me com um sorriso de inefável doçura:

--Aqui a tens. Trazia-a para ta entregar.

Rasguei a carta e beijei com lágrimas ma estendia.

Nesse momento Prudência reapareceu.

--Olha lá, Prudência, sabes o que ele me está a pedir?

--Está a pedir-te perdão.

--Justamente.

--E tu perdoas?

--Que lhe hei-de eu fazer! Mas ele ainda quer mais.

--O quê?

--Quer vir cear connosco.

--E tu consentes?

--Que te parece?

--Parece-me que vocês são duas crianças e que tanto juízo tem um como o outro. Mas também me parece que estou com muita fome e que, quanto mais depressa tu consentires, mais depressa nós cearemos.

--Vamos lá--disse Margarida--, lá nos arranjaremos todos três na minha carruagem. E olha --acrescentou, voltando-se para mim--, a Nanine está deitada, provavelmente. Tu é que hás-de abrir a porta. Aí tens a minha chave, e vê lá se a não perdes.

Abracei Margarida a ponto de a sufocar.

Nisto entrou José.

--Meu senhor--anunciou-me ele, com ar de um homem satisfeitíssimo consigo mesmo--, está tudo dentro das malas.

--Tudo?

--Sim, senhor.

--Pois então tira a mão para fora outra vez; a não parto.

 

Podia, disse-me Armando, contar-lhe em poucas palavras os princípios desta ligação, mas queria que visse bem os acontecimentos e de que modo lá chegámos--eu a consentir em tudo quanto Margarida queria, Margarida a não poder mais viver sem mim.

Foi no dia que se seguiu à noite em que ela viera a minha casa que eu lhe mandei Manon Lescaut.

Daí por diante, como não podia mudar o ponto de vista da minha amante, alterei o meu. Queria, antes de tudo, não deixar ao meu espírito tempo de reflectir no papel que acabava de aceitar, porque, involuntariamente, sentiria com isso uma grande tristeza. A minha vida, em geral tão sossegada, revestiu, pois, de repente uma aparência de barulho e desordem. Não vá imaginar que, por mais desinteressado que seja, não nos custe muito dinheiro o amor que uma cortesã tem por nós. Não há nada tão caro como os mil caprichos de flores, de camarotes, de ceias, de passeios ao campo que nunca podemos recusar à nossa amante.

Como lhe disse, eu não possuía fortuna. Meu pai era e é ainda recebedor em G.. . Goza de grande fama de honradez, e foi essa fama que lhe permitiu arranjar facilmente a fiança que tinha de apresentar antes de exercer este cargo. A recebedoria dá-lhe uns quarenta mil francos por ano, e nos dez anos em que já ocupou o lugar, devolveu a fiança ao seu fiador e tratou de pôr de parte o dote da minha irma. Meu pai é o homem mais respeitável que se pode imaginar. Minha mãe, quando morreu, deixou seis mil francos de rendimento que meu pai dividiu por mim e por minha irma no dia em que obteve o emprego que requeria; depois, quando cheguei aos vinte e um anos, juntou a esse pequeno rendimento uma pensão anual de cinco mil francos,

afiançando-me que com oito mil francos podia viver excelentemente em Paris, se quisesse arranjar, no foro ou na medicina, uma posição que avolumasse ainda mais o meu rendimento. Vim para a capital, concluí o meu curso de

direito, entrei na classe dos advogados e, como fazem muitos rapazes, meti o meu diploma na algibeira e entreguei-me à vida indolente de Paris. As minhas despesas eram modestíssimos; gastava, porém, em oito meses o meu rendimento anual e passava os quatro meses do Verão em casa de meu pai, o que me dava, em suma, doze mil francos de rendimento e fama de bom filho. Não tinha, além de tudo, dívidas.

Eis a minha situação quando travei conhecimento com Margarida.

Percebe que, mesmo sem eu querer, as minhas despesas aumentaram imediatamente. Margarida tinha uma índole caprichosíssima e era uma destas mulheres que nunca consideraram como despesa séria as mil distracções de que a sua vida se compõe. Daí resultava que, querendo passar comigo o mais tempo possível, mandava-me dizer pela manha que jantaria comigo, não em casa dela, mas nalgum restaurante de Paris, ou no campo. Eu ia buscá-la e jantávamos, íamos ao espectáculo, muitas vezes ceávamos, e eu tinha gasto à noite quatro ou cinco luíses. A minha despesa mensal subia, assim, a dois mil e quinhentos ou três mil francos, o que reduzia o meu ano meses e meio e me punha na necessidade de criar dívidas ou de deixar Margarida.

Ora eu aceitava tudo, menos esta última eventualidade.

Perdoe-me referir-lhe todas estas coisas, mas vera que foram a causa dos acontecimentos que se vão seguir. o que lhe conto é uma história verdadeira, simples, e a que deixo toda a ingenuidade dos pormenores e toda a simplicidade do

encadeamento.

Percebi, por conseguinte, que, como nada havia neste mundo que tivesse sobre mim influência suficiente para me fazer esquecer a minha amante, precisava de encontrar meio de sustentar as despesas a que ela me obrigava. Depois, esse amor transtornava-me a tal ponto, que todos os momentos que passava longe de Margarida pareciam anos, e eu sentira necessidade de queimar esses momentos no fogo de uma paixão qualquer, e de os viver tão velozmente, que não percebesse que os vivia.

Principiei a pedir emprestados cinco ou seis mil francos sobre o meu pequeno capital, e pus-me a jogar, porque, desde que foram suprimidas as casas de jogo, joga-se em toda a parte.

Outrora, quando se entrava no Frascati, havia probabilidades de se enriquecer: jogava-se contra dinheiro, e se se perdia, restava ao menos a consolação de se pensar que se podia ter ganho, ao passo que hoje, a não ser nos grémios, onde existe ainda alguma severidade no pagamento, é quase certo que, se a soma ganha for avultada, não a receberemos. Facilmente se sabe porquê.

o jogo só pode ser frequentado por certos rapazes com grandes necessidades e sem fortuna bastante para sustentarem a vida que levam. Jogam, por isso, e daí resulta naturalmente o seguinte: ou ganham, e então o dinheiro dos que perdem serve para pagar os cavalos e as amantes desses senhores, o que é muito ridículo; ou perdem, e, como já têm falta de dinheiro para a sua vida, com mais razão lhes faltará para pagarem o que perderam. Não pagam, portanto, o que é muito desagradável.

Contraem-se dívidas; e as relações principiadas à roda de um pano verde acabam por discórdias em que ficam sempre um pouco prejudicadas a honra e a vida; e quem for honesto acha-se muitas vezes arruinado por esses rapazes honradíssimos cujo único defeito era o de não possuírem duzentas mil libras de rendimento.

Não vale a pena falar naqueles que roubam ao jogo e de cujo afastamento forçado ou da condenação tardia somos um dia informados.

Atirei-me, pois, a esta vida rápida, ruidosa, vulcânica, que dantes me assustava quando pensava nela, e que se tornara para mim o complemento inevitável do meu amor por Margarida. Que queria que eu fizesse ?

Se passasse sozinho em casa as noites em que não ia à Rua d'Antin, não dormiria. o ciúme conservar-me-ia desperto e queimar-me-ia o pensamento e o sangue, ao passo que o jogo afastava por um momento a febre que me queimava o coração e o transportava para uma paixão cujo interesse involuntariamente me empolgava, até soar a hora em que tinha de ir para casa da minha amante. Então--e era nisto que eu conhecia a violência do meu amor--, quer ganhasse quer perdesse, deixava implacavelmente a mesa, lamentando a sorte dos que lá deixava e que não iam encontrar como eu, quando saíssem, a felicidade e a vida.

Para a maior parte da gente, o jogo constituía uma necessidade; para mim, um remédio.

Curado de Margarida, estava curado do jogo. Por isso, no meio de tudo, conservava o máximo sangue-frio; só perdia o que podia pagar, ganhava apenas o que podia ter perdido.

De mais a mais a sorte favoreceu-me. Não contraía dívidas e gastava o triplo do que despendia no tempo em que não jogava.

Tornava-se difícil resistir a uma vida que me permitia satisfazer, sem transtorno, os mil caprichos de Margarida. Ela amava-me sempre cada vez mais.

Como lhe disse, começara por ser apenas recebido da meia-noite às seis horas da manha; depois fui admitido de quando em quando nos camarotes; mais tarde chegou a vir jantar às vezes comigo. Certa manha, só me fui embora às oito horas, e houve um dia em que só saí ao meio-dia.

Enquanto não vinha a metamorfose moral, operara-se em

Margarida uma metamorfose física.

Eu empreendera a sua cura, e a pobre rapariga, adivinhando os meus intuitos, obedecia-me para provar o seu reconhecimento.

Conseguira, sem abalo e sem esforço, separá-la quase completamente dos seus antigos hábitos. o meu médico, com quem eu fizera que ela se encontrasse, dissera-me que só o descanso e o sossego lhe podiam conservar a saúde, de forma que conseguira substituir as ceias e as insónias por um regime higiénico e pelo sono regular. Involuntariamente, Margarida ia-se habituando a essa nova existência cujos efeitos salutares sentia. Já começava a passar algumas noites em casa, ou então, se estava bom tempo, embrulhava-se num xaile, cobria-se com um véu, e íamos a pé, como duas crianças, correr à noite as alamedas dos Campos Elísios. Voltava fatigada, ceava ligeiramente, deitava-se depois de tocar a ler um pedaço, o que antes nunca lhe sucedera A tosse que me rasgava o coração, sempre que a ouvia, desaparecera quase por completo.

No fim de seis semanas, já se não falava no conde, definitivamente sacrificado; só o duque me obrigava a esconder a minha ligação com Margarida, e ainda assim fora despedido muitas vezes quando eu lá estava, com o pretexto de que a senhora dormia e proibira que a acordassem.

Resultou do hábito e até da necessidade que Margarida contraíra de me ver, o deixar eu o jogo exactamente quando o abandonaria um hábil jogador. Feitas as contas, achava-me, em consequência dos meus ganhos, à testa de uns dez mil francos que me pareciam um capital inesgotável.

Chegara a época em que eu costumava ir visitar minha irma e meu pai, e não partia; por isso também recebia frequentemente cartas de ambos, cartas em que me pediam que fosse ter com eles.

A todas essas instâncias eu respondia o melhor possível, repetindo sempre que estava bom e que não precisava de

dinheiro, duas coisas que, quanto a mim, sempre consolariam um

pouco meu pai da demora da minha visita anual.

Aconteceu, entretanto, que certa manha Margarida, despertada por um sol brilhante, saltou da cama abaixo e perguntou-me se eu a queria levar a passear o dia todo ao campo.

Mandou-se chamar Prudência, e partimos todos três, depois de Margarida ter recomendado a Nanine que dissesse ao duque que ela quisera aproveitar aquele bonito dia e fora para o campo com madame Duvernoy.

Além da presença da Duvernoy ser necessária para tranquilizar o velho duque, Prudência era uma dessas mulheres que devem ter nascido para tais passeios campestres. Com a sua inalterável alegria e o seu eterno apetite, não podia deixar um único instante de aborrecimento àqueles a quem fazia companhia, e devia entender-se perfeitamente com os ovos, as cerejas, o leite, o coelho guisado, e tudo o que, enfim, compõe o almoço tradicional dos arredores de Paris.

Só nos restava saber onde iríamos.

Foi ainda Prudência quem nos tirou desse embaraço.

--Querem ir ao campo a valer?--perguntou ela.

--Já se vê que sim.

--Então vamos a Bougival, ao Point-du-Jour, a casa da viúva

Arnould. Armando, vá alugar uma caleça.

Hora e meia depois estávamos em casa da viúva Arnould.

Conhece talvez esta estalagem, que é hospedaria aos dias de semana e taberna ao domingo. Do jardim que fica à altura de um primeiro andar ordinário, descobre-se uma vista magnífica. A esquerda, o aqueduto de Marly fecha o horizonte; à direita, estende-se a vista por uma infinidade de colinas; o rio, quase sem corrente neste sítio, desenrola-se como larga fita acetinada, entre a planície dos Gabillons e a ilha de Croissy, eternamente embalada pelo frémito dos seus altos álamos e o murmúrio dos seus salgueiros.

Ao fundo erguem-se, banhadas por um largo raio de sol, uma casinha branca, de telhados vermelhos, e fábricas que, perdendo a esta distância o seu carácter duro e comercial, completam admiravelmente a paisagem.

Ao longe, Paris entre a bruma!

Como nos dissera Prudência, era campo a valer e, devo dizê-lo, o almoço foi também a valer.

 

Não digo isto em reconhecimento pela ventura que lhe devo, mas Bougival, apesar do seu nome hediondo, é um dos sítios mais bonitos que se podem imaginar. Tenho viajado muito, tenho visto coisas mais grandiosas, mas não mais encantadoras do que esta aldeota, alegremente deitada aos pés da colina que a protege.

A viúva Arnould ofereceu arranjar-nos um passeio de bote, que Prudência e Margarida aceitaram com alegria.

Tem-se sempre associado, e com razão, o campo ao amor; não há moldura melhor para a mulher que se ama do que o céu azul, os aromas, as flores, as brisas, a solidão resplandecente dos campos ou dos bosques. Por muito que se ame uma mulher, e por maior que seja a confiança que nela se deposite, por grande certeza que nos dê acerca do futuro e do passado, é certo que sempre se tem mais ou menos ciúmes. Se alguma vez esteve apaixonado, seriamente apaixonado, sentiu decerto a necessidade de isolar do mundo o ente em quem desejaria absorver-se completamente. Parece que, por muito indiferente que ela seja a tudo o que a rodeia, a mulher amada perde o seu perfume e a sua unidade com o contacto dos homens e das coisas. Eu sentia isso muito mais do que outro qualquer. o meu amor não era um amor vulgar: estava tão apaixonado como pode estar uma criatura humana, mas apaixonado por Margarida Gautier. Quero dizer, em Paris, a cada passo, podia acotovelar um homem que fora amante daquela mulher, ou que o seria no dia seguinte. Ao passo que no campo, no meio de pessoas que nunca me tinham visto, e que se não importavam connosco, no seio de uma natureza enfeitada, com a sua primavera, que é o perdão anual, e separados do estrondo da cidade, podia esconder o meu amor e amar sem vergonha e sem receio.

A pouco e pouco desaparecia a cortesã. Eu tinha junto de mim uma mulher nova, bela, por quem era amado e a quem amava, e que se chamava Margarida; o passado já não tinha forma, o futuro apresentava-se a ora desanuviado. Iluminava o sol a minha amante, como podia iluminar a mais casta das noivas. Passeámos ambos nestes sítios encantadores que dir-se-ia terem-se feito de propósito para lembrar os versos de Lamartine, ou para cantar as melodias de Scudo. Margarida trazia um vestido branco, inclinava-se para o meu braço, e repetia-me à noite debaixo do céu estrelado as palavras que me dissera na véspera, e o mundo continuava ao longe a sua vida sem manchar com a sua sombra o quadro ridente da nossa mocidade e do nosso

amor.

Era esse o sonho que o sol ardente desse dia me trazia através das folhas, ao passo que, deitado ao comprido na relva da ilha a que tínhamos abordado, livre de todos os laços humanos que até aí me prendiam, deixava o meu pensamento correr e colher todas as esperanças que encontrava.

Junte a isto que do sítio onde estava via eu na praia uma encantadora casita de dois andares com uma grade em meia-laranja; através desta, diante da casa, um tabuleiro de relva, liso como veludo, e por trás do edifício, uma mata cheia de misteriosos retiros, e que devia apagar todas as manhas com o seu musgo a vereda traçada na véspera.

Trepadeiras floridas escondiam a escadaria externa daquela

casa desabitada, abraçando-a até ao primeiro andar.

A força de olhar para a dita casa, acabei por me convencer de que era minha, tão bem ela resumia o sonho que estava a sonhar. Via Margarida ao meu lado, de dia no bosquezinho que vestia a colina, à noite sentada na relva. Perguntava a mim mesmo se teria havido algum dia criaturas terrestres tão felizes como nós.

--Que linda casa! --exclamou Margarida, que seguira a direcção do meu olhar e talvez do meu pensamento. --onde?--perguntou Prudência.

--Acolá.

E Margarida apontava com o dedo.

--Ah! Encantadora!--concordou Prudência.-Agrada-te?

--Muito.

--Pois então diz ao duque que ta alugue. Ele faz-te a vontade, com certeza. Se quiseres, encarrego-me disso.

Margarida olhou para mim como para me perguntar qual a minha opinião.

O meu sonho voara com as últimas palavras de Prudência e

atirara comigo tão brutalmente para a realidade, que ainda estava atordoado da queda.

--Efectivamente, é uma excelente ideia! --balbuciei sem saber o que dizia.

--Pois eu arranjarei tudo!--declarou, apertando-me a mão, Margarida, que interpretava as minhas palavras segundo o seu desejo.--Vamos a ver se ela se aluga.

A casa estava vaga. Alugava-se por dois mil francos.

--Eras feliz aqui?--perguntou-me ela.

--Tenho, por acaso, a certeza de vir para cá também?

--Então para que vinha eu enterrar-me naquela casa, se não

fosse para vir contigo?

--Então, Margarida, consente que seja eu a alugá-la.

--Estás doido? Não só era inútil, mas até perigoso; bem sabes que não tenho direito de aceitar coisa alguma, a não ser de um só homem. Deixa-me cá, meu criançola, e não digas nada.

--Eu então é que estou nas minhas sete quintas –disse Prudência.--Em tendo dois dias livres, venho passá-los contigo.

Deixámos a casa e pusemo-nos a caminho de Paris, sempre a conversar sobre a nossa resolução. Eu levava Margarida pelo braço, de maneira que, quando me apeei, começava a encarar menos escrupulosamente o projecto da minha amante.

 

No dia seguinte Margarida despediu-me de madrugada, pois o duque devia chegar muito cedo, mas prometeu-me que, mal ele se retirasse, me escreveria a marcar o encontro para a noite.

Efectivamente durante o dia recebi o seguinte' bilhete:

"Vou a Bougival com o duque. Deves estar em casa da Prudência às oito horas da noite. "

A hora indicada Margarida regressava e vinha ter comigo a casa da Duvernoy.

--Tudo arranjado!--disse ela, ao entrar.

--Está alugada a casa?--perguntou Prudência.

--Está; consentiu logo.

Eu não conhecia o duque, mas tinha vergonha de o enganar

assim.

--Mas ainda não fica por aqui!--tornou Margarida.

--Então que mais temos?

--Pensei também no alojamento de Armando.

--Na mesma casa? --perguntou Prudência, rindo.

--Não, no Point-du-Jour, onde almoçámos, eu e o duque.

Enquanto ele admirava o panorama, perguntei a madame

Arnould... é assim que ela se chama, não é?... se dispunha de algum compartimento bom. Tem exactamente um magnífico, com sala, saleta e quarto de dormir. Parece-me que não é necessário mais nada. Sessenta francos por mês. Tudo mobilado de forma tal, que pode distrair até um hipocondríaco. Aluguei-o logo. Fiz bem?

Saltei aos braços a Margarida.

--E delicioso --tornou ela--; ficas com uma chave da porta pequena, e prometi ao duque uma chave do portão, que ele não leva, porque só lá vai de dia, se for. Parece-me, aqui para nós, que ficou encantado com este capricho, que me afasta de Paris por algum tempo e tapa a boca até certo ponto à sua família. Contudo, perguntou-me como era que eu, gostando tanto de Paris, me decidiria a ir enterrar-me no campo. Respondi-lhe que me sentia doente e que ia descansar. Parece que não me deu grande crédito. o pobre velho está sempre sobressaltado.

Tomaremos, por conseguinte, muitas precauções, meu caro

Armando; porque ele manda-me vigiar com toda a certeza, e não basta que me alugue a casa, é necessário também que me pague as dívidas... infelizmente algumas tenho. Concordas com tudo isto?

--Concordo--respondi eu, procurando impor silêncio a todos os escrúpulos que me inspirava de quando em quando este modo de viver.

--Visitámos a casa minuciosamente. Havemos de viver lá às mil maravilhas. o duque pensou em tudo. Ah, meu querido--acrescentou a doidinha beijando-me--, olha que és bem

feliz; é um milionário que te faz a cama.

--E quando vais tu para lá? --perguntou Prudência.

O mais breve possível.

--Levas a carruagem e os cavalos ?

--Levo tudo. Hás-de encarregar-te de me cuidar dos quartos

durante a minha ausência.

Oito dias depois, Margarida tomara posse da sua casa de campo, e eu estava alojado no Point-du-Jour.

Então principiou uma existência que me seria difícil descrever-lhe.

No princípio da sua estada em Bougival, não pôde Margarida romper com os seus antigos hábitos, e como em casa havia sempre festa, iam visitá-la todas as suas amigas; durante um mês, não se passou um dia só sem que ela tivesse oito ou dez pessoas à mesa. Prudência trazia pela sua parte quantas pessoas conhecia, e fazia-lhes as honras da casa, como se esta lhe pertencesse.

O dinheiro do duque pagou tudo, como pode imaginar, e, contudo, por mais de uma vez sucedeu vir Prudência pedir-me uma nota de mil francos, dizendo-me que era em nome de Margarida. Como sabe, eu tinha algum do ganho ao jogo, e apressei-me, por conseguinte, a entregar a Prudência o que Margarida me mandava pedir. Com receio de que ela precisasse de mais do que aquele de que eu dispunha, fui a Paris arranjar, emprestada, uma quantia igual à que já pedira tempos antes e que pagara pontualmente.

Achei-me, assim, de novo com uns dez mil francos na algibeira, não contando a minha pensão.

Contudo, o gosto que Margarida experimentava em receber as suas amigas foi serenando um pouco em presença das despesas a que tal prazer a obrigava e sobretudo perante a necessidade que ela tinha às vezes de me pedir dinheiro. o duque, que alugara aquela casa para Margarida descansar, já lá não aparecia, com medo de encontrar numerosa e alegre companhia, a quem ele não gostava muito de se mostrar. É que, tendo lá ido um dia para jantar a sós com Margarida, chegou no meio de um almoço de quinze pessoas--almoço que não acabara ainda às horas a que tencionava sentar-se à mesa para jantar. Quando, não suspeitando de coisa alguma, abrira a porta da sala de jantar, a sua entrada fora acolhida por um riso geral, e vira-se obrigado a retirar-se bruscamente diante da atrevida jovialidade das raparigas que lá estavam.

Margarida levantara-se da mesa, fora ter com o duque ao quarto próximo e procurara, tanto quanto possível, fazer-lhe esquecer essa aventura. Mas o velho, ferido no seu amor-próprio, mostrara-se muito magoado e dissera-lhe, com bastante crueldade, que estava farto de pagar as loucuras de uma mulher que nem sequer sabia fazê-lo respeitar em sua casa, e partira irritadíssimo.

Desse dia em diante ninguém mais ouvira falar nele. Debalde Margarida despedira os seus convivas e mudara os seus hábitos: o duque não dava notícias suas. Eu ganhara com isso o pertencer-me a minha amante mais completamente e realizar-se afinal o meu sonho. Margarida já não podia passar sem mim. Sem se importar com o que daí resultaria, ostentava o mais publicamente possível o nosso amor e eu acabara por já não sair de casa dela. os criados chamavam me "meu senhor" e consideravam-me oficialmente como seu amo.

Prudência fartara-se de pregar sermões a Margarida com relação a este novo viver; mas esta respondera que me adorava, que não podia viver sem mim e que, sucedesse o que sucedesse, não renunciaria à felicidade de me ter sempre a seu lado, acrescentando que todos aqueles a quem isso não agradasse, podiam ir-se embora.

Fora isto o que eu ouvira num dia em que Prudência dissera a Margarida que tinha uma coisa importantíssima a comunicar-lhe, e que eu estivera à escuta à porta do quarto onde se haviam fechado.

Tempos depois Prudência voltou.

Quando chegou, como eu estava no fundo do jardim, ela não me viu. Pelo modo como Margarida fora ter com Prudência, depreendi que iria travar-se entre ambas uma conversa semelhante àquela que eu já surpreendera, e quis escutar como da outra vez.

As duas fecharam-se no quarto de vestir, e eu pus-me à escuta.

--Então?--perguntou Margarida.

--Falei com o duque.

--Que te disse ele?

--Que de bom grado te perdoava a primeira cena, mas que soubera que vivias publicamente com Armando Duval, e isso não to perdoava. "Que Margarida deixe esse rapaz", disse-me ele, e dar-lhe-ei como até aqui tudo quanto ela quiser; senão que renuncie a pedir-me se a o que for".

--E tu que respondeste?

--Que te comunicaria a sua decisão, e prometi-lhe meter-te juízo na cabeça. Pensa, minha querida filha, na posição que perdes e que nunca Armando te poderá dar. Ama-te com todas as veras da sua alma, mas não possui riqueza para ocorrer a todas as tuas necessidades, e um dia terão irremediavelmente de separar-se, quando já for tarde e o duque nada mais quiser fazer por ti. Queres que eu fale a Armand ?

Margarida parecia reflectir, porque não respondia. Batia-me o coração com violência, enquanto esperava a sua resposta.

--Não--respondeu ela--, nem deixo Armando, nem me escondo para viver com ele. É uma loucura, talvez, mas que queres tu, se o amo! E ele agora, de mais a mais, habituou-se a amar-me sem obstáculo; sofreria imenso se se visse obrigado a deixar-me, nem que fosse uma única hora por dia! De resto, não tenho tanto tempo para viver, que me torne infeliz por não cumprir as ordens de um velho, cuja vista, por si só, me faz envelhecer. Que guarde o seu dinheiro. Passarei sem ele.

--Mas que hás de tu fazer?

--Não sei.

Prudência ia decerto responder alguma coisa, mas eu entrei

bruscamente e corri a deitar-me aos pés de Margarida,

cobrindo-lhe as mãos de lágrimas que a alegria de ser assim

amado me fazia derramar.

--A minha vida pertence-te, Margarida. Já não precisas desse homem. Não estou eu aqui? Jamais te abandonarei. E poderia algum dia pagar-te a felicidade que me dás? Deixemo-nos de constrangimentos, Margarida; amamo-nos... que nos importa o resto?

--oh! Sim, amo-te, meu Armando!--murmurou ela, cingindo os braços ao meu pescoço.--Amo-te como nunca julgaria que podia amar. Seremos felizes, viveremos tranquilos, e direi um eterno adeus a uma vida que me faz agora corar. Nunca me lançarás em rosto o meu passado, não é verdade?

As lágrimas velavam-me a voz. Por única resposta apertei

Margarida de encontro ao coração.

--olha--disse ela, voltando-se para Prudência e com voz ainda comovida, conta esta cena ao duque e acrescenta que não precisamos dele para nada.

Desse dia em diante não se falou mais no duque. Margarida já não era a rapariga que eu conhecera. Evitava tudo quanto me pudesse lembrar a vida em que eu a encontrara. Nunca uma mulher, nunca uma irma teve pelo esposo ou irmão o amor e os desvelos que ela me prodigalizava. A sua natureza doentia estava pronta para todas as impressões, era acessível a todos os sentimentos. Rompera com as amigas como rompera com os seus hábitos, com a sua linguagem como com as suas despesas de outrora. Quem nos via sair de casa para irmos dar um passeio num barquinho encantador que eu comprara, jamais imaginaria que aquela mulher com o seu vestido branco, o seu grande chapéu de palha, que levava no braço a simples capa de seda que devia garanti-la contra a frescura da água, era essa Margarida Gautier que, quatro meses antes, fazia barulho com o seu luxo e os seus escândalos.

Ai! Apressámo-nos a ser felizes, como se tivéssemos adivinhado que a nossa felicidade não poderia prolongar-se por muito tempo.

Passáramos dois meses sem irmos a Paris. Ninguém nos viera visitar, a não ser a Prudência e aquela Júlia Duprat em que lhe falei e a quem Margarida havia de entregar depois a

tocante narrativa que aqui tenho.

Eu passava dias inteiros aos pés da minha amante. Abríamos as janelas que deitavam para o jardim e, vendo o Estio manifestar-se alegremente nas flores que desabrocham ao seu influxo e por baixo da sombra das árvores, respirávamos ao lado um do outro essa vida verdadeira que nem Margarida nem eu tínhamos compreendido até então.

Essa mulher pasmava como uma criança com as mais pequenas coisas. Havia dias em que corria pelo jardim, como uma criança de dez anos, atrás de uma borboleta. Essa cortesã, que fizera com que se gastasse em flores mais dinheiro do que o bastante para que vivesse com alegria uma família inteira, sentava-se às vezes na relva, durante uma hora, para examinar uma simples margarida.

Foi nesses momentos que leu tantas vezes Manon Lescaut. Muitas vezes a surpreendi a anotar este livro; e dizia-me sempre que, quando uma mulher ama, não pode fazer o que fazia Manon.

Duas ou três vezes o duque lhe escreveu. Margarida conheceu a letra e deu-me as cartas sem as ler.

As vezes os termos dessas cartas faziam-me chegar as lágrimas aos olhos.

O duque supusera que, fechando a bolsa a Margarida, a obrigaria a voltar para ele; mas, quando viu que esse meio era inútil, não pudera resistir, escrevera, pedindo como dantes, licença para voltar, fossem quais fossem as condições impostas.

Eu lia essas cartas instantes e rasgava-as, sem repetir a Margarida o que elas diziam e sem lhe aconselhar que tornasse a receber o velho, apesar de me impelir a isso um sentimento de piedade pela dor desse pobre homem; mas receava que ela visse nesse meu conselho o desejo de que o duque recomeçasse as suas visitas e retomasse os encargos da casa; temia, acima de tudo, que Margarida me julgasse capaz de renegar a responsabilidade da sua vida com todas as consequências a que o seu amor por mim me podia arrastar.

Daí resultou que o duque, não recebendo resposta, deixou de escrever, continuando, Margarida e eu, a viver juntos sem nos importarmos com o futuro.

 

Não seria fácil contar-lhe pormenorizadamente a nossa vida.

Era cheia de criancices encantadoras para nós, mas sem interesse para aqueles a quem as contasse. Sabe o que é amar uma mulher, sabe como se abreviam os dias e com que amorosa preguiça os deixamos passar. Não ignora esse esquecimento de todas as coisas, que nasce de um amor violento, retribuído e confiante. Todo o ser que não seja a mulher amada parece-nos um ente inútil na criação. Lamenta-se terem-se já atirado parcelas do coração a outras mulheres, e não se antevê a possibilidade de apertar outra mão que não seja a que nesse instante se segura. o cérebro não admite nem trabalho nem lembrança, nada, enfim, que pudesse distraí-lo do único pensamento que sem cessar se lhe oferecesse. Todos os dias se descobre na amante um novo encanto, uma voluptuosidade desconhecida.

A existência não passa da reiterada satisfação de um desejo

contínuo, a alma é já apenas a vestal encarregada de alimentar o fogo sagrado do amor.

Muitas vezes íamos, ao cair da noite, sentar-nos no pequeno

bosque que dominava a casa. Ali escutávamos as belas harmonias da tarde, pensando ambos na hora próxima que nos ia abandonar até ao dia seguinte nos braços um do outro. Ficávamos outras vezes deitados todo o dia, sem deixarmos sequer o sol penetrar no nosso quarto. Estavam hermeticamente corridas as cortinas e o mundo exterior parava um momento para nós. Apenas Nanine tinha direito de abrir a nossa porta, mas só para nos levar as refeições que tomávamos sem nos levantarmos e interrompendo-as sem cessar com risos e loucuras. A isto sucedia um sono de

alguns instantes, porque, mergulhando no nosso amor, éramos como dois mergulhadores obstinados que só voltam à superfície para retomar a respiração.

Surpreendia, contudo, em Margarida momentos de tristeza e até de lágrimas. Perguntava-lhe o que motivava esse súbito pesar e ela respondia-me: --o nosso amor não é um amor vulgar, meu Armando. Amas-me como se eu nunca tivesse pertencido a outro homem; e tremo que depois, arrependendo-te do teu amor e arrojando-me ao rosto como um crime o meu passado, me obrigues a lançar-me de novo na existência a que me foste buscar. Agora que saboreei uma vida nova, morreria se voltasse à outra, não o esqueças.

Diz-me que nunca me deixarás.

--Juro-to.

Ao ouvir esta afirmação, Margarida olhava para mim como para ler-me nos olhos se o meu juramento era sincero. Depois lançava-se-me nos braços e, escondendo a cabeça no meu peito, exclamava:

--É que não sabes quanto te amo!

Uma noite, de cotovelos apoiados no peitoril da janela, olhávamos para a Lua que parecia sair a custo do seu leito de nuvens, escutávamos de mãos dadas o vento que agitava ruidosamente as árvores, e havia um bom quarto de hora que não falávamos? quando Margarida me disse:

--Aproxima-se o Inverno; queres que partamos?

--Para onde

--Para a Itália.

--Aborreces-te aqui?

--Tenho medo do Inverno, tenho medo, sobretudo do nosso

regresso a Paris.

--Porquê ?

--Por muitas coisas.

E prosseguiu bruscamente, sem me dar as razões dos seus

receios:

--Queres partir? Eu vendo tudo quanto tenho, e iremos viver

para bem longe daqui, onde nada me ficará do que era, onde ninguém saberá quem sou. Queres ?

--Partamos se isso te agrada, Margarida; vamos fazer uma viagem--dizia-lhe eu--; mas que necessidade tens tu de vender coisas que gostarás de encontrar à volta? Eu não sou tão rico que possa aceitar tamanho sacrifício, mas tenho o bastante para podermos viajar à grande uns cinco ou seis meses, se isso de algum modo te pode divertir.

--Afinal de contas para quê? --tornou Margarida, saindo da janela e indo sentar-se no canapé, a sombra.--Íamos gastar muito dinheiro, quando eu ]a aqui te não custo pouco.

--Lanças-mo em rosto, Margarida?

--Perdoa-me!--exclamou ela, estendendo-me a mão.--Este tempo de tempestade faz-me mal aos nervos; não digo o que quero dizer.

E, depois de me dar um beijo, caiu num longo cismar.

Muitas vezes se renovaram estas cenas e, se eu ignorava o que lhes dava origem, não deixava de surpreender no espírito de Margarida um sentimento de inquietação a respeito do futuro.

Não podia duvidar do seu amor, porque esse aumentava de dia para dia, e contudo via-a muitas vezes triste, sem nunca

conseguir que me explicasse o motivo das suas tristezas, a não ser por uma causa física. Receando que ela se fatigasse de uma vida demasiadamente monótona, propunha-lhe voltar a Paris; porém, ela repelia essa proposta e assegurava-me que em parte nenhuma podia ser tão feliz como no campo.

Prudência aparecia agora raras vezes, mas escrevia cartas que eu nunca pedira para ver, apesar de lançarem Margarida, sempre que vinham, numa preocupação profunda. Não sabia o que imaginar.

Um dia Margarida deixou-se ficar no quarto. Entrei. Ela escrevia.

--A quem estás a escrever?--perguntei.

--A Prudência; queres que te leia o que escrevi?

Eu tinha horror a tudo o que pudesse parecer desconfiança; respondi, por conseguinte, a Margarida que não precisava de saber o que ela escrevia. Contudo, tinha a certeza de que essa carta me daria a verdadeira causa das suas tristezas.

No dia seguinte estava um tempo soberbo. Margarida propôs-me ir dar um passeio de barco até à ilha de Croissy. Parecia muitíssimo alegre. Eram cinco horas quando voltámos para casa.

--Veio a Sr.a Duvernoy --informou Nanine, quando nos viu entrar.

--E foi-se embora outra vez?--perguntou Margarida.

--Sim, e foi na carruagem da senhora. Disse-me que assim ficara combinado.

--Bem--rematou vivamente Margarida--, ponham o jantar na mesa.

Passados dois dias chegou uma carta de Prudência, e durante duas semanas Margarida pareceu ter rompido com as suas misteriosas melancolias, das quais não cessava de me pedir perdão desde que elas tinham de ir.

Mas a carruagem não voltava.

--Porque é que Prudência te não manda o teu coupé?—perguntei uma vez.

--Está doente um dos cavalos e a carruagem precisa de consertos. É melhor que tudo isso se faça enquanto aqui estamos, pois não temos necessidade de carruagem, do que

quando voltarmos para Paris.

Prudência veio visitar-nos dias depois e confirmou-me o que

Margarida me dissera.

Andaram as duas a passear sozinhas no jardim e quando fui ter com elas mudaram de conversa.

A noite, no momento da partida, Prudência queixou-se de frio e pediu a Margarida que lhe emprestasse um dos seus xailes de caxemira.

Assim se passou um mês, durante o qual Margarida se mostrou mais alegre e mais apaixonada do que nunca.

No entanto a carruagem não voltara, Prudência não mandara mais o xaile de caxemira. Tudo isto me fazia pensar, e, como sabia qual era a gaveta em que Margarida metia as cartas de Prudência, aproveitei-me dum momento em que ela estava ao fundo do jardim, corri à gaveta e procurei abri-la, mas não pude, pois achava-se fechada à chave.

Então procurei nas gavetas onde habitualmente as jóias e os

diamantes se encontravam guardados. Aquelas abriram-se sem resistência, mas os escrínios tinham desaparecido, com o que encerravam, bem entendido.

Confrangeu-se-me o coração com um receio pungente.

Ia reclamar de Margarida que me dissesse a verdade acerca dessas desaparições, mas ela com certeza não mais confessaria.

--Minha boa Margarida--disse-lhe eu, então--, venho pedir-te

licença para ir a Paris. Lá em casa não sabem o meu paradeiro, e é natural que tenham recebido cartas de meu pai. Estou inquieto, e preciso de lhe responder.

--Vai, meu amigo--concordou ela--, mas volta cedo.

Parti.

Fui imediatamente a casa de Prudência.

--Vamos--disse-lhe eu sem preâmbulos--; responda-me

francamente: que é feito da parelha de Margarida ?

--Vendeu-se.

--E o xaile?

--Também.

--os diamantes?

--Estão empenhados.

--Quem vendeu e quem empenhou?

--Eu.

--Porque me não avisou?

--Porque Margarida mo proibiu.

--Porque me não pediu dinheiro ?

--Porque ela não queria.

--Para que serviu esse dinheiro todo?

--Para pagar dívidas.

--Então ela ainda deve muito?

--Deve ainda os seus trinta mil francos, pouco mais ou menos.

Ah, meu caro, eu bem lho tinha dito! Não me quis acreditar;

agora parece-me que deve estar convencido. o estofador, em cujo estabelecimento o duque se responsabilizara por Margarida Gautier, foi posto no meio da rua, quando se apresentou com a conta em casa dele, e o velho escreveu-lhe no dia seguinte a comunicar-lhe que nada mais pagaria. o homem exigiu dinheiro, deu-se-lhe alguma coisa por conta, e foi para isso que eu pedi ao Armando esses milhares de francos. Depois avisaram-no umas almas caridosas de que a sua devedora, abandonada pelo duque, vivia com um rapaz pobre. os outros credores receberam idêntico aviso, pediram dinheiro e fizeram penhoras. Margarida quis vender tudo, mas já não era tempo e mesmo eu não o permitiria. Não havia remédio senão pagar, e, para não pedir dinheiro ao Armando, vendeu os cavalos o xaile de caxemira e as jóias. Quer os recibos dos compradores e as cautelas do Montepio?

E Prudência, abrindo uma gaveta, mostrou-me esses papéis.

--Ah! Veja lá...--continuou ela, com essa persistência da mulher que tem direito de falar.--Eu tinha razão! Imagina que

basta a gente amar e ir viver para o campo uma vida pastoril e amorosa! Não, meu amigo, não. Ao lado da vida ideal, há a vida material, e as mais castas resoluções ficam presas à terra por uns fios ridículos, mas de ferro, e que se não quebram facilmente. Se Margarida o não enganou já vinte vezes, é porque é uma natureza excepcional. Não é que eu a não aconselhasse, pois fazia-me pena ver a pobre rapariga ficar sem nada. Não quis, respondeu-me que o amava e que não o enganaria por coisa nenhuma deste mundo. Tudo isto é muito bonito, muito poético, mas com esse dinheiro não se paga aos credores, e hoje já se não pode desenvencilhar deles, a não ser com uns trinta mil francos, repito.

--Bem ! Eu lhe darei esse dinheiro.

--Vai pedi-lo emprestado?

--Claro.

--Faz um bonito serviço! Pôr-se de mal com seu pai, atrapalhar a sua vida, e de mais a mais trinta mil francos não se encontram assim do pé para a mão. Acredite, meu caro, que eu conheço melhor as mulheres do que o Armando; não faça semelhante loucura. olhe que mais dia menos dia arrepende-se.

Seja razoável. Não lhe digo que deixe a Margarida, mas viva com ela como no princípio do Verão. Dê-lhe liberdade de tratar dos meios de se desempenhar. A pouco e pouco o duque ir-se-á reconciliando com Margarida. o conde de N..., ainda mo dizia ontem, se ela quiser, paga-lhe as dívidas e dá-lhe quatro ou cinco mil francos por mês. ora ele tem duzentos mil francos de rendimento. Será uma boa posição para ela, ao passo que o Armando ver-se-á forçado a deixá-la; não espere que esteja arruinado, tanto mais que o conde de N... é um pedaço de asno, e que nada o impedirá, Armando, de continuar a ser amante de Margarida. A princípio ela não deixará de chorar um pouco, mas afinal acabará por se habituar, e há-de agradecer-lhe um dia o que fizer. É como se Margarida fosse casada e o Armando enganasse o marido, nada mais. Eu já uma vez lhe disse tudo isto, mas nessa época não passava de um conselho, e hoje é quase uma necessidade.

Prudência tinha cruelmente razão.

--A verdade é que--continuou, metendo na gaveta os papéis que acabava de me mostrar as mulheres da classe de Margarida prevêem sempre que hão-de ser amadas, e nunca hão-de amar; se não pensassem assim, punham dinheiro de parte para dar-se ao luxo de poderem, aos trinta anos, ter um amante de graça. Se eu soubesse o que sei agora! Enfim, não diga nada a Margarida e leve-a para Paris. Viveu quatro ou cinco meses sozinho com ela, já é muito razoável; feche os olhos, não exija mais nada.

Daqui a quinze dias, ela voltará para o conde de N..., economiza no Inverno, e no próximo Verão tornam a começar.

Assim é que se faz!

E Prudência parecia encantada com o seu conselho que repeli com indignação. Não só o meu amor e a minha dignidade me não permitiam proceder dessa forma, mas também estava convencidíssimo de que Margarida preferiria morrer, a aceitar semelhante partilha.

--Basta de brincadeiras !--exclamei.--De quanto precisa definitivamente Margarida?

--Já lhe disse: de uns trinta mil francos.

--E quando é necessário pagar essa quantia?

--Dentro de dois meses.

--Fica por minha conta.

Prudência encolheu os ombros.

--E, se ela a mandar vender ou empenhar mais alguma coisa, previna-me.

--Não há perigo, que já não tem nada.

Antes de ir para Bougival, fui a casa a ver se havia cartas de

meu pai. Havia quatro.

Era inquietação o que meu pai mostrava nas três primeiras cartas, mas na última deixava perceber que soubera da minha mudança de vida e anunciava-me a sua breve chegada.

Tive sempre um grande respeito e uma sincera afeição por meu pai. Respondi-lhe, por conseguinte, que a causa do meu silêncio fora uma pequena viagem, e pedi-lhe que me prevenisse da sua chegada para o poder ir esperar.

Dei ao meu criado a indicação da minha morada no campo e

recomendei-lhe que me levasse a primeira carta que viesse carimbada de C... Depois tornei imediatamente a partir para Bougival.

Margarida esperava-me à porta do jardim.

o seu olhar exprimia inquietação. Saltou-me ao pescoço e não pôde deixar de me dizer:

--Viste a Prudência?

--Não.

--Estiveste tanto tempo em Paris!

--Encontrei cartas de meu pai a que tive de responder.

Instantes depois, Nanine entrou toda esbaforida. Margarida levantou-se e foi falar-lhe em voz baixa.

Quando Nanine saiu, disse-me Margarida, sentando-se ao pé de mim e pegando-me na mão:

--Porque me enganaste? Tu foste a casa de Prudência.

--Quem to contou?

--Nanine.

--E como é que ela o sabe?

--Seguiu-te.

--Então mandaste-a seguir-me?

--Mandei. Pareceu-me que só motivo muito poderoso podia obrigar-te a ir assim de repente a Paris, tu que me não deixas um instante só há quatro meses. Receava que te houvesse sucedido alguma desgraça, ou que fosses ver outra mulher.

--Criança !

--Agora estou sossegada; sei o que fizeste, mas ignoro ainda o que te disseram.

Mostrei a Margarida as cartas do meu pai.

--Não é isso o que te pergunto; o que quero saber é para que foste a casa de Prudência.

--Para a ver.

--Estás a mentir, meu amigo.

--Queres saber o que fui fazer? Fui perguntar-lhe se o cavalo ia melhor e se já não precisava do teu xaile de caxemira e das tuas jóias.

Margarida corou e não respondeu.

--E soube o que tinhas feito aos cavalos, ao xaile de caxemira e aos diamantes.

--E ficaste zangado comigo por causa disso?

--Fiquei zangado por não teres tido a ideia de me pedir o dinheiro de que precisavas.

--Numa ligação como a nossa, se a mulher possui ainda um pouco de dignidade, deve fazer todos os sacrifícios possíveis para não pedir dinheiro ao seu amante e para não dar um lado venal ao seu amor. Amas-me, bem sei, mas não sabes como é ténue o fio que prende ao coração o amor que um homem tem por uma rapariga como eu. Quem sabe? Talvez num dia de mau humor ou de atrapalhação te acudisse ao pensamento que nesta ligação houve um cálculo bem combinado. Prudência é uma tagarela. Para que precisava eu dos cavalos? Foi uma economia, vendendo-os; posso perfeitamente dispensá-los, e não gasto nada com eles.

Contanto que me ames, nada mais te peço, e tu hás-de amar-me da mesma forma embora sem cavalos, nem caxemiras, nem jóias.

Tudo isto era dito num tom tão natural, que eu, ao ouvi-la, tinha os olhos rasos de água.

--Minha boa Margarida--respondi, apertando-lhe apaixonadamente as mãos--, não te lembraste de que eu mais tarde ou mais cedo havia de conhecer esse sacrifício, e que, no dia em que o soubesse, ficaria magoado?

--Porquê ?

--Porque não quero, querida filha, que o afecto que me consagras te prive de uma jóia só que seja. Não quero também que, num momento de atrapalhação ou de aborrecimento, possas pensar que, se vivesses com outro homem, não terias esses aborrecimentos, e que te arrependas, um momento só que seja, de viver comigo. Dentro de poucos dias ser-te-ao restituídos os teus cavalos, os teus xailes de caxemira e os teus diamantes. São-te tão necessários como o ar à vida, e, talvez isto seja ridículo, mas gosto mais de ti sumptuosa do que simples.

--Então, é porque me não amas.

--Doidinha !

--Se me quisesses, deixavas que eu te amasse a meu modo; pelo contrário, não continuas a ver em mim senão uma rapariga a quem é indispensável este luxo e a quem te julgas sempre obrigado a pagar. Tens vergonha de aceitar provas do meu amor.

Pensas involuntariamente em me deixar um dia e empenhas-te em pôr os teus melindres ao abrigo de toda e qualquer suspeita. Tens razão, meu amigo, mas eu esperava mais de ti.

E Margarida fez um movimento para se levantar. Segurei-a,

dizendo:

--Quero que sejas feliz e não tenhas censura alguma a dirigir-me. Nada mais !

--E vamos separar-nos !

--Porquê, Margarida? Quem nos pode separar? --perguntei eu.

--Quem nos separa és tu, que me não queres permitir que compreenda a tua posição e tens a vaidade de me conservares na minha; tu, que conservando-me no luxo no meio do qual tenho vivido, pretendes manter a distância moral que nos separa; tu, enfim, que não julgas bastante desinteressada a minha afeição, não imaginas que posso resignar-me a viver feliz contigo, com os haveres que possuis, e preferes arruinar-te, em obediência a um preconceito ridículo. Achas-me então capaz de trocar pelo teu amor uma carruagem e umas jóias? Pensas que a felicidade consiste para mim nas vaidades com que se contenta quem não tem amor a coisa alguma, mas que se tornam bem mesquinhas quando se ama? Pagas as minhas dívidas, diminuis os teus rendimentos, enfim, sustentas-me à larga. Quanto tempo pode durar isto tudo? Dois ou três meses, e no fim já é tarde para encetar a vida que eu te proponho, porque então aceitavas tudo de mim, e é o que um homem honrado não pode fazer. E agora?

Agora dispões de oito ou dez mil francos de rendimento, e com isso podemos viver perfeitamente. Vendo o supérfluo do que tenho, e só com essa venda arranjo um rendimento de dos mil francos por ano. Alugaremos uma linda casinha, onde viveremos nós ambos. De Verão, iremos para o campo, não para uma casa como esta, mas para uma vivendazinha que chegue para duas pessoas. És independente, eu sou livre, somos novos. Por amor de Deus, Armando, não me atires outra vez para a vida que dantes era obrigada a levar.

Eu não podia responder, inundavam-se-me os olhos de lágrimas de reconhecimento e de amor, e precipitei-me nos braços de Margarida.

--Queria--tornou ela--arranjar tudo sem te dizer coisa alguma, pagar todas as minhas dívidas e mandar preparar a minha casa nova. Quando regressássemos a Paris no mês de outubro, estaria tudo pronto; mas, já que Prudência te pôs ao corrente das minhas diligências, não há remédio senão consentires antes, em vez de consentires depois. Amas-me bastante para o fazer?

Era impossível resistir a tanto afecto. Beijei as mãos de Margarida com efusão e declarei:

--Faço tudo o que quiseres.

Assentou-se, por conseguinte, no que ela decidira.

Então apoderou-se de Margarida uma alegria louca: dançava e cantava. A simplicidade da sua nova casa era para ela uma festa. Consultava-me acerca do bairro em que devia ser e a disposição que devia dar-se-lhe.

Via-a feliz e ufana com esta resolução que parecia destinada a juntar-nos definitivamente.

Não lhe quis ficar atrás.

Num instante decidi da minha vida. Vi o estado em que se encontravam os meus bens e resolvi fazer doação a Margarida dos rendimentos que me provinham de minha mãe e que me pareceram insuficientíssimos para recompensar o sacrifício que eu aceitava.

Restavam-me os cinco mil francos da pensão que me dava meu pai, e, houvesse o que houvesse, essa pensão anual era mais do que suficiente para eu viver.

Não disse a Margarida a decisão que tomara, convencido de que ela não aprovaria o meu acto.

Esse rendimento provinha de uma hipoteca de sessenta mil francos sobre um prédio que eu nunca vira sequer. O que sabia era que todos os trimestres o tabelião de meu pai, velho amigo da nossa família, me entregava setecentos e cinquenta francos em troca de um simples recibo meu.

No dia em que eu e Margarida viemos a Paris procurar casa, fui ao cartório desse tabelião e perguntei-lhe o que havia de

fazer para transferir para outra pessoa esse rendimento.

O bom do homem julgou-me arruinado e interrogou-me acerca da causa dessa decisão. ora como eu, tarde ou cedo, tinha de lhe dizer a favor de quem fazia essa doação, preferi contar-lhe imediatamente a verdade.

Não me apresentou nenhuma das objecções que a sua posição de tabelião e amigo o autorizava a fazer-me e assegurou-me que se encarregava de arranjar as coisas o melhor que pudesse.

Recomendei-lhe, como era natural, a maior discrição quanto a meu pai, e fui ter com Margarida, que estava à minha espera em casa de Júlia Duprat, onde ela antes quisera ficar do que ir aturar os sermões de Prudência.

Começámos a procurar casa. Todas as que víamos, Margarida achava-as muito caras, e eu muito simples. Contudo, acabámos por estar de acordo, e ajustámos, num dos bairros mais tranquilos de Paris, um pequeno pavilhão, isolado da casa principal.

Por trás dele estendia-se um jardim encantador, jardim que lhe pertencia e que era ladeado por muros bastante elevados para nos separarem dos nossos vizinhos e suficientemente baixos para não limitarem a vista.

Era melhor do que tínhamos esperado.

Enquanto eu ia a minha casa para rescindir o contrato de arrendamento, Margarida dirigia-se a casa de um procurador

que, segundo ela dizia, já fizera a uma das suas amigas o mesmo que ela lhe ia pedir.

Veio encontrar-se comigo, satisfeitíssima, à Rua de Provença.

Esse homem prometera-lhe pagar todas as dívidas, dar-lhe quitação e ainda uns vinte mil francos a troco de todo o recheio da casa que ela até ali ocupara.

O senhor viu, pelo que rendeu no leilão, que esse honrado homem ganharia mais de trinta mil francos com a sua cliente.

Partimos alegríssimos para Bougival e fomos todo o caminho a comunicarmos um ao outro as nossos projectos de futuro que, graças à nossa leviandade e sobretudo ao nosso amor, víamos com as tintas mais alegres.

oito dias depois, estávamos nós a almoçar quando Nanine me veio dizer que o meu criado me procurava.

Mandei-o entrar.

--Senhor! --disse-me ele--, seu pai chegou a Paris e pede-lhe que vá imediatamente a casa, onde está à sua espera.

Esta notícia era a coisa mais simples deste mundo. Contudo, ao sabê-la, eu e Margarida olhámos um para o outro. Adivinhámos neste incidente uma desgraça. Assim, sem ela me participar essa impressão que eu partilhava, respondi, pegando-lhe na mão:

--Nada receies.

--Volta o mais cedo que puderes--murmurou Margarida,

beijando-me.--Espero-te à janela.

Disse a José que prevenisse meu pai de que eu não demoraria.

Realmente, daí a duas horas estava na Rua de Provença.

Meu pai, em roupão, estava sentado na minha sala a escrever.

Percebi logo, pela maneira como levantou os olhos para mim quando entrei, que se ia tratar de coisas sérias.

Aproximei-me dele, contudo, como se nada tivesse adivinhado no seu rosto, e beijei-o.

--Quando chegou, meu pai ?

--Ontem à noite.

--Veio, como de costume, ficar a minha casa?

--Vim.

--Tenho pena de não estar cá para o receber.

Esperava ver surgir logo a esta palavra a rabecada que o rosto frio de meu pai anunciava; mas ele não me respondeu, fechou a carta que acabava de escrever e deu-a ao José para a deitar no correio.

Quando ele saiu, meu pai levantou-se e disse-me, encostando-se ao fogão:

--Meu querido Armando, temos de falar em coisas sérias.

--Estou às suas ordens, meu pai.

--Prometes-me ser franco?

--É esse o meu costume.

 

--É verdade que vives com uma mulher chamada Margarida

Gautier?

--É , sim, meu pai.

--Sabes quem era essa mulher?

--Era uma pecadora.

--Foi por causa dela que te esqueceste de nos visitar este

ano, a mim e a tua irma?

--Foi, sim, meu pai; devo confessá-lo.

--Amas então muito essa mulher?

--Já vê que sim, meu pai, porque me fez faltar a um dever

sagrado, e por isso lhe peço hoje humildemente perdão.

Meu pai não esperava decerto tão categóricas respostas; pareceu reflectir um instante antes de me dizer:

--Evidentemente, já percebeste que não podes viver sempre

assim...

--Receio-o, mas não o percebi.

--Mas devias ter percebido--tornou meu pai num tom já mais

sério--que eu não consentiria.

--Pensei que, enquanto nada fizesse contrário ao respeito que devo ao seu nome, meu pai, e à probidade tradicional de família, poderia viver como vivo, o que dissipou um pouco os receios que eu tinha.

As paixões tornam o homem forte. Eu estava pronto para todas as lutas, até contra meu pai, para conservar Margarida.

--Então chegou o momento de viver de outro modo.

--ora essa! Porquê, meu pai?

--Porque estás quase a fazer coisas que ferem o respeito que julgas ter pela tua família.

--Não percebo essas palavras.

--Vou explicar-tas. Que tenhas uma amante, compreendo; que lhe pagues como um cavalheiro deve pagar o amor duma mulher venal, é perfeitamente compreensível; mas que te esqueças por ela das coisas mais santas, que permitas que a notícia da sua vida escandalosa chegue ao fundo da minha província e lance a sombra de uma nódoa no nome honrado que eu lhe dei, isso é que não pode ser, isso é que não há-de ser.

--Permita-me que lhe diga, meu pai, que aqueles que lhe contaram tais coisas a meu respeito, estavam mal informados.

Sou amante de Margarida Gautier, vivo com ela, é a coisa mais simples deste mundo. Não dou a Margarida Gautier o nome que de meu pai recebi, gasto com ela o que os meus recursos me permitem, não me endividei, e não me coloquei, enfim, em nenhuma dessas posições que autorizam um pai a dirigir a seu filho o que acaba de dizer-me.

--Um pai está sempre autorizado a desviar seu filho do mau

caminho em que vê que ele entra. Ainda não fizeste coisa que fique mal, mas hás-de fazê-la.

--Meu pai!

--Conheço a vida melhor que tu. Apenas as mulheres inteiramente castas possuem sentimentos inteiramente puros.

Não há Manon que não possa criar um Des Grieux, e o tempo e os costumes mudaram. Seria inútil que o mundo envelhecesse, se não se corrigisse. Hás-de deixar a tua amante.

--Sinto muito desobedecer-lhe, meu pai, mas é impossível.

--Saberei obrigar-te.

--Infelizmente, meu pai, já não há ilhas de Santa Margarida para onde se mandem as cortesãs, e, se as houvesse, eu acompanharia Margarida Gautier, se o senhor conseguisse que para lá a mandassem. Que quer? Talvez eu- não tenha razão, mas só continuando a ser amante dessa mulher poderei ser feliz.

--Então, Armando, abre os olhos, reconhece teu pai, que sempre foi teu bom amigo e deseja apenas a tua felicidade. É digno de ti ires viver maritalmente com uma rapariga que todos possuíram?

--Que importa, meu pai, se ninguém mais a há-de possuir? Que importa, se essa mulher me adora, se se regenera pelo amor que me tem e pelo amor que eu lhe tenho? Que importa, enfim, se há conversão?

É demais! Pois acreditas que a missão de um homem de honra seja a de converter cortesãs? Imaginas que Deus deu esse fim grotesco à vida e que o coração não deve ter outro entusiasmo?

Que resultará dessa cura maravilhosa, e que pensarás do que estás hoje a dizer quando chegares aos quarenta anos? Hás-de rir-te do teu amor, se dele te puderes ainda rir, se ele não houver deixado no passado rastos demasiadamente profundos. Que seria hoje feito de ti se teu pai tivesse tido essas ideias e entregado a sua vida a todos esses sopros de amor, em vez de a assentar inabalavelmente num pensamento de honra e de lealdade? Reflecte, Armando, e não me tornes a dizer semelhantes tolices. Vamos, deixa essa mulher, é teu pai que to pede.

Não respondi uma palavra.

--Armando--continuou meu pai--, em nome da tua santa mãe, acredita-me, renuncia a essa vida que esquecerás mais depressa do que pensas e que te acorrenta a uma existência impossível.

Tens vinte e quatro anos, pensa no futuro. Não podes amar sempre essa mulher, que talvez seja a primeira a abandonar-te.

"Exagerais ambos o vosso amor. Estás a fechar para ti todas as carreiras. Mais um passo, e não poderás deixar o caminho em que entraste, e hás-de ter durante toda a vida o remorso da tua mocidade.

"Parte, vem passar um mês ou dois na companhia da tua extremosa irmã. O descanso e o amor piedoso da família hão-de curar-te depressa dessa febre, porque não é mais nada.

"Durante esse tempo a tua amante ir-se-á consolando; arranjará outro homem, e quando vires quem é a mulher que te ia pondo de mal com teu pai, a mulher que te ia fazendo perder a sua afeição, dir-me-ás que procedi bem em vir buscar-te e hás-de bendizer-me.

"Vamos, sempre partes comigo, não é verdade, Armando ?

Eu sentia que meu pai tinha razão com respeito a todas as mulheres, mas estava convencido de que o mesmo não sucedia quanto a Margarida. Mas o tom em que me dissera as suas últimas palavras era tão meigo, tão suplicante, que eu não me atrevia a responder-lhe.

--Então?--exclamou ele, com voz comovida.

--Então, meu pai, nada lhe posso prometer--respondi por fim.--O que me pede é superior às minhas forças.

Creio--continuei, vendo-lhe fazer um movimento de impaciência--que exagera o resultado desta ligação. Margarida não é a rapariga que imagina. Esse amor, longe de me arrojar para um mau caminho, é capaz, pelo contrário, de desenvolver em mim os mais honrados sentimentos. o amor verdadeiro torna o homem sempre melhor, seja qual for a mulher que o inspire. Se conhecesse Margarida, concluiria que me não exponho a desgraça alguma. É nobre como as mulheres mais nobres. Há tanto de cobiça nas outras como nela de desinteresse. --o que a não impede de aceitar todos os teus bens, porque os sessenta mil francos que herdaste de tua mãe e que vais dar a essa mulher, constituem, lembra-te bem do que te digo, a totalidade dos teus haveres.

Meu pai reservara, provavelmente, essa peroração e essa ameaça para me vibrar o último golpe.

Eu tinha mais força contra as suas ameaças do que contra os seus pedidos.

--Quem lhe disse que eu tencionava dar-lhe essa quantia?

--o meu tabelião. Um homem de bem fazia semelhante escritura sem me prevenir? Pois foi para impedir que te arruínes em favor de uma cortesã que eu vim a Paris. Tua mãe deixou-te, por sua morte, o bastante para viveres dignamente, e não para teres generosidades com as tuas amantes.

---Juro-lhe, meu pai, que Margarida ignorava essa doação.

--Então porque a fazias?

--Porque Margarida, essa mulher que meu pai calunia e que quer que eu abandone, sacrifica tudo quanto possui para viver comigo.

--E aceitas esse sacrifício? Que homem és tu que consentes que uma Margarida qualquer te sacrifique seja o que for? Vamos, acabou-se. Deixa essa mulher. Há momentos pedi, agora ordeno.

Não quero porcarias destas na minha família. Faz as tuas malas e prepara-te para me seguires.

--Perdoe-me, meu pai--disse-lhe então--, mas não parto.

--Porquê?

--Porque já estou na idade em que se não obedece a uma ordem.

Meu pai empalideceu ao ouvir esta resposta.

--Muito bem--tornou ele--, já sei o que me resta fazer.

Tocou a campainha.

José apareceu.

--Manda transportar as minhas malas para o Hotel de Paris. E ao mesmo tempo foi para o seu quarto, onde acabou de se vestir.

Quando reapareceu, foi ao seu encontro.

--Promete-me, meu pai--disse-lhe eu--, não fazer coisa alguma que possa magoar Margarida?

Meu pai deteve-se, olhou para mim com desdém e limitou-se a responder-me:

--Creio que enlouqueceste.

E saiu, batendo com violência a porta.

Desci também, aluguei um ca riolet e parti para Bougival.

Margarida esperava-me à janela.

--Até que enfim! --exclamou ela, saltando-me ao pescoço.—Cá estás. Como vens pálido !

Então contei-lhe a cena passada com meu pai.

--Ah, meu Deus ! Desconfiava disso mesmo --disse ela.—Quando José nos veio anunciar a chegada de teu pai, estremeci como se recebesse a notícia de uma desgraça. Pobre amigo! Sou eu que te causo todos estes desgostos. Talvez fosse preferível deixares-me, a indispores-te com teu pai. Contudo não lhe fiz mal nenhum. Vivemos tão tranquilos, vamos viver mais tranquilos ainda. Ele bem sabe que precisas de uma amante, e devia até gostar de que fosse eu, porque te amo e ambiciono apenas o que a tua posição te permite. Disseste-lhe como arranjámos o nosso futuro?

--Disse, e foi o que mais o irritou, porque viu nessa determinação a prova do nosso mútuo amor.

--Então que se há-de fazer?

--Ficarmos juntos, minha boa Margarida, e deixarmos passar a tempestade.

--E ela passará?

--Por força.

--Mas teu pai ficará por aqui?

--Que queres tu que ele faça?

--Eu sei tudo aquilo de que um pai é capaz para que seu filho obedeça. Há-de lembrar-te a minha vida passada, e talvez até me faça a honra de inventar a meu respeito alguma história nova para tu me abandonares.

--Bem sabes que te amo.

--Sei, mas também não ignoro que cedo ou tarde tem de se obedecer aos pais, e talvez acabes por te deixar convencer.

--Não, Margarida; eu é que o convencerei. As bisbilhotices de alguns dos seus amigos é que o irritam assim, mas ele é bom, é justo, há-de emendar a sua primeira impressão. E, afinal, que me importa!

--Não digas isso, Armando; eu preferia tudo a autorizar que se supusesse que fui eu que te indispus com a tua família. Deixa passar o dia de hoje, e amanha volta a Paris. Teu pai reflectirá decerto como tu, e talvez se entendam melhor. Não

vás de encontro aos seus princípios, finge fazer alguma concessão aos seus desejos e não mostres estar tão aferrado a mim, e é possível que ele deixe as coisas como estão. Tem esperança, meu amigo, e fica certíssimo de uma coisa: é que, suceda o que suceder, a tua Margarida há-de amar-te sempre.

--Juras-mo ?

--Preciso la de to jurar!

Como é bom a gente deixar-se tranquilizar por uma voz adorada!

Margarida e eu passámos o resto do dia a repetir um ao outro os nossos projectos como se tivéssemos compreendido a necessidade de os realizar o mais depressa possível.

Receávamos a cada instante algum acontecimento, mas felizmente passou o dia sem nada de anormal.

No dia seguinte parti às dez horas e cheguei ao meio-dia ao hotel.

Meu pai já saíra.

Imaginei que tivesse ido a minha casa e encaminhei-me para lá.

Ninguém lá fora. Dirigi-me ao cartório do tabelião. Ninguém.

Voltei para o hotel e esperei até às seis horas. Meu pai não apareceu.

Tornei para Bougival.

Encontrei Margarida, não à minha espera como na véspera, mas sentada ao canto do lume, que o adiantado da estação já exigia.

Achava-se tão imersa nas suas reflexões, que me aproximei da sua poltrona sem ela dar conta nem se virar. Quando lhe pus os lábios na testa, estremeceu como se esse beijo a houvesse despertado em sobressalto.

--Meteste-me medo --disse-me ela. pai?

--Não o vi. Não compreendo o que isto significa. Nem o encontrei em casa, nem em sítio algum daqueles a que era provável que ele fosse.

--Tens de voltar lá amanha.

--A minha vontade é esperar que ele me escreva. Parece-me que já fiz tudo quanto devia.

--Não, meu amigo, isso não basta; é preciso que voltes a casa de teu pai, e sobretudo que voltes amanha.

--Porque há-de ser amanha e não outro dia qualquer?

--Porque--declarou Margarida, que me pareceu ter corado um poucochinho com esta pergunta--, porque a tua insistência parecerá assim mais viva e mais prontamente dela resultará o nosso perdão.

Margarida passou o resto do dia preocupada, distraída e triste. Era obrigado a repetir-lhe duas vezes as coisas para obter uma resposta. Ela atribuía essa preocupação aos receios que lhe inspiravam para o futuro os acontecimentos sobrevindos nesses dois dias.

Passei a noite a sossegá-la, e Margarida fez-me partir no dia

seguinte com uma insistência inquietante que eu não percebia.

Meu pai estava ausente como na véspera; mas deixara-me esta carta:

 

"Se voltares hoje cá, espera-me até às quatro horas; se eu não chegar até essa hora, vem amanha jantar comigo; preciso de te falar."

Esperei até à hora marcada. Como meu pai não apareceu, retirei-me.

Na véspera encontrara Margarida triste; nesse dia achei-a febril e agitada. Ao ver-me entrar, saltou-me ao pescoço e chorou muito tempo nos meus braços.

Interroguei-a acerca dessa dor súbita, cujo grau me inquietava. Não me deu qualquer razão positiva, alegando tudo o que uma mulher pode alegar quando não quer dizer a verdade.

Logo que a vi mais sossegada, contei-lhe os resultados da minha viagem: mostrei-lhe a carta de meu pai, fazendo-lhe observar que era de bom agouro.

A vista dessa carta e a reflexão que eu fiz redobraram por tal

forma as lágrimas, que chamei Nanine e, receando um ataque nervoso, deitámos a pobre rapariga que chorava sem proferir uma única sílaba, mas que me segurava nas mãos e as beijava a cada instante.

Perguntei a Nanine se durante a minha ausência sua ama recebera qualquer carta ou visita que pudesse motivar o estado em que eu a achava, mas ela respondeu-me que não viera lá ninguém e que não tinham trazido coisa nenhuma.

Contudo, devia ter-se passado desde a véspera algo deveras assustador que Margarida me ocultava. A meia-noite pareceu um pouco mais sossegada e, fazendo-me sentar ao pé da cama, assegurou-me de novo que me tinha um amor infinito. Depois, sorria-se para mim, mas com esforço, porque involuntariamente nublavam-se-lhe os olhos de lágrimas.

Empreguei todos os meios para lhe fazer confessar a verdadeira causa desse desgosto, mas embirrou em dar-me sempre as razões vagas que já lhe disse.

Acabou por adormecer nos meus braços, mas com esse sono que quebra o corpo em vez de o descansar: de quando em quando, soltava um grito, despertava em sobressalto, e depois de se certificar de que eu estava junto dela, obrigava-me a jurar-lhe que a havia de amar sempre.

Eu não compreendia essas intermitências de dor que se prolongaram até pela manha. Então Margarida caiu numa espécie de modorra. Havia duas noites que não dormia.

Esse descanso não durou muito.

Pelas onze horas, acordou e, vendo-me levantado olhou em torno de si e exclamou:

--Já te vais embora?

--Não--tornei-lhe, pegando-lhe nas mãos--, o que quis foi deixar-te dormir. Ainda é cedo.

--A que horas vais a Paris?

--As quatro.

--Até essa hora, não sais de ao pé de mim, não?

--Decerto que não! Pois não é esse o meu costume?

--Que bom! Vamos almoçar? --perguntou ela, distraída.

--Se queres...

--E até te ires embora, dás-me muitos, muitos beijos ?

--Dou, e volto o mais depressa que puder.

--Voltas ?

--Claro.

--Tens razão, voltas esta noite, e eu espero-te como de costume, e tu amas-me e seremos felizes como desde que nos conhecemos.

Todas estas palavras eram ditas num tom tão sacudido, pareciam esconder um pensamento doloroso tão contínuo, que eu receava a cada instante ver Margarida cair em delírio. --ouve--disse-lhe eu--, estás doente, não te posso deixar assim. Vou escrever a meu pai, dizendo-lhe que me não espere.

Não! Não! --exclamou ela bruscamente.-Não faças isso. Teu pai podia acusar-me de não te deixar ir a casa dele quando te quer ver; não, é preciso que vás, é indispensável! Demais, eu não estou doente, estou de perfeita saúde. É que tive um sonho mau, e não estava bem acordada!

Daí por diante Margarida mostrou-se mais alegre. Não chorou mais.

Quando chegou a hora em que eu devia partir, beijei-a e perguntei-lhe se queria acompanhar-me até ao caminho de ferro.

Esperava que o passeio a distraísse e lhe fizesse bem.

O que queria, sobretudo, era estar com ela o mais tempo possível.

Margarida aceitou, pegou numa capa e foi comigo, levando também Nanine, para não voltar para casa sozinha.

Vinte vezes estive tentado a não partir. Mas a esperança de voltar depressa e o receio de indispor de novo meu pai contra mim deram-me forças, e o comboio levou-me.

--Até à noite!--disse-lhe, à despedida.

Não me respondeu.

Já uma vez ela não me respondera a essas mesmas palavras, e o conde de G..., como se há-de lembrar, passara a noite em sua casa; mas esse tempo ia já tão longe, que parecia apagado da minha memória, e se receava alguma coisa não era decerto que Margarida me enganasse.

Mal cheguei a Paris, corri a casa de Prudência e pedi-lhe que fosse ver Margarida, esperando que a sua alegria a distraísse.

Entrei sem me fazer anunciar e encontrei Prudência a arranjar-se para sair.

--Ah!--exclamou ela, com ar inquieto.--Margarida vem consigo?

--Não.

--Como está ela?

--Está indisposta.

--Não virá ?

--Porquê? Espera-a?

Prudência corou e respondeu-me com certa atrapalhação:--o que eu perguntava era se ela não vinha ter com o Armando a Paris.

--Não vem.

Olhei para Prudência, que baixou os olhos, e na sua fisionomia julguei ler o receio de ver a minha visita prolongar-se.

--Até lhe tencionava pedir, minha querida Prudência, que fosse passar com a Margarida esta noite, se não lhe custasse muito; fazia-lhe companhia, e podia dormir lá. Nunca a vi como hoje.

Receio que me adoeça.

--Janto fora--respondeu Prudência--e não posso ir esta noite

ver Margarida; mas vou amanha.

Despedi-me da Duvernoy, que me pareceu quase tão preocupada como Margarida, e dirigi-me a casa do meu pai, que logo no seu primeiro olhar me estudou atentamente.

Estendeu-me a mão.

--Gostei das tuas visitas, Armando--disse-me ele--, porque me fizeram ter a esperança de que houvesses reflectido como eu reflecti também. –Posso atrever-me a perguntar-lhe, meu pai, qual o resultado das suas reflexões?

--Foi o seguinte, meu amigo: que exagerara a importância das informações que me tinham dado, e resolvi ser menos severo contigo.

--Que diz, meu pai?--exclamei com alegria.

--Digo, meu querido filho, que um rapaz não pode passar sem uma amante, e que, em vista de novas informações, antes quero saber que és amante de Margarida Gautier do que de outra qualquer.

--Meu querido pai! Que feliz eu sou!

Conversámos assim alguns instantes. Depois sentámo-nos à mesa.

Meu pai foi encantador comigo todo o tempo que durou o jantar.

Estava com pressa de voltar a Bougival para contar a Margarida tão feliz acontecimento. A cada instante consultava o relógio.

--Olhas as horas que são--disse meu pai--, estás impaciente

por me deixar. oh ! os rapazes ! Hão-de sempre sacrificar as

afeições sinceras às equívocas !

--Não diga isso, meu pai. Margarida ama-me, tenho a certeza.

Meu pai não respondeu. Não parecia acreditar, nem duvidar.

Insistiu muito para que eu passasse toda a noite com ele e só regressasse no dia seguinte; mas eu, como deixara Margarida adoentada, disse-lho e pedi-lhe licença para me ir embora cedo, prometendo que voltaria no dia seguinte.

Estava uma noite linda; meu pai quis acompanhar-me até à

estação. Nunca me sentira tão feliz. o futuro mostrava-se tal

como havia muito eu procurava vê-lo.

Sentia mais amizade por meu pai do que nunca.

No momento da partida, insistiu pela última vez para que eu

ficasse. Recusei.

--Então ama-la deveras? --perguntou-me ele. --Amo-a loucamente.

--Vai então!

E passou a mão pela testa como para expulsar um pensamento mau. Depois abriu a boca como se quisesse dizer-me alguma coisa; mas limitou-se a apertar-me a mão e deixou-me, bruscamente, bradando:

--Até amanha!

 

Parecia-me que o comboio não andava. As onze horas cheguei a Bougival.

Nem uma só janela estava iluminada, e quando toquei ninguém me respondeu.

Era a primeira vez que tal me sucedia. Enfim, o jardineiro apareceu. Entrei.

Nanine veio ter comigo, trazendo uma luz. Cheguei ao quarto de Margarida.

--onde está a senhora?

--A senhora foi para Paris--respondeu Nanine. --Para Paris?

--Sim, senhor.

--Quando é que partiu ?

--Uma hora depois de o senhor sair. --E não lhe deixou nada

para mim? --Nada.

--É esquisito! Disse que a esperassem? --Não disse coisa

alguma.

"É capaz de ter sentido ciúmes--pensei eu--e ido a Paris para saber com certeza se a visita a meu pai, de que lhe falei, não passaria de um pretexto para gozar um dia de liberdade. Talvez Prudência lhe haja escrito por causa de algum negócio importante"--disse comigo, quando fiquei só, mas eu vira Prudência logo que cheguei a Paris, e não e ouvira nada que pudesse fazer supor que ela tivesse escrito

a Margarida.

De repente lembrei-me desta pergunta que madame Duvernoy me fizera: "Ela não virá hoje? quando eu lhe dissera que Margarida estava doente. Lembrei-me ao mesmo tempo do ar embaraçado de Prudência depois dessa frase que parecia trair uma combinação para se encontrarem. A esta lembrança juntava-se a das lágrimas de Margarida durante o dia todo, lágrimas que o bom acolhimento de meu pai me fizera esquecer um pouco.

Daquele momento em diante, todos os incidentes do dia vieram agrupar-se em torno da minha primeira suspeita e fixaram-na tão solidamente no meu espírito, que tudo a confirmou, até a clemência paterna.

Margarida quase exigira que eu fosse a Paris; afectara serenidade quando eu lhe propusera ficar com ela. Teria eu caído numa cilada? Margarida enganar-me-ia? Contara estar de volta a tempo de eu não dar pela sua ausência e demorara-a o acaso? Porque não dissera nada a Nanine ou porque me não escrevera? o que queriam dizer aquelas lágrimas, aquela ausência, aquele mistério?

Eis o que eu perguntava a mim mesmo com terror, no meio do quarto vazio, e com os olhos cravados no relógio que, marcando meia-noite, parecia dizer-me que já era demasiado tarde para que ainda esperasse ver voltar a minha amante.

Enfim, após as disposições que acabávamos de tomar, depois de oferecido e aceite o sacrifício, era verosímil que ela me engana-se? Não. E procurei repelir as minhas primeiras suposições.

"A pobre rapariga decerto arranjou algum comprador para a mobília, e foi a Paris para concluir esse negócio Naturalmente não me quis prevenir, pois sabe que, apesar de eu a aceitar, essa venda, necessária para a nossa felicidade futura, é-me penosa, e decerto receou ferir o meu amor-próprio e os meus melindres falando-me nisso.

Prefere tornar a aparecer só quando tudo estiver terminado.

Prudência esperava-a evidentemente para isso, e traiu-se diante de mim; provavelmente Margarida não pôde acabar hoje o negócio e vai ficar a casa, ou talvez não tarde por aí a

aparecer, porque há-de perceber que devo estar inquieto e não quer com certeza deixar-me neste estado. Mas então porque foram aquelas lágrimas? Decerto, apesar do seu amor por mim, a pobre rapariga não se pôde resolver sem lágrimas a abandonar esse luxo no meio do qual tem sempre vivido até agora e que a tornava feliz e invejada."

Eu perdoava de bom grado essas tristezas a Margarida.

Esperava-a impacientemente, para lhe dizer, cobrindo-a de beijos, que adivinhara a causa da sua misteriosa ausência.

Entretanto, a noite caminhava e Margarida não vinha.

A inquietação ia a pouco e pouco estreitando o seu círculo e

apertava-me a cabeça e o coração. Talvez lhe tivesse sucedido alguma desgraça ! Talvez estivesse ferida ou doente, ou morta!

Talvez me aparecesse de súbito algum mensageiro a anunciar-me um triste acontecimento. Talvez o dia me viesse encontrar na mesma incerteza e nos mesmos receios!

A ideia de que Margarida me enganava no próprio momento em que eu a esperava no meio dos terrores que me causava a sua ausência, nem sequer me acudia ao espírito. Apenas uma causa independente da sua vontade a podia reter longe de mim, e quanto mais nisto pensava mais me convencia de que essa causa só podia ser uma desgraça qualquer. A vaidade do homem, apresentas-te debaixo de todas as formas !

Acabava de dar uma hora. Tomei a resolução de esperar mais uma hora, mas se às duas Margarida não estivesse de volta, eu partiria para Paris.

Entretanto, andei à procura de um livro, porque me não atrevia a pensar.

Manon Lescaut achava-se aberto em cima da mesa. Pareceu-me que nalguns sítios as páginas estavam como que húmidas de lágrimas. Depois de o folhear, fechei esse volume cujos caracteres se me afiguravam sem sentido através do véu das minhas dúvidas.

As horas caminhavam vagarosamente. o céu estava nublado.

Fustigava nos vidros uma chuva de outono. o leito parecia-me tomar de vez em quando o aspecto de um túmulo. Sentia medo.

Abri as janelas. Pus o ouvido à escuta, mas só ouvia o ramalhar do vento nas árvores. Não passava pela estrada uma única carruagem. Tristemente o relógio da igreja deu uma hora.

Chegara a ter medo de que alguém entrasse. Parecia-me que só uma desgraça podia vir ter comigo a essa hora e com esse tempo tão sombrio.

Deram duas horas. Ainda esperei um bocado. Só o relógio perturbava o silêncio com o seu ruído monótono e cadenciado.

Enfim, saí daquele quarto onde os objectos mais insignificantes tinham revestido esse triste aspecto que dá a tudo o que o rodeia a inquieta soledade do coração.

No quarto próximo encontrei Nanine a dormir em cima da costura. Com o ruído da porta, acordou e perguntou-me se a sua ama já viera.

--Não veio, mas, se vier, diga-lhe que não pude resistir à minha inquietação e que parti para Paris.

--A estas horas?

--Sim.

--Mas como vai? Não encontra carruagem.

--Vou a pé.

--olhe que está a chover.

--Não me importa!

--Verá que a senhora não tarda, ou que, se não vier dormir a

casa, sempre é tempo, depois de amanhecer, de ir ver o que a reteve. Podem assassiná-lo por esses caminhos.

--Não há perigo, minha querida Nanine; até amanha.

A boa rapariga foi-me buscar a minha capa, pôs-ma nos ombros e ofereceu-se para ir acordar alguém, a fim de saber se era possível arranjar uma carruagem, mas opus-me a isso, convencido de que o tempo perdido nessa tentativa, provavelmente infrutífera, daria para percorrer metade do trajecto.

Depois, precisava de ar e de uma fadiga física que exaurisse a sobreexcitação que me dominava. Levei a chave da Rua d'Antin e, depois de dizer adeus a Nanine, que me acompanhara até à grade, parti.

Primeiro desatei a correr, mas a terra estava molhada de fresco e fatigava-me duplamente. Ao fim de meia hora dessa

corrida, fui obrigado a parar. Suava em bica. Tomei fôlego e continuei o meu caminho. A noite estava tão escura, que eu temia a cada instante ir bater numa das árvores da estrada, que, apresentando-se bruscamente aos meus olhos, pareciam grandes fantasmas a correr sobre mim.

Encontrei dois ou três carros de almocreve, e não tardei a passar-lhes adiante.

Dirigia-se uma caleça a todo o trote para o lado de Bougival.

Quando passava por mim, acudiu-me a esperança de que Margarida fosse dentro dela.

Parei, gritando:

--Margarida! Margarida!

Mas ninguém me respondeu, e o veículo continuou o seu caminho.

Vi-o afastar-se e parti.

Gastei duas horas para chegar à barreira da Estrela.

A vista de Paris ganhei forças e desci, a correr, a longa alameda que tantas vezes percorrera.

Nessa noite não passava ninguém.

Parecia o passeio de uma cidade morta.

Começava a romper o dia.

Quando cheguei à Rua d'Antin, já a grande cidade se movia um pouco antes de acordar de todo. Davam cinco horas na igreja de S. Roque no momento em que eu entrava em casa de Margarida.

Atirei o meu nome ao porteiro, que recebera de mim bastantes moedas de vinte francos para saber que eu tinha direito de vir às cinco horas a casa de Margarida Gautier.

Por conseguinte, passei sem obstáculo.

Podia ter-lhe perguntado se Margarida estava em casa, mas ele podia responder-me que não, e eu antes queria duvidar mais dois minutos, pois, duvidando, ainda tinha esperança.

Subi.

A porta pus o ouvido à escuta, procurando surpreender um rumor, um movimento.

Nada. o silêncio do campo parecia prolongar-se até ali.

Abri a porta e entrei.

Estavam todas as cortinas hermeticamente fechadas.

Puxei as da sala de jantar e dirigi-me para o quarto de cama

cuja porta empurrei.

Saltei ao cordão dos cortinados e puxei-o com violência.

Afastaram-se os cortinados. Uma frouxa luz penetrou no aposento e eu corri ao leito.

Estava vazio.

Abri as portas umas após outras, rebusquei todos os quartos.

Ninguém.

Era de endoidecer.

Passei ao quarto de vestir, abri a janela e chamei Prudência

umas poucas de vezes.

A janela da Duvernoy conservou-se fechada.

Então desci ao cubículo do porteiro a quem perguntei se Margarida Gautier viera a casa nesse dia.

--Veio--respondeu-me ele--, veio com a Sr.a Duvernoy.

--Não deixou nenhum recado para mim?

--Nada.

--Sabe o que elas fizeram depois?

--Meteram-se numa carruagem.

--Que espécie de carruagem?

--Um coupé particular.

Que significava tudo aquilo?

Fui bater à porta do prédio vizinho.

--Aonde vai o senhor?--perguntou-me o porteiro, depois de me abrir a porta.

--A casa da Sr.a Duvernoy.

--Ainda não chegou.

--Tem a certeza disso?

--Tenho, sim, senhor; até aqui está uma carta para ela, que veio ontem à noite e que ainda lhe não entreguei.

E o porteiro mostrou-me uma carta a que deitei maquinalmente os olhos.

Conheci a letra de Margarida.

Peguei na carta.

No sobrescrito lia-se:

"A Sr.a Duvernoy, para entregar ao Sr. Duval."

--Esta carta é para mim--disse ao porteiro.

E mostrei-lhe o sobrescrito.

--O senhor é que é o Sr. Duval? --tornou o homem.—É verdade"ou até o conheço. Vem muitas vezes a casa da Sr.a Duvernoy.

Apenas me vi na rua, quebrei o lacre.

Se um raio me caísse aos pés, não ficaria mais aterrado do que fiquei com esta leitura:

"A hora que ler esta carta, Armando, já eu serei amante de outro homem. Como vê, está tudo acabado entre nós.

"Volte para junto de seu pai, meu amigo, vá tornar a ver a sua irma, casta menina que ignora todas as nossas misérias, e junto da qual bem depressa esquecerá as dores que lhe deve ter feito sofrer esta mulher perdida chamada Margarida Gautier, que o senhor se dignou amar por um instante e que lhe deve os únicos momentos felizes da vida. É essa a esperança que ela leva para a morte que decerto já se não fará esperar muito."

Quando li a última palavra, julguei que ia perder a razão.

Houve um momento em que, na verdade, tive medo de cair redondamente na calçada. Passava-me uma nuvem pelos olhos e latejava-me o sangue nas fontes. Enfim, serenei um pouco e olhei em torno, espantadíssimo por verificar que a vida dos outros não se interrompia à vista da minha desgraça.

Não tinha forças para suportar sozinho o golpe que Margarida me vibrava.

Lembrei-me então de que meu pai estava na mesma cidade que eu, que me bastariam dez minutos para ir ter com ele e que, qualquer que fosse a causa da minha dor, decerto a partilharia.

Corri como um doido, como um ladrão, até ao Hotel de Paris.

Encontrei a chave na porta do quarto de meu pai e entrei.

Ele estava a ler.

Dir-se-ia que me esperava, tão pouco foi o espanto que mostrou ao ver-me aparecer.

Lancei-me nos seus braços sem lhe dizer palavra, dei-lhe a carta de Margarida e chorei lágrimas ardentes, deixando-me

cair diante do seu leito.

 

Quando todas as coisas retomaram o seu curso normal, não pude acreditar que o novo dia não seria semelhante para mim àqueles que o tinham precedido. Havia momentos em que chegava a imaginar que uma circunstância, de que me não lembrava, me fizera passar a noite fora da casa de Margarida, mas que, se voltasse a Bougival, a encontraria inquieta, como eu estivera, e que me perguntaria a causa de tanta demora.

Quando a vida contraiu um hábito como o deste amor, parece impossível que esse hábito se rompa sem quebrar ao mesmo tempo todas as outras molas da existência.

Eu era, por isso, obrigado a reler de quando em quando a carta de Margarida, para me convencer de que não sonhara.

o meu corpo, sucumbindo a esse abalo moral, não podia fazer um movimento. A inquietação, a caminhada da noite e a notícia recebida de manha tinham-me deixado exaustos. Meu pai aproveitou essa prostração total das minhas forças para me pedir que lhe prometesse, finalmente, partir com ele.

Prometi tudo quanto ele quis. Estava incapaz de manter uma

discussão e precisava de um motivo qualquer para me ajudar a viver depois do que acabava de passar-se.

Era uma felicidade para mim prestar-se meu pai a consolar-me de semelhante desgosto.

Só me lembro de que, nesse dia, pelas cinco horas, me fez entrar com ele numa carruagem de posta. Sem me dizer palavra, mandara preparar as minhas malas, mandara-as amarrar com as suas à traseira da carruagem e levava-me.

Só quando a cidade desapareceu e a solidão da estrada me lembrou o vácuo do meu coração é que dei conta do que fazia.

Então voltaram-me as lágrimas.

Meu pai percebera que me não consolariam palavras, nem as dele, e deixava-me chorar sem me dizer nada, limitando-se de vez em quando a apertar-me a mão como para me lembrar que tinha um amigo ao meu lado.

A noite dormi um pouco. Sonhei com Margarida. Acordei sobressaltado, não percebendo porque estava numa carruagem.

Depois tornou a realidade ao meu espírito e deixei cair a cabeça no peito.

Não me atrevi a falar com meu pai. Temia sempre que ele me dissesse:

"Bem vês que eu tinha razão quando negava o amor dessa mulher."

Mas ele não abusou da sua posição, e chegámos a C... sem me dizer outra coisa que não fossem palavras completamente estranhas ao acontecimento que me fizera sair de Paris.

Quando beijei minha irma, lembrei-me das palavras de Margarida que lhe diziam respeito, mas percebi logo que, por muito bondosa que fosse, não podia minha irma fazer-me esquecer a minha amante.

Principiara a caça. Convencido de que isso constituiria uma distracção para mim, meu pai organizou então caçadas com vizinhos e amigos. Fui sem repugnância, mas também sem entusiasmo, com essa espécie de apatia que caracterizava todas as minhas acções depois de ter deixado Paris.

O género de caça adoptado era o de emboscada. Colocavam-me no meu posto. Eu punha a espingarda desarmada ao pé de mim e cismava. olhava para as nuvens que passavam. Deixava o meu pensamento vaguear pelos plainos solitários, e de quando em quando ouvia chamar-me algum caçador que me mostrava uma lebre a dez passos de distância do sítio onde eu me encontrava.

Nenhum desses pormenores escapava a meu pai, que não se deixava iludir pela minha serenidade externa. Ele via que, por muito abatido que estivesse, o meu coração não deixaria de ter, mais dia menos dia, uma reacção terrível, perigosa talvez, e, evitando parecer que me consolava, fazia todo o possível para me distrair.

Minha irma, como se pode imaginar, não estava ao facto de todos estes acontecimentos, e não podia, portanto, perceber porque é que eu, dantes tão alegre, me tornara de repente assim pensativo e triste.

As vezes, surpreendido no meio da minha tristeza pelo olhar

inquieto de meu pai, estendia-lhe a mão e apertava-lhe a dele como para lhe pedir perdão, tacitamente, pelo mal que lhe fazia sem querer.

Assim passou um mês, mas não pude mais.

Perseguia-me constantemente a lembrança de Margarida. Amara tanto e amava ainda tanto essa mulher, que não podia passar, de súbito, a ser-me indiferente. Tinha de a amar ou de a odiar. Sobretudo, qualquer que fosse o sentimento que ela me despertasse, não podia deixar de a tornar a ver e imediatamente.

Esse desejo entrou no meu espírito e fixou-se nele com toda a violência da vontade que reaparece enfim num corpo há muito inerte.

Não era para o futuro, daí a um mês, daí a oito dias, que eu precisava de ver Margarida, mas no dia seguinte àquele em que me acudira essa ideia; e fui dizer a meu pai que o ia deixar por negócios que me chamavam a Paris, mas que voltaria breve.

Adivinhou decerto o que motivara a minha partida, pois insistiu para que eu ficasse; mas, vendo que a inexecução desse desejo, no estado irritável em que me encontrava, podia ter consequências sérias, abraçou-me e pediu-me quase em lágrimas que voltasse o mais breve possível para junto dele.

Não dormi enquanto não cheguei a Paris.

Apenas chegasse, que ia eu fazer? Não sabia; mas era indispensável, antes de tudo, procurar ver Margarida.

Fui a casa vestir-me, e, como estava uma tarde bonita, e ainda não era tarde, fui aos Campos Elísios.

Daí a meia hora, vi vir de longe, da meia-laranja para a Praça da Concórdia, a carruagem de Margarida.

Tornara a comprar os cavalos que vendera, pois a carruagem estava como dantes; ela e que não vinha lá dentro.

Mal reparara nessa ausência, e começava a lançar os olhos em torno de mim, avistei Margarida que vinha a pé acompanhada duma mulher que eu nunca vira.

Ao passar junto de mim empalideceu, e um sorriso nervoso contraiu-lhe os lábios. Eu senti um violento bater do coração que me abalou o peito; mas consegui dar expressão frígida ao meu rosto e cumprimentei friamente a minha antiga amante, que se dirigiu quase imediatamente para a sua carruagem, onde se meteu com a amiga.

Eu conhecia bem o génio de Margarida. o encontro inesperado agitara-a decerto profundamente. Soubera, sem dúvida, da minha partida, que a tranquilizara acerca das consequências do nosso rompimento; mas, vendo-me voltar e achando-se face a face comigo, pálido como eu estava, percebera que a minha volta algum fim tinha, e sem dúvida perguntara a si mesma o que iria passar-se.

Se eu tivesse encontrado Margarida na desgraça, se, para me vingar dela, lhe pudesse acudir, talvez lhe tivesse perdoado e com certeza não pensaria em fazer-lhe mal; mas via-a feliz, pelo menos na aparência. outro lhe restituíra o luxo em que eu a não podia manter; o nosso rompimento, provocado por ela, tomava, por conseguinte, o carácter do mais vil interesse.

Humilhado no meu orgulho como o fora no meu amor, ela devia necessariamente pagar o que eu padecera.

Não podia ficar indiferente perante os actos daquela mulher; por conseguinte, nada pior para ela do que a minha indiferença. Devia, por isso, fingir esse sentimento não só aos olhos de Margarida, mas também aos olhos dos outros.

Procurei arranjar uma expressão sorridente e fui a casa de Prudência.

A criada de quarto foi-me anunciar, e fez-me esperar alguns instantes na sala.

A Duvernoy apareceu, enfim, e mandou-me entrar para o seu quarto de vestir. Quando me ia a sentar, senti abrir-se a porta da sala, e um passo ligeiro fez ranger o sobrado; depois fechou-se violentamente a porta do patamar.

--Venho incomodá-la?--perguntei eu a Prudência.

--Qual! A Margarida estava aqui; fugiu quando o anunciaram;

foi ela quem saiu neste momento.

--Então agora meto-lhe medo?

--Não, mas receia que seja desagradável ao Armando tornar a vê-la.

--Porquê?--exclamei, fazendo um esforço para respirar livremente, pois me sufocava a comoção.-A pobre rapariga deixou-me para tornar a possuir carruagens, móveis novos e

diamantes. Fez muito bem, e não devo levar-lhe isso a mal.

Encontrei-a hoje --continuei, parecendo não dar importância ao facto.

--Onde?--perguntou Prudência, que me encarava, parecendo perguntar a si própria se era este homem que ela conhecera tão enamorado.

--Nos Campos Elísios. Estava com outra mulher muito bonita.

Quem é?

--Dê-me os sinais.

--Loura, magra, cabelo à inglesa; olhos azuis, muito elegante.

--Ah! Era a olímpia; muito bonita, efectivamente.

--Com quem vive?

--Com ninguém, e com todos.

--E onde mora?

--Na Rua Tronchet, n.o... o quê! Quer fazer-lhe a corte?

--Talvez.

--E Margarida?

--Dizer-lhe que já não penso nela, seria mentir-lhe; mas sou

um destes homens que dão grande importância ao modo como se rompe. ora Margarida despediu-me de forma tão ligeira, que me pareceu grande tolice ter-me apaixonado por ela como me apaixonei... porque estive realmente apaixonado por essa rapariga.

Adivinha o tom em que eu procurava dizer estas coisas; tinha a testa alagada em suor.

--Olhe que o amava deveras, e ainda o ama; a prova é que, depois de o encontrar hoje, veio imediatamente dar-me parte

desse encontro. Quando chegou, vinha toda trémula, quase desmaiou.

--E que lhe disse ela?

--Disse-me o seguinte: "Ele decerto procura-te." E instou comigo para eu lhe pedir que lhe perdoasse.

--Já lhe perdoei, pode dizer-lhe. É uma rapariga de bom coração, mas é uma rapariga... da vida; e o que ela me fez já eu o devia esperar. Até lhe estou grato pela sua resolução, pois hoje pergunto a mim próprio onde me levaria a minha ideia de viver completamente com ela. Era uma loucura.

--Há-de ficar bem contente a Margarida, quando souber que se conformou com o acto que a necessidade lhe impunha. Era bem tempo de ela o deixar, meu caro. o patife do procurador a quem ela propusera a compra da mobília fora ter com os credores para lhes perguntar quanto é que ela lhes devia; os credores tinham-se assustado e, dentro de dois dias, ia tudo à praça.

--E agora, está paga?

--Quase.

--Quem deu o dinheiro?

--O conde de N... Ah meu caro! Há homens que nasceram para estas coisas. Para encurtar razões, deu vinte mil francos, mas atingiu o seu objectivo. Sabe perfeitamente que Margarida não o ama, o que o não impede de ser gentilíssimo com ela. Como deve ter visto, comprou-lhe os mesmos cavalos de que ela se desfizera, desempenhou-lhe as jóias e dá-lhe tanto dinheiro como lhe dava o duque; se ela quiser viver sossegada, este homem é capaz de estar com ela muitíssimo tempo.

--E Margarida que faz? Está sempre em Paris?

--Nunca mais quis voltar a Bougival desde que o Armando partiu. Eu é que fui lá buscar as coisas dela, e as suas, Armando, e de tudo fiz uma trouxa que pode cá mandar buscar. Está tudo menos uma carteirinha com o seu monograma.

Margarida quis por força levá-la, e lá a tem em casa. Se a quiser, eu peço-lha.

--Que a guarde--balbuciei, pois sentia que me subiam as lágrimas do coração aos olhos ao lembrar-me dessa aldeia onde fora tão feliz, e com a ideia de que Margarida fazia empenho em conservar uma coisa que me pertencera e me recordava ao seu espírito.

 

Se ela entrasse nesse momento, desapareceriam as minhas

resoluções de vingança e eu cair-lhe-ia aos pés.

--Demais--tornou a Prudência--, nunca a vi como ela está agora: quase não dorme, frequenta os bailes, ceia, bebe demais. ultimamente, depois de uma dessas ceias esteve oito dias de cama, e, quando o médico lhe permitiu que se levantasse, tornou ao princípio, com risco de a levar a breca.

Vai vê-la?

--Para quê? Se vim procurá-la, à minha boa Sr.a Duvernoy, foi porque já a conhecia antes de conhecer Margarida, e sempre se mostrou amabilíssima comigo. A Prudência é que eu devo ter sido amante dela, e também lhe devo não o ser já, não é verdade?

--olhe, efectivamente, eu fiz tudo quanto pude para que Margarida o deixasse, e parece-me que no futuro não me há-de levar a mal.

--Estou-lhe até duplamente reconhecido--acrescentei eu, levantando-me--porque chegava a causar-me tédio essa mulher tomar a sério tudo quanto eu lhe dizia.

--Vai-se embora?

--Vou.

Já sabia o bastante.

--Quando o torno a ver?

--Brevemente. Adeus.

--Adeus.

Prudência acompanhou-me até à porta, e eu voltei para casa com lágrimas de raiva nos olhos e um desejo de vingança no coração.

Assim Margarida era decididamente uma perdida como as outras; esse amor profundo que ela tinha por mim não resistira ao desejo de voltar para a sua vida passada, e à ânsia de possuir carruagem e de fazer orgias!

Era o que eu pensava no meio das minhas insónias, ao passo que, se reflectisse tão friamente como afectava, veria nessa nova existência ruidosa de Margarida a esperança para ela de impor silêncio a um pensamento contínuo, a uma incessante recordação.

Infelizmente as ideias más dominavam-me, e só procurei um meio de torturar essa pobre criatura.

Oh! o homem é bem pequeno e bem vil, quando lhe ferem alguma das suas mesquinhas paixões!

Essa olímpia, com quem eu a vira, era, senão amiga de Margarida, pelo menos quem ela mais frequentava desde que voltara para Paris. Ia dar um baile, e como eu sabia que

Margarida não faltava, procurei arranjar um convite e consegui-o.

Quando, cheio das minhas dolorosas comoções, cheguei a esse baile, ele achava-se já muito animado. Dançava-se, gritava-se até, e numa das quadrilhas avistei Margarida a dançar com o conde de N..., que se mostrava todo ufano de a exibir e parecia dizer a toda a gente: "Esta mulher pertence-me."

Fui-me encostar ao fogão, mesmo defronte de Margarida, e estive a vê-la dançar. Apenas deu pela minha presença, perturbou-se. Percebi e cumprimentei-a distraidamente com a mão e com os olhos. Ao lembrar-me de que, depois do baile, já não seria comigo, mas sim com aquele rico imbecil que ela se iria embora, quando representava na minha imaginação o que provavelmente se seguiria à sua volta para casa, subia-me o sangue à cabeça e sentia o ardente desejo de lhe perturbar os amores.

Depois da contradança fui cumprimentar a dona da casa, que ostentava aos olhos dos seus convidados uns ombros magníficos e metade de um seio deslumbrante.

Essa rapariga era formosa e, do ponto de vista plástico, mais formosa do que Margarida. Percebi-o melhor ainda por uns certos olhares que esta deitou a olímpia enquanto eu falava com ela. o homem que fosse amante dessa mulher podia orgulhar-se tanto como o conde de N... e era suficientemente linda para inspirar uma paixão igual à que Margarida despertara em mim.

Nessa altura não tinha amante, não sendo, por conseguinte,

difícil ocupar esse lugar. Para tanto bastaria mostrar-lhe ouro em quantidade.

Resolvi-me num momento. Essa mulher seria minha amante.

Principiei o meu papel de namorado dançando com olímpia.

Meia hora depois, Margarida, pálida como uma defunta, punha a sua pelica e saía do baile.

 

Apesar de já ser alguma coisa, não bastava. Percebi o império que tinha sobre aquela mulher e abusava cobardemente dele.

Quando me lembro de que está hoje morta, pergunto à minha consciência se Deus me poderá perdoar o mal que lhe fiz.

Depois da ceia, que foi das mais ruidosas, começou o jogo.

Sentei-me ao lado de olímpia e arrisquei o meu dinheiro tão audaciosamente, que o facto não podia passar-lhe despercebido.

Ganhei num instante cento e cinquenta ou duzentos luíses, que eu estendia em cima da mesa em que olímpia cravava os olhos ávidos.

Era eu o único que não estava completamente preocupado com o jogo e que lhe dava atenção a ela. Ganhei todo o resto da noite, e fui eu que lhe dei dinheiro para ela jogar, pois vi que perdera quanto tinha diante de si e provavelmente em casa.

As cinco horas da manha separámo-nos.

Eu ganhara trezentos luíses.

Estavam já ao fundo da escada todos os jogadores, e só eu

ficara atrás sem que se desse por isso, pois eu não era das

relações de nenhum daqueles cavalheiros.

Fora a própria olímpia alumiar-nos, e eu descia como os outros, quando, voltando-me para ela, lhe disse:

--Preciso de lhe falar.

--Amanha--respondeu ela.

--Não, há-de ser agora.

--Que quer de mim?

--Verá.

E entrei para a sala.

--Vi que perdeu--disse-lhe.

--Perdi.

--Tudo quanto tinha em casa?

Olímpia hesitou.

--Seja franca.

--É exacto.

--Eu ganhei trezentos luíses. Aqui os tem, se me deixar ficar.

E, ao mesmo tempo, atirei com o ouro para cima da mesa.

--Porque me faz essa proposta?

--Ora essa! Porque há-de ser? Porque a amo.

--Não é por isso, mas está apaixonado por Margarida e quer

vingar-se dela tornando-se meu amante. Uma mulher como eu não se deixa enganar assim meu caro amigo; infelizmente, eu ainda sou demasiado nova e bonita para aceitar o papel que me oferece.

--Então recusa?

--Recuso.

--Prefere amar-me de graça? Então seria eu que não aceitaria.

Reflicta, minha querida olímpia; se eu mandasse uma pessoa qualquer oferecer-lhe da minha parte esses trezentos luíses com as condições que eu ponho na oferta, aceitava decerto.

Preferi negociar directamente. Aceite, sem procurar saber os

motivos que me impelem. Sabe bem que, sendo bonita como é, não admira nada que eu me apaixone por Si.

Margarida era uma rapariga venal como olímpia, e contudo nem por sombras me atrevera a falar-lhe, na primeira vez que a vira, do mesmo modo que àquela mulher. É que eu amava Margarida, adivinhava nela instintos que faltavam à outra e que, no próprio momento em que eu propunha esse contrato, estava-me a repugnar a mulher com quem o ia ultimar, apesar da sua extrema beleza.

Acabou por aceitar, claro, e, quando saí de sua casa, ao meio-dia, era seu amante. Deixei, porém, o seu leito sem levar comigo a recordação das carícias e das palavras de amor que ela se julgara obrigada a prodigalizar-me pelos seis mil francos que lhe dera. E, contudo, muita gente se arruinara por ela.

Desse dia em diante, fiz sofrer a Margarida uma perseguição de todos os instantes. Ela e olímpia deixaram de se encontrar, percebe facilmente porquê. Dei à minha amante jóias, carruagem, joguei, fiz enfim todas as loucuras de um homem enamorado de uma mulher como olímpia. Espalhou-se logo a notícia da minha nova paixão.

Até Prudência caiu no logro e acabou por supor que me esquecera completamente de Margarida. Esta, ou porque adivinhasse o motivo que me inspirava, ou porque se enganasse como os outros, respondia com grande dignidade às ofensas que eu lhe fazia todos os dias. Mas parecia sofrer, porque, em toda a parte onde a encontrava, estava sempre a vê-la cada vez mais pálida, cada vez mais triste. o meu amor por ela, exaltado a tal ponto que parecia transformar-se em ódio, regozijava com o espectáculo dessa dor quotidiana Muitas vezes, em várias circunstâncias em que fui duma crueldade infame, ergueu Margarida para mim olhares tão suplicantes, que me envergonhava do papel que representava, e estava quase a pedir-lhe perdão.

Mas esses arrependimentos tinham a duração do relâmpago, e olímpia, que acabara por pôr de parte qualquer amor-próprio e percebera que, fazendo mal a Margarida, alcançaria de mim tudo quanto quisesse, excitava-me sem cessar contra ela e insultava-a sempre que se lhe oferecia ensejo para tal, com a persistente cobardia da mulher autorizada por um homem.

Margarida acabara por não ir nem ao baile, nem ao espectáculo, com medo de nos encontrar, a mim e a olímpia. E então as cartas anónimas tinham sucedido às impertinências directas, e não havia infâmias a que eu não incitasse a minha amante ou que eu próprio não contasse acerca de Margarida.

Só um doido podia ter chegado àquele ponto. Achava-me na situação de um homem que, tendo-se embebedado com zurrapa, cai numa destas exaltações nervosas em que a mão é capaz de um crime sem o pensamento intervir. No meio de tudo isso, eu sofria verdadeiro martírio. A serenidade sem desdém, a dignidade sem desprezo, com que Margarida respondia aos meus ataques, e que aos meus próprios olhos a tornavam superior a mim, ainda mais me irritavam contra ela.

Uma noite, a minha amante fora não sei onde e encontrara-se com Margarida, que desta vez não tivera contemplações com a tola que a insultava, a ponto de olímpia se ver coagida a bater em retirada, tendo regressado furiosa, enquanto Margarida desmaiara.

Ao entrar em casa, contou-me o que se tinha passado. Disse-me que Margarida, vendo-a só, quisera vingar-se de ela ser minha amante. Tornava-se necessário, acrescentou, escrever-lhe, ordenando-lhe que respeitasse, na minha presença ou ausência, a mulher que eu amava.

Escuso de lhe dizer que consenti e que inseri todos os termos amargos, aviltantes e cruéis na epístola que mandei logo ao seu destino.

Desta vez o golpe era demasiado forte para que a desgraçada o suportasse em silêncio.

Eu suspeitava que não podia deixar de vir resposta; por isso

estava resolvido a ficar todo o dia em casa.

Seriam duas horas quando senti tocar a campainha e vi entrar Prudência.

Procurei tomar uns ares indiferentes para lhe perguntar a que devia a sua visita; mas Prudência não estava em maré de galhofa, e com um tom seriamente comovido disse-me que, desde a minha volta a Paris, quer dizer, havia três semanas, eu não deixara escapar nem uma só ocasião de magoar Margarida; que ela estava doente, e que a cena da véspera e a minha carta da manhã a tinham obrigado a ficar de cama.

Em resumo, sem me censurar, Margarida mandava-me pedir

misericórdia, dizendo que não tinha já nem força moral nem física para suportar o que eu lhe fazia.

--Que essa senhora--disse eu a Prudência--me despeça de sua casa, está no seu direito, mas que insulte uma mulher que eu amo, lá por ela ser minha amante, isso é que não consinto.

--Meu amigo--tornou-me Prudência--, sofre a influência de uma rapariga destituída de coração e de espírito; está apaixonado por ela, é verdade, mas isso não é razão para torturar uma mulher que se não pode defender.

--Essa senhora que mande a minha casa o seu conde de N... e já nos batemos com armas iguais.

--Bem sabe que ela não faz semelhante coisa. Assim, meu caro Armando, deixe-a sossegada; se a visse, havia de se envergonhar do modo como se porta com ela. Está pálida, tosse, desta não vai longe.

E Prudência estendeu-me a mão, acrescentando:

--Venha vê-la; não imagina que gosto lhe dará a sua visita.

--Não tenho vontade de encontrar o conde.

--o conde de N... nunca lá está. Ela não o pode aturar.

--Se Margarida faz empenho em me ver, sabe onde moro. Que venha cá. Eu é que não torno a pôr os pés na Rua d'Antin.

--E não a recebe mal?

--Nem por sombras.

--Pois tenho a certeza de que vem.

--Que venha.

--Tenciona sair hoje?

--Estou em casa toda a noite.

--Vou dizer-lho.

Prudência partiu.

Nem sequer escrevi a olímpia para lhe dizer que não ia lá. Não fazia cerimónia com essa rapariga. Passava com ela quando muito uma noite por semana. Consolava-se disso, creio eu, com um actor de qualquer teatro do Boulevard.

Saí para jantar e regressei a casa quase imediatamente. Mandei acender lume em todos os fogões e dei licença ao José para não ficar em casa.

Não podia decerto explicar-lhe as impressões diversas que me agitaram durante uma hora de espera; mas quando às nove horas, pouco mais ou menos, ouvi tocar a campainha, resumiram-se numa tal comoção, que ao ir abrir a porta tive medo de me encostar à parede para não cair.

Felizmente, a saleta estava na penumbra, sendo, por isso, menos visível a alteração das minhas feições.

Margarida entrou.

Vinha toda de preto, e com véu. Quase lhe não conhecia as

feições por baixo da renda.

Entrou na sala e ergueu o véu.

Estava pálida como o mármore.

--Aqui estou, Armando--disse ela.--Desejou ver-me, vim.

E deixando cair a cabeça nas mãos, debulhou-se em lágrimas.

Aproximei-me dela.

--Que tem?--perguntei-lhe com voz alterada.

Apertou-me a mão sem me responder, porque as lágrimas ainda não lhe permitiam falar. Mas, instantes depois, tendo recuperado uma certa serenidade, disse-me:

--Tem-me feito muito mal, Armando, a mim que lhe não fiz nenhum.

--Nenhum?--repliquei, com um sorriso amargo.

--Nenhum, senão o que as circunstâncias me obrigaram a fazer-lhe.

Não sei se já experimentou na sua vida ou se virá a experimentar o que eu sentia por Margarida.

A última vez que ela viera a minha casa, sentara-se no sítio onde acabava de se sentar agora; mas, depois dessa época, fora amante de outro; outros beijos, que não eram os meus, tinham tocado nos seus lábios, para os quais involuntariamente os meus tendiam, e contudo sentia que amava essa mulher tanto ou mais talvez do que nunca.

No entanto, era-me difícil começar a conversação sobre o assunto que a levara a minha casa; Margarida compreendeu-o sem dúvida e prosseguiu:

--Venho maçá-lo, Armando, porque lhe quero pedir duas coisas: que me perdoe o que eu disse ontem na olímpia, e que me não faça o mal que está talvez ainda disposto a fazer-me. Voluntariamente ou não, tem-me magoado tanto desde que voltou a Paris, que me sinto incapaz de suportar agora a quarta parte das comoções que tenho suportado até hoje pela manha. Há-de ter dó de mim... não é verdade?... e perceber que um homem de coração tem coisas mais nobres a fazer do que vingar-se de uma mulher doente e triste como eu. Pegue na minha mão. Estou com febre, saí da cama para lhe vir pedir, não a sua amizade, mas a sua indiferença.

Peguei na mão de Margarida. Ardia, e a pobre rapariga tremia de frio debaixo da sua capa de veludo.

Cheguei para o pé do lume a cadeira em que ela estava sentada.

--Imagina que não padeci muito--tornei eu-nessa noite em que, depois de a esperar no campo, a vim procurar a Paris, onde encontrei apenas uma carta que quase me fazia enlouquecer?

Como pôde enganar-me, Margarida, a mim que a amava tanto?

--Não falemos nisso, Armando, não vim cá para falar nessas

coisas. Quis vê-lo sem ser em atitude hostil, e apertar-lhe

mais uma vez a mão. Tem uma amante nova, bonita, de quem gosta muito, segundo dizem. Seja feliz com ela e esqueça-me.

--E a Margarida é feliz, decerto?

--o meu rosto é o rosto de uma mulher feliz? Não zombe da minha dor, pois sabe melhor do que ninguém qual a sua causa e a sua extensão.

--Só de si dependia não ser nunca desgraçada; se o é, como

diz.

--Não, meu amigo, as circunstâncias foram mais fortes do que a minha vontade. Não obedeci aos meus instintos de perdida, como parece querer pensar, mas a uma necessidade séria e às razões que um dia saberá, e que farão com que me perdoe.

--Porque me não diz já hoje essas razões?

--Porque estabeleceriam uma aproximação que é impossível entre nós, e talvez o afastassem de pessoas de quem não deve afastar-se.

--Quem são essas pessoas?

--Não lho posso dizer.

--Então mente.

Margarida levantou-se e dirigiu-se para a porta.

Eu não podia assistir àquela muda e expressiva dor sem me comover, quando comparava no meu foro íntimo essa mulher pálida e chorosa com a louca rapariga que caçoara comigo na ópera Cómica.

--Não se vá embora--disse-lhe, pondo-me diante da porta.

--Porquê ?

--Porque, apesar do que me fizeste, amo-te ainda e quero que fiques aqui.

--Para me pores fora amanha, não é verdade? Não, é impossível!

Os nossos destinos estão separados, não procuremos reuni-los; talvez me desprezasses, ao passo que agora apenas podes odiar-me.

--Não, Margarida! --exclamei, sentindo acordar todo o meu amor e todos os meus desejos ao contacto dela.--Não, esquecerei tudo, e seremos felizes como tínhamos prometido um ao outro.

Margarida sacudiu a cabeça em sinal de dúvida e disse:

--Não sou eu a tua escrava, o teu cão? Faz de mim o que quiseres, toma-me, que sou tua.

E, tirando a capa e o chapéu, arrojou-se para cima do canapé a desacolchetar bruscamente o corpo do vestido, porque, por uma dessas reacções tão frequentes da sua doença, subia-lhe o sangue do coração à cabeça e sufocava-a.

Seguiu-se uma tosse seca e rouca.

--Mande dizer ao meu cocheiro--tornou ela-que se vá embora com a carruagem.

Fui eu mesmo dar o recado ao homem.

Quando voltei para casa, Margarida estava estendida diante do lume, e batiam-lhe os dentes com frio.

Peguei nela nos braços, despi-a sem que ela fizesse qualquer movimento e levei-a, completamente gelada, para o meu leito.

Então sentei-me ao pé dela e procurei aquecê-la com as minhas carícias. Ela não me dizia uma palavra, mas sorria-se para mim.

oh! Foi uma noite estranha. Margarida parecia pôr toda a sua vida nos beijos de que me cobria, e eu amava-a tanto que, no meio dos transportes do seu amor febril, perguntava a mim mesmo se não devia matá-la para que ela não pertencesse mais a outro.

Um mês de amor como aquele, e não se seria mais do que um cadáver, tanto no corpo como no coração.

o dia encontrou-nos ainda acordados.

Margarida estava lívida. Não pronunciava palavra. De quando em quando corriam-lhe dos olhos lágrimas como punhos, que lhe paravam na face, resplandecentes como diamantes. os seus braços exaustos abriam-se de momento a momento para me agarrarem e recaíam sem força no leito.

Houve um instante em que me julguei capaz de esquecer tudo o que se passara desde a minha partida de Bougival, e disse a Margarida:

--Queres que partamos, saiamos de Paris?

--Não, não --respondeu ela, quase com terror.--Seríamos uns infelizes. Eu não posso já servir para a tua ventura, mas,

enquanto me restar um sopro de vida, serei a escrava dos teus caprichos. A qualquer hora do dia ou da noite a que me queiras, vem, que serei tua; mas não tornes a associar o teu futuro ao meu. Eras desgraçado e desgraçavas-me a mim também. Ainda serei durante algum tempo uma bonita mulher. Aproveita-o, mas não me peças mais nada.

Quando ela se foi embora, fiquei horrorizado com a solidão em que me deixava. Duas horas depois da sua partida, estava ainda sentado na cama que ela acabava de abandonar, perguntando a mim mesmo o que ia ser feito de mim entre o meu amor e o meu ciúme.

As cinco horas, sem atinar sequer com o que ia lá fazer, dirigi-me à Rua d'Antin.

Quem abriu a porta foi Nanine.

--A senhora não o pode receber--disse-me ela, embaraçada.--Está cá o senhor conde de N... e proibiu que eu deixasse entrar fosse quem fosse.

--É justo--balbuciei.--Tinha-me esquecido.

Entrei em minha casa como um homem bêbado. E sabe o que fiz durante um minuto de cioso delírio, que bastava para a execução da acção vergonhosa que ia cometer, sabe o que eu fiz? Disse comigo que essa mulher estava a zombar de mim, imaginava-a no seu conúbio inviolável com o conde, repetindo as mesmas palavras que me dissera na véspera, e, pegando numa nota de quinhentos francos, mandei-lha com estas palavras:

Partiu tão depressa esta manha, que me esqueci de Lhe pagar.

"Aí vai o preço da sua noite."

Depois de mandar esta carta, saí logo como que para me subtrair ao remorso instantâneo dessa infâmia.

Fui a casa de olímpia, a quem encontrei a provar vestidos, e

que, quando ficámos sós, me cantou obscenidades para me

distrair.

Essa é que era deveras o tipo de meretriz sem vergonha, sem coração e sem cérebro, quanto a mim, pelo menos, porque talvez para algum homem ela pudesse constituir o sonho que para mim fora Margarida.

Pediu-me dinheiro, dei-lho, e, podendo então ir-me embora, regressei a casa.

Margarida não me respondera.

Escuso de lhe dizer a agitação em que passei o dia seguinte.

As seis horas e meia trouxe um moço de fretes um sobrescrito em que vinha a minha carta e a nota de quinhentos francos.

Mais nada.

--Quem lhe entregou isto? --perguntei a esse homem.

--Uma senhora que partiu com a sua criada na mala-posta de Bolonha e me recomendou que só a trouxesse depois de o carro sair do pátio.

Corri a casa de Margarida.

--A senhora partiu para Inglaterra, hoje, às seis horas da manha--respondeu-me o porteiro.

Nada me prendia já em Paris, nem ódio nem amor. Estava exausto por todos aqueles abalos. Um dos meus amigos ia fazer uma viagem ao oriente; fui dizer a meu pai o desejo que tinha de o acompanhar; meu pai deu-me cartas de recomendação, e oito ou dez dias depois embarquei em Marselha.

Foi em Alexandria que soube, por um adido de embaixada que tinha visto algumas vezes em casa de Margarida, da doença da pobre rapariga.

Escrevi-lhe então uma carta a que ela deu a resposta que o meu amigo já conhece e que recebi em Toulon.

 

Parti imediatamente e... sabe o resto.

Falta-me agora apenas ler as poucas folhas do diário que Júlia Duprat me entregou e que são o complemento indispensável de quanto lhe acabo de contar.

 

Fatigado desta longa narrativa, muitas vezes interrompida pelas suas lágrimas, Armando pôs as mãos na testa e fechou os olhos, ou para pensar ou para tentar dormir, depois de me entregar as páginas escritas pela mão de Margarida.

Momentos depois, uma respiração um pouco mais rápida dizia-me que Armando dormia, mas dormia este sono leve que o mais ligeiro ruído faz terminar.

Eis o que eu li, e que transcrevo sem acrescentar nem cortar

uma sílaba:

"Estamos a 15 de Dezembro. Há três ou quatro dias que estou doente. Esta manha fiquei na cama; o tempo apresenta-se sombrio e eu sinto-me triste. Ninguém se encontra ao pé de mim. Penso em ti Armando. E tu, onde estás, à hora em que escrevo estas linhas? Longe de Paris, bem longe, segundo me disseram, e talvez já tenhas esquecido a Margarida Enfim, se feliz, tu a quem eu devo os únicos momentos de alegria da minha vida.

"Não tinha podido resistir ao desejo de te explicar o meu procedimento, e escrevera-te uma carta mas escrita por uma

mulher como eu, pode ser semelhante carta considerada uma mentira, a não ser que a morte a santifique com a sua autoridade, e que, em vez de ser uma carta, seja uma confissão.

"Estou doente hoje: posso morrer desta doença, porque sempre tive o pressentimento de que morreria nova. Minha mãe morreu de uma doença do peito, e o modo como tenho vivido até agora não pode senão piorar esta afecção, única herança que ela me deixou; mas não quero morrer sem que saibas o que pensar a meu respeito, se, quando voltares, te lembrares ainda da pobre rapariga que amavas antes de partires.

"Eis o que continha essa carta, que me sinto feliz por tornar a escrever, para dar a mim própria uma nova prova da minha justificação:

"Lembras-te, Armando, como nos surpreendeu em Bougival a chegada de teu pai, lembras-te do terror involuntário que essa chegada me causou; da cena que houve entre os dois, e que me contaste à noite ?

"No dia seguinte, enquanto andavas por Paris e esperavas teu pai que não vinha, apresentava-se um homem em minha casa e entregava-me uma carta.

Sr. Duval.

"Essa carta, que junto a esta, pedia-me, nos termos mais graves, que te afastasse, no dia seguinte, com um pretexto qualquer e que recebesse teu pai; precisa a de me falar e recomendava-me que nada te dissesse a respeito do passo que ele vinha dar.

"Lembras-te da insistência com que eu te aconselhei, à tua volta, que tornasses a Paris no dia seguinte?

"Havia uma hora que tinhas partido quando teu pai se apresentou em minha casa. Não te quero dizer a impressão que me causou o seu rosto severo. Teu pai estava cheio de velhas teorias, segundo as quais todas as cortesãs são entes sem coração, sem juízo, uma espécie de máquinas de apanhar dinheiro, prontas sempre, como as máquinas de ferro, a esmagar a mão que lhe estende alguma coisa, e a dilacerar sem discernimento nem piedade quem lhe dá vida e movimento.

"Teu pai escrevera-me uma carta muito atenciosa para eu consentir em recebê-lo; não se apresentou bem do mesmo modo.

Houve nas suas primeiras palavras tanta altivez, tanto desabrimento e até tantas ameaças, que tive de lhe fazer sentir que estava em minha casa e que não tinha contas a dar-lhe da minha vida, a não ser atendendo à sincera afeição que me unia ao seu filho.

"o Sr. Duval sossegou um pouco, começando, contudo, a dizer que não podia sofrer por mais tempo que seu filho se arruinasse por minha causa; que era formosa, é certo, mas que, por mais formosa que fosse, não devia servir-me da minha beleza para deitar a perder o futuro de um rapaz, com despesas como as que eu fazia.

"Só havia uma coisa a responder, não é verdade? Apresentar provas de que, desde que era tua amante, a nenhum sacrifício me poupara para te ser fiel para não te pedir mais dinheiro do que tu me podias dar. Mostrei as cautelas do Montepio, os recibos das pessoas a quem eu vendera os objectos que não pudera empenhar, dei parte a teu pai da resolução que tomara de me desfazer de minha casa para pagar as dívidas e viver contigo sem constituir para ti uma carga muito pesada.

Contei-lhe a nossa felicidade, como tu me tinhas revelado uma vida mais tranquila e mais feliz, e ele acabou por se render à evidência e me estender a mão, pedindo-me desculpa do modo como primeiro me tratara.

"Depois disse-me:

"--Nesse caso, minha senhora, não é nem a censuras nem a

ameaças, mas a súplicas que devo recorrer para lhe arrancar um sacrifício maior do que todos os que tem feito por meu filho.

"Tremi com este preâmbulo.

"Teu pai aproximou-se de mim, pegou-me em ambas as mãos e continuou num tom afectuoso:

"--Minha filha, não interprete erradamente o que lhe vou dizer; perceba apenas que a vida tem às vezes necessidades cruéis para o coração, e que não há outro remédio senão a gente submeter-se a elas. É bondosa, Margarida, e a sua alma possui generosidades desconhecidas a muitas mulheres que talvez a desprezem e nas quais não existem decerto nem sombras do seu valor moral. Mas lembre-se de que ao lado da amante há a família, ao lado do amor, os deveres; que à idade das paixões segue-se a idade em que o homem, para ser respeitado, precisa de estar solidamente assente numa séria posição. o meu filho não é rico, e está pronto, contudo, a doar-lhe a herança de sua mãe. Se aceitasse de si o sacrifício que se propõe fazer por ele, seria digno da sua honra e da sua dignidade doar-lhe em troca esses bens que a poriam sempre ao abrigo de uma adversidade completa. Mas ele não pode aceitar tal sacrifício, pois a sociedade, que não a conhece, daria a esse consentimento uma causa desleal que não deve embaciar o brilho do nome que temos. Ninguém quereria saber se Armando a ama, se Margarida o ama, se este duplo amor constitui uma felicidade para ele e uma reabilitação para si; veriam apenas que Armando Duval consentiu que uma cortesã --perdoe-me, minha filha, tudo o que me vejo obrigado a dizer-lhe--vendesse, para viver com

ele, o que possuía. Depois, não tardaria a chegar o dia das recriminações e dos arrependimentos, dia que haviam de ter

como sucede com os outros, e ambos carregariam com um grilhão que já não poderiam quebrar. Que faria então? Estaria perdida a sua juventude, destruído o futuro de Armando; e eu, seu pai, só receberia de um dos meus filhos a recompensa que espero de ambos.

"É nova, é bonita; a vida há-de compensá-la. Tem uma índole nobilíssima e a lembrança de uma boa acção há-de resgatar na sua alma muitas coisas passadas. Há seis meses que a conhece, e há seis meses que Armando se esquece de mim. Quatro vezes lhe escrevi, sem obter dele uma resposta. Podia ter morrido sem ele o saber!

"Seja qual for a sua resolução de viver de um modo diverso do que tem vivido, Armando, que a ama, não consentirá na reclusão a que a modesta posição de que ele desfruta a condenaria e que não é para a sua beleza. Quem sabe o que meu filho faria então! Jogou, já o soube; e sei também que jogou sem dizer nada à sua amante; mas num momento de embriaguez, podia perder uma parte do que eu junto há bastantes anos para o dote de sua irma, para ele e para a tranquilidade da minha velhice. o que felizmente não sucedeu pode suceder ainda.

"Tem, além disso, a certeza de que não viria a atraí-la de novo a existência que por ele deseja abandonar? A Margarida, que o amou, está absolutamente convencida de que não virá a amar outro qualquer? Não a magoará, enfim, a ideia das restrições que a sua ligação há-de pôr na vida do seu amante, e de que não poderá talvez consolá-lo, se, com a idade, sucederem ideias de ambição a sonhos de amor? Pense em tudo isto, minha senhora; se tem sincero amor a Armando, prove-lho pelo único meio que ainda lhe resta de lho provar: fazendo ao futuro dele o sacrifício do seu amor. Ainda não houve desgraças, mas não podia deixar de as haver, e talvez maiores do que as que prevejo. Armando pode ter ciúmes de algum homem que a amou; pode provocá-lo, pode bater-se, pode ser morto, enfim, e lembre-se do que padeceria, Margarida, diante deste pai que lhe pediria contas da vida de seu filho.

"Enfim, minha filha, saiba tudo, porque ainda lhe não disse tudo, saiba, pois, o que me trazia a Paris. Tenho uma filha,

acabo de lho dizer, nova, linda e pura como um anjo. Ama, e

fez também desse amor o sonho da sua vida. Eu mandara dizer tudo isto a Armando, mas, todo entregue ao seu amor, ele nem me respondeu. Pois bem, minha filha vai casar com o homem que ama, entra numa família honrada que quer que tudo seja honrado na minha. A família do homem que está para ser meu genro soube como Armando vive em Paris e declarou-me que retoma a sua palavra se Armando continuar nesta vida. Depende de si o futuro de uma criança que lhe não fez nada e que tem jus a contar com o futuro.

"Tem o direito de o despedaçar? Sente-se com forças de o fazer? Em nome do seu amor e do seu arrependimento, Margarida, conceda-me a felicidade da minha filha.

"Eu chorava silenciosamente, meu amigo, diante dessas reflexões que muitas vezes fizera e que, na boca de seu pai,

adquiriam ainda mais séria realidade. Dizia a mim própria tudo o que seu pai se não atrevia a dizer-me, e o que vinte vezes lhe acudira aos lábios: que eu não passava, afinal de contas, de uma cortesã, e que fosse qual fosse o modo como explicasse a minha ligação, sempre ela teria o ar de um cálculo; que a minha vida passada não me dera o mínimo direito de sonhar semelhante futuro, e que eu aceitava responsabilidades a que os meus hábitos e a minha reputação não davam garantia alguma.

Enfim, amava-o, Armando. A maneira paternal com que o Sr. Duval me falava, os castos sentimentos que evocava na minha consciência, a estima desse velho leal que eu ia conquistar, a sua, Armando, que estava certa de vir ainda a adquirir, tudo isso me despertava no coração nobres pensamentos, que me levantavam aos meus próprios olhos e faziam falar em mim santas vaidades, até então desconhecidas.

Quando eu pensava que um dia esse velho, que me implorava em nome do futuro de sua filha, diria a seu filho que envolvesse o meu nome nas suas orações como o nome de uma misteriosa amiga, transformava-me e ufanava-me de mim própria.

"A exaltação do momento exagerava talvez a verdade dessas impressões; mas eis o que eu sentia, meu amigo, e esses sentimentos novos impunham silêncio aos conselhos que me dava a lembrança dos dias felizes passados contigo.

"--Bem, Sr. Duval--disse eu a teu pai, enxugando as lágrimas.--Acredita no amor que eu tenho a seu filho?

"--Acredito--respondeu.

"--Que é um amor desinteressado?

"--Sim.

--Acredita que eu fizera dele a esperança, o sonho e o perdão da minha vida?

"--Pois dê-me um beijo, como daria em sua filha, e juro-lhe que esse beijo, o único verdadeiramente casto da minha vida, me tornará forte contra o meu amor, e que, em menos de oito dias, seu filho voltará para junto de si, desgraçado talvez nos primeiros tempos, mas curado para sempre.

"--É uma nobre rapariga--replicou, beijando-me na testa--e vai tentar uma coisa que Deus lhe levará em conta; mas receio muito que nada obtenha de meu filho.

--oh ! Descanse, Sr. Duval ! Há-de chegar a odiar-me.

"Era necessário levantar entre nós uma barreira que não pudéssemos transpor.

"Escrevi a Prudência mandando-lhe dizer que aceitava as propostas do conde de N... e que cearia com ela e com ele nessa noite.

"Fechei a carta, e sem lhe dizer o que escrevera, pedi a seu pai que a mandasse ao seu destino quando chegasse a Paris.

"Perguntou-me, contudo, o que ia nessa carta.

"--A felicidade de seu filho--respondi.

"Teu pai beijou-me pela última vez. Senti na minha fronte duas lágrimas de reconhecimento que foram como que o baptismo das minhas culpas de outrora, e, no momento em que acabava de consentir em me entregar a outro homem, senti irradiar o orgulho na minha alma, ao pensar o que eu resgatava com essa nova queda.

"Era naturalíssimo, Armando; tinhas-me dito que teu pai era o homem mais honrado que se podia encontrar no mundo.

"O Sr. Duval meteu-se de novo na carruagem e partiu.

"Eu era mulher, contudo, e, quando te tornei a ver, não pude

deixar de chorar, mas não fraquejei.

"Fiz bem? É o que pergunto a mim mesma hoje, que caio doente num leito, de onde talvez só saia já morta.

"Foste testemunha do que eu sentia, à medida que se aproximava a hora da nossa inevitável separação; teu pai já não estava presente para me amparar, e houve um momento em que pouco faltou para confessar tudo, tanto me horrorizava a ideia de que me ias desprezar e odiar.

"Há uma coisa que talvez não acredites, Armando.

Pedi a Deus que me desse força, e a prova de que aceitava o meu sacrifício foi que me deu a força que eu implorava.

"Nessa ceia ainda precisei que me ajudassem, pois queria ignorar o que ia fazer, tal o receio de que me faltasse a coragem.

"Quem me diria a mim, Margarida Gautier, que tanto me faria padecer a simples ideia de possuir um novo amante!

"Bebi para esquecer, e, quando acordei no dia seguinte, estava no leito do conde.

"Aqui tens a verdade toda. Julga-me e perdoa-me, Armando, como eu já te perdoei todo o mal que me fizeste desse dia em diante. "

 

"O que se seguiu a essa noite, sabe-lo tão bem como eu, mas não podes suspeitar o que sofri depois da nossa separação.

"Soube que teu pai te levara para a província, mas suspeitava que não poderias passar muito tempo longe de mim, e no dia em que te encontrei nos Campos Elísios, comovi-me, mas não me espantei.

"Então principiou essa série de dias, em cada um dos quais recebi um novo insulto teu, insulto que eu recebia quase com alegria, pois, além de ser a prova de que continuavas a amar-me, parecia-me que quanto mais me perseguisses mais eu me engrandeceria aos teus olhos no dia em que soubesses a verdade.

"Não te espantes com este alegre martírio, Armando. o amor que me tinhas consagrado abrira o meu coração a nobres entusiasmos.

"Contudo, eu não adquirira logo, logo, essa força.

"Entre a execução do sacrifício que eu te havia feito e a tua volta, passara-se um tempo bastante longo, durante o qual eu recorrera a meios físicos para não enlouquecer e para me aturdir e não pensar na vida em que de novo me submergia.

Prudência disse-te que eu ia a todas as festas, a todos os bailes e a todas as orgias, não é verdade?

"Tinha como que a esperança de me matar rapidamente, à força de excessos, e parece-me que essa esperança não tardará a realizar-se. Alterou-se necessariamente a minha saúde cada vez mais, e no dia em que mandei a Duvernoy pedir-te misericórdia, estava exausta de corpo e de alma.

"Não te lembrarei, Armando, o modo como recompensaste a última prova de amor que te dei, e o ultraje com que expulsaste de Paris a mulher que, moribunda, não pudera resistir à tua voz, quando lhe pedias uma noite de amor, e que julgara como uma insensata, mas por um instante só, poder voltar ao passado.

Estavas no direito de fazer o que fizeste, Armando; nem sempre me pagaram por tão alto preço as minhas noites.

"Deixei tudo então! olímpia substituiu-me junto do conde de N..., e encarregou-se, ao que me disseram, de o informar do motivo da minha partida. o conde de G... estava em Londres. É um desses homens que dão ao amor com as raparigas como eu apenas a importância bastante para que ele seja um passatempo agradável. Ficam sempre excelentes amigos das mulheres que possuíram e não têm ódio, porque nunca sentiram ciúmes. É, enfim, um desses fidalgos que nunca nos abrem senão um lado do seu coração, mas que nos abrem sempre ambos os lados da sua bolsa. Foi no conde de G... em quem pensei imediatamente. Fui ter com ele. Recebeu-me às mil maravilhas, mas era amante de uma senhora da sociedade londrina e receava comprometer-se dando publicidade às suas relações comigo. Apresentou-me aos seus amigos, que me deram uma ceia, e depois da ceia um deles levou-me para sua casa.

"Que querias que eu fizesse, meu amigo?

"Matar-me? Seria carregar a tua vida, que deve ser feliz, com um remorso inútil; depois valia a pena matar-me quando estava tão perto de morrer? "Passei ao estado de corpo sem alma, de coisa sem pensamento. Vivi algum tempo esta vida automática. Depois voltei a Paris e perguntei por ti; soube então que partiras para uma longa viagem. Não havia coisa alguma que me desse forças. A minha vida tornou a ser o que fora dois anos antes de te conhecer. Tentei reconquistar a afeição do duque, mas eu magoara com demasiada rudeza esse homem, e os velhos não se mostram nada indulgentes, talvez por perceberem que não são eternos. Invadia-me a doença de dia para dia, estava pálida, triste, mais magra ainda. Os homens que compram amor, examinam a mercadoria antes de a ajustar. Havia em Paris mulheres mais saudáveis, mais alegres e mais gordas do que eu; fui sendo um pouco esquecida. Eis o

passado até ontem.

" Agora estou muito doente. Escrevi ao duque para Lhe pedir dinheiro, porque o não tenho, e os credores voltaram e trazem as suas contas com uma insistência implacável e feroz. o duque responder-me-á? Ah' Se estivesses em Paris, Armando, vinhas ver-me

 

               20 de Dezembro

"Está um tempo horrível. Neva, e acho-me sozinha em casa.

Tenho tido há três dias uma febre tal, que não te pude escrever uma só palavra. Nada de novo, meu amigo; espero todos os dias vagamente uma carta tua, mas a carta não vem, e decerto não virá nunca. Só os homens têm força para não perdoar. O duque não me respondeu.

"Prudência recomeçou as suas viagens ao Montepio.

"Não deixo de deitar escarros de sangue. Fazia-te pena se me visses. Que feliz tu és por te encontrares debaixo de um céu quente e não teres, como eu um inverno todo de gelo a pesar-te no peito! Hoje levantei-me um bocadinho, e, por trás das minhas cortinas, estive a ver deslizar essa vida de Paris com a qual me parece que rompi de todo. Alguns rostos conhecidos passaram na rua, rápidos, alegres, despreocupados.

Nem um só levantou os olhos para a minha janela. Vieram, contudo, alguns rapazes deixar os seus cartões. Já uma vez

estive doente, e tu, que me não conhecias, que nada obtiveras de mim senão impertinência no dia em que te vira pela primeira vez, vinhas todas as manhas saber notícias acerca da minha saúde! Agora estou doente de novo. Vivemos seis meses juntos.

Tive por ti tanto amor quanto o coração de uma mulher pode

conter e dar, e achas-te longe, amaldiçoas-me e não recebo de ti uma só palavra de consolação. Bem sei que só ao acaso se deve este abandono e que, se estivesses em Paris, não largarias a minha cabeceira nem o meu quarto. "

 

                   25 de Dezembro

"O médico proíbe-me absolutamente de escrever todos os dias.

De facto, as minhas lembranças só fazem aumentar a febre; mas ontem recebi uma carta que me consolou, mais pelos sentimentos nela expressos do que pelo socorro material que trazia. Essa carta era de teu pai e dizia o seguinte:

 

"Minha senhora

"Acabo de saber que está doente. Se me encontrasse em Paris, iria saber notícias suas; se o meu filho estivesse comigo, dir-lhe-ia que a procurasse.

Mas não posso sair de C... e o Armando acha-se a seiscentas ou setecentas léguas daqui. Permita-me, pois, minha senhora, que lhe mande dizer simplesmente, por escrito, quanto me penaliza a sua doença e creia nos votos sinceros que faço pelo seu pronto restabelecimento.

"Irá a sua casa um dos meus bons amigos, o Sr. H..., e peço-lhe, minha senhora, que o receba. Confiei-lhe uma missão, cujo resultado espero com ansiedade.

"Queira aceitar, minha senhora, o protesto da minha mais

elevada consideração. "

"Tal é a carta que recebi. Teu pai é um nobre coração; estimo-o deveras, meu amigo, porque há poucos homens no mundo tão dignos de estima. Fez-me melhor esse papel assinado com o nome dele do que todas as receitas do nosso grande médico.

"Esta manha apareceu o Sr. H... Parecia muito embaraçado com a missão delicada de que o Sr. Duval o encarregara. Vinha simplesmente trazer-me mil escudos da parte de teu pai.

Primeiro quis recusar, mas o Sr. H... disse-me que essa recusa ofenderia o Sr. Duval, que o autorizara a dar-me primeiro essa quantia, e a entregar-me tudo quanto me fosse necessário.

Aceitei esse benefício que, da parte de teu pai, não se pode

considerar uma esmola. Se tiver morrido quando voltares, mostra a teu pai o que eu acabo de escrever para ele, e diz-lhe que, ao traçar estas linhas, a pobre rapariga, a quem escreveu esta carta consoladora, derramava lágrimas de reconhecimento e rezava a Deus por ele."

 

                     4 de Janeiro

"Acabo de passar uma série de dias bem dolorosos. Não sabia que o corpo nos podia causar tamanho sofrimento. oh! A minha vida passada, pago-a hoje bem caro!

"Velaram-me durante estas noites todas. Eu já não podia respirar. o delírio e a tosse dividiam entre si a minha pobre existência.

"A minha sala de jantar está cheia de doces, de presentes de toda a espécie, que os meus amigos me trouxeram. De todos esses homens alguns esperam decerto que eu seja sua amante, quando estiver boa Se vissem o que a doença fez de mim, fugiriam horrorizados.

"Prudência farta-se de dar presentes com os que eu recebo.

"Está muito frio. Disse-me o doutor que, se o tempo se conservasse assim bonito, eu podia sair, dentro de poucos dias.

 

                     8 de Janeiro

"Ontem saí de carruagem. Como o tempo estava magnífico, os Campos Elísios encheram-se de gente. Dir-se-ia o primeiro sorriso da Primavera. Tinha tudo um ar de festa em volta de mim. Nunca imaginara que podia haver, num raio de sol, o júbilo, a doçura e a consolação que ontem senti.

"Encontrei quase todas as pessoas que conheço, sempre alegres e sempre a cuidarem dos seus prazeres. Quantos felizes há que não sabem que são felizes! olímpia passou numa elegante carruagem que o conde de N... lhe deu. Procurou insultar-me com os olhos. Não sabe como estou longe de todas essas vaidades. Um belo rapaz que eu conheço há muito tempo perguntou-me se eu queria ir cear com ele e com um dos seus amigos que deseja muito conhecer. -me.

" Sorri-me para ele tristemente e estendi-lhe a mão que ardia em febre.

"Nunca vi cara mais espantada.

"Voltei às quatro horas para casa e jantei com certo apetite.

"Este passeio fez-me bem.

"E se eu me curasse?

"Como o aspecto da vida e a felicidade dos outros tem com que desejem viver aqueles que na véspera, na solidão da sua alma, e na sombra do seu quarto de entes, desejavam morrer e bem depressa!"

 

                         10 de Janeiro

"Essa esperança de saúde era apenas um sonho. Aqui estou outra vez de cama, com o corpo coberto de emplastros que queimam.

Vai oferecer esse corpo que dantes se pagava tão caro, e vê

quanto de dão hoje por ele!

"É necessário que tenhamos feito muito mal antes de nascer, ou que devamos gozar uma felicidade bem grande depois da nossa morte, para que Deus permita que esta vida tenha todas as torturas da expiação e todas as dores da provação. "

 

                       12 de Janeiro

"As dores não me deixam.

"O conde de N... mandou-me dinheiro ontem e eu não lho aceitei. Não quero nada desse homem.

Por causa dele é que não estás agora ao pé de mim.

"oh lindos dias de Bougival, onde estais vós?

"Se eu sair viva deste quarto, hei-de fazer uma romagem à casa em que morámos juntos, mas não sairei de lá senão depois de morta.

" Quem sabe se te escreverei amanha ? "

"Há onze noites que não durmo, que tenho sufocações e que imagino a cada instante que vou morrer. o médico ordenou que me não deixassem pegar na pena. Júlia Duprat, que passa as noites ao pé de mim, escreve-te estas poucas linhas. Pois tu não voltarás antes da minha morte? Estará então tudo eternamente acabado entre nós? Parece-me que me curava se te visse. Para que me serve curar-me? "

 

                         28 de Janeiro

"Esta manha fui acordada por um grande estrondo. Júlia, que dormia no meu quarto, correu para a casa de jantar. ouvi vozes de homem, contra as quais lutava a sua voz fraca. Voltou para o quarto a chorar.

"Vinham fazer a penhora. Disse-lhe que deixasse à vontade

aquilo que eles chamam a justiça. o oficial de diligências entrou no meu quarto, de chapéu na cabeça. Abriu as gavetas, arrolou tudo quanto encontrou e nem pareceu reparar em que havia uma moribunda no leito que felizmente a caridade da lei me deixava.

"Teve a bondade de me dizer, ao ir-se embora, que eu podia

embargar a penhora, no prazo de nove dias, mas deixou um

guarda. Que será feito de mim, Deus meu! Esta cena fez-me

piorar. Prudência queria ir pedir dinheiro ao amigo de teu pai; opus-me."

 

                       30 de Janeiro

"Recebi a tua carta esta manha. Bem precisava dela. Receberás ainda a tempo a minha resposta? Foi um dia feliz que me fez esquecer todos os que tenho passado há seis semanas. Parece-me que melhorei, apesar do sentimento de tristeza, debaixo de cuja impressão te respondi.

"Afinal de contas, não se há-de ser sempre desgraçada.

"Quando penso que pode acontecer que eu não morra, que tu voltes, que eu torne a ver a Primavera, que me ames ainda, e que recomecemos a nossa vida do ano passado...

"Doida que eu sou! Mal posso pegar na pena com que escrevo este sonho insensato do meu coração!

"Aconteça o que acontecer, digo-te que te amava deveras, Armando, e teria morrido há muito tempo, se não houvesse para me valer a lembrança deste mor, e como que uma vaga esperança de tornar a ver-te junto de mim."

 

                         4 de Fevereiro

"O conde de G... voltou. A sua amante enganou-o. Está tristíssimo, amava-a muito. Veio contar-me isso tudo. o pobre rapaz está muito atrapalhado de dinheiro, o que o não impediu de pagar ao oficial de diligências e de mandar embora o guarda.

"Falei-lhe em ti, e ele prometeu falar-te em mim. Como eu me esquecia de que fora amante desse homem, e como ele procurava fazer-mo esquecer também ! É um belo coração.

"o duque mandou ontem saber notícias minhas e veio cá esta manha. Não sei o que pode dar vida ainda a esse velho. Esteve três horas ao pé de mim, e não me disse vinte palavras.

Saltaram-lhe dos olhos duas lágrimas como punhos quando me viu tão pálida. Fazia-o chorar, sem dúvida, a lembrança da morte da sua filha. Pode dizer que a viu assim morrer duas vezes.

Está muito abatido, inclina-se-lhe a cabeça para o chão, tem o beiço caído, o olhar apagado.

Pesam como dupla carga sobre esse corpo exausto a dor e a idade. Não me fez a mínima recriminação. Dir-se-ia até que o satisfazia secretamente a devastação que a doença operara em mim. Parecia orgulhar-se de estar de pé, quando eu, nova ainda, me sentia esmagada pela dor.

"Voltou o mau tempo. Ninguém me vem ver. Júlia vela o mais que pode ao pé de mim. Prudência, a quem já não posso dar tanto dinheiro como dantes, principia a pretextar negócios para se afastar.

"Agora que estou quase a morrer, apesar do que me dizem os médicos, porque tenho muitos, o que prova que a doença

aumenta, quase lamento ter dado ouvidos a teu pai; se eu soubesse que não tirava senão um ano ao teu futuro, não teria resistido ao desejo de passar esse contigo, e ao menos morria com a mão de um amigo nas minhas. É verdade que se vivêssemos juntos esse ano, eu não morreria tão cedo.

"Seja feita a vontade de Deus! "

 

                                 5 de Fevereiro

"oh! Vem, vem, meu Armando! Sofro horrivelmente. Estava tão triste ontem, que quis passar num sítio qualquer que não fosse a minha casa a noite que parecia interminável como a da véspera. o duque viera pela manha. Ao ver esse homem esquecido pela morte, tenho a impressão de morrer mais depressa.

"Apesar da febre ardente que me queimava, pedi que me vestissem e me levassem ao Vaudeville. Júlia pôs-me carmim, senão parecia um cadáver. Fui para aquele camarote onde combinámos a nossa primeira entrevista; estive todo o tempo com os olhos cravados na cadeira que ocupavas nessa noite, e onde estava ontem um saloio, que ria estrondosamente de todas as tolices que os actores diziam. Trouxeram-me semimorta para casa. Tossi e deitei sangue toda a noite. Hoje já não posso falar e mal consigo mexer os braços. oh meu Deus, meu Deus!

Vou morrer. Já o esperava, mas não posso habituar-me à ideia de padecer, e se. . . "

Dessa palavra para diante as letras que Margarida procurava traçar eram ilegíveis, e fora Júlia Duprat que continuara.

 

                   18 de Fevereiro

"Sr. Armando:

"Desde o dia em que a Margarida quis ir ao espectáculo, foi sempre a pior. Perdeu completamente a voz, depois o uso dos seus membros; é impossível dizer do que padece a nossa pobre amiga. Não estou habituada a este género de comoções e tenho sustos continuados.

"Como eu desejaria que se encontrasse connosco! Margarida está quase sempre em delírio, mas, delirante ou lúcida, é sempre o seu nome que ela profere, quando chega a pronunciar alguma palavra.

"o médico disse-me que ela pouco durava. o velho duque, desde que Margarida está tão doente, não voltou cá.

"Disse ao doutor que esse espectáculo lhe fazia um mal imenso.

"A Sr.a Duvernoy não se porta bem, devo confessá-lo. Essa

mulher, que julgava poder arrancar mais dinheiro a Margarida, à custa da qual estava a viver quase completamente, tomou compromissos que não pôde satisfazer, e vendo que a sua vizinha já lhe não serve de nada, nem cá vem. Todos a abandonam. o conde de G.. ., perseguido pelos credores, foi obrigado a partir outra vez para Londres. Antes mandou-nos algum dinheiro; fez quanto pôde, mas vieram as penhoras, e os credores não esperam senão a morte para porem tudo à venda.

"Quis usar dos meus últimos recursos para impedir estas penhoras todas, mas o oficial de diligências disse-me que era escusado, e que tinha ainda de executar mais sentenças. Se ela vai morrer em breve, mais vale abandonar tudo do que salvá-lo para o dar à sua família, que nunca a quis ver e que nunca a amou. Mal imagina a miséria em que esta pobre rapariga está a passar os últimos dias da sua vida! ontem não tínhamos dinheiro absolutamente nenhum. Talheres, jóias, xailes de caxemira, está tudo empenhado, o resto penhorado ou vendido.

Margarida ainda tem consciência do que se passa em torno de si, e padece no corpo, no espírito e no coração. Grossas lágrimas lhe caem pelas faces, tão magras e tão pálidas, que o Sr. Armando não reconheceria já o rosto daquela que amava tanto, se a pudesse ver. Margarida fez com que eu prometesse escrever-lhe quando ela já o não pudesse fazer, e estou a cumprir a promessa diante dela. Volta os olhos para o meu lado, mas não me vê, o seu olhar acha-se já embaciado pela morte próxima; no entanto sorri-se, e todo o seu pensamento e toda a sua alma lhe pertencem, Sr. Armando, tenho essa certeza.

"De cada vez que se abre a porta, iluminam-se-lhe os olhos e imagina sempre que é o seu Armando que vai entrar; depois, vê que se enganou, volta o rosto a ter a sua expressão dolorosa, humedece-se-lhe com um suor frio, e tornam-se purpúreas as maças do rosto.

 

                         19 de Fevereiro.--Meia-noite

"Como foi triste o dia de hoje, meu pobre senhor Armando! Esta manha Margarida estava sufocada, o médico sangrou-a, e voltou-lhe um pouco a fala. o doutor aconselhou-a a receber um padre. Margarida disse que consentia, e foi ele mesmo chamar um a S. Roque.

"Entretanto, Margarida chamou-me para o pé da sua cama, pediu-me que lhe abrisse o armário, depois apontou para uma touca, para uma camisa comprida toda coberta de rendas, e disse-me com voz fraca:

"--Vou morrer. Depois de me confessar, veste-me isto; é uma garridice de moribunda.

"Em seguida abraçou-me, beijou-me a chorar e acrescentou:

"--Eu posso falar, mas o falar sufoca-me imenso. Abafo! Ar!

Ar!

"Eu estava debulhada em lágrimas, abri a janela e instantes

depois entrou o padre.

"Fui ao seu encontro.

"Quando soube em casa de quem se encontrava, parecia com receio de ser mal recebido.

"--Entre sem medo, meu padre--disse-lhe eu.

"Demorou-se pouco tempo no quarto da doente e, quando saiu, sussurrou-me:

"--Viveu como pecadora, mas há-de morrer como cristã.

"Momentos depois voltou, acompanhado por um menino de coro com um crucifixo na mão e por um sacristão que tocava adiante dele a campainha, para anunciar que vinha Deus à moribunda.

"Entraram todos três nessa alcova, onde haviam ressoado outrora tantas palavras pecadoras, e que agora era apenas tabernáculo santo.

"Caí de joelhos. Não sei quanto tempo me durará a impressão que me produziu esse espectáculo, mas não creio que me possa impressionar tanto uma coisa humana, até eu chegar ao mesmo momento.

"o padre ungiu com os santos óleos os pés, as mãos e a testa da moribunda, recitou uma curta oração, e Margarida achou-se pronta a partir para o Céu para onde irá sem dúvida, se Deus viu as provações da sua vida e a santidade da sua morte.

"Daí por diante não pronunciou mais palavra, nem fez qualquer movimento. Vinte vezes a julgaria morta, se não ouvisse o esforço da sua respiração difícil. "

 

                         20 de Fevereiro, às 5 horas da tarde

"Está tudo acabado.

"Margarida entrou na agonia esta noite às duas horas pouco mais ou menos. Nunca houve mártir que padecesse semelhantes torturas, a avaliar pelos gritos que soltava. Duas ou três vezes se pôs em pé na cama, como se quisesse segurar a vida que subia para Deus.

"Duas ou três vezes também pronunciou o seu nome, depois

calou-se completamente e recaiu exausta na cama. Correram-lhe dos olhos lágrimas silenciosas e morreu.

"Então aproximei-me dela, chamei-a, e, como me não respondia, fechei-lhe os olhos e beijei-a na testa.

"Pobre querida Margarida, bem desejaria ser uma santa mulher para que este beijo te recomendasse a Deus.

"Depois vesti-a como ela me pedira, fui buscar um padre a S. Roque, acendi dois círios por intenção dela e estive uma hora a rezar na igreja.

"Dei a uma pobre o dinheiro que era dela.

"Eu não entendo bem estas coisas de religião, mas penso que Deus Nosso Senhor reconhecerá que as minhas lágrimas eram verdadeiras, fervente a minha prece, sincera a minha esmola, e que se compadecerá daquela mulher que morreu tão nova e tão linda, só me tendo a mim para lhe fechar os olhos e a amortalhar"

 

                           22 de Fevereiro

"Foi hoje o enterro. Estiveram na Igreja muitas amigas de Margarida. Algumas choraram sinceramente. Quando o féretro seguiu o caminho de Montmartre, levava só dois homens no cortejo: o conde de G..., que voltara de Londres de propósito, e o duque, que ia amparado por dois criados.

"Escrevo-lhe tudo isto de casa dela, no meio das minhas lágrimas e diante de um candeeiro que arde tristemente ao lado do meu jantar, em que não toco, como pode calcular, mas que Nanine quis por força que me fizessem, porque não como há vinte e quatro horas.

"Não poderá a minha vida conservar por muito tempo estas impressões tristes, porque ela não me pertence, como a de Margarida lhe não pertencia também, e por isso lhe conto estas coisas nos próprios sítios onde se passaram, receando que, se o seu regresso ainda demorar muito, não lhas possa narrar com toda a sua triste e rigorosa exactidão."

 

Quando acabei a leitura do manuscrito, Armando perguntou-me:

--Leu ?

--Se tudo isto é verdade, compreendo o que deve ter sofrido.

--Confirmou-mo meu pai numa carta.

Ainda conversámos por algum tempo no triste fado que acabava de se cumprir, e voltei a casa para descansar um pouco.

Armando, sempre triste, mas um pouco aliviado por ter contado tudo, restabeleceu-se depressa, e fomos visitar juntos Prudência e Júlia Duprat.

Prudência acabava de falir. Disse-nos que Margarida fora a causadora; que ela, Prudência, lhe emprestara muito dinheiro durante a sua doença, para obter o qual assinara letras, que não lhe fora possível pagar, e como Margarida morrera sem as liquidar, e não lhe dera recibos, não pudera apresentar-se como credora.

 

Com o auxílio dessa fábula que a Duvernoy contava por toda a parte para desculpar a sua ruína, conseguiu ela surripiar uma nota de mil francos a Armando, que não acreditava uma palavra, mas que fingia acreditar, tal o respeito que tinha por tudo o que se aproximara da sua amante.

Depois fomos a casa de Júlia Duprat, que nos contou os tristes acontecimentos a que assistira, derramando lágrimas sinceras ao lembrar-se da sua amiga.

Fomos, enfim, ao túmulo de Margarida, no qual os primeiros

raios do sol de Abril faziam nascer as primeiras folhas.

Restava a Armando um último dever a cumprir: era de ir ter com seu pai. Quis ainda que eu o acompanhasse.

Chegámos a C..., onde vi o Sr. Duval, exactamente como eu

imaginara pelo retrato que dele me fizera seu filho: grande, bom e digno.

Acolheu Armando com lágrimas de ventura e apertou-me afectuosamente a mão. Logo percebi que o sentimento paternal era o que dominava todos os outros no recebedor.

Sua filha, chamada Branca, tinha esta transparência do olhar, esta serenidade da boca que prova que não brotam da alma senão santos pensamentos e que os lábios apenas dizem piedosas palavras. Sorria-se ao ver voltar seu irmão, ignorando, essa casta menina, que longe dela uma pobre mulher sacrificara a sua felicidade à simples invocação do seu nome.

Estive algum tempo com essa família feliz, toda entregue àquele que levava a convalescença do seu coração.

Voltei para Paris onde escrevi esta história como me fora contada. Tem apenas um merecimento: o de ser verdadeira.

Não tiro desta narrativa a conclusão de que todas as mulheres perdidas como Margarida são capazes de fazer o que ela fez; longe disso; mas tive conhecimento de que uma delas sentira na sua vida um amor sério, que por ele sofrera e por ele morrera.

Contei ao leitor o que sabia. Era um dever.

 

                                                                                Alexandre Dumas  

 

                      

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