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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A DAMA DE ABU SIMBEL / Christian Jack
A DAMA DE ABU SIMBEL / Christian Jack

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

SÉRIE RAMSÉS

Volume IV

 

A Dama de Abu Simbel

Matador, o leão de Ramsés, soltou um rugido que gelou de terror tanto os egípcios como os revoltosos. A enorme fera, condecorada pelo faraó com um fino colar de ouro por bons e leais serviços prestados durante a batalha de Kadesh contra os hititas (Os longínquos antepassados dos turcos), pesava mais de trezentos quilos, tinha quatro metros de comprimento e exibia uma juba simultaneamente farta e bela, tão luxuriante que lhe cobria a parte de cima da cabeça, os lados do focinho, o pescoço e parte das espáduas e do peito. A pelagem, lisa e curta, era de um castanho claro e luminoso.

A cólera de Matador foi detectada mais de vinte quilômetros em redor e todos compreenderam que era igualmente a cólera de Ramsés que, desde a vitória de Kadesh, se tornara Ramsés o Grande.

Seria real essa grandeza, quando o faraó do Egito não conseguia, apesar do prestígio e da valentia, impor a sua lei aos bárbaros da Anatólia? O exército egípcio revelara-se decepcionante a quando do confronto. Os generais, cobardes ou incompetentes, tinham abandonado Ramsés, deixando-o só em frente de milhões de adversários, certos da vitória. Mas o deus Amon, oculto na luz, ouvira a prece do seu filho e concedera ao braço do faraó uma força sobrenatural.

Depois de cinco anos de um reinado tumultuoso, Ramsés convencera-se que a sua vitória em Kadesh impediria os hititas de reerguer a cabeça durante muito tempo e que o Próximo-Oriente entraria numa era de relativa paz.

Enganara-se redondamente, ele, o potente touro, o bem-amado da Regra divina, o que protegia o Egito, o Filho da Luz. Mereceria esses cognomes, face à sedição que grassava nos seus protetorados tradicionais, Canaã e a Síria do Sul? Não só os hititas não renunciavam à luta, como tinham mesmo lançado uma vasta ofensiva aliando-se aos beduínos, ladrões e assassinos que desde sempre tinham cobiçado as ricas terras do Delta.

 O general do exército de Ra aproximou-se do rei.

 -Majestade... A situação é mais crítica do que prevíamos. Não se trata de uma vulgar revolta; segundo os nossos batedores, toda a região de Canaã se ergue contra nós. Uma vez franqueado este primeiro obstáculo, haverá um segundo, depois um terceiro, a seguir...

 -E desesperas de chegar a bom porto?

-As nossas perdas podem vir a ser pesadas, Majestade e os homens não têm qualquer desejo de se deixarem matar por nada.

-A sobrevivência do Egito será motivo suficiente?

-Não queria dizer...

-Mas foi o que pensaste, general! Portanto. a lição de Kadesh foi inútil. Estarei condenado a viver rodeado de cobardes, que perdem a vida porque pretendem salvá-la?

-A minha obediência e a dos outros generais não falharão, Majestade, mas pretendíamos simplesmente alertar-vos.

-O nosso serviço de espionagem conseguiu informações referentes a Acha?

-Infelizmente não, Majestade.

Acha, amigo de infância e ministro dos Negócios Estrangeiros de Ramsés, caíra numa emboscada quando visitava o príncipe de Amourroul. Teria sido torturado, estaria ainda vivo, considerariam os seus carcereiros que o diplomata constituía valor de troca? Logo que soubera a notícia, Ramsés mobilizara as suas tropas, ainda mal refeitas do confronto de Kadesh. Para salvar Acha precisava de atravessar regiões que se tinham tornado hostis. Uma vez mais, os príncipes locais tinham desrespeitado o seu juramento de aliança com o Egito, vendendo-se aos hititas em troca de algum metal precioso e de promessas falaciosas. Quem não sonhava invadir a terra dos faraós e usufruir as suas riquezas consideradas inesgotáveis? Ramsés o Grande tinha tantas obras a completar: o seu templo dos milhões de anos em Tebas, o Ramseum, Karnak, Luxor, Abydos, a sua morada de eternidade do Vale dos Reis e Abu Simbel, o sonho de pedra que queria oferecer à sua adorada esposa Néfertari... E ei-lo aqui, na orla da região de Canaã, no cimo de uma colina, observando uma fortaleza inimiga.

 -Majestade, se eu me atrevesse...

 -Sê corajoso, general!

-A vossa demonstração de força é de tal forma impressionante...

Estou convencido que o imperador Mouwattali compreenderá a mensagem e libertará Acha.

Mouwattali, o imperador hitita, era um homem obstinado e manhoso, consciente de que a sua tirania apenas se apoiava na força. Embora à cabeça de uma vasta coligação, falhara o seu intuito de conquistar o Egito mas lançava um novo assalto, por intermédio de beduínos e revoltosos.

Apenas a morte de Mouwattali ou de Ramsés poria fim a um conflito cujo resultado seria decisivo para o futuro de inúmeros povos. Se o Egito fosse vencido, o poderio militar hitita imporia uma cruel ditadura que acabaria por destruir uma civilização milenária elaborada desde o reinado de Ménès, o primeiro dos faraós.

Por instantes, Ramsés pensou em Moisés. Onde se esconderia esse outro amigo de infância que fugira do Egito depois de cometido um assassínio? As buscas tinham sido vãs. Havia quem afirmasse que o hebreu, que colaborara tão eficazmente na construção de Pi-Ramsés, a nova capital edificada no Delta, fora engolido pelas areias do deserto.

Ter-se-ia Moisés juntado aos revoltosos? Não, nunca se tornaria um inimigo.

-Majestade... Majestade, estais a ouvir-me? Fitando o rosto bem alimentado e medroso daquele graduado que apenas pensava no seu conforto, Ramsés viu o do homem que mais o detestava no mundo, Chénar, o seu irmão mais velho. O miserável aliara-se aos hititas, na esperança de se apoderar do trono do Egito. Chénar desaparecera durante a sua transferência da prisão de Mênfis para o degredo dos oásis, protegido por uma tempestade de areia. Ramsés continuava convencido que ele ainda estava vivo e com a firme intenção de o prejudicar.

 -Prepara as tropas para o combate, general.

 De má vontade, o oficial superior eclipsou-se.

Como Ramsés teria apreciado gozar a doçura de um jardim ao lado de Néfertari, do filho e da filha, como teria saboreado a felicidade do dia a dia, longe do barulho das armas! Mas tinha de salvar o seu país da invasão de hordas sanguinárias que não hesitariam em destruir os templos e espezinhar as leis. O que estava em jogo ultrapassava a sua pessoa. Não tinha o direito de pensar no seu próprio sossego, na sua família, mas tinha de esconjurar o mal, mesmo com o preço da própria vida.

Ramsés contemplou a fortaleza que barrava o caminho de acesso ao coração do protetorado de Canaã. Com seis metros de altura, os muros de duplo declive abrigavam uma importante guarnição. Arqueiros ocupavam as ameias. Os fossos estavam cheios de cacos de cerâmica cortantes que feririam os pés dos soldados de infantaria encarregados de erguer as escadas.

 Um vento marítimo refrescava os soldados egípcios, amontoados entre duas colinas inundadas de sol. Tinham ali chegado em marcha forçada, gozando apenas de curtas paragens e de acampamentos ocasionais. Só os mercenários, bem pagos, se resignavam a combater; os jovens recrutas, já descontentes com a idéia de abandonar a sua terra por um período indeterminado, receavam morrer em horríveis combates.

 Todos esperavam que o Faraó se contentasse em reforçar a fronteira nordeste, em vez de se lançar numa aventura que poderia acabar em desastre.

 Outrora, o governador de Gaza, a capital de Canaã, oferecera um esplêndido banquete ao estado-maior egípcio, jurando que nunca se aliaria aos hititas, esses bárbaros da Ásia de crueldade lendária. A hipocrisia, demasiado evidente, já então revoltara o coração de Ramsés; atualmente, a sua traição não surpreendia o jovem monarca de vinte e sete anos, que começava a ser capaz de perscrutar o segredo dos seres.

 Impaciente, o leão rugiu de novo.

 Matador mudara muito desde o dia em que Ramsés o descobrira, moribundo, na savana da Núbia. Mordido por uma serpente, o leãozinho não tinha qualquer hipótese de sobrevivência. De imediato se estabelecera entre a fera e o homem uma simpatia profunda e misteriosa.

 Felizmente Sétaou, o curandeiro, também ele amigo de infância e camarada de universidade de Ramsés, conseguira descobrir remédios eficazes. A formidável resistência do animal permitira-lhe ultrapassar o percalço e tornar-se um adulto de uma força aterradora. O rei não poderia sonhar melhor guarda-costas.

 Ramsés passou a mão pela juba de Matador. A carícia não acalmou a fera.

 Envergando uma túnica de pele de antílope com inúmeros bolsos cheios de drogas, pílulas e frasquinhos, Sétaou subia a encosta da colina. Maciço, de estatura mediana, cabeça quadrada, cabelos negros, mal barbeado, tinha paixão pelas serpentes e escorpiões. Com o seu veneno preparava medicamentos eficazes e, na companhia da mulher, Lótus, uma encantadora núbia cuja simples visão alegrava os soldados, continuava incansavelmente as suas pesquisas.

 Ramsés confiara ao casal a direção do serviço de saúde do exército. Sétaou e Lótus tinham participado em todas as campanhas do rei, não por amor à guerra mas para capturarem novos répteis e tratarem dos feridos. E Sétaou considerava que ninguém estava mais bem colocado do que ele para vir em auxílio do seu amigo Ramsés, em caso de desastre.

 -O moral das tropas não é famoso - constatou.

 -O generais desejam a retirada-reconheceu Ramsés.

 -Considerando o comportamento dos teus soldados em Kadesh, o que podes esperar? São inigualáveis na fuga e na debandada. Mas tomarás sozinho a tua decisão, como é habitual.

 -Não, Sétaou, sozinho não. Com o conselho do sol, dos ventos, da alma do meu leão do espírito desta terra... Eles não mentem. Compete-me a mim entender a sua mensagem.

 -Não pode haver melhor conselho de guerra.

 -Falaste com as tuas serpentes?

-Também elas são mensageiras do invisível. Sim, interroguei-as e responderam-me sem hesitação: não recuar. Porque está Matador tão nervoso? -Por causa do bosque de carvalhos, à esquerda da fortaleza, a meio caminho entre ela e nós.

 Sétaou olhou naquela direção, mascando uma haste de junco.

 -Tens razão, não cheira nada bem. Tratar-se-á de uma armadilha, como em Kadesh? -Essa funcionou tão bem que os estrategas hititas imaginaram outra que consideram igualmente eficaz. Quando atacarmos, seremos detidos no nosso impulso, enquanto os arqueiros da praça forte nos dizimarão com facilidade.

 Menna, o escudeiro de Ramsés, inclinou-se perante o rei - O vosso carro está pronto, Majestade.

 O monarca acariciou longamente os seus dois cavalos denominados «Vitória em Tebas» e "A deusa Mout está satisfeita"; juntamente com o leão, tinham sido os únicos a não o trair. em Kadesh, quando a batalha parecia perdida.

 Ramsés agarrou nas rédeas sob o olhar incrédulo do escudeiro& dos generais e do regimento de elite dos carreiros.

 -Majestade-inquietou-se Menna - não ides...

 -Passemos ao largo da fortaleza-ordenou o rei-e ataquemos a direito o bosque de carvalhos.

 -Majestade... Esqueceis a vossa cota de malha! Majestade! Brandindo um colete coberto de pequenas placas de metal o escudeiro correu em vão atrás do carro de Ramsés, que se lançará sozinho em direção ao inimigo.

  Em pé no seu carro lançado a toda a velocidade. Ramsés o Grande parecia mais um deus do que um homem. Alto de testa ampla e descoberta com uma coroa azul envolvendo o formato do crânio, arcadas supraciliares salientes sobrancelhas fartas. olhar penetrante como o de um falcão nariz longo. fino e arqueado. orelhas redondas e delicadamente recortadas. maxilar poderoso, lábios carnudos, era a encarnação do poder.

 A sua aproximação. os beduínos ocultos no bosque de carvalhos saíram do seu esconderijo. Uns retesaram os arcos outros brandiram as lanças.

 Tal como em Kadesh o rei foi mais rápido do que um vento violento, mais ágil do que um chacal percorrendo enorme distancia num instante; como um touro de cornos aguçados que derruba os seus inimigos esmagou os primeiros agressores que vieram ao seu encontro e arremessou flecha sobre flecha, trespassando os peitos dos revoltosos.

 O chefe do grupo beduíno conseguiu escapar à carga furiosa do monarca e. com um joelho em terra, preparou-se para arremessar um longo punhal que o atingiria pelas costas.

 O salto de Matador fez estacar. estupefatos. os sediciosos. Apesar do seu peso e do seu tamanho o leão pareceu voar. (com as garras em riste abateu-se sobre o chefe dos beduínos. cravou-lhe as presas na cabeça e fechou os maxilares).

 O horror da cena foi tal que inúmeros guerreiros abandonaram as armas e fugiram para escapar à fera que desfazia já os corpos de outros dois beduínos que em vão acorreram em auxílio.

 Os carros egípcios, seguidos por várias centenas de soldados de infantaria, juntaram-se a Ramsés e não tiveram qualquer dificuldade em aniquilar o último ponto de resistência.

 Serenado, Matador lambeu as patas ensangüentadas e olhou o dono com olhos meigos. O reconhecimento que encontrou nos de Ramsés provocou-lhe um rosnado de prazer. O leão deitou-se junto da roda direita do carro, com olhar vigilante.

 -E uma grande vitória, Majestade!-declarou o general do exército de Ra.

 -Acabamos de evitar um desastre. Por que razão nenhum batedor foi capaz de detectar um ajuntamento de inimigos no bosque?

-Nós... nós negligenciamos esse ponto, que nos pareceu desprovido de importância.

 -É então necessário que um leão ensine aos meus generais a profissão das armas? -Vossa Majestade deseja certamente reunir o conselho de guerra para preparar o assalto à fortaleza...

 -Ataque imediato.

 Ao ouvir o tom de voz do faraó, Matador soube que a trégua tinha terminado. Ramsés afagou a garupa dos seus dois cavalos que olharam um para o outro como para se encorajarem.

 -Majestade, Majestade... Suplico-vos! Quase sem fôlego, o escudeiro Menna estendeu ao rei o colete coberto de pequenas placas de metal. Ramsés concordou em envergar a cota de malha que não desfeava demasiado a sua túnica de linho com amplas mangas. Nos pulsos do soberano, duas pulseiras de ouro e lápis-lazúli cujo motivo central era formado por duas cabeças de patos selvagens, símbolo do par real semelhante a duas aves migratórias levantando VOO para as regiões misteriosas do céu. Ramsés reveria Néfertari antes de empreender a grande viagem para o outro lado da vida? "Vitória em Tebas" e "A deusa Mout está satisfeita" batiam no solo com as patas revelando impaciência. Com a cabeça ornada de um penacho de plumas vermelhas com a extremidade azul e o dorso protegido por uma carapaça vermelha e azul, tinham pressa de avançar para a fortaleza.

 Do peito dos soldados de infantaria erguia-se um cântico instintivamente após a vitória de Kadesh e cujas palavras davam coragem aos poltrões: O braço de Ramsés é poderoso, o seu coração valente. é um arqueiro sem par, uma muralha para os seus soldados, uma chama que queima os seus inimigos.Nervoso, o escudeiro Menna encheu de flechas as duas aljavas do rei.

 -Verificaste-as?

-Sim, Majestade. São leves e fortes. Apenas vós podeis atingir os arqueiros inimigos.

 -Ignoras que a lisonja é uma grave falta?

-Não mas tenho tanto medo! Sem vós esses bárbaros não nos teriam exterminado? -- Prepara uma boa ração para os meus cavalos; terão fome quando regressarmos.

 Logo que os carros egípcios se aproximaram da praça forte, os arqueiros cananeus e os seus aliados beduínos dispararam várias rajadas de flechas que vieram morrer aos pés duas parelhas de cavalos. Estes relincharam! alguns empinaram-se, mas a calma do rei impediu que a sua tropa de elite se deixasse dominar pelo pânico.

 -Estiquem os vossos arcos grandes – ordenou - e aguardem o meu sinal.

 A fábrica de armas de Pi-Ramsés tinha feito vários arcos de madeira de acácia, cuja corda de tensão era um tendão de boi. Cuidadosamente estudada, a curvatura da arma permitia lançar uma flecha com precisão a mais de duzentos metros, em trajetória parabólica. Essa técnica tornava ilusória a proteção das ameias, por trás das quais se abrigavam os sitiados.

 -Juntos!-gritou Ramsés com uma voz tão tonitruante que libertou as energias.

 A maior parte dos projéteis atingiram os seus alvos. Feridos na cabeça, com os olhos perfurados, o pescoço atravessado de lado a lado, inúmeros arqueiros inimigos caíram, mortos ou gravemente feridos.

 Os que os substituíram tiveram a mesma sorte.

 Tendo a certeza que a sua infantaria não cairia sob as flechas dos revoltosos, Ramsés deu ordem que se precipitassem para a porta de madeira da fortaleza e a demolissem com golpes de acha. Os carros egípcios aproximaram-se e os arqueiros do faraó ajustaram ainda melhor o tiro, impedindo qualquer resistência. Os cacos cortantes que enchiam os fossos foram inoperantes; ao contrário do que era hábito, Ramsés não faria erguer escadas, preferindo passar pela entrada principal.

 Os cananeus amontoaram-se atrás da porta, mas não conseguiram conter o ímpeto dos egípcios. O confronto foi de uma violência terrível; os soldados de infantaria do faraó passaram sobre um montão de cadáveres e, como uma onda devastadora, penetraram no interior da fortaleza.

 Os sitiados cediam terreno pouco a pouco; com as grandes capas e os fatos de franjas manchados de sangue, tombavam uns sobre os outros.

 As espadas egípcias trespassaram capacetes, quebraram ossos, rasgaram flancos e costas, cortaram tendões, esventraram entranhas.

 Depois, um silêncio brutal abateu-se sobre a praça forte. As mulheres suplicaram aos vencedores que poupassem os sobreviventes, agrupados a um canto do pátio central.

 O carro de Ramsés fez a sua entrada na cidadela reconquistada.

 -Quem comanda aqui?-perguntou o rei.

 Um quinquagenário com o braço esquerdo amputado destacou-se do monte miserável dos vencidos.

 -Sou o soldado mais velho... Todos os meus chefes morreram.

 Imploro a clemência do senhor das Duas Terras.

 -Que perdão é possível conceder a quem não respeita a sua palavra? -Que o Faraó nos conceda pelo menos uma morte rápida.

 -Eis as minhas decisões, cananeu: as árvores da tua província serão cortadas e a madeira transportada para o Egito; os prisioneiros, homens, mulheres e crianças, serão conduzidos até ao Delta e colocados em trabalhos de utilidade pública; gado e cavalos de Canaã passam a ser propriedade nossa. Quanto aos soldados sobreviventes, serão alistados no meu exército e passarão a combater sob as minhas ordens.

 Os vencidos prostraram-se, felizes por salvarem a vida.

Sétaou não estava descontente. O número de feridos graves era pouco significativo e o curandeiro dispunha de carne fresca suficiente e de pensos com mel para deter as hemorragias. Com as mãos ágeis e precisas, Lótus aproximava os bordos das chagas com tiras adesivas colocadas em cruz. O sorriso da bela núbia atenuava as dores. Os maqueiros traziam os feridos à enfermaria de campanha onde eram tratados com ungüentos, pomadas e poções antes de serem repatriados para o Egito.

Ramsés dirigiu-se aos homens que tinham sofrido na carne para defender o seu país e depois convocou os oficiais superiores aos quais revelou a sua intenção de continuar para Norte e reconquistar uma a uma as fortalezas de Canaã que tinham passado para o controle hitita com a ajuda dos beduínos.

O entusiasmo do Faraó foi comunicativo. O medo desapareceu dos corações e todos se alegraram com a noite e o dia de repouso que ele Ihes concedia. Quanto a Ramsés, jantou com Sétaou e Lótus.

 -Até onde tencionas ir?-perguntou o curandeiro.

 -Pelo menos, até à Síria do Norte.

 -Até... Kadesh? -Veremos.

 -Se a expedição durar demasiado tempo - fez notar Lótus - teremos falta de remédios.

 -A reação dos hititas foi rápida, a nossa deve ser ainda mais.

 -Terminará esta guerra algum dia? -Sim, Lótus, no dia da derrota total do inimigo.

 -Tenho horror a falar de política - comentou Sétaou, rabugento.

 -Acha, querida; vamos fazer amor antes de partirmos em busca de algumas serpentes. Sinto que esta noite será propícia à colheita.

  Ramsés celebrou os rituais da madrugada na pequena capela erguida ao lado da sua tenda no centro do campo. Um santuário bem modesto, em comparação com os templos de Pi-Ramsés. mas o fervor do Filho da Luz era o mesmo. Nunca o seu pai Amon revelaria a sua verdadeira natureza aos humanos, nunca seria encerrado em qualquer forma mas, no entanto, a presença do invisível era sensível a todos.

 Quando o soberano saiu da capela notou um soldado que segurava um oryx pela trela e controlava o quadrúpede com dificuldade.

 Estranho soldado, realmente, com longos cabelos, túnica colorida, barbicha e olhar fugidio. E por que razão tinha aquele animal selvagem sido introduzido no acampamento, tão próximo da tenda real? O rei não teve tempo para se interrogar mais. O beduíno soltou o oryx, que avançou para Ramsés com os cornos apontados ao ventre do soberano desarmado.

 Matador saltou sobre o antílope pelo flanco esquerdo e cravou-lhe as garras na nuca; tendo tido morte imediata, o oryx caiu sob o corpo  Siderado, o beduíno tirou um punhal da túnica, mas não teve tempo de o utilizar; uma violenta dor nas costas, imediatamente seguida de um nevoeiro gelado que o cegou, obrigou-o a largar a arma. Moribundo, caiu de cabeça para a frente, com uma lança cravada entre as omoplatas.

 Calma e sorridente, Lótus demonstrara uma surpreendente destreza.

 A linda nubia nem sequer parecia perturbada.

 -Obrigado, Lótus.

 Sétaou saiu da sua tenda, imitado por numerosos soldados que vi- ram o leão devorar a sua presa e descobriram o cadáver do beduíno.

 Fora de Sl, o escudeiro Menna prostrou-se aos pés de Ramsés.

 -Estou desolado, Majestade! Prometo-vos identificar as sentinelas que deixaram entrar este criminoso no acampamento e castigá-las severamente.

 -Reúne os trompeteiros e ordena-lhes que toquem para a partida.

  Cada vez mais irritado, sobretudo contra si próprio, Acha passava os dias a olhar o mar pela janela do primeiro andar do palácio onde es- tava prisioneiro. Como tinha ele, chefe da rede de espionagem egípcia e ministro dos Negócios Estrangeiros de Ramsés o Grande, podido cair na armadilha montada pelos libaneses da província de Amourrou? Filho único de uma família nobre e rica, Acha, que fizera brilhante- mente os mesmos estudos que Ramsés na universidade de Mênfis, era um homem elegante e requintado, tao apaixonado por mulheres como elas por ele. Rosto fino, membros longos e esguios, voz envolvente, gostava de lançar a moda. Mas por trás do árbitro da elegancia ocultava-se um homem de açao e um diplomata de elevada craveira, falando várias línguas estrangeiras? especialista nos protetorados egípcios e no império hitita.

 Depois da vitória de Kadesh, que parecia ter definitivamente trava- do a expansao hitita, Acha considerara conveniente dirigir-se o mais ra- pidamente possível à província de Amourrou, esse languido Líbano que se estendia ao longo do Mediterraneo, a este do Monte Hermon e da cidade comercial de Damasco. O diplomata pretendia fazer daquela província uma base fortificada de onde partiriam os comandos de elite para deter qualquer tentativa de avanço hitita em direçao à Palestina e à zona do Delta.

 Ao penetrar no porto de Beirute a bordo de um barco carregado de presentes para o príncipe de Amourrou, o venal Benteshina, o ministro egípcio dos Negócios Estrangeiros não imaginava que iria ser recebido por Hattousil, o irmão do imperador hitita, que acabava de apoderar-se da região.

 Acha avaliara o seu adversário. Baixo, de aparência frágil, mas inteligente e manhoso, Hattousil era um inimigo temível. Obrigara o seu prisioneiro a redigir uma carta oficial a Ramsés para atrair o exército do Faraó a uma emboscada: mas Acha, mediante a utilização de um código, esperava ter despertado a desconfiança do soberano.

 Como reagiria Ramsés? A razão de Estado aconselhava-o a abandonar o amigo nas maos do adversário e precipitar-se para o norte. Conhecendo o Faraó, Acha estava convencido que este não hesitaria em atacar os hititas com a máxima violência, fossem quais fossem os riscos a correr. Mas não representava o chefe da diplomacia egípcia uma excelente moeda de troca? Benteshina desejava vender Acha ao Egito em troca de um bom peso de metal precioso.

 Fraca hipótese de sobrevivência, na verdade, mas Acha não tinha outra esperança. Aquela passividade forçada tornava-o irritável, desde a adolescência que era sempre ele a tomar a iniciativa e era insuportável para o seu feitio ter de estar assim à mercê dos aconteci- mentos. Precisava de agir, fosse como fosse. Talvez Ramsés pensasse que Acha estava morto, talvez tivesse tentado lançar uma ofensiva de grande envergadura depois de ter equipado as suas tropas com ar- mas novas.

 Quanto mais Acha refletia, mais convencido estava de que não Ihe restava outra soluçao a não ser libertar-se a si próprio.

 Um servidor trouxe-lhe um copioso almoço, como sempre; o egípcio não se podia queixar da intendência do palácio, que o tratava como um hóspede de categoria. Acha saboreava um pedaço de carne de vaca grelhada quando o passo pesado do senhor da casa se fez ouvir.

 -Como vai o nosso grande amigo egípcio?-perguntou Benteshina, príncipe de Amourrou, um quinqUagenáriO adiposo com um farto bigode negro.

 -Honra-me a tua visita.

 -Tinha vontade de beber vinho com o chefe da diplomacia de Ramsés.

 -Porque não te acompanha Hattousil?

-O nosso grande amigo hitita está ocupado noutro lugar.

-Como é bom ter apenas grandes amigos... Quando reverei Hattousil?

-Não sei.

-Então o Líbano tornou-se uma base hitita? -Os tempos mudam, meu caro Acha.

-Não receias a cólera de Ramsés?

-Entre o Faraó e o meu principado erguem-se agora barreiras impossíveis de ultrapassar.

-Canaã inteiro está sob o controle hitita? -Não me perguntes demasiado... Fica a saber que tenho intenção de negociar a tua preciosa existência em troca de algumas riquezas. Espero que nada de aborrecido te aconteça no decurso da operação, mas..

 Com um sorriso mau, Benteshina anunciava a Acha que seria eliminado antes de poder contar o que tinha visto e ouvido em Amourrou.

 -Tens a certeza de ter escolhido o campo certo? -Com certeza, amigo Acha! A dizer a verdade, os hititas impuseram a lei do mais forte. E depois, fala-se dos inúmeros problemas que têm impedido Ramsés de governar com serenidade... Ou uma conspiração, ou a derrota militar, ou as duas juntas, conduzirão à sua morte ou à sua substituição por um soberano mais conciliador.

 -Conheces mal o Egito, Benteshina, e ainda pior o próprio Ramsés.

 -Sei avaliar os homens. Apesar do revés de Kadesh, será o imperador hitita o triunfador.

 -É uma aposta arriscada.

 -Gosto de vinho, de mulheres e de ouro, mas não sou jogador.

 Os hititas têm a guerra no sangue e os egípcios não.

 Benteshina esfregou suavemente as mãos.

 -Se desejas evitar um lamentável acidente na altura da troca, meu caro Acha, deverias pensar seriamente em mudar de campo. Suponhamos que dás falsas informações a Ramsés... Serás recompensado depois da nossa vitória.

 -Pedes-me para trair, a mim, o chefe da diplomacia egípcia!

-Não se trata de uma questão de circunstancias? Eu também tinha jurado fidelidade ao Faraó...

 -A solidão afeta o meu poder de reflexão.

 -Desejas... uma mulher?

-Uma mulher requintada e culta, muito compreensiva...

 Benteshina esvaziou a sua taça de vinho e passou as costas da mão direita pelos lábios úmidos.

 -Que sacrifícios não faria eu para melhorar a tua reflexão?  Tinha caído a noite e duas lâmpadas de óleo iluminavam tenuamente o quarto de Acha, estendido na cama e envergando um saiote curto.

 Obcecava-o um pensamento: Hattousil tinha deixado Amourrou.

 Essa partida não estava de acordo com uma expansão hitita nos protetorados da Palestina e da Fenícia. Se o avanço dos guerreiros anatólios tivesse sido espetacular, porque razão teria Hattousil abandonado a sua base libanesa, de onde podia controlar a situação? O irmão de Mouvattali não podia ter corrido o risco de seguir mais para sul; provavelmente, tinha regressado à sua terra, mas por que razão?

-Senhor...

 A vozinha tremula sobressaltou Acha. Ergueu-se e, na penumbra, viu uma jovem envergando uma túnica curta, com os cabelos soltos e descalça.

 -É o príncipe Benteshina que me manda... Ele ordenou-me... ele exige...

 -Senta-te a meu lado.

 Ela obedeceu, hesitante.

 Teria cerca de vinte anos, era loura e opulenta, muito apetecível.

 Acha acariciou-lhe o ombro.

 -És casada?

-Sim, senhor, mas o príncipe prometeu-me que o meu marido nada saberia.

-Qual é a sua profissão?

-Guarda da fronteira.

 -Tens alguma ocupação?

-Separo a correspondência na posta restante.

 Acha fez deslizar as alças da túnica, beijou a loura no pescoço e depois fê-la deitar na cama.

-Tens recebido notícias da capital de Canaã?

-Algumas... Mas não tenho o direito de falar nisso.

 -Há aqui muitos guerreiros hititas?

-Também não posso falar disso.

 -Amas o teu marido?

-Sim, senhor, sim...

 -Fazer amor comigo desagrada-te? A jovem voltou o rosto para o lado.

 -Responde às minhas perguntas e não te tocarei.

 Com os olhos inundados de esperança, ela contemplou o egípcio.

 -Tenho a vossa palavra?

-Tens, por todos os deuses da província de Amourrou.

 -Os hititas ainda não são muito numerosos; apenas algumas dezenas de instrutores que treinam os nossos soldados.

 -Hattousil partiu?

-Sim, senhor.

 -Com que destino.

 -Não sei.

 -Como está a situação em Canaã?

-Incerta.

 -- A província não está sob o controle hitita?

-Circulam notícias contraditórias. Alguns dizem que o Faraó se apoderou de Gaza, a capital de Canaã, e que o governador da província foi morto durante o assalto.

 Acha sentiu um animo novo invadir-lhe o peito, como se renascesse para a vida. Não só Ramsés tinha decifrado a sua mensagem como tinha contra-atacado impedindo os hititas de se espalharem. Eis por que motivo Hattousil tinha partido para prevenir o imperador.

 -Lamento, minha linda.

 -Vós... vós não ides manter a vossa promessa!

-Vou, mas tenho que tomar algumas precauções.

 Acha atou-a e amordaçou-a; precisava de algumas horas antes que ela desse o alerta. Descobrindo o manto que a jovem deixara no limiar do quarto, o diplomata entreviu uma solução para sair do palácio: pôs o manto, puxou o capuz para a frente e lançou-se pela escada abaixo.

 Havia um banquete no rés-do-chao.

Alguns convidados, embriagados, dormitavam; outros entregavam-se a folias enlouquecidas. Acha passou por cima de dois corpos nus.

 -Onde vais tu? Acha não podia correr. Diversos homens armados guardavam a porta do palácio.

 -Já te despachaste do egípcio? Vem cá, minha filha...

 A alguns passos, a liberdade.

 A mão viscosa de Benteshina puxou o capuz para trás.

 -Pouca sorte, meu caro Acha.

Pi-Ramsés, a capital edificada no Delta por Ramsés, era denominada «a cidade de turquesa por causa dos mosaicos envernizadas de azul que adornavam a fachada das casas. O passeante maravilhava-se nas ruas de Pi-Ramsés em frente dos templos, do palácio real, dos lagos de recreio, do porto; extasiava-se vendo os pomares, os canais cheios de peixes, as villas dos nobres e os seus jardins e áleas ladeadas de flores; saboreavam-se as maças, as romãs, as azeitonas e os figos, apreciava-se o sabor frutado dos vinhos e cantava-se a canção popular: «Que alegria viver em Pi-Ramsés, ali o pequeno é tão considerado como o grande, a acácia e o sicômoro oferecem a sua sombra, os edifícios resplandecem de ouro e turquesa, o vento é suave e as aves voam em redor dos lagos.» Mas Améni, o secretário particular do rei, camarada de universidade e servidor indefectível do monarca, não compartilhava essa alegria de viver. Sentia, tal como tantos outros habitantes da cidade, que a alegria habitual não reinava ali porque Ramsés estava ausente.

 Ausente e em perigo.

 Sem dar ouvidos a qualquer conselho de prudência, sem admitir qualquer adiamento, Ramsés partira para norte a fim de reconquistar Canaã e a Síria, arrastando atrás de si as tropas numa aventura de conseqüências incertas.

 Porta-sandálias oficial do Faraó, Améni era pequeno, frágil, magro e quase calvo; de ossos frágeis, tez pálida, mãos longas e finas capazes de traçar belos hieróglifos, este filho de estucador tinha laços invisíveis com Ramsés. Era, segundo a antiga expressão «os olhos e os ouvidos do rei, e permanecia na sombra, à frente de um serviço com cerca de vinte funcionários dedicados e competentes Trabalhador infatigável, dormindo pouco e comendo bastante sem conseguir engordar, Améni raramente saía do seu gabinete, onde imperava um porta-pincéis de madeira dourada que Ramsés Ihe oferecera Quando tocava nesse objeto, em forma de coluna encimada por um lírio, a sua energia renascia e lançava-se ao ataque de uma quantidade de pastas que teriam desencorajado qualquer escriba. No seu gabinete, que ele próprio limpava e arrumava, os papiros estavam cuidadosamente arrumados em arcas de madeira e grandes jarros, ou fechados em estojos de cabedal colocados nas prateleiras.

 -Um correio do exército - anunciou um dos assistentes.

 -Manda-o entrar.

 Coberto de poeira, o soldado parecia no limite das suas forças.

 -Trago uma mensagem do Faraó.

 -Mostra-ma.

 Améni identificou o selo de Ramsés Apesar do seu fraco fôlego correu até ao palácio.

  A rainha Néfertari recebia o vizir, o grande intendente da Casa do rei, o escriba das contas, o escriba da mesa, o superior dos ritualistas, o chefe dos segredos, o superior da Casa da Vida, o camareiro, o chefe do Tesouro, o dos celeiros e grande número de outros altos funcionários desejosos de receber diretivas precisas para não tomarem qualquer iniciativa que merecesse a desaprovação da grande esposa real encarregada de governar o país na ausência de Ramsés. Felizmente Améni apoiava-a constantemente e Touya, a mãe do rei, auxiliava-a com os seus preciosos conselhos.

 Mais bela do que as mais belas, cabelos negros e brilhantes, olhos de um verde-azul, rosto luminoso como o de uma deusa, Néfertari enfrentava a prova do poder e da solidão. Música dedicada ao templo fascinada pela escrita dos sábios, sonhara com uma existência meditativa; mas o amor de Ramsés transformar a tímida rapariguinha numa rainha do Egito, decidida a cumprir as suas funções sem fraquejar.

A administração da Casa da rainha, por si só, exigia um pesado trabalho; essa instituição milenar compreendia um pensionato onde eram educadas jovens egípcias e estrangeiras. bem como uma escola de tecelagem, oficinas onde eram fabricadas jóias, espelhos, vasos, leques, sandálias e objetos rituais. Néfertari reinava sobre um numeroso pessoal composto por sacerdotisas, escribas. gestores dos rendimentos de imobiliários, operários e camponeses, e fizera questão de conhecer pessoalmente os principais responsáveis por cada setor de atividade.

 A sua obsessão era evitar erros e injustiças.

 Naqueles dias angustiosos nos quais Ramsés arriscava a vida para salvar o Egito de uma invasão hitita, a grande esposa real devia redobrar os seus esforços e governar o país fosse qual fosse o seu cansaço.

 -Améni, até que enfim! Tens notícias?

-Sim, Majestade: um papiro trazido por um correio do exército.

 A rainha não se instalara no gabinete de Ramsés, que permaneceria vazio até ao seu regresso, mas num amplo compartimento decorado com faianças azuis claras e que dava para o jardim onde Vigilante, o cão amarelo ouro do rei, dormia junto de uma acácia.

 Néfertari abriu o papiro e leu o texto redigido na escrita cursiva e assinada pelo próprio Ramsés.

 Nenhum sorriso iluminou o rosto grave da rainha.

 -Tenta reconfortar-me - confessou ela.

 -O rei avançou?

-Canaã está dominada e o governador desleal foi morto.

 -Foi uma bela vitória!-entusiasmou-se Améni.

 -O rei continua para norte.

 -Porque estais tão triste?

-Porque ele irá até Kadesh, sejam quais forem os perigos. Antes tentará libertar Acha e não hesitará em pôr a sua existência em risco.

 E se a sorte o abandonar?

-A sua magia não o abandonará.

 -Como sobreviveria o Egito sem ele?

-Em primeiro lugar, Majestade, vós sois a grande esposa real e governais maravilhosamente; depois, Ramsés regressara, tenho a certeza.

 Ouviu-se no corredor um ruído de passos precipitados, bateram à porta e Améni abriu.

Surgiu uma parteira muito excitada.

 -Majestade... Iset está quase a ter a criança e chama por vós!  Iset a Bela tinha os olhos de um verde intenso, o nariz pequeno e os lábios finos; em geral, o seu rosto possuía uma extrema sedução. Mesmo naquelas horas de sofrimento, mantinha o encanto da juventude, que Ihe permitira seduzir Ramsés e ser o seu primeiro amor. Pensava muitas vezes na cabana de juncos, na orla de um campo de trigo, onde o príncipe Ramsés e ela se tinham entregue um ao outro.

 Mas Ramsés apaixonara-se por Néfertari e Néfertari tinha alma de rainha. Iset a Bela afastara-se porque desconhecia a ambição e o ciúme; nem ela nem ninguém podia rivalizar com Néfertari. O poder assustava Iset e apenas um sentimento perdurava no seu coração: o amor que dedicava a Ramsés.

 Num momento de loucura, por pouco não conspirara contra ele, por despeito, mas, incapaz de o prejudicar, rapidamente se afastara das forças do mal. O seu mais belo título de glória não era ter dado à luz Kha, um rapazinho de excepcional inteligência? Depois de ter tido uma rapariga, Meritamon, Néfertari não podia voltar a ter filhos. Exigira então que Iset a Bela desse ao monarca um segundo filho e outros descendentes. Mas o rei criara a instituição dos ¨filhos reais» que Ihe permitiria escolher, nos vários extratos da sociedade, raparigas ou rapazes que seriam levados para o palácio. O seu número seria uma prova da inesgotável fecundidade do casal real e evitaria qualquer dificuldade na sucessão.

 Mas Iset a Bela iria viver a sua paixão por Ramsés oferecendo-lhe um outro filho; graças aos testes tradicionais', sabia já que iria dar à luz um rapaz.

 Teria a criança de pé, assistida por quatro parteiras que eram denominadas “as doces” ou “as dos polegares firmes”. As fórmulas rituais tinham sido pronunciadas a fim de afastar os gênios das trevas. Por exemplo, se a urina da mulher fizer germinar cevada, dará à luz um rapaz; se fizer germinar trigo, será uma rapariga. Se nem uma nem o outro germinarem, a criança não nascerá.

Tentavam impedir o nascimento. Por intermédio de fumigações e poções era atenuada a dor.

 Iset a Bela sentiu o pequeno ser sair do lago acolhedor onde durante nove meses tinha crescido.

 O contacto com uma mão suave e um perfume de lírio e jasmim fizeram Iset a Bela acreditar que tinha penetrado no interior de um jardim paradisíaco onde o sofrimento não existia. Voltando a cabeça para o lado, viu que Néfertari tinha ocupado o lugar de uma das parteiras.

 Com um pano úmido, a rainha limpou a testa da parturiente.

 -Majestade... Não acreditei que viésseis.

 -Chamaste-me e aqui estou.

 -Tendes notícias do rei?

-São excelentes. Ramsés reconquistou Canaã e não tardará a dominar os outros insurreitos. Está a vencer os hititas em velocidade.

 -Quando regressará?

-Não há-de ter pressa de ver o seu filho?

-Esta criança... amá-la-eis?

-Amá-la-ei como à minha própria filha, como ao teu filho Kha.

 -Tinha receio que...

 Néfertari apertou com força as mãos de Iset a Bela.

 -Não somos inimigas, Iset.  De repente, a dor aumentou; a parturiente deu um grito. A parteira principal apressou-se.

 Iset queria esquecer o fogo que Ihe consumia até entranhas, mergulhar num sono profundo, deixar de lutar sonhar com Ramsés... Mas Néfertari tinha razão; precisava terminar a misteriosa obra que começara no seu íntimo.

 Néfertari segurou nas suas mãos o filho de Iset d Bela, enquanto uma das parteiras cortava o cordão umbilical. A parturiente fechou os olhos.

 -É realmente um rapaz?

-Sim, Iset. Um rapaz belo e forte.

 Kha, o filho de Ramsés e de Iset a Bela copiava para um papiro virgem as máximas do velho sábio Ptah-hotep que, com a idade de cento e dez anos, considerara útil pôr por escrito alguns conselhos destinados às gerações futuras. Kha tinha apenas dez anos, mas detestava as brincadeiras infantis e passava o tempo a estudar, apesar das meigas reprimendas de Nedjem, o ministro da Agricultura, preocupado com a educação do rapazito. Nedjem gostaria que ele se distraísse mais, mas as capacidades intelectuais de Kha fascinavam-no. Aprendia depressa, fixava tudo e escrevia já como um escriba experiente.

 Não longe dele, a linda Meritamon, filha de Ramsés e de Néfertari, tocava harpa. Com seis anos apenas, demonstrava um notável dom para a música, aliado a uma graça senhorial. Enquanto desenhava os hieróglifos, Kha gostava de ouvir a irmã dedilhar melodias e cantar meigas canções. O cão do rei, Vigilante, suspirava de prazer com a cabeça pousada sobre os pés da garota, cuja semelhança com Néfertari era espantosa.

 Quando a rainha entrou no jardim, Kha parou de escrever e Meritamon de tocar harpa. Inquietas e impacientes, as duas crianças correram para ela.

 Néfertari beijou-as.

 -Passou-se tudo bem, Iset deu à luz um rapaz.

 -O meu pai e tu deviam ter previsto o seu nome.

 A rainha sorriu.

 -Achas que podemos prever tudo?

-Sim, porque formam o par real.

 -O teu irmão mais novo chama-se Mérenptah, «o amado do deus Ptah», o patrono dos artesãos .- o senhor do Verbo criador.

  Dolente, a irmã mais velha de Ramsés, era uma volumosa mulher morena, permanentemente cansada. A pele gordurosa obrigava-a a usar inúmeros unguentos Inativa durante muito tempo, dominada pelo enfado de uma jovem nobre com fortuna, encontrara um ideal quando o mago líbio Ofir Ihe falara na fé do rei herético Alkhénaton, partidário do deus único. É certo que o  mago tinha sido obrigado a matar para defender a sua liberdade, mas Dolente aprovara o seu gesto e aceitara auxiliá-lo, acontecesse o que acontecesse.

 A conselho do mago, que arranjara refúgio no próprio Egito, Dolente regressara ao palácio e mentira a Ramsés para que este lhe perdoasse. Não a tinha o mago raptado, servindo-se dela para sair do país? Dolente proclamara a sua alegria por ter escapado ao pior e poder reencontrar a sua família.

Acreditara Ramsés nesta versão dos fatos? Por sua ordem, Dolente permaneceria na corte de Pi-Ramsés. Era o que ela esperava, para poder informar Ofir Iogo que houvesse oportunidade para isso. Como o rei partira para ir combater nos protetorados do Norte, não tivera possibilidade de o rever para melhor conquistar a sua confiança.

 Dolente não se poupara a nenhum esforço para seduzir Nefertari,  de cuja influência sobre o marido tinha conhecimento. Quando a rainha saiu da sala do conselho onde acabava de conferenciar com os responsáveis pelos canais, Dolente inclinou-se perante a soberana.

 -Majestade, permiti que me ocupe de Iset.

 -O que pretendes concretamente, afinal?

-Velar pela sua criadagem e purificar o seu quarto todos os dias utilizar um sabão feito da casca e do âmago da balanitel para lavar a mãe e a criança,  limpar todos os objetos com uma mistura de cinzas e soda... E preparei para ela um estojo de maquiagem.

Só  de base, frasquinhos cheios com essências delicadas, kohol e estiletes para a sua aplicação! Iset não deve permanecer bela?

-Ela será sensível ao teu afeto.

 -Se Iset concordar, eu própria a maquiarei.

 Néfertari e Dolente deram alguns passos por um corredor decorado com pinturas representando lírios, acianos e mandrágoras.

 -Dizem que o bebê é esplêndido.

 -Mérenptah será um homem muito robusto.

 -Ontem, quis brincar com Kha e Meritamon, mas proibiram-me de o fazer. Senti uma grande mágoa? Majestade.

 -São as ordens de Ramsés e as minhas, Dolente.

 -Durante quanto tempo ainda vão desconfiar de mim?

-Admiras-te? A tua fuga com esse mago, o teu apoio a Chénar...

 -Não tive já o meu quinhão de sofrimento, Majestade? O meu marido foi morto por Moisés e esse maldito mago por pouco não se apoderou do meu espírito. Chénar sempre me detestou e humilhou, e é ainda a mim que acusam! Apenas desejo descansar e gostaria muito de sentir o afeto e a confiança dos meus... Admito que cometi graves erros, mas hei de ser sempre considerada como uma criminosa?

-Não conspiraste contra o Faraó? Dolente ajoelhou-se em frente da rainha.

 -Fui escrava de homens maus e sofri a sua influência. Agora acabou-se. Desejo viver só, no palácio, como Ramsés exige, e esquecer o passado... Algum dia me perdoarão? Néfertari ficou comovida.

 -Toma conta de Iset, Dolente; ajuda-a a preservar a sua beleza.

Méha, o adjunto do ministro dos Negócios Estrangeiros, entrou no gabinete de Améni. Diplomata de carreira, herdeiro de uma rica família de embaixadores Méba era naturalmente altivo e condescendente. Pois não pertencia ele a uma casta superior que possuía poder e riqueza e a proibia de se ligar a pessoas inferiores? No entanto, sofrera um rude golpe quando Chénar, o irmão mais velho do rei, o expulsara do seu posto de chefe. Humilhado, posto de parte. julgara que eu nunca mais regressaria à ribalta, até ao dia em que a rede de espionagem hitita instalada no Egito o contactara.

Trair Méba nem tivera tempo para pensar em tal. Recuperando o gosto pela intriga com o sentido dos meandros, conquistara a confiança das autoridades e conseguira novas funções. Tendo sido antigo superior de Acha, tornara-se, aparentemente, seu fiel subordinado. Apesar do seu espírito arguto, o jovem ministro deixara-se enganar pela fingida humildade de Méha; ter um homem experiente como colaborador, e que ainda por cima era um antigo bode expiatório de Chénar, levara Acha a baixar as guardas.

  Desde o desaparecimento do mago Ofir, chefe da rede de espionagem hitita, Méba esperava ordens que não chegavam. Congratulava-se com este silêncio e aproveitava-o para consolidar a sua rede de amizades no ministério e na alta sociedade, sem se esquecer de ir espalhando o seu fel Pois não tinha sido vítima de injustiças? Acha não era um intelectual brilhante, mas perigoso e ineficaz? Méba acabava por esquecer os hltitas e a sua traição.

  Mastigando um figo seco, Améni redigia uma carta com censuras dirigida aos Chefes dos celeiros e lia a queixa de um governador de província por causa da falta de madeira para o aquecimento.

 _ O que se passa, Méba?  O diplomata detestava aquele pequeno escriba cheio de rugas e mal-educado.

  -Estais demasiado ocupado para me poderes ouvir?

-Ainda tenho um bocadinho de orelha, mas na condição de serdes breve.

  -Na ausência de Ramsés, não sois vós que vos ocupais da regência do reino? 

-Se tendes qualquer motivo de desagrado, solicitai audiência à rainha: é Sua Majestade que pessoalmente aprova as minhas decisões.

 -Não brinqueis comigo; a rainha remeter-me-á para vós.

 -De que vos queixais?

-Da ausência de diretivas claras. O meu ministro está no estrangeiro, o rei trava batalhas e a minha administração sente-se dominada por incertezas e dúvidas.

 -Aguardai o regresso de Ramsés e

-E se...

 -Se não regressarem?

-Não devemos encarar essa terrível hipótese?

-Não me parece.

 -Sois categórico...

  -Sou.

 -Então esperarei.

 -Não podíeis tomar melhor iniciativa.

  Ter nascido na Sardenha, ter sido chefe de um famoso bando de piratas, ter enfrentado.Ramsés, dever-lhe a vida e tornar-se o seu chefe da guarda pessoal, eis o destino extraordinário de Serramanna, um gigante de bigode atrevido de cuja traição Améni desconfiara antes de se retratar e conquistar a sua amizade.

 O sardo teria gostado de bater-se contra os hititas, esmigalhando crânios e trespassando peitos, mas o Faraó ordenara-lhe que se encarregasse da proteção da família real e Serramanna dedicava-se a essa tarefa com o mesmo ardor com que outrora se preparava para abordar os ricos navios mercantes.

 Aos olhos do sardo, Ramsés era o mais formidável chefe de guerra que jamais encontrara e Néfertari a mulher mais bela e mais inacessível.

 O casal real era um milagre quotidiano a cujo serviço o ex-pirata já não era capaz de deixar de estar. Bem pago, com alimentação abundante e de qualidade, gozando da companhia de soberbas mulheres, estava pronto a dar a vida pela perenidade do reino.

 No entanto, havia uma sombra neste quadro: o seu instinto de caçador torturava-o. O regresso de Dolente à corte parecia-lhe uma manobra que podia prejudicar Ramsés e Néfertari; considerava a irmã do rei desequilibrada e mentirosa. Na sua opinião, o mago que a tinha manipulado continuava a servir-se dela, embora não tivesse a prova disso.

 Serramanna estava a fazer um inquérito acerca da mulher loura cujo cadáver fora encontrado numa casa pertencente a Chénar, o pérfido irmão de Ramsés, desaparecido numa tempestade de areia durante a sua transferência para o degredo de Khargeh.

As explicações de Dolente tinham sido pouco convincentes: que a vítima tivesse servido de médium, o sardo até admitia; mas que Dolente fosse incapaz de dizer mais qualquer coisa sobre a infeliz parecia-lhe muito pouco verossímil. O seu silêncio? Vontade de dissimular a verdade. Dolente representava o papel de perseguida para melhor ocultar fatos importantes. Mas como tornara a cair nas boas graças de Néfertari, Serramanna não podia acusá-la a partir de simples suposições.

 A persistência fazia parte das qualidades de um pirata. O mar permanecia deserto durante dias inteiros e, de repente, a presa surgia. Era no entanto preciso seguir na direção certa e percorrer zonas de caça abundante; por isso pusera em campo os seus sabujos, tanto em Mênfis como em Pi-Ramsés, munidos de retratos fiéis da jovem loura assassinada.

 Alguém havia de acabar por falar.

A Cidade do Sol', edificada por ordem da faraó Akhénaton, não passava de uma cidade abandonada. Vazios estavam os palácios, as moradias dos nobres, as oficinas, as casas dos artesãos; silenciosos para sempre os templos; desertas a grande avenida onde passava o carro de Akhénaton e Néfertite, as ruas de comércio e as vielas dos bairros populares.

 Nessa região desolada, na vasta planície à beira do Nilo, ao abrigo de um conjunto montanhoso que formava um arco de círculo, Akhénaton consagrara um local a Aton, o deus único que encarnava no disco solar.

 Já ninguém frequentava a capital esquecida. Depois da morte do rei, a população regressara a Tebas! levando consigo objetos preciosos, móveis, utensílios de cozinha, arquivos... Aqui e além havia ainda algumas cerâmicas e, na oficina de um escultor, uma cabeça inacabada de Néfertite.

 Com o correr dos anos, os edifícios iam-se degradando. A tinta branca fendia-se e o gesso esboroava-se. Construída demasiado à pressa, a Cidade do Sol resistia mal às bátegas das tempestades e aos ventos de areia. As estelas, gravadas por Akhénaton para proclamar os limites do território sagrado de Aton, apagavam-se; o tempo tornava os hieróglifos ilegíveis e entregava ao nada a louca aventura do místico.

Na falésia, tinham sido escavados os túmulos dos dignitários do regime, mas não repousava lá nenhuma múmia. Ao abandono da cidade correspondera o das sepulturas, desde então sem alma e sem proteção. Ninguém se atrevia a aventurar-se por ali, pois constava que os espectros se tinham apoderado daqueles lugares e que quebravam a nuca dos visitantes demasiado curiosos.

 Ali se ocultavam Chénar o irmão mais velho de Ramsés, e o mago Ofir. Tinham instalado o seu domicílio no túmulo do grande sacerdote de Aton, cuja sala de colunas se revelava confortável; nas paredes, evocações de templos e de palácios conservavam a imagem do esplendor perdido da Cidade do Sol. O escultor imortalizara Akhénaton e Néfertite venerando o disco solar de onde saíam longos raios terminados por maos que davam a vida ao par real.

 Os pequenos olhos castanhos de Chénar fixavam muitas vezes os baixos-relevos que representavam Akhénaton, a encarnação do sol triunfante. No entanto Chénar, de trinta e cinco anos, rosto redondo, quase lunar, bochechas inchadas, lábios grossos e ossatura pesada, detestava esse sol, astro protetor de seu irmão Ramsés.

 Ramsés, esse tirano que ele tentara derrubar com o auxílio dos hititas, Ramsés que o condenara ao exílio no degredo dos oásis, Ramsés que queria fazê-lo comparecer perante um tribunal que decretaria a sua morte.

 Durante a sua transferência da grande prisão de Mênfis para o degredo dos oásis, uma tempestade de areia. na estrada do deserto, proporcionara a Chénar a oportunidade de fugir. O ódio que sentia pelo irmão e o seu desejo de vingança tinham-lhe permitido sair vivo daquela aventura. Chénar dirigira-se para o único local onde estaria em segurança: a cidade abandonada do rei herético.

 Fora o seu cúmplice Ofir, o chefe da rede de espionagem hitita, que o acolhera. Ofir o Líbio, com perfil de ave de rapina, maças do rosto salientes, grande nariz adunco, lábios finos e queixo pronunciado, o homem que devia fazer de Chénar o sucessor de Ramsés.

 Enraivecido, o irmão do Faraó agarrou numa pedra e atirou-a à representação de Akhénaton, estragando a coroa do monarca.

 -Maldito seja ele e que para sempre desapareçam os faraós e o seu reino! O sonho de Chénar desfizera-se. Ele, que deveria reinar sobre um imenso império que ia da Anatólia à Núbia, encontrava-se reduzido ao estado de paria no seu próprio país. Ramsés deveria ter sido vencido em Kadesh, os hititas deveriam ter invadido o Egito, Chénar deveria ter subido ao trono das Duas Terras e colaborar com o ocupante, desembaraçando-se depois do imperador hitita para se tornar o único senhor do Próximo Oriente. Ramsés, o que conduz ao naufrágio, Chénar o salvador: era esta a verdade que deveria ter imposto aos povos da região.

 Chénar voltou-se para Ofir, sentado no fundo do túmulo.

 -Por que razão falhamos?

-Foi um período de pouca sorte. O destino há de mudar.

 -Fraca resposta, Ofir!

-Mesmo sendo a magia uma ciência exata, não exclui o imprevisível.

 -E esse imprevisível foi o próprio Ramsés!

-O vosso irmão possui qualidades excepcionais e uma capacidade de resistência rara e fascinante.

 -Fascinante... Tereis caído sob o encanto desse déspota?

-Contento-me em estudá-lo para melhor o destruir. Não veio o deus Amon em seu auxílio durante a batalha de Kadesh?

-Dais ouvidos a semelhantes atoardas?

-O mundo não é apenas formado pelo visível. Circulam nele forças secretas e são elas que formam a trama do real.

 Chénar bateu com o punho na parede na qual estava representado o disco solar, Aton.

 -Onde vos conduziram os vossos discursos? Aqui, a este túmulo, longe do poder! Estamos sós e condenados a perecer como dois miseráveis.

 -Isso não é completamente verdade, visto que os partidários de Aton nos alimentam e garantem a nossa segurança.

 -Os partidários de Aton... Um bando de loucos e de místicos, prisioneiros das suas próprias ilusões!

-Não andais longe da verdade, mas são-nos úteis.

 -Tencionais formar com eles um exército capaz de vencer o de Ramsés? Ofir desenhou estranhas figuras geométricas na poeira.

 -Ramsés venceu os hititas - insistiu Chénar - a vossa rede foi desmantelada e eu já não tenho nenhum partidário. Além de apodrecer aqui, que outro destino nos espera?

-A magia ajudar-nos-á a modificá-lo.

 Chénar encolheu os ombros.

 -Não conseguiste suprimir Néfertari e foste incapaz de enfraquecer Ramsés.

 -Sois injusto - considerou o mago.

-A rainha saiu muito afetada da provação que lhe infligi.

 -Iset a Bela dará outro filho a Ramsés e o rei adotará tantos herdeiros quantos quiser! Nenhuma preocupação familiar impedirá o meu irmão de reinar.

 -Os golpes acabarão por desgastá-lo.

 -Ignorais que um faraó do Egito se regenera após o trigésimo ano do seu reinado?

-Ainda lá não chegamos, Chénar; os hititas não renunciaram à luta.

 -A coligação que formaram não foi destruída em Kadesh?

-O imperador Mouthattali é um homem astuto e prudente; soube bater em retirada no momento certo e organizará uma contra-ofensiva que há de surpreender Ramsés.

 -Já não tenho vontade de sonhar, Ofir.

 Ao longe, ouviu-se o som de um galope.

 Chénar agarrou numa espada.

 -Não é ainda a hora a que os atonianos nos trazem comida.

 O irmão de Ramsés precipitou-se para a entrada do túmulo que dominava a cidade morta e a planície.

 -Dois homens.

 -Vêm para aqui?

-Saem da cidade e dirigem-se para a falésia... para nós! Era melhor sairmos deste túmulo e escondermo-nos noutro lugar.

 -Nada de precipitações, são apenas dois.

 Ofir ergueu-se.

 -Talvez seja o sinal que eu esperava Chénar. Observai bem.

 Chénar identificou um partidário de Aton; a presença do seu companheiro deixou-o estupefato.

 -Méba... Méba aqui? -É meu subordinado e nosso aliado.

Chénar pousou a espada.

 -Na corte de Ramsés, ninguém desconfia de Méba; agora temos de esquecer as nossas diferenças.

 Chénar não respondeu. Sentia um profundo desprezo por Méba, cuja única ambição era preservar a sua fortuna e o seu conforto. Quando o diplomata se apresentara perante ele como o novo agente hitita, Chénar não acreditara na sinceridade do seu empenhamento.

 Os dois cavaleiros desmontaram no início do caminho que conduzia ao túmulo do grande sacerdote de Aton. O partidário do deus solar ficou a guardar os cavalos e Méba dirigiu-se para o esconderijo dos seus cúmplices.

 A inquietação apertou a garganta de Chénar. E se o alto funcionário os tivesse traído, precedendo alguns instantes a polícia do Faraó (Moisés, a mulher e o filho tinham deixado a região de Madian, que ficava ao sul de Édom e a este do golfo de Aqaba. Fora ali que o hebreu se ocultara durante um longo período, antes de sair da sua reclusão para regressar ao Egito, contra a opinião do sogro. Sendo acusado de assassínio, não era uma loucura entregar-se à polícia do Faraó? Seria preso e condenado à morte). Mas o horizonte permanecia livre.

 Crispado, Méba não utilizou as fórmulas de delicadeza habituais.

 -Corro grande perigo vindo aqui... Porque me mandaram uma mensagem convocando-me para vir ter convosco? A réplica de Ofir deixou-o siderado.

 -Estais sob as minhas ordens,  Méba; ireis onde eu vos disser para irdes. Notícias? Chénar ficou surpreendido. Então, do fundo do seu buraco, o mago continuava a dirigir a rede.

 -Não são famosas. O contra-ataque hitita não foi um franco sucesso; Ramsés reagiu vigorosamente e já reconquistou Canaã.

 -Dirige-se para Kadesh?

-Não sei.

 -Tendes de ser eficaz, Méba, muito mais eficaz, e dar-me mais informações. Os beduínos cumpriram o que tinham prometido?

-A revolta parece generalizada... Mas tenho de ser muito prudente para não despertar a desconfiança de Améni!

-Não trabalhais no Ministério dos Negócios Estrangeiros?

-A prudência...

 -Tendes ocasião de vos aproximar do pequeno Kha?

-O filho mais velho de Ramsés? Sim, mas porquê?...

 -Preciso de um objeto que lhe seja particularmente querido, Méba, e preciso dele muito em breve.

Mas nenhum argumento dissuadira Moisés. Deus falara-lhe no coração da montanha e ordenara-lhe que fizesse sair do Egito os seus irmãos hebreus para permitir que vivessem a sua fé numa terra que Ihes pertencesse. A missão parecia impossível, mas o profeta teria força para a realizar.

Também a esposa, Cippora, tentara dissuadi-lo. Em vão.  E a pequena família partira pelos estreitos caminhos em direção Delta. Cippora seguia o marido que, com o auxílio de um grande pau cheio de nós, avançava a passo tranquilo, sem nunca hesitar no caminho a seguir.

 Quando uma nuvem de areia anunciou a aproximação de um grupo de cavaleiros, Cippora apertou o filho nos braços e escondeu-se atrás de Moisés. Alto, barbudo, de tronco largo, tinha um porte de atleta.

 -Temos de esconder-nos - implorou ela.

 -É inútil.

 -Se forem beduínos, matar-nos-ão; se forem egípcios, prender-te-ão!

Imóvel, Moisés pensou nos anos de estudo na universidade de Mênfis, durante os quais fora instruído em toda a sabedoria dos egípcios, dedicando uma profunda amizade ao príncipe Ramsés! futuro faraó.

 Depois de ter ocupado um posto importante no harém de Mer-Our, o hebreu desempenhara o cargo de mestre-de-obra no estaleiro de Pi-Ramsés, a nova capital das Duas Terras. ao confiar-lhe essa missÃo, Ramsés fizera de Moisés uma das primeiras personalidades do reino.

 Mas Moisés vivia atormentado. Desde a juventude que um fogo lhe queimava a alma e a dor só desaparecera ao encontrar a sarça ardente, que ardia sem se consumir. O hebreu descobrira finalmente a sua missão.

A frente vinham Amos, calvo e barbudo, e Baduch, alto e magro.Amos e Baduch, os dois chefes de tribo que tinham mentido a Ramsés no cerco de Kadesh para o atraírem a uma emboscada. Os seus homens dispuseram-se em círculo em redor de Moisés.

 -Quem és tu?

-O meu nome é Moisés. Estes são a minha mulher e o meu filho.

 -Moisés... És o amigo de Ramsés, o alto dignitário que cometeu um crime e fugiu para o deserto?

-Sou eu.

 Amos apeou-se do cavalo e felicitou o hebreu.

 -Estamos então no mesmo campo! Também nós combatemos Ramsés, aquele que foi teu amigo e que hoje quer a tua cabeça.

 -O rei do Egito é ainda meu irmão - afirmou Moisés.

 -Divagas! O seu ódio persegue-te constantemente. Beduínos, hebreus e nômades devem aliar-se aos hititas para abaterem esse déspota.

 A sua força tornou-se lendária, Moisés; vem conosco e ataquemos as tropas egípcias que tentam invadir a Síria.

 -Não me dirijo para norte mas sim para sul.

 -Para sul?-espantou-se Baduch, desconfiado.-Para onde queres ir?

-Para o Egito, para Pi-Ramsés.

 Amos e Baduch entreolharam-se, estupefactos.

 -Estás a fazer troça de nós?-perguntou Amos.

 -Digo-vos a verdade.

-Mas... serás preso e executado!

-Yahve proteger-me-á. Devo ajudar o meu povo a sair do Egito.

 -Os hebreus fora do Egito... Enlouqueceste?

-Foi essa a missão que Yahvé me confiou, é essa a missão que  cumprirei.

 Baduch apeou-se também.

 -Não saias daí, Moisés.

 Os dois chefes de tribo afastaram-se para dialogarem sem que o hebreu os ouvisse.

 -É um insensato - afirmou Baduch.-A sua estadia demasiado prolongada no deserto fez com que o seu espírito mergulhasse na demência.

 -- Enganas-te.

 -Eu, engano-me? Esse Moisés é um louco, não há sombra de dúvida!

-Não, é um homem astuto e determinado.

 -Esse infeliz perdido numa pista do deserto, com uma mulher e uma criança... Mas que magnífica astúcia!

-Sim Baduch, magnífica! Quem desconfiará de um miserável como ele? Mas Moisés continuou a .ser muito popular no Egito e tem tenções de fomentar uma revolta dos hebreus.

 -Não tem qualquer hipótese de o conseguir! A polícia do Faraó não deixará.

 -Se o ajudarmos, poderá vir a ser-nos útil.

 -Ajudá-lo... Mas como?

-Fazendo-o passar a fronteira e fornecendo armas aos hebreus. É provável que sejam exterminados, mas terão lançado a confusão em Pi-Ramsés.

  Moisés respirou a plenos pulmões o ar do Delta. Embora tendo-se tornado inimiga, esta terra ainda o enfeitiçava. Deveria odiá-la, mas o verde tenro das culturas e a doçura dos palmares deslumbravam-no, recordando-lhe o sonho de um jovem, amigo e confidente de um faraó do Egito, um sonho que consistia em permanecer a vida inteira ao lado de Ramsés, a servi-lo, a ajudá-lo a transmitir o ideal de verdade e de justiça de que se tinham alimentado as dinastias. Mas esse ideal pertencia ao passado; agora, era Yahvé que guiava os passos de Moisés.

 Graças a Baduch e a Amos, o hebreu, a mulher e o filho tinham entrado no território egípcio durante a noite, escapando às patrulhas que circulavam entre os fortins. Apesar do medo, Cippora não formulara críticas nem objeções; Moisés era o seu marido e ela devia-lhe obediência e segui-lo-ia até onde ele desejasse ir.

 Com o nascer do sol e a ressurreição da natureza, Moisés sentiu o espírito reconfortado. Seria ali que travaria o seu combate, fossem quais fossem as forças que se lhe opusessem. Ramsés devia compreender que os hebreus exigiam a sua liberdade e manifestavam o desejo de formar uma nação, de acordo com a vontade divina.

 A pequena família deteve-se nas aldeias onde, como era costume, os viajantes eram acolhidos com benevolência. A maneira como Moisés se exprimia provava que era egípcio de raiz e os contactos com os aldeões foram facilitados por esse fato. De etapa em etapa, o hebreu, a mulher e o filho chegaram aos arredores da capital.

 -Construí uma boa parte desta cidade - confidenciou à esposa.

 -Como é grande e bela! Vamos viver aqui?

-Algum tempo.

 -Onde nos alojaremos?

-Yahvé providenciará.

 Moisés e os seus penetraram no bairro das oficinas onde reinava intensa atividade. O dédalo de ruelas surpreendeu Cippora, que começava já a ter saudades da existência calma do seu oásis. As pessoas interpelavam-se e gritavam de todos os lados. Marceneiros, alfaiates e fabricantes de sandálias trabalhavam com afinco. Burros carregados com potes contendo carne, peixe seco ou queijos passavam sem pressa.

 Mais adiante, ficavam as casas dos fabricantes de tijolos hebreus.

 Nada mudara. Moisés reconhecia todas as casas, ouvia os cânticos familiares e deixava crescer no seu íntimo recordações em que a revolta se misturava com o entusiasmo da juventude. Quando se deteve numa pequena praça no centro da qual havia um poço aberto, um velho fabricante de tijolos veio olhar para ele quase encostado ao seu nariz.

 -Já te vi... Mas... não é possível! Não és o famoso Moisés?

-Sou sim.

-Julgávamos-te morto!

-Enganavam-se-disse Moisés, sorrindo.

 -No teu tempo, nós, os fabricantes de tijolos, éramos mais bem tratados... Os que trabalham mal são obrigados a arranjar eles próprios a palha. Tu terias protestado! Estás a ver: ser obrigado a ir arranjar palha! E quantas discussões para se conseguir um aumento de salário!

-Tens pelo menos uma casa?

-Queria uma maior, mas a Administração tem deixado arrastar o meu pedido. Antigamente, ter-me-ias ajudado.

 -Ajudar-te-ei.

 O olhar do fabricante de tijolos tornou-se desconfiado.

 -Não tinhas sido acusado de um crime?

-Assim foi.

 -Mataste o marido da irmã de Ramsés, segundo dizem.

 -Um chantagista e um torcionário - fez lembrar Moisés.

-Não  tinha intenção de o suprimir, mas a discussão deu para o torto.

 -Então mataste-o mesmo... Mas eu compreendo-te, sabes?

-Poderias albergar-nos esta noite, a mim e à minha família?

-Sê bem-vindo.

Logo que Moisés, a esposa e o filho adormeceram, o velho fabricante de tijolos saiu da sua cama e, às escuras, avançou em direção à porta que dava para a rua.

 Quando a entreabriu, esta guinchou. Inquieto o homem imobilizou-se durante um longo momento. Convencido que Moisés não tinha acordado, deslizou para o exterior.

 Se denunciasse o criminoso à polícia, receberia uma boa recompensa.

 Mal tinha dado alguns passos na ruela, uma mão forte empurrou-o cle encontro à parede.

 -Onde ias, canalha?

-Eu... eu sentia-me sufocar, precisava de ar livre.

 -Tencionavas vender Moisés, não é verdade?

-Não, claro que não!

-Merecias que te estrangulasse.

-Deixa-o - ordenou Moisés, aparecendo no limiar da porta.-É um hebreu como nós. Quem és tu, que vens em meu auxílio?

-O meu nome é Aarão.

 O homem era idoso mas forte; possuía uma voz grave e sonora.

 -Como soubeste que eu estava aqui?

-Quem não te reconheceu neste bairro? O conselho dos anciãos deseja ver-te e ouvir-te.

Benteshina, o príncipe de Amourrou, estava a ter um sonho delicioso. Uma jovem nobre originária de Pi-Ramsés e completamente nua, perfumada com mirra, trepava ao longo das suas coxas como uma liana amorosa.

 De repente, hesitou e começou a oscilar, como um barco prestes a naufragar. Benteshina agarrou-se ao seu pescoço.

 -Senhor, senhor! Acordai! Abrindo os olhos, o príncipe de Amourrou viu que estava quase a estrangular o seu mordomo. A claridade da madrugada iluminava o quarto.

 -Porque vens importunar-me tão cedo?

-Erguei-vos, suplico-vos, e olhai pela janela.

 Hesitante, Benteshina seguiu a recomendação do servidor. O peso das suas carnes flácidas dificultava-lhe o andar.

 Não havia qualquer bruma sobre o mar; o dia anunciava-se esplêndido

-O que há para ver?

-A entrada do porto, senhor! Benteshina esfregou os olhos.

 A entrada do porto de Beirute estavam três barcos de guerra egípcios.

 -E as vias de acesso terrestre?

-Também estão cortadas; há um enorme exército egípcio espalhado por todo o lado! A cidade está cercada.

 -Acha encontra-se em boas condições?-perguntou Benteshina.

O mordomo baixou a cabeça.

 -Lançamo-lo nas masmorras por vossa ordem.

 -Traz-mo!  O próprio Ramsés dera de comer aos seus dois cavalos, “Vitória em Tebas” e “A deusa Mout está satisfeita”. Os dois soberbos animais nunca se separavam ligados tanto no combate como na paz. Ambos apreciavam as carícias do monarca e soltavam relinchos de orgulho quando ele os felicitava pela sua coragem. A presença de Matador, o leão núbio, não Ihes inspirava o menor receio; não tinham, na companhia da fera, enfrentado milhares de soldados hititas? O general do exército de Ra inclinou-se perante o rei.

 Majestade o nosso dispositivo está em posição. Nem um habitante de Beirute escapará. Estamos prontos para atacar.

 -Interceptem todas as caravanas que deveriam entrar na cidade.

 Devemos prever um cerco? É possível. Se Acha ainda estiver vivo, libertá-lo-emos.

 Seria muito bom, Majestade, mas a vida de um só homem...

 A vida de um só homem é por vezes muito preciosa, general.

 Ramsés permaneceu com os cavalos e o leão durante toda a manha A calma deles parecia-lhe de bom augúrio. De fato, antes de o sol atingir o auge da sua corrida, o ajudante de campo trouxe-lhe a notícia que esperava.

 Benteshina o príncipe de Amourrou, solicita audiência.

  Envergando uma ampla túnica de seda multicor que disfarçava a sua gordura, perfumado com essência de rosas, Benteshina apresentava-se sorridente e descontraído Saudações ao Filho da Luz, ao...

 Não tenho qualquer desejo de ouvir as lisonjas de um traidor.

 O príncipe de Amourrou não perdeu o seu aparente bom-humor.

 - A nossa conversa deve ser construtiva, Majestade.

-Consideras que a sua presença numa masmorra me impedirá de arrasar esta cidade?

-Tenho a certeza. Pois não gabam todos o sentido de amizade de Ramsés o Grande? Um faraó que traísse os que lhe estão próximos atrairia a cólera dos deuses.

 -Acha ainda está vivo?

-Está.

 -Exijo uma prova.

 -Vossa Majestade verá o seu amigo e ministro dos Negócios Estrangeiros aparecer no cimo da torre principal do meu palácio. Não nego que a estadia de Acha na prisão por tentativa de fuga lhe tenha podido causar alguns incômodos físicos, mas nada de grave.

 -O que exiges em troca da sua libertação?

-O vosso perdão. Quando vos entregar o vosso amigo, esquecereis que vos traí ligeiramente e fareis um decreto afirmando que a vossa confiança em relação a mim se mantém. É muito, concordo, mas preciso de salvaguardar o meu trono e os meus modestos bens. Ah... se tivésseis a lamentável idéia de me reter como prisioneiro, é evidente que o vosso amigo seria executado.

 Ramses permaneceu silencioso um longo momento.

 -Preciso de refletir-disse com calma.

 Benteshina tinha apenas um receio: que a razão de Estado se sobrepusesse à amizade. A hesitação de Ramsés fê-lo estremecer.

 -Preciso de tempo para convencer os meus generais-explicou o rei.-Crês que é fácil renunciar a uma vitória e indultar um criminoso? Benteshina ficou mais descansado.

 -«Criminoso» não será um termo excessivo, Majestade? A política das alianças é uma difícil arte; visto que faço uma honrosa correção, porque não esquecer o passado? O Egito re&enta o meu futuro e darei provas da minha fidelidade, podeis ter a certeza. Se me atrevesse, Majestade...

 -O que há mais?

-Tanto a população como eu próprio veríamos com maus olhos um bloqueio à cidade. Estamos habituados a viver bem e a entrega dos produtos faz parte do nosso pacto. Enquanto espera a redação do vosso decreto e a sua própria libertação, Ramsés ergueu-se. A entrevista estava terminada.

 -Ah, Majestade... se eu pudesse saber quanto tempo vai demorar a vossa reflexão...

 -Alguns dias.

 -Estou convencido que chegaremos a um acordo vantajoso tanto para o Egito como para a província de Amourrou.

  Ramsés meditava frente ao mar, com o leão deitado a seus pés. As ondas vinham morrer perto do rei e os golfinhos brincavam ao largo O vento sul soprava com força.

 Sétaou sentou-se à direita do monarca.

 -Não gosto do mar, faltam-lhe serpentes. E nem sequer se pode ver a outra margem.

 -Benteshina faz chantagem comigo.

 -E tu hesitas entre o Egito e Acha.

  -Censuras-me? -Censurar-te-ia o contrário, mas sei qual a solução que deves escolher e não me agrada.

 -Tens algum projeto? -Se assim não fosse, porque havia de perturbar a meditação do senhor das Duas Terras?

-Acha não deve correr qualquer risco.

 -Estás a pedir-me muito.

 -Tens uma hipótese real de vencer?

–Uma,  talvez.

  O mordomo de Benteshina procurava satisfazer os desejos incessantes do seu senhor. O príncipe de Amourrou bebia muito e apenas consumia vinhos das melhores colheitas; embora as adegas do palácio fossem constantemente reabastecidas, os numerosos banquetes esvaziavam-nas rapidamente. O mordomo aguardava portanto cada forneci- mento com impaciência.

 Quando as tropas egípcias tinham cercado Beirute, esperava a chegada de uma caravana que deveria entregar no palácio uma centena de ânforas de vinho tinto do Delta. Era esse que Benteshina exigia e não outro qualquer.

 Qual não foi o contentamento do mordomo ao ver entrar no grande pátio uma fila de carroças carregadas com ânforas de vinho! O bloqueio tinha então sido levantado. Graças à chantagem, Benteshina vencera Ramsés.

 O mordomo precipitou-se para o condutor da carroça da frente e deu-lhe as suas instruções: uma parte dos jarros iriam para a adega, outra para o celeiro que ficava próximo da cozinha e uma terceira para uma dispensa ligada à sala dos banquetes.

 A descarga iniciou-se, ritmada por canções e brincadeiras.

 -Poderíamos talvez... provar?-sugeriu o mordomo ao chefe da caravana.

 -Boa ideia.

 Os dois homens entraram na adega. O mordomo inclinou-se sobre um dos jarros, imaginando o sabor frutado do bom vinho. Enquanto acariciava o ventre bojudo do recipiente. uma violenta pancada na nuca fê-lo cair.

 O chefe da caravana, um oficial do exército de Ramsés, fez sair dos jarros Sétaou e os outros membros do comando. Armados com achas leves recortadas, feitas com três cavilhas salientes enfiadas no cabo e solidamente atadas, suprimiram os guardas libaneses que não esperavam um ataque do interior.

 Enquanto alguns membros do comando abriam a porta principal da cidade, permitindo a entrada aos soldados de infantaria do exército de Ra, Sétaou precipitou-se para o.s aposentos de Benteshina. Quando dois libaneses tentaram barrar-lhe a passagem, soltou algumas víboras furiosas por terem estado muito tempo fechadas num saco.

 A vista do réptil que Sétaou empunhava, Benteshina babou-se de medo!

 -Liberta Acha ou morres.

 Benteshina não precisou que insistisse. Tremendo, resfolegando como um boi cansado, ele próprio abriu a porta do compartimento onde Acha estava encerrado.

 Quando constatou que o amigo estava de boa saúde, Sétaou ficou tão comovido que fez um gesto infeliz: abriu a mão e a víbora, ao ver-se livre, saltou sobre Benteshina.

 Aproximando-se suavemente dos cinquenta anos, esguia, de nariz fino e direito, grandes olhos em amêndoa, severos e penetrantes, queixo quase quadrado, a rainha-mãe Touya continuava a ser a guardiã da tradição e a consciência do reino do Egito. A frente de um numeroso pessoal, aconselhava sem ordenar, mas velava para que fossem respeitados os valores que tinham feito da monarquia egípcia um regime firme, traço de união entre o visível e o invisível.

 Ela, que as inscrições oficiais designavam como «a mãe do deus, a que deu ao mundo Ramsés, o touro poderoso», vivia na recordação do defunto marido, o faraó Séthi. Juntos, tinham construído um Egito forte e sereno que o filho tinha o dever de manter na via da prosperidade. Ramsés possuía a mesma energia que o pai, a mesma fé na sua missão, e nada lhe interessava mais do que a felicidade do seu  povo.

 Para salvar o Egito da invasão, tivera de resignar-se a fazer a guerra com os hititas. Touya aprovara a decisão do filho, pois compactuar com o mal apenas podia conduzir ao desastre. Combater era a única atitude aceitável.

 Mas o conflito prolongava-se e Ramsés continuava a correr perigos.

 Touya rezava para que a alma de Séthi, transformada em estrela, protegesse o faraó. Com a mão direita, segurava o cabo de um espelho que tinha a forma de uma haste de papiro, hieróglifo que significava laser verdejante, desabrochado, jovem»; quando o precioso objeto era colocado num túmulo, isso garantia à alma da sua proprietária uma eterna. Touya orientou o disco de bronze para o sol e perguntou ao espelho o segredo do futuro.

 -Posso importunar-vos? A rainha-mãe voltou-se lentamente.

 -Néfertari...

 A grande esposa real, com o seu longo vestido branco preso na cintura por um cinto vermelho, era tão bela como as deusas pintadas nas paredes das moradas de eternidade dos Vales dos Reis e das Rainhas.

 -Néfertari, trazes-me boas notícias?

-Ramsés libertou Acha e reconquistou a província de Amourrou; Beirute encontra-se de novo sob o controle egípcio.

 As duas mulheres abraçaram-se.

 -Quando regressa? -Não sei-respondeu Néfertari.

 Enquanto as duas mulheres continuavam a conversar, Touya sentou-se à mesa de maquiagem. Com as pontas dos dedos, massageou o rosto com uma pomada cujos principais componentes eram mel, natrão vermelho, pó de alabastro, leite de burra e sementes de alforva e que servia para desfazer as rugas, dar firmeza à epiderme e rejuvenescer a pele.

 -Estás preocupada, Néfertari.

 -Receio que Ramsés esteja decidido a seguir até mais longe.

 -Para norte, para Kadesh...

 -Para uma nova armadilha que Ihe será preparada por Mouwattali, o imperador hitita. Ao deixá-lo reconquistar com certa facilidade os territórios que pertencem à nossa zona de influência, não estará o anatólio a atrair o nosso exército para uma emboscada?  Os chefes de tribo estavam reunidos na ampla mansão de tijolos frescos de Aarão. Tinham imposto silêncio a todos os hebreus; disso dependia a segurança de Moisés, cujo regresso devia ser ignorado pela polícia egípcia.

 Moisés continuava a ser popular e muitos esperavam que ele fosse capaz, como antigamente, de conferir dignidade à pequena população  de fabricantes de tijolos. Mas não era essa a opinião de Libni, o superior nomeado pelos seus pares para manter uma relativa coesão entre os clãs.

 -Porque regressaste, Moisés?-perguntou o ancião de voz áspera.

 -Vi na montanha uma sarça em chamas que não se consumia.

 -Uma ilusão.

 -Não, o sinal da presença divina.

 -Perdeste a cabeça Moisés?

-Deus chamou-me do meio das chamas e falou-me.

 Os anciãos murmuravam entre si.

 -Que te disse Ele?

-Deus ouviu os lamentos e os gemidos dos filhos de Israel, sujeitou-os à servidão.

 -Vejamos, Moisés, somos trabalhadores livres e não prisioneiros de guerra!

-Os hebreus não sao livres de agir como querem.

 -Claro que somos! Mas onde pretendes chegar?

-Deus disse-me: Quando tiveres conduzido o povo para fora do Egito, prestareis culto a Deus nesta montanha.

 Os chefes de tribo entreolharam-se, consternados.

 -Fora do Egito?-exclamou um deles.

-O que significa isso?

-Deus viu a miséria do seu povo no Egito, quer libertá-lo e conduzi-lo até um país fértil e vasto.

 Libni irritou-se.

 -O teu exílio fez-te perder a cabeça, Moisés. Estamos instalados aqui há muito tempo, tu próprio nasceste no Egito e este país tornou-se a nossa pátria.

 -Passei vários anos em Madian, trabalhei lá como pastor, ali casei e tive um filho. Estava convencido que a minha existência tinha tomado um rumo definitivo, mas Deus decidiu de outra forma.

 -Estavas escondido por teres cometido um crime.

 -Matei um egípcio, é verdade, porque ele ameaçava matar um hebreu.

 -Nada temos a censurar a Moisés-interveio um chefe de tribo.

 -Compete-nos protegê-lo agora.

 Os outros membros do conselho concordaram.

 -Se desejas viver aqui-declarou Libni-ocultar-te-emos. Mas deves abandonar os teus projetos insensatos.

 -Saberei convencer-vos, um a um se for necessário, pois é essa a vontade de Deus.

 -Não temos intenção de deixar o Egito-afirmou o mais jovem chefe de tribo.

-Possuímos aqui casas e jardins, os melhores fabricantes de tijolos acabam de ser aumentados e todos têm comida. Porque havemos de abandonar este conforto?

 -Porque vos devo conduzir à Terra Prometida.

 -Não és o nosso chefe-objetou Libni-e não ditarás a nossa conduta.

 -Obedecerás, porque Deus assim o exige.

 -Sabes com quem estás a falar?

-Não queria ofender-te, Libni, mas não tenho o direito de dissimular as minhas intenções. Que homem poderia ser suficientemente vaidoso para acreditar que a sua vontade é mais forte do que a de Deus?

-Se és realmente o seu enviado, terás de o provar.

 -Não duvides que as provas serão abundantes.

  Estendido num leito cômodo, Acha deixava-se massagear por Lótus cujas mãos acariciadoras dissipavam dores e contrações. A bela núbia, apesar de uma aparente fragilidade, demonstrava uma espantosa energia.

-Como vos sentis? -Melhor... Mas abaixo dos rins as dores ainda são intoleráveis.

 -Pois mesmo assim vais tolerá-las!-trovejou a voz de Sétaou que acabava de penetrar na tenda de Acha.

 -A tua mulher é divina.

 -Talvez, mas é a minha mulher.

 -Sétaou! Não vais imaginar...

 -Os diplomatas são astutos e mentirosos e tu és o melhor de todos. Levanta-te, Ramsés espera-nos.

 Acha voltou-se para Lótus.

 -Podeis ajudar-me? Sétaou puxou violentamente Acha pelo braço e obrigou-o a pôr-se

-Já estás bom. Não são precisas mais massagens! O encantador de serpentes estendeu ao diplomata um saiote e uma camisa.

 -Despacha-te o rei detesta esperar.

  Depois de ter nomeado um novo príncipe de Amourrou um líbio educado no Egito cuja fidelidade talvez não fosse tão flutuante como a de Benteshina, Ramsés procedera a uma série de nomeações na Fenícia e na Palestina. Queria que os príncipes os presidentes das câmaras e os chefes de aldeia fossem autóctones que se comprometeriam sob juramento. a respeitar a sua aliança com o Egito. Se traíssem a sua palavra o exército interviria de imediato. Com essa finalidade, Acha elaborara um sistema de observaçao e informação no qual depositava grandes esperanças: presença militar escassa, mas uma rede de correspondentes bem remunerados. O chefe da diplomacia egípcia acreditava

 nas virtudes da espionagem.

 Ramsés desdobrara sobre uma mesa baixa um mapa do Próximo-Oriente. Os esforços das suas tropas tinham sido recompensados: Canaã Amourrou e a Síria do Sul formavam de novo uma vasta zona tampao entre o Egito e o Hatti.

 Era a segunda vitória de Ramsés sobre os hititas. Tinha agora de tomar uma decisao vital para o futuro das Duas Terras.

 Sétaou e Acha menos elegante do que habitualmente, entraram por fim na tenda do conselho onde estavam instalados generais e oficiais superiores.

 -Foram desmanteladas todas as praças fortes inimigas? -Sim, Majestade-disse o genc-ral do exército de Ra.

-A última, a de Shalom, caiu ontem.

 -Shalom significa "paz"-esclareceu Acha.

-Atualmente, ela reina nessas regioes.

 -Devemos continuar para norte-perguntou o rei-apoderarmo-nos de Kadesh e desferir o golpe final nos hititas?

-É esse o desejo dos oficiais superiores-declarou o general.

- Devemos rematar a nossa vitória exterminando os bárbaros.

-Não temos qualquer hipótese de o conseguir-afirmou Acha.

 -Uma vez mais, os hititas foram recuando à medida que nós avançávamos, as suas tropas estão intactas e preparam emboscadas das quais sairemos muito enfraquecidos.

 -Com Ramsés no comando-entusiasmou-se o general-venceremos!

-Ignorais tudo acerca do terreno. Os hititas esmagar-nos-ao nos altos planaltos da Anatólia, nos desfiladeiros, nas florestas. E mesmo em Kadesh, milhares de soldados da infantaria morrerão sem termos a certeza de podermos tomar a cidadela.

 -Receios fúteis de diplomata... Desta vez, estamos preparados.

 -Retirai-vos-ordenou Ramsés.

-Sabereis a minha decisao ao romper da manha.

Graças à hospitalidade de Aarão, Moisés passou algumas semanas de serenidade no bairro dos fabricantes de tijolos. A mulher e o filho saíam livremente e descobriam, intrigados, a vida animada da capital egípcia. Rapidamente integrados no clã hebreu, não tardaram em conviver com egípcios, asiáticos, palestinianos, núbios e outros habitantes de Pi-Ramsés que se cruzavam constantemente nas ruelas da cidade.

 Moisés vivia recluso. Por várias vezes pedira para ser ouvido de novo pelo conselho dos anciãos. Perante chefes incrédulos e críticos, Moisés não renegara as suas primeiras declarações.

 -A tua alma continua atormentada?-perguntou Aarão.

 -Já não, desde que a sarça ardente me apareceu.

 -Ninguém aqui acredita que te tenhas encontrado com Deus.

 -Quando um homem sabe a missao ele deve realizar neste mundo, a dúvida deixa de o assaltar. O meu caminho está traçado, Aarão.

 -Mas estás só Moisés!

-Apenas aparentemente. As minhas convicções acabarao por abalar os espíritos.

 -Nada falta aos hebreus em Pi-Ramsés; no deserto, onde encontrarás alimento?

-Deus velará por isso.

 -Tens a envergadura de um chefe, mas segues por caminho errado. Muda de nome e de aparência, esquece os teus projetos insensatos e retoma o teu lugar entre os teus. Envelhecerás em paz, honrado e sereno, à frente de uma numerosa família.

 -Não é esse o meu destino, Aarão.

 -Modifica aquele que imaginaste.

 -Já não sou responsável por ele.

 -Porque hás de estragar assim a tua vida. se a felicidade está ao teu alcance?

Bateram à porta de casa de Aarão.

 -Polícia. abram! Moisés sorriu.

 -Como vês, Aarão, não me cleixam escolha.

 -Tens de fugir!

-Esta porta é a única saída.

 -Defender-te-ei.

 -Não, Aarão.

 O próprio Moisés abriu a porta.

 Serramanna, o gigante sardo, olhou o hehreu com espanto.

 -Afinal, não me tinham mentido... Voltaste mesmo.

 -Queres entrar e partilhar a nossa refeiçao?

-Foi um hebreu que te denunciou, Moisés, um fabricante de tijolos que receava perder o seu emprego por causa da tua presença neste bairro. Segue-me, pois tenho de levar-te para a prisao.

 Aarão interpôs-se.

 -Moisés deve ser julgado.

 -Sê-lo-á.

 -A menos que te desembaraces dele antes do processo.

 Serramanna agarrou Aarão pela gola da túnica.

 -Estás a chamar-me assassino?

-Não tens o direito de me maltratar!

O sardo soltou Aarão.

 -Tens razao... Mas tu, tens o direito de me insultar?

-Se Moisés for preso, será executado.

 -A lei aplica-se a todos, mesmo aos hebreus.

 -Foge, Moisés, volta para o deserto!-implorou Aarão.

 -Sabes bem que partiremos juntos para lá.

 -Nunca mais sairás dessa prisao.

  -Deus ajudar-me-á.

 -Vamos, anda!-exigiu Serramanna.-Não me obrigues a atar-te as mãos.  Sentado num canto da sua cela, Moisés observava o raio de luz que se esgueirava por entre as grades. Fazia cintilar os milhares de grãos de poeira em suspensão e ia bater no chao de terra batida, calcado pe- los pés dos prisioneiros.

 Em Moisés arderia para sempre o fogo da sarça ardente, a energia da montanha de Yahvé. Esquecia o passado, esquecia a mulher e o filho: agora, apenas contava para ele o êxodo, a partida do povo hebreu para a Terra Prometida.

 Uma esperança louca para um homem encerrado numa cela da grande prisão de Pi-Ramsés e que a justiça egípcia condenaria à morte por assassínio premeditado ou, pelo menos, a trabalhos forçados no degredo dos oásis. Apesar da sua confiança em Yahvé, Moisés dava consigo por vezes a duvidar. Como faria Deus para o libertar e Ihe permitir cumprir a sua missao? O hebreu dormitava quando longínquos clamores o arrancaram ao seu torpor. Aumentaram de minuto a minuto até se tornarem ensurdecedores. A cidade inteira parecia enlouquecida.

  Ramsés o Grande estava de regresso.

 Ninguém o esperava senão daí a alguns meses, mas era bem ele, soberbo no seu carro puxado por «Vitória em Tebas» e «A deusa Mout está satisfeita», os seus dois cavalos toucados com plumas vermelhas de extremidade azul. A direita do carro avançava Matador, o enorme leão, olhando os citadinos amontoados como animais curiosos ao longo do percurso. Ramsés estava radioso, com a coroa azul, a serpente uraeus de ouro na fronte e o torso envolto numa indumentária ritual sobre a qual tinham sido pintadas asas azul-verdes que colocavam o soberano sob a protecçao de Isis, falcão fêmea.

 A uma só voz, os soldados entoavam o cântico que se tornara tradicional: O braço de Ramsés é poderoso, o seu coraçao valente, é um archeiro sem par, uma muralha para os seus soldados, uma chama que queima os seus inimigos. Ramses surgia como o eleito da luz divina e o falcao de vitórias grandiosas.

 Generais oficiais de cavalaria e Infantaria, escribas do exército, soldados, todos tinham envergado os seus trajes de cerimônia para desfilar atrás dos porta-estandartes. Aclamados pela multidão, os militares pensavam nas licenças e nos premios que os fariam esquecer as agruras dos combates. Na vida militar, não havia momento melhor do que o do regresso ao redil, sobretudo quando era triunfal.

 Apanhados desprevenidos, os jardineiros não tinham tido tempo para decorar com flores a grande avenida de Pi-Ramsés que conduzia aos templos de Ptall, o deus da criação pelo Verbo, e de Sekhmet, a deusa terrífica, detentora do poder de destruir e de curar. Mas os cozinheiros afadigavam-se assando patos, peças de carne de vaca e pedaços de porco e enchendo os cestos com peixes secos, legumes e frutos. Saíam das adegas jarros de cerveja e de vinho. A pressa, os pasteleiros preparavam os bolos. Os elegantes tinharm envergado os seus trajes de festa e as servas acabavam de perfumar as cabeleiras das suas amas.

 Na cauda do cortejo, várias centenas de prisioneiros asiáticos, cananeus palestinianos e sírios; uns tinham as mãos atadas atrás das costas, outros avançavam livremente, com as mulheres e os filhos a seu lado.

 No dorso dos burros .seguiam as trouxas com os seus magros haveres.

 Os prisioneiros iam ser conduzidos ao gabinete de colocaçao da capi- tal, que os distribuiria pelas terras e estaleiros dos templos. Cumpririam a sua pena de cativeiro como operários ou trabalhadores agrícolas e no final, poderiam escolher entre integrar-se na sociedade egípcia ou regressar ao seu pais.

 Seria a paz ou uma simples trégua? O Faraó tinha esmagado definiti- vamente os hititas ou regressava para retomar forças e tornar a partir para a guerra? Os que não sabiam nada eram os mais prolixos e falavam da morte do imperador Mouwattali, da tomada da cidadela de Kadesh e da destruição da capital hitita. Todos esperavam pela cerimônia das recompensas, no decurso da qual Ramsés e Néfertari apareceriam à janela do palácio real e ofereceriam colares de ouro aos soldados mais valorosos.

Para surpresa geral, Ramsés esqueceu o palácio e dirigiu-se ao templo de Sekhmet. Só ele tinha detectado no céu o aparecimento de uma nuvem que crescia e escurecia a grande velocidade. Os Cavalos ficaram nervosos e o leão rugiu.

 Aproximava-se uma tempestade.

 O medo tomou o lugar da alegria. Se a deusa terrível desencadeasse a  cólera das nuvens, não seria o sinal de que a guerra ameaçava no do Egito e que Ramsés deveria voltar a partir sem demora para o campo de batalha? Os soldados pararam de cantar.

 Todos tiveram consciência de que o Faraó iniciava um novo embate, no decurso do qual deveria acalmar Sekhmet e impedi-la de cair sobre o país o seu cortejo de desgraças e sofrimentos.

 Ramsés apeou-se, acariciou a cabeça dos cavalos e do leao e depois meditou no vestíbulo interior do templo. A nuvem dividira e multiplicara-se, transformando-se em dez, em cem. Escurecido, começava a ocultar a luz do sol.

 Esquecendo a fadiga da viagem, esquecendo os festejos que Ramsés se dispunha a celebrar, o monarca preparou-se para ver a Terrífica. Só ele poderia dissipar a sua cólera.

 Ramsés empurrou a grande porta de cedro recoberta de ouro e entrou na sala pura onde depositou a coroa azul. Depois avançou diretamente entre as colunas da primeira sala, franqueou o limiar da misteriosa e dirigiu-se para os vãos.

 Foi entao que a viu, luminosa na penumbra.

 O seu longo vestido branco refulgia como o sol, o perfume da peruca encantava a alma, a nobreza do seu porte igualava a das portas do templo.

 A voz de Néfertari ecoou, suave como o mel. Pronunciou as palavras de veneraçao e de apaziguamento que, desde a origem da civilizaçao egípcia, transformavam a Terrífica em doçura de amor. Ramsés ergueu as mãos com as palmas abertas para a estátua da mulher cabeça de leoa e leu as fórmulas gravadas nas paredes.

 Terminada a litania, a rainha, ser magnífico em quem se tinha ficado a transmutação, apresentou ao rei a coroa vermelha do Baixo-Egito, a coroa branca do Alto-Egito e o ceptro. Com a dupla coroa e o ceptro na mão, Ramsés inclinou-se perante a energia benéfica presente na estátua.

 Quando o casal real saiu do templo, um sol luminoso inundava o céu da cidade de turquesa. A tempestade tinha-se dissipado.

Logo a seguir à entrega de colares aos mais valentes, Ramsés visitou Homero, o poeta grego que decidira instalar-se no Egito para aí compor as suas grandes obras e acabar os seus dias. A sua confortável moradia, perto do palácio, era rodeada por um jardim cuja mais bela árvore, um limoeiro, alegrava a vista enfraquecida do velho de longa barba branca. Quando o rei do Egito se dirigiu para ele, Homero fumava, como era seu hábito, folhas de salva comprimidas num fornilho de cachimbo feito com uma grande concha de caracol, e bebia uma taça de vinho perfumado com anis e coentros.

 O poeta ergueu-se apoiado a uma bengala nodosa.

 -Ficai sentado, Homero.

 -Quando deixarmos de saudar o Faraó como é devido, será o fim da civilização.

 Os dois homens instalaram-se em cadeiras de jardim.

 -Tive razão ao escrever estas frases, Majestade: Quer se combata com ardor ou permaneça inativo, a vantagem é a mesma. São reservadas as mesmas honrarias ao covarde e ao corajoso. Foi então por nada que o meu coração correu tantos perigos, foi por nada que arrisquei a minha vida em tantos conflitos?

-Não, Homero.

 -Portanto, eis-vos de regresso como vencedor.

 -Os hititas foram repelidos para as suas posições tradicionais. O Egito não será invadido.

-Festejemos o acontecimento, Majestade. Acabaram de entregar-me um vinho notável.

 O cozinheiro de Homero trouxe uma anfora cretense de gargalo estreito, que apenas deixava passar um fio de vinho misturado com água do mar recolhida na noite do solestício de Verao com vento norte e conservada durante três anos.

 -O texto da batalha de Egladesh está terminado-revelou Homero. -Ditei-o ao vosso secretário particular, Améni, que o anotou e transmitiu aos escultores.

 -Será gravado nas paredes dos templos e proclamará a vitória da ordem sobre o caos.

 -Felizmente! Majestade, há que recomecar sempre o combate! Não é da própria natureza do caos querer devorar a ordem?

-Foi por essa razão que a instituição faraônica foi instaurada. Só ela pode consolidar o reino de Maat.

 -Sobretudo não a modifiqueis. Tenho intenção de viver durante muito tempo feliz nesta terra.

 Heitor! o gato preto e branco de Homero, saltou para os joelhos do poeta e afiou as unhas na sua túnica.

 -Oitocentos quilômetros entre a vossa capital e a dos hititas...

Será a distancia suficiente para manter as trevas afastadas?

-Enquanto o sopro vital me animar, tentá-lo-ei.

 -A guerra não terminou. Quantas vezes ainda tereis de voltar a partir? 

Quando Ramsés saiu de casa de Homero, encontrou Améni que o esperava. Mais pálido do que habitualmente. emagrecido, com alguns cabelos a menos, o secretário particular do rei parecia quase partir-se de tão frágil. Encaixado na orelha trazia um pincel de que se esquecera.

 -Gostava de consultar-te urgentemente, Majestade.

 -Algum dos assuntos das tuas pastas te levanta problemas?

-Uma pasta não...

-Concedes-me alguns instantes para ver a minha família?

-Antes disso, o protocolo impõe-te um certo número de cerimônias e de audiências... Tenho que passar sobre tudo isso, porque há algo mais importante: ele regressou.

 -Queres referir-te a...

 -Sim, a Moisés.

 -Está em Pi-Ramsés?

-Tens de admitir que Serramanna não cometeu qualquer falta detendo-o. Se o tivesse deixado em liberdade, a justiça teria sido ridicularizada.

 -Moisés foi preso?

-Era necessário que o fosse.

 -Traz-mo imediatamente.

 -É impossível, Majestacle. O Faraó não pode intervir num caso de justiça, mesmo que um amigo seja incriminado.

 -Temos as provas da sua inocência!

-É preciso seguir os processos normais; se o Faraó não for o primeiro servidor de Maat e da justiça, este país mergulharia na desordem e na confusao.

 -És um verdadeiro amigo, Améni.

  O jovem Kha copiava um texto célebre que geraçoes de escribas tinham copiado e recopiado antes dele:  Como berdeiros, os escribas que atingiram o conhecimento dispõem dos livros de sabedoria. O seu filho bem-amado é a tabuinha para escrever Os seus livros são as suas pirâmides, os pincéis os seus filhos e a pedra coberta de hieróglifos a sua esposa. Os monumentos desaparecem, a areia recobre as estelas, os túmulos são esquecidos, mas o nome dos escribas que viveram a sabedoria perdura por causa do esplendor das suas obras. Sê escriba e grava este pensamento no teu coracao: um livro é mais útil que o muro mais sólido. Servir-te-á de templo, mesmo depois de teres perecido: pelo livro, o teu nome sobreviverá na boca dos hom ens, será mais sólido do que uma casa bem construída.

  O adolescente não estava completamente de acordo com o autor daquelas máximas; é verdade que os escritos atravessavam as épocas, mas não se passava o mesmo com as moradas da eternidade e os santuários de pedra que os mestres de obra tinham edificado? O escriba autor daquelas linhas tinha elogiado a excelência da sua profissão a ponto de ser exagerado. Por isso, Kha tinha jurado ser simultaneamente escriba e mestre-de-obra para não limitar o seu espírito.

 Desde que o pai o fizera enfrentar a morte sob a forma de uma cobra, o filho mais velho de Ramsés amadurecera muito e pusera definitivamente de parte as brincadeiras infantis. Que fascínio podia ter um cavalo de pau com rodas face ao problema matemático levantado pelo escriba Ahmès num papiro apaixonante oferecido por Néfertari? Ahmès comparava o círculo a um quadrado cujo lado correspondia a 8/9 do seu diametro, o que permitia atingir uma relação de harmonia haseada no valor 3,16'. Logo que tivesse oportunidade, Kha estudaria a geometria dos monumentos para descobrir o segredo dos construtores.

 -Posso interromper as reflexões do príncipe Kha?-perguntou o diplomata Méba.

 O adolescente não levantou a cabeça.

 -Se considerais necessário...

Ultimamente, o adjunto do ministro dos Negócios Estrangeiros vinha muitas vezes conversar com Kha. O filho do Faraó detestava a sua arrogancia de aristocrata e os seus ademanes mundanos, mas apreciava a sua cultura e conhecimentos literários.

 -Ainda a trabalhar, príncipe?

-Há melhor forma de alegrar o coração?

-Eis uma grave pergunta em lábios tao jovens! No fundo, tendes razão. Como escriba e filho de rei, dareis ordens a dezenas de servidores, não manejareis o arado nem a picareta, as vossas mãos permanecerão macias, escapareis às tarefas pesadas, não arcareis com nenhum peso excessivo, habitareis numa villa soberba, as vossas cavalaricas estarão cheias de esplêndidos cavalos, mudareis todos os dias de indumentárias luxuosas, a vossa cadeira de carregadores sera confortável e gozareis da confiança do Faraó.

 -Muitos escribas preguiçosos e com lugar garantido vivem assim, com efeito; quanto a mim, espero ser capaz de ler os textos difíceis e participar na redação dos rituais e ser admitido como portador de oferendas nas procissões.

 -São ambições bem modestas, príncipe Kha.

 -Pelo contrário, Méba! Exigem grandes esforços.

 -O filho mais velho de Ramsés não está destinado a mais alto destino?

-Os hieróglifos são os meus guias; alguma vez eles mentiram? Méba ficava perturbado com as afirmações daquele rapazinho de doze anos; tinha a sensaçao de dialogar com um escriba experiente, senhor de si e indiferente à lisonja.

 -A existência não é apenas trabalho e rigor.

 -Não concebo a minha de outra forma, Méba. Será isso condenável?

-Não, claro que não.

 -Vós, que ocupais um posto importante, gozais assim de tantas oportunidades de distração!

O diplomata evitou o olhar de Kha.

 -Estou sempre muito ocupado, pois a política internacional do Egito exige grande competência.

 -Não é o meu pai que toma as decisões?

-Com certeza, mas os meus colegas e eu próprio trabalhamos com afinco para Ihe facilitar a tarefa.

 -Gostaria de conhecer em pormenor o vosso trabalho.

 -É muito complexo, não sei se...

 -Esforçar-me-ei por compreender.

 A chegada de Meritamon, a irmãzinha de Kha, fresca e cheia de vida, aliviou o diplomata.

 -Estás a brincar com o meu irmão?-perguntou a pequena.

 -Não, vim trazer-lhe um presente.

 Interessado, Kha ergueu a cabeca.

 -O que é?

-Este porta-pincéis, príncipe.

Méba mostrou uma linda coluna oca em miniatura de madeira dourrada, contendo doze pincéis de tamanhos diferentes.

 --É... é muito bonito!-exclamou o príncipe, poisando sobre um tamborete o pincel usado que estava a utilizar.

 -Posso ver?-perguntou Meritamc)n.

-Tens que ser cuidadosa-disse Kha, muito sério.-Estes ob jetos sao frágeis.

-Deixas-me escrever?

-Desde que estejas com atenção e te esforces por evitar os erros.

 Kha deu à irma um pedaço de papiro usado e um pincel novo cuja extremidade ela mergulhou na tinta. Vigilante, o príncipe ficou a ver a irma desenhar os hieróglifos com cuidado.

 Concentrados na sua tarefa, as duas crianças esqueceram a presença de Méba. Era um momento assim que o diplomata esperava.

Agarrou no pincel usado de Kha e eclipsou-se.

 

Iset a Bela sonhara durante toda a noite com a cabana de juncos onde, pela primeira vez, fizera amor com Ramsés. Ali tinham ocultado a sua paixão, sem pensar no futuro, saboreando o momento com a gula do seu desejo.

Iset nunca tinha desejado tornar-se rainha do Egito; a função ultrapassava-a e só Néfertari era capaz de a desempenhar. Mas como esquecer Ramsés, como esquecer o amor que continuava a inflamar-lhe o coração? Enquanto o rei combatia, ela sentia-se morrer de angústia. O seu espírito evadia-se, deixava de ter desejo de se maquiar, enfiava um vestido qualquer, não se calçava.

Logo que ele regressara a perturbação desfizera-se e a beleza reencontrada de Iset teria seduzido o homem mais indiferente que a tivesse visto, trêmula e inquieta, no corredor do palácio que ligava o gabinete de Ramsés aos seus aposentos privados. Quando ele passasse por ali, Iset atrever-se-ia a ahordá-lo... Não, tinha vontade de fugir.

Se importunasse Ramsés, este mandá-la-ia para a província, seria condenada a nunca mais o ver. Existiria castigo mais insuportável? Quando o rei apareceu, as pernas de Iset tremeram. Não teve forças para desaparecer nem conseguiu afastar o seu olhar de Ramsés, que tinha o poder e porte distinto de um deus.

 -O que fazes aqui, Iset?

-Queria dizer-te...Dei-te outro filho.

-A ama já mo apresentou; Mérenptah é soberbo.

--Tenho a certeza que sim.

 -Para ti, continuarei a ser a jeira de terra que cultivarás, o lago onde te banharás... Desejas outros filhos, Ramsés? -A instituição das crianças reais velará por isso.

 -Pede-me o que desejares... A minha alma e o meu corpo pertencem-te.

 -Enganas-te, Iset. Nenhum ser humano pode ser proprietário de outro ser humano.

 -E, no entanto, eu sou tua e podes tomar-me na palma da tua mão como a um pássaro caído do ninho. Privada do teu calor, estiolarei.

 -Eu amo Néfertari, Iset.

 -Néfertari é uma rainha, eu sou apenas uma mulher; não poderias amar-me com uma outra espécie de amor?

-Com ela, construo um mundo. Apenas a grande esposa real partilha esse segredo.

 -Permites... que permaneça no palácio? A voz de Iset a Bela mal se ouvia; da resposta de Ramsés dependia o seu futuro.

 -Aqui criarás Kha, Mérenptah e a minha filha Meritamon.

 

O cretense, pertencente ao regimento de mercenários comandado por Serramanna, investigava nas aldeias do Médio Egito que ficavam próximas da cidade abandonada de Akhénaton, o faraó herético. Antigo pirata como o seu chefe, ia-se habituando à vida egípcia e aos benefícios materiais que ela Ihe proporcionava. Embora o mar Ihe fizesse falta, consolava-se percorrendo o Nilo em pequenos barcos rápidos e divertia-se a vencer as armadilhas daquele rio de reações súbitas e imprevisíveis. Até urm marinheiro experiente devia mostrar-se humilde perante a corrente, os bancos de areia dissimulados sob uma fina camada de água e as manadas de hipopótamos encolerizados.

 O cretense mostrara o retrato da jovem loira assassinada a centenas de camponeses, sem sucesso. Para dizer a verdade, cumpria a sua missão sem entusiasmo, convencido que a vítima era originária de Pi-Ramsés ou de Mênfis. Serramanna enviara os seus emissários para todas as províncias, na esperança de que um deles conseguisse um indício essencial, mas a sorte não sorria ao cretense. Tivera apenas direito a uma zona rural calma, vivendo ao ritmo das estaçôes; não seria ele a receber o prêmio prometido pelo gigante sardo, mas mesmo assim realizava a sua tarefa minuciosamente, satisfeito por passar muitas horas em albergues acolhedores. Mais dois ou três dias de investigações e regressaria a Pi-Ramsés, de mãos a abanar mas encantado com a sua estadia.

 Instalado numa boa mesa, o cretense observou a rapariga que servia as cervejas. Risonha e descarada, gostava de provocar os clientes. O ex-pirata decidiu tentar a sua sorte.

 Agarrou-a pela manga da túnica.

 -Agradas-me, pequena.

 -Quem és tu?

-Um homem.

 Ela deu uma gargalhada.

-São todos uns vaidosos!

-Eu posso provar-to.

-Ah sim... E como?

-A minha maneira.

-Dizem todos a mesma coisa.

-Eu, ajo.

A criada passou-lhe um dedo pelos lábios.

-Tem cuidado, não gosto de gabarolas e sou gulosa...

-Calha bem; é o meu principal defeito.

-Quase me fazes sonhar, homem.

-E se passássemos aos atos?

-Por quem me tomas?

-Por aquilo que és: uma linda rapariga que deseja fazer amor com um homem atrevido.

-Onde nasceste?

-Na ilha de Creta.

-És... honesto?

-No amor, dou tanto como recebo.

Encontraram-se num celeiro, a meio da noite. Nem ele nem ela apreciavam os preliminares; lançaram-se portanto um sobre o outro com um fogo que só se acalmou depois de vários assaltos.

Finalmente satisfeitos, permaneceram deitados lado a lado.

-Fazes-me lembrar alguém-disse ele.

-O teu rosto recorda-me o de uma pessoa que gostaria muito de encontrar.

- Quem é? O cretense mostrou à criada o retrato da jovem loura.

-Conheço-a-disse a rapariga.

- Vive por aqui?

-Vivia na pequena aldeia junto da cidade abandonada, perto do deserto. Encontrei a no mercado há já muitos meses.

-Como e o nome dela?

-Não sei. Não Ihe falei.

-Vivia só?

- Não, havia um velhote com ela, uma espécie de feiticeiro que ainda acreditava nas mentiras do faraó maldito. Ninguém se aproximava dele.

 

Ao contrário das outras aldeias da região, aquela não estava bem cuidada Casas miseráveis, fachadas fendidas pinturas estragadas, jardins ao abandono. Quem podia sentir desejo de viver ali? O cretense aventurou-se pela rua principal, sulcada de imundícies que as cabras iam comendo.

 IJma persiana de madeira bateu.

 Uma garotinha correu apertando nos braços uma boneca de trapos. Tropeçou e o cretense agarrou-a pelo pulso.

-Onde vive o feiticeiro? A garota debateu-se.

-Se não me responderes, tiro-te a boneca.

Ela apontou para uma casa baixa, de janelas com grades de madeira e porta fechada. Largando a miúda, o cretense correu na direção da miserável casa e meteu a porta dentro com um golpe de ombro.

Um compartimento quadrado, com chao de terra batida, mergulhado na penumbra. Numa cama de folhas de palma, um velho agonizava.

-Polícia - revelou o cretense.

-Não tendes nada a recear.

-Que... que quereis?

-Dizei-me quem é esta rapariga.

 O homem de Serramanna mostrou o retrato ao velho.

-Lita... É a minha pequena Lita... Estava convencida que pertencia à família do herético... E ele levou-a.

-De quem falais?

-De um estrangeiro... De um mago estrangeiro que roubou a alma de Lita.

-Como se chamava?

-Regressou... Vive oculto nos túmulos... Nos túmulos, tenho a certeza.

A cabeça do velho tombou para o lado. Ainda respirava mas não era já capaz de falar.

O cretense sentiu medo.

As bocas sombrias dos túmulos abandonados assemelhavam-se a entradas do Inferno. Não seria necessário ser da raça dos demônios para as adotar como refúgio? Talvez o velho Ihe tivesse mentido, mas tinha obrigação de explorar aquela pista. Com um pouco de sorte,  podia ser que deitasse a mão ao assassino de Lita, o levasse para Pi-Ram- sés e recebesse o prêmio.

Apesar dessas agradáveis perspectivas, o cretense sentia-se pouco à vontade. Teria preferido bater-se ao ar livre, enfrentar vários piratas no mar, andar à pancada a céu aberto... Penetrar naqueles sepulcros repugnava-lhe, mas não recuou.

 Depois de ter escalado uma encosta íngreme, aventurou-se num primeiro túmulo, de teto hastante alto e cujas paredes estavam decoradas com personagens que prestavam homenagem a Akhénaton e a Néfertite. Com cuidado, o polícia avançou até ao fundo da gruta, mas não descobriu nem múmia nem qualquer vestígio de presença humana. Nenhum demônio o atacou.

Mais sereno, o cretense explorou um segundo túmulo, tão desanimado como o primeiro. A rocha, de má qualidade, esboroava-se; as cenas aqui esculpidas certamente que não atravessariam os séculos.

Pertubados, os morcegos esvoaçaram.

Com certeza que o velho que o tinha informado estava a delirar.

No entanto, o enviado de Serramanna decidiu visitar ainda mais dois ou três grandes sepulcros antes de deixar aquele local abandonado.

Aqui, tudo estava morto e bem morto.

Depois de ter seguido ao longo da falésia que dominava a planície onde fora edificada a Cidade do Sol, penetrou no túmulo de Mérirê, grande sacerdote de Aton. Os baixos-relevos eram esmerados; o cretense apreciou a representacao do par real iluminado pelos raios do sol.

Atrás dele, ouviu um leve ruído de passos.

Antes que o polícia tivesse tempo de se voltar, o mago Ofir cortou-Ihe a garganta.

Méba fechara os olhos. Quando os reabriu, o cadáver do cretense jazia no solo.

-Não tínheis o direito, Ofir, não tínheis o direito...

-Parai de temer, Méba.

-Acabais de matar um homem!

-E vós haveis sido testemunha de um assassínio.

O olhar de Ofir era tão ameaçador que o diplomata recuou e penetrou nas profundezas do túmulo. Queria escapar àqueles oIhos de uma incrível crueldade, que o perseguiam mesmo nas trevas.

-Conheco esse intrometido-constatou Chénar.

--É um dos mercenários a quem Serramanna paga para protegerem Ramsés.

-Um polícia na nossa pista... O sardo deve ter-se interrogado sobre a identidade de Lita e tenta obter informações. A presença deste rafeiro prova que foi lancada uma vasta operação de busca.

-Já não estamos em segurança nesta cidade maldita-concluiu Chénar.

-Não sejamos tão pessimistas; este curioso já não falará mais.

-No entanto, conseguiu chegar até nós... Serramanna consegui-lo-á também.

-Só um linguareiro pode ter revelado o nosso esconderijo: o tutor de Liía, aquele que os aldeões consideram feiticeiro. Esse velho imbecil está moribundo, rnas teve ainda forca para nos trair. Ainda esta noite tratarei dele.

Méba julgou-se obrigado a intervir.

-Não ides cometer outro assassínio!

-Saí da escuridão-ordenou Ofir.

Méba hesitou.

-Despachai-vos.

O diplomata avançou. Um tique deformava-lhe a boca.

-Não me toqueis, Ofir!

-Sois nosso aliado e meu subordinado, não o esqueçais.

-É verdade, mas estas mortes...

-Não nos encontramos nos confortáveis gabinetes do vosso ministério. Pertenceis a uma rede de espionagem cuja missao é opôr-se ao poder de Ramsés, ou seja, destruí-lo e permitir aos hititas conquistar o Egito. Estais convencido que umas tantas momices diplomáticas bastarão? IJm dia, também vós sereis obrigado a suprimir um adversário que ameace a vossa segurança.

 -Sou um alto funcionário e...

 -Sois cúmplice do assassinato deste polícia, Méba, quer isso vos agrade ou não.

 O olhar do diplomata poisou de novo sobre o cadáver do cretense.

 -Não pensava que fosse necessário chegar a isso.

 -Pois agora já sabeis.

-Fomos interrompidos por este indiscreto-lembrou Chénar.

- Conseguiste, Méha?

-Foi por essa razao que corri o risco de voltar a esta cidade maldita! Sim, consegui.

 A voz do mago tornou-se doce e encantadora.

-Belo trabalho, meu amigo. Estamos orgulhosos de vós.

-Cumpro os meus compromissos, não esqueçais os vossos.

-O futuro poder não vos esquecerá, Méba. Mostrai-me o tesouro que haveis roubado.

O diplomata exibiu o pincel de Kha.

-O príncipe utilizou-o para escrever.

-Excelente-considerou Ofir.-Realmente excelente.

-O que tencionais fazer?

-Graças a este objeto, captar a energia de Kha e voltá-la contra ele

-Não tendes a intençao de...

-O filho mais velho de Ramsés faz parte dos nossos adversários diretos. Qualquer provaçao que enfraqueça o casal real é boa para a nossa causa.

-Kha é uma criança!

-E é o filho mais velho do faraó.

-Não, Ofir, uma criança não...

-Haveis escolhido o vosso campo, Méba. É demasiado tarde para recuar.

O mago estendeu a mao.

-Dai-me esse objeto.

As hesitações do diplomata divertiram Chénar. Detestava tanto aquele poltrao que era capaz de o estrangular com as suas próprias mãos.

Lentamente, Méha entregou o pincel a Ofir.

-É na realidade necessário atacar esse rapazinho?

-Regressai a Pi-Ramsés-ordenou o mago-e nunca mais volteis aqui.

-Ficareis ainda durante muito tempo neste túmulo?

-O tempo necessário para executar o encantamento.

-E depois?

-Não sejais demasiado curioso, Méba; serei eu a contactar-vos.

-Na capital, a minha posição pode vir a tornar-se insustentável.

-Mantende o vosso sangue-frio e tudo correrá bem.

-Como devo comportar-me?

-Fazei o vosso trabalho habitual; as minhas instruções chegarao no momento necessário.

O diplomata fez menção de sair do túmulo, mas voltou para trás.

-Refleti, Ofir. Se atacarmos o seu filho, Ramsés ficará furioso e...

-Parti, Méba.

Da entrada do sepulcro, Ofir e Chénar viram o seu cúmplice descer a encosta e montar o cavalo, oculto atrás de uma villa em ruínas.

-Este cobarde não é seguro-considerou Chénar.-Parece um rato assustado que procura em vão a saída da sua prisao. Porque não o eliminamos já?

-Enquanto Méba ocupar uma posição oficial, ser-nos-á útil.

-E se tivesse a idéia de revelar a localização do nosso esconderijo?

-Acaso podeis supor que não pus já essa questão a mim mesmo?

 

Desde o regresso de Ramsés, Néfertari apenas tivera raros momentos de intimidade com o esposo. Améni, o vizir, os ministros e os grandes sacerdotes tinham montado cerco ao gabinete do soberano e a propria rainha continuava a ter de responder às solicitações dos escribas,  dos chefes de oficina, dos coletores de impostos e de outros funcionários pertencentes à sua Casa.

Lamentava muitas vezes não se ter tornado música ao serviço de um templo; ali, teria vivido mergulhada em serenidade, afastada da agitaçao do quotidiano; mas a rainha do Egito não tinha direito a esse refúgio e devia cumprir a sua função, .sem ter em conta a fadiga ou o fardo das provações.

Graças à ajuda constante de Touya, Néfertari aprendera a arte de governar. Durante sete anos de reinado, Ramsés passara muitos meses no estrangeiro e nos campos de batalha; a jovem rainha tivera que descobrir em si mesma energias insuspeitadas para suportar o peso da coroa e celebrar os rituais que mantinham o laço indispensável entre a fraternidade das divindades e a comunidade dos humanos.

O fato de não ter tempo para pensar em si mesma não desagradava a Néfertari; o dia tinha mais tarefas do que horas e assim estava bem. É verdade que Kha e Meritamon estavam muitas vezes longe dela e perdia esses momentos insubstituíveis do desabrochar da consciência de uma criança. Embora Kha e Mérenptah fossem filhos de Ramsés e Iset a Bela, amava-os tanto como à sua própria filha, Meritamon. Ramsés tivera razão em pedir a Iset que velasse pela educação das três crianças. Não havia entre as duas mulheres rivalidade nem inimizade; dado que nunca mais poderia ser mae, fora a própria Néfertari que pedira a Ramsés para se unir a Iset a Bela a fim de que esta Ihe desse descendentes entre os quais talvez escolhesse o seu sucessor. Depois do nascirnento de Mérenptah, Ramsés decidira afastar-se de Iset e adotar um número ilimitado de "filhos reais" que proclamariam a fecundidade do casal real.

O amor que a rainha dedicava a Ramsés ultrapassava muito a união dos corpos e dos prazeres; não fora apenas o homem que a seduzira, mas sobretudo o seu fulgor. Formavam um único ser e ela tinha a certeza que se comunicavam entre si a todo o momento, mesmo estando afastados.

Cansada, a rainha entregou-se nas mãos peritas da sua manicura e da sua pedicura; ao fim de um longo dia de trabalho, abandonava-se a essas exigências de beleza que Ihe permitiam surgir serena em todas os momentos, fossem quais fossem as suas preocupações.

Chegou a altura deliciosa do duche: duas servas deitaram sobre o corpo nu da rainha água quente e perfumada. Depois, estendeu-se sobre os mosaicos mornos; começou então uma longa massagem com um creme à base de incenso, terebentina, óleo e limao que apagaria tensões e contrações antes do sono.

Néfertari pensou nas imperfeições pelas quais era responsável, nos erros que cometera, nas suas inúteis irritações; o caminho justo consistia em agir para quem agia, porque o ato justo enriquecia a regra de Maat e salvaguardava o país do caos.

De repente, a mão que massajava a rainha mudou de ritmo e tornou-se mais acariciadora.

-Ramsés...

-Autorizas-me a substituir a tua serva?

-Tenho de pensar.

Voltou-se muito lentamente e revelou o seu olhar amoroso.

-Não tinhas uma interminável reunião com Améni e os administradores dos celeiros?

-Esta tarde e esta noite pertencem-nos.

A rainha desatou o saiote de Ramsés.

-Qual é o teu segredo, Néfertari? As vezes chego a pensar que a tua beleza não é deste mundo.

 -O nosso amor é? Enlaçaram-se sobre os mosaicos mornos, os seus perfumes misturaram-se, os seus lábios uniram-se e depois o desejo transportou-os nas suas vagas.

Ramsés envolveu Néfertari num grande xale que desdobrado representava as asas da deusa Isis, constantemente em movimento para dar o sopro da vida.

-Que esplendor!

-Uma nova obra-prima das tecelãs de Sais para que tu nunca mais tenhas frio.

 Ela aninhou-se de encontro ao rei.

-Permitam os deuses que nunca mais nos separemos.

 

Iluminado por três grandes janelas aclaustradas, o gabinete de Ramsés era tao despojado como tinha sido o de seu pai Séthi: paredes sem decorção, uma grande mesa, um cadeirão de costas direitas para o monarca, cadeiras empalhadas para os visitantes, um armário para papiros contendo os escritos mágicos destinados a proteger a pessoa real, um mapa do Próximo-Oriente e uma estátua do faraó defunto, cujo olhar de eternidade velava pelo trabalho do filho.

 Próximo do material de escrita do rei, duas hastes de acácia atadas na extremidade por um fio de linho muito apertado: a varinha de feiticeiro de Séthi, de que Ramsés já se servira.

- Quando se realizará o julgamento?-perguntou o monarca a Améni.

-Dentro de cerca de quinze dias.

O escriba de tez pálida estava, como habitualmente, carregado com grande quantidade de papiros e de tabuinhas inscritas. Apesar da fraqueza das suas costas, fazia questão de ser ele próprio a transportar os documentos confidenciais.

-Preveniste Moisés? -Claro.

-E qual foi a sua reação?

-Parece calmo.

-Disseste-lhe que tinhamos a prova da sua inocencia?

-Dei-lhe a entender que o seu caso não era desesperado.

-Porquê tantas precauções?

-Porque nem tu nem eu sabemos o resultado do julgamento.

-A legítima defesa não é condenável!

-Moisés matou um homem e, pior ainda, o marido da tua irmã Dolente.

-Farei uma intervenção para dizer o que penso desse miserável.

-Não, Majestade, não podes intervir de maneira nenhuma. Visto que garante a presenca de Maat na terra e a serenidade da justiça, o faraó não deve imiscuir-se num processo judicial.

-Achas que não sei isso?

-Seria teu amigo se não te ajudasse a lutar contra ti próprio?

-A tarefa é dura, Améni!

-Sou teimoso e obstinado.

-Moisés não voltou de livre vontade ao Egito?

-Isso nem anula a sua falta nem o seu gesto.

-Estarás tu a tomar partido contra ele?

-Moisés é também meu amigo; serei eu a apresentar a prova de defesa. Mas bastará para convencer o vizir e os juízes?

-Moisés era muito apreciado na corte; todos compreenderão o encadeamento de circunstâncias que o levaram a matar Sary.

-Esperemos que assim seja, Majestade.

 

Apesar de uma noite agradável em companhia de duas sírias muito compreensivas, Serramanna estava de mau humor. Despachou portanto as duas jovens antes do pequeno-almoco, que os egípcios chamavam «a limpeza da boca».

Apesar dos seus esforços, a jovem loura assassinada continuava por identificar.

O sardo tinha-se convencido que, por intermédio do retrato da vítima, os seus investigadores descobririam rapidamente a pista correta.

Mas ninguém conhecia a loura, nem em Pi-Ramsés, nem em Mênfis, nem em Tebas. Só havia uma conclusão possível: fora sequestrada com o maior rigor.

Uma testemunha devia saber muito: Dolente, a irma de Ramsés.

Infelizmente, Serramanna não a podia interrogar como desejava. Tendo-se retratado publicamente e jurado fidelidade ao casal real, a hipócrita tinha reconquistado pelo menos parcialmente, a sua confianca.

Horrorizado, o sardo consultou os relatórios redigidos pelos seus emissários ao regressarem da província. Elefantina, El-Kab, Edfou, as cidades do Delta... Nada. Houve um pormenor que o surpreendeu ao verificar a lista das suas ordens de missão: um cretense não tinha comunicado o relatório das suas investigações. No entanto, esse antigo pirata era ganancioso e conhecia o castigo infligido em caso de indisciplina.

Sem pensar em barbear-se, vestido à pressa, Serramanna dirigiu-se a casa de Améni. Os vinte funcionários de elite que compunham a sua equipe administrativa ainda não estavam no seu posto, mas o secretário particular e porta-sandálias de Ramsés classificava já os papiros, depois de ter saboreado um caldo de cevada, figos e perxe seco. Apesar da quantidade de alimento que ingeria, Améni não engordava.

-Algum problema, Serramanna?

-Falta um relatório.

-E assim tao inquietante?

-Sendo do cretense, é. Trata-se de um maníaco da exatidão.

-Onde o tinhas mandado?

-Ao Médio Egito, à província de el-Bersheh. Mais precisamente, não longe da cidade abandonada de Akhénaton.

-Um canto perdido.

-Aprendi a ser consciencioso na tua escola.

Améni sorriu. Os dois homens nem sempre tinham sido amigos mas, desde a sua reconciliação, sentiam verdadeira estima um pelo outro.

-Talvez se trate de um simples atraso.

-O cretense deveria estar de regresso há mais de uma semana.

-Confesso que o incidente me parece de somenos importancia.

-O meu instinto, pelo contrário, garante-me que é grave.

-Porque me vens falar disso? Dispões dos poderes necessários para esclarecer este mistério.

-Mas é que nada corre bem, Améni, nada!

-Explica-te.

-O mago que desapareceu, o cadáver de Chénar que se não encontra, essa rapariga loura que ninguém consegue identificar... Sinto-me inquieto.

-Ramsés reina e controla a situação.

-Que eu saiba, não estamos em paz e os hititas não renunciaram a destruir o Egito!

-Então achas que a rede de espionagem hitita não foi completamente desmantelada?

- A calma antes da tempestade. é o que sinto. E o meu instinto raramente me enganou.

-O que propões?

-Parto para essa cidade perdida, vou saber o que aconteceu ao cretense. Até ao meu regresso, vela pelo Faraó.

 

Dolente, a irma mais velha de Ramsés, estava dominada pela dúvida. A volumosa mulher morena retomara a sua existência de aristocrata ociosa e rica, indo de banquete em banquete, de recepção em recepça, de atividade mundana em atividade mundana. Trocava opiniões fúteis com elegantes desmioladas, enquanto insuportáveis velhos gaiteiros e jovens sedutores, com discursos tão vazios como os seus pensamentos, Ihe faziam a corte.

Desde a sua adesão ao culto de Aton, o deus único, Dolente tinha uma obsessão: favorecer a eclosão da verdade, fazê-la brilhar finalmente sobre a terra do Egito expulsando os falsos deuses e os que Ihes prestavam culto. Mas Dolente só encontrava pessoas cegas e felizes com a sua condição.

Privada da presença e dos conselhos de Ofir, assemelhava-se a uma náufraga perdida na tempestade. Semana após semana a sua coragem ia esmorecendo. Como preservar uma crença que nada nem ninguém alimentava? Dolente perdia a esperança num futuro que Ihe parecia morto.

A sua criada de quarto, uma moreninha de olhos atrevidos, mudou os lencóis da cama e varreu o compartimento.

-Sentis-vos mal, princesa?

-Quem pode invejar a minha sorte?

-Belos vestidos, passeios em jardins de sonho, encontros com homens maravilhosos... Eu confesso que vos invejo um bocadinho.

-És infeliz?

-Oh, não! Tenho um marido atencioso, dois filhos saudáveis e  ganhamos bem a nossa vida. Em breve o meu marido acabará de construir a nossa nova casa.

Dolente atreveu-se a formular a questao que a perturbava.

-E Deus... Pensas nisso às vezes?

-Deus está em toda a parte, princesa; basta venerar os deuses e observar a natureza.

Dolente não insistiu. Ofir tinha razão: era preciso impor a nova religião pela força e não esperar pela conversão do povo. Uma vez submetido ao dogma, renegaria os seus erros passados.

-Princesa... Sabeis o que se diz? Os olhos atrevidos da criada de quarto estavam inundados de uma imperiosa vontade de tagarelar. Dolente talvez tivesse alguma informação interessante.

-Dizem que tendes intenção de tornar a casar e que há muitos pretendentes disputando essa honra.

-Dizem o que Ihes vem à cabeça.

-É pena... Já estais de luto há muito tempo. Na minha opinião, não é bom para uma mulher da vossa linhagem sofrer assim com a solidão.

-Esta existência agrada-me.

-Pareceis tão triste às vezes... Notai que isso é normal. Deveis pensar no vosso marido. Infeliz, morrer assassinado! Como terão Osíris e o seu tribunal julgado a sua alma? Com o devido respeito, princesa, murmuram que o vosso marido nem sempre se comportou de forma muito honesta.

-É a triste verdade.

-Então, porque vos fechais em más recordações?

-Não me tenta um novo casamento.

-A felicidade voltará, princesa! Sobretudo se o assassino do vosso marido for condenado.

-O que sabes tu disso?

-Moisés vai ser julgado.

-Moisés... Mas anda fugido!

-Ainda é um segredo, mas o meu marido é amigo do chefe da guarda da grande prisão: o hebreu está lá encarcerado. Com certeza que vai ser condenado à morte.

-É permitido vê-lo?

-Não, está no segredo por causa da gravidade das acusações que pesam sobre ele. Com certeza sereis convocada para o processo e tereis entao ocasião de vos vingar.

Moisés de volta! Moisés, que acreditava no deus único! Não seria um sinal destinado a Dolente?

 

O julgamento de Moisés realizou-se na grande sala de justiça sob a presidência do vizir, servidor de Maat. Envergando uma pesada túnica engomada, usava como única jóia um coração, símbolo da consciência do ser humano que, na prova da morte. será julgado na balança do Além.

Antes da abertura da audiência, o vizir encontrara-se com Ramses no templo de Ptah para renovar o juramento prestado a quando da sua investidura: respeitaria a deusa da justiça e não favoreceria ninguém.

Evitando dar-lhe qualquer conselho, o rei contentara-se em receber o seu compromisso.

A grande sala estava cheia.

Nem um só membro da corte queria perder o acontecimento.

Notava-se a presença de alguns chefes de tribo hebreus. As opiniões eram divergentes: uns continuavam convencidos da culpabilidade de Moisés, outros esperavam revelações que justificassem o regresso do criminoso. Todos conheciam a forte personalidade de Moisés e ninguém admitia que tivesse sido a ingenuidade a causa do seu cormportamento.

O vizir abriu a audiência venerando Maat, a Regra que sobreviveria à espécie humana. Mandou colocar sobre os mosaicos quarenta e duas placas de cabedal para lembrar que o julgamento seria aplicável nas quarenta e duas províncias do Egito.

Dois soldados trouxeram Moises.

Todos os olhares convergiram para o hebreu. Com o rosto tisnado, barbudo, de impressionante estatura, o ex-dignitário de Ramsés exibia uma calma surpreendente. Os soldados indicaram-lhe o seu lugar em frente do vizir.

De um lado e do outro do ministro da Justiça, o júri de catorze membros englobava um agrimensor, uma sacerdotisa da deusa Sekh- met, um médico, um carpinteiro, uma mãe de família, um camponês, um escriba do Tesouro, uma dama da corte, um mestre-de-obras, uma tecelã, o general do exército de Ra, um talhador de pedra, um escriba dos celeiros e um marinheiro.

-O vosso nome é Moisés?

-Assim é.

-Recusais algum dos membros deste júri? Olhai-os e refleti durante o tempo que quiserdes.

-Tenho confiança na justiça deste país.

-Este país não é o vosso?

-Nasci aqui, mas sou hebreu.

-Sois egípcio e sereis julgado como tal.

-O julgamento e o veredito seriam diferentes se eu fosse estrangeiro?

-Com certeza que não.

-Nesse caso, que importância tem?

-Compete a este tribunal avaliar isso. Tereis acaso vergonha de ser egípcio?

-Compete a este tribunal avaliar isso, como acabais de dizer.

-Sois acusado de ter morto um contramestre chamado Sary e de terdes fugido a seguir. Admitis esses fatos?

-Admito-o, mas precisam de explicações.

-É esse o objectivo deste julgamento. Considerais pouco exatos os termos da acusaçao?

-Não.

-Compreendeis então que, de acordo com a lei, devo pedir para vós a pena de morte.

Houve murmúrios na assistência; Moisés permaneceu impassível, como se aquelas palavras terríveis não Ihe dissessem respeito.

- Considerando a gravidade dos fatos-precisou o vizir-não fixo qualquer limite para a duração do julgamento. O acusado disporá de todo o tempo de que necessite para se defender e explicar as razões do seu ato criminoso. Exijo um silêncio absoluto e interromperei os debates à menor desordem; os culpados serão punidos com uma pesada multa.

O magistrado dirigiu-se a Moisés.

-Na época do drama, que posição ocupáveis?

-Dignitário da corte do Egito e mestre-de-obra do estaleiro de Pi-Ramsés. Dirigi particularmente as equipes de fabricantes de tijolos hebreus.

-Segundo o meu relatório, com satisfação geral. Éreis amigo do faraó, não é verdade?

-Exato.

-Estudos na universidade de Mênfis, primeiro posto oficial no harém de Mer-Our, contramestre em Karnak, mestre-de-obra em Pi-Ram- sés... Uma carreira brilhante que estava apenas a começar. A vítima, Sary, seguiu o caminho inverso. Ele, que tinha sido aio de Ramsés, esperava tornar-se o diretor da universidade de Mênfis, mas fora remetido para uma posição subalterna. Havíeis sido informado das razões dessa despromoção?

-Tinha a minha opiniao.

-Podemos conhecê-la?

-Sary era um ser ignóbil, ambicioso e ávido. Foi o destino que o feriu por intermédio da minha mão.

Améni solicitou a palavra ao vizir.

-Posso fornecer algumas explicações: Sary conspirou contra Ramsés. O rei mostrou-se clemente por ele ser o marido de sua irmã Dolente.

Muitos cortesãos pareceram surpreendidos.

-Que a princesa Dolente compareça perante este tribunal - ordenou o vizir A volumosa mulher morena avançou, hesitante.

-Confirmais as afirmações de Moisés e de Améni? Dolente baixou a cabeça.

-Eles são comedidos, demasiado comedidos... O meu marido tornara-se um monstro. Quando compreendeu que a sua carreira estava definitivamente destruída, desenvolveu uma raiva cada vez mais intensa contra os seus subordinados, a ponto de se mostrar de uma crueldade intolerável em relação a eles. Durante os últimos meses da sua existência, perseguia a equipe de fabricantes de tijolos hebreus, pelos quais era responsável. Se Moises não o tivesse morto, qualquer outro o faria.

O vizir parecia intrigado.

- As vossas afirmações não serão excessivas?

-Juro-vos que não! A minha existência era um suplício por causa do meu marido.

-Ter-vos-eis alegrado com o seu desaparecimento? Dolente baixou ainda mais a cabeça.

 -Eu... eu senti-me como que aliviada e tinha vergonha de mim...

Mas como poderia lamentar semelhante tirano?

-Tendes outras informações a dar, princesa?

-Não... realmente nào.

Dolente voltou a sentar-se entre os cortesãos.

-Alguém deseja defender a memória de Sary e contradizer a versão da sua esposa? Nenhuma voz se elevou. O escriba encarregado de registar os depoimentos ia-os anotanclo com uma escrita fina e rápida.

-Qual é a vossa versão do drama?-perguntou o vizir a Moisés.

-Foi uma espécie de acidente. Embora as minhas relações com Sary fossem tensas, não tinha intenção de o matar.

-Qual a razão dessa animosidade?

-Tinha descoberto que Sary era um chantagista e que perseguia os fabricantes de tijolos hebreus. Foi ao pretender defender um deles que matei Sary sem querer, para salvar a minha própria existência.

-Afirmais portanto ter agido em legítima defesa.

-É essa a verdade.

-Porque haveis fugido?

-Cedi ao pânico.

-Estranho, para um inocente.

--Matar um homem provoca um choque profundo. No momento, perdemos a cabeça e reagimos como se estivéssemos embriagados. Depois, tomamos consciência de termos cometido um ato terrível e apenas temos um desejo: fugir, desaparecer, esquecer e ser esquecido. Foi por isso que me escondi no deserto.

 -Passada a emoção, poderíeis ter regressado ao Egito e apresentar-vos perante um tribunal.

-Arranjei mulher e tivemos um filho. O Egito parecia-me longe, muito longe.

-Porque haveis regressado?

-Tenho uma missao a cumprir.

-Qual?

-Hoje, isso é ainda um segredo só meu e não tem qualquer relação com este processo; amanhã, todos ficarão a saber.

As respostas de Moisés irritaram o vizir.

-A vossa versão dos fatos não é convincente, o vosso comportamento não advoga em vosso favor e as vossas explicações sao demasiado confusas. Creio que haveis assassinado Sary com premeditação porque ele se comportava de forma iníqua para com os llebreus. Os motivos sao compreensíveis, mas trata-se na verdade de um crime. De regresso a Pi-Ramsés, continuaste a ocultar-vos! Não se trata de uma confissão de culpabilidade? Um homem que tem a consciência em paz não age dessa forma.

Améni considerou que era chegado o momento de desferir o golpe decisivo.

-Tenho a prova da inocência de Moisés.

O tom do magistrado tornou-se severo.

-Se não trouxerdes elementos de peso, acusar-vos-ei de ultraje justiça.

-O fabricante de tijolos hebreu cuja defesa Moisés assumiu chamava-se Abner; Sary fazia chantagem com ele. Abner queixou-se a Moisés, Sary quis vingar-se de Abner atacando-o, Moisés chegou a tempo e impediu Sary de maltratar a sua vítima. Mas a briga deu para o torto e Moisés matou Sary sem qualquer premeditação e em legítima defesa.

Abner foi testemunha do que ocorreu e o seu depoimento foi recolhido de forma regulamentar. Está à vossa disposiçã.

Améni entregou o documento ao vizir.

Este verificou que o papiro tinha o selo de um juiz. Quebrou-o, verificou a data e leu o texto.

Moisés não se atreveu a manifestar a sua alegria, mas trocou um olhar cúmplice com Améni.

-Este documento é autêntico e pode ser aceite-concluiu o vizir.

O processo estava terminado e Moisés ilibado da acusação. O júri pronunciaria uma absolvição.

-Antes da deliberação-disse o alto magistrado-gostaria de proceder ainda a uma última verificação.

Améni franziu as sobrancelhas.

--Que esse Abner compareça perante nós-exigiu o vizir-e que confirme oralmente o seu depoimento.

Améni suportou a cólera de Ramsés.

-Uma prova indubitável, um documento autentificado e Moisés continua na prisao!

-O vizir é minucioso-declarou prudentemente o secretário particular do monarca.

-Mas de que precisa ele mais?

-Repito, de ver Abner.

Ramsés rendeu-se à evidência: as exigências do alto magistrado teriam de ser satisfeitas.

-Foi convocado?

-Foi, e aí é que bate o ponto.

-Porquê?

-Ninguém consegue encontrar Abner. Os chefes de tribo afirmam que ele desapareceu há já vários meses. Ninguém sabe o que Ihe aconteceu.

-Mentira! Querem prejudicar Moisés.

-É possível, mas que poderemos fazer?

-Manda Serramanna ocupar-se pessoalmente do inquérito.

-É preciso esperar... Serramanna está a explorar uma pista no Médio Egito, perto da cidade abandonada do herético. Tem uma obsessão: identificar a loura assassinada. E, para ser franco, ele está convencido que a rede de espionagem hitita não foi desmantelada.

A cólera do monarca esfumou-se.

-Qual é a tua opiniao?

-Chénar está morto e os seus cúmplices em fuga ou não estão em estado de poder fazer qualquer mal. Mas Serramanna confia no seu instinto.

-Talvez tenha razão, Améni; o instinto é uma inteligência direta, capaz de ultrapassar o raciocínio que nos engana ou tranquiliza. O meu pai transformou o instinto em intuição e utilizou-a com gênio.

-Séthi não era um pirata!

-Serramanna vem das trevas e conhece bem os seus meandros.

Não Ihe dar ouvidos seria um erro. Localiza-o o mais depressa possível e ordena-lhe que regresse a Pi-Ramsés.

-Vou enviar mensageiros.

-E transmite o meu pedido ao vizir: desejo ver Moisés.

-Mas... Moisés está na prisão!

-O julgamento já se realizou e os fatos sao conhecidos; esta entrevista não poderá influenciar o curso da justiça.

Um vento violento varria a planície onde fora construída à pressa a Cidade do Sol, cujas ruínas perturbavam o olhar. Quando Serramanna ia a passar por uma rua, um bocado de parede caiu. Embora tivesse muitas vezes enfrentado o medo, o sardo não se sentia à vontade. Havia sombras perigosas vagueando por aqueles palácios e casas abandonadas. Antes de interrogar os aldeões, queria perceber a verdade do local, cruzar-se com os seus fantasmas, avaliar o drama que se desenrolara sob o sol de Aton.

Ao aproximar-se a noite, Serramanna dirigiu-se à aldeia vizinha para comer e dormir algumas horas antes de reiniciar as suas investigações. A aldeia parecia deserta: nem um burro, um pato ou um cão. As portas e as persianas das casas estavam abertas. Apesar disso, o sardo tirou a espada curta da bainha. A prudência ter-lhe-ia aconselhado que não se aventurasse só numa zona onde pairava o perigo, mas confiava na sua experiência e na sua força.

No chão de terra batida de uma pobre habitação estava uma velha sentada, com a cabeça apoiada nos joelhos, em posiçao de luto.

-Mata-me, se quiseres-disse, com voz desfeita.-Aqui não há mais nada para roubar.

-Descansa, eu pertenço à polícia de Ramsés.

-Vai-te embora, estrangeiro; esta terra está morta, o meu marido está morto e o meu único desejo é desaparecer.

-Quem era o teu marido?

-Um bom homem que acusavam de ser feiticeiro, ele, que passou a vida a ajudar os outros... Como agradecimento, esse maldito mago assassinou-o! Serramanna sentou-se ao lado da viúva de vestido sujo e cabelos cobertos de pó.

-Descreve-me esse mago.

-Para quê?

-Procuro esse malfeitor.

A viúva encarou o sardo com espanto.

-Estás a fazer troça de mim?

-Achas que tenho ar de estar a brincar?

-É tarde demais, o meu marido morreu.

-Não poderei ressuscitá-lo, os deuses disso se encarregarÃo, mas hei-de deitar a mÃo a esse mago.

-É um homem alto, seco, com cara de ave de rapina e olhos frios.

-Como se chama?

-Ofir.

-É egípcio?

-Líbio.

-Como sabes esses pormenores?

-Durante meses, veio a nossa casa para falar com a nossa filha adotiva, Lita. Pobre criança... Tinha visões e julgava-se aparentada com a família do rei herético. O meu marido e eu tentamos chamá-la à razao, mas ela preferia acreditar no mago. Uma noite, desapareceu e nunca mais a voltámos a ver.

Serramanna mostrou à viúva o retrato da jovem mulher loura assas- sinada por Ofir.

-É ela?

-É, é a minha filha Lita... Ela...

O sardo não gostava de ocultar a verdade; abanou afirmativamente a cabeça.

-Quando viste Ofir pela última vez?

-Há alguns dias, quando veio visitar o meu marido doente. Foi ele, foi esse Ofir que o obrigou a beber uma poção mortal!

-Está escondido por estes lados?

-Nos túmulos da falésia, assombrados por demónios... Corta-lhe o pescoço, polícia, espezinha o seu cadáver e queima-o!

-Devias deixar estes lugares, viúva; não se pode viver com fantasmas.

Serramanna saiu da pobre casa e saltou para o dorso do seu cavalo, lançando-o a galope em direção aos sepulcros. O dia começava a declinar.

Abandonando a montada no sopé da encosta, o sardo subiu-a correndo, com a espada na mão; não beneficiaria do efeito de surpresa, mas preferia atacar com rapidez. O chefe da guarda de Ramsés escolheu os túmulos cuja entrada era mais larga e esgueirou-se para o seu interior.

Por todo lado o vazio. Os únicos habitantes daqueles sepulcros abandonados eram as personagens gravadas nas paredes, últimas sobreviventes de uma época já passada.

 

Meritamon, filha de Ramsés e Néfertari, tocava harpa para o par real com uma perícia que espantou o monarca. Sentados em cadeiras de dobrar na borda de um lago onde proliferavam os lótus azuis, o Faraó e a grande esposa real, de mãos dadas, saboreavam um momento de felicidade. Não só a filhinha de oito anos era já uma executante exímia, como ainda demonstrava uma surpreendente sensibilidade. Matador, o enorme leão, e Vigilante, o cão amarelo ouro deitado entre as patas dianteiras da fera, pareciam estar sob o encanto da melodia tocada por Meritamon.

As últimas notas extinguiram-se docemente, deixando no ar um suave rasto.

O rei beijou a filha.

-Estás contente?

-És uma artista muito dotada, mas tens ainda que estudar bastante.

-A mãe prometeu que seria admitida no templo de Hathor e que aí me ensinariam coisas maravilhosas.

-Se é esse o teu desejo, será realizado.

A beleza da garota era tão deslumbrante como a de Néfertari e no seu olhar havia a mesma luz.

-Se me tornar música do templo, virás ver-me?

-Achas que poderia passar sem as tuas melodias? Kha aproximou-se com ar carrancudo.

-Pareces contrariado-constatou a rainha.

-Roubaram-me uma coisa.

-Tens a certeza?

-Arrumo tudo todas as noites. Roubaram-me um dos meus velhos pincéis com que eu gostava de escrever.

-Não o terás perdido?

-Não, procurei por todo o lado.

 Ramsés agarrou o filho pelos ombros.

-Estás a fazer uma grave acusação.

-Bem sei que se não deve falar levianamente; foi por isso que refleti bem antes de me queixar.

-De quem desconfias?

-Para já, de ninguém; mas vou procurar. Gostava muito daquele pincel.

-Tens outros.

-É verdade, mas aquele era aquele.

O leão ergueu a cabeça e as orelhas do cão arrebitaram-se. Aproximava-se alguém.

Dolente apareceu, com ar preguiçoso. Trazia uma grande peruca de longas tranças e um vestido verde que dizia bem com a sua tez mate.

-Vossa Majestade deseja ver-me?

-O teu procedimento foi admirável durante o julgamento de Moisés-declarou Ramsés.

-Apenas disse a verdade.

-Descrever o teu marido com tanta lucidez exigiu coragem.

-Não se pode mentir face a Maat e ao vizir.

O escansão do palácio trouxe um vinho novo e a conversa derivou para o trabalho que as duas crianças teriam ainda de fazer para atingirem a sabedoria.

Quando deixou o jardim, Dolente estava persuadida de ter reconquistado a confiança do rei. A uma amabilidade de fachada, sob a qual se pressentia a suspeita, sucedera a simpatia.

Dolente mandou embora a sua cadeira de transportadores; preferia passear e regressar a casa a pé.

Sob os modestos trajes do carregador de água que a abordou, quem teria reconhecido Chénar, magro, barbudo e com bigode?

-Estás satisfeita, minha querida irmã?

-A tua estratégia era excelente.

-A amizade cega o meu irmão; ao vir em auxílio de Moisés, tornaste-te aliada de Ramsés.

-Ramsés tornou-se vulnerável porque acredita que eu sou sincera.

O que devo fazer agora?

-Abre bem os ouvidos; a menor informação pode ser preciosa.

Contactar-te-ei da mesma forma.

 

Ramsés e Améni tinham ouvido com atenção a longa descrição de Serramanna. Contrastando com a tensão que reinava no ambiente, uma suave luz iluminava o gabinete de Ramsés. Com o fim da época quente, o Egito ornamentava-se de cores douradas e tranquilas.

-Ofir, um mago líbio-repetiu Améni-e Lita, uma pobre louca que ele manipulou... Teremos realmente razão para nos inquietarmos? Esse sinistro personagem fugiu, não dispõe de nenhum apoio no país e com certeza que já passou a fronteira.

-Minimizas a gravidade da situação-considerou Ramsés. -Esqueces o lugar onde se ocultava: a Cidade do Sol, a capital de Akhénaton?

-Está abandonada há tanto tempo...

-Mas as idéias perniciosas do seu fundador continuam a perturbar certos espíritos! Esse Ofir pensou utilizá-las para estabelecer uma rede de simpatizantes.

-Uma rede... Seria Otir um espiao hitita?

-Tenho a certeza que sim.

-Mas os hititas estão-se a borrifar para Aton e para o deus único!

-Os hebreus não-interveio Serramanna.

Améni receava ouvir aquela afirmação, mas o sardo não tinha feito qualquer progresso no campo da diplomacia e continuava a exprimir o seu pensamento de forma crua.

-Sabemos que Moisés foi contactado por um falso arquiteto - lembrou o chefe da guarda de Ramsés - e a descrição desse impostor corresponde precisamente à do mago. Não será um argumento decisivo?

-Acalma-te-recomendou Améni.

-Continua-ordenou Ramsés.

-Não sei nada em matéria de religião-prosseguiu o sardo- mas sei que os hebreus falam de um deus único. Devo recordar-vos, Majestade, que eu suspeitava de traição da parte de Moisés?

-Moisés é nosso amigo!-protestou Améni.-Mesmo que se tenha encontrado com Ofir, por que havia de conspirar contra Ramsés? Esse mago deve ter contatado muitas pessoas importantes.

-De que serve tapar os olhos?-interrogou o sardo.

O faraó ergueu-se e olhou para longe pela janela central do seu gabinete. As paisagens verdejantes do Delta eram a expressão perfeita da doçura de viver.

-Serramanna tem razão-considerou Ramsés.-Os hititas lançaram uma dupla ofensiva, atacando-nos simultaneamente do exterior e do interior. Vencemos a batalha de Kadesh, repelimos as suas tropas para fora dos nossos protetorados e desmantelamos uma rede de espionagem. Mas não são essas vitórias irrelevantes? O exército hitita não foi destruído e esse Ofir continua a andar por aí. Um homem como esse, que não recua perante o crime, não renunciará a prejudicar-nos. Mas Moisés não pode ser seu cúmplice... É uma pessoa leal, incapaz de agir na sombra. No que Ihe diz respeito, Serramanna engana-se.

-Desejo que sim, Majestade.

-Tenho uma nova missão a confiar-te, Serramanna.

-Hei-de prender Ofir.

-Antes, descobre o fabricante de tijolos hebreu chamado Abner.

 

Néfertari desejara celebrar o seu aniversário numa grande propriedade do Delta, próximo da capital, cuja gestão estava confiada ao ministro da Agricultura. De feitio agradável, sempre deslumbrado com o espetáculo da natureza, apresentou ao casal real um novo modelo de charrua melhor adaptada aos solos ricos e pesados do Delta. Ele próprio manejou com entusiasmo o instrumento que cavava a terra a boa profundidade sem a ferir.

Os empregados da propriedade não dissimulavam a sua alegria; ver tão de perto o rei e a rainha era um verdadeiro presente do céu que encheria o próximo ano de mil e uma felicidades. A colheita seria abundante, frutos magníficos cresceriam nos pomares e nos rebanhos haveria inúmeros nascimentos.

Néfertari sentiu que Ramsés permanecia alheio às alegrias daquele maravilhoso dia. No fim de uma copiosa refeição, aproveitou um momento de pausa.

-A ansiedade oprime-te o coraçao... Moisés é responsável por isso?

-É verdade que me inquieta a sua sorte.

-Abner já foi encontrado?

-Ainda não. Se não se apresentar no tribunal, o vizir não pronunciará a absolviçao.

-Serramanna não te desiludirá. Mas sinto que há uma outra coisa que te atormenta.

-A regra dos faraós impõe-me que proteja o Egito tanto dos inimigos do interior como dos do exterior e receio ter falhado.

-Como os hititas foram mantidos a distancia, o adversário que receias encontra-se sobre o nosso solo.

-Teremos de travar uma guerra contra os filhos das trevas que avançam disfarçados, sob uma falsa aparência.

-Estranhas palavras que, no entanto, não me surpreendem! Ontem, durante a celebração dos rituais da tarde no templo de Sekhmet, os olhos da estátua de granito brilharam com um fulgor inquietante.

Conhecemos bem esse olhar: anuncia a desgraça. Pronunciei imediatamente as fórmulas de esconjuro, mas estender-se-á ao mundo exterior a paz que regressou ao santuário?

-Os fantasmas de Amarna voltam a assombrar as consciências.

-O próprio Akhénaton não fixara os limites da sua experiência no espaço e no tempo?

-É verdade, mas desencadeou forças que não conseguiu controlar. E Ofir, um mago líbio ao serviço dos hititas, despertou os demónios que dormitavam na cidade abandonada.

Néfertari permaneceu silenciosa durante um longo momento, com os olhos fechados. Libertando-se dos laços com o efêmero, o seu pensamento penetrou no invisível em busca de uma verdade oculta nos meandros do futuro. A prática dos rituais desenvolvera na rainha uma capacidade de vidência, um contato direto com as forças que, a cada momento, iam criando a vida. Por vezes, a intuição conseguia levantar o véu.

Não sem ansiedade, Ramsés esperou o veredito da grande esposa real.

-O confronto será terrível-disse ela ao reabrir os olhos.

-Os exércitos que Olir preparou não serão menos violentos do que os dos hitilas.

-Visto que confirmas os meus receios, devemos agir o mais rapidamente possível. Desencadeemos a energia dos principais templos do reino, recobramo-lo de uma rede protetora cujas malhas terão sido tecidas pelos deuses e as deusas. É-me indispensável a tua ajuda.

Néfertari abraçou Ramsés, com um gesto de infinita ternura.

-Achas necessário pedir-ma?

-Vamos empreender uma longa viagem e enfrentar inúmeros perigos.

-O nosso amor teria algum sentido se não fosse consagrado ao Egito? Ele dá-nos a vida nós damos-lhe a nossa.

Jovens camponesas de seios nus, cabeça adornada com uma touca de juncos e a cintura envolta num saiote vegetal dançaram em honra da fecundidade da terra e atiraram umas às outras pequenas bolas de pano para esconjurar o mau olhado. Graças à sua perícia, os gênios maus, pesados, pouco hábeis e disformes, não conseguiriam penetrar nas culturas.

-Tivessemos nós a habilidade delas-desejou Néfertari.

-Também tu tens uma preocupação oculta.

-Estou inquieta com Kha.

-Cometeu alguma falta grave?

-Não, é por causa do pincel que Ihe roubaram. Lembras-te do desaparecimento do meu xale preferido? Com certeza que esse mago, Ofir, o utilizou para praticar um encantamento, arruinar a minha saúde e enfraquecer o nosso casal. Graças à intervençao de Sétaou, pude dar à luz Meritamon e escapar à morte, mas receio um novo ataque e, desta vez, contra uma criança, contra o nosso filho mais velho.

-Ele queixa-se de alguma coisa?

-O doutor Pariamakhou acaba de examiná-lo e não descobriu nada de anormal.

- O seu diagnóstico não me basta; manda chamar Sétaou e pede-Ihe para criar uma muralha mágica em torno de Kha. A partir de hoje, deve referir-nos o mínimo incidente. Preveniste Iset?

-Claro que sim.

- É preciso descobrir o ladrão ou a ladra e saber se somos traídos mesmo no interior do palácio. Serramanna interrogará o pessoal.

-Tenho medo, Ramsés, tenho medo por Kha.

-Controlemos esse medo que pode ser-lhe prejudicial. O manipulador das trevas utilizará a menor falha.

Equipado com uma paleta de escriba e pincéis, Kha entrou no laboratório de Sétaou e Lótus. A bela núbia obrigava uma cobra negra a cuspir o seu veneno, enquanto o marido preparava uma poção destinada a tratar as perturbações digestivas.

-És tu o meu professor de magia?

-A tua única professora será a própria magia. Ainda tens medo das serpentes?

-Oh, sim!

-Apenas os imbecis não receiam os répteis. Nasceram antes de nós e conhecem segredos de que nós necessitamos. Já reparaste que eles se esgueiram entre os mundos?

-Desde que o meu pai me fez encontrar a grande cobra, sei que evitarei a má morte.

--Parece, no entanto, que é necessário proteger-te.

-Roubaram-me um pincel e um mago quer servir-se dele contra mim. Foi a rainha que me contou a verdade.

A seriedade e maturidade do rapazito espantaram Sétaou

-Como as serpentes nos enfeitiçam-explicou-ensinam-nos a forma de lutar contra os feitiços. É por isso que te vou fazer ingerir todos os dias uma mistura à base de cebolas esmagadas, sangue de serpente e plantas urticáceas. Dentro de quinze dias, acrescentar-lhe-ei limalha de cobre ocre vermelho, alúmen e óxido de chumbo. E depois, Lótus oferecer-te-á um remédio que ela própria inventou.

Kha fez uma careta.

-Não deve ser nada agradável.

-Um pouco de vinho disfarça o mau sabor.

-Nunca bebi.

-Uma lacuna mais a preencher.

-O vinho perturba o espírito dos escribas e impede-os de terem uma mão firme.

-Um excesso de água impede o coração de se dilatar; não dês ouvidos a essas idéias. Para ser capaz de distinguir como deve ser os grandes vinhos, é preciso começar a prová-los cedo.

-Proteger-me-ão da má magia? Sétaou manipulava um pote de unguento esverdeado.

-Um sujeito passivo não tem qualquer hipótese de resistir à má magia; apenas um trabalho intensivo te permitirá escapar aos ataques do invisível.

-Estou pronto-declarou Kha.

 

Há dez dias que chovia em Hattousal, a capital do império hitita, construída no planalto da Anatólia central, onde as estepes áridas alternavam com desfiladeiros e ravinas.

Cansado, com as costas curvadas, as pernas curtass, os olhos castanhos sempre atentos, o imperador Mouwattali era friorento. Mantinha-se portanto junto da lareira, sem ter tirado o gorro de lã nem o longo manto vermelho e preto.

Apesar da derrota de Kadesh e do fracasso da contra-ofensiva, Mouwattali sentia-se em segurança na sua cidade da montanha, formada por uma cidade baixa e por uma cidade alta dominada por uma acrópole onde se erguia o palácio imperial. Gigantescas fortificações, acompanhando o relevo, faziam de Hattousa uma praça forte inexpugnável.

No entanto, na cidade orgulhosa e invencível, elevavam-se críticas contra o imperador. Pela primeira vez, o seu apurado sentido da estratégia não conseguira a vitória para o seu exército.

Nos nove quilômetros de muralhas, eriçados de torres e ameias. os soldados montavam uma guarda vigilante, mas todos perguntavam a si mesmos se amanha Mouwattali continuaria a presidir aos destinos do império. Até então, aquele que era familiarmente chamado "o grande chefe" sempre fizera abortar as tentativas de tomada do poder, eliminando os ambiciosos; mas os recentes acontecimentos tinham tornado frágil a sua posiçao.

Dois homens cobiçavam o trono: o filho, Ouri-Téchoup, apoiado pela elite do exército, e Hattousil, o irmão do imperador, astuto diplomata que elaborara uma poderosa coligação contra o Egito. Uma coligação que Mouwattali tentava manter oferecendo grande quantidade de presentes caros aos seus aliados.

Mouwattali acabava de passar uma serena parte do dia em companhia de uma encantadora jovem, divertida e culta, que Ihe fizera esquecer as preocupações. Teria gostado de, como ela, poder consagrar-se à poesia amorosa para esquecer as paradas militares. Mas não passava de um sonho e um imperador hitita não tinha nem tempo nem direito de sonhar.

Mouwattali aqueceu as mãos. Ainda hesitava: deveria suprimir o irmao ou o filho, ou então os dois? Alguns anos antes, a intervenção brutal teria sido inevitável; grande número de intriguistas e até mesmo de soberanos tinham sucumbido ao veneno, muito apreciado na corte hitita. Atualmente, a hostilidade entre os dois pretendentes poder-lhe-ia ser útil. Não se neutralizariam um ao outro, permitindo-lhe aparecer como um mediador indispensável? Havia ainda uma outra realidade angustiante que ditava a sua conduta: o império estava prestes a desmembrar-se. Os repetidos fracassos militares, o financiamento da guerra e as dificuldades do comércio internacional ameaçavam fazer vacilar o gigante.

 Mouwattali recolhera-se no templo do deus da tempestade, o mais belo do bairro dos santuários da cidade baixa, que englobava nada menos do que vinte e um monumentos dedicados às divindades. Como qualquer sacerdote, o imperador partira três pães e derramara vinho sobre um bloco de pedra, pronunciando a fórmula ritual: "Possa durar eternamente". Era pelo seu país que o imperador formulava esse voto; nos seus pesadelos, via-se vencido pelo Egito e traído pelos seus aliados. Durante quanto tempo ainda contemplaria, do cimo da sua acrópole, os terraços feitos de pedras justapostas, as belas moradias dos notáveis, as portas monumentais que davam acesso à sua capital? O camareiro preveniu o imperador que o seu visitante tinha chegado. Ultrapassara os numerosos postos de guarda antes de chegar ao alojamento imperial, rodeado de reservatórios de água, cavalariças, uma armaria e uma caserna.

Mouwattali gostava de receber os seus visitantes numa sala de pilares fria e austera, decorada com armas que comemoravam as vitórias do exército hitita.

O passo pesado e marcial de Ouri-Téchoup era reconhecível entre mil. Alto, musculado, vigoroso, envolto numa pele de pelagem avermelhada, cabelos compridos, afirmava-se como um guerreiro temível, sempre pronto para partir em combate.

-Como tens passado, meu filho?

-Mal, meu pai.

-No entanto, pareces estar de excelente saúde.

-Haveis-me convocado para troçar de mim?

-Não esqueças a quem falas.

Ouri-Téchoup perdeu a sua arrogancia.

-Perdoai, tenho os nervos em franja.

-Qual a razão dessa contrariedade?

-É que eu era o chefe de um exército vitorioso e eis-me reduzido à categoria de reles subalterno, sob as ordens de Hattousil, o vencido de Kadesh! Não será desperdiçar a energia que poderia colocar ao serviço do meu país?

-Sem Hattousil, a coligaçao não se teria formado.

-E para que nos serviu ela? Se tivesseis tido confiança em mim, teria triunfado sobre Ramsés!

-Persistes no teu erro, meu filho! Para que serve evocar constantemente o passado?

-Expulsai Hattousil e devolvei-me um comando real.

-Hattousil é meu irmao, é respeitado pelos nossos aliados e ou- vido pelos comerciantes, sem os quais 0110SSO esforço de guerra teria de parar.

-Qual é a vossa proposta, então?

-Apagar as nossas questoes e unirmos as nossas forças para salvar o Hatti.

-Salvar o Elatti... Mas quem o ameaça?

-Em nosso redor o mundo evolui; não aniquilámos o Egito e há certas alianças que podem modificar-se mais rapidamente do que eu supunha.

-Não compreendo nada desse discurso! Nasci para combater, não para tecer intrigas das quais o Hatti não sai engrandecido.

-São conclusões apressadas e inexatas, meu filho. Se pretendemos estender a nossa supremacia a todo o Próximo Oriente, comecemos por anular as nossas divisões internas. Há uma diligência salutar e indispensável: a tua reconciliação com Hattousil.

Ouri-Téchoup bateu com o punho num dos pilares da lareira.

-Nunca! Nunca aceitarei humilhar-me perante esse medíocre!

-Acabemos com as nossas divisões e seremos mais fortes.

-Encerrai o vosso irmão e a mulher num templo e dai-me ordem para atacar o Egito: eis uma diligência salutar.

-Recusais qualquer forma de conciliaçao?

-Recuso.

-É a tua última palavra?

-Se afastardes Hattousil, serei o vosso fiel apoio. Eu e o exército.

-Um filho negoceia o amor que dedica a seu pai?

-Sois muito mais do que um pai, sois o imperador do Hatti. Apenas o interesse do Hatti deve ditar as nossas decisões. A minha posição é justa, como acabareis por reconhecer.

O imperador pareceu cansado.

-Talvez tenhas razão... Tenho de refletir.

Ao sair da sala de audiências, Ouri-Téchoup estava certo de ter convencido o pai. Em breve o envelhecido imperador não teria outra hipótese senão conceder-lhe plenos poderes, antes de Ihe entregar o trono.

Envergando um vestido vermelho, colar de ouro, pulseiras de prata e sandálias de cabedal, Poutouhépa, esposa de Hattousil, queimava incenso na sala subterrânea do templo de Ishtar. A acrópole estava silenciosa àquela hora avançada da noite.

Dois homens desceram a escada. Baixo, com os cabelos presos por uma tira, envolto numa indumentária feita de espesso tecido multicor, com uma pulseira no cotovelo esquerdo, Hattousil precedia o imperador.

-Que frio está!-queixou-se Mouwattali, aconchegando-se no abafo de lã.

-Este compartimento não é nada contortável-reconheceu Hattousil-mas tem a vantagem de ser absolutamente tranquilo.

-Quereis sentar-vos, Majestade?-perguntou Poutouhépa.

-Este banco de pedra serve. Apesar da sua longa viagem, o meu irmão parece menos cansado do que eu. O que soubeste de essencial, Hattousil?

-Estou inquieto quanto à nossa coligação. Alguns dos nossos aliados parecem prestes a esquecer os seus compromissos. Tornam-se cada vez mais ambiciosos, mas consegui satisfazê-los. Ficai a saber que esta coligação nos fica muito cara; no entanto, há notícias mais preocupantes.

-Fala, peço-te.

-Os assírios estão a tornar-se ameaçadores.

-Aquele pequeno povo?

-Seguiu o nosso exemplo e considera-nos em plena dissolução devido às recentes derrotas e às nossas dissensões.

-Poderíamos esmagá-los em poucos dias!

-Não creio; e seria inteligente dispersar as nossas forças no momento em que Ramsés se prepara para atacar Kadesh?

-Dispões de informações rigorosas?

-Segundo os nossos espiões, o exército de Ramsés estaria prestes a retomar a ofensiva. Desta vez, os cananeus e os beduínos já não se oporão ao rei do Egito. Assim a via para o Hatti estará livre. Abrir uma segunda frente contra os assírios seria uma loucura.

 -O que aconselhas, Hattousil?

-Privilegiemos a nossa unidade interna; a questão que me opoe ao teu filho já durou demasiado e só nos enfraquece. Estou pronto a encontrar-me com ele para o fazer tomar consciência da gravidade do momento. Se teimarmos em desafiar-nos mutuamente. desapareceremos.

-Ouri-Téchoup recusa qualquer reconciliação e exige assumir o comando de todas as nossas tropas.

-Para se lançar de cabeça contra os egípcios e sofrer uma derrota!

-Segundo ele, o choque frontal é a nossa única possibilidade.

-Sois o imperador e a vós compete escolher entre ele e eu. Se adotardes a política do vosso filho, retirar-me-ei.

 Mouwattali deu alguns passos para se aquecer.

-Só há uma solução razoável-declarou calmamente a bela Pou-touhépa.

-Como imperador, deveis privilegiar a grandeza do Hatti.

Que Hattousil seja vosso irmão e Ouri-Téchoup vosso filho não tem qualquer importância perante a salvaguarda do nosso povo e sabeis muito bem que a fúria guerreira de Ouri-Téchoup nos conduzirá ao descalabro.

-Qual é a vossa solução... razoável?

-Ninguém consegue convencer uma pessoa arrebatada. É portanto necessário suprimi-la. Nem vós nem Hattousil deveis estar implicados no seu desaparecimento; eu própria me encarregarei disso.

 

Moisés ergueu-se.

-Tu, aqui?

-A justiça autorizou-me a visitar-te.

-O Faraó tem necessidade de solicitar autorização para visitar as suas prisões?

-No teu caso, sim, pois és acusado de assassínio. Mas, antes de tudo, és meu amigo.

-Então, não me renegas...

-Abandona-se um amigo que cai em desgraça? Ramsés e Moisés abraçaram-se longamente.

-Não tive confiança em ti, Ramsés, porque não acreditei que virias.

-Homem de pouca fé!

- Porque fugiste?

-Pensei primeiro que o pânico podia explicar a minha atitude... Mas em Madian, onde me ocultei, tive tempo para refletir. Não foi uma fuga, foi um apelo.

A cela de Moisés era um local limpo e bem arejado, com chao de terra batida. O rei sentou-se num banco de três pés em frente do seu amigo hebreu.

-De quem provinha esse apelo?

-Do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob. De Yahvé.

-«Yahvé» é o nome de uma montanha no deserto do Sinai; fazer dela o símbolo de uma divindade nada tem de estranho. Não abriga a montanha do Ocidente, em Tebas, a deusa do silêncio?

-Yahvé é o Deus único, não se reduz a uma paisagem.

-O que se passou durante o teu exílio?

-Encontrei Deus na montanha sob a forma de uma sarça ardente.

Revelou-me o Seu nome: "Eu sou.»

-Porque se limita ele a um único aspecto da realidade? Atoum, o criador, é simultaneamente «O que é» e «O que não é».

 -Yahvé confiou-me uma missão, Ramsés, uma missão sagrada que poderá desagradar-te. Devo fazer sair o povo hebreu do Egito e conduzí-lo a uma terra santa.

-Ouviste realmente a voz de Deus?

-Era tão clara e profunda como a tua.

-Não está o deserto povoado de ilusões?

-Não me farás mergulhar na dúvida; sei aquilo que vi e ouvi. A minha missão foi determinada por Deus e hei de cumpri-la.

-Falas de... todos os hebreus?

-É um povo inteiro que sairá livre do Egito.

-Quem impede um hebreu de circular livremente?

-Exijo um reconhecimento oficial da fé dos hebreus e autorização para realizar um êxodo.

-Para já, tens de sair desta prisão; é por isso que mandei procurar Abner. O seu testemunho será decisivo para a tua absolvição.

-Talvez Abner tenha deixado o Egito.

-Tens a minha palavra que não serão poupados todos os esforços para o trazer ao tribunal.

-A minha amizade por ti permanece intata, Ramsés, e desejei a tua vitória na luta contra os hititas. Mas tu és Faraó e eu o futuro chefe do povo hebreu. Se não te curvares à minha vontade, tornar-me-ei o mais implacável dos teus inimigos.

-Os amigos não encontram sempre uma base de entendimento?

-A nossa amizade contará menos do que a minha missão; mesmo que o coração se me parta, devo obedecer à voz de Yahvé.

-Teremos tempo para voltar a falar disso; antes de mais nada, deves recuperar a liberdade.

-Não me pesa estar encarcerado. Preparo-me na solidão para as provas de amanhã.

-A primeira poderá ser uma pesada condenação!

-Yahvé protege-me.

-Desejo que sim, Moisés. Procurando bem na tua memória, não descobres nenhum elemento que possa ser útil à tua defesa?

-Disse a verdade e a verdade brilhará.

-Não me ajudas muito.

-Quando se é amigo do Faraó, porque nos havemos de preocupar com a injustiça? Tu nunca permitirás que ela invada o reino e a alma dos juízes.

-Encontraste um homem chamado Ofir?

-Não me lembro...

-Tenta lembrar-te: Ofir é um falso arquiteto que te contactou em Pi-Ramsés quando estavas a construir a minha capital; elogiou-te com certeza os méritos da religiao de Akhénaton.

-Tens razão.

-Fez-te propostas concretas?

-Não, mas pareceu-me ser sensível à desgraça dos hebreus.

-Desgraça... O termo não será excessivo?

-És egípcio, não podes compreender.

-Esse Ofir é um espião hitita que conspira contra o Egito; é também um assassino. Qualquer acordo com ele faria pesar sobre ti suspeita de alta traição.

-Seja quem for que auxilie o meu povo merece a minha gratidão.

-Detestas a terra que te viu nascer?

-A infancia, a adolescência, os nossos estudos em Mênfis, a minha carreira ao teu serviço... tudo isso está morto e esquecido, Rarmsés.

Apenas amo uma terra: a que Deus prometeu ao meu povo.

 

Nedjem, o ministro da Agricultura, estava de um nervosismo fora do habitual. Ele, geralmente afável e alegre, fora duro sem razão para o seu secretário. Incapaz de se concentrar nas pastas que devia estudar, deixou o seu gabinete e dirigiu-se ao laboratorio de Sétaou e Lótus.

Acocorada, a linda núbia dominava uma víbora que batia furiosamente com a cauda.

-Segurai nesta taça de cobre-pediu ao ministro.

-Não sei se...

-Despachai-vos.

Hesitante, Nedjem pegou no recipiente que continha um líquido castanho e viscoso.

-Não deixeis cair nada, é muito corrosivo.

Nedjem tremia.

-Onde o posso pousar?

-Na prateleira.

Lótus enfiou a víbora num cesto cuja tampa fechou.

-Em que posso ser-vos útil, Nedjem?

-Vós e Sétaou...

-O que é que querem a Sétaou?-interrogou a voz áspera do encantador de serpentes.

Vapores inquietantes saíam de filtros de diversos tamanhos; nas prateleiras, os boiões misturavam-se com os passadores, os frascos com os tubos, as decocções com as poções.

-Quero dizer...

Um ataque de tosse impediu o ministro de continuar.

-Pois bem, dizei!-exigiu Sétaou.

Mal barbeado, maciço, de ombros largos, quase invisível no meio do fumo que invadira a parte do laboratório onde trabalhava, Sétaou transvazava veneno diluído.

-É a propósito do pequeno Kha.

-O que Ihe aconteceu?

-Sois vós que... Enfim, quero dizer que, até agora, me ocupei da educação dessa criança. Gosta de ler e de escrever, demonstra uma maturidade excepcional para a sua idade, possui já uma cultura que muitos escribas invejariam, não hesita em estudar os segredos do céu e da terra, quer...

-Eu sei tudo isso, Nedjem, e tenho trabalho. Ide direito ao assunto.

-Vós... vós não sois um homem fácil!

-A vida não é fácil. Quando se convive quotidianamente com os répteis, não temos tempo a perder em mundanidades.

Nedjem ficou chocado.

-Mas... a minha visita não é uma mundanidade!

-Entao, dizei de uma vez o que tendes para dizer.

-Bem, vou ser mais direto: porque arrastais Kha por mau caminho?

Sétaou poisou sobre uma prateleira o frasco que estava a manipular e limpou a testa com um pano.

-Entrais em minha casa, Nedjem, perturbais-me no meu trabalho e, ainda por cima, insultais-me! Por muito ministro que sejais o que me apetece é enfiar-vos um murro nessa cara! Nedjem recuou, esbarrando com Lótus.

-Perdoai... Não supunha... Mas aquela criança...

-A iniciaçao de Kha na magia parece-vos prematura?-perguntou a núbia com um sorriso encantador.

-Sim, sim, é isso-respondeu Nedjem.

-Esses escrúpulos honram-vos, mas os vossos receios não têm fundamento.

-Uma criança tão pequena, face a uma ciência tão complexa, tão perigosa...

-O Faraó ordenou-nos que protegessemos o filho; para o conseguir, precisamos da cooperação de Kha.

O ministro empalideceu.

-Protegê-lo... De que ameaça?

-Gostais de carne marinada?-perguntou Lótus.

-Eu... Com certeza.

-É uma das minhas especialidades; aceitais partilhar a nossa refeiçao?

-Impor-me assim, à última hora...

-Já está decidido-declarou Sétaou.

-Kha não é um pequeno objeto frágil mas sim o filho mais velho de Ramsés. Atacando-o, pretendem enfraquecer o casal real e todo o país. Ergueremos uma muralha mágica em torno de Kha para repelir as influências nocivas lançadas contra ele. A tarefa exige precisão, será difícil e aleatória.

Todas as boas vontades serão portanto bem-vindas.

 

A ruela do bairro hebreu estava recoberta de traves que suportavam um entrelaçado de juncos destinado a proteger os que passavam da ardência do sol. Sentadas na soleira das portas, as donas de casa discutiam; quando passava o carregador de água, matavam a sede para depois recomeçarem intermináveis conversaçoes às quais se misturavam os artesãos que saboreavam um momento de repouso e os fabricantes de tijolos de regresso dos estaleiros.

Um único tema ocupava todos os espíritos: o processo de Moisés.

Segundo uns, seria condenado à morte; segundo outros, a uma pena leve de prisão. Alguns extremistas defendiam uma revolta, mas a maioria tomava o partido do fatalismo: quem se atreveria a opôr-se ao exército e à polícia do Faraó? E, afinal, Moisés estava a sofrer o que merecia: pois não tinha morto um homem? O fato da lei ser aplicada com o máximo rigor não escandalizava ninguém, mesmo continuando Moisés a ser muito popular. Quem não recordava a sua dedicação aos fabricantes de tijolos e as vantagens materiais que para eles conseguira? Muitos trabalhadores desejavam que voltasse a trabalhar como arquiteto e se interessasse de novo pela sua sorte.

Aarão partilhava o pessimismo ambiente. .É verdade que a sorte de Moisés estava entre as mãos de Yahvé, mas a justiça egípcia não se mostrava nada meiga com os criminosos. Se Abner tivesse concordado em comparecer, a acusação teria sido anulada; mas o fabricante de tijolos afirmava convitamente que Moisés mentia. Recusou-se portanto a sair do seu buraco antes do fim do processo. Como Aarão não tinha qualquer censura a fazer a Abner, não podia pedir ao chefe da sua tribo que exigisse o seu testermunho.

Ao passar pela ruela, Aarão reparou na presença de um mendigo com a cabeça coberta por um capuz. Agachado de encontro à parede, com as pernas dobradas, o homem comia bocados de pão que Ihe atiravam os que iam passando. No primeiro dia, Aarão tentou esquecer o infeliz; no segundo, ele próprio Ihe deu de comer; no terceiro, sentou-se ao seu lado.

-Não tens família?

-Já não tenho ninguém.

-Eras casado?

-A minha mulher morreu e os meus filhos partiram.

-Que infeliz sorte caiu sobre ti.

-Era comerciante de cereais, tinha uma boa casa e levava uma existência tranquila... Cometi uma falta grave ao enganar a minha mulher.

-Deus castigou-te.

-Tens razão, mas não é a Ele que devo a minha desgraça. Um homem descobriu a minha ligação, fez chantagem comigo, arruinou-me e destruiu o meu casamento. A minha mulher morreu de desgosto.

-Mas esse homem era um monstro!

-Um monstro que continua a agir cruelmente e a espalhar a infelicidade... Além de mim, outros sofrerão com a sua crueldade.

-Qual é o nome dele?

-Tenho vergonha de o pronunciar.

-Por que razao?

-Porque é hebreu, como tu e eu.

-Chamo-me Aarão e tenho alguma influência na nossa comunidade. Não tens o direito de continuar a calar-te, porque uma ovelha ranhosa pode contaminar o rebanho.

-Que importancia tem isso agora... Estou só e desesperado.

-Apesar da tua infelicidade, deves pensar nos outros. Esse homem deve ser castigado.

-Chama-se Abner-murmurou o mendigo.

Desta vez, Aarão tinha um motivo sério para se queixar do comportamento de Ahner. Nessa mesma noite, reuniu um conselho de anciãos e chefes de tribo e contou-lhes as desventuras do comerciante de cereais.

-Outrora-reconheceu um velho-Abner terá feito chantagem com alguns fabricantes de tijolos, mas guardaram silêncio e apenas rumores chegaram aos nossos ouvidos. Compreende-se agora por que razão Abner não tem vontade de comparecer perante um tribunal.

Prefere que se acalme toda esta agitação.

-Moisés está na prisão e apenas o testemunho de Abner o poderá salvar! Perturbados, os notáveis não demonstravam desejo de tomar partido. Um chefe de tribo resumiu a sua opinião.

-Falemos claramente: Moisés cometeu um assassínio que lançou a desconfiança sobre todos os hebreus. Não é uma injustiça que ele seja castigado. Além disso, regressou para espalhar a perturbação entre nós com as suas idéias loucas. A prudência aconselha que se deixem correr as coisas.

Aarão foi dominado por violenta cólera.

-Covarde entre os covardes! Escolheis portanto ajudar um miserável como Abner e enviais para a morte Moisés que lutou por vós! Que Yahvé vos mergulhe na infelicidade e na desgraça! O decano da assembléia, um fabricante de tijolos reformado, interveio com violência.

-Aarão tem razão, o nosso comportamento é desprezível.

-Protegemos Abner-lembrou um chefe de tribo.

-Não temos o direito de o obrigar a arriscar-se a um castigo com base em vagas acusações.

Aarão bateu com o seu cajado no chão.

-Não te terá Abner ajudado a enriquecer à custa dos nossos irmãos?

-Como te atreves!

-Confrontemos o mendigo com Abner.

-Proposta aceite-declarou o decano.

 

Ramsés 4:A Dama de Abu Simbel

Christian Jacq

 

Abner estava escondido no centro do bairro dos fabricantes de tijolos, numa casa de dois pisos de onde só sairia depois da condenaçãode Moisés. Tendo-se tornado rico e considerado, empanturrava-se de bolos e passava a maior parte do tempo a dormir.

Quando o conselho dos anciãos e dos chefes de tribo Ihe impusera o confronto, começara por rir. Primeiro, um mendigo não teria grande peso face a ele; depois, Abner acusaria o povo hebreu de deixar um homem na miséria, o que era contrário à lei egípcia. Se, por um acaso extraordinário, o caso assumisse um aspecto desagradável, os seus aliados encarregar-se-iam de fazer desaparecer o seu desgraçado acusador.

A entrevista realizou-se no rés-do-chão, na sala destinada a receber os visitantes, cujos bancos estavam cobertos de almofadas. Presentes, o decano dos anciãos, um chefe de tribo designado pelos seus pares e Aarão, que amparava o mendigo curvado, quase incapaz de andar.

Abner exibia um ar trocista.

-É esse pobre diabo que delira a meu respeito... Consegue ao menos falar? O mais conveniente seria darem-lhe de comer e mandarem-no acabar os seus dias numa quinta do Delta.

Aarão ajudou o mendigo a sentar-se.

-Podemos evitar um confronto-declarou o decano-se aceitares testemunhar em favor de Moisés e confirmar a versão dos fatos tal como surge no documento escrito que assinaste.

 -Moisés é um homem agitado e perigoso. Eu proporcionei fortuna a muitos dos nossos irmãos! Porque hei de correr riscos inúteis?

-Por respeito pela verdade-interveio Aarão.

-É tão flutuante... E bastará para fazer Moisés ser libertado? Afinal, é um assassino! Nada temos a ganhar misturando-nos nessa história.

-Moisés salvou-te a vida, deves salvar a dele.

-Essa história é antiga e a minha memória fraca... Não é preferível pensar no futuro? E depois, o meu depoimento escrito funcionará em favor de Moisés. Havendo o benefício de uma dúvida favorável, não será condenado à morte.

-Um longo cativeiro será sorte mais invejável?

-Moisés devia ter-se controlado e não matar Sary.

Fora de si Aarão bateu no chão com o cajado.

-Nada de violência-exigiu o decano.

-Este indivíduo é um canalha, traiu os seus e continuará a traí-los!

-Mantém a calma-recomendou Abner.

-Sou generoso e comprometo-me a prover às tuas necessidades. Para mim, o respeito dos anciãos é um valor inapreciável.

Sem a presença do decano e do chefe de tribo, Aarão teria partido a cabeça a Abner.

-Permaneçamos assim, meus amigos, e festejemos a nossa reconciliação com uma boa refeição, que vos ofereço com o maior prazer.

-Esqueces o mendigo, Abner?

-Ah! O mendigo... Então o que tem ele a dizer? Aarão dirigiu-se ao infeliz.

-Não tenhas medo, fala à vontade.

O homem permaneceu prostrado e Abner desatou a rir.

-É esse o vosso grande acusador? Acabemos com isto... Entreguem-no aos meus criados, que Ihe darão de comer na cozinha.

Aarão estava mortificado.

-Fala, peço-te.

Lentamente, o falso mendigo desdobrou o seu poderoso corpo, tirou o capuz e descobriu o rosto.

Estupefato, Abner mal foi capaz de articular o nome daquele hóspede inesperado e temível.

-Serramanna...

-Estás preso-declarou o sardo com um sorriso.

Enquanto decorria a audição de Abner, Serramanna sentia-se dominado por sentimentos contraditórios. Por um lado, se preparara para não encontrar Abner de forma a que Moisés, o conspirador não fosse absolvido; por outro, cumprira com êxito a sua missão. Era necessário que Ramsés fosse um ente extraordinário para motivar tal obediência da sua parte, mesmo estando convencido de que o hebreu era prejudicial. O rei fazia mal por confiar em Moisés, mas como criticar um monarca que colocava a amizade entre os valores mais sagrados? Pi-Ramsés em peso aguardava a sentença dada pelo vizir na sequência da deliberação do júri. O processo aumentara de forma considerável o prestígio de Moisés; a arraia miúda e a quase totalidade dos fabricantes de tijolos tomavam agora partido a seu favor. Pois não surgia como o defensor dos infelizes contra os quais a vida se mostrara injusta? Serramanna esperava que Moisés fosse exilado e que não viesse perturbar a harmonia construída, dia a dia, pelo par real Quando Améni saiu da sala do tribunal, o sardo foi ao seu encontro. O secretário particular de Ramsés estava feliz.

-Moisés foi absolvido.

A corte estava reunida na sala de audiências do palácio de Pi-Ramsés a que dava acesso uma escadaria monumental adornada com figuras de inimigos aniquilados. Ninguém sabia por que razão o Faraó convocara o governo em peso e os principais responsáveis da Administração, mas todos esperavam o anúncio de decisões essenciais para o futuro do país.

Ao franquear a porta monumental orlada com os nomes de coroação de Ramsés pintados a azul sobre fundo branco e colocados dentro de escudos, Améni ocultava com dificuldade o seu descontentamento; porque não Ihe fizera o rei nenhuma confidência? Observando o ar contrariado de Acha, considerou que o amigo não sabia mais do que ele.

Os cortesãos eram em tão grande número que não era possível ver a decoração formada por mosaicos de terracota envernizados, representando jardins floridos e lagos onde brincavam peixes. As pessoas comprimiam-se entre as colunas e de encontro às paredes nas quais se exibia uma deslumbrante paleta de verde pálido, vermelho profundo, azul claro, amarelo luminoso e branco sujo. Mas naqueles momentos de angústia, quem pensava em admirar as sublimes aves que esvoacavam nos pantanos povoados de papiros? No entanto, o olhar de Sétaou poisava sobre uma pintura que representava uma jovem em meditação em frente de um maciço de malva-rosas e cujas feições se assemelhavam às da rainha. Os frisos de lótus, dormideiras, papoilas, margaridas e acianos incarnavam uma natureza pacífica e sorridente.

Ministros, altos funcionários, escribas reais, ritualistas, guardas dos segredos, sacerdotes e sacerdotizas, damas de alta linhagem e outros personagens importantes fizeram silêncio quando Ramsés e Néfertari se sentaram no trono. O poder do monarca era esmagador e o seu porte inigualável. Com a dupla coroa que assinalava a sua soberania sobre o Alto e o Baixo Egito, envergando uma túnica branca e um saiote dourado, Ramsés segurava na mão direita o ceptro magia, o cajado de pastor que Ihe servia para reunir o seu povo no invisível a manter a sua coesão no visível.

Néfertari era a graça, Ramsés o poder. Todos na assistência detectaram o amor profundo que os unia e dava a ambos um perfume de eternidade.

O ritualista chefe leu um hino a Amon, celebrando a presença do deus oculto em todas as formas de vida. Ramsés falou então.

-Vou comunicar-vos um certo número de decisões a fim de dissipar rumores e definir a política que tenciono seguir de imediato. Estas escolhas são fruto de uma longa reflexão realizada em conjunto com a grande esposa real.

Diversos escribas reais prepararam-se para escrever as palavras do monarca, que se tornariam decretos com aplicação imediata.

-Decidi reforçar a fronteira nordeste do Egito, construir nessa zona novas fortalezas, consolidar as antigas muralhas, duplicar as guarnições e aumentar-lhes o soldo. O Muro do Rei deve tornar-se inexpugnável e proteger o Delta de qualquer tentativa de invasão. Equipas de talhadores de pedra e de fabricantes de tijolos partirão já amanhã para iniciarem os trabalhos necessários.

Um idoso cortesão pediu a palavra.

-Majestade, será o Muro do Rei suficiente para deter as hordas hititas?

-Por si só, não; trata-se apenas do último elemento do nosso sistema de defesa. Graças à recente intervenção do exército, que derrotou a contra-ofensiva hitita, reconquistamos os nossos protetorados. Entre nós e o invasor existem Canaã, Amourrou e a Síria do Sul.

-Não vos têm frequentemente traído os príncipes que governam essas províncias?

-Na realidade, isso tem acontecido com frequência; é por isso que confio a gestão administrativa e militar dessa zona tampão a Acha, a quem concedo poderes excepcionais nessa região. Encarrego-o de manter aí a nossa supremacia, controlar os dirigentes locais, criar um sistema de informações eficaz e preparar um corpo de elite capaz de travar um ataque hitita.

Acha permaneceu imperturbável, embora fosse o alvo de todos os olhares, uns admirativos, outros invejosos. O ministro dos Negócios Estrangeiros tornava-se um personagem-chave do Estado.

-Decidi também iniciar uma longa viagem com a rainha-continuou Ramsés.

-Durante a minha ausência, Améni encarregar-se-á dos assuntos correntes e consultará todos os dias Touya, a minha mãe. Permaneceremos em contato pelo correio e nenhum decreto será promulgado sem o meu acordo.

A corte ficou estupefata. O papel de eminência parda de Améni não era uma revelação, mas porque se afastava o casal real de Pi-Ramsés num período tão crucial? O chefe do protocolo atreveu-se a colocar a questão que todos os lábios formulavam.

-Majestade... Podereis revelar-nos o objetivo da vossa viagem?

-Reforçar a infraestrutura sagrada do Egito. A rainha e eu iremos em primeiro lugar a Tebas para verificar o estado de adiantamento do meu templo dos milhões de anos e depois partiremos para o Grande Sul.

-Até à Núbia?

-Assim é.

-Perdoai-me, Majestade... Mas será necessária tão longa deslocação?

-É indispensável.

A corte compreendeu que o faraó não diria mais nada. Cada um que imaginasse as razões secretas daquela surpreendente decisão.

Vigilante, o cão amarelo ouro do rei, lambeu a mão da rainha-mãe, enquanto o leão se deitava a seus pés.

-Esses dois fiéis companheiros desejavam prestar-te homenagem -disse Ramsés.

Touya arranjava um grande ramo armado que seria colocado sobre a mesa das oferendas destinadas à deusa Sekhmet. Como tinha um ar altivo a rainha-mãe, com o seu longo vestido de linho orlado de ouro, os ombros cobertos por uma curta capa e a cintura envolta num cinto vermelho de pontas riscadas que caíam até ao chão! Como era nobre, com os olhos penetrantes, o rosto delicado e severo, a postura de mulher de poder, exigente e inabordável!

-O que pensas das minhas decisões, mãe?

-Néfertari tinha-me faiado demoradamente delas e receio mesmo tê-las um tanto inspirado. A única protecão eficaz da nossa fronteira nordeste consiste realmente em controlar os protetorados com mão firme para impedir uma invasão hitita. Foi essa a política do teu pai e deve ser também a tua. Nove anos de reinado, meu filho... como suportas esse peso?

-Ainda nem tive tempo para pensar nisso.

-Tanto melhor! Continua a avançar e a traçar o teu caminho. Tens a certeza de que a tripulação do barco obedece corretamente às tuas ordens?

-O meu círculo próximo é muito reduzido e não tenho intenções de o ampliar.

-Améni é um homem notável-considerou Touya.-Mesmo não tendo uma visão muito ampla, possui duas qualidades muito raras: honestidade e fidelidade.

-És igualmente elogiosa em relação a Acha?

-Também ele possui uma virtude excepcional: a coragem, uma coragem particularmente baseada numa análise aprofundada das situações. Quem poderia ter sido melhor escolhido do que ele para velar pelos nossos protetorados do Norte?

-Sétaou será bem visto por ti?

-Detesta as convenções e é sincero; como seria possível não apreciar um aliado tão precioso?

-Resta Moisés...

-Tenho conhecimento da tua amizade por ele.

-Mas não a aprovas.

-Não, Ramsés; esse hebreu tem objetivos que te verás obrigado a desaprovar. Sejam quais forem as circunstancias, faz com que o teu país passe sempre à frente dos teus sentimentos.

-Moisés ainda não é motivo de perturbações.

-Se vier a ser, a Regra de Maat e apenas ela devem inspirar a tua conduta. O caso pode tornar-se difícil mesmo para ti, Ramsés.

Touya endireitou a haste de um lírio; o composição tinha o fulgor de cem flores.

-Aceitas governar as Duas Terras durante a minha ausência?

-Não me obrigas a isso? O fardo da idade começa a pesar-me.

Ramsés sorriu.

-Não acredito.

-Tens demasiada força em ti para imaginares o que pode ser o peso da velhice. Queres agora revelar-me a verdadeira razão desta longa viagem?

-O amor pelo Egito e por Néfertari. Quero reanimar o fogo secreto dos templos, fazer com que produzam mais energia.

-Os hititas não são os nossos únicos adversários?

-Um mago líbio, Ofir, utiliza contra nós forças das trevas; talvez faça mal em dar demasiada importancia à sua ação, mas não quero correr qualquer risco. Néfertari já sofreu demais com os seus malefícios.

-Os deuses favoreceram-te, meu filho; poderiam conceder-te maior felicidade do que uma esposa tão luminosa?

-Não a venerar como é devido seria um erro grave; concebi por tanto um grande projeto para que o seu nome brilhe durante milhões de anos e que o par real surja como a base inatingível sobre a qual esta construído o Egito.

-Visto que sentiste essa exigência, o teu reinado será um grande reinado. Néfertari é a magia sem a qual nenhum ato é duradouro. Violências e trevas não desaparecerão à medida que as gerações se sucederem às gerações, mas a harmonia será vivida nesta terra enquanto reinar o par real. Fortifica-o, Ramsés, faz dele a pedra angular do edifício. Quando o amor brilha sobre um povo, proporciona-lhe mais felicidade do que qualquer outra riqueza.

O ramo estava terminado; a deusa ficaria satisfeita.

-Pensas às vezes em Chénar? A tristeza ensombrou o olhar de Touya.

-Como pode uma mãe esquecer o seu filho?

-Chénar já não é teu filho.

-O rei tem razão e eu deveria dar-lhe ouvidos... Poderá perdoar a minha fraqueza? Ramsés apertou Touya ternamente a si.

-Privando-o de sepultura-continuou ela-os deuses infligiram-lhe um terrível castigo.

-Enfrentei a morte em Kadesh, Chénar encontrou-a no deserto.

Talvez tenha purificado a sua alma.

-E se ainda estivesse vivo?

-Também eu já tive esse pensamento... Se se oculta nas sombras com as mesmas intenções de antigamente, mostrar-te-ás indulgente?

-Tu és o Egito, Ramsés, e quem te atacar encontrar-me-á no seu caminho.

Ramsés recolheu-se perante a estátua de Thot, à entrada do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e depositou um ramo de lírios no altar das oferendas. Incarnado num grande macaco de pedra, o mestre dos hieróglifos, as "palavras dos deuses", mantinha o olhar erguido para o céu.

A visita do Faraó era uma honra com a qual se congratulavam os funcionários do ministério; Acha recebeu o monarca e inclinou-se perante ele. Quando Ramsés o abraçou, os subordinados do jovem ministro sentiram-se orgulhosos por trabalharem sob as ordens de um dignitário a quem o rei concedia uma tal demonstração de confiança.

Os dois homens encerraram-se no gabinete de Acha, luxuoso e requintado: rosas importadas da Síria, composiçôes florais associando narcisos e maravilhas, arcas de acácia, cadeiras de estofos decorados com lótus, almofadas multicores, mesas com pés de bronze. As paredes eram adornadas com cenas de caça às aves nos pantanos.

-Não optaste pela sobriedade-constatou Ramsés.

-Só faltam os vasos exóticos de Chénar.

-Mas que má recordação! Mandei-os vender em benefício do meu ministério.

Elegante, com uma peruca leve e perfumada e o pequeno bigode bem cuidado, Acha parecia pronto para participar num banquete mundano.

-Quando tenho a sorte de viver algumas semanas em paz no Egito-confessou-embriago-me com os inúmeros prazeres que me proporciona... Mas que o rei fique descansado: não esqueço a missão que me confiou.

Acha era assim: cínico, aparentemente frívolo, apreciador da moda, um sedutor que saltava de mulher em mulher, mas homem de Estado calejado nos meandros da política internacional, perfeito conhecedor do terreno e aventureiro capaz de correr riscos insensatos.

-O que pensas das minhas decisões?

-Confundem-me e alegram-me, Majestade.

-Consideras que sejam... suficientes.

-Falta o essencial, não é verdade? E é precisamente a razão desta visita que nada tem de protocolar. Deixa-me adivinhar: não será... Kadesh?

-Escolhi bem o meu ministro dos Negócios Estrangeiros e o chefe do meu serviço de espionagem.

-Sonhas ainda apoderar-te dessa praça forte?

-Kadesh foi o local de uma vitória, mas a fortaleza hitita permanece intata e continua a zombar de nós.

Contrariado Acha serviu um admirável vinho tinto de uma cor deslumbrante em duas taças de prata cujas asas eram corpos de gazela.

-Estava desconfiado que havias de voltar a Kadesh... Ramsés não seria capaz de tolerar a sombra de um fracasso. É verdade, essa fortaleza desafia-nos; é verdade, continua a ser tão forte como era antes.

-É por isso que a considero uma ameaça permanente para o nosso protetorado da Síria do Sul; será de Kadesh que partirão os ataques.

-A primeira vista, o raciocínio parece impecável.

-Mas não é essa a tua opinião.

-Um ministro pançudo e calmo, confortavelmente sentado nos seus privilégios e dignidades, prostrar-se-ia à tua frente e faria mais ou menos este discurso: Ramsés o Grande, rei de visão penetrante e braço vitorioso, parti à conquista de Kadesh! E esse cortesão seria um imbecil sinistro.

-Porque consideras necessário renunciar a essa conquista?

-Graças a ti, os hititas descobriram que não são invencíveis. É verdade que o seu exército continua a ser poderoso, mas os espíritos estão perturbados. Mouwattali prometera ao seu país uma invasào fácil e uma vitória esmagadora e vê-se forçado a justit`icar com dificuldade uma retirada das tropas para as suas posições habituais Há ainda outro conflito que se desencadeia: a guerra da sucessão, entre o filho Ouri-Téchoup e o irmão Hattousil.

-Quem tem melhores hipóteses de ganhar?

-É impossível prever; tanto um como outro possuem armas eficazes.

-Está iminente a queda de Mouwattali?

-Na minha opinião, está; mata-se com facilidade na corte hitita. Numa sociedade guerreira, o chefe incapaz de vencer deve ser eliminado.

-Não é o momento ideal para atacarmos Kadesh e nos apoderarmos dela?

-É um fato, se o nosso interesse consistisse em minar os alicerces do império hitita.

Ramsés apreciava a subtileza do seu amigo Acha irônico mas, desta vez, ficou admirado.

-E não é esse o objetivo primordial da nossa política externa.

-Já não tenho muito a certeza disso.

-Estás a fazer troça de mim?

-Quando uma decisão se traduz na vida ou morte de milhares de seres humanos, não tenho qualquer desejo de brincar.

-Possuis então uma informação que pode modificar radicalmente a minha opinião.

-Trata-se de uma simples intuição, baseada em alguns dados captados aqui e além pelos nossos informadores Já ouviste falar da Assíria?

-É um povo guerreiro, como os hititas.

-Era, até agora, um Estado sob a influência hitita. Mas Hattousil, quando formou a sua coligação, ofereceu muito metal precioso aos assírios para eles se manterem numa neutralidade favorável. E essas riquezas inesperadas transformaram-se em arrmamento. Atualmente, os militares assírios sobrepoem-se aos diplomatas. A próxima grande potência asiática pode bem vir a ser a Assíria, mais conquistadora e devastadora do que o Hatti.

Ramsés ficou pensativo.

-A Assíria... Estará prestes a atacar o Hatti?

-Ainda não, mas dentro de algum tempo o conflito parece-me inevitável.

-Por que não corta Mouwattali o mal pela raíz?

-Por causa das dissensões internas que Ihe ameaçam o trono e porque receia um avanço do nosso exército em direção a Kadesh.

Para ele, continuamos a ser o adversário principal.

-E para os que ambicionam o poder?

-O filho, Ouri-Téchoup, é cego; apenas sonha apossar-se das Duas Terras massacrando o máximo de egípcios possível. Hattousil tem vistas mais largas e deve ter mais consciência do perigo que cresce mesmo às portas do império hitita.

-Não me aconselhas portanto a lançar uma vasta ofensiva contra Kadesh.

-Perderemos muitos homens e os hititas também; o verdadeiro vencedor pode acabar por ser a Assíria.

-É evidente que não te limitaste a refletir. Qual é o teu plano?

-Receio que não te agrade, na medida em que está em contradição com a política que consideras justa.

-Arrisca.

-Façamos crer aos hititas que preparamos o assalto a Kadesh. Boatos, desinformação clássica, falsos documentos confidenciais, manobras na Síria do Sul... Tratarei de tudo.

-Até aí, não me chocas.

-A continuação talvez seja mais delicada. Quando essas disposições se tiverem revelado eficazes, partirei para o Hatti.

-Com que justificação?

-Missão secreta, com plenos poderes para negociar.

-Mas... O que queres tu negociar?

-A paz, Majestade.

-A paz... Com os hititas!

-É a melhor solução para impedir a Assíria de se transformar num monstro muito mais perigoso do que o Hatti.

-Os hititas nunca aceitarão.

-Se dispuser do teu apoio, comprometo-me a convencê-los.

-Se outro que não tu me fizesse essa proposta acusá-lo-ia de alta traição.

Acha sorriu.

-Bem desconfiava... Mas quem melhor do que Ramsés é capaz de ver longe, muito para além do momento presente?

-Os sábios não ensinam que lisonjear um amigo é uma falta imperdoável?

-Não é ao amigo que me dirijo, mas ao faraó. Manter a vista baixa, presa aos acontecimentos, consistiria em aproveitar as nossas forças atuais para enfrentar os hititas, com uma possibilidade real de os vencer. Mas o aparecimento da Assíria na cena internacional deve modificar a nossa estratégia.

-Trata-se de uma simples intuição, Acha. Tu próprio o confessaste.

-No meu posto, é essencial prever o futuro e pressenti-lo antes dos outros. Não é a intuição que conduz a uma decisão justa?

-Não tenho o direito de te deixar correr semelhente risco.

-A minha estadia entre os hititas? Não será a primeira.

-Queres ocupar de novo as suas prisões?

-Há férias mais agradáveis, mas é preciso saber forçar o destino.

-Não conseguirei arranjar um ministro dos Negócios Estrangeiros melhor do que tu.

-Tenho tenções de regressar, Ramsés. E além disso, uma existência fácil e mundana acabaria por enfraquecer-me o espírito. Depois de arranjar algumas amantes, vesti-las, passeá-las e fartar-me delas, sentiria necessidade de uma nova aventura para permanecer com o espírito vivo e conquistador. Esta experiência não me assusta... Compete-me saber utilizar as fraquezas dos hititas e convencê-los a cessar as hostilidades.

-Tens consciência de que esse projeto é completamente insensato, Acha?

-Tem a frescura da novidade e o atrativo do desconhecido; isso não o adorna de todas as seduções?

-Não estavas realmente convencido que iria dar-te o meu acordo, pois não?

-Acabarei por consegui-lo porque não és um velho monarca friorento incapaz de mudar o mundo. Dá-me ordem de negociar com os bárbaros que nos querem destruir para os transformar em vassalos.

-Vou iniciar uma longa viagem para o Sul e tu ficarás isolado no Norte.

-Já que vais ocupar-te do Além, deixa os hititas para mim.

 

Com idades entre os quinze e os vinte e cinco anos, cabeças rapadas com excepção de uma madeixa formada por várias tranças paralelas seguras por um grande gancho ao nível da orelha e caindo do lado direito do rosto, os "filhos reais" usavam brincos, um longo colar, pulseiras, um saiote plissado e seguravam na mão uma haste encimada por uma pluma de avestruz.

A esses jovens, escolhidos pelo seu vigor físico e intelectual, confiara Ramsés a missão de o representarem nos diferentes regimentos do exército. Presentes no campo de batalha, saberiam devolver uma energia por vezes prestes a desfalecer a soldados cuja covardia em Kadesh, face à coligação formado pelos hititas, o rei não esquecera.

Os "filhos reais" partiriam para o Norte e ocupar-se-iam da administração dos protetorados. Tinham recebido ordens rigorosas de Acha e respeitá-las-iam.

Espalhava-se já a lenda segundo a qual Ramsés o Grande, progenitor infatigável e pai prolífero, pusera no mundo uma centena de filhos cuja existência era a prova evidente da força divina que habitava o monarca.

Assim se construía uma genealogia fabulosa que os escultores transpunham para a pedra e que os escribas se compraziam em transmitir.

A sombra do seu limoeiro, o velho Homero perfumava a sua barba branca. Heitor, o gato preto e branco, engordara mas começou a ronronar logo que Ramsés o acariciou.

-Perdoai a minha indiscrição, Majestade, mas tenho a impressão de que estais aborrecido.

-Digamos que... preocupado.

-Más notícias?

-Não, mas a aproximação de uma longa viagem que apresenta alguns perigos.

O poeta grego encheu com folhas de salva o fornilho do seu cachimbo feito de uma grande concha de caracol.

-Ramsés o Grande... É assim que o povo vos designa atualmente.

Eis o que acabo de escrever: Os dons magníficos dos deuses não se podem negligenciar. Só eles no-los concedem, pois ninguém os pode adquirir por si próprio.

-Sereis a tal ponto fatalista?

-É o privilégio da idade, Majestade. A minha jornada e a minha Odisseia estão terminadas e dei os últimos retoques ao poema que canta a vossa vitória de Kadesh. Resta-me fumar o meu cachimbo, beber vinho perfumado com anis e deixar-me massagear com azeite.

-Não tendes desejo de reler a vossa obra?

-Só os autores medíocres se contemplam no espelho das suas frases. Qual a razão dessa viagem, Majestade?

-«Regressa com frequência a Abydos, exigira o meu pai, e vela por esse templo.» Tenho negligenciado as suas ordens e devo preocupar-me com esse santuário.

-Mas há mais.

-A pergunta: "O que é um faraó?".  Séthi respondia: "Aquele que torna o seu povo feliz". Como consegui-lo? Realizando atos benéficos para o Princípio e para os deuses, de forma a que recaiam sobre os homens.

-Não foi a rainha que vos aconselhou a agir assim?

-Com ela e por ela quero construir uma obra que produzirá essa energia luminosa de que temos tanta necessidade e que protegerá o Egito e a Núbia da infelicidade.

-Está escolhido o local?

-No coração da Núbia, Hathor marcou com a sua presença um lugar denominado Abu Simbel. Encarnando nas pedras, a dama das estrelas revelou o segredo do seu amor. É ele que quero oferecer a Néfertari, para que ela se torne para sempre a Dama de Abu Simbel.

Barbudo, com cabelos hirsutos, sentado nos calcanhares com os joelhos dobrados à sua frente, o cozinheiro servia-se de uma folha de palmeira para atiçar o fogo de um fogareiro sobre o qual cozia um ganso devidamente preparado; enfiara um espeto pelo bico e pescoço do volátil e mantinha-o assim bem direito sobre o calor. Quando tivesse terminado, depenaria um pato, retirar-lhe-ia as entranhas, cortar-lhe-ia a cabeça, a extremidade das asas e as patas e enfiá-lo-ia também no espeto para o fazer assar em lume brando.

Uma nobre dama interpelou-o.

-As vossas aves estão todas reservadas?

-Quase todas.

-Se vos encomendar um pato, podeis prepará-lo já?

-Bem... Agora estou muito ocupado.

Dolente, a irma de Ramsés, endireitou a alça esquerda do vestido que tinha tendência para deslizar. Depois, a volumosa morena depositou um pote de mel aos pés do cozinheiro.

-O teu disfarce é perfeito, Chénar. Se não me tivesses marcado encontro neste lugar exato não te teria reconhecido.

-Soubeste alguma coisa importante?

-Acho que sim... Assisti à grande audiência do casal real.

-Volta daqui a duas horas; dar-te-ei o teu pato, acabarei o trabalho e seguir-me-ás. Conduzir-te-ei até Ofir.

Na orla dos armazéns, o bairro dos cozinheiros e talhantes só tinha sossego depois do cair da noite. Alguns aprendizes, pesadamente carregados, dirigiam-se para as villas dos ricos para entregarem ótimas peças de carne que seriam servidas nos banquetes.

Chénar meteu por uma ruela deserta, deteve-se em frente de uma porta baixa pintada de azul e bateu quatro pancadas espaçadas. Logo que a porta se abriu, fez sinal a Dolente para entrar. A volumosa mulher forçou-se a si própria a penetrar num compartimento de teto baixo, cheio de cestos. Chénar ergueu um alçapão e ele e a irma desceram uma escada de madeira que ia dar a uma cave.

Quando viu o mago Ofir, Dolente prostrou-se e beijou-lhe a orla da  tunica.

-Receava tanto não vos ver nunca mais!

-Prometera-vos que regressaria. Os dias de meditação na Cidade do Sol fortaleceram a minha fé em Aton, o deus único que amanha reinará sobre este país.

De olhos extasiados, Dolente contemplou o mago com cara de ave de rapina. Ele o profeta da verdadeira fé, fascinava-a. Amanhã, a sua força guiaria o povo; amanhã, derrubaria Ramsés.

-O vosso auxílio é-nos muito precioso-disse Ofir com voz doce e profunda.-Sem vós, como poderíamos lutar contra esse tirano ímpio e detestado?

-Ramsés já não desconfia de mim; estou mesmo convencida que deposita em mim toda a confiança devido à minha intervenção favorável ao seu amigo Moisés.

-Quais são as intenções do rei?

-Confiou a gestão dos protetorados do Norte aos filhos reais, sob as ordens de Acha.

-Esse diplomata maldito!-rugiu Chénar.-Enganou-me e fez troça de mim. Hei-de vingar-me, hei-de espezinhá-lo, hei-de...

-Há coisas mais urgentes-cortou Ofir secamente.-Ouçamos Dolente.

A irmã de Ramsés sentia-se orgulhosa por desempenhar um papel importante.

-O par real vai fazer uma longa viagem.

-Qual é o destino?

-O Alto Egito e a Núbia.

-Conheceis a razão?

-Ramsés quer oferecer um presente extraordinário à rainha. Um templo, parece.

-E essa a única razão do seu deslocamento?

-O Faraó quer reanimar as potências divinas, reuni-las, exaltar a sua energia e tecer uma rede protetora que estenderá sobre todo o Egito.

Chénar troçou.

-Terá o meu bem-amado irmão perdido o juízo?

-Não-protestou Dolente.-Sabe-se ameaçado por adversários misteriosos; não tem outra solução senão fazer apelo aos deuses e  constituir um exército invisível para lutar contra os inimigos que receia.

-- Está a ficar louco-considerou Chénar-e mergulha na sua demencia. Um exército de divindades... É ridículo! o irmão do rei sentiu pesar sobre si o olhar gelado de Ofir.

-Ramsés tomou consciência do perigo-disse Ofir.

-Não acreditais com certeza que...

Chénar interrompeu-se. Do mago emanava uma violência aterradora; de repente. o irmão mais velho do monarca deixou de duvidar dos poderes ocultos do líbio.

-Quem protege o pequeno Kha?-perguntou Ofir a Dolente.

-Sétaou, o encantador de serpentes. Transmite a sua ciência ao filho de Ramsés e rodeou-o de forcas que o protegem de qualquer agressão venha ela de onde vier.

-As serpentes possuem a magia da terra-- reconheceu Ofir-e quem lida com elas conhece-a. Graças ao pincel do garoto conseguirei no entanto destruir esse sistema de defesa. Mas vou precisar de mais tempo do que estava previsto.

O coração de Dolente revoltou-se com a idéia de Kha ter de sofrer o ataque dos espíritos, mas a sua razão vergou-se à estratégia do mago.

Essa agressão enfraqueceria Ramsés diminuiria o seu poder e talvez o levasse a abdicar. Fosse qual fosse a crueldade do golpe, Dolente não se  oporia.

-Temos de separar-nos-considerou Ofir.

Dolente agarrou-se à túnica do mago.

-Quando tornarei a ver-vos?

-Chénar e eu vamos deixar a capital por algum tempo; não podemos permanecer muito tempo no mesmo lugar. Sereis a primeira a ser avisada do nosso regresso. Entretanto. continuai a recolher informações.

-Continuarei a propagar a verdadeira fé-afirmou ela.

-E haverá preocupação mais importante?-murmurou Ofir com um sorriso cúmplice.

 

Para festejar a absolvição de Moisés, os fabricantes de tijolos hebreus tinham organizado um enorme banquete no bairro popular onde residiam: paes triangulares, estufados de pombo, codornizes recheadas, compota de figos, vinho forte e cerveja fresca foram oferecidos aos convivas que cantaram durante toda a noite, entoando várias vezes o nome de Moisés, tornado o mais popular dos hebreus.

Cansado do barulho, este afastou-se do local da festa quando os seus partidários já estavam demasiado bêbados para se aperceberem da sua ausência. Moisés sentia necessidade de estar só e de pensar nas lutas que se avizinhavam. Persuadir Ramsés a deixar sair do Egito a totalidade do povo hebreu não ia ser fácil. No entanto, tinha de cumprir, custasse o que custasse, a missão que Yahvé Ihe confiara; para o conseguir, moveria montanhas.

Moisés sentou-se na beira da mó do bairro. Dois homens dirigiram-se a ele: dois beduínos, o calvo e barbudo Amos e o magro Baduch.

-O que fazeis aqui?

-Associamo-nos a esta alegria-declarou Amos.

-Pois não se trata de um momento privilegiado?

-Não sois hebreus.

-Podemos ser vossos aliados.

-Não tenho necessidade de vós.

-Não estará o teu clã a sobrestimar as suas forças? Sem armas não conseguirás realizar os teus sonhos.

-Temos as nossas armas. mas não as vossas.

-Se os hebreus se aliarem aos beduínos-afirmou Baduch- formarão um verdadeiro exército.

-Para que serviria?

-Para combater os egípcios e vencê-los!

-É um sonho perigoso.

-Tu, Moisés, ousas criticar este sonho? Fazer sair o teu povo do Egito, desafiar Ramsés, colocar-te acima das leis deste país... Não será um sonho igualmente condenável e perigoso?

-Quem te falou dos meus projetos?

-Nem um único fabricante de tijolos os ignora! Atribuem-te promeiro a intenção de brandir o estandarte de Yahvé, o deus guerreiro e apoderar-te das Duas Terras.

-Os homens deliram com facilidade quando um grande projeto altera os seus hábitos.

Os olhos manhosos de Baduch brilharam com um clarão maldoso.

-Só falta que tenciones insubordinar os hebreus contra a Administração egípcia.

-Afastai-vos do meu caminho, tanto um como outro.

-Fazes mal, Moisés-insistiu Amos.-O teu povo será obrigado a combater e não tem qualquer experiência nesse campo. Poderíamos servir-lhes de instrutores.

-Parti e deixai-me meditar.

-Como queiras... Havemos de tornar a ver-nos.

Deslocando-se com os seus burros como simples camponeses e dispondo de uma autorização para circular passada por Méba, os dois beduínos detiveram-se num campo a sul de Pi-Ramsés. Mal tinham começado a comer cebolas doces, pão fresco e peixe seco, dois homens vieram sentar-se a seu lado.

-Como decorreu a entrevista?-perguntou Ofir.

-Esse Moisés é teimoso-confessou Amos.

-Ameacem-no-exigiu Chénar.

-Não serviria de nada. Há que deixá-lo envolver-se nos seus projetos insensatos. Em qualquer momento acabará por ter necessidade de nós.

-Os hebreus aceitaram-no?

-A absolvicão coloca-o na categoria de herói e os fabricantes de tijolos estão convencidos que ele defenderá os seus direitos como antigamente.

-O que pensam do seu projeto?

-É muito contestado, mas aquece o sangue de alguns jovens que sonham com a independência.

-Encorajemo-los- disse Chénar.-Provocando distúrbios, enfraquecerão o poder de Ramsés. Se este desencadear uma repressão, isso torná-lo-á impopular.

Amos e Baduch eram os dois sobreviventes da rede de espionagem que atuara no Egito durante vários anos. Encontrando-se fora do circuito dos mercadores, não tinham sido detectados por Serramanna e dispunham de importantes apoios no Delta.

A reunião de Ofir, Chénar, Amos e Baduch era um verdadeiro conselho de guerra, marcando o arranque da ofensiva contra Ramsés.

-Onde se encontram as tropas hititas?-perguntou Ofir.

-De acordo com os informadores beduínos-respondeu Baduch -estão acampadas nas suas posições, na região de Kadesh. A guarnição foi reforçada prevendo um assalto do exército egípcio.

-Conheço o meu irmão-ironizou Chénar.

-Não resistirá ao desejo de atacar a direto e em força! Durante a hatalha de Kadesh, Amos e Baduch, fazendo-se passar por prisioneiros assustados, tinham mentido a Ramsés para o atrairem a uma emboscada da qual ele não teria podido escapar. Guardavam do seu fracasso uma recordação dolorosa que tinham urgência em apagar.

-Quais são as indicações do Hatti?-perguntou o mago a Baduch.

-Desestabilizar Ramsés por todos os meios.

Ofir sabia perfeitamente o que significava aquela ordem vaga. Por um lado, o Egito reconquistara os seus protetorados e os hititas não se sentiam em condições para os recuperarem; por outro, o filho e o irmão do imperador deviam travar uma luta encarniçada para se apoderarem do poder que o imperador Mouwattali ainda detinha, mas por quanto tempo?

A derrota de Kadesh, o fracasso da contra-ofensiva em Canaã e na Síria, a ausência de reacão à reconquista dos seus territórios pelo Egito, pareciam provar que o império hitita estava enfraquecido por causa dos seus conflitos. Mas esta triste realidade não impediria Ofir de prosseguir a sua missão. Quando Ramsés fosse ferido de morte, um novo fogo inflamaria o Hatti.

-Vocês os dois-ordenou Ofir a Baduch e Amos-continuem a infiltrar-se entre os hebreus. Os vossos homens que se declarem adeptos de Yahvé e encoragem os fabricantes de tijolos a seguir Moisés. Dolente, a irma do rei, informar-nos-á sobre a evolução do que se vai passando na corte durante a ausência do par real. Eu ocupar-me-ei de Kha, sejam quais forem as proteções de que está rodeado.

-Reservo Acha para mim-resmungou Chénar.

-Tendes coisa melhor a fazer-afirmou Ofir.

-Quero matá-lo com as minhas próprias mãos antes de eliminar o meu irmão!

-E se começasseis por este? A proposta do mago despertou em Chénar uma nova labareda de ódio em relação ao tirano que Ihe roubara o trono.

-Regresso a Pi-Ramsés para coordenar os nossos esforços; vós, Chénar, segui em direção ao Sul.

Chénar coçou a barba.

-Atrasar Ramsés... É essa a vossa intenção?

-Espero mais de vós.

-Com que meios? Ofir via-se obrigado a revelar a estratégia de Mouwattali.

-Os hititas invadirão o Delta e os núbios passarão a fronteira e atacarão Elefantina. Ramsés não conseguirá apagar os incêndios que iremos ateando em vários pontos ao mesmo tempo.

-Quais serão os meus apoios?

-Um esquadrão de guerreiros bem treinados que vos esperam perto da Cidade do Sol, e chefes de tribos núbias que há vários meses cobrimos de presentes. Avançando para o coração dessa região, Ramsés ignora que se lança de cabeça numa emboscada. Fazei com que não saia de lá vivo.

Um amplo sorriso iluminou o rosto de Chenár.

-Não creio nem em Deus nem nos deuses, mas corneço a acreditar de novo na minha sorte. Porque não me haveis falado mais cedo desses preciosos aliados?

-Tinha ordens para tal-precisou Ofir.

-E estais a transgredi-las hoje?

-Tenho confiança em vós, Chénar. Atualmente, já nada ignorais dos objetivos que me foram fixados.

Irritado, o irmão de Ramsés arrancou algumas ervas, lançou-as ao vento, ergueu-se e deu alguns passos. Obtinha finalmente a possibilidade de agir a seu belo prazer, longe da presença do mago. Ofir utilizava demasiado a magia, a manhã e as forças subterrâneas; ele, Chénar, adotaria uma estratégia menos complicada e mais brutal.

Já Ihe fervilhavam mil ideias na cabeça. Interromper a viagem de Ramsés de forma definitiva... Não tinha outro objetivo.

Ramsés... Ramsés o Grande, cujo insolente sucesso Ihe roía o coração! Chénar não se iludia sobre as suas próprias insuficiências, mas possuía uma qualidade que nenhuma desilusão tinha conseguido abalar: a obstinação. A medida da envergadura do adversário era o seu rancor, dia a dia crescente, que Ihe dava força para enfrentar o senhor das Duas Terras.

Por instantes, envolto na paz do campo, Chénar vacilou.

O que tinha a censurar a Ramsés? Desde o início do seu reinado, o sucessor de Séthi não tinha cometido qualquer erro, nem contra o seu país nem contra o seu povo. Colocara-os ao abrigo da adversidade, comportara-se como um valoroso guerreiro, garantira a prosperidade e a justiça.

Que tinha ele a censurar-lhe, exceto o fato de ser Ramsés o Grande?

Por ocasião de um conselho que reunia os principais representantes da casta dos militares e dos comerciantes, o imperador Mouwattali recordou as palavras de um dos seus predecessores: "Nos nossos dias, o assassínio tornou-se uma prática corrente na família real; a rainha foi assassinada, o filho do rei foi igualmente assassinado. Para evitar semelhantes dramas, torna-se necessário impor uma lei: que ninguém mate um membro da família real, que ninguém desembainhe a espada ou o punhal contra ele e que todos se entendam para encontrar um sucessor para o soberano.» Afirmando convictamente que a sua sucessão não estava aberta, o imperador felicitou-se por o tempo dos assassínios ter já passado e reiterou a sua confiança em Hattousil, seu irmão, e em Ouri-Téchoup, seu filho. Confirmou a este último a sua função de comandante-chefe do exército; ao irmão, atribuiu o encargo de estimular a economia e manter sólidos laços com os aliados estrangeiros do Hatti. Por outras palavras, retirava a Hattousil o seu poder militar e tornava Ouri-Téchoup intocável.

Perante o sorriso triunfante de Ouri-Téchoup e o rosto perturbado de Hattousil, não era difícil identificar o sucessor que Mouwattali escolhera sem pronunciar o seu nome.

Exausto e curvado, envolto no seu abafo de la vermelha e negra, o imperador não comentou as suas decisões e retirou-se, rodeado pela sua guarda pessoal.

 

Louca de raiva, a bela sacerdotisa Poutouhépa espezinhou os brincos de prata que o marido, Hattousil, Ihe oferecera na véspera.

-É incrível! O imperador teu irmão coloca-te mais baixo que o chão e tu nem sequer tinhas sido avisado disso!

-Mouwattali é um homem secreto... E continuo a conservar funções importantes.

-Sem o exército, não passas de um fantoche submetido à boa vontade de Ouri-Téchoup.

-Mantenho sólidas amizades entre os generais e oficiais das fortalezas que protegem a nossa fronteira.

-Mas o filho do imperador reina já como senhor na capital!

-Ouri-Téchoup assusta os espíritos moderados.

-Quantas riquezas teremos de oferecer-lhes de forma a convencê-los a não passarem para o campo dele?

-Os comerciantes auxiliar-nos-ão.

-Porque mudou o imperador de opinião? Parecia hostil ao filho e tinha aprovado o meu projeto para o suprimir.

-Mouwattali nunca age por impulso-lembrou Hattousil.- Considerou com certeza as ameaças da casta militar. Acalmou-a devolvendo a Ouri-Téchoup os seus antigos privilégios.

-É aberrante! Esse louco pela guerra aproveitará para se apoderar do poder.

Hattousil refletiu durante algum tempo.

-Pergunto a mim mesmo se o imperador não procurou transmitir-nos uma mensagem de forma subtil. Ouri-Téchoup torna-se o homem forte do Hatti e portanto nós deixamos de parecer-lhe dignos de importancia. Não será o melhor momento para o abater? Estou convencido que o imperador te recomenda desta forma que te apresses. É preciso atacar e atacar muito depressa.

-Esperava que Ouri-Téchoup viesse um destes dias orar ao templo da deusa Ishtar para interrogar os especialistas da adivinhação.

Depois desta nomeação, a consulta das entranhas de abutre é urgente! O novo chefe do exército hitita deve ter pressa em conhecer o seu futuro. Serei eu a oficiar. Quando o tiver morto, explicarei que foi vítima da cólera do céu.

Pesadamente carregados com estanho, tecidos e produtos alimentares, os burros entravam na capital hitita a passo lento e regular. Os chefes das caravanas conduziam-nos para um balcão onde um mercador verificava a lista e a quantidade dos produtos, fazia notas de débito, assinava contratos e ameaçava os maus pagadores com processos judiciais.

O principal representante da casta dos mercadores, um sexagenário obeso, deambulava pelo bairro dos comerciantes. Observava com olhar atento as transacões e não deixava de intervir em caso de litígio.

Quando Hattousil se cruzou com ele, perdeu o sorriso comercial. Com os cabelos presos por uma tira, envergando um traje multicor, o irmão do imperador parecia mais nervoso do que o habitual.

-As notícias são más-declarou o comerciante.

-Há aborrecimentos com os fornecedores?

-Não, pior do que isso: com Ouri-Téchoup.

-Mas... Foi a mim que o imperador confiou a gestão da economia!

-Ouri-Téchoup não parece preocupado com isso.

-Que abusos cometeu?

-O filho do imperador decidiu lançar um novo imposto sobre to- das as transacões comerciais para poder pagar melhor aos soldados.

-Vou emitir um enérgico protesto.

-Inútil; é tarde demais.

Hattousil era um náufrago perdido na tempestade; pela primeira vez, o imperador não Ihe fizera qualquer confidência e ele, o seu próprio irmão, sabia uma notícia importante não pela boca de Mouwattali mas do exterior.

-Pedirei ao imperador que anule esse imposto.

-Falhareis!-previu o comerciante.

-Ouri-Téchoup quer restaurar o poderio militar hitita esmagando a casta dos comerciantes e despojando-a das suas riquezas.

-Opor-me-ei.

-Que os deuses vos auxiliem, Hattousil.

Há mais de três horas que Hattousil esperava numa pequena sala fria do palácio do imperador. Habitualmente, entrava sem cerimônia nos aposentos privados do irmão; desta vez, dois membros da guarda pessoal de Mouwattali tinham-lhe impedido a entrada e um camareiro ouvira o seu pedido sem nada prometer.

Em breve seria noite. Hattousil dirigiu-se a um dos guardas.

-Preveni o camareiro que não esperarei muito mais tempo.

O soldado hesitou, consultou o companheiro com o olhar e depois desapareceu por instantes. O outro parecia pronto a trespassar Hattousil com a lança se este tentasse forçar a passagem.

O camareiro reapareceu, escoltado por seis guardas de rosto hostil.

O irmão do imperador pensou que iam prendê-lo e metê-lo na prisão de onde não voltaria a sair.

-O que desejais?-perguntou o camareiro.

-Ver o imperador.

-Não vos disse já que não receberia ninguém hoje? É inútil esperar mais tempo.

Hattousil afastou-se; os guardas permaneceram imóveis.

Quando ia a sair do palácio, cruzou-se com Ouri-Téchoup. transbordante de energia. Com um sorriso de ironia nos lábios, o comandante-chefe do exército hitita nem sequer cumprimentou Hattousil.

Do alto do terraço do palácio, o imperador Mouwattali contemplou a sua capital, Hattousa. Enorme rochedo fortificado no coração das estepes áridas, fora edificada para dar testemunho da existência de uma força invencível. Ao vê-la, qualquer invasor retrocederia. Ninguém se apoderaria das suas torres, ninguém alcançaria a acrópole imperial que dominava os templos das divindades.

Ninguém, excepto Ramsés.

Desde que esse faraó subira ao trono do Egito, fazia vacilar a grande fortaleza e desferia severos golpes no império. A hipótese horrível da derrota atravessava por vezes a mente de Mouwattali; em Kadesh evitara o desastre, mas continuaria a sorte do seu lado? Ramsés era jovem, conquistador, amado dos céus, e não desistiria antes de ter eliminado a ameaça hitita.

Ele, Mouwattali, o chefe de um povo guerreiro, devia elaborar outra estratégia.

O camareiro anunciou a visita de Ouri-Téchoup.

-Que entre.

O passo marcial do militar fez tremer as lajes do terraço.

-Que o deus da tempestade vele por vós, meu pai! O exército em hreve estará pronto para reconquistar o território perdido.

-Não acabas de lançar um novo imposto que desagrada aos comerciantes?

-São covardes e oportunistas! As suas riquezas servirão para reforçar o nosso exército.

-Estás a intrometer-te no território que confiei a Hattousil

-- O que me interessa Hattousil! Não haveis recusado recebê-lo?

-Não tenho que justificar as minhas decisões.

-Haveis-rne escolhido como sucessor, meu pai e tivestes razão.

O exército está entusiasmado e o povo sereno. Contai comigo para reafirmar o nosso poderio e massacrar os egípcios.

-Conheço a tua coragem. Ouri-Téchoup, mas ainda tens muito que aprender. A política externa do Hatti não perpétuo com o Egito.

-Só há duas espécies de homens: os vencedores e os vencidos.

Os hititas só podem pertencer à primeira categoria, graças a mim triunfaremos.

-Contenta-te em obedecer às minhas ordens

-Quando atacaremos?

-Tenho outros projetos, meu filho.

-Porque havemos de retardar um conflito que o império exige?

-Porque devemos negociar com Ramsés.

-Nós, os hititas, negociar com o inimigo... Haveis perdido a razão, meu pai?

- Proíbo-te que me fales nesse tom!-irritou-se Mouwattali.- Ajoelha-te perante o teu imperador e apresenta-lhe desculpas.

Ouri-Téchoup permaneceu imóvel, com os braços cruzados.

-Obedece, ou eu...

Com a respiração entrecortada, os lábios deformados por um rito e os olhos esgazeados, Mouwattali levou as mãos ao peito e caiu sobre as lajes.

Ouri-Téchoup limitou-se a observá-lo.

-O meu coração... o meu coração parece uma pedra... Chama o médico do palácio...

-Exijo plenos poderes. Serei eu que darei ordens ao exército daqui em diante.

-Um médico, depressa...

-Renunciai a reinar.

-Sou teu pai... Vais deixar-me... morrer?

-Renunciai a reinar!

-Re... renuncio. Dou-te... a minha palavra.

 

O conselho dos chefes de tribo ouviu Moisés com atenção. A absolvição aumentara a sua popularidade de tal forma que a voz daquele a quem chamavam "o profeta" devia ser ouvida.

-Deus protegeu-te-constatou Libni com voz rouca.-Dirige-Ihe os teus louvores e passa o resto da tua existência em oração.

-Sabes quais são as minhas verdadeiras intenções.

-Não forces a tua sorte, Moisés.

-Deus ordenou-me que fizesse o povo hebreu sair do Egito e obedecer-lhe-ei.

Aarão bateu no solo com o seu cajado.

-Moisés tem razão; devemos conseguir a nossa independência.

Quando vivermos na nossa terra, conheceremos finalmente a felicidade e a prosperidade. Saiamos todos juntos do Egito, cumpramos a vontade de Yahvé!

-Porque havemos de arrastar o nosso povo pelo caminho da desgraça?-insurgiu-se Libni.

-O exército massacrará os insurretos, a polícia prenderá os revoltados!

-Afastemos o medo-recomendou Moisés.

-É na nossa fé que encontraremos a força para vencer o Faraó e evitar a sua cólera.

-Não bastará que sirvamos a Yahvé nesta terra onde nascemos?

-Deus manifestou-se e falou-me-lembrou Moisés.

-Foi Ele que traçou o nosso destino. Recusá-lo provocaria a nossa perda.

 

Kha estava fascinado. Sétaou falava-lhe da energia que circula no universo e anima todos os seres, do grão de areia à estrela, energia concentrada nas estátuas das divindades. No interior dos templos aos quais Sétaou Ihe dava acesso, o filho mais velho de Ramsés não conseguia arrancar-se à contemplação dos seus corpos de pedra.

A crianca estava maravilhada. Um sacerdote tinha-lhe purificado as mãos e os pés e vestira-o com um saiote branco, antes de exigir que purificasse a boca com natrão. Logo ao dar os primeiros passos no interior do santuário, mundo perfumado e silencioso. Kha sentira a presença de uma força estranha, essa "magia que ligava entre si os elernentos da vida" e de que o Faraó se alimentava para poder com ela alimentar o seu povo.

Sétaou levou Khà a descobrir o laboratório do templo de Amon, cujas paredes estavam cobertas de textos revelando os segredos da fabricação dos unguentos rituais e dos remédios utilizados pelos deuses para tratar o olho de Hórus de forma a que o mundo não fosse privado de luz.

Kha lia os textos com avidez e conservava na memória o máximo de hieróglifos que podia; teria gostado de passar algum tempo nos santuários para os estudar em pormenor. Era gracas àqueles sinais portadores de vida que se transmitia a sabedoria dos antigos.

-Aqui se revela a verdadeira magia-fez notar Sétaou.

-É a arma que Deus deu aos homens para poderem afastar a infelicidade e não sucumbirem à fatalidade.

-Podermos escapar ao nosso destino?

-Não mas podemos vivê-lo conscientemente; não será isso repelir os golpes da sorte? Se souberes tornar o quotidiano mágico, disporás de uma força que te permitirá conhecer os segredos do céu e da terra, do dia e da noite, das montanhas e do rio; compreenderás a linguagem das aves e dos peixes, renascerás de madrugada na companhia do sol e verás o poder divino pairar sobre as águas.

-Ensinar-me-ás as fórmulas de conhecimento?

-Talvez, se fores preserverante e se saíres vitorioso do combate contra a vaidade e a preguiça.

-Lutarei com todas as minhas forças!

-O teu pai e eu partimos para o Grande Sul e estaremos ausentes vários meses.

Kha ficou carrancudo.

-Gostava que ficasses e me ensinasses a verdadeira magia.

-Transforma esta provação em conquista. Virás aqui todos os dias e impregnar-te-ás com os signos sagrados que vivem na pedra; estarás assim protegido de qualquer agressão externa. Para maior segurança, vou dar-te um amuleto e uma fita protetora.

Sétaou ergueu a tampa de uma arca de madeira dourada e tirou dela um amuleto em forma de haste de papiro, simbolizando o vigor e o desenvolvimento. Pendurou-o num cordão e passou-o em torno do pescoço de Kha. Depois, desenrolou uma tira de pano e, com tinta fresca, desenhou um olho são e completo; quando a tinta secou, enrolou a fita em torno do pulso esquerdo do rapazinho.

- Tem cuidado para não perderes nunca este amuleto nem este papiro; impedirão as energias negativas de penetrar no teu sangue. Foram carregados de fluído pelos sacerdotes magnetizadores e atuam de forma preventiva.

-São as serpentes que possuem as fórmulas?

-Sabem mais do que nós sobre a vida e a morte, as duas faces da realidade; compreender a sua mensagem é o princípio de qualquer ciência.

-Gostava de ser teu aprendiz e preparar remédios.

-O teu destino não é tratar mas sim reinar.

-Não quero reinar! Do que gosto é dos hieróglifos e das fórmulas de conhecimento. Um faraó tem que encontrar-se com muitas pessoas e resolver muitos problemas. Eu prefiro o silêncio.

-A existência não se curva aos nossos desejos.

-Claro que sim, visto que possuímos a magia!  Moisés almoçava com Aarão e dois chefes de tribo a quem a ideia do êxodo seduzira.

Bateram à porta. Aarão abriu e Serramanna entrou.

-Moisés está aqui? Os dois chefes de tribo colocaram-se em frente do profeta.

-Segue-me, Moisés.

-Onde o levas?-perguntou Aarão.

-Isso não vos diz respeito. Não me obriguem a utilizar a força.

 Moisés avançou.

-Eu vou, Serramanna.

 O sardo fez o hebreu subir para o seu carro. Escoltado por dois outros veículos da guarda, saiu a toda a velocidade de Pi-Ramsés, atravessou os campos cultivados e bifurcou para o deserto.

Serramanna deteve-se ao pé de uma colina que dominava uma vasta extensão de areia e pedregulhos.

-Sobe até lá cima, Moisés.

A subida não tinha qualquer dificuldade.

Sentado num rochedo desgastado pelo vento, Ramsés esperava.

-Gosto tanto do deserto como tu, Moisés. Não vivemos horas inolvidáveis no início. O profeta sentou-se ao lado do faraó e olharam juntos na mesma direcão.

-Qual é o deus que te domina, Moisés?

-O Deus único, o verdadeiro Deus.

-Tendo sido instruído com a sabedoria do Egito, abriras o teu espírito às múltiplas facetas do divino.

-Não tentes reconduzir-me ao passado. O meu povo tem um futuro e esse futuro cumprir-se-á longe do Egito. Permite aos hebreus que par- tam para o deserto, a três dias de caminho. para aí sacrificarem a Yahvé.

-Sabes bem que é impossível. Para essa estadia seria necessária uma grande protecão do exército. Nas circunstâncias atuais, não seria de excluir a eventualidade de um ataque de beduínos, que faria numerosas vítimas entre uma população desarmada.

-Yahvé proteger-nos-á.

-Os hebreus são meus súditos e sou responsável pela sua segurança.

-Somos teus prisioneiros.

-Os hebreus são livres de andarem de um lado para outro à vontade, de entrar no Egito e de sair, desde que respeitem a lei. O que me pedes, em tempo de guerra, é uma loucura. Além disso, muitos não te seguiriam.

-Guiarei o meu povo para a Terra que Ihe está prometida.

-Onde fica?

 -Yahvé revelar-nos-á.

-Os hebreus são assim tão infelizes no Egito?

-Pouco importa isso. Apenas conta a vontade de Yahvé.

-Porquê tanta rigidez? Existem em Pi-Ramsés santuários onde são acolhidos os deuses estrangeiros. Os hebreus podem viver a sua crença à vontade.

-Isso já não nos basta; Yahvé não tolera a presença dos falsos deuses.

-Não estás a desvairar, Moisés? Desde sempre, no nosso país, os sábios veneraram a unidade do divino no seu Princípio e a sua multiplicidade na manifestação. Quando Akhénaton tentou impor Aton em detrimento das outras forças criadoras, cometeu um erro.

-A sua doutrina revive hoje, purificada de todas as escórias.

-Promover um deus único e exclusivo impediria as trocas de divindades entre os países e sufocaria a esperança de fraternidade entre  os povos.

-Yahvé é o protetor e o socorro dos justos.

-Esqueces Amon? Expulsa o mal, ouve a oração daquele que implora com um coração amante, acorre de imediato a quem o chama.

Amon é o médico que dá vida ao cego sem utilizar remédios, ninguém escapa ao seu olhar e é simultaneamente uno e múltiplo.

-Os hebreus não veneram Amon mas sim Yahvé; e será Yahvé que os conduzirá ao seu destino.

-Uma doutrina rígida conduz à morte, Moisés.

-A minha decisão está tomada e mantê-la-ei. É essa a vontade de Deus.

-Não será vaidade acreditares que és o seu único depositário?

-A tua opinião é-me indiferente.

-A nossa amizade desapareceu então?

-Os hebreus escolher-me-ao como seu chefe; tu és o senhor do país que nos retém prisioneiros. Sejam quais forem as amizade e a estima que tenha por ti, devem apagar-se por trás da minha missão.

-Obstinando-te assim ofenderás a Regra de Maat.

-Que me interessa!

-Consideras-te superior à norma eterna do universo, que existia antes da humanidade e que perdurará depois da sua extinção?

-A única lei que os hebreus respeitam é a de Yahvé. Concedes-nos autorização para irmos para o deserto e lá celebrarmos sacrilícios em sua honra?

-Não, Moisés; durante a guerra contra os hititas não posso permitir-me correr semelhante risco. Nenhuma perturbação deve desorganizar o nosso sistema defensivo.

-Se persistires em recusar, Yahvé animará o meu braço e realizarei prodígios que mergulharão o teu país no desespero.

Ramsés ergueu-se.

-As tuas certezas, meu amigo, acrescenta mais esta: nunca cederei à chantagem.

 

A caravana avançava por uma zona árida. A embaixada egípcia, composta por cerca de trinta homens a cavalo, escribas e militares, e por uma centena de burros carregados de presentes, avançava entre duas paredes rochosas nas quais tinham sido gravadas figuras gigantescas de guerreiros hititas em marcha para sul, para o Egito. Acha leu a inscrição: «Trace o deus da tempestade o caminho dos guerreiros e conceda-lhes a vitória».

O chefe da diplomacia egípcia tinha sido forçado já por várias vezes a repreender o pequeno grupo, assustado pelas paisagens angustiantes e pela presença de forças obscuras que percorriam as florestas, os desfiladeiros e os maciços montanhosos. Embora ele próprio se não sentisse muito à vontade, Acha apressava a marcha, satisfeito por ter evitado os bandos de salteadores que pululavam na região.

A embaixada saiu do desfiladeiro, seguiu ao longo de uma ribeira, passou em frente de outros rochedos igualmente decorados com anatólios em postura agressiva e depois avançou para uma planície batida pelos ventos. Ao longe, um promontório sobre o qual fora construída uma fortaleza, enorme e ameaçador marco fronteiriço do império.

Os próprios burros hesitaram em continuar; o guia teve que fazer apelo a todas as suas faculdades de persuasão para os convencer a avançar em direcão ao sinistro edifício.

Nas ameias havia archeiros preparados para disparar.

Acha ordenou aos membros da delegação que se apeassem dos cavalos e depositassem as armas no solo.

Brandindo um estandarte multicor, o arauto deu alguns passos em direção à entrada da praça forte.

Uma flecha quebrou a haste do estandarte, uma segunda cravou-se aos pés do arauto e uma terceira roçou-lhe o ombro. Com um esgar de dor, o homem voltou para trás.

Os soldados egípcios agarraram imediatamente nas suas armas.

-Não!-berrou Acha.-Não Ihes toqueis!

-Não vamos deixar-nos massacrar!-protestou um oficial.

-Este comportamento é anormal. Para que os hititas estejam tão irritáveis e na defensiva é preciso que tenham ocorrido acontecimentos graves no seio do império, mas em que sentido? Só o poderei saber depois de me ter encontrado com o comandante da fortaleza.

-Depois de um acolhimento destes, não pensais certamente...

-Tomai dez homens e galopai para as nossas posições avançadas; ordenai às tropas dos nossos protetorados que fiquem em estado de alerta, como se fossem sofrer um ataque hitita. Mandai os mensageiros informar o Faraó da situação, a fim de que a nossa linha defensiva nordeste esteja em pé de guerra. Logo que seja possível, farei chegar mais desenvolvidas informações.

Feliz por partir para uma região mais acolhedora, o oficial não precisou que Ihe repetissem as ordens. Designou os dez homens, levou o arauto ferido e conduziu o grupo a galope.

Os que ficaram com Acha estavam receosos. Este redigiu num papiro um texto em caracteres hititas com o seu nome e títulos, prendeu o documento na ponta de uma flecha e mandou-a atirar por um arqueiro que a fez cair junto da porta da fortaleza.

-Esperemos com paciência-recomendou Acha.-Ou nos recebem para discutir ou nos massacram.

-Mas... somos uma embaixada!-lembrou um escriba.

-Se os hititas exterminarem diplomatas que pedem para dialogar, é porque se iniciou uma nova fase da guerra. Não se tratará de uma informação capital? O escriba engoliu a saliva.

-Não poderíamos bater em retirada?

-Seria indecente. Representamos a diplomacia de Sua Majestade.

Pouco convencidos com a grandeza do argumento, o escriba e os seus colegas estavam com pele de galinha.

A porta da fortaleza abriu-se e deixou sair três cavaleiros hititas.

Um oficial com capacete e grossa couraça pegou na mensagem e leu-a. Depois, deu ordem aos seus homens para rodearem os egípcios.

-Segui-nos-ordenou.

O interior da fortaleza era tão sinistro como o exterior. Paredes frias, compartimentos gelados, uma armaria, dormitórios, soldados em atividade... Aquela atmosfera sufocante contraiu a garganta de Acha, mas animou os membros da sua embaixada, que se consideravam já como prisioneiros.

Depois de uma breve espera, o oficial com capacete reapareceu.

-Quem é o embaixador Acha? Este avançou.

-O comandante da fortaleza quer ver-vos.

Acha foi introduzido num compartimento quadrado, aquecido por uma lareira. Próximo desta encontrava-se um homem baixo, envergando um abafo de la grossa.

-Bem-vindo ao Hatti; sinto-me feliz por voltar a ver-vos, Acha.

-Posso manifestar a minha surpresa por vos encontrar aqui, Hattousil?

-Qual é a missão do ministro dos Negócios Estrangeiros do Faraó?

-Oferecer ao imperador grande quantidade de presentes.

-Estamos em guerra... É uma atitude bastante insólita!

-Terá o conflito entre os nossos países de durar eternamente? Hattousil não dissimulou a sua surpresa.

-O que devo compreender?

-Que gostaria de ser recebido pelo imperador para Ihe falar das intenções de Ramsés.

Hattousil aqueceu as mãos.

-Vai ser difícil... muito difícil.

-Quereis dizer impossível?

-Regressai ao Egito, Acha... Não, não posso deixar-vos partir...

Perante a perturbação do seu anfitrião, Acha ergueu o véu.

-Vim propor a paz a Mouwattali.

Hattousil voltou-se.

Isso é uma armadilha ou uma brincadeira?

-Ramsés deseja... a paz? Inverosímil!

-Compete-me convencer-vos e conduzir as negociações.

- Renunciai, Acha.

- Porquê? Hattousil avaliou a sinceridade do seu interlocutor. No ponto de que estava, o que podia arriscar se dissesse a verdade?

-O imperador foi vítima de uma crise cardíaca. Privado do uso da fala, paralizado, não é capaz de governar.

-Quem exerce o poder? Seu filho, Ouri-Téchoup, comandante supremo das forças armadas.

-Mouwattali não tinha confiança em vós?

- Encarregou-me da economia e da diplomacia.

- Sois portanto o meu interlocutor privilegiado.

- Já não sou nada, Acha. O meu próprio irmão me fechava a sua porta.

- Desde que fui informado do seu estado de saúde, refugiei-me nesta fortaleza cuja guarnição me é fiel.

-Ouri-Téchoup proclamar-se-á imperador?

- Logo que Mouwattali morra.

- Porque renunciais a lutar, Hattousil?

- Já não disponho de meios.

- Todo o exército está controlado por Ouri-Téchoup? r Há alguns oficiais que receiam o seu temperamento extremista, ,estão condenados ao silêncio.

- Estou pronto a ir à vossa capital e apresentar as minhas propostas.

-Ouri-Téchoup ignora a palavra paz! Não tendes qualquer hipótese de êxito.

-Onde está Poutouhépa, a vossa esposa?

-Não saiu de Hattousa.

-Isso não é uma imprudência? Hattousil voltou-se de novo para a lareira.

-Poutouhépa tem um plano para travar a ascensão de Ouri-Téchoup.

A nobre e altiva Poutouhépa meditava no templo de Ishtar há já três dias. Quanclo o especialista em adivinhação poisou sobre um altar o cadáver de um abutre abatido por um archeiro, compreendeu que chegara a sua hora.

Com um diadema de prata nos cabelos e envolta num longo vestido grená. Poutouhépa apertou o cabo do punhal que espetaria nas costas de Ouri-Téchoup quando este se inclinasse para as entranhas do abutre a convite do adivinho.

A bela sacerdotisa sonhara com uma paz impossível, com uma reconciliação entre todas as forças vivas do Hatti e com umas tréguas com o Egito, mas a existência de Ouri-Téchoup reduzia a zero tais projetos.

Só ela podia impedir esse demónio de levar a bom termo a sua obra de destruição, só ela podia oferecer o poder a seu marido Hattousil, que conduziria o império à via da razão.

Ouri-Téchoup fez a sua entrada no santuário.

Poutouhépa estava oculta atrás de uma coluna maciça, próxima do altar.

O filho do imperador não viera só; quatro soldados garantiam a sua segurança. Despeitada, Poutouhépa deveria renunciar e sair do templo sem ser vista, mas alguma vez disporia de melhor oportunidade? A partir de agora, Ouri-Téchoup nunca mais correria quaisquer riscos.

Se fosse suficientemente rápida, a esposa de Hattousil conseguiria suprimir o futuro déspota, mas seria abatida pelos seus guarda-costas.

Fugir a esse sacrifício seria uma covardia. Devia pensar no futuro do seu país e não na sua própria existência.

O adivinho abriu o ventre do abutre, de onde se evolou um odor horrível. Mergulhando as mãos nas entranhas, espalhou-as sobre o altar.

Ouri-Téchoup aproximou-se, deixando alguns metros entre ele e os guarda-costas. Poutouhépa apertou com força o cabo do punhal e preparou-se para saltar; teria de mostrar-se tão rápida como um gato selvagem e colocar toda a sua energia no gesto assassino.

O grito do adivinho pregou-a ao chão. Ouri-Téchoup recuou.

-Senhor, é horrível!

-O que vês nessas entranhas?

-É necessário suspender todos os vossos projetos... O destino é-vos desfavorável.

Ouri-Téchoup sentiu desejo de cortar o pescoço ao áugure, mas os membros da sua guarda pessoal espalhariam por toda a parte a desfavorável previsão. No Hatti, não era possível ignorar as afirmações dos adivinhos.

-Quanto tempo deverei esperar?

-Até que os presságios vos sejam favoráveis, senhor.

Furioso, Ouri-Téchoup saiu do templo.

A corte fervilhava de boatos contraditórios relativos à partida do casal real para o Sul; uns afirmavam que estava iminente, outros que tinha sido adiada sine die devido à situação incerta nos protetorados.

Alguns pensavam mesmo que o rei, apesar da presença dos "filhos reais" à frente dos regimentos, seria obrigado a partir de novo para a guerra.

A luz penetrava livremente no gabinete de Ramsés, recolhido perante a estátua de seu pai. Sobre a grande mesa acumulavam-se comunicações provenientes de Canaã e da Síria do Sul. Vigilante, o cão amarelo ouro, dormia no cadeirão do dono.

Améni irrompeu no gabinete.

-Uma mensagem de Acha!

-Autentificaste-a?

-É a sua escrita e mencionou o meu nome em criptografia.

-Como foi trazida?

-Por um dos membros da sua rede chegado do Hatti. A mensagem não esteve nas mãos de mais ninguém.

Ramsés leu o texto redigido por Acha e ficou assim a conhecer a amplitude das perturbações que ameaçavam dilacerar o império hitita.

Compreendia agora porque razão as anteriores comunicações o tinham obrigado a pôr em estado de alerta os fortins da fronteira nordeste.

-Os hititas estão incapacitados para nos atacar, Améni; a rainha e eu podemos partir.

 

Equipado com o seu amuleto e com o seu texto mágico, Kha copiava um problema de matemática que consistia em calcular o angulo ideal de uma rampa para içar pedras até ao cimo de um edifício em construção rodeado por montículos de terra. A irmã, Meritamon, aperfeiçoava-se cada dia mais na harpa e encantava o irmãozito Mérenptah, que começava a andar sob a vigilancia de Iset a Bela e de Matador. O enorme leão núbio, com os olhos semicerrados, comprazia-se em ver deambular o garotito, hesitante e desajeitado.

A fera ergueu a cabeça quando Serramanna surgiu no limiar do jardim. Detectando as intenções pacíficas do sardo, contentou-se em rosnar e retomou a posição de esfinge.

-Gostaria de conversar com Kha-disse o antigo pirata a Iset a Bela.

-Cometeu... algum erro grave?

-Não, claro que não; mas poderia auxiliar-me na miha investigação

-Logo que ele encontrar a solução do seu problema, mandá-lo-ei ter convosco.

Serramanna avançara.

Sabia que um mago líbio denominado Ofir matara a infeliz Lita, morta por ter acreditado numa miragem. Transformado no porta-voz da heresia de Akhénaton, dissimulara-se atrás dessa doutrina para melhor enganar certos espíritos e disfarçar o seu papel de espião ao serviço dos hititas. Já não se tratavam de hipóteses, mas de certezas obtidas com o interrogatório de um mercador ambulante que caíra na rede dos homens de Serramanna quando se apresentara no antigo domicílio de Chénar, onde Ofir se ocultara durante um longo período. É um fato que o personagem não passava de um modesto agente da rede hitita; como só trabalhava ocasionalmente para o mercador sírio Raia, o seu superior direto que regressara ao Hatti, não fora avisado do desmantelamento da organização oculta e da dispersão dos seus membros. Receando sevícias físicas, o interpelado dissera tudo o que sabia, permitindo a Serramanna decifrar algumas zonas de sombra.

Mas Ofir permanecia indetectável e Serramanna não estava convencido que Chénar tivesse encontrado a morte no deserto. Teria o mago tomado o caminho do Hatti em companhia do irmão de Ramsés?  A experiência do sardo ensinara-lhe que os seres maléficos nunca dei- xavam de fazer mal e que a sua imaginação não tinha limites.

Kha aproximou-se do gigante e ergueu os olhos para ele.

-És muito grande e muito forte.

-Concordas em responder às minhas perguntas?

-Sabes matemática?

-Sei contar os meus homens e as armas que Ihes entrego.

-Sabes construir um templo ou uma piramide?

-O Faraó confiou-me outra tarefa: deter os criminosos.

-Eu gosto de escrever e de ler os hieróglifos.

-Queria precisamente falar-te do pincel que te roubaram.

-Era o meu preferido. Tenho muita pena dele.

-Depois desse incidente, deves ter refletido. Tenho a certeza que tens suspeitas e que me ajudarás a identificar o culpado.

-Tens razão, refíeti mas não tenho a certeza de nada. Acusar qualquer pessoa de roubo é muito grave para falar levianamente.

A maturidade do rapazinho espantou o sardo; se existisse realmente qualquer indício, Kha não o teria ignorado.

-Notaste algum comportamento anormal nos que te rodeiam- insistiu Serramanna.

-Durante algumas semanas tive um novo amigo.

-Quem? --O diplomata Méba. De repente, interessou-se pelo meu trabalho; e também bruscamente desapareceu.

Um largo sorriso iluminou o rosto tisnado do sardo.

-Obrigado, príncipe Kha.

Em Pi-Ramsés, como nas outras cidades do Egito. a festa das flores era um dia de alegria popular. Como superiora de todas as sacerdotisas, Néfertari não esquecia que, desde a primeira dinastia, o governo do país repousara sobre um calendário de festas que celebravam o casamento do céu com a terra. Por intermédio dos rituais organizados pelo par real, todo o povo participava na vida dos, deuses.

Tanto nos altares dos templos como em frente de cada casa, a arte floral exibia os seus requintes. Aqui, grandes arranjos florais armados, ramos de palmeira e feixes de juncos; além, lótus, acianos e mandrágoras com os seus caules.

Dançando com tamborins redondos ou quadrados, agitando ramos de acácia, com grinaldas de acianos e papoilas, as servas da deusa Hathor percorriam as grandes artérias da capital, onde os seus pés pisavam milhares de pétalas.

Dolente, a irma de Ramsés, fizera questão de se mostrar ao lado da rainha, cuja beleza deslumbrava os que tinham a felicidade de a ver.

Néfertari pensava no seu desejo de rapariguinha de se tornar reclusa ao serviço de uma deusa, longe do mundo; como poderia ela ter imaginado os deveres de uma grande esposa real, cujo peso era cada vez mais esmagador? A procissão dirigia-se para o templo de Amon, saudada por alegres canticos.

-Já foi fixada a data da vossa partida, Majestade?-perguntou Dolente.

-O nosso barco far-se-á à vela amanhã-respondeu Néfertari.

-A corte está inquieta; murmura-se que a vossa ausência durará vários meses.

-É possível...

-Ireis realmente... até à Núbia?

-É essa a decisão do Faraó.

-O Egito precisa tanto de vós!

-A Núbia faz parte do nosso país, Dolente.

-É um país perigoso, às vezes...

-Não se trata de uma viagem de divertimento.

-Que tarefa pode ser assim tão urgente que vos chame para longe da capital? Néfertari sorriu, sonhadora.

-O amor, Dolente. Unicamente o amor.

-Não compreendo, Majestade.

-Pensava em voz alta-disse a rainha, distante.

-Gostaria tanto de vos ajudar... Que tarefa poderia realizar durante a vossa ausência?

-Apoiai Iset, se ela o desejar; o meu único desgosto é não ter tempo suficiente para me ocupar da educação de Kha e Meritamon.

-Que as divindades vos protejam como os protegem a eles Logo que a festa acabasse, Dolente transmitiria a Ofir as informações que tinha obtido. Ramsés e Néfertari cometiam um erro ao abandonar a capital durante um longo período, erro esse que os seus inimigos saberiam aproveitar.

Acompanhado pelo seu portador de sandálias, Méba tinha intenções de fazer um longo passeio de barco pelo lago de recreio de Pi-Ramsés. O diplomata sentia necessidade de refletir contemplando as águas calmas.

Arrastado num turbilhão, Méba já não era ele próprio. Quais eram as suas aspirações a não ser uma existência luxuosa e tranquila, um lugar destacado na alta função pública onde desenvolveria algumas sábias intrigas para firmar a sua posição? Afinal, era membro de uma rede de espionagem hitita, trabalhando para a destruição do Egito... Não, nunca tinha desejado isso.

Mas Méba tinha medo. Medo de Ofir, do seu olhar gelado, da sua violência mal contida. Não, já não podia escapar à armadilha. O seu futuro passava pela queda de Ramsés.

 O portador de sandálias chamou um alugador de barcas que dormia na margem. Serramanna interpôs-se.

-Posso ser-vos útil, senhor Méba? O diplomata sobressaltou-se.

-Não, acho que não...

-Pois eu acho que sim! Saber-me-ia muito bem um passeio neste lago maravilhoso. Autorizais-me a ser o vosso remador? O vigor físico do sardo assustava Méba.

-Como quiserdes.

Com o impulso de Serramanna, a barca rapidamente se afastou da margem.

-Que local delicioso! Infelizmente, vós e eu estamos tão sobrecarregados de trabalho que nem temos tempo para o apreciar.

-Qual a razão deste encontro?

-Acalmai-vos, não tenho a mínima intenção de vos interrogar.

-Interrogar-me, a mim?!

-Apenas preciso da vossa ahalizada opinião sobre um ponto delicado.

-Não tenho a certeza de vos poder ajudar.

-Haveis sido informado de um roubo estranho? Alguém roubou um dos pincéis de Kha.

Méba evitou o olhar do sardo.

-Roubado... Há a certeza?

-O testemunho do filho mais velho do rei é formal.

-Kha não passa de uma criança.

-Pergunto a mim mesmo se não tendes alguma ideia, mesmo que vaga, sobre a identidade do ladrão.

-Essa pergunta é insultante. Reconduzi-me imediatamente à margem.

Serramanna fez um sorriso de carnívoro.

-Foi um passeio muito instrutivo, senhor Méba.

A proa do barco real, Ramsés apertava Néfertari ternamente a si. O par real saboreava um momento de intensa felicidade, comungando com o espírito do rio? a grande tonte de alimentação nascida nos confins do universo e vinda à terra para transmitir o fluxo criador.

O nível da água era elevado e a navegação rápida graças ao bom vento do norte. O capitão estava permanentemente alerta porque a corrente fazia perigosos turbilhões; uma manobra errada podia levar ao naufrágio.

A beleza de Néfertari deslumbrava Ramsés cada dia mais. Nela convergiam a graça e a autoridade sobcrana, nela se realizava a aliança miraculosa de um espírito luminoso e de um corpo perfeito. Esta longa viagem para o Sul seria a do amor que o rei sentia por uma mulher sublime cuja simples presença encarnava a serenidade, tanto para o Faraó como para o seu povo Desde que vivia com Néfertari, Ramsés compreendia por que razão os sábios tinham exigido que o Egito fosse dirigido por um casal real cujo olhar fosse apenas um.

Depois de nove anos de reinado, Ramsés e Néfertari, sentiam-se enriquecidos pelas provações e tão enamorados um do outro como no instante em que tinham compreendido que percorreriam juntos o caminho da vida e da morte.

Cabelos ao vento, envergando um simples vestido branco, Néfertari saboreava as paisagens do Médio Egito corn deslumbramento; palmares, plantações à borda de água, aldeias de casas brancas sobre colinas, encarnavam a doçura de um paraíso que os justos descobririam do outro lado da morte e que o par real devia tentar construir na terra.

-Não receias que a nossa ausência...

-Consagrei a maior parte do meu reinado ao Norte, chegou a al- tura de me preocupar com o Sul; sem a união das Duas Terras, o Egito não sobreviveria. E esta guerra contra o Hatti manteve-me durante muito tempo afastado de ti.

-A guerra não terminou.

-A Asia vai ser palco de profundas transformações; se houver uma hipótese de paz, não deveremos aproveitá-la?

-E esse o objetivo da missão secreta de Acha, não é verdade?

-Acha corre um perigo enorme. Mas quem senão ele poderia realizar missão tão delicada?

-Estamos juntos, na alegria como na dor, na esperança como no receio; que a magia desta viagem proteja Acha.

Os passos de Sétaou ressoaram na ponte.

-Posso importunar-vos? -Aproxima-te, Sétaou.

-Teria gostado de ficar junto de Kha; esse rapaz há-de tornar-se um mágico famoso No que diz respeito à sua proteção, podeis estar tranquilos: ninguém conseguirá franquear as defesas que preparei.

-Tu e Lótus não têm pressa de rever a vossa querida Núbia?- perguntou Néfertari.

-Ali existem as mais belas serpentes da criação... Sabeis que o capitão está inquieto com o movimento das águas? Pensa que nos aproximamos de uma zona perigosa e tenciona dirigir-se para a margem quando ultrapassarmos aquela ilhota coberta de vegetação, ali no meio do rio.

O Nilo, depois de uma série de meandros, passava em frente de uma rocha a pique onde os abutres faziam ninho e depois afastava-se da falésia. Em breve surgiu um semi-círculo montanhoso que se estendia por uma vintena de quilôetros.

Néfertari levou a mão à garganta.

-O que é? inquietou-se Ramsés.

-Uma dificuldade em respirar... Não é nada.

Uma violenta sacudidela fez dançar o barco, sinal de um remoinho.

Na margem, viam-se os edifícios degradados da capital abandonada de Akhénaton.

-Acompanha a rainha até à nossa cabine e olha por ela -ordenou Ramsés a Sétaou.

Assustados, alguns marinheiros perderam a cabeça. Um deles caiu do mastro principal quando tentava apanhar uma vela e bateu no capitão. Semi-desmaiado, com os olhos perdidos no vazio, este foi incapaz de dar instruções claras. Brotaram de todos os lados ordens contraditó- rias.

-Silêncio!-impôs Ramsés.-Cada um para o seu posto; eu vou dirigir a manobra.

Em poucos minutos o perigo surgira. Os barcos de escolta, apanhados numa corrente contrária e sem compreenderem as razões dos so- bressaltos do barco real, viram-se bruscamente afastados dele e incapazes de o socorrer.

Quando este endireitava a rota, o rei viu o duplo obstáculo.

Impossível de ultrapassar.

A meio do rio havia um grande remoinho; do lado do desembarcadouro da Cidade do Sol, onde a passagem seria navegável, via-se uma barragem de jangadas sobre as quais tinham sido colocados braseiros.

O rei tinha a opção entre o naufrágio e o incêndio que não deixaria de destruir o seu barco se chocasse com as jangadas a toda a velocidade.

Quem armara semelhante armadilha na zona da cidade abandonada? Ramsés compreendia agora o mal-estar de Néfertari: com os seus dons de vidente, pressentira o perigo.

O rei tinha apenas alguns segundos para refletir. Desta vez, o seu leão não podia fazer nada por ele.

-Ei-lo!-berrou o vigia.

Atirando para longe a coxa de pato assado que trincava, Chénar agarrou no arco e na espada. Ele, o grande dignitário apreciador do conforto, forjara em si uma alma de guerreiro.

-O barco do Faraó está isolado?

-Exatamente como havíeis previsto... Os acompanhantes estão a boa distancia.

Crescia a água na boca ao mercenário. Chénar prometera-lhe uma boa recompensa tal como aos seus companheiros que formavam um pequeno grupo de combate reunido por Ofir. O irmão do rei revelara-se de uma rara eloquência e transmitira no seu discurso o fogo do ódio que Ihe roía o coração.

Nenhum mercenário ousaria atacar Ramsés, com medo de ser fulminado pela energia divina que habitava o Faraó. Desde a sua vitória em Kadesh, todos receavam os poderes sobrenaturais do senhor das Duas Terras. Chénar encolhera os ombros e prometera ser ele próprio a matar o tirano.

-Metade dos homens para as jangadas, os outros comigo.

Ramsés ia pois perecer nas proximidades da Cidade do Sol, como se a heresia de Akhénaton conseguisse finalmente vencer Amon e as outras divindades que o rei do Egito venerava. Tomando Néfertari como refém, Chénar tinha a certeza de convencer a escolta do monarca a reconhecê-lo como rei. A morte de Ramsés provocaria uma imensa brecha na qual o irmão se introduziria sem perder um segundo.

Vários mercenários saltaram do desembarcadouro para as jangadas e prepararam-se para lançar flechas incendiadas sobre o barco real que os seus companheiros, comandados por Chénar, atacavam por trás.

A vitória não Ihes poderia escapar.

-Todos os remadores a estibordo!-ordenou Ramsés.

Uma primeira flecha incendiada cravou-se na parede de madeira da cabine central; a bela Lótus, ágil e rápida, apagou o começo de incêndio com um bocado de tecido grosseiro.

Ramsés subiu para o teto da cabine, retezou o arco, visou um dos adversários, bloqueou a respiração e disparou. A flecha atravessou a garganta do mercenário e os seus camaradas baixaram-se atrás dos braseiros para se protegerem das flechas mortais do monarca; as suas próprias flechas, sem precisão, perderam-se nas águas em turbilhão que rodeavam o barco.

A brutal manobra exigida por Ramsés modificara a rota; a proa encabritara-se como um cavalo furioso e o barco ficara de lado, atacado a bombordo pelo rio furioso. Havia uma hipótese de escapar para a margem, na condição de não ser aspirado pelo remoinho e alcançado pe- los barcos rápidos de Chénar, que tinham já abatido dois marinheiros que estavam à popa; com o peito trespassado de flechas, os infelizes tinham tombado no rio.

Sétaou correu para a proa, com um ovo de argila que manejava com precaução. Coberto de hieróglifos, o talismã era a réplica do ovo do mundo conservado no naos do grande templo de Thot, em Hermopolis; apenas os mágicos oficiais, como Sétaou, eram autorizados a utilizar um símbolo carregado de ondas de temível eficácia.

Sétaou estava de mau humor. Previra utilizar o talismã na Núbia se qualquer perigo imprevisto ameaçasse o casal real; privar-se daquela arma enraivecia-o, mas precisava de vencer o maldito remoinho.

Com um gesto largo, o encantador de serpentes atirou o ovo do mundo para as águas. Estas agitaram-se como se fossem levadas à ebulição; formou-se uma espiral e abateu-se uma onda sobre as jangadas, cobrindo vários braseiros e afogando dois mercenários.

O barco real já não se arriscava agora a ir para o fundo ou ser incendiado mas, à popa, a situação degradava-se. Os homens de Chénar tinham lançado ganchos de abordagem e começavam a trepar pelas cordas; fora de si, o seu chefe atirava flecha sobre flecha, impedindo os marinheiros egípcios de atuar.

Duas flechas incendiadas cravaram-se na vela, provocando um princípio de incêndio que Lótus apagou de novo. Embora estivesse ex- posto às flechas inimigas, Ramsés não mudava de posição e continuava a eliminar os mercenários. Alertado pelos gritos provenientes da parte de trás do barco, voltou-se e viu um pirata erguer o seu machado acima da cabeça de um marinheiro desarmado.

A flecha do soberano atravessou o pulso do assaltante, que recuou gritando de dor; Matador enterrou as presas no crânio de outro merce- nário que conseguira subir à ponte.

Por um momento, o olhar do Faraó cruzou-se com o do chefe do grupo, um homem barbudo e excitado que fazia pontaria na sua direção. Com um movimento quase imperceptível, o monarca deslocou-se para a esquerda; a flecha raspou-lhe a face. Despeitado, o agressor deu ordem de retirada aos sobreviventes.

Uma reviravolta das chamas surpreendeu Lótus, cujo vestido se incendiou. A núbia mergulhou, mas teve a pouca sorte de ser aspirada pelo resto da espiral do remoinho. Incapaz de nadar, ergueu o braço para pedir socorro.

Ramsés mergulhou por sua vez.

Ao sair da cabine central, Néfertari viu o rei desaparecer no Nilo.

Os minutos escoavam-se.

O barco real e os que o seguiam tinham lançado ancora em frente da Cidade do Sol, nas águas agora calmas. Três ou quatro mercenários tinham conseguido fugir, mas a sua sorte não preocupava Néfertari nem Sétaou. Tal como Matador, mantinham os olhos fixos no lugar onde Ramsés e Lótus tinham desaparecido.

A rainha oferecera incenso a Hathor, patrona da navegação; com uma calma e uma dignidade que conquistaram o coração dos marinheiros, Néfertari esperava o relatório dos enviados que tinham partido em busca dos desaparecidos. Uns percorriam o rio, outros metiam pelos caminhos de sirga para explorarem melhor as ervas altas que ocultavam as margens.

Certamente que a corrente arrastara o rei e a núbia para longe, para sul.

Sétaou permanecia ao lado da rainha.

-O Faraó regressará-murmurou ela.

-Majestade... O rio é por vezes impiedoso.

-Voltará e salvou Lótus.

-Majestade...

-Ramsés não terminou ainda a sua obra. Um faraó que não terminou a sua obra não pode morrer.

Sétaou compreendeu que não abalaria as certezas pungentes da rainha. Mas como reagiria ela quando fosse obrigada a aceitar o inevitável? O mago esquecia a sua própria dor para partilhar a de Néfertari.

Imaginava já o horrível regresso a Pi-Ramsés e o anúncio à corte do desaparecimento de Ramsés.

Chénar e os seus companheiros esperaram até terem percorrido um número assinalável de quilômetros para norte, arrastados por uma forte corrente, antes de pararem para tomar fôlego. Afundaram então o barco e avançaram por uma região verdejante onde trocaram ametistas por burros.

-Para onde vamos?-perguntou um mercenário cretense.

-Tu, vais a Pi-Ramsés prevenir Ofir.

-Não me vai felicitar.

-Nada temos a censurar-nos.

-Ofir não aprecia as derrotas.

-Ele sabe perfeitamente que temos de defrontar um forte inimigo e que não me poupo a esforços. E dar-lhe-ás duas boas notícias. A primeira, que vi Sétaou a bordo do barco real e portanto que Kha já não goza da sua proteção. A segunda, que me dirijo à Núbia como estava previsto para aí matar Ramsés.

-Prefiro ir convosco-disse o cretense.

-O meu camarada será um excelente correio. Eu sei bater-me e cercar a caça.

-De acordo.

Chénar não se sentia nada desencorajado. A acão violenta transformara-o em chefe de guerra e a sua raiva reprimida durante demasiados anos exprimia-se por fim livremente. Pois não conseguira com poucos homens e uma estratégia imaginativa surpreender Ramsés o Grande, não rasara a orla do triunfo? O destino acabaria por corresponder de forma lavorável à sua per- severança.

Reinava o silêncio em todos os barcos da flotilha real. Ninguém ousava iniciar uma conversa com receio de perturbar a dolorosa meditação da rainha. Caía a noite e ela continuava imóvel à proa do barco do Farao.

Também Sétaou se calava para preservar a última esperança que a ligava à sombra de Ramsés. Mas com o pôr-do-sol Néfertari teria que admitir a atroz realidade.

-Eu sabia-disse ela com uma voz doce que espantou Sétaou.

-Majestade...

-Ramsés está além, sobre o telhado do palácio branco.

-Majestade, a noite cai e...

-Olha bem.

Sétaou fixou o ponto indicado por Néfertari.

-Não, não passa de uma ilusão.

-Os meus olhos vêem-no. Aproximemo-nos.

Sétaou não se atreveu a opôr-se às exigências da rainha. O barco real levantou ancora e dirigiu-se para a Cidade do Sol que as trevas não tardariam a cobrir.

O encantador de serpentes fixou de novo o telhado do palácio branco onde tinham vivido Akhénaton e Néfertite. Por instantes conseguiu distinguir um homem em pé; esfregou os olhos e olhou melhor. A miragem não desaparecera.

-Ramsés está vivo-repetiu Néfertari.

-Acelerem o andamento!-exigiu Sétaou.

E a silhueta de Ramsés aproximava-se, maior de minuto a minuto, envolta nos últimos raios do sol.

 Sétaou não consegia acalmar-se.

-Porque razão o senhor das Duas Terras não tentou tudo para nos revelar a sua presença e nos chamar em seu socorro? Não seria revelar fraqueza!

-Tinha mais que tazer-respondeu o rei.

-Lótus e eu nadámos por baixo de água, mas ela desmaiou e julguei que se tinha afogado.

Atingimos a margem no extremo meridional da cidade abandonada e tive que magnetizar Lótus durante muito tempo até que ela voltasse à vida.

Depois, avançámos na direcão do centro da cidade e procurei o ponto mais elevado para revelar a nossa presença. Sabia que o espírito de Néfertari nos seguia passo a passo e que a faria olhar na direcão certa.

Com uma calma luminosa, a rainha manifestava discretamente a sua emoção apertando a si o braço direito de Ramsés, que ia acariciando o leão.

-Julguei que o ovo do mundo tinha sido incapaz de te salvar- resmungou Sétaou.

-Se tivesses desaparecido, a minha reputação teria ficado

 -Como está Lótus?-quis saber a rainha.

-Dei-lhe uma poção sedativa; depois de uma noite de bom sono, esquecerá esta aventura.

Um escansão deitou vinho branco fresco nas taças.

-Já não era sem tempo-disse Sétaou.-Perguntava a mim mesmo se ainda estaríamos num país civilizado.

-Observaste o chefe dos agressores durante o combate?-interrogou Ramsés.

-Pareceram-me todos igualmente intratáveis; nem sequer me apercebi da presença de um chefe.

-Era um barbudo muito excitado, com um olhar cheio de ódio...

Por instantes, julguei reconhecer Chénar.

-Chénar morreu no deserto, a caminho do degredo. Até mesmo os escorpiões acabam por morrer.

-E se tivesse sobrevivido?

-Se assim fosse, apenas pensaria em esconder-se e não teria lançado um bando de mercenários contra ti.

-A armadilha não foi improvisada e por pouco não resultou.

-Pode o ódio corroer de tal forma uma pessoa que transforme um fidalgo em guerreiro, pronto a tudo para matar o seu próprio irmão e agredir a pessoa sagrada do Faraó?

-Se se trata de Chénar, acaba de dar-te a resposta.

Sétaou ficou carrancudo.

-Se esse monstro ainda está vivo, não devemos permanecer passivos. A loucura que o anima é igual à dos demônios do deserto.

-Este atentado não foi perpetrado por acaso-considerou Ramsés.

-Convoca o mais depressa possível os talhadores de pedra das cidades mais próximas.

Uns vieram de Hermopolis, a cidade de Thot, outros de Assiut, a de Anubis; várias dezenas de talhadores de pedra instalaram-se num campo de tendas e, algumas horas depois da sua chegada, começaram a trabalhar sob as ordens de dois mestres-de-obra, depois de terem ouvido um discurso breve e firme de Ramsés.

Em frente do palácio da cidade abandonada, o Faraó formulara as suas exigências: a Cidade do Sol, dedicada ao deus Aton, devia desaparecer. Um dos predecessores de Ramsés, Horemheb, desmantelara alguns templos e servira-se das suas pedras para preenchimento dos pilones, em Karnak. Logo que tivesse feito desaparecer os palácios, casas, oficinas, cais e restantes construções da cidade morta, Ramsés teria terminado a sua obra. As pedras e tijolos seriam reutilizados noutras localidades e os túmulos que não abrigassem nenhuma múmia permaneceriam intactos.

O barco real permaneceu ancorado até só restarem os alicerces dos edifícios; em breve seriam cobertos pelos ventos de areia, mergulhando no nada a capital perdida que se tornara um foco de forças negativas.

Os serventes de pedreiro transportaram os materiais para barcos de carga, sendo repartidos em função das necessidades dos aglomerados vizinhos. Suplementos de carne, óleo, cerveja e vestuário incitaram os operários a executar a sua tarefa com diligência.

Ramsés e Néfertari visitaram pela última vez o palácio da Cidade do Sol antes da sua demolição. O pavimento decorado seria recolocado no palácio real de Hermopolis.

-Akhénaton enganou-se-afirmou Ramsés.

-A religião que ele preconizava conduzia à doutrinação e à intolerancia. Era o próprio espírito do Egito que ele traía. Infelizmente, Moisés seguiu o mesmo caminho.

-Akhénaton e Néfertite foram um casal real-lembrou Néfertari.

-Respeitaram as nossas leis e tiveram a inteligência de limitar a sua experiência no tempo e no espaço. Com a instalação de postos fronteiriços tinham encerrado o culto de Aton na sua cidade.

-Mas o veneno espalhou-se... E não tenho a certeza que o desaparecimento desta cidade, onde as trevas tinham substituído a luz, dissipe os seus efeitos. Pelo menos, este local é devolvido à montanha e ao deserto e mais nenhum rebelde se servirá dele como base de partida.

Quando o último talhador de pedra deixou a cidade arrasada, a partir de agora mergulhada no silêncio e no esquecimento, Ramsés deu ordem para partirem rumo a Abydos.

A aproximação de Abydos, Ramsés sentiu o coração apertar-se. Sabia a que ponto o seu pai amara aquele lugar, que importancia dera à construcão do grande templo de Osíris e censurava-se por não ter vol- tado ali há já muito tempo. É verdade que a guerra contra os hititas e a defesa do Egito tinham ocupado o seu espírito e o seu braço, mas nenhuma desculpa teria valor perante o deus da ressurreição na altura do julgamento.

Sétaou imaginara que uma multidão de "sacerdotes puros" com o crânio rapado, perfumados e envergando trajes de um branco imaculado, camponeses carregados de oferendas e sacerdotisas tocando lira e alaúde se agiomerariam para receber o rei. Mas o desembarcadouro estava deserto.

-É anormal-declarou.-Não desçamos do barco.

-O que receias?-perguntou Ramsés.

-Imagina que outros mercenários se tenham apoderado do templo e te preparem uma nova armadilha.

-Aqui, na terra sagrada de Abydos?

-Não vale a pena correr riscos. Continuemos para o Sul e enviemos o exército.

-Como queres que admita que uma só polegada de terreno do meu país me seja inacessível? E, para além do mais, Abydos! A cólera de Ramsés tinha a violência de uma tempestade do deus Seth. Nem a própria Néfertari tentou acalmá-lo.

A flotilha achegou e o Faraó em pessoa encabeçou um cortejo de carros cujas peças separadas, transportadas de barco, tinham sido reunidas à pressa.

A via processional que ia do desembarcadouro ao pátio do templo estava igualmente deserta, como se a cidade santa tivesse sido abandonada. Em frente do pilone jaziam blocos de calcário com a marca dos talhadores de pedra e havia ferramentas arrumadas nas caixas. Sob as tamargueiras que sombreavam o pátio, viam-se grandes trenós de madeira carregados com blocos de granito provenientes das pedreiras de Assuão.

Estupefato, Ramsés dirigiu-se ao palácio que ficava ao lado do templo. Nos degraus que conduziam à entrada principal, um velho espalhava queijo de cabra em fatias de pão. O aparecimento daquele exército cortou-lhe o apetite; dominado pelo pânico, abandonou a comida e tentou fugir, mas foi agarrado por um soldado que o conduziu até junto do monarca.

-Quem és tu? A voz do velho tremia.

-Sou um dos lavadeiros do palácio.

-Porque não estás a trabalhar?

-Bem... Não há nada para fazer porque eles partiram todos. Enfim, quase todos... Há ainda alguns sacerdotes, tão velhos como eu, perto do lago sagrado.

Apesar de uma intervenção entusiasta de Ramsés no início do seu reinado, o templo ainda estava por terminar. Franqueado o pilone, o rei e alguns soldados atravessaram a parte administrativa, formada por gabinetes, oficinas, um talho, uma padaria e uma cervejaria, tudo vazio, e dirigiram-se a passo apressado para as habitações dos sacerdotes permanentes.

Sentado num banco de pedra, com as mãos apoiadas no punho da bengala de madeira de acácia, um velho de crânio rapado tentou erguer-se à aproximação do rei.

-Não te incomodes, servidor de deus.

-Sois o Faraó... Tinham-me falado tanto do Filho da Luz, cujo poder resplandece como um sol! Os meus olhos estão fracos, mas não me posso enganar... Como estou feliz por vos ver antes de morrer. Aos noventa e dois anos, os deuses oferecem-me uma alegria imensa.

-O que se passa aqui?

-É a quinzena de requisiçào.

-Requisição... Mas quem se atreveu a isso?

-O governador da cidade próxima... Considerou que o pessoal do templo era demasiado numeroso e que seria mais útil a reparar os canais do que a celebrar rituais.

O governador era um homem bem-disposto, de bochechas redondas e lábios grossos. Como a barriga o incomodava a andar, apenas se deslocava em cadeira de carregadadores. Mas foi de carro e a toda a velocidade que um oficial o conduziu ao palácio de Abydos.

Prostrou-se com doloroso esforço perante o rei, sentado num trono de madeira dourada com pés em forma de patas de leão.

-Perdoai-me, Majestade, não tinha sido avisado da vossa chegada! Se tivesse sabido, teria organizado uma recepção digna de vós e teria...

-És o responsável pela requisição do pessoal de Abydos?

-Sim, mas...

-Esqueceste que é formalmente proibida?

-Não, Majestade, mas pensei que todas estas pessoas estavam desocupadas e que valia mais dar-lhes um trabalho que fosse útil.

-Desviaste-os das tarefas que o meu pai lhes atribuíra e que eu próprio tinha confirmado.

-Tinha pensado...

-Cometeste uma falta muito grave cuja sancão está prevista por decreto: cem pauladas e o nariz e as orelhas cortados.

Pálido, o governador gaguejou.

-Não é possível, Majestade! É desumano!

-Estavas consciente da tua falta e conhecias o castigo; nem quer há necessidade de julgamento.

Convencido que o tribunal pronunciaria a sentença e talvez até mesmo a agravasse, o homem desfez-se em lamentações.

-É verdade que agi mal, é verdade, mas não era em meu benefício! Graças ao pessoal de Abydos, os diques foram rapidamente reparados e os canais limpos em profundidade.

-Nesse caso! deixo-te a escolha de uma outra sanção: tu e os teus servidores trabalharão como serventes de pedreiro no estaleiro do templo até que este esteja terminado.

Cada sacerdotisa e cada sacerdote cumpriram o seu dever ritual, de forma que o templo de Osíris se tornou semelhante ao horizonte do céu, iluminando todos os rostos. Ramsés consagrara uma estátua de ouro com a efígie de seu pai e celebrara, em companhia de Néfertari o cerimonial de oferenda à Regra de Maat. As portas de cedro do Líbano cobertas de electrum, o solo coberto de prata, os limiares de granito os baixos-relevos multicores, faziam do templo um lugar do outro mundo onde as potências divinas tinham prazer ern residir. Nos altares, flores e vasos com perfumes e alimentos destinados ao invisível.

O tesouro foi aumentado com ouro, prata, linho real, óleos de festa, incenso, vinho, mel, mirra e unguentos; nos estábulos, passaram a coabitar bois gordos e vacas e vitelos vigorosos; nos celeiros, amontoaram-se cereais de primeira qualidade. Como proclamou uma inscrição hieroglífica, "o Faraó multiplica para Deus todas as espécies".

Num discurso pronunciado perante os notáveis da província reuni- dos na sala de audiências do palácio de Abydos, Ramsés decretou que os barcos, os campos, os terrenos, o gado, os burros e todos os outros bens próprios do templo não Ihe poderiam ser retirados sob qualquer pretexto. Quanto aos guardas dos campos, aos passarinheiros, aos pes- cadores, aos agricultores, aos apicultores, aos jardineiros, aos vinhatei- ros, aos caçadores e restante pessoal afeto ao domínio de Osíris para o tornar próspero, nenhum deles poderia ser requisitado para efetuar qualquer tarefa noutro lugar.

 Quem transgredisse as diretivas do decreto real sofreria um castigo corporal, seria demitido de todas as suas funções e condenado a vários anos de trabalhos forçados.

 Sob o impulso de Ramsés, os trabalhos avançaram rapidamente; os rituais iluminaram os corpos dos deuses instalados nas suas capelas, o mal foi banido e o templo alimentou-se de Maat.

Néfertari vivia dias felizes. Aquela estadia em Abydos proporcionava-lhe a inesperada oportunidade de realizar o seu sonho de adolescente: viver na intimidade das divindades, meditar perante a sua beleza e descobrir os seus segredos praticando os rituais.

Aproximava-se o momento de fechar as portas do naos para a noite e Ramsés não se encontrava a seu lado. A rainha foi à sua procura e encontrou-o no corredor dos antepassados, contemplando a lista dos faraós que o tinham precedido, desde a primeira dinastia. Devido à força dos hieróglifos, o seu nome ficaria para sempre presente na memória dos homens; o de Ramsés o Grande ficaria a seguir ao de seu pai.

-Como poderei mostrar-me digno destes seres de excepção?- interrogou-se o rei em voz alta.

-Maldade, covardia, mentira... Que faraó conseguirá algum dia extirpar esses males do coração dos homens?

-Nenhum-respondeu Néfertari.

-Mas todos travaram esse combate de antemão perdido e conseguirarn vencer por vezes.

-Se nem mesmo o território sagrado de Abydos é respeitado, qual a utilidade de fazer decretos?

-Este momento de desanimo nem parece teu.

-Foi por isso que vim consultar os meus antepassados.

-Eles só podem ter-te dado um conselho: prosseguir, aproveitar as provações para aumentares a tua força.

-Sentimo-nos tão bem neste templo! Reina aqui a paz que não consigo fazer reinar no mundo profano.

-Tenho o dever de te arrancar a esta tentação, mesmo falando contra o meu mais caro desejo.

Ramsés tomou a rainha nos braços.

-Sem ti, as minhas acões seriam apenas gestos sem sentido.

Dentro de quinze dias, serão celebrados os mistérios de Osíris. Participaremos neles e tenho uma proposta a fazer-te: a decisão será tua.

Armados com paus e vociferando, um bando de arruaceiros atacou a frente da procissão. Com a máscara do deus chacal, "o abridor de caminhos", o sacerdote de Abydos repeliu os assaltantes pronunciando fórmulas de maldição a fim de afastar os seres tenebrosos da barca de Osíris.

Os iniciados nos mistérios apoiaram o abridor de caminhos e dispersaram os que se tinham revoltado contra a luz.

A procissão retomou o seu caminho para a ilha da primeira manha onde Ramsés, identilicado com Osíris assassinado pelo irmão Seth, repousava num leito com cabeca de leão. As águas do Nilo rodeavam essa colina primordial que as duas irmas divinas, Isis e Nephtys, atingiram utilizando um passadiço.

A ilha ficava no interior de um edifício colossal, formado por dez pilares monolíticos que suportavam um teto digno dos construtores do tempo das piramides. O santuário secreto de Osíris terminava por um quarto transversal, de vinte metros por seis, onde era conaservado o sarcófago do deus.

Néfertari desempenhava o papel de Isis, esposa de Osíris, e Iset a Bela o de Nephtys, cujo nome significava «a soberana do templo». Irma de Isis, assistia-a durante os rituais que faziam sair Osíris do domínio da morte.

Néfertari aceitara a proposta de Ramsés; a presença ritual de Iset parecera-lhe desejável.

As duas mulheres ajoelharam, Néffertari à cabeceira do leito e Iset a Bela aos pés. Com um jarro de água fresca na mão direita e um pão redondo na esquerda, recitaram longas e comoventes litanias, necessárias para fazer circular uma energia nova nas veias do ser inerte.

As suas vozes uniram-se na mesma melodia, sob a proteção da deusa do ceu cujo corpo imenso, povoado de estrelas e de decanos se estendia no teto por cima do leito de ressurreicão.

Saindo de uma longa noite, o Osíris Ramsés despertou e pronunciou as palavras que tinham pronunciado os seus predecessores ao viverem os mesmos mistérios: "Que me sejam dadas a luz no céu, a forca criadora na terra, a justeza da voz no reino do outro mundo e a capacidade de viajar à frente das estrelas; possa eu agarrar a corda da proa na barca da noite e a corda da popa na barca do dia".

Ouri-Téchoup espumava de raiva.

A consulta de outro adivinho no templo do deus da Tempestade dera o mesmo resultado: previsões pessimistas e interdição de lancar uma ofensiva. A maioria dos soldados era tão supersticiosa que Ouri-Téchoup não podia ignorar os avisos. E nenhum adivinho era capaz de indicar a data em que o prognóstico se tornaria lavorável.

Embora os médicos da corte não fossem capazes de melhorar o estado de Mouwattali, o imperador não se resignava a morrer. Na realidade, aquela longa agonia satisfazia Ouri-Téchoup: ninguém o acusaria de assassinato. Os médicos tinham constatado a crise cardíaca e apreciavam a dedicação do filho que, todos os dias. visitava o doente. Ouri-Téchoup criticava a ausência de Hattousil, como se este não se interessasse pela saúde do irmão.

Quando se cruzou com a nobre e altiva Poutouhépa, a esposa de Hattousil, o filho do imperador não deixou de ironizar.

-Esconder-se-á o vosso marido?

-Hattousil está em missão, por ordem do imperador.

-O meu pai não me falou disso.

-Segundo os médicos. Mouwattali não pode pronunciar uma única palavra.

-Pareceis muito bem informada.

-E, no entanto, haveis interdito o quarto do imperador e arrogais-vos sozinho o direito de lá entrar.

-Mouwattali precisa de repouso.

-Todos desejamos que em breve ele seja capaz de exercer a plenitude das suas funcões.

-Com certeza, mas admiti que esta incapacidade se prolonga...

Será necessário tomar uma decisão.

-Impossível, sem a presença de Hattousil.

-Fazei com que regresse ao palácio.

-É uma ordem ou um conselho?

-É aquilo que vos apetecer considerar, Poutouhépa.

Poutouhépa saíra da capital de noite, com uma escolta reduzida, e assegurara-se por diversas vezes que Ouri-Téchoup não a mandara seguir.

Estremeceu ao ver a sinistra fortaleza onde se refugiara Hattousil; não teria a guarnição aprisionado o marido para agradar ao general-chefe? Nesse caso, tanto a sua existência como a de Hattousil acabariam de forma brutal por trás daqueles muros cinzentos.

Poutouhépa não tinha desejo de morrer. Sentia-se capaz de servir o seu país, desejava viver muitos verões ardentes, percorrer mil vezes ainda os caminhos selvagens da Anatólia e ver Hattousil reinar sobre o Hatti. Se havia uma hipótese, por pequena que fosse, de vencer Ouri-Téchoup, agarrá-la-ia com as duas mãos.

O acolhimento dos soldados da fortaleza serenou a sacerdotisa. Foi imediatamente conduzida à torre central, aos aposentos do comandante.

Hattousil correu para ela e abraçaram-se.

-Finalmente, Poutouhépa! Conseguiste escapar...

-Ouri-Téchoup já reina na capital.

-Aqui, estamos em segurança; todos os homens desta guarnição o detestam. Muitos soldados sofreram com as suas injustiças e violências.

Poutouhépa notou a presença de um homem sentado em frente da lareira.

-Quem é?-perguntou em voz baixa.

-Acha, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Faraó e embaixador extraordinário.

-Ele, aqui!

-Talvez seja a nossa oportunidade.

-Mas... qual é a sua proposta?

-A paz.

Hattousil assistiu a um fenómeno extraordinário: o castanho escuro dos olhos da esposa tornou-se mais claro, como se uma luz interior os iluminasse.

-A paz com o Egito!-repetiu, estupefata.

-Sabemos que é impossível!

-Não deveremos utilizar este inesperado aliado em prol dos nossos interesses? Poutouhépa afastou-se de Hattousil e foi ter com Acha. O diplomata ergueu-se e cumprimentou a bela hitita.

-Perdoai, Acha, deveria ter vindo cumprimentar-vos logo.

-Quem não se congratularia pelo reencontro de uma esposa com o seu marido?

-Correis grande perigo permanecendo aqui.

-Tencionava dirigir-me à capital, mas Hattousil convenceu-me a aguardar a vossa chegada.

-Não desconheceis a doença do imperador.

-Mesmo assim, tentarei falar-lhe.

-É inútil, está a morrer; o império pertence já a Ouri-Téchoup.

-Vim propor a paz e consegui-la-ei.

-Esqueceis que o único objetivo de Ouri-Téchoup é a destruição do Egito? Desaprovo a sua obstinação, mas estou consciente que a coerência do nosso império se baseia na guerra.

-Haveis pensado no verdadeiro perigo que vos ameaça?

-Um ataque do exército egípcio em força, com Ramsés a frente!

-Não podeis negligenciar uma outra possibilidade: o irresistível crescimento do poder assírio.

Hattousil e Poutouhépa dissimularam com dificuldade o seu espanto. Os servicos de informação de Acha eram mais eficazes do que supunham.

-A Assíria acabará por atacar-vos e sereis apanhados entre dois fogos, incapazes de manter duas frentes. É utópico acreditar que o exército hitita possa destruir o Egito; aproveitando as lições do passado, instalamos uma rede defensiva nos nossos protetorados. Tereis dificuldade em ultrapassá-la e a sua resistência permitirá ao grosso das nossas tropas contra-atacar rapidamente. E haveis aprendido, à vossa própria custa, que Amon protege Ramsés e torna o seu braço mais eficaz do que milhares de soldados.

-Anunciais-nos, portanto, a queda do império hitita!

-Não, senhora Poutouhépa, porque o Egito não tem qualquer interesse em ver desaparecer o seu velho inimigo. Pois não começavamos já a conhecer-nos bem? Contrariamente à sua reputação, Ramsés aprecia a paz e não será a grande esposa real Néfertari a dissuadi-lo de enveredar por esse caminho.

-O que pensa disso a rainha-mãe Touya?

-Partilha os meus pontos de vista, ou seja, que a Assíria em breve representará um perigo importante. Os hititas serão os primeiros a ser atacados, depois chegará a vez dos egípcios.

-Uma aliança contra a Assíria... É essa a vossa proposta?

-A paz e a aliança, para proteger os nossos povos da invasão. O próximo imperador do Hatti deverá tomar uma decisão de pesadas  consequenclas.

-Ouri-Téchoup nunca renunciará a enfrentar Ramsés!

-E qual é a resposta de Hattousil?

-Hattousil e eu já não temos qualquer poder.

-Qual é a vossa resposta?-insistiu Acha.

-Aceitaríamos iniciar negociações-declarou Hattousil.

-Mas esta conversa tem sentido?

-Só o irrealizável me entusiasma-disse o egípcio, sorrindo.

- Vós hoje não sois nada, mas é convosco que quero negociar para iluminar o futuro do meu país. Que Hattousil se torne imperador e as nossas afirmações assumirão um valor inestimável.

-Não passa de um sonho-objetou Poutouhépa.

-Ou fugis ou lutais.

O orgulho da bela hitita insurgiu-se.

-Não fugiremos.

-Hattousil e vós deveis conquistar ou comprar a confiança do maior número possível de oficiais superiores. Os comandantes das for- talezas passarão para o vosso lado porque Ouri-Téchoup os despreza e bloqueia a sua promoção sob o pretexto que não desempenham senão um papel defensivo. Por intermédio dos comerciantes, que vos são quase todos favoráveis, espalhai o rumor que a economia hitita não suportará um novo esforço de guerra e que um conflito com o Egito trará ruína e miséria. Abri largas brechas e continuai constantemente a alargá-las até que Ouri-Téchoup surja como um motivo de perturbações, incapaz de reinar.

-É um trabalho de grande fôlego.

-É esse o preço do vosso êxito e da obtenção da paz.

-Como tencionais agir, por vosso lado?-perguntou Poutouhépa.

-Vai ser arriscado, mas tenho intenção de seduzir Ouri-Téchoup.

Acha contemplava as muralhas de Hattousa e divertia-se a imaginar a capital hitita pintada de cores vivas, adornada com bandeiras e povoada por magníficas raparigas dançando nas ameias. Mas essa bela visão desfez-se para dar lugar a uma sinistra cidade fortificada, agarrada montanha.

O ministro dos Negócios Estrangeiros apenas era acompanhado por dois compatriotas, um escudeiro e um porta-sandálias. Os outros membros da expedição tinham regressado ao Egito. Quando Acha mostrou o seu selo no primeiro posto de guarda da cidade baixa, o oficial ficou estupefato.

-Avisai o imperador da minha presença.

-Mas... Sois egípcio!

-Embaixador excepcional. Peço que vos apresseis.

Sem saber o que fazer, o oficial manteve Acha sob apertada vigilancia e mandou um dos seus subordinados ao palácio.

Acha não ficou de forma alguma surpreendido por ver chegar, em passo cadenciado, uma escolta de soldados de infantaria armados com lanças e comandados por um brutamontes cuja única forma de pensamento era a obediência absoluta às ordens.

-O general-chefe quer ver o embaixador.

Acha saudou Ouri-Téchoup e declinou os seus títulos.

-O mais brilhante ministro de Ramsés em Hattousa... Mas que surpresa!

-Eis-vos à frente de um imenso exército; aceitai as minhas felicitações.

-O Egito deveria temer-me.

-Conhecemos a vossa valentia e as vossas qualidades de guerreiro e receamo-las. Foi por isso que amontoei forças de segurança nos nossos protetorados.

-Exterminá-las-ei.

-Estão preparadas para o choque, por muito violento que se anuncie.

-Façamos uma trégua nesta conversa. Qual é a razão da vossa vinda?

-Ouvi dizer que o imperador Mouwattali estava doente.

-Contentai-vos com os rumores; a saúde do nosso chefe é um segredo de Estado.

-O senhor do Hatti é nosso inimigo, mas respeitamos a sua grandeza. É por isso que aqui estou.

-O que representa a vossa presença aqui, Acha?

-Disponho dos remédios necessários para tratar o imperador Mouwattali.

 

O rapazito de sete anos aplicava a si próprio o preceito que o pal, que o recebera do seu próprio pai, sempre aplicara: dar um peixe a quem tem fome é menos útil do que ensinar-lhe a pescar.

Tentava portanto provar a sua habilidade em bater na água com um pau de forma a dirigir a sua presa para a rede que o seu camarada, tão esfomeado como ele, estendia ao pé dos altos papiros.

De repente, o garoto viu-os.

Uma frota de barcos chegava do norte trazendo à cabeça um em cuja proa se erguia uma esfinge de ouro. Era o barco do Faraó! Esquecendo peixe e rede, o aprendiz de pescador mergulhou no Nilo e nadou em direção à margem para prevenir a aldeia. Haveria festa durante vários dias.

A imensa sala de colunas do templo de Karnak apresentava-se em toda a sua magnificência; com a altura de vinte e cinco metros, as doze colunas da nave central revelavam a força da criação emergindo do oceano primordial.

Foi ali que Nébou, o grande sacerdote de Amon, avançando com o auxílio da sua bengala recoberta de ouro fino, veio ao encontro do par real. Apesar do seu reumatismo, conseguiu curvar-se. Ramsés ajudou-o a erguer-se.

-Sinto-me feliz por rever-vos, Majestade, e encantado por admirar a beleza da rainha.

-Estarás a tornar-te um perfeito cortesão, Nébou?

-Não há qualquer esperança por esse lado, Majestade, continuarei a dizer o que penso! tal como acabo de fazer.

 -Como vai a tua saúde?

-Tenho que adaptar-me à velhice, embora me torne as articulações dolorosas; mas o médico do templo dá-me um remédio à base de salgueiro que me faz sentir melhor. Confesso que não tenho muito tempo para pensar no meu bem-estar... Haveis-me confiado uma bem pesada tarefa!

-Tendo em vista os resultados, tenho razào para estar satisfeito com a minha escolha.

Oitenta mil funcionários cujas atividades o grande sacerdote distribuía, cerca de um milhão de cabeças de gado, uma centena de barcos de carga, cinquenta estaleiros em permanente atividade uma imensa superfície de terras cultivadas, jardins, matas, pomares e vinhas, era esse o universo de Karnak, o rico domínio de Amon.

-O mais difícil Majestade, é harmonizar os esforcos dos escribas dos domínios, dos dos celeiros, dos da contabilidade e dos outros colegas... Sem uma autoridade superior, este pequeno mundo em breve se transformaria num cãos, com cada um a pensar apenas nos seus interesses.

-O teu sentido da diplomacia faz maravilhas.

-Apenas conheço duas virtudes: obedecer e servir. O resto não passa de conversa fiada. E na minha idade já não há tempo para conversas.

Ramsés e Néfertari admiraram uma a uma as cento e trinta e quatro colunas cuja decoração revelava o nome das divindades às quais, em todos os casos, o Faraó apresentava oferendas. Aquelas hastes vegetais, tornadas eternas pela pedra, ligavam o solo, símbolo do pantano primordial, ao teto pintado de azul onde brilhavam estrelas de ouro.

Tal como Séthi desejara, a imensa sala de colunas de Karnak encarnaria para sempre a glória do deus oculto, revelando os seus mistérios.

-Tebas será uma simples escala-perguntou Nébou-ou gozara de uma longa estadia do casal real?

-Para conduzir o caminho rumo à paz-respondeu Ramsés- devo dar satisfação aos deuses oferecendo-lhes templos em que gostem de residir e terminando a minha morada de eternidade e a de Néfertari.

A vida que depositaram no nosso coração, retomá-la-ão quando chegar a hora; devemos estar preparados para comparecer perante eles de forma a que o povo do Egito não sofra com a nossa morte.

Ramsés despertou a força divina no segredo do naos de Karnak e saudou a sua presença: -Saudações a ti que crias a vida, os deuses e os humanos, o criador do meu país e das terras longínquas, tu que organizas as planícies verdejantes e a inundação. Todos os seres estão cheios da tua perfeição.

Karnak despertava.

A luz do dia substituía a das lampadas de óleo, os ritualistas enchiam os vasos de purificação com água do lago sagrado, renovavam os pequenos blocos de incenso que perfumavam as capelas, guarneciam os altares com flores, frutos, legumes e pão fresco, organizavam-se procissões para fazer circular as oferendas que se elevariam todas para Maat. Só ela ressuscitava as diversas formas de vida, só ela fazia viver graças ao perfume do orvalho que inundava a terra ao nascer do sol.

Em companhia de Néfertari, Ramsés seguiu a via processional ladeada de esfinges que conduzia ao templo de Luxor.

Em frente do pilone um homem aguardava o casal real. Um homem de rosto quadrado, sólido, antigo controlador dos estábulos do reino.

-Enfrentamo-nos e batemo-nos-recordou o rei à esposa-e não deixo de me orgulhar por ter conseguido resistir-lhe quando não passava ainda de um rapaz.

Depois de ter abandonado a carreira das armas, o rude Bakhen mudara muito. Tendo atingido o quarto escalão da hierarquia sacerdotal de Karnak, estava comovido até às lágrimas. Rever o Faraó proporcionava-Ihe uma alegria tão grande que nem sabia que palavras pronunciar.

Preferindo que a sua obra falasse por ele, mostrou a impressionante fachada de Luxor, precedida por dois elegantes obeliscos e vários colossos que representavam Ramsés. Sobre a bela pedra de grés desenrolavam-se cenas que narravam os episódios da batalha de Kadesh e a vitória do rei do Egito.

-Majestade-declarou Bakhen com entusiasmo-o edifício está terminado.

-Mas a obra deve prosseguir.

-Estou à vossa disposição.

O casal real e Bakhen penetraram no grande pátio situado por trás do pilone e rodeado por pórticos de colunas entre as quais tinham sido erigidas estátuas de Ramsés contendo o seu ka, a energia imortal que o tornava apto para reinar.

-O trabalho dos talhadores de pedra e dos escultores é admirável, Bakhen, mas não os posso deixar descansar e tenciono até levá-los para um território difícil, mesmo perigoso.

-Poderei conhecer o vosso projeto, Majestade?

-Edificar vários santuários na Núbia, entre os quais um grande templo. Reúne os artesãos e consulta-os; apenas aceitarei voluntários.

O Ramsseum. o templo dos milhões de anos de Ramsés o Grande construído a partir de planos do próprio rei, transformara-se num monumento grandioso, o maior da margem ocidental. Tinham sido utilizados granito, grés e basalto para criar pilones, pátios e capelas; várias portas de bronze dourado delimitavam as diversas partes do monumento, protegido por uma cerca de tijolos.

Chénar conseguira, ao cair da noite, introduzir-se num armazém vazio. Munido de uma arma que Ofir Ihe confiara e que esperava que fosse decisiva, o irmão de Ramsés esperou que as trevas se tornassem densas para se aventurar no espaço sagrado.

Seguiu ao longo do muro do palácio em construção e atravessou um pátio. A alguns metros da capela dedicada a Séthi, hesitou.

Séthi, o seu pai...

Mas um pai que o traíra ao escolher Ramsés como faraó! Um pai que o desprezara e rejeitara, favorecendo a ascensão de um tirano Depois de ter realizado o que projetava, Chénar deixaria de ser o filho de Séthi. Mas o que interessava isso? Contrariamente ao que afirmavam os iniciados nos mistérios, ninguém franqueava o obstáculo da morte. O nada absorvera Séthi como absorveria Ramsés. A vida tinha apenas um sentido: conseguir o máximo de poder, não importa por que meios, e exercê-lo livremente, espezinhando os medíocres e os inúteis.

E dizer que milhares de imbecis começavam a tomar Ramsés por um deus! Quando Chénar tivesse derrubado o ídolo, estaria a via aberta para um novo regime. Suprimiria os rituais antiquados e governaria apenas em função dos dois únicos eixos dignos de interesse: a conquista territorial e o desenvolvimento económico.

Logo que subisse ao trono, Chénar mandaria arrasar o Ramesseum e destruir todas as representações de Ramsés. Embora inacabado, o templo dos milhões de anos produzia já uma energia contra a qual o próprio Chénar sentia alguma dificuldade em lutar. Hieróglifos, cenas esculpidas e pintadas viviam, afirmando em cada pedra a presença e a força de Ramsés. Não, não passava de uma ilusão criada pela noite! Chénar arrancou-se à letargia que sentia invadi-lo. Instalou o dispositivo previsto por Ofir e saiu do recinto do Ramesseum.

O templo dos milhões de anos tomava forma, crescia como um ser cheio de vigor, graças ao qual o reinado de Ramsés se ia construindo.

 rei prestou homenagem ao edifício onde, a partir de agora, viria buscar a força de que se alimentava o seu pensamento e a sua acão.

Tal como em Karnak e Luxor, mestres-de-obra, talhadores de pedra, escultores, pintores e desenhadores tinham conseguido maravilhas. O santuário, várias capelas e os respetivos anexos e uma pequena sala de colunas estavam terminados, tal como o edifício reservado ao culto de Séthi. 1odas as outras partes do conjunto sagrado se encontravam em estaleiro, sem contar com os armazéns de tijolos, a biblioteca e as habitações dos sacerdotes.

Plantada no ano 2 do reinado, a acácia do Ramesseum crescera também com uma surpreendente rapidez. Apesar de esguia, a sua folhagem produzia já uma sombra agradável. Néfertari acariciou o tronco da árvore.

O casal real atravessou o grande pátio sob o olhar respeitoso e maravilhado dos talhadores de pedra que tinham poisado o maço e o cinzel.

Depois de ter conversado com o seu chefe de equipe, Ramsés interrogou cada um sobre as dificuldades sentidas. O rei não esquecia as horas exaltantes passadas nas pedreiras de Gebel Silsileh, numa época em que desejava tornar-se talhador de pedra. O monarca prometeu aos artesãos um prémio excepcional: vinho e vestuário de primeira qualidade.

Quando o casal real avançava para a capela de Séthi, Néfertari levou a mão ao coração e imobilizou-se.

-Um perigo... um perigo muito próximo.

-Aqui, neste templo?-espantou-se Ramsés.

O mal-estar dissipou-se. O par real aproximava-se do santuário onde seria para sempre venerada a alma de Séthi.

-Não empurres a porta desse santuário, Ramsés. O perigo está aí, por trás dela. Deixa-me agir.

Néfertari abriu a porta de madeira dourada.

No limiar, um olho de cornalina quebrado em diversos fragmentos; em frente da estátua de Séthi, ao fundo da capela! via-se uma bola vermelha, formada por pêlos de animais do deserto.

Investida do poder de Isis. a grande mágica, a rainha reconstituiu o olho. Se o pé do rei tivesse tocado nos fragmentos do símbolo profanado, Ramsés teria ficado paralizado. Depois. Néfertari segurou na bola com a orla do vestido, sem Ihe tocar com os dedos, e levou-a para fora a fim de ser queimada.

O mau olhado, constatou o casal, eis o que tinham ousado utilizar os seres vindos das trevas, desejosos de quebrar o laço que unia Séthi ao filho e reduzir o senhor das Duas Terras ao estado de um simples déspota, privado dos ensinamentos sobrenaturais do seu predecessor.

Quem senão Chénar, pensou Ramsés, teria ido tão longe no caminho do mal, com o auxílio de um mago vendido aos hititas? Quem, senão Chénar, se empenharia em destruir aquilo que o seu coracão demasiado pequeno não podia conter?  Moisés hesitava.

É verdade que devia cumprir a missão de que Deus o incumbira, mas o obstáculo não ultrapassaria as suas capacidades? Atualmente não acalentava muitas ilusões: Ramsés não cederia. Moisés conhecia suficientemente o rei do Egito para saber que este não pronunciara palavras levianamente e que considerava os hebreus como uma parte integrante do povo egípcio.

No entanto, a ideia do êxodo avançava nos espíritos e a oposição ao profeta ia enkaquecendo dia a dia. Muitos pensavam que as relações privilegiadas de Moisés com Ramsés facilitariam a obtenção de um acordo. Um a um, os chefes de tribo tinham-se reduzido ao silêncio; sem ter quem o contradissesse, Aarão pudera, no último conselho dos anciãos, apresentar Moisés como o chele do povo hebreu, reunido numa mesma fé e numa mesma vontade.

Esquecidas as divergências, restava ao proleta apenas um único inimigo a vencer: Ramsés o Grande.

Aarão veio perturbar a meditacão de Moisés.

-Há um tabricante de tijolos que pede para te ver.

-Trata disso.

-É a ti que ele quer consultar e a mais ninguém.

-Porquê?

-Promessas que lhe fizeste no passado. Confia em ti.

-Trá-lo.

Com uma curta peruca negra presa por uma tira branca que Ihe dissimulava a testa e deixava as orelhas livres, rosto tisnado orlado de uma pequena barba e um bigode de pêlos mal aparados, o visitante parecia-se com um fabricante de tijolos hebreu qualquer.

No entanto, o vulto despertou as suspeitas de Moisés; aquele homem não Ihe era desconhecido.

-Que me queres?

-Outrora, os nossos ideais eram convergentes.

-Ofir!

-Eu próprio, Moisés.

-Mudaste muito.

-Sou procurado pela polícia de Ramsés.

-E não tem boas razões para isso? Se não me engano, és um espião hitita.

-É verdade que trabalhei para eles, mas a minha rede foi aniquilada e os hititas já não estão em condições de destruir o Egito.

-Mentiste-me portanto e procuravas apenas utilizar-me contra  Ramsés!

-Não, Moisés. Tu e eu acreditamos num deus único e todo-poderoso e o meu contato com os hebreus convenceu-me que esse deus é Yahvé e nenhum outro.

-Consideras-me tão estúpido que me deixe seduzir por essas belas palavras?

-Mesmo que te recuses a acreditar na minha sinceridade, servirei a tua causa porque é a única que merece ser servida. Fica a saber que não espero qualquer benefício pessoal mas apenas a salvação da minha alma.

Moisés ficou abalado.

-Renunciaste à tua fé em Aton?

-Compreendi que Aton não passava de um prefiguração do verdadeiro Deus. Visto que descobri a verdade, renuncio aos meus erros.

-O que aconteceu à jovem que querias levar ao poder?

-Teve uma morte brutal que me provocou um imenso desgosto e a polícia egípcia acusa-me de um crime horrível que não cometi. Vi nesta tragédia um sinal do destino. Hoje, és o único a poderes opôr-te a Ramsés. É por isso que te apoiarei com todas as minhas forças.

 -O que desejas Ofir?

-Ajudar-te a impor a fé em Yahvé, nada mais.

-Sabes que Yahvé exige o êxodo do meu povo?

-Aprovo esse projeto grandioso. Se for acompanhado pela que- da de Kamsés e pela difusão no Egito da verdadeira fé, sentir-me-ei feliz.

-Um espião não é sempre um espião?

-Já não tenho qualquer contato com os hititas, mergulhados em querelas de sucessão; esse episódio da minha existência está esquecido. O futuro e a esperança és tu, Moisés.

-Como pensas ajudar-me?

-Não será fácil lutar contra Ramsés; a minha experiência da luta clandestina ser-te-á útil.

-O meu povo quer sair do Egito e não revoltar-se contra Ram.sés.

-Qual é a diferença, Moisés? A tua atitude parecerá irracional aos olhos de Ramsés e como tal a reprimirá.

No seu foro íntimo, o hebreu teve que admitir que o mago líbio tinha razão.

-Tenho de refletir Ofir.

-És o chefe, Moisés. Permite-me que te dê apenas um conselho: não tentes nada durante a ausência de Ramsés. Com ele, talvez possas negociar, mas os seus esbirros Améni e Serramanna, sem esquecer a rainha-mãe Touya, não terão qualquer indulgência para com o teu povo. Para manter a ordem pública ordenarão uma repressão sangrenta. Aproveitemos a viagem do casal real para desenvolvermos a nossa coesão, convencermos os hesitantes e nos prepararmos para um conflito inevitável.

A determinação de Ofir impressionou Moisés. Embora não estivesse decidido a aliar-se ao mago, poderia negar a pertinência das suas afirmações.  O chefe da polícia de Tebas afirmou que os seus homens não se tinham poupado a esforços para encontrar Chénar e os seus possíveis cúmplices. Ramsés dera-lhes os sinais do agressor que tentara no Nilo trespassá-lo com uma flecha, mas as investigações das forças da ordem tinham sido vãs.

-Abandonou Tebas-afirmou Néfertari.

Tal como eu, estás convencida que está vivo.

-Pressinto uma presença perigosa, uma força das trevas... Será Chénar, o mago ou um dos seus sequazes?

- É ele-afirmou Ramsés.-Tentou cortar para sempre o laço que rrle ligava a Séthi para me privar da protecão do meu pai.

- O mau olhado não terá qualquer eficácia; o fogo impediu-o de fazer mal. Graças a uma cola à base de resina, reconstituímos o olho roubado aos tesouros do templo de Seth, em Pi-Ramsés.

-Os animais do deserto, cujos pêlos formavam o olho vermelho são criaturas de Seth... Chénar tinha intenção de destruir utilizando a sua tenlível energia.

-Subestimou a qualidade dos teus laços com Seth.

-Uma harmonia que devo recriar todos os dias... A menor falha de atenção, o fogo de Seth aniquila aquele que considerava ter-se tornado seu senhor.

-Quando partimos para o Grande Sul?

-Depois de nos termos encontrado com a nossa morte.

O par real dirigiu-se para o vale mais meridional da montanha tebana que era denominado "lugar de regeneração" ou "lugar dos lótus". Seria nesse Vale das Rainhas que repousaria para a eternidade Touya, a mãe de Ramsés, e Néfertari, a grande esposa real. Os seus túmulos tinham sido escavados sob a proteção do cume, domínio da deusa do silêncio. Neste deserto esmagado pelo sol, reinava Hathor, a sorridente deusa do céu, que fazia brilhar as estrelas e dançar o coração dos seus fiéis.

Hathor, que Néfertari descobriu nas paredes do seu túmulo na atitude da magnetisadora oferecendo a energia da ressurreição a uma grande esposa real eternamente jovem, com um toucado de ouro em forma de cabeça de abutre. Simbolizava assim a mãe divina. Os pint res tinham conseguido reproduzir a beleza da doce de amor em formas de uma incrível perfeição.

-Convém-te esta morada, Néfertari?

-Quantos esplendores... Não sou digna de tal.

-Nunca houve morada de eternidade semelhante nem nunca mais haverá; tu, cujo amor é o sopro da vida, reinarás para sempre no coração dos deuses e dos homens.

Osíris de rosto verde, envolto num manto branco; Ra o luminoso, coroado por um enorme sol; Khépri, o príncipe das metamorfoses com cabeça de escaravelho; Maat, a Regra Universal, bela e esguia jovem tendo como único distintivo uma pluma de avestruz, leve como a verdade... As potências divinas tinham-se reunido para regenerar Néfertari, no tempo e para além dos tempos. Em breve, nas colunas ainda vazias, um escriba da Casa da Vida traçaria os hieróglifos do "Livro de sair para a luz" e do "Livro das Portas" que permitiriam à rainha viajar pelos belos caminhos do outro mundo, evitando os seus perigos.

Tá não era a morte, mas o sorriso do mistério.

Durante vários dias, Néfertari examinou as figuras divinas que habitavam a morada de eternidade de que ela se tornaria, no momento da grande travessia, a hóspede privilegiada. Familiarizou-se com o além da sua própria existência e partilhou um silêncio que, no coração da terra, tinha o sabor do céu.

Quando Néfertari se decidiu a deixar o "lugar dos lótus", Ramsés levou-a à grande planície, o Vale dos Reis onde os faraós repousavam desde o início da décima oitava dinastia. O par real permaneceu longas horas nos túmulos de Ramsés, o primeiro do seu nome, e de Séthi. Cada pintura era uma obra-prima e a rainha leu coluna por coluna o "Livro do quarto oculto" que revelava as fases da transmutação do sol moribundo no jovem sol modelo da ressurreição do Faraó.

Com emoção, Néfertari descobriu a morada de eternidade de Ramsés o Grande. Em pequenos potes, os pintores desfaziam os pigmentos minerais finamente esmagados antes de animarem as paredes com figuras simbólicas que preservariam a sobrevivência do monarca. O pó colorido, misturado com água e resina de acácia, proporcionava-lhes uma extraordinária precisão de execução.

"A morada do ouro", a sala do sarcófago de oito pilares, estava qua- se terminada. A morte podia acolher Ramsés.

 O rei chamou o mestre-de-obra.

 -Tal como no túmulo de alguns dos meus antepassados, abrirás um corredor que penetrará na rocha e deixarás aí a pedra em bruto.

Evocará o último segredo, que nenhurm espírito humano pode conhe- cer.

Néfertari e Ramsés tiveram a sensação que acabavam de ultrapassar uma etapa decisiva, vindo juntar-se agora ao seu amor a consciência da sua própria morte, despertar e não fim.

Serramanna teve de mostrar-se paciente.

Méba saíra de casa há mais de uma hora para assistir ao banquete organizado pela rainha-mãe Touya, preocupada em manter a coesão da corte na ausência do casal real. Em contato regular com o Ramsés por intermédio dos correios, a viúva de Séthi estava satisfeita com o trabalho meticuloso de Améni e com o rigor de Serramanna, que mantinha a ordem sem problemas. Entre os hebreus, a agitação parecia ter-se esbatido.

Mas o antigo pirata, confiando no seu faro, estava convencido que aquela calma precedia uma tempestade. É verdade que Moisés se contentava em manter conversações com os notáveis do seu povo, mas tornara-se o chefe incontestado dos hebreus. Além disso, muitos dignitários egípcios, conhecendo a fidelidade de Ramsés à amizade, consideravam aconselhável não hostilizar Moisés. Estavam convencidos que, mais cedo ou mais tarde, este ocuparia de novo um posto importante e abandonaria as suas brumosas teorias.

Méba encontrava-se na primeira fila das preocupações de Serramanna. O sardo estava convencido que o diplomata roubara o pincel de Kha, mas com que intenção? O antigo pirata detestava os diplomatas em geral e Méba em particular, demasiado mundano, demasiado elegante e demasiado acomodatício; um fulano como aquele tinha dons naturais para a mentira.

E se o pincel de Kha estivesse escondido em casa de Méba? Serramanna fá-lo-ia acusar de roubo e o aristocrata seria obrigado a explicar as razões do seu gesto perante um tribunal. O jardineiro de Méba foi deitar-se e os servos domésticos retiraram-se para as habitações que Ihes estavam destinadas. O sardo escalou as traseiras da casa e chegou ao terraço; avançando com a leveza de um gato, ergueu o alçapão que dava para o celeiro, por onde desceu com facilidade para os compartimentos principais.

Serramanna dispunha de boa parte da noite para levar a cabo a sua exploração.

-Nada-declarou o sardo, carrancudo e mal barbeado.

-Essa busca era ilegal-lembrou-lhe Améni.

-Se tivesse resultado, esse Méba teria deixado de fazer mal às pessoas.

-Porque te encarniças contra ele?

-Porque ele é perigoso.

-Méba perigoso? Só se preocupa com a sua carreira e essa atenção constante exclui todas as outras coisas.

O sardo devorou com apetite um bocado de peixe seco regado com um molho de sabor intenso.

-Talvez tenhas razão-disse com a boca cheia-mas o meu instinto garante-me que se trata de má rês. Apetece-me colocá-lo sob vigilancia constante; há de acabar por cometer um erro.

-Faz como quiseres... Mas nada de asneiras!

-Também Moisés devia ser colocado sob vigilancia.

-Foi meu camarada de universidade-lembrou-lhe Améni-e de Ramsés também.

-Esse hebreu é um perigoso agitador! Tu és o servidor do Faraó e Moisés revoltar-se-á contra o Faraó.

-Não chegará a isso.

-Claro que sim! Nas tripulações que comandei detectava logo os fulanos como ele... Não há como eles para criarem complicações. Mas o Faraó e tu recusam-se a dar-me ouvidos!

-Conhecemos Moisés e somos menos pessimistas do que tu.

-Um dia haveis de lamentar a vossa cegueira.

-Vai deitar-te e tem cuidado em não te meteres com os hebreus.

O nosso papel é manter a ordem e não espalhar a perturbação.

 

Acha estava alojado no palácio, comia uma alimentação rústica mas aceitável, bebia um vinho de qualidade média e gozava a ternura muito profissional de uma loura hitita que o camareiro tivera a excelente ideia de Ihe propor. Desprovida de qualquer pudor, a jovem desejava verificar pessoalmente a reputação que era atribuída aos egípcios de serem amantes maravilhosos. Cooperante, Acha prestara-se à experiência, ora ativo, ora passivo, mas sempre entusiasta.

Haveria forma mais agradável de passar o tempo? Ouri-Téchoup admirado com a iniciativa de Acha, sentia-se no entanto lisonjeado com a presença do ministro dos Negócios Estrangeiros do Faraó; não significaria isso que Ramsés o reconhecia já como futuro imperador, a ele, o filho de Mouwattali? Ouri-Téchoup irrompeu no quarto de Acha no momento em que a loura hitita beijava o egípcio com intensa avidez.

-Voltarei depois-disse Ouri-Téchoup.

-Ficai-pediu Acha.-Esta jovem compreenderá que os assuntos de Estado passam por vezes à frente do prazer.

A encantadora hitita eclipsou-se e Acha envergou uma túnica requintada.

-Como passa o imperador?-perguntou a Ouri-Téchoup.

-O seu estado é estacionário.

-Renovo a minha proposta: deixai-me tratá-lo.

-Porque viríeis em auxílio do vosso pior inimigo?

-A vossa pergunta embaraça-me.

O tom de Ouri-Téchoup tornou-se cortante.

-Deveis no entanto responder-me e imediatamente.

-Os diplomatas não gostam de revelar os seu.s segredos de forma assim tão direta... O caráter humanitário da minha missão não vos satisfaz?

-Exijo uma verdadeira resposta.

Acha pareceu aborrecido.

-Pois bem... Ramsés aprendeu a conhecer Mouwattali. Sente por ele grande estima e mesmo uma certa admiração. A sua doença incomoda-o.

-Estais a fazer troça de mim?

-Julgo saber-continuou Acha-que não gostaríeis de ser acusado de ter assassinado o vosso próprio pai.

Apesar da cólera que sentia crescer dentro de si, Ouri-Téchoup não protestou. Acha tirou proveito da sua vantagem.

-Tudo o que se passa na corte hitita nos interessa. Sabemos que o exército deseja que a transferência de poderes se efetue com calma e que o imperador possa ele próprio designar o seu sucessor. É por isso que gostaria de o ajudar a recuperar a saúde utilizando os recursos da nossa medicina.

Ouri-Téchoup não podia aceitar aquela oferta. Se Mouwattali recu- perasse o uso da fala, mandaria meter o filho na prisão e confiaria o império a Hattousil.

-Como é possível que estejais tão berm informado?-perguntou a Acha.

-É-me difícil...

-Respondei.

-Lamento, mas devo manter silêncio.

-Não estais no Egito, Acha, mas na minha capital!

-Na minha qualidade de embaixador em missão oficial, o que tenho a recear?

-Sou um soldado, não um diplomata. E estamos em guerra.

-Será isso uma ameaça?

-Desconheço a paciência, Acha. Despachai-vos a í`alar.

-Iríeis... até à tortura?

-Não hesitaria um instante.

Trêmulo, Acha envolveu-se num abafo de lã.

-Poupar-me-eis se falar?

-Ficaremos bons amigos.

Acha baixou os olhos.

-Devo confessar-vos que a minha verdadeira missão consiste em propor uma trégua ao imperador Mouwattali.

-Uma trégua! Por quanto tempo?

-O máximo de tempo possível...

Ouri-Téchoup rejubilou. Portanto, o exército do Faraó estava exausto! Logo que aqueles malditos oráculos se tornassem favoráveis, o novo senhor do Hatti lançar-se-ia ao assalto do Delta.

-Depois...-recomeçou Acha, hesitante.

-Depois?

-- Sabemos que o imperador hesita entre vós e o seu irrnão Hattousil no que se refere a sucessão.

-Quem vos informa, Acha?

-Conceder-nos-íeis essa trégua se o poder fosse vosso? «Porque não utilizar a astúcia, tão cara a meu pai», pensou Ouri-Téchoup.

 -Sou um homem de guerra, mas não elimino essa possibilidade& desde que ela não enfraqueça o Hatti.

 Acha descontraiu-se.

 -Tinha dito a Ramsés que éreis um homem de Estado e não me enganei. Se desejardes, conseguiremos a paz.

 -Claro, a paz... Mas não me haveis dado a resposta que exijo: quem vos informa? -Oficiais superiores que fingem apoiar-vos. Na realidade, traem- -vos em benetício de Hattousil.

 A revelação teve sobre Ouri-Téchoup o efeito de um raio -Com Hattousil-continuou Acha-não conseguiremoS paz nem tréguas. O seu único objetivo é encabeçar uma vasta coligaça como em Kadesh, e esmagar as nossas tropas.

 -Quero nomes, Acha.

 -Tornar-nos-emos aliados, contra Hattousil? Ouri-Téchoup sentiu de repente os músculos tensos como quando se aproximava um combate. Utilizar um egípcio para se desembaraçar do seu rival, mas que estranha manobra do destino! Mas não deixaria passar semelhante ocasião.

 -Ajudai-me a eliminar os traidores, Acha, e obterei5 a vossa tré- gua e talvez até mais.

 O diplomata falou.

Cada nome que ia revelando era como uma punhalada. Havia na lista alguns dos mais entusiastas partidários de Ouri-Téchoup, pelo menos em palavras, e até mesmo oficiais superiores que tinham combatido a seu lado, afirmando-lhe que o consideravam já como o novo senhor do l-latti.

L.ívido, Ouri-Téchoup dirigiu-se em passo pesado para a porta do quarto.

-Mais um pormenor-acrescentou Acha.

-Poderíeis pedir à minha jovem amiga para regressar?

Percorrendo as pedreiras de granito de Assuão com Bakhen, Ramsés reviu o pai a escolher as pedras boas que se transformariam em obeliscos e em estátuas. Aos dezassete anos, o filho de Séthi tivera a felicidade de descobrir esse espaço mágico guiado pelo Faraó, em busca dos veios de granito de qualidade perfeita. Hoje, era ele, Ramsés, que guiava aquela exploracão e devia demonstrar as mesmas qualidades de percepção.

Ramsés utilizou a varinha de feiticeiro de Séthi, que Ihe permitia sentir nas mãos as correntes secretas da terra. O mundo dos homens não passava de uma emergência que brotara do oceano de energia a quando da "primeira vez" e que a ele regressaria quando os deuses criassem um novo ciclo de vida; tanto no subsolo como nos céus verificavam-se constantemente metamorfoses cujos ecos podiam ser detectados por um espírito atento.

Aparentemente, as pedreiras eram um universo imóvel, fechado e hostil, onde o calor era insuportável durante uma boa parte do ano.

Mas ali, o ventre da terra revelava-se de uma extraordinária generosidade, fazendo surgir à superfície um granito de inigualável esplendor.

Era, por excelência, o material imperecível que faria viver para sempre as moradas de eternidade.

Ramsés imobilizou-se.

-Escavarás aqui-ordenou a Bakhen-e porás a descoberto um monolito do qual talharás um colosso para o Ramseum. Consultaste os artesãos?

-Todos se apresentaram como voluntários para a Núbia; tive que escolher uma equipa restrita. Majestade... Não está nos meus hábitos mas tenho um pedido a fazer-vos.

-Estou a ouvir-te, Bakhen.

-Aceitaríeis a minha presença nessa expedição?

-Tenho uma boa razão para recusar: a tua nomeação como terceiro profeta de Amon de Karnak obriga-te a permanecer em Tebas.

 -Eu... eu não desejava essa promoção.

-Bem sei, Bakhen, mas o grande sacerdote Nébou e eu próprio considerámos que podíamos depositar um peso maior sobre os teus ombros. Serás assistente do grande sacerdote, manterás a prosperidade dos seus domínios e velarás pela construção do meu termplo dos milhões de anos. Graças a ti, Nébou enfrentará mais despreocupadamente as dificuldades do quotidiano.

Com o punho fechado sobre o coração, Bakhen jurou que assumiria os deveres do seu novo cargo.

De grande intensidade mas sem excessos que pudessem ser perigosos para os diques, os canais e as culturas, a cheia facilitava a viagem do par real, da sua escolta e dos talhadores de pedra. O caos rochoso da primeia catarata desaparecera sob as águas agitadas das correntes e de remoinhos que tornavam a navegação perigosa. Era preciso, especialmente, desconfiar dos desníveis bruscos, visíveis apenas no último momento e das vagas violentas, capazes de voltar qualquer barco de carregamento mal equilibrado. Foi assim posto em acão um luxo de precauções para preparar o canal graças ao qual a flotilha real ultrapassaria sem perigo a catarata.

Geralmente calmo e indiferente às agitações humanas, Matador revelava algum nervosismo; o enorme leão tinha pressa de partir para a sua Núbia natal. Ramsés acalmou-o, afagando-lhe a espessa juba.

Dois homens pediram para subir a bordo e falar com o monarca. O primeiro, um escriba encarregado da vigilancia do nilómetro, apresentou o seu relatório.

-Majestade, a cheia atinge vinte e um côvados e três palmos e um terço (Cerca de 11.27S m).

-Parece-me excelente.

-Perfeitamente satisfatória, Majestade; este ano o Egito não terá qualquer problema de irrigação.

O segundo personagem era o chefe da polícia de Elefantina; a sua inter&enção foi bastante menos tranquilizadora.

-Majestade, a alfandega assinalou a passagem de um homem cor- respondendo à sinalética que haveis dado.

-Porque não foi interpelado?

-O chefe do posto estava ausente e ninguém quis assumir essa responsabilidade, tanto mais que não tinha sido cometida qualquer infracão.

Ramsés conteve a cólera.

-E que mais?

-O homem fretou um barco rápido para o Sul; declarou ser comerciante.

-De que género era o seu carregamento?

-Jarros contendo carne de vaca seca para os fortes da segunda catarata.

-Quando partiu?

-Há uma semana.

-Transmite os seus sinais aos comandantes das pracas fortes e ordena-lhes que o prendam se se apresentar à sua porta.

Aliviado por ter escapado a uma sanção, o polícia correu a executar as ordens.

-Chénar precede-nos na Núbia-constatou Néfertari.

-Consideras prudente continuar a nossa viagem?

-O que temos a recear de um fugitivo

-Está disposto a tudo... O seu ódio não o conduzirá à loucura?

-Não será Chénar que nos impedirá de avançar. não subestimo a sua capacidade de fazer mal, Nétertari, mas não o receio. Um dia ficaremos frente a frente e ele inclinar-se-á perante o seu rei antes de ser castigado pelos deuses.

Abraçaram-se e esse momento de comunhão reforçou ainda mais a determinacão de Ramsés.

 

Desconfiado, Sétaou saltava de uma popa para uma proa, atraves- sava um barco, pulava para o seguinte, examinava os carregamentos, verificava os cordames, apalpava as velas, experimentava a solidez dos lemes; a navegação não era o seu prazer favorito e não confiava em marinheiros demasiado seguros de si mesmos. Felizmente, a administração fluvial mandara preparar um canal espaçoso, livre de escolhos e navegável mesmo em período de subida das águas. Mas o encantador de serpentes não se sentiria verdadeiramente em segurança senão quando pousasse de novo o pé em terra firme.

De regresso ao barco real onde tinha uma cabina reservada, Sétaou verificou se não esquecera nada: potes com filtros, pequenos vasos cheios de remédios sólidos e líquidos, cestos para serpentes de tamanhos diversos, trituradores, almofarizes, pilões, navalhas de bronze, saquinhos de óxido de chumbo e de limalha de cobre, ocre vermelho, argila medicinal, sacos de cebolas, compressas, potes de mel, garrafas...

Não faltava quase nada.

Entoando uma velha canção núbia, Lótus dobrava saiotes e túnicas e arrumava-os em arcas de madeira. Estava nua por causa do calor e os seus gestos felinos deslumbraram Sétaou.

-Estes barcos têm um aspecto sólido-disse ele, agarrando-a pela cintura.

-Fizeste uma inspecão cuidadosa?

-Não sou um homem sério?

-Vai examinar os mastros mais de perto; ainda não acahei as arrumações.

-Isso não é urgente.

-Não suporto a desordem.

O saiote de Sétaou caiu no chão da cabina.

-Serás tão cruel que abandones um amante neste estado? As carícias de Sétãou tornaram-se demasiado prementes para per- mitir que Lótus continuasse o seu meticuloso trabalho.

-Aproveitas-te da minha fraqueza na hora em que vou rever a Núbia.

-Que melhor forma de celebrar esse momento maravilhoso senão fazendo amor?

O cortejo de barcos de partida para o Sul foi saudado por uma numerosa multidão. Alguns garotos mais intrépidos, auxiliados por flutuadores de juncos, seguiram no seu rasto até à entrada do canal. Quem poderia esquecer que o casal real tinha oferecido à população um banquete ao ar livre durante o qual a cerveja correra a rodos? Verdadeiras moradias flutuantes, os barcos construídos para as viagens à Núbia eram simultaneamente sólidos e confortáveis. Com um único mastro central e uma vela muito grande presa por abundante cordame, dispunham de leme duplo, um a bombordo e outro a estibordo. As aberturas das cabinas, espaçosas e bem mobiladas, tinham sido calculadas de forma a garantirem uma boa circulação de ar.

Ultrapassada a catarata, a flotilha retomou o seu ritmo de cruzeiro.

Néfertari quis convidar Sétaou e Lótus para partilharem um sumo de alfarroba, mas os suspiros de prazer que saíam da cabina do casal dissuadiram-na de bater à porta. Divertida, a rainha debruçou-se à proa ao lado de Matador, cujas narinas fremiam com o ar da Núbia.

A grande esposa real agradeceu às divindades por Ihe proporciona- rem tanta felicidade, uma felicidade que ela tinha o dever de fazer irradiar sobre o seu povo. Ela, a modesta e reservada tocadora de alaúde destinada a uma obscura mas serena carreira, vivia junto de Ramsés uma existência prodigiosa.

Descobria-o todas as manhas e o seu amor crescia com a força se- rena de um elo mágico que nada, nunca, conseguiria quebrar. Tivesse Ramsés sido agricultor ou furador de vasos de pedra dura e Néfertari amá-lo-ia com a mesma intensidade; mas o papel qul o destino atribuira ao casal real impedia-a de saborear egoisticarmen&e a sua felicidade. O par era forçado a pensar a todo o momento nessa civilização que os seus predecessores Ihe tinham confiado e que deveria legar, mais bela ainda, aos seus sucessores.

 Não seria o Egito dos faraós uma sucessão de seres de amor, de fé e de dever, que tinham recusado a mediocridade, a baixeza e a vaidade a fim de formar uma cadeia de luzes humanas ao serviço da luz divina? Quando o braço de Ramsés apertou contra si a grande esposa real com aquela força cheia de doçura pela qual Néfertari se apaixonara desde o seu primeiro encontro, a rainha reviu num instante os anos passados juntos, misturando alegrias e provações, alegrias e provações ultrapassadas graças a esta certeza de serem um em todas as circunstancias.

Com o simples contato do seu corpo, Néfertari soube que o mesmo fogo Ihe inflamava o coração e os transportava a ambos pelos cami- nhos do invisível onde a deusa do amor tocava a música das estrelas.

Umas vezes saltava a direito altivo e impetuoso, outras enlanguescia em curvas sedutoras, não hesitando em acariciar à passagem uma aldeia animada por risos de crianças: assim se desenrolava o Nilo do Grande Sul, sem nunca perder a majestade do rio celeste de que era o prolongamento terrestre. Passando entre as colinas desérticas e as ilhotas de granito, alimentava uma estreita faixa de vegetação, salpicada de palmeiras mediterranicas. Grous coroados, íbis, flamingos rosa e pelicanos sobrevoavam a flotilha real, fascinada pelo absoluto do azul e do deserto.

Durante as escalas, as tribos locais vinham dançar em redor da tenda real; Ramsés conversava com os chefes, Sétaou e Lótus tomavam nota das suas queixas e desejos. A noite, em torno de uma fogueira, era evocado o mistério do rio criador e a subida da cheia benéfica e celebrado o nome de Ramsés o Grande, o esposo do Egito e da Núbia.

Néfertari apercebeu-se que a fama do faraó ia crescendo e que alguns o consideravam igual a um deus; desde a vitória de Kadesh, o relato da batalha andava em todas as bocas, mesmo nas aldeias mais afastadas. Ver Ramsés e Néfertari era considerado um favor divino; pois não tinha Amon penetrado no espírito do rei para animar o seu braço e Hathor no da rainha para espalhar o amor como uma cintilação de pe- dras preciosas? Como o vento norte soprava mansamente, o avanço era lento. Ramsés e Néfertari saboreavam aquelas horas imóveis e passavam a maior parte do seu tempo na ponte, protegidos por um guarda-sol. Matador reencontrara a serenidade e dormia também na ponte.

Não seriam a areia de ouro e a pureza do deserto ecos de um outro mundo? Quanto mais o barco avançava para o domínio de Hathor, essa região esquecida onde a deusa dava forma a uma pedra miraculosa, mais Néfertari tinha a sensação de realizar um ato fundamental que a ligava à origem de todas as coisas. As noites eram deliciosas.

Na cabina do casal real encontrava-se a cama preferida de Ramsés, cujo enxergão era feito de meadas de canhamo entrecruzadas de forma perfeita e presas à armação; duas tiras de lona conferiam-lhe grande flexibilidade. Montada com cavilhas e encaixes, a armação era reforça- da em baixo por uma questão de solidez. Na base, representações de papiros, acianos e mandrágoras rodeavam a representação do papiro e do lótus, simbolizando o Norte e o Sul. Mesmo durante o sono, o Faraó continuava a ser o mediador.

As noites eram deliciosas porque, ao calor do Verão núbio o amor de Ramsés era tão vasto como o céu estrelado.

Graças às placas de prata que Ofir Ihe dera e que representavam uma verdadeira fortuna, Chénar comprara os serviços de cerca de cinquenta pescadores núbios, encantados por poderem melhorar o seu dia-a-dia mesmo que o que o egípcio exigia fosse extravagante e perigoso. A maior parte dos negros acreditaram na loucura passageira de um homem rico e caprichoso desejando assistir a um espetáculo inédito, mas que pagava bem e garantia o desafogo das suas famílias durante vários anos.

Chénar não gostava da Núbia. Como detestava o sol e o calor, transpirava durante todo o dia. Obrigado a beber muita água e a ingerir apenas uma alimentação medíocre, alegrava-se no entanto por ter estabelecido a estratégia que Ihe permitiria eliminar Ramsés.

Esta Núbia detestada proporcionava-lhe no entanto uma coorte de assassinos implacáveis que os soldados de Ramsés não seriam capazes de repelir. Uma coorte renitente à disciplina mas cuja violência e aptidões para o combate eram inigualáveis.

Bastava-lhe agora esperar pelo barco de Ramsés.

 

O vice-rei da Núbia passava dias calmos no seu confortável palácio de Bouhen, próximo da segunda catarata, vigiada por várias fortalezas que impediam qualquer tentativa de agressão núbia No passado, alguns chefes de tribo tinham sido tentados a invadir o Egito, que deci- dira acabar com esse perigo construindo impressionantes praças fortes cujas guarnições, regularmente abastecidas, recebiam salários gene- rosos.

O vice-rei da Núbia, que também tinha o título de «filho real de Koush», uma das províncias núbias, tinha apenas uma preocupação fundamental: garantir a extracão de ouro e fazê-lo transportar para Te- bas, Mênfis e Pi-Ramsés. Os ourives utilizavam o metal precioso, «a car- ne dos deuses, para adornar portas, paredes dos templos e estátuas e o Faraó utilizava-o nas suas relacões diplomáticas com vários países, cuja benevolente neutralidade conquistava dessa forma.

O posto de vice-rei da Núbia era uma situação bastante invejável, mesmo que o seu titular tivesse que morar longe do Egito durante Iongos meses. O alto funcionário administrava uma imensa região e apoiava-se numa casta militar experiente que contava nas suas fileiras numerosos autótones. Como não receava qualquer revolta da parte de tribos em paz, o vice-rei entregava-se aos prazeres da boa mesa, da música e da põesia. A esposa, depois de Ihe ter dado quatro filhos, mostrava-se de um ciúme feroz que o impedia de apreciar as formas provocadoras das jovens núbias, tão peritas nos jogos do amor. Divor- ciar-se conduziria o vice-rei à ruina, porque a esposa obteria indemni- zações enormes e uma pensão alimentar que nunca mais permitiria ao notável viver uma vida despreocupada.

O egípcio tinha horror aos incidentes que pudessem perturbar a sua tranquilidade... E eis que um despacho oficial anunciava a vinda do par real! Mas o documento não precisava nem a finalidade exata da viagem, nem a data de chegada a Bouhen. E um outro despacho ordenava a prisão de Chénar, o irmão mais velho de Ramsés, há muito tempo considerado morto e cuja aparência devia ter mudado muito! O vice-rei hesitava em enviar um barco ao encontro do monarca; dado que o Faraó não corria qualquer perigo, mais valia concentrar-se na qualidade do acolhimento e na organização das recepções em honra do casal real.

O comandante da fortaleza de Bouhen fez o seu relatório quotidiano ao vice-rei.

-Não há quaisquer vestígios do suspeito na região, mas verificou-se um fato bizarro.

-Detesto os incidentes, comandante!

-Mesmo assim, posso falar-vos dele?

-Se quiserdes...

-Diversos pescadores deixaram a sua aldeia durante dois dias- revelou o oficial.

-No regresso, embebedaram-se e envolveram-se em lutas. Um deles morreu durante a rixa e encontrei na sua choupana uma pequena barra de prata.

-Uma verdadeira fortuna!

-É verdade, mas os nossos interrogatórios foram infrutíferos; ninguém revelou a origem daquela barra. Estou convencido que alguém pagou aos pescadores para roubar peixe destinado ao exército.

Se o vice-rei se lançasse em investigações estéreis, o Faraó acusá-lo-ia de ineficácia; a melhor solução consistia em não fazer nada, esperando que Sua Maiestade não viesse a saber do caso  O vento era tão fraco que os marinheiros, sem nada que fazer, dormiam ou jogavam aos dados. Gozavam aquela viagem calma e as escalas alegres, ocasião para agradáveis encontros com acolhedoras núbias.

O capitão do barco da cauda não gostava de ver a sua tripulação desocupada, de forma que se preparava para ordenar uma limpeza geral quando se verificou um choque violento que abalou o veleiro e fez cair vários marinheiros pesadamente na ponte.

-Um rochedo, chocámos com um rochedo! A proa do barco real, Ramsés ouvira o estalar do casco. Todos os barcos baixaram imediatamente as velas e se imobilizaram no meio do rio que, naquele lugar, tinha pouca largura.

Lótus foi a primeira a compreender.

Várias dezenas de rochedos cinzentos mal emergiam da água lodo- sa, mas um olhar atento distinguia, à superfície, minúsculos olhos e orelhas.

-Manadas de hipopótamos-disse a Ramsés.

A bela núbia subiu ao cimo do mastro e constatou que a flotilha estava presa numa ratoeira. Desceu agilmente e não dissimulou a verdade.

-Nunca vi tantos, Majestade! Não podemos recuar nem avançar. É estranho... Parece que alguém os obrigou a reunirem-se aqui.

O Faraó conhecia o perigo. Os hipopótamos adultos pesavam mais de três toneladas e estavam armados de armas temíveis: caninos amarelados com o comprimento de várias dezenas de centímetros e capazes de perfurar o casco de um barco. Particularmente irascíveis, os senho- res do rio estavam muito à vontade na água e nadavam com uma surpreendente agilidade. Quando era provocada a sua cólera, abriam os enormes maxilares num bocejo ameaçador.

-Se os machos dominantes decidiram bater-se para conquistar as fêmeas-informou Lótus-devastarão tudo à sua passagem e meterão os nossos barcos ao fundo. Muitos de nós morreremos despedaçados ou afogados.

 Dezenas de orelhas fremiram, os olhos semicerrados abriram-se, as narinas emergiram à superfície da água, as goelas entreabriram-se e sinistros sons fizeram esvoaçar as flores pendentes das acácias. O corpo dos machos era sulcado por cicatrizes, vestígios de combates violentos, muitos dos quais terminavam com a morte de um dos adversários.

A visão dos horríveis caninos amarelos petrificou os marinheiros.

Não tardaram em detectar alguns enormes machos à cabeça de grupos de uma vintena de indivíduos cada vez mais nervosos. Se passassem ao ataque, começariam por esmagar com uma dentada os lemes dos barcos, tornando impossível manobrá-los, e embateriam de encontro a eles com toda a sua massa até os fazerem ir para o fundo. Lançar-se à água e tentar nadar era aleatório, pois como seria possível abrir caminho para a margem pelo meio daqueles monstros enfurecidos?

-Temos de arpoá-los-afirmou Sétaou.

-São demasiado numerosos-considerou Ramsés.

-Apenas conseguiremos matar alguns e provocaremos a fúria dos outros.

-Não vamos deixar-nos massacrar sem reagir!

-Foi assim que me comportei em Kadesh? O meu pai Amon é o senhor do vento. Façamos silêncio para que a sua voz se exprima.

Ramsés e Néfertari ergueram as mãos em gesto de oferenda, com as palmas voltadas para o céu. Apoiado nas patas, olhando ao longe, o enorme leão mantinha-se dignamente à direita do dono.

A ordem passou de barco em barco e o silêncio reinou sobre a flo- tilha.

Várias bocas de hipopótamo se fecharam lentamente; os senhores do Nilo, de pele frágil, imergiram, não deixando ver senão a extremidade das narinas e das orelhas. Os olhos semicerrados pareceram adormecer.

Nada mexeu durante intermináveis minutos.

A brisa do norte refrescou a face de Lótus, aquela brisa que incar- nava o sopro da vida. O barco real avançou lentamente, logo seguido pelos outros barcos que passaram entre os hipopótamos subitamente calmos.

Do cimo da palmeira mediterranica onde se instalara para assistir ao naufrágio, Chénar foi testemunha do novo milagre que Ramsés acabava de realizar. Um milagre... Não, uma sorte louca, um vento inesperado que surgira a meio do dia, em plena canícula! Enraivecido, Chénar esmagou entre os dedos tamaras túrgidas de sol.

 

Durante a estação quente, os fabricantes de tijolos hebreus ficavam de férias. Uns aproveitavam para repousar em família, outros completavam o salário empregando-se como jardineiros nas grandes propriedades. A colheita de frutos anunciava-se abundante; as famosas maças de Pi-Ramsés ocupariam um lugar importante na mesa dos banquetes.

As beldades dormitavam nos quiosques de madeira, cobertos de trepadeiras, ou tomavam banho nos lagos de recreio; os rapazes nadavam à frente delas, multiplicando as proezas para as deslumbrar; os mais velhos gozavam o fresco à sombra de vinhas em latada e contavam a última façanha de Ramsés que, por meio da sua magia, dominara uma imensa manada de hipopótamos em fúria. E repetia-se o refrão da canção: Que alegria viver em Pi-Ramsés, os palácios resplandecem de ouro e turquesa, o vento é suave e as aves brincam junto dos lagos», refrão que até os fabricantes de tijolos hebreus cantarolavam.

O projeto de êxodo parecia esquecido. No entanto, quando Améni viu Moisés entrar no seu gabinete receou que aquela perfeita calma fos- se alterada.

-Nunca descansas, Améni?

-Uma pasta ocupa o lugar da outra; na ausência de Ramsés, ainda é pior. O rei é capaz de tomar uma decisão em alguns momentos, mas eu tenho a preocupação do pormenor.

-Não pensas casar-te?

-Não me fales de desgraças! Uma mulher censurar-me-ia por trabalhar demais, poria as minhas coisas em desordem e impedir-me-ia de servir corretamente o Faraó.

-O Faraó, o nosso amigo...

-Continua a ser teu, Moisés?

-Duvidas, Améni?

-Perante a tua atitude, há motivo para pensar no caso.

-A causa dos hebreus é justa.

-O êxodo é uma loucura!

-Se o teu povo estivesse em cativeiro, não sentirias desejo de o libertar?

-Que cativeiro, Moisés? Todos são livres no Egito, tanto tu como os outros! A nossa verdadeira liberdade é afirmarmos a nossa fé em Yahvé, o verdadeiro Deus, o Deus único.

-Ocupo-me de administração, não de teologia.

-Podes dizer-me a data do regresso de Ramsés?

-Não sei.

-Se soubesses, dir-me-ias? Améni tamborilou com os dedos numa tabuinha de escrita.

-Não aprovo os teus projetos, Moisés; como sou teu amigo, devo informar-te que Serramanna te considera um homem perigoso.

Não te transformes num fator de perturbação, senão ele restabelecerá a ordem com firmeza e poderás sofrer com isso.

-Graças a Yahvé, não receio ninguém.

-Mesmo assim, acho que deves recear Serramanna; se perturbares a ordem pública ele atacará.

-Não virias em meu auxílio, Améni?

-A rninha religião é o Egito. Se traíres o teu país, passarás para o lado das trevas.

-Receio que já não tenhamos nada em comum.

-De quem é a culpa, Moisés? O hebreu estava mergulhado em sombrios pensamentos quando saiu do gabinete de Améni. Ofir tinha razão: devia esperar pelo regres- so de Ramsés e tentar convencê-lo, esperando que a palavra fosse arma suficiente.

 

Alojado numa residência do bairro hebreu, o mago Ofir terminava a instalação do seu laboratório. Começara já as experiências de encantamento servindo-se do pincel de Kha, o filho mais velho de Ramsés, mas sem qualquer êxito. O objeto permanecia inerte, desprovido de vibra- ções, como se nenhuma rmão humana o tivesse algum dia manejado.

A protecão mágica de que Kha gozava era de uma eficácia perfeita, a ponto de perturhar o mago líbio; disporia de meios suficientes para ultrapassar essa barreira? Um homem podia ajudá-lo: o diplomata Méba.

Mas o dignitário que surgiu à sua frente nada tinha de um personagem florescente e seguro de si; trêmulo, enfiado num abafo com capuz que Ihe dissimulava o rosto, Méba assemelhava-se a um fugitivo.

-Já caiu a noite-observou Ofir.

-Mesmo assim, podiam reconhecer-me... É muito perigoso para mim vir aqui! Não devíamos evitar este gênero de encontros?

-Era indispensável.

Méba lamentava a sua aliança com o espião hitita, mas como havia de quebrar as malhas da rede?

-O que tendes para me dizer, Ofir?

-Podem verificar-se profundas modificações no império hitita.

-Em que sentido?

-Um sentido que nos será favorável. E as vossas informações?

-Acha é um homem prudente. Apenas Améni tem conhecimento das mensagens diplomáticas que Ihe são destinadas, antes de fazer che- gar a Ramsés o essencial. São em código e ignoro a chave. Interessar- -me demasiado tornar-me-ia suspeito.

-Quero saber o conteúdo dessas mensagens.

-Os perigos...

O olhar glacial de Ofir dissuadiu Méba de procurar outras desculpas.

-Farei o melhor que puder.

-Tendes a certeza que o pincel de escrita que haveis roubado pertencia realmente a Kha?

-Não tenho dúvida nenhuma!

-É Sétaou que faz o filho de Ramsés beneficiar de uma protecão rmágica, não é verdade?

-Assim é.

-Sétaou partiu para a Núbia com Ramsés, mas o seu dispositivo revela-se mais eficaz do que eu supusera. Quais foram as precauções exatas que ele tomou?

-Talismãs, creio eu... Mas já não posso aproximar-me de Kha!

-Porquê? -Serramanna desconfia que eu tenha roubado o pincel. Se der um passo em falso, meter-me-á na prisão! -Deveis manter o sangue-frio, Méba. A justiça não é uma palavra vã no Egito. O sardo não tem qualquer prova contra vós e portanto não há perigo.

-Tenho a certeza que Kha também desconfia!

-Ele tem um confidente? O diplomata refletiu.

-Com certeza, o seu perceptor Nedjem, o ministro da Agricultura.

-Interrogai-o e tentai saber a natureza desses talismas.

-É extremamente perigoso.

-Estais ao serviço do império hitita, Méba.

O dignitário baixou os olhos.

-Farei o melhor que puder, prometo-vos.

Serramanna deu uma grande palmada nas nádegas da líbia de vinte anos que acabava de o distrair com ingenuidade mas entusiasmo. Tinha uns seios que a mão do sardo não esqueceria e coxas perturbadoras, verdadeiro apelo a que um homem de bem não podia escapar. E o antigo pirata gabava-se de, atualmente, pertencer a essa categoria.

-Gostaria de recomeçar-sussurrou ela.

-Desaparece, tenho trabalho! Assustada, a rapariga não insistiu.

Serramanna saltou para o dorso do cavalo e galopou até ao posto da guarda onde os seus homens se revezavam. Em geral, jogavam aos dados ou ao jogo da serpente e discutiam acaloradamente a propósito do seu soldo ou dos adiantamentos; na ausência do casal real, Serra- manna duplicara os períodos de trabalho para garantir a proteccão da rainha-mãe e dos membros da família real.

Reinava um profundo silêncio no interior do posto.

-Ficaram mudos?-perguntou Serramanna, pressentindo qualquer incidente.

O chefe do posto levantou-se com os ombros curvados.

-Antes de mais nada, chefe, respeitámos as ordens.

-O resultado?

-Respeitamos as ordens mas o vigia do bairro hebreu não teve sorte... Não viu Méba passar.

-Queres dizer que adormeceu!

-Pode querer dizer que sim, chefe.

-E chamas a isso respeitar as ordens ?

-Esteve tanto calor hoje...

-Mando-te fazer seguir um suspeito, não te afastares dele a distancia de uma sandália, sobretudo se entrar no bairro dos fabricantes de tijolos hebreus, e tu falhas a vigilancia!

-Isto não voltará a acontecer, chefe!

-Mais um erro como este e mando-vos a todos para casa, para as ilhas gregas ou não quero saber para onde! Furioso, martelando o chão com o seu passo pesado, Serramanna saiu do posto da guarda. O seu faro garantia-lhe que Méba estava ligado aos contestatários hebreus e que ajudaria Moisés. Muitos notáveis da corte, igualmente estúpidos, não tinham qualquer consciência do perigo que o profeta representava.

Ofir fechou a porta do laboratório. Os dois homens que recebia, Amos e Baduch, não precisavam de ser informados das suas experiências. Tal como o mago, os dois beduínos vestiam à maneira dos fabricantes de tijolos hebreus e tinham deixado crescer o bigode.

Graças às tribos nómadas controladas pelos dois homens, Ofir permanecia em contato com Hattousa, a capital hitita. Faziam-se pagar caro, o que evitaria uma traição precoce.

-O imperador Mouwattali continua vivo-revelou Amos.

-O filho, Ouri-Téchoup, deveria suceder-lhe.

-Os militares projetam uma ofensiva?

-Para já, não.

-Temos armas?

-Em quantidade suficiente, mas o transporte coloca um problema.

Teremos de fazer muitas entregas pequenas para equipar os hebreus se não queremos atrair a atenção das autoridades egípcias. Será demora- do, mas não devemos cometer imprudências. Haveis obtido o acordo de Moisés? -Consegui-lo-ei. Armazenareis as armas nas caves das casas pertencentes aos hebreus decididos a bater-se contra o exército e a polícia do Faraó.

-Faremos uma lista das pessoas de confiança.

-Quando começaremos as entregas?

-No próximo mês.

O oficial encarregado da segurança da capital hitita era um dos mais fervorosos partidários de Ouri-Téchoup; como muitos outros militares, esperava com impaciência a morte do imperador Mouwattali e a tomada do poder pelo filho, que ordenaria finalmente a ofensiva contra o Egito.

Depois de ter ele próprio verificado que os seus homens estavam corretamente colocados nos pontos estratégicos da cidade, o oficial tomou o caminho da caserna para gozar um repouso bem merecido.

Amanhã, submeteria os mandriões a um treino intensivo e distribuiria alguns castigos para manter a disciplina.

Hattousa era bastante sinistra, com as suas fortificações e muralhas cinzentas, mas amanha, depois da vitória, o exército hitita festejaria nos ricos campos do Egito e gozaria o bom tempo nas margens do Nilo.

O oficial sentou-se na cama, descalçou-se e massajou os pés com um unguento barato, à base de urtigas. Começava a adormecer quando a porta se abriu de repente.

Dois soldados, de espada desembainhada, ameaçavam-no.

-O que vos deu? Fora daqui!

-És pior do que um abutre, tu, que traíste o nosso chefe Ouri-Téchoup!

-O que estão vocês a dizer?

-Eis a sua recompensa!

Soltando um grito de magarefe no matadouro, os dois soldados enterraram as espadas no ventre do traidor.

 

Nascia um sol pálido. Depois de uma noite em branco, Ouri-Téchoup sentia necessidade de se restaurar. Bebia leite quente e comia queijo de cabra quando os dois executores finalmente se apresentaram.

-Missão cumprida.

-Dificuldades?

-Nenhuma. Todos os traidores foram apanhados de surpresa.

-Mandai fazer uma pira em frente da porta dos leões e acumulai aí os cadáveres; amanha, eu próprio acenderei o fogo que os queimará.

Todos ficarão a saber a sorte reservada àqueles que tentam apunhalar-me pelas costas.

Graças aos nomes revelados por Acha, a depuração fora rápida e brutal; Hattousil já não tinha nenhum informador entre os próximos de Ouri-Téchoup.

O general-chefe dirigiu-se ao quarto do imperador, seu pai, que duas enfermeiras tinham instalado num cadeirão, no terraço do palácio que dominava a cidade alta.

O olhar de Mouwattali permanecia fixo e as mãos apertavam os braços da cadeira.

-Sois capaz de falar, meu pai? A boca entreabriu-se, mas nenhum som ultrapassou o obstáculo dos lábios. Ouri-Téchoup ficou descansado.

-Nada tendes a recear pelo império, eu velo por ele. Hattousil está escondido na província, já não é ninguém e nem sequer preciso de me de- sembaraçar dele. Esse covarde apodrecerá no medo e no esquecimento.

Brilhou nos olhos de Mouwattali um fulgor de ódio.

-Não tendes o direito de me criticar, meu pai; quando não dispomos do poder, não devemos apoderar-nos dele seja por que processo for? Ouri-Téchoup tirou o punhal da bainha.

-Não estais cansado de sofrer, meu pai? Um grande imperador só tem gosto pela arte de governar. No estado em que estais, que esperan- ça vos resta de voltar a praticá-la? Fazei um esforço para que o vosso olhar me suplique para abreviar esta horrível tortura.

Ouri-Téchoup aproximou-se de Mouwattali. As pálpebras do soberano não abriram.

-Aprovai o meu gesto, aprovai-o e dai-me esse trono que por di- reito me pertence.

Mouwattali recusava com todo o seu ser e o olhar fixo desafiava o agressor.

Ouri-Téchoup ergueu o braço, preparado para atacar.

-Cedeis ou não, por todos os deuses?! Sob a pressão dos dedos do imperador, um dos braços do cadeirão estalou como um fruto maduro. Estupefato, o filho largou o punhal que rolou nos mosaicos.

No interior do santuário de Yazilikaya, erigido no flanco de uma colina, a nordeste da capital do império hitita, os sacerdotes lavavam a estátua do deus da Tempestade para manter a sua força; celebraram depois os rituais destinados a atastar o caos e a encerrar o mal dentro da terra: espetaram sete pregos de ferro, sete de bronze e sete de cobre antes de imolarem um leitãozinho, carregado com as forças obscuras que ameaçavam o equilíbrio do país.

Terminada a cerimónia, os celebrantes passaram em frente de um friso de doze deuses, detiveram-se em frente de uma mesa de pedra e beberam uma bebida forte para expulsar qualquer contrariedade do seu espírito. Subiram depois uma escada talhada na rocha para se dirigirem a uma capela aberta no coração da pedra e orarem.

Um sacerdote e uma sacerdotisa afastaram-se da procissão e desceram a um quarto subterraneo iluminado por lâmpadas de óleo. Hattousil e Poutouhépa tiraram o capuz que Ihes dissimulava o rosto.

-Este momento de paz reconfortou-me-confessou ela.

-Aqui, estamos em segurança-afirmou Hattousil.-Nenhum soldado de Ouri-Téchoup ousará aventurar-se neste enclave sagrado.

Por precaução, farei instalar vigias em torno do santuário. Estás satisfeita com o teu périplo?

-Os resultados ultrapassaram as minhas esperanças. Muitos oficiais são menos dedicados a Ouri-Téchoup do que nós supunhamos e são muito sensíveis à ideia de conquistar uma bela fortuna sem se arriscarem a ser mortos. Alguns estão igualmente conscientes do perigo que a Assíria representa e sentem a necessidade de reforcar o nosso sistema defensivo em vez de nos lançarmos numa louca aventura contra o Egito.

Hattousil bebia as palavras da esposa como um néctar.

-Trata-se de um sonho, Poutouhépa, ou és portadora realmente de uma verdadeira esperança?

-O ouro de Acha fez maravilhas e soltou muitas línguas; militares de alta patente detestam a arrogancia, a crueldade e a vaidade de Ouri-Téchoup. Já não acreditam no seu discurso de conquistador nem na sua capacidade para vencer Ramsés e não Ihe perdoam a atitude para com o imperador. É verdade que não se atreveu a assassiná-lo, mas não deseja abertamente a sua morte? Se manobrarmos bem, o reinado de Ouri-Téchoup será breve.

-O meu irmão agoniza e não posso ir em seu auxílio...

-Queres que tentemos um golpe de força?

-Seria um erro, Poutouhépa; o destino de Mouwattali está escrito.

 A bela sacerdotisa olhou o marido com admiração.

-Tens a coragem de sacrificar os teus sentimentos para reinares sobre o Hatti?

-Visto que é necessário... Mas os que me ligam a ti são indestrutí- veis.

-Combateremos juntos e venceremos juntos, Hattousil. Como te acolheram os comerciantes?

-A sua confiança não diminuiu e talvez tenha mesmo sido reforçada graças aos erros de Ouri-Téchoup que, segundo eles, arruinará o império. Temos o apoio da província, mas falta-nos o da capital.

-A reserva de ouro de Acha está ainda longe de se esgotar; irei a Hattousa e convencerei os responsáveis militares de alta patente a pas- sarem para o nosso lado.

-Se caíres nas mãos de Ouri-Téchoup...

-Temos amigos em Hattousa; ocultar-me-ão e organizarei breves entrevistas em lugares diferentes.

-É demasiado perigoso, Poutouhépa.

-Não podemos dar sossego a Ouri-Téchoup nem perder uma hora que seja.

 

A língua da jovem hitita loura lambia lentamente as costas de Acha, semi-adormecido, e ia subindo até à nuca. Quando o prazer se tornou muito doce, o diplomata saiu da sua letargia. voltou-se de lado e enlaçou a amante, cujos seios estavam frernentes. Preparava-se para a gratificar com uma carícia inédita quando Ouri-Téchoup irrompeu no quarto.

 -Só pensais no amor, Acha!

-A vossa capital revela-se rica em descobertas palpitantes.

Ouri-léchoup agarrou a loura pelos cabelos a lançou-a para l`ora do quarto, enquanto o egípcio se perfumava e vestia.

-Estou muito bem-disposto-declarou o hitita. cujos músculos pareciam mais salientes do que era habitual.

Com a longa cabeleira e o peito coberto por uma pelagem arruivada, o filho do imperador evidenciava a sua postura de guerreiro implacável.

-Todos os meus adversários foram eliminados-afirmou Ouri-Téchoup.

-Já não há um único traidor. A partir de agora, o exército obedecerá ao mínimo gesto meu.

Ouri-Téchoup tinha pensado muito antes de desencadear a depuração. Se Acha dissera a verdade, era a ocasião própria para eliminar as ovelhas ranhosas; se mentira, a de suprimir eventuais concorrentes. Decidida por sugestão do embaixador egípcio, esta sangrenta operação, feitas hem as contas, só tinha vantagens.

-Continuais a recusar deixar-me tratar o vosso pai?

-O imperador é incurável; é inútil atormentá-lo com drogas que não melhorarão o seu estado e podem aumentar-lhe o sofrimento.

-Estando ele incapacitado de governar, o império vai ficar sem chefe? Ouri-Téchoup esboçou um sorriso triunfante.

-Em breve os oíiciais superiores me elegerão imperador.

-E estabeleceremos uma longa trégua, não é verdade?

-Duvidais?

-Tenho a vossa palavra.

-Falta ainda um obstáculo fundamental: Hattousil, o irmão do im- perador.

-A sua influência não é inexistente?

-Enquanto for vivo, tentará prejudicar-me! Com o apoio dos comerciantes, conspirará para me privar dos recursos materiais de que necessito para equipar corretamente o exército.

-Não sois capaz de o interceptar?

-Hattousil é uma verdadeira enguia e possui a arte de se ocultar.

-É aborrecido-reconheceu Acha-mas há uma solução.

O olhar de Ouri-Téchoup iluminou-se.

-Qual, meu amigo?

-Armar-lhe uma cilada.

-E... ajudar-me-íeis a capturá-lo?

-Não é esse o papel de um embaixador egípcio que deseja oferecer um sumptuoso presente ao novo imperador do Hatti?

Utilizando os seus dons de vidente, Néfertari confirmara os pressentimentos de Ramsés: a presença das manadas de hipopótamos, prontos a desencadear um feroz combate que destruiria a flotilha egípcia durante o confronto, não fora devida ao acaso. Batedores e pescadores tinham obrigado os mastodontes a agruparem-se.

-Chénar... Foi ele que guiou o seu braço-afirmou Ramsés.- Nunca renunciará a destruir-nos, é essa a sua única razão de viver. Néfertari, aceitas que continuemos o nosso caminho para o Sul?

-O Faraó não deve renunciar ao seu projeto.

O Nilo e as paisagens da Núbia fizeram esquecer Chénar e o seu ódio. Na escala, Lótus e Sétaou capturaram cobras admiráveis, uma das quais tinha a cabeça negra riscada de vermelho. A colheita de veneno iria ser abundante.

A sedutora núbia de pele dourada estava ainda mais bonita do que habitualmente; o generoso vinho de palma e os prazeres do amor, na doçura quente das noites, transformaram a viagem numa festa do desejo.

Quando a luz da madrugada fazia reviver o verde das palmeiras e o ocre das colinas, Néfertari saboreava a alegria dessa ressurreição, saudada pelo canto de centenas de aves. Todas as manhas, envergndo o tradicional vestido branco de alças, venerava os deuses do céu, da terra e do mundo intermédio, e agradecia-lhes terem oferecido a vida ao povo do Egito.

Um barco de carga estava naufragado numa ilhota arenosa.

O barco real imobilizou-se próximo; não havia qualquer sinal de vida na embarcação abandonada.

Ramsés, Sétaou e dois marinheiros meteram-se numa barca para examinar os destroços mais de perto. Néfertari tentara dissuadir o rei, mas este, convencido que se tratava do barco de Chénar, esperava encontrar nele alguns indícios.

Não havia nada na ponte.

-O porão tem a porta fechada-fez notar um marinheiro.

Com a ajuda de Sétaou, quebrou o ferrolho de madeira.

Qual a razão daquele naufrágio num ponto do rio que não apre- sentava qualquer perigo; qual a razão daquele abandono precipitado, que nem sequer dera à tripulação tempo para levar a carga? O marinheiro penetrou no porão.

Um grito horrível rasgou o ar azul da manha nascente. Setaou recuou. Até ele, que ignorava o que era o medo face aos répteis mais temíveis, estava petrificado.

 Vários crocodilos, que se introduziram no porão por um gigantesco buraco, tinham apanhado o marinheiro pelas pernas e devoravam-no com grandes dentadas. O homem já não gritava.

 Ramsés quis socorrer o infeliz, mas Sétaou impediu-o.

-Só farias com que te matassem... Já ninguém o pode salvar.

Uma nova emboscada, tão cruel como a anterior. Chénar previra a reacão do irmão, cuja intrepidez era conhecida.

Com o coração cheio de raiva, o rei voltou para trás com Sétaou e o outro marinheiro. Saltaram do barco naufragado para o banco de areia.

Entre eles e o barco, um enorme crocodilo com mais de oito metros de comprimento e pesando bem uma tonelada, observava-os com o olhar fixo e a boca aberta, pronto para atacar. Embora se apresentasse de uma imobilidade mineral, o monstro podia revelar-se de extraordinária rapidez; na escrita hieroglífica, o sinal do crocodilo simbolizava a acão fulminante contra a qual ninguém podia precaver-se.

Sétaou olhou em seu redor: estavam cercados por outros répteis.

Não havia fuga possível.

Alguns crocodilos, com a boca fechada mas deixando ver dentes mais cortantes do que um punhal, pareciam sorrir à idéia de saborear tão belas presas.

Do barco real era impossível ver a cena. Dentro de algum tempo, inquietar-se-iam por não ver regressar o pequeno grupo, mas seria demasiado tarde.

-Não quero morrer assim-murmurou Sétaou.

Ramsés retirou lentamente o seu punhal da bainha: não sucumbiria sem combater. Quando o monstro atacasse, esgueirar-se-ia por baixo dele e tentaria rasgar-lhe a garganta. Luta desesperada de que Chénar, sem necessidade de se mostrar, sairia vitorioso.

Rapidamente, o monstro progrediu dois metros e estacou de novo O marinheiro ajoelhara e tapava os olhos com as mãos.

-Vamos gritar juntos, avançando para o adversário-disse Ramsés a Sétaou. -Talvez nos ouçam do barco. Tu vais pela esquerda e eu pela direita.

O último pensamento de Ramsés foi para Néfertari, tão próxima e já tão distante. Depois, esvaziou o espírito, concentrou as energias e fixou o enorme crocodilo.

o rei ia soltar o seu grito quando detectou um movimento no maciço de plantas espinhosas que orlavam a margem. E o barrido estoirou, tonitruante, tão potente que encheu de terror os próprios crocodilos.

Um barrido à medida de um gigantesco elefante macho que penetrou na água com rapidez e atingiu a ilhota. Com a tromba, agarrou o monstro pela cauda e projetou-o contra os seus congêneres; empurrando-se uns aos outros, os crocodilos desapareceram na água.

-És tu!-exclamou Ramsés.-És tu, o meu fiel amigo! A tromba do elefante, cujas presas pesavam pelo menos oitenta quilos cada, rodeou docemente a cintura do rei do Egito, ergueu-o e poisou-o sobre a sua nuca, enquanto as amplas orelhas agitavam o ar.

-Um dia, salvei-te a vida; hoje, és tu que salvas a minha Ferido por uma flecha que se cravara na sua tromba, socorrido e curado graças à intervenção de Ramsés e Sétaou, o jovem elefante transformara-se num soberbo macho, com os olhos pequenos brilhan- tes de inteligência.

Quando Ramsés Ihe acariciou a testa, soltou um novo barrido, este de alegria.

 

Nedjem, o ministro da Agricultura, deu o último retoque ao seu relatório. Graças a uma cheia excelente, os celeiros ficariam cheios e o duplo país viveria na abundancia. A gestão rigorosa dos escribas do Tesouro permitiria mesmo uma diminuição dos impostos. De regresso à sua capital, Ramsés constataria que todos os altos funcionários tinham realizado a sua tarefa com zelo, sob o controle de Améni, atento e crítico.

Nedjem dirigiu-se em passo apressado para o jardim do palácio, onde Kha devia brincar com a irmã, Meritamon; mas apenas lá encontrou a garotinha, praticando alaúde.

-O teu irmão saiu há muito tempo?

-Não veio.

-Devíamos encontrar-nos aqui...

Nedjem dirigiu-se para a biblioteca onde, pouco depois do almoço, deixara o pequeno Kha, desejoso de copiar as Sabedorias escritas por mestres do pensamento do tempo das piramides.

O adolescente continuava lá, sentado à maneira de escriba, fazendo correr o pincel muito fino sobre o papiro que desenrolara nos joelhos.

-Mas... ainda não estás cansado?

-Não, Nedjem; estes textos são de tal forma belos que copiá-los dissipa a fadiga e torna a mão ligeira.

-Talvez fosse conveniente... interromper-te.

-Oh, não! Agora não! Gostaria tanto de estudar o tratado de geo- metria do mestre-de-obra que construiu a piramide de Ounas, em Saqqara.

-O jantar...

-Não tenho fome, Nedjem; pode ser, pode?

-Está bem, concedo-te mais um bocadinho, mas...

Kha levantou-se, beijou o ministro nas faces e depois retomou a posição de escriba e mergulhou com avidez na leitura, a escrita e a pesquisa.

Ao sair da biblioteca, Nedjem abanava a cabeça. Uma vez mais se maravilhava com os dons extraordinários do filho mais velho de Ramsés. O menino-prodígio transformara-se num adolescente que confirmava as promessas detetadas; se Kha continuasse a crescer em sabedoria, o Faraó poderia ficar com a certeza de vir a ter um sucessor digno dele.

-A nossa agricultura vai bem, meu caro Nedjem?  A voz que acabava de arrancar o ministro à sua meditação era a de Méba, elegante e sorridente.

 -Bem, muito bem.

 -Há muito tempo que não temos ocasião de conversar... Aceitas um convite para jantar?

-Um acréscimo de ocupações obriga-me a recusar.

 -Fico desolado.

 -Eu também, Méba, mas o serviço do reino deve passar à frente das distrações.

 -Não é essa a convicção de todos os servidores do Faraó? Não anima todas as nossas iniciativas?

-Infelizmente, os homens são apenas homens e esquecem muitas vezes o seu dever.

 Méba detestava aquele desmancha-prazeres ingénuo e doutoral, rnas devia fingir respeito e amabilidade para Ihe extorquir as informacões de que necessitava.

 A situação do diplomata não era brilhante; diversas tentativas infrutíferas tinham-lhe provado que não conseguiria tomar conhecimento das mensagens codificadas de Acha. Améni não cometia qualquer imprudência.

 -Posso deixar-vos no vosso domicílio? Tenho um carro novo e dois cavalos muito calmos.

 -Gosto muito de andar-respondeu Nedjem, rabujento.

 -Haveis tido ocasião de rever Kha? O rosto do ministro da Agricultura iluminou-se.

 -Sim, tive essa felicidade.

 -Que rapaz espantoso!

-Mais do que espantoso! Tem o estofo de um rei.

 Méba tornou-se grave.

 -Só um homem como vós, Nedjem, pode protegê-lo das más influências Um talento como o seu forçosamente atrairá ciúmes e co- biças.

 -Descansai, Sétaou pô-lo ao abrigo do mau olhado.

 -Tendes a certeza que tomou todas as precauções?

-Um amuleto em forma de haste de papiro, que garante vigor e desenvolvimento, e uma fita na qual está desenhado um olho completo não serão um perfeito equipamento mágico contra as forças nocivas, venham elas de onde vierem?

-Impressionante, com efeito.

 

 

-Além disso-acrescentou Nedjem-- Khà impregna-se quotidianamente com as fórmulas gravadas no laboratório do templo de Amon. Acreditai, aquela criança está bem protegida.

-Estou mais descansado. Poderei um destes dias renovar o meu convite para jantar?

-Para ser franco, não aprecio nada as festas mundanas.

-Como vos compreendo, meu caro! Na diplomacia, infelizmente, não é possível evitá-las.

Quando os dois homens se separaram, Méba teve vontade de pular como um cão louco. Ofir ficaria contente com ele.

Quando o barco acostou em Abu Simbel, o grande elefante macho, que seguira pela trilha do deserto, deu um barrido de boas-vindas. Do alto da falésia, velaria por Ramsés que redescobria com deslumbramento a enseada de areia dourada onde a montanha se separava e unia. O rei lembrava-se da sua descoberta de um local encantado e da busca de Lótus, que encontrara a pedra da deusa, com virtudes curativas.

A bela núbia não resistiu ao prazer de mergulhar nua nas águas do rio e nadar com agilidade para a margem inundada de sol. Vários marinheiros a imitaram, felizes por terem chegado a bom porto.

Ficaram todos subjugados pelo esplendor do lugar dominado por um esporão rochoso que servia de ponto de referência aos navegadores; o Nilo desenhava uma curva encantadora, rodeando uma falésia dividida em dois promontórios entre os quais se insinuava uma torrente de areia fulva.

Com o corpo brilhando com gotas de água prateadas, Lótus escalou-a rindo, seguida por Sétaou envergando a sua pele de antílope, saturada de soluções medicinais.

-O que te inspira este lugar?-perguntou Ramsés a Néfertari.

-Detecto aqui a presença da deusa Hactor; as pedras são seme- lhantes a estrelas, o ouro do céu fá-las brilhar.

-A norte, uma falésia de grés cai quase a pique e vai dar às águas profundas; a sul, a montanha afasta-se e deixa a descoberto uma vasta plataforma. Os dois promontórios formam um casal. Celebrarei aqui o nosso amor construindo dois santuários indissociáveis um do outro, como o Faraó e a grande esposa real. A tua imagem ficará para sempre gravada na pedra e contemplará o sol que te fará renascer todos os dias.

Embora o seu gesto fosse protocolar, Néfertari prendeu ternamente os braços em torno do pescoço de Ramsés e beijou-o com entusiasmo.

Quando do seu barco avistou Abu Simbel, o vice-rei da Núbia esfregou os olhos, julgando-se vítima de uma miragem.

Na margem, dezenas de talhadores de pedra tinham organizado um estaleiro à medida da construção de um vasto edifício. Alguns, utilizando andaimes de madeira, começavam a talhar a falésia de grés, enquanto outros cortavam blocos. As ferramentas necessárias tinham sido trazidas em barcos de carga e os chefes de equipe, preocupados com a indispensável disciplina, haviam dividido os artesãos em pequenos grupos encarregados de tarefas bem definidas.

O mestre-de-obra era o próprio Ramsés. Na plataforma, uma maqueta e planos; o rei velava pela tradução perfeita da sua visão e obrigava a rectificar os erros, depois de ter dialogado com o arquiteto e o chefe dos escultores.

Como podia revelar a sua presença sem importunar o soberano? O vice-rei da Núbia considerou prudente esperar que Ramsés olhasse para ele. Não diziam que o rei tinha um carácter colérico e que detestava ser contrariado? Algo roçou o seu pé esquerdo, algo macio e fresco... O alto funcionário baixou os olhos e ficou petrificado.

Uma serpente vermelha e negra com cerca de um metro. Tinha rastejado pela areia e imobilizara-se sobre o pé do vice-rei. Morderia a qualquer momento Até mesmo um grito poderia desencadear o ataque do réptil.

A alguns passos dele, encontrava-se uma jovem de seios nus, com um saiote curto que, ao ser agitado por uma brisa ligeira, revelava mais do que ocultava os seus encantos.

-Uma serpente-murmurou o vice-rei que, apesar do calor, estava todo arrepiado Lótus não ficou nada perturbada com o espectáculo.

-O que receais?

-Mas... esta serpente...

-Falai mais alto, não vos ouço.

Lentamente, o réptil ia subindo pela perna. O vice-rei foi incapaz de articular mais uma palavra sequer.

Lótus aproximou-se.

-Vós é que a haveis incomodado.

O alto funcionário começava a sentir-se mal.

A bela núbia agarrou na serpente vermelha e negra e enrolou-a no braço esquerdo. Por que razão aquele homem demasiado gordo, de músculos flácidos, tinha tido medo daquele réptil ao qual já retirara o veneno? O vice-rei fugiu até ficar sem fôlego, tropeçou numa pedra e estatelou-se não muito longe do rei. Ramsés olhou com curiosidade o imponente personagem de nariz no chão.

-Não será uma atitude de deferência um tanto exagerada?

-Perdoai-me, Majestade, mas uma serpente... Acabo de escapar à morte! O dignitário ergueu-se.

-Prendeste Chénar?

-Podeis estar certo que não me poupei a esforços, Majestade! Foi tudo posto em acão para vos satisfazer.

-Não respondeste à minha pergunta.

-O nosso fracasso é apenas momentaneo; os meus soldados controlam perfeitamente a Alta e a Baixa Núbia. O causador de perturbações não nos escapará.

-Porque demoraste tanto a vir ter comigo?

-As exigências da segurança local...

-Terão maior importancia a teus olhos do que as da do casal real? O vice-rei ficou carmesim.

-Claro que não, Majestade! Não era de maneira nenhuma o que eu queria dizer e...

-Segue-me.

O alto funcionário receava a cólera do Faraó, mas Ramsés permanecia calmo.

O vice-rei seguiu-o até ao interior de uma das grandes tendas erguidas na orla do estaleiro. Servia de enfermaria a Sétaou, que acabava de ligar a perna de um talhador de pedra, ferida por um estilhaço de grés.

-Gostas da Núbia, Sétaou?-interrogou o rei.

-Achas necessário fazer-me essa pergunta?

-Parece-me que a tua esposa também a adora.

-Aqui, ela dá cabo de mim! Parece que a sua energia redobra e que os seus desejos amorosos são insaciáveis.

O vice-rei estava petrificado. Como era possível alguém dirigir-se naqueles termos ao senhor das Duas Terras?

-Conheces este alto funcionário que fez o favor de vir ter connosco?

-Detesto os funcionários-retorquiu Sétaou.-Cobrem-se de privilégios que acabarão por sufocá-los.

-Lamento por ti.

Sétaou olhou o rei com espanto.

-O que queres dizer?

-A Núbia é um vasto território e administrá-lo uma tarefa pesada. Não estás de acordo, vice-rei?

-Sim, sim, Majestade!

-A bela província de Koush, só por si, exige um pulso forte. É também a tua opinião vice-rei?

-Com certeza, Majestade!

-Como tenho grande respeito pelas tuas opiniões, decidi nomear o meu amigo Sétaou "filho real da província de Koush" e confiar-lhe a sua gestão.

Como se nada daquilo Ihe dissesse respeito, Sétaou dobrava as ligaduras. O vice-rei parecia uma estátua à qual o escultor se tivesse esquecido de dar vida.

-Majestade, os problemas que surgirão, as minhas relações com Sétaou...

-Serão francas e cordiais, estou certo. Regressa à fortaleza de Bouhen e preocupa-te com a prisão de Chénar.

Esmagado, o vice-rei retirou-se.

Sétaou cruzou os braços.

-Suponho que se trata de uma brincadeira, Majestade.

-As serpentes são muito numerosas nesta região, recolherás muito veneno, Lótus ficará contente e tereis a oportunidade de viver neste lugar incomparável. Preciso de ti, meu amigo, para dirigir os trabalhos e velar pelo crescimento dos dois templos de Abu Simbel. Os dois santuários serão destinados a imortalizar a imagem do par real. Aqui, no coração da Núbia, será celebrado o mistério central da nossa civilização.

Mas se a minha decisão te desagrada, deixo-te a liberdade de recusar.

Sétaou emitiu uma espécie de grunhido.

-Com certeza andaste a conspirar com Lótus... E quem pode resistir à vontade do Faraó.  Pela magia do ritual o rei transferiu a alma dos inimigos do sul para o norte, a dos inimigos do norte para o sul, a dos adversários do oeste para leste e a dos adversários de leste para oeste. Com a inversão dos pontos cardeais que orientavam a região fora do mundo visível, Abu Simbel ficaria ao abrigo das tormentas humanas; um campo de forças criado pela rainha em torno dos futuros edifícios protegê-los-ia dos ataques externos.

Na pequena capela construída em frente da fachada do grande templo, Ramsés ofereceu a Maat o amor que o unia a Néfertari e ligou à luz a unidade clo casal real cujo casamento, perpetuamente celebrado em Abu Simbel, reuniria as energias divinas, fonte matriz do povo do Egito.

Sob o olhar de Ramsés e de Néfertari, nasceram o templo do rei e o templo da rainha. Os artesãos mergulharam no coração da falésia para aí escavar o naos; o rochedo seria talhado numa altura de trinta e três metros, uma largura de trinta e oito e escavado a sessenta e três metros de profundidade.

Quando os nomes de Ramsés e de Néfertari foram gravados pela primeira vez na pedra de Abu Simbel, Ramsés deu ordem para que se procedessem aos preparativos da partida.

-Regressas a Pi-Ramsés?-perguntou Sétaou

-Ainda não. Vou escolher muitos outros locais na Núbia onde quero mandar erigir santuários; deuses e deusas habitarão este país de fogo e serás tu a coordenar os esforcos dos nossos construtores Que Abu Simbel seja o clarão central, rodeado por um pacífico exército de santuários que contribuirão para a consolidação da paz. Serão necessários muitos anos para realizar esta obra, mas venceremos o tempo.

Comovida e silenciosa, Lótus viu o barco real afastar-se. Do alto da falésia, admirou Ramsés e Néfertari à proa do barco de vela branca que deslizava sobre a água azul, à imagem do céu da Núbia.

Lótus conseguia hoje formular aquilo que um dia pressentira: era por amar Néfertari e saber fazer-se amar por ela que Ramsés possuía a estatura de um grande faraó.

Néfertari, a dama de Abu Simbel, abria os caminhos do céu e da terra.

 

Chénar espumava de raiva.

Nada decorrera de acordo com as suas previsões. Depois do fracasso das tentativas para suprimir Ramsés e provocar irreparáveis prejuízos à sua expedição, Chénar fora obrigado a fazer uma fuga para a frente e avançar para o Grande Sul.

A bordo de um barco roubado numa aldeia cujos habitantes tinham tido a infeliz ideia de apresentar queixa, Chénar fora perseguido por soldados do vice-rei; sem a habilidade dos marinheiros núbios, ter-lhes-ia caído nas mãos. Por prudência, tivera que abandonar a embarcação e aventurar-se no deserto, com a esperança de confundir as pistas. O mercenário cretense, braço direito de Chénar, praguejava contra o calor, o ar quente e a permanente ameaça representada pelos répteis, os leões e outras feras.

Mas Chénar teimava em querer chegar ao país de Irem, para sublevar as tribos capazes de atacar Abu Simbel e destruir o estaleiro. Quando a insegurança reinasse na Núbia, o prestígio do Faraó ficaria arruinado e os seus adversários coligar-se-iam para o abater.

O pequeno grupo comandado por Chénar chegou próximo da área de lavagem do ouro, zona interdita onde trabalhavam operários especializados sob a vigilancia do exército egípcio. Era dessa área que os revoltosos deveriam apoderar-se para interromper a entrega do metal precioso ao Egito.

Do alto de uma duna, Chénar viu os operários núbios lavar o mine- ral, separando-o da ganga terrosa que Ihe estava ligada, mesmo depois de triturado e esmagado. A água tirada de um poço aberto em pleno deserto enchia um reservatório e escoava-se para uma rampa que ia dar a uma bacia de decantação: a corrente fraca bastava para arrastar os materiais terrosos e libertar o ouro. No entanto, para que ficasse completamente purificado. era indispensável repetir varias vezes a operação  Os soldados egípcios eram numerosos e bem armados. Um simples comando não teria qualquer hipótese de os eliminar; Chénar teria portanto de organizar uma revolta de grande envergadura que reunisse centenas de guerreiros provenientes de diversas tribos.

Foi no país de Irem que Chénan a conselho do seu guia núbio, se encontrou com um chefe de clã, um negro enorme coberto de cicatrizes. Este recebeu-o numa cubata espaçosa no centro da sua aldeia, mas o acolhimento foi glacial.

- Tu és egípcio.

-Sou, mas detesto Ramsés.

-Pois eu detesto todos os faraós que oprimem o meu país. Quem te envia?

-Poderosos inimigos de Ramsés que habitam no norte do Egito.

Se os ajudarmos vencerão o Faraó e devolver-te-ão a terra.

-Se nos revoltarmos os soldados do Faraó massacrar-nos-ão.

-Concordo que o teu clã não bastará; é por isso que é indispensável estabelecer alianças.

-As alianças são difíceis muito difíceis... É necessário reunirmo-nos e falar durante muito tempo muito tempo, durante luas e luas.

A paciência era a virtude que mais faltava a Chénar; refreou a sua cólera e jurou a si mesmo ser perseverante. fossem quais fossem os adiamentos e atrasos inerentes às negociações.

-Estás disposto a ajudar-me?-perguntou ao chefe de clã.

-Devo permanecer aqui, na minha aldeia; para estabelecer contatos adequados seria necessário ir até à aldeia vizinha. E é longe.

O mercenário cretense entregou a Chénar uma placa de prata.

-Com este tesouro-disse o egípcio-alimentarás o teu cla durante muitos meses. Eu pago a quem me ajuda.

O núbio ficou deslumbrado.

-Se eu negociar com os outros, dás-me isto?

-E se conseguires convencê-los, mais ainda.

-Vai ser demorado, muito demorado...

-Começaremos logo ao nascer do sol.

 De regresso a Pi-Ramsés, Iset a Bela sonhava muitas vezes com a cabana de juncos onde ocultara os seus amores com Ramsés, antes de ele encontrar Néfertari; outrora. tinha esperado desposar o homem de quem continuava enamorada, mas como poderia rivalizar com aquela mulher sublime que se tornara, de pleno direito. a grande esposa real? As vezes quando o mal de amor se tornava demasiado intenso, Iset a Bela deixava de se maquiar, envergava vestidos velhos, esquecia-se de se perfumar... Mas o afeto que dedicava a Kha e a Mérenptah, os dois filhos que Ramsés Ihe dera, e a Meritamon, a filha do rei e de Néfertari, permitia-lhe fugir à tristeza, sonhando com o futuro daquelas três crianças: Mérenptah, um belo rapazinho robusto, de inteligência muito viva; Meritamon, uma linda rapariguinha meditativa e uma música notável; Kha, um futuro sábio de excepção. Essas três crianças eram a sua esperança, seriam o seu futuro.

O seu camareiro trouxe-lhe um colar de quatro voltas formado por ametistas e cornalinas, brincos de prata e um vestido colorido e bordado com fios dourados. Dolente, a irmã de Ramsés, seguia-o.

-Pareceis fatigada, Iset.

-Um cansaço passageiro. Mas... a quem são destinadas estas maravilhas?

-Permiti-me que vos ofereça estes modestos presentes.

-Sinto-me muito sensibilizada. não sei como agradecer-vos.

A volumosa morena, tranquilizante e protetora, decidira passar à ofensiva.

-A vossa existência não é um fardo demasiado pesado, minha querida Iset?

-Não, claro que não, visto que tenho a felicidade de criar os filhos de Ramsés o Grande.

-Porque haveis de contentar-vos com um destino sem fulgor?

-Adoro o rei, adoro os seus filhos; os deuses não me concederam assim a felicidade?

-Os deuses... os deuses são uma ilusão, Iset!

-O que dizeis?

-Só existe um único Deus o que Akhénaton venerou, aquele a quem oram Moisés e os hebreus. É a Ele que nos devemos dirigir.

-Segui o vosso caminho, Dolente, mas esse não é o meu.

A irmã de Ramsés compreendeu que não convenceria Iset a Bela, demasiado leviana e timorata; mas havia um outro terreno pelo qual Dolente podia enveredar com alguma esperança de sucesso.

-Parece-me uma injustiça serdes reduzida à categoria de segunda esposa.

-Não o considero assim, Dolente. Néfertari é mais bela e mais inteligente do que eu; nenhuma mulher a poderá igualar.

-Não é verdade. Além disso, sofre de um abominável defeito.

-Qual?

-Néfertari não ama Ramsés.

-Como ousais supor...

-Não suponho, sei. Não ignorais que o meu passatempo favorito consiste em escutar os cortesãos e captar as suas confidências; posso pois afirmar-vos que Néfertari não passa de uma simuladora e de uma intriguista. O que era ela antes de encontrar Ramsés? Uma sacerdotisinha sem futuro, uma música medíocre. cuja única competência teria sido servir os deuses no interior de um templo... E eis que Ramsés pousa os seus olhos sobre ela! Um verdadeiro milagre, uma perturbação que transformou a rapariga tímida numa ambiciosa militante.

-Perdoai, Dolente, mas não consigo aceitar isso.

-Conheceis a verdadeira razão da viagem do par real à Núbia? Néfertari exigiu que fosse erigido um templo imenso em sua glória que imortalizasse o seu nome! Ramsés cedeu e inaugurou um dispendioso estaleiro que durará vários anos. A ambição de Néfertari acaba de vir à luz: ocupar o lugar do rei e reinar sozinha sobre o país. Todos os meios serão bons para impedir essa loucura.

-Não ousais pensar...

-Repito: todos os meios. Só uma pessoa pode salvar Ramsés: vós, Iset.

A jovem ficou confusa. É verdade que desconfiava de Dolente, mas a irmã de Ramsés não apresentava argumentos perturbadores? No entanto, Néfertari parecia sincera... Mas o exercício do poder não subentendia uma vaidade incoercível? Subitamente, a imagem de uma Néfertari apaixonada, venerando Ramsés, fragmentou-se. Que mais belo destino poderia haver para uma intriguista do que seduzir o senhor das Duas Terras!

-O que me aconselhais, Dolente?

-Ramsés foi iludido; era a vós que ele deveria ter desposado, sois vós a mãe do seu filho mais velho, Kha, que a corte reconhece já como o seu sucessor. Se amais o rei, Iset, se amais o Egito e quereis a sua felicidade, há uma única solução: desembaraçai-vos de Néfertari.

Iset a Bela fechou os olhos.

-Dolente, é impossível!

-Ajudar-vos-ei.

-O crime é um ato abominável que conduz à destruição do espírito, da alma e do nome... Atacar a grande esposa real é perder-se para toda a eternidade.

-Quem saberá? Quando decidirdes atacar, será necessário agir na sombra e não deixar qualquer rasto.

-É essa a vontade do vosso deus, Dolente?

-Néfertari é uma mulher perversa que conspurca o coração de Ramsés e o leva a cometer graves erros. Vós e eu temos o dever de nos unirmos para a impedir de fazer mal; só assim seremos fiéis ao rei.

-Preciso de refletir.

-É perfeitamente normal! Estimo-vos muito, Iset, e sei que tomareis a decisão certa. Seja ela qual for, tendes o meu afeto para sempre.

Iset a Bela esboçou um sorriso tão pálido que, antes de partir, Dolente a beijou nas duas faces.

A segunda esposa de Ramsés sentia-se sufocar. Com um passo hesitante, dirigiu-se à janela que dava para um dos jardins do palácio e deixou-se envolver por um intenso raio de luz que não conseguiu dissipar a sua perturbação.

No seu íntimo elevou-se uma oração dirigida às forças ocultas no céu, a essas forças que decidiam do destino dos seres, da duração da sua existência e da hora da sua morte. Teria o direito de agir em seu lugar, de cortar o fio dos dias de Néfertari porque a grande esposa real prejudicava Ramsés? Uma rival! Pela primeira vez, Iset a Bela considerava realmente Néfertari como uma rival. O seu pacto mudo quebrava-se e o conflito latente surgia com uma violência contida há demasiados anos. Iset era a mae dos dois filhos de Ramsés, a primeira mulher que ele amara, a que deveria ter reinado junto dele. Dolente tinha-lhe revelado uma verdade que tentara até então sufocar.

Afastada Néfertari, Ramsés tomaria finalmente consciência que esse amor não passara de um episódio fugaz. Liberto dessa feiticeira de pérfidas intenções, voltaria para Iset a Bela, para a paixão da juventude, para aquela que nunca deixara de amá-lo.

 

Embora sentindo um profundo desprezo pelos hebreus, o sinistro Ofir considerava cinicamente que o bairro dos fabricantes de tijolos Ihe proporcionava um esconderijo muito seguro, mesmo tendo de mudar de morada com frequência para garantir um máximo de segurança. Graças a falsas informações sabiamente espalhadas, Serrramanna acabara por acreditar que o mago líbio tinha deixado o Egito, resignando-se portanto a abandonar investigações mais intensivas. Apenas eram mantidas as patrulhas habituais, encarregadas de evitar qualquer desordem noturna.

No entanto, o mago não estava satisfeito. A situação mantinha-se estacionária há vários meses; neste décimo quinto ano do reinado de Ramsés, agora com trinta e sete anos, o reino do Egito arvorava uma saúde insolente.

As notícias provenientes do império hitita eram estranhas e pouco tranquilizadoras. É verdade que Ouri-Téchoup continuava a defender a guerra contra o Egito a qualquer preço, mas não lançava nenhuma ofensiva. Além disso, a barreira protetora formada pela Síria do Sul e Canaã estava ocupada por tropas egípcias aguerridas e capazes de repelir um assalto maciço. Porque hesitava assim o impulsivo Ouri-Téchoup? As mensagens excessivamente breves que os beduínos transmitiam a Ofir não Ihe davam qualquer explicação.

A sul, Chénar não conseguia amotinar as tribos núbias. As conversações prolongavam-se, intermináveis, sem qualquer resultado concreto.

Na corte, Dolente continuava a procurar a amizade de Iset a Bela para a convencer a agir, mas a segunda esposa do rei parecia incapaz de tomar uma decisão. Quanto a Méba, inapto para obter o conteúdo dos textos em código que Acha enviava a Améni, revelava-se de uma lamentável ineficácia. É certo que obtivera informações precisas sobre o equipamento mágico de que dispunha o jovem Kha, mas o filho mais velho de Ramsés levava uma existência estudiosa e sem desvios na qual Ofir não conseguia detectar qualquer falha.

Depois de uma longa viagem, no decurso da qual fundara numerosos templos, Ramsés regressara à capital. Néfertari estava radiosa de felicidade. Apesar dos perigos da guerra, o casal real gozava de extraordinária popularidade; todos continuavam persuadidos que ele manteria o país numa prosperidade duradoura e que saberia protegê-lo de qualquer agressão externa.

Feito o balanço, Ofir estava mergulhado em melancolia. Os anos passavam e a esperança de aniquilar Ramsés esbatia-se. Ele, o mestre dos espiões, ele que nunca duvidara do êxito da sua missão, começava a inquietar-se com o possível resultado e a ceder ao desanimo.

Estava sentado ao fundo da sala de entrada, nas trevas, quando um homem penetrou em sua casa.

-Gostaria de falar convosco.

-Moisés...

-Estais ocupado?

-Não, refletia.

-Ramsés está finalmente de regresso e tive a paciência de esperar, como me haveis aconselhado.

A firmeza do tom de Moisés devolveu a confiança a Ofir; estaria o hebreu por fim decidido a tomar a iniciativa?

-Reuni o conselho dos anciãos-continuou o profeta-e decidiram nomear-me porta-voz junto do Faraó.

-Então o êxodo continua a estar decidido?

-O povo hebreu sairá do Egito porque é essa a vontade de Yahvé. Haveis mantido os vossos compromissos?

-Os nossos amigos beduínos entregaram as armas; estão armazenadas nas caves.

-Não usaremos de violência, mas seria preferível dispor de um meio de defesa no caso de sermos perseguidos.

-Sê-lo-eis, Moisés, sê-lo-eis! Ramsés não aceitará a insurreição de todo um povo.

-Não desejamos revoltar-nos mas sim sair deste país e alcançar a terra que nos está prometida.

Ofir rejubilava interiormente. Finalmente, um motivo para se alegrar! Moisés iria criar um clima de insegurança propício à intervenção militar de Ouri-Téchoup.

 Perante o friso dos doze deuses do santuário de Yazilikaya, a sacerdotisa Poutouhépa, com os longos cabelos presos num carrapito e ocultos por um gorro, estava estendida num leito de pedra, como morta.

Absorvera uma beberagem perigosa que a mergulharia num sono profundo durante três dias e três noites. Não existia processo mais seguro para entrar em contato com as forças do destino e decifrar a sua vontade.

A consulta dos oráculos vulgares, sempre desfavoráveis a Ouri-Téchoup, não fora suficiente para a levar a tomar uma decisão que afetaria tanto a existência de Hattousil como a sua. Decidira portanto utilizar um método mais radical, ainda que perigoso.

É verdade que a maior parte da casta dos comerciantes e parte não desprezável do exército, depois de um intenso trabalho de sapa, se inclinava em favor de Hattousil, mas não estariam ele e Poutouhépa a iludir-se quanto ao seu futuro? Graças ao ouro do embaixador egípcio Acha, numerosos oficiais superiores defendiam o reforço das defesas internas e dos postos fronteiriços e o abandono de um plano de ataque contra o Egito. Mas não mudariam de opinião se Ouri-Téchoup deixasse de ser cego e descobrisse a conspiração que se tramava contra ele? Contestar a tomada do poder de Ouri-Téchoup traduzir-se-ia, mais cedo ou mais tarde, numa guerra civil de resultado incerto; também Hattousil, apesar do número de apoios de que dispunha, hesitava ainda em tentar uma aventura sangrenta durante a qual milhares de hititas desapareceriam.

Era por isso que Poutouhépa desejava praticar o sonho premonitório, que só se verificaria durante um período de sono forçado.

As vezes a pessoa não despertava; outras vezes, o seu espírito perdia o essencial das suas faculdades. Por esse motivo, Hattousil dera uma opinião desfavorável, apesar da insistência da esposa e Poutouhépa tivera que voltar dez vezes à carga antes de conseguir por fim a sua concordancia.

E ali jazia imóvel, quase sem respirar, há três dias e três noites. De acordo com os livros de adivinhação, ia agora abrir os olhos e revelar o que as forças do destino lhe tinham dado a conhecer.

Nervoso, Hattousil envolveu-se melhor no seu abafo de là.

Passara o prazo.

-Poutouhépa... Acorda, suplico-te! Um estremecimento. Não, enganara-se... Ela não se mexera. Sim, era realmente um estremecimento! Poutouhépa abriu os olhos e fixou a rocha sobre a qual tinham sido esculpidos os doze deuses.

Saiu então da sua boca uma voz lenta e profunda que Hattousil não reconheceu.

-Vi o deus da Tempestade e a deusa Ishtar... Tanto um como outro me disseram: "Apoio o teu marido e todo o país se colocará atrás dele, enquanto que o seu inimigo se assemelhará a um porco na sua pocilga."  Uma mão doce, tão doce que lhe fez pensar em mel e orvalho primaveril; carícias tão insistentes que Ihe provocaram sensações novas e um prazer cuja intensidade o submergia. A quinta amante hitita de Acha possuía qualidades idênticas às precedentes, mas começava a sentir saudades das egípcias, das margens do Nilo e dos palmares.

O amor era o único derivativo para a atmosfera pesada e aborrecida da capital hitita. Acrescentavam-se a isso numerosas entrevistas com os principais representantes da casta dos comerciantes e alguns discretos militares de alta patente. Oficialmente, Acha mantinha longas negociações com Ouri-Téchoup, o novo senhor do Hatti, sucessor de Mouwattali, cuja agonia parecia interminável, mas cujas forças iam diminuindo.

O egípcio tinha também uma missão oficiosa: cercar Hattousil, descobrir o seu esconderijo e entregá-lo a Ouri-Téchoup. Acha fazia-lhe relatórios pormenorizados a intervalos regulares, quando o filho do imperador regressava dos seus períodos de treino à frente da divisão de carros, da cavalaria ou da infantaria, mantidas em estado de alerta permanente.

Já três vezes os soldados de Ouri-Téchoup tinham falhado por pouco a detenção de Hattousil, avisado no último momento por aliados na sombra.

Desta vez, Acha e a amante tinham terminado as suas efusões quando Ouri-Téchoup penetrou no quarto do embaixador egípcio.

o olhar do guerreiro era duro, quase fixo.

-Tenho boas notícias-disse Acha, que esfregava as mãos com óleo perfumado.

-Também eu-declarou Ouri-Téchoup com a intensidade de um vencedor.

-O meu pai, Mouwattali, acaba de morrer e sou o senhor único do Hatti!

-As minhas felicitações!... Mas falta ainda Hattousil.

-Já não me escapará durante muito mais tempo, embora o meu império seja muito vasto. Mas referiste boas notícias?

-Elas referem-se precisamente a Hattousil; graças a um informador digno de crédito, creio saber onde se encontra o irmão de Mouwattali. Mas...

-Mas o quê, Acha?

-Uma vez preso Hattousil garantis-me que selaremos a paz?

-Fizeste a escolha correta, meu amigo, podeis ter a certeza; o Egito não ficará desiludido. Onde se oculta o traidor? -No santuário de Yazilikaya.

O próprio Ouri-Téchoup assumira o comando de um pequeno destacamento de uma dezena de homens, para não alarmar eventuais vigias. Um deslocamento de tropas tê-los-ia alertado e provocaria a fuga de Hattousil.

Tinham então sido os sacerdotes, colocados sob o controle de Poutouhépa, que haviam dado refúgio ao irmão do defunto imperador! Ouri-Téchoup infligir-lhes-ia um justo castigo.

Hattousil cometera a imprudência de residir perto da capital, num local de fácil acesso; desta vez, não Ihe escaparia. Ouri-Téchoup hesitava entre a execução sumária e um processo viciado; tendo pouca consideração pela instituição judicial, mesmo bem preparada, optou pela primeira solução. Devido à sua posição, devia infelizmente renunciar a ser ele próprio a cortar as goelas a Hattousil e encarregaria um dos seus homens dessa baixa tarefa. De regresso a Hattousa, Ouri-Téchoup organizaria grandiosos funerais para Mouwattali e ele, o seu filho bem-amado, seria o seu sucessor incontestado.

Com um exército pronto para combater, invadiria a Síria do Sul, estabeleceria a ligação com os beduínos, ocuparia Canaã, passaria a fronteira egípcia e enfrentaria um Ramsés que teria cometido o erro fatal de acreditar na paz, como Ihe garantia o seu embaixador.

Ele, Ouri-Téchoup, senhor do império do Hatti! O seu sonho realizava-se sem ter necessidade de se apoiar na dispendiosa coligação formada por Hattousil. Ouri-Téchoup sentia-se suficientemente forte para conquistar a Assíria, o Egito, a Núbia e toda a Asia; a sua glória eclipsaria o dos outros imperadores hititas.

O pequeno grupo aproximou-se do rochedo sagrado de Yazilikaya no qual tinham sido construídas várias capelas. Dizia-se que ali residia o casal divino supremo, o deus da Tempestade e a sua esposa; na segunda parte do seu nome, Téchoup, o novo imperador não tinha o desse deus terrível e receado? Sim, ele era a própria Tempestade divina cujo raio cairia sobre os seus inimigos.

No limiar do santuário estavam um homem, uma mulher e uma criança.

Hattousil, a esposa Poutouhépa e a filhinha de ambos, com oito anos. Os insensatos rendiam-se, confiantes na clemência de Ouri-Téchoup! Este fez estacar os cavaleiros e saboreou o seu triunfo. Acha proporcionara-lhe a oportunidade de se desembaraçar dos seus últimos adversários. Eliminada aquela família maldita, mandaria estrangular o embaixador egípcio que se tornara inútil. E dizer que aquele ingênuo acreditara no desejo de paz de Ouri-Téchoup! Tantos anos de paciência, tantos anos de provações para atingir finalmente o poder absoluto...

-Abatam-nos!-ordenou Ouri-Téchoup aos seus soldados.

Quando os arcos se retesaram, Ouri-Téchoup sentiu uma intensa sensação de prazer. O pérfido Hattousil e a arrogante Poutouhépa trespassados de flechas, os seus cadáveres queimados... Haveria visão mais deliciosa? Mas as flechas não foram disparadas.

-Abatam-nos!-repetiu Ouri-Téchoup, exasperado.

Os arcos voltaram-se contra ele.

Traído... Tinham-no traído, a ele, o novo imperador! Eis porque razão Hattousil, a esposa e a filha estavam tão calmos.

O irmão de Mouwattali avançou.

-És nosso prisioneiro, Ouri-Téchoup. Rende-te e serás julgado.

Com um grito de raiva, Ouri-Téchoup fez empinar o cavalo; surpreendidos, os archeiros recuaram. Com o ímpeto de um guerreiro treinado nos combates, o filho do defunto imperador quebrou o cerco e lançou-se na direção da capital.

As flechas assobiaram-lhe aos ouvidos mas nenhuma o atingiu.

Ouri-Téchoup passou pela porta dos leões e galopou até ao palácio, forçando o cavalo que acabou por morrer com o coração rebentado no cimo dessa acrópole de onde o imperador do Hatti gostava de contemplar o seu império.

Acorreu o chefe da guarda particular.

-O que se passa, Majestade?

-Onde está o egípcio?

-Nos seus aposentos.

Desta vez, Acha não se entregava aos prazeres do amor com uma bela hitita loura, mas envolvia-se num espesso manto, com a adaga ao lado.

Ouri-Téchoup deixou explodir a sua cólera.

-Uma emboscada... Era uma emboscada! Soldados do meu próprio exército revoltaram-se contra mim!

-É necessário fugir-considerou Acha.

As palavras do egípcio espantaram o hitita.

-Fugir... Fugir, como? O meu exército vai arrasar aquele santuário maldito e massacrar todos os rebeldes!

-Já não tendes exército.

-Nao tenho exército-repetiu Ouri-Téchoup, interdito.

-O que quer isso dizer?

-Os vossos generais respeitam os oráculos e as revelações dos deuses a Poutouhépa; foi por isso que se aliaram a Hattousil. Resta-vos a vossa guarda particular e um ou dois regimentos que não resistirão durante muito tempo. Dentro das próximas horas, sereis feito prisioneiro no vosso próprio palácio até à chegada triunfal de Hattousil.

-Não é verdade, não é possível...

-Aceitai a realidade, Ouri-Téchoup. Pouco a pouco, Hattousil apoderou-se de todas as alavancas do império.

-Bater-me-ei até ao fim!

-Atitude suicidária. Há uma solução melhor.

-Falai!

-Conheceis perfeitamente o exército hitita, as suas reais forças, o seu armamento, o seu modo de funcionamento, as suas fraquezas...

-Com certeza, mas...

-Se partirdes imediatamente, tenho possibilidade de vos fazer sair do Hatti.

-Para ir para onde?

-Para o Egito.

Ouri-Téchoup ficou como que fulminado.

-Divagais, Acha!

-Em que outro país estareis em segurança, protegido de Hattousil? É claro que esse direito de asilo deve ser negociado; é por isso que, em troca da salvação da vossa vida, deveis dizer a Ramsés tudo sobre o exército hitita.

-Pedis-me para trair.

-Compete-vos tomar a decisão.

Ouri-Téchoup sentiu vontade de matar Acha. Não tinha sido este egípcio que o manipulara? Mas oferecia-lhe a única possibilidade de sobreviver, é verdade que desonrado, mas sobreviver... E, mais ainda, de prejudicar Hattousil revelando os seus segredos militares.

-Aceito.

-É a via da razão.

-Acompanhar-me-eis, Acha?

-Não, fico aqui.

-É bastante arriscado.

-A minha missão ainda não terminou; haveis esquecido que vim em busca da paz?

Desde que a notícia da fuga de Ouri-Téchoup foi tornada pública, os últimos soldados que Ihe permaneciam fiéis aliaram-se à causa de Hattousil, proclamado imperador. O primeiro dever do novo soberano consistiu em prestar homenagem a seu irmão Mouwattali, cujo corpo foi queimado numa gigantesca pira durante uma grandiosa cerimônia, seguida por uma semana de festas.

Por altura do banquete que encerrou as cerimónias da coroação, Acha ocupou um lugar de honra, à esquerda do imperador Hattousil.

-Permiti-me, Majestade, que vos deseje um reinado longo e sereno.

-Nem sinais de Ouri-Téchoup... Vós, que possuis o gênio da informação, Acha, não tereis qualquer informação a seu respeito?

-Nenhuma, Majestade; com certeza nunca mais ouvireis falar dele.

-Muito me surpreenderia. Ouri-Téchoup é um homem rancoroso e obstinado, que não deixará de se vingar.

-Seria preciso que tivesse meios para isso.

-Um guerreiro da sua têmpera não renunciará.

-Não partilho os vossos receios.

-É curioso, Acha... Tenho a sensação que sabeis mais do que dizeis a este respeito.

-Não passa de uma impressão.

-Não tereis ajudado Ouri-Téchoup a sair do país?

-O futuro reserva-nos com certeza muitas surpresas, mas não sou responsável por elas; a minha única missão consiste em convencer-vos a iniciar negociacões com Ramsés, tendo em vista a paz.

-Fazeis um jogo muito perigoso, Acha. Suponde que mudei de opinião e que tenciono continuar a guerra contra o Egito.

-Estais demasiado a par da situação internacional para negligenciar o perigo assírio e demasiado preocupado com o bem-estar do vosso povo para o arruinar num conflito inútil.

-A vossa análise não deixa de ser pertinente, mas devo aceitá-la como a visão política que melhor me convém? A verdade não é útil quando se trata de governar; uma guerra tem a vantagem de apagar as contestações e criar um novo entusiasmo.

-Ser-vos-á indiferente o número de mortos?

-Como evitá-los?

-Construindo a paz.

-Admiro a vossa obstinação, Acha.

-Amo a vida, Majestade, e a guerra destrói demasiadas alegrias.

-Este mundo deve desagradar-vos.

-No Egito reina uma deusa surpreendente, Maat, que impõe a todos, mesmo ao Faraó, a obrigação de respeitar a Regra do universo e de fazer reinar a justiça na terra. Esse mundo não me desagrada.

-A fábula é bonita, mas não passa de uma fábula.

-Desenganai-vos, Majestade. Se decidirdes atacar o Egito, será com Maat que deparareis. E se saísseis vitorioso, seria uma civilização inigualável que aniquilaríeis.

-O que interessa, se o Hatti dominar o mundo?

-Impossível Majestade; é já demasiado tarde para impedir a Assíria de se tornar uma grande potência. Só uma aliança com o Egito salvaguardará o vosso território.

-Se me não engano, Acha, não sois meu conselheiro mas o embaixador do Egito... E estais constantemente a pregar na vossa capela!

-Não passa de uma aparência, Majestade; mesmo não tendo o Hatti o encanto do meu país, ganhei-lhe afeto e não desejo vê-lo mergulhar no caos.

-Sereis sincero?

-Admito que a sinceridade de um diplomata está sempre sujeita a desconfiança... No entanto, peço-vos que me acrediteis. O objetivo de Ramsés é realmente a paz.

-Comprometeis-vos em nome do vosso rei?

-Sem hesitar. Pela minha voz ouvis a sua.

-É necessário que vos una uma grande amizade...

-Assim é, Majestade.

-Ramsés tem sorte, muita sorte.

-É o que afirmam todos os seus adversários.

Todos os dias, nos últimos cinco anos, Kha dirigia-se ao templo de Amon e passava pelo menos uma hora no laboratório cujos textos conhecia de cor. Com o correr dos anos, entrara em contato com os especialistas de astronomia, geometria, simbolismo e outras ciências sagradas; graças a eles, descobrira as paisagens do pensamento e avançara nos caminhos do conhecimento.

Apesar da sua tenra idade, Kha ia ser iniciado nos primeiros mistérios do templo. Quando a corte de Ramsés soubera a notícia ficara deslumbrada; não havia dúvida que o filho mais velho do rei estava destinado às mais altas funções religiosas.

Kha retirou o amuleto que usava ao pescoço e a fita enrolada no seu pulso esquerdo. Nu, com os olhos fechados, foi conduzido a uma cripta do templo para ali meditar perante os segredos da criação revelados nas paredes. Quatro rãs macho e quatro serpentes fêmea formavam os pares primordiais que tinham modelado o mundo, linhas onduladas evocavam a água primordial na qual o Princípio despertara para criar o universo, uma vaca celeste paria as estrelas.

Depois? o rapazinho foi conduzido ao limiar da sala de colunas onde dois sacerdotes com as máscaras de íbis de Thot e de falcão de Hórus deitaram agua fresca sobre a sua cabeça e ombros. Os dois deuses vestiram-lhe um saiote branco e convidaram-no a venerar as divindades presentes sobre as colunas.

Dez sacerdotes de crânio rapado rodearam Kha. O jovem teve de responder a mil questões sobre a natureza secreta do deus Amon, os elementos da criacão contidos no ovo do mundo, o significado dos principais hieróglifos, o conteúdo das fórmulas de oferenda e muitos outros temas que apenas um escriba competente poderia abordar sem errar.

Os interrogadores não fizeram observações nem comentários. Kha esperou durante muito tempo pelo veredito numa capela silenciosa.

A meio da noite, um sacerdote idoso tomou-o pela mão e conduziu-o até ao telhado do templo; fê-lo sentar e contemplar o céu estrelado, o corpo da deusa Nout a única capaz de transformar a morte em vida.

Elevado à categoria de detentor da Regra, Kha pensou apenas nos dias radiosos que ia passar no templo para descobrir a totalidade dos rituais. Dominado pela emoção, esqueceu-se de tornar a colocar a fita e o amuleto protetor que tinha tirado.

 

Em Abu Simbel, Sétaou apaixonara-se por um estaleiro que animava com uma energia constante para oferecer ao casal real um monumento sem igual; em Tebas, Bakhen fazia avançar a construção do templo dos milhões de anos de Ramsés; quanto à capital de fachadas de turquesa, tornava-se cada dia mais bonita.

Desde o regresso do Faraó a Pi-Ramsés, Améni montara acampamento no seu gabinete. Angustiado com a idéia de ter podido cometer um erro, o secretário particular e porta-sandálias do rei trabalhava dia e noite, sem conceder a si próprio o menor período de repouso. Quase calvo e um pouco mais magro, apesar de um sólido apetite, o chefe oculto da administração egípcia dormia pouco, sabia tudo o que se passava na corte sem nunca lá aparecer e continuava a recusar os títulos honoríficos com que queriam honrá-lo. Embora se queixasse da fraqueza das suas costas e das dores nos ossos, o próprio Améni transportava as pastas confidenciais que tinha de discutir com Ramsés sem se preocupar com o peso dos papiros e das tabuinhas de madeira.

Equipado com um porta-pincéis de madeira dourada que o rei Ihe oferecera, o escriba sentia uma verdadeira devoção por Ramsés, a quem se sentia ligado por laços invisíveis mas impossíveis de quebrar.

E como não admirar a obra do Filho da Luz que se inscrevia já na longa sequência de dinastias como um dos mais extraordinários representantes da instituição faraónica? Améni congratulava-se todos os dias por ter tido a sorte de nascer no século de Ramsés.

-Deparaste com graves dificuldades, Améni?

-Nada que não conseguisse ultrapassar. A tua mãe, Touya, ajudou-me muito. Quando alguns funcionários demonstravam excessiva má vontade, intervinha de forma vigorosa. O nosso Egito está próspero. Majestade, mas não devemos descuidar-nos. Uns dias de atraso na manutenção dos canais, uma falta de vigilancia na contagem das cabeças de gado, indulgência para com os escribas preguiçosos e todo o edifício pode ameaçar ruir.

-Qual é a última mensagem de Acha? Améni encheu o peito de ar.

-Hoje posso afirmar que o nosso camarada de universidade é um verdadeiro gênio.

-Quando regressa do Hatti?

-Bem... continua na capital hitita.

Ramsés ficou espantado.

-A sua missão devia terminar com a subida ao trono de Hattousil.

-É forçado a prolongá-la, mas reserva-nos uma surpresa e tanto! Perante o entusiasmo de Améni, Ramsés compreendeu que Acha conseguira um novo brilharete. Por outras palavras, conseguira realizar com êxito a totalidade do plano concebido com Ramsés, apesar de dificuldades extremas.

-Permite-me a Tua Majestade que eu abra a porta do seu gabinete para fazer entrar um visitante notável? Ramsés deu a sua aquiescência, preparando-se para viver uma estranha vitória graças à perícia do seu ministro dos Negócios Estrangeiros.

Serramanna empurrou à sua frente um homem alto, musculoso, de cabelos compridos e o peito coberto de pêlos ruivos. Vexado com o gesto do sardo, Ouri-Téchoup voltou-se para o colosso erguendo o punho.

-Não trates assim o legítimo imperador do Hatti!

-E tu-interveio Ramsés-não eleves a voz neste reino que te concede hospitalidade.

Ouri-Téchoup tentou sustentar o olhar do Faraó, mas só o conseguiu durante alguns instantes. O guerreiro hitita sentiu o peso cmel da derrota. Comparecer assim perante Ramsés, como um vulgar fugitivo...

Ramsés, cuja força o fascinava e dominava.

-Solicito asilo político a Vossa Majestade e sei qual é o seu preço.

Responderei a todas as vossas perguntas relativas aos pontos fortes e às fraquezas do exército hitita.

-Comecemos de imediato-exigiu Ramsés.

Com o fogo lento da humilhação correndo-lhe nas veias, Ouri-Téchoup curvou-se.

 

O pomar do palácio estava em flor; uma romazeira, um zimbro, uma figueira e uma árvore de incenso rivalizavam em beleza. Era ali que Iset a Bela gostava de passear com Mérenptah. A robusta constituição do garoto de nove anos surpreendia os preceptores; o filho mais novo de Ramsés gostava de brincar com Vigilante, o cão amarelo ouro; apesar da sua provecta idade, o animal acedia aos caprichos da crian- ça. Corriam juntos atrás das borboletas que nunca conseguiam apanhar.

Depois, Vigilante estendia-se e mergulhava num sono reparador Quanto ao leão núbio, Matador, aceitara deixar-se acariciar por Mérenptah, primeiro impressionado e por fim confiante.

Iset lamentava a época, já longínqua, em que Kha, Meritamon e Mérenptah brincavam naquele pomar ou no jardim vizinho, saboreando sem restrições a despreocupação da infancia. Atualmente, Kha estudava no templo e a linda Meritamon, que já fora pedida em casamento por grandes dignitários, consagrava-se à música sacra. Iset a Bela recordava o rapazinho excessivamente sério, com o seu material de escrita, e a encantadora rapariguinha com a sua harpa portátil, demasiado grande para ela. Fora ontem ainda, uma felicidade já inacessível.

Quantas vezes Iset revira Dolente, quantas horas tinham passado a falar de Néfertari, da sua ambição e da sua hipocrisia? Pensando nisso, a segunda esposa do rei sentia a cabeça andar à roda. Cansada, vencida pela obstinação de Dolente, decidira agir.

Sobre uma mesa baixa de sicômoro cuja decoração pintada representava lótus azuis, Iset colocara duas taças cheias de suco de alfarroba.

A que ofereceria a Néfertari continha um veneno de efeito adiado.

Quando a grande esposa real morresse, daí a quatro ou cinco semanas, ninguém se lembraria de acusar Iset a Bela. Fora Dolente que Ihe entregara a arma invisível do crime, afirmando-lhe que apenas a justiça divina seria responsável pelo desaparecimento de Néfertari.

Pouco antes do pôr-do-sol, a rainha entrou no pomar; tirou o diadema e beijou Mérenptah e Iset.

-Foi um dia esgotante-confessou.

-Haveis visto o rei, Majestade?

-Infelizmente, não. Améni mantém-no prisioneiro e, por meu lado, tenho que resolver mil e um problemas urgentes.

-O turbilhão da vida pública e os seus deveres rituais não vos atordoam?

-Mais do que podes imaginar, Iset; como era feliz na Núbia! Ramsés e eu nunca nos separávamos, cada segundo era um deslumbramento.

-No entanto...

O voz de Iset tremia; Néfertari sentiu-se intrigada.

-Sentes-te mal?

-Não, mas... estou...

Iset a Bela não conseguia controlar-se; fez a pergunta que Ihe queimava os lábios e o coração.

-Majestade, amais verdadeiramente Ramsés? Uma sombra de contrariedade velou por instantes o rosto de Néfertari, mas um sorriso radioso dissipou-a.

-Porque duvidas?

-Murmura-se na corte...

-A corte murmura como a pega tagarela e ninguém conseguirá nunca fazer calar esse «diz-se» cuja única função é dizer mal e caluniar.

Não sabes já disso há muito tempo?

-Pois, com certeza, mas...

-Sou de origem modesta e casei com Ramsés o Grande: eis a origem desses boatos. Não seria inevitável? Néfertari olhou Iset a direito nos olhos.

-Amei Ramsés desde o nosso primeiro encontro, desde o primeiro segundo em que o vi, mas não ousava confessá-lo nem a mim própria.

E esse amor não parou de aumentar até ao nosso casamento, não pára de aumentar desde então, e perdurará para além da morte.

-Não haveis exigido a construção de um templo em vossa glória em Abu Simbel?

-Não, Iset; é o Faraó que deseja celebrar na pedra a unidade inalterável do par real. Quem senão ele conceberia projetos tão grandiosos? Iset a Bela ergueu-se e dirigiu-se para a mesa baixa sobre a qual estavam pousadas as duas taças.

-Amar Ramsés é um privilégio imenso-continuou Néfertari.- Sou tudo para ele e ele é tudo para mim.

Com o joelho, Iset bateu na mesa; as duas taças voltaram-se e o seu conteúdo espalhou-se sobre a erva.

-Perdoai, Majestade, estou comovida; esquecei por favor as minhas dúvidas absurdas e desprezíveis.

O imperador Hattousil fizera retirar os troféus de guerra que adornavam a sala de audiências do palácio. A pedra cinzenta e fria, demasiado austera para o seu gosto, seria recoberta de tapeçarias com decoração geométrica e cores vivas.

Envolto num amplo manto de tecido multicor, com o pescoço adornado por um colar de prata, uma pulseira no cotovelo esquerdo e os cabelos presos por uma fita, Hattousil colocara na cabeça o gorro de lã pertencente ao seu defunto irmão. Poupado, pouco preocupado com a sua aparência, geriria as finanças do Estado com um rigor até então nunca aplicado.

Os principais representantes da casta dos comerciantes sucediam-se na sala de audiências, a fim de definir com o imperador as prioridades económicas do país. A imperadora Poutouhépa, colocada à frente da casta religiosa, estava também presente nessas entrevistas e militava em prol de uma diminuição importante no orçamento atribuído ao exército. Apesar dos seus readquiridos privilégios, os comerciantes admiravam-se com esta atitude: então o Hatti não estava em guerra com o Egito? Seguindo um método que costumava funcionar bem, Hattousil agia com pequenos toques, multiplicava as entrevistas particulares, tanto com negociantes como com oficiais superiores, e insistia nas vantagens de uma trégua prolongada, sem pronunciar nunca a palavra «paz». Poutouhépa seguia a mesma estratégia nos meios religiosos e o embaixador egípcio Acha era uma prova viva da melhoria das relações entre as duas potências adversárias. Visto que o Egito renunciava a atacar o Hatti, não devia este tomar uma iniciativa no sentido de uma interrupção do conflito? Mas acabava de estourar uma tempestade, destruindo esse belo edifício feito de ilusões.

Hattousil convocou Acha de imediato.

-Devo informar-vos da decisão que acabo de tomar e que comunicareis a Ramsés.

-Uma proposta de paz, Majestade?

-Não, Acha. A confirmação de que a guerra continua.

O embaixador ficou siderado.

-Qual a razão dessa reviravolta súbita?

-Acabo de saber que Ouri-Téchoup pediu e obteve asilo político no Egito.

-Esse pormenor choca-vos a ponto de pôr em causa os nossos acordos?

-Haveis sido vós, Acha, a ajudá-lo a sair do Hatti e a refugiar-se no vosso país.

-Isso não pertence já ao passado, Majestade?

-Quero a cabeça de Ouri-Téchoup; esse traidor deve ser condenado e executado. Nenhuma negociação de paz será estabelecida enquanto o assassino do meu irmão não tiver regressado ao Hatti.

-Visto que tem residência fixa em Pi-Ramsés, o que tendes a recear dele?

-Quero ver o seu cadáver arder numa pira aqui, na minha capital.

-É pouco provável que Ramsés aceite renegar a sua palavra e extraditar um homem a quem concedeu a sua protecão.

-Parti imediatamente para Pi-Ramsés, convencei o vosso rei e trazei-me Ouri-Téchoup. Caso contrário, o meu exército invadirá o Egito e eu próprio capturarei o traidor.

 

Sob o forte calor de Maio, chegava o tempo das colheitas depois de as searas terem sido avaliadas. Os ceifeiros separavam as espigas douradas dos caules, deixando a palha no terreno; corajosos e infatigáveis, os burros transportavam o trigo para a zona de debulha. O trabalho era duro, mas não faltava a ninguém pão, frutos e água fresca. E nenhum vigilante se atreveria a proibir a sesta.

Fora a altura escolhida por Homero para deixar de escrever. Quando Ramsés o foi visitar, o poeta não fumava folhas de salva no seu fornilho de cachimbo feito de uma concha de caracol; envergando uma túnica de lã apesar da canícula, estava estendido numa cama, junto do seu limoeiro, com uma almofada sob a cabeça.

-Majestade... Já não esperava voltar a ver-vos.

-O que vos aconteceu?

-Nada mais do que a muita idade. A minha mão está cansada e o meu coração também.

-Porque não haveis mandado chamar os médicos do palácio?

-Não estou doente, Majestade; não faz a morte parte da harmonia? Heitor, o meu gato preto e branco, deixou-me. Não tenho coragem de o substituir.

-Tendes ainda obras para escrever, Homero.

-Dei o melhor de mim mesmo na Ilíada e na Odisséia. Visto que chegou a hora da última passagem, porque revoltar-me?

-Vamos tratar-vos.

-Há quanto tempo reinais, Majestade?

-Há quinze anos.

-Ainda não tendes experiência suficiente para mentir bem a um velho que viu morrer muitos homens. A morte insinuou-se nas minhas veias, gela-me o sangue e nenhuma medicina poderá entravar a sua conquista. Mas há algo mais importante, muito mais importante: os vossos antepassados edificaram um país único, sabei preservá-lo. Como está a guerra com os hititas?

-Acha cumpriu a sua missão: esperamos assinar um tratado que porá fim às hostilidades.

-Como é doce deixar esta terra em paz, depois de tanto ter escrito sobre a guerra... O fulgor luminoso do sol mergulha no oceano, diz um dos meus heróis, penetra na terra fecunda e chega a noite escura, a noite tenebrosa que os vencidos desejam com ardor. Hoje, sou eu que estou vencido e que anseio pelas trevas.

-Mandar-vos-ei construir uma magnífica morada de eternidade.

-Não, Majestade Permaneci grego e, para o meu povo, o outro mundo é apenas esquecimento e dor. Na minha idade, é demasiado tarde para abandonar essas crenças. Mesmo que esse futuro não vos pareça alegre, foi aquele para o qual me preparei.

-Os nossos sábios afirmam que as obras dos grandes escritores serão mais duradoiras do que as piramides.

Homero sorriu.

-Concedeis-me um último favor, Majestade? Segurai na minha mão direita, aquela que escreveu... Graças à vossa força, ser-me-á mais fácil passar para o outro lado.

E o poeta extinguiu-se em paz.

Homero repousava sob um montículo de terra, perto do seu limoeiro; dentro da mortalha, um exemplar da llíada e da Odisseia e um papiro relatando a batalha de Kadesh. Apenas Ramsés, Néfertari e Améni, muito abalados, tinham assistido ao seu enterro.

Quando o monarca regressou ao gabinete, Serramanna apresentou-Ihe um relatório.

-Nem rasto do mago Ofir, Majestade; com certeza que deixou o Egito.

-Não poderá estar escondido entre os hebreus?

-Porque não, se tiver mudado de aspecto e conquistado a sua confiança?

-O que dizem os teus informadores?

-Mantêm-se silenciosos desde que Moisés foi reconhecido chefe dos hebreus.

-Ignoras portanto o que estão a tramar.

-Sim e não, Majestade.

-Explica-te, Serramanna.

-Só pode tratar-se de uma revolta conduzida por Moisés e pelos inimigos do Egito.

-Moisés solicitou-me uma entrevista privada.

-Não lha concedeis, Majestade!

-O que receias?

-Que ele tente suprimir-vos.

-Os teus receios não são exagerados?

-Um revoltoso é capaz de tudo.

-Moisés é meu amigo de infância.

-Ele já esqueceu essa amizade, Majestade.

A luz de Maio inundava o gabinete de Ramsés, iluminado por três grandes janelas a claustra, dando uma para um pátio interior onde estavam parados vários carros. Paredes brancas, cadeirão de costas direitas para o monarca e cadeiras de palha para os seus visitantes, um armário para papiros e uma grande mesa formavam um ambiente austero que Séthi não teria desaprovado. Séthi, cuja estátua Ramsés contemplava muitas vezes.

E Moisés entrou.

Alto, de ombros largos, cabeleira abundante, barba densa e rosto tisnado, o hebreu exibia uma poderosa maturidade.

-Senta-te, Moisés.

-Prefiro ficar em pé.

-O que desejas?

-A minha ausência foi longa por causa disso.

  minha reflexão mais profunda

-Conduziu-te à sabedoria?

-Fui instruído com toda a sabedoria dos egípcios, mas o que é ela em comparação com a vontade de Yahvé?

-Não renunciaste portanto aos teus projetos insensatos!

-Pelo contrário, convenci a maioria do meu povo a seguir-me. E em breve todos estarão a meu lado.

-Recordo-me das palavras de meu pai, Séthi: «O Faraó não deve tolerar rebeldes ou causadores de perturbações. Caso contrário, seria o fim do reinado de Maat e a chegada da desordem, que provoca a infelicidade de todos, grandes e pequenos.

-A lei que rege o Egito já não diz respeito aos hebreus.

-Enquanto viverem nesta terra, deverão submeter-se a ela.

-Concede ao meu povo autorização de se afastar até três dias de marcha no deserto para aí oferecer sacrifícios a Yahvé.

-As razões de segurança que te expliquei obrigam-me a responder-te de forma negativa.

Moisés apertou mais o seu cajado nodoso.

-Não posso contentar-me com essa resposta.

-Em nome da nossa amizade, farei por esquecer a tua insolência.

-Tenho consciência de estar a dirigir-me ao faraó, senhor das Duas Terras, e não tenho a menor intenção de lhe faltar ao respeito.

Contudo, as exigências de Yahvé permanecem e continuarão a exprimir-se pela minha voz.

-Se empurrares os hebreus para a revolta, obrigar-me-ás a reprimi-la.

-Também tenho consciência disso. É por isso que Yahvé utilizará outros meios. Se persistes em recusar aos hebreus a liberdade que exigem, Deus fará cair sobre o Egito males terríveis.

-Julgas assustar-me?

-Defenderei a minha causa perante os teus notáveis e perante o teu povo e o poder infinito de Yahvé convencê-los-á.

-O Egito nada tem a recear de ti, Moisés.

Como Néfertari era bela! Enquanto a rainha dirigia os rituais de consagração de uma nova capela dedicada à deusa longínqua, Ramsés admirava a.

Ela, a doçura do amor, aquela cuja voz dava alegria e nunca pronunciava uma palavra inútil, a que enchia o palácio com o seu perfume e a sua graça, a que sabia ver o bem e o mal sem os confundir, tornara-se a soberana adulada das Duas Terras. Com um colar de ouro de cinco voltas e uma coroa encimada por duas plumas, parecia pertencer ao universo das deusas onde a juventude e a beleza nunca desaparecem no olhar da mãe? louya, Ramsés distinguiu um reflexo de felicidade: a de constatar que a rainha que lhe sucedera era digna do Egito O seu auxílio discreto mas eficaz perrmitira a Néfertari desabrochar e encontrar o tom certo que caracteriza os grandes soberanos.

O ritual foi seguido de uma recepção em honra de Touya. Todos os cortesãos fizeram questão de felicitar a rainha-mãe, que ouviu com pouca atenção as banalidades habituais. O diplomata Méba conseguiu finalmente aproximar-se de Touya e do Faraó; com um grande sorriso nos lábios, teceu elogios à viúva de Séthi.

-Considero insuficiente o teu trabalho no Ministério dos Negócios Estrangeiros-interrompeu-o Ramsés.

-Na ausência de Acha, deverias trocar mais correspondência com os nossos aliados.

-Majestade, a quantidade e a qualidade dos tributos que vos prornetem são excepcionais! Podeis estar certo que negociei a alto preço o apoio do Egito. Muitos embaixadores solicitam uma acreditação para prestarem homenagem a Vossa Majestade, porque nunca o prestígio de um faraó foi tão deslumbrante!

-Não tens mais nada para me dizer?

-Tenho, Majestade: Acha acaba de anunciar o seu regresso iminente a Pi-Ramsés. Tenciono organizar uma bela recepção para o receber.

-O seu despacho explicita as razões dessa viagem?

-Não, Majestade.

O rei e a mãe afastaram-se.

-A paz continua a ser construída, Ramsés?

-Se Acha não deu qualquer informação a Méba e deixou bruscamente o Hatti, não foi com certeza para me trazer uma boa notícia.

 

Depois de uma dezena de longas entrevistas com Ouri-Téchoup, Ramsés ficara a saber tudo sobre o exército hitita, as suas estratégias preferidas, o seu armamento, as suas forças e as suas fraquezas. O general aniquilado mostrara-se muito cooperante, de tal forma estava desejoso de prejudicar Hattousil. Em troca das informações que fornecia, Ouri-Téchoup beneficiava de uma villa, dois servidores sírios, alimentação que aprendera imediatamente a apreciar e uma rigorosa vigilancia policial.

Ramsés tomou consciência da enormidade e da ferocidade do monstro que enfrentara com o ímpeto da juventude. Sem a protecão de Amon e de Séthi, a sua imprudência teria conduzido o Egito ao descalabro. Mesmo enfraquecido, o Hatti continuava a ser uma temível potência militar. Uma aliança, mesmo restrita, entre o Egito e o Hatti traduzir-se-ia por uma paz duradoira na região, pois nenhum povo se atreveria a atacar semelhante bloco.

Ramsés evocava esta perspectiva com Néfertari à sombra de um sicômoro quando um Améni esbaforido Ihe anunciou a chegada de Acha.

O longo período de exílio do chefe da diplomacia egípcia não o modificara. O rosto longo e esguio, um pequeno bigode muito bem tratado, olhos brilhantes de inteligência, membros ágeis, podia parecer desdenhoso e distante e era frequente muitos acreditarem que atravessava a existência com uma suprema ironia.

Acha curvou-se perante o par real.

-Que Vossas Majestades me perdoem, mas não tive tempo de tomar ducha e fazer-me massajar e perfumar... é uma espécie de nômade imundo que ousa apresentar-se perante vós, mas a mensagem de que sou portador é demasiado urgente para ser sacrificada ao meu conforto pessoal.

-Deixaremos então as congratulações para mais tarde-respondeu Ramsés sorrindo-embora o teu regresso nos proporcione uma daquelas alegrias que ficam gravadas na memória.

-No meu estado, receber o abraço do meu rei seria quase um crime de lesa-majestade. Como o Egito é belo, Ramsés! Só um grande viajante é capaz de apreciar o seu valor.

-É falso-retorquiu Améni.

-Viajar deforma o espírito. Em contrapartida, não sair do gabinete e olhar o passar das estações pela janela permite saborear a felicidade de viver aqui.

-Deixemos também essa discussão para mais tarde-exigiu Ramsés.

-Foste expulso do Hatti, Acha?

-Não, mas o imperador Hattousil fazia questão que as suas exigências fossem transmitidas pessoalmente da boca do embaixador ao ouvido do Faraó.

-Vens anunciar-me o início das conversações que conduzirão à paz?

-Seria o meu desejo mais intenso... Infelizmente, sou portador de um ultimato.

-Será Hattousil tão belicoso como Ouri-Téchoup?

-Hattousil admite que fazer a paz com o Egito estrangularia a ameaça assíria, mas a dificuldade é precisamente Ouri-Téchoup.

-A tua manobra foi esplêndida! Graças a ela, sei tudo sobre o exército hitita.

-O que será muito útil em caso de conflito, concordo. Se não Ihe entregarmos Ouri-Téchoup, Hattousil continuará a guerra.

-Ouri-Téchoup é nosso hóspede.

-Hattousil quer ver o seu cadáver arder numa pira.

-Concedi asilo político ao filho de Mouwattali e não trairei a minha palavra. Caso contrário, Maat deixaria de reinar sobre o Egito para dar lugar à mentira e à cobardia.

-Foi precisamente o que disse a Hattousil, mas a sua posição não se modificará: ou Ouri-Téchoup é extraditado e a paz se torna possível, ou o conflito continua.

-Também a minha posição não variará: o Egito não espezinhará o direito de asilo e Ouri-Téchoup não será extraditado.

Acha deixou-se cair num cadeirão de costas baixas.

-Todos estes anos perdidos, todos estes esforços reduzidos a nada... Era o risco a correr e a Tua Majestade tem razão: é preferível a guerra ao prejúrio. Pelo menos, estamos mais bem informados para combater os hititas.

-Autoriza-me o Faraó a intervir?-pediu Néfertari.

A voz doce e serena da grande esposa real encantou o monarca, o embaixador e o escriba.

-No passado, foram mulheres que libertaram o Egito do ocupante-lembrou Néfertari.

-Foram igualmente mulheres que negociaram os tratados de paz com as cortes estrangeiras; a própria Touya não seguiu essa tradição, mostrando-me o exemplo a seguir?

-O que propões?-interrogou Ramsés.

-Vou escrever à imperatriz Poutouhépa; se conseguir convencê-la a iniciar negociações, não acabará por convencer o marido a mostrar-se menos intransigente?

-O obstáculo representado por Ouri-Téchoup não pode ser suprimido-objectou Acha.

-Contudo, a imperatriz Poutouhépa é uma mulher brilhante e inteligente, mais preocupada com a grandeza do Hatti do que com o seu interesse pessoal. Que a rainha do Egito se Ihe dirija, não deverá deixá-la insensível. Como a influência de Poutouhépa sobre Hattousil é considerável. talvez esta iniciativa venha a ter consequências favoráveis. Não ocultarei à grande esposa real as dificuldades da sua tarefa.

-Peço desculpa por vos abandonar-disse Néfertari-mas deveis compreender que cai sobre mim uma pesada responsabilidade.

Fascinado e comovido, Acha viu a rainha afastar-se, aérea e luminosa.

-Se Néfertari conseguir abrir uma brecha-disse Ramsés ao embaixador-regressarás ao Hatti. Nunca extraditarei Ouri-Téchoup, mas hás-de conseguir a paz.

-Exiges o impossível; é por isso que gosto tanto de trabalhar contigo.

O rei dirigiu-se a Améni.

-Pediste a Sétaou que regressasse com urgência?

-Sim, Majestade.

-O que se passa?-inquietou-se Acha.

-Moisés considera-se intérprete do seu deus único, esse Yahvé que Ihe ordenou que conduzisse os hebreus para fora do Egito-explicou Améni.

-Queres dizer... todos os hebreus?

-Para ele, trata-se de um povo que tem direito à sua independência.

-É uma loucura!

-Não só é impossível fazer Moisés ter bom senso, como começa mesmo a tornar-se ameaçador.

-Tens medo?

-Receio sobretudo que o nosso amigo Moisés se transforme num inimigo temível-declarou Ramsés-e aprendi a não subestimar os meus adversários. É por isso que a presença de Sétaou se torna indispensável.

-Que trapalhada!-lamentou Acha.-Moisés era uma pessoa forte e honesta.

-Continua a sê-lo, mas pôs as suas qualidades ao serviço de um dogma e de uma verdade definitiva.

-Causas-me medo, Ramsés. Não é essa guerra mais de recear do que um conflito com os hititas?

-Ou ganhamos ou perecemos.

 

Sétaou pousou as suas grandes mãos sobre os frágeis ombros de Kha.

-Por todas as serpentes da terra, eis-te quase um homem! O contraste entre as duas figuras era flagrante. Kha, o filho mais velho de Ramsés, era um jovem escriba de tez pálida e aspecto frágil; Sétaou, corpulento, viril, de pele mate, músculos desenvolvidos, cabeça quadrada, mal barbeado, envergando uma túnica de pele de antílope com inúmeros bolsos, tinha um físico de aventureiro e de pesquisador de ouro.

Ao vê-los, ninguém teria ousado acreditar que pudesse uni-los qualquer tipo de amizade. No entanto, Kha considerava Sétaou como o mestre que o iniciara no conhecimento do invisível e Sétaou via em Kha um ser excepcional, capaz de penetrar no coração dos mistérios.

-Receio que tenhas cometido muitos disparates desde a minha partida-insinuou Sétaou.

Kha sorriu.

-Bem... espero não vos desapontar.

-Foste promovido!

-É verdade que desempenho algumas funções rituais no templo...

Mas não tive opção. E depois... a verdade é que estou muito contente por isso.

-Ainda bem, meu rapaz! Mas, diz-me... Não vejo o amuleto ao teu pescoço nem a fita atada ao pulso.

-Tirei-os no momento da purificação, no templo, e não voltei a encontrá-los depois. Mas já não há qualquer perigo, visto que haveis regressado, tanto mais que beneficiei da magia dos rituais.

-Mesmo assim, devias usar os amuletos.

-Vós usais, Sétaou?

-Na realidade, tenho a minha pele de antílope.

Uma flecha veio cravar-se bem no centro do alvo, para espanto dos dois homens que se encontravam na carreira de tiro onde costumavam treinar os archeiros de elite. Fora naquele lugar que o rei Ihes marcara encontro.

-Ramsés continua tão destro como sempre-constatou Sétaou.

Kha viu o pai pousar o arco que só ele conseguia retesar e que utilizara na batalha de Kadesh. A estatura do monarca parecia ter aumentado. Com a sua simples presença, encarnava a autoridade suprema.

Kha prostrou-se perante esse ser que era muito mais do que seu pai.

-Porque nos reunimos aqui?-perguntou Sétaou.

-Porque tu e o meu filho me vão ajudar a travar um combate e que será necessário fazer pontaria perfeita.

Kha respondeu sem rodeios.

-Receio não ser muito hábil.

-Desengana-te, meu filho; será com o espírito e com a magia que será necessário lutar.

-Pertenço ao pessoal do templo de Anon e...

-Os sacerdotes escolheram-te por unanimidade como superior da sua comunidade.

-Mas... ainda nem tenho vinte anos!

-O que interessa a idade? No entanto, recusei a sua proposta.

Kha sentiu-se aliviado.

-Recebi uma má notícia-revelou Ramsés.-O grande sacerdote de Ptah em Mênfis acaba de desaparecer. Foi a ti que escolhi para Ihe suceder, meu filho.

-Eu, grande sacerdote de Ptah?... Mas é...

-É essa a minha vontade. A esse título farás parte dos notáveis perante os quais Moisés deseja comparecer.

-O que inventou ele agora?-interrogou Sétaou.

-Tendo em consideração a minha recusa de deixar os hebreus aventurar-se no deserto, Moisés ameaça o Egito de vir a sofrer os castigos infligidos pelo seu deus. O novo grande sacerdote de Ptah e o melhor dos meus mágicos saberão dissipar a ilusão?

 

Acompanhado por Aarão, Moisés apresentou-se na porta de acesso à sala de audiências do palácio de Pi-Ramsés, vigiada por Serramanna e pela guarda de honra. Quando o hebreu passou, o sardo lançou-lhe um olhar carregado; no lugar do monarca, teria mandado atirar aquele revoltado para uma enxovia ou, melhor ainda, tê-lo-ia despachado para os confins do deserto. O antigo pirata confiava no seu instinto; aquele Moisés não tinha outra intenção senão prejudicar Ramsés.

Avançando pela álea central, entre as duas filas de colunas, o chefe e porta-voz do povo hebreu constatou, não sem um certo prazer, que a sala de audiências estava bastante cheia.

A direita do rei, encontrava-se o seu filho Kha, envergando uma pele de pantera adornada com estrelas de ouro. Apesar da sua pouca idade, Kha acabava de aceder a uma elevadíssima função; tendo em consideração a grandeza do seu espírito e dos seus conhecimentos, nenhum sacerdote contestara aquela decisão. Competia ao filho mais velho do Faraó provar as suas qualidades captando a mensagem dos deuses para a transcrever em hieróglifos; todos observariam o seu comportamento com atenção, pois teria que preservar as tradições da época das piramides, essa idade de ouro durante a qual tinham sido formulados os valores criadores da civilização egípcia.

Aquela nomeação espantara Moisés, mas ao ver Kha de perto com- preendeu que a determinação e a maturidade do jovem eram excepcionais. Seria com certeza um adversário temível.

E que dizer do personagem que se encontrava à esquerda do Faraó? Sétaou, encantador de serpentes e verdadeiro mágico-chefe do reino! Sétaou que era, tal como Ramsés, um dos colegas de universidade de Moisés, assim como Améni, sentado um pouco atrás e já preparado para anotar o essencial dos debates.

Moisés não queria pensar nesses anos durante os quais trabalhara para a grandeza do Egito. O seu passado tinha morrido no dia em que Yahvé Ihe confiara a sua missão e não tinha o direito de se enternecer pensando em horas passadas para sempre.

Moisés e Aarão imobilizaram-se na base dos degraus que conduziam ao estrado onde o Faraó e os seus dignitários se tinham instalado.

-Qual o assunto que desejais debater nesta corte?-interrogou Améni.

-Não tenho intenção de debater nada-respondeu Moisés- mas sim exigir o que me é devido, de acordo com a vontade de Yahvé: que o Faraó me autorize a deixar o Egito à frente do meu povo.

-Autorização recusada por motivo de segurança pública.

-Essa recusa é uma ofensa a Yahvé.

-Yahvé não reina sobre o Egito, que eu saiba.

-No entanto, a Sua cólera será terrível! Deus protege-me e realizará prodígios para manifestar o seu poder.

-Conheci-te bem, Moisés; chegamos mesmo a ser amigos. Durante os nossos estudos, não vivias de ilusões.

-És um escriba egípcio, Améni, e eu o chefe do povo hebreu. Foi Yahvé que me falou e posso prová-lo! Aarão lançou o seu cajado ao chão e Moisés fixou-o com um olhar intenso. Os nós da madeira animaram-se, o pau ondulou e transformou-se numa serpente.

Assustados, diversos cortesãos recuaram; a serpente avançou para Ramsés que não manifestou qualquer receio. Sétaou saltou e agarrou o réptil pela cauda.

Numerosas exclamações acompanharam o seu gesto e outras brotaram quando a serpente se transformou em cajado na mão de Sé- taou.

-Fui eu próprio que ensinei este truque de mágica a Moisés, no harém de Mer-Our, há já muito tempo. É preciso mais para espantar os conselheiros do Faraó e a corte do Egito.

Moisés e Sétaou desafiaram-se com o olhar. Entre os dois homens, desaparecera qualquer laço de amizade.

-Dentro de uma semana-predisse o profeta-outro prodígio deixará o povo transido de espanto!  Guardada por Vigilante, que dormia à sombra de uma tamargueira, Néfertari banhava-se nua no lago mais próximo do palácio. A água mantinha-se sempre pura graças às lamelas de cobre presas nas pedras, às plantas devoradoras de bactérias e a um sistema de canalizações que garantia uma renovação regular da massa líquida; além disso, um especialista lançava na água, a intervalos regulares, um pó à base de sais de cobre.

Com a aproximação da cheia, o calor tornava-se sufocante; antes de começar as suas audiências, a rainha saboreava esse momento delicioso em que o corpo, descontraído e feliz, dava livre curso ao pensamento leve como uma pluma. Enquanto nadava, Néfertari pensava nas palavras, umas vezes reconfortantes, outras severas, que deveria dirigir aos seus interlocutores cujas reclamações eram todas umas mais urgentes do que as outras.

Envergando um vestido de alças que deixava os seios a nu e com os cabelos soltos, Iset avançou sem ruído até junto do lago. Ela, que no entanto tinha sido denominado "bela", sentia-se quase banal ao admirar Néfertari. Todos os gestos da rainha eram de uma incomparável pureza, cada uma das suas atitudes parecia nascer do pincel de um pintor de gênio que tivesse sabido captar a beleza perfeita no corpo de uma mulher.

Depois de ter hesitado muito e ter falado uma última vez com Dolente, que continuava entusiasta, Iset tomara uma decisão definitiva.

Desta vez, agiria.

Libertando o espírito de qualquer receio que pudesse comprometer a sua iniciativa, Iset deu mais um passo na direção do lago. Agir... Não devia desviar-se mais do seu objetivo.

Néfertari viu Iset.

-Vem tomar banho!

-Não me sinto bem, Majestade.

A rainha nadou agilmente até à margem e saiu por uma escada de pedra.

-De que te queixas?

-Não sei...

-Mérenptah dá-te preocupações?

-Não, está muito bem e a sua robustez surpreende-me todos os dias.

-Estende-te nos mosaicos quentes a meu lado.

-Perdoai, mas suporto mal o sol.

O corpo de Néfertari encantava a alma; pois não era semelhante ao da deusa do Ocidente, cujo sorriso iluminava o Além e o Aquém? Deitada de costas, com os braços ao longo do corpo, os olhos fechados, estava simultaneamente próxima e inacessível.

-Porque estás tão angustiada, Iset? A dúvida apoderou-se de novo da segunda esposa de Ramsés; deveria manter a sua decisão ou pôr-se em fuga, correndo o risco de passar por louca? Felizmente, Néfertari não a olhava. Não, a ocasião era perfeita demais, Iset não devia deixá-la passar.

-Majestade... Majestade, gostaria de...

Iset a Bela ajoelhou perto do rosto de Néfertari; a rainha permaneceu imóvel, envolta em luz..

-Majestade, eu quis matar-vos.

-Não acredito em ti, Iset.

-É verdade, precisava de vos confessar isto... Esse peso estava a tornar-se insuportável. Agora já sabeis.

A rainha abriu os olhos, ergueu-se e segurou na mão de Iset a Bela.

-Quem tentou fazer de ti uma criminosa?

-Convenci-me que não amáveis Ramsés e que apenas a ambição vos movia. Fui cega e estúpida! Como pude dar ouvidos a tão desprezíveis calúnias?

-Todos os seres têm momentos de fraqueza, Iset; o mal tenta então apoderar-se da consciência e estrangular o coração. Resististe a esse terrível assalto, não é isso o essencial?

-Tenho vergonha de mim mesma, tanta vergonha... Quando decidirdes fazer-me comparecer perante um tribunal, aceitarei a minha condenação.

-Quem te mentiu a meu respeito?

-Desejava confessar a minha falta, Majestade, e não fazer o papel de delatora.

- Tentando destruir-me, era Ramsés que queriam atingir; tens a obrigação de me dizer a verdade, Iset, se realmente amas o rei.

-Vós... vós não me odiais?

-Não és ambiciosa nem intriguista e tens a coragem de reconhecer os teus erros; não só não te odeio como te estimo.

Iset chorou e falou profusamente, libertando o seu coracão.

 

Moisés reunira milhares de hebreus na margem do Nilo, acompanhados de inúmeros curiosos vindos dos diversos bairros da capital. Segundo o boato que correra, o deus guerreiro dos hebreus iria realizar um grande prodígio, provando que era mais poderoso do que todos os deuses do Egito reunidos. Não deveria o Faraó satisfazer as exigências do profeta? Contrariando a opinião de Améni e de Serramanna, Ramsés decidira dar autorização. Enviar o exército e a polícia para dispersar a manifesta ção teria sido uma reacão excessiva; nem Moisés nem os hebreus perturbavam a ordem pública e os vendedores ambulantes alegravam-se por verem aquela multidão fervilhante.

Do terraço do seu palácio, o Faraó olhava o rio em cuja margem uma multidão impaciente estava reunida, mas pensava sobretudo nas terríveis revelações que Néfertari acabava de fazer-lhe.

-Há alguma dúvida?

-Não, Ramsés; Iset foi sincera.

-Devia castigá-la severamente.

-Suplico a tua indulgência; foi por amor que quase cometeu um ato terrível. Mas o irreparável não se verificou e, graças a ela, sabemos que a tua irmã Dolente te odeia a ponto de chegar ao crime.

-Esperava que tivesse vencido os demónios que Ihe corroem a alma há tantos anos... Mas enganei-me. Dolente nunca mudará.

-Vais entregar Dolente à justiça?

-Negará e acusará Iset a Bela de ter inventado tudo; o processo pode vir a acabar num escandalo.

-Permanecerá impune a instigadora de um crime?

-Não, Néfertari; Dolente serviu-se de Iset, nós servir-nos-emos de Dolente.

Na margem, as pessoas agitavam-se e ouviam-se gritos.

Moisés lançou o seu bastão ao Nilo, cuja água adquiriu um tom avermelhado.

O profeta recolheu alguma dessa água numa taça e espalhou-a no solo.

-Sede todos testemunhas deste prodígio! Por vontade de Yahvé, a água do Nilo transformou se em sangue... E se o seu desejo não for satisfeito, esse sangue espalhar se-á por todos os canais do país e os peixes morrerão. Esta é a primeira praga que cairá sobre o Egito.

Kha, por sua vez, recolheu também daquela água estranha, de odor acre.

-Nada disso se verificará, Moisés; aquilo que predisseste não passa da água vermelha da cheia Durante alguns dias essa água não é potável e não se deve consumir nenhum peixe. Se se trata de um prodígio, é à natureza que o devemos e são as suas leis que devemos respeitar.

O jovem e frágil Kha não sentia qualquer receio face ao colossal Moisés. O hebreu conteve a cólera.

-Isso são belas palavras, mas como explicas que o meu cajado tenha provocado a subida da água sangrenta.

-Quem contesta a Moisés a sua qualidade de profeta? Pressentiste a transformação das águas, a força que vinha do sul e o dia em que o rio vermelho apareceria Conheces este país tão bem como eu e nenhum dos seus segredos te escapa.

-Até agora-trovejou Moisés-Yahvé contentou-se com avisos! Como o Egito teima em duvidar, fará cair sobre ele outras pragas ainda mais dolorosas.

 

O próprio Acha levou a carta à grande esposa real que tratava com Ramsés da administração dos celeiros.

-Eis a resposta que esperáveis, Majestade. Vem pessoalmente da imperatriz Poutouhépa. Espero que o seu conteúdo não vos decepcione.

A tabuinha, envolta num tecido precioso, estava marcada com o selo de Poutouhépa.

-Quereis lê-la para nós, Acha? Por um lado, decifrais o hitita perfeitamente; por outro, as informações provenientes de Hattousa dizem-vos respeito.

O chefe da diplomacia egípcia obedeceu.

A minha irmã, a rainha Néfertari, esposa do sol, Ramsés o Grande.

Como passa a minha irmã, a sua família está de boa saúde, os seus cavalos encontram-se soberbos e vigorosos? A bela estação chegou ao Hatti. A cheia no Egito será boa? Recebi a longa carta da minha irmã Néfertari e li-a com grande atenção. O imperador Hattousil está muito contrariado com a presença do vil Ouri-Téchoup em Pi-Ramsés. Ouri-Téchoup é um ser malvado, violento e cobarde. Mereceria ser extraditado e reconduzido a Hattousa para ser julgado. O imperador Hattousil mantém-se inabalável a esse respeito.

Mas a paz entre os nossos dois países não será um ideal tão grandioso que justifique certos sacrifícios? É verdade que não é possível estabelecer um compromisso em relação a Ouri-Téchoup e o imperador exige, com razão, a sua extradição. No entanto, insisti junto dele para que reconhecesse a lealdade do Faraó, que honra a palavra dada. Que confiança poderemos ter num soberano que a traísse? Portanto, embora o caso do traidor Oun-Téchoup não seja negociável, porque não imaginá-lo resolvido para podermos alcançar para o es tabelecimento de um tratado de não-agressão? A redacão desse documento demorará muito tempo: torna-se portanto conveniente iniciar as discussões.

Partilha a rainha do Egito, minha irmã, os meus pensamentos? Se fosse esse o caso, seria bom que nos enviasse com a maior brevidade um diplomata de elevada categoria e da confiança do Faraó. Sugiro o nome de Acha.

A minha irmã, a rainha Néfetari, com toda a minha amizade.

-Somos forçados a recusar esta proposta-lamentou Ramsés.

-Recusá-la porquê?-insurgiu-se Acha.

-Porque se trata de uma armadilha destinada a concretizar uma vingança. O imperador não te perdoa por teres feito Ouri Téchoup sair do Hatti. Se lá fores, não regressarás.

-Analiso esta carta de forma diferente, Majestade. A rainha Néfertari soube encontrar argumentos convincentes e a imperatriz Poutouhépa afirma o seu desejo de paz. Considerando a influência que ela exerce sobre o imperador, é um passo definitivo!

-Acha tem razão-considerou Néfertari.

-A minha irmã Pou- touhépa compreendeu perfeitamente o sentido da missiva que Ihe enviei.

 Não falemos mais de Ouri-Téchoup e entabulemos negociações para preparar um tratado de paz, tanto no fundo como na forma.

-Ouri-Téchoup não é uma ilusão!-objetou Ramsés.

-Devo esclarecer mais a minha posição e a da minha irmã Poutouhépa? Hattousil exige a extradição de Ouri-Téchoup e Ramsés recusa-a.

Pois que cada um permaneça firme e intransigente, enquanto as negociações progridem. Não é a isso que se chama... diplomacia?

-Tenho confianca em Poutouhépa-acrescentou Acha.

-Se tu e a rainha se coligam contra mim, como poderei resistir? Enviaremos então um diplomata, mas tu não.

-É impossível, Majestade. É bern claro que os desejos da imperatriz são ordens. E quem conhece o Hatti e os nossos interlocutores tão bem como eu?

-Estás assim disposto a correr tantos riscos, Acha?

-Passar ao lado de semelhante oportunidade para fazer a paz seria um crime! Todas as nossas forças se devem consagrar a esta tarefa.

A conquista do impossível... não é essa a marca do teu reinado?

-Raramente te vi tão entusiasmado.

-Gosto do prazer e dos prazeres e a guerra não Ihes é propícia.

-Não a decidirei a qualquer preço; o Egito nunca sairá a perder.

-Tinha considerado algumas dificuldades desse gênero, mas fazem parte da minha profissão. Vamos trabalhar dias a fio para elaborar um projeto apresentável, visitarei algumas amigas muito queridas e depois partirei para o Hatti. E hei de vencer, já que tu assim exiges.

Primeiro, deu um salto surpreendente; depois, imobilizou-se a menos de um metro de Sétaou que, sentado na margem, observava com satisfação a modificação da água do Nilo, que se tornava de novo potável.

Uma segunda, depois uma terceira, ágil, alegre, com gradações de verde: magníficas rãs saltaram do lodo que o rio depositava sobre a terra do Egito para a fertilizar e garantir a alimentação do povo do Faraó.

A frente de um cortejo imponente, Aarão estendeu o seu cajado sobre o Nilo e falou com voz forte.

-Visto que o Faraó se recusa a deixar sair os hebreus do Egito, depois da água transformada em sangue eis a segunda praga que Yahvé lança sobre o opressor: rãs, milhares de rãs, milhões de rãs que se introduzirão por toda a parte, nas oficinas, nas casas, nos quartos dos ricos! Sétaou regressou em passo tranquilo ao seu laboratório onde Lótus preparava novos remédios com o veneno de soberbas cobras capturadas na região de Abu Simbel, de onde chegavam notícias tranquilizadoras; o estaleiro trabalhava com regularidade. O encantador de serpentes e a mulher tinham pressa de voltar para lá logo que Ramsés Iho permitir.  Sétaou sorriu. Nem ele nem Kha teriam de lutar contra Aarão e aquela praga; o lugar-tenente de Moisés devia ter consultado o seu chefe antes de proferir uma maldição que não assustaria nenhum egípcio.

Naquela época do ano, a proliferação das rãs nada tinha de anormal e, além disso, era considerada pelo povo como um presságio feliz.

Na escrita hieroglífica, o signo da rã servia para escrever o número "cem mil", um valor quase incalculável, relacionado com a abundancia que a cheia proporcionava.

Observando as metamorfoses do batráquio, os sacerdotes das primeiras dinastias tinham visto nelas as mutações incessantes da vida; na consciência popular, a ra transformara-se assim, simultaneamente, no símbolo de um nascimento feliz ao cabo de numerosas etapas, partindo do embrião até chegar à criança, e da eternidade que subsistia através e para além do tempo.

A partir do dia seguinte, Kha mandou distribuir gratuitamente amuletos em faiança representando ras. Encantada com esse presente inesperado, a população da capital aclamou o nome de Ramsés e sentiu-se grata a Aarão e aos hebreus, pois graças à sua agitação muitas pessoas modestas se tornaram proprietárias de um objecto precioso.

Acha deu a última demão ao projeto de tratado que tinha elabora do com o par real; fora necessário mais de um mês de trabalho intensivo para pesar cada termo e a revisão de Néfertari tinha sido de grande utilidade. Tal como admitira o chefe da diplomacia egípcia, as exigências do Faraó tornariam as negociações difíceis; no entanto, Ramsés não tratara o Hatti como um vencido, mas antes como um parceiro que teria inúmeras vantagens com este acordo. Se Poutouhépa desejava realmente a paz, o caso apresentava-se como negociável.

Améni trouxe um magnífico papiro cor de ambar, no qual Ramsés pessoalmente escreveria as suas propostas.

-Os habitantes do bairro sul fizeram-me uma queixa: foram invadidos por mosquitos.

-Nesta estação, os mosquitos proliferam quando as regras de higiene não são rigorosamente respeitadas. Ter-se-ão esquecido de secar algum pantano?

-Segundo Aarão, Majestade, esta seria a terceira praga infligida ao Egito por Yahvé. O discípulo de Moisés estendeu o seu cajado e bateu na poeira do chão para que ela se transformasse em mosquitos: podes ou não ver nisso o dedo de um deus vingativo.

-O nosso amigo Moisés sempre demonstrou ser obstinado-recordou Acha.

-Manda imediatamente o serviço de desinfecção para o bairro sul -ordenou Ramsés a Améni-e liberta os habitantes desse flagelo.

A cheia abundante prometia um futuro feliz. Ramsés celebrou os rituais da madrugada no templo de Amon e concedeu a si próprio o prazer de um passeio pelo desembarcadouro na companhia de Matador, antes de regressar ao palácio para redigir uma carta, dirigida a Hattousil, que acompanharia as suas propostas de paz.

De repente, o cajado de Moisés bateu no empedrado. O enorme leão fixou o hebreu sem rugir.

-Deixa o meu povo partir, Ramsés, para que possa prestar a Yahvé o culto que este espera dele.

-Já não dissemos um ao outro tudo o que tínhamos a dizer, Moisés?

-Prodígios e pragas revelaram-te a vontade de Yahvé.

-E realmente o meu amigo que profere tão estranhas palavras?

-Já não existe amigo! Sou o mensageiro de Yahvé e tu és o faraó impio.

 -Como hei-de curar-te dessa cegueira?

- Tu é que estás cego!

-Segue o teu caminho, Moisés; eu seguirei o meu, aconteça o que acontecer.

-Concede-me um favor: vem ver os rebanhos dos meus irmãos hebreus.

-O que têm eles de especial?

-Vem, peço-te.

Matador, Serramanna e um esquadrão de mercenários garantiram a proteção do monarca. Moisés mandara reunir os rebanhos dos hebreus a uma dezena de quilómetros da capital, numa zona pantanosa.

Em torno dos animais, zumbiam milhares de moscardos que não lhes davam tréguas e provocavam mugidos de dor.

-Eis a quarta praga ordenada por Yahvé-revelou Moisés.

- Bastará fazer dispersar estes animais e os moscardos invadirão a capital.

-Medíocre estratégia... Era necessário manter os animais neste estado de sujidade e fazê-los sofrer assim?

-Devemos sacrificar a Yahvé cordeiros, vacas e outros animais que os egípcios consideram sagrados. Se celebrarmos os nossos rituais no teu país, provocaremos a cólera dos camponeses. Deixa-nos ir para o deserto ou os moscardos atacarão os teus súditos.

-Serramanna e um contingente do exército acompanhar-te-ão, a ti, aos teus sacerdotes e aos animais doentes, até uma zona desértica onde fareis os vossos sacrifícios. O resto do rebanho será desinfetado e reinstalado em pastagens. Depois, regressareis a Pi-Ramsés.

-Não passa de um adiamento, Ramsés; amanhã, serás obrigado a autorizar os hebreus a saírem do Egito.

 

-É necessário atacar com força, com muito mais força-conside rou Ofir.

-Mas não conseguimos fazer o sacrifício a Yahvé no deserto. tal como Ele exigira?-observou Moisés.-Ramsés cedeu e há-de ceder mais ainda.

-A sua paciência não estará a esgotar-se?

-Yahvé protege-nos.

-Tenho outra ideia, Moisés, uma ideia que se traduzirá numa quinta praga que ferirá profundamente o Faraó.

-Não somos nós que devemos decidir, mas sim Yahvé.

-Mas não devemos dar-lhe uma ajuda? Ramsés é um tirano obstinado que apenas os sinais do além podem impressionar a ponto de o fazer recuar. Deixai-me ajudar-vos.

Moisés anuiu.

Ofir saiu de casa do profeta e foi ter com os seus cúmplices Amos e Baduch. Os dois chefes beduínos tinham continuado a reunir armas nas caves das casas do bairro hebreu; estavam de regresso da Síria do Norte, onde tinham estabelecido contato com mensageiros hititas. o mago estava impaciente por receber notícias frescas e instruções.

Amos untara com óleo o crânio calvo.

-O imperador Hattousil está furioso-revelou-porque Ramsés se recusa a extrad