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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A DAMA DO CORVO / Anne Manning
A DAMA DO CORVO / Anne Manning

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

De joelhos em uma encosta irlandesa, Eibhlin Fitzgerald, cravava seus instrumentos de jardinagem na grama cor de esmeralda. Em sua mente, entretanto, era como se passasse uma lâmina de barbear sobre o cretino e infiel do seu ex-marido.

Assustada pelo repentino impulso de fazer mal, obrigou-se a respirar profundamente e a serenar-se. Logo depois disso, e já muito mais tranqüila, desenterrou a planta com sua pá, enquanto imitava a voz grave de seu pai dizendo em reprimenda: “depois de tudo Evie, não é culpa das pobres plantas!”.

Incapaz de dizer o nome de seu ex-marido sem abrir uma ferida que começava a se curar lentamente, Eibhlin encheu sua mente de trabalho e empurrou sua imagem para um lado, onde já não poderia machucá-la mais. Envolveu o pequeno rizoma em uma estopa, admirando as flores esverdeadas, planas e largas que inspiraram o nome comum. Ainda sustentando a amostra da planta chamada pé de leão, tirou seu gravador portátil da bolsa e começou a gravar:

—Alchemilla vulgaris[1] . 21 de junho de 1998; 11:45 da manhã, a leste de Craglea, cidade de Killaloe, Condado de Clare. Altura, aproximadamente cem metros.

 

 

 

 

Depois de apagar o gravador, deixou-o cair em sua bolsa junto à planta. Eibhlin sentou-se na ladeira, abraçando seus joelhos. Quando elevava os olhos até o topo de Craglea, sentia uma espécie de unidade com a terra. A vida que enchia tudo a seu redor a chamava e a convidava a desfrutar dela. Talvez pudesse sentir essa chamada... depois de tudo, era o solstício do verão[2].

Possivelmente pudesse ver alguns druidas espreitando ao redor da colina, ou possivelmente uma festa da “gente pequena”[3] nos túmulos sagrados. Quatro semanas na Irlanda e nenhuma fada!. Que desilusão, pensou esboçando um sorriso.

—Gente pequena...— Seu sussurro estava cheio de carinho.

Naturalmente, os primitivos habitantes da ilha, centenas de anos atrás, tinham tecido histórias para explicar aquelas coisas que não entendiam. Era incrível a quantidade de superstições que até então sobreviviam, especialmente na parte oeste da Irlanda. Justamente nessa manhã, a mulher que lhe alugou o automóvel em Killaloe, a tinha prevenido sobre o Cragh e embora o dissesse entre risadas, ela entendeu o que acontecia. Isto era a Irlanda. E se realmente houvesse a “gente pequena”, viveria aqui.

Rodeada por um verde irreal, com o aroma de terra fresca e o néctar perfumando o ar, olhou para o lugar onde se dizia que Kincora existiu alguma vez. Onde Brian Boru-Ard Ri, corrigiu-se mentalmente - o único rei irlandês legítimo, sonhou conseguir que a paz, a unidade e a lei regessem a ilha.

Olhando para os restos do palácio de Boru, Eibhlin podia ouvir as canções irlandesas que seu pai cantava para ela, e enquanto começou a cantarolar “The Pretty Maid Milking her Cow”, desejou ter sua harpa com ela. Essa mesma que estava juntando pó em sua casa no Oregon, enquanto ela estava sentada sozinha, cheia de música que lutava por ser tocada.

Fechou seus olhos e sua mente foi preenchida com a música das gaitas de fole, do som do bodhram[4] e de lembranças que clamavam por serem reconhecidas. Lembranças das canções de sua mãe e dos contos que faziam com que a Irlanda fosse tão conhecida para ela como era a terra onde se criou, no sul de Califórnia.

Elas falavam de heróis como Cuchulainn, Conchobar, Finn MacCuill[5], guerreiros invencíveis e das valentes mulheres pelas quais eles tinham brigado e morrido.

— Ah! Para onde se foram esses tempos?—uma quebra de onda de autocompaixão a embargou—Não Evie, de maneira nenhuma deixes que te façam isto!

Uma vez mais, Eibhlin decidiu deixar para trás o grande engano que tinha sido seu casamento e se estirou sobre a fria erva com os olhos fechados. Assim poderia ter estado por horas, mas um tremor se fez sentir; começou profundamente dentro da terra debaixo dela e se converteu em uma vibração, um ritmo aprazível e lento. Tocou seus ouvidos, sua pele. Podia saboreá-lo em sua língua.

Suas mãos começaram a mover-se com vontade própria por cima de suas coxas ... seu ventre ... seus seios inchados e sensíveis.

Um grito pleno de dor e desejo vivo encheu seus ouvidos. Os segundos passaram antes de que se desse conta que o grito tinha saído de seus próprios lábios. Abriu os olhos e se incorporou rapidamente, sentindo que as bochechas ardiam.

— Oh, meu Deus!

Seus pés se moveram rapidamente enquanto se afastava da colina. Olhou para todos lados, certificando-se de que não havia testemunhas de seu estranho comportamento. Eibhlin olhou para a colina em busca de uma explicação: uma manada de elefantes, o lançamento de um foguete espacial, algo que tivesse provocado o tremor de terra que a trouxe justo ao ponto ...

— Oh, meu Deus! —nunca antes tinha feito algo assim.

Evie pôs uma mão sobre seu coração em um esforço de acalmar a taquicardia que sentia. Seu olhar percorreu o amplo vale e seguiu o longo caminho do rio Shannon

— O que aconteceu com Killaloe? — Ofegou incrédula.

Kilahoe não estava mais ali. Só havia uma construção em pedra rodeada por uma parede baixa do mesmo material, que ocupava o lugar onde tinha estado assentada a pequena vila na borda do Lough Derg.

Eibhlin percorreu todo o lago com o olhar e ficou sem respiração, onde só havia um montão de pedras em ruínas ...

— Kincora ...—disse exalando lentamente. O reconhecimento a afligiu enquanto olhava o imponente castelo de pedra e madeira, rodeado por uma parede feita de paliçada e que era uma ruína momentos antes.

— Não—Eibhlin fechou os olhos frente ao inevitável—Estou sonhando, terei dormido pensando em guerreiros e castelos e estou sonhando com isso.

Mas isto era um notável sonho detalhado, ela pensou, olhando às escondidas através dos olhos que teimavam em permanecer abertos. Gente movendo-se ao redor dos edifícios e ao longodo Shannon. Pescadores que traziam sua pesca e deixavam seus navios na margem para passar a noite. Criadores de porcos que encerravam estes nos currais. Granjeiros que voltavam dos campos. Na outra margem do Shannon havia um grupo de cavaleiros com seus cavalos preparados para cruzar o rio. Estavam muito longe para que ela visse sua roupa, mas sabia que eram guerreiros.

E de alguma maneira, sabia que o que via era verdadeiro.

O instinto de conservação fez com que se inclinasse para alcançar sua bolsa de couro que continha as amostras recolhidas.

— Tenho que sair daqui —disse em voz alta

— Cad e seo[6]? —Eibhlin parou em seco. A voz cresceu a seu redor como um trovão profundo e potente.

— Ce thu fein?—Ela abriu os olhos esperando que quem falava não fosse tão atrativo como era sua voz. Abriu seus olhos ... e o viu ... e ... o viu.

Ele estava parado na encosta diante dela, uma perna flexionada em ângulo. Eibhlin sentia sua boca aberta pelo assombro.

— Ce thu fein?!—voltou a perguntar—Quem és?—Seu irlandês estava um pouco modificado, mas mesmo assim entendia uma pergunta simples como aquela. Entretanto, seu cérebro inteiro tratava de processar a visão que tinha diante de si.

Um guerreiro, de quase dois metros de altura, extremamente musculoso, com longos braços e pernas, sorrindo para onde ela estava, com profundas covinhas que se formavam em ambas as bochechas.

Usava uma roupa leve que chegava até a metade da coxa. Uma espada pendurada de seu cinturão em uma bainha de couro. Voltou a colocar um polegar no cinturão, agachou-se levemente para ela.

—Está perdida, mulher?—perguntou-lhe em irlandês.

—Mmppff, não — respondeu antes que seus sentidos lhe arrebatassem o controle de seu cérebro outra vez.

Começou um inventário mental de suas características. O tom azeitonado de sua pele era muito escuro para um irlandês, assim cada detalhe nele o definia como o protótipo celta, do bigode grosso de guerreiro que emoldurava seus lábios cheios à pesada cadeia de ouro que usava ao redor de seu pescoço musculoso. Seu cabelo negro azulado caía pesado e brilhante sobre seus ombros; sua fronte alta, interrompida somente por uma cicatriz brilhante e branca, que começava apenas para a esquerda. Moveu-se com largas passadas para ela, evidenciando uma energia que era física e sensual. Uma certa parte de sua alma de mulher queria fugir, enquanto que o resto se sentia fortemente atraída.

Então ela olhou seus olhos de cor negro azeviche, que faiscaram com o humor que se refletia em seu sorriso. A apreensão instintiva causada por sua masculinidade constrangedora dissipou-se como fumaça e só ficou um pensamento: Caramba!

— Está bem?— Seu sorriso se apagou e sua voz adquiriu uma nota de preocupação.

— Sim, apenas um pouco confusa — conseguiu responder.

— Confusa? Bom, será melhor que venha comigo a Kincora. Talvez tenha insolação. O médico do rei se assegurará que não está ferida—e estirou a mão. Eibhlin por sua vez levantou as suas. Era a coisa mais natural do mundo. Seus dedos quentes, compridos e fortes, fecharam-se com surpreendente gentileza sobre os seus. Utilizou toda sua força e o puxou aproximando-o dela.

— Pelo sangue de Cristo!—exclamou ao mesmo tempo em que a soltava e Eibhlin, perdendo repentinamente o apoio, caiu sobre o seu traseiro. O guerreiro deu um passo para trás, sua mão já no punho da espada. Seus olhos negros se estreitaram e esquadrinharam o ar em redor deles.

— O que aconteceu?—perguntou ela enquanto tratava de sustentar-se sobre seus pés.

— Não sentiu nada?—Ele sacudiu sua mão, depois a examinou, abrindo e fechando os dedos. Girou a cabeça ao redor olhando para os lados e perguntou—Não o viu?

Separou os dedos e se inclinou para ela. Um pouco à direita diante dela, seus dedos se detiveram medindo o ar. Então lançou um murro dirigido à cabeça dela. Eibhlin escutou o ruído surdo de carne e osso se chocando contra um objeto sólido, ressoando através do vale.

O guerreiro não piscou, mas caiu sobre um joelho com os olhos fixos. Eibhlin o seguiu e ambos caíram de joelhos sobre a colina não olhando para nenhum lado.

— Vejo como uma névoa muito brilhante e não posso enfocar o olhar—Voltou a inclinar-se para ela e a tocar o ar. Uma onda, como as que se formam em um atoleiro depois que alguém tenha jogado uma pedra, expandia-se pelo ar para fora do lugar onde ele tocou. Ele não podia passar, mas Eibhlin podia estender sua mão sem problemas.

Seus olhos voaram para os dela e olhando-a fixo, pergunto:

— Você é uma fada?—Eibhlin afogou uma gargalhada.

— Uma fada? Mas que droga você diz?— Um gesto de estranheza enrugou sua fronte e apertou seus lábios cheios.

— Que idioma é esse?

— Perdão—disse enquanto trocou de novo para o irlandês — Não, não sou uma fada.

— Do que ri?—Seu cenho se aprofundou como se se tratasse de uma afronta pessoal.

— Porque a idéia de que eu seja uma fada é ridícula. As fadas são uma fantasia, essas coisas minúsculas que vivem debaixo das plantas. Inclusive se eu acreditasse nas fadas, e não é o caso, seria muito grande para ser uma fada.

Os olhos do guerreiro se moveram sobre ela, detendo-se em seus seios que estavam completamente pressionados contra o seu leve suéter de algodão

— Mas se você é uma coisa pequenina! — Eibhlin moveu-se, afastando-se do calor de seu olhar, tentando não se sentir afetada por suas palavras, assustava-lhe acreditar na óbvia admiração que viu em seus olhos. Supôs que pareceria um inseto para ele, que tinha que ser pelo menos 30 centímetros mais alto do que ela. Mas, sua aprovação a deixou sem fôlego. Ela se sentia sempre como uma vaca: grande e plena. Uma fada? Beirando um metro e oitenta de estatura estava longe de encaixar no arquétipo das fadas.

Ele desenhou um arco com sua espada e empurrou delicadamente o ar. A lâmina de aço veio para seu rosto. Por instinto, ela deu um passo atrás, mas a ponta da espada se deteve. Ele empurrou, mas não pôde aproximá-la mais.

— Vê como se pudesse te atravessar, mas não posso—disse com um sorriso e lhe oferecendo-lhe sua mão disse—Virá comigo?.

Eibhlin ouviu uma voz em sua alma que a impulsionava a agarrar essa enorme e elegante mão.

— Espera um minuto—disse ela em voz baixa e em inglês, recuperando o sentido comum — Isto não está ocorrendo, é só um mau sonho por causa da insolação. Devo beber algo bem frio — E fechou os olhos, bloqueando a visão do guerreiro que a olhava como se fosse um duende, enquanto recordava que em sua bolsa tinha uma garrafa de água. Mesmo que tivesse os olhos fechados, podia sentir seu olhar cravado nela.

Tomou sua água enquanto pensava em seu ex-marido “Ao menos tenho bom gosto para alucinações. Ele é magnífico. Toma isto, mentiroso mau nascido. Minhas fantasias são melhores que a realidade contigo!”

— O que está dizendo? Que língua é esta? Nunca a ouvi, embora se parece com a forma de falar dos saxões.

Eibhlin o espiou. Ele estava ajoelhado ao lado dela, examinando-a como se fosse um inseto encerrado em um pote. Eibhlin notou que ele tomava cuidado em permanecer longe da brilhante cortina protetora.

— Com uma imaginação como esta, deveria ser escritora—disse em voz alta e logo disse em irlandês — Porque não foi embora? Não acredito em ti!

O guerreiro se sentou sobre os seus calcanhares e elevou divertido uma sobrancelha negra como um corvo.

— E suponho que isso significa que não existo, verdade?—Ela teve que sorrir por sua reação. Um corpo como esse e além disso com senso de humor. Que achado.

— Bom, aproveita enquanto dure. Meu He-Man celta!—Bebeu outra vez de sua garrafa de água e com facilidade começou a falar em irlandês — Bem guerreiro, qual é seu nome?

Um canto de sua boca deliciosamente cheia, levantou-se em um sorriso.

— Meu nome é Brandubh Mac Dougal. Um dos homens do rei Brian Mac Cennedi, Ard Ri.

Uma risada borbulhou dentro dela enquanto olhava a garrafa de plástico em sua mão e se perguntava se sua caseira teria colocado um pouco de uísque irlandês dentro.

— Brandubh, é? — uma fantasia maravilhosamente escrita, Brandubh significava “negro como o corvo”. Bom, ele era isso escuro, atrevido, formoso —Bem, Brandubh Mac Dougal, eu sou Eibhlin ni Seamus—Ela utilizou cuidadosamente a velha forma de citar os nomes.

Ele se levantou e estirou outra vez sua mão para ela. Sabia pelas histórias de sua mãe que na tradição celta, a mulher tinha o direito de rechaçar qualquer proposta. “Bastante inteligentes para serem primitivos”, pensou.

— Ok, vamos — Levou dois segundos para guardar a garrafa em sua bolsa, mas quando levantou a vista para tomar sua mão, só encontrou o ar vazio. Brandubh tinha desaparecido.

 

Ela se apagou diante de seus olhos, seus lábios movendo-se, sua voz apagando-se enquanto continuava dizendo palavras ininteligíveis. Mas enquanto se evaporava na névoa, estendeu sua mão para ele.

Brandubh caiu de joelhos na encosta, olhando fixamente ao horizonte enquanto amaldiçoava sua sorte.

— Pelos ossos de Cristo. Justamente quando acabo de pagar o preço da noiva por Caoimhe. — Deu a volta para olhar a grama que até conservava o rastro dos quadris arredondados de Eibhlin —Para onde você foi? Por que apareceu e logo se esfumou de repente?— Como podia ser tão tolo para se deixar seduzir pelo olhar de uma mulher dos Danaan[7] , que logo se esfumou na névoa assim que quis tocá-la. "Eibhlin." Não podia deixar de repetir seu nome.

Brandubh estendeu a mão medindo o ar, mas a barreira que o separava dela tinha desaparecido. Antes não acreditava no reino das fadas, mas agora que a barreira do real parecia ter caído, as lendas já não lhe resultavam tão estranhas. Além de ser cristão de nascimento, era também irlandês.

Brandubh se ajoelhou na encosta e se perguntou por que, se ela era uma fada, via-se como qualquer mortal. Não havia em Eibhlin nada de fragilidade. Seu corpo, esbelto, forte e pleno, o havia enchido de desejo no momento em que a viu. Mas a forma como desapareceu no ar, não lhe deixava outra explicação, que não admitisse como uma dos Danaan. Mas... porque apareceria a ele?

As perguntas sem respostas o enfureceram e acomodando o cinturão, Brandubh começou a baixar a ladeira. Iria para casa e consultaria sua mãe; sábia nos velhos costumes, ela saberia melhor que ele o que era que podia ter acontecido. Possivelmente pudesse lhe dizer como fazer para que Eibhlin voltasse para ele.

 

— Brandubh? Para onde você foi, guerreiro grande e cabeludo?—Eibhlin ficou de pé, sacudindo as partículas de erva e terra de sua saia, enquanto tratava de esconder sua desilusão — É como todos os homens! Prometeu a atenção de nada menos que o médico do rei e logo, sem mais nem menos, desaparece.

Um breve olhar para o lago confirmou que acabava de despertar de um sonho. As ruínas da Kincora, com apenas algumas pedras em pé, estavam na margem oeste do Shannon[8] . A desilusão caiu sobre ela. Só um sonho. Brandubh. Seu corvo negro não era real.

Horas mais tarde, sentou-se sozinha em seu quarto alugado no Killaloe. Uma neblina, fina como a renda irlandesa, empanava a janela através da qual, via-se o céu, ainda que iluminado pelo sol. Apesar de tratar de admirar a natureza, era o rosto do Brandubh o que ela via. Cada detalhe de seu rosto estava gravado claramente em sua memória.

Um golpe na porta tirou-a da contemplação do desgraçadamente imaginário Brandubh Mac Dougal. Depois do segundo golpe, arrastou-se para fora de sua cadeira ao responder.

— Sra. Mahoney —disse, tratando de agir feliz em ver a mulher de uns cinqüenta e tantos anos, que estava de pé no corredor. O gesto sempre sorridente da mulher tinha sido substituído por um olhar inquisitivo.

— Jantou querida?—Eibhlin sacudiu a cabeça.

— Ainda não —

— Por que não janta comigo? — A Sra. Mahoney levantou a palma de sua mão para descartar uma negativa — Fiz um bom guisado de cordeiro e assei pão fresco. Vem.—E tomou a mão de Eibhlin enquanto seguia dizendo: Os homens querem uma mulher com carne nos ossos.

Eibhlin sabia que isso não era verdade. Não os homens americanos, ao menos. Mas como não tinha comido, permitiu que a proprietária da casa a arrastasse para baixo para a acolhedora cozinha .

Enquanto repartia a baixela e os talheres, a Sra. Mahoney manteve uma conversação quase unilateral.

— Sabe que eu conhecia seu pai?— Eibhlin não se surpreendeu. Todos conheciam Seamus Fitzgerald. — Ele era um rapaz muito bom. Herdou a sua estatura dele. E essa voz tão maravilhosa. Todos sabíamos que ele seria um famoso cantor algum dia.— A Sra. Mahoney pôs uma tigela fumegante de guisado diante de Eibhlin.

— Conheceu também a minha mãe?—Eibhlin perguntou antes de tomar uma colherada do guisado — Hummm, Sra. Mahoney, isto é celestial.

A Sra. Mahoney franziu os lábios em um sorriso modesto de agradecimento e tomou seu próprio lugar na mesa.

— Não, não a conheci, ela não era daqui. Dizia-se que Seamus a encontrou no Cragh.

— O que?—A colher de Eibhlin soou estrepitosamente sobre a mesa, salpicando de molho de carne toda a toalha de linho.

Antes dos acontecimentos de hoje, semelhante afirmação só teria provocado um sorriso e um convite a seguir escutando, mas agora, Eibhlin não tinha nenhuma vontade de rir.

— Ela não era do Killaloe?—perguntou, enquanto tratava freneticamente de limpar as manchas do tecido com seu guardanapo.

— Não —a singela resposta da mulher e a aparente falta de interesse em continuar, irritavam-na.

— Assim , você acredita que meu pai encontrou a minha mãe na Craglea?—perguntou Eibhlin.

— Sim. Subiu na manhã de Beltane e a trouxe para seu lar nessa noite.

— Beltane?—A Sra. Mahoney olhou Eibhlin como se ela ignorasse tudo.

— È um dia em que se oferece um banquete para os antigos, os druidas e tudo isso — soprou a colherada de guisado — Como hoje, sabe.

— Hoje?—Eibhlin perguntou, embora recordasse.

— O solstício de verão. Nesses dias, os portais das fadas estão abertos e os mortais podem cruzá-los— Eibhlin se endireitou na cadeira, dando-se conta de repente de por que Brandubh tinha perguntado se ela era uma fada. Poderia ter imaginado também essa pergunta? .

— Onde esteve recolhendo amostras hoje, querida?—A Sra. Mahoney perguntou enquanto tomava sua xícara de chá e se recostava na cadeira. Eibhlin recuperou sua colher e tratou de comer o cremoso guisado de cordeiro, embora tinha um problema para engolir.

— Na Craglea — conseguiu dizer.

— Assim, subiu ao Cragh de qualquer maneira? E num dia em que os antigos consideravam sagrado — A anciã sorveu seu chá — Viu algo?

— É obvio que não—Eibhlin ouviu a mentira em sua própria voz, tão claramente como a Sra. Mahoney. Mas Eibhlin não estava de humor para continuar dando voltas sobre sua alucinação da tarde, por isso desviou a conversação para as habilidades culinárias da Sra. Mahoney, enquanto terminava seu chá.

Teve o repentino impulso de chamar seus pais. Possivelmente era o que acabava de ouvir a respeito deles ou a estranha história a respeito de seu pai encontrando a sua mãe no Cragh, mas precisava falar com eles dois.

— Sra. Mahoney importa-se se utilizar seu telefone?.

 

O sol tinha declinado no Grande Mar[9], além da costa ocidental quando Brandubh esporeou seu cavalo e ganhou mais velocidade, ansioso por regressar a sua casa, movido por uma necessidade cada vez maior por chegar. As patas do cavalo golpeavam a água, mas Brandubh ignorou o frio crescente que transpassava sua perneiras empapadas, enquanto atravessava o rio Shannon, o mesmo que tinha dado nome a seu pai.

Antes ainda de atravessar as portas, passou sua perna direita sobre o pescoço cheio de espuma de seu cavalo e deslizando-se ao chão, jogou as rédeas a um dos moços dos estábulos.

— Rapaz, Lady Sadbh está? —

— Sim Brandubh, está na quarta de tecer.

Naturalmente, sua mãe estaria se ocupando com suas coisas. Avançou com largas passadas para o pequeno edifício de pedra que albergava os teares, gritando sobre seu ombro ao rapaz do estábulo.

— Refresca-o bem. Cavalgamos muito duro desde Kincora.

Brandubh quase teve que agachar-se ao passar pela porta. O edifício utilizado somente pelas mulheres, (o quarto de tecer) não foi planejado para o conforto masculino. Inclusive uma vez dentro, a cabeça ameaçava abrir caminho através do teto de palha, mas uma vida de dolorosos encontros com numerosos tetos, o havia treinado para tomar as precauções necessárias. Outra cruz que devia suportar — embora não fosse tão molesta, pensou com um sorriso — era a rapidez como as portas se fechavam detrás dele. As mulheres tinham deixado seu trabalho, e o olhavam fixamente, algumas em atitude de aberto convite. Qualquer outro dia, teria devolvido o sorriso de uma delas, aceitando o que lhe ofereciam, mas hoje, estava interessado só em uma mulher... e ela não estava aqui. Nem sequer sabia se era real.

Uma garota jovem, tão diminuta e bonita como ele parecia troglodita, saltou de seu lugar e voou através do quarto. Brandubh se sentia repentinamente culpado. Caoimhe tinha estado em sua mente durante todo este dia como um problema a ser resolvido.

— Brandubh — Caoimhe aproximou-se, o sorriso brilhante e as mãos estendidas—Finalmente você veio para casa.

Tomou suas mãos estendidas e se agachou para permitir beijá-lo na face. Ela se afastou dolorida e soube que tinha esperado uma saudação mais exuberante.

— Devi falar com minha mãe, Caoimhe—

— Sério? Isso significa isso que decidiu falar com meu pai? O teu já falou com ele —

Sua voz sempre tinha sido tão estridente? E era tão pequena, apenas lhe chegava no esterno.           Embora já tivesse dezesseis anos, tinha mais formas de menina do que de mulher. Em troca Eibhlin era tão arredondada e tão...

Brandubh obrigou-se a prestar atenção em Caoimhe. Seu sorriso tinha sido substituída por um biquinho enquanto esperava que ele desse a mesma atençao que sempre lhe tinha dispensado antes.

— Eu não quero ser trocada por cavalos. As vacas são o tradicional, Brandubh— Como poderia saber o que valem dez cavalos?

— Meus cavalos são os mais finos da Irlanda. Seu pai ficará contente em recebê-los no lugar das vacas—e imediatamente arrependeu-se de suas palavras, porque Caoimhe as tomou como se aceitasse o acordo de casamento e seu rosto resplandecia. Embora ele não tivesse feito nenhuma oferta e tampouco faria nenhuma, não podia dizer-lhe isto na presença das outras mulheres. Não ia desprestigia-la. Era melhor permitir que ela divulgasse o rumor de que era ela quem o tinha rejeitado.

Sua gratidão foi imensa quando viu que sua mãe vinha para eles.

— De modo que meu filho, depois de estar longe por meses, chega aqui para interromper meu trabalho—Sadbh Ni Mahon aproximou-se, seu longo e chamejante cabelo recolhido em uma trança grossa sobre suas costas. E dando um breve olhar para a jovem, perguntou: — terminou, Caoimhe? Prometi esse tecido de lã ao abade para o Michaelmas[10].

E dando as costas a Caoimhe que continuava fazendo biquinho, Sadbh ofereceu o braço esbelto a Brandubh enquanto o levava para fora da casa, seguindo o atalho que terminava no rio.

— Caoimhe esteve se gabando de ter te apanhado e eu estou farta de escutá-la, mas suponho que você se amarrou nela.— Sadbh suspirou e continuou sem dar a Brandubh a oportunidade de falar —Bom, pouco importa. Quando eu vi o meu Dougal na margem do rio, não podia me mover. O tio Brian esperneou e gritou, mas eu sabia o que queria. Herdaste isso de mim, querido.

Brandubh quase riu ao escutá-la, pois a princípio, sua mãe havia se oposto à sua escolha. A única coisa pior que ter que dizer a Caoimhe que não lhe ofereceria casamento, era ter que escutar sua mãe dizendo que todo o tempo soube não fariam bom casal.

— Está calado, Brandubh.— Ele deteve sua caminhada pela margem e a ajudou a sentar-se na grama, enquanto permanecia de pé como se esperasse que fizesse. Pedir ajuda de qualquer tipo nunca lhe foi fácil.

— Mãe, necessito de um conselho — Os frios olhos azuis de Sadbh aumentaram pela surpresa e logo se estreitaram.

— É obvio, querido.

— É a respeito do Caoimhe. Eu... — Uma sobrancelha castanha se levantou em um arco perfeito, pressionando Brandubh a prosseguir.

— Tenho dúvidas a respeito de oferecer casamento a ela.

— Há outra mulher.— Não era uma pergunta.

— Sim... não... bem, não sei.— Afastou o cabelo da fronte. — Isso soará muito estranho ...—

E contou-lhe a respeito de Eibhlin. Sadbh não disse nenhuma só palavra para não interrompê-lo, só levantou o queixo e assentiu um par de vezes. Quando Brandubh terminou seu relato, Sadbh ergueu-se.

— Ela se esfumou diante de seus olhos?—perguntou em um sussurro; seu rosto normalmente impassível, denotava grande excitação.

— Sim.

— Isso foi hoje?

— Sim — Brandubh esperava algum tipo de ajuda. Um lento sorriso que ele conhecia bem, curvou os lábios de sua mãe.

— O que posso fazer por você?

— Quero que me diga como posso fazer para que volte. Não finja que não sabe nada destas coisas.

Sadbh falou para que se calasse.

— Baixa a voz, Brandubh. Não quero ser assinalada como pagã e que me neguem os sacramentos simplesmente por respeitar os velhos costumes. Inclusive os sacerdotes que são nativos, não são tão tolerantes com estas idéias.

Tomou novamente o seu braço enquanto se afastavam da paliçada e esteve silenciosa durante muito tempo. Quando inspirou profundamente, Brandubh reconheceu o bardo que habitava nela.

— As histórias a respeito de pessoas que desaparecem e nunca voltam a ser vistas outra vez, são abundantes Brandubh. Algumas pessoas voltam do reino das fadas muitos anos depois ou ainda séculos mais tarde, ainda que deveriam ter morrido. Estas coisas ocorrem ao redor de certos lugares, especialmente perto dos dólmenes[11], às vezes inclusive em lugares como Craglea, onde se diz que moram os antigos. E isso acontece em certos momentos do ano, nos antigos dias festivos.

— Se sua Eibhlin for uma dos Danaan, aparecerá ali, se é que quer ser encontrada. — Sadbh parou e girou o corpo para enfrentá-lo. Ainda sendo uma mulher alta, teve que levantar os olhos para olhar de frente a Brandubh. — Se ela for mortal, e o que presenciou é uma... uma espécie de porta de um lugar a outro, então terá que esperar até a próxima festividade, que será Samhain. — encolheu os ombros — Por outro lado, pode ser que nunca a veja outra vez.

— Não aceito isso—Sadbh soltou uma risada gostosa.

— Querido, não tem opção neste caso. Estas coisas estão além de nossos conhecimentos. Inclusive se a visse outra vez, no próximo Samhain, e o que pensa a respeito de sua cortina for verdade, que ela pode atravessá-la mas você não, então não poderá dizer nada. Ela terá que escolher cruzar. Se decidir não fazer, então não terá opção e deverá aceitar.

Brandubh mordeu a língua para frear a maldição que se azedou ali. Desprezava a impotência mais que qualquer outra coisa. Toda sua vida tinha treinado, tinha trabalhado, tinha estudado, para assegurar-se de ter sempre uma escolha, sem que importasse o tema. Ninguém, nem sua mãe ou nem seu pai, souberam quais as coisas que tinha enfrentado. E ele nunca as diria.

— Estarei ali no Samhain — Sadbh assentiu.

— E o que ocorre a respeito de Caoimhe?— Brandubh fez uma careta, mas aceitou sua responsabilidade.

— Falarei com ela em privado e lhe direi que já não a cortejarei.

— Ela se sentirá envergonhada diante das outras mulheres.

— Eu me nego a ser culpado por isso. Ela sabia que não havia nada combinado.

— É uma garota jovem, Brandubh, está apaixonada por ti desde que era uma menina.

— Ela ainda parece uma menina — respondeu como uma queixa. Sadbh afastou-se dele e estudou seu rosto friamente.

— Meu filho, estou de acordo que Caoimhe não é uma mulher para ti e espero que encontre uma com a qual possa ter o mesmo que eu tenho com seu pai. Mas é possível que a mulher que se esfumou seja uma fada. Vigia teus sentimentos até que saiba se essa Eibhlin voltará. Não fique obcecado com ela, excluindo as mulheres de carne e osso, que podem esquentar sua cama, enquanto que uma visão não pode fazê-lo.

— Eu a toquei. Sua carne era suave e seu sangue estava tão quente como o meu. — Ainda que suas palavras fossem ardentes, Brandubh considerou o conselho de sua mãe. Ele mesmo não havia dito que não sabia se Eibhlin era real? Inclinou a cabeça para sua mãe e sorriu. — Serei cauteloso, mãe. E terá seus netos, Sadbh Ni Mahon. Tem minha palavra nisso.

— Bom.— disse enquanto colocava a mão no braço de seu filho.— Desejo-te a melhor sorte, filho. Vem, vamos ver seu pai. Sentiu saudades de você. Possivelmente fique aqui conosco um tempo. Pôs a mão sobre a de sua mãe e voltaram para dentro da paliçada, ansioso e impaciente pela espera de algo que sabia que ocorreria.

 

O telefone soou 4 vezes antes que sua mãe respondesse.

— Olá—uma voz que tinha até matizes de um sotaque regional irlandês, respondeu.

— Dia duit—disse Eibhlin disse.—Olá, Mamãe.

— Ah, querida, dia duit. É um prazer ouvir que falas a velha língua. Você pode praticá-la?—.

— Sim, realmente tenho feito isso.

— Encontrou o que procurava?

— Sim—Por certo que sim, acrescentou para si mesma, pena que não seja real— Ainda tenho uma sobra do dinheiro da bolsa de estudos e vou para a Escócia amanhã.

— É maravilhoso o trabalho que faz, querida.—Sua mãe falou de repente.—Estou tão orgulhosa de você, embora desejasse que não viajasse todo o tempo sozinha. Não preguei os olhos enquanto estava na China.—Eibhlin ouviu as palavras tácitas—Você é tudo o que temos. Tenha cuidado.

Freqüentemente enquanto fazia seu trabalho, pensava em seu irmão mais velho, morto há quase vinte anos. Só recordava o tempo feliz , mas breve, antes que seu irmão adoecesse, embora as lembranças dos dois longos anos nos quais Conor agonizou fossem muito claros. As palavras saíram, espontaneamente:

— Mamãe, eu ainda tenho saudades dele.

— Nós também querida—.

— Mamãe—Eibhlin disse, tratando de conter-se, mas era como tratar de frear uma inundação utilizando só suas mãos.— Sei que só tratou de me proteger escondendo tudo de mim, mantendo-me afastada do funeral. Entendo, realmente. Mas pode entender que isto que faço ajuda a curar? Se posso encontrar uma cura ou pelo menos um tratamento que não seja pior que a enfermidade, se posso ajudar esses outros meninos que têm que atravessar esse inferno...— A garganta fechou em um nó. Também fazia por ela própria, para aplacar a culpa de ter sobrevivido.— Dou graças por ser capaz de fazer isto, mamãe.

Sua mãe ficou em silêncio por um momento.

— Sempre esteve em você, querida. Sempre teve o dom.

— Mas, mamãe, foi você quem me ensinou a respeito das plantas e a respeito do que elas podem fazer. — Que a sua carreira tivesse sido definida por um passatempo da infância resultava irônico.

—pensaste mamar quão estranha é a vida? — A risada de sua mãe vibrou em seus ouvidos.

— Querida, você não tem a menor idéia.

Essa era uma reação, pensou Eibhlin.

— Moira, deixe-me falar —Seamus Fitzgerald apareceu na linha. Sua voz de barítono, seja falando ou cantando, estremecia a alma.

— Olá, meu anjo.

— Olá, Papai. Escute, não acreditará como o mundo é pequeno. A caseira do meu quarto aqui em Killaloe é uma amiga tua. Seu nome é Patsy Mahoney. E não imaginam que... A sra. Mahoney diz que você, papai, subiu para Craglea no amanhecer do dia de Beltane e retornou com mamãe nessa mesma noite. —Tanto Moira como Seamus riram brandamente.

— A verdade é que não recordo de nenhuma Patsy Mahoney. Realmente acredita nisso, mocinha? Acredita que subi para procurar minha mulher no Cragh?

— Seamus — Moira o repreendeu. — É um conto muito romântico, não? Pelo menos tão bom como o de Angus e Cair. Claro que você já está muito velho...

— Velho? Escuta mulher... — Moira voltou a interrompê-lo .

— Você me apoiou na enfermidade. —Seus pais riram entre os dentes e Eibhlin sentia-se de repente perdida. Seu amor era tão forte depois de tantos anos, tanto na pobreza como na riqueza, na alegria e na tristeza. Ela tinha crescido nesse círculo de luz por toda sua vida, mas agora parecia muito pequeno para incluí-la.

— Que aconteceu querida? Você está muito calada.

— Nada papai, suponho que me sinto um pouco arrependida. O senhor e mamãe estão ainda tão apaixonados e em troca eu não pude manter o meu marido em casa.

— Basta Eibhlin, pare agora mesmo — a voz de sua mãe foi categórica — Sabia que era um cretino quando se casou com ele.

— No momento não quero ouvir a respeito dele.

— Você começou—Moira era desumana quando Eibhlin precisava ouvir algo —Nunca sentiu por ele o que sentirá algum dia por outro homem.

—Tem aí uma bola de cristal jogando chamas Moira Ni Conor?

—Não seja impertinente.— a voz de Moira suavizou-se— prometo-lhe isso, um dia saberá como pode ser maravilhoso.

Craglea e seu guerreiro moreno encheram a mente de Eibhlin. Sem se importar como soaria loucura, deixou escapar uma pergunta:

— Mamãe, você sabe muito a respeito de Brian Boru, verdade?—escutou o silêncio na linha do telefone. Eibhlin tiritou pela antecipação, entusiasmada e temerosa.

— Sim, Eibhlin, sei bastante.—Nunca tinha havido explicação maior que essa. Moira Fitzgerald simplesmente sabia o idioma antigo, os velhos costumes, as canções e os contos.

— Ouviu falar de um homem chamado Brandubh Mac Dougal?— Silêncio — mamãe?

— Um momento, querida — foi a voz de seu pai que respondeu. Uma inalação precedeu a volta de sua mãe à conversação.

— Sim, Brandubh era parente de Brian. Sua mãe era a filha de Mahon Mac Cennedi, irmão de Brian. Por que pergunta por Brandubh?

— Suponho que seja porque associe o seu nome com o de Brian —Silêncio. Eibhlin moveu os ombros para suavizar o mal-estar que estava se instalando ali.

— Vocês dois vão ficar calados cada vez que digo algo?— Seamus riu.

— Perdão, querida.— deteve-se e ela quase podia ouvi-lo pensando.—Evie, os costumes irlandeses podem parecer estranhos, dado que cresceu na América, mas recorda, em cada mito há uma semente de verdade. Não descarte nada e mantém-te aberta ao novo. Toma tuas decisões apoiadas no que seu coração queira fazer. — Seamus parou. Quando voltou a falar Eibhlin ouviu um tremor em sua voz.—E recorda que nós adoramos você, não importa onde estiver. — Moira parecia estar à beira das lágrimas.

— Seu pai tem razão. Cada dia de sua vida foi uma preparação para o próximo. Eu te amo. Nunca esqueça isso.— soluçou fortemente no telefone. Eibhlin abriu a boca, mas a fechou ao sentir um comichão nas costas e as costelas.— E eu te reconhecerei, não importa quando nos virmos outra vez. Boa sorte, querida.

Completamente silenciosa durante a última parte desta estranha conversação, Eibhlin era incapaz de terminar a chamada. Sua mãe soluçava com uma angústia que lhe rompeu o coração quando escutou o click da desconexão no ouvido.

Fechando sua mente à idéia de que eles acabavam de dizer a ela um adeus para sempre, agarrou o telefone de disco fora de moda e marcou com uma lentidão desesperadora os mais de vinte dígitos do cartão de chamadas: o número, códigos de acesso, códigos de país, códigos de área, finalmente o número do telefone de seus pais em Califórnia. O sinal de ocupado a enfureceu. Voltou a chamar, chamou e seguiu chamando. Finalmente depois de tentar uma hora, decidiu deitar-se e esperar até chegar ao aeroporto na manhã seguinte. Tinha que tomar um avião às 8 para Inverness. Mais celtas, pensou, com um suspiro. Mais druidas. Mais superstição.

 

Brandubh voltou para Kincora na manhã seguinte. Tinha esperado Eibhlin em Craglea todo o dia até que a escuridão caiu, mas ela não apareceu. Cada dia durante uma semana ficou obcecado com o Cragh, cada dia estava mais seguro de que ela era só um ser do outro reino, até que recordava a sensação da mão dela na sua. Ela era real. Possivelmente. Se ela fosse real e o conselho de sua mãe fosse correto, não tinha outra escolha senão esperar até o Samhain[12]. Quatro meses depois. Brandubh rangeu os dentes diante da perspectiva de tal demora, entretanto, como não havia nada mais que pudesse fazer, assim voltou a Ath Sionnain para esperar.

Tão logo chegou, perguntou-se por que não tinha ido diretamente para suas próprias terras. Lon Dubh requeria a mão do dono. Não era correto deixar toda a administração a Hauk, mesmo que fosse um mordomo muito competente. É obvio, não teve que pensar muito para concluir que tinhaa um assunto pendente aqui: Caoimhe. Teria que romper com ela de uma vez e para sempre. Todos no povoado sabiam que tinha perguntado a seu pai a respeito dela (Caoimhe se assegurou de que todos soubessem). Embora não fosse de sua incumbência, daria a ela oportunidade de salvar sua reputação.

Porém, apesar de suas intenções de se ocupar com o assunto imediatamente, por três dias evitou estar a sós com o Caoimhe ou falar com qualquer um de sua família. Entretanto, não poderia seguir suportando a admiração ansiosa dela através do grande salão de seu pai. Teria que enfrentá-la.

Encontrou-a depois de jantar, conversando com alguns de seus amigos. Sem nenhuma idéia clara de como dizer o que tinha que dizer, aproximou-se e gemeu interiormente quando seu rosto se iluminou ao vê-lo. Iria machucá-la, mas ela era jovem e imaginava que estava apaixonada por ele. Sim, para seu bem, ele devia ser honesto.

Sim, ela superaria com o tempo e se apaixonaria por outro, um que correspondesse a ela da mesma forma. Estava fazendo o correto. Esse pensamento o ajudou a vencer sua reticência.

— Caoimhe, você viria caminhar comigo?—perguntou.

Ela se ruborizou adoravelmente e seus amigos espiaram como ela colocou a mão no braço de Brandubh, ao abandonar o ambiente.

Andaram em silencio pelo pátio e passaram pelas portas principais. Caoimhe não falou, mas Brandubh podia sentir seu olhar inquisitivo. Vendo sua expressão de expectativa, deu-se conta de que ela acreditava que havia a trazido ali para pedi-la em casamento Teria encarado a morte na batalha com menos terror.

Quando ficaram longe dos ouvidos indiscretos, Brandubh esvaziou sua garganta e se jogou no fogo.

— Caoimhe, eu sei que pensa que há algo entre nós, mas eu não posso casar contigo— Que droga, ele não tinha esperado dizê-lo assim, pensou enquanto via como seus olhos se abriam e um gemido débil escapava da boca arredondada.

— Por que?— Sua voz soou ríspida em seus ouvidos — Você prometeu. Seu pai fez acertos com o meu.

— Caoimhe, sou um homem adulto e faço meus próprios acordos. Dougal simplesmente perguntou a seu pai se estava interessado e qual seria o preço. Eu não falei com Conor — sentou-se e a atraiu para baixo a seu lado. Tratava de ser gentil, pois queria que ela entendesse sua decisão — Caoimhe, é uma garota bonita e será uma boa esposa, mas para algum outro homem, não para mim. Meu cora-ção está com outra pessoa e não posso me entregar a você por inteiro, como deveria ser.

Caoimhe tinha o rosto voltado para o outro lado.

— Significa que minha família não é suficiente rica para você.

— Esse não é o motivo. Eu...

— Sua mãe está por trás disto, não é verdade? — Sua voz perfurou-lhe a cabeça como uma lança.

Ela se levantou de um salto e o encarou, inclinando-se para seu rosto.— Não agüentarei, Brandubh.

Prometeu casar-se comigo e o fará.

Brandubh olhou o rosto de Caoimhe, quase ao mesmo nível do dele, embora ele estivesse sentado. Esta amostra de seu caráter reforçou sua resolução. Suas próximas palavras foram simples e tão honestas como poderiam ser.

— Não, Caoimhe. Não o farei. Você encontrará alguém mais maleável, mais próximo a sua idade, alguém a quem possa intimidar.

— Simplesmente porque nós não somos tão ricos como você…

— Não, pequena. A riqueza não importa absolutamente. Poderia ter dez mil cabeças de gado e eu não te ofereceria matrimônio.

Caoimhe levantou-se silenciosamente, seus braços pendendo descuidadamente dos lados do corpo.

— Se não se casar comigo, eu me matarei.

Brandubh reprimiu uma quebra de onda de repulsa. Seus pueris intentos de convencê-lo eram incríveis.

— Pequena, eu não valho o suficiente para que desperdice sua vida.

— Nunca quis outro homem — Sua voz tremeu e os ombros caíram.— Só você.

Essa declaração compassiva o tocou como não tinham feito suas ameaças, e ele se sentia um tirano por machucá-la. Aproximou-se dela, querendo aliviá-la. Ela retrocedeu e o deixou cair as mãos dos lados. Seus olhos brilharam com lágrimas reprimidas.

— Vou perseguir você, Brandubh. Minha família vingará minha morte.

Deu a volta e afastou-se correndo na noite.

— Caoimhe— Chamou-a, mas não correu detrás ela.

Deixou-a para que fosse chorar no ombro de sua irmã. Moira era sensata e falaria com ela até que esta loucura passasse. Caoimhe era uma garota dedicada. Nunca se mataria, entretanto seria prudente fazer seu pai saber de sua ameaça. Brandubh começou a afastar-se em direção da casa de pedra de Dougal, onde poderia encontrar Conor Mac Turlough e compartilhar com ele uma cerveja, enquanto escutava os contos de Dougal. Escutou uma risada rouca no fim do atalho e se perguntou que história fantástica relatava Dougal desta vez.

A poucos passos da casa, Brandubh parou e girou para as portas da paliçada, quando o som de cascos chegou no ar da noite. O ritmo era o de um cavalo esgotado. Nenhum irlandês faria correr seu cavalo até o esgotamento. Um cavalo cansado podia dar um passo em falso e romper o pescoço.

Se deslizasse além da luz débil das tochas, poderia ver quem era forma escura que estava sobre o cavalo.

— Brandubh! O Ard Ri chama-te agora em Kincora. — Brandubh reconheceu a voz do cavaleiro como a de seu amigo, Gadhra, e adiantou-se para encontrá-lo.

O esgotado animal tropeçou quando Gadhra jogou as rédeas para pará-lo. Agarrando a brida e acalmando o animal, Brandubh olhou seu amigo com irritação.

— O que é o que aconteceu para que cavalgue com um cavalo tão perto da morte?

— A necessidade, Brandubh — Gadhra disse quando apeou e atirou as rédeas aos rapazas que correram a recebê-lo — Cuidem bem moços, ele serviu muito bem a Brian esta noite.

— Não há necessidade que justifique matar um cavalo. Ou não seria melhor vir a pé?—Brandubh deu a Gadhra só um momento para apear .— O que aconteceu? O Ard Ri necessita de mim esta noite?

— Logo que puder chegar a seu lado, Brandubh. Necessita de cada braço forte capaz de manejar uma espada que possa encontrar. O Rei de Leinster contratou um punhado de lobos Vikings. Estão arrasando Offey e estão a caminho de Kincora. O monastério em Clonmacnois também está ameaçado.

— Nem sequer um renegado como Maelmordha desafiaria o amparo de Ard Ri aos monastérios —

— Por que não o fará? Brian é velho, Brandubh. Está cansado.

— Boru é dez vezes mais homem do que Maelmordha jamais será.

Gadhra suspirou e encolheu os ombros.

— Sim. Mas... as piores notícias são que os chefes do norte, Malachy e os outros, oferecem desculpas em vez de homens lutadores. Se Maelmordha vencer, eles podem decidir-se a esperar mais tempo, para ver se Brian será capaz de manter seu poder.

Brandubh assentiu e ordenou a um das rapazes.

— Sela meu cavalo e prepara mais vinte para a viagem. Brian precisará de montarias frescas. E atende esse cavalo até que se refresque apropiadamente. Se o deixar transpirando irei me encarregar de afogar você no rio…

— Aye[13], Brandubh.

O menino sacudiu a cabeça, os olhos aumentados, acreditando obviamente na ameaça.

 

Brandubh cruzou as portas de Ath Sionnain com os ossos cansados e manchado de sangue, à frente de uma coluna de homens na mesma condição. Ainda sob a influência da loucura que se apropriava de alguns na batalha, seus homens — os homens de Dougal, na verdade — eram capazes de cantar, rir e gozar de sua rápida vitória sobre os vikings mercenários.

— Viu como Brandubh cortou esse capitão viking em dois pedaços? Como... — A mão do orador desceu irrevogável e fez um som que imitava ao de uma lâmina movendo-se por um corpo humano.

— Aye, uma coisa formosa. Nosso Brandubh é um herói completo, realmente. Vi-o cortar as cabeças de dois deles e ao baixar sua espada, cortar pela raiz a mandíbula de outro. Dizem que Brian fez o mesmo quando era jovem.

Brandubh reprimiu um estremecimento de horror ao olhar suas próprias mãos. Se ele tinha feito tal coisa, não recordava agora, o que ocorria-lhe freqüentemente.

—Isso te incomoda sinceramente, Brandubh?— Brandubh voltou-se para o som da voz e ficou surpreso em ver o irmão de Caoimhe, Uaid Mac Conor, cavalgando ao lado dele.

Encolhendo os ombros, Brandubh respondeu:

— Não recordo. Como pode me incomodar?

— Isso é muito mau. Foi uma visão gloriosa. Nada como uma boa briga para manter o sangue em movimento. Alguma mulher ganhará uma boa cavalgada esta noite, hein?—Uaid tinha um sorriso vaidoso de si mesmo, que Brandubh queria apagar de seu rosto, mas em troca, ele só encolheu os ombros outra vez.

— A luta não é algo que eu goste, Uaid. Luto quando tenho que fazê-lo ou quando me ordenam isso. Eu não trocaria os lugares com os homens que matei, mas lamento cada vida que tomei. Minhas orações se acrescentarão às dos monges para que o conflito termine sem mais derrama-mento de sangue.

— O que é todo este discurso insensato, Uaid?— Gadhra juntou-se ao grupo e Brandubh se alegrou com sua companhia. Todo este discurso da fúria da batalha e de arrancar as cabeças de outros homens resultavam-lhe claramente incômodos.— A propósito, Uaid por que apareceu tão tarde na peleja? Montava um tipo diferente de égua quando chegou o chamado?— A voz de Gadhra retumbou profundamente dentro de seu peito. Brandubh reconheceu a cólera.— Perdemos a conta dos homens cansados antes que você se incomodasse em mostrar sua cara.— Uaid tossiu, mas manteve sua cólera sob controle.

— Estive comprometido em um assunto de família. Brandubh falou com minha irmã e ela necessitou consolo.

Isso fez Brandubh reagir.

— Como está ela, Uaid?

— Com o coração partido. — As palavras se cravaram-se como uma faca no intestino e Brandubh soube que tinham sido ditas para machucá-lo ... pois ele estava bem; merecia um pouco de dor em troca da que havia infligido.

As canções celebratórias dos soldados se apagaram quando o gemer de vozes femininas chegaram na brisa da tarde de verão. Inclusive Uaid assumiu um comportamento apropriadamente respeitoso.

— Como é que eles sabem quem morreu tão rapidamente? Mandou mensageiros adiante, Brandubh?— perguntou Gadhra.

— Não…

Cruzaram as portas a cavalo e foram recebidos por um pátio repleto do povo de Dougal, que se abriram diante isso como o Mar Vermelho perante Moisés, ansiosos por escutar as notícias da batalha. Mas Brandubh viu outra emoção escrita em seus rostos: a pena, mas não da forma que se sente pelos soldados.

Sadbh se adiantou para encontrá-lo, Dougal colado a ela. Abriu a boca como se fosse falar, mas quando viu o irmão de Caoimhe, Uaid, cavalgando ao lado do Brandubh, ela estalou os lábios, fechando-os. Dougal deu um passo para frente e quase arrancou Brandubh de seu cavalo. O pai de Caoimhe, Conor Mac Turlough, fez o mesmo com seu próprio filho. O rosto azeitonado de Dougal estava ainda mais sério que o normal. Colocou a mão no ombro do Brandubh e disse:

— Meu filho, há más notícias. Caoimhe suicidou-se esta tarde. Tomou sua adaga de comer e perfurou o coração.— As palavras de seu pai o açoitaram com a força de uma tocha viking. Ela não poderia ter feito isto... sim, havia dito que o faria.

— Não! — O grito de Uaid rasgou o ar e atirou-se sobre os ombros de seu pai Conor, que não era capaz de dominar sua pena.

— Por que?— finalmente conseguiu perguntar Uaid. Conor deu uma olhada em Brandubh; sua acusação era muda mas era como se houvesse dito tudo.

— Não sei, Uaid.

— Eu sei — Todas as cabeças giraram para a voz da irmã mais velha de Caoimhe.

— Vai para casa, Moira.— Conor implorou, sua voz cansada. Moira Ni Conor ignorou seu pai.

— Pouco importa. Ele — disse assinalando ao Brandubh—Ele sabe também; rompeu-lhe o coração e deixou-a desesperada. Ele é culpado pelo sangue de minha irmã.

Uaid rugiu e lançou-se sobre Brandubh. Era um homem grande e forte, mas Brandubh era maior, mais forte e um combatente mais experiente. Dominou facilmente o jovem Uaid, sujeitando-o contra o chão, enquanto seus pais se enfrentaram, preparados para separá-los. Impotente no momento, Uaid deixou de lutar. Quando seus olhos olharam Brandubh, ardiam de cólera:

— Eu matarei você, Brandubh.

— Tome cuidado, homem. Não faça promessas apressadas. Eu nunca quis machucá-la. — Uaid não disse mais nada, mas onde antes havia admiração por Brandubh, agora só havia ódio e a promessa de vingança.

 

No dia seguinte, os juizes declararam a morte de Caoimhe como um suicídio e, por isso, nenhum preço de sangue[14] foi determinado contra Brandubh. Em seu íntimo, ele reconhecia ser culpado em parte. Ninguém o acusou abertamente, exceto Moira e Uaid. Conor se escondeu em sua casa, sem ver ninguém. Mas a falta de acusações foi mais duro para Brandubh ficar em Ath Sionnain. Não havia forma de poder purgar a culpa nem de fazer a penitência quando ninguém o considerava responsável.

Assim, deixou as terras de seu pai e voltou para o norte, para suas próprias terras: Lon Dubh. Ali trabalhou como um possesso, suando e tirando fora a culpa, fazendo penitência por sua contribuição para tragédia da morte do Caoimhe. Os dias se fizeram semanas, as semanas se fizeram meses e o Samhain se aproximou, sua mente voltou a ter a esperança de que Eibhlin voltasse.

 

O avião de Eibhlin chegou ao aeroporto de Shannon na hora prevista. Em quinze minutos, alugou um automóvel e se dirigiu a Killaloe. Com um pouquinho de sorte, ainda seria capaz de chegar ao Cragh e tomar seu vôo para Nova Iorque ao anoitecer.

Os pacotes que continham todas as amostras que havia reunido nas Ilhas Britânicas, esperavam no porão de carga do avião e suas notas já tinham sido transcritas e enviadas por fax aos seus colegas em Oregon. Seu trabalho estava pronto e era o momento de voltar para casa.

Não se permitiu examinar as razões para voar de Shannon[15] quando fazê-lo de Heathrow teria sido mais rápido. Mas, dado que estava aqui, por que não fazer uma viagem rápida embora fosse para ver o Cragh mais uma vez? O encontro com Brandubh Mac Dougal não tinha saído de sua mente desde aquele dia de junho, mas certamente não tinha nada a ver com a intensa necessidade de voltar.

— Quero visitar a velha colina— explicou para si mesma.— É obvio, não espero vê-lo; ele foi um sonho afinal de contas. Apenas um sonho.

Apenas um sonho que não lhe permitia estar sozinha. Brandubh Mac Dougal tinha chegado a ser uma melhor opção do que foi seu ex-marido. Podia imaginar o rosto de Brandubh sem nenhum esforço, enquanto que tinha problemas para recordar se seu ex tinha cabelo.

Eibhlin andou pelos subúrbios de Killaloe. Gostaria de parar e visitar a Sra. Mahoney, mas não tinha muito tempo extra. Seu avião saía às 5:50 da tarde. Tomou as ruas de trás, conduzindo tão rápido como se atreveu e diminuindo a velocidade só quando viu a figura de Craglea recortada contra o horizonte.

 

Quando ela não voltou, ele tinha tratado de convencer-se que era só um sonho, uma mulher perfeita fruto de sua imaginação. Sem dúvida, não tinha desejado nenhuma outra mulher desde que a tinha visto por volta de algumas semanas. De modo que aqui estava ele, subindo a colina da Craglea, sem permitir-se duvidar de suas razões. Quando alcançou a cúpula, parou subitamente.

— Que coisa é esta?—Em cima de Craglea havia uma espécie de carruagem vermelha brilhante. Não era como nenhum transporte que ele já tivesse visto, era pequeno, com assentos de couro que se viam através das janelas dos lados. Não havia nenhuma palavra que pudesse definir esse objeto.

Pensando em examinar esta coisa tão estranha, Brandubh se aproximou com determinação, mas não pôde se aproximar o suficiente, já que se chocou com uma barreira invisível que fez que caísse sobre seu traseiro. A confusão o invadiu por um momento e logo, uma luz de compreensão cintilou trêmula em seu interior, incitando-o.

— A cortina — sussurrou. Se a cortina estava aqui, essa que ele não podia atravessar, então... Ela estava aqui.

Umas vozes soaram no ar. Brandubh parou e inclinando-se para frente tocou a barreira com os dedos. A carruagem era a fonte das vozes que soavam cada vez mais forte, igual a uma música estranha. Brandubh agachou-se para examinar o objeto de cor vermelha brilhante.

Sobre a lateral dessa jaula brilhante de metal que supôs ser a frente, já que os assentos assim o indicavam, havia dois globos redondos. As rodas eram menores que as de uma carruagem e não eram de madeira, mas de algum material negro. O eixo parecia muito maior que os de uma carruagem.

— Hummmm.—O som de um suspiro levou seus olhos para o lugar onde ela jazia recostada sobre a grama marrom, as pernas longas cruzadas à altura dos tornozelos. Tinha um braço cruzado detrás da cabeça, o que fez com que os seios se apertassem contra o tecido de sua roupa. Brandubh sentia que um sorriso crescia em seu rosto.

— Eibhlin—sussurrou seu nome dentro de sua mente, saboreando o som. Os dedos apalpavam até a cortina, aproximou-se como pôde e ajoelhou-se na grama. Se a barreira não estivesse entre eles, a teria tomado em seus braços. — você voltou.

— Brandubh — ela sussurrou enquanto abria os olhos para encontrar os dele.

Brandubh nunca soube antes o que era desejar sinceramente uma mulher, mas ao desejar certa mulher, soube que nunca se cansaria dela. Soube nesse momento. Ela se aproximou e passando sua mão através da barreira, enlaçou os dedos com os dele.

 

— Você está realmente aqui?—Eibhlin perguntou, desejando que fosse assim. Mas quando os dedos longos e fortes fecharam os seus em um aperto quase doloroso, o vazio que sentia no meio do peito transbordou deixou que a arrastasse para ele. Um formigamento a invadiu quando atravessou a brilhante cortina que os tinha separado. O formigamento foi substituído por uma sensação de segurança quando seus braços a rodearam. Suas mãos grandes demoraram-se acariciando-a, antes de apertá-la contra seu corpo rijo.

— Ah, Brandubh — suspirou.

Sua altura, sua largura e sua poderosa musculatura fizeram-na sentir-se pequena. Eibhlin virou seu rosto para ele quando inclinou a cabeça levemente para um lado e procurou sua boca com os lábios entreabertos pela antecipação. Sua boca capturou a sua com uma fome que só ela podia saciar e transmitiu-lhe um calor que fez os joelhos tremerem. Ela aceitou que seus braços se fechassem ao redor da sua cintura. A língua passeou sobre seus lábios, procurando a entrada. Ela se abriu a ele, permitindo-lhe percorrer sua boca e afundar-se mais e mais profundamente, uma e outra vez.   Quando se sentiu-se enjoada pela falta de ar, Brandubh terminou o profundo beijo e lhe mordiscou-lhe o lábio inferior, chupando e roçando suavemente a pele macia com os dentes. Brandubh apertou os braços ao redor dela e afundou seu rosto no cabelo de Eibhlin.

— Temia que não voltasse — murmurou.

— Eu também — ela respondeu, sabendo que era verdade.

Tinha sido obrigada a voltar ali. Eibhlin afastou o seu manto e tocou-lhe a pele com as pontas dos dedos e com os lábios, bebendo o sabor dele. As grandes mãos de Brandubh moveram-se pelos lados do seu corpo, para cima e para baixo do suéter frouxo que a abrigava. Passaram muito tempo, tocando-se e deixando-se tocar, como se tivessem todo o tempo do mundo.

— O que são essas vozes?—perguntou ele em voz baixa, enquanto abria a boca contra o seu pescoço.

— Hummm?— Eibhlin estava absorta nas sensações que ele provocava. Era tão grande e rijo. Cheirava bem, a ar livre, a cavalo e a homem.

— As vozes no ar. De onde vêm? — Ela escutou.

— Ah, é apenas a rádio do carro — O som abrasivo da rádio os rodeou-os enquanto ela se dedicava a memorizar o sabor dele.

— “O Vôo 920 espatifou-se no Atlântico logo após levantar vôo do aeroporto Shannon. A equipe de resgate está no local, mas parece que não há sobreviventes. Teremos mais detalhes o mais rápido possível."

As palavras se gelatinizarão em sua mente e ficou rígida em seus braços.

— O que?— Afastando-se dele, Eibhlin correu ao automóvel e escorregou para trás da direção, esperando em vão mais detalhes. Em vez disso, o último sucesso dos U2's começou a tocar. Olhou fixamente a radiou, sem poder acreditá-lo.

— Espatifou? Nenhum sobrevivente?

— O que aconteceu?— Brandubh ficou onde tinham estado abraçados.

Ela teria morrido se estivesse nesse avião.

— Meu avião se espatifou — disse sem se incomodar em traduzir para o irlandês.

— O que disse? Não posso entender o que diz — Disse franzindo o cenho.

Eibhlin devia ir a Killaloe em seguida e chamar a sua mãe. Moira sabia que 920 era o número do seu vôo e estaria frenética para ouvir as notícias.

— Que horas são?— Brandubh olhou ao céu.

— Perto das Vésperas.[16]

— Que hora, Brandubh?

— Já lhe disse isso.

 

O sol desaparecia sob o horizonte. Tinha que chegar a um telefone. Eibhlin saltou do automóvel, pensando em ir a ele e dizer-lhe adeus. A cortina que os separava, a cortina que só ela poderia cruzar, brilhou, mas a advertência de manter-se afastada dela, chegou tarde. O formigamento agradável da passagem mudou para um choque elétrico. A cabeça doeu de repente como se fosse explodirr.

— Não! — ela chorou, enquanto sacudia a cabeça. — Não me deixe sozinha!

Lembranças alheias encheram sua mente como se um milhão de pessoas a atravessassem, com suas vidas, mortes, alegrias e dores. Ela viveu cada uma dessas lembranças em um abrir e fechar de olhos. Se Brandubh não a tivesse sustentado em seus fortes braços, teria desabado esgotada na grama seca pelo outono na Craglea. Com um grito mudo, agarrou-se a ele, a única coisa sólida no universo.

— Aqui, doçura — Brandubh disse-lhe ao mesmo tempo em que se sentava com ela na grama, acomodando-a em seu regaço, ninando-a até que ela deixou de tremer .— O que aconteceu, amor?

— Todas essas pessoas... — tragou um soluço —Todas essas pessoas...

Brandubh sentiu como a escuridão desceu ao redor deles. Sua mente se esvaziou e ela só pôde sentir como seus braços eram agradáveis e como ele apoiou sua face contra o cabelo dela. Era tão quente, tão forte, tão grande, que ela se aninhou nele, permitindo-lhe que a tratasse como a um tesouro.

— Poderia dizer-me o que aconteceu? — Seu fôlego acariciou-lhe os ouvidos.

— Foi como se uma multidão me atravessasse. Ouvi o que pensavam a respeito do que cozinhar para o jantar, o que tinham feito no trabalho, o que tinham feito com seus amantes ontem à noite. Havia tantas coisas... e algumas... — ela sacudiu a cabeça outra vez — alguns eram atrozes, Brandubh, cruéis... — Eibhlin lutou para tirar essas coisas de sua mente.

A resposta de Brandubh foi aproximá-la mais, mantendo-a dentro do morno casulo de seus braços. Ela permitiu que a protegesse enquanto tratava de encontrar sentido para tudo aquilo.

O silêncio sobre o Cragh era tão absoluto que chamou-lhe a atenção e Eibhlin agradeceu a distração.

— Onde está o rádio? — Talvez a bateria estivesse esgotada, sabia que devia tê-lo desligado antes.— Brandubh franziu o cenho outra vez.

— Quando vai deixar de falar esta língua estranha? Fala em irlandês.

— Perdão — Eibhlin respondeu irritada — Não sei a palavra para... isso em irlandês. Deixa que eu me levante. — apoiou-se contra seus ombros e parou, instável a princípio, para afastar-se do topo da Craglea. Tinha conduzido o pequeno automóvel ladeira acima, provavelmente infringindo todo tipo de leis ambientais, e o havia estacionado...

— Exatamente aqui — disse em um sussurro gelado... o automóvel não estava — Não outra vez.

Isto era realmente exaustivo. Ela era uma pesquisadora e os cientistas não se sentiam bem nas situações onde não existiam explicações racionais para algo como o desaparecimento de mil quilogramas de metal.

— Onde demônios está meu carro?— gritou ao céu. Quando deu a volta e viu que Brandubh franzia o cenho outra vez, retomou o irlandês. — Eu sei, Brandubh, eu sei. Meu...— começou a balbuciar, agitando os braços desenfreadamente para onde tinha estacionado o automóvel alugado.

— Seu transporte?— arriscou.

— Obrigado. Sim, meu transporte.

— Foi embora.

— Sei! — Eibhlin soube que estava gritando e que era completamente incapaz de parar. Ela começou a olhar ao redor, as mãos nos quadris, movendo a boca silenciosamente enquanto debulhava uma série de insultos muito atrozes para que uma mulher decente soubesse.

— Amor — disse Brandubh, colocando suas mãos nos ombros e girando-a para encará-la — Agora você pertence a este local. Você está comigo.

Eibhlin retrocedeu.

— Não, eu não pertenço a isso aqui.

— Aqui. Eibhlin não tinha pensado muito a respeito de onde estava. Girou e olhou fixamente para baixo ao Lough Derg[17], onde o Shannon fluía para o oceano. Ali na margem, uma estrutura imensa protegia um grupo de pequenas casas com teto de palha, dispersas dentro da paliçada de madeira que as rodeava. Kincora se elevava em toda sua glória.

De repente, o “aqui” era não tão importante como o “quando”.

— Brandubh?— perguntou, temerosa da resposta — em que ano estamos?— Eibhlin girou, forçando seus olhos para encontrar Brandubh na escuridão. Seu rosto transmitia compreensão e simpatia.

— No ano 1013 de nosso Senhor.

 

Eibhlin desabou. Brandubh manteve distância, dando-lhe espaço e tempo. Sua reação o afetava, embora não soubesse como teria reagido, se passasse pelo o que ela acabava de experimentar. Podia ver a cortina, que era como um pedaço de gaze, com uma luz trêmula que se tornava mais brilhante à medida que ela se aproximava. De repente viu que a carruagem vermelha que ela chamava “automóvel”, desvanecia junto com a cortina, deixando-a ali com ele, que nesse momento convenceu-se de que ela pertencia a ele. Agora, já não estava tão seguro.

— Não quero estar em 1013 — disse Eibhlin com a voz suave e suplicante.

Brandubh estava súbitamente arrependido por não lhe haver advertido, por não ter dado a ela a oportunidade de escolher. Então ela o olhou e qualquer dúvida que tivesse tido dissipou-se como a água na bigorna de um ferreiro.

— Você, você, bárbaro! Como se atreve! Tinha uma vida, uma carreira. Trabalhava no maior projeto da história da química farmacêutica. — Brandubh franziu o cenho.

— É uma alquimista?—Ela fechou lentamente seus olhos.

— Não. Sou química. Trabalho com a ciência, não com a bruxaria. — Seus olhos, esses pertubados olhos azuis, cinza escuro quando estiveram nublados de paixão não fazia muito tempo, agora eram acusadores. Podia sentir como tremia e como sua voz se perdia em um suspiro, embora desta vez não fosse por ele. Quase.

— Devolve-me ao lugar de onde me tirou, Brandubh. Agora mesmo. Quero ir para casa.

— Eu não tirei você de nenhum lugar, Eibhlin. Você veio para mim. Deus foi quem te trouxe aqui. Não demonstrava aceitar estas causas de modo que Brandubh continuou — De qualquer modo, não sei como chegou aqui, apenas que quis que permanecesse comigo. Sua cortina brilhante foi embora, possivelmente isso significa que deve ficar aqui, apesar dos seus desejos. Entretanto, é possível que haja alguém que possa te ajudar.

— Quem?— Sua ânsia para ir embora, machucaram-no profundamente.

— Minha mãe. Ela sabe algo das velhas tradições e foi quem me disse como te encontrar outra vez.

— Ah. Outra pessoa a quem agradecer por este desastre. Onde está ela? Leve-me a ela — Pôs os braços abertos em cada lado do corpo e adiantou o queixo enquanto dizia: — Agora.

Brandubh abandonou a esperança de que ela talvez aceitasse ficar ali mansamente.

— Bom, Eibhlin. Minha mãe deve estar em Kincora agora. Vem comigo.— Ofereceu-lhe a mão, mas ela não fez gesto de tomá-la.

— Ah, não. Você tocou-me uma vez e eu perdi a cabeça e o meu avião. Mantém suas mãos longe de mim, guerreiro — E rodeando-o começou a descer para Kincora. Brandubh olhou-a por um momento. Embora suas palavras transmitissem irritação, o suave vaivém de seus quadris arredondados e generosos atraiu-o para ela e começou a segui-la com o corpo duro pelo desejo.

Bárbaro. Guerreiro. Isso é o que ela pensava que ele era? Ela acreditava que era tudo isso? Repreendeu-se a si mesmo por começar a pensar em uma vida com ela. Mas, ela se encaixava tão perfeitamente em seus braços, contra seu corpo, em sua boca, era inconcebível que o deixasse. Sua passadas determinadas diziam mais que mil palavras. Na metade do caminho ladeira abaixo, ela se deteve e voltou-se para ele.

— Bem, vem ou não?— gritou e logo deu a volta seguindo na direção original.

Um sorriso se abriu no rosto de Brandubh. Se a explicação de sua mãe fosse verdade, ele teria um pouco de tempo até o solstício de inverno, para fazê-la mudar de opinião. Amava os desafios.

— Maldito bárbaro presunçoso — Eibhlin murmurou quando vislumbrou seu sorriso. Só podia imaginar o que tinha causado tal expressão nesse rosto muito bonito. Continuou ladeira abaixo, pondo a atenção em cada passo que dava. A última coisa que queria era torcer um tornozelo neste momento e ter que deixar que He-Man que a carregasse. Era importante para ela, embora não pudesse dizer por que, entrar nesse lugar com os seus próprios pés.

Eibhlin tinha mantido deliberadamente a vista no chão, olhando o atalho, tratando de adiar o confronto com a realidade que aparecia adiante. Mas quando esteve mais perto de sua meta, seus olhos percorreram a alta paliçada da base até o topo. Deteve-se subitamente. As portas tinham pelo menos 7 metros de altura e eram feitas dos mesmos troncos sólidos que formavam a paliçada.

— Impressionante, não?— O hálito morno de Brandubh roçou seu pescoço e arrepiou a pele dos braços. — permita-me acompanhá-la, milady.—e ofereceu-lhe o braço em um gesto tão amável e cavalheiresco que saiu naturalmente.

— Quem ensinou a você essas maneiras, guerreiro?

— Meu pai e minha mãe. Quem melhor educaria uma criança?— Ela colocou a mão no antebraço, tratando de não notar o calor de sua escura pele azeitonada, de não sentir os nervos da pele, de não gozar da sensação de poder controlá-lo sob seus dedos. Apesar de que na verdade não cuidou demasiado dele. Seu ex-marido era tão magro e pálido. Alguma vez olhou para ela como Brandubh o fazia agora?

Levou-a do encaixe das portas para um pátio cheio de atividade. As mulheres moviam-se como se flutuassem para a grande casa, suas saias largas oscilavam com cada passo. Os homens riram e olharam às mulheres que como eles, também se dirigiam às mesas para o jantar no salão de Brian. Era tão estranho e ao mesmo tempo tão familiar. Cada um dos contos de sua mãe passou por sua mente, as lembranças frescas como se fossem recentes. Ela até esperou ver Moira cruzar o pátio, os braços estendidos, dando-lhe as boas-vindas a seu lar. “Não estarei morta? Não terei subido no avião e morrido junto com todas aquelas pobres pessoas? Isto é algum tipo de Céu?”

Não, pensou enquanto franzia o nariz, o Céu cheiraria melhor.

— Por que está com essa cara?— Brandubh perguntou. Um rubor quente avermelhou seu rosto.

— Nada — mentiu. Ele sorriu e o calor mudou de direção e moveu-se direto para o ventre.

— Sinceramente, não cheira sempre assim, mas hoje os mercadores vikings de Limerick vieram comercializar. Eles não são tão escrupulosos como nós gostaríamos. Brian normalmente não tolera o desalinho, especialmente aqui em Kincora.

Uma declaração tão simples como essa, fez ela cair na realidade de uma maneira contundente. Estava no ano 1013. Mas como? Viajar no tempo não era possível. Entretanto, aqui estava ela, parada dentro da fortaleza do Ard Ri, do Rei Maior, o único que tinha ganho realmente alguma reverência por parte dos insignificantes e litigiosos reis e chefes irlandeses.

— Ele realmente está aqui?— perguntou a Brandubh com um cochicho tal como utilizaria em um museu.

— Quem?

— Brian Boro.

— Ah, aye. Brian não se afasta muito de Kincora nestes dias. — Diante seu olhar inquisitivo, ele explicou — Brian tem setenta e dois anos. Para um príncipe guerreiro alcançar tal idade é uma coisa assombrosa. Claro que Brian é um homem assombroso.— Ele seguiu caminhando para as portas, guiando seus passos de modo que ela podia segui-lo sozinha. — Tome cuidado aqui — advertiu-lhe quando estiveram a ponto de pisar em excremento de cavalos.— Garoto! — bramou a um moço dos estábulos— O que se passa contigo? O Ard Ri vai te açoitar com o seu cinturão. Seja mais rápido.

— Aye, Lorde Brandubh — O rapaz saltou para agarrar um ancinho de madeira e tirar o montão ofensivo.

Lorde Brandubh? O seu guerreiro seria um homem importante? Sua curiosidade a respeito de sua posição ali, foi esquecida quando ela sentiu que os olhos a seguiam à medida que avançava pelo pátio. Não tinha se dado conta de que possivelmente ela fosse tão interessante para os aldeãos, como eles o eram para ela. O rapaz a olhava de esguelha enquanto conduzia o excremento e ela notou que muitos outros também o faziam, embora sua curiosidade fosse melhor escondida pelo sentido irlandês da hospitalidade. Sua roupa, embora não fosse estranha, claramente não era apropriada neste lugar. O suéter irlandês de pescador, branco, cremoso e quente era suficientemente solto para esconder o fato de que ela não levava roupas íntimas e que sua saia chegava à metade da panturrilha, mas isso era muito curto comparado com que usavam as mulheres em seu redor.

Brandubh empurrou-a pela porta de quase 4 metros de largura para o grande salão, onde largas mesas de cavalete formavam fileiras em frente a um assoalho em que descansava uma só mesa. Ali, Brian jantaria rodeado dos membros mais importantes de seu corte.

Ela olhou boquiaberta para o aposento. O reflexo das lâmpadas aderidas às paredes mostravam as uniões de cal, ainda frescas. Na grande lareira central ardia um fogo alegre e a fumaça subia para o teto de palha, onde um buraco pequeno permitia-lhe escapar. Os pilares que sustentavam o teto estavam decorados com as distintivas curvas entrelaçadas da arte Celta.

Brandubh empurrou-a para um nicho do salão principal.

— Ali está minha mãe. Vem, falaremos com ela. Talvez possa conseguir umas roupas para que não chame tanta atenção — Eibhlin não se deu conta de que sua mão ainda descansava no antebraço de Brandubh. Pensou que fosse um gesto bastante familiar e alguém, sua mãe possivelmente, poderia ter uma idéia equivocada e decidisse não ajudá-la a voltar para onde ela pertencia. Melhor não zangar a garota. Quando os dedos começaram a se deslizar do braço, o punho imenso de Brandubh, assentou-se sobre eles, suave mas firmemente, retendo-os.

— Mãe.

Uma mulher alta e esbelta, com o cabelo vermelho suavemente brilhante, virou-se para ouvir o som de sua voz. Assim como também muitas outras cabeças femininas que eram igualmente muito jovens para serem sua mãe. Pelos punhais que lhe disparavam esses olhos, adivinhou que Brandubh era um bem valioso no mercado local de casamento. A mulher ruiva, a única que parecia ter idade suficiente para ser mãe de um filho da idade de Brandubh, deslizou — realmente deslizou — através do piso até eles.

Mais de perto, Eibhlin podia ver suaves linhas ao redor dos olhos e mechas de cor branca que suavizavam o que devia ter sido a cabeça mais gloriosa da Cristandade. Os olhos da mulher, de uma cor azul clara, eram quase ardentes quando olhou para seu filho e logo em seguida fazer um exame cuidadoso de Eibhlin.

— Esta é minha mãe, Lady Sadbh ni Mahon. Mãe, esta é Eibhlin ni Seamos.

— O azul de seus olhos se acendeu com prazer.

— Ah, então essa é sua mulher da Craglea. Bem-vinda, querida — Sadbh ofereceu-lhe suas mãos amavelmente e Eibhlin nem duvidou antes tomá-las. Com um apertão, Sadbh a pôs de seu lado.

— Agora, acredito que a primeira coisa a fazer será conseguir um traje menos chamativo para ti.

— Justo o que pensei, mãe.— Brandubh fez um gesto de segui-las para fora do salão.

— Onde vai?— Sadbh perguntou enquanto girava — O salão das mulheres não é lugar para ti, garotinho. Vá procurar seu pai. Se necessitarmos de você, iremos procurá-lo.— Agitou a mão para indicar que fizesse como ela ordenou. Eibhlin reprimiu um sorriso.

— Mas, mãe... — Sadbh já tinha girado e arrastava Eibhlin para um quarto.

— Somos do mesmo tamanho, querida. Minha roupa deve ficar bem em você. — Eibhlin olhou por sobre o ombro para Brandubh que, com uma expressão de suprema irritação, girou sobre os seus calcanhares com o manto espalhado como asas em redor dele, e se dirigiu para um grupo de homens no canto do imenso salão.

— Este menino não pensa muito. Mantenha-o apaixonado.— Eibhlin ficou rígida.

— Perdoe-me , Lady Sadbh, mas não estou interessada em manter Brandubh apaixonado.— Eibhlin deteve-se por um momento ao perguntar a si mesma se ele estava realmente apaixonado e se realmente isso não seria um inconveniente. Sacudindo o pensamento de sua cabeça, disse: — a única razão pela que estou aqui é para falar com você. Ele pensou que possivelmente seja capaz de ajudar-me a voltar...— deteve-se sem saber o que poderia dizer. Voltar para onde pertenço? Para o tempo ao qual pertenço?.

— Voltar?— Sadbh só disse essa palavra e esperou.

— Não sou daqui. — Eibhlin ou viu a miséria em sua própria voz e Sadbh aparentemente também.

— De onde é, querida?— perguntou suavemente. Falar nessa antiga língua era fantástico, incrível, impossível. Embora já quase tivesse aceito os acontecimentos das últimas poucas horas, não podia falar deles. Sadbh salvou o problema, oferecendo sua própria explicação. — Pode ser que o teu lugar seja... ela se deteve, pesando claramente suas palavras — ... o nosso? — Eibhlin ficou parada olhando fixamente a mãe de Brandubh.

— Vem chegando alguém, melhor não chamarmos muito atenção, por favor passa à minha antecâmara.

Sadbh empurrou-a através de uma porta de madeira, que dava passagem a um grande espaço com poucos móveis, mas muito cômodo. Juncos limpos cobriam o chão como um tapete e uma cama imensa ocupava o canto mais distante. Nessa mesma cama havia um homem de imensas proporções com um braço cruzado sobre os olhos.

— É você cara mía[18]? — Ele se ergueu, esfregando os olhos com as pontas dos dedos.— Às vezes, desejo estar novamente na Itália. As coisas lá eram tão mais simples. Medicis poderia dar uma boa lição no mimado do Brian. Juro, Sadbh, que matarei seu tio se os dinamarqueses não o fizerem primeiro. Ele exige o serviço de Brandubh durante outro ano. Pode acreditar? O menino deve ser...—Seus olhos estavam agora totalmente abertos, enquanto olhava fixamente para Eibhlin com evidente admiração.

Tinha que admitir algo a respeito destes bárbaros, sabiam como fazer com que uma garota se sentisse bem.

— Quem é esta encantadora criatura?— O homem, que definitivamente era o pai de Brandubh, levantou-se com graça masculina e cruzou o quarto para ela.

— Eibhlin ni Seamus — Sadbh fez as apresentações — Meu marido, Dougal O'Daghda.

Eibhlin surpreendeu-se um pouco com o nome, pois Daghda era o nome do principal deus do panteão Celta. Era o rei dos Tuatha dé Danaan, que tinha dominado aquela ilha antes da vinda dos celtas. Eles se negaram a serem derrotados e simplesmente fundaram um reino que coexistia com os mortais. Eram as fadas dos mitos irlandeses. E este homem parecia ser um de seus descendentes.

— Encantadora — repetiu antes de beijar sua mão.— Então esta é a Eibhlin do nosso Brandubh.

O amor de pai em sua voz tocou-lhe o coração, tranqüilizando-a. Dougal era suficientemente bonito para ser um dos Danaan. Agora via de onde Brandubh tinha herdado sua cor —pele azeitonada, cabelo negro e brilhante, inclusive na linha onde começava o cabelo.

— Fora daqui, Dougal — Sadbh envolveu sua mão ao redor do poderoso antebraço e começou a puxá-lo. Dougal sorriu com a sua incapacidade para movê-lo.

— Cara mía, não seria de má educação deixar nossa hóspede tão bruscamente?

— Fora!!! — repetiu Sadbh, puxando Dougal mais uma vez. Desta vez Dougal virou-se para Eibhlin e encolhendo os largos ombros, deixou que sua mulher o tirasse do quarto — Diga ao tio que não é necessário que atrase o jantar, pois não demoraremos muito.— Sadbh suavizou sua ordem com um sorriso e um beijo soprados para ele. Sua risada continuava sendo escutada mesmo quando ele se foi. Sadbh sacudiu a cabeça.— Este homem me enfurece e entretanto não poderia viver sem ele.

Sadbh cruzou o quarto, parou no parapeito da janela, levantou a tampa e revolveu algo dentro quando disse: — Aqui está. Temo que é velho, mas ainda está em bom estado. O que acha querida?— Eibhlin tomou o vestido de lã grosa, maravilhando-se diante da rica cor avermelhada que rivalizava com as folhas de outono. — Este irá bem.— Sadbh tinha tirado também um comprido manto de lã tingido em um tom azul profundo e um broche para prendê-lo — Deixa que eu te ajude.

Imediatamente produziu-se o primeiro choque cultural quando Eibhlin tirou o suéter pela cabeça, sem sentir-se envergonhada pela falta de um sutian ou de alguma outra coisa debaixo do suéter.

— Querida, onde está sua anágua?— Sadbh moveu-se rapidamente até a gaveta, voltando com um pedaço de linho amarelado nas mãos.— Todas as pessoas de sua época andam sem roupa íntima? Suas vestes devem cheirar mau logo em seguida a…— Eibhlin quase riu, mas assentiu com um sorriso.

— A maioria das mulheres, eeeh, usam sutian embaixo da roupa e talvez a a...— decidiu deixar as coisas assim. Se tivesse tropeçado com qualquer outro palavra....— Mas com um vestido, ah, o vestido…

— Ah — Sadbh disse, como se entendesse tudo. Possivelmente tinha entendido — O Irlandês não é sua língua nativa, verdade?

— Por que diz isso? Minha mãe e meu pai falaram irlandês comigo toda minha infância e eu o falei toda minha vida.

   Sadbh voltou a olhar para Eibhlin — Falas bem, mas há uma tom diferente. Meu Dougal diz às vezes coisas estranhas.

— Dougal não é irlandês? — Deu-se conta de que não era o momento de perguntar: havia dito "mía cara" a sua esposa.

— É italiano. Embora agora seja mais irlandês do que a maioria dos irlandeses.

— Por isso tomou um nome irlandês?— Sadbh assentiu com a cabeça e disse:

— Sentiu que seria mais fácil para todos nós. Na época em que ele veio, havia muito mal-estar a respeito dos estrangeiros, especialmente os italianos. Todos temiam que fossem espiões de Roma, xeretando os nossos assuntos — Explicou enquanto arrumava a capa ao redor de Eibhlin e a sujeitava em seu ombro. — Assim. Duas cores, uma do clã Dal Cais. Isso deve ser suficiente por ora.

— O que quer dizer?— Sadbh sacudiu as dobras até que ficaram acomodadas satisfatoriamente.

— É um velho código. Aos homens prisioneiros é permitido usar só uma cor, os homens livres dois, os guerreiros três, etcétera segundo a sua posição. O Ard Ri pode levar sete, embora meu tio raramente o faz para não parecer um pavão. — Levantando a prega do vestido de Eibhlin, Sadbh disse — Pelo menos seus sapatos parecem similares aos nossos, passarão sem ser notados. Suponho que os pés são iguais em todas partes.

Eibhlin sentia-se muito a vontade com a mãe de Brandubh, tanto que se animou a perguntar:

— Como fez um italiano para vir a Irlanda e casar-se com a filha do rei de Munster?

Com um olhar de agradável surpresa, Sadbh disse:

— Conhece o nome do meu pai? Poucos o sabem. Aconteceu faz tanto tempo…

— Ele foi um grande homem, conforme ouvi.

— Era um homem muito bom. Provavelmente muito bom para ser um rei. Eu não recordo dele, era apenas uma menina quando morreu.— Sadbh suspirou e se ocupou de terminar de arrumar o traje de Eibhlin, dando um passo atrás para a inspeção final.— Acredito que estás pronta —disse com um sorriso antes de puxar o braço de Eibhlin guiando-a para fora da antecâmara e voltar pelo atalho que tinham tomado antes.

Agora que Eibhlin sabia que ela não era a única que não pertencia àquele lugar, sentia-se obrigada a perguntar pela chegada de Dougal.

— Como Dougal chegou aqui? Apareceu na Craglea?

— Ah, não, minha querida. Nunca soube que um homem que experimentasse isso. Só há mulheres nas histórias sabe? Não, Dougal era um marinheiro. Embora tenha muitos outros talentos além de ser um homem do mar. Eu o encontrei uma manhã em que a maré o havia arrastado à beira do Shannon. Estava quase morto, levei-o para casa e o atendi até que se recuperou, quando disse que me devia a sua vida e que o tomaria por marido.

— E se casou com ele? Sem mais nem menos?— A risada de Sadbh estava cheia de lembranças.

— Não exatamente. Lutou até que o convenci do que ele significava para mim — Esse comentário paralisou Eibhlin, pois era muito similar ao que Brandubh havia dito, quando disse-lhe que ela agora pertencia a esse lugar.

— Será que Brandubh pensa o mesmo a respeito de mim? Porque se for assim, terá que esquecer. Eu devo voltar para o local ao qual pertenço.

— E acredita que eu posso ajudar você? — Sadbh tinha tomado o braço de Eibhlin outra vez,enquanto seguiam avançando para o salão principal.

— Brandubh disse que talvez pudesse. — Era tudo o que ela se atrevia a dizer. A possibilidade de ficar ali, neste tempo primitivo, não era algo que pudesse considerar. Sadbh suspirou profundamente.

— Sim, possivelmente. Embora não esteja segura. Só posso dizer a você o que escutei nas lendas e que as coisas parecem funcionar nesse ritmo.

O ritmo,era um conceito pagão. Não era a influência de Deus, nem a interferência de Satanás nos assuntos de homens, apenas o ritmo da vida, um ciclo natural, previsível e benéfico.

— Tenho que voltar para casa, lady Sadbh.

— Possivelmente está em casa, lady Eibhlin — Eibhlin ficou muda.

Entraram no salão principal onde ainda era servido o jantar. Sadbh a conduziu até o piso onde estava a mesa principal. Os olhos de Eibhlin procuraram Brandubh, mas seu olhar foi atraído pelo homem sentado no meio da mesa principal. As vestes de cor azul real, bordadas em ouro, cobriam um corpo largo e forte. Estava sentado satisfeito, como um leão depois de matar a sua presa, um braço descansando sobre o respaldo da cadeira que Brandubh ocupava a sua esquerda, enquanto Dougal ocupava o outro lado.

— Brian — sussurrou Eibhlin.

— Sim — respondeu Sadbh, repleta de orgulho. — Meu tio.— disse em voz alta quando ficarem em frente ao Ard Ri, enquanto inclinava-se em uma reverência profunda.

Eibhlin imitou-a com dificuldade.

— Posso apresentá-lo a Lady Eibhlin ni Seamus?

Brian levantou-se, confirmando a lenda de ser o homem mais alto da Irlanda. Devia medir mais de 2 metros e apesar de seus setenta e dois anos, suas costas estavam retas, seus braços musculosos e rodeado de uma aura de poder. A cabeleira louro avermelhada era espessa e descia pelos seus ombros, com uns poucos fios cinzentos que a faziam menos perfeita. Os olhos da cor do céu azul eram claros e desprovidos da debilidade própria da idade. Misericórdia, teria existido alguma vez um trio mais atraente do que este?

Ela os olhou de um por um nos olhos. Brian devolveu a admiração. Dougal piscou os olhos e presenteou-a com um sorriso devastador. Brandubh franziu o cenho… estava com ciúmes da maneira como Brian a olhava, ela pensou e a idéia agradou-a imensamente, embora deixando de lado esse sentimento, não era algo que ela devesse estimular.

— Sua majestade.

— Então você é o prêmio que Brandubh encontrou na Craglea? Por favor, milady, venha e sente-se em minha mesa — Brian golpeou Brandubh no ombro, movendo a enorme figura de seu sobrinho, enquanto o afastava — Terei a dama sentada a meu lado.

 

Brandubh soube que estava franzindo o cenho e soube também a razão. O velho leão tinha dado a Eibhlin sua tábua e agora escolhia a carne da vasilha e as verduras da tigela comum com a sua própria mão, tentando seduzi-la com o seu melhor alimento.

Dougal, seu próprio pai! grunhiu Brandubh silenciosamente, estava sentado com uma careta tola e um olhar experiente, observando os cuidados solícitos de Brian. E não havia nada que Brandubh pudesse fazer a respeito disso.

— Seu sotaque, querida, é diferente, embora seu irlandês seja muito bom. Onde aprendeste a língua? — Brian voltou a encher sua taça com o rico vinho italiano que ele preferia. Eibhlin tinha sede e ofereceu ao Ard Rp um sorriso resplandecente.

— Minha mãe ensinou-me, milord.— Brandubh esvaziou sua taça e a encheu outra vez, embora o vinho não tivesse sabor esta noite. Dougal começou a rir. Brian só escutava Eibhlin, enquanto a envolvia com perguntas e vinho. Brandubh ouviu que Eibhlin contava a Brian coisas que não havia dito a ele. Entretanto, tratou de não recordar o que eles tinham feito mais cedo, em vez de conversar sobre a ladeira.

Seus pais eram irlandeses, mas eles viviam em algum lugar chamado "Kaliffornya". Isso seria muito longe, perguntou-se? Explicou que seu trabalho era reunir plantas medicinais e demonstrar que eram eficazes. Que provas necessitavam? Não era suficiente comprovar que curavam os doentes?

A vasilha de Brian estava sortida de verduras fervidas que eles compartilhavam. Brandubh serviu-se de mais vinho, bebeu-o de um sorvo, e voltou a encher sua taça, quando notou que Brian bebia a sua. Brandubh substituiu a garrafa, deixando sua taça vazia. Conhecia a tolerância do rei para a bebida e certamente tomaria várias taças antes de abandonar a mesa.

De modo que se recostou em sua cadeira e desejou poder apagar a careta boba do rosto de seu pai. Dougal tinha um senso de humor bastante estranho. Por sua expressão estava claro que achava esta situação extremamente engraçada.

— Não é a planta inteira que cura, a não ser algumas substâncias que estão dentro dela. A classe de testes que falo implicariam em isolar essas substâncias e prová-las em um ambiente controlado — disse Eibhlin antes de aceitar uma porção de carne da faca de Brian.

Brandubh viu como Brian olhava os lábios de Eibhlin fecharem-se ao redor da lâmina de sua faca e então sorriu com o sorriso que reservava para as mulheres que desejava levar para a cama. O velho leão não se atreveria.

— Que interessante e misterioso. E quão estimulante é encontrar a uma mulher formosa com tal inteligência. Devemos continuar nosso bate-papo, mas a hora avança e devemos decidir o que faremos contigo enquanto for nossa hóspede. Poderia ficar aqui em Kincora. Sei de vários médicos que praticam as velhas artes e que talvez possam ajudar você.

Brian preencheu sua taça. Quantas vezes já o tinha feito ?— e com incrível indiferença colocou a mão nas costas de sua cadeira inclinando-se para ela. Sua voz baixou até converter-se em um sussurro íntimo.

— Enquanto isso, sua companhia iluminaria os dias deste velho.

Brandubh apostaria cada cavalo que possuía, de que não eram os seus dias que Brian esperava que Eibhlin iluminasse.

— O que você me ofereça, milord.

— Se formos ser amigos, deve chamar-me Brian.

Ela ruborizou realmente, notou Brandubh, elevando seus olhos para o teto enjoado pelo som do sopro de Dougal, que tratava de sufocar uma risada.

— Obrigado,Brian — O sussurro reverente de Eibhlin era suficiente para adoecer um homem inferior. Suficiente. Brandubh abriu a boca para opor-se aos acertos feitos para dormir.

— Tio, Dougal e eu, já oferecemos a Lady Eibhlin nossa hospitalidade — Sadbh olhou o rei deliberadamente —Tendo em conta as circunstâncias de sua aparição, serie conveniente que o Ard Ri não se envolvesse, não acredita? Não aconteça que todas as suas contribuições à Igreja fiquem no esquecimento, com o pretexto de que se relaciona com os Antigos — colocou delicadamente um pedaço de carne entre os dentes e começou a mastigá-lo lentamente, para logo adicionar com uma voz pensativa — O Abade é muito rigoroso quanto a influência do paganismo.

Brian não pareceu feliz diante do aviso.

— Sim, sobrinha. Entretanto, se ninguém disser ao Abade, ele não saberá.

Brandubh estava preparado para esmagar a mesa de carvalho com o giro dos acontecimentos. No momento em que trouxe Eibhlin para esta casa, tinha perdido o controle da situação, primeiro perante a sua mãe (isso não era uma surpresa) e agora frente a Brian. Era o momento de recuperar o terreno perdido.

Inclinando-se para frente, plantou um cotovelo na mesa enquanto procurava sem êxito, chamar a atenção de Brian. Maldito! Estava sendo tratado pior do que um menino pela forma como o ignoravam.

— Tio, acredito que eu sou responsável por ela, dado que fui eu quem a encontrou.

— Como me encontrou? Eu não estava perdida, bobão! — Os olhos de Eibhlin lançavam faíscas, fazendo com que quisesse tomá-la em seus braços e levá-la para longe, para um lugar mais privado. O rosto de Brian dizia que estava pensando o mesmo.

Possivelmente seria bom que meu Rei não visse meus olhos neste momento, pensou Brandubh, sabendo que já não podia esconder sua cólera e frustração.

Eibhlin terminou por responsabilizá-lo por sua situação.

—Tem razão a respeito de ser responsável. Você arrastou-me para cá. Porém, vou aceitar o amável convite de Brian — disse enquanto voltava-se para o rei com um doce sorriso, ao tempo em que Brian esfregava as mãos.

— Excelente. Permita-me que arrume um quarto para você.

   Brandubh estava a ponto de discutir a decisão, até que viu um gesto sutil de sua mãe. "Espera", dizia. E deu-se conta de que não havia nada que ele pudesse fazer agora. A palavra de Brian era definitiva.

Bom, pensou levantando sua taça e sorvendo o vinho lentamente, posso esperar, mas Eibhlin é minha e, se for necessário, ainda lutarei ainda com o Ard Ri por ela.

Brian em pessoa mostrou a Eibhlin sua antecâmara. Ela mal podia acreditar que andava ao lado deste homem quase mítico. Ele empurrou uma porta de madeira pesada com as pontas de dedos.

— Querida, espero que fique cômoda. Se houver algo que queira, simplesmente chama um criado — Levantando a mão ao nível da cintura, Brian inclinou-se e acariciou suavemente as costas, os lábios apenas tocando sua pele — boa noite, querida.

— Boa noite, Brian. Obrigado — Eibhlin passou pela porta e voltou-se com um sorriso para fechar brandamente a porta diante do Ard Ri. Seu risinho profundo retumbou claramente através da grossa madeira.

Eibhlin riu suvemente com ele. Não era nenhuma virgem e sabia perfeitamente bem o que Brian queria dela e se sentia tentada a agradá-lo, apesar de sua idade e de que estava encantada por outro imenso irlandês. "Recorda como está zangada com ele, Evie. Agüenta e mantém distância. Brandubh é perigoso como um narcótico que poderia torná-la facilmente viciada".

Deu a volta afastando-se da porta e dos resmungos de Brandubh Mac Dougal, para inspecionar seus aposentos. Não eram maiores que o seu próprio dormitório da casa no Oregón, mas o quarto era formoso. À sua esquerda, uma grande tapeçaria estava em uma das paredes. Uma menor, pendurada do lado esquerdo, mostrava os três leões que eram o brasão de Brian. Mas à direita, duas cadeiras se situavam diante da chaminé larga e alta, onde resplandecia uma chama alegre. A pele de um lobo se estendia diante ela, com os carrancudos olhos fixos para sempre em um olhar vítreo.

— Lindo cãozinho—disse, levemente incomodada sob o exame desses olhos.

Cruzando o quarto, olhou para fora pela única janela, que não era mais do que uma estreita abertura entre duas pedras da parede, de tamanho suficiente para que um arqueiro disparasse uma flecha e para deixar entrar o ar fresco, mas não suficientemente grande para deixar que uma pessoa se deslizasse por ela. Embora pudesse fazê-lo, não havia um local para onde pudesse ir. Finalmente, voltou para a grande cama situada num canto mais afastado, que parecia chamá-la com suas cobertas mornas e seus suaves travesseiros. Um dossel com as cores que ela sabia pertencer a     Brian Dal Cais — azul e dourado— estava pendurada sobre ela.

Quando começou a imaginar Brandubh nela, afastou-se rapidamente, mas quando desprendeu o broche que sujeitava o manto sobre seu ombro, reconheceu que sentia a pontada de culpa pela forma que havia tratado Brandubh. Não que ele não tivesse tido motivos para pensar que ela queria estar aqui: tinha esperado que decidisse ir a ele.

Eibhlin apagou a grossa vela que estava sobre a mesa de noite e tirou o vestido, deixando-o ao pé da cama. Quando se cobriu com as pesadas cobertas, um aroma de perfume de lavanda e coentro, as ervas que serviam para repelir insetos, emergiu do colchão.

Acomodando-se na brandura da cama, estirou completamente os dedos dos pés e teve um calafrio ao sentir os músculos de suas pernas retesados pelo esforço. Assim que fechou os olhos, a imagem de Brandubh apareceu outra vez... não podia tirá-lo de sua mente desde aquele dia de junho quando o tinha visto na Craglea pela primeira vez. Tratou de atribuí-lo a sua imaginação, mas seu corpo rijo e musculoso havia acendido nela um fogo que era muito real para ser negado. E o olhar de desejo em seus olhos. ... Seria realmente tão mau ter sido pega ali?

— Essa é a causa! — exclamou assustada.

Reconhecer só provocaria que ela não tentasse encontrar uma forma de escapar. Não pertencia àquele lugar e poderia ser perigoso para ela ficar. No final das contas, ela sabia o futuro, inclusive o aflito destino do povo irlandês, que seria subjugado pelos reis Normandos em apenas um século.

Uma vez que os ingleses tomassem posse da Ilha, passariam oitocentos anos antes que este verde país fosse livre outra vez. E então não seria mais esta Irlanda, pois a Irlanda do Século XX seria um lugar onde só uma pequena fração das pessoas falaria o idioma irlandês. O passado orgulhoso dos irlandeses seria relegado ao lixo. Kincora estaria coberto pela terra. O sangrento reinado inglês conseguiria isso, pensou em uma onda de revolta digna de um patriota verdadeiro.

— Maldição. Como vou lutar contra isso se não posso mudar as coisas?— Seu conselheiro de divórcio[19] tinha advertido a respeito da inutilidade de pensar em mudar o imutável. O que chamamos de destino existe? O futuro pode ser modificado? Isso era realmente espantoso, pensou, e é razão suficiente para voltar ao local ao qual pertencia. Riu suavemente zombando de si mesma. — Ah, isto é uma loucura. Sou uma cientista. A viagem no tempo é uma fantasia, uma fantasia para exposições de televisão e livros...— Com outra risinho, puxou a pesada manta de lã até o queixo, fechou seus olhos e respirou profundamente — Oh, é melhor viajar e deixar o real para amanhã — sussurrou com um grande bocejo — Verei que acontece amanhã.

A única evidência empírica que importava viria com a manhã, se ela despertasse aqui amanhã, teria que admitir que provavelmente Sadbh tinha razão. Ela estava em casa.

Brandubh percorreu o grande salão depois que Brian e Eibhlin o haviam deixado, sua cólera crescia com cada passo. Se não tivesse a certeza de que ela dormiria sozinha esta noite, subiria ali e interromperia o Ard Ri.

— Aqui estás, moço — Dougal chamou-o inclinando-se para ele — Brian requer sua presença.

— As coisas que faz…— Brandubh caminhou decidido, esmagando a pontada de culpa pelos pensamentos traidores que tinha tido. Além disso, Brian não era um homem para enfrentar, nem para ameaçar sem o grave risco de ser considerado traidor. Maelmordha, o rei de Leinster e até recentemente, cunhado de Brian, tinha aprendido isto. Malachy, o Ard Ri anterior, também o tinha feito. Quando Brian tinha uma meta, alcançava-a. Se Eibhlin era seu objetivo, era pouco provável que a deixasse simplesmente por lealdade familiar.

Brandubh jurou outra vez que faria algo que fosse necessária para mantê-la, então sua própria arrogância o fez parar pensar. Valia a pena mantê-la? Ela possivelmente tinha algo que dizer nesse assunto.

Seguiu a seu pai ao aposento do rei. Brian tinha tirado seu manto e estava sentado com uma taça de vinho na mão, em sua cadeira favorita defronte o fogo. Sua harpa, uma que ele gostava de tocar em pequenas reuniões de amigos e familiares, estava junto a ele. Brandubh sempre havia adorado essa visão de seu tio.

— Vem, Brandubh, sente-se. Você toma vinho?— Brian apontou com uma grande mão para a outra cadeira. Dougal aproximou outro par de cadeiras perto do fogo, onde Sadbh já estava sentada.

— Acredito que bebi bastante no jantar — disse Brandubh, enquanto sentava-se na cadeira que fora indicada — Enquanto você divertia a dama — O rosto de Brian estava iluminado por um leve sorriso.

— Sadbh disse-me o que sabe dela. Agora é a sua vez, garoto. De onde veio a nossa Lady Eibhlin?

— "Nossa", tio?—Brandubh permitiu que sua irritação se externasse — Como eu disse, encontrei-a na Craglea, durante o solstício. Teria conduzido-a para cá, mas ela desapareceu diante da minha vista.

— Desapareceu? — Brian levantou uma sobrancelha antes de sorver seu vinho.

— Havia uma cortina brilhando em seu redor. Era invisível, mas era impossível transpassá-la, sé Eibhlin podia fazê-lo. Entretanto, ela e a cortina desapareceram. Mamãe sugeriu que voltasse para a Craglea no Samhain e realmente, Eibhlin estava ali. Decidi mantê-la aqui desta vez — Brian ergueu-se alarmado.

— Forçou-a? Ela não escolheu?

— Ela esteve a ponto de vir no dia do solstício do verão, mas desta vez ela cruzou voluntariamente. Entretanto, não viu que a cortina desaparecia e eu não a adverti. Assim, suponho que não, que ela não escolheu — inclinou-se para frente, sabendo que esta postura representava um desafio para seu rei.—Tio, eu vi o seu interesse. Ela é minha e não irei sem ela.

— Esquece garoto — Brian respirou profundamente com um sussurro que significava alivio e advertência. Brandubh olhou diretamente nos olhos duros do homem instruído, pois ele era um dos poucos homens sábios na Irlanda.

—Não esquecerei tio, que me chama cada vez que necessita de uma espada. Não sou um garoto, e sim um homem, e não preciso demonstrar isso. Eibhlin vai comigo amanhã pela manhã.

Sadbh ficou boquiaberta com este comportamento inexplicável e para piorar, seu filho levantou-se e deixou os aposentos do rei sem a sua permissão. Ela mirou Brian procurando uma reação diante da insubordinação de seu filho. Brian só elevou uma sobrancelha com o golpe da porta.

— Bem, bem. Nosso filhotinho está mal, não é Dougal?

— Assim parece, Brian — Dougal foi ao aparador para encher a sua taça de vinho, e logo virou e se inclinou sobre a mesa.

— Ele fala sério. Não irá sem ela, não permitirá que a possua. E Brian, você necessita muito mais de Brandubh do que precisa de um compromisso — Brian riu, com um som baixo e profundo que retumbou nas paredes e no salão.

— Divertia-me vendo que tanto o irritava.

— Só tratava de irritá-lo? — perguntou Sadbh assombrada enquanto o rei encolhia os ombros.

— Nem tanto. Se a dama tivesse mostrado outra inclinação, ela estaria aqui, sobrinha, não você. Entretanto, já vê que não foi assim — Seu sorriso apaziguou um pouco a cólera protetora de Sadbh.

— Então a colocará sob o amparo de Brandubh?

— Não —Brian antecipou-se ao seu argumento com uma mão levantada — Estará sob o teu amparo de Dougal. Se Brandubh a quiser, pode oferecer um preço justo para a noiva justo.

— Quem decidirá o que é justo? — Sadbh perguntou.

— Eu o farei — Brian bebeu seu vinho —É verdade Dougal, a espada de Brandubh e os seus cavalos são mais importantes a mim do que o corpo de uma mulher. Mesmo que seja um corpo como o dela. Além disso, teria a meu sobrinho feliz e leal a mim. Dado que ela não tem família ou propriedade, penso que três cabeças de gado ou cinco cavalos é um preço justo. — olhou para Dougal.

— Aye. Parece justo. — Sadbh não poderia discutir, embora não soubesse como Eibhlin reagiria ao fato de ter um preço fixado sobre ela quando não pensava em ficar. Pelo o que tinha observado da mulher até agora, seria mais difícil de convencê-la a de ficar de boa vontade se ela se sentisse que a haviam manipulado. Mas faltavam dois meses para o próximo solstício. Possivelmente Brandubh seria capaz de convencê-la. Sadbh perguntou-se o que poderia fazer para ajudar para que isto acontecesse. Seu filho não era muito jovem e ela queria netos enquanto houvesse tempo de gozá-los.

 

— Milady — A voz de uma jovem donzela abriu o caminho entre a neblina sonhadora em que Eibhlin se sentia imersa. O cabelo, negro como a asa de um corvo, comprido e solto, sua pureza de ébano rompida apenas por uma mecha branca, caía nos ombros largos e bronzeados.

— Brandubh—sussurrou, quando umas mãos fortes sacudiram-lhe os ombros.

— Lady — havia um rastro de risada em sua voz — Lady Eibhlin, desperte.

Eibhlin ergueu-se. Uma garota jovem com o cabelo loiro e comprido preso nas costas com uma fita amarela, deu um passo para longe da cama.

— Bom dia milady. Meu nome é Blanaid. Trouxe-lhe uma bacia de água morna.

Não tinha mais de treze anos, apenas começava a florescer. Uma garota bonita, como o seu nome, com um sorriso doce.

— Bom dia, Blanaid — e com interesse perguntou — Eu falei enquanto dormia?

A garota sorriu outra vez.

— Não importa milady. Minha mãe ensinou-me a manter em segredo o que se passar diante dos meus olhos. Lorde Brandubh é material de muitos sonhos de damas e de criadas também. É bonito e muito rico, também.

— Ele está aqui agora?— Eibhlin levantou-se. Antes que seus pés tocassem o chão, Blanaid estava ali com um par de sapatilhas.

— Permita-me que a ajude, milady — As mãos rápidas de Blanaid deslizaram os sapatos de couro suave nos pés de Eibhlin e prosseguiu com o relato como se nada a tivesse interrompido. — Real-mente possui muitas cabeças de gado e ainda mais cavalos. Cria cavalos para competir, de guerra e para a agricultura. Tem também pequenos pôneis escoceses que cria para que as crianças montem.

Eibhlin lavou o rosto, pensando que para alguém que tinha sido ensinada a manter as coisas em segredo, Blanaid falava muitíssimo, mas desde que o sujeito era Brandubh Mac Dougal, ela estava fascinada.

Blanaid tagarelou a respeito de Brandubh e de seu físico maravilhoso, suas proezas extraordinárias com os cavalos, seu enorme força, as identidades de quais criadas tinham que gozado de sua atenção e o número de damas que tinham a esperança de que ele logo procurasse uma esposa.

Blanaid entregou um quadrado de linho que ela presumiu que devia ser utilizado como uma toalha e quando secou a face, Blanaid repassou os acontecimentos das últimas vinte e quatro horas.

— Houve muita tristeza quando Lorde Brandubh a trouxe para o grande salão. Embora mais tarde se sentissem aliviadas quando o Ard Ri mostrou interesse em você. Pensaram que o rei a tomaria para si e Lorde Brandubh seria ainda livre.

— O que o rei faria? — A voz de Eibhlin arranhou a sua garganta. Sentia que se ia agitando à medida que crescia a sua irritação.

— Disse alguma coisa ruim, milady? — os olhos do Blanaid aumentaram com a apreensão enquanto retrocedia. Arrependida por assustar a garota, Eibhlin pôs-lhe uma mão suave no ombro.

— Perdão, Blanaid, não quis gritar. Apenas não gosto de estar envolta em falatórios.

— Como por exemplo?

— Não importa. — Eibhlin suspirou. Deu-se conta de que as mulheres eram objetos sexuais aqui entre os celtas, como também o eram no século XX. A única diferença parecia ser que o padrão de beleza desta época incluía as mulheres muito altas e não anoréxicas. Blanaid ajudou Eibhlin a tirar a pesada bata de lã e arrumou o manto, sujeitando-o com o broche de Sadbh.

— Lady Sadbh mandou-lhe estes e disse que você deveria ficar com os que lhe agradarem.

Blanaid mostrou-lhe um conjunto de pentes de marfim.

Com a boca aberta, tirou-os da mão de Blanaid.

— São encantadores.

Blanaid sorriu com um sorriso doce já mais relaxado.

— Permita-me que a penteie. Minha mãe diz que tenho habilidade com o cabelo das damas.Eibhlin deixou que o arrumasse a sua maneira e enquanto a penteava, a afirmação de Blanaid a respeito de sua habilidade ficou claramente provada —Sabe, lady Eibhlin, houve muita consternação na sala esta manhã quando lady Sadbh trouxe estes pentes para você. Ela se assegurou de que todos ouvissem suas instruções. Está claro que a protege, por que, duas damas começaram a chorar junto com suas mães assim que Lady Sadbh falou.

Eibhlin perguntou-se a respeito disso. Sadbh tinha dado sua bênção ontem à noite, igual a Dougal. Mas por que eles a favoreceriam, sem nenhuma família, nenhuma propriedade, nenhum passado?

— Pronto. Você tem um cabelo lindo, suave como uma pele de boa qualidade. Desejei freqüen-temente ter o cabelo escuro.

— Na minha terra, Blanaid, a cor do seu cabelo é a preferida.

— Sério? É uma pena que não possa ir ali para encontrar um marido.

Eibhlin sorriu.

— É muito doce para qualquer homem dali.

— Minha mãe diz que não há um homem no mundo que mereça a mulher que tem. Mas, nós que podemos fazer?— Eibhlin riu quando Blanaid deixou cair sobre as suas costas uma pesada trança, que ela tinha trançado em redor de seus dedos magros. A cascata resultante enquadrou o rosto de Eibhlin, suavizando o semblante. Olhando-se fixamente em um pequeno espelho de mão, girou a cabeça de um lado para outro e logo que pôde acreditar na mudança obtida apenas em arrumar o cabelo.

— Blanaid, obrigado.

A garota ruborizou.

— Você é muito formosa, milady. Eu só fiz alguns acertos. Venha comigo, que eles já têm que estar no salão principal. Você fará uma entrada deslumbrante.

Enquanto caminhavam até a porta, não conseguiu ter uma idéia coerente. O zumbido de vozes e conversações cessou e Eibhlin sentia cada par de olhos fixos nela, alguns decididamente hostis. Mas a audiência foi esquecida rapidamente quando Brandubh se levantou de seu lugar na mesa principal e andou com grandes passadas pelo corredor que ficava entre as duas filas de mesas. Seus olhos se concentraram nela.

— Milady Eibhlin, por favor permita-me acompanhá-la a seu lugar — A familiaridade e a justiça a invadiram quando pôs a mão sobre o braço que ele lhe oferecia.

— Obrigado, Lorde Brandubh.

Ele sorriu então, com uma expressão quente repleta de um prazer incipiente nas profundidades de ébano de seus olhos. Ela se deu conta então de que não o tinha visto sorrir desde que sua mãe a tinha levado para trocar-se na tarde anterior.

Conduziu-a até a mesa principal, onde os homens se levantaram para saudá-la. Brandubh, deixando sua atitude bem clara, sentou-a entre Brian e ele mesmo. Nesta manhã Brian era cordial, mas não deixava transparecer os seus cuidados da noite anterior.

— Espero que tenha descansado bem, milady — perguntou entre mordidas de queijo.

— Sim, obrigado, milord. — Já que ele não repetiu seu pedido de que o chamasse por seu nome, soube que a familiaridade do dia anterior não era apropriada. Deu-se conta de que Brian olhava como Brandubh a ajudava com sua comida, seus olhos sorriam e uma piscada pequena lhe indicou que não estava zangado por que ela o tinha desdenhado, embora suavemente, os seus avanços. Parecia realmente feliz pelo desenvolvimento dos acontecimentos. O mesmo não poderia ser dito de muitas damas que a olhavam com total hostilidade quando Brandubh se certificava de que sua jarra fora cheia de cerveja e escolhia as partes mais seletas de carne e queijo. Ele partiu uma pequena barra de pão marrom crocante e ofereceu-lhe a sua metade.

— Por último, quero dar-te isto — disse enquanto tirava um pacote de trás de suas costas, envolto em veludo da cor azul do Dal Cais.

— Obrigado — sussurrou ela e desembrulhou o presente que era uma faca para jantar de ouro, com o punho decorado com jóias, protegido em uma bainha delicada de couro de bezerro bordado com ouro.

— Oh, Brandubh. É linda.

— É algo simples. E muito necessário para você se não quiser morrer de fome. Nem sempre estarei presente para alimentar você.

Ela respondeu com um sorriso à pequena piada e provou a faca com o queijo que tinha em seu guardanapo.

— Funciona — disse cravando o pequeno cubo de queijo cremoso e levando-o à boca, onde o deixou dissolver antes de dizer: — Obrigado outra vez.

Ele inclinou a cabeça em sinal de reconhecimento e ambos comeram em um silêncio cômodo e um pouco tenso. O café da manhã seguiu pacificamente até que um tumulto produziu-se em uma das mesas mais baixas. Várias pessoas saltaram dos bancos e outros se moveram ao redor para ter uma melhor vista. Eibhlin seguiu o caos geral, que se centralizava em uma mulher sentada em uma das mesas, cuja roupa colorida a proclamava como uma pessoa de certa categoria. Ela arranhava o pescoço enquanto ofegava e grunhia.

— Está se afogando!!! — um homem gritava por cima do tumulto. Enquanto outro, imenso como um guerreiro golpeava com um pau as costas da pobre mulher que tratava de tirar o que tinha atravessado na garganta, sem que ninguém tratasse de fazer algo. Lutando contra a asfixia, a mulher sacudiu-se e caiu para trás, golpeando o piso com um ruído surdo, a garganta obstruída.

Eibhlin nem o pensou. Saltou para cima da mesa e deslizou sobre ela, enquanto todos abriam-lhe espaço para dar passagem. Agarrando a mulher pelas mãos, Eibhlin deu um puxão nos pés e colocou-se por detrás dela. Rodeou com seus braços o torso da mulher e aplicou uma pressão rápida sob a base do esterno. Nada. O corpo da mulher tomava uma preocupante cor azul.

— O que está fazendo?

Um homem, provavelmente o marido de mulher tratou de desprender os braços de Eibhlin, que tentou novamente salvar a mulher. Um grito surgiu dos espectadores quando um projétil marrom acinzentado saiu expelido da boca da mulher. Outra mulher do outro lado da mesa o agarrou e imediatamente gritou enquanto o jogava pelo ar.

Depois de ajudar a mulher a sentar-se, Eibhlin ajoelhou-se ao lado desta.

— Você está bem?— perguntou aliviada, agora que a cor da mulher voltava e sua respiração, embora ofegante, era regular outra vez.

— Sim, obrigado, milady — a mulher respondeu com um suspiro rouco.

— Aye, milady. Você salvou a vida de minha esposa — O homem que tinha tratado de intervir, estava ajoelhado ao outro lado da mulher — Sou Finn Mac Padraig. Aqui é minha esposa, é Orla ni Donald. Estaremos sempre em dívida com você.

— Não, obrigado, não é necessário. Estou contente de ter podido ajudar.

— Lorde Brandubh, esta dama está sob seu amparo? — perguntou o homem a Brandubh, que estava parado ao lado de Eibhlin.

— Não necessito de nenhum amparo, senhor — Eibhlin interrompeu, o que irritou os homens que se comportavam como se ela não estivesse ali. Brandubh ignorou-a, zangando-a mais ainda.

— Ela está sob o amparo do Ard Ri até que ele delegue o dever a outro — disse.

— Já disse, que não necessito de nenhum...

— Eibhlin, por favor — tomou-a pelo cotovelo e ajudou-a a levantar-se — Padraig, lady Orla.

— Obrigado, outra vez, milady — Padraig disse, afundando no banco ao lado de sua esposa, o braço possesivamente apoiado sobre seus ombros gordinhos. Brandubh a arrastou para longe dos olhares fixos curiosos. Ela olhou sobre o ombro à multidão que se reuniu ao redor de Orla para escutá-la contar a sua experiência, que adornava com gestos de suas mãos.

— O que é que você fez? — Brian perguntou quando ela retornou ao soalho.

— Utilizei o ar dos pulmões para empurrar o alimento para fora de sua garganta. Posso mostrar mais tarde, se você desejar, meu Senhor.

— Teria que fazê-lo rapidamente, milady. Decidi permitir a Dougal assumir seu amparo. Você com eles ao Ath Sionnain.

— O que?— Percebeu que ela e Brandubh tinham falado juntos.

—Tio, ela deveria estar comigo.

— Lady Eibhlin necessita da companhia de mulheres, Brandubh, o que não acredito que possa encontrar no Lon Dubh — Brian levantou uma sobrancelha avermelhada — Pelo menos, mulheres virtuosas.

— O que significa isso?—perguntou ela, lançando a Brandubh um olhar agudo, que ele preferiu ignorar.

— Mas, tio, eu acredito...—Brandubh começou, mas Dougal o interrompeu, com um gesto sério.

— Tive notícias de Sean, minha presença é necessária em casa. O tom da mensagem era suficientemente urgente para que precisasse voltar assim que pudesse arrumar — Onde quer que estivessem as terras do Dougal, Eibhlin sabia que não podia ir. Sua única esperança de voltar para seu próprio tempo estava ali, na Craglea.

— Milady — começou aproximando-se de Sadbh para apelar — Não posso sair aqui. Você entende certamente…Sadbh puxiu a sua mão e a apertou.

— Minha querida, voltará para o Cragh quando for o tempo. Até então, desfruta da nossa hospitalidade. Juro que não será mantida no Ath Sionnain contra a sua vontade.

— Não é de suas intenções que desconfio, milady — Quando disse isso, os olhos de Eibhlin estavam fixos em Brandubh, cuja expressão indicava seu próprio descontentamento com o acerto. O sorriso de Sadbh era o de uma pessoa que sabe o que acontece.

— Vem e ajuda-me a empacotar os nossos pertences.

 

Sob a supervisão de Sadbh, tudo esteve preparado em menos de uma hora (ela seria uma excelente comandante no exercito!)

Quando a caravana de cavalos e vagões avançou para o norte, seguindo a margem oriental do Shannon, Eibhlin voltou-se para olhar fixamente como Kincora (e mais à frente a Craglea) tornavam-se menores e eventualmente desapareceram quando o grupo ultrapassou uma colina. O Shannon fluía, desde milhares de anos atrás e continuaria fazendo-o pelo menos por mais mil. Quão pouco havia mudado a campina, pensou Eibhlin, olhando a terra suavemente ondulada. Mesmo depois de sofrer todas as feridas que viriam, a Irlanda estaria no mesmo lugar. Era um alívio, pensou.

Brandubh apareceu a seu lado em um cavalo alto. Endireitou-se na e relaxou a sua postura, movendo apenas as rédeas que sustentava em uma mão. Seu cavalo deu pequenos saltos em um baile nervoso, mas Brandubh não pareceu sentir-se inseguro em sua sela.

— Quieto, rapaz —disse com voz baixa, inclinando-se para frente, enquanto acariciava o pescoço do animal —Tranqüilo.

Se foi pelo som da voz de Brandubh ou pelo toque da sua mão, o cavalo acalmou-se e seguiu trotando tranqüilamente junto ao de Eibhlin. Brandubh deixou descansar a mão esquerda na coxa e ela teve que afastar seus olhos longe da visão da mão... e a perna... e tratou de recordar que estava ali por causa da interferência desse homem em sua vida. Tratou de recordar que ela estava zangada.

— Está desfrutando da viagem? — Sua voz deixava transparecer claramente que ele não estava.

— O país é lindo, o cavalo é aprazível, a companhia também, pelo menos na maioria do tempo — quis irritá-lo — é agradável. Por que não desfrutaria?

— Porque ambos fomos manipulados.

— Você só provou um gole de seu próprio remédio.

A fronte de Brandubh se enrugou em uma careta, como ocorria cada vez que ela dizia algo que ele não conseguia entender exatamente, geralmente quando era uma tradução literal de um Americanismo[20]. De qualquer jeito, tinha aprendido a não tomá-lo pessoalmente.

— Se pensar que eu manipulei você...— Seus olhos escuros a transbordaram, um sorriso cresceu em lábios — Suponho que o fiz e o faria outra vez, milady. Foi um exercício bastante agradável.

Eibhlin forçou seus olhos para olhá-lo, apesar de brilhante luz que havia e tratou de manter sua voz controlada.

— Meu estimado Brandubh, já houve suficiente manipulação dessa classe — Ele riu, um som profundo e suficientemente atraente para ouvir cada dia de sua vida... Será que sua mente seguiria esse atalho ao manter qualquer conversação com ele? Ficando séria, perguntou: — onde estamos indo exatamente?

— A Ath Sionnain. Dougal é o guardião da fronteira setentrional do Munster — Ele olhou para trás deles e logo outra vez para a frente — Iremos cruza-la em umas poucas horas viajando neste ritmo.

— De quem era esse outro lugar que Brian falou? Há algo de mau com o Lon Dubh?

Ele sacudiu a cabeça e disse — Lon Dubh é meu. Está na convergência do Munster, Connaught, e Ulster[21] . Gostaria de te levar alguma vez. A grama mais doce de toda a Irlanda está nem Lon Dubh.

A menção da grama a fez recordar algo.

— É verdade que cria cavalos?

— Bem, todos os irlandeses criam cavalos de uma forma ou de outra, milady. Entretanto, eu posso dizer que sou melhor nisso do que é a maioria.

— E de onde tira tempo para lutar em suas guerras e criar seus cavalos?

Uma sombra passou por seu rosto.

— Eu bem que pensaria de outra maneira.

Eibhlin surpreendeu-se pela brevidade de sua resposta. Ela teria dito ela algo errado? O silêncio desta vez a incomodou.

— Quanto tempo faz que tem Lon Dubh?

Brandubh lançou uma olhada para ela.

— Desde meu décimo sexto aniversário. Foi um presente do tio Brian.

— Vive ali? — Uma visão dessas mulheres devassas que tinha mencionado Brian cintilou em sua mente, mas Eibhlin rechaçou a imagem.

— Estou ali provavelmente a metade do tempo. Desgraçadamente, o Ard Ri teve muita necessidade de meus serviços ultimamente. — Não falava feliz por isso, porém não disse mais nada.

Dirá para mim isso tudo ou terei que arrancar cada pedacinho de informação? — pensou Eibhlin.

— Por que nunca se casou, Brandubh?— Ele levantou o canto de seus lábios.

— Nunca encontrei a mulher com a qual quisesse casar — Deteve-se e voltou-se para ela — Presumi que não estava casada — disse ele.

Possivelmente isto o convenceria em deixá-la só e permitiria que ela retornasse logo que pudesse.

— Sou divorciada — Brandubh encolheu os ombros em um gesto que provavelmente tinha copiado inconscientemente de seu pai.

— Ele foi infiel?

— Sim — murmurou ela, perguntando-se me seguida como teria adivinhado isso.

— Então teve o direito de se divorciar.

— A Igreja não condena?

— Suponho que sim. Não é uma decisão que possa ser tomada de maneira frívola. Entretanto, quando um voto se rompe... — Ela não tinha pensado sobre o tema dessa maneira — Nosso sistema legal é agora muito melhor do que era antes da chegada de Patrick[22] — continuou — O divórcio é realmente um assunto bastante simples. A vida é muito curta esbanjar o sofrimento desnecessariamente.

Esse parecia um ponto de vista terrivelmente fácil. Oh, o velho patrão mental de escolher o lado ruim de cada situação, ela pensou encolhendo-se em sua sela.

Seguiram cavalgando sem falar, nem sentir a necessidade de fazê-lo, aceitando o agradável silêncio entre ambos. Depois de um tempo, Eibhlin se acomodou em sua sela.

— Começo a sentir meu traseiro como se fosse feito de chumbo.

— Cuidado, milady. Permita-me que chame meu pai e pararemos...

Mais tarde, Eibhlin deu-se conta de que o pé tinha escorregado do estribo e ela se inclinava muito rápido para a direita e ...

— Oooo... ooops!!!!!!!—.

O braço forte de Brandubh sustentou-a, endireitando-lhe as costas em sua sela com o esforço que utilizaria para recolher um gato. As lembranças de sua força eram tão poderosas como a ternura que ela recordava tão bem.

— Obrigado — disse Eibhlin, tratando de permanecer sentada tão direita como a dor de seu traseiro o permitia.

— Você está cômoda milady? — perguntou Brandubh.

Não estava, mas nunca confessaria que não tinha cavalgado há mais de quinze anos.

— Estou apenas um pouco fora de forma.

— Poderia cavalgar comigo — Seus olhos se entrecerrarão enquanto dava um pequeno golpe sobre a coxa — Acharia que o assento é mais cômodo.

Esse olhar escuro de amante latino, capaz de fazer com se agitasse o estômago de qualquer garota mais propenso ao sentimentalismo... sorte que ela não era. Tinha que afastar dessas idéias, que não conduziriam a nada, não se ela quisesse sair dali com o seu coração inteiro.

— Lorde Brandubh — disse com precisão ofensiva — Não necessito de ajuda.

Ele deixou-a adiantar-se um pouco antes de inclinar-se levemente para ela.

— Não permita que seu orgulho a afaste do que traria alegria, milady.

Eibhlin riu.

— Você supõe que está sendo sutil?

— Não procurava sê-lo. Minha intenção é muito simples — Inclinou-se para mais perto e sussurrou —Nenhuma outra mulher se encaixou em meus braços tão perfeitamente como você, Eibhlin.

— Então é apenas sexo?

Ele levantou uma sobrancelha.

— Não vou negar o que já sabe. Oxalá fosse tão simples tê-la em minha cama. Entretanto, não é uma aventura o que eu teria com você. Você e eu fomos reunidos. Pertencemo-nos um ao outro.

Suas palavras a assustaram como em seu primeiro dia de colégio, como o sentimento de fracasso e de temor que só tinha conhecido logo após o divórcio. Como o sentido de crueldade persistente que o telefonema de seus pais a deixou desde aquele dia do verão em que tinha falado com eles. Só tinha acontecido há apenas quatro meses atrás?

Eles insinuaram conhecer algum tipo de segredo cósmico e algo sobre o destino. Eibhlin odiou o temor de que sua vida não estivesse sob seu próprio controle. Isso a empurrou a dizer as palavras que chegaram em seus lábios.

— Não, Brandubh, nós não fomos reunidos. Estava na Irlanda realizando uma tarefa. Já a terminei e quero voltar para casa, logo que seja possível. Não pode haver nada entre nós. Não estou interessada em ti para nada, nem sequer para um flerte.

Ele estreitou seus olhos negros como o ônix e a estudou. Concentrando-se nos contrastes violáceos das montanhas no horizonte norte, ela se negou a encontrar seu olhar, embora a pele queimasse sob seu exame. Mostrava-se fria só para convencê-lo de que falava a sério, embora sua mente clamasse que era mentira.

— Milady — Inclinou a cabeça respeitosamente e cavalgou afastando-se. Os lábios de Eibhlin se abriram para chamá-lo, mas tinha perdido sua companhia, de modo que fechou a boca fechou e se concentrou em permanecer na cadeira condenada.

 

Ath Sionnain, literalmente a parte mais rasa do Shannon, não era um grande lugar como o de Brian, Kincora, mas de toda forma, Dougal O' Daghda não era um Ard Ri. Seguia o mesmo estilo, a parede de paliçada de madeira e o aterro de barro dava ao Ath Sionnain a aparência de uma fortaleza inexpugnável. O grupo atravessou as altas portas que davam a um pátio tão perfeitamente planejado e tão bem ordenado como o do próprio Brian. Estava mais limpo, entretanto, algo próprio de Sadbh, sem dúvida.

No pouco tempo que passou desde que tinha conhecido a mãe de Brandubh, tinha aprendido que Sadbh tinha padrões exigentes no que concernia à tolice.

Um ancião com o cabelo branco como a neve, e fixo como se fossem plumas, saiu coxeando dde uma grande casa de pedra que obviamente era dos senhores.

— Dougal — chamou — Dou graças a Deus tenha recebido minha mensagem.

— O que aconteceu, Sean?— Dougal apeou e foi ajudar sua esposa. Colocou-a suavemente em pé e seu braço pousou sobre os ombros em um gesto indubitavel de proprietário e protetor.

— Posso ajudar-lhe a descer, lady?

A atenção de Eibhlin desviou-se da cena de Dougal e Sadbh, os braços de ambos enlaçados enquanto escutavam Sean. Brandubh parou ao lado de seu cavalo, olhando-a de baixo para cima, mas seus olhos não tinham o calor que ela associava com seu olhar. E também deu-se conta de que não a tinha chamado de Milady.

— Obrigado, Lorde Brandubh.

Desde que saíram de Kincora, sua comunicação se tornou dolorosamente formal. Ela sentia a perda de seu sorriso e seu contato, como sentiria saudades um membro perdido. As mãos elegantes e imensas que quase rodeavam sua cintura, fizeram-na sentir-se preciosa. Eibhlin apoiou suas mãos nos ombros como se ele necessitasse de ajuda para suportar seu peso. A massa de músculos de seus braços a levantou como se ela não pesasse nada.

Quando seus pés tocaram o chão, ele tirou as mãos de sua cintura e afastou-se, deixando Eibhlin tocar o ar em lugar de seus ombros. Brandubh foi reunir-se com seus pais diante da casa.

Era preferível desta maneira, pensou Eibhlin. Se ele não me perseguir, não terei que encontrar forças para afastá-lo. Como se pudesse!, adicionou amargamente. Mas não seria fácil renunciar a algo tão grande.

Sozinha no pátio, olhou seu lar temporário. Ao longo da parede de paliçada havia vários edifícios pequenos, o propósito de alguns era óbvio: estábulos, ferraria. Havia edifícios menores dentro do cerco amuralhado que eram claramente casas, com banquinhos junto às portas e crianças correndo aqui e ali.

A casa que dominava o prédio era de três andares de altura e construída em pedra e madeira, enquadrada com uma simetria e graça agradáveis à vista. As janelas eram pequenas, com portinhas abertas que deixavam ver cortinas nos três pisos. De cada lado havia algumas construções menores. A visão da porta principal da formosa casa do Dougal não era tão agradável. Ali havia um bando de garotas procurando o bonito e ai! solteiro Lorde Brandubh “o que tem muitos cavalos”.

O grupo de admiradoras se atrasou em entrar na casa, lançando olhadelas com convites, que nenhum homem saudável poderia resistir sem ajuda divina. “É melhor se libertar de um homem assim, Evie”, pensou, “Acabaria compartilhando seu marido outra vez”.

Marido? Só em pensar fez com que seus olhos se arregalassem. Em que mundo ela tinha pensado em Brandubh como um marido?

Certamente, ele nunca havia dito nada a respeito de casamento. Havia dito que queria mais que uma aventura, o que não poderia significar nada mais de que uma relação prolongada, depois da qual ele diria o muito que ela tinha significado para ele e que era tempo de continuarem com suas vidas. “Não, obrigado”, pensou olhando às mulheres que a observavam por sua vez. Ela tinha sido abandonada uma vez. “Não acontecerá outra vez, neném” prometeu.

O que é havia de mal com ela? Não importava se ele havia dito algo a respeito de casamento ou não, ela não permaneceria ali.

Sadbh aproximou-se dela.

— Vem, Eibhlin. Os homens têm alguns assuntos que resolver, assim me ocuparei de acomodar você — Enlaçou seu braço ao de Eibhlin em um típico gesto protetor e consolador — Não permita que esse enxame de abelhas a preocupe — murmurou — Você tem o direito de rejeitá-lo primeiro.

Eibhlin ficou tentada em usar esse direito ali mesmo, mas soube que soaria patética. Ainda estava magoada por tê-la deixado sozinha tão facilmente, mesmo que soubesse que estaria contendo sua necessidade de protegê-la. Em vez disso, Eibhlin virou-se para Sadbh e disse com um sorriso:

— Pensarei a respeito disso — Sadbh riu.

— Se decidir permanecer conosco, querida, o pobre Brandubh terá as mãos ocupadas, prometo-lhe isso. Deixemos que as coisas aconteçam e vejamos que obteremos.

Eibhlin inclinou a cabeça para a multidão de mulheres altas, baixas, magras, gordas, loiras, morenas e ruivas. Todas com os olhos fixos em Eibhlin, mostrando variados graus de antipatia. Continuaram caminhando, o braço de Sadbh sobre o seu.

— O que fazem aqui, senhoritas? Não têm no que manter as mãos bastante ocupadas? Se não, certamente posso encontrar algo mais para que façam.

Eibhlin poderia ter rido do efeito que as palavras do Sadbh causaram, porque todas as mulheres se dispersaram, menos uma. Esta parou na porta, a cabeça alta, seus olhos jogando fogo. Eibhlin a olhou fixamente, com uma inquietante sensação de familiaridade voando em seu estômago.

— Não nada para fazer, Moira?— Sadbh perguntou. Moira.

O som do nome de sua mãe foi como um punhal. Eibhlin sentiu no coração uma quebra de onda aguda de desejo. A semelhança física entre a mãe que Eibhlin tinha deixado para atrás, a mais de mil anos no futuro e esta garota com os olhos zangados, era assombrosa. A mesma altura, os mesmos quentes cachos castanhos, que enquadram um rosto com a pureza de anjo. O mesmo queixo suavemente arredondado, o mesmo pequeno nariz arrebitado. Sua própria mãe devia ter brilhado assim quando foi jovem.

Tudo menos os olhos. Havia muito amargura neles. Moira. O nome significava “amargo”. Essa Moira fazia juz ao seu nome.

— É esta? Esta é a puta que roubou Brandubh?

— Fecha a boca e sai de minha vista, agora! — Eibhlin sentia-se tão sacudida pelo tom de Sadbh, como por ter sido chamada “puta” por uma mulher que se parecia com sua mãe. Com um olhar assassino, Moira saiu.

— Eibhlin, querida. Não permita que fira seus sentimentos. Ela ainda sofre e dirige sua amargura para um objeto que não é conveniente.

— Por que está sofrendo? — Eibhlin não poderia ajudá-la nem ter compaixão, se Moira tivesse tido esperanças de capturar Brandubh para si mesma. Sadbh não respondeu.

— Não falemos disso agora. Vamos instalá-la. Haverá tempo para isso mais tarde.

Quando Sadbh a arrastou escada acima e levou-a para dentro, os olhos de Eibhlin retrocederam para a garota jovem que cruzou lenta e solitária, através do pátio.

 

Dougal entregou a Brandubh uma taça que este aceitou agradecido. Desse modo suas mãos não estariam tão vazias. Brandubh bebeu o vinho profundamente. Seu pai tomou assento em sua cadeira diante da chaminé e indicou a Brandubh e Sean que se sentassem também.

— Bem, Sean, começa de novo. Devo admitir que já não posso viajar tão bem como fazia — brincou Dougal — Agora que tenho meu vinho e posso sentar-me e prestar atenção, talvez entenda suas notícias. O que ocorreu aqui em minha ausência?

Brandubh escondeu seu próprio sorriso por trás de sua bebida. Dougal era generoso porque adorava o ancião, mas Sean tinha sido mais incoerente que o nirmal. A única informação que tinha sido capaz de transmitir, era que tinha havido uma debandada nas manadas de Dougal. Agora deveriam extrair o resto da história. Certamente não seria mais que um inconveniente. Roubar gado era um venerado costume irlandês, embora Brian tivesse conseguido frear esta prática, que considerava um desperdício vergonhoso de energia, quando os inimigos comuns — Vikings e irlandeses traidores — deviam ser vencidos.

Um assunto de pouca importância, Brandubh estava seguro. Até agora tinham deduzido do relato um pouco desarticulado de Sean, que Dougal tinha perdido em torno de vinte cabeças, todas das vizinhas terras de Lon Dubh. Jogando para trás o cabelo branco e maleável, Sean começou contando as perdas de Brandubh. Brandubh recebeu as notícias sobre a perda de trinta cabeças só com uma careta. Era mais que um inconveniente, inclusive no era tão rico como seu pai.

— Bem, filho, nós necessitaremos de cada homem que possa contribuir — Dougal já planejava um ataque para vingar-se.

— Há mais — Sean bebeu seu vinho, as mãos tremiam. Brandubh nunca tinha visto o ancião tão nervoso. Sean pôs sua taça sobre a mesa ao lado de sua cadeira e prosseguiu — Eles levaram Conchobar e Deirdre, Brandubh.

— O que? — Brandubh levantou-se de sua cadeira e agarrou o velho pela capa, arrastando-o junto a ele — Quando? Quem?

— Brandubh, solta-o —   voz calma de Dougal penetrou na raiva de Brandubh.

Conchobar e Deirdre eram o par de cavalos que ele tinha planejado utilizar para criar uma nova raça eqüina.

Conchobar era de cor negra brilhante, de peito largo, com ar suficiente para correr todo o dia sem cair morto. Deirdre era branca como uma pomba e alta para uma égua, mas era suave e elegante. Tinha cuidado deles durante vinte anos, desde que era um menino e os tinha recebido ao fazer dez anos. Agora os tinha perdido.

— Brandubh — seu pai o chamou novamente.

Brandubh permitiu que Sean se soltasse suavemente, sentia-se capaz de despedaçar toda a Irlanda. Cheio de vergonha, Brandubh disse:

— Por favor, perdoe-me, Sean.

— Não se preocupe, garoto — O velho prosseguiu: entendo o que eles significam para ti.

— Quem foi, Sean? Você sabe? — A voz de Dougal era suave quando fez sua pergunta. Sean sacudiu a cabeça, fazendo com que o cabelo voasse como uma tormenta de neve.

— Quem? Não sei — O homem velho voltou-se para o Brandubh — Quando? É simples. Na tarde do Samhain. Os invasores enviaram homens com a ordem de queimar sua casa, mas os cavalos estavam fora pastoreando. Deirdre ficou no cio inesperadamente e Conchobar não podia ser refreado. Antes de vê-lo ferido, o encarregado dos estábulos colocou-o para fora, sabendo que você o aprovaria. Os invasores chegaram justamente quando as portas do curral se abriam. Eles afastaram Deirdre da manada de gado e Conchobar a seguiu.

— Ah, amore. Ou seja, o nosso Conchobar foi ao resgate sua dama, não?— A brincadeira de Dougal não foi bem recebida e Brandubh o fez saber com um olhar escuro. Dougal não se intimidou — Vamos, filho, vamos jantar. Descansaremos esta noite e iremos ao Lon Dubh amanhã para tratar de concluir de onde vieram nossos invasores — Levantou a mão para interromper a negativa de Brandubh — É um homem grande, filho. Se deseja ir esta noite, cansado como está, sem saber por onde começar, aceita ser meu hóspede esta noite. Eu passarei uma noite em minha própria cama com minha mulher. Quando sair a recuperar o que é meu, estarei preparado para dar a Satanás uma briga que ele não esquecerá tão cedo.

Sem outra palavra, Dougal colocou o braço ao redor dos ombros de Sean e levou-o para fora do aposento.

Embora às vezes pudesse ser irritante, Brandubh sabia que seu pai era sábio também na forma de lutar e, especialmente, recuperar o que era dele. Mas, se algo tinha acontecido a Conchobar ou Deirdre, Brandubh jurou que esfolaria pessoalmente quem quer que fosse responsável e faria bolsas com sua pele.

 

Se mais alguma mulher apoiasse os seios nos ombros de Brandubh, sorrindo como uma boba e dissesse como estava contente por que ele havia voltado, Eibhlin a mataria com a sua linda faquinha de jantar que Brandubh tinha dado de presente. Aquele oferecimento patente a envergonhava. Que ele permitisse quando ela estava sentada de seu lado a enfurecia. Sadbh, à direita de Dougal, virou os olhos para o teto mais uma vez. Ela e Eibhlin haviam compartilhado um olhar de zombaria. Realmente começava realmente a adorar Sadbh.

— Façam o favor de voltarem aos seus lugares e comerem seu jantar! — Sadbh finalmente berrou para todas elas.

— Bendita seja, mãe, mas já não tem bastante do que se ocupar?— Brandubh arqueou uma sobrancelha de ébano, em uma imitação exata do hábito de Sadbh — Mãe, creio que sou capaz de suportar a carga em meus ombros.

Ele se levantou e agarrou o pulso de uma das beldades, uma criada dessa vez, e a fez inclinar-se até ter seus seios descansando sobre o seu largo ombro direito, levantando um rugido de aprovação e a risada da assembléia.

Eibhlin soube (acabava de dar-se conta) que ele o fazia para fazer ciúmes. Como se pudesse.

 

Uma vez que as moscas tinham deixado de zumbir ao redor de Brandubh — seria possível? começava a pensar da mesma forma como falavam — Sadbh deu a volta apontando com sua faca para Dougal.

— Acredito que precisamos encontrar algo para manter Eibhlin ocupada enquanto estiver conosco.

— Sério, cara mía?— Dougal recostou-se na cadeira sustentando sua taça. Eibhlin abriu a boca para dizer, outra vez, que não tinha intenção de ficar ali e que iria para casa na primeira oportunidade, mas nunca teve a ocasião. Sadbh centrou sua atenção nela, olhando para Dougal significativamente.

— Veja querida, desde que nossa curandeira morreu, não tivemos ninguém atendendo no jardim de ervas nem preparando os remédios. Nenhuma de minhas damas é talentosa com as plantas. O jardim das ervas de cozinha está bem cuidado, mas as ervas medicinais precisam de atenção. Você não disse ao Ard Ri no jantar da noite passada que trabalhava com ervas medicinais?

Sadbh sabia perfeitamente o que Eibhlin havia dito ao Ard Ri. De fato, tinha-lhe exposto esta idéia durante a cavalgada de Kincora. Eibhlin tinha agradecido e se negado, pois pensava em permanecer enclausurada em seu quarto. Seus sentimentos para com estas pessoas já estavam mais fortes do que ela queria e custaria deixá-los para trás quando fosse tempo de ir embora.

— Só sei algumas coisas, milady — respondeu Eibhlin em um gesto de pequeno compromisso.

— Não seja tão modesta. Ficaria agradecida se pudesse deixar-nos alguns de seus conhecimentos quando for embora.

Eibhlin notou a ênfase com que Sadbh disse as últimas palavras e o sorriso que conseguiu com a reação de seu filho (que ela obviamente tinha desejado). Pelo canto do olho, Eibhlin viu que Brandubh liberava o pulso da criada e a enviava para longe.

— Seria realmente uma grande ajuda para nós, querida — Sadbh não desistia e Eibhlin tinha ouvido bastante para saber que ela geralmente obtinha o que queria. Talvez fosse conveniente deixar Sadbh ganhar esta pequena batalha e guardar forças para a grande guerra quando fosse o tempo de voltar para a Craglea e ir para casa.

— É obvio, lady Sadbh, se eu puder ser útil — O sorriso de Sadbh aumentou.

— Bom. Amanhã, começaremos — Dougal virou-se para Eibhlin e colocou uma mão sobre as dela, enquanto murmurava: — Não tem alternativa, sabe? — e inclinou a cabeça para Brandubh, que levava no rosto uma cópia exata do sorriso satisfeito de sua mãe — Não fique contra eles dois.

“Veremos” Eibhlin aceitou o desafio silenciosamente.

 

Aos pedidos cessaram e Eibhlin escapou para seu quarto antes que os entretenimentos da tarde começassem. Em sua fria e solitária cama, tratou de dormir quando a harpa de um poeta começou a a ser escutada do andar de baixo. A música a sua dor aguda e a fez recordar... coisas que na verdade não tinham acontecido. Então uma voz começou a cantar, arrepiando a penugem das costas e do pescoço.

Era uma voz muito irlandesa, capaz de cativar quem a escutasse, ágil, ora contralto, ora soprano. Sem querer, Eibhlin recordou essa voz, era a voz da Moira ni Fitzgerald Conor, como ela se auto-nomeava quando gravava álbuns solos nos anos sessenta e poucos. Em 1960 e pouco. Quase mil anos adiante.

Eibhlin ergueu-se e saiu de cama. Colocando um manto azul ao redor dos ombros, abriu a porta de repente e deu um passo para fora no corredor, em direção da voz que ela adorava com sua magia, fazendo com que ignorasse o piso frio sob os pés descalços. Deteve-se no pé da escada. Era a garota, Moira, cantando uma canção que Eibhlin sabia muito bem.

Era o conto do seqüestro da jovem Deirdre, com quem o velho rei Conchobar tinha decidido casar-se. Ela escapou com um jovem bonito, mas Conchobar os atraiu com um engodo e matou seu amante. Quando Moira chegou a parte onde Deirdre, desanimada por seu amante morto, atira-se de uma carruagem que ocasiona a sua morte, Eibhlin permitiu que seus olhos procurassem Brandubh.

Estava sentado sobre em um montão de almofadas na lateral do salão, pelo visto, não muito de acordo com a seleção musical. Sem dúvida porque recordava do seqüestro da sua Deirdre de quatro patas. Então seus olhos se encontraram com os seus e ela não tratou de fugir.

“Você é minha. Deve estar aqui comigo”. Suas reclamações, embora tácitas, eram fortes e claras e acentuavam a dor no coração de Eibhlin.

Moira deixou de cantar. Eibhlin sabia que a canção não tinha terminado. O músico que a acompanhava manteve o ritmo um pouco maps, mas quando ficou claro que Moira não continuaria, também se deteve.

O zumbido de conversação no salão fez-se mais forte e ela podia sentir o olhar da multidão que passeava entre ela e Brandubh. Mas mesmo assim, não podia apartar seus olhos dele. Nesse momento, se alguém tivesse dito que voltar para o seu próprio tempo era impossível, aceitaria seu destino e iria para ele.

Então outro par de olhos reclamou os seus, uns olhos que ardiam de cólera. Reconhecer esta mulher tão parecida com Moira, recordou-a vivamente de sua mãe, e cheia de dor, Eibhlin virou-se e correu de volta a seu quarto. Meteu-se sob os cobertores, mas não pôde voltar a dormir.

Brandubh saiu ao ar da noite e se amaldiçoou por ser um tolo. Havia cem mulheres em casa de seu pai que dariam um ano de suas vidas por passar uma noite com ele. Entretanto, aqui estava ele, sozinho, seu corpo duro, seu sangue quente.

— Você a quer? — A voz suave saiu da escuridão.

— O que, Moira? — Brandubh deu-lhe as costas e se encaminhou para o estábulo. Quando percebeu que ela o seguia, apertou os dentes para conter seu gênio e não se jogar sobre ela.

— É ela? Não precisou de uma resposta. Foi muito clara a maneira como virtualmente a possuiu com os olhos.

— Cai fora Moira.

— Diga-me Brandubh, o que ela tem que não podia encontrar na minha irmã? Ela vale o preço que terá que pagar no inferno? Ela vale ela mais que minha irmã?

Ao chegar na porta do estábulo, Brandubh virou-se sobre os seus calcanhares. Moira quase chocou-se com ele. Olhou-a fixamente, duramente.

— Escute bem, porque não direi isto outra vez. Caoimhe tomou a sua própria vida. Eu não a matei.

Moira não voltou atrás.

— Ela não disse que o faria?

Foi Brandubh quem se afastou dando um passo sobre a soleira.

— Disse, mas eu não acreditei.

— E? Porque não se incomodou em dizer a ninguém? Sabia quão apaixonada era. Não, Brandubh, você não é inocente.

— Nunca disse que era.

Seus olhos aumentaram pela surpresa. Evidentemente não tinha acreditado que estava disposto a admitir aquela culpa. Brandubh virou e entrou no estábulo escuro. Esperou que o seguisse, mas ela ficou parada fora, olhando. Esperando, possivelmente? Para que? Perguntou-se um instante antes que o peso de um homem caísse sobre suas costas. Gemeu sob a carga e reclinou-se em uma coluna procurando um ponto de apoio. Cambaleou uma e outra vez como um garanhão indomável que procura se desfazer de um cavaleiro importuno. Moveu-se tratando de se soltar de seu atacante, mas então uma correia de couro serpenteou por seu pescoço. Apertada, cortando-lhe o fôlego. Brandubh agarrou a correia e lutou para afrouxá-la.

— Corre, Moira!!! — A voz disse por cima dele. Brandubh viu seu olhar, seu rosto congelado na surpresa e logo, olhando para ambos os lados, correu para a casa.

Ele ofegou para recuperar o fôlego, seus dedos soltaram as mãos que sujeitavam a correia. O homem em suas costas escapuliu, atirando o couro e dando um puxão para trás na cabeça de Brandubh, expondo a garganta.

Brandubh esperou a faca. Provavelmente um fim muito rápido. Em vez disso, um homem alto saiu das sombras e deu-lhe um murro, logo outro e outro, golpes imensos no estômago de Brandubh.

O ar saiu de seus pulmões e caiu de joelhos. Um pesado pé chocou-se contra o queixo. Voou para a parede, estilhaçando a madeira com a cabeça. Um brilho de dor o cegou. Seus olhos se fecharam.

Os passos fizeram ranger a palha. Vinha para ele.

Forçou os olhos e os abriu a tempo de ver uma faca. Rodou para a porta, mas umas mãos o atiraram novamente para a escuridão.

Um terceiro homem, maior que os outros, apareceu as suas costas e golpeou-lhe com o punho; logo o passou o fio de sua espada pelo rosto.

— Não o quero morto, ainda — disse a mesma voz dura que tinha advertido Moira — Afasta essa espada.

Dois homens sustentaram Brandubh. Ele não tratou de escapar outra vez. Não estragaria a ocasião de uma boa briga. Necessitava de uma briga e o destino havia lhe devotado uma.

Um punho musculoso o golpeou. O som da carne que se esmagava contra a sua face, satisfazia-o estranhamente. Brandubh sentia um corte no lábio. Havia um comichão agudo, mas a dor não era nada. Podia sentir o fluxo de sangue debaixo do queixo.

O segundo golpe fechou seu olho direito, mas ele aceitou o castigo. Dar o seu sangue o limpava de parte da culpa.

— Diga-me agora que não é culpado, Brandubh — disse o homem. A voz era não mais alta do que um murmúrio. Brandubh não se surpreendeu ao reconhecer a identidade de seu atacante. Só se perguntava quanto duraria.

— Uaid, permita-me que vá — conseguiu falar, junto com um jorro de sangue — Permita que eu tenha uma luta justa contigo.

— Que oportunidade teve Caoimhe? Um punho implacável caiu outra vez, desta vez contra o esterno de Brandubh — Aqui foi onde ela cravou sua faca.

Brandubh caiu para frente, incapaz de respirar, incapaz de falar, incapaz de pensar sequer sobre sua situação. Outra vez os punhos de Uaid encontraram o rosto de Brandubh, o que permitiu que a cabeça fosse para trás com a força do golpe, esbanjando a maior parte de poder de Uaid, enquanto ele reunia sua força.

— Como queira, Uaid — Utilizando os dois homens que o sustentavam pelos braços como apoio, Brandubh levantou os joelhos até o peito apesar da dor e chutou para frente.

Golpeou Uaid no queixo e o jogou até a divisa entre dois dos currais. Os olhos de Uaid deram a volta para o interior de sua cabeça e então se fecharam. Deslizou para baixo apoiando o traseiro no chão.

Os amigos de Uaid poderiam decidir terminar o trabalho, assim Brandubh chocou a cabeça de um no nariz do outro e os deixou cair, enquanto descarregava seu punho direito na cara do outro. A cólera e a frustração fluíram através de seus braços. Golpeou primeiro a um, depois o outro, até que duas mãos fortes o agarraram.

— É suficiente, rapaz. Basta. Está incomodando os meus cavalos — Dougal retirou Brandubh de entre os homens ensangüentados que jaziam no chão e ordenou a um rapaz do estábulo — Joga-os para fora daqui e traz-me Conor.

— Não — Brandubh conseguiu dizer através dos lábios inchados — Não há necessidade de que Conor saiba disto. Já lhe causei bastante dor.

Soltando-se das mãos de Dougal, saiu sozinho para a escuridão.

 

— Vejamos. Temos primaveras — Eibhlin agachou-se e puxou um caule seco que surgia da terra —Saxifraga Burnet — tomava entre os dedos as flores secas onde as vagens se formavam — Ah, o plátano, ainda tem algumas flores. Bom.

O jardim de ervas medicinais era uma obra de arte. Vagou pelos canteiros, maravilhada com a variedade. Deveria haver muito mais comércio com o Mediterrâneo do que ela tinha pensado, havia genciana, camomila romana e orégano. Com as plantas que tinha ali poderia tratar desde flatulências até congestão pulmonar. Tudo o que tinha que fazer era uma pequena limpeza, possivelmente plantar algum alho pela parede para repelir insetos e roedores.

Tinha colocado o manto ao redor dos ombros para proteger-se do frio do alvorecer daquele dia de novembro e desceu para examinar seus domínios. As tarefas da manhã já estavam encaminhadas e ela não prestou muita atenção nos transeuntes que se detinham em seus passeios e foram olhar como bobos a mulher estranha que chegou à casa com os seus senhores.

— Bom dia, senhora — quase caiu sobre os rabanetes ao ouvir a voz de Brandubh. Com cuidado rearmou sua dignidade e virou-se para saudá-lo.

— Bom dia, senhor ... Deus todo-poderoso, o que aconteceu com você?

Ele tratou de sorrir, pelo menos foi o que Eibhlin deduziu, porque o canto desses lábios suculentos levantava-se muito pouco e estavam inchados além do agradável, totalmente machucados e cortados.

— Tive alguns problemas ontem à noite para encontrar a luz.

— Parece que alguém não teve problemas em encontrar você — Ela deu um passo sobre o que restou da segurelha[23], que tinha sido abandonada quando chegou a época da semeadura — Por que não me procurou? Poderia ter ajudado com os machucados.

Eibhlin roçou com as pontas dos dedos a pele amarelada das bochechas e logo passou-os para o olho direito ainda inchado e fechado, para voltar a perguntar com voz baixa — O que aconteceu?

— É um assunto pessoal, senhora.

— Ah — Ela deixou baixou a mão — Você está dolorido? Posso dar algo para ajudar.

— Não. Não é necessário. Vim dizer adeus.

— Adeus? Um punho de aço oprimiu o seu coração —Para onde vai?

— Sairemos em menos de uma hora para Lon Dubh. Dougal acredita que ali encontraremos um melhor rastro para seguir os invasores — Ele inclinou a cabeça e observou-a com seu olho aberto

— Sentirá saudades, senhora?

— Ela devia dizer-lhe a verdade?.

— Odiaria que fosse ferido, milord Brandubh.

Ela retrocedeu pela plantação de segurelha. Quando a seguiu por entre os canteiros, ele dobrou e cortou um caule. Esmagou uma folha entre seus dedos longos, e passou pelo nariz. Enquanto isso disse — curandeira, é verdade que a segurelha é uma droga do amor?

— É dito que tem essa propriedade — Eibhlin afastou-se dele —Também é bom para as hemorragias e para o estômago. Precisa de uma infusão?

Sorriu disimuladamente enquanto se aproximava.

— Talvez devesse prepará-la. Fará agora?

— Agora? Mas se você está indo embora. Não tenho tempo, precisaria ferver a água e depois deixá-la repousar um pouco.

— Ah — disse sacudindo a cabeça —ouvi também, senhora, que o beijo de uma mulher bonita é de igual eficácia. Essa cura ajudaria a este guerreiro a matar os ladrões e recuperar a sua propriedade. Você está disposta a dar-me tal tratamento?

   Ele estava tão perto que ela podia sentir a carícia de seu hálito em suas bochechas. Tão perto que podia ver-se no reflexo de seus ardentes olhos negros. Tão perto que podia sentir o calor de seu corpo, estava tão quente que ela desejou ver-se envolta por seus braços. Umedeceu os lábios com a língua e ficou esperando o beijo que sabia que viria.

A boca machucada foi suave e terna ao tocá-la, mas nem por isso menos magistral. O duro golpe da língua, atrevendo-se dentro da sua boca, mordiscando e provando, enfraqueceu os seus joelhos. Eibhlin apoiou-se nos ombros de Brandubh, entregue, enquanto rodeava o pescoço com seus braços.

Tal qual uma rocha, constante e que não sai do seu lugar, ele era dela, o seu corvo.

As mãos de Brandubh deslizaram por sua cintura e mais para baixo. Ela se sentiu levantada e pressionada contra a evidente e urgente necessidade dele.

Seus lábios a possuíram, suas mãos a sustentaram, sua língua a prendeu.

— Brandubh, não deveria levar você a uma curandeira? Provavelmente nós necessitaremos de uma para cuidar de feridas maiores depois que encontrarmos os patifes que nos roubaram.

A voz de Dougal interrompeu o momento, mas Eibhlin não retirou logo os seus braços. Que a condenassem, mas ele beijava muito bem.

— Cuidará dos meus ferimentos, senhora? — Brandubh murmurou possesivamente. O sentimento de camaradagem que tinha existido entre eles, pareceu voltar e ele presenteou-a com um sorriso.

— Eu não abandonaria nenhum homem ferido, guerreiro.

— Ah, bom. Tem algo para essa dor? — perguntou enquanto a apertava contra sua fronte e levantou uma sobrancelha. Esse olhar era o que ela via em seus sonhos — É capaz de curar isso?

— Não acredito que haja uma cura definitiva para esta dor em particular. Talvez possa ser tratada, embora...não sei.

Brandubh riu com esse som profundo que conseguia sacudi-la.

— Espero que sim, senhora.

— Essa será uma boa razão para finalizar este assunto — Ele tocou os seus lábios em um beijo rápido e suave antes de acrescentar — Estou feliz por isso, senhora. Não quero perdê-la.

Soava tão parecido com uma declaração de amor, que ela ficou muda.

 

Depois do almoço, Eibhlin fez um inventário dos remédios que Oona havia deixado. Sua antecessora parecia ter sido uma química limpa e metódica. Cada recipiente estava bem fechado e muitos até estavam datados. Teve que jogar fora as infusões que estavam velhas, mas achou o quarto do curandeiro um lugar aceitável em que poderia se ocupar enquanto estivesse ali.

— Aqui está você — Sadbh colocou a cabeça no marco da porta antes de entrar — Você gosta disto?

— Sim, obrigado. Oona era uma mulher talentosa.

— Era verdadeiramente. Nós a perdemos — Sadbh olhou ao redor — Eu me pergunto se isto compara com o que você está acostumada.

— O que quer dizer?

Sadbh sacudiu a cabeça — Não estou certa. Escutei sua discussão com Brian a respeito do seu trabalho. Eibhlin, eu não sou uma mulher estúpida, na verdade sou bastante culta. Mas, achei o seu discurso difícil de seguir, pareceu-me que suas idéias eram mais adiantadas do que tudo o que foi pensado antes.

Eibhlin se assombrou com a capacidade de percepção da mulher.

— Estive pensando em você desde que Brandubh falou-me no verão passado. Sua aparição no Cragh foi tão... estranha — Ela se deteve como se precisasse ordenar os pensamentos — Admito, que no princípio, pensei que falava de uma mulher do mundo das fadas, uma mulher que não poderia satisfazer as necessidades de um homem de carne e osso — Sadbh sorriu — Estou aliviada, como vê, pois no final das contas, sei que não é uma fada.

Eibhlin sorriu com ela.

— O que pensa sobre mim agora?

O olhar frio de Eibhlin, por um momento dissuadiu Sadbh de continuas falando.

— Acredito que é tão mortal como eu. De onde é, já não é importante para mim, do mesmo modo que está conosco contra a sua vontade — Sadbh deteve-se, esquadrinhando-a com seus olhos azuis — Se comprovasse que é impossível voltar, você ficaria aqui?

Eibhlin riu amargamente

— Eu teria por acaso outra escolha?

— Quero dizer aqui, conosco. Com Brandubh.

— Milady, não tenho a menor idéia do que faria.

— Você cuidará de meu filho? — ela era direta e Eibhlin não tinha mais opção, pois teria que enfrentar os fatos e contar-lhe a verdade. Não queria mentir.

— Milady, eu o quero, mas eu não sei se isso inclui cuidar dele. Minha experiência com os homens não foi boa.

Sadbh sentou-se em um tamborete baixo.

— Conte-me.

Eibhlin ficou muda diante da idéia de oferecer essa informação tão intima.

—Querida, não pense que sou uma velha curiosa. Brandubh é meu único filho vivo e quero que seja feliz — levantou a sobrancelha castanha tão expressiva — E quero netos. E sim, sou direta, não há tempo na vida para outra coisa.

Brandubh era igual a ela, pensou Eibhlin. Bem por que não? Alguém já deveria ter pensado que ela era uma mulher divorciada.

— Bem. Não há muito para dizer realmente. Estive casada e meu marido foi infiel, então me divorciei.

Sadbh assentiu.

—E?

— Isso é tudo.

— Isso é tudo? Quando aconteceu isto?

"Há mil anos" era a resposta na ponta da língua de Eibhlin.

— Vai fazer um ano — disse dando uma resposta vaga.

— Um ano? Querida, está sem um homem por um ano inteiro? — Sadbh saltou de seu tamborete —perdeu o desejo de estar com um homem? Não, é obvio que não. No fim das contas, acabo de ver você com Brandubh no jardim. Por que o afasta de você?

— Acabo de encontrá-lo e…não o conheço o suficiente para ... nada.

— Eu não falava a respeito de "nada". Falava de casamento.

— Pensei nisso. Milady, não quero passar por isso outra vez.

— Se você se refere a ter outro marido errante, posso garantir que está equivocada… sempre que tiver o que necessita na sua cama, Brandubh não se afastará de você.

— Eu não quero que se afaste nem um pouco.

Sadbh riu.

— Escute-me, querida, todos enxergam os olhares de Dougal, mas sabem também onde ele passa a noite. Pelo o que vi nos olhos de Brandubh quando a olha, sei que ele será como o seu pai nesse aspecto.

— Esta foi a sua meta todo o tempo?

— Naturalmente. Desde o começo, disse que a queria para ele. Ele não estava ele quando retornou? Eu o estive observando e não levou nenhuma mulher para a sua cama desde a primeira vez que te viu.

Eibhlin não sabia se acreditava nisso.

— Tem o costume de vigiar suas companheiros de cama?

Sadbh encolheu os ombros.

— Claro que não, mas é tão parecido com seu pai, que posso dizer sem temor de me equivocar quando esteve sem uma mulher. Não há mulheres em Lon Dubh. Bem, exceto Ita, que se ocupa da casa e... bem, ninguém mais. Ele não tomaria nenhuma mulher em Lon Dubh — Sadbh sorriu —Brandubh não quer conflitos em sua casa e favorecer uma mulher sobre outra é uma receita certa para tê-los, como já aprendeu.

A última frase foi dita com uma risada e ela sacudiu a cabeça, a longa trança vermelha pendurada sobre suas costas.

— Não, ele viria para cá. Qualquer das mulheres daqui ficaria extasiada se pudesse dormir com ele e como nunca tratou de esconder suas preferências, muito safado, obrigou-me a mediar na luta entre duas mulheres.

— Suas preferências? — Agora Eibhlin sentia que sua sobrancelha se levantava diante destas notícias. Conviver com estas pessoas dava-lhe todos os tipos de novos maus hábitos.

— Amava seu marido? — perguntou Sadbh de improviso. Era muito simples. Por que não podia respondê-la? Porque não podia dizer simplesmente, sim? Porque realmente o amava, não? Não tinha o conhecimento verdadeiro.

— Lady Sadbh! — Uma das jovens criadas gritava no jardim — Lady Sadbh!

— Aqui estou, Marsali, deixa de berrar. O que aconteceu?

— Você e lady Eibhlin devem vir à porta principal rapidamente.

A garota correu antes que pudessem perguntar o motivo, deixando Eibhlin e Sadbh sem mais opção senão segui-la. Pelo menos Eibhlin salvou-se de responder a pergunta de Sadbh.

Quando rodearam a casa e chegaram ao pátio da frente, as duas perderam a direção ao deter-se. As vacas, mais do que Eibhlin já havia visto, rodeavam-nas e enchiam o pátio com seus sons graves, que se assemelhavam a um coral de queixas.

A surpresa as fez mover-se e atravessar o pátio, enquanto sacudiam o pó que enchia as fossas nasais com um aroma de curral.

— Ah, milady, é um prazer vê-la outra vez — A saudação veio de um homem ruivo e zambeta que se exibia para ela. Eibhlin começou a afastar-se para permitir que o homem saudasse Sadbh, pois era a senhora da casa. Entretanto, a saudação era para Eibhlin.

— Não recorda de mim, senhora?

Eibhlin olhou para o homem nos olhos.

— Não, sinto muito...

— Você salvou minha esposa de morrer asfixiada em Kincora — O nome e o rosto vieram a sua memória e ela sorriu com prazer.

— Padraig Mac Finn. Como está sua esposa?

   Padraig sorriu.

— Ela mastiga o seu alimento com mais cuidado.

   Eibhlin teve que rir.

— Alegra-me ouvi-lo.

— Onde colocaremos estes animais, milady?

— Que animais?

— Seu gado.

Sadbh abafou uma risada em suas costas.

— Meu gado? — Eibhlin repetiu de maneira estúpida —Eu não tenho nenhum gado.

— Agora o tem, milady. Cinqüenta de minhas melhores cabeças pela vida da minha Orla.

— Cinqüenta?

— Padraig — interrompeu Sadbh — Lady Eibhlin está muda de gratidão por este presente tão generoso e eu estou certa de que quando ela recuperar a sua capacidade de falar coerentemente, agradecerá apropriadamente. Por hora, ponha o gado no lado da casa que está a favor do vento.

Padraig inclinou-se e sorriu, pois aparentemente havia agradado a senhora e ela esta estava comovida. Sadbh pôs o braço ao redor de cintura de Eibhlin.

— Parabéns, querida, agora é uma mulher com posses.

Eibhlin enrugou o nariz diante do aroma que a "sua propriedade" deixava no pátio. Adubo para o seu jardim, que agradável.

— Sadbh? O que farei com cinqüenta cabeças de gado?

 

— Aqui, querida — Sadbh aproximou a pesada jarra de louça repleta de fragrante chá de camomila, preparado segundo as instruções de Eibhlin, que agradeceu enquanto o bebia. Necessitava de algo que a acalmasse e a camomila foi a primeira coisa que lhe ocorreu. Parte de seu problema era que ainda sentia saudades da cafeína e como o café seria desconhecido ali até aproximadamente 1650, tinha definitivamente que encontrar um substituto.

Quando se acalmou, notou que Sadbh tinha fechado as portas que davam para o solar e despachado as mulheres que costuravam neste quarto cômodo e bem iluminado. — Você está bem? — Sadbh sentou-se junto a Eibhlin na chaise longue que estava junto à janela — Certamente esperava que Padraig fizesse alguma coisa parecida.

— Não, não esperava.

— Você salvou a vida de Orla.

— Mas cinqüenta vacas! Sadbh, eu não sei nada a respeito de criar gado.

— Ora... O gado mantém-se sozinho. Há abundância de pasto e água aqui.

— Poderiam ficar com você e Dougal como pagamento por minha manutenção

Os olhos do Sadbh se alargaram de horror.

— Mãe do Céu, não!!. A hospitalidade não se paga.

Pontadas de desconcerto a percorreram. É obvio, Eibhlin sabia disso, só tinha esquecido em sua urgência por encontrar algo que fazer com essas malditas vacas.

— Desculpe-me, Sadbh, não quis ofendê-la.

Sadbh ltocou-lhe o joelho.

— É obvio que não, querida.

Apesar de sua própria frustração, Eibhlin sabia o que fazer mas podia notar a expressão concentrada de Sadbh.

— O que aconteceu?— perguntou.

— Hmmh? Oh, nada — Mas Sadbh não era boa dissimulando e não podia esconder sua inquietação — Serei honesta, estou preocupada, Eibhlin. Agora é uma mulher com uma propriedade e terá a oportunidade de escolher o que não teve antes.

— Propriedade? Cinqüenta vacas? — Eibhlin quase riu. Mas a aflição de Sadbh era verdadeira, assim tomou um gole de seu chá antes de perguntar — Cinqüenta vacas é uma valor grande?

— Sim, é uma quantidade respeitável de bens. Isto significa que seu preço como noiva subirá, é óbvio. E haverá mais dificuldade para preparar os documentos.

— Espere um minuto. Meu preço como noiva? Que preço de noiva?

— Oooh, fui desajeitada, não se zangue... explicarei isso. O brehons[24], são os juízes e não os sacerdotes, que realizam os casamentos na Irlanda. Naturalmente, também nos casamos diante do sacerdote mas... — Se sua pausa significava que esperava uma reação de Eibhlin, não a teria — Quando um homem quer casar-se com uma mulher, ele deve oferecer a sua família algo para compensar sua perda, geralmente gado — Sadbh continuou — Se sua família for pobre, oferece pouco gado. Se eles forem ricos, requererá mais gado. No seu primeiro casamento, o gado vai para o pai e é acrescentado ao rebanho da família. Se ela se voltar a casar, obtém uma parte do preço de noiva para si mesma. Quanto mais vezes uma mulher se casa, maior é a percentagem que obtém de seu preço de noiva. Tudo está especificado na lei.

Eibhlin se sentia confusa.

— Se for rica agora, por que afetaria vocês? Eu não seria uma noiva mais apropriada para um parente do Ard Ri?

— É verdade, e como está sob o amparo do Ard Ri, espera-se que muitos mais homens ofereçam-lhe agora o matrimônio, apesar do preço ser mais alto. Oferta e demanda. Que coisa maravilhosa.

— Então, Sadbh, você se casou e trouxe suas próprias vacas? — Eibhlin perguntou com um sorriso. Sadbh franziu o sobrecenho.

— Não estou certa, mas acredito que você está perguntando se eu me preocupo com o pagamento que Brandubh teria que fazer por você? — enquanto Eibhlin assentia, ela respondeu — É obvio que não, querida. A mim não importa quanto gado ele terá que oferecer, já que ficará na casa do Dal Cais. Mas agora é uma companheira potencialmente mais atrativa. Quando todos souberem que também é uma curandeira, o seu preço aumentará ainda mais. Os homens que não possam pagar seu preço podem decidir fazê-lo à moda tradicional — Eibhlin tinha os olhos muito abertos. Tudo isso não era a moda tradicional?

— O que significa isso?

— Alguém possivelmente pode seqüestrá-la e usá-la, e logo fazer qualquer oferta que estivesse a seu alcance. Se ele dormir cim você, é muito provável que a oferta seja aceita pelo Ard Ri e seria declarado casado pelo brehons.

—O que! Casamento por violação?

— Exatamente — Eibhlin pensou nas palavras de Brandubh no Cragh. Uma mulher podia negar qualquer oferta.

— Mas, Sadbh, eu ainda posso me negar a aceitar qualquer marido que o Ard Ri escolha. Não é assim?

Sadbh suspirou.

— Sim, querida. Entretanto, não é fácil para uma mulher que foi violada, encontrar outro homem disposto a tomá-la.

— Sou uma mulher divorciada. Isso não é suficientemente ruim? — Eibhlin surpreendeu-se com sua risada e Sadbh sacudiu a cabeça.

— Se o seu marido foi realmente adúltero, nossa lei permite que você se divorcie e tome de volta o que tinha contribuído para manter o preço de noiva. Da mesma maneira, será pressionada para aceitar uma oferta ainda mais baixa de um homem que já a possuiu.   Sadbh apoiou uma mão esbelta sobre a fronte — Sei que parece contraditório, mas é assim. É importante que você decida agora se aceitará Brandubh. Ele vai te oferecer casamento e ninguém será capaz de competir com a sua oferta.

— Por que você está tão segura?

— Porque eu e Dougal não permitiríamos. Nossa manada e toda a propriedade estarão disponíveis se Brandubh necessitar.

Como declaração, isso era bastante. Ter a aceitação de Sadbh como nora a adulava, mas essa mesma determinação e a atitude protetora que ela sentia para com seu filho, a ajudariam para retornar a sua casa?

— Ainda quero voltar para meu próprio lugar, Sadbh — A mulher mais velha assentiu.

— Entendo sinceramente como se sente, Eibhlin. Entretanto, deve considerar algo. Por que veio para cá? O que trouxe você aqui?

— Seu filho trouxe-me para cá!

— Ele fez isso?

Eibhlin desfez-se dessa idéia assim que surgiu em sua mente.

— Bom, não exatamente. Mas não estou aqui por minha própria vontade.

— Então não sei o que dizer. Ouvi alguns contos sobre aqueles que têm conhecimento das velhas tradições, que são capazes de fazer com que as mulheres venham se assim o quiserem. Mas não podem ser forçadas nem podem ser obrigadas. Eu nunca ouvi que uma mulher pudesse. Embora que se elas quiseram vir, não tinham porque voltar — Sadbh suspirou — No próximo solstício, eu levarei você a Craglea. Se desejar ir, prometo que terá a oportunidade.

— Estou muito agradecida, Sadbh.

— Pergunto se meu filho será tão generoso — Sadbh pareceu considerar algo por um momento antes de dizer:   —Bem, desculpe-me querida, mas tenho trabalho para fazer.

Eibhlin olhou Sadbh cruzar o quarto depressa para ir se ocupar de suas atividades e então perguntou-se como preencher sua própria tarde, invejando como a dama dirigia a casa.

Seria melhor trabalhar em algo — Eibhlin disse a si mesma — antes que ir tecer.

Deixou o cômodo e apareceu no grande salão. Ainda trdtsvsm algumas coisas para limpar no jardim e agora era um momento tão bom como outro qualquer. Passou na frente do assoalho onde o senhor e a senhora presidiam as refeições e se deteve.

— Ah — murmurou ajoelhando-se no canto da plataforma onde descansava a harpa de um poeta.

A harpa era feita a mão de madeira de sorva, de cor negra ligeiramente brilhante, muito parecida com a sua.

Com dedos trêmulos, acariciou as cordas de latão. O tom como de um sino, fez com que a percorresse um estremecimento de prazer. Olhando ao redor, viu que estava sozinha no salão e se sentou ao lado do harpa. Fechando os olhos como sua mãe tinha ensinado, apoiou os dedos nas cordas, procurando as canções que viviam dentro delas, e com apenas as pontas das unhas, começou a tocar.

— Oh, que encantadora — Os olhos de Eibhlin se abriram de repente para ouvir a voz de uma jovem. Sentindo-se culpada apoiou a harpa e se afastou dela.

— Por favor, não pare. Será agradável escutar essa música tão bonita enquanto trabalho — Uma garota de aspecto simples avançou para a mesa principal no chão e enxugou a superfície lisa da mesa com movimentos longos e eficientes. Sem perder o ritmo, virou seu rosto para Eibhlin e disse: — Meu nome é Cera, senhora.

— Não devia tê-la tocado — Eibhlin levantou-se e tentou sair.

— Tolice. Teague, deixa sua harpa aqui para que qualquer um a toque. Diz que encontrou muitos bons músicos dessa maneira. Vai querer ouvi-la.

Eibhlin afastou-se da harpa, evitando a tentação de tocá-la outra vez e pensou em sair do salão e chegar a seu ervanário, mas Cera falou outra vez enquanto deixava cair o trapo com o qual trabalhava em uma cesta e recolhia um ancinho.

— É verdade, senhora, que se casará com Brandubh?

— Ah, bem...

— Ele a beijou? — o rosto de Cera se acendeu com esperança — Ele tem uma boca linda. Bem, isso foi antes que Uaid o golpeasse.

— Quem? — Cera explicou-lhe enquanto varria os velhos juncos que cobriam o piso do assoalho, formando um monte de lado — Uaid. Sua irmã é a que se matou por causa de Brandubh. Todos sabiam que ele nunca a havia amado. Eu não sei por que ela não procurou outro homem. Certamente teria encontrado.

— Ela se matou ? — perguntou Eibhlin .

— Isso é mentira, Cera — Eibhlin ficou tensa com o som da voz de Moira. Cera não se intimidou, e prosseguiu varrendo

— Não, não é, Moira. Sua irmã era uma malcriada e acreditava que poderia ter tudo o que quisesse, inclusive Brandubh — As palavras de Cera eram muito duras.

— Cera... — Eibhlin começou a dizer mas então fez a conexão mental. A irmã da Moira se matou por Brandubh. As palavras de Moira quando chegou a Ath Sionnain ressoaram em sua mente. “Esta é a puta que roubou Brandubh?” Moira não era ciumenta, ela estava zangada, odiava Eibhlin por causa da morte de sua irmã.

Brandubh foi golpeado por seu irmão e dois de seus amigos — Seu pai sabe a respeito disso, Moira?

— Meu irmão fez o que devia pela memória de Caoimhe. Se não fosse por causa dela, Brandubh teria honrado sua oferta.

Eibhlin sentia que as palavras martelavam em sua cabeça. Sua oferta. Ele fez uma oferta pela irmã de Moira.

— Phfft — Cera inclinou-se sobre o ancinho de madeira que tinha utilizado para varrer — Você era minha amiga, e poderia ainda ser, mas até que deixe de lado essa cólera que tem para com Brandubh, não quero falar contigo, Moira ni Conor.

Eibhlin tinha mantido seus olhos longe de Moira até que Cera a chamou pelo nome.

— Moira ni Conor?— Eibhlin repetiu o nome.

— Sim. O que aconteceu? — Os olhos de Moira cintilavam como uma chama através de um vidro. Sua mãe tinha explicado que a porção ni Conor de seu nome profissional como um tributo a seus antepassados irlandeses. Eibhlin pensou se esta Moira poderia ser uma de suas antepassadas Poderia ser esta a explicação para o enorme sentimento de familiaridade? Pensar se isso era verdade não lhe causou prazer. Moira claramente a desprezava.

— Sinto muito — murmurou Eibhlin, fugindo do salão.

Moira a olhou fugir, perguntando-se por que sentia algo pela mulher que havia arruinado os palnos de sua irmã para ter uma vida feliz. Por que esse sentimento de reconhecimento?

Apesar do olhar impertinente de Cera, Moira deixou o grande salão embora fosse certo supor que devia ajudar Cera a trocar os juncos do chão. Lady Sadbh a castigaria, mas não se atrevia a permanecer ali. A oferta de amizade de Cera renovou a sua fraca resolução de vingar-se de Brandubh e de sua mulher.

Deu um passo para fora no pátio e permitiu que seus pés a levassem onde quisessem. Quando Brandubh admitiu a culpa que sentia pela morte de Caoimhe, a cólera de Moira esfriou. Era duro acrescentar mais miséria sobre a miséria. Talvez parte do seu problema era que ela se sentia culpada também. Não tinha sido capaz de falar com Caoimhe para convencê-la de que era um capricho, mesmo quando soube que Brandubh tinha demonstrado falta de interesse no noivado. Ao ver as lágrimas de Caoimhe, Moira abraçou a sua irmã e assegurou-lhe que tudo iria dar certo.

Ela deveria ter mostrado como as coisas eram exatamente. Quando a verdade precisa ser dita, nem sempre existe uma forma de enfeitá-la.

É obvio, Caoimhe não teria escutado, mas Moira podia ver que Brandubh não tinha intenções reais de fazer uma oferta.

Quando o tempo passou, e os cuidados de Brandubh se dirigiam para outras mulheres, só uma louca doente de amor poderia agüentar. De fato, Brandubh tinha ficado inquieto durante semanas antes de ir a Kincora e apenas tinha falado com Caoimhe enquanto passava o verão.

Ele tinha encontrado uma mulher na Craglea. A fofoca tinha corrido por Ath Sionnain minutos depois de sua chegada. Uma mulher tinha sido enviada para ele. Caoimhe não poderia competir com isso.

Moira fechou seus olhos e apoiou suas mãos sobre as têmporas. Isso fazia doer a cabeça. Se a velha Oona ainda fosse viva, iria colocar algo para apaziguar a dor.

Seus pés pararam. O que aconteceria se ela realmente...

A mulher tinha medo dela. Moira tinha visto em seus olhos. Embora não soubesse de onde vinha o temor, talvez fosse suficiente para a mulher fugir. Como se fosse uma briga, mas sem que ninguém saísse ferido.

Privá-la de seu amante, como Caoimhe tinha sido privada. Pensando nisto, dirigiu-se para o ervanário.

 

A pancada na porta tirou Eibhlin de sua concentração.

— Entre — a última pessoa que ela esperava que a procurasse atravessou a porta.

— Lady Eibhlin, posso falar com você?

— Sim, Moira, é claro — respondeu Eibhlin com voz áspera. A garota entrou e parou no canto mais afastado da mesa gasta que ocupava o aposento — O que posso fazer por você, Moira?

— Primeiro, quero pedir perdão pela maneira como falei com você. O que ocorreu antes de sua chegada não é de sua responsabilidade.

Não era? perguntou-se Eibhlin, talvez ele não tivesse desdenhado essa pobre garota, agora morta, se... encolheu os ombros.

— Não há nada que perdoar — disse.

   Os lábios da Moira se estiraram formando uma linha fina enquanto agradecia com um gesto de cabeça.

— E gostaria de perguntar se você permitiria que a ajude.

— Por que? — perguntou Eibhlin, ficando em guarda, achando estranho que a garota, cuja antipatia tinha sido mais do que óbvia, de repente implorasse sua confiança.

   Moira suspirou.

— Entendo que suspeite de meus motivos, mas ouvi que você logo irá embora. Precisamos de uma curandeira e eu tenho interesse. Não posso dizer que tenha talento, mas talvez possa aprender a ajudar pelo menos em algo — Moira inclinou a cabeça, o rosto doce como o de um anjo parecia não ter nenhum motivo escondido —É verdade que irá embora?

— Meus planos são assuntos meus.

— É claro. Entretanto, não deveria ensinar a alguém o seu ofício? — Moira deteve-se e acrescentou

— desejo aprender algo útil.

— Isso é tudo?

— O que mais pode haver?

Realmente, que mais?

Bem, Sadbh tinha pedido que ensinasse a respeito das plantas medicinais. Tecnicamente fazia parte do seu trato e realmente não havia uma boa razão para se negar a fazê-lo.

— Bom, Moira. Pode começar agora — Eibhlin lançou-lhe um ramo de segurelha — Corta isto para preparar um chá.

E foi assim que a educação de Moira começou.

 

— Por todos os diabos! — Dougal apeou do cavalo e atravessou o curral onde o gado de Eibhlin tinha sido alojado.

— Olá, marido — Sadbh chamou-o enquanto saía da casa —Teve sorte no que fez?

— Sim — respondeu Dougal — Sadbh, de onde saíram estas vacas?

— São de Eibhlin. Diga-me se encontrou as cabeças que nos roubaram?

— Eibhlin? Como ela arranjou este gado? — Sadbh franziu o cenho.

— Dougal, vai me dizer algo a respeito do nosso gado?

Ele colocou os punhos sobre os quadris e avançou para ela.

— Não até que me diga de onde nossa hóspede conseguiu cerca de quarenta cabeças!!!

— Cinqüenta. Padraig trouxe-as para Eibhlin faz vários dias, como pagamento por salvar a vida de Orla.

Como se essa fosse toda a informação que Dougal presisava, Sadbh levantou uma sobrancelha esperando obter algumas respostas dele. Dougal decidiu que seria melhor responder.

— Encontramos parte do gado perto de Clonmacnois. Brandubh está trazendo-o.

— Conchobar e Deirdre?

Dougal sacudiu a cabeça.

— Perdemos os rastros a leste do monastério. Brandubh sairá novamente para buscá-los quando tiver os cavalos descansados — Dougal inclinou-se contra o cercado que encerrava o gado —Nossa dama é uma mulher rica, agora, hein? Isto a fará mais valiosa. Três cabeças não serão suficientes.

Sadbh envolveu seus braços ao redor da cintura de seu marido.

— Agora, marido, se não me beijar, vou te convidar a encontrar um outro lugar para dormir esta noite — Dougal tomou sua esposa em seus braços e apertou-a contra ele.

— Ha, ha, ha! Você iria me procurar antes que a lua subisse completamente. Ainda te faço rir esposa — baixou a cabeça e tomou a boca de sua mulher com uma paixão que os anos só tinham fortalecido.

 

Cavalgando atrás das cabeças de gado, Brandubh sorriu ante o espetáculo que seus pais davam no pátio. Pelos ossos de Patrick, tinham sido apenas quatro dias de separação, mas para Dougal pareciam ter sido meses no mar, a julgar pela recepção que sua esposa lhe dava.

“ Eu mesmo poderia ter tal recepção ”, pensou Brandubh que nunca havia sentido a falta de uma esposa como agora. Sentia saudades de Eibhlin, como se ela realmente lhe pertencesse.

— Ah, Dougal, vejo que encontraste a maioria do que tinha perdido. Vem aqui! — gritou a uma novilha rebelde, enquanto açoitava o lombo do animal com o chicote.

Dougal se separou dos lábios de Sadbh.

— Na verdade, moço, é sua mãe quem não podia conter seu desejo por meus beijos.

— Que homem tão vaidoso. Irei vê-lo mais tarde — Sadbh empurrou-o para longe dela com um sorriso e voltou-se para seu filho — Perdão, Brandubh, não encontraste teus cavalos.

— Não perdi a esperança ainda, mãe. Conchobar tem uma pegada especial e acredito que o encontrarei facilmente quando houver mais luz. Enquanto não chover ... — inclinou-se para empurrar para baixo a porta e prender as últimas cabeças de gado que tinha acrescentado ao curral — De quem são estes animais? Não reconheço as marcas.

— São de Eibhlin — disse Sadbh e explicou a razão de sua presença ali.

— Cinqüenta? Por que tantos?

A fronte de Sadbh enrugou-se e sua voz era apertada.

— Talvez Padraig valorize a vida de sua esposa — e virou-se levantando um redemoinho de poeira ao redor de seus tornozelos, enquanto se dirigia para a casa.

Brandubh estava muito perplexo para questionar sua reação. Olhou para seu pai, inclinado contra uma coluna do cercado, cuja expressão de diversão era patente. Brandubh sorriu.

— Disse algo errado?

— Espero que você seja um orador mais cortês quando encontrar lady Eibhlin. Haverá muitos galanteadores interessados quando sua popularidade se espalhar. Uma curandeira com um rebanho próprio e nenhuma família para compartilhar? Ah, um verdadeiro prêmio.

— O Ard Ri terá muitas ofertas para considerar, não? — Brandubh voltou-se para encarar seu pai. Sua próxima pergunta foi extremamente séria — Tenho o seu apoio na oferta por esta mulher, pai? Embora não tenha nenhuma família nem fortuna?

Dougal agitou uma mão para o gado e sorriu.

— Bem... — Dougal encolheu os ombros em um gesto muito italiano — O que eu tinha quando reivindiquei por sua mãe? Nada, salvo as mãos para trabalhar por ela e um coração para lhe dar. Quem sou eu para te dizer que não faça uma oferta pela mulher que deseja? Seu tio Brian aceitará sua oferta sobre qualquer outra, mas — e sei que não preciso dizer — não vai querer envergonhar sua mulher deixando de apreciá-la suficientemente.

Brandubh assentiu.

— É certo, pai. Ofereceria tudo o que possuo, se ela me aceitasse por marido.

— Isso eu pensei. Vamos jantar e vejamos em que estado estão as coisas hoje. Se estiverem como quando partimos, a conquista será fácil para você. Talvez possamos concluir este assunto antes que muitos desses jovens cheguem a ouvir do talento, da beleza e da riqueza de nossa dama e você já esteja dormindo com Eibhlin antes que eles possam anular o namoro.

Dougal deu uma palmadinha no ombro de Brandubh enquanto entravam na casa para jantar juntos.

A mente de Brandubh refletiu nas palavras de seu pai. “Dormir com Eibhlin”. Ele fez uma oração para que assim fosse. Mas já era tarde. O salão de Dougal estava completamente cheio com a flor e a nata da virilidade irlandesa.

Brandubh contou vinte homens casados, que ao serem apresentados a Eibhlin, evidenciavam em seus olhos a mesma luxúria daqueles mais jovens e solteiros. E ela parecia desfrutar dessa embaraçosa atenção.

Ela sorria ampliamente, mostrando os dentes brancos como pérolas perfeitas. Os lábios doces e rosados tocaram seu cálice como faria com a boca de um amante, e quando ela baixou o copo, uma brilhante gota de vinho deslizou para baixo. A língua de Brandubh apareceu como se fosse lamber as gotas em sua pele.

Basta, pensou enquanto empurrava os convidados para longe da borda da mesa onde se inclinou para olhar seus flertes. Dando cotoveladas na enorme maré de pretendentes, parou diante dela.

— Milady, é tempo de ir jantar. Permitirá acompanhá-la? — Brandubh ofereceu-lhe o braço e ela o aceitou com um sorriso brilhante.

— Lorde Brandubh, ouvi que havia voltado. Sinto muito que não tenha encontrado seus cavalos perdidos.

Brandubh deixou cair o braço, justo em cima da cabeça de um velho libertino que se inclinava perto de seus seios, procurando ganhar sua atenção.

— Obrigado, milady. Vou encontrá-los logo.

— Sua mãe disse que vai estar preparado para partir assim que tiver reabastecido e conseguir montarias descansadas — Seus olhos cintilaram ao ver um admirador que avançava furtivamente e adiantou seu passo para longe da sanguessuga. Brandubh sorriu e empurrou um jovem para fora de seu caminho, aproximando-se dela.

— Não tinha pensado sair outra vez tão rapidamente, milady.

Dougal, passava por ali e deteve seus passos.

— Não disse isso antes, pai? — perguntou Brandubh, esperando que Dougal não estivesse em um de seus dias de humor complicado.

— Och, aye, ele disse senhora. Sua primeira intenção foi procurar por sua companhia —respondeu Dougal com uma reverência a Eibhlin antes de ir a seu lugar à frente do salão.

— Isso é certo? — Eibhlin estreitou os olhos cética. Brandubh voltou-se para Eibhlin.

— Vamos milady? Oh, minhas desculpas, Fergus — disse ao moço franzino que procurava interpor-se entre ele e Eibhlin.

— Mas, lorde Brandubh, a dama aceitou minha companhia para o jantar —Brandubh girou o seu corpo inteiro para intimidar o diminuto Fergus.

— Verdade?

— Sim — Fergus falou com desagradável e tossiu para clarear a garganta — a dama e eu compartilhamos o jantar durante várias noites e descobrimos que somos muito compatíveis.

O rosto de Eibhlin demonstrava sua incredulidade.

— Você está confundido, Fergus. Estive aqui primeiro que você, e ela virá comigo — gritou uma voz detrás deles.

— Não, comigo — declarou outro.

De repente, uma cacofonia de pedidos, demandas e reclamações apareceram ao redor deles.   Eibhlin levantou a cabeça para olhar para Brandubh, claramente insegura quanto a maneira de proceder.

Olhava para ele, pensou com uma onda de satisfação e orgulho masculinos, enquanto oferecia-lhe o braço outra vez.

— Minha mãe nos aguarda. Permite-me?

Sem mais vacilar, colocou os dedos sobre o antebraço de Brandubh e lhe permitiu que a acompanhasse.

Era uma pequena vitória. Brandubh deu-se conta de que ele sabia coisas a respeito dela, que estes outros que procuravam sua companhia desconheciam — principalmente que ela não pensava em ficar.

Era tempo de convencê-la de quão feliz estava em encontrá-la ali.

— Está especialmente encantadora esta noite, Eibhlin — sussurrou-lhe com os lábios próximos ao seu ouvido, quando um ligeiro rubor cobriu as suas bochechas e ela sentiu muito prazer.

— Você é muito amável, lorde Brandubh.

Sua voz foi ligeiramente formal, mas ele detectou como se curvaram os cantos de sua boca. A moça brincava com ele.

— Não há nenhuma outra dama que queira acompanhá-lo para jantar hoje? Estou certa que poderia encontrar alguma substituta para minha pobre companhia.

Seus olhos cintilaram ao ver a multidão de tolos com olhos de carneiro que se interpunham obstinados diante de seus passos. Brandubh quase parou sua caminhada para gritar à multidão.

— Vê alguma outra dama por aqui esta noite? Eu não vejo mais que uma.

Ela sorriu.

— Que palavras mais bonitas.

Sim, eram, mas ela devia aceitar que vinham do seu coração, que ela era a única mulher que ele via. Era bonita, alta, cheia de corpo e com uns olhos que eram uma demonstração encantadora de uma tempestade azul e cinza. E como esses olhos poderiam cintilar!

Quando seu próprio corpo começou a amornar pela proximidade, ele duvidou que só cinqüenta cabeças de gado tivessem causado tal frenesi ao redor de Eibhlin.

Muito consciente dele, Eibhlin tratou de comer sem permitir-se mostrar-lhe como a afetava.   Paquerar era uma coisa, mas permitir que suas emoções aflorassem era não só insensato, mas também perigoso.

— Maçã, milady?

Brandubh cortou eficientemente a fruta em pedaços e ofereceu-lhe uma fatia. Eibhlin abriu a boca para aceitar antes de dar-se conta de quão íntimo era esse gesto. Os lábios roçaram as pontas dos dedos, trazendo um sorriso sedutor aos lábios dele.

Que demônios…? pensou. Alguma vez teria um homem que a amasse assim? Seria tão mau se ela...

Tomando uma porção da fruta de sua mão, ela reteve os dedos com seus lábios, permitindo-lhe voltar a acariciá-la. Dougal reprimiu uma risinho sob uma tosse e bateu palmas.

— Vamos ter alguma diversão. Teague!

Um aplauso acompanhou o chamado do poeta. Teague, um homem idoso que levava em sua roupa as seis cores permitidas para sua posição social, foi sentar-se junto à harpa que Eibhlin havia tocado mais cedo e, assim como a haviam ensinado, fechou seus olhos antes de colocar as mãos nas cordas.

Brandubh encheu o cálice que eles tinham compartilhado durante o jantar e o ofereceu a ela, que o tirou de sua mão e bebeu o bom vinho italiano. A cabeça começou a girar e recostou-se contra o largo ombro do Brandubh, fechando seus olhos. Ele descansou a bochecha contra o seu cabelo e suspirou.

Eibhlin não pôde conter o sorriso que surgiu em seu rosto. Como era fácil ficar assim, pensou, escutando Teague tocar uma música celestial em sua harpa, quão fácil era permanecer ali com Brandubh, como era fácil apaixonar-se por ele, que fácil seria tê-lo em sua cama cada noite.   Brandubh rodeou-a com seu braço e tomou sua mão.

Teague começou sua canção, uma velha história que ela sabia bem. Eibhlin reclinou-se contra o ombro sólido de Brandubh, apenas escutando Teague com sua voz de tenor.

“O justo Midir, marido de Etain, a quem realmente amava.

Mas o malvado Fuamnach, que foi o primeiro amor de Etain.

Uma feiticeira lançou um conjuro para que Etain fosse sua amante.

Trocando sua aparência com a de uma mariposa, Etain voou para longe.

Midir agarrou-a e durante as noites, gozou de seu amor

Até que Fuamnach com um vento fez com que a mariposa caísse em um rio

onde um grande peixe... devorou-a”

 

Brandubh esfregava suavemente a parte posterior da mão de Eibhlin com o polegar em um gesto familiar, doce.

Eu o desejo, pensou Eibhlin. Terei-o uma vez antes de ir. Uma riso silencioso a sacudiu. Bom, talvez, mais de uma vez. Então Brandubh começou a mover-se por detrás dela e ao dar a volta, viu que ele a olhava com essa sobrancelha levantada que ela amava tanto.

— Está achando divertido, milady?

Eibhlin teve que sorrir.

— Sim, meu lorde — respondeu apertando-lhe os dedos e reclinando-se contra ele outra vez, enquanto voltava sua atenção paraTeague que tinha chegado a uma parte muito interessante da história.

 

“Eochy, rei de Tara, derrotou Etain e casou-se com ela.

Em seu orgulho, Eochy permitiu que um estrangeiro preparasse uma armadilha. O estrangeiro era melhor no xadrez e exigiu um beijo como prêmio da formosa Etain.

Uma vez apanhada em seus braços, ela abriu os olhos e viu seu verdadeiro amor. E abraçados elevaram-se no ar e voltaram para sua terra.

Eochy desgraçado, ficou com a cama vazia.”

 

As risada e os aplausos saudaram o final da história.

— Bem cantado.

— Aye.

— Bravo — Esse era Dougal, é obvio.

Teague apenas inclinou sua cabeça aceitando as felicitações como bom bardo que era, Eibhlin sorriu com o prazer refletido em seu rosto, enquanto se perguntava se estaria tão tranqüilo como aparentava. Seu pai suava em cada apresentação, enquanto que sua mãe... Apanhada em suas lembranças, seus olhos percorreram a multidão e finalmente encontraram o rosto desaprovador de Moira ni Conor.

Nem sequer o vinho podia dissimular a frieza e o mau humor que transparecia.

— O que aconteceu?— perguntou ele assim que notou que Eibhlin tinha os ombros tensos e havia afastado os dedos dos dele.

— Nada — respondeu rapidamente — Acredito que tomei muito vinho e estou um pouco enjoada. Possivelmente devo me retirar. Boa noite, lorde Dougal, lady Sadbh.

 

Subiu a escada de pedra, sabendo o que a tinha conduzido para os braços de Brandubh. Culpa, pura e simples, saber que Brandubh tinha deixado plantada a irmã de Moira, por ela. Contudo, também sabia que se ele viesse a ela esta noite, não iria rechaçá-lo.

Durante o jantar, três homens tinham perguntado pela mulher curandeira e que também possuía um rebanho. Dougal os tinha ouvido e logo despedido, dando uma olhada em Eibhlin e Brandubh e tentando ocultar sua diversão.

Quando acabou o jantar, chamou Brandubh e convidou-o a dar uma caminhada, abandonando toda pretensão de parecer sério. De fato, estava perto de chorar de rir.

— Pelos dentes de Deus, Brandubh. Não sabia que havia tais espécimes vivendo entre nossos vizinhos. Esse Fergus veio sozinho com um amigo de sua confiança — acrescentou Dougal piscando os olhos —Talvez seja bom, mas só ofereceu um quadro por ela.

— Pai, não desejo saber nada de sua sórdida imaginação.

Dougal achava hilariante a situação, mas o humor não fazia com que Brandubh se sentisse melhor.   Ele se perguntava, e não pela primeira vez, se todos os italianos tinham um senso de humor tão estranho como Dougal.

— Mãe de Deus!!! — amaldiçoou enquanto golpeava com o pé uma pilha de excrementos deixada pelos animais no pátio. Os chiados da risada de Dougal o incitavam a cometer parricídio.

— Agora, filho — ofegou Dougal limpando os olhos com o dorso de sua mão— Você percebe que não pode oferecer apenas três vacas. Se a quantidade de ofertas que irão chegar gerarem uma disputa, poderá estar em apuros. Um dos homens de Dallas, chegou até aqui logo que a história tornou-se conhecida. Dallas acaba de perder sua esposa e já está procurando outra. É obvio, que seu método favorito de cortejo, é o rapto.

— Eu o mato se tentar, Dougal.

— Mesmo assim — Dougal tentou deixar de chateá-lo — desculpe-me filho. Sei que o meu humor parece inadequado às vezes. Vem, sente-se — indicou-lhe um banco baixo de madeira que estava junto à parede do estábulo.

Brandubh sentou-se conforme foi ordenado, embora ele tivesse escolhido outro lugar. O aroma do gado assaltou seu nariz. O gado dela.

— Isto é o que deve fazer, Brandubh. Deve certificar-se de que ela escolha você. Brian não a casará com um homem que ela não deseje, a não ser que esse homem oferte mil cabeças. Se ela disser que deseja você, Brian dará isso.

O rangido de passos alertou-os da aproximação de um dos pretendentes de Eibhlin (o bom e fracote Fergus).

— Minhas desculpas milord Dougal — Dougal estava parado e ficou frente a frente a homem jovem — sou Fergus Mac Arlyn e queria falar com você a respeito da dama que está sob seu amparo.

Brandubh levantou-se de seu assento

— Eu já falei por ela — e deu a volta para olhar a Dougal — O Ard Ri sabe das minhas intenções. Ele pode me pedir que ofereça quantas cabeças quiser — Dougal sorriu satisfeito.

— Acredito que está sendo precipitado, Brandubh. Lorde Fergus, aceite por favor minhas desculpas em nome de meu filho. A encantadora dama o impactou fortemente e já tinha feito sua oferta por ela. Se o Ard Ri não resolver...

—Pai — a advertência serviu somente para que Dougal começasse a rir outra vez enquanto continuava.

— … enviarei uma mensagem a você e a seu pai.

Fergus lançou um olhar para Brandubh e retirou-se precipitadamente.

Enquanto olhava, Brandubh disse — ofereço cinqüenta cabeças de gado, pai. Fará a oferta por mim?

— Aye, filho, farei — Dougal apertou o ombro de Brandubh — Quero ir para a cama agora. Sua dama inventou uma saborosa bebida quente para a manhã e pedi que a compartilhe comigo. Apresentarei sua oferta quando ela estiver de bom humor.

Brandubh assentiu com a cabeça e olhou como seu pai se retirava para seu dormitório. Fazendo o mesmo, Brandubh perguntou-se a si mesmo se uma versão mais suavizada da estratégia de Dallas para conseguir uma esposa não seria uma boa opção.

 

Eibhlin acomodou-se sobre o seu lado esquerdo e dois minutos depois sobre a sua direita. Des-cansar pouco não era novidade para ela, especialmente desde que tinha conhecido Brandubh.

A noite já não lhe trazia descanso, somente o aviso de sua solidão. Uma parte dela esperava fervorosamente que ele viesse reclamá-la, rogando que ele não fizesse caso de sua evidente rejeição durante o jantar. O outro restante dela, que era bastante sensível, queria que ele permanecesse longe. Melhor seria não mais se envolver com ele, para evitar a dor em seu coração quando tivesse que deixá-lo. Uma pancada suave em sua porta chamou sua atenção.

— Sim? — respondeu.

A porta abriu-se dando passagem a Brandubh, que a fechou e cruzou o quarto, detendo-se diante da lareira.

— Que faz aqui, Brandubh? — Ela já sabia a resposta.

Brandubh soltou o broche que sustentava a sua capa sobre o ombro, deixando cair a longa vestimenta no chão. O ritmo de seu coração acelerou enquanto ele afrouxava o cinto e deixava cair o seu casaco junto à capa.

— Dirá que eu vá embora, senhora?— Eibhlin não precisava pensar a respeito.

—Não —estava tão segura disto como de qualquer coisa em sua vida anterior — Quero que fique.

Ele sorriu e sentou-se na cadeira diante da lareira enquanto desatava as perneiras.

— Por que? — ele perguntou, olhando os cordões.

Ela olhou como seus longos dedos que se moviam lentamente sobre os laços…e os desejou nela.

Desfazendo-se das mantas, Eibhlin saiu da cama vestindo somente uma magra camisola de linho. Brandubh a olhou, registrando cada detalhe de seu corpo. Ela podia ver em seus olhos o desejo que o havia impulsionado a vir esta noite. Ela não demonstrou a verdade, reconhecendo que o desejava tanto como ele a ela.

Atravessando o quarto ajoelhou-se diante dele e começou a desatar-lhe as perneiras da outra perna.

— Porque é o homem mais bonito que já vi e porque desejo você.

— Não há outra razão? — Sua voz, normalmente profunda e poderosa, agora ficou mais ainda, como se esta pergunta fosse muito séria. — É apenas a luxúria do corpo que quer satisfazer?

Ela sustentou o seu duro olhar.

— Não pode ser nada mais do que isso, Brandubh. Sabe que não posso ficar.

— Tentarei persuadi-la de todas as formas.

Sua forma de persuasão seria devastadora para a sua decisão. Mas era o que ela desejava.

— Isso é muito — disse de pé, aceitando seu desafio.

Brandubh tomou-a nos braços e puxou-a para sentá-la a cavalo em seu colo. Seu rosto brilhou intensamente refletindo a luz do fogo como ouro polido. Seus olhos, negros e quentes, percorreram seu rosto enquanto suas mãos moviam-se constantes e hipnóticas sobre a pele nua de seus braços.

— Farei de você minha esposa, Eibhlin. Darei a você meus filhos.

Seu coração saltou com essa promessa, os filhos seriam importantes para este homem. Haveria muitas crianças. Brandubh roçou com seus lábios as pontas de seus seios, cobertas de linho, já completamente úmidas por suas carícias. Seus mamilos se endureceram sob a carícia. Separando as mãos contra suas costas, apertou-a contra seu corpo e tomou um bico sensível com a boca, roçando o mamilo com sua língua através do linho fino. Ondas de prazer percorriam-na por inteiro. Ela envolveu as mãos ao redor de seu pescoço e oscilou involuntariamente contra ele, arqueando-se para trás, oferecendo-se mais.

— Você é uma mulher doce.

Ele beliscou um bico rígido e depois deu igual atenção ao outro. Suas grandes mãos cobriram facilmente suas nádegas, espremendo e massageando, sustentando-a perto dele, de modo que com seus movimentos ela pudesse abraçá-lo melhor.

Ele era duro e enorme contra sua carne suave. Eibhlin sentia a resposta líquida de seu corpo, que se preparava para recebê-lo.

Ela passou os dedos através dos filamentos de seda e ébano de seu cabelo, esfregando ligeiramente a branca cicatriz. Ela pressionou seus lábios contra a sua cabeça enquanto que os lábios de Brandubh procuravam mais de sua carne.

Seus dedos, subiram a partir dos seus joelhos, percorrendo-lhe as coxas e levantando sua camisola até a cintura. Erguendo-se, Brandubh desfez-se da sua roupa com uma só uma mão.

Eibhlin sentia as investidas em sua carne intumescida contra seu ventre. Brandubh apoiou as mãos em suas bochechas e atraiu sua boca para a dele, cortando-lhe a respiração com um beijo possessivo e cheio de desejo. Sua língua tomava e exigia impulsivamente.

Sentia-se quase enjoada pela falta de ar, mas mesmo assim não podia separar-se e inclusive gemeu uma queixa quando ele rompeu o contato dos lábios, apenas para retirar a camisola por cima de sua cabeça e voltar a tomar sua boca outra vez.

Apesar da lareira crepitar atrás dela, Eibhlin sentiu um calafrio pela repentina nudez, mas graças às mãos que a acariciavam e a esfregavam suavemente de cima para baixo, nos lados, nas costas, nas coxas… logo ficou muito quente para notar a temperatura do quarto.

Os lábios de Brandubh marcaram seu território desejado com beijos molhados … boca, nariz, olhos, ouvidos, bochechas. Plantou cuidadosamente seu selo em cada parte que sua boca pôde alcançar. E onde foi incapaz de chegar sua boca, fez com suas mãos.

Eibhlin poderia sentir a pulsação que latejava na carne dura que se pressionava contra ela. Dese-java tomá-lo dentro dela. Esticando-se para cima, tentou erguer-se e...

— Ainda não, milady.

Sua boca voltou para a sua envolvendo-a em seus longos braços, apertando-a contra seu corpo, recordando-lhe que ele ainda estava vestido.

— Tira — ela sussurrou contra seus lábios.

— Não — respondeu ele, seus braços apertando-a ainda mais.

— Joga fora — repetiu isso, rasgando com uma impotência furiosa as suas roupas.

— Oh!!! — ele riu entre os dentes — Realmente quer que eu tire isso milady — Brandubh começou a lutar com suas roupas — Maldição, estou sentado sobre minha roupa — levantou-se, sustentando-a com um braço.

— Oh!! — Eibhlin passou as pernas ao redor de sua cintura. Percebendo o gesto descontraído de Brandubh, passou-lhe as mãos por debaixo das axilas, provando os duros músculos que a sus-tentavam. Com um sorriso de satisfação, Brandubh ajoelhou-se, depositando-a cuidadosamente sobre a sua capa que estava estendida no chão diante do fogo.

Um perfume de lavanda, anis e coentro, emergiram dela, alagando-o.

Dentro do ninho formado pela capa percebia o cheiro de Brandubh, uma mistura de couro, cavalos, fumaça e homem. Seus pulmões desejaram mais e ela o inalou.

Ajoelhando-se diante dela, ele levantou sua roupa e passou-a por sua cabeça… Eibhlin esqueceu-se de respirar. Ele era realmente lindo. Um músculo perfeitamente definido, esticou-se através do do maior peito que ela já tinha visto, coberto por uma pele bronzeada pelo sol. Seu cabelo comprido e negro, caiu sobre seus ombros e provocou-lhe cócegas no nariz enquanto que ele, cobria-a com esse corpo perfeito. E era tão quente. Se pudesse tomá-lo dentro de si, nunca voltaria a sentir frio outra vez.

Abriu-se para ele, facilitando o acesso a qualquer parte que ele desejasse. E ele desejava tudo. Sua boca se saciou em seus seios para depois abandoná-los e viajar por seu ventre, inundando sua língua no umbigo, o que lhe provocou uma risada.

— Para com isso! — disse-lhe. Ele não sabia se ela falava a sério, mas quando elevou a vista e viu que Eibhlin sorria, baixou sua cabeça outra vez para a união de suas coxas. Eibhlin pôs-lhe as mãos sobre a sua cabeça para detê-lo — Brandubh, não. Por favor, não acredito que...

Brandubh não disse nada, somente capturou suas mãos e sustentou-as unidas e fora de seu caminho. Então tomou posse dela de uma maneira que Eibhlin só tinha ouvido falar e arrasou cada pedacinho de inibição.

Seus lábios a acariciaram. Sua língua a saboreou. Seus dentes beliscaram o minúsculo ponto sensível, obrigando-a a deitar-se no chão.

No mais profundo do seu ser ela sentia seus músculos contraírem-se com uma necessidade instintiva de abraçá-lo e possuí-lo. Então fechou os olhos e somente sentiu. Seu corpo levantou-se para receber sua boca que não deixava de procurá-la e abriu-se ainda mais deixando que ele tomasse o quanto quisesse.

— Brandubh, por favor, por favor — gemeu, queria-o dentro dela.

Ele ficou de pé, seus corpos apenas se roçavam, provocando-lhe um desejo ainda maior com seus beijos úmidos e quentes. Ela provava o sabor de sua boca enquanto perguntava-se por que tinha negado este prazer maravilhoso a si mesma.

Ele acomodou-se sobre ela cobrindo-a protetoramente com seu corpo e Eibhlin animou-o a penetrá-la. Seu corpo estava preparado para ele. Encaixaram-se como se encaixaria uma espada em sua bainha.

 

— Deus do céu, Brandubh.

— Aye, minha senhora, aye — Seu áspero sussurro era a resposta que ela necessitava.

Eibhlin não podia acreditar quão profundamante Brandubh encaixava-se nela. Completava-a inteiramente, seu corpo transmitia um calor abrasador, mais quente até que o fogo que estava mais além deles. Liberou-se para tomá-lo assim como a havia tomado e começou a mover as mãos sobre a pele tensa das costas, agora perlada de suor. Ele se moveu dentro dela em um ritmo tão antigo como a própria terra. Ela levantou seus quadris para satisfazê-lo, seus olhos refletindo a luz do fogo que morria. Promessas não ditas, forjaram-se em suas almas.

O enorme corpo de Brandubh pulsou sobre ela, dentro dela, levando-a mais longe, mais rápido, para o gozo irracional... Ele sentia também? Perguntou-se Eibhlin, logo que cessaram as ondas de prazer. Tomou-o pelos ombros e deixou de pensar enquanto Brandubh gozava, sussurrando seu nome.

Lágrimas imprevistas encheram seus olhos repentinamente e deslizaram por suas bochechas. Brandubh agarrou uma com a ponta de sua língua e logo molhou seus lábios com ela. O coração de Eibhlin estremeceu de medo Seria ela capaz de voltar a sentir esse êxtase fazendo o amor com outro homem? Nunca havia experimentado antes. E ela sabia que estava perigosamente perto de dizer as palavras que fariam com que deixá-lo fosse impossível. O sábia, mas sua alma desejava as dizer.

— Obrigado meu corvo — ela sussurrou antes de cair em um sono satisfeito e reparador. Brandubh a pôs na cama, acomodando-se ao lado dela. As velhas cordas se queixaram sob seu peso, mas eram bastante robustas. Eibhlin deu a volta em seus braços e se encolheu contra ele, confiante como estaria uma criança.

Estava feito. Agora, era sua e não haveria outras ofertas. Deveria estar envergonhado por tê-la tomado desta maneira, mas o que havia entre eles era tão forte como o mar, tão real como eterno. Se ela ficasse, seria como sua esposa.

— Brandubh — Seu sussurro sonolento advertiu-lhe que ela não estava dormindo — Obrigado.

— Sou eu quem deve agradecer, milady.

— Não, deu-me um presente maravilhoso — Eibhlin apoiou a cabeça em seu pescoço e esfregou ligeiramente seu peito — Foi uma sensação linda, como nunca havia sentido antes.

— Linda. Você que é linda.

Ela sacudiu acabeça e sorriu tristemente.

— Não, não sou.

Brandubh perguntava-se em que tipo de lugar teria crescido, para que uma mulher de grande beleza como ela não fosse apreciada.

— O que te faz pensar isso?—perguntou levantando sua mão e lhe beijando a gema de cada dedo. Eibhlin suspirou com tristeza.

— Meu marido não pensava que eu fosse. Ele foi embora com outra mulher.

— Ele era um tolo.

— Mas era muito charmoso.

— Mais que eu?

Eibhlin riu, enquanto disse:

— Não, ninguém é mais charmoso que você. Ele não era tão alto, nem tinha o seu peito amplo, nem era muito forte. Não tinha covinhas ou ardentes olhos negros. Ele...

— Basta, fará com que eu fique insuportavelmente vaidoso. Por que esse homem não via você como uma deusa?

— Porque sou muito gorda e.... — fez uma pausa e decidiu não adicionar mais nada — Porque estou gorda.

Ela não disse mais nada e Brandubh rompeu a rir.

— Senhora, acredito que esse patético sujeito não era homem suficiente. Sua própria insuficiência o superava. Quando se amavam, ele fazia você gritar como eu fiz?

— Não, Brandubh, nunca.

— Está vendo?

— Nunca ofegou meu nome, tampouco.

Ele levantou a cabeça e olhou-a.

— Eu fiz isso?

Seu sorriso dizia que a satisfazia muito. Teria que assegurar-se de fazê-lo freqüentemente. Não seria difícil, pensou enquanto a atraía para seus braços, para tentar provocar esse sorriso outra vez.

 

Dougal tinha manifestado uma discreta oposição quando Brandubh confessou-lhe que se deitaria com lady Eibhlin antes de fazer sua oferta. Entretanto, com malícia, tinha insistido em ver as cinqüenta cabeças que Brandubh ofereceria. Afinal de contas, era sua responsabilidade como representante do Ard Ri, ele disse.

Assim, embora significasse dois dias longe de Eibhlin, Brandubh obedientemente partiu para Lon Dubh para separar as benditas vacas.

Quando as cinqüenta melhores cabeças de gado que possuía foram selecionadas, escolheu os homens que lhe ajudariam a conduzi-las até Ath Sionnain.

Que maldita ocorrência. Por que Padraig tinha tido que dar um presente como amostra de agradecimento tão rapidamente? Por que não tinha dado à igreja em vez de Eibhlin?

— Quieta!! — gritou, chutando a uma novilha que tinha visto uma erva apetitosa e tentava separar-se do rebanho — Mulheres… sempre saindo do caminho certo!

Seu humor melhorou quando as portas da casa de seu pai apareceram diante de seus olhos. Ainda era cedo e Brandubh pensou com prazer em tomar um banho e passar outra noite na cama de Eibhlin, de modo que apressou o passo, fazendo que com os homens e as vacas, apressasem também.

Logo que cruzou as portas, um calafrio percorreu sua coluna, como se o desastre tivesse roçado sua pele. Olhou para a casa com sinistra expectativa. Sadbh estava parada junto à janela de seu quarto no segundo andar da casa buscando-o com olhos frenéticos.

— Brandubh... vem rápido! — disse.

Com o coração na garganta, Brandubh sentiu um medo como nunca antes sentira.

Sadbh não gritou. Ela não gritou. Permanecia calma.

Brandubh cravou os calcanhares nas ancas de seu cavalo e saltou para o chão. Enquanto ele entrava na casa, o velho Sean subia as escadas e detrás dele dois homens enormes, arrastavam Eibhlin que oferecia grande resistência.

— Deixem-me !!!!!!!!! — gritava a viva voz. Eibhlin vociferava, mas muitas dessas palavras, eram ditas em sua estranha língua.

Brandubh não sabia o que dizia, mas soava muito desagradável. Quando ela o viu, seus tempestuosos olhos azul acinzentados se dilataram.

— Brandubh — chamou-o, estirando a mão para que a ajudasse.

Ele subiu as escadas, seguindo o grupo até o quarto da curandeira. A atmosfera no quarto era pavorosamente densa.

Sadbh, com o cabelo revolto e o vestido desarrumado, parecia muito mais velha que da última vez que a tinha visto, empurrou os fornidos homens para um lado e Eibhlin aprumou os ombros para enfrentá-la.

— Tentou envenenar o seu protetor? O que fez, bruxa? Dirá isso para mim ou te em farei pedaços com minhas próprias mãos.

Brandubh estava parado na soleira. Mudo diante da cena que se desenvolvia perante ele.

— Lady Sadbh, nunca machucaria lorde Dougal. Tem que acreditar em mim.

— Por que? O que sabemos de você? Acolhemos você em nosso lar, mostramos nossa hospitalidade, animamos seu casamento com nosso filho. É assim como agradece nossa generosidade?

Sadbh sacudiu Eibhlin e a obrigou a ajoelhar-se junto à cabeceira de Dougal. Não era correto que os arrendatários vissem a senhora da casa nesse estado. Brandubh virou-se para o administrador de seu pai.

— Sean, tire-os daqui. Chamarei você se necessitar — Os velhos olhos de Sean brilhavam furiosos.

— Ela matará nosso senhor, Brandubh.

— Não se preocupe, ancião — Brandubh pôs sua mão contra os finos cabelos brancos que estavam colados na cabeça de Sean — Dougal não morrerá. Não pode fazer isso.

Fechando a porta atrás de Sean, Brandubh deu a volta e cravou seus olhos na figura de seu pai. Então desejou não tê-lo feito. O peito de Dougal subia e baixava com dolorosos esforços. Os lençóis estavam empapados pelo suor. Sua pele era de um cinza pálido. Repentinamente Dougal começou a gritar em italiano, idioma que nem Brandubh nem sua mãe se incomodaram em aprender.

Um instante depois, Dougal estava tranqüilo. Seus olhos se abriram e se fecharam, mas Brandubh conseguiu detectar um olhar pacífico. Isso era quase tão espantoso como o suor, os tremores e o delírio. A paz nos olhos de seu pai, sugeriam que se rendeu.

— Cara… — sussurrou Dougal procurando Sadbh.

— Aye, Dougal, meu amor — Sadbh soltou Eibhlin e se ajoelhou na cama, tomando sua mão entre as suas e beijando o dorso da mesma — Aqui estou.

Dougal sorriu fracamente e logo olhou para Brandubh.

— Meu filho — Dougal virou-se e fechou novamente os olhos.

Brandubh sentia que seu coração disparava, mas não conseguiu perguntar que acontecia. Um silêncio aterrador abateu-se sobre eles, fazendo com que a respiração travbalhosa de Dougal fosse ouvida claramente. Brandubh finalmente conseguiu aproximar-se da cama.

— O que ele tem? O que aconteceu?

— Não parece óbvio? Esta tentou matá-lo — Sadbh agarrou outra vez o braço de Eibhlin.

— Não é verdade! — Eibhlin tentou levantar-se, mas o aperto implacável de Sadbh em seu ombro a reteve no chão — Brandubh, por favor tenha piedade. Envenenaram-no, mas não fui eu.

— Mãe — Brandubh sussurrou, pondo cautelosamente a mão no ombro de Sadbh — Eu acredito. Ela não tem nenhum motivo para odiar meu pai.

Sadbh continuou imóvel.

— Dougal foi envenenado por uma mistura de ervas — disse e sua voz era dura — Quem poderia fazê-lo? — sua voz soou mais tranqüila.

— Quem tem acesso a seus elementos, Eibhlin? — perguntou Brandubh enquanto a ajudava a levantar-se. Eibhlin aceitou sua ajuda e apoiou-se nele, pondo as mãos em seu peito. Umedeceu os lábios com a ponta rosada de sua língua e olhou para a cama, onde Dougal respirava com dificuldade.

— Só eu — Os olhos tempestuosos abriram-se repentinamente — e Moira.

— Moira? Por que ela tem acesso?

— Ela me pediu que lhe ensinasse, pois ooderia trabalhar como curandeira depois que eu for embora. Assim o fiz até que ela.... — Eibhlin deteve-se por um momento enrugando o cenho — O que foi que Dougal bebeu hoje?

Sadbh não tirava os olhos do Dougal.

— Só essa bebida de sementes assadas de sorveira que você mandou. Ele gosta de muito — sua voz ficou repentinamente fria e distante — ficou doente logo após bebê-la — disse distraída ao mesmo tempo em que apontava o pequeno pote sobre a prateleira acima da lareira — É aquela ali.

Brandubh sentiu que Eibhlin ficou rígida como um cadáver e um instante depois, desprendeu-se de seus braços e se lançou para a mesa. Tomou o pote e levantou a tampa, derrubando o conteúdo sobre a mesa. Com um dedo, provou o sabor da bebida e olhando-a fixamente, detectou nela o gosto de uma raiz cigana.

— Virgem Santa! — sussurrou e imediatamente retornou para junto da cama e ajoelhou-se ao lado de Sadbh.

— Lady, quem trouxe a bebida esta manhã?

— Uma das moças da cozinha. Ela disse que a havia preparado exatamente como você tinha indicado.

— Onde ela consegiu as sementes?

— De onde acredita que pode ter sido? Com você! — Sadbh tentou levantar-se, mas abandonou a luta rapidamente para apoiar a sua cabeça na cama onde repousava a suave mão de Dougal, o tremor de seus ombros delatando o pranto que tratava de ocultar nos lençóis.

Como sua mãe não costumava chorar, seus soluços silenciosos fizeram com que os olhos de Brandubh ardessem.

Eibhlin levantou-se e segurando o vestido, arrastou Brandubh para a mesa, onde mostrou-lhe o conteúdo da taça. Eibhlin separou três pequenas sementes negras fervidas.

— Beladona[25] — explicou desnecesariamente porque ele reconheceu a erva que causa as alucinações e o suor. Devia conter algo mais, possivelmente a espinheira, o que explicaria a taquicardia.

Até Brandubh sabia para que servia a beladona.

— Quem desejaria matar meu pai? — Ele exigia saber o nome da pessoa que tinha motivos para fazê-lo.

— Não acredito que tenha sido preparado para matar Dougal. Talvez seja insuficiente para matar um homem do seu tamanho — Eibhlin procurou os olhos de Brandubh — As últimas duas manhãs, eu preparei a sua bebida pessoalmente, mas hoje chamaram-me para atender um caso de pneumonia, assim disse à criada onde conseguir as sementes da sorveira e como preparar a bebida com elas.

A conclusão golpeou-a tanto quanto a Brandubh. Os olhos dela dilataram-se e começou a tremer.

— Esta bebida foi preparada para mim.

Sua voz estava cheia de incredulidade. Com uma certeza doentia, Brandubh compreendeu que era verdade. Ela era a destinatária e teria morrido, se tivesse bebido essa preparação. Com igual certeza, ele sabia quem tinha sido a responsável. Moira, incitada provavelmente por Uaid. Tentavam feri-lo através de Eibhlin.

Uma fúria impotente atravessou suas entranhas. Havia pouco o que ele podia fazer a Moira, exceto manter Eibhlin longe dela. Uaid era outra coisa. Logo que Dougal estivesse fora de perigo, Uaid pagaria por isso.

Brandubh pôs seus braços ao redor de Eibhlin, protegendo-a de qualquer outro dano. Ela até tremia. Beijou-lhe a cabeça e estreitou mais seu abraço. Eibhlin precisava pensar em outra coisa.

— Milady, há algo que possa fazer por meu pai?

Ela sacudiu sua cabeça.

— Mesmo que Sadbh deixasse que eu me aproximasse dele, não poderia fazer nada agora. Só espero que seu coração não tenha sido prejudicado.

Eibhlin sussurrou contra seu peito. Ele sentia seu próprio coração pulsar com pavor. Brandubh não disse nada mais, apenas sustentou-a e deixou que se acomodasse nele enquanto as horas passaram lentamente.

 

Era quase a alvorada quando Dougal teve outro ataque.

Brandubh manteve sua vigília junto à janela. Eibhlin tinha olhado para ele durante a noite, cada vez que ele se fazia o sinal da cruz e movia os lábios recitando as preces memorizadas que davam consolo e esperança. Ela desejou poder oferecer-lhe algo mais que um consolo morno e suas esperanças de que Dougal se recuperasse.

Recordando sua promessa de despertar Sadbh assim que Dougal mostrasse sinais de despertar, Eibhlin aproximou-se da mulher, que dormia envolta com o manto do Dougal, em uma cadeira em frente ao fogo, agora reduzido a pequenas brasas.

— Lady Sadbh, Dougal está despertando — murmurou.

Um suave toque no ombro de Sadbh foi suficiente para trazê-la completamente ao estado de vigília. Sadbh não disse nada, mas saltou da cadeira. Ela correu para o lado dele e tomou-lhe a mão quando despertou.

— Mía cara, por que não está ainda deitada?

— Estive olhando o relógio e orando, meu amor.

Dougal sorriu, uma imitação pobre de sua travessa expressão.

— Aqui estou. Deus não se atreveria desiludir você, hein?

— Não blasfeme, homem malvado.

Sadbh afastou suavemente os fios de ébano da fronte e acariciou com adoração a pele pálida de seu rosto.

— Como se sente esta manhã?

— Cansado, mas não sinto nenhum outro efeito — olhou ao redor — Ah, não estamos sozinhos. Deve ser por isso que ainda não me deste prazer — Dougal ignorou o bufo furioso de Sadbh e concentrando-se, chamou Eibhlin — aproxime-se senhora, quero fazer algumas perguntas.

— Já perguntei tudo o que foi necessário, pai — Brandubh interpôs-se entre eles — Eibhlin não envenenou você.

— Afaste-se, filho. Eu não culpo a dama. Está claro que isso não foi feito por uma mão experiente, do contrário estaria morto — com um suspiro fatigado, inquiriu Brandubh — trouxe tudo?

Confusa, Eibhlin olhou para Brandubh. Sua expressão era impossível de decifrar. Ele só assentiu com um gesto.

— Sim, pai. Quando estiver bem, iremos vê-las — Uma de suas sobrancelhas elevou-se, como a asa de um corvo, e adicionou — Espero que estejam de acordo com a suas exigências.

— Assim o espero, também. Se não estiverem, terei que outorgar a outro homem aquilo que você reclamou.

Dougal tratou de erguer-se e tanto Sadbh como Eibhlin saltaram para ajudá-lo, mas ele empurrou as solícitas mãos para longe com um desaforo.

— Pelas chagas de Cristo! Não sou um inválido. Estou sadio. Agora, temos coisas que discutir. Lady Eibhlin... — e fez um gesto para que se aproximasse da cama.

— Um momento — interrompeu Sadbh com um tom exigente — Tenho uma palavra ou duas que dizer a respeito deste assunto. As coisas já não são como eram antes.

— Basta! É suficiente! — A voz de Dougal era potente — Não tolerarei nenhuma interferência.

— O que? Como se atreve a falar comigo dessa forma?

— Sou seu marido e utilizarei qualquer tom que julgar apropriado.

Eibhlin detectou que estava surgindo uma briga familiar e escapuliu para a porta.

— Fique quieta aí lady Eibhlin. Falarei com você agora — o tom de Dougal não admitia nenhuma resistência — Brandubh, uma cadeira — e olhando sua esposa, acrescentou — Necessito de uma cerveja, mía cara.

Dougal ordenou a Sadbh que partisse, agitando a mão como Eibhlin tinha visto Sadbh fazer fre-qüentemente. A mulher lançou a Dougal um olhar venenoso.

— Nós não terminamos, Dougal.

— Espero que não, milady. Espero que não — Dougal riu debilmente quando a porta fechou-se com um golpe detrás dela — Essa, filho, é uma mulher. Agora, vejamos se o que você trouxe é digno.

Eibhlin ouviu a tosse com que Brandubh tratava de esconder sua risada e sentiu-se cada vez mais incômoda entre os dois homens.

— Sente-se aqui, lady Eibhlin. O pescoço dói se tiver que levantar a cabeça para olhar você.

Um sorriso astucioso suavizou a ordem e Brandubh empurrou uma cadeira para trás dela, usando para isso, seus joelhos. Embora tivesse preferido ficar em pé, Eibhlin sentou-se.

— Primeiro, meu filho disse que passaram uma noite juntos — A voz do Dougal carecia de seu bom humor habitual e a olhava mais sério que nunca.

Eibhlin sentiu o rosto arder.

— Sim, milord.

— Segundo a lei do Brehon, se um homem puder fazer uma oferta para uma mulher com quem ele dormiu, o casamento será reconhecido como um fato.

— Casamento? Espere! Apenas a... a... — ela balbuciava desconcertada — Eu nunca concordei com nada disso — Dougal esperou que ela se calasse e prosseguiu.

— Meu filho informou-me também que é uma mulher divorciada, que seu primeiro marido era um adúltero e que fez uso do seu direito de terminar seu matrimônio. Isso é correto?

— Sim, mas...

— Houve filhos desse casamento?

— Não — Isso doeu. Tinham evitado a gravidez antes de casarem-se e nunca mais tinham falado no assunto. Uma coisa a mais para odiar nesse maldito trapaceiro. Sabia o muito que ela desejava ter filhos. Também recordou a promessa sussurrada de Brandubh de que lhe daria filhos.

— Existe algum impedimento conhecido que possa afetar um casamento futuro?

— Não, mas...

— Buono! Então informo que meu filho, Brandubh Mac Dougal, oferece a você como preço de noiva, cinqüenta cabeças de gado para ser honrado com a sua mão em matrimônio.

— Mas, lorde Dougal, eu não sou... Cinqüenta?— A curiosidade comeu suas entranhas — Isso é muito?— murmurou a Dougal.

— Apenas para uma rainha seria lógico oferecer mais.

Apesar da idéia atroz de ser comparada com o gado, sentiu-se envaidecida. Cinqüenta. Ele realmente a queria. Bem, ela sabia disso. No final das contas...

— Não! — disse, rapidamente — eu não permanecerei aqui. Irei no próximo solstício. Eu disse isso antes que nós...

Com o rosto ardendo, levantou-se da cadeira e jogou-a em um canto, pensando em golpear Brandubh por ignorar seus planos, apesar de serem muito claros. Eibhlin ignorava que ele estava de pé detrás dela, assim ao girar o corpo, topou com seu duro peito e não pôde evitar de ficar apoiada nele. Seu sorriso era quase imperceptível, mas deixava transparecer uma masculina satisfação. Contudo, o único sinal que indicava o quanto Brandubh se sentia afetado pelo contato, foi o brilho ardente de seus olhos.

— Eibhlin, depois de termos feito amor, pensa em me deixar? Poderia estar grávida de meu filho.

Essa sugestão deixou-a gelada, mas um rápido cálculo aliviou sua mente. Talvez não tivesse acontecido. Ficou indignada de que ele utilizasse tal chantagem emocional com ela.

— Escute bem, gorila grandalhão... — Eibhlin ignorou o olhar confuso que Brandubh trocou com o seu pai e o encolher de ombros de Dougal — Já disse isso, não pertenço a este local. Não permanecerei aqui. Uma vez que chegar o solstício, volto para a Craglea e vou para casa.

Brandubh era teimoso.

— Tudo o que peço é que considere ficar comigo.

Ele levantou a mão como se fosse tocá-la, mas ela evitou o contato, e afastou-se vários passos para ficar fora do alcance de seus braços. Aproximando-se da porta, única via de escapamento possível, virou-se para encará-lo.

— Sua mãe pensa tentei matar seu pai. Acredita que serei bem-vinda em sua família agora? Ouviu o quanto me odeia.

— Você nega o que sentimos um pelo outro?

— Não — Era a coisa mais equivocada que podia dizer. Maldito, tinha conseguido tira-la do sério —O que quero dizer é...— “Um momento, Evie, realmente dirá a ele que o quer? Como se ele não soubesse exatamente o que quer dizer” — Eu não pertenço a este lugar.

Eibhlin repetiu aquela frase como se fora uma declaração final, que não podia ser discutida.

— Então, por que está aqui?— Brandubh cruzou seus braços sobre o peito e parou diante dela, intimidando-a. O fato de que medisse quase 1.90 metros de altura, o que não era muito comum, fazia com que ela se sentisse insignificante. Nem a admiração muda de sua magnificência, especialmente agora que ela tinha o conhecimento de primeira mão de quão magnífico ele era realmente. Mas devia manter a distância ou nunca seria capaz de voltar para seu próprio tempo.

— Eu... não sei. Talvez deva arrumar aqui algo que está mau. Possivelmente fui enviada para provocar algo falta. Não sei. Mas quero ir para casa — "Lar”. Onde realmente estava seu lar? Tinha ficado ali só três semanas e já estava habituada. Sentia-se satisfeita com o trabalho. Adorava as pessoas e a terra. Tinha um amante maravilhoso. "Não, é muito arriscado" disse, mais para si mesma do que para os dois homens que a olhavam nessa silenciosa guerra consigo mesma — Não —repetiu para eles — Voltarei para lugar de onde vim, que eu pertenço.

— E se não puder?— Dougal perguntou silenciosamente. Seu sangue gelou diante dessa possibilidade, mas ainda que seu coração saltasse de alegria, a decisão deveria ser dela. Eibhlin já estava perdendo a batalha.

— Se não puder, então ficarei. Mas tenho que tentar. Até então, não posso aceitar nenhuma oferta, lorde Dougal. Não seria justo.

Sem dizer outra palavra, evitou o olhar escuro de Brandubh e deixou o quarto. Os olhos deste a seguiram e ele teve que reprimir o temor de que as suas intenções de ir embora prevalecessem sobre seu amor e isso fortaleceu a sua necessidade de convencê-la a permanecer.

— Por que é tão insistente em ir ? Parece contente aqui — Dougal acrescentou — Não sei. Só diz que não pertence a este lugar — Dougal enrugou os lábios — Será que vai tentar me assassinar outra vez?

Brandubh o olhou fixamente sem acreditar no que escutava.

— O que? Não disse que não acreditava que ela procurasse matá-lo? — Com um encolhimento de ombros esquivo, Dougal perguntou — Quem mais pode ter sido? Claramente, fui envenenado. Quem tem uma razão para querer matar-me?

Brandubh não quis aceitar isto. Por alguma razão, Eibhlin sentia-se responsável por Moira e dado que Dougal tinha sobrevivido, ele não queria causar mais dor nessa família.

Entretanto, seu pai era o senhor desse lugar e tinha o direito de saber tudo o que acontecia dentro de seus domínios. De modo que Brandubh suspirou e deu o nome.

— Moira envenenou a mistura. Acreditam que era para Eibhlin, pai, não para você.

— Moira?— Dougal parecia preparado para perguntar "Porquê?", mas meneando a cabeça, suspirou quando compreendeu o que acontecia —É obvio. Ela deve ver Eibhlin como a razão pela qual você deixou Caoimhe — e elevando sua cabeça, Dougal olhou fixo para Brandubh — O que eu faço a respeito disso? Não posso permitir que tal falta fique impune.

Brandubh tomou a cadeira que Eibhlin tinha desocupado.

— Pai, eu não posso intervir em suas decisões, mas não queria causar mais dor a Conor. O ataque não era para você e sim contra Eibhlin. Se me casar com ela, posso levá-la a Lon Dubh, longe daqui onde estará segura.

— Eu não a forçarei, Brandubh. Faria dela sua esposa contra a sua vontade?

— Se isso salvasse a sua vida, sim. Além disso, ela não resistiria muito — Sua bravata fez com que aparecesse um sorriso débil no rosto do Dougal e logo adicionou suavemente — Eu a amo, pai.

— Cortejaria uma mulher que manifestou o seu desejo de voltar para seu próprio tempo?— Dougal adicionou com voz grave — Brandubh, você nunca ficou longe de tudo que é familiar: a família, a terra, inclusive algo tão simples como o clima ao qual está acostumado. Entende que o seu amor pode não ser suficiente? Houve ocasiões, filho, em que desejei o calor da Itália. É tão frio aqui, e meus ossos mediterrâneos sentem mais o frio a cada ano que passa.

— Partiria da Irlanda? — A idéia era inconcebível para Brandubh.

— Se tivesse convencido sua mãe antes do seu nascimento, seríamos os Fabronis do Vale do Pó, colhendo uvas, fazendo vinho e lutando contra os bárbaros.

— Por nunca antes disse nada sobre isso, pai? Sente tanta saudade da Itália?

— Há momentos, Brandubh, em que sinto sim — O ar é morno e limpo. O mar brilha azul como uma safira. No verão, o aroma daquilo que cresce consome os sentidos, as especiarias, as ervas, as flores e as frutas que amadurecem. Ainda... — Dougal ficou em silencio por um momento, seus olhos pareciam olhar uma terra longínqua da qual Brandubh só tinha ouvido falar — Contudo, na Itália eu era um homem pobre, filho de um homem pobre, e destinado a continuar sendo. A Irlanda deu-me um lugar, uma esposa nobre e um bom filho fino que leva meu sangue. Sou um confidente do rei e um homem importante com grandes responsabilidades — Dougal sorriu e tomou a mão de Brandubh — A Irlanda é meu lar, meu filho. E eu digo a você, se pode dar isso para a sua Eibhlin, talvez ela diga que o seu lugar está a seu lado, como eu decidi há muitos anos, ficar com sua mãe e chegar a ser um irlandês.

Dougal dificilmente falava tão sério. Apertando a mão do seu pai, Brandubh disse — Darei a ela tudo o que sou. Orarei para que isso seja suficiente.

— Então desejo-lhe sorte. A dama será difícil de cortejar. Em seu lugar, deixaria que fique em seu quarto pensando quanto quer você. Vá vigiar os cavalos e deixe-a sozinha. Deixe-a pensar em você. O seu próprio desejo chegará a ser seu aliado. Deixa-a sozinha enquanto cresce o desejo, assim quando estiver com ela outra vez, sucumbirá a ele.

— Cortejá-la deixando-a sozinha? — Cético, Brandubh levantou uma sobrancelha — E isso funcionará?—Dougal sorriu demonstrando que se sentia melhor.

— Não se afaste tanto para que Fergus roube-a e a leve para longe de ti.

 

Sem deter-se para pensar, Eibhlin foi diretamente ao ervanário e deixou-se cair em um dos rústicos tamboretes situados em frente à grande mesa.

Seguindo com os dedos as marcas na superfície de mesa, tratou de evitar de pensar na pergunta de Dougal. Voltar para seu próprio tempo poderia ser impossível. Ela tinha viajado uma vez para trás.   Poderia viajar outra vez. Tudo o que tinha que fazer era esperar.

E evitar de apaixonar-se por Brandubh, o que significava manter-se longe dele. Mas, depois de conhecer a paixão que ele tinha mostrado na outra noite, ela seria suficientemente forte para manter a distância?

Ela amava muito a vida para aceitar que outra pessoa quisesse assassiná-la. Ficando lentamente de pé, aproximou-se da prateleira onde guardava sua provisão privada de pó de sorveira. Tremia enquanto agarrava o frasco de argila e esvaziava o conteúdo sobre a mesa. Misturado com as sementes de sorveira assadas e moídas, havia beladona em dose mortais, as sementes negras secas e as folhas grosseiramente cortadas eram facilmente identificáveis.

Eibhlin sentou-se durante longos minutos, olhando fixamente a confusão de folhas e raminhos que quase haviam tirado a vida de Dougal e que sem sombra de dúvidas teriam acabado com a sua se tivesse tomado essa mistura.

Como poderia ter sido tão estúpida? Como não tinha suspeitado da fascinação de Moira por aprender a preparar a mistura, especialmente sabendo que Eibhlin era a única que bebia a infusão? Diante da insistência de Moira, Eibhlin tinha mostrado como moer as sementes para fazer um substituto do café, que aliás não era muito bom, mas era melhor do que nada.

Tinha mostrado a Moira o frasco onde cultivava as plantas.

Tinha permitido que Moira percorresse o ervanário.

Quando Dougal tinha provado a bebida da sorveira há dois dias, tinha insistido em tomá-la em vez da cerveja pela manhã. Ele a tinha convidado para compartilhar uma jarra daquilo, aproveitando a calma antes do café da manhã. Bem, pelo menos tinha sido ele, pensou com uma pontada de remorso. Sadbh, protetora de sua família como era, provavelmente não lhe permitiria entrar na casa outra vez, muito menos aproximar-se de Dougal...Ou de Brandubh.

A fúria contra quem tinha causado a separação entre as pessoas que ela tinha começado a amar, defendeu-a do golpe de ar frio que de repente abriu a porta. Moira irrompeu no quarto e a porta se fechou de um golpe. Eibhlin viu que ela mordia o lábio inferior.

— Ah, lady Eibhlin — Moira ofegou e Eibhlin pareceu detectar alívio em sua voz — Está aqui.

Moira apressou-se em pôr a mesa como uma barreira entre elas e olhou ao redor sem poder evitar que seus olhos fossem de prateleira em prateleira.

— Está procurando algo além da mim, Moira? — Eibhlin tratou de medir sua reação — Algo como isto? Eibhlin tinha nas mãos o recipiente de louça que continha o café. Os olhos da Moira dilataram-se e a boca abriu-se como se tentasse se explicar. Eibhlin a interrompeu antesque pudesse começar a falar.

— Eu não tive o prazer de provar sua mistura. Entretanto, Dougal a achou muito interessante.

Moira não pôde evitar de levar a mão à garganta, e perguntar com voz estrangulada.

—Não! Ai doce Jesus. E..?

— Ele sobreviverá.

— Graças a Deus — Moira afundou-se em seu assento. Sua respiraração começou a normalizar-se e olhou para Eibhlin com olhos suplicantes — senhora, eu...eu...

A última coisa que Eibhlin queria ouvir era alguma desculpa para o imperdoável.

— Por que, Moira?

— Você deve acreditar em mim, eu só queria assustá-la o suficiente para que você se fosse embora. Nunca pensei em matá-la. Milady, você deve me acreditar em mim.

— Onde conseguiu a beladona?

— Eu... não posso dizer — Moira afastou o olhar — Não importa. Eu a pus no frasco. A culpa é toda minha.

— A quem está protegendo? Quem poderia ser suficientemente importante para que Moira assumisse toda a culpa?

— Duvido que Dougal veja o assunto desta maneira — disse Eibhlin, agradecida pelo olhar de terror que nublou os olhos de Moira — E suspeito que tem várias maneiras de averiguar o que precisa ouvir.

— Milady, por favor. Juro que não repetirei minha loucura.

— Quem é o seu cúmplice? Quem será prejudicado na sua próxima tentativa contra mim?

— Ele não tratará de prejudicá-la outra vez.

— Por que não? Como sabe?

— Eu não permitirei — Moira levantou a cabeça para Eibhlin e encontrou o seu olhar.

— Eibhlin, percebo que você tem um coração bom e nunca machucaria a alguém intencionalmente. Acredite em mim, não permitirei que sofra nenhum dano. Mas, por favor, permita que minta desta vez. Se Dougal e Brandubh souberem... — Ela se deteve, como se procurasse a palavra certa —... da identidade do cúmplice, provavelmente o matariam. Já houve morte suficiente aqui.

Eibhlin refletiu palavras de Moira. Como sempre, o seu coração pedia que confiasse nela.

— Bom, Moira — disse, levantando a mão para deter a gratidão de Moira — Temo que é muito tarde para protegê-lo. Brandubh já sabe do seu acesso às minhas substâncias. Duvido que não tenha dito isso a Dougal.

— Está bem, de modo que sou a única responsável — Ela parou defronte a Eibhlin como um mártir diante da cruz — Permitirá que continue trabalhando com você? Outras pessoas na casa mostram sintomas de doença. Quero ajudar.

— Devo me atrever a correr o risco? — Eibhlin sabia que convinha desfazer-se dessa bagunceira, mas o olhar de Moira parecia sincero e ela não podia resistir muito. Eibhlin assentiu com a cabeça.

— Mais uma coisa, Moira, dê-me só uma razão para desconfiar e irei a Dougal e exigirei que encontre o seu cúmplice e o açoite no pátio.

—Você não se arrependerá, Eibhlin. Eu juro — Eibhlin esperou que estivesse dizendo a verdade.

— Será melhor que comecemos a trabalhar, então, temos muito que fazer. Começa com a ulmaria. Corte-a bem fina. Ajuda com a febre e as dores.

Sem outra palavra, Moira assentiu e ficou a trabalhar, reunindo um punhado de folhas secas. Eibhlin a olhou e recordou um provérbio: "Mantém perto os seus amigos e mais perto ainda os seus inimigos." Não podia recordar quem o havia dito. Quem quer que fosse, pensou, sabia o que dizia. Apesar de todas essas bonitas palavras a respeito de não querer matá-la, Moira ainda tinha muito o que demonstrar. Eibhlin se certificaria de que ela não fizesse mais travessuras enquanto demons-trava.

 

A natureza e Brandubh conspiraram em dar a ela a distância que necessitava. Ele se afastou na manhã em que Eibhlin rejeitou sua oferta de casamento e passou as três semanas seguintes três em busca de seus cavalos nas agrestes planícies do noroeste. Nem sequer disse-lhe adeus. Isso incomodou-lhe mais do que ela queria admitir, mas não teve oportunidade de lamentar.

Ajudada pelo frio úmido que impregnava os ossos desde o começo de dezembro, a pneumonia arrasou em Ath Sionnain. Um habitante atrás do outro foi atacado pela febre e pela gripe e um após o outro, chamou a curandeira.

Logo que notava o passar do dia e da noite, doíam as costas e isto dificultava a tarefa de cortar e triturar as ervas. Contudo, Eibhlin fez tudo o que pôde para aliviar os sintomas. Seu ervanário encheu-se dos aromas da cozinha, de folhas de borrage (Borago officinalis) para dores, o chá de tomilho silvestre para ajudar a limpar os pulmões, as sementes de pinheiro para facilitar a respiração.

Quando podia escapulir para seu próprio quarto durante uns poucos minutos, deixava-se cair na cama como uma pedra e então dormia como se o fora. Estes momentos de descanso roubados, nos quais dormia tão esgotada que nem sequer sonhava, eram os únicos momentos em que Brandubh estava fora de sua mente. O resto do tempo, enquanto atendia os doentes, Eibhlin pensava nele constantemente, tendo saudades do consolo que seus braços poderiam dar ao seu esgotado corpo.   Especialmente nesta manhã, quando sentou-se no rústico tamborete defronte à mesa e inclinando-se sobre esta, apoiou a cabeça em seus antebraços e deixou cair as lágrimas que tinha estado retendo por trás da necessidade de mostrar-se forte e segura.

Oh, como necessitava seu apoio nesse momento.

A pesada porta que dava para o exterior abriu-se e se fechou detrás dela, permitindo que uma brisa de ar frio arrepiasse a pele e provocasse um calafrio.

— O que ocorre, milady? — Moira agachou-se ao lado dela — Por que você chora?

— De onde vem? Quero ficar sozinha — Eibhlin explodiu, secando as lágrimas das bochechas. Estava arrependida por sua brutalidade, mas não tinha palavras para expressar.

— Não, Eibhlin, você não precisa ficar só. Venha — Moira aproximou outro tamborete do lado dela e colocou o braço sobre os ombros de Eibhlin.

— Sei que é uma coisa terrível. Mas o menino estava tão fraco. Não é melhor evitar o sofrimento?

Eibhlin só pôde sacodir a cabeça.

— Não. Não. Poderia ter sobrevivido em meu... lugar. De onde eu venho.

— Não estamos nesse lugar, milady, seja lá qual for.

A simplicidade dessa declaração golpeou Eibhlin justamente entre os olhos. Era algo que sua mãe teria dito.

— Temos o trabalho para fazer e é melhor que o façamos — Moira levantou-se com grande decisão. Sacou um punhado de tomilho silvestre da gaveta de secagem e começou a moê-lo.

Eibhlin suspirou e golpeou os olhos com o dorso da mão. Perguntou-se sobre a mudança na atitude da garota. A animosidade inicial de Moira tinha sido substituída por uma cautelosa camaradagem.   Eibhlin estava agradecida pela companhia. Exceto os doentes, não tinha visto ninguém. A ausência de Brandubh e a persistente frieza de Sadbh, embora já não a culpasse abertamente pelo ocorrido com Dougal, fazia com que Eibhlin decidisse tomar suas refeições sozinha no laboratório ou em seu quarto. Só Moira se negou a deixá-la na solidão.

Eibhlin não tinha sido a única a receber os cuidados de Moira. Devido à epidemia, ela tinha atendido os doentes com suavidade e demonstrado grande capacidade.

As lembranças da infância tinham assaltado Eibhlin, lembranças de sua mãe Moira, que lhe oferecia um caldo, tocava-lhe a fronte para verificar se tinha febre, deixando que a mão se demorasse em uma carícia de adoração.

Moira tinha estado ali quando o bebê exalou seu último o suspiro. Eibhlin havia se encolhido em um canto e lutado contra o sentimento de inutilidade, incapaz de consolar a mãe aflita. Moira, que logo estava deixando para atrás a sua própria infância, tinha se aproximado e oferecido palavras de consolo e um ombro para apoiar-se.

A imagem tinha recordado Eibhlin da morte de seu irmão Conor, e ela sentiu-se incapaz de afastar-se, ainda mais quando as imagens mostravam-se muito duras.

Eibhlin era uma menina muito pequena para entender a irrevogabilidade da morte, e naquela época não tinha conseguido entender quão difícil tinha sido para a sua mãe, converter-se em um baluarte contra a tristeza e o desespero que ameaçou a família inteira. Seamus entregou-se por um tempo ao álcool para encontrar consolo, chorando lágrimas fortes e sentidas encerrado em seu casulo. Estava acostumado a enclausurar-se por dias, saindo sozinho para orar e pedir perdão. Cada vez, Moira o abraçava e perdoava, deixando-o que colocasse a cabeça em seu regaço e chorasse. Eibhlin nunca viu sua mãe chorar por Conor, embora sua dor fosse tão aguda e verdadeira como a de Seamus. Moira chorava em solidão e a pequena Eibhlin perguntava-se, quem abraçava a mamãe quando ela estava triste?

A voz da Moira às suas costas devolveu-a ao presente, flutuava feliz no ar com um som que não era realmente uma canção, e sim uma melodia harmoniosa que ela estava cantarolando. Eibhlin, que estava pensando em sua mãe, sentiu novamente a idéia de familiaridade que freqüentemente provocava a presença de Moira.

Antes que pudesse deter-se nessa idéia, o som de cascos atraiu sua atenção para a janela bem a tempo de ver passar Brandubh.

— Por fim voltou —disse Moira, ainda inclinada sobre as plantas que estava moendo. Sua voz fez com que Eibhlin parasse quando estava a ponto de passar pela porta e a fez perceber a sua ação irrefletida, ia saudá-lo com uma necessidade tão forte que a fez esquecer todas as suas intenções. As palavras da Moira refletiam uma renovada cólera, claramente dirigida para Brandubh.

— Vá com ele, Eibhlin, mas cuide-se. Não permita que ele a machuque como fez com Caoimhe.

— O que foi o que fez ele a Caoimhe?

Eibhlin só conhecia os fragmentos da história e queria ouvi-la toda. Ninguém lhe respondia quando perguntava a respeito. Ainda quando se mostrou amistosa, Sadbh teve reserva para falar disso.

Moira olhou fixamente a janela durante alguns minutos e logo para Eibhlin, obviamente pensando o que iria responder. Finalmente, ela olhou para longe.

— Brandubh enviou Dougal para falar com o nosso pai sobre o preço de noiva de Caoimhe. Na verdade, nada se decidiu, mas Caoimhe sempre esteve apaixonada por Brandubh. A pergunta que ele fez, foi suficiente para que ela acreditasse que a queria, e ele nunca a desenganou a respeito. Logo Brian chamou Brandubh a Kincora no verão e quando ele voltou, ele disse a Caoimhe que tinha mudado de opinião e que não faria uma oferta por ela — Moira respirou profundamente e se apoiou na borda da mesa — disse que se mataria e ele se afastou sem advertir a nosso pai a respeito da ameaça de minha irmã. Uma noite, ela se suicidou.

Como se fossem um martelo, o incidente golpeou Eibhlin. Tinha sido enquanto que ele tinha estado em Kincora, quando eles se encontraram na Craglea. Sua atração tinha sido tão forte que ele retornou para cá e rompeu o coração da pobre garota.

— Você se parece com ela, milady — As palavras de Moira surpreenderam Eibhlin.

— Em que? — conseguiu perguntar.

— Tem os olhos amendoados da mesma cor, azul-acinzentados — Moira sorriu tristemente— Do pescoço para abaixo não há nenhuma semelhança. Caoimhe era uma garota de apenas dezesseis anos, e teria se desenvolvido mais tarde. Era diminuta, não uma mulher como é você.

Eibhlin sentiu que se encolhia como acontecia sempre que alguém mencionava seu tamanho. Sua mãe sempre a tinha obrigado a manter a postura correta e assim utilizar sua altura para atrair a atenção dos homens. Eibhlin só tinha recebido a atenção do Inominável, e isso tinha sido um desastre.

Esta Moira parecia valororizar essa característica física de Eibhlin, que horrorizava a maioria das pessoas. Em um arranque infantil de vingança, Eibhlin tratou de pensar em alguma coisa suficientemente horrível antes de lhe responder, mas antes que pudesse pensar em algo, Moira perguntou:

— Disse algo errado?— Moira aproximou-se e apoiando uma mão na parte superior do braço de Eibhlin, deu-lhe um pequeno beliscão, assim como sua mãe utilizava para animá-la — Acredito que você não aprecia esse dom tão maravilhoso. Não vê os olhos que a seguem pelo pátio? Você poderia ter qualquer homem que desejasse e não é estranho que Brandubh a prefira antes que a uma garotinha.

Demônios... isto se complicava cada vez mais. Havia muitas coisas em jogo. Muitas emoções mescladas.

Eibhlin levou a mão à fronte, e sentiu-se repentinamente enjoada e a única coisa que pôde fazer foi lançar-se através da porta que estava totalmente aberta. Brandubh a sustentou em seus braços evitando que caísse. Seus olhos se encheram de preocupação e isso se refletiu em sua voz.

— Senhora, você está bem? — Ela não respondeu. Sua aparição repentina tranqüilizou-a. Sentia o corpo febril. Em seus braços, ela estava segura, a advertência de Moira foi jogada ao canto mais longínquo de sua mente. Este homem não seria capaz de ferir uma inocente.

— Bom dia, Brandubh — Eibhlin sentia que seu corpo ficou tenso ao ouvir a saudação de Moira.

Por que ele reagia dessa forma perante ela? Porque era a irmã de Caoimhe?

— Bom dia, Moira — Ele apertou Eibhlin contra seu tronco e seu punho continuou fechado — Queria falar em privado com lady Eibhlin.

— É obvio, milord — respondeu Moira. Ela não demonstrou o seu desgosto quando passou junto a eles. Quando a porta se fechou, Brandubh finalmente conseguiu relaxar.

— Por que ainda está aqui? — perguntou exigente.

— Porque necessito de sua ajuda — O ar tornou-se denso e ela teve problemas para respirar.

— Milady, está doente? Aqui, sente-se — levou-a sobre até o banco e ajoelhando-se diante dela, puxou a sua mão e acariciou-lhe a palma.

— Só estou cansada.

— Deve se cuidar, senhora. Seu sofrimento me afligiria também — Seus olhos negros a imobilizaram nesse lugar — Você esteve me evitando.

— Você tinha partido —replicou Eibhlin com a voz trêmula. Tinha a garganta seca.

— Estive aqui várias vezes, desde que...— Ele se deteve, seus olhos cintilaram ao recordar o medo que havia sentido — ... desde que meu pai esteve doente, nunca mais vi você. Minha mãe disse que esteve muito ocupada.

Claro que tinha estado. Estava muito à vontade, muito afeiçoada com as pessoas, especialmente com Brandubh. Viver ali não era tão difícil como tinha pensado, uma vez que se acostumou a não ter água corrente, nenhuma instalação de canos no interior da casa, nem eletricidade, nem chocolate... nem café. Mas ela só disse:

— Estive muito ocupada, Brandubh.

— Aye, estamos muito agradecidos que esteja aqui.

— Eu não fiz nada que outra pessoa não tivesse feito — Brandubh levantou sua fronte.

— Duvido que isso seja verdade, milady. Há muitos que possuem algum conhecimento de cura, mas o seu dom é muito maior. Muitos teriam perecido se não estivesse aqui para tratá-los.

— Não fui capaz de ajudar o velho Michael, nem o bebê de Caitlin.

O som do pranto e os gemidos da jovem mãe ainda ressoavam na mente de Eibhlin. Ele apertou-lhe a mão.

— Sabe que essa criança nasceu doente. Com o tempo, ela vai se recuperar, mas este bebê não devia viver. O velho Michael já tinha vivido a sua vida e não sentia a morte como uma carga.

Eibhlin sabia em seu coração que Brandubh dizia a verdade desta vez. Michael estava perto dos setenta, era um velho homem que passou décadas inclinado sobre o arado. Eibhlin tinha velado junto à cabeceira de sua cama, até que a respiração fez-se cada vez mais difícil, conforme se aproximava o fim, e nesses momentos ele falou sobre sua esposa que tinha morrido há vinte anos. Michael não tinha temido a morte. Ele tinha dado as boas vindas com os braços abertos. O bebê de só uma semana, tinha nascido prematuro e tinha os pulmões muito frágeis, dificilmente poderia ter sobrevivido no século XX, apesar do que ela havia dito a Moira mais cedo.

— Ainda não me é fácil aceitar. Aprendi muito, Brandubh, mas não sei as coisas que preciso saber.

— É suficiente para nós sabermos que tentou.

— Sua mãe pensa assim, também? Não falou comigo desde aquela manhã no quarto de Dougal quando ele...

— Minha mãe sabe que você não fez aquilo. Ela é teimosa e não pode confessar facilmente que se equivocou. Se perder a sua companhia, entretanto, sei que tratará de aproximar-se e reparar o que tem feito — Ao falar de sua família Brandubh tinha encontrado a abertura que esperava por parte de Eibhlin. Levantou a cabeça e elevou uma de suas sobrancelhas negras e brilhantes — Você considerou minha oferta?

Ela tinha pensado em outra coisa cada vez que tinha um momento livre? Desde aquela manhã em que ele se aproximou de sua cama, deixando-a com um beijo gostoso, ela tinha lutado contra a certeza de que seu coração pertencia a ele, preferindo tomá-lo só como um caso de luxúria a primeira vista.

A atração que ele exercia não era só sexual, embora o fosse em grande parte e Brandubh sabia disso, o porco arrogante. Seu coração e sua alma estavam tão envolvidos como aquelas partes que não queria mencionar.

Por muito que o quisesse, ela não podia permanecer ali. As possibilidades de interferir e produzir um caos na História eram muito aterradoras. Tinha lido bastente novelas de ficção científica para saber o que poderia causar uma desordem temporária na História. Tinha que voltar para o seu próprio tempo. Tinha que ser possível. Não podia sequer considerar que não fosse.

Ele esperou pacientemente que ela se sentasse, silenciosa, evitando seus olhos assim como tinha evitado de responder-lhe. Eibhlin só pode lançar um olhar rápido ao seu rosto. Quando viu que ela não responderia, ele finalmente falou, sua face cheia de preocupação e talvez, um pouco de temor

— O momento de tentar voltar para tempo de onde veio aproxima-se. Eu não manterei você aqui contra a sua vontade. Embora estivesse afastado, senhora, deve saber que desejo você como não desejei a nenhuma outra mulher antes. Permanece comigo e eu te honrarei até minha morte com meu corpo, minha vida e minha fortuna.

Nenhuma palavra de amor tinha sido dita, mas esse bonito discurso soava quase como os votos de um casamento. Poderia amá-lo? Imediatamente?

— Não tem nada para dizer? Não há nada em seu coração para mim, milady?

 

Minha Dama. Ele dizia com tal sentimento de desejo, e ela podia ouvir a emoção que estava profundamente oculta nessa frase. Não era justo ir e deixá-lo com a idéia de que ela não sentia nada por ele. Talvez fosse certo dizer-lhe quais eram os seus temores. Ele entenderia por que ela não podia permanecer ali. Diabos, ele provavelmente a levaria para Craglea a toda pressa e a prenderia a uma pedra para que esperasse o solstício de inverno sozinha.

— Brandubh, eu não devo ficar. Sou do futuro.

Se esperava alguma reação, desiludiu-se. Ele permaneceu ajoelhado diante dela como uma estátua, sustentando sua mão e esperando. Sentia-se como a estrela principal de um filme B sobre Marte e seus habitantes. Eibhlin tratou de explicar-se melhor.

— O dia em que me empurrou através da cortina, era para mim o 1º de novembro do ano de 1998.

— Eu não empurrei, você veio para mim.

Eibhlin não podia acreditar no que estava ouvindo. Ele não discutia a sua declaração de pertencer a um tempo quase mil anos no futuro. Seu único problema era a respeito dr quem era responsável pelo cruzamento cortina.

— Acabei de dizer que viajei no tempo.

— Aye, eu ouvi. Esperas que eu me surpreenda?

— É claro. Acabo de dizer uma coisa fantástica, algo incrível.

— Eibhlin, eu estava ali. Vi o carro vermelho com que viajava. Claramente não era deste mundo. Qualquer que seja a explicação, certamente será fantástica.

— Brandubh, eu sei o futuro. Poderia fazer com que algo mudasse. Algo que talvez afete o resultado de acontecimentos que acontecerão dentro de mil anos.

Ele não parecia impressionado.

— Pode fazê-lo? Por que faria isso?

— Eu não o faria de propósito, idiota! Seria um acidente, mas resultaria que coisas horríveis acontecessem.

Ele franziu a fronte ao refletir sobre isso.

— Por que pensa que algo que pudesse fazer mudaria o futuro?

Ela ficou muda e Brandubh viu a oportunidade de continuar.

— Eibhlin, a História é uma demonstração do que Deus faz. Não aprendeu isto? — diante do seu silêncio, ele franziu o cenho — Não acredita que é assim?

— Acreditar no que?— a sobrancelha elevou-se surpresa.

— Em Deus, o Pai. Em Jesus Cristo, nosso Salvador. Por todos os céus, mulher, como educam as crianças nesse lugar de onde vem?

— Fui muito bem educada, obrigado. Minha mãe é muito devota — Ela recordou que se sentava nos joelhos de sua mãe, quando Moira lia para ela os contos sobre os santos — Mas sou uma cientista, Brandubh. Acredito no que pode ser medido e que pode ser provado — Ele sorriu.

— E ainda acredita que está no passado?

   Eibhlin realmente não via aonde queria chegar Brandubh. Levantando ambas as mãos diante dela com as palmas para cima, perguntou:

— Estou aqui, ou não?

— Começo a entender sua perspectiva, milady. Esse primeiro dia na Craglea quando me viu, pensou que era... — torceu os lábios antes de continuar — uma aparição? Possivelmente pensou que não era real?

— Definitivamente pensei que não fosse real. Quando desapareceu diante de mim, tive a certeza disso.

— Oh, agora vejo. Em seu tempo, não existe a fé? Ninguém aceita que há coisas que não se podem entender?

— É obvio, mas sabemos que eventualmente alguém encontrará a chave para compreender isso. Estudamos o que não entendemos.

— Sério? Bem, então, dado que Deus não permitiria que deixasse de ocorrer a oportunidade de me estudar, olhemos este problema de outra forma — Ele parou e percorreu o aposento com as mãos enlaçadas detrás de suas costas — Considera isto. A História é também uma amostra das ações dos homens. Você pensa, Eibhlin, que sua interferência fará com que os homens atuem de forma diferente do que eles desejam?

   Eibhlin soprou furiosa.

— Típico de macho...

Brandubh franziu o cenho quando escutou essa palavra espanhola dita com sotaque inglês, então ela voltou para o seu perfeito irlandês — Acredita que uma insignificante mulher não poderia fazer nada para transtornar os planos dos grandes homens como você?

Ele cruzou seus braços sobre o peito.

— Não, não acredito. Os homens farão o que quizerem fazer. As mulheres, também. Eu digo que você não pode mudar como as pessoas usarão o seu livre-arbítrio.

— Que tal minhas ações como médico? Se o bebê de Caitlin tivesse vivido?

— O menino não sobreviveu.

— Quantas pessoas poderiam ter morrido se eu não estivesse aqui? O que acontecerá para alguns deles ou aos seus descendentes se a maneira como as coisas devem ocorrer forem trocadas?

— Talvez foi enviada para salvá-los — Ela ficou calada e Brandubh continuou — Façamos uma prova, então. Diga-me alguma coisa que acontecerá logo. Pode fazer sua melhor tentativa para mudá-la. Prometo que não poderá.

Ele deu a volta para olhar pela janela, dando as costas para Eibhlin enquanto olhava o pátio. Ela não poderia ver seu rosto, mas podia adivinhar seu humor muito bem. Estava tenso, como a corda de um arco preparado para disparar. Então disse algo que sabia que ela não poderia resistir.

— Os planos de Brian para derrotar os vikings no leste.

O coração começou a pulsar frenético. Era dezembro de 1013. Na próxima Sexta-feira Santa, Brian Boru morreria nos campos de Clontarf, ao norte de Dublin. Ganharia a batalha, mas a sua morte terminaria com a oportunidade da Irlanda de alcançar um destino doloroso.

— Quando?— Perguntou Eibhlin, que já conhecia a resposta.

— Quando chegar a primavera — E virou-se para olhá-la — Qual será o resultado? — Estava provando-a, não só se falaria sobre o futuro, mas se sua presença poderia modificá-lo. Possivelmente já fosse muito tarde para prevenir isso.

— O exército de Brian será vitorioso.

O rosto de Brandubh tinha um sorriso glorioso.

— Mas ele morrerá em Clontarf.

Seu rosto escureceu. Ela podia sentir sua tristeza.

— Clontarf? Sei disso. “ Ocorrerá uma matança justa” — ele disse com voz grave e profunda. Logo ficou em silêncio enquanto digeria a notícia. Suspirando, ele perguntou com os olhos brilhantes —Como morrerá Brian morrerá?

Eibhlin sacudiu a cabeça contra o horror do que tinha que dizer.

— Irá de encontro um machado viking.

Brandubh ofegou —Um machado?

— Mesmo sabendo que morrerá, Brian abaterá o viking. Ele será levado a Armagh para ser enterrado com seu escudo e sua espada.

— Qual de seus filhos o seguirá como Ard Ri?

— Nenhum deles. Os três cairão em Clontarf. Murrough, Flann, Conor e o filho de Murrough, Turlough.

— Não — murmurou Brandubh. Sentia-se obrigada como no mito da Casandra, a dizer tudo.

— Teague será Rei do Munster, mas ele não será suficientemente forte chegar a ser Ard Ri. Donnough é muito jovem e não terá o necessário. Malachy de Meath voltará para reclamar o título.

— Malachy? — Brandubh esplodiu com incredulidade — Impossível. Brian despojou Malachy de sua coroa. Ele não é capaz de ser Ard Ri.

— Será outra vez. Dois O’ Briens governarão como Ard Ri, mas não haverá nenhum como Brian outra vez — Brandubh voltou-se para ela ajoelhou-se outra vez a seus pés.

— O que acontecerá então com a Irlanda?— perguntou em um murmúrio.

Eibhlin suspirou profundamente. Por que dizê-lo? O que poderia ele fazer se soubesse? Mesmo assim não podia deixar de falar.

— Em cinqüenta anos mais ou menos, os Normandos cruzarão o Canal e conquistarão Grã-Bretanha, os reino meridionais, pelo menos. Quase cem anos depois disso, o Rei de Leinster será exilado pelo Ard Ri e, em vingança, ele convidará o rei normando da Grã-Bretanha para vir a Irlanda.

— Os normandos?

Eibhlin assentiu outra vez.

— Os descendentes dos vikings que se assentaram no norte da França. Depois que os normandos chegarem,a Irlanda não será livre outra vez por quase oitocentos anos, e então o povo será mais inglês que irlandês.

Brandubh sentou-se sobre os seus calcanhares. Sua tristeza rompia o coração de Eibhlin, já que ela tinha sido criada por um patriota. Seu pai era um partidário incansável da autonomia irlandesa e um erudito da História Irlandesa. Ele estava convencido de que foram os irlandeses que haviam salvo a Civilização Ocidental, tirando-a do obscurantismo da Idade Média através da tarefa dos monges irlandeses, que re-evangelizaram o continente europeu. Em 1013, isso já era História.

Eibhlin sentia que seu coração pulsava de modo frenético e sua respiração se agitava, mas essas coisas não tinham acontecido ainda. Talvez não ocorressem, Brian não estava morto ainda. Ele tinha sido conhecido como o Carlos Magno da Irlanda por causa de seu desejo de forjar uma nação a partir de tribos dissidentes e reis insignificantes. Certamente ele a via como se ainda tivesse uns anos para estar com ele. Talvez suficientes para completar a sua visão e deixar a Irlanda o bastante unida e forte para sobreviver. A idéia de mudar a História já não a assustasse tanto. De fato, resultava-lhe estimulante.

 

Se Brandubh tinha razão e não havia nada que ela pudesse fazer para modificar a História, então já não estaria obrigada a ir embora. Entretanto, se ela pudesse escolher permanecer e tratar de prevenir a tragédia do povo irlandês... De qualquer maneira, poderia ter Brandubh.

— O que você está pensando?

Sua voz sacudiu-a de suas reflexões. Eibhlin sentou-se com as costas retas, olhando-o nos olhos.

— Brandubh, acredita realmente no que me disse antes? Que não é possível mudar o que acontecerá?

Seu rosto tinha uma expressão causar pena.

— Temo que sim e acredito que se levar você a Kincora poderia contar a Brian o que sabe.

— Ele me escutaria? Tomaria alguma precaução?

— Como posso saber o que ele fará? Brian foi sempre imprevisível — Ele sacudiu a cabeça e franziu o cenho — O que vai querer saber é como vai ser surpreendido por um Viking! O fedor deles os precede por uma milha ou mais.

Ela notou divertida que ele falava de um acontecimento que ainda não tinha acontecido como se já fosse parte do passado.

— Há tempo para isso, Eibhlin — disse Brandubh colocando suas mãos suavemente em seus ombros — pensei no ladrão que roubou meus cavalos. Irei persegui-lo, mas necessito de sua promessa de que me esperará antes de tentar voltar para o seu tempo, que não permitirá que outro a acompanhe a Craglea. Isso se decidir ir embora. Serei eu quem vai te levar.

— Se decido ir, o que fará com o que contei a você hoje?

— Repetirei suas palavras a Brian, mas não espero que me escute. Morrer de velhice em sua cama não é algo que ele ache atraente, preferiria cair vitorioso na batalha. — O coração pesava diante da desconfiança de poder mudar o que iria ocorrer.

— Vou esperar você, Brandubh — Ele tomou suas mãos e beijou-as suavemente.

— Orarei constantemente para que você decida permanecer comigo.

— Mas, me deixaria ir?

Brandubh assentiu.

— Embora minha alma pereça. Espero que considere minha oferta seriamente. Em todo caso, eu sim o faço...

Brandubh parou e apertou-a contra si, pressionando os seios contra o peito, cujos músculos eram sólidos como uma rocha. O seu grosso bigode roçou a pele dos lábios. Ela abriu-se para ele como sempre o tinha feito, apesar das circunstâncias, apesar de sua determinação de que as coisas fossem diferentes. O toque de sua língua era gostoso, sedoso, quente e rapidamente tomou posse dela.

Eibhlin agarrou-se a ele, tomando o que lhe oferecia, desfrutando do seu sabor. Eibhlin voltou a experimentar e gemeu quando ele lambeu os lábios e levantou o seu rosto do dela. O fôlego tocou o seu cabelo.

— Voltarei logo, meu amor — Ele já tinha passado a porta antes que Eibhlin chegasse a sentar-se outra vez.

Meu amor. Ele havia dito essas palavras. Nesse momento percebeu que pertencia àquele lugar, a ele, e a ele a ela. Talvez fosse a mornidão que a preenchia ou o enjôo que se apoderou de sua cabeça, mas tinha dificuldade para respirar.

O som dos cavalos afastando-se, atravessou a porta e Eibhlin o desejou. Ela quis segui-lo, puxá-lo e gritar que o esperaria, que ficaria com ele, para casar-se, ter seus filhos e ser SUA mulher.

Saltou do banco e alcançou o vão da porta.

— Brandubh — chamou-o logo que tocou o chão.

 

Moira passou pelas portas abertas e dirigiu-se para o salgueiro solitário que abraçava a margem do rio. Desde que sua mãe morreu, Moira tinha encontrado uma paz única ao sentar-se embaixo dessa árvore, orando, cantando ou tocando sua harpa. De algum modo, a velha árvore, com seus ramos longos que se penduravam até o chão como tranças grossas de prata, parecia uma avó amorosa, envolvendo Moira em um ninho de paz e compreensão. Era um lugar que ela tinha necessitado cada vez mais ultimamente.

Não queria gostar de Eibhlin. Tudo nela foi preparado para se aproveitar da confiança de Eibhlin e utilizar o ervanário para lançar seu plano de vingança contra Brandubh, privando-o da mulher que amava.

Mas, com o suceder dos dias, a maior parte de sua cólera para com Eibhlin tinha desaparecido. Tudo isso agora estava dirigido para Brandubh. Mas tinha abandonado a idéia de vingar-se sabendo a dor que Eibhlin sofreria.

Envenenar as sementes de sorveira não tinha sido idéia dela. Uaid tinha sugerido e ele tinha conseguido a beladona. Tinha comprado a um mercador viking em Limerick[26] e não deveria causar danos graves.

Eibhlin, só devia ficar doente por pouco tempo e Brandubh sofreria sozinho aquilo ele tinha causado a Uaid e a seu pai. Uaid não sabia logo que Dougal havia tomado a mistura. Moira estremeceu ao recordar a reação de seu irmão diante do seu fracasso.

Ele tinha esmagado o punho na parede repetidas vezes e amaldiçoou a Deus e a Brandubh. Moira ainda não podia acreditar que ele tivesse tentado matar Eibhlin.

Quando seu plano fracassou, Moira havia se sentido muito aliviada, e não só porque Dougal tinha sobrevivido. Seus sentimentos estavam muito perturbados, e apesar de ser uma mulher Eibhlin ni Seamus havia tocado uma parte de Moira que ela nunca soube que existia. Moira nunca tinha estado apaixonada antes e ignorava como seria estar, mas — finalmente tinha que reconhecer —ela amava Eibhlin.

Não!

Correu para além do salgueiro e deixou-se cair no chão, envolvendo com os braços os seus joelhos e também envolvendo as pernas.

Moira sabia que algumas pessoas encontravam o prazer com outras de seu próprio sexo, mulheres com mulheres e homens com homens. Tremeu enojada só em pensar. Essas coisas certamente não eram naturais, já que não podiam nascer filhos dessa união.

— É uma abominação — murmurou.

Entretanto, ao pensar em filhos, chegou uma visão de uma garota alta e magra com um longo cabelo castanho e olhos amendoados, andando pelo rio junto ao homem que aparecia nos seus sonhos, que a levava pela mão como um pai faria. Logo que a visão apareceu foi embora, deixando Moira mais confusa do que nunca.

— Está aqui — Moira dissimulou a surpresa e com cuidado, mostrou uma aparência de calma antes de virar-se para encarar o seu irmão.

— Bom dia, Uaid, voltou para ficar ? Ou está pensando em criar mais caos imediatamente?

Ele não sorriu com isso. Fazia muito tempo que ele não sorria.

— Viu Brandubh esta manhã?

— Aye. Veio despedir-se de Eibhlin. Ouvi que teve notícias de seus cavalos

Uaid riu e Moira acreditou que essa risada de louco a congelav.

— Não encontrará muitos.

— O que quer dizer?

Uaid sentou-se ao lado dela, estirando as pernas diante dele.

— Digo que Conchobar não dará muito prazer a Deirdre.

— O que tem feito, Uaid? Roubou o gado? Invadiu as terras do nosso chefe?

— Apenas tomei o que correspondia ao preço de noiva por Caoimhe, o que devia pagar por matá-la. Dougal era cúmplice nisso também.

Moira estava de acordo em que Brandubh, e até certo ponto, Dougal, eram culpados, mas o gado era uma compensação muito pobre.

— Planejou roubar também os cavalos?

— Não é um plano grandioso? Brandubh tem muitos planos para esse par. Alguns de meus amigos saíram este amanhecer para castrar o semental e cortar Deirdre em pedacinhos de modo que se transforme em isca para os lobos.

— Uaid, não — murmurou ela.

— Ah, sim. É claro, Brandubh encontrará a égua morta e Conchobar talvez sangre até a morte antes que ele chegue.

Moira estremeceu.

— Arruinar esses animais seria um pecado. Por que não vai a ele diretamente?

Mais uma vez mais seu sangue gelou quando seu irmão a olhou nos olhos. Eram castanhos como os seus, e até o suicídio de Caoimhe eram quentes e risonhos. Agora estavam mais mortos que a própria Caoimhe. Seu temor se aprofundou quando ele falou. Sua voz parecia vazia de toda emoção.

— Mataremos logo a sua mulher. Isso é suficientemente direto para ti, Moira?

— Não! Não, Uaid, não pode machucá-la.

— Solte-me, mulher.

Moira não notou que o havia segurado pela manga. Soltou-o e ele sacudiu seu braço.

— O que é esta puta para ti? — disse Uaid enquanto retrocedia — Foi a causadora da rejeição de Brandubh para com Caoimhe.

Por que cuidava dela? O que era esta atitude protetora e desesperada que a tinha feito enfrentar o seu irmão?

Sua mente não conseguia encontrar a resposta. Não era possível. O que Uaid planejava não estava certo e ela não tomaria parte nisso.

— Eibhlin não tem culpa e eu não permitirei que a mate. Faça o que quiser com Brandubh. Deixa-a em paz.

Uaid a olhou com os olhos estreitados. Moira não pôde adivinhar o que ele pensava.

— Talvez tenha razão, Moira. Brandubh tem o sangue de nossa irmã nas mãos e eu não quero carregar o mesmo pecado.

Ele pareceu renunciar a suas intenções muito facilmente, pensou Moira e pela primeira vez em sua vida, não acreditou nas palavras de seu irmão.

— Vou para casa. Nosso pai não sabe que retornei. Irei vê-la no jantar?

— Sim, é claro..

— Não fique aqui muito tempo, irmã.

Uaid sacudiu os ombros e sorriu como antigamente enquanto se dirigia para as portas da fortaleza.   Moira levantou-se também e o seguiu.

Não queria suspeitar de sua própria carne, mas Uaid parecia estar mentindo.

Uaid desviou seus passos e dirigiu-se para o ervanário. Moira seguiu-o sentindo que o medo lhe retorcia as entranhas.

— Fora do caminho, moça.

A voz veio do grupo montado que galopava para ela. Moira se afastou com um saltou e caiu sentada na cama de tomilho que margeava o jardim da cozinha.

— Você está bem, filha?

Seu pai parou e a olhava de cima. Ela assentiu e ele continuou falando.

— Estamos tratando de encontrar os demônios que roubaram o gado de Dougal e os cavalos de Brandubh. Viu seu irmão?

Moira assentiu automaticamente.

— Disse que iria procurá-lo quando retornasse.

Conor soprou de fúria.

— Fico feliz. Diga-lhe que saí com Brandubh, mas que voltarei a tempo para escutar as suas novidades no jantar.

— Que novidades? — perguntou ela e seu pai sorriu.

— Onde diabos tem estado? Faz isso por mim, moça.

— Sim, pai.

Os olhos da Moira seguiram o homem e logo olhou o homem que dirigia o grupo. Brandubh. O homem que Eibhlin amava.

O que eram estes sentimentos? Agora, a idéia de qualquer dano que Brandubh sofresse quase a aterrorizava, como se acontecesse algo a seu próprio pai. Ou a seu irmão. Porque machucaria Eibhlin. Moira respirou fundo e deu a volta em direção ao laboratório.

Sua vida tinha sido tão simples antes da morte de Caoimhe. E por que? Por um homem que não a tinha querido realmente. Caoimhe, como de costume, não tinha pensado em ninguém apenas nela mesma.

Perdoar a sua irmã mais nova por seu egoísmo pueril tinha chegado a ser um hábito que tinha crescido muito lentamente.

— Moira! — deu a volta em direção da voz — Meu filho tosse com sangue e não posso encontrar Lady Eibhlin. Poderia dar uma olhada nele?

Moira suspirou. Esta enfermidade desapareceria em Ath Sionnain?

— É claro, Ena. Espera que eu tome algumas ervas e irei vê-lo.

Aproximou-se do laboratório com o estômago retorcendo-se de medo. A porta estava aberta. Moira empurrou-a ainda mais e, uma vez que teve a certeza de que estava vazio, deu um passo através da soleira.

Girou a cabeça e percorreu todo o aposento. Algo estava errado, disse.

O fogo havia quase se apagado todo. O ar de dezembro estava muito úmido e Moira o sentia hoje, especialmente.

Tomou uma colher de madeira grossa da mesa e revolveu-a com uma mistura de ervas que fervia no caldeirão pendurado sobre as cinzas.

Onde estava Eibhlin? Ela não teria deixado a porta aberta, nem a mistura cozinhando sobre um fogo quase apagado. Seus olhos percorreram outra vez o quarto, Moira tratou de identificar o que a perturbava.

Havia uma sensação de violência neste quarto que não havia antes. Então o viu. No piso junto à porta, o tamborete onde Eibhlin esteve sentada quando Moira a viu pela última vez nos braços de Brandubh. O pente de marfim que Sadbh havia dado e que Eibhlin levava sempre com ela. Uma posse estimada que ela nunca deixaria atrás. Moira agachou-se para recolhê-lo e nesse momento notou as manchas marrons nos juncos que cobriam o piso. Tocou as gotas com uma necessidade pouco natural. Era um liquido marrom avermelhado, quase seco.

Ela havia visto suficiente sangue para reconhecê-lo. Eibhlin estava ferida e seu sangue manchava o chão.

Moira fugiu do ervanário para ir procurar ajuda.

 

Brandubh viu a fumaça do fogo antes de ouvir os relinchos horríveis dos cavalos que lutavam. Sua surpresa foi maior ao encontrá-los lutando uns contra os outros.

— Conchobar — murmurou com alívio enquanto esporeava os seus arreios, fechando a distância, mas sem intervir rapidamente. Ele estava suficientemente perto para ver cair sob as patas ferradas de Conchobar o homem que empunhava uma faca de castrar.

Um segundo homem correu para o garanhão que relinchava, esgrimindo uma espada.

Um rugido incoerente de raiva escapou de sua garganta. Não conseguiria chegar ali a tempo. Mas Conchobar não estava sozinho. Deirdre soltou-se bruscamente, afastando-se do terceiro homem que sujeitava sua brida e uniu-se à briga.

Brandubh perdeu o fôlego ao ver a velocidade com que corria e a forma como ela se deteve. Deirdre se elevou sobre suas patas e esmagou o agressor contra o chão. Logo girou para derrubar o terceiro homem, que pensou melhor e deixou a cena andando.

Uma vez que tinha feito tudo que ela podia fazer, retrocedeu e permitiu que Conchobar terminasse a tarefa.

— Deixe que vá — indicou Brandubh a seu amigo Gadhra, referindo-se ao ladrão que escapava.   Brandubh voltou sua atenção para a horripilante cena que se desenvolvia diante de seus olhos.

Nunca em uma batalha com espadas e machados, tinha visto tal matança. Conchobar bufou, relinchou e golpeou o homem que estava estendido no chão.

Brandubh apeou e aproximou-se do local a pé. Conchobar parou no seu lugar, soprando como se tivesse se deslocado numa grande corrida. Deirdre ficou atrás de seu companheiro, sua pelagem de neve manchada com sangue e restos do cérebro daquele homem.

Apesar de esgrimir a espada em muitas batalhas em nome de Brian, Brandubh sentia um certo mal-estar perante essa cena.

— Mãe Santa, Brandubh — Dougal caminhou ao redor do garanhão e de Deirdre, dando uma volta nos restos no chão do que tinha sido um homem — Tranqüila milady, você hoje foi uma valente moça irlandesa, não?

A égua respondeu à sua voz cortando a cabeça do homem com seus cascos. Dougal riu cruelmente.

Em contraste com a calma de Deirdre, Conchobar não conseguia tranqüilizar-se e continuava dando coices, sacudindo a cabeça e relinchando um desafio de guerreiro entre a respiração.

Brandubh esperou até que Conchobar reconhecesse o seu cheiro para aproximar-se dele.

— Conchobar, rapaz.

   Brandubh falou suavemente e deu um passo cauteloso e depois outro, mantendo seus olhos na cara de Conchobar. O garanhão tranqüilizou-se e baixou a cabeça para encontrar o peito de Brandubh em uma saudação. Com uma mão suave, Brandubh acariciou o pescoço e logo deslizou a mão para cima para segurar a sua crina. Este era o sinal para que o cavalo se deixasse examinar. Se o homem morto no chão tivesse conhecido esse sinal, Conchobar seria agora um cavalo castrado e o homem estaria vivo, esperando Brandubh para matá-lo. Agora restava era determinar qual o dano feito antes que Conchobar o tivesse golpeado.

Cheio de terror, Brandubh moveu a mão sobre o couro suave, os flancos musculosos e as patas. Logo examinou o ventre, e deslizou a mão mais para baixo nas genitálias.

Brandubh captou uma leve advertência, antes que o animal estendesse seu membro e um jato de urina salpicasse o chão e o corpo esmagado do homem que Conchobar tinha matado.

— Oh, Conchobar — repreendeu Dougal —Não insultaste bastante o homem? Também tinha que mijá-lo?

Os homens na partida riram diante da perspicácia de Dougal. Todos tinham visto a faca na mão do cadáver. Conchobar tinha lutado por suas bolas, como qualquer homem dentre eles teria feito.

Brandubh só compartilhou um sorriso satisfeito com Dougal antes de rodear o animal e levantar a grossa cauda negra de Conchobar. Logo suspirou aliviado. Tinha medo de que no final das contas os desgraçados tivessem conseguido fazer o trabalho.

— Está tudo bem, filho? — perguntou Dougal.

— Aye, pai, nosso Conchobar está inteiro.

Brandubh deu umas palmadinhas nos imensos flancos e passou mais uma vez a mão pelo outro lado, só para certificar-se. Realmente, sob a luz do entardecer de inverno, o garanhão negro parecia estar em bom estado, ainda que sua pelagem de ébano estivesse cheia de espuma, sangue e carne humana.

— Terá que matar esse animal, Brandubh — Conor Mac Turlough falou com verdadeira tristeza em sua voz — É uma verdadeira lástima.

— Por que, Conor? Ele só estava se defendendo.

— Aye. Mas, como se sentirão as pessoas ao terem um cavalo assassino entre elas?

— Ele estará em Lon Dubh, Conor. Todos ali o conhecem — Brandubh levantou a mão para cortar as próximas palavras de Conor — Não se fala mais quanto a sacrificá-lo.

Gadhra apareceu trazendo o ladrão que tinha apanhado, empurrando-o ao chão no meio do círculo de homens. Gadhra já tinha começado o interrogatório, se é que os cortes, o sangue, os machucados e os dentes ausentes serviam de indicação.

— Fala — grunhiu Gadhra, dando-lhe um pontapé.

— Vai para o inferno — Gadhra voltou a chutá-lo. Com três passos, Brandubh parou junto ao homem e levantou-lhe a cabeça puxando o cabelo. Inclinando-se sobre ele, Brandubh cravou seus olhos nos olhos do homem.

— Quem é? O que fazia com estes cavalos? — Com um olhar desfocado e teimoso, o homem ficou calado.

— Eu sei, Brandubh — a voz de Conor era pesada — É um amigo de Uaid, é Ossory.

Uaid. A onda de murmúrios especulativos se espalhou através do pequeno grupo de homens e machucou Brandubh tanto como se um de seus parentes o tivesse feito. Perguntou-se o que ele faria quando soubesse que o plano não tinha funcionado. Qual seria seu próximo objetivo? Quis matar o que alimentava os sonhos de Brandubh para o futuro. Que outra coisa, além destes cavalos, era importante para ele?

— Eibhlin — Pronunciou o nome suavemente.

Brandubh se agachou-se diante o homem, soltando o cabelo e agarrando a sua garganta.

— Onde está Uaid agora?— perguntou Brandubh, aterrorizado com a resposta que imaginava receber.

— Está em Ath Sionnain — respondeu o homem tratando de respirar apesar dos dedos apertados de Brandubh — Quis ir ver seu pai e sua irmã.

Brandubh liberou a garganta do homem com um puxão selvagem e deu a volta, dirigindo-se a Conchobar. O garanhão pareceu não se alterar quando Brandubh saltou em suas costas.

— Brandubh, onde vai?— perguntou Dougal quando seu filho montou no cavalo — Espere e colocaremos a sela e a brida.

— Não há tempo, pai — respondeu Brandubh, e agarrando-se na crina, pôs o animal na direção de Ath Sionnain — Vem, tapaz, eve-me a ela.

Brandubh cravou os calcanhares nos flancos de Conchobar e sustentou-se diante da explosão de poder. Deirdre soprou e saiu atrás deles, atirando no chão o homem desventurado que tinha tratado de pará-la. Brandubh olhou por sobre suas costas para certificar-se de que ele estava bem. Esse foi o único momento em que tirou seus olhos do caminho enquanto cruzavam campos, pradarias e correntes de água, enquanto foram para Ath Sionnain e Eibhlin.

 

A primeira coisa vista, foi o branco fantasmagórico de Deirdre que se aproximava, livre do peso de um cavaleiro. O som dos cascos avisou o guarda que a reconheceu e abriu as portas. Detrás dela, Brandubh se aproximava de Ath Sionnain, montado sobre Conchobar como um anjo da morte. O azul escuro de seu manto e o couro negro como o inferno de Conchobar, somado às numerosas manchas de sangue coagulado, visíveis ainda sob o débil resplendor das tochas, davam conta do infernal castigo que tinham recebido.

Os homens se encolheram contra as paredes de pedra da casa grande. As mulheres morderam os nós dos dedos para reprimir os gritos de terror. As crianças esconderam seus rostos nas saias de suas mães. Mesmo que reconhecessem o cavaleiro como o filho de seus senhores, um homem que a maioria deles tinha conhecido e amado desde o seu nascimento, o rosto de Brandubh evidenciava raiva e ansiedade, o que desanimou qualquer tentativa de saudação.

Passando sua perna direita por cima da cabeça de Conchobar assim que o cavalo entrou na casa, Brandubh saltou ao chão. Logo que seus pés chegaram ao chão, suas implacáveis passadas o levaram para o grande salão em cima da construção.

Seus olhos procuraram a multidão que esperava o jantar. As mesas estavam preparadas, mas nenhum alimento sairia da cozinha úmida até que seu pai chegasse ou que sua mãe decidisse não esperá-lo. Mas Brandubh não procurava alimento.

— Uaid Mac Conor! Enfrente-me. Resolveremos isto aqui fora.

Seu desafio fez que com se abatesse um silêncio mortal sobre o salão. Cada cabeça virou-se para ele, enquanto Brandubh esquadrinhava a multidão, procurando em cada rosto o do homem que se converteu em seu inimigo.

Um grunhido de raiva retumbou no peito do Brandubh quando localizou Uaid ajeitado contra a parede do fundo do salão, com um sorriso afetado curvando seus lábios.

Afastando as pessoas apressado, Brandubh viu um atalho se abria diante ele à medida que as pessoas se afastavam voluntariamente, antes de serem levantadas e lançadas pelo ar. Com os olhos fixos em Uaid, Brandubh levantou por fim o último obstáculo entre eles (uma pesada e sólida mesa de carvalho sólido que media quase 7 metros) e o partiu como se fose um punhado de palha.

Os olhos de Uaid piscaram diante da visão da mesa quebrada e voltaram para Brandubh.

— O que aconteceu? Está zangado, Brandubh? Não deveria estar surpreso. Eu disse que machucaria você.

— O que o faz pensar que estou ferido, Uaid? O gado é substituído facilmente. Meus cavalos estão lá fora.

Uaid sorriu.

— Isso explica o sangue que cobre você. Nunca provei carne de cavalo, embora saiba que esta é apreciada pelos vikings.

Brandubh deu graças a Deus por não ter posto até agora as suas mãos sobre Uaid. Matar um homem na casa de seu pai não era algo que quisesse fazer realmente. Mas se já tivesse Uaid em suas mãos, o maldito estaria morto.

Respirou profundamente tentando acalmar-se o suficiente para poder falar.

— O sangue em meu manto, Uaid, não é sangue de meu cavalo, e sim sangue humano. Quem sabe você não gostaria de ir ao lugar onde os seus cúmplices estavam preparados para castrar Conchobar? Poderia ver o que aconteceu com eles. Meu amigo Gadhra se encarregou desse assunto. Em troca, você… — Brandubh grunhiu enquanto se aproximava de Uaid — … é meu.

— Brandubh, não permitirei lutas em minha casa — Sadbh tinha aparecido um pouco mais à frente do ombro de Uaid — Exijo sua presença no quarto de seu pai.

— Mãe, quero terminar com isto de uma vez por todas.

— Agora, Brandubh — Uaid sorriu com uma careta zombadora.

— Melhor fazer o que diz mami, pequenino — Brandubh deu um passo para frente.

— Brandubh!

A voz de Dougal na porta, fez tremer as taças sobre a mesa. Brandubh ouviu os passos do pai aproximando-se e logo sentiu o apoio da força de sua mão sobre o ombro.

O impulso de afastar-se desse controle e separar a cabeça de Uaid do pescoço quase o curvou, mas em vez de dar rédea solta à sua cólera, simplesmente voltou-se e começou a subir a escada.

— Uaid — disse Dougal — Você não sairá de Ath Sionnain. Nós dois temos um assuntos para resolver.

Uaid olhou com tristeza como seu senhor seguia Brandubh para fora do vestíbulo. Dougal nunca tinha sido o objetivo de nenhuma de suas ações contra Brandubh, nem o roubo do gado, nem o café de sorveira envenenado, nem o ataque aos cavalos. Brandubh e a puta que esquentava a sua cama tinham sido a sua meta.

A fúria que ardia em seu interior de Uaid cresceu clamando por vingança. Até agora, Brandubh tinha escapado de cada um dos seus atentados. Finalmente, ele tinha planejado um que destruiria Brandubh completamente até a morte.

Tudo o que devia fazer era conseguir um par de cavalos antes que as ordens de Dougal chegassem aos moços do estábulo. Virou-se para pôr em marcha seus planos, mas os seus passos se detiveram diante do olhar azul e gelado de Sadbh. Podia sentir a sua desaprovação e estava arrependido. Ela tinha sido amável com ele e suas irmãs depois que sua mãe tinha morrido. Ela não sabia que Sadbh não apoiava as aspirações de Caoimhe a respeito de Brandubh. Sinceramente, ele concordava que Caoimhe merecia algo melhor do que esse desajeitado e imenso caipira.

— Uaid — disse a mulher com a voz baixa — Em respeito a seu pai, pode sentar-se em minha mesa, embora tenha desonrado seu nome. Mas eu exigo que se mantenha longe de Brandubh. Ele poderia facilmente matá-lo esta noite e ninguém seria capaz de fazê-lo parar. Não quero que ele carregue a culpa pelo seu assassinato. Já é suficiente a culpa que ele sente por sua irmã, embora não tenha nada a ver com a sua morte.

Uaid não aceitava isso. A morte de Caoimhe tinha acontecido por causa de Brandubh.

— Atenção todos, eu irei com Dougal — Sadbh levantou a mão para chamar a atenção das criadas — Podem servir o jantar agora. Lorde Fergus, você tomaria nossos lugares na mesa principal?

Antes de subir a escada de pedra, Sadbh olhou para Uaid de um modo que o fez pensar que ela estava realmente triste. "Lady Sadbh se compadece de mim? Reserve esse sentimento para os ocupantes de sua própria casa " pensou enquanto saia do salão. Perguntou-se se já tinham descoberto que a puta de Brandubh havia desaparecido

Dougal obrigou Brandubh a passar através da porta de seu quarto e os dois pararam subitamente ao encontrar a Moira sentada ali em frente ao fogo.

— Moira, o que faz aqui?

   — Lady Sadbh pediu-me que a esperasse, milord. Há problemas com o Eibhlin.

— Que problema? — A pergunta de Brandubh soou como um rugido — Onde ela está?

— Ela desapareceu — A voz de Moira era suave e repleta de temor — Tem que encontrá-la, Brandubh.

— De que você está falando, Moira?— Brandubh tratou de aplacar o seu crescente terror.

— Acredito que Uaid tomou-a. Depois de deixar você com ela no ervanário, desci ao rio para tomar um pouco de ar. Uaid aproximou-se de mim e admitiu que roubou o seu gado e os cavalos — Ela levantou a cabeça e olhou Dougal — Foi Uaid quem comprou a beladona e me obrigou-me a misturá-la na bebida de Eibhlin. Eu juro, Dougal, que nenhum de nós sabia que você também a bebia.

Dougal grunhiu.

— Já sabemos. O que mais ele disse a respeito de sua fúria contra Eibhlin?

Moira retorcia o seu manto e estava perto das lágrimas.

— Eu temo que Uaid está enlouquecendo. Ele ameaçou Eibhlin para castigar ao Brandubh. Eu disse que não permitiria, mas não acredito que tenha tomado a sério as minhas palavras.

— O que é que ele planeja fazer?— A voz de Brandubh parecia congelada pela raiva que ameaçava cair sobre a mulher diminuta sentada defronte a ele. Moira reconheceu esse olhar e tragou a saliva antes de continuar.

— Ele planeja matá-la — Moira ajoelhou-sediante dele e agarrou-lhe a mão — Brandubh, eu sei que ele a raptou e você deve encontrá-la e protegê-la. Se Uaid tentar matá-la, não deve vacilar.

— Não vacilarei.

Brandubh sabia que tudo isso era verdade e virou-se sobre os calcanhares, quase sechocando com Dougal enquanto deixava o quarto. Era difícil confiar em Moira. Ela também tinha prometido fazê-lo pagar por Caoimhe, mas qualquer que fosse o jogo que estivesse jogando, acreditava quanto aos planos de Uaid para com Eibhlin. Seus próprios temores se pareciam muito com isto para que não fossem verdade.

— Brandubh, vem — Sadbh chamou-o do corredor que levava à cozinha — aproxime-se moça, não tema.

Sadbh aproximava-se puxando uma garota de aproximadamente doze anos. A garota realmente tremia de medo e Brandubh pensou que devia parecer um assassino para inculcar tal terror em uma menina, mas ainda assim não podia suavizar o feroz cenho de seu rosto.

— Agora, conta o que viu — Os olhos da garota se dilataram como a caça diante do caçador. Sadbh sacudiu os ombros da garota — Fala, e faz isso rápido, antes que ele dê uma verdadeira razão para tremer.

— Era Uaid Mac Conor, senhor. Ele tirou do ervanário uma das tapeçarias da senhora.

— Uma tapeçaria?— A cabeça balançou sobre o magro pescoço.

— Sim, senhor. Enrolou-o e parecia que havia algo dentro. Logo a jogou sobre o ombro.

— Brandubh, não havia tapeçarias no ervanário — disse Sadbh.

— Para onde foi ele, menina?— Brandubh perguntou tratando de empregar um tom de voz amável, pois sabia que não ganharia nada aterrorizando a garota.

— Não sei, senhor.

— Quando foi isto?

— Antes de começar a ser servido o jantar. Vim procurar a senhora em seguida.

— Bem, moça. Pode ir jantar agora — Sadbh liberou o pulso da garota.

— Obrigado, milady.

A garota fugiu para o salão. Brandubh sentia os olhos de sua mãe fixos nele.

— Irei persegui-lo, mãe — virou-se sobre seus calcanhares e se lançou-se para fora de casa para em direção do estábulo.

 

Os rapazes do estábulo puderam dar-lhe algum dado mais útil. Uaid tinha tomado dois cavalos, um para ele e outro para carregar a tapeçaria que tinha enrolado.

— Maldito! — rugiu Brandubh — Sela Conchobar.

O moço que recebeu esta ordem apertou-se contra a parede.

— Conchobar pisou em uma pedra e tem uma pata dolorida, Brandubh.

Brandubh bateu o punho contra a parede perigosamente perto da cabeça do menino. Com uma voz terrivelmente calma, ele disse.

— Então dê-me outro. Um que possa correr.

   O menino assentiu sob o braço de Brandubh e saiu correndo para cumprir com ordem o mais rapidamente possível.

Brandubh já tinha montado quando Dougal o alcançou.

— Filho, espera. Irei contigo.

— Não posso esperar, pai. Ele está com ela.

Cravou os calcanhares sobre os flancos do cavalo, e lançou-se através das portões, amaldiçoando a escuridão que tornava quase impossível seguir as pegadas. Contudo, os rastros de Uaid eram bastante visíveis e Brandubh pôde segui-los através do Shannon para o reino de Connaught.

— O que ele fará com ela em Connaught?

As possibilidades o aterravam. Os rastros viravam-se para o sul, seguindo o curso do rio quando este entrava em Lough Derg. Sem nenhuma outra opção, Brandubh seguiu cavalgando na escuridão.

O tênue resplendor das estrelas não o ajudava a ver por onde seguiam os rastros entre as montanhas que delimitavam a fronteira entre o Munster e Connaught. Brandubh relaxou quando o caminho o levou novamente para seu território, mas esse alívio foi efêmero. Tinha exigido do cavalo até o esgotamento e quando toparam com um terreno rochoso, o animal tropeçou, jogando Brandubh de cabeça no chão.

Antecipando a queda e deixando-se rolar sobre a grama molhada, Brandubh conseguiu evitar romper o pescoço. O cavalo recuperou-se e voltou trotando até onde ele estava, mexendo a cabeça e bufando para manifestar a sua desaprovação.

Apoiando o seu traseiro no chão frio, Brandubh sentiu-se envergonhado, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e levantou a cabeça. Não poderia deixar estar de acordo com a avaliação de cavalo.

— Aye, moço, tem razão. Foi minha culpa.

A raiva que sentia, foi substituída pela culpa de ter exigido do animal quase até matá-lo para recuperar Eibhlin. A contra gosto teve que aceitar o argumento mais lógico: sem o cavalo, não conseguiria encontrá-la.

Olhou ao redor e sentiu que o frio do desolado anoitecer de outono impregnava-lhe os ossos. Brandubh soube que se a perdesse, toda a sua vida seria assim.

Era muito cedo para desistir da esperança. Repentinamente endireitou-se e a certeza de que ela estava ali, em algum lugar defronte a ele, invadiu-o.

—Vem, moço, andemos um momento — Desmontou e tomou as rédeas na mão.

Com as montanhas à direita e Lough à esquerda, tratou de decidir que caminho seguir. Oeste. A palavra veio do nada. Deu a volta e começou a andar para o oeste, volteando o mar, sem saber porque o fazia realmente. Apenas uma vez ele tinha cavalgado em solidão para o oeste, por volta do mar, embora na época não soubesse.

Uma agradável manhã muitos anos atrás, Brandubh tinha selado o seu glorioso corcel Ruari e tinha seguido Dougal, certo que ele embarcaria em uma boa aventura. Mas não tinha havido nenhuma aventura.

Por anos, Brandubh ficou obcecado pelas lembranças dessa noite que o perseguiam até em seus sonhos, fazendo com que despertasse com o corpo molhado de suor, o coração angustiado e os dentes apertados para calar seus próprios gritos de horror. A cabeça cheia de sons nauseabundos, de grunhidos famintos, de presas afundando-se na carne. Os berros de Ruari que se misturavam com os seus. De imagens de túneis intermináveis que conduziam à morte. Pensou a respeito de tudo isso, enquanto caminhava.

Esse dia o havia marcado mais do que o exemplo de seu pai, que as lições de sua mãe, ou os sermões do sacerdote. Nunca mais, jurou.

Tomou uma espada logo que pôde sustentá-la e treinou para chegar a ser um guerreiro capaz de se igualar ao próprio Brian Boru.

Ela não seria machucada pelo lobo Uaid Mac Conor. Ela era dele e era sua tarefa protegê-la.

 

Continuou para o oeste, volteando o mar. Caminhava reconhecendo a maneira como o Burren[27] perfurava a pedra e formava cavernas intermináveis e evitava que crescesse qualquer coisa senão o musgo.

Caminhou, apesar do nó de terror que produziam essas covas nas suas entranhas. Caminhou, porque podia sentir a presença de Eibhlin mais forte a cada passo. Ele andou até que pôde mais, detendo-se junto a uma árvore com a qual esteve a ponto de se chocar na escuridão. O borbulhar da água indicou-lhe que estava perto de uma corrente.

— Vem, moço — murmurou ao cavalo — Descansaremos aqui.

Soltou as rédeas e deixou que caíssem pelo chão, mas não retirou-as do cavalo, pensando que a manta que o cobria e a sela proporcionariam um pouco de calor. O animal necessitava de alimento, água e descanso. Brandubh sabia que não dormiria essa noite.

Ele optou por sentar-se no chão úmido aproveitando o apoio da árvore e cobriu-se com a sua abrigada manta.

Logo sentiu o frio e o vento que açoitavam o cabelo em redor de seu rosto. Fechou os olhos, recordando o roçar dos dedos de Eibhlin penteando seu cabelo, suas sensuais carícias aumentando o desejo e o pulsar de seu sangue. Tinha saudades do calor de seu corpo, do sabor de seus lábios. A doce angústia que lhe provocava o desejo de possuí-la uma vez mais, fez com que essas lembranças se tornassem muito dolorosas de suportar. Igualmente deixou que essas recordações enfraquecessem o seu corpo enquanto tivesse que permanecer sob a árvore, esperando a luz do dia.

 

Eibhlin despertou caída de bruços e com a cabeça pendurada para baixo. Apenas era capaz de respirar. A cabeça pulsou como um metrônomo[28], em um ritmo perfeito de quatro tempos. Cada um de seus membros estava em tensão e sentiu-se envolta como se fosse uma salsicha. O trovejar de cascos e o movimento constante revelou-lhe qual era o seu transporte, mas como não podia ver nada, ignorava se era de noite ou de dia.

O que tinha acontecido? Recordou que Brandubh tinha saído do ervanário e nada mais. Quanto tempo tinha estado fora?

O som das patas dos cavalos era agora diferente, em vez de tamborilar amortecido pela verde grama que rodeava o Ath Sionnain, cada passo retumbava como se o chão fosse de pedra. Estaria levando-a ao povoado? Não, avançava muito rápido para estar transitando as ruas de um povoado grande com ruas pavimentadas.

Se estavam nas montanhas, estavam subindo e os cavalos não poderiam ir a esta velocidade. O Burren.

Deus! Que não seja o Burren.

Os ursos se extinguiram nessa região infestada de covas subterrâneas, que se parecia com a superfície lunar e estava a oeste da região do Munster. Em uma viagem a esse local, sua mãe tinha insistido para que visitassem uma cova que havia sido descoberta no século XIV. Eibhlin tinha chorado e armado tal confusão que seu pai finalmente se rendeu e eles ficaram na entrada da cova. Sempre se perguntou por que sua mãe tinha sido tão insistente. O que daria agora para voltar atrás! Pelo menos teria uma idéia do que a esperava.

— Quem é?— Uma voz de homem deu-lhe alguma esperança, mas diante do som, encolheu-se tudo o que pôde.

Ao menos, ele não tinha matado todos os habitantes. O que mais poderia ter planejado para ela? O som de uma faca cortando o couro, a avisou um segundo antes que deslizasse do lombo do cavalo e caísse pesadamente no chão.

"Caipira grosseiro", pensou silenciosamente. Como ainda se sentia incapaz de mover-se, teve que esperar até que ele a liberasse do pesado tecido que a envolvia. "Bem, ao menos saberei que horas são".

Eibhlin fechou os olhos quando o sol de dezembro brilhou no que parecia ser o zénite. Era meio-dia, então. Ao afastar o olhar da luminosidade, vislumbrou as cores escuras do azul e verde da tapeçaria que Uaid tinha utilizado para envolvê-la. "Sadbh pedirá sua cabeça por isso." Sua visão estava um pouco imprecisa e lutou para enfocar a figura de seu seqüestrador.

— Quem é você?

— Uaid Mac Conor.

— Mac Conor? O irmão de Moira? — "Meu tio", pensou, perguntando-se quanta devoção familiar poderia sentir se dissesse a ele quem era. Olhou o seu rosto cruel e decidiu que ele não trataria com nenhum privilégio.

— Assim é — Ele a agarrou pelas axilas forçando-a a ficar de pé.

Ainda podia sentir o formigamento por causa da longa cavalgada, suas pernas se negaram a sustentá-la a princípio, mas Uaid sustentou-a até que a circulação se restabeleceu lhe ocasionando-lhe pontadas nos membros.

— Vem, não temos muito tempo.

— Tempo para que?

— Até que Brandubh venha. Estou seguro que nos seguirá.

— Também eu… — por que ela não podia falar mais convincente?..

— Terá algumas dificuldades com este chão rochoso — disse Uaid — mas é muito bom seguindo rastros. Embora, se neste momento Brandubh está em meio de um ataque de fúria, não será capaz de ver nada. Quando finalmente encontrá-la, os ratos da caverna não terão deixado muito de você.

— Ratos! — Eibhlin não pôde evitar um calafrio — Sei por que faz isso. É por sua irmã, Caoimhe, não é verdade? O que resolverá assim? Irá trazê-la de volta?

— Não. Mas jurei vingar Caoimhe e o farei. Aqui estamos.

Ela seguiu o seu olhar. Duas enormes pedras colocadas em forma vertical, sustentavam uma ainda maior em forma horizontal. Debaixo destas, havia uma abertura do tamanho de um bueiro.

— Um dólmen — murmurou e uma onda de temor desceu por suas costas.

— Sim, é verdade. A entrada de uma catacumba, acredito. Pode que também dê em algum lugar de onde não terá que ser movido para ser enterrado. Hein? — Ele sorriu alegremente, como tivesse contado uma piada muito engraçada.

— Depois de você.

— Não irei.

— Sim, você vai.

Para demonstrar o seu domínio, empurrou-a e como ele pretendia, ela deslizou na fossa subterrânea.

Imediatamente, o pânico apoderou-se dela. Lutou para controlar-se, pensando em Brandubh. "Estou viva ainda e Brandubh vem por minha causa". Eibhlin podia sentir o tom levemente ansioso de seus pensamentos, e soube que se tivesse falado em voz alta, sua voz seria mais aguda e as palavras teriam ressoado pelo eco do lugar, acrescentando o temor e a histeria que se faziam cada vez mais evidentes. Ela se estrangularia antes de dar a Uaid o prazer de vê-la agir dessa maneira.

— O que achou do alojamento, milady? Não é a casa de hóspedes nem o que você está acostumada a ver a qualquer lugar que vá, mas é o que nós, os pobres irlandeses temos para oferecer.

Um crescente temor fez subir a bílis para a sua garganta e ameaçou colocá-la de joelhos no local, mas Eibhlin conseguiu dominar a sensação. Imitando a voz de Moira o melhor que pôde, perguntou:

— Não tem cama, Uaid? A estalagem é realmente pobre. Devemos provar uma cama logo…

Logo que disse essas palavras desejou ter mordido a insensata língua. Uaid a olhou, seu rosto estava oculto pelo sol e se refletia sobre a superfície como uma sombra indefinida. Seus olhos, entretanto, brilhavam com uma luz cruel.

— Quer uma cama, milady? Não está sugerindo que qualquer um pode derrubar você e fazê-la abrir as pernas?— A selvageria de sua voz a destroçou — Com que freqüência Brandubh provou você? Prestaria seus favores a algum outro homem?— aproximou-se dela, queimando-a com seu hálito —Minha lança é tão aguda como minha espada. Você gostaria de prová-la?

— Vai para o inferno.

Seu rosto aproximou-se ainda mais. Ela quis cuspi-lo, mas tinha a a boca tão seca como estava o chão acima de sua cabeça. O melhor que podia fazer era tratar de manter-se em pé.

— Talvez vá, milady — respondeu finalmente ao seu insulto — O meu lugar está preparado desde o dia em que minha irmã morreu.

— Por que? Você matou-a?— Eibhlin nunca soube de onde veio essa pergunta , mas conseguiu que a raiva de Uaid caísse sobre ela.

— Como soube? Como? — Ele tomou-a pelos braços. Eibhlin tropeçou e abraçou-se à parede, muito aterrorizada para pronunciar uma palavra.

O silêncio os rodeou. Ele inclinou-se contra a parede oposta e olhou-a fixamente. Depois de uns eternos segundos, finalmente falou com voz longínqua e grave.

— Foi um acidente. Ela murmurou algumas tolices a respeito de Brandubh e de como ele se arrependeu de casar-se com ela. Estava com sua faca de comer nas mãos e brincava com ela. Eu me cansei de escutar o seu falatório e pensei em dar-lhe uma lição. Assim, aproximei-me dela...

Ele tirou a sua própria faca do cinturão e aproximou-se tocando com na aguda ponta de metal o peito de Eibhlin, aparentemente pensando em mostrar o acontecido. Ela se teria afastado se tive houvesse espaço suficiente.

— Tomei-a da sua mão e mostrei-lhe onde deveria empurrar. Ela lutou comigo e chorou dizendo que eu não entendia como se se sentia ferida — Ele ofegou e empurrou a faca, trincando a carne. Um filete vermelho deslizou pela túnica e cresceu rapidamente — Disse-lhe que empurrasse e assim terminaria com tudo. Ela soltou-se de um puxão, mas perdeu o equilíbrio… e caiu sobre a faca.

Eibhlin fechou seus olhos com pena. Toda esta dor, toda esta cólera e raiva estavam apoiadas em um acidente estúpido.

— Uaid, não foi culpa de Brandubh. Por que culpá-lo então?

— Brandubh teria casado com ela se não fosse por sua culpa. Agora, minha única irmã viva afastou-se de mim por sua causa. Você conseguiu que ela ficasse contra mim e agora nã quer me ajudar na vingança.

— O que você fará comigo?— Ela não sabia se realmente queria saber.

— Fecharei a cova e deixarei você aqui.

Por um lado, até que isso não parecia tão ruim no seu ponto de vista. Teria uma oportunidade, pelo menos. Mas o que aconteceria se Brandubh não a encontrasse a tempo? Morrer em uma cova não estava dentro das cem formas que ela escolheria para encontrar-se com o seu Criador.

— Basta de bate-papo. Vire-se — Ela não era tão tola para dar as costas a seu recém encontrado tio.

— Por que?— perguntou, odiando o tremor em sua voz.

— Porque vou prendê-la. Não se preocupe, querida, deixarei os nós suficientemente frouxos para que possa se liberar deles, mas preciso de tempo para terminar a sua prisão — puxou uma correia de couro — Agora, seja uma boa garota e vire-se.

— Por que não me mata e acaba logo comigo? — virou-se como tinha ordenado.

— Farei se realmente for isso quer — disse Uaid enquanto atava a correia frouxamente ao redor de seu pulsos sobrepostos — Não quer? Prefere apostar que o seu Brandubh chegará para resgatá-la? É uma garota valente, embora eu duvide que vá durar muito. Se os ratos decidirem que é muito doce e recusarem prová-la, possivelmente os ursos despertaram para provar o seu sabor.

— O que disse? Não há ursos na Irlanda.

— Verdade?— A voz de Uaid destilava sarcasmo — Então o que é isso?

Ele assinalou o final do corredor, fracamente iluminado pelo sol da tarde que se infiltrava pela abertura da cova. Eibhlin conteve o fôlego quando viu a silhueta marrom de um grande urso que dormia pacificamente.

— Não faça muito ruído, agora. Eles são muito cruéis quando despertam — Uaid empurrou-a contra a parede úmida da cova e obrigou-a a sentar-se no chão — Sente-se aqui e comece a orar. E recorda... shhhh — disse isso com um dedo contra os lábios enquanto se afastava sorridente.

— Uaid!!! — chamou-o com um murmúrio baixo. O pânico crescia cada vez mais enquanto o ouvia passar através da abertura, só para no final de alguns instantes enroscar com um laço uma das pedras verticais de dólmen.

Escutou o som metálico quando ele montou o cavalo e o som dos cascos contra o chão rochoso.

A pesada pedra caiu no chão, fazendo com que a imensa rocha que estava em posição horizontal tampasse a abertura. O golpe seco de uma pedra contra outra soou como um toque de defuntos[29], deixando passar só um fio de luz para aliviar a escuridão. Eibhlin lutou para abafar o grito que partiu de sua garganta.

 

Brandubh estava preparado para matar. Se encontrasse Uaid agora, não haveria pausa nem remorso. Embora estava tão zangado consigo como estava com Uaid.

Nem bem havia amanhecido, tinha montado em seu cavalo e seguiu avançando para o oeste outra vez. Podia sentir Eibhlin, estava seguro que ela se encontrava a uma curta distância diante dele. Mas quando perdeu o rastro, deu a volta, retrocedendo no atalho até Lough Derg para recuperar o rastro.

Cada passo, cada instante que tinha esbanjado era um tempo precioso e esse sentimento, enfureceu-o ainda mais.

Já tinha passado de meio-dia e logo estava em...

— Pare moço — Brandubh freou seu cavalo e sacudiu a cabeça assombrado.

Ali, na margem de uma pequena corrente havia dois grupos de rastros, indo para o oeste. Ele as seguiu e logo viu um terceiro grupo, os rastros de seu próprio cavalo deixadas quando ele tinha seguido sua intuição e passado a noite sob a árvore.

Era possível que houvesse se equivocado e passado por ali muito cedo? Desprezando a incredulidade, pois já não importava agora, apeou e ajoelhou-se para examinar os rastros no chão úmido próximo ao rio. Não estavam frescas, mas Brandubh sabia que não estavam ali pela manhã.

Mais uma vez podia senti-la chamando-o. Desta vez permitiu a conexão e seguiu-a.

Eibhlin encostou-se contra a parede úmida, a garganta fechada não lhe permitia emitir som algum. Então recordou a companhia que dormia no final da galeria e lutou para acalmar-se. "Estúpida, estúpida, Evie. Cale-se e mantenha a calma. Não desperte o maldito urso.”

Seu coração pulsava com terror cada vez que olhava o urso, esperando que chegasse a sua hora.

O animal comtinuava no mesmo lugar, dormitando ainda. Como era possível que estivesse roncando, apesar do estrondo das pedras ao cairem e dos gritos histéricos de Eibhlin? Ela decidiu que o importante era que permanecesse dormido e trabalhou para manter sua ansiedade sob controle.

— Não é uma menina que tema a escuridão. Enquanto esse urso permanecer dormindo, não poderá matar você. Bom, talvez o façam as pulgas ou os pestilentos ratos . Não se preocupe com isso agora.

A primeira coisa que devia fazer era libertar-se das ataduras, assim levantou os pulsos até a sua boca e com os dentes começou a puxar a correia de couro. O nó estava amarrado firmemente, mas rapidamente pôde afrouxá-lo.

— Bom, isso é bom. Agora, a prova mais difícil, sair daqui.

Obrigou-se a manter a cabeça fria para poder lidar com a situação e examinou a abertura da cova. Podia passar o braço pelo espaço entre as pedras, mas não poderia movê-las um só milímetro.

— Talvez possa afrouxar a terra ao redor delas e as deixá-las cair.

Não se permitiu duvidar de que poderia sair dali de qualquer maneira e continuou a trabalhar, arranhando a pedra dura. Depois de muito tempo cavando, quando as pontas dos dedos estavam esfoladas e ensangüentadas, desistiu. Então começou a tossir e sentiu uma grande angústia no peito.

— Oh, não.

Colocou sua mão contra a fronte, sentiu o calor de seu corpo por causa da força que tinha feito. Estava sozinha e só podia pensar que esta cova seria a sua tumba.

— Brandubh, onde está?— murmurou entre as tosses. Deslizou para baixo para sentar-se no piso frio e colocar a cabeça entre os joelhos, cuidando de lutar contra o crescente desespero.

— Uaid estava certo de que Brandubh seria capaz de me encontrar. Talvez esperasse que o urso ou os ratos se ocupassem de mim antes que ele chegue.

Nesse mesmo instante, algo firme mas suave, deslizou sobre seus pés. Fazendo força contra o chão, levantou-se imediatamente. Podia ouvir claramente como milhares de diminutos pés percorriam o espaço onde estava presa. Eibhlin fechou os seus olhos, e com voz rouca, começou a orar.

— Por favor Deus, não permita que eu morra aqui. Envia Brandubh para mim.

Embora tivesse prometido não chorar, já que seria um gasto de energia inútil, podia sentir as grossas lágrimas deslizando por suas bochechas e molhando o seu rosto.

Como tinha chegado a essa situação? Sacudindo a cabeça, perguntou-se por que tinha voltado ao Cragh naquele dia, quase mil anos no futuro.

Por que tinha se dirigido diretamente ao mostrador de aluguel de automóveis?

Por que não havia ficado na torre do terminal internacional e subido no avião? Esse mesmo que se espatifou, ocasionando a morte de todos os passageiros.

Não podia evitar de rir. Talvez pudesse despertar deste pesadelo e olhar através de sua janela só para ver o Lusitania no fundo do oceano.

Lançou um grito e se não tivesse estivesse completamente só na cova, teria se sentido envergonhada pela cena que estava fazendo. Mas por todos os demônios, não havia ninguém em seu redor, exceto o urso que roncava plácidamente no fundo da cova.

— Se me comportar como uma tola e mesmo que haja ninguém ao redor para me ouvir, estarei realmente louca? Outra mistura de riso e tosse escapou de sua garganta dolorida. Depois de um minuto, sua risada foi diminuindo até passar a ser apenas um sorriso.

— Acredito que era melhor quando gritava. Pelo menos era uma reação mais normal do que esta situação.

De repente, o inconfundível som de uma harpa encheu a cova acompanhada de uma voz que soava lastimosa. Eibhlin seguiu o som, esperando encontrar outra saída. Os dedos mediram as paredes seguindo o som. Uma débil luz dançando nas paredes convidou-a a aproximar-se.

A música, ou melhor dizendo, o gemido era como um canto fúnebre.

Eibhlin continuou avançando pelo túnel para o som. Um calafrio percorreu sua espinha dorsal, apesar do calor que fazia nesse lugar.

Essas passagens subterrâneas tinham sido utilizados como tumbas pelos habitantes mais antigos da Irlanda. Isso é o que acontecia e sentiu-se aliviada por ter encontrado ajuda tão rapidamente.

A música estava mais forte, o gemido era cada vez mais claro e a luz mais brilhante.

O túnel se abriu de repente, dando passo a uma câmara muito ampla. Nas paredes da cova viam-se marcas, que sugeriam que tinha sido alargada. As marcas de cinzéis eram habituais nas decorações celtas, especialmente formando círculos e curvas conectadas.

Eibhlin concentrou-se nos entalhes e não viu a pedra pendurada na parte superior da abertura que servia como porta. Pelo menos não a viu até que bateu nela

— Ai! — ergueu-se com cuidado, experimentando a altura do teto nesta parte da cova e tocando o lugar da fronte onde tinha recebido o golpe (o qual já estava inchando) — Olhe por onde caminha, Evie.

Logo que endireitou-se completamente, lançou um olhar ao redor do local. Estava certa sobre o funeral.

Formando um circulo ao redor de uma mesa funerária havia mais de doze pessoas, vestindo ornamentos que envergonhariam a corte de Brian por sua qualidade. As cores, mesmo sob a débil luz das tochas, reluziam. Havia vermelho sangue, verde esmeralda, um azul profundo. Os fios de ouro se misturavam na malha de muitas das capas e nas toucas das damas. As mãos de todos eles, mostravam numerosos anéis de ouro e prata. Ninguém olhou em sua direção, embora certamente a tinham ouvido.

Sua cabeça começou a latejar, e Eibhlin sentiu-se febril quando notou que nenhuma dessas pessoas ultrapassavam a sua cintura.

— As fadas — murmurou. Ela acreditava que seriam até menores do pequenos que isso. Como uma campainha, o riso escapou sem que pudesse evitá-lo.

— Shhh!!!!.— falou um pequeno parente do defunto.

Sentindo-se mais alta do que nunca, Eibhlin começou a retirar-se da cova, mas nem bem se aproximou da porta, bateu com a cabeça outra vez.

—Ai!

—Shhhhh! — Agora todos tinham se voltado para ela, advertindo-lhe que ficasse em silêncio.

A música e a penosa canção voltaram a ser escutardas.

Eibhlin, que não tinha para onde ir, sentou-se no árido chão para esperar, feliz por ver a luz outra vez.

Viu como esses pequenos seres, cobriam cuidadosamente o corpo do defunto com um manto branco como a neve. Seis dos homenzinhos o levantaram e o levaram com gentileza até um nicho escavado na parede. O espaço era diminuto e mal cabia o corpo.

Todos os integrantes do cortejo retrocederam e inclinaram as cabeças, com as pequenas mãos unidas à frente.

Eibhlin olhou-os atentamente. Os dedos eram curtos e gordinhos e as cabeças pareciam muito grandes para esses corpos diminutos. Mas a ferida de sua própria cabeça doía-lhe muito para preocupar-se com outra coisa. Além disso, estava encantada em ver as verdadeiras fadas irlandesas em seu hábitat natural.

— Não são um encanto? — disse em voz alta.

— Não pode ser um pouco mais respeitosa, mulher grande?

— Sinto muito.

— Realmente deveria sentir —Um dos homens aproximou-se para estudar-lhe o rosto — Você está doente — disse-lhe com expressão preocupada. Eibhlin assentiu e já não pôde dizer muito mais.

— Vem, moça — e puxou-a pela mão.

Vários homens colaboraram para deitá-la sobre o chão e logo que ficou reclinada, sua cabeça começou a girar; seu estômago ameaçou esvaziar todo o seu conteúdo. Então a escuridão se apoderou dela.

 

O sentimento de conexão se fazia mais forte à medida que cavalgava. Eibhlin estava ali perto, em algum lugar. A desolada e erma planície do Burren estendia-se diante dele, mas nem essa desolação conseguia diminuir a esperança de encontrá-la.

O cavalo estava esgotado. A verdade é que novamente tinha exigido além do limite do pobre animal… mas mesmo assim, não podia deter-se.

A mente de Brandubh enfocou nela, em achá-la e protegê-la. Seus olhos foram da direita a esquerda sobre a paisagem desolada. O vazio facilmente poderia abatê-lo. Como poderia sobreviver algo neste lugar? Onde poderia refugiar-se Eibhlin do constante vento do oceano, que percorria essa planície interminável?

Ele sentiu que os pelos em seus braços e em suas costas se arrepiavam cada vez que o vento gemia, levantando nuvens de tormenta.

Uma voz que não era desse mundo cantava um lamento fúnebre.

— A ban — sidhe.

O cavalo empinou, negando-se a continuar.

Brandubh não podia obrigá-lo a seguir. Apeou e passou seu braço ao redor da cabeça do cavalo.

— Está bem moço, tranqüilo — falou-lhe como se o embalasse, acariciando-lhe a fronte — Às vezes acredito que tem o coração de Conchobar, mas não posso culpá-lo por isso. Venha, então. Sigamos.

Tomou as rédeas do chão, e começou a caminhar insistindo com o cavalo a seguir.

Embora pudesse parecer que seu sangue estivesse congelado em suas veias, obrigou-se a avançar as passadas para a fonte do som, empurrando para fora de sua mente o temor de que o lamento fosse para o Eibhlin.

Uaid não teria chorado por ela, pensou, mas era incapaz de pensar as formas que ele havia idealizado para fazer algo mais grave do que uma simples ferida.

O túmulo de pedras prendeu sua atenção, porque essa disposição não podia ser obra da natureza. Intrigado com isso, soltou as rédeas e ajoelhou-se junto aos blocos de pedra e não notou sinais de umidade, indicando que a construção era recente.

Então voltou a escutar o lamento, vinha de baixo dessas pedras. Seu coração se acelerou quando começou a movê-las. Esticando os músculos ao limite e apertando a mandíbula, Brandubh conseguiu mover a pedra apenas o suficiente para encontrar no chão uma abertura que permitiria a passagem de um homem. Brandubh sabia dessas covas do Burren. Alguns diziam que tinham quilômetros de comprimento abaixo da superfície e que nesses lugares, os Danaan enterravam os seus mortos.

Sentindo uma onda de temor, Brandubh desembainhou sua espada e deslizou pela entrada da cova, antes que pudesse trocar de opinião.

A altura do teto forçou-o a se agachar e seus olhos demoraram para acostumar-se à débil luz. Além do lamento que ressoava das profundidades da cova, ouviu também um som como o de um homem roncando. Ele apertou os olhos para o lugar de que vinha o som e ficou sem fôlego.

— Deus santo, um urso — Em nome de São Patrício, o que faz um urso aqui?

Ele não tinha ouvido dizer que houvesse ursos vivos na Irlanda desde que era pequeno, mas este parecia estar bastante vivo se o seu ronco servisse como indicação. O som recordou a Brandubh o ruído que seu amigo Gadhra emitia depois de beber muito vinho.

— Será melhor que o deixe dormir… — pensou e dirigiu-se para onde pareciam vir os lamentos, que aumentavam de volume à medida que avançava pelos estreitos corredores. Quando chegou ao final da galeria, agachou-se e diante dele abriu-se um espaço maior.

— Mãe Santa — murmurou — As fadas?

— Assim é como nos chamam — Um homenzinho levantou a vista para Brandubh, enquanto o resto seguiu com os lamentos — O que aconteceu para que a "gente grande" esteja entrando aqui durante todo o dia de hoje?

Brandubh olhou de lado a lado e então viu o cadáver ali exposto.

— Por favor desculpe-me, sir. Sou Brandubh Mac Dougal

O pequeno rosto iluminou-se com um sorriso.

— Oh, o jovem Brandubh. Não recorda de mim, rapaz?— O pequeno homem agarrou a ponta da capa e começou a puxar Brandubh — Parece que sempre nos encontramos em alguma cova. Sou Anluan Mac Eachan. Minha gente tirou você de uma cova quando era um menino, não maior que eu…— Anluan de cima para baixo o corpo de Brandubh — você cresceu muito — adicionou simplesmente. Brandubh teve que sorrir.

— Anluan? Sim, lembro bem que você encontrou-me em uma cova como esta. Creio que jamais agradeci a sua generosidade.

— Era um menino assustado. Seu pai agradeceu-me efusivamente.

Um gemido chamou a atenção de Brandubh e virou a cabeça.

— Eibhlin — aproximou-se dela, ajoelhando-se no chão de terra onde estava colocada. Estava pálida e com problemas para respirar.

— Sua mulher? — O homenzinho apoiou a mão no ombro de Brandubh que só pôde assentir enquanto a levantava do chão.

— Segure-a, jovem Brandubh — Anluan ajoelhou-se junto a ele — demos alguns remédios para a sua dama, que a ajudarão a respirar mais facilmente. Dê-lhe tempo para repor as suas forças. Dougal encontrou um novo curandeiro para Ath Sionnain?

— Lady Eibhlin estava trabalhando como curandeira.

— Isso é o que causou a sua enfermidade. Como chegou ela até aqui?— Brandubh refletiu sobre essa pergunta, enquanto considerava o estado de Eibhlin.

— Foi trazida aqui para morrer, suspeito.

— Sério? Mas…não está tão doente — Anluan grunhiu.

— Talvez o urso que dorme do outro lado do corredor se ocuparia em fazer o trabalho — Anluan não parecia preocupado.

— Duvido que esse velho animal desperte logo. Demos a ele suficiente sonífero para mantê-lo dormindo por um ano — deu um olhar em seu redor e acrescentou: terminamos aqui, Brandubh Mac Dougal. Ajudaremos para que leve a sua dama à superfície para que possa seguir seu caminho.

As pequenas pessoas a levaram para fora. Brandubh, teve que inclinar-se para poder passar pelos estreitos corredores e esforçar-se em manter a calma. O confinamento fazia com ficasse ansioso e temia ser apanhado outra vez com um urso, como tinha acontecido naquela desafortunada caçada. Os olhos sábios de Anluan observaram Brandubh.

— Ouvi — disse — que Brandubh Mac Dougal, da tribo Dal Cais, não precisa da ajuda de nenhum homem.

As paredes pareciam encerrá-lo cada vez mais e o teto desceu diante de seus olhos. Brandubh ofegou quando respondeu:

— A impotência é intolerável para mim, Anluan. Se tivesse sido capaz de cuidar de mim o suficiente, não teria ficado na cova onde você me encontrou.

— Não diga isso — Anluan riu — Era apenas um menino pequeno e que conseguiu escapar dos lobos.

Vendo que Anluan continuava caminhando despreocupado e que não parecia temer que as paredes ou o teto caíssem sobre eles, Brandubh concluiu que mesmo que o túnel desmoronasse, isso não parecia afetar Anluan e desejou ter essa mesma calma.

— Sei como teme estes lugares… e entretanto, foi capaz de descer até aqui — Anluan assinalou Eibhlin com a cabeça —Foi por ela?

— Ela é minha esposa.

—Oh. Vejo que seu amor por ela é grande — Brandubh baixou o olhar para ver o homenzinho.

— Ela é minha esposa — repetiu, não estava disposto a dizer mais nada.

A luz no fim do túnel o atraía e teve que conter-se para não correr para ali. Uma vez lá fora, inspirou o ar fresco do frio inverno que açoitava o Burren, abriu a boca como faria um peixe à margem do rio.

Anluan ordenou a seus homens que deixassem Eibhlin no chão, e eles o fizeram com respeito e ternura e logo a rodearam, formando em seu redor uma parede humana que a protegia do vento.

— Procure seu cavalo, Brandubh Mac Dougal. Vigiaremos a sua dama.

Brandubh obedeceu rapidamente e uma vez montado, inclinou-se para tomar Eibhlin dos braços dos homenzinhos que tinham ajudado a recuperá-la da tumba.

— Dê meus respeitos a seu pai e a sua mãe, Brandubh.

— Farei isso, Anluan Mac Eachan — e esticou-se para agarrar o pulso do homem — Obrigado por sua ajuda. Eu não esquecerei de você outra vez. Se alguma vez puder ajudá-lo, é só chamar.

Fez girar o seu cavalo e o esporeou em direção a Ath Sionnain. Brandubh ouviu no vento a voz de Anluan Mac Eachan.

— Cuide de sua mulher, Brandubh.

 

Brandubh forçou seu cavalo a ir mais rápido. Sabia que devia ir mais devagar e que o animal não resistiria muito mais. O cavalo tossiu e perdeu o passo. Brandubh sentiu que o coração do pobre animal parou e então sentiu que o animal tropeçava.

Saltou da sela bem a tempo para manter-se a salvo e evitar que Eibhlin fosse esmagada sob o peso do animal agonizante. Brandubh absorveu a queda com as suas costas, amortecendo o impacto tanto como pôde.

Ela nem sequer gemeu. Ele tinha envolvido o seu manto ao redor de ambos para compartilhar o calor, mas ela não precisava. Seu rosto brilhava com a febre, o calor estendia-se através de sua riupa e respirava de modo irregular.

Ainda tinham um árdua caminhada de várias horas até Ath Sionnain. E agora não tinham transporte. Deu uma olhada para o cavalo que os tinha carregado todo esse trajeto e tratou de não amaldiçoá-lo por não mais fazê-lo. Não havia nada que pudesse fazer, decidiu. Levantou-se carregando Eibhlin em seus braços e começou a andar.

— Dougal, seu filho se aproxima.

Diante do aviso de um de seus homens, Dougal saltou de sua cadeira em frente ao fogo no grande salão e cruzou a porta, quase correndo pelos degraus. Não parou até que chegou à entrada da porta principal. Atirando a barra de quase cinco metros de altura, abriu-a com suas próprias mãos.

— Brandubh.

— Pai, ajude-me.

Brandubh tropeçou. Dougal olhou o alto vulto que seu filho carregava e o cuidado com que Brandubh o tratava. Então se sentiu surpreso porque Brandubh, que nunca pedia ajuda, estava pedindo agora.

— Sim, filho, aqui estou — Dougal aproximou-se e tomou Eibhlin dos braços esgotados de Brandubh — Vocês, saiam para ajudar meu filho.

Gadhra foi o primeiro a chegar ali e Brandubh se reclinou nele.

— Brandubh, onde esteve? Onde está seu cavalo, o homem?

— Eu o matei — Dougal e Gadhra trocaram olhares sobre cabeça de Brandubh, olhares de incredulidade.

— O que quer dizer exatamente que o matou, filho?

— Eu o obriguei a correr até desfalecer. Seu coração explodiu debaixo de mim — Um soluço irrompeu no peito de Brandubh — Tinha que chegar em casa.

— Aye, filho. Chamarei a sua mãe.

Dougal rugiu chamando a sua esposa enquanto cruzava o pátio interior. Brandubh inclinou-se sobre o ombro firme de Gadhra e em um sussurro apenas audível, disse-lhe:

— Leve-me para dentro, meu amigo, assim posso estar com ela.

Moira ouviu a atividade e saiu do ervanário, bem a tempo de ver Dougal levando Eibhlin para a casa e correu para ele.

— Não acredito que meu filho queira vê-la perto dela, Moira — disse Dougal com amabilidade apesar de tudo.

— Quem mais poderia tratar dela? Estarei em cima logo que tiver reunido algumas plantas do ervanário.

Não esperou a aprovação nem a permissão do Dougal, e deu volta para se dirigir ao lugar onde tinha chegado a conhecer Eibhlin. Onde tinha começado a querê-la e onde lutaria por salvá-la, contra o céu e a terra.

Moira agarrou um frasco de vidro que continha borragem fresca já cortada e um frasco de óleo de pinheiro, então lançou um olhar em redor do aposento.

— O que mais Eibhlin deu aos doentes para melhorar os pulmões? Por que não a escutei melhor?

Moira envolveu os remédios em uma toalha de linho.

— Eu vou, querida — pensou de modo natural, sem perguntar-se por que ou para que.

Eibhlin tinha febre, estava ardendo. Estava ferida no peito e logo que podia respirar. Moira temeu que morresse.

— Mamãe?— chamou — Mamãe, onde está?

— Aqui, querida.

— Mamãe.

— Ficará bem. Preciso que me diga, querida, o que posso dar a você para a congestão pulmonar.

Essa era uma pergunta estranha que mamãe fizesse, pensou Eibhlin. Mamãe nunca precisou fazer perguntas, ela sabia tudo. Mas, no caso de estar provando-a, ela decidiu responder.

— Tomilho silvestre, mamãe.

— É certo. Obrigado, querida. Durma, eu estarei aqui.

Mamãe falava em irlandês, como fazia quando estava preocupada. Por que mamãe estaria preocupada? Ah, deve ser Conor. Ele deve estar pior, pensou Eibhlin tristemente.

— Perdão, mamãe. Queria poder ajudar você.

— Não se preocupe, querida. Só fica boa, faz isso por mim — Eibhlin abriu os olhos e sorriu quando viu o rosto de sua mãe flutuando diante dela.

— Vou ficar, mamãe — Então, um rosto escuro rodeado por um cabelo negro e sedoso surgiu em sua confusa mente — Mamãe Brandubh está bem?

— Sim, querida. Está descansando e comendo algo.

Se tivesse mais forças, teria perguntado à sua mãe porque estava tão triste. Possivelmente perguntasse mais tarde. Agora estava muito cansada. Os amendoados olhos azuis se fecharam e um sorriso débil curvou os lábios de Eibhlin.

— Mamãe — Sua voz era suave e confiante como a de uma criança.

— Mamãe? Moira poderia compreender isso. Eibhlin estava em um delírio febril e talvez Moira lembrasse a sua mãe. Desse modo, tratou de encontrar uma explicação sensata e seu coração suspirou aliviado. A sensação de reconhecimento, a simpatia e a preocupação por Eibhlin, mesmo quando ainda conspirava com Uaid contra ela, faziam agora algum sentido. As especulações mais desagradáveis podiam ser deixadas de lado.

Não havia tempo para essas tolices agora. Os pulmões de Eibhlin estavam extremamente congestionados e ela morreria se não fosse atendida logo. Moira tomou seu xale, pensando em correr ao ervanário para trazer as ervas que necessitava.

Uma figura com o porte régio assustou-a de morte quando apareceu pela porta.

— Senhora — ofegou, tampando a boca com a mão. Moira não tinha ouvido quando Sadbh tinha entrado no quarto.

— Moira — disse Sadbh, mais uma pergunta do que uma ordem — Vim logo que Brandubh aceitou ir descansar e deixar-nos trabalhar tranqüilas. Como está Eibhlin?

— Acredito que sobreviverá, senhora — Deve sobreviver, Moira adicionou silenciosamente.

— Ela chamou você de mãe.

— Está em um delírio e pensa que sou a sua mãe.

— E você atuava como se fosse — A mulher inclinou a cabeça, os seus sábios olhos eram frios e pareciam ver o fundo da alma de Moira — Por que? Pude ver algo mais que bondade em sua forma de tratá-la, Moira. Sente o carinho que sentiria uma mãe com seu filho?

— Eu não posso explicar o que sinto, senhora.

Sadbh sacudiu a cabeça maravilhada e caminhou ao redor da cama.

— Ela se parece com a sua família, especialmente a sua mãe. Embora sua altura não seja muito comum.

O golpe de escutar os seus próprios pensamentos ditos em voz alta, a puseram muito nervosa e causaram-lhe um calafrio de temor.

— Milady, por favor, não especule com essas coisas. Eu não queria ter que explicar ao sacerdote.

— Tampouco eu, Moira, entretanto...— ela levantou a sobrancelha — ... diria que o pai dela é um homem muito viril.

Moira voltou a olhar a figura adormecida de sua filha. Com um rubor repentino de entusiasmo, Moira pensou no homem com o qual estava acostumada a sonhar, o homem que sustentava a mão de uma garotinha em sua visão, o homem que seria o pai dessa menina, sua filha.

— Para onde vai?— perguntou Sadbh, trazendo-a de volta à realidade e ao que era necessário fazer. O tempo era muito precioso para esbanjá-lo desejando um homem desconhecido.

— Procurar tomilho silvestre. Ela precisa para aliviar a congestão.

— Eu irei — Sadbh tomou a mão da Moira e a acariciou suavemente — Você permanece com ela. Quando alguém delira é melhor ter uma pessoa da família para que atenda ao paciente.

— Obrigado, milady, não queria deixá-la. O tomilho está em uma bolsa de linho sobre a mesa. Se você o trouxer, podemos esquentá-lo aqui mesmo.

Sadbh assentiu e saiu. Moira tomou o assento na cama junto a Eibhlin, e durante o resto da tarde e da noite combateu a febre.

Colherinhas de infusão de borragem, óleo de pinheiro para esfregar no peito e manter os pulmões tão limpos como fosse possível. Refrescar o corpo com água morna. E esperar.

 

Brandubh sonhou com ursos, pessoas pequenas e cavalos gemendo. Sonhou que Eibhlin já não estava pálida e débil, mas sua pele estava rosada e saudável, nua em seus braços, cavalgando sobre ele como se fosse um garanhão. Despertou suado e alerta, frustrado e profundamente envergonhado.

Jogou as cobertas e levantou-se de sua cama, cobrindo-se com a manta como se fosse uma capa ao redor dos ombros. Tinha que vê-la e certificar-se de que vivia, que não a havia matado com a sua louca corrida. Não podia permitir que o medo se apoderasse dele. Realmente não tinha sido necessário forçar o cavalo até matá-lo. Teriam chegado em menos tempo se ele tivesse estado menos atemorizado.

De qualquer manera, o temor de perdê-la tinha perfurado sua razão como as traças fariam com um pedaço de madeira. Só podia pensar nela e em chegar onde poderiam atendê-la. Tinha orado, tinha rogado por sua vida e tinha negociado com Deus, oferecendo a sua própria vida, suas posses, seu bom nome, tudo, se ela vivesse. E tinha odiado a impotência que sentia acima de tudo aquilo.

De que servia a sua força, sua destreza com a espada, sua habilidade com os cavalos? O dom que ela precisava era o que ela mesma possuía, o dom da cura.

Disso Brandubh não sabia nada e podia ser de pouca utilidade no quarto de um doente. Ainda assim, deixou seu o seu quarto e desceu pelo corredor fracamente iluminado que o levava até o quarto de Eibhlin.

Não golpeou a porta, e parou diante da porta temeroso do que encontraria. E se fosse muito tarde? Com os dedos trementes, algo que jamais havia ocorrido, empurrou a porta e entrou lentamente.

Moira estava sentada na cabeceira, tirando com a colher algo da garganta do Eibhlin. Ela também cantava, a sua voz era suave como uma carícia. Brandubh ficou parado na porta por um momento, fascinado pela cena que fazia lembrar uma mãe cuidando de uma menina.

Entretanto, Moira era a menina, ela era alguns anos mais nova do que Eibhlin.

— Ah, Brandubh — disse Moira da sua cadeira junto à cama — É bom que tenha vindo. Ela ficará contente em vê-lo. Vem — Moira tinha se colocado de pé e o arrastou pela mão até a cama enquanto falava — Aqui, sente-se. Darei a você uma taça de algo quente para beber.

Ele obedeceu, sem saber se devia preocupar-se com a presença da Moira ou se essa presença representava um alívio para Eibhlin.

— Mamãe — A voz débil e congestionada, perfurou-lhe o coração.

— Sim, querida — Moira aproximou-se e colocou a palma de sua mão na fronte de Eibhlin — Estou aqui e também está o seu Brandubh.

Brandubh dissimulou a surpresa diante do comentário de Moira, mas Eibhlin esboçou um tênue sorriso perante a menção de seu nome. Essa imagem valia qualquer tortura.

— Brandubh — sussurrou quase sem forças.

Ele tomou a mão e apertou-a contra seus lábios, sentindo a febre e a debilidade.

— Aye, milady, estou aqui — Ela só sorriu e fechou seus olhos outra vez — Eibhlin — chamou-a, com voz dura, temendo que tivesse morrido.

— Ela sobreviverá, Brandubh. Já está muito melhor.

— Está melhor? — A seus olhos, Eibhlin necessitava de um sacerdote, embora ele tivesse matado a quem tivesse sugerido isso.

— Escuta a sua respiração. Está quase completamente limpa. A febre baixou e já quase não delira — Moira encheu uma taça com uma poção e a ofereceu a ele — Irá se recuperar.

Sua voz era firme, e ele fez sua essa convicção. Moira trouxe-lhe uma taça morna e apertou as mãos de Brandubh ao redor dela.

— Beba isso. Acalme-se.

Cheirou o líquido quente e um doce aroma de limão subiu por seu nariz, relaxando-o. Começou a sorver lentamente e apoiou-se na cadeira, sem deixar de olhá-la.

— Moira porque ela diz mamãe?

— Eibhlin é minha filha — Ele ficou boquiaberto, sua bebida esquecida.

— Isso é impossível. Ela nascerá séculos depois que você seja apenas pó. Mordeu a língua por ter revelado o segredo de Eibhlin. Entretanto, Moira não se mostrou surpreendida. Seu rosto mostrava uma expressão segura.

— Não sei como ocorrerá. Mas sei que é assim — Ela encolheu os ombros — Além disso, que pessoa insensata diria que algo é impossível, depois que viu tudo o que já ocorreu?

Brandubh ficou mudo. Ela tinha razão. Eibhlin tinha contado uma história, o seu futuro, e tinha acreditado sem reservas. Moira poderia querer outra coisa mais incrível? Olhou-a aproximar-se com uma tigela da cama.

— Brandubh, sustente-a para que dar-lhe umas colheradas disto.

— O que é isso? — Perguntou enquanto deslizava o braço por baixo de Eibhlin e a sustentava levantada.

— Tomilho, para limpar os pulmões. Espero não ter preparado muito forte.

Eibhlin, meio consciente, tragou o líquido que tinha um aroma doce quando Moira inclinou meigamente a colher em seus lábios. Quando ela tomou a sua dose, Moira indicou a Brandubh que a recostasse outra vez.

Tirando o braço dos ombros, ele deixou correr os dedos pelo cabelo, arrumando-o ao redor de sua cabeça como uma auréola escura sobre o travesseiro.

O silêncio cresceu em redor deles até que Moira começou a falar.

— Deixo a vida de minha filha em suas mãos, Brandubh Mac Dougal. Ela foi conduzida aqui para você.

Ele se perguntou o quanto saberia Moira a respeito da chegada de Eibhlin.

— Como sabe estas coisas?

— Em seu delírio ela reviveu a experiência na Craglea e eu escutei tudo. Embora não possa entender tudo o que disse, reuni bastante informação. E por essas palavras é que acredito em nossa relação.

— Deve ter dito que eu a forcei a vir para mim.

Moira riu.

— Ouvi a verdade de seus próprios lábios: ela quer você — colocou a mão no ombro de Brandubh e olhou-o nos olhos — Não sei porque o destino trouxe-nos para este ponto, Brandubh. Mas sinto que devo deixá-la em suas mãos ... e sei que cuidará dela com a sua vida.

Brandubh voltou a preocupar-se com Moira. A garota tinha muidado muito nos últimos dois meses, e cobriu a mão dela com a sua.

— Farei, Moira. Tem a minha palavra — Moira assentiu.

— Fique com ela por um momento. Preciso tomar ar.

A porta fechou-se silenciosamente atrás dela. Brandubh sentou-se em silêncio, tomando a bebida em pequenos sorvos e estudou a sua mulher que ainda estava muito pálida. A curiosidade dos últimos dias tornou acreditável a semana que havia passado, pensou, deslizando sua cadeira para mais perto da cama.

Por um momento, sua mente voltou a suspeitar dos motivos de Moira, mas nunca tinha visto uma mãe atender uma criança tão meigamente como ela o fazia. Moira acreditava que Eibhlin era sua filha, e embora não fosse verdade, a havia entregue para ele. Era um peso que aceitava contente.

Tomou a mão de Eibhlin e acomodou-se para vigiá-la melhor.

 

O aroma cítrico e frutífero impregnava o ar e provocava um formigamento no nariz. Um calor apaziguador e relaxante a rodeou-a. Eibhlin abriu os seus olhos, mas passaram vários segundos antes que se desse conta de onde estava.

O persistente aroma de tomilho silvestre recordou-lhe as intermináveis horas tossindo e tragando colheradas de uma infusão de ervas.

O sutiã de sua camisola de linho estava impregnado pelo cheiro do óleo de pinheiro. A simples insinuação do aroma de pepinos trouxe-lhe a lembrança de uma preparação de borragem.

Tinha pego uma pneumonia.

Endireitando-se na cama, observou que tinha melhorado e se o seu nariz tinha razão, alguém tinha tomado conta dela. Então perguntou-se por quanto tempo tinha estado doente. A resposta a essa pergunta foi respondida em parte pela queixa de seus músculos quando tentou mover-se.

— Ai! — O gemido escapou. Decidida a tranqüilizar-se, experimentou primeiro com os dedos, estirando-os para fora e dobrando o pé. Os músculos de suas pernas pareciam ter perdido a tonicidade, assim como os seus braços e o tronco — Pelo menos ainda funcionam.

Levantou a mão esquerda só para tocar uma coisa peluda e desconhecida que estava deitada a seu lado.

— Mas o que... — Eibhlin levantou a cabeça do travesseiro para ver o que era que compartilhava a sua cama. Com um suspiro de alívio, deslizou os dedos pelos sedosos fios de ébano, o cabelo de Brandubh estava espalhado ao redor de sua cabeça apoiada sobre o braço dobrado.

— Brandubh — meu corvo, adicionou silenciosamente.

A presença dele em seu quarto, tranquilizou-a. Desde que esta aventura tinha começado, ele tinha sido a sua única certeza. Ele respirava com um ritmo que indicava que dormia e ela permitiu-se desfrutar da cômoda intimidade entre os dois, acariciou-lhe o cabelo, logo a bochecha e mais abaixo, a grossa coluna do pescoço. As sensíveis pontas de seus dedos pressionaram suavemente o constante bombear de seu sangue. Eibhlin desfrutou da visão.

Estudando-o tão de perto como estava, percebeu o instante exato em que ele começou a despertar. A respiração fez-se mais rápida, um canto de sua boca curvou-se e ele voltou a cabeça para roçar com os lábios as pontas dos dedos.

— Está acordada, minha dama .

Como Eibhlin adorava quando a chamava dessa forma.

— Estive dormindo por muito tempo?

— Cinco dias.

— Cinco dias?— Ela levantou-se de repente, lamentando imediatamente esse movimento repentino.

— Descanse, senhora. Ainda está fraca.

— Não estou tanto assim. Quem está cuidando dos doentes?

— Sua mãe — Eibhlin sacudiu a cabeça.

— Minha mãe? O que quer dizer com isso? — As lembranças do rosto de sua mãe inclinada sobre ela durante a febre vieram à sua mente.

— Moira — Seus olhos negros fixaram-se nela — É sua mãe ou não é?

Eibhlin olhou-o fixamente nos olhos, tratando de permanecer calma. Não havia motivo para permitir que suas próprias fantasias cheguassem a tanto.

— Isso não é possível, Brandubh. Minha mãe só nascerá daqui a quase mil anos.

— Você também, e entretanto está aqui — Tomou a mão, esfregando os dedos longos sobre os seus — Moira esteve aqui cada hora — dando-lhe colheradas dessa infusão, refrescando seu corpo febril. Só deixou-a para atender às suas necessidades — Brandubh passou cada um dos dedos, de um em um, sobre os lábios de Eibhlin — Recorda o que aconteceu?Como chegou a entrar na cova?

— Cova?

— Eu a encontrei em uma cova no Burren. Compartilhava-a com um urso e uma tribo de fadas que sepultavam a sua falecida rainha.

— Um urso? As fadas?— olhou-o com os olhos semicerrados. Certamente lembraria se tivesse estado com um urso em uma cova, mas a expressão grave de Brandubh e um lampejosua memória sugeriam que ele não brincava — perdoe-me Brandubh, mas a última coisa que posso recordar é que estava falando contigo no ervanário.

— Não recorda quem levou você para cova?— Ele aproximou a mão de seus lábios e roçou-lhe suavemente a palma.

O fôlego quente queimou-lhe a pele. Esses olhos negros não se separaram dos seus e fizeram com que seu coração pulsasse cada vez mais rápido enquanto fazia a carícia em sua mão. Ele parecia esperar uma resposta à sua pergunta, mas ela não podia pensar em nada.

— Não — a fascinação com a sua boca trouxe de volta à sua última lembrança, a despedida de Brandubh e o beijo que a tinha deixado com a cabeça dando voltas. Também recordou a sua decisão de ficar ali com ele apesar dos perigos. Agora não sabia se tinha decidido isso porque já estava delirando de febre ou se ele verdadeiramente a tinha convencido sobre o livre-arbítrio, o plano de Deus e o destino. Este tema era muito perigoso de abordar neste momento e decidiu mudar o assunto da conversa para um mais mundano.

— Encontrou os seus cavalos?— Um sorriso cansado acompanhado de um assentimento de sua cabeça substituiu o cenho franzido.

— Eles estão bem e acredito que Deirdre está prenhe.

— Que maravilha! Eu gostaria de vê-los.

— E verá — Ele sustentou o seu olhar — O solstício será em menos de duas semanas. Como o tempo está tão mau, pensei que talvez demore a sua partida pelo menos até o Beltane.

O olhar de otimismo em seu rosto a agradava muito. Seria capaz de ir, realmente? O vazio que ele deixaria em sua vida seria intolerável.

— Na verdade, Brandubh, estive pensando a respeito de sua oferta.

Ele se ergueu e apertou os punhos, mas não disse nada. O que poderia fazer como esposa de um senhor de baixa classe para modificar a História do mundo?

— Aceito a sua oferta.

— Fala sério? Escolheu ficar comigo?— Eibhlin assentiu, sentindo-se mais segura do que nunca esteve em sua vida. Brandubh olhou-a com os olhos quase fechados.

— O que a preocupa?— Ela o olhou fixamente.

— Estou disposta a correr o risco de causar uma quebra na linha do espaço e do tempo, o que poderia conduzir à destruição do Universo.

Isso era uma típica amostra do orgulho irlandês, mas Brandubh obviamente não entendeu a piada.

— "Oh, bem"— pensou Eibhlin com um gemido interior, possivelmente ele pensasse que o extermínio de toda a realidade era uma brincadeira. Mas então talvez o futuro da Irlanda fosse um pouco mais feliz. Seria tão ruim se ela pudesse modificar as coisas dessa maneira? E por que não podia tomar uma decisão e sentir-se segura do que fazia?.

— Não — disse em voz alta, respondendo a pergunta de Brandubh — O que eu quero dizer é que a oportunidade vale o risco. E quem poderá dizer que a nova realidade não é melhor que a velha?— Uma dessas sobrancelhas cínicas levantou-se.

— Entretanto senhora, conservo a esperança. Os homens....

— Sim, sim — interrompeu Eibhlin — o livre-arbítrio e tudo isso. Basta. Mas falarei com Brian. E você, futuro marido, irá levar-me até ele.

Essa declaração ocasionou um sorriso glorioso.

— Levarei, sem sombra de dúvida. De fato, penso que é melhor que nos casemos antes para não provocar um escândalo.

Uma onda de fúria invadiu Eibhlin.

— Quer simplesmente ter uma desculpa para adiantar a noite do casamento?

A fronte de Brandubh enrugou diante do significado lascivo da pergunta.

— Já tivemos nossa noite de núpcias, senhora. Estou certo que recorda disso — acrescentou ele com uma convicção arrogante. Um sorriso curvou os lábios de Eibhlin, que adicionou sem poder resistir a fazer uma travessura:

— Talvez eu deva recordar isso. Parece que escapou da minha mente.

— Como queira, senhora — Ele abandonou a sua cadeira e sentou-se junto a ela na cama. Envolveu-a com um braço forte e com dedos suaves, inclinou-lhe o rosto para ele. Seu coração pulsava cada vez mais rápido, enquanto ele se aproximava e roçava os lábios com os seus. Estava a ponto de tomar posse dela quando a porta se abriu.

— O que ocorre aqui?— Moira parou na porta, os braços repletos de lençóis limpos e o que parecia ser roupa limpa para Eibhlin. No outro braço levava uma bandeja coberta.

— O que ocorre aqui? — ela repetiu. Brandubh virou-se por um segundo para responder.

— Eibhlin ni Seamus aceitou minha oferta de cinqüenta cabeças de gado para tornar-se minha esposa — A boca voltou-se para Eibhlin e ela não podia detê-lo.

— Cinqüenta? — A boca de Moira estava aberta pela surpresa. Parando o assalto à boca de sua amada, Brandubh observou o assombro no rosto da Moira.

— Uma miséria para tal tesouro, não acredita?— Eibhlin inclinou-se contra ele e sufocou uma risada.

— Isso eu acredito — Moira olhou para o par de tolos que estava na cama e seu sorriso cresceu lentamente — Está contente, Eibhlin?

— Sim, estou-o.

— Bem — Brandubh estreitou-a uma vez mais e levantou-se da cama, seu peso fez ranger as cilhas que sustentavam o colchão — Chamarei o brehon de Dougal para redigir contrato. De fato, Moira, se isso não lhe incomoda, farei a oferta a Conor.

— Sim, Brandubh. Falei com meu pai e ele entende.

— Conor? Por que?— Eibhlin perguntou, mas sabia o que Brandubh estava a ponto de dizer.

— Porque ele é o seu parente masculino mais próximo— Brandubh deu-lhe um rápido beijo na cabeça e com um gesto para a Moira, deixou-as sozinhas.

Isto parecia muito estranho. Mas eles atuaram tão despreocupadamente, de forma tão blasé. Nada surpreendia estas pessoas e aceitavam tudo como normal?

— Moira, eu não tenho nenhum parente vivo aqui

Moira aproximou-se compreensiva da cama.

— Eibhlin, sei quem é. Eu sei.

— Eu reconheceria você sem me importar com o aspecto que tivesse.

— Não economizou detalhes em seu delírio, querida.

Tudo o que sentia e sabia acomodou-se como se fosse parte de um grande quebra-cabeças e finalmente pôde ver a imagem inteira. Com voz trêmula, Eibhlin murmurou:

— Mamãe — e estendeu os seus braços. Moira aproximou-se da cama e a envolveu em um abraço apertado.

— Sim, sim, querida. Por que chora?

— Você disse que me conhecia. "Querida" é como sempre me chamou — Eibhlin estreitou-a ainda mais — Tinha medo de não voltar a vê-la.

— Quando eu disse isso?

— Eu telefonei para você e papai depois de ver Brandubh pela primeira vez na Craglea.

— Telefonou?

Como explicar a uma mulher do século XI um aparelho do século XX?

—Seu pai — disse Moira, sua voz inexpressiva e Eibhlin não podia distinguir se estava fazendo uma pergunta.

Moira deixou-se cair na cama.

— Quem é ele? — uma corrente de perguntas aflorou e deixou em evidência o entusiasmo quase infantil de Moira — Onde o encontrarei? Quanto tempo antes...

— Espera, espera —d isse Eibhlin, apertando sua mãe com um sorriso — Não estou certa se devo dizer-lhe alguma coisa. E se disser algo que mude seus sentimentos para com ele?

— Diga-me, sou feliz?— Eibhlin não poderia parar de sorrir perante o que refletiam os olhos de Moira.

— Muito. Meu pai adora você com toda a sua alma — Uma vez que começou, já não podia parar —Vocês têm muita coisa em comum. Ele é músico, um cantor com uma voz maravilhosa. Os dois cantam juntos — Os olhos de Moira abriram-se enormemente.

— Somos bardos?

— Bem, suponho que é algo assim. Viajará muito e dará concertos... eh, se apresentará para grandes multidões e cantará.

— Eu?— Um gesto de muda admiração apareceu diante disso. Eibhlin assentiu.

Moira afastou-se da cama e atravessou o quarto para recuperar a bandeja.

— Toma, precisa comer algo, mas enquanto o faz, vai dizer-me tudo.

— Não posso fazer isso — disse Eibhlin, lançando-se sobre o pão crocante que havia na bandeja de madeira. Moira afastou a bandeja para fora do seu alcance.

— Sei que o fará, milady.

Eibhlin não podia evitar. Esta mesma cena desenvolveu-se muitas vezes na casa dos Fitzgerald, de modo que era impossível refrear a sua risada encantada.

— O que é tão engraçado?— Moira tratou de manter a seriedade, mas ela era só uma garota e muito faminta para mostrar-se muito séria. Logo estava atirada aos pés da cama, rondo como uma boba junto com Eibhlin.

— Perdi o jogo, mamãe.

Moira enxugou uma lágrima de hilariedade e tocou a mão de Eibhlin.

— Tenha, come. Podemos falar disto mais tarde.

Acalmou-se e desceu da cama. Apoiou-se em uma das colunas da chaminé e olhou fixamente as chamas antes de falar.

— Creio que terei que ir embora em pouco tempo. Voltarei alguma vez?

A grossa fatia de pão ficou a meio caminho de sua boca, como se Eibhlin estivesse congelada. Essa era uma pergunta para a qual não tinha resposta.

— Eu não sei, Mamãe. Mas penso que jamais lamentará ter ido.

Moira deu a volta.

—Tampouco acredito que você o faça — Eibhlin sabia que ela tinha razão, salvo por perder os seus pais, ela nunca lamentaria ficar no tempo de Brandubh.

 

— Não! — Conor Mac Turlough olhou seu filho com aborrecimento — Uaid, cale-se. Moira já me falou sobre isto. Ela acredita que é verdade. De que outra forma explicaria a estória de Brandubh?

— É uma mentira, simplesmente uma mentira. Ele encontrou essa grande puta em Kincora, talvez seja uma daquelas que Brian desprezou e trouxe-a para cá para substituir Caoimhe. De alguma forma, tinha que justificar os seus atos.

— Tome cuidado, Uaid. Se não fosse pela consideração que sinto por seu pai e suas irmãs, não hesitaria em vingar-me de você — Brandubh ergueu-se de diante da lareira. Já era suficiente ruim ter que aceitar que iria casar-se com um membro desta família depois de tudo, mas as calúnias de Uaid quase o forçaram a empunhar a sua espada — Lady Eibhlin é minha noiva por escolha e não aceitarei tais palavras sobre ela. E embora ela não recorde, eu sei que você a encerrou naquela cova para deixá-la morrer ali. Se pudesse provar isso, mataria você sem duvidas.

— Lady? De onde saiu tal título? Ela não é melhor que minha irmã, isto se esta estória fantástica for verdade.

— Ela é minha dama e isso basta.

Conor assentiu com a cabeça.

— Pensa bem, Uaid. Não vê que Eibhlin se parece com a sua própria mãe, que até dá vontade de chorar? A minha Nara não era uma mulher tão alta, mas semelhante a ela.

— Conor, vim falar por mim mesmo desta vez, assim não haverá equívocos. O gado que ofereço é só para Eibhlin. Se considerar que merece um preço mais alto pela perda de Caoimhe, diga-me o valor e eu o pagarei, embora nada seja suficiente para compensá-lo...

— Brandubh — interrompeu Conor — Não considero você mais responsável pela morte de Caoimhe do que considero a mim mesmo. Aceitamos sua oferta de cinqüenta cabeças e desejo que seja feliz.

Brandubh deu um passo para frente e enlaçou o antebraço de Conor com o seu, em uma amostra de amizade.

— Obrigado, Conor.

Com um juramento, Uaid saiu daquele lugar. Os homens ficaram em silêncio por um momento.

— Conor, lamento tudo isto.

— Também eu. Esperemos que passe.

— Assim seja.

 

Logo depois de chamar uma moça para que trouxesse cerveja, Conor indicou a Brandubh que tomasse uma cadeira. Brandubh obedeceu, contente de renovar sua amizade com Conor, mas com sua mente ocupada com as imagens de sua casa e da mulher que logo seria sua para sempre.

 

Cedo, durante a tarde, Eibhlin finalmente havia resolvido de que coisas sentia saudades de sua própria época: algo para ler. Um periódico, uma revista, uma caixa de cereais… algo. Dougal tinha alguns volumes dos clássicos, Plinio, Augusto, Aristóteles, os evangelhos, mas nada que se parecesse com uma biblioteca. Brian parecia ter uma coleção mais ampla. Naturalmente, tudo estava em latim já que o irlandês não era um idioma no qual se escrevessem muitos livros.

Isso não era tão ruim. O latim de Eibhlin era passável, no fim das contas Linneas e todos os grandes cientistas tinham escrito em latim atéa chegada do século XVIII. Mas esses livros estavam em Kincora e ela estava aqui. Quando tinha se queixado de aborrecimento, Moira tinha deixado cair sobre ela um pacote de roupas que necessitava de alguma espécie de conserto.

O aborrecimento nunca pareceu ser um problema para sua mãe nem para Sadbh. Sempre havia trabalho suficiente para ocupar as mãos. Mas o nível de desespero de Eibhlin era evidente, e ela demonstrou o fato, ao se sentar diante da chaminé esta manhã e acabar com o montão à tarde. Agora doíam-lhe os dedos e decidiu que precisava descansar.

Não se incomodou em tirar a bata de lã antes de deitar-se e fechar os olhos, disposta a dormir. A porta rangeu e uns passos pesados cruzaram o quarto até a cama. Ela sorriu, pensando que Brandubh tinha vindo para despertá-la para jantar, e esperou o toque de sua mão para agarrá-lo e saudá-lo apropiadamente.

O colchão cedeu sob o peso de um homem, embora não parecesse tanto como tinha feito mais cedo. Notou que ele se agachava e se aproximava dela, mas não cheirava como Brandubh. Não cheirava bem. Não havia nenhum odor de cavalos. Brandubh sempre visitava seus cavalos pela manhã e pela tarde.

Misturado com o seu próprio aroma, havia um perfume que pôde reconhecer. Quem é? Pensou enquanto uma lâmina fria e não o toque morno de Brandubh deslizou sob o seu queixo.

— Então agora vale cinqüenta cabeças de gado?

Eibhlin não reconheceu a voz.

— Quem é você?

— Não recorda de mim, apesar do agradável tempo que passamos juntos em Burren?

Por um instante, sentiu-se outra vez na cova, com apenas um feixe de luz que a conectava ao mundo exterior, e esforçou-se para recordar o resto.

— O Burren. A cova — murmurou.

— Sim — disse o homem — Embora naquele tempo não soubéssemos que somos parentes. Sou seu tio Uaid, querida — Ele riu cruelmente junto a seu ouvido — É a filha de minha irmã, verdade? Eu não acredito —mulheres que aparecem do ar — Só um tolo aceitaria essa estória. Não tem nada para dizer, gatinha?

Seu tom era tão agressivo como a faca que tinha na garganta e sua mente tratava freneticamente de recordar o que havia dito Oprah[30] a respeito de lidar com uma situação como esta. A primeira coisa a fazer, é manter a calma.

— O que quer de mim? — bem, sua voz tinha sido forte e só tinha tremido uma vez. Uaid afrouxou a pressão.

— Não muito. Só a sua vida.

Tratou de manter a calma e surpreendentemente, sua força pareceu aumentar dez vezes, de modo que o empurrou e correu para o outro lado da cama.

— Sai de meu quarto, agora, ou gritarei. Brandubh vai ...

— Brandubh está muito ocupado agora, milady. Ele não te ouvirá. A menos que queira ser a causadora de uma destruição muito maior, virá em silêncio.

— Em silêncio? Para morrer? Acredito que não.

Um rápido olhar ao redor revelou-lhe que havia poucas coisas que poderia utilizar como uma arma. Todas eram muito pesadas para poder levantá-las.

Deu uma olhada para a porta que Uaid tinha deixado aberta parcialmente. Seus olhos seguiram os seus.

— Nem pense, matarei você se tentar fugir.

Não tinha muitas opções e o corredor além dessa porta era a sua única esperança para obter ajuda. Fixando em sua mente a posição da porta, centrou toda sua atenção em Uaid, olhando-o nos olhos.

Ele também a olhava fixamente, seu instinto de guerreiro era evidente.

Dificilmente poderia deixá-lo atrás, assim que seu esforço tinha que ser inesperado dar-lhe tempo de abrir a porta e gritar pedindo ajuda. Mas estaria viva quando chegasse a ajuda? Sem pensar mais, lançou-se ao ataque.

— Por que quer a minha morte?

— Expliquei tudo isto na cova. Sua vida pela vida de minha irmã — simples e singelo. Uaid moveu-se para a lateral, obviamente atento aos movimentos de Eibhlin. Só mais dois passos e estaria entre ela e a porta.

— Como escapará depois de me matar?

— Não preciso escapar necessariamente. Só preciso estar em outra parte quando seu corpo for encontrado.

Os passos suaves foram sua única advertência antes que a porta se abrisse. Eibhlin não se atreveu a tirar os olhos de Uaid para ver quem entrava.

— Uaid, o que faz aqui? Sai agora, antes que chame Brandubh — disse Moira com voz aguda e zangada.

— Mamãe — Eibhlin chorou de alívio e deu um passo para ela.

— Pare — advertiu Uaid, brandindo sua adaga contra elas — Moira, você veio em um momento muito inoportuno.

— Afasta isso.

— Enfiarei em seu peito.

— Uaid, por favor — Moira entrou no quarto e fechou a porta — Agora, podemos falar disto. Deve saber que nunca permitirei que faça isso.

Ele riu e o som era duro e amargo.

— Farei o que quiser, irmã. E acredito que começarei contigo, traidora.

 

Lançou-se sobre Moira, agarrando-a pelo braço. Ela agarrou o pulso de Uaid e empurrou-o para o seu rosto. A força inesperada de sua ação fez com que Uaid evitasse a sua própria faca.

Eibhlin saltou sobre a cama para ajudar a sua mãe enquanto Uaid conseguia liberar o punho e apontava novamente para Moira.

A adaga que cintilava sobre a borda da cama advertiu-a e Eibhlin evitou-a de modo quase automático, mas estava fraca e perdeu o equilíbrio ao bater contra a dura beira da cama.

Caiu de joelhos aturdida, agarrando os dois lados da cabeça.

Uaid, passou a lutar apenas com uma mulher. Tomou ambos os pulsos de Moira com uma de suas grandes mãos e os reteve assim. Ela lutou como faria um gato, chutando e gritando. Eibhlin rezou para que alguém ouvisse o tumulto.

Como se fosse um filme que passava em câmara lenta, viu quando Uaid levantou o punho e golpeou Moira, até deixá-la inconsciente e deixando-a cair como um cadáver no chão.

— Mamãe!

Ignorando a dor de cabeça, Eibhlin saltou ao chão e aproximou-se do corpo lasso de Moira. Um pé calçado em uma dura bota aterrizou em sua mão direita. Algo se rompeu e uma explosão de dor subiu pelo seu braço. Um grito de dor escapou de sua garganta e retumbou nas paredes de pedra.

Uaid agarrou uma mecha de cabelo e arrastou-a até seus pés.

— Agora, é minha, milady — O temor desapereceu e ela cospiu no seu rosto.

— Nunca mais volte a chamar-me assim.

Despreocupadamente, como se tivesse todo o tempo do mundo, Uaid secou o espumoso jorro que já deslizava pela bochecha.

— Por que não vamos a algum lugar mais privado, onde não vamos ser interrompidos?

Uaid agarrou-lhe o braço e torceu-o para suas costas. Eibhlin espiou a porta e decidiu correr. Então milhares de estrelas cintilaram diante dos seus olhos e logo tudo escureceu.

 

Brandubh voltou para o quarto de Eibhlin, as cálidas felicitações seus pais ainda ressoavam em seus ouvidos. Sua vida finalmente parecia se encaminhar para o caminho correto: esposa, filhos, um futuro para o seu povo.

A ausência de vozes no quarto levou-o a acreditar que ela dormia e empurrou lentamente a pesada porta de carvalho. Seus olhos buscaram-na sobre a cama, pensando que a encontraria ali, segura e quente, esperando a sua carícia.

— Eibhlin — chamou-a olhando o quarto que parecia vazio.

Uma incerteza fria assaltou-o. Ela tinha ido embora. Então a sua atenção foi atraída para uma pessoa que gemia encolhida no chão.

— Moira? Pelos ossos de Deus, garota. O que aconteceu?— ajoelhou-se ao lado dela e suavemente ajudou-a a erguer-se — Onde está Eibhlin?

Moira amaldiçoou baixinho a causa da dor de cabeça, enquanto levantava-se do chão, utilizando palavras mais próprias de um guerreiro do que uma donzela. Tinha o queixo machucado e a bochecha inchada.

— Uaid tomou-a, Brandubh. Tenteipará-lo, mas está louco.

— Para onde a levou? Quando ela inclinou outra vez a cabeça e mordeu o lábio inferior, Brandubh a agarrou pelos ombros e sacudiu-a para que desse uma resposta — Onde, Moira?

— Eu não sei, não sei. Disse que se propunha a matá-la, se é que não o fez. E eu não fui capaz de pará-lo — Moira se afogava em suas lágrimas e agarrou a túnica de Brandubh com desespero —Procure-a. Encontre-a antes de...

Brandubh a ajudou a parar e aproximou dela a cadeira que estava junto à lareira.

— Vou encontrá-la, Moira.

Podia ver refletido em seus olhos o temor que ele sentia. Talvez fosse muito tarde. Não acreditava que Uaid perdesse tempo para terminar o que tinha começado, especialmente depois de falhar tantas vezes em sua sede de vingança.

Este fato fez com que Brandubh avançasse a grandes passadas para o estábulo, sem pensar em nenhuma outra coisa que não fosse encontrar um cavalo, cavalgar para fora de casa e encontrar os rastros para segui-los. Não se permitiu pensar no que possivelmente encontraria no final desses rastros.

Percorreu a enorme casa com um ritmo inexorável para a porta principal e estava no meio do pátio quando ouviu a chamada de Moira que se aproximava.

— Brandubh, espere — Ele virou-se e viu-a aproximando-se em sua direção lutando para sustentar o peso de sua longa espada — Não esqueça isto.

Ela sustentou a arma para ele como se fosse uma oferenda.

— Moira — murmurou, perguntando-se se ela sabia o que estava instando para ele fazer, embora ele não precisasse de nenhum estímulo.

— Utilize-a se for necessário para trazê-la de volta ao seu lar, Brandubh — tragou ruidosamente enquanto lutava contra as lágrimas — Se ela estiver morta, mata-o por mim.

— Se ela estiver morta... As palavras tinham sido ditas em voz alta e isso lhes dava mais poder. Essas palavras produziram um temor que quase o acovardou, quase o fez cair de joelhos na terra, embargando-o com dor, como se tivesse seu corpo nos braços. A única coisa que o manteve em pé foi o punho de ferro que Moira pôs em suas mãos. Sentiu a força que seu contato transmitia e assentiu, tomando a arma e segurando-a.

— Matarei, Moira.

— Se for necessário — ela respondeu e voltou a sua cabeça, dando um passo para longe dele.

Dougal saiu da casa, seguido por Sadbh.

— Onde vai, Brandubh?— perguntou seu pai com calma.

— Encontrar a minha esposa — respondeu e seguiu seu caminho para o estábulo, a bainha de sua espada chocava-se contra a coxa a cada passo. Dentro da escuridão do edifício, encontrou mais provas da loucura de Uaid. Um dos moços do estábulo estava caído em um canto, com o rosto cinzento e frio como uma pedra. A mancha vermelha que aumentava na grosseira camisa de linho, mostrava que tinha sido apunhalado por Uaid.

— É Aw, um dos criados — murmurou Dougal sobre o ombro de Brandubh quando ele ajoelhou-se junto ao menino morto. Sua voz foi áspera quando disse — Traga ele para mim , Brandubh.

Mas ele não podia prometer isso, como tampouco podia prometer trazer uma fada para casa, porém sabia como terminaria esta noite: Uaid ou ele mesmo Brandubh, jamais voltariam para Ath Sionnain outra vez.

— Não — respondeu com uma raiva gelada, não esbanjaria mais tempo falando.

Dougal suspirou e deu as costas, sem se oferecer sequer acompanhá-lo em sua viagem.

Gadhra, que era quem talvez conhecesse Brandubh melhor do que ninguém, esperava-o inclinado contra a parede do estábulo, olhou-o aproximar-se do curral onde Conchobar esperava com a cabeça levantada e as orelhas atentas ao som dos passos de Brandubh.

— Vem, moço. Minha mulher aguarda a minha chegada.

Como se entendesse a importância de agir rápido, Conchobar deixou-se selar tranqüilamente, controlando sua irritabilidade normal. Os músculos sob o couro negro e suave agitaram-se pela antecipação. Brandubh prometeu que desta vez, Uaid não escaparia.

Com a mente em branco e os nervos mais calmos, Brandubh saiu do estábulo levando as rédeas de Conchobar. Deirdre relinchou saudando o seu companheiro de curral. Conchobar jogou a cabeça e relinchou em resposta.

— Meus respeitos à sua dama, Brandubh — disse Gadhra — Se não estiver de volta pela manhã, eu sairei para buscá-lo. E o que ficar incompleto, terminarei com as minhas mãos.

— Obrigado, amigo — Brandubh colocou a mão no ombro de Gadhra — Irmão, se eu não voltar, dou a minha mulher para que a proteja. Ela deve querer ir para a Craglea no dia do solstício de inverno. A levará para mim?

Gadhra assentiu.

— Farei , irmão.

Brandubh deu a volta e saltou em sua sela. Uma pontapé suave no flanco de Conchobar, indicou ao cavalo que podia liberar todo o seu poder e ganhar velocidade enquanto se dirigia para a porta que já estava aberta.

 

Os rastros eram claros. Onde não estavam, Uaid tinha deixado sinais para que Brandubh o seguisse facilmente. Aqui ou ali, uma parte de linho (partes de uma camisola de mulher, notou Brandubh com uma fúria gelada), davam-lhe indícios do caminho a seguir.

— Então Uaid quer que o siga. Ele quer ter um encontro comigo. Que seja assim — disse isto em voz alta e as orelhas de Conchobar mexeraam-se para trás com as suas palavras, mas o seu galope não se alterou.

 

— "Realmente preferiria montar o cavalo"— pensou Eibhlin, que estava mais uma vez atravessada sobre o seu ventre em uma sela. Uaid realmente não tinha muita imaginação para planejar um seqüestro.

— Estamos quase chegamos, sobrinha — gritou Uaid por cima do ruído dos cascos do cavalo. Ela lutou para olhar para frente, mas não estava segura de querer ver.

A última excursão com o seu tio Uaid não tinha sido nada agradável. Que entretenimento poderia ele ter planejado desta vez?

Uaid afrouxou as rédeas e deixou que o cavalo entrasse no pátio de uma impressionante construção de pedra.

Uma vez dentro das paredes, apeou e pondo uma mão na cintura do seu vestido, puxou Eibhlin de um modo nada elegante.

— Não fizemos isso antes? — perguntou Eibhlin e Uaid riu entre os dentes.

— Sim, gatinha, mas não pude terminar o que tinha começado e desejo corrigir esse engano desta vez. Vem, milady — disse para insultá-la, ela podia ver isso em seus olhos.

O nome, o mesmo nome pelo qual Brandubh a chamava, vindo de lábios do Uaid fazia com que se sentisse degradada e suja.

Ela vacilou por algum tempo e ele tomou-a pelas extremidades da camisola, arrastando-a detrás dele para o edifício aninhado dentro das paredes da torre.

— Agora, vai sentar-se? Preparei o nosso pequeno ninho de amor com um pouco de vinho e um pouco de alimento, para refrescar-nos enquanto aguardamos a chegada de Brandubh.

Uaid tomou um pedra-de-fogo e acendeu rapidamente um fogo no braseiro localizado perto da entrada, iluminada até então por umas poucas velas. Uma vez que o quarto encheu-se de luz, Eibhlin olhou ao redor, maravilhada com a opaca beleza do edifício.

As sombras nas paredes marcavam os lugares onde antes havia pinturas penduradas. Os nichos vazios clamavam pelas esculturas, que alguma vez tinham albergado. As janelas localizadas no alto da parede, tinham a forma de cruz e nas cornijas havia águas-fortes com motivos religiosos e versos da Bíblia em latim.

— Toma gatinha, toma um pouco de vinho. Roubei da adega de Dougal … realmente ali há bons vinhos.

Eibhlin tomou a taça entre as suas mãos e examinou-a em busca de sinais que indicassem se continha alguma substância estranha.

 

Levando a taça aos lábios, Eibhlin bebeu o conteúdo com apreensão. Não detectou nenhum gosto amargo ou qualquer outra insinuação de veneno. Uaid riu de suas precauções.

— O veneno realmente não é meu estilo, gatinha. Prefiro usar uma lâmina afiada, é mais varonil, já sabe.

— Que é este lugar, tio?— tratou de manter uma aparência audaz, se ele queria espantá-la, teria que esforçar-se mais. Jamais iria dar-lhe o gosto de mostrar-se atemorizada. Ele bebeu um comprido trago do mesmo vinho que tinha dado a ela.

— Uma abadia. Os irmãos abandonaram-na faz anos para mudar-se para um local maior e mais próximo a Kincora. No tempo dos vikingos, estes subiram o rio Shannon e invadiram Limerick e então os bons irmãos decidiram que estariam mais seguros onde Brian os pudesse proteger. É uma das formas como o Ard RI compra o favor da Igreja.

Eibhlin podia ver que estavam nos claustros do monastério. As portas que se viam sobre as paredes que a rodeavam, estavam entreabertas em sua maioria, deixando ver as habitações com as quais se comunicavam.

Atrás do ombro de Uaid, uma porta aberta deixava ver uma escada. Provavelmente o campanário, pensou Eibhlin, perguntando-se se essa não seria uma via de escape.

Olhando para trás para saber que é que chamava a atenção a sua sobrinha, Uaid esboçou um sorriso torto e aproximou-se da porta,como se tivesse todo o tempo do mundo para fechá-la e deslizar o ferrolho enferrujado.

— Acredita que seria muito fácil escapar por ali, gatinha?

— Por favor, deixe de chamar-me assim — Seu sorriso parecia estar em sua máxima plenitude e então ele sorveu de sua taça.

— Eu decido como chamá-la.

Com os olhos semicerrados, deixou sua taça sobre a mesa junto à porta. Com uma mão, acariciou-lhe meigamente o abdômen e logo começou a baixar. Um hálito fortemente alcoólico o rodeava.

— Já vejo por que Brandubh a acha apetitosa, minha querida. Como temos tempo, talvez possamos encontrar uma boa forma de passá-lo, verdade?— A mão acariciou a suave carne que se apertava contra o seu vestido.

— Nem pense, companheiro — Eibhlin demorou para perceber que tinha falado em inglês. Bem, ao inferno com ele. Que rompesse a cabeça perguntando-se o que havia dito, de qualquer maneira, nunca se submeteria a ele. É obvio, o olhar em seus olhos deixava evidente que ficaria satisfeito em violá-la. Uaid deve ter notado o que ela pensava, já que não demorou em confirmar. Eibhlin não emitiu nenhum som, mas pensou que poderia permanecer fria como uma pedra e permitir que este homem — seu tio apesar de tudo— tomasse o que quisesse, ou poderia lutar e proporcionar-lhe mais placer.

— Sim, gatinha, gozarei mais se você lutar.

— E quero que saiba, gatinha, que escolhi um lugar sagrado, pois assim não haverá fadas capazes de salvá-la dessa vez.

Apesar do seu tom jocoso, os olhos castanhos de Uaid ardiam de ira.

— É o momento de nos conheçamos melhor, não acredita?

Eibhlin começou a caminhar lentamente para trás, mantendo-se tão afastada como podia nesse reduzido espaço. Quando suas costas encontraram a parede, o sorriso de Uaid se espalhou cruel em seu rosto.

Muito rápido para que ela pudesse evitar, Uaid agarrou o seu manto e a aproximou-a puxando por ele. A lâmina de sua adaga apoiou-se no queixo, fazendo cócegas sobre a pele tenra. Seus olhos ficaram no mesmo nível.

— É tão fácil. Sabe de que maneira simples uma lâmina afiada perfura a carne humana? — Ele apertou a ponta da adaga contra a parte inferior do queixo — Na batalha, uma espada longa pode cortar um homem em dois pedaços. Mas não há glória nisso, é apenas sangue e intestinos.

O estômago de Eibhlin se revolveu diante da descrição, mas conseguiu manter seu rosto inexpressivo.

— Então, por que faz isso?

— Sou um irlandês. Há duas coisas que nos motivam: fazer sexo e lutar. Alguma vez escutou alguma lenda a respeito?— ele riu forte — O seu Brandubh certamente, é um homem que dormiu com a maior parte das mulheres em Ath Sionnain e muitas em Kincora, incluindo conforme se diz, a ex-esposa do anterior rei. Aquela velha bruxa viu a carne jovem de Brandubh e decidiu explorar. Quanto a lutar, não há outro homem ao qual eu quero ter junto a mim em um campo de batalha — algo como uma verdadeira admiração tingiu as suas palavras — uma espécie de loucura o possui. ele não pode ouvir nem pensar... só pode matar. Essa espada parece cantar enquanto espalha a morte a seu redor.

— Espera que eu também cante para você, Uaid?—

Ele riu sardonicamente.

— Eu não morrerei esta noite, gatinha. Você sim.

— Brandubh vai matá-lo lentamente se me matar, Uaid.

— Ah, gatinha, eu não matarei você. Quem irá matá-la é Brandubh.

— O que? Está louco.

— Eu? Já disse isso, uma vez que a loucura se apodera dele, mesmo se topasse com a sua própria mãe na escuridão, sua espada faria o trabalho para o qual foi criada. Ele matará você antes de saber quem é. Então quando tiver recuperado a razão e vir o que fez, estará preparado para morrer e eu o matarei.

A expressão de Uaid se abrandou.

— Então talvez eu possa descansar outra vez.

Todas as lembranças se amontoaram na memória de Eibhlin: a confissão na cova, a morte trágica do Caoimhe nas mãos de seu próprio irmão. Eibhlin soube era uma loucura acossá-lo, mas não pôde conter-se.

— Não é capaz de lutar sozinho com Brandubh, como um verdadeiro homem, então tem que debilitá-lo, destruí-lo de tal forma para que ele incline a sua cabeça e só tenha que cortá-la.

   — É verdade, gatinha. Não tem muito sentido que a vingança custe a minha própria vida, não acha?

— Tudo isso é por causa de uma garota teimosa, tudo por causa de um estúpido acidente?

Uaid apertou o punhal com mais força, perfurando a delicada carne debaixo da mandíbula. Eibhlin não pode reprimir uma exclamação de dor.

— Adiante, Uaid. Empurra.

Um brilho de humor apareceu em seus olhos mortos.

— Talvez seja mesmo a filha de Moira. Deus sabe que tem a língua afiada.

— Por que cooperaria contigo nesta loucura? Por que espera que chegue Brandubh para me cortar em pedaços? Talvez queira que meus gritos o advirtam?

O som dos cascos ressoaram através do pátio, cortando qualquer explicação dos planos de Uaid.

— Ele está aqui. Vem, gatinha, vamos dar as boas-vindas a seu amante.

Uaid levantou-a puxando-a pelo braço e forçando-a a parar, enquanto a empurrava para a frente dele.

— Só para me assegurar que não pode intervir — Ele colocou a adaga entre os dentes e obrigou-a a levar as mãos para as costas para atá-las com uma tira de couro que guardava em seu cinturão.

A imensa porta de carvalho da abadia foi arrojada com violência contra a parede.

— Brandubh!

 

Brandubh esperou escutar algum sinal de Uaid antes de entrar na abadia, mas a espera foi em vão. Tomou a sua espada e avançou com passos decididos até a porta, escutando qualquer som de advertência. O som de pés arrastando-se para encontrar uma melhor posição frente ao agressor; o involuntário tilintar de uma espada contra a parede. O silêncio pouco natural da emboscada.

— Eibhlin! — Seu grito ressoou pelo edifício abandonado — Onde está você?

Silenciosamente, clamou misericórdia a Deus, pediu algum sinal de que já não fosse tarde demais.

— Brandubh — sua voz sou forçada — Uaid está aqui. Ele quer matá-lo.

— Darei as boas-vindas ao seus desejo, milady.

— Fala sério?—.

— Nunca falei tão a sério como agora — Ele seguiu o som de sua voz. “Continua em contato, Eibhlin, assim posso encontrar você”.

— Por que veio de qualquer maneira?— Brandubh sorriu ao perceber a sua irritação, ainda quando tratava de acalmar o temor que perfurava as entranhas como uma adaga — Ele teria se cansado deste jogo e ninguém mais seria ferido — ela gritou.

— Exceto você.

— Brandubh, vai embora por favor. Não quero que morra por minha causa. Por favor, não faça com que ele o mate.

— Por que, Eibhlin?— Brandubh voltou a chamá-la — por que cuida de mim?

— Porque, eu te amo.

— Bom ponto, gatinha — disse Uaid.

   Brandubh fez uma careta ao escutar o comentário cínico.

— Então entende por que devo fazê-lo, milady — tomou fôlego e adicionou — Uaid. Você é um amaldiçoado, chacal e covarde. Você é uma miserável brincadeira daquilo que é um homem verdadeiro. Tomou a minha mulher e eu vou matá-lo para tê-la de volta comigo. Pode enfrentar-me e morrer como um homem. O que diz, Uaid?

O silêncio que o escuro vestíbulo respondeu-lhe, penetrou nos ossos de Brandubh como se fosse a névoa fria de um pântano. Apesar de que tudo o impulsionava a lançar-se para frente e tomar a sua mulher das mãos imundas de Uaid... esperou.

— Bom — gritou Uaid — Quer lutar? Então lutemos.

— Não é para isso que estamos aqui? Perguntou Brandubh irritado.

Saindo das sombras que ocultavam o vestíbulo, viu Eibhlin. As mãos atadas atrás de suas costas, a afiada lâmina da navalha de Uaid parecia dançar contra o pescoço tenro, essa visão ameaçadora provocou a luxúria no seu sangue e então a cegueira e a surdez que o invadiam na batalha, começaram a nublar a mente de Brandubh.

Lutou contra isso. Essa loucura era boa só para a batalha, onde todos eram guerreiros e estavam na briga pelo desejo ou pelo dever. Era seu legado irlandês, e Brian, que também sofria — ou que tinha sido abençoado — com essa loucura, havia lhe ensinado a forma de refreá-lo, por temor de que ele matasse sem saber o que fazia.

Nessa noite, Brandubh apreciou esse ensino. Controlar-se era ainda mais importante para evitar que morresse a pessoa errada. Memso que muito o agradasse cortar Uaid em pedacinhos, Eibhlin estava muito exposta para que ele desse rédea solta ao selvagem desejo de matar.

Ela aproximou-se, suas costas tão retas como as de uma rainha. Uaid estava atrás dela, quase escondido detrás de sua grande altura. “Escondido atrás de uma mulher”, pensou Brandubh com um sorriso que não o deixou ver.

Usando a sua espada, Uaid atacou, e voltou a ocultar-se depois nas costas de Eibhlin. Brandubh se firmou-se no chão.

— Brandubh! — gritou ela, quando a ponta da lâmina de Uaid fez um corte limpo na túnica de Brandubh. Uma linha vermelha e brilhante apareceu a seguir no peito, marcando o caminho da arma de Uaid. A dor era mínima. Uma parte de sua mente maravilhou-se de que a loucura não o tivesse apanhado, pois o primeiro corte era geralmente o momento em que tudo se desencadeava.

A espada continuou o seu caminho e arrancou faíscas ao se chocar contra as pedras da parede. Os olhos de Uaid mostraram incerteza dessa vez. Ele tinha esperado que a raiva tomasse o controle e como isso não tinha acontecido, não estava seguro do que devia fazer, pensou Brandubh com tudo mais claro em sua mente.

Uaid empurrou Eibhlin para Brandubh e investiu contra eles. Brandubh afastou-se e permitiu que ela caísse no chão atrás dele e então tomou o lugar na frente dela, protegendo-a enquanto sua espada assobiava pelo ar.

— Permanece atrás de mim, Eibhlin.

   Uaid, habitualmente era um bom combatente e hoje estava ainda melhor, porque não tinha nada a perder. Seu ataque se disciplinou, mas Brandubh sentia a força do desespero por trás de cada choque de espadas.

— Ahá, o corvo está comedido — provocou Uaid quando sua lâmina cortou a pele do antebraço de Brandubh.

Brandubh ignorou a dor e levantou a sua espada para bloquear outra estocada que se dirigia ao seu pescoço. O grito estrangulado de Eibhlin distraiu-o de modo, que o golpe mortal da lâmina de Uaid fosse mortal e Brandubh só pudesse se esquivar, fazendo uma torção forçada que facilitou Uaid a encurralá-lo em um canto.

— Fique aqui, Eibhlin — gritou por cima do ombro, enquanto lançou seu peso sobre Uaid, o que obrigou este a separar-se.

Dando por terminada a luta, Uaid retirou-se, girou e correu para a porta aberta. Brandubh começou para segui-lo.

— Espera, Brandubh, espera — Eibhlin agarrou-o pela túnica — Não o siga, pelo amor de Deus. Deixe que vá embora. Vamos enquanto temos chance.

— Não — Ele se esquivou de sua mão e foi para a porta por onde Uaid tinha desaparecido. Ela correu para a porta e fechou-a de um golpe, travando o ferrolho.

— Agora está preso. Vamos —.

— Sai do caminho, Eibhlin. Vou matá-lo esta noite.

— Não, Brandubh, você não pode. O que dirá minha mãe? O que dirá Conor?

— Sua mãe trouxe a minha espada antes que eu deixasse Ath Sionnain.

   Seus olhos se nublaram de incredulidade. Ele a afastou e abriu a porta.

— Fique aqui. Se ele escapar, fique confinada em um dos claustros. Meu amigo, Gadhra, virá até você e a levará a Craglea no dia do solstício de inverno.

— Não! — gritou e o agarrou pela manga, mas ele já estava na metade da escada. Seus passos ressoaram à medida que subia pela torre.

— Uaid, aqui estou. Está preparado para morrer? — A risada pareceu brotar das paredes enquanto descia pela escada.

— Levanta a cabeça, Brandubh. Vou cortar o seu pescoço.

Ele fez um som que se parecia realmente com uma cabeça que se separava do pescoço.

A escada levava diretamente até o campanário. Era uma posição muito vulnerável. Brandubh inclinou-se contra a parede e avaliou o terreno.

— Oh, vamos Brandubh. Deixarei você sair antes de matá-lo — Uaid riu sem humor.

— Uaid, está realmente louco se pensa que confiarei em algo que diga.

O rosto de Uaid apareceu pela abertura que estava sobre a sua cabeça. Era difícil ler a sua expressão, estavam ali misturados o ódio com o desejo de uma boa briga.

— Vem, Brandubh — disse quando ele separou-se da porta.

— Bem, Uaid — disse e terminou de subir os degraus que faltavam até o campanário.

Uaid permaneceu à vista todo o tempo, mas logo que Brandubh colocou os pés no chão, investiu, sujeitando a espada no alto com ambas as mãos.

Foi um movimento desajeitado que Brandubh parou facilmente. “Muito fácil”, pensou Brandubh com um crescente mal-estar. Tinha que atacar, isso estava demorando muito.

Brandubh manteve os seus olhos cravados em Uaid e diminuiu a distância entre eles. Quando ele estivesse dentro do raio de ataque, Brandubh o cortaria em dois.

Uaid investiu outra vez. O som do aço contra o aço ressoou pelo campanário como fariam os sinos, silenciosos há muito tempo. As lâminas das espadas deslizaram uma sobre a outra, até chegar aos pedaços. Então Uaid agarrou o pulso de Brandubh e o empurrou.

Brandubh silenciou uma maldição quando chocou-se contra o imenso sino e quase seguiu o caminho da sua espada, que caiu no túnel e provocou um som estrepitoso ao se chocar contra o piso de pedra no térreo.

Com os braços quase despedaçados, agarrou-se ao sino e agüentou até que se sentiu firme outra vez.

— Adeus, Brandubh. A sua dama aguarda a minha atenção.

Os olhos de Brandubh encontraram os de Uaid na escada e a porta estava sobre a sua cabeça. Com uma saudação de sua espada, Uaid deixou que a porta se fechasse e Brandubh ouviu o som repulsivo de um ferrolho deslizando-se. Estava preso.

 

O som de espadas que se chocavam, ressoava pela abadia. Eibhlin tinha seguido Brandubh até a porta, mas tinha se afastado dos terríveis sons do combate mortal e se inclinado contra a parede oposta. O frio das pedras invadiu-a, provocando-lhe um vazio no estômago. O que aconteceria se Brandubh estivesse morto?

— Não! — gritou silenciosamente em seu interior. “Nem pensar”. Não é possível que Uaid pudesse matá-lo.

Deslizou até sentar-se na piso gelado de pedras polidas e orou como nunca tinha feito durante anos, clamando aos santos que ainda não haviam nascido, para que protegessem Brandubh e o trouxessem de volta são e salvo.

O ruído surdo de algo muito grande golpeando o sino e a maldição rugida de Brandubh, fê-la saltar do piso e cruzar correndo o vestíbulo, ao mesmo tempo que uma espada — a espada de Brandubh — golpeava o piso sob o vazio do campanário. Ficou cravada na soleira. Devia chamá-lo, mas se ele não respondesse... Outra vez, Eibhlin deixou para trás os seus medos.

— Brandubh — gritou enquanto subia o primeiro degrau.

Uma voz amortecida chegou-lhe do batente da escada, mas embora se esforçasse, não conseguiu entender as palavras.

Subiu o segundo degrau, negando-se a considerar quão temerárias eram as suas ações. O que esperava encontrar ali acima? Sabia perfeitamente que tinha sido por sua culpa que Brandubh havia se distraído e Uaid o tinha ferido. Demônios, por sua culpa ele poderia estar morto pelas mãos de Uaid.

Esses pensamentos não a abandonavam. O que aconteceria se Uaid o tivesse matado? Supuha que a raiva era fria, pensou, mas ela sentia como um fogo que corria pelas suas veias ao pensar que Brandubh poderia ter sucumbido a Uaid Mac Conor. Ela mesma mataria o bastardo, prometeu e começou a subir a escada.

O ruído surdo da porta-armadilha, seguida pelo ferrolho sendo fechado a fez subir mais rápido.

Uma lâmina tocou-lhe o nariz. Com um sorriso sarcástico, Uaid voltou-se para ela, forçando-a a retirar-se.

— Aonde vai, gatinha?— Uaid apoiou a ponta de sua espada manchada de sangre contra a sua garganta, acariciando a sua pulsação com o aço frio — Seu sangue corre. Pensava em tomar parte na luta?— Ele riu — Queria ser como a grande rainha, Maeve de Connaught, que guiava carruagens e esgrimia a lança como um homem?

— O que fez com Brandubh?— Eibhlin subiu mais um pouco, pensando em empurrá-lo e abrir a porta do campanário. Uaid parou-a com uma carícia de sua espada.

— Oh, gatinha. Brandubh não está gravemente ferido…ainda. Simplesmente está impossibilitado de nos incomodar.

A espada moveu-se acima pela bochecha. Uaid levantou uma mecha de cabelo e empurrou-a até obrigá-la a apoiar-se contra a parede, então apoiou o fio de sua navalha na bordo da sua orelha. Ela podia sentir o arranhão da lâmina na tenra pele.

— É muito mais bonita com as duas orelhas, gatinha, assim não se mexa muito. Agora, desçamos. Vamos?

— Uaid! — a voz de Brandubh retumbou pelas paredes e fez com que uma fina camada de poeira caísse sobre as suas cabeças, quando Brandubh golpeava o chão com os seus punhos imensos. Eibhlin levantou a cabeça para o som.

— Ai — queixou-se quando a lâmina de Uaid a cortou. Tocou o corte cuidadosamente e deu um arrepio ao sentir o ardor e a pegajosa umidade, olhando com Uaid com fúria —Tome cuidado com essa coisa.

Uaid parecia divertido.

— Desce.

— Uaid! — rugiu Brandubh do outro lado da porta, reforçando as suas ameaças com outro golpe gigantesco contra o piso — Toque nela e você não servirá nem para os cães quando eu terminar contigo.

— Alcance-nos quando puder, Brandubh, esperaremos aqui embaixo, onde eu possa satisfazer à sua mulher apropiadamente. Não faça muito barulho, sim?

— Uaid! — Brandubh rugiu, seus punhos fizeram chover mais pó sobre eles.

Sujeitando o braço com uma mão, Uaid empurrou-a para a escada, arrastando-a abaixo detrás dele.

— O que fará agora, tio? Vai me matar?— Seu ritmo não se alterou com a sua pergunta, ele riu e respondeu.

— Acredito que fui muito claro, gatinha. Você e eu vamos nos entreter fornicando por um momento.   Uma vez que eu te possuir, terei ganho. Não vê? Inclusive se ele me matar, eu terei tomado o que é dele.

Deteve-se e a empurrou contra a parede. Seus olhos tornaram-se mais estreitos e os lábios se contraíram em uma careta.

— Aqui é tão bom como qualquer outro lugar.

   Em um instante, ele a agarrou pelos ombros e empurrou-a para o chão, parando diante dela com os pés separados e a espada na mão.

Antes que ela pudesse reagir, Uaid deslizou a espada do seu púbis para baixo e com um movimento rápido da mão, a sua saia estava aberta como o ventre de um peixe. A ponta da espada moveu-se para cima, detendo-se na pulsação da garganta. Uaid utilizou a ponta da bota para levantar a camisola e seus olhos apreciaram cada centímetro da perna exposta.

Olhando-a com lascívia, deixou cair a espada a seus pés e agarrou as duas partes da sua roupa, afastando-as com um puxão.

— Oh, querida. Que doce pedaço você é — Eibhlin chutou-o e girou sobre si mesma puxando as partes de seu vestido até cobrir-se.

— Se puser uma mão em mim, eu mesma matarei você.

A risada ridicularizou a sua ameaça. Uaid enroscou uma mecha de cabelo na mão para aproximá-la e Eibhlin sentiu como se estirava cada fio de cabelo.

Apertando os dentes, obedeceu e terminou agachada a seus pés.

Esqueceu-se da dor com o golpe que Uaid lhe deu. Suas mãos manchadas de sangue rasgaram o pescoço de sua camisola e da sua roupa, despindo-lhe os ombros, deixando seus braços presos e expondo os seios diante de seus olhos.

A humilhação abateu-se sobre ela quando ele a empurrou contra a parede com o seu corpo, esfregando-se contra ela como faria um cervo no cio. Ele colocou as mãos sobre os seus seios, apertando-os, beliscando-lhe os mamilos.

Eibhlin fechou os olhos contra tudo isso, escondendo-se atrás da escuridão autoinduzida, enquanto as mãos de Uaid se deleitavam em seu corpo.

— Por favor, não — Os olhos de Eibhlin abriram-se de repente quando ouviu a sua própria voz. O prazer de Uaid diante da sua mortificação era evidente em seu rosto. “Maldito! Eu não implorarei”.

Endireitou as costas e olhou-o diretamente nos olhos.

— Não importa o que faça, não ganhará. Brandubh nunca me abandonará.

Um brilho de uma provável admiração morna apareceu em seus olhos, só por um momento, antes de recuperar a expressão de zombaria.

— Eu sempre quis fazer isto na casa de Deus. O que acha disso, gatinha?

“Já estava cansada dessa estória de gatinha”, pensou em silêncio enquanto tratava de acalmar-se e de se libertar de suas mãos.

A idéia de que seu próprio tio a violasse em uma abadia abandonada era muito perversa até para ser dita. Sacudindo os ombros, tratou de fugir das mãos que a percorriam por inteiro.

— Não posso dizer que penso muito nisso, tio. Por que não jogamos Ludo[31] neste lugar?

Uaid a parou a sua tosca seu tosco manuseio e olhou-a desconcertado, mas Eibhlin não pensava em explicar o que era o Ludo — Eu não me submeterei a você, Uaid. Terá que utilizar essa espada.

Um desagradável sorriso curvou lábios de Uaid.

— Oh, utilizarei uma espada, gatinha, e você a adorará.

Ele tomou-a pelo queixo e empurrou a sua cabeça novamente contra a parede. Eibhlin o viu aproximar-se e se negou a permitir que o pânico nublasse a sua razão. “Posso tomar disto”, pensou, “enquanto Brandubh não morrer”.

A boca de Uaid apoderou-se da sua bruscamente, fazendo com que doesse. Eibhlin não abriria os lábios para ele. Resistiria, não cederia nenhuma polegada, nem o insultaria.

— Vamos, gatinha. Por que simplesmente não goza com o que acontecer conosco?

Sua súplica agradável confundiu-a e impediu-a de recuperar-se e bloquear o assalto seguinte. A língua se afundou nela, enquanto uma mão machucava um seio e a outra sujeitava-lhe a cabeça. O peso do homem imobilizou-a. Uaid simplesmente afligiu-a.

A cólera aumentou outra vez quando ela sentiu a sua ereção apertada contra as suas coxas. Lutou contra os pedaços de lã do que tinha sido sua roupa, tratando de se libertar de suas mãos.

Todos aqueles cursos de autodefesa não haviam sido um desperdício, pensou quando agarrou Uaid pelos testículos e os torceu. O grito de Uaid ressoou pelo edifício vazio, ecoando nas paredes nuas de um extremo do vestíbulo ao outro.

Quando ele a liberou para dedicar-se a proteger a sua virilidade, ela escorregou por debaixo de seus braços e correu para se trancar dentro do claustro mais próximo, golpeando a grossa porta de carvalho e travando o ferrolho por dentro. Por cima do ruído surdo de seu coração, pôde ouvir o anel de metal escorregando contra as paredes.

Abriu com cuidado o postigo e espiou o que ocorria fora. Uaid percorria o corredor com os passos ainda instáveis. Seus olhos foram de uma parede à outra.

— Bom, gatinha, se quer jogar sujo, eu também posso fazê-lo. Quando encontrá-la, não haverá nenhum beijinho, serei tão rude como só eu posso ser.

Ele cumpriria a sua palavra, podia ouvir a inexorabilidade em sua voz.

— Ele não poderá salvá-la, gatinha. Estas lista; sal e serei rápido contigo—.

Uaid aproximou-se da cela onde Eibhlin estava escondida e ela afastou-se do postigo, parando atrás da porta. Tratou de acalmar a sua respiração para não emitir som algum. A dobradiça da porta rangeu quando ele tratou de abri-la.

— Aqui está.

As grossas tábuas da porta inclinaram-se quando Uaid os açoitou e o ferrolho dobrou. Era muito pequeno e ela percebeu com um crescente temor que não duraria muito mais.

Onde demônios estava Brandubh? Por que demorava tanto para descer do campanário? Não podia acreditar que ele não chegaria a tempo para salvá-la das ameaças de Uaid.

Então algo aconteceu. As furiosas ameaças de Brandubh e os golpes do seu punho na porta-arma-dilha, tinham parado. Brandubh arrastou-se pelo chão, amaldiçoando o dia em que Uaid nasceu, e rogando que fosse hoje o dia em que o covarde estava destinado a morrer.

— Tenho que sair daqui — Ele disse em voz alta — Ela está com ele, sozinha. Convenceu-se de que não era um antigo temor que enchia a sua mente, o temor da debilidade e da impotência.

Brandubh moveu-se indignado pelo campanário, aproximando-se das janelas abertas, onde o som dos sinos chamava no passado os fiéis para orar, anunciavam a passagem das horas e dobravam pelos mortos. A altura dali era de uns cinqüenta cotovelos[32] e isso desanimou qualquer idéia de escapar por ali.

— Maldito! — girou sobre os seus calcanhares e lançou um olhar ao redor, procurando outra possibilidade.

Pensou em sua espada, caindo no vazio debaixo do sino e outra vez a frustração o alcançou, dando espaço à escuridão em seu interior. Não notou que estava aproximando-se do vazio debaixo do grande sino. Não notou até que o seu pé direito encontrou o ar debaixo de si e então percebeu o seu engano.

— Deus santo! — amaldiçoou enquanto trocava o seu peso com o outro pé, mas não pôde evitar de cair. Seu traseiro golpeou o chão e ele se abraçou ao condenado sino para manter o equilíbrio e evitar de cair por essa abertura mortal.

Empurrou-se contra o sino e balançou a sua perna até chegar outra vez ao piso do campanário, mas ao fazê-lo notou que algo envolvia-se ao redor do tornozelo.

— O que é isso? — perguntou-se inclinando o pé para fora — Um laço. Que conveniente! — fez uma oração de agradecimento, enquanto sua mão tocava as fibras retorcidas da corda que era utilizada para tocar o sino do andar térreo.

Recolheu um bom pedaço da corda e envolveu-a ao redor da trave na qual estava pendurado o sino, atando um nó forte e deixando cair o resto da corda para baixo. Na escuridão, não podia dizer se chegava até o piso.

— “Creio que averiguarei logo”—pensou enquanto puxava o laço para provar a sua resistência. Afastou-se da abertura, evitando o sino para não alertar Uaid e envolveu os pés ao redor do laço para começar a descer.

Já estava quase abaixo quando um rugido como o de uma animal ferido ressoou pela abadia. Brandubh parou, pendurando na corda, enquanto escutava o tumulto de baixo. Era o ruído de um animal sendo caçado e do caçador que o perseguia, batendo sua arma contra as paredes para aterrorizar e intimidar.

Quando a voz de Uaid explodiu no vestíbulo, ameaçando violar e assassinar a sua mulher, Brandubh afrouxou a corda de seus pés no laço e permitiu que as mãos deslizassem para baixo, embora sua palmas se esfolassem e um fogo se estendesse por suas coxas, enquanto ele descia.

Na escuridão, não conseguia ver o piso e, despreparado, golpeou repentinamente as pedras do chão.

Brandubh sacudiu as mãos para aliviar o ardor, recolheu a espada do chão e cortou algumas tiras do tecido de sua túnica. Agradecia a dor que o manteria enfocado no trabalho que tinha que fazer, enquanto envolvia as tiras ao redor de suas palmas feridas. Não deixaria que suas mãos ensangüentadas o atrapalhassem quando se sentia preparado para dar um golpe mortal.

Levantou a sua espada, e entrou no vestíbulo onde podia ouvir claramente o ruído de um corpo humano chocando-se contra a porta de uma das celas. Ela estava atrás daquela porta. Estava salva.

Brandubh sentiu que a loucura crescia outra vez, cegando-o e ensurdecendo-o, empurrando-o para sua presa. Mas como nãoo precisava dessa loucura, elevou a sua voz de modo que retumbasse pelas paredes.

— Eibhlin, permanece atrás dessa porta até que eu termine com isto.

— Enfim... — sussurrou Eibhlin ouvindo a voz de Brandubh — Onde demônios estava?— gritou através da porta que se arqueava para dentro cada vez mais.

Um aterrador silêncio se apossou da Abadia, quebrado somente pelo som dos passos arrastados e do metal que assobiava no ar. Eibhlin abriu subitamente o postigo, procurando ver através do vestíbulo.

— Brandubh, não quero que mate ninguém.

Ele não respondeu e ela começou a lutar com a cavilha que travava a porta.

— Céus! E agora, o que aconteceu com esta coisa?

Empregou todas as suas forças contra, mas desta vez não se moveu.

O primeiro som metálico das espadas petrificou-a no lugar. Até então tudo parecia estar em calma.

Sabendo que era melhor manter-se afastada, Eibhlin ficou quieta e olhou pelo postigo para ver o que ocorria lá fora.

Ao ver o que acontecia ficou sem ar e com o estômago revolto. Se não tivesse ouvido sua voz antes, nunca o teria reconhecido porque o rosto de Brandubh estava convertido em uma máscara de fúria. Os seus olhos apareciam cegos, embora a escuridão do onix cintilasse como fogo. Brandia a sua espada com uma mão, brincando com a sua vítima. E a vítima era Uaid.

Mesmo com ambas as mãos envoltas em ataduras ao redor do punho de sua própria arma, não evitou que Brandubh o cortasse com a sua lâmina. Sem que houvesse uma palavra entre eles, Brandubh cortou a carne de Uaid repetidas vezes, com a precisão de um cirurgião que abria um paciente para uma cirurgia que salvasse a sua vida. Mas o resultado desses cortes serian apenas a morte.

— Brandubh, pare! — Eibhlin golpeou a porta — Não faça isso.

Seus pedidos não o afetaram em nada. Com o dorso de sua enorme mão, deu-lhe um soco tremendo, que enviou Uaid para o outro lado do vestíbulo. Então, nivelando a sua espada, Brandubh perseguiu lentamente a sua presa para acabar a matança. Eibhlin tratou de dominar a sua respiração.

— Brandubh, não faça.

Os olhos que a olharam não eram os de Brandubh, eram os olhos injetados de sangue de um assassino. Os olhos de um homem que mataria ou morreria no intento.

Algo dentro dela morreu um pouco. O cavalheiro amável que a amou, a doçura que demonstrou enquanto ela esteve doente, o amor que sentia por seus pais, pelos seus cavalos e por ela, parecia agora uma lembrança longínqua.

Esse corpo volumoso, este guerreiro, este assassino, não era o homem com o qual ela desejava ter seus filhos. Esse pensamento sufocou-a.

A cabeça de Uaid apareceu no reduzido campo visual do postigo.

— Vamos Brandubh. Vê o que fiz com ela? Possui-a enquanto estava preso no campanário. Ela estava doce como perdiz e tão tranqüila como uma ovelha.

Brandubh não respondeu a essa provocação. Isso a assustou mais do que a idéia de que matasse seu tio diante de seus olhos. Brandubh deu a volta no rosto, mas manteve a sua espada pronta. De-pois fechou os olhos e respirou profundamente.

Eibhlin o imitou. Estava acalmando-se e recuperando a razão. Ela o tinha feito reagir.

— Não pode matá-lo, Brandubh. Não seria hontado matá-lo. Leva-o com você e deixa que os juizes se ocupem dele. Deixa que Dougal o use como exemplo, Brandubh. Por favor, não o assassine.

Seus olhos encontraram os seus e ela sustentou o olhar, pedindo-lhe que não desse rédea solta ao assassino que se escondia por trás de sua raiva. Seus ombros se inclinaram quando ele relaxou a monstruosa tensão que enchia seu corpo.

— Aye, milady — disse-lhe com uma voz que soou crua e oxidada como uma ferramenta abandonada sob a chuva — Como você disse — e baixou a ponta de sua espada para o chão.

— Obrigado — disse Eibhlin olhando ao céu enquanto caia contra a porta de madeira, mas seu alívio foi muito breve.

— Acredita que aceitarei que me leve para morrer como um covarde?— gritou Uaid.

Eibhlin apareceu pelo postigo bem a tempo de ver como Uaid tomava a sua arma e levantava novamente a sua espada.

— Nunca pensei que veria você aceitar as ordens de uma mulher, Brandubh.

— Não escute, Brandubh. Ele está tentando obrigá-lo para que o mate. Ele sabia que viria atrás de mim.

— Milady, já dominei a raiva. Não sou um rapazinho que se deixa enganar por esse truque. Não o matarei a menos que ele insista nisso.

Isso não tranqüilizou Eibhlin

— Por favor — disse Eibhlin, sabendo que estava sendo redundante.

— Sim, gatinha, intercede por mim diante dele. É uma besta, não acredita? Já o viu, a luxúria corre pelo seu sangue quando mata. Sabia que quando está nesse estado, ele bebe sangue?

Por um momento, ela acreditou no que escutava, especialmente quando Brandubh não se incomodou em negar essa afirmação.

— Está tão impaciente para chegar ao inferno, Uaid?— perguntou Brandubh, a calma de sua voz a surpreendeu.

   Uaid seguia parado defronte a ele, desafiante.

— Prefiro uma morte amaldiçoada do que vê-lo vivo.

Esse ódio era incompreensível para Eibhlin e não sabia o que dizer. Alguém ali ia morrer nessa noite. Tinha que aceitar. Para estes homens, morrer em uma batalha era a maneira mais honrada de passar para o outro mundo. Mas ela não podia aceitar. A morte sempre tinha sido para ela um inimigo a ser derrotado.

Brandubh prendeu a sua atenção. Nunca antes tinha desejado tanto ter o dom da telepatia, como desejava agora. Seu coração clamava para que ele deixasse de lado a espada e a levasse de volta para casa, mas a expressão de seu rosto disse-lhe que ele não o faria.

Ele deixou sair o ar que estava contendo e mirou Uaid fixamente.

— Vamos Uaid, corte a minha cabeça, se puder.

Uaid sorriu aceitando o desafio.

— Como queira.

Com a espada e a adaga preparadas, Uaid investiu para a frente, com a morte no rosto. Embora tivesse sido fácil fechar o postigo, Eibhlin sentiu-se a obrigada a olhar a cena que parecia se desenrolar em câmara lenta, enquanto Uaid diminuía a curta distância entre ele e Brandubh. Cada acontecimento era nítido, cada movimento era diferente do que ela já tinha visto antes.

Brandubh parecia imutável e estava tranqüilo. Seus olhos nunca se separaram de Uaid. A espada de Uaid cintilava enquanto a elevava para o pescoço de Brandubh. O ataque foi bloqueado sem dificuldade por Brandubh, com um movimento que forçou Uaid a agachar-se.

O brilho do metal advertiu Eibhlin um instante antes que a adaga de Uaid se cravasse em seu alvo: as costelas de Brandubh.

Seu grito de advertência morreu em sua garganta quando Brandubh tomou o pulso de Uaid. Como se quisesse romper o silêncio, Uaid rugiu e se retorceu sob a pressão de Brandubh.

A espada de Uaid levantou-se outra vez, porque Brandubh não o havia desarmado, riscando um arco que certamente teria matado Brandubh, mas este esquivou o golpe e levantou a sua própria espada. Dessa vez o golpe fatiou o braço de Uaid como se fosse feito de manteiga.

Eibhlin afastou o olhar e cobriu a boca para sufocar o grito que brotava de suas entranhas.

— Oh, meu Deus, meu Deus, meu Deus — repetiu como uma ladainha. Fechou os olhos e inclinou-se contra a porta, esperando que cessassem as náuseas que contraíam o seu estômago.

— Toma a minha cabeça, Brandubh — o pedido de Uaid atraiu a sua atenção, mas se negou a olhar, temendo que Brandubh realmente o fizesse.

— Não — respondeu Brandubh enquanto chutava as armas de Uaid para afastá-las. Uma delas, a adaga, escorregou pelo chão produzindo um som claro de metal contra a pedra e logo um “clank” golpeou-a na parede mais afastada, fazendo com que Eibhlin se perguntasse se a espada de Uaid continuava segura em sua mão morta.

— Oh...— murmurou outra vez, levando a mão à boca para tratar de acalmar o seu estômago revolto. Esse tipo de coisas nunca acontecia em Oregón. Sua decisão de ficar naquele tempo parecia incompreensível agora.

Brandubh golpeou a porta.

— Abre a porta, Eibhlin, vamos para casa.

Que casa era a sua casa agora? Não tinha perguntado isso antes?

— Não posso. Uaid entortou a cavilha quando tentou derrubar a porta.

— Então, afaste-se.

Sustentando os restos de sua roupa em redor dela, fez o que ele ordenava, embora não estivesse segura de querer sair.

A porta caiu para dentro arrancando as dobradiças da parede. Ele estava parado na soleira já sem a sua espada, coberto pelo seu próprio sangue e pelo de Uaid. Um fio de sangue tinha salpicado o lado esquerdo do rosto, provavelmente tinha sido a maior artéria do braço de Uaid quando tinha sido...

— Vem...— disse, oferecendo-lhe a mão que estava mais limpa. A mesma mão que tinha lhe dado prazer. Eibhlin obrigou-se a passar junto a ele, desgostosa por seus sentimentos, pelo aroma e pelo aspecto dele.

— Milady — sussurrou Brandubh quando ela passou a seu lado. Eibhlin parou. As palavras se amontoavam na garganta e saíram sem que pudesse evitá-las.

— Não volte a chamar-meassim outra vez. Não serei sua mulher. Não ficarei aqui com você. Irei embora daqui mesmo que morra tentando.

— Eibhlin.

Seu coração partiu-se ao escutar o som de sua própria voz. Tinha que explicar para ele e para ela mesma, mas nem sequer entendia o que tinha acontecido. Evitou olhar Uaid, caído no chão enquanto sua vida se derramava em seu redor.

— Espero que passe uma longa temporada no inferno, Uaid. Merece todas os torturas que Satã possa planejar para você.

— Milady — respondeu ele, com um gesto cortês da única mão que restou.

Eibhlin dirigiu-se para o pátio, o aroma da morte era muito forte ali dentro e ela precisava de um pouco de ar fresco ou então sufocaria.

Brandubh seguiu-a através da porta e pegando-a pelo braço, obrigou-a a voltar-se.

— Eibhlin, não sabe o que está dizendo. Não posso acreditar que vai deixar-me. Não agora.

— Acredite, Brandubh, acredite. Especialmente agora. Quase cortou Uaid ao meio diante de meus próprios olhos. Ou ia fazer isso.

— Sim — Brandubh assentiu e olhou-a perplexo.

— Se ele sobreviver, não acredita que vai tratar de se vingar? Ele pode contratar os homens que quiser para que façam coisas que você nem sequer imagina.

Ele assentiu outra vez, com mais ênfase dessa vez.

— Eu o mataria por sua causa.

— Nada ali foi por minha causa, Brandubh. Apenas vi um animal enlouquecido, sedento de sangue e isso me incomodou muito.

Isso não era o certo, não foi exatamente o que tinha ocorrido e Eibhlin sabia. Olhando em seus olhos, podia ver a dor que essas palavras provocavam e afastou-se dele.

Ele tinha temido por sua vida, tinha seguido o seu rastro sozinho, arriscando-se para salvar a sua vida.

Eibhlin sabia que ele era forte e capaz de proteger o que era dele. Se não tivesse sido por ele, ela estaria morta. Por acaso ela mesma não tinha ameaçado matar Uaid? Mas havia muita diferença entre as ameaças e o ato de empunhar uma espada e concretizar essa ameaça.

Não, Eibhlin não podia sobrepor-se ao horror de tudo isso, à crueldade da vida neste tempo. Não podia permanecer porque não pertencia àquele lugar. Ela era produto de um tempo mais civilizado, e sobretudo, menos bárbaro.

— Leve-me de volta, Brandubh. Agora — seus olhos estavam cobertos de lágrimas.

— Se é o que deseja, senhora. Trarei meu cavalo.

Deu uma olhada para assegurar-se de que Uaid continuava estendido no piso e saiu para a noite fria.

Eibhlin não podia olhá-lo e deu volta para entrar no vestíbulo bem a tempo de ver como Uaid, que sangrava profusamente do lado direito, tomava a espada de Brandubh do chão e avançava para ela.

— Uma última tentativa, hein gatinha.

Surpreendida com o fato de que Uaid ainda pudesse se levantar e muito mais que pudesse caminhar com uma enorme espada em sua mão, Eibhlin não pôde emitir qualquer som. Uaid deu outro passo e levantou a arma sobre a sua cabeça, situando-a em uma posição que partiria Eibhlin em duas partes com só um movimento. Ela só pode olhar a lâmina, enquanto esperava o golpe final.

Algo assoviou junto a seu ouvido, e um gesto de incredulidade apareceu no rosto de Uaid. Uma mancha vermelha apareceu no meio de sua túnica cor açafrão, na altura do esterno. No centro, como se fosse o estame de uma flor, estava o punho de uma adaga.

— Não, não, não.

As palavras se formaram nos lábios de Uaid, mas nenhum som saiu de sua boca, enquanto ele caía aos pés de Eibhlin, a espada ricocheteando contra o chão de pedra.

Eibhlin afastou-se do corpo de seu tio e a deu volta procurando ar fresco. Seus pés pararam quando viu Brandubh parado na soleira.

Enfrentaram-se olhando-se nos olhos. Eibhlin sentia que suas emoções escapavam de seu controle, superaram-na e estava esgotada. Finalmente, Brandubh rompeu o encanto.

Tirou a capa e colocou-a ao redor dos ombros de Eibhlin, ajustando-a enquanto a olhava com dureza e dizia-lhe:

— Você não está vestida decentemente — e assinalando com a mão para a porta, acrescentou —Vem, senhora. Vamos .

 

Brandubh colocou-a sobre o lombo de Conchobar, montou atrás dela e tomou as rédeas, utilizando isso como uma desculpa para abraçá-la. Eibhlin não resistiu, mas ficou tão rígida como uma estátua.   Nenhuma palavra saiu de seus lábios, mas os seus olhos eram suficientemente expressivos, pensou Brandubh enquanto a sustentava, deixando que Conchobar os levasse de volta ao lar.

O vento frio de dezembro soprava através da planície, fazendo com que o cabelo colasse no rosto e machucasse os seus olhos, mas isso não era nada comparado com a expressão crítica que tinha adotado na abadia. Suas ações tinham sido motivadas pelo medo que sentiu por ela, mas a tinham horrorizado e por isso, resistia em tocá-lo. Havia mais: tristeza e um sentimento de perda.

As longas passadas de Conchobar, mesmo levando a duas pessoas, faziam desaparecer os quilômetros, enquanto Brandubh tratava de pensar em um maneira de arrumar as coisas entre eles.   Muito em breve chegariam às portas de Ath Sionnain, sem falar uma palavra.

Ele freou Conchobar logo que entrou na casa de seu pai.

— Leve-me para Conor.

Suas primeiras palavras desde que saíram da abadia eram tão frias como as gotas de chuva que molhavam a pele.

— Você vai ficar aqui.

— Não vou ficar. Conor é o meu parente masculino mais próximo e eu aceitarei o seu amparo.

Sua voz continuava insensível.

— Não, Eibhlin. Brian colocou-a sob o amparo de Dougal e aqui ficará.

Brandubh passou a perna sobre a sela e apeou. Antes que pudesse ajudá-la a baixar, Eibhlin tomou as rédeas e deu um puxão para indicar a Conchobar que se movesse, ao mesmo tempo emque cravava os calcanhares em seus flancos. O poderoso cavalo ficou parado, desobedecendo Eibhlin.

Era bom que Conchobar estivesse fatigado, pensou Brandubh enquanto assoviava ao animal para que retornasse para junto dele e Conchobar assim o fez, apesar dos impetuosos esforços de Eibhlin para fazê-lo virar outra vez. O enorme animal negro trotou manso até onde estava Brandubh e ali se deteve. Brandubh tomou as rédeas das mãos de Eibhlin.

— Basta, milady. Não permitirei que machuque Conchobar com os seus puxões descuidados —Rodeou-lhe a cintura para que descesse do cavalo.

O impacto do pé em sua axila surpreendeu-o. Imobilizou o tornozelo e puxou-a da sela, apertando-a contra o seu peito.

— Mulher, está louca?

— Louca! Tem o descaramento de perguntar-me se eu estou louca? Você cortou um homem em dois e agora age como se nada houvesse acontecido. Eu sou a louca? — A explosão de Eibhlin quase o derrubou e teve que soltá-la, deixando-a cair no chão lamacento.

Ela se inclinou contra Conchobar, estava cansada e trêmula e Brandubh só queria levá-la para uma cama limpa e envolvê-la em seus braços. Queria dormir com ela, enroscar-se nela, deixar que usasse seu ombro como travesseiro, sentir o seu hálito morno em seu peito.

Para falar a verdade, o que aconteceu nesse dia não havia sido mais fácil para ele do que para ela. Apesar de que matar em uma batalha não fossse novidade para ele, Uaid era seu parente, quase um irmão. Matá-lo não tinha sido fácil, mesmo quando não havia outra escolha.

Agora, ambos estavam cansados e molhados de modo que não era momento de discutir este assunto. Sabia que devia permiti-la ir para Conor. Ainda assim, não pôde evitar de discutir com ela:

— Escute bem, milady, Uaid Mac Conor queria a minha cabeça... você o ouviu — o que dizia era verdade, mas as palavras soavam vazias em seus ouvidos. Como soariam para Eibhlin?

— Ele nunca poderia matá-lo — Ao escutar isso os seus olhos se dilataram — O que eu quero dizer é que ele não era suficientemente forte para te matar... entendeu?...

Era isso um completo? Sem saber o que dizer, ele ficou silencioso enquanto ela balbuciava.

— Poderia tê-lo dominado e trazê-lo para cá.

— Entende que não tínhamos muitas opções?

— Não sou estúpida, Brandubh.

Seus ombros caíram quando ela afrouxou a tensão. Estava esgotada e aqui estava ele discutindo. Entretanto não podia deixar de defender o que tinha feito.

— Ele teria se sentido humilhado. Desta maneira, pelo menos, morreu com certa honra — Mesmo que chegasse aos cem anos, nunca esqueceria a imagem de Uaid correndo para ela com a espada na mão, embora ela tivesse se esquecido — Possivelmente deva lembrar a que salvei sua vida ao matar Uaid.

— Tolice. Ele não teria me matado.

Devia estar louca para dizer isso.

— Eibhlin, Uaid levantou a espada sobre a sua cabeça — Sem piedade, Brandubh arrebatou-lhe o seu manto dos ombros, revelando a roupa destruída que ela cobria — Suponho que isto foi simplesmente um acidente. Por acaso a faca escorregou? E isso, Eibhlin? — Ele agarrou o pescoço de sua túnica e rasgou-a para baixo até o ventre. Seu gesto de surpresa e angústia, satisfazia-o. Ao olhar para baixo, viu o corte de navalha que cruzava o peito de Eibhlin, ainda avermelhado e inchado nas bordas. As gotas de chuva tornaram-se cor escarlate sobre a sua pele exposta.

— E isto? — Ele rompeu a sua manga para revelar a ferida que sangrava até o seu antebraço — Acredita que foi uma viagem de prazer? Talvez deva me desculpar, senhora, por matar seu tio quando ele tratava de matar nós dois.

— Brandubh, deixe que ela entre e se acalme.

A voz de sua mãe chegou da porta da casa, mas deu-lhe as costas. Moira também estava ali.

— A dama pode fazer o que quiser, mãe. Vou ver meu cavalo.

Brandubh girou sobre os seus calcanhares e dirigiu-se ao estábulo, seguido por Conchobar como se fosse um cão.

Negando-se a reconhecer a verdade de suas palavras, Eibhlin olhou-o sair com o coração vazio e a alma cheia de dor. Entretanto, não podia chamá-lo e dar-lhe apoio, obcecada como estava pela imagem muito fresca do homem que ela amava, cortando outro homem em pedacinhos.

— Vem, querida — Moira sussurrou enquanto colocava uma manta sobre os ombros de Eibhlin e a abraçava como uma galinha a um de seus pintinhos, enquanto a conduzia através da porta principal.

— Deixa que eu prepare um banho morno, você está gelada.

— Sim, realmente. Vem Eibhlin — Sadbh precedeu-as para dentro de casa e golpeou as palmas das mãos, fazendo com que várias mulheres cumprissem as suas ordens em vez de ficar especulando sobre o ocorrido na cozinha — Água quente e uma tina no uarto de Lady Eibhlin, rápido.

As mulheres afastaram-se correndo, enquanto os murmúrios enchiam o salão principal. Eibhlin se negou a escutar, não importava. Estava decidida a pedir a Dougal que a levasse a Kincora. Não faltava muito para o solstício.

— Só uns poucos dias a mais — sussurrou. Uns poucos dias mais, e ela estaria de novo na civilização.

— O que disse, querida?— O braço de Moira apertou-se ao redor da cintura de Eibhlin.

— Nada — mentiu. Embora seus olhos estivessem preocupados, Moira não disse nada mais, simplesmente abriu o trinco do quarto de Eibhlin e empurrou a porta para que Eibhlin entrasse.

— “Os juncos foram trocados”, pensou cheirando a fragrância fresca de lavanda e tomilho. A cama era muito tentadora e para ali se dirigiu.

— Não, não, não. Vai tomar um banho morno para passar o frio antes de se deitar.

Moira se apressou em trazer roupas íntimas e uma bata de lã. Sadbh trouxe um par de meias grossas de lã.

— Aqui estão, Moira, coloca estas.

— Obrigado, milady — Moira tomou as meias e colocou-as na cama — Vem, Eibhlin, tira essa roupa molhada — Eibhlin sentia que sua cabeça pendia de um fio.

— Posso me despir e banhar-me sozinha. Sei cuidar de mim mesma. Agora só quero dormir, por favor, saiam do quarto — deu as costas, esperando que o gesto fosse bastante eloqüente.

— Perdoe-me, milady — disse Moira — não sei o que aconteceu esta noite e talvez não queira saber, mas sei que adoecerá se não entrar na água quente. Agora, sente-se aqui, perto do fogo até que chegue o banho.

Olhando para a sua mãe, Eibhlin viu uma garota de apenas dezoito anos, mas ela recordava muito bem que era uma mestra quando se tratava de enumerar as “obrigações” e Eibhlin estava muito cansada para enfrentá-la.

Quando se sentou na cadeira tal como tinha sido ordenado, Moira ajoelhou-se a seu lado e com uma mão suave, acomodou-lhe o cabelo enredado pelo vento.

— Amanhã, querida, amanhã, vai dizer-me tudo. Até então, permita que eu cuide de você.

— Bom, mamãe.

Moira e Sadbh ajudaram-na a tirar a roupa molhada e envolveram-na como uma múmia em um tecido de linho morno. Um calor delicioso se espalhou a seu redor, substituindo o frio que já tinha se acostumado.

Sadbh abriu a porta.

— Tragam-na para junto do fogo.

Com seu habitual gesto de mão, indicou aos dois criados onde colocar a tina de carvalho. Uma criada seguiu-os, trazendo uma peça de linho com qua forrou o seu interior. Então começou a procissão de serventes trazendo água, cada um levava dois baldes grandes de água. O processo inteiro era ridículo, pensou Eibhlin enquanto observava. “mais fácil seria abrir uma torneira e ter toda a água quente quisesse”.

De repente, percebeu tudo o que tinha perdido: sua mãe — a verdadeira, não esta menina — seu pai, seu trabalho, seus sonhos de encontrar a cura para essa maldita enfermidade que matava crianças, café, chocolate, comida chinesa em domicílio, os tolos e estúpidos filmes antigos e as meias com cinta-liga. Um lugar onde os homens não andassem cortando uns aos outros em pedaços.

Um grito escapou da garganta de Eibhlin. O sangue, o braço cortado, a horrorosa cena, toda ela inteira reapareceu diante ela como em uma tela e com sistema Dolby estéreo.

Recordou o som cortante da espada de Brandubh na carne de Uaid — um som que parecia rasgar — e o ranger do osso rompendo-se sob a força da lâmina.

— O que aconteceu, querida? Por que chora?—E ibhlin só podia sacudir a cabeça.

— Moira, deixa que chore esta noite — aconselhou Sadbh — Precisa banhar-se e dormir. Amanhã poderemos falar — Moira não afastou os seus olhos de Eibhlin.

— Vem. O banho está preparado.

Eibhlin nem se inteirou que as duas mulheres tiravam o linho que a envolvia, nem recordou ter recebido ajuda para entrar na tina. Tampouco recordou ter apoiado a sua cabeça contra o travesseiro que amavelmente colocaram para que dormisse, assim como tampouco lembrava ter dito a sua mãe que colocasse uma compressa nas feridas de Brandubh.

 

Brandubh colocou cereal na manjedoura de Conchobar e olhou o garanhão que escavava no alimento.

— Fez um bom trabalho, Conchobar.

O cavalo levantou a cabeça diante do som da voz de seu amo. Estava escovado, refrescado, tinha alimento e Deirdre estava no estábulo do lado, seu ventre deixava em evidência a sua gravidez. Conchobar estava feliz.

Essa mesma felicidade fugiu de Brandubh. Fez o melhor que pôde: a havia seguido e a tinha salvo de um louco.

— E agora chama-me de bárbaro! — Conchobar levantou a cabeça, seu olhar parecia repreender Brandubh por perturbar a sua alimentação — Eu não sei o que espera de mim, Conchobar — girou uma fibra de palha entre os dedos — Devia prever que reagiria assim. Ela jamais me tomou como um guerreiro inteligente.

— Alguma vez ela disse isso, filho?— Dougal entrou no estábulo e inclinou-se contra a baia de Conchobar, ignorando o suspiro de Brandubh.

Queria adiar o encontro com o seu pai. Quando os detalhes do que aconteceu essa noite fossem do conhecimento de todos, o pai de Uaid teria que ser informado. Essa era uma visita que Brandubh não podia encarar esta noite, pelo menos, não sem uma grande dose de cerveja.

—Tranqüilo, paesano[33]— disse Dougal enquanto se movia e agarrava a crina de Conchobar. Conchobar soprou saudando-o e acariciou com o seu focinho a bochecha de Dougal. Rompendo o silêncio, Dougal perguntou:

— Você o matou, filho?

Brandubh não detectou nenhuma condenação no tom da voz de Dougal.

— Sim, pai, fiz isso —Dougal assentiu e suspirou.

— Temi que fosse assim. Conte-me.

Brandubh contou-lhe tudo e quando terminou, Dougal tinha o cenho franzido.

— Machucou Eibhlin?

— Não. Ameaçou-a, mas não a feriu.

— Você tem certeza? Sua mãe disse que a roupa da sua aama estava totalmente rasgada. Talvez algumas das suas reações se devam ao fato de que foi violada — A idéia fez com que Brandubh quisesse derramar outra vez o sangue de Uaid.

— Não chegou a fazê-lo.

— Então por que age de modo tão estranho?

— Acredita que somos selvagens, pai. Bárbaros que lutam por esporte e matam por diversão.

Sua cólera esfriou um pouco. A cena tinha sido terrível e ele podia entender que ela estivesse afetada. Ele mesmo se sentia afetado.

— Ela o viu morrer e creio que nunca tenha visto antes ninguém morrer assim.

— Você salvou a vida dela, Brandubh, Uaid a teria matado. Ele estava louco.

— Eu sei, pai, mas ela me olha com os olhos cheios de repulsa e nesse momento, desejaria ter morrido ali.

Dougal agarrou-o pelos ombros e o sacudiu.

— Nunca volte a dizer isso na minha presença — seus olhos estavam cheios de lágrimas que não verteria. Grunhiu para limpar a garganta e apertou os ombros de Brandubh — Sua dama sem dúvida está emocionada, quando tiver tempo de refletir, verá que não teve opção. Amanhã, iremos ver Conor juntos, mas agora, sua mãe ordenou um banho para você e há um grande tumulto entre as mulheres para ver quem irá ajudá-lo — Dougal arqueou as sobrancelhas.

— Não pode falar sério, Dougal?

— Só quando é absolutamente necessário, filho — sorriu e despenteou carinhosamente Brandubh, como fazia quando este era um menino — Não demore, sua mãe precisa vê-lo.

Fazendo uma última carícia em Conchobar, Dougal deixou-os sozinhos.

Brandubh olhou-o ir embora, adorava este homem mais do que a qualquer outro. Dougal sempre tinha a resposta para qualquer problema. Brandubh desejou que a vida fosse simples outra vez. Sem nada melhor para fazer, seguiu a ordem de seu pai e voltou para a casa.

Depois que despediu todas as criadas, tirou a roupa rasgada e se afundou na água quente. Rodea-do pelo calor, com um bom fogo ardendo na lareira e o aroma dos juncos novos que perfumava o ar, Brandubh tratou de pensar em sua situação. Mas uns poucos minutos depois, deixou-se levar pelas imagens de Eibhlin: imaginou que estava em sua cama e os aromas do quarto se apagaram, substituídos pelo cheiro de sua mulher. Rememorou cada detalhe em sua mente, fazendo com que seu corpo reagisse. Poderia prová-la outra vez, sua pele era lisa e suave.

— Brandubh, importa-te se eu entrar?

Escutou a voz de Moira no outro lado da porta. Arrancado de seu sonho, saltou para frente, salpicando água sobre as bordas da tina.

— Estou tomando banho, Moira.

— Eu sei. Trouxe algo para os seus ferimentos.

Ele não podia recordar um momento mais incômodo do que este.

— Isso é muito generoso, Moira. Considerando... — O que devia dizer em tal situação? Moira empurrou a porta e abriu-a.

— Não comecemos com discursos. Eibhlin pediu-me que desse uma olhada.

— Ela pediu a você que fizesse?—estava surpreso. Um leve sorriso curvou os lábios de Moira.

— Estava quase dormindo, mas pediu-me isso. Vem, sai e se cubra, assim posso ocupar-me de você e ir para a minha própria cama antes do amanhecer — entregou um pedaço de linho — Não seja tímido, Brandubh, como se eu nunca tivesse visto um homem, tenho um irmão...

Sua brincadeira tocou o coração de Brandubh.

— Perdão, Moira.

Ela agitou uma mão.

— Sou eu quem está arrependida, parte da culpa é minha — outra vez ofereceu a toalha de linho.

— Obrigado, Moira.

— Sou eu quem deve agradecer. Salvou a vida dela.

Seus olhos se encontraram, e perdoaram-se mutuamente. Moira afastou a vista quando ele tomou a toalha e saiu da tina, envolvendo com cuidado o tecido ao redor da cintura, antes de dar um passo para fora. Enquanto aproximava uma cadeira da lareira, viu que Moira vertia um azeite avermelhado sobre em uma parte do tecido limpo.

Trabalhou silenciosamente, primeiro em seu braço, cobrindo suavemente o corte com o tecido embebido em azeite e logo envolvendo-o. Depois se dedicou ao peito.

— Aprendeu isto com Eibhlin?— perguntou assinalando o azeite — Sobre as ervas e essas coisas...

— Sim. Ela sabe muito — respondeu Moira com a voz cheia de orgulho. Moveu-se para frente e começou a envolver Brandubh com um tecido para sustentar a compressa em seu lugar.

— Imagino que preferiria que Eibhlin fizesse isto.

Brandubh sorriu.

— Por que pensa isso?

A expressão da Moira era ardilosa.

— Por que? Estou seguro que minha companhia não seria agradável para ela neste momento.

— Ela parecia bastante zangada contigo.

Isso era subestimá-la, pensou Brandubh.

— Disse que voltará para o seu próprio tempo.

— Ela disse isso? Como pode ser que os seus sentimentos mudem tão rápido?— O sorriso de Moira se apagou.

— Porque viu tudo... Ela diz que o seu tempo é mais civilizado do que este. Temo que o que sentia por mim morreu quando matei Uaid.

Quando pronunciou essas palavras, Brandubh desejou ter cortado a língua. Moira sorriu com tristeza.

— Meu pai sabe?

— Não ainda, eu não podia enfrentá-lo esta noite, Moira.

— Entendo, não é nada fácil. Uaid envergonhou a minha família — atou o tecido ao redor do peito de Brandubh e se sentou sobre os calcanhares — Como também eu o fiz.

— Eu Também tenho feito isso —respondeu Brandubh — E parece que meu castigo será perder o que tinha esperado ganhar.

— Eibhlin. Então você a ama?

— Precisa perguntar? Pensei que fosse mais do que óbvio.

Moira sentou-se diante do fogo e cruzou as pernas debaixo do seu vestido.

Talvez para os que vêem o olhar em seus olhos quando acredita que ninguém está olhando. Posso dizer que ela também o ama. Desejo que seja feliz, Brandubh, e não acredito que ela pertença ao tempo que deixou para trás. Ela pertence a esse lugar, a você. O que faria ali se você não estivesse com ela?

— Talvez haja outras razões — parou antes de revelar mais coisas. O futuro era algo perigoso, até para o homem que acreditasse ser imutável.

— Pensa na maneira como ela se adaptou, como se tivesse nascido aqui. Além disso, pensa em todo o bem que ela pode fazer com as suas habilidades, Brandubh — Moira olhou-o com olhos conhecedores — Pensa nos filhos que dará a você.

Olhou-a por sua vez com os olhos semicerrados.

— Não estamos nos adiantando muito, dona alcoviteira? Você mesma viu como são as coisas. Como posso fazê-la mudar de opinião, quando ela decidiu deixar-me logo que possa aproximar-se da Craglea?

Moira sorriu e o gesto recordou Eibhlin.

— Isso, milord, é problema seu. Eibhlin disse-me que encontrarei seu pai na festa de Beltane logo depois do meu aniversário de 18 anos. Irei convencê-la para que me ajude a me preparar. Terá quatro meses para me convencer de que cuidará de minha filha e a fará feliz ou a levarei comigo.

Este estranho giro dos acontecimentos o deixavam em desvantagem. Por que sempre parecia que as mulheres fixavam as regras, obrigando os homens a jogarem de acordo com o seu ritmo, sob a pena de ficar sem nada?

Não queria que suas ações fossem determinadas pelos caprichos de uma garota.

— Seu ultimato é desnecessário. Prometi que a levaria para a Craglea se esse fosse o seu desejo.

— Bem — Moira levantou-se de seu assento e alisou a saia — Enquanto isso, talvez possa mostrar-lhe uma boa razão para que ela queira ficar. Talvez possa se oferecer que o civilize.

Ele levantou a sobrancelha.

— Isso poderia matar um homem.

Moira riu.

— Então faz com que ame você tão profundamente, de modo que não possa nem pensar em deixá-lo. Quatro meses, Brandubh. Tira o maior partido disso.

Enquanto dizia isto, recolheu as suas coisas e deixou o quarto.

Brandubh ficou sentado durante um longo momento, olhando fixamente as chamas.

Fazer que me ame? Era isso o que Moira havia dito. Mas acaso não o amava? Sabia que sim.   Eibhlin queria ficar, mas pensou melhor e achou que o seu mundo era muito bárbaro para ela. Ela tinha medo de ficar por temer mudar o futuro. Ele tinha vencido essa objeção. Poderia vencer esta outra?

Então pensou em sua vida, em sua vida diária e no pouco que ela sabia. O que tinha que fazer estava claro. Tudo o que precisava era um pouco de tempo.

 

Na manhã seguinte, bem mais descansada, Eibhlin fez frente aos olhares curiosos endireitando as suas costas como se fosse uma rainha. Ninguém veria quão machucada estava. Quando se dirigiu para a mesa principal para apresentar a sua petição a Dougal, seu coração não albergava dúvida alguma a respeito de sua determinação de ir a Craglea e deixar este lugar.

— Aqui está — Moira apareceu a seu flanco e enlaçou seu braço com o de Eibhlin — Vem sentar-se comigo e assim podemos falar.

Eibhlin olhou o rosto de Moira.

Parece que quer discutir algo.

— De fato... — disse Moira, deslizando sobre um banco próximo a mesa principal e súbitamente pareceu estar muito interessada nos copos de cerveja que tinham diante delas —Tive um bate-papo com Brandubh ontem de noite, enquanto limpava e enfaixava as suas feridas.

Moira olhava para um lado, enquanto cortava um pedaço do pão crocante que tinha adiante. Era claro que estava esperando uma reação de Eibhlin diante da menção de Brandubh.

— Alegra-me saber que está bem — Eibhlin disse isso enquanto tomava assento junto à Moira e tratava de mostrar-se indiferente em relação à saúde de Brandubh, mas como não estava disposta a perguntar mais nada, ficou calada — Era esse o assunto tão importante que queria falar?

— Não — Moira deixou pão e o queijo sobre um guardanapo diante de Eibhlin — De fato, queria falar sobre a sua relação com Brandubh. Realmente disse a ele que iria logo que pudesse chegar a Craglea? Apesar de ter dado a sua palavra.

— O que quer dizer?

— Aceitou a sua oferta e ele já entregou o gado a meu pai.

— Vejo que andou rápido.

— Eibhlin, ele arriscou a sua vida para salvar a tua.

— Isso é ridículo. Uaid não era suficientemente forte para matar Brandubh. Oh, mamãe, sinto muito. Eu...

— Querida, Uaid, o meu irmão, não foi o homem que seqüestrou você. Desde que Caoimhe se suicidou .... Bom, tudo aconteceu de novo, não?

Eibhlin viu uma ferida que não tinha sarado totalmente, mas era necessário juntar todas as peças para completar o quadro, de modo que diria à sua mãe algumas coisas que esperava que diminuíssem a sua dor por ele.

— Mamãe, Uaid disse-me muitas coisas na cova, algumas das quais esqueci por causa da febre. Mas recordo que ele estava com Caoimhe quando ela morreu — Eibhlin relacionou a história do acidente que havia custado a vida de Caoimhe, com algumas palavras de Uaid na abadia — Ele estava louco pela culpa, eu creio.

— Então ela não se suicidou — Os olhos de Moira brilharam emocionados — Obrigado doce Jesus — gemeu e apoiou a cabeça em seus braços — Meu pai se sentirá muito aliviado e poderemos transladá-la.

— Transladá-la?— Moira incorporou-se e limpou as lágrimas.

— Não pudemos sepultá-la na terra sagrada, porque pensamos que ela havia se suicidado. Mas, se foi um acidente, poderemos dar-lhe uma sepultura adequada. Oh, graças a Deus. E obrigado, querida, por dizer-me isto, embora esteja tão triste pelo acontecido — Moira sacudiu a cabeça — foi uma época terrível para todos, são tantas as coisas e fatps que gostaria de mudar...

— Acredita que poderemos superar isso tudo, mamãe?

— Isso eu espero, Eibhlin, desejo com toda a alma.

Ficaram em silencio durante alguns minutos, bebendo a cerveja e comendo algo. Então Moira voltou-se para Eibhlin.

— Agora, devemos nos ocupar do presente. O que foi feito de sua promessa de casar-se com Brandubh?

— O que foi feito? Conor terá que devolver o gado. Pode ficar com as minhas vacas... já não preciso delas.

Moira assentiu.

— Já vi... e quais são seus planos?

— Pedirei a Dougal que leve-me a Kincora o quanto antes. Quero estar ali para o solstício o quanto antes possível.

— Oh — A voz de Moira quase não se ouvia e Eibhlin conhecia esse tom.

— Aconteceu algo?

— Não, nada. Bem, faltam somente quatro meses para Beltane e esperava que aceitasse ficar e me ajudar a preparar a minha própria viagem. Tudo vai ser tão estranho. Como posso ir, sem ter idéia do que encontrarei?

— Mamãe, não se preocupe, papai estará ali para cuidar de você — Moira ruborizou-se suavemente.

— Sim e poderei entendê-lo já que falamos o mesmo idioma

Eibhlin fixou a vista em sua taça.

— Na verdade, mamãe, quase ninguém mais fala irlandesa. Você me ensinou a falar, assim como também transmitiu-me o interesse pelas plantas e a tocar harpa.

— Eu fiz isso?

— Quero dizer, fará.

Os olhos de Moira abriram-se arregalados.

— Isso na verdade é muito estranho, não?

Moira recuperou-se rapidamente, como Eibhlin a tinha visto fazer toda vez que conseguia o que queria. Acariciando a mão de Eibhlin, disse:

— Vê então? Eu ensinarei a você, mas agora, deve ficar para ensinar a mim. Essa deve ser a razão pela qual está aqui. Quer dizer, se deixarmos de lado a idéia de que veio aqui para encontrar Brandubh.

— Mamãe! Por favor não procuremos mais explicações, cai através de uma espécie de buraco no tempo e... não sei, há uma brecha entre o lugar e o momento em que estava e onde estou agora. Não há nenhuma agência matrimonial que envolva a eternidade para unir as pessoas.

— Isso é muito ruim. Prefiro acreditar que alguém está dirigindo estas coisas — Moira mordeu sua porção de queijo.

— Ainda não respondeu minha pergunta.

No mesmo instante em que Eibhlin tentava recordar de que pergunta falava Moira, Brandubh entrou no corredor acompanhado de elogios que aumentavam à medida que ele avançava pelo salão.   Eibhlin, apesar de seus esforços, encontrou-se olhando-o e apreciando a sua beleza masculina.

Mas Brandubh estava diferente dessa vez.

Sua túnica de lã fina tinha sido substituída por uma de linho grosso. Suas longas pernas estavam revestidas de protetores de couro e calçava botas com correias que se entrecruzavam, no estilo dos vikings. O dourado guerreiro que ela tinha conhecido estava trajado muito diferente e até levava o cabelo amarrado com uma correia de couro. Nenhuma espada pendurava de sua cintura. Sua única arma era a pequena faca que utilizava durante a comida.

Caminhava de outro modo, também.Os seus passos eram agora ociosos, algo que ela nunca percebido antes.

— Milady— disse inclinando a cabeça ao passar.

Eibhlin levantou as sobrancelhas, assombrada quando sentiu seu cheiro. Ele sempre cheirava a campo, a homem e a um agradável aroma de cavalos, essa era a essência que ela associava a ele. Nessa manhã, parecia que ele tinha se esfregado nos currais.

— Há algum problema?—perguntou Brandubh.

— Não — respondeu ela, tampando o nariz com um guardanapo.

— A minha presença a ofende, milady? Talvez deva tomar meu café da manhã no celeiro, junto com os cavalos.

— Não sou eu quem deve decidir isso. Se sua mãe permite que se sente, tudo bem. A mesa é dela...

Uma covinha formou-se em sua bochecha, enquanto os seus olhos não deixavam de brilhar.

— Obrigado então — continuou o seu caminho para a mesa principal — Oh, a propósito, recebi notícias de Lon Dubh e precisamos de uma curandeira ali. Estaria disposta a ir ali por um dia ou dois, para tratar de alguns doentes? Não é nada grave, mas...

Moira olhou esperançosa para Eibhlin.

— Que idéia maravilhosa! Dessa forma teria outra razão para ficar, além de me ajudar ...

O complexo de mártir deve ser parte fundamental da maternidade. Talvez se devesse às mudanças hormonais que atravessam o corpo de uma mulher quando esta grávida. Contudo, Moira aonda não havia engravidado.

— Está bem, mamãe, ficarei até Beltane.

Moira sorriu como se fosse um gato que acabava de tomar um prato de leite.

Eibhlin sentia que poderia subir pelas paredes, mas o que mais podia fazer? Moira só tinha dezoito anos, tinha tanto para ajudá-la a entender e havia muito que ensinar para que pudesse ajustar-se à nova vida que a esperava dentro de quatro meses. Depois de tudo, o que seriam quatro meses no curso de toda uma vida?

— E sobre a minha petição, senhora?Terei o prazer de sua companhia em Lon Dubh?— Brandubh esperava a sua resposta e Eibhlin notou que o horrível aroma já não lhe parecia tão desagradável.

— Oh, lorde Brandubh, ficarei encantada em ajudar.

— Perfeito — disse ele com um imenso sorriso — Partiremos depois de comer.

Fazendo uma reverência, dirigiu-se para tomar o seu próprio café da manhã.

Eibhlin reconheceu o sorriso que Sadbh tratava de esconder, levantando o seu guardanapo e Dougal tinha a sombra de um sorriso em seus lábios.

Apesar do terrível aroma de estábulo, Brandubh era o homem mais desejável que ela tinha visto. Apesar de tudo, ainda o desejava. Seu coração começou a queixar-se, mas a sua mente obrigou-a a calar-se.

Brandubh olhou-a pelo canto do olho, enquanto cortava uma porção de pão e não viu que sua mãe sentava-se a seu lado. Dougal tinha um sorriso malicioso e parecia estar se divertindo muito.

— Está louco, Brandubh? Está fedendo como um granjeiro — lhe disse-lhe Sadbh com um sussurrou entre os dentes. Brandubh serviu-se de um pouco de queijo e pão.

— Eu sou um granjeiro, mãe.

— O que aconteceu com ela? Vá comer a sua mesa.

— O que aconteceu? Rejeitou-me. Além disso, tenho negócios para resolver e não posso andar no mundo da lua como um tolo apaixonado.

— Entretanto é isso exatamente o que é.

Brandubh deu a volta e piscou um olho. Por um instante Sadbh pareceu confusa, mas rapidamente entendeu o que acontecia e esboçou um sorrisinho. Quando voltou a falar, Brandubh assegurou-se que a sua voz fosse ouvida na mesa onde se sentaram Eibhlin e Moira.

— Mãe, meu lugar está em Lon Dubh. Brinquei de guerreiro por muito tempo — “É agora”, disse triunfante quando os olhos de Eibhlin procuraram os seus. Deu uma mordida no queijo e reclinou-se contra a cadeira.

— Então, o que fará quando Brian chamá-lo outra vez?— perguntou Dougal.

Os olhos de Eibhlin nublaram-se ao escutar isso, mas Brandubh não pôde deixar de notar o brilho nos olhos de seu pai e a forma como elevou a voz para que ela escutasse o que dizia.

— Ele precisará do seu apoio se reiniciar a sua campanha contra os vikings.

Dougal tinha acretado o alvo. Os olhos dela nublaram-se de dor e Brandubh também sentiu que as palavras de Dougal, de certo modo involuntárias, resultavam-lhe angustiantes. “A campanha que custaria rei da Irlanda”, pensou. O que podia dizer? Eibhlin devia saber a verdade.

— Se o Ard Ri chamar-me, pai, é lógico que obedecerei. — Dessa vez, não precisou fingir que não estava feliz diante da perspectiva de voltar para a batalha.

   Dougal assentiu, aprovando o que dizia seu filho.

— É obvio — esvaziou a sua taça e baixando a voz, acrescentou — Antes que vá, Brandubh, devemos ir ver Conor. Enviei alguns homens à abadia para trazer o corpo de Uaid.

Brandubh só podia concordar. Devia enfrentar Conor e dar-lhe uma explicação. Sabia que era o correto. De repente a comida tinha o gosto de serragem e ele enguliu-a sem nenhum entusiasmo.

Seus olhos procuraram Eibhlin outra vez. Havia uma diferença neles, uma suavidade, uma doçura que tinha sentido saudades na noite anterior. Talvez sua estratégia funcionasse, apesar de tudo.

Dougal levantou-se e também sua esposa, deixando Brandubh olhando Eibhlin fixamente.

— Alcance-nos quando tiver terminado. Meus homens devem estar para chegar.—

Brandubh assentiu com os olhos ainda cravados nos de Eibhlin.

Se pudesse ler o seu coração, pensou. Se pudesse estar seguro de que ali havia um verdadeiro amor por ele, se soubesse o que se escondia no mais profundo do coração de sua mulher, não haveria nada que não fizesse para conquistá-la. Se somente pudesse apagar de sua memória aquelas horas na abadia, onde a havia perdido.

Inclinou a sua taça de cerveja e esvaziou-a. Depois enfrentou o inevitável e levantou-se para ir ver Conor, mas parou junto a Moira.

— Vou com Dougal informar Conor sobre o que aconteceu a Uaid, Moira. Quer vir conosco?— Ela assentiu.

— Vamos, querida — disse a Eibhlin — é tempo de que seja formalmente apresentada a seu avô.

Eibhlin parecia resistir em ir, mas sem dizer uma palavra, levantou-se e seguiu Moira pelo corredor.

Brandubh adiantou-se e parou-a.

— Milady, não é necessário que faça isso.

— Não, tenho que fazê-lo, já esperei muito tempo para ir vê-lo.

 

Dougal e Sadbh já estavam no interior da casa de Conor. Quando Brandubh chegou, seu pai o empurrou diante dele e golpeou a porta.

O próprio Conor abriu-a e mirou fixamente Dougal por um momento, logo depois deu um passo para atrás e abriu a porta de par em par.

— Entra em meu lar, milord.

— Obrigado, Conor.

O corredor dava passagem a uma habitação que ocupava o centro de um edifício redondo e baixo. Um fogo ardia no lar e uma empregada mexia uma panela que borbulhava em cima dele.

Brandubh viu que sua mãe o olhava sem dizer nada.

Conor indicou aos seus hóspedes que se sentassem perto do fogo e ordenou à moça que os deixasse sozinhos.

— A que devo a honra dessa visita, Dougal?

Dougal inclinou-se para frente e apoiou os cotovelos sobre seus joelhos. Com as mãos juntas, falou tão baixo que Brandubh teve que esforçar-se para ouvi-lo.

— Conor, meu velho amigo, meu irmão, temo que tenho más notícias sobre o seu filho.

— Meu filho está morto — A voz do Conor parecia desprovida de vida.

— Conor — Brandubh ajoelhou-se diante dele — Conor, Uaid morreu por minha mão. Pediremos aos juizes que fixem o preço de sangue e eu o pagarei — Ele apoiou sua mão no joelho de Conor, assustado com a fragilidade do homem.

— Que preço poderia devolver meu filho? Ou a minha filha?— Uma adaga não teria ferido Brandubh mais profundamente.

— Pai, Brandubh não é o culpado pelo que aconteceu com a nossa família. A morte de Caoimhe foi um acidente. Uaid sentia-se responsável e isso o tornou louco. Nessa loucura, ele culpou Brandubh.

Conor empurrou Moira para um lado.

— Não diga essas coisas diante de mim. Não posso suportar.

— Mas, pai, tenho que dizer o que talvez o ajude a entender e perdoar.

— Como poderia perdoá-lo? Uaid envergonhou e desonrou a minha casa e o meu nome. Caoimhe suicidou-se e condenou sua alma ao inferno.

— Não, Conor — Eibhlin imitou Brandubh e ajoelhou-se diante do seu avô — Ela não se suicidou, sua morte foi um acidente. Uaid não foi o culpado pelo que aconteceu, mas a culpa o enlouqueceu. Ele me contou tudo isso quando...

Eibhlin parou e Brandubh podia ver a batalha que ocorria em seu íntimo. Suas palavras machucariam mais Conor e ela não queria dizê-las.

— Conte a ele, Eibhlin — ordenou-lhe Moira — conte o que meu irmão fez com você.

Eibhlin olhou para a sua mãe e logo para Brandubh, procurando força para continuar.

— Ele me levou a uma cova no Burren e deixou-me ali presa para que morresse. Depois levou-me a uma abadia abandonada com a idéia de me violar e assim forçar Brandubh a matá-lo — sentou-se sobre seus calcanhares — Conor, estou muito penalizada.

Os velhos olhos fecharam-se lutando para conter as lágrimas.

— Ele não estava bem, Conor. Estava doente.

Conor olhou fixamente as chamas.

— Pai, temos que seguir em frente. Trouxe a sua neta.

Quando o ancião assentiu, Eibhlin perguntou

— Acredita que é possível que eu seja a sua neta?

— Não sei. Suponho que tudo é possível e em todo caso não me importa. Meus filhos estão mortos. Se sua história for verdade, eu não perderei também a minha Moira? Então já não tenho mais nada.

Sadbh afogou um soluço. Os olhos de Moira estavam cheios de lágrimas e Eibhlin não tinha palavras para consolar o homem aflito.

— Qualquer que seja o poder que trouxe você até aqui, menina — Conor disse-lhe isto, pondo a mão sobre a sua — jogou um jogo espantoso com a minha família. Vendo o seu belo rosto e a pureza de seus olhos, pensaria que um gênio malvado fez isto. Parece que eu vejo a minha Nara em você —apertou-lhe a mão — Acredito que semelhante a nós, é uma marionete do destino. Quanto ao preço de sangue, Brandubh, não o aceitarei. Não acredito que viva o suficiente para vê-lo pagá-lo.

— Não, meu velho amigo, não fale assim — pediu-lhe Dougal — Como poderia seguir adiante sem a minha mão direita?

Conor sorriu e as rugas ficaram marcadas ao redor de seus olhos cansados.

— Sua mão direita foi sempre o seu filho, Dougal. Eu ocupei esse lugar simplesmente até que ele tivesse idade para assumi-lo. Sempre invejei o seu Brandubh. Talvez o usei como modelo para Uaid muitas vezes. Possivelmente desejasse que o seu sangue se misturasse com o meu e semeei as idéias de casamento na cabeça de Caoimhe — sorriu com tristeza — Dizem que um homem deve tomar cuidado com o que deseja — ele olhou Eibhlin — Como poderia pensar que para fazer cumprir meu desejo passaria por tudo isto?

— Pai, não, por favor…

Conor começou a tossir e cobriu a boca com um lenço de linho. Quando o afastou, havia sangue nele. Eibhlin tomou a sua mão.

— Quanto tempo está assim? Porquê não disse nada sobre isso?— Eibhlin começou a levantar-se.

— Não! — A voz de Conor era forte, apesar do estado de seus pulmões — Não se incomode, menina — e acescentou com voz mais suave — estive doente há algum tempo. Piorou com o clima e não acredito que veja a primavera. Dougal... — estirou a sua mão para Dougal — Aye, meu irmão. É meu desejo que Uaid e Caoimhe sejam sepultados em terra sagrada. Fará isso por mim?—

Dougal assentiu.

— Mas ainda tem muitos mais anos...—

Conor riu, e a tosse pareceu piorar.

— Que boa piada, amigo. Lutamos muitas vezes juntos, mas quanto a esta devo chegar na frente sozinho — tratou de inspirar profundamente, mas um novo ataque de tosse, impediu-o — por favor, estou cansado. Deixem-me descansar agora.

Seus velhos olhos encontraram os de Eibhlin, que continuava ajoelhava a seus pés.

— Virá ver esse velho, pequena? Venha e conte-me desse estranho lugar de onde veio. Conte-me como será a minha Moira, sim?

— Claro que sim, avô — Com um sorriso débil e um assentimento, ele aceitou o seu olhar.

— Agora vá — Logo reclinou-se em sua cadeira e fechou os olhos.

Brandubh levantou-se e ajudou Eibhlin a ficar em pé. Ela separou-se dele e cruzou o quarto, dando-lhe as costas, cobrindo o rosto com as mãos. Moira caiu sobre o banco que estava junto à mesa da casa e olhou com uma dor evidente o rosto de seu pai. Era como se ele tivesse envelhecido décadas desde que eles tinham chegado. Sadbh parou junto ao fogo, revolvendo a panela esquecida.

Somente Dougal ficou sentado onde estava, o seu rosto refletia a dor da perda e a pena por seu amigo. Brandubh inclinou-se contra uma coluna e suspirou. O que poderia ter feito diferente? Tantas vezes perguntou-se o mesmo e entretanto, não tinha nenhuma resposta.

Eibhlin voltou-se para o ancião e pôs a mão em seu ombro.

— Voltarei logo, avô — Conor assentiu fracamente.

Ela deu a volta e dirigiu-se para a porta. Brandubh a seguiu. Era um dia de ventania. Somente Dougal ficou acompanhando o seu amigo.

— Brandubh, não posso deixá-lo agora — Ele entendia e assentiu.

— Cuida dele, Eibhlin. É o amigo mais querido de meu pai.

Deu a volta, e deixou-a ali na soleira de Conor, sentindo que de alguma maneira ele tinha perdido uma batalha.

Eibhlin o olhou ir embora, com o manto flutuando atrás dele, como se fosse um par de asas.

— Porquê não disse a Conor que pensa em ir embora ?— perguntou-lhe Moira quando saiu da casa de seu pai.

— Por que não faria nenhuma diferença. Ele morrerá muito antes que eu vá.

— Não há nada que possamos fazer?

— Não quando o paciente não tem nenhum desejo de viver.

Moira deixou escapar um suspiro.

— Oh, doce Jesus, o que acoonteceu para as nossas vidas se converteram nisso?

— Eu cheguei.

Eibhlin não ligou para as tentativas de Moira em acalmá-la e ajustou o capote antes de dirigir-se ao único lugar onde ainda tinha certo controle: o ervanário.

Desceu todas suas garrafas, potes e bolsinhas e sentou-se na rústica mesa para catalogá-los.  Ordenou-os segundo o efeito que tinham, procurando os que proporcionariam o melhor tratamento para a pneumonia que tinha tomado os pulmões de Conor, diminuindo a sua força e roubando a sua vida. Talvez se acreditasse que tinha certa esperança de recuperar-se, ele lutaria.

Mas o que podia dar-lhe para sarar o seu coração quebrado? Ele sofria por causa das decepções causadas por seus filhos e a certeza, personificada em Eibhlin — mais culpabilidade — de que estava a ponto de perder a única filha que restava. Para que iria querer viver?

Não obstante, levada pelos laços mais fortes do que os do parentesco, os quais não lhe facilitavam a tarefa, Eibhlin procurou algo que aliviasse a tosse e a degeneração do corpo.

Agradeceu que Moira não a tivesse seguido, pois necessitava da solidão para ocupar-se de sua culpa e de sua tristeza.

 

Moira devia necessitar do mesmo tempo, porque só foi até lá várias horas mais tarde, quando então a porta do herbanário abriu-se e Moira entrou acompanhada de uma corrente de ar frio.

— Olá, querida. Precisa de ajuda?

Eibhlin levantou a vista do pilão estava moendo as raízes secas de conferva[34] .

— Só tento manter-me ocupada fazendo algo útil. Isso vai ajudar aos pulmões de Conor.

Moira assentiu.

— Você o levará?

— Sim — Inclinando o seu peso sobre o pilão para terminar de pulverizar as raízes.

—Como ele está?

— Descansando. Ainda não entendo como me ocultou isso todo esse tempo — Moira olhava as pontas dos pés — Isso me fez ver que não passei muito tempo com ele ultimamente.

— Cuidaremos dele e trataremos para que fique cômodo. Talvez possamos convencê-lo de que precisamos dele e isso lhe dê um estímulo para lutar por sua vida.

— É possível lutar contra a enfermidade?

Outro Conor veio à mente de Eibhlin. Se um garoto de dez anos podia lutar por sua vida além do que os médicos tinham esperado, então um velho guerreiro como Conor Mac Turlough também poderia, e ela não estava disposta a baixar os braços até que não restasse mais nada a fazer.

Para não revelar à sua mãe nada sobre o futuro Conor, Eibhlin disse somente — Todos somos capazes de lutar.

Moira assentiu.

— Tenho uma mensagem para ti. Brandubh partiu para Lon Dubh e pediu-me que transmitisse as suas saudações e que o desculpasse por não vir se despedir — Moira pendurou a sua capa no respaldo da cadeira, sentou e passou a trabalhar com as folhas secas — Eibhlin, estou tão aflita por toda a dor que causaram as mentiras entre você e Brandubh — Eibhlin não soube o que responder.

— Isso tudo já passou, mamãe e não há nada que se possa fazer para mudar o passado.

— Tem razão — Moira levantou a vista — Ainda me pergunto por que está aqui? Será apenas para me ajudar a viajar? Não será que realmente pertence a este lugar?

— Não sei — tomou um punhado de ervas e guardou-o em um pote de argila, aproveitando a tarefa como desculpa para pensar na resposta. Estava em claro o que Moira queria que acreditasse: que trouxeram-na a este tempo para converter-se em esposa de Brandubh Mac Dougal.

— Quando Brandubh retornar, pensa acompanhá-lo a Lon Dubh?— quis saber Moira.

— Prometi-lhe que iria, então suponho que devo cumprir com a minha palavra. Contudo, eu queria agora ficar junto de Conor todo o tempo que puder.

— Brandubh entenderá, querida.

Eibhlin sabia que ele o faria, porque ele mesmo havia pedido que cuidasse de Conor.

— E logo... — Eibhlin não podia dizer o que já se sabia. Moira entendia os seus pensamentos.

— Se puder estar de volta antes de Beltane, irei com ele alguns dias. Lon Dubh não é longe, verdade?

—Oh, não, está só no meio dia de cavalgada.

— Alguma vez você foi lá?— tinha curiosidade a respeito de como seria a casa de Brandubh.

— Uma vez convidou-me, mas nunca estive ali. Meu pai diz que quando Brandubh tomou o local, não era mais do que um monte de choças dentro de uma paliçada. Na verdade é um lugar de passagem, onde Brandubh guarda alguns cavalos e vacas, mas poucas vezes fica ali. Como único filho, a tribo provavelmente o escolherá para ser o chefe de Ath Sionnain quando Dougal se for.

— Onde está se localizado?

— Na margem leste do Shannon, onde se unem os reino de Connaught, Meath e Munster.

Eibhlin calculou por um momento onde estava localizado.

— É uma localização estranha, verdade?

— Você pensa como um soldado, Eibhlin — disse Moira com um sorriso.

— Essa é a razão pela qual Brian deu a posse a Brandubh?

— Uma delas, mas também como recompensa por seus serviços.

“Por lutar e matar”, pensou Eibhlin.

— Você vai ver quando estiver ali. Meu pai diz que está em um lugar muito bonito junto ao rio. Mais bonito inclusive que Ath Sionnain, embora eu não acredite.

Moira provavelmente nunca se afastou mais de 80 quilômetros do seu lar. Que chocante seria para ela quando estiver no futuro, pensou Eibhlin, onde 80 quilômetros não são nada. O que não daria para ver a reação de sua mãe quando viajar para a Califórnia?

Isso a fez pensar em sua própria viagem de volta ao futuro. De novo à contaminação, para as multidões, para o crime... Seu coração e mente brigavam constantemente dentro dela. Um deles venceria e acomodaria as coisas. Eibhlin estava cansada da dor de cabeça que esses pensamentos lhe causavam.

 

— Ah, minha Nara, ela era alta, embora não tão alta como você, com o cabelo da cor da pelagem das focas ou da terra virgem, sim senhor.

Conor piscou um olho para Eibhlin. Estavam comodamente sentados dentro da casa, enquanto o vento rugia suas ameaças vazias, golpeando sem cessar contra os postigos fechados das janelas.

— Meu sangue parecia ferver todo dia, só pensando nela — Sua risada desencadeou um ataque de tosse. Eibhlin levantou-se como tinha feito muitas vezes nos últimos dias, acomodando-lhe os travesseiros para mantê-lo levantado, ajudando-o para inclinar-se sobre o cântaro para cuspir nele e limpando-lhe o queixo quando tinha terminado. Logo ajudou-o a deitar-se e beijou-lhe a fronte.

— Obrigado, pomba — Ele pegou a sua mão — Cuida deste velho melhor do que um anjo.

— Na realidade, sou egoísta. Quero ouvir mais a respeito de Nara — Eibhlin aproximou a sua cadeira para poder sustentar-lhe a mão — Era bonita?

Como nunca teve outro familiar direto, Eibhlin sentia que vazio que havia em seu coração era preenchido com as lembranças deste homem.

— Eu a vi junto ao Brosna[35] em uma linda manhã. Meu pai tinha me enviado para pedir emprestado um dos touros de meu avô e isso deu-me algumas idéias, devo admitir.

— Conor! Devia ter vergonha dizer essas coisas à sua neta.

— Ah, não se zangue, moça. Você e o jovem Brandubh vão plantar sementinhas muito em breve, não diga que não — Conor inclinou outra vez a cabeça e fechou os seus olhos — É um bom homem e juntos criarão filhos fortes. Ele é adequado para você, Evie.

Eibhlin não queria dizer a Conor que isso não ocorreria e preferiu deixar que sonhasse com crianças que nunca existiriam e uma vida que impossível. Porém, quanto mais falava, as imagens de crianças sem rosto, mas que seu coração reconhecia como suas, ficavam mais claras. Essas crianças eram dela e de Brandubh.

— Está escutando, Evie?— gritou Conor — Estava contando como roubei Nara.

— Roubou-a?

— Aye. O velho lobo do seu pai não aceitou negociar o preço nupcial e queria mais do que eu podia pagar. Nara, que era muito ardilosa, encontrou-se comigo uma tarde e antes que eu pudesse reagir, subiu em meu cavalo e acomodou-se na montaria. Em seguida escapamos rumo a Clonmacnois — riu entre os dentes, mas Eibhlin podia ver que lutava para impedir outro ataque de tosse. Estávamos tímidos um com o outro, Nara desmontou e obrigou-me a segui-la. Logo, estávamos... — Seu rosto estava quase púrpura, quando percebeu o que estava a ponto de dizer — Bem, digamos que o pai dela aceitou o preço que ofereci depois dessa noite.

— Que esperto — Ela não pôde deixar de sorrir — Mamãe sabe esta história?

— Nãooo, é o nosso pequeno segredo — ele piscou um olho ao tempo em que a porta foi aberta.

Moira entrou na casa, fugindo do mau tempo e parou ao ver a cena tão doméstica que ali se desenvolvia.

— Eu interrompi? Parecem estar tramando algum plano — sacudiu a neve de sua capa e a pendurou no cabide atrás da porta, antes de aproximar-se do fogo — Está tão frio lá fora que a neve chega quase até os joelhos — depositou um beijo na fronte de Conor — Bom dia, pai. E para você também, filha.

— Bom dia, cachorrinha — Conor pegou a sua mão — A nossa Evie esteve me contando estórias para que eu durma, como se fosse um bardo. Parece que inventou algumas dessas histórias.

Moira sentou-se no chão perto da cabeceira do seu pai. Quando seus olhares se encontraram por cima da cabeça do Conor, Eibhlin desejou poder contar que estava melhorando, mas Moira não era fácil de se enganar, assim ficaram juntos os três, olhando como ardiam as chamas na lareira. De algum modo, todos sabiam que o fim estava perto.

Conor tomou ar e disse — Evie, conte-me outra vez, como chegou aqui.

A sua estória sobre a cortina invisível da Craghlea converteu-se na sua favorita, ainda mais que a estória de Nuada, aquele da Mão de Prata[36] que era no final das contas, um conto muito irlandês e que não tinha chamado a mínima atenção. Então maneira contou de novo, cuidando em adicionar detalhes que pareciam tolices, mas que melhoravam a história.

Conor riu suavemente, tossiu muito e se alegrou completamente.

— Assim, Conor Mac Turlough, acredita que venho dos Danaan?

— Sinceramente deve ser assim, beleza. Mas não contaremos a ninguém a sua história e a protegeremos dos sacerdotes — sacudiu a cabeça — É uma vergonha converter os bons homens irlandeses em sacerdotes. Não entendo, um irlandês que não acredita no reino das fadas não merece chamar-se irlandês, não?— riu de sua própria piada e voltou a tossir.

Eibhlin ajudou-o sustentando um lenço sobre a boca e Moira serviu uma taça da infusão de conferva que fervia no bule.

Eibhlin ocupou-se do fogo, logo retrocedeu e endireitou as suas costas, tratando de aliviar a tensão e a rigidez enquanto Moira dava a bebida a Conor.

Os seus próprios pulmões pareciam doer, cada vez que Eibhlin escutava a sua respiração difícil e tinha que evitar a tentação de respirar no mesmo ritmo.

Tratou de ocultar a preocupação que a embargava, quando acomodou-o nos numerosos travesseiros que tinha atrás das costas.

Conor reclinou-se tratando de repor as forças e seu rosto encheu-se de rugas pelo esforço que lhe custava em falar.

— Você diz que a minha Moira terá que ir embora? — Eibhlin sentou-se na cama, junto a ele e Moira uniu-se a eles no outro lado. Trocando os olhares por cima do corpo do doente, elas viram o temor nos olhos uma da outra.

— Sim, avô. Em Beltane — Conor assentiu — Oh, bem, suponho que algum dia deverá deixar a minha casa, Evie — tomou a mão de Moira e apertou-a — Ela será feliz com esse homem?

— Sim, avô.

Ele voltou a assentir — Então posso deixá-la ir. Eu terei os seus filhos para que me façam companhia. Os seus e de Brandubh.

Moira olhou Eibhlin, sua expressão parecia dizer: Diremos a ele? Mas Eibhlin não podia dizer-lhe que não haveria crianças.

— Claro que sim, Conor. Você os balançará e os carregará nos joelhos.

Conor sorriu, seu rosto ficou enrugado como um pergaminho. Parecia muito frágil, como se fosse se quebrar em pedacinhos.

— Bem. Homens, Evie. Muitos homens. A Irlanda precisará de homens bons e fortes que expulsem os condenados inimigos do norte de nossas costas.

Outra tosse alcançou-o e ele pareceu dormir.

Eibhlin sentou-se de um lado e Moira do outro, alternando-se para sustentar a mão e cantando para ele. Vários sorrisos passaram por seu rosto quando ele sonhava.

Eibhlin podia adivinhar quando sonhava com os fatos mais recentes. Os nomes de Uaid e Caoimhe saíram de seus lábios e as lágrimas apareceram em seus olhos. Finalmente, disse o nome da sua amada Nara e se levantou debilmente.

Seus olhos abriram-se por um segundo, claros e livres da dor e da enfermidade. Abrigando uma esperança insensata de que a febre tivesse passado e a pneumonia não o mataria, Eibhlin inclinou-se sobre ele para ouvir as palavras que vinham de seus lábios secos e cobertos de bolhas, mas não percebeu o fôlego.

— Conor. Conor, não — Eibhlin reclinou-se em sua cadeira e fechou os olhos sobre as lágrimas que começaram a derramar-se por suas bochechas. As duas ficaram em um aturdido silêncio enquanto o vento sacudia a casa.

— Mamãe, sinto muito.

— Por que, querida? Fez todo o possível.

Moira levantou-se e se aproximou dela. Ajoelhou-se e envolveu os seus braços ao redor de Eibhlin.  A tarde de inverno passou lentamente enquanto elas compartilhavam a sua tristeza.

Conor foi enterrado dois dias depois. Dougal chorou abertamente durante a Missa, enquanto Sadbh o acompanhava com os braços ao redor de sua cintura, compartilhando as suas lágrimas.

Durante todo o serviço, Eibhlin sentia que seus olhos procuravam Brandubh, só para ver que ele também a olhava.

A culpa por estar olhando fixamente o seu amante durante o funeral de seu avô, embargou-a. Certamente seu rosto deixava ver o que acontecia no coração. Igualmente... voltou a olhar Brandubh.

Seu rosto não transmitia luxúria, e sim ternura, como se oferecesse consolo. Seus braços que sabiam sustentá-la, a agradável carícia de suas mãos, o roçar de seus lábios contra o seu cabelo.

Ele sussurraria que ela tinha feito todo o possível, que tinha feito Conor feliz em seus últimos dias, que o havia ajudado a encontrar um pouco de paz com Deus, ajudando-o a compartilhar as suas cargas.

Eibhlin entendeu porque havia resolvido cruzar essa cortina invisível que a rodeou no último Beltane. Quando esses olhos negros e bonitos a olharam, a mensagem que transmitiam parecia ser escutada em toda a capela.

Deixe-me cuidar de você, milady. Deixe-me amá-la.

Eibhlin convocou a visão do outro Brandubh, aquele que nunca poderia amar, que tinha visto na abadia, aquela fria máquina de matar, mas por algum motivo não conseguiu vê-lo assim. Não importava. Ela voltaria para onde pertencia.

Ainda sabendo que era o correto, ainda com boas razões para voltar para o que lhe era familiar, afastar-se dele seria a coisa mais difícil que tinha feito. Tinha que empregar as todas suas forças para ignorar o desejo de seu coração de correr para junto a ele.

 

Durante o jantar, Brandubh sentiu-se mais impotente do que nunca enquanto pensava: “Parece tão infeliz, milady. Se somente pudesse tomá-la em meus braços e sustentá-la para que se refugie de toda a dor”. Mas sabia que isso não era possível.

Ela era uma mulher forte que encararia qualquer coisa sem ansiedade e suportando a carga em seus ombros. Ela não aceitaria que nenhum homem cuidasse dela. Ela procurava um par e esse pensamento o fez sorrir. O que conseguiria um homem que tivesse essa mulher do seu lado?

Elevou sua taça e bebeu, sabendo que todos os olhos estavam centrados nele. Ignorando-os, desceu da mesa principal, aproximando-se da mesa onde Eibhlin e Moira estavam sentadas.

— Posso sentar-me com vocês, senhoras?

— Claro que sim, Brandubh, por favor sente-se — apressou em dizer Moira. Os murmúrios se espalharam pela multidão como um fogo no verão.

— Sinto muito por Conor, Moira. Ele era meu amigo.

— Obrigado, Brandubh. Você foi como um filho para ele.

Isto foi dito sem nenhum vestígio de ironia e Brandubh desejou que fosse verdade.

— Obrigado. Moira, consultei os juizes e o preço de sangue pela morte de Uaid foi fixado em...  

Moira sacudiu a cabeça.

— Não é necessário. Uaid procurou a morte.

— Mas, Moira, a lei...—

Outra vez ela o interrompeu, dessa vez com um sorriso.

— Muito em breve, Brandubh, não ficará ninguém da linhagem de sangue de Conor. Quem cuidará desse gado? Distribua-os entre o seu povo. Isso será melhor.

Isso lembrou-lhe que tinha muito pouco tempo para ganhar Eibhlin de novo e Brandubh virou-se para ela.

— E você, milady? Está bem?

— Sim, Brandubh, estou —Seus olhos desmentiam as suas palavras. Estavam abertos, mas ele não podia ver a sua alma como sempre fazia.

— Recorda o meu pedido, milady?

Ela parecia confusa, assim que refrescou-lhe a memória — Virá a Lon Dubh para atender ao meu povo?

— Ah, sim. Ainda precisa de mim?

E como!, pensou, mas disse — As coisas não estão em uma fase crítica, mas tampouco quero que cheguem a isso. Se puder fazer algo por eles, eu apreciaria os seus esforços — Seus olhos se estreitaram para ouvir as suas palavras.

— Isso é tudo? Ver a sua gente?

— Bom, se você tivesse tempo de ensinar algumas coisas às mulheres, para que possam atender os doentes de agora seria muito bom. Mas o que mais pode ser? — Ele tratou de manter o seu rosto inexpressivo.

— Quer dizer que não tratará de me convencer para que fique aqui e nos casemos?

— Já me deu a sua resposta, milady. Não forçarei nenhuma mulher para que aceite as minhas propostas —fez uma pausa e acrescentou —Não importa quais sejam os meus desejos.

Sua expressão o fascinava. Estava contente de que ele não pensasse em retê-la? Ou estava contente por que ele tinha mencionado que os seus próprios desejos não importavam? Em qualquer caso, soube que finalmente a havia comovido e isso era um princípio.

— Suponho que posso ir contigo. Quando sairemos?

— Devo voltar para Lon Dubh amanhã, há muito o que fazer antes que comecem a nascer os potros.

— Potros? Quer dizer os bebê dos cavalos?— perguntou com os olhos maravilhados e um sorriso espontâneo.

— Sim, milady, bebês de cavalos. Criar cavalos é o que faço, afinal das contas — sorveu de sua taça — Amanhã pela manhã é muito cedo para você?

— Não, absolutamente — respondeu Moira por ela — Posso ocupar-me das coisas durante os poucos dias em que estará fora.

— Mãe — sussurrou Eibhlin, embora ele pudesse ouvi-la claramente — Não acredita que deveria vir comigo?

— por que?

—Como uma... — Eibhlin começou a fazer gestos com a mão — não encontro a palavra correta. Já sabe, assim o povo não pensará...

— Pensar o que? E o que tem de mau nisso? Dentro de uns poucos meses, irá embora daqui. O que importa o que qualquer um deles pense?

— Eibhlin enrugou a fronte, mas Brandubh percebeu que ela não respondeu, mas suspirou e lançou-lhe um olhar como se estivesse à espreita da sua presa.

— Bem. Estarei pronta amanhã pela manhã.

“Excelente”, pensou Brandubh, refreando a vontade de sorrir diante dessa pequena vitória. Quando ele falou, sua voz soou calma.

— Obrigado, milady. Minha gente ficará agradecida por sua atenção — Tomou a sua mão esperando que ela a afastasse, mas como não o fez, depositou ali um beijo casto.

— Até amanhã pela manhã, milady.

Logo que afastou-se da sua mesa, as mulheres reuniram-se em redor dele, convidando-o com sorrisos, caretas e palavras sugestivas. Ele queria ver a sua reação, mas não daria volta para olhá-la nem que todos os membros do reino de Danaan o obrigassem a fazê-lo.

— Oh, ele adorara ver como me incomoda tudo isso — protestou Eibhlin, tratando de manter uma expressão de extrema repugnância.

— O que aconteceu, querida?— A expressão da Moira era muito inocente.

— Nada —Mas, apesar de dizer isso, Eibhlin sentiu que seus olhos se estreitaram e sua boca se esticou, quando a encantadora filha de um dos hóspedes de Dougal, afastou as outras mulheres e se instalou junto de Brandubh, roçando-lhe as pernas. Eibhlin decidiu ficar calada, já que não confiava no que poderia dizer.

— Que garota tão encantadora! — disse Moira — Não acha? Não deve ter mais de... Que idade você diria que ela tem, senhora?

Eibhlin levantou a vista horrorizada ao ver que Sadbh tinha se unido a elas com uma taça na mão.

Podia ver que atrás delas elas pareciam formae um pequeno exército.

— Acredito que tem só quinze verões — finalmente respondeu Sadbh.

— Quinze! — Eibhlin rapidamente tampou a boca com a mão — Onde está o seu pai?— Sadbh riu suavemente.

— Provavelmente foi ele quem a mandou a provocar Brandubh.

— Não é mais do que uma menina.

— Eu tinha apenas quinze anos quando nasceu Brandubh, Eibhlin. Além disso — a sobrancelha de Sadbh levantou-se — ... ela parece saber o que fazer em uma situação como esta.

Realmente parecia saber o que fazer, notou Eibhlin, que sentia crescer o fogo da irritação. A pequena arpia tinha conseguido um lugar aos pés da cadeira de Brandubh e acariciava-lhe a perna como se pertencesse a ela. Parecia uma loba ali sentada, com o cabelo comprido caindo pelas costas, quase até as coxas.

Espera um minuto, gritou Eibhlin em seu íntimo, começando um diálogo consigo mesma. Por que você se incomoda?

Não seja estúpida, ele sabe perfeitamente o que me incomoda, essa tola adolescente tem as mãos sobre o meu homem, e ele não parece achar inconveniente.

— Creio que irei dormir agora mesmo — Sadbh ergueu-se rapidamente e disse:

— A diversão não começou ainda.

Claro que sim, pensou Eibhlin com amargura.

— Estou muito cansada, senhora, e Brandubh quer que amanhã o acompanhe a Lon Dubh. Prometi que iria e repartiria alguns medicamentos com a sua gente.

— Irá a Lon Dubh? Maravilhoso! — Sadbh tomou um pequeno gole de sua cerveja — Acredito que seus cuidados serão bem-vindos ali.

— Tenho certeza. Bem, irei descansar. Desculpe-me.

Eibhlin tinha que acontecer ele para sair do salão. Assim endireitou as suas costas e passou por ali, só diminuindo o passo para olhá-lo e ele entendesse como ela pensava sobre ele se comportar como um ladrão de berços.

 

A menina que estava a seus pés estava incomodando, pensou Brandubh, de lugar defronte ao fogo, podia ver o rosto de Eibhlin, que parecia muito zangada. E ciumenta.

Isso fez com que deixasse a menina, que parecia saber muito bem o que fazia, acariciar a sua perna.

Quando Eibhlin passou do seu lado, ele manteve os olhos fixos nos dela, como se quisesse detê-la. Ela diminuiu o passo quando aproximou-se de sua cadeira e olhou a garota que estava no chão.

— Então agora você gosta de garotinhas?— pareciam dizer os seus olhos.

— Não se você estiver disponível, milady — respondeu ele com o seu olhar.

Eibhlin o entendia, ele sabia que ela entendia o seu olhar. Havia em seus olhos uma evidente confiança de que ele era dela e que o teria se apenas o chamasse.

Ela ainda o desejava e isso era um começo. Só devia convencê-la a disso e para tal tarefa tinha apenas quatro meses.

“Serão suficientes”, prometeu a si mesmo.

 

— Ah, milady. Tenho a confiança de que teve uma noite tranqüila — Brandubh trouxe dois cavalos com ele e parecia gloriosamente descansado e bastante delicioso para ter os beijos saboreados; Eibhlin perguntou-se se teria dormido sozinho. “Não é teu assunto, Evie".

— Sim, lorde Brandubh. Dormi como um bebê, obrigado.

— Como um bebê?— Seu sorriso devastador cegou-a momentaneamente, produzindo uma reação alvoroçada nela — Vem, permita-me apresentá-la a Deirdre.

Eibhlin tinha ouvido falar a respeito da maravilhosa Deirdre, a companheira de Conchobar.

— Essa é a égua que pisoteou um homem?— Seu sorriso desapareceu diante do comentário.

— Ela defendeu o seu companheiro... as mulheres humanas deveriam ser fiéis da mesma forma.

A repentina mudança em seu comportamento assustou-a e ela balbuciou ao tentar falar outra vez.

— Só quis dizer que é tão bonita e delicada...— sua mão fechou-se sobre os seus dedos quentes.

— A beleza não indica falta de coragem nem fraqueza — apertou-lhe a mão até provocar uma leve dor, mostrando-lhe o que queria dizer —Vamos?

— Vai deixar que a monte?

— Prefere outro cavalo?

— Não, não, mas acreditava que nunca deixaria que ninguém a monte. Nunca vi ninguém montar Deirdre. Além disso, não está prenhe?

Ele assentiu.

— Sim. Mas pode engordar se ficar todo o tempo nas cavalariças. Os rapazes a mimam demais e não a exercitam. Ela precisa mover-se um pouco.

— Mas devo montá-la? Eu...

— Milady, Deirdre é uma égua. O seu lugar na vida é levar um cavaleiro. Quer montá-la?

Eibhlin nunca tinha visto um animal como Deirdre, de linhas tão elegantes, com ossos tão harmônicos e olhos cheios de inteligência. Podia jurar que era capaz de falar ao olhar os seus beiços aveludados.

— Adoraria montá-la, se me assegurar que não machucarei o seu filhote — Brandubh fez um som que parecia o relincho dos seus cavalos.

— Acredita que se ela não estivesse em condições de cavalgar eu a tiraria do estábulo?— Ele acariciou o pescoço branco como a neve e Deirdre levantou a cabeça, roçando o seu focinho contra a bochecha de Brandubh — Crê que sou um mau juiz, Lady Deirdre?

Uma onda de ciúmes instalou-se dentro de Eibhlin ao escutar essas palavras.

“Anda, Evie”, repreendeu-se — “Ciúmes de um cavalo?”

Brandubh rodeou a sua cintura com as mãos, e levantou-a sobre o lombo de Deirdre como se não pesasse mais do que uma criança. Seus dedos se demoraram por um momento, ele puxou amavelmente a prega do vestido para cobrir-lhe as pernas e arrumou o manto.

— Não é bom distrair os homens do seu trabalho com uma visão tão apetitosa, não acha? Pode haver algum acidente — disse ele com uma piscada e ela teve que sorrir, sentindo saudade da relação tão amigável que tinham tido tempo atrás.

— Existe tal perigo, milord?

— Ah, claro que sim. Um olhar apenas e o ferreiro talvez martele o seu próprio polegar. Ou possivelmente a faca do curtidor iria escorregar ... — franziu o cenho como se imaginasse a matança.

Brandubh rodeou Conchobar e montou com uma graça completamente masculina. Apenas olhá-lo dava prazer ... e ela ia perder isso muito em breve.

— Partimos, milady?— virou Conchobar e Deirdre o seguiu, quase sem necessitar das indicações de Eibhlin — Iremos devagar já que o clima está propício para um passeio.

Parecia uma grande idéia, dessa forma teria mais tempo de estar com ele e desfrutá-lo antes de ir embora. Quando deixaram a segurança de Ath Sionnain, perguntou-se o que havia de diferente hoje. Refletiu sobre isso enquanto subiam o Shannon e de repente, o pensamento golpeou-a.

— Brandubh, não trouxe espada.

— É obvio que não. Estamos na terra do Dal Cais e não estamos longe de Lon Dubh.

— Mas sempre traz uma.

— Não, nem sempre.

— E se aparecerem os vikings?

— Só estamos em guerra com os vikings de Dublín e isso desde que Brian mandou de volta a sua esposa briguenta para cuidar do seu filho. Os habitantes de Limerick são nossos aliados agora e não têm nenhum motivo para romper a paz. Afinal das contas, eles ganharam com a Pax Hibernius do mesmo modo que nós — O latim fluía tão facilmente em seus lábios e isso a surpreendeu, mas aparentemente ele não notou — ouviu falar disso, não?

— Conte-me—respondeu Eibhlin de modo quase automático, utilizando uma pergunta aberta, para que o bardo que habitava em Brandubh começasse com a estória.

— Havia uma jovem de beleza sem igual, que era a filha de um grande chefe da Dalriada em Ulster. Seu povo ocupava as terras altas perto do lugar onde o grande Fionn Mac Cumhaill construiu a sua ponte até a Escócia[37]. È o lugar mais afastado da Irlanda, onde faz muito frio e a vida é dura — Ele a olhou brevemente, enquanto os cavalos andavam em passo lento.

— Ouvi algo a respeito disso.

— Mas essa princesa do Ulster não podia encontrar nenhum homem adequado para casar com ela nesse lugar tão inóspito e decidiu que viajaria por toda a Irlanda para encontrar um marido digno dela. Ela empacotou uma só bolsa e deixou a casa de seu pai na manhã seguinte.

— Ela foi sozinha?— perguntou Eibhlin, como faria uma audiência para preencher a pausa do poeta.

— Espere e verá — respondeu Brandubh como se fosse um bardo experiente — De modo que nossa princesa viajou a pé, dia após dia, passando as noites abrigada nas hospitaleiras casas irlandesas ao longo de toda a ilha. De dia, ela caminhava e era saudada por todos com respeito e honra. Vestia um vestido de cetim branco e uma faixa dourada de um palmo de largura — Ele criou um clima de suspense — Protegendo o seu pescoço branco como um cisne, usava uma corrente com um desenho de mil fios se ouro entrelaçados. Trancava-se o cabelo e o prendia com esferas de prata. Sua capa tinha quatro cores, como exigia a sua posição e era da mais fina lã. Era presa com um broche de bronze esmaltado e decorado com pedras preciosas.

Eibhlin suspirou, como era esperado que fizesse e Brandubh sorriu.

Viajou durante muitos dias, sem guardas, sem armas e sem temor. Ao longo de todo o seu percurso pela Irlanda de Brian, nenhum homem a incomodou.

Este era o fim tradicional da história como era contada normalmente, mas esse bardo não se deteve.

— Ela procurou e procurou, mas não encontrou nenhum homem que lhe conviesse em Ulidia, nem em Oriel, nem nem Brefn, nem em Connaught, nem no Meath. Tampouco no Leinster, ela encontrou nenhum homem — Suas risadas se misturaram no ar frio, enquanto Brandubh continuou com a estória — Tampouco em nenhuma das cidades vikings, ela encontrou um homem digno dela.

— Oh, que triste.

— Mas então — ele levantou a mão em um gesto dramático — ela chegou ao reino de Munster. E a nossa princesa se repreendeu por ter sido tão tola e ter esbanjado todo esse tempo. De fato, o nosso Ard Ri é um típico homem do Munster. Onde mais iria uma mulher procurar um homem?— Eibhlin tratou em vão de esconder o seu sorriso diante de tal arrogância — Quando ela finalmente chegou à boa terra do Munster, foi procurar um marido que esquentasse a sua cama.

— Achou algum conveniente?— Brandubh capturou o seu olhar.

— Claro que sim. Havia tantos que ela não podia decidir. Desesperada, sentou-se em uma pedra num cruzamento próximo a Lismore. Ainda está sentada ali, já que quando se decide por um homem, passa outro se gabando, como fazem os galos pelas manhãs e então ela reconsideraa a sua decisão.

Eibhlin riu com vontade.

— Por acaso não seria melhor voltar para Ulster?— Brandubh assentiu diante desua simpatia.

— Aye, seria mais fácil para a pobre moça escolher. Mas quando sugeriram, ela chorou quando pensou em abandonar nossas verdes colinas, pois teria que voltar o lugar onde o grande Fionn escapou construindo um caminho sobre o mar.

— Oh, Brandubh, que estória — ela riu e sem pensar muito, deixou-se cair sobre o pescoço de Deirdre enquanto o aplaudia —Teague deverá se cuidar ou ocupará o seu lugar.

— Não, milady — respondeu com um sorriso — Prefiro o meu próprio trabalho.

Como se tivesse recebido um balde de água fria, o humor de Eibhlin arrefeceu.

— Ser um soldado?— Ele a olhou carrancudo.

— Já disse isso, eu crio cavalos.

— Mas não ganhou a propriedade como recompensa por serviços prestados?

—Eibhlin — compreendeu que ele falava a sério porque nunca a chamava por seu nome — Pelo o que eu entendo, você pensa que sou apenas um guerreiro e nada mais, mas é uma mulher inteligente e deve saber que terá que reconsiderar as suas hipóteses diante das evidências. Não vou me desculpar por servir a meu rei. Ele é a cabeça do meu povo, minha província, meu país. Quando Brian me chamar, eu irei. E sim, ele me recompensou por muitas coisas. Por lutar para ele e por proporcionar os melhores cavalos desta ilha. De qualquer forma, Lon Dubh não é uma recompensa. Está na fronteira setentrional do Munster com Meathmen e Connaught. Brian não é tolo para acreditar que uma pedra que grita é o suficiente para que os homens mais ambiciosos aceitem que ele é realmente o Ard Ri.

O coração de Eibhlin parou.

— A Pedra de Fal[38] gritou para ele? Sério?

— É claro.

Eibhlin tinha ouvido as lendas a respeito da coroação de Brian, mas seria possível...

— Eu estava ali, em Tara. Eu ouvi.

Um frio correu pela espinha dorsal, quando ouviu o tom de reverência com que ele disse essas palavras. Parecia calmo, mas a sua irritação crescia sob a superfície.

— Eibhlin, sou um irlandês, não posso negar isso. Suponho que nossas crenças e nosso estilo de vida podem parecer duros para você. Se for assim, não posso culpá-la por querer voltar para o seu tranqüilo mundo. Mas não somos bárbaros e eu não posso acreditar que as pessoas tenham mudado tanto em mil anos.

Suas palavras obrigaram-na a calar-se enquanto tratava de recordar o que fazia no século XX, moralmente superior a este.

— Os homens não guerreiam uns contra os outros no seu tempo? Não há lutas pela terra, por riquezas ou pelas mulheres?— O desgosto diante da menção do sexo feminino, deve ter sido notado nos olhos — Oh, então os homens não rivalizam uns com outros pelo favor de uma mulher? Então, sinceramente, vem de uma época mais civilizada.

— Basta de zombar. Já disse qual é a diferença. Em meu tempo os homens não se cortam uns aos outros em pedacinhos.

— O problema é o método da luta?

— Foi atroz ver aquilo, Brandubh. O romper, o cortar e o sangue.

— Sim. O sangue — Ele olhou para a frente — O sangue faz com que matar seja uma coisa a ser evitada.

Eibhlin virou-se para ele e viu uma expressão de tristeza e remorso em seu atrativo rosto.

— A História menciona a loucura dos guerreiros celtas? — perguntou ele — Vi Brian e meu pai serem atingidos por ela e é uma coisa horrível de se ver. Dizem que eu mesmo sofro dela.

Brandubh parou Conchobar, e Deirdre diminuiu o ritmo e se deteve quando o fez seu companheiro. Brandubh se deu volta e se inclinou sobre o pomo da cadeira, fixando seus olhos no Eibhlin.

— semeei a mutilação no campo de batalha e não posso recordar nada disso, milady. Disseram-me que arranquei as cabeças de muitos com estas mãos — Quando as levantou para que ela pudesse vê-las, sua voz parecia quebrada. Brandubh respirou profundamente — Mas a maior alegria para mim, é utilizar estas mãos para ajudar a nascer um potro. Ou para acariciá-la — ele levantou a mão e afastou-lhe suavemente uma mecha rebelde do rosto. Seus dedos roçaram-lhe a bochecha — A loucura mantém-me vivo na batalha, Eibhlin, e em ela eu não seria capaz de matar ninguém.

Ele voltou a olhar o caminho e Conchobar, percebendo um sinal que só ele e seu amo conheciam, começou a andar outra vez. Deirdre, como a garota obediente que era, adaptou-se a seu passo.

Eibhlin deixou que a égua a conduzisse. Sua mente estava repleta de perguntas... “sem ela eu não seria capaz de matar a ninguém”.

Embora não quisesse continuar aquela conversação, disse:

— Uaid disse-me algo a respeito da loucura. Disse que nesse estado, teria me matado sem chegar a me reconhecer.

Brandubh não respondeu à pergunta implícita.

— Seria capaz de fazer isso, Brandubh? Poderia ter me matado?

Esse era o temor que a tinha mantido afastada todos eses dias, reconheceu Eibhlin. O temor que as palavras de Uaid tinham semeado nela, envenenando-a.

— O que mais ele disse?

— Que você mataria a sua própria mãe se estivesse possuído por essa loucura. Realmente fica tão cego de raiva a ponto de fazer isso?

Brandubh inspirou profundamente e disse:

— Não sei, milady, sinceramente, não sei.

Seguiram o curso do Shannon em silêncio, cada um imerso em pensamentos privados. Depois de um momento, Brandubh começou a assinalar e a falar sobre os pontos interessantess no caminho. Ocasionalmente perguntava-lhe como ficaram alguns destes pontos no futuro, mas logo a interrompia dizendo: — Serei pó muito antes que isso aconteça. Seria melhor que não me contasse mais nada.

Mas ao chegar à próxima árvore sagrada, ou a um cruzamento de caminhos, ou a um montículo encantado ou monastério druída que aparecia no caminho, perguntava outra vez a respeito de sua aparência no futuro e explicava-lhe o significado do local.

Assim, o passeio foi divertido e Eibhlin olhava o campo que jamais voltaria a ver.

Ao chegar a tarde, quando alcançaram o topo de uma colina, abriu-se diante deles um vale coberto por uma fina camada de neve, atravessada pelo Shannon, cujas águas fluíam frias e transparentes.

 

— Lá está, milady. Lon Dubh.

As casinhas redondas dos arrendatários rodeavam a moradia principal, que estava construída sobre um aterro. A casa não era de pedra, e sim de madeira.

Embora não era fosse grande como a casa principal de Ath Sionnain, era suficientemente grande para albergar uma família. A palha fresca cobria o teto e as paredes branqueadas com cal brilhavam com a luz do sol, quase cegando quem a olhasse.

As construções secundárias que deviam ser as oficinas, o estábulo, o celeiro e o curral para o gado, também estavam construídas sobre o aterro.

— Você gosta do meu lar, senhora?— A voz de Brandubh continha uma nota de preocupação, mas ela gostou sinceramente.

— Sim, Brandubh, eu gosto muito — o sorriso do homem foi a melhor recompensa.

  • Vem, então. Estou ansioso para mostrar-lhe isso

Quando se aproximaram de Lon Dubh, ela notou algo em que não tinha pensado. As mulheres, jovens e velhas, iam e vinham levando cestas ou baldes de grãos, ou tinham os braços repletos de juncos frescos.

— Brandubh — começou a perguntar com cuidado — recordo que Brian disse que não havia mulheres aqui.

— Ele disse isso?— Brandubh pareceu afastar o olhar como se quisesse evitar a conversa —Acredito que ele disse que não havia “damas” aqui — lançou um olhar para ela e estendeu a mão assinalando as mulheres — É claro, milady, que existem mulheres aqui, o que não há são as damas — diante do seu silêncio, ele deu a volta e continuou falando — Existem as criadas, que são as esposas e as filhas dos pastores e granjeiros — e fazendo um gesto com a mão, concluiu: mulheres.

Seguiram cavalgando um momento mais e Brandubh retomou o bate-papo sobre as mulheres do Lon Dubh.

— De fato — disse como se nunca tivessem interrompido a conversação — talvez possa encontrar algumas que seriam capazes de aprender algo sobre os remédios enquanto estiver aqui.

— Agora que mencionou, sugeriu essa possibilidade ontem à noite.

— Sugeri?

— Sim. Só que parece que esqueceu o que falamos depois que a Lolita[39] começou a querer transar com você.

— Quem? Não conheço nenhuma Lolita.

Claro que não conhecia.

—- Quis dizer aquela menina.

Ele sorriu zombeteiro.

— Menina? Minha mãe não era mais velha do que ela quando eu nasci.

— Ela já me contou isso e usou o mesmo tom que você. Basta de rir de mim!

Sua risada grave e profunda a irritava.

— Você me disse que não me quer. Assim, por que fica aborrecida com as outras mulheres?—.

— Pode olhar todas as mulheres que desejem você. Não me importa.

— Falava a respeito de me deitar com outras mulheres.

— Não me diga que fez isso! — Eibhlin deu um puxão na brida da pobre Deirdre, e aproximou-se mais — Brandubh, diga-me se tocou nessa menina.

— Não, não toquei. Entretanto, ela insistiu para que eu a tocasse.

Eibhlin bufou ofendida.

— Arrogante, pomposo...

Brandubh ignorou-a e franziu o cenho.

— Parecia ser uma garota forte e saudável. E eu já tenho trinta anos, é tempo de me casar e me estabelecer. Desde que você apareceu, minha mente não deixa de pensar nisso... bem e também faria feliz a minha mãe.

— Não acredita que essa tentativa tão infantil de me manipular, fará que eu mude de opinião, verdade?

— Não pretendo manipulá-la... só refletia. Tenho responsabilidades para com minha gente e também me casaria para agradar a minha mãe e a meu pai. Eles desejam ter netos antes de serem muito velhos para aproveitar. Mas parece que devo olhar para outro local, já que não posso convencê-la a se casar comigo.

Não era mal desejar isso. Ele a olhava daquela forma outra vez, da maneira que ele fazia quando estava a ponto de envolvê-la em seus braços e consumir seu corpo e alma com a sua paixão. Por que ela fingia que não se importava?

— Está me escutando, milady?

Eibhlin não podia responder, não sabia o que responder.

 

Assim que atravessaram as portas, uma multidão se reuniu ao redor deles.

— Brandubh, seja bem vindo.

Quem falou foi um homem mais velho que Brandubh, baixinho e gordinho, com o cabelo loiro e grisalho e os olhos azuis típicos dos povos do norte.

— É bom vê-lo. Essa é a dama?

— É sim, Hauk.

Brandubh apeou e aproximou-se do lado esquerdo de Deirdre, levantando Eibhlin pela cintura e depositand-a meigamente em terra firme.

Eibhlin sentiu que todos os olhos estavam fixos nela, alguns com a inveja das mulheres que sabiam apreciar um homem que estava fora de seu alcance, outros pareciam disparar dardos de fogo em direção da recém chegada.

— Eibhlin ni Seamus, este é meu encarregado, Hauk Ingvarson.

Um viking como mordomo? Eibhlin conseguiu manter a boca fechada e sorrir ao homem.

— Uma honra, senhora. Brandubh disse-me que você é uma curandeira. Odin sabe que daremos as boas-vindas ao seu talento.

— Ah, Hauk — Brandubh sacudiu a cabeça advertindo-o — Ele, ah… o "acerto" nunca se concretizou.

A boca de Hauk abriu-se mostrando o desconcerto do homem.

— Isso... significa que você... e a dama... Mas, milord, você se levou daqui cinqüenta cabeças de gado...

Um murmúrio de incredulidade se espalhou ao redor dela como os ventos de uma tormenta.

— Cinqüenta!

— Pelos ossos de Deus!

— Nenhuma mulher vale cinqüenta cabeças de gado!

As cabeças se sacudiam por toda parte sem dar crédito ao que escutavam. Brandubh cravou os olhos em seu mordomo.

— Obrigado, Hauk, por discutir comigo o negócio...— levantou a voz sublinhando a palavra para que todos pudessem ouvi-la — de modo que todos se inteirem.

Hauk pareceu envergonhado só por um momento.

— Se não estão casados meu Lorde, por que a dama veio com você?

Eibhlin parou em silêncio.

— A dama estará conosco um curto tempo para atender os doentes que temos e para repartir alguns dos seus conhecimentos com as mulheres.

— Como ela fará isso se não puder falar?— Uma mulher gorda com um vestido muito apertado, avan&cc