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A DEUSA DA ROSA - P. 3
A DEUSA DA ROSA - P. 3

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

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A DEUSA DA ROSA - Parte III

 

Series & Trilogias Literarias

 

 

 

 

 

 

Capítulo 28
O poder da voz de Asterius fez as tochas oscilarem, porém Mikki não se retesou, tampouco pulou, surpresa. Devagar, ergueu os olhos do esboço.
E então sentiu um aperto na boca do estômago. Ele encontrava-se parado sob uma porta arredondada que levava a outra sala, mais para o fundo da caverna, e estava
quase nu. Não usava a cuirasse nem a túnica. Tudo o que tinha sobre a pele era uma espécie de toalha pequena, amarrada ao redor dos quadris.
Mikki umedeceu os lábios e lembrou que, se não falasse, Asterius chegaria à conclusão de que o medo a paralisara.
— Você não iria até mim, por isso aqui estou.
Pôde ver a raiva em sua expressão abrandar. Sorriu, e ele ficou sem palavras.
Tentando ignorar sua quase nudez, ela acenou com um gesto de cabeça na direção das paredes da caverna.
— Essas pinturas são lindas. São de Creta?
— Sim.
— Você é muito talentoso. Só de olhar para elas já fiquei com vontade de passar férias no Mediterrâneo. — Antes que ele pudesse formular uma resposta, apontou para
o desenho dela mesma. — E isto é muito lisonjeiro. Eu nem sabia que estava lá naquela noite.
— Não tive a intenção de adular ninguém.
— Eu não quis dizer isso! Quis dizer apenas que me fez ficar bonita, poderosa... e isso é muito lisonjeiro.
— É como eu a vejo.
— Verdade?
— Eu nunca mentiria para você.
— Dizem que evasão e omissão também são mentiras — ela contrapôs sem preâmbulos.
— Se a deusa manda que eu faça ou diga alguma coisa, devo obedecê-la, Mikado. Fiz um juramento a Hécate.
— Está bem, eu compreendo... Sinto muito. Essa situação, em que não conheço todos os fatos, é extremamente frustrante para mim.
— Se eu pudesse responder a todas às suas perguntas, juro que eu o faria — ele reiterou.
— Imagino que sim. — Mikki deu um suspiro e olhou ao redor da caverna. — Que tal me mostrar seu covil? Este lugar é incrível.
Asterius não se moveu do batente da porta.
— Foi por isso que veio aqui, Mikado? Para que eu lhe mostrasse meu covil?
— Não. Eu vim porque queria vê-lo.
— Por quê?
— Porque você não foi me ver hoje. Senti sua falta, ainda mais depois que lancei um feitiço que permite que os homens venham para o reino.
— Eu não sou um...
— Ei, chega! Já não conversamos sobre isso ontem? Eu sei que não é um “homem”, mas, homem ou não, quando eu estava lançando o feitiço, foi em você que eu pensei
— ela confessou.
Asterius desviou o olhar e Mikki pôde ver a tensão em sua mandíbula, a forma como ele cerrava os punhos.
— Eu sei. — Sua voz soou tensa. — Senti a mágica e sabia que estava pensando em mim... Mas queria que não tivesse pensado.
— Por quê?!
— Porque não posso suportar isso! — ele falou, por fim, as palavras saindo por entre os dentes.
— Eu não fiquei com medo ontem à noite — Mikki declarou depressa.
— Eu vi o medo e o ódio em seus olhos, Mikado, embora não a culpe. Eu só queria tomá-la nos braços, beijá-la, e não pude nem mesmo fazer algo tão simples sem me
tornar uma fera!
— Não queria fazer mais nada além de me beijar? — ela indagou com um sorriso sedutor.
Os olhos de Asterius se estreitaram.
— Se eu lhe mostrar a minha casa, vai me deixar em paz, Empousa?
— Provavelmente não.
— Pensei que não fosse mesquinha, mas vejo que estava enganado — ele redarguiu, ríspido.
— Não sou mesquinha! Estou apenas me explicando mal. Estou nervosa e não consigo colocar o que sinto em palavras. — Mikki queria se mover ou andar, mas obrigou-se
a ficar quieta e fitá-lo nos olhos. — Não me machucou ontem à noite, e eu não estava com medo. Eu quis você; ainda mais quando as coisas ficaram intensas entre nós.
Gostei de tudo, Asterius. De seu poder, dessa força em seu corpo que mal consegue conter... Tem mais paixão do que eu já vi em toda minha vida. Até eu conhecer você,
os homens não passavam de uns inconsequentes para mim. E agora acho que sei por quê. Eles sempre me pareceram fracos, principalmente se eu os comparava às mulheres
que me criaram. Asterius, eu preciso de alguém que seja mais do que um homem. Na noite passada, quando me dei conta disso, essa verdade me assustou. Meu medo se
baseava em tudo o que ouvi das pessoas a vida toda; pessoas do mundo comum que ficariam chocadas com o que eu sinto por você...
Ele não falou por muito tempo. Ficou apenas olhando para ela, como se tentando entender algo muito importante que estava sendo dito em uma língua que ele mal compreendia.
— Ainda gostaria de ver o restante da minha caverna? — indagou finalmente.
— Claro que sim.
Asterius se pôs de lado.
— Este é meu quarto. — Gesticulou para que ela o precedesse.
Mikki atravessou a porta em arco e entrou no cômodo, sentindo que ele a seguia. Seu corpo inteiro parecia em sintonia com sua presença, como se ele fosse uma cobra
e ela estivesse tentando encantá-lo.
Então a beleza do aposento se fez ver. Era menor do que a sala principal e também possuía tochas que não soltavam nenhuma fumaça. Só que ali não havia tantas delas,
o que deixava o quarto quase na penumbra. O chão era coberto com grossas peles de animais, no meio das quais via-se uma enorme cama coberta com mais peles.
Ele dorme aqui...
O pensamento fez uma onda de calor percorrer o corpo de Mikki e ela desviou o olhar para as paredes.
E ficou surpresa mais uma vez. As paredes ali eram todas preenchidas com cenas de um jardim repleto de infinitas fileiras de magníficas roseiras em flor. Cada nível
do vergel continha uma fonte de água e na camada central via-se uma estát...
— É o Roseiral de Tulsa! — exclamou, ofegante. — Como pode ter tido tempo para pintar essa cena depois que voltou? — Aproximou-se da parede lisa e a tocou com cuidado.
Estava completamente seca. — Há tanta coisa aqui... Deve ter levado meses, ou até mesmo anos, para terminá-la!
— É verdade.
Mikki fitou-o por cima do ombro, sem ter certeza de que tinha ouvido bem.
— Como é possível, Asterius?
— Pintei esse cenário com base em imagens que via em meus sonhos.
Ela deslizou a mão pela parede com carinho.
— É perfeito. Conseguiu captar cada detalhe.
— A pintura a faz sentir falta da sua casa?
Mikki pôde senti-lo se aproximar, mas não se virou, temendo que ele se afastasse.
— Não. O Reino das Rosas é minha casa agora. Não quero estar em nenhum outro lugar a não ser a seu lado.
— Eu não via a hora de revê-la, Mikado...
— E eu não conseguia parar de pensar em você! — Mikki sentiu a mão tremer e a deixou cair. Asterius estava tão perto que podia sentir o calor de seu corpo.
Mãos quentes pousaram em seus ombros, e ele falou em seu ouvido.
— Quando lançou o feitiço, abrindo o reino para os homens, escutei você me chamando, pedindo... — ele rosnou baixo e sua voz poderosa vibrou nas profundezas da alma
de Mikki. — Pensei que fosse enlouquecer!
— Então não fique longe de mim! Não quero que fique longe de mim — ela repetiu sem fôlego, e recostou-se nele, sentindo sua ereção contra as nádegas. Os lábios quentes
de Asterius roçaram a lateral de seu pescoço em meio a pequenos beijos, os dentes afiados arranhando sua pele de leve. Quando as mãos dele deixaram seus ombros para
cobrir-lhe os seios, Mikki arqueou o corpo e ergueu os braços de modo a puxá-lo mais para si pela cabeça.
E, assim como em seu antigo sonho, sentiu os chifres em meio à massa espessa de cabelos, ao mesmo tempo que seus dentes encontravam o vale entre seu pescoço e ombro,
mordendo-a de leve.
Mikki gemeu e pressionou o corpo com mais firmeza contra o dele.
De repente, Asterius congelou.
— Não, não pare! — ela implorou, aflita.
— Ela... ela sumiu! — ele exclamou, estremecendo.
Preocupada, Mikki virou-se em seus braços. Asterius a fitava com uma expressão que era um misto de alegria e choque.
— O que foi? O que aconteceu?
Ele tomou-lhe o rosto entre as mãos.
— Você me ama! — Sua voz profunda soou embargada, e lágrimas escorreram silenciosamente pelo rosto moreno.
— Claro que amo! — Mikki sorriu. — Mas o que sumiu?
Asterius fechou os olhos, tentando dominar as emoções.
— O feitiço, Mikado. E a última barreira entre nós. Não importa o que as Parcas tenham-me destinado... Eu vou amar você até o fim dos tempos! — Ele inclinou-se e
a beijou com paixão.
Mergulhando a mão em seus cabelos, ela o puxou com ímpeto contra a boca, e o rugido de Asterius vibrou em seus sentidos já despertos como uma carícia.
Ele ergueu a cabeça e abriu os olhos escuros e cheios de desejo, a pele morena coberta de suor. Mikki deslizou as mãos pelo corpo másculo, desde os ombros fortes,
passando pelo peito largo até os músculos bem definidos do abdômen, sentindo-os estremecer sob seu toque.
Asterius tirou as mãos de seu rosto e as colocou contra a parede, a cada lado dela, de maneira que agora Mikki encontrava-se presa em meio a seus braços.
— Não se mexa! Deixe-me tocá-lo — ela pediu com voz rouca.
— Não sei por quanto tempo poderei manter minhas mãos longe de você! — O peito dele arfava e a paixão tornara-lhe a voz ainda mais densa.
— Não vai demorar muito. — Mikki acariciou-o no rosto e traçou a linha de seus lábios com o polegar. — Primeiro quero vê-lo... por inteiro.
Viu a dúvida escurecer os olhos castanhos, porém Asterius aquiesceu devagar. Então suas mãos deslizaram pelo corpo forte outra vez, rumando com segurança para a
toalha que ele tinha enrolada em torno da cintura. Puxou-a, e esta soltou-se com facilidade.
Mikki olhou o corpo nu à sua frente por um momento.
— A esposa de seu pai quis amaldiçoá-lo e acabou criando um ser de incrível beleza — sussurrou, ofegante. — Você não é uma abominação, Asterius, você é um milagre!
Ele era uma mistura tão perfeita de homem e animal que era difícil dizer onde terminava o ser humano e começava a fera. Sua cintura estreita dava continuidade a
quadris e coxas musculosos, cobertos com pelos lisos e escuros. Daí para baixo, embora seus contornos continuassem fortes e bem definidos, Asterius era menos musculoso
do que aparentava quando encontrava-se vestido.
Hipnotizada, Mikki acariciou o ponto onde o corpo do homem dava lugar ao do bicho. Asterius abaixou a cabeça e rosnou baixinho, e ela o fitou, atenta. Ele fechara
bem os olhos e respirava pesadamente, em um esforço para controlar a criatura que tinha por dentro.
Mikki respirou fundo, sentindo uma onda quente de prazer invadi-la enquanto observava a fera que tentava se conter. Seus olhos moveram-se mais para baixo. Asterius
possuía as mesmas formas de um homem e encontrava-se totalmente ereto. A pele que lhe encobria o membro era da mesma cor de bronze do peito largo.
Ela o tomou nas mãos, afagando com uma, apertando com a outra, e, quando o fez, os olhos dele se abriram, alarmados.
— Não precisa manter a fera acorrentada o tempo todo, Asterius! — ela sussurrou, sem parar de acariciá-lo, e inclinou-se para a frente, circulando seu mamilo com
a língua. — Solte-a, meu amor! Eu não tenho medo dela... — afirmou, mordendo o mamilo endurecido.
O rosnado de Asterius ecoou, ensurdecedor, pela caverna. Ele a ergueu nos braços, os cascos batendo com força contra o chão coberto de peles conforme caminhava até
o catre. Colocou-a sobre este, mas, antes que pudesse cobri-la com o próprio corpo, Mikki se pôs em pé, fazendo-o se retesar mais uma vez. Ela leu a dor em sua expressão,
certa do que ele estava pensando.
— Tem que parar de achar que tenho medo de você, Asterius, porque eu não tenho. Não me levantei para fugir. Achei apenas que gostaria de ver isto... — Começou a
soltar o broche de prata em forma de rosa que segurava-lhe a túnica sobre o ombro direito, porém suas mãos tremiam tanto que não conseguiu.
Frustrada, ela o fitou. Em seguida, sua expressão mudou para um sorriso sedutor.
— Faria algo por mim?
— Qualquer coisa! — ele respondeu, ofegante.
— Então solte as garras e me ajude com isto.
Com os movimentos graciosos de um felino, ele estendeu as lâminas lentamente e, com facilidade, cortou o tecido.
Mikki encolheu os ombros, e o quitão caiu a seus pés.
Os olhos de Asterius ficaram ainda mais escuros. Com o peito arfando, ele ergueu a mão para tocar os seios redondos, mas as puxou de volta ao se lembrar das garras
ainda estendidas.
Ela agarrou-lhe um pulso.
— Não seria capaz de produzir arte de tanta qualidade se não tivesse controle sobre estas lâminas... Use-as para me tocar, Asterius. Deixe que eu sinta seu poder
na minha pele! — E, sem pensar duas vezes, apertou a mão dele contra um seio.
Hesitante, Asterius deixou as pontas afiadas tocarem com suavidade a pele alva e macia, até que sua mão desceu do peito para o ventre reto, escorregando, devagar,
bem devagar, para o centro quente e úmido.
Mikki prendeu a respiração e estremeceu.
— Não pare! — pediu com um gemido.
Ele não tirou os olhos do rosto delicado enquanto suas garras percorriam as coxas roliças e, depois, as curvas voluptuosas das nádegas.
— Vire-se... Quero vê-la de costas — ordenou, a voz profunda saindo ainda mais densa com o desejo.
Ela obedeceu.
E sentiu os lábios de Asterius substituir as lâminas quando ele beijou as marcas rosadas que havia deixado nela antes.
— Pensei que a tivesse cortado inteira! — ele murmurou, a respiração aquecendo-a por inteiro.
— Claro que não... Foram apenas arranhões.
A boca de Asterius moveu-se para o final de sua espinha, a língua quente provando-a sem meandros.
— Pensei que nunca mais fosse tocá-la de novo!
Mikki virou-se e o segurou pelo pescoço, permitindo que ele tomasse seus mamilos com a boca.
— Nunca pare de me tocar! — pediu. E, deitando-se na cama, puxou-o com ela.
Asterius ajoelhou-se a seu lado. Recolhendo as garras, tocou-a no rosto com delicadeza.
— Eu não conseguiria parar agora, nem mesmo se Hécate aparecesse e me ordenasse isso!
— Sshh... — Ela pressionou seus lábios com um dedo. — Não quero pensar em nada a não ser em você. — Lentamente, levantou mais a mão, seguindo a linha suave de um
chifre escuro. — Você é incrível. Acho que nunca vou me cansar de acariciá-lo.
— É um presente raro e inesperado para mim, Mikado. — A voz de Asterius tremeu com a profundidade de suas emoções. — Eu nunca conheci o amor. Nunca, em todas as
eras da minha existência, uma mulher me tocou, aceitou e amou como você. — Ele teve que fazer uma pausa antes de continuar. — Vou amá-la enquanto respirar. E além,
se as Parcas e a deusa permitirem!
— Então venha para mim, Asterius! Mostre-me o poder de seu amor! — ela implorou.
Ele a adorou com a boca e com as mãos, e bebeu dela como se nunca fosse se fartar. Explorou-a e, com os sentidos sobre-humanos de um animal, leu cada sinal e mudança
em seu corpo, aprendendo o que mais lhe trazia prazer.
Quando pensou que não poderia viver algo mais doce do que observar a paixão que havia provocado nela, Mikki pressionou-o contra o catre e deu início à sua própria
exploração. Quando sua língua e boca o provocaram por inteiro, e ela sussurrou que seu membro rijo era magnífico, demonstrando o quanto o desejava, Asterius pensou
que fosse morrer de prazer.
— Preciso sentir você dentro de mim!
Mikki se abriu, e ele estremeceu no esforço para se controlar enquanto ela o envolvia com as pernas e se encaixava em seu corpo. Sentiu o sangue arder nas veias
e um rugido escapou de sua garganta. O animal dentro dele queria investir violentamente contra ela, afundar o membro endurecido em seu calor úmido... Porém ele cerrou
os dentes, deslizando com cuidado para dentro e para fora de Mikki, tentando concentrar-se nos sons suaves de puro prazer que ela soltava em meio ao turbilhão que
assolava-lhe o corpo e a alma.
E então percebeu que ela ia de encontro a suas estocadas suaves com uma ferocidade que refletia-se em seus olhos verdes.
Quando inclinou-se para beijá-la, Mikki mordeu-o no lábio com força.
Ele rosnou, e ela sorriu.
— Solte o animal que existe em você, Asterius! É ele quem eu quero agora! — pediu com uma voz rouca e sensual.
As palavras acenderam tal chama dentro dele, que Asterius temeu que ambos fossem consumidos por ela. Incapaz de lutar contra a força combinada do desejo e do poder
da fera, virou-se no catre e, agarrando-a pelas nádegas, ergueu-a de encontro a ele, afundando nela seguidas vezes.
Mikado não fugiu dele, pelo contrário. Respondeu a sua paixão com a força e a determinação de uma deusa.
O animal e a sacerdotisa arderam juntos, até que, finalmente, o ser humano dentro dele não pôde mais se conter e derramou dentro dela toda uma vida de desejos, ao
mesmo tempo que fera e homem rugiam seu nome em uníssono.
Capítulo 29
Asterius não conseguia parar de olhar para Mikado. Ela dormia nua, o corpo pressionado contra o dele. Tinha um braço apoiando a cabeça, uma perna longa e macia sobre
a sua, e a mão jogada sobre seu peito, indolente.
Respirou fundo, permitindo que seu perfume lhe invadisse os sentidos. Nunca havia imaginado aquilo. Mesmo quando tivera esperanças de que a outra Empousa pudesse
gostar dele, que pudesse amá-lo, pensara apenas no toque de suas mãos suaves.
Apenas em sonho permitira-se imaginar fazendo amor com uma mortal... Mas nenhum deles tornara-se realidade.
Até aquele momento. Até Mikado.
Quando ele a tocara e percebera que a dor causada pelo feitiço de Hécate tinha sumido — e o que aquilo significava —, Mikado transformara seus sonhos em realidade
e, ao fazê-lo, também curara a ferida da solidão que o afligia havia séculos.
Pelos deuses, o que ele iria fazer? Ela o salvara... Como ele poderia lhe fazer algum mal agora?
Mas se ele não a sacrificasse, o Reino das Rosas iria perecer.
Talvez não acontecesse imediatamente. Hécate poderia descobrir outra Empousa, porém um dano irreversível já teria sido feito. A traição de uma Sacerdotisa já fizera
um reino que jamais conhecera pragas, pestes ou doenças de qualquer espécie adoecer. Aquele tipo de coisa nunca existira no reino de sonhos e magia de Hécate.
Mas a traição e o abandono haviam provocado o enfraquecimento da muralha e, ele tinha certeza, apenas a rápida atuação de Mikado impedira um desastre.
Por isso precisava escolher entre destruir seu próprio sonho ou a destruição dos sonhos da humanidade.
Na verdade, não possuía alternativa. Apenas um animal poderia optar por si mesmo em detrimento da humanidade.
Asterius sentiu a agonia pelo que deveria fazer pressioná-lo como uma lança flamejante em suas entranhas.
— Está me olhando — Mikki disse baixinho e, sonolenta, abriu os olhos e sorriu para ele. — Não consegue dormir?
— Prefiro olhar para você. — Ele afastou-lhe uma mecha espessa de cabelo do rosto.
— Eu devia ter adivinhado que era um romântico quando colocou aquela rosa no meu vinho...
— Isso não é ser romântico, é ser civilizado. — Ele temperou a voz grave com um leve sorriso e acariciou a curva graciosa de seu pescoço e ombro, sorrindo ao vê-la
suspirar, feliz, e esticar-se como um gato.
— Não estrague minha alegria... Prefiro pensar que é romântico.
— Então vou chamar de romance, também, só por sua causa. — Hesitante, porém com uma doçura e inocência totalmente em desacordo com a aparente ferocidade de seu corpo,
Asterius inclinou-se e beijou-a nos lábios. — Quando veio até mim, hoje, ofereceu-me mais do que seu corpo e seu amor, Mikado. Ofereceu-me aceitação: uma alegria
que eu nunca imaginei que fosse conhecer.
Ela entrelaçou os dedos com os dele.
— Isso é algo que você e eu temos em comum. Eu sempre me senti como se não pertencesse ao meu antigo mundo. — Respirou fundo e tomou uma decisão. Queria que Asterius
soubesse. Precisava que ele soubesse. — Hécate me explicou parte da razão pela qual eu me sentia tão deslocada. Era porque eu já estava destinada a ser sua Empousa
neste mundo. Sempre carreguei o sangue de uma Alta Sacerdotisa nas veias. Mas há outra razão... Por isso nunca deixei ninguém, muito menos um homem, aproximar-se
de mim. Tem a ver com meu sangue também. — Ela estudou os olhos escuros, querendo que ele compreendesse. — As mulheres da minha família estão intrinsicamente ligadas
às rosas. Se regarmos as flores com água misturada ao nosso sangue, estas se desenvolvem além do normal. No mundo comum, o que eu fazia era inédito. Exceto pelas
mulheres da minha família, ninguém mais conseguia entender. Isso me fazia sentir como se eu fosse uma aberração e, por isso, eu escondia meu segredo. — Preocupada
ao ver como Asterius ficara imóvel e pálido, Mikki sentiu-se retesar. — Diga alguma coisa... Eu nunca contei isso a ninguém.
Quando ele permaneceu em silêncio, ela começou a se afastar, mas, com um rosnado baixo, Asterius puxou-a com determinação de volta para a proteção de seus braços.
— Você não se sentia aceita lá porque era seu destino ser Empousa de Hécate e vir até aqui para salvar as suas rosas e seu Guardião solitário. O sangue que corre
em suas veias é a vida deste reino, Mikado. É seu amor que nos sustenta. — Ele fechou os olhos e afundou o rosto nos cabelos vermelhos, tentando não tremer, tentando
não pensar.
Mikki relaxou e aninhou-se mais junto a ele.
— Isso ainda me espanta. Se as coisas não tivessem acontecido numa sequência perfeita, eu não estaria aqui. — Recostou-se em seus braços de modo a fitá-lo e, mais
uma vez, perguntou-se o porquê de Asterius ainda estar tão pálido. — Foi meu sangue que o despertou, sabia?
— Não. — A voz dele soou ainda mais grave. — Eu só sabia que havia me despertado, que podia sentir seu cheiro e que você era a Empousa de Hécate.
— Na verdade, esse é um dos aspectos mais estranhos do que aconteceu. Naquele mesmo dia, em Tulsa, uma senhora que eu mal conhecia havia me dado um pouco de perfume
e, num impulso, eu o usei. Por mais estranho que pareça, é o mesmo perfume que estou usando agora. Gii o chama de “o óleo sagrado da Empousa”.
Asterius franziu o cenho.
— Como é possível?
Mikki deu de ombros e tornou a se aconchegar junto a ele.
— Eu não faço ideia, mas ela era muito excêntrica. E linda, mesmo sendo velha. Tinha os olhos azuis mais incríveis que já vi. Era estrangeira, porém eu não consegui
discernir muito bem seu sotaque. Ela disse que tinha conseguido esse perfume... — Mikki parou para pensar — ... em algum lugar da Grécia, se não me engano. O que
me lembro com certeza é de seu nome porque, assim como eu, ela também tem nome de rosa: Sevillana.
Mikki sentiu o choque que atravessou o corpo de Asterius, e ergueu-se sobre um cotovelo, vendo a expressão indecifrável no rosto moreno e agora pálido.
— O que foi? Alguma coisa errada?
— É que... nada. Não foi nada. Só estou surpreso por uma mulher do mundo comum ter obtido o óleo sagrado da Sacerdotisa de Hécate. É um mistério. — Asterius passou
os braços a seu redor. — Deite-se aqui comigo... Deixe-me sentir seu corpo tocando o meu.
Mikado descansou no peito largo.
A mente de Asterius girava num turbilhão enquanto ele acariciava a linha suave de suas costas. Sevillana... Apenas o nome tinha enviado ondas de choque por todo
seu corpo. Era ela!
Ele, também, jamais iria se esquecer da beleza fria de seus olhos azuis e penetrantes, muito menos de seu nome. A última Empousa continuava viva no mundo comum.
Como era possível? O tempo passava de forma diferente por lá, ele sabia. Mas ao menos dois séculos, pela contagem daquele mundo, deviam ter se passado. Talvez a
antiga Empousa houvesse atravessado a encruzilhada com mais do que apenas um frasco de óleo para unção. Talvez tivesse conseguido roubar alguma magia do reino.
A enormidade daquela revelação infiltrou-se em seu estado de choque. Sevillana estava viva! Na primavera, quando uma Empousa precisasse ser sacrificada pelo reino,
Sevillana, e não Mikado, deveria morrer! Tudo o que ele precisava fazer era descobrir uma maneira de trazer a Sacerdotisa ausente para o Reino das Rosas!
Tinha que ser possível. Sevillana havia escapado, portanto certamente poderia retornar.
Asterius segurou Mikado com mais força, e essa foi sua resposta. Ele não a sacrificaria. Apenas a trocaria pela antiga Alta Sacerdotisa e devolveria Mikado com segurança
para sua casa no mundo comum.
Ficaria sem ela, sentiria sua falta por toda a eternidade, sem dúvida... Entretanto, poderia suportar isso. O que não poderia suportar era saber que ela teria de
morrer por suas mãos. Se Mikado partisse, perderia seu amor. Se ele a sacrificasse, perderia a própria alma...
Pois ele não sacrificaria seu amor, tampouco iria perder a própria alma. Tinha uma alternativa, e também os poderes do filho de um Titã. Transformaria aquele imenso
cúmulo de magia para alcançar seu objetivo.
Mas não naquele momento. Não naquele dia.
Naquela noite, ele iria se deleitar com o milagre do amor de Mikado, e não pensaria mais sobre o vazio infinito das madrugadas que estavam por vir.
Mikki encostou-se à entrada discreta para a caverna e olhou a manhã nublada enquanto mastigava um pedaço de pão. Asterius veio por trás dela, e a fez inclinar-se
de encontro a ele.
— Chuva! — disse, surpreso. — Não costuma chover por aqui.
— Fui eu que fiz isso. Ordenei ao elemento Água que a trouxesse quando lancei o feitiço de saúde e proteção ontem. Em todas as manhãs haverá chuva por algum tempo.
É bom para as rosas e é bom para o reino também. Manhãs chuvosas são repousantes; um momento perfeito para dormir e fazer rejuvenescer a alma. — Ela se virou em
seus braços. — Infelizmente, eu não pensei em avisar as servas, ontem, que manhãs chuvosas equivaleriam a tirar uma folga... Imagino que os Quatro Elementos estejam
se perguntando por que eu ainda não as chamei para trabalhar. E como a noite passada foi a primeira, em muito tempo, em que os homens puderam ser convidados a vir
ao reino, aposto que estão cansadas e me esperando de mau humor... Preciso ir vê-las. O que vai fazer?
— A mesma coisa que faço todas as manhãs: inspecionar a muralha das rosas ao redor do reino para ter certeza de que tudo está seguro. Depois vou colher mais fios
para as Tecedoras de Sonhos. — Ele acariciou o rosto dela. — Só que, nesta manhã, cumprirei minhas funções com seu cheiro na minha pele... E com a lembrança do seu
sorriso, toque e gosto no meu coração. — Ele sorriu. — Dizem que a chuva é sombria e triste, mas, para mim, esta manhã parece brilhante e cheia de promessas.
— Um romântico incurável... Quem diria? — Mikki segurou-o pela cuirasse. — Beije-me, para que possamos arregaçar as mangas depois — ela ordenou, enquanto se perguntava
se algum dia ele iria perder aquele ar de felicidade que se estampava em seu rosto a cada vez que ela o surpreendia com um toque ou, como naquele momento, com um
beijo. Sinceramente, esperava que não. — Pode tirar uma folga para almoçar comigo?
Asterius beijou-a outra vez antes de responder.
— Claro que sim. Tudo o que precisa fazer é me chamar.
— E à noite?
— Peça, Empousa, e eu obedecerei — ele murmurou, os olhos escuros brilhando.
— Você diz isso agora. Vamos ver o que vai achar de obedecer a todas as minhas vontades daqui a um ano ou mais — Mikki disse brincando, enquanto levantava uma sobrancelha,
travessa.
Ficou surpresa ao ver a expressão dele mudar e seus olhos perderem todo o humor.
— Eu jamais me cansaria de você ou das suas vontades, Mikado. Nem se tivéssemos uma eternidade para compartilhar.
As palavras fizeram seu coração se comprimir. Como podia ter se esquecido de que Asterius era um imortal? Ela iria envelhecer, ele não. E, ao contrário dele, ela
morreria.
Não! Não pensaria naquilo. Não no alvorecer de seu amor. Eles mereciam algum tempo para que pudessem saborear a doce sensação de um sentimento novo e inebriante.
Nesse ponto não eram diferentes de qualquer outro casal. Ela não iria estragar aquela lua de mel com pensamentos terríveis sobre um futuro em que iria se arrastar,
encolhida, pelos jardins, inclinando-se sobre o braço sempre jovem e forte de Asterius...
Ele a deixaria, então? Será que ainda iria querer ficar com ela?
Pare com isso! Está fazendo exatamente o que prometeu não fazer!
Mikki fez brotar um sorriso nos lábios.
— Eu não estava falando a sério. Estava apenas brincando com você. Mas já que mencionou seu dever de obedecer a meus comandos... ordeno que venha me ver esta noite.
— Olhou por cima do ombro largo para a caverna acolhedora, tão impregnada da presença de Asterius como da requintada arte que ele criara. — Na verdade, acho que
prefiro vir para cá.
— Aliás, creio que não tenha conhecido bem meu lar, como me pediu ao chegar...
— Essa é uma das coisas que terá de fazer esta noite... Mas apenas uma delas.
A leve chuva mudou a aparência dos jardins, como se alguém os tivesse pintado com um pincel de aquarela e dado um toque impressionista à realidade.
Mikki decidiu que gostou do que via. Combinava com o restante daquele lugar de sonho.
Quis ir direto para o palácio e chamar os Quatro Elementos. As pobres meninas deviam estar bem aborrecidas com ela, principalmente se alguma delas tinha expulsado
alguém delicioso da cama...
Mas continuou vagando, perdida na magia que emanava das rosas.
Elas pareciam melhores naquela manhã. Mesmo quando ela rumou devagar em direção ao Sul, a náusea que revirava seu estômago sempre que ela perambulava pelos jardins
não veio. Viu até mesmo várias flores saudáveis, cor de lavanda, que reconheceu como rosas Angel Face em plena floração, onde no dia anterior havia apenas brotos
anêmicos.
Sorriu e, num acesso de orgulho, autodenominou-se “a Deusa das Rosas”.
E sonhou com Asterius.
Suspirou. Encontrava-se dolorida em lugares dos quais ela até se esquecera... Quase um ano se passara desde a última vez em que fizera sexo, mas nunca havia experimentado
nada como o amor que fizera com Asterius. Aquele corpo forte, aquela mistura de homem e animal fora tão intrigante, tão sedutora!
Mas o mais excitante tinha sido a liberdade que sentira com ele.
Sorriu. Com Asterius ela poderia soltar a fera que existia dentro dela quando estivessem juntos, sem temer que ele se afastasse. Asterius correspondia inteiramente
à sua paixão. E ele a conhecia, lia sua alma.
Asterius, Minotauro, Guardião... Ele também sabia o que era ser um marginal.
Pois bem, eles haviam encontrado um lar juntos enfim.
— A chuva foi uma ideia inteligente, Empousa.
Mikki pensou que fosse desfalecer ao som da voz de Hécate.
— Minha nossa, você quase me matou de susto! — exclamou.
Então lembrou-se de com quem estava falando, limpou a garganta e virou-se para encarar a deusa com o coração batendo dolorosamente no peito. Hécate encontrava-se
sentada em um banco de mármore, a poucos metros.
— Perdão, eu me assustei... — Fez uma reverência, como via as servas fazendo com tanta frequência. — Não devia ter falado dessa maneira.
Hécate fez um gesto de desdém com a mão.
— À minha Empousa são permitidas liberdades de que muitos nem precisam saber. — Ela apontou o espaço a seu lado. — Venha, sente-se aqui comigo.
Engolindo em seco, Mikki aproximou-se da divindade. Os cães gigantescos encontravam-se a postos ao lado dela, porém a ignoraram por completo.
Hécate vestia as cores da noite: preto, o mais profundo dos azuis e cinza. Manifestara-se como a linda mulher de meia-idade outra vez, e as gotículas de chuva cintilavam
como joias em seu cabelo negro.
— O feitiço para proteção e saúde que lançou ontem foi muito bem pensado. Concordo com seus instintos. A chuva refresca as rosas e o reino. Além disso, os pequenos
insetos que pediu à Terra foram uma surpresa encantadora... O elemento Ar adorou trazê-los para cá. — A deusa fez uma pausa e, em seguida, surpreendeu Mikki com
uma deliciosa risada. — Embora não se possa enxergar seu corpinho vermelho e preto em meio a essa névoa.
— Joaninhas alimentam-se de pulgões, e as rosas odeiam pulgões — lembrou Mikki, ainda surpresa com o declarado elogio da diva.
— As rosas estão desenvolvendo-se de novo, e isso me agrada.
— Obrigada, Hécate.
— Também foi bom ter instruído Fogo a iluminar a muralha das rosas, principalmente as do portal. Agora que os homens estarão indo e vindo outra vez, precisam tomar
muito cuidado com essa passagem.
— Eu nem havia pensado nisso! — Mikki passou a mão pela testa, nervosa. — Sou mesmo uma tola. Como esperava que eles fossem entrar e sair do reino?
— Não foi ruim ter permitido que os homens viessem aqui de novo. Fez muitas mulheres felizes. Durante toda a noite, ouvi os nomes dos amantes sendo sussurrados em
convites que foram levados ao mundo antigo. — A deusa sorriu de lado, maliciosa. — Ainda esta manhã alguns continuam sendo chamados e apreciados pelas mulheres,
as quais há muito são reverenciadas como algumas das mais belas e inteligentes do mundo antigo. Ter os homens por perto dará vida nova ao reino... Bebês meninas
são uma bênção, e estou ansiosa por seu nascimento.
— Mas os Ladrões de Sonhos estão na floresta. Temos que ter cuidado se esse portal vai abrir e fechar a cada pouco.
— Você é a Empousa, Mikado. Pode colocar limites quanto ao ir e vir dos homens. — Hécate deu-lhe um olhar afetuoso. — É bom que saiba dos perigos que espreitam do
outro lado da barreira, mas não precisa se preocupar. A força do Guardião irá proteger o reino. Case a vigilância dele com seu carinho pelas flores, e tudo ficará
bem no Reino das Rosas.
Mikki tentou não pensar ou reagir. Manteve a mente vazia e assentiu.
— Ótimo. Agora, o que vim dizer é que tenho assuntos para resolver que vão me afastar do reino. Não se preocupe se eu não vier visitá-la aqui por... — Hécate ergueu
um ombro — ... algum tempo. Mas meus poderes estarão sempre com você, caso necessite deles. Sinto que está confiando mais em seus instintos e, por isso, aplaudo
sua sabedoria. Deixe que sua intuição a guie. Se seu sangue, alma ou espírito lhe disserem algo, pode acreditar. E, lembre-se, Empousa, aprecio muito o que tem feito
pelas rosas, mas não foram apenas suas providências que deram início à recuperação delas. Foi também sua presença. Tem laços de sangue com as flores, o que garante
que elas irão prosperar. Seja sábia, Mikado. Os sonhos da humanidade dependem de você.
Hécate levantou a mão e desapareceu em uma névoa brilhante.
Capítulo 30
Mikki não podia dizer que não estava aliviada por Hécate ter partido por algum tempo. É claro que devia ter lhe contado sobre seu relacionamento com Asterius...
Contar seria bem melhor do que a deusa ler sua mente ou descobrir de outra forma.
Tinha vontade de correr e se esconder só de pensar nisso!
Iria dizer tudo a ela, sem dúvida, mas não queria fazer isso tão já.
Não que estivesse com vergonha por amar Asterius, ou porque temia sua deusa, ainda que Hécate fosse um tanto assustadora. Mas queria manter o Guardião para si mesma.
Por que não podiam ter privacidade para descobrir os segredos daquele novo amor? Mesmo que tivesse se apaixonado por um homem de Tulsa, ela gostaria de ter tempo
para que os dois aproveitassem a novidade de sua descoberta antes que a revelassem aos sete ventos e abrissem a própria vida à especulação. Ela era discreta e quanto
mais uma coisa lhe era importante, mais discreta ela tornava-se a respeito.
E Asterius era muito importante para ela.
Quando Hécate voltasse, sabia-se lá de onde, poderiam ter uma conversa acerca do Guardião. Então iria lidar com a resposta da deusa, qualquer que fosse ela.
Até lá, iria valorizar aquele período de lua de mel que lhe fora concedido e desfrutar completamente o fato de que tinha se apaixonado.
Satisfeita com seu plano, Mikki deixou o banco e verificou os canteiros e fontes vizinhos para certificar-se de que rumava na direção certa. Os comentários de Hécate
sobre os homens indo e vindo através do portal das rosas a haviam preocupado e, a despeito do que a deusa dissera sobre Asterius, iria se manter alerta.
Naquele exato momento, seus instintos lhe diziam que verificasse o portal por conta própria, depois anunciasse um toque de recolher, embora detestasse a ideia de
agir como uma inspetora de colégio. Gostaria de conversar com Asterius sobre aquilo, mas só faria sentido colocar alguns limites quando o portal estivesse aberto.
E também precisava descobrir quem, exatamente, poderia abri-lo. Asterius poderia, claro. E ele dissera que ela também poderia fazê-lo. As Tecedoras de Sonhos haviam
mencionado que os Quatro Elementos tinham colhido os fios da realidade enquanto o Guardião estava enfeitiçado, então elas também eram capazes de abrir o portal.
Mas quem mais? Seria uma tremenda dor de cabeça se todas as mulheres do reino pudessem fazer um gesto e abrir a maldita porta como se esta fosse o Mar Vermelho...
Sem dúvida, tinha muito trabalho a fazer.
Calculando a hora, Mikki apertou o passo. Precisava se mexer e chamar suas damas de companhia.
Poderia chamá-las naquele exato momento e fazer com que se encontrassem ali nos jardins, claro; mas preferia checar pessoalmente o portal, voltar correndo para o
quarto, trocar aquela túnica molhada e rasgada, embora a tivesse remendado naquela manhã, pedir a Daphne que trouxesse um pouco daquele chá delicioso e reunir-se
com as meninas mais tarde para um brunch.
Mesmo assim, ainda era cedo. E as servas não eram estúpidas. Decerto olhariam a chuva e perceberiam que havia pouco a ser feito nos jardins com aquele clima. Talvez
até voltassem para a cama.
Mikki sorriu para si mesma, esperando que elas não fizessem isso sozinhas. Ela mesma não o faria naquela noite.
A chuva mudara aos poucos da garoa fina para uma bruma, e depois para um nevoeiro claro que agora pairava sobre as rosas como na região dos Lagos, na Inglaterra.
A cerração tornou-se mais espessa conforme ela caminhava para o Sul.
Mikki pensava na noite que tinha pela frente, tentando decidir como poderia convencer Asterius a ir até as fontes termais para um banho a dois, quando uma parede
de rosas Multiflora surgiu bem diante de seu nariz, e ela quase se chocou contra a muralha.
— No próximo feitiço, lembre-se de dizer ao Ar para afastar o nevoeiro depois da chuva! — resmungou para si mesma enquanto esquadrinhava o portal, procurando por
sinais de desgaste. — Você parece bem — elogiou, acariciando parte da folhagem.
— Sacerdotisa! Pode nos ajudar?
Mikki olhou ao redor, tentando ver de onde vinha a voz profunda. Era inequivocamente masculina, o que soava estranho nos jardins.
— Aqui! Estamos aqui!
Ela percebeu que a voz vinha do outro lado da muralha das rosas e inclinou-se um pouco, de modo a olhar através de uma parte menos densa dos ramos.
Seus olhos arregalaram-se de surpresa. Quatro homens encontravam-se do lado de fora do portal, cercados pela névoa espessa e cinzenta. Três deles estavam trajados
como ela sempre imaginara que os antigos gregos deviam se vestir: com uma espécie de túnica, um braço nu e capas cor de púrpura, regiamente bordadas, sobre as costas
largas. Eram todos altos, musculosos... e muito, muito bonitos.
O quarto homem, o que havia falado, devia ser o líder. Encontrava-se à frente dos demais e vestia-se no estilo em que ela estava acostumada a ver Asterius: com uma
cuirasse sobre uma túnica curta, de pregas.
Era aí, entretanto, que sua semelhança com o amante dela terminava. Era um homem bonito, alto e de pele morena, que destacava-se mesmo na manhã nevoenta. Sua pele
tinha um tom dourado que poucos loiros verdadeiros exibiam. Um bronzeado saudável, da cor do mais puro mel, e que cobria um corpo que era uma perfeição: atlético,
sem ser demasiado musculoso e brutal. Seu cabelo era espesso e ondulado, cortado num comprimento que era másculo e, ao mesmo tempo, juvenil.
E seus olhos eram tão azuis e límpidos que ela podia vê-los mesmo em meio à profusão de rosas.
Mikki suspirou. Nunca vira um homem tão bonito de tão perto. Geralmente, tanta perfeição limitava-se a Hollywood e às maquinações dos produtores de filmes e cirurgiões
plásticos.
— Aí está, Sacerdotisa! — Ele sorriu, e seu rosto iluminou-se ainda mais. — Estamos aqui. Respondemos a seu chamado.
Ela sorriu de volta. (Quem não o faria diante de um sorriso como aquele?)
— Meu chamado?
— Só posso rogar à grande deusa que eu tenha tido a sorte de ter sido chamado por uma beldade como você...
Mikki percebeu que corava e sentiu-se ridícula.
— Ouvi dizer que os olhos azuis são mais fracos do que os castanhos ou verdes — replicou. — Acho que acabou de comprovar essa teoria.
Ele riu, e o som de seu riso era tão cativante quanto sedutor.
— Ah, vejo que minhas preces foram atendidas! A deusa me concedeu uma Sacerdotisa que tem inteligência, além de beleza. — O estranho deu alguns passos em direção
ao portal, e seus amigos o seguiram.
Por entre os ramos, Mikki observou-o mover-se com naturalidade e confiança, de modo tão atraente e tão diferente do modo selvagem de Asterius que ficou chocada.
Não chegou a desejar o lindo loiro, mas sentiu uma ponta de inveja da mulher que o tinha chamado.
Viu-se invadida imediatamente por uma onda de culpa. Que diabo havia de errado com ela? Tinha acabado de deixar a cama de Asterius após proclamar seu amor por ele,
e agora estava toda derretida diante de um estranho só porque ele era bonito?
Talvez a chuva tivesse atravessado seu crânio e inundado seu cérebro.
— Vai abrir o portal para nós, Sacerdotisa, ou meus companheiros e eu teremos de atravessar essa parede espinhosa?
— Não! — ela respondeu um pouco alto demais. E então, sentindo-se como uma idiota, adicionou: — Não fui eu que o chamei. Não precisa me cortejar.
A expressão de decepção do rapaz pareceu sincera.
— Se é assim, creio que eu lhe deva desculpas, graciosa dama. Imaginei que fosse um dos Elementos, com essas tranças avermelhadas e sua extraordinária beleza. Fogo,
talvez. Afinal, foi ela quem me chamou aqui. Eu seria um homem de sorte se tivesse acertado.
— Desculpe, mas não sou nenhum dos Elementos. — Mikki sorriu, travessa.
Não estava sendo infiel a Asterius por ser educada com o rapaz. Estava apenas cumprindo seu papel de Empousa, afinal, fora ela quem lançara o feitiço para permitir
que os homens adentrassem o reino.
— Eu sou a Empousa.
Os olhos azuis do estranho plissaram-se adoravelmente nos cantos com seu sorriso.
— Empousa! — Ele curvou-se em um lindo e cavalheiresco floreio, que os outros homens copiaram enquanto a saudavam, galantes. — Que feliz coincidência estar passando
por aqui neste momento. Bem que ouvimos dizer que havia uma nova Empousa no Reino das Rosas. É uma honra conhecê-la... — O sorriso do rapaz brilhou com bom humor.
— Mesmo através de uma barreira de rosas...
— Disse que Floga o convidou?
— Isso mesmo.
— Ela convidou os seus amigos, também? — Mikki tentou evitar um sorriso malicioso, mas falhou miseravelmente. Não era difícil imaginar o elemento Fogo precisando
de quatro homens para apagar sua paixão, mesmo que um deles já se parecesse com Adonis.
Por um instante, Mikki sentiu uma ponta de ciúme da liberdade e facilidade com que a serva podia caminhar ao lado de qualquer homem que escolhesse.
— Não, Empousa — disse um dos que estavam vestidos com quitão. Tinha os cabelos escuros e fartos e um rosto bem talhado, o que a fez concentrar-se outra vez na conversa.
— O elemento Terra é a Sacerdotisa cujo chamado estou atendendo.
— A Água foi quem me chamou, Empousa — disse o terceiro homem.
— E eu tive a sorte de ter sido convocado pelo Ar — explicou o último, que possuía cabelos longos e castanho-avermelhados, além de olhos extraordinariamente verdes.
Caramba, eles eram maravilhosos! Suas servas tinham feito excelentes escolhas.
Mikki sorriu. Precisava perguntar a Gii como funcionava aquela coisa de convidar os homens... Era meio estranho que eles tivessem sido invocados pelas meninas pela
manhã, mas talvez não fosse. Ela ainda não as chamara para trabalhar. Estivera chovendo e, na certa, elas haviam decidido ocupar-se à sua maneira.
Sem dúvida, eram tão inteligentes quanto ela pensava.
— Tenho certeza de que os Quatro Elementos estarão aqui a qualquer instante, portanto, ficarei feliz em deixá-los entrar.
Os olhos do líder se iluminaram e ele curvou-se numa mesura novamente.
— Ser convidado a entrar no Reino das Rosas por sua Empousa é uma honra que não merecemos.
— Ah, isso não é problema. Podemos caminhar para o palácio juntos. Eu já ia voltar para lá.
Sem dizer que ser escoltada por quatro rapazes lindos de morrer não era nenhum sacrifício.
Tampouco era errado, pensou Mikki, sentindo-se dominada por uma súbita revolta. Claro que não era errado! Ela estava apaixonada, não morta. E tudo o que iria fazer
era levar os homens até suas mulheres.
O único motivo escuso que talvez tivesse para tanto era desfrutar um flerte inofensivo. Mas por que não? Sentia-se incrivelmente bonita e amada, mas isso não significava
que quisesse ser controlada e trancafiada em uma gaiola!
Asterius que pensasse duas vezes antes de querer marcá-la como uma novilha premiada... Era isso o que ele esperava dela? Que ela lhe permitisse controlar todos os
seus movimentos?
De repente, sentiu medo de que fosse aquilo mesmo. Afinal, Asterius era um animal, e ela não podia esperar que ele soubesse como tratar uma mulher.
Em algum lugar, nas profundezas de sua alma, algo tentou inserir-se no turbilhão de pensamentos defensivos que borbulharam em sua mente tal qual num guisado rançoso...
Mas não puderem ser ouvidos em meio ao ódio e à inveja, o egoísmo e o medo que gritavam dentro dela.
Meio desnorteada, Mikki foi até o centro do portal e franziu o cenho. Não havia nenhuma maçaneta, nenhuma trava, nenhuma barra de deslizar. Frustrada e muito irritada
com a enorme dor de cabeça que abateu-se sobre ela, levantou a mão e pressionou a palma contra a muralha.
— É a Empousa quem fala. Abra logo essa droga! — murmurou com raiva.
O portal vivo obedeceu.
Os quatro homens deixaram o nevoeiro sorrindo, como se ela tivesse acabado de lhes dar a chave para o paraíso.
Mikki sorriu de volta, distraída, desejando que eles se apressassem a passar para o lado de dentro. Não gostou da aparência da floresta escura e quis fechar o portal
imediatamente.
No instante em que o último homem entrou, ela ergueu a mão de novo e ordenou ao portal que se fechasse, suspirando de alívio quando este obedeceu.
Então, virou-se para os homens.
— O palácio é por ali. — Gesticulou na direção do caminho de mármore mais largo.
— Claro, Empousa. — O loiro sorriu.
Mikki começou a andar, contudo estacou quando o moreno de cabelos escuros bloqueou seu caminho.
— É por aqui — ela repetiu, apontando por cima de seu ombro largo enquanto pensava que ele podia ser bonito, mas, definitivamente, não era a última bolacha do pacote.
— Talvez queira saber nossos nomes antes de nos levar até o palácio, Empousa... — A voz do loiro soou bem atrás dela. Ele estava tão próximo que Mikki pôde sentir
sua respiração nos cabelos.
Os outros dois rapazes entraram em cena para fechar o círculo, de maneira que ela viu-se cercada.
Foi nesse momento que tudo clareou, a dor na cabeça cessou, assim como as emoções desencontradas que vinham fervilhando em sua mente. De súbito, uma certeza terrível
tomou conta de Mikki: eles eram Ladrões de Sonhos e ela abrira o portal das rosas para eles!
Instintos que tinham sido silenciados assim que ela havia começado a conversar com o loiro gritaram para que ela não demonstrasse medo.
Determinada, engoliu a bile que lhe subira à garganta, endireitou-se, majestosa, e encarou o homem de cabelos dourados.
— O que significa isto?
— Nós apenas gostaríamos de nos apresentar, Empousa. Como vê, já a conhecemos bem, pois gostamos de observá-la. Agora queremos que saiba o que convidou tão graciosamente
a adentrar o seu reino. — O charme na voz dele fora substituído pelo sarcasmo, e seus lábios curvaram-se num sorriso de escárnio que distorceu seu belo rosto.
— Não gosto do seu tom e não gosto da sua proximidade — ela declarou, áspera, tentando imitar o tom intimidador de Hécate. — Acho que já é hora de partirem. Decidi
que minhas servas não gostariam de sua companhia.
— Tarde demais. Abriu o portal para nós e agora verá que, uma vez que somos convidados, não costumamos deixar a festa tão cedo... — O moreno estendeu a mão e tocou
uma mecha avermelhada que descansava em seu ombro.
Mikki tentou empurrá-lo, porém ele a agarrou pelos ombros sem nenhuma delicadeza e a segurou no lugar enquanto o loiro cheirava sua nuca. Ela lutou, mas, agarrando-a
pelos cabelos, este a obrigou a virar a cabeça para o lado e, como uma cobra provando sua presa, deslizou a língua por seu pescoço.
— Ah, o doce sabor de uma Empousa! Há séculos não degusto uma iguaria destas.
— Parem com isso! — Mikki choramingou. — Larguem-me!
Surpreendentemente, o loiro obedeceu. Sorriu para ela, mas foi apenas uma exibição de seus dentes perfeitos, e não uma expressão de humor.
— Vamos aproveitar nossa visita em sua companhia, Empousa. Gostamos dessa mudança no clima que providenciou... Um tempo desses é melhor para encobrir o nosso pequeno
rendezvous, embora alguém já tenha tido o prazer de sua companhia esta manhã. — Com os movimentos de um réptil, ele a circundou e arrancou o broche que mantinha
unido o tecido já cortado da túnica.
Mikki congelou de medo. Agarrou-se ao quitão, tentando não vomitar enquanto eles a cercavam mais, apalpando-a com mãos ousadas e devorando-a com os olhos.
— Vamos, Empousa, não seja tímida... Não pode dizer que não me reconhece.
— Ou a mim e aos outros... — a voz do de cabelos castanhos soou abafada a suas costas.
— Olhe bem nos meus olhos, Empousa... Tenho certeza de que já me viu antes. Não me diga que não sabe meu nome.
Ela mirou os olhos incrivelmente azuis do loiro. De súbito, sua cor clara e intensa tingiu-se de um vermelho-sangue, e eles transformaram-se em fendas.
Mikki reconheceu-o então e, quando seu nome ardeu-lhe no pensamento, ela viu-se dominada por uma fúria que solapou todo o medo.
— Tire essas mãos nojentas de mim! — gritou, irada, e o empurrou com violência.
Surpreso, o moreno que a segurava por trás tropeçou e a soltou. Sem perder tempo, Mikki recuou vários passos para longe deles.
O loiro riu e a seguiu devagar.
— Que bom... Gostamos se oferecem resistência. Isso torna as coisas mais interessantes. Afinal, o que vê quando me olha nos olhos, Empousa?
Ela continuou se afastando, contudo ele e os outros a seguiram.
— Um borra-botas louco para ter contato com gente influente! — respondeu, ofegante.
Ele gargalhou.
— Acho que vou ter de lhe ensinar coisas melhores para fazer com essa sua língua afiada. Mas, por hora, me diga, Empousa... Que nome você me dá?
— Ódio — ela respondeu sem hesitação.
O sorriso dele foi aterrador.
— Ah! Vejo que pensa rápido. Talvez eu a leve comigo quando sairmos daqui. Gostaria disso? Sou um homem que conhece intimamente os desejos ocultos das mulheres.
— Homem? Que homem? — Ela riu, sarcástica. — Você não passa de uma criatura desprezível. Um comedor de carniça que se alimenta das carcaças dos sonhos. Mas não me
importa em que tipo de pele esteja disfarçado.
Ele se lançou à frente e a agarrou pelo braço.
— Acha que não sou homem? Pois eu vou lhe mostrar!
Enquanto eles tornavam a cercá-la, Mikki gritou o nome do único homem que preenchia-lhe o coração e a alma.
— Asterius!
— Seu amante, seja lá quem ele for, não vai salvá-la agora. E, se realmente se importa com ele, sugiro que fique bem quietinha... Nenhum mortal pode olhar para nós
sem perder uma parte da própria alma. — O Ódio bufou em seu rosto enquanto agarrava a frente da túnica e a arrancava de seu corpo. — Cubram a boca desta gracinha
e cuidem para que ela não dê um só pio! Neste nevoeiro não há chance de que sejamos descobertos até que seja tarde demais para ela... Tarde demais para todas!
Mikki viu-se arrastada para fora do caminho de mármore até um canteiro de rosas Salet. Lutou, chutando virilhas e pernas, usando as unhas para furar qualquer carne
com que entrava em contato, assim como se aprendia nas aulas de autodefesa nos Estados Unidos.
Mas os quatro logo a dominaram. Empurraram-na para o solo, e ela percebeu vagamente que a terra recém-trabalhada encontrava-se coberta com pétalas de flores destruídas,
como se uma neve cor-de-rosa tivesse caído junto com ela. Um deles a sufocava, e Mikki não conseguiu gritar. Fechou os olhos, então, e, concentrando-se, gritou em
pensamento:
Asterius! Venha!
— Verá se sou homem ou não... — rosnou o Ódio, empurrando para o lado a frente da própria túnica para tomar o membro ingurgitado na mão. — Depois experimentará um
pouco do Medo, do Ciúme e do Egoísmo — completou, rindo de modo insano. — Aliás, que ironia o Egoísmo tomá-la por último... Ou talvez não. Talvez ele opte por ficar
com você definitivamente enquanto visitamos as outras mulheres deste seu reino patético, Empousa.
Mikki captou um movimento em meio à sua visão já escurecida e, no instante seguinte, Asterius pareceu explodir de dentro do nevoeiro com um rugido ensurdecedor.
O Ódio virou-se para enfrentá-lo e, ao fazê-lo, seu corpo ondulou e transformou-se no do Ladrão de Sonhos. Conforme ela imaginara, ele não era humano, mas uma criatura
horrenda que devia existir apenas no mundo dos pesadelos. Tinha a pele escamada e seus olhos de cobra saltavam de uma cabeça dilatada em forma de capuz. Seu corpo
possuía características humanoides, porém ele agachou-se sobre quatro patas, botando uma espuma negra pela abertura da boca feito um réptil.
As garras de Asterius zuniram no ar, abrindo uma trilha de sangue no peito da criatura. Mikki escutou silvos horrendos escapando dos seres que a mantinham cativa,
então viu-se livre de repente quando o Medo, o Ciúme e o Egoísmo postaram-se atrás de seu líder.
Formavam um grupo aterrador. Todos haviam mantido algo de sua forma humana, mas haviam passado por tenebrosas mutações. O Medo era como um cadáver em decomposição,
com garras imundas e um rosto disforme. O corpo deveras humano do Ciúme era coberto por uma planta rastejante que brotava de sua pele como espinhos mortais. Ele
também se pôs de quatro, sibilando e lembrando um monstro do pântano. O Egoísmo tinha um corpo alongado, de onde saíam vários tentáculos, os quais ele agitava enquanto
rangia os dentes horríveis.
E todos enfrentaram Asterius.
O Guardião deu cabo de um por um. O Medo foi o primeiro a tombar, estripado pelas garras da fera. O corpo do Ladrão de Sonhos desabou e, em seguida, dissolveu-se,
transformando-se em uma fumaça vermelha que pairou ao longo dos canteiros de rosas.
Mikki se pôs em pé de um salto e gritou um comando:
— Aeras! Venha até mim!
Instantes depois, o elemento Ar corria até sua Empousa de olhos arregalados.
— Oh, grande Deusa! Salve-nos!
— Hécate não está aqui. Temos de nos defender sozinhas. Aeras, ordeno que seu elemento faça-se presente. Faça soprar um vento forte do Norte e nos livre da fumaça
do Medo. Agora!
Lívida, a moça ergueu ambos os braços. Quando o fez, uma rajada de vento frio soprou sobre eles, carregando a neblina da manhã, bem como a fumaça vermelha que pairava
ao longo da parede, para a floresta.
Um grito de dor fez Mikki arrancar o olhar da nuvem que se dissipava e concentrá-lo na batalha. Os olhos escuros de Asterius faiscavam, e ele rugia conforme desferia
golpe após golpe contra as criaturas do mal, os movimentos precisos tão fascinantes quanto mortais.
Ela prendeu o fôlego, pensando que Asterius era a coisa mais magnífica que já tinha visto.
Ele avançou, golpeou mais uma vez, e o Egoísmo foi ao chão, contorcendo-se, os tentáculos decepados espirrando sangue escuro em um arco vermelho por sobre as rosas.
Tendo o Ciúme agarrado a suas costas, Asterius abaixou o corpo num movimento quase invisível de tão rápido, e o Ladrão de Sonhos foi ao chão no mesmo momento, para
ser perfurado impiedosamente por suas garras na base da espinha.
Ambas as criaturas agonizaram e, depois, também desapareceram em nuvens de fumaça vermelha.
— Outra vez, Aeras! — ordenou Mikki.
Aeras chamou o vento Norte, e este baniu o Ciúme e o Egoísmo para a floresta.
— Sua vagabunda intrometida! — o Ódio gritou para o elemento Ar e, como uma víbora, atacou Aeras.
Mikki foi mais rápida, porém, e empurrou a moça para fora de seu caminho.
O Ladrão de Sonhos colidiu com a Empousa, em vez de sua serva, e Mikki sentiu uma picada lancinante explodir no ombro e no braço, tombando sob ele.
O Ódio gritou, então, e seu corpo curvou-se para trás quando Asterius cingiu-lhe as costas, fazendo brotar vários riscos vermelhos em sua pele.
Com um rugido terrível, o Ladrão de Sonhos agarrou Mikki e virou-se para enfrentá-lo, segurando a Empousa como um escudo.
Asterius reprimiu o ataque.
— Por que hesita, Guardião? Estou protegido de sua ira apenas por uma mulher fraca e mortal. Não está disposto a sacrificar sua Empousa nem mesmo para livrar o reino
do ódio? Surpreendente... — O Ódio soltou uma gargalhada maléfica. — Ah, eu havia me esquecido de que tem uma queda pelas Altas Sacerdotisas de Hécate. — A criatura
esfregou a virilha contra Mikki. — Não que eu o culpe... Esta parece bem madura e no ponto.
O rosnado de Asterius fez os pelos dos braços e nuca de Mikki se eriçarem.
— Eu o farei sofrer pela eternidade por tocá-la! — ele trovejou com a voz de um predador mortal.
— Acho que não, Guardião. Em vez disso, vai abrir o portal para mim, e eu passarei por ele incólume. — A criatura começou a puxar Mikki consigo enquanto recuava
na direção da muralha das rosas. — Se chegar muito perto, bancarei o Destino e estraçalharei a garganta dela. — Apertou uma garra dentada contra o pescoço delicado.
— Isto ainda não terminou — rosnou Asterius, movendo-se junto com o Ladrão de Sonhos e sua refém até a passagem. — Já disse que vou fazer você pagar pela eternidade
por tocá-la.
— O Ódio também nunca termina, Guardião. Já devia saber disso a esta altura. — Ele parou de costas para o portal. — Agora, abra-o para mim, e eu lhe devolverei a
Empousa... ainda que fosse gostar de me divertir com ela por algum tempo. — O Ódio arreganhou os dentes para Asterius antes de inclinar-se e saborear com a língua
o pescoço da Alta Sacerdotisa, em franca provocação.
Foi o bastante para Mikki. Mais do que o suficiente.
— Maldito! — ela gritou, enfiando o polegar no olho esbugalhado do monstro, o qual ele fora tolo o suficiente para aproximar dela.
O Ladrão de Sonhos soltou um grito ensurdecedor e arremeteu para longe.
Mas não antes de Mikki senti-lo perfurar sua pele com uma garra, e também uma onda de calor úmido que se seguiu ao ferimento.
Segurou o pescoço e caiu no chão, percebendo, mesmo com a vista escurecida pela dor, o modo como Asterius agarrou a criatura que debatia-se e torceu seu corpo para
trás até que a espinha do Ladrão de Sonhos partiu-se ao meio com um ruído medonho. Logo depois, ele o arremessou por sobre a barreira de rosas.
No instante seguinte, estava de joelhos a seu lado, gritando seu nome, tocando seu rosto e acariciando-lhe os cabelos.
Mikki tentou sorrir para ele.
Está tudo bem. Não foi culpa sua... Fui eu quem os deixou entrar.
Pensou que estivesse dizendo as palavras em voz alta, mas não conseguia proferi-las.
De repente, suas quatro servas surgiram à sua frente também. E estavam chorando. Mesmo Floga, que ela pensava nem gostar tanto dela...
Queria confortá-las, dizer que não estava com medo. E pedir que, por favor, tratassem melhor Asterius... pois sabia, sem nenhuma dúvida, que estava morrendo.
Capítulo 31
Asterius recusava-se a perdê-la assim. Não para o Ódio. Não quando Mikado havia trazido amor, desejo, carinho e aceitação... sentimentos tão opostos, para sua vida.
Ergueu-a nos braços e encarou os perturbados Quatro Elementos.
— Vamos levá-la até a fonte, Guardião. Lá poderemos lavá-la e depois colocá-la no Templo de Hécate, onde ofereceremos uma oração à Deusa por sua alma — pediu Gii
em meio a lágrimas.
— Ela não está morta! — ele explodiu, e rosnou um aviso quando Gii tentou se aproximar.
— Ainda não... Mas o ferimento de Mikado é mortal e, em breve, seu espírito estará no Reino de Hades — Nera falou com voz entrecortada.
— Não! Não é seu destino morrer hoje!
— As Parcas decidiram o contrário — Aeras replicou suavemente.
— Então eu desafio as Parcas!
— Mas, Guardião, o que pretende fazer? — Floga perguntou.
— Vou reclamar meus direitos de primogenitura.
Erguendo o corpo inerte que sangrava, Asterius passou pelas servas, mas a mão macia de Gii em seu braço o deteve. Quando ele a fitou, a moça encontrou seu olhar
sem hesitação.
— Como podemos ajudá-lo?
Ele ponderou por um instante.
— Vamos para o templo. Talvez o poder dos elementos ajude meu apelo a chegar mais rápido aos ouvidos de Cronos.
Sem esperar para ver se elas o seguiam, Asterius correu com Mikki para o Templo de Hécate, os cascos golpeando ruidosamente o mármore branco do caminho, tentando
não pensar em como ela continuava inerte e quanto de seu sangue lavava seus corpos.
Subiu os degraus do templo de três em três e, estacando diante da chama sagrada da deusa, caiu de joelhos, colocando sua amada ao lado do fogo.
Ouviu as servas entrando no templo logo atrás dele e tomando seus lugares ao redor do círculo.
— Ela ainda está viva? — Gii perguntou, aflita.
Asterius olhou para seu amor. Mikado tinha os olhos fechados e o rosto sem nenhuma cor. O sangue ainda fluía do corte comprido e fino em seu pescoço, e seu peito
subia e descia com dificuldade.
— Está.
— Então faça o que puder, Guardião. Não queremos perder outra Empousa antes que o destino assim exija! — declarou o elemento Terra.
Ele ergueu os olhos para os da moça.
— Convoquem seus elementos e formem o círculo sagrado.
— Você a ama, não é? — Floga indagou de repente.
Seu olhar virou-se para a serva.
— Sim.
— E vai salvá-la apenas para roubá-la de nós depois? — O elemento Fogo quis saber.
— No Beltane, a Empousa do reino encontrará seu destino. Eu lhe dou minha palavra.
— Mesmo que a ame? — Aeras exigiu.
— Há poucos minutos me viram batalhando com o Egoísmo. Não foi a primeira vez que tive de enfrentar esse Ladrão de Sonhos. Mas, desta vez, fui vitorioso. Nunca mais
vou sacrificar os sonhos da humanidade em benefício próprio. — Ele olhou para Mikado e tocou seu rosto gentilmente.
— Então você não é mesmo nenhum animal — Gii declarou com voz embargada.
— Sou, sim — ele retrucou sem olhar para o elemento Terra. — Mas também sou um homem. E o amor de Mikado fez do homem o mais forte das duas criaturas.
— Os Quatro Elementos irão ajudá-lo a salvar seu amor, Guardião — declarou Gii, acenando para Aeras. — Pode começar.
Aeras ergueu os braços para o alto.
— Invoco-te, ó Ar, para o círculo sagrado!
Imediatamente, o ar começou a se mover.
Como uma reação em cadeia, Floga elevou os braços, invocando seu elemento.
— Que venhas até mim, Fogo!
— Água! — gritou Nera. — Eu te convido a participar!
— Terra! Chamo-te para completar o círculo e ampliar os poderes do Guardião que abrigamos aqui! — entoou Gii.
Asterius sentiu o poder dos elementos na pele. Abaixou a cabeça e levantou as mãos manchadas com o sangue de sua amante. Em uma voz ampliada pelo Ar, pelo Fogo,
pela Água e pela Terra, bem como pela fera dentro dele, gritou para os distantes confins do Céu.
— Cronos, meu pai! Grande deus do Mundo e dos Tempos, Titã dos Céus e da Terra! Eu te invoco pelos teus antigos nomes, bem como por aquele que meu sangue me permite...
Vivi por muitos séculos sem te rogar por governo, poder, amor ou aceitação, mas hoje te peço, por direito de nascimento, que me dês o poder de salvar esta mortal.
Sua linha da vida foi cortada antes do tempo e ainda não desfiou até o fim.
A chama sagrada se agitou, e no interior da luz tremeluzente o rosto de um homem apareceu. Não se podia definir sua idade, mas era bem talhado, como se esculpido
em rocha pelo tempo e experiência. Um rosto que ele teria reconhecido em qualquer lugar, pois refletia o seu quase completamente.
— Pai! — disse Asterius, inclinando a cabeça.
O Titã mal o fitou. Em vez disso, apontou o queixo na direção de Mikado.
— É esta a mortal que deseja salvar?
— Sim!
— Ela é Empousa de Hécate? — indagou Cronos.
— É...
— Então sua salvação será apenas temporária.
— Ela ainda não viveu seu tempo de direito! Ainda não é Beltane — lembrou Asterius.
— Quem fez isso a ela? — O Titã quis saber.
— O líder dos Ladrões de Sonhos: o Ódio. Não posso deixá-la morrer pelas mãos daquela criatura.
Cronos voltou a atenção para o filho.
— O ódio a matou e você deseja que seu amor a salve?
Asterius contraiu a mandíbula, mas assentiu com um gesto de cabeça.
— Sim.
— Ah, o amor! — Cronos riu. — Estou surpreso com sua fraqueza, Guardião.
— Aprendi que o amor só é fraco quando é egoísta — ele retorquiu num claro desafio.
Uma ponta de surpresa brilhou na face do deus.
— Você me faz lembrar de sua mãe.
— Talvez porque ela também tenha enfrentado a fraqueza daqueles que amam de modo egoísta.
Cronos franziu o cenho.
— Não estou habituado a ser insultado quando solicitam meu auxílio!
— Não pretendia insultá-lo. Eu só disse a verdade — replicou Asterius, tenso.
— Independentemente disso, já me cansei desta conversa.
— Cronos! Perdoe-me, eu não...
— Silêncio! — A chama se agitou e o chão do templo da deusa tremeu. — Eu ainda não acabei... Concedo seu pedido. Pode compartilhar parte da imortalidade que habita
em seu espírito com a Sacerdotisa. Uma parte muito pequena, porém. Ela vai escapar do reino de Hades apenas uma vez. E saiba que há um preço para a centelha de imortalidade
que partilhar com ela. Mesmo depois que a Empousa morrer, vai carregar consigo esse pedaço de seu espírito. E você só irá se sentir completo quando ela estiver a
seu lado. Quando ela já não estiver neste reino, seu coração ficará vazio, e seus dias serão preenchidos com a solidão. Pense com cuidado antes de fazer essa escolha.
— Eu já fiz minha escolha. Sabia do ônus, caso me permitisse amá-la, e o aceitei. Pela vida de Mikado, não me importaria em aceitá-lo novamente.
— Muito bem. É seu direito de primogenitura que está usando para me pedir uma bênção. Mas não me incomode de novo. Você escolheu Hécate, e é à deusa que deve recorrer
no futuro.
E, sem mais nenhuma palavra, o Titã desapareceu no fogo.
Asterius olhou para Mikado. Seu pai lhe havia concedido a capacidade de salvá-la, mas como?! Ele teria de dar a ela uma parte de sua imortalidade, um pedaço de seu
espírito...
De repente, ele soube. Devagar, inclinou-se sobre Mikado e tocou-lhe os lábios com os dele. Conforme a beijava, desejou que ela vivesse para que pudesse compartilhar
de sua vida e aceitá-lo mais uma vez.
Mikado se moveu, suspirou suavemente contra sua boca... Então, entreabriu os lábios e seu beijo se aprofundou.
Quando Asterius se ergueu, seus olhos estavam abertos e ela sorria para ele.
— Ela está viva! — gritou Gii, extasiada.
As servas riram e choraram ao mesmo tempo, enquanto fechavam o círculo e corriam para sua Empousa.
Mikki sentou-se e piscou, confusa, sem saber ao certo onde estava e por que motivo Asterius encontrava-se ajoelhado a seu lado, segurando sua mão diante dos Quatro
Elementos.
Olhou ao redor. Aquele era o Templo de Hécate? Alguma coisa estava errada. Não devia estar ali. Devia estar inspecionando a muralha das rosas para certificar-se
de que...
De súbito, tudo voltou à sua mente.
— Os Ladrões de Sonhos! — exclamou, tentando ficar de pé, mas vendo-se tão fraca que seu menor movimento fazia o templo girar ao redor.
— Sshh... — Asterius a tranquilizou. — Tudo está bem agora. Os Ladrões de Sonhos foram banidos do reino.
— Eu sinto muito! — Ela olhou de Asterius para as servas.
— Empousa, não precisa se desculpar! Ladrões de Sonhos são mestres em manipulação. Devíamos tê-la precavido melhor — falou Gii, agachando-se para segurar sua outra
mão.
— Sim! — Nera assentiu com um gesto ansioso de cabeça, como se isso pudesse convencê-la. — Como iria desconfiar das tramas insidiosas que eles costumam tecer?
— Mas eu os deixei entrar! Eles me disseram que... Oh, Deus! As coisas que eles me fizeram pensar e sentir! Foi terrível.
Aeras sorriu em meio às lágrimas que banhavam-lhe o rosto e tocou-lhe os cabelos com reverência.
— Foi muito corajosa ao levar o golpe que o Ódio planejou para mim, Empousa.
Mikki tinha se esquecido daquilo tudo e olhou para si mesma, nervosa. Estava coberta de sangue! Como podia ter perdido tanto sangue e continuado viva?
Lembrou-se da dor no ombro, mas, quando olhou para ele, não viu nada, a não ser a pele manchada de vermelho.
Mas existia algo mais. Algo muito pior...
Seus olhos se arregalaram, e ela sentiu uma onda de vertigem. O Ódio cortara sua garganta e ela havia praticamente morrido!
E agora encontrava-se viva outra vez.
Devagar, ergueu os olhos para os de seu amante.
— Acabou — disse Asterius.
— Eu estava morrendo! — ela sussurrou.
— Eu jamais permitiria que isso acontecesse.
— O Guardião a salvou! — Gii explicou em meio a um soluço.
— Salvou todas nós — corrigiu Aeras, enxugando o rosto.
— Nunca iremos esquecê-lo — jurou Floga.
— Nunca! — Nera reforçou, comovida.
Mikki sorriu para os Quatro Elementos.
— Ele fez o que qualquer homem honrado faria para proteger sua casa e aqueles que ama. — Passou os braços ao redor do pescoço forte e, emocionada, sussurrou ao ouvido
de Asterius: — Leve-me para casa.
Capítulo 32
Asterius carregou-a pelo jardim. Normalmente, Mikki não gostaria de ser transportada como uma criança, mas não tinha certeza de que teria condições de caminhar sozinha,
pois ainda sentia-se fraca e doente.
E precisava estar nos braços dele. Precisava sentir sua pulsação contra o peito para confirmar a si mesma que continuava viva.
— O Ódio me enganou — disse baixinho, a cabeça recostada no ombro largo.
Os braços de Asterius seguraram-na com mais força.
— É o que os Ladrões de Sonhos costumam fazer. Eles contaminam os mortais até seu veneno distorcer os pensamentos, enfraquecer os sonhos e fazê-los morrer. Não se
castigue por ter sido vítima do que vem destruindo as ilusões dos mortais há eras.
— Pensei coisas terríveis. Senti que estava cheia de... — Mikki estremeceu e não conseguiu continuar.
— Você foi envenenada por ódio, inveja, medo e egoísmo. Não eram seus pensamentos, Mikado; eram apenas sombras de sua mente contaminada. Não deve se punir pela maldade
deles, pois isso seria premiá-los. Se eles continuam afetando sua vida, mesmo depois de terem sido banidos, então não foram derrotados.
— Nunca mais vou permitir que eles me enganem. E jamais entrarei naquela maldita floresta outra vez! — Ela ergueu a cabeça para fitá-lo. — Como pode suportar? Como
pode sair e colher as tramas da realidade, sabendo que eles estão lá fora também, observando e esperando por uma chance de atacar?
— É meu destino combatê-los. Muitos deles são meus velhos inimigos.
— Não tem medo?
— Apenas quando penso no que aconteceria se eu falhasse e permitisse que eles adentrassem o reino de alguma maneira.
— Mas você nunca vai falhar...
— Não. Não posso.
Mikki o observou, preocupada. Asterius parecia exausto, e ela rezou para que ele não tivesse que lutar com os Ladrões de Sonhos tão cedo, ou até que estivesse recuperado.
— Ah, meu Deus... Ponha-me no chão. Tem que voltar e certificar-se de que a muralha das rosas está preservada, e de que nenhuma daquelas coisas permaneceu no reino!
— O reino está seguro. O vento Norte soprou os últimos vestígios de maldade para o fundo da floresta.
— Mas não precisa voltar e verificar se tudo está mesmo no lugar?
— Está tudo certo, Mikado. Quando os Ladrões de Sonhos são enfrentados e derrotados, não costumam atacar tão cedo. Eles sabem que, uma vez que foram reconhecidos,
seu poder de destruir vidas é drasticamente enfraquecido. Vão recuar para lamber suas feridas e planejar um novo ataque para outro dia.
— O Ódio me disse que ele nunca termina.
— É verdade. Devemos sempre nos proteger contra ele.
Mikki lembrou-se de algo que tinha lido uma vez, e recitou as palavras em voz alta:
— “O bem derrotado é mais forte que o mal triunfante”. — Tocou-o no rosto. — Você luta do lado do bem.
— E não vou permitir que o mal triunfe.
— E eu também não vou deixar que ele afete minha vida; ele não vai me derrotar. — Ela deitou-se no ombro largo. — Como impediu que eu morresse?
— Supliquei a Cronos por uma bênção — Asterius contou, calmo.
Mikki tornou a levantar a cabeça.
— Seu pai?!
Ele assentiu em silêncio.
— Falou com seu pai?
— Brevemente.
— Quanto tempo se passou desde a última vez em que falou com ele? — Mikki quis saber, preocupada com a expressão estranha que endureceu o rosto moreno.
— Eu nunca falei com ele antes.
Ela o estudou, desejando poder apagar os séculos de dor e solidão do passado de Asterius e sentindo raiva do Titã arrogante que havia gerado um filho de maneira
tão audaciosa para depois descartá-lo. Não sabendo mais o que fazer, beijou-o suavemente no rosto.
— Obrigada por ter salvado minha vida.
O rosto dele suavizou-se em um sorriso.
— Eu só estava retribuindo um favor, Empousa. Lembre-se de que também me trouxe de volta à vida.
— Verdade. — Ela beliscou-lhe o queixo de leve. — E eu prefiro você assim.
— Porque descobriu que estava cansada de andar e gostou de ser carregada pelo seu Guardião?
Mikki riu.
— Bem, diz a mitologia que o Minotauro era metade touro; mas não creio que os touros sejam animais de carga muito bons... Há boatos de que eles não são dóceis o
suficiente.
— Nesse caso os boatos são a pura verdade — ele concordou, dando-lhe um beijo rápido e intenso que terminou com um rosnado.
Quando chegaram ao covil de Asterius, Mikki estava cansada de ser carregada, embora a caverna oscilasse um pouco sob seus pés.
Ainda mais quando ela percebeu a própria túnica esfarrapada e pegajosa de tanto sangue.
— Vou vomitar até o cérebro se não me livrar disto logo! — resmungou e olhou para seu Guardião numa súplica. — Acho que terá de me carregar escadaria acima até as
piscinas...
Asterius ergueu-a nos braços novamente, mas, em vez de sair da caverna, rumou para o próprio quarto.
— Ei... Sei que minha cabeça ainda não está cem por cento, mas tenho certeza de que está indo na direção errada! Não que eu não queira que você me leve para seu
quarto... Mas só depois que eu me livrar disto tudo.
— Acabamos nos esquecendo de sua turnê pela minha casa, lembra-se?
— Nós não nos esquecemos de nada: fomos interrompidos.
— Então deixe-me mostrar o restante do covil... sem interrupção.
Ele carregou-a através do quarto, depois em direção a uma porta arredondada, a um canto que ela não havia notado antes. Esta abria-se para um túnel iluminado por
tochas, ao final do qual avistou outra porta igual que, observou com surpresa, era emoldurada pela luz solar.
— Sabe de uma coisa? — Mikki fez uma pausa, pensando, enquanto eles aproximavam-se da luz. — Este lugar não se parece em nada com uma toca. É tão confortável e bonito!
Acho que deveria chamá-lo de... — Asterius abriu a porta para um cômodo grande e redondo, cujo teto abria-se para mostrar o céu claro da manhã e permitia que o vapor
de uma banheira cheia de água quente escapasse. — ...paraíso! — ela exclamou, maravilhada.
Ele riu e a pôs no chão outra vez.
Em segundos, Mikki tirou o que restara da túnica e, com um gemido de satisfação, desceu com passos suaves os degraus da piscina, afundando na água deliciosamente
quente. Ouviu Asterius proferindo as palavras mágicas que costumava usar para conjurar as coisas e virou a cabeça a tempo de ver duas cestas surgindo do nada. Uma
delas encontrava-se cheia de garrafas de sabão, toalhas limpas e vários metros de tecido macio para que fizesse outro quitão. A outra, Mikki suspirou, feliz, estava
repleta de comida.
Asterius ergueu uma garrafa de cristal da cesta e sorriu para ela. Mikki sorriu de volta, querendo saber por que, de repente, ele parecia tão tímido.
— O que foi?
— Seu sabão — ele explicou, segurando a garrafa.
— Eu não estava me referindo ao frasco... Só queria saber o porquê dessa sua expressão.
— Eu queria perguntar uma coisa.
— Está com uma cara... — Ela riu. — É impressão minha ou teve alguma ideia? — Sentindo-se renascer na água mineral quente, Mikki abriu um sorriso sexy.
— Eu... gostaria de lhe dar um banho — Asterius murmurou de uma vez.
Mikki ficou chocada diante do profundo rubor que tingiu a pele cor de bronze.
— Eu adoraria que fizesse isso.
Ele caminhou até a beira da piscina de pedra e pousou a garrafa de cristal. Então livrou-se da cuirasse e da túnica curta que usava por baixo.
Mikki adorou observá-lo e ver o corpo forte ficar cada vez mais exposto. Asterius era tão poderoso; uma mistura tão incrível de homem e animal!
Mas não era apenas seu corpo que unia dois extremos. Sua mente também era um misto de ferocidade e compaixão, inocência e sabedoria, características que se mesclavam
para formar um ser extraordinário, diferente de qualquer outro que poderia existir em qualquer mundo.
Estava tão distraída em sua contemplação que apenas quando ele entrou na piscina foi que percebeu: o sangue no corpo de Asterius não tinha vindo apenas das feridas
dela. Os braços fortes estavam cobertos de cortes e marcas de mordidas.
— Eles o machucaram! — Mikki puxou-o para baixo, aflita para mergulhar os ferimentos na água quente e limpa. — Eu sou mesmo uma idiota! Tem alguma bandagem aqui?
Urgh, alguns destes vão precisar de pontos! Não é possível que não haja uma médica neste reino. Vamos limpar esses cortes, depois vou pedir que a chamem e...
Ele segurou-a pelos pulsos.
— Não preciso de nenhuma curandeira.
Ela franziu o cenho.
— Escute, eu trabalhei em um hospital. Ouça bem o que eu digo, você precisa de um médico!
Asterius sorriu e beijou-a delicadamente.
— Sua preocupação aquece meu espírito.
— Que bom. Isso me faz bem. Pois saiba que iria aquecer meu espírito se me deixasse chamar uma médica.
— Mikado, eu sou imortal... Não preciso de médicos. As feridas irão se curar sozinhas.
Ainda franzindo a testa, ela levantou um dos braços musculosos.
— Tem razão! Elas já estão sarando!
— Satisfeita agora?
— Estou perplexa — Mikki confessou —, mas aliviada. — Espirrou água sobre a pele morena, tocando as marcas de mordida recém-curadas e observando enquanto a carne
se refazia. — Existe algum ferimento do qual não pode se recuperar?
— Se você dissesse que não me amava mais, iria me destruir.
Ela encontrou os olhos castanhos.
— Então vai viver para sempre.
Asterius sorriu e apanhou a garrafa de cristal da borda da piscina.
— Deixe-me mostrar o quanto gosto de você, Mikado...
Ela ficou em pé, de modo que a água da piscina só a cobrisse até a cintura. Tomou a garrafa das mãos dele e despejou uma quantidade generosa do líquido viscoso sobre
o pescoço, braços e seios antes de colocá-la de volta na borda. A inebriante fragrância da unção da Empousa mesclou-se sutilmente a seu calor, o que a tornou única.
Devagar, Asterius deslizou as mãos sobre sua pele lisa e macia. Acariciou-lhe o pescoço e os ombros, então tocou-lhe os seios e a carne sedutora do ventre firme.
Em seguida, suas mãos desceram abaixo da cintura delgada, carregando o sabão com perfume de rosas até as coxas de Mikki.
Ela sentiu-se liquefazer com seu calor. Os dedos de Asterius encontraram o caminho para seu âmago, onde ele os usou para acariciá-la com breves movimentos circulares,
depois se afastaram, voltando a provocá-la no ventre e nos seios antes de retornar para seus recantos mais secretos.
Partes adormecidas do corpo de Mikki pareceram ganhar vida, deliciando-se com o calor da água que continuava a afagá-las mesmo quando ele seguia em frente com as
carícias.
Asterius virou-a e, desta vez, ele mesmo derramou o sabão líquido por sua espinha. Com os joelhos fracos, ela inclinou-se sobre a borda da piscina, enquanto mãos
quentes acariciavam-lhe as costas e, em seguida, mergulhavam em conjunto para afagar suas nádegas.
— Lembra-se da última vez em que entrei em seus sonhos?
Mikki sentiu o hálito quente no meio das costas conforme Asterius ficava de joelhos e prosseguia, com mãos diligentes, por toda sua pele.
— Claro que sim! — respondeu com voz rouca. Percebeu as mãos dele deslizando por seu corpo e recostou-se no corpo másculo com um suspiro quando estas subiram por
suas coxas.
— Estávamos em um poço de rosas — a voz grave vibrou em seu ouvido, enviando ondas de prazer. — Eu estava sobre você, e abriu as pernas para mim... — Dedos hábeis
encontraram seu centro, e os carinhos aumentaram. — Eu estava excitado e, ao pressionar o corpo contra o seu, esfregando-o e acariciando-o, pude sentir sua umidade
e calor, bem como quando retesou-se e explodiu de prazer...
Com um grito abafado, Mikki atingiu o clímax rápida e intensamente.
Asterius virou-a para ele, então, e, num movimento rápido, ergueu-a acima da água e penetrou-a enquanto seu corpo ainda pulsava.
Mikki arqueou-se para encontrá-lo, usando a borda da piscina como apoio. As mãos dele agarraram seus quadris e, com um grunhido gutural, Asterius estendeu as garras,
mal controlando a força de suas estocadas, o membro mergulhando dentro dela seguidas vezes.
Mikki não fechou os olhos. Queria vê-lo, assistir à assustadora beleza de seu rosto enquanto ele a amava. Sentia a pele ultrassensível, e ondas de prazer a sacudiam
a cada vez que as garras longas a feriam de leve.
O ruído dos corpos movendo-se em conjunto, somado ao modo como a voz rouca de Asterius repetia seu nome, tornou-se uma erótica sinfonia, e um crescendo de prazer
rompeu por todo seu corpo, tão intenso que beirou a dor...
Lânguida e satisfeita, Mikki desabou sobre ele, respirando com dificuldade. Sorriu, exultante, de encontro ao peito largo, até perceber que não era apenas o cansaço
que o fazia tremer violentamente.
Alarmada, ela recuou, vendo Asterius de olhos fechados e lágrimas escorrendo por sua face.
— Asterius? — Segurou-o pelo rosto. — O que aconteceu?
Ele abriu os olhos e beijou-a em uma palma.
— Nada... Acho que fiquei sozinho por tanto tempo que não estava preparado para a felicidade que me proporcionou. — Tocou as próprias lágrimas, desconcertado, como
se só então houvesse percebido que chorava. — Isso me faz parecer ainda mais tolo.
— Não, meu amor! — Ela sorriu, comovida. — Faz você parecer humano.
Capítulo 33
Asterius e Mikado não deixaram o covil. Comeram e discutiram várias mudanças que Mikki queria implementar no reino.
Assim como delimitar horários para a abertura do portal, de modo que os homens pudessem entrar e sair sem comprometer a segurança. Como o clima vinha ficando cada
vez mais frio com a proximidade do inverno, também decidiram que Floga aqueceria os jardins, mesmo que por pouco tempo, durante a parte mais escura da noite. A mancha-negra,
uma das piores pragas para as plantas, Mikki explicou a Asterius, costumava aumentar no frio; e era de difícil tratamento uma vez que se espalhasse.
Mikki adorava conversar com Asterius, e não demorou muito a perceber por quê: ele a escutava.
Tentou lembrar-se do último homem que a escutara de verdade e não conseguiu. Nenhum tinha demonstrado tanto respeito e interesse por ela como seu guardião. Aquilo
era uma ironia. Um ser que nem era literalmente um homem sabia por instinto o que muitos deles pareciam não ser capazes de apreender: que as mulheres queriam ser
ouvidas e respeitadas. Simples assim.
Asterius a emocionava. Ele era de um encanto do qual ela, sabia, nunca iria se fartar. Amava a alegria que sentia apenas em tocá-lo, em acariciar aquele corpo incrível
e saber que este era dela...
Naquela noite, eles fizeram amor sobre o catre forrado de peles, descobrindo com imensa ternura outros segredos em seus corpos. Mikki ficou deliciada ao perceber
que Asterius era tão sensível que qualquer carícia deixava-o excitado e pronto para ela.
Uma vez saciados, adormeceram nos braços um do outro, sentindo-se seguros de seu amor, e com a certeza de que o dia seguinte eles também passariam juntos.
— Empousa! Tem que vir aqui!
Mikki pensou que estivesse sonhando. Sabia que encontrava-se na cama com Asterius, pois pôde senti-lo retesar-se e erguer-se do catre, mas também ouviu a voz aflita
de Gii. O que a serva estava fazendo no covil de Asterius?!
Então sua mente nublada pelo sono clareou, e ela despertou por completo.
— O que aconteceu? — Asterius indagou em voz alta, vestindo a túnica e prendendo a cuirasse.
— As rosas... — Mikki sentiu a boca seca, e seu estômago se apertou. — Gii, o que aconteceu com as rosas?!
A serva adentrou o quarto, o rosto pálido, e correu até sua Empousa, envolvendo o corpo nu de Mikki no quitão enquanto explicava tudo em frases curtas.
— Os outros Elementos e eu fomos até o portal das rosas ao amanhecer. Queríamos ter certeza de que não haveria nenhum vestígio da violência de ontem para perturbá-la...
— A voz da moça tremeu. — Elas estão morrendo, Empousa. Todas elas!
— As rosas! — exclamou Mikki.
Embora não fosse uma pergunta, Gii confirmou:
— Sim.
— A muralha... ela ainda está intacta? — indagou Asterius.
— Está, e não há Ladrões de Sonhos no reino. Não há ninguém suspeito aqui. Temos certeza de que todos os homens partiram ontem, e nenhum deles foi convidado a retornar.
— Preciso ir — Asterius disse a Mikki.
— Sim, vá... depressa! Estarei bem atrás de você!
Ele fez uma pausa, apenas para tocar seu rosto numa delicada carícia, antes que o som de seus cascos ecoasse nas paredes da caverna conforme batia em retirada.
— Depressa! — Mikki incitou a serva. — Preciso ir para lá também.
Minutos depois, as duas corriam para o jardim.
Mikki sentiu a mudança no instante em que saiu do covil: sua cabeça começou a latejar, e uma onda de náusea subiu-lhe a garganta.
— Mostre-me o caminho mais rápido para o portal! — ela pediu a Gii, e as duas prosseguiram correndo, sem fôlego para falar mais.
As mulheres estavam reunidas em torno das roseiras que cercavam a passagem na muralha, agitando-se como um rebanho de ovelhas assustadas, e Mikki logo compreendeu
por quê. Era pior do que ela imaginara.
Aflita, abriu caminho entre elas, lançando apenas um olhar na direção dos canteiros onde as flores agonizavam. Precisava chegar logo ao cerne da doença que afligira
as rosas tão repentinamente, e sabia que iria descobri-lo no portal.
Passou pelo último grupo de mulheres e estacou. Asterius já encontrava-se sob a passagem, o olhar aguçado estudando a floresta enquanto andava de um lado para o
outro. Os outros três Elementos não o observavam, pois concentravam-se nas flores dos canteiros que ladeavam o portal, os rostos tensos e sem cor. Quando a viram,
correram a seu encontro.
— Empousa, que coisa terrível! — sussurrou Aeras.
— O que aconteceu com elas? — Nera indagou, mantendo a voz baixa.
— Não sei. Não posso dizer ainda. Abram espaço e deixem-me examiná-las. —Mikki sentiu a pressão do medo quase tanto quanto a doença das rosas. — Façam com que todas
as mulheres recuem.
Todos os Elementos, exceto o elemento Terra, correram para falar com os diversos grupos que observavam o cenário, perplexos.
— Não peça que eu me afaste também — Gii declarou. — Parece estar prestes a desmaiar e quero ficar a seu lado. Se cair, estarei por perto para segurá-la.
— Eu também — reforçou Asterius, juntando-se às duas.
— Foram os Ladrões de Sonhos? — Mikki perguntou.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Não há sinal deles. Não dentro do reino, tampouco na floresta, até onde posso ver ou sentir. — Asterius olhou as rosas ao redor. — Mas, pelo visto, eles não precisam
estar presentes para causar destruição.
Mikki respirou fundo.
— Vamos ver o que posso fazer para consertar isso tudo.
Gii e o Guardião a acompanharam enquanto ela movia-se lentamente de canteiro em canteiro, examinando cada flor.
Mas logo Mikki esqueceu-se de que eles estavam por perto. O estado das rosas deixou-a arrasada. Ela nunca tinha visto tal devastação. As flores pareciam ter sido
atacadas por uma mistura de ferrugem e cancro, e depois queimadas de dentro para fora. As folhas estavam enrugadas e cobertas por fungos de uma espécie que ela não
conhecia. Eram pegajosos e cheiravam a carne podre. As hastes dos arbustos encontravam-se enegrecidas, com partes inchadas tal como artrite nas juntas de uma idosa.
Os botões, murchos e do tom roxo dos hematomas.
Endireitou o corpo após inspecionar outro arbusto morto e olhou o restante dos jardins com um calafrio. A ferrugem espalhara-se como uma onda venenosa. Aquilo não
era normal. Certamente a peste fora levada para o reino pelos Ladrões de Sonhos. E algo lhe dizia que se propagara por meio da nuvem vermelha em que cada criatura
do mal tinha se dissolvido. Pelo visto, elas não haviam sido exterminadas.
Na verdade, não acreditava que criaturas como aquelas pudessem ser eliminadas. O Ódio, o Ciúme, o Medo e o Egoísmo eram emoções que sempre pairavam sobre a humanidade,
esperando por sua chance de atacar e destruir seus sonhos. Podiam ter sido banidos do reino, mas não a tempo de serem impedidos de espalhar seu mal.
E ela não fazia ideia de como lutar contra o que infectara suas rosas por intermédio de tais monstros.
— Empousa? — Gii chamou timidamente. — O que podemos fazer para salvá-las?
Mikki olhou do elemento Terra para seu amante. Ambos a fitavam com preocupação; contudo, ela também podia ver a esperança em seus olhos e a confiança que tinham
nela.
— Eu... preciso pensar. Fiquem aqui. Quero ficar sozinha por um momento — pediu, e afastou-se deles.
Deixou os canteiros que agonizavam e desceu o caminho de mármore que levava ao portal das rosas, pensando em sentar-se debaixo do antigo carvalho e elaborar um plano.
Qualquer plano.
Um toque de cor chamou sua atenção, e ela parou para olhar. Flores cor-de-rosa saudáveis e em plena floração enchiam duas roseiras em meio a um canteiro onde inúmeras
outras secavam e pereciam. Correu para os arbustos, aspirando o perfume doce e acariciando o verde vibrante de suas folhas, como se fossem filhas pródigas e recém-chegadas.
Rosas Salet, reconheceu de imediato. Com suas pétalas duplas e floração abundante, eram uma de suas Old Garden favoritas. Mas por que aqueles dois arbustos tinham
sido poupados daquela praga mortal?
Olhou ao redor, buscando outros pontos de destaque em meio ao mar de podridão e doença. Avistou um vermelho, próximo ao viveiro do portal das rosas, e caminhou rapidamente
até lá. Três arbustos que beiravam o canteiro também encontravam-se em plena floração. Sua cor e perfume intensos identificavam a flor como uma Chrysler Imperial.
O que aqueles dois tipos de rosa possuíam em comum? A Chrysler Imperial era uma Rosa-Chá Híbrida, e a Salet, uma variedade de Old Garden. Uma era vermelha, a outra,
rosa. E elas não encontravam-se próximas umas das outras. Mikki olhou para as flores cor-de-rosa e saudáveis que floresciam alegremente, alheias à destruição a seu
redor, e estremeceu. Aquele não era o canteiro de rosas Salet sobre o qual os Ladrões de Sonhos a tinham forçado a se deitar? Eles haviam pretendido estuprá-la ali.
Por sorte, Asterius chegara e...
Segurou o ar nos pulmões. Sabia por que aquelas rosas tinham sobrevivido e se desenvolvido em meio a tantas outras que sucumbiam. Sabia o que aqueles cinco arbustos
possuíam em comum... Seu sangue tocara cada um deles.
Cambaleou até um banco próximo e sentou-se antes que seus joelhos cedessem. Estava no canteiro de rosas Salet quando sofrera o golpe no ombro.
Tocou-o, lembrando-se de como sangrara em profusão.
Pouco depois, já perto do portal, o Ódio cortara-lhe a veia da garganta...
Mikki fechou os olhos. Lembrava-se vagamente de ter ficado jogada no chão, metade do corpo sobre o canteiro, conforme o sangue fluía de seu corpo.
E seu sangue havia salvado as rosas. Ele as tinha protegido do veneno dos Ladrões de Sonhos.
Afundou o rosto nas mãos e tentou compreender a enormidade de sua descoberta.
Meu sangue as salvou! As palavras ecoavam em sua cabeça.
— Mikado, as mulheres aguardam suas instruções.
Ela ergueu o olhar, piscando na tentativa de clarear a visão. Asterius ajoelhou-se ao lado do banco e enxugou suas lágrimas.
— Confie em si mesma, meu amor. Vai descobrir uma maneira de curá-las.
Mikki mirou os olhos escuros e expressivos, e soube que o que ele dizia era verdade. Sabia como curar as rosas e confiava em si própria.
Agora, tudo o que precisava fazer era encontrar forças para agir.
— Vou ao Templo de Hécate para falar com as mulheres. Peça aos Quatro Elementos que as reúnam e me encontrem lá.
— Sim, minha Empousa — concordou Asterius. Então se curvou, tomou sua mão e a beijou delicadamente.
A Empousa postou-se no templo alto, com os Quatro Elementos formando um semicírculo atrás dela. Asterius se pôs por trás de todas, próximo da chama ardente da deusa.
Mikki olhou para o imenso grupo à sua frente. As mulheres permaneceram em silêncio, com uma expressão grave de preocupação e medo nos rostos, a atenção voltada para
sua Sacerdotisa.
Ela ergueu o queixo e respirou fundo, projetando a voz.
— Temos muito trabalho a fazer. Precisamos nos concentrar e agir rápido. A praga que está matando as rosas tem de ser detida, e eu lhes dou minha palavra de que
sei como fazer isso. — Fez uma pausa quando um suspiro de alívio ondulou através da multidão. — Não iremos nos dividir em quatro grupos desta vez. Todas nós precisamos
nos concentrar na área próxima ao portal das rosas e começar a trabalhar a partir de lá. Em primeiro lugar, quero que tragam para os jardins baldes do mais forte
vinho que houver no reino. — Mikki viu os olhares de surpresa no rosto das mulheres e quase sorriu. — O que vão fazer é podar todas as rosas doentes. Em seguida,
amontoem suas hastes do lado de fora da muralha das rosas, onde Floga irá queimá-las. Conforme forem passando de arbusto em arbusto, não se esqueçam de mergulhar
suas lâminas nos baldes de vinho. Ele irá ajudar a impedir que a doença se propague para partes das plantas que não tenham sido infectadas. Suas facas devem estar
bem afiadas, e precisam fazer os cortes na diagonal. — Percorreu todo o grupo com o olhar, buscando a confiança nos rostos das mulheres.
— Alguma pergunta?
Ninguém falou.
— Então, vamos ao trabalho.
As mulheres partiram em grupos rapidamente, dispostas a reunir as ferramentas de corte e vinho, e Mikki virou-se para suas damas de companhia.
— Eu não estava exagerando. Temos que trabalhar muito e rápido. Essa praga não está se alastrando a um ritmo natural. — Seus olhos encontraram os de Asterius nas
sombras.
— Asterius, embora eu não goste da ideia de abrir esse maldito portal, meus instintos me dizem que queimar as rosas doentes dentro do reino seria um erro terrível.
— Pois siga seus instintos, minha Empousa. Estarei por perto para guardar a passagem.
— Eu sei que sim. Por isso mesmo não tenho medo de abri-la. — Ela sorriu para as servas, lutando para conter as lágrimas que ameaçavam escorrer por sua face. — E
sei que cada uma de vocês vai fazer o que for preciso para ajudar a curar as rosas. Tenho orgulho de todas e acredito em sua capacidade. O Reino das Rosas vai prosperar
novamente, eu prometo.
— Também acreditamos na sua força, Empousa — afirmou Gii. Então caminhou até Mikki e a beijou no rosto antes de fazer uma reverência e afastar-se correndo em direção
aos jardins.
— Confiamos em você, Empousa — reforçou Aeras, e também a beijou antes de curvar-se numa mesura graciosa e partir.
O elemento Água avançou a fim de ter sua chance de beijar a Alta Sacerdotisa, porém Mikki a deteve e fez um gesto com a cabeça na direção da construção maciça que
borbulhava ao lado do Templo de Hécate.
— Nera, eu me lembro de alguém ter dito que esse chafariz é a principal fonte de irrigação do reino. Isso é verdade?
— Sim.
— Os corredores de água chegam mesmo a todas as roseiras?
— Sim, Empousa. — Nera sorriu e continuou: — Antes de sua ordem para que meu elemento visitasse o reino todas as manhãs, raramente chovia aqui.
Mikki devolveu o sorriso caloroso da serva.
— Obrigada... É bom saber.
— Vamos apoiá-la, Empousa — emendou Nera, e a beijou, partindo logo depois.
— Amamos você, Empousa — garantiu Floga. Porém, hesitou antes de beijá-la e fazer a reverência. Uma lágrima correu por seu rosto. — Perdoe-me por ter duvidado de
sua capacidade. Devido a meu elemento, às vezes sou muito impulsiva e passional.
Mikki a abraçou.
— Não há nada para perdoar — falou baixinho.
Quando ficaram a sós, Mikki foi até Asterius e deixou-se abraçar.
Apenas por um momento, tentou absorver sua força e amor, deliciando-se com a paz que era encontrar o ser ao qual estava destinada.
Mas não permitiu que ele a abraçasse por muito tempo. Não podia se dar a esse luxo naquele momento.
O tempo surpreendeu Mikki, passando devagar. Talvez porque o trabalho de poda das rosas podres e doentes, e de carregá-las para a pira, do lado de fora da muralha,
fosse penoso e deprimente.
Ou talvez porque não conseguisse parar de pensar no que o futuro lhe reservava.
De qualquer forma, várias eternidades pareciam ter se passado naquele dia interminável. Entrara num ritmo tão hipnótico de cortar e depois mergulhar a lâmina no
vinho, cortar e mergulhar... que ficou surpresa ao olhar para cima e ver que o céu tinha escurecido o bastante para que Floga acendesse as tochas por toda a extensão
da muralha das rosas.
— Gii? — ela chamou o elemento Terra, que correu para seu lado sorrindo, embora tivesse os olhos marcados por sombras e os braços arranhados pelos espinhos. — Isso
é tudo o que podemos fazer hoje. Oriente as mulheres a levar o que cortaram para o lado de fora do portal, e vamos descansar.
— Sim, Empousa — aquiesceu a serva, parecendo aliviada.
Mikki não podia culpá-la. Seus ombros doíam e suas mãos estavam machucadas e doloridas devido ao uso da faca. E isso porque esta encontrava-se bem afiada. Um grupo
de mulheres passara o dia não fazendo outra coisa além de afiar as lâminas.
Olhou para a que ela usava. Cuidadosamente, mergulhou-a no balde de vinho e, em seguida, limpou-a na grama antes de escondê-la na base da roseira que acabara de
podar.
— As mulheres estão terminando suas tarefas, conforme ordenou, Empousa.
A voz de Gii a fez pular, culpada, e Mikki disfarçou com um sorriso. Segurou o braço da serva.
— Caminha um pouco comigo?
— Claro! — A moça sorriu de volta.
Seguiram juntas e em silêncio, tomando um caminho sinuoso em direção ao portal das rosas. Mikki ficou satisfeita com o que viu nos canteiros. Os arbustos doentes
tinham sido bem podados. Pareciam vazios agora, mas ela sabia que, na primavera, voltariam a crescer e a ser ainda mais saudáveis e resistentes do que antes. As
rosas eram verdadeiras sobreviventes; não as flores delicadas e frágeis que muitos acreditavam que fossem.
Disso ela entendia melhor do que ninguém. Conhecia sua própria força e resiliência. Muitas vezes as pessoas tinham se enganado com ela, julgando-a apenas um rosto
bonito e nada mais, ou pior, considerando suas opiniões inconsequentes porque ela era apenas uma mulher...
Pensou em Asterius. Ele também fora mal interpretado, e exclusivamente por conta de sua aparência. Não admirava que eles se dessem tão bem.
— Você estava errada sobre ele — falou de súbito.
Gii a fitou, surpresa com as palavras da Alta Sacerdotisa.
— Ele quem, Empousa?
— O Guardião. Ele não é um animal e não merece ser tratado como um.
A serva ficou em silêncio.
— Não sei o que aconteceu antes, não sei o que ele fez e, neste momento, nem quero saber — prosseguiu Mikki. — Mas deixe-me dizer o que descobri: o Guardião salvou
este reino ontem, quando meu erro poderia tê-lo destruído. E faria o mesmo hoje, amanhã, todos os dias, por toda a eternidade. Ele é honrado e gentil, Gii. Sabia
que também é um verdadeiro artista?
— Não.
— Pois, é.
— Ele a ama — a moça falou, hesitante.
— Eu sei. E eu o amo também. — Mikki respirou fundo. — Por isso quero que me prometa uma coisa: que não vai mais rejeitá-lo e irá tratá-lo melhor. Ele... — Fez uma
pausa, lutando contra uma onda de emoção. — Ele é muito sozinho, e não quero que passe a eternidade dessa maneira. Se mudar o modo como reage a ele, Gii, todas as
servas que virão depois de vocês quatro farão o mesmo. Faria isso por mim?
O elemento Terra parou e fitou os olhos da Sacerdotisa. O que viu a fez prender a respiração.
Então, lentamente, Gii assentiu com um gesto de cabeça.
— Sim, Empousa. Tem minha promessa.
— Obrigada, Gii. Agora, vamos sair daqui... Foi um dia longo — Mikki falou com uma alegria forçada.
Chegaram à muralha das rosas a tempo de ver Asterius fechando o portal, e Mikki suspirou, aliviada.
Por algum tempo, os Quatro Elementos, o Guardião e sua Empousa ficaram junto das habitantes do reino, assistindo às rosas doentes queimarem na borda da floresta.
Logo as mulheres começaram a se dispersar em pequenos grupos, despedindo-se de Mikki com um ar cansado, até que apenas as quatro servas permaneceram em sua companhia.
— Trabalharam muito bem hoje — Mikki as elogiou, fitando cada um delas nos olhos. — Quero que saibam que estou orgulhosa de vocês.
As moças sorriram para sua Empousa, exaustas.
— Podem dormir até depois do amanhecer. Todas precisamos de descanso. Depois do café, encontrem-me no Templo de Hécate e retomaremos o mesmo trabalho que fizemos
hoje: a poda e a queima das rosas doentes. Mas acredito que elas estejam melhores amanhã.
— É o que seu instinto lhe diz? — Gii indagou, esperançosa.
— Sem sombra de dúvida. — Mikki sorriu a despeito do aperto que sentia no peito. Então, impulsivamente, abraçou cada uma delas. — Se precisarem de mim, estarei na
casa do Guardião — disse, enfatizando a palavra “casa”, e decidida a nunca mais chamá-la de covil. — Boa noite — desejou, voltando-se para se juntar a Asterius,
onde ele a esperava nas sombras.
— Durma bem, Empousa. — Gii hesitou só um momento e depois acrescentou: — Boa noite, Guardião.
Mikki encontrava-se de frente para ele, e viu o olhar de surpresa que estampou seu rosto forte.
— Durma bem, Terra — Asterius respondeu, um pouco tenso.
Então, cada uma das outras três servas o cumprimentou, o que o deixou ainda mais perplexo.
— Em todos os séculos em que fui o guardião deste reino, isso nunca aconteceu.
— Eu disse que ia mudar as coisas por aqui... — Mikki passou o braço pelo dele. — Vamos para casa.
Capítulo 34
Mikki esticou-se ao lado de Asterius na cama, sentindo a maciez das peles grossas contra sua pele suada. Distraída, traçou um dedo ao longo dos músculos do abdômen
firme de seu amante, os quais saltavam mesmo com ele deitado ali, completamente relaxado e com os olhos fechados.
Tinham feito amor duas vezes. Uma delas, na piscina de banho novamente. Havia sido rápido, porém intenso, e Mikki sabia que suas nádegas ainda mostravam as marcas
que ganhara por conta das garras longas de Asterius durante o clímax de sua paixão...
Na segunda, o ato fora longo, lento e suave. Ele a levara ao ápice duas vezes, usando apenas a língua antes de penetrá-la devagar e preenchê-la até sua total satisfação.
Mikki não conseguia pensar em abandoná-lo. Não podia conceber não sentir seu toque de novo, não falar com Asterius novamente, ou nunca mais ver a alegria e admiração
em seus olhos a cada vez que ela o abraçava.
Assim, recusou-se a pensar naquilo. Faria o que tinha de fazer quando chegasse a hora. Até então, não perderia as poucas horas que ainda possuía com ele lamentando
o futuro.
— Eu quero pintar você.
Mikki deixou escapar uma exclamação.
Com os olhos ainda fechados, o peito largo de Asterius vibrou com uma risada baixa, e ela o socou na barriga de leve.
— Pensei que estivesse dormindo!
— Não consigo dormir com você me tocando assim.
— Ah, desculpe... Eu não sabia. — Mikki começou a recuar, contudo ele a segurou pelo pulso.
— Não me importo. — Soltou-a e sorriu quando ela continuou a acariciá-lo. — Mas ainda quero pintá-la.
— Você já me desenhou.
— Sim, mas quero pintá-la também. Assim como está agora... Quero sua imagem nas paredes do meu quarto.
Ele não disse “para que eu possa me lembrar de você no dia em que estiver velha ou morta”, porém a mente de Mikki gritou as palavras. Asterius poderia precisar da
pintura para recordar-se dela muito antes do que qualquer um deles esperava.
Afastou os pensamentos mórbidos, mas, no fim, quis que ele a retratasse, para que pudesse capturar algo do que eles tinham sido como lembrança.
— Quer fazer isso agora?
Asterius abriu os olhos e a estudou.
— Sim — aquiesceu de bom grado. — Quero pintar seu retrato esta noite.
Mikki observou-o quando ele saiu da cama e começou a apanhar potes e pincéis dos nichos escavados nas paredes da caverna, e também a acender tochas que deixaram
o quarto ainda mais vivo com calor e luz. Asterius não se preocupou em vestir-se com mais do que um pano de linho, que amarrou a esmo em torno dos quadris, mais
uma vez, ela se viu abalada pela beleza da força bruta e selvagem de seu corpo. Ele era homem, animal e deus, tudo em um só... Um verdadeiro milagre. E tudo o que
ela queria na vida era passar o restante de seus dias a seu lado.
Quando Asterius já havia preparado as tintas e empunhava um pincel, Mikki sentou-se e sorriu.
— Como quer que eu pose?
Ele caminhou até o catre e a virou suavemente, de modo a deitá-la de lado, como ela estivera junto dele. Espalhou seus cabelos em volta dos ombros, tal qual um véu
de cobre sobre sua pele clara. Em seguida, fez com que deitasse a cabeça sobre um braço e apoiasse uma palma sobre a cama, como se tivesse acabado de acariciá-lo.
Então puxou a coberta que a ocultava da cintura para baixo, deixando-a nua. Mikki levantou uma sobrancelha, e os lábios dele inclinaram-se num sorriso.
Está com frio?
— Se eu estiver, vai me aquecer?
A risada de Asterius vibrou entre eles.
— Quando eu terminar. Quietinha, agora... Apenas mantenha-se deitada e feche os olhos. — Ele voltou para as cumbucas de barro e pincéis.
— Tenho que fechar os olhos? Preferiria ficar vendo você.
Asterius a fitou por cima do ombro.
— É sempre uma surpresa saber que gosta de me olhar.
— Eu gostaria de fazer mais do que apenas olhar... — Ela sorriu, sedutora.
— Não se mexa — ele repreendeu, contudo seu sorriso foi claramente indulgente.
Com gestos rápidos e firmes, Asterius começou a pintar acima da gravura do Tulsa Rose Garden, fazendo com que o jardim ficasse em segundo plano. Como se sobrepusesse
uma nova visão da realidade.
— Posso falar com você enquanto faz isso ou precisa se concentrar? — Mikki murmurou, impressionada com a esplendorosa versão dela mesma que ia tomando forma.
— Claro que pode. Mas eu não posso responder. Às vezes me esqueço de onde estou quando pinto.
— No meu antigo mundo, chamam isso de “entrar em Alfa”. Eu li um artigo a respeito uma vez. Acontece muito com artistas, autores e atletas. Tem a ver com endorfinas
cerebrais. Se entra em Alfa, é porque está fazendo algo certo.
Asterius resmungou qualquer coisa.
— Sempre entra-se em Alfa quando pinta?
— Acho que sim. — Ele apertou os olhos para estudá-la, depois virou-se para a parede da caverna e desenhou a linha longa e curva de sua cintura, quadril e perna.
Mikki o observou, pensando em seu talento e na beleza que parecia criar com tanta facilidade, mesmo tendo sido um pária durante séculos.
Por favor, Gii, mantenha sua palavra.
Tratou de afastar a mente da promessa da serva, com medo de que Asterius analisasse sua expressão e fosse capaz de ler seus melancólicos pensamentos. Precisava pensar
nele como ele havia estado pouco antes: apaixonado, carinhoso, amoroso e cheio de surpresas, assim como nas pinturas requintadas que podia produzir.
O que a fez lembrar-se de uma coisa...
— Asterius, quem é a mulher que desenhou na parede da sala?
A mão dele parou.
— Pasífae, minha mãe... — ele respondeu, sem olhar para ela.
— Eu imaginei — ela murmurou, e era verdade. Asterius não acrescentara a imagem da mulher à parede como um troféu. Não faria isso. — Ela é muito bonita.
— Ao menos é como eu me lembro dela.
Mikki quis lhe pedir que se lembrasse dela assim, tão bonita, também. Que se esquecesse de seus defeitos e da dor de sua despedida no momento em que ela fosse embora.
Que se lembrasse apenas do quanto eles haviam se amado.
Mas não podia. Tudo o que podia fazer era esperar que, quando chegasse a hora, ele a perdoasse por ser mortal.
Fechou os olhos, com medo de que, se continuasse a fitá-lo, fosse deixar escapar o que estava pensando, admitir seu sofrimento e suplicar que ele a ajudasse a descobrir
outra maneira de sair daquela situação.
De alguma forma, Mikki adormeceu. E soube disso apenas porque, ao abrir os olhos, o quarto encontrava-se bem mais escuro e Asterius também dormia a seu lado.
Ficou ali por alguns instantes, ouvindo sua respiração profunda e regular. Então, bem devagar, saiu do leito. Em silêncio, vestiu a túnica que havia descartado.
Não olhou para a parede até ter o tecido bem preso ao ombro. Quando o fez, levou a mão à boca para não soltar uma exclamação.
Asterius a fizera parecer uma deusa! Ele a pintara dormindo, com um ligeiro sorriso nos lábios, como se estivesse tendo um lindo sonho. Sua pele parecia palpável,
seu corpo, exuberante e convidativo.
E ele não a tinha retratado deitada no catre. Ele a pintara dormindo em uma cama de pétalas de rosa... Mais especificamente, de rosas Mikado.
Mikki virou-se para a cama e o fitou, desejando poder acordá-lo e fazer amor com ele.
Mas não podia correr esse risco. Precisava verificar as rosas.
Se meus instintos estiverem errados, prometeu a si mesma, eu vou voltar, acordá-lo e fazer amor com ele durante toda a manhã.
Sem olhar para o amante de novo, saiu do quarto pé ante pé.
O sol ainda não havia nascido, porém, a Leste, o céu começava a trocar o negro da noite por um cinza que logo daria as boas-vindas ao amanhecer. Sentiu a grama fria
e úmida sob os pés descalços enquanto contornava a base da falésia rumo aos degraus que a levariam além das piscinas quentes, em torno da sacada e, em seguida, para
o centro dos jardins.
Mikki não se permitiu distrair. Correu escada acima, mal olhando para as piscinas que soltavam vapor, não querendo se lembrar de como tinha sido maravilhoso mergulhar
nelas na companhia de suas servas e de como estava ansiosa por fazê-lo novamente.
Sua varanda encontrava-se vazia, assim como seu quarto. Porém, avistou o fogo queimando na lareira e um candelabro aceso ao lado da cama. Mikki mordeu o lábio e
desviou o olhar do cenário acolhedor. Desceu a escada e entrou no jardim. Escolheu o caminho que a levaria mais rápido até o centro do reino, e ao templo e à fonte
que a aguardavam lá, tomando o cuidado de manter os pensamentos nas rosas e longe dos Elementos ou de Asterius. Não queria que eles entendessem mal e pensassem que
ela os estava invocando. O que precisava fazer, teria que fazer sozinha.
E foi fácil manter-se concentrada nas rosas. Elas pareciam consumi-la. Deus, estava sentindo-se muito mal! E quanto mais perto chegava do centro do reino, pior ficava.
Por duas ou três vezes, Mikki parou para inspecionar os canteiros de rosas que, horas antes, tinham reagido aos cuidados e à fertilização proporcionados por ela
e as outras mulheres. Agora estas encontravam-se enegrecidas por conta da ferrugem espalhada pelos Ladrões de Sonhos e cheiravam a morte.
Seus instintos estavam certos, mas era ainda pior do que ela havia imaginado. A praga espalhara-se com uma velocidade inacreditável. Nenhuma doença mortal poderia
ter dizimado um jardim como aquele.
Mas aquela peste não era mortal, Mikki se lembrou. Era a manifestação do mal. E sua intuição lhe dizia que existia apenas uma maneira de combatê-la.
O Templo de Hécate surgiu à sua frente como um sonho iluminado por tochas, e o som das águas da fonte foi como uma mágica trilha sonora em seus ouvidos. Não parou
ali, contudo. Continuou andando até que as luzes que iluminavam a muralha das rosas brilharam diante dela.
Foi fácil encontrar os arbustos que seu sangue havia tocado. Eram a única cor em meio às trevas, à morte e à doença.
Eu estava certa. Queria não estar, mas estava.
Desolada, Mikki refez o caminho de volta ao templo, parando apenas para apanhar a lâmina recém-afiada que tinha escondido na base de uma roseira. Subiu os degraus
do templo, então, e parou diante da chama do espírito.
— Hécate? — chamou baixinho, os olhos fixos no fogo alaranjado. — Sei que está distante de seu reino, porém espero que ainda esteja ligada a ele e a mim o suficiente
para que, de alguma forma, seja capaz de me ouvir. Preciso falar com você antes de dar fim a isto tudo... Quero que saiba o quanto amei estar aqui. Pela primeira
vez em minha vida, sei que estou no lugar certo. Os Quatro Elementos são maravilhosos, principalmente Gii. Se puder, por favor, diga a elas que sou muito agradecida
por tudo o que fizeram por mim. — Respirou fundo e enxugou as lágrimas silenciosas que escorriam-lhe pelo rosto. — Eu amo Asterius. Você na certa não gosta disso,
mas disse para que eu seguisse meus instintos... e tudo dentro de mim me levou a ele. Ele não é nenhum animal, você sabe. Asterius precisa do que todos nós precisamos:
de aceitação e de alguém para amar. — Mikki precisou parar e pressionar a mão contra a boca para reprimir um soluço. Quando conseguiu controlar as emoções, continuou:
— Estou fazendo isto por ele. Por Asterius, pelas meninas e pelas Tecedoras de Sonhos. Agora compreendo, finalmente, a verdadeira razão de eu estar aqui. Eu vim
pelas rosas, pois posso salvá-las. Não tenho escolha. Vi o que existe na floresta e não posso deixar aquelas criaturas destruirem tudo o que eu amo. — Olhou para
o fogo, desejando que este fosse mais eloquente, desejando ter mais tempo para aprender palavras especiais para as orações e rituais, de forma a fazer aquilo melhor.
— Quando eu me comprometi com você, fiz isso com duas palavras: “amor” e “confiança”. São esses sentimentos que me regem aqui. O que eu fizer, faço de bom grado,
pois quero preservar o amor que encontrei neste reino. Acredito que estou fazendo a coisa certa porque, por meio desse amor, aprendi a confiar em mim mesma, em acreditar
em meus próprios instintos, intuição e julgamento. Então, se puder, Hécate, peço que fique comigo agora... Assim seja — sussurrou com voz embargada.
Decidida, Mikki deixou o templo e aproximou-se da fonte cuja água alimentava todo o reino. O gracioso chafariz era realmente muito bonito, com suas bacias de mármore
e valas que espalhavam-se pelos jardins.
Mergulhou a mão na água e ficou surpresa com seu calor.
Apenas uma estranha coincidência, pensou, antes de tirar a túnica, dobrá-la com cuidado, depois colocá-la no chão a seu lado.
Não. Não existem coincidências aqui. Posso considerar isto como um presente de despedida da deusa.
Nua, sem nada nas mãos exceto a lâmina afiada, Mikki entrou na fonte. A água deu-lhe boas-vindas e ela se sentou, acomodando-se confortavelmente na larga piscina,
a qual era funda o suficiente para que ela ficasse coberta quase até os ombros pelo líquido claro e quente.
Acabe logo com isto. Vai doer só por um instante.
Ergueu o punho esquerdo e pressionou a lâmina contra a pele. Fechou os olhos e cortou-se, prendendo a respiração com a súbita dor. Então mudou de mão. Desta vez
foi mais desajeitada, porém não menos eficiente.
Deixou cair a lâmina ao lado da fonte. Estremeceu ao submergir os pulsos, mas tinha razão. O dor não foi tão ruim e nem durou muito.
Descansou a cabeça contra a borda da piscina. Olhando para o céu, pensou como era bom que a lua houvesse acabado de se pôr e o sol ainda não tivesse nascido.
Hécate... Deusa da Lua Negra.
Talvez a ausência de luz no céu fosse um sinal de que a divindade aprovara seu sacrifício.
Ela havia feito a coisa certa. As rosas sobreviveriam. Os sonhos da humanidade estariam seguros, assim como seu amor.
Fechou os olhos. Estava com tanto sono, e a água era tão confortável... suave... como uma imensa cama de plumas... uma balsa em um lago quente de verão... os braços
de sua mãe quando ela era uma menininha assustada depois de um sonho ruim.
Suspirou. Não deveria haver nenhum sonho ruim. Deveria haver apenas amor, beleza e rosas.
Não estava com medo, mas sentiria falta de Asterius.
Conforme sua mente foi escurecendo devagar, o pensamento final de Mikki foi o quanto ela o amava.
Asterius acordou de repente. Alguma coisa estava errada.
Espantou o sono como sempre fazia e se sentou, já procurando pelas roupas.
Então, pensando que deveria acordar Mikado, virou-se e...
Ela não estava lá.
A princípio, isso não o incomodou. Mikki podia estar na sala de banho.
Vestiu a túnica e cruzou o túnel dentro da caverna, porém ela não encontrava-se por ali também.
Um pressentimento o fez apertar o passo enquanto fazia o caminho de volta para o quarto, depois para a sala um pouco mais além.
Mikado não encontrava-se em lugar algum.
Deixou o covil enquanto ainda prendia a cuirasse. O sol já havia nascido, mas ainda era madrugada e uma brisa excepcionalmente quente soprava.
Parou, aspirando o ar. Sim, ele estava certo... O vento trazia com ele o aroma rico e inebriante de rosas florescendo.
Aumentou o ritmo, e logo adentrou os jardins. Tudo ali encontrava-se em flor. Nuvens de cor preenchiam os canteiros, como se a deusa tivesse apanhado um pincel divino
e repintado todo seu reino com vida e saúde.
Mas em vez de sentir alívio e felicidade, a preocupação abateu-se sobre Asterius e ele correu, deixando seu instinto guiá-lo.
Avistou o Templo de Hécate no mesmo momento em que ouviu o primeiro grito de horror. O som foi como um punhal gelado entrando em seu coração. Outro grito seguiu-se
ao primeiro, depois outro e mais outro, até que os jardins pareceram sacudir com luto e lamentação.
Não! – sua mente gritava, embora ele já soubesse o que estava prestes a descobrir.
Voou até o templo. Os Quatro Elementos encontravam-se em pé ao lado da fonte, agarradas umas às outras e chorando copiosamente. No meio delas, ele avistou os cabelos
molhados cor de cobre e um lado da face pálida. Devagar, como se estivesse atravessando um pântano de lama e areia movediça, aproximou-se do chafariz. Era ela, claro.
Mikado estava morta.
Asterius, o Guardião do Reino das Rosas, caiu de joelhos e rugiu sem parar sua dor. Uma a uma, lideradas por Gii, as servas aproximaram-se dele e colocaram as mãos
em seus ombros e, unidos pelo pesar, choraram por sua Empousa.
Parte 3
Capítulo 35
Deus, sua boca estava seca! E ela se sentia uma merda, concluiu Mikki. Tentou virar-se de lado, mas estava fraca demais. Tudo o que conseguiu fazer foi esticar-se
um pouco e deixar escapar um gemido abafado.
— Cacete! Ligue para o 911, ela está viva!
Ligue para o 911? Não havia telefones no Reino das Rosas! Muito menos alguém que dissesse “cacete”!
Mas, então, que cacete?
Tentou mover-se de novo e, desta vez, sentiu mãos fortes segurando-a no lugar.
— Não tente se mexer, moça! Vai ficar tudo bem... Eu já chamei ajuda. Aqui! — O homem gritou. — Traga os paramédicos aqui!
Mikki ouviu passos rápidos e pesados, acompanhados por uma voz vagamente familiar.
— Cristo, é a Mikki! Ah, merda, olhe todo esse sangue!
Sua respiração começou a sair em espasmos, porém Mikki reconheceu a voz. Era Mel, o guarda de segurança do Roseiral de Tulsa.
Mas não podia ser Mel; ela não podia estar no roseiral! Ela...
Céus! Havia se esquecido. Ela estava morta!
— Mikki, calma! Os paramédicos estão aqui. Vai conseguir!
Ela tentou dizer que não queria. Que sua intenção fora salvar as rosas, e a única maneira que podia fazer isso era lhes dando seu sangue.
A droga era que aquele reino era grande demais, e algumas gotas em um balde não dariam conta dele.
Mas não podia falar. Sua mente continuava funcionando, contudo seu corpo estava pesado e parecia nem ser dela.
E estava molhada... o que fazia sentido porque devia estar na fonte.
— Muito bem, vamos virá-la no três. Um, dois...
Viraram-na de costas. Mikki piscou, tentando clarear a visão turva. Era de manhã e, pelo que ela podia ver do céu por sobre os ombros dos paramédicos, o sol tinha
nascido havia pouco tempo.
Seu olhar mudou para um ponto à direita, e ela conseguiu virar a cabeça para o lado, a fim de focar melhor a vista. Era um enorme pedestal de pedra... bem mais familiar
do que seu velho amigo segurança. Era a base que apoiava a estátua do grande Guardião.
Só que agora esta encontrava-se vazia.
Mikki teve vontade de gritar, mas não conseguiu.
Então, tudo escureceu.
— Parece melhor hoje. Como está se sentindo?
— É uma questão profissional, um teste ou está preocupada mesmo? — Mikki indagou, sarcástica.
Nelly se retesou.
— Eu não mereço isso.
Mikki mordeu o lábio e estendeu a mão para apertar rapidamente a da amiga. Não era justo estender sua amargura a Nelly. Não era culpa da moça que nada que pudesse
ser feito ou dito fosse chegar perto de fazê-la sentir-se melhor.
— Sinto muito. Só estou de mau humor.
— Aconteceu alguma coisa? Os sonhos voltaram?
Ela não fitou Nelly nos olhos. Não queria que a amiga visse o desespero que carregava todos os dias.
— Não. Meus sonhos têm estado normais. Na verdade, nem me lembro deles. Tudo o mais está bem... Não sei o que há de errado. Acho que esse clima está mexendo comigo.
Estou cansada dessa chuva e desse frio.
Tentou não se lembrar de que já controlara a chuva e que, no primeiro dia em que esta a obedecera, havia estabelecido as circunstâncias ideais para que ela fosse
parar na cama de Asterius...
— Mikki?
Ela piscou e seus pensamentos voltaram-se para o presente. Ergueu o cappuccino, tentando beber um gole sem muito entusiasmo.
— Só estava sonhando acordada. Desculpe outra vez, Nelly. Não estou sendo muito boa companhia hoje.
— Você é minha amiga. Não tem que me entreter nem me divertir, e sabe disso. — A psiquiatra suspirou. — Querida, o que aconteceu com você foi muito traumático. Os
homens que a atacaram e roubaram a estátua do roseiral a deixaram sangrando até a morte e nunca foram pegos. É normal passar por fases de depressão, raiva e ressentimento
durante o processo de cura, principalmente quando não se tem um desfecho para um crime.
Desfecho para um crime.
Mikki teve um desejo insano de rir, porém tratou de reprimi-lo. Não queria fazer nada que a fizesse parecer ainda mais louca.
E também não queria que aquela história fosse muito investigada.
Esfregou a testa. Pela enésima vez, quis que Nelly estivesse certa quanto ao que estava sentindo: que aquilo fosse apenas parte de um processo de cura.
— Eu sei. Eu só... Eu só queria me sentir normal de novo.
— Você vai, Mikki. — Nelly olhou para o relógio. — Ah, droga! Vou chegar atrasada.
Mikki conseguiu esboçar um sorriso.
— O compromisso é com algum maluco, ou apenas com um meio maluco?
Nelly riu e, uma vez de pé, apanhou a valise e a bolsa.
— Com um maluco e meio.
— Boa sorte, então.
— É bom que eu tenha mesmo — agradeceu a moça. — Ei, dê uma ligada mais tarde se quiser conversar.
— Pode deixar, eu ligo. Vejo você amanhã de manhã... Na mesma hora, mesmo café.
Mikki sorriu para a amiga, sentindo-se culpada pelo alívio que a invadiu quando Nelly saiu pela porta. Era tão difícil esconder as coisas dela! Como podia contar
a verdade? Sabe, amiga, eu não fui assaltada por criminosos que roubaram a estátua do Roseiral de Tulsa e que me abandonaram à morte... Na verdade, eu me matei,
embora eu goste de pensar nisso como um sacrifício. Nunca pensei em suicídio, o que deve provar que não estou louca. Enfim, eu tinha que fazê-lo porque o Reino das
Rosas, na intersecção entre os mundos, estava em perigo, e só meu sangue podia salvá-lo. Era meu dever como Empousa. Ninguém pode considerar isso um suicídio porque
eu estava apenas cumprindo com meu destino. E, a propósito, estou desesperadamente apaixonada por um homem-fera, e a razão pela qual me sinto tão deprimida é que
estou presa aqui, sem ele!
Suspirou. Nelly era sua melhor amiga, mas não hesitaria em trancafiá-la em uma cela linda, exclusiva e confortável se ela dissesse a verdade. Percebera isso tão
logo havia acordado no hospital e eles — o serviço social e os policiais — começaram a interrogá-la.
E a história que adviera de tudo aquilo tivera mais a ver com omissão e acidente do que qualquer coisa semelhante à verdade. Por isso ainda não tinha coragem de
dizer nada. Nem mesmo a uma amiga, psiquiatra experiente, que a conhecia bem demais.
Mikki consultou o relógio. Eram apenas sete e meia, e não precisava ir para o trabalho antes das oito. Tinha tempo para mais uma xícara de cappuccino. Quando se
pôs em pé, disposta a apanhar um refil para a bebida quente, capturou o próprio reflexo nas janelas do Expresso Milano. Estava magra... Muito magra. E podia ter
feito algo com aqueles cabelos em vez de apenas prendê-los para trás em um rabo de cavalo.
O problema era que não estava com a menor vontade de se cuidar.
Bem, ao menos ainda havia bastante de seus cookies favoritos, os biscoitos alaranjados, gigantes e cobertos de açúcar que o café comprava todas as manhãs da popular
padaria Pani Del Dea, a qual ficava apenas a algumas portas dali, descendo a rua.
Pediu dois deles para viagem com mais um cappuccino. Então mudou de ideia e pediu um terceiro. Precisava engordar, e uma dose a mais de açúcar somada à cafeína seria
suficiente para levá-la a enfrentar mais um dia sem sentido e interminável no trabalho.
Apanhou uma edição do Tulsa World e acomodou-se em uma das poltronas estofadas e macias, enquanto esperava que a atendente toda perfurada por piercings trouxesse
o café e os cookies na elegante bandeja de prata do estabelecimento.
Quando ouviu o ruído de saltos aproximando-se no piso frio, não tirou os olhos do jornal.
— Pode colocar aqui. Ah, e fique de olho em mim, por favor. Tenho a impressão de que hoje vai ser uma daquelas manhãs em que não passo sem ao menos três expressos!
— Está tudo bem, Mikado?
Mikki quase deixou cair o jornal com a surpresa.
— Sevillana! Desculpe... Pensei que fosse a garota do café.
Os olhos incrivelmente azuis da mulher cintilaram.
— Não sou confundida com uma moça há muito tempo!
Mikki abriu um sorriso e, por um momento, este foi genuíno.
— Não quer se sentar comigo?
— Sim, eu gostaria muito. — A mulher acomodou-se com graça em uma cadeira a seu lado e arrumou o lindo xale de pashmina azul-pálido sobre os ombros.
— Eu não sabia que morava por aqui.
Como na primeira vez em que elas haviam se encontrado, Mikki sentiu-se um pouco intimidada pela presença de Sevillana. Ela era tão... imponente e clássica. Havia
um ar de dignidade e cultura em tudo o que dizia e fazia.
E então, com um choque, ela se lembrou. E, em meio à lembrança, perguntou-se como poderia ter se esquecido.
— O perfume! Onde conseguiu o perfume que me deu naquela noite?
A mulher sorriu, mas a aproximação da garçonete com os cafés e doces impediu-a de dizer qualquer coisa.
Mesmo quando estavam a sós outra vez, Sevillana levou algum tempo dissolvendo o açúcar em seu cappuccino e mexendo cuidadosamente com a colher de prata minúscula
antes de falar.
— Há apenas um lugar onde se pode encontrar tal perfume, e é em um reino muito distante daqui.
Mikki sentiu uma onda vertiginosa de uma emoção da qual sentia falta havia três meses: a esperança.
— Está falando sobre o Reino das Rosas.
A mulher aquiesceu com um gesto de cabeça.
— Ah, Deus! — Mikki exclamou, ofegante.
— Creio que seria mais adequado você exclamar “Oh, Deusa!”, Mikado.
— Como sabe disso?! Como chegou lá, e como foi que eu voltei? O que está fazendo aqui? Por que...
Sevillana ergueu a mão, detendo a torrente de palavras.
— Tudo tem seu tempo. Afogar-me em perguntas não vai mudar isso.
— Eu... — Mikki levou a mão ao peito, temendo que o coração fosse saltar para fora do corpo. — Sinto muito, mas eu preciso saber. — Passou a mão trêmula sobre o
rosto e recomeçou: — Eu tenho que voltar para lá!
— Eu sei, minha filha, eu sei — Sevillana concordou suavemente. Seu olhar fixou-se além dela, então, e, quando ela tornou a falar, sua voz lembrava a de uma menina
tristonha. — Ninguém falou no meu nome enquanto estava lá? Eles não se lembram de mim?
— Seu nome? Não. Por que eles... — Os olhos de Mikki se arregalaram.
— É você! Você é a última Empousa!
— Não, Mikado. Eu era a última Empousa. Não sou mais Alta Sacerdotisa de Hécate. Rejeitei esse cargo porque era jovem e tola, mas paguei pela minha traição. Por
duzentos anos fiquei separada do meu reino e de minha deusa, e percorri o mundo comum, sempre inquieta e insatisfeita. Vivi como uma verdadeira marginal.
— Duzentos anos! — Mikki não conseguia desviar o olhar da velha senhora. — Mas como?
— Nunca compreendi muito bem. Envelheci, obviamente, porém muito devagar. Eu costumava acreditar que essa era a maneira de Hécate me punir: estendendo minha vida
até que eu me arrependesse de minhas atitudes egoístas. Em uma de minhas viagens, décadas atrás, visitei Tulsa, e aconteceu de eu assistir à inauguração de seu novo
roseiral. — Ela fez uma pausa, a expressão cheia de dor. — Reconheci a estátua do Guardião, e soube que ela havia sido colocada aqui por alguma razão. Por isso passei
a visitar Tulsa com frequência; para esperar e observar. E foi então que eu a conheci, e comecei a ter esperanças de que Hécate tivesse me permitido viver por tanto
tempo por outra razão... — Os olhos muito azuis de Sevillana voltaram-se para Mikki. — Achei que a grande deusa queria que eu lhe desse o óleo sagrado; assim poderia
despertar o Guardião, voltar ao reino e cumprir com o destino que me fora reservado. — A tristeza preencheu os belos olhos da mulher. — Por que cometeu o mesmo erro
que eu? Eu não queria que fugisse.
— Mas eu não fugi! — Mikki gritou, mas baixou a voz quando várias cabeças viraram em sua direção. — Você sabe sobre o sangue, não sabe? De alguma forma, você compreende.
— Sim, seu sangue alimenta as rosas. Como eu poderia não saber? Carregamos o mesmo sangue em nossas veias, Mikado.
Sevillana tocou-a na mão em uma carícia que a fez lembrar-se tanto da mãe que ela prendeu a respiração.
— No hospital, naquele dia, eu disse que me chamava Sevillana Kalyca, e é verdade. Mas essa é apenas uma parte do meu nome. Eu raramente uso meu sobrenome inteiro,
pois é muito difícil ouvi-lo e saber que eu o abandonei; mesmo que isso tenha acontecido há muito tempo. Meu nome verdadeiro é Sevillana Kalyca Empousai. Fui a primeira
Empousa a fugir do Reino das Rosas. E esperava, quando a conheci e senti a força de seu sangue, que também fosse a última.
— Eu não fugi — Mikki repetiu, entorpecida, olhando para sua ancestral. — Eu morri.
Sevillana a fitou, confusa.
— O tempo corre de modo diferente por lá... Mas ainda não podia ser Beltane!
— Era início de inverno. — Foi a vez de Mikki franzir o cenho. — De qualquer maneira, o tempo não tem nada a ver com isso. Ladrões de Sonhos entraram no reino.
— Oh, Deusa, não! — Sevillana levou a mão ao peito num gesto estranhamente parecido com o dela.
— Foi minha culpa. Eles me enganaram, e eu os deixei entrar. O Guardião os matou. Isto é, supondo que eles não possam ser eliminados, essa não é a palavra certa...
Mas Asterius livrou-se deles e os mandou de volta para a floresta.
— Asterius?
Mikki estudou Sevillana, a mente começando a entrar em consonância com suas próprias emoções. Aquela era a mulher sobre a qual eles haviam sido proibidos de falar.
Ela era parte da razão pela qual Hécate tinha enfeitiçado o reino e Asterius.
Pois agora não estava mais no Reino das Rosas e queria saber, de uma vez por todas, o que havia acontecido.
— Asterius é o nome que o Guardião recebeu da mãe. — Observando com cuidado, Mikki viu a ponta de surpresa e inquietação nos olhos da antiga sacerdotisa. — Quero
saber o que aconteceu entre vocês dois. Tudo.
Sevillana olhou pela janela, e sua voz assumiu um ar distante, como se recontasse uma história que fora passada de geração em geração.
— Eu era jovem e muito, muito tola. E também egoísta. Amava o poder que possuía como Empousa. Tanto que não estava disposta a cedê-lo. Conforme o dia de Beltane
se aproximava, eu me convenci de que era justo que eu escapasse do destino planejado para mim, que eu era diferente. Mas sabia que não podia atravessar a floresta
sem proteção. Então convenci o Guardião a trair seu dever e acompanhar-me através da mata até a entrada para o mundo comum.
— Você o seduziu? — Mikki indagou, gélida.
— Só com palavras. Eu não me deitaria com um animal, mas fiz com que ele acreditasse nisso. Não foi difícil... O Guardião tinha pouca experiência com mulheres. Foi
estranho, porém, ele ter permitido que eu escapasse, mesmo depois que eu o rejeitei. — Sevillana abanou a cabeça. — Há muito tempo me pergunto sobre isso. Ele devia
ter voltado-se contra mim e, no mínimo, obrigado-me a voltar para enfrentar a ira de Hécate. Em vez disso, o Guardião me disse... algo e, em seguida, afastou-se
e deixou-me seguir em liberdade.
— Ele pensou que a amava — Mikki falou, rígida.
Sevillana finalmente encontrou seu olhar, e Mikki pôde ver a surpresa estampada em seus olhos.
— Foi o que ele me falou: que me amava. Mas isso não fez nenhum sentido! Como um animal poderia amar uma mulher?
— Ele não é um animal! — Mikki falou por entre os dentes, a ira fazendo-a empalidecer. — E você não era boa o bastante para seu amor se não conseguia enxergar o
homem dentro dele.
A mulher arregalou os olhos muito azuis.
— Você o ama!
— Amo...
Em silêncio, Sevillana observou Mikki por um longo tempo, depois abaixou a cabeça.
— Perdoe-me por ter sido tão arrogante. Eu era uma menina na época. Só compreendi que estava errada muito tempo depois e esta é mais uma lição para mim. Tem minha
admiração, Mikado, bem como meu respeito. Nunca conheci alguém com sua coragem.
Mikki respirou fundo várias vezes, acalmando-se. Não adiantava ficar tão aborrecida com a mulher. O que ela havia feito acontecera dois séculos antes e estava acabado.
Acabado.
E ela não pretendia afastá-la. Sevillana Kalyca Empousai era sua passagem de volta para Asterius.
— Eu a perdoo. Acho que Asterius a perdoaria, também. E o que eu fiz não foi por coragem. Não tive escolha. Asterius havia se livrado dos Ladrões de Sonhos, mas
era tarde demais. Eles já tinham envenenado as rosas, todas elas, exceto aquelas sobre as quais eu derramara meu sangue. Tentei deter a peste de outra forma, mas
nada funcionou. E eu sabia que não ia funcionar. A única forma de eu salvar as rosas era por meio do meu sangue.
— E não acha que foi corajosa ao permitir que seu amante a sacrificasse? Nem era Beltane e, mesmo assim, você foi ao encontro de seu destino original e salvou o
reino.
Mikki franziu o cenho.
— Asterius não me sacrificou. Ele nem sequer sonhava com o que eu tinha planejado. Mas eu sabia que ele ia tentar me deter, então fugi... Que história é essa de
Beltane? É na primavera, não é? O que isso tem a ver com o que aconteceu?
— Não sabe, mesmo...?
— Não — Mikki confirmou, exasperada e já farta de tantos mistérios.
— Eles devem ter ficado com medo de lhe contar. Com medo de que você também os deixasse. Mikado... a Empousa serve para um único propósito. Ela está lá por causa
das rosas.
— Sim, sim, eu sei.
— Então também sabe que a Alta Sacerdotisa de Hécate está vinculada às rosas por meio de seu sangue. O que não sabe é que, em todas as noites de Beltane, a Empousa
é sacrificada pelo Guardião, pois seu sangue garante que o reino prospere por mais um ano.
Mikki sentiu tudo dentro dela paralisar.
— Quer dizer que as mulheres iam me matar?
— Não elas. Ele. É dever do Guardião proteger as rosas.
Mikki soltou o ar. Tudo fazia um terrível sentido agora. O comportamento de Asterius quando ele a conhecera e mostrara-se atraído por ela... O modo como ele tinha
dito que eles não poderiam ficar juntos... O porquê de ele ter lutado tanto contra o amor que sentia. Tinha sido mais do que a descrença de que ela jamais pudesse
vê-lo como um homem; mais do que a rejeição de Sevillana. Asterius sabia que teria de matá-la.
O pensamento deixou-a enjoada, e a mão quente de Sevillana sobre a sua, agora fria e insensível, foi um choque.
— Ele não teve escolha.
— Quer dizer que Hécate também desejou minha morte o tempo todo — Mikki murmurou.
— A vida e a morte são diferentes para os deuses. Hécate é severa e poderosa, mas também uma deusa amorosa. Veria seu sacrifício apenas como outro elo no grande
círculo da vida. A deusa não a abandonaria, Mikado, mesmo na morte. Se tivesse conhecido seu destino em Beltane, Hécate teria feito com que passasse a eternidade
na beleza infinita dos Campos Elísios. A deusa preocupa-se com aqueles que lhe pertencem. Dá as costas apenas para os que a traem.
— É um conceito difícil demais para mim. Todo o mundo que se preocupou comigo, todos os que amei, sabiam que eu ia morrer. — Mikki fez uma pausa conforme a enormidade
do que acabara de ouvir abatia-se sobre ela. — Então, mesmo que você me ajudasse a voltar de alguma forma, eu estaria condenada à morte.
— Sim — confirmou Sevillana. — Ainda pretende voltar?
Capítulo 36
Será que ainda queria voltar?, pensou Mikki. Já era final de fevereiro. O Beltane não era em primeiro de maio? Teria apenas mais dois meses antes que Asterius a
matasse.
Parecia impossível de acreditar. No entanto, mesmo em meio à sua descrença, a intuição lhe dizia que Sevillana falava a verdade. Tudo se encaixava e, de repente,
ela sentiu-se como a única peça fora de um enorme quebra-cabeça. Sabia qual era seu lugar, e este não era em Tulsa, Oklahoma.
— Eu quero voltar, mas não sei se sou corajosa o suficiente.
— Ouça seus instintos, Mikado. Confie no que eles dizem.
— Eles me dizem que não pertenço a este lugar.
— Então talvez deva voltar para casa — concluiu Sevillana.
— Você sabe como me levar até lá?
— Eu posso lhe dar o óleo sagrado, porém, o restante já possui dentro de você. Já se sacrificou pelo Reino das Rosas e foi altruísta o bastante para amar seu Guardião.
Você foi, minha querida, exatamente o oposto da última Empousa do reino. Acredito que Hécate ouvirá seu chamado e irá honrá-lo.
— Mas como... — Mikki se conteve. Sabia o que deveria fazer. Precisava escutar a própria intuição e seguir seus instintos.
Olhou Sevillana, que assentiu diante de sua introspecção.
Acalme-se e pense. É a Empousa de Hécate... Tem que haver um caminho para que possa voltar.
De repente, Mikki sorriu.
— É isso! Eu ainda sou a Empousa. Hécate disse que eu carrego seus poderes, os quais não podem desaparecer por completo nem mesmo aqui. E, olhe para você... Fugiu
da deusa e ainda viveu duzentos anos!
— Ainda deve exercer os poderes de Hécate — Sevillana afirmou. — Mesmo no mundo comum. — A mulher enfiou a mão na bolsa de couro e tirou uma haste de vidro, exatamente
igual à primeira que havia lhe dado. — É o óleo sagrado da Empousa de Hécate. O primeiro passo no ritual de invocação, com o qual eu posso ajudá-la.
— Obrigada, Sevillana. — Mikki tomou o vidro e o envolveu com cuidado em um guardanapo antes de guardá-lo na própria bolsa.
— Só lhe peço uma coisa, Empousa — prosseguiu a velha senhora. — Gostaria que pedisse perdão a Hécate por mim. Sei que não posso retornar ao reino, mas estou cansada
e queria poder abrir mão desta vida e abraçar minha eternidade nos Campos Elísios. Não posso fazê-lo sem o perdão da deusa.
— Vou falar com ela. Mas por que não a invoca você mesma?
— Eu gostaria, mas não consigo. Tentei várias vezes ao longo destes anos silenciosos, porém Hécate não vai me ouvir. Ela me deu as costas.
— Mas Hécate não deu as costas a mim — Mikki concluiu de súbito. — Por que acha que não sou um fantasma nos Campos Elísios agora? Eu morri, Sevillana! Eu não devia
ter acordado em Tulsa, a menos que houvesse um motivo muito bom para que a deusa me quisesse aqui... — Mikki endireitou o corpo. — Hécate sabia que estava aqui.
Eu mencionei seu nome quando ela me perguntou como o óleo sagrado de uma Empousa havia chegado “acidentalmente” em minhas mãos. Eu me lembro de sua expressão agora.
Hécate sabia desde o princípio.
— A estátua do Guardião... A deusa a colocou aqui para que eu a encontrasse! E também a você! — deduziu a mulher com voz embargada.
— Hécate quis que eu voltasse para reencontrá-la. — Desta vez foi Mikki quem pegou a mão trêmula da velha senhora na dela. — Hécate a perdoou, Sevillana.
— Ah, minha querida, se isso fosse verdade...
— Vamos descobrir. Esta noite é noite de lua nova... Venha para o roseiral. Fique dentro do círculo sagrado comigo. Vamos tentar ir para casa.
Mikki ficou feliz com a noite chuvosa. Fazia um frio horroroso, mas estava tão escuro que até mesmo os postes de iluminação em Woodward Park pareciam emanar halos
de luz mais fracos ao redor do parque. Era fácil para alguém que conhecia bem o lugar evitar as luzes...
E ela conhecia o Woodward Park como ninguém.
Carregou a maleta em uma das mãos e segurou a de Sevillana com força na outra, ajudando a mulher a deslocar-se através da escuridão. Não trocaram uma só palavra
e nem precisavam. Mikki apenas rezava para que ninguém estivesse nos jardins.
No momento em que chegaram à fronteira entre o parque e os vergéis, relaxou um pouco. Ninguém fora louco o suficiente para aventurar-se no parque numa noite como
aquela, muito menos depois da meia-noite.
Ainda assim, Mikki não disse nada até que passaram por baixo da arcada de pedra e desceram para o terceiro nível dos jardins. As luzes da fonte iluminavam a área
ao redor preguiçosamente, num efeito aquoso que, junto à névoa que pairava no ar frio, fazia aquela camada mergulhar em um cenário de sonho.
— Bem apropriado — ela comentou baixinho.
— Sim. Essa iluminação evoca imagens de sonho — concordou Sevillana. — É um bom presságio, Empousa.
— Esperemos que sim — ela murmurou. Então olhou para o pedestal vazio. Não voltara ali desde a manhã terrível em que a tinham encontrado. Não pudera suportar.
Não desistira de trabalhar como voluntária, contudo. Pedira apenas uma licença, que lhe fora concedida de imediato. Todos haviam compreendido como devia ser difícil
para ela voltar para os jardins onde fora atacada e abandonada à beira da morte.
Mas claro que não entendiam realmente. Como poderiam? Jamais saberiam a verdade.
— Mikado? — Sevillana tocou-a no braço de leve.
Mikki virou-se de costas para o pedestal vazio.
— Está certa. Precisamos nos apressar. Será impossível explicar isto se formos apanhadas.
— Não vamos ser apanhadas — declarou a mulher com firmeza.
— Isso mesmo. Vamos começar agora.
Mikki escolheu um lugar perto da fonte. Abriu a maleta e Sevillana ajudou-a a colocar uma vela em cada uma das posições dos quatro Elementos dentro do círculo: amarela
ao Leste para o Ar; vermelha ao Sul para o Fogo; azul a Oeste para a Água; verde ao Norte para a Terra; e, por fim, púrpura no centro do círculo para o Espírito.
Então apanhou uma caixa de fósforos da maleta, bem como a faca afiada que geralmente ficava escondida em seu apartamento, e as colocou ao lado da vela central.
Pisando do lado de fora do círculo formado pelas velas, Mikki pegou um último item da mala antes de colocá-la nas sombras, ao lado do pedestal vazio. Tirou a tampa
de cortiça que lacrava o delicado frasco de vidro em forma de caule e, em seguida, aplicou o óleo perfumado em pontos do pulso, pescoço e entre os seios, e o entregou
a Sevillana.
Com apenas uma ligeira hesitação, a mulher apanhou o frasco e aplicou o óleo perfumado no próprio corpo. O aroma de rosas e especiarias mesclou-se ao ar úmido, e
Mikki sentiu o estômago apertar-se com as lembranças.
Aquilo tinha que funcionar. Ela precisava retornar.
— Pronta? — perguntou à outra mulher.
Sevillana aquiesceu com um gesto de cabeça e puxou dois grampos de seu elegante coque, libertando cabelos longos e prateados que lhe caíram até além da cintura.
Em seguida, com um movimento gracioso que não condizia com sua avançada idade, livrou-se da capa longa, sob a qual usava uma linda túnica de seda lilás.
Mikki descartou seu próprio casaco e ignorou o frio quando também ela ficou vestida apenas com uma túnica cor de violeta. A única diferença entre seu traje e o da
outra mulher era que o dela era de um tom mais escuro, e, conforme ditava o ritual da lua nova, deixava-lhe um dos seios nus.
— Uma coisa que se pode dizer sobre estes quitões é que são muito fáceis de vestir — ela elogiou.
— Eu morro de saudades deles! — Olhando para si própria, Sevillana sorriu. Depois ergueu o olhar para Mikki e fez uma mesura delicada. — Vamos em frente, Empousa.
— Vamos.
Juntas, as duas mulheres caminharam para o centro do círculo. Com a vela roxa entre elas, viraram-se para o Norte. Então Mikki apanhou a caixa de fósforos, pensando
em como sentia a falta dos quatro Elementos, principalmente à noite.
Deixando para trás as dúvidas, ela aproximou-se da vela amarela e acendeu o fósforo.
— Vento que sopra forte e em toda parte, mesmo no mundo mundano... Eu te invoco, Ar, como o primeiro elemento no círculo sagrado. — Tocou o pavio com a chama do
fósforo e segurou-a até que este se iluminasse. Sem se preocupar se o Ar iria ouvi-la e responder a seu chamado, moveu-se até a vela vermelha. — Força ardente de
purificação, chama dançante de luz, que mesmo no mundo comum é rica e verdadeira... Eu te invoco, Fogo, para o círculo sagrado. — Quando o fósforo tocou o pavio,
a chama ganhou vida rapidamente, e Mikki sentiu uma onda de esperança. Sem hesitar, seguiu para a vela azul. — Maré brilhante que nos banha, refresca e sacia, mesmo
neste mundo comum, e que cobre mais da metade do nosso planeta, proporcionando-nos a vida. Eu te invoco, Água, para o círculo sagrado. — No pavio aceso, Mikki pensou
ver a chama da vela azul tremeluzir e ondular como as ondas. Então viu-se de frente para a vela verde. — Exuberante e fértil, amiga e selvagem, mesmo neste mundo
comum tu nos manténs e cuidas de nós. Eu te invoco, ó Terra, para o círculo sagrado... — Mikki voltou para seu lugar, ao lado da vela roxa. — Invoco-te agora, Espírito,
para o círculo sagrado, com as duas palavras que me unem à minha deusa: “amor” e “confiança”! — Acendeu a vela roxa e, em seguida, jogou fora o palito de fósforo.
Olhou ao redor, mas ficou desapontada. Não viu nenhum anel luminoso vinculando os elementos para formar o círculo.
— Não se desespere se não consegue ver as tramas neste mundo — falou Sevillana, como se pudesse ler seus pensamentos. — Veja-os dentro de sua mente. Acredito que
elas estejam aí. O poder da fé de uma Empousa é mágico por si só.
Mikki assentiu e imaginou as tramas descrevendo o círculo.
— Vamos terminar o ritual — falou, resoluta.
Abaixou-se e pegou a pequena faca. Olhou para Sevillana, e a mulher estendeu-lhe a mão com a palma para cima. Com um movimento rápido e seguro, Mikki pressionou
a lâmina afiada contra a pele fina de Sevillana, desenhando uma linha longa em sua palma.
Conforme o sangue jorrou, entregou a faca à antiga Empousa. Sevillana tomou-lhe a mão e, do mesmo modo, cortou uma linha semelhante em sua palma. Deixou cair a faca,
então, e as duas mulheres uniram as mãos, palma contra palma, misturando o sangue de gerações de Altas Sacerdotisas de Hécate.
Mikki fechou os olhos e limpou a mente. Quando falou, não se importou em baixar a voz. Se funcionasse, se a deusa fosse mesmo invocada, o círculo se manteria e nenhum
mortal poderia interferir nele. Mas, se isso não ocorresse... não se importaria com o que poderia acontecer com ela, decidiu.
— Hécate, Grande Deusa da Lua Negra, das Encruzilhadas da Humanidade e das Feras... É Mikado Empousai, Alta Sacerdotisa e Empousa do Reino das Rosas quem fala. Encontro-me
em uma terra distante e me ungi com óleo para lançar o teu círculo sagrado. Pelo direito que meu sangue me concede, eu invoco o teu nome. Temos um compromisso, um
juramento selado com amor e confiança. E pelo poder de tal juramento, evoco a tua presença e peço que me ouças.
De repente, um vento chicoteou ao redor delas, fazendo com que as velas tremeluzissem loucamente. Uma névoa as rodeou e, enquanto Mikki observava, transformou-se
numa nuvem cintilante até que, no centro do vórtice de vento, luz e som, Hécate apareceu. Vestia seu traje completo de noite, com os cabelos salpicados de estrelas
e a tocha dourada. A seus pés, os cães enormes rosnavam e tentavam abocanhar a neblina do jardim.
Mikki começou a dizer o nome da deusa, porém a voz emocionada de Sevillana a interrompeu. A mulher soltou sua mão e caiu de joelhos.
— Grande Deusa, perdoe-me! — Sevillana soluçou, as lágrimas escorrendo pelo rosto bonito. — O que fiz foi tão injusto! Passei vidas querendo expiar esse meu erro
imperdoável... Mas a menina tola e egoísta que a traiu já não existe.
A face de Hécate continuou ilegível, porém sua voz era suave.
— O que aprendeu, Sevillana?
— Aprendi que há coisas mais terríveis para se perder do que a própria vida.
— E quais são essas coisas?
— Minha honra, meu nome... e o amor da minha Deusa.
— Você nunca perdeu o amor de sua Deusa, minha filha.
Sevillana levou a mão à boca, tentando reprimir os soluços, e Mikki tocou-a no ombro, emprestando-lhe forças.
— Consegue me perdoar, Hécate? — a velha senhora foi capaz de indagar finalmente.
— Eu a perdoei há muito tempo, Sevillana. Você é que não foi capaz de perdoar a si mesma.
Ela curvou a cabeça.
— Posso descansar, então, minha Deusa?
— Sim. Tudo o que precisava fazer era pedir por isso. Eu jamais daria as costas a uma Empousa minha, mesmo a uma que cometeu um erro. Veja...
Hécate fez um gesto e a neblina abriu-se como uma porta na noite. De repente, um lindo cenário se fez ver. Era um prado repleto de trevos e cercado por pinheiros
altos, cujos ramos pontiagudos lembravam imensos espanadores. Enquanto elas observavam, uma figura ágil pulou e dançou pela campina, seguida por um grupo de lindas
mulheres. Suas túnicas envolviam seus corpos fortes e jovens sedutoramente, embora estes tivessem uma aparência estranha, quase insubstancial.
Mikki sentiu uma onda de choque ao reconhecer uma das mulheres.
— Mamãe! — gritou com voz embargada.
Antes que pudesse correr para encontrá-la, contudo, Hécate alertou-a em voz baixa:
— Não é sua hora, Mikado. Seu destino ainda não está completo.
Em meio às lágrimas que corriam soltas, ela olhou para a deusa.
— Mas é minha mãe, não é?
— Sim. Olhe mais de perto e verá também sua avó.
Mikki obedeceu, prendendo o fôlego. Sim! Reconhecia agora a linda jovem que dançava, segurando a mão de sua mãe. Tinha observado aquele rosto bonito tantas vezes!
A única diferença era que, nessas ocasiões, ele era repleto de linhas e marcas deixadas pela vida.
— Onde elas estão?
— Nos Campos Elísios, onde serão eternamente jovens, felizes e livres — respondeu Sevillana, a voz cheia de emoção.
— Tome seu lugar ao lado delas, Sevillana. Aqui termina seu tormento — declarou Hécate.
A mulher ergueu-se do chão devagar, então virou-se para Mikki e abraçou-a com força.
— Tenha uma vida abençoada, minha querida! — falou baixinho.
— Diga a minha mãe e a minha avó que eu as amo! — Mikki pediu num sussurro.
— Pode deixar. Elas ficarão orgulhosas de você, assim como eu, minha filha.
Dizendo isso, Sevillana atravessou a fronteira do círculo sagrado até a deusa. Parou diante de Hécate e, chorando, fez uma profunda reverência.
A deusa estendeu as mãos e a abraçou, beijando cada uma de suas faces.
— Vá para Elísia com minha bênção, Sevillana.
A mulher atravessou o portal que a divindade tinha aberto para o paraíso e, conforme o fez, seu corpo mudou. Sua velhice a deixou como um manto descartado, até que,
com um grito de alegria, a jovem e bela Sevillana tomou seu lugar em meio ao grupo de moças que dançavam.
O portal desapareceu, então, e, mais uma vez, não se podia ver nada além da névoa, da chuva e das trevas.
— É um prazer revê-la, minha Empousa — afirmou Hécate.
Mikki enxugou as lágrimas do rosto e sorriu.
— Estou muito feliz em vê-la também. Se eu soubesse que podia fazer isto, invocá-la aqui, teria lançado o círculo meses atrás.
— Ah, mas estaria faltando algo na invocação... O óleo sagrado de uma Empousa. Você precisava de Sevillana para tanto.
— Tem razão, eu... Não sei... Aprendi tanto hoje que minha mente não consegue absorver tudo. Estou tão feliz por ter perdoado Sevillana! — Mikki piscou, surpresa,
quando mais uma das peças daquele imenso quebra-cabeça encaixou-se de repente. — Na primeira noite em que estive no reino... você disse que havia cometido um erro
e que queria consertá-lo. O erro envolvia Sevillana e Asterius, não é mesmo?
— Exatamente. — Hécate soltou um suspirou típico dos mortais. — Eu não devia tê-los punido daquela forma. Sevillana era jovem e egocêntrica, mas eu sabia disso ao
escolhê-la para minha Empousa. Tinha esperanças de que o poder em seu sangue iria fazer com que amadurecesse, mas me equivoquei. Isso não aconteceu.
— E quanto a Asterius? — Mikki perguntou, segurando a respiração.
— Asterius foi meu maior erro. Eu lhe dei o coração e a alma de um homem e depois recusei-me a reconhecer que ele era, realmente, mais do que uma fera. Nesse aspecto,
fui ainda mais egoísta do que sua mãe, que não conseguia ver além dos próprios erros sempre que o contemplava... Errei ao não permitir que Asterius tivesse uma companheira,
ao acreditar que uma criatura como ele não precisava de mais nada além do dever de existir. Se suas necessidades o levaram a escolher com imprudência quando Sevillana
o tentou, a culpa foi minha. Foi a raiva que senti de mim mesma que me fez bani-lo e enfeitiçá-lo. Infelizmente, compreendi isso tarde demais. Tudo o que pude fazer
foi esperar que nascesse a mortal certa para ele... Alguém que pudesse enxergar a verdade e ter a coragem de agir sobre esta.
— Então vai me deixar amá-lo, mesmo que apenas até o Beltane?
— Não.
Mikki congelou.
— Por favor, Hécate! Eu o amo tanto! Deixe-me fazê-lo feliz, mesmo que por pouco tempo!
— As rosas desabrocharam, Mikado.
Confusa com a súbita mudança de assunto, Mikki murmurou:
— Que bom... Então eu fiz o que precisava ser feito.
— Você se sacrificou por livre espontânea vontade, cumprindo o juramento de amor e confiança com o qual estava vinculada a mim.
— Sim, Hécate.
— Pois isso nunca aconteceu antes no Reino das Rosas. Claro que várias gerações de Empousas deram seu sangue para alimentar o reino, mas o fizeram porque tinham
de fazer; porque essa era a trama de sorte e destino que fora tecida para elas. Mas você, Mikado Empousai, uma mortal vinda de uma terra quase totalmente desprovida
de magia, sacrificou-se de bom grado para salvar algo tão nebuloso como os sonhos da humanidade. Também viu o homem dentro da fera e permitiu-se amá-lo, rompendo
o feitiço de solidão e isolamento que o cercava.
— Eu fiz apenas o que meus instintos me diziam para fazer. Adorei seu reino, Hécate. Ele era minha casa, e valeu a pena morrer para protegê-lo, assim como a todos
que o habitavam — Mikki afirmou, surpresa com os elogios da Deusa. — E não foi difícil amar Asterius... — Ela sorriu e encolheu os ombros, tímida. — Não há sempre
algo de animal dentro dos homens? É o que os faz tão deliciosamente diferentes de nós. — Respirou fundo. — Não pode, por favor, deixar que eu volte para ele? Eu
lhe dou minha palavra de que me sacrificarei na noite do Beltane.
— O que você fez mudou o Reino das Rosas, Empousa. Seu sacrifício foi puro e imaculado pelos laços do dever, da força ou do medo. Nunca mais será necessário outro
sacrifício no Beltane. Seu sangue garantiu isso.
Quando Mikki começou a falar, Hécate levantou a mão para silenciá-la.
— Mas voltar não será assim, tão fácil. Você também mudou por conta de seu ato. Se permanecer no mundo comum, terá uma vida normal. Mas se retornar ao Reino das
Rosas, seu sangue o unirá a este irrevogavelmente, o que significa que seria uma imortal reinando pela eternidade como mais do que minha Empousa: você se tornaria
a Deusa das Rosas.
Mikki ouviu as palavras de Hécate, mas estas quase se perderam em meio à vertigem e à descrença que inundou seus pensamentos. Hécate estava dizendo que ela poderia
não morrer nunca? Que poderia tornar-se uma deusa?
— Entretanto, deve saber que o caminho de uma divindade nem sempre é fácil de ser traçado, Mikado. A eternidade é uma companheira às vezes assustadora, às vezes
gloriosa, e às vezes melancólica e irritante como uma criança mimada. Por isso pense com cuidado, Empousa. Eu lhe darei o poder da escolha, porém essa escolha é
irrevogável. Poderá ficar aqui, no mundo comum, e viver sua vida mortal até o final. Se for assim, eu não a abandonarei e darei-lhe as boas-vindas aos Campos Elísios,
assim como fiz com sua mãe e sua avó.
— Mas, Asterius... — Mikki começou.
— Porque me arrependo dos erros que cometi, concederei a ele uma bênção. Se assim ele quiser, eu o presentearei com o corpo de um mortal. — A deusa sorriu, os olhos
brilhando maliciosamente. — Posso presentear Asterius com o corpo de um homem de verdade e você, minha Empousa favorita, com a promessa de que a nova forma dele
será mais agradável de se olhar do que a de Adonis... O problema é que é impossível, até mesmo para os meus poderes, fazer isso no Reino das Rosas. Terei que trazê-lo
até aqui, para viver uma vida mortal a seu lado. Terão filhos, envelhecerão juntos e encontrarão consolo nos braços um do outro no momento em que suas vidas chegarem
ao fim.
— Ou, então, poderei voltar? — Mikki indagou, quando pareceu que Hécate não iria prosseguir.
— Sim. Poderá retornar como a Deusa das Rosas, e eu renunciarei ao reino dos sonhos em seu nome. Mas lembre-se... Naquele reino eu não poderei mudar a forma de Asterius.
Ele permanecerá eternamente como uma fera, porém com o coração e a alma de um homem. Faça sua escolha, Mikado.
Mikki começou a considerar e, em seguida, percebeu que não precisava escolher. Sabia o que queria.
— Escolho o Reino das Rosas e minha fera. Não desejo viver em nenhum outro lugar, e jamais lhe pediria para mudar Asterius. Eu o amo da maneira como ele é, não como
os outros gostariam que ele fosse.
O sorriso de Hécate foi radiante.
— Vamos voltar a seu reino.
Capítulo 37
A floresta não havia mudado. Continuava escura e assustadora, principalmente agora que Mikki sabia o que escondia-se nela.
Claro que agora ela era também uma deusa, portanto, os Ladrões de Sonhos teriam que modificar suas estratégias se pretendiam fazê-la cair em outra armadilha.
E eles fariam isso; Hécate já lhe advertira a respeito. Ela se tornara imortal, contudo isso não significava que não era mais falível e passível de ser manipulada
por emoções obscuras. A própria Hécate era prova disso.
Mikki estremeceu e puxou a palla roxa sobre os ombros com mais força. Seria cuidadosa.
Estranho que não se sentisse diferente. Ou ao menos não tão diferente.
Sentira a reação das rosas ao retornar. De verdade. Embora tivesse sido até constrangedor, estas tinham se alegrado quando ela adentrara o reino.
Sorriu. Sabia, agora, que elas possuíam emoções, assim como pequenos e brilhantes espíritos... Porém não se sentia menos ridícula quanto a todos aqueles anos em
que conversara com seus arbustos.
Era uma sensação maravilhosa e muito estranha, à qual ela teria que se acostumar.
As servas ficariam exultantes em vê-la, pensou, ansiosa por surpreendê-las na manhã seguinte.
Mas não naquela noite. Naquela noite, havia apenas uma pessoa que queria ver... apenas um lugar em que gostaria de estar. Nos braços de Asterius.
Ele encontrava-se ali perto, reunindo as tramas da realidade para as Tecedoras de Sonhos. Podia ter esperado por ele em sua casa, poderia tê-lo invocado de seu quarto,
no palácio...
Mas não quisera fazer nada disso. Quisera vir até ele, pois amava aquela alegria inocente que Asterius demonstrava a cada vez que ela se aproximava dele.
E queria que ele soubesse que ela continuaria a vir para ele por toda a eternidade.
Uma luz cintilou na escuridão, atraindo-a para a direita. Mikki a seguiu, e a luz revelou ser uma tocha. Segurando o fôlego, ela prosseguiu lenta e silenciosamente
em sua direção.
Ele estava de pé, de costas para ela, passando as mãos pelos galhos de uma antiga árvore. Fios cintilantes surgiam em seus dedos, e ele os puxava, juntando-os em
um monte mágico e luminoso no solo da floresta.
Mikki aproximou-se e parou quando ele soltou um gemido baixo. Asterius ficou de lado para ela em um movimento tenso e súbito, como se a trama que ele havia acabado
de puxar houvesse lhe causado dor.
Ele não a deixou cair, entretanto. Ao contrário, olhou para o fio com uma expressão angustiada de desespero e saudade.
Mikki estreitou os olhos e foi então que enxergou a si mesma na trama. Nesta, encontrava-se visivelmente grávida, o que foi um choque a princípio.
O choque transformou-se em pura alegria, contudo, no momento em que Asterius fez-se ver na cena, tomando-a nos braços. Beijava-a para depois cair de joelhos e pousar
os lábios em sua barriga dilatada. Na visão de sonho, Mikki viu-se sorrindo, satisfeita e estendendo a mão para acariciar um dos chifres escuros de seu amado, assim
como tinha feito havia muito tempo.
Com um grito angustiado, Asterius arremessou o fio para longe dele.
— Por que me atormenta? — rugiu, inconformado.
Mikki saiu das sombras.
— Ficou atormentado ao me ver grávida? Eu devia ser a única a ficar preocupada com isso. Ter um par de chifrinhos e pequenos cascos pisoteando meu útero é um pouco
assustador...
Asterius não se moveu. Apenas voltou o olhar para Mikki.
Seus olhos faiscaram, cheios de ódio.
— Vá embora, alma do além! Não me deixarei enganar por suas mentiras! — Ele começou a mover-se em sua direção, rosnando, ameaçador, e expondo as garras mortais.
— Asterius, sou eu! Eu só queria fazer uma surpresa...
Os olhos castanhos pareceram ainda mais escuros.
— Eu disse para ir embora, pesadelo! — ele urrou, avultando-se sobre ela.
Mikki gritou e recuou um passo, dizendo a primeira coisa que lhe veio à mente:
— Mas, na primeira noite em que nos encontramos, você colocou uma rosa no meu vinho!
Asterius estacou como se fosse trombar numa parede.
— Mikado? — indagou, incrédulo.
— Era o que eu estava tentando lhe dizer!
Mikki suspirou quando ele continuou paralisado.
— Depois das tantas vezes em que me rejeitou, é de admirar que tenhamos ficado juntos, sabia?
— Mikado! — Asterius lançou-se para a frente e a tomou nos braços. Seu corpo poderoso tremia, e ele não parecia capaz de fazer mais do que abraçá-la e repetir seu
nome seguidas vezes.
Ela o abraçou de volta, tocando-o e murmurando palavras carinhosas, até que a agitação de Asterius diminuiu e ele foi capaz de soltá-la um pouco mais.
Mikki olhou para o rosto bonito e terrível, agora banhado pelas lágrimas.
— Como isso aconteceu? Como pode estar aqui? — ele perguntou, atordoado.
— Hécate me deu uma escolha.
— Mas seu sangue... o reino está seguro agora. Eternamente. A deusa afirmou que, após seu sacrifício, não seria necessário derramar o sangue de mais nenhuma Empousa
para fazê-lo prosperar.
— Eu sei. Fui eu quem escolheu essa eternidade... para poder passá-la a seu lado.
A princípio, o olhar de Asterius continuou vazio. Então, a compreensão fez-se presente em seu rosto.
— Nunca mais vamos ficar separados?
— Nunca mais.
— Quer dizer que as tramas não estavam me atormentando! Elas estavam mostrando que... — Ele parou, incapaz de falar em meio à onda de emoções que o invadiu.
— Elas estavam mostrando que seremos felizes para todo o sempre. E, sim, meu amor, esse sonho em particular finalmente tornou-se realidade.
Devagar, Asterius segurou-lhe o rosto entre as mãos enormes e inclinou-se para beijá-la. Mikki passou os braços ao redor dele e agarrou-se a seu futuro... sua eternidade.
Nas sombras, Hécate sorriu e acariciou a cabeça escura de um de seus gigantescos animais.
Este livro é dedicado a todas que se apaixonaram pela Fera e ficaram desapontadas quando esta se transformou em um belo príncipe.

1* Wolverine, em inglês, é o nome dado ao carcaju, animal que pertence à família dos mustelídeos. Também é conhecido pelo nome de glutão. (N.E.)

Capítulo 28
O poder da voz de Asterius fez as tochas oscilarem, porém Mikki não se retesou, tampouco pulou, surpresa. Devagar, ergueu os olhos do esboço.
E então sentiu um aperto na boca do estômago. Ele encontrava-se parado sob uma porta arredondada que levava a outra sala, mais para o fundo da caverna, e estava
quase nu. Não usava a cuirasse nem a túnica. Tudo o que tinha sobre a pele era uma espécie de toalha pequena, amarrada ao redor dos quadris.
Mikki umedeceu os lábios e lembrou que, se não falasse, Asterius chegaria à conclusão de que o medo a paralisara.
— Você não iria até mim, por isso aqui estou.
Pôde ver a raiva em sua expressão abrandar. Sorriu, e ele ficou sem palavras.
Tentando ignorar sua quase nudez, ela acenou com um gesto de cabeça na direção das paredes da caverna.
— Essas pinturas são lindas. São de Creta?
— Sim.
— Você é muito talentoso. Só de olhar para elas já fiquei com vontade de passar férias no Mediterrâneo. — Antes que ele pudesse formular uma resposta, apontou para
o desenho dela mesma. — E isto é muito lisonjeiro. Eu nem sabia que estava lá naquela noite.
— Não tive a intenção de adular ninguém.
— Eu não quis dizer isso! Quis dizer apenas que me fez ficar bonita, poderosa... e isso é muito lisonjeiro.
— É como eu a vejo.
— Verdade?
— Eu nunca mentiria para você.
— Dizem que evasão e omissão também são mentiras — ela contrapôs sem preâmbulos.
— Se a deusa manda que eu faça ou diga alguma coisa, devo obedecê-la, Mikado. Fiz um juramento a Hécate.
— Está bem, eu compreendo... Sinto muito. Essa situação, em que não conheço todos os fatos, é extremamente frustrante para mim.
— Se eu pudesse responder a todas às suas perguntas, juro que eu o faria — ele reiterou.
— Imagino que sim. — Mikki deu um suspiro e olhou ao redor da caverna. — Que tal me mostrar seu covil? Este lugar é incrível.
Asterius não se moveu do batente da porta.
— Foi por isso que veio aqui, Mikado? Para que eu lhe mostrasse meu covil?
— Não. Eu vim porque queria vê-lo.
— Por quê?
— Porque você não foi me ver hoje. Senti sua falta, ainda mais depois que lancei um feitiço que permite que os homens venham para o reino.
— Eu não sou um...
— Ei, chega! Já não conversamos sobre isso ontem? Eu sei que não é um “homem”, mas, homem ou não, quando eu estava lançando o feitiço, foi em você que eu pensei
— ela confessou.
Asterius desviou o olhar e Mikki pôde ver a tensão em sua mandíbula, a forma como ele cerrava os punhos.
— Eu sei. — Sua voz soou tensa. — Senti a mágica e sabia que estava pensando em mim... Mas queria que não tivesse pensado.
— Por quê?!
— Porque não posso suportar isso! — ele falou, por fim, as palavras saindo por entre os dentes.
— Eu não fiquei com medo ontem à noite — Mikki declarou depressa.
— Eu vi o medo e o ódio em seus olhos, Mikado, embora não a culpe. Eu só queria tomá-la nos braços, beijá-la, e não pude nem mesmo fazer algo tão simples sem me
tornar uma fera!
— Não queria fazer mais nada além de me beijar? — ela indagou com um sorriso sedutor.
Os olhos de Asterius se estreitaram.
— Se eu lhe mostrar a minha casa, vai me deixar em paz, Empousa?
— Provavelmente não.
— Pensei que não fosse mesquinha, mas vejo que estava enganado — ele redarguiu, ríspido.
— Não sou mesquinha! Estou apenas me explicando mal. Estou nervosa e não consigo colocar o que sinto em palavras. — Mikki queria se mover ou andar, mas obrigou-se
a ficar quieta e fitá-lo nos olhos. — Não me machucou ontem à noite, e eu não estava com medo. Eu quis você; ainda mais quando as coisas ficaram intensas entre nós.
Gostei de tudo, Asterius. De seu poder, dessa força em seu corpo que mal consegue conter... Tem mais paixão do que eu já vi em toda minha vida. Até eu conhecer você,
os homens não passavam de uns inconsequentes para mim. E agora acho que sei por quê. Eles sempre me pareceram fracos, principalmente se eu os comparava às mulheres
que me criaram. Asterius, eu preciso de alguém que seja mais do que um homem. Na noite passada, quando me dei conta disso, essa verdade me assustou. Meu medo se
baseava em tudo o que ouvi das pessoas a vida toda; pessoas do mundo comum que ficariam chocadas com o que eu sinto por você...
Ele não falou por muito tempo. Ficou apenas olhando para ela, como se tentando entender algo muito importante que estava sendo dito em uma língua que ele mal compreendia.
— Ainda gostaria de ver o restante da minha caverna? — indagou finalmente.
— Claro que sim.
Asterius se pôs de lado.
— Este é meu quarto. — Gesticulou para que ela o precedesse.
Mikki atravessou a porta em arco e entrou no cômodo, sentindo que ele a seguia. Seu corpo inteiro parecia em sintonia com sua presença, como se ele fosse uma cobra
e ela estivesse tentando encantá-lo.
Então a beleza do aposento se fez ver. Era menor do que a sala principal e também possuía tochas que não soltavam nenhuma fumaça. Só que ali não havia tantas delas,
o que deixava o quarto quase na penumbra. O chão era coberto com grossas peles de animais, no meio das quais via-se uma enorme cama coberta com mais peles.
Ele dorme aqui...
O pensamento fez uma onda de calor percorrer o corpo de Mikki e ela desviou o olhar para as paredes.
E ficou surpresa mais uma vez. As paredes ali eram todas preenchidas com cenas de um jardim repleto de infinitas fileiras de magníficas roseiras em flor. Cada nível
do vergel continha uma fonte de água e na camada central via-se uma estát...
— É o Roseiral de Tulsa! — exclamou, ofegante. — Como pode ter tido tempo para pintar essa cena depois que voltou? — Aproximou-se da parede lisa e a tocou com cuidado.
Estava completamente seca. — Há tanta coisa aqui... Deve ter levado meses, ou até mesmo anos, para terminá-la!
— É verdade.
Mikki fitou-o por cima do ombro, sem ter certeza de que tinha ouvido bem.
— Como é possível, Asterius?
— Pintei esse cenário com base em imagens que via em meus sonhos.
Ela deslizou a mão pela parede com carinho.
— É perfeito. Conseguiu captar cada detalhe.
— A pintura a faz sentir falta da sua casa?
Mikki pôde senti-lo se aproximar, mas não se virou, temendo que ele se afastasse.
— Não. O Reino das Rosas é minha casa agora. Não quero estar em nenhum outro lugar a não ser a seu lado.
— Eu não via a hora de revê-la, Mikado...
— E eu não conseguia parar de pensar em você! — Mikki sentiu a mão tremer e a deixou cair. Asterius estava tão perto que podia sentir o calor de seu corpo.
Mãos quentes pousaram em seus ombros, e ele falou em seu ouvido.
— Quando lançou o feitiço, abrindo o reino para os homens, escutei você me chamando, pedindo... — ele rosnou baixo e sua voz poderosa vibrou nas profundezas da alma
de Mikki. — Pensei que fosse enlouquecer!
— Então não fique longe de mim! Não quero que fique longe de mim — ela repetiu sem fôlego, e recostou-se nele, sentindo sua ereção contra as nádegas. Os lábios quentes
de Asterius roçaram a lateral de seu pescoço em meio a pequenos beijos, os dentes afiados arranhando sua pele de leve. Quando as mãos dele deixaram seus ombros para
cobrir-lhe os seios, Mikki arqueou o corpo e ergueu os braços de modo a puxá-lo mais para si pela cabeça.
E, assim como em seu antigo sonho, sentiu os chifres em meio à massa espessa de cabelos, ao mesmo tempo que seus dentes encontravam o vale entre seu pescoço e ombro,
mordendo-a de leve.
Mikki gemeu e pressionou o corpo com mais firmeza contra o dele.
De repente, Asterius congelou.
— Não, não pare! — ela implorou, aflita.
— Ela... ela sumiu! — ele exclamou, estremecendo.
Preocupada, Mikki virou-se em seus braços. Asterius a fitava com uma expressão que era um misto de alegria e choque.
— O que foi? O que aconteceu?
Ele tomou-lhe o rosto entre as mãos.
— Você me ama! — Sua voz profunda soou embargada, e lágrimas escorreram silenciosamente pelo rosto moreno.
— Claro que amo! — Mikki sorriu. — Mas o que sumiu?
Asterius fechou os olhos, tentando dominar as emoções.
— O feitiço, Mikado. E a última barreira entre nós. Não importa o que as Parcas tenham-me destinado... Eu vou amar você até o fim dos tempos! — Ele inclinou-se e
a beijou com paixão.
Mergulhando a mão em seus cabelos, ela o puxou com ímpeto contra a boca, e o rugido de Asterius vibrou em seus sentidos já despertos como uma carícia.
Ele ergueu a cabeça e abriu os olhos escuros e cheios de desejo, a pele morena coberta de suor. Mikki deslizou as mãos pelo corpo másculo, desde os ombros fortes,
passando pelo peito largo até os músculos bem definidos do abdômen, sentindo-os estremecer sob seu toque.
Asterius tirou as mãos de seu rosto e as colocou contra a parede, a cada lado dela, de maneira que agora Mikki encontrava-se presa em meio a seus braços.
— Não se mexa! Deixe-me tocá-lo — ela pediu com voz rouca.
— Não sei por quanto tempo poderei manter minhas mãos longe de você! — O peito dele arfava e a paixão tornara-lhe a voz ainda mais densa.
— Não vai demorar muito. — Mikki acariciou-o no rosto e traçou a linha de seus lábios com o polegar. — Primeiro quero vê-lo... por inteiro.
Viu a dúvida escurecer os olhos castanhos, porém Asterius aquiesceu devagar. Então suas mãos deslizaram pelo corpo forte outra vez, rumando com segurança para a
toalha que ele tinha enrolada em torno da cintura. Puxou-a, e esta soltou-se com facilidade.
Mikki olhou o corpo nu à sua frente por um momento.
— A esposa de seu pai quis amaldiçoá-lo e acabou criando um ser de incrível beleza — sussurrou, ofegante. — Você não é uma abominação, Asterius, você é um milagre!
Ele era uma mistura tão perfeita de homem e animal que era difícil dizer onde terminava o ser humano e começava a fera. Sua cintura estreita dava continuidade a
quadris e coxas musculosos, cobertos com pelos lisos e escuros. Daí para baixo, embora seus contornos continuassem fortes e bem definidos, Asterius era menos musculoso
do que aparentava quando encontrava-se vestido.
Hipnotizada, Mikki acariciou o ponto onde o corpo do homem dava lugar ao do bicho. Asterius abaixou a cabeça e rosnou baixinho, e ela o fitou, atenta. Ele fechara
bem os olhos e respirava pesadamente, em um esforço para controlar a criatura que tinha por dentro.
Mikki respirou fundo, sentindo uma onda quente de prazer invadi-la enquanto observava a fera que tentava se conter. Seus olhos moveram-se mais para baixo. Asterius
possuía as mesmas formas de um homem e encontrava-se totalmente ereto. A pele que lhe encobria o membro era da mesma cor de bronze do peito largo.
Ela o tomou nas mãos, afagando com uma, apertando com a outra, e, quando o fez, os olhos dele se abriram, alarmados.
— Não precisa manter a fera acorrentada o tempo todo, Asterius! — ela sussurrou, sem parar de acariciá-lo, e inclinou-se para a frente, circulando seu mamilo com
a língua. — Solte-a, meu amor! Eu não tenho medo dela... — afirmou, mordendo o mamilo endurecido.
O rosnado de Asterius ecoou, ensurdecedor, pela caverna. Ele a ergueu nos braços, os cascos batendo com força contra o chão coberto de peles conforme caminhava até
o catre. Colocou-a sobre este, mas, antes que pudesse cobri-la com o próprio corpo, Mikki se pôs em pé, fazendo-o se retesar mais uma vez. Ela leu a dor em sua expressão,
certa do que ele estava pensando.
— Tem que parar de achar que tenho medo de você, Asterius, porque eu não tenho. Não me levantei para fugir. Achei apenas que gostaria de ver isto... — Começou a
soltar o broche de prata em forma de rosa que segurava-lhe a túnica sobre o ombro direito, porém suas mãos tremiam tanto que não conseguiu.
Frustrada, ela o fitou. Em seguida, sua expressão mudou para um sorriso sedutor.
— Faria algo por mim?
— Qualquer coisa! — ele respondeu, ofegante.
— Então solte as garras e me ajude com isto.
Com os movimentos graciosos de um felino, ele estendeu as lâminas lentamente e, com facilidade, cortou o tecido.
Mikki encolheu os ombros, e o quitão caiu a seus pés.
Os olhos de Asterius ficaram ainda mais escuros. Com o peito arfando, ele ergueu a mão para tocar os seios redondos, mas as puxou de volta ao se lembrar das garras
ainda estendidas.
Ela agarrou-lhe um pulso.
— Não seria capaz de produzir arte de tanta qualidade se não tivesse controle sobre estas lâminas... Use-as para me tocar, Asterius. Deixe que eu sinta seu poder
na minha pele! — E, sem pensar duas vezes, apertou a mão dele contra um seio.
Hesitante, Asterius deixou as pontas afiadas tocarem com suavidade a pele alva e macia, até que sua mão desceu do peito para o ventre reto, escorregando, devagar,
bem devagar, para o centro quente e úmido.
Mikki prendeu a respiração e estremeceu.
— Não pare! — pediu com um gemido.
Ele não tirou os olhos do rosto delicado enquanto suas garras percorriam as coxas roliças e, depois, as curvas voluptuosas das nádegas.
— Vire-se... Quero vê-la de costas — ordenou, a voz profunda saindo ainda mais densa com o desejo.
Ela obedeceu.
E sentiu os lábios de Asterius substituir as lâminas quando ele beijou as marcas rosadas que havia deixado nela antes.
— Pensei que a tivesse cortado inteira! — ele murmurou, a respiração aquecendo-a por inteiro.
— Claro que não... Foram apenas arranhões.
A boca de Asterius moveu-se para o final de sua espinha, a língua quente provando-a sem meandros.
— Pensei que nunca mais fosse tocá-la de novo!
Mikki virou-se e o segurou pelo pescoço, permitindo que ele tomasse seus mamilos com a boca.
— Nunca pare de me tocar! — pediu. E, deitando-se na cama, puxou-o com ela.
Asterius ajoelhou-se a seu lado. Recolhendo as garras, tocou-a no rosto com delicadeza.
— Eu não conseguiria parar agora, nem mesmo se Hécate aparecesse e me ordenasse isso!
— Sshh... — Ela pressionou seus lábios com um dedo. — Não quero pensar em nada a não ser em você. — Lentamente, levantou mais a mão, seguindo a linha suave de um
chifre escuro. — Você é incrível. Acho que nunca vou me cansar de acariciá-lo.
— É um presente raro e inesperado para mim, Mikado. — A voz de Asterius tremeu com a profundidade de suas emoções. — Eu nunca conheci o amor. Nunca, em todas as
eras da minha existência, uma mulher me tocou, aceitou e amou como você. — Ele teve que fazer uma pausa antes de continuar. — Vou amá-la enquanto respirar. E além,
se as Parcas e a deusa permitirem!
— Então venha para mim, Asterius! Mostre-me o poder de seu amor! — ela implorou.
Ele a adorou com a boca e com as mãos, e bebeu dela como se nunca fosse se fartar. Explorou-a e, com os sentidos sobre-humanos de um animal, leu cada sinal e mudança
em seu corpo, aprendendo o que mais lhe trazia prazer.
Quando pensou que não poderia viver algo mais doce do que observar a paixão que havia provocado nela, Mikki pressionou-o contra o catre e deu início à sua própria
exploração. Quando sua língua e boca o provocaram por inteiro, e ela sussurrou que seu membro rijo era magnífico, demonstrando o quanto o desejava, Asterius pensou
que fosse morrer de prazer.
— Preciso sentir você dentro de mim!
Mikki se abriu, e ele estremeceu no esforço para se controlar enquanto ela o envolvia com as pernas e se encaixava em seu corpo. Sentiu o sangue arder nas veias
e um rugido escapou de sua garganta. O animal dentro dele queria investir violentamente contra ela, afundar o membro endurecido em seu calor úmido... Porém ele cerrou
os dentes, deslizando com cuidado para dentro e para fora de Mikki, tentando concentrar-se nos sons suaves de puro prazer que ela soltava em meio ao turbilhão que
assolava-lhe o corpo e a alma.
E então percebeu que ela ia de encontro a suas estocadas suaves com uma ferocidade que refletia-se em seus olhos verdes.
Quando inclinou-se para beijá-la, Mikki mordeu-o no lábio com força.
Ele rosnou, e ela sorriu.
— Solte o animal que existe em você, Asterius! É ele quem eu quero agora! — pediu com uma voz rouca e sensual.
As palavras acenderam tal chama dentro dele, que Asterius temeu que ambos fossem consumidos por ela. Incapaz de lutar contra a força combinada do desejo e do poder
da fera, virou-se no catre e, agarrando-a pelas nádegas, ergueu-a de encontro a ele, afundando nela seguidas vezes.
Mikado não fugiu dele, pelo contrário. Respondeu a sua paixão com a força e a determinação de uma deusa.
O animal e a sacerdotisa arderam juntos, até que, finalmente, o ser humano dentro dele não pôde mais se conter e derramou dentro dela toda uma vida de desejos, ao
mesmo tempo que fera e homem rugiam seu nome em uníssono.
Capítulo 29
Asterius não conseguia parar de olhar para Mikado. Ela dormia nua, o corpo pressionado contra o dele. Tinha um braço apoiando a cabeça, uma perna longa e macia sobre
a sua, e a mão jogada sobre seu peito, indolente.
Respirou fundo, permitindo que seu perfume lhe invadisse os sentidos. Nunca havia imaginado aquilo. Mesmo quando tivera esperanças de que a outra Empousa pudesse
gostar dele, que pudesse amá-lo, pensara apenas no toque de suas mãos suaves.
Apenas em sonho permitira-se imaginar fazendo amor com uma mortal... Mas nenhum deles tornara-se realidade.
Até aquele momento. Até Mikado.
Quando ele a tocara e percebera que a dor causada pelo feitiço de Hécate tinha sumido — e o que aquilo significava —, Mikado transformara seus sonhos em realidade
e, ao fazê-lo, também curara a ferida da solidão que o afligia havia séculos.
Pelos deuses, o que ele iria fazer? Ela o salvara... Como ele poderia lhe fazer algum mal agora?
Mas se ele não a sacrificasse, o Reino das Rosas iria perecer.
Talvez não acontecesse imediatamente. Hécate poderia descobrir outra Empousa, porém um dano irreversível já teria sido feito. A traição de uma Sacerdotisa já fizera
um reino que jamais conhecera pragas, pestes ou doenças de qualquer espécie adoecer. Aquele tipo de coisa nunca existira no reino de sonhos e magia de Hécate.
Mas a traição e o abandono haviam provocado o enfraquecimento da muralha e, ele tinha certeza, apenas a rápida atuação de Mikado impedira um desastre.
Por isso precisava escolher entre destruir seu próprio sonho ou a destruição dos sonhos da humanidade.
Na verdade, não possuía alternativa. Apenas um animal poderia optar por si mesmo em detrimento da humanidade.
Asterius sentiu a agonia pelo que deveria fazer pressioná-lo como uma lança flamejante em suas entranhas.
— Está me olhando — Mikki disse baixinho e, sonolenta, abriu os olhos e sorriu para ele. — Não consegue dormir?
— Prefiro olhar para você. — Ele afastou-lhe uma mecha espessa de cabelo do rosto.
— Eu devia ter adivinhado que era um romântico quando colocou aquela rosa no meu vinho...
— Isso não é ser romântico, é ser civilizado. — Ele temperou a voz grave com um leve sorriso e acariciou a curva graciosa de seu pescoço e ombro, sorrindo ao vê-la
suspirar, feliz, e esticar-se como um gato.
— Não estrague minha alegria... Prefiro pensar que é romântico.
— Então vou chamar de romance, também, só por sua causa. — Hesitante, porém com uma doçura e inocência totalmente em desacordo com a aparente ferocidade de seu corpo,
Asterius inclinou-se e beijou-a nos lábios. — Quando veio até mim, hoje, ofereceu-me mais do que seu corpo e seu amor, Mikado. Ofereceu-me aceitação: uma alegria
que eu nunca imaginei que fosse conhecer.
Ela entrelaçou os dedos com os dele.
— Isso é algo que você e eu temos em comum. Eu sempre me senti como se não pertencesse ao meu antigo mundo. — Respirou fundo e tomou uma decisão. Queria que Asterius
soubesse. Precisava que ele soubesse. — Hécate me explicou parte da razão pela qual eu me sentia tão deslocada. Era porque eu já estava destinada a ser sua Empousa
neste mundo. Sempre carreguei o sangue de uma Alta Sacerdotisa nas veias. Mas há outra razão... Por isso nunca deixei ninguém, muito menos um homem, aproximar-se
de mim. Tem a ver com meu sangue também. — Ela estudou os olhos escuros, querendo que ele compreendesse. — As mulheres da minha família estão intrinsicamente ligadas
às rosas. Se regarmos as flores com água misturada ao nosso sangue, estas se desenvolvem além do normal. No mundo comum, o que eu fazia era inédito. Exceto pelas
mulheres da minha família, ninguém mais conseguia entender. Isso me fazia sentir como se eu fosse uma aberração e, por isso, eu escondia meu segredo. — Preocupada
ao ver como Asterius ficara imóvel e pálido, Mikki sentiu-se retesar. — Diga alguma coisa... Eu nunca contei isso a ninguém.
Quando ele permaneceu em silêncio, ela começou a se afastar, mas, com um rosnado baixo, Asterius puxou-a com determinação de volta para a proteção de seus braços.
— Você não se sentia aceita lá porque era seu destino ser Empousa de Hécate e vir até aqui para salvar as suas rosas e seu Guardião solitário. O sangue que corre
em suas veias é a vida deste reino, Mikado. É seu amor que nos sustenta. — Ele fechou os olhos e afundou o rosto nos cabelos vermelhos, tentando não tremer, tentando
não pensar.
Mikki relaxou e aninhou-se mais junto a ele.
— Isso ainda me espanta. Se as coisas não tivessem acontecido numa sequência perfeita, eu não estaria aqui. — Recostou-se em seus braços de modo a fitá-lo e, mais
uma vez, perguntou-se o porquê de Asterius ainda estar tão pálido. — Foi meu sangue que o despertou, sabia?
— Não. — A voz dele soou ainda mais grave. — Eu só sabia que havia me despertado, que podia sentir seu cheiro e que você era a Empousa de Hécate.
— Na verdade, esse é um dos aspectos mais estranhos do que aconteceu. Naquele mesmo dia, em Tulsa, uma senhora que eu mal conhecia havia me dado um pouco de perfume
e, num impulso, eu o usei. Por mais estranho que pareça, é o mesmo perfume que estou usando agora. Gii o chama de “o óleo sagrado da Empousa”.
Asterius franziu o cenho.
— Como é possível?
Mikki deu de ombros e tornou a se aconchegar junto a ele.
— Eu não faço ideia, mas ela era muito excêntrica. E linda, mesmo sendo velha. Tinha os olhos azuis mais incríveis que já vi. Era estrangeira, porém eu não consegui
discernir muito bem seu sotaque. Ela disse que tinha conseguido esse perfume... — Mikki parou para pensar — ... em algum lugar da Grécia, se não me engano. O que
me lembro com certeza é de seu nome porque, assim como eu, ela também tem nome de rosa: Sevillana.
Mikki sentiu o choque que atravessou o corpo de Asterius, e ergueu-se sobre um cotovelo, vendo a expressão indecifrável no rosto moreno e agora pálido.
— O que foi? Alguma coisa errada?
— É que... nada. Não foi nada. Só estou surpreso por uma mulher do mundo comum ter obtido o óleo sagrado da Sacerdotisa de Hécate. É um mistério. — Asterius passou
os braços a seu redor. — Deite-se aqui comigo... Deixe-me sentir seu corpo tocando o meu.
Mikado descansou no peito largo.
A mente de Asterius girava num turbilhão enquanto ele acariciava a linha suave de suas costas. Sevillana... Apenas o nome tinha enviado ondas de choque por todo
seu corpo. Era ela!
Ele, também, jamais iria se esquecer da beleza fria de seus olhos azuis e penetrantes, muito menos de seu nome. A última Empousa continuava viva no mundo comum.
Como era possível? O tempo passava de forma diferente por lá, ele sabia. Mas ao menos dois séculos, pela contagem daquele mundo, deviam ter se passado. Talvez a
antiga Empousa houvesse atravessado a encruzilhada com mais do que apenas um frasco de óleo para unção. Talvez tivesse conseguido roubar alguma magia do reino.
A enormidade daquela revelação infiltrou-se em seu estado de choque. Sevillana estava viva! Na primavera, quando uma Empousa precisasse ser sacrificada pelo reino,
Sevillana, e não Mikado, deveria morrer! Tudo o que ele precisava fazer era descobrir uma maneira de trazer a Sacerdotisa ausente para o Reino das Rosas!
Tinha que ser possível. Sevillana havia escapado, portanto certamente poderia retornar.
Asterius segurou Mikado com mais força, e essa foi sua resposta. Ele não a sacrificaria. Apenas a trocaria pela antiga Alta Sacerdotisa e devolveria Mikado com segurança
para sua casa no mundo comum.
Ficaria sem ela, sentiria sua falta por toda a eternidade, sem dúvida... Entretanto, poderia suportar isso. O que não poderia suportar era saber que ela teria de
morrer por suas mãos. Se Mikado partisse, perderia seu amor. Se ele a sacrificasse, perderia a própria alma...
Pois ele não sacrificaria seu amor, tampouco iria perder a própria alma. Tinha uma alternativa, e também os poderes do filho de um Titã. Transformaria aquele imenso
cúmulo de magia para alcançar seu objetivo.
Mas não naquele momento. Não naquele dia.
Naquela noite, ele iria se deleitar com o milagre do amor de Mikado, e não pensaria mais sobre o vazio infinito das madrugadas que estavam por vir.
Mikki encostou-se à entrada discreta para a caverna e olhou a manhã nublada enquanto mastigava um pedaço de pão. Asterius veio por trás dela, e a fez inclinar-se
de encontro a ele.
— Chuva! — disse, surpreso. — Não costuma chover por aqui.
— Fui eu que fiz isso. Ordenei ao elemento Água que a trouxesse quando lancei o feitiço de saúde e proteção ontem. Em todas as manhãs haverá chuva por algum tempo.
É bom para as rosas e é bom para o reino também. Manhãs chuvosas são repousantes; um momento perfeito para dormir e fazer rejuvenescer a alma. — Ela se virou em
seus braços. — Infelizmente, eu não pensei em avisar as servas, ontem, que manhãs chuvosas equivaleriam a tirar uma folga... Imagino que os Quatro Elementos estejam
se perguntando por que eu ainda não as chamei para trabalhar. E como a noite passada foi a primeira, em muito tempo, em que os homens puderam ser convidados a vir
ao reino, aposto que estão cansadas e me esperando de mau humor... Preciso ir vê-las. O que vai fazer?
— A mesma coisa que faço todas as manhãs: inspecionar a muralha das rosas ao redor do reino para ter certeza de que tudo está seguro. Depois vou colher mais fios
para as Tecedoras de Sonhos. — Ele acariciou o rosto dela. — Só que, nesta manhã, cumprirei minhas funções com seu cheiro na minha pele... E com a lembrança do seu
sorriso, toque e gosto no meu coração. — Ele sorriu. — Dizem que a chuva é sombria e triste, mas, para mim, esta manhã parece brilhante e cheia de promessas.
— Um romântico incurável... Quem diria? — Mikki segurou-o pela cuirasse. — Beije-me, para que possamos arregaçar as mangas depois — ela ordenou, enquanto se perguntava
se algum dia ele iria perder aquele ar de felicidade que se estampava em seu rosto a cada vez que ela o surpreendia com um toque ou, como naquele momento, com um
beijo. Sinceramente, esperava que não. — Pode tirar uma folga para almoçar comigo?
Asterius beijou-a outra vez antes de responder.
— Claro que sim. Tudo o que precisa fazer é me chamar.
— E à noite?
— Peça, Empousa, e eu obedecerei — ele murmurou, os olhos escuros brilhando.
— Você diz isso agora. Vamos ver o que vai achar de obedecer a todas as minhas vontades daqui a um ano ou mais — Mikki disse brincando, enquanto levantava uma sobrancelha,
travessa.
Ficou surpresa ao ver a expressão dele mudar e seus olhos perderem todo o humor.
— Eu jamais me cansaria de você ou das suas vontades, Mikado. Nem se tivéssemos uma eternidade para compartilhar.
As palavras fizeram seu coração se comprimir. Como podia ter se esquecido de que Asterius era um imortal? Ela iria envelhecer, ele não. E, ao contrário dele, ela
morreria.
Não! Não pensaria naquilo. Não no alvorecer de seu amor. Eles mereciam algum tempo para que pudessem saborear a doce sensação de um sentimento novo e inebriante.
Nesse ponto não eram diferentes de qualquer outro casal. Ela não iria estragar aquela lua de mel com pensamentos terríveis sobre um futuro em que iria se arrastar,
encolhida, pelos jardins, inclinando-se sobre o braço sempre jovem e forte de Asterius...
Ele a deixaria, então? Será que ainda iria querer ficar com ela?
Pare com isso! Está fazendo exatamente o que prometeu não fazer!
Mikki fez brotar um sorriso nos lábios.
— Eu não estava falando a sério. Estava apenas brincando com você. Mas já que mencionou seu dever de obedecer a meus comandos... ordeno que venha me ver esta noite.
— Olhou por cima do ombro largo para a caverna acolhedora, tão impregnada da presença de Asterius como da requintada arte que ele criara. — Na verdade, acho que
prefiro vir para cá.
— Aliás, creio que não tenha conhecido bem meu lar, como me pediu ao chegar...
— Essa é uma das coisas que terá de fazer esta noite... Mas apenas uma delas.
A leve chuva mudou a aparência dos jardins, como se alguém os tivesse pintado com um pincel de aquarela e dado um toque impressionista à realidade.
Mikki decidiu que gostou do que via. Combinava com o restante daquele lugar de sonho.
Quis ir direto para o palácio e chamar os Quatro Elementos. As pobres meninas deviam estar bem aborrecidas com ela, principalmente se alguma delas tinha expulsado
alguém delicioso da cama...
Mas continuou vagando, perdida na magia que emanava das rosas.
Elas pareciam melhores naquela manhã. Mesmo quando ela rumou devagar em direção ao Sul, a náusea que revirava seu estômago sempre que ela perambulava pelos jardins
não veio. Viu até mesmo várias flores saudáveis, cor de lavanda, que reconheceu como rosas Angel Face em plena floração, onde no dia anterior havia apenas brotos
anêmicos.
Sorriu e, num acesso de orgulho, autodenominou-se “a Deusa das Rosas”.
E sonhou com Asterius.
Suspirou. Encontrava-se dolorida em lugares dos quais ela até se esquecera... Quase um ano se passara desde a última vez em que fizera sexo, mas nunca havia experimentado
nada como o amor que fizera com Asterius. Aquele corpo forte, aquela mistura de homem e animal fora tão intrigante, tão sedutora!
Mas o mais excitante tinha sido a liberdade que sentira com ele.
Sorriu. Com Asterius ela poderia soltar a fera que existia dentro dela quando estivessem juntos, sem temer que ele se afastasse. Asterius correspondia inteiramente
à sua paixão. E ele a conhecia, lia sua alma.
Asterius, Minotauro, Guardião... Ele também sabia o que era ser um marginal.
Pois bem, eles haviam encontrado um lar juntos enfim.
— A chuva foi uma ideia inteligente, Empousa.
Mikki pensou que fosse desfalecer ao som da voz de Hécate.
— Minha nossa, você quase me matou de susto! — exclamou.
Então lembrou-se de com quem estava falando, limpou a garganta e virou-se para encarar a deusa com o coração batendo dolorosamente no peito. Hécate encontrava-se
sentada em um banco de mármore, a poucos metros.
— Perdão, eu me assustei... — Fez uma reverência, como via as servas fazendo com tanta frequência. — Não devia ter falado dessa maneira.
Hécate fez um gesto de desdém com a mão.
— À minha Empousa são permitidas liberdades de que muitos nem precisam saber. — Ela apontou o espaço a seu lado. — Venha, sente-se aqui comigo.
Engolindo em seco, Mikki aproximou-se da divindade. Os cães gigantescos encontravam-se a postos ao lado dela, porém a ignoraram por completo.
Hécate vestia as cores da noite: preto, o mais profundo dos azuis e cinza. Manifestara-se como a linda mulher de meia-idade outra vez, e as gotículas de chuva cintilavam
como joias em seu cabelo negro.
— O feitiço para proteção e saúde que lançou ontem foi muito bem pensado. Concordo com seus instintos. A chuva refresca as rosas e o reino. Além disso, os pequenos
insetos que pediu à Terra foram uma surpresa encantadora... O elemento Ar adorou trazê-los para cá. — A deusa fez uma pausa e, em seguida, surpreendeu Mikki com
uma deliciosa risada. — Embora não se possa enxergar seu corpinho vermelho e preto em meio a essa névoa.
— Joaninhas alimentam-se de pulgões, e as rosas odeiam pulgões — lembrou Mikki, ainda surpresa com o declarado elogio da diva.
— As rosas estão desenvolvendo-se de novo, e isso me agrada.
— Obrigada, Hécate.
— Também foi bom ter instruído Fogo a iluminar a muralha das rosas, principalmente as do portal. Agora que os homens estarão indo e vindo outra vez, precisam tomar
muito cuidado com essa passagem.
— Eu nem havia pensado nisso! — Mikki passou a mão pela testa, nervosa. — Sou mesmo uma tola. Como esperava que eles fossem entrar e sair do reino?
— Não foi ruim ter permitido que os homens viessem aqui de novo. Fez muitas mulheres felizes. Durante toda a noite, ouvi os nomes dos amantes sendo sussurrados em
convites que foram levados ao mundo antigo. — A deusa sorriu de lado, maliciosa. — Ainda esta manhã alguns continuam sendo chamados e apreciados pelas mulheres,
as quais há muito são reverenciadas como algumas das mais belas e inteligentes do mundo antigo. Ter os homens por perto dará vida nova ao reino... Bebês meninas
são uma bênção, e estou ansiosa por seu nascimento.
— Mas os Ladrões de Sonhos estão na floresta. Temos que ter cuidado se esse portal vai abrir e fechar a cada pouco.
— Você é a Empousa, Mikado. Pode colocar limites quanto ao ir e vir dos homens. — Hécate deu-lhe um olhar afetuoso. — É bom que saiba dos perigos que espreitam do
outro lado da barreira, mas não precisa se preocupar. A força do Guardião irá proteger o reino. Case a vigilância dele com seu carinho pelas flores, e tudo ficará
bem no Reino das Rosas.
Mikki tentou não pensar ou reagir. Manteve a mente vazia e assentiu.
— Ótimo. Agora, o que vim dizer é que tenho assuntos para resolver que vão me afastar do reino. Não se preocupe se eu não vier visitá-la aqui por... — Hécate ergueu
um ombro — ... algum tempo. Mas meus poderes estarão sempre com você, caso necessite deles. Sinto que está confiando mais em seus instintos e, por isso, aplaudo
sua sabedoria. Deixe que sua intuição a guie. Se seu sangue, alma ou espírito lhe disserem algo, pode acreditar. E, lembre-se, Empousa, aprecio muito o que tem feito
pelas rosas, mas não foram apenas suas providências que deram início à recuperação delas. Foi também sua presença. Tem laços de sangue com as flores, o que garante
que elas irão prosperar. Seja sábia, Mikado. Os sonhos da humanidade dependem de você.
Hécate levantou a mão e desapareceu em uma névoa brilhante.
Capítulo 30
Mikki não podia dizer que não estava aliviada por Hécate ter partido por algum tempo. É claro que devia ter lhe contado sobre seu relacionamento com Asterius...
Contar seria bem melhor do que a deusa ler sua mente ou descobrir de outra forma.
Tinha vontade de correr e se esconder só de pensar nisso!
Iria dizer tudo a ela, sem dúvida, mas não queria fazer isso tão já.
Não que estivesse com vergonha por amar Asterius, ou porque temia sua deusa, ainda que Hécate fosse um tanto assustadora. Mas queria manter o Guardião para si mesma.
Por que não podiam ter privacidade para descobrir os segredos daquele novo amor? Mesmo que tivesse se apaixonado por um homem de Tulsa, ela gostaria de ter tempo
para que os dois aproveitassem a novidade de sua descoberta antes que a revelassem aos sete ventos e abrissem a própria vida à especulação. Ela era discreta e quanto
mais uma coisa lhe era importante, mais discreta ela tornava-se a respeito.
E Asterius era muito importante para ela.
Quando Hécate voltasse, sabia-se lá de onde, poderiam ter uma conversa acerca do Guardião. Então iria lidar com a resposta da deusa, qualquer que fosse ela.
Até lá, iria valorizar aquele período de lua de mel que lhe fora concedido e desfrutar completamente o fato de que tinha se apaixonado.
Satisfeita com seu plano, Mikki deixou o banco e verificou os canteiros e fontes vizinhos para certificar-se de que rumava na direção certa. Os comentários de Hécate
sobre os homens indo e vindo através do portal das rosas a haviam preocupado e, a despeito do que a deusa dissera sobre Asterius, iria se manter alerta.
Naquele exato momento, seus instintos lhe diziam que verificasse o portal por conta própria, depois anunciasse um toque de recolher, embora detestasse a ideia de
agir como uma inspetora de colégio. Gostaria de conversar com Asterius sobre aquilo, mas só faria sentido colocar alguns limites quando o portal estivesse aberto.
E também precisava descobrir quem, exatamente, poderia abri-lo. Asterius poderia, claro. E ele dissera que ela também poderia fazê-lo. As Tecedoras de Sonhos haviam
mencionado que os Quatro Elementos tinham colhido os fios da realidade enquanto o Guardião estava enfeitiçado, então elas também eram capazes de abrir o portal.
Mas quem mais? Seria uma tremenda dor de cabeça se todas as mulheres do reino pudessem fazer um gesto e abrir a maldita porta como se esta fosse o Mar Vermelho...
Sem dúvida, tinha muito trabalho a fazer.
Calculando a hora, Mikki apertou o passo. Precisava se mexer e chamar suas damas de companhia.
Poderia chamá-las naquele exato momento e fazer com que se encontrassem ali nos jardins, claro; mas preferia checar pessoalmente o portal, voltar correndo para o
quarto, trocar aquela túnica molhada e rasgada, embora a tivesse remendado naquela manhã, pedir a Daphne que trouxesse um pouco daquele chá delicioso e reunir-se
com as meninas mais tarde para um brunch.
Mesmo assim, ainda era cedo. E as servas não eram estúpidas. Decerto olhariam a chuva e perceberiam que havia pouco a ser feito nos jardins com aquele clima. Talvez
até voltassem para a cama.
Mikki sorriu para si mesma, esperando que elas não fizessem isso sozinhas. Ela mesma não o faria naquela noite.
A chuva mudara aos poucos da garoa fina para uma bruma, e depois para um nevoeiro claro que agora pairava sobre as rosas como na região dos Lagos, na Inglaterra.
A cerração tornou-se mais espessa conforme ela caminhava para o Sul.
Mikki pensava na noite que tinha pela frente, tentando decidir como poderia convencer Asterius a ir até as fontes termais para um banho a dois, quando uma parede
de rosas Multiflora surgiu bem diante de seu nariz, e ela quase se chocou contra a muralha.
— No próximo feitiço, lembre-se de dizer ao Ar para afastar o nevoeiro depois da chuva! — resmungou para si mesma enquanto esquadrinhava o portal, procurando por
sinais de desgaste. — Você parece bem — elogiou, acariciando parte da folhagem.
— Sacerdotisa! Pode nos ajudar?
Mikki olhou ao redor, tentando ver de onde vinha a voz profunda. Era inequivocamente masculina, o que soava estranho nos jardins.
— Aqui! Estamos aqui!
Ela percebeu que a voz vinha do outro lado da muralha das rosas e inclinou-se um pouco, de modo a olhar através de uma parte menos densa dos ramos.
Seus olhos arregalaram-se de surpresa. Quatro homens encontravam-se do lado de fora do portal, cercados pela névoa espessa e cinzenta. Três deles estavam trajados
como ela sempre imaginara que os antigos gregos deviam se vestir: com uma espécie de túnica, um braço nu e capas cor de púrpura, regiamente bordadas, sobre as costas
largas. Eram todos altos, musculosos... e muito, muito bonitos.
O quarto homem, o que havia falado, devia ser o líder. Encontrava-se à frente dos demais e vestia-se no estilo em que ela estava acostumada a ver Asterius: com uma
cuirasse sobre uma túnica curta, de pregas.
Era aí, entretanto, que sua semelhança com o amante dela terminava. Era um homem bonito, alto e de pele morena, que destacava-se mesmo na manhã nevoenta. Sua pele
tinha um tom dourado que poucos loiros verdadeiros exibiam. Um bronzeado saudável, da cor do mais puro mel, e que cobria um corpo que era uma perfeição: atlético,
sem ser demasiado musculoso e brutal. Seu cabelo era espesso e ondulado, cortado num comprimento que era másculo e, ao mesmo tempo, juvenil.
E seus olhos eram tão azuis e límpidos que ela podia vê-los mesmo em meio à profusão de rosas.
Mikki suspirou. Nunca vira um homem tão bonito de tão perto. Geralmente, tanta perfeição limitava-se a Hollywood e às maquinações dos produtores de filmes e cirurgiões
plásticos.
— Aí está, Sacerdotisa! — Ele sorriu, e seu rosto iluminou-se ainda mais. — Estamos aqui. Respondemos a seu chamado.
Ela sorriu de volta. (Quem não o faria diante de um sorriso como aquele?)
— Meu chamado?
— Só posso rogar à grande deusa que eu tenha tido a sorte de ter sido chamado por uma beldade como você...
Mikki percebeu que corava e sentiu-se ridícula.
— Ouvi dizer que os olhos azuis são mais fracos do que os castanhos ou verdes — replicou. — Acho que acabou de comprovar essa teoria.
Ele riu, e o som de seu riso era tão cativante quanto sedutor.
— Ah, vejo que minhas preces foram atendidas! A deusa me concedeu uma Sacerdotisa que tem inteligência, além de beleza. — O estranho deu alguns passos em direção
ao portal, e seus amigos o seguiram.
Por entre os ramos, Mikki observou-o mover-se com naturalidade e confiança, de modo tão atraente e tão diferente do modo selvagem de Asterius que ficou chocada.
Não chegou a desejar o lindo loiro, mas sentiu uma ponta de inveja da mulher que o tinha chamado.
Viu-se invadida imediatamente por uma onda de culpa. Que diabo havia de errado com ela? Tinha acabado de deixar a cama de Asterius após proclamar seu amor por ele,
e agora estava toda derretida diante de um estranho só porque ele era bonito?
Talvez a chuva tivesse atravessado seu crânio e inundado seu cérebro.
— Vai abrir o portal para nós, Sacerdotisa, ou meus companheiros e eu teremos de atravessar essa parede espinhosa?
— Não! — ela respondeu um pouco alto demais. E então, sentindo-se como uma idiota, adicionou: — Não fui eu que o chamei. Não precisa me cortejar.
A expressão de decepção do rapaz pareceu sincera.
— Se é assim, creio que eu lhe deva desculpas, graciosa dama. Imaginei que fosse um dos Elementos, com essas tranças avermelhadas e sua extraordinária beleza. Fogo,
talvez. Afinal, foi ela quem me chamou aqui. Eu seria um homem de sorte se tivesse acertado.
— Desculpe, mas não sou nenhum dos Elementos. — Mikki sorriu, travessa.
Não estava sendo infiel a Asterius por ser educada com o rapaz. Estava apenas cumprindo seu papel de Empousa, afinal, fora ela quem lançara o feitiço para permitir
que os homens adentrassem o reino.
— Eu sou a Empousa.
Os olhos azuis do estranho plissaram-se adoravelmente nos cantos com seu sorriso.
— Empousa! — Ele curvou-se em um lindo e cavalheiresco floreio, que os outros homens copiaram enquanto a saudavam, galantes. — Que feliz coincidência estar passando
por aqui neste momento. Bem que ouvimos dizer que havia uma nova Empousa no Reino das Rosas. É uma honra conhecê-la... — O sorriso do rapaz brilhou com bom humor.
— Mesmo através de uma barreira de rosas...
— Disse que Floga o convidou?
— Isso mesmo.
— Ela convidou os seus amigos, também? — Mikki tentou evitar um sorriso malicioso, mas falhou miseravelmente. Não era difícil imaginar o elemento Fogo precisando
de quatro homens para apagar sua paixão, mesmo que um deles já se parecesse com Adonis.
Por um instante, Mikki sentiu uma ponta de ciúme da liberdade e facilidade com que a serva podia caminhar ao lado de qualquer homem que escolhesse.
— Não, Empousa — disse um dos que estavam vestidos com quitão. Tinha os cabelos escuros e fartos e um rosto bem talhado, o que a fez concentrar-se outra vez na conversa.
— O elemento Terra é a Sacerdotisa cujo chamado estou atendendo.
— A Água foi quem me chamou, Empousa — disse o terceiro homem.
— E eu tive a sorte de ter sido convocado pelo Ar — explicou o último, que possuía cabelos longos e castanho-avermelhados, além de olhos extraordinariamente verdes.
Caramba, eles eram maravilhosos! Suas servas tinham feito excelentes escolhas.
Mikki sorriu. Precisava perguntar a Gii como funcionava aquela coisa de convidar os homens... Era meio estranho que eles tivessem sido invocados pelas meninas pela
manhã, mas talvez não fosse. Ela ainda não as chamara para trabalhar. Estivera chovendo e, na certa, elas haviam decidido ocupar-se à sua maneira.
Sem dúvida, eram tão inteligentes quanto ela pensava.
— Tenho certeza de que os Quatro Elementos estarão aqui a qualquer instante, portanto, ficarei feliz em deixá-los entrar.
Os olhos do líder se iluminaram e ele curvou-se numa mesura novamente.
— Ser convidado a entrar no Reino das Rosas por sua Empousa é uma honra que não merecemos.
— Ah, isso não é problema. Podemos caminhar para o palácio juntos. Eu já ia voltar para lá.
Sem dizer que ser escoltada por quatro rapazes lindos de morrer não era nenhum sacrifício.
Tampouco era errado, pensou Mikki, sentindo-se dominada por uma súbita revolta. Claro que não era errado! Ela estava apaixonada, não morta. E tudo o que iria fazer
era levar os homens até suas mulheres.
O único motivo escuso que talvez tivesse para tanto era desfrutar um flerte inofensivo. Mas por que não? Sentia-se incrivelmente bonita e amada, mas isso não significava
que quisesse ser controlada e trancafiada em uma gaiola!
Asterius que pensasse duas vezes antes de querer marcá-la como uma novilha premiada... Era isso o que ele esperava dela? Que ela lhe permitisse controlar todos os
seus movimentos?
De repente, sentiu medo de que fosse aquilo mesmo. Afinal, Asterius era um animal, e ela não podia esperar que ele soubesse como tratar uma mulher.
Em algum lugar, nas profundezas de sua alma, algo tentou inserir-se no turbilhão de pensamentos defensivos que borbulharam em sua mente tal qual num guisado rançoso...
Mas não puderem ser ouvidos em meio ao ódio e à inveja, o egoísmo e o medo que gritavam dentro dela.
Meio desnorteada, Mikki foi até o centro do portal e franziu o cenho. Não havia nenhuma maçaneta, nenhuma trava, nenhuma barra de deslizar. Frustrada e muito irritada
com a enorme dor de cabeça que abateu-se sobre ela, levantou a mão e pressionou a palma contra a muralha.
— É a Empousa quem fala. Abra logo essa droga! — murmurou com raiva.
O portal vivo obedeceu.
Os quatro homens deixaram o nevoeiro sorrindo, como se ela tivesse acabado de lhes dar a chave para o paraíso.
Mikki sorriu de volta, distraída, desejando que eles se apressassem a passar para o lado de dentro. Não gostou da aparência da floresta escura e quis fechar o portal
imediatamente.
No instante em que o último homem entrou, ela ergueu a mão de novo e ordenou ao portal que se fechasse, suspirando de alívio quando este obedeceu.
Então, virou-se para os homens.
— O palácio é por ali. — Gesticulou na direção do caminho de mármore mais largo.
— Claro, Empousa. — O loiro sorriu.
Mikki começou a andar, contudo estacou quando o moreno de cabelos escuros bloqueou seu caminho.
— É por aqui — ela repetiu, apontando por cima de seu ombro largo enquanto pensava que ele podia ser bonito, mas, definitivamente, não era a última bolacha do pacote.
— Talvez queira saber nossos nomes antes de nos levar até o palácio, Empousa... — A voz do loiro soou bem atrás dela. Ele estava tão próximo que Mikki pôde sentir
sua respiração nos cabelos.
Os outros dois rapazes entraram em cena para fechar o círculo, de maneira que ela viu-se cercada.
Foi nesse momento que tudo clareou, a dor na cabeça cessou, assim como as emoções desencontradas que vinham fervilhando em sua mente. De súbito, uma certeza terrível
tomou conta de Mikki: eles eram Ladrões de Sonhos e ela abrira o portal das rosas para eles!
Instintos que tinham sido silenciados assim que ela havia começado a conversar com o loiro gritaram para que ela não demonstrasse medo.
Determinada, engoliu a bile que lhe subira à garganta, endireitou-se, majestosa, e encarou o homem de cabelos dourados.
— O que significa isto?
— Nós apenas gostaríamos de nos apresentar, Empousa. Como vê, já a conhecemos bem, pois gostamos de observá-la. Agora queremos que saiba o que convidou tão graciosamente
a adentrar o seu reino. — O charme na voz dele fora substituído pelo sarcasmo, e seus lábios curvaram-se num sorriso de escárnio que distorceu seu belo rosto.
— Não gosto do seu tom e não gosto da sua proximidade — ela declarou, áspera, tentando imitar o tom intimidador de Hécate. — Acho que já é hora de partirem. Decidi
que minhas servas não gostariam de sua companhia.
— Tarde demais. Abriu o portal para nós e agora verá que, uma vez que somos convidados, não costumamos deixar a festa tão cedo... — O moreno estendeu a mão e tocou
uma mecha avermelhada que descansava em seu ombro.
Mikki tentou empurrá-lo, porém ele a agarrou pelos ombros sem nenhuma delicadeza e a segurou no lugar enquanto o loiro cheirava sua nuca. Ela lutou, mas, agarrando-a
pelos cabelos, este a obrigou a virar a cabeça para o lado e, como uma cobra provando sua presa, deslizou a língua por seu pescoço.
— Ah, o doce sabor de uma Empousa! Há séculos não degusto uma iguaria destas.
— Parem com isso! — Mikki choramingou. — Larguem-me!
Surpreendentemente, o loiro obedeceu. Sorriu para ela, mas foi apenas uma exibição de seus dentes perfeitos, e não uma expressão de humor.
— Vamos aproveitar nossa visita em sua companhia, Empousa. Gostamos dessa mudança no clima que providenciou... Um tempo desses é melhor para encobrir o nosso pequeno
rendezvous, embora alguém já tenha tido o prazer de sua companhia esta manhã. — Com os movimentos de um réptil, ele a circundou e arrancou o broche que mantinha
unido o tecido já cortado da túnica.
Mikki congelou de medo. Agarrou-se ao quitão, tentando não vomitar enquanto eles a cercavam mais, apalpando-a com mãos ousadas e devorando-a com os olhos.
— Vamos, Empousa, não seja tímida... Não pode dizer que não me reconhece.
— Ou a mim e aos outros... — a voz do de cabelos castanhos soou abafada a suas costas.
— Olhe bem nos meus olhos, Empousa... Tenho certeza de que já me viu antes. Não me diga que não sabe meu nome.
Ela mirou os olhos incrivelmente azuis do loiro. De súbito, sua cor clara e intensa tingiu-se de um vermelho-sangue, e eles transformaram-se em fendas.
Mikki reconheceu-o então e, quando seu nome ardeu-lhe no pensamento, ela viu-se dominada por uma fúria que solapou todo o medo.
— Tire essas mãos nojentas de mim! — gritou, irada, e o empurrou com violência.
Surpreso, o moreno que a segurava por trás tropeçou e a soltou. Sem perder tempo, Mikki recuou vários passos para longe deles.
O loiro riu e a seguiu devagar.
— Que bom... Gostamos se oferecem resistência. Isso torna as coisas mais interessantes. Afinal, o que vê quando me olha nos olhos, Empousa?
Ela continuou se afastando, contudo ele e os outros a seguiram.
— Um borra-botas louco para ter contato com gente influente! — respondeu, ofegante.
Ele gargalhou.
— Acho que vou ter de lhe ensinar coisas melhores para fazer com essa sua língua afiada. Mas, por hora, me diga, Empousa... Que nome você me dá?
— Ódio — ela respondeu sem hesitação.
O sorriso dele foi aterrador.
— Ah! Vejo que pensa rápido. Talvez eu a leve comigo quando sairmos daqui. Gostaria disso? Sou um homem que conhece intimamente os desejos ocultos das mulheres.
— Homem? Que homem? — Ela riu, sarcástica. — Você não passa de uma criatura desprezível. Um comedor de carniça que se alimenta das carcaças dos sonhos. Mas não me
importa em que tipo de pele esteja disfarçado.
Ele se lançou à frente e a agarrou pelo braço.
— Acha que não sou homem? Pois eu vou lhe mostrar!
Enquanto eles tornavam a cercá-la, Mikki gritou o nome do único homem que preenchia-lhe o coração e a alma.
— Asterius!
— Seu amante, seja lá quem ele for, não vai salvá-la agora. E, se realmente se importa com ele, sugiro que fique bem quietinha... Nenhum mortal pode olhar para nós
sem perder uma parte da própria alma. — O Ódio bufou em seu rosto enquanto agarrava a frente da túnica e a arrancava de seu corpo. — Cubram a boca desta gracinha
e cuidem para que ela não dê um só pio! Neste nevoeiro não há chance de que sejamos descobertos até que seja tarde demais para ela... Tarde demais para todas!
Mikki viu-se arrastada para fora do caminho de mármore até um canteiro de rosas Salet. Lutou, chutando virilhas e pernas, usando as unhas para furar qualquer carne
com que entrava em contato, assim como se aprendia nas aulas de autodefesa nos Estados Unidos.
Mas os quatro logo a dominaram. Empurraram-na para o solo, e ela percebeu vagamente que a terra recém-trabalhada encontrava-se coberta com pétalas de flores destruídas,
como se uma neve cor-de-rosa tivesse caído junto com ela. Um deles a sufocava, e Mikki não conseguiu gritar. Fechou os olhos, então, e, concentrando-se, gritou em
pensamento:
Asterius! Venha!
— Verá se sou homem ou não... — rosnou o Ódio, empurrando para o lado a frente da própria túnica para tomar o membro ingurgitado na mão. — Depois experimentará um
pouco do Medo, do Ciúme e do Egoísmo — completou, rindo de modo insano. — Aliás, que ironia o Egoísmo tomá-la por último... Ou talvez não. Talvez ele opte por ficar
com você definitivamente enquanto visitamos as outras mulheres deste seu reino patético, Empousa.
Mikki captou um movimento em meio à sua visão já escurecida e, no instante seguinte, Asterius pareceu explodir de dentro do nevoeiro com um rugido ensurdecedor.
O Ódio virou-se para enfrentá-lo e, ao fazê-lo, seu corpo ondulou e transformou-se no do Ladrão de Sonhos. Conforme ela imaginara, ele não era humano, mas uma criatura
horrenda que devia existir apenas no mundo dos pesadelos. Tinha a pele escamada e seus olhos de cobra saltavam de uma cabeça dilatada em forma de capuz. Seu corpo
possuía características humanoides, porém ele agachou-se sobre quatro patas, botando uma espuma negra pela abertura da boca feito um réptil.
As garras de Asterius zuniram no ar, abrindo uma trilha de sangue no peito da criatura. Mikki escutou silvos horrendos escapando dos seres que a mantinham cativa,
então viu-se livre de repente quando o Medo, o Ciúme e o Egoísmo postaram-se atrás de seu líder.
Formavam um grupo aterrador. Todos haviam mantido algo de sua forma humana, mas haviam passado por tenebrosas mutações. O Medo era como um cadáver em decomposição,
com garras imundas e um rosto disforme. O corpo deveras humano do Ciúme era coberto por uma planta rastejante que brotava de sua pele como espinhos mortais. Ele
também se pôs de quatro, sibilando e lembrando um monstro do pântano. O Egoísmo tinha um corpo alongado, de onde saíam vários tentáculos, os quais ele agitava enquanto
rangia os dentes horríveis.
E todos enfrentaram Asterius.
O Guardião deu cabo de um por um. O Medo foi o primeiro a tombar, estripado pelas garras da fera. O corpo do Ladrão de Sonhos desabou e, em seguida, dissolveu-se,
transformando-se em uma fumaça vermelha que pairou ao longo dos canteiros de rosas.
Mikki se pôs em pé de um salto e gritou um comando:
— Aeras! Venha até mim!
Instantes depois, o elemento Ar corria até sua Empousa de olhos arregalados.
— Oh, grande Deusa! Salve-nos!
— Hécate não está aqui. Temos de nos defender sozinhas. Aeras, ordeno que seu elemento faça-se presente. Faça soprar um vento forte do Norte e nos livre da fumaça
do Medo. Agora!
Lívida, a moça ergueu ambos os braços. Quando o fez, uma rajada de vento frio soprou sobre eles, carregando a neblina da manhã, bem como a fumaça vermelha que pairava
ao longo da parede, para a floresta.
Um grito de dor fez Mikki arrancar o olhar da nuvem que se dissipava e concentrá-lo na batalha. Os olhos escuros de Asterius faiscavam, e ele rugia conforme desferia
golpe após golpe contra as criaturas do mal, os movimentos precisos tão fascinantes quanto mortais.
Ela prendeu o fôlego, pensando que Asterius era a coisa mais magnífica que já tinha visto.
Ele avançou, golpeou mais uma vez, e o Egoísmo foi ao chão, contorcendo-se, os tentáculos decepados espirrando sangue escuro em um arco vermelho por sobre as rosas.
Tendo o Ciúme agarrado a suas costas, Asterius abaixou o corpo num movimento quase invisível de tão rápido, e o Ladrão de Sonhos foi ao chão no mesmo momento, para
ser perfurado impiedosamente por suas garras na base da espinha.
Ambas as criaturas agonizaram e, depois, também desapareceram em nuvens de fumaça vermelha.
— Outra vez, Aeras! — ordenou Mikki.
Aeras chamou o vento Norte, e este baniu o Ciúme e o Egoísmo para a floresta.
— Sua vagabunda intrometida! — o Ódio gritou para o elemento Ar e, como uma víbora, atacou Aeras.
Mikki foi mais rápida, porém, e empurrou a moça para fora de seu caminho.
O Ladrão de Sonhos colidiu com a Empousa, em vez de sua serva, e Mikki sentiu uma picada lancinante explodir no ombro e no braço, tombando sob ele.
O Ódio gritou, então, e seu corpo curvou-se para trás quando Asterius cingiu-lhe as costas, fazendo brotar vários riscos vermelhos em sua pele.
Com um rugido terrível, o Ladrão de Sonhos agarrou Mikki e virou-se para enfrentá-lo, segurando a Empousa como um escudo.
Asterius reprimiu o ataque.
— Por que hesita, Guardião? Estou protegido de sua ira apenas por uma mulher fraca e mortal. Não está disposto a sacrificar sua Empousa nem mesmo para livrar o reino
do ódio? Surpreendente... — O Ódio soltou uma gargalhada maléfica. — Ah, eu havia me esquecido de que tem uma queda pelas Altas Sacerdotisas de Hécate. — A criatura
esfregou a virilha contra Mikki. — Não que eu o culpe... Esta parece bem madura e no ponto.
O rosnado de Asterius fez os pelos dos braços e nuca de Mikki se eriçarem.
— Eu o farei sofrer pela eternidade por tocá-la! — ele trovejou com a voz de um predador mortal.
— Acho que não, Guardião. Em vez disso, vai abrir o portal para mim, e eu passarei por ele incólume. — A criatura começou a puxar Mikki consigo enquanto recuava
na direção da muralha das rosas. — Se chegar muito perto, bancarei o Destino e estraçalharei a garganta dela. — Apertou uma garra dentada contra o pescoço delicado.
— Isto ainda não terminou — rosnou Asterius, movendo-se junto com o Ladrão de Sonhos e sua refém até a passagem. — Já disse que vou fazer você pagar pela eternidade
por tocá-la.
— O Ódio também nunca termina, Guardião. Já devia saber disso a esta altura. — Ele parou de costas para o portal. — Agora, abra-o para mim, e eu lhe devolverei a
Empousa... ainda que fosse gostar de me divertir com ela por algum tempo. — O Ódio arreganhou os dentes para Asterius antes de inclinar-se e saborear com a língua
o pescoço da Alta Sacerdotisa, em franca provocação.
Foi o bastante para Mikki. Mais do que o suficiente.
— Maldito! — ela gritou, enfiando o polegar no olho esbugalhado do monstro, o qual ele fora tolo o suficiente para aproximar dela.
O Ladrão de Sonhos soltou um grito ensurdecedor e arremeteu para longe.
Mas não antes de Mikki senti-lo perfurar sua pele com uma garra, e também uma onda de calor úmido que se seguiu ao ferimento.
Segurou o pescoço e caiu no chão, percebendo, mesmo com a vista escurecida pela dor, o modo como Asterius agarrou a criatura que debatia-se e torceu seu corpo para
trás até que a espinha do Ladrão de Sonhos partiu-se ao meio com um ruído medonho. Logo depois, ele o arremessou por sobre a barreira de rosas.
No instante seguinte, estava de joelhos a seu lado, gritando seu nome, tocando seu rosto e acariciando-lhe os cabelos.
Mikki tentou sorrir para ele.
Está tudo bem. Não foi culpa sua... Fui eu quem os deixou entrar.
Pensou que estivesse dizendo as palavras em voz alta, mas não conseguia proferi-las.
De repente, suas quatro servas surgiram à sua frente também. E estavam chorando. Mesmo Floga, que ela pensava nem gostar tanto dela...
Queria confortá-las, dizer que não estava com medo. E pedir que, por favor, tratassem melhor Asterius... pois sabia, sem nenhuma dúvida, que estava morrendo.
Capítulo 31
Asterius recusava-se a perdê-la assim. Não para o Ódio. Não quando Mikado havia trazido amor, desejo, carinho e aceitação... sentimentos tão opostos, para sua vida.
Ergueu-a nos braços e encarou os perturbados Quatro Elementos.
— Vamos levá-la até a fonte, Guardião. Lá poderemos lavá-la e depois colocá-la no Templo de Hécate, onde ofereceremos uma oração à Deusa por sua alma — pediu Gii
em meio a lágrimas.
— Ela não está morta! — ele explodiu, e rosnou um aviso quando Gii tentou se aproximar.
— Ainda não... Mas o ferimento de Mikado é mortal e, em breve, seu espírito estará no Reino de Hades — Nera falou com voz entrecortada.
— Não! Não é seu destino morrer hoje!
— As Parcas decidiram o contrário — Aeras replicou suavemente.
— Então eu desafio as Parcas!
— Mas, Guardião, o que pretende fazer? — Floga perguntou.
— Vou reclamar meus direitos de primogenitura.
Erguendo o corpo inerte que sangrava, Asterius passou pelas servas, mas a mão macia de Gii em seu braço o deteve. Quando ele a fitou, a moça encontrou seu olhar
sem hesitação.
— Como podemos ajudá-lo?
Ele ponderou por um instante.
— Vamos para o templo. Talvez o poder dos elementos ajude meu apelo a chegar mais rápido aos ouvidos de Cronos.
Sem esperar para ver se elas o seguiam, Asterius correu com Mikki para o Templo de Hécate, os cascos golpeando ruidosamente o mármore branco do caminho, tentando
não pensar em como ela continuava inerte e quanto de seu sangue lavava seus corpos.
Subiu os degraus do templo de três em três e, estacando diante da chama sagrada da deusa, caiu de joelhos, colocando sua amada ao lado do fogo.
Ouviu as servas entrando no templo logo atrás dele e tomando seus lugares ao redor do círculo.
— Ela ainda está viva? — Gii perguntou, aflita.
Asterius olhou para seu amor. Mikado tinha os olhos fechados e o rosto sem nenhuma cor. O sangue ainda fluía do corte comprido e fino em seu pescoço, e seu peito
subia e descia com dificuldade.
— Está.
— Então faça o que puder, Guardião. Não queremos perder outra Empousa antes que o destino assim exija! — declarou o elemento Terra.
Ele ergueu os olhos para os da moça.
— Convoquem seus elementos e formem o círculo sagrado.
— Você a ama, não é? — Floga indagou de repente.
Seu olhar virou-se para a serva.
— Sim.
— E vai salvá-la apenas para roubá-la de nós depois? — O elemento Fogo quis saber.
— No Beltane, a Empousa do reino encontrará seu destino. Eu lhe dou minha palavra.
— Mesmo que a ame? — Aeras exigiu.
— Há poucos minutos me viram batalhando com o Egoísmo. Não foi a primeira vez que tive de enfrentar esse Ladrão de Sonhos. Mas, desta vez, fui vitorioso. Nunca mais
vou sacrificar os sonhos da humanidade em benefício próprio. — Ele olhou para Mikado e tocou seu rosto gentilmente.
— Então você não é mesmo nenhum animal — Gii declarou com voz embargada.
— Sou, sim — ele retrucou sem olhar para o elemento Terra. — Mas também sou um homem. E o amor de Mikado fez do homem o mais forte das duas criaturas.
— Os Quatro Elementos irão ajudá-lo a salvar seu amor, Guardião — declarou Gii, acenando para Aeras. — Pode começar.
Aeras ergueu os braços para o alto.
— Invoco-te, ó Ar, para o círculo sagrado!
Imediatamente, o ar começou a se mover.
Como uma reação em cadeia, Floga elevou os braços, invocando seu elemento.
— Que venhas até mim, Fogo!
— Água! — gritou Nera. — Eu te convido a participar!
— Terra! Chamo-te para completar o círculo e ampliar os poderes do Guardião que abrigamos aqui! — entoou Gii.
Asterius sentiu o poder dos elementos na pele. Abaixou a cabeça e levantou as mãos manchadas com o sangue de sua amante. Em uma voz ampliada pelo Ar, pelo Fogo,
pela Água e pela Terra, bem como pela fera dentro dele, gritou para os distantes confins do Céu.
— Cronos, meu pai! Grande deus do Mundo e dos Tempos, Titã dos Céus e da Terra! Eu te invoco pelos teus antigos nomes, bem como por aquele que meu sangue me permite...
Vivi por muitos séculos sem te rogar por governo, poder, amor ou aceitação, mas hoje te peço, por direito de nascimento, que me dês o poder de salvar esta mortal.
Sua linha da vida foi cortada antes do tempo e ainda não desfiou até o fim.
A chama sagrada se agitou, e no interior da luz tremeluzente o rosto de um homem apareceu. Não se podia definir sua idade, mas era bem talhado, como se esculpido
em rocha pelo tempo e experiência. Um rosto que ele teria reconhecido em qualquer lugar, pois refletia o seu quase completamente.
— Pai! — disse Asterius, inclinando a cabeça.
O Titã mal o fitou. Em vez disso, apontou o queixo na direção de Mikado.
— É esta a mortal que deseja salvar?
— Sim!
— Ela é Empousa de Hécate? — indagou Cronos.
— É...
— Então sua salvação será apenas temporária.
— Ela ainda não viveu seu tempo de direito! Ainda não é Beltane — lembrou Asterius.
— Quem fez isso a ela? — O Titã quis saber.
— O líder dos Ladrões de Sonhos: o Ódio. Não posso deixá-la morrer pelas mãos daquela criatura.
Cronos voltou a atenção para o filho.
— O ódio a matou e você deseja que seu amor a salve?
Asterius contraiu a mandíbula, mas assentiu com um gesto de cabeça.
— Sim.
— Ah, o amor! — Cronos riu. — Estou surpreso com sua fraqueza, Guardião.
— Aprendi que o amor só é fraco quando é egoísta — ele retorquiu num claro desafio.
Uma ponta de surpresa brilhou na face do deus.
— Você me faz lembrar de sua mãe.
— Talvez porque ela também tenha enfrentado a fraqueza daqueles que amam de modo egoísta.
Cronos franziu o cenho.
— Não estou habituado a ser insultado quando solicitam meu auxílio!
— Não pretendia insultá-lo. Eu só disse a verdade — replicou Asterius, tenso.
— Independentemente disso, já me cansei desta conversa.
— Cronos! Perdoe-me, eu não...
— Silêncio! — A chama se agitou e o chão do templo da deusa tremeu. — Eu ainda não acabei... Concedo seu pedido. Pode compartilhar parte da imortalidade que habita
em seu espírito com a Sacerdotisa. Uma parte muito pequena, porém. Ela vai escapar do reino de Hades apenas uma vez. E saiba que há um preço para a centelha de imortalidade
que partilhar com ela. Mesmo depois que a Empousa morrer, vai carregar consigo esse pedaço de seu espírito. E você só irá se sentir completo quando ela estiver a
seu lado. Quando ela já não estiver neste reino, seu coração ficará vazio, e seus dias serão preenchidos com a solidão. Pense com cuidado antes de fazer essa escolha.
— Eu já fiz minha escolha. Sabia do ônus, caso me permitisse amá-la, e o aceitei. Pela vida de Mikado, não me importaria em aceitá-lo novamente.
— Muito bem. É seu direito de primogenitura que está usando para me pedir uma bênção. Mas não me incomode de novo. Você escolheu Hécate, e é à deusa que deve recorrer
no futuro.
E, sem mais nenhuma palavra, o Titã desapareceu no fogo.
Asterius olhou para Mikado. Seu pai lhe havia concedido a capacidade de salvá-la, mas como?! Ele teria de dar a ela uma parte de sua imortalidade, um pedaço de seu
espírito...
De repente, ele soube. Devagar, inclinou-se sobre Mikado e tocou-lhe os lábios com os dele. Conforme a beijava, desejou que ela vivesse para que pudesse compartilhar
de sua vida e aceitá-lo mais uma vez.
Mikado se moveu, suspirou suavemente contra sua boca... Então, entreabriu os lábios e seu beijo se aprofundou.
Quando Asterius se ergueu, seus olhos estavam abertos e ela sorria para ele.
— Ela está viva! — gritou Gii, extasiada.
As servas riram e choraram ao mesmo tempo, enquanto fechavam o círculo e corriam para sua Empousa.
Mikki sentou-se e piscou, confusa, sem saber ao certo onde estava e por que motivo Asterius encontrava-se ajoelhado a seu lado, segurando sua mão diante dos Quatro
Elementos.
Olhou ao redor. Aquele era o Templo de Hécate? Alguma coisa estava errada. Não devia estar ali. Devia estar inspecionando a muralha das rosas para certificar-se
de que...
De súbito, tudo voltou à sua mente.
— Os Ladrões de Sonhos! — exclamou, tentando ficar de pé, mas vendo-se tão fraca que seu menor movimento fazia o templo girar ao redor.
— Sshh... — Asterius a tranquilizou. — Tudo está bem agora. Os Ladrões de Sonhos foram banidos do reino.
— Eu sinto muito! — Ela olhou de Asterius para as servas.
— Empousa, não precisa se desculpar! Ladrões de Sonhos são mestres em manipulação. Devíamos tê-la precavido melhor — falou Gii, agachando-se para segurar sua outra
mão.
— Sim! — Nera assentiu com um gesto ansioso de cabeça, como se isso pudesse convencê-la. — Como iria desconfiar das tramas insidiosas que eles costumam tecer?
— Mas eu os deixei entrar! Eles me disseram que... Oh, Deus! As coisas que eles me fizeram pensar e sentir! Foi terrível.
Aeras sorriu em meio às lágrimas que banhavam-lhe o rosto e tocou-lhe os cabelos com reverência.
— Foi muito corajosa ao levar o golpe que o Ódio planejou para mim, Empousa.
Mikki tinha se esquecido daquilo tudo e olhou para si mesma, nervosa. Estava coberta de sangue! Como podia ter perdido tanto sangue e continuado viva?
Lembrou-se da dor no ombro, mas, quando olhou para ele, não viu nada, a não ser a pele manchada de vermelho.
Mas existia algo mais. Algo muito pior...
Seus olhos se arregalaram, e ela sentiu uma onda de vertigem. O Ódio cortara sua garganta e ela havia praticamente morrido!
E agora encontrava-se viva outra vez.
Devagar, ergueu os olhos para os de seu amante.
— Acabou — disse Asterius.
— Eu estava morrendo! — ela sussurrou.
— Eu jamais permitiria que isso acontecesse.
— O Guardião a salvou! — Gii explicou em meio a um soluço.
— Salvou todas nós — corrigiu Aeras, enxugando o rosto.
— Nunca iremos esquecê-lo — jurou Floga.
— Nunca! — Nera reforçou, comovida.
Mikki sorriu para os Quatro Elementos.
— Ele fez o que qualquer homem honrado faria para proteger sua casa e aqueles que ama. — Passou os braços ao redor do pescoço forte e, emocionada, sussurrou ao ouvido
de Asterius: — Leve-me para casa.
Capítulo 32
Asterius carregou-a pelo jardim. Normalmente, Mikki não gostaria de ser transportada como uma criança, mas não tinha certeza de que teria condições de caminhar sozinha,
pois ainda sentia-se fraca e doente.
E precisava estar nos braços dele. Precisava sentir sua pulsação contra o peito para confirmar a si mesma que continuava viva.
— O Ódio me enganou — disse baixinho, a cabeça recostada no ombro largo.
Os braços de Asterius seguraram-na com mais força.
— É o que os Ladrões de Sonhos costumam fazer. Eles contaminam os mortais até seu veneno distorcer os pensamentos, enfraquecer os sonhos e fazê-los morrer. Não se
castigue por ter sido vítima do que vem destruindo as ilusões dos mortais há eras.
— Pensei coisas terríveis. Senti que estava cheia de... — Mikki estremeceu e não conseguiu continuar.
— Você foi envenenada por ódio, inveja, medo e egoísmo. Não eram seus pensamentos, Mikado; eram apenas sombras de sua mente contaminada. Não deve se punir pela maldade
deles, pois isso seria premiá-los. Se eles continuam afetando sua vida, mesmo depois de terem sido banidos, então não foram derrotados.
— Nunca mais vou permitir que eles me enganem. E jamais entrarei naquela maldita floresta outra vez! — Ela ergueu a cabeça para fitá-lo. — Como pode suportar? Como
pode sair e colher as tramas da realidade, sabendo que eles estão lá fora também, observando e esperando por uma chance de atacar?
— É meu destino combatê-los. Muitos deles são meus velhos inimigos.
— Não tem medo?
— Apenas quando penso no que aconteceria se eu falhasse e permitisse que eles adentrassem o reino de alguma maneira.
— Mas você nunca vai falhar...
— Não. Não posso.
Mikki o observou, preocupada. Asterius parecia exausto, e ela rezou para que ele não tivesse que lutar com os Ladrões de Sonhos tão cedo, ou até que estivesse recuperado.
— Ah, meu Deus... Ponha-me no chão. Tem que voltar e certificar-se de que a muralha das rosas está preservada, e de que nenhuma daquelas coisas permaneceu no reino!
— O reino está seguro. O vento Norte soprou os últimos vestígios de maldade para o fundo da floresta.
— Mas não precisa voltar e verificar se tudo está mesmo no lugar?
— Está tudo certo, Mikado. Quando os Ladrões de Sonhos são enfrentados e derrotados, não costumam atacar tão cedo. Eles sabem que, uma vez que foram reconhecidos,
seu poder de destruir vidas é drasticamente enfraquecido. Vão recuar para lamber suas feridas e planejar um novo ataque para outro dia.
— O Ódio me disse que ele nunca termina.
— É verdade. Devemos sempre nos proteger contra ele.
Mikki lembrou-se de algo que tinha lido uma vez, e recitou as palavras em voz alta:
— “O bem derrotado é mais forte que o mal triunfante”. — Tocou-o no rosto. — Você luta do lado do bem.
— E não vou permitir que o mal triunfe.
— E eu também não vou deixar que ele afete minha vida; ele não vai me derrotar. — Ela deitou-se no ombro largo. — Como impediu que eu morresse?
— Supliquei a Cronos por uma bênção — Asterius contou, calmo.
Mikki tornou a levantar a cabeça.
— Seu pai?!
Ele assentiu em silêncio.
— Falou com seu pai?
— Brevemente.
— Quanto tempo se passou desde a última vez em que falou com ele? — Mikki quis saber, preocupada com a expressão estranha que endureceu o rosto moreno.
— Eu nunca falei com ele antes.
Ela o estudou, desejando poder apagar os séculos de dor e solidão do passado de Asterius e sentindo raiva do Titã arrogante que havia gerado um filho de maneira
tão audaciosa para depois descartá-lo. Não sabendo mais o que fazer, beijou-o suavemente no rosto.
— Obrigada por ter salvado minha vida.
O rosto dele suavizou-se em um sorriso.
— Eu só estava retribuindo um favor, Empousa. Lembre-se de que também me trouxe de volta à vida.
— Verdade. — Ela beliscou-lhe o queixo de leve. — E eu prefiro você assim.
— Porque descobriu que estava cansada de andar e gostou de ser carregada pelo seu Guardião?
Mikki riu.
— Bem, diz a mitologia que o Minotauro era metade touro; mas não creio que os touros sejam animais de carga muito bons... Há boatos de que eles não são dóceis o
suficiente.
— Nesse caso os boatos são a pura verdade — ele concordou, dando-lhe um beijo rápido e intenso que terminou com um rosnado.
Quando chegaram ao covil de Asterius, Mikki estava cansada de ser carregada, embora a caverna oscilasse um pouco sob seus pés.
Ainda mais quando ela percebeu a própria túnica esfarrapada e pegajosa de tanto sangue.
— Vou vomitar até o cérebro se não me livrar disto logo! — resmungou e olhou para seu Guardião numa súplica. — Acho que terá de me carregar escadaria acima até as
piscinas...
Asterius ergueu-a nos braços novamente, mas, em vez de sair da caverna, rumou para o próprio quarto.
— Ei... Sei que minha cabeça ainda não está cem por cento, mas tenho certeza de que está indo na direção errada! Não que eu não queira que você me leve para seu
quarto... Mas só depois que eu me livrar disto tudo.
— Acabamos nos esquecendo de sua turnê pela minha casa, lembra-se?
— Nós não nos esquecemos de nada: fomos interrompidos.
— Então deixe-me mostrar o restante do covil... sem interrupção.
Ele carregou-a através do quarto, depois em direção a uma porta arredondada, a um canto que ela não havia notado antes. Esta abria-se para um túnel iluminado por
tochas, ao final do qual avistou outra porta igual que, observou com surpresa, era emoldurada pela luz solar.
— Sabe de uma coisa? — Mikki fez uma pausa, pensando, enquanto eles aproximavam-se da luz. — Este lugar não se parece em nada com uma toca. É tão confortável e bonito!
Acho que deveria chamá-lo de... — Asterius abriu a porta para um cômodo grande e redondo, cujo teto abria-se para mostrar o céu claro da manhã e permitia que o vapor
de uma banheira cheia de água quente escapasse. — ...paraíso! — ela exclamou, maravilhada.
Ele riu e a pôs no chão outra vez.
Em segundos, Mikki tirou o que restara da túnica e, com um gemido de satisfação, desceu com passos suaves os degraus da piscina, afundando na água deliciosamente
quente. Ouviu Asterius proferindo as palavras mágicas que costumava usar para conjurar as coisas e virou a cabeça a tempo de ver duas cestas surgindo do nada. Uma
delas encontrava-se cheia de garrafas de sabão, toalhas limpas e vários metros de tecido macio para que fizesse outro quitão. A outra, Mikki suspirou, feliz, estava
repleta de comida.
Asterius ergueu uma garrafa de cristal da cesta e sorriu para ela. Mikki sorriu de volta, querendo saber por que, de repente, ele parecia tão tímido.
— O que foi?
— Seu sabão — ele explicou, segurando a garrafa.
— Eu não estava me referindo ao frasco... Só queria saber o porquê dessa sua expressão.
— Eu queria perguntar uma coisa.
— Está com uma cara... — Ela riu. — É impressão minha ou teve alguma ideia? — Sentindo-se renascer na água mineral quente, Mikki abriu um sorriso sexy.
— Eu... gostaria de lhe dar um banho — Asterius murmurou de uma vez.
Mikki ficou chocada diante do profundo rubor que tingiu a pele cor de bronze.
— Eu adoraria que fizesse isso.
Ele caminhou até a beira da piscina de pedra e pousou a garrafa de cristal. Então livrou-se da cuirasse e da túnica curta que usava por baixo.
Mikki adorou observá-lo e ver o corpo forte ficar cada vez mais exposto. Asterius era tão poderoso; uma mistura tão incrível de homem e animal!
Mas não era apenas seu corpo que unia dois extremos. Sua mente também era um misto de ferocidade e compaixão, inocência e sabedoria, características que se mesclavam
para formar um ser extraordinário, diferente de qualquer outro que poderia existir em qualquer mundo.
Estava tão distraída em sua contemplação que apenas quando ele entrou na piscina foi que percebeu: o sangue no corpo de Asterius não tinha vindo apenas das feridas
dela. Os braços fortes estavam cobertos de cortes e marcas de mordidas.
— Eles o machucaram! — Mikki puxou-o para baixo, aflita para mergulhar os ferimentos na água quente e limpa. — Eu sou mesmo uma idiota! Tem alguma bandagem aqui?
Urgh, alguns destes vão precisar de pontos! Não é possível que não haja uma médica neste reino. Vamos limpar esses cortes, depois vou pedir que a chamem e...
Ele segurou-a pelos pulsos.
— Não preciso de nenhuma curandeira.
Ela franziu o cenho.
— Escute, eu trabalhei em um hospital. Ouça bem o que eu digo, você precisa de um médico!
Asterius sorriu e beijou-a delicadamente.
— Sua preocupação aquece meu espírito.
— Que bom. Isso me faz bem. Pois saiba que iria aquecer meu espírito se me deixasse chamar uma médica.
— Mikado, eu sou imortal... Não preciso de médicos. As feridas irão se curar sozinhas.
Ainda franzindo a testa, ela levantou um dos braços musculosos.
— Tem razão! Elas já estão sarando!
— Satisfeita agora?
— Estou perplexa — Mikki confessou —, mas aliviada. — Espirrou água sobre a pele morena, tocando as marcas de mordida recém-curadas e observando enquanto a carne
se refazia. — Existe algum ferimento do qual não pode se recuperar?
— Se você dissesse que não me amava mais, iria me destruir.
Ela encontrou os olhos castanhos.
— Então vai viver para sempre.
Asterius sorriu e apanhou a garrafa de cristal da borda da piscina.
— Deixe-me mostrar o quanto gosto de você, Mikado...
Ela ficou em pé, de modo que a água da piscina só a cobrisse até a cintura. Tomou a garrafa das mãos dele e despejou uma quantidade generosa do líquido viscoso sobre
o pescoço, braços e seios antes de colocá-la de volta na borda. A inebriante fragrância da unção da Empousa mesclou-se sutilmente a seu calor, o que a tornou única.
Devagar, Asterius deslizou as mãos sobre sua pele lisa e macia. Acariciou-lhe o pescoço e os ombros, então tocou-lhe os seios e a carne sedutora do ventre firme.
Em seguida, suas mãos desceram abaixo da cintura delgada, carregando o sabão com perfume de rosas até as coxas de Mikki.
Ela sentiu-se liquefazer com seu calor. Os dedos de Asterius encontraram o caminho para seu âmago, onde ele os usou para acariciá-la com breves movimentos circulares,
depois se afastaram, voltando a provocá-la no ventre e nos seios antes de retornar para seus recantos mais secretos.
Partes adormecidas do corpo de Mikki pareceram ganhar vida, deliciando-se com o calor da água que continuava a afagá-las mesmo quando ele seguia em frente com as
carícias.
Asterius virou-a e, desta vez, ele mesmo derramou o sabão líquido por sua espinha. Com os joelhos fracos, ela inclinou-se sobre a borda da piscina, enquanto mãos
quentes acariciavam-lhe as costas e, em seguida, mergulhavam em conjunto para afagar suas nádegas.
— Lembra-se da última vez em que entrei em seus sonhos?
Mikki sentiu o hálito quente no meio das costas conforme Asterius ficava de joelhos e prosseguia, com mãos diligentes, por toda sua pele.
— Claro que sim! — respondeu com voz rouca. Percebeu as mãos dele deslizando por seu corpo e recostou-se no corpo másculo com um suspiro quando estas subiram por
suas coxas.
— Estávamos em um poço de rosas — a voz grave vibrou em seu ouvido, enviando ondas de prazer. — Eu estava sobre você, e abriu as pernas para mim... — Dedos hábeis
encontraram seu centro, e os carinhos aumentaram. — Eu estava excitado e, ao pressionar o corpo contra o seu, esfregando-o e acariciando-o, pude sentir sua umidade
e calor, bem como quando retesou-se e explodiu de prazer...
Com um grito abafado, Mikki atingiu o clímax rápida e intensamente.
Asterius virou-a para ele, então, e, num movimento rápido, ergueu-a acima da água e penetrou-a enquanto seu corpo ainda pulsava.
Mikki arqueou-se para encontrá-lo, usando a borda da piscina como apoio. As mãos dele agarraram seus quadris e, com um grunhido gutural, Asterius estendeu as garras,
mal controlando a força de suas estocadas, o membro mergulhando dentro dela seguidas vezes.
Mikki não fechou os olhos. Queria vê-lo, assistir à assustadora beleza de seu rosto enquanto ele a amava. Sentia a pele ultrassensível, e ondas de prazer a sacudiam
a cada vez que as garras longas a feriam de leve.
O ruído dos corpos movendo-se em conjunto, somado ao modo como a voz rouca de Asterius repetia seu nome, tornou-se uma erótica sinfonia, e um crescendo de prazer
rompeu por todo seu corpo, tão intenso que beirou a dor...
Lânguida e satisfeita, Mikki desabou sobre ele, respirando com dificuldade. Sorriu, exultante, de encontro ao peito largo, até perceber que não era apenas o cansaço
que o fazia tremer violentamente.
Alarmada, ela recuou, vendo Asterius de olhos fechados e lágrimas escorrendo por sua face.
— Asterius? — Segurou-o pelo rosto. — O que aconteceu?
Ele abriu os olhos e beijou-a em uma palma.
— Nada... Acho que fiquei sozinho por tanto tempo que não estava preparado para a felicidade que me proporcionou. — Tocou as próprias lágrimas, desconcertado, como
se só então houvesse percebido que chorava. — Isso me faz parecer ainda mais tolo.
— Não, meu amor! — Ela sorriu, comovida. — Faz você parecer humano.
Capítulo 33
Asterius e Mikado não deixaram o covil. Comeram e discutiram várias mudanças que Mikki queria implementar no reino.
Assim como delimitar horários para a abertura do portal, de modo que os homens pudessem entrar e sair sem comprometer a segurança. Como o clima vinha ficando cada
vez mais frio com a proximidade do inverno, também decidiram que Floga aqueceria os jardins, mesmo que por pouco tempo, durante a parte mais escura da noite. A mancha-negra,
uma das piores pragas para as plantas, Mikki explicou a Asterius, costumava aumentar no frio; e era de difícil tratamento uma vez que se espalhasse.
Mikki adorava conversar com Asterius, e não demorou muito a perceber por quê: ele a escutava.
Tentou lembrar-se do último homem que a escutara de verdade e não conseguiu. Nenhum tinha demonstrado tanto respeito e interesse por ela como seu guardião. Aquilo
era uma ironia. Um ser que nem era literalmente um homem sabia por instinto o que muitos deles pareciam não ser capazes de apreender: que as mulheres queriam ser
ouvidas e respeitadas. Simples assim.
Asterius a emocionava. Ele era de um encanto do qual ela, sabia, nunca iria se fartar. Amava a alegria que sentia apenas em tocá-lo, em acariciar aquele corpo incrível
e saber que este era dela...
Naquela noite, eles fizeram amor sobre o catre forrado de peles, descobrindo com imensa ternura outros segredos em seus corpos. Mikki ficou deliciada ao perceber
que Asterius era tão sensível que qualquer carícia deixava-o excitado e pronto para ela.
Uma vez saciados, adormeceram nos braços um do outro, sentindo-se seguros de seu amor, e com a certeza de que o dia seguinte eles também passariam juntos.
— Empousa! Tem que vir aqui!
Mikki pensou que estivesse sonhando. Sabia que encontrava-se na cama com Asterius, pois pôde senti-lo retesar-se e erguer-se do catre, mas também ouviu a voz aflita
de Gii. O que a serva estava fazendo no covil de Asterius?!
Então sua mente nublada pelo sono clareou, e ela despertou por completo.
— O que aconteceu? — Asterius indagou em voz alta, vestindo a túnica e prendendo a cuirasse.
— As rosas... — Mikki sentiu a boca seca, e seu estômago se apertou. — Gii, o que aconteceu com as rosas?!
A serva adentrou o quarto, o rosto pálido, e correu até sua Empousa, envolvendo o corpo nu de Mikki no quitão enquanto explicava tudo em frases curtas.
— Os outros Elementos e eu fomos até o portal das rosas ao amanhecer. Queríamos ter certeza de que não haveria nenhum vestígio da violência de ontem para perturbá-la...
— A voz da moça tremeu. — Elas estão morrendo, Empousa. Todas elas!
— As rosas! — exclamou Mikki.
Embora não fosse uma pergunta, Gii confirmou:
— Sim.
— A muralha... ela ainda está intacta? — indagou Asterius.
— Está, e não há Ladrões de Sonhos no reino. Não há ninguém suspeito aqui. Temos certeza de que todos os homens partiram ontem, e nenhum deles foi convidado a retornar.
— Preciso ir — Asterius disse a Mikki.
— Sim, vá... depressa! Estarei bem atrás de você!
Ele fez uma pausa, apenas para tocar seu rosto numa delicada carícia, antes que o som de seus cascos ecoasse nas paredes da caverna conforme batia em retirada.
— Depressa! — Mikki incitou a serva. — Preciso ir para lá também.
Minutos depois, as duas corriam para o jardim.
Mikki sentiu a mudança no instante em que saiu do covil: sua cabeça começou a latejar, e uma onda de náusea subiu-lhe a garganta.
— Mostre-me o caminho mais rápido para o portal! — ela pediu a Gii, e as duas prosseguiram correndo, sem fôlego para falar mais.
As mulheres estavam reunidas em torno das roseiras que cercavam a passagem na muralha, agitando-se como um rebanho de ovelhas assustadas, e Mikki logo compreendeu
por quê. Era pior do que ela imaginara.
Aflita, abriu caminho entre elas, lançando apenas um olhar na direção dos canteiros onde as flores agonizavam. Precisava chegar logo ao cerne da doença que afligira
as rosas tão repentinamente, e sabia que iria descobri-lo no portal.
Passou pelo último grupo de mulheres e estacou. Asterius já encontrava-se sob a passagem, o olhar aguçado estudando a floresta enquanto andava de um lado para o
outro. Os outros três Elementos não o observavam, pois concentravam-se nas flores dos canteiros que ladeavam o portal, os rostos tensos e sem cor. Quando a viram,
correram a seu encontro.
— Empousa, que coisa terrível! — sussurrou Aeras.
— O que aconteceu com elas? — Nera indagou, mantendo a voz baixa.
— Não sei. Não posso dizer ainda. Abram espaço e deixem-me examiná-las. —Mikki sentiu a pressão do medo quase tanto quanto a doença das rosas. — Façam com que todas
as mulheres recuem.
Todos os Elementos, exceto o elemento Terra, correram para falar com os diversos grupos que observavam o cenário, perplexos.
— Não peça que eu me afaste também — Gii declarou. — Parece estar prestes a desmaiar e quero ficar a seu lado. Se cair, estarei por perto para segurá-la.
— Eu também — reforçou Asterius, juntando-se às duas.
— Foram os Ladrões de Sonhos? — Mikki perguntou.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Não há sinal deles. Não dentro do reino, tampouco na floresta, até onde posso ver ou sentir. — Asterius olhou as rosas ao redor. — Mas, pelo visto, eles não precisam
estar presentes para causar destruição.
Mikki respirou fundo.
— Vamos ver o que posso fazer para consertar isso tudo.
Gii e o Guardião a acompanharam enquanto ela movia-se lentamente de canteiro em canteiro, examinando cada flor.
Mas logo Mikki esqueceu-se de que eles estavam por perto. O estado das rosas deixou-a arrasada. Ela nunca tinha visto tal devastação. As flores pareciam ter sido
atacadas por uma mistura de ferrugem e cancro, e depois queimadas de dentro para fora. As folhas estavam enrugadas e cobertas por fungos de uma espécie que ela não
conhecia. Eram pegajosos e cheiravam a carne podre. As hastes dos arbustos encontravam-se enegrecidas, com partes inchadas tal como artrite nas juntas de uma idosa.
Os botões, murchos e do tom roxo dos hematomas.
Endireitou o corpo após inspecionar outro arbusto morto e olhou o restante dos jardins com um calafrio. A ferrugem espalhara-se como uma onda venenosa. Aquilo não
era normal. Certamente a peste fora levada para o reino pelos Ladrões de Sonhos. E algo lhe dizia que se propagara por meio da nuvem vermelha em que cada criatura
do mal tinha se dissolvido. Pelo visto, elas não haviam sido exterminadas.
Na verdade, não acreditava que criaturas como aquelas pudessem ser eliminadas. O Ódio, o Ciúme, o Medo e o Egoísmo eram emoções que sempre pairavam sobre a humanidade,
esperando por sua chance de atacar e destruir seus sonhos. Podiam ter sido banidos do reino, mas não a tempo de serem impedidos de espalhar seu mal.
E ela não fazia ideia de como lutar contra o que infectara suas rosas por intermédio de tais monstros.
— Empousa? — Gii chamou timidamente. — O que podemos fazer para salvá-las?
Mikki olhou do elemento Terra para seu amante. Ambos a fitavam com preocupação; contudo, ela também podia ver a esperança em seus olhos e a confiança que tinham
nela.
— Eu... preciso pensar. Fiquem aqui. Quero ficar sozinha por um momento — pediu, e afastou-se deles.
Deixou os canteiros que agonizavam e desceu o caminho de mármore que levava ao portal das rosas, pensando em sentar-se debaixo do antigo carvalho e elaborar um plano.
Qualquer plano.
Um toque de cor chamou sua atenção, e ela parou para olhar. Flores cor-de-rosa saudáveis e em plena floração enchiam duas roseiras em meio a um canteiro onde inúmeras
outras secavam e pereciam. Correu para os arbustos, aspirando o perfume doce e acariciando o verde vibrante de suas folhas, como se fossem filhas pródigas e recém-chegadas.
Rosas Salet, reconheceu de imediato. Com suas pétalas duplas e floração abundante, eram uma de suas Old Garden favoritas. Mas por que aqueles dois arbustos tinham
sido poupados daquela praga mortal?
Olhou ao redor, buscando outros pontos de destaque em meio ao mar de podridão e doença. Avistou um vermelho, próximo ao viveiro do portal das rosas, e caminhou rapidamente
até lá. Três arbustos que beiravam o canteiro também encontravam-se em plena floração. Sua cor e perfume intensos identificavam a flor como uma Chrysler Imperial.
O que aqueles dois tipos de rosa possuíam em comum? A Chrysler Imperial era uma Rosa-Chá Híbrida, e a Salet, uma variedade de Old Garden. Uma era vermelha, a outra,
rosa. E elas não encontravam-se próximas umas das outras. Mikki olhou para as flores cor-de-rosa e saudáveis que floresciam alegremente, alheias à destruição a seu
redor, e estremeceu. Aquele não era o canteiro de rosas Salet sobre o qual os Ladrões de Sonhos a tinham forçado a se deitar? Eles haviam pretendido estuprá-la ali.
Por sorte, Asterius chegara e...
Segurou o ar nos pulmões. Sabia por que aquelas rosas tinham sobrevivido e se desenvolvido em meio a tantas outras que sucumbiam. Sabia o que aqueles cinco arbustos
possuíam em comum... Seu sangue tocara cada um deles.
Cambaleou até um banco próximo e sentou-se antes que seus joelhos cedessem. Estava no canteiro de rosas Salet quando sofrera o golpe no ombro.
Tocou-o, lembrando-se de como sangrara em profusão.
Pouco depois, já perto do portal, o Ódio cortara-lhe a veia da garganta...
Mikki fechou os olhos. Lembrava-se vagamente de ter ficado jogada no chão, metade do corpo sobre o canteiro, conforme o sangue fluía de seu corpo.
E seu sangue havia salvado as rosas. Ele as tinha protegido do veneno dos Ladrões de Sonhos.
Afundou o rosto nas mãos e tentou compreender a enormidade de sua descoberta.
Meu sangue as salvou! As palavras ecoavam em sua cabeça.
— Mikado, as mulheres aguardam suas instruções.
Ela ergueu o olhar, piscando na tentativa de clarear a visão. Asterius ajoelhou-se ao lado do banco e enxugou suas lágrimas.
— Confie em si mesma, meu amor. Vai descobrir uma maneira de curá-las.
Mikki mirou os olhos escuros e expressivos, e soube que o que ele dizia era verdade. Sabia como curar as rosas e confiava em si própria.
Agora, tudo o que precisava fazer era encontrar forças para agir.
— Vou ao Templo de Hécate para falar com as mulheres. Peça aos Quatro Elementos que as reúnam e me encontrem lá.
— Sim, minha Empousa — concordou Asterius. Então se curvou, tomou sua mão e a beijou delicadamente.
A Empousa postou-se no templo alto, com os Quatro Elementos formando um semicírculo atrás dela. Asterius se pôs por trás de todas, próximo da chama ardente da deusa.
Mikki olhou para o imenso grupo à sua frente. As mulheres permaneceram em silêncio, com uma expressão grave de preocupação e medo nos rostos, a atenção voltada para
sua Sacerdotisa.
Ela ergueu o queixo e respirou fundo, projetando a voz.
— Temos muito trabalho a fazer. Precisamos nos concentrar e agir rápido. A praga que está matando as rosas tem de ser detida, e eu lhes dou minha palavra de que
sei como fazer isso. — Fez uma pausa quando um suspiro de alívio ondulou através da multidão. — Não iremos nos dividir em quatro grupos desta vez. Todas nós precisamos
nos concentrar na área próxima ao portal das rosas e começar a trabalhar a partir de lá. Em primeiro lugar, quero que tragam para os jardins baldes do mais forte
vinho que houver no reino. — Mikki viu os olhares de surpresa no rosto das mulheres e quase sorriu. — O que vão fazer é podar todas as rosas doentes. Em seguida,
amontoem suas hastes do lado de fora da muralha das rosas, onde Floga irá queimá-las. Conforme forem passando de arbusto em arbusto, não se esqueçam de mergulhar
suas lâminas nos baldes de vinho. Ele irá ajudar a impedir que a doença se propague para partes das plantas que não tenham sido infectadas. Suas facas devem estar
bem afiadas, e precisam fazer os cortes na diagonal. — Percorreu todo o grupo com o olhar, buscando a confiança nos rostos das mulheres.
— Alguma pergunta?
Ninguém falou.
— Então, vamos ao trabalho.
As mulheres partiram em grupos rapidamente, dispostas a reunir as ferramentas de corte e vinho, e Mikki virou-se para suas damas de companhia.
— Eu não estava exagerando. Temos que trabalhar muito e rápido. Essa praga não está se alastrando a um ritmo natural. — Seus olhos encontraram os de Asterius nas
sombras.
— Asterius, embora eu não goste da ideia de abrir esse maldito portal, meus instintos me dizem que queimar as rosas doentes dentro do reino seria um erro terrível.
— Pois siga seus instintos, minha Empousa. Estarei por perto para guardar a passagem.
— Eu sei que sim. Por isso mesmo não tenho medo de abri-la. — Ela sorriu para as servas, lutando para conter as lágrimas que ameaçavam escorrer por sua face. — E
sei que cada uma de vocês vai fazer o que for preciso para ajudar a curar as rosas. Tenho orgulho de todas e acredito em sua capacidade. O Reino das Rosas vai prosperar
novamente, eu prometo.
— Também acreditamos na sua força, Empousa — afirmou Gii. Então caminhou até Mikki e a beijou no rosto antes de fazer uma reverência e afastar-se correndo em direção
aos jardins.
— Confiamos em você, Empousa — reforçou Aeras, e também a beijou antes de curvar-se numa mesura graciosa e partir.
O elemento Água avançou a fim de ter sua chance de beijar a Alta Sacerdotisa, porém Mikki a deteve e fez um gesto com a cabeça na direção da construção maciça que
borbulhava ao lado do Templo de Hécate.
— Nera, eu me lembro de alguém ter dito que esse chafariz é a principal fonte de irrigação do reino. Isso é verdade?
— Sim.
— Os corredores de água chegam mesmo a todas as roseiras?
— Sim, Empousa. — Nera sorriu e continuou: — Antes de sua ordem para que meu elemento visitasse o reino todas as manhãs, raramente chovia aqui.
Mikki devolveu o sorriso caloroso da serva.
— Obrigada... É bom saber.
— Vamos apoiá-la, Empousa — emendou Nera, e a beijou, partindo logo depois.
— Amamos você, Empousa — garantiu Floga. Porém, hesitou antes de beijá-la e fazer a reverência. Uma lágrima correu por seu rosto. — Perdoe-me por ter duvidado de
sua capacidade. Devido a meu elemento, às vezes sou muito impulsiva e passional.
Mikki a abraçou.
— Não há nada para perdoar — falou baixinho.
Quando ficaram a sós, Mikki foi até Asterius e deixou-se abraçar.
Apenas por um momento, tentou absorver sua força e amor, deliciando-se com a paz que era encontrar o ser ao qual estava destinada.
Mas não permitiu que ele a abraçasse por muito tempo. Não podia se dar a esse luxo naquele momento.
O tempo surpreendeu Mikki, passando devagar. Talvez porque o trabalho de poda das rosas podres e doentes, e de carregá-las para a pira, do lado de fora da muralha,
fosse penoso e deprimente.
Ou talvez porque não conseguisse parar de pensar no que o futuro lhe reservava.
De qualquer forma, várias eternidades pareciam ter se passado naquele dia interminável. Entrara num ritmo tão hipnótico de cortar e depois mergulhar a lâmina no
vinho, cortar e mergulhar... que ficou surpresa ao olhar para cima e ver que o céu tinha escurecido o bastante para que Floga acendesse as tochas por toda a extensão
da muralha das rosas.
— Gii? — ela chamou o elemento Terra, que correu para seu lado sorrindo, embora tivesse os olhos marcados por sombras e os braços arranhados pelos espinhos. — Isso
é tudo o que podemos fazer hoje. Oriente as mulheres a levar o que cortaram para o lado de fora do portal, e vamos descansar.
— Sim, Empousa — aquiesceu a serva, parecendo aliviada.
Mikki não podia culpá-la. Seus ombros doíam e suas mãos estavam machucadas e doloridas devido ao uso da faca. E isso porque esta encontrava-se bem afiada. Um grupo
de mulheres passara o dia não fazendo outra coisa além de afiar as lâminas.
Olhou para a que ela usava. Cuidadosamente, mergulhou-a no balde de vinho e, em seguida, limpou-a na grama antes de escondê-la na base da roseira que acabara de
podar.
— As mulheres estão terminando suas tarefas, conforme ordenou, Empousa.
A voz de Gii a fez pular, culpada, e Mikki disfarçou com um sorriso. Segurou o braço da serva.
— Caminha um pouco comigo?
— Claro! — A moça sorriu de volta.
Seguiram juntas e em silêncio, tomando um caminho sinuoso em direção ao portal das rosas. Mikki ficou satisfeita com o que viu nos canteiros. Os arbustos doentes
tinham sido bem podados. Pareciam vazios agora, mas ela sabia que, na primavera, voltariam a crescer e a ser ainda mais saudáveis e resistentes do que antes. As
rosas eram verdadeiras sobreviventes; não as flores delicadas e frágeis que muitos acreditavam que fossem.
Disso ela entendia melhor do que ninguém. Conhecia sua própria força e resiliência. Muitas vezes as pessoas tinham se enganado com ela, julgando-a apenas um rosto
bonito e nada mais, ou pior, considerando suas opiniões inconsequentes porque ela era apenas uma mulher...
Pensou em Asterius. Ele também fora mal interpretado, e exclusivamente por conta de sua aparência. Não admirava que eles se dessem tão bem.
— Você estava errada sobre ele — falou de súbito.
Gii a fitou, surpresa com as palavras da Alta Sacerdotisa.
— Ele quem, Empousa?
— O Guardião. Ele não é um animal e não merece ser tratado como um.
A serva ficou em silêncio.
— Não sei o que aconteceu antes, não sei o que ele fez e, neste momento, nem quero saber — prosseguiu Mikki. — Mas deixe-me dizer o que descobri: o Guardião salvou
este reino ontem, quando meu erro poderia tê-lo destruído. E faria o mesmo hoje, amanhã, todos os dias, por toda a eternidade. Ele é honrado e gentil, Gii. Sabia
que também é um verdadeiro artista?
— Não.
— Pois, é.
— Ele a ama — a moça falou, hesitante.
— Eu sei. E eu o amo também. — Mikki respirou fundo. — Por isso quero que me prometa uma coisa: que não vai mais rejeitá-lo e irá tratá-lo melhor. Ele... — Fez uma
pausa, lutando contra uma onda de emoção. — Ele é muito sozinho, e não quero que passe a eternidade dessa maneira. Se mudar o modo como reage a ele, Gii, todas as
servas que virão depois de vocês quatro farão o mesmo. Faria isso por mim?
O elemento Terra parou e fitou os olhos da Sacerdotisa. O que viu a fez prender a respiração.
Então, lentamente, Gii assentiu com um gesto de cabeça.
— Sim, Empousa. Tem minha promessa.
— Obrigada, Gii. Agora, vamos sair daqui... Foi um dia longo — Mikki falou com uma alegria forçada.
Chegaram à muralha das rosas a tempo de ver Asterius fechando o portal, e Mikki suspirou, aliviada.
Por algum tempo, os Quatro Elementos, o Guardião e sua Empousa ficaram junto das habitantes do reino, assistindo às rosas doentes queimarem na borda da floresta.
Logo as mulheres começaram a se dispersar em pequenos grupos, despedindo-se de Mikki com um ar cansado, até que apenas as quatro servas permaneceram em sua companhia.
— Trabalharam muito bem hoje — Mikki as elogiou, fitando cada um delas nos olhos. — Quero que saibam que estou orgulhosa de vocês.
As moças sorriram para sua Empousa, exaustas.
— Podem dormir até depois do amanhecer. Todas precisamos de descanso. Depois do café, encontrem-me no Templo de Hécate e retomaremos o mesmo trabalho que fizemos
hoje: a poda e a queima das rosas doentes. Mas acredito que elas estejam melhores amanhã.
— É o que seu instinto lhe diz? — Gii indagou, esperançosa.
— Sem sombra de dúvida. — Mikki sorriu a despeito do aperto que sentia no peito. Então, impulsivamente, abraçou cada uma delas. — Se precisarem de mim, estarei na
casa do Guardião — disse, enfatizando a palavra “casa”, e decidida a nunca mais chamá-la de covil. — Boa noite — desejou, voltando-se para se juntar a Asterius,
onde ele a esperava nas sombras.
— Durma bem, Empousa. — Gii hesitou só um momento e depois acrescentou: — Boa noite, Guardião.
Mikki encontrava-se de frente para ele, e viu o olhar de surpresa que estampou seu rosto forte.
— Durma bem, Terra — Asterius respondeu, um pouco tenso.
Então, cada uma das outras três servas o cumprimentou, o que o deixou ainda mais perplexo.
— Em todos os séculos em que fui o guardião deste reino, isso nunca aconteceu.
— Eu disse que ia mudar as coisas por aqui... — Mikki passou o braço pelo dele. — Vamos para casa.
Capítulo 34
Mikki esticou-se ao lado de Asterius na cama, sentindo a maciez das peles grossas contra sua pele suada. Distraída, traçou um dedo ao longo dos músculos do abdômen
firme de seu amante, os quais saltavam mesmo com ele deitado ali, completamente relaxado e com os olhos fechados.
Tinham feito amor duas vezes. Uma delas, na piscina de banho novamente. Havia sido rápido, porém intenso, e Mikki sabia que suas nádegas ainda mostravam as marcas
que ganhara por conta das garras longas de Asterius durante o clímax de sua paixão...
Na segunda, o ato fora longo, lento e suave. Ele a levara ao ápice duas vezes, usando apenas a língua antes de penetrá-la devagar e preenchê-la até sua total satisfação.
Mikki não conseguia pensar em abandoná-lo. Não podia conceber não sentir seu toque de novo, não falar com Asterius novamente, ou nunca mais ver a alegria e admiração
em seus olhos a cada vez que ela o abraçava.
Assim, recusou-se a pensar naquilo. Faria o que tinha de fazer quando chegasse a hora. Até então, não perderia as poucas horas que ainda possuía com ele lamentando
o futuro.
— Eu quero pintar você.
Mikki deixou escapar uma exclamação.
Com os olhos ainda fechados, o peito largo de Asterius vibrou com uma risada baixa, e ela o socou na barriga de leve.
— Pensei que estivesse dormindo!
— Não consigo dormir com você me tocando assim.
— Ah, desculpe... Eu não sabia. — Mikki começou a recuar, contudo ele a segurou pelo pulso.
— Não me importo. — Soltou-a e sorriu quando ela continuou a acariciá-lo. — Mas ainda quero pintá-la.
— Você já me desenhou.
— Sim, mas quero pintá-la também. Assim como está agora... Quero sua imagem nas paredes do meu quarto.
Ele não disse “para que eu possa me lembrar de você no dia em que estiver velha ou morta”, porém a mente de Mikki gritou as palavras. Asterius poderia precisar da
pintura para recordar-se dela muito antes do que qualquer um deles esperava.
Afastou os pensamentos mórbidos, mas, no fim, quis que ele a retratasse, para que pudesse capturar algo do que eles tinham sido como lembrança.
— Quer fazer isso agora?
Asterius abriu os olhos e a estudou.
— Sim — aquiesceu de bom grado. — Quero pintar seu retrato esta noite.
Mikki observou-o quando ele saiu da cama e começou a apanhar potes e pincéis dos nichos escavados nas paredes da caverna, e também a acender tochas que deixaram
o quarto ainda mais vivo com calor e luz. Asterius não se preocupou em vestir-se com mais do que um pano de linho, que amarrou a esmo em torno dos quadris, mais
uma vez, ela se viu abalada pela beleza da força bruta e selvagem de seu corpo. Ele era homem, animal e deus, tudo em um só... Um verdadeiro milagre. E tudo o que
ela queria na vida era passar o restante de seus dias a seu lado.
Quando Asterius já havia preparado as tintas e empunhava um pincel, Mikki sentou-se e sorriu.
— Como quer que eu pose?
Ele caminhou até o catre e a virou suavemente, de modo a deitá-la de lado, como ela estivera junto dele. Espalhou seus cabelos em volta dos ombros, tal qual um véu
de cobre sobre sua pele clara. Em seguida, fez com que deitasse a cabeça sobre um braço e apoiasse uma palma sobre a cama, como se tivesse acabado de acariciá-lo.
Então puxou a coberta que a ocultava da cintura para baixo, deixando-a nua. Mikki levantou uma sobrancelha, e os lábios dele inclinaram-se num sorriso.
Está com frio?
— Se eu estiver, vai me aquecer?
A risada de Asterius vibrou entre eles.
— Quando eu terminar. Quietinha, agora... Apenas mantenha-se deitada e feche os olhos. — Ele voltou para as cumbucas de barro e pincéis.
— Tenho que fechar os olhos? Preferiria ficar vendo você.
Asterius a fitou por cima do ombro.
— É sempre uma surpresa saber que gosta de me olhar.
— Eu gostaria de fazer mais do que apenas olhar... — Ela sorriu, sedutora.
— Não se mexa — ele repreendeu, contudo seu sorriso foi claramente indulgente.
Com gestos rápidos e firmes, Asterius começou a pintar acima da gravura do Tulsa Rose Garden, fazendo com que o jardim ficasse em segundo plano. Como se sobrepusesse
uma nova visão da realidade.
— Posso falar com você enquanto faz isso ou precisa se concentrar? — Mikki murmurou, impressionada com a esplendorosa versão dela mesma que ia tomando forma.
— Claro que pode. Mas eu não posso responder. Às vezes me esqueço de onde estou quando pinto.
— No meu antigo mundo, chamam isso de “entrar em Alfa”. Eu li um artigo a respeito uma vez. Acontece muito com artistas, autores e atletas. Tem a ver com endorfinas
cerebrais. Se entra em Alfa, é porque está fazendo algo certo.
Asterius resmungou qualquer coisa.
— Sempre entra-se em Alfa quando pinta?
— Acho que sim. — Ele apertou os olhos para estudá-la, depois virou-se para a parede da caverna e desenhou a linha longa e curva de sua cintura, quadril e perna.
Mikki o observou, pensando em seu talento e na beleza que parecia criar com tanta facilidade, mesmo tendo sido um pária durante séculos.
Por favor, Gii, mantenha sua palavra.
Tratou de afastar a mente da promessa da serva, com medo de que Asterius analisasse sua expressão e fosse capaz de ler seus melancólicos pensamentos. Precisava pensar
nele como ele havia estado pouco antes: apaixonado, carinhoso, amoroso e cheio de surpresas, assim como nas pinturas requintadas que podia produzir.
O que a fez lembrar-se de uma coisa...
— Asterius, quem é a mulher que desenhou na parede da sala?
A mão dele parou.
— Pasífae, minha mãe... — ele respondeu, sem olhar para ela.
— Eu imaginei — ela murmurou, e era verdade. Asterius não acrescentara a imagem da mulher à parede como um troféu. Não faria isso. — Ela é muito bonita.
— Ao menos é como eu me lembro dela.
Mikki quis lhe pedir que se lembrasse dela assim, tão bonita, também. Que se esquecesse de seus defeitos e da dor de sua despedida no momento em que ela fosse embora.
Que se lembrasse apenas do quanto eles haviam se amado.
Mas não podia. Tudo o que podia fazer era esperar que, quando chegasse a hora, ele a perdoasse por ser mortal.
Fechou os olhos, com medo de que, se continuasse a fitá-lo, fosse deixar escapar o que estava pensando, admitir seu sofrimento e suplicar que ele a ajudasse a descobrir
outra maneira de sair daquela situação.
De alguma forma, Mikki adormeceu. E soube disso apenas porque, ao abrir os olhos, o quarto encontrava-se bem mais escuro e Asterius também dormia a seu lado.
Ficou ali por alguns instantes, ouvindo sua respiração profunda e regular. Então, bem devagar, saiu do leito. Em silêncio, vestiu a túnica que havia descartado.
Não olhou para a parede até ter o tecido bem preso ao ombro. Quando o fez, levou a mão à boca para não soltar uma exclamação.
Asterius a fizera parecer uma deusa! Ele a pintara dormindo, com um ligeiro sorriso nos lábios, como se estivesse tendo um lindo sonho. Sua pele parecia palpável,
seu corpo, exuberante e convidativo.
E ele não a tinha retratado deitada no catre. Ele a pintara dormindo em uma cama de pétalas de rosa... Mais especificamente, de rosas Mikado.
Mikki virou-se para a cama e o fitou, desejando poder acordá-lo e fazer amor com ele.
Mas não podia correr esse risco. Precisava verificar as rosas.
Se meus instintos estiverem errados, prometeu a si mesma, eu vou voltar, acordá-lo e fazer amor com ele durante toda a manhã.
Sem olhar para o amante de novo, saiu do quarto pé ante pé.
O sol ainda não havia nascido, porém, a Leste, o céu começava a trocar o negro da noite por um cinza que logo daria as boas-vindas ao amanhecer. Sentiu a grama fria
e úmida sob os pés descalços enquanto contornava a base da falésia rumo aos degraus que a levariam além das piscinas quentes, em torno da sacada e, em seguida, para
o centro dos jardins.
Mikki não se permitiu distrair. Correu escada acima, mal olhando para as piscinas que soltavam vapor, não querendo se lembrar de como tinha sido maravilhoso mergulhar
nelas na companhia de suas servas e de como estava ansiosa por fazê-lo novamente.
Sua varanda encontrava-se vazia, assim como seu quarto. Porém, avistou o fogo queimando na lareira e um candelabro aceso ao lado da cama. Mikki mordeu o lábio e
desviou o olhar do cenário acolhedor. Desceu a escada e entrou no jardim. Escolheu o caminho que a levaria mais rápido até o centro do reino, e ao templo e à fonte
que a aguardavam lá, tomando o cuidado de manter os pensamentos nas rosas e longe dos Elementos ou de Asterius. Não queria que eles entendessem mal e pensassem que
ela os estava invocando. O que precisava fazer, teria que fazer sozinha.
E foi fácil manter-se concentrada nas rosas. Elas pareciam consumi-la. Deus, estava sentindo-se muito mal! E quanto mais perto chegava do centro do reino, pior ficava.
Por duas ou três vezes, Mikki parou para inspecionar os canteiros de rosas que, horas antes, tinham reagido aos cuidados e à fertilização proporcionados por ela
e as outras mulheres. Agora estas encontravam-se enegrecidas por conta da ferrugem espalhada pelos Ladrões de Sonhos e cheiravam a morte.
Seus instintos estavam certos, mas era ainda pior do que ela havia imaginado. A praga espalhara-se com uma velocidade inacreditável. Nenhuma doença mortal poderia
ter dizimado um jardim como aquele.
Mas aquela peste não era mortal, Mikki se lembrou. Era a manifestação do mal. E sua intuição lhe dizia que existia apenas uma maneira de combatê-la.
O Templo de Hécate surgiu à sua frente como um sonho iluminado por tochas, e o som das águas da fonte foi como uma mágica trilha sonora em seus ouvidos. Não parou
ali, contudo. Continuou andando até que as luzes que iluminavam a muralha das rosas brilharam diante dela.
Foi fácil encontrar os arbustos que seu sangue havia tocado. Eram a única cor em meio às trevas, à morte e à doença.
Eu estava certa. Queria não estar, mas estava.
Desolada, Mikki refez o caminho de volta ao templo, parando apenas para apanhar a lâmina recém-afiada que tinha escondido na base de uma roseira. Subiu os degraus
do templo, então, e parou diante da chama do espírito.
— Hécate? — chamou baixinho, os olhos fixos no fogo alaranjado. — Sei que está distante de seu reino, porém espero que ainda esteja ligada a ele e a mim o suficiente
para que, de alguma forma, seja capaz de me ouvir. Preciso falar com você antes de dar fim a isto tudo... Quero que saiba o quanto amei estar aqui. Pela primeira
vez em minha vida, sei que estou no lugar certo. Os Quatro Elementos são maravilhosos, principalmente Gii. Se puder, por favor, diga a elas que sou muito agradecida
por tudo o que fizeram por mim. — Respirou fundo e enxugou as lágrimas silenciosas que escorriam-lhe pelo rosto. — Eu amo Asterius. Você na certa não gosta disso,
mas disse para que eu seguisse meus instintos... e tudo dentro de mim me levou a ele. Ele não é nenhum animal, você sabe. Asterius precisa do que todos nós precisamos:
de aceitação e de alguém para amar. — Mikki precisou parar e pressionar a mão contra a boca para reprimir um soluço. Quando conseguiu controlar as emoções, continuou:
— Estou fazendo isto por ele. Por Asterius, pelas meninas e pelas Tecedoras de Sonhos. Agora compreendo, finalmente, a verdadeira razão de eu estar aqui. Eu vim
pelas rosas, pois posso salvá-las. Não tenho escolha. Vi o que existe na floresta e não posso deixar aquelas criaturas destruirem tudo o que eu amo. — Olhou para
o fogo, desejando que este fosse mais eloquente, desejando ter mais tempo para aprender palavras especiais para as orações e rituais, de forma a fazer aquilo melhor.
— Quando eu me comprometi com você, fiz isso com duas palavras: “amor” e “confiança”. São esses sentimentos que me regem aqui. O que eu fizer, faço de bom grado,
pois quero preservar o amor que encontrei neste reino. Acredito que estou fazendo a coisa certa porque, por meio desse amor, aprendi a confiar em mim mesma, em acreditar
em meus próprios instintos, intuição e julgamento. Então, se puder, Hécate, peço que fique comigo agora... Assim seja — sussurrou com voz embargada.
Decidida, Mikki deixou o templo e aproximou-se da fonte cuja água alimentava todo o reino. O gracioso chafariz era realmente muito bonito, com suas bacias de mármore
e valas que espalhavam-se pelos jardins.
Mergulhou a mão na água e ficou surpresa com seu calor.
Apenas uma estranha coincidência, pensou, antes de tirar a túnica, dobrá-la com cuidado, depois colocá-la no chão a seu lado.
Não. Não existem coincidências aqui. Posso considerar isto como um presente de despedida da deusa.
Nua, sem nada nas mãos exceto a lâmina afiada, Mikki entrou na fonte. A água deu-lhe boas-vindas e ela se sentou, acomodando-se confortavelmente na larga piscina,
a qual era funda o suficiente para que ela ficasse coberta quase até os ombros pelo líquido claro e quente.
Acabe logo com isto. Vai doer só por um instante.
Ergueu o punho esquerdo e pressionou a lâmina contra a pele. Fechou os olhos e cortou-se, prendendo a respiração com a súbita dor. Então mudou de mão. Desta vez
foi mais desajeitada, porém não menos eficiente.
Deixou cair a lâmina ao lado da fonte. Estremeceu ao submergir os pulsos, mas tinha razão. O dor não foi tão ruim e nem durou muito.
Descansou a cabeça contra a borda da piscina. Olhando para o céu, pensou como era bom que a lua houvesse acabado de se pôr e o sol ainda não tivesse nascido.
Hécate... Deusa da Lua Negra.
Talvez a ausência de luz no céu fosse um sinal de que a divindade aprovara seu sacrifício.
Ela havia feito a coisa certa. As rosas sobreviveriam. Os sonhos da humanidade estariam seguros, assim como seu amor.
Fechou os olhos. Estava com tanto sono, e a água era tão confortável... suave... como uma imensa cama de plumas... uma balsa em um lago quente de verão... os braços
de sua mãe quando ela era uma menininha assustada depois de um sonho ruim.
Suspirou. Não deveria haver nenhum sonho ruim. Deveria haver apenas amor, beleza e rosas.
Não estava com medo, mas sentiria falta de Asterius.
Conforme sua mente foi escurecendo devagar, o pensamento final de Mikki foi o quanto ela o amava.
Asterius acordou de repente. Alguma coisa estava errada.
Espantou o sono como sempre fazia e se sentou, já procurando pelas roupas.
Então, pensando que deveria acordar Mikado, virou-se e...
Ela não estava lá.
A princípio, isso não o incomodou. Mikki podia estar na sala de banho.
Vestiu a túnica e cruzou o túnel dentro da caverna, porém ela não encontrava-se por ali também.
Um pressentimento o fez apertar o passo enquanto fazia o caminho de volta para o quarto, depois para a sala um pouco mais além.
Mikado não encontrava-se em lugar algum.
Deixou o covil enquanto ainda prendia a cuirasse. O sol já havia nascido, mas ainda era madrugada e uma brisa excepcionalmente quente soprava.
Parou, aspirando o ar. Sim, ele estava certo... O vento trazia com ele o aroma rico e inebriante de rosas florescendo.
Aumentou o ritmo, e logo adentrou os jardins. Tudo ali encontrava-se em flor. Nuvens de cor preenchiam os canteiros, como se a deusa tivesse apanhado um pincel divino
e repintado todo seu reino com vida e saúde.
Mas em vez de sentir alívio e felicidade, a preocupação abateu-se sobre Asterius e ele correu, deixando seu instinto guiá-lo.
Avistou o Templo de Hécate no mesmo momento em que ouviu o primeiro grito de horror. O som foi como um punhal gelado entrando em seu coração. Outro grito seguiu-se
ao primeiro, depois outro e mais outro, até que os jardins pareceram sacudir com luto e lamentação.
Não! – sua mente gritava, embora ele já soubesse o que estava prestes a descobrir.
Voou até o templo. Os Quatro Elementos encontravam-se em pé ao lado da fonte, agarradas umas às outras e chorando copiosamente. No meio delas, ele avistou os cabelos
molhados cor de cobre e um lado da face pálida. Devagar, como se estivesse atravessando um pântano de lama e areia movediça, aproximou-se do chafariz. Era ela, claro.
Mikado estava morta.
Asterius, o Guardião do Reino das Rosas, caiu de joelhos e rugiu sem parar sua dor. Uma a uma, lideradas por Gii, as servas aproximaram-se dele e colocaram as mãos
em seus ombros e, unidos pelo pesar, choraram por sua Empousa.
Parte 3
Capítulo 35
Deus, sua boca estava seca! E ela se sentia uma merda, concluiu Mikki. Tentou virar-se de lado, mas estava fraca demais. Tudo o que conseguiu fazer foi esticar-se
um pouco e deixar escapar um gemido abafado.
— Cacete! Ligue para o 911, ela está viva!
Ligue para o 911? Não havia telefones no Reino das Rosas! Muito menos alguém que dissesse “cacete”!
Mas, então, que cacete?
Tentou mover-se de novo e, desta vez, sentiu mãos fortes segurando-a no lugar.
— Não tente se mexer, moça! Vai ficar tudo bem... Eu já chamei ajuda. Aqui! — O homem gritou. — Traga os paramédicos aqui!
Mikki ouviu passos rápidos e pesados, acompanhados por uma voz vagamente familiar.
— Cristo, é a Mikki! Ah, merda, olhe todo esse sangue!
Sua respiração começou a sair em espasmos, porém Mikki reconheceu a voz. Era Mel, o guarda de segurança do Roseiral de Tulsa.
Mas não podia ser Mel; ela não podia estar no roseiral! Ela...
Céus! Havia se esquecido. Ela estava morta!
— Mikki, calma! Os paramédicos estão aqui. Vai conseguir!
Ela tentou dizer que não queria. Que sua intenção fora salvar as rosas, e a única maneira que podia fazer isso era lhes dando seu sangue.
A droga era que aquele reino era grande demais, e algumas gotas em um balde não dariam conta dele.
Mas não podia falar. Sua mente continuava funcionando, contudo seu corpo estava pesado e parecia nem ser dela.
E estava molhada... o que fazia sentido porque devia estar na fonte.
— Muito bem, vamos virá-la no três. Um, dois...
Viraram-na de costas. Mikki piscou, tentando clarear a visão turva. Era de manhã e, pelo que ela podia ver do céu por sobre os ombros dos paramédicos, o sol tinha
nascido havia pouco tempo.
Seu olhar mudou para um ponto à direita, e ela conseguiu virar a cabeça para o lado, a fim de focar melhor a vista. Era um enorme pedestal de pedra... bem mais familiar
do que seu velho amigo segurança. Era a base que apoiava a estátua do grande Guardião.
Só que agora esta encontrava-se vazia.
Mikki teve vontade de gritar, mas não conseguiu.
Então, tudo escureceu.
— Parece melhor hoje. Como está se sentindo?
— É uma questão profissional, um teste ou está preocupada mesmo? — Mikki indagou, sarcástica.
Nelly se retesou.
— Eu não mereço isso.
Mikki mordeu o lábio e estendeu a mão para apertar rapidamente a da amiga. Não era justo estender sua amargura a Nelly. Não era culpa da moça que nada que pudesse
ser feito ou dito fosse chegar perto de fazê-la sentir-se melhor.
— Sinto muito. Só estou de mau humor.
— Aconteceu alguma coisa? Os sonhos voltaram?
Ela não fitou Nelly nos olhos. Não queria que a amiga visse o desespero que carregava todos os dias.
— Não. Meus sonhos têm estado normais. Na verdade, nem me lembro deles. Tudo o mais está bem... Não sei o que há de errado. Acho que esse clima está mexendo comigo.
Estou cansada dessa chuva e desse frio.
Tentou não se lembrar de que já controlara a chuva e que, no primeiro dia em que esta a obedecera, havia estabelecido as circunstâncias ideais para que ela fosse
parar na cama de Asterius...
— Mikki?
Ela piscou e seus pensamentos voltaram-se para o presente. Ergueu o cappuccino, tentando beber um gole sem muito entusiasmo.
— Só estava sonhando acordada. Desculpe outra vez, Nelly. Não estou sendo muito boa companhia hoje.
— Você é minha amiga. Não tem que me entreter nem me divertir, e sabe disso. — A psiquiatra suspirou. — Querida, o que aconteceu com você foi muito traumático. Os
homens que a atacaram e roubaram a estátua do roseiral a deixaram sangrando até a morte e nunca foram pegos. É normal passar por fases de depressão, raiva e ressentimento
durante o processo de cura, principalmente quando não se tem um desfecho para um crime.
Desfecho para um crime.
Mikki teve um desejo insano de rir, porém tratou de reprimi-lo. Não queria fazer nada que a fizesse parecer ainda mais louca.
E também não queria que aquela história fosse muito investigada.
Esfregou a testa. Pela enésima vez, quis que Nelly estivesse certa quanto ao que estava sentindo: que aquilo fosse apenas parte de um processo de cura.
— Eu sei. Eu só... Eu só queria me sentir normal de novo.
— Você vai, Mikki. — Nelly olhou para o relógio. — Ah, droga! Vou chegar atrasada.
Mikki conseguiu esboçar um sorriso.
— O compromisso é com algum maluco, ou apenas com um meio maluco?
Nelly riu e, uma vez de pé, apanhou a valise e a bolsa.
— Com um maluco e meio.
— Boa sorte, então.
— É bom que eu tenha mesmo — agradeceu a moça. — Ei, dê uma ligada mais tarde se quiser conversar.
— Pode deixar, eu ligo. Vejo você amanhã de manhã... Na mesma hora, mesmo café.
Mikki sorriu para a amiga, sentindo-se culpada pelo alívio que a invadiu quando Nelly saiu pela porta. Era tão difícil esconder as coisas dela! Como podia contar
a verdade? Sabe, amiga, eu não fui assaltada por criminosos que roubaram a estátua do Roseiral de Tulsa e que me abandonaram à morte... Na verdade, eu me matei,
embora eu goste de pensar nisso como um sacrifício. Nunca pensei em suicídio, o que deve provar que não estou louca. Enfim, eu tinha que fazê-lo porque o Reino das
Rosas, na intersecção entre os mundos, estava em perigo, e só meu sangue podia salvá-lo. Era meu dever como Empousa. Ninguém pode considerar isso um suicídio porque
eu estava apenas cumprindo com meu destino. E, a propósito, estou desesperadamente apaixonada por um homem-fera, e a razão pela qual me sinto tão deprimida é que
estou presa aqui, sem ele!
Suspirou. Nelly era sua melhor amiga, mas não hesitaria em trancafiá-la em uma cela linda, exclusiva e confortável se ela dissesse a verdade. Percebera isso tão
logo havia acordado no hospital e eles — o serviço social e os policiais — começaram a interrogá-la.
E a história que adviera de tudo aquilo tivera mais a ver com omissão e acidente do que qualquer coisa semelhante à verdade. Por isso ainda não tinha coragem de
dizer nada. Nem mesmo a uma amiga, psiquiatra experiente, que a conhecia bem demais.
Mikki consultou o relógio. Eram apenas sete e meia, e não precisava ir para o trabalho antes das oito. Tinha tempo para mais uma xícara de cappuccino. Quando se
pôs em pé, disposta a apanhar um refil para a bebida quente, capturou o próprio reflexo nas janelas do Expresso Milano. Estava magra... Muito magra. E podia ter
feito algo com aqueles cabelos em vez de apenas prendê-los para trás em um rabo de cavalo.
O problema era que não estava com a menor vontade de se cuidar.
Bem, ao menos ainda havia bastante de seus cookies favoritos, os biscoitos alaranjados, gigantes e cobertos de açúcar que o café comprava todas as manhãs da popular
padaria Pani Del Dea, a qual ficava apenas a algumas portas dali, descendo a rua.
Pediu dois deles para viagem com mais um cappuccino. Então mudou de ideia e pediu um terceiro. Precisava engordar, e uma dose a mais de açúcar somada à cafeína seria
suficiente para levá-la a enfrentar mais um dia sem sentido e interminável no trabalho.
Apanhou uma edição do Tulsa World e acomodou-se em uma das poltronas estofadas e macias, enquanto esperava que a atendente toda perfurada por piercings trouxesse
o café e os cookies na elegante bandeja de prata do estabelecimento.
Quando ouviu o ruído de saltos aproximando-se no piso frio, não tirou os olhos do jornal.
— Pode colocar aqui. Ah, e fique de olho em mim, por favor. Tenho a impressão de que hoje vai ser uma daquelas manhãs em que não passo sem ao menos três expressos!
— Está tudo bem, Mikado?
Mikki quase deixou cair o jornal com a surpresa.
— Sevillana! Desculpe... Pensei que fosse a garota do café.
Os olhos incrivelmente azuis da mulher cintilaram.
— Não sou confundida com uma moça há muito tempo!
Mikki abriu um sorriso e, por um momento, este foi genuíno.
— Não quer se sentar comigo?
— Sim, eu gostaria muito. — A mulher acomodou-se com graça em uma cadeira a seu lado e arrumou o lindo xale de pashmina azul-pálido sobre os ombros.
— Eu não sabia que morava por aqui.
Como na primeira vez em que elas haviam se encontrado, Mikki sentiu-se um pouco intimidada pela presença de Sevillana. Ela era tão... imponente e clássica. Havia
um ar de dignidade e cultura em tudo o que dizia e fazia.
E então, com um choque, ela se lembrou. E, em meio à lembrança, perguntou-se como poderia ter se esquecido.
— O perfume! Onde conseguiu o perfume que me deu naquela noite?
A mulher sorriu, mas a aproximação da garçonete com os cafés e doces impediu-a de dizer qualquer coisa.
Mesmo quando estavam a sós outra vez, Sevillana levou algum tempo dissolvendo o açúcar em seu cappuccino e mexendo cuidadosamente com a colher de prata minúscula
antes de falar.
— Há apenas um lugar onde se pode encontrar tal perfume, e é em um reino muito distante daqui.
Mikki sentiu uma onda vertiginosa de uma emoção da qual sentia falta havia três meses: a esperança.
— Está falando sobre o Reino das Rosas.
A mulher aquiesceu com um gesto de cabeça.
— Ah, Deus! — Mikki exclamou, ofegante.
— Creio que seria mais adequado você exclamar “Oh, Deusa!”, Mikado.
— Como sabe disso?! Como chegou lá, e como foi que eu voltei? O que está fazendo aqui? Por que...
Sevillana ergueu a mão, detendo a torrente de palavras.
— Tudo tem seu tempo. Afogar-me em perguntas não vai mudar isso.
— Eu... — Mikki levou a mão ao peito, temendo que o coração fosse saltar para fora do corpo. — Sinto muito, mas eu preciso saber. — Passou a mão trêmula sobre o
rosto e recomeçou: — Eu tenho que voltar para lá!
— Eu sei, minha filha, eu sei — Sevillana concordou suavemente. Seu olhar fixou-se além dela, então, e, quando ela tornou a falar, sua voz lembrava a de uma menina
tristonha. — Ninguém falou no meu nome enquanto estava lá? Eles não se lembram de mim?
— Seu nome? Não. Por que eles... — Os olhos de Mikki se arregalaram.
— É você! Você é a última Empousa!
— Não, Mikado. Eu era a última Empousa. Não sou mais Alta Sacerdotisa de Hécate. Rejeitei esse cargo porque era jovem e tola, mas paguei pela minha traição. Por
duzentos anos fiquei separada do meu reino e de minha deusa, e percorri o mundo comum, sempre inquieta e insatisfeita. Vivi como uma verdadeira marginal.
— Duzentos anos! — Mikki não conseguia desviar o olhar da velha senhora. — Mas como?
— Nunca compreendi muito bem. Envelheci, obviamente, porém muito devagar. Eu costumava acreditar que essa era a maneira de Hécate me punir: estendendo minha vida
até que eu me arrependesse de minhas atitudes egoístas. Em uma de minhas viagens, décadas atrás, visitei Tulsa, e aconteceu de eu assistir à inauguração de seu novo
roseiral. — Ela fez uma pausa, a expressão cheia de dor. — Reconheci a estátua do Guardião, e soube que ela havia sido colocada aqui por alguma razão. Por isso passei
a visitar Tulsa com frequência; para esperar e observar. E foi então que eu a conheci, e comecei a ter esperanças de que Hécate tivesse me permitido viver por tanto
tempo por outra razão... — Os olhos muito azuis de Sevillana voltaram-se para Mikki. — Achei que a grande deusa queria que eu lhe desse o óleo sagrado; assim poderia
despertar o Guardião, voltar ao reino e cumprir com o destino que me fora reservado. — A tristeza preencheu os belos olhos da mulher. — Por que cometeu o mesmo erro
que eu? Eu não queria que fugisse.
— Mas eu não fugi! — Mikki gritou, mas baixou a voz quando várias cabeças viraram em sua direção. — Você sabe sobre o sangue, não sabe? De alguma forma, você compreende.
— Sim, seu sangue alimenta as rosas. Como eu poderia não saber? Carregamos o mesmo sangue em nossas veias, Mikado.
Sevillana tocou-a na mão em uma carícia que a fez lembrar-se tanto da mãe que ela prendeu a respiração.
— No hospital, naquele dia, eu disse que me chamava Sevillana Kalyca, e é verdade. Mas essa é apenas uma parte do meu nome. Eu raramente uso meu sobrenome inteiro,
pois é muito difícil ouvi-lo e saber que eu o abandonei; mesmo que isso tenha acontecido há muito tempo. Meu nome verdadeiro é Sevillana Kalyca Empousai. Fui a primeira
Empousa a fugir do Reino das Rosas. E esperava, quando a conheci e senti a força de seu sangue, que também fosse a última.
— Eu não fugi — Mikki repetiu, entorpecida, olhando para sua ancestral. — Eu morri.
Sevillana a fitou, confusa.
— O tempo corre de modo diferente por lá... Mas ainda não podia ser Beltane!
— Era início de inverno. — Foi a vez de Mikki franzir o cenho. — De qualquer maneira, o tempo não tem nada a ver com isso. Ladrões de Sonhos entraram no reino.
— Oh, Deusa, não! — Sevillana levou a mão ao peito num gesto estranhamente parecido com o dela.
— Foi minha culpa. Eles me enganaram, e eu os deixei entrar. O Guardião os matou. Isto é, supondo que eles não possam ser eliminados, essa não é a palavra certa...
Mas Asterius livrou-se deles e os mandou de volta para a floresta.
— Asterius?
Mikki estudou Sevillana, a mente começando a entrar em consonância com suas próprias emoções. Aquela era a mulher sobre a qual eles haviam sido proibidos de falar.
Ela era parte da razão pela qual Hécate tinha enfeitiçado o reino e Asterius.
Pois agora não estava mais no Reino das Rosas e queria saber, de uma vez por todas, o que havia acontecido.
— Asterius é o nome que o Guardião recebeu da mãe. — Observando com cuidado, Mikki viu a ponta de surpresa e inquietação nos olhos da antiga sacerdotisa. — Quero
saber o que aconteceu entre vocês dois. Tudo.
Sevillana olhou pela janela, e sua voz assumiu um ar distante, como se recontasse uma história que fora passada de geração em geração.
— Eu era jovem e muito, muito tola. E também egoísta. Amava o poder que possuía como Empousa. Tanto que não estava disposta a cedê-lo. Conforme o dia de Beltane
se aproximava, eu me convenci de que era justo que eu escapasse do destino planejado para mim, que eu era diferente. Mas sabia que não podia atravessar a floresta
sem proteção. Então convenci o Guardião a trair seu dever e acompanhar-me através da mata até a entrada para o mundo comum.
— Você o seduziu? — Mikki indagou, gélida.
— Só com palavras. Eu não me deitaria com um animal, mas fiz com que ele acreditasse nisso. Não foi difícil... O Guardião tinha pouca experiência com mulheres. Foi
estranho, porém, ele ter permitido que eu escapasse, mesmo depois que eu o rejeitei. — Sevillana abanou a cabeça. — Há muito tempo me pergunto sobre isso. Ele devia
ter voltado-se contra mim e, no mínimo, obrigado-me a voltar para enfrentar a ira de Hécate. Em vez disso, o Guardião me disse... algo e, em seguida, afastou-se
e deixou-me seguir em liberdade.
— Ele pensou que a amava — Mikki falou, rígida.
Sevillana finalmente encontrou seu olhar, e Mikki pôde ver a surpresa estampada em seus olhos.
— Foi o que ele me falou: que me amava. Mas isso não fez nenhum sentido! Como um animal poderia amar uma mulher?
— Ele não é um animal! — Mikki falou por entre os dentes, a ira fazendo-a empalidecer. — E você não era boa o bastante para seu amor se não conseguia enxergar o
homem dentro dele.
A mulher arregalou os olhos muito azuis.
— Você o ama!
— Amo...
Em silêncio, Sevillana observou Mikki por um longo tempo, depois abaixou a cabeça.
— Perdoe-me por ter sido tão arrogante. Eu era uma menina na época. Só compreendi que estava errada muito tempo depois e esta é mais uma lição para mim. Tem minha
admiração, Mikado, bem como meu respeito. Nunca conheci alguém com sua coragem.
Mikki respirou fundo várias vezes, acalmando-se. Não adiantava ficar tão aborrecida com a mulher. O que ela havia feito acontecera dois séculos antes e estava acabado.
Acabado.
E ela não pretendia afastá-la. Sevillana Kalyca Empousai era sua passagem de volta para Asterius.
— Eu a perdoo. Acho que Asterius a perdoaria, também. E o que eu fiz não foi por coragem. Não tive escolha. Asterius havia se livrado dos Ladrões de Sonhos, mas
era tarde demais. Eles já tinham envenenado as rosas, todas elas, exceto aquelas sobre as quais eu derramara meu sangue. Tentei deter a peste de outra forma, mas
nada funcionou. E eu sabia que não ia funcionar. A única forma de eu salvar as rosas era por meio do meu sangue.
— E não acha que foi corajosa ao permitir que seu amante a sacrificasse? Nem era Beltane e, mesmo assim, você foi ao encontro de seu destino original e salvou o
reino.
Mikki franziu o cenho.
— Asterius não me sacrificou. Ele nem sequer sonhava com o que eu tinha planejado. Mas eu sabia que ele ia tentar me deter, então fugi... Que história é essa de
Beltane? É na primavera, não é? O que isso tem a ver com o que aconteceu?
— Não sabe, mesmo...?
— Não — Mikki confirmou, exasperada e já farta de tantos mistérios.
— Eles devem ter ficado com medo de lhe contar. Com medo de que você também os deixasse. Mikado... a Empousa serve para um único propósito. Ela está lá por causa
das rosas.
— Sim, sim, eu sei.
— Então também sabe que a Alta Sacerdotisa de Hécate está vinculada às rosas por meio de seu sangue. O que não sabe é que, em todas as noites de Beltane, a Empousa
é sacrificada pelo Guardião, pois seu sangue garante que o reino prospere por mais um ano.
Mikki sentiu tudo dentro dela paralisar.
— Quer dizer que as mulheres iam me matar?
— Não elas. Ele. É dever do Guardião proteger as rosas.
Mikki soltou o ar. Tudo fazia um terrível sentido agora. O comportamento de Asterius quando ele a conhecera e mostrara-se atraído por ela... O modo como ele tinha
dito que eles não poderiam ficar juntos... O porquê de ele ter lutado tanto contra o amor que sentia. Tinha sido mais do que a descrença de que ela jamais pudesse
vê-lo como um homem; mais do que a rejeição de Sevillana. Asterius sabia que teria de matá-la.
O pensamento deixou-a enjoada, e a mão quente de Sevillana sobre a sua, agora fria e insensível, foi um choque.
— Ele não teve escolha.
— Quer dizer que Hécate também desejou minha morte o tempo todo — Mikki murmurou.
— A vida e a morte são diferentes para os deuses. Hécate é severa e poderosa, mas também uma deusa amorosa. Veria seu sacrifício apenas como outro elo no grande
círculo da vida. A deusa não a abandonaria, Mikado, mesmo na morte. Se tivesse conhecido seu destino em Beltane, Hécate teria feito com que passasse a eternidade
na beleza infinita dos Campos Elísios. A deusa preocupa-se com aqueles que lhe pertencem. Dá as costas apenas para os que a traem.
— É um conceito difícil demais para mim. Todo o mundo que se preocupou comigo, todos os que amei, sabiam que eu ia morrer. — Mikki fez uma pausa conforme a enormidade
do que acabara de ouvir abatia-se sobre ela. — Então, mesmo que você me ajudasse a voltar de alguma forma, eu estaria condenada à morte.
— Sim — confirmou Sevillana. — Ainda pretende voltar?
Capítulo 36
Será que ainda queria voltar?, pensou Mikki. Já era final de fevereiro. O Beltane não era em primeiro de maio? Teria apenas mais dois meses antes que Asterius a
matasse.
Parecia impossível de acreditar. No entanto, mesmo em meio à sua descrença, a intuição lhe dizia que Sevillana falava a verdade. Tudo se encaixava e, de repente,
ela sentiu-se como a única peça fora de um enorme quebra-cabeça. Sabia qual era seu lugar, e este não era em Tulsa, Oklahoma.
— Eu quero voltar, mas não sei se sou corajosa o suficiente.
— Ouça seus instintos, Mikado. Confie no que eles dizem.
— Eles me dizem que não pertenço a este lugar.
— Então talvez deva voltar para casa — concluiu Sevillana.
— Você sabe como me levar até lá?
— Eu posso lhe dar o óleo sagrado, porém, o restante já possui dentro de você. Já se sacrificou pelo Reino das Rosas e foi altruísta o bastante para amar seu Guardião.
Você foi, minha querida, exatamente o oposto da última Empousa do reino. Acredito que Hécate ouvirá seu chamado e irá honrá-lo.
— Mas como... — Mikki se conteve. Sabia o que deveria fazer. Precisava escutar a própria intuição e seguir seus instintos.
Olhou Sevillana, que assentiu diante de sua introspecção.
Acalme-se e pense. É a Empousa de Hécate... Tem que haver um caminho para que possa voltar.
De repente, Mikki sorriu.
— É isso! Eu ainda sou a Empousa. Hécate disse que eu carrego seus poderes, os quais não podem desaparecer por completo nem mesmo aqui. E, olhe para você... Fugiu
da deusa e ainda viveu duzentos anos!
— Ainda deve exercer os poderes de Hécate — Sevillana afirmou. — Mesmo no mundo comum. — A mulher enfiou a mão na bolsa de couro e tirou uma haste de vidro, exatamente
igual à primeira que havia lhe dado. — É o óleo sagrado da Empousa de Hécate. O primeiro passo no ritual de invocação, com o qual eu posso ajudá-la.
— Obrigada, Sevillana. — Mikki tomou o vidro e o envolveu com cuidado em um guardanapo antes de guardá-lo na própria bolsa.
— Só lhe peço uma coisa, Empousa — prosseguiu a velha senhora. — Gostaria que pedisse perdão a Hécate por mim. Sei que não posso retornar ao reino, mas estou cansada
e queria poder abrir mão desta vida e abraçar minha eternidade nos Campos Elísios. Não posso fazê-lo sem o perdão da deusa.
— Vou falar com ela. Mas por que não a invoca você mesma?
— Eu gostaria, mas não consigo. Tentei várias vezes ao longo destes anos silenciosos, porém Hécate não vai me ouvir. Ela me deu as costas.
— Mas Hécate não deu as costas a mim — Mikki concluiu de súbito. — Por que acha que não sou um fantasma nos Campos Elísios agora? Eu morri, Sevillana! Eu não devia
ter acordado em Tulsa, a menos que houvesse um motivo muito bom para que a deusa me quisesse aqui... — Mikki endireitou o corpo. — Hécate sabia que estava aqui.
Eu mencionei seu nome quando ela me perguntou como o óleo sagrado de uma Empousa havia chegado “acidentalmente” em minhas mãos. Eu me lembro de sua expressão agora.
Hécate sabia desde o princípio.
— A estátua do Guardião... A deusa a colocou aqui para que eu a encontrasse! E também a você! — deduziu a mulher com voz embargada.
— Hécate quis que eu voltasse para reencontrá-la. — Desta vez foi Mikki quem pegou a mão trêmula da velha senhora na dela. — Hécate a perdoou, Sevillana.
— Ah, minha querida, se isso fosse verdade...
— Vamos descobrir. Esta noite é noite de lua nova... Venha para o roseiral. Fique dentro do círculo sagrado comigo. Vamos tentar ir para casa.
Mikki ficou feliz com a noite chuvosa. Fazia um frio horroroso, mas estava tão escuro que até mesmo os postes de iluminação em Woodward Park pareciam emanar halos
de luz mais fracos ao redor do parque. Era fácil para alguém que conhecia bem o lugar evitar as luzes...
E ela conhecia o Woodward Park como ninguém.
Carregou a maleta em uma das mãos e segurou a de Sevillana com força na outra, ajudando a mulher a deslocar-se através da escuridão. Não trocaram uma só palavra
e nem precisavam. Mikki apenas rezava para que ninguém estivesse nos jardins.
No momento em que chegaram à fronteira entre o parque e os vergéis, relaxou um pouco. Ninguém fora louco o suficiente para aventurar-se no parque numa noite como
aquela, muito menos depois da meia-noite.
Ainda assim, Mikki não disse nada até que passaram por baixo da arcada de pedra e desceram para o terceiro nível dos jardins. As luzes da fonte iluminavam a área
ao redor preguiçosamente, num efeito aquoso que, junto à névoa que pairava no ar frio, fazia aquela camada mergulhar em um cenário de sonho.
— Bem apropriado — ela comentou baixinho.
— Sim. Essa iluminação evoca imagens de sonho — concordou Sevillana. — É um bom presságio, Empousa.
— Esperemos que sim — ela murmurou. Então olhou para o pedestal vazio. Não voltara ali desde a manhã terrível em que a tinham encontrado. Não pudera suportar.
Não desistira de trabalhar como voluntária, contudo. Pedira apenas uma licença, que lhe fora concedida de imediato. Todos haviam compreendido como devia ser difícil
para ela voltar para os jardins onde fora atacada e abandonada à beira da morte.
Mas claro que não entendiam realmente. Como poderiam? Jamais saberiam a verdade.
— Mikado? — Sevillana tocou-a no braço de leve.
Mikki virou-se de costas para o pedestal vazio.
— Está certa. Precisamos nos apressar. Será impossível explicar isto se formos apanhadas.
— Não vamos ser apanhadas — declarou a mulher com firmeza.
— Isso mesmo. Vamos começar agora.
Mikki escolheu um lugar perto da fonte. Abriu a maleta e Sevillana ajudou-a a colocar uma vela em cada uma das posições dos quatro Elementos dentro do círculo: amarela
ao Leste para o Ar; vermelha ao Sul para o Fogo; azul a Oeste para a Água; verde ao Norte para a Terra; e, por fim, púrpura no centro do círculo para o Espírito.
Então apanhou uma caixa de fósforos da maleta, bem como a faca afiada que geralmente ficava escondida em seu apartamento, e as colocou ao lado da vela central.
Pisando do lado de fora do círculo formado pelas velas, Mikki pegou um último item da mala antes de colocá-la nas sombras, ao lado do pedestal vazio. Tirou a tampa
de cortiça que lacrava o delicado frasco de vidro em forma de caule e, em seguida, aplicou o óleo perfumado em pontos do pulso, pescoço e entre os seios, e o entregou
a Sevillana.
Com apenas uma ligeira hesitação, a mulher apanhou o frasco e aplicou o óleo perfumado no próprio corpo. O aroma de rosas e especiarias mesclou-se ao ar úmido, e
Mikki sentiu o estômago apertar-se com as lembranças.
Aquilo tinha que funcionar. Ela precisava retornar.
— Pronta? — perguntou à outra mulher.
Sevillana aquiesceu com um gesto de cabeça e puxou dois grampos de seu elegante coque, libertando cabelos longos e prateados que lhe caíram até além da cintura.
Em seguida, com um movimento gracioso que não condizia com sua avançada idade, livrou-se da capa longa, sob a qual usava uma linda túnica de seda lilás.
Mikki descartou seu próprio casaco e ignorou o frio quando também ela ficou vestida apenas com uma túnica cor de violeta. A única diferença entre seu traje e o da
outra mulher era que o dela era de um tom mais escuro, e, conforme ditava o ritual da lua nova, deixava-lhe um dos seios nus.
— Uma coisa que se pode dizer sobre estes quitões é que são muito fáceis de vestir — ela elogiou.
— Eu morro de saudades deles! — Olhando para si própria, Sevillana sorriu. Depois ergueu o olhar para Mikki e fez uma mesura delicada. — Vamos em frente, Empousa.
— Vamos.
Juntas, as duas mulheres caminharam para o centro do círculo. Com a vela roxa entre elas, viraram-se para o Norte. Então Mikki apanhou a caixa de fósforos, pensando
em como sentia a falta dos quatro Elementos, principalmente à noite.
Deixando para trás as dúvidas, ela aproximou-se da vela amarela e acendeu o fósforo.
— Vento que sopra forte e em toda parte, mesmo no mundo mundano... Eu te invoco, Ar, como o primeiro elemento no círculo sagrado. — Tocou o pavio com a chama do
fósforo e segurou-a até que este se iluminasse. Sem se preocupar se o Ar iria ouvi-la e responder a seu chamado, moveu-se até a vela vermelha. — Força ardente de
purificação, chama dançante de luz, que mesmo no mundo comum é rica e verdadeira... Eu te invoco, Fogo, para o círculo sagrado. — Quando o fósforo tocou o pavio,
a chama ganhou vida rapidamente, e Mikki sentiu uma onda de esperança. Sem hesitar, seguiu para a vela azul. — Maré brilhante que nos banha, refresca e sacia, mesmo
neste mundo comum, e que cobre mais da metade do nosso planeta, proporcionando-nos a vida. Eu te invoco, Água, para o círculo sagrado. — No pavio aceso, Mikki pensou
ver a chama da vela azul tremeluzir e ondular como as ondas. Então viu-se de frente para a vela verde. — Exuberante e fértil, amiga e selvagem, mesmo neste mundo
comum tu nos manténs e cuidas de nós. Eu te invoco, ó Terra, para o círculo sagrado... — Mikki voltou para seu lugar, ao lado da vela roxa. — Invoco-te agora, Espírito,
para o círculo sagrado, com as duas palavras que me unem à minha deusa: “amor” e “confiança”! — Acendeu a vela roxa e, em seguida, jogou fora o palito de fósforo.
Olhou ao redor, mas ficou desapontada. Não viu nenhum anel luminoso vinculando os elementos para formar o círculo.
— Não se desespere se não consegue ver as tramas neste mundo — falou Sevillana, como se pudesse ler seus pensamentos. — Veja-os dentro de sua mente. Acredito que
elas estejam aí. O poder da fé de uma Empousa é mágico por si só.
Mikki assentiu e imaginou as tramas descrevendo o círculo.
— Vamos terminar o ritual — falou, resoluta.
Abaixou-se e pegou a pequena faca. Olhou para Sevillana, e a mulher estendeu-lhe a mão com a palma para cima. Com um movimento rápido e seguro, Mikki pressionou
a lâmina afiada contra a pele fina de Sevillana, desenhando uma linha longa em sua palma.
Conforme o sangue jorrou, entregou a faca à antiga Empousa. Sevillana tomou-lhe a mão e, do mesmo modo, cortou uma linha semelhante em sua palma. Deixou cair a faca,
então, e as duas mulheres uniram as mãos, palma contra palma, misturando o sangue de gerações de Altas Sacerdotisas de Hécate.
Mikki fechou os olhos e limpou a mente. Quando falou, não se importou em baixar a voz. Se funcionasse, se a deusa fosse mesmo invocada, o círculo se manteria e nenhum
mortal poderia interferir nele. Mas, se isso não ocorresse... não se importaria com o que poderia acontecer com ela, decidiu.
— Hécate, Grande Deusa da Lua Negra, das Encruzilhadas da Humanidade e das Feras... É Mikado Empousai, Alta Sacerdotisa e Empousa do Reino das Rosas quem fala. Encontro-me
em uma terra distante e me ungi com óleo para lançar o teu círculo sagrado. Pelo direito que meu sangue me concede, eu invoco o teu nome. Temos um compromisso, um
juramento selado com amor e confiança. E pelo poder de tal juramento, evoco a tua presença e peço que me ouças.
De repente, um vento chicoteou ao redor delas, fazendo com que as velas tremeluzissem loucamente. Uma névoa as rodeou e, enquanto Mikki observava, transformou-se
numa nuvem cintilante até que, no centro do vórtice de vento, luz e som, Hécate apareceu. Vestia seu traje completo de noite, com os cabelos salpicados de estrelas
e a tocha dourada. A seus pés, os cães enormes rosnavam e tentavam abocanhar a neblina do jardim.
Mikki começou a dizer o nome da deusa, porém a voz emocionada de Sevillana a interrompeu. A mulher soltou sua mão e caiu de joelhos.
— Grande Deusa, perdoe-me! — Sevillana soluçou, as lágrimas escorrendo pelo rosto bonito. — O que fiz foi tão injusto! Passei vidas querendo expiar esse meu erro
imperdoável... Mas a menina tola e egoísta que a traiu já não existe.
A face de Hécate continuou ilegível, porém sua voz era suave.
— O que aprendeu, Sevillana?
— Aprendi que há coisas mais terríveis para se perder do que a própria vida.
— E quais são essas coisas?
— Minha honra, meu nome... e o amor da minha Deusa.
— Você nunca perdeu o amor de sua Deusa, minha filha.
Sevillana levou a mão à boca, tentando reprimir os soluços, e Mikki tocou-a no ombro, emprestando-lhe forças.
— Consegue me perdoar, Hécate? — a velha senhora foi capaz de indagar finalmente.
— Eu a perdoei há muito tempo, Sevillana. Você é que não foi capaz de perdoar a si mesma.
Ela curvou a cabeça.
— Posso descansar, então, minha Deusa?
— Sim. Tudo o que precisava fazer era pedir por isso. Eu jamais daria as costas a uma Empousa minha, mesmo a uma que cometeu um erro. Veja...
Hécate fez um gesto e a neblina abriu-se como uma porta na noite. De repente, um lindo cenário se fez ver. Era um prado repleto de trevos e cercado por pinheiros
altos, cujos ramos pontiagudos lembravam imensos espanadores. Enquanto elas observavam, uma figura ágil pulou e dançou pela campina, seguida por um grupo de lindas
mulheres. Suas túnicas envolviam seus corpos fortes e jovens sedutoramente, embora estes tivessem uma aparência estranha, quase insubstancial.
Mikki sentiu uma onda de choque ao reconhecer uma das mulheres.
— Mamãe! — gritou com voz embargada.
Antes que pudesse correr para encontrá-la, contudo, Hécate alertou-a em voz baixa:
— Não é sua hora, Mikado. Seu destino ainda não está completo.
Em meio às lágrimas que corriam soltas, ela olhou para a deusa.
— Mas é minha mãe, não é?
— Sim. Olhe mais de perto e verá também sua avó.
Mikki obedeceu, prendendo o fôlego. Sim! Reconhecia agora a linda jovem que dançava, segurando a mão de sua mãe. Tinha observado aquele rosto bonito tantas vezes!
A única diferença era que, nessas ocasiões, ele era repleto de linhas e marcas deixadas pela vida.
— Onde elas estão?
— Nos Campos Elísios, onde serão eternamente jovens, felizes e livres — respondeu Sevillana, a voz cheia de emoção.
— Tome seu lugar ao lado delas, Sevillana. Aqui termina seu tormento — declarou Hécate.
A mulher ergueu-se do chão devagar, então virou-se para Mikki e abraçou-a com força.
— Tenha uma vida abençoada, minha querida! — falou baixinho.
— Diga a minha mãe e a minha avó que eu as amo! — Mikki pediu num sussurro.
— Pode deixar. Elas ficarão orgulhosas de você, assim como eu, minha filha.
Dizendo isso, Sevillana atravessou a fronteira do círculo sagrado até a deusa. Parou diante de Hécate e, chorando, fez uma profunda reverência.
A deusa estendeu as mãos e a abraçou, beijando cada uma de suas faces.
— Vá para Elísia com minha bênção, Sevillana.
A mulher atravessou o portal que a divindade tinha aberto para o paraíso e, conforme o fez, seu corpo mudou. Sua velhice a deixou como um manto descartado, até que,
com um grito de alegria, a jovem e bela Sevillana tomou seu lugar em meio ao grupo de moças que dançavam.
O portal desapareceu, então, e, mais uma vez, não se podia ver nada além da névoa, da chuva e das trevas.
— É um prazer revê-la, minha Empousa — afirmou Hécate.
Mikki enxugou as lágrimas do rosto e sorriu.
— Estou muito feliz em vê-la também. Se eu soubesse que podia fazer isto, invocá-la aqui, teria lançado o círculo meses atrás.
— Ah, mas estaria faltando algo na invocação... O óleo sagrado de uma Empousa. Você precisava de Sevillana para tanto.
— Tem razão, eu... Não sei... Aprendi tanto hoje que minha mente não consegue absorver tudo. Estou tão feliz por ter perdoado Sevillana! — Mikki piscou, surpresa,
quando mais uma das peças daquele imenso quebra-cabeça encaixou-se de repente. — Na primeira noite em que estive no reino... você disse que havia cometido um erro
e que queria consertá-lo. O erro envolvia Sevillana e Asterius, não é mesmo?
— Exatamente. — Hécate soltou um suspirou típico dos mortais. — Eu não devia tê-los punido daquela forma. Sevillana era jovem e egocêntrica, mas eu sabia disso ao
escolhê-la para minha Empousa. Tinha esperanças de que o poder em seu sangue iria fazer com que amadurecesse, mas me equivoquei. Isso não aconteceu.
— E quanto a Asterius? — Mikki perguntou, segurando a respiração.
— Asterius foi meu maior erro. Eu lhe dei o coração e a alma de um homem e depois recusei-me a reconhecer que ele era, realmente, mais do que uma fera. Nesse aspecto,
fui ainda mais egoísta do que sua mãe, que não conseguia ver além dos próprios erros sempre que o contemplava... Errei ao não permitir que Asterius tivesse uma companheira,
ao acreditar que uma criatura como ele não precisava de mais nada além do dever de existir. Se suas necessidades o levaram a escolher com imprudência quando Sevillana
o tentou, a culpa foi minha. Foi a raiva que senti de mim mesma que me fez bani-lo e enfeitiçá-lo. Infelizmente, compreendi isso tarde demais. Tudo o que pude fazer
foi esperar que nascesse a mortal certa para ele... Alguém que pudesse enxergar a verdade e ter a coragem de agir sobre esta.
— Então vai me deixar amá-lo, mesmo que apenas até o Beltane?
— Não.
Mikki congelou.
— Por favor, Hécate! Eu o amo tanto! Deixe-me fazê-lo feliz, mesmo que por pouco tempo!
— As rosas desabrocharam, Mikado.
Confusa com a súbita mudança de assunto, Mikki murmurou:
— Que bom... Então eu fiz o que precisava ser feito.
— Você se sacrificou por livre espontânea vontade, cumprindo o juramento de amor e confiança com o qual estava vinculada a mim.
— Sim, Hécate.
— Pois isso nunca aconteceu antes no Reino das Rosas. Claro que várias gerações de Empousas deram seu sangue para alimentar o reino, mas o fizeram porque tinham
de fazer; porque essa era a trama de sorte e destino que fora tecida para elas. Mas você, Mikado Empousai, uma mortal vinda de uma terra quase totalmente desprovida
de magia, sacrificou-se de bom grado para salvar algo tão nebuloso como os sonhos da humanidade. Também viu o homem dentro da fera e permitiu-se amá-lo, rompendo
o feitiço de solidão e isolamento que o cercava.
— Eu fiz apenas o que meus instintos me diziam para fazer. Adorei seu reino, Hécate. Ele era minha casa, e valeu a pena morrer para protegê-lo, assim como a todos
que o habitavam — Mikki afirmou, surpresa com os elogios da Deusa. — E não foi difícil amar Asterius... — Ela sorriu e encolheu os ombros, tímida. — Não há sempre
algo de animal dentro dos homens? É o que os faz tão deliciosamente diferentes de nós. — Respirou fundo. — Não pode, por favor, deixar que eu volte para ele? Eu
lhe dou minha palavra de que me sacrificarei na noite do Beltane.
— O que você fez mudou o Reino das Rosas, Empousa. Seu sacrifício foi puro e imaculado pelos laços do dever, da força ou do medo. Nunca mais será necessário outro
sacrifício no Beltane. Seu sangue garantiu isso.
Quando Mikki começou a falar, Hécate levantou a mão para silenciá-la.
— Mas voltar não será assim, tão fácil. Você também mudou por conta de seu ato. Se permanecer no mundo comum, terá uma vida normal. Mas se retornar ao Reino das
Rosas, seu sangue o unirá a este irrevogavelmente, o que significa que seria uma imortal reinando pela eternidade como mais do que minha Empousa: você se tornaria
a Deusa das Rosas.
Mikki ouviu as palavras de Hécate, mas estas quase se perderam em meio à vertigem e à descrença que inundou seus pensamentos. Hécate estava dizendo que ela poderia
não morrer nunca? Que poderia tornar-se uma deusa?
— Entretanto, deve saber que o caminho de uma divindade nem sempre é fácil de ser traçado, Mikado. A eternidade é uma companheira às vezes assustadora, às vezes
gloriosa, e às vezes melancólica e irritante como uma criança mimada. Por isso pense com cuidado, Empousa. Eu lhe darei o poder da escolha, porém essa escolha é
irrevogável. Poderá ficar aqui, no mundo comum, e viver sua vida mortal até o final. Se for assim, eu não a abandonarei e darei-lhe as boas-vindas aos Campos Elísios,
assim como fiz com sua mãe e sua avó.
— Mas, Asterius... — Mikki começou.
— Porque me arrependo dos erros que cometi, concederei a ele uma bênção. Se assim ele quiser, eu o presentearei com o corpo de um mortal. — A deusa sorriu, os olhos
brilhando maliciosamente. — Posso presentear Asterius com o corpo de um homem de verdade e você, minha Empousa favorita, com a promessa de que a nova forma dele
será mais agradável de se olhar do que a de Adonis... O problema é que é impossível, até mesmo para os meus poderes, fazer isso no Reino das Rosas. Terei que trazê-lo
até aqui, para viver uma vida mortal a seu lado. Terão filhos, envelhecerão juntos e encontrarão consolo nos braços um do outro no momento em que suas vidas chegarem
ao fim.
— Ou, então, poderei voltar? — Mikki indagou, quando pareceu que Hécate não iria prosseguir.
— Sim. Poderá retornar como a Deusa das Rosas, e eu renunciarei ao reino dos sonhos em seu nome. Mas lembre-se... Naquele reino eu não poderei mudar a forma de Asterius.
Ele permanecerá eternamente como uma fera, porém com o coração e a alma de um homem. Faça sua escolha, Mikado.
Mikki começou a considerar e, em seguida, percebeu que não precisava escolher. Sabia o que queria.
— Escolho o Reino das Rosas e minha fera. Não desejo viver em nenhum outro lugar, e jamais lhe pediria para mudar Asterius. Eu o amo da maneira como ele é, não como
os outros gostariam que ele fosse.
O sorriso de Hécate foi radiante.
— Vamos voltar a seu reino.
Capítulo 37
A floresta não havia mudado. Continuava escura e assustadora, principalmente agora que Mikki sabia o que escondia-se nela.
Claro que agora ela era também uma deusa, portanto, os Ladrões de Sonhos teriam que modificar suas estratégias se pretendiam fazê-la cair em outra armadilha.
E eles fariam isso; Hécate já lhe advertira a respeito. Ela se tornara imortal, contudo isso não significava que não era mais falível e passível de ser manipulada
por emoções obscuras. A própria Hécate era prova disso.
Mikki estremeceu e puxou a palla roxa sobre os ombros com mais força. Seria cuidadosa.
Estranho que não se sentisse diferente. Ou ao menos não tão diferente.
Sentira a reação das rosas ao retornar. De verdade. Embora tivesse sido até constrangedor, estas tinham se alegrado quando ela adentrara o reino.
Sorriu. Sabia, agora, que elas possuíam emoções, assim como pequenos e brilhantes espíritos... Porém não se sentia menos ridícula quanto a todos aqueles anos em
que conversara com seus arbustos.
Era uma sensação maravilhosa e muito estranha, à qual ela teria que se acostumar.
As servas ficariam exultantes em vê-la, pensou, ansiosa por surpreendê-las na manhã seguinte.
Mas não naquela noite. Naquela noite, havia apenas uma pessoa que queria ver... apenas um lugar em que gostaria de estar. Nos braços de Asterius.
Ele encontrava-se ali perto, reunindo as tramas da realidade para as Tecedoras de Sonhos. Podia ter esperado por ele em sua casa, poderia tê-lo invocado de seu quarto,
no palácio...
Mas não quisera fazer nada disso. Quisera vir até ele, pois amava aquela alegria inocente que Asterius demonstrava a cada vez que ela se aproximava dele.
E queria que ele soubesse que ela continuaria a vir para ele por toda a eternidade.
Uma luz cintilou na escuridão, atraindo-a para a direita. Mikki a seguiu, e a luz revelou ser uma tocha. Segurando o fôlego, ela prosseguiu lenta e silenciosamente
em sua direção.
Ele estava de pé, de costas para ela, passando as mãos pelos galhos de uma antiga árvore. Fios cintilantes surgiam em seus dedos, e ele os puxava, juntando-os em
um monte mágico e luminoso no solo da floresta.
Mikki aproximou-se e parou quando ele soltou um gemido baixo. Asterius ficou de lado para ela em um movimento tenso e súbito, como se a trama que ele havia acabado
de puxar houvesse lhe causado dor.
Ele não a deixou cair, entretanto. Ao contrário, olhou para o fio com uma expressão angustiada de desespero e saudade.
Mikki estreitou os olhos e foi então que enxergou a si mesma na trama. Nesta, encontrava-se visivelmente grávida, o que foi um choque a princípio.
O choque transformou-se em pura alegria, contudo, no momento em que Asterius fez-se ver na cena, tomando-a nos braços. Beijava-a para depois cair de joelhos e pousar
os lábios em sua barriga dilatada. Na visão de sonho, Mikki viu-se sorrindo, satisfeita e estendendo a mão para acariciar um dos chifres escuros de seu amado, assim
como tinha feito havia muito tempo.
Com um grito angustiado, Asterius arremessou o fio para longe dele.
— Por que me atormenta? — rugiu, inconformado.
Mikki saiu das sombras.
— Ficou atormentado ao me ver grávida? Eu devia ser a única a ficar preocupada com isso. Ter um par de chifrinhos e pequenos cascos pisoteando meu útero é um pouco
assustador...
Asterius não se moveu. Apenas voltou o olhar para Mikki.
Seus olhos faiscaram, cheios de ódio.
— Vá embora, alma do além! Não me deixarei enganar por suas mentiras! — Ele começou a mover-se em sua direção, rosnando, ameaçador, e expondo as garras mortais.
— Asterius, sou eu! Eu só queria fazer uma surpresa...
Os olhos castanhos pareceram ainda mais escuros.
— Eu disse para ir embora, pesadelo! — ele urrou, avultando-se sobre ela.
Mikki gritou e recuou um passo, dizendo a primeira coisa que lhe veio à mente:
— Mas, na primeira noite em que nos encontramos, você colocou uma rosa no meu vinho!
Asterius estacou como se fosse trombar numa parede.
— Mikado? — indagou, incrédulo.
— Era o que eu estava tentando lhe dizer!
Mikki suspirou quando ele continuou paralisado.
— Depois das tantas vezes em que me rejeitou, é de admirar que tenhamos ficado juntos, sabia?
— Mikado! — Asterius lançou-se para a frente e a tomou nos braços. Seu corpo poderoso tremia, e ele não parecia capaz de fazer mais do que abraçá-la e repetir seu
nome seguidas vezes.
Ela o abraçou de volta, tocando-o e murmurando palavras carinhosas, até que a agitação de Asterius diminuiu e ele foi capaz de soltá-la um pouco mais.
Mikki olhou para o rosto bonito e terrível, agora banhado pelas lágrimas.
— Como isso aconteceu? Como pode estar aqui? — ele perguntou, atordoado.
— Hécate me deu uma escolha.
— Mas seu sangue... o reino está seguro agora. Eternamente. A deusa afirmou que, após seu sacrifício, não seria necessário derramar o sangue de mais nenhuma Empousa
para fazê-lo prosperar.
— Eu sei. Fui eu quem escolheu essa eternidade... para poder passá-la a seu lado.
A princípio, o olhar de Asterius continuou vazio. Então, a compreensão fez-se presente em seu rosto.
— Nunca mais vamos ficar separados?
— Nunca mais.
— Quer dizer que as tramas não estavam me atormentando! Elas estavam mostrando que... — Ele parou, incapaz de falar em meio à onda de emoções que o invadiu.
— Elas estavam mostrando que seremos felizes para todo o sempre. E, sim, meu amor, esse sonho em particular finalmente tornou-se realidade.
Devagar, Asterius segurou-lhe o rosto entre as mãos enormes e inclinou-se para beijá-la. Mikki passou os braços ao redor dele e agarrou-se a seu futuro... sua eternidade.
Nas sombras, Hécate sorriu e acariciou a cabeça escura de um de seus gigantescos animais.
Este livro é dedicado a todas que se apaixonaram pela Fera e ficaram desapontadas quando esta se transformou em um belo príncipe.

1* Wolverine, em inglês, é o nome dado ao carcaju, animal que pertence à família dos mustelídeos. Também é conhecido pelo nome de glutão. (N.E.)

Capítulo 28
O poder da voz de Asterius fez as tochas oscilarem, porém Mikki não se retesou, tampouco pulou, surpresa. Devagar, ergueu os olhos do esboço.
E então sentiu um aperto na boca do estômago. Ele encontrava-se parado sob uma porta arredondada que levava a outra sala, mais para o fundo da caverna, e estava
quase nu. Não usava a cuirasse nem a túnica. Tudo o que tinha sobre a pele era uma espécie de toalha pequena, amarrada ao redor dos quadris.
Mikki umedeceu os lábios e lembrou que, se não falasse, Asterius chegaria à conclusão de que o medo a paralisara.
— Você não iria até mim, por isso aqui estou.
Pôde ver a raiva em sua expressão abrandar. Sorriu, e ele ficou sem palavras.
Tentando ignorar sua quase nudez, ela acenou com um gesto de cabeça na direção das paredes da caverna.
— Essas pinturas são lindas. São de Creta?
— Sim.
— Você é muito talentoso. Só de olhar para elas já fiquei com vontade de passar férias no Mediterrâneo. — Antes que ele pudesse formular uma resposta, apontou para
o desenho dela mesma. — E isto é muito lisonjeiro. Eu nem sabia que estava lá naquela noite.
— Não tive a intenção de adular ninguém.
— Eu não quis dizer isso! Quis dizer apenas que me fez ficar bonita, poderosa... e isso é muito lisonjeiro.
— É como eu a vejo.
— Verdade?
— Eu nunca mentiria para você.
— Dizem que evasão e omissão também são mentiras — ela contrapôs sem preâmbulos.
— Se a deusa manda que eu faça ou diga alguma coisa, devo obedecê-la, Mikado. Fiz um juramento a Hécate.
— Está bem, eu compreendo... Sinto muito. Essa situação, em que não conheço todos os fatos, é extremamente frustrante para mim.
— Se eu pudesse responder a todas às suas perguntas, juro que eu o faria — ele reiterou.
— Imagino que sim. — Mikki deu um suspiro e olhou ao redor da caverna. — Que tal me mostrar seu covil? Este lugar é incrível.
Asterius não se moveu do batente da porta.
— Foi por isso que veio aqui, Mikado? Para que eu lhe mostrasse meu covil?
— Não. Eu vim porque queria vê-lo.
— Por quê?
— Porque você não foi me ver hoje. Senti sua falta, ainda mais depois que lancei um feitiço que permite que os homens venham para o reino.
— Eu não sou um...
— Ei, chega! Já não conversamos sobre isso ontem? Eu sei que não é um “homem”, mas, homem ou não, quando eu estava lançando o feitiço, foi em você que eu pensei
— ela confessou.
Asterius desviou o olhar e Mikki pôde ver a tensão em sua mandíbula, a forma como ele cerrava os punhos.
— Eu sei. — Sua voz soou tensa. — Senti a mágica e sabia que estava pensando em mim... Mas queria que não tivesse pensado.
— Por quê?!
— Porque não posso suportar isso! — ele falou, por fim, as palavras saindo por entre os dentes.
— Eu não fiquei com medo ontem à noite — Mikki declarou depressa.
— Eu vi o medo e o ódio em seus olhos, Mikado, embora não a culpe. Eu só queria tomá-la nos braços, beijá-la, e não pude nem mesmo fazer algo tão simples sem me
tornar uma fera!
— Não queria fazer mais nada além de me beijar? — ela indagou com um sorriso sedutor.
Os olhos de Asterius se estreitaram.
— Se eu lhe mostrar a minha casa, vai me deixar em paz, Empousa?
— Provavelmente não.
— Pensei que não fosse mesquinha, mas vejo que estava enganado — ele redarguiu, ríspido.
— Não sou mesquinha! Estou apenas me explicando mal. Estou nervosa e não consigo colocar o que sinto em palavras. — Mikki queria se mover ou andar, mas obrigou-se
a ficar quieta e fitá-lo nos olhos. — Não me machucou ontem à noite, e eu não estava com medo. Eu quis você; ainda mais quando as coisas ficaram intensas entre nós.
Gostei de tudo, Asterius. De seu poder, dessa força em seu corpo que mal consegue conter... Tem mais paixão do que eu já vi em toda minha vida. Até eu conhecer você,
os homens não passavam de uns inconsequentes para mim. E agora acho que sei por quê. Eles sempre me pareceram fracos, principalmente se eu os comparava às mulheres
que me criaram. Asterius, eu preciso de alguém que seja mais do que um homem. Na noite passada, quando me dei conta disso, essa verdade me assustou. Meu medo se
baseava em tudo o que ouvi das pessoas a vida toda; pessoas do mundo comum que ficariam chocadas com o que eu sinto por você...
Ele não falou por muito tempo. Ficou apenas olhando para ela, como se tentando entender algo muito importante que estava sendo dito em uma língua que ele mal compreendia.
— Ainda gostaria de ver o restante da minha caverna? — indagou finalmente.
— Claro que sim.
Asterius se pôs de lado.
— Este é meu quarto. — Gesticulou para que ela o precedesse.
Mikki atravessou a porta em arco e entrou no cômodo, sentindo que ele a seguia. Seu corpo inteiro parecia em sintonia com sua presença, como se ele fosse uma cobra
e ela estivesse tentando encantá-lo.
Então a beleza do aposento se fez ver. Era menor do que a sala principal e também possuía tochas que não soltavam nenhuma fumaça. Só que ali não havia tantas delas,
o que deixava o quarto quase na penumbra. O chão era coberto com grossas peles de animais, no meio das quais via-se uma enorme cama coberta com mais peles.
Ele dorme aqui...
O pensamento fez uma onda de calor percorrer o corpo de Mikki e ela desviou o olhar para as paredes.
E ficou surpresa mais uma vez. As paredes ali eram todas preenchidas com cenas de um jardim repleto de infinitas fileiras de magníficas roseiras em flor. Cada nível
do vergel continha uma fonte de água e na camada central via-se uma estát...
— É o Roseiral de Tulsa! — exclamou, ofegante. — Como pode ter tido tempo para pintar essa cena depois que voltou? — Aproximou-se da parede lisa e a tocou com cuidado.
Estava completamente seca. — Há tanta coisa aqui... Deve ter levado meses, ou até mesmo anos, para terminá-la!
— É verdade.
Mikki fitou-o por cima do ombro, sem ter certeza de que tinha ouvido bem.
— Como é possível, Asterius?
— Pintei esse cenário com base em imagens que via em meus sonhos.
Ela deslizou a mão pela parede com carinho.
— É perfeito. Conseguiu captar cada detalhe.
— A pintura a faz sentir falta da sua casa?
Mikki pôde senti-lo se aproximar, mas não se virou, temendo que ele se afastasse.
— Não. O Reino das Rosas é minha casa agora. Não quero estar em nenhum outro lugar a não ser a seu lado.
— Eu não via a hora de revê-la, Mikado...
— E eu não conseguia parar de pensar em você! — Mikki sentiu a mão tremer e a deixou cair. Asterius estava tão perto que podia sentir o calor de seu corpo.
Mãos quentes pousaram em seus ombros, e ele falou em seu ouvido.
— Quando lançou o feitiço, abrindo o reino para os homens, escutei você me chamando, pedindo... — ele rosnou baixo e sua voz poderosa vibrou nas profundezas da alma
de Mikki. — Pensei que fosse enlouquecer!
— Então não fique longe de mim! Não quero que fique longe de mim — ela repetiu sem fôlego, e recostou-se nele, sentindo sua ereção contra as nádegas. Os lábios quentes
de Asterius roçaram a lateral de seu pescoço em meio a pequenos beijos, os dentes afiados arranhando sua pele de leve. Quando as mãos dele deixaram seus ombros para
cobrir-lhe os seios, Mikki arqueou o corpo e ergueu os braços de modo a puxá-lo mais para si pela cabeça.
E, assim como em seu antigo sonho, sentiu os chifres em meio à massa espessa de cabelos, ao mesmo tempo que seus dentes encontravam o vale entre seu pescoço e ombro,
mordendo-a de leve.
Mikki gemeu e pressionou o corpo com mais firmeza contra o dele.
De repente, Asterius congelou.
— Não, não pare! — ela implorou, aflita.
— Ela... ela sumiu! — ele exclamou, estremecendo.
Preocupada, Mikki virou-se em seus braços. Asterius a fitava com uma expressão que era um misto de alegria e choque.
— O que foi? O que aconteceu?
Ele tomou-lhe o rosto entre as mãos.
— Você me ama! — Sua voz profunda soou embargada, e lágrimas escorreram silenciosamente pelo rosto moreno.
— Claro que amo! — Mikki sorriu. — Mas o que sumiu?
Asterius fechou os olhos, tentando dominar as emoções.
— O feitiço, Mikado. E a última barreira entre nós. Não importa o que as Parcas tenham-me destinado... Eu vou amar você até o fim dos tempos! — Ele inclinou-se e
a beijou com paixão.
Mergulhando a mão em seus cabelos, ela o puxou com ímpeto contra a boca, e o rugido de Asterius vibrou em seus sentidos já despertos como uma carícia.
Ele ergueu a cabeça e abriu os olhos escuros e cheios de desejo, a pele morena coberta de suor. Mikki deslizou as mãos pelo corpo másculo, desde os ombros fortes,
passando pelo peito largo até os músculos bem definidos do abdômen, sentindo-os estremecer sob seu toque.
Asterius tirou as mãos de seu rosto e as colocou contra a parede, a cada lado dela, de maneira que agora Mikki encontrava-se presa em meio a seus braços.
— Não se mexa! Deixe-me tocá-lo — ela pediu com voz rouca.
— Não sei por quanto tempo poderei manter minhas mãos longe de você! — O peito dele arfava e a paixão tornara-lhe a voz ainda mais densa.
— Não vai demorar muito. — Mikki acariciou-o no rosto e traçou a linha de seus lábios com o polegar. — Primeiro quero vê-lo... por inteiro.
Viu a dúvida escurecer os olhos castanhos, porém Asterius aquiesceu devagar. Então suas mãos deslizaram pelo corpo forte outra vez, rumando com segurança para a
toalha que ele tinha enrolada em torno da cintura. Puxou-a, e esta soltou-se com facilidade.
Mikki olhou o corpo nu à sua frente por um momento.
— A esposa de seu pai quis amaldiçoá-lo e acabou criando um ser de incrível beleza — sussurrou, ofegante. — Você não é uma abominação, Asterius, você é um milagre!
Ele era uma mistura tão perfeita de homem e animal que era difícil dizer onde terminava o ser humano e começava a fera. Sua cintura estreita dava continuidade a
quadris e coxas musculosos, cobertos com pelos lisos e escuros. Daí para baixo, embora seus contornos continuassem fortes e bem definidos, Asterius era menos musculoso
do que aparentava quando encontrava-se vestido.
Hipnotizada, Mikki acariciou o ponto onde o corpo do homem dava lugar ao do bicho. Asterius abaixou a cabeça e rosnou baixinho, e ela o fitou, atenta. Ele fechara
bem os olhos e respirava pesadamente, em um esforço para controlar a criatura que tinha por dentro.
Mikki respirou fundo, sentindo uma onda quente de prazer invadi-la enquanto observava a fera que tentava se conter. Seus olhos moveram-se mais para baixo. Asterius
possuía as mesmas formas de um homem e encontrava-se totalmente ereto. A pele que lhe encobria o membro era da mesma cor de bronze do peito largo.
Ela o tomou nas mãos, afagando com uma, apertando com a outra, e, quando o fez, os olhos dele se abriram, alarmados.
— Não precisa manter a fera acorrentada o tempo todo, Asterius! — ela sussurrou, sem parar de acariciá-lo, e inclinou-se para a frente, circulando seu mamilo com
a língua. — Solte-a, meu amor! Eu não tenho medo dela... — afirmou, mordendo o mamilo endurecido.
O rosnado de Asterius ecoou, ensurdecedor, pela caverna. Ele a ergueu nos braços, os cascos batendo com força contra o chão coberto de peles conforme caminhava até
o catre. Colocou-a sobre este, mas, antes que pudesse cobri-la com o próprio corpo, Mikki se pôs em pé, fazendo-o se retesar mais uma vez. Ela leu a dor em sua expressão,
certa do que ele estava pensando.
— Tem que parar de achar que tenho medo de você, Asterius, porque eu não tenho. Não me levantei para fugir. Achei apenas que gostaria de ver isto... — Começou a
soltar o broche de prata em forma de rosa que segurava-lhe a túnica sobre o ombro direito, porém suas mãos tremiam tanto que não conseguiu.
Frustrada, ela o fitou. Em seguida, sua expressão mudou para um sorriso sedutor.
— Faria algo por mim?
— Qualquer coisa! — ele respondeu, ofegante.
— Então solte as garras e me ajude com isto.
Com os movimentos graciosos de um felino, ele estendeu as lâminas lentamente e, com facilidade, cortou o tecido.
Mikki encolheu os ombros, e o quitão caiu a seus pés.
Os olhos de Asterius ficaram ainda mais escuros. Com o peito arfando, ele ergueu a mão para tocar os seios redondos, mas as puxou de volta ao se lembrar das garras
ainda estendidas.
Ela agarrou-lhe um pulso.
— Não seria capaz de produzir arte de tanta qualidade se não tivesse controle sobre estas lâminas... Use-as para me tocar, Asterius. Deixe que eu sinta seu poder
na minha pele! — E, sem pensar duas vezes, apertou a mão dele contra um seio.
Hesitante, Asterius deixou as pontas afiadas tocarem com suavidade a pele alva e macia, até que sua mão desceu do peito para o ventre reto, escorregando, devagar,
bem devagar, para o centro quente e úmido.
Mikki prendeu a respiração e estremeceu.
— Não pare! — pediu com um gemido.
Ele não tirou os olhos do rosto delicado enquanto suas garras percorriam as coxas roliças e, depois, as curvas voluptuosas das nádegas.
— Vire-se... Quero vê-la de costas — ordenou, a voz profunda saindo ainda mais densa com o desejo.
Ela obedeceu.
E sentiu os lábios de Asterius substituir as lâminas quando ele beijou as marcas rosadas que havia deixado nela antes.
— Pensei que a tivesse cortado inteira! — ele murmurou, a respiração aquecendo-a por inteiro.
— Claro que não... Foram apenas arranhões.
A boca de Asterius moveu-se para o final de sua espinha, a língua quente provando-a sem meandros.
— Pensei que nunca mais fosse tocá-la de novo!
Mikki virou-se e o segurou pelo pescoço, permitindo que ele tomasse seus mamilos com a boca.
— Nunca pare de me tocar! — pediu. E, deitando-se na cama, puxou-o com ela.
Asterius ajoelhou-se a seu lado. Recolhendo as garras, tocou-a no rosto com delicadeza.
— Eu não conseguiria parar agora, nem mesmo se Hécate aparecesse e me ordenasse isso!
— Sshh... — Ela pressionou seus lábios com um dedo. — Não quero pensar em nada a não ser em você. — Lentamente, levantou mais a mão, seguindo a linha suave de um
chifre escuro. — Você é incrível. Acho que nunca vou me cansar de acariciá-lo.
— É um presente raro e inesperado para mim, Mikado. — A voz de Asterius tremeu com a profundidade de suas emoções. — Eu nunca conheci o amor. Nunca, em todas as
eras da minha existência, uma mulher me tocou, aceitou e amou como você. — Ele teve que fazer uma pausa antes de continuar. — Vou amá-la enquanto respirar. E além,
se as Parcas e a deusa permitirem!
— Então venha para mim, Asterius! Mostre-me o poder de seu amor! — ela implorou.
Ele a adorou com a boca e com as mãos, e bebeu dela como se nunca fosse se fartar. Explorou-a e, com os sentidos sobre-humanos de um animal, leu cada sinal e mudança
em seu corpo, aprendendo o que mais lhe trazia prazer.
Quando pensou que não poderia viver algo mais doce do que observar a paixão que havia provocado nela, Mikki pressionou-o contra o catre e deu início à sua própria
exploração. Quando sua língua e boca o provocaram por inteiro, e ela sussurrou que seu membro rijo era magnífico, demonstrando o quanto o desejava, Asterius pensou
que fosse morrer de prazer.
— Preciso sentir você dentro de mim!
Mikki se abriu, e ele estremeceu no esforço para se controlar enquanto ela o envolvia com as pernas e se encaixava em seu corpo. Sentiu o sangue arder nas veias
e um rugido escapou de sua garganta. O animal dentro dele queria investir violentamente contra ela, afundar o membro endurecido em seu calor úmido... Porém ele cerrou
os dentes, deslizando com cuidado para dentro e para fora de Mikki, tentando concentrar-se nos sons suaves de puro prazer que ela soltava em meio ao turbilhão que
assolava-lhe o corpo e a alma.
E então percebeu que ela ia de encontro a suas estocadas suaves com uma ferocidade que refletia-se em seus olhos verdes.
Quando inclinou-se para beijá-la, Mikki mordeu-o no lábio com força.
Ele rosnou, e ela sorriu.
— Solte o animal que existe em você, Asterius! É ele quem eu quero agora! — pediu com uma voz rouca e sensual.
As palavras acenderam tal chama dentro dele, que Asterius temeu que ambos fossem consumidos por ela. Incapaz de lutar contra a força combinada do desejo e do poder
da fera, virou-se no catre e, agarrando-a pelas nádegas, ergueu-a de encontro a ele, afundando nela seguidas vezes.
Mikado não fugiu dele, pelo contrário. Respondeu a sua paixão com a força e a determinação de uma deusa.
O animal e a sacerdotisa arderam juntos, até que, finalmente, o ser humano dentro dele não pôde mais se conter e derramou dentro dela toda uma vida de desejos, ao
mesmo tempo que fera e homem rugiam seu nome em uníssono.
Capítulo 29
Asterius não conseguia parar de olhar para Mikado. Ela dormia nua, o corpo pressionado contra o dele. Tinha um braço apoiando a cabeça, uma perna longa e macia sobre
a sua, e a mão jogada sobre seu peito, indolente.
Respirou fundo, permitindo que seu perfume lhe invadisse os sentidos. Nunca havia imaginado aquilo. Mesmo quando tivera esperanças de que a outra Empousa pudesse
gostar dele, que pudesse amá-lo, pensara apenas no toque de suas mãos suaves.
Apenas em sonho permitira-se imaginar fazendo amor com uma mortal... Mas nenhum deles tornara-se realidade.
Até aquele momento. Até Mikado.
Quando ele a tocara e percebera que a dor causada pelo feitiço de Hécate tinha sumido — e o que aquilo significava —, Mikado transformara seus sonhos em realidade
e, ao fazê-lo, também curara a ferida da solidão que o afligia havia séculos.
Pelos deuses, o que ele iria fazer? Ela o salvara... Como ele poderia lhe fazer algum mal agora?
Mas se ele não a sacrificasse, o Reino das Rosas iria perecer.
Talvez não acontecesse imediatamente. Hécate poderia descobrir outra Empousa, porém um dano irreversível já teria sido feito. A traição de uma Sacerdotisa já fizera
um reino que jamais conhecera pragas, pestes ou doenças de qualquer espécie adoecer. Aquele tipo de coisa nunca existira no reino de sonhos e magia de Hécate.
Mas a traição e o abandono haviam provocado o enfraquecimento da muralha e, ele tinha certeza, apenas a rápida atuação de Mikado impedira um desastre.
Por isso precisava escolher entre destruir seu próprio sonho ou a destruição dos sonhos da humanidade.
Na verdade, não possuía alternativa. Apenas um animal poderia optar por si mesmo em detrimento da humanidade.
Asterius sentiu a agonia pelo que deveria fazer pressioná-lo como uma lança flamejante em suas entranhas.
— Está me olhando — Mikki disse baixinho e, sonolenta, abriu os olhos e sorriu para ele. — Não consegue dormir?
— Prefiro olhar para você. — Ele afastou-lhe uma mecha espessa de cabelo do rosto.
— Eu devia ter adivinhado que era um romântico quando colocou aquela rosa no meu vinho...
— Isso não é ser romântico, é ser civilizado. — Ele temperou a voz grave com um leve sorriso e acariciou a curva graciosa de seu pescoço e ombro, sorrindo ao vê-la
suspirar, feliz, e esticar-se como um gato.
— Não estrague minha alegria... Prefiro pensar que é romântico.
— Então vou chamar de romance, também, só por sua causa. — Hesitante, porém com uma doçura e inocência totalmente em desacordo com a aparente ferocidade de seu corpo,
Asterius inclinou-se e beijou-a nos lábios. — Quando veio até mim, hoje, ofereceu-me mais do que seu corpo e seu amor, Mikado. Ofereceu-me aceitação: uma alegria
que eu nunca imaginei que fosse conhecer.
Ela entrelaçou os dedos com os dele.
— Isso é algo que você e eu temos em comum. Eu sempre me senti como se não pertencesse ao meu antigo mundo. — Respirou fundo e tomou uma decisão. Queria que Asterius
soubesse. Precisava que ele soubesse. — Hécate me explicou parte da razão pela qual eu me sentia tão deslocada. Era porque eu já estava destinada a ser sua Empousa
neste mundo. Sempre carreguei o sangue de uma Alta Sacerdotisa nas veias. Mas há outra razão... Por isso nunca deixei ninguém, muito menos um homem, aproximar-se
de mim. Tem a ver com meu sangue também. — Ela estudou os olhos escuros, querendo que ele compreendesse. — As mulheres da minha família estão intrinsicamente ligadas
às rosas. Se regarmos as flores com água misturada ao nosso sangue, estas se desenvolvem além do normal. No mundo comum, o que eu fazia era inédito. Exceto pelas
mulheres da minha família, ninguém mais conseguia entender. Isso me fazia sentir como se eu fosse uma aberração e, por isso, eu escondia meu segredo. — Preocupada
ao ver como Asterius ficara imóvel e pálido, Mikki sentiu-se retesar. — Diga alguma coisa... Eu nunca contei isso a ninguém.
Quando ele permaneceu em silêncio, ela começou a se afastar, mas, com um rosnado baixo, Asterius puxou-a com determinação de volta para a proteção de seus braços.
— Você não se sentia aceita lá porque era seu destino ser Empousa de Hécate e vir até aqui para salvar as suas rosas e seu Guardião solitário. O sangue que corre
em suas veias é a vida deste reino, Mikado. É seu amor que nos sustenta. — Ele fechou os olhos e afundou o rosto nos cabelos vermelhos, tentando não tremer, tentando
não pensar.
Mikki relaxou e aninhou-se mais junto a ele.
— Isso ainda me espanta. Se as coisas não tivessem acontecido numa sequência perfeita, eu não estaria aqui. — Recostou-se em seus braços de modo a fitá-lo e, mais
uma vez, perguntou-se o porquê de Asterius ainda estar tão pálido. — Foi meu sangue que o despertou, sabia?
— Não. — A voz dele soou ainda mais grave. — Eu só sabia que havia me despertado, que podia sentir seu cheiro e que você era a Empousa de Hécate.
— Na verdade, esse é um dos aspectos mais estranhos do que aconteceu. Naquele mesmo dia, em Tulsa, uma senhora que eu mal conhecia havia me dado um pouco de perfume
e, num impulso, eu o usei. Por mais estranho que pareça, é o mesmo perfume que estou usando agora. Gii o chama de “o óleo sagrado da Empousa”.
Asterius franziu o cenho.
— Como é possível?
Mikki deu de ombros e tornou a se aconchegar junto a ele.
— Eu não faço ideia, mas ela era muito excêntrica. E linda, mesmo sendo velha. Tinha os olhos azuis mais incríveis que já vi. Era estrangeira, porém eu não consegui
discernir muito bem seu sotaque. Ela disse que tinha conseguido esse perfume... — Mikki parou para pensar — ... em algum lugar da Grécia, se não me engano. O que
me lembro com certeza é de seu nome porque, assim como eu, ela também tem nome de rosa: Sevillana.
Mikki sentiu o choque que atravessou o corpo de Asterius, e ergueu-se sobre um cotovelo, vendo a expressão indecifrável no rosto moreno e agora pálido.
— O que foi? Alguma coisa errada?
— É que... nada. Não foi nada. Só estou surpreso por uma mulher do mundo comum ter obtido o óleo sagrado da Sacerdotisa de Hécate. É um mistério. — Asterius passou
os braços a seu redor. — Deite-se aqui comigo... Deixe-me sentir seu corpo tocando o meu.
Mikado descansou no peito largo.
A mente de Asterius girava num turbilhão enquanto ele acariciava a linha suave de suas costas. Sevillana... Apenas o nome tinha enviado ondas de choque por todo
seu corpo. Era ela!
Ele, também, jamais iria se esquecer da beleza fria de seus olhos azuis e penetrantes, muito menos de seu nome. A última Empousa continuava viva no mundo comum.
Como era possível? O tempo passava de forma diferente por lá, ele sabia. Mas ao menos dois séculos, pela contagem daquele mundo, deviam ter se passado. Talvez a
antiga Empousa houvesse atravessado a encruzilhada com mais do que apenas um frasco de óleo para unção. Talvez tivesse conseguido roubar alguma magia do reino.
A enormidade daquela revelação infiltrou-se em seu estado de choque. Sevillana estava viva! Na primavera, quando uma Empousa precisasse ser sacrificada pelo reino,
Sevillana, e não Mikado, deveria morrer! Tudo o que ele precisava fazer era descobrir uma maneira de trazer a Sacerdotisa ausente para o Reino das Rosas!
Tinha que ser possível. Sevillana havia escapado, portanto certamente poderia retornar.
Asterius segurou Mikado com mais força, e essa foi sua resposta. Ele não a sacrificaria. Apenas a trocaria pela antiga Alta Sacerdotisa e devolveria Mikado com segurança
para sua casa no mundo comum.
Ficaria sem ela, sentiria sua falta por toda a eternidade, sem dúvida... Entretanto, poderia suportar isso. O que não poderia suportar era saber que ela teria de
morrer por suas mãos. Se Mikado partisse, perderia seu amor. Se ele a sacrificasse, perderia a própria alma...
Pois ele não sacrificaria seu amor, tampouco iria perder a própria alma. Tinha uma alternativa, e também os poderes do filho de um Titã. Transformaria aquele imenso
cúmulo de magia para alcançar seu objetivo.
Mas não naquele momento. Não naquele dia.
Naquela noite, ele iria se deleitar com o milagre do amor de Mikado, e não pensaria mais sobre o vazio infinito das madrugadas que estavam por vir.
Mikki encostou-se à entrada discreta para a caverna e olhou a manhã nublada enquanto mastigava um pedaço de pão. Asterius veio por trás dela, e a fez inclinar-se
de encontro a ele.
— Chuva! — disse, surpreso. — Não costuma chover por aqui.
— Fui eu que fiz isso. Ordenei ao elemento Água que a trouxesse quando lancei o feitiço de saúde e proteção ontem. Em todas as manhãs haverá chuva por algum tempo.
É bom para as rosas e é bom para o reino também. Manhãs chuvosas são repousantes; um momento perfeito para dormir e fazer rejuvenescer a alma. — Ela se virou em
seus braços. — Infelizmente, eu não pensei em avisar as servas, ontem, que manhãs chuvosas equivaleriam a tirar uma folga... Imagino que os Quatro Elementos estejam
se perguntando por que eu ainda não as chamei para trabalhar. E como a noite passada foi a primeira, em muito tempo, em que os homens puderam ser convidados a vir
ao reino, aposto que estão cansadas e me esperando de mau humor... Preciso ir vê-las. O que vai fazer?
— A mesma coisa que faço todas as manhãs: inspecionar a muralha das rosas ao redor do reino para ter certeza de que tudo está seguro. Depois vou colher mais fios
para as Tecedoras de Sonhos. — Ele acariciou o rosto dela. — Só que, nesta manhã, cumprirei minhas funções com seu cheiro na minha pele... E com a lembrança do seu
sorriso, toque e gosto no meu coração. — Ele sorriu. — Dizem que a chuva é sombria e triste, mas, para mim, esta manhã parece brilhante e cheia de promessas.
— Um romântico incurável... Quem diria? — Mikki segurou-o pela cuirasse. — Beije-me, para que possamos arregaçar as mangas depois — ela ordenou, enquanto se perguntava
se algum dia ele iria perder aquele ar de felicidade que se estampava em seu rosto a cada vez que ela o surpreendia com um toque ou, como naquele momento, com um
beijo. Sinceramente, esperava que não. — Pode tirar uma folga para almoçar comigo?
Asterius beijou-a outra vez antes de responder.
— Claro que sim. Tudo o que precisa fazer é me chamar.
— E à noite?
— Peça, Empousa, e eu obedecerei — ele murmurou, os olhos escuros brilhando.
— Você diz isso agora. Vamos ver o que vai achar de obedecer a todas as minhas vontades daqui a um ano ou mais — Mikki disse brincando, enquanto levantava uma sobrancelha,
travessa.
Ficou surpresa ao ver a expressão dele mudar e seus olhos perderem todo o humor.
— Eu jamais me cansaria de você ou das suas vontades, Mikado. Nem se tivéssemos uma eternidade para compartilhar.
As palavras fizeram seu coração se comprimir. Como podia ter se esquecido de que Asterius era um imortal? Ela iria envelhecer, ele não. E, ao contrário dele, ela
morreria.
Não! Não pensaria naquilo. Não no alvorecer de seu amor. Eles mereciam algum tempo para que pudessem saborear a doce sensação de um sentimento novo e inebriante.
Nesse ponto não eram diferentes de qualquer outro casal. Ela não iria estragar aquela lua de mel com pensamentos terríveis sobre um futuro em que iria se arrastar,
encolhida, pelos jardins, inclinando-se sobre o braço sempre jovem e forte de Asterius...
Ele a deixaria, então? Será que ainda iria querer ficar com ela?
Pare com isso! Está fazendo exatamente o que prometeu não fazer!
Mikki fez brotar um sorriso nos lábios.
— Eu não estava falando a sério. Estava apenas brincando com você. Mas já que mencionou seu dever de obedecer a meus comandos... ordeno que venha me ver esta noite.
— Olhou por cima do ombro largo para a caverna acolhedora, tão impregnada da presença de Asterius como da requintada arte que ele criara. — Na verdade, acho que
prefiro vir para cá.
— Aliás, creio que não tenha conhecido bem meu lar, como me pediu ao chegar...
— Essa é uma das coisas que terá de fazer esta noite... Mas apenas uma delas.
A leve chuva mudou a aparência dos jardins, como se alguém os tivesse pintado com um pincel de aquarela e dado um toque impressionista à realidade.
Mikki decidiu que gostou do que via. Combinava com o restante daquele lugar de sonho.
Quis ir direto para o palácio e chamar os Quatro Elementos. As pobres meninas deviam estar bem aborrecidas com ela, principalmente se alguma delas tinha expulsado
alguém delicioso da cama...
Mas continuou vagando, perdida na magia que emanava das rosas.
Elas pareciam melhores naquela manhã. Mesmo quando ela rumou devagar em direção ao Sul, a náusea que revirava seu estômago sempre que ela perambulava pelos jardins
não veio. Viu até mesmo várias flores saudáveis, cor de lavanda, que reconheceu como rosas Angel Face em plena floração, onde no dia anterior havia apenas brotos
anêmicos.
Sorriu e, num acesso de orgulho, autodenominou-se “a Deusa das Rosas”.
E sonhou com Asterius.
Suspirou. Encontrava-se dolorida em lugares dos quais ela até se esquecera... Quase um ano se passara desde a última vez em que fizera sexo, mas nunca havia experimentado
nada como o amor que fizera com Asterius. Aquele corpo forte, aquela mistura de homem e animal fora tão intrigante, tão sedutora!
Mas o mais excitante tinha sido a liberdade que sentira com ele.
Sorriu. Com Asterius ela poderia soltar a fera que existia dentro dela quando estivessem juntos, sem temer que ele se afastasse. Asterius correspondia inteiramente
à sua paixão. E ele a conhecia, lia sua alma.
Asterius, Minotauro, Guardião... Ele também sabia o que era ser um marginal.
Pois bem, eles haviam encontrado um lar juntos enfim.
— A chuva foi uma ideia inteligente, Empousa.
Mikki pensou que fosse desfalecer ao som da voz de Hécate.
— Minha nossa, você quase me matou de susto! — exclamou.
Então lembrou-se de com quem estava falando, limpou a garganta e virou-se para encarar a deusa com o coração batendo dolorosamente no peito. Hécate encontrava-se
sentada em um banco de mármore, a poucos metros.
— Perdão, eu me assustei... — Fez uma reverência, como via as servas fazendo com tanta frequência. — Não devia ter falado dessa maneira.
Hécate fez um gesto de desdém com a mão.
— À minha Empousa são permitidas liberdades de que muitos nem precisam saber. — Ela apontou o espaço a seu lado. — Venha, sente-se aqui comigo.
Engolindo em seco, Mikki aproximou-se da divindade. Os cães gigantescos encontravam-se a postos ao lado dela, porém a ignoraram por completo.
Hécate vestia as cores da noite: preto, o mais profundo dos azuis e cinza. Manifestara-se como a linda mulher de meia-idade outra vez, e as gotículas de chuva cintilavam
como joias em seu cabelo negro.
— O feitiço para proteção e saúde que lançou ontem foi muito bem pensado. Concordo com seus instintos. A chuva refresca as rosas e o reino. Além disso, os pequenos
insetos que pediu à Terra foram uma surpresa encantadora... O elemento Ar adorou trazê-los para cá. — A deusa fez uma pausa e, em seguida, surpreendeu Mikki com
uma deliciosa risada. — Embora não se possa enxergar seu corpinho vermelho e preto em meio a essa névoa.
— Joaninhas alimentam-se de pulgões, e as rosas odeiam pulgões — lembrou Mikki, ainda surpresa com o declarado elogio da diva.
— As rosas estão desenvolvendo-se de novo, e isso me agrada.
— Obrigada, Hécate.
— Também foi bom ter instruído Fogo a iluminar a muralha das rosas, principalmente as do portal. Agora que os homens estarão indo e vindo outra vez, precisam tomar
muito cuidado com essa passagem.
— Eu nem havia pensado nisso! — Mikki passou a mão pela testa, nervosa. — Sou mesmo uma tola. Como esperava que eles fossem entrar e sair do reino?
— Não foi ruim ter permitido que os homens viessem aqui de novo. Fez muitas mulheres felizes. Durante toda a noite, ouvi os nomes dos amantes sendo sussurrados em
convites que foram levados ao mundo antigo. — A deusa sorriu de lado, maliciosa. — Ainda esta manhã alguns continuam sendo chamados e apreciados pelas mulheres,
as quais há muito são reverenciadas como algumas das mais belas e inteligentes do mundo antigo. Ter os homens por perto dará vida nova ao reino... Bebês meninas
são uma bênção, e estou ansiosa por seu nascimento.
— Mas os Ladrões de Sonhos estão na floresta. Temos que ter cuidado se esse portal vai abrir e fechar a cada pouco.
— Você é a Empousa, Mikado. Pode colocar limites quanto ao ir e vir dos homens. — Hécate deu-lhe um olhar afetuoso. — É bom que saiba dos perigos que espreitam do
outro lado da barreira, mas não precisa se preocupar. A força do Guardião irá proteger o reino. Case a vigilância dele com seu carinho pelas flores, e tudo ficará
bem no Reino das Rosas.
Mikki tentou não pensar ou reagir. Manteve a mente vazia e assentiu.
— Ótimo. Agora, o que vim dizer é que tenho assuntos para resolver que vão me afastar do reino. Não se preocupe se eu não vier visitá-la aqui por... — Hécate ergueu
um ombro — ... algum tempo. Mas meus poderes estarão sempre com você, caso necessite deles. Sinto que está confiando mais em seus instintos e, por isso, aplaudo
sua sabedoria. Deixe que sua intuição a guie. Se seu sangue, alma ou espírito lhe disserem algo, pode acreditar. E, lembre-se, Empousa, aprecio muito o que tem feito
pelas rosas, mas não foram apenas suas providências que deram início à recuperação delas. Foi também sua presença. Tem laços de sangue com as flores, o que garante
que elas irão prosperar. Seja sábia, Mikado. Os sonhos da humanidade dependem de você.
Hécate levantou a mão e desapareceu em uma névoa brilhante.
Capítulo 30
Mikki não podia dizer que não estava aliviada por Hécate ter partido por algum tempo. É claro que devia ter lhe contado sobre seu relacionamento com Asterius...
Contar seria bem melhor do que a deusa ler sua mente ou descobrir de outra forma.
Tinha vontade de correr e se esconder só de pensar nisso!
Iria dizer tudo a ela, sem dúvida, mas não queria fazer isso tão já.
Não que estivesse com vergonha por amar Asterius, ou porque temia sua deusa, ainda que Hécate fosse um tanto assustadora. Mas queria manter o Guardião para si mesma.
Por que não podiam ter privacidade para descobrir os segredos daquele novo amor? Mesmo que tivesse se apaixonado por um homem de Tulsa, ela gostaria de ter tempo
para que os dois aproveitassem a novidade de sua descoberta antes que a revelassem aos sete ventos e abrissem a própria vida à especulação. Ela era discreta e quanto
mais uma coisa lhe era importante, mais discreta ela tornava-se a respeito.
E Asterius era muito importante para ela.
Quando Hécate voltasse, sabia-se lá de onde, poderiam ter uma conversa acerca do Guardião. Então iria lidar com a resposta da deusa, qualquer que fosse ela.
Até lá, iria valorizar aquele período de lua de mel que lhe fora concedido e desfrutar completamente o fato de que tinha se apaixonado.
Satisfeita com seu plano, Mikki deixou o banco e verificou os canteiros e fontes vizinhos para certificar-se de que rumava na direção certa. Os comentários de Hécate
sobre os homens indo e vindo através do portal das rosas a haviam preocupado e, a despeito do que a deusa dissera sobre Asterius, iria se manter alerta.
Naquele exato momento, seus instintos lhe diziam que verificasse o portal por conta própria, depois anunciasse um toque de recolher, embora detestasse a ideia de
agir como uma inspetora de colégio. Gostaria de conversar com Asterius sobre aquilo, mas só faria sentido colocar alguns limites quando o portal estivesse aberto.
E também precisava descobrir quem, exatamente, poderia abri-lo. Asterius poderia, claro. E ele dissera que ela também poderia fazê-lo. As Tecedoras de Sonhos haviam
mencionado que os Quatro Elementos tinham colhido os fios da realidade enquanto o Guardião estava enfeitiçado, então elas também eram capazes de abrir o portal.
Mas quem mais? Seria uma tremenda dor de cabeça se todas as mulheres do reino pudessem fazer um gesto e abrir a maldita porta como se esta fosse o Mar Vermelho...
Sem dúvida, tinha muito trabalho a fazer.
Calculando a hora, Mikki apertou o passo. Precisava se mexer e chamar suas damas de companhia.
Poderia chamá-las naquele exato momento e fazer com que se encontrassem ali nos jardins, claro; mas preferia checar pessoalmente o portal, voltar correndo para o
quarto, trocar aquela túnica molhada e rasgada, embora a tivesse remendado naquela manhã, pedir a Daphne que trouxesse um pouco daquele chá delicioso e reunir-se
com as meninas mais tarde para um brunch.
Mesmo assim, ainda era cedo. E as servas não eram estúpidas. Decerto olhariam a chuva e perceberiam que havia pouco a ser feito nos jardins com aquele clima. Talvez
até voltassem para a cama.
Mikki sorriu para si mesma, esperando que elas não fizessem isso sozinhas. Ela mesma não o faria naquela noite.
A chuva mudara aos poucos da garoa fina para uma bruma, e depois para um nevoeiro claro que agora pairava sobre as rosas como na região dos Lagos, na Inglaterra.
A cerração tornou-se mais espessa conforme ela caminhava para o Sul.
Mikki pensava na noite que tinha pela frente, tentando decidir como poderia convencer Asterius a ir até as fontes termais para um banho a dois, quando uma parede
de rosas Multiflora surgiu bem diante de seu nariz, e ela quase se chocou contra a muralha.
— No próximo feitiço, lembre-se de dizer ao Ar para afastar o nevoeiro depois da chuva! — resmungou para si mesma enquanto esquadrinhava o portal, procurando por
sinais de desgaste. — Você parece bem — elogiou, acariciando parte da folhagem.
— Sacerdotisa! Pode nos ajudar?
Mikki olhou ao redor, tentando ver de onde vinha a voz profunda. Era inequivocamente masculina, o que soava estranho nos jardins.
— Aqui! Estamos aqui!
Ela percebeu que a voz vinha do outro lado da muralha das rosas e inclinou-se um pouco, de modo a olhar através de uma parte menos densa dos ramos.
Seus olhos arregalaram-se de surpresa. Quatro homens encontravam-se do lado de fora do portal, cercados pela névoa espessa e cinzenta. Três deles estavam trajados
como ela sempre imaginara que os antigos gregos deviam se vestir: com uma espécie de túnica, um braço nu e capas cor de púrpura, regiamente bordadas, sobre as costas
largas. Eram todos altos, musculosos... e muito, muito bonitos.
O quarto homem, o que havia falado, devia ser o líder. Encontrava-se à frente dos demais e vestia-se no estilo em que ela estava acostumada a ver Asterius: com uma
cuirasse sobre uma túnica curta, de pregas.
Era aí, entretanto, que sua semelhança com o amante dela terminava. Era um homem bonito, alto e de pele morena, que destacava-se mesmo na manhã nevoenta. Sua pele
tinha um tom dourado que poucos loiros verdadeiros exibiam. Um bronzeado saudável, da cor do mais puro mel, e que cobria um corpo que era uma perfeição: atlético,
sem ser demasiado musculoso e brutal. Seu cabelo era espesso e ondulado, cortado num comprimento que era másculo e, ao mesmo tempo, juvenil.
E seus olhos eram tão azuis e límpidos que ela podia vê-los mesmo em meio à profusão de rosas.
Mikki suspirou. Nunca vira um homem tão bonito de tão perto. Geralmente, tanta perfeição limitava-se a Hollywood e às maquinações dos produtores de filmes e cirurgiões
plásticos.
— Aí está, Sacerdotisa! — Ele sorriu, e seu rosto iluminou-se ainda mais. — Estamos aqui. Respondemos a seu chamado.
Ela sorriu de volta. (Quem não o faria diante de um sorriso como aquele?)
— Meu chamado?
— Só posso rogar à grande deusa que eu tenha tido a sorte de ter sido chamado por uma beldade como você...
Mikki percebeu que corava e sentiu-se ridícula.
— Ouvi dizer que os olhos azuis são mais fracos do que os castanhos ou verdes — replicou. — Acho que acabou de comprovar essa teoria.
Ele riu, e o som de seu riso era tão cativante quanto sedutor.
— Ah, vejo que minhas preces foram atendidas! A deusa me concedeu uma Sacerdotisa que tem inteligência, além de beleza. — O estranho deu alguns passos em direção
ao portal, e seus amigos o seguiram.
Por entre os ramos, Mikki observou-o mover-se com naturalidade e confiança, de modo tão atraente e tão diferente do modo selvagem de Asterius que ficou chocada.
Não chegou a desejar o lindo loiro, mas sentiu uma ponta de inveja da mulher que o tinha chamado.
Viu-se invadida imediatamente por uma onda de culpa. Que diabo havia de errado com ela? Tinha acabado de deixar a cama de Asterius após proclamar seu amor por ele,
e agora estava toda derretida diante de um estranho só porque ele era bonito?
Talvez a chuva tivesse atravessado seu crânio e inundado seu cérebro.
— Vai abrir o portal para nós, Sacerdotisa, ou meus companheiros e eu teremos de atravessar essa parede espinhosa?
— Não! — ela respondeu um pouco alto demais. E então, sentindo-se como uma idiota, adicionou: — Não fui eu que o chamei. Não precisa me cortejar.
A expressão de decepção do rapaz pareceu sincera.
— Se é assim, creio que eu lhe deva desculpas, graciosa dama. Imaginei que fosse um dos Elementos, com essas tranças avermelhadas e sua extraordinária beleza. Fogo,
talvez. Afinal, foi ela quem me chamou aqui. Eu seria um homem de sorte se tivesse acertado.
— Desculpe, mas não sou nenhum dos Elementos. — Mikki sorriu, travessa.
Não estava sendo infiel a Asterius por ser educada com o rapaz. Estava apenas cumprindo seu papel de Empousa, afinal, fora ela quem lançara o feitiço para permitir
que os homens adentrassem o reino.
— Eu sou a Empousa.
Os olhos azuis do estranho plissaram-se adoravelmente nos cantos com seu sorriso.
— Empousa! — Ele curvou-se em um lindo e cavalheiresco floreio, que os outros homens copiaram enquanto a saudavam, galantes. — Que feliz coincidência estar passando
por aqui neste momento. Bem que ouvimos dizer que havia uma nova Empousa no Reino das Rosas. É uma honra conhecê-la... — O sorriso do rapaz brilhou com bom humor.
— Mesmo através de uma barreira de rosas...
— Disse que Floga o convidou?
— Isso mesmo.
— Ela convidou os seus amigos, também? — Mikki tentou evitar um sorriso malicioso, mas falhou miseravelmente. Não era difícil imaginar o elemento Fogo precisando
de quatro homens para apagar sua paixão, mesmo que um deles já se parecesse com Adonis.
Por um instante, Mikki sentiu uma ponta de ciúme da liberdade e facilidade com que a serva podia caminhar ao lado de qualquer homem que escolhesse.
— Não, Empousa — disse um dos que estavam vestidos com quitão. Tinha os cabelos escuros e fartos e um rosto bem talhado, o que a fez concentrar-se outra vez na conversa.
— O elemento Terra é a Sacerdotisa cujo chamado estou atendendo.
— A Água foi quem me chamou, Empousa — disse o terceiro homem.
— E eu tive a sorte de ter sido convocado pelo Ar — explicou o último, que possuía cabelos longos e castanho-avermelhados, além de olhos extraordinariamente verdes.
Caramba, eles eram maravilhosos! Suas servas tinham feito excelentes escolhas.
Mikki sorriu. Precisava perguntar a Gii como funcionava aquela coisa de convidar os homens... Era meio estranho que eles tivessem sido invocados pelas meninas pela
manhã, mas talvez não fosse. Ela ainda não as chamara para trabalhar. Estivera chovendo e, na certa, elas haviam decidido ocupar-se à sua maneira.
Sem dúvida, eram tão inteligentes quanto ela pensava.
— Tenho certeza de que os Quatro Elementos estarão aqui a qualquer instante, portanto, ficarei feliz em deixá-los entrar.
Os olhos do líder se iluminaram e ele curvou-se numa mesura novamente.
— Ser convidado a entrar no Reino das Rosas por sua Empousa é uma honra que não merecemos.
— Ah, isso não é problema. Podemos caminhar para o palácio juntos. Eu já ia voltar para lá.
Sem dizer que ser escoltada por quatro rapazes lindos de morrer não era nenhum sacrifício.
Tampouco era errado, pensou Mikki, sentindo-se dominada por uma súbita revolta. Claro que não era errado! Ela estava apaixonada, não morta. E tudo o que iria fazer
era levar os homens até suas mulheres.
O único motivo escuso que talvez tivesse para tanto era desfrutar um flerte inofensivo. Mas por que não? Sentia-se incrivelmente bonita e amada, mas isso não significava
que quisesse ser controlada e trancafiada em uma gaiola!
Asterius que pensasse duas vezes antes de querer marcá-la como uma novilha premiada... Era isso o que ele esperava dela? Que ela lhe permitisse controlar todos os
seus movimentos?
De repente, sentiu medo de que fosse aquilo mesmo. Afinal, Asterius era um animal, e ela não podia esperar que ele soubesse como tratar uma mulher.
Em algum lugar, nas profundezas de sua alma, algo tentou inserir-se no turbilhão de pensamentos defensivos que borbulharam em sua mente tal qual num guisado rançoso...
Mas não puderem ser ouvidos em meio ao ódio e à inveja, o egoísmo e o medo que gritavam dentro dela.
Meio desnorteada, Mikki foi até o centro do portal e franziu o cenho. Não havia nenhuma maçaneta, nenhuma trava, nenhuma barra de deslizar. Frustrada e muito irritada
com a enorme dor de cabeça que abateu-se sobre ela, levantou a mão e pressionou a palma contra a muralha.
— É a Empousa quem fala. Abra logo essa droga! — murmurou com raiva.
O portal vivo obedeceu.
Os quatro homens deixaram o nevoeiro sorrindo, como se ela tivesse acabado de lhes dar a chave para o paraíso.
Mikki sorriu de volta, distraída, desejando que eles se apressassem a passar para o lado de dentro. Não gostou da aparência da floresta escura e quis fechar o portal
imediatamente.
No instante em que o último homem entrou, ela ergueu a mão de novo e ordenou ao portal que se fechasse, suspirando de alívio quando este obedeceu.
Então, virou-se para os homens.
— O palácio é por ali. — Gesticulou na direção do caminho de mármore mais largo.
— Claro, Empousa. — O loiro sorriu.
Mikki começou a andar, contudo estacou quando o moreno de cabelos escuros bloqueou seu caminho.
— É por aqui — ela repetiu, apontando por cima de seu ombro largo enquanto pensava que ele podia ser bonito, mas, definitivamente, não era a última bolacha do pacote.
— Talvez queira saber nossos nomes antes de nos levar até o palácio, Empousa... — A voz do loiro soou bem atrás dela. Ele estava tão próximo que Mikki pôde sentir
sua respiração nos cabelos.
Os outros dois rapazes entraram em cena para fechar o círculo, de maneira que ela viu-se cercada.
Foi nesse momento que tudo clareou, a dor na cabeça cessou, assim como as emoções desencontradas que vinham fervilhando em sua mente. De súbito, uma certeza terrível
tomou conta de Mikki: eles eram Ladrões de Sonhos e ela abrira o portal das rosas para eles!
Instintos que tinham sido silenciados assim que ela havia começado a conversar com o loiro gritaram para que ela não demonstrasse medo.
Determinada, engoliu a bile que lhe subira à garganta, endireitou-se, majestosa, e encarou o homem de cabelos dourados.
— O que significa isto?
— Nós apenas gostaríamos de nos apresentar, Empousa. Como vê, já a conhecemos bem, pois gostamos de observá-la. Agora queremos que saiba o que convidou tão graciosamente
a adentrar o seu reino. — O charme na voz dele fora substituído pelo sarcasmo, e seus lábios curvaram-se num sorriso de escárnio que distorceu seu belo rosto.
— Não gosto do seu tom e não gosto da sua proximidade — ela declarou, áspera, tentando imitar o tom intimidador de Hécate. — Acho que já é hora de partirem. Decidi
que minhas servas não gostariam de sua companhia.
— Tarde demais. Abriu o portal para nós e agora verá que, uma vez que somos convidados, não costumamos deixar a festa tão cedo... — O moreno estendeu a mão e tocou
uma mecha avermelhada que descansava em seu ombro.
Mikki tentou empurrá-lo, porém ele a agarrou pelos ombros sem nenhuma delicadeza e a segurou no lugar enquanto o loiro cheirava sua nuca. Ela lutou, mas, agarrando-a
pelos cabelos, este a obrigou a virar a cabeça para o lado e, como uma cobra provando sua presa, deslizou a língua por seu pescoço.
— Ah, o doce sabor de uma Empousa! Há séculos não degusto uma iguaria destas.
— Parem com isso! — Mikki choramingou. — Larguem-me!
Surpreendentemente, o loiro obedeceu. Sorriu para ela, mas foi apenas uma exibição de seus dentes perfeitos, e não uma expressão de humor.
— Vamos aproveitar nossa visita em sua companhia, Empousa. Gostamos dessa mudança no clima que providenciou... Um tempo desses é melhor para encobrir o nosso pequeno
rendezvous, embora alguém já tenha tido o prazer de sua companhia esta manhã. — Com os movimentos de um réptil, ele a circundou e arrancou o broche que mantinha
unido o tecido já cortado da túnica.
Mikki congelou de medo. Agarrou-se ao quitão, tentando não vomitar enquanto eles a cercavam mais, apalpando-a com mãos ousadas e devorando-a com os olhos.
— Vamos, Empousa, não seja tímida... Não pode dizer que não me reconhece.
— Ou a mim e aos outros... — a voz do de cabelos castanhos soou abafada a suas costas.
— Olhe bem nos meus olhos, Empousa... Tenho certeza de que já me viu antes. Não me diga que não sabe meu nome.
Ela mirou os olhos incrivelmente azuis do loiro. De súbito, sua cor clara e intensa tingiu-se de um vermelho-sangue, e eles transformaram-se em fendas.
Mikki reconheceu-o então e, quando seu nome ardeu-lhe no pensamento, ela viu-se dominada por uma fúria que solapou todo o medo.
— Tire essas mãos nojentas de mim! — gritou, irada, e o empurrou com violência.
Surpreso, o moreno que a segurava por trás tropeçou e a soltou. Sem perder tempo, Mikki recuou vários passos para longe deles.
O loiro riu e a seguiu devagar.
— Que bom... Gostamos se oferecem resistência. Isso torna as coisas mais interessantes. Afinal, o que vê quando me olha nos olhos, Empousa?
Ela continuou se afastando, contudo ele e os outros a seguiram.
— Um borra-botas louco para ter contato com gente influente! — respondeu, ofegante.
Ele gargalhou.
— Acho que vou ter de lhe ensinar coisas melhores para fazer com essa sua língua afiada. Mas, por hora, me diga, Empousa... Que nome você me dá?
— Ódio — ela respondeu sem hesitação.
O sorriso dele foi aterrador.
— Ah! Vejo que pensa rápido. Talvez eu a leve comigo quando sairmos daqui. Gostaria disso? Sou um homem que conhece intimamente os desejos ocultos das mulheres.
— Homem? Que homem? — Ela riu, sarcástica. — Você não passa de uma criatura desprezível. Um comedor de carniça que se alimenta das carcaças dos sonhos. Mas não me
importa em que tipo de pele esteja disfarçado.
Ele se lançou à frente e a agarrou pelo braço.
— Acha que não sou homem? Pois eu vou lhe mostrar!
Enquanto eles tornavam a cercá-la, Mikki gritou o nome do único homem que preenchia-lhe o coração e a alma.
— Asterius!
— Seu amante, seja lá quem ele for, não vai salvá-la agora. E, se realmente se importa com ele, sugiro que fique bem quietinha... Nenhum mortal pode olhar para nós
sem perder uma parte da própria alma. — O Ódio bufou em seu rosto enquanto agarrava a frente da túnica e a arrancava de seu corpo. — Cubram a boca desta gracinha
e cuidem para que ela não dê um só pio! Neste nevoeiro não há chance de que sejamos descobertos até que seja tarde demais para ela... Tarde demais para todas!
Mikki viu-se arrastada para fora do caminho de mármore até um canteiro de rosas Salet. Lutou, chutando virilhas e pernas, usando as unhas para furar qualquer carne
com que entrava em contato, assim como se aprendia nas aulas de autodefesa nos Estados Unidos.
Mas os quatro logo a dominaram. Empurraram-na para o solo, e ela percebeu vagamente que a terra recém-trabalhada encontrava-se coberta com pétalas de flores destruídas,
como se uma neve cor-de-rosa tivesse caído junto com ela. Um deles a sufocava, e Mikki não conseguiu gritar. Fechou os olhos, então, e, concentrando-se, gritou em
pensamento:
Asterius! Venha!
— Verá se sou homem ou não... — rosnou o Ódio, empurrando para o lado a frente da própria túnica para tomar o membro ingurgitado na mão. — Depois experimentará um
pouco do Medo, do Ciúme e do Egoísmo — completou, rindo de modo insano. — Aliás, que ironia o Egoísmo tomá-la por último... Ou talvez não. Talvez ele opte por ficar
com você definitivamente enquanto visitamos as outras mulheres deste seu reino patético, Empousa.
Mikki captou um movimento em meio à sua visão já escurecida e, no instante seguinte, Asterius pareceu explodir de dentro do nevoeiro com um rugido ensurdecedor.
O Ódio virou-se para enfrentá-lo e, ao fazê-lo, seu corpo ondulou e transformou-se no do Ladrão de Sonhos. Conforme ela imaginara, ele não era humano, mas uma criatura
horrenda que devia existir apenas no mundo dos pesadelos. Tinha a pele escamada e seus olhos de cobra saltavam de uma cabeça dilatada em forma de capuz. Seu corpo
possuía características humanoides, porém ele agachou-se sobre quatro patas, botando uma espuma negra pela abertura da boca feito um réptil.
As garras de Asterius zuniram no ar, abrindo uma trilha de sangue no peito da criatura. Mikki escutou silvos horrendos escapando dos seres que a mantinham cativa,
então viu-se livre de repente quando o Medo, o Ciúme e o Egoísmo postaram-se atrás de seu líder.
Formavam um grupo aterrador. Todos haviam mantido algo de sua forma humana, mas haviam passado por tenebrosas mutações. O Medo era como um cadáver em decomposição,
com garras imundas e um rosto disforme. O corpo deveras humano do Ciúme era coberto por uma planta rastejante que brotava de sua pele como espinhos mortais. Ele
também se pôs de quatro, sibilando e lembrando um monstro do pântano. O Egoísmo tinha um corpo alongado, de onde saíam vários tentáculos, os quais ele agitava enquanto
rangia os dentes horríveis.
E todos enfrentaram Asterius.
O Guardião deu cabo de um por um. O Medo foi o primeiro a tombar, estripado pelas garras da fera. O corpo do Ladrão de Sonhos desabou e, em seguida, dissolveu-se,
transformando-se em uma fumaça vermelha que pairou ao longo dos canteiros de rosas.
Mikki se pôs em pé de um salto e gritou um comando:
— Aeras! Venha até mim!
Instantes depois, o elemento Ar corria até sua Empousa de olhos arregalados.
— Oh, grande Deusa! Salve-nos!
— Hécate não está aqui. Temos de nos defender sozinhas. Aeras, ordeno que seu elemento faça-se presente. Faça soprar um vento forte do Norte e nos livre da fumaça
do Medo. Agora!
Lívida, a moça ergueu ambos os braços. Quando o fez, uma rajada de vento frio soprou sobre eles, carregando a neblina da manhã, bem como a fumaça vermelha que pairava
ao longo da parede, para a floresta.
Um grito de dor fez Mikki arrancar o olhar da nuvem que se dissipava e concentrá-lo na batalha. Os olhos escuros de Asterius faiscavam, e ele rugia conforme desferia
golpe após golpe contra as criaturas do mal, os movimentos precisos tão fascinantes quanto mortais.
Ela prendeu o fôlego, pensando que Asterius era a coisa mais magnífica que já tinha visto.
Ele avançou, golpeou mais uma vez, e o Egoísmo foi ao chão, contorcendo-se, os tentáculos decepados espirrando sangue escuro em um arco vermelho por sobre as rosas.
Tendo o Ciúme agarrado a suas costas, Asterius abaixou o corpo num movimento quase invisível de tão rápido, e o Ladrão de Sonhos foi ao chão no mesmo momento, para
ser perfurado impiedosamente por suas garras na base da espinha.
Ambas as criaturas agonizaram e, depois, também desapareceram em nuvens de fumaça vermelha.
— Outra vez, Aeras! — ordenou Mikki.
Aeras chamou o vento Norte, e este baniu o Ciúme e o Egoísmo para a floresta.
— Sua vagabunda intrometida! — o Ódio gritou para o elemento Ar e, como uma víbora, atacou Aeras.
Mikki foi mais rápida, porém, e empurrou a moça para fora de seu caminho.
O Ladrão de Sonhos colidiu com a Empousa, em vez de sua serva, e Mikki sentiu uma picada lancinante explodir no ombro e no braço, tombando sob ele.
O Ódio gritou, então, e seu corpo curvou-se para trás quando Asterius cingiu-lhe as costas, fazendo brotar vários riscos vermelhos em sua pele.
Com um rugido terrível, o Ladrão de Sonhos agarrou Mikki e virou-se para enfrentá-lo, segurando a Empousa como um escudo.
Asterius reprimiu o ataque.
— Por que hesita, Guardião? Estou protegido de sua ira apenas por uma mulher fraca e mortal. Não está disposto a sacrificar sua Empousa nem mesmo para livrar o reino
do ódio? Surpreendente... — O Ódio soltou uma gargalhada maléfica. — Ah, eu havia me esquecido de que tem uma queda pelas Altas Sacerdotisas de Hécate. — A criatura
esfregou a virilha contra Mikki. — Não que eu o culpe... Esta parece bem madura e no ponto.
O rosnado de Asterius fez os pelos dos braços e nuca de Mikki se eriçarem.
— Eu o farei sofrer pela eternidade por tocá-la! — ele trovejou com a voz de um predador mortal.
— Acho que não, Guardião. Em vez disso, vai abrir o portal para mim, e eu passarei por ele incólume. — A criatura começou a puxar Mikki consigo enquanto recuava
na direção da muralha das rosas. — Se chegar muito perto, bancarei o Destino e estraçalharei a garganta dela. — Apertou uma garra dentada contra o pescoço delicado.
— Isto ainda não terminou — rosnou Asterius, movendo-se junto com o Ladrão de Sonhos e sua refém até a passagem. — Já disse que vou fazer você pagar pela eternidade
por tocá-la.
— O Ódio também nunca termina, Guardião. Já devia saber disso a esta altura. — Ele parou de costas para o portal. — Agora, abra-o para mim, e eu lhe devolverei a
Empousa... ainda que fosse gostar de me divertir com ela por algum tempo. — O Ódio arreganhou os dentes para Asterius antes de inclinar-se e saborear com a língua
o pescoço da Alta Sacerdotisa, em franca provocação.
Foi o bastante para Mikki. Mais do que o suficiente.
— Maldito! — ela gritou, enfiando o polegar no olho esbugalhado do monstro, o qual ele fora tolo o suficiente para aproximar dela.
O Ladrão de Sonhos soltou um grito ensurdecedor e arremeteu para longe.
Mas não antes de Mikki senti-lo perfurar sua pele com uma garra, e também uma onda de calor úmido que se seguiu ao ferimento.
Segurou o pescoço e caiu no chão, percebendo, mesmo com a vista escurecida pela dor, o modo como Asterius agarrou a criatura que debatia-se e torceu seu corpo para
trás até que a espinha do Ladrão de Sonhos partiu-se ao meio com um ruído medonho. Logo depois, ele o arremessou por sobre a barreira de rosas.
No instante seguinte, estava de joelhos a seu lado, gritando seu nome, tocando seu rosto e acariciando-lhe os cabelos.
Mikki tentou sorrir para ele.
Está tudo bem. Não foi culpa sua... Fui eu quem os deixou entrar.
Pensou que estivesse dizendo as palavras em voz alta, mas não conseguia proferi-las.
De repente, suas quatro servas surgiram à sua frente também. E estavam chorando. Mesmo Floga, que ela pensava nem gostar tanto dela...
Queria confortá-las, dizer que não estava com medo. E pedir que, por favor, tratassem melhor Asterius... pois sabia, sem nenhuma dúvida, que estava morrendo.
Capítulo 31
Asterius recusava-se a perdê-la assim. Não para o Ódio. Não quando Mikado havia trazido amor, desejo, carinho e aceitação... sentimentos tão opostos, para sua vida.
Ergueu-a nos braços e encarou os perturbados Quatro Elementos.
— Vamos levá-la até a fonte, Guardião. Lá poderemos lavá-la e depois colocá-la no Templo de Hécate, onde ofereceremos uma oração à Deusa por sua alma — pediu Gii
em meio a lágrimas.
— Ela não está morta! — ele explodiu, e rosnou um aviso quando Gii tentou se aproximar.
— Ainda não... Mas o ferimento de Mikado é mortal e, em breve, seu espírito estará no Reino de Hades — Nera falou com voz entrecortada.
— Não! Não é seu destino morrer hoje!
— As Parcas decidiram o contrário — Aeras replicou suavemente.
— Então eu desafio as Parcas!
— Mas, Guardião, o que pretende fazer? — Floga perguntou.
— Vou reclamar meus direitos de primogenitura.
Erguendo o corpo inerte que sangrava, Asterius passou pelas servas, mas a mão macia de Gii em seu braço o deteve. Quando ele a fitou, a moça encontrou seu olhar
sem hesitação.
— Como podemos ajudá-lo?
Ele ponderou por um instante.
— Vamos para o templo. Talvez o poder dos elementos ajude meu apelo a chegar mais rápido aos ouvidos de Cronos.
Sem esperar para ver se elas o seguiam, Asterius correu com Mikki para o Templo de Hécate, os cascos golpeando ruidosamente o mármore branco do caminho, tentando
não pensar em como ela continuava inerte e quanto de seu sangue lavava seus corpos.
Subiu os degraus do templo de três em três e, estacando diante da chama sagrada da deusa, caiu de joelhos, colocando sua amada ao lado do fogo.
Ouviu as servas entrando no templo logo atrás dele e tomando seus lugares ao redor do círculo.
— Ela ainda está viva? — Gii perguntou, aflita.
Asterius olhou para seu amor. Mikado tinha os olhos fechados e o rosto sem nenhuma cor. O sangue ainda fluía do corte comprido e fino em seu pescoço, e seu peito
subia e descia com dificuldade.
— Está.
— Então faça o que puder, Guardião. Não queremos perder outra Empousa antes que o destino assim exija! — declarou o elemento Terra.
Ele ergueu os olhos para os da moça.
— Convoquem seus elementos e formem o círculo sagrado.
— Você a ama, não é? — Floga indagou de repente.
Seu olhar virou-se para a serva.
— Sim.
— E vai salvá-la apenas para roubá-la de nós depois? — O elemento Fogo quis saber.
— No Beltane, a Empousa do reino encontrará seu destino. Eu lhe dou minha palavra.
— Mesmo que a ame? — Aeras exigiu.
— Há poucos minutos me viram batalhando com o Egoísmo. Não foi a primeira vez que tive de enfrentar esse Ladrão de Sonhos. Mas, desta vez, fui vitorioso. Nunca mais
vou sacrificar os sonhos da humanidade em benefício próprio. — Ele olhou para Mikado e tocou seu rosto gentilmente.
— Então você não é mesmo nenhum animal — Gii declarou com voz embargada.
— Sou, sim — ele retrucou sem olhar para o elemento Terra. — Mas também sou um homem. E o amor de Mikado fez do homem o mais forte das duas criaturas.
— Os Quatro Elementos irão ajudá-lo a salvar seu amor, Guardião — declarou Gii, acenando para Aeras. — Pode começar.
Aeras ergueu os braços para o alto.
— Invoco-te, ó Ar, para o círculo sagrado!
Imediatamente, o ar começou a se mover.
Como uma reação em cadeia, Floga elevou os braços, invocando seu elemento.
— Que venhas até mim, Fogo!
— Água! — gritou Nera. — Eu te convido a participar!
— Terra! Chamo-te para completar o círculo e ampliar os poderes do Guardião que abrigamos aqui! — entoou Gii.
Asterius sentiu o poder dos elementos na pele. Abaixou a cabeça e levantou as mãos manchadas com o sangue de sua amante. Em uma voz ampliada pelo Ar, pelo Fogo,
pela Água e pela Terra, bem como pela fera dentro dele, gritou para os distantes confins do Céu.
— Cronos, meu pai! Grande deus do Mundo e dos Tempos, Titã dos Céus e da Terra! Eu te invoco pelos teus antigos nomes, bem como por aquele que meu sangue me permite...
Vivi por muitos séculos sem te rogar por governo, poder, amor ou aceitação, mas hoje te peço, por direito de nascimento, que me dês o poder de salvar esta mortal.
Sua linha da vida foi cortada antes do tempo e ainda não desfiou até o fim.
A chama sagrada se agitou, e no interior da luz tremeluzente o rosto de um homem apareceu. Não se podia definir sua idade, mas era bem talhado, como se esculpido
em rocha pelo tempo e experiência. Um rosto que ele teria reconhecido em qualquer lugar, pois refletia o seu quase completamente.
— Pai! — disse Asterius, inclinando a cabeça.
O Titã mal o fitou. Em vez disso, apontou o queixo na direção de Mikado.
— É esta a mortal que deseja salvar?
— Sim!
— Ela é Empousa de Hécate? — indagou Cronos.
— É...
— Então sua salvação será apenas temporária.
— Ela ainda não viveu seu tempo de direito! Ainda não é Beltane — lembrou Asterius.
— Quem fez isso a ela? — O Titã quis saber.
— O líder dos Ladrões de Sonhos: o Ódio. Não posso deixá-la morrer pelas mãos daquela criatura.
Cronos voltou a atenção para o filho.
— O ódio a matou e você deseja que seu amor a salve?
Asterius contraiu a mandíbula, mas assentiu com um gesto de cabeça.
— Sim.
— Ah, o amor! — Cronos riu. — Estou surpreso com sua fraqueza, Guardião.
— Aprendi que o amor só é fraco quando é egoísta — ele retorquiu num claro desafio.
Uma ponta de surpresa brilhou na face do deus.
— Você me faz lembrar de sua mãe.
— Talvez porque ela também tenha enfrentado a fraqueza daqueles que amam de modo egoísta.
Cronos franziu o cenho.
— Não estou habituado a ser insultado quando solicitam meu auxílio!
— Não pretendia insultá-lo. Eu só disse a verdade — replicou Asterius, tenso.
— Independentemente disso, já me cansei desta conversa.
— Cronos! Perdoe-me, eu não...
— Silêncio! — A chama se agitou e o chão do templo da deusa tremeu. — Eu ainda não acabei... Concedo seu pedido. Pode compartilhar parte da imortalidade que habita
em seu espírito com a Sacerdotisa. Uma parte muito pequena, porém. Ela vai escapar do reino de Hades apenas uma vez. E saiba que há um preço para a centelha de imortalidade
que partilhar com ela. Mesmo depois que a Empousa morrer, vai carregar consigo esse pedaço de seu espírito. E você só irá se sentir completo quando ela estiver a
seu lado. Quando ela já não estiver neste reino, seu coração ficará vazio, e seus dias serão preenchidos com a solidão. Pense com cuidado antes de fazer essa escolha.
— Eu já fiz minha escolha. Sabia do ônus, caso me permitisse amá-la, e o aceitei. Pela vida de Mikado, não me importaria em aceitá-lo novamente.
— Muito bem. É seu direito de primogenitura que está usando para me pedir uma bênção. Mas não me incomode de novo. Você escolheu Hécate, e é à deusa que deve recorrer
no futuro.
E, sem mais nenhuma palavra, o Titã desapareceu no fogo.
Asterius olhou para Mikado. Seu pai lhe havia concedido a capacidade de salvá-la, mas como?! Ele teria de dar a ela uma parte de sua imortalidade, um pedaço de seu
espírito...
De repente, ele soube. Devagar, inclinou-se sobre Mikado e tocou-lhe os lábios com os dele. Conforme a beijava, desejou que ela vivesse para que pudesse compartilhar
de sua vida e aceitá-lo mais uma vez.
Mikado se moveu, suspirou suavemente contra sua boca... Então, entreabriu os lábios e seu beijo se aprofundou.
Quando Asterius se ergueu, seus olhos estavam abertos e ela sorria para ele.
— Ela está viva! — gritou Gii, extasiada.
As servas riram e choraram ao mesmo tempo, enquanto fechavam o círculo e corriam para sua Empousa.
Mikki sentou-se e piscou, confusa, sem saber ao certo onde estava e por que motivo Asterius encontrava-se ajoelhado a seu lado, segurando sua mão diante dos Quatro
Elementos.
Olhou ao redor. Aquele era o Templo de Hécate? Alguma coisa estava errada. Não devia estar ali. Devia estar inspecionando a muralha das rosas para certificar-se
de que...
De súbito, tudo voltou à sua mente.
— Os Ladrões de Sonhos! — exclamou, tentando ficar de pé, mas vendo-se tão fraca que seu menor movimento fazia o templo girar ao redor.
— Sshh... — Asterius a tranquilizou. — Tudo está bem agora. Os Ladrões de Sonhos foram banidos do reino.
— Eu sinto muito! — Ela olhou de Asterius para as servas.
— Empousa, não precisa se desculpar! Ladrões de Sonhos são mestres em manipulação. Devíamos tê-la precavido melhor — falou Gii, agachando-se para segurar sua outra
mão.
— Sim! — Nera assentiu com um gesto ansioso de cabeça, como se isso pudesse convencê-la. — Como iria desconfiar das tramas insidiosas que eles costumam tecer?
— Mas eu os deixei entrar! Eles me disseram que... Oh, Deus! As coisas que eles me fizeram pensar e sentir! Foi terrível.
Aeras sorriu em meio às lágrimas que banhavam-lhe o rosto e tocou-lhe os cabelos com reverência.
— Foi muito corajosa ao levar o golpe que o Ódio planejou para mim, Empousa.
Mikki tinha se esquecido daquilo tudo e olhou para si mesma, nervosa. Estava coberta de sangue! Como podia ter perdido tanto sangue e continuado viva?
Lembrou-se da dor no ombro, mas, quando olhou para ele, não viu nada, a não ser a pele manchada de vermelho.
Mas existia algo mais. Algo muito pior...
Seus olhos se arregalaram, e ela sentiu uma onda de vertigem. O Ódio cortara sua garganta e ela havia praticamente morrido!
E agora encontrava-se viva outra vez.
Devagar, ergueu os olhos para os de seu amante.
— Acabou — disse Asterius.
— Eu estava morrendo! — ela sussurrou.
— Eu jamais permitiria que isso acontecesse.
— O Guardião a salvou! — Gii explicou em meio a um soluço.
— Salvou todas nós — corrigiu Aeras, enxugando o rosto.
— Nunca iremos esquecê-lo — jurou Floga.
— Nunca! — Nera reforçou, comovida.
Mikki sorriu para os Quatro Elementos.
— Ele fez o que qualquer homem honrado faria para proteger sua casa e aqueles que ama. — Passou os braços ao redor do pescoço forte e, emocionada, sussurrou ao ouvido
de Asterius: — Leve-me para casa.
Capítulo 32
Asterius carregou-a pelo jardim. Normalmente, Mikki não gostaria de ser transportada como uma criança, mas não tinha certeza de que teria condições de caminhar sozinha,
pois ainda sentia-se fraca e doente.
E precisava estar nos braços dele. Precisava sentir sua pulsação contra o peito para confirmar a si mesma que continuava viva.
— O Ódio me enganou — disse baixinho, a cabeça recostada no ombro largo.
Os braços de Asterius seguraram-na com mais força.
— É o que os Ladrões de Sonhos costumam fazer. Eles contaminam os mortais até seu veneno distorcer os pensamentos, enfraquecer os sonhos e fazê-los morrer. Não se
castigue por ter sido vítima do que vem destruindo as ilusões dos mortais há eras.
— Pensei coisas terríveis. Senti que estava cheia de... — Mikki estremeceu e não conseguiu continuar.
— Você foi envenenada por ódio, inveja, medo e egoísmo. Não eram seus pensamentos, Mikado; eram apenas sombras de sua mente contaminada. Não deve se punir pela maldade
deles, pois isso seria premiá-los. Se eles continuam afetando sua vida, mesmo depois de terem sido banidos, então não foram derrotados.
— Nunca mais vou permitir que eles me enganem. E jamais entrarei naquela maldita floresta outra vez! — Ela ergueu a cabeça para fitá-lo. — Como pode suportar? Como
pode sair e colher as tramas da realidade, sabendo que eles estão lá fora também, observando e esperando por uma chance de atacar?
— É meu destino combatê-los. Muitos deles são meus velhos inimigos.
— Não tem medo?
— Apenas quando penso no que aconteceria se eu falhasse e permitisse que eles adentrassem o reino de alguma maneira.
— Mas você nunca vai falhar...
— Não. Não posso.
Mikki o observou, preocupada. Asterius parecia exausto, e ela rezou para que ele não tivesse que lutar com os Ladrões de Sonhos tão cedo, ou até que estivesse recuperado.
— Ah, meu Deus... Ponha-me no chão. Tem que voltar e certificar-se de que a muralha das rosas está preservada, e de que nenhuma daquelas coisas permaneceu no reino!
— O reino está seguro. O vento Norte soprou os últimos vestígios de maldade para o fundo da floresta.
— Mas não precisa voltar e verificar se tudo está mesmo no lugar?
— Está tudo certo, Mikado. Quando os Ladrões de Sonhos são enfrentados e derrotados, não costumam atacar tão cedo. Eles sabem que, uma vez que foram reconhecidos,
seu poder de destruir vidas é drasticamente enfraquecido. Vão recuar para lamber suas feridas e planejar um novo ataque para outro dia.
— O Ódio me disse que ele nunca termina.
— É verdade. Devemos sempre nos proteger contra ele.
Mikki lembrou-se de algo que tinha lido uma vez, e recitou as palavras em voz alta:
— “O bem derrotado é mais forte que o mal triunfante”. — Tocou-o no rosto. — Você luta do lado do bem.
— E não vou permitir que o mal triunfe.
— E eu também não vou deixar que ele afete minha vida; ele não vai me derrotar. — Ela deitou-se no ombro largo. — Como impediu que eu morresse?
— Supliquei a Cronos por uma bênção — Asterius contou, calmo.
Mikki tornou a levantar a cabeça.
— Seu pai?!
Ele assentiu em silêncio.
— Falou com seu pai?
— Brevemente.
— Quanto tempo se passou desde a última vez em que falou com ele? — Mikki quis saber, preocupada com a expressão estranha que endureceu o rosto moreno.
— Eu nunca falei com ele antes.
Ela o estudou, desejando poder apagar os séculos de dor e solidão do passado de Asterius e sentindo raiva do Titã arrogante que havia gerado um filho de maneira
tão audaciosa para depois descartá-lo. Não sabendo mais o que fazer, beijou-o suavemente no rosto.
— Obrigada por ter salvado minha vida.
O rosto dele suavizou-se em um sorriso.
— Eu só estava retribuindo um favor, Empousa. Lembre-se de que também me trouxe de volta à vida.
— Verdade. — Ela beliscou-lhe o queixo de leve. — E eu prefiro você assim.
— Porque descobriu que estava cansada de andar e gostou de ser carregada pelo seu Guardião?
Mikki riu.
— Bem, diz a mitologia que o Minotauro era metade touro; mas não creio que os touros sejam animais de carga muito bons... Há boatos de que eles não são dóceis o
suficiente.
— Nesse caso os boatos são a pura verdade — ele concordou, dando-lhe um beijo rápido e intenso que terminou com um rosnado.
Quando chegaram ao covil de Asterius, Mikki estava cansada de ser carregada, embora a caverna oscilasse um pouco sob seus pés.
Ainda mais quando ela percebeu a própria túnica esfarrapada e pegajosa de tanto sangue.
— Vou vomitar até o cérebro se não me livrar disto logo! — resmungou e olhou para seu Guardião numa súplica. — Acho que terá de me carregar escadaria acima até as
piscinas...
Asterius ergueu-a nos braços novamente, mas, em vez de sair da caverna, rumou para o próprio quarto.
— Ei... Sei que minha cabeça ainda não está cem por cento, mas tenho certeza de que está indo na direção errada! Não que eu não queira que você me leve para seu
quarto... Mas só depois que eu me livrar disto tudo.
— Acabamos nos esquecendo de sua turnê pela minha casa, lembra-se?
— Nós não nos esquecemos de nada: fomos interrompidos.
— Então deixe-me mostrar o restante do covil... sem interrupção.
Ele carregou-a através do quarto, depois em direção a uma porta arredondada, a um canto que ela não havia notado antes. Esta abria-se para um túnel iluminado por
tochas, ao final do qual avistou outra porta igual que, observou com surpresa, era emoldurada pela luz solar.
— Sabe de uma coisa? — Mikki fez uma pausa, pensando, enquanto eles aproximavam-se da luz. — Este lugar não se parece em nada com uma toca. É tão confortável e bonito!
Acho que deveria chamá-lo de... — Asterius abriu a porta para um cômodo grande e redondo, cujo teto abria-se para mostrar o céu claro da manhã e permitia que o vapor
de uma banheira cheia de água quente escapasse. — ...paraíso! — ela exclamou, maravilhada.
Ele riu e a pôs no chão outra vez.
Em segundos, Mikki tirou o que restara da túnica e, com um gemido de satisfação, desceu com passos suaves os degraus da piscina, afundando na água deliciosamente
quente. Ouviu Asterius proferindo as palavras mágicas que costumava usar para conjurar as coisas e virou a cabeça a tempo de ver duas cestas surgindo do nada. Uma
delas encontrava-se cheia de garrafas de sabão, toalhas limpas e vários metros de tecido macio para que fizesse outro quitão. A outra, Mikki suspirou, feliz, estava
repleta de comida.
Asterius ergueu uma garrafa de cristal da cesta e sorriu para ela. Mikki sorriu de volta, querendo saber por que, de repente, ele parecia tão tímido.
— O que foi?
— Seu sabão — ele explicou, segurando a garrafa.
— Eu não estava me referindo ao frasco... Só queria saber o porquê dessa sua expressão.
— Eu queria perguntar uma coisa.
— Está com uma cara... — Ela riu. — É impressão minha ou teve alguma ideia? — Sentindo-se renascer na água mineral quente, Mikki abriu um sorriso sexy.
— Eu... gostaria de lhe dar um banho — Asterius murmurou de uma vez.
Mikki ficou chocada diante do profundo rubor que tingiu a pele cor de bronze.
— Eu adoraria que fizesse isso.
Ele caminhou até a beira da piscina de pedra e pousou a garrafa de cristal. Então livrou-se da cuirasse e da túnica curta que usava por baixo.
Mikki adorou observá-lo e ver o corpo forte ficar cada vez mais exposto. Asterius era tão poderoso; uma mistura tão incrível de homem e animal!
Mas não era apenas seu corpo que unia dois extremos. Sua mente também era um misto de ferocidade e compaixão, inocência e sabedoria, características que se mesclavam
para formar um ser extraordinário, diferente de qualquer outro que poderia existir em qualquer mundo.
Estava tão distraída em sua contemplação que apenas quando ele entrou na piscina foi que percebeu: o sangue no corpo de Asterius não tinha vindo apenas das feridas
dela. Os braços fortes estavam cobertos de cortes e marcas de mordidas.
— Eles o machucaram! — Mikki puxou-o para baixo, aflita para mergulhar os ferimentos na água quente e limpa. — Eu sou mesmo uma idiota! Tem alguma bandagem aqui?
Urgh, alguns destes vão precisar de pontos! Não é possível que não haja uma médica neste reino. Vamos limpar esses cortes, depois vou pedir que a chamem e...
Ele segurou-a pelos pulsos.
— Não preciso de nenhuma curandeira.
Ela franziu o cenho.
— Escute, eu trabalhei em um hospital. Ouça bem o que eu digo, você precisa de um médico!
Asterius sorriu e beijou-a delicadamente.
— Sua preocupação aquece meu espírito.
— Que bom. Isso me faz bem. Pois saiba que iria aquecer meu espírito se me deixasse chamar uma médica.
— Mikado, eu sou imortal... Não preciso de médicos. As feridas irão se curar sozinhas.
Ainda franzindo a testa, ela levantou um dos braços musculosos.
— Tem razão! Elas já estão sarando!
— Satisfeita agora?
— Estou perplexa — Mikki confessou —, mas aliviada. — Espirrou água sobre a pele morena, tocando as marcas de mordida recém-curadas e observando enquanto a carne
se refazia. — Existe algum ferimento do qual não pode se recuperar?
— Se você dissesse que não me amava mais, iria me destruir.
Ela encontrou os olhos castanhos.
— Então vai viver para sempre.
Asterius sorriu e apanhou a garrafa de cristal da borda da piscina.
— Deixe-me mostrar o quanto gosto de você, Mikado...
Ela ficou em pé, de modo que a água da piscina só a cobrisse até a cintura. Tomou a garrafa das mãos dele e despejou uma quantidade generosa do líquido viscoso sobre
o pescoço, braços e seios antes de colocá-la de volta na borda. A inebriante fragrância da unção da Empousa mesclou-se sutilmente a seu calor, o que a tornou única.
Devagar, Asterius deslizou as mãos sobre sua pele lisa e macia. Acariciou-lhe o pescoço e os ombros, então tocou-lhe os seios e a carne sedutora do ventre firme.
Em seguida, suas mãos desceram abaixo da cintura delgada, carregando o sabão com perfume de rosas até as coxas de Mikki.
Ela sentiu-se liquefazer com seu calor. Os dedos de Asterius encontraram o caminho para seu âmago, onde ele os usou para acariciá-la com breves movimentos circulares,
depois se afastaram, voltando a provocá-la no ventre e nos seios antes de retornar para seus recantos mais secretos.
Partes adormecidas do corpo de Mikki pareceram ganhar vida, deliciando-se com o calor da água que continuava a afagá-las mesmo quando ele seguia em frente com as
carícias.
Asterius virou-a e, desta vez, ele mesmo derramou o sabão líquido por sua espinha. Com os joelhos fracos, ela inclinou-se sobre a borda da piscina, enquanto mãos
quentes acariciavam-lhe as costas e, em seguida, mergulhavam em conjunto para afagar suas nádegas.
— Lembra-se da última vez em que entrei em seus sonhos?
Mikki sentiu o hálito quente no meio das costas conforme Asterius ficava de joelhos e prosseguia, com mãos diligentes, por toda sua pele.
— Claro que sim! — respondeu com voz rouca. Percebeu as mãos dele deslizando por seu corpo e recostou-se no corpo másculo com um suspiro quando estas subiram por
suas coxas.
— Estávamos em um poço de rosas — a voz grave vibrou em seu ouvido, enviando ondas de prazer. — Eu estava sobre você, e abriu as pernas para mim... — Dedos hábeis
encontraram seu centro, e os carinhos aumentaram. — Eu estava excitado e, ao pressionar o corpo contra o seu, esfregando-o e acariciando-o, pude sentir sua umidade
e calor, bem como quando retesou-se e explodiu de prazer...
Com um grito abafado, Mikki atingiu o clímax rápida e intensamente.
Asterius virou-a para ele, então, e, num movimento rápido, ergueu-a acima da água e penetrou-a enquanto seu corpo ainda pulsava.
Mikki arqueou-se para encontrá-lo, usando a borda da piscina como apoio. As mãos dele agarraram seus quadris e, com um grunhido gutural, Asterius estendeu as garras,
mal controlando a força de suas estocadas, o membro mergulhando dentro dela seguidas vezes.
Mikki não fechou os olhos. Queria vê-lo, assistir à assustadora beleza de seu rosto enquanto ele a amava. Sentia a pele ultrassensível, e ondas de prazer a sacudiam
a cada vez que as garras longas a feriam de leve.
O ruído dos corpos movendo-se em conjunto, somado ao modo como a voz rouca de Asterius repetia seu nome, tornou-se uma erótica sinfonia, e um crescendo de prazer
rompeu por todo seu corpo, tão intenso que beirou a dor...
Lânguida e satisfeita, Mikki desabou sobre ele, respirando com dificuldade. Sorriu, exultante, de encontro ao peito largo, até perceber que não era apenas o cansaço
que o fazia tremer violentamente.
Alarmada, ela recuou, vendo Asterius de olhos fechados e lágrimas escorrendo por sua face.
— Asterius? — Segurou-o pelo rosto. — O que aconteceu?
Ele abriu os olhos e beijou-a em uma palma.
— Nada... Acho que fiquei sozinho por tanto tempo que não estava preparado para a felicidade que me proporcionou. — Tocou as próprias lágrimas, desconcertado, como
se só então houvesse percebido que chorava. — Isso me faz parecer ainda mais tolo.
— Não, meu amor! — Ela sorriu, comovida. — Faz você parecer humano.
Capítulo 33
Asterius e Mikado não deixaram o covil. Comeram e discutiram várias mudanças que Mikki queria implementar no reino.
Assim como delimitar horários para a abertura do portal, de modo que os homens pudessem entrar e sair sem comprometer a segurança. Como o clima vinha ficando cada
vez mais frio com a proximidade do inverno, também decidiram que Floga aqueceria os jardins, mesmo que por pouco tempo, durante a parte mais escura da noite. A mancha-negra,
uma das piores pragas para as plantas, Mikki explicou a Asterius, costumava aumentar no frio; e era de difícil tratamento uma vez que se espalhasse.
Mikki adorava conversar com Asterius, e não demorou muito a perceber por quê: ele a escutava.
Tentou lembrar-se do último homem que a escutara de verdade e não conseguiu. Nenhum tinha demonstrado tanto respeito e interesse por ela como seu guardião. Aquilo
era uma ironia. Um ser que nem era literalmente um homem sabia por instinto o que muitos deles pareciam não ser capazes de apreender: que as mulheres queriam ser
ouvidas e respeitadas. Simples assim.
Asterius a emocionava. Ele era de um encanto do qual ela, sabia, nunca iria se fartar. Amava a alegria que sentia apenas em tocá-lo, em acariciar aquele corpo incrível
e saber que este era dela...
Naquela noite, eles fizeram amor sobre o catre forrado de peles, descobrindo com imensa ternura outros segredos em seus corpos. Mikki ficou deliciada ao perceber
que Asterius era tão sensível que qualquer carícia deixava-o excitado e pronto para ela.
Uma vez saciados, adormeceram nos braços um do outro, sentindo-se seguros de seu amor, e com a certeza de que o dia seguinte eles também passariam juntos.
— Empousa! Tem que vir aqui!
Mikki pensou que estivesse sonhando. Sabia que encontrava-se na cama com Asterius, pois pôde senti-lo retesar-se e erguer-se do catre, mas também ouviu a voz aflita
de Gii. O que a serva estava fazendo no covil de Asterius?!
Então sua mente nublada pelo sono clareou, e ela despertou por completo.
— O que aconteceu? — Asterius indagou em voz alta, vestindo a túnica e prendendo a cuirasse.
— As rosas... — Mikki sentiu a boca seca, e seu estômago se apertou. — Gii, o que aconteceu com as rosas?!
A serva adentrou o quarto, o rosto pálido, e correu até sua Empousa, envolvendo o corpo nu de Mikki no quitão enquanto explicava tudo em frases curtas.
— Os outros Elementos e eu fomos até o portal das rosas ao amanhecer. Queríamos ter certeza de que não haveria nenhum vestígio da violência de ontem para perturbá-la...
— A voz da moça tremeu. — Elas estão morrendo, Empousa. Todas elas!
— As rosas! — exclamou Mikki.
Embora não fosse uma pergunta, Gii confirmou:
— Sim.
— A muralha... ela ainda está intacta? — indagou Asterius.
— Está, e não há Ladrões de Sonhos no reino. Não há ninguém suspeito aqui. Temos certeza de que todos os homens partiram ontem, e nenhum deles foi convidado a retornar.
— Preciso ir — Asterius disse a Mikki.
— Sim, vá... depressa! Estarei bem atrás de você!
Ele fez uma pausa, apenas para tocar seu rosto numa delicada carícia, antes que o som de seus cascos ecoasse nas paredes da caverna conforme batia em retirada.
— Depressa! — Mikki incitou a serva. — Preciso ir para lá também.
Minutos depois, as duas corriam para o jardim.
Mikki sentiu a mudança no instante em que saiu do covil: sua cabeça começou a latejar, e uma onda de náusea subiu-lhe a garganta.
— Mostre-me o caminho mais rápido para o portal! — ela pediu a Gii, e as duas prosseguiram correndo, sem fôlego para falar mais.
As mulheres estavam reunidas em torno das roseiras que cercavam a passagem na muralha, agitando-se como um rebanho de ovelhas assustadas, e Mikki logo compreendeu
por quê. Era pior do que ela imaginara.
Aflita, abriu caminho entre elas, lançando apenas um olhar na direção dos canteiros onde as flores agonizavam. Precisava chegar logo ao cerne da doença que afligira
as rosas tão repentinamente, e sabia que iria descobri-lo no portal.
Passou pelo último grupo de mulheres e estacou. Asterius já encontrava-se sob a passagem, o olhar aguçado estudando a floresta enquanto andava de um lado para o
outro. Os outros três Elementos não o observavam, pois concentravam-se nas flores dos canteiros que ladeavam o portal, os rostos tensos e sem cor. Quando a viram,
correram a seu encontro.
— Empousa, que coisa terrível! — sussurrou Aeras.
— O que aconteceu com elas? — Nera indagou, mantendo a voz baixa.
— Não sei. Não posso dizer ainda. Abram espaço e deixem-me examiná-las. —Mikki sentiu a pressão do medo quase tanto quanto a doença das rosas. — Façam com que todas
as mulheres recuem.
Todos os Elementos, exceto o elemento Terra, correram para falar com os diversos grupos que observavam o cenário, perplexos.
— Não peça que eu me afaste também — Gii declarou. — Parece estar prestes a desmaiar e quero ficar a seu lado. Se cair, estarei por perto para segurá-la.
— Eu também — reforçou Asterius, juntando-se às duas.
— Foram os Ladrões de Sonhos? — Mikki perguntou.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Não há sinal deles. Não dentro do reino, tampouco na floresta, até onde posso ver ou sentir. — Asterius olhou as rosas ao redor. — Mas, pelo visto, eles não precisam
estar presentes para causar destruição.
Mikki respirou fundo.
— Vamos ver o que posso fazer para consertar isso tudo.
Gii e o Guardião a acompanharam enquanto ela movia-se lentamente de canteiro em canteiro, examinando cada flor.
Mas logo Mikki esqueceu-se de que eles estavam por perto. O estado das rosas deixou-a arrasada. Ela nunca tinha visto tal devastação. As flores pareciam ter sido
atacadas por uma mistura de ferrugem e cancro, e depois queimadas de dentro para fora. As folhas estavam enrugadas e cobertas por fungos de uma espécie que ela não
conhecia. Eram pegajosos e cheiravam a carne podre. As hastes dos arbustos encontravam-se enegrecidas, com partes inchadas tal como artrite nas juntas de uma idosa.
Os botões, murchos e do tom roxo dos hematomas.
Endireitou o corpo após inspecionar outro arbusto morto e olhou o restante dos jardins com um calafrio. A ferrugem espalhara-se como uma onda venenosa. Aquilo não
era normal. Certamente a peste fora levada para o reino pelos Ladrões de Sonhos. E algo lhe dizia que se propagara por meio da nuvem vermelha em que cada criatura
do mal tinha se dissolvido. Pelo visto, elas não haviam sido exterminadas.
Na verdade, não acreditava que criaturas como aquelas pudessem ser eliminadas. O Ódio, o Ciúme, o Medo e o Egoísmo eram emoções que sempre pairavam sobre a humanidade,
esperando por sua chance de atacar e destruir seus sonhos. Podiam ter sido banidos do reino, mas não a tempo de serem impedidos de espalhar seu mal.
E ela não fazia ideia de como lutar contra o que infectara suas rosas por intermédio de tais monstros.
— Empousa? — Gii chamou timidamente. — O que podemos fazer para salvá-las?
Mikki olhou do elemento Terra para seu amante. Ambos a fitavam com preocupação; contudo, ela também podia ver a esperança em seus olhos e a confiança que tinham
nela.
— Eu... preciso pensar. Fiquem aqui. Quero ficar sozinha por um momento — pediu, e afastou-se deles.
Deixou os canteiros que agonizavam e desceu o caminho de mármore que levava ao portal das rosas, pensando em sentar-se debaixo do antigo carvalho e elaborar um plano.
Qualquer plano.
Um toque de cor chamou sua atenção, e ela parou para olhar. Flores cor-de-rosa saudáveis e em plena floração enchiam duas roseiras em meio a um canteiro onde inúmeras
outras secavam e pereciam. Correu para os arbustos, aspirando o perfume doce e acariciando o verde vibrante de suas folhas, como se fossem filhas pródigas e recém-chegadas.
Rosas Salet, reconheceu de imediato. Com suas pétalas duplas e floração abundante, eram uma de suas Old Garden favoritas. Mas por que aqueles dois arbustos tinham
sido poupados daquela praga mortal?
Olhou ao redor, buscando outros pontos de destaque em meio ao mar de podridão e doença. Avistou um vermelho, próximo ao viveiro do portal das rosas, e caminhou rapidamente
até lá. Três arbustos que beiravam o canteiro também encontravam-se em plena floração. Sua cor e perfume intensos identificavam a flor como uma Chrysler Imperial.
O que aqueles dois tipos de rosa possuíam em comum? A Chrysler Imperial era uma Rosa-Chá Híbrida, e a Salet, uma variedade de Old Garden. Uma era vermelha, a outra,
rosa. E elas não encontravam-se próximas umas das outras. Mikki olhou para as flores cor-de-rosa e saudáveis que floresciam alegremente, alheias à destruição a seu
redor, e estremeceu. Aquele não era o canteiro de rosas Salet sobre o qual os Ladrões de Sonhos a tinham forçado a se deitar? Eles haviam pretendido estuprá-la ali.
Por sorte, Asterius chegara e...
Segurou o ar nos pulmões. Sabia por que aquelas rosas tinham sobrevivido e se desenvolvido em meio a tantas outras que sucumbiam. Sabia o que aqueles cinco arbustos
possuíam em comum... Seu sangue tocara cada um deles.
Cambaleou até um banco próximo e sentou-se antes que seus joelhos cedessem. Estava no canteiro de rosas Salet quando sofrera o golpe no ombro.
Tocou-o, lembrando-se de como sangrara em profusão.
Pouco depois, já perto do portal, o Ódio cortara-lhe a veia da garganta...
Mikki fechou os olhos. Lembrava-se vagamente de ter ficado jogada no chão, metade do corpo sobre o canteiro, conforme o sangue fluía de seu corpo.
E seu sangue havia salvado as rosas. Ele as tinha protegido do veneno dos Ladrões de Sonhos.
Afundou o rosto nas mãos e tentou compreender a enormidade de sua descoberta.
Meu sangue as salvou! As palavras ecoavam em sua cabeça.
— Mikado, as mulheres aguardam suas instruções.
Ela ergueu o olhar, piscando na tentativa de clarear a visão. Asterius ajoelhou-se ao lado do banco e enxugou suas lágrimas.
— Confie em si mesma, meu amor. Vai descobrir uma maneira de curá-las.
Mikki mirou os olhos escuros e expressivos, e soube que o que ele dizia era verdade. Sabia como curar as rosas e confiava em si própria.
Agora, tudo o que precisava fazer era encontrar forças para agir.
— Vou ao Templo de Hécate para falar com as mulheres. Peça aos Quatro Elementos que as reúnam e me encontrem lá.
— Sim, minha Empousa — concordou Asterius. Então se curvou, tomou sua mão e a beijou delicadamente.
A Empousa postou-se no templo alto, com os Quatro Elementos formando um semicírculo atrás dela. Asterius se pôs por trás de todas, próximo da chama ardente da deusa.
Mikki olhou para o imenso grupo à sua frente. As mulheres permaneceram em silêncio, com uma expressão grave de preocupação e medo nos rostos, a atenção voltada para
sua Sacerdotisa.
Ela ergueu o queixo e respirou fundo, projetando a voz.
— Temos muito trabalho a fazer. Precisamos nos concentrar e agir rápido. A praga que está matando as rosas tem de ser detida, e eu lhes dou minha palavra de que
sei como fazer isso. — Fez uma pausa quando um suspiro de alívio ondulou através da multidão. — Não iremos nos dividir em quatro grupos desta vez. Todas nós precisamos
nos concentrar na área próxima ao portal das rosas e começar a trabalhar a partir de lá. Em primeiro lugar, quero que tragam para os jardins baldes do mais forte
vinho que houver no reino. — Mikki viu os olhares de surpresa no rosto das mulheres e quase sorriu. — O que vão fazer é podar todas as rosas doentes. Em seguida,
amontoem suas hastes do lado de fora da muralha das rosas, onde Floga irá queimá-las. Conforme forem passando de arbusto em arbusto, não se esqueçam de mergulhar
suas lâminas nos baldes de vinho. Ele irá ajudar a impedir que a doença se propague para partes das plantas que não tenham sido infectadas. Suas facas devem estar
bem afiadas, e precisam fazer os cortes na diagonal. — Percorreu todo o grupo com o olhar, buscando a confiança nos rostos das mulheres.
— Alguma pergunta?
Ninguém falou.
— Então, vamos ao trabalho.
As mulheres partiram em grupos rapidamente, dispostas a reunir as ferramentas de corte e vinho, e Mikki virou-se para suas damas de companhia.
— Eu não estava exagerando. Temos que trabalhar muito e rápido. Essa praga não está se alastrando a um ritmo natural. — Seus olhos encontraram os de Asterius nas
sombras.
— Asterius, embora eu não goste da ideia de abrir esse maldito portal, meus instintos me dizem que queimar as rosas doentes dentro do reino seria um erro terrível.
— Pois siga seus instintos, minha Empousa. Estarei por perto para guardar a passagem.
— Eu sei que sim. Por isso mesmo não tenho medo de abri-la. — Ela sorriu para as servas, lutando para conter as lágrimas que ameaçavam escorrer por sua face. — E
sei que cada uma de vocês vai fazer o que for preciso para ajudar a curar as rosas. Tenho orgulho de todas e acredito em sua capacidade. O Reino das Rosas vai prosperar
novamente, eu prometo.
— Também acreditamos na sua força, Empousa — afirmou Gii. Então caminhou até Mikki e a beijou no rosto antes de fazer uma reverência e afastar-se correndo em direção
aos jardins.
— Confiamos em você, Empousa — reforçou Aeras, e também a beijou antes de curvar-se numa mesura graciosa e partir.
O elemento Água avançou a fim de ter sua chance de beijar a Alta Sacerdotisa, porém Mikki a deteve e fez um gesto com a cabeça na direção da construção maciça que
borbulhava ao lado do Templo de Hécate.
— Nera, eu me lembro de alguém ter dito que esse chafariz é a principal fonte de irrigação do reino. Isso é verdade?
— Sim.
— Os corredores de água chegam mesmo a todas as roseiras?
— Sim, Empousa. — Nera sorriu e continuou: — Antes de sua ordem para que meu elemento visitasse o reino todas as manhãs, raramente chovia aqui.
Mikki devolveu o sorriso caloroso da serva.
— Obrigada... É bom saber.
— Vamos apoiá-la, Empousa — emendou Nera, e a beijou, partindo logo depois.
— Amamos você, Empousa — garantiu Floga. Porém, hesitou antes de beijá-la e fazer a reverência. Uma lágrima correu por seu rosto. — Perdoe-me por ter duvidado de
sua capacidade. Devido a meu elemento, às vezes sou muito impulsiva e passional.
Mikki a abraçou.
— Não há nada para perdoar — falou baixinho.
Quando ficaram a sós, Mikki foi até Asterius e deixou-se abraçar.
Apenas por um momento, tentou absorver sua força e amor, deliciando-se com a paz que era encontrar o ser ao qual estava destinada.
Mas não permitiu que ele a abraçasse por muito tempo. Não podia se dar a esse luxo naquele momento.
O tempo surpreendeu Mikki, passando devagar. Talvez porque o trabalho de poda das rosas podres e doentes, e de carregá-las para a pira, do lado de fora da muralha,
fosse penoso e deprimente.
Ou talvez porque não conseguisse parar de pensar no que o futuro lhe reservava.
De qualquer forma, várias eternidades pareciam ter se passado naquele dia interminável. Entrara num ritmo tão hipnótico de cortar e depois mergulhar a lâmina no
vinho, cortar e mergulhar... que ficou surpresa ao olhar para cima e ver que o céu tinha escurecido o bastante para que Floga acendesse as tochas por toda a extensão
da muralha das rosas.
— Gii? — ela chamou o elemento Terra, que correu para seu lado sorrindo, embora tivesse os olhos marcados por sombras e os braços arranhados pelos espinhos. — Isso
é tudo o que podemos fazer hoje. Oriente as mulheres a levar o que cortaram para o lado de fora do portal, e vamos descansar.
— Sim, Empousa — aquiesceu a serva, parecendo aliviada.
Mikki não podia culpá-la. Seus ombros doíam e suas mãos estavam machucadas e doloridas devido ao uso da faca. E isso porque esta encontrava-se bem afiada. Um grupo
de mulheres passara o dia não fazendo outra coisa além de afiar as lâminas.
Olhou para a que ela usava. Cuidadosamente, mergulhou-a no balde de vinho e, em seguida, limpou-a na grama antes de escondê-la na base da roseira que acabara de
podar.
— As mulheres estão terminando suas tarefas, conforme ordenou, Empousa.
A voz de Gii a fez pular, culpada, e Mikki disfarçou com um sorriso. Segurou o braço da serva.
— Caminha um pouco comigo?
— Claro! — A moça sorriu de volta.
Seguiram juntas e em silêncio, tomando um caminho sinuoso em direção ao portal das rosas. Mikki ficou satisfeita com o que viu nos canteiros. Os arbustos doentes
tinham sido bem podados. Pareciam vazios agora, mas ela sabia que, na primavera, voltariam a crescer e a ser ainda mais saudáveis e resistentes do que antes. As
rosas eram verdadeiras sobreviventes; não as flores delicadas e frágeis que muitos acreditavam que fossem.
Disso ela entendia melhor do que ninguém. Conhecia sua própria força e resiliência. Muitas vezes as pessoas tinham se enganado com ela, julgando-a apenas um rosto
bonito e nada mais, ou pior, considerando suas opiniões inconsequentes porque ela era apenas uma mulher...
Pensou em Asterius. Ele também fora mal interpretado, e exclusivamente por conta de sua aparência. Não admirava que eles se dessem tão bem.
— Você estava errada sobre ele — falou de súbito.
Gii a fitou, surpresa com as palavras da Alta Sacerdotisa.
— Ele quem, Empousa?
— O Guardião. Ele não é um animal e não merece ser tratado como um.
A serva ficou em silêncio.
— Não sei o que aconteceu antes, não sei o que ele fez e, neste momento, nem quero saber — prosseguiu Mikki. — Mas deixe-me dizer o que descobri: o Guardião salvou
este reino ontem, quando meu erro poderia tê-lo destruído. E faria o mesmo hoje, amanhã, todos os dias, por toda a eternidade. Ele é honrado e gentil, Gii. Sabia
que também é um verdadeiro artista?
— Não.
— Pois, é.
— Ele a ama — a moça falou, hesitante.
— Eu sei. E eu o amo também. — Mikki respirou fundo. — Por isso quero que me prometa uma coisa: que não vai mais rejeitá-lo e irá tratá-lo melhor. Ele... — Fez uma
pausa, lutando contra uma onda de emoção. — Ele é muito sozinho, e não quero que passe a eternidade dessa maneira. Se mudar o modo como reage a ele, Gii, todas as
servas que virão depois de vocês quatro farão o mesmo. Faria isso por mim?
O elemento Terra parou e fitou os olhos da Sacerdotisa. O que viu a fez prender a respiração.
Então, lentamente, Gii assentiu com um gesto de cabeça.
— Sim, Empousa. Tem minha promessa.
— Obrigada, Gii. Agora, vamos sair daqui... Foi um dia longo — Mikki falou com uma alegria forçada.
Chegaram à muralha das rosas a tempo de ver Asterius fechando o portal, e Mikki suspirou, aliviada.
Por algum tempo, os Quatro Elementos, o Guardião e sua Empousa ficaram junto das habitantes do reino, assistindo às rosas doentes queimarem na borda da floresta.
Logo as mulheres começaram a se dispersar em pequenos grupos, despedindo-se de Mikki com um ar cansado, até que apenas as quatro servas permaneceram em sua companhia.
— Trabalharam muito bem hoje — Mikki as elogiou, fitando cada um delas nos olhos. — Quero que saibam que estou orgulhosa de vocês.
As moças sorriram para sua Empousa, exaustas.
— Podem dormir até depois do amanhecer. Todas precisamos de descanso. Depois do café, encontrem-me no Templo de Hécate e retomaremos o mesmo trabalho que fizemos
hoje: a poda e a queima das rosas doentes. Mas acredito que elas estejam melhores amanhã.
— É o que seu instinto lhe diz? — Gii indagou, esperançosa.
— Sem sombra de dúvida. — Mikki sorriu a despeito do aperto que sentia no peito. Então, impulsivamente, abraçou cada uma delas. — Se precisarem de mim, estarei na
casa do Guardião — disse, enfatizando a palavra “casa”, e decidida a nunca mais chamá-la de covil. — Boa noite — desejou, voltando-se para se juntar a Asterius,
onde ele a esperava nas sombras.
— Durma bem, Empousa. — Gii hesitou só um momento e depois acrescentou: — Boa noite, Guardião.
Mikki encontrava-se de frente para ele, e viu o olhar de surpresa que estampou seu rosto forte.
— Durma bem, Terra — Asterius respondeu, um pouco tenso.
Então, cada uma das outras três servas o cumprimentou, o que o deixou ainda mais perplexo.
— Em todos os séculos em que fui o guardião deste reino, isso nunca aconteceu.
— Eu disse que ia mudar as coisas por aqui... — Mikki passou o braço pelo dele. — Vamos para casa.
Capítulo 34
Mikki esticou-se ao lado de Asterius na cama, sentindo a maciez das peles grossas contra sua pele suada. Distraída, traçou um dedo ao longo dos músculos do abdômen
firme de seu amante, os quais saltavam mesmo com ele deitado ali, completamente relaxado e com os olhos fechados.
Tinham feito amor duas vezes. Uma delas, na piscina de banho novamente. Havia sido rápido, porém intenso, e Mikki sabia que suas nádegas ainda mostravam as marcas
que ganhara por conta das garras longas de Asterius durante o clímax de sua paixão...
Na segunda, o ato fora longo, lento e suave. Ele a levara ao ápice duas vezes, usando apenas a língua antes de penetrá-la devagar e preenchê-la até sua total satisfação.
Mikki não conseguia pensar em abandoná-lo. Não podia conceber não sentir seu toque de novo, não falar com Asterius novamente, ou nunca mais ver a alegria e admiração
em seus olhos a cada vez que ela o abraçava.
Assim, recusou-se a pensar naquilo. Faria o que tinha de fazer quando chegasse a hora. Até então, não perderia as poucas horas que ainda possuía com ele lamentando
o futuro.
— Eu quero pintar você.
Mikki deixou escapar uma exclamação.
Com os olhos ainda fechados, o peito largo de Asterius vibrou com uma risada baixa, e ela o socou na barriga de leve.
— Pensei que estivesse dormindo!
— Não consigo dormir com você me tocando assim.
— Ah, desculpe... Eu não sabia. — Mikki começou a recuar, contudo ele a segurou pelo pulso.
— Não me importo. — Soltou-a e sorriu quando ela continuou a acariciá-lo. — Mas ainda quero pintá-la.
— Você já me desenhou.
— Sim, mas quero pintá-la também. Assim como está agora... Quero sua imagem nas paredes do meu quarto.
Ele não disse “para que eu possa me lembrar de você no dia em que estiver velha ou morta”, porém a mente de Mikki gritou as palavras. Asterius poderia precisar da
pintura para recordar-se dela muito antes do que qualquer um deles esperava.
Afastou os pensamentos mórbidos, mas, no fim, quis que ele a retratasse, para que pudesse capturar algo do que eles tinham sido como lembrança.
— Quer fazer isso agora?
Asterius abriu os olhos e a estudou.
— Sim — aquiesceu de bom grado. — Quero pintar seu retrato esta noite.
Mikki observou-o quando ele saiu da cama e começou a apanhar potes e pincéis dos nichos escavados nas paredes da caverna, e também a acender tochas que deixaram
o quarto ainda mais vivo com calor e luz. Asterius não se preocupou em vestir-se com mais do que um pano de linho, que amarrou a esmo em torno dos quadris, mais
uma vez, ela se viu abalada pela beleza da força bruta e selvagem de seu corpo. Ele era homem, animal e deus, tudo em um só... Um verdadeiro milagre. E tudo o que
ela queria na vida era passar o restante de seus dias a seu lado.
Quando Asterius já havia preparado as tintas e empunhava um pincel, Mikki sentou-se e sorriu.
— Como quer que eu pose?
Ele caminhou até o catre e a virou suavemente, de modo a deitá-la de lado, como ela estivera junto dele. Espalhou seus cabelos em volta dos ombros, tal qual um véu
de cobre sobre sua pele clara. Em seguida, fez com que deitasse a cabeça sobre um braço e apoiasse uma palma sobre a cama, como se tivesse acabado de acariciá-lo.
Então puxou a coberta que a ocultava da cintura para baixo, deixando-a nua. Mikki levantou uma sobrancelha, e os lábios dele inclinaram-se num sorriso.
Está com frio?
— Se eu estiver, vai me aquecer?
A risada de Asterius vibrou entre eles.
— Quando eu terminar. Quietinha, agora... Apenas mantenha-se deitada e feche os olhos. — Ele voltou para as cumbucas de barro e pincéis.
— Tenho que fechar os olhos? Preferiria ficar vendo você.
Asterius a fitou por cima do ombro.
— É sempre uma surpresa saber que gosta de me olhar.
— Eu gostaria de fazer mais do que apenas olhar... — Ela sorriu, sedutora.
— Não se mexa — ele repreendeu, contudo seu sorriso foi claramente indulgente.
Com gestos rápidos e firmes, Asterius começou a pintar acima da gravura do Tulsa Rose Garden, fazendo com que o jardim ficasse em segundo plano. Como se sobrepusesse
uma nova visão da realidade.
— Posso falar com você enquanto faz isso ou precisa se concentrar? — Mikki murmurou, impressionada com a esplendorosa versão dela mesma que ia tomando forma.
— Claro que pode. Mas eu não posso responder. Às vezes me esqueço de onde estou quando pinto.
— No meu antigo mundo, chamam isso de “entrar em Alfa”. Eu li um artigo a respeito uma vez. Acontece muito com artistas, autores e atletas. Tem a ver com endorfinas
cerebrais. Se entra em Alfa, é porque está fazendo algo certo.
Asterius resmungou qualquer coisa.
— Sempre entra-se em Alfa quando pinta?
— Acho que sim. — Ele apertou os olhos para estudá-la, depois virou-se para a parede da caverna e desenhou a linha longa e curva de sua cintura, quadril e perna.
Mikki o observou, pensando em seu talento e na beleza que parecia criar com tanta facilidade, mesmo tendo sido um pária durante séculos.
Por favor, Gii, mantenha sua palavra.
Tratou de afastar a mente da promessa da serva, com medo de que Asterius analisasse sua expressão e fosse capaz de ler seus melancólicos pensamentos. Precisava pensar
nele como ele havia estado pouco antes: apaixonado, carinhoso, amoroso e cheio de surpresas, assim como nas pinturas requintadas que podia produzir.
O que a fez lembrar-se de uma coisa...
— Asterius, quem é a mulher que desenhou na parede da sala?
A mão dele parou.
— Pasífae, minha mãe... — ele respondeu, sem olhar para ela.
— Eu imaginei — ela murmurou, e era verdade. Asterius não acrescentara a imagem da mulher à parede como um troféu. Não faria isso. — Ela é muito bonita.
— Ao menos é como eu me lembro dela.
Mikki quis lhe pedir que se lembrasse dela assim, tão bonita, também. Que se esquecesse de seus defeitos e da dor de sua despedida no momento em que ela fosse embora.
Que se lembrasse apenas do quanto eles haviam se amado.
Mas não podia. Tudo o que podia fazer era esperar que, quando chegasse a hora, ele a perdoasse por ser mortal.
Fechou os olhos, com medo de que, se continuasse a fitá-lo, fosse deixar escapar o que estava pensando, admitir seu sofrimento e suplicar que ele a ajudasse a descobrir
outra maneira de sair daquela situação.
De alguma forma, Mikki adormeceu. E soube disso apenas porque, ao abrir os olhos, o quarto encontrava-se bem mais escuro e Asterius também dormia a seu lado.
Ficou ali por alguns instantes, ouvindo sua respiração profunda e regular. Então, bem devagar, saiu do leito. Em silêncio, vestiu a túnica que havia descartado.
Não olhou para a parede até ter o tecido bem preso ao ombro. Quando o fez, levou a mão à boca para não soltar uma exclamação.
Asterius a fizera parecer uma deusa! Ele a pintara dormindo, com um ligeiro sorriso nos lábios, como se estivesse tendo um lindo sonho. Sua pele parecia palpável,
seu corpo, exuberante e convidativo.
E ele não a tinha retratado deitada no catre. Ele a pintara dormindo em uma cama de pétalas de rosa... Mais especificamente, de rosas Mikado.
Mikki virou-se para a cama e o fitou, desejando poder acordá-lo e fazer amor com ele.
Mas não podia correr esse risco. Precisava verificar as rosas.
Se meus instintos estiverem errados, prometeu a si mesma, eu vou voltar, acordá-lo e fazer amor com ele durante toda a manhã.
Sem olhar para o amante de novo, saiu do quarto pé ante pé.
O sol ainda não havia nascido, porém, a Leste, o céu começava a trocar o negro da noite por um cinza que logo daria as boas-vindas ao amanhecer. Sentiu a grama fria
e úmida sob os pés descalços enquanto contornava a base da falésia rumo aos degraus que a levariam além das piscinas quentes, em torno da sacada e, em seguida, para
o centro dos jardins.
Mikki não se permitiu distrair. Correu escada acima, mal olhando para as piscinas que soltavam vapor, não querendo se lembrar de como tinha sido maravilhoso mergulhar
nelas na companhia de suas servas e de como estava ansiosa por fazê-lo novamente.
Sua varanda encontrava-se vazia, assim como seu quarto. Porém, avistou o fogo queimando na lareira e um candelabro aceso ao lado da cama. Mikki mordeu o lábio e
desviou o olhar do cenário acolhedor. Desceu a escada e entrou no jardim. Escolheu o caminho que a levaria mais rápido até o centro do reino, e ao templo e à fonte
que a aguardavam lá, tomando o cuidado de manter os pensamentos nas rosas e longe dos Elementos ou de Asterius. Não queria que eles entendessem mal e pensassem que
ela os estava invocando. O que precisava fazer, teria que fazer sozinha.
E foi fácil manter-se concentrada nas rosas. Elas pareciam consumi-la. Deus, estava sentindo-se muito mal! E quanto mais perto chegava do centro do reino, pior ficava.
Por duas ou três vezes, Mikki parou para inspecionar os canteiros de rosas que, horas antes, tinham reagido aos cuidados e à fertilização proporcionados por ela
e as outras mulheres. Agora estas encontravam-se enegrecidas por conta da ferrugem espalhada pelos Ladrões de Sonhos e cheiravam a morte.
Seus instintos estavam certos, mas era ainda pior do que ela havia imaginado. A praga espalhara-se com uma velocidade inacreditável. Nenhuma doença mortal poderia
ter dizimado um jardim como aquele.
Mas aquela peste não era mortal, Mikki se lembrou. Era a manifestação do mal. E sua intuição lhe dizia que existia apenas uma maneira de combatê-la.
O Templo de Hécate surgiu à sua frente como um sonho iluminado por tochas, e o som das águas da fonte foi como uma mágica trilha sonora em seus ouvidos. Não parou
ali, contudo. Continuou andando até que as luzes que iluminavam a muralha das rosas brilharam diante dela.
Foi fácil encontrar os arbustos que seu sangue havia tocado. Eram a única cor em meio às trevas, à morte e à doença.
Eu estava certa. Queria não estar, mas estava.
Desolada, Mikki refez o caminho de volta ao templo, parando apenas para apanhar a lâmina recém-afiada que tinha escondido na base de uma roseira. Subiu os degraus
do templo, então, e parou diante da chama do espírito.
— Hécate? — chamou baixinho, os olhos fixos no fogo alaranjado. — Sei que está distante de seu reino, porém espero que ainda esteja ligada a ele e a mim o suficiente
para que, de alguma forma, seja capaz de me ouvir. Preciso falar com você antes de dar fim a isto tudo... Quero que saiba o quanto amei estar aqui. Pela primeira
vez em minha vida, sei que estou no lugar certo. Os Quatro Elementos são maravilhosos, principalmente Gii. Se puder, por favor, diga a elas que sou muito agradecida
por tudo o que fizeram por mim. — Respirou fundo e enxugou as lágrimas silenciosas que escorriam-lhe pelo rosto. — Eu amo Asterius. Você na certa não gosta disso,
mas disse para que eu seguisse meus instintos... e tudo dentro de mim me levou a ele. Ele não é nenhum animal, você sabe. Asterius precisa do que todos nós precisamos:
de aceitação e de alguém para amar. — Mikki precisou parar e pressionar a mão contra a boca para reprimir um soluço. Quando conseguiu controlar as emoções, continuou:
— Estou fazendo isto por ele. Por Asterius, pelas meninas e pelas Tecedoras de Sonhos. Agora compreendo, finalmente, a verdadeira razão de eu estar aqui. Eu vim
pelas rosas, pois posso salvá-las. Não tenho escolha. Vi o que existe na floresta e não posso deixar aquelas criaturas destruirem tudo o que eu amo. — Olhou para
o fogo, desejando que este fosse mais eloquente, desejando ter mais tempo para aprender palavras especiais para as orações e rituais, de forma a fazer aquilo melhor.
— Quando eu me comprometi com você, fiz isso com duas palavras: “amor” e “confiança”. São esses sentimentos que me regem aqui. O que eu fizer, faço de bom grado,
pois quero preservar o amor que encontrei neste reino. Acredito que estou fazendo a coisa certa porque, por meio desse amor, aprendi a confiar em mim mesma, em acreditar
em meus próprios instintos, intuição e julgamento. Então, se puder, Hécate, peço que fique comigo agora... Assim seja — sussurrou com voz embargada.
Decidida, Mikki deixou o templo e aproximou-se da fonte cuja água alimentava todo o reino. O gracioso chafariz era realmente muito bonito, com suas bacias de mármore
e valas que espalhavam-se pelos jardins.
Mergulhou a mão na água e ficou surpresa com seu calor.
Apenas uma estranha coincidência, pensou, antes de tirar a túnica, dobrá-la com cuidado, depois colocá-la no chão a seu lado.
Não. Não existem coincidências aqui. Posso considerar isto como um presente de despedida da deusa.
Nua, sem nada nas mãos exceto a lâmina afiada, Mikki entrou na fonte. A água deu-lhe boas-vindas e ela se sentou, acomodando-se confortavelmente na larga piscina,
a qual era funda o suficiente para que ela ficasse coberta quase até os ombros pelo líquido claro e quente.
Acabe logo com isto. Vai doer só por um instante.
Ergueu o punho esquerdo e pressionou a lâmina contra a pele. Fechou os olhos e cortou-se, prendendo a respiração com a súbita dor. Então mudou de mão. Desta vez
foi mais desajeitada, porém não menos eficiente.
Deixou cair a lâmina ao lado da fonte. Estremeceu ao submergir os pulsos, mas tinha razão. O dor não foi tão ruim e nem durou muito.
Descansou a cabeça contra a borda da piscina. Olhando para o céu, pensou como era bom que a lua houvesse acabado de se pôr e o sol ainda não tivesse nascido.
Hécate... Deusa da Lua Negra.
Talvez a ausência de luz no céu fosse um sinal de que a divindade aprovara seu sacrifício.
Ela havia feito a coisa certa. As rosas sobreviveriam. Os sonhos da humanidade estariam seguros, assim como seu amor.
Fechou os olhos. Estava com tanto sono, e a água era tão confortável... suave... como uma imensa cama de plumas... uma balsa em um lago quente de verão... os braços
de sua mãe quando ela era uma menininha assustada depois de um sonho ruim.
Suspirou. Não deveria haver nenhum sonho ruim. Deveria haver apenas amor, beleza e rosas.
Não estava com medo, mas sentiria falta de Asterius.
Conforme sua mente foi escurecendo devagar, o pensamento final de Mikki foi o quanto ela o amava.
Asterius acordou de repente. Alguma coisa estava errada.
Espantou o sono como sempre fazia e se sentou, já procurando pelas roupas.
Então, pensando que deveria acordar Mikado, virou-se e...
Ela não estava lá.
A princípio, isso não o incomodou. Mikki podia estar na sala de banho.
Vestiu a túnica e cruzou o túnel dentro da caverna, porém ela não encontrava-se por ali também.
Um pressentimento o fez apertar o passo enquanto fazia o caminho de volta para o quarto, depois para a sala um pouco mais além.
Mikado não encontrava-se em lugar algum.
Deixou o covil enquanto ainda prendia a cuirasse. O sol já havia nascido, mas ainda era madrugada e uma brisa excepcionalmente quente soprava.
Parou, aspirando o ar. Sim, ele estava certo... O vento trazia com ele o aroma rico e inebriante de rosas florescendo.
Aumentou o ritmo, e logo adentrou os jardins. Tudo ali encontrava-se em flor. Nuvens de cor preenchiam os canteiros, como se a deusa tivesse apanhado um pincel divino
e repintado todo seu reino com vida e saúde.
Mas em vez de sentir alívio e felicidade, a preocupação abateu-se sobre Asterius e ele correu, deixando seu instinto guiá-lo.
Avistou o Templo de Hécate no mesmo momento em que ouviu o primeiro grito de horror. O som foi como um punhal gelado entrando em seu coração. Outro grito seguiu-se
ao primeiro, depois outro e mais outro, até que os jardins pareceram sacudir com luto e lamentação.
Não! – sua mente gritava, embora ele já soubesse o que estava prestes a descobrir.
Voou até o templo. Os Quatro Elementos encontravam-se em pé ao lado da fonte, agarradas umas às outras e chorando copiosamente. No meio delas, ele avistou os cabelos
molhados cor de cobre e um lado da face pálida. Devagar, como se estivesse atravessando um pântano de lama e areia movediça, aproximou-se do chafariz. Era ela, claro.
Mikado estava morta.
Asterius, o Guardião do Reino das Rosas, caiu de joelhos e rugiu sem parar sua dor. Uma a uma, lideradas por Gii, as servas aproximaram-se dele e colocaram as mãos
em seus ombros e, unidos pelo pesar, choraram por sua Empousa.
Parte 3
Capítulo 35
Deus, sua boca estava seca! E ela se sentia uma merda, concluiu Mikki. Tentou virar-se de lado, mas estava fraca demais. Tudo o que conseguiu fazer foi esticar-se
um pouco e deixar escapar um gemido abafado.
— Cacete! Ligue para o 911, ela está viva!
Ligue para o 911? Não havia telefones no Reino das Rosas! Muito menos alguém que dissesse “cacete”!
Mas, então, que cacete?
Tentou mover-se de novo e, desta vez, sentiu mãos fortes segurando-a no lugar.
— Não tente se mexer, moça! Vai ficar tudo bem... Eu já chamei ajuda. Aqui! — O homem gritou. — Traga os paramédicos aqui!
Mikki ouviu passos rápidos e pesados, acompanhados por uma voz vagamente familiar.
— Cristo, é a Mikki! Ah, merda, olhe todo esse sangue!
Sua respiração começou a sair em espasmos, porém Mikki reconheceu a voz. Era Mel, o guarda de segurança do Roseiral de Tulsa.
Mas não podia ser Mel; ela não podia estar no roseiral! Ela...
Céus! Havia se esquecido. Ela estava morta!
— Mikki, calma! Os paramédicos estão aqui. Vai conseguir!
Ela tentou dizer que não queria. Que sua intenção fora salvar as rosas, e a única maneira que podia fazer isso era lhes dando seu sangue.
A droga era que aquele reino era grande demais, e algumas gotas em um balde não dariam conta dele.
Mas não podia falar. Sua mente continuava funcionando, contudo seu corpo estava pesado e parecia nem ser dela.
E estava molhada... o que fazia sentido porque devia estar na fonte.
— Muito bem, vamos virá-la no três. Um, dois...
Viraram-na de costas. Mikki piscou, tentando clarear a visão turva. Era de manhã e, pelo que ela podia ver do céu por sobre os ombros dos paramédicos, o sol tinha
nascido havia pouco tempo.
Seu olhar mudou para um ponto à direita, e ela conseguiu virar a cabeça para o lado, a fim de focar melhor a vista. Era um enorme pedestal de pedra... bem mais familiar
do que seu velho amigo segurança. Era a base que apoiava a estátua do grande Guardião.
Só que agora esta encontrava-se vazia.
Mikki teve vontade de gritar, mas não conseguiu.
Então, tudo escureceu.
— Parece melhor hoje. Como está se sentindo?
— É uma questão profissional, um teste ou está preocupada mesmo? — Mikki indagou, sarcástica.
Nelly se retesou.
— Eu não mereço isso.
Mikki mordeu o lábio e estendeu a mão para apertar rapidamente a da amiga. Não era justo estender sua amargura a Nelly. Não era culpa da moça que nada que pudesse
ser feito ou dito fosse chegar perto de fazê-la sentir-se melhor.
— Sinto muito. Só estou de mau humor.
— Aconteceu alguma coisa? Os sonhos voltaram?
Ela não fitou Nelly nos olhos. Não queria que a amiga visse o desespero que carregava todos os dias.
— Não. Meus sonhos têm estado normais. Na verdade, nem me lembro deles. Tudo o mais está bem... Não sei o que há de errado. Acho que esse clima está mexendo comigo.
Estou cansada dessa chuva e desse frio.
Tentou não se lembrar de que já controlara a chuva e que, no primeiro dia em que esta a obedecera, havia estabelecido as circunstâncias ideais para que ela fosse
parar na cama de Asterius...
— Mikki?
Ela piscou e seus pensamentos voltaram-se para o presente. Ergueu o cappuccino, tentando beber um gole sem muito entusiasmo.
— Só estava sonhando acordada. Desculpe outra vez, Nelly. Não estou sendo muito boa companhia hoje.
— Você é minha amiga. Não tem que me entreter nem me divertir, e sabe disso. — A psiquiatra suspirou. — Querida, o que aconteceu com você foi muito traumático. Os
homens que a atacaram e roubaram a estátua do roseiral a deixaram sangrando até a morte e nunca foram pegos. É normal passar por fases de depressão, raiva e ressentimento
durante o processo de cura, principalmente quando não se tem um desfecho para um crime.
Desfecho para um crime.
Mikki teve um desejo insano de rir, porém tratou de reprimi-lo. Não queria fazer nada que a fizesse parecer ainda mais louca.
E também não queria que aquela história fosse muito investigada.
Esfregou a testa. Pela enésima vez, quis que Nelly estivesse certa quanto ao que estava sentindo: que aquilo fosse apenas parte de um processo de cura.
— Eu sei. Eu só... Eu só queria me sentir normal de novo.
— Você vai, Mikki. — Nelly olhou para o relógio. — Ah, droga! Vou chegar atrasada.
Mikki conseguiu esboçar um sorriso.
— O compromisso é com algum maluco, ou apenas com um meio maluco?
Nelly riu e, uma vez de pé, apanhou a valise e a bolsa.
— Com um maluco e meio.
— Boa sorte, então.
— É bom que eu tenha mesmo — agradeceu a moça. — Ei, dê uma ligada mais tarde se quiser conversar.
— Pode deixar, eu ligo. Vejo você amanhã de manhã... Na mesma hora, mesmo café.
Mikki sorriu para a amiga, sentindo-se culpada pelo alívio que a invadiu quando Nelly saiu pela porta. Era tão difícil esconder as coisas dela! Como podia contar
a verdade? Sabe, amiga, eu não fui assaltada por criminosos que roubaram a estátua do Roseiral de Tulsa e que me abandonaram à morte... Na verdade, eu me matei,
embora eu goste de pensar nisso como um sacrifício. Nunca pensei em suicídio, o que deve provar que não estou louca. Enfim, eu tinha que fazê-lo porque o Reino das
Rosas, na intersecção entre os mundos, estava em perigo, e só meu sangue podia salvá-lo. Era meu dever como Empousa. Ninguém pode considerar isso um suicídio porque
eu estava apenas cumprindo com meu destino. E, a propósito, estou desesperadamente apaixonada por um homem-fera, e a razão pela qual me sinto tão deprimida é que
estou presa aqui, sem ele!
Suspirou. Nelly era sua melhor amiga, mas não hesitaria em trancafiá-la em uma cela linda, exclusiva e confortável se ela dissesse a verdade. Percebera isso tão
logo havia acordado no hospital e eles — o serviço social e os policiais — começaram a interrogá-la.
E a história que adviera de tudo aquilo tivera mais a ver com omissão e acidente do que qualquer coisa semelhante à verdade. Por isso ainda não tinha coragem de
dizer nada. Nem mesmo a uma amiga, psiquiatra experiente, que a conhecia bem demais.
Mikki consultou o relógio. Eram apenas sete e meia, e não precisava ir para o trabalho antes das oito. Tinha tempo para mais uma xícara de cappuccino. Quando se
pôs em pé, disposta a apanhar um refil para a bebida quente, capturou o próprio reflexo nas janelas do Expresso Milano. Estava magra... Muito magra. E podia ter
feito algo com aqueles cabelos em vez de apenas prendê-los para trás em um rabo de cavalo.
O problema era que não estava com a menor vontade de se cuidar.
Bem, ao menos ainda havia bastante de seus cookies favoritos, os biscoitos alaranjados, gigantes e cobertos de açúcar que o café comprava todas as manhãs da popular
padaria Pani Del Dea, a qual ficava apenas a algumas portas dali, descendo a rua.
Pediu dois deles para viagem com mais um cappuccino. Então mudou de ideia e pediu um terceiro. Precisava engordar, e uma dose a mais de açúcar somada à cafeína seria
suficiente para levá-la a enfrentar mais um dia sem sentido e interminável no trabalho.
Apanhou uma edição do Tulsa World e acomodou-se em uma das poltronas estofadas e macias, enquanto esperava que a atendente toda perfurada por piercings trouxesse
o café e os cookies na elegante bandeja de prata do estabelecimento.
Quando ouviu o ruído de saltos aproximando-se no piso frio, não tirou os olhos do jornal.
— Pode colocar aqui. Ah, e fique de olho em mim, por favor. Tenho a impressão de que hoje vai ser uma daquelas manhãs em que não passo sem ao menos três expressos!
— Está tudo bem, Mikado?
Mikki quase deixou cair o jornal com a surpresa.
— Sevillana! Desculpe... Pensei que fosse a garota do café.
Os olhos incrivelmente azuis da mulher cintilaram.
— Não sou confundida com uma moça há muito tempo!
Mikki abriu um sorriso e, por um momento, este foi genuíno.
— Não quer se sentar comigo?
— Sim, eu gostaria muito. — A mulher acomodou-se com graça em uma cadeira a seu lado e arrumou o lindo xale de pashmina azul-pálido sobre os ombros.
— Eu não sabia que morava por aqui.
Como na primeira vez em que elas haviam se encontrado, Mikki sentiu-se um pouco intimidada pela presença de Sevillana. Ela era tão... imponente e clássica. Havia
um ar de dignidade e cultura em tudo o que dizia e fazia.
E então, com um choque, ela se lembrou. E, em meio à lembrança, perguntou-se como poderia ter se esquecido.
— O perfume! Onde conseguiu o perfume que me deu naquela noite?
A mulher sorriu, mas a aproximação da garçonete com os cafés e doces impediu-a de dizer qualquer coisa.
Mesmo quando estavam a sós outra vez, Sevillana levou algum tempo dissolvendo o açúcar em seu cappuccino e mexendo cuidadosamente com a colher de prata minúscula
antes de falar.
— Há apenas um lugar onde se pode encontrar tal perfume, e é em um reino muito distante daqui.
Mikki sentiu uma onda vertiginosa de uma emoção da qual sentia falta havia três meses: a esperança.
— Está falando sobre o Reino das Rosas.
A mulher aquiesceu com um gesto de cabeça.
— Ah, Deus! — Mikki exclamou, ofegante.
— Creio que seria mais adequado você exclamar “Oh, Deusa!”, Mikado.
— Como sabe disso?! Como chegou lá, e como foi que eu voltei? O que está fazendo aqui? Por que...
Sevillana ergueu a mão, detendo a torrente de palavras.
— Tudo tem seu tempo. Afogar-me em perguntas não vai mudar isso.
— Eu... — Mikki levou a mão ao peito, temendo que o coração fosse saltar para fora do corpo. — Sinto muito, mas eu preciso saber. — Passou a mão trêmula sobre o
rosto e recomeçou: — Eu tenho que voltar para lá!
— Eu sei, minha filha, eu sei — Sevillana concordou suavemente. Seu olhar fixou-se além dela, então, e, quando ela tornou a falar, sua voz lembrava a de uma menina
tristonha. — Ninguém falou no meu nome enquanto estava lá? Eles não se lembram de mim?
— Seu nome? Não. Por que eles... — Os olhos de Mikki se arregalaram.
— É você! Você é a última Empousa!
— Não, Mikado. Eu era a última Empousa. Não sou mais Alta Sacerdotisa de Hécate. Rejeitei esse cargo porque era jovem e tola, mas paguei pela minha traição. Por
duzentos anos fiquei separada do meu reino e de minha deusa, e percorri o mundo comum, sempre inquieta e insatisfeita. Vivi como uma verdadeira marginal.
— Duzentos anos! — Mikki não conseguia desviar o olhar da velha senhora. — Mas como?
— Nunca compreendi muito bem. Envelheci, obviamente, porém muito devagar. Eu costumava acreditar que essa era a maneira de Hécate me punir: estendendo minha vida
até que eu me arrependesse de minhas atitudes egoístas. Em uma de minhas viagens, décadas atrás, visitei Tulsa, e aconteceu de eu assistir à inauguração de seu novo
roseiral. — Ela fez uma pausa, a expressão cheia de dor. — Reconheci a estátua do Guardião, e soube que ela havia sido colocada aqui por alguma razão. Por isso passei
a visitar Tulsa com frequência; para esperar e observar. E foi então que eu a conheci, e comecei a ter esperanças de que Hécate tivesse me permitido viver por tanto
tempo por outra razão... — Os olhos muito azuis de Sevillana voltaram-se para Mikki. — Achei que a grande deusa queria que eu lhe desse o óleo sagrado; assim poderia
despertar o Guardião, voltar ao reino e cumprir com o destino que me fora reservado. — A tristeza preencheu os belos olhos da mulher. — Por que cometeu o mesmo erro
que eu? Eu não queria que fugisse.
— Mas eu não fugi! — Mikki gritou, mas baixou a voz quando várias cabeças viraram em sua direção. — Você sabe sobre o sangue, não sabe? De alguma forma, você compreende.
— Sim, seu sangue alimenta as rosas. Como eu poderia não saber? Carregamos o mesmo sangue em nossas veias, Mikado.
Sevillana tocou-a na mão em uma carícia que a fez lembrar-se tanto da mãe que ela prendeu a respiração.
— No hospital, naquele dia, eu disse que me chamava Sevillana Kalyca, e é verdade. Mas essa é apenas uma parte do meu nome. Eu raramente uso meu sobrenome inteiro,
pois é muito difícil ouvi-lo e saber que eu o abandonei; mesmo que isso tenha acontecido há muito tempo. Meu nome verdadeiro é Sevillana Kalyca Empousai. Fui a primeira
Empousa a fugir do Reino das Rosas. E esperava, quando a conheci e senti a força de seu sangue, que também fosse a última.
— Eu não fugi — Mikki repetiu, entorpecida, olhando para sua ancestral. — Eu morri.
Sevillana a fitou, confusa.
— O tempo corre de modo diferente por lá... Mas ainda não podia ser Beltane!
— Era início de inverno. — Foi a vez de Mikki franzir o cenho. — De qualquer maneira, o tempo não tem nada a ver com isso. Ladrões de Sonhos entraram no reino.
— Oh, Deusa, não! — Sevillana levou a mão ao peito num gesto estranhamente parecido com o dela.
— Foi minha culpa. Eles me enganaram, e eu os deixei entrar. O Guardião os matou. Isto é, supondo que eles não possam ser eliminados, essa não é a palavra certa...
Mas Asterius livrou-se deles e os mandou de volta para a floresta.
— Asterius?
Mikki estudou Sevillana, a mente começando a entrar em consonância com suas próprias emoções. Aquela era a mulher sobre a qual eles haviam sido proibidos de falar.
Ela era parte da razão pela qual Hécate tinha enfeitiçado o reino e Asterius.
Pois agora não estava mais no Reino das Rosas e queria saber, de uma vez por todas, o que havia acontecido.
— Asterius é o nome que o Guardião recebeu da mãe. — Observando com cuidado, Mikki viu a ponta de surpresa e inquietação nos olhos da antiga sacerdotisa. — Quero
saber o que aconteceu entre vocês dois. Tudo.
Sevillana olhou pela janela, e sua voz assumiu um ar distante, como se recontasse uma história que fora passada de geração em geração.
— Eu era jovem e muito, muito tola. E também egoísta. Amava o poder que possuía como Empousa. Tanto que não estava disposta a cedê-lo. Conforme o dia de Beltane
se aproximava, eu me convenci de que era justo que eu escapasse do destino planejado para mim, que eu era diferente. Mas sabia que não podia atravessar a floresta
sem proteção. Então convenci o Guardião a trair seu dever e acompanhar-me através da mata até a entrada para o mundo comum.
— Você o seduziu? — Mikki indagou, gélida.
— Só com palavras. Eu não me deitaria com um animal, mas fiz com que ele acreditasse nisso. Não foi difícil... O Guardião tinha pouca experiência com mulheres. Foi
estranho, porém, ele ter permitido que eu escapasse, mesmo depois que eu o rejeitei. — Sevillana abanou a cabeça. — Há muito tempo me pergunto sobre isso. Ele devia
ter voltado-se contra mim e, no mínimo, obrigado-me a voltar para enfrentar a ira de Hécate. Em vez disso, o Guardião me disse... algo e, em seguida, afastou-se
e deixou-me seguir em liberdade.
— Ele pensou que a amava — Mikki falou, rígida.
Sevillana finalmente encontrou seu olhar, e Mikki pôde ver a surpresa estampada em seus olhos.
— Foi o que ele me falou: que me amava. Mas isso não fez nenhum sentido! Como um animal poderia amar uma mulher?
— Ele não é um animal! — Mikki falou por entre os dentes, a ira fazendo-a empalidecer. — E você não era boa o bastante para seu amor se não conseguia enxergar o
homem dentro dele.
A mulher arregalou os olhos muito azuis.
— Você o ama!
— Amo...
Em silêncio, Sevillana observou Mikki por um longo tempo, depois abaixou a cabeça.
— Perdoe-me por ter sido tão arrogante. Eu era uma menina na época. Só compreendi que estava errada muito tempo depois e esta é mais uma lição para mim. Tem minha
admiração, Mikado, bem como meu respeito. Nunca conheci alguém com sua coragem.
Mikki respirou fundo várias vezes, acalmando-se. Não adiantava ficar tão aborrecida com a mulher. O que ela havia feito acontecera dois séculos antes e estava acabado.
Acabado.
E ela não pretendia afastá-la. Sevillana Kalyca Empousai era sua passagem de volta para Asterius.
— Eu a perdoo. Acho que Asterius a perdoaria, também. E o que eu fiz não foi por coragem. Não tive escolha. Asterius havia se livrado dos Ladrões de Sonhos, mas
era tarde demais. Eles já tinham envenenado as rosas, todas elas, exceto aquelas sobre as quais eu derramara meu sangue. Tentei deter a peste de outra forma, mas
nada funcionou. E eu sabia que não ia funcionar. A única forma de eu salvar as rosas era por meio do meu sangue.
— E não acha que foi corajosa ao permitir que seu amante a sacrificasse? Nem era Beltane e, mesmo assim, você foi ao encontro de seu destino original e salvou o
reino.
Mikki franziu o cenho.
— Asterius não me sacrificou. Ele nem sequer sonhava com o que eu tinha planejado. Mas eu sabia que ele ia tentar me deter, então fugi... Que história é essa de
Beltane? É na primavera, não é? O que isso tem a ver com o que aconteceu?
— Não sabe, mesmo...?
— Não — Mikki confirmou, exasperada e já farta de tantos mistérios.
— Eles devem ter ficado com medo de lhe contar. Com medo de que você também os deixasse. Mikado... a Empousa serve para um único propósito. Ela está lá por causa
das rosas.
— Sim, sim, eu sei.
— Então também sabe que a Alta Sacerdotisa de Hécate está vinculada às rosas por meio de seu sangue. O que não sabe é que, em todas as noites de Beltane, a Empousa
é sacrificada pelo Guardião, pois seu sangue garante que o reino prospere por mais um ano.
Mikki sentiu tudo dentro dela paralisar.
— Quer dizer que as mulheres iam me matar?
— Não elas. Ele. É dever do Guardião proteger as rosas.
Mikki soltou o ar. Tudo fazia um terrível sentido agora. O comportamento de Asterius quando ele a conhecera e mostrara-se atraído por ela... O modo como ele tinha
dito que eles não poderiam ficar juntos... O porquê de ele ter lutado tanto contra o amor que sentia. Tinha sido mais do que a descrença de que ela jamais pudesse
vê-lo como um homem; mais do que a rejeição de Sevillana. Asterius sabia que teria de matá-la.
O pensamento deixou-a enjoada, e a mão quente de Sevillana sobre a sua, agora fria e insensível, foi um choque.
— Ele não teve escolha.
— Quer dizer que Hécate também desejou minha morte o tempo todo — Mikki murmurou.
— A vida e a morte são diferentes para os deuses. Hécate é severa e poderosa, mas também uma deusa amorosa. Veria seu sacrifício apenas como outro elo no grande
círculo da vida. A deusa não a abandonaria, Mikado, mesmo na morte. Se tivesse conhecido seu destino em Beltane, Hécate teria feito com que passasse a eternidade
na beleza infinita dos Campos Elísios. A deusa preocupa-se com aqueles que lhe pertencem. Dá as costas apenas para os que a traem.
— É um conceito difícil demais para mim. Todo o mundo que se preocupou comigo, todos os que amei, sabiam que eu ia morrer. — Mikki fez uma pausa conforme a enormidade
do que acabara de ouvir abatia-se sobre ela. — Então, mesmo que você me ajudasse a voltar de alguma forma, eu estaria condenada à morte.
— Sim — confirmou Sevillana. — Ainda pretende voltar?
Capítulo 36
Será que ainda queria voltar?, pensou Mikki. Já era final de fevereiro. O Beltane não era em primeiro de maio? Teria apenas mais dois meses antes que Asterius a
matasse.
Parecia impossível de acreditar. No entanto, mesmo em meio à sua descrença, a intuição lhe dizia que Sevillana falava a verdade. Tudo se encaixava e, de repente,
ela sentiu-se como a única peça fora de um enorme quebra-cabeça. Sabia qual era seu lugar, e este não era em Tulsa, Oklahoma.
— Eu quero voltar, mas não sei se sou corajosa o suficiente.
— Ouça seus instintos, Mikado. Confie no que eles dizem.
— Eles me dizem que não pertenço a este lugar.
— Então talvez deva voltar para casa — concluiu Sevillana.
— Você sabe como me levar até lá?
— Eu posso lhe dar o óleo sagrado, porém, o restante já possui dentro de você. Já se sacrificou pelo Reino das Rosas e foi altruísta o bastante para amar seu Guardião.
Você foi, minha querida, exatamente o oposto da última Empousa do reino. Acredito que Hécate ouvirá seu chamado e irá honrá-lo.
— Mas como... — Mikki se conteve. Sabia o que deveria fazer. Precisava escutar a própria intuição e seguir seus instintos.
Olhou Sevillana, que assentiu diante de sua introspecção.
Acalme-se e pense. É a Empousa de Hécate... Tem que haver um caminho para que possa voltar.
De repente, Mikki sorriu.
— É isso! Eu ainda sou a Empousa. Hécate disse que eu carrego seus poderes, os quais não podem desaparecer por completo nem mesmo aqui. E, olhe para você... Fugiu
da deusa e ainda viveu duzentos anos!
— Ainda deve exercer os poderes de Hécate — Sevillana afirmou. — Mesmo no mundo comum. — A mulher enfiou a mão na bolsa de couro e tirou uma haste de vidro, exatamente
igual à primeira que havia lhe dado. — É o óleo sagrado da Empousa de Hécate. O primeiro passo no ritual de invocação, com o qual eu posso ajudá-la.
— Obrigada, Sevillana. — Mikki tomou o vidro e o envolveu com cuidado em um guardanapo antes de guardá-lo na própria bolsa.
— Só lhe peço uma coisa, Empousa — prosseguiu a velha senhora. — Gostaria que pedisse perdão a Hécate por mim. Sei que não posso retornar ao reino, mas estou cansada
e queria poder abrir mão desta vida e abraçar minha eternidade nos Campos Elísios. Não posso fazê-lo sem o perdão da deusa.
— Vou falar com ela. Mas por que não a invoca você mesma?
— Eu gostaria, mas não consigo. Tentei várias vezes ao longo destes anos silenciosos, porém Hécate não vai me ouvir. Ela me deu as costas.
— Mas Hécate não deu as costas a mim — Mikki concluiu de súbito. — Por que acha que não sou um fantasma nos Campos Elísios agora? Eu morri, Sevillana! Eu não devia
ter acordado em Tulsa, a menos que houvesse um motivo muito bom para que a deusa me quisesse aqui... — Mikki endireitou o corpo. — Hécate sabia que estava aqui.
Eu mencionei seu nome quando ela me perguntou como o óleo sagrado de uma Empousa havia chegado “acidentalmente” em minhas mãos. Eu me lembro de sua expressão agora.
Hécate sabia desde o princípio.
— A estátua do Guardião... A deusa a colocou aqui para que eu a encontrasse! E também a você! — deduziu a mulher com voz embargada.
— Hécate quis que eu voltasse para reencontrá-la. — Desta vez foi Mikki quem pegou a mão trêmula da velha senhora na dela. — Hécate a perdoou, Sevillana.
— Ah, minha querida, se isso fosse verdade...
— Vamos descobrir. Esta noite é noite de lua nova... Venha para o roseiral. Fique dentro do círculo sagrado comigo. Vamos tentar ir para casa.
Mikki ficou feliz com a noite chuvosa. Fazia um frio horroroso, mas estava tão escuro que até mesmo os postes de iluminação em Woodward Park pareciam emanar halos
de luz mais fracos ao redor do parque. Era fácil para alguém que conhecia bem o lugar evitar as luzes...
E ela conhecia o Woodward Park como ninguém.
Carregou a maleta em uma das mãos e segurou a de Sevillana com força na outra, ajudando a mulher a deslocar-se através da escuridão. Não trocaram uma só palavra
e nem precisavam. Mikki apenas rezava para que ninguém estivesse nos jardins.
No momento em que chegaram à fronteira entre o parque e os vergéis, relaxou um pouco. Ninguém fora louco o suficiente para aventurar-se no parque numa noite como
aquela, muito menos depois da meia-noite.
Ainda assim, Mikki não disse nada até que passaram por baixo da arcada de pedra e desceram para o terceiro nível dos jardins. As luzes da fonte iluminavam a área
ao redor preguiçosamente, num efeito aquoso que, junto à névoa que pairava no ar frio, fazia aquela camada mergulhar em um cenário de sonho.
— Bem apropriado — ela comentou baixinho.
— Sim. Essa iluminação evoca imagens de sonho — concordou Sevillana. — É um bom presságio, Empousa.
— Esperemos que sim — ela murmurou. Então olhou para o pedestal vazio. Não voltara ali desde a manhã terrível em que a tinham encontrado. Não pudera suportar.
Não desistira de trabalhar como voluntária, contudo. Pedira apenas uma licença, que lhe fora concedida de imediato. Todos haviam compreendido como devia ser difícil
para ela voltar para os jardins onde fora atacada e abandonada à beira da morte.
Mas claro que não entendiam realmente. Como poderiam? Jamais saberiam a verdade.
— Mikado? — Sevillana tocou-a no braço de leve.
Mikki virou-se de costas para o pedestal vazio.
— Está certa. Precisamos nos apressar. Será impossível explicar isto se formos apanhadas.
— Não vamos ser apanhadas — declarou a mulher com firmeza.
— Isso mesmo. Vamos começar agora.
Mikki escolheu um lugar perto da fonte. Abriu a maleta e Sevillana ajudou-a a colocar uma vela em cada uma das posições dos quatro Elementos dentro do círculo: amarela
ao Leste para o Ar; vermelha ao Sul para o Fogo; azul a Oeste para a Água; verde ao Norte para a Terra; e, por fim, púrpura no centro do círculo para o Espírito.
Então apanhou uma caixa de fósforos da maleta, bem como a faca afiada que geralmente ficava escondida em seu apartamento, e as colocou ao lado da vela central.
Pisando do lado de fora do círculo formado pelas velas, Mikki pegou um último item da mala antes de colocá-la nas sombras, ao lado do pedestal vazio. Tirou a tampa
de cortiça que lacrava o delicado frasco de vidro em forma de caule e, em seguida, aplicou o óleo perfumado em pontos do pulso, pescoço e entre os seios, e o entregou
a Sevillana.
Com apenas uma ligeira hesitação, a mulher apanhou o frasco e aplicou o óleo perfumado no próprio corpo. O aroma de rosas e especiarias mesclou-se ao ar úmido, e
Mikki sentiu o estômago apertar-se com as lembranças.
Aquilo tinha que funcionar. Ela precisava retornar.
— Pronta? — perguntou à outra mulher.
Sevillana aquiesceu com um gesto de cabeça e puxou dois grampos de seu elegante coque, libertando cabelos longos e prateados que lhe caíram até além da cintura.
Em seguida, com um movimento gracioso que não condizia com sua avançada idade, livrou-se da capa longa, sob a qual usava uma linda túnica de seda lilás.
Mikki descartou seu próprio casaco e ignorou o frio quando também ela ficou vestida apenas com uma túnica cor de violeta. A única diferença entre seu traje e o da
outra mulher era que o dela era de um tom mais escuro, e, conforme ditava o ritual da lua nova, deixava-lhe um dos seios nus.
— Uma coisa que se pode dizer sobre estes quitões é que são muito fáceis de vestir — ela elogiou.
— Eu morro de saudades deles! — Olhando para si própria, Sevillana sorriu. Depois ergueu o olhar para Mikki e fez uma mesura delicada. — Vamos em frente, Empousa.
— Vamos.
Juntas, as duas mulheres caminharam para o centro do círculo. Com a vela roxa entre elas, viraram-se para o Norte. Então Mikki apanhou a caixa de fósforos, pensando
em como sentia a falta dos quatro Elementos, principalmente à noite.
Deixando para trás as dúvidas, ela aproximou-se da vela amarela e acendeu o fósforo.
— Vento que sopra forte e em toda parte, mesmo no mundo mundano... Eu te invoco, Ar, como o primeiro elemento no círculo sagrado. — Tocou o pavio com a chama do
fósforo e segurou-a até que este se iluminasse. Sem se preocupar se o Ar iria ouvi-la e responder a seu chamado, moveu-se até a vela vermelha. — Força ardente de
purificação, chama dançante de luz, que mesmo no mundo comum é rica e verdadeira... Eu te invoco, Fogo, para o círculo sagrado. — Quando o fósforo tocou o pavio,
a chama ganhou vida rapidamente, e Mikki sentiu uma onda de esperança. Sem hesitar, seguiu para a vela azul. — Maré brilhante que nos banha, refresca e sacia, mesmo
neste mundo comum, e que cobre mais da metade do nosso planeta, proporcionando-nos a vida. Eu te invoco, Água, para o círculo sagrado. — No pavio aceso, Mikki pensou
ver a chama da vela azul tremeluzir e ondular como as ondas. Então viu-se de frente para a vela verde. — Exuberante e fértil, amiga e selvagem, mesmo neste mundo
comum tu nos manténs e cuidas de nós. Eu te invoco, ó Terra, para o círculo sagrado... — Mikki voltou para seu lugar, ao lado da vela roxa. — Invoco-te agora, Espírito,
para o círculo sagrado, com as duas palavras que me unem à minha deusa: “amor” e “confiança”! — Acendeu a vela roxa e, em seguida, jogou fora o palito de fósforo.
Olhou ao redor, mas ficou desapontada. Não viu nenhum anel luminoso vinculando os elementos para formar o círculo.
— Não se desespere se não consegue ver as tramas neste mundo — falou Sevillana, como se pudesse ler seus pensamentos. — Veja-os dentro de sua mente. Acredito que
elas estejam aí. O poder da fé de uma Empousa é mágico por si só.
Mikki assentiu e imaginou as tramas descrevendo o círculo.
— Vamos terminar o ritual — falou, resoluta.
Abaixou-se e pegou a pequena faca. Olhou para Sevillana, e a mulher estendeu-lhe a mão com a palma para cima. Com um movimento rápido e seguro, Mikki pressionou
a lâmina afiada contra a pele fina de Sevillana, desenhando uma linha longa em sua palma.
Conforme o sangue jorrou, entregou a faca à antiga Empousa. Sevillana tomou-lhe a mão e, do mesmo modo, cortou uma linha semelhante em sua palma. Deixou cair a faca,
então, e as duas mulheres uniram as mãos, palma contra palma, misturando o sangue de gerações de Altas Sacerdotisas de Hécate.
Mikki fechou os olhos e limpou a mente. Quando falou, não se importou em baixar a voz. Se funcionasse, se a deusa fosse mesmo invocada, o círculo se manteria e nenhum
mortal poderia interferir nele. Mas, se isso não ocorresse... não se importaria com o que poderia acontecer com ela, decidiu.
— Hécate, Grande Deusa da Lua Negra, das Encruzilhadas da Humanidade e das Feras... É Mikado Empousai, Alta Sacerdotisa e Empousa do Reino das Rosas quem fala. Encontro-me
em uma terra distante e me ungi com óleo para lançar o teu círculo sagrado. Pelo direito que meu sangue me concede, eu invoco o teu nome. Temos um compromisso, um
juramento selado com amor e confiança. E pelo poder de tal juramento, evoco a tua presença e peço que me ouças.
De repente, um vento chicoteou ao redor delas, fazendo com que as velas tremeluzissem loucamente. Uma névoa as rodeou e, enquanto Mikki observava, transformou-se
numa nuvem cintilante até que, no centro do vórtice de vento, luz e som, Hécate apareceu. Vestia seu traje completo de noite, com os cabelos salpicados de estrelas
e a tocha dourada. A seus pés, os cães enormes rosnavam e tentavam abocanhar a neblina do jardim.
Mikki começou a dizer o nome da deusa, porém a voz emocionada de Sevillana a interrompeu. A mulher soltou sua mão e caiu de joelhos.
— Grande Deusa, perdoe-me! — Sevillana soluçou, as lágrimas escorrendo pelo rosto bonito. — O que fiz foi tão injusto! Passei vidas querendo expiar esse meu erro
imperdoável... Mas a menina tola e egoísta que a traiu já não existe.
A face de Hécate continuou ilegível, porém sua voz era suave.
— O que aprendeu, Sevillana?
— Aprendi que há coisas mais terríveis para se perder do que a própria vida.
— E quais são essas coisas?
— Minha honra, meu nome... e o amor da minha Deusa.
— Você nunca perdeu o amor de sua Deusa, minha filha.
Sevillana levou a mão à boca, tentando reprimir os soluços, e Mikki tocou-a no ombro, emprestando-lhe forças.
— Consegue me perdoar, Hécate? — a velha senhora foi capaz de indagar finalmente.
— Eu a perdoei há muito tempo, Sevillana. Você é que não foi capaz de perdoar a si mesma.
Ela curvou a cabeça.
— Posso descansar, então, minha Deusa?
— Sim. Tudo o que precisava fazer era pedir por isso. Eu jamais daria as costas a uma Empousa minha, mesmo a uma que cometeu um erro. Veja...
Hécate fez um gesto e a neblina abriu-se como uma porta na noite. De repente, um lindo cenário se fez ver. Era um prado repleto de trevos e cercado por pinheiros
altos, cujos ramos pontiagudos lembravam imensos espanadores. Enquanto elas observavam, uma figura ágil pulou e dançou pela campina, seguida por um grupo de lindas
mulheres. Suas túnicas envolviam seus corpos fortes e jovens sedutoramente, embora estes tivessem uma aparência estranha, quase insubstancial.
Mikki sentiu uma onda de choque ao reconhecer uma das mulheres.
— Mamãe! — gritou com voz embargada.
Antes que pudesse correr para encontrá-la, contudo, Hécate alertou-a em voz baixa:
— Não é sua hora, Mikado. Seu destino ainda não está completo.
Em meio às lágrimas que corriam soltas, ela olhou para a deusa.
— Mas é minha mãe, não é?
— Sim. Olhe mais de perto e verá também sua avó.
Mikki obedeceu, prendendo o fôlego. Sim! Reconhecia agora a linda jovem que dançava, segurando a mão de sua mãe. Tinha observado aquele rosto bonito tantas vezes!
A única diferença era que, nessas ocasiões, ele era repleto de linhas e marcas deixadas pela vida.
— Onde elas estão?
— Nos Campos Elísios, onde serão eternamente jovens, felizes e livres — respondeu Sevillana, a voz cheia de emoção.
— Tome seu lugar ao lado delas, Sevillana. Aqui termina seu tormento — declarou Hécate.
A mulher ergueu-se do chão devagar, então virou-se para Mikki e abraçou-a com força.
— Tenha uma vida abençoada, minha querida! — falou baixinho.
— Diga a minha mãe e a minha avó que eu as amo! — Mikki pediu num sussurro.
— Pode deixar. Elas ficarão orgulhosas de você, assim como eu, minha filha.
Dizendo isso, Sevillana atravessou a fronteira do círculo sagrado até a deusa. Parou diante de Hécate e, chorando, fez uma profunda reverência.
A deusa estendeu as mãos e a abraçou, beijando cada uma de suas faces.
— Vá para Elísia com minha bênção, Sevillana.
A mulher atravessou o portal que a divindade tinha aberto para o paraíso e, conforme o fez, seu corpo mudou. Sua velhice a deixou como um manto descartado, até que,
com um grito de alegria, a jovem e bela Sevillana tomou seu lugar em meio ao grupo de moças que dançavam.
O portal desapareceu, então, e, mais uma vez, não se podia ver nada além da névoa, da chuva e das trevas.
— É um prazer revê-la, minha Empousa — afirmou Hécate.
Mikki enxugou as lágrimas do rosto e sorriu.
— Estou muito feliz em vê-la também. Se eu soubesse que podia fazer isto, invocá-la aqui, teria lançado o círculo meses atrás.
— Ah, mas estaria faltando algo na invocação... O óleo sagrado de uma Empousa. Você precisava de Sevillana para tanto.
— Tem razão, eu... Não sei... Aprendi tanto hoje que minha mente não consegue absorver tudo. Estou tão feliz por ter perdoado Sevillana! — Mikki piscou, surpresa,
quando mais uma das peças daquele imenso quebra-cabeça encaixou-se de repente. — Na primeira noite em que estive no reino... você disse que havia cometido um erro
e que queria consertá-lo. O erro envolvia Sevillana e Asterius, não é mesmo?
— Exatamente. — Hécate soltou um suspirou típico dos mortais. — Eu não devia tê-los punido daquela forma. Sevillana era jovem e egocêntrica, mas eu sabia disso ao
escolhê-la para minha Empousa. Tinha esperanças de que o poder em seu sangue iria fazer com que amadurecesse, mas me equivoquei. Isso não aconteceu.
— E quanto a Asterius? — Mikki perguntou, segurando a respiração.
— Asterius foi meu maior erro. Eu lhe dei o coração e a alma de um homem e depois recusei-me a reconhecer que ele era, realmente, mais do que uma fera. Nesse aspecto,
fui ainda mais egoísta do que sua mãe, que não conseguia ver além dos próprios erros sempre que o contemplava... Errei ao não permitir que Asterius tivesse uma companheira,
ao acreditar que uma criatura como ele não precisava de mais nada além do dever de existir. Se suas necessidades o levaram a escolher com imprudência quando Sevillana
o tentou, a culpa foi minha. Foi a raiva que senti de mim mesma que me fez bani-lo e enfeitiçá-lo. Infelizmente, compreendi isso tarde demais. Tudo o que pude fazer
foi esperar que nascesse a mortal certa para ele... Alguém que pudesse enxergar a verdade e ter a coragem de agir sobre esta.
— Então vai me deixar amá-lo, mesmo que apenas até o Beltane?
— Não.
Mikki congelou.
— Por favor, Hécate! Eu o amo tanto! Deixe-me fazê-lo feliz, mesmo que por pouco tempo!
— As rosas desabrocharam, Mikado.
Confusa com a súbita mudança de assunto, Mikki murmurou:
— Que bom... Então eu fiz o que precisava ser feito.
— Você se sacrificou por livre espontânea vontade, cumprindo o juramento de amor e confiança com o qual estava vinculada a mim.
— Sim, Hécate.
— Pois isso nunca aconteceu antes no Reino das Rosas. Claro que várias gerações de Empousas deram seu sangue para alimentar o reino, mas o fizeram porque tinham
de fazer; porque essa era a trama de sorte e destino que fora tecida para elas. Mas você, Mikado Empousai, uma mortal vinda de uma terra quase totalmente desprovida
de magia, sacrificou-se de bom grado para salvar algo tão nebuloso como os sonhos da humanidade. Também viu o homem dentro da fera e permitiu-se amá-lo, rompendo
o feitiço de solidão e isolamento que o cercava.
— Eu fiz apenas o que meus instintos me diziam para fazer. Adorei seu reino, Hécate. Ele era minha casa, e valeu a pena morrer para protegê-lo, assim como a todos
que o habitavam — Mikki afirmou, surpresa com os elogios da Deusa. — E não foi difícil amar Asterius... — Ela sorriu e encolheu os ombros, tímida. — Não há sempre
algo de animal dentro dos homens? É o que os faz tão deliciosamente diferentes de nós. — Respirou fundo. — Não pode, por favor, deixar que eu volte para ele? Eu
lhe dou minha palavra de que me sacrificarei na noite do Beltane.
— O que você fez mudou o Reino das Rosas, Empousa. Seu sacrifício foi puro e imaculado pelos laços do dever, da força ou do medo. Nunca mais será necessário outro
sacrifício no Beltane. Seu sangue garantiu isso.
Quando Mikki começou a falar, Hécate levantou a mão para silenciá-la.
— Mas voltar não será assim, tão fácil. Você também mudou por conta de seu ato. Se permanecer no mundo comum, terá uma vida normal. Mas se retornar ao Reino das
Rosas, seu sangue o unirá a este irrevogavelmente, o que significa que seria uma imortal reinando pela eternidade como mais do que minha Empousa: você se tornaria
a Deusa das Rosas.
Mikki ouviu as palavras de Hécate, mas estas quase se perderam em meio à vertigem e à descrença que inundou seus pensamentos. Hécate estava dizendo que ela poderia
não morrer nunca? Que poderia tornar-se uma deusa?
— Entretanto, deve saber que o caminho de uma divindade nem sempre é fácil de ser traçado, Mikado. A eternidade é uma companheira às vezes assustadora, às vezes
gloriosa, e às vezes melancólica e irritante como uma criança mimada. Por isso pense com cuidado, Empousa. Eu lhe darei o poder da escolha, porém essa escolha é
irrevogável. Poderá ficar aqui, no mundo comum, e viver sua vida mortal até o final. Se for assim, eu não a abandonarei e darei-lhe as boas-vindas aos Campos Elísios,
assim como fiz com sua mãe e sua avó.
— Mas, Asterius... — Mikki começou.
— Porque me arrependo dos erros que cometi, concederei a ele uma bênção. Se assim ele quiser, eu o presentearei com o corpo de um mortal. — A deusa sorriu, os olhos
brilhando maliciosamente. — Posso presentear Asterius com o corpo de um homem de verdade e você, minha Empousa favorita, com a promessa de que a nova forma dele
será mais agradável de se olhar do que a de Adonis... O problema é que é impossível, até mesmo para os meus poderes, fazer isso no Reino das Rosas. Terei que trazê-lo
até aqui, para viver uma vida mortal a seu lado. Terão filhos, envelhecerão juntos e encontrarão consolo nos braços um do outro no momento em que suas vidas chegarem
ao fim.
— Ou, então, poderei voltar? — Mikki indagou, quando pareceu que Hécate não iria prosseguir.
— Sim. Poderá retornar como a Deusa das Rosas, e eu renunciarei ao reino dos sonhos em seu nome. Mas lembre-se... Naquele reino eu não poderei mudar a forma de Asterius.
Ele permanecerá eternamente como uma fera, porém com o coração e a alma de um homem. Faça sua escolha, Mikado.
Mikki começou a considerar e, em seguida, percebeu que não precisava escolher. Sabia o que queria.
— Escolho o Reino das Rosas e minha fera. Não desejo viver em nenhum outro lugar, e jamais lhe pediria para mudar Asterius. Eu o amo da maneira como ele é, não como
os outros gostariam que ele fosse.
O sorriso de Hécate foi radiante.
— Vamos voltar a seu reino.
Capítulo 37
A floresta não havia mudado. Continuava escura e assustadora, principalmente agora que Mikki sabia o que escondia-se nela.
Claro que agora ela era também uma deusa, portanto, os Ladrões de Sonhos teriam que modificar suas estratégias se pretendiam fazê-la cair em outra armadilha.
E eles fariam isso; Hécate já lhe advertira a respeito. Ela se tornara imortal, contudo isso não significava que não era mais falível e passível de ser manipulada
por emoções obscuras. A própria Hécate era prova disso.
Mikki estremeceu e puxou a palla roxa sobre os ombros com mais força. Seria cuidadosa.
Estranho que não se sentisse diferente. Ou ao menos não tão diferente.
Sentira a reação das rosas ao retornar. De verdade. Embora tivesse sido até constrangedor, estas tinham se alegrado quando ela adentrara o reino.
Sorriu. Sabia, agora, que elas possuíam emoções, assim como pequenos e brilhantes espíritos... Porém não se sentia menos ridícula quanto a todos aqueles anos em
que conversara com seus arbustos.
Era uma sensação maravilhosa e muito estranha, à qual ela teria que se acostumar.
As servas ficariam exultantes em vê-la, pensou, ansiosa por surpreendê-las na manhã seguinte.
Mas não naquela noite. Naquela noite, havia apenas uma pessoa que queria ver... apenas um lugar em que gostaria de estar. Nos braços de Asterius.
Ele encontrava-se ali perto, reunindo as tramas da realidade para as Tecedoras de Sonhos. Podia ter esperado por ele em sua casa, poderia tê-lo invocado de seu quarto,
no palácio...
Mas não quisera fazer nada disso. Quisera vir até ele, pois amava aquela alegria inocente que Asterius demonstrava a cada vez que ela se aproximava dele.
E queria que ele soubesse que ela continuaria a vir para ele por toda a eternidade.
Uma luz cintilou na escuridão, atraindo-a para a direita. Mikki a seguiu, e a luz revelou ser uma tocha. Segurando o fôlego, ela prosseguiu lenta e silenciosamente
em sua direção.
Ele estava de pé, de costas para ela, passando as mãos pelos galhos de uma antiga árvore. Fios cintilantes surgiam em seus dedos, e ele os puxava, juntando-os em
um monte mágico e luminoso no solo da floresta.
Mikki aproximou-se e parou quando ele soltou um gemido baixo. Asterius ficou de lado para ela em um movimento tenso e súbito, como se a trama que ele havia acabado
de puxar houvesse lhe causado dor.
Ele não a deixou cair, entretanto. Ao contrário, olhou para o fio com uma expressão angustiada de desespero e saudade.
Mikki estreitou os olhos e foi então que enxergou a si mesma na trama. Nesta, encontrava-se visivelmente grávida, o que foi um choque a princípio.
O choque transformou-se em pura alegria, contudo, no momento em que Asterius fez-se ver na cena, tomando-a nos braços. Beijava-a para depois cair de joelhos e pousar
os lábios em sua barriga dilatada. Na visão de sonho, Mikki viu-se sorrindo, satisfeita e estendendo a mão para acariciar um dos chifres escuros de seu amado, assim
como tinha feito havia muito tempo.
Com um grito angustiado, Asterius arremessou o fio para longe dele.
— Por que me atormenta? — rugiu, inconformado.
Mikki saiu das sombras.
— Ficou atormentado ao me ver grávida? Eu devia ser a única a ficar preocupada com isso. Ter um par de chifrinhos e pequenos cascos pisoteando meu útero é um pouco
assustador...
Asterius não se moveu. Apenas voltou o olhar para Mikki.
Seus olhos faiscaram, cheios de ódio.
— Vá embora, alma do além! Não me deixarei enganar por suas mentiras! — Ele começou a mover-se em sua direção, rosnando, ameaçador, e expondo as garras mortais.
— Asterius, sou eu! Eu só queria fazer uma surpresa...
Os olhos castanhos pareceram ainda mais escuros.
— Eu disse para ir embora, pesadelo! — ele urrou, avultando-se sobre ela.
Mikki gritou e recuou um passo, dizendo a primeira coisa que lhe veio à mente:
— Mas, na primeira noite em que nos encontramos, você colocou uma rosa no meu vinho!
Asterius estacou como se fosse trombar numa parede.
— Mikado? — indagou, incrédulo.
— Era o que eu estava tentando lhe dizer!
Mikki suspirou quando ele continuou paralisado.
— Depois das tantas vezes em que me rejeitou, é de admirar que tenhamos ficado juntos, sabia?
— Mikado! — Asterius lançou-se para a frente e a tomou nos braços. Seu corpo poderoso tremia, e ele não parecia capaz de fazer mais do que abraçá-la e repetir seu
nome seguidas vezes.
Ela o abraçou de volta, tocando-o e murmurando palavras carinhosas, até que a agitação de Asterius diminuiu e ele foi capaz de soltá-la um pouco mais.
Mikki olhou para o rosto bonito e terrível, agora banhado pelas lágrimas.
— Como isso aconteceu? Como pode estar aqui? — ele perguntou, atordoado.
— Hécate me deu uma escolha.
— Mas seu sangue... o reino está seguro agora. Eternamente. A deusa afirmou que, após seu sacrifício, não seria necessário derramar o sangue de mais nenhuma Empousa
para fazê-lo prosperar.
— Eu sei. Fui eu quem escolheu essa eternidade... para poder passá-la a seu lado.
A princípio, o olhar de Asterius continuou vazio. Então, a compreensão fez-se presente em seu rosto.
— Nunca mais vamos ficar separados?
— Nunca mais.
— Quer dizer que as tramas não estavam me atormentando! Elas estavam mostrando que... — Ele parou, incapaz de falar em meio à onda de emoções que o invadiu.
— Elas estavam mostrando que seremos felizes para todo o sempre. E, sim, meu amor, esse sonho em particular finalmente tornou-se realidade.
Devagar, Asterius segurou-lhe o rosto entre as mãos enormes e inclinou-se para beijá-la. Mikki passou os braços ao redor dele e agarrou-se a seu futuro... sua eternidade.
Nas sombras, Hécate sorriu e acariciou a cabeça escura de um de seus gigantescos animais.
Este livro é dedicado a todas que se apaixonaram pela Fera e ficaram desapontadas quando esta se transformou em um belo príncipe.

1* Wolverine, em inglês, é o nome dado ao carcaju, animal que pertence à família dos mustelídeos. Também é conhecido pelo nome de glutão. (N.E.)

Capítulo 28
O poder da voz de Asterius fez as tochas oscilarem, porém Mikki não se retesou, tampouco pulou, surpresa. Devagar, ergueu os olhos do esboço.
E então sentiu um aperto na boca do estômago. Ele encontrava-se parado sob uma porta arredondada que levava a outra sala, mais para o fundo da caverna, e estava
quase nu. Não usava a cuirasse nem a túnica. Tudo o que tinha sobre a pele era uma espécie de toalha pequena, amarrada ao redor dos quadris.
Mikki umedeceu os lábios e lembrou que, se não falasse, Asterius chegaria à conclusão de que o medo a paralisara.
— Você não iria até mim, por isso aqui estou.
Pôde ver a raiva em sua expressão abrandar. Sorriu, e ele ficou sem palavras.
Tentando ignorar sua quase nudez, ela acenou com um gesto de cabeça na direção das paredes da caverna.
— Essas pinturas são lindas. São de Creta?
— Sim.
— Você é muito talentoso. Só de olhar para elas já fiquei com vontade de passar férias no Mediterrâneo. — Antes que ele pudesse formular uma resposta, apontou para
o desenho dela mesma. — E isto é muito lisonjeiro. Eu nem sabia que estava lá naquela noite.
— Não tive a intenção de adular ninguém.
— Eu não quis dizer isso! Quis dizer apenas que me fez ficar bonita, poderosa... e isso é muito lisonjeiro.
— É como eu a vejo.
— Verdade?
— Eu nunca mentiria para você.
— Dizem que evasão e omissão também são mentiras — ela contrapôs sem preâmbulos.
— Se a deusa manda que eu faça ou diga alguma coisa, devo obedecê-la, Mikado. Fiz um juramento a Hécate.
— Está bem, eu compreendo... Sinto muito. Essa situação, em que não conheço todos os fatos, é extremamente frustrante para mim.
— Se eu pudesse responder a todas às suas perguntas, juro que eu o faria — ele reiterou.
— Imagino que sim. — Mikki deu um suspiro e olhou ao redor da caverna. — Que tal me mostrar seu covil? Este lugar é incrível.
Asterius não se moveu do batente da porta.
— Foi por isso que veio aqui, Mikado? Para que eu lhe mostrasse meu covil?
— Não. Eu vim porque queria vê-lo.
— Por quê?
— Porque você não foi me ver hoje. Senti sua falta, ainda mais depois que lancei um feitiço que permite que os homens venham para o reino.
— Eu não sou um...
— Ei, chega! Já não conversamos sobre isso ontem? Eu sei que não é um “homem”, mas, homem ou não, quando eu estava lançando o feitiço, foi em você que eu pensei
— ela confessou.
Asterius desviou o olhar e Mikki pôde ver a tensão em sua mandíbula, a forma como ele cerrava os punhos.
— Eu sei. — Sua voz soou tensa. — Senti a mágica e sabia que estava pensando em mim... Mas queria que não tivesse pensado.
— Por quê?!
— Porque não posso suportar isso! — ele falou, por fim, as palavras saindo por entre os dentes.
— Eu não fiquei com medo ontem à noite — Mikki declarou depressa.
— Eu vi o medo e o ódio em seus olhos, Mikado, embora não a culpe. Eu só queria tomá-la nos braços, beijá-la, e não pude nem mesmo fazer algo tão simples sem me
tornar uma fera!
— Não queria fazer mais nada além de me beijar? — ela indagou com um sorriso sedutor.
Os olhos de Asterius se estreitaram.
— Se eu lhe mostrar a minha casa, vai me deixar em paz, Empousa?
— Provavelmente não.
— Pensei que não fosse mesquinha, mas vejo que estava enganado — ele redarguiu, ríspido.
— Não sou mesquinha! Estou apenas me explicando mal. Estou nervosa e não consigo colocar o que sinto em palavras. — Mikki queria se mover ou andar, mas obrigou-se
a ficar quieta e fitá-lo nos olhos. — Não me machucou ontem à noite, e eu não estava com medo. Eu quis você; ainda mais quando as coisas ficaram intensas entre nós.
Gostei de tudo, Asterius. De seu poder, dessa força em seu corpo que mal consegue conter... Tem mais paixão do que eu já vi em toda minha vida. Até eu conhecer você,
os homens não passavam de uns inconsequentes para mim. E agora acho que sei por quê. Eles sempre me pareceram fracos, principalmente se eu os comparava às mulheres
que me criaram. Asterius, eu preciso de alguém que seja mais do que um homem. Na noite passada, quando me dei conta disso, essa verdade me assustou. Meu medo se
baseava em tudo o que ouvi das pessoas a vida toda; pessoas do mundo comum que ficariam chocadas com o que eu sinto por você...
Ele não falou por muito tempo. Ficou apenas olhando para ela, como se tentando entender algo muito importante que estava sendo dito em uma língua que ele mal compreendia.
— Ainda gostaria de ver o restante da minha caverna? — indagou finalmente.
— Claro que sim.
Asterius se pôs de lado.
— Este é meu quarto. — Gesticulou para que ela o precedesse.
Mikki atravessou a porta em arco e entrou no cômodo, sentindo que ele a seguia. Seu corpo inteiro parecia em sintonia com sua presença, como se ele fosse uma cobra
e ela estivesse tentando encantá-lo.
Então a beleza do aposento se fez ver. Era menor do que a sala principal e também possuía tochas que não soltavam nenhuma fumaça. Só que ali não havia tantas delas,
o que deixava o quarto quase na penumbra. O chão era coberto com grossas peles de animais, no meio das quais via-se uma enorme cama coberta com mais peles.
Ele dorme aqui...
O pensamento fez uma onda de calor percorrer o corpo de Mikki e ela desviou o olhar para as paredes.
E ficou surpresa mais uma vez. As paredes ali eram todas preenchidas com cenas de um jardim repleto de infinitas fileiras de magníficas roseiras em flor. Cada nível
do vergel continha uma fonte de água e na camada central via-se uma estát...
— É o Roseiral de Tulsa! — exclamou, ofegante. — Como pode ter tido tempo para pintar essa cena depois que voltou? — Aproximou-se da parede lisa e a tocou com cuidado.
Estava completamente seca. — Há tanta coisa aqui... Deve ter levado meses, ou até mesmo anos, para terminá-la!
— É verdade.
Mikki fitou-o por cima do ombro, sem ter certeza de que tinha ouvido bem.
— Como é possível, Asterius?
— Pintei esse cenário com base em imagens que via em meus sonhos.
Ela deslizou a mão pela parede com carinho.
— É perfeito. Conseguiu captar cada detalhe.
— A pintura a faz sentir falta da sua casa?
Mikki pôde senti-lo se aproximar, mas não se virou, temendo que ele se afastasse.
— Não. O Reino das Rosas é minha casa agora. Não quero estar em nenhum outro lugar a não ser a seu lado.
— Eu não via a hora de revê-la, Mikado...
— E eu não conseguia parar de pensar em você! — Mikki sentiu a mão tremer e a deixou cair. Asterius estava tão perto que podia sentir o calor de seu corpo.
Mãos quentes pousaram em seus ombros, e ele falou em seu ouvido.
— Quando lançou o feitiço, abrindo o reino para os homens, escutei você me chamando, pedindo... — ele rosnou baixo e sua voz poderosa vibrou nas profundezas da alma
de Mikki. — Pensei que fosse enlouquecer!
— Então não fique longe de mim! Não quero que fique longe de mim — ela repetiu sem fôlego, e recostou-se nele, sentindo sua ereção contra as nádegas. Os lábios quentes
de Asterius roçaram a lateral de seu pescoço em meio a pequenos beijos, os dentes afiados arranhando sua pele de leve. Quando as mãos dele deixaram seus ombros para
cobrir-lhe os seios, Mikki arqueou o corpo e ergueu os braços de modo a puxá-lo mais para si pela cabeça.
E, assim como em seu antigo sonho, sentiu os chifres em meio à massa espessa de cabelos, ao mesmo tempo que seus dentes encontravam o vale entre seu pescoço e ombro,
mordendo-a de leve.
Mikki gemeu e pressionou o corpo com mais firmeza contra o dele.
De repente, Asterius congelou.
— Não, não pare! — ela implorou, aflita.
— Ela... ela sumiu! — ele exclamou, estremecendo.
Preocupada, Mikki virou-se em seus braços. Asterius a fitava com uma expressão que era um misto de alegria e choque.
— O que foi? O que aconteceu?
Ele tomou-lhe o rosto entre as mãos.
— Você me ama! — Sua voz profunda soou embargada, e lágrimas escorreram silenciosamente pelo rosto moreno.
— Claro que amo! — Mikki sorriu. — Mas o que sumiu?
Asterius fechou os olhos, tentando dominar as emoções.
— O feitiço, Mikado. E a última barreira entre nós. Não importa o que as Parcas tenham-me destinado... Eu vou amar você até o fim dos tempos! — Ele inclinou-se e
a beijou com paixão.
Mergulhando a mão em seus cabelos, ela o puxou com ímpeto contra a boca, e o rugido de Asterius vibrou em seus sentidos já despertos como uma carícia.
Ele ergueu a cabeça e abriu os olhos escuros e cheios de desejo, a pele morena coberta de suor. Mikki deslizou as mãos pelo corpo másculo, desde os ombros fortes,
passando pelo peito largo até os músculos bem definidos do abdômen, sentindo-os estremecer sob seu toque.
Asterius tirou as mãos de seu rosto e as colocou contra a parede, a cada lado dela, de maneira que agora Mikki encontrava-se presa em meio a seus braços.
— Não se mexa! Deixe-me tocá-lo — ela pediu com voz rouca.
— Não sei por quanto tempo poderei manter minhas mãos longe de você! — O peito dele arfava e a paixão tornara-lhe a voz ainda mais densa.
— Não vai demorar muito. — Mikki acariciou-o no rosto e traçou a linha de seus lábios com o polegar. — Primeiro quero vê-lo... por inteiro.
Viu a dúvida escurecer os olhos castanhos, porém Asterius aquiesceu devagar. Então suas mãos deslizaram pelo corpo forte outra vez, rumando com segurança para a
toalha que ele tinha enrolada em torno da cintura. Puxou-a, e esta soltou-se com facilidade.
Mikki olhou o corpo nu à sua frente por um momento.
— A esposa de seu pai quis amaldiçoá-lo e acabou criando um ser de incrível beleza — sussurrou, ofegante. — Você não é uma abominação, Asterius, você é um milagre!
Ele era uma mistura tão perfeita de homem e animal que era difícil dizer onde terminava o ser humano e começava a fera. Sua cintura estreita dava continuidade a
quadris e coxas musculosos, cobertos com pelos lisos e escuros. Daí para baixo, embora seus contornos continuassem fortes e bem definidos, Asterius era menos musculoso
do que aparentava quando encontrava-se vestido.
Hipnotizada, Mikki acariciou o ponto onde o corpo do homem dava lugar ao do bicho. Asterius abaixou a cabeça e rosnou baixinho, e ela o fitou, atenta. Ele fechara
bem os olhos e respirava pesadamente, em um esforço para controlar a criatura que tinha por dentro.
Mikki respirou fundo, sentindo uma onda quente de prazer invadi-la enquanto observava a fera que tentava se conter. Seus olhos moveram-se mais para baixo. Asterius
possuía as mesmas formas de um homem e encontrava-se totalmente ereto. A pele que lhe encobria o membro era da mesma cor de bronze do peito largo.
Ela o tomou nas mãos, afagando com uma, apertando com a outra, e, quando o fez, os olhos dele se abriram, alarmados.
— Não precisa manter a fera acorrentada o tempo todo, Asterius! — ela sussurrou, sem parar de acariciá-lo, e inclinou-se para a frente, circulando seu mamilo com
a língua. — Solte-a, meu amor! Eu não tenho medo dela... — afirmou, mordendo o mamilo endurecido.
O rosnado de Asterius ecoou, ensurdecedor, pela caverna. Ele a ergueu nos braços, os cascos batendo com força contra o chão coberto de peles conforme caminhava até
o catre. Colocou-a sobre este, mas, antes que pudesse cobri-la com o próprio corpo, Mikki se pôs em pé, fazendo-o se retesar mais uma vez. Ela leu a dor em sua expressão,
certa do que ele estava pensando.
— Tem que parar de achar que tenho medo de você, Asterius, porque eu não tenho. Não me levantei para fugir. Achei apenas que gostaria de ver isto... — Começou a
soltar o broche de prata em forma de rosa que segurava-lhe a túnica sobre o ombro direito, porém suas mãos tremiam tanto que não conseguiu.
Frustrada, ela o fitou. Em seguida, sua expressão mudou para um sorriso sedutor.
— Faria algo por mim?
— Qualquer coisa! — ele respondeu, ofegante.
— Então solte as garras e me ajude com isto.
Com os movimentos graciosos de um felino, ele estendeu as lâminas lentamente e, com facilidade, cortou o tecido.
Mikki encolheu os ombros, e o quitão caiu a seus pés.
Os olhos de Asterius ficaram ainda mais escuros. Com o peito arfando, ele ergueu a mão para tocar os seios redondos, mas as puxou de volta ao se lembrar das garras
ainda estendidas.
Ela agarrou-lhe um pulso.
— Não seria capaz de produzir arte de tanta qualidade se não tivesse controle sobre estas lâminas... Use-as para me tocar, Asterius. Deixe que eu sinta seu poder
na minha pele! — E, sem pensar duas vezes, apertou a mão dele contra um seio.
Hesitante, Asterius deixou as pontas afiadas tocarem com suavidade a pele alva e macia, até que sua mão desceu do peito para o ventre reto, escorregando, devagar,
bem devagar, para o centro quente e úmido.
Mikki prendeu a respiração e estremeceu.
— Não pare! — pediu com um gemido.
Ele não tirou os olhos do rosto delicado enquanto suas garras percorriam as coxas roliças e, depois, as curvas voluptuosas das nádegas.
— Vire-se... Quero vê-la de costas — ordenou, a voz profunda saindo ainda mais densa com o desejo.
Ela obedeceu.
E sentiu os lábios de Asterius substituir as lâminas quando ele beijou as marcas rosadas que havia deixado nela antes.
— Pensei que a tivesse cortado inteira! — ele murmurou, a respiração aquecendo-a por inteiro.
— Claro que não... Foram apenas arranhões.
A boca de Asterius moveu-se para o final de sua espinha, a língua quente provando-a sem meandros.
— Pensei que nunca mais fosse tocá-la de novo!
Mikki virou-se e o segurou pelo pescoço, permitindo que ele tomasse seus mamilos com a boca.
— Nunca pare de me tocar! — pediu. E, deitando-se na cama, puxou-o com ela.
Asterius ajoelhou-se a seu lado. Recolhendo as garras, tocou-a no rosto com delicadeza.
— Eu não conseguiria parar agora, nem mesmo se Hécate aparecesse e me ordenasse isso!
— Sshh... — Ela pressionou seus lábios com um dedo. — Não quero pensar em nada a não ser em você. — Lentamente, levantou mais a mão, seguindo a linha suave de um
chifre escuro. — Você é incrível. Acho que nunca vou me cansar de acariciá-lo.
— É um presente raro e inesperado para mim, Mikado. — A voz de Asterius tremeu com a profundidade de suas emoções. — Eu nunca conheci o amor. Nunca, em todas as
eras da minha existência, uma mulher me tocou, aceitou e amou como você. — Ele teve que fazer uma pausa antes de continuar. — Vou amá-la enquanto respirar. E além,
se as Parcas e a deusa permitirem!
— Então venha para mim, Asterius! Mostre-me o poder de seu amor! — ela implorou.
Ele a adorou com a boca e com as mãos, e bebeu dela como se nunca fosse se fartar. Explorou-a e, com os sentidos sobre-humanos de um animal, leu cada sinal e mudança
em seu corpo, aprendendo o que mais lhe trazia prazer.
Quando pensou que não poderia viver algo mais doce do que observar a paixão que havia provocado nela, Mikki pressionou-o contra o catre e deu início à sua própria
exploração. Quando sua língua e boca o provocaram por inteiro, e ela sussurrou que seu membro rijo era magnífico, demonstrando o quanto o desejava, Asterius pensou
que fosse morrer de prazer.
— Preciso sentir você dentro de mim!
Mikki se abriu, e ele estremeceu no esforço para se controlar enquanto ela o envolvia com as pernas e se encaixava em seu corpo. Sentiu o sangue arder nas veias
e um rugido escapou de sua garganta. O animal dentro dele queria investir violentamente contra ela, afundar o membro endurecido em seu calor úmido... Porém ele cerrou
os dentes, deslizando com cuidado para dentro e para fora de Mikki, tentando concentrar-se nos sons suaves de puro prazer que ela soltava em meio ao turbilhão que
assolava-lhe o corpo e a alma.
E então percebeu que ela ia de encontro a suas estocadas suaves com uma ferocidade que refletia-se em seus olhos verdes.
Quando inclinou-se para beijá-la, Mikki mordeu-o no lábio com força.
Ele rosnou, e ela sorriu.
— Solte o animal que existe em você, Asterius! É ele quem eu quero agora! — pediu com uma voz rouca e sensual.
As palavras acenderam tal chama dentro dele, que Asterius temeu que ambos fossem consumidos por ela. Incapaz de lutar contra a força combinada do desejo e do poder
da fera, virou-se no catre e, agarrando-a pelas nádegas, ergueu-a de encontro a ele, afundando nela seguidas vezes.
Mikado não fugiu dele, pelo contrário. Respondeu a sua paixão com a força e a determinação de uma deusa.
O animal e a sacerdotisa arderam juntos, até que, finalmente, o ser humano dentro dele não pôde mais se conter e derramou dentro dela toda uma vida de desejos, ao
mesmo tempo que fera e homem rugiam seu nome em uníssono.
Capítulo 29
Asterius não conseguia parar de olhar para Mikado. Ela dormia nua, o corpo pressionado contra o dele. Tinha um braço apoiando a cabeça, uma perna longa e macia sobre
a sua, e a mão jogada sobre seu peito, indolente.
Respirou fundo, permitindo que seu perfume lhe invadisse os sentidos. Nunca havia imaginado aquilo. Mesmo quando tivera esperanças de que a outra Empousa pudesse
gostar dele, que pudesse amá-lo, pensara apenas no toque de suas mãos suaves.
Apenas em sonho permitira-se imaginar fazendo amor com uma mortal... Mas nenhum deles tornara-se realidade.
Até aquele momento. Até Mikado.
Quando ele a tocara e percebera que a dor causada pelo feitiço de Hécate tinha sumido — e o que aquilo significava —, Mikado transformara seus sonhos em realidade
e, ao fazê-lo, também curara a ferida da solidão que o afligia havia séculos.
Pelos deuses, o que ele iria fazer? Ela o salvara... Como ele poderia lhe fazer algum mal agora?
Mas se ele não a sacrificasse, o Reino das Rosas iria perecer.
Talvez não acontecesse imediatamente. Hécate poderia descobrir outra Empousa, porém um dano irreversível já teria sido feito. A traição de uma Sacerdotisa já fizera
um reino que jamais conhecera pragas, pestes ou doenças de qualquer espécie adoecer. Aquele tipo de coisa nunca existira no reino de sonhos e magia de Hécate.
Mas a traição e o abandono haviam provocado o enfraquecimento da muralha e, ele tinha certeza, apenas a rápida atuação de Mikado impedira um desastre.
Por isso precisava escolher entre destruir seu próprio sonho ou a destruição dos sonhos da humanidade.
Na verdade, não possuía alternativa. Apenas um animal poderia optar por si mesmo em detrimento da humanidade.
Asterius sentiu a agonia pelo que deveria fazer pressioná-lo como uma lança flamejante em suas entranhas.
— Está me olhando — Mikki disse baixinho e, sonolenta, abriu os olhos e sorriu para ele. — Não consegue dormir?
— Prefiro olhar para você. — Ele afastou-lhe uma mecha espessa de cabelo do rosto.
— Eu devia ter adivinhado que era um romântico quando colocou aquela rosa no meu vinho...
— Isso não é ser romântico, é ser civilizado. — Ele temperou a voz grave com um leve sorriso e acariciou a curva graciosa de seu pescoço e ombro, sorrindo ao vê-la
suspirar, feliz, e esticar-se como um gato.
— Não estrague minha alegria... Prefiro pensar que é romântico.
— Então vou chamar de romance, também, só por sua causa. — Hesitante, porém com uma doçura e inocência totalmente em desacordo com a aparente ferocidade de seu corpo,
Asterius inclinou-se e beijou-a nos lábios. — Quando veio até mim, hoje, ofereceu-me mais do que seu corpo e seu amor, Mikado. Ofereceu-me aceitação: uma alegria
que eu nunca imaginei que fosse conhecer.
Ela entrelaçou os dedos com os dele.
— Isso é algo que você e eu temos em comum. Eu sempre me senti como se não pertencesse ao meu antigo mundo. — Respirou fundo e tomou uma decisão. Queria que Asterius
soubesse. Precisava que ele soubesse. — Hécate me explicou parte da razão pela qual eu me sentia tão deslocada. Era porque eu já estava destinada a ser sua Empousa
neste mundo. Sempre carreguei o sangue de uma Alta Sacerdotisa nas veias. Mas há outra razão... Por isso nunca deixei ninguém, muito menos um homem, aproximar-se
de mim. Tem a ver com meu sangue também. — Ela estudou os olhos escuros, querendo que ele compreendesse. — As mulheres da minha família estão intrinsicamente ligadas
às rosas. Se regarmos as flores com água misturada ao nosso sangue, estas se desenvolvem além do normal. No mundo comum, o que eu fazia era inédito. Exceto pelas
mulheres da minha família, ninguém mais conseguia entender. Isso me fazia sentir como se eu fosse uma aberração e, por isso, eu escondia meu segredo. — Preocupada
ao ver como Asterius ficara imóvel e pálido, Mikki sentiu-se retesar. — Diga alguma coisa... Eu nunca contei isso a ninguém.
Quando ele permaneceu em silêncio, ela começou a se afastar, mas, com um rosnado baixo, Asterius puxou-a com determinação de volta para a proteção de seus braços.
— Você não se sentia aceita lá porque era seu destino ser Empousa de Hécate e vir até aqui para salvar as suas rosas e seu Guardião solitário. O sangue que corre
em suas veias é a vida deste reino, Mikado. É seu amor que nos sustenta. — Ele fechou os olhos e afundou o rosto nos cabelos vermelhos, tentando não tremer, tentando
não pensar.
Mikki relaxou e aninhou-se mais junto a ele.
— Isso ainda me espanta. Se as coisas não tivessem acontecido numa sequência perfeita, eu não estaria aqui. — Recostou-se em seus braços de modo a fitá-lo e, mais
uma vez, perguntou-se o porquê de Asterius ainda estar tão pálido. — Foi meu sangue que o despertou, sabia?
— Não. — A voz dele soou ainda mais grave. — Eu só sabia que havia me despertado, que podia sentir seu cheiro e que você era a Empousa de Hécate.
— Na verdade, esse é um dos aspectos mais estranhos do que aconteceu. Naquele mesmo dia, em Tulsa, uma senhora que eu mal conhecia havia me dado um pouco de perfume
e, num impulso, eu o usei. Por mais estranho que pareça, é o mesmo perfume que estou usando agora. Gii o chama de “o óleo sagrado da Empousa”.
Asterius franziu o cenho.
— Como é possível?
Mikki deu de ombros e tornou a se aconchegar junto a ele.
— Eu não faço ideia, mas ela era muito excêntrica. E linda, mesmo sendo velha. Tinha os olhos azuis mais incríveis que já vi. Era estrangeira, porém eu não consegui
discernir muito bem seu sotaque. Ela disse que tinha conseguido esse perfume... — Mikki parou para pensar — ... em algum lugar da Grécia, se não me engano. O que
me lembro com certeza é de seu nome porque, assim como eu, ela também tem nome de rosa: Sevillana.
Mikki sentiu o choque que atravessou o corpo de Asterius, e ergueu-se sobre um cotovelo, vendo a expressão indecifrável no rosto moreno e agora pálido.
— O que foi? Alguma coisa errada?
— É que... nada. Não foi nada. Só estou surpreso por uma mulher do mundo comum ter obtido o óleo sagrado da Sacerdotisa de Hécate. É um mistério. — Asterius passou
os braços a seu redor. — Deite-se aqui comigo... Deixe-me sentir seu corpo tocando o meu.
Mikado descansou no peito largo.
A mente de Asterius girava num turbilhão enquanto ele acariciava a linha suave de suas costas. Sevillana... Apenas o nome tinha enviado ondas de choque por todo
seu corpo. Era ela!
Ele, também, jamais iria se esquecer da beleza fria de seus olhos azuis e penetrantes, muito menos de seu nome. A última Empousa continuava viva no mundo comum.
Como era possível? O tempo passava de forma diferente por lá, ele sabia. Mas ao menos dois séculos, pela contagem daquele mundo, deviam ter se passado. Talvez a
antiga Empousa houvesse atravessado a encruzilhada com mais do que apenas um frasco de óleo para unção. Talvez tivesse conseguido roubar alguma magia do reino.
A enormidade daquela revelação infiltrou-se em seu estado de choque. Sevillana estava viva! Na primavera, quando uma Empousa precisasse ser sacrificada pelo reino,
Sevillana, e não Mikado, deveria morrer! Tudo o que ele precisava fazer era descobrir uma maneira de trazer a Sacerdotisa ausente para o Reino das Rosas!
Tinha que ser possível. Sevillana havia escapado, portanto certamente poderia retornar.
Asterius segurou Mikado com mais força, e essa foi sua resposta. Ele não a sacrificaria. Apenas a trocaria pela antiga Alta Sacerdotisa e devolveria Mikado com segurança
para sua casa no mundo comum.
Ficaria sem ela, sentiria sua falta por toda a eternidade, sem dúvida... Entretanto, poderia suportar isso. O que não poderia suportar era saber que ela teria de
morrer por suas mãos. Se Mikado partisse, perderia seu amor. Se ele a sacrificasse, perderia a própria alma...
Pois ele não sacrificaria seu amor, tampouco iria perder a própria alma. Tinha uma alternativa, e também os poderes do filho de um Titã. Transformaria aquele imenso
cúmulo de magia para alcançar seu objetivo.
Mas não naquele momento. Não naquele dia.
Naquela noite, ele iria se deleitar com o milagre do amor de Mikado, e não pensaria mais sobre o vazio infinito das madrugadas que estavam por vir.
Mikki encostou-se à entrada discreta para a caverna e olhou a manhã nublada enquanto mastigava um pedaço de pão. Asterius veio por trás dela, e a fez inclinar-se
de encontro a ele.
— Chuva! — disse, surpreso. — Não costuma chover por aqui.
— Fui eu que fiz isso. Ordenei ao elemento Água que a trouxesse quando lancei o feitiço de saúde e proteção ontem. Em todas as manhãs haverá chuva por algum tempo.
É bom para as rosas e é bom para o reino também. Manhãs chuvosas são repousantes; um momento perfeito para dormir e fazer rejuvenescer a alma. — Ela se virou em
seus braços. — Infelizmente, eu não pensei em avisar as servas, ontem, que manhãs chuvosas equivaleriam a tirar uma folga... Imagino que os Quatro Elementos estejam
se perguntando por que eu ainda não as chamei para trabalhar. E como a noite passada foi a primeira, em muito tempo, em que os homens puderam ser convidados a vir
ao reino, aposto que estão cansadas e me esperando de mau humor... Preciso ir vê-las. O que vai fazer?
— A mesma coisa que faço todas as manhãs: inspecionar a muralha das rosas ao redor do reino para ter certeza de que tudo está seguro. Depois vou colher mais fios
para as Tecedoras de Sonhos. — Ele acariciou o rosto dela. — Só que, nesta manhã, cumprirei minhas funções com seu cheiro na minha pele... E com a lembrança do seu
sorriso, toque e gosto no meu coração. — Ele sorriu. — Dizem que a chuva é sombria e triste, mas, para mim, esta manhã parece brilhante e cheia de promessas.
— Um romântico incurável... Quem diria? — Mikki segurou-o pela cuirasse. — Beije-me, para que possamos arregaçar as mangas depois — ela ordenou, enquanto se perguntava
se algum dia ele iria perder aquele ar de felicidade que se estampava em seu rosto a cada vez que ela o surpreendia com um toque ou, como naquele momento, com um
beijo. Sinceramente, esperava que não. — Pode tirar uma folga para almoçar comigo?
Asterius beijou-a outra vez antes de responder.
— Claro que sim. Tudo o que precisa fazer é me chamar.
— E à noite?
— Peça, Empousa, e eu obedecerei — ele murmurou, os olhos escuros brilhando.
— Você diz isso agora. Vamos ver o que vai achar de obedecer a todas as minhas vontades daqui a um ano ou mais — Mikki disse brincando, enquanto levantava uma sobrancelha,
travessa.
Ficou surpresa ao ver a expressão dele mudar e seus olhos perderem todo o humor.
— Eu jamais me cansaria de você ou das suas vontades, Mikado. Nem se tivéssemos uma eternidade para compartilhar.
As palavras fizeram seu coração se comprimir. Como podia ter se esquecido de que Asterius era um imortal? Ela iria envelhecer, ele não. E, ao contrário dele, ela
morreria.
Não! Não pensaria naquilo. Não no alvorecer de seu amor. Eles mereciam algum tempo para que pudessem saborear a doce sensação de um sentimento novo e inebriante.
Nesse ponto não eram diferentes de qualquer outro casal. Ela não iria estragar aquela lua de mel com pensamentos terríveis sobre um futuro em que iria se arrastar,
encolhida, pelos jardins, inclinando-se sobre o braço sempre jovem e forte de Asterius...
Ele a deixaria, então? Será que ainda iria querer ficar com ela?
Pare com isso! Está fazendo exatamente o que prometeu não fazer!
Mikki fez brotar um sorriso nos lábios.
— Eu não estava falando a sério. Estava apenas brincando com você. Mas já que mencionou seu dever de obedecer a meus comandos... ordeno que venha me ver esta noite.
— Olhou por cima do ombro largo para a caverna acolhedora, tão impregnada da presença de Asterius como da requintada arte que ele criara. — Na verdade, acho que
prefiro vir para cá.
— Aliás, creio que não tenha conhecido bem meu lar, como me pediu ao chegar...
— Essa é uma das coisas que terá de fazer esta noite... Mas apenas uma delas.
A leve chuva mudou a aparência dos jardins, como se alguém os tivesse pintado com um pincel de aquarela e dado um toque impressionista à realidade.
Mikki decidiu que gostou do que via. Combinava com o restante daquele lugar de sonho.
Quis ir direto para o palácio e chamar os Quatro Elementos. As pobres meninas deviam estar bem aborrecidas com ela, principalmente se alguma delas tinha expulsado
alguém delicioso da cama...
Mas continuou vagando, perdida na magia que emanava das rosas.
Elas pareciam melhores naquela manhã. Mesmo quando ela rumou devagar em direção ao Sul, a náusea que revirava seu estômago sempre que ela perambulava pelos jardins
não veio. Viu até mesmo várias flores saudáveis, cor de lavanda, que reconheceu como rosas Angel Face em plena floração, onde no dia anterior havia apenas brotos
anêmicos.
Sorriu e, num acesso de orgulho, autodenominou-se “a Deusa das Rosas”.
E sonhou com Asterius.
Suspirou. Encontrava-se dolorida em lugares dos quais ela até se esquecera... Quase um ano se passara desde a última vez em que fizera sexo, mas nunca havia experimentado
nada como o amor que fizera com Asterius. Aquele corpo forte, aquela mistura de homem e animal fora tão intrigante, tão sedutora!
Mas o mais excitante tinha sido a liberdade que sentira com ele.
Sorriu. Com Asterius ela poderia soltar a fera que existia dentro dela quando estivessem juntos, sem temer que ele se afastasse. Asterius correspondia inteiramente
à sua paixão. E ele a conhecia, lia sua alma.
Asterius, Minotauro, Guardião... Ele também sabia o que era ser um marginal.
Pois bem, eles haviam encontrado um lar juntos enfim.
— A chuva foi uma ideia inteligente, Empousa.
Mikki pensou que fosse desfalecer ao som da voz de Hécate.
— Minha nossa, você quase me matou de susto! — exclamou.
Então lembrou-se de com quem estava falando, limpou a garganta e virou-se para encarar a deusa com o coração batendo dolorosamente no peito. Hécate encontrava-se
sentada em um banco de mármore, a poucos metros.
— Perdão, eu me assustei... — Fez uma reverência, como via as servas fazendo com tanta frequência. — Não devia ter falado dessa maneira.
Hécate fez um gesto de desdém com a mão.
— À minha Empousa são permitidas liberdades de que muitos nem precisam saber. — Ela apontou o espaço a seu lado. — Venha, sente-se aqui comigo.
Engolindo em seco, Mikki aproximou-se da divindade. Os cães gigantescos encontravam-se a postos ao lado dela, porém a ignoraram por completo.
Hécate vestia as cores da noite: preto, o mais profundo dos azuis e cinza. Manifestara-se como a linda mulher de meia-idade outra vez, e as gotículas de chuva cintilavam
como joias em seu cabelo negro.
— O feitiço para proteção e saúde que lançou ontem foi muito bem pensado. Concordo com seus instintos. A chuva refresca as rosas e o reino. Além disso, os pequenos
insetos que pediu à Terra foram uma surpresa encantadora... O elemento Ar adorou trazê-los para cá. — A deusa fez uma pausa e, em seguida, surpreendeu Mikki com
uma deliciosa risada. — Embora não se possa enxergar seu corpinho vermelho e preto em meio a essa névoa.
— Joaninhas alimentam-se de pulgões, e as rosas odeiam pulgões — lembrou Mikki, ainda surpresa com o declarado elogio da diva.
— As rosas estão desenvolvendo-se de novo, e isso me agrada.
— Obrigada, Hécate.
— Também foi bom ter instruído Fogo a iluminar a muralha das rosas, principalmente as do portal. Agora que os homens estarão indo e vindo outra vez, precisam tomar
muito cuidado com essa passagem.
— Eu nem havia pensado nisso! — Mikki passou a mão pela testa, nervosa. — Sou mesmo uma tola. Como esperava que eles fossem entrar e sair do reino?
— Não foi ruim ter permitido que os homens viessem aqui de novo. Fez muitas mulheres felizes. Durante toda a noite, ouvi os nomes dos amantes sendo sussurrados em
convites que foram levados ao mundo antigo. — A deusa sorriu de lado, maliciosa. — Ainda esta manhã alguns continuam sendo chamados e apreciados pelas mulheres,
as quais há muito são reverenciadas como algumas das mais belas e inteligentes do mundo antigo. Ter os homens por perto dará vida nova ao reino... Bebês meninas
são uma bênção, e estou ansiosa por seu nascimento.
— Mas os Ladrões de Sonhos estão na floresta. Temos que ter cuidado se esse portal vai abrir e fechar a cada pouco.
— Você é a Empousa, Mikado. Pode colocar limites quanto ao ir e vir dos homens. — Hécate deu-lhe um olhar afetuoso. — É bom que saiba dos perigos que espreitam do
outro lado da barreira, mas não precisa se preocupar. A força do Guardião irá proteger o reino. Case a vigilância dele com seu carinho pelas flores, e tudo ficará
bem no Reino das Rosas.
Mikki tentou não pensar ou reagir. Manteve a mente vazia e assentiu.
— Ótimo. Agora, o que vim dizer é que tenho assuntos para resolver que vão me afastar do reino. Não se preocupe se eu não vier visitá-la aqui por... — Hécate ergueu
um ombro — ... algum tempo. Mas meus poderes estarão sempre com você, caso necessite deles. Sinto que está confiando mais em seus instintos e, por isso, aplaudo
sua sabedoria. Deixe que sua intuição a guie. Se seu sangue, alma ou espírito lhe disserem algo, pode acreditar. E, lembre-se, Empousa, aprecio muito o que tem feito
pelas rosas, mas não foram apenas suas providências que deram início à recuperação delas. Foi também sua presença. Tem laços de sangue com as flores, o que garante
que elas irão prosperar. Seja sábia, Mikado. Os sonhos da humanidade dependem de você.
Hécate levantou a mão e desapareceu em uma névoa brilhante.
Capítulo 30
Mikki não podia dizer que não estava aliviada por Hécate ter partido por algum tempo. É claro que devia ter lhe contado sobre seu relacionamento com Asterius...
Contar seria bem melhor do que a deusa ler sua mente ou descobrir de outra forma.
Tinha vontade de correr e se esconder só de pensar nisso!
Iria dizer tudo a ela, sem dúvida, mas não queria fazer isso tão já.
Não que estivesse com vergonha por amar Asterius, ou porque temia sua deusa, ainda que Hécate fosse um tanto assustadora. Mas queria manter o Guardião para si mesma.
Por que não podiam ter privacidade para descobrir os segredos daquele novo amor? Mesmo que tivesse se apaixonado por um homem de Tulsa, ela gostaria de ter tempo
para que os dois aproveitassem a novidade de sua descoberta antes que a revelassem aos sete ventos e abrissem a própria vida à especulação. Ela era discreta e quanto
mais uma coisa lhe era importante, mais discreta ela tornava-se a respeito.
E Asterius era muito importante para ela.
Quando Hécate voltasse, sabia-se lá de onde, poderiam ter uma conversa acerca do Guardião. Então iria lidar com a resposta da deusa, qualquer que fosse ela.
Até lá, iria valorizar aquele período de lua de mel que lhe fora concedido e desfrutar completamente o fato de que tinha se apaixonado.
Satisfeita com seu plano, Mikki deixou o banco e verificou os canteiros e fontes vizinhos para certificar-se de que rumava na direção certa. Os comentários de Hécate
sobre os homens indo e vindo através do portal das rosas a haviam preocupado e, a despeito do que a deusa dissera sobre Asterius, iria se manter alerta.
Naquele exato momento, seus instintos lhe diziam que verificasse o portal por conta própria, depois anunciasse um toque de recolher, embora detestasse a ideia de
agir como uma inspetora de colégio. Gostaria de conversar com Asterius sobre aquilo, mas só faria sentido colocar alguns limites quando o portal estivesse aberto.
E também precisava descobrir quem, exatamente, poderia abri-lo. Asterius poderia, claro. E ele dissera que ela também poderia fazê-lo. As Tecedoras de Sonhos haviam
mencionado que os Quatro Elementos tinham colhido os fios da realidade enquanto o Guardião estava enfeitiçado, então elas também eram capazes de abrir o portal.
Mas quem mais? Seria uma tremenda dor de cabeça se todas as mulheres do reino pudessem fazer um gesto e abrir a maldita porta como se esta fosse o Mar Vermelho...
Sem dúvida, tinha muito trabalho a fazer.
Calculando a hora, Mikki apertou o passo. Precisava se mexer e chamar suas damas de companhia.
Poderia chamá-las naquele exato momento e fazer com que se encontrassem ali nos jardins, claro; mas preferia checar pessoalmente o portal, voltar correndo para o
quarto, trocar aquela túnica molhada e rasgada, embora a tivesse remendado naquela manhã, pedir a Daphne que trouxesse um pouco daquele chá delicioso e reunir-se
com as meninas mais tarde para um brunch.
Mesmo assim, ainda era cedo. E as servas não eram estúpidas. Decerto olhariam a chuva e perceberiam que havia pouco a ser feito nos jardins com aquele clima. Talvez
até voltassem para a cama.
Mikki sorriu para si mesma, esperando que elas não fizessem isso sozinhas. Ela mesma não o faria naquela noite.
A chuva mudara aos poucos da garoa fina para uma bruma, e depois para um nevoeiro claro que agora pairava sobre as rosas como na região dos Lagos, na Inglaterra.
A cerração tornou-se mais espessa conforme ela caminhava para o Sul.
Mikki pensava na noite que tinha pela frente, tentando decidir como poderia convencer Asterius a ir até as fontes termais para um banho a dois, quando uma parede
de rosas Multiflora surgiu bem diante de seu nariz, e ela quase se chocou contra a muralha.
— No próximo feitiço, lembre-se de dizer ao Ar para afastar o nevoeiro depois da chuva! — resmungou para si mesma enquanto esquadrinhava o portal, procurando por
sinais de desgaste. — Você parece bem — elogiou, acariciando parte da folhagem.
— Sacerdotisa! Pode nos ajudar?
Mikki olhou ao redor, tentando ver de onde vinha a voz profunda. Era inequivocamente masculina, o que soava estranho nos jardins.
— Aqui! Estamos aqui!
Ela percebeu que a voz vinha do outro lado da muralha das rosas e inclinou-se um pouco, de modo a olhar através de uma parte menos densa dos ramos.
Seus olhos arregalaram-se de surpresa. Quatro homens encontravam-se do lado de fora do portal, cercados pela névoa espessa e cinzenta. Três deles estavam trajados
como ela sempre imaginara que os antigos gregos deviam se vestir: com uma espécie de túnica, um braço nu e capas cor de púrpura, regiamente bordadas, sobre as costas
largas. Eram todos altos, musculosos... e muito, muito bonitos.
O quarto homem, o que havia falado, devia ser o líder. Encontrava-se à frente dos demais e vestia-se no estilo em que ela estava acostumada a ver Asterius: com uma
cuirasse sobre uma túnica curta, de pregas.
Era aí, entretanto, que sua semelhança com o amante dela terminava. Era um homem bonito, alto e de pele morena, que destacava-se mesmo na manhã nevoenta. Sua pele
tinha um tom dourado que poucos loiros verdadeiros exibiam. Um bronzeado saudável, da cor do mais puro mel, e que cobria um corpo que era uma perfeição: atlético,
sem ser demasiado musculoso e brutal. Seu cabelo era espesso e ondulado, cortado num comprimento que era másculo e, ao mesmo tempo, juvenil.
E seus olhos eram tão azuis e límpidos que ela podia vê-los mesmo em meio à profusão de rosas.
Mikki suspirou. Nunca vira um homem tão bonito de tão perto. Geralmente, tanta perfeição limitava-se a Hollywood e às maquinações dos produtores de filmes e cirurgiões
plásticos.
— Aí está, Sacerdotisa! — Ele sorriu, e seu rosto iluminou-se ainda mais. — Estamos aqui. Respondemos a seu chamado.
Ela sorriu de volta. (Quem não o faria diante de um sorriso como aquele?)
— Meu chamado?
— Só posso rogar à grande deusa que eu tenha tido a sorte de ter sido chamado por uma beldade como você...
Mikki percebeu que corava e sentiu-se ridícula.
— Ouvi dizer que os olhos azuis são mais fracos do que os castanhos ou verdes — replicou. — Acho que acabou de comprovar essa teoria.
Ele riu, e o som de seu riso era tão cativante quanto sedutor.
— Ah, vejo que minhas preces foram atendidas! A deusa me concedeu uma Sacerdotisa que tem inteligência, além de beleza. — O estranho deu alguns passos em direção
ao portal, e seus amigos o seguiram.
Por entre os ramos, Mikki observou-o mover-se com naturalidade e confiança, de modo tão atraente e tão diferente do modo selvagem de Asterius que ficou chocada.
Não chegou a desejar o lindo loiro, mas sentiu uma ponta de inveja da mulher que o tinha chamado.
Viu-se invadida imediatamente por uma onda de culpa. Que diabo havia de errado com ela? Tinha acabado de deixar a cama de Asterius após proclamar seu amor por ele,
e agora estava toda derretida diante de um estranho só porque ele era bonito?
Talvez a chuva tivesse atravessado seu crânio e inundado seu cérebro.
— Vai abrir o portal para nós, Sacerdotisa, ou meus companheiros e eu teremos de atravessar essa parede espinhosa?
— Não! — ela respondeu um pouco alto demais. E então, sentindo-se como uma idiota, adicionou: — Não fui eu que o chamei. Não precisa me cortejar.
A expressão de decepção do rapaz pareceu sincera.
— Se é assim, creio que eu lhe deva desculpas, graciosa dama. Imaginei que fosse um dos Elementos, com essas tranças avermelhadas e sua extraordinária beleza. Fogo,
talvez. Afinal, foi ela quem me chamou aqui. Eu seria um homem de sorte se tivesse acertado.
— Desculpe, mas não sou nenhum dos Elementos. — Mikki sorriu, travessa.
Não estava sendo infiel a Asterius por ser educada com o rapaz. Estava apenas cumprindo seu papel de Empousa, afinal, fora ela quem lançara o feitiço para permitir
que os homens adentrassem o reino.
— Eu sou a Empousa.
Os olhos azuis do estranho plissaram-se adoravelmente nos cantos com seu sorriso.
— Empousa! — Ele curvou-se em um lindo e cavalheiresco floreio, que os outros homens copiaram enquanto a saudavam, galantes. — Que feliz coincidência estar passando
por aqui neste momento. Bem que ouvimos dizer que havia uma nova Empousa no Reino das Rosas. É uma honra conhecê-la... — O sorriso do rapaz brilhou com bom humor.
— Mesmo através de uma barreira de rosas...
— Disse que Floga o convidou?
— Isso mesmo.
— Ela convidou os seus amigos, também? — Mikki tentou evitar um sorriso malicioso, mas falhou miseravelmente. Não era difícil imaginar o elemento Fogo precisando
de quatro homens para apagar sua paixão, mesmo que um deles já se parecesse com Adonis.
Por um instante, Mikki sentiu uma ponta de ciúme da liberdade e facilidade com que a serva podia caminhar ao lado de qualquer homem que escolhesse.
— Não, Empousa — disse um dos que estavam vestidos com quitão. Tinha os cabelos escuros e fartos e um rosto bem talhado, o que a fez concentrar-se outra vez na conversa.
— O elemento Terra é a Sacerdotisa cujo chamado estou atendendo.
— A Água foi quem me chamou, Empousa — disse o terceiro homem.
— E eu tive a sorte de ter sido convocado pelo Ar — explicou o último, que possuía cabelos longos e castanho-avermelhados, além de olhos extraordinariamente verdes.
Caramba, eles eram maravilhosos! Suas servas tinham feito excelentes escolhas.
Mikki sorriu. Precisava perguntar a Gii como funcionava aquela coisa de convidar os homens... Era meio estranho que eles tivessem sido invocados pelas meninas pela
manhã, mas talvez não fosse. Ela ainda não as chamara para trabalhar. Estivera chovendo e, na certa, elas haviam decidido ocupar-se à sua maneira.
Sem dúvida, eram tão inteligentes quanto ela pensava.
— Tenho certeza de que os Quatro Elementos estarão aqui a qualquer instante, portanto, ficarei feliz em deixá-los entrar.
Os olhos do líder se iluminaram e ele curvou-se numa mesura novamente.
— Ser convidado a entrar no Reino das Rosas por sua Empousa é uma honra que não merecemos.
— Ah, isso não é problema. Podemos caminhar para o palácio juntos. Eu já ia voltar para lá.
Sem dizer que ser escoltada por quatro rapazes lindos de morrer não era nenhum sacrifício.
Tampouco era errado, pensou Mikki, sentindo-se dominada por uma súbita revolta. Claro que não era errado! Ela estava apaixonada, não morta. E tudo o que iria fazer
era levar os homens até suas mulheres.
O único motivo escuso que talvez tivesse para tanto era desfrutar um flerte inofensivo. Mas por que não? Sentia-se incrivelmente bonita e amada, mas isso não significava
que quisesse ser controlada e trancafiada em uma gaiola!
Asterius que pensasse duas vezes antes de querer marcá-la como uma novilha premiada... Era isso o que ele esperava dela? Que ela lhe permitisse controlar todos os
seus movimentos?
De repente, sentiu medo de que fosse aquilo mesmo. Afinal, Asterius era um animal, e ela não podia esperar que ele soubesse como tratar uma mulher.
Em algum lugar, nas profundezas de sua alma, algo tentou inserir-se no turbilhão de pensamentos defensivos que borbulharam em sua mente tal qual num guisado rançoso...
Mas não puderem ser ouvidos em meio ao ódio e à inveja, o egoísmo e o medo que gritavam dentro dela.
Meio desnorteada, Mikki foi até o centro do portal e franziu o cenho. Não havia nenhuma maçaneta, nenhuma trava, nenhuma barra de deslizar. Frustrada e muito irritada
com a enorme dor de cabeça que abateu-se sobre ela, levantou a mão e pressionou a palma contra a muralha.
— É a Empousa quem fala. Abra logo essa droga! — murmurou com raiva.
O portal vivo obedeceu.
Os quatro homens deixaram o nevoeiro sorrindo, como se ela tivesse acabado de lhes dar a chave para o paraíso.
Mikki sorriu de volta, distraída, desejando que eles se apressassem a passar para o lado de dentro. Não gostou da aparência da floresta escura e quis fechar o portal
imediatamente.
No instante em que o último homem entrou, ela ergueu a mão de novo e ordenou ao portal que se fechasse, suspirando de alívio quando este obedeceu.
Então, virou-se para os homens.
— O palácio é por ali. — Gesticulou na direção do caminho de mármore mais largo.
— Claro, Empousa. — O loiro sorriu.
Mikki começou a andar, contudo estacou quando o moreno de cabelos escuros bloqueou seu caminho.
— É por aqui — ela repetiu, apontando por cima de seu ombro largo enquanto pensava que ele podia ser bonito, mas, definitivamente, não era a última bolacha do pacote.
— Talvez queira saber nossos nomes antes de nos levar até o palácio, Empousa... — A voz do loiro soou bem atrás dela. Ele estava tão próximo que Mikki pôde sentir
sua respiração nos cabelos.
Os outros dois rapazes entraram em cena para fechar o círculo, de maneira que ela viu-se cercada.
Foi nesse momento que tudo clareou, a dor na cabeça cessou, assim como as emoções desencontradas que vinham fervilhando em sua mente. De súbito, uma certeza terrível
tomou conta de Mikki: eles eram Ladrões de Sonhos e ela abrira o portal das rosas para eles!
Instintos que tinham sido silenciados assim que ela havia começado a conversar com o loiro gritaram para que ela não demonstrasse medo.
Determinada, engoliu a bile que lhe subira à garganta, endireitou-se, majestosa, e encarou o homem de cabelos dourados.
— O que significa isto?
— Nós apenas gostaríamos de nos apresentar, Empousa. Como vê, já a conhecemos bem, pois gostamos de observá-la. Agora queremos que saiba o que convidou tão graciosamente
a adentrar o seu reino. — O charme na voz dele fora substituído pelo sarcasmo, e seus lábios curvaram-se num sorriso de escárnio que distorceu seu belo rosto.
— Não gosto do seu tom e não gosto da sua proximidade — ela declarou, áspera, tentando imitar o tom intimidador de Hécate. — Acho que já é hora de partirem. Decidi
que minhas servas não gostariam de sua companhia.
— Tarde demais. Abriu o portal para nós e agora verá que, uma vez que somos convidados, não costumamos deixar a festa tão cedo... — O moreno estendeu a mão e tocou
uma mecha avermelhada que descansava em seu ombro.
Mikki tentou empurrá-lo, porém ele a agarrou pelos ombros sem nenhuma delicadeza e a segurou no lugar enquanto o loiro cheirava sua nuca. Ela lutou, mas, agarrando-a
pelos cabelos, este a obrigou a virar a cabeça para o lado e, como uma cobra provando sua presa, deslizou a língua por seu pescoço.
— Ah, o doce sabor de uma Empousa! Há séculos não degusto uma iguaria destas.
— Parem com isso! — Mikki choramingou. — Larguem-me!
Surpreendentemente, o loiro obedeceu. Sorriu para ela, mas foi apenas uma exibição de seus dentes perfeitos, e não uma expressão de humor.
— Vamos aproveitar nossa visita em sua companhia, Empousa. Gostamos dessa mudança no clima que providenciou... Um tempo desses é melhor para encobrir o nosso pequeno
rendezvous, embora alguém já tenha tido o prazer de sua companhia esta manhã. — Com os movimentos de um réptil, ele a circundou e arrancou o broche que mantinha
unido o tecido já cortado da túnica.
Mikki congelou de medo. Agarrou-se ao quitão, tentando não vomitar enquanto eles a cercavam mais, apalpando-a com mãos ousadas e devorando-a com os olhos.
— Vamos, Empousa, não seja tímida... Não pode dizer que não me reconhece.
— Ou a mim e aos outros... — a voz do de cabelos castanhos soou abafada a suas costas.
— Olhe bem nos meus olhos, Empousa... Tenho certeza de que já me viu antes. Não me diga que não sabe meu nome.
Ela mirou os olhos incrivelmente azuis do loiro. De súbito, sua cor clara e intensa tingiu-se de um vermelho-sangue, e eles transformaram-se em fendas.
Mikki reconheceu-o então e, quando seu nome ardeu-lhe no pensamento, ela viu-se dominada por uma fúria que solapou todo o medo.
— Tire essas mãos nojentas de mim! — gritou, irada, e o empurrou com violência.
Surpreso, o moreno que a segurava por trás tropeçou e a soltou. Sem perder tempo, Mikki recuou vários passos para longe deles.
O loiro riu e a seguiu devagar.
— Que bom... Gostamos se oferecem resistência. Isso torna as coisas mais interessantes. Afinal, o que vê quando me olha nos olhos, Empousa?
Ela continuou se afastando, contudo ele e os outros a seguiram.
— Um borra-botas louco para ter contato com gente influente! — respondeu, ofegante.
Ele gargalhou.
— Acho que vou ter de lhe ensinar coisas melhores para fazer com essa sua língua afiada. Mas, por hora, me diga, Empousa... Que nome você me dá?
— Ódio — ela respondeu sem hesitação.
O sorriso dele foi aterrador.
— Ah! Vejo que pensa rápido. Talvez eu a leve comigo quando sairmos daqui. Gostaria disso? Sou um homem que conhece intimamente os desejos ocultos das mulheres.
— Homem? Que homem? — Ela riu, sarcástica. — Você não passa de uma criatura desprezível. Um comedor de carniça que se alimenta das carcaças dos sonhos. Mas não me
importa em que tipo de pele esteja disfarçado.
Ele se lançou à frente e a agarrou pelo braço.
— Acha que não sou homem? Pois eu vou lhe mostrar!
Enquanto eles tornavam a cercá-la, Mikki gritou o nome do único homem que preenchia-lhe o coração e a alma.
— Asterius!
— Seu amante, seja lá quem ele for, não vai salvá-la agora. E, se realmente se importa com ele, sugiro que fique bem quietinha... Nenhum mortal pode olhar para nós
sem perder uma parte da própria alma. — O Ódio bufou em seu rosto enquanto agarrava a frente da túnica e a arrancava de seu corpo. — Cubram a boca desta gracinha
e cuidem para que ela não dê um só pio! Neste nevoeiro não há chance de que sejamos descobertos até que seja tarde demais para ela... Tarde demais para todas!
Mikki viu-se arrastada para fora do caminho de mármore até um canteiro de rosas Salet. Lutou, chutando virilhas e pernas, usando as unhas para furar qualquer carne
com que entrava em contato, assim como se aprendia nas aulas de autodefesa nos Estados Unidos.
Mas os quatro logo a dominaram. Empurraram-na para o solo, e ela percebeu vagamente que a terra recém-trabalhada encontrava-se coberta com pétalas de flores destruídas,
como se uma neve cor-de-rosa tivesse caído junto com ela. Um deles a sufocava, e Mikki não conseguiu gritar. Fechou os olhos, então, e, concentrando-se, gritou em
pensamento:
Asterius! Venha!
— Verá se sou homem ou não... — rosnou o Ódio, empurrando para o lado a frente da própria túnica para tomar o membro ingurgitado na mão. — Depois experimentará um
pouco do Medo, do Ciúme e do Egoísmo — completou, rindo de modo insano. — Aliás, que ironia o Egoísmo tomá-la por último... Ou talvez não. Talvez ele opte por ficar
com você definitivamente enquanto visitamos as outras mulheres deste seu reino patético, Empousa.
Mikki captou um movimento em meio à sua visão já escurecida e, no instante seguinte, Asterius pareceu explodir de dentro do nevoeiro com um rugido ensurdecedor.
O Ódio virou-se para enfrentá-lo e, ao fazê-lo, seu corpo ondulou e transformou-se no do Ladrão de Sonhos. Conforme ela imaginara, ele não era humano, mas uma criatura
horrenda que devia existir apenas no mundo dos pesadelos. Tinha a pele escamada e seus olhos de cobra saltavam de uma cabeça dilatada em forma de capuz. Seu corpo
possuía características humanoides, porém ele agachou-se sobre quatro patas, botando uma espuma negra pela abertura da boca feito um réptil.
As garras de Asterius zuniram no ar, abrindo uma trilha de sangue no peito da criatura. Mikki escutou silvos horrendos escapando dos seres que a mantinham cativa,
então viu-se livre de repente quando o Medo, o Ciúme e o Egoísmo postaram-se atrás de seu líder.
Formavam um grupo aterrador. Todos haviam mantido algo de sua forma humana, mas haviam passado por tenebrosas mutações. O Medo era como um cadáver em decomposição,
com garras imundas e um rosto disforme. O corpo deveras humano do Ciúme era coberto por uma planta rastejante que brotava de sua pele como espinhos mortais. Ele
também se pôs de quatro, sibilando e lembrando um monstro do pântano. O Egoísmo tinha um corpo alongado, de onde saíam vários tentáculos, os quais ele agitava enquanto
rangia os dentes horríveis.
E todos enfrentaram Asterius.
O Guardião deu cabo de um por um. O Medo foi o primeiro a tombar, estripado pelas garras da fera. O corpo do Ladrão de Sonhos desabou e, em seguida, dissolveu-se,
transformando-se em uma fumaça vermelha que pairou ao longo dos canteiros de rosas.
Mikki se pôs em pé de um salto e gritou um comando:
— Aeras! Venha até mim!
Instantes depois, o elemento Ar corria até sua Empousa de olhos arregalados.
— Oh, grande Deusa! Salve-nos!
— Hécate não está aqui. Temos de nos defender sozinhas. Aeras, ordeno que seu elemento faça-se presente. Faça soprar um vento forte do Norte e nos livre da fumaça
do Medo. Agora!
Lívida, a moça ergueu ambos os braços. Quando o fez, uma rajada de vento frio soprou sobre eles, carregando a neblina da manhã, bem como a fumaça vermelha que pairava
ao longo da parede, para a floresta.
Um grito de dor fez Mikki arrancar o olhar da nuvem que se dissipava e concentrá-lo na batalha. Os olhos escuros de Asterius faiscavam, e ele rugia conforme desferia
golpe após golpe contra as criaturas do mal, os movimentos precisos tão fascinantes quanto mortais.
Ela prendeu o fôlego, pensando que Asterius era a coisa mais magnífica que já tinha visto.
Ele avançou, golpeou mais uma vez, e o Egoísmo foi ao chão, contorcendo-se, os tentáculos decepados espirrando sangue escuro em um arco vermelho por sobre as rosas.
Tendo o Ciúme agarrado a suas costas, Asterius abaixou o corpo num movimento quase invisível de tão rápido, e o Ladrão de Sonhos foi ao chão no mesmo momento, para
ser perfurado impiedosamente por suas garras na base da espinha.
Ambas as criaturas agonizaram e, depois, também desapareceram em nuvens de fumaça vermelha.
— Outra vez, Aeras! — ordenou Mikki.
Aeras chamou o vento Norte, e este baniu o Ciúme e o Egoísmo para a floresta.
— Sua vagabunda intrometida! — o Ódio gritou para o elemento Ar e, como uma víbora, atacou Aeras.
Mikki foi mais rápida, porém, e empurrou a moça para fora de seu caminho.
O Ladrão de Sonhos colidiu com a Empousa, em vez de sua serva, e Mikki sentiu uma picada lancinante explodir no ombro e no braço, tombando sob ele.
O Ódio gritou, então, e seu corpo curvou-se para trás quando Asterius cingiu-lhe as costas, fazendo brotar vários riscos vermelhos em sua pele.
Com um rugido terrível, o Ladrão de Sonhos agarrou Mikki e virou-se para enfrentá-lo, segurando a Empousa como um escudo.
Asterius reprimiu o ataque.
— Por que hesita, Guardião? Estou protegido de sua ira apenas por uma mulher fraca e mortal. Não está disposto a sacrificar sua Empousa nem mesmo para livrar o reino
do ódio? Surpreendente... — O Ódio soltou uma gargalhada maléfica. — Ah, eu havia me esquecido de que tem uma queda pelas Altas Sacerdotisas de Hécate. — A criatura
esfregou a virilha contra Mikki. — Não que eu o culpe... Esta parece bem madura e no ponto.
O rosnado de Asterius fez os pelos dos braços e nuca de Mikki se eriçarem.
— Eu o farei sofrer pela eternidade por tocá-la! — ele trovejou com a voz de um predador mortal.
— Acho que não, Guardião. Em vez disso, vai abrir o portal para mim, e eu passarei por ele incólume. — A criatura começou a puxar Mikki consigo enquanto recuava
na direção da muralha das rosas. — Se chegar muito perto, bancarei o Destino e estraçalharei a garganta dela. — Apertou uma garra dentada contra o pescoço delicado.
— Isto ainda não terminou — rosnou Asterius, movendo-se junto com o Ladrão de Sonhos e sua refém até a passagem. — Já disse que vou fazer você pagar pela eternidade
por tocá-la.
— O Ódio também nunca termina, Guardião. Já devia saber disso a esta altura. — Ele parou de costas para o portal. — Agora, abra-o para mim, e eu lhe devolverei a
Empousa... ainda que fosse gostar de me divertir com ela por algum tempo. — O Ódio arreganhou os dentes para Asterius antes de inclinar-se e saborear com a língua
o pescoço da Alta Sacerdotisa, em franca provocação.
Foi o bastante para Mikki. Mais do que o suficiente.
— Maldito! — ela gritou, enfiando o polegar no olho esbugalhado do monstro, o qual ele fora tolo o suficiente para aproximar dela.
O Ladrão de Sonhos soltou um grito ensurdecedor e arremeteu para longe.
Mas não antes de Mikki senti-lo perfurar sua pele com uma garra, e também uma onda de calor úmido que se seguiu ao ferimento.
Segurou o pescoço e caiu no chão, percebendo, mesmo com a vista escurecida pela dor, o modo como Asterius agarrou a criatura que debatia-se e torceu seu corpo para
trás até que a espinha do Ladrão de Sonhos partiu-se ao meio com um ruído medonho. Logo depois, ele o arremessou por sobre a barreira de rosas.
No instante seguinte, estava de joelhos a seu lado, gritando seu nome, tocando seu rosto e acariciando-lhe os cabelos.
Mikki tentou sorrir para ele.
Está tudo bem. Não foi culpa sua... Fui eu quem os deixou entrar.
Pensou que estivesse dizendo as palavras em voz alta, mas não conseguia proferi-las.
De repente, suas quatro servas surgiram à sua frente também. E estavam chorando. Mesmo Floga, que ela pensava nem gostar tanto dela...
Queria confortá-las, dizer que não estava com medo. E pedir que, por favor, tratassem melhor Asterius... pois sabia, sem nenhuma dúvida, que estava morrendo.
Capítulo 31
Asterius recusava-se a perdê-la assim. Não para o Ódio. Não quando Mikado havia trazido amor, desejo, carinho e aceitação... sentimentos tão opostos, para sua vida.
Ergueu-a nos braços e encarou os perturbados Quatro Elementos.
— Vamos levá-la até a fonte, Guardião. Lá poderemos lavá-la e depois colocá-la no Templo de Hécate, onde ofereceremos uma oração à Deusa por sua alma — pediu Gii
em meio a lágrimas.
— Ela não está morta! — ele explodiu, e rosnou um aviso quando Gii tentou se aproximar.
— Ainda não... Mas o ferimento de Mikado é mortal e, em breve, seu espírito estará no Reino de Hades — Nera falou com voz entrecortada.
— Não! Não é seu destino morrer hoje!
— As Parcas decidiram o contrário — Aeras replicou suavemente.
— Então eu desafio as Parcas!
— Mas, Guardião, o que pretende fazer? — Floga perguntou.
— Vou reclamar meus direitos de primogenitura.
Erguendo o corpo inerte que sangrava, Asterius passou pelas servas, mas a mão macia de Gii em seu braço o deteve. Quando ele a fitou, a moça encontrou seu olhar
sem hesitação.
— Como podemos ajudá-lo?
Ele ponderou por um instante.
— Vamos para o templo. Talvez o poder dos elementos ajude meu apelo a chegar mais rápido aos ouvidos de Cronos.
Sem esperar para ver se elas o seguiam, Asterius correu com Mikki para o Templo de Hécate, os cascos golpeando ruidosamente o mármore branco do caminho, tentando
não pensar em como ela continuava inerte e quanto de seu sangue lavava seus corpos.
Subiu os degraus do templo de três em três e, estacando diante da chama sagrada da deusa, caiu de joelhos, colocando sua amada ao lado do fogo.
Ouviu as servas entrando no templo logo atrás dele e tomando seus lugares ao redor do círculo.
— Ela ainda está viva? — Gii perguntou, aflita.
Asterius olhou para seu amor. Mikado tinha os olhos fechados e o rosto sem nenhuma cor. O sangue ainda fluía do corte comprido e fino em seu pescoço, e seu peito
subia e descia com dificuldade.
— Está.
— Então faça o que puder, Guardião. Não queremos perder outra Empousa antes que o destino assim exija! — declarou o elemento Terra.
Ele ergueu os olhos para os da moça.
— Convoquem seus elementos e formem o círculo sagrado.
— Você a ama, não é? — Floga indagou de repente.
Seu olhar virou-se para a serva.
— Sim.
— E vai salvá-la apenas para roubá-la de nós depois? — O elemento Fogo quis saber.
— No Beltane, a Empousa do reino encontrará seu destino. Eu lhe dou minha palavra.
— Mesmo que a ame? — Aeras exigiu.
— Há poucos minutos me viram batalhando com o Egoísmo. Não foi a primeira vez que tive de enfrentar esse Ladrão de Sonhos. Mas, desta vez, fui vitorioso. Nunca mais
vou sacrificar os sonhos da humanidade em benefício próprio. — Ele olhou para Mikado e tocou seu rosto gentilmente.
— Então você não é mesmo nenhum animal — Gii declarou com voz embargada.
— Sou, sim — ele retrucou sem olhar para o elemento Terra. — Mas também sou um homem. E o amor de Mikado fez do homem o mais forte das duas criaturas.
— Os Quatro Elementos irão ajudá-lo a salvar seu amor, Guardião — declarou Gii, acenando para Aeras. — Pode começar.
Aeras ergueu os braços para o alto.
— Invoco-te, ó Ar, para o círculo sagrado!
Imediatamente, o ar começou a se mover.
Como uma reação em cadeia, Floga elevou os braços, invocando seu elemento.
— Que venhas até mim, Fogo!
— Água! — gritou Nera. — Eu te convido a participar!
— Terra! Chamo-te para completar o círculo e ampliar os poderes do Guardião que abrigamos aqui! — entoou Gii.
Asterius sentiu o poder dos elementos na pele. Abaixou a cabeça e levantou as mãos manchadas com o sangue de sua amante. Em uma voz ampliada pelo Ar, pelo Fogo,
pela Água e pela Terra, bem como pela fera dentro dele, gritou para os distantes confins do Céu.
— Cronos, meu pai! Grande deus do Mundo e dos Tempos, Titã dos Céus e da Terra! Eu te invoco pelos teus antigos nomes, bem como por aquele que meu sangue me permite...
Vivi por muitos séculos sem te rogar por governo, poder, amor ou aceitação, mas hoje te peço, por direito de nascimento, que me dês o poder de salvar esta mortal.
Sua linha da vida foi cortada antes do tempo e ainda não desfiou até o fim.
A chama sagrada se agitou, e no interior da luz tremeluzente o rosto de um homem apareceu. Não se podia definir sua idade, mas era bem talhado, como se esculpido
em rocha pelo tempo e experiência. Um rosto que ele teria reconhecido em qualquer lugar, pois refletia o seu quase completamente.
— Pai! — disse Asterius, inclinando a cabeça.
O Titã mal o fitou. Em vez disso, apontou o queixo na direção de Mikado.
— É esta a mortal que deseja salvar?
— Sim!
— Ela é Empousa de Hécate? — indagou Cronos.
— É...
— Então sua salvação será apenas temporária.
— Ela ainda não viveu seu tempo de direito! Ainda não é Beltane — lembrou Asterius.
— Quem fez isso a ela? — O Titã quis saber.
— O líder dos Ladrões de Sonhos: o Ódio. Não posso deixá-la morrer pelas mãos daquela criatura.
Cronos voltou a atenção para o filho.
— O ódio a matou e você deseja que seu amor a salve?
Asterius contraiu a mandíbula, mas assentiu com um gesto de cabeça.
— Sim.
— Ah, o amor! — Cronos riu. — Estou surpreso com sua fraqueza, Guardião.
— Aprendi que o amor só é fraco quando é egoísta — ele retorquiu num claro desafio.
Uma ponta de surpresa brilhou na face do deus.
— Você me faz lembrar de sua mãe.
— Talvez porque ela também tenha enfrentado a fraqueza daqueles que amam de modo egoísta.
Cronos franziu o cenho.
— Não estou habituado a ser insultado quando solicitam meu auxílio!
— Não pretendia insultá-lo. Eu só disse a verdade — replicou Asterius, tenso.
— Independentemente disso, já me cansei desta conversa.
— Cronos! Perdoe-me, eu não...
— Silêncio! — A chama se agitou e o chão do templo da deusa tremeu. — Eu ainda não acabei... Concedo seu pedido. Pode compartilhar parte da imortalidade que habita
em seu espírito com a Sacerdotisa. Uma parte muito pequena, porém. Ela vai escapar do reino de Hades apenas uma vez. E saiba que há um preço para a centelha de imortalidade
que partilhar com ela. Mesmo depois que a Empousa morrer, vai carregar consigo esse pedaço de seu espírito. E você só irá se sentir completo quando ela estiver a
seu lado. Quando ela já não estiver neste reino, seu coração ficará vazio, e seus dias serão preenchidos com a solidão. Pense com cuidado antes de fazer essa escolha.
— Eu já fiz minha escolha. Sabia do ônus, caso me permitisse amá-la, e o aceitei. Pela vida de Mikado, não me importaria em aceitá-lo novamente.
— Muito bem. É seu direito de primogenitura que está usando para me pedir uma bênção. Mas não me incomode de novo. Você escolheu Hécate, e é à deusa que deve recorrer
no futuro.
E, sem mais nenhuma palavra, o Titã desapareceu no fogo.
Asterius olhou para Mikado. Seu pai lhe havia concedido a capacidade de salvá-la, mas como?! Ele teria de dar a ela uma parte de sua imortalidade, um pedaço de seu
espírito...
De repente, ele soube. Devagar, inclinou-se sobre Mikado e tocou-lhe os lábios com os dele. Conforme a beijava, desejou que ela vivesse para que pudesse compartilhar
de sua vida e aceitá-lo mais uma vez.
Mikado se moveu, suspirou suavemente contra sua boca... Então, entreabriu os lábios e seu beijo se aprofundou.
Quando Asterius se ergueu, seus olhos estavam abertos e ela sorria para ele.
— Ela está viva! — gritou Gii, extasiada.
As servas riram e choraram ao mesmo tempo, enquanto fechavam o círculo e corriam para sua Empousa.
Mikki sentou-se e piscou, confusa, sem saber ao certo onde estava e por que motivo Asterius encontrava-se ajoelhado a seu lado, segurando sua mão diante dos Quatro
Elementos.
Olhou ao redor. Aquele era o Templo de Hécate? Alguma coisa estava errada. Não devia estar ali. Devia estar inspecionando a muralha das rosas para certificar-se
de que...
De súbito, tudo voltou à sua mente.
— Os Ladrões de Sonhos! — exclamou, tentando ficar de pé, mas vendo-se tão fraca que seu menor movimento fazia o templo girar ao redor.
— Sshh... — Asterius a tranquilizou. — Tudo está bem agora. Os Ladrões de Sonhos foram banidos do reino.
— Eu sinto muito! — Ela olhou de Asterius para as servas.
— Empousa, não precisa se desculpar! Ladrões de Sonhos são mestres em manipulação. Devíamos tê-la precavido melhor — falou Gii, agachando-se para segurar sua outra
mão.
— Sim! — Nera assentiu com um gesto ansioso de cabeça, como se isso pudesse convencê-la. — Como iria desconfiar das tramas insidiosas que eles costumam tecer?
— Mas eu os deixei entrar! Eles me disseram que... Oh, Deus! As coisas que eles me fizeram pensar e sentir! Foi terrível.
Aeras sorriu em meio às lágrimas que banhavam-lhe o rosto e tocou-lhe os cabelos com reverência.
— Foi muito corajosa ao levar o golpe que o Ódio planejou para mim, Empousa.
Mikki tinha se esquecido daquilo tudo e olhou para si mesma, nervosa. Estava coberta de sangue! Como podia ter perdido tanto sangue e continuado viva?
Lembrou-se da dor no ombro, mas, quando olhou para ele, não viu nada, a não ser a pele manchada de vermelho.
Mas existia algo mais. Algo muito pior...
Seus olhos se arregalaram, e ela sentiu uma onda de vertigem. O Ódio cortara sua garganta e ela havia praticamente morrido!
E agora encontrava-se viva outra vez.
Devagar, ergueu os olhos para os de seu amante.
— Acabou — disse Asterius.
— Eu estava morrendo! — ela sussurrou.
— Eu jamais permitiria que isso acontecesse.
— O Guardião a salvou! — Gii explicou em meio a um soluço.
— Salvou todas nós — corrigiu Aeras, enxugando o rosto.
— Nunca iremos esquecê-lo — jurou Floga.
— Nunca! — Nera reforçou, comovida.
Mikki sorriu para os Quatro Elementos.
— Ele fez o que qualquer homem honrado faria para proteger sua casa e aqueles que ama. — Passou os braços ao redor do pescoço forte e, emocionada, sussurrou ao ouvido
de Asterius: — Leve-me para casa.
Capítulo 32
Asterius carregou-a pelo jardim. Normalmente, Mikki não gostaria de ser transportada como uma criança, mas não tinha certeza de que teria condições de caminhar sozinha,
pois ainda sentia-se fraca e doente.
E precisava estar nos braços dele. Precisava sentir sua pulsação contra o peito para confirmar a si mesma que continuava viva.
— O Ódio me enganou — disse baixinho, a cabeça recostada no ombro largo.
Os braços de Asterius seguraram-na com mais força.
— É o que os Ladrões de Sonhos costumam fazer. Eles contaminam os mortais até seu veneno distorcer os pensamentos, enfraquecer os sonhos e fazê-los morrer. Não se
castigue por ter sido vítima do que vem destruindo as ilusões dos mortais há eras.
— Pensei coisas terríveis. Senti que estava cheia de... — Mikki estremeceu e não conseguiu continuar.
— Você foi envenenada por ódio, inveja, medo e egoísmo. Não eram seus pensamentos, Mikado; eram apenas sombras de sua mente contaminada. Não deve se punir pela maldade
deles, pois isso seria premiá-los. Se eles continuam afetando sua vida, mesmo depois de terem sido banidos, então não foram derrotados.
— Nunca mais vou permitir que eles me enganem. E jamais entrarei naquela maldita floresta outra vez! — Ela ergueu a cabeça para fitá-lo. — Como pode suportar? Como
pode sair e colher as tramas da realidade, sabendo que eles estão lá fora também, observando e esperando por uma chance de atacar?
— É meu destino combatê-los. Muitos deles são meus velhos inimigos.
— Não tem medo?
— Apenas quando penso no que aconteceria se eu falhasse e permitisse que eles adentrassem o reino de alguma maneira.
— Mas você nunca vai falhar...
— Não. Não posso.
Mikki o observou, preocupada. Asterius parecia exausto, e ela rezou para que ele não tivesse que lutar com os Ladrões de Sonhos tão cedo, ou até que estivesse recuperado.
— Ah, meu Deus... Ponha-me no chão. Tem que voltar e certificar-se de que a muralha das rosas está preservada, e de que nenhuma daquelas coisas permaneceu no reino!
— O reino está seguro. O vento Norte soprou os últimos vestígios de maldade para o fundo da floresta.
— Mas não precisa voltar e verificar se tudo está mesmo no lugar?
— Está tudo certo, Mikado. Quando os Ladrões de Sonhos são enfrentados e derrotados, não costumam atacar tão cedo. Eles sabem que, uma vez que foram reconhecidos,
seu poder de destruir vidas é drasticamente enfraquecido. Vão recuar para lamber suas feridas e planejar um novo ataque para outro dia.
— O Ódio me disse que ele nunca termina.
— É verdade. Devemos sempre nos proteger contra ele.
Mikki lembrou-se de algo que tinha lido uma vez, e recitou as palavras em voz alta:
— “O bem derrotado é mais forte que o mal triunfante”. — Tocou-o no rosto. — Você luta do lado do bem.
— E não vou permitir que o mal triunfe.
— E eu também não vou deixar que ele afete minha vida; ele não vai me derrotar. — Ela deitou-se no ombro largo. — Como impediu que eu morresse?
— Supliquei a Cronos por uma bênção — Asterius contou, calmo.
Mikki tornou a levantar a cabeça.
— Seu pai?!
Ele assentiu em silêncio.
— Falou com seu pai?
— Brevemente.
— Quanto tempo se passou desde a última vez em que falou com ele? — Mikki quis saber, preocupada com a expressão estranha que endureceu o rosto moreno.
— Eu nunca falei com ele antes.
Ela o estudou, desejando poder apagar os séculos de dor e solidão do passado de Asterius e sentindo raiva do Titã arrogante que havia gerado um filho de maneira
tão audaciosa para depois descartá-lo. Não sabendo mais o que fazer, beijou-o suavemente no rosto.
— Obrigada por ter salvado minha vida.
O rosto dele suavizou-se em um sorriso.
— Eu só estava retribuindo um favor, Empousa. Lembre-se de que também me trouxe de volta à vida.
— Verdade. — Ela beliscou-lhe o queixo de leve. — E eu prefiro você assim.
— Porque descobriu que estava cansada de andar e gostou de ser carregada pelo seu Guardião?
Mikki riu.
— Bem, diz a mitologia que o Minotauro era metade touro; mas não creio que os touros sejam animais de carga muito bons... Há boatos de que eles não são dóceis o
suficiente.
— Nesse caso os boatos são a pura verdade — ele concordou, dando-lhe um beijo rápido e intenso que terminou com um rosnado.
Quando chegaram ao covil de Asterius, Mikki estava cansada de ser carregada, embora a caverna oscilasse um pouco sob seus pés.
Ainda mais quando ela percebeu a própria túnica esfarrapada e pegajosa de tanto sangue.
— Vou vomitar até o cérebro se não me livrar disto logo! — resmungou e olhou para seu Guardião numa súplica. — Acho que terá de me carregar escadaria acima até as
piscinas...
Asterius ergueu-a nos braços novamente, mas, em vez de sair da caverna, rumou para o próprio quarto.
— Ei... Sei que minha cabeça ainda não está cem por cento, mas tenho certeza de que está indo na direção errada! Não que eu não queira que você me leve para seu
quarto... Mas só depois que eu me livrar disto tudo.
— Acabamos nos esquecendo de sua turnê pela minha casa, lembra-se?
— Nós não nos esquecemos de nada: fomos interrompidos.
— Então deixe-me mostrar o restante do covil... sem interrupção.
Ele carregou-a através do quarto, depois em direção a uma porta arredondada, a um canto que ela não havia notado antes. Esta abria-se para um túnel iluminado por
tochas, ao final do qual avistou outra porta igual que, observou com surpresa, era emoldurada pela luz solar.
— Sabe de uma coisa? — Mikki fez uma pausa, pensando, enquanto eles aproximavam-se da luz. — Este lugar não se parece em nada com uma toca. É tão confortável e bonito!
Acho que deveria chamá-lo de... — Asterius abriu a porta para um cômodo grande e redondo, cujo teto abria-se para mostrar o céu claro da manhã e permitia que o vapor
de uma banheira cheia de água quente escapasse. — ...paraíso! — ela exclamou, maravilhada.
Ele riu e a pôs no chão outra vez.
Em segundos, Mikki tirou o que restara da túnica e, com um gemido de satisfação, desceu com passos suaves os degraus da piscina, afundando na água deliciosamente
quente. Ouviu Asterius proferindo as palavras mágicas que costumava usar para conjurar as coisas e virou a cabeça a tempo de ver duas cestas surgindo do nada. Uma
delas encontrava-se cheia de garrafas de sabão, toalhas limpas e vários metros de tecido macio para que fizesse outro quitão. A outra, Mikki suspirou, feliz, estava
repleta de comida.
Asterius ergueu uma garrafa de cristal da cesta e sorriu para ela. Mikki sorriu de volta, querendo saber por que, de repente, ele parecia tão tímido.
— O que foi?
— Seu sabão — ele explicou, segurando a garrafa.
— Eu não estava me referindo ao frasco... Só queria saber o porquê dessa sua expressão.
— Eu queria perguntar uma coisa.
— Está com uma cara... — Ela riu. — É impressão minha ou teve alguma ideia? — Sentindo-se renascer na água mineral quente, Mikki abriu um sorriso sexy.
— Eu... gostaria de lhe dar um banho — Asterius murmurou de uma vez.
Mikki ficou chocada diante do profundo rubor que tingiu a pele cor de bronze.
— Eu adoraria que fizesse isso.
Ele caminhou até a beira da piscina de pedra e pousou a garrafa de cristal. Então livrou-se da cuirasse e da túnica curta que usava por baixo.
Mikki adorou observá-lo e ver o corpo forte ficar cada vez mais exposto. Asterius era tão poderoso; uma mistura tão incrível de homem e animal!
Mas não era apenas seu corpo que unia dois extremos. Sua mente também era um misto de ferocidade e compaixão, inocência e sabedoria, características que se mesclavam
para formar um ser extraordinário, diferente de qualquer outro que poderia existir em qualquer mundo.
Estava tão distraída em sua contemplação que apenas quando ele entrou na piscina foi que percebeu: o sangue no corpo de Asterius não tinha vindo apenas das feridas
dela. Os braços fortes estavam cobertos de cortes e marcas de mordidas.
— Eles o machucaram! — Mikki puxou-o para baixo, aflita para mergulhar os ferimentos na água quente e limpa. — Eu sou mesmo uma idiota! Tem alguma bandagem aqui?
Urgh, alguns destes vão precisar de pontos! Não é possível que não haja uma médica neste reino. Vamos limpar esses cortes, depois vou pedir que a chamem e...
Ele segurou-a pelos pulsos.
— Não preciso de nenhuma curandeira.
Ela franziu o cenho.
— Escute, eu trabalhei em um hospital. Ouça bem o que eu digo, você precisa de um médico!
Asterius sorriu e beijou-a delicadamente.
— Sua preocupação aquece meu espírito.
— Que bom. Isso me faz bem. Pois saiba que iria aquecer meu espírito se me deixasse chamar uma médica.
— Mikado, eu sou imortal... Não preciso de médicos. As feridas irão se curar sozinhas.
Ainda franzindo a testa, ela levantou um dos braços musculosos.
— Tem razão! Elas já estão sarando!
— Satisfeita agora?
— Estou perplexa — Mikki confessou —, mas aliviada. — Espirrou água sobre a pele morena, tocando as marcas de mordida recém-curadas e observando enquanto a carne
se refazia. — Existe algum ferimento do qual não pode se recuperar?
— Se você dissesse que não me amava mais, iria me destruir.
Ela encontrou os olhos castanhos.
— Então vai viver para sempre.
Asterius sorriu e apanhou a garrafa de cristal da borda da piscina.
— Deixe-me mostrar o quanto gosto de você, Mikado...
Ela ficou em pé, de modo que a água da piscina só a cobrisse até a cintura. Tomou a garrafa das mãos dele e despejou uma quantidade generosa do líquido viscoso sobre
o pescoço, braços e seios antes de colocá-la de volta na borda. A inebriante fragrância da unção da Empousa mesclou-se sutilmente a seu calor, o que a tornou única.
Devagar, Asterius deslizou as mãos sobre sua pele lisa e macia. Acariciou-lhe o pescoço e os ombros, então tocou-lhe os seios e a carne sedutora do ventre firme.
Em seguida, suas mãos desceram abaixo da cintura delgada, carregando o sabão com perfume de rosas até as coxas de Mikki.
Ela sentiu-se liquefazer com seu calor. Os dedos de Asterius encontraram o caminho para seu âmago, onde ele os usou para acariciá-la com breves movimentos circulares,
depois se afastaram, voltando a provocá-la no ventre e nos seios antes de retornar para seus recantos mais secretos.
Partes adormecidas do corpo de Mikki pareceram ganhar vida, deliciando-se com o calor da água que continuava a afagá-las mesmo quando ele seguia em frente com as
carícias.
Asterius virou-a e, desta vez, ele mesmo derramou o sabão líquido por sua espinha. Com os joelhos fracos, ela inclinou-se sobre a borda da piscina, enquanto mãos
quentes acariciavam-lhe as costas e, em seguida, mergulhavam em conjunto para afagar suas nádegas.
— Lembra-se da última vez em que entrei em seus sonhos?
Mikki sentiu o hálito quente no meio das costas conforme Asterius ficava de joelhos e prosseguia, com mãos diligentes, por toda sua pele.
— Claro que sim! — respondeu com voz rouca. Percebeu as mãos dele deslizando por seu corpo e recostou-se no corpo másculo com um suspiro quando estas subiram por
suas coxas.
— Estávamos em um poço de rosas — a voz grave vibrou em seu ouvido, enviando ondas de prazer. — Eu estava sobre você, e abriu as pernas para mim... — Dedos hábeis
encontraram seu centro, e os carinhos aumentaram. — Eu estava excitado e, ao pressionar o corpo contra o seu, esfregando-o e acariciando-o, pude sentir sua umidade
e calor, bem como quando retesou-se e explodiu de prazer...
Com um grito abafado, Mikki atingiu o clímax rápida e intensamente.
Asterius virou-a para ele, então, e, num movimento rápido, ergueu-a acima da água e penetrou-a enquanto seu corpo ainda pulsava.
Mikki arqueou-se para encontrá-lo, usando a borda da piscina como apoio. As mãos dele agarraram seus quadris e, com um grunhido gutural, Asterius estendeu as garras,
mal controlando a força de suas estocadas, o membro mergulhando dentro dela seguidas vezes.
Mikki não fechou os olhos. Queria vê-lo, assistir à assustadora beleza de seu rosto enquanto ele a amava. Sentia a pele ultrassensível, e ondas de prazer a sacudiam
a cada vez que as garras longas a feriam de leve.
O ruído dos corpos movendo-se em conjunto, somado ao modo como a voz rouca de Asterius repetia seu nome, tornou-se uma erótica sinfonia, e um crescendo de prazer
rompeu por todo seu corpo, tão intenso que beirou a dor...
Lânguida e satisfeita, Mikki desabou sobre ele, respirando com dificuldade. Sorriu, exultante, de encontro ao peito largo, até perceber que não era apenas o cansaço
que o fazia tremer violentamente.
Alarmada, ela recuou, vendo Asterius de olhos fechados e lágrimas escorrendo por sua face.
— Asterius? — Segurou-o pelo rosto. — O que aconteceu?
Ele abriu os olhos e beijou-a em uma palma.
— Nada... Acho que fiquei sozinho por tanto tempo que não estava preparado para a felicidade que me proporcionou. — Tocou as próprias lágrimas, desconcertado, como
se só então houvesse percebido que chorava. — Isso me faz parecer ainda mais tolo.
— Não, meu amor! — Ela sorriu, comovida. — Faz você parecer humano.
Capítulo 33
Asterius e Mikado não deixaram o covil. Comeram e discutiram várias mudanças que Mikki queria implementar no reino.
Assim como delimitar horários para a abertura do portal, de modo que os homens pudessem entrar e sair sem comprometer a segurança. Como o clima vinha ficando cada
vez mais frio com a proximidade do inverno, também decidiram que Floga aqueceria os jardins, mesmo que por pouco tempo, durante a parte mais escura da noite. A mancha-negra,
uma das piores pragas para as plantas, Mikki explicou a Asterius, costumava aumentar no frio; e era de difícil tratamento uma vez que se espalhasse.
Mikki adorava conversar com Asterius, e não demorou muito a perceber por quê: ele a escutava.
Tentou lembrar-se do último homem que a escutara de verdade e não conseguiu. Nenhum tinha demonstrado tanto respeito e interesse por ela como seu guardião. Aquilo
era uma ironia. Um ser que nem era literalmente um homem sabia por instinto o que muitos deles pareciam não ser capazes de apreender: que as mulheres queriam ser
ouvidas e respeitadas. Simples assim.
Asterius a emocionava. Ele era de um encanto do qual ela, sabia, nunca iria se fartar. Amava a alegria que sentia apenas em tocá-lo, em acariciar aquele corpo incrível
e saber que este era dela...
Naquela noite, eles fizeram amor sobre o catre forrado de peles, descobrindo com imensa ternura outros segredos em seus corpos. Mikki ficou deliciada ao perceber
que Asterius era tão sensível que qualquer carícia deixava-o excitado e pronto para ela.
Uma vez saciados, adormeceram nos braços um do outro, sentindo-se seguros de seu amor, e com a certeza de que o dia seguinte eles também passariam juntos.
— Empousa! Tem que vir aqui!
Mikki pensou que estivesse sonhando. Sabia que encontrava-se na cama com Asterius, pois pôde senti-lo retesar-se e erguer-se do catre, mas também ouviu a voz aflita
de Gii. O que a serva estava fazendo no covil de Asterius?!
Então sua mente nublada pelo sono clareou, e ela despertou por completo.
— O que aconteceu? — Asterius indagou em voz alta, vestindo a túnica e prendendo a cuirasse.
— As rosas... — Mikki sentiu a boca seca, e seu estômago se apertou. — Gii, o que aconteceu com as rosas?!
A serva adentrou o quarto, o rosto pálido, e correu até sua Empousa, envolvendo o corpo nu de Mikki no quitão enquanto explicava tudo em frases curtas.
— Os outros Elementos e eu fomos até o portal das rosas ao amanhecer. Queríamos ter certeza de que não haveria nenhum vestígio da violência de ontem para perturbá-la...
— A voz da moça tremeu. — Elas estão morrendo, Empousa. Todas elas!
— As rosas! — exclamou Mikki.
Embora não fosse uma pergunta, Gii confirmou:
— Sim.
— A muralha... ela ainda está intacta? — indagou Asterius.
— Está, e não há Ladrões de Sonhos no reino. Não há ninguém suspeito aqui. Temos certeza de que todos os homens partiram ontem, e nenhum deles foi convidado a retornar.
— Preciso ir — Asterius disse a Mikki.
— Sim, vá... depressa! Estarei bem atrás de você!
Ele fez uma pausa, apenas para tocar seu rosto numa delicada carícia, antes que o som de seus cascos ecoasse nas paredes da caverna conforme batia em retirada.
— Depressa! — Mikki incitou a serva. — Preciso ir para lá também.
Minutos depois, as duas corriam para o jardim.
Mikki sentiu a mudança no instante em que saiu do covil: sua cabeça começou a latejar, e uma onda de náusea subiu-lhe a garganta.
— Mostre-me o caminho mais rápido para o portal! — ela pediu a Gii, e as duas prosseguiram correndo, sem fôlego para falar mais.
As mulheres estavam reunidas em torno das roseiras que cercavam a passagem na muralha, agitando-se como um rebanho de ovelhas assustadas, e Mikki logo compreendeu
por quê. Era pior do que ela imaginara.
Aflita, abriu caminho entre elas, lançando apenas um olhar na direção dos canteiros onde as flores agonizavam. Precisava chegar logo ao cerne da doença que afligira
as rosas tão repentinamente, e sabia que iria descobri-lo no portal.
Passou pelo último grupo de mulheres e estacou. Asterius já encontrava-se sob a passagem, o olhar aguçado estudando a floresta enquanto andava de um lado para o
outro. Os outros três Elementos não o observavam, pois concentravam-se nas flores dos canteiros que ladeavam o portal, os rostos tensos e sem cor. Quando a viram,
correram a seu encontro.
— Empousa, que coisa terrível! — sussurrou Aeras.
— O que aconteceu com elas? — Nera indagou, mantendo a voz baixa.
— Não sei. Não posso dizer ainda. Abram espaço e deixem-me examiná-las. —Mikki sentiu a pressão do medo quase tanto quanto a doença das rosas. — Façam com que todas
as mulheres recuem.
Todos os Elementos, exceto o elemento Terra, correram para falar com os diversos grupos que observavam o cenário, perplexos.
— Não peça que eu me afaste também — Gii declarou. — Parece estar prestes a desmaiar e quero ficar a seu lado. Se cair, estarei por perto para segurá-la.
— Eu também — reforçou Asterius, juntando-se às duas.
— Foram os Ladrões de Sonhos? — Mikki perguntou.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Não há sinal deles. Não dentro do reino, tampouco na floresta, até onde posso ver ou sentir. — Asterius olhou as rosas ao redor. — Mas, pelo visto, eles não precisam
estar presentes para causar destruição.
Mikki respirou fundo.
— Vamos ver o que posso fazer para consertar isso tudo.
Gii e o Guardião a acompanharam enquanto ela movia-se lentamente de canteiro em canteiro, examinando cada flor.
Mas logo Mikki esqueceu-se de que eles estavam por perto. O estado das rosas deixou-a arrasada. Ela nunca tinha visto tal devastação. As flores pareciam ter sido
atacadas por uma mistura de ferrugem e cancro, e depois queimadas de dentro para fora. As folhas estavam enrugadas e cobertas por fungos de uma espécie que ela não
conhecia. Eram pegajosos e cheiravam a carne podre. As hastes dos arbustos encontravam-se enegrecidas, com partes inchadas tal como artrite nas juntas de uma idosa.
Os botões, murchos e do tom roxo dos hematomas.
Endireitou o corpo após inspecionar outro arbusto morto e olhou o restante dos jardins com um calafrio. A ferrugem espalhara-se como uma onda venenosa. Aquilo não
era normal. Certamente a peste fora levada para o reino pelos Ladrões de Sonhos. E algo lhe dizia que se propagara por meio da nuvem vermelha em que cada criatura
do mal tinha se dissolvido. Pelo visto, elas não haviam sido exterminadas.
Na verdade, não acreditava que criaturas como aquelas pudessem ser eliminadas. O Ódio, o Ciúme, o Medo e o Egoísmo eram emoções que sempre pairavam sobre a humanidade,
esperando por sua chance de atacar e destruir seus sonhos. Podiam ter sido banidos do reino, mas não a tempo de serem impedidos de espalhar seu mal.
E ela não fazia ideia de como lutar contra o que infectara suas rosas por intermédio de tais monstros.
— Empousa? — Gii chamou timidamente. — O que podemos fazer para salvá-las?
Mikki olhou do elemento Terra para seu amante. Ambos a fitavam com preocupação; contudo, ela também podia ver a esperança em seus olhos e a confiança que tinham
nela.
— Eu... preciso pensar. Fiquem aqui. Quero ficar sozinha por um momento — pediu, e afastou-se deles.
Deixou os canteiros que agonizavam e desceu o caminho de mármore que levava ao portal das rosas, pensando em sentar-se debaixo do antigo carvalho e elaborar um plano.
Qualquer plano.
Um toque de cor chamou sua atenção, e ela parou para olhar. Flores cor-de-rosa saudáveis e em plena floração enchiam duas roseiras em meio a um canteiro onde inúmeras
outras secavam e pereciam. Correu para os arbustos, aspirando o perfume doce e acariciando o verde vibrante de suas folhas, como se fossem filhas pródigas e recém-chegadas.
Rosas Salet, reconheceu de imediato. Com suas pétalas duplas e floração abundante, eram uma de suas Old Garden favoritas. Mas por que aqueles dois arbustos tinham
sido poupados daquela praga mortal?
Olhou ao redor, buscando outros pontos de destaque em meio ao mar de podridão e doença. Avistou um vermelho, próximo ao viveiro do portal das rosas, e caminhou rapidamente
até lá. Três arbustos que beiravam o canteiro também encontravam-se em plena floração. Sua cor e perfume intensos identificavam a flor como uma Chrysler Imperial.
O que aqueles dois tipos de rosa possuíam em comum? A Chrysler Imperial era uma Rosa-Chá Híbrida, e a Salet, uma variedade de Old Garden. Uma era vermelha, a outra,
rosa. E elas não encontravam-se próximas umas das outras. Mikki olhou para as flores cor-de-rosa e saudáveis que floresciam alegremente, alheias à destruição a seu
redor, e estremeceu. Aquele não era o canteiro de rosas Salet sobre o qual os Ladrões de Sonhos a tinham forçado a se deitar? Eles haviam pretendido estuprá-la ali.
Por sorte, Asterius chegara e...
Segurou o ar nos pulmões. Sabia por que aquelas rosas tinham sobrevivido e se desenvolvido em meio a tantas outras que sucumbiam. Sabia o que aqueles cinco arbustos
possuíam em comum... Seu sangue tocara cada um deles.
Cambaleou até um banco próximo e sentou-se antes que seus joelhos cedessem. Estava no canteiro de rosas Salet quando sofrera o golpe no ombro.
Tocou-o, lembrando-se de como sangrara em profusão.
Pouco depois, já perto do portal, o Ódio cortara-lhe a veia da garganta...
Mikki fechou os olhos. Lembrava-se vagamente de ter ficado jogada no chão, metade do corpo sobre o canteiro, conforme o sangue fluía de seu corpo.
E seu sangue havia salvado as rosas. Ele as tinha protegido do veneno dos Ladrões de Sonhos.
Afundou o rosto nas mãos e tentou compreender a enormidade de sua descoberta.
Meu sangue as salvou! As palavras ecoavam em sua cabeça.
— Mikado, as mulheres aguardam suas instruções.
Ela ergueu o olhar, piscando na tentativa de clarear a visão. Asterius ajoelhou-se ao lado do banco e enxugou suas lágrimas.
— Confie em si mesma, meu amor. Vai descobrir uma maneira de curá-las.
Mikki mirou os olhos escuros e expressivos, e soube que o que ele dizia era verdade. Sabia como curar as rosas e confiava em si própria.
Agora, tudo o que precisava fazer era encontrar forças para agir.
— Vou ao Templo de Hécate para falar com as mulheres. Peça aos Quatro Elementos que as reúnam e me encontrem lá.
— Sim, minha Empousa — concordou Asterius. Então se curvou, tomou sua mão e a beijou delicadamente.
A Empousa postou-se no templo alto, com os Quatro Elementos formando um semicírculo atrás dela. Asterius se pôs por trás de todas, próximo da chama ardente da deusa.
Mikki olhou para o imenso grupo à sua frente. As mulheres permaneceram em silêncio, com uma expressão grave de preocupação e medo nos rostos, a atenção voltada para
sua Sacerdotisa.
Ela ergueu o queixo e respirou fundo, projetando a voz.
— Temos muito trabalho a fazer. Precisamos nos concentrar e agir rápido. A praga que está matando as rosas tem de ser detida, e eu lhes dou minha palavra de que
sei como fazer isso. — Fez uma pausa quando um suspiro de alívio ondulou através da multidão. — Não iremos nos dividir em quatro grupos desta vez. Todas nós precisamos
nos concentrar na área próxima ao portal das rosas e começar a trabalhar a partir de lá. Em primeiro lugar, quero que tragam para os jardins baldes do mais forte
vinho que houver no reino. — Mikki viu os olhares de surpresa no rosto das mulheres e quase sorriu. — O que vão fazer é podar todas as rosas doentes. Em seguida,
amontoem suas hastes do lado de fora da muralha das rosas, onde Floga irá queimá-las. Conforme forem passando de arbusto em arbusto, não se esqueçam de mergulhar
suas lâminas nos baldes de vinho. Ele irá ajudar a impedir que a doença se propague para partes das plantas que não tenham sido infectadas. Suas facas devem estar
bem afiadas, e precisam fazer os cortes na diagonal. — Percorreu todo o grupo com o olhar, buscando a confiança nos rostos das mulheres.
— Alguma pergunta?
Ninguém falou.
— Então, vamos ao trabalho.
As mulheres partiram em grupos rapidamente, dispostas a reunir as ferramentas de corte e vinho, e Mikki virou-se para suas damas de companhia.
— Eu não estava exagerando. Temos que trabalhar muito e rápido. Essa praga não está se alastrando a um ritmo natural. — Seus olhos encontraram os de Asterius nas
sombras.
— Asterius, embora eu não goste da ideia de abrir esse maldito portal, meus instintos me dizem que queimar as rosas doentes dentro do reino seria um erro terrível.
— Pois siga seus instintos, minha Empousa. Estarei por perto para guardar a passagem.
— Eu sei que sim. Por isso mesmo não tenho medo de abri-la. — Ela sorriu para as servas, lutando para conter as lágrimas que ameaçavam escorrer por sua face. — E
sei que cada uma de vocês vai fazer o que for preciso para ajudar a curar as rosas. Tenho orgulho de todas e acredito em sua capacidade. O Reino das Rosas vai prosperar
novamente, eu prometo.
— Também acreditamos na sua força, Empousa — afirmou Gii. Então caminhou até Mikki e a beijou no rosto antes de fazer uma reverência e afastar-se correndo em direção
aos jardins.
— Confiamos em você, Empousa — reforçou Aeras, e também a beijou antes de curvar-se numa mesura graciosa e partir.
O elemento Água avançou a fim de ter sua chance de beijar a Alta Sacerdotisa, porém Mikki a deteve e fez um gesto com a cabeça na direção da construção maciça que
borbulhava ao lado do Templo de Hécate.
— Nera, eu me lembro de alguém ter dito que esse chafariz é a principal fonte de irrigação do reino. Isso é verdade?
— Sim.
— Os corredores de água chegam mesmo a todas as roseiras?
— Sim, Empousa. — Nera sorriu e continuou: — Antes de sua ordem para que meu elemento visitasse o reino todas as manhãs, raramente chovia aqui.
Mikki devolveu o sorriso caloroso da serva.
— Obrigada... É bom saber.
— Vamos apoiá-la, Empousa — emendou Nera, e a beijou, partindo logo depois.
— Amamos você, Empousa — garantiu Floga. Porém, hesitou antes de beijá-la e fazer a reverência. Uma lágrima correu por seu rosto. — Perdoe-me por ter duvidado de
sua capacidade. Devido a meu elemento, às vezes sou muito impulsiva e passional.
Mikki a abraçou.
— Não há nada para perdoar — falou baixinho.
Quando ficaram a sós, Mikki foi até Asterius e deixou-se abraçar.
Apenas por um momento, tentou absorver sua força e amor, deliciando-se com a paz que era encontrar o ser ao qual estava destinada.
Mas não permitiu que ele a abraçasse por muito tempo. Não podia se dar a esse luxo naquele momento.
O tempo surpreendeu Mikki, passando devagar. Talvez porque o trabalho de poda das rosas podres e doentes, e de carregá-las para a pira, do lado de fora da muralha,
fosse penoso e deprimente.
Ou talvez porque não conseguisse parar de pensar no que o futuro lhe reservava.
De qualquer forma, várias eternidades pareciam ter se passado naquele dia interminável. Entrara num ritmo tão hipnótico de cortar e depois mergulhar a lâmina no
vinho, cortar e mergulhar... que ficou surpresa ao olhar para cima e ver que o céu tinha escurecido o bastante para que Floga acendesse as tochas por toda a extensão
da muralha das rosas.
— Gii? — ela chamou o elemento Terra, que correu para seu lado sorrindo, embora tivesse os olhos marcados por sombras e os braços arranhados pelos espinhos. — Isso
é tudo o que podemos fazer hoje. Oriente as mulheres a levar o que cortaram para o lado de fora do portal, e vamos descansar.
— Sim, Empousa — aquiesceu a serva, parecendo aliviada.
Mikki não podia culpá-la. Seus ombros doíam e suas mãos estavam machucadas e doloridas devido ao uso da faca. E isso porque esta encontrava-se bem afiada. Um grupo
de mulheres passara o dia não fazendo outra coisa além de afiar as lâminas.
Olhou para a que ela usava. Cuidadosamente, mergulhou-a no balde de vinho e, em seguida, limpou-a na grama antes de escondê-la na base da roseira que acabara de
podar.
— As mulheres estão terminando suas tarefas, conforme ordenou, Empousa.
A voz de Gii a fez pular, culpada, e Mikki disfarçou com um sorriso. Segurou o braço da serva.
— Caminha um pouco comigo?
— Claro! — A moça sorriu de volta.
Seguiram juntas e em silêncio, tomando um caminho sinuoso em direção ao portal das rosas. Mikki ficou satisfeita com o que viu nos canteiros. Os arbustos doentes
tinham sido bem podados. Pareciam vazios agora, mas ela sabia que, na primavera, voltariam a crescer e a ser ainda mais saudáveis e resistentes do que antes. As
rosas eram verdadeiras sobreviventes; não as flores delicadas e frágeis que muitos acreditavam que fossem.
Disso ela entendia melhor do que ninguém. Conhecia sua própria força e resiliência. Muitas vezes as pessoas tinham se enganado com ela, julgando-a apenas um rosto
bonito e nada mais, ou pior, considerando suas opiniões inconsequentes porque ela era apenas uma mulher...
Pensou em Asterius. Ele também fora mal interpretado, e exclusivamente por conta de sua aparência. Não admirava que eles se dessem tão bem.
— Você estava errada sobre ele — falou de súbito.
Gii a fitou, surpresa com as palavras da Alta Sacerdotisa.
— Ele quem, Empousa?
— O Guardião. Ele não é um animal e não merece ser tratado como um.
A serva ficou em silêncio.
— Não sei o que aconteceu antes, não sei o que ele fez e, neste momento, nem quero saber — prosseguiu Mikki. — Mas deixe-me dizer o que descobri: o Guardião salvou
este reino ontem, quando meu erro poderia tê-lo destruído. E faria o mesmo hoje, amanhã, todos os dias, por toda a eternidade. Ele é honrado e gentil, Gii. Sabia
que também é um verdadeiro artista?
— Não.
— Pois, é.
— Ele a ama — a moça falou, hesitante.
— Eu sei. E eu o amo também. — Mikki respirou fundo. — Por isso quero que me prometa uma coisa: que não vai mais rejeitá-lo e irá tratá-lo melhor. Ele... — Fez uma
pausa, lutando contra uma onda de emoção. — Ele é muito sozinho, e não quero que passe a eternidade dessa maneira. Se mudar o modo como reage a ele, Gii, todas as
servas que virão depois de vocês quatro farão o mesmo. Faria isso por mim?
O elemento Terra parou e fitou os olhos da Sacerdotisa. O que viu a fez prender a respiração.
Então, lentamente, Gii assentiu com um gesto de cabeça.
— Sim, Empousa. Tem minha promessa.
— Obrigada, Gii. Agora, vamos sair daqui... Foi um dia longo — Mikki falou com uma alegria forçada.
Chegaram à muralha das rosas a tempo de ver Asterius fechando o portal, e Mikki suspirou, aliviada.
Por algum tempo, os Quatro Elementos, o Guardião e sua Empousa ficaram junto das habitantes do reino, assistindo às rosas doentes queimarem na borda da floresta.
Logo as mulheres começaram a se dispersar em pequenos grupos, despedindo-se de Mikki com um ar cansado, até que apenas as quatro servas permaneceram em sua companhia.
— Trabalharam muito bem hoje — Mikki as elogiou, fitando cada um delas nos olhos. — Quero que saibam que estou orgulhosa de vocês.
As moças sorriram para sua Empousa, exaustas.
— Podem dormir até depois do amanhecer. Todas precisamos de descanso. Depois do café, encontrem-me no Templo de Hécate e retomaremos o mesmo trabalho que fizemos
hoje: a poda e a queima das rosas doentes. Mas acredito que elas estejam melhores amanhã.
— É o que seu instinto lhe diz? — Gii indagou, esperançosa.
— Sem sombra de dúvida. — Mikki sorriu a despeito do aperto que sentia no peito. Então, impulsivamente, abraçou cada uma delas. — Se precisarem de mim, estarei na
casa do Guardião — disse, enfatizando a palavra “casa”, e decidida a nunca mais chamá-la de covil. — Boa noite — desejou, voltando-se para se juntar a Asterius,
onde ele a esperava nas sombras.
— Durma bem, Empousa. — Gii hesitou só um momento e depois acrescentou: — Boa noite, Guardião.
Mikki encontrava-se de frente para ele, e viu o olhar de surpresa que estampou seu rosto forte.
— Durma bem, Terra — Asterius respondeu, um pouco tenso.
Então, cada uma das outras três servas o cumprimentou, o que o deixou ainda mais perplexo.
— Em todos os séculos em que fui o guardião deste reino, isso nunca aconteceu.
— Eu disse que ia mudar as coisas por aqui... — Mikki passou o braço pelo dele. — Vamos para casa.
Capítulo 34
Mikki esticou-se ao lado de Asterius na cama, sentindo a maciez das peles grossas contra sua pele suada. Distraída, traçou um dedo ao longo dos músculos do abdômen
firme de seu amante, os quais saltavam mesmo com ele deitado ali, completamente relaxado e com os olhos fechados.
Tinham feito amor duas vezes. Uma delas, na piscina de banho novamente. Havia sido rápido, porém intenso, e Mikki sabia que suas nádegas ainda mostravam as marcas
que ganhara por conta das garras longas de Asterius durante o clímax de sua paixão...
Na segunda, o ato fora longo, lento e suave. Ele a levara ao ápice duas vezes, usando apenas a língua antes de penetrá-la devagar e preenchê-la até sua total satisfação.
Mikki não conseguia pensar em abandoná-lo. Não podia conceber não sentir seu toque de novo, não falar com Asterius novamente, ou nunca mais ver a alegria e admiração
em seus olhos a cada vez que ela o abraçava.
Assim, recusou-se a pensar naquilo. Faria o que tinha de fazer quando chegasse a hora. Até então, não perderia as poucas horas que ainda possuía com ele lamentando
o futuro.
— Eu quero pintar você.
Mikki deixou escapar uma exclamação.
Com os olhos ainda fechados, o peito largo de Asterius vibrou com uma risada baixa, e ela o socou na barriga de leve.
— Pensei que estivesse dormindo!
— Não consigo dormir com você me tocando assim.
— Ah, desculpe... Eu não sabia. — Mikki começou a recuar, contudo ele a segurou pelo pulso.
— Não me importo. — Soltou-a e sorriu quando ela continuou a acariciá-lo. — Mas ainda quero pintá-la.
— Você já me desenhou.
— Sim, mas quero pintá-la também. Assim como está agora... Quero sua imagem nas paredes do meu quarto.
Ele não disse “para que eu possa me lembrar de você no dia em que estiver velha ou morta”, porém a mente de Mikki gritou as palavras. Asterius poderia precisar da
pintura para recordar-se dela muito antes do que qualquer um deles esperava.
Afastou os pensamentos mórbidos, mas, no fim, quis que ele a retratasse, para que pudesse capturar algo do que eles tinham sido como lembrança.
— Quer fazer isso agora?
Asterius abriu os olhos e a estudou.
— Sim — aquiesceu de bom grado. — Quero pintar seu retrato esta noite.
Mikki observou-o quando ele saiu da cama e começou a apanhar potes e pincéis dos nichos escavados nas paredes da caverna, e também a acender tochas que deixaram
o quarto ainda mais vivo com calor e luz. Asterius não se preocupou em vestir-se com mais do que um pano de linho, que amarrou a esmo em torno dos quadris, mais
uma vez, ela se viu abalada pela beleza da força bruta e selvagem de seu corpo. Ele era homem, animal e deus, tudo em um só... Um verdadeiro milagre. E tudo o que
ela queria na vida era passar o restante de seus dias a seu lado.
Quando Asterius já havia preparado as tintas e empunhava um pincel, Mikki sentou-se e sorriu.
— Como quer que eu pose?
Ele caminhou até o catre e a virou suavemente, de modo a deitá-la de lado, como ela estivera junto dele. Espalhou seus cabelos em volta dos ombros, tal qual um véu
de cobre sobre sua pele clara. Em seguida, fez com que deitasse a cabeça sobre um braço e apoiasse uma palma sobre a cama, como se tivesse acabado de acariciá-lo.
Então puxou a coberta que a ocultava da cintura para baixo, deixando-a nua. Mikki levantou uma sobrancelha, e os lábios dele inclinaram-se num sorriso.
Está com frio?
— Se eu estiver, vai me aquecer?
A risada de Asterius vibrou entre eles.
— Quando eu terminar. Quietinha, agora... Apenas mantenha-se deitada e feche os olhos. — Ele voltou para as cumbucas de barro e pincéis.
— Tenho que fechar os olhos? Preferiria ficar vendo você.
Asterius a fitou por cima do ombro.
— É sempre uma surpresa saber que gosta de me olhar.
— Eu gostaria de fazer mais do que apenas olhar... — Ela sorriu, sedutora.
— Não se mexa — ele repreendeu, contudo seu sorriso foi claramente indulgente.
Com gestos rápidos e firmes, Asterius começou a pintar acima da gravura do Tulsa Rose Garden, fazendo com que o jardim ficasse em segundo plano. Como se sobrepusesse
uma nova visão da realidade.
— Posso falar com você enquanto faz isso ou precisa se concentrar? — Mikki murmurou, impressionada com a esplendorosa versão dela mesma que ia tomando forma.
— Claro que pode. Mas eu não posso responder. Às vezes me esqueço de onde estou quando pinto.
— No meu antigo mundo, chamam isso de “entrar em Alfa”. Eu li um artigo a respeito uma vez. Acontece muito com artistas, autores e atletas. Tem a ver com endorfinas
cerebrais. Se entra em Alfa, é porque está fazendo algo certo.
Asterius resmungou qualquer coisa.
— Sempre entra-se em Alfa quando pinta?
— Acho que sim. — Ele apertou os olhos para estudá-la, depois virou-se para a parede da caverna e desenhou a linha longa e curva de sua cintura, quadril e perna.
Mikki o observou, pensando em seu talento e na beleza que parecia criar com tanta facilidade, mesmo tendo sido um pária durante séculos.
Por favor, Gii, mantenha sua palavra.
Tratou de afastar a mente da promessa da serva, com medo de que Asterius analisasse sua expressão e fosse capaz de ler seus melancólicos pensamentos. Precisava pensar
nele como ele havia estado pouco antes: apaixonado, carinhoso, amoroso e cheio de surpresas, assim como nas pinturas requintadas que podia produzir.
O que a fez lembrar-se de uma coisa...
— Asterius, quem é a mulher que desenhou na parede da sala?
A mão dele parou.
— Pasífae, minha mãe... — ele respondeu, sem olhar para ela.
— Eu imaginei — ela murmurou, e era verdade. Asterius não acrescentara a imagem da mulher à parede como um troféu. Não faria isso. — Ela é muito bonita.
— Ao menos é como eu me lembro dela.
Mikki quis lhe pedir que se lembrasse dela assim, tão bonita, também. Que se esquecesse de seus defeitos e da dor de sua despedida no momento em que ela fosse embora.
Que se lembrasse apenas do quanto eles haviam se amado.
Mas não podia. Tudo o que podia fazer era esperar que, quando chegasse a hora, ele a perdoasse por ser mortal.
Fechou os olhos, com medo de que, se continuasse a fitá-lo, fosse deixar escapar o que estava pensando, admitir seu sofrimento e suplicar que ele a ajudasse a descobrir
outra maneira de sair daquela situação.
De alguma forma, Mikki adormeceu. E soube disso apenas porque, ao abrir os olhos, o quarto encontrava-se bem mais escuro e Asterius também dormia a seu lado.
Ficou ali por alguns instantes, ouvindo sua respiração profunda e regular. Então, bem devagar, saiu do leito. Em silêncio, vestiu a túnica que havia descartado.
Não olhou para a parede até ter o tecido bem preso ao ombro. Quando o fez, levou a mão à boca para não soltar uma exclamação.
Asterius a fizera parecer uma deusa! Ele a pintara dormindo, com um ligeiro sorriso nos lábios, como se estivesse tendo um lindo sonho. Sua pele parecia palpável,
seu corpo, exuberante e convidativo.
E ele não a tinha retratado deitada no catre. Ele a pintara dormindo em uma cama de pétalas de rosa... Mais especificamente, de rosas Mikado.
Mikki virou-se para a cama e o fitou, desejando poder acordá-lo e fazer amor com ele.
Mas não podia correr esse risco. Precisava verificar as rosas.
Se meus instintos estiverem errados, prometeu a si mesma, eu vou voltar, acordá-lo e fazer amor com ele durante toda a manhã.
Sem olhar para o amante de novo, saiu do quarto pé ante pé.
O sol ainda não havia nascido, porém, a Leste, o céu começava a trocar o negro da noite por um cinza que logo daria as boas-vindas ao amanhecer. Sentiu a grama fria
e úmida sob os pés descalços enquanto contornava a base da falésia rumo aos degraus que a levariam além das piscinas quentes, em torno da sacada e, em seguida, para
o centro dos jardins.
Mikki não se permitiu distrair. Correu escada acima, mal olhando para as piscinas que soltavam vapor, não querendo se lembrar de como tinha sido maravilhoso mergulhar
nelas na companhia de suas servas e de como estava ansiosa por fazê-lo novamente.
Sua varanda encontrava-se vazia, assim como seu quarto. Porém, avistou o fogo queimando na lareira e um candelabro aceso ao lado da cama. Mikki mordeu o lábio e
desviou o olhar do cenário acolhedor. Desceu a escada e entrou no jardim. Escolheu o caminho que a levaria mais rápido até o centro do reino, e ao templo e à fonte
que a aguardavam lá, tomando o cuidado de manter os pensamentos nas rosas e longe dos Elementos ou de Asterius. Não queria que eles entendessem mal e pensassem que
ela os estava invocando. O que precisava fazer, teria que fazer sozinha.
E foi fácil manter-se concentrada nas rosas. Elas pareciam consumi-la. Deus, estava sentindo-se muito mal! E quanto mais perto chegava do centro do reino, pior ficava.
Por duas ou três vezes, Mikki parou para inspecionar os canteiros de rosas que, horas antes, tinham reagido aos cuidados e à fertilização proporcionados por ela
e as outras mulheres. Agora estas encontravam-se enegrecidas por conta da ferrugem espalhada pelos Ladrões de Sonhos e cheiravam a morte.
Seus instintos estavam certos, mas era ainda pior do que ela havia imaginado. A praga espalhara-se com uma velocidade inacreditável. Nenhuma doença mortal poderia
ter dizimado um jardim como aquele.
Mas aquela peste não era mortal, Mikki se lembrou. Era a manifestação do mal. E sua intuição lhe dizia que existia apenas uma maneira de combatê-la.
O Templo de Hécate surgiu à sua frente como um sonho iluminado por tochas, e o som das águas da fonte foi como uma mágica trilha sonora em seus ouvidos. Não parou
ali, contudo. Continuou andando até que as luzes que iluminavam a muralha das rosas brilharam diante dela.
Foi fácil encontrar os arbustos que seu sangue havia tocado. Eram a única cor em meio às trevas, à morte e à doença.
Eu estava certa. Queria não estar, mas estava.
Desolada, Mikki refez o caminho de volta ao templo, parando apenas para apanhar a lâmina recém-afiada que tinha escondido na base de uma roseira. Subiu os degraus
do templo, então, e parou diante da chama do espírito.
— Hécate? — chamou baixinho, os olhos fixos no fogo alaranjado. — Sei que está distante de seu reino, porém espero que ainda esteja ligada a ele e a mim o suficiente
para que, de alguma forma, seja capaz de me ouvir. Preciso falar com você antes de dar fim a isto tudo... Quero que saiba o quanto amei estar aqui. Pela primeira
vez em minha vida, sei que estou no lugar certo. Os Quatro Elementos são maravilhosos, principalmente Gii. Se puder, por favor, diga a elas que sou muito agradecida
por tudo o que fizeram por mim. — Respirou fundo e enxugou as lágrimas silenciosas que escorriam-lhe pelo rosto. — Eu amo Asterius. Você na certa não gosta disso,
mas disse para que eu seguisse meus instintos... e tudo dentro de mim me levou a ele. Ele não é nenhum animal, você sabe. Asterius precisa do que todos nós precisamos:
de aceitação e de alguém para amar. — Mikki precisou parar e pressionar a mão contra a boca para reprimir um soluço. Quando conseguiu controlar as emoções, continuou:
— Estou fazendo isto por ele. Por Asterius, pelas meninas e pelas Tecedoras de Sonhos. Agora compreendo, finalmente, a verdadeira razão de eu estar aqui. Eu vim
pelas rosas, pois posso salvá-las. Não tenho escolha. Vi o que existe na floresta e não posso deixar aquelas criaturas destruirem tudo o que eu amo. — Olhou para
o fogo, desejando que este fosse mais eloquente, desejando ter mais tempo para aprender palavras especiais para as orações e rituais, de forma a fazer aquilo melhor.
— Quando eu me comprometi com você, fiz isso com duas palavras: “amor” e “confiança”. São esses sentimentos que me regem aqui. O que eu fizer, faço de bom grado,
pois quero preservar o amor que encontrei neste reino. Acredito que estou fazendo a coisa certa porque, por meio desse amor, aprendi a confiar em mim mesma, em acreditar
em meus próprios instintos, intuição e julgamento. Então, se puder, Hécate, peço que fique comigo agora... Assim seja — sussurrou com voz embargada.
Decidida, Mikki deixou o templo e aproximou-se da fonte cuja água alimentava todo o reino. O gracioso chafariz era realmente muito bonito, com suas bacias de mármore
e valas que espalhavam-se pelos jardins.
Mergulhou a mão na água e ficou surpresa com seu calor.
Apenas uma estranha coincidência, pensou, antes de tirar a túnica, dobrá-la com cuidado, depois colocá-la no chão a seu lado.
Não. Não existem coincidências aqui. Posso considerar isto como um presente de despedida da deusa.
Nua, sem nada nas mãos exceto a lâmina afiada, Mikki entrou na fonte. A água deu-lhe boas-vindas e ela se sentou, acomodando-se confortavelmente na larga piscina,
a qual era funda o suficiente para que ela ficasse coberta quase até os ombros pelo líquido claro e quente.
Acabe logo com isto. Vai doer só por um instante.
Ergueu o punho esquerdo e pressionou a lâmina contra a pele. Fechou os olhos e cortou-se, prendendo a respiração com a súbita dor. Então mudou de mão. Desta vez
foi mais desajeitada, porém não menos eficiente.
Deixou cair a lâmina ao lado da fonte. Estremeceu ao submergir os pulsos, mas tinha razão. O dor não foi tão ruim e nem durou muito.
Descansou a cabeça contra a borda da piscina. Olhando para o céu, pensou como era bom que a lua houvesse acabado de se pôr e o sol ainda não tivesse nascido.
Hécate... Deusa da Lua Negra.
Talvez a ausência de luz no céu fosse um sinal de que a divindade aprovara seu sacrifício.
Ela havia feito a coisa certa. As rosas sobreviveriam. Os sonhos da humanidade estariam seguros, assim como seu amor.
Fechou os olhos. Estava com tanto sono, e a água era tão confortável... suave... como uma imensa cama de plumas... uma balsa em um lago quente de verão... os braços
de sua mãe quando ela era uma menininha assustada depois de um sonho ruim.
Suspirou. Não deveria haver nenhum sonho ruim. Deveria haver apenas amor, beleza e rosas.
Não estava com medo, mas sentiria falta de Asterius.
Conforme sua mente foi escurecendo devagar, o pensamento final de Mikki foi o quanto ela o amava.
Asterius acordou de repente. Alguma coisa estava errada.
Espantou o sono como sempre fazia e se sentou, já procurando pelas roupas.
Então, pensando que deveria acordar Mikado, virou-se e...
Ela não estava lá.
A princípio, isso não o incomodou. Mikki podia estar na sala de banho.
Vestiu a túnica e cruzou o túnel dentro da caverna, porém ela não encontrava-se por ali também.
Um pressentimento o fez apertar o passo enquanto fazia o caminho de volta para o quarto, depois para a sala um pouco mais além.
Mikado não encontrava-se em lugar algum.
Deixou o covil enquanto ainda prendia a cuirasse. O sol já havia nascido, mas ainda era madrugada e uma brisa excepcionalmente quente soprava.
Parou, aspirando o ar. Sim, ele estava certo... O vento trazia com ele o aroma rico e inebriante de rosas florescendo.
Aumentou o ritmo, e logo adentrou os jardins. Tudo ali encontrava-se em flor. Nuvens de cor preenchiam os canteiros, como se a deusa tivesse apanhado um pincel divino
e repintado todo seu reino com vida e saúde.
Mas em vez de sentir alívio e felicidade, a preocupação abateu-se sobre Asterius e ele correu, deixando seu instinto guiá-lo.
Avistou o Templo de Hécate no mesmo momento em que ouviu o primeiro grito de horror. O som foi como um punhal gelado entrando em seu coração. Outro grito seguiu-se
ao primeiro, depois outro e mais outro, até que os jardins pareceram sacudir com luto e lamentação.
Não! – sua mente gritava, embora ele já soubesse o que estava prestes a descobrir.
Voou até o templo. Os Quatro Elementos encontravam-se em pé ao lado da fonte, agarradas umas às outras e chorando copiosamente. No meio delas, ele avistou os cabelos
molhados cor de cobre e um lado da face pálida. Devagar, como se estivesse atravessando um pântano de lama e areia movediça, aproximou-se do chafariz. Era ela, claro.
Mikado estava morta.
Asterius, o Guardião do Reino das Rosas, caiu de joelhos e rugiu sem parar sua dor. Uma a uma, lideradas por Gii, as servas aproximaram-se dele e colocaram as mãos
em seus ombros e, unidos pelo pesar, choraram por sua Empousa.
Parte 3
Capítulo 35
Deus, sua boca estava seca! E ela se sentia uma merda, concluiu Mikki. Tentou virar-se de lado, mas estava fraca demais. Tudo o que conseguiu fazer foi esticar-se
um pouco e deixar escapar um gemido abafado.
— Cacete! Ligue para o 911, ela está viva!
Ligue para o 911? Não havia telefones no Reino das Rosas! Muito menos alguém que dissesse “cacete”!
Mas, então, que cacete?
Tentou mover-se de novo e, desta vez, sentiu mãos fortes segurando-a no lugar.
— Não tente se mexer, moça! Vai ficar tudo bem... Eu já chamei ajuda. Aqui! — O homem gritou. — Traga os paramédicos aqui!
Mikki ouviu passos rápidos e pesados, acompanhados por uma voz vagamente familiar.
— Cristo, é a Mikki! Ah, merda, olhe todo esse sangue!
Sua respiração começou a sair em espasmos, porém Mikki reconheceu a voz. Era Mel, o guarda de segurança do Roseiral de Tulsa.
Mas não podia ser Mel; ela não podia estar no roseiral! Ela...
Céus! Havia se esquecido. Ela estava morta!
— Mikki, calma! Os paramédicos estão aqui. Vai conseguir!
Ela tentou dizer que não queria. Que sua intenção fora salvar as rosas, e a única maneira que podia fazer isso era lhes dando seu sangue.
A droga era que aquele reino era grande demais, e algumas gotas em um balde não dariam conta dele.
Mas não podia falar. Sua mente continuava funcionando, contudo seu corpo estava pesado e parecia nem ser dela.
E estava molhada... o que fazia sentido porque devia estar na fonte.
— Muito bem, vamos virá-la no três. Um, dois...
Viraram-na de costas. Mikki piscou, tentando clarear a visão turva. Era de manhã e, pelo que ela podia ver do céu por sobre os ombros dos paramédicos, o sol tinha
nascido havia pouco tempo.
Seu olhar mudou para um ponto à direita, e ela conseguiu virar a cabeça para o lado, a fim de focar melhor a vista. Era um enorme pedestal de pedra... bem mais familiar
do que seu velho amigo segurança. Era a base que apoiava a estátua do grande Guardião.
Só que agora esta encontrava-se vazia.
Mikki teve vontade de gritar, mas não conseguiu.
Então, tudo escureceu.
— Parece melhor hoje. Como está se sentindo?
— É uma questão profissional, um teste ou está preocupada mesmo? — Mikki indagou, sarcástica.
Nelly se retesou.
— Eu não mereço isso.
Mikki mordeu o lábio e estendeu a mão para apertar rapidamente a da amiga. Não era justo estender sua amargura a Nelly. Não era culpa da moça que nada que pudesse
ser feito ou dito fosse chegar perto de fazê-la sentir-se melhor.
— Sinto muito. Só estou de mau humor.
— Aconteceu alguma coisa? Os sonhos voltaram?
Ela não fitou Nelly nos olhos. Não queria que a amiga visse o desespero que carregava todos os dias.
— Não. Meus sonhos têm estado normais. Na verdade, nem me lembro deles. Tudo o mais está bem... Não sei o que há de errado. Acho que esse clima está mexendo comigo.
Estou cansada dessa chuva e desse frio.
Tentou não se lembrar de que já controlara a chuva e que, no primeiro dia em que esta a obedecera, havia estabelecido as circunstâncias ideais para que ela fosse
parar na cama de Asterius...
— Mikki?
Ela piscou e seus pensamentos voltaram-se para o presente. Ergueu o cappuccino, tentando beber um gole sem muito entusiasmo.
— Só estava sonhando acordada. Desculpe outra vez, Nelly. Não estou sendo muito boa companhia hoje.
— Você é minha amiga. Não tem que me entreter nem me divertir, e sabe disso. — A psiquiatra suspirou. — Querida, o que aconteceu com você foi muito traumático. Os
homens que a atacaram e roubaram a estátua do roseiral a deixaram sangrando até a morte e nunca foram pegos. É normal passar por fases de depressão, raiva e ressentimento
durante o processo de cura, principalmente quando não se tem um desfecho para um crime.
Desfecho para um crime.
Mikki teve um desejo insano de rir, porém tratou de reprimi-lo. Não queria fazer nada que a fizesse parecer ainda mais louca.
E também não queria que aquela história fosse muito investigada.
Esfregou a testa. Pela enésima vez, quis que Nelly estivesse certa quanto ao que estava sentindo: que aquilo fosse apenas parte de um processo de cura.
— Eu sei. Eu só... Eu só queria me sentir normal de novo.
— Você vai, Mikki. — Nelly olhou para o relógio. — Ah, droga! Vou chegar atrasada.
Mikki conseguiu esboçar um sorriso.
— O compromisso é com algum maluco, ou apenas com um meio maluco?
Nelly riu e, uma vez de pé, apanhou a valise e a bolsa.
— Com um maluco e meio.
— Boa sorte, então.
— É bom que eu tenha mesmo — agradeceu a moça. — Ei, dê uma ligada mais tarde se quiser conversar.
— Pode deixar, eu ligo. Vejo você amanhã de manhã... Na mesma hora, mesmo café.
Mikki sorriu para a amiga, sentindo-se culpada pelo alívio que a invadiu quando Nelly saiu pela porta. Era tão difícil esconder as coisas dela! Como podia contar
a verdade? Sabe, amiga, eu não fui assaltada por criminosos que roubaram a estátua do Roseiral de Tulsa e que me abandonaram à morte... Na verdade, eu me matei,
embora eu goste de pensar nisso como um sacrifício. Nunca pensei em suicídio, o que deve provar que não estou louca. Enfim, eu tinha que fazê-lo porque o Reino das
Rosas, na intersecção entre os mundos, estava em perigo, e só meu sangue podia salvá-lo. Era meu dever como Empousa. Ninguém pode considerar isso um suicídio porque
eu estava apenas cumprindo com meu destino. E, a propósito, estou desesperadamente apaixonada por um homem-fera, e a razão pela qual me sinto tão deprimida é que
estou presa aqui, sem ele!
Suspirou. Nelly era sua melhor amiga, mas não hesitaria em trancafiá-la em uma cela linda, exclusiva e confortável se ela dissesse a verdade. Percebera isso tão
logo havia acordado no hospital e eles — o serviço social e os policiais — começaram a interrogá-la.
E a história que adviera de tudo aquilo tivera mais a ver com omissão e acidente do que qualquer coisa semelhante à verdade. Por isso ainda não tinha coragem de
dizer nada. Nem mesmo a uma amiga, psiquiatra experiente, que a conhecia bem demais.
Mikki consultou o relógio. Eram apenas sete e meia, e não precisava ir para o trabalho antes das oito. Tinha tempo para mais uma xícara de cappuccino. Quando se
pôs em pé, disposta a apanhar um refil para a bebida quente, capturou o próprio reflexo nas janelas do Expresso Milano. Estava magra... Muito magra. E podia ter
feito algo com aqueles cabelos em vez de apenas prendê-los para trás em um rabo de cavalo.
O problema era que não estava com a menor vontade de se cuidar.
Bem, ao menos ainda havia bastante de seus cookies favoritos, os biscoitos alaranjados, gigantes e cobertos de açúcar que o café comprava todas as manhãs da popular
padaria Pani Del Dea, a qual ficava apenas a algumas portas dali, descendo a rua.
Pediu dois deles para viagem com mais um cappuccino. Então mudou de ideia e pediu um terceiro. Precisava engordar, e uma dose a mais de açúcar somada à cafeína seria
suficiente para levá-la a enfrentar mais um dia sem sentido e interminável no trabalho.
Apanhou uma edição do Tulsa World e acomodou-se em uma das poltronas estofadas e macias, enquanto esperava que a atendente toda perfurada por piercings trouxesse
o café e os cookies na elegante bandeja de prata do estabelecimento.
Quando ouviu o ruído de saltos aproximando-se no piso frio, não tirou os olhos do jornal.
— Pode colocar aqui. Ah, e fique de olho em mim, por favor. Tenho a impressão de que hoje vai ser uma daquelas manhãs em que não passo sem ao menos três expressos!
— Está tudo bem, Mikado?
Mikki quase deixou cair o jornal com a surpresa.
— Sevillana! Desculpe... Pensei que fosse a garota do café.
Os olhos incrivelmente azuis da mulher cintilaram.
— Não sou confundida com uma moça há muito tempo!
Mikki abriu um sorriso e, por um momento, este foi genuíno.
— Não quer se sentar comigo?
— Sim, eu gostaria muito. — A mulher acomodou-se com graça em uma cadeira a seu lado e arrumou o lindo xale de pashmina azul-pálido sobre os ombros.
— Eu não sabia que morava por aqui.
Como na primeira vez em que elas haviam se encontrado, Mikki sentiu-se um pouco intimidada pela presença de Sevillana. Ela era tão... imponente e clássica. Havia
um ar de dignidade e cultura em tudo o que dizia e fazia.
E então, com um choque, ela se lembrou. E, em meio à lembrança, perguntou-se como poderia ter se esquecido.
— O perfume! Onde conseguiu o perfume que me deu naquela noite?
A mulher sorriu, mas a aproximação da garçonete com os cafés e doces impediu-a de dizer qualquer coisa.
Mesmo quando estavam a sós outra vez, Sevillana levou algum tempo dissolvendo o açúcar em seu cappuccino e mexendo cuidadosamente com a colher de prata minúscula
antes de falar.
— Há apenas um lugar onde se pode encontrar tal perfume, e é em um reino muito distante daqui.
Mikki sentiu uma onda vertiginosa de uma emoção da qual sentia falta havia três meses: a esperança.
— Está falando sobre o Reino das Rosas.
A mulher aquiesceu com um gesto de cabeça.
— Ah, Deus! — Mikki exclamou, ofegante.
— Creio que seria mais adequado você exclamar “Oh, Deusa!”, Mikado.
— Como sabe disso?! Como chegou lá, e como foi que eu voltei? O que está fazendo aqui? Por que...
Sevillana ergueu a mão, detendo a torrente de palavras.
— Tudo tem seu tempo. Afogar-me em perguntas não vai mudar isso.
— Eu... — Mikki levou a mão ao peito, temendo que o coração fosse saltar para fora do corpo. — Sinto muito, mas eu preciso saber. — Passou a mão trêmula sobre o
rosto e recomeçou: — Eu tenho que voltar para lá!
— Eu sei, minha filha, eu sei — Sevillana concordou suavemente. Seu olhar fixou-se além dela, então, e, quando ela tornou a falar, sua voz lembrava a de uma menina
tristonha. — Ninguém falou no meu nome enquanto estava lá? Eles não se lembram de mim?
— Seu nome? Não. Por que eles... — Os olhos de Mikki se arregalaram.
— É você! Você é a última Empousa!
— Não, Mikado. Eu era a última Empousa. Não sou mais Alta Sacerdotisa de Hécate. Rejeitei esse cargo porque era jovem e tola, mas paguei pela minha traição. Por
duzentos anos fiquei separada do meu reino e de minha deusa, e percorri o mundo comum, sempre inquieta e insatisfeita. Vivi como uma verdadeira marginal.
— Duzentos anos! — Mikki não conseguia desviar o olhar da velha senhora. — Mas como?
— Nunca compreendi muito bem. Envelheci, obviamente, porém muito devagar. Eu costumava acreditar que essa era a maneira de Hécate me punir: estendendo minha vida
até que eu me arrependesse de minhas atitudes egoístas. Em uma de minhas viagens, décadas atrás, visitei Tulsa, e aconteceu de eu assistir à inauguração de seu novo
roseiral. — Ela fez uma pausa, a expressão cheia de dor. — Reconheci a estátua do Guardião, e soube que ela havia sido colocada aqui por alguma razão. Por isso passei
a visitar Tulsa com frequência; para esperar e observar. E foi então que eu a conheci, e comecei a ter esperanças de que Hécate tivesse me permitido viver por tanto
tempo por outra razão... — Os olhos muito azuis de Sevillana voltaram-se para Mikki. — Achei que a grande deusa queria que eu lhe desse o óleo sagrado; assim poderia
despertar o Guardião, voltar ao reino e cumprir com o destino que me fora reservado. — A tristeza preencheu os belos olhos da mulher. — Por que cometeu o mesmo erro
que eu? Eu não queria que fugisse.
— Mas eu não fugi! — Mikki gritou, mas baixou a voz quando várias cabeças viraram em sua direção. — Você sabe sobre o sangue, não sabe? De alguma forma, você compreende.
— Sim, seu sangue alimenta as rosas. Como eu poderia não saber? Carregamos o mesmo sangue em nossas veias, Mikado.
Sevillana tocou-a na mão em uma carícia que a fez lembrar-se tanto da mãe que ela prendeu a respiração.
— No hospital, naquele dia, eu disse que me chamava Sevillana Kalyca, e é verdade. Mas essa é apenas uma parte do meu nome. Eu raramente uso meu sobrenome inteiro,
pois é muito difícil ouvi-lo e saber que eu o abandonei; mesmo que isso tenha acontecido há muito tempo. Meu nome verdadeiro é Sevillana Kalyca Empousai. Fui a primeira
Empousa a fugir do Reino das Rosas. E esperava, quando a conheci e senti a força de seu sangue, que também fosse a última.
— Eu não fugi — Mikki repetiu, entorpecida, olhando para sua ancestral. — Eu morri.
Sevillana a fitou, confusa.
— O tempo corre de modo diferente por lá... Mas ainda não podia ser Beltane!
— Era início de inverno. — Foi a vez de Mikki franzir o cenho. — De qualquer maneira, o tempo não tem nada a ver com isso. Ladrões de Sonhos entraram no reino.
— Oh, Deusa, não! — Sevillana levou a mão ao peito num gesto estranhamente parecido com o dela.
— Foi minha culpa. Eles me enganaram, e eu os deixei entrar. O Guardião os matou. Isto é, supondo que eles não possam ser eliminados, essa não é a palavra certa...
Mas Asterius livrou-se deles e os mandou de volta para a floresta.
— Asterius?
Mikki estudou Sevillana, a mente começando a entrar em consonância com suas próprias emoções. Aquela era a mulher sobre a qual eles haviam sido proibidos de falar.
Ela era parte da razão pela qual Hécate tinha enfeitiçado o reino e Asterius.
Pois agora não estava mais no Reino das Rosas e queria saber, de uma vez por todas, o que havia acontecido.
— Asterius é o nome que o Guardião recebeu da mãe. — Observando com cuidado, Mikki viu a ponta de surpresa e inquietação nos olhos da antiga sacerdotisa. — Quero
saber o que aconteceu entre vocês dois. Tudo.
Sevillana olhou pela janela, e sua voz assumiu um ar distante, como se recontasse uma história que fora passada de geração em geração.
— Eu era jovem e muito, muito tola. E também egoísta. Amava o poder que possuía como Empousa. Tanto que não estava disposta a cedê-lo. Conforme o dia de Beltane
se aproximava, eu me convenci de que era justo que eu escapasse do destino planejado para mim, que eu era diferente. Mas sabia que não podia atravessar a floresta
sem proteção. Então convenci o Guardião a trair seu dever e acompanhar-me através da mata até a entrada para o mundo comum.
— Você o seduziu? — Mikki indagou, gélida.
— Só com palavras. Eu não me deitaria com um animal, mas fiz com que ele acreditasse nisso. Não foi difícil... O Guardião tinha pouca experiência com mulheres. Foi
estranho, porém, ele ter permitido que eu escapasse, mesmo depois que eu o rejeitei. — Sevillana abanou a cabeça. — Há muito tempo me pergunto sobre isso. Ele devia
ter voltado-se contra mim e, no mínimo, obrigado-me a voltar para enfrentar a ira de Hécate. Em vez disso, o Guardião me disse... algo e, em seguida, afastou-se
e deixou-me seguir em liberdade.
— Ele pensou que a amava — Mikki falou, rígida.
Sevillana finalmente encontrou seu olhar, e Mikki pôde ver a surpresa estampada em seus olhos.
— Foi o que ele me falou: que me amava. Mas isso não fez nenhum sentido! Como um animal poderia amar uma mulher?
— Ele não é um animal! — Mikki falou por entre os dentes, a ira fazendo-a empalidecer. — E você não era boa o bastante para seu amor se não conseguia enxergar o
homem dentro dele.
A mulher arregalou os olhos muito azuis.
— Você o ama!
— Amo...
Em silêncio, Sevillana observou Mikki por um longo tempo, depois abaixou a cabeça.
— Perdoe-me por ter sido tão arrogante. Eu era uma menina na época. Só compreendi que estava errada muito tempo depois e esta é mais uma lição para mim. Tem minha
admiração, Mikado, bem como meu respeito. Nunca conheci alguém com sua coragem.
Mikki respirou fundo várias vezes, acalmando-se. Não adiantava ficar tão aborrecida com a mulher. O que ela havia feito acontecera dois séculos antes e estava acabado.
Acabado.
E ela não pretendia afastá-la. Sevillana Kalyca Empousai era sua passagem de volta para Asterius.
— Eu a perdoo. Acho que Asterius a perdoaria, também. E o que eu fiz não foi por coragem. Não tive escolha. Asterius havia se livrado dos Ladrões de Sonhos, mas
era tarde demais. Eles já tinham envenenado as rosas, todas elas, exceto aquelas sobre as quais eu derramara meu sangue. Tentei deter a peste de outra forma, mas
nada funcionou. E eu sabia que não ia funcionar. A única forma de eu salvar as rosas era por meio do meu sangue.
— E não acha que foi corajosa ao permitir que seu amante a sacrificasse? Nem era Beltane e, mesmo assim, você foi ao encontro de seu destino original e salvou o
reino.
Mikki franziu o cenho.
— Asterius não me sacrificou. Ele nem sequer sonhava com o que eu tinha planejado. Mas eu sabia que ele ia tentar me deter, então fugi... Que história é essa de
Beltane? É na primavera, não é? O que isso tem a ver com o que aconteceu?
— Não sabe, mesmo...?
— Não — Mikki confirmou, exasperada e já farta de tantos mistérios.
— Eles devem ter ficado com medo de lhe contar. Com medo de que você também os deixasse. Mikado... a Empousa serve para um único propósito. Ela está lá por causa
das rosas.
— Sim, sim, eu sei.
— Então também sabe que a Alta Sacerdotisa de Hécate está vinculada às rosas por meio de seu sangue. O que não sabe é que, em todas as noites de Beltane, a Empousa
é sacrificada pelo Guardião, pois seu sangue garante que o reino prospere por mais um ano.
Mikki sentiu tudo dentro dela paralisar.
— Quer dizer que as mulheres iam me matar?
— Não elas. Ele. É dever do Guardião proteger as rosas.
Mikki soltou o ar. Tudo fazia um terrível sentido agora. O comportamento de Asterius quando ele a conhecera e mostrara-se atraído por ela... O modo como ele tinha
dito que eles não poderiam ficar juntos... O porquê de ele ter lutado tanto contra o amor que sentia. Tinha sido mais do que a descrença de que ela jamais pudesse
vê-lo como um homem; mais do que a rejeição de Sevillana. Asterius sabia que teria de matá-la.
O pensamento deixou-a enjoada, e a mão quente de Sevillana sobre a sua, agora fria e insensível, foi um choque.
— Ele não teve escolha.
— Quer dizer que Hécate também desejou minha morte o tempo todo — Mikki murmurou.
— A vida e a morte são diferentes para os deuses. Hécate é severa e poderosa, mas também uma deusa amorosa. Veria seu sacrifício apenas como outro elo no grande
círculo da vida. A deusa não a abandonaria, Mikado, mesmo na morte. Se tivesse conhecido seu destino em Beltane, Hécate teria feito com que passasse a eternidade
na beleza infinita dos Campos Elísios. A deusa preocupa-se com aqueles que lhe pertencem. Dá as costas apenas para os que a traem.
— É um conceito difícil demais para mim. Todo o mundo que se preocupou comigo, todos os que amei, sabiam que eu ia morrer. — Mikki fez uma pausa conforme a enormidade
do que acabara de ouvir abatia-se sobre ela. — Então, mesmo que você me ajudasse a voltar de alguma forma, eu estaria condenada à morte.
— Sim — confirmou Sevillana. — Ainda pretende voltar?
Capítulo 36
Será que ainda queria voltar?, pensou Mikki. Já era final de fevereiro. O Beltane não era em primeiro de maio? Teria apenas mais dois meses antes que Asterius a
matasse.
Parecia impossível de acreditar. No entanto, mesmo em meio à sua descrença, a intuição lhe dizia que Sevillana falava a verdade. Tudo se encaixava e, de repente,
ela sentiu-se como a única peça fora de um enorme quebra-cabeça. Sabia qual era seu lugar, e este não era em Tulsa, Oklahoma.
— Eu quero voltar, mas não sei se sou corajosa o suficiente.
— Ouça seus instintos, Mikado. Confie no que eles dizem.
— Eles me dizem que não pertenço a este lugar.
— Então talvez deva voltar para casa — concluiu Sevillana.
— Você sabe como me levar até lá?
— Eu posso lhe dar o óleo sagrado, porém, o restante já possui dentro de você. Já se sacrificou pelo Reino das Rosas e foi altruísta o bastante para amar seu Guardião.
Você foi, minha querida, exatamente o oposto da última Empousa do reino. Acredito que Hécate ouvirá seu chamado e irá honrá-lo.
— Mas como... — Mikki se conteve. Sabia o que deveria fazer. Precisava escutar a própria intuição e seguir seus instintos.
Olhou Sevillana, que assentiu diante de sua introspecção.
Acalme-se e pense. É a Empousa de Hécate... Tem que haver um caminho para que possa voltar.
De repente, Mikki sorriu.
— É isso! Eu ainda sou a Empousa. Hécate disse que eu carrego seus poderes, os quais não podem desaparecer por completo nem mesmo aqui. E, olhe para você... Fugiu
da deusa e ainda viveu duzentos anos!
— Ainda deve exercer os poderes de Hécate — Sevillana afirmou. — Mesmo no mundo comum. — A mulher enfiou a mão na bolsa de couro e tirou uma haste de vidro, exatamente
igual à primeira que havia lhe dado. — É o óleo sagrado da Empousa de Hécate. O primeiro passo no ritual de invocação, com o qual eu posso ajudá-la.
— Obrigada, Sevillana. — Mikki tomou o vidro e o envolveu com cuidado em um guardanapo antes de guardá-lo na própria bolsa.
— Só lhe peço uma coisa, Empousa — prosseguiu a velha senhora. — Gostaria que pedisse perdão a Hécate por mim. Sei que não posso retornar ao reino, mas estou cansada
e queria poder abrir mão desta vida e abraçar minha eternidade nos Campos Elísios. Não posso fazê-lo sem o perdão da deusa.
— Vou falar com ela. Mas por que não a invoca você mesma?
— Eu gostaria, mas não consigo. Tentei várias vezes ao longo destes anos silenciosos, porém Hécate não vai me ouvir. Ela me deu as costas.
— Mas Hécate não deu as costas a mim — Mikki concluiu de súbito. — Por que acha que não sou um fantasma nos Campos Elísios agora? Eu morri, Sevillana! Eu não devia
ter acordado em Tulsa, a menos que houvesse um motivo muito bom para que a deusa me quisesse aqui... — Mikki endireitou o corpo. — Hécate sabia que estava aqui.
Eu mencionei seu nome quando ela me perguntou como o óleo sagrado de uma Empousa havia chegado “acidentalmente” em minhas mãos. Eu me lembro de sua expressão agora.
Hécate sabia desde o princípio.
— A estátua do Guardião... A deusa a colocou aqui para que eu a encontrasse! E também a você! — deduziu a mulher com voz embargada.
— Hécate quis que eu voltasse para reencontrá-la. — Desta vez foi Mikki quem pegou a mão trêmula da velha senhora na dela. — Hécate a perdoou, Sevillana.
— Ah, minha querida, se isso fosse verdade...
— Vamos descobrir. Esta noite é noite de lua nova... Venha para o roseiral. Fique dentro do círculo sagrado comigo. Vamos tentar ir para casa.
Mikki ficou feliz com a noite chuvosa. Fazia um frio horroroso, mas estava tão escuro que até mesmo os postes de iluminação em Woodward Park pareciam emanar halos
de luz mais fracos ao redor do parque. Era fácil para alguém que conhecia bem o lugar evitar as luzes...
E ela conhecia o Woodward Park como ninguém.
Carregou a maleta em uma das mãos e segurou a de Sevillana com força na outra, ajudando a mulher a deslocar-se através da escuridão. Não trocaram uma só palavra
e nem precisavam. Mikki apenas rezava para que ninguém estivesse nos jardins.
No momento em que chegaram à fronteira entre o parque e os vergéis, relaxou um pouco. Ninguém fora louco o suficiente para aventurar-se no parque numa noite como
aquela, muito menos depois da meia-noite.
Ainda assim, Mikki não disse nada até que passaram por baixo da arcada de pedra e desceram para o terceiro nível dos jardins. As luzes da fonte iluminavam a área
ao redor preguiçosamente, num efeito aquoso que, junto à névoa que pairava no ar frio, fazia aquela camada mergulhar em um cenário de sonho.
— Bem apropriado — ela comentou baixinho.
— Sim. Essa iluminação evoca imagens de sonho — concordou Sevillana. — É um bom presságio, Empousa.
— Esperemos que sim — ela murmurou. Então olhou para o pedestal vazio. Não voltara ali desde a manhã terrível em que a tinham encontrado. Não pudera suportar.
Não desistira de trabalhar como voluntária, contudo. Pedira apenas uma licença, que lhe fora concedida de imediato. Todos haviam compreendido como devia ser difícil
para ela voltar para os jardins onde fora atacada e abandonada à beira da morte.
Mas claro que não entendiam realmente. Como poderiam? Jamais saberiam a verdade.
— Mikado? — Sevillana tocou-a no braço de leve.
Mikki virou-se de costas para o pedestal vazio.
— Está certa. Precisamos nos apressar. Será impossível explicar isto se formos apanhadas.
— Não vamos ser apanhadas — declarou a mulher com firmeza.
— Isso mesmo. Vamos começar agora.
Mikki escolheu um lugar perto da fonte. Abriu a maleta e Sevillana ajudou-a a colocar uma vela em cada uma das posições dos quatro Elementos dentro do círculo: amarela
ao Leste para o Ar; vermelha ao Sul para o Fogo; azul a Oeste para a Água; verde ao Norte para a Terra; e, por fim, púrpura no centro do círculo para o Espírito.
Então apanhou uma caixa de fósforos da maleta, bem como a faca afiada que geralmente ficava escondida em seu apartamento, e as colocou ao lado da vela central.
Pisando do lado de fora do círculo formado pelas velas, Mikki pegou um último item da mala antes de colocá-la nas sombras, ao lado do pedestal vazio. Tirou a tampa
de cortiça que lacrava o delicado frasco de vidro em forma de caule e, em seguida, aplicou o óleo perfumado em pontos do pulso, pescoço e entre os seios, e o entregou
a Sevillana.
Com apenas uma ligeira hesitação, a mulher apanhou o frasco e aplicou o óleo perfumado no próprio corpo. O aroma de rosas e especiarias mesclou-se ao ar úmido, e
Mikki sentiu o estômago apertar-se com as lembranças.
Aquilo tinha que funcionar. Ela precisava retornar.
— Pronta? — perguntou à outra mulher.
Sevillana aquiesceu com um gesto de cabeça e puxou dois grampos de seu elegante coque, libertando cabelos longos e prateados que lhe caíram até além da cintura.
Em seguida, com um movimento gracioso que não condizia com sua avançada idade, livrou-se da capa longa, sob a qual usava uma linda túnica de seda lilás.
Mikki descartou seu próprio casaco e ignorou o frio quando também ela ficou vestida apenas com uma túnica cor de violeta. A única diferença entre seu traje e o da
outra mulher era que o dela era de um tom mais escuro, e, conforme ditava o ritual da lua nova, deixava-lhe um dos seios nus.
— Uma coisa que se pode dizer sobre estes quitões é que são muito fáceis de vestir — ela elogiou.
— Eu morro de saudades deles! — Olhando para si própria, Sevillana sorriu. Depois ergueu o olhar para Mikki e fez uma mesura delicada. — Vamos em frente, Empousa.
— Vamos.
Juntas, as duas mulheres caminharam para o centro do círculo. Com a vela roxa entre elas, viraram-se para o Norte. Então Mikki apanhou a caixa de fósforos, pensando
em como sentia a falta dos quatro Elementos, principalmente à noite.
Deixando para trás as dúvidas, ela aproximou-se da vela amarela e acendeu o fósforo.
— Vento que sopra forte e em toda parte, mesmo no mundo mundano... Eu te invoco, Ar, como o primeiro elemento no círculo sagrado. — Tocou o pavio com a chama do
fósforo e segurou-a até que este se iluminasse. Sem se preocupar se o Ar iria ouvi-la e responder a seu chamado, moveu-se até a vela vermelha. — Força ardente de
purificação, chama dançante de luz, que mesmo no mundo comum é rica e verdadeira... Eu te invoco, Fogo, para o círculo sagrado. — Quando o fósforo tocou o pavio,
a chama ganhou vida rapidamente, e Mikki sentiu uma onda de esperança. Sem hesitar, seguiu para a vela azul. — Maré brilhante que nos banha, refresca e sacia, mesmo
neste mundo comum, e que cobre mais da metade do nosso planeta, proporcionando-nos a vida. Eu te invoco, Água, para o círculo sagrado. — No pavio aceso, Mikki pensou
ver a chama da vela azul tremeluzir e ondular como as ondas. Então viu-se de frente para a vela verde. — Exuberante e fértil, amiga e selvagem, mesmo neste mundo
comum tu nos manténs e cuidas de nós. Eu te invoco, ó Terra, para o círculo sagrado... — Mikki voltou para seu lugar, ao lado da vela roxa. — Invoco-te agora, Espírito,
para o círculo sagrado, com as duas palavras que me unem à minha deusa: “amor” e “confiança”! — Acendeu a vela roxa e, em seguida, jogou fora o palito de fósforo.
Olhou ao redor, mas ficou desapontada. Não viu nenhum anel luminoso vinculando os elementos para formar o círculo.
— Não se desespere se não consegue ver as tramas neste mundo — falou Sevillana, como se pudesse ler seus pensamentos. — Veja-os dentro de sua mente. Acredito que
elas estejam aí. O poder da fé de uma Empousa é mágico por si só.
Mikki assentiu e imaginou as tramas descrevendo o círculo.
— Vamos terminar o ritual — falou, resoluta.
Abaixou-se e pegou a pequena faca. Olhou para Sevillana, e a mulher estendeu-lhe a mão com a palma para cima. Com um movimento rápido e seguro, Mikki pressionou
a lâmina afiada contra a pele fina de Sevillana, desenhando uma linha longa em sua palma.
Conforme o sangue jorrou, entregou a faca à antiga Empousa. Sevillana tomou-lhe a mão e, do mesmo modo, cortou uma linha semelhante em sua palma. Deixou cair a faca,
então, e as duas mulheres uniram as mãos, palma contra palma, misturando o sangue de gerações de Altas Sacerdotisas de Hécate.
Mikki fechou os olhos e limpou a mente. Quando falou, não se importou em baixar a voz. Se funcionasse, se a deusa fosse mesmo invocada, o círculo se manteria e nenhum
mortal poderia interferir nele. Mas, se isso não ocorresse... não se importaria com o que poderia acontecer com ela, decidiu.
— Hécate, Grande Deusa da Lua Negra, das Encruzilhadas da Humanidade e das Feras... É Mikado Empousai, Alta Sacerdotisa e Empousa do Reino das Rosas quem fala. Encontro-me
em uma terra distante e me ungi com óleo para lançar o teu círculo sagrado. Pelo direito que meu sangue me concede, eu invoco o teu nome. Temos um compromisso, um
juramento selado com amor e confiança. E pelo poder de tal juramento, evoco a tua presença e peço que me ouças.
De repente, um vento chicoteou ao redor delas, fazendo com que as velas tremeluzissem loucamente. Uma névoa as rodeou e, enquanto Mikki observava, transformou-se
numa nuvem cintilante até que, no centro do vórtice de vento, luz e som, Hécate apareceu. Vestia seu traje completo de noite, com os cabelos salpicados de estrelas
e a tocha dourada. A seus pés, os cães enormes rosnavam e tentavam abocanhar a neblina do jardim.
Mikki começou a dizer o nome da deusa, porém a voz emocionada de Sevillana a interrompeu. A mulher soltou sua mão e caiu de joelhos.
— Grande Deusa, perdoe-me! — Sevillana soluçou, as lágrimas escorrendo pelo rosto bonito. — O que fiz foi tão injusto! Passei vidas querendo expiar esse meu erro
imperdoável... Mas a menina tola e egoísta que a traiu já não existe.
A face de Hécate continuou ilegível, porém sua voz era suave.
— O que aprendeu, Sevillana?
— Aprendi que há coisas mais terríveis para se perder do que a própria vida.
— E quais são essas coisas?
— Minha honra, meu nome... e o amor da minha Deusa.
— Você nunca perdeu o amor de sua Deusa, minha filha.
Sevillana levou a mão à boca, tentando reprimir os soluços, e Mikki tocou-a no ombro, emprestando-lhe forças.
— Consegue me perdoar, Hécate? — a velha senhora foi capaz de indagar finalmente.
— Eu a perdoei há muito tempo, Sevillana. Você é que não foi capaz de perdoar a si mesma.
Ela curvou a cabeça.
— Posso descansar, então, minha Deusa?
— Sim. Tudo o que precisava fazer era pedir por isso. Eu jamais daria as costas a uma Empousa minha, mesmo a uma que cometeu um erro. Veja...
Hécate fez um gesto e a neblina abriu-se como uma porta na noite. De repente, um lindo cenário se fez ver. Era um prado repleto de trevos e cercado por pinheiros
altos, cujos ramos pontiagudos lembravam imensos espanadores. Enquanto elas observavam, uma figura ágil pulou e dançou pela campina, seguida por um grupo de lindas
mulheres. Suas túnicas envolviam seus corpos fortes e jovens sedutoramente, embora estes tivessem uma aparência estranha, quase insubstancial.
Mikki sentiu uma onda de choque ao reconhecer uma das mulheres.
— Mamãe! — gritou com voz embargada.
Antes que pudesse correr para encontrá-la, contudo, Hécate alertou-a em voz baixa:
— Não é sua hora, Mikado. Seu destino ainda não está completo.
Em meio às lágrimas que corriam soltas, ela olhou para a deusa.
— Mas é minha mãe, não é?
— Sim. Olhe mais de perto e verá também sua avó.
Mikki obedeceu, prendendo o fôlego. Sim! Reconhecia agora a linda jovem que dançava, segurando a mão de sua mãe. Tinha observado aquele rosto bonito tantas vezes!
A única diferença era que, nessas ocasiões, ele era repleto de linhas e marcas deixadas pela vida.
— Onde elas estão?
— Nos Campos Elísios, onde serão eternamente jovens, felizes e livres — respondeu Sevillana, a voz cheia de emoção.
— Tome seu lugar ao lado delas, Sevillana. Aqui termina seu tormento — declarou Hécate.
A mulher ergueu-se do chão devagar, então virou-se para Mikki e abraçou-a com força.
— Tenha uma vida abençoada, minha querida! — falou baixinho.
— Diga a minha mãe e a minha avó que eu as amo! — Mikki pediu num sussurro.
— Pode deixar. Elas ficarão orgulhosas de você, assim como eu, minha filha.
Dizendo isso, Sevillana atravessou a fronteira do círculo sagrado até a deusa. Parou diante de Hécate e, chorando, fez uma profunda reverência.
A deusa estendeu as mãos e a abraçou, beijando cada uma de suas faces.
— Vá para Elísia com minha bênção, Sevillana.
A mulher atravessou o portal que a divindade tinha aberto para o paraíso e, conforme o fez, seu corpo mudou. Sua velhice a deixou como um manto descartado, até que,
com um grito de alegria, a jovem e bela Sevillana tomou seu lugar em meio ao grupo de moças que dançavam.
O portal desapareceu, então, e, mais uma vez, não se podia ver nada além da névoa, da chuva e das trevas.
— É um prazer revê-la, minha Empousa — afirmou Hécate.
Mikki enxugou as lágrimas do rosto e sorriu.
— Estou muito feliz em vê-la também. Se eu soubesse que podia fazer isto, invocá-la aqui, teria lançado o círculo meses atrás.
— Ah, mas estaria faltando algo na invocação... O óleo sagrado de uma Empousa. Você precisava de Sevillana para tanto.
— Tem razão, eu... Não sei... Aprendi tanto hoje que minha mente não consegue absorver tudo. Estou tão feliz por ter perdoado Sevillana! — Mikki piscou, surpresa,
quando mais uma das peças daquele imenso quebra-cabeça encaixou-se de repente. — Na primeira noite em que estive no reino... você disse que havia cometido um erro
e que queria consertá-lo. O erro envolvia Sevillana e Asterius, não é mesmo?
— Exatamente. — Hécate soltou um suspirou típico dos mortais. — Eu não devia tê-los punido daquela forma. Sevillana era jovem e egocêntrica, mas eu sabia disso ao
escolhê-la para minha Empousa. Tinha esperanças de que o poder em seu sangue iria fazer com que amadurecesse, mas me equivoquei. Isso não aconteceu.
— E quanto a Asterius? — Mikki perguntou, segurando a respiração.
— Asterius foi meu maior erro. Eu lhe dei o coração e a alma de um homem e depois recusei-me a reconhecer que ele era, realmente, mais do que uma fera. Nesse aspecto,
fui ainda mais egoísta do que sua mãe, que não conseguia ver além dos próprios erros sempre que o contemplava... Errei ao não permitir que Asterius tivesse uma companheira,
ao acreditar que uma criatura como ele não precisava de mais nada além do dever de existir. Se suas necessidades o levaram a escolher com imprudência quando Sevillana
o tentou, a culpa foi minha. Foi a raiva que senti de mim mesma que me fez bani-lo e enfeitiçá-lo. Infelizmente, compreendi isso tarde demais. Tudo o que pude fazer
foi esperar que nascesse a mortal certa para ele... Alguém que pudesse enxergar a verdade e ter a coragem de agir sobre esta.
— Então vai me deixar amá-lo, mesmo que apenas até o Beltane?
— Não.
Mikki congelou.
— Por favor, Hécate! Eu o amo tanto! Deixe-me fazê-lo feliz, mesmo que por pouco tempo!
— As rosas desabrocharam, Mikado.
Confusa com a súbita mudança de assunto, Mikki murmurou:
— Que bom... Então eu fiz o que precisava ser feito.
— Você se sacrificou por livre espontânea vontade, cumprindo o juramento de amor e confiança com o qual estava vinculada a mim.
— Sim, Hécate.
— Pois isso nunca aconteceu antes no Reino das Rosas. Claro que várias gerações de Empousas deram seu sangue para alimentar o reino, mas o fizeram porque tinham
de fazer; porque essa era a trama de sorte e destino que fora tecida para elas. Mas você, Mikado Empousai, uma mortal vinda de uma terra quase totalmente desprovida
de magia, sacrificou-se de bom grado para salvar algo tão nebuloso como os sonhos da humanidade. Também viu o homem dentro da fera e permitiu-se amá-lo, rompendo
o feitiço de solidão e isolamento que o cercava.
— Eu fiz apenas o que meus instintos me diziam para fazer. Adorei seu reino, Hécate. Ele era minha casa, e valeu a pena morrer para protegê-lo, assim como a todos
que o habitavam — Mikki afirmou, surpresa com os elogios da Deusa. — E não foi difícil amar Asterius... — Ela sorriu e encolheu os ombros, tímida. — Não há sempre
algo de animal dentro dos homens? É o que os faz tão deliciosamente diferentes de nós. — Respirou fundo. — Não pode, por favor, deixar que eu volte para ele? Eu
lhe dou minha palavra de que me sacrificarei na noite do Beltane.
— O que você fez mudou o Reino das Rosas, Empousa. Seu sacrifício foi puro e imaculado pelos laços do dever, da força ou do medo. Nunca mais será necessário outro
sacrifício no Beltane. Seu sangue garantiu isso.
Quando Mikki começou a falar, Hécate levantou a mão para silenciá-la.
— Mas voltar não será assim, tão fácil. Você também mudou por conta de seu ato. Se permanecer no mundo comum, terá uma vida normal. Mas se retornar ao Reino das
Rosas, seu sangue o unirá a este irrevogavelmente, o que significa que seria uma imortal reinando pela eternidade como mais do que minha Empousa: você se tornaria
a Deusa das Rosas.
Mikki ouviu as palavras de Hécate, mas estas quase se perderam em meio à vertigem e à descrença que inundou seus pensamentos. Hécate estava dizendo que ela poderia
não morrer nunca? Que poderia tornar-se uma deusa?
— Entretanto, deve saber que o caminho de uma divindade nem sempre é fácil de ser traçado, Mikado. A eternidade é uma companheira às vezes assustadora, às vezes
gloriosa, e às vezes melancólica e irritante como uma criança mimada. Por isso pense com cuidado, Empousa. Eu lhe darei o poder da escolha, porém essa escolha é
irrevogável. Poderá ficar aqui, no mundo comum, e viver sua vida mortal até o final. Se for assim, eu não a abandonarei e darei-lhe as boas-vindas aos Campos Elísios,
assim como fiz com sua mãe e sua avó.
— Mas, Asterius... — Mikki começou.
— Porque me arrependo dos erros que cometi, concederei a ele uma bênção. Se assim ele quiser, eu o presentearei com o corpo de um mortal. — A deusa sorriu, os olhos
brilhando maliciosamente. — Posso presentear Asterius com o corpo de um homem de verdade e você, minha Empousa favorita, com a promessa de que a nova forma dele
será mais agradável de se olhar do que a de Adonis... O problema é que é impossível, até mesmo para os meus poderes, fazer isso no Reino das Rosas. Terei que trazê-lo
até aqui, para viver uma vida mortal a seu lado. Terão filhos, envelhecerão juntos e encontrarão consolo nos braços um do outro no momento em que suas vidas chegarem
ao fim.
— Ou, então, poderei voltar? — Mikki indagou, quando pareceu que Hécate não iria prosseguir.
— Sim. Poderá retornar como a Deusa das Rosas, e eu renunciarei ao reino dos sonhos em seu nome. Mas lembre-se... Naquele reino eu não poderei mudar a forma de Asterius.
Ele permanecerá eternamente como uma fera, porém com o coração e a alma de um homem. Faça sua escolha, Mikado.
Mikki começou a considerar e, em seguida, percebeu que não precisava escolher. Sabia o que queria.
— Escolho o Reino das Rosas e minha fera. Não desejo viver em nenhum outro lugar, e jamais lhe pediria para mudar Asterius. Eu o amo da maneira como ele é, não como
os outros gostariam que ele fosse.
O sorriso de Hécate foi radiante.
— Vamos voltar a seu reino.
Capítulo 37
A floresta não havia mudado. Continuava escura e assustadora, principalmente agora que Mikki sabia o que escondia-se nela.
Claro que agora ela era também uma deusa, portanto, os Ladrões de Sonhos teriam que modificar suas estratégias se pretendiam fazê-la cair em outra armadilha.
E eles fariam isso; Hécate já lhe advertira a respeito. Ela se tornara imortal, contudo isso não significava que não era mais falível e passível de ser manipulada
por emoções obscuras. A própria Hécate era prova disso.
Mikki estremeceu e puxou a palla roxa sobre os ombros com mais força. Seria cuidadosa.
Estranho que não se sentisse diferente. Ou ao menos não tão diferente.
Sentira a reação das rosas ao retornar. De verdade. Embora tivesse sido até constrangedor, estas tinham se alegrado quando ela adentrara o reino.
Sorriu. Sabia, agora, que elas possuíam emoções, assim como pequenos e brilhantes espíritos... Porém não se sentia menos ridícula quanto a todos aqueles anos em
que conversara com seus arbustos.
Era uma sensação maravilhosa e muito estranha, à qual ela teria que se acostumar.
As servas ficariam exultantes em vê-la, pensou, ansiosa por surpreendê-las na manhã seguinte.
Mas não naquela noite. Naquela noite, havia apenas uma pessoa que queria ver... apenas um lugar em que gostaria de estar. Nos braços de Asterius.
Ele encontrava-se ali perto, reunindo as tramas da realidade para as Tecedoras de Sonhos. Podia ter esperado por ele em sua casa, poderia tê-lo invocado de seu quarto,
no palácio...
Mas não quisera fazer nada disso. Quisera vir até ele, pois amava aquela alegria inocente que Asterius demonstrava a cada vez que ela se aproximava dele.
E queria que ele soubesse que ela continuaria a vir para ele por toda a eternidade.
Uma luz cintilou na escuridão, atraindo-a para a direita. Mikki a seguiu, e a luz revelou ser uma tocha. Segurando o fôlego, ela prosseguiu lenta e silenciosamente
em sua direção.
Ele estava de pé, de costas para ela, passando as mãos pelos galhos de uma antiga árvore. Fios cintilantes surgiam em seus dedos, e ele os puxava, juntando-os em
um monte mágico e luminoso no solo da floresta.
Mikki aproximou-se e parou quando ele soltou um gemido baixo. Asterius ficou de lado para ela em um movimento tenso e súbito, como se a trama que ele havia acabado
de puxar houvesse lhe causado dor.
Ele não a deixou cair, entretanto. Ao contrário, olhou para o fio com uma expressão angustiada de desespero e saudade.
Mikki estreitou os olhos e foi então que enxergou a si mesma na trama. Nesta, encontrava-se visivelmente grávida, o que foi um choque a princípio.
O choque transformou-se em pura alegria, contudo, no momento em que Asterius fez-se ver na cena, tomando-a nos braços. Beijava-a para depois cair de joelhos e pousar
os lábios em sua barriga dilatada. Na visão de sonho, Mikki viu-se sorrindo, satisfeita e estendendo a mão para acariciar um dos chifres escuros de seu amado, assim
como tinha feito havia muito tempo.
Com um grito angustiado, Asterius arremessou o fio para longe dele.
— Por que me atormenta? — rugiu, inconformado.
Mikki saiu das sombras.
— Ficou atormentado ao me ver grávida? Eu devia ser a única a ficar preocupada com isso. Ter um par de chifrinhos e pequenos cascos pisoteando meu útero é um pouco
assustador...
Asterius não se moveu. Apenas voltou o olhar para Mikki.
Seus olhos faiscaram, cheios de ódio.
— Vá embora, alma do além! Não me deixarei enganar por suas mentiras! — Ele começou a mover-se em sua direção, rosnando, ameaçador, e expondo as garras mortais.
— Asterius, sou eu! Eu só queria fazer uma surpresa...
Os olhos castanhos pareceram ainda mais escuros.
— Eu disse para ir embora, pesadelo! — ele urrou, avultando-se sobre ela.
Mikki gritou e recuou um passo, dizendo a primeira coisa que lhe veio à mente:
— Mas, na primeira noite em que nos encontramos, você colocou uma rosa no meu vinho!
Asterius estacou como se fosse trombar numa parede.
— Mikado? — indagou, incrédulo.
— Era o que eu estava tentando lhe dizer!
Mikki suspirou quando ele continuou paralisado.
— Depois das tantas vezes em que me rejeitou, é de admirar que tenhamos ficado juntos, sabia?
— Mikado! — Asterius lançou-se para a frente e a tomou nos braços. Seu corpo poderoso tremia, e ele não parecia capaz de fazer mais do que abraçá-la e repetir seu
nome seguidas vezes.
Ela o abraçou de volta, tocando-o e murmurando palavras carinhosas, até que a agitação de Asterius diminuiu e ele foi capaz de soltá-la um pouco mais.
Mikki olhou para o rosto bonito e terrível, agora banhado pelas lágrimas.
— Como isso aconteceu? Como pode estar aqui? — ele perguntou, atordoado.
— Hécate me deu uma escolha.
— Mas seu sangue... o reino está seguro agora. Eternamente. A deusa afirmou que, após seu sacrifício, não seria necessário derramar o sangue de mais nenhuma Empousa
para fazê-lo prosperar.
— Eu sei. Fui eu quem escolheu essa eternidade... para poder passá-la a seu lado.
A princípio, o olhar de Asterius continuou vazio. Então, a compreensão fez-se presente em seu rosto.
— Nunca mais vamos ficar separados?
— Nunca mais.
— Quer dizer que as tramas não estavam me atormentando! Elas estavam mostrando que... — Ele parou, incapaz de falar em meio à onda de emoções que o invadiu.
— Elas estavam mostrando que seremos felizes para todo o sempre. E, sim, meu amor, esse sonho em particular finalmente tornou-se realidade.
Devagar, Asterius segurou-lhe o rosto entre as mãos enormes e inclinou-se para beijá-la. Mikki passou os braços ao redor dele e agarrou-se a seu futuro... sua eternidade.
Nas sombras, Hécate sorriu e acariciou a cabeça escura de um de seus gigantescos animais.
Este livro é dedicado a todas que se apaixonaram pela Fera e ficaram desapontadas quando esta se transformou em um belo príncipe.

1* Wolverine, em inglês, é o nome dado ao carcaju, animal que pertence à família dos mustelídeos. Também é conhecido pelo nome de glutão. (N.E.)

Capítulo 28
O poder da voz de Asterius fez as tochas oscilarem, porém Mikki não se retesou, tampouco pulou, surpresa. Devagar, ergueu os olhos do esboço.
E então sentiu um aperto na boca do estômago. Ele encontrava-se parado sob uma porta arredondada que levava a outra sala, mais para o fundo da caverna, e estava
quase nu. Não usava a cuirasse nem a túnica. Tudo o que tinha sobre a pele era uma espécie de toalha pequena, amarrada ao redor dos quadris.
Mikki umedeceu os lábios e lembrou que, se não falasse, Asterius chegaria à conclusão de que o medo a paralisara.
— Você não iria até mim, por isso aqui estou.
Pôde ver a raiva em sua expressão abrandar. Sorriu, e ele ficou sem palavras.
Tentando ignorar sua quase nudez, ela acenou com um gesto de cabeça na direção das paredes da caverna.
— Essas pinturas são lindas. São de Creta?
— Sim.
— Você é muito talentoso. Só de olhar para elas já fiquei com vontade de passar férias no Mediterrâneo. — Antes que ele pudesse formular uma resposta, apontou para
o desenho dela mesma. — E isto é muito lisonjeiro. Eu nem sabia que estava lá naquela noite.
— Não tive a intenção de adular ninguém.
— Eu não quis dizer isso! Quis dizer apenas que me fez ficar bonita, poderosa... e isso é muito lisonjeiro.
— É como eu a vejo.
— Verdade?
— Eu nunca mentiria para você.
— Dizem que evasão e omissão também são mentiras — ela contrapôs sem preâmbulos.
— Se a deusa manda que eu faça ou diga alguma coisa, devo obedecê-la, Mikado. Fiz um juramento a Hécate.
— Está bem, eu compreendo... Sinto muito. Essa situação, em que não conheço todos os fatos, é extremamente frustrante para mim.
— Se eu pudesse responder a todas às suas perguntas, juro que eu o faria — ele reiterou.
— Imagino que sim. — Mikki deu um suspiro e olhou ao redor da caverna. — Que tal me mostrar seu covil? Este lugar é incrível.
Asterius não se moveu do batente da porta.
— Foi por isso que veio aqui, Mikado? Para que eu lhe mostrasse meu covil?
— Não. Eu vim porque queria vê-lo.
— Por quê?
— Porque você não foi me ver hoje. Senti sua falta, ainda mais depois que lancei um feitiço que permite que os homens venham para o reino.
— Eu não sou um...
— Ei, chega! Já não conversamos sobre isso ontem? Eu sei que não é um “homem”, mas, homem ou não, quando eu estava lançando o feitiço, foi em você que eu pensei
— ela confessou.
Asterius desviou o olhar e Mikki pôde ver a tensão em sua mandíbula, a forma como ele cerrava os punhos.
— Eu sei. — Sua voz soou tensa. — Senti a mágica e sabia que estava pensando em mim... Mas queria que não tivesse pensado.
— Por quê?!
— Porque não posso suportar isso! — ele falou, por fim, as palavras saindo por entre os dentes.
— Eu não fiquei com medo ontem à noite — Mikki declarou depressa.
— Eu vi o medo e o ódio em seus olhos, Mikado, embora não a culpe. Eu só queria tomá-la nos braços, beijá-la, e não pude nem mesmo fazer algo tão simples sem me
tornar uma fera!
— Não queria fazer mais nada além de me beijar? — ela indagou com um sorriso sedutor.
Os olhos de Asterius se estreitaram.
— Se eu lhe mostrar a minha casa, vai me deixar em paz, Empousa?
— Provavelmente não.
— Pensei que não fosse mesquinha, mas vejo que estava enganado — ele redarguiu, ríspido.
— Não sou mesquinha! Estou apenas me explicando mal. Estou nervosa e não consigo colocar o que sinto em palavras. — Mikki queria se mover ou andar, mas obrigou-se
a ficar quieta e fitá-lo nos olhos. — Não me machucou ontem à noite, e eu não estava com medo. Eu quis você; ainda mais quando as coisas ficaram intensas entre nós.
Gostei de tudo, Asterius. De seu poder, dessa força em seu corpo que mal consegue conter... Tem mais paixão do que eu já vi em toda minha vida. Até eu conhecer você,
os homens não passavam de uns inconsequentes para mim. E agora acho que sei por quê. Eles sempre me pareceram fracos, principalmente se eu os comparava às mulheres
que me criaram. Asterius, eu preciso de alguém que seja mais do que um homem. Na noite passada, quando me dei conta disso, essa verdade me assustou. Meu medo se
baseava em tudo o que ouvi das pessoas a vida toda; pessoas do mundo comum que ficariam chocadas com o que eu sinto por você...
Ele não falou por muito tempo. Ficou apenas olhando para ela, como se tentando entender algo muito importante que estava sendo dito em uma língua que ele mal compreendia.
— Ainda gostaria de ver o restante da minha caverna? — indagou finalmente.
— Claro que sim.
Asterius se pôs de lado.
— Este é meu quarto. — Gesticulou para que ela o precedesse.
Mikki atravessou a porta em arco e entrou no cômodo, sentindo que ele a seguia. Seu corpo inteiro parecia em sintonia com sua presença, como se ele fosse uma cobra
e ela estivesse tentando encantá-lo.
Então a beleza do aposento se fez ver. Era menor do que a sala principal e também possuía tochas que não soltavam nenhuma fumaça. Só que ali não havia tantas delas,
o que deixava o quarto quase na penumbra. O chão era coberto com grossas peles de animais, no meio das quais via-se uma enorme cama coberta com mais peles.
Ele dorme aqui...
O pensamento fez uma onda de calor percorrer o corpo de Mikki e ela desviou o olhar para as paredes.
E ficou surpresa mais uma vez. As paredes ali eram todas preenchidas com cenas de um jardim repleto de infinitas fileiras de magníficas roseiras em flor. Cada nível
do vergel continha uma fonte de água e na camada central via-se uma estát...
— É o Roseiral de Tulsa! — exclamou, ofegante. — Como pode ter tido tempo para pintar essa cena depois que voltou? — Aproximou-se da parede lisa e a tocou com cuidado.
Estava completamente seca. — Há tanta coisa aqui... Deve ter levado meses, ou até mesmo anos, para terminá-la!
— É verdade.
Mikki fitou-o por cima do ombro, sem ter certeza de que tinha ouvido bem.
— Como é possível, Asterius?
— Pintei esse cenário com base em imagens que via em meus sonhos.
Ela deslizou a mão pela parede com carinho.
— É perfeito. Conseguiu captar cada detalhe.
— A pintura a faz sentir falta da sua casa?
Mikki pôde senti-lo se aproximar, mas não se virou, temendo que ele se afastasse.
— Não. O Reino das Rosas é minha casa agora. Não quero estar em nenhum outro lugar a não ser a seu lado.
— Eu não via a hora de revê-la, Mikado...
— E eu não conseguia parar de pensar em você! — Mikki sentiu a mão tremer e a deixou cair. Asterius estava tão perto que podia sentir o calor de seu corpo.
Mãos quentes pousaram em seus ombros, e ele falou em seu ouvido.
— Quando lançou o feitiço, abrindo o reino para os homens, escutei você me chamando, pedindo... — ele rosnou baixo e sua voz poderosa vibrou nas profundezas da alma
de Mikki. — Pensei que fosse enlouquecer!
— Então não fique longe de mim! Não quero que fique longe de mim — ela repetiu sem fôlego, e recostou-se nele, sentindo sua ereção contra as nádegas. Os lábios quentes
de Asterius roçaram a lateral de seu pescoço em meio a pequenos beijos, os dentes afiados arranhando sua pele de leve. Quando as mãos dele deixaram seus ombros para
cobrir-lhe os seios, Mikki arqueou o corpo e ergueu os braços de modo a puxá-lo mais para si pela cabeça.
E, assim como em seu antigo sonho, sentiu os chifres em meio à massa espessa de cabelos, ao mesmo tempo que seus dentes encontravam o vale entre seu pescoço e ombro,
mordendo-a de leve.
Mikki gemeu e pressionou o corpo com mais firmeza contra o dele.
De repente, Asterius congelou.
— Não, não pare! — ela implorou, aflita.
— Ela... ela sumiu! — ele exclamou, estremecendo.
Preocupada, Mikki virou-se em seus braços. Asterius a fitava com uma expressão que era um misto de alegria e choque.
— O que foi? O que aconteceu?
Ele tomou-lhe o rosto entre as mãos.
— Você me ama! — Sua voz profunda soou embargada, e lágrimas escorreram silenciosamente pelo rosto moreno.
— Claro que amo! — Mikki sorriu. — Mas o que sumiu?
Asterius fechou os olhos, tentando dominar as emoções.
— O feitiço, Mikado. E a última barreira entre nós. Não importa o que as Parcas tenham-me destinado... Eu vou amar você até o fim dos tempos! — Ele inclinou-se e
a beijou com paixão.
Mergulhando a mão em seus cabelos, ela o puxou com ímpeto contra a boca, e o rugido de Asterius vibrou em seus sentidos já despertos como uma carícia.
Ele ergueu a cabeça e abriu os olhos escuros e cheios de desejo, a pele morena coberta de suor. Mikki deslizou as mãos pelo corpo másculo, desde os ombros fortes,
passando pelo peito largo até os músculos bem definidos do abdômen, sentindo-os estremecer sob seu toque.
Asterius tirou as mãos de seu rosto e as colocou contra a parede, a cada lado dela, de maneira que agora Mikki encontrava-se presa em meio a seus braços.
— Não se mexa! Deixe-me tocá-lo — ela pediu com voz rouca.
— Não sei por quanto tempo poderei manter minhas mãos longe de você! — O peito dele arfava e a paixão tornara-lhe a voz ainda mais densa.
— Não vai demorar muito. — Mikki acariciou-o no rosto e traçou a linha de seus lábios com o polegar. — Primeiro quero vê-lo... por inteiro.
Viu a dúvida escurecer os olhos castanhos, porém Asterius aquiesceu devagar. Então suas mãos deslizaram pelo corpo forte outra vez, rumando com segurança para a
toalha que ele tinha enrolada em torno da cintura. Puxou-a, e esta soltou-se com facilidade.
Mikki olhou o corpo nu à sua frente por um momento.
— A esposa de seu pai quis amaldiçoá-lo e acabou criando um ser de incrível beleza — sussurrou, ofegante. — Você não é uma abominação, Asterius, você é um milagre!
Ele era uma mistura tão perfeita de homem e animal que era difícil dizer onde terminava o ser humano e começava a fera. Sua cintura estreita dava continuidade a
quadris e coxas musculosos, cobertos com pelos lisos e escuros. Daí para baixo, embora seus contornos continuassem fortes e bem definidos, Asterius era menos musculoso
do que aparentava quando encontrava-se vestido.
Hipnotizada, Mikki acariciou o ponto onde o corpo do homem dava lugar ao do bicho. Asterius abaixou a cabeça e rosnou baixinho, e ela o fitou, atenta. Ele fechara
bem os olhos e respirava pesadamente, em um esforço para controlar a criatura que tinha por dentro.
Mikki respirou fundo, sentindo uma onda quente de prazer invadi-la enquanto observava a fera que tentava se conter. Seus olhos moveram-se mais para baixo. Asterius
possuía as mesmas formas de um homem e encontrava-se totalmente ereto. A pele que lhe encobria o membro era da mesma cor de bronze do peito largo.
Ela o tomou nas mãos, afagando com uma, apertando com a outra, e, quando o fez, os olhos dele se abriram, alarmados.
— Não precisa manter a fera acorrentada o tempo todo, Asterius! — ela sussurrou, sem parar de acariciá-lo, e inclinou-se para a frente, circulando seu mamilo com
a língua. — Solte-a, meu amor! Eu não tenho medo dela... — afirmou, mordendo o mamilo endurecido.
O rosnado de Asterius ecoou, ensurdecedor, pela caverna. Ele a ergueu nos braços, os cascos batendo com força contra o chão coberto de peles conforme caminhava até
o catre. Colocou-a sobre este, mas, antes que pudesse cobri-la com o próprio corpo, Mikki se pôs em pé, fazendo-o se retesar mais uma vez. Ela leu a dor em sua expressão,
certa do que ele estava pensando.
— Tem que parar de achar que tenho medo de você, Asterius, porque eu não tenho. Não me levantei para fugir. Achei apenas que gostaria de ver isto... — Começou a
soltar o broche de prata em forma de rosa que segurava-lhe a túnica sobre o ombro direito, porém suas mãos tremiam tanto que não conseguiu.
Frustrada, ela o fitou. Em seguida, sua expressão mudou para um sorriso sedutor.
— Faria algo por mim?
— Qualquer coisa! — ele respondeu, ofegante.
— Então solte as garras e me ajude com isto.
Com os movimentos graciosos de um felino, ele estendeu as lâminas lentamente e, com facilidade, cortou o tecido.
Mikki encolheu os ombros, e o quitão caiu a seus pés.
Os olhos de Asterius ficaram ainda mais escuros. Com o peito arfando, ele ergueu a mão para tocar os seios redondos, mas as puxou de volta ao se lembrar das garras
ainda estendidas.
Ela agarrou-lhe um pulso.
— Não seria capaz de produzir arte de tanta qualidade se não tivesse controle sobre estas lâminas... Use-as para me tocar, Asterius. Deixe que eu sinta seu poder
na minha pele! — E, sem pensar duas vezes, apertou a mão dele contra um seio.
Hesitante, Asterius deixou as pontas afiadas tocarem com suavidade a pele alva e macia, até que sua mão desceu do peito para o ventre reto, escorregando, devagar,
bem devagar, para o centro quente e úmido.
Mikki prendeu a respiração e estremeceu.
— Não pare! — pediu com um gemido.
Ele não tirou os olhos do rosto delicado enquanto suas garras percorriam as coxas roliças e, depois, as curvas voluptuosas das nádegas.
— Vire-se... Quero vê-la de costas — ordenou, a voz profunda saindo ainda mais densa com o desejo.
Ela obedeceu.
E sentiu os lábios de Asterius substituir as lâminas quando ele beijou as marcas rosadas que havia deixado nela antes.
— Pensei que a tivesse cortado inteira! — ele murmurou, a respiração aquecendo-a por inteiro.
— Claro que não... Foram apenas arranhões.
A boca de Asterius moveu-se para o final de sua espinha, a língua quente provando-a sem meandros.
— Pensei que nunca mais fosse tocá-la de novo!
Mikki virou-se e o segurou pelo pescoço, permitindo que ele tomasse seus mamilos com a boca.
— Nunca pare de me tocar! — pediu. E, deitando-se na cama, puxou-o com ela.
Asterius ajoelhou-se a seu lado. Recolhendo as garras, tocou-a no rosto com delicadeza.
— Eu não conseguiria parar agora, nem mesmo se Hécate aparecesse e me ordenasse isso!
— Sshh... — Ela pressionou seus lábios com um dedo. — Não quero pensar em nada a não ser em você. — Lentamente, levantou mais a mão, seguindo a linha suave de um
chifre escuro. — Você é incrível. Acho que nunca vou me cansar de acariciá-lo.
— É um presente raro e inesperado para mim, Mikado. — A voz de Asterius tremeu com a profundidade de suas emoções. — Eu nunca conheci o amor. Nunca, em todas as
eras da minha existência, uma mulher me tocou, aceitou e amou como você. — Ele teve que fazer uma pausa antes de continuar. — Vou amá-la enquanto respirar. E além,
se as Parcas e a deusa permitirem!
— Então venha para mim, Asterius! Mostre-me o poder de seu amor! — ela implorou.
Ele a adorou com a boca e com as mãos, e bebeu dela como se nunca fosse se fartar. Explorou-a e, com os sentidos sobre-humanos de um animal, leu cada sinal e mudança
em seu corpo, aprendendo o que mais lhe trazia prazer.
Quando pensou que não poderia viver algo mais doce do que observar a paixão que havia provocado nela, Mikki pressionou-o contra o catre e deu início à sua própria
exploração. Quando sua língua e boca o provocaram por inteiro, e ela sussurrou que seu membro rijo era magnífico, demonstrando o quanto o desejava, Asterius pensou
que fosse morrer de prazer.
— Preciso sentir você dentro de mim!
Mikki se abriu, e ele estremeceu no esforço para se controlar enquanto ela o envolvia com as pernas e se encaixava em seu corpo. Sentiu o sangue arder nas veias
e um rugido escapou de sua garganta. O animal dentro dele queria investir violentamente contra ela, afundar o membro endurecido em seu calor úmido... Porém ele cerrou
os dentes, deslizando com cuidado para dentro e para fora de Mikki, tentando concentrar-se nos sons suaves de puro prazer que ela soltava em meio ao turbilhão que
assolava-lhe o corpo e a alma.
E então percebeu que ela ia de encontro a suas estocadas suaves com uma ferocidade que refletia-se em seus olhos verdes.
Quando inclinou-se para beijá-la, Mikki mordeu-o no lábio com força.
Ele rosnou, e ela sorriu.
— Solte o animal que existe em você, Asterius! É ele quem eu quero agora! — pediu com uma voz rouca e sensual.
As palavras acenderam tal chama dentro dele, que Asterius temeu que ambos fossem consumidos por ela. Incapaz de lutar contra a força combinada do desejo e do poder
da fera, virou-se no catre e, agarrando-a pelas nádegas, ergueu-a de encontro a ele, afundando nela seguidas vezes.
Mikado não fugiu dele, pelo contrário. Respondeu a sua paixão com a força e a determinação de uma deusa.
O animal e a sacerdotisa arderam juntos, até que, finalmente, o ser humano dentro dele não pôde mais se conter e derramou dentro dela toda uma vida de desejos, ao
mesmo tempo que fera e homem rugiam seu nome em uníssono.
Capítulo 29
Asterius não conseguia parar de olhar para Mikado. Ela dormia nua, o corpo pressionado contra o dele. Tinha um braço apoiando a cabeça, uma perna longa e macia sobre
a sua, e a mão jogada sobre seu peito, indolente.
Respirou fundo, permitindo que seu perfume lhe invadisse os sentidos. Nunca havia imaginado aquilo. Mesmo quando tivera esperanças de que a outra Empousa pudesse
gostar dele, que pudesse amá-lo, pensara apenas no toque de suas mãos suaves.
Apenas em sonho permitira-se imaginar fazendo amor com uma mortal... Mas nenhum deles tornara-se realidade.
Até aquele momento. Até Mikado.
Quando ele a tocara e percebera que a dor causada pelo feitiço de Hécate tinha sumido — e o que aquilo significava —, Mikado transformara seus sonhos em realidade
e, ao fazê-lo, também curara a ferida da solidão que o afligia havia séculos.
Pelos deuses, o que ele iria fazer? Ela o salvara... Como ele poderia lhe fazer algum mal agora?
Mas se ele não a sacrificasse, o Reino das Rosas iria perecer.
Talvez não acontecesse imediatamente. Hécate poderia descobrir outra Empousa, porém um dano irreversível já teria sido feito. A traição de uma Sacerdotisa já fizera
um reino que jamais conhecera pragas, pestes ou doenças de qualquer espécie adoecer. Aquele tipo de coisa nunca existira no reino de sonhos e magia de Hécate.
Mas a traição e o abandono haviam provocado o enfraquecimento da muralha e, ele tinha certeza, apenas a rápida atuação de Mikado impedira um desastre.
Por isso precisava escolher entre destruir seu próprio sonho ou a destruição dos sonhos da humanidade.
Na verdade, não possuía alternativa. Apenas um animal poderia optar por si mesmo em detrimento da humanidade.
Asterius sentiu a agonia pelo que deveria fazer pressioná-lo como uma lança flamejante em suas entranhas.
— Está me olhando — Mikki disse baixinho e, sonolenta, abriu os olhos e sorriu para ele. — Não consegue dormir?
— Prefiro olhar para você. — Ele afastou-lhe uma mecha espessa de cabelo do rosto.
— Eu devia ter adivinhado que era um romântico quando colocou aquela rosa no meu vinho...
— Isso não é ser romântico, é ser civilizado. — Ele temperou a voz grave com um leve sorriso e acariciou a curva graciosa de seu pescoço e ombro, sorrindo ao vê-la
suspirar, feliz, e esticar-se como um gato.
— Não estrague minha alegria... Prefiro pensar que é romântico.
— Então vou chamar de romance, também, só por sua causa. — Hesitante, porém com uma doçura e inocência totalmente em desacordo com a aparente ferocidade de seu corpo,
Asterius inclinou-se e beijou-a nos lábios. — Quando veio até mim, hoje, ofereceu-me mais do que seu corpo e seu amor, Mikado. Ofereceu-me aceitação: uma alegria
que eu nunca imaginei que fosse conhecer.
Ela entrelaçou os dedos com os dele.
— Isso é algo que você e eu temos em comum. Eu sempre me senti como se não pertencesse ao meu antigo mundo. — Respirou fundo e tomou uma decisão. Queria que Asterius
soubesse. Precisava que ele soubesse. — Hécate me explicou parte da razão pela qual eu me sentia tão deslocada. Era porque eu já estava destinada a ser sua Empousa
neste mundo. Sempre carreguei o sangue de uma Alta Sacerdotisa nas veias. Mas há outra razão... Por isso nunca deixei ninguém, muito menos um homem, aproximar-se
de mim. Tem a ver com meu sangue também. — Ela estudou os olhos escuros, querendo que ele compreendesse. — As mulheres da minha família estão intrinsicamente ligadas
às rosas. Se regarmos as flores com água misturada ao nosso sangue, estas se desenvolvem além do normal. No mundo comum, o que eu fazia era inédito. Exceto pelas
mulheres da minha família, ninguém mais conseguia entender. Isso me fazia sentir como se eu fosse uma aberração e, por isso, eu escondia meu segredo. — Preocupada
ao ver como Asterius ficara imóvel e pálido, Mikki sentiu-se retesar. — Diga alguma coisa... Eu nunca contei isso a ninguém.
Quando ele permaneceu em silêncio, ela começou a se afastar, mas, com um rosnado baixo, Asterius puxou-a com determinação de volta para a proteção de seus braços.
— Você não se sentia aceita lá porque era seu destino ser Empousa de Hécate e vir até aqui para salvar as suas rosas e seu Guardião solitário. O sangue que corre
em suas veias é a vida deste reino, Mikado. É seu amor que nos sustenta. — Ele fechou os olhos e afundou o rosto nos cabelos vermelhos, tentando não tremer, tentando
não pensar.
Mikki relaxou e aninhou-se mais junto a ele.
— Isso ainda me espanta. Se as coisas não tivessem acontecido numa sequência perfeita, eu não estaria aqui. — Recostou-se em seus braços de modo a fitá-lo e, mais
uma vez, perguntou-se o porquê de Asterius ainda estar tão pálido. — Foi meu sangue que o despertou, sabia?
— Não. — A voz dele soou ainda mais grave. — Eu só sabia que havia me despertado, que podia sentir seu cheiro e que você era a Empousa de Hécate.
— Na verdade, esse é um dos aspectos mais estranhos do que aconteceu. Naquele mesmo dia, em Tulsa, uma senhora que eu mal conhecia havia me dado um pouco de perfume
e, num impulso, eu o usei. Por mais estranho que pareça, é o mesmo perfume que estou usando agora. Gii o chama de “o óleo sagrado da Empousa”.
Asterius franziu o cenho.
— Como é possível?
Mikki deu de ombros e tornou a se aconchegar junto a ele.
— Eu não faço ideia, mas ela era muito excêntrica. E linda, mesmo sendo velha. Tinha os olhos azuis mais incríveis que já vi. Era estrangeira, porém eu não consegui
discernir muito bem seu sotaque. Ela disse que tinha conseguido esse perfume... — Mikki parou para pensar — ... em algum lugar da Grécia, se não me engano. O que
me lembro com certeza é de seu nome porque, assim como eu, ela também tem nome de rosa: Sevillana.
Mikki sentiu o choque que atravessou o corpo de Asterius, e ergueu-se sobre um cotovelo, vendo a expressão indecifrável no rosto moreno e agora pálido.
— O que foi? Alguma coisa errada?
— É que... nada. Não foi nada. Só estou surpreso por uma mulher do mundo comum ter obtido o óleo sagrado da Sacerdotisa de Hécate. É um mistério. — Asterius passou
os braços a seu redor. — Deite-se aqui comigo... Deixe-me sentir seu corpo tocando o meu.
Mikado descansou no peito largo.
A mente de Asterius girava num turbilhão enquanto ele acariciava a linha suave de suas costas. Sevillana... Apenas o nome tinha enviado ondas de choque por todo
seu corpo. Era ela!
Ele, também, jamais iria se esquecer da beleza fria de seus olhos azuis e penetrantes, muito menos de seu nome. A última Empousa continuava viva no mundo comum.
Como era possível? O tempo passava de forma diferente por lá, ele sabia. Mas ao menos dois séculos, pela contagem daquele mundo, deviam ter se passado. Talvez a
antiga Empousa houvesse atravessado a encruzilhada com mais do que apenas um frasco de óleo para unção. Talvez tivesse conseguido roubar alguma magia do reino.
A enormidade daquela revelação infiltrou-se em seu estado de choque. Sevillana estava viva! Na primavera, quando uma Empousa precisasse ser sacrificada pelo reino,
Sevillana, e não Mikado, deveria morrer! Tudo o que ele precisava fazer era descobrir uma maneira de trazer a Sacerdotisa ausente para o Reino das Rosas!
Tinha que ser possível. Sevillana havia escapado, portanto certamente poderia retornar.
Asterius segurou Mikado com mais força, e essa foi sua resposta. Ele não a sacrificaria. Apenas a trocaria pela antiga Alta Sacerdotisa e devolveria Mikado com segurança
para sua casa no mundo comum.
Ficaria sem ela, sentiria sua falta por toda a eternidade, sem dúvida... Entretanto, poderia suportar isso. O que não poderia suportar era saber que ela teria de
morrer por suas mãos. Se Mikado partisse, perderia seu amor. Se ele a sacrificasse, perderia a própria alma...
Pois ele não sacrificaria seu amor, tampouco iria perder a própria alma. Tinha uma alternativa, e também os poderes do filho de um Titã. Transformaria aquele imenso
cúmulo de magia para alcançar seu objetivo.
Mas não naquele momento. Não naquele dia.
Naquela noite, ele iria se deleitar com o milagre do amor de Mikado, e não pensaria mais sobre o vazio infinito das madrugadas que estavam por vir.
Mikki encostou-se à entrada discreta para a caverna e olhou a manhã nublada enquanto mastigava um pedaço de pão. Asterius veio por trás dela, e a fez inclinar-se
de encontro a ele.
— Chuva! — disse, surpreso. — Não costuma chover por aqui.
— Fui eu que fiz isso. Ordenei ao elemento Água que a trouxesse quando lancei o feitiço de saúde e proteção ontem. Em todas as manhãs haverá chuva por algum tempo.
É bom para as rosas e é bom para o reino também. Manhãs chuvosas são repousantes; um momento perfeito para dormir e fazer rejuvenescer a alma. — Ela se virou em
seus braços. — Infelizmente, eu não pensei em avisar as servas, ontem, que manhãs chuvosas equivaleriam a tirar uma folga... Imagino que os Quatro Elementos estejam
se perguntando por que eu ainda não as chamei para trabalhar. E como a noite passada foi a primeira, em muito tempo, em que os homens puderam ser convidados a vir
ao reino, aposto que estão cansadas e me esperando de mau humor... Preciso ir vê-las. O que vai fazer?
— A mesma coisa que faço todas as manhãs: inspecionar a muralha das rosas ao redor do reino para ter certeza de que tudo está seguro. Depois vou colher mais fios
para as Tecedoras de Sonhos. — Ele acariciou o rosto dela. — Só que, nesta manhã, cumprirei minhas funções com seu cheiro na minha pele... E com a lembrança do seu
sorriso, toque e gosto no meu coração. — Ele sorriu. — Dizem que a chuva é sombria e triste, mas, para mim, esta manhã parece brilhante e cheia de promessas.
— Um romântico incurável... Quem diria? — Mikki segurou-o pela cuirasse. — Beije-me, para que possamos arregaçar as mangas depois — ela ordenou, enquanto se perguntava
se algum dia ele iria perder aquele ar de felicidade que se estampava em seu rosto a cada vez que ela o surpreendia com um toque ou, como naquele momento, com um
beijo. Sinceramente, esperava que não. — Pode tirar uma folga para almoçar comigo?
Asterius beijou-a outra vez antes de responder.
— Claro que sim. Tudo o que precisa fazer é me chamar.
— E à noite?
— Peça, Empousa, e eu obedecerei — ele murmurou, os olhos escuros brilhando.
— Você diz isso agora. Vamos ver o que vai achar de obedecer a todas as minhas vontades daqui a um ano ou mais — Mikki disse brincando, enquanto levantava uma sobrancelha,
travessa.
Ficou surpresa ao ver a expressão dele mudar e seus olhos perderem todo o humor.
— Eu jamais me cansaria de você ou das suas vontades, Mikado. Nem se tivéssemos uma eternidade para compartilhar.
As palavras fizeram seu coração se comprimir. Como podia ter se esquecido de que Asterius era um imortal? Ela iria envelhecer, ele não. E, ao contrário dele, ela
morreria.
Não! Não pensaria naquilo. Não no alvorecer de seu amor. Eles mereciam algum tempo para que pudessem saborear a doce sensação de um sentimento novo e inebriante.
Nesse ponto não eram diferentes de qualquer outro casal. Ela não iria estragar aquela lua de mel com pensamentos terríveis sobre um futuro em que iria se arrastar,
encolhida, pelos jardins, inclinando-se sobre o braço sempre jovem e forte de Asterius...
Ele a deixaria, então? Será que ainda iria querer ficar com ela?
Pare com isso! Está fazendo exatamente o que prometeu não fazer!
Mikki fez brotar um sorriso nos lábios.
— Eu não estava falando a sério. Estava apenas brincando com você. Mas já que mencionou seu dever de obedecer a meus comandos... ordeno que venha me ver esta noite.
— Olhou por cima do ombro largo para a caverna acolhedora, tão impregnada da presença de Asterius como da requintada arte que ele criara. — Na verdade, acho que
prefiro vir para cá.
— Aliás, creio que não tenha conhecido bem meu lar, como me pediu ao chegar...
— Essa é uma das coisas que terá de fazer esta noite... Mas apenas uma delas.
A leve chuva mudou a aparência dos jardins, como se alguém os tivesse pintado com um pincel de aquarela e dado um toque impressionista à realidade.
Mikki decidiu que gostou do que via. Combinava com o restante daquele lugar de sonho.
Quis ir direto para o palácio e chamar os Quatro Elementos. As pobres meninas deviam estar bem aborrecidas com ela, principalmente se alguma delas tinha expulsado
alguém delicioso da cama...
Mas continuou vagando, perdida na magia que emanava das rosas.
Elas pareciam melhores naquela manhã. Mesmo quando ela rumou devagar em direção ao Sul, a náusea que revirava seu estômago sempre que ela perambulava pelos jardins
não veio. Viu até mesmo várias flores saudáveis, cor de lavanda, que reconheceu como rosas Angel Face em plena floração, onde no dia anterior havia apenas brotos
anêmicos.
Sorriu e, num acesso de orgulho, autodenominou-se “a Deusa das Rosas”.
E sonhou com Asterius.
Suspirou. Encontrava-se dolorida em lugares dos quais ela até se esquecera... Quase um ano se passara desde a última vez em que fizera sexo, mas nunca havia experimentado
nada como o amor que fizera com Asterius. Aquele corpo forte, aquela mistura de homem e animal fora tão intrigante, tão sedutora!
Mas o mais excitante tinha sido a liberdade que sentira com ele.
Sorriu. Com Asterius ela poderia soltar a fera que existia dentro dela quando estivessem juntos, sem temer que ele se afastasse. Asterius correspondia inteiramente
à sua paixão. E ele a conhecia, lia sua alma.
Asterius, Minotauro, Guardião... Ele também sabia o que era ser um marginal.
Pois bem, eles haviam encontrado um lar juntos enfim.
— A chuva foi uma ideia inteligente, Empousa.
Mikki pensou que fosse desfalecer ao som da voz de Hécate.
— Minha nossa, você quase me matou de susto! — exclamou.
Então lembrou-se de com quem estava falando, limpou a garganta e virou-se para encarar a deusa com o coração batendo dolorosamente no peito. Hécate encontrava-se
sentada em um banco de mármore, a poucos metros.
— Perdão, eu me assustei... — Fez uma reverência, como via as servas fazendo com tanta frequência. — Não devia ter falado dessa maneira.
Hécate fez um gesto de desdém com a mão.
— À minha Empousa são permitidas liberdades de que muitos nem precisam saber. — Ela apontou o espaço a seu lado. — Venha, sente-se aqui comigo.
Engolindo em seco, Mikki aproximou-se da divindade. Os cães gigantescos encontravam-se a postos ao lado dela, porém a ignoraram por completo.
Hécate vestia as cores da noite: preto, o mais profundo dos azuis e cinza. Manifestara-se como a linda mulher de meia-idade outra vez, e as gotículas de chuva cintilavam
como joias em seu cabelo negro.
— O feitiço para proteção e saúde que lançou ontem foi muito bem pensado. Concordo com seus instintos. A chuva refresca as rosas e o reino. Além disso, os pequenos
insetos que pediu à Terra foram uma surpresa encantadora... O elemento Ar adorou trazê-los para cá. — A deusa fez uma pausa e, em seguida, surpreendeu Mikki com
uma deliciosa risada. — Embora não se possa enxergar seu corpinho vermelho e preto em meio a essa névoa.
— Joaninhas alimentam-se de pulgões, e as rosas odeiam pulgões — lembrou Mikki, ainda surpresa com o declarado elogio da diva.
— As rosas estão desenvolvendo-se de novo, e isso me agrada.
— Obrigada, Hécate.
— Também foi bom ter instruído Fogo a iluminar a muralha das rosas, principalmente as do portal. Agora que os homens estarão indo e vindo outra vez, precisam tomar
muito cuidado com essa passagem.
— Eu nem havia pensado nisso! — Mikki passou a mão pela testa, nervosa. — Sou mesmo uma tola. Como esperava que eles fossem entrar e sair do reino?
— Não foi ruim ter permitido que os homens viessem aqui de novo. Fez muitas mulheres felizes. Durante toda a noite, ouvi os nomes dos amantes sendo sussurrados em
convites que foram levados ao mundo antigo. — A deusa sorriu de lado, maliciosa. — Ainda esta manhã alguns continuam sendo chamados e apreciados pelas mulheres,
as quais há muito são reverenciadas como algumas das mais belas e inteligentes do mundo antigo. Ter os homens por perto dará vida nova ao reino... Bebês meninas
são uma bênção, e estou ansiosa por seu nascimento.
— Mas os Ladrões de Sonhos estão na floresta. Temos que ter cuidado se esse portal vai abrir e fechar a cada pouco.
— Você é a Empousa, Mikado. Pode colocar limites quanto ao ir e vir dos homens. — Hécate deu-lhe um olhar afetuoso. — É bom que saiba dos perigos que espreitam do
outro lado da barreira, mas não precisa se preocupar. A força do Guardião irá proteger o reino. Case a vigilância dele com seu carinho pelas flores, e tudo ficará
bem no Reino das Rosas.
Mikki tentou não pensar ou reagir. Manteve a mente vazia e assentiu.
— Ótimo. Agora, o que vim dizer é que tenho assuntos para resolver que vão me afastar do reino. Não se preocupe se eu não vier visitá-la aqui por... — Hécate ergueu
um ombro — ... algum tempo. Mas meus poderes estarão sempre com você, caso necessite deles. Sinto que está confiando mais em seus instintos e, por isso, aplaudo
sua sabedoria. Deixe que sua intuição a guie. Se seu sangue, alma ou espírito lhe disserem algo, pode acreditar. E, lembre-se, Empousa, aprecio muito o que tem feito
pelas rosas, mas não foram apenas suas providências que deram início à recuperação delas. Foi também sua presença. Tem laços de sangue com as flores, o que garante
que elas irão prosperar. Seja sábia, Mikado. Os sonhos da humanidade dependem de você.
Hécate levantou a mão e desapareceu em uma névoa brilhante.
Capítulo 30
Mikki não podia dizer que não estava aliviada por Hécate ter partido por algum tempo. É claro que devia ter lhe contado sobre seu relacionamento com Asterius...
Contar seria bem melhor do que a deusa ler sua mente ou descobrir de outra forma.
Tinha vontade de correr e se esconder só de pensar nisso!
Iria dizer tudo a ela, sem dúvida, mas não queria fazer isso tão já.
Não que estivesse com vergonha por amar Asterius, ou porque temia sua deusa, ainda que Hécate fosse um tanto assustadora. Mas queria manter o Guardião para si mesma.
Por que não podiam ter privacidade para descobrir os segredos daquele novo amor? Mesmo que tivesse se apaixonado por um homem de Tulsa, ela gostaria de ter tempo
para que os dois aproveitassem a novidade de sua descoberta antes que a revelassem aos sete ventos e abrissem a própria vida à especulação. Ela era discreta e quanto
mais uma coisa lhe era importante, mais discreta ela tornava-se a respeito.
E Asterius era muito importante para ela.
Quando Hécate voltasse, sabia-se lá de onde, poderiam ter uma conversa acerca do Guardião. Então iria lidar com a resposta da deusa, qualquer que fosse ela.
Até lá, iria valorizar aquele período de lua de mel que lhe fora concedido e desfrutar completamente o fato de que tinha se apaixonado.
Satisfeita com seu plano, Mikki deixou o banco e verificou os canteiros e fontes vizinhos para certificar-se de que rumava na direção certa. Os comentários de Hécate
sobre os homens indo e vindo através do portal das rosas a haviam preocupado e, a despeito do que a deusa dissera sobre Asterius, iria se manter alerta.
Naquele exato momento, seus instintos lhe diziam que verificasse o portal por conta própria, depois anunciasse um toque de recolher, embora detestasse a ideia de
agir como uma inspetora de colégio. Gostaria de conversar com Asterius sobre aquilo, mas só faria sentido colocar alguns limites quando o portal estivesse aberto.
E também precisava descobrir quem, exatamente, poderia abri-lo. Asterius poderia, claro. E ele dissera que ela também poderia fazê-lo. As Tecedoras de Sonhos haviam
mencionado que os Quatro Elementos tinham colhido os fios da realidade enquanto o Guardião estava enfeitiçado, então elas também eram capazes de abrir o portal.
Mas quem mais? Seria uma tremenda dor de cabeça se todas as mulheres do reino pudessem fazer um gesto e abrir a maldita porta como se esta fosse o Mar Vermelho...
Sem dúvida, tinha muito trabalho a fazer.
Calculando a hora, Mikki apertou o passo. Precisava se mexer e chamar suas damas de companhia.
Poderia chamá-las naquele exato momento e fazer com que se encontrassem ali nos jardins, claro; mas preferia checar pessoalmente o portal, voltar correndo para o
quarto, trocar aquela túnica molhada e rasgada, embora a tivesse remendado naquela manhã, pedir a Daphne que trouxesse um pouco daquele chá delicioso e reunir-se
com as meninas mais tarde para um brunch.
Mesmo assim, ainda era cedo. E as servas não eram estúpidas. Decerto olhariam a chuva e perceberiam que havia pouco a ser feito nos jardins com aquele clima. Talvez
até voltassem para a cama.
Mikki sorriu para si mesma, esperando que elas não fizessem isso sozinhas. Ela mesma não o faria naquela noite.
A chuva mudara aos poucos da garoa fina para uma bruma, e depois para um nevoeiro claro que agora pairava sobre as rosas como na região dos Lagos, na Inglaterra.
A cerração tornou-se mais espessa conforme ela caminhava para o Sul.
Mikki pensava na noite que tinha pela frente, tentando decidir como poderia convencer Asterius a ir até as fontes termais para um banho a dois, quando uma parede
de rosas Multiflora surgiu bem diante de seu nariz, e ela quase se chocou contra a muralha.
— No próximo feitiço, lembre-se de dizer ao Ar para afastar o nevoeiro depois da chuva! — resmungou para si mesma enquanto esquadrinhava o portal, procurando por
sinais de desgaste. — Você parece bem — elogiou, acariciando parte da folhagem.
— Sacerdotisa! Pode nos ajudar?
Mikki olhou ao redor, tentando ver de onde vinha a voz profunda. Era inequivocamente masculina, o que soava estranho nos jardins.
— Aqui! Estamos aqui!
Ela percebeu que a voz vinha do outro lado da muralha das rosas e inclinou-se um pouco, de modo a olhar através de uma parte menos densa dos ramos.
Seus olhos arregalaram-se de surpresa. Quatro homens encontravam-se do lado de fora do portal, cercados pela névoa espessa e cinzenta. Três deles estavam trajados
como ela sempre imaginara que os antigos gregos deviam se vestir: com uma espécie de túnica, um braço nu e capas cor de púrpura, regiamente bordadas, sobre as costas
largas. Eram todos altos, musculosos... e muito, muito bonitos.
O quarto homem, o que havia falado, devia ser o líder. Encontrava-se à frente dos demais e vestia-se no estilo em que ela estava acostumada a ver Asterius: com uma
cuirasse sobre uma túnica curta, de pregas.
Era aí, entretanto, que sua semelhança com o amante dela terminava. Era um homem bonito, alto e de pele morena, que destacava-se mesmo na manhã nevoenta. Sua pele
tinha um tom dourado que poucos loiros verdadeiros exibiam. Um bronzeado saudável, da cor do mais puro mel, e que cobria um corpo que era uma perfeição: atlético,
sem ser demasiado musculoso e brutal. Seu cabelo era espesso e ondulado, cortado num comprimento que era másculo e, ao mesmo tempo, juvenil.
E seus olhos eram tão azuis e límpidos que ela podia vê-los mesmo em meio à profusão de rosas.
Mikki suspirou. Nunca vira um homem tão bonito de tão perto. Geralmente, tanta perfeição limitava-se a Hollywood e às maquinações dos produtores de filmes e cirurgiões
plásticos.
— Aí está, Sacerdotisa! — Ele sorriu, e seu rosto iluminou-se ainda mais. — Estamos aqui. Respondemos a seu chamado.
Ela sorriu de volta. (Quem não o faria diante de um sorriso como aquele?)
— Meu chamado?
— Só posso rogar à grande deusa que eu tenha tido a sorte de ter sido chamado por uma beldade como você...
Mikki percebeu que corava e sentiu-se ridícula.
— Ouvi dizer que os olhos azuis são mais fracos do que os castanhos ou verdes — replicou. — Acho que acabou de comprovar essa teoria.
Ele riu, e o som de seu riso era tão cativante quanto sedutor.
— Ah, vejo que minhas preces foram atendidas! A deusa me concedeu uma Sacerdotisa que tem inteligência, além de beleza. — O estranho deu alguns passos em direção
ao portal, e seus amigos o seguiram.
Por entre os ramos, Mikki observou-o mover-se com naturalidade e confiança, de modo tão atraente e tão diferente do modo selvagem de Asterius que ficou chocada.
Não chegou a desejar o lindo loiro, mas sentiu uma ponta de inveja da mulher que o tinha chamado.
Viu-se invadida imediatamente por uma onda de culpa. Que diabo havia de errado com ela? Tinha acabado de deixar a cama de Asterius após proclamar seu amor por ele,
e agora estava toda derretida diante de um estranho só porque ele era bonito?
Talvez a chuva tivesse atravessado seu crânio e inundado seu cérebro.
— Vai abrir o portal para nós, Sacerdotisa, ou meus companheiros e eu teremos de atravessar essa parede espinhosa?
— Não! — ela respondeu um pouco alto demais. E então, sentindo-se como uma idiota, adicionou: — Não fui eu que o chamei. Não precisa me cortejar.
A expressão de decepção do rapaz pareceu sincera.
— Se é assim, creio que eu lhe deva desculpas, graciosa dama. Imaginei que fosse um dos Elementos, com essas tranças avermelhadas e sua extraordinária beleza. Fogo,
talvez. Afinal, foi ela quem me chamou aqui. Eu seria um homem de sorte se tivesse acertado.
— Desculpe, mas não sou nenhum dos Elementos. — Mikki sorriu, travessa.
Não estava sendo infiel a Asterius por ser educada com o rapaz. Estava apenas cumprindo seu papel de Empousa, afinal, fora ela quem lançara o feitiço para permitir
que os homens adentrassem o reino.
— Eu sou a Empousa.
Os olhos azuis do estranho plissaram-se adoravelmente nos cantos com seu sorriso.
— Empousa! — Ele curvou-se em um lindo e cavalheiresco floreio, que os outros homens copiaram enquanto a saudavam, galantes. — Que feliz coincidência estar passando
por aqui neste momento. Bem que ouvimos dizer que havia uma nova Empousa no Reino das Rosas. É uma honra conhecê-la... — O sorriso do rapaz brilhou com bom humor.
— Mesmo através de uma barreira de rosas...
— Disse que Floga o convidou?
— Isso mesmo.
— Ela convidou os seus amigos, também? — Mikki tentou evitar um sorriso malicioso, mas falhou miseravelmente. Não era difícil imaginar o elemento Fogo precisando
de quatro homens para apagar sua paixão, mesmo que um deles já se parecesse com Adonis.
Por um instante, Mikki sentiu uma ponta de ciúme da liberdade e facilidade com que a serva podia caminhar ao lado de qualquer homem que escolhesse.
— Não, Empousa — disse um dos que estavam vestidos com quitão. Tinha os cabelos escuros e fartos e um rosto bem talhado, o que a fez concentrar-se outra vez na conversa.
— O elemento Terra é a Sacerdotisa cujo chamado estou atendendo.
— A Água foi quem me chamou, Empousa — disse o terceiro homem.
— E eu tive a sorte de ter sido convocado pelo Ar — explicou o último, que possuía cabelos longos e castanho-avermelhados, além de olhos extraordinariamente verdes.
Caramba, eles eram maravilhosos! Suas servas tinham feito excelentes escolhas.
Mikki sorriu. Precisava perguntar a Gii como funcionava aquela coisa de convidar os homens... Era meio estranho que eles tivessem sido invocados pelas meninas pela
manhã, mas talvez não fosse. Ela ainda não as chamara para trabalhar. Estivera chovendo e, na certa, elas haviam decidido ocupar-se à sua maneira.
Sem dúvida, eram tão inteligentes quanto ela pensava.
— Tenho certeza de que os Quatro Elementos estarão aqui a qualquer instante, portanto, ficarei feliz em deixá-los entrar.
Os olhos do líder se iluminaram e ele curvou-se numa mesura novamente.
— Ser convidado a entrar no Reino das Rosas por sua Empousa é uma honra que não merecemos.
— Ah, isso não é problema. Podemos caminhar para o palácio juntos. Eu já ia voltar para lá.
Sem dizer que ser escoltada por quatro rapazes lindos de morrer não era nenhum sacrifício.
Tampouco era errado, pensou Mikki, sentindo-se dominada por uma súbita revolta. Claro que não era errado! Ela estava apaixonada, não morta. E tudo o que iria fazer
era levar os homens até suas mulheres.
O único motivo escuso que talvez tivesse para tanto era desfrutar um flerte inofensivo. Mas por que não? Sentia-se incrivelmente bonita e amada, mas isso não significava
que quisesse ser controlada e trancafiada em uma gaiola!
Asterius que pensasse duas vezes antes de querer marcá-la como uma novilha premiada... Era isso o que ele esperava dela? Que ela lhe permitisse controlar todos os
seus movimentos?
De repente, sentiu medo de que fosse aquilo mesmo. Afinal, Asterius era um animal, e ela não podia esperar que ele soubesse como tratar uma mulher.
Em algum lugar, nas profundezas de sua alma, algo tentou inserir-se no turbilhão de pensamentos defensivos que borbulharam em sua mente tal qual num guisado rançoso...
Mas não puderem ser ouvidos em meio ao ódio e à inveja, o egoísmo e o medo que gritavam dentro dela.
Meio desnorteada, Mikki foi até o centro do portal e franziu o cenho. Não havia nenhuma maçaneta, nenhuma trava, nenhuma barra de deslizar. Frustrada e muito irritada
com a enorme dor de cabeça que abateu-se sobre ela, levantou a mão e pressionou a palma contra a muralha.
— É a Empousa quem fala. Abra logo essa droga! — murmurou com raiva.
O portal vivo obedeceu.
Os quatro homens deixaram o nevoeiro sorrindo, como se ela tivesse acabado de lhes dar a chave para o paraíso.
Mikki sorriu de volta, distraída, desejando que eles se apressassem a passar para o lado de dentro. Não gostou da aparência da floresta escura e quis fechar o portal
imediatamente.
No instante em que o último homem entrou, ela ergueu a mão de novo e ordenou ao portal que se fechasse, suspirando de alívio quando este obedeceu.
Então, virou-se para os homens.
— O palácio é por ali. — Gesticulou na direção do caminho de mármore mais largo.
— Claro, Empousa. — O loiro sorriu.
Mikki começou a andar, contudo estacou quando o moreno de cabelos escuros bloqueou seu caminho.
— É por aqui — ela repetiu, apontando por cima de seu ombro largo enquanto pensava que ele podia ser bonito, mas, definitivamente, não era a última bolacha do pacote.
— Talvez queira saber nossos nomes antes de nos levar até o palácio, Empousa... — A voz do loiro soou bem atrás dela. Ele estava tão próximo que Mikki pôde sentir
sua respiração nos cabelos.
Os outros dois rapazes entraram em cena para fechar o círculo, de maneira que ela viu-se cercada.
Foi nesse momento que tudo clareou, a dor na cabeça cessou, assim como as emoções desencontradas que vinham fervilhando em sua mente. De súbito, uma certeza terrível
tomou conta de Mikki: eles eram Ladrões de Sonhos e ela abrira o portal das rosas para eles!
Instintos que tinham sido silenciados assim que ela havia começado a conversar com o loiro gritaram para que ela não demonstrasse medo.
Determinada, engoliu a bile que lhe subira à garganta, endireitou-se, majestosa, e encarou o homem de cabelos dourados.
— O que significa isto?
— Nós apenas gostaríamos de nos apresentar, Empousa. Como vê, já a conhecemos bem, pois gostamos de observá-la. Agora queremos que saiba o que convidou tão graciosamente
a adentrar o seu reino. — O charme na voz dele fora substituído pelo sarcasmo, e seus lábios curvaram-se num sorriso de escárnio que distorceu seu belo rosto.
— Não gosto do seu tom e não gosto da sua proximidade — ela declarou, áspera, tentando imitar o tom intimidador de Hécate. — Acho que já é hora de partirem. Decidi
que minhas servas não gostariam de sua companhia.
— Tarde demais. Abriu o portal para nós e agora verá que, uma vez que somos convidados, não costumamos deixar a festa tão cedo... — O moreno estendeu a mão e tocou
uma mecha avermelhada que descansava em seu ombro.
Mikki tentou empurrá-lo, porém ele a agarrou pelos ombros sem nenhuma delicadeza e a segurou no lugar enquanto o loiro cheirava sua nuca. Ela lutou, mas, agarrando-a
pelos cabelos, este a obrigou a virar a cabeça para o lado e, como uma cobra provando sua presa, deslizou a língua por seu pescoço.
— Ah, o doce sabor de uma Empousa! Há séculos não degusto uma iguaria destas.
— Parem com isso! — Mikki choramingou. — Larguem-me!
Surpreendentemente, o loiro obedeceu. Sorriu para ela, mas foi apenas uma exibição de seus dentes perfeitos, e não uma expressão de humor.
— Vamos aproveitar nossa visita em sua companhia, Empousa. Gostamos dessa mudança no clima que providenciou... Um tempo desses é melhor para encobrir o nosso pequeno
rendezvous, embora alguém já tenha tido o prazer de sua companhia esta manhã. — Com os movimentos de um réptil, ele a circundou e arrancou o broche que mantinha
unido o tecido já cortado da túnica.
Mikki congelou de medo. Agarrou-se ao quitão, tentando não vomitar enquanto eles a cercavam mais, apalpando-a com mãos ousadas e devorando-a com os olhos.
— Vamos, Empousa, não seja tímida... Não pode dizer que não me reconhece.
— Ou a mim e aos outros... — a voz do de cabelos castanhos soou abafada a suas costas.
— Olhe bem nos meus olhos, Empousa... Tenho certeza de que já me viu antes. Não me diga que não sabe meu nome.
Ela mirou os olhos incrivelmente azuis do loiro. De súbito, sua cor clara e intensa tingiu-se de um vermelho-sangue, e eles transformaram-se em fendas.
Mikki reconheceu-o então e, quando seu nome ardeu-lhe no pensamento, ela viu-se dominada por uma fúria que solapou todo o medo.
— Tire essas mãos nojentas de mim! — gritou, irada, e o empurrou com violência.
Surpreso, o moreno que a segurava por trás tropeçou e a soltou. Sem perder tempo, Mikki recuou vários passos para longe deles.
O loiro riu e a seguiu devagar.
— Que bom... Gostamos se oferecem resistência. Isso torna as coisas mais interessantes. Afinal, o que vê quando me olha nos olhos, Empousa?
Ela continuou se afastando, contudo ele e os outros a seguiram.
— Um borra-botas louco para ter contato com gente influente! — respondeu, ofegante.
Ele gargalhou.
— Acho que vou ter de lhe ensinar coisas melhores para fazer com essa sua língua afiada. Mas, por hora, me diga, Empousa... Que nome você me dá?
— Ódio — ela respondeu sem hesitação.
O sorriso dele foi aterrador.
— Ah! Vejo que pensa rápido. Talvez eu a leve comigo quando sairmos daqui. Gostaria disso? Sou um homem que conhece intimamente os desejos ocultos das mulheres.
— Homem? Que homem? — Ela riu, sarcástica. — Você não passa de uma criatura desprezível. Um comedor de carniça que se alimenta das carcaças dos sonhos. Mas não me
importa em que tipo de pele esteja disfarçado.
Ele se lançou à frente e a agarrou pelo braço.
— Acha que não sou homem? Pois eu vou lhe mostrar!
Enquanto eles tornavam a cercá-la, Mikki gritou o nome do único homem que preenchia-lhe o coração e a alma.
— Asterius!
— Seu amante, seja lá quem ele for, não vai salvá-la agora. E, se realmente se importa com ele, sugiro que fique bem quietinha... Nenhum mortal pode olhar para nós
sem perder uma parte da própria alma. — O Ódio bufou em seu rosto enquanto agarrava a frente da túnica e a arrancava de seu corpo. — Cubram a boca desta gracinha
e cuidem para que ela não dê um só pio! Neste nevoeiro não há chance de que sejamos descobertos até que seja tarde demais para ela... Tarde demais para todas!
Mikki viu-se arrastada para fora do caminho de mármore até um canteiro de rosas Salet. Lutou, chutando virilhas e pernas, usando as unhas para furar qualquer carne
com que entrava em contato, assim como se aprendia nas aulas de autodefesa nos Estados Unidos.
Mas os quatro logo a dominaram. Empurraram-na para o solo, e ela percebeu vagamente que a terra recém-trabalhada encontrava-se coberta com pétalas de flores destruídas,
como se uma neve cor-de-rosa tivesse caído junto com ela. Um deles a sufocava, e Mikki não conseguiu gritar. Fechou os olhos, então, e, concentrando-se, gritou em
pensamento:
Asterius! Venha!
— Verá se sou homem ou não... — rosnou o Ódio, empurrando para o lado a frente da própria túnica para tomar o membro ingurgitado na mão. — Depois experimentará um
pouco do Medo, do Ciúme e do Egoísmo — completou, rindo de modo insano. — Aliás, que ironia o Egoísmo tomá-la por último... Ou talvez não. Talvez ele opte por ficar
com você definitivamente enquanto visitamos as outras mulheres deste seu reino patético, Empousa.
Mikki captou um movimento em meio à sua visão já escurecida e, no instante seguinte, Asterius pareceu explodir de dentro do nevoeiro com um rugido ensurdecedor.
O Ódio virou-se para enfrentá-lo e, ao fazê-lo, seu corpo ondulou e transformou-se no do Ladrão de Sonhos. Conforme ela imaginara, ele não era humano, mas uma criatura
horrenda que devia existir apenas no mundo dos pesadelos. Tinha a pele escamada e seus olhos de cobra saltavam de uma cabeça dilatada em forma de capuz. Seu corpo
possuía características humanoides, porém ele agachou-se sobre quatro patas, botando uma espuma negra pela abertura da boca feito um réptil.
As garras de Asterius zuniram no ar, abrindo uma trilha de sangue no peito da criatura. Mikki escutou silvos horrendos escapando dos seres que a mantinham cativa,
então viu-se livre de repente quando o Medo, o Ciúme e o Egoísmo postaram-se atrás de seu líder.
Formavam um grupo aterrador. Todos haviam mantido algo de sua forma humana, mas haviam passado por tenebrosas mutações. O Medo era como um cadáver em decomposição,
com garras imundas e um rosto disforme. O corpo deveras humano do Ciúme era coberto por uma planta rastejante que brotava de sua pele como espinhos mortais. Ele
também se pôs de quatro, sibilando e lembrando um monstro do pântano. O Egoísmo tinha um corpo alongado, de onde saíam vários tentáculos, os quais ele agitava enquanto
rangia os dentes horríveis.
E todos enfrentaram Asterius.
O Guardião deu cabo de um por um. O Medo foi o primeiro a tombar, estripado pelas garras da fera. O corpo do Ladrão de Sonhos desabou e, em seguida, dissolveu-se,
transformando-se em uma fumaça vermelha que pairou ao longo dos canteiros de rosas.
Mikki se pôs em pé de um salto e gritou um comando:
— Aeras! Venha até mim!
Instantes depois, o elemento Ar corria até sua Empousa de olhos arregalados.
— Oh, grande Deusa! Salve-nos!
— Hécate não está aqui. Temos de nos defender sozinhas. Aeras, ordeno que seu elemento faça-se presente. Faça soprar um vento forte do Norte e nos livre da fumaça
do Medo. Agora!
Lívida, a moça ergueu ambos os braços. Quando o fez, uma rajada de vento frio soprou sobre eles, carregando a neblina da manhã, bem como a fumaça vermelha que pairava
ao longo da parede, para a floresta.
Um grito de dor fez Mikki arrancar o olhar da nuvem que se dissipava e concentrá-lo na batalha. Os olhos escuros de Asterius faiscavam, e ele rugia conforme desferia
golpe após golpe contra as criaturas do mal, os movimentos precisos tão fascinantes quanto mortais.
Ela prendeu o fôlego, pensando que Asterius era a coisa mais magnífica que já tinha visto.
Ele avançou, golpeou mais uma vez, e o Egoísmo foi ao chão, contorcendo-se, os tentáculos decepados espirrando sangue escuro em um arco vermelho por sobre as rosas.
Tendo o Ciúme agarrado a suas costas, Asterius abaixou o corpo num movimento quase invisível de tão rápido, e o Ladrão de Sonhos foi ao chão no mesmo momento, para
ser perfurado impiedosamente por suas garras na base da espinha.
Ambas as criaturas agonizaram e, depois, também desapareceram em nuvens de fumaça vermelha.
— Outra vez, Aeras! — ordenou Mikki.
Aeras chamou o vento Norte, e este baniu o Ciúme e o Egoísmo para a floresta.
— Sua vagabunda intrometida! — o Ódio gritou para o elemento Ar e, como uma víbora, atacou Aeras.
Mikki foi mais rápida, porém, e empurrou a moça para fora de seu caminho.
O Ladrão de Sonhos colidiu com a Empousa, em vez de sua serva, e Mikki sentiu uma picada lancinante explodir no ombro e no braço, tombando sob ele.
O Ódio gritou, então, e seu corpo curvou-se para trás quando Asterius cingiu-lhe as costas, fazendo brotar vários riscos vermelhos em sua pele.
Com um rugido terrível, o Ladrão de Sonhos agarrou Mikki e virou-se para enfrentá-lo, segurando a Empousa como um escudo.
Asterius reprimiu o ataque.
— Por que hesita, Guardião? Estou protegido de sua ira apenas por uma mulher fraca e mortal. Não está disposto a sacrificar sua Empousa nem mesmo para livrar o reino
do ódio? Surpreendente... — O Ódio soltou uma gargalhada maléfica. — Ah, eu havia me esquecido de que tem uma queda pelas Altas Sacerdotisas de Hécate. — A criatura
esfregou a virilha contra Mikki. — Não que eu o culpe... Esta parece bem madura e no ponto.
O rosnado de Asterius fez os pelos dos braços e nuca de Mikki se eriçarem.
— Eu o farei sofrer pela eternidade por tocá-la! — ele trovejou com a voz de um predador mortal.
— Acho que não, Guardião. Em vez disso, vai abrir o portal para mim, e eu passarei por ele incólume. — A criatura começou a puxar Mikki consigo enquanto recuava
na direção da muralha das rosas. — Se chegar muito perto, bancarei o Destino e estraçalharei a garganta dela. — Apertou uma garra dentada contra o pescoço delicado.
— Isto ainda não terminou — rosnou Asterius, movendo-se junto com o Ladrão de Sonhos e sua refém até a passagem. — Já disse que vou fazer você pagar pela eternidade
por tocá-la.
— O Ódio também nunca termina, Guardião. Já devia saber disso a esta altura. — Ele parou de costas para o portal. — Agora, abra-o para mim, e eu lhe devolverei a
Empousa... ainda que fosse gostar de me divertir com ela por algum tempo. — O Ódio arreganhou os dentes para Asterius antes de inclinar-se e saborear com a língua
o pescoço da Alta Sacerdotisa, em franca provocação.
Foi o bastante para Mikki. Mais do que o suficiente.
— Maldito! — ela gritou, enfiando o polegar no olho esbugalhado do monstro, o qual ele fora tolo o suficiente para aproximar dela.
O Ladrão de Sonhos soltou um grito ensurdecedor e arremeteu para longe.
Mas não antes de Mikki senti-lo perfurar sua pele com uma garra, e também uma onda de calor úmido que se seguiu ao ferimento.
Segurou o pescoço e caiu no chão, percebendo, mesmo com a vista escurecida pela dor, o modo como Asterius agarrou a criatura que debatia-se e torceu seu corpo para
trás até que a espinha do Ladrão de Sonhos partiu-se ao meio com um ruído medonho. Logo depois, ele o arremessou por sobre a barreira de rosas.
No instante seguinte, estava de joelhos a seu lado, gritando seu nome, tocando seu rosto e acariciando-lhe os cabelos.
Mikki tentou sorrir para ele.
Está tudo bem. Não foi culpa sua... Fui eu quem os deixou entrar.
Pensou que estivesse dizendo as palavras em voz alta, mas não conseguia proferi-las.
De repente, suas quatro servas surgiram à sua frente também. E estavam chorando. Mesmo Floga, que ela pensava nem gostar tanto dela...
Queria confortá-las, dizer que não estava com medo. E pedir que, por favor, tratassem melhor Asterius... pois sabia, sem nenhuma dúvida, que estava morrendo.
Capítulo 31
Asterius recusava-se a perdê-la assim. Não para o Ódio. Não quando Mikado havia trazido amor, desejo, carinho e aceitação... sentimentos tão opostos, para sua vida.
Ergueu-a nos braços e encarou os perturbados Quatro Elementos.
— Vamos levá-la até a fonte, Guardião. Lá poderemos lavá-la e depois colocá-la no Templo de Hécate, onde ofereceremos uma oração à Deusa por sua alma — pediu Gii
em meio a lágrimas.
— Ela não está morta! — ele explodiu, e rosnou um aviso quando Gii tentou se aproximar.
— Ainda não... Mas o ferimento de Mikado é mortal e, em breve, seu espírito estará no Reino de Hades — Nera falou com voz entrecortada.
— Não! Não é seu destino morrer hoje!
— As Parcas decidiram o contrário — Aeras replicou suavemente.
— Então eu desafio as Parcas!
— Mas, Guardião, o que pretende fazer? — Floga perguntou.
— Vou reclamar meus direitos de primogenitura.
Erguendo o corpo inerte que sangrava, Asterius passou pelas servas, mas a mão macia de Gii em seu braço o deteve. Quando ele a fitou, a moça encontrou seu olhar
sem hesitação.
— Como podemos ajudá-lo?
Ele ponderou por um instante.
— Vamos para o templo. Talvez o poder dos elementos ajude meu apelo a chegar mais rápido aos ouvidos de Cronos.
Sem esperar para ver se elas o seguiam, Asterius correu com Mikki para o Templo de Hécate, os cascos golpeando ruidosamente o mármore branco do caminho, tentando
não pensar em como ela continuava inerte e quanto de seu sangue lavava seus corpos.
Subiu os degraus do templo de três em três e, estacando diante da chama sagrada da deusa, caiu de joelhos, colocando sua amada ao lado do fogo.
Ouviu as servas entrando no templo logo atrás dele e tomando seus lugares ao redor do círculo.
— Ela ainda está viva? — Gii perguntou, aflita.
Asterius olhou para seu amor. Mikado tinha os olhos fechados e o rosto sem nenhuma cor. O sangue ainda fluía do corte comprido e fino em seu pescoço, e seu peito
subia e descia com dificuldade.
— Está.
— Então faça o que puder, Guardião. Não queremos perder outra Empousa antes que o destino assim exija! — declarou o elemento Terra.
Ele ergueu os olhos para os da moça.
— Convoquem seus elementos e formem o círculo sagrado.
— Você a ama, não é? — Floga indagou de repente.
Seu olhar virou-se para a serva.
— Sim.
— E vai salvá-la apenas para roubá-la de nós depois? — O elemento Fogo quis saber.
— No Beltane, a Empousa do reino encontrará seu destino. Eu lhe dou minha palavra.
— Mesmo que a ame? — Aeras exigiu.
— Há poucos minutos me viram batalhando com o Egoísmo. Não foi a primeira vez que tive de enfrentar esse Ladrão de Sonhos. Mas, desta vez, fui vitorioso. Nunca mais
vou sacrificar os sonhos da humanidade em benefício próprio. — Ele olhou para Mikado e tocou seu rosto gentilmente.
— Então você não é mesmo nenhum animal — Gii declarou com voz embargada.
— Sou, sim — ele retrucou sem olhar para o elemento Terra. — Mas também sou um homem. E o amor de Mikado fez do homem o mais forte das duas criaturas.
— Os Quatro Elementos irão ajudá-lo a salvar seu amor, Guardião — declarou Gii, acenando para Aeras. — Pode começar.
Aeras ergueu os braços para o alto.
— Invoco-te, ó Ar, para o círculo sagrado!
Imediatamente, o ar começou a se mover.
Como uma reação em cadeia, Floga elevou os braços, invocando seu elemento.
— Que venhas até mim, Fogo!
— Água! — gritou Nera. — Eu te convido a participar!
— Terra! Chamo-te para completar o círculo e ampliar os poderes do Guardião que abrigamos aqui! — entoou Gii.
Asterius sentiu o poder dos elementos na pele. Abaixou a cabeça e levantou as mãos manchadas com o sangue de sua amante. Em uma voz ampliada pelo Ar, pelo Fogo,
pela Água e pela Terra, bem como pela fera dentro dele, gritou para os distantes confins do Céu.
— Cronos, meu pai! Grande deus do Mundo e dos Tempos, Titã dos Céus e da Terra! Eu te invoco pelos teus antigos nomes, bem como por aquele que meu sangue me permite...
Vivi por muitos séculos sem te rogar por governo, poder, amor ou aceitação, mas hoje te peço, por direito de nascimento, que me dês o poder de salvar esta mortal.
Sua linha da vida foi cortada antes do tempo e ainda não desfiou até o fim.
A chama sagrada se agitou, e no interior da luz tremeluzente o rosto de um homem apareceu. Não se podia definir sua idade, mas era bem talhado, como se esculpido
em rocha pelo tempo e experiência. Um rosto que ele teria reconhecido em qualquer lugar, pois refletia o seu quase completamente.
— Pai! — disse Asterius, inclinando a cabeça.
O Titã mal o fitou. Em vez disso, apontou o queixo na direção de Mikado.
— É esta a mortal que deseja salvar?
— Sim!
— Ela é Empousa de Hécate? — indagou Cronos.
— É...
— Então sua salvação será apenas temporária.
— Ela ainda não viveu seu tempo de direito! Ainda não é Beltane — lembrou Asterius.
— Quem fez isso a ela? — O Titã quis saber.
— O líder dos Ladrões de Sonhos: o Ódio. Não posso deixá-la morrer pelas mãos daquela criatura.
Cronos voltou a atenção para o filho.
— O ódio a matou e você deseja que seu amor a salve?
Asterius contraiu a mandíbula, mas assentiu com um gesto de cabeça.
— Sim.
— Ah, o amor! — Cronos riu. — Estou surpreso com sua fraqueza, Guardião.
— Aprendi que o amor só é fraco quando é egoísta — ele retorquiu num claro desafio.
Uma ponta de surpresa brilhou na face do deus.
— Você me faz lembrar de sua mãe.
— Talvez porque ela também tenha enfrentado a fraqueza daqueles que amam de modo egoísta.
Cronos franziu o cenho.
— Não estou habituado a ser insultado quando solicitam meu auxílio!
— Não pretendia insultá-lo. Eu só disse a verdade — replicou Asterius, tenso.
— Independentemente disso, já me cansei desta conversa.
— Cronos! Perdoe-me, eu não...
— Silêncio! — A chama se agitou e o chão do templo da deusa tremeu. — Eu ainda não acabei... Concedo seu pedido. Pode compartilhar parte da imortalidade que habita
em seu espírito com a Sacerdotisa. Uma parte muito pequena, porém. Ela vai escapar do reino de Hades apenas uma vez. E saiba que há um preço para a centelha de imortalidade
que partilhar com ela. Mesmo depois que a Empousa morrer, vai carregar consigo esse pedaço de seu espírito. E você só irá se sentir completo quando ela estiver a
seu lado. Quando ela já não estiver neste reino, seu coração ficará vazio, e seus dias serão preenchidos com a solidão. Pense com cuidado antes de fazer essa escolha.
— Eu já fiz minha escolha. Sabia do ônus, caso me permitisse amá-la, e o aceitei. Pela vida de Mikado, não me importaria em aceitá-lo novamente.
— Muito bem. É seu direito de primogenitura que está usando para me pedir uma bênção. Mas não me incomode de novo. Você escolheu Hécate, e é à deusa que deve recorrer
no futuro.
E, sem mais nenhuma palavra, o Titã desapareceu no fogo.
Asterius olhou para Mikado. Seu pai lhe havia concedido a capacidade de salvá-la, mas como?! Ele teria de dar a ela uma parte de sua imortalidade, um pedaço de seu
espírito...
De repente, ele soube. Devagar, inclinou-se sobre Mikado e tocou-lhe os lábios com os dele. Conforme a beijava, desejou que ela vivesse para que pudesse compartilhar
de sua vida e aceitá-lo mais uma vez.
Mikado se moveu, suspirou suavemente contra sua boca... Então, entreabriu os lábios e seu beijo se aprofundou.
Quando Asterius se ergueu, seus olhos estavam abertos e ela sorria para ele.
— Ela está viva! — gritou Gii, extasiada.
As servas riram e choraram ao mesmo tempo, enquanto fechavam o círculo e corriam para sua Empousa.
Mikki sentou-se e piscou, confusa, sem saber ao certo onde estava e por que motivo Asterius encontrava-se ajoelhado a seu lado, segurando sua mão diante dos Quatro
Elementos.
Olhou ao redor. Aquele era o Templo de Hécate? Alguma coisa estava errada. Não devia estar ali. Devia estar inspecionando a muralha das rosas para certificar-se
de que...
De súbito, tudo voltou à sua mente.
— Os Ladrões de Sonhos! — exclamou, tentando ficar de pé, mas vendo-se tão fraca que seu menor movimento fazia o templo girar ao redor.
— Sshh... — Asterius a tranquilizou. — Tudo está bem agora. Os Ladrões de Sonhos foram banidos do reino.
— Eu sinto muito! — Ela olhou de Asterius para as servas.
— Empousa, não precisa se desculpar! Ladrões de Sonhos são mestres em manipulação. Devíamos tê-la precavido melhor — falou Gii, agachando-se para segurar sua outra
mão.
— Sim! — Nera assentiu com um gesto ansioso de cabeça, como se isso pudesse convencê-la. — Como iria desconfiar das tramas insidiosas que eles costumam tecer?
— Mas eu os deixei entrar! Eles me disseram que... Oh, Deus! As coisas que eles me fizeram pensar e sentir! Foi terrível.
Aeras sorriu em meio às lágrimas que banhavam-lhe o rosto e tocou-lhe os cabelos com reverência.
— Foi muito corajosa ao levar o golpe que o Ódio planejou para mim, Empousa.
Mikki tinha se esquecido daquilo tudo e olhou para si mesma, nervosa. Estava coberta de sangue! Como podia ter perdido tanto sangue e continuado viva?
Lembrou-se da dor no ombro, mas, quando olhou para ele, não viu nada, a não ser a pele manchada de vermelho.
Mas existia algo mais. Algo muito pior...
Seus olhos se arregalaram, e ela sentiu uma onda de vertigem. O Ódio cortara sua garganta e ela havia praticamente morrido!
E agora encontrava-se viva outra vez.
Devagar, ergueu os olhos para os de seu amante.
— Acabou — disse Asterius.
— Eu estava morrendo! — ela sussurrou.
— Eu jamais permitiria que isso acontecesse.
— O Guardião a salvou! — Gii explicou em meio a um soluço.
— Salvou todas nós — corrigiu Aeras, enxugando o rosto.
— Nunca iremos esquecê-lo — jurou Floga.
— Nunca! — Nera reforçou, comovida.
Mikki sorriu para os Quatro Elementos.
— Ele fez o que qualquer homem honrado faria para proteger sua casa e aqueles que ama. — Passou os braços ao redor do pescoço forte e, emocionada, sussurrou ao ouvido
de Asterius: — Leve-me para casa.
Capítulo 32
Asterius carregou-a pelo jardim. Normalmente, Mikki não gostaria de ser transportada como uma criança, mas não tinha certeza de que teria condições de caminhar sozinha,
pois ainda sentia-se fraca e doente.
E precisava estar nos braços dele. Precisava sentir sua pulsação contra o peito para confirmar a si mesma que continuava viva.
— O Ódio me enganou — disse baixinho, a cabeça recostada no ombro largo.
Os braços de Asterius seguraram-na com mais força.
— É o que os Ladrões de Sonhos costumam fazer. Eles contaminam os mortais até seu veneno distorcer os pensamentos, enfraquecer os sonhos e fazê-los morrer. Não se
castigue por ter sido vítima do que vem destruindo as ilusões dos mortais há eras.
— Pensei coisas terríveis. Senti que estava cheia de... — Mikki estremeceu e não conseguiu continuar.
— Você foi envenenada por ódio, inveja, medo e egoísmo. Não eram seus pensamentos, Mikado; eram apenas sombras de sua mente contaminada. Não deve se punir pela maldade
deles, pois isso seria premiá-los. Se eles continuam afetando sua vida, mesmo depois de terem sido banidos, então não foram derrotados.
— Nunca mais vou permitir que eles me enganem. E jamais entrarei naquela maldita floresta outra vez! — Ela ergueu a cabeça para fitá-lo. — Como pode suportar? Como
pode sair e colher as tramas da realidade, sabendo que eles estão lá fora também, observando e esperando por uma chance de atacar?
— É meu destino combatê-los. Muitos deles são meus velhos inimigos.
— Não tem medo?
— Apenas quando penso no que aconteceria se eu falhasse e permitisse que eles adentrassem o reino de alguma maneira.
— Mas você nunca vai falhar...
— Não. Não posso.
Mikki o observou, preocupada. Asterius parecia exausto, e ela rezou para que ele não tivesse que lutar com os Ladrões de Sonhos tão cedo, ou até que estivesse recuperado.
— Ah, meu Deus... Ponha-me no chão. Tem que voltar e certificar-se de que a muralha das rosas está preservada, e de que nenhuma daquelas coisas permaneceu no reino!
— O reino está seguro. O vento Norte soprou os últimos vestígios de maldade para o fundo da floresta.
— Mas não precisa voltar e verificar se tudo está mesmo no lugar?
— Está tudo certo, Mikado. Quando os Ladrões de Sonhos são enfrentados e derrotados, não costumam atacar tão cedo. Eles sabem que, uma vez que foram reconhecidos,
seu poder de destruir vidas é drasticamente enfraquecido. Vão recuar para lamber suas feridas e planejar um novo ataque para outro dia.
— O Ódio me disse que ele nunca termina.
— É verdade. Devemos sempre nos proteger contra ele.
Mikki lembrou-se de algo que tinha lido uma vez, e recitou as palavras em voz alta:
— “O bem derrotado é mais forte que o mal triunfante”. — Tocou-o no rosto. — Você luta do lado do bem.
— E não vou permitir que o mal triunfe.
— E eu também não vou deixar que ele afete minha vida; ele não vai me derrotar. — Ela deitou-se no ombro largo. — Como impediu que eu morresse?
— Supliquei a Cronos por uma bênção — Asterius contou, calmo.
Mikki tornou a levantar a cabeça.
— Seu pai?!
Ele assentiu em silêncio.
— Falou com seu pai?
— Brevemente.
— Quanto tempo se passou desde a última vez em que falou com ele? — Mikki quis saber, preocupada com a expressão estranha que endureceu o rosto moreno.
— Eu nunca falei com ele antes.
Ela o estudou, desejando poder apagar os séculos de dor e solidão do passado de Asterius e sentindo raiva do Titã arrogante que havia gerado um filho de maneira
tão audaciosa para depois descartá-lo. Não sabendo mais o que fazer, beijou-o suavemente no rosto.
— Obrigada por ter salvado minha vida.
O rosto dele suavizou-se em um sorriso.
— Eu só estava retribuindo um favor, Empousa. Lembre-se de que também me trouxe de volta à vida.
— Verdade. — Ela beliscou-lhe o queixo de leve. — E eu prefiro você assim.
— Porque descobriu que estava cansada de andar e gostou de ser carregada pelo seu Guardião?
Mikki riu.
— Bem, diz a mitologia que o Minotauro era metade touro; mas não creio que os touros sejam animais de carga muito bons... Há boatos de que eles não são dóceis o
suficiente.
— Nesse caso os boatos são a pura verdade — ele concordou, dando-lhe um beijo rápido e intenso que terminou com um rosnado.
Quando chegaram ao covil de Asterius, Mikki estava cansada de ser carregada, embora a caverna oscilasse um pouco sob seus pés.
Ainda mais quando ela percebeu a própria túnica esfarrapada e pegajosa de tanto sangue.
— Vou vomitar até o cérebro se não me livrar disto logo! — resmungou e olhou para seu Guardião numa súplica. — Acho que terá de me carregar escadaria acima até as
piscinas...
Asterius ergueu-a nos braços novamente, mas, em vez de sair da caverna, rumou para o próprio quarto.
— Ei... Sei que minha cabeça ainda não está cem por cento, mas tenho certeza de que está indo na direção errada! Não que eu não queira que você me leve para seu
quarto... Mas só depois que eu me livrar disto tudo.
— Acabamos nos esquecendo de sua turnê pela minha casa, lembra-se?
— Nós não nos esquecemos de nada: fomos interrompidos.
— Então deixe-me mostrar o restante do covil... sem interrupção.
Ele carregou-a através do quarto, depois em direção a uma porta arredondada, a um canto que ela não havia notado antes. Esta abria-se para um túnel iluminado por
tochas, ao final do qual avistou outra porta igual que, observou com surpresa, era emoldurada pela luz solar.
— Sabe de uma coisa? — Mikki fez uma pausa, pensando, enquanto eles aproximavam-se da luz. — Este lugar não se parece em nada com uma toca. É tão confortável e bonito!
Acho que deveria chamá-lo de... — Asterius abriu a porta para um cômodo grande e redondo, cujo teto abria-se para mostrar o céu claro da manhã e permitia que o vapor
de uma banheira cheia de água quente escapasse. — ...paraíso! — ela exclamou, maravilhada.
Ele riu e a pôs no chão outra vez.
Em segundos, Mikki tirou o que restara da túnica e, com um gemido de satisfação, desceu com passos suaves os degraus da piscina, afundando na água deliciosamente
quente. Ouviu Asterius proferindo as palavras mágicas que costumava usar para conjurar as coisas e virou a cabeça a tempo de ver duas cestas surgindo do nada. Uma
delas encontrava-se cheia de garrafas de sabão, toalhas limpas e vários metros de tecido macio para que fizesse outro quitão. A outra, Mikki suspirou, feliz, estava
repleta de comida.
Asterius ergueu uma garrafa de cristal da cesta e sorriu para ela. Mikki sorriu de volta, querendo saber por que, de repente, ele parecia tão tímido.
— O que foi?
— Seu sabão — ele explicou, segurando a garrafa.
— Eu não estava me referindo ao frasco... Só queria saber o porquê dessa sua expressão.
— Eu queria perguntar uma coisa.
— Está com uma cara... — Ela riu. — É impressão minha ou teve alguma ideia? — Sentindo-se renascer na água mineral quente, Mikki abriu um sorriso sexy.
— Eu... gostaria de lhe dar um banho — Asterius murmurou de uma vez.
Mikki ficou chocada diante do profundo rubor que tingiu a pele cor de bronze.
— Eu adoraria que fizesse isso.
Ele caminhou até a beira da piscina de pedra e pousou a garrafa de cristal. Então livrou-se da cuirasse e da túnica curta que usava por baixo.
Mikki adorou observá-lo e ver o corpo forte ficar cada vez mais exposto. Asterius era tão poderoso; uma mistura tão incrível de homem e animal!
Mas não era apenas seu corpo que unia dois extremos. Sua mente também era um misto de ferocidade e compaixão, inocência e sabedoria, características que se mesclavam
para formar um ser extraordinário, diferente de qualquer outro que poderia existir em qualquer mundo.
Estava tão distraída em sua contemplação que apenas quando ele entrou na piscina foi que percebeu: o sangue no corpo de Asterius não tinha vindo apenas das feridas
dela. Os braços fortes estavam cobertos de cortes e marcas de mordidas.
— Eles o machucaram! — Mikki puxou-o para baixo, aflita para mergulhar os ferimentos na água quente e limpa. — Eu sou mesmo uma idiota! Tem alguma bandagem aqui?
Urgh, alguns destes vão precisar de pontos! Não é possível que não haja uma médica neste reino. Vamos limpar esses cortes, depois vou pedir que a chamem e...
Ele segurou-a pelos pulsos.
— Não preciso de nenhuma curandeira.
Ela franziu o cenho.
— Escute, eu trabalhei em um hospital. Ouça bem o que eu digo, você precisa de um médico!
Asterius sorriu e beijou-a delicadamente.
— Sua preocupação aquece meu espírito.
— Que bom. Isso me faz bem. Pois saiba que iria aquecer meu espírito se me deixasse chamar uma médica.
— Mikado, eu sou imortal... Não preciso de médicos. As feridas irão se curar sozinhas.
Ainda franzindo a testa, ela levantou um dos braços musculosos.
— Tem razão! Elas já estão sarando!
— Satisfeita agora?
— Estou perplexa — Mikki confessou —, mas aliviada. — Espirrou água sobre a pele morena, tocando as marcas de mordida recém-curadas e observando enquanto a carne
se refazia. — Existe algum ferimento do qual não pode se recuperar?
— Se você dissesse que não me amava mais, iria me destruir.
Ela encontrou os olhos castanhos.
— Então vai viver para sempre.
Asterius sorriu e apanhou a garrafa de cristal da borda da piscina.
— Deixe-me mostrar o quanto gosto de você, Mikado...
Ela ficou em pé, de modo que a água da piscina só a cobrisse até a cintura. Tomou a garrafa das mãos dele e despejou uma quantidade generosa do líquido viscoso sobre
o pescoço, braços e seios antes de colocá-la de volta na borda. A inebriante fragrância da unção da Empousa mesclou-se sutilmente a seu calor, o que a tornou única.
Devagar, Asterius deslizou as mãos sobre sua pele lisa e macia. Acariciou-lhe o pescoço e os ombros, então tocou-lhe os seios e a carne sedutora do ventre firme.
Em seguida, suas mãos desceram abaixo da cintura delgada, carregando o sabão com perfume de rosas até as coxas de Mikki.
Ela sentiu-se liquefazer com seu calor. Os dedos de Asterius encontraram o caminho para seu âmago, onde ele os usou para acariciá-la com breves movimentos circulares,
depois se afastaram, voltando a provocá-la no ventre e nos seios antes de retornar para seus recantos mais secretos.
Partes adormecidas do corpo de Mikki pareceram ganhar vida, deliciando-se com o calor da água que continuava a afagá-las mesmo quando ele seguia em frente com as
carícias.
Asterius virou-a e, desta vez, ele mesmo derramou o sabão líquido por sua espinha. Com os joelhos fracos, ela inclinou-se sobre a borda da piscina, enquanto mãos
quentes acariciavam-lhe as costas e, em seguida, mergulhavam em conjunto para afagar suas nádegas.
— Lembra-se da última vez em que entrei em seus sonhos?
Mikki sentiu o hálito quente no meio das costas conforme Asterius ficava de joelhos e prosseguia, com mãos diligentes, por toda sua pele.
— Claro que sim! — respondeu com voz rouca. Percebeu as mãos dele deslizando por seu corpo e recostou-se no corpo másculo com um suspiro quando estas subiram por
suas coxas.
— Estávamos em um poço de rosas — a voz grave vibrou em seu ouvido, enviando ondas de prazer. — Eu estava sobre você, e abriu as pernas para mim... — Dedos hábeis
encontraram seu centro, e os carinhos aumentaram. — Eu estava excitado e, ao pressionar o corpo contra o seu, esfregando-o e acariciando-o, pude sentir sua umidade
e calor, bem como quando retesou-se e explodiu de prazer...
Com um grito abafado, Mikki atingiu o clímax rápida e intensamente.
Asterius virou-a para ele, então, e, num movimento rápido, ergueu-a acima da água e penetrou-a enquanto seu corpo ainda pulsava.
Mikki arqueou-se para encontrá-lo, usando a borda da piscina como apoio. As mãos dele agarraram seus quadris e, com um grunhido gutural, Asterius estendeu as garras,
mal controlando a força de suas estocadas, o membro mergulhando dentro dela seguidas vezes.
Mikki não fechou os olhos. Queria vê-lo, assistir à assustadora beleza de seu rosto enquanto ele a amava. Sentia a pele ultrassensível, e ondas de prazer a sacudiam
a cada vez que as garras longas a feriam de leve.
O ruído dos corpos movendo-se em conjunto, somado ao modo como a voz rouca de Asterius repetia seu nome, tornou-se uma erótica sinfonia, e um crescendo de prazer
rompeu por todo seu corpo, tão intenso que beirou a dor...
Lânguida e satisfeita, Mikki desabou sobre ele, respirando com dificuldade. Sorriu, exultante, de encontro ao peito largo, até perceber que não era apenas o cansaço
que o fazia tremer violentamente.
Alarmada, ela recuou, vendo Asterius de olhos fechados e lágrimas escorrendo por sua face.
— Asterius? — Segurou-o pelo rosto. — O que aconteceu?
Ele abriu os olhos e beijou-a em uma palma.
— Nada... Acho que fiquei sozinho por tanto tempo que não estava preparado para a felicidade que me proporcionou. — Tocou as próprias lágrimas, desconcertado, como
se só então houvesse percebido que chorava. — Isso me faz parecer ainda mais tolo.
— Não, meu amor! — Ela sorriu, comovida. — Faz você parecer humano.
Capítulo 33
Asterius e Mikado não deixaram o covil. Comeram e discutiram várias mudanças que Mikki queria implementar no reino.
Assim como delimitar horários para a abertura do portal, de modo que os homens pudessem entrar e sair sem comprometer a segurança. Como o clima vinha ficando cada
vez mais frio com a proximidade do inverno, também decidiram que Floga aqueceria os jardins, mesmo que por pouco tempo, durante a parte mais escura da noite. A mancha-negra,
uma das piores pragas para as plantas, Mikki explicou a Asterius, costumava aumentar no frio; e era de difícil tratamento uma vez que se espalhasse.
Mikki adorava conversar com Asterius, e não demorou muito a perceber por quê: ele a escutava.
Tentou lembrar-se do último homem que a escutara de verdade e não conseguiu. Nenhum tinha demonstrado tanto respeito e interesse por ela como seu guardião. Aquilo
era uma ironia. Um ser que nem era literalmente um homem sabia por instinto o que muitos deles pareciam não ser capazes de apreender: que as mulheres queriam ser
ouvidas e respeitadas. Simples assim.
Asterius a emocionava. Ele era de um encanto do qual ela, sabia, nunca iria se fartar. Amava a alegria que sentia apenas em tocá-lo, em acariciar aquele corpo incrível
e saber que este era dela...
Naquela noite, eles fizeram amor sobre o catre forrado de peles, descobrindo com imensa ternura outros segredos em seus corpos. Mikki ficou deliciada ao perceber
que Asterius era tão sensível que qualquer carícia deixava-o excitado e pronto para ela.
Uma vez saciados, adormeceram nos braços um do outro, sentindo-se seguros de seu amor, e com a certeza de que o dia seguinte eles também passariam juntos.
— Empousa! Tem que vir aqui!
Mikki pensou que estivesse sonhando. Sabia que encontrava-se na cama com Asterius, pois pôde senti-lo retesar-se e erguer-se do catre, mas também ouviu a voz aflita
de Gii. O que a serva estava fazendo no covil de Asterius?!
Então sua mente nublada pelo sono clareou, e ela despertou por completo.
— O que aconteceu? — Asterius indagou em voz alta, vestindo a túnica e prendendo a cuirasse.
— As rosas... — Mikki sentiu a boca seca, e seu estômago se apertou. — Gii, o que aconteceu com as rosas?!
A serva adentrou o quarto, o rosto pálido, e correu até sua Empousa, envolvendo o corpo nu de Mikki no quitão enquanto explicava tudo em frases curtas.
— Os outros Elementos e eu fomos até o portal das rosas ao amanhecer. Queríamos ter certeza de que não haveria nenhum vestígio da violência de ontem para perturbá-la...
— A voz da moça tremeu. — Elas estão morrendo, Empousa. Todas elas!
— As rosas! — exclamou Mikki.
Embora não fosse uma pergunta, Gii confirmou:
— Sim.
— A muralha... ela ainda está intacta? — indagou Asterius.
— Está, e não há Ladrões de Sonhos no reino. Não há ninguém suspeito aqui. Temos certeza de que todos os homens partiram ontem, e nenhum deles foi convidado a retornar.
— Preciso ir — Asterius disse a Mikki.
— Sim, vá... depressa! Estarei bem atrás de você!
Ele fez uma pausa, apenas para tocar seu rosto numa delicada carícia, antes que o som de seus cascos ecoasse nas paredes da caverna conforme batia em retirada.
— Depressa! — Mikki incitou a serva. — Preciso ir para lá também.
Minutos depois, as duas corriam para o jardim.
Mikki sentiu a mudança no instante em que saiu do covil: sua cabeça começou a latejar, e uma onda de náusea subiu-lhe a garganta.
— Mostre-me o caminho mais rápido para o portal! — ela pediu a Gii, e as duas prosseguiram correndo, sem fôlego para falar mais.
As mulheres estavam reunidas em torno das roseiras que cercavam a passagem na muralha, agitando-se como um rebanho de ovelhas assustadas, e Mikki logo compreendeu
por quê. Era pior do que ela imaginara.
Aflita, abriu caminho entre elas, lançando apenas um olhar na direção dos canteiros onde as flores agonizavam. Precisava chegar logo ao cerne da doença que afligira
as rosas tão repentinamente, e sabia que iria descobri-lo no portal.
Passou pelo último grupo de mulheres e estacou. Asterius já encontrava-se sob a passagem, o olhar aguçado estudando a floresta enquanto andava de um lado para o
outro. Os outros três Elementos não o observavam, pois concentravam-se nas flores dos canteiros que ladeavam o portal, os rostos tensos e sem cor. Quando a viram,
correram a seu encontro.
— Empousa, que coisa terrível! — sussurrou Aeras.
— O que aconteceu com elas? — Nera indagou, mantendo a voz baixa.
— Não sei. Não posso dizer ainda. Abram espaço e deixem-me examiná-las. —Mikki sentiu a pressão do medo quase tanto quanto a doença das rosas. — Façam com que todas
as mulheres recuem.
Todos os Elementos, exceto o elemento Terra, correram para falar com os diversos grupos que observavam o cenário, perplexos.
— Não peça que eu me afaste também — Gii declarou. — Parece estar prestes a desmaiar e quero ficar a seu lado. Se cair, estarei por perto para segurá-la.
— Eu também — reforçou Asterius, juntando-se às duas.
— Foram os Ladrões de Sonhos? — Mikki perguntou.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Não há sinal deles. Não dentro do reino, tampouco na floresta, até onde posso ver ou sentir. — Asterius olhou as rosas ao redor. — Mas, pelo visto, eles não precisam
estar presentes para causar destruição.
Mikki respirou fundo.
— Vamos ver o que posso fazer para consertar isso tudo.
Gii e o Guardião a acompanharam enquanto ela movia-se lentamente de canteiro em canteiro, examinando cada flor.
Mas logo Mikki esqueceu-se de que eles estavam por perto. O estado das rosas deixou-a arrasada. Ela nunca tinha visto tal devastação. As flores pareciam ter sido
atacadas por uma mistura de ferrugem e cancro, e depois queimadas de dentro para fora. As folhas estavam enrugadas e cobertas por fungos de uma espécie que ela não
conhecia. Eram pegajosos e cheiravam a carne podre. As hastes dos arbustos encontravam-se enegrecidas, com partes inchadas tal como artrite nas juntas de uma idosa.
Os botões, murchos e do tom roxo dos hematomas.
Endireitou o corpo após inspecionar outro arbusto morto e olhou o restante dos jardins com um calafrio. A ferrugem espalhara-se como uma onda venenosa. Aquilo não
era normal. Certamente a peste fora levada para o reino pelos Ladrões de Sonhos. E algo lhe dizia que se propagara por meio da nuvem vermelha em que cada criatura
do mal tinha se dissolvido. Pelo visto, elas não haviam sido exterminadas.
Na verdade, não acreditava que criaturas como aquelas pudessem ser eliminadas. O Ódio, o Ciúme, o Medo e o Egoísmo eram emoções que sempre pairavam sobre a humanidade,
esperando por sua chance de atacar e destruir seus sonhos. Podiam ter sido banidos do reino, mas não a tempo de serem impedidos de espalhar seu mal.
E ela não fazia ideia de como lutar contra o que infectara suas rosas por intermédio de tais monstros.
— Empousa? — Gii chamou timidamente. — O que podemos fazer para salvá-las?
Mikki olhou do elemento Terra para seu amante. Ambos a fitavam com preocupação; contudo, ela também podia ver a esperança em seus olhos e a confiança que tinham
nela.
— Eu... preciso pensar. Fiquem aqui. Quero ficar sozinha por um momento — pediu, e afastou-se deles.
Deixou os canteiros que agonizavam e desceu o caminho de mármore que levava ao portal das rosas, pensando em sentar-se debaixo do antigo carvalho e elaborar um plano.
Qualquer plano.
Um toque de cor chamou sua atenção, e ela parou para olhar. Flores cor-de-rosa saudáveis e em plena floração enchiam duas roseiras em meio a um canteiro onde inúmeras
outras secavam e pereciam. Correu para os arbustos, aspirando o perfume doce e acariciando o verde vibrante de suas folhas, como se fossem filhas pródigas e recém-chegadas.
Rosas Salet, reconheceu de imediato. Com suas pétalas duplas e floração abundante, eram uma de suas Old Garden favoritas. Mas por que aqueles dois arbustos tinham
sido poupados daquela praga mortal?
Olhou ao redor, buscando outros pontos de destaque em meio ao mar de podridão e doença. Avistou um vermelho, próximo ao viveiro do portal das rosas, e caminhou rapidamente
até lá. Três arbustos que beiravam o canteiro também encontravam-se em plena floração. Sua cor e perfume intensos identificavam a flor como uma Chrysler Imperial.
O que aqueles dois tipos de rosa possuíam em comum? A Chrysler Imperial era uma Rosa-Chá Híbrida, e a Salet, uma variedade de Old Garden. Uma era vermelha, a outra,
rosa. E elas não encontravam-se próximas umas das outras. Mikki olhou para as flores cor-de-rosa e saudáveis que floresciam alegremente, alheias à destruição a seu
redor, e estremeceu. Aquele não era o canteiro de rosas Salet sobre o qual os Ladrões de Sonhos a tinham forçado a se deitar? Eles haviam pretendido estuprá-la ali.
Por sorte, Asterius chegara e...
Segurou o ar nos pulmões. Sabia por que aquelas rosas tinham sobrevivido e se desenvolvido em meio a tantas outras que sucumbiam. Sabia o que aqueles cinco arbustos
possuíam em comum... Seu sangue tocara cada um deles.
Cambaleou até um banco próximo e sentou-se antes que seus joelhos cedessem. Estava no canteiro de rosas Salet quando sofrera o golpe no ombro.
Tocou-o, lembrando-se de como sangrara em profusão.
Pouco depois, já perto do portal, o Ódio cortara-lhe a veia da garganta...
Mikki fechou os olhos. Lembrava-se vagamente de ter ficado jogada no chão, metade do corpo sobre o canteiro, conforme o sangue fluía de seu corpo.
E seu sangue havia salvado as rosas. Ele as tinha protegido do veneno dos Ladrões de Sonhos.
Afundou o rosto nas mãos e tentou compreender a enormidade de sua descoberta.
Meu sangue as salvou! As palavras ecoavam em sua cabeça.
— Mikado, as mulheres aguardam suas instruções.
Ela ergueu o olhar, piscando na tentativa de clarear a visão. Asterius ajoelhou-se ao lado do banco e enxugou suas lágrimas.
— Confie em si mesma, meu amor. Vai descobrir uma maneira de curá-las.
Mikki mirou os olhos escuros e expressivos, e soube que o que ele dizia era verdade. Sabia como curar as rosas e confiava em si própria.
Agora, tudo o que precisava fazer era encontrar forças para agir.
— Vou ao Templo de Hécate para falar com as mulheres. Peça aos Quatro Elementos que as reúnam e me encontrem lá.
— Sim, minha Empousa — concordou Asterius. Então se curvou, tomou sua mão e a beijou delicadamente.
A Empousa postou-se no templo alto, com os Quatro Elementos formando um semicírculo atrás dela. Asterius se pôs por trás de todas, próximo da chama ardente da deusa.
Mikki olhou para o imenso grupo à sua frente. As mulheres permaneceram em silêncio, com uma expressão grave de preocupação e medo nos rostos, a atenção voltada para
sua Sacerdotisa.
Ela ergueu o queixo e respirou fundo, projetando a voz.
— Temos muito trabalho a fazer. Precisamos nos concentrar e agir rápido. A praga que está matando as rosas tem de ser detida, e eu lhes dou minha palavra de que
sei como fazer isso. — Fez uma pausa quando um suspiro de alívio ondulou através da multidão. — Não iremos nos dividir em quatro grupos desta vez. Todas nós precisamos
nos concentrar na área próxima ao portal das rosas e começar a trabalhar a partir de lá. Em primeiro lugar, quero que tragam para os jardins baldes do mais forte
vinho que houver no reino. — Mikki viu os olhares de surpresa no rosto das mulheres e quase sorriu. — O que vão fazer é podar todas as rosas doentes. Em seguida,
amontoem suas hastes do lado de fora da muralha das rosas, onde Floga irá queimá-las. Conforme forem passando de arbusto em arbusto, não se esqueçam de mergulhar
suas lâminas nos baldes de vinho. Ele irá ajudar a impedir que a doença se propague para partes das plantas que não tenham sido infectadas. Suas facas devem estar
bem afiadas, e precisam fazer os cortes na diagonal. — Percorreu todo o grupo com o olhar, buscando a confiança nos rostos das mulheres.
— Alguma pergunta?
Ninguém falou.
— Então, vamos ao trabalho.
As mulheres partiram em grupos rapidamente, dispostas a reunir as ferramentas de corte e vinho, e Mikki virou-se para suas damas de companhia.
— Eu não estava exagerando. Temos que trabalhar muito e rápido. Essa praga não está se alastrando a um ritmo natural. — Seus olhos encontraram os de Asterius nas
sombras.
— Asterius, embora eu não goste da ideia de abrir esse maldito portal, meus instintos me dizem que queimar as rosas doentes dentro do reino seria um erro terrível.
— Pois siga seus instintos, minha Empousa. Estarei por perto para guardar a passagem.
— Eu sei que sim. Por isso mesmo não tenho medo de abri-la. — Ela sorriu para as servas, lutando para conter as lágrimas que ameaçavam escorrer por sua face. — E
sei que cada uma de vocês vai fazer o que for preciso para ajudar a curar as rosas. Tenho orgulho de todas e acredito em sua capacidade. O Reino das Rosas vai prosperar
novamente, eu prometo.
— Também acreditamos na sua força, Empousa — afirmou Gii. Então caminhou até Mikki e a beijou no rosto antes de fazer uma reverência e afastar-se correndo em direção
aos jardins.
— Confiamos em você, Empousa — reforçou Aeras, e também a beijou antes de curvar-se numa mesura graciosa e partir.
O elemento Água avançou a fim de ter sua chance de beijar a Alta Sacerdotisa, porém Mikki a deteve e fez um gesto com a cabeça na direção da construção maciça que
borbulhava ao lado do Templo de Hécate.
— Nera, eu me lembro de alguém ter dito que esse chafariz é a principal fonte de irrigação do reino. Isso é verdade?
— Sim.
— Os corredores de água chegam mesmo a todas as roseiras?
— Sim, Empousa. — Nera sorriu e continuou: — Antes de sua ordem para que meu elemento visitasse o reino todas as manhãs, raramente chovia aqui.
Mikki devolveu o sorriso caloroso da serva.
— Obrigada... É bom saber.
— Vamos apoiá-la, Empousa — emendou Nera, e a beijou, partindo logo depois.
— Amamos você, Empousa — garantiu Floga. Porém, hesitou antes de beijá-la e fazer a reverência. Uma lágrima correu por seu rosto. — Perdoe-me por ter duvidado de
sua capacidade. Devido a meu elemento, às vezes sou muito impulsiva e passional.
Mikki a abraçou.
— Não há nada para perdoar — falou baixinho.
Quando ficaram a sós, Mikki foi até Asterius e deixou-se abraçar.
Apenas por um momento, tentou absorver sua força e amor, deliciando-se com a paz que era encontrar o ser ao qual estava destinada.
Mas não permitiu que ele a abraçasse por muito tempo. Não podia se dar a esse luxo naquele momento.
O tempo surpreendeu Mikki, passando devagar. Talvez porque o trabalho de poda das rosas podres e doentes, e de carregá-las para a pira, do lado de fora da muralha,
fosse penoso e deprimente.
Ou talvez porque não conseguisse parar de pensar no que o futuro lhe reservava.
De qualquer forma, várias eternidades pareciam ter se passado naquele dia interminável. Entrara num ritmo tão hipnótico de cortar e depois mergulhar a lâmina no
vinho, cortar e mergulhar... que ficou surpresa ao olhar para cima e ver que o céu tinha escurecido o bastante para que Floga acendesse as tochas por toda a extensão
da muralha das rosas.
— Gii? — ela chamou o elemento Terra, que correu para seu lado sorrindo, embora tivesse os olhos marcados por sombras e os braços arranhados pelos espinhos. — Isso
é tudo o que podemos fazer hoje. Oriente as mulheres a levar o que cortaram para o lado de fora do portal, e vamos descansar.
— Sim, Empousa — aquiesceu a serva, parecendo aliviada.
Mikki não podia culpá-la. Seus ombros doíam e suas mãos estavam machucadas e doloridas devido ao uso da faca. E isso porque esta encontrava-se bem afiada. Um grupo
de mulheres passara o dia não fazendo outra coisa além de afiar as lâminas.
Olhou para a que ela usava. Cuidadosamente, mergulhou-a no balde de vinho e, em seguida, limpou-a na grama antes de escondê-la na base da roseira que acabara de
podar.
— As mulheres estão terminando suas tarefas, conforme ordenou, Empousa.
A voz de Gii a fez pular, culpada, e Mikki disfarçou com um sorriso. Segurou o braço da serva.
— Caminha um pouco comigo?
— Claro! — A moça sorriu de volta.
Seguiram juntas e em silêncio, tomando um caminho sinuoso em direção ao portal das rosas. Mikki ficou satisfeita com o que viu nos canteiros. Os arbustos doentes
tinham sido bem podados. Pareciam vazios agora, mas ela sabia que, na primavera, voltariam a crescer e a ser ainda mais saudáveis e resistentes do que antes. As
rosas eram verdadeiras sobreviventes; não as flores delicadas e frágeis que muitos acreditavam que fossem.
Disso ela entendia melhor do que ninguém. Conhecia sua própria força e resiliência. Muitas vezes as pessoas tinham se enganado com ela, julgando-a apenas um rosto
bonito e nada mais, ou pior, considerando suas opiniões inconsequentes porque ela era apenas uma mulher...
Pensou em Asterius. Ele também fora mal interpretado, e exclusivamente por conta de sua aparência. Não admirava que eles se dessem tão bem.
— Você estava errada sobre ele — falou de súbito.
Gii a fitou, surpresa com as palavras da Alta Sacerdotisa.
— Ele quem, Empousa?
— O Guardião. Ele não é um animal e não merece ser tratado como um.
A serva ficou em silêncio.
— Não sei o que aconteceu antes, não sei o que ele fez e, neste momento, nem quero saber — prosseguiu Mikki. — Mas deixe-me dizer o que descobri: o Guardião salvou
este reino ontem, quando meu erro poderia tê-lo destruído. E faria o mesmo hoje, amanhã, todos os dias, por toda a eternidade. Ele é honrado e gentil, Gii. Sabia
que também é um verdadeiro artista?
— Não.
— Pois, é.
— Ele a ama — a moça falou, hesitante.
— Eu sei. E eu o amo também. — Mikki respirou fundo. — Por isso quero que me prometa uma coisa: que não vai mais rejeitá-lo e irá tratá-lo melhor. Ele... — Fez uma
pausa, lutando contra uma onda de emoção. — Ele é muito sozinho, e não quero que passe a eternidade dessa maneira. Se mudar o modo como reage a ele, Gii, todas as
servas que virão depois de vocês quatro farão o mesmo. Faria isso por mim?
O elemento Terra parou e fitou os olhos da Sacerdotisa. O que viu a fez prender a respiração.
Então, lentamente, Gii assentiu com um gesto de cabeça.
— Sim, Empousa. Tem minha promessa.
— Obrigada, Gii. Agora, vamos sair daqui... Foi um dia longo — Mikki falou com uma alegria forçada.
Chegaram à muralha das rosas a tempo de ver Asterius fechando o portal, e Mikki suspirou, aliviada.
Por algum tempo, os Quatro Elementos, o Guardião e sua Empousa ficaram junto das habitantes do reino, assistindo às rosas doentes queimarem na borda da floresta.
Logo as mulheres começaram a se dispersar em pequenos grupos, despedindo-se de Mikki com um ar cansado, até que apenas as quatro servas permaneceram em sua companhia.
— Trabalharam muito bem hoje — Mikki as elogiou, fitando cada um delas nos olhos. — Quero que saibam que estou orgulhosa de vocês.
As moças sorriram para sua Empousa, exaustas.
— Podem dormir até depois do amanhecer. Todas precisamos de descanso. Depois do café, encontrem-me no Templo de Hécate e retomaremos o mesmo trabalho que fizemos
hoje: a poda e a queima das rosas doentes. Mas acredito que elas estejam melhores amanhã.
— É o que seu instinto lhe diz? — Gii indagou, esperançosa.
— Sem sombra de dúvida. — Mikki sorriu a despeito do aperto que sentia no peito. Então, impulsivamente, abraçou cada uma delas. — Se precisarem de mim, estarei na
casa do Guardião — disse, enfatizando a palavra “casa”, e decidida a nunca mais chamá-la de covil. — Boa noite — desejou, voltando-se para se juntar a Asterius,
onde ele a esperava nas sombras.
— Durma bem, Empousa. — Gii hesitou só um momento e depois acrescentou: — Boa noite, Guardião.
Mikki encontrava-se de frente para ele, e viu o olhar de surpresa que estampou seu rosto forte.
— Durma bem, Terra — Asterius respondeu, um pouco tenso.
Então, cada uma das outras três servas o cumprimentou, o que o deixou ainda mais perplexo.
— Em todos os séculos em que fui o guardião deste reino, isso nunca aconteceu.
— Eu disse que ia mudar as coisas por aqui... — Mikki passou o braço pelo dele. — Vamos para casa.
Capítulo 34
Mikki esticou-se ao lado de Asterius na cama, sentindo a maciez das peles grossas contra sua pele suada. Distraída, traçou um dedo ao longo dos músculos do abdômen
firme de seu amante, os quais saltavam mesmo com ele deitado ali, completamente relaxado e com os olhos fechados.
Tinham feito amor duas vezes. Uma delas, na piscina de banho novamente. Havia sido rápido, porém intenso, e Mikki sabia que suas nádegas ainda mostravam as marcas
que ganhara por conta das garras longas de Asterius durante o clímax de sua paixão...
Na segunda, o ato fora longo, lento e suave. Ele a levara ao ápice duas vezes, usando apenas a língua antes de penetrá-la devagar e preenchê-la até sua total satisfação.
Mikki não conseguia pensar em abandoná-lo. Não podia conceber não sentir seu toque de novo, não falar com Asterius novamente, ou nunca mais ver a alegria e admiração
em seus olhos a cada vez que ela o abraçava.
Assim, recusou-se a pensar naquilo. Faria o que tinha de fazer quando chegasse a hora. Até então, não perderia as poucas horas que ainda possuía com ele lamentando
o futuro.
— Eu quero pintar você.
Mikki deixou escapar uma exclamação.
Com os olhos ainda fechados, o peito largo de Asterius vibrou com uma risada baixa, e ela o socou na barriga de leve.
— Pensei que estivesse dormindo!
— Não consigo dormir com você me tocando assim.
— Ah, desculpe... Eu não sabia. — Mikki começou a recuar, contudo ele a segurou pelo pulso.
— Não me importo. — Soltou-a e sorriu quando ela continuou a acariciá-lo. — Mas ainda quero pintá-la.
— Você já me desenhou.
— Sim, mas quero pintá-la também. Assim como está agora... Quero sua imagem nas paredes do meu quarto.
Ele não disse “para que eu possa me lembrar de você no dia em que estiver velha ou morta”, porém a mente de Mikki gritou as palavras. Asterius poderia precisar da
pintura para recordar-se dela muito antes do que qualquer um deles esperava.
Afastou os pensamentos mórbidos, mas, no fim, quis que ele a retratasse, para que pudesse capturar algo do que eles tinham sido como lembrança.
— Quer fazer isso agora?
Asterius abriu os olhos e a estudou.
— Sim — aquiesceu de bom grado. — Quero pintar seu retrato esta noite.
Mikki observou-o quando ele saiu da cama e começou a apanhar potes e pincéis dos nichos escavados nas paredes da caverna, e também a acender tochas que deixaram
o quarto ainda mais vivo com calor e luz. Asterius não se preocupou em vestir-se com mais do que um pano de linho, que amarrou a esmo em torno dos quadris, mais
uma vez, ela se viu abalada pela beleza da força bruta e selvagem de seu corpo. Ele era homem, animal e deus, tudo em um só... Um verdadeiro milagre. E tudo o que
ela queria na vida era passar o restante de seus dias a seu lado.
Quando Asterius já havia preparado as tintas e empunhava um pincel, Mikki sentou-se e sorriu.
— Como quer que eu pose?
Ele caminhou até o catre e a virou suavemente, de modo a deitá-la de lado, como ela estivera junto dele. Espalhou seus cabelos em volta dos ombros, tal qual um véu
de cobre sobre sua pele clara. Em seguida, fez com que deitasse a cabeça sobre um braço e apoiasse uma palma sobre a cama, como se tivesse acabado de acariciá-lo.
Então puxou a coberta que a ocultava da cintura para baixo, deixando-a nua. Mikki levantou uma sobrancelha, e os lábios dele inclinaram-se num sorriso.
Está com frio?
— Se eu estiver, vai me aquecer?
A risada de Asterius vibrou entre eles.
— Quando eu terminar. Quietinha, agora... Apenas mantenha-se deitada e feche os olhos. — Ele voltou para as cumbucas de barro e pincéis.
— Tenho que fechar os olhos? Preferiria ficar vendo você.
Asterius a fitou por cima do ombro.
— É sempre uma surpresa saber que gosta de me olhar.
— Eu gostaria de fazer mais do que apenas olhar... — Ela sorriu, sedutora.
— Não se mexa — ele repreendeu, contudo seu sorriso foi claramente indulgente.
Com gestos rápidos e firmes, Asterius começou a pintar acima da gravura do Tulsa Rose Garden, fazendo com que o jardim ficasse em segundo plano. Como se sobrepusesse
uma nova visão da realidade.
— Posso falar com você enquanto faz isso ou precisa se concentrar? — Mikki murmurou, impressionada com a esplendorosa versão dela mesma que ia tomando forma.
— Claro que pode. Mas eu não posso responder. Às vezes me esqueço de onde estou quando pinto.
— No meu antigo mundo, chamam isso de “entrar em Alfa”. Eu li um artigo a respeito uma vez. Acontece muito com artistas, autores e atletas. Tem a ver com endorfinas
cerebrais. Se entra em Alfa, é porque está fazendo algo certo.
Asterius resmungou qualquer coisa.
— Sempre entra-se em Alfa quando pinta?
— Acho que sim. — Ele apertou os olhos para estudá-la, depois virou-se para a parede da caverna e desenhou a linha longa e curva de sua cintura, quadril e perna.
Mikki o observou, pensando em seu talento e na beleza que parecia criar com tanta facilidade, mesmo tendo sido um pária durante séculos.
Por favor, Gii, mantenha sua palavra.
Tratou de afastar a mente da promessa da serva, com medo de que Asterius analisasse sua expressão e fosse capaz de ler seus melancólicos pensamentos. Precisava pensar
nele como ele havia estado pouco antes: apaixonado, carinhoso, amoroso e cheio de surpresas, assim como nas pinturas requintadas que podia produzir.
O que a fez lembrar-se de uma coisa...
— Asterius, quem é a mulher que desenhou na parede da sala?
A mão dele parou.
— Pasífae, minha mãe... — ele respondeu, sem olhar para ela.
— Eu imaginei — ela murmurou, e era verdade. Asterius não acrescentara a imagem da mulher à parede como um troféu. Não faria isso. — Ela é muito bonita.
— Ao menos é como eu me lembro dela.
Mikki quis lhe pedir que se lembrasse dela assim, tão bonita, também. Que se esquecesse de seus defeitos e da dor de sua despedida no momento em que ela fosse embora.
Que se lembrasse apenas do quanto eles haviam se amado.
Mas não podia. Tudo o que podia fazer era esperar que, quando chegasse a hora, ele a perdoasse por ser mortal.
Fechou os olhos, com medo de que, se continuasse a fitá-lo, fosse deixar escapar o que estava pensando, admitir seu sofrimento e suplicar que ele a ajudasse a descobrir
outra maneira de sair daquela situação.
De alguma forma, Mikki adormeceu. E soube disso apenas porque, ao abrir os olhos, o quarto encontrava-se bem mais escuro e Asterius também dormia a seu lado.
Ficou ali por alguns instantes, ouvindo sua respiração profunda e regular. Então, bem devagar, saiu do leito. Em silêncio, vestiu a túnica que havia descartado.
Não olhou para a parede até ter o tecido bem preso ao ombro. Quando o fez, levou a mão à boca para não soltar uma exclamação.
Asterius a fizera parecer uma deusa! Ele a pintara dormindo, com um ligeiro sorriso nos lábios, como se estivesse tendo um lindo sonho. Sua pele parecia palpável,
seu corpo, exuberante e convidativo.
E ele não a tinha retratado deitada no catre. Ele a pintara dormindo em uma cama de pétalas de rosa... Mais especificamente, de rosas Mikado.
Mikki virou-se para a cama e o fitou, desejando poder acordá-lo e fazer amor com ele.
Mas não podia correr esse risco. Precisava verificar as rosas.
Se meus instintos estiverem errados, prometeu a si mesma, eu vou voltar, acordá-lo e fazer amor com ele durante toda a manhã.
Sem olhar para o amante de novo, saiu do quarto pé ante pé.
O sol ainda não havia nascido, porém, a Leste, o céu começava a trocar o negro da noite por um cinza que logo daria as boas-vindas ao amanhecer. Sentiu a grama fria
e úmida sob os pés descalços enquanto contornava a base da falésia rumo aos degraus que a levariam além das piscinas quentes, em torno da sacada e, em seguida, para
o centro dos jardins.
Mikki não se permitiu distrair. Correu escada acima, mal olhando para as piscinas que soltavam vapor, não querendo se lembrar de como tinha sido maravilhoso mergulhar
nelas na companhia de suas servas e de como estava ansiosa por fazê-lo novamente.
Sua varanda encontrava-se vazia, assim como seu quarto. Porém, avistou o fogo queimando na lareira e um candelabro aceso ao lado da cama. Mikki mordeu o lábio e
desviou o olhar do cenário acolhedor. Desceu a escada e entrou no jardim. Escolheu o caminho que a levaria mais rápido até o centro do reino, e ao templo e à fonte
que a aguardavam lá, tomando o cuidado de manter os pensamentos nas rosas e longe dos Elementos ou de Asterius. Não queria que eles entendessem mal e pensassem que
ela os estava invocando. O que precisava fazer, teria que fazer sozinha.
E foi fácil manter-se concentrada nas rosas. Elas pareciam consumi-la. Deus, estava sentindo-se muito mal! E quanto mais perto chegava do centro do reino, pior ficava.
Por duas ou três vezes, Mikki parou para inspecionar os canteiros de rosas que, horas antes, tinham reagido aos cuidados e à fertilização proporcionados por ela
e as outras mulheres. Agora estas encontravam-se enegrecidas por conta da ferrugem espalhada pelos Ladrões de Sonhos e cheiravam a morte.
Seus instintos estavam certos, mas era ainda pior do que ela havia imaginado. A praga espalhara-se com uma velocidade inacreditável. Nenhuma doença mortal poderia
ter dizimado um jardim como aquele.
Mas aquela peste não era mortal, Mikki se lembrou. Era a manifestação do mal. E sua intuição lhe dizia que existia apenas uma maneira de combatê-la.
O Templo de Hécate surgiu à sua frente como um sonho iluminado por tochas, e o som das águas da fonte foi como uma mágica trilha sonora em seus ouvidos. Não parou
ali, contudo. Continuou andando até que as luzes que iluminavam a muralha das rosas brilharam diante dela.
Foi fácil encontrar os arbustos que seu sangue havia tocado. Eram a única cor em meio às trevas, à morte e à doença.
Eu estava certa. Queria não estar, mas estava.
Desolada, Mikki refez o caminho de volta ao templo, parando apenas para apanhar a lâmina recém-afiada que tinha escondido na base de uma roseira. Subiu os degraus
do templo, então, e parou diante da chama do espírito.
— Hécate? — chamou baixinho, os olhos fixos no fogo alaranjado. — Sei que está distante de seu reino, porém espero que ainda esteja ligada a ele e a mim o suficiente
para que, de alguma forma, seja capaz de me ouvir. Preciso falar com você antes de dar fim a isto tudo... Quero que saiba o quanto amei estar aqui. Pela primeira
vez em minha vida, sei que estou no lugar certo. Os Quatro Elementos são maravilhosos, principalmente Gii. Se puder, por favor, diga a elas que sou muito agradecida
por tudo o que fizeram por mim. — Respirou fundo e enxugou as lágrimas silenciosas que escorriam-lhe pelo rosto. — Eu amo Asterius. Você na certa não gosta disso,
mas disse para que eu seguisse meus instintos... e tudo dentro de mim me levou a ele. Ele não é nenhum animal, você sabe. Asterius precisa do que todos nós precisamos:
de aceitação e de alguém para amar. — Mikki precisou parar e pressionar a mão contra a boca para reprimir um soluço. Quando conseguiu controlar as emoções, continuou:
— Estou fazendo isto por ele. Por Asterius, pelas meninas e pelas Tecedoras de Sonhos. Agora compreendo, finalmente, a verdadeira razão de eu estar aqui. Eu vim
pelas rosas, pois posso salvá-las. Não tenho escolha. Vi o que existe na floresta e não posso deixar aquelas criaturas destruirem tudo o que eu amo. — Olhou para
o fogo, desejando que este fosse mais eloquente, desejando ter mais tempo para aprender palavras especiais para as orações e rituais, de forma a fazer aquilo melhor.
— Quando eu me comprometi com você, fiz isso com duas palavras: “amor” e “confiança”. São esses sentimentos que me regem aqui. O que eu fizer, faço de bom grado,
pois quero preservar o amor que encontrei neste reino. Acredito que estou fazendo a coisa certa porque, por meio desse amor, aprendi a confiar em mim mesma, em acreditar
em meus próprios instintos, intuição e julgamento. Então, se puder, Hécate, peço que fique comigo agora... Assim seja — sussurrou com voz embargada.
Decidida, Mikki deixou o templo e aproximou-se da fonte cuja água alimentava todo o reino. O gracioso chafariz era realmente muito bonito, com suas bacias de mármore
e valas que espalhavam-se pelos jardins.
Mergulhou a mão na água e ficou surpresa com seu calor.
Apenas uma estranha coincidência, pensou, antes de tirar a túnica, dobrá-la com cuidado, depois colocá-la no chão a seu lado.
Não. Não existem coincidências aqui. Posso considerar isto como um presente de despedida da deusa.
Nua, sem nada nas mãos exceto a lâmina afiada, Mikki entrou na fonte. A água deu-lhe boas-vindas e ela se sentou, acomodando-se confortavelmente na larga piscina,
a qual era funda o suficiente para que ela ficasse coberta quase até os ombros pelo líquido claro e quente.
Acabe logo com isto. Vai doer só por um instante.
Ergueu o punho esquerdo e pressionou a lâmina contra a pele. Fechou os olhos e cortou-se, prendendo a respiração com a súbita dor. Então mudou de mão. Desta vez
foi mais desajeitada, porém não menos eficiente.
Deixou cair a lâmina ao lado da fonte. Estremeceu ao submergir os pulsos, mas tinha razão. O dor não foi tão ruim e nem durou muito.
Descansou a cabeça contra a borda da piscina. Olhando para o céu, pensou como era bom que a lua houvesse acabado de se pôr e o sol ainda não tivesse nascido.
Hécate... Deusa da Lua Negra.
Talvez a ausência de luz no céu fosse um sinal de que a divindade aprovara seu sacrifício.
Ela havia feito a coisa certa. As rosas sobreviveriam. Os sonhos da humanidade estariam seguros, assim como seu amor.
Fechou os olhos. Estava com tanto sono, e a água era tão confortável... suave... como uma imensa cama de plumas... uma balsa em um lago quente de verão... os braços
de sua mãe quando ela era uma menininha assustada depois de um sonho ruim.
Suspirou. Não deveria haver nenhum sonho ruim. Deveria haver apenas amor, beleza e rosas.
Não estava com medo, mas sentiria falta de Asterius.
Conforme sua mente foi escurecendo devagar, o pensamento final de Mikki foi o quanto ela o amava.
Asterius acordou de repente. Alguma coisa estava errada.
Espantou o sono como sempre fazia e se sentou, já procurando pelas roupas.
Então, pensando que deveria acordar Mikado, virou-se e...
Ela não estava lá.
A princípio, isso não o incomodou. Mikki podia estar na sala de banho.
Vestiu a túnica e cruzou o túnel dentro da caverna, porém ela não encontrava-se por ali também.
Um pressentimento o fez apertar o passo enquanto fazia o caminho de volta para o quarto, depois para a sala um pouco mais além.
Mikado não encontrava-se em lugar algum.
Deixou o covil enquanto ainda prendia a cuirasse. O sol já havia nascido, mas ainda era madrugada e uma brisa excepcionalmente quente soprava.
Parou, aspirando o ar. Sim, ele estava certo... O vento trazia com ele o aroma rico e inebriante de rosas florescendo.
Aumentou o ritmo, e logo adentrou os jardins. Tudo ali encontrava-se em flor. Nuvens de cor preenchiam os canteiros, como se a deusa tivesse apanhado um pincel divino
e repintado todo seu reino com vida e saúde.
Mas em vez de sentir alívio e felicidade, a preocupação abateu-se sobre Asterius e ele correu, deixando seu instinto guiá-lo.
Avistou o Templo de Hécate no mesmo momento em que ouviu o primeiro grito de horror. O som foi como um punhal gelado entrando em seu coração. Outro grito seguiu-se
ao primeiro, depois outro e mais outro, até que os jardins pareceram sacudir com luto e lamentação.
Não! – sua mente gritava, embora ele já soubesse o que estava prestes a descobrir.
Voou até o templo. Os Quatro Elementos encontravam-se em pé ao lado da fonte, agarradas umas às outras e chorando copiosamente. No meio delas, ele avistou os cabelos
molhados cor de cobre e um lado da face pálida. Devagar, como se estivesse atravessando um pântano de lama e areia movediça, aproximou-se do chafariz. Era ela, claro.
Mikado estava morta.
Asterius, o Guardião do Reino das Rosas, caiu de joelhos e rugiu sem parar sua dor. Uma a uma, lideradas por Gii, as servas aproximaram-se dele e colocaram as mãos
em seus ombros e, unidos pelo pesar, choraram por sua Empousa.
Parte 3
Capítulo 35
Deus, sua boca estava seca! E ela se sentia uma merda, concluiu Mikki. Tentou virar-se de lado, mas estava fraca demais. Tudo o que conseguiu fazer foi esticar-se
um pouco e deixar escapar um gemido abafado.
— Cacete! Ligue para o 911, ela está viva!
Ligue para o 911? Não havia telefones no Reino das Rosas! Muito menos alguém que dissesse “cacete”!
Mas, então, que cacete?
Tentou mover-se de novo e, desta vez, sentiu mãos fortes segurando-a no lugar.
— Não tente se mexer, moça! Vai ficar tudo bem... Eu já chamei ajuda. Aqui! — O homem gritou. — Traga os paramédicos aqui!
Mikki ouviu passos rápidos e pesados, acompanhados por uma voz vagamente familiar.
— Cristo, é a Mikki! Ah, merda, olhe todo esse sangue!
Sua respiração começou a sair em espasmos, porém Mikki reconheceu a voz. Era Mel, o guarda de segurança do Roseiral de Tulsa.
Mas não podia ser Mel; ela não podia estar no roseiral! Ela...
Céus! Havia se esquecido. Ela estava morta!
— Mikki, calma! Os paramédicos estão aqui. Vai conseguir!
Ela tentou dizer que não queria. Que sua intenção fora salvar as rosas, e a única maneira que podia fazer isso era lhes dando seu sangue.
A droga era que aquele reino era grande demais, e algumas gotas em um balde não dariam conta dele.
Mas não podia falar. Sua mente continuava funcionando, contudo seu corpo estava pesado e parecia nem ser dela.
E estava molhada... o que fazia sentido porque devia estar na fonte.
— Muito bem, vamos virá-la no três. Um, dois...
Viraram-na de costas. Mikki piscou, tentando clarear a visão turva. Era de manhã e, pelo que ela podia ver do céu por sobre os ombros dos paramédicos, o sol tinha
nascido havia pouco tempo.
Seu olhar mudou para um ponto à direita, e ela conseguiu virar a cabeça para o lado, a fim de focar melhor a vista. Era um enorme pedestal de pedra... bem mais familiar
do que seu velho amigo segurança. Era a base que apoiava a estátua do grande Guardião.
Só que agora esta encontrava-se vazia.
Mikki teve vontade de gritar, mas não conseguiu.
Então, tudo escureceu.
— Parece melhor hoje. Como está se sentindo?
— É uma questão profissional, um teste ou está preocupada mesmo? — Mikki indagou, sarcástica.
Nelly se retesou.
— Eu não mereço isso.
Mikki mordeu o lábio e estendeu a mão para apertar rapidamente a da amiga. Não era justo estender sua amargura a Nelly. Não era culpa da moça que nada que pudesse
ser feito ou dito fosse chegar perto de fazê-la sentir-se melhor.
— Sinto muito. Só estou de mau humor.
— Aconteceu alguma coisa? Os sonhos voltaram?
Ela não fitou Nelly nos olhos. Não queria que a amiga visse o desespero que carregava todos os dias.
— Não. Meus sonhos têm estado normais. Na verdade, nem me lembro deles. Tudo o mais está bem... Não sei o que há de errado. Acho que esse clima está mexendo comigo.
Estou cansada dessa chuva e desse frio.
Tentou não se lembrar de que já controlara a chuva e que, no primeiro dia em que esta a obedecera, havia estabelecido as circunstâncias ideais para que ela fosse
parar na cama de Asterius...
— Mikki?
Ela piscou e seus pensamentos voltaram-se para o presente. Ergueu o cappuccino, tentando beber um gole sem muito entusiasmo.
— Só estava sonhando acordada. Desculpe outra vez, Nelly. Não estou sendo muito boa companhia hoje.
— Você é minha amiga. Não tem que me entreter nem me divertir, e sabe disso. — A psiquiatra suspirou. — Querida, o que aconteceu com você foi muito traumático. Os
homens que a atacaram e roubaram a estátua do roseiral a deixaram sangrando até a morte e nunca foram pegos. É normal passar por fases de depressão, raiva e ressentimento
durante o processo de cura, principalmente quando não se tem um desfecho para um crime.
Desfecho para um crime.
Mikki teve um desejo insano de rir, porém tratou de reprimi-lo. Não queria fazer nada que a fizesse parecer ainda mais louca.
E também não queria que aquela história fosse muito investigada.
Esfregou a testa. Pela enésima vez, quis que Nelly estivesse certa quanto ao que estava sentindo: que aquilo fosse apenas parte de um processo de cura.
— Eu sei. Eu só... Eu só queria me sentir normal de novo.
— Você vai, Mikki. — Nelly olhou para o relógio. — Ah, droga! Vou chegar atrasada.
Mikki conseguiu esboçar um sorriso.
— O compromisso é com algum maluco, ou apenas com um meio maluco?
Nelly riu e, uma vez de pé, apanhou a valise e a bolsa.
— Com um maluco e meio.
— Boa sorte, então.
— É bom que eu tenha mesmo — agradeceu a moça. — Ei, dê uma ligada mais tarde se quiser conversar.
— Pode deixar, eu ligo. Vejo você amanhã de manhã... Na mesma hora, mesmo café.
Mikki sorriu para a amiga, sentindo-se culpada pelo alívio que a invadiu quando Nelly saiu pela porta. Era tão difícil esconder as coisas dela! Como podia contar
a verdade? Sabe, amiga, eu não fui assaltada por criminosos que roubaram a estátua do Roseiral de Tulsa e que me abandonaram à morte... Na verdade, eu me matei,
embora eu goste de pensar nisso como um sacrifício. Nunca pensei em suicídio, o que deve provar que não estou louca. Enfim, eu tinha que fazê-lo porque o Reino das
Rosas, na intersecção entre os mundos, estava em perigo, e só meu sangue podia salvá-lo. Era meu dever como Empousa. Ninguém pode considerar isso um suicídio porque
eu estava apenas cumprindo com meu destino. E, a propósito, estou desesperadamente apaixonada por um homem-fera, e a razão pela qual me sinto tão deprimida é que
estou presa aqui, sem ele!
Suspirou. Nelly era sua melhor amiga, mas não hesitaria em trancafiá-la em uma cela linda, exclusiva e confortável se ela dissesse a verdade. Percebera isso tão
logo havia acordado no hospital e eles — o serviço social e os policiais — começaram a interrogá-la.
E a história que adviera de tudo aquilo tivera mais a ver com omissão e acidente do que qualquer coisa semelhante à verdade. Por isso ainda não tinha coragem de
dizer nada. Nem mesmo a uma amiga, psiquiatra experiente, que a conhecia bem demais.
Mikki consultou o relógio. Eram apenas sete e meia, e não precisava ir para o trabalho antes das oito. Tinha tempo para mais uma xícara de cappuccino. Quando se
pôs em pé, disposta a apanhar um refil para a bebida quente, capturou o próprio reflexo nas janelas do Expresso Milano. Estava magra... Muito magra. E podia ter
feito algo com aqueles cabelos em vez de apenas prendê-los para trás em um rabo de cavalo.
O problema era que não estava com a menor vontade de se cuidar.
Bem, ao menos ainda havia bastante de seus cookies favoritos, os biscoitos alaranjados, gigantes e cobertos de açúcar que o café comprava todas as manhãs da popular
padaria Pani Del Dea, a qual ficava apenas a algumas portas dali, descendo a rua.
Pediu dois deles para viagem com mais um cappuccino. Então mudou de ideia e pediu um terceiro. Precisava engordar, e uma dose a mais de açúcar somada à cafeína seria
suficiente para levá-la a enfrentar mais um dia sem sentido e interminável no trabalho.
Apanhou uma edição do Tulsa World e acomodou-se em uma das poltronas estofadas e macias, enquanto esperava que a atendente toda perfurada por piercings trouxesse
o café e os cookies na elegante bandeja de prata do estabelecimento.
Quando ouviu o ruído de saltos aproximando-se no piso frio, não tirou os olhos do jornal.
— Pode colocar aqui. Ah, e fique de olho em mim, por favor. Tenho a impressão de que hoje vai ser uma daquelas manhãs em que não passo sem ao menos três expressos!
— Está tudo bem, Mikado?
Mikki quase deixou cair o jornal com a surpresa.
— Sevillana! Desculpe... Pensei que fosse a garota do café.
Os olhos incrivelmente azuis da mulher cintilaram.
— Não sou confundida com uma moça há muito tempo!
Mikki abriu um sorriso e, por um momento, este foi genuíno.
— Não quer se sentar comigo?
— Sim, eu gostaria muito. — A mulher acomodou-se com graça em uma cadeira a seu lado e arrumou o lindo xale de pashmina azul-pálido sobre os ombros.
— Eu não sabia que morava por aqui.
Como na primeira vez em que elas haviam se encontrado, Mikki sentiu-se um pouco intimidada pela presença de Sevillana. Ela era tão... imponente e clássica. Havia
um ar de dignidade e cultura em tudo o que dizia e fazia.
E então, com um choque, ela se lembrou. E, em meio à lembrança, perguntou-se como poderia ter se esquecido.
— O perfume! Onde conseguiu o perfume que me deu naquela noite?
A mulher sorriu, mas a aproximação da garçonete com os cafés e doces impediu-a de dizer qualquer coisa.
Mesmo quando estavam a sós outra vez, Sevillana levou algum tempo dissolvendo o açúcar em seu cappuccino e mexendo cuidadosamente com a colher de prata minúscula
antes de falar.
— Há apenas um lugar onde se pode encontrar tal perfume, e é em um reino muito distante daqui.
Mikki sentiu uma onda vertiginosa de uma emoção da qual sentia falta havia três meses: a esperança.
— Está falando sobre o Reino das Rosas.
A mulher aquiesceu com um gesto de cabeça.
— Ah, Deus! — Mikki exclamou, ofegante.
— Creio que seria mais adequado você exclamar “Oh, Deusa!”, Mikado.
— Como sabe disso?! Como chegou lá, e como foi que eu voltei? O que está fazendo aqui? Por que...
Sevillana ergueu a mão, detendo a torrente de palavras.
— Tudo tem seu tempo. Afogar-me em perguntas não vai mudar isso.
— Eu... — Mikki levou a mão ao peito, temendo que o coração fosse saltar para fora do corpo. — Sinto muito, mas eu preciso saber. — Passou a mão trêmula sobre o
rosto e recomeçou: — Eu tenho que voltar para lá!
— Eu sei, minha filha, eu sei — Sevillana concordou suavemente. Seu olhar fixou-se além dela, então, e, quando ela tornou a falar, sua voz lembrava a de uma menina
tristonha. — Ninguém falou no meu nome enquanto estava lá? Eles não se lembram de mim?
— Seu nome? Não. Por que eles... — Os olhos de Mikki se arregalaram.
— É você! Você é a última Empousa!
— Não, Mikado. Eu era a última Empousa. Não sou mais Alta Sacerdotisa de Hécate. Rejeitei esse cargo porque era jovem e tola, mas paguei pela minha traição. Por
duzentos anos fiquei separada do meu reino e de minha deusa, e percorri o mundo comum, sempre inquieta e insatisfeita. Vivi como uma verdadeira marginal.
— Duzentos anos! — Mikki não conseguia desviar o olhar da velha senhora. — Mas como?
— Nunca compreendi muito bem. Envelheci, obviamente, porém muito devagar. Eu costumava acreditar que essa era a maneira de Hécate me punir: estendendo minha vida
até que eu me arrependesse de minhas atitudes egoístas. Em uma de minhas viagens, décadas atrás, visitei Tulsa, e aconteceu de eu assistir à inauguração de seu novo
roseiral. — Ela fez uma pausa, a expressão cheia de dor. — Reconheci a estátua do Guardião, e soube que ela havia sido colocada aqui por alguma razão. Por isso passei
a visitar Tulsa com frequência; para esperar e observar. E foi então que eu a conheci, e comecei a ter esperanças de que Hécate tivesse me permitido viver por tanto
tempo por outra razão... — Os olhos muito azuis de Sevillana voltaram-se para Mikki. — Achei que a grande deusa queria que eu lhe desse o óleo sagrado; assim poderia
despertar o Guardião, voltar ao reino e cumprir com o destino que me fora reservado. — A tristeza preencheu os belos olhos da mulher. — Por que cometeu o mesmo erro
que eu? Eu não queria que fugisse.
— Mas eu não fugi! — Mikki gritou, mas baixou a voz quando várias cabeças viraram em sua direção. — Você sabe sobre o sangue, não sabe? De alguma forma, você compreende.
— Sim, seu sangue alimenta as rosas. Como eu poderia não saber? Carregamos o mesmo sangue em nossas veias, Mikado.
Sevillana tocou-a na mão em uma carícia que a fez lembrar-se tanto da mãe que ela prendeu a respiração.
— No hospital, naquele dia, eu disse que me chamava Sevillana Kalyca, e é verdade. Mas essa é apenas uma parte do meu nome. Eu raramente uso meu sobrenome inteiro,
pois é muito difícil ouvi-lo e saber que eu o abandonei; mesmo que isso tenha acontecido há muito tempo. Meu nome verdadeiro é Sevillana Kalyca Empousai. Fui a primeira
Empousa a fugir do Reino das Rosas. E esperava, quando a conheci e senti a força de seu sangue, que também fosse a última.
— Eu não fugi — Mikki repetiu, entorpecida, olhando para sua ancestral. — Eu morri.
Sevillana a fitou, confusa.
— O tempo corre de modo diferente por lá... Mas ainda não podia ser Beltane!
— Era início de inverno. — Foi a vez de Mikki franzir o cenho. — De qualquer maneira, o tempo não tem nada a ver com isso. Ladrões de Sonhos entraram no reino.
— Oh, Deusa, não! — Sevillana levou a mão ao peito num gesto estranhamente parecido com o dela.
— Foi minha culpa. Eles me enganaram, e eu os deixei entrar. O Guardião os matou. Isto é, supondo que eles não possam ser eliminados, essa não é a palavra certa...
Mas Asterius livrou-se deles e os mandou de volta para a floresta.
— Asterius?
Mikki estudou Sevillana, a mente começando a entrar em consonância com suas próprias emoções. Aquela era a mulher sobre a qual eles haviam sido proibidos de falar.
Ela era parte da razão pela qual Hécate tinha enfeitiçado o reino e Asterius.
Pois agora não estava mais no Reino das Rosas e queria saber, de uma vez por todas, o que havia acontecido.
— Asterius é o nome que o Guardião recebeu da mãe. — Observando com cuidado, Mikki viu a ponta de surpresa e inquietação nos olhos da antiga sacerdotisa. — Quero
saber o que aconteceu entre vocês dois. Tudo.
Sevillana olhou pela janela, e sua voz assumiu um ar distante, como se recontasse uma história que fora passada de geração em geração.
— Eu era jovem e muito, muito tola. E também egoísta. Amava o poder que possuía como Empousa. Tanto que não estava disposta a cedê-lo. Conforme o dia de Beltane
se aproximava, eu me convenci de que era justo que eu escapasse do destino planejado para mim, que eu era diferente. Mas sabia que não podia atravessar a floresta
sem proteção. Então convenci o Guardião a trair seu dever e acompanhar-me através da mata até a entrada para o mundo comum.
— Você o seduziu? — Mikki indagou, gélida.
— Só com palavras. Eu não me deitaria com um animal, mas fiz com que ele acreditasse nisso. Não foi difícil... O Guardião tinha pouca experiência com mulheres. Foi
estranho, porém, ele ter permitido que eu escapasse, mesmo depois que eu o rejeitei. — Sevillana abanou a cabeça. — Há muito tempo me pergunto sobre isso. Ele devia
ter voltado-se contra mim e, no mínimo, obrigado-me a voltar para enfrentar a ira de Hécate. Em vez disso, o Guardião me disse... algo e, em seguida, afastou-se
e deixou-me seguir em liberdade.
— Ele pensou que a amava — Mikki falou, rígida.
Sevillana finalmente encontrou seu olhar, e Mikki pôde ver a surpresa estampada em seus olhos.
— Foi o que ele me falou: que me amava. Mas isso não fez nenhum sentido! Como um animal poderia amar uma mulher?
— Ele não é um animal! — Mikki falou por entre os dentes, a ira fazendo-a empalidecer. — E você não era boa o bastante para seu amor se não conseguia enxergar o
homem dentro dele.
A mulher arregalou os olhos muito azuis.
— Você o ama!
— Amo...
Em silêncio, Sevillana observou Mikki por um longo tempo, depois abaixou a cabeça.
— Perdoe-me por ter sido tão arrogante. Eu era uma menina na época. Só compreendi que estava errada muito tempo depois e esta é mais uma lição para mim. Tem minha
admiração, Mikado, bem como meu respeito. Nunca conheci alguém com sua coragem.
Mikki respirou fundo várias vezes, acalmando-se. Não adiantava ficar tão aborrecida com a mulher. O que ela havia feito acontecera dois séculos antes e estava acabado.
Acabado.
E ela não pretendia afastá-la. Sevillana Kalyca Empousai era sua passagem de volta para Asterius.
— Eu a perdoo. Acho que Asterius a perdoaria, também. E o que eu fiz não foi por coragem. Não tive escolha. Asterius havia se livrado dos Ladrões de Sonhos, mas
era tarde demais. Eles já tinham envenenado as rosas, todas elas, exceto aquelas sobre as quais eu derramara meu sangue. Tentei deter a peste de outra forma, mas
nada funcionou. E eu sabia que não ia funcionar. A única forma de eu salvar as rosas era por meio do meu sangue.
— E não acha que foi corajosa ao permitir que seu amante a sacrificasse? Nem era Beltane e, mesmo assim, você foi ao encontro de seu destino original e salvou o
reino.
Mikki franziu o cenho.
— Asterius não me sacrificou. Ele nem sequer sonhava com o que eu tinha planejado. Mas eu sabia que ele ia tentar me deter, então fugi... Que história é essa de
Beltane? É na primavera, não é? O que isso tem a ver com o que aconteceu?
— Não sabe, mesmo...?
— Não — Mikki confirmou, exasperada e já farta de tantos mistérios.
— Eles devem ter ficado com medo de lhe contar. Com medo de que você também os deixasse. Mikado... a Empousa serve para um único propósito. Ela está lá por causa
das rosas.
— Sim, sim, eu sei.
— Então também sabe que a Alta Sacerdotisa de Hécate está vinculada às rosas por meio de seu sangue. O que não sabe é que, em todas as noites de Beltane, a Empousa
é sacrificada pelo Guardião, pois seu sangue garante que o reino prospere por mais um ano.
Mikki sentiu tudo dentro dela paralisar.
— Quer dizer que as mulheres iam me matar?
— Não elas. Ele. É dever do Guardião proteger as rosas.
Mikki soltou o ar. Tudo fazia um terrível sentido agora. O comportamento de Asterius quando ele a conhecera e mostrara-se atraído por ela... O modo como ele tinha
dito que eles não poderiam ficar juntos... O porquê de ele ter lutado tanto contra o amor que sentia. Tinha sido mais do que a descrença de que ela jamais pudesse
vê-lo como um homem; mais do que a rejeição de Sevillana. Asterius sabia que teria de matá-la.
O pensamento deixou-a enjoada, e a mão quente de Sevillana sobre a sua, agora fria e insensível, foi um choque.
— Ele não teve escolha.
— Quer dizer que Hécate também desejou minha morte o tempo todo — Mikki murmurou.
— A vida e a morte são diferentes para os deuses. Hécate é severa e poderosa, mas também uma deusa amorosa. Veria seu sacrifício apenas como outro elo no grande
círculo da vida. A deusa não a abandonaria, Mikado, mesmo na morte. Se tivesse conhecido seu destino em Beltane, Hécate teria feito com que passasse a eternidade
na beleza infinita dos Campos Elísios. A deusa preocupa-se com aqueles que lhe pertencem. Dá as costas apenas para os que a traem.
— É um conceito difícil demais para mim. Todo o mundo que se preocupou comigo, todos os que amei, sabiam que eu ia morrer. — Mikki fez uma pausa conforme a enormidade
do que acabara de ouvir abatia-se sobre ela. — Então, mesmo que você me ajudasse a voltar de alguma forma, eu estaria condenada à morte.
— Sim — confirmou Sevillana. — Ainda pretende voltar?
Capítulo 36
Será que ainda queria voltar?, pensou Mikki. Já era final de fevereiro. O Beltane não era em primeiro de maio? Teria apenas mais dois meses antes que Asterius a
matasse.
Parecia impossível de acreditar. No entanto, mesmo em meio à sua descrença, a intuição lhe dizia que Sevillana falava a verdade. Tudo se encaixava e, de repente,
ela sentiu-se como a única peça fora de um enorme quebra-cabeça. Sabia qual era seu lugar, e este não era em Tulsa, Oklahoma.
— Eu quero voltar, mas não sei se sou corajosa o suficiente.
— Ouça seus instintos, Mikado. Confie no que eles dizem.
— Eles me dizem que não pertenço a este lugar.
— Então talvez deva voltar para casa — concluiu Sevillana.
— Você sabe como me levar até lá?
— Eu posso lhe dar o óleo sagrado, porém, o restante já possui dentro de você. Já se sacrificou pelo Reino das Rosas e foi altruísta o bastante para amar seu Guardião.
Você foi, minha querida, exatamente o oposto da última Empousa do reino. Acredito que Hécate ouvirá seu chamado e irá honrá-lo.
— Mas como... — Mikki se conteve. Sabia o que deveria fazer. Precisava escutar a própria intuição e seguir seus instintos.
Olhou Sevillana, que assentiu diante de sua introspecção.
Acalme-se e pense. É a Empousa de Hécate... Tem que haver um caminho para que possa voltar.
De repente, Mikki sorriu.
— É isso! Eu ainda sou a Empousa. Hécate disse que eu carrego seus poderes, os quais não podem desaparecer por completo nem mesmo aqui. E, olhe para você... Fugiu
da deusa e ainda viveu duzentos anos!
— Ainda deve exercer os poderes de Hécate — Sevillana afirmou. — Mesmo no mundo comum. — A mulher enfiou a mão na bolsa de couro e tirou uma haste de vidro, exatamente
igual à primeira que havia lhe dado. — É o óleo sagrado da Empousa de Hécate. O primeiro passo no ritual de invocação, com o qual eu posso ajudá-la.
— Obrigada, Sevillana. — Mikki tomou o vidro e o envolveu com cuidado em um guardanapo antes de guardá-lo na própria bolsa.
— Só lhe peço uma coisa, Empousa — prosseguiu a velha senhora. — Gostaria que pedisse perdão a Hécate por mim. Sei que não posso retornar ao reino, mas estou cansada
e queria poder abrir mão desta vida e abraçar minha eternidade nos Campos Elísios. Não posso fazê-lo sem o perdão da deusa.
— Vou falar com ela. Mas por que não a invoca você mesma?
— Eu gostaria, mas não consigo. Tentei várias vezes ao longo destes anos silenciosos, porém Hécate não vai me ouvir. Ela me deu as costas.
— Mas Hécate não deu as costas a mim — Mikki concluiu de súbito. — Por que acha que não sou um fantasma nos Campos Elísios agora? Eu morri, Sevillana! Eu não devia
ter acordado em Tulsa, a menos que houvesse um motivo muito bom para que a deusa me quisesse aqui... — Mikki endireitou o corpo. — Hécate sabia que estava aqui.
Eu mencionei seu nome quando ela me perguntou como o óleo sagrado de uma Empousa havia chegado “acidentalmente” em minhas mãos. Eu me lembro de sua expressão agora.
Hécate sabia desde o princípio.
— A estátua do Guardião... A deusa a colocou aqui para que eu a encontrasse! E também a você! — deduziu a mulher com voz embargada.
— Hécate quis que eu voltasse para reencontrá-la. — Desta vez foi Mikki quem pegou a mão trêmula da velha senhora na dela. — Hécate a perdoou, Sevillana.
— Ah, minha querida, se isso fosse verdade...
— Vamos descobrir. Esta noite é noite de lua nova... Venha para o roseiral. Fique dentro do círculo sagrado comigo. Vamos tentar ir para casa.
Mikki ficou feliz com a noite chuvosa. Fazia um frio horroroso, mas estava tão escuro que até mesmo os postes de iluminação em Woodward Park pareciam emanar halos
de luz mais fracos ao redor do parque. Era fácil para alguém que conhecia bem o lugar evitar as luzes...
E ela conhecia o Woodward Park como ninguém.
Carregou a maleta em uma das mãos e segurou a de Sevillana com força na outra, ajudando a mulher a deslocar-se através da escuridão. Não trocaram uma só palavra
e nem precisavam. Mikki apenas rezava para que ninguém estivesse nos jardins.
No momento em que chegaram à fronteira entre o parque e os vergéis, relaxou um pouco. Ninguém fora louco o suficiente para aventurar-se no parque numa noite como
aquela, muito menos depois da meia-noite.
Ainda assim, Mikki não disse nada até que passaram por baixo da arcada de pedra e desceram para o terceiro nível dos jardins. As luzes da fonte iluminavam a área
ao redor preguiçosamente, num efeito aquoso que, junto à névoa que pairava no ar frio, fazia aquela camada mergulhar em um cenário de sonho.
— Bem apropriado — ela comentou baixinho.
— Sim. Essa iluminação evoca imagens de sonho — concordou Sevillana. — É um bom presságio, Empousa.
— Esperemos que sim — ela murmurou. Então olhou para o pedestal vazio. Não voltara ali desde a manhã terrível em que a tinham encontrado. Não pudera suportar.
Não desistira de trabalhar como voluntária, contudo. Pedira apenas uma licença, que lhe fora concedida de imediato. Todos haviam compreendido como devia ser difícil
para ela voltar para os jardins onde fora atacada e abandonada à beira da morte.
Mas claro que não entendiam realmente. Como poderiam? Jamais saberiam a verdade.
— Mikado? — Sevillana tocou-a no braço de leve.
Mikki virou-se de costas para o pedestal vazio.
— Está certa. Precisamos nos apressar. Será impossível explicar isto se formos apanhadas.
— Não vamos ser apanhadas — declarou a mulher com firmeza.
— Isso mesmo. Vamos começar agora.
Mikki escolheu um lugar perto da fonte. Abriu a maleta e Sevillana ajudou-a a colocar uma vela em cada uma das posições dos quatro Elementos dentro do círculo: amarela
ao Leste para o Ar; vermelha ao Sul para o Fogo; azul a Oeste para a Água; verde ao Norte para a Terra; e, por fim, púrpura no centro do círculo para o Espírito.
Então apanhou uma caixa de fósforos da maleta, bem como a faca afiada que geralmente ficava escondida em seu apartamento, e as colocou ao lado da vela central.
Pisando do lado de fora do círculo formado pelas velas, Mikki pegou um último item da mala antes de colocá-la nas sombras, ao lado do pedestal vazio. Tirou a tampa
de cortiça que lacrava o delicado frasco de vidro em forma de caule e, em seguida, aplicou o óleo perfumado em pontos do pulso, pescoço e entre os seios, e o entregou
a Sevillana.
Com apenas uma ligeira hesitação, a mulher apanhou o frasco e aplicou o óleo perfumado no próprio corpo. O aroma de rosas e especiarias mesclou-se ao ar úmido, e
Mikki sentiu o estômago apertar-se com as lembranças.
Aquilo tinha que funcionar. Ela precisava retornar.
— Pronta? — perguntou à outra mulher.
Sevillana aquiesceu com um gesto de cabeça e puxou dois grampos de seu elegante coque, libertando cabelos longos e prateados que lhe caíram até além da cintura.
Em seguida, com um movimento gracioso que não condizia com sua avançada idade, livrou-se da capa longa, sob a qual usava uma linda túnica de seda lilás.
Mikki descartou seu próprio casaco e ignorou o frio quando também ela ficou vestida apenas com uma túnica cor de violeta. A única diferença entre seu traje e o da
outra mulher era que o dela era de um tom mais escuro, e, conforme ditava o ritual da lua nova, deixava-lhe um dos seios nus.
— Uma coisa que se pode dizer sobre estes quitões é que são muito fáceis de vestir — ela elogiou.
— Eu morro de saudades deles! — Olhando para si própria, Sevillana sorriu. Depois ergueu o olhar para Mikki e fez uma mesura delicada. — Vamos em frente, Empousa.
— Vamos.
Juntas, as duas mulheres caminharam para o centro do círculo. Com a vela roxa entre elas, viraram-se para o Norte. Então Mikki apanhou a caixa de fósforos, pensando
em como sentia a falta dos quatro Elementos, principalmente à noite.
Deixando para trás as dúvidas, ela aproximou-se da vela amarela e acendeu o fósforo.
— Vento que sopra forte e em toda parte, mesmo no mundo mundano... Eu te invoco, Ar, como o primeiro elemento no círculo sagrado. — Tocou o pavio com a chama do
fósforo e segurou-a até que este se iluminasse. Sem se preocupar se o Ar iria ouvi-la e responder a seu chamado, moveu-se até a vela vermelha. — Força ardente de
purificação, chama dançante de luz, que mesmo no mundo comum é rica e verdadeira... Eu te invoco, Fogo, para o círculo sagrado. — Quando o fósforo tocou o pavio,
a chama ganhou vida rapidamente, e Mikki sentiu uma onda de esperança. Sem hesitar, seguiu para a vela azul. — Maré brilhante que nos banha, refresca e sacia, mesmo
neste mundo comum, e que cobre mais da metade do nosso planeta, proporcionando-nos a vida. Eu te invoco, Água, para o círculo sagrado. — No pavio aceso, Mikki pensou
ver a chama da vela azul tremeluzir e ondular como as ondas. Então viu-se de frente para a vela verde. — Exuberante e fértil, amiga e selvagem, mesmo neste mundo
comum tu nos manténs e cuidas de nós. Eu te invoco, ó Terra, para o círculo sagrado... — Mikki voltou para seu lugar, ao lado da vela roxa. — Invoco-te agora, Espírito,
para o círculo sagrado, com as duas palavras que me unem à minha deusa: “amor” e “confiança”! — Acendeu a vela roxa e, em seguida, jogou fora o palito de fósforo.
Olhou ao redor, mas ficou desapontada. Não viu nenhum anel luminoso vinculando os elementos para formar o círculo.
— Não se desespere se não consegue ver as tramas neste mundo — falou Sevillana, como se pudesse ler seus pensamentos. — Veja-os dentro de sua mente. Acredito que
elas estejam aí. O poder da fé de uma Empousa é mágico por si só.
Mikki assentiu e imaginou as tramas descrevendo o círculo.
— Vamos terminar o ritual — falou, resoluta.
Abaixou-se e pegou a pequena faca. Olhou para Sevillana, e a mulher estendeu-lhe a mão com a palma para cima. Com um movimento rápido e seguro, Mikki pressionou
a lâmina afiada contra a pele fina de Sevillana, desenhando uma linha longa em sua palma.
Conforme o sangue jorrou, entregou a faca à antiga Empousa. Sevillana tomou-lhe a mão e, do mesmo modo, cortou uma linha semelhante em sua palma. Deixou cair a faca,
então, e as duas mulheres uniram as mãos, palma contra palma, misturando o sangue de gerações de Altas Sacerdotisas de Hécate.
Mikki fechou os olhos e limpou a mente. Quando falou, não se importou em baixar a voz. Se funcionasse, se a deusa fosse mesmo invocada, o círculo se manteria e nenhum
mortal poderia interferir nele. Mas, se isso não ocorresse... não se importaria com o que poderia acontecer com ela, decidiu.
— Hécate, Grande Deusa da Lua Negra, das Encruzilhadas da Humanidade e das Feras... É Mikado Empousai, Alta Sacerdotisa e Empousa do Reino das Rosas quem fala. Encontro-me
em uma terra distante e me ungi com óleo para lançar o teu círculo sagrado. Pelo direito que meu sangue me concede, eu invoco o teu nome. Temos um compromisso, um
juramento selado com amor e confiança. E pelo poder de tal juramento, evoco a tua presença e peço que me ouças.
De repente, um vento chicoteou ao redor delas, fazendo com que as velas tremeluzissem loucamente. Uma névoa as rodeou e, enquanto Mikki observava, transformou-se
numa nuvem cintilante até que, no centro do vórtice de vento, luz e som, Hécate apareceu. Vestia seu traje completo de noite, com os cabelos salpicados de estrelas
e a tocha dourada. A seus pés, os cães enormes rosnavam e tentavam abocanhar a neblina do jardim.
Mikki começou a dizer o nome da deusa, porém a voz emocionada de Sevillana a interrompeu. A mulher soltou sua mão e caiu de joelhos.
— Grande Deusa, perdoe-me! — Sevillana soluçou, as lágrimas escorrendo pelo rosto bonito. — O que fiz foi tão injusto! Passei vidas querendo expiar esse meu erro
imperdoável... Mas a menina tola e egoísta que a traiu já não existe.
A face de Hécate continuou ilegível, porém sua voz era suave.
— O que aprendeu, Sevillana?
— Aprendi que há coisas mais terríveis para se perder do que a própria vida.
— E quais são essas coisas?
— Minha honra, meu nome... e o amor da minha Deusa.
— Você nunca perdeu o amor de sua Deusa, minha filha.
Sevillana levou a mão à boca, tentando reprimir os soluços, e Mikki tocou-a no ombro, emprestando-lhe forças.
— Consegue me perdoar, Hécate? — a velha senhora foi capaz de indagar finalmente.
— Eu a perdoei há muito tempo, Sevillana. Você é que não foi capaz de perdoar a si mesma.
Ela curvou a cabeça.
— Posso descansar, então, minha Deusa?
— Sim. Tudo o que precisava fazer era pedir por isso. Eu jamais daria as costas a uma Empousa minha, mesmo a uma que cometeu um erro. Veja...
Hécate fez um gesto e a neblina abriu-se como uma porta na noite. De repente, um lindo cenário se fez ver. Era um prado repleto de trevos e cercado por pinheiros
altos, cujos ramos pontiagudos lembravam imensos espanadores. Enquanto elas observavam, uma figura ágil pulou e dançou pela campina, seguida por um grupo de lindas
mulheres. Suas túnicas envolviam seus corpos fortes e jovens sedutoramente, embora estes tivessem uma aparência estranha, quase insubstancial.
Mikki sentiu uma onda de choque ao reconhecer uma das mulheres.
— Mamãe! — gritou com voz embargada.
Antes que pudesse correr para encontrá-la, contudo, Hécate alertou-a em voz baixa:
— Não é sua hora, Mikado. Seu destino ainda não está completo.
Em meio às lágrimas que corriam soltas, ela olhou para a deusa.
— Mas é minha mãe, não é?
— Sim. Olhe mais de perto e verá também sua avó.
Mikki obedeceu, prendendo o fôlego. Sim! Reconhecia agora a linda jovem que dançava, segurando a mão de sua mãe. Tinha observado aquele rosto bonito tantas vezes!
A única diferença era que, nessas ocasiões, ele era repleto de linhas e marcas deixadas pela vida.
— Onde elas estão?
— Nos Campos Elísios, onde serão eternamente jovens, felizes e livres — respondeu Sevillana, a voz cheia de emoção.
— Tome seu lugar ao lado delas, Sevillana. Aqui termina seu tormento — declarou Hécate.
A mulher ergueu-se do chão devagar, então virou-se para Mikki e abraçou-a com força.
— Tenha uma vida abençoada, minha querida! — falou baixinho.
— Diga a minha mãe e a minha avó que eu as amo! — Mikki pediu num sussurro.
— Pode deixar. Elas ficarão orgulhosas de você, assim como eu, minha filha.
Dizendo isso, Sevillana atravessou a fronteira do círculo sagrado até a deusa. Parou diante de Hécate e, chorando, fez uma profunda reverência.
A deusa estendeu as mãos e a abraçou, beijando cada uma de suas faces.
— Vá para Elísia com minha bênção, Sevillana.
A mulher atravessou o portal que a divindade tinha aberto para o paraíso e, conforme o fez, seu corpo mudou. Sua velhice a deixou como um manto descartado, até que,
com um grito de alegria, a jovem e bela Sevillana tomou seu lugar em meio ao grupo de moças que dançavam.
O portal desapareceu, então, e, mais uma vez, não se podia ver nada além da névoa, da chuva e das trevas.
— É um prazer revê-la, minha Empousa — afirmou Hécate.
Mikki enxugou as lágrimas do rosto e sorriu.
— Estou muito feliz em vê-la também. Se eu soubesse que podia fazer isto, invocá-la aqui, teria lançado o círculo meses atrás.
— Ah, mas estaria faltando algo na invocação... O óleo sagrado de uma Empousa. Você precisava de Sevillana para tanto.
— Tem razão, eu... Não sei... Aprendi tanto hoje que minha mente não consegue absorver tudo. Estou tão feliz por ter perdoado Sevillana! — Mikki piscou, surpresa,
quando mais uma das peças daquele imenso quebra-cabeça encaixou-se de repente. — Na primeira noite em que estive no reino... você disse que havia cometido um erro
e que queria consertá-lo. O erro envolvia Sevillana e Asterius, não é mesmo?
— Exatamente. — Hécate soltou um suspirou típico dos mortais. — Eu não devia tê-los punido daquela forma. Sevillana era jovem e egocêntrica, mas eu sabia disso ao
escolhê-la para minha Empousa. Tinha esperanças de que o poder em seu sangue iria fazer com que amadurecesse, mas me equivoquei. Isso não aconteceu.
— E quanto a Asterius? — Mikki perguntou, segurando a respiração.
— Asterius foi meu maior erro. Eu lhe dei o coração e a alma de um homem e depois recusei-me a reconhecer que ele era, realmente, mais do que uma fera. Nesse aspecto,
fui ainda mais egoísta do que sua mãe, que não conseguia ver além dos próprios erros sempre que o contemplava... Errei ao não permitir que Asterius tivesse uma companheira,
ao acreditar que uma criatura como ele não precisava de mais nada além do dever de existir. Se suas necessidades o levaram a escolher com imprudência quando Sevillana
o tentou, a culpa foi minha. Foi a raiva que senti de mim mesma que me fez bani-lo e enfeitiçá-lo. Infelizmente, compreendi isso tarde demais. Tudo o que pude fazer
foi esperar que nascesse a mortal certa para ele... Alguém que pudesse enxergar a verdade e ter a coragem de agir sobre esta.
— Então vai me deixar amá-lo, mesmo que apenas até o Beltane?
— Não.
Mikki congelou.
— Por favor, Hécate! Eu o amo tanto! Deixe-me fazê-lo feliz, mesmo que por pouco tempo!
— As rosas desabrocharam, Mikado.
Confusa com a súbita mudança de assunto, Mikki murmurou:
— Que bom... Então eu fiz o que precisava ser feito.
— Você se sacrificou por livre espontânea vontade, cumprindo o juramento de amor e confiança com o qual estava vinculada a mim.
— Sim, Hécate.
— Pois isso nunca aconteceu antes no Reino das Rosas. Claro que várias gerações de Empousas deram seu sangue para alimentar o reino, mas o fizeram porque tinham
de fazer; porque essa era a trama de sorte e destino que fora tecida para elas. Mas você, Mikado Empousai, uma mortal vinda de uma terra quase totalmente desprovida
de magia, sacrificou-se de bom grado para salvar algo tão nebuloso como os sonhos da humanidade. Também viu o homem dentro da fera e permitiu-se amá-lo, rompendo
o feitiço de solidão e isolamento que o cercava.
— Eu fiz apenas o que meus instintos me diziam para fazer. Adorei seu reino, Hécate. Ele era minha casa, e valeu a pena morrer para protegê-lo, assim como a todos
que o habitavam — Mikki afirmou, surpresa com os elogios da Deusa. — E não foi difícil amar Asterius... — Ela sorriu e encolheu os ombros, tímida. — Não há sempre
algo de animal dentro dos homens? É o que os faz tão deliciosamente diferentes de nós. — Respirou fundo. — Não pode, por favor, deixar que eu volte para ele? Eu
lhe dou minha palavra de que me sacrificarei na noite do Beltane.
— O que você fez mudou o Reino das Rosas, Empousa. Seu sacrifício foi puro e imaculado pelos laços do dever, da força ou do medo. Nunca mais será necessário outro
sacrifício no Beltane. Seu sangue garantiu isso.
Quando Mikki começou a falar, Hécate levantou a mão para silenciá-la.
— Mas voltar não será assim, tão fácil. Você também mudou por conta de seu ato. Se permanecer no mundo comum, terá uma vida normal. Mas se retornar ao Reino das
Rosas, seu sangue o unirá a este irrevogavelmente, o que significa que seria uma imortal reinando pela eternidade como mais do que minha Empousa: você se tornaria
a Deusa das Rosas.
Mikki ouviu as palavras de Hécate, mas estas quase se perderam em meio à vertigem e à descrença que inundou seus pensamentos. Hécate estava dizendo que ela poderia
não morrer nunca? Que poderia tornar-se uma deusa?
— Entretanto, deve saber que o caminho de uma divindade nem sempre é fácil de ser traçado, Mikado. A eternidade é uma companheira às vezes assustadora, às vezes
gloriosa, e às vezes melancólica e irritante como uma criança mimada. Por isso pense com cuidado, Empousa. Eu lhe darei o poder da escolha, porém essa escolha é
irrevogável. Poderá ficar aqui, no mundo comum, e viver sua vida mortal até o final. Se for assim, eu não a abandonarei e darei-lhe as boas-vindas aos Campos Elísios,
assim como fiz com sua mãe e sua avó.
— Mas, Asterius... — Mikki começou.
— Porque me arrependo dos erros que cometi, concederei a ele uma bênção. Se assim ele quiser, eu o presentearei com o corpo de um mortal. — A deusa sorriu, os olhos
brilhando maliciosamente. — Posso presentear Asterius com o corpo de um homem de verdade e você, minha Empousa favorita, com a promessa de que a nova forma dele
será mais agradável de se olhar do que a de Adonis... O problema é que é impossível, até mesmo para os meus poderes, fazer isso no Reino das Rosas. Terei que trazê-lo
até aqui, para viver uma vida mortal a seu lado. Terão filhos, envelhecerão juntos e encontrarão consolo nos braços um do outro no momento em que suas vidas chegarem
ao fim.
— Ou, então, poderei voltar? — Mikki indagou, quando pareceu que Hécate não iria prosseguir.
— Sim. Poderá retornar como a Deusa das Rosas, e eu renunciarei ao reino dos sonhos em seu nome. Mas lembre-se... Naquele reino eu não poderei mudar a forma de Asterius.
Ele permanecerá eternamente como uma fera, porém com o coração e a alma de um homem. Faça sua escolha, Mikado.
Mikki começou a considerar e, em seguida, percebeu que não precisava escolher. Sabia o que queria.
— Escolho o Reino das Rosas e minha fera. Não desejo viver em nenhum outro lugar, e jamais lhe pediria para mudar Asterius. Eu o amo da maneira como ele é, não como
os outros gostariam que ele fosse.
O sorriso de Hécate foi radiante.
— Vamos voltar a seu reino.
Capítulo 37
A floresta não havia mudado. Continuava escura e assustadora, principalmente agora que Mikki sabia o que escondia-se nela.
Claro que agora ela era também uma deusa, portanto, os Ladrões de Sonhos teriam que modificar suas estratégias se pretendiam fazê-la cair em outra armadilha.
E eles fariam isso; Hécate já lhe advertira a respeito. Ela se tornara imortal, contudo isso não significava que não era mais falível e passível de ser manipulada
por emoções obscuras. A própria Hécate era prova disso.
Mikki estremeceu e puxou a palla roxa sobre os ombros com mais força. Seria cuidadosa.
Estranho que não se sentisse diferente. Ou ao menos não tão diferente.
Sentira a reação das rosas ao retornar. De verdade. Embora tivesse sido até constrangedor, estas tinham se alegrado quando ela adentrara o reino.
Sorriu. Sabia, agora, que elas possuíam emoções, assim como pequenos e brilhantes espíritos... Porém não se sentia menos ridícula quanto a todos aqueles anos em
que conversara com seus arbustos.
Era uma sensação maravilhosa e muito estranha, à qual ela teria que se acostumar.
As servas ficariam exultantes em vê-la, pensou, ansiosa por surpreendê-las na manhã seguinte.
Mas não naquela noite. Naquela noite, havia apenas uma pessoa que queria ver... apenas um lugar em que gostaria de estar. Nos braços de Asterius.
Ele encontrava-se ali perto, reunindo as tramas da realidade para as Tecedoras de Sonhos. Podia ter esperado por ele em sua casa, poderia tê-lo invocado de seu quarto,
no palácio...
Mas não quisera fazer nada disso. Quisera vir até ele, pois amava aquela alegria inocente que Asterius demonstrava a cada vez que ela se aproximava dele.
E queria que ele soubesse que ela continuaria a vir para ele por toda a eternidade.
Uma luz cintilou na escuridão, atraindo-a para a direita. Mikki a seguiu, e a luz revelou ser uma tocha. Segurando o fôlego, ela prosseguiu lenta e silenciosamente
em sua direção.
Ele estava de pé, de costas para ela, passando as mãos pelos galhos de uma antiga árvore. Fios cintilantes surgiam em seus dedos, e ele os puxava, juntando-os em
um monte mágico e luminoso no solo da floresta.
Mikki aproximou-se e parou quando ele soltou um gemido baixo. Asterius ficou de lado para ela em um movimento tenso e súbito, como se a trama que ele havia acabado
de puxar houvesse lhe causado dor.
Ele não a deixou cair, entretanto. Ao contrário, olhou para o fio com uma expressão angustiada de desespero e saudade.
Mikki estreitou os olhos e foi então que enxergou a si mesma na trama. Nesta, encontrava-se visivelmente grávida, o que foi um choque a princípio.
O choque transformou-se em pura alegria, contudo, no momento em que Asterius fez-se ver na cena, tomando-a nos braços. Beijava-a para depois cair de joelhos e pousar
os lábios em sua barriga dilatada. Na visão de sonho, Mikki viu-se sorrindo, satisfeita e estendendo a mão para acariciar um dos chifres escuros de seu amado, assim
como tinha feito havia muito tempo.
Com um grito angustiado, Asterius arremessou o fio para longe dele.
— Por que me atormenta? — rugiu, inconformado.
Mikki saiu das sombras.
— Ficou atormentado ao me ver grávida? Eu devia ser a única a ficar preocupada com isso. Ter um par de chifrinhos e pequenos cascos pisoteando meu útero é um pouco
assustador...
Asterius não se moveu. Apenas voltou o olhar para Mikki.
Seus olhos faiscaram, cheios de ódio.
— Vá embora, alma do além! Não me deixarei enganar por suas mentiras! — Ele começou a mover-se em sua direção, rosnando, ameaçador, e expondo as garras mortais.
— Asterius, sou eu! Eu só queria fazer uma surpresa...
Os olhos castanhos pareceram ainda mais escuros.
— Eu disse para ir embora, pesadelo! — ele urrou, avultando-se sobre ela.
Mikki gritou e recuou um passo, dizendo a primeira coisa que lhe veio à mente:
— Mas, na primeira noite em que nos encontramos, você colocou uma rosa no meu vinho!
Asterius estacou como se fosse trombar numa parede.
— Mikado? — indagou, incrédulo.
— Era o que eu estava tentando lhe dizer!
Mikki suspirou quando ele continuou paralisado.
— Depois das tantas vezes em que me rejeitou, é de admirar que tenhamos ficado juntos, sabia?
— Mikado! — Asterius lançou-se para a frente e a tomou nos braços. Seu corpo poderoso tremia, e ele não parecia capaz de fazer mais do que abraçá-la e repetir seu
nome seguidas vezes.
Ela o abraçou de volta, tocando-o e murmurando palavras carinhosas, até que a agitação de Asterius diminuiu e ele foi capaz de soltá-la um pouco mais.
Mikki olhou para o rosto bonito e terrível, agora banhado pelas lágrimas.
— Como isso aconteceu? Como pode estar aqui? — ele perguntou, atordoado.
— Hécate me deu uma escolha.
— Mas seu sangue... o reino está seguro agora. Eternamente. A deusa afirmou que, após seu sacrifício, não seria necessário derramar o sangue de mais nenhuma Empousa
para fazê-lo prosperar.
— Eu sei. Fui eu quem escolheu essa eternidade... para poder passá-la a seu lado.
A princípio, o olhar de Asterius continuou vazio. Então, a compreensão fez-se presente em seu rosto.
— Nunca mais vamos ficar separados?
— Nunca mais.
— Quer dizer que as tramas não estavam me atormentando! Elas estavam mostrando que... — Ele parou, incapaz de falar em meio à onda de emoções que o invadiu.
— Elas estavam mostrando que seremos felizes para todo o sempre. E, sim, meu amor, esse sonho em particular finalmente tornou-se realidade.
Devagar, Asterius segurou-lhe o rosto entre as mãos enormes e inclinou-se para beijá-la. Mikki passou os braços ao redor dele e agarrou-se a seu futuro... sua eternidade.
Nas sombras, Hécate sorriu e acariciou a cabeça escura de um de seus gigantescos animais.
Este livro é dedicado a todas que se apaixonaram pela Fera e ficaram desapontadas quando esta se transformou em um belo príncipe.

1* Wolverine, em inglês, é o nome dado ao carcaju, animal que pertence à família dos mustelídeos. Também é conhecido pelo nome de glutão. (N.E.)

Capítulo 28
O poder da voz de Asterius fez as tochas oscilarem, porém Mikki não se retesou, tampouco pulou, surpresa. Devagar, ergueu os olhos do esboço.
E então sentiu um aperto na boca do estômago. Ele encontrava-se parado sob uma porta arredondada que levava a outra sala, mais para o fundo da caverna, e estava
quase nu. Não usava a cuirasse nem a túnica. Tudo o que tinha sobre a pele era uma espécie de toalha pequena, amarrada ao redor dos quadris.
Mikki umedeceu os lábios e lembrou que, se não falasse, Asterius chegaria à conclusão de que o medo a paralisara.
— Você não iria até mim, por isso aqui estou.
Pôde ver a raiva em sua expressão abrandar. Sorriu, e ele ficou sem palavras.
Tentando ignorar sua quase nudez, ela acenou com um gesto de cabeça na direção das paredes da caverna.
— Essas pinturas são lindas. São de Creta?
— Sim.
— Você é muito talentoso. Só de olhar para elas já fiquei com vontade de passar férias no Mediterrâneo. — Antes que ele pudesse formular uma resposta, apontou para
o desenho dela mesma. — E isto é muito lisonjeiro. Eu nem sabia que estava lá naquela noite.
— Não tive a intenção de adular ninguém.
— Eu não quis dizer isso! Quis dizer apenas que me fez ficar bonita, poderosa... e isso é muito lisonjeiro.
— É como eu a vejo.
— Verdade?
— Eu nunca mentiria para você.
— Dizem que evasão e omissão também são mentiras — ela contrapôs sem preâmbulos.
— Se a deusa manda que eu faça ou diga alguma coisa, devo obedecê-la, Mikado. Fiz um juramento a Hécate.
— Está bem, eu compreendo... Sinto muito. Essa situação, em que não conheço todos os fatos, é extremamente frustrante para mim.
— Se eu pudesse responder a todas às suas perguntas, juro que eu o faria — ele reiterou.
— Imagino que sim. — Mikki deu um suspiro e olhou ao redor da caverna. — Que tal me mostrar seu covil? Este lugar é incrível.
Asterius não se moveu do batente da porta.
— Foi por isso que veio aqui, Mikado? Para que eu lhe mostrasse meu covil?
— Não. Eu vim porque queria vê-lo.
— Por quê?
— Porque você não foi me ver hoje. Senti sua falta, ainda mais depois que lancei um feitiço que permite que os homens venham para o reino.
— Eu não sou um...
— Ei, chega! Já não conversamos sobre isso ontem? Eu sei que não é um “homem”, mas, homem ou não, quando eu estava lançando o feitiço, foi em você que eu pensei
— ela confessou.
Asterius desviou o olhar e Mikki pôde ver a tensão em sua mandíbula, a forma como ele cerrava os punhos.
— Eu sei. — Sua voz soou tensa. — Senti a mágica e sabia que estava pensando em mim... Mas queria que não tivesse pensado.
— Por quê?!
— Porque não posso suportar isso! — ele falou, por fim, as palavras saindo por entre os dentes.
— Eu não fiquei com medo ontem à noite — Mikki declarou depressa.
— Eu vi o medo e o ódio em seus olhos, Mikado, embora não a culpe. Eu só queria tomá-la nos braços, beijá-la, e não pude nem mesmo fazer algo tão simples sem me
tornar uma fera!
— Não queria fazer mais nada além de me beijar? — ela indagou com um sorriso sedutor.
Os olhos de Asterius se estreitaram.
— Se eu lhe mostrar a minha casa, vai me deixar em paz, Empousa?
— Provavelmente não.
— Pensei que não fosse mesquinha, mas vejo que estava enganado — ele redarguiu, ríspido.
— Não sou mesquinha! Estou apenas me explicando mal. Estou nervosa e não consigo colocar o que sinto em palavras. — Mikki queria se mover ou andar, mas obrigou-se
a ficar quieta e fitá-lo nos olhos. — Não me machucou ontem à noite, e eu não estava com medo. Eu quis você; ainda mais quando as coisas ficaram intensas entre nós.
Gostei de tudo, Asterius. De seu poder, dessa força em seu corpo que mal consegue conter... Tem mais paixão do que eu já vi em toda minha vida. Até eu conhecer você,
os homens não passavam de uns inconsequentes para mim. E agora acho que sei por quê. Eles sempre me pareceram fracos, principalmente se eu os comparava às mulheres
que me criaram. Asterius, eu preciso de alguém que seja mais do que um homem. Na noite passada, quando me dei conta disso, essa verdade me assustou. Meu medo se
baseava em tudo o que ouvi das pessoas a vida toda; pessoas do mundo comum que ficariam chocadas com o que eu sinto por você...
Ele não falou por muito tempo. Ficou apenas olhando para ela, como se tentando entender algo muito importante que estava sendo dito em uma língua que ele mal compreendia.
— Ainda gostaria de ver o restante da minha caverna? — indagou finalmente.
— Claro que sim.
Asterius se pôs de lado.
— Este é meu quarto. — Gesticulou para que ela o precedesse.
Mikki atravessou a porta em arco e entrou no cômodo, sentindo que ele a seguia. Seu corpo inteiro parecia em sintonia com sua presença, como se ele fosse uma cobra
e ela estivesse tentando encantá-lo.
Então a beleza do aposento se fez ver. Era menor do que a sala principal e também possuía tochas que não soltavam nenhuma fumaça. Só que ali não havia tantas delas,
o que deixava o quarto quase na penumbra. O chão era coberto com grossas peles de animais, no meio das quais via-se uma enorme cama coberta com mais peles.
Ele dorme aqui...
O pensamento fez uma onda de calor percorrer o corpo de Mikki e ela desviou o olhar para as paredes.
E ficou surpresa mais uma vez. As paredes ali eram todas preenchidas com cenas de um jardim repleto de infinitas fileiras de magníficas roseiras em flor. Cada nível
do vergel continha uma fonte de água e na camada central via-se uma estát...
— É o Roseiral de Tulsa! — exclamou, ofegante. — Como pode ter tido tempo para pintar essa cena depois que voltou? — Aproximou-se da parede lisa e a tocou com cuidado.
Estava completamente seca. — Há tanta coisa aqui... Deve ter levado meses, ou até mesmo anos, para terminá-la!
— É verdade.
Mikki fitou-o por cima do ombro, sem ter certeza de que tinha ouvido bem.
— Como é possível, Asterius?
— Pintei esse cenário com base em imagens que via em meus sonhos.
Ela deslizou a mão pela parede com carinho.
— É perfeito. Conseguiu captar cada detalhe.
— A pintura a faz sentir falta da sua casa?
Mikki pôde senti-lo se aproximar, mas não se virou, temendo que ele se afastasse.
— Não. O Reino das Rosas é minha casa agora. Não quero estar em nenhum outro lugar a não ser a seu lado.
— Eu não via a hora de revê-la, Mikado...
— E eu não conseguia parar de pensar em você! — Mikki sentiu a mão tremer e a deixou cair. Asterius estava tão perto que podia sentir o calor de seu corpo.
Mãos quentes pousaram em seus ombros, e ele falou em seu ouvido.
— Quando lançou o feitiço, abrindo o reino para os homens, escutei você me chamando, pedindo... — ele rosnou baixo e sua voz poderosa vibrou nas profundezas da alma
de Mikki. — Pensei que fosse enlouquecer!
— Então não fique longe de mim! Não quero que fique longe de mim — ela repetiu sem fôlego, e recostou-se nele, sentindo sua ereção contra as nádegas. Os lábios quentes
de Asterius roçaram a lateral de seu pescoço em meio a pequenos beijos, os dentes afiados arranhando sua pele de leve. Quando as mãos dele deixaram seus ombros para
cobrir-lhe os seios, Mikki arqueou o corpo e ergueu os braços de modo a puxá-lo mais para si pela cabeça.
E, assim como em seu antigo sonho, sentiu os chifres em meio à massa espessa de cabelos, ao mesmo tempo que seus dentes encontravam o vale entre seu pescoço e ombro,
mordendo-a de leve.
Mikki gemeu e pressionou o corpo com mais firmeza contra o dele.
De repente, Asterius congelou.
— Não, não pare! — ela implorou, aflita.
— Ela... ela sumiu! — ele exclamou, estremecendo.
Preocupada, Mikki virou-se em seus braços. Asterius a fitava com uma expressão que era um misto de alegria e choque.
— O que foi? O que aconteceu?
Ele tomou-lhe o rosto entre as mãos.
— Você me ama! — Sua voz profunda soou embargada, e lágrimas escorreram silenciosamente pelo rosto moreno.
— Claro que amo! — Mikki sorriu. — Mas o que sumiu?
Asterius fechou os olhos, tentando dominar as emoções.
— O feitiço, Mikado. E a última barreira entre nós. Não importa o que as Parcas tenham-me destinado... Eu vou amar você até o fim dos tempos! — Ele inclinou-se e
a beijou com paixão.
Mergulhando a mão em seus cabelos, ela o puxou com ímpeto contra a boca, e o rugido de Asterius vibrou em seus sentidos já despertos como uma carícia.
Ele ergueu a cabeça e abriu os olhos escuros e cheios de desejo, a pele morena coberta de suor. Mikki deslizou as mãos pelo corpo másculo, desde os ombros fortes,
passando pelo peito largo até os músculos bem definidos do abdômen, sentindo-os estremecer sob seu toque.
Asterius tirou as mãos de seu rosto e as colocou contra a parede, a cada lado dela, de maneira que agora Mikki encontrava-se presa em meio a seus braços.
— Não se mexa! Deixe-me tocá-lo — ela pediu com voz rouca.
— Não sei por quanto tempo poderei manter minhas mãos longe de você! — O peito dele arfava e a paixão tornara-lhe a voz ainda mais densa.
— Não vai demorar muito. — Mikki acariciou-o no rosto e traçou a linha de seus lábios com o polegar. — Primeiro quero vê-lo... por inteiro.
Viu a dúvida escurecer os olhos castanhos, porém Asterius aquiesceu devagar. Então suas mãos deslizaram pelo corpo forte outra vez, rumando com segurança para a
toalha que ele tinha enrolada em torno da cintura. Puxou-a, e esta soltou-se com facilidade.
Mikki olhou o corpo nu à sua frente por um momento.
— A esposa de seu pai quis amaldiçoá-lo e acabou criando um ser de incrível beleza — sussurrou, ofegante. — Você não é uma abominação, Asterius, você é um milagre!
Ele era uma mistura tão perfeita de homem e animal que era difícil dizer onde terminava o ser humano e começava a fera. Sua cintura estreita dava continuidade a
quadris e coxas musculosos, cobertos com pelos lisos e escuros. Daí para baixo, embora seus contornos continuassem fortes e bem definidos, Asterius era menos musculoso
do que aparentava quando encontrava-se vestido.
Hipnotizada, Mikki acariciou o ponto onde o corpo do homem dava lugar ao do bicho. Asterius abaixou a cabeça e rosnou baixinho, e ela o fitou, atenta. Ele fechara
bem os olhos e respirava pesadamente, em um esforço para controlar a criatura que tinha por dentro.
Mikki respirou fundo, sentindo uma onda quente de prazer invadi-la enquanto observava a fera que tentava se conter. Seus olhos moveram-se mais para baixo. Asterius
possuía as mesmas formas de um homem e encontrava-se totalmente ereto. A pele que lhe encobria o membro era da mesma cor de bronze do peito largo.
Ela o tomou nas mãos, afagando com uma, apertando com a outra, e, quando o fez, os olhos dele se abriram, alarmados.
— Não precisa manter a fera acorrentada o tempo todo, Asterius! — ela sussurrou, sem parar de acariciá-lo, e inclinou-se para a frente, circulando seu mamilo com
a língua. — Solte-a, meu amor! Eu não tenho medo dela... — afirmou, mordendo o mamilo endurecido.
O rosnado de Asterius ecoou, ensurdecedor, pela caverna. Ele a ergueu nos braços, os cascos batendo com força contra o chão coberto de peles conforme caminhava até
o catre. Colocou-a sobre este, mas, antes que pudesse cobri-la com o próprio corpo, Mikki se pôs em pé, fazendo-o se retesar mais uma vez. Ela leu a dor em sua expressão,
certa do que ele estava pensando.
— Tem que parar de achar que tenho medo de você, Asterius, porque eu não tenho. Não me levantei para fugir. Achei apenas que gostaria de ver isto... — Começou a
soltar o broche de prata em forma de rosa que segurava-lhe a túnica sobre o ombro direito, porém suas mãos tremiam tanto que não conseguiu.
Frustrada, ela o fitou. Em seguida, sua expressão mudou para um sorriso sedutor.
— Faria algo por mim?
— Qualquer coisa! — ele respondeu, ofegante.
— Então solte as garras e me ajude com isto.
Com os movimentos graciosos de um felino, ele estendeu as lâminas lentamente e, com facilidade, cortou o tecido.
Mikki encolheu os ombros, e o quitão caiu a seus pés.
Os olhos de Asterius ficaram ainda mais escuros. Com o peito arfando, ele ergueu a mão para tocar os seios redondos, mas as puxou de volta ao se lembrar das garras
ainda estendidas.
Ela agarrou-lhe um pulso.
— Não seria capaz de produzir arte de tanta qualidade se não tivesse controle sobre estas lâminas... Use-as para me tocar, Asterius. Deixe que eu sinta seu poder
na minha pele! — E, sem pensar duas vezes, apertou a mão dele contra um seio.
Hesitante, Asterius deixou as pontas afiadas tocarem com suavidade a pele alva e macia, até que sua mão desceu do peito para o ventre reto, escorregando, devagar,
bem devagar, para o centro quente e úmido.
Mikki prendeu a respiração e estremeceu.
— Não pare! — pediu com um gemido.
Ele não tirou os olhos do rosto delicado enquanto suas garras percorriam as coxas roliças e, depois, as curvas voluptuosas das nádegas.
— Vire-se... Quero vê-la de costas — ordenou, a voz profunda saindo ainda mais densa com o desejo.
Ela obedeceu.
E sentiu os lábios de Asterius substituir as lâminas quando ele beijou as marcas rosadas que havia deixado nela antes.
— Pensei que a tivesse cortado inteira! — ele murmurou, a respiração aquecendo-a por inteiro.
— Claro que não... Foram apenas arranhões.
A boca de Asterius moveu-se para o final de sua espinha, a língua quente provando-a sem meandros.
— Pensei que nunca mais fosse tocá-la de novo!
Mikki virou-se e o segurou pelo pescoço, permitindo que ele tomasse seus mamilos com a boca.
— Nunca pare de me tocar! — pediu. E, deitando-se na cama, puxou-o com ela.
Asterius ajoelhou-se a seu lado. Recolhendo as garras, tocou-a no rosto com delicadeza.
— Eu não conseguiria parar agora, nem mesmo se Hécate aparecesse e me ordenasse isso!
— Sshh... — Ela pressionou seus lábios com um dedo. — Não quero pensar em nada a não ser em você. — Lentamente, levantou mais a mão, seguindo a linha suave de um
chifre escuro. — Você é incrível. Acho que nunca vou me cansar de acariciá-lo.
— É um presente raro e inesperado para mim, Mikado. — A voz de Asterius tremeu com a profundidade de suas emoções. — Eu nunca conheci o amor. Nunca, em todas as
eras da minha existência, uma mulher me tocou, aceitou e amou como você. — Ele teve que fazer uma pausa antes de continuar. — Vou amá-la enquanto respirar. E além,
se as Parcas e a deusa permitirem!
— Então venha para mim, Asterius! Mostre-me o poder de seu amor! — ela implorou.
Ele a adorou com a boca e com as mãos, e bebeu dela como se nunca fosse se fartar. Explorou-a e, com os sentidos sobre-humanos de um animal, leu cada sinal e mudança
em seu corpo, aprendendo o que mais lhe trazia prazer.
Quando pensou que não poderia viver algo mais doce do que observar a paixão que havia provocado nela, Mikki pressionou-o contra o catre e deu início à sua própria
exploração. Quando sua língua e boca o provocaram por inteiro, e ela sussurrou que seu membro rijo era magnífico, demonstrando o quanto o desejava, Asterius pensou
que fosse morrer de prazer.
— Preciso sentir você dentro de mim!
Mikki se abriu, e ele estremeceu no esforço para se controlar enquanto ela o envolvia com as pernas e se encaixava em seu corpo. Sentiu o sangue arder nas veias
e um rugido escapou de sua garganta. O animal dentro dele queria investir violentamente contra ela, afundar o membro endurecido em seu calor úmido... Porém ele cerrou
os dentes, deslizando com cuidado para dentro e para fora de Mikki, tentando concentrar-se nos sons suaves de puro prazer que ela soltava em meio ao turbilhão que
assolava-lhe o corpo e a alma.
E então percebeu que ela ia de encontro a suas estocadas suaves com uma ferocidade que refletia-se em seus olhos verdes.
Quando inclinou-se para beijá-la, Mikki mordeu-o no lábio com força.
Ele rosnou, e ela sorriu.
— Solte o animal que existe em você, Asterius! É ele quem eu quero agora! — pediu com uma voz rouca e sensual.
As palavras acenderam tal chama dentro dele, que Asterius temeu que ambos fossem consumidos por ela. Incapaz de lutar contra a força combinada do desejo e do poder
da fera, virou-se no catre e, agarrando-a pelas nádegas, ergueu-a de encontro a ele, afundando nela seguidas vezes.
Mikado não fugiu dele, pelo contrário. Respondeu a sua paixão com a força e a determinação de uma deusa.
O animal e a sacerdotisa arderam juntos, até que, finalmente, o ser humano dentro dele não pôde mais se conter e derramou dentro dela toda uma vida de desejos, ao
mesmo tempo que fera e homem rugiam seu nome em uníssono.
Capítulo 29
Asterius não conseguia parar de olhar para Mikado. Ela dormia nua, o corpo pressionado contra o dele. Tinha um braço apoiando a cabeça, uma perna longa e macia sobre
a sua, e a mão jogada sobre seu peito, indolente.
Respirou fundo, permitindo que seu perfume lhe invadisse os sentidos. Nunca havia imaginado aquilo. Mesmo quando tivera esperanças de que a outra Empousa pudesse
gostar dele, que pudesse amá-lo, pensara apenas no toque de suas mãos suaves.
Apenas em sonho permitira-se imaginar fazendo amor com uma mortal... Mas nenhum deles tornara-se realidade.
Até aquele momento. Até Mikado.
Quando ele a tocara e percebera que a dor causada pelo feitiço de Hécate tinha sumido — e o que aquilo significava —, Mikado transformara seus sonhos em realidade
e, ao fazê-lo, também curara a ferida da solidão que o afligia havia séculos.
Pelos deuses, o que ele iria fazer? Ela o salvara... Como ele poderia lhe fazer algum mal agora?
Mas se ele não a sacrificasse, o Reino das Rosas iria perecer.
Talvez não acontecesse imediatamente. Hécate poderia descobrir outra Empousa, porém um dano irreversível já teria sido feito. A traição de uma Sacerdotisa já fizera
um reino que jamais conhecera pragas, pestes ou doenças de qualquer espécie adoecer. Aquele tipo de coisa nunca existira no reino de sonhos e magia de Hécate.
Mas a traição e o abandono haviam provocado o enfraquecimento da muralha e, ele tinha certeza, apenas a rápida atuação de Mikado impedira um desastre.
Por isso precisava escolher entre destruir seu próprio sonho ou a destruição dos sonhos da humanidade.
Na verdade, não possuía alternativa. Apenas um animal poderia optar por si mesmo em detrimento da humanidade.
Asterius sentiu a agonia pelo que deveria fazer pressioná-lo como uma lança flamejante em suas entranhas.
— Está me olhando — Mikki disse baixinho e, sonolenta, abriu os olhos e sorriu para ele. — Não consegue dormir?
— Prefiro olhar para você. — Ele afastou-lhe uma mecha espessa de cabelo do rosto.
— Eu devia ter adivinhado que era um romântico quando colocou aquela rosa no meu vinho...
— Isso não é ser romântico, é ser civilizado. — Ele temperou a voz grave com um leve sorriso e acariciou a curva graciosa de seu pescoço e ombro, sorrindo ao vê-la
suspirar, feliz, e esticar-se como um gato.
— Não estrague minha alegria... Prefiro pensar que é romântico.
— Então vou chamar de romance, também, só por sua causa. — Hesitante, porém com uma doçura e inocência totalmente em desacordo com a aparente ferocidade de seu corpo,
Asterius inclinou-se e beijou-a nos lábios. — Quando veio até mim, hoje, ofereceu-me mais do que seu corpo e seu amor, Mikado. Ofereceu-me aceitação: uma alegria
que eu nunca imaginei que fosse conhecer.
Ela entrelaçou os dedos com os dele.
— Isso é algo que você e eu temos em comum. Eu sempre me senti como se não pertencesse ao meu antigo mundo. — Respirou fundo e tomou uma decisão. Queria que Asterius
soubesse. Precisava que ele soubesse. — Hécate me explicou parte da razão pela qual eu me sentia tão deslocada. Era porque eu já estava destinada a ser sua Empousa
neste mundo. Sempre carreguei o sangue de uma Alta Sacerdotisa nas veias. Mas há outra razão... Por isso nunca deixei ninguém, muito menos um homem, aproximar-se
de mim. Tem a ver com meu sangue também. — Ela estudou os olhos escuros, querendo que ele compreendesse. — As mulheres da minha família estão intrinsicamente ligadas
às rosas. Se regarmos as flores com água misturada ao nosso sangue, estas se desenvolvem além do normal. No mundo comum, o que eu fazia era inédito. Exceto pelas
mulheres da minha família, ninguém mais conseguia entender. Isso me fazia sentir como se eu fosse uma aberração e, por isso, eu escondia meu segredo. — Preocupada
ao ver como Asterius ficara imóvel e pálido, Mikki sentiu-se retesar. — Diga alguma coisa... Eu nunca contei isso a ninguém.
Quando ele permaneceu em silêncio, ela começou a se afastar, mas, com um rosnado baixo, Asterius puxou-a com determinação de volta para a proteção de seus braços.
— Você não se sentia aceita lá porque era seu destino ser Empousa de Hécate e vir até aqui para salvar as suas rosas e seu Guardião solitário. O sangue que corre
em suas veias é a vida deste reino, Mikado. É seu amor que nos sustenta. — Ele fechou os olhos e afundou o rosto nos cabelos vermelhos, tentando não tremer, tentando
não pensar.
Mikki relaxou e aninhou-se mais junto a ele.
— Isso ainda me espanta. Se as coisas não tivessem acontecido numa sequência perfeita, eu não estaria aqui. — Recostou-se em seus braços de modo a fitá-lo e, mais
uma vez, perguntou-se o porquê de Asterius ainda estar tão pálido. — Foi meu sangue que o despertou, sabia?
— Não. — A voz dele soou ainda mais grave. — Eu só sabia que havia me despertado, que podia sentir seu cheiro e que você era a Empousa de Hécate.
— Na verdade, esse é um dos aspectos mais estranhos do que aconteceu. Naquele mesmo dia, em Tulsa, uma senhora que eu mal conhecia havia me dado um pouco de perfume
e, num impulso, eu o usei. Por mais estranho que pareça, é o mesmo perfume que estou usando agora. Gii o chama de “o óleo sagrado da Empousa”.
Asterius franziu o cenho.
— Como é possível?
Mikki deu de ombros e tornou a se aconchegar junto a ele.
— Eu não faço ideia, mas ela era muito excêntrica. E linda, mesmo sendo velha. Tinha os olhos azuis mais incríveis que já vi. Era estrangeira, porém eu não consegui
discernir muito bem seu sotaque. Ela disse que tinha conseguido esse perfume... — Mikki parou para pensar — ... em algum lugar da Grécia, se não me engano. O que
me lembro com certeza é de seu nome porque, assim como eu, ela também tem nome de rosa: Sevillana.
Mikki sentiu o choque que atravessou o corpo de Asterius, e ergueu-se sobre um cotovelo, vendo a expressão indecifrável no rosto moreno e agora pálido.
— O que foi? Alguma coisa errada?
— É que... nada. Não foi nada. Só estou surpreso por uma mulher do mundo comum ter obtido o óleo sagrado da Sacerdotisa de Hécate. É um mistério. — Asterius passou
os braços a seu redor. — Deite-se aqui comigo... Deixe-me sentir seu corpo tocando o meu.
Mikado descansou no peito largo.
A mente de Asterius girava num turbilhão enquanto ele acariciava a linha suave de suas costas. Sevillana... Apenas o nome tinha enviado ondas de choque por todo
seu corpo. Era ela!
Ele, também, jamais iria se esquecer da beleza fria de seus olhos azuis e penetrantes, muito menos de seu nome. A última Empousa continuava viva no mundo comum.
Como era possível? O tempo passava de forma diferente por lá, ele sabia. Mas ao menos dois séculos, pela contagem daquele mundo, deviam ter se passado. Talvez a
antiga Empousa houvesse atravessado a encruzilhada com mais do que apenas um frasco de óleo para unção. Talvez tivesse conseguido roubar alguma magia do reino.
A enormidade daquela revelação infiltrou-se em seu estado de choque. Sevillana estava viva! Na primavera, quando uma Empousa precisasse ser sacrificada pelo reino,
Sevillana, e não Mikado, deveria morrer! Tudo o que ele precisava fazer era descobrir uma maneira de trazer a Sacerdotisa ausente para o Reino das Rosas!
Tinha que ser possível. Sevillana havia escapado, portanto certamente poderia retornar.
Asterius segurou Mikado com mais força, e essa foi sua resposta. Ele não a sacrificaria. Apenas a trocaria pela antiga Alta Sacerdotisa e devolveria Mikado com segurança
para sua casa no mundo comum.
Ficaria sem ela, sentiria sua falta por toda a eternidade, sem dúvida... Entretanto, poderia suportar isso. O que não poderia suportar era saber que ela teria de
morrer por suas mãos. Se Mikado partisse, perderia seu amor. Se ele a sacrificasse, perderia a própria alma...
Pois ele não sacrificaria seu amor, tampouco iria perder a própria alma. Tinha uma alternativa, e também os poderes do filho de um Titã. Transformaria aquele imenso
cúmulo de magia para alcançar seu objetivo.
Mas não naquele momento. Não naquele dia.
Naquela noite, ele iria se deleitar com o milagre do amor de Mikado, e não pensaria mais sobre o vazio infinito das madrugadas que estavam por vir.
Mikki encostou-se à entrada discreta para a caverna e olhou a manhã nublada enquanto mastigava um pedaço de pão. Asterius veio por trás dela, e a fez inclinar-se
de encontro a ele.
— Chuva! — disse, surpreso. — Não costuma chover por aqui.
— Fui eu que fiz isso. Ordenei ao elemento Água que a trouxesse quando lancei o feitiço de saúde e proteção ontem. Em todas as manhãs haverá chuva por algum tempo.
É bom para as rosas e é bom para o reino também. Manhãs chuvosas são repousantes; um momento perfeito para dormir e fazer rejuvenescer a alma. — Ela se virou em
seus braços. — Infelizmente, eu não pensei em avisar as servas, ontem, que manhãs chuvosas equivaleriam a tirar uma folga... Imagino que os Quatro Elementos estejam
se perguntando por que eu ainda não as chamei para trabalhar. E como a noite passada foi a primeira, em muito tempo, em que os homens puderam ser convidados a vir
ao reino, aposto que estão cansadas e me esperando de mau humor... Preciso ir vê-las. O que vai fazer?
— A mesma coisa que faço todas as manhãs: inspecionar a muralha das rosas ao redor do reino para ter certeza de que tudo está seguro. Depois vou colher mais fios
para as Tecedoras de Sonhos. — Ele acariciou o rosto dela. — Só que, nesta manhã, cumprirei minhas funções com seu cheiro na minha pele... E com a lembrança do seu
sorriso, toque e gosto no meu coração. — Ele sorriu. — Dizem que a chuva é sombria e triste, mas, para mim, esta manhã parece brilhante e cheia de promessas.
— Um romântico incurável... Quem diria? — Mikki segurou-o pela cuirasse. — Beije-me, para que possamos arregaçar as mangas depois — ela ordenou, enquanto se perguntava
se algum dia ele iria perder aquele ar de felicidade que se estampava em seu rosto a cada vez que ela o surpreendia com um toque ou, como naquele momento, com um
beijo. Sinceramente, esperava que não. — Pode tirar uma folga para almoçar comigo?
Asterius beijou-a outra vez antes de responder.
— Claro que sim. Tudo o que precisa fazer é me chamar.
— E à noite?
— Peça, Empousa, e eu obedecerei — ele murmurou, os olhos escuros brilhando.
— Você diz isso agora. Vamos ver o que vai achar de obedecer a todas as minhas vontades daqui a um ano ou mais — Mikki disse brincando, enquanto levantava uma sobrancelha,
travessa.
Ficou surpresa ao ver a expressão dele mudar e seus olhos perderem todo o humor.
— Eu jamais me cansaria de você ou das suas vontades, Mikado. Nem se tivéssemos uma eternidade para compartilhar.
As palavras fizeram seu coração se comprimir. Como podia ter se esquecido de que Asterius era um imortal? Ela iria envelhecer, ele não. E, ao contrário dele, ela
morreria.
Não! Não pensaria naquilo. Não no alvorecer de seu amor. Eles mereciam algum tempo para que pudessem saborear a doce sensação de um sentimento novo e inebriante.
Nesse ponto não eram diferentes de qualquer outro casal. Ela não iria estragar aquela lua de mel com pensamentos terríveis sobre um futuro em que iria se arrastar,
encolhida, pelos jardins, inclinando-se sobre o braço sempre jovem e forte de Asterius...
Ele a deixaria, então? Será que ainda iria querer ficar com ela?
Pare com isso! Está fazendo exatamente o que prometeu não fazer!
Mikki fez brotar um sorriso nos lábios.
— Eu não estava falando a sério. Estava apenas brincando com você. Mas já que mencionou seu dever de obedecer a meus comandos... ordeno que venha me ver esta noite.
— Olhou por cima do ombro largo para a caverna acolhedora, tão impregnada da presença de Asterius como da requintada arte que ele criara. — Na verdade, acho que
prefiro vir para cá.
— Aliás, creio que não tenha conhecido bem meu lar, como me pediu ao chegar...
— Essa é uma das coisas que terá de fazer esta noite... Mas apenas uma delas.
A leve chuva mudou a aparência dos jardins, como se alguém os tivesse pintado com um pincel de aquarela e dado um toque impressionista à realidade.
Mikki decidiu que gostou do que via. Combinava com o restante daquele lugar de sonho.
Quis ir direto para o palácio e chamar os Quatro Elementos. As pobres meninas deviam estar bem aborrecidas com ela, principalmente se alguma delas tinha expulsado
alguém delicioso da cama...
Mas continuou vagando, perdida na magia que emanava das rosas.
Elas pareciam melhores naquela manhã. Mesmo quando ela rumou devagar em direção ao Sul, a náusea que revirava seu estômago sempre que ela perambulava pelos jardins
não veio. Viu até mesmo várias flores saudáveis, cor de lavanda, que reconheceu como rosas Angel Face em plena floração, onde no dia anterior havia apenas brotos
anêmicos.
Sorriu e, num acesso de orgulho, autodenominou-se “a Deusa das Rosas”.
E sonhou com Asterius.
Suspirou. Encontrava-se dolorida em lugares dos quais ela até se esquecera... Quase um ano se passara desde a última vez em que fizera sexo, mas nunca havia experimentado
nada como o amor que fizera com Asterius. Aquele corpo forte, aquela mistura de homem e animal fora tão intrigante, tão sedutora!
Mas o mais excitante tinha sido a liberdade que sentira com ele.
Sorriu. Com Asterius ela poderia soltar a fera que existia dentro dela quando estivessem juntos, sem temer que ele se afastasse. Asterius correspondia inteiramente
à sua paixão. E ele a conhecia, lia sua alma.
Asterius, Minotauro, Guardião... Ele também sabia o que era ser um marginal.
Pois bem, eles haviam encontrado um lar juntos enfim.
— A chuva foi uma ideia inteligente, Empousa.
Mikki pensou que fosse desfalecer ao som da voz de Hécate.
— Minha nossa, você quase me matou de susto! — exclamou.
Então lembrou-se de com quem estava falando, limpou a garganta e virou-se para encarar a deusa com o coração batendo dolorosamente no peito. Hécate encontrava-se
sentada em um banco de mármore, a poucos metros.
— Perdão, eu me assustei... — Fez uma reverência, como via as servas fazendo com tanta frequência. — Não devia ter falado dessa maneira.
Hécate fez um gesto de desdém com a mão.
— À minha Empousa são permitidas liberdades de que muitos nem precisam saber. — Ela apontou o espaço a seu lado. — Venha, sente-se aqui comigo.
Engolindo em seco, Mikki aproximou-se da divindade. Os cães gigantescos encontravam-se a postos ao lado dela, porém a ignoraram por completo.
Hécate vestia as cores da noite: preto, o mais profundo dos azuis e cinza. Manifestara-se como a linda mulher de meia-idade outra vez, e as gotículas de chuva cintilavam
como joias em seu cabelo negro.
— O feitiço para proteção e saúde que lançou ontem foi muito bem pensado. Concordo com seus instintos. A chuva refresca as rosas e o reino. Além disso, os pequenos
insetos que pediu à Terra foram uma surpresa encantadora... O elemento Ar adorou trazê-los para cá. — A deusa fez uma pausa e, em seguida, surpreendeu Mikki com
uma deliciosa risada. — Embora não se possa enxergar seu corpinho vermelho e preto em meio a essa névoa.
— Joaninhas alimentam-se de pulgões, e as rosas odeiam pulgões — lembrou Mikki, ainda surpresa com o declarado elogio da diva.
— As rosas estão desenvolvendo-se de novo, e isso me agrada.
— Obrigada, Hécate.
— Também foi bom ter instruído Fogo a iluminar a muralha das rosas, principalmente as do portal. Agora que os homens estarão indo e vindo outra vez, precisam tomar
muito cuidado com essa passagem.
— Eu nem havia pensado nisso! — Mikki passou a mão pela testa, nervosa. — Sou mesmo uma tola. Como esperava que eles fossem entrar e sair do reino?
— Não foi ruim ter permitido que os homens viessem aqui de novo. Fez muitas mulheres felizes. Durante toda a noite, ouvi os nomes dos amantes sendo sussurrados em
convites que foram levados ao mundo antigo. — A deusa sorriu de lado, maliciosa. — Ainda esta manhã alguns continuam sendo chamados e apreciados pelas mulheres,
as quais há muito são reverenciadas como algumas das mais belas e inteligentes do mundo antigo. Ter os homens por perto dará vida nova ao reino... Bebês meninas
são uma bênção, e estou ansiosa por seu nascimento.
— Mas os Ladrões de Sonhos estão na floresta. Temos que ter cuidado se esse portal vai abrir e fechar a cada pouco.
— Você é a Empousa, Mikado. Pode colocar limites quanto ao ir e vir dos homens. — Hécate deu-lhe um olhar afetuoso. — É bom que saiba dos perigos que espreitam do
outro lado da barreira, mas não precisa se preocupar. A força do Guardião irá proteger o reino. Case a vigilância dele com seu carinho pelas flores, e tudo ficará
bem no Reino das Rosas.
Mikki tentou não pensar ou reagir. Manteve a mente vazia e assentiu.
— Ótimo. Agora, o que vim dizer é que tenho assuntos para resolver que vão me afastar do reino. Não se preocupe se eu não vier visitá-la aqui por... — Hécate ergueu
um ombro — ... algum tempo. Mas meus poderes estarão sempre com você, caso necessite deles. Sinto que está confiando mais em seus instintos e, por isso, aplaudo
sua sabedoria. Deixe que sua intuição a guie. Se seu sangue, alma ou espírito lhe disserem algo, pode acreditar. E, lembre-se, Empousa, aprecio muito o que tem feito
pelas rosas, mas não foram apenas suas providências que deram início à recuperação delas. Foi também sua presença. Tem laços de sangue com as flores, o que garante
que elas irão prosperar. Seja sábia, Mikado. Os sonhos da humanidade dependem de você.
Hécate levantou a mão e desapareceu em uma névoa brilhante.
Capítulo 30
Mikki não podia dizer que não estava aliviada por Hécate ter partido por algum tempo. É claro que devia ter lhe contado sobre seu relacionamento com Asterius...
Contar seria bem melhor do que a deusa ler sua mente ou descobrir de outra forma.
Tinha vontade de correr e se esconder só de pensar nisso!
Iria dizer tudo a ela, sem dúvida, mas não queria fazer isso tão já.
Não que estivesse com vergonha por amar Asterius, ou porque temia sua deusa, ainda que Hécate fosse um tanto assustadora. Mas queria manter o Guardião para si mesma.
Por que não podiam ter privacidade para descobrir os segredos daquele novo amor? Mesmo que tivesse se apaixonado por um homem de Tulsa, ela gostaria de ter tempo
para que os dois aproveitassem a novidade de sua descoberta antes que a revelassem aos sete ventos e abrissem a própria vida à especulação. Ela era discreta e quanto
mais uma coisa lhe era importante, mais discreta ela tornava-se a respeito.
E Asterius era muito importante para ela.
Quando Hécate voltasse, sabia-se lá de onde, poderiam ter uma conversa acerca do Guardião. Então iria lidar com a resposta da deusa, qualquer que fosse ela.
Até lá, iria valorizar aquele período de lua de mel que lhe fora concedido e desfrutar completamente o fato de que tinha se apaixonado.
Satisfeita com seu plano, Mikki deixou o banco e verificou os canteiros e fontes vizinhos para certificar-se de que rumava na direção certa. Os comentários de Hécate
sobre os homens indo e vindo através do portal das rosas a haviam preocupado e, a despeito do que a deusa dissera sobre Asterius, iria se manter alerta.
Naquele exato momento, seus instintos lhe diziam que verificasse o portal por conta própria, depois anunciasse um toque de recolher, embora detestasse a ideia de
agir como uma inspetora de colégio. Gostaria de conversar com Asterius sobre aquilo, mas só faria sentido colocar alguns limites quando o portal estivesse aberto.
E também precisava descobrir quem, exatamente, poderia abri-lo. Asterius poderia, claro. E ele dissera que ela também poderia fazê-lo. As Tecedoras de Sonhos haviam
mencionado que os Quatro Elementos tinham colhido os fios da realidade enquanto o Guardião estava enfeitiçado, então elas também eram capazes de abrir o portal.
Mas quem mais? Seria uma tremenda dor de cabeça se todas as mulheres do reino pudessem fazer um gesto e abrir a maldita porta como se esta fosse o Mar Vermelho...
Sem dúvida, tinha muito trabalho a fazer.
Calculando a hora, Mikki apertou o passo. Precisava se mexer e chamar suas damas de companhia.
Poderia chamá-las naquele exato momento e fazer com que se encontrassem ali nos jardins, claro; mas preferia checar pessoalmente o portal, voltar correndo para o
quarto, trocar aquela túnica molhada e rasgada, embora a tivesse remendado naquela manhã, pedir a Daphne que trouxesse um pouco daquele chá delicioso e reunir-se
com as meninas mais tarde para um brunch.
Mesmo assim, ainda era cedo. E as servas não eram estúpidas. Decerto olhariam a chuva e perceberiam que havia pouco a ser feito nos jardins com aquele clima. Talvez
até voltassem para a cama.
Mikki sorriu para si mesma, esperando que elas não fizessem isso sozinhas. Ela mesma não o faria naquela noite.
A chuva mudara aos poucos da garoa fina para uma bruma, e depois para um nevoeiro claro que agora pairava sobre as rosas como na região dos Lagos, na Inglaterra.
A cerração tornou-se mais espessa conforme ela caminhava para o Sul.
Mikki pensava na noite que tinha pela frente, tentando decidir como poderia convencer Asterius a ir até as fontes termais para um banho a dois, quando uma parede
de rosas Multiflora surgiu bem diante de seu nariz, e ela quase se chocou contra a muralha.
— No próximo feitiço, lembre-se de dizer ao Ar para afastar o nevoeiro depois da chuva! — resmungou para si mesma enquanto esquadrinhava o portal, procurando por
sinais de desgaste. — Você parece bem — elogiou, acariciando parte da folhagem.
— Sacerdotisa! Pode nos ajudar?
Mikki olhou ao redor, tentando ver de onde vinha a voz profunda. Era inequivocamente masculina, o que soava estranho nos jardins.
— Aqui! Estamos aqui!
Ela percebeu que a voz vinha do outro lado da muralha das rosas e inclinou-se um pouco, de modo a olhar através de uma parte menos densa dos ramos.
Seus olhos arregalaram-se de surpresa. Quatro homens encontravam-se do lado de fora do portal, cercados pela névoa espessa e cinzenta. Três deles estavam trajados
como ela sempre imaginara que os antigos gregos deviam se vestir: com uma espécie de túnica, um braço nu e capas cor de púrpura, regiamente bordadas, sobre as costas
largas. Eram todos altos, musculosos... e muito, muito bonitos.
O quarto homem, o que havia falado, devia ser o líder. Encontrava-se à frente dos demais e vestia-se no estilo em que ela estava acostumada a ver Asterius: com uma
cuirasse sobre uma túnica curta, de pregas.
Era aí, entretanto, que sua semelhança com o amante dela terminava. Era um homem bonito, alto e de pele morena, que destacava-se mesmo na manhã nevoenta. Sua pele
tinha um tom dourado que poucos loiros verdadeiros exibiam. Um bronzeado saudável, da cor do mais puro mel, e que cobria um corpo que era uma perfeição: atlético,
sem ser demasiado musculoso e brutal. Seu cabelo era espesso e ondulado, cortado num comprimento que era másculo e, ao mesmo tempo, juvenil.
E seus olhos eram tão azuis e límpidos que ela podia vê-los mesmo em meio à profusão de rosas.
Mikki suspirou. Nunca vira um homem tão bonito de tão perto. Geralmente, tanta perfeição limitava-se a Hollywood e às maquinações dos produtores de filmes e cirurgiões
plásticos.
— Aí está, Sacerdotisa! — Ele sorriu, e seu rosto iluminou-se ainda mais. — Estamos aqui. Respondemos a seu chamado.
Ela sorriu de volta. (Quem não o faria diante de um sorriso como aquele?)
— Meu chamado?
— Só posso rogar à grande deusa que eu tenha tido a sorte de ter sido chamado por uma beldade como você...
Mikki percebeu que corava e sentiu-se ridícula.
— Ouvi dizer que os olhos azuis são mais fracos do que os castanhos ou verdes — replicou. — Acho que acabou de comprovar essa teoria.
Ele riu, e o som de seu riso era tão cativante quanto sedutor.
— Ah, vejo que minhas preces foram atendidas! A deusa me concedeu uma Sacerdotisa que tem inteligência, além de beleza. — O estranho deu alguns passos em direção
ao portal, e seus amigos o seguiram.
Por entre os ramos, Mikki observou-o mover-se com naturalidade e confiança, de modo tão atraente e tão diferente do modo selvagem de Asterius que ficou chocada.
Não chegou a desejar o lindo loiro, mas sentiu uma ponta de inveja da mulher que o tinha chamado.
Viu-se invadida imediatamente por uma onda de culpa. Que diabo havia de errado com ela? Tinha acabado de deixar a cama de Asterius após proclamar seu amor por ele,
e agora estava toda derretida diante de um estranho só porque ele era bonito?
Talvez a chuva tivesse atravessado seu crânio e inundado seu cérebro.
— Vai abrir o portal para nós, Sacerdotisa, ou meus companheiros e eu teremos de atravessar essa parede espinhosa?
— Não! — ela respondeu um pouco alto demais. E então, sentindo-se como uma idiota, adicionou: — Não fui eu que o chamei. Não precisa me cortejar.
A expressão de decepção do rapaz pareceu sincera.
— Se é assim, creio que eu lhe deva desculpas, graciosa dama. Imaginei que fosse um dos Elementos, com essas tranças avermelhadas e sua extraordinária beleza. Fogo,
talvez. Afinal, foi ela quem me chamou aqui. Eu seria um homem de sorte se tivesse acertado.
— Desculpe, mas não sou nenhum dos Elementos. — Mikki sorriu, travessa.
Não estava sendo infiel a Asterius por ser educada com o rapaz. Estava apenas cumprindo seu papel de Empousa, afinal, fora ela quem lançara o feitiço para permitir
que os homens adentrassem o reino.
— Eu sou a Empousa.
Os olhos azuis do estranho plissaram-se adoravelmente nos cantos com seu sorriso.
— Empousa! — Ele curvou-se em um lindo e cavalheiresco floreio, que os outros homens copiaram enquanto a saudavam, galantes. — Que feliz coincidência estar passando
por aqui neste momento. Bem que ouvimos dizer que havia uma nova Empousa no Reino das Rosas. É uma honra conhecê-la... — O sorriso do rapaz brilhou com bom humor.
— Mesmo através de uma barreira de rosas...
— Disse que Floga o convidou?
— Isso mesmo.
— Ela convidou os seus amigos, também? — Mikki tentou evitar um sorriso malicioso, mas falhou miseravelmente. Não era difícil imaginar o elemento Fogo precisando
de quatro homens para apagar sua paixão, mesmo que um deles já se parecesse com Adonis.
Por um instante, Mikki sentiu uma ponta de ciúme da liberdade e facilidade com que a serva podia caminhar ao lado de qualquer homem que escolhesse.
— Não, Empousa — disse um dos que estavam vestidos com quitão. Tinha os cabelos escuros e fartos e um rosto bem talhado, o que a fez concentrar-se outra vez na conversa.
— O elemento Terra é a Sacerdotisa cujo chamado estou atendendo.
— A Água foi quem me chamou, Empousa — disse o terceiro homem.
— E eu tive a sorte de ter sido convocado pelo Ar — explicou o último, que possuía cabelos longos e castanho-avermelhados, além de olhos extraordinariamente verdes.
Caramba, eles eram maravilhosos! Suas servas tinham feito excelentes escolhas.
Mikki sorriu. Precisava perguntar a Gii como funcionava aquela coisa de convidar os homens... Era meio estranho que eles tivessem sido invocados pelas meninas pela
manhã, mas talvez não fosse. Ela ainda não as chamara para trabalhar. Estivera chovendo e, na certa, elas haviam decidido ocupar-se à sua maneira.
Sem dúvida, eram tão inteligentes quanto ela pensava.
— Tenho certeza de que os Quatro Elementos estarão aqui a qualquer instante, portanto, ficarei feliz em deixá-los entrar.
Os olhos do líder se iluminaram e ele curvou-se numa mesura novamente.
— Ser convidado a entrar no Reino das Rosas por sua Empousa é uma honra que não merecemos.
— Ah, isso não é problema. Podemos caminhar para o palácio juntos. Eu já ia voltar para lá.
Sem dizer que ser escoltada por quatro rapazes lindos de morrer não era nenhum sacrifício.
Tampouco era errado, pensou Mikki, sentindo-se dominada por uma súbita revolta. Claro que não era errado! Ela estava apaixonada, não morta. E tudo o que iria fazer
era levar os homens até suas mulheres.
O único motivo escuso que talvez tivesse para tanto era desfrutar um flerte inofensivo. Mas por que não? Sentia-se incrivelmente bonita e amada, mas isso não significava
que quisesse ser controlada e trancafiada em uma gaiola!
Asterius que pensasse duas vezes antes de querer marcá-la como uma novilha premiada... Era isso o que ele esperava dela? Que ela lhe permitisse controlar todos os
seus movimentos?
De repente, sentiu medo de que fosse aquilo mesmo. Afinal, Asterius era um animal, e ela não podia esperar que ele soubesse como tratar uma mulher.
Em algum lugar, nas profundezas de sua alma, algo tentou inserir-se no turbilhão de pensamentos defensivos que borbulharam em sua mente tal qual num guisado rançoso...
Mas não puderem ser ouvidos em meio ao ódio e à inveja, o egoísmo e o medo que gritavam dentro dela.
Meio desnorteada, Mikki foi até o centro do portal e franziu o cenho. Não havia nenhuma maçaneta, nenhuma trava, nenhuma barra de deslizar. Frustrada e muito irritada
com a enorme dor de cabeça que abateu-se sobre ela, levantou a mão e pressionou a palma contra a muralha.
— É a Empousa quem fala. Abra logo essa droga! — murmurou com raiva.
O portal vivo obedeceu.
Os quatro homens deixaram o nevoeiro sorrindo, como se ela tivesse acabado de lhes dar a chave para o paraíso.
Mikki sorriu de volta, distraída, desejando que eles se apressassem a passar para o lado de dentro. Não gostou da aparência da floresta escura e quis fechar o portal
imediatamente.
No instante em que o último homem entrou, ela ergueu a mão de novo e ordenou ao portal que se fechasse, suspirando de alívio quando este obedeceu.
Então, virou-se para os homens.
— O palácio é por ali. — Gesticulou na direção do caminho de mármore mais largo.
— Claro, Empousa. — O loiro sorriu.
Mikki começou a andar, contudo estacou quando o moreno de cabelos escuros bloqueou seu caminho.
— É por aqui — ela repetiu, apontando por cima de seu ombro largo enquanto pensava que ele podia ser bonito, mas, definitivamente, não era a última bolacha do pacote.
— Talvez queira saber nossos nomes antes de nos levar até o palácio, Empousa... — A voz do loiro soou bem atrás dela. Ele estava tão próximo que Mikki pôde sentir
sua respiração nos cabelos.
Os outros dois rapazes entraram em cena para fechar o círculo, de maneira que ela viu-se cercada.
Foi nesse momento que tudo clareou, a dor na cabeça cessou, assim como as emoções desencontradas que vinham fervilhando em sua mente. De súbito, uma certeza terrível
tomou conta de Mikki: eles eram Ladrões de Sonhos e ela abrira o portal das rosas para eles!
Instintos que tinham sido silenciados assim que ela havia começado a conversar com o loiro gritaram para que ela não demonstrasse medo.
Determinada, engoliu a bile que lhe subira à garganta, endireitou-se, majestosa, e encarou o homem de cabelos dourados.
— O que significa isto?
— Nós apenas gostaríamos de nos apresentar, Empousa. Como vê, já a conhecemos bem, pois gostamos de observá-la. Agora queremos que saiba o que convidou tão graciosamente
a adentrar o seu reino. — O charme na voz dele fora substituído pelo sarcasmo, e seus lábios curvaram-se num sorriso de escárnio que distorceu seu belo rosto.
— Não gosto do seu tom e não gosto da sua proximidade — ela declarou, áspera, tentando imitar o tom intimidador de Hécate. — Acho que já é hora de partirem. Decidi
que minhas servas não gostariam de sua companhia.
— Tarde demais. Abriu o portal para nós e agora verá que, uma vez que somos convidados, não costumamos deixar a festa tão cedo... — O moreno estendeu a mão e tocou
uma mecha avermelhada que descansava em seu ombro.
Mikki tentou empurrá-lo, porém ele a agarrou pelos ombros sem nenhuma delicadeza e a segurou no lugar enquanto o loiro cheirava sua nuca. Ela lutou, mas, agarrando-a
pelos cabelos, este a obrigou a virar a cabeça para o lado e, como uma cobra provando sua presa, deslizou a língua por seu pescoço.
— Ah, o doce sabor de uma Empousa! Há séculos não degusto uma iguaria destas.
— Parem com isso! — Mikki choramingou. — Larguem-me!
Surpreendentemente, o loiro obedeceu. Sorriu para ela, mas foi apenas uma exibição de seus dentes perfeitos, e não uma expressão de humor.
— Vamos aproveitar nossa visita em sua companhia, Empousa. Gostamos dessa mudança no clima que providenciou... Um tempo desses é melhor para encobrir o nosso pequeno
rendezvous, embora alguém já tenha tido o prazer de sua companhia esta manhã. — Com os movimentos de um réptil, ele a circundou e arrancou o broche que mantinha
unido o tecido já cortado da túnica.
Mikki congelou de medo. Agarrou-se ao quitão, tentando não vomitar enquanto eles a cercavam mais, apalpando-a com mãos ousadas e devorando-a com os olhos.
— Vamos, Empousa, não seja tímida... Não pode dizer que não me reconhece.
— Ou a mim e aos outros... — a voz do de cabelos castanhos soou abafada a suas costas.
— Olhe bem nos meus olhos, Empousa... Tenho certeza de que já me viu antes. Não me diga que não sabe meu nome.
Ela mirou os olhos incrivelmente azuis do loiro. De súbito, sua cor clara e intensa tingiu-se de um vermelho-sangue, e eles transformaram-se em fendas.
Mikki reconheceu-o então e, quando seu nome ardeu-lhe no pensamento, ela viu-se dominada por uma fúria que solapou todo o medo.
— Tire essas mãos nojentas de mim! — gritou, irada, e o empurrou com violência.
Surpreso, o moreno que a segurava por trás tropeçou e a soltou. Sem perder tempo, Mikki recuou vários passos para longe deles.
O loiro riu e a seguiu devagar.
— Que bom... Gostamos se oferecem resistência. Isso torna as coisas mais interessantes. Afinal, o que vê quando me olha nos olhos, Empousa?
Ela continuou se afastando, contudo ele e os outros a seguiram.
— Um borra-botas louco para ter contato com gente influente! — respondeu, ofegante.
Ele gargalhou.
— Acho que vou ter de lhe ensinar coisas melhores para fazer com essa sua língua afiada. Mas, por hora, me diga, Empousa... Que nome você me dá?
— Ódio — ela respondeu sem hesitação.
O sorriso dele foi aterrador.
— Ah! Vejo que pensa rápido. Talvez eu a leve comigo quando sairmos daqui. Gostaria disso? Sou um homem que conhece intimamente os desejos ocultos das mulheres.
— Homem? Que homem? — Ela riu, sarcástica. — Você não passa de uma criatura desprezível. Um comedor de carniça que se alimenta das carcaças dos sonhos. Mas não me
importa em que tipo de pele esteja disfarçado.
Ele se lançou à frente e a agarrou pelo braço.
— Acha que não sou homem? Pois eu vou lhe mostrar!
Enquanto eles tornavam a cercá-la, Mikki gritou o nome do único homem que preenchia-lhe o coração e a alma.
— Asterius!
— Seu amante, seja lá quem ele for, não vai salvá-la agora. E, se realmente se importa com ele, sugiro que fique bem quietinha... Nenhum mortal pode olhar para nós
sem perder uma parte da própria alma. — O Ódio bufou em seu rosto enquanto agarrava a frente da túnica e a arrancava de seu corpo. — Cubram a boca desta gracinha
e cuidem para que ela não dê um só pio! Neste nevoeiro não há chance de que sejamos descobertos até que seja tarde demais para ela... Tarde demais para todas!
Mikki viu-se arrastada para fora do caminho de mármore até um canteiro de rosas Salet. Lutou, chutando virilhas e pernas, usando as unhas para furar qualquer carne
com que entrava em contato, assim como se aprendia nas aulas de autodefesa nos Estados Unidos.
Mas os quatro logo a dominaram. Empurraram-na para o solo, e ela percebeu vagamente que a terra recém-trabalhada encontrava-se coberta com pétalas de flores destruídas,
como se uma neve cor-de-rosa tivesse caído junto com ela. Um deles a sufocava, e Mikki não conseguiu gritar. Fechou os olhos, então, e, concentrando-se, gritou em
pensamento:
Asterius! Venha!
— Verá se sou homem ou não... — rosnou o Ódio, empurrando para o lado a frente da própria túnica para tomar o membro ingurgitado na mão. — Depois experimentará um
pouco do Medo, do Ciúme e do Egoísmo — completou, rindo de modo insano. — Aliás, que ironia o Egoísmo tomá-la por último... Ou talvez não. Talvez ele opte por ficar
com você definitivamente enquanto visitamos as outras mulheres deste seu reino patético, Empousa.
Mikki captou um movimento em meio à sua visão já escurecida e, no instante seguinte, Asterius pareceu explodir de dentro do nevoeiro com um rugido ensurdecedor.
O Ódio virou-se para enfrentá-lo e, ao fazê-lo, seu corpo ondulou e transformou-se no do Ladrão de Sonhos. Conforme ela imaginara, ele não era humano, mas uma criatura
horrenda que devia existir apenas no mundo dos pesadelos. Tinha a pele escamada e seus olhos de cobra saltavam de uma cabeça dilatada em forma de capuz. Seu corpo
possuía características humanoides, porém ele agachou-se sobre quatro patas, botando uma espuma negra pela abertura da boca feito um réptil.
As garras de Asterius zuniram no ar, abrindo uma trilha de sangue no peito da criatura. Mikki escutou silvos horrendos escapando dos seres que a mantinham cativa,
então viu-se livre de repente quando o Medo, o Ciúme e o Egoísmo postaram-se atrás de seu líder.
Formavam um grupo aterrador. Todos haviam mantido algo de sua forma humana, mas haviam passado por tenebrosas mutações. O Medo era como um cadáver em decomposição,
com garras imundas e um rosto disforme. O corpo deveras humano do Ciúme era coberto por uma planta rastejante que brotava de sua pele como espinhos mortais. Ele
também se pôs de quatro, sibilando e lembrando um monstro do pântano. O Egoísmo tinha um corpo alongado, de onde saíam vários tentáculos, os quais ele agitava enquanto
rangia os dentes horríveis.
E todos enfrentaram Asterius.
O Guardião deu cabo de um por um. O Medo foi o primeiro a tombar, estripado pelas garras da fera. O corpo do Ladrão de Sonhos desabou e, em seguida, dissolveu-se,
transformando-se em uma fumaça vermelha que pairou ao longo dos canteiros de rosas.
Mikki se pôs em pé de um salto e gritou um comando:
— Aeras! Venha até mim!
Instantes depois, o elemento Ar corria até sua Empousa de olhos arregalados.
— Oh, grande Deusa! Salve-nos!
— Hécate não está aqui. Temos de nos defender sozinhas. Aeras, ordeno que seu elemento faça-se presente. Faça soprar um vento forte do Norte e nos livre da fumaça
do Medo. Agora!
Lívida, a moça ergueu ambos os braços. Quando o fez, uma rajada de vento frio soprou sobre eles, carregando a neblina da manhã, bem como a fumaça vermelha que pairava
ao longo da parede, para a floresta.
Um grito de dor fez Mikki arrancar o olhar da nuvem que se dissipava e concentrá-lo na batalha. Os olhos escuros de Asterius faiscavam, e ele rugia conforme desferia
golpe após golpe contra as criaturas do mal, os movimentos precisos tão fascinantes quanto mortais.
Ela prendeu o fôlego, pensando que Asterius era a coisa mais magnífica que já tinha visto.
Ele avançou, golpeou mais uma vez, e o Egoísmo foi ao chão, contorcendo-se, os tentáculos decepados espirrando sangue escuro em um arco vermelho por sobre as rosas.
Tendo o Ciúme agarrado a suas costas, Asterius abaixou o corpo num movimento quase invisível de tão rápido, e o Ladrão de Sonhos foi ao chão no mesmo momento, para
ser perfurado impiedosamente por suas garras na base da espinha.
Ambas as criaturas agonizaram e, depois, também desapareceram em nuvens de fumaça vermelha.
— Outra vez, Aeras! — ordenou Mikki.
Aeras chamou o vento Norte, e este baniu o Ciúme e o Egoísmo para a floresta.
— Sua vagabunda intrometida! — o Ódio gritou para o elemento Ar e, como uma víbora, atacou Aeras.
Mikki foi mais rápida, porém, e empurrou a moça para fora de seu caminho.
O Ladrão de Sonhos colidiu com a Empousa, em vez de sua serva, e Mikki sentiu uma picada lancinante explodir no ombro e no braço, tombando sob ele.
O Ódio gritou, então, e seu corpo curvou-se para trás quando Asterius cingiu-lhe as costas, fazendo brotar vários riscos vermelhos em sua pele.
Com um rugido terrível, o Ladrão de Sonhos agarrou Mikki e virou-se para enfrentá-lo, segurando a Empousa como um escudo.
Asterius reprimiu o ataque.
— Por que hesita, Guardião? Estou protegido de sua ira apenas por uma mulher fraca e mortal. Não está disposto a sacrificar sua Empousa nem mesmo para livrar o reino
do ódio? Surpreendente... — O Ódio soltou uma gargalhada maléfica. — Ah, eu havia me esquecido de que tem uma queda pelas Altas Sacerdotisas de Hécate. — A criatura
esfregou a virilha contra Mikki. — Não que eu o culpe... Esta parece bem madura e no ponto.
O rosnado de Asterius fez os pelos dos braços e nuca de Mikki se eriçarem.
— Eu o farei sofrer pela eternidade por tocá-la! — ele trovejou com a voz de um predador mortal.
— Acho que não, Guardião. Em vez disso, vai abrir o portal para mim, e eu passarei por ele incólume. — A criatura começou a puxar Mikki consigo enquanto recuava
na direção da muralha das rosas. — Se chegar muito perto, bancarei o Destino e estraçalharei a garganta dela. — Apertou uma garra dentada contra o pescoço delicado.
— Isto ainda não terminou — rosnou Asterius, movendo-se junto com o Ladrão de Sonhos e sua refém até a passagem. — Já disse que vou fazer você pagar pela eternidade
por tocá-la.
— O Ódio também nunca termina, Guardião. Já devia saber disso a esta altura. — Ele parou de costas para o portal. — Agora, abra-o para mim, e eu lhe devolverei a
Empousa... ainda que fosse gostar de me divertir com ela por algum tempo. — O Ódio arreganhou os dentes para Asterius antes de inclinar-se e saborear com a língua
o pescoço da Alta Sacerdotisa, em franca provocação.
Foi o bastante para Mikki. Mais do que o suficiente.
— Maldito! — ela gritou, enfiando o polegar no olho esbugalhado do monstro, o qual ele fora tolo o suficiente para aproximar dela.
O Ladrão de Sonhos soltou um grito ensurdecedor e arremeteu para longe.
Mas não antes de Mikki senti-lo perfurar sua pele com uma garra, e também uma onda de calor úmido que se seguiu ao ferimento.
Segurou o pescoço e caiu no chão, percebendo, mesmo com a vista escurecida pela dor, o modo como Asterius agarrou a criatura que debatia-se e torceu seu corpo para
trás até que a espinha do Ladrão de Sonhos partiu-se ao meio com um ruído medonho. Logo depois, ele o arremessou por sobre a barreira de rosas.
No instante seguinte, estava de joelhos a seu lado, gritando seu nome, tocando seu rosto e acariciando-lhe os cabelos.
Mikki tentou sorrir para ele.
Está tudo bem. Não foi culpa sua... Fui eu quem os deixou entrar.
Pensou que estivesse dizendo as palavras em voz alta, mas não conseguia proferi-las.
De repente, suas quatro servas surgiram à sua frente também. E estavam chorando. Mesmo Floga, que ela pensava nem gostar tanto dela...
Queria confortá-las, dizer que não estava com medo. E pedir que, por favor, tratassem melhor Asterius... pois sabia, sem nenhuma dúvida, que estava morrendo.
Capítulo 31
Asterius recusava-se a perdê-la assim. Não para o Ódio. Não quando Mikado havia trazido amor, desejo, carinho e aceitação... sentimentos tão opostos, para sua vida.
Ergueu-a nos braços e encarou os perturbados Quatro Elementos.
— Vamos levá-la até a fonte, Guardião. Lá poderemos lavá-la e depois colocá-la no Templo de Hécate, onde ofereceremos uma oração à Deusa por sua alma — pediu Gii
em meio a lágrimas.
— Ela não está morta! — ele explodiu, e rosnou um aviso quando Gii tentou se aproximar.
— Ainda não... Mas o ferimento de Mikado é mortal e, em breve, seu espírito estará no Reino de Hades — Nera falou com voz entrecortada.
— Não! Não é seu destino morrer hoje!
— As Parcas decidiram o contrário — Aeras replicou suavemente.
— Então eu desafio as Parcas!
— Mas, Guardião, o que pretende fazer? — Floga perguntou.
— Vou reclamar meus direitos de primogenitura.
Erguendo o corpo inerte que sangrava, Asterius passou pelas servas, mas a mão macia de Gii em seu braço o deteve. Quando ele a fitou, a moça encontrou seu olhar
sem hesitação.
— Como podemos ajudá-lo?
Ele ponderou por um instante.
— Vamos para o templo. Talvez o poder dos elementos ajude meu apelo a chegar mais rápido aos ouvidos de Cronos.
Sem esperar para ver se elas o seguiam, Asterius correu com Mikki para o Templo de Hécate, os cascos golpeando ruidosamente o mármore branco do caminho, tentando
não pensar em como ela continuava inerte e quanto de seu sangue lavava seus corpos.
Subiu os degraus do templo de três em três e, estacando diante da chama sagrada da deusa, caiu de joelhos, colocando sua amada ao lado do fogo.
Ouviu as servas entrando no templo logo atrás dele e tomando seus lugares ao redor do círculo.
— Ela ainda está viva? — Gii perguntou, aflita.
Asterius olhou para seu amor. Mikado tinha os olhos fechados e o rosto sem nenhuma cor. O sangue ainda fluía do corte comprido e fino em seu pescoço, e seu peito
subia e descia com dificuldade.
— Está.
— Então faça o que puder, Guardião. Não queremos perder outra Empousa antes que o destino assim exija! — declarou o elemento Terra.
Ele ergueu os olhos para os da moça.
— Convoquem seus elementos e formem o círculo sagrado.
— Você a ama, não é? — Floga indagou de repente.
Seu olhar virou-se para a serva.
— Sim.
— E vai salvá-la apenas para roubá-la de nós depois? — O elemento Fogo quis saber.
— No Beltane, a Empousa do reino encontrará seu destino. Eu lhe dou minha palavra.
— Mesmo que a ame? — Aeras exigiu.
— Há poucos minutos me viram batalhando com o Egoísmo. Não foi a primeira vez que tive de enfrentar esse Ladrão de Sonhos. Mas, desta vez, fui vitorioso. Nunca mais
vou sacrificar os sonhos da humanidade em benefício próprio. — Ele olhou para Mikado e tocou seu rosto gentilmente.
— Então você não é mesmo nenhum animal — Gii declarou com voz embargada.
— Sou, sim — ele retrucou sem olhar para o elemento Terra. — Mas também sou um homem. E o amor de Mikado fez do homem o mais forte das duas criaturas.
— Os Quatro Elementos irão ajudá-lo a salvar seu amor, Guardião — declarou Gii, acenando para Aeras. — Pode começar.
Aeras ergueu os braços para o alto.
— Invoco-te, ó Ar, para o círculo sagrado!
Imediatamente, o ar começou a se mover.
Como uma reação em cadeia, Floga elevou os braços, invocando seu elemento.
— Que venhas até mim, Fogo!
— Água! — gritou Nera. — Eu te convido a participar!
— Terra! Chamo-te para completar o círculo e ampliar os poderes do Guardião que abrigamos aqui! — entoou Gii.
Asterius sentiu o poder dos elementos na pele. Abaixou a cabeça e levantou as mãos manchadas com o sangue de sua amante. Em uma voz ampliada pelo Ar, pelo Fogo,
pela Água e pela Terra, bem como pela fera dentro dele, gritou para os distantes confins do Céu.
— Cronos, meu pai! Grande deus do Mundo e dos Tempos, Titã dos Céus e da Terra! Eu te invoco pelos teus antigos nomes, bem como por aquele que meu sangue me permite...
Vivi por muitos séculos sem te rogar por governo, poder, amor ou aceitação, mas hoje te peço, por direito de nascimento, que me dês o poder de salvar esta mortal.
Sua linha da vida foi cortada antes do tempo e ainda não desfiou até o fim.
A chama sagrada se agitou, e no interior da luz tremeluzente o rosto de um homem apareceu. Não se podia definir sua idade, mas era bem talhado, como se esculpido
em rocha pelo tempo e experiência. Um rosto que ele teria reconhecido em qualquer lugar, pois refletia o seu quase completamente.
— Pai! — disse Asterius, inclinando a cabeça.
O Titã mal o fitou. Em vez disso, apontou o queixo na direção de Mikado.
— É esta a mortal que deseja salvar?
— Sim!
— Ela é Empousa de Hécate? — indagou Cronos.
— É...
— Então sua salvação será apenas temporária.
— Ela ainda não viveu seu tempo de direito! Ainda não é Beltane — lembrou Asterius.
— Quem fez isso a ela? — O Titã quis saber.
— O líder dos Ladrões de Sonhos: o Ódio. Não posso deixá-la morrer pelas mãos daquela criatura.
Cronos voltou a atenção para o filho.
— O ódio a matou e você deseja que seu amor a salve?
Asterius contraiu a mandíbula, mas assentiu com um gesto de cabeça.
— Sim.
— Ah, o amor! — Cronos riu. — Estou surpreso com sua fraqueza, Guardião.
— Aprendi que o amor só é fraco quando é egoísta — ele retorquiu num claro desafio.
Uma ponta de surpresa brilhou na face do deus.
— Você me faz lembrar de sua mãe.
— Talvez porque ela também tenha enfrentado a fraqueza daqueles que amam de modo egoísta.
Cronos franziu o cenho.
— Não estou habituado a ser insultado quando solicitam meu auxílio!
— Não pretendia insultá-lo. Eu só disse a verdade — replicou Asterius, tenso.
— Independentemente disso, já me cansei desta conversa.
— Cronos! Perdoe-me, eu não...
— Silêncio! — A chama se agitou e o chão do templo da deusa tremeu. — Eu ainda não acabei... Concedo seu pedido. Pode compartilhar parte da imortalidade que habita
em seu espírito com a Sacerdotisa. Uma parte muito pequena, porém. Ela vai escapar do reino de Hades apenas uma vez. E saiba que há um preço para a centelha de imortalidade
que partilhar com ela. Mesmo depois que a Empousa morrer, vai carregar consigo esse pedaço de seu espírito. E você só irá se sentir completo quando ela estiver a
seu lado. Quando ela já não estiver neste reino, seu coração ficará vazio, e seus dias serão preenchidos com a solidão. Pense com cuidado antes de fazer essa escolha.
— Eu já fiz minha escolha. Sabia do ônus, caso me permitisse amá-la, e o aceitei. Pela vida de Mikado, não me importaria em aceitá-lo novamente.
— Muito bem. É seu direito de primogenitura que está usando para me pedir uma bênção. Mas não me incomode de novo. Você escolheu Hécate, e é à deusa que deve recorrer
no futuro.
E, sem mais nenhuma palavra, o Titã desapareceu no fogo.
Asterius olhou para Mikado. Seu pai lhe havia concedido a capacidade de salvá-la, mas como?! Ele teria de dar a ela uma parte de sua imortalidade, um pedaço de seu
espírito...
De repente, ele soube. Devagar, inclinou-se sobre Mikado e tocou-lhe os lábios com os dele. Conforme a beijava, desejou que ela vivesse para que pudesse compartilhar
de sua vida e aceitá-lo mais uma vez.
Mikado se moveu, suspirou suavemente contra sua boca... Então, entreabriu os lábios e seu beijo se aprofundou.
Quando Asterius se ergueu, seus olhos estavam abertos e ela sorria para ele.
— Ela está viva! — gritou Gii, extasiada.
As servas riram e choraram ao mesmo tempo, enquanto fechavam o círculo e corriam para sua Empousa.
Mikki sentou-se e piscou, confusa, sem saber ao certo onde estava e por que motivo Asterius encontrava-se ajoelhado a seu lado, segurando sua mão diante dos Quatro
Elementos.
Olhou ao redor. Aquele era o Templo de Hécate? Alguma coisa estava errada. Não devia estar ali. Devia estar inspecionando a muralha das rosas para certificar-se
de que...
De súbito, tudo voltou à sua mente.
— Os Ladrões de Sonhos! — exclamou, tentando ficar de pé, mas vendo-se tão fraca que seu menor movimento fazia o templo girar ao redor.
— Sshh... — Asterius a tranquilizou. — Tudo está bem agora. Os Ladrões de Sonhos foram banidos do reino.
— Eu sinto muito! — Ela olhou de Asterius para as servas.
— Empousa, não precisa se desculpar! Ladrões de Sonhos são mestres em manipulação. Devíamos tê-la precavido melhor — falou Gii, agachando-se para segurar sua outra
mão.
— Sim! — Nera assentiu com um gesto ansioso de cabeça, como se isso pudesse convencê-la. — Como iria desconfiar das tramas insidiosas que eles costumam tecer?
— Mas eu os deixei entrar! Eles me disseram que... Oh, Deus! As coisas que eles me fizeram pensar e sentir! Foi terrível.
Aeras sorriu em meio às lágrimas que banhavam-lhe o rosto e tocou-lhe os cabelos com reverência.
— Foi muito corajosa ao levar o golpe que o Ódio planejou para mim, Empousa.
Mikki tinha se esquecido daquilo tudo e olhou para si mesma, nervosa. Estava coberta de sangue! Como podia ter perdido tanto sangue e continuado viva?
Lembrou-se da dor no ombro, mas, quando olhou para ele, não viu nada, a não ser a pele manchada de vermelho.
Mas existia algo mais. Algo muito pior...
Seus olhos se arregalaram, e ela sentiu uma onda de vertigem. O Ódio cortara sua garganta e ela havia praticamente morrido!
E agora encontrava-se viva outra vez.
Devagar, ergueu os olhos para os de seu amante.
— Acabou — disse Asterius.
— Eu estava morrendo! — ela sussurrou.
— Eu jamais permitiria que isso acontecesse.
— O Guardião a salvou! — Gii explicou em meio a um soluço.
— Salvou todas nós — corrigiu Aeras, enxugando o rosto.
— Nunca iremos esquecê-lo — jurou Floga.
— Nunca! — Nera reforçou, comovida.
Mikki sorriu para os Quatro Elementos.
— Ele fez o que qualquer homem honrado faria para proteger sua casa e aqueles que ama. — Passou os braços ao redor do pescoço forte e, emocionada, sussurrou ao ouvido
de Asterius: — Leve-me para casa.
Capítulo 32
Asterius carregou-a pelo jardim. Normalmente, Mikki não gostaria de ser transportada como uma criança, mas não tinha certeza de que teria condições de caminhar sozinha,
pois ainda sentia-se fraca e doente.
E precisava estar nos braços dele. Precisava sentir sua pulsação contra o peito para confirmar a si mesma que continuava viva.
— O Ódio me enganou — disse baixinho, a cabeça recostada no ombro largo.
Os braços de Asterius seguraram-na com mais força.
— É o que os Ladrões de Sonhos costumam fazer. Eles contaminam os mortais até seu veneno distorcer os pensamentos, enfraquecer os sonhos e fazê-los morrer. Não se
castigue por ter sido vítima do que vem destruindo as ilusões dos mortais há eras.
— Pensei coisas terríveis. Senti que estava cheia de... — Mikki estremeceu e não conseguiu continuar.
— Você foi envenenada por ódio, inveja, medo e egoísmo. Não eram seus pensamentos, Mikado; eram apenas sombras de sua mente contaminada. Não deve se punir pela maldade
deles, pois isso seria premiá-los. Se eles continuam afetando sua vida, mesmo depois de terem sido banidos, então não foram derrotados.
— Nunca mais vou permitir que eles me enganem. E jamais entrarei naquela maldita floresta outra vez! — Ela ergueu a cabeça para fitá-lo. — Como pode suportar? Como
pode sair e colher as tramas da realidade, sabendo que eles estão lá fora também, observando e esperando por uma chance de atacar?
— É meu destino combatê-los. Muitos deles são meus velhos inimigos.
— Não tem medo?
— Apenas quando penso no que aconteceria se eu falhasse e permitisse que eles adentrassem o reino de alguma maneira.
— Mas você nunca vai falhar...
— Não. Não posso.
Mikki o observou, preocupada. Asterius parecia exausto, e ela rezou para que ele não tivesse que lutar com os Ladrões de Sonhos tão cedo, ou até que estivesse recuperado.
— Ah, meu Deus... Ponha-me no chão. Tem que voltar e certificar-se de que a muralha das rosas está preservada, e de que nenhuma daquelas coisas permaneceu no reino!
— O reino está seguro. O vento Norte soprou os últimos vestígios de maldade para o fundo da floresta.
— Mas não precisa voltar e verificar se tudo está mesmo no lugar?
— Está tudo certo, Mikado. Quando os Ladrões de Sonhos são enfrentados e derrotados, não costumam atacar tão cedo. Eles sabem que, uma vez que foram reconhecidos,
seu poder de destruir vidas é drasticamente enfraquecido. Vão recuar para lamber suas feridas e planejar um novo ataque para outro dia.
— O Ódio me disse que ele nunca termina.
— É verdade. Devemos sempre nos proteger contra ele.
Mikki lembrou-se de algo que tinha lido uma vez, e recitou as palavras em voz alta:
— “O bem derrotado é mais forte que o mal triunfante”. — Tocou-o no rosto. — Você luta do lado do bem.
— E não vou permitir que o mal triunfe.
— E eu também não vou deixar que ele afete minha vida; ele não vai me derrotar. — Ela deitou-se no ombro largo. — Como impediu que eu morresse?
— Supliquei a Cronos por uma bênção — Asterius contou, calmo.
Mikki tornou a levantar a cabeça.
— Seu pai?!
Ele assentiu em silêncio.
— Falou com seu pai?
— Brevemente.
— Quanto tempo se passou desde a última vez em que falou com ele? — Mikki quis saber, preocupada com a expressão estranha que endureceu o rosto moreno.
— Eu nunca falei com ele antes.
Ela o estudou, desejando poder apagar os séculos de dor e solidão do passado de Asterius e sentindo raiva do Titã arrogante que havia gerado um filho de maneira
tão audaciosa para depois descartá-lo. Não sabendo mais o que fazer, beijou-o suavemente no rosto.
— Obrigada por ter salvado minha vida.
O rosto dele suavizou-se em um sorriso.
— Eu só estava retribuindo um favor, Empousa. Lembre-se de que também me trouxe de volta à vida.
— Verdade. — Ela beliscou-lhe o queixo de leve. — E eu prefiro você assim.
— Porque descobriu que estava cansada de andar e gostou de ser carregada pelo seu Guardião?
Mikki riu.
— Bem, diz a mitologia que o Minotauro era metade touro; mas não creio que os touros sejam animais de carga muito bons... Há boatos de que eles não são dóceis o
suficiente.
— Nesse caso os boatos são a pura verdade — ele concordou, dando-lhe um beijo rápido e intenso que terminou com um rosnado.
Quando chegaram ao covil de Asterius, Mikki estava cansada de ser carregada, embora a caverna oscilasse um pouco sob seus pés.
Ainda mais quando ela percebeu a própria túnica esfarrapada e pegajosa de tanto sangue.
— Vou vomitar até o cérebro se não me livrar disto logo! — resmungou e olhou para seu Guardião numa súplica. — Acho que terá de me carregar escadaria acima até as
piscinas...
Asterius ergueu-a nos braços novamente, mas, em vez de sair da caverna, rumou para o próprio quarto.
— Ei... Sei que minha cabeça ainda não está cem por cento, mas tenho certeza de que está indo na direção errada! Não que eu não queira que você me leve para seu
quarto... Mas só depois que eu me livrar disto tudo.
— Acabamos nos esquecendo de sua turnê pela minha casa, lembra-se?
— Nós não nos esquecemos de nada: fomos interrompidos.
— Então deixe-me mostrar o restante do covil... sem interrupção.
Ele carregou-a através do quarto, depois em direção a uma porta arredondada, a um canto que ela não havia notado antes. Esta abria-se para um túnel iluminado por
tochas, ao final do qual avistou outra porta igual que, observou com surpresa, era emoldurada pela luz solar.
— Sabe de uma coisa? — Mikki fez uma pausa, pensando, enquanto eles aproximavam-se da luz. — Este lugar não se parece em nada com uma toca. É tão confortável e bonito!
Acho que deveria chamá-lo de... — Asterius abriu a porta para um cômodo grande e redondo, cujo teto abria-se para mostrar o céu claro da manhã e permitia que o vapor
de uma banheira cheia de água quente escapasse. — ...paraíso! — ela exclamou, maravilhada.
Ele riu e a pôs no chão outra vez.
Em segundos, Mikki tirou o que restara da túnica e, com um gemido de satisfação, desceu com passos suaves os degraus da piscina, afundando na água deliciosamente
quente. Ouviu Asterius proferindo as palavras mágicas que costumava usar para conjurar as coisas e virou a cabeça a tempo de ver duas cestas surgindo do nada. Uma
delas encontrava-se cheia de garrafas de sabão, toalhas limpas e vários metros de tecido macio para que fizesse outro quitão. A outra, Mikki suspirou, feliz, estava
repleta de comida.
Asterius ergueu uma garrafa de cristal da cesta e sorriu para ela. Mikki sorriu de volta, querendo saber por que, de repente, ele parecia tão tímido.
— O que foi?
— Seu sabão — ele explicou, segurando a garrafa.
— Eu não estava me referindo ao frasco... Só queria saber o porquê dessa sua expressão.
— Eu queria perguntar uma coisa.
— Está com uma cara... — Ela riu. — É impressão minha ou teve alguma ideia? — Sentindo-se renascer na água mineral quente, Mikki abriu um sorriso sexy.
— Eu... gostaria de lhe dar um banho — Asterius murmurou de uma vez.
Mikki ficou chocada diante do profundo rubor que tingiu a pele cor de bronze.
— Eu adoraria que fizesse isso.
Ele caminhou até a beira da piscina de pedra e pousou a garrafa de cristal. Então livrou-se da cuirasse e da túnica curta que usava por baixo.
Mikki adorou observá-lo e ver o corpo forte ficar cada vez mais exposto. Asterius era tão poderoso; uma mistura tão incrível de homem e animal!
Mas não era apenas seu corpo que unia dois extremos. Sua mente também era um misto de ferocidade e compaixão, inocência e sabedoria, características que se mesclavam
para formar um ser extraordinário, diferente de qualquer outro que poderia existir em qualquer mundo.
Estava tão distraída em sua contemplação que apenas quando ele entrou na piscina foi que percebeu: o sangue no corpo de Asterius não tinha vindo apenas das feridas
dela. Os braços fortes estavam cobertos de cortes e marcas de mordidas.
— Eles o machucaram! — Mikki puxou-o para baixo, aflita para mergulhar os ferimentos na água quente e limpa. — Eu sou mesmo uma idiota! Tem alguma bandagem aqui?
Urgh, alguns destes vão precisar de pontos! Não é possível que não haja uma médica neste reino. Vamos limpar esses cortes, depois vou pedir que a chamem e...
Ele segurou-a pelos pulsos.
— Não preciso de nenhuma curandeira.
Ela franziu o cenho.
— Escute, eu trabalhei em um hospital. Ouça bem o que eu digo, você precisa de um médico!
Asterius sorriu e beijou-a delicadamente.
— Sua preocupação aquece meu espírito.
— Que bom. Isso me faz bem. Pois saiba que iria aquecer meu espírito se me deixasse chamar uma médica.
— Mikado, eu sou imortal... Não preciso de médicos. As feridas irão se curar sozinhas.
Ainda franzindo a testa, ela levantou um dos braços musculosos.
— Tem razão! Elas já estão sarando!
— Satisfeita agora?
— Estou perplexa — Mikki confessou —, mas aliviada. — Espirrou água sobre a pele morena, tocando as marcas de mordida recém-curadas e observando enquanto a carne
se refazia. — Existe algum ferimento do qual não pode se recuperar?
— Se você dissesse que não me amava mais, iria me destruir.
Ela encontrou os olhos castanhos.
— Então vai viver para sempre.
Asterius sorriu e apanhou a garrafa de cristal da borda da piscina.
— Deixe-me mostrar o quanto gosto de você, Mikado...
Ela ficou em pé, de modo que a água da piscina só a cobrisse até a cintura. Tomou a garrafa das mãos dele e despejou uma quantidade generosa do líquido viscoso sobre
o pescoço, braços e seios antes de colocá-la de volta na borda. A inebriante fragrância da unção da Empousa mesclou-se sutilmente a seu calor, o que a tornou única.
Devagar, Asterius deslizou as mãos sobre sua pele lisa e macia. Acariciou-lhe o pescoço e os ombros, então tocou-lhe os seios e a carne sedutora do ventre firme.
Em seguida, suas mãos desceram abaixo da cintura delgada, carregando o sabão com perfume de rosas até as coxas de Mikki.
Ela sentiu-se liquefazer com seu calor. Os dedos de Asterius encontraram o caminho para seu âmago, onde ele os usou para acariciá-la com breves movimentos circulares,
depois se afastaram, voltando a provocá-la no ventre e nos seios antes de retornar para seus recantos mais secretos.
Partes adormecidas do corpo de Mikki pareceram ganhar vida, deliciando-se com o calor da água que continuava a afagá-las mesmo quando ele seguia em frente com as
carícias.
Asterius virou-a e, desta vez, ele mesmo derramou o sabão líquido por sua espinha. Com os joelhos fracos, ela inclinou-se sobre a borda da piscina, enquanto mãos
quentes acariciavam-lhe as costas e, em seguida, mergulhavam em conjunto para afagar suas nádegas.
— Lembra-se da última vez em que entrei em seus sonhos?
Mikki sentiu o hálito quente no meio das costas conforme Asterius ficava de joelhos e prosseguia, com mãos diligentes, por toda sua pele.
— Claro que sim! — respondeu com voz rouca. Percebeu as mãos dele deslizando por seu corpo e recostou-se no corpo másculo com um suspiro quando estas subiram por
suas coxas.
— Estávamos em um poço de rosas — a voz grave vibrou em seu ouvido, enviando ondas de prazer. — Eu estava sobre você, e abriu as pernas para mim... — Dedos hábeis
encontraram seu centro, e os carinhos aumentaram. — Eu estava excitado e, ao pressionar o corpo contra o seu, esfregando-o e acariciando-o, pude sentir sua umidade
e calor, bem como quando retesou-se e explodiu de prazer...
Com um grito abafado, Mikki atingiu o clímax rápida e intensamente.
Asterius virou-a para ele, então, e, num movimento rápido, ergueu-a acima da água e penetrou-a enquanto seu corpo ainda pulsava.
Mikki arqueou-se para encontrá-lo, usando a borda da piscina como apoio. As mãos dele agarraram seus quadris e, com um grunhido gutural, Asterius estendeu as garras,
mal controlando a força de suas estocadas, o membro mergulhando dentro dela seguidas vezes.
Mikki não fechou os olhos. Queria vê-lo, assistir à assustadora beleza de seu rosto enquanto ele a amava. Sentia a pele ultrassensível, e ondas de prazer a sacudiam
a cada vez que as garras longas a feriam de leve.
O ruído dos corpos movendo-se em conjunto, somado ao modo como a voz rouca de Asterius repetia seu nome, tornou-se uma erótica sinfonia, e um crescendo de prazer
rompeu por todo seu corpo, tão intenso que beirou a dor...
Lânguida e satisfeita, Mikki desabou sobre ele, respirando com dificuldade. Sorriu, exultante, de encontro ao peito largo, até perceber que não era apenas o cansaço
que o fazia tremer violentamente.
Alarmada, ela recuou, vendo Asterius de olhos fechados e lágrimas escorrendo por sua face.
— Asterius? — Segurou-o pelo rosto. — O que aconteceu?
Ele abriu os olhos e beijou-a em uma palma.
— Nada... Acho que fiquei sozinho por tanto tempo que não estava preparado para a felicidade que me proporcionou. — Tocou as próprias lágrimas, desconcertado, como
se só então houvesse percebido que chorava. — Isso me faz parecer ainda mais tolo.
— Não, meu amor! — Ela sorriu, comovida. — Faz você parecer humano.
Capítulo 33
Asterius e Mikado não deixaram o covil. Comeram e discutiram várias mudanças que Mikki queria implementar no reino.
Assim como delimitar horários para a abertura do portal, de modo que os homens pudessem entrar e sair sem comprometer a segurança. Como o clima vinha ficando cada
vez mais frio com a proximidade do inverno, também decidiram que Floga aqueceria os jardins, mesmo que por pouco tempo, durante a parte mais escura da noite. A mancha-negra,
uma das piores pragas para as plantas, Mikki explicou a Asterius, costumava aumentar no frio; e era de difícil tratamento uma vez que se espalhasse.
Mikki adorava conversar com Asterius, e não demorou muito a perceber por quê: ele a escutava.
Tentou lembrar-se do último homem que a escutara de verdade e não conseguiu. Nenhum tinha demonstrado tanto respeito e interesse por ela como seu guardião. Aquilo
era uma ironia. Um ser que nem era literalmente um homem sabia por instinto o que muitos deles pareciam não ser capazes de apreender: que as mulheres queriam ser
ouvidas e respeitadas. Simples assim.
Asterius a emocionava. Ele era de um encanto do qual ela, sabia, nunca iria se fartar. Amava a alegria que sentia apenas em tocá-lo, em acariciar aquele corpo incrível
e saber que este era dela...
Naquela noite, eles fizeram amor sobre o catre forrado de peles, descobrindo com imensa ternura outros segredos em seus corpos. Mikki ficou deliciada ao perceber
que Asterius era tão sensível que qualquer carícia deixava-o excitado e pronto para ela.
Uma vez saciados, adormeceram nos braços um do outro, sentindo-se seguros de seu amor, e com a certeza de que o dia seguinte eles também passariam juntos.
— Empousa! Tem que vir aqui!
Mikki pensou que estivesse sonhando. Sabia que encontrava-se na cama com Asterius, pois pôde senti-lo retesar-se e erguer-se do catre, mas também ouviu a voz aflita
de Gii. O que a serva estava fazendo no covil de Asterius?!
Então sua mente nublada pelo sono clareou, e ela despertou por completo.
— O que aconteceu? — Asterius indagou em voz alta, vestindo a túnica e prendendo a cuirasse.
— As rosas... — Mikki sentiu a boca seca, e seu estômago se apertou. — Gii, o que aconteceu com as rosas?!
A serva adentrou o quarto, o rosto pálido, e correu até sua Empousa, envolvendo o corpo nu de Mikki no quitão enquanto explicava tudo em frases curtas.
— Os outros Elementos e eu fomos até o portal das rosas ao amanhecer. Queríamos ter certeza de que não haveria nenhum vestígio da violência de ontem para perturbá-la...
— A voz da moça tremeu. — Elas estão morrendo, Empousa. Todas elas!
— As rosas! — exclamou Mikki.
Embora não fosse uma pergunta, Gii confirmou:
— Sim.
— A muralha... ela ainda está intacta? — indagou Asterius.
— Está, e não há Ladrões de Sonhos no reino. Não há ninguém suspeito aqui. Temos certeza de que todos os homens partiram ontem, e nenhum deles foi convidado a retornar.
— Preciso ir — Asterius disse a Mikki.
— Sim, vá... depressa! Estarei bem atrás de você!
Ele fez uma pausa, apenas para tocar seu rosto numa delicada carícia, antes que o som de seus cascos ecoasse nas paredes da caverna conforme batia em retirada.
— Depressa! — Mikki incitou a serva. — Preciso ir para lá também.
Minutos depois, as duas corriam para o jardim.
Mikki sentiu a mudança no instante em que saiu do covil: sua cabeça começou a latejar, e uma onda de náusea subiu-lhe a garganta.
— Mostre-me o caminho mais rápido para o portal! — ela pediu a Gii, e as duas prosseguiram correndo, sem fôlego para falar mais.
As mulheres estavam reunidas em torno das roseiras que cercavam a passagem na muralha, agitando-se como um rebanho de ovelhas assustadas, e Mikki logo compreendeu
por quê. Era pior do que ela imaginara.
Aflita, abriu caminho entre elas, lançando apenas um olhar na direção dos canteiros onde as flores agonizavam. Precisava chegar logo ao cerne da doença que afligira
as rosas tão repentinamente, e sabia que iria descobri-lo no portal.
Passou pelo último grupo de mulheres e estacou. Asterius já encontrava-se sob a passagem, o olhar aguçado estudando a floresta enquanto andava de um lado para o
outro. Os outros três Elementos não o observavam, pois concentravam-se nas flores dos canteiros que ladeavam o portal, os rostos tensos e sem cor. Quando a viram,
correram a seu encontro.
— Empousa, que coisa terrível! — sussurrou Aeras.
— O que aconteceu com elas? — Nera indagou, mantendo a voz baixa.
— Não sei. Não posso dizer ainda. Abram espaço e deixem-me examiná-las. —Mikki sentiu a pressão do medo quase tanto quanto a doença das rosas. — Façam com que todas
as mulheres recuem.
Todos os Elementos, exceto o elemento Terra, correram para falar com os diversos grupos que observavam o cenário, perplexos.
— Não peça que eu me afaste também — Gii declarou. — Parece estar prestes a desmaiar e quero ficar a seu lado. Se cair, estarei por perto para segurá-la.
— Eu também — reforçou Asterius, juntando-se às duas.
— Foram os Ladrões de Sonhos? — Mikki perguntou.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Não há sinal deles. Não dentro do reino, tampouco na floresta, até onde posso ver ou sentir. — Asterius olhou as rosas ao redor. — Mas, pelo visto, eles não precisam
estar presentes para causar destruição.
Mikki respirou fundo.
— Vamos ver o que posso fazer para consertar isso tudo.
Gii e o Guardião a acompanharam enquanto ela movia-se lentamente de canteiro em canteiro, examinando cada flor.
Mas logo Mikki esqueceu-se de que eles estavam por perto. O estado das rosas deixou-a arrasada. Ela nunca tinha visto tal devastação. As flores pareciam ter sido
atacadas por uma mistura de ferrugem e cancro, e depois queimadas de dentro para fora. As folhas estavam enrugadas e cobertas por fungos de uma espécie que ela não
conhecia. Eram pegajosos e cheiravam a carne podre. As hastes dos arbustos encontravam-se enegrecidas, com partes inchadas tal como artrite nas juntas de uma idosa.
Os botões, murchos e do tom roxo dos hematomas.
Endireitou o corpo após inspecionar outro arbusto morto e olhou o restante dos jardins com um calafrio. A ferrugem espalhara-se como uma onda venenosa. Aquilo não
era normal. Certamente a peste fora levada para o reino pelos Ladrões de Sonhos. E algo lhe dizia que se propagara por meio da nuvem vermelha em que cada criatura
do mal tinha se dissolvido. Pelo visto, elas não haviam sido exterminadas.
Na verdade, não acreditava que criaturas como aquelas pudessem ser eliminadas. O Ódio, o Ciúme, o Medo e o Egoísmo eram emoções que sempre pairavam sobre a humanidade,
esperando por sua chance de atacar e destruir seus sonhos. Podiam ter sido banidos do reino, mas não a tempo de serem impedidos de espalhar seu mal.
E ela não fazia ideia de como lutar contra o que infectara suas rosas por intermédio de tais monstros.
— Empousa? — Gii chamou timidamente. — O que podemos fazer para salvá-las?
Mikki olhou do elemento Terra para seu amante. Ambos a fitavam com preocupação; contudo, ela também podia ver a esperança em seus olhos e a confiança que tinham
nela.
— Eu... preciso pensar. Fiquem aqui. Quero ficar sozinha por um momento — pediu, e afastou-se deles.
Deixou os canteiros que agonizavam e desceu o caminho de mármore que levava ao portal das rosas, pensando em sentar-se debaixo do antigo carvalho e elaborar um plano.
Qualquer plano.
Um toque de cor chamou sua atenção, e ela parou para olhar. Flores cor-de-rosa saudáveis e em plena floração enchiam duas roseiras em meio a um canteiro onde inúmeras
outras secavam e pereciam. Correu para os arbustos, aspirando o perfume doce e acariciando o verde vibrante de suas folhas, como se fossem filhas pródigas e recém-chegadas.
Rosas Salet, reconheceu de imediato. Com suas pétalas duplas e floração abundante, eram uma de suas Old Garden favoritas. Mas por que aqueles dois arbustos tinham
sido poupados daquela praga mortal?
Olhou ao redor, buscando outros pontos de destaque em meio ao mar de podridão e doença. Avistou um vermelho, próximo ao viveiro do portal das rosas, e caminhou rapidamente
até lá. Três arbustos que beiravam o canteiro também encontravam-se em plena floração. Sua cor e perfume intensos identificavam a flor como uma Chrysler Imperial.
O que aqueles dois tipos de rosa possuíam em comum? A Chrysler Imperial era uma Rosa-Chá Híbrida, e a Salet, uma variedade de Old Garden. Uma era vermelha, a outra,
rosa. E elas não encontravam-se próximas umas das outras. Mikki olhou para as flores cor-de-rosa e saudáveis que floresciam alegremente, alheias à destruição a seu
redor, e estremeceu. Aquele não era o canteiro de rosas Salet sobre o qual os Ladrões de Sonhos a tinham forçado a se deitar? Eles haviam pretendido estuprá-la ali.
Por sorte, Asterius chegara e...
Segurou o ar nos pulmões. Sabia por que aquelas rosas tinham sobrevivido e se desenvolvido em meio a tantas outras que sucumbiam. Sabia o que aqueles cinco arbustos
possuíam em comum... Seu sangue tocara cada um deles.
Cambaleou até um banco próximo e sentou-se antes que seus joelhos cedessem. Estava no canteiro de rosas Salet quando sofrera o golpe no ombro.
Tocou-o, lembrando-se de como sangrara em profusão.
Pouco depois, já perto do portal, o Ódio cortara-lhe a veia da garganta...
Mikki fechou os olhos. Lembrava-se vagamente de ter ficado jogada no chão, metade do corpo sobre o canteiro, conforme o sangue fluía de seu corpo.
E seu sangue havia salvado as rosas. Ele as tinha protegido do veneno dos Ladrões de Sonhos.
Afundou o rosto nas mãos e tentou compreender a enormidade de sua descoberta.
Meu sangue as salvou! As palavras ecoavam em sua cabeça.
— Mikado, as mulheres aguardam suas instruções.
Ela ergueu o olhar, piscando na tentativa de clarear a visão. Asterius ajoelhou-se ao lado do banco e enxugou suas lágrimas.
— Confie em si mesma, meu amor. Vai descobrir uma maneira de curá-las.
Mikki mirou os olhos escuros e expressivos, e soube que o que ele dizia era verdade. Sabia como curar as rosas e confiava em si própria.
Agora, tudo o que precisava fazer era encontrar forças para agir.
— Vou ao Templo de Hécate para falar com as mulheres. Peça aos Quatro Elementos que as reúnam e me encontrem lá.
— Sim, minha Empousa — concordou Asterius. Então se curvou, tomou sua mão e a beijou delicadamente.
A Empousa postou-se no templo alto, com os Quatro Elementos formando um semicírculo atrás dela. Asterius se pôs por trás de todas, próximo da chama ardente da deusa.
Mikki olhou para o imenso grupo à sua frente. As mulheres permaneceram em silêncio, com uma expressão grave de preocupação e medo nos rostos, a atenção voltada para
sua Sacerdotisa.
Ela ergueu o queixo e respirou fundo, projetando a voz.
— Temos muito trabalho a fazer. Precisamos nos concentrar e agir rápido. A praga que está matando as rosas tem de ser detida, e eu lhes dou minha palavra de que
sei como fazer isso. — Fez uma pausa quando um suspiro de alívio ondulou através da multidão. — Não iremos nos dividir em quatro grupos desta vez. Todas nós precisamos
nos concentrar na área próxima ao portal das rosas e começar a trabalhar a partir de lá. Em primeiro lugar, quero que tragam para os jardins baldes do mais forte
vinho que houver no reino. — Mikki viu os olhares de surpresa no rosto das mulheres e quase sorriu. — O que vão fazer é podar todas as rosas doentes. Em seguida,
amontoem suas hastes do lado de fora da muralha das rosas, onde Floga irá queimá-las. Conforme forem passando de arbusto em arbusto, não se esqueçam de mergulhar
suas lâminas nos baldes de vinho. Ele irá ajudar a impedir que a doença se propague para partes das plantas que não tenham sido infectadas. Suas facas devem estar
bem afiadas, e precisam fazer os cortes na diagonal. — Percorreu todo o grupo com o olhar, buscando a confiança nos rostos das mulheres.
— Alguma pergunta?
Ninguém falou.
— Então, vamos ao trabalho.
As mulheres partiram em grupos rapidamente, dispostas a reunir as ferramentas de corte e vinho, e Mikki virou-se para suas damas de companhia.
— Eu não estava exagerando. Temos que trabalhar muito e rápido. Essa praga não está se alastrando a um ritmo natural. — Seus olhos encontraram os de Asterius nas
sombras.
— Asterius, embora eu não goste da ideia de abrir esse maldito portal, meus instintos me dizem que queimar as rosas doentes dentro do reino seria um erro terrível.
— Pois siga seus instintos, minha Empousa. Estarei por perto para guardar a passagem.
— Eu sei que sim. Por isso mesmo não tenho medo de abri-la. — Ela sorriu para as servas, lutando para conter as lágrimas que ameaçavam escorrer por sua face. — E
sei que cada uma de vocês vai fazer o que for preciso para ajudar a curar as rosas. Tenho orgulho de todas e acredito em sua capacidade. O Reino das Rosas vai prosperar
novamente, eu prometo.
— Também acreditamos na sua força, Empousa — afirmou Gii. Então caminhou até Mikki e a beijou no rosto antes de fazer uma reverência e afastar-se correndo em direção
aos jardins.
— Confiamos em você, Empousa — reforçou Aeras, e também a beijou antes de curvar-se numa mesura graciosa e partir.
O elemento Água avançou a fim de ter sua chance de beijar a Alta Sacerdotisa, porém Mikki a deteve e fez um gesto com a cabeça na direção da construção maciça que
borbulhava ao lado do Templo de Hécate.
— Nera, eu me lembro de alguém ter dito que esse chafariz é a principal fonte de irrigação do reino. Isso é verdade?
— Sim.
— Os corredores de água chegam mesmo a todas as roseiras?
— Sim, Empousa. — Nera sorriu e continuou: — Antes de sua ordem para que meu elemento visitasse o reino todas as manhãs, raramente chovia aqui.
Mikki devolveu o sorriso caloroso da serva.
— Obrigada... É bom saber.
— Vamos apoiá-la, Empousa — emendou Nera, e a beijou, partindo logo depois.
— Amamos você, Empousa — garantiu Floga. Porém, hesitou antes de beijá-la e fazer a reverência. Uma lágrima correu por seu rosto. — Perdoe-me por ter duvidado de
sua capacidade. Devido a meu elemento, às vezes sou muito impulsiva e passional.
Mikki a abraçou.
— Não há nada para perdoar — falou baixinho.
Quando ficaram a sós, Mikki foi até Asterius e deixou-se abraçar.
Apenas por um momento, tentou absorver sua força e amor, deliciando-se com a paz que era encontrar o ser ao qual estava destinada.
Mas não permitiu que ele a abraçasse por muito tempo. Não podia se dar a esse luxo naquele momento.
O tempo surpreendeu Mikki, passando devagar. Talvez porque o trabalho de poda das rosas podres e doentes, e de carregá-las para a pira, do lado de fora da muralha,
fosse penoso e deprimente.
Ou talvez porque não conseguisse parar de pensar no que o futuro lhe reservava.
De qualquer forma, várias eternidades pareciam ter se passado naquele dia interminável. Entrara num ritmo tão hipnótico de cortar e depois mergulhar a lâmina no
vinho, cortar e mergulhar... que ficou surpresa ao olhar para cima e ver que o céu tinha escurecido o bastante para que Floga acendesse as tochas por toda a extensão
da muralha das rosas.
— Gii? — ela chamou o elemento Terra, que correu para seu lado sorrindo, embora tivesse os olhos marcados por sombras e os braços arranhados pelos espinhos. — Isso
é tudo o que podemos fazer hoje. Oriente as mulheres a levar o que cortaram para o lado de fora do portal, e vamos descansar.
— Sim, Empousa — aquiesceu a serva, parecendo aliviada.
Mikki não podia culpá-la. Seus ombros doíam e suas mãos estavam machucadas e doloridas devido ao uso da faca. E isso porque esta encontrava-se bem afiada. Um grupo
de mulheres passara o dia não fazendo outra coisa além de afiar as lâminas.
Olhou para a que ela usava. Cuidadosamente, mergulhou-a no balde de vinho e, em seguida, limpou-a na grama antes de escondê-la na base da roseira que acabara de
podar.
— As mulheres estão terminando suas tarefas, conforme ordenou, Empousa.
A voz de Gii a fez pular, culpada, e Mikki disfarçou com um sorriso. Segurou o braço da serva.
— Caminha um pouco comigo?
— Claro! — A moça sorriu de volta.
Seguiram juntas e em silêncio, tomando um caminho sinuoso em direção ao portal das rosas. Mikki ficou satisfeita com o que viu nos canteiros. Os arbustos doentes
tinham sido bem podados. Pareciam vazios agora, mas ela sabia que, na primavera, voltariam a crescer e a ser ainda mais saudáveis e resistentes do que antes. As
rosas eram verdadeiras sobreviventes; não as flores delicadas e frágeis que muitos acreditavam que fossem.
Disso ela entendia melhor do que ninguém. Conhecia sua própria força e resiliência. Muitas vezes as pessoas tinham se enganado com ela, julgando-a apenas um rosto
bonito e nada mais, ou pior, considerando suas opiniões inconsequentes porque ela era apenas uma mulher...
Pensou em Asterius. Ele também fora mal interpretado, e exclusivamente por conta de sua aparência. Não admirava que eles se dessem tão bem.
— Você estava errada sobre ele — falou de súbito.
Gii a fitou, surpresa com as palavras da Alta Sacerdotisa.
— Ele quem, Empousa?
— O Guardião. Ele não é um animal e não merece ser tratado como um.
A serva ficou em silêncio.
— Não sei o que aconteceu antes, não sei o que ele fez e, neste momento, nem quero saber — prosseguiu Mikki. — Mas deixe-me dizer o que descobri: o Guardião salvou
este reino ontem, quando meu erro poderia tê-lo destruído. E faria o mesmo hoje, amanhã, todos os dias, por toda a eternidade. Ele é honrado e gentil, Gii. Sabia
que também é um verdadeiro artista?
— Não.
— Pois, é.
— Ele a ama — a moça falou, hesitante.
— Eu sei. E eu o amo também. — Mikki respirou fundo. — Por isso quero que me prometa uma coisa: que não vai mais rejeitá-lo e irá tratá-lo melhor. Ele... — Fez uma
pausa, lutando contra uma onda de emoção. — Ele é muito sozinho, e não quero que passe a eternidade dessa maneira. Se mudar o modo como reage a ele, Gii, todas as
servas que virão depois de vocês quatro farão o mesmo. Faria isso por mim?
O elemento Terra parou e fitou os olhos da Sacerdotisa. O que viu a fez prender a respiração.
Então, lentamente, Gii assentiu com um gesto de cabeça.
— Sim, Empousa. Tem minha promessa.
— Obrigada, Gii. Agora, vamos sair daqui... Foi um dia longo — Mikki falou com uma alegria forçada.
Chegaram à muralha das rosas a tempo de ver Asterius fechando o portal, e Mikki suspirou, aliviada.
Por algum tempo, os Quatro Elementos, o Guardião e sua Empousa ficaram junto das habitantes do reino, assistindo às rosas doentes queimarem na borda da floresta.
Logo as mulheres começaram a se dispersar em pequenos grupos, despedindo-se de Mikki com um ar cansado, até que apenas as quatro servas permaneceram em sua companhia.
— Trabalharam muito bem hoje — Mikki as elogiou, fitando cada um delas nos olhos. — Quero que saibam que estou orgulhosa de vocês.
As moças sorriram para sua Empousa, exaustas.
— Podem dormir até depois do amanhecer. Todas precisamos de descanso. Depois do café, encontrem-me no Templo de Hécate e retomaremos o mesmo trabalho que fizemos
hoje: a poda e a queima das rosas doentes. Mas acredito que elas estejam melhores amanhã.
— É o que seu instinto lhe diz? — Gii indagou, esperançosa.
— Sem sombra de dúvida. — Mikki sorriu a despeito do aperto que sentia no peito. Então, impulsivamente, abraçou cada uma delas. — Se precisarem de mim, estarei na
casa do Guardião — disse, enfatizando a palavra “casa”, e decidida a nunca mais chamá-la de covil. — Boa noite — desejou, voltando-se para se juntar a Asterius,
onde ele a esperava nas sombras.
— Durma bem, Empousa. — Gii hesitou só um momento e depois acrescentou: — Boa noite, Guardião.
Mikki encontrava-se de frente para ele, e viu o olhar de surpresa que estampou seu rosto forte.
— Durma bem, Terra — Asterius respondeu, um pouco tenso.
Então, cada uma das outras três servas o cumprimentou, o que o deixou ainda mais perplexo.
— Em todos os séculos em que fui o guardião deste reino, isso nunca aconteceu.
— Eu disse que ia mudar as coisas por aqui... — Mikki passou o braço pelo dele. — Vamos para casa.
Capítulo 34
Mikki esticou-se ao lado de Asterius na cama, sentindo a maciez das peles grossas contra sua pele suada. Distraída, traçou um dedo ao longo dos músculos do abdômen
firme de seu amante, os quais saltavam mesmo com ele deitado ali, completamente relaxado e com os olhos fechados.
Tinham feito amor duas vezes. Uma delas, na piscina de banho novamente. Havia sido rápido, porém intenso, e Mikki sabia que suas nádegas ainda mostravam as marcas
que ganhara por conta das garras longas de Asterius durante o clímax de sua paixão...
Na segunda, o ato fora longo, lento e suave. Ele a levara ao ápice duas vezes, usando apenas a língua antes de penetrá-la devagar e preenchê-la até sua total satisfação.
Mikki não conseguia pensar em abandoná-lo. Não podia conceber não sentir seu toque de novo, não falar com Asterius novamente, ou nunca mais ver a alegria e admiração
em seus olhos a cada vez que ela o abraçava.
Assim, recusou-se a pensar naquilo. Faria o que tinha de fazer quando chegasse a hora. Até então, não perderia as poucas horas que ainda possuía com ele lamentando
o futuro.
— Eu quero pintar você.
Mikki deixou escapar uma exclamação.
Com os olhos ainda fechados, o peito largo de Asterius vibrou com uma risada baixa, e ela o socou na barriga de leve.
— Pensei que estivesse dormindo!
— Não consigo dormir com você me tocando assim.
— Ah, desculpe... Eu não sabia. — Mikki começou a recuar, contudo ele a segurou pelo pulso.
— Não me importo. — Soltou-a e sorriu quando ela continuou a acariciá-lo. — Mas ainda quero pintá-la.
— Você já me desenhou.
— Sim, mas quero pintá-la também. Assim como está agora... Quero sua imagem nas paredes do meu quarto.
Ele não disse “para que eu possa me lembrar de você no dia em que estiver velha ou morta”, porém a mente de Mikki gritou as palavras. Asterius poderia precisar da
pintura para recordar-se dela muito antes do que qualquer um deles esperava.
Afastou os pensamentos mórbidos, mas, no fim, quis que ele a retratasse, para que pudesse capturar algo do que eles tinham sido como lembrança.
— Quer fazer isso agora?
Asterius abriu os olhos e a estudou.
— Sim — aquiesceu de bom grado. — Quero pintar seu retrato esta noite.
Mikki observou-o quando ele saiu da cama e começou a apanhar potes e pincéis dos nichos escavados nas paredes da caverna, e também a acender tochas que deixaram
o quarto ainda mais vivo com calor e luz. Asterius não se preocupou em vestir-se com mais do que um pano de linho, que amarrou a esmo em torno dos quadris, mais
uma vez, ela se viu abalada pela beleza da força bruta e selvagem de seu corpo. Ele era homem, animal e deus, tudo em um só... Um verdadeiro milagre. E tudo o que
ela queria na vida era passar o restante de seus dias a seu lado.
Quando Asterius já havia preparado as tintas e empunhava um pincel, Mikki sentou-se e sorriu.
— Como quer que eu pose?
Ele caminhou até o catre e a virou suavemente, de modo a deitá-la de lado, como ela estivera junto dele. Espalhou seus cabelos em volta dos ombros, tal qual um véu
de cobre sobre sua pele clara. Em seguida, fez com que deitasse a cabeça sobre um braço e apoiasse uma palma sobre a cama, como se tivesse acabado de acariciá-lo.
Então puxou a coberta que a ocultava da cintura para baixo, deixando-a nua. Mikki levantou uma sobrancelha, e os lábios dele inclinaram-se num sorriso.
Está com frio?
— Se eu estiver, vai me aquecer?
A risada de Asterius vibrou entre eles.
— Quando eu terminar. Quietinha, agora... Apenas mantenha-se deitada e feche os olhos. — Ele voltou para as cumbucas de barro e pincéis.
— Tenho que fechar os olhos? Preferiria ficar vendo você.
Asterius a fitou por cima do ombro.
— É sempre uma surpresa saber que gosta de me olhar.
— Eu gostaria de fazer mais do que apenas olhar... — Ela sorriu, sedutora.
— Não se mexa — ele repreendeu, contudo seu sorriso foi claramente indulgente.
Com gestos rápidos e firmes, Asterius começou a pintar acima da gravura do Tulsa Rose Garden, fazendo com que o jardim ficasse em segundo plano. Como se sobrepusesse
uma nova visão da realidade.
— Posso falar com você enquanto faz isso ou precisa se concentrar? — Mikki murmurou, impressionada com a esplendorosa versão dela mesma que ia tomando forma.
— Claro que pode. Mas eu não posso responder. Às vezes me esqueço de onde estou quando pinto.
— No meu antigo mundo, chamam isso de “entrar em Alfa”. Eu li um artigo a respeito uma vez. Acontece muito com artistas, autores e atletas. Tem a ver com endorfinas
cerebrais. Se entra em Alfa, é porque está fazendo algo certo.
Asterius resmungou qualquer coisa.
— Sempre entra-se em Alfa quando pinta?
— Acho que sim. — Ele apertou os olhos para estudá-la, depois virou-se para a parede da caverna e desenhou a linha longa e curva de sua cintura, quadril e perna.
Mikki o observou, pensando em seu talento e na beleza que parecia criar com tanta facilidade, mesmo tendo sido um pária durante séculos.
Por favor, Gii, mantenha sua palavra.
Tratou de afastar a mente da promessa da serva, com medo de que Asterius analisasse sua expressão e fosse capaz de ler seus melancólicos pensamentos. Precisava pensar
nele como ele havia estado pouco antes: apaixonado, carinhoso, amoroso e cheio de surpresas, assim como nas pinturas requintadas que podia produzir.
O que a fez lembrar-se de uma coisa...
— Asterius, quem é a mulher que desenhou na parede da sala?
A mão dele parou.
— Pasífae, minha mãe... — ele respondeu, sem olhar para ela.
— Eu imaginei — ela murmurou, e era verdade. Asterius não acrescentara a imagem da mulher à parede como um troféu. Não faria isso. — Ela é muito bonita.
— Ao menos é como eu me lembro dela.
Mikki quis lhe pedir que se lembrasse dela assim, tão bonita, também. Que se esquecesse de seus defeitos e da dor de sua despedida no momento em que ela fosse embora.
Que se lembrasse apenas do quanto eles haviam se amado.
Mas não podia. Tudo o que podia fazer era esperar que, quando chegasse a hora, ele a perdoasse por ser mortal.
Fechou os olhos, com medo de que, se continuasse a fitá-lo, fosse deixar escapar o que estava pensando, admitir seu sofrimento e suplicar que ele a ajudasse a descobrir
outra maneira de sair daquela situação.
De alguma forma, Mikki adormeceu. E soube disso apenas porque, ao abrir os olhos, o quarto encontrava-se bem mais escuro e Asterius também dormia a seu lado.
Ficou ali por alguns instantes, ouvindo sua respiração profunda e regular. Então, bem devagar, saiu do leito. Em silêncio, vestiu a túnica que havia descartado.
Não olhou para a parede até ter o tecido bem preso ao ombro. Quando o fez, levou a mão à boca para não soltar uma exclamação.
Asterius a fizera parecer uma deusa! Ele a pintara dormindo, com um ligeiro sorriso nos lábios, como se estivesse tendo um lindo sonho. Sua pele parecia palpável,
seu corpo, exuberante e convidativo.
E ele não a tinha retratado deitada no catre. Ele a pintara dormindo em uma cama de pétalas de rosa... Mais especificamente, de rosas Mikado.
Mikki virou-se para a cama e o fitou, desejando poder acordá-lo e fazer amor com ele.
Mas não podia correr esse risco. Precisava verificar as rosas.
Se meus instintos estiverem errados, prometeu a si mesma, eu vou voltar, acordá-lo e fazer amor com ele durante toda a manhã.
Sem olhar para o amante de novo, saiu do quarto pé ante pé.
O sol ainda não havia nascido, porém, a Leste, o céu começava a trocar o negro da noite por um cinza que logo daria as boas-vindas ao amanhecer. Sentiu a grama fria
e úmida sob os pés descalços enquanto contornava a base da falésia rumo aos degraus que a levariam além das piscinas quentes, em torno da sacada e, em seguida, para
o centro dos jardins.
Mikki não se permitiu distrair. Correu escada acima, mal olhando para as piscinas que soltavam vapor, não querendo se lembrar de como tinha sido maravilhoso mergulhar
nelas na companhia de suas servas e de como estava ansiosa por fazê-lo novamente.
Sua varanda encontrava-se vazia, assim como seu quarto. Porém, avistou o fogo queimando na lareira e um candelabro aceso ao lado da cama. Mikki mordeu o lábio e
desviou o olhar do cenário acolhedor. Desceu a escada e entrou no jardim. Escolheu o caminho que a levaria mais rápido até o centro do reino, e ao templo e à fonte
que a aguardavam lá, tomando o cuidado de manter os pensamentos nas rosas e longe dos Elementos ou de Asterius. Não queria que eles entendessem mal e pensassem que
ela os estava invocando. O que precisava fazer, teria que fazer sozinha.
E foi fácil manter-se concentrada nas rosas. Elas pareciam consumi-la. Deus, estava sentindo-se muito mal! E quanto mais perto chegava do centro do reino, pior ficava.
Por duas ou três vezes, Mikki parou para inspecionar os canteiros de rosas que, horas antes, tinham reagido aos cuidados e à fertilização proporcionados por ela
e as outras mulheres. Agora estas encontravam-se enegrecidas por conta da ferrugem espalhada pelos Ladrões de Sonhos e cheiravam a morte.
Seus instintos estavam certos, mas era ainda pior do que ela havia imaginado. A praga espalhara-se com uma velocidade inacreditável. Nenhuma doença mortal poderia
ter dizimado um jardim como aquele.
Mas aquela peste não era mortal, Mikki se lembrou. Era a manifestação do mal. E sua intuição lhe dizia que existia apenas uma maneira de combatê-la.
O Templo de Hécate surgiu à sua frente como um sonho iluminado por tochas, e o som das águas da fonte foi como uma mágica trilha sonora em seus ouvidos. Não parou
ali, contudo. Continuou andando até que as luzes que iluminavam a muralha das rosas brilharam diante dela.
Foi fácil encontrar os arbustos que seu sangue havia tocado. Eram a única cor em meio às trevas, à morte e à doença.
Eu estava certa. Queria não estar, mas estava.
Desolada, Mikki refez o caminho de volta ao templo, parando apenas para apanhar a lâmina recém-afiada que tinha escondido na base de uma roseira. Subiu os degraus
do templo, então, e parou diante da chama do espírito.
— Hécate? — chamou baixinho, os olhos fixos no fogo alaranjado. — Sei que está distante de seu reino, porém espero que ainda esteja ligada a ele e a mim o suficiente
para que, de alguma forma, seja capaz de me ouvir. Preciso falar com você antes de dar fim a isto tudo... Quero que saiba o quanto amei estar aqui. Pela primeira
vez em minha vida, sei que estou no lugar certo. Os Quatro Elementos são maravilhosos, principalmente Gii. Se puder, por favor, diga a elas que sou muito agradecida
por tudo o que fizeram por mim. — Respirou fundo e enxugou as lágrimas silenciosas que escorriam-lhe pelo rosto. — Eu amo Asterius. Você na certa não gosta disso,
mas disse para que eu seguisse meus instintos... e tudo dentro de mim me levou a ele. Ele não é nenhum animal, você sabe. Asterius precisa do que todos nós precisamos:
de aceitação e de alguém para amar. — Mikki precisou parar e pressionar a mão contra a boca para reprimir um soluço. Quando conseguiu controlar as emoções, continuou:
— Estou fazendo isto por ele. Por Asterius, pelas meninas e pelas Tecedoras de Sonhos. Agora compreendo, finalmente, a verdadeira razão de eu estar aqui. Eu vim
pelas rosas, pois posso salvá-las. Não tenho escolha. Vi o que existe na floresta e não posso deixar aquelas criaturas destruirem tudo o que eu amo. — Olhou para
o fogo, desejando que este fosse mais eloquente, desejando ter mais tempo para aprender palavras especiais para as orações e rituais, de forma a fazer aquilo melhor.
— Quando eu me comprometi com você, fiz isso com duas palavras: “amor” e “confiança”. São esses sentimentos que me regem aqui. O que eu fizer, faço de bom grado,
pois quero preservar o amor que encontrei neste reino. Acredito que estou fazendo a coisa certa porque, por meio desse amor, aprendi a confiar em mim mesma, em acreditar
em meus próprios instintos, intuição e julgamento. Então, se puder, Hécate, peço que fique comigo agora... Assim seja — sussurrou com voz embargada.
Decidida, Mikki deixou o templo e aproximou-se da fonte cuja água alimentava todo o reino. O gracioso chafariz era realmente muito bonito, com suas bacias de mármore
e valas que espalhavam-se pelos jardins.
Mergulhou a mão na água e ficou surpresa com seu calor.
Apenas uma estranha coincidência, pensou, antes de tirar a túnica, dobrá-la com cuidado, depois colocá-la no chão a seu lado.
Não. Não existem coincidências aqui. Posso considerar isto como um presente de despedida da deusa.
Nua, sem nada nas mãos exceto a lâmina afiada, Mikki entrou na fonte. A água deu-lhe boas-vindas e ela se sentou, acomodando-se confortavelmente na larga piscina,
a qual era funda o suficiente para que ela ficasse coberta quase até os ombros pelo líquido claro e quente.
Acabe logo com isto. Vai doer só por um instante.
Ergueu o punho esquerdo e pressionou a lâmina contra a pele. Fechou os olhos e cortou-se, prendendo a respiração com a súbita dor. Então mudou de mão. Desta vez
foi mais desajeitada, porém não menos eficiente.
Deixou cair a lâmina ao lado da fonte. Estremeceu ao submergir os pulsos, mas tinha razão. O dor não foi tão ruim e nem durou muito.
Descansou a cabeça contra a borda da piscina. Olhando para o céu, pensou como era bom que a lua houvesse acabado de se pôr e o sol ainda não tivesse nascido.
Hécate... Deusa da Lua Negra.
Talvez a ausência de luz no céu fosse um sinal de que a divindade aprovara seu sacrifício.
Ela havia feito a coisa certa. As rosas sobreviveriam. Os sonhos da humanidade estariam seguros, assim como seu amor.
Fechou os olhos. Estava com tanto sono, e a água era tão confortável... suave... como uma imensa cama de plumas... uma balsa em um lago quente de verão... os braços
de sua mãe quando ela era uma menininha assustada depois de um sonho ruim.
Suspirou. Não deveria haver nenhum sonho ruim. Deveria haver apenas amor, beleza e rosas.
Não estava com medo, mas sentiria falta de Asterius.
Conforme sua mente foi escurecendo devagar, o pensamento final de Mikki foi o quanto ela o amava.
Asterius acordou de repente. Alguma coisa estava errada.
Espantou o sono como sempre fazia e se sentou, já procurando pelas roupas.
Então, pensando que deveria acordar Mikado, virou-se e...
Ela não estava lá.
A princípio, isso não o incomodou. Mikki podia estar na sala de banho.
Vestiu a túnica e cruzou o túnel dentro da caverna, porém ela não encontrava-se por ali também.
Um pressentimento o fez apertar o passo enquanto fazia o caminho de volta para o quarto, depois para a sala um pouco mais além.
Mikado não encontrava-se em lugar algum.
Deixou o covil enquanto ainda prendia a cuirasse. O sol já havia nascido, mas ainda era madrugada e uma brisa excepcionalmente quente soprava.
Parou, aspirando o ar. Sim, ele estava certo... O vento trazia com ele o aroma rico e inebriante de rosas florescendo.
Aumentou o ritmo, e logo adentrou os jardins. Tudo ali encontrava-se em flor. Nuvens de cor preenchiam os canteiros, como se a deusa tivesse apanhado um pincel divino
e repintado todo seu reino com vida e saúde.
Mas em vez de sentir alívio e felicidade, a preocupação abateu-se sobre Asterius e ele correu, deixando seu instinto guiá-lo.
Avistou o Templo de Hécate no mesmo momento em que ouviu o primeiro grito de horror. O som foi como um punhal gelado entrando em seu coração. Outro grito seguiu-se
ao primeiro, depois outro e mais outro, até que os jardins pareceram sacudir com luto e lamentação.
Não! – sua mente gritava, embora ele já soubesse o que estava prestes a descobrir.
Voou até o templo. Os Quatro Elementos encontravam-se em pé ao lado da fonte, agarradas umas às outras e chorando copiosamente. No meio delas, ele avistou os cabelos
molhados cor de cobre e um lado da face pálida. Devagar, como se estivesse atravessando um pântano de lama e areia movediça, aproximou-se do chafariz. Era ela, claro.
Mikado estava morta.
Asterius, o Guardião do Reino das Rosas, caiu de joelhos e rugiu sem parar sua dor. Uma a uma, lideradas por Gii, as servas aproximaram-se dele e colocaram as mãos
em seus ombros e, unidos pelo pesar, choraram por sua Empousa.
Parte 3
Capítulo 35
Deus, sua boca estava seca! E ela se sentia uma merda, concluiu Mikki. Tentou virar-se de lado, mas estava fraca demais. Tudo o que conseguiu fazer foi esticar-se
um pouco e deixar escapar um gemido abafado.
— Cacete! Ligue para o 911, ela está viva!
Ligue para o 911? Não havia telefones no Reino das Rosas! Muito menos alguém que dissesse “cacete”!
Mas, então, que cacete?
Tentou mover-se de novo e, desta vez, sentiu mãos fortes segurando-a no lugar.
— Não tente se mexer, moça! Vai ficar tudo bem... Eu já chamei ajuda. Aqui! — O homem gritou. — Traga os paramédicos aqui!
Mikki ouviu passos rápidos e pesados, acompanhados por uma voz vagamente familiar.
— Cristo, é a Mikki! Ah, merda, olhe todo esse sangue!
Sua respiração começou a sair em espasmos, porém Mikki reconheceu a voz. Era Mel, o guarda de segurança do Roseiral de Tulsa.
Mas não podia ser Mel; ela não podia estar no roseiral! Ela...
Céus! Havia se esquecido. Ela estava morta!
— Mikki, calma! Os paramédicos estão aqui. Vai conseguir!
Ela tentou dizer que não queria. Que sua intenção fora salvar as rosas, e a única maneira que podia fazer isso era lhes dando seu sangue.
A droga era que aquele reino era grande demais, e algumas gotas em um balde não dariam conta dele.
Mas não podia falar. Sua mente continuava funcionando, contudo seu corpo estava pesado e parecia nem ser dela.
E estava molhada... o que fazia sentido porque devia estar na fonte.
— Muito bem, vamos virá-la no três. Um, dois...
Viraram-na de costas. Mikki piscou, tentando clarear a visão turva. Era de manhã e, pelo que ela podia ver do céu por sobre os ombros dos paramédicos, o sol tinha
nascido havia pouco tempo.
Seu olhar mudou para um ponto à direita, e ela conseguiu virar a cabeça para o lado, a fim de focar melhor a vista. Era um enorme pedestal de pedra... bem mais familiar
do que seu velho amigo segurança. Era a base que apoiava a estátua do grande Guardião.
Só que agora esta encontrava-se vazia.
Mikki teve vontade de gritar, mas não conseguiu.
Então, tudo escureceu.
— Parece melhor hoje. Como está se sentindo?
— É uma questão profissional, um teste ou está preocupada mesmo? — Mikki indagou, sarcástica.
Nelly se retesou.
— Eu não mereço isso.
Mikki mordeu o lábio e estendeu a mão para apertar rapidamente a da amiga. Não era justo estender sua amargura a Nelly. Não era culpa da moça que nada que pudesse
ser feito ou dito fosse chegar perto de fazê-la sentir-se melhor.
— Sinto muito. Só estou de mau humor.
— Aconteceu alguma coisa? Os sonhos voltaram?
Ela não fitou Nelly nos olhos. Não queria que a amiga visse o desespero que carregava todos os dias.
— Não. Meus sonhos têm estado normais. Na verdade, nem me lembro deles. Tudo o mais está bem... Não sei o que há de errado. Acho que esse clima está mexendo comigo.
Estou cansada dessa chuva e desse frio.
Tentou não se lembrar de que já controlara a chuva e que, no primeiro dia em que esta a obedecera, havia estabelecido as circunstâncias ideais para que ela fosse
parar na cama de Asterius...
— Mikki?
Ela piscou e seus pensamentos voltaram-se para o presente. Ergueu o cappuccino, tentando beber um gole sem muito entusiasmo.
— Só estava sonhando acordada. Desculpe outra vez, Nelly. Não estou sendo muito boa companhia hoje.
— Você é minha amiga. Não tem que me entreter nem me divertir, e sabe disso. — A psiquiatra suspirou. — Querida, o que aconteceu com você foi muito traumático. Os
homens que a atacaram e roubaram a estátua do roseiral a deixaram sangrando até a morte e nunca foram pegos. É normal passar por fases de depressão, raiva e ressentimento
durante o processo de cura, principalmente quando não se tem um desfecho para um crime.
Desfecho para um crime.
Mikki teve um desejo insano de rir, porém tratou de reprimi-lo. Não queria fazer nada que a fizesse parecer ainda mais louca.
E também não queria que aquela história fosse muito investigada.
Esfregou a testa. Pela enésima vez, quis que Nelly estivesse certa quanto ao que estava sentindo: que aquilo fosse apenas parte de um processo de cura.
— Eu sei. Eu só... Eu só queria me sentir normal de novo.
— Você vai, Mikki. — Nelly olhou para o relógio. — Ah, droga! Vou chegar atrasada.
Mikki conseguiu esboçar um sorriso.
— O compromisso é com algum maluco, ou apenas com um meio maluco?
Nelly riu e, uma vez de pé, apanhou a valise e a bolsa.
— Com um maluco e meio.
— Boa sorte, então.
— É bom que eu tenha mesmo — agradeceu a moça. — Ei, dê uma ligada mais tarde se quiser conversar.
— Pode deixar, eu ligo. Vejo você amanhã de manhã... Na mesma hora, mesmo café.
Mikki sorriu para a amiga, sentindo-se culpada pelo alívio que a invadiu quando Nelly saiu pela porta. Era tão difícil esconder as coisas dela! Como podia contar
a verdade? Sabe, amiga, eu não fui assaltada por criminosos que roubaram a estátua do Roseiral de Tulsa e que me abandonaram à morte... Na verdade, eu me matei,
embora eu goste de pensar nisso como um sacrifício. Nunca pensei em suicídio, o que deve provar que não estou louca. Enfim, eu tinha que fazê-lo porque o Reino das
Rosas, na intersecção entre os mundos, estava em perigo, e só meu sangue podia salvá-lo. Era meu dever como Empousa. Ninguém pode considerar isso um suicídio porque
eu estava apenas cumprindo com meu destino. E, a propósito, estou desesperadamente apaixonada por um homem-fera, e a razão pela qual me sinto tão deprimida é que
estou presa aqui, sem ele!
Suspirou. Nelly era sua melhor amiga, mas não hesitaria em trancafiá-la em uma cela linda, exclusiva e confortável se ela dissesse a verdade. Percebera isso tão
logo havia acordado no hospital e eles — o serviço social e os policiais — começaram a interrogá-la.
E a história que adviera de tudo aquilo tivera mais a ver com omissão e acidente do que qualquer coisa semelhante à verdade. Por isso ainda não tinha coragem de
dizer nada. Nem mesmo a uma amiga, psiquiatra experiente, que a conhecia bem demais.
Mikki consultou o relógio. Eram apenas sete e meia, e não precisava ir para o trabalho antes das oito. Tinha tempo para mais uma xícara de cappuccino. Quando se
pôs em pé, disposta a apanhar um refil para a bebida quente, capturou o próprio reflexo nas janelas do Expresso Milano. Estava magra... Muito magra. E podia ter
feito algo com aqueles cabelos em vez de apenas prendê-los para trás em um rabo de cavalo.
O problema era que não estava com a menor vontade de se cuidar.
Bem, ao menos ainda havia bastante de seus cookies favoritos, os biscoitos alaranjados, gigantes e cobertos de açúcar que o café comprava todas as manhãs da popular
padaria Pani Del Dea, a qual ficava apenas a algumas portas dali, descendo a rua.
Pediu dois deles para viagem com mais um cappuccino. Então mudou de ideia e pediu um terceiro. Precisava engordar, e uma dose a mais de açúcar somada à cafeína seria
suficiente para levá-la a enfrentar mais um dia sem sentido e interminável no trabalho.
Apanhou uma edição do Tulsa World e acomodou-se em uma das poltronas estofadas e macias, enquanto esperava que a atendente toda perfurada por piercings trouxesse
o café e os cookies na elegante bandeja de prata do estabelecimento.
Quando ouviu o ruído de saltos aproximando-se no piso frio, não tirou os olhos do jornal.
— Pode colocar aqui. Ah, e fique de olho em mim, por favor. Tenho a impressão de que hoje vai ser uma daquelas manhãs em que não passo sem ao menos três expressos!
— Está tudo bem, Mikado?
Mikki quase deixou cair o jornal com a surpresa.
— Sevillana! Desculpe... Pensei que fosse a garota do café.
Os olhos incrivelmente azuis da mulher cintilaram.
— Não sou confundida com uma moça há muito tempo!
Mikki abriu um sorriso e, por um momento, este foi genuíno.
— Não quer se sentar comigo?
— Sim, eu gostaria muito. — A mulher acomodou-se com graça em uma cadeira a seu lado e arrumou o lindo xale de pashmina azul-pálido sobre os ombros.
— Eu não sabia que morava por aqui.
Como na primeira vez em que elas haviam se encontrado, Mikki sentiu-se um pouco intimidada pela presença de Sevillana. Ela era tão... imponente e clássica. Havia
um ar de dignidade e cultura em tudo o que dizia e fazia.
E então, com um choque, ela se lembrou. E, em meio à lembrança, perguntou-se como poderia ter se esquecido.
— O perfume! Onde conseguiu o perfume que me deu naquela noite?
A mulher sorriu, mas a aproximação da garçonete com os cafés e doces impediu-a de dizer qualquer coisa.
Mesmo quando estavam a sós outra vez, Sevillana levou algum tempo dissolvendo o açúcar em seu cappuccino e mexendo cuidadosamente com a colher de prata minúscula
antes de falar.
— Há apenas um lugar onde se pode encontrar tal perfume, e é em um reino muito distante daqui.
Mikki sentiu uma onda vertiginosa de uma emoção da qual sentia falta havia três meses: a esperança.
— Está falando sobre o Reino das Rosas.
A mulher aquiesceu com um gesto de cabeça.
— Ah, Deus! — Mikki exclamou, ofegante.
— Creio que seria mais adequado você exclamar “Oh, Deusa!”, Mikado.
— Como sabe disso?! Como chegou lá, e como foi que eu voltei? O que está fazendo aqui? Por que...
Sevillana ergueu a mão, detendo a torrente de palavras.
— Tudo tem seu tempo. Afogar-me em perguntas não vai mudar isso.
— Eu... — Mikki levou a mão ao peito, temendo que o coração fosse saltar para fora do corpo. — Sinto muito, mas eu preciso saber. — Passou a mão trêmula sobre o
rosto e recomeçou: — Eu tenho que voltar para lá!
— Eu sei, minha filha, eu sei — Sevillana concordou suavemente. Seu olhar fixou-se além dela, então, e, quando ela tornou a falar, sua voz lembrava a de uma menina
tristonha. — Ninguém falou no meu nome enquanto estava lá? Eles não se lembram de mim?
— Seu nome? Não. Por que eles... — Os olhos de Mikki se arregalaram.
— É você! Você é a última Empousa!
— Não, Mikado. Eu era a última Empousa. Não sou mais Alta Sacerdotisa de Hécate. Rejeitei esse cargo porque era jovem e tola, mas paguei pela minha traição. Por
duzentos anos fiquei separada do meu reino e de minha deusa, e percorri o mundo comum, sempre inquieta e insatisfeita. Vivi como uma verdadeira marginal.
— Duzentos anos! — Mikki não conseguia desviar o olhar da velha senhora. — Mas como?
— Nunca compreendi muito bem. Envelheci, obviamente, porém muito devagar. Eu costumava acreditar que essa era a maneira de Hécate me punir: estendendo minha vida
até que eu me arrependesse de minhas atitudes egoístas. Em uma de minhas viagens, décadas atrás, visitei Tulsa, e aconteceu de eu assistir à inauguração de seu novo
roseiral. — Ela fez uma pausa, a expressão cheia de dor. — Reconheci a estátua do Guardião, e soube que ela havia sido colocada aqui por alguma razão. Por isso passei
a visitar Tulsa com frequência; para esperar e observar. E foi então que eu a conheci, e comecei a ter esperanças de que Hécate tivesse me permitido viver por tanto
tempo por outra razão... — Os olhos muito azuis de Sevillana voltaram-se para Mikki. — Achei que a grande deusa queria que eu lhe desse o óleo sagrado; assim poderia
despertar o Guardião, voltar ao reino e cumprir com o destino que me fora reservado. — A tristeza preencheu os belos olhos da mulher. — Por que cometeu o mesmo erro
que eu? Eu não queria que fugisse.
— Mas eu não fugi! — Mikki gritou, mas baixou a voz quando várias cabeças viraram em sua direção. — Você sabe sobre o sangue, não sabe? De alguma forma, você compreende.
— Sim, seu sangue alimenta as rosas. Como eu poderia não saber? Carregamos o mesmo sangue em nossas veias, Mikado.
Sevillana tocou-a na mão em uma carícia que a fez lembrar-se tanto da mãe que ela prendeu a respiração.
— No hospital, naquele dia, eu disse que me chamava Sevillana Kalyca, e é verdade. Mas essa é apenas uma parte do meu nome. Eu raramente uso meu sobrenome inteiro,
pois é muito difícil ouvi-lo e saber que eu o abandonei; mesmo que isso tenha acontecido há muito tempo. Meu nome verdadeiro é Sevillana Kalyca Empousai. Fui a primeira
Empousa a fugir do Reino das Rosas. E esperava, quando a conheci e senti a força de seu sangue, que também fosse a última.
— Eu não fugi — Mikki repetiu, entorpecida, olhando para sua ancestral. — Eu morri.
Sevillana a fitou, confusa.
— O tempo corre de modo diferente por lá... Mas ainda não podia ser Beltane!
— Era início de inverno. — Foi a vez de Mikki franzir o cenho. — De qualquer maneira, o tempo não tem nada a ver com isso. Ladrões de Sonhos entraram no reino.
— Oh, Deusa, não! — Sevillana levou a mão ao peito num gesto estranhamente parecido com o dela.
— Foi minha culpa. Eles me enganaram, e eu os deixei entrar. O Guardião os matou. Isto é, supondo que eles não possam ser eliminados, essa não é a palavra certa...
Mas Asterius livrou-se deles e os mandou de volta para a floresta.
— Asterius?
Mikki estudou Sevillana, a mente começando a entrar em consonância com suas próprias emoções. Aquela era a mulher sobre a qual eles haviam sido proibidos de falar.
Ela era parte da razão pela qual Hécate tinha enfeitiçado o reino e Asterius.
Pois agora não estava mais no Reino das Rosas e queria saber, de uma vez por todas, o que havia acontecido.
— Asterius é o nome que o Guardião recebeu da mãe. — Observando com cuidado, Mikki viu a ponta de surpresa e inquietação nos olhos da antiga sacerdotisa. — Quero
saber o que aconteceu entre vocês dois. Tudo.
Sevillana olhou pela janela, e sua voz assumiu um ar distante, como se recontasse uma história que fora passada de geração em geração.
— Eu era jovem e muito, muito tola. E também egoísta. Amava o poder que possuía como Empousa. Tanto que não estava disposta a cedê-lo. Conforme o dia de Beltane
se aproximava, eu me convenci de que era justo que eu escapasse do destino planejado para mim, que eu era diferente. Mas sabia que não podia atravessar a floresta
sem proteção. Então convenci o Guardião a trair seu dever e acompanhar-me através da mata até a entrada para o mundo comum.
— Você o seduziu? — Mikki indagou, gélida.
— Só com palavras. Eu não me deitaria com um animal, mas fiz com que ele acreditasse nisso. Não foi difícil... O Guardião tinha pouca experiência com mulheres. Foi
estranho, porém, ele ter permitido que eu escapasse, mesmo depois que eu o rejeitei. — Sevillana abanou a cabeça. — Há muito tempo me pergunto sobre isso. Ele devia
ter voltado-se contra mim e, no mínimo, obrigado-me a voltar para enfrentar a ira de Hécate. Em vez disso, o Guardião me disse... algo e, em seguida, afastou-se
e deixou-me seguir em liberdade.
— Ele pensou que a amava — Mikki falou, rígida.
Sevillana finalmente encontrou seu olhar, e Mikki pôde ver a surpresa estampada em seus olhos.
— Foi o que ele me falou: que me amava. Mas isso não fez nenhum sentido! Como um animal poderia amar uma mulher?
— Ele não é um animal! — Mikki falou por entre os dentes, a ira fazendo-a empalidecer. — E você não era boa o bastante para seu amor se não conseguia enxergar o
homem dentro dele.
A mulher arregalou os olhos muito azuis.
— Você o ama!
— Amo...
Em silêncio, Sevillana observou Mikki por um longo tempo, depois abaixou a cabeça.
— Perdoe-me por ter sido tão arrogante. Eu era uma menina na época. Só compreendi que estava errada muito tempo depois e esta é mais uma lição para mim. Tem minha
admiração, Mikado, bem como meu respeito. Nunca conheci alguém com sua coragem.
Mikki respirou fundo várias vezes, acalmando-se. Não adiantava ficar tão aborrecida com a mulher. O que ela havia feito acontecera dois séculos antes e estava acabado.
Acabado.
E ela não pretendia afastá-la. Sevillana Kalyca Empousai era sua passagem de volta para Asterius.
— Eu a perdoo. Acho que Asterius a perdoaria, também. E o que eu fiz não foi por coragem. Não tive escolha. Asterius havia se livrado dos Ladrões de Sonhos, mas
era tarde demais. Eles já tinham envenenado as rosas, todas elas, exceto aquelas sobre as quais eu derramara meu sangue. Tentei deter a peste de outra forma, mas
nada funcionou. E eu sabia que não ia funcionar. A única forma de eu salvar as rosas era por meio do meu sangue.
— E não acha que foi corajosa ao permitir que seu amante a sacrificasse? Nem era Beltane e, mesmo assim, você foi ao encontro de seu destino original e salvou o
reino.
Mikki franziu o cenho.
— Asterius não me sacrificou. Ele nem sequer sonhava com o que eu tinha planejado. Mas eu sabia que ele ia tentar me deter, então fugi... Que história é essa de
Beltane? É na primavera, não é? O que isso tem a ver com o que aconteceu?
— Não sabe, mesmo...?
— Não — Mikki confirmou, exasperada e já farta de tantos mistérios.
— Eles devem ter ficado com medo de lhe contar. Com medo de que você também os deixasse. Mikado... a Empousa serve para um único propósito. Ela está lá por causa
das rosas.
— Sim, sim, eu sei.
— Então também sabe que a Alta Sacerdotisa de Hécate está vinculada às rosas por meio de seu sangue. O que não sabe é que, em todas as noites de Beltane, a Empousa
é sacrificada pelo Guardião, pois seu sangue garante que o reino prospere por mais um ano.
Mikki sentiu tudo dentro dela paralisar.
— Quer dizer que as mulheres iam me matar?
— Não elas. Ele. É dever do Guardião proteger as rosas.
Mikki soltou o ar. Tudo fazia um terrível sentido agora. O comportamento de Asterius quando ele a conhecera e mostrara-se atraído por ela... O modo como ele tinha
dito que eles não poderiam ficar juntos... O porquê de ele ter lutado tanto contra o amor que sentia. Tinha sido mais do que a descrença de que ela jamais pudesse
vê-lo como um homem; mais do que a rejeição de Sevillana. Asterius sabia que teria de matá-la.
O pensamento deixou-a enjoada, e a mão quente de Sevillana sobre a sua, agora fria e insensível, foi um choque.
— Ele não teve escolha.
— Quer dizer que Hécate também desejou minha morte o tempo todo — Mikki murmurou.
— A vida e a morte são diferentes para os deuses. Hécate é severa e poderosa, mas também uma deusa amorosa. Veria seu sacrifício apenas como outro elo no grande
círculo da vida. A deusa não a abandonaria, Mikado, mesmo na morte. Se tivesse conhecido seu destino em Beltane, Hécate teria feito com que passasse a eternidade
na beleza infinita dos Campos Elísios. A deusa preocupa-se com aqueles que lhe pertencem. Dá as costas apenas para os que a traem.
— É um conceito difícil demais para mim. Todo o mundo que se preocupou comigo, todos os que amei, sabiam que eu ia morrer. — Mikki fez uma pausa conforme a enormidade
do que acabara de ouvir abatia-se sobre ela. — Então, mesmo que você me ajudasse a voltar de alguma forma, eu estaria condenada à morte.
— Sim — confirmou Sevillana. — Ainda pretende voltar?
Capítulo 36
Será que ainda queria voltar?, pensou Mikki. Já era final de fevereiro. O Beltane não era em primeiro de maio? Teria apenas mais dois meses antes que Asterius a
matasse.
Parecia impossível de acreditar. No entanto, mesmo em meio à sua descrença, a intuição lhe dizia que Sevillana falava a verdade. Tudo se encaixava e, de repente,
ela sentiu-se como a única peça fora de um enorme quebra-cabeça. Sabia qual era seu lugar, e este não era em Tulsa, Oklahoma.
— Eu quero voltar, mas não sei se sou corajosa o suficiente.
— Ouça seus instintos, Mikado. Confie no que eles dizem.
— Eles me dizem que não pertenço a este lugar.
— Então talvez deva voltar para casa — concluiu Sevillana.
— Você sabe como me levar até lá?
— Eu posso lhe dar o óleo sagrado, porém, o restante já possui dentro de você. Já se sacrificou pelo Reino das Rosas e foi altruísta o bastante para amar seu Guardião.
Você foi, minha querida, exatamente o oposto da última Empousa do reino. Acredito que Hécate ouvirá seu chamado e irá honrá-lo.
— Mas como... — Mikki se conteve. Sabia o que deveria fazer. Precisava escutar a própria intuição e seguir seus instintos.
Olhou Sevillana, que assentiu diante de sua introspecção.
Acalme-se e pense. É a Empousa de Hécate... Tem que haver um caminho para que possa voltar.
De repente, Mikki sorriu.
— É isso! Eu ainda sou a Empousa. Hécate disse que eu carrego seus poderes, os quais não podem desaparecer por completo nem mesmo aqui. E, olhe para você... Fugiu
da deusa e ainda viveu duzentos anos!
— Ainda deve exercer os poderes de Hécate — Sevillana afirmou. — Mesmo no mundo comum. — A mulher enfiou a mão na bolsa de couro e tirou uma haste de vidro, exatamente
igual à primeira que havia lhe dado. — É o óleo sagrado da Empousa de Hécate. O primeiro passo no ritual de invocação, com o qual eu posso ajudá-la.
— Obrigada, Sevillana. — Mikki tomou o vidro e o envolveu com cuidado em um guardanapo antes de guardá-lo na própria bolsa.
— Só lhe peço uma coisa, Empousa — prosseguiu a velha senhora. — Gostaria que pedisse perdão a Hécate por mim. Sei que não posso retornar ao reino, mas estou cansada
e queria poder abrir mão desta vida e abraçar minha eternidade nos Campos Elísios. Não posso fazê-lo sem o perdão da deusa.
— Vou falar com ela. Mas por que não a invoca você mesma?
— Eu gostaria, mas não consigo. Tentei várias vezes ao longo destes anos silenciosos, porém Hécate não vai me ouvir. Ela me deu as costas.
— Mas Hécate não deu as costas a mim — Mikki concluiu de súbito. — Por que acha que não sou um fantasma nos Campos Elísios agora? Eu morri, Sevillana! Eu não devia
ter acordado em Tulsa, a menos que houvesse um motivo muito bom para que a deusa me quisesse aqui... — Mikki endireitou o corpo. — Hécate sabia que estava aqui.
Eu mencionei seu nome quando ela me perguntou como o óleo sagrado de uma Empousa havia chegado “acidentalmente” em minhas mãos. Eu me lembro de sua expressão agora.
Hécate sabia desde o princípio.
— A estátua do Guardião... A deusa a colocou aqui para que eu a encontrasse! E também a você! — deduziu a mulher com voz embargada.
— Hécate quis que eu voltasse para reencontrá-la. — Desta vez foi Mikki quem pegou a mão trêmula da velha senhora na dela. — Hécate a perdoou, Sevillana.
— Ah, minha querida, se isso fosse verdade...
— Vamos descobrir. Esta noite é noite de lua nova... Venha para o roseiral. Fique dentro do círculo sagrado comigo. Vamos tentar ir para casa.
Mikki ficou feliz com a noite chuvosa. Fazia um frio horroroso, mas estava tão escuro que até mesmo os postes de iluminação em Woodward Park pareciam emanar halos
de luz mais fracos ao redor do parque. Era fácil para alguém que conhecia bem o lugar evitar as luzes...
E ela conhecia o Woodward Park como ninguém.
Carregou a maleta em uma das mãos e segurou a de Sevillana com força na outra, ajudando a mulher a deslocar-se através da escuridão. Não trocaram uma só palavra
e nem precisavam. Mikki apenas rezava para que ninguém estivesse nos jardins.
No momento em que chegaram à fronteira entre o parque e os vergéis, relaxou um pouco. Ninguém fora louco o suficiente para aventurar-se no parque numa noite como
aquela, muito menos depois da meia-noite.
Ainda assim, Mikki não disse nada até que passaram por baixo da arcada de pedra e desceram para o terceiro nível dos jardins. As luzes da fonte iluminavam a área
ao redor preguiçosamente, num efeito aquoso que, junto à névoa que pairava no ar frio, fazia aquela camada mergulhar em um cenário de sonho.
— Bem apropriado — ela comentou baixinho.
— Sim. Essa iluminação evoca imagens de sonho — concordou Sevillana. — É um bom presságio, Empousa.
— Esperemos que sim — ela murmurou. Então olhou para o pedestal vazio. Não voltara ali desde a manhã terrível em que a tinham encontrado. Não pudera suportar.
Não desistira de trabalhar como voluntária, contudo. Pedira apenas uma licença, que lhe fora concedida de imediato. Todos haviam compreendido como devia ser difícil
para ela voltar para os jardins onde fora atacada e abandonada à beira da morte.
Mas claro que não entendiam realmente. Como poderiam? Jamais saberiam a verdade.
— Mikado? — Sevillana tocou-a no braço de leve.
Mikki virou-se de costas para o pedestal vazio.
— Está certa. Precisamos nos apressar. Será impossível explicar isto se formos apanhadas.
— Não vamos ser apanhadas — declarou a mulher com firmeza.
— Isso mesmo. Vamos começar agora.
Mikki escolheu um lugar perto da fonte. Abriu a maleta e Sevillana ajudou-a a colocar uma vela em cada uma das posições dos quatro Elementos dentro do círculo: amarela
ao Leste para o Ar; vermelha ao Sul para o Fogo; azul a Oeste para a Água; verde ao Norte para a Terra; e, por fim, púrpura no centro do círculo para o Espírito.
Então apanhou uma caixa de fósforos da maleta, bem como a faca afiada que geralmente ficava escondida em seu apartamento, e as colocou ao lado da vela central.
Pisando do lado de fora do círculo formado pelas velas, Mikki pegou um último item da mala antes de colocá-la nas sombras, ao lado do pedestal vazio. Tirou a tampa
de cortiça que lacrava o delicado frasco de vidro em forma de caule e, em seguida, aplicou o óleo perfumado em pontos do pulso, pescoço e entre os seios, e o entregou
a Sevillana.
Com apenas uma ligeira hesitação, a mulher apanhou o frasco e aplicou o óleo perfumado no próprio corpo. O aroma de rosas e especiarias mesclou-se ao ar úmido, e
Mikki sentiu o estômago apertar-se com as lembranças.
Aquilo tinha que funcionar. Ela precisava retornar.
— Pronta? — perguntou à outra mulher.
Sevillana aquiesceu com um gesto de cabeça e puxou dois grampos de seu elegante coque, libertando cabelos longos e prateados que lhe caíram até além da cintura.
Em seguida, com um movimento gracioso que não condizia com sua avançada idade, livrou-se da capa longa, sob a qual usava uma linda túnica de seda lilás.
Mikki descartou seu próprio casaco e ignorou o frio quando também ela ficou vestida apenas com uma túnica cor de violeta. A única diferença entre seu traje e o da
outra mulher era que o dela era de um tom mais escuro, e, conforme ditava o ritual da lua nova, deixava-lhe um dos seios nus.
— Uma coisa que se pode dizer sobre estes quitões é que são muito fáceis de vestir — ela elogiou.
— Eu morro de saudades deles! — Olhando para si própria, Sevillana sorriu. Depois ergueu o olhar para Mikki e fez uma mesura delicada. — Vamos em frente, Empousa.
— Vamos.
Juntas, as duas mulheres caminharam para o centro do círculo. Com a vela roxa entre elas, viraram-se para o Norte. Então Mikki apanhou a caixa de fósforos, pensando
em como sentia a falta dos quatro Elementos, principalmente à noite.
Deixando para trás as dúvidas, ela aproximou-se da vela amarela e acendeu o fósforo.
— Vento que sopra forte e em toda parte, mesmo no mundo mundano... Eu te invoco, Ar, como o primeiro elemento no círculo sagrado. — Tocou o pavio com a chama do
fósforo e segurou-a até que este se iluminasse. Sem se preocupar se o Ar iria ouvi-la e responder a seu chamado, moveu-se até a vela vermelha. — Força ardente de
purificação, chama dançante de luz, que mesmo no mundo comum é rica e verdadeira... Eu te invoco, Fogo, para o círculo sagrado. — Quando o fósforo tocou o pavio,
a chama ganhou vida rapidamente, e Mikki sentiu uma onda de esperança. Sem hesitar, seguiu para a vela azul. — Maré brilhante que nos banha, refresca e sacia, mesmo
neste mundo comum, e que cobre mais da metade do nosso planeta, proporcionando-nos a vida. Eu te invoco, Água, para o círculo sagrado. — No pavio aceso, Mikki pensou
ver a chama da vela azul tremeluzir e ondular como as ondas. Então viu-se de frente para a vela verde. — Exuberante e fértil, amiga e selvagem, mesmo neste mundo
comum tu nos manténs e cuidas de nós. Eu te invoco, ó Terra, para o círculo sagrado... — Mikki voltou para seu lugar, ao lado da vela roxa. — Invoco-te agora, Espírito,
para o círculo sagrado, com as duas palavras que me unem à minha deusa: “amor” e “confiança”! — Acendeu a vela roxa e, em seguida, jogou fora o palito de fósforo.
Olhou ao redor, mas ficou desapontada. Não viu nenhum anel luminoso vinculando os elementos para formar o círculo.
— Não se desespere se não consegue ver as tramas neste mundo — falou Sevillana, como se pudesse ler seus pensamentos. — Veja-os dentro de sua mente. Acredito que
elas estejam aí. O poder da fé de uma Empousa é mágico por si só.
Mikki assentiu e imaginou as tramas descrevendo o círculo.
— Vamos terminar o ritual — falou, resoluta.
Abaixou-se e pegou a pequena faca. Olhou para Sevillana, e a mulher estendeu-lhe a mão com a palma para cima. Com um movimento rápido e seguro, Mikki pressionou
a lâmina afiada contra a pele fina de Sevillana, desenhando uma linha longa em sua palma.
Conforme o sangue jorrou, entregou a faca à antiga Empousa. Sevillana tomou-lhe a mão e, do mesmo modo, cortou uma linha semelhante em sua palma. Deixou cair a faca,
então, e as duas mulheres uniram as mãos, palma contra palma, misturando o sangue de gerações de Altas Sacerdotisas de Hécate.
Mikki fechou os olhos e limpou a mente. Quando falou, não se importou em baixar a voz. Se funcionasse, se a deusa fosse mesmo invocada, o círculo se manteria e nenhum
mortal poderia interferir nele. Mas, se isso não ocorresse... não se importaria com o que poderia acontecer com ela, decidiu.
— Hécate, Grande Deusa da Lua Negra, das Encruzilhadas da Humanidade e das Feras... É Mikado Empousai, Alta Sacerdotisa e Empousa do Reino das Rosas quem fala. Encontro-me
em uma terra distante e me ungi com óleo para lançar o teu círculo sagrado. Pelo direito que meu sangue me concede, eu invoco o teu nome. Temos um compromisso, um
juramento selado com amor e confiança. E pelo poder de tal juramento, evoco a tua presença e peço que me ouças.
De repente, um vento chicoteou ao redor delas, fazendo com que as velas tremeluzissem loucamente. Uma névoa as rodeou e, enquanto Mikki observava, transformou-se
numa nuvem cintilante até que, no centro do vórtice de vento, luz e som, Hécate apareceu. Vestia seu traje completo de noite, com os cabelos salpicados de estrelas
e a tocha dourada. A seus pés, os cães enormes rosnavam e tentavam abocanhar a neblina do jardim.
Mikki começou a dizer o nome da deusa, porém a voz emocionada de Sevillana a interrompeu. A mulher soltou sua mão e caiu de joelhos.
— Grande Deusa, perdoe-me! — Sevillana soluçou, as lágrimas escorrendo pelo rosto bonito. — O que fiz foi tão injusto! Passei vidas querendo expiar esse meu erro
imperdoável... Mas a menina tola e egoísta que a traiu já não existe.
A face de Hécate continuou ilegível, porém sua voz era suave.
— O que aprendeu, Sevillana?
— Aprendi que há coisas mais terríveis para se perder do que a própria vida.
— E quais são essas coisas?
— Minha honra, meu nome... e o amor da minha Deusa.
— Você nunca perdeu o amor de sua Deusa, minha filha.
Sevillana levou a mão à boca, tentando reprimir os soluços, e Mikki tocou-a no ombro, emprestando-lhe forças.
— Consegue me perdoar, Hécate? — a velha senhora foi capaz de indagar finalmente.
— Eu a perdoei há muito tempo, Sevillana. Você é que não foi capaz de perdoar a si mesma.
Ela curvou a cabeça.
— Posso descansar, então, minha Deusa?
— Sim. Tudo o que precisava fazer era pedir por isso. Eu jamais daria as costas a uma Empousa minha, mesmo a uma que cometeu um erro. Veja...
Hécate fez um gesto e a neblina abriu-se como uma porta na noite. De repente, um lindo cenário se fez ver. Era um prado repleto de trevos e cercado por pinheiros
altos, cujos ramos pontiagudos lembravam imensos espanadores. Enquanto elas observavam, uma figura ágil pulou e dançou pela campina, seguida por um grupo de lindas
mulheres. Suas túnicas envolviam seus corpos fortes e jovens sedutoramente, embora estes tivessem uma aparência estranha, quase insubstancial.
Mikki sentiu uma onda de choque ao reconhecer uma das mulheres.
— Mamãe! — gritou com voz embargada.
Antes que pudesse correr para encontrá-la, contudo, Hécate alertou-a em voz baixa:
— Não é sua hora, Mikado. Seu destino ainda não está completo.
Em meio às lágrimas que corriam soltas, ela olhou para a deusa.
— Mas é minha mãe, não é?
— Sim. Olhe mais de perto e verá também sua avó.
Mikki obedeceu, prendendo o fôlego. Sim! Reconhecia agora a linda jovem que dançava, segurando a mão de sua mãe. Tinha observado aquele rosto bonito tantas vezes!
A única diferença era que, nessas ocasiões, ele era repleto de linhas e marcas deixadas pela vida.
— Onde elas estão?
— Nos Campos Elísios, onde serão eternamente jovens, felizes e livres — respondeu Sevillana, a voz cheia de emoção.
— Tome seu lugar ao lado delas, Sevillana. Aqui termina seu tormento — declarou Hécate.
A mulher ergueu-se do chão devagar, então virou-se para Mikki e abraçou-a com força.
— Tenha uma vida abençoada, minha querida! — falou baixinho.
— Diga a minha mãe e a minha avó que eu as amo! — Mikki pediu num sussurro.
— Pode deixar. Elas ficarão orgulhosas de você, assim como eu, minha filha.
Dizendo isso, Sevillana atravessou a fronteira do círculo sagrado até a deusa. Parou diante de Hécate e, chorando, fez uma profunda reverência.
A deusa estendeu as mãos e a abraçou, beijando cada uma de suas faces.
— Vá para Elísia com minha bênção, Sevillana.
A mulher atravessou o portal que a divindade tinha aberto para o paraíso e, conforme o fez, seu corpo mudou. Sua velhice a deixou como um manto descartado, até que,
com um grito de alegria, a jovem e bela Sevillana tomou seu lugar em meio ao grupo de moças que dançavam.
O portal desapareceu, então, e, mais uma vez, não se podia ver nada além da névoa, da chuva e das trevas.
— É um prazer revê-la, minha Empousa — afirmou Hécate.
Mikki enxugou as lágrimas do rosto e sorriu.
— Estou muito feliz em vê-la também. Se eu soubesse que podia fazer isto, invocá-la aqui, teria lançado o círculo meses atrás.
— Ah, mas estaria faltando algo na invocação... O óleo sagrado de uma Empousa. Você precisava de Sevillana para tanto.
— Tem razão, eu... Não sei... Aprendi tanto hoje que minha mente não consegue absorver tudo. Estou tão feliz por ter perdoado Sevillana! — Mikki piscou, surpresa,
quando mais uma das peças daquele imenso quebra-cabeça encaixou-se de repente. — Na primeira noite em que estive no reino... você disse que havia cometido um erro
e que queria consertá-lo. O erro envolvia Sevillana e Asterius, não é mesmo?
— Exatamente. — Hécate soltou um suspirou típico dos mortais. — Eu não devia tê-los punido daquela forma. Sevillana era jovem e egocêntrica, mas eu sabia disso ao
escolhê-la para minha Empousa. Tinha esperanças de que o poder em seu sangue iria fazer com que amadurecesse, mas me equivoquei. Isso não aconteceu.
— E quanto a Asterius? — Mikki perguntou, segurando a respiração.
— Asterius foi meu maior erro. Eu lhe dei o coração e a alma de um homem e depois recusei-me a reconhecer que ele era, realmente, mais do que uma fera. Nesse aspecto,
fui ainda mais egoísta do que sua mãe, que não conseguia ver além dos próprios erros sempre que o contemplava... Errei ao não permitir que Asterius tivesse uma companheira,
ao acreditar que uma criatura como ele não precisava de mais nada além do dever de existir. Se suas necessidades o levaram a escolher com imprudência quando Sevillana
o tentou, a culpa foi minha. Foi a raiva que senti de mim mesma que me fez bani-lo e enfeitiçá-lo. Infelizmente, compreendi isso tarde demais. Tudo o que pude fazer
foi esperar que nascesse a mortal certa para ele... Alguém que pudesse enxergar a verdade e ter a coragem de agir sobre esta.
— Então vai me deixar amá-lo, mesmo que apenas até o Beltane?
— Não.
Mikki congelou.
— Por favor, Hécate! Eu o amo tanto! Deixe-me fazê-lo feliz, mesmo que por pouco tempo!
— As rosas desabrocharam, Mikado.
Confusa com a súbita mudança de assunto, Mikki murmurou:
— Que bom... Então eu fiz o que precisava ser feito.
— Você se sacrificou por livre espontânea vontade, cumprindo o juramento de amor e confiança com o qual estava vinculada a mim.
— Sim, Hécate.
— Pois isso nunca aconteceu antes no Reino das Rosas. Claro que várias gerações de Empousas deram seu sangue para alimentar o reino, mas o fizeram porque tinham
de fazer; porque essa era a trama de sorte e destino que fora tecida para elas. Mas você, Mikado Empousai, uma mortal vinda de uma terra quase totalmente desprovida
de magia, sacrificou-se de bom grado para salvar algo tão nebuloso como os sonhos da humanidade. Também viu o homem dentro da fera e permitiu-se amá-lo, rompendo
o feitiço de solidão e isolamento que o cercava.
— Eu fiz apenas o que meus instintos me diziam para fazer. Adorei seu reino, Hécate. Ele era minha casa, e valeu a pena morrer para protegê-lo, assim como a todos
que o habitavam — Mikki afirmou, surpresa com os elogios da Deusa. — E não foi difícil amar Asterius... — Ela sorriu e encolheu os ombros, tímida. — Não há sempre
algo de animal dentro dos homens? É o que os faz tão deliciosamente diferentes de nós. — Respirou fundo. — Não pode, por favor, deixar que eu volte para ele? Eu
lhe dou minha palavra de que me sacrificarei na noite do Beltane.
— O que você fez mudou o Reino das Rosas, Empousa. Seu sacrifício foi puro e imaculado pelos laços do dever, da força ou do medo. Nunca mais será necessário outro
sacrifício no Beltane. Seu sangue garantiu isso.
Quando Mikki começou a falar, Hécate levantou a mão para silenciá-la.
— Mas voltar não será assim, tão fácil. Você também mudou por conta de seu ato. Se permanecer no mundo comum, terá uma vida normal. Mas se retornar ao Reino das
Rosas, seu sangue o unirá a este irrevogavelmente, o que significa que seria uma imortal reinando pela eternidade como mais do que minha Empousa: você se tornaria
a Deusa das Rosas.
Mikki ouviu as palavras de Hécate, mas estas quase se perderam em meio à vertigem e à descrença que inundou seus pensamentos. Hécate estava dizendo que ela poderia
não morrer nunca? Que poderia tornar-se uma deusa?
— Entretanto, deve saber que o caminho de uma divindade nem sempre é fácil de ser traçado, Mikado. A eternidade é uma companheira às vezes assustadora, às vezes
gloriosa, e às vezes melancólica e irritante como uma criança mimada. Por isso pense com cuidado, Empousa. Eu lhe darei o poder da escolha, porém essa escolha é
irrevogável. Poderá ficar aqui, no mundo comum, e viver sua vida mortal até o final. Se for assim, eu não a abandonarei e darei-lhe as boas-vindas aos Campos Elísios,
assim como fiz com sua mãe e sua avó.
— Mas, Asterius... — Mikki começou.
— Porque me arrependo dos erros que cometi, concederei a ele uma bênção. Se assim ele quiser, eu o presentearei com o corpo de um mortal. — A deusa sorriu, os olhos
brilhando maliciosamente. — Posso presentear Asterius com o corpo de um homem de verdade e você, minha Empousa favorita, com a promessa de que a nova forma dele
será mais agradável de se olhar do que a de Adonis... O problema é que é impossível, até mesmo para os meus poderes, fazer isso no Reino das Rosas. Terei que trazê-lo
até aqui, para viver uma vida mortal a seu lado. Terão filhos, envelhecerão juntos e encontrarão consolo nos braços um do outro no momento em que suas vidas chegarem
ao fim.
— Ou, então, poderei voltar? — Mikki indagou, quando pareceu que Hécate não iria prosseguir.
— Sim. Poderá retornar como a Deusa das Rosas, e eu renunciarei ao reino dos sonhos em seu nome. Mas lembre-se... Naquele reino eu não poderei mudar a forma de Asterius.
Ele permanecerá eternamente como uma fera, porém com o coração e a alma de um homem. Faça sua escolha, Mikado.
Mikki começou a considerar e, em seguida, percebeu que não precisava escolher. Sabia o que queria.
— Escolho o Reino das Rosas e minha fera. Não desejo viver em nenhum outro lugar, e jamais lhe pediria para mudar Asterius. Eu o amo da maneira como ele é, não como
os outros gostariam que ele fosse.
O sorriso de Hécate foi radiante.
— Vamos voltar a seu reino.
Capítulo 37
A floresta não havia mudado. Continuava escura e assustadora, principalmente agora que Mikki sabia o que escondia-se nela.
Claro que agora ela era também uma deusa, portanto, os Ladrões de Sonhos teriam que modificar suas estratégias se pretendiam fazê-la cair em outra armadilha.
E eles fariam isso; Hécate já lhe advertira a respeito. Ela se tornara imortal, contudo isso não significava que não era mais falível e passível de ser manipulada
por emoções obscuras. A própria Hécate era prova disso.
Mikki estremeceu e puxou a palla roxa sobre os ombros com mais força. Seria cuidadosa.
Estranho que não se sentisse diferente. Ou ao menos não tão diferente.
Sentira a reação das rosas ao retornar. De verdade. Embora tivesse sido até constrangedor, estas tinham se alegrado quando ela adentrara o reino.
Sorriu. Sabia, agora, que elas possuíam emoções, assim como pequenos e brilhantes espíritos... Porém não se sentia menos ridícula quanto a todos aqueles anos em
que conversara com seus arbustos.
Era uma sensação maravilhosa e muito estranha, à qual ela teria que se acostumar.
As servas ficariam exultantes em vê-la, pensou, ansiosa por surpreendê-las na manhã seguinte.
Mas não naquela noite. Naquela noite, havia apenas uma pessoa que queria ver... apenas um lugar em que gostaria de estar. Nos braços de Asterius.
Ele encontrava-se ali perto, reunindo as tramas da realidade para as Tecedoras de Sonhos. Podia ter esperado por ele em sua casa, poderia tê-lo invocado de seu quarto,
no palácio...
Mas não quisera fazer nada disso. Quisera vir até ele, pois amava aquela alegria inocente que Asterius demonstrava a cada vez que ela se aproximava dele.
E queria que ele soubesse que ela continuaria a vir para ele por toda a eternidade.
Uma luz cintilou na escuridão, atraindo-a para a direita. Mikki a seguiu, e a luz revelou ser uma tocha. Segurando o fôlego, ela prosseguiu lenta e silenciosamente
em sua direção.
Ele estava de pé, de costas para ela, passando as mãos pelos galhos de uma antiga árvore. Fios cintilantes surgiam em seus dedos, e ele os puxava, juntando-os em
um monte mágico e luminoso no solo da floresta.
Mikki aproximou-se e parou quando ele soltou um gemido baixo. Asterius ficou de lado para ela em um movimento tenso e súbito, como se a trama que ele havia acabado
de puxar houvesse lhe causado dor.
Ele não a deixou cair, entretanto. Ao contrário, olhou para o fio com uma expressão angustiada de desespero e saudade.
Mikki estreitou os olhos e foi então que enxergou a si mesma na trama. Nesta, encontrava-se visivelmente grávida, o que foi um choque a princípio.
O choque transformou-se em pura alegria, contudo, no momento em que Asterius fez-se ver na cena, tomando-a nos braços. Beijava-a para depois cair de joelhos e pousar
os lábios em sua barriga dilatada. Na visão de sonho, Mikki viu-se sorrindo, satisfeita e estendendo a mão para acariciar um dos chifres escuros de seu amado, assim
como tinha feito havia muito tempo.
Com um grito angustiado, Asterius arremessou o fio para longe dele.
— Por que me atormenta? — rugiu, inconformado.
Mikki saiu das sombras.
— Ficou atormentado ao me ver grávida? Eu devia ser a única a ficar preocupada com isso. Ter um par de chifrinhos e pequenos cascos pisoteando meu útero é um pouco
assustador...
Asterius não se moveu. Apenas voltou o olhar para Mikki.
Seus olhos faiscaram, cheios de ódio.
— Vá embora, alma do além! Não me deixarei enganar por suas mentiras! — Ele começou a mover-se em sua direção, rosnando, ameaçador, e expondo as garras mortais.
— Asterius, sou eu! Eu só queria fazer uma surpresa...
Os olhos castanhos pareceram ainda mais escuros.
— Eu disse para ir embora, pesadelo! — ele urrou, avultando-se sobre ela.
Mikki gritou e recuou um passo, dizendo a primeira coisa que lhe veio à mente:
— Mas, na primeira noite em que nos encontramos, você colocou uma rosa no meu vinho!
Asterius estacou como se fosse trombar numa parede.
— Mikado? — indagou, incrédulo.
— Era o que eu estava tentando lhe dizer!
Mikki suspirou quando ele continuou paralisado.
— Depois das tantas vezes em que me rejeitou, é de admirar que tenhamos ficado juntos, sabia?
— Mikado! — Asterius lançou-se para a frente e a tomou nos braços. Seu corpo poderoso tremia, e ele não parecia capaz de fazer mais do que abraçá-la e repetir seu
nome seguidas vezes.
Ela o abraçou de volta, tocando-o e murmurando palavras carinhosas, até que a agitação de Asterius diminuiu e ele foi capaz de soltá-la um pouco mais.
Mikki olhou para o rosto bonito e terrível, agora banhado pelas lágrimas.
— Como isso aconteceu? Como pode estar aqui? — ele perguntou, atordoado.
— Hécate me deu uma escolha.
— Mas seu sangue... o reino está seguro agora. Eternamente. A deusa afirmou que, após seu sacrifício, não seria necessário derramar o sangue de mais nenhuma Empousa
para fazê-lo prosperar.
— Eu sei. Fui eu quem escolheu essa eternidade... para poder passá-la a seu lado.
A princípio, o olhar de Asterius continuou vazio. Então, a compreensão fez-se presente em seu rosto.
— Nunca mais vamos ficar separados?
— Nunca mais.
— Quer dizer que as tramas não estavam me atormentando! Elas estavam mostrando que... — Ele parou, incapaz de falar em meio à onda de emoções que o invadiu.
— Elas estavam mostrando que seremos felizes para todo o sempre. E, sim, meu amor, esse sonho em particular finalmente tornou-se realidade.
Devagar, Asterius segurou-lhe o rosto entre as mãos enormes e inclinou-se para beijá-la. Mikki passou os braços ao redor dele e agarrou-se a seu futuro... sua eternidade.
Nas sombras, Hécate sorriu e acariciou a cabeça escura de um de seus gigantescos animais.
Este livro é dedicado a todas que se apaixonaram pela Fera e ficaram desapontadas quando esta se transformou em um belo príncipe.

 

1* Wolverine, em inglês, é o nome dado ao carcaju, animal que pertence à família dos mustelídeos. Também é conhecido pelo nome de glutão. (N.E.)

 

 

                                                   P. C. Cast          

 

 

 

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