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A Divina Comédia / Dante Alighieri
A Divina Comédia / Dante Alighieri

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Divina Comédia

 

Inferno

 

CANTO I

Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer,     começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma     pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe     então a imagem de Virgílio, que o reanima e se oferece a tirá-lo     de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgatório. Beatriz,     depois, o guiará ao Paraíso.

Dante o segue.

DA nossa vida, em meio da jornada, Achei-me numa selva tenebrosa, 3 Tendo     perdido a verdadeira estrada.

Dizer qual era é cousa tão penosa, Desta brava espessura a     asperidade, 6 Que a memória a relembra inda cuidosa.

Na morte há pouco mais de acerbidade; Mas para o bem narrar lá     deparado 9 De outras cousas que vi, direi verdade.

Contar não posso como tinha entrado; Tanto o sono os sentidos me tomara,     12 Quando hei o bom caminho abandonado.

Depois que a uma colina me cercara,

Onde ia o vale escuro terminando, 15 Que pavor tão profundo me causara.

Ao alto olhei, e já, de luz banhando, Vi-lhe estar às espaldas     o planeta, 18 Que, certo, em toda parte vai guiando.

Então o assombro um tanto se aquieta, Que do peito no lago perdurava,     21 Naquela noite atribulada, inquieta.

E como quem o anélito esgotava Sobre as ondas, já salvo, inda     medroso 24 Olha o mar perigoso em que lutava, O meu ânimo assim, que     treme ansioso, Volveu-se a remirar vencido o espaço 27 Que homem vivo     jamais passou ditoso.

Tendo já repousado o corpo lasso, Segui pela deserta falda avante;     30 Mais baixo sendo o pé firme no passo.

Eis da subida quase ao mesmo instante Assoma ágil e rápida     pantera 33 Tendo a pele por malhas cambiante.

Não se afastava de ante mim a fera; E em modo tal meu caminhar tolhia,     36 Que atrás por vezes eu tornar quisera.

No céu a aurora já resplandecia, Subia o sol, dos astros rodeado,     39 Seus sócios, quando o Amor divino um dia A tais primores movimento     há dado.

Me infundiam desta arte alma esperança 42 Da fera o dorso alegre e     mosqueado, A hora amena e a quadra doce e mansa.

De um leão de repente surge o aspecto, 45 Que ao meu peito o pavor     de novo lança.

Que me investisse então cuido inquieto; Com fome e raiva atroz fronte     levanta; 48 Tremer parece o ar ao seu conspeto.

Eis surge loba, que de magra espanta; De ambições todas parecia     cheia; 51 Foi causa a muitos de miséria tanta! Com tanta intensa torvação     me enleia Pelo terror, que o cenho seu movia, 54 Que a mente à altura     não subir receia.

Como quem lucro anela noite e dia, Se acaso o tempo de perder lhe chega,     57 Rebenta em pranto e triste se excrucia, A fera assim me fez, que não     sossega;

Pouco a pouco me investe até lançar-me 60 Lá onde o     sol se cala e a luz me nega.

Quando ao vale eu já ia baquear-me Alguém fraco de voz diviso     perto, 63 Que após largo silêncio quer falar-me.

Tanto que o vejo nesse grão deserto, — “Tem compaixão     de mim” — bradei transido — 66 “Quem quer que sejas,     sombra ou homem certo!” “Homem não sou” tornou-me      — “mas hei sido, Pais lombardos eu tive; sempre amada 69 Mântua     lhes foi; haviam lá nascido.

“Nasci de Júlio em era retardada, Vivi em Roma sob o bom Augusto,     72 Quando em deuses havia a crença errada.

“Poeta, decantei feitos do justo Filho de Anquíses, que de Tróia     veio, 75 Depois que Ílion soberbo foi combusto.

“Mas por que tornas da tristeza ao meio? Por que não vais ao     deleitoso monte, 78 Que o prazer todo encerra no seu seio?” “—      Oh! Virgílio, tu és aquela fonte Donde em rio caudal brota a     eloqüência?”

81 Falei, curvando vergonhoso a fronte. — “Ó dos poetas     lustre, honra, eminência! Valham-me o longo estudo, o amor profundo     84 Com que em teu livro procurei ciência! “És meu mestre,     o modelo sem segundo; Unicamente és tu que hás-me ensinado;     87 O belo estilo que honra-me no mundo.

“A fera vês que o passo me há vedado; Sábio famoso,     acude ao perseguido! 90 Tremo no pulso e veias, transtornado!” Respondeu,     do meu pranto condoído; “Te convém outra rota de ora avante     93 Para o lugar selvagem ser vencido.

“A fera, que te faz bradar tremante, Aqui passar não deixa impunemente;     96 Tanto se opõe, que mata o caminhante.

“Tem tão má natureza, é tão furente, Que     os apetites seus jamais sacia, 99 E fome, impando, mais que de antes sente.

“Com muitos animais se consorcia, Há-de a outros se unir té     ser chegado 102 Lebréu, que a leve à hórrida agonia.

“Por ouro ou por poder nunca tentado Saber, virtude, amor terá     por norte, 105 Sendo entre Feltro e Feltro potentado.

“Será da humilde Itália amparo forte, Por quem Camila     a virgem dera a vida, 108 Turno Eurialo, Niso acharam morte.

“Por ele, em toda parte, repelida Irá lançar-se no infernal     assento, 111 Donde foi pela Inveja conduzida.

“Agora, por teu prol, eu tenho o intento De levar-te comigo; ir-te-ei     guiando 114 Pela estância do eterno sofrimento, “Onde, estridentes     gritos escutando, Verás almas antigas em tortura 117 Segunda morte     a brados suplicando.

“Outros ledos verás, que, em prova dura Das chamas, inda esperam     ter o gozo 120 De Deus no prêmio da imortal ventura.

“Se lá subir quiseres, um ditoso Espírito, melhor te     será guia, 123 Quando eu deixar-te, ao reino glorioso.

“Do céu o Imperador, a rebeldia Minha à lei castigando,     não consente

126 Que eu da cidade sua haja a alegria.

“Em toda parte impera onipotente, Mas tem no Empíreo sua augusta     sede: 129 Feliz, por ele, o eleito à glória ingente!”     — “Vate, rogo-te” — eu disse — “me concede,     Por esse Deus, que nunca hás conhecido, 132 Porque este e maior mal     de mim se arrede.

“Que, até onde disseste conduzido, À porta de São     Pedro eu vá contigo E veja os maus que houveste referido”.

136 Move-se o Vate então, após o sigo.

1. Em meio etc. Aos 35 anos. Dante tinha 35 anos no dia 25 de março     de 1300, ano no qual o papa Bonifácio VIII proclamou o primeiro Jubileu.      — 2. Tenebrosa etc., simbólica selva dos vícios humanos.      — 32. Pantera, símbolo da luxúria e da fraude; politicamente,     de Florença. — 44. Um leão, símbolo da soberba     e da violência; politicamente, da França. — 40. Loba, símbolo     da avareza e da incontinência; politicamente da Cúria Romana.      — 62. Alguém etc., o poeta Virgílio Maro, símbolo     da razão humana. — 105. Entre Feltro e Feltro, entre Montefeltro     e Feltro.

— 122. Espirito melhor, Beatriz, a mulher que Dante amou.

CANTO II

Depois da invocação às Musas, Dante, considerando a     sua fraqueza, duvida de aventurar-se na viagem. Dizendo-lhe, porém,     Virgílio, que era Beatriz quem o mandava, e que havia quem se interessava     pela sua salvação, determina-se segui-lo e entra com o seu guia     no difícil caminho.

FORA-se o dia; e o ar, se enevoando, Aos animais, que vivem sobre a terra,     3 As fadigas tolhia; eu só, velando, Me aparelhava a sustentar a guerra     Da jornada, assim como da piedade, 6 Que vai pintar memória, que não     erra.

Ó Musas! Ó do gênio potestade! Valei-me! Aqui, ó     mente, que guardaste 9 Quanto vi, mostra a egrégia qualidade.

“Poeta”, — assim falei, — “que começaste     A guiar-me, vê bem se em mim persiste 12 Calor que, à empresa     que me fias, baste.

“Que o pai do Sílvio fora, referiste, Corrutível ainda,     até o inferno 15 Sem perder o que em corpo humano existe.

“Se do mal assim quis o imigo eterno, Origem vendo nele do alto efeito,     18 O que e o qual, segundo o que discerno, “Pela razão bem pode     ser aceito; Que para Roma e o império se fundarem 21 Fora no céu     por genitor eleito; “À qual e ao qual cabia aparelharem, Dizendo-se     a verdade, o lugar santo 24 Aos que do maior Pedro o sólio herdaram.

“Nessa empresa, em que o hás louvado tanto, Cousas ouviu, de     que surgiu motivo 27 Ao seu triunfo e ao pontifício manto.

“Lá foi o Vaso Eleito ainda vivo: Conforto ia buscar, à     fé, que à estrada 30 Da salvação princípio     é decisivo.

“Por que irei? Quem permite esta jornada? Enéias, Paulo sou?     Essa ventura 33 Nem eu, nem outrem crê ser-me adatada.

“Receio, pois seja ato de loucura, Se eu me resigno a cometer a empresa.

36 Supre, és sábio, o que digo em frase escura”.

Como quem ora quer, ora despreza,

Sua alma a idéias novas tem disposta, 39 Mostrando aos seus desígnios     estranheza, Assim fiz eu na tenebrosa encosta, Porque, pensando, abandonava     o intento, 42 Formado à pressa, que ora me desgosta.

“Do teu dizer se atinjo o entendimento” — Do magnânimo     a sombra me tornava, — 45 “Eivado estás de ignóbil     sentimento, “Que do homem muita vez faz alma ignava, Das honrosas ações     o desviando, 48 Qual sombra, que o corcel ao medo trava.

“Desse temor livrar-te desejando, Por que vim te direi e quanto ouvido     51 Hei logo ao ver-te mísero lutando.

“No Limbo era suspenso: eis requerido Por Dama fui tão bela,     tão donosa, 54 Que as ordens suas presto lhe hei pedido.

“Brilhavam mais que a estrela radiosa Os seus olhos; suave assim dizia     57 De anjo com voz, falando-me piedosa: — “De Mântua alma     cortês, que inda hoje em dia No mundo gozas fama tão sonora,     60 Que, enquanto existir mundo, mais se amplia,

“Amigo meu, que a sorte desadora, Pela deserta falda indo, impedido     63 De medo, atrás os passos volta agora.

“Temo que esteja tanto já perdido, Que tarde eu tenha vindo     a socorrê-lo, 66 Pelo que lá no céu dele hei sabido.

“Parte, pois, e com teu discurso belo E quanto o salvar possa do perigo     69 Lhe acode; e me console o teu desvelo.

“Sou Beatriz, que envia-te ao que digo, De lugar venho a que voltar     desejo: 72 Amor conduz-me e faz-me instar contigo.

“Voltando ao meu Senhor, em todo o ensejo Repetirei louvor, que hás     merecido”. — 75 “Tornei-lhe, quando já calar-se a     vejo: — “Senhora da virtude, a quem tem sido Dado só que     proceda a espécie humana 78 Quanto é no mundo sublunar contido,      “Tanto praz-me a ordem que de ti dimana, Que, já cumprida, houvera     inda demora: 81 Em me abrir teu querer não mais te afana.

“Diz-me, porém, por que razão, Senhora,

Baixar a este centro hás resolvido 84 Do céu, a que ardes por     voltar agora”.

— “Se queres tanto ser esclarecido Eu te direi” —      tornou-me — “frase breve 87 Por que sem medo às trevas     hei descido.

“Somente as cousas recear se deve Que a outrem podem ser causa de dano     90 Não das mais: a temor a causa é leve.

“De Deus favor criou-me soberano Tal, que a vossa miséria não     me empece 93 Nem deste incêndio assalta o fogo insano.

“Nobre Dama há no céu, que compadece O mal, a que te     envio; e tanto implora, 96 Que lá decreto austero se enternece.

— “Volvendo-se a Luzia, assim a exora: “O teu servo fiel     tanto periga, 99 Que ao teu amparo o recomendo agora”. — “Luzia,     sempre do que é mau imiga Ergue-se e ao lugar foi, em que eu sentada     102 Ao lado estava de Raquel antiga.

“De Deus vero louvor!” — diz-me apressada — “Por     que não socorrer quem te amou tanto, 105 Que só por ti deixou     do vulgo a estrada?

“Não lhe ouves, Beatriz, o amargo pranto? Não vês     que junto ao rio é combatido, 108 Que ao mar não corre, por     mortal espanto?” — “Os danos, tão veloz, não     tem fugido Ninguém, nem procurado o que deseja, 111 Como eu, em tendo     vozes tais ouvido; “O trono meu deixei, por que te veja, Fiada em teus     discursos eloqüentes, 114 Honra tua e de quem te ouvindo esteja”.      — “Assim falava e os olhos fulgentes Com lágrimas a mim     ela volvia, 117 Para apressar-me a vir assaz potentes.

“A ti vim, pois, como ela requeria; Da fera te livrei, que da colina     120 Tão perto já, teus passos impedia.

“Que fazes, pois? Por que, por que domina Tanta fraqueza o peito espavorido?     123 Por que ao valor tua alma não se inclina, “Quando és     pelas três santas protegido, Que na corte do céu por ti se esmeram,     126 E gozar tanto bem lhe é prometido?” — Quais flores,     que, fechadas, se abateram

Da noite ao frio, e, quando o sol aquece, 129 Erguem-se abertas na hástea,     tais como eram, Tal meu valor renova e fortalece.

Tanto ardimento o coração me aviva, 132 Que exclamei, como     quem jamais temesse: “Ó Dama em socorrer-me compassiva! E tu,     que a voz lhe ouvindo, obedeceste, 135 Cortês ao rogo e com vontade     ativa, “Por teu dizer no peito me acendeste Desejo tal de vir, que sou     tornado 138 Ao propósito, a que antes me trouxeste.

“Vai, pois nosso querer ’stá combinado.

Serás meu guia, meu senhor, meu mestre!” Disse-lhe assim. Moveu-se     ele; ao seu lado 142 Pelo caminho entrei alto e silvestre.

13. O pai de Sílvio, Enéias. — 28. O Vaso — São     Paulo que nos Atos dos Apóstolos é chamado o Vaso de eleição.      — 76. Senhora da virtude, Beatriz simboliza a teologia. — 94.     Nobre Dama, Maria, mãe de Jesus, símbolo da misericórdia     divina. 97. — Luzia, mártir e santa, símbolo da graça     iluminante. — Raquel, filha de Labão e mulher do patriarca Jacó,     simboliza a vida contemplativa.     CANTO III

Chegam os Poetas à porta do Inferno, na qual estão escritas     terríveis palavras. Entram e no vestibulo encontram as almas dos ignavos,     que não foram fiéis a Deus, nem rebeldes. Seguindo o caminho,     chegam ao Aqueronte, onde está o barqueiro infernal, Caron, que passa     as almas dos danados à outra margem, para o suplício. Treme     a terra, lampeja uma luz e Dante cai sem sentidos.

“POR mim se vai das dores à morada, Por mim se vai ao padecer     eterno, 3 Por mim se vai à gente condenada.

“Moveu Justiça o Autor meu sempiterno, Formado fui por divinal     possança, 6 Sabedoria suma e amor supremo.

No existir, ser nenhum a mim se avança, Não sendo eterno, e     eu eternal perduro: 9 Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!”      Estas palavras, em letreiro escuro, Eu vi, por cima de uma porta escrito.

12 “Seu sentido” — disse eu — “Mestre me é     duro” Tornou Virgílio, no lugar perito:

— “Aqui deixar convém toda suspeita; 15 Todo ignóbil     sentir seja proscrito.

“Eis a estância, que eu disse, às dores feita, Onde hás     de ver atormentada gente, 18 Que da razão à perda está     sujeita”.

Pela mão me travando diligente, Com ledo gesto e coração     me erguia, 21 E aos mistérios guiou-me incontinênti.

Por esse ar sem estrelas irrompia Soar de pranto, de ais, de altos gemidos:     24 Também meu pranto, de os ouvir, corria.

Línguas várias, discursos insofridos, Lamentos, vozes roucas,     de ira os brados, 27 Rumor de mãos, de punhos estorcidos, Nesses ares,     pra sempre enevoados, Retumbavam girando e semilhando 30 Areais por tufão     atormentados.

A mente aquele horror me perturbando, Disse a Virgílio: — “Ó     Mestre, que ouço agora? 33 “Quem são esses, que a dor     está prostrando?” — “Deste mísero modo”     — tornou — “chora Quem viveu sem jamais ter merecido

36 Nem louvor, nem censura infamadora.

“De anjos mesquinhos coro é-lhes unido, Que rebeldes a Deus     não se mostraram, 39 Nem fiéis, por si sós havendo sido”.

“Desdouro aos céus, os céus os desterraram; Nem o profundo     inferno os recebera, 42 De os ter consigo os maus se gloriaram”.

— “Que dor tão viva deles se apodera, Que aos carpidos     motivo dá tão forte?” — 45 “Serei breve em     dizer-to” — me assevera. — “Não lhes é     dado nunca esperar morte; É tão vil seu viver nessa desgraça,     48 Que invejam de outros toda e qualquer sorte.

“No mundo o nome seu não deixou traça; A Clemência,     a Justiça os desdenharam.

51 Mais deles não falemos: olha e passa”.

Bandeira então meus olhos divisaram, Que, a tremular, tão rápida     corria, 54 Que avessa a toda pausa a imaginaram.

E após, tão basta multidão seguia, Que, destruído     houvesse tanta gente 57 A morte, acreditado eu não teria.

Alguns já distinguira: eis, de repente, Olhando, a sombra conheci     daquele 60 Que a grã renúncia fez ignobilmente.

Soube logo, o que ao certo me revele, Que era a seita das almas aviltadas,     63 Que os maus odeiam e que Deus repele.

Nunca tiveram vida as desgraçadas; Sempre, nuas estando, as torturavam     66 De vespas e tavões as ferroadas.

Os rostos seus as lágrimas regavam, Misturadas de sangue: aos pés     caindo, 69 A imundos vermes o repasto davam.

De um largo rio à margem dirigindo A vista, de almas divisei cardume.

72 — “Mestre, declara, aos rogos me anuindo, “Que turba     é essa” — eu disse — “e qual costume Tanto     a passar a torna pressurosa, 75 Se bem discirno ao duvidoso lume?” —      Tornou-me: — “Explicação minuciosa Darei, quando     tivermos atingido 78 Do Aqueronte a ribeira temerosa”.

Então, baixos os olhos e corrido Fui, de importuno a culpa receando,

81 Té o rio, em silêncio recolhido.

Eis vejo a nós em barca se acercando, De cãs coberto um velho      — “Ó condenados, 84 Ai de vós! — alta grita     levantando.

“O céu nunca vereis, desesperados: Por mim à treva eterna,     na outra riva, 87 Sereis ao fogo, ao gelo transportados.

“E tu que estás aqui, ó alma viva, De entre estes que     são mortos, já te ausenta!” 90 Como não lhe obedeço     à voz esquiva, “Por outra via irás” — ele     acrescenta — “Ao porto, onde acharás fácil transporte;     93 Lá pássaras sem barca menos lenta”. — “Não     te agastes, Caronte! Desta sorte Se quer lá onde” — disse-lhe     o meu Guia — 96 “Quem pode ordena. E nada mais te importe”.

Sereno, ouvido, o gesto se fazia Da lívida lagoa ao nauta idoso, 99     Quem em círculos de fogo olhos volvia.

As desnudadas almas doloroso O gesto descorou; dentes rangeram 102 Logo em     lhe ouvindo o vozear raivoso.

Blasfemaram de Deus e maldisseram A espécie humana, a pátria,     o tempo, a origem 105 Da origem sua, os pais de quem nasceram.

Todas no pranto acerbo, em que se afligem, Se acolhem juntas ao lugar tremendo,     108 Dos maus destinos, que se não corrigem.

Caronte, os ígneos olhos revolvendo, Lhes acenava e a todos recebia:     111 Remo em punho, as tardias vai batendo.

Como no outono a rama principia As flores a perder té ser despida,     114 Dando à terra o que à terra pertencia, Assim de Adam a prole     pervertida, Da praia um após outro se enviavam, 117 Qual ave dos reclamos     atraída.

Sobre as túrbidas águas navegavam; E pojado não tinham     no outro lado, 120 Mais turbas já no oposto se apinhavam.

“Aqui meu filho” — disse o Mestre amado — “concorrem     quantos há colhido a morte, 123 De toda a terra, tendo a Deus irado.

“O rio prontos buscam desta sorte, De Deus tanto a justiça os     punge e excita,

126 Tornando-se o temor anelo forte! “Alma inocente aqui jamais transita,     E, se Caronte contra ti se assanha, 129 Patente a causa está, que tanto     o irrita”.

Assim falava; a lúrida campanha Tremeu e foi tão forte o movimento,     132 Que do medo o suor ainda me banha.

Da terra lacrimosa rompeu vento, Que um clarão respirou avermelhado;     Tolhido então de todo o sentimento, l36 Caí, qual homem que     é do sono entrado.

37. De anjos etc., que não tomaram posição na luta entre     os fiéis e os rebeldes a Deus. — 59-60. Daquele etc., Celestino     V que renunciou ao papado, tendo por sucessor Bonifácio VIII, inimigo     de Dante e do seu partido. — 136. Caí etc. Dante perdendo os     sentidos, atravessa o Aqueronte, sem saber de que modo.     CANTO IV

Dante é despertado por um trovão e acha-se na orla do primeiro     círculo. Entra depois no Limbo, onde estão os que não     foram batizados, crianças e adultos. Mais adiante, num recinto luminoso,     vê os sábios da antigüidade, que, embora não cristãos,     viveram virtuosamente. Os dois poetas descem depois ao segundo círculo.

DESSE profundo sono fui tirado Por hórrido estampido, estremecendo     3 Como quem é por força despertado.

Ergui-me, e, os olhos quietos já volvendo, Perscruto por saber onde     me achava, 6 E a tudo no lugar sinistro atendo.

A verdade é que então na borda estava Do vale desse abismo     doloroso, 9 Donde brado de infindos ais troava.

Tão escuro, profundo e nebuloso Era, que a vista lhe inquirindo o     fundo, 12 Não distinguia no antro temeroso.

“Eia! Baixemos, pois, da treva ao mundo!” — O Poeta então     disse-me enfiando —

15 “Eu descerei primeiro, tu segundo”. — Tornei-lhe, a     palidez sua notando: “Como hei-de ir, se és de espanto dominado,     18 Quando conforto estou de ti sperando?” — “Dos que lá     são o angustioso estado Causa a que vês no rosto meu impressa,     21 Piedade, medo não, como hás cuidado.

“Vamos: longa a jornada exige pressa”.

Entrou, e eu logo, o círculo primeiro 24 Em que o abismo a estreitar-se     já começa, Escutei: não mais pranto lastimeiro Ouvi;     suspiros só, que murmuravam, 27 Vibrando do ar eterno o espaço     inteiro.

Pesares sem martírio os motivavam De varões e de infantes,     de mulheres 30 Nas multidões, que ali se apinhoavam.

“Conhecer” — meu bom Mestre diz — “não     queres Quais são os que assim vês ora sofrendo? 33 Antes de avante     andar convém saberes “Que não pecaram: boas obras tendo     Acham-se aqui; faltou-lhes o batismo, 36 Portal da fé, em que és     ditoso crendo.

“Na vida antecedendo o Cristianismo, Devido culto a Deus nunca prestaram:     39 Também sou dos que penam neste abismo.

“Por tal defeito — os mais nos não mancharam — Perdemo-nos:     a pena é desesp’rança, 42 Desejos, que para sempre se     frustaram”.

Ouvi-lo, em dor o coração me lança, Pois muitos conheci     de alta valia, 45 A quem do Limbo a suspenção alcança.

“Ó Mestre! Ó meu Senhor! diz-me — inquiria, Para     ter da certeza o firme esteio 48 À fé, que os erros todos desafia,      “Por seu merecimento ou pelo alheio Daqui alguém ao céu     já tem subido?” 51 Da mente minha ao alvo o Mestre veio, E falou-me:      “Des’pouco aqui trazido, Descer súbito vi forte guerreiro;     54 De triunfal coroa era cingido.

“Almas levou — do nosso pai primeiro, Abel, Noé, Moisés,     que legislara, 57 Abraam, na fé, na obediência inteiro, “Davi,     que sobre o povo hebreu reinara, Israel com seu pai e a prole basta,

60 E Raquel, por quem tanto se afanara.

“Para a glória outros muitos mais afasta Do Limbo; e sabe tu     que antes não fora 63 Salvo quem pertencera à humana casta”.

Andávamos, enquanto isto memora, Sem parar, pela selva penetrando,     66 Selva de almas, que aumenta de hora em hora, E da entrada não longe     ainda estando, Eis um clarão brilhante divisamos 69 Das trevas o hemisfério     alumiando.

Dali distantes ainda nos achamos Não tanto, que eu não discernisse     em parte 72 Que à sede de almas nobres caminhamos.

“Ó tu, que és honra da ciência e da arte, Quem     são” — disse — “os que, aos outros preferidos,     75 Privilégio tamanho assim disparte?” Falou Virgílio:      “— Assim são distinguidos Do céu, que atende à     fama alta e preclara, 78 Com que foram na terra engrandecidos”.

Eis voz escuto sonorosa e clara: “Honrai todos o altíssimo poeta!     81A sombra sua torna, que ausentara”.

Quatro sombras notei, quando aquieta O rumor, que a nós vinham: nos     semblantes 84 Nem prazer, nem tristeza se interpreta.

E disse o Mestre, após alguns instantes: “Aquele vê, que,     qual monarca ufano, 87 Empunha espada e os três deixa distantes.

É Homero, o poeta soberano; O satírico Horácio é     o outro, e ao lado 90 Ovídio, em lugar último Lucano.

Como lhes cabe o nome assinalado Que soou nessa voz há pouco ouvida,     93 Me honrando, honrosa ação têm praticado”.

A bela escola assim vi reunida Do Mestre egrégio do sublime canto,     96 Águia em seu vôo além dos mais erguida.

Discursado entre si tendo algum tanto, A mim volveram gracioso o gesto: 99     Sorriu Virgílio, dessa mostra ao encanto.

Mais foi-me alto conceito manifesto, Quando acolher-me ao grêmio seu     quiseram, 102 Entre eles me cabendo o lugar sexto.

Té o clarão comigo se moveram,

Prática havendo, que omitir é belo, 105 Sublime no lugar, onde     a teceram.

Chegamos junto a um fúlgido castelo Sete vezes de muro alto cercado:     108 Cinge-o ribeiro lindo, mas singelo.

Passei-o a pé enxuto; acompanhado Entrei por sete portas, caminhando     111 De fresca relva até ameno prado.

Graves, pausados olhos meneando Stavam sombras de aspecto majestoso, 114     Com voz suave rara vez falando.

A um lado, sobre viso luminoso Subimo-nos: de lá se divisava 117 Dessas     almas o bando numeroso.

No verde esmalte o Mestre me indicava Egrégias sombras: inda me extasia     120 O prazer com que vê-los exultava.

Eletra vi de heróis na companhia, Enéias com Heitor e guarnecido     123 Grifanhos olhos César nos volvia.

Pentesiléia vi e o rosto ardido De Camila, e sentado o rei Latino     126 Junto a Lavinia estava enternecido.

Notei Márcia, Lucrécia e o que Tarquino Lançou, Cornélia     e Júlia; retirado 129 De todos demorava Saladino.

Alçando os olhos, de respeito entrado, O Mestre vejo dos que mais     se acimam 132 Em saber, de filósofos cercado.

Todos com honra e acatamento o estimam.

Aqui Platão e Sócrates estavam, 135 Que na grandeza mais se     lhe aproximam.

Demócrito, o atomista, acompanhavam Tales, Zeno, Heráclito     e Anaxagora.

138 Empédocle e Diógenes falavam, Dióscoris, o que a     natura outrora Sábio estudara, Orfeu, Túlio eloqüente,     141 Sêneca, o douto, que a moral explora, Lívio, Euclides, Hipócrates     ingente, Ptolomeu, Galeno e o Avicena; 144 Averróis, nos comentos sapiente.

Resenha não me é dado fazer plena De todos; longo o assunto     está-me urgindo, 147 E a ser omisso muita vez condena.

A companhia então se dividindo,

Comigo o Mestre outra vereda trilha, Do ar sereno ao ar, que treme, vindo:     151 Chegados somos onde luz não brilha.

95. Mestre egrégio etc., Homero, príncipe da poesia épica.      — 121. Eletra, mãe de Dardano, fundador de Tróia. —      122. Enéias, príncipe troiano, filho de Anquise e de Vênus.      — Heitor, filho de Príamo, rei de Tróia. — 124.     Pentesiléia, rainha das Amazonas, morta por Aquiles. 125. — Camila,     filha de Metabo, rei latino. — O rei Latino, rei dos aborígenes,     pai de Lavínia, que foi mulher de Enéias. — 127. Márcia,     mulher de Catão Uticense. — Lucrécia, mulher de Colatino     que, ao ser violada por Sesto Tarquínio, se matou. — 128. —      Cornélia, mãe dos Gracos. — Júlia, filha de César     e mulher de Pompeu. — 129. Saladino, sultão do Egito e da Síria,     que conquistou Jerusalém. — 131. O mestre etc., Aristóteles.      — 140. — Orfeu de Trácia, poeta e músico. —      Túlio, eloqüente, Marco Túlio Cícero. — 143.

Ptolomeu, o autor do sistema do mundo que se chamou sistema ptolemaico. —      Galeno e Avicena, famosos médicos, o primeiro de Pérgamo, no     Ponto, o segundo árabe.

CANTO V

No ingresso do segundo circulo está Minos, que julga as almas e designa-lhes     a pena. No repleno desse círculo estão os luxuriosos, que são     continuamente arrebatados e atormentados por um horrível turbilhão.     Aqui Dante encontra Francesca de Rimini, que lhe narra a história do     seu amor infeliz.

DESCI desta arte ao círculo segundo, Que o espaço menos largo     compreendia, 3 Onde o pungir da dor é mais profundo.

Lá stava Minos e feroz rangia: Examinava as culpas desde a entrada,     6 Dava a sentença como ilhais cingia.

Ante ele quando uma alma desditada Vem, seus crimes confessa-lhe em chegando,     9 Com perícia em pecados consumada.

Lugar no inferno, Minos, lhe adaptando, Do abismo o círc’lo     arbitra, a que pertença, 12 Pelas voltas da cauda graduando.

Sempre muitas se lhe acham na presença; Cada qual tem sua vez de ser     julgada, 15 Diz, ouve, cai, se some sem detença.

Minos, logo me vendo, iroso brada, Do grave ofício no ato sobrestando:     18 — “Ó tu, que vens das dores à morada; “Olha     como entras e em quem stás fiando: Não te engane do entrar tanta     largueza!” 21 — “Por que falar” — meu guia diz      — “gritando?” “Vedar não tentes a fatal empresa:     Assim se quer lá onde o que se ordena 24 Se cumpre. Assaz te seja esta     certeza!” Eis já começo da infernal geena A ouvir os lamentos:     sou chegado 27 Onde intenso carpir me aviva a pena.

Em lugar de luz mudo tenho entrado: Rugia, como faz mar combatido 30 Dos     ventos, pelo ímpeto encontrado.

Da tormenta o furor, nunca abatido, Perpetuamente as almas torce, agita,     33 Molesta, em seus embates recrescido.

Quando à borda do abismo as precipita, Ais, soluços, lamentos     vão rompendo.

36 Blasfema a Deus a multidão maldita.

Ouvi que estão no padecer horrendo

Os que aos vícios da carne se entregavam, 39 Razão aos apetites     submetendo.

Quais estorninhos, que a voar se travam Em densos bandos na estação     já fria, 42 Em rodopio as almas volteavam, Ao capricho do vento, que     as trazia.

De pausa não, de menos dor a esp’rança 45 Conforto lhes     não dá nessa agonia.

Como nos ares longa série avança De grous, que vão cantado     o seu grasnido, 48 Assim no gemer seu, que não descansa, Traz o tufão     as sombras desabrido.

— “Mestre” — disse eu — “quais almas     são aquelas 51 Que o vendaval fustiga denegrido?” — “A     primeira” — tornou Virgílio — “entre elas De     quem notícias ter desejarias, 54 Regeu nações, diversas     nas loquelas.

“De luxúria fez tantas demasias Que em lei dispôs ser     lícito e agradável 57 Para desculpa às torpes fantasias.

“Semíramis chamou-se: o trono estável Herdou de Nino     e foi a sua esposa.

60 Do Soldão teve a terra memorável.

“A morte deu-se a outra, de amorosa, Às cinzas de Siqueu traidora     e infida; 63 Cleópatra após vem luxuriosa”.

Helena vi, a causa fementida De tanto mal, e Aquiles celebrado 66 Que teve     por amor a extrema lida.

Páris, Tristão e um bando assinalado De sombras me indicou,     nomes dizendo, 69 Que à sepultura amor tinha arrojado.

A compaixão me estava confrangendo, Dessas damas e antigos cavaleiros     72 Nomes ouvindo e mágoas conhecendo.

Então disse eu: — “Poeta, aos companheiros Dois, que ali     vêm, falar muito desejo: 75 Ao vento ser parecem tão ligeiros!”     “Hás de ter” — me tornou — “asado ensejo,     Quando forem mais perto; então lhes pede 78 Pelo amor que os uniu:     virão sem pejo”. — Quando acercar-se o vento lhes concede     A voz alcei: — “Ó! vinde, almas aflitas, 81 Falar-nos,     se alta lei não vo-lo impede”. —

Quais pombas, que saudosas de asas fitas, Ao doce ninho, em vôo despedido,     84 Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas: Tais saíram da turba,     em que era Dido, A nós as duas sombras se inclinando, 87 Tanto as moveu     da voz o tom sentido! — “Entre beni’no, compassivo e brando,     Que nos vem visitar por este ar perso, 90 Tendo nós dado o sangue ao     mundo infando, “Se amigo o Senhor fosse do universo, Da paz aos rogos     nossos, gozarias, 93 Pois te enternece o nosso mal perverso.

“Enquanto o vento é quedo, o que dirias Havemos nós de     ouvir atentamente; 96 Diremos quanto ouvir desejarias.

“Onde, a paz desejando, o Pado ingente Com seus vassalos para o mar     descende, 99 A terra, em que hei nascido, está jacente.

“Amor, que os corações súbito prende, Este inflamou     por minha formosura, 102 Que roubaram-me: o modo inda me ofende.

“Amor, em paga exige igual ternura, Tomou por ele em tal prazer meu     peito,

105 Que, bem o vês, eterno me perdura.

“Amor nos igualou da morte o efeito: A quem no-la causou, Caína,     esperas”.

108 Após tais vozes foi silêncio feito.

Daquelas almas as angústias feras Em meditar amargo a fronte inclino     111 Té que o Mestre exclamou: “Que consideras?” Quando     pude, falei: “Cruel destino! Que doce cogitar! Que meigo encanto, 114     Precederam do par o fim maligno!” — Aos dois voltei-me e disse-lhes,     entanto: “Teus martírios, Francesca, me angustiam, 117 Movem-me     o triste, compassivo pranto.

“Quando os doces suspiros só se ouviam, Como, em que Amor mostrar-vos     há querido 120 Os desejos, que ainda se escondiam?” — —     “Não há” — disse — “tormento mais     dorido Que recordar o tempo venturoso 123 Na desgraça. Teu Mestre o     tem sentido.

“Mas porque de saber és desejoso, Como nasceu a flor do nosso     afeto, 126 Direi chorando o lance lastimoso.

“Por passatempo eu lia e o meu dileto De Lanceloto extremos namorados;     129 Éramos sós, de coração quieto.

“Nossos olhos, por vezes encontrados, Cessam de ler; ao gesto a cor     mudara.

132 Um ponto só deu causa aos nossos fados.

“Ao lermos que nos lábios osculara O desejado riso, o heróico     amante, 135 Este, que mais de mim se não separa, “A boca me beijou     todo tremante, De Galeotto fez o autor e o escrito.

138 Em ler não fomos nesse dia avante”.

Enquanto a história triste um tinha dito, Tanto carpia o outro, que     eu, absorto Em piedade, senti letal conflito, 142 E tombei, como tomba corpo     morto.

4. Minos, rei de Creta e que na mitologia pagã era juiz do Inferno.      — 58. Semíramis, rainha de Babilônia, viúva do rei     Nino. — 61. Dido, rainha de Cartago, que amou a Enéias. —      63.

Cleópatra, rainha do Egito. — 64. Helena, mulher de Menelau,     rei de Esparta que causou a guerra de Tróia. — 67. Páris     e Tristão, cavaleiros dos romances medievais. — 73.

Companheiros dois, Francesca de Rimini e Paulo Malatesta, que foram mortos     por Gianciotto Malatesta, marido de Francesca e

Átila, rei dos Hunos, chamado o flagelo de Deus. — Pirro, filho     de Aquiles que matou a Príamo.     CANTO XIII

Os dois Poetas entram no segundo compartimento, onde são punidos os     violentos contra si mesmos e os dilapidadores dos próprios bens. Os     primeiros são transformados em árvores, cujas negras folhas     as Hárpias dilaceram; os outros são perseguidos por cães     famintos que os despedaçam. Dante encontra Pedro des Vignes, de quem     ouve os motivos pelos quais se suicidou e as leis divinas em relação     aos suicidas. Vê depois o senense Lano e o paduano Jacob de Sant’Andréa.     Ouve, enfim, de um suicida florentino, qual é a causa dos males da     sua pátria.

NÃO stava ainda Nesso do outro lado, Quando nós por um bosque     penetramos, 3 Dos vestígios de passos não marcado.

Não fronde verde, mas escura, ramos Não lisos, mas travados     e nodosos, 6 Não pomos, puas com veneno achamos.

Por silvados mais densos, mais umbrosos, Do Cecina a Corneto, a besta brava,     9 Não foge, agros deixando deleitosos.

Das Hárpias o bando aqui pousava.

Que expeliram de Strófade os Troianos, 12 Vaticinando o mal, que os     aguardava.

Asas têm largas, colo e rosto humanos, Garras nos pés, plumoso     e ventre enorme, 15 Soam na selva os uivos seus insanos.

E disse o Mestre: “Convém já te informe Que o recinto     segundo vais entrando, 18 Onde verás spetáculo disforme, “Até     que ao areal chegues infando.

Atenta! E darás fé à narrativa, 21 Que fiz, ainda lá     no mundo estando”.

Em toda parte ouvi grita aflitiva: Como não via quem assim gemesse,     24 Parei e a torvação se fez mais viva.

Creio que o Mestre cria então que eu cresse Que esses lamentos enviava     aos ares 27 Uma turba, que aos olhos se escondesse; Pois disse-me: “De     um tronco se quebrares Um só raminho, ficarás ciente 30 Desse     erro em que se enleiam teus pensares”.

— O braço estendo então e prontamente Vergôntea     quebro. O tronco, assim ferido 33 “Por que razão me arrancas?”      diz fremente.

De sangue negro o ramo já tingido,

“Por que me rompes?” — prosseguiu gemendo — 36 Assomos     de piedade nunca hás tido?” — “Fui homem, hoje o     lenho, que estás vendo! Mais compassiva a tua mão seria 39 Se     alma aqui fosse de um dragão tremendo”.

Como acha verde, quando se incendia Num extremo s’estorce, no outro     estala, 42 Chiando e a umidade fora envia: Daquela arvora assim brotava a     fala, E o sangue; a minha mão já desprendera 45 O ramo, e, entanto,     o horror no peito cala.

“Se de antes ele acreditar pudera” Lhe torna o sábio Mestre      “alma agravada, 48 O que eu nos versos meus lhe descrevera, “Por     te ferir sua mão não fora alçada.

Não crera eu mesmo, e tanto que o induzira 51 Ao feito, que me pesa     e desagrada.

“Diz-lhe quem foste e as dúvidas lhe tira.

O mal te compensando, a fama tua 54 Há de avivar no mundo, a que retira”.      — E o tronco: “Alívio tanto à dor, que atua, Causais,     que de bom grado eu já explico: 57 Ao triste dai que a mágoa     exprima sua.

Fui quem do coração de Frederico As chaves tive e usei com     tanto jeito, 60 Fechando e desfechando que era rico “Da fé com     que a mim só rendeu seu peito No glorioso cargo fui constante, 63 Força,     alento exauri por seu proveito.

“A torpe meretriz, que, a todo instante Ao régio paço     olhos venais volvendo, 66 Morte comum, das cortes mal flagrante, “Contra     mim ódio em todos acendendo, Por eles acendeu iras de Augusto, 69 Que     honras ledas tornou-me em luto horrendo.

“Ressentindo-me então do mundo injusto, Por fugir seus desdéns,     buscando a morte, 72 Comigo iníquo fui eu, que era justo.

“Pelo tronco em que peno desta sorte, Que jamais infiel hei sido, juro,     75 Ao Rei meu, que houve a glória por seu norte, “De vós     o que voltar à luz adjuro Que a memória me salve ao nome honrado,     78 Que vulnerou da inveja o golpe duro”. — O vate inda esperou.      — “Pois se há calado”. —

Disse-me “fala, se tu mais desejas 81 E pede-lhe: do tempo és     apressado”. — Tornei: “Tu mesmo inquires quanto vejas Mais     convir-me; que eu sinto-me inibido 84 Por mágoas, que em minha alma     são sobejas”.

Ele então: “— Se o desejo teu cumprido For por este homem,     nobremente usando, 87 Te apraza, encarcerada alma, ao pedido “Nosso     atender, e como nos mostrando Se liga ao tronco o esp’rito e se é     factível 90 Soltar-se um dia, o vínculo quebrando”. —      Soprou de rijo o lenho; e perceptível Aquele som desta arte nos dizia:     93 — “Resposta breve dou quanto é possível.

“Quando os laços do corpo uma alma ímpia Destrói     por si, do seu furor no enleio 96 Ao círc’lo sete Minos logo     a envia.

“Na selva tomba e aonde acaso veio, E como o seu destino lhe consente,     99 Aí, qual grão germina de centeio, “Vai crescendo até     ser árvore ingente: As Hárpias, que a fronde lhe devoram, 102     Causam-lhe dor, que rompe em voz plangente.

“Hemos de ir onde os corpos nossos moram, Como as outras, mas sem que     os revistamos, 105 Mor pena aos que em perdê-los prestes foram.

“Arrastados serão por nós: aos ramos Pendentes ficarão     nesta floresta 108 Nos troncos, em que, assim, vedes, penamos”.

— Ouvíamos ainda a sombra mesta, De mais dizer cuidando houvesse     o intento.

111 Eis sentimos rumor, que nos molesta.

Assim monteiro, à caça pouco atento, Do javardo e dos cães     ouve o estrupido 114 E das ramadas o estalar violento.

Súbito vejo à esquerda, espavorido, Fugindo esp’ritos     dois nus, lacerados, 117 Ramos rompendo ao bosque denegrido.

“Ó morte!” um clama — “acode aos desgraçados!”      O segundo, que tardo se julgava: 120 “Ninguém, ó Lano,     os pés tanto apressados “De Toppo nas refregas te observava!”      Porém, de todo já perdido o alento, 123 Numa sarça acolheu-se     que ali stava.

Corria, enchendo a selva, em seguimento De famintas cadelas negro bando,     126 Quais alões da cadeia ao todo isento A sombra homiziada se enviando,     A fez pedaços a matilha brava, 129 E logo após levou-os ululando.

Então meu Guia pela mão me trava, Conduz-me à sarça,     que se em vão carpia 132 Pelas roturas, que o seu sangue lava.

“Ó Jacó Santo André!” triste dizia —     “Podia eu ser-te acaso amparo certo? 135 Em mim por crimes teus que     culpa havia?” — Disse-lhe o Mestre, quando foi mais perto: “Quem     és tu, que o teu sangue e mágoas exalas 138 Por golpes tantos,     de que estás coberto?” — Tornou-lhe: “Ó alma     que dessa arte falas E tu que o dano vês, que me separa, 141 Da fronde     minha, agora amontoá-las “Dignai-vos junto à rama, que     as brotara.

Na cidade nasci que por Batista 144 Deixou prisco patrão, que da arte     amara “Sempre pelos efeitos a contrista.

E se do Arno na ponte não restasse

147 Um vestígio, que traz seu culto à vista “Talvez ela     à existência não tornasse, E quem das cinzas, que Átila     há deixado, Levantou-a os esforços malograsse.

151 “Na minha própria casa hei-me enforcado”. —

58. Fui quem do coração de Frederico etc., Pedro des Vignes,     secretário de Frederico II que se suicidou por ter sido acusado de     trair o seu rei. — 118. Um clama etc., Lano de Siena, que morreu em     Pieve del Toppo, na batalha entre Senenses e Aretinos. — 119. O segundo     etc., Giacomo di S. Andrea, morto por Ezzelino de Romano. — 143. Por     Batista etc., Florença, antes de tornar-se cidade protegida por S.     João Batista, tinha como protetor Marte, do qual restava uma estátua     sobre a ponte Vecchio.     CANTO XIV

O terceiro compartimento no qual agora chegam os Poetas é um campo     de areia ardente, devastado por grandes chamas de fogo.

Aí estão os violentos contra Deus, contra a natureza e contra     a arte. Entre os primeiros está Capaneo, que desafia a Deus.

Seguindo, Dante e Virgílio chegam a um regato sangüíneo.     Deste e dos outros rios do Inferno Virgílio narra a origem misteriosa.

DE amor do pátrio ninho comovido, Essas dispersas folhas reunindo,     3 À sarça as dei, que tinha a voz perdido.

Ao limite, dali, fomos seguindo, Em que parte o recinto co’ terceiro,     6 Onde a justiça horrível stá punindo.

Para expressar-lhe o aspecto verdadeiro, Eu digo que à charneca então     chegamos, 9 De plantas nua em seu espaço inteiro.

Da dor a selva a cerca dos seus ramos, Como o fosso a torneia sanguinoso:     12 Ali, rente co’a borda, os pés firmamos.

O plaino era tão árido e arenoso, Como o que de Catão     os pés outrora

15 Na jornada calcaram fadigoso.

Ó vingança de Deus, quem não te adora Nos tremendos     efeitos meditando, 18 Que eu próprio olhei, que a minha voz memora!     De almas nuas eu via infindo bando, Por modos diferentes torturadas, 21 Miseráveis,     mesquinhas pranteando.

Jaziam sobre o dorso umas deitadas, Outras, dobrando os membros, se assentavam,     24 Muitas andavam sempre aceleradas.

Maior a turba destas se mostrava, Menor a que, prostrada no tormento.

27 Maior dor nos lamentos denotava.

Largas flamas com tardo movimento Choviam do areal em todo o espaço,     30 Qual neve em serra, quando é mudo o vento.

Na Índia sobre o exército, já lasso, Fogos cair viu     Alexandre outrora, 33 No chão ardendo livres de embaraço.

Que aos pés no solo os calquem sem demora Suas falanges avisado ordena:     36 Matá-los um por um fácil lhes fora.

Assim baixava, para agravo à pena, Lume eterno que à areia     se prendia, 39 Como à isca a fagulha mais pequena.

Cada qual sem repouso se estorcia, A um lado e a outro os braços revolvendo     42 A cada chama, que do ar chovia.

“Mestre” — falei — “que vais tudo vencendo,     Somente exceto a legião furente, 45 Que em Dite a entrada estava-nos     tolhendo, “Diz quem seja a grã sombra, que não sente,     Ao parecer, o incêndio, e não domado 48 Pela chuva, já     rápido, insolente?” — Reconhecendo o próprio condenado     Que da minha pergunta fora objeto, 51 “Morto sou qual fui vivo!”      clama irado.

“Que Jove canse o armeiro seu dileto, De quem tomou fremente o agudo     raio 54 Para em mim saciar rancor abjeto; “Que os seus cíclopes     sintam já desmaio De Mongibello na oficina negra, 57 Aos gritos —     “Bom Vulcano, acode ou caio!” — “Como fez na peleja     lá de Flegra; Que me fulmine de ódio e sanha cheio:

60 No gozo da vingança em vão se alegra”. — Virgílio     então, com voz, como não creio Lhe ter ouvido, sonorosa e forte,     63 Bradou-lhe: “Capaneu, pois no teu seio “Não mitiga a     soberda a própria morte, Sofre mor pena; igual não há     castigo 66 Ao que a raiva te inflige desta sorte!” — Para mim     se voltou; com gesto amigo Falou: — “Dos Reis que Tebas sitiaram     69 Foi um; de Deus se declarara imigo.

“Os crimes seus no inferno se agravaram; Já disse-lhe, as blasfêmias,     os furores 72 Digno prêmio em seu peito lhe deparam.

“Vem agora após mim; pelos fervores Não caminhes da areia     incandescente; 75 Da selva ao longo evitas-lhe os ardores”. —      Fomos andando, cada qual silente, Até onde jorrar do bosque eu via     78 Rubro arroio, que lembro inda tremente.

Do Bulicame qual o que saía, Das pecadoras em serviço usado:     81 Tal pela adusta areia este corria.

As margens e orlas são de cada lado Feitas de pedra e assim também     seu leito: 84 Caminho ali notei ao passo azado.

“De quanto aqui te conhecer hei feito, Depois que atrás deixamos     essa porta, 87 A cujo ingresso todos têm direito, “Não     se há mostrado à tua vista absorta Maravilha que iguale a desta     veia, 90 Em que a flama adurente fica morta”. — O Mestre diz e     assim desejo ateia De rogar-lhe me preste esse alimento, 93 Que excitado,     o apetite haver anseia.

“Do mar em meio jaz” — ouvi-lhe atento — “Destruído     país, Creta afamada.

96 Com seu rei foi do mal o mundo isento.

“Alça-se ali montanha outrora ornada De fontes e verdor: chama-se     Ida: 99 Erma está, como cousa desprezada.

“Foi ao filho pra berço preferida De Réia, que abafava     o seu vagido 102 Fazer mandando grita desmedida.

“Nas entranhas do monte um velho erguido Está: voltando à     Damieta as costas,

105 Como a espelho, olha Roma embevecido.

“De ouro faces e fronte são compostas, De pura prata são     braços e peito, 108 Enéias do busto as partes bem dispostas.

“De ferro estreme tudo o mais foi feito, O pé direito exceto,     que é de argila, 111 Mas o corpo sustém, sendo imperfeito.

“Salvo do ouro, do mais sempre destila De lágrimas por fenda     crebro fio, 114 Que fura a gruta e rápido desfila.

“Aos negros vales vem correndo em rio, Forma Stige, Aqueronte e Flegetonte,     117 Desce depois neste canal esguio “Até do inferno o fundo,     aonde é fonte Do Cocito. O que o rio acaso seja 120 Verás: mister     não é que ora te conte”. — — “Se desde     o nosso mundo ele serpeja, Dize, ó Mestre, a razão por que a     torrente 123 Só neste abismo lôbrego se veja”. —     “É circular este lugar horrente, E posto haja vencido extenso     trato, 126 Descendo tu à esquerda, inteiramente

“Não hás feito inda ao círc’lo o giro exato.

Não revele o teu rosto maravilha.

129 Novas cousas em vendo e estranho fato”. — Ainda eu perguntei:      — “Por onde trilha O Flegetonte e o Letes? De um te calas, 132     E do outro a veia é dessa origem filha”. — Tornou: —     “Muito me agrada quanto falas; Da água rubra o fervor, porém,     solvera 135 Uma dessas questões, que me assinalas.

“Do inferno fora o Letes ver espera: Na linfa sua as almas vão     lavar-se 138 Depois que a penitência o perdão gera”. —      Disse depois: “É tempo de deixar-se A selva; os passos meus sempre     acompanha, Pela margem caminho há para andar-se.

142 Do fogo ali se extingue toda sanha”. —

32. Alexandre, alusão a uma aventura de Alexandre Magno. — 55.     Cíclopes, gigantes com um só olho no meio da testa, que fabricavam     armas para Júpiter. — 56. Mongibello, o vulcão Etna, na     Sicília. — 63. Capaneu, um dos sete reis que sitiaram Tebas.      — 79. Bulicame, fonte de água quente perto de Roma. — 101.     Réia, mulher de Saturno e mãe de Júpiter. — 103-105.

Velho de Creta, símbolo da humanidade e, segundo outros, da monarquia,     que, em princípio boa e reta, vai depois degenerando.     CANTO XV

Prosseguindo os Poetas, encontram um grupo de violentos contra a natureza.     Entre estes está Brunetto Latini, que reconhece o discípulo     e lhe pede para aproximar-se dele, a fim de conversarem. Falam de Florença     e das desventuras reservadas a Dante. Brunetto dá ao Poeta ligeiras     notícias a respeito das almas que estão danadas com ele e foge     para reunir-se a elas.

POR uma dessas margens empedradas Imos: vapor do rio resguardava 3 Das chamas     o álveo e as bordas elevadas.

Como do mar temendo a força brava De Bruge a Cadsand, Flamengos fazem     6 Os diques, com que o mal se desagrava; Ou como o dano atalha, que lhe trazem     Do Brenta as invasões de Pádua a gente, 9 Se em Quiarentana     os gelos se desfazem, Assim as bordas desse rio horrente, Posto altura e grossura     lhes não desse 12 Iguais, quem quer que fosse artista ingente.

A selva já distante de nós era Tanto, que eu divisá-la     não podia,

15 Quando os olhos por vê-la atrás volvera, Eis encontramos     multidão sombria, Que a margem costeava, nos olhando, 18 Como sói     caminhante, ao fim do dia, Que vai, por lua nova, outro encarando: Para nos     ver os cílios contraindo, 21 Qual a agulha o artesano aparelhando.

Assim, de mira à turba nós servindo, Conhecido fui de um que     me travava 24 Da roupa — “Ó maravilha!” — repetindo.

Quando o seu braço para mim se alçava, Atentei-lhe no rosto     requeimado; 27 Posto que demudado, não vedava Que de mim fosse nas     feições lembrado.

À sua face inclinando a mão, lhe digo, 30 — “Messer     Brunetto! vós aqui!” — torvado.

“Filho meu! complacente sê comigo! Vir Brunetto Latini ora consente,     33 Deixando a turba, um pouco assim contigo!” — Tornei: —     “muito vos rogo; e que me assente Convosco se quereis, prazendo ao guia     36 Dos passos meus, assentirei contente”. —

— “Se um momento um de nós” — me respondia      — Aqui parasse, imóvel anos cento, 39 Pelo fogo ferido jazeria.

“Caminha: que eu te irei no seguimento.

Depois hei de juntar-me à companhia 42 Dos que pranteiam no eternal     tormento”. — Eu da estrada a descer não me atrevia Por     ir com ele; mas a fronte inclino 45 Reverente; e, falando prosseguia.

— “Que fortuna” — me disse — “ou que     destino Antes da morte aqui te há conduzido? 48 De quem recebes na     jornada ensino?” — “Antes de haver da idade o tempo enchido     Sobre a terra na vida sossegada; 51 Num vale” — respondi —     “fiquei perdido.

“Ontem costas lhe dei por madrugada; Ele acudiu-me, quando atrás     voltava, 54 E me conduz assim por esta estrada”. — — “Se     bem vaticinei, quando gozava, Da vida bela, glorioso porto 57 Te há     de o teu astro conduzir” — tornava.

“Se antes do tempo eu não stivesse morto.

Vendo que tanto o céu te era benigno, 60 Te dera nos trabalhos o conforto.

“Mas esse ingrato povo é tão maligno, Que outrora de     Fiesole viera 63 E tem de penha o coração ferino, “Em     ti, por seres bom, mal considera.

É justo: que entre acerbos sovereiros 66 Crescer doce figueira não     se espera.

“Velha fama os diz cegos, sempre useiros Na soberba, na inveja, na     avareza.

69 Deles te esquiva; em vícios são vezeiros.

“Te guarda a sorte de honras tal grandeza, Que hás de ser dos     partidos cobiçado; 72 Mas das garras lhes fica longe a presa.

“Ceve em si própria o fiesolano gado Os instintos brutais; não     toque a planta, 75 Que inda haja em tal nateiro germinado, “E em que     a semente ressuscite santa Dos romanos, que ali restaram, quando 78 Teceu-se     o ninho de malícia tanta”. — — “Se o céu”     — tornei — “meus votos escutando, Deferisse, da vida o lume     agora 81 Ainda aos olhos vos raiara brando;

“Que a doce imagem vossa inda memora Saudosa a mente e o paternal desvelo     84 Com que me heis ensinado de hora em hora “Como homem faz-se eternamente     belo.

Enquanto eu vivo for, agradecido 87 Ao mundo bem patente hei de fazê-lo.

“O vaticínio vosso, reunido A outro, há de explicar-me     sábia Dama, 90 Quando à sua presença houver subido.

“E como a consciência me não clama, Sabei que, quando     a sorte avessa esteja, 93 A todo o mal sou prestes, que ela trama.

“O que ouvi não cuideis novo me seja: Volva-se a roda como a     sorte a lança, 96 Lavre a terra o vilão como deseja”.      — Então meu douto Mestre, que se avança, Girando à     destra e me encarando, disse: 99 “Bem compreende quem tem boa lembrança!”     — Não me vedou, porém, que eu prosseguisse Na prática;     e a Brunetto os mais famosos 102 Pedi que dos seus sócios referisse.

— “Alguns convém saber, mais numerosos Em silêncio     deixar louvável sendo: 105 Míngua o tempo aos discursos copiosos.

“Sabe, em suma, que clérigos havendo Todos sido e letrados mui     famosos.

108 Se mancharam num só pecado horrendo.

“Vão na turba daqueles desditosos Acúrio e Prisciano;     alguns protervos 111 Se ver quiseres, por tal lepra ascosos.

“Olha o que, como quis servo dos servos, Pra Bacchiglione foi do Arno     mudado 114 E ali deixou seus deformados nervos.

“Não mais dizer, nem ir posso ao teu lado, Pois do areal já     vejo de repente 117 Vapor novo surgir afogueado.

“Não devo andar com bando diferente.

O meu Tesouro eu muito te encomendo: 120 Nele inda vivo, e rogo isto somente”.      — Voltou-se; e foi tão rápido correndo, Como os que correm     pelo pálio verde No campo de Verona, parecendo 124 Mais ser quem vence     do que ser quem perde.

30. Messer Brunetto, Brunetto Latino, autor do “Tesouro”, e mestre     de Dante. — 62 Fiesole, pequena cidade perto de Florença. —      110. Acúrcio, Francesco d’Accursio, jurisconsulto bolonhês.     Prisciano, gramático de Cesaréia — 112. Olha o que, etc.     Andréia de Mozzi, bispo de Florença e, depois, de Vicência.     CANTO XVI

Perto do limite do terceiro compartimento do sétimo círculo     os Poetas encontram outro bando de almas de sodomitas, no qual se destacam     três ilustres compatriotas de Dante. Reconhecendo-o, falam da decadência     das virtudes políticas e civis de Florença.

Chegam, depois à orla de outro precipício, onde a um sinal     de Virgílio, sobe, voando pelos ares, uma figura estranhíssima.

EM lugar stava já donde se ouvia Rumor, igual de abelhas ao zumbido,     3 De água, que noutro círculo caía: Eis três sombras     partir vi comovido, Correndo, de uma turba que passava 6 Debaixo do martírio     desmedido.

Vinham a nós, e cada qual gritava: “Detém-te; por teus     trajos se afigura 9 Seres alguém da nossa terra prava”. —      Ah! que chagas nos membros, na figura O fogo lhes abria, novas e antigas!     12 Só recordando, eu sinto mágoa pura.

O mestre, que escutara — “Não prossigas! Cumpre-te”     — disse, o rosto me voltando, —

15 “Aguardando, lhes dar mostras amigas.

“Não estivesse o fogo dardejando, Como o lugar requer, te caberia     18 Mais pressa do que estão manifestando”. — Paramos. Renovando     a vozeria Um círc’lo junto a nós os três formaram,     21 Em que as mãos cada qual dos três unia.

Como atletas, que, nus, de óleo se untaram, Mas, antes de lutar, dos     adversários 24 No fraco atentam, no seu prol reparam: Eles, se revolvendo     em giros vários, Olhavam-me em tal modo colocados, 27 Que os colos     aos seus pés stavam contrários.

“Se a miséria, em que somos trateados, Se o triste aspecto da     tostada face 30 Te move a desdenhar súplices brados, “Nossa fama     o teu ânimo traspasse; E pois, dize quem és que, ufano, o inferno     33 Calcas antes que a vida se finasse.

“Este, por quem os passos meus governo, Escoriado e nu, que ora estás     vendo, 36 Mais do que o crês no mundo foi superno.

Da famosa Gualdrada o neto sendo, Chamou-se Guido Guerra, e foi na vida 39     Por esforço e prudência reverendo.

A Tegghiaio Aldobrandi, que em seguida Me vai, por sua voz, por seus bons     feitos 42 Devera ser a pátria agradecida.

Eu que também da pena sofro efeitos Jacopo Rusticucci fui: da esposa     43 O maior mal causaram-me os defeitos”. — Se houvesse amparo     à chuva pavorosa (Virgílio o consentira), eu me lançara     48 Entre eles, da alma na expansão piedosa; Porém naqueles fogos     me abrasara, Sobrepujou temor vivo desejo, 51 Que de abraçá-los     súbito me entrara.

“Não desdém, mas piedade neste ensejo, Que não     se extinguira, me tem movido” 54 Lhes disse — “o padecer     em que vos vejo, “Tanto que o Senhor meu há proferido Palavras,     que a presença me indicaram 57 De almas quais sois neste lugar temido.

“Da vossa terra sou: sempre exaltaram Meu apreço e o dos que     vos conheceram

60 Ações que os nomes vossos tanto honraram.

“Por meu Guia veraz esperançado, Deixo o fel por doçura     permanente 63 Tendo primeiro o centro visitado”. — “Que     no teu corpo a vida longamente Persista!” — a sombra disse. —     “Dure a fama 66 Do nome teu com lume resplendente! “Na pátria     nossa inda revive a flama Da honra, do valor, que ali brilhara, 69 Ou de todo     a expeliu ódio que infama? “Pois Guilherme Borsiere, que baixara,     Há pouco, e vai chorando nesta ardência, 72 Cruciou-nos contando     o que notara”. — “Íncolas novos, súbita opulência,      — Florença, orgulho e vícios te acenderam, 75 De que tu     própria temes a influência!” — Gritei alçando     a fronte: e os três, que me eram Atentos, à resposta se encararam,     78 Como se essas verdades lhes prouveram.

“Se tão pouco te custa” — me tornaram — “Sempre     aos outros expor teu pensamento, 81 Feliz tu! Vozes tais assaz te honraram.

“E, pois, voltando a luz do firmamento, Se alfim saíres desta     estância horrente, 84 Quando — “Lá fui!” —      disseres, de contente, “Nos olvidar não deixa a humana gente”.      — Então, rompendo o círculo, fugiram, 87 Como se asas     tiveram, velozmente.

Em menos tempo aos olhos se esvaíram Do que proferir amen se gasta.

90 Logo aos passos do Mestre os meus seguiram.

Dali distância curta nos afasta, Eis da água os sons ouvimos,     tão de perto, 93 Que a voz forçar para se ouvir não basta.

Como o rio que, no álveo próprio aberto, Em Veso nasce e vai     para o oriente, 96 Ao lado esquerdo do Apenino, e ao certo Aquaqueta se chama,     da eminente Parte enquanto não desce, mas, tomando 99 Nome diverso     em Forli de repente, Rebomba e cai pela quebrada, quando Acerca-se a S. Bento,     o grão mosteiro 102 Que dar a mil pudera asilo brando: Assim desde     um penhasco sobranceiro Da água rubra troava alto estampido,

105 Que fora de surdez risco certeiro.

De uma corda eu me achava então cingido Com que outrora prender quis     a pantera, 108 De pêlo em malhas várias repartido.

Que a tirasse Virgílio me dissera: Eu descingi-me presto, lha entregando     111 Enrolada, como ele prescrevera.

Então ele à direita se voltando, A distância da borda     alcantilada 114 Lançou-a longe para o abismo infando.

— “Àquela ação não de antes praticada,”     — Pensei — “há de seguir-se estranho efeito, 117     Que do Mestre a atenção tem despertada”. — Quanta     cautela deve haver e jeito, Tratando-se com quem vê não somente     120 Os atos, mas também o que há no peito! — “Surgirá”     — disse o Mestre — “brevemente O que espero: o que tens     no pensamento 123 Logo aos teus olhos ficará patente.” Verdade,     que pareça fingimento, Evita proferir homem discreto: 126 Sofre desar,     de culpa estando isento.

Nada posso omitir, leitor dileto: Desta comédia pelos cantos juro     129 (Sejam assim de longo aplauso objeto!) Que subir por aquele ar grosso,     escuro Nadando vi figura temerosa 129 Ao peito mais intrépido e seguro:     Tal quem desceu pela onda perigosa A desprender de ocultos embaraços,     Lá no fundo, a fateixa vagarosa, 136 Subindo, encolhe as pernas, tende     os braços.

38. Guido Guerra, florentino, combateu em Montaperti. — 40.

Tegghiaio Atdobrandi, também patriota florentino. — 44. Jacopo     Rusticucci, valoroso cavaleiro florentino que combateu também na batalha     de Montaperti. — 70. Guilherme Borsiere, gentil- homem florentino. —      135. Fateixa, pequena âncora.     CANTO XVII

Enquanto Virgílio fala com Gerion, para convencer essa horrível     fera a levá-los ao fundo do abismo, Dante se aproxima das almas dos     violentos contra a arte. Dante reconhece alguns deles. A cada um pende do     peito uma bolsa na qual são desenhadas as armas da sua família.     Volta depois o Poeta para o lugar onde está Virgílio, que assentado     já sobre o dorso de Gerion, põe-no diante de si, e assim descem     ao oitavo círculo.

“EIS a fera, que a horrenda cauda enresta, Que arneses, montes, muros     atravessa 3 E com seu bafo impuro o mundo empesta!” Assim Virgílio     a me falar começa.

Para acercar-se logo lhe acenava 6 Ao marmóreo anteparo que ali cessa.

Da fraude o vulto imundo aproximava! A cabeça avançou e o torpe     busto, 9 Porém pendente a cauda lhe ficava A cara assomos tinha de     homem justo, Tanto era o parecer beni’no e brando! 12 No mais serpe,     movia horror e susto.

Grandes, hirsutos braços dilatando,

Alçava peito, ilhais, dorso malhados, 15 Mil rodelas e nós     se entrelaçando.

Mais cores nos estofos recamados Tártaros, Turcos nunca misturaram,     18 Nem Aracne em tecidos variegados.

Como os batéis, que à praia se amarram, No mar a popa têm,     a proa em terra; 21 E, como em regiões, que se deparam Sob o voraz     Tudesco, a fazer guerra Embosca-se o castor: assim se via 24 O monstro à     orla, que as areias cerra.

No ar a extensa cauda revolvia; E a venenosa ponta bipartida, 27 Do escorpião     qual dardo, se erigia “Té onde a fera atroz jaz estendida.

Convém seja o caminho desviado 30 Da senda” — disse o     Vate — “prosseguida” — Descendo, pois, pelo direito     lado Para o fogo fugir e a areia ardente 33 Passos dez pela borda hemos andado.

Chegados nós de Gerião em frente, Um tanto além sentado     um bando achamos 36 Na areia, perto desse abismo ingente.

— “Do recinto por teres, em que estamos” — Virgílio     disse — “a experiência inteira 39 A sorte vai saber dos     que avistamos.

“Os discursos, porém, filho aligeira.

Entanto impetrarei da fera infanda 42 Que prestar-nos seus ombros fortes     queira”. — Só pela borda, como o Vate manda, Vou do círculo     sétimo seguindo, 45 Dos mestos pecadores em demanda.

A dor, que brota em lágrimas, sentindo, Socorre-se das mãos     a aflita gente 48 Contra o solo e o vapor, que está caindo.

Assim lebréus, durante a calma ardente Dos dentes e unhas valem-se,     mordidos 51 De tavões por enxame impertinente.

Quando encarei nos rostos doloridos De alguns, que os fogos tanto cruciavam,     54 Que eram todos achei desconhecidos.

Bolsas pendentes dos seus colos stavam, Pelos sinais distintas, pelas cores:     57 Contemplando-as, seus olhos se enlevavam.

E vi já me acercando aos pecadores

Bolsa, na qual em campo de ouro havia 60 Azul, que era leão nos seus     lavores, A vista, que já noutra se embebia, Em sangüíneo     rubor ganso eu notava, 63 Que a brancura do leite escurecia.

Grávida, azul jardava um, que ostentava, Broslada sobre cândida     escarcela, 66 — “Que buscas neste abismo?” perguntava.

“Retira-te! Se a vida gozas bela, Sabe que à sestra mão     Vitaliano, 69 Vizinho meu terá condigna sela.

“Entre estes Florentinos sou Paduano; A todo instante aturdem-me os     ouvidos, 72 Bradando: — O nobre venha, o soberano, “Que os três     bicos na bolsa traz sculpidos”. — Depois, torcendo a boca, a língua     tira, 75 Qual boi, que os beiços lambe, ressequidos.

Não querendo mover desgosto ou ira Em quem mor brevidade me ordenara,     78 Os mesquinhos deixei: assaz ouvira.

Disse-me o Guia então, que cavalgara O dorso do animal fero e possante:     81 “Sê forte, a tudo o ânimo prepara!

“Se desce em tal escada de ora avante; Sobe-te ao colo; ao meio irei     sentado: 84 Que não te ofenda a cauda penetrante.” De quartã     qual doente, que, chegado Supondo o acesso, lívido estremece 87 Somente     ao ver lugar fresco, assombrado Tal quando ouvi, meu peito, desfalece.

Ante o Mestre dá-me o pejo alento: 90 Bom amo o servo esforça     que esmorece.

Já sobre a espalda do animal cruento, Quero ao vate gritar: “Senhor,     me abraça!” 93 A voz, porém, não corresponde ao     intento.

Ele, que a mente espavorida e lassa Em circuito mais alto me animara, 96     Sustendo-me, nos braços seus me enlaça, E disse a Gerião:      “Vai, mais não pára.

Em circuitos largos sem ter pressa: 99 Na carga, que ora tens, nova repara!”     — Bem como esquife, que voar começa, Manso e manso recua: assim     moveu-se.

102 Quando ao largo sentiu-se, eis endereça A cauda aonde o peito     seu tendeu-se.

Meneando-a, a retesa como enguia; 105 Das patas agitado o ar fendeu-se.

Feton, quando as rédeas já perdia, Ao ver do céu o incêndio,     ainda aparente; 108 Ícaro, quando lhe cair sentia Da cera cada pluma     ao sol ardente, Gritando o pai; — “Ai! filho! Erraste a strada!”      111 De pavor não se entraram mais veemente, Do que eu nessa viagem     desusada, No ar quando me vi, quando enxergava 114 Só a cerviz da fera     maculada: Com tardo movimento ela nadava, Que gira e baixa pelo vento eu sinto     117 Que em torno ao rosto e abaixo se agitava.

Já ouvia à direita bem distinto, Troar da catadupa fragorosa:     120 Olhos inclino ao fundo do recinto.

A mente estremeceu mais temerosa Ao chamejar de fogo, ao som de pranto: 123     Encolhi-me ante a cena pavorosa.

De que descia então, com mor espanto, Pelos males, que via, fiquei     certo, 126 A mim se avizinhar a cada canto.

Qual falcão que no ar pairava incerto, Sem ver reclamo ou cobiçada     presa 129 Perdida a esp’rança ao caçador esperto, Descamba,     fatigado e sem presteza, Em voltas mil por onde se arrojara, 132 E longe pousa,     ou de ira, ou de tristeza: Tal Gerião, enfim, no fundo pára     Ao pé da penedia alcantilada, Livre do peso já que carregara,     136 Sumiu-se como seta disparada.

18. Aracne, personagem da mitologia grega, transformada por Minerva em aranha.      — 68. Vitaliano, usurário paduano, ainda vivente. — 72.     O nobre venha, Giovanni Baiamonti, florentino, que tinha como brasão     três bicos de pássaro. — 106. Feton, filho de Apolo, que,     no guiar o carro do Sol, precipitou-se. — 108. Ícaro, filho de     Dédalo, que voando com as asas de cera fabricadas pelo pai, precipitou     ao solo.     CANTO XVIII

Encontram-se os Poetas no oitavo círculo, chamado Malebolge, o qual     é dividido em dez compartimentos concêntricos. Em cada um deles     é punida uma espécie de pecadores, condenados por malícia     ou fraude. No primeiro compartimento são punidos com açoites     pela mão de demônios os alcoviteiros; e entre eles Dante reconhece     Venedico Caccianemico e Jasão. No segundo jazem em esterco os aduladores     e as mulheres lisonjeiras, entre outros, Alessio Interminelli, de Lucca e     Taís.

TEM o inferno, de rocha construído, De férrea cor, de muro     igual cercado 3 Um lugar: Malebolge o nome havido.

Lá no centro do plaino inficionado Se escancara grão poço,     amplo e profundo: 6 Direi a compostura em tempo asado.

Espaço em torno estende-se rotundo Entre o poço e o penhasco     pavoroso: 9 Reparte-se em dez cavas o seu fundo.

Qual de fossos dobrados, cauteloso, Se apercebendo, o alcáçar     se assegura 12 Dos assaltos de imigo poderoso:

De abismos tais o aspecto se afigura.

Como da levadiça ponte entrada, 15 Aos de fora, do mundo na cintura,     Assim, do val no fundo começada, Cada cava uma rocha atravessava 18     Em arco, para o poço concentrada.

De nós o monstro aqui se descargava: À sestra mão seguiu     logo o poeta, 21 E eu de perto fiel o acompanhava.

Novo tormento à destra me inquieta, Novos algozes vejo, novas dores,     24 De que a primeira cava era repleta.

Stão lá no fundo nus os pecadores: Do meio contra nós     muitos caminham, 27 Outros conosco, em passos já maiores.

Em Roma, assim, às turbas, que se apinham Do jubileu no tempo, sobre     a ponte 30 Se abriu aos que iam trânsito e aos que vinham: De um lado     andavam, os que tendo em fronte O castelo, a S. Pedro se endereçam,     33 E do outro lado os que iam para o monte.

Daqui, dali nas bordas, os apressam

Cornígeros demônios, açoitando 36 Com grandes azorragues,     que não cessam, Como aos golpes primeiros cada bando Se apressa! Como     cada qual evita 39 Que se repita o estímulo execrando! Nesse andar     minha vista num se fita, Da parte oposta vindo, e logo eu disse: 42 —     “Hei conhecido esta figura aflita”. — Atentei mais, por     que melhor o visse; Deteve-se comigo o doce Guia 45 E deu que atrás     o passo eu dirigisse.

Aos olhos esquivar-se-me queria, Os seus baixando; mas foi vão o intento.

48 —“Tu, que te curvas, já te hei visto um dia.

“Se as feições não mudou-te o passamento Venedico     tu és Caccianemico.

51 Por que trato padeces tão cruento?” — — “De     mau grado o que exiges significo; Mas cedo ao claro som dessa loquela, 54     Que à memória me traz o mundo inico.

“Eu fui aquele, que Ghisola bela Do Marquês entreguei ao vil     desejo: 57 Ora a verdade a minha voz revela.

“Comigo de Bolonha muitos vejo; Com tantos nesta cava choro e peno,     60 Que a menos lá no mundo dá-se ensejo.

“De dizer sipa entre o Savena e o Reno, Se a prova queres, lembra-te     somente 63 De que em nós da avareza influi veneno”. — Mas     um demônio o atalhou. Furente, Disse tangendo: — “Ó     rufião, avante! 66 Mulher não há que vendas impudente!”     — Ao Mestre me tornei; — pouco distante Era um rochedo, a que     nos acercamos; 69 Da riba se elevava pra diante.

Assaz ligeiramente nos alçamos; Fomos pela fragura à mão     direita 72 E o eterno recinto assim deixamos.

Chegados onde a curva estava feita Para passagem dar aos fustigados, 75 O     sábio Guia disse: — “A face espreita “Agora desses     outros malfadados, Em que ainda atender não conseguiste, 78 Porque     não stavam para nós voltados”. — Da antiga ponte     divisamos triste,

Longa fileira: contra nós andava.

81 Cruel açoite em flagelar persiste.

Virgílio, quando eu nada perguntava, — “Repara bem”     — me diz — “na sombra altiva, 84 A quem pranto de dor faces     não lava.

“De Rei conserva a majestade viva! É Jasão: conquistou     por força e manha 87 O velocino em Colcos fera e esquiva.

“A Lenos foi, depois que horrenda sanha Feminil aos varões cortara     a vida, 90 Nenhum poupando aquela fúria estranha.

“Ali, de amor no enlevo embevecida, Hipsífile enganou, que já     iludira 93 Suas irmãs, de compaixão movida.

“Grávida e só deixou-a: atroz mentira Mereceu-lhe dos     tratos a amargura.

96 Vingada está Medéia, a quem traíra.

“Quem perjurou como ele, há pena dura.

Do val primeiro baste o que sabemos 99 E de quantos aqui sofrem tortura”.      — Numa estreita vereda já nos vemos, Que co’a borda segunda     se cruzava, 102 Sustentando outra ponte, a que tendemos.

Turba dali ouvimos, que chorava De outra cava no encerro e que, assoprando,     105 Com suas próprias mãos se arrepelava.

Estava-lhe as paredes incrustando A exalação que sobe e ali     se prende.

108 Ferindo o olfato e a vista horrorizando.

E tanto pelo abismo a cava estende, Que só divisa quando está     no fundo 111 Quem lá do cimo, perscrutando, atende.

Subimo-nos: então no fosso imundo Vi gente em tal cloaca mergulhada,     114 Que a sentina figura ser do mundo.

Enquanto olhava ali tão conspurcada Cara notei, que distinguir não     pude, 117 Se padre ou leigo fora a alma danada.

— “Dizei por que tua vista não se mude De mim, a imundos     tantos desatenta!” — 120 Gritou-me. — E eu: — “Se     a mente não me ilude, “Te vi sem cabeleira tão nojenta.

Alessio Interminei de Lucca hás sido: 123 Em ti por isso a vista é     mais atenta”. —

Ferindo a face, disse-me o descrido: — “Aqui lisonjas vis me     submergiram; 126 Língua indefessa em bajular hei tido”. —      Logo depois que vozes tais se ouviram, Meu Guia: — “Olhos dirige     um pouco avante, 129 E as feições me declara se atingiram “De     mulher desgrenhada e petulante Que de unhas asquerosas se lacera, 132 Mudando     de postura a cada instante.

“É Taís, a meretriz, que respondera Ao namorado seu,     quando dizia: — “Te devo gratidão?” — “Muita     e sincera!” — 136 Mas vamos: temos visto em demasia”. —

50. Venedico Caccianemico, bolonhês, que induziu sua irmã Ghisola     a entregar-se a Obizzo d’Este, marquês de Ferrara. — 61.     Dizer sipa etc., palavra do dialeto bolonhês que vale por sim ou seja.      — 86. Jasão, chefe dos argonautas, que, auxiliado por Medéia,     que ele seduziu e depois enganou, conquistou em Cólquida o velocino     de ouro. — 92. Hipsífiles, enganada por Jasão. —      122. Aléssio Interminei, patrício de Lucca. — 133.

Taís, meretriz, personagem de uma peça de Terêncio.     CANTO XIX

No terceiro compartimento, onde os Poetas chegam, são punidos os simoníacos.     Estão eles, de cabeça para dentro, metidos em furos feitos no     fundo e nas encostas do compartimento. As plantas dos pés, que estão     fora dos buracos, são queimadas por chamas. Dante quer saber quem era     um danado que mais do que os outros agitava os pés. É o papa     Nicolau III da Casa Orsini, o qual diz que estava à espera de ser rendido     por outros papas simoníacos. O Poeta, indignado, rompe numa veemente     invectiva contra a avareza e os escândalos dos papas romanos. Virgílio,     depois, o leva novamente para a ponte.

Ó SIMÃO MAGO, ó míseros sequazes Por quem de     Deus os dons só prometidos 3 A virtude, em rapina contumazes, Por ouro     e prata estão prostituídos! Por vós tange ora a tuba     sonorosa: 6 Jazeis na tércia cava subvertidos.

À outra tumba chegamos temerosa, Da rocha nos subindo àquela     parte, 9 Que, a prumo ao centro, eleva-se alterosa.

Saber supremo! Que inefável arte Mostras no céu, na terra e     infernal mundo! 12 Oh! teu poder quão justo se reparte!

145

Por toda a cava, aos lados e no fundo Furos na pedra lívida se abriam,     15 De igual largura e cada qual rotundo.

Semelhar na grandeza pareciam Aos que em meu S. João belo e esplendente     18 Para batismo ministrar serviam.

Quebrei um, não há muito, mas somente Para infante salvar,     que ali morria: 21 Fique a verdade a todos bem patente.

De cada um orifício eu sair via Os pés, até das pernas     a grossura, 24 De um pecador: o resto se sumia.

Stavam ardendo as plantas na tortura, E tanto as juntas rijo se estorciam,     27 Que romperiam a prisão mais dura.

Do calcanhar aos dedos percorriam As chamas, como a superfície inteira.

30 Em corpo de óleo ungido morderiam.

— “Quem padece” — disse eu — “por tal     maneira, Que mais que os sócios estorcer-se vejo 33 Em mais rúbida     flama e mais ligeira? — “Se ao fundo eu te levar, por teu desejo,

Por declive, que jaz mais inclinado, 36 De ouvir-lhe o nome e os crimes dou-te     ensejo”.

— — “Aceito o que te praz, muito a meu grado: Senhor do     meu querer, és quem conhece 39 Quanto hei mister e a mente há     reservado”. — Passando à quarta borda, ali se desce Para     a esquerda voltando, até chegar-se 42 Lá onde tanto furo se     oferece.

De mim não quis o Mestre aligeirar-se Senão quando daquele,     que gemia 45 Pelos pés, conseguiu apropinquar-se.

— “Tu, és assim voltada” — eu lhe dizia —     “Como estaca plantada, ó alma opressa, 48 Responder-me possível     te seria?” — Eu stava aí, qual monge, que confessa Assassino,     que em cova já fincado 51 O chama, pois, em tanto, a pena cessa.

— “Já tens” — gritou: já tens aqui     chegado? Já, Bonifácio, como tens descido? 54 Em anos muitos     tenho a conta errado.

“Tão depressa desse ouro te hás enchido, Pelo qual bela     esposa atraiçoando,

57 A tens por tantos crimes afligido?” Eu fiquei como quem, não     penetrando No sentido do que outro respondera, 60 Enleado e corrido fica olhando.

Mas Virgílio: — “Depressa lhe assevera: Eu não     sou, eu não sou quem tu cogitas” — 63 Respondi como o Vate     prescrevera.

Ouvindo, as plantas estorceu malditas; Depois a suspirar, com voz de pranto     66 — “Por que” — disse — “a falar assim     me excitas? “Se conhecer quem sou anelas tanto, Que assim baixaste ao     vale tenebroso, 69 De Papa sabe que hei vestido o manto.

“Filho de Ursa, deveras, cobiçoso Em bolsa tudo pus por meus     Ursinhos, 72 Lá ouro, aqui o esp’rito criminoso.

“Sob a cabeça minha estão vizinhos, Em simonia os que     me antecederam, 75 Sobrepondo-se um no outro esses mesquinhos.

“Hei de ao fundo descer, como desceram, Logo em chegando aquele, que     eu cuidara 78 Seres tu, quando as vozes me romperam.

“Mas, ardendo-me os pés se me depara Intervalo mais longo, assim     voltado, 81 Do que em tormento igual se lhe prepara.

“Virás de mores culpas outro inçado, Pastor sem lei,     das partes do ocidente 84 Que há de ser sobre nós depositado.

“Jasão novo será: condescendente Teve o outro seu Rei,     diz a Escritura, 87 Da França este o senhor terá potente”.

Não sei se ousado fui e se foi dura A resposta, que dei ao condenado.

90 — “Tesouros exigira porventura “Nosso Senhor de Pedro,     ao seu cuidado E zelo quando as chaves cometia? 93 — Segue-me —      apenas lhe há recomendado.

“Dinheiro não tomaram de Matia Pedro e os outros, por ser o     preferido 96 Ao lugar, que o traidor perdido havia.

“Pena, pois: mereceste ser punido; E guarda a que extorquiste, vil     moeda 99 Que te fez contra Carlos atrevido.

“Não fora a referência, que me veda,

Das santas chaves, que empunhaste outrora, 102 No tempo, em que fruíste     a vida leda, “Voz mais severa eu levantava agora Contra a avidez, que     o mundo assaz contrista, 105 Que os bons oprime, o vício exalta e adora.

“A vós vos figurava o Evangelista, Quando a que é sobre     as águas assentada 108 Prostituir-se aos Reis foi dele vista: “Nascera     de cabeças sete ornada, E o valor nos dez cornos possuía, 111     Enquanto ao esposo seu virtude agrada.

“De ouro a vossa cobiça um Deus fazia: Por um dos que os gentios     adoraram 114 Abrange cento a vossa idolatria.

“Constantino! Ah! que males derivaram, Não do batismo teu, mas     da riqueza 117 Que deste a um Papa e a quem outras se juntaram!” Sentindo     destas notas a aspereza, Ele tomado de remorso ou de ira, 120 Agitava os dois     pés com mor braveza.

Virgílio, creio, com prazer me ouvira: Aplaudir seu semblante revelava

123 Verdades que eu, sincero, proferira.

Jubiloso nos braços me levava, E, depois que apertara-me ao seu peito,     126 Por onde descendera, se tornava.

Sempre cingido desse abraço estreito, Do arco ao cimo transportou-me     o Guia: 129 Caminho à quinta cava era direito.

Ali suavemente me descia Em rochedo tão íngreme e empinado,     Que às cabras ínvio ser me parecia, 133 De lá foi-me     outro val descortinado.

1. Simão Mago queria comprar dos Apóstolos a virtude de chamar     o Espírito Santo. O mercado das coisas sagradas é, por isso,     chamado simonia. — 17. São João, pia na qual Dante foi     batizado. — 53. Bonifácio, Bonifácio VIII, que o danado     (Nicolau III) pensa seja vindo para substituí-lo. — 83. Pastor     sem lei, Clemente V, ligado a Filipe, o Belo, rei de França e que mudou     a sede do papado para Avinhão. — 85. Jasão, que comprou     o sumo sacerdócio de Antíoco, rei da Síria. — 106.     O Evangelista, S. João. — 115-117. Constantino, no tempo de Dante     se acreditava que Constantino, ao mudar-se para Bizâncio, teria doado     ao papa Roma e o domínio temporal.     CANTO XX

No quarto compartimento são punidos os impostores que se dedicaram     à arte divinatória. Eles têm o rosto e o pescoço     voltados para as costas, pelo que são obrigados a caminhar ao reverso.     Virgílio mostra a Dante alguns entre os mais famosos, entre os quais     a tebana Manto, da qual se origina Mântua, cidade natal de Virgílio.

NOVA pena convém dizer em versos E dar matéria ao meu vinteno     canto, 3 Do cântico onde punem-se os perversos.

Eu era já disposto tanto, quanto Fora preciso para ver o fundo 6 Da     cava, que banhava amargo pranto.

De almas vi turba, pelo val rotundo, Que taciturna vinha e lacrimosa 9 Ao     passo usado em procissões no mundo.

Mirei mais baixo e cada desditosa Notei que fora o mento retorcido 12 Do     colo ao começar: cousa espantosa! Para o dorso era o rosto seu volvido:     Só recuando caminhar podia;

15 Que em frente olhar estava-lhe tolhido.

Talvez por força já de par’lisia De alguém o corpo     ao todo se torcesse; 18 Não vi: crê-lo difícil me seria.

Que te seja, Leitor, a Deus prouvesse Proveitosa a lição! Pensa,     atilado, 21 Quanto em mim, vendo, a compaixão crescesse, O parecer     humano tão mudado, Que o pranto, que dos olhos derivava 24 Banhava     o tergo a cada condenado.

Do rochedo eu a um ângulo chorava Com tanta dor, que o Mestre de repente     27 — “Insensato és também?” — me interrogava.

“Aqui piedade é morte em toda mente: Quando Deus condenou, quem     mais malvado 30 Do que esse, que ternura por maus sente? “Alça     a fronte, alça, atento ao condenado, Que ante os Tebanos se abismou     na terra.

33 Gritavam-lhe: — Como andas apressado, “Anfiarau? Como assim     foges da guerra? — Ele tombava entanto, ao val descendo, 36 Onde Minos     os réprobos aferra.

“Pelo futuro penetrar querendo, Tem o dorso adiante em vez do peito,     39 E a recuar caminha, atrás só vendo.

“Eis Tirésias, o que mudara o aspeito, Femíneas formas     e feições tomara, 42 Sendo-lhe o que era varonil desfeito.

“Ao sexo seu tornou, quando encontrara, Inda uma vez, travadas serpes     duas 45 E outra vez com bordão as separara.

“Volta-lhe Arons ao ventre as costas nuas: De Luni em monte, aos agros     iminentes, 48 Onde o Carrara ergueu moradas suas, “Teve em gruta marmórea     permanente Estância, donde contemplar podia 51 As estrelas, as ondas     livremente.

“Essa mulher” — continuou meu Guia — “Que o     seio oculta em traça flutuante 54 E de velos a pele tem sombria, “Foi     Manto, que vagara incerta e errante Até pousar na terra, em que hei     nascido.

57 No que ora digo irei um pouco avante.

“Vendo o pai já da vida despedido

E a cidade de Baco em jugo triste, 60 O mundo largo tempo há percorrido.

“Junto ao Alpes na bela Itália existe, Além Tirol, já     perto da Alemanha, 63 Um lago, que chamar Benaco ouviste.

“Veia de fontes mil, que a plaga banha Entre Garda, Camônica     e Apenino, 66 De águas conduz ao lago cópia manha.

“Ilha há no meio, em que o Pastor trentino, E com ele os de     Bréscia e de Verona, 69 Possuem de benzer juro divino.

“Onde é mais baixa do Benaco a zona, A Bérgamo fazendo     e a Bréscia frente, 72 Pesqueira, forte em bastiões, se entona.

“É dali que das águas o excedente, Que ter em si não     pode o lago, brota 75 Em rio e cobre os prados largamente.

“Quando prossegue, outro apelido adota, Chama-se Míncio, perde     o nome antigo: 78 No Pó junto a Governol, há fim sua rota.

“No verão à saúde traz perigo; Em vasto plaino     o álveo dilatando, 81 Forma paul, das infeções amigo.   

“Manto, a virgem selvage ali passando, Terreno viu desabitado, inculto     84 Naquele pantanal, que o está cercando “Esquiva a humano trato     e estranho vulto, Fez ali de suas artes oficina 87 E viveu té sofrer     da morte o insulto.

“Povo, ao diante, para ali se inclina, Em torno esparso, e abrigo,     o julga forte: 90 De águas cercado com pauis confina.

“Onde aqui o elegeu colhera a morte, A cidade erigiram, que chamaram     93 Mântua, do nome seu sem tirar sorte.

“Os habitantes lá mais avultaram, Quando ainda os ardis de Pinamonte     96 De Casalodis a insânia não fraudaram.

“Ciente fica, pois: se de outra fonte A pátria minha originar     quiserem, 99 A mentira à verdade nunca afronte”. — —     “As cousas, que tuas vozes me referem, Tão certas são”     — disse eu — “que me parece 102 Carvão extinto o     que outros me disserem.

“Mais dize, ó Mestre: acaso não merece

Dos que avançam nenhum reparo ou nota? 105 Na mente de o saber desejo     cresce”. — — “Aquele, a quem do mento ao dorso brota     Barba esquálida, um áugur se dizia, 108 Quando de homens a Grécia     tal derrota Teve, que infantes só no berço havia.

Em Áulide com Calcas indicara 111 Tempo, em que a frota desferrar     devia.

“Eurípilo chamou-se: assim narrara Num dos seus cantos, a tragédia     minha, 114 Bem sabes, pois tua mente a arrecadara.

“Esse, que, tão delgado, se avizinha, Miguel Escotto foi, que,     certamente, 117 Perícia em fraudes da magia tinha.

“Olha Guido Bonati, encara Asdente Que cuidar só devera da sovela:     120 Arrepende-se agora inutilmente.

“Das tristes ora a turba se revela, Que, desdenhando a agulha, a horrível     arte 123 De encantos infernais acharam bela.

“Mas no limite, que hemisférios parte, É Caim com seu     fardo, o mar tocando, 126 Lá de Sevilha além do baluarte.

“A lua, a face plena já mostrando (Te lembras?) ontem viste     na sombria Selva, em que te ajudou seu fulgor brando”. — 130 Assim     falando, a passo igual seguia.

34. Anfiarau, que morreu no sítio de Tebas, e prevendo a sua morte     tentara esquivar-se de tomar parte nesse sítio. — 40.

Tirésias, adivinho tebano, que foi transformado em mulher e depois     retornou homem. — 46. Arons, adivinho lembrado na “Farsália”      de Lucano. — 55. Manto, filha de Tirésias, que a tradição     diz ter fundado a cidade natal de Virgílio, Mântua. — 63.     Benaco, hoje lago de Garda. — 95-96. Quando ainda etc.

Pinamonte dei Bonacolsí para apoderar-se de Mântua induziu o     governador Alberto de Casalodi a praticar atos violentos que revoltaram o     povo contra ele. — 110. Calcas, adivinho da antigüidade. —      112. Eurípilo, outro célebre adivinho.— 116.

Miguel Escotto, célebre adivinho do tempo de Frederico II. —      118. Guido Bonati, astrólogo do conde Guido de Montefeltro. —      Asdente, sapateiro e adivinho de Parma.     CANTO XXI

No quinto compartimento são punidos os trapaceiros que negociaram     os cargos públicos ou roubaram aos seus amos. Eles estão mergulhados     em piche fervendo. Os dois Poetas presenciam a tortura de um trapaceiro luquense     por obra de um demônio. Virgílio domina os demônios que     queriam avançar contra eles. Virgílio e Dante, escoltados por     um bando de demônios, tomam o caminho ao longo do aterro.

ASSIM, de ponte em ponte, discursando Do que nesta comédia se não     cura, 3 De outro arco acima nos subimos, quando Detemo-nos por ver a cava     escura, Por ouvir de outros prantos vão sonido; 6 Com pasmo olhei a     hórrida negrura.

No arsenal de Veneza, derretido Como referve o pez na estação     fria 9 Para reparo ao lenho combalido, Incapaz de vogar: qual com mestria     Baixel novo constrói; qual alcatroa 12 O que teve em viagens avaria;     Qual pregos bate à popa qual à proa;

Qual remos faz, qual linho torce ou parte; 15 Qual mezena e artemão     aperfeiçoa: Assim, por fogo não, por divina arte Betume espesso,     ao fundo refervia, 18 As bordas enviscando em toda parte.

Mas no pez só na tona eu distinguia Borbulhão, que a fervura     levantava, 21 Que ora inchava, ora rápido abatia.

No fundo enquanto os olhos eu fitava, Exclamando Virgílio: —      Eia! Cuidado! — 24 Para si donde eu era me tirava.

Voltei-me então como homem, que apressado É por saber o que     fugir convenha, 27 De súbito pavor sendo atalhado, Olha sem que por     isso se detenha, E logo atrás de nós eu vi correndo 30 Negro     demônio sobre aquela penha.

Ah! que aspecto feroz! Ah! quanto horrendo Nos meneios parece e temeroso,     33 Veloz nos pés e as asas estendendo! No dorso agudo e enorme um criminoso,     Escarranchado, em peso, carregava: 36 Dos pés prendia o nervo ao desditoso.

— “Malebranche!” já perto ele bradava — —     “Eis um dos anciões de S. Zita! 39 Mergulhai-o, pois torna à     gente prava, “Que nessa terra em grande soma habita.

Venais todos lá são menos Bonturo.

42 O no, por ouro, lá se muda em ita“.

Ao pez o arroja, e pelo escolho duro Se torna: após ladrão     tanto apressado 45 Não vai mastim, que estava antes seguro: O maldito     afundou; surdiu curvado.

Sob a ponte os demônios lhe gritaram: 48 — “Não     acharás aqui Vulto Sagrado, “Nem banhos, quais no Serchio se     deparam.

Se não queres no pez star imergido.

51 A te espetar as fisgas se preparam”. — Com croques cem mordendo     esse descrido — “Bailar” — disseram — “deves     bem coberto; 54 Se puderes furtar, furta escondido”. — Tal ordem     em cozinha o mestre esperto Aos ajudantes seus que na caldeira 57 Mergulhem     naco à tona descoberto.

— “Por que” — falou-me o Guia — “alguém     não queira Molestar-te em te vendo, busca abrigo: 60 Num recanto o     acharás desta pedreira.

“Não temas que me ofenda o bando imigo; Muito bem sei como o     furor lhe afronte; 63 Já venci de outra vez igual perigo”. —      Até o extremo então passou da ponte; Mas, quando a sexta borda     já subia, 66 Mister lhe foi mostrar serena fronte.

Qual fremente matilha, que se envia Ao pobre, quando pára esbaforido     69 E pede alívio à fome que o crucia: De baixo arremeteu-lhe     o bando infido, Aceso em ira, os croques seus brandindo.

72 Mas gritou-lhes: — “Nenhum seja atrevido! “Os croques     suspendi: até mim vindo Me preste algum de vós atenção     toda.

75 Fere, se ousais porém antes me ouvindo”.

Clamaram todos: — “Ouça — o Malacoda!” Enquanto     os mais ficavam no seu posto, 78 — “Que queres?” —      disse alguém que sai da roda; E o Mestre: — “És,     Malacoda, a crer disposto

Que as ameaças vossas superasse 81 Para aqui vir, se por celeste gosto     E supremo querer não caminhasse? Deixa-me ir; pois a lei divina ordena.

84 Que eu nesta agra jornada outrem guiasse”.

De Malacoda o orgulho já serena; Aos pés lhe cai o croque;     aos ais voltado 87 Lhes disse: — “Este não pode sofrer     pena”.

E o Mestre me falou: — “Tu, que abrigado Estás entre os     penedos cauteloso, 90 Volve a mim, do temor descativado”.

Corri para Virgílio pressuroso.

Eis os demônios todos investiram: 93 Roto o concerto, pois, cria ansioso.

De Caprona os soldados, que saíram A partido assim vi que estremeciam,     96 Quando envoltos de imigos se sentiram.

Nos sevos gestos seus se me prendiam Os olhos, e a Virgílio vinculado     99 Os braços o meu corpo todo haviam.

Os croques inclinados: — “No costado Fisguemo-lo” —      entre si dois prorromperam.

102 E os outros: — “Oh! pois não! seja espetado!”

Ao que o Mestre falava desprouveram Palavra tais, e então bradou depressa:     105 “Sê quedo, Scarmiglione!” — Emudeceram.

Depois assim nos disse: — “Andar por essa Rocha não podereis;     jaz destruído 108 Todo arco sexto sem restar-lhe peça.

Se avante quereis ir, seja seguido Desta borda o caminho: não distante     111 Está rochedo ao passo apercebido.

“Ontem, cinco horas mais do que este instante Mil e duzentos com sessenta     e seis 114 Anos houve: é então a rocha hiante.

“Dos sócios meus na companhia ireis; Vão ver se alguém     ao banho quer furtar-se.

117 Ide em paz: molestados não sereis.

“Calcabrina, Alichino vão juntar-se Com Cagnazzo, a decúria     comandando 120 Barbariccia! E não podem separar-se “Droghinaz,     Libicocco, deste bando! Graffiacane, o dentudo Ciriatto, 123 Farfarel, Rubicante     vão marchando! “Na ronda cada qual se mostre exato!

Sejam a salvo os dois encaminhados 126 Da ponte ao arco até agora     intato!” “Que vejo, ó Mestre!” — eu disse —     “Acompanhados!” Se sabes ir só, vamos prontamente; 129     De guias tais dispensam-se os cuidados.

“Se tu és, como sóis, Mestre, prudente, Não vês     que os dentes seus estão rangendo, 132 Que nos encaram com furor crescente?”     “Não temas” — disse o Mestre, respondendo —     “Ranger os dentes deixa-os a seu gosto: 135 É contra os que ardem     lá no pez horrendo”.

À sestra os dez então fizeram rosto; Nos dentes cada qual mostra     primeiro, Por mofa a língua ao cabo já disposto; 139 E ele trompa     fazia do traseiro.

38. Anciões de S. Zita, supremos magistrados de Lucca, cidade de que     S. Zita é protetora. — 41. Bonturo, Bonturo Dati, magistrado     mais venal do que os outros. — 42. O no, por ouro etc., por dinheiro     o não se transforma em sim. — 112-114.

Ontem, etc., o demônio falava cinco horas antes do meio-dia de 26 de     março de 1300. Ao meio-dia teriam transcorrido 1266 anos da morte de     Cristo.     CANTO XXII

Andando os dois Poetas pelo aterro à esquerda, vêem muitos trapaceiros,     que, por aliviar-se, boiam acima do piche fervendo.

Sobrevêem os diabos e um deles é lacerado. É este Ciampolo,     de Navarra, que consegue, depois, livrar-se das garras dos diabos, o que dá     motivo a uma briga entre os demônios.

MARCHAR vi cavaleiros à peleja, Travar luta, enlear-se no combate     3 E até pedir à fuga que os proteja; Em vossa terra esquadras     dar rebate Vi, Aretinos; vi as cavalgadas, 6 Torneios, justas no mavórtico     embate, De tubas ao clangor, às badaladas, Com sinais de castelos,     de tambores, 9 Com artes novas ou entre nós usadas: Não vi mover     peões, nem corredores, Nem baixéis, que regula a terra ou estrela,     12 De igual clarim aos sons atroadores.

Com dez demônios (que companha bela!) Partimo-nos, porém rezar     com santo, 15 Urrar com lobos discrição revela.

Minha atenção no pez se engolfa, entanto, Por saber quanto     encerra a negra cava, 18 Ali quem pena, quem derrama pranto.

Como o delfim, que da tormenta brava O nauta avisa, o dorso recurvando, 21     Presságio do mau tempo, que se agrava.

Um lenitivo à pena, assim, buscando, Mostrava o tergo algum dos condenados,     24 Qual relâmpago, logo se esquivando.

Como à borda de charcos enlodados A fronte deixa à rã     ver da água fora, 27 Pernas e corpo tendo resguardados: Assim no pez     a gente pecadora.

Mas, Barbariccia próximo já sendo, 30 Na resina se esconde     abrasadora.

Eu vi (e ainda agora estou tremendo!) Em cima retardar-se um desditoso 33     Qual rã, que fica, as mais desparecendo.

Perto ali stava Grafiacane iroso: Fisgou-o na enviscada cabeleira, 36 E alçou,     qual lontra, ao ar o criminoso.

Sabia os nomes da caterva inteira;

Ouvindo-os, atentei nos escolhidos: 39 Distingui-los podia de carreira.

“Eia! depressa os teus ferrões compridos No costado lhe crava,     ó Rubicante!” 42 Os demônios gritaram-lhe incendidos.

“Ó Mestre” — disse — “inquire insinuante     Quem seja aquele mísero e mesquinho 45 Que em mãos caiu da turba     petulante”.

Moveu-se o Mestre e, à cava já vizinho, Perguntou-lhe em que     terra ele nascera.

48 — “Em Navarra” — tornou-lhe — eu tive o     ninho.

“De um fidalgo ao serviço me pusera Minha mãe, quando     o pai meu devastara 51 Fazenda e a própria vida com mão fera.

“D’El-rei Tebaldo eu na privança entrara: Vendia os seus     favores fraudulento; 54 Sofro a pena do mal, que praticara”.

Então os dentes lhe cravou cruento, De javardo quais presas, Ciriatto:     57 Armam-lhe a boca, servem de instrumento: Nas mãos de imigo seu caíra     o rato: Barbariccia, entre os braços o estreitando,

60 — “Alto!” — lhe diz — “A mim cabe     seu trato”.

E o rosto para o Mestre meu voltando, Falou: — “Pergunta, se     ainda mais desejas 63 Antes que o tenha lacerado o bando”.

“Algum dos pecadores, com quem stejas” Virgílo interrogou      — “Latino há sido?” 66 Tornou: — “Vou     contentar-te no que almejas.

“No pez deixei alguém por tal havido...

Ah! não temera, estando lá coberto, 69 Ser de unhas e farpões     ora ferido”.

— “É demais!” — Libicocco diz, que perto Estava;     e um braço ao triste dilacera, 72 Do croque ao golpe, aquele algoz     esperto.

Às pernas Draghignaz também quisera Do mísero investir;     o cabo iroso 75 Acesos olhos volve e os dois modera.

Cessa um pouco o rumor e pessuroso Pergunta o Mestre àquela sombra     aflita, 78 Que do golpe olha o efeito doloroso: “Quem foi essa alma,     como tu prescita, Que, por vires à tona, hás lá deixado?”      81 Responde o pecador: — “Foi Frei Gomita

De galura, nas fraudes consumado Que do seu amo a imigos poupou dano, 84     E, traidor, foi por eles premiado.

“Por ouro os deixou ir, como de plano Confessa; e em tudo o mais provou     ter foro 87 Nas tretas, ser nos dolos soberano.

“Miguel Zanche, o Juiz de Logodoro, Com ele ostenta, em práticas     freqüentes 90 De crimes, em Sardenha, o seu tesouro.

“Ai! vede como esse outro range os dentes! Iria por diante; mas receio     93 Na pele a fúria dos ferrões pungentes”.

Atenta o cabo de olhos no meneio Com que a ferir se apresta Farfarello.

96 “Vai daí!” — lhe gritou — “pássaro     feio!” — “Se Toscanos, Lombardos tens anelo De ver e ouvir”     — o triste prosseguia — 99 “Traça darei, com que     satisfazê-lo.

Suspendam Malebranche essa porfia; Não temam sócios meus dura     vingança, 102 Que eu, sentado, um só não, muitos faria      “De lá surdir, segundo a nossa usança, Ao sinal de assovio,     que de ausente

105 Perigo ao vir à tona dá fiança”.

Cagnazzo alça o focinho, de repente, E, abanando a cabeça,     diz — “Cuidado! 108 Astúcia é por lançar-se     ao pez fervente”.

Ele, que em cópia ardis tinha guardado, Tornou: — “Sutil     astúcia, na verdade, 111 Causar aos meus tormento redobrado!”      Dos outros contra o aviso, por vaidade, Alichino lhe disse: — “Se     abalares, 114 Não provarei de pés agilidade, “Hei de,     voando, te agarrar nos ares.

Vamos do cimo e à riba retiremos: 117 Maravilha, se a tantos enganares!“      Leitor, logração nova contemplemos.

Já todos volvem de outro lado a vista: 120 Quem mais avesso assim     primeiro vemos.

O Navarro estudara-o como invista; E arrancando, de súbito, ao betume     123 Se arroja e a liberdade então conquista.

Da afronta sentem todos o azedume, Inda mais quem motivo dera ao feito, 126     Gritando: — “Preso estás!” — salta do cume,

Porém do medo se avantaja o efeito Ao das asas: um baixa ao fundo     presto, 129 No ar sustém-se o outro, alçando o peito.

Assim mergulha o pato na água lesto, Quando avista o falcão:     perdida a presa, 132 Se torna o caçador cansado e mesto.

Calcabrina, da raiva na braveza, Após o sócio voa, por ter     briga, 135 Se a alma como deseja, vence empresa.

Vendo que ao fundo o malfeitor se abriga, As garras volta contra o companheiro:     138 Furor à luta sobre o lago o instiga.

As unhas o outro, gavião ligeiro, Lhe crava e, entrelaçando-se     espantosos, 141 Tombam ambos no pez, de corpo inteiro.

Separa o grão fervor os dois raivosos; Em vão, porém,     subir-se pretenderam, 144 Que as asas prendem borbulhões viçosos.

Os outros vendo o caso, se doeram: Envia quatro o cabo diligente; 147 E de     croques armados acorreram.

De um lado e de outro chegam velozmente.

Tendem farpões aos sócios enviscados,

Cozidos já naquela crusta ardente, 151 E desta arte os deixamos atalhados.

48-54. Em Navarra etc., Ciampo de Navarra, o qual serviu na corte do rei     Tebaldo II de Navarra. 81. Frei Gomita, vicário de Ugolino Visconti,     por dinheiro deu liberdade aos inimigos do seu senhor. — 88. Miguel     Zangue, vicário do rei Enzo em Logodoro.     CANTO XXIII

Prosseguem os dois Poetas o seu caminho, descartando-se dos diabos. Vendo-os,     porém, voltar novamente, Virgílio abraça-se com Dante     e deixam-se resvalar pelo declive do precipício.

Encontram os hipócritas vestidos de pesadas capas de chumbo dourado.     Falam com dois frades, Catalano e Loderigo, bolonheses. Um dos frades, inquirido     por Vigílio, indica-lhe o modo de subir ao sétimo compartimento.

EM silêncio, a companha má deixada, Seguíamos, após     um do outro andando, 3 Como frades menores em jornada.

Meu pensamento à rixa se voltando, A fábula de Esopo relembrava,     6 Em que ao rato arma a rã laço nefando.

Se aqueles casos dois eu confrontava, Como issa e mo, iguais me pareciam,     9 Quando o princípio e fim seus recordava.

E, como os pensamentos se associam, Outros logo daquele me brotaram, 12 Que     em dobrado temor a alma envolviam.

Pensava: — esses demônios que passaram,

Por causa nossa, tal vergonha e dano, 15 Do fato certamente se enojaram.

Se a maldade agravar rancor insano, Eles no encalço nos virão     ferozes, 18 Qual cão, que a lebre aboca enfim no plano.

Aguardando os horríficos algozes, Arrepiam-se as carnes e o cabelo.

21 — “Ó Mestre meu, as garras temo atrozes!” Exclamo:      — “Ache depressa o teu desvelo Para nós contra o bando     amparo e abrigo.

24 Após os passos nossos cuido vê-lo”.

“Se espelho eu fora, a imagem tua, amigo, Tanto não refletira     claramente, 27 Quanto às idéias na tua alma sigo.

“Agora iguais me estão surgindo à mente, Concordes tanto     nas feições, em tudo, 30 Que um parecer entre ambos há     somente.

“À destra inclina a encosta, ou eu me iludo: Por lá baixando     à mais vizinha cava, 33 Teremos contra assaltos seus escudo”.

Não acabava, quando a turba prava Assoma: de asas pandas se enviando     36 Contra nós, não mui longe a divisava.

De súbito nos braços me tomando, Qual mãe, que ao despertar     se vê cercada 39 De furiosas flamas, e, apertando Ao seio o filho, foge     acelerada, E ao pudor véus esquece angustiosa, 42 Só por salvar     aquela prenda amada: Lá do cimo da riba alta e fragosa Resvala o Mestre     pela penha dura, 45 Muralha de outra cava tenebrosa.

Água não corre mais veloz da altura Por canal a impulsar de     engenho a roda, 48 Quando, vizinha aos cubos, se apressura, Do que a descer     o Guia meu se açoda, Como a filho estreitando-me ao seu peito, 51 Não     como a companheiro a quem se engoda.

Da cava, apenas atingira o leito, Quando ao cimo os demônios se mostraram:     54 Mas de iras suas malogrou-se o efeito.

Por lei da Providência terminaram Funções, que exercem     na caverna quinta, 57 Toda vez que o recinto seu deixaram.

Gente, que de brilhante cor se pinta

Vemos, que a tardo passo em torno andava; 60 Chorava e em forças parecia     extinta.

Capa e capuz trazia, que ocultava Seus olhos, dessa forma de vestidos 63     De Colônia entre os monges mais se usava.

De ouro por fora, dentro guarnecidos De chumbo: comparando a peso tanto,     66 De palha os de Fred’rico eram tecidos.

Por toda a eternidade, ó duro duro manto! Com tais almas, à     sestra, caminhamos, 69 Atentos escutando o triste pranto.

Tanto as oprime o peso, que as passamos No lento caminhar; e a cada instante     72 De nova companhia ao lado estamos.

“Mostra-me — eu disse ao Guia, suplicante — Algum por nome     ou feitos afamado; 75 Busca, sem te deter, Mestre prestante!” —      Tendo vozes toscanas escutado, Um atrás nos gritou: — “Cessai     da pressa, 78 Com que ides a correr pelo ar cerrado! “Cousa talvez direi,     que te interessa”.

Volta-se o Mestre e diz-me: — “Agora espera; 81 Para o passo     igualar-lhes não te apressa”.

Cessando, vejo um par que se acelera; Seus gestos dizem que acercar-se aspiram,     84 Malgrado a estrada e o peso, que os onera.

Aqueles dois, já próximos, remiram Com vesgos olhos, sem falar,     meu rosto; 87 Depois entre eles vozes tais se ouviram: “O que respira     ainda em vida é o posto? Se mortos ambos são, por que motivo     90 Da plúmbea capa evadem-se ao desgosto?” E disseram: —     “Toscano, que, inda vivo, Vens de hipócritas ver o grêmio     triste, 93 Dizer quem sejas, não recusa esquivo”.

— “Nasci na grã cidade, à qual assiste Com suas     belas margens o Arno ameno, 96 E o corpo, em que hei crescido, lá persiste.

“Quem sois que da aflição tanto veneno Na face amargo     pranto denuncia? 99 Qual penar tendes de esplendor tão pleno?”     “Tanto chumbo se encobre” — um me dizia — Destas capas     sob o ouro, que oscilamos, 102 Qual balança, que ao peso hesitaria.

“De Bolonha e Godente, nos chamamos

Um Loderigo e o outro Catalano: 105 Juntos ambos Florença governamos,      “Por que ficasse a paz livre de dano.

Em vez de um regedor; do que hemos sido 108 O Gardingo dá prova e     desengano”.

“Ó irmãos” — comecei — “o mal     nascido...” Atalhei-me: jazendo um condenado 111 Com puas três     em cruz via estendido.

Em vendo-me estorceu-se angustiado.

Altos suspiros arrancou do peito.

114 Catalano acercou-se apressurado.

“Este” — disse — “que geme em duro leito, Que     a um homem dessem morte, aconselhara 117 Aos Fariseus, do povo por proveito.

“Através do caminho é nu, repara: De quem passa, desta     arte, ele conhece 120 O peso, quando por calcá-lo pára.

“Igual martírio o sogro seu padece, Assim como cada um desse     concilio, 123 Semente pra os Judeus de horrenda messe”.

Maravilhar-se então mostrou Virgílio, Posto em cruz o prescito     contemplando 126 Com tanto opróbrio lá no eterno exílio,

Voltou-se a Catalano assim falando: “Dizei, se assim vos apraz e é     permitido, 129 Se à direita há vereda, onde, passando, Deste     recinto vamo-nos temido, Sem que os anjos perversos obriguemos 132 Caminho     a nos mostrar não conhecido”.

Tornou: — “Mais perto do que julgas temos Rochedo, que, do muro     se estendendo, 135 Dá ponte a cada val, em que gememos.

“Este não cobre, outrora se rompendo; Mas subir podereis pela     ruína, 138 Que do declive ao fundo se está vendo”.

Ouvindo, o Guia um pouco a fronte inclina E diz: — “Bem más     explicações nos dava 141 Quem tanto os pecadores amofina”.

Logo o frade: “Em Bolonha me constava Que o demônio, entre os     vícios com que stenta, 144 De ser pai da mentira se ufanava”.

A passo largo o Mestre já se ausenta; Ira ressumbra o rosto carregado.

Deixa a turba, que em capas se atormenta, 148 As pegadas seguindo-lhe apressado.

8. “Mo” e “issa” advérbios que, ambos, significam:     agora. — 66.

De Frederico etc., em comparação, as capas que Frederico II     mandara colocar nos presos eram levíssimas. — 104. Loderigo e     Catalano, frades que foram chamados a governar Florença, depois da     derrota de Manfredo (1266) e que se aproveitaram da sua posição,     causando um motim no qual foi incendiada a casa dos Uberti, perto do Gardingo.      — 115. Este etc., Caifás, o sumo sacerdote de Israel, que aconselhou     a morte de Jesus. — 121. O sogro seu etc., Anah, sogro de Caifás.     CANTO XXIV

Encaminham-se os Poetas pelo rochedo e chegam ao sétimo compartimento     no qual estão os ladrões, os quais, picados por serpentes horríveis,     inflamam-se e, depois, ressurgem das cinzas. Entre eles Dante reconhece Vanni     Fucci, o qual por desafogar o despeito de ser colhido em tal vergonha e miséria,     prediz-lhe a derrota dos Brancos.

NAQUELA parte do ano incipiente, Em que as comas do sol se fortalecem 3 No     Aquário, e a noite iguala o dia ausente, Quando as geadas matinais     parecem Da alva irmã figurar a imagem pura, 6 Mas tais feições     em breve se esvaecem.

Campino, que a indigência já tortura, Ergue-se, e vendo o prado     embranquecido.

9 No coração calar sente a amargura.

Torna ao tugúrio e carpe-se abatido, Como quem toda a esp’rança     já perdera; 12 Mas vendo em breve o campo estar despido Do triste manto,     o alento recupera.

Revigorado então, corre ao cajado

15 E as ovelhas ao pascigo acelera.

De temor me senti, dessa arte, entrado Do mestre merencóreo ante o     semblante; 18 Mas logo ao mal foi bálsamo aplicado.

À ruína chegamos: nesse instante Virgílio volve àquele     doce gesto, 21 Que eu da colina ao pé vira ofegante.

Reflete um pouco, o estado manifesto Da rocha examinando: eis-me, estendendo     24 Os braços, resoluto ergueu-me presto.

Como aquele que uma obra entre mãos tendo.

Logo noutra tarefa põe o intento, 27 Num rochedo Virgílio me     sustendo, Já de outro acima me avisava atento.

“Mais alto agora sobe” — me dizia — 30 “Vê     se a rocha está firme! Toma tento!” De capa ali ninguém     transitaria; Pois nós, leves e eu sempre transportado, 33 Subíamos     a custo a penedia.

Se mais alto o declive do outro lado Não fora do que esse outro, em     que ora estamos, 36 — Dele não sei — ficara eu lá     prostrado.

Que Malebolge inclina-se notamos À boca enorme do profundo poço;     39 As encostas, são tais — expr’imentamos — Que uma     é baixa, outra excelsa em cada fosso.

Vimos, enfim, do topo à roca extrema, 42 Dessa ruína ao último     destroço.

Lá chegado, afã tanto o peito prema, Que avante um passo dar     eu mais não pude; 45 Sentei-me então na inanição     suprema.

“Eia! toda a fraqueza em ti se mude! Em ócio” —      disse o Mestre — “ou sobre a pluma 48 Prêmios ninguém     conquista da virtude.

“Aquele que a existência assim consuma, Tal vestígio de     si deixa na terra, 51 Como o fumo no ar e na água a espuma.

“Ergue-te, pois! Torpor de ti desterra! Recobra o esforço que     os perigos vence! 54 Impere alma no corpo em que se encerra! “Que vais     subir muito alto a mente pense; Desse abismo não basta haver saído.

57 Será teu prol, se a minha voz convence”.

Alço-me então, mostrando-me impelido De alento, que não     tinha; e ao Mestre digo:

60 “Avante! Forte já me sinto e ardido!” Pela rocha asperíssima     prossigo Mais estreita, inda menos acessível 63 Que a outra: os passos     de Virgílio sigo.

Por provar-me às fadigas insensível Falando andava. Eis ouço     de outra cava 66 Ressoar voz bem pouco perceptível.

O que disse não sei, posto me achava Da ponte sobre a parte culminante;     69 Mais parecia iroso quem falava.

Curvei-me para ver no fosso hiante, Mas alcançar não pude o     fundo escuro.

72 Ao Mestre disse então. “Se apraz-te, avante Passando, desceremos     deste muro; Daqui ouço uma voz, mas não a entendo; 75 Fito os     olhos, mas nada me afiguro”.

“Respondo aos teus desejos, acedendo; Que o pedido discreto assim declaro     78 Se cumpre, não falando, mas fazendo”.

Fomos da ponte à parte, donde é claro Que se vai ter à     ribanceira oitava: 81 Ficou patente a cava ao meu reparo.

De serpes tal cardume se enroscava, Horríficas na infinda variedade,     84 Que ao sangue, inda ao lembrar, terror me trava.

Não tenha a Líbia de criar vaidade, De quersos, fares, cencris     no seu seio 87 E anfisbenas, tamanha quantidade.

Nem do mar Roxo* em plagas, nem no meio Da Etiópia, tropel tão     pavoroso 90 De flagelos jamais a lume veio: Por entre o enxame atroce e temeroso     Almas corriam nuas e transidas, 93 Heliotrópia não sperando     ou pouso.

Atrás as mãos por serpes são tolhidas, Que, transpassando     os rins, cauda e cabeça, 96 Lhes tinham por diante em laços     unidas.

Eis uma de repente se arremessa Ao prescito, que perto nos demora: 99 Morde-lhe     o colo aonde a espádua cessa.

Um O traçar ou I mais custa agora Do que ser o mesquinho incendiado:     102 Em cinzas cai o pecador, que chora.

Stando em terra desta arte derribado,

Juntando-se a cinza e logo reformou-se, 105 Como de antes, o triste condenado.

Dos sábios na escritura já narrou-se Que a Fênix morre     e logo após renasce, 108 Quando aos anos quinhentos acercou-se.

Viva, já nunca em cibo ela se pasce, Em lágrimas, porém,     de incenso e amono; 111 De nardo e mirra em ninho extremo apraz-se.

Como aquele que cai sem saber como, Do demônio ao poder, que à     terra o tira, 114 Ou de outra opilação sentindo o assomo; Levantando-se,     em torno a si remira, Da angústia inda aturdido, que o mordera, 117     E, em seu soçobro, pávido suspira: Assim parece o pecador, que     ardera.

Contra os pecados na final vingança, 120 Ó Justiça de     Deus, quanto és severa! Quem fora inquire o Mestre, e dele alcança     Estas vozes: — “Há pouco, da Toscana 123 Chovi no abismo,     onde ninguém descansa.

“Vida brutal vivi, não vida humana.

Chamei-me Vanni Fucci, híbrida besta; 126 Pistóia, meu covil,     de mim se ufana”.

Ao Mestre eu disse: — “Referir-nos resta O crime, que deu causa     à morte sua: 129 Sei que em sangue banhara a mão funesta”.

O pecador, que me ouve, não se amua: Volta-me presto a cara, em que     a tristeza 132 Com sinais de vergonha se insinua E diz: — “Sinto     da dor mais a aspereza, Porque em miséria tanta me vês posto,     135 Do que quando da morte hei sido a presa.

“Ao que exiges respondo com desgosto: Por ter roubado alfaias e ornamento     138 Da igreja, aqui estou, sendo meu gosto “Que pelo crime houvesse     outro tormento.

Se deste antro saíres algum dia, 141 Por que não sejas do meu     mal contento, “Ouve bem o que a voz minha anuncia: De si Pistóia     os Negros expulsando, 144 Povo, modos, Florença então cambia.

“Vapor de Val de Magra Marte alçando, O traz em torvas nuvens     envolvido; 147 E, enquanto a tempestade está raivando, “No campo     de Picen será ferido

Combate; a névoa logo se esvaece; Dos Brancos cada qual será     batido.

151 “Sabe-o, pois: certo, a nova te entristece”.

125. Vanni Fucci, ribaldo que roubou o tesouro de S. Jacopo em Pistóía.      — 143-150. De si Pistóia etc., Vanni Fucci sabendo que Dante     era do partido dos Brancos, lhe prediz que os Brancos serão exilados     de Florença e, depois, derrotados em Campopiano.

—* NE: Roxo na fonte digitalizada. No original italiano, Mar Rosso     [che sopra al Mar Rosso] (Mar Vermelho) – Traduzido por Roxo para efeito     de métrica?     CANTO XXV

Vanni Fucci depois das negras predições desafia a Deus, pelo     que o centauro Caco, todo coberto de serpentes, lhe corre atrás.

Dante reconhece entre os danados alguns florentinos que, em Florença,     desempenharam funções importantes, aproveitando-se dos dinheiros     públicos e descreve suas transformações de homens em     serpentes e vice-versa.

ASSIM dizia o roubador e, alçando Ambas as mãos, que figuravam     figas: 3 “Toma, ó Deus” exclamou “o que eu te mando”.

Serpes me foram desde então amigas: Porque logo uma ao colo se enroscava,     6 Como a dizer: — “Não quero que prossigas!” Tolhendo-lhe     outra os braços, se enlaçava Diante sobre o peito, e o movimento     9 Com rebatido vínculo atalhava.

Ah! Pistóia! ah! Pistóia! o incendimento Teu decreto, extinguido     nome impuro, 12 Pois dás da extirpe tua ao vício aumento! Tão     soberbo não vi no abismo escuro, Contra Deus outro esp’rito;     nem o ousado,

15 Que de Tebas caiu morto do muro.

Sem mais dizer fugira o condenado.

Eis rábido centauro vi correndo 18 A gritar: — “onde está     o celerado?” Nem tem Marema de répteis horrendo Bando igual ao     que o dorso carregava 21 Té onde a humana forma está-se vendo.

Na espádua, abaixo da cerviz pousava, As asas estendendo, atroce drago,     24 Que fogo a quanto encontra arrevessava.

“É Caco” — o Mestre diz — “que a imane     estrago Afeito do Aventino se aprazia, 27 Sob as penhas, de sangue em fazer     lago.

“Dos seus irmãos não segue a companhia, Por haver depredado,     fraudulento, 30 Armentio, que próximo pascia.

“Tiveram fim seus crimes: golpes cento Sobre ele desfechou de Alcide     a clava: 33 Aos dez perdera já a vida o alento”. — Foi-se     o centauro enquanto assim falava.

Abaixo eis três espíritos chegando, 36 Nos quais nenhum de nós     inda atentava,

“Quem sois?” — romperam súbito bradando.

A Narração então suspende o Guia; 39 E só deles     curamos, escutando.

Nenhum dessa companha eu conhecia; Mas então, como às vezes     acontece, 42 Um, chamando por outro, assim dizia: “Onde é Cianfa,     que assim desaparece?” Dedo nos lábios fiz nesse momento 45 A     Virgílio sinal, por que atendesse.

Em crer o que eu contar se fores lento, Não há de ser, leitor,     para estranhado; 48 Quase o que eu vi descrê meu pensamento.

Quando eu dos três a vista era engolfado, Sobre seis pés se     via uma serpente 51 Contra um deles e o tem todo enlaçado.

Abraçam-lhe os do meio rijamente O ventre; aos braços aos de     cima rendem, 54 Ambas as faces morde-lhe furente.

Os de baixo nas coxas já se estendem, Interpondo-se a cauda, que,     subindo 57 Por detrás, voltas dá que os rins lhe prendem.

Hera, de árvores os ramos recingindo.

Não os enleia tanto, como a fera

60 Alheios membros ao seu corpo unindo.

Fundiram-se depois, de quente cera Com feitos; travando as suas cores, 63     Um nem outro parece o que antes era: Como em papel, do fogo ante os ardores     Procede escura cor; inda não sendo 66 Negro, vão fenecendo os     seus albores.

Os dois, a maravilha percebendo, Gritavam-lhe: — “Ai! Agnel,     quanto hás mudado! 69 Um já não és mas dois ser     não podendo!” Numa cabeça as duas se hão tornado;     Confundidos estavam dois semblantes 72 Num rosto, em que se haviam misturado.

São dois os braços, que eram quatro de antes, Foram coxas e     pernas, ventre e peito 75 Membros, que nunca hão tido semelhantes.

Perdeu-se assim todo o primeiro aspeito; Seres dois e nenhum nessa figura     78 Se via; e o montro foi-se a passo estreito.

Quando o fervor canicular se apura, Cruza o lagarto, como o raio, a estrada,     81 E uma mouta deixando, outra procura.

Tal menor serpe, lívida, inflamada.

Negrejando, qual bago de pimenta, 84 Aos outros dois se arroja acelerada.

E na parte, por onde se alimenta Primeiro a vida nossa, um dos dois fere     87 E ante ele tomba em queda violenta.

Olha o ferido, mas nem voz profere; E sobre os pés imóvel bocejava,     90 Como quem sono prenda ou febre onere.

Fitava olhos na serpe, e esta o encarava; A chaga de um eu via, do outro     a boca 93 Fumegar; e o seu fumo se encontrava.

Emudeça Lucano, quando toca Em Sabelo infeliz mais em Nascídio.

96 Escute: mor portento ora se evoca.

De Cadmo e Aretusa cale Ovídio: Se fonte a esta, àquela fez     serpente, 99 Não o invejo: aqui há pior excídio, Não     converteu dois seres frente a frente, Tanto que permutasse formas duas 102     Sua própria matéria de repente.

Desta sorte compõem-se as partes suas: A cauda à serpe fende-se     em forquilha,

105 Cerra o ferido em uma as plantas nuas.

Tal prisão coxas, pernas envencilha Que em breve nem vestígio     há de juntura, 108 Sinal, ou numa ou noutra, de partilha.

Fendida a cauda assume essa figura Que perde o homem; numa é tão     macia 111 A pele, quanto noutro fez-se dura.

Entrar os braços nas axilas via; Tanto estendia os curtos pés     a fera, 114 Quanto o outro os seus braços encolhia.

Os pés o drago extremos retorcera, Na parte, que se esconde, se mudando,     117 Que em duas no mesquinho se fendera.

Enquanto o fumo os dois ia velando De nova cor e a serpe o pêlo empresta,     120 Que em todo perde o pecador nefando, Ergue-se um, cai o outro e no chão     resta, Os ímpios olhos sem torcer, que viram 123 Dos gestos seus a     conversão funesta.

Ao que era em pé às frontes lhe subiram Do rosto as sobras:     cada face afeita 126 Uma orelha, de duas, que saíram.

Quanto de mais ficara então se ajeita, O nariz conformando-lhe na     cara 129 E de lábios lhe ornando a boca estreita, A beiça o     que jazia dilatara; Qual caramujo, que as antenas cerra, 132 À cabeça     as orelhas retirara.

A língua unida e no falar não perra Partiu-se, enquanto a do     outro, forquilhada, 135 Uniu-se; o fumo desde então se encerra.

Essa alma, que em réptil era mudada, Pelo vale arremete sibilando,     138 Falando, a outra escarra e a segue irada.

Depois, seu novo dorso lhe voltando, Disse à terceira sombra: “Corra     o Buoso, 141 Como eu, por esta senda rastejando”.

Assim vi no antro sétimo espantoso Mútuas transformações:     tanta estranheza 144 Desculpe o canto rude e descuidoso.

Posto empanar dos olhos a clareza E entrar o assombro no ânimo eu sentisse,     147 Não fugiram com tanta sutileza, Nem tão prestes que eu bem     não discernisse Puccio Sciancato, que dos três somente

Fora o que transmudado se não visse, 151 Deu-te o outro, Gavili, dor     pungente.

14. Nem o ousado etc., Capaneu, V. Inf. XIV. — 25. Caco, ladrão,     ao roubar o rebanho de Hércules, para despistar, puxou as ovelhas pela     cauda. — 43. Cianfa dei Donati, ladrão florentino que veremos     transformado em serpente. — 68. Agnel, Agnello Brunelleschi, ladrão     florentino. — 95. Sabelo e Nascidio, personagens dos “Farsálias”      de Lucano que, mordidos por cobras, mudam de aspecto. — 97. Cádmio     e Aretusa, personagens das “Metamorfoses” de Ovídio que     se transformam o primeiro em serpente e o segundo numa fonte. — 149.     Puccio Scianeato, ladrão florentino.     CANTO XXVI

Chegando os Poetas ao oitavo compartimento, distinguem infinitas chamas,     dentro das quais são punidos os maus conselheiros. Numa chama bipartida     estão Diômedes e Ulisses.

Este último, a pedido de Dante, narra a sua última navegação,     na qual perdeu a vida com os seus companheiros.

FOLGA, ó Florença! A fama tens tão grande, Que asas     bates por terra e mar, vaidosa! 3 Até no inferno o nome teu se expande!     Entre os ladrões, ó cousa vergonhosa! Principais cinco achei,     que em ti nasceram: 6 Serás por honra tal, vangloriosa? Se os veros     sonhos por manhã se geram, Em breve hás de sentir o que os de     Prato, 9 Quanto mais outros, por teu dano esperam.

Presto que venha, será tarde o fato; Se o mal tem de ferir, fira apressado:     12 Mais velho me há de ser mais grave e ingrato.

Partimos: do rochedo alcantilado Os degraus, em que havíamos descido,     15 Sobe o Mestre e por ele eu fui levado.

Em nosso ermo caminho e desabrido Prosseguimos por entre agras fraguras,     18 Pelas mãos sendo o pé favorecido.

Inda nalma exacerbam-se amarguras, Do que hei visto lembranças avivando;     21 E, quanto posso, o coração nas puras Veredas da virtude vou     guiando, Por que o bem, por bom astro ou Deus doado, 24 Eu próprio     não converta em mal nefando.

O rústico, no outeiro reclinado, Na estação, em que     o sol o mundo aclara, 27 Mais lhe mostrando o seu semblante amado, Já     quando a mosca o sucessor depara, Pririlampos não vê tão     numerosos 30 No vale, onde vindima, ou ceifa ou ara, Quando, no fosso oitavo,     os temerosos Fogos, que avisto, dos que, ao cimo alçado, 33 Fito no     fundo os olhos curiosos.

Como aquele que de ursos foi vingado, Quando voou de Elia o carro ardente,     36 Ao céu por frisões ígneos transportado, Seguiu c’a     vista o lume, que somente

Dos ares na extensão aparecia, 39 Qual nuvens se elevando velozmente;     Assim naquele abismo se agitando As flamas via; em cada qual estava 42 Uma     alma, em seus fulgores se ocultando.

Para ver, lá da ponte, me inclinava: Se amparado da rocha eu não     stivesse, 45 Tombara ao fundo dessa hiante cava.

O Mestre, ao ver que a mente se embevece, “Em cada fogo” —      diz-me — “um condenado, 48 Como em hábito, envolto, arde     e padece”.

“Sou, te ouvindo” — tornei — “certificado Do     que era, há pouco, em mim simples suspeita.

51 Pretendia inquirir, maravilhado, Que significa o fogo, que endireita A     nós, e se partindo, iguala a pira, 54 Para imigos irmãos outrora     feita”.

— “Estão lá dentro dessa flama dira Diômedes     e Ulisses: em castigo 57 Sócios são, como outrora hão     sido em ira.

“Lá dentro geme o pérfido inimigo, Inventor do cavalo,     que foi porta, 60 Por onde a Roma veio o início antigo;

“Chora-se a fraude, que Deidamia morta, Ainda exprobra a Aquiles, ressentida;     63 Pelo Paládio a pena se suporta”. “Se à labareda,     ó Mestre, é permitida A fala” — eu disse —     “te suplico e rogo 66 Com instância, mil vezes repetida, “Aguardar     me concedas esse fogo, Que, bipartido para nós caminha. 69 Vês     meu anelo: ah! dá-lhe o desafogo!” “Merece toda a complacência     minha Teu rogo: eu de bom grado o atendo e aceito. 72 Mas cala-te; que hás     de ser contente asinha. “Falar me deixa; sei qual teu conceito, Talvez     que desses Gregos na alma esquiva 75 Produza o teu dizer ingrato efeito”.      Propínqua estando a nós a flama viva, E, asado ao Mestre, parecendo     o ensejo, 78 Nesta linguagem disse persuasiva: “Ó vós,     que nesse fogo eu juntos vejo, Se por serviços meus, quando vivia,     81 Revelei de aprazer-vos o desejo, “Nos sonoros versos que escrevia,

Detende-vos: benévolo um nos diga 84 Onde viu fenecer o extremo dia”.      A parte superior da flama antiga A tremular começa murmurando, 87 Como     a que o vento lhe assoprando instiga. E a um lado e a outro o cimo meneando,     Como se língua fora, que falasse, 90 Estas vozes profere, e diz-nos:      “Quando “De Circe a encantos me esquivei fugace, Em que um ano     passei junto a Gaeta, 93 Antes que assim Enéias a chamasse, “A     saudade do filho, a mui dileta Velhice de meu pai, de alta consorte 96 Santo     amor, em que ardia sempre inquieta, “Não dominaram esse anelo     forte Que me impulsava a ser do mundo esperto, 99 Das manhas das nações,     da humana sorte. “Lancei-me às vagas do alto mar aberto; Sobre     um só lenho me seguiu companha 102 De poucos, mas de afouto peito e     certo. “As ondas perlustrando, hei visto a Espanha, Marrocos, logo a     ínsula dos Sardos 105 E as outras que o cerúleo pego banha.

“Já da velhice nos sentidos tardos, Alfim chegamos ao famoso     estreito, 108 Onde Alcides aos nautas pôs resguardos, “Que devem     respeitar por seu proveito. Deixei Septa, que jaz ao esquerdo lado, 111 E     Sevilha, que ao lado está direito. “Perigos mil vencendo e avesso     fado” Lhes disse — “irmãos, chegastes ao Ponente!     114 Da existência este resto, já minguado, “Razão     não seja, que vos tolha a mente De além do sol, tentar nobre     aventura, 117 E o mundo ver, que jaz órfão de gente. “Da     vossa raça refleti na altura! Viver quais brutos veda-o vossa origem!     120 De glória vos impele ambição pura! “Com tanto     esforço os ânimos se erigem, Falar me ouvindo assim, que ir por     diante 123 De entusiasmo sôfregos, exigem. “Já, com popa     ao Nascente flamejante, Asas os remos são na empresa ousada, 126 E     o lenho sempre à esquerda voga avante. “Já do outro polo     a noite levantada,

Via os astros brilhar: o nosso, entanto, 129 Na planície imergia-se     salgada: “Cinco vezes a luz do etéreo manto A lua difundira e     após minguara, 132 Depois que arrosto do oceano o espanto, “Quando     imensa montanha se depara: Envolta em cerração, longe aparece;     135 Na altiveza outra igual nunca avistara. “O prazer nosso em pranto     se esvaece: Da nova terra eis súbito irrompendo 138 Contra o lenho     um tufão medonho cresce. “Vezes três em voragens o torcendo,     A quarta a popa levantou-lhe ao alto, E a proa, ao querer de outrem, foi descendo”.      142 Cerrou-se o pego sobre nós de salto.

8. Prato, pequena cidade perto de Florença. — 56. Diômedes     e Ulisses, heróis gregos que combateram juntos no assédio de     Tróia. — 58-63. O Poeta lembra três façanhas astuciosas     de Ulisses: o cavalo de madeira para enganar os troianos; a descoberta de     Aquiles disfarçado em mulher entre os companheiros de Deidâmia;     e o roubo de uma estátua de Palas que tornava Tróia inexpugnável.      — 92. Gaeta, Enéias ao fundar a cidade de Gaeta deu-lhe o nome     de sua nutriz. — 107. Famoso estreito, Gibraltar, cujos montes (as colunas     de

Hércules) eram considerados como aviso para que não se passasse     além.     CANTO XXVII

Outro danado, entra a falar com Dante. É Guido de Montefeltro, o qual     pede notícias da Romanha sua terra natal. Conta, depois, que foi condenado     por causa de um mau conselho que, fiado na prévia absolvição,     dera ao papa Bonifácio VIII. A FLAMA já se erguia e estava quieta,     Não mais falando, e já se retirava 3 Com permissão do     meu gentil Poeta, Quando outra, que de perto caminhava, Pelos confusos sons,     que desprendia, 6 Olhar nos fez seu cimo, que oscilava. Como o sículo     touro, que mugia A vez primeira, o pranto ressoando 9 Do inventor, que seu     prêmio recebia; Berrava pela voz do miserando, Na brônzea forma,     em dor tanto pungente, 12 Que parecia vivo estar penando: Assim se convertia     o som plangente De flama no rumor, lhe falecendo 15 Caminho, em que irrompesse     prontamente.

Mais se exalar pelo ápice em podendo Dar-lhe impulso por ter já     conseguido 18 Desse mesquinho a língua, se movendo, “Tu, a quem     me dirijo” — hemos ouvido — “Que, inda há pouco,     dizias em lombardo: 21 Podes ir, tens assaz já respondido. “Posto     em chegar um tanto eu fosse tardo, De ouvir-me não despraza-te a demora;     24 Bem vês, me não despraz: entanto eu ardo. “Se a este     abismo tenebroso agora Tombas saudoso dessa doce terra 27 Latina, onde hei     pecado tanto outrora, “Se os Romanhóis têm paz, dize-me,     se guerra, Pois eu fui lá dos montes, entre Urbino 30 E essa, origem     do Tibre, altiva serra”. Para escutar atento a fronte inclino. Eis,     tocando-me a um lado, diz meu Guia: 33 “Podes ora falar, que este é     Latino”. Eu, que já prestes a resposta havia, Tornei ao pecador     incontinente: 36 “Alma, que o fogo assim veste e crucia, “Tua     Romanha em guerra permanente Sempre é no coração dos     seus tiranos.

39 Porém nenhuma agora tem patente. “Hoje é Ravena o     que era, há longos anos, De Polenta a águia forte ali se aninha;     42 Com largas asas cobre à Cérvia os planos. “A terra,     que no tardo assédio tinha Pelo sangue francês sido inundada     45 Sob verde leão, sofre mesquinha. “Dos Mastins de Verruchio     a subjugada Gente os dentes cruéis inda sentia: 48 Morte a Montagna     deram desapiedada. “Em Lamone, em Santerno inda regia Do alvo ninho     o leão, se convertendo 51 De um pra outro partido cada dia. “A     cidade que o Sávio banha, sendo Entre o plaino e a montanha, em liberdade     54 Ou vive ou sob o jugo vai sofrendo. “Ora nos diz quem foste na verdade;     Condescendente sê, como hemos sido: 57 No mundo haja o teu nome longa     idade”. O fogo rumoreja e comovido De um lado a outro a ponta aguda     agita; 60 Depois emite a voz neste sentido:

“Se esta resposta minha fosse dita A quem do mundo à luz daqui     voltasse, 63 Queda ficara a minha língua aflita. “Mas como é     certo que jamais tornasse Quem no inferno caiu, se não me engano, 66     De falar não hei medo, que embarace, “Homem de armas, depois     fui Franciscano, Crendo pelo cordão ser emendado; 69 Por crê-lo     certo, me esquivara ao dano, “Se o Papa (todo o mal seja-lhe dado!)     Não me volvesse à primitiva estrada. 72 Como e por que te fique     declarado. “Enquanto a humana forma era habitada Por mim, não     provei ser leão por feitos, 75 Mas raposa, por astúcia abalizada.      “Estratégia sutil, ardis perfeitos Tantos soube, que os âmbitos     da terra 78 Eram à fama de meu nome estreitos. “Da existência     na quadra, em que muito erra Quem, de surgir no porto esperançado,     81 Nem colhe os cabos nem as velas ferra, “Odiei quanto houvera mais     amado E humilhei-me confesso e arrependido...

84 E o perdão, ai de mim! fora alcançado... “Dos novos     Fariseus Príncipe infido, Em Latrão guerra crua declara: 87     Não contra Mouro, nem Judeu descrido, “Contra cristãos     as iras ateara; Nenhum traidor contra Acre combatera 90 Ou do Soldão     na terra traficara. “Sacras ordens em si não considera, Nem cargo     excelso, em mim o da humildade 93 Cordão, que os penitentes seus macera.      “Como foi de Sirati à soledade Constantino a Silvestre pedir     cura 96 Da lepra: assim também à enfermidade “De seu febril     orgulho este procura Remédio em meu conselho. Escrupuloso 99 Calei-me:     de ébrio vi nele a loucura. “Fala — insistiu — não     sejas temeroso! Absolto és desde já, se Palestrino 102 A vencer     me ensinares ardiloso. “Eu abro e fecho o céu: poder divino As     duas chaves têm, a que há negado 105 O meu antecessor preço     condi’no.

“Já destas razões graves abalado, Pior partido no silêncio     vendo, 108 Lhe tornei: — Padre Santo, se o pecado, “Em que ora     vou cair, stás-me absolvendo, Darás ao sólio teu glória     e conforto 111 Prometendo demais, pouco fazendo. “Francisco me acudiu,     quando fui morto; Mas clamou anjo negro apressurado: 114 — Não     mo tomes; assim me causas torto! “Lugar foi-lhe entre os meus assinalado:     Dês que há dado o conselho fementido, 117 Ficou pelos cabelos     agarrado. “Perdão só tem quem geme arrependido; Pecado     à penitência não se amanha, 120 Não pode aquele     andar a esta unido. “Ai! qual foi meu pavor, quando, com sanha Empolgando-me,     disse: — Creste acaso 123 Que me falta de lógico arte e manha?      “A Minos me arrastou, que sem mais prazo, Da cauda em voltas oito o     dorso enreda, 126 Raivoso morde-a e diz: — É neste caso “Que     aos maus prisão se dá na labareda. Assim onde me vês,     fiquei perdido,

129 Vou chorando, em tais vestes, minha queda”. Tendo, pois, desta     sorte concluído, Aquela flama se partiu gemendo 132 E agitando o seu     vórtice estorcido. Eu e Virgílio, então, seguido havendo     Pelo rochedo, ao arco nós subimos, Que o nono fosso cobre, onde sofrendo     136 Os que cizânia semearam vimos.

7. Sículo touro, o touro de bronze de que Falarides, tirano de Agrigento,     se servia para queimar os seus inimigos. — 29. Fui lá dos montes     etc., Guido de Montefeltro, que, depois de valoroso guerreiro, fez-se franciscano.      — 41. De Polenta a águia forte etc., a família de Polenta,     que tinha uma águia por emblema, dominou Ravena e Cérvia. —      46. Mastinos de Verruchio, Malatesta e Malatestino de Verruchio, senhores     de Rímini. — 48. Montagna, prisioneiro guelfo que Malatestino     mandou matar. — 49 Lamone e Santerno, as cidades de Faenza e Imola.      — 52. A cidade etc. Cesena. — 70. O papa, Bonifácio VIII.      — 86. Em Latrão etc., os Colonenses moravam perto da igreja de     S. João em Latrão. — 89. Contra Acre, que os Sarracenos     tomaram aos cristãos em 1291. — 94. Como foi de Sirati etc.,     conforme uma lenda Constantino foi curado da lepra por São Silvestre,     que morava numa gruta do monte Sirati. — 102. Palestrina, onde os Colonenses     se tinham retirado. — 105. O meu antecessor, Celestino V.     CANTO XXVIII

No nono compartimento os Poetas encontram os semeadores de cismas e escândalos     civis e religiosos. Dante vê Maomé, que o encarrega de uma embaixada     para o herege rei Dolcino; fala também com outros danados. DIZER o     sangue e as chagas espantosas, Que eu vi neste lugar, quem poderia, 3 Em livre     prosa e em vezes numerosas? Nenhuma língua, certo, bastaria; Fraca     a palavra, inábil nossa mente 6 Para horror tanto compreender seria.     Quando junta estivesse toda gente, Que lá da Apúlia na infelice     terra, 9 Perdera o sangue seu na luta ingente Dos romanos por mãos;     e em crua guerra A que tantos de anéis deixou vencida, 12 Como refere     Lívio, que não erra; E a que fora por golpes abatida, Quando     a Roberto Guiscardo resistia; 15 E a que tem sua ossada inda espargida

De Ceperan no campo, onde traía Cada Apulhês; e que no Tagliacozzo     18 O Velho Alard sem combater vencia: Das feridas o aspecto lastimoso Não     fora, qual no fosso nono imundo 21 Apresentava o bando criminoso. Qual tonel,     que aduelas perde ao fundo, Estava um pecador, que roto eu via 24 Das fauces     ao lugar que é menos mundo. As entranhas pendiam-lhe; trazia Patentes     os pulmões e o saco feio, 27 Onde o alimento de feição     varia. A contemplá-lo estava de horror cheio, Eis me encara e me diz,     abrindo o peito: 30 “Vê como eu tenho lacerado o seio! “Mafoma     sou, quase pedaços feito; Antecede-me Ali, que se lamenta: 33 Do mento     à testa o rosto lhe é desfeito. “Todos, que a dor aqui     tanto atormenta, De escândalos, de cismas inventores, 36 Pendidos têm,     qual vês, pena cruenta. “Demônio deixo atrás que     os pecadores Aos fios passa de cruel espada.

39 Da multidão nenhum aos seus furores “No giro escapa da afrontosa     estrada. Cerrar-se em todo cada golpe horrendo 42 Antes que torne a olhar-lhe     a face irada. “Mas quem és, que, na rocha te detendo, Estás     dessa arte a dilatar a pena, 45 Que Minos te aplicou, teus crimes vendo?”     — “Não é morto; sentença o não condena”     — Torna o Mestre — “não vem por seu castigo, 48 Mas,     para ter experiência plena. “Descendo ao mais profundo vai comigo,     Que morto sou, dos círculos temidos: 51 Tão certo é como     falo ora contigo”. Ouvindo mais de cento dos punidos, De espanto a me     encarar se demoraram, 54 Dos seus próprios tormentos esquecidos. —     “A Frei Dolcino diz, pois não findaram Teus dias e hás     de ao sol tornar em breve, 57 Se desejos de ver-me o não tomaram, “Que     se aperceba; pois, cercando-o, a neve Dará triunfo à gente de     Novara, 60 A quem vencê-lo assim há de ser leve”.

Para partir um pé Mafoma alçara Ao tempo, em que palavras tais     dizia: 63 Baixou-o e foi-se, apenas rematara. De guela golpeada outro acorria;     Té as celhas nariz tendo truncado, 66 Uma orelha somente possuía.     Como os mais, contemplando-me pasmado, Aos mais se antecipou e, escancarando     69 O canal, que de sangue era inundado, “Ó tu” —      falou-me — “que não stás penando, Que outrora hei     visto em região latina, 72 Se eu não erro, aparências     aceitando, “Recorda-te de Pier de Medicina Se tornar-te for dado ao     belo plano, 75 Que de Vercello a Marcabó se inclina. “E aos dois     nobres varões dize de Fano, Misser Angiolello e Misser Guido, 78 Se     o futuro antevendo, eu não me engano, “Que do baixel, que os     haja conduzido, De Católica ao pé, ao mar lançados 81     Serão por ordem de um tirano infido. “Por Gregos, por piratas     perpetrados, Entre Chipre e Maiorca ao infame feito

84 Não viu Netuno crimes igualados. “O traidor, que de um olho     tem defeito, Dessa terra opressor, que um companheiro 87 Meu tivera em não     vê-la mor proveito, “Irão a seu convite prazenteiro Para     acordo; mas votos de Foscara 90 Não fará por temer vento ponteiro”.      “Revela-me” tornei-lhe — “e me declara, Desse favor,     que deprecaste, em troca, 93 Quem de ver essa terra se pesara”. As mãos     de um pecador alçando à boca, Escancarou-a e disse-me gritando:     96 — “É este; a voz, porém, se lhe sufoca. “Exulado,     ele foi quem, dissipando Hesitações de César, lhe afirmava     99 Que a ocasião perdia demorando”. Oh! quão pávido     Cúrio se mostrava, Tendo cortada a língua na garganta, 102 Que     outrora tanta audácia aconselhava! Dos decepados braços alevanta     Outro os cotos ao ar caliginoso: 105 Banha-lhe o sangue a face, que me espanta.

Gritou: — “Memora Mosca desditoso! Fui quem disse: — O     seu fim tem cousa feita! 108 Fatal dito, à Toscana, ai! bem danoso!”     “E à tua raça, que à morte foi sujeita!”      Atalhei. Sobre a dor, dor se acendendo 111 Em desesp’rança se     partiu desfeita. Aquela multidão stava atendendo, Cousa assombrosa     eis vejo, que inda hesito 114 Em narrar, provas outras eu não tendo.     Da consciência já me alenta o grito, Sócia fiel, que o     homem torna forte, 117 Sob o arnês da verdade, sempre invicto. Eu via,     e cuido ver na mesma sorte Apropinquar-se um corpo sem cabeça, 120     Por entre os outros da infeliz coorte, Caminha, alçando-a pela coma     espessa, Da mão pendente a modo de lanterna: 123 Gemendo, os olhos     seus nos endereça. Servia ele a si próprio de luzerna, Eram     duas em um, era um em duas: 126 Como ser pode, sabe o que governa. Chegado     ao pé da ponte, das mãos suas Um ao alto a cabeça levantava

129 Para lhe ouvirmos as palavras cruas. “Vê meu duro castigo!”     — assim falava — “Tu, que os mortos visitas, sendo em vida:     132 Outro já viste igual ao que me agrava? “Eu sou — faz     minha história conhecida, Voltando à luz — Bertran de     Born, que há dado 135 Ao jovem Rei consulta, em mal tecida. “Pai     e filho inimigos hei tornado: As iras de Absalão mais não movera.     138 Contra Davi Aquitofel malvado. “Laços tais como eu, pérfido,     rompera, Meu cérebro assim levo desunido Desse princípio, que     no corpo impera: 142 Por lei sou, pois, de talião punido”.

14. Roberto Guiscardo, combatendo contra os Sarracenos, conquistou o reino     de Nápoles. — 15. De Ceperan, onde Manfredo foi derrotado por     Carlos d’Anjou. — 17. Tagliacozzo, onde morreu Corradino. —      31. Mafoma, Maomé, fundador do Islamismo. — 32. Ali, parente     de Maomé. — 55. Frei Dulcino, cismático, pertencente à     seita dos Irmãos Apostólicos. — 73. Pier de Medicina,     por dinheiro fomentou a discórdia entre os senhores da Romanha. —      76-90. E aos dois etc., Pier de Medicina prediz a morte violenta de Messer     Guido del Cassero e de Messer Angiolello de Carignano. — 106. Mosca     dei Lamberti, induziu à matança de Buondelmonte dei Buondelmonti,     dando inicio à luta em Florença entre guelfos e gibelinos. —      134.

Bertran de Born, poeta e guerreiro francês, infiltrou a discórdia     entre o rei Henrique II da Inglaterra e seu filho. — 137-38. As iras     de Absalão, Arquitofel induziu Absalão a rebelar-se contra o     seu pai, o rei Davi.     CANTO XXIX

Chegando ao décimo compartimento, os Poetas ouvem os lamentações     dos falsários, que aí são punidos com úlceras     fétidas e enfermidades nauseantes. Em primeiro lugar estão os     alquimistas, entre os quais Griffolino e Capocchio. MEUS olhos tanto inebriado     haviam A turba enorme e o seu cruel tormento, 3 Que alívio em pranto     procurar queriam. “Por que assim” — diz Virgílio      — “estás atento? Por que a vista dos tristes mutilados     6 Prende-te ainda o duro sofrimento? “Tal não fizeste em antros     já passados. Estão, se os resenhar é tenção     tua, 9 Por milhas vinte e duas derramados. “Já sob os nossos     pés evolve a lua; É-nos escasso o tempo concedido: 12 O que     ainda hás de ver detença exclua”. “Talvez se houveras”     — torno — “conseguido Ver o motivo, por que eu tanto olhava,     15 Mais demora tivesses permitido”.

Já se partia; e eu logo caminhava, Enquanto assim falava-lhe em resposta,     18 Acrescentando: “Lá, naquela cava, “Onde a vista cuidosa     estava posta, Da stirpe minha um spírito carpia 21 Por culpa, a que     mor pena está disposta”. “Não te confranjas mais”     — responde o Guia — “Nos males, que padece, cogitando. 24     De aí cuida; estar nesse antro merecia. “Ao pé da ponte     o vi, que, te indicando, O dedo alçava em cominante gesto: 27 Geri     del Bello estavam-no chamando. “Eras absorto no semblante mesto Daquele     que senhor foi de Altaforte: 30 Quando atentaste, se ausentara presto”.      “Ó Mestre” — eu disse — “a violenta morte     Que ainda não punia justa vingança 33 De quem naquela afronta     era consorte, “Deu causa a usar, ao ver-me, essa esquivança Talvez     e ao seu silêncio: assim pensando 36 Maior piedade do seu mal me alcança”.      Ao rochedo chegamos praticando, Donde outro vai divisa-se: o seu fundo

39 Todo se vira, a luz não lhe faltando. Subidos do final claustro     profundo De Malebolge à ponte, onde os conversos 42 Já distinguia     do recinto imundo. Lamentos e ais feriram-me diversos; De mágua tanta     o peito assetearam, 45 Que os ouvidos tapei aos sons adversos. Tão     penetrante dor denunciaram, Como se da Marena e da Sardenha 48 Enfermos no     verão se incorporaram. De outros à turba, que remédio     venha Nos hospitais buscar de Valdichiana. 51 Odor surdia, igual ao que já     tenha Corrupto corpo, e se gangrena o dana. Baixando à sestra até     a riva extrema 54 Mais claramente da caverna insana Então vimos o fundo,     onde a Suprema Infalível Justiça, a raça ímpia     57 Dos falsários em pena infinda prema. “De Egina quando o povo     adoecia, E o ar maligno aos animais a morte 60 Trazendo, os próprios     vermes extinguia,

Deserta sendo a terra de tal sorte Que às formigas (poetas o afirmavam)     63 Deveu a antiga gente o alento forte: Cenas tais mais tristeza não     causavam Do que almas ver, que essa prisão sombria 66 Em rumas várias     lânguidas juncavam. Qual sobre a espalda de outro se estendia, Qual     sobre o ventre seu, qual se arrastando 69 Na dolorosa estrada se estorcia.     Silentes, passo a passo caminhando, Vemos, ouvimos míseros prostrados,     72 Em vão para se erguerem se esforçando. Sentados dois, um     no outro recostados, Quais torteiras que juntas se aquecessem, 75 Vi do alto     aos pés de pústulas manchados Os criados, que os amos seus apressem,     Ou que estejam velando de mau grado 78 Almofaça não vi que assim     movessem, Como cada um se agita acelerado, Com implacáveis unhas se     mordendo, 81 De raivoso prurido atormentado. Iam da pele as crostas abatendo,     Como a faca do sargo arranca a escama

84 Ou de peixe, na casca mais horrendo. “Ó tu” contra     um dos dois Virgílio exclama, Que os dedos teus convertes em tenazes     87 Por desmalhar do corpo a extrema trama, “Diz-me se entre estas almas     contumazes Existe algum Latino; eternamente 90 Sejam-te as unhas de servir     capazes!” “Latinos somos” — torna diligente Um dos     dois padecentes lacrimoso, 93 “Mas tu quem és? Em declarar consente”.      — “Eu sou que” — diz Virgílio ao desditoso      “De círc’lo em círc’lo este homem vivo guia     96 Por lhe mostrar o abismo pavoroso”. Já cessa o mútuo     arrimo, que os unia: A mim volveu-se cada qual tremendo; 99 Turba imitou-os,     que em redor ouvia. Acercou-se-me o Guia assim dizendo: “Quanto quiseres     tu agora dize”. 102 Eu logo comecei lhe obedecendo: “Nunca a memória     vossa finalize! Na primeira mansão da humana raça! 105 Mas por     sóis numerosos se abalize!

“Quem sois? E donde? De o dizer a graça Fazei: a vossa pena,     imunda é certo, 108 De responder-nos pejo vos não faça.      “De Arezzo fui” disse um “de Siena Alberto Morte me deu     nas chamas, truculento, 111 Por feito a que não fora o inferno aberto.      “Dissera, em gracejar só pondo o intento. “Alçar-me     aos ares posso velozmente”. 114 Essa arte, por ter curto o entendimento,      “Houve ele de saber desejo ardente. Como o não fiz um Dédalo,     à fogueira 117 Mandou-me quem seu pai foi certamente. “Mas das     cavas caí na derradeira Por sentença de Minos rigorosa: 120     Foi meu crime a alquimia traiçoeira”. E ao Vate eu disse: “Nunca     tão vaidosa Gente, pôde alguém ver como a de Siena? 123     Nem a de França há sido tão sestrosa!” O segundo     leproso então me acena Dizendo: “Salvo Stricca, homem poupado,     126 Que todo o excesso em desprender condena! “Salvo Nicoló,     aquele que inventado Do cravo tinha a rica especiaria,

129 O seu uso deixando enraizado! “Salvo Caccia de Ascian e a companhia,     Com quem vinhas e bosques esbanjava 132 E o Abbagliato as chanças esgrimia!      “Para que saibas quem desta arte agrava Contra os de Siena o teu severo     asserto, 135 No meu triste semblante os olhos crava. “De que ora vês     Capocchio já estás certo, Que alquimista, os metais falsificara,     Sabes como eu, se em recordar acerto, 139 Natura, hábil bugio, arremedara”.

27. Geri del Bello, primo do pai de Dante, morto a traição     por um da família Sachetti. — 58. Egina etc. Segundo Ovídio,     Egina, despovoada por pestilência, foi repovoada pelas formigas que     se transformaram em homens. — 109. De Arezzo etc., Griffolino de Arezzo,     alquimista, que foi mandado queimar por Alberto de Siena. — 125-32.     Salvo etc., por ironia — Strica, Nicoló Salimbene, Caccio de     Asciano e Bartolomeu dei Folcacchieri, alcunhado o Abbagliato foram todos     de Siena e conhecidos como dissipadores de dinheiro. — 136. Capocchio     de Siena, alquimista que foi queimado vivo.     CANTO XXX

No décimo compartimento são punidos outras espécies     de falsários. Os falsificadores de moedas, tornados hidrópicos,     são constantemente atormentados por furiosa sede; entre eles está     mestre Adão de Brescia, o qual narra que, à instigação     dos condes Guidi, falsificou o florim de Florença. Os que falaram falsamente     são perseguidos por febre ardentíssima. O canto termina com     uma altercação entre mestre Adão e o grego Sinon. Virgílio     repreende Dante pois este pára, escutando as injúrias que os     dois trocam entre si. QUANDO Juno, de Semele ciosa, Contra o sangue tebano     se inflamava, 3 Como o provou por vezes impiedosa, Tanta insânia Atamante     perturbava, Que a esposa ao ver, ao colo seu trazendo 6 Os filhos dois, que     a ele encaminhava, Gritou: “Redes tendamos! Já stou vendo Leoa     e leõzinhos da embosacada!” 9 Disse e, raivoso, os braços     estendendo De um, Learco, travava e de pancada Rodou-o e o percutiu em penedia.     12 Ao mar lançou-se a mãe com outro abraçada

Quando a fortuna a cinzas reduzia A pujança de Tróia, em tudo     altiva, 15 E com seu reino o morto rei jazia, Hécuba triste, mísera,     cativa, Depois de morta Polixena vira, 18 Do Polidoro seu em plaga esquiva,     Súbito quando o corpo descobrira Uivou qual cão, de angústia     possuída. 21 Tanto a pungente dor nalma a ferira! Mas em Tebas ou Tróia     destruída Homens ou feras nunca revelaram 24 Raiva, em tantos extremos     desmedida, Como almas duas lívidas, que entraram Nuas correndo, os     dentes amostrando, 27 Quais cerdos, que à pocilga se esquivaram. Uma     alcançou Capocchio e, lhe cravando No colo as presas, rábida,     arrastava 30 Sobre o ventre na rocha o miserando. Mas o de Arezzo, que tremendo     estava “É Gianni Schicchi” — disse — esse raivoso:     33 De outros a pena o seu furor agrava!” “Possas livrar-te do     outro esp’rito iroso!” Falei — “Se não te causa     assim fadiga,

36 Diz quem seja, antes de ir-se o furioso”. “Aquele é”     — respondeu — “uma alma antiga; É Mirra infame, que     paixão impia 39 Instigou ser do pai a sua amiga. “Para o seu     crime consumar fingia De outra pessoa as formas e o semblante. 42 Igual ardil     usara Schicchi um dia: “Para em prêmio alcançar égua     farfante: Contrafez Buoso morto e ao testamento 45 Falso a norma legal deu,     que é prestante”. Aos dois raivosos estivera atento Até     que de ante os olhos se apartaram; 48 De outros volvi-me ao cru padecimento.     Num do alaúde as formas se notaram Se as pernas lhe tivessem cerceado     51 Na parte, em que do tronco se separam. Da grave hidropisia molestado, Que     tanto o humor vicia e tanto ofende, 54 Que o rosto estreita e faz o ventre     inchado, A boca ter cerrada em vão pretende, Qual hético de     sede ressequido. 57 A quem um lábio se alça e o outro pende.

“Ó vós, que ao negro abismo haveis descido (Não     sei por que razão) de pena isentos, 60 Olhai” — disse —     “prestando atento ouvido, “De mestre Adam miséria e sofrimentos     Tive abastança; agora, ai! desejando 63 De água uma gota, passo     mil tormentos, “Dos ribeiros, que ao Arno, murmurando Do Casentino lá     na verde encosta 66 Se vão, por moles álveos inclinando, “Na     mente a imagem sempre tenho posta. Não em vão: mais me seca     e me fustiga 69 Que o mal, de que esta face é descomposta. “Quer     Justiça, que austera me castiga, Que o teatro, onde hei crimes cometido,     72 Mais me acendendo anelos, me persiga. “Lá demora Romena, onde     hei fingido Em falso cunho a imagem do Batista; 75 Assim meu corpo o fogo     há consumido. “Se a sombra achasse aqui, se aqui já exista,     De Guido ou de Alexandre ou seu germano! 78 Fonte-Branda esquecera ante essa     vista. “Mas um já veio, se induzir-me a engano Os raivosos, que     giram, não quiseram.

81 Que importa? Para andar em vão me afano. “Se os meus pés     transportar-me inda puderam, De um sec’lo ao cabo, espaço de     uma linha, 84 Já postos a caminho se moveram, “A fim de o ver     na multidão mesquinha Do val, que milhas onze em torno amplia, 87 Com     largura, que de uma se avizinha. “Star lhes devo em tão triste     companhia: Florins cunhei, aos três obedecendo, 90 Nos quais quilates     três de liga havia”. “Quem são” — lhe     disse — os dois que ora estou vendo? Quais no inverno mãos úmidas     fumegam, 93 À destra tua próximos jazendo”. “Já     stavam quando vim: eles se entregam, Dês que desci, a quietação     completa; 96 E creio, assim a eternidade empregam. “Uma acusou José,     falsária abjeta, Outro é Sinon, de Tróia o Grego tredo:     99 Lançam por febre essa fumaça infecta”. Anojado um do     par, que estava quedo, Por ver em vozes tais afronta e ofensa, 102 À     pança o punho lhe vibrou sem medo:

Soou, qual de zabumba a pele tensa. O braço Mestre Adam lhe envia     à face 105 E assim lhe dá condi’na recompensa. “Inda     que” — disse — os membros meus enlace Moléstia, que     me tolhe o movimento, 108 Presteza a destra tem, com que rechace”. “Foste”     — o outro tornava — “mais que lento Quando forçado     ao fogo caminhavas. 111 Só presto eras no ofício fraudulento”.      “É certo; mas verdade não falavas” O hidrópico     diz — “quando exigiram 114 Em Tróia essa verdade, que ocultavas”.      “Se os lábios meus perjúrio proferiram, Tu falsaste moeda:     eu fiz um crime, 117 Aos teus nunca em demônio iguais se viram”.      “Do cavalo a façanha inda te oprime” — Responde o     que a barriga tinha inchada — 120 Sobre o teu nome infâmia o mundo     imprime”. “Arda em sede tua língua já gretada!”      Grita o Grego — “Hajas de água saniosa 123 O ventre impando,     a vista embaraçada!” “Escancaras a boca venenosa”

O moedeiro diz — “por mal somente; 126 Se sede eu tenho e a pança     volumosa “Ardes tu e a cabeça tens fervente. Por lamberes o espelho     de Narciso 129 A um aceno correras de repente”. Atento estava aos dois     mais do preciso, Eis Virgílio me fala: — “Oh! toma tento!     132 Quase que eu contra ti me encolerizo!” Iroso assim falar neste momento     O Mestre ouvindo, voltei-me corrido: 135 Ainda sinto rubor em pensamento.     Como quem sonha danos ter sofrido, Que em sonho espera que sonhando esteja     138 E anela que o que é já não tenha sido, A mente, sem     dizer, falar deseja. Desculpas aspirando à falta sua; 141 Stá     desculpada e cuida que o não seja. “Menos rubor lavara a culpa     tua” Disse o Mestre — “se houvera mor graveza: 144 Fique-te     a mente da tristeza nua. “E quando queira o acaso que à torpeza     De iguais debates se ofereça ensejo. De que eu steja ao teu lado faz     certeza,

148 Que é ter querendo ouvi-los, vil desejo”.

1-2. Juno etc., por ciúme de Semele, tebana, mãe de Baco, vingou-se     de toda a sua estirpe, tornando louco a Atamante, rei de Tebas, o qual matou     um dos filhos, e no entanto a mulher com outro filho se lançou ao mar.      — 16. Hécuba, viúva de Príamo, ao ver mortos todos     os seus filhos, pela dor foi transformada em cadela. — 32. Gianni Schicchi,     florentino, de acordo com o filho do morto, fingiu-se de Buoso Donati moribundo,     ditando o testamento. — 38. Mirra, filha de Cinira, rei de Chipre, apaixonou-se     pelo pai. — 61. Adam, de Brescia, falsificador de moedas. — 77.     Guido etc., dos condes Guidi, induziu mestre Adam a falsificar o dinheiro     de Florença. — 97. Falsária abjecta etc., mulher de Putifar,     que acusou injustamente a José. — 98. Sinon de Tróia,     que com as suas mentiras induziu os troianos a introduzirem na cidade o cavalo     de madeira.     CANTO XXXI

Dando as costas ao oitavo círculo, caminham os Poetas para o centro,     onde se abre o poço pelo qual se desce ao nono. Em torno do poço     estão os gigantes rebeldes, cujas figuras horrendas Dante descreve.     Um deles, Anteu, a pedido de Virgílio, toma nos braços os dois     poetas e suavemente os depõe sobre a orla do último reduto internal.     A LÍNGUA, que me havia vulnerado E a vergonha nas faces me acendera,     3 O bálsamo aplicava ao mal causado: Assim de Aquiles e seu pai fizera,     Dizem, outrora a lança portentosa: 6 Sarava o corpo, que cruel rompera.     Damos costas à estância desditosa, Sem proferir palavra atravessando     9 Sobre a borda, que em torno jaz fragosa. Noite não sendo e dia não     reinando, Pouco distante eu divisar podia, 12 Eis som de trompa escuto, retumbando     Tão alto, que o trovão transcenderia, Donde irrompera contra     a parte andava

15 E sôfrego a um só ponto olhos prendia. A de Orlando tão     forte não soava Na derrota fatal, que a santa empresa 18 De Carlos     Magno o desbarato dava. Já assim por diante: eis a grandeza De muitas     e altas torres me aparece. 21 “Qual é” — digo —     “essa vasta fortaleza?” “Pois de tão longe e em trevas     te apetece Julgar” — Virgílio diz — “um erro     agora 24 Imaginando estejas acontece. “Verás ali chegado, sem     demora, Quanto a distância a vista nos engana: 27 O passo acelerar convém     por ora”. Da mão travou-me e em voz suave e lhana O Mestre prosseguiu:      “Antes que avante 30 Passes, dessa ilusão te desengana. “O     que torre imaginas é gigante. Da cinta aos pés imergem-se no     poço, 33 E alçam bustos em torno ao espaço hiante”.      Quando o sol gasta o nevoeiro grosso, Pouco a pouco se mostra e é discernido     36 Quanto oculta o vapor ao olhar nosso:

Vendo assim por esse ar escurecido, Da borda mais e mais me apropinquando,     39 Fugia o erro, o horror tinha crescido. Como torres em roda se elevando,     Montereggion guarnecem de coroa: 42 Assim do poço a margem circundando,     Torreiam com metade da pessoa Os horríveis gigantes, que ameaça     45 Do céu ainda Jove, quando troa. Distingo a cara de um (e me transpassa     O medo), logo os braços, peitos e parte 48 Do ventre, que da borda     a altura passa. Bem fez a natureza, quando essa arte De tais monstros criar     há descurado, 51 De iguais agentes desarmando Marte. Se ainda a selva     e mar têm povoado Do elefante e baleia, sutilmente 54 Quem pensa justa     e sábia a tem julgado. Mal seria aos humanos permanente, Se perspicaz     engenho encaminhasse 57 Maligno instinto em robustez ingente. Larga e comprida,     pareceu-me a face, Qual de S. Pedro, em Roma, a brônzea pinha:

60 A proporção nas outras partes dá-se. O corpo, que     da borda acima vinha, Tanto ao ar elevava a grã figura, 63 Que três     Frisões, por lhe atingir a linha Da cerviz, não fariam tanta     altura, Porquanto eu esmava em trinta grande palmos 66 Do colo ao pescoço     a válida estatura. Rafael mai amècch zabi almos A pavorosa boca     assim bradava; 69 Não podia entoar mais doces salmos. Disse-lhe o Mestre:      “Ó alma bruta e brava! Tange a trompa, se queres lenitivo 72     À paixão, que te acende ardente lava. “A roda busca do     pescoço altivo O loro, a que se prende alma confusa! 75 Vê que     te cruza o vasto peito esquivo”. Depois a mim: “De quanto fez     se acusa, É Nemrod; por tomar estulta empresa 78 O mundo uma linguagem     só não usa. “Deixêmo-lo: falar-lhe é vã     despesa. Como idioma de outros não compreende, 81 A quem o escuta o     seu move estranheza”.

Vamos então caminho, que se estende À sestra. Outro, de besta     quase a tiro, 84 Está mais fero, o ar mais alto fende. Que mão     cativa o monstro, que admiro Dizer não sei: o seu direito braço     87 Ao dorso preso vi, e ao peito diro O outro, de grilhão no estreito     laço, Que com círculos cinco lhe cercava 90 Do enorme corpo     o descoberto espaço. “Esse réprobo” — diz     Virgílio — “ousava Medir forças com Jove soberano:     93 Eis o fruto do orgulho, que o danava! “Era Efialto: executou seu     plano, Quando aos Deuses gigantes aterraram. 96 Jamais os braços mover     pode o insano”. “Os meus olhos, ó Mestre, assaz folgaram,     De Briaréu se vissem desmarcado 99 As formas” vozes minhas lhe     tornaram. “Anteu verás”, — me diz — muito afamado:     Stá solto, fala e nos demora perto, 102 Há de ao fundo levar-nos     de bom grado. “Remoto esse outro fica, e tem por certo Que em grilhões     e estatura àquele iguala:

105 Mais fero em vulto, em mal é mais esperto”. Jamais um terremoto     a torre abala Em convulsões tão rápido, tão forte,     108 Como Efialto a mover-se. Eu já sem fala, Assombrado, cuidei ter     perto a morte; E de pavor sem dúvida expirara, 111 Se ele preso não     fosse, e de tal sorte. Presto ao lugar seguimos, onde pára Anteu: fora     a cabeça, em cinco braças 114 À borda sobreleva, o que     separa. “Tu, que no val feliz, aonde as graças E as palmas de     Cipião colheu da glória, 117 Quando Aníbal vexavam só     desgraças, “Mil leões apresaste por memória; Que,     aos irmãos se ajudaras na alta guerra, 120 Se crê triunfo registrasse     a história “Dos fortes filhos da fecunda Terra! Ao fundo transportar-nos     sê servido, 123 Onde ao Cocito o frio as águas cerra: “Te     hemos a Tifo e a Tício preferido. Dar pode este varão o que     mais se ama: 126 Curvando-te compraz ao seu pedido.

“No mundo pode restaurar-te a fama, Pois vive e ainda longa vida espera,     129 Salvo se a Graça antes do tempo o chama”. Falara o Mestre.     Anteu não considera: Toma-o logo nas mãos, que lesto of’rece     132 E a que sentira Alcide a força fera. Quando entre os dedos seus     Virgílio vê-se, Diz-me: “Faze-te prestes, que eu te abrace!”      13S Ao Mestre o meu querer pronto obedece. Quem Carisenda, em seu pendor olhasse,     Cuidara, ao passar nuvem, que iminente 138 Ruína ao lado oposto ameaçasse:     Tal Anteu parecia de repente Do corpo ao menear; quando o inclinava, 141 Estrada     eu preferia diferente. Mas de leve no fundo nos pousava, De Judas e de Lúcifer     assento. A postura deixando, que o dobrava, 145 Qual mastro empertigou-se     num momento.

4-6. Assim etc., a lança de Peleu e do seu filho Aquiles curava as     feridas que produzia. — 16-18. A de Orlando etc., a trompa de Orlando,     ferido em Roncisvalle foi ouvida a oito milhas de distância por Carlos     Magno. — 41. Montereggion, castelo do val

d’Elsa. — 63. Prisões, habitantes da Frísia, de     elevada estatura. — 67. Rafael, etc., palavras cujo significado é     ignorado [NE: No original: «Raphèl mai amècche zabi almi”].      — 77. Nemrod, que edificou a torre de Babel, da qual adveio a confusão     das línguas. — 94. Efialto, um dos gigantes que moveram guerra     aos deuses. — 98. Briareu, gigante com cem mãos. — 100.     Anteu, gigante que lutou com Hércules. — 124. Tifo e Tício,     outros gigantes. — 136. Carisenda, torre pendente de Bolonha.     CANTO XXXII

Os dois Poetas se encontram no círculo, em cujo pavimento de duríssimo     gelo estão presos os traidores. O círculo é dividido     em quatro partes; na Caina, de Caim, que matou o irmão, estão     os traidores do próprio sangue; na Antenora, de Antenor, troiano que     ajudou os Gregos a conquistar Tróia, os traidores da pátria     e do próprio partido; na Ptoloméia, de Ptolomeu, que traiu Pompeu,     os traidores dos amigos; na Judeca, de Judas, traidor de Jesus, os traidores     dos benfeitores e dos seus senhores. Dante fala com vários danados,     enquanto atravessam o gelo procedendo para o centro. SE usasse rimas ásperas,     rouquenhas, Próprias do poço lôbrego e tristonho, 3 Que     do inferno sustém as outras penhas, Melhor idéia do lugar medonho     Dera; mas tal vantagem me falece. 6 O meu conceito, pois, tímido exponho.     É árdua empresa, em que o ânimo esmorece O centro descrever     do mundo inteiro: 9 Para empenho infantil ser não parece. Das Musas     se ajudar poder fagueiro, Como a Anfião em Tebas o mostraram, 12 Fiel     serei dizendo e verdadeiro.

Ó malfadada turba, a quem tocaram Deste abismo os castigos, bruto     gado 15 Sendo, fados melhores te aguardaram. Descidos nós ao poço     negregado Das plantas muito abaixo do gigante, 18 O alto muro mirava-lhe espantado,     Quando ouvi: “Tem cuidado, ó caminhante! Não calques de     irmãos teus desventurados 21 As frontes”. Eu, voltando-me, adiante     E sob os pés, de um lago vi gelados Os planos tanto, que os dizer podia,     24 Não de água, de cristal, porém, formados. Do Danúbio     a corrente não seria Tanto em Áustria no inverno enrijecida,     27 Nem do Tanais, na zona sempre fria. Do lago sobre a face empedernida Caísse     ou Tambernich ou Pietrana: 30 Não fora ao peso enorme combalida. Qual     rã, que no paul coaxando, ufana Um pouco emerge, enquanto a camponesa     33 Sonhando está que a respigar se afana: Tais gemiam as sombra na     frieza

Té a cintura lívidas, batendo, 36 Como a cegonha, os queixos     com presteza. Para o seio a cabeça lhes pendendo, Do frio a boca indícios     claros dava, 39 Nos olhos a tristeza está-se vendo. Quando atentei     no quanto em roda estava, Duas vi aos meus pés, em tal abraço,     42 Que, travado, o cabelo se enleava. “Quem sois que os peitos nesse     estreito laço Apertais?” — perguntei. Então, voltando     45 Os colos para trás, um curto espaço Me encararam; porém     dos olhos quando Lhes brotavam as lágrimas, a neve 48 Cerrou-os entre     os cílios as coalhando. Nunca dois lenhos tanto unidos teve Cavilha:     eles, de irados, se investiram, 51 Quais capros, que a marrar o furor leve.     Terceiro, a quem, geladas lhe caíram As orelhas, com rosto baixo fala:     54 “Por que teus olhos sôfregos nos miram? “O par desejas     conhecer, que cala? Próprio lhes fora e ao genitor Alberto 57 O vale,     onde o Bisênzio faz escala.

“De um só ventre nasceram; tu, por certo, Não acharás     mais di’nos em Caína, 60 De ter de gelo o vulto seu coberto,      “Nem esse, a quem de Artus destra assassina De um bote o peito e a sombra     transpassara; 63 Nem Focácia e o que a fronte agora inclina, “A     vista me tolhendo, e se chamara Mascheroni Sassol, bem conhecido: 66 Se és     Toscano, esse nome te bastara. “Fique, por vozes escusar, sabido Que     Pazzi eu sou e que, em Carlin chegando, 69 Serei por menos criminoso havido”.      Mil outros via roxos tiritando: Desde então de arrepios sou tomado     72 Ante gélidos vaus, este lembrando, E o centro demandando, em que     firmado Do universo gravita todo o peso, 75 Trêmulo havia a treva eterna     entrado, Eis, sem querer, da sorte ou por desprezo, Entre tantas cabeças     caminhando, 78 A face de um calquei no gelo preso. “Por que me pisas?”      reclamou chorando,

“De Monte Aperti ao feito por vingança 81 Inda me estás     desta arte molestando? “Mestre, espera-me aqui” — disse      — “Me lança Em dúvida este mau: solvê-la quero.     84 Eu depois correrei, se houver tardança”. Parou; e ao pecador     falei, que fero, Duras blasfêmias proferia agora: 87 “Quem és     tu, que me increpas tão severo?” “E tu mesmo quem és,     que na Antenora” Tornou — “dessa arte as faces me espezinhas?     90 Um vivo, certo, menos cru me fora”. “Sou vivo e posso entre     as memórias minhas Do nome teu apregoar a fama” 93 Respondi —     “se te aprazem louvaminhas”. “Só quer o olvido quem     te fala” — exclama “Vai-te! De sobra já me estás     molesto. 96 Aqui não cabe da lisonja a trama”. Travei da nuca     ao pecador infesto E disse: — “Ou perderás todo o cabelo,     99 Ou quem tu foste me declara presto!” “Mil vezes podes arrancar-me     o pêlo, De ver-me a face não terás o gosto 102 E de saber     qual foi meu nome e apelo”.

As mãos lhe havia no cabelo posto; Da guedelha uma parte arrepelara:     105 Ganindo ele abaixava sempre o rosto, Quando outro brada: “Ó,     Boca, isso não pára? Pois os queixos bater não te é     bastante? 108 Já lates! Que demônio em ti dispara?” “Não     mais, ímpio traidor” — no mesmo instante Respondo —     “exijo; o que de ti stou vendo 111 Contarei por te ser mais infamante”.      “Vai! Se saíres deste abismo horrendo, Quanto queiras refere,     do apressado, 114 Que de língua assim foi, não te esquecendo.      “Ouro chora, que a França lhe há doado. Eu vi —      podes dizer — Boso Duera 117 De outros muitos no gelo acompanhado. “Se     perguntarem quem aqui mais era, Olha e terás ao lado Beccaria, 120     A quem Florença degolar fizera. “Gian del Soldanier, há     pouco eu via Além com Ganellon e Tribaldello. 123 Que abriu Faenza,     enquanto se dormia”. Deixâmo-lo; mas súbito de gelo

Postos em furna vi dois condenados: 126 Cabeça de uma a de outra era     cabelo. Como a pão se agarrando os esfaimados, Por cima um no outro     os dentes aferrava 129 Onde a cerviz e o crânio estão ligados.     Qual Tideu, que a dentadas lacerava De Menalipo a fronte enraivecido, 132     Ele o cérebro e os ossos mastigava. “Tu, que, de ódio     tão sevo possuído, Te encarniças feroce no inimigo, 135      “Dize — exclamo — por que foi produzido. “Se eu souber     que a justiça está contigo E houver da culpa e réu conhecimento,     No mundo a compensar-te ora me obrigo, 139 Se não perder a língua     o movimento”.

11. Anfião, foi auxiliado pelas Musas na edificação     dos muros de Tebas. — 27. Tanais, o rio Don, na Rússia. —      55-60. O par etc, filhos de Alberto degli Alberti, os quais brigaram e se     mataram reciprocamente. — 61. Nem esse Mordrec, filho do rei Artur,     morto pelo pai. — 63. Focaia, dei Cancellieri matou alguns parentes     do partido inimigo. — 65. Mascheroni Sassuol, florentino, assassinou     traiçoeiramente um seu primo. — 68. Pazzi, Comicion dei Pazzi     matou o seu primo Ubertino. — Carlin, Carlino dei Pazzi traiu os seus     companheiros, entregando várias fortalezas aos florentinos Negros.      — 88.

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Antenora, onde são punidos os traidores da pátria, de Antenor,     troiano, que favoreceu os gregos que sitiavam Tróia. — 106.     Boca, Bocca degli Abati, na batalha de Montaperti (1260)     causou a derrota dos florentinos, passando ao inimigo. — 116.     Boso Duera, traiu o rei Manfredo, por ter recebido dinheiro de     Carlos d’Anjou. — 119. Beccaria, de Pavia, legado pontifício     na     Toscana, foi decapitado pelos florentinos, na suposição de ter     favorecido os gibelinos. — 121. Gian del Soldanier, gibelino, que     em 1266 chefiou uma rebelião em Florença. — 122. Ganellon,     Gano de Mogunça, traidor de Carlos Magno. — Tribaldello,     faentino, traiu a sua cidade natal Faenza.

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    CANTO XXXIII

O conde Ugolino della Gherardesca conta a Dante a sua trágica     morte na torre dos Gualandi. Na Ptoloméia o Poeta encontra o     frade Alberico de Manfredi, o qual lhe explica que a alma dos     traidores cai no Inferno logo depois de consumada a traição     e que     um diabo toma conta do corpo até chegar o tempo do seu fim no     mundo.

DO fero cevo os lábios desprendendo,     Na coma o pecador os enxugava     3 Desse crânio, a que estava atrás roendo.

“Queres de infanda mágoa” — começava — Renove a dor, que, só pensando a mente,     6 Antes que falte, o coração me agrava.

“Mas se a voz minha deve ser semente,     Que ao traidor, que eu devoro a infâmia brote.     9 Falar, chorar, verás conjuntamente.

“Não sei quem sejas, não sei como note     Tua presença aqui, por Florentino     12 Te ouvindo a língua, é força que te adote.

“Saber deves que fui Conde Ugolino,     Que Arcebispo Rogério aquele há sido:

    252

15 Direi qual nos juntou cruel destino.

“Contar não hei mister como iludido     Por minha confiança, em cárcer posto.     18 Fui morto por maldade deste infido.

“Não conheces, porém, que atroz desgosto     O meu fim precedera: atenção presta,     21 Quanto ofendido fui verás exposto.

“Por vezes da prisão por breve fresta,     Torre da fome — após o meu tormento,     24 Que há de a outros ainda ser funesta

“Brilhava a lua em pleno crescimento,     Quando o véu do futuro horrível sonho     27 Rasgou, do exício meu pressentimento.

“Este, como senhor, então suponho     Ao monte, que ver Lucca a Pisa obstava     30 Lobo e pequenos seus correr medonho.

“Magros cães, destros, feros açulava     Dos Galandis, Sismondis e Lanfrancos     33 A companha, que à frente cavalgava.

“Em breve o pai e os filhos, lassos, mancos,     Já dos famintos galgos mal feridos,     36 Dar pareciam últimos arrancos.

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“Desperto ao primo alvor; dos meus queridos     Filhos que eram comigo, choro soa:     39 Pedem pão, stando ainda adormecidos.

“És cruel, se a tua alma não magoa     O prenúncio da dor, que me aguardava:     42 Se não choras, que pena há que te doa?

“Despertaram; e a hora já chegava     Em que alimento escasso nos traziam:     45 O sonho a cada qual nos aterrava.

“Da horrível torre à porta então se ouviam     Martelos cravejar: eu mudo e quedo     48 Nos filhos encarei, que esmoreciam.

“Não chorava; era o peito qual penedo.     Choravam eles, e Anselmuccio disse:     51 Assim nos olhas, pai? Do que hás tu medo?”

“Nem lágrimas, nem voz dei, que se ouvisse,     No dia e noite, que seguiu-se lenta,     54 Até que ao mundo novo sol surgisse.

“Quando a luz inda escassa se apresenta     No doloroso carcer, meu semblante     57 Nos quatro rostos seus se representa.

“Mordi-me as mãos de angústia delirante.     Eles, cuidando ser a fome o efeito,

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60 De súbito e com gesto suplicante,

“Disseram: “Menos mal nos será feito     Nutrindo-te de nós, pai; nos vestiste     63 Desta carne: ora sirva em teu proveito”.

“Contendo-me, evitei lance mais triste.     Em silêncio dois dias se passaram. ..     66 Ah! por que, terra esquiva, não te abriste?

“Do quarto dia os lumes clarearam:     Gaddo caiu-me aos pés desfalecido:     69 “Pai me acode!” os seus lábios murmuraram.

“Morreu; e, qual me vês, eu vi, perdido     O sizo, os três, ao quinto e ao sexto dia,     72 Um por um se extinguir exinanido.

“Apalpando os busquei — cego os não via     Dois dias, os seus nomes repetindo:     75 Da fome mais que a dor, pôde a agonia”.

Calou-se e os torvos olhos retorquindo,     Como de antes cravou no crânio os dentes     78 E os ossos, qual mastim, foi destruindo.

Ah! Pisa, opróbrio aos povos residentes     Na bela terra, onde o si ressona!     81 Pois te não vêm punir vizinhas gentes.

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Presto a Capraia mova-se e a Gorgona     Do Arno à foz, entupindo-lhe a saída     84 Teu povo assim pereça, que se entona.

E se foi a Ugolino atribuída     De entregar teus castelos à maldade,     87 Por que à prole em tal cruz tirar a vida?

Tebas moderna! Pela tenra idade     Ugoccione e Briga tá insontes eram     90 E os irmãos, em que usaste a feridade.

Seguindo além, os olhos se of’receram     Outros, que em gelo têm duro tormento:     93 Destes os rostos para trás penderam.

Lhes causa o pranto ao pranto impedimento;     E a dor, que desafogo em vão procura,     96 Lhes cresce, recalcada, o sofrimento.

As lágrimas coalhando em neve dura     Formam nos olhos seus vítrea viseira,     99 E todo o espaço interior se obtura.

Conquanto quase a faculdade inteira     De sentir no meu rosto se embotasse     102 Dês que era nessa perenal geleira,

Cuidei que um sopro me tocara a face. “Do que este sopro” — inquiro — “se origina?

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105 Se aqui não há vapor, donde ele nasce?”

E o Mestre: “Irás onde a resposta di’na     Os teus olhos darão; e ali chegando     108 O que virem do sopro a causa ensina”.

Dos tristes padecentes um gritando,     Nos disse: “Almas cruéis, almas danadas     111 (Pois que no extremo abismo estais penando)

“Tirai-me aos olhos gélidas camadas,     Por desafogo dar-me ao peito aflito,     114 Antes de eu ter as lágrimas coalhadas”.

“Se o lenitivo queres, que tens dito,     Teu nome diz: se não me desobrigo,     117 Desça eu do gelo ao pelágio maldito”.

Respondeu logo: “Eu sou frei Alberigo,     Pelos pomos famoso do mau horto:     120 Aqui recebo tâmara por figo”.

“Oh!” — disse — “porventura tu stás     morto?”     “Não sei como é meu corpo lá no mundo”, 123 Tornou “e se vivendo tem conforto.

“Este condão possui sem ter segundo     Ptoloméia: aqui star alma é freqüente     126 Antes que a mande Atropos ao profundo.

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“E por que mais de grado e prontamente     Estas vidradas lágrimas romovas,     129 Sabe que apenas de traição a mente

“Inquina-se, como eu, por funções novas     Passa o corpo a demônio, que o governa     132 Té completar da vida últimas provas:

“Rui a alma, entanto, à lôbrega cisterna,     Talvez na terra folgue o corpo ledo,     135 Cuja sombra após mim trêmula inverna.

“Se és recém-vindo, sabe que esse tredo     É Branca d’Ória: há prolongados anos     138 Jaz enleado no infernal enredo”.

“Este é” tornei “mais um dos teus enganos:     Desfruta alegre Branca d’Ória a vida     141 E come e bebe e dorme e veste panos”.

“Dos Malebranche em cava denegrida,     Não era“ disse ainda “em pez viscoso     144 Alma de Miguel Zanche submergida,

“E um demônio esse infame criminoso     Deixou no corpo; o mesmo um seu parente,     147 Que de traição foi sócio proveitoso.

“Das mãos auxílio presta ora clemente,     Me abrindo os olhos!” Tal não fiz; que errara

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150 Com tal vilão me havendo cortesmente.

Ah! Genoveses! raça impura e avara,     Que nos costumes tem mancha tamanha!     153 Quem da face da terra vos lançara!

Junto ao pior esp’rito da Romanha     De entre vós um traidor vi tanto imundo,     Que a alma sua em Cocito já se banha,

157 Enquanto o corpo vida finge ao mundo.

13. Conde Ugolino, della Gherardesca, de Pisa, foi acusado pelo     arcebispo de Pisa, Ruggiero degli Ubaldini, de ter traído a sua     cidade natal. Preso com dois filhos e dois netos numa torre,     onde todos morreram de fome. — 29. Monte, San Giuliano, entre     Pisa e Luca. — 32. Galandis etc., famílias pisanas. — 118.     Frei     Alberigo, Manfredi, de Faenza, convidou dois parentes seus a     comerem na sua casa e, no fim do jantar, ao pedir que     trouxessem a fruta, os criados penetraram na sala e mataram     os hóspedes. — 137. Branca d’Ória, genovês,     convidou o sogro     Miguel Zanche a comer em sua casa e matou-o para usurpar o     castelo de Logodoro.

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    CANTO XXXIV

Na Judeca estão os traidores dos seus senhores e benfeitores. No     meio está Lúcifer, que com três bocas dilacera três     entre os mais     horrendos pecadores: de um lado Judas, do outro Bruto e Cássio,     que mataram a Júlio César. Virgílio, ao qual Dante se     agarra,     desce pelas costas peludas de Lúcifer até o centro da terra.     Dai     seguindo o murmúrio de um regato, saem e avistam as estrelas     no outro hemisfério.

VEXILIA regis prodeunt inferni     Contra nós; pra diante os olhos tende     3 Disse o Mestre, se a vista já discerne”.

Como quando no ar névoa se estende,     Ou ao nosso hemisfério a noite desce,     6 Um moinho distante a atenção prende.

Um edifício igual verme parece.     Tanto era o vento, que eu busquei guarida     9 Atrás do Mestre, que outra não se of’rece.

À parte era chegado, onde imergida     Cada alma em gelo está (tremo escrevendo),     12 Bem como aresta no cristal contida.

Erguidas umas stão, outras jazendo

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Qual sobre a fronte ou sobre os pés firmada     15 Qual com seus pés o rosto arco fazendo.

Quando distância tal foi superada,     Que aprouve ao Mestre me tornar patente     18 A criatura bela ao ser formada,

Se afastando de mim, disse: “Detém-te!     Eis Satanás! Eis o lugar horrendo     21 Em que deves te armar de esforço ingente!

Quanto assombrei-me aquele aspecto vendo     Não inquiras leitor: não te expressara     24 Com verbo humano o que encarei tremendo.

Não morto, porém vivo não ficara.     Qual me achava te pinte a fantasia,     27 Se morte ou vida em mim se não depara!

Do aflito reino o imperador eu via:     Do gelo acima o seio levantava.     30 A um gigante igualar eu poderia,

Se um gigante a um seu braço eu comparava!     Do todo vede a proporção qual fora,     33 Quando tão vasta a parte se ostentava!

Quem foi tão belo, quanto é feio agora,     Contra o seu criador a fronte alçando     36 Vera causa é do mal, que o mundo chora.

261

    Qual meu espanto há sido em contemplando     Três faces na estranhíssima figura!     39 Rubra cor na da frente está mostrando;

Das outras cada qual, da pádua escura     Surdindo, às mais ajunta-se e se ajeita     42 Sobre o crânio da infanda criatura.

Entre amarela e branca era a direita;     A cor a esquerda tem que enluta a gente     45 Do Nilo às margens a viver afeita.

Via asas duas sob cada frente,     Tão vastas, quanto em ave tal convinham:     48 Velas iguais não abre nau potente.

Plumas, como em morcego, elas não tinham;     De contínuo agitadas produziam     51 Os três gélidos ventos, que mantinham

Os frios, que o Cocito enrijeciam.     Chorava por seis olhos, por três mentos     54 Pranto e sangüínea espuma se espargiam.

Qual moinho, com dentes truculentos     Cada boca um prexito lacerava:     57 Padecem três a um tempo assim tormentos.

Mas ao da frente a pena se agravava,

262

Porque das garras o furor constante     60 Do dorso a pele ao pecador rasgava.

“O que esperneia em dor mais cruciante” O Mestre disse: “É Juda Iscariote:     63 Prende a cabeça a boca devorante.

“Dos dois, que estão pendendo, coube em dote     A negra face Bruto: sem gemido     66 Se estorce da dentuça a cada bote.

“O outro é Cássio, de membros bem fornido.     Mas a partir a noite insta, assomando:     69 Aqui já tudo havemos conhecido”.

Do Mestre o colo enlaço por seu mando.     Ele em lugar e tempo apropriado,     72 De Lúcifer as asas se alargando,

Ao peito hirsuto havia-se agarrado;     Depois de velo em velo descendia     75 Entre os ilhais e o lago congelado.

Chegado àquela parte, em que se unia     Da coxa o extremo dos quadris à altura,     78 Com grande ofego e mor abalo o Guia

Pôr a fronte onde os pés firmou procura,     Como quem sobe às crinas agarrado:     81 Assim tornar cuidei do inferno à agrura.

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“Segura-te! Por tais degraus alado” Lasso Virgílio já disse anelante,     84 “Deste império do mal serás tirado”.

De uma rocha então sai por fresta hiante;     Sobre a borda me assenta cauteloso;     87 Depois a mim se acerca vigilante.

Olhos alcei julgando curioso     Ver Lúcifer, qual de antes o deixara;     90 De pernas para o ar vi-o em seu pouso!

De que enleio a minha alma se tomara,     Deixo ao vulgo pensar pouco instruído,     93 Que o ponto não compreende, em que eu     passara.

“Eia! Vamos!” o Mestre diz querido, “Longa jornada e mau caminho temos;     96 E a meia terça o sol já tem corrido”.

De paço em salas nós de andar não temos;     Mas de antro natural em solo duro     99 Os passos nossos dirigir devemos.

“Antes que eu deixe em todo o abismo escuro     Erro, em que estou, meu Mestre, desvanece” 102 Disse erguendo-me um pouco mais seguro.

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“Onde o gelo? Por que nos aparece     Assim Lúcifer posto? E já tão presto,     105 Cessando a noite, o sol nos esclarece?”

“Tu cuidas ser, do que ouço é manifesto     Lá no centro, onde ao pêlo me prendera     108 Do que atravessa o mundo, verme infesto.

“Ali stiveste, enquanto descendera     Ao voltar-me do ponto além tens sido,     111 Que o peso atrai na terreal esfera.

“Foste àquele hemisfério transferido,     Que se opõe ao que a terra está lançado,     114 Em cujo excelso cume há padecido;

“Quem nasceu, quem viveu sem ter pecado     Sobre uma esfera estreita os pés agora,     117 Da Judeca ao reverso, tens firmado.

“É noite lá; nós temos luz nesta hora;     E o que nos velos seus nos deu a escada     120 Na postura se firma, em que antes fora.

“Caiu aqui da altura sublimada,     E a terra, que se alçava entumescente,     123 Do mar fez véu e veio de enfiada

“Para o nosso hemisfério de repente.     Também fugiu de medo, a que se avista;

265

126 Vácuo deixando aqui, fez monte ingente”.

Lá no profundo há um lugar, que dista     Tanto de Belzebú, quanto se estende     129 Seu sepulcro: ali não penetra a vista.

Revela-o som de arroio, que descende     Por brecha do rochedo, que escavara,     131 Em torno serpeando, e pouco pende.

Para voltar do mundo à face clara     Nessa vereda escusa penetramos:     135 De nós nenhum de repousar cuidara.

Virgílio e eu, logo após, nos elevamos,     Té que do ledo céu as cousas belas     Por circular aberta divisamos:

139 Saindo a ver tornamos as estrelas.

1. Vexilas etc. — Aparecem os vexilos do rei do Inferno. É o     primeiro verso de um hino da Igreja. — 38. Três faces etc.,     Lúcifer tem três faces em contraposição à     Trindade divina. — 62. Juda Iscariote, que traiu Jesus. — 65-67. Bruto e Cássio,     que mataram Júlio César. — 80. Como quem sobe etc. Passado     o centro da terra, Virgílio para encaminhar-se ao hemisfério     oposto deve subir e não mais descer. — 113-15. Que se opõe     etc., ao hemisfério que cobre a terra em cujo cume (Jerusalém)     foi crucificado Jesus Cristo. — 130. Arroio, o rio Lete que desce     do Purgatório. — 137. As cousas belas, as estrelas que Dante     percebia da pequena abertura a que chegaram.

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Purgatório

 

CANTO I

Saindo do Inferno, Dante respira novamente o ar puro e vê fulgentíssimas     estrelas. Encontra-se na ilha do Purgatório.O guardião da ilha, Catão Uticense,     pergunta aos dois Poetas qual é o motivo da sua jornada. Ele os instrui, depois,     relativamente ao que devem fazer, antes de iniciar a subida do monte.

DO engenho meu a barca as velas solta     Para correr agora em mar jucundo,     3 E ao despiedoso pego a popa volta.

Aquele reino cantarei segundo,     Onde pela alma a dita é merecida     6 De ir ao céu livre do pecado imundo.

Ressurja ora a poesia amortecida,     Ó Santas Musas, a quem sou votado;     9 Unir ao canto meu seja servida

Calíope o som alto e sublimado,     Que às Pegas esperar não permitira     12 Lhes fosse o atrevimento perdoado.

Suave cor de oriental safira,     Que se esparzia no sereno aspeito     15 Do ar até onde o céu primeiro gira,

268

    Recreia a vista; e eu ledo me deleito     Em surdindo da estância tenebrosa,     18 Que tanto os olhos contristara e o peito.

A bela estrela, a amor auspiciosa     Sorrir alegre faz todo o Oriente,     21 Vela os Peixes, que a seguem, luminosa.

Ao outro pólo endereçando a mente,     Volto-me à destra, e os astros quatro vejo,     24 Que vira só a primitiva gente.

Folgar o céu parece ao seu lampejo.     Do Norte, ó região, viúva hás sido,     27 De os contemplar te não foi dado ensejo.

Depois de os remirar, já dirigido     Olhos havia para o pólo oposto,     30 Donde a Carroça havia-se partido,

Eis noto um velho, perto de mim posto,     Que reverência tanta merecia,     33 Que mais do pai não deve o filho ao rosto.

Nas longas barbas nívea cor saía,     Sendo na coma sua semelhante,     36 Que em dupla trança ao peito lhe caía.

A luz dos santos astros rutilante

269

De fulgor tanto lhe aclarava o gesto,     39 Que o vi, como se o sol lhe fosse adiante.

— “Quem sois que em contra o rio escuro e mesto     Do eterno cárcere heis fugido os laços?” — 42 Movendo as nobres plumas, disse presto.

“Quem vos guiou alumiando os passos     Para a profunda noite haver deixado,     45 Que enluta sempre os infernais espaços?

“As leis do abismo acaso se hão quebrado?     O céu dá, seus decretos revogando,     48 Que dos maus seja o meu domínio entrado?” —

Travou de mim Virgílio, me exortando     Por voz, aceno e mãos: como queria     51 Os joelhos curvei, olhos baixando.

— “De motu meu não vim” — lhe respondia — De Dama aos rogos, que do céu descera     54 Socorro este homem, sirvo-lhe de guia.

Pois que é desejo teu que a nossa vera     Condição definida mais te seja,     57 Prestar me cumpro explicação sincera.

“Aura da vida este home’inda bafeja,     Mas tanto, de imprudente, se arriscara,     60 Que é maravilha vivo ainda esteja.

270

“Disse como a salvá-lo me apressara:     Por onde os passos dirigir pudesse     63 Essa vereda só se deparara.

“Mostrei-lhe a gente, que por má padece;     Mostrar-lhe intento os que ora estão purgando     66 Pecados no lugar, que te obedece.

“Longo seria como o vou guiando     Dizer-te: é força do alto a que me impele,     69 Para te ver e ouvir o encaminhando,

Digna-te, pois, bení’no ser com ele:     A liberdade anela, que é tão cara:     72 Sabe-o bem quem por ela a vida expele.

“Por ela a morte não te há sido amara     Em Útica, onde a veste foi deixada,     75 Que em Juízo há de ser de luz tão clara.

“Por nós eterna lei não é violada:     Ele inda vive; Minos não me empece;     78 No círc’lo estou, onde acha-se encerrada

“Tua Márcia, que em casto olhar parece     Rogar-te ainda que por tua a tenhas:     81 Lembrando-a em favor nosso te enternece.

“Ir deixa aos reinos teus, não nos retenhas;

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Hei de a Márcia dizê-lo agradecido,     84 Se lá de ti falar-se não desdenhas.” —

— “Márcia, a meus olhos tão jucunda há sido     Que — tornou-lhe Catão — eu de bom grado     87 No mundo quanto quis lhe hei concedido.

“Estando além do rio detestado,     Mover-me ora não pode: este preceito     90 Me foi, deixando o Limbo, decretado.

“Se por dama celeste hás sido eleito,     Como disseste, é vã lisonja agora;     93 O que requeres em seu nome aceito.

“Vai, pois: cingindo este homem sem demora     De liso junco, lava-lhe o semblante;     96 Toda a impureza seja posta fora.

“Cumpre que, quando ele estiver perante     O anjo, que do céu vier primeiro,     99 Névoa nenhuma os olhos lhe quebrante.

“Lá onde baixa o ponto derradeiro     Do mar batido, esta ilha tem viçoso     102 Juncal que alastra todo o seu nateiro.

“Não pode vegetal rijo ou frondoso     Ter vida ali; porque não dobraria     105 Ao embate das ondas caprichoso.

272

“Aqui tornar inútil vos seria.     Vereis ao sol, que surge, o melhor passo     108 Para subir do monte à penedia.” —

Sumiu-se. Ergui-me, então, sem mais espaço,     E em silêncio; olhos fitos no semblante     111 De Virgílio, amparei-me com seu braço.

— “Comigo, ó filho” — diz-me — “segue     avante.     Atrás voltemos; pois daqui se inclina     114 O plano para o mar, que jaz distante.” —

Fugia ante a alva a sombra matutina;     Já nos ficava aos olhos descoberta,     117 Posto remota, a oscilação marina.

Pela planície andávamos deserta,     Como quem trilha a estrada, que perdera,     120 E teme não achar vereda certa.

Chegando à parte, onde não pudera     Do rocio triunfar o sol nascente,     123 Porque à sombra o frescor pouco modera,

Sobre a relva meu Mestre brandamente     As mãos ambas abriu: o movimento     126 Lhe noto e, o compreendo, diligente,

As lacrimosas faces lhe apresento.

273

Virgílio as cores restaurou-me ao gesto,     129 Que desbotara o inferno nevoento.

Vimos à erma praia a passo lesto:     Nunca sobre águas suas navegara     132 Homem que o mundo torne a ver molesto.

Cingido fui, como Catão mandara.     Portento! A humilde planta renascida,     Qual antes vi no solo, onde a arrancara,

136 Sem diferença, de súbito crescida.

10. Calíope — Musa da epopéia. — 11. Pegas, as     filhas de     Pierio, desafiaram as Musas para cantarem com elas e,     vencidas, foram transformadas em pegas. — 19. A bela estrela,     Vênus. — 21. Os Peixes, a constelação dos Peixes.      — 31. Um     velho etc., Catão Uticense, que, para não entregar-se a Júlio     César, suicidou-se em Útica. — 40. Rio escuro e mesto,     o     Aqueronte. — 79. Márcia, esposa de Catão.

    274

    CANTO II

Estão os Poetas ainda na praia, incertos em relação     ao caminho,     quando chega uma barca, guiada por um Anjo, da qual saem     almas destinadas ao Purgatório. Uma delas, o músico Casella,     amigo de Dante, a convite do Poeta, começa a cantar uma sua     canção. Os dois Poetas e as almas ficam a ouvir o canto     harmonioso. Sobrevém. porém, o severo Catão, que as repreende,     e as almas fogem para o monte.

RESPLENDECIA o sol já no horizonte     Que tem meridiano, onde iminente     3 O zênite fica de Solima ao monte.

Na parte oposta a noite diligente     Do Ganges co’as Balanças se elevava,     6 Que lhe caem da mão, quando é excedente.

Já nesse tempo a idade transformava     A branca e rósea cor da bela Aurora     9 Noutra, que a de áureos pomos simulava.

Do mar ao longo inda éramos nessa hora,     Como quem, na jornada embevecido,     12 Se apressa em mente, os pés, porém, demora:

Eis, qual sobre manhã, enrubescido,

275

Das névoas através, Marte chameja     15 No ponente das ondas refletido,

Uma luz (praza a Deus de novo a veja!)     Tão veloz pelo mar vi deslizando,     18 Que não há vôo de ave, que igual seja.

Maior mostrou-se e mais fulgente, quando,     Depois de ter-me ao Guia meu voltado,     21 De novo olhei o seu brilho contemplando.

Nívea forma também, a cada lado,     Lhe divisei; abaixo aparecia     24 De igual cor outro vulto assinalado.

Té asas discernir permanecia     O sábio Mestre meu silencioso.     27 Mas então, como o nauta conhecia,

Bradou: “Curva os joelhos respeitoso,     Junta as mãos: eis de Deus um mensageiro!     30 De ora avante hás de ver outros ditoso.

“Vê que, aos humanos meios sobranceiro,     Para vir de tão longe velas, remos     33 Possui das asas no volver ligeiro.

“Como ele as alça para o céu já vemos,     Eternas plumas suas agitando;     36 Não mudam como dos mortais sabemos.” —

276

    Em tanto, mais e mais se apropinquando,     Mais clara sobressai a ave divina:     39 Olhos abaixo à luz me deslumbrando.

O anjo logo à riba a nave inclina,     Tão rápida, tão leve, que parece     42 Voar somente na amplidão marina.

Na popa erguido o nauta resplendece:     Feliz quanto é lhe está na fronte escrito;     45 Das almas turba ao mando lhe obedece.

In exitu Israel de Egypto     A uma voz cantavam juntamente     48 E o mais, que foi no santo salmo dito.

Sinal da Cruz lhes fez devotamente:     Todos então à riba se lançaram     51 E tornou, como veio, incontinente.

Em volta remirando, os que ficaram     Pareciam de espanto apoderados,     54 Como quem a estranheza se acercaram.

O sol frechava os lumes seus dourados,     Lá do meio do céu tendo expelido     57 O Capricórnio a tiros reiterados,

Quando as almas, que haviam descendido,

277

Perguntam-nos: — “Sabeis, para indicar-nos,     60 Por onde o monte pode ser subido?”

Tornou Virgílio: — “Vos apraz julgar-nos     Do lugar sabedores; mas viandantes,     63 Como sois vós, deveis considerar-nos.

Chegáramos aqui, de vós, pouco antes,     Por estrada tão árdua e temerosa,     66 Que esta subida a par, jogo é de infantes.” —

Notando aquela turba, curiosa,     Que eu, pelo respirar, era homem vivo,     69 Enfiou ante a vista portentosa.

E como, a quem da paz ramo expressivo     Presenta, o povo acerca-se cuidoso     72 Em tropel de notícias por motivo:

O bando assim das almas venturoso     Em meu rosto atentava alvoroçado,     75 Quase esquecido de ir a ser formoso.

Uma, tendo-se às mais adiantado     A me abraçar correu com tanto afeito,     78 Que fui de impulso igual arrebatado.

Sombras vãs, verdadeiras só no aspeito!     Três vezes quis nos braços estreitá-la,     81 Só as três vezes estreitei ao peito.

278

    Ante o espanto, que o gesto me assinala,     Sorriu-se; e, como já se retirasse,     84 Avançando, eu tentei acompanhá-la.

Suavemente disse que eu parasse,     Pedi-lhe, com certeza a conhecendo,     87 Que um pouco a praticar se demorasse:

— “Como te amei” — me respondeu — “vivendo     No mortal corpo, assim eu te amo agora.     90 Por que vais? Dize: ao teu desejo atendo.” —

“Caro Casella” — disse-lhe — “hei de embora     Tornar, ao fim desta jornada, à vida.     93 Por que de vir hás delongado a hora?” —

“Se a passagem negou-me requerida     Anjo, que as almas, quando apraz-lhe, guia,     96 Ofensa não me fez imerecida;

“Pois a justo querer obedecia.     Na barca em paz, três meses há somente,     99 A todos dá a entrada apetecida.

“Eu, que na plaga então era presente,     Onde no mar o Tibre as águas deita     102 Por ele aceito fui benignamente,

“A essa foz seus vôos endireita;

279

Pois sempre ali a grei stá reunida,     105 Às penas do Aqueronte não sujeita.” —

— “Se não é por lei nova proibida     Memória e usança do amoroso canto,     108 Que as mágoas todas me adoçou da vida,

“Praza-te amigo, confortar um tanto     Minha alma, que molesta, que amofina     111 Star envolta no corpóreo manto.” —

— “Amor que em minha mente raciocina” — Entoou ele então com tal doçura,     114 Que o som donoso inda alma me domina.

Ao Mestre, a mim, a todos a brandura     Do saudoso cantar tanto elevava,     117 Que de ai a mente nossa então não cura.

Na toada, absorvida, se engolfava,     Eis de repente o velho venerando:     120 — “Que fazeis, descuidosos?” — nos bradava.

“Pois estais na indolência assim ficando?     Ide ao monte, a despir essa impureza,     123 Que a vista vos está de Deus vedando!” —

Quais pombos, que dos agros na largueza,     Em desejado pascigo embebidos,     126 Como olvidada a natural braveza,

280

    Súbito arrancaram, de temor pungidos,     Se algum mal iminente lhes parece,     129 De cuidados maiores possuídos:

Tal a recente grei o canto esquece,     E, como homem, que vai sem ter roteiro,     Corre à costa, que aos olhos se oferece:

133 Não foi nosso partir menos ligeiro.

1-3. Resplendecia etc., colocando o Purgatório num hemisfério     antípoda àquele da terra, o Poeta nota que onde ele estava o     sol     despontava e na mesma hora em Jerusalém (Solima) descia a     noite. — 46. In exitu, etc., primeiro verso do Salmo 114. — 91.     Casella, músico florentino amigo de Dante e que havia     musicado algumas canções dele. — 119. O Velho, Catão.

    281

    CANTO III

Os dois Poetas se aprestam a subir o monte. Enquanto estão     procurando o lugar onde a subida seja mais fácil, vêem um grupo     de almas que lhes vêm ao encontro. Perguntam a elas onde seja     a subida. Uma das almas se dá a conhecer a Dante. É Manfredo,     rei de Nápoles e da Sicília. Ele narra como morreu, pedindo     a     Deus, na hora extrema. Estão juntas com ele, as almas dos que     foram inimigos da Santa Igreja.

ENQUANTO aquela fuga repentina     Pela planície as sombras impelia     3 Ao monte, que a razão a amar ensina,

Ao sócio meu fiel eu me cingia:     Como sem ele houvera prosseguido?     6 Quem para alçar-me esforço me daria?

De remorsos parece possuído.     Ó consciência pura e sublimada,     9 Leve falta pesar te dá subido!

Quando atalhava a pressa, que é vedada     A quem dos atos no decoro atente,     12 Eu, que sentira a mente angustiada,

Tornando ao meu intento afoutamente

282

Os olhos à eminência levantava,     15 Que para o céu mais alto eleva a frente.

Nas espaldas o sol nos dardejava     Rubra luz, que o meu corpo interrompia,     18 Pois aos seus raios óbice formava.

Escuro ante mim só aparecia     O solo: eu, de abandono receoso,     21 Voltei-me ao lado onde era o sábio Guia.

Virgílio então me encara. — “Suspeitoso     Te mostras?” — diz — “Cuidavas, porventura,     24 Que eu não mais te acompanhe cuidadoso?

“Surge Vésper lá onde a sepultura     Guarda o corpo em que sombra já fizera     27 Tomando-o a Brindes, Nápole o assegura.

“Se ante mim não a vês, não te devera     Dar pasmo como lá no firmamento     30 Se a luz a luz não tolhe e não movera.

“Para calma sentir, frio ou tormento     Dispôs-nos corpo a suma Potestade.     33 Como o fez? Não nos deu conhecimento.

“Fátuo é quem julga à humana faculdade     Franco o infindo caminho e sempiterno,     36 Por onde segue o Ente Uno em Trindade.

283

“Homem, vos baste o quia: se ao superno     Saber alevantar-vos fosse dado,     39 Da Virgem ao seio não baixara o Eterno.

“Já viste porfiar sem resultado     Os que, cevar podendo seu desejo,     42 Em perpétua aflição o têm tornado.

“De Aristóteles falo neste ensejo,     De Platão, de outros mais.” — Baixando a fronte,     45 Calou; mostrava torvação e pejo.

Chegamos nós em tanto ao pé do monte     Onde era a rocha de tal modo erguida,     48 Que de subir capaz ninguém se conte.

A vereda mais erma e desabrida,     Que de Léria a Túrbia se encaminha,     51 Dá, confrontada, cômoda subida.

E o Mestre, assim falando, os pés detinha: “Quem sabe onde a este monte o passo ascende?     54 Como aqui sem ter asas se caminha?”

Enquanto, baixo o rosto, o Mestre entende     Na jornada, em sua mente interrogando,     57 E pela altura a vista se me estende,

Divisei turba a nós endireitando

284

Da mão destra; o seu passo era tão lento,     60 Que não me parecia estar andando.

— “Aos que vêm” — disse ao Mestre — “mira     atento;     Por eles pode ser conselho dado,     63 Se o não te of’rece o próprio pensamento...”     —

Olhou-me, e com semblante asserenado — “À turba vagarosa” — tornou — “vamos,     66 E a esperança te esforce, ó filho amado!” —

Passos mil para a grei nos caminhamos     E de tiro de pedra inda à distância,     69 Por mão destra arrojada, nos chamamos

Quando aqueles espíritos estância     Junto aos penhascos vi fazer, cerrados,     72 Qual transviado da incerteza em ânsia.

“Vós, eleitos ao bem, no bem finados” — Disse Virgílio — “pela paz ditosa,     75 Em que sois todos, creio, esperançados,

“Dizei-me onde a montanha alta e fragosa     Subir permite, um pouco se inclinando:     78 Do tempo a perda ao sábio é desgostosa.” —

Como as ovelhas o redil deixando     A uma, duas, três e a cerviz tendo

285

81 Baixa as outras vão tímidas ficando;

Todas como a primeira, se movendo,     Conchegam-se-lhe ao dorso, se ela pára,     84 O porque, simples, quietas não sabendo:

Assim a demandar-nos se apressara     A venturosa grei, que no meneio     87 Traz a moléstia e o pudor na cara.

Tomada foi, porém, de tanto enleio,     Por minha sombra em vendo a luz cortada     90 A destra, em direção da rocha ao seio,

Que a vanguarda parou, como torvada:     Pelos mais sem detença foi seguida,     93 Mas sem lhes star a causa revelada.

— “A explicação previno apetecida:     Que um vivo corpo vedes confesso     96 E a luz do sol por este interrompida.

“Não haja em vós de maravilha excesso;     Do céu pela virtude socorrido,     99 Da montanha atingir quer o cabeço.” —

Disse Virgílio. — E foi-lhe respondido: — “Voltai-vos; caminhai de nós diante.” — 102 E o lugar indicavam referido.

286

— “Sem que um momento deixes ir avante,     Quem quer que sejas, olha-me e declara”, — 105 Disse um deles, — “se hás visto o meu     semblante.” —

Volvi-me, olhos fitando em quem falara.     Formoso e louro, tinha heróico aspeito;     108 Um golpe o seu sobrolho separara.

Tornei-lhe — “não” — tomado de respeito. — “Olha!” — falou a sombra me indicando     111 Larga ferida no alto do seu peito.

“Vês Manfredo — sorriu-se me falando — Que neto foi da Imperatriz Constança.     114 A minha bela filha diz, voltando,

(Mãe daqueles por quem tanta honra alcança     Aragão com Sicília) o que hás sabido,     117 Qual a verdade seja lhe afiança.

“Depois que foi o corpo meu ferido     De golpes dois mortais, a Deus piedoso     120 Alma entreguei, chorando arrependido.

“Fui de horrendos pecados criminoso,     Mas a Bondade Infinda acolhe e abraça     123 Quem perdão lhe suplica pesaroso.

“Se o Bispo que enviou Clemente à caça

287

Do meu cadáver, respeitado houvesse     126 Esse preceito da Divina Graça,

“Do corpo meu os ossos me parece,     Que em frente à ponte, ao pé de Benevento,     129 Em guarda o grave acervo inda tivesse.

“Agora os banha a chuva e açouta o vento,     Do reino meu distantes, junto ao Verde,     132 Onde os lançou sem luz, sem saimento.

“Mas anátema tanto alma não perde     Que, quando verde a esp’rança lhe floresce,     135 Do eterno amor do Criador deserde.

“Por certo, em contumácia o que fenece     Contra a Igreja, ainda quando se arrependa     138 Na hora extrema sua, aqui padece

“Tempo, que trinta vezes compreenda     Da impenitência o espaço, se ao decreto     141 Preces não trazem benfazeja emenda.

“Vês, pois, que podes me tornar quieto:     Revelando à piedade de Constança     Que interdito me hás visto ainda exceto

145 Pelas preces de lá muito se alcança.” —

288

25. Surge Vésper etc., o cadáver de Virgílio de Brindes     foi     transportado para Nápoles, onde, neste momento, descia a     noite. — 37. Vos baste o guia, chega saber o que é, sem     procurar a razão. — 50. De Léria a Túrbia, o caminho     entre     estas duas aldeias da Ligúria. — 112. Manfredo, filho do     imperador Frederico II e neto da imperatriz Constança. — 114- 16. Minha bela filha, Constança, esposa de Pedro III de Aragão     teve dois filhos: Jaime que sucedeu ao pai em Aragão e     Frederico, rei de Sicília. — 124. Se o bispo etc., Bartolomeu     Pignatelli, bispo de Cosenza, por ordem do papa Clemente IV,     desenterrou o corpo de Manfredo, que era excomungado, e o     mandou jogar no Rio Verde. — 133. Anátema, excomunhão     dos     papas.

    289

    CANTO IV

Seguindo os conselhos recebidos, os Poetas, através de um     caminho apertado e difícil, sobem ao primeiro salto. Virgílio     explica a Dante que, encontrando-se em hemisfério antípoda     àquela terra, o Sol gira em direção contrária.     Vendo muitas almas     recolhidas à sombra de um rochedo, e aproximando-se a elas,     Dante reconhece o seu amigo Belacqua. Ai estão os espíritos     preguiçosos dos que esperaram para arrepender-se o termo da     vida.

QUANDO ou pelo prazer ou por desgosto     Das faculdades uma é possuída,     3 Concentrando-se, o espírito indisposto

Se mostra à ação, de outra qualquer nascida;     Verdade, que refuta a crença errada     6 — Quem em nós uma alma está noutra     acendida.

E, pois, se vendo, ouvindo, alma engolfada,     Lia-se à cousa, que a atenção cativa,     9 Sem sentir vai-lhe o tempo à desfilada.

Pois faculdade só no ouvir ativa     Difere dessa, em que alma se domina:     12 Uma presa, outra a vínculos se esquiva.

290

    Experiência ao claro isto me ensina.     Aquela sombra atônito escutando,     15 Já com cinqüenta graus o sol se empina,

Sem que eu me apercebido houvesse, quando     Ao ponto fomos, onde a turba, unida,     18 — “Haveis o que anelais!” — disse, bradando.

Estando a vinha já madurecida,     Pelo aldeão de espinhos com braçada     21 Da sebe a estreita aberta é defendida.

Mais larga é que a vereda alcantilada     Por onde fui subindo após meu Guia,     24 Quando a grei nos deixou abençoada.

A Noli e a San-Leo por árdua via     Com pés se vai, Bismântua assim se alcança;     27 Ter asas de ave aqui mister seria;

Ou asas de um desejo, que não cansa,     Para o vate seguir que, desvelado,     30 Me servia de luz, me dava esp’rança.

Por carreiro entre penhas escavado,     Sempre de agudas pontas empecido,     33 Pelas mãos cada passo era ajudado.

Chegados da alta escarpa ao topo erguido

291

Da eminência no dorso descoberto,     36 — “Por onde ir”— disse então —“Mestre     querido?”

— “Eia!” — tornou — “não dês     um passo incerto!     Vai subindo após mim pela montanha;     39 Guia acharemos no caminho esperto.” —

Não mede a vista elevação tamanha:     Linha que o centro corte de um quadrante,     42 Por certo a ingrimidez não lhe acompanha.

Sem forças já, falei-lhe titubante: — “Volve a face, pai meu: olha piedoso     45 Que só me deixas, indo por diante” —

— “Para ali, filho” — diz — “te alça     animoso!” — E o seu braço indicava uma planura,     48 Que torneia o declive temeroso.

Dessas vozes esforça-me a doçura     Tanto, que a rastos lhe seguia o passo     51 Até meus pés tocarem nessa altura.

Sentamo-nos a par, então, de espaço     Ao nascente voltados, qual viageiro     54 A estrada olhando, que calcara lasso;

Abaixo os olhos dirigi primeiro,     Ao sol voltei depois; notei pasmado

292

57 Da esquerda o lume vir desse luzeiro.

Disse Virgílio ao ver quanto enleado     Stava, o carro da luz considerando     60 Que era entre nós e o Aquilão entrado:

— “Se um e outro hemisfério alumiando,     Castor e Pólux junto a si tivera     63 O vasto espelho, que ora está brilhando,

“Da Ursa ainda mais propínqua à esfera,     A roda do Zodíaco observaras,     66 Se a costumada estrela não perdera.

“Meditando, a verdade logo acharas,     Se colocados de Sião o monte,     69 E este outro na terra imaginaras,

“Ambos guardando idêntico horizonte     E hemisférios diversos, onde passa     72 Estrada, em que tão mal correu Fetonte,

“E se a razão em ti não for escassa,     Verás que, enquanto a um vai por um lado,     75 Ao outro pelo oposto o sol perpassa.” —

— “Tanto ao claro jamais, ó Mestre amado,     Como ora, o meu esp’rito compreendera,     78 Quando estava por dúvida nublado.

293

“Que o círc’lo médio da mais alta esfera,     Que sempre Equador chama-se em certa arte     81 Entre o inverno e o sol se considera,

“Deve (se pude a mente penetrar-te)     Para o norte volver-se, e, no entretanto,     84 Viam-no Hebreus de Áustro pela parte.

“Agora, se te apraz, dize-me quanto     Hemos de andar; que os olhos, da eminência     87 Não atingindo o fim, se enchem de espanto.” —

— “Da montanha” — responde — “é     a excelência     Fadiga no começo causar grave;     90 Quem mais sobe acha menos resistência.

“Ao tempo, em que te parecer suave     Tanto, que a subas ágil e ligeiro,     93 Como descendo da água o curso a nave,

“No termo te acharás deste carreiro:     Após afã desfrutarás repouso:     96 Quanto digo hás de ver que é verdadeiro” —

Mal acabando o Mestre carinhoso,     Perto soa uma voz: — “Talvez te seja,     99 Antes de lá chegar, preciso um pouso.” —

Volveu-se cada qual para que veja     Quem falara; alta penha deparamos;

294

102 Então só vemos que à mão sestra esteja.

Multidão, cercando-nos, achamos     Que à sombra demorava quietamente;     105 Por desídia detidos os julgamos.

Mostra-se um mais que os outros negligente:     Sentado abraça as pernas, tendo o rosto     108 Recostado aos joelhos, qual dormente.

Disse então: — “Vê senhor, quanto disposto     É à inércia o que ali stá parecendo:     111 Como irmão da preguiça fica posto.” —

Ele um pouco voltou-se olhos movendo     Para o meu lado, sem mudar postura,     114 — “Pois vai tu, que és valente!” — me dizendo.

Reconheci quem era. Inda me dura     Da agra ascensão em parte o grande ofêgo;     117 Mas endereço os passos à figura.

A fronte mal ergueu, quando me achego. — “Como conduz o sol carro à esquerda     120 Tens reparado?” — disse com sossego.

Por meneio tão lento e voz tão lerda     Fui algum tanto a riso provocado.     123 — “Belacqua” — disse eu — “mas a tua     perda

295

Não choro. Por que estás aqui sentado?     Esperas guia? Acaso, como outrora,     126 Da preguiça te sentes cativado?” —

Tornou-me: — “Irmão, subir que importa agora?     De Deus o anjo, que defende a entrada,     129 Me deixaria dos martírios fora.

“Tanto a porta me tem de ser vedada,     Quanto no mundo me durara a vida:     132 Pesei-me só a morte ao ver chegada.

“Mas antes ser me pode permitida     Pela oração de quem da Graça goza;     135 Que vai outra, do céu desatendida?” —

Mas o Vate seguia na penosa     Jornada. — “Vem!” — dizia — “Resplandece     O sol no meio-dia; e tenebrosa

139 Sobre Marrocos ora a Noite desce.” —

5. A crença errada etc., de atribuir ao homem diversas almas,     crença dos platônicos e dos maniqueus. — 15. Já     com cinqüenta     graus etc., o Sol percorre 15 graus por hora; portanto haviam     passado quase 3 horas e meia. — 25-26. Noli, na Ligúria; São     Leo, perto de Urbino; Bismântua, perto de Urbino. — 57. Da     esquerda etc., o Purgatório se encontra num hemisfério     antípoda, e portanto o sol aparecia a Dante pela esquerda     quando no nosso hemisfério parece levantar-se à direita e     caminhar à esquerda. — 68. Sião, Jerusalém, que     é o lugar

    296

antípoda ao Purgatório. — 123. Belacqua, florentino,     fabricante     de instrumentos musicais, amigo de Dante. — 139. Sobre     Marrocos, sendo meio-dia no Purgatório, em Jerusalém, no     hemisfério oposto, era meia-noite, e a noite começava em     Marrocos.

    297

    CANTO V

Prosseguindo os dois Poetas a sua viagem, encontram uma     multidão de almas que se aproximam deles, depois de ter     percebido que Dante é vivo. São espíritos de pessoas     que saíram     da vida por morte violenta, mas no fim se arrependeram e     perdoaram a seus inimigos.

OS passos do meu Guia acompanhando,     Dessas almas um pouco era distante,     3 Quando uma, atrás de nós, o dedo alçando,

— “Vede! A luz” — exclamou — “não     é brilhante     À sestra do que vai mais demorado;     6 Pelo meneio a um vivo é semelhante.”

Olhos volvi daquela voz ao brado,     E as vi notar, de maravilha cheias,     9 Como eu, andando, a sombra tinha ao lado.

— “Por que tanto, ó meu filho, assim te enleias?” Disse o Mestre. — “Por que deténs o passo?     12 Acaso o murmurar daqui receias?

“Segue-me: a vozes vãs ouvido escasso!     Qual torre, inabalável sê, dos ventos     15 À fúria opondo válido embaraço;

298

“Quem firmeza não tem nos pensamentos,     Do fim se aparta, a que alma se endereça     18 E, assim, malogra, instável, seus intentos.

— “Sigo-te!” — ao Mestre meu tornei depressa.     Cumpria assim falar; meu voto incende     21 O rubor, que ao perdão a falta apressa.

Entanto por atalho a costa ascende     Adiante de nós turba cantando     24 Devota Miserere, e ao cimo tende.

Ao ver que estava o corpo meu vedando     Dos luminosos raios a passagem     27 O canto suspendeu, rouco “oh!” soltando

E dois dos seus em forma de mensagem     Correndo contra nós assim falaram:     30 “Quem sois, que assim fazeis esta viagem?”

Disse Virgílio: — “Aos que vos enviaram     Tornai que ao corpo do homem que estais vendo     33 Vitais alentos inda não deixaram.

“Se os passos, como cuido, estão detendo,     Por ver-lhe a sombra, a causa é conhecida;     36 Terão proveito, as honras lhe fazendo.” —

Mais prontos que os vapores à descida

299

Da noite, o ar sereno aluminando,     39 Ou névoa, ao pôr do sol, do céu varrida,

Partem, à grei de novo se ajuntando;     Como esquadrão, que corre à desfilada,     42 Voltam todos, a nós se arremessando.

“Ao nosso encontro vem turba avultada;     Pretensões todos têm” — disse-me o Guia     45 — “Andando, os ouve; não convém parada.”

— “Ó alma, que do céu vais à alegria     No próprio corpo, em que feliz nasceste,     48 Demora o passo um pouco” — a grei dizia,

“De entre nós vê se alguém reconheceste     Para ao mundo levares a notícia;     51 Por que deter-te ainda não quiseste?

“Morte a todos causou cruel nequícia;     Pecamos sempre até que à final hora     54 Do céu a luz se nos mostrou propícia.

“Assim, contritos, perdoando, fora     Fomos da vida, a paz com Deus já feita;     57 De o ver desejo nos acende agora.”

— “A feição vossa” — eu disse —     “é tão desfeita,     Que nenhum reconheço; mas, se acaso     60 Ser útil posso no que a vós respeita,

300

“Pela paz, a servir-vos já me emprazo,     Que busco, deste sábio acompanhado,     63 De mundo em mundo, no mais breve prazo.”

“Cada qual” — me tornou — “está confiado     Em ti, mister não há teu juramento,     66 Se não faltar poder ao teu bom grado.

“Aos outros me antecipo: ao rogo atento,     Tu se fores à terra que demora     69 Entre a Romanha e a que é de Carlo assento,

“Aos meus em Fano compassivo exora     Que com preces sufraguem-me piedosos     72 Para o mal expurgar que fiz outrora.

“Nasci lá, sofri golpes espantosos,     Que a existência cortaram-me tão cara,     75 De Antenórios nos planos pantanosos,

“Onde o funesto fim nunca esperara.     Assim o quis do Marquês d’Este a ira,     78 Que o exício meu injusto aparelhara.

“Ah! se, fugindo, me acolhesse a Mira     Quando alcançou-me de Oriais perto,     81 Eu fora inda hoje aonde se respira.

“Mas, correndo ao paul, sem rumo certo,

301

Caí, no ceno e juncos enleado:     84 De sangue um lago fez meu peito aberto.”

“Se for” — outro então disse — “executado     Desejo que te impele ao alto monte,     87 Sê por mim de piedade impressionado.

“De Montefeltro fui e fui Buonconte;     De mim Joana, e ninguém mais, não cura;     90 Entre todos por isso abaixo a fronte.”

— “Que força — que má ventura     Tão longe te arrastou de Campaldino,     93 Que se ignora onde tens a sepultura?”

— “Oh!” — replicou-me — “Ao pé     de Casentino     Um rio passa que se chama Arquiano,     96 Nascido lá sobre o Ermo, no Apenino.

“De dor lá onde o perde o nome, insano,     Cheguei: ao pé fugia, e, traspassado,     99 O colo meu ensangüentava o plano.

“Da vista e fala ao ser desamparado,     No suspiro final bradei — Maria! — 102 E o corpo meu tombou, da alma deixado.

“Direi verdade: aos vivos o anuncia.     De Deus anjo tomando-me, o do inferno     105 — “Servo do Céu, mo tomas?” lhe bramia.

302

“Dele me usurpas o princípio eterno     Por uma tênue lágrima fingida;     108 Mas do seu corpo cabe-me o governo.

“Bem sabes que nos ares recolhida     Vaporosa umidade em chuva desce,     111 Quando é do frio às regiões subida

“Como quem com maldade o engenho tece,     Névoas e vento acumulava, usando     114 Da pujança infernal que lhe obedece.

“Depois, o dia terminado estando,     Do Pratomagno à serra, o vale envolve     117 Em treva, ao céu a abóbada enlutando.

“Túmido o ar, em catadupas volve,     E a água que na terra não se entranha,     120 Espumosa em torrentes se revolve.

“Veloz os álveos aos arroios ganha,     E para o régio rio se arrojando,     123 Os óbices abate, que se assanha.

“Junto à foz meu cadáver encontrando     Levanta-o Arquiano impetuoso     126 Ao Arno o impele, os braços desligando

“Da cruz que fiz no transe doloroso.

303

Por fundo e margens rola-o, sepultado     129 Na areia o deixa, que arrastara iroso.” —

— “Ah! quando à luz do mundo hajas tornado,     Quando repouses da jornada extensa” — 132 Foi por terceiro espírito impetrado:

“De Pia recordando-te, em mim pensa;     Siena fizera o que desfez Marema.     Sabe-o quem me esposara e em recompensa

136 No dedo pôs-me anel com rica gema.” —

24. Miserere, o salmo que começa com essa palavra. — 68-69.     A     terra que demora etc., a Marca de Ancona. — 73. Nasci lá etc.     Quem fala é Jacopo de Cassero, de Fano, que foi assassinado     pelos sicários do Marquês Azzo III d’Este, quando se dirigia     a     Milão, em 1298. — 75. De Antenórios etc. no território     de Pádua     (cidade que se diz fundada por Antenor). — 88. Buonconte de     Montefeltro, filho de Guido (Inf. XXVII), capitão gibelino, morreu     na batalha de Campaldino. — 89. Joana, sua esposa. — 96.     Ermo de Camaldoli. — 122. Regio rio, o Arno. — 133. Pia del     Guastelloni. Casada com um gentil-homem da família Tolomei,     ficou viúva e casou novamente com Nello Pannocchieschi, que a     fez matar, talvez desconfiado da sua fidelidade, num castelo da     Marema, em 1295.

304

    CANTO VI

Dante promete às almas que a eles se recomendaram que não se     esquecerá delas quando voltar ao mundo dos vivos. Os dois     Poetas encontram o poeta Sordello, o qual, ao ouvir o nome da     sua pátria, Mântua, abraça o mantuano Virgílio.     Esse espisódio     move Dante a uma violenta invectiva contra as divisões e as     guerras internas que devastam a Itália.

QUANDO o jogo da zara é terminado,     Na amargura, o que perde, só ficando,     3 Os bons lances ensaia contristado.

A turba o vencedor acompanhando,     Qual vai diante qual por trás o prende,     6 Ao lado qual se está recomendando:

A este e àquele sem deter-se atende;     O que lhe alcança a mão parte se apressa;     9 De importunos desta arte se defende.

Cerca-me assim a multidão espessa,     Ora a uns ora a outros me volvendo,     12 De cada qual me livro por promessa.

O Aretino aqui stava: golpe horrendo,     De Ghin Tacco por mau, cortou-lhe a vida,

    305

15 E o que na fuga se afogou, horrendo.

Aqui rogou-me em súplica sentida,     Frederico Novello e esse Pisano     18 Por quem Mazucco ação fez tão subida.

Vi o Conde Orso e aquele que o seu dano     Mortal, pelo ódio e inveja, recebera,     21 Como dizia, não por feito insano.

Aludo a Pedro Brosse. A que ora impera,     Do Brabante, se apressa a ter cautela,     24 Se não, da grei maldita a estância a espera.

Quando enfim, pude me esquivar àquela     Turba, que preces sôfrega pedia     27 Para a entrada apressar na mansão bela,

— “Em texto expresso” — eu disse — “ó     douto     Guia,     Do teu livro afirmaste que a vontade     30 Do céu por orações não se movia.

“Mas pede-as essa grei com ansiedade:     Seria acaso vã sua esperança?     33 Ou compreender não pude essa verdade?” —

— “Seu sentido a tua mente” — disse — “alcança;     Por vã essa esperança não falece;     36 Quanto é certa a razão nô-lo afiança:

306

“A Justiça do céu não desfalece,     Porque flama de amor num só momento     39 O devedor redime, que padece.

“Lá onde expus aquele pensamento     Não podia oração solver pecado,     42 Pois distante de Deus estava o intento.

“Porém neste problema sublimado     À mente por que há suma ciência     45 Te será puro lume revelado.

“Por quem? Por Beatriz. A continência     Feliz ridente lhe verás, ao viso     48 Quando houveres subido da eminência.” —

Tornei: — “Andar mais presto ora é preciso;     Como de antes, não sinto mor fadiga,     51 E da montanha a sombra já diviso.” —

— “Como podemos, é mister prossiga     O passo, enquanto o dia não se finda;     54 Mas te engana o desejo que te instiga.

“Antes do cimo aguardarás a vinda     Desse astro oculto agora pela encosta;     57 Não refranges os raios seus ainda.

“Aquela sombra vê, de parte posta,

307

Que, em soledade, atenta nos esguarda:     60 A vereda dirá melhor disposta.” —

Chegamo-nos. Ó nobre alma lombarda,     Como estavas altiva e desdenhosa.     63 Dos olhos no meneio grave e tarda!

Ela em nós encarou silenciosa,     Mas deixava-nos vir, nos observando,     66 Qual leão no repouso, majestosa.

Virgílio apropinquou-se, lhe rogando     Nos mostrasse a mais cômoda subida:     69 Respondeu-lhe, somente perguntando

Qual fora a pátria nossa e a nossa vida.     A falar o meu Guia começava:     72 “Em Mântua...” quando a sombra, comovida,

A ele se enviou donde se achava, “Sordello sou” — dizendo — “em Mântua     amada     75 Nasci também.” — E amplexo os estreitava.

Ah! serva Itália, da aflição morada!     Nau sem piloto em pego tormentoso!     78 Rainha outrora em lupanar tornada!

Esse espírito nobre e deleitoso     Nome escutando só da doce terra,     81 Logo o patrício acolhe carinhoso:

308

    Os vivos raivam no teu solo em guerra;     Se encarniça um no outro ferozmente     84 Os que um só muro, uma só cava encerra.

Busca, ó mísera Itália, diligente     No mantimo teu, busca em teu seio:     87 Onde acha paz a tua infausta gente?

Justiniano em vão te ajeitar veio     A brida; a sela fica abandonada:     90 Maior vergonha te há causado o freio.

Ah! Cúria! Aos teus deveres dedicada     Deixar-te cumpre a César todo o mundo,     93 Como a lei quer por Cristo decretada!

Vê como, aos maus instintos se entregando     Ira-se a fera por faltar-lhe espora,     96 Depois que inábil mão stá governando.

Alberto de Germânia! Atente agora     Que é tornada indômita e bravia:     99 Cavalgado a deveras ter outrora!

Do céu justo castigo deveria     Os teus ferir — tão novo e tão sabido,     102 Que espante o sucessor da monarquia!

Tu e o teu genitor heis consentido,

309

Distantes, por cobiça, em terra estranha,     105 Que do Império o jardim steja esquecido.

Vê, descuidoso, na aflição tamanha,     Capelletti e Montecchi entristecidos.     108 Monaldi e Filippeschi, alvo de sanha.

Vem, cruel, ver fiéis teus suprimidos:     De tanto opróbrio seu toma vingança.     111 Vê como em Santaflor estão regidos!

Vem ver tua Roma! De carpir não cansa!     Viúva e só a todo o instante clama:     114 Vem, César! Vem! Não mates minha esp’rança!

Vem ver como a si próprio o povo se ama!     E se por nós piedade não te move,     117 Mova-te o zelo pela tua fama!

Se me é dado dizer, Supremo Jove,     Dos homens por amor sacrificado,     120 Mal tanto a nos olhar não te comove?

Ou tens ao nosso mal aparelhado,     Lá dos conselhos teus no abismo imenso,     123 Algum bem, ao saber nosso vedado?

As cidades de Itália um tropel denso     De tiranos subjuga e, qual Marcelo     126 Se aclama o faccioso, à pátria infenso.

310

    Hás de, Florença minha, haver por belo     Este episódio a ti não referente,     129 Mercê do povo teu, de outros modelo.

Muitos, justiça tendo em peito e mente,     Por desfechar seu arco ensejo aguardam:     132 Teu povo a tem nos lábios permanente.

Muitos de encargos públicos se guardam;     Mas teu povo solícito se of’rece,     135 Gritando: — ”Pronto estou! em darmos     tardam!” —

Exulta! A causa o mundo bem conhece:     Tens prudência, tens paz, possuis riqueza.     138 Falo a verdade, e o efeito transparece.

Atenas, Sparta, que a tão suma alteza     Por leis e instituições se sublimaram,     141 Sem governo viveram na incerteza,

Se, Florença, contigo se comparam,     Que em novembro tens visto revogadas     144 Leis sutis, que em outubro se forjaram.

Quantas vezes hão sido transformadas,     Em breve tempo, lei, moeda, usança?     147 Quantas índoles e forma renovadas?

311

Se vês ao claro e tens viva a lembrança,     Ao enfermo hás de achar que és semelhante,     Que, no leito jazendo, não descansa;

151 Em vão se agita, a dor vai por diante.

1. Jogo da zara — jogo de dados. — 13. O Aretino etc., o juiz     Benincasa de Laterina, que foi assassinado pelo famoso     bandoleiro Ghino del Tacco. — 15. E o que etc., Guccio Tarlati,     de Pietramala, morreu afogado no Arno, perseguindo os     inimigos derrotados numa batalha. — 17. Frederico Novello,     morto ao socorrer os Tarlati de Pietramala. — Esse Pisano,     Farinata degli Scornegiani, morto a traição. Seu pai Mazucco,     que se fizera frade, perdoou ao assassino do filho. — 19. Conde     Orso degli Alberti, assassinado por um seu primo. — E aquele,     Pedro Brosse, médico de Filipe III de França, enforcado sob     falsas acusações. — 28-30. Em texto expresso etc. Virgílio     na “Eneida” (livro VI) negou que pudessem modificar-se os decretos     do Céu. — 42. Pois distante etc., a prece só foi aceita     depois do     advento do Cristianismo. — 74. Sordello de’ Visconti de Mântua,     poeta, jurisconsulto e guerreiro do século XIII. — 88. Justiniano,     que consolidou a legislação romana. — 97. Alberto de Germânia,     Alberto I, filho do imperador Rodolfo, eleito em 1296. — 107-8.     Cappelletti e Montecchi, famílias de Verona. Monaldi e     Filippeschi, famílias de Orvieto. — 111. Santaflor, feudo imperial     nas vizinhanças de Siena. — 118. Supremo Jove, Jesus Cristo. — 125. Qual Marcelo, Cláudio Marcelo, adversário de Júlio     César.

312

    CANTO VII

Sordello, ao saber que aquele que abraçou é Virgílio,     lhe faz     novas e ainda maiores demonstrações de afeto. O Sol está     próximo ao ocaso e ao Purgatório não se pode subir à     noite.     Guiados por Sordello, os dois Poetas param num vale, onde     residem os espíritos de personagens que no mundo desfrutaram     de grande consideração e que somente no fim da vida elevaram     o     seu pensamento a Deus.

DE doce afeto as mútuas mostras sendo     Por três ou quatro vezes reiterado     3 — “Quem sois?” — se retraiu Sordel dizendo.

— “Tinha Otávio os meus ossos sepultado     Já quando a este monte se elevaram     6 Almas que ao bem havia Deus chamado.

Virgílio sou: do céu não me afastaram     Pecados; me faltava a fé somente.” — 9 Do meu Guia estas vozes lhe tornaram.

Como quem ante si vê de repente     Maravilha: ora crê, ora duvida,     12 E diz: — É certo ou minha vista mente? —

Assim essa alma. Dobra a frente erguida

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Humildemente, ao Vate se avizinha     15 E lhe abraça os joelhos comovida.

— “Ó glória dos Latinos!” — disse asinha      — Que ergueste a língua nossa a tanta altura!     18 Honra eterna da amada pátria minha!

“De ver-te o que me dá graça e ventura?     Dize, se di’no de te ouvir hei sido,     21 De qual círculo vens da estância escura.”

— “Tenho aqui” — Virgílio diz — “subido,     Do triste reino os círc’los visitando,     24 Sou do céu por virtude conduzido.

“Não por fazer, mas de fazer deixando,     Ver o sol, que desejas, me é vedado:     27 Conheci-o já tarde — ai miserando!

“Lá embaixo um lugar foi destinado     Não a martírio, à treva onde há somente     30 Suspiros, não gemer de angustiado.

“Ali stou eu, no meio da inocente     Grei, que a morte cruel mordeu, enquanto     33 Da culpa humana inda era dependente.

“Com aqueles stou eu, em quem seu manto     Três celestes virtudes não lançaram,     36 Lhes dando à vista o mais suave encanto.

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“Mas sabes se veredas se deparam     Que ao Purgatório a entrada facilitem?     39 Os indícios nos diz, se te constaram.” —

Tornou: — “Lugar não há, que almas habitem     Aqui; na direção vou, que me agrada;     42 Guiarei quanto os passos me permitem.

“Mas vê: declina o dia; na jornada,     Que fazeis, caminhar a noite veda:     45 Busquemos sítio a cômoda pousada.

“À destra e à parte multidão stá queda:     Iremos até lá, se acaso o queres,     48 Talvez te seja a sua vida leda.” —

E o Mestre: — “Como? Pelo que proferes,     Impossível será subir sem dia?     51 Ou a alguém, que o proíba, te referes?” —

Com seu dedo Sordel linha fazia     No chão e disse: — “Além ninguém passara     54 Se, ausente o sol, a noite principia.

“Mas óbice qualquer não deparara     Quem caminhar, subindo, pretendesse:     57 Para tolhê-lo a noite já bastara.

“Bem pudera baixar, se lhe aprouvesse,

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Pelo declive em volta da montanha:     60 Enquanto o sol sob o horizonte desce.” —

Torna Virgílio, então, que ouvindo estranha: — “Ao lugar, que nos dizes, pois, nos guia,     63 Onde a demora o júbilo acompanha.” —

Pouco longe dali notei que havia     Depressão na montanha, semelhante     66 À que na terra um vale formaria.

— “Iremos” — disse a sombra — “um pouco     avante     Té onde a encosta encurva, se escavando:     69 De lá voltar vereis a luz brilhante.” —

Entre a escarpa e o plano se inclinando     Trilha ao vale conduz obliquamente,     72 O pendor mais que ao meio, se adoçando.

Prata, alvaiade, grão, ouro fulgente,     Índico lenho límpido e lustroso,     75 Pura esmeralda, ao lapidar, luzente,

Por flores e ervas desse val formoso     Se achariam na cor escurecidos     78 Como cede o mais fraco ao mais forçoso.

Aos donosos males espargidos     Mil suaves aromas se ajuntavam,

316

81 Em peregrino muito reunidos.

Sobre a relva entre as flores entoavam     Salve Regina, as almas, que da vista     84 Externa no recinto se ocultavam.

“Do sol enquanto a luz inda persista” — O Mantuano disse, que nos guia,     87 “Ir não queiras à grei que de nós dista.

“Gestos e vultos seus conheceria     Qualquer de vós daqui mais claramente     90 Do que, de perto os vendo, o poderia.

“O que parece, aos outros, eminente.     Da quebra em seus deveres pesaroso     93 E a geral melodia ouve silente,

“É Rodolfo que fora poderoso.     Conta o mal que já tem a Itália morta:     96 Quem lhe dará porvir esperançoso?

“O que com seu semblante ora o conforta     Governava esse reino onde a água brota,     99 Que o Molta ao Álbia, o Álbia ao mar     transporta.

“É Otocar: na infância melhor nota     Teve que o filho, Venceslau barbudo,     102 Na luxúria e preguiça a vida esgota.

317

“Morrendo, o que não tem nariz agudo     E fala a esse outro de benino aspeito,     105 Deixou dos lizes deslustrado o escudo.

“Atentai: como bate ele no peito!     Vede aquele que ao ar suspiros lança     108 Da mão fazendo à sua face um leito.

“Sogro e pai do flagelo são da França;     Cientes do viver seu vergonhoso,     111 Dor stão sentindo, que ora não descansa.

“Esse membrudo, que o cantar piedoso     Segue do que nariz tem desmarcado,     114 Das virtudes no culto foi zeloso.

“Se o mancebo, ora atrás dele assentado,     Ao trono sucedera-lhe, subira     117 Valor de um Rei por outro fora herdado.

“Dos maus herdeiros qual pôs nisso a mira?     Jaime Fred’rico havendo o reino tido,     120 Nenhum a melhor parte possuíra.

“Rara vez tem nas ramas ressurgido     Primor alto da estirpe; assim o ordena     123 Aquele, a quem ser deve o bem pedido.

“Ao narigudo aplicação tem plena

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Meu dito e a Pedro, que ao seu lado canta:     126 Apúlia com Provença, geme e pena.

“Tanto ao seu fruto excede em preço a planta,     Quanto, mais que Beatriz e Margarida,     129 Constança ações do esposo seu decanta.

“Ali vedes o Rei de simples vida     Sentado à parte, Henrique de Inglaterra:     132 Teve este em ramos seus melhor saída.

“Mais abaixo notai sentado em terra     Marquês Guilherme e para o alto olhando,     Por quem, sofrendo Alexandria guerra,

136 Montferrat, Canavese estão chorando.” —

4. Otávio, o imperador Augusto. — 94. Rodolfo, de Habsburgo,     imperador de 1273 a 1291. — 96. Quem etc., o imperador     Henrique VII, que tentou pôr ordem na Itália. — 98. Esse     reino     etc., a Boêmia, onde nasce o rio Moldava (Molta), que     desemboca no Elba (Albia). — 100. Otocar II, adversário de     Rodolfo, foi de melhor índole que seu filho Venceslau. — 103.     O     que não tem nariz agudo, Filipe III de França, pai de Filipe     o     Belo e de Carlos de Valois. — 104. Esse outro, Henrique I de     Navarra, sogro de Filipe o Belo e pai de Joana I. — 109. Do     flagelo da França, Filipe o Belo. — 112. Esse membrudo, Pedro     III de Aragão, que, depois da revolução das Vésperas,     conquistou a Sicília. — 113. Ao que nariz tem desmarcado,     Carlos I de Ànjou que, vencendo Manfredo, conquistou a Sicília. — 115-20. Se o mancebo, Afonso III, primogênito de Pedro de     Aragão, que morreu moço, foi melhor príncipe do que os     seus     sucessores, Jaime II no reino de Aragão e Frederico na Sicília.

319

— 126. Apúlia etc., os reinos de Provença e de Nápoles     lamentam a morte de Carlos I, pois são mal governados pelo seu     sucessor Carlos II. — 127-29. O fruto etc., tão inferior é     Carlo II     de Anjou a Carlos I, quanto este foi inferior a Pedro III. — 131.     Henrique III, da Inglaterra, o qual teve um bom sucessor na     pessoa de Eduardo I. — 134. Marquês Guilherme, senhor de     Monferrato, cuja morte originou uma guerra desastrosa para os     seus súditos.

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    CANTO VIII

No começo da noite dois anjos descem do Céu para expelir a     serpe maligna que quer entrar no vale. Entre as sombras que se     aproximam dos Poetas, Dante reconhece Nino Visconti, de Pisa.     Conrado Malaspina pede a Dante notícias de Lunigiana, sua     pátria; Dante responde elogiando a sua família.

ERA o tempo, em que mais saudade sente     Do navegante o coração no dia     3 Do adeus a amigos, que relembra ausente;

E ao novel peregrino amor crucia,     Distante a voz do campanário ouvindo,     6 Que ao dia a morte, flébil, denuncia.

Não mais ouvia os olhos dirigindo     Perto um espírito vi que levantado,     9 Acenava, que ouvissem-no pedindo.

E, havendo as duas mãos juntas alçado,     Parecia, olhos fitos no Oriente,     12 A Deus dizer: És todo o meu cuidado!

Te lucis entoou devotamente     Com tão suave, tão piedoso canto,     15 Que me enlevava em êxtase a mente.

321

    Com igual devoção e igual encanto,     Nas supernas esferas engolfados,     18 Repetiram os outros o hino santo.

Leitor, tem da alma os olhos afiados     Para os véus da verdade penetrares:     21 Fácil é, tão sutis são, tão delgados.

A nobre turba, após os seus cantares,     Calou-se; então notei que, como à espera,     24 Pálida e humilde a vista erguia aos ares.

E vi sair descendo, da alta esfera     Anjos dois, empunhando flamejantes     27 Gládios a que truncada a ponta era.

Verdes quais folhas novas vicejantes     As vestes suas são, as agitando     30 As plumas das suas asas viridantes.

Um acima de nós se colocando,     Baixara o outro sobre o lado oposto,     33 Desta arte as almas de permeio estando.

A flava coma via-lhes: seu rosto     Contemplar impossível me seria:     36 Confunde a vista o lúcido composto.

“Do sólio ambos descendem de Maria”

322

Sordelo diz — “a do vale por amparo,     39 Onde a serpente vai chegar ímpia.”

Por onde ela viesse estando ignaro     Em torno olhei e, do terror tomado,     42 Busquei refúgio ao pé do amigo caro.

Sordel prossegue: — “É de falar chegado     Àqueles grandes spíritos o instante:     45 Ledos serão de ver-vos ao seu lado.” —

Para baixar ao val me foi bastante     Três passos dar: um spírito fitava     48 Perscrutadora vista em meu semblante.

Já de sombras o ar se carregava;     Mas aos seus e aos meus olhos embaraço     51 Não era para ver-se o que ali stava.

A mim vem, eu para ele aperto o passo: — “Nino exímio juiz quanto me agrada     54 Ver-te liberto do infernal regaço!”

De afeto após a mostra reiterada,     Inquiriu: — “Por longínquas águas quando     57 Chegaste ao pé da altura alcantilada?”

— “Oh!” — lhe tornei — “esta manhã,     passando     Pela triste mansão: ainda a vida     60 Primeiro gozo e a outra vou buscando.” —

323

    Mal fora esta resposta proferida,     Nino e Sordel, de pasmo, recuaram;     63 Como se fora maravilha ouvida.

Ao Vate este volveu-se; e se escutaram     Vozes de Nino a outro: — “Vem, Conrado, — 66 De Deus ver o que as leis determinaram!”

— “Por essa gratidão” — a mim voltado     Disse — “que ao Ente deves invisível,     69 Cuja ação compreender nos é vedado.

“Te imploro que, em passando o mar temível,     Digas à filha minha que suplique     72 Por mim: Deus à inocência é tão sensível!

“Não creio que em prol meu a mãe se aplique     Depois que os brancos véus trocou demente:     75 Dor terá infeliz! — que mortifique.

“Se conhece, por ela, facilmente     Quanto em mulher de amor fogo perdura     78 Se o caminho falece e o olhar freqüente.

“Não lhe fará tão bela sepultura     A víbora com que Milão se ostenta,     81 Como a fizera o galo de Galura.” —

Assim dizia Nino. Ainda o alenta

324

O justo zelo, que traduz no rosto,     84 Que brando ardendo, o ânimo aviventa.

Ávido os olhos tinha eu no céu posto,     À parte em que os luzeiros são mais lentos,     87 Qual roda onde o seu eixo está disposto.

E o Mestre: — “Os olhos ao que tens atentos?” — Respondi-lhe: — “Aos três astros luminosos,     90 Que o pólo acendem, célicos portentos.” —

— “As quatro estrelas” — me tornou — “formosas,     Que por manhã já vimos, se ocultaram.     93 Aí mesmo estas surgem fulgurosas.” —

Sordel, quando estas vozes me voaram,     O tira a si dizendo: — “eis o inimigo!” — 96 Os olhos o seu dedo acompanharam.

Do val na parte exposta ver consigo     Uma serpe, que a rastos coleava:     99 Talvez o pomo deu, de Eva perigo.

Entre as ervas e flores avançava,     A um lado e a outro a fronte volteando;     102 Lambendo o dorso, a língua dilatava.

Não pude ver como ao réptil nefando     Os celestes açores se enviaram;     105 Mas atônito os vi ambos pairando.

325

    O sussurro que as asas no ar formaram,     Em sentido, fugiu presto a serpente:     108 Os anjos logo aos postos seus tornaram.

A sombra, que viera incontinênti     Do juizo ao chamado enquanto o assalto     111 Durou, me estava olhando atentamente

— “Tenha o fanal, que te conduz ao alto     No teu desejo válido alimento!     114 De luz para subir não sejas falto!

“Mas se houveste” — me diz — “conhecimento     De Valdimagra ou terra que confina,     117 Declara: eu de poder lá tive aumento.

“Chamado fui Conrado Malaspina;     Não o antigo, porém seu descendente:     120 Amor, que tive aos meus aqui se afina.” —

— “Lá não fui” — respondi-lhe reverente      —     “Mas da Europa em que parte a excelsa fama     123 Dos feitos vossos não tem eco ingente?

“A glória que o solar vosso proclama,     Honra o domínio, honra os seus senhores     126 Quem nunca os viu louvores seus aclama.

“Juro, e tão certo eu veja os esplendores

326

Do céu, que a vossa raça guarda intatos     129 Da opulência e bravura altos primores.

“Por sua índole egrégia, por seus atos,     Enquanto ao mundo um chefe mau transvia,     132 Só ela segue o bem e o prova em fatos.” —

— “Vai!” — disse — “Antes que o belo     astro do dia     Sete vezes penetre nesse espaço,     135 Que o Áries cobre na celeste via,

“Tão boa opinião com fundo traço     Melhor será na tua fronte impressa     Do que de outro por voz a cada passo,

139 Se do Sumo Querer ordem não cessa.” —

1. Era o tempo etc., começava a cair a noite. — 13. Te lucis     etc.,     começo de um hino da Igreja. — 19-21. Leitor etc., o Poeta     adverte que além do sentido literal o que vai dizer tem um     sentido alegórico. — 53. Nino exímio juiz, Ugolino Visconti,     juiz     de Galura, na Sardenha. — 65. Conrado, Conrado Malaspina,     marquês de Lunigiana. — 71. À filha minha, Joana, filha     de     Nino. — 73. A mãe, Beatriz d’Este, viúva de Nino,     desposara em     segundas núpcias a Galeazzo Visconti. — 80. A víbora,     brasão     da família Visconti. — 119. O antigo, o avô de Conrado     Malaspina, do mesmo nome. — 136. Tão boa opinião etc.,     em     1306 Dante teve boa acolhida nos Castelos dos Malaspina, em     Lunigiana.

    327

    CANTO IX

Ao despontar do novo dia Dante adormece e, no sono é     transportado por Luzia até a Porta do Purgatório. Aproximam-se     da entrada e aqui um anjo abre-lhes a porta, depois de ter     gravado na testa de Dante sete PP.

JÁ clareava de Titão antigo     A concubina as fímbrias do oriente,     3 Deixando os braços do seu doce amigo;

Era-lhe a fronte de astros refulgente,     Figura do animal frio formando,     6 Que vibra a cauda contra a humana gente.

No lugar, em que estávamos, se alçando     Dos passos seus havia a Noite andado,     9 E o terceiro ia as asas inclinando,

Quando eu, tendo o que Adam nos há legado,     De sono sobre a relva fui vencido,     12 Lá onde junto aos quatro era sentado.

Ante-manhã, na hora, em que gemido     Triste a andorinha a soluçar começa,     15 Talvez na antiga dor pondo o sentido;

328

Já não stando da carne mais opressa     A mente e livre do pensar terreno,     18 Quase divina por visões pareça,

Pairar sonhei que via no ar sereno     De áureas plumas uma águia, que mostrava     21 Querer baixar, das asas pelo aceno.

Estar eu na montanha imaginava,     Onde os seus Ganimede abandonara     24 Alado à corte excelsa, que o esperava.

E eu pensava: talvez esta ave rara,     Caçar aqui soindo, a nédia preia     27 Fazer noutros lugares desdenhara;

A traçar giros vários avistei-a:     Eis, terrível, qual raio, a mim se envia,     30 E lá do fogo à região me alteia.

Esta águia, então julguei, comigo ardia     Tanto, que foi o sonho meu quebrado     33 Pelo fingido incêndio, que eu sentia.

Como, acordando, Aquiles espantado     Ficou por não saber onde se achava     36 No lugar aos seus olhos devassado,

Quando a mãe que a Quíron o arrebatava,     O transportou a Sciro adormecido,

329

39 Donde astúcia depois lho retirava:

Assim fiquei ao ser desvanecido     Das pálpebras o sono, semelhante     42 A quem desmaia em cor de horror transido.

Junto a mim eu só vi naquele instante     Virgílio; o sol duas horas já media;     45 Ao mar tinha eu voltado inda o semblante.

— “Não teme!” — estas palavras proferia —     “Sê tranqüilo, o bom porto não mais dista,     48 Alarga o coração, não entibia;

“O Purgatório já daqui se avista.     Onde a rocha é fendida está a entrada,     51 A rocha o cinge e tolhe o aspeto à vista.

“Ao romper da alva ao dia antecipada,     Quando no vale em sono eras jazendo     54 Sobre a ervinha de flores esmaltada,

“Eis mostrou-se uma Dama nos dizendo:     Sou Luzia; pois dorme, vou trazê-lo,     57 Leve assim a jornada lhe fazendo —

“Ficando as nobres almas com Sordelo,     Tomou-te; e como já raiasse o dia     60 Subiu: seguiu seus passos, com desvelo

330

“Depôs-te; e por seus olhos me dizia     Que próxima ali stava a entrada aberta.     63 Ela se foi e o sono te fugia.” —

Como quem stando em dúvida, se acerta,     Converte o seu temor em confiança,     66 Logo em sendo a verdade descoberta:

Assim me achei mudado. Ele que alcança     Que esforçado já stou, vai por diante     69 Pela altura; o meu passo após avança.

Vês, leitor, que assunto altissonante     Se faz; e não estranhes se mais arte     72 Mor lustre lhe acrescenta de ora avante.

Acercamo-nos, pois, da rocha à parte,     Onde eu antes rotura divisava     75 Como em muralha fenda que reparte;

Ora uma porta e degraus três notava     Para entrar, cada qual de cor dif’rente,     78 E um porteiro que tácito ficava.

E, de mais perto olhando, claramente     No mais alto degrau o vi sentado:     81 Ofuscava-me a face refulgente.

Na destra um gládio eu tinha empunhado,     que tão vivos lampejos refletia,

331

84 Que em vão fitava os olhos deslumbrado.

— “Parai e respondei-me” — principia —     “Que intentais? Quem vos guia na jornada?     87 Efeitos não temeis dessa ousadia?” —

— “Dama do céu, de tudo isso inteirada”     — Falou Virgílio — “disse-nos: — Avante!     90 Não longe fica a porta desejada.” —

— “Seja ela aos vossos passos luz brilhante”     — Logo beni’no o anjo nos tornava — 93 “Aos degraus nossos vinde por diante.” —

Chegamos: o degrau primeiro estava     De alvo mármor tão terso, tão polido,     96 Que a minha imagem nele se espelhava.

Era escuro o segundo e não brunido,     Tosca pedra o formava e calcinada;     99 Ao longo a via e de través fendido.

De pórfiro o terceiro e carregada     Tinha a cor de vermelho flamejante,     102 Qual sangue, que da veia flui rasgada.

Neste firmava o anjo rutilante     Os pés, ao limiar sentado estando,     105 Que ser me pareceu de um só diamante.

332

Tirado por Virgílio vou-me alçando     Jubiloso. Ele disse — “Humildemente     108 Requer, que te abra a porta deprecando.” —

Aos sacros pés dobrei devoto a frente;     Misericórdia, vezes três batendo     111 Nos peitos, para abrir pedi fervente.

Da espada a ponta sete PP me havendo     Na testa aberto, disse o anjo: — “Lava     114 Lá dentro estes sinais te arrependendo.” —

Chaves duas tomou quando acabava,     De sob as vestes, onde a cor, atento     117 De terra seca eu cinzas observava.

Uma era de ouro, a outra era de argento.     Primeiro a branca, após a flava aplica     120 À porta: foi completo o meu contento.

— “Se emperrada das duas uma fica     E não dá volta” — disse — “à     fechadura,     123 Isto entrada defesa significa.

“Se mais preço um tem, noutra se apura     Mais arte para abrir e mais engenho,     126 Das molas cede-lhe a prisão mais dura.

“Mandou Pedro de quem as chaves tenho     Que em abri-la antes erre que em cerrá-la

333

129 Aos que a exoram com ardente empenho.” —

Tocando a santa entrada, ainda nos fala: — “Penetrai; mas, de agora, vos previno,     132 Quem olha para trás pra fora abala.” —

Os portões já se movem do divino     Recinto, e os espigões, rangendo, giram     135 Nos gonzos de metal sonoro e fino:

Quando, vãos de Metelo os esforços, viram     Roubado o erário, com estrondo tanto     138 As portas de Tarpéia não se abriram.

Aos rumores atento, doce canto — Te Deum laudamus escutar julgava,     141 De conceitos unido ao meigo encanto.

Ouvindo, em mim a sensação calava,     Que a voz bem modulada nos motiva,     Quando com ternos sons de órgão se trava;

145 Que uma voz emudece, outra se esquiva.

1. De Titão antigo etc., a concubina do velho Titão é     a aurora. — 5-6. Animal frio etc., talvez a constelação dos Peixes ou do     Escorpião. — 23. Onde os seus Ganimede abandonara, quando     Júpiter o fez raptar para servir de copeiro aos deuses, no     Olimpo. — 34. Aquiles espantado etc., Tétis, mãe de Aquiles,     o     transportou para a ilha de Sciro, de onde os gregos Ulisses e     Diômedes o conduziram à guerra de Tróia. — 56. Luzia,     Santa

334

Luzia. — 112. Sete PP, os sete pecados mortais. — 136. Quando     vãos de Metelo os esforços etc., as portas do Purgatório     se     abriram com maior estrondo do que se abriram as portas da     rocha Tarpéia, quando, apesar da resistência de Cecílio     Metelo,     Júlio César as abriu para apossar-se do dinheiro público.

    335

    CANTO X

Os dois Poetas sobem ao primeiro compartimento do Purgatório,     cuja escarpa é de mármore, no qual estão esculpidos vários     espisódios de humildade. Eles os observam e no entanto vêem     em sua direção várias almas curvadas sob o peso de grandes     pedras. São as almas dos que no mundo foram soberbos.

PASSADO estando o limiar da porta,     Das paixões pelo excesso desusada,     3 Que reta faz supor a estrada torta,

Pelo estrondo senti que era cerrada.     Se atrás volvesse os olhos, qual seria     6 A desculpa da falta perpetrada?

Subíamos por fenda que se abria     Na rocha, a um lado e ao outro serpeando,     9 Qual onda, que ora acerca, ora desvia.

“Aqui ser destro cumpre, acompanhando” — Disse o Mestre — “o caminho árduo, fragoso,     12 Que as sinuosas voltas vai formando.” —

A passo íamos, pois, tão vagaroso,     Que a lua o crescente reclinado     15 Era já no seu leito de repouso,

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    Quando aquela estreiteza hemos deixado     Espaços livres alcançando e abertos,     18 Onde o monte pra trás era inclinado;

Eu inanido e ambos nós incertos     Da vereda, em planura enfim paramos,     21 Mais solitária que áridos desertos.

Do precipício a borda calculamos     Distar da oposta, em que o rochedo alteia,     24 Comprimento que em homens três achamos.

Na extensão, que ante mim se patenteia,     Da direita ou da esquerda igual largura     27 Nessa cornija aos olhos se franqueia.

Não déramos um passo na planura,     Quando notei que a escarpa sobranceira,     30 Que ascender não permite a sua altura,

Era alvo mármor, tendo a face inteira     Talhada com primor, que a Policleto     33 Tomara e à natureza a dianteira.

O anjo, que da paz trouxe o decreto,     Tantos séc’los com lágrimas pedido,     36 Que o céu abriu, donde o homem stava exceto,

Ao vivo ali mostrava-se insculpido,

337

No gesto e no meneio tão suave,     39 Que em pedra não parece estar fingido.

Quem não jurara que profere o Ave,     Pois juntamente figurada estava     42 Quem do supremo amor volvera a chave?

Seu semblante estas vozes expressava     Ecce ancilla tão propriamente,     45 Como na cera imagem, que se grava.

— “Num ponto só não prendas tanto a mente”     — Virgílio me falou, tendo-me ao lado,     48 Aonde o coração bater se sente.

Para mais longe olhei: maravilhado     Após Maria então vi que disposta,     51 Da parte, em que era o Mestre colocado,

Fora outra história em mármore composta.     Ao sábio adiantei-me: de mais perto     54 Aos meus olhos melhor ficara exposta.

O carro com seus bois na rocha aberto     E a Arca santa que conduz, mirava:     57 Lembra aos profanos o castigo certo.

Em coros sete o povo ali cantava:     Do olhar em mim o ouvido dissentia,     60 Pois se um dizia sim, outro negava;

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    De igual modo na pedra percebia     Ao ar o fumo se elevar do incenso:     63 Da vista o asserto o olfato desmentia.

Da Arca adiante, com fervor imenso,     Dançando humilde via-se o salmista,     66 Mais e menos que um Rei no zelo intenso.

Mícol, do régio paço, em frente, a vista     No Rei fitava, o ato lhe estranhando,     69 Que lhe move desgosto e que a contrista.

Desse lugar depois eu me afastando,     De perto contemplar fui outra história,     72 Que além um pouco, estava branquejando.

Aqui brilhava a preminente glória     Desse famoso Imperador romano,     75 Por quem Gregório obteve alta vitória.

Ao natural tirado era Trajano:     Do freio do corcel mulher tratava;     78 Dizia o pranto sua dor, seu dano.

De cavalheiros tropa se apinhava,     E nas bandeiras a águia de ouro alçada     81 Acima dele aos ventos tremulava.

A infeliz, dos guerreiros rodeada,

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Parecia dizer: — “Senhor, vingança!     84 Morto é meu filho e eu gemo atribulada.”

E Trajano tornar: — “Toma esperança     Até que eu volte.” — E a mísera pungida     87 Da dor que, em mãe, a tudo se abalança:

— “Senhor, se não voltares?” — “Deferida     Serás de herdeiro meu.” — “Bem que outro faça     90 Que val’, se a obrigação tens esquecida?” —

E ele: — “Ânimo esforça na desgraça.     Meu dever cumprirei sem mais espera,     93 Justiça o exige, compaixão me enlaça.” —

Quem novas cousas nunca vê, fizera     Visível sobre a pedra esta linguagem:     96 Arte não sobe a tão sublime esfera.

Enquanto me enleava em cada imagem,     Em que há dado aos extremos da humildade     99 De operário a perícia mor vantagem,

— “Eis almas lentamente em quantidade     Acercam-se; a mais alta” — disse o Guia — 102 “Nos pode encaminhar sua bondade.” —

A vista, que em portentos se embebia,     De olhar outros já sôfrega, volvendo,     105 Atentei no que o Mestre me advertia.

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    Mas, leitor, que esmoreças não pretendo,     Nem que os bons pensamentos te faleçam,     108 Como os pecados pune Deus sabendo.

Nem os martírios nímios te pareçam;     Pensa bem no porvir; pois, em chegando,     111 O grão Juízo, em caso extremo, cessam.

E eu disse: — “O que ora a nós vem caminhando     Não creio sombras ser: o que é portanto?     114 Não sei, a percepção turbada estando.” —

— “Do seu tormento, que te movo espanto     É condição à terra irem curvados:     117 Também a vista duvidou-me um tanto.

“Olhos fita; imagina levantados     Os que vêm dessas pedras oprimidos:     120 Já vês quanto eles são atormentados.”

Cristãos soberbos, míseros, perdidos,     Cegos da alma, que haveis pra trás andado,     123 De tanta confiança possuídos,

Que vermes somos não vos stá provado,     De que surge a celeste borboleta,     126 Que incerta voa ao tribunal sagrado?

Por que do orgulho assim passais a meta,

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Se sois insetos no embrião somente,     129 Vermes de formação inda incompleta?

A modo de pilar ver-se é freqüente,     Joelhos, peito unindo, uma figura     132 Cornija ou teto a sustentar ingente.

Da dor mera ficção move tristura     Em quem olha: senti então notando     135 Das almas penitentes a postura.

Mais umas, outras menos, se dobrando     Iam, segundo o fardo, que traziam;     E as que eram mais sofridas, pranteando,

139 Não posso mais! — dizer me pareciam.

32. Policleto, célebre escultor grego. — 34. O anjo, Gabriel.      — 42. Quem, etc., a virgem Maria. — 57. Lembra aos profanos o     castigo certo, Oza caiu fulminado por ter-se aproximado da     Arca, que ameaçava cair (Samuel II-6). — 65-66. Dançando     humilde via-se o salmista, Davi dançava precedendo a Arca. — 67. Mícol, esposa de Davi manifestava censura pelo ato humilde     do esposo. — 74-75. Desse famoso imperador, Trajano, que,     segundo uma lenda, o papa Gregório I conseguiu, com suas     preces, voltasse à vida terrena e, batizado, fosse para o Céu.      — 124-126. Que vermes somos etc., como do verme nasce a     borboleta, assim nós homens outra coisa não somos senão     vermes dos quais devem surgir as borboletas dignas de subir ao     Céu.

    342

    CANTO XI

Virgílio pergunta às almas que purgam o pecado da soberbia     qual     é o caminho para subir ao segundo compartimento, e uma delas     dá a indicação requerida. Umberto Aldobrandeschi dá-se     a     conhecer e fala com Dante, que, depois, reconhece Oderisi de     Gubbio, pintor e gravador. Oderisi dá-lhe notícia de Provenzano     Salvani, que está junto com eles.

VÓS, que nos céus estais, ó Padre nosso,     Não circunscrito, mas porque haveis dado     3 Mais aos primeiros seres o amor vosso,

“Vosso nome e poder seja louvado!     Graças à criatura jubilosa     6 Ao saber vosso renda sublimado!

“Do reino vosso a paz venha ditosa!     Que vão de havê-la o empenho nos seria,     9 Se não vier da vossa mão piedosa.

“Como a vós a vontade se humilia     Dos vossos anjos, entoando hosana,     12 Façam assim os homens cada dia!

“A substância nos dai quotidiana     Hoje: sem ela em áspero deserto

    343

15 Se atrasa quem por ir além se afana!

“E como a quem nos faz mal descoberto     Damos perdão, nos perdoai clemente,     18 Indi’nos sendo nós, Senhor, por certo.

“Oh! não deixeis cair a defidente     Virtude nossa em tentação do imigo!     21 Livrai-nos dele, em nos pungir ardente!

“Não mais somos, Senhor, nesse perigo,     Em que precisa esta oração nos seja;     24 Mas não os que hão mister na terra abrigo.” —

Ao céu rogando que ao seu bem proveja     E ao nosso, as almas sob o peso andavam,     27 Como o que oprime a quem sonhando esteja.

Com desigual gravame se arrastavam     Ofegantes no círculo primeiro,     30 E do pecado as névoas expurgavam,

Se em bem nosso com zelo verdadeiro,     Oram, como em seu prol fará no mundo     33 Quem tem no bem querer seu peito useiro?

Ajudemo-las, pois, vestígio imundo     A lavar, por que leves, puras sejam,     36 Do céu se alando ao brilho sem segundo.

344

“Ah! compaixão, justiça vos consigam     Presto alívio, e possais, o vôo erguendo,     39 Ir até onde os desejos vos instigam!

“Valei-nos a vereda nos dizendo     Mais curta ou a que é menos escarpada,     42 Mais de um caminho a se ascender havendo.

“Ao companheiro meu assaz pesada     É a carne de Adam, que inda o reveste:     45 Por mais que esforce, o afana esta jornada.” —

A voz, que respondeu ao Mestre a este     Dizer, não sei a que alma pertencia     48 Por indício qualquer, que o manifeste:

— “Vinde à direita em nossa companhia     Pela encosta, e vereis o passo estreito,     51 Que uma pessoa viva subiria.

“Se este penedo não tolhesse o jeito,     A cerviz orgulhosa me domando     54 E obrigando a juntar o rosto ao peito,

“Deste homem para a face, atento olhando,     (Não sei quem é) talvez o conhecera,     57 E assim me fora compassivo e brando.

“Toscano fui, ilustre pai tivera.     Guilherme Aldobrandeschi se chamava:

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60 O nome seu algum de vós soubera?

“Tanta arrogância a glória me inspirava     Do meu solar e os feitos valorosos,     63 Que a nossa mãe comum não mais pensava,

“Olhos volvendo a todos desdenhosos.     Perdi-me assim; os atos meus em Siena     66 Foram em Campagnatico famosos.

“Chamei-me Umberto; da soberba a pena     A mim não coube só: de igual desgraça     69 Vem a causa que aos meus todos condena.

“Este fardo, que os passos me embaraça     Mereço, por cumprir-se a lei divina:     72 Vivo o não fiz, é justo que ora o faça.” —

Enquanto, ouvindo, a fronte se me inclina,     Uma das almas (não a que falava)     75 Sob o peso se torce, que a amofina.

E viu-me e, conhecendo-me, chamava,     Os olhos seus fitando esbaforida     78 Em mim, que, recurvado a acompanhava.

— “Oderisi não foste” — eu disse — “em     vida,     Honra de Agubbio, honra daquela arte     81 Que iluminar Paris ora apelida?” —

346

— Tornou-me: — “Hoje o pincel (cumpre     informar-te)     De Franco de Bolonha mais agrada:     84 A honra é toda sua, minha em parte.

“Por mim não fora em vida proclamada     Esta verdade, quando esta alma ardia     87 Na ambição de primar nessa arte amada.

“Aqui de tal soberba o mal se expia;     Staria alhures; mas a Deus eu pude     90 Mostrar que de pecar me arrependia.

“Quanto a vaidade o peito humano ilude!     Dessa flor como esvai-se a formosura,     93 Se não seguir-se um séc’lo inculto e rude!

Cimabue cuidou ter na pintura     A liça dominado: mas vencido     96 Ficou: a glória Giotto fez-lhe escura.

Assim de estilo na arte cede um Guido,     A palma a outro: agora é bem provável     99 Seja de ambos o mestre já nascido.

“Rumor mundano é como vento instável     Que a direção varia de repente:     102 Conforme o lado, o nome tem mudável.

“De ti que fama ficará manente,

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Se da velhice cais no extremo passo,     105 Ou se findas na infância inconsciente,

“De hoje a mil anos, tempo mais escasso,     Da eternidade em face, que um momento     108 Ante a esfera a mais tarda lá no espaço?

“Quem me precede e vai assim tão lento     Na Toscana entre todos foi famoso:     111 Apenas salvo está do esquecimento.

“Em Siena, que há regido poderoso,     Quando perdeu-se a raiva florentina.     114 Soberba então, objeto hoje asqueroso.

“A fama vossa iguala-se à bonina,     Que flore e morre: o sol, por quem nascera     117 Na terra a prostra e a cor cresta à mofina.” —

Respondi-lhe: — “O dizer teu em mim gera     Saudável humildade e o orgulho mata.     120 Esse, que apontas, conta-me quem era.” —

“De Provenzan Salvani” — diz — “se trata:     Aqui stá, porque Siena ele cuidara     123 Ter nas mãos — presunção de alma insensata!

“Caminha assim curvado, e nunca pára     Dês que a vida perdeu eis o castigo     126 De quem tanto à soberba se entregara!” —

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— “Se o que demora até final perigo     A penitência” — eu disse — “e errado corre,     129 Subir não pode e aqui não acha abrigo,

“Se uma oração piedosa o não socorre,     Durante prazo igual ao da existência,     132 Como ao martírio Provenzan concorre?” —

— “Quando era” — torna — “no auge da     influência,     Sobre a praça de Siena, suplicando,     135 Ter ante o povo humilde continência,

“De um amigo o resgate procurando,     Que era por Carlos em prisão detido,     138 Tremeu angustiado e miserando.

“Não mais: não sou, de obscuro, compreendido,     Mas te há de ser em breve isto explicado     Por filhos dessa terra em que hás nascido. —

142 “Por tão bom feito o ingresso lhe foi dado.”

59. Guilherme Aldobrandeschi, senhor de Grosseto. Quem fala é     o filho Umberto, que guerreou contra Pisa. — 79. Oderisi de     Gubbio, excelente pintor e miniaturista. — 83. Franco de     Bolonha, célebre miniaturista. — 94-96. Giotto e Cimabue,     célebres pintores. Giotto, discípulo de Cimabue, superou o     mestre na sua arte. — 97-98. Um Guido e outro, Guido     Cavalcanti superou a Guido Guinicelli na arte da poesia. — 121.

349

Provenzano Salvani, de Siena, senhor muito poderoso, morto na     batalha de Colle em 1269. — 133-138. Quando era etc., para     obter a libertação de um amigo prisioneiro de Carlos d’Anjou,     ele se humilhou a pedir a esmola aos seus concidadãos.

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    CANTO XII

Os dois Poetas continuam a viagem. No pavimento do círculo     estão pintados vários exemplos de soberbia castigada. Um anjo     vem junto dos Poetas e os guia até a escada que sobe ao     compartimento sucessivo. Com a asa, depois, apaga da testa de     Dante um dos PP.

A PAR, como dois bois, que o jugo unira,     Eu com essa alma opressa e titubeante     3 Ia, enquanto Virgílio permitira.

Eis disse-me: — “Deixando-a, segue avante:     Deve fazer de vela e remos força     6 Quem quer à parca impulso dar constante.” —

A caminhar dispus-me à voz, que esforça,     Erguendo logo o corpo, inda que a mente     9 Na humildade a modéstia acurve e estorça.

Já os pés acelero e facilmente     A Virgílio acompanho: de porfia,     12 Se mostra cada qual mais diligente.

— “À terra olhos inclina” — então dizia      —     “Para a jornada aligeirar atenta     15 No solo, onde o meu passo aos teus é guia.”

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    Assim como na campa se aviventa     A memória dos mortos, insculpindo     18 Imagem, que a existência representa,

Que de saudade os corações ferindo,     À piedade propensos e à ternura,     21 Os vai ao pranto muita vez pungindo:

Assim, com perfeição sublime e pura,     Figuras via sobre aquela estrada,     24 Que sobe, serpeando, pela altura.

Via, a um lado, dos céus precipitada     Das criaturas a mais bela e nobre,     27 Qual raio, pelo espaço arremessada.

A vista, o outro, Briaréu descobre     De projétil celeste transpassado:     30 Gélido a terra desmedido cobre.

Com Marte e Palas stava figurado     Timbreu, em torno ao pai de armas fornidos,     33 Vendo o campo de imigos alastrado.

Nemrod olhos volvia espavoridos,     Junto à feitura imensa, aos companheiros,     36 Que a Sanaar seguiram-no, descridos.

Ó Níobe, com braços verdadeiros

352

Que dor nos olhos teus aparecia,     39 Os filhos mortos vendo, quais cordeiros!

Saul, a própria espada te extinguia     Sobre a montanha Gelboé — maldita,     42 Orvalho ou chuva ali não mais caía.

Ó louca Aracne, tua face aflita,     De aranha parte entre os destroços stava     45 Da teia, origem da fatal desdita.

Não mais a tua imagem cominava;     Num carro foges, Roboam cruento,     48 À fúria popular, que te assombrava.

Amostrava ainda o duro pavimento     Como fez Alcmeon pagar tão caro     51 À mãe o funestíssimo ornamento.

Mostrava mais como flagício raro     Senaqueribe no templo assassinado     54 Por filhos, que deveram ser-lhe amparo.

Mostrava também Ciro degolado     E Tamíris dizendo acesa em ira     57 — Sede tinhas de sangue, sê saciado! —

A multidão de Assírios que fugira,     Mostrava ao verem de Holoferne a morte,     60 E o castigo que os passos lhes seguira.

353

    Via no pó, nas cinzas Tróia forte:     Ó soberba Ílion, a pedra dura     63 Mostrava a tua lamentável sorte!

Que mestre no pincel ou na escultura     Posturas, sombras tais traçar pudera,     66 Pasmo ao gênio, que atinja a suma altura?

Real ou morte ou vida aos olhos era:     A verdade não viu na própria cena     69 Melhor que eu quando a efígie a olhar stivera.

A fronte entonai, pois, de orgulho plena,     Ó filhos de Eva, os olhos não baixando     72 Ao caminho, onde achais devida pena!

Mais íamos no monte caminhando     E no seu giro o Sol mais avançara     75 Do que eu cuidava, absorto contemplando,

Quando aquele, que sempre me guiara     Desvelado, me disse: — “Alça a cabeça!     78 Não te engolfes! atento sê! repara!

“Olha aquele anjo que caminha à pressa     Ao nosso encontro: acaba a terra sexta     81 Do dia o lavor certo e outra começa.

“Reverência em teu gesto manifesta

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Para o anjo à viagem ser propício,     84 Não volta o dia de que pouco resta.” —

Aproveitar do tempo o benefício     Era do Mestre a regra; e, pois, naquela     87 Matéria não lhe achei de obscuro o indício.

Já nos demanda a criatura bela:     Trajava branco, a face resplendia,     90 Qual, tremulando, matutina estrela.

Braços abria e asas estendia,     Dizendo: — “Vinde! que os degraus stão perto:     93 A jornada já fácil se anuncia.” —

Raros escutam essa voz, por certo:     Ó gente humana, para o céu nascida,     96 Por que decaís do vento a um sopro incerto?

Imos à rocha, por degraus partida:     De uma das asas me roçou na fronte,     99 Prometendo-me próspera subida.

Como à direita quem se erguer ao monte,     Donde se avista a igreja que domina     102 A bem regida ao pé de Rubaconte,

Sente que aos pés a ingremidade inclina     Pela escada talhada antes que houvesse     105 Em livros e medidas a rapina:

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    Adoça-se o pendor assim; pois desce     De um círc’lo a outro a rocha que alterosa     108 A um lado e ao outro augusto passo of’rece.

Subindo em melodia tão donosa     Beati pauperes spiritu escutamos,     111 Que a voz, que o diga é pouco vigorosa

Quão dif’rentes os áditos que entramos,     Dos infernais! Aqui suave canto,     114 Lá gritos de ira ouvindo caminhamos.

Vencendo esses degraus do monte santo     Mais ágil me sentia: lá no plano     117 Fácil nunca a jornada fora tanto.

Eu disse: — “Ó Mestre, de que peso insano     Sinto-me livre, pois no estreito passo,     120 Como de antes agora não afano!” —

— “Quando os PP que inda tens em vivo traço     Sobre a fronte” — tornou-me — “se apagarem,     123 Como não hás de ter mais embaraço,

“Segundo o teu desejo os pés andarem     Sentirás sem fadiga, e até gozando     126 Deleite, para a altura ao caminharem.”

Como o que traz, na praça passeando,

356

Cousa, que ignora, na cabeça posta,     129 E, por ver sinais de outrem, suspeitando,

À mão pede socorro; ela, em resposta,     Procura, acha, um serviço assim rendendo,     132 A que a vista não pode ser disposta:

Assim, da destra os dedos estendendo,     Conheci que das letras, que o anjo abrira,     Stavam somente seis remanescendo.

136 Sorriu-se o Mestre, que o meu gesto vira.

25-27. Via, a um lado etc., Lúcifer, o anjo que se rebelou contra     Deus. — 28. Briareu, gigante que se rebelou contra Júpiter e     foi     fulminado. — 31. Marte, Palas e Timbreu (Apolo), que     dominaram os gigantes rebeldes. — 34-35. Nemrod etc., que na     planície de Senaar, começou a construção da torre     de Babel. — 37. Níobe, desprezando Latona por ter esta somente dois filhos,     quando ela tinha doze, por castigo foram todos mortos por     Apolo e Diana. — 40-41. Saul, rei de Israel, derrotado em     Gelboé, suicidou-se. — 43-45. Aracne, tendo desafiado Minerva     para saber quem melhor tecia, foi por esta transformada em     aranha. — 47. Roboam, filho de Salomão, oprimiu o povo de     Israel no seu reinado e foi obrigado a fugir em conseqüência de     revolta popular. — 50. Alcmeon, matou a própria mãe Erifiles,     pois esta, para ganhar um colar de ouro, havia revelado o     esconderijo do seu marido Anfiarau aos inimigos. — 53.     Senaqueribe, rei dos Assírios, foi morto pelos filhos. — 55-57.     Tamíris, rainha dos Massagetas, tendo vencido Ciro, o mandou     matar num odre cheio de sangue, dizendo: Sacia-te de sangue,     monstro. — 59-60. Holofernes, general assírio, morto por Judite     durante o sítio da cidade de Betúlia. — 61-63. Tróia     ou Ílion,

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destruída pelos gregos. — 80. A terra sexta, a hora sexta, meio- dia. — 102. Rubaconte, ponte de Florença.

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    CANTO XIII

Chegam os Poetas ao segundo compartimento, no qual estão os     pecadores que expiam o pecado da inveja. Os invejosos têm os     olhos cosidos com fio de arame. Entre eles está Sápia, senhora     de Siena, com a qual Dante fala.

DA escada ao topo havíamos chegado,     Onde, outra vez cortado, o monte estreita,     3 Que alma sobe, expiando o seu pecado.

Como a primeira, outra cornija feita     Circundava a colina, só dif’rente     6 Em que a um arco menor ela se ajeita.

Relevo, formas, como a precedente,     Não mostra: e, lisa sobre a escarpa a entrada,     9 Lívida cor a pedra tem somente.

— “Se a presença de alguém fosse esperada,     Que nos preste conselho” — diz meu Guia — 12 “Temo que fique a escolha retardada.” —

Os olhos para o sol depois erguia,     E, sobre o pé direito se firmando,     15 Para a esquerda girava e se volvia.

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— “Tu, de quem tudo fio, ó lume brando     No caminho conduz-nos que se of’rece     18 Como o exige o lugar” — disse — “guiando!

“Raiando, o teu calor o mundo aquece:     Se motivo não surge de embaraço,     21 De conduzir-nos teu fulgor não cesse!”

Vencido em breve tínhamos espaço,     Que por milha na terra calculamos,     24 Porque o desejo estimulava o passo:

Em direitura a nós voar julgamos     Invisíveis espíritos, chamando     27 De amor à mesa em lépidos reclamos.

A voz primeira que passou voando,     Vinum non habent proferiu sonora     30 E ainda muito além foi reiterando.

Mas antes de perder-se pelo ar fora,     Outra acercou-se. — “Orestes sou!” — dizia;     33 E apartou-se igualmente sem demora.

— “Que vozes estas são, Mestre?” — inquiria.     Mas, apenas falara, eis vem terceira.     36 — “Amai imigos vossos!” — eu lhe ouvia.

— “Pune este círc’lo a culpa traiçoeira”     — O Mestre diz — “da inveja; o açoite aplica

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39 O amor, que os rigores lhe aligeira.

“Contrário som, porém, o freio indica.     Antes que atinjas do perdão a entrada,     42 Terás de ouvi-lo; e disto certo fica.

“Tem ora a vista para além fitada;     De espíritos, ao longo do alto muro,     45 Assentados verás soma avultada.” —

Mais que de antes então a vista apuro;     Almas distingo, que envolviam mantos,     48 Que a cor imitam do penhasco duro.

Um pouco avante ouvi de esp’ritos tantos     A voz bradar: — “Por nós orai, Maria,     51 Pedro, Miguel e todos os mais Santos!”

Na terra homem tão fero não seria,     Que não sentisse o coração pungido     54 Em vendo o que aos meus olhos se of’recia.

Acerquei-me por ser mais distinguido     De cada sombra o menear e o gesto:     57 Pelos olhos à dor alívio hei tido.

Então foi claramente manifesto     Que entre si, uns aos outros se arrimavam,     60 Todos à pedra, em seu cilício mesto.

361

Assim os pobres cegos mendigavam     Nos dias de Perdão da igreja à porta,     63 Mutuamente as cabeças encostavam;

Pois a piedade o coração nos corta,     Quando ao som das palavras se acrescenta     66 Da vista a ação que o peito desconforta

E como o sol aos cegos não se ostenta,     Assim também às sombras que alivia,     69 Não mais do céu a luz olhos alenta.

Fio de ferro as pálpebras prendia     A todas, como ao gavião selvage     72 Para domar-lhe a condição bravia.

Cuidei, se andasse, lhes fazer ultraje,     Lhes vendo as faces e ocultando a minha:     75 E o Mestre olhei em tácita linguage.

E o Mestre, bem sabendo o que convinha,     Antecipou-se logo ao meu desejo     78 E disse: — “Arguto sê, e fala asinha.” —

Virgílio caminhava neste ensejo     Do lado, onde à cornija falta amparo;     81 Dali cair se pode e o risco eu vejo.

As almas do outro lado eram; reparo     Que dos olhos a hórrida costura

362

84 Provoca pranto copioso e amaro.

Voltei-me e disse: — “Ó almas, que a ventura     De ver tereis ao certo o excelso Lume;     87 De que somente o vosso anelo cura,

“Dissolva a Graça em vós todo o negrume     Da consciência e nela manar faça     90 Da mente o rio em límpido corrume!

“Concedei-me o que mais me satisfaça:     Dizei-me qual de vós latina há sido;     93 De eu sabê-lo algum bem talvez lhe nasça.” —

— “Por pátria, irmão, só hemos conhecido     A cidade de Deus: dizer quiseste     96 Peregrina na Itália haja vivido.” —

De mim remota a voz parece deste,     Que assim disse; e portanto, passo avante     99 Por saber certo a quem atenção preste.

E uma senhora entre as mais vi, que, distante,     Aguardava-me. E como eu a distinguia?     102 Qual cego, alçava o mento pra diante.

— “Tu, que para subir penas” — dizia —     “Quem foste, onde nasceste diz: te imploro,     105 Se é tua voz que, há pouco, respondia.”

363

— “Fui de Siena” — tornou — “com este     choro     Os graves erros de perversa vida,     108 E a Deus que se nos dê, clemente, exoro.

“Chamei-me Sápia, mas não fui sabida.     Mais deleite me deu o alheio dano     111 Do que a dita a mim própria concedida.

“E por que não presumas que te engano,     Se fui louca verás pelo que digo.     114 Já no declínio do viver humano

“Eu era, quando a rebater o inimigo     Em Colle os meus patrícios campearam;     117 A Deus roguei que lhes não fosse amigo.

“Destroçados, à fuga se lançaram,     E a mim, que estava aquele transe vendo,     120 Indizíveis prazeres me tornaram,

“Em modo, que atrevida, olhos erguendo, — “Não mais Deus tenho!” — contra o céu     gritava     123 Qual melro, instantes de bonança tendo.

“Com Deus quis paz, mas quando já tocava     Da vida o termo; e ainda não pudera     126 A dívida solver, que me onerava,

“Se Pedro Pettinanho não se houvera,     Nas santas operações de mim lembrado:

364

129 Em prol meu, caridade o comovera.

“Mas quem és, que nos tens interrogado,     Que estando, creio, de olhos não tolhidos     132 E respirando indagas nosso estado?” —

— “Olhos” — disse — “terei também     cerzidos,     Porém por pouco tempo; que da inveja     135 No mundo hão sido rara vez torcidos,

“Maior receio o peito me dardeja     De outro tormento; e tanto me angustia,     138 Que o seu fardo a sentir cuido já steja.” —

— “Mas quem ao monte” — me tornou — “te     guia,     Pois de voltar ao mundo tens certeza?” — 141 — “Quem tenho ao lado e voz não pronuncia.

“Inda vivo; e, pois fala com franqueza,     Alma eleita, se queres que os pés mova     144 Em prol teu lá na terra com presteza.” —

— “O que dizendo estás, cousa é tão nova     Que por mim rogues fervorosa peço,     147 Pois da divina dileção dás prova.

“E pelo que te merecer mais preço     Suplico-te: ao pisar terra toscana     150 Ao meu nome entre os meus aviva o apreço.

365

“Terás de vê-los entre a gente insana,     Que espera em Talamone, mas como antes,     Quando buscava as águas do Diana:

154 Mor engano há de ser dos almirantes.” —

29. Vinum non habent, é a frase que Maria disse a Jesus para     incitá-lo a fazer o milagre da transformação da água     em vinho. — 32. Orestes sou, Orestes para salvar Pílades, condenado à     morte, apresentou-se em seu lugar. — 36. Amai imigos vossos,     v. Evang. S. Mateus V. — 44-51. Por nós orais etc., prece. — 109. Sápia, senense, casada com Ghinigaldo Saraceni. — 116.     Em Colle, onde os senenses foram derrotados pelo florentinos.     Sápia rejubilou-se disso, pois era inimiga do senhor de Siena,     Provenzano Salvani. — 127. Pedro Pettinanho, morto em fama     de santidade. — 151-154. A gente insana, os senenses. Tendo     eles comprado Telamone, queriam transformar essa cidade em     porto de mar, mas não foi possível devido à insalubridade     do     clima. Não tiveram êxito também na descoberta de um rio     subterrâneo que devia passar debaixo de Siena e que chamaram     Diana. Mais do que outros serão enganados os almirantes.

    366

    CANTO XIV

Dante conversa com outras almas de invejosos. Respondendo o     Poeta a uma pergunta de Rinieri de Calboli, intervém Guido del     Duca, imprecando contra as cidades de Toscana e lamentando,     depois, a degeneração das famílias nobres de Romanha.     Os     Poetas ouvem vozes que lembram episódios nos quais o pecado     da inveja foi castigado.

“ESTE quem é ao nosso monte vindo,     Sem ter-lhe a morte as asas desatado,     3 Os olhos, quando quer, fechando e abrindo?” —

— “Ignoro; mas vem de outro acompanhado.     Tu, que és mais perto, a perguntar começa,     6 E, para nos falar, mostra-lhe agrado.” —

De dois esp’ritos junto se endereça     A mim desta arte a voz: stão-me a direita,     9 Cada um para trás alça a cabeça.

— “Ó alma” — disse-me uma — “que,     na estreita     Prisão corpórea ainda, aos céus ascende,     12 Dá-nos consolo, à caridade afeita.

“Quem és e donde vens? Porque nos prende     Pasmo notando a Graça, que te ampara,

    367

15 Portento que ninguém viu, nem compreende.”     —

Tornei-lhe: — “Na Toscana se depara     Rio, que brota em Falterona escasso     18 E nunca, milhas cem correndo, pára:

“Este corpo dali conduzo lasso.     Dizer quem sou discurso vão seria:     21 Meu nome inda não soa em largo espaço.” —

— “Se bem te entendo” — assim me respondia     A sombra, que antes de outra eu tinha ouvido — 24 “Ao Arno o dizer teu se referia.” —

— “Por que” — lhe atalha a outra — “ele     escondido     Nos tem do rio o nome verdadeiro?     27 Cousa horrível se encerra em seu sentido?” —

Disse-lhe a sombra, que falou primeiro: — “Não sei; mas fora bem feliz o instante,     30 Em que o nome pereça ao vale inteiro:

“Dês que nasce lá onde é redundante     De águas a serra que o Peloro unira,     33 Noutras partes, porém, pouco abundante,

“Até que o mar do seu tributo aufira     Reparo ao que no seio o céu lhe suga,

368

36 E vida assim pra novos rios tira,

“Todos ali virtude hão posto em fuga,     Qual víbora inimiga, ou por efeito     39 Do clima, ou por moral, que o bem refuga.

“Natureza por vícios se há desfeito     Na gente desse vale impuro,     42 Como de Circe apascentada a jeito.

“Cava o rio primeiro o leito escuro     Entre porcos mais di’nos de bolota     45 Do que de cibo, em que haja humano apuro.

“Baixando, acha de gozos mó abjeta,     Em que o furor à força não se iguala,     48 E, como por desdém, busca outra meta.

“Essa maldita e desgraçada vala     Tantos mais cães em lobos vê tornados     51 Quanto mais corre e mais caudal resvala.

“Imerge em princípios mais rasgados,     Onde encontra raposas tão manhosas,     54 Que os laços mais sutis ficam frustrados.

“Do porvir direi cousas espantosas,     E quem me ouvir conserve na lembrança     57 Verdades que há de ver bem dolorosas.

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“Teu neto os lobos a caçar se lança     Desse rio maldito sobre a riva:     60 Enquanto os não destroça não descansa.

“A carne sua vende, estando viva,     Como reses depois mata-os cruento;     63 Muitos da vida e a si da glória priva.

“Da triste selva sai sanguinolento     E a deixa, tal que ainda após mil anos     66 Tornar não há de ao primitivo assento.” —

Como, ao presságio de futuros danos,     Merencório se mostra o interessado,     69 Onde quer que a fortuna urda os enganos;

Assim o outro espírito: voltado     Para escutar se havendo, se entristece,     72 Depois que teve o sócio terminado.

Como saber seus nomes eu quisesse,     Ouvindo aquele, ao outro o gesto vendo,     75 A pergunta entre rogos se oferece.

O que falara respondeu dizendo: “Pedes que eu, pronto, quanto anelas faça,     78 A instância minha em pouco apreço tendo.

“Mas como em ti de Deus transluz a Graça,     Não te há de ser Guido del Duca esquivo

370

81 Tanto, que o teu querer não satisfaça.

“Da inveja o fogo ardeu em mim tão vivo,     Que ao ver sorriso de outrem no semblante,     84 Em meu rosto o libor era expressivo.

“Semeei: colho o fruto repugnante.     Oh! por que, raça humana, o que repele     87 Qualquer partilha almejas ofegante?

“Este foi Rinieri: estava nele     Dos Calboli o primor: ao nome honrado     90 Herdeiro não deixou que a glória zele.

“Não só à prole sua tem faltado,     Entre o Pó e a montanha, o mar e o Reno     93 O bem para a verdade e o prazer dado;

“Pela extensa amplidão desse terreno     Alastram tudo abrolhos perigosos:     96 Quando extirpar se pode um tal veneno?

“Onde Mainardi e Lizio estão famosos?     Qual de Carpigna e Traversaro o fado?     99 Ó Romanhóis bastardos desbriosos!

“Quando um Fabro se tem nobilitado,     Como em Faenza um Fosco Bernardino,     102 Varas gentis de tronco definhado!

371

“O pranto meu não julgues pouco di’no,     Se com Guido de Prata rememoro     105 O companheiro nosso, Azzo Ugolino;

“Se Fred’rico Tignoso e a prole choro;     Solares de Anastagi e Traversara,     108 Sem herdeiros extintos, se eu deploro,

“Cavaleiros e damas, glória rara,     Que inspiravam amor e cortesia     111 Na terra, que a virtude desampara!

“Cai em ruínas, Brettinoro ímpia!     Em ti viver tua gente não quisera;     114 Com mais outras, temendo o mal, fugia.

“Bem faz Bagnacaval: prole não gera,     Castrocaro faz mal e pior Cônio     117 Que a tais condes da vida o lume dera.

“Os Pagani irão bem, quando o Demônio     Deixá-los; mais não podem nome puro     120 Já nunca possuir no solo ausônio.”

Ugolin Fantolin, ficou seguro     Da fama tua o lustre; pois já agora     123 Não terás filhos pra torná-lo escuro.

“Podes, Toscano, prosseguir embora:     Pranto, mais que discursos, me deleita;

372

126 Lembrando a pátria, o coração me chora.” —

O passo as almas na vereda estreita     Ouviam-nos, silêncio elas guardando.     129 Era a jornada com certeza feita.

Já ficaríamos sós, avante andando,     Eis brada voz nos ares de repente;     132 Veloz, qual raio, vinha a nós chamando:

— “Quem me encontrar me mate incontinênti” — E fugiu qual trovão que distancia     135 Se o vento a nuvem rasga de repente.

O terrível clamor cessado havia,     Com medonho fracasso eis outra brada,     138 Como um trovão que a outro sucedia:

— “Aglauro sou, em rocha transformada” — E a Virgílio acercar-me então querendo,     141 Dei, não avante, um passo atrás na estrada.

Tranqüilo o ar por toda parte vendo, — “Este é” — falou-me o Mestre — “o     duro freio,     144 Que os homens deve estar sempre contendo:

“Mas vós mordeis a isca em triste enleio     E o prístino inimigo do anzol tira:     147 De conter ou pungir que vale o meio?

373

“O céu vos chama, em torno de vós gira,     Esplendores eternos vos mostrando;     Mas a vista, enlevada, a terra mira,

151 “E quem vê tudo então vai castigando.” —

17. Rio que brota em Falterona, o Arno. — 32. Peloro,     promontório siciliano. — 42. Circe, sereia que transformava os     homens em animais. — 58. Teu neto, Fulcieri de Calboli, neto de     Rinieri, que foi “podestà” de Florença perseguiu     o partido dos     Bancos, ao qual Dante pertencia. — 80. Guido del Duca, senhor     de Bertinoro, na Romanha. — 88. Rinieri dei Paolucci, senhor de     Calboli. — 97 e seg. Mainardi e Lizio, Carpigna e Troversaro,     Fabbro, Fosco Bernardino, Guido de Prata, Azzo Ugolino,     Frederico Tignoso, Anastagi e Traversara, senhores e famílias da     Romanha notáveis por cortesia e generosidade. — 115-117.     Bagnacaval, Castrocaro, Cônio, cidades da Romanha cujos     senhores eram maus. — 118. Pagani, nobre família de Faenza,     da qual fazia parte Mainardo (Inf. XXVI, 49-51) alcunhado o     demônio pelas suas crueldades. — 121. Ugolin Fantolin, gentil- homem de Faenza. — 133. Quem me encontrar me mate     incontinênti, palavras pronunciadas por Caim depois de ter     assassinado o irmão Abel. — 139. Aglauro, filha de Eretero rei     de Atenas, foi transformada em pedra por Mercúrio, por ter     inveja da irmã Erse que era amada pelo deus.

    374

    CANTO XV

Caindo a noite, os dois Poetas chegam ao terceiro compartimento.     Aí Dante, em êxtase, vê exemplos de mansuetude e misericórdia.     Voltando a si, encontra-se imerso num fumo que obscurece o ar e     impede a visão.

QUANTO caminho faz da tércia hora,     No giro seu, a luminosa esfera,     3 — Sempre a mover-se qual criança — à aurora,

Tanto, para acabar o curso, espera     O sol, e para dar à tarde entrada:     6 Lá vésperas, aqui meia-noite era.

De luz me estava a face então banhada;     Porque, em torno à montanha prosseguindo,     9 Do ocaso em direção ia a jornada,

Quando, mais vivo resplendor fulgindo,     Ofuscado fiquei mais do que dantes:     12 Desse portento a ação pasmei sentindo.

Acima de meus olhos, por instantes,     As mãos alcei — sombreiro, que antepara     15 O mor excesso aos raios deslumbrantes.

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Assim como de espelho ou linfa clara     Ressalta a luz de encontro à oposta parte,     18 Subindo logo após, como baixara;

Da linha vertical não se disparte,     Uma distância igual sempre mantendo,     21 Como nos mostra experiência e arte:

Em frente à luz, assim, se refrangendo,     Tão penetrante a vista me feria,     24 Que a dirigi a um lado, olhos volvendo.

“Qual é” — ao Mestre amado então dizia — Aquele objeto, que me ofusca tanto     27 E ao nosso encontro, ao parecer, se envia?” —

— “Que inda te ofusque não te mova espanto     A celeste família” — me há tornado: — 30 “Falar-te vem um mensageiro santo.

“A veres com delícia aparelhado     Serás em breve um lume refulgente,     33 Quanto ser pode ao ente humano dado.” —

Acercados ao anjo, alegremente     Nos disse: — “Aqui passai, menos penosa     36 Subida nesta escada está patente.”

Andando, atrás cantar em voz donosa     Beati Misericordes nós ouvimos

376

39 E “Exulta na vitória gloriosa”,

Para cima, portanto, nós subimos;     E eu das vozes do Vate cogitava     42 Colher proveito, enquanto sós nos imos.

E, me voltando, assim lhe perguntava: “O que Guido del Duca nos dizia,     45 Quando em bens não partíveis nos falava?” —

— “Do seu vício pior” — tornou — “sabia     Os danos; não se estranhe, se o acusando,     48 Do mal que fazer possa prevenia;

“Porque, do mundo os bens vós desejando,     A que partilha todo o apreço tira,     51 Arde a inveja, suspiros provocando.

Mas, se a esfera imortal vossa alma aspira,     Levantando-se o anelo àquela altura,     54 Esse temor no peito voz expira.

“Tanto mais lá cad’um goza ventura,     Quanto por muitos ela mais se estende,     57 Quanto mais caridade lá se apura.” —

— “O entendimento” — eu digo — “ora     compreende     Menos do que antes de eu te haver falado;     60 À mente ora mor dúvida descende.

377

“Como um bem, que é de muitos partilhado,     A cada possessor dá mais riqueza     63 Do que se a posse fora apropriado?” —

— “Teu spírito” — replica — “na     rudeza     Das cousas terreais stando imergido,     66 Vê trevas onde a luz tem mais clareza,

“Esse inefável bem, no céu fruído,     Infindo, para o amor, correndo desce,     69 Qual raio a corpo lúcido e polido.

“Se ardor acha mais vivo, mais se of’rece;     Quanto mais caridade está fulgindo,     72 Virtude eterna mais sobre ela cresce.

“Quanto mais vai a multidão subindo,     Mais amar podem, mais a amor se aplicam,     75 Bem como espelho, um no outro refletindo.

“Se persistindo as dúvidas te ficam,     Hás de ver Beatriz: da sábia mente     78 Razão escutarás, que tudo explicam.

“Para apagares, pois, sê diligente.     As chagas cinco, que inda em ti stou vendo:     81 Há de cerrá-las contrição pungente.”     —

Quando eu ia dizer — Mestre, compreendo —

378

No círculo eis penetro imediato:     84 Calei-me, a vista alucinada tendo.

Julgava então, de uma visão no rapto,     Extático, que em templo se mostrava     87 Multidão grande, de oração no ato.

Com piedoso semblante, à entrada estava     Meiga matrona. — “Ó filho meu querido,     90 Por que assim procedeste?” — interrogava.

“Eu e teu pai, com ânimo dorido,     Te buscamos.” — E como se calara,     93 Logo a visão fugiu-me do sentido.

Depois de outra no rosto se depara     Pranto acerbo, que mágoas anuncia     96 De quem de ira no incêndio se inflamara.

“Se mandas na cidade” — assim dizia —     “Por cujo nome os deuses contenderam     99 E onde a luz da ciência se irradia,

“Pune os braços, que ímpios, se atreveram,     Pisístrato, a estreitar a filha tua!” — 102 Ele, a quem vozes tais não comoveram,

Tranqüilo respondia à esposa sua: “O que faremos a quem mal nos queira,     105 Se ira ao amor corresponder tão crua?”

379

    Vi depois multidão, que a raiva aceira:     A pedradas mancebo assassinava,     108 Bradando — morra! morra! — carniceira.

A dolorida fronte debruçava,     Já mal ferido, o mártir para a terra:     111 Portas ao céu os olhos seus tornava,

Pedindo a Deus, naquela horrível guerra,     Que aos seus perseguidores perdoasse:     114 Riso piedoso os olhos lhe descerra.

Quando em minha alma o êxtase desfaz-se,     Conheci que no sonho aparecia,     117 Não da ficção mas da verdade a face.

Virgílio, a quem talvez eu parecia     Homem, que o sono deixa de repente,     120 — “Por que estás vacilante?” — me inquiria.

“Tens meia légua andado certamente     Com titubante pé, de olhos caídos,     123 Como quem desse ao vinho ou sono a mente.”     —

— “Vou expor, meu bom mestre, aos teus     ouvidos” — Tornei — “quanto os meus olhos contemplaram,     126 Quando os joelhos tinha enfraquecidos.”

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— “Se másc’ras cento a face te ocultaram” — Disse Virgílio — “ocultos não seriam     129 Pensamentos, que, há pouco, te enlevaram.

“As imagens, que hás visto, te induziam     Águas da paz a receber no peito,     132 Que as fontes perenais dos céus enviam.

“Não perguntara, como quem de feito     Somente vê por olhos, obcecados     135 Quando o corpo da morte jaz no leito;

“Mas por serem teus pés mais apressados:     Excitar assim cumpre os preguiçosos,     138 Que se esquivam à ação stando acordados.” —

Nas horas vespertinas pressurosos     Andávamos, os olhos alongando,     141 Do sol cadente aos raios luminosos,

Eis pouco a pouco, um fumo se elevando.     Se condensa ante nós, qual noite, escuro;     Abrigo ali de todo nos faltando,

145 A vista nos tolheu, tolhendo o ar puro.

1-5. Quanto caminho etc., faltavam três horas para o ocaso, pois     o Poeta nota que deveria transcorrer tanto tempo para o pôr do     sol quanto transcorre entre o princípio do dia até a hora terça.

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— 6. Lá vésperas etc., no Purgatório faltavam     três horas para o     ocaso, eram vésperas; na Itália era meia-noite. — 16-21.     Assim     como etc., o poeta descreve o refletir-se da luz que bate sobre     um espelho ou na água, no qual o ângulo de refração     é igual ao     ângulo de incidência. — 38. Beati misericordes, Evang. S.     Mateus V, 7. — 80. As chagas cinco, os cinco PP, que ainda     Dante tem na testa. — 89. Meiga matrona, Maria Virgem, a qual     tendo perdido o seu filho, encontrando-o depois de três dias, o     repreende com mansuetude. — 94. De outra etc., a mulher de     Pisístrato, príncipe de Atenas, pediu ao marido vingança     contra     um jovem que beijara publicamente a sua filha. — 107. A     pedrada mancebo assassinava, Santo Estevão que foi     apedrejado pela multidão.

    382

    CANTO XVI

Sempre ao lado de Virgílio, Dante continua a viagem. Denso fumo     envolve os iracundos. Entre eles está Marco Lombardo, o qual     lamenta os tempos, que eram bons e agora ficaram maus. Dante     pergunta de que depende essa mutação, e Marco responde que a     corrupção dos tempos novos procede do mau governo do mundo e     especialmente da confusão entre o poder espiritual e o poder     temporal.

SOMBRA de inferno e noite carregada,     Em que o céu de um só astro não se aclara,     3 De nuvens, quanto o pode ser, toldada,

Véu tão grosso ao meu rosto não lançara,     Nem, ao contacto, fora tão pungente,     6 Como o fumo, que ali nos rodeara.

Fechados tinha os olhos totalmente:     Fiel o sábio sócio, me acudindo,     9 Deu-me em seu ombro arrimo diligente.

Qual cego, que ao seu guia vai seguindo     Por se não transviar, correr perigo,     12 Ou sofrer morte, de encontrão caindo,

Tal eu por aquele ar escuro sigo,

383

Atento ao Mestre meu, que repetia:     15 — “Cuidado! Não te afastes! Vem comigo!” —

Então vozes ouvi; me parecia,     Que paz, misericórdia suplicavam     18 Ao Cordeiro, que as culpas alivia.

Por Agnus Dei suaves começavam,     A letra era uma só como a toada,     21 Consonância entre si todas as guardavam.

— “Por quem esta oração, que ouço, é     cantada?”     — Perguntei. Disse o Mestre: — “É bom que o     aprendas:     24 Assim da ira a culpa é mitigada.” —

— “Quem és para que a névoa nossa fendas     E assim fales, qual viva criatura,     27 Que inda o tempo calcula por calendas?” —

Disse uma voz do fundo na negrura.     E Virgílio falou: — “Responde e exora     30 Se por aqui se sobe para a altura.” —

— “Ó alma, que” — disse eu — “a     graça implora     De ir a Quem te criou mais pura e bela,     33 Maravilha ouvirás, segue-me embora.” —

— “Até onde for dado” — tornou-me ela —

384

“Irei, e, se te ver não deixa o fumo,     36 Nos tornará propínquos a loquela.” —

— “Nas mantilhas, que a morte acaba, ao sumo     Assento” — comecei — “ora me alteio,     39 Do inferno tendo vindo pelo rumo.

“Se Deus permite, de bondade cheio,     Que a dita eu goze de lhe ver a corte     42 Por este, hoje de todo estranho, meio,

“Revela-me quem foste antes da morte     E qual nos deva ser a melhor via:     45 Guiarás nossos passos desta sorte.” —

— “Fui Lombardo e de Marco o nome havia;     O mundo exp’rimentei, feitos amando,     48 Pelos quais ninguém mais hoje porfia.

A subir bom caminho vais trilhando.” — Falou-me assim e acrescentou: — “E rogo     51 Intercedas por mim, ao céu chegando.” —

— “Quanto me pedes” — lhe replico logo —     “Juro fazer, mas acho-me oprimido     54 Por dúvida a que anelo desafogo.

“Era simples; te ouvindo, tem subido     A duplo grau, e assim me torna certo     57 Do que hei aqui e noutra parte ouvido.

385

“O mundo de virtude está deserto;     Tens sobeja razão, quando o lamentas,     60 Impa de mal, de vícios é coberto.

Dize-me a causa, se na causa atentas?     Sabendo-a, aos outros revelá-la quero;     63 Virá do céu ou lá na terra a assentas?”

Suspiro em que se exprime dó sincero     Com hui, do peito exala. — “Irmão — prossegue — 66 Que o mundo é cego em ti bem considero.

“Vós, os vivos, julgais o céu entregue     De toda causa, a tudo assim movendo     69 Por necessária lei, que o mundo segue.

“Desta arte o livre arbítrio fenecendo,     Ao homem não coubera o que merece,     72 No bem prazer, no mal dor recebendo.

“Primeira inspiração aos atos desce     Do alto; a todos não; mas quando o diga,     75 No mal, no bem a luz não vos falece.

“Livre sendo o querer, quem se afadiga     E a primeira vitória do céu goza,     78 Vencerá tudo, se em querer prossiga.

386

“Natureza melhor, mais poderosa     Vos sujeita — a que cria e vos concede     81 Mente, que ao céu não prende-se humildosa.

“Se a causa, que do bom caminho arrede     O mundo em vós a tendes persistente;     84 Explorarei, fiel, o que sucede.

“Alma surge das mãos do Onipotente     Que, inda antes de nascida, lhe sorria     87 Qual menina, que ri, chora, inocente.

“Ingênua e simples, ela só sabia     De um Deus beni’no ser meiga feitura,     90 E a tudo, que a deleita, se volvia.

“Dos mais frívolos bens prende-a a doçura,     E, deles namorada, após lhes corre,     93 Se guia ou freio o amor lhe não segura.

“Nas leis consiste o freio, que a socorre;     Rei foi mister, que, ao menos, acertasse     96 Da cidade de Deus em ver a torre.

“Leis há, mas não quem leis executasse;     Rumina esse pastor que os mais precede,     99 Mas a unha fendida não lhe nasce.

“E vendo a grei que o próprio guia a excede     Em almejar os bens que mais deseja,

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102 Nestes se engolfa e mais nem quer nem pede.

“Portanto, porque mau governo veja,     Fica o mundo de culpas inquinado,     105 Não porque em vós a corrupção esteja.

“Bens sobre o mundo havendo derramado,     Tinha Roma dois sóis, que alumiaram     108 O caminho de Deus e o do Estado.

“Um ao outro apagou, e se ajuntaram     Do Bispo o bago e do guerreiro a espada:     111 Por viva força unidos, mal andaram.

“Não mais se temem na junção forçada:     Vê a espiga que prova estes efeitos;     114 Pela semente é a planta avaliada.

“Valor e cortesia altos proveitos     Deram na terra que Ádige e Pó lavam,     117 Antes que visse de Fred’rico os feitos.

“Por ali os que outrora se pejavam     De entrar dos bons na prática e na liga,     120 Livres passam do quanto receavam.

“Só três velhos opõe a idade antiga,     Como censura, à nova: é-lhe já tardo     123 Que Deus os chame dessa terra imiga:

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“Conrado de Palazzo, o bom Gherardo     E Guido de Castel, que foi chamado,     126 Ao estilo francês simples Lombardo.

“De Roma a Igreja fique proclamado,     Cai no ceno os poderes confundido,     129 Se enloda a si e o fardo seu pesado.”

— “Tuas sábias razões, Marcos, ouvindo,     Vejo” — disse — “por que a Lei da herança     132 Partiu, de Levi os filhos excluindo.

“Mas qual Gherardo trazes à lembrança,     Como glória e brasão da antiga gente,     135 Que censura a este séc’lo impuro lança?” —

— “Queres” — tornou — “tentar-me ou     certamente     Iludir-me? Em toscano me falando     138 Do bom Gherardo dizes-te insciente?

“Sobrenome de todo lhe ignorando,     Dou-lhe o de Gaia, sua filha cara.     141 Guarde-vos Deus, que eu vou-me, vos     deixando.

“Do fumo a densidão se torna rara,     Branqueja o dia: devo já partir-me,     Que a apresentar-se o anjo se prepara.” —

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    145 Assim falando, mais não quis ouvir-me.

19. Agnus dei, Jesus símbolo de mansuetude, virtude contrária     ao vício da ira. — 27. Calendas, uma das três partes em     que o     mês era dividido pelos romanos. — 46. Fui Lombardo e de Marco     o nome havia, Marco de Veneza, chamado o Lombardo, homem     sábio e prudente. — 98. Rumina esse pastor etc. A imagem     deriva da lei mosaica pela qual se proibia se comessem os     animais não ruminantes e que não tivessem a unha partida. O     ruminar exprime a sabedoria, a unha partida a ação. —      116. Na     terra etc., a Lombardia e o Marca Trevisana. — 117. De     Frederico os feitos, as guerras entre os papas e Frederico II da     Suábia. — 124-25. Conrado de Palazzo, da Brescia; Gherardo de     Camino; e Guido de Castello, de Reggio — 131-132. Lei da     herança etc., segundo a lei mosaica os descendentes de Levi,     isto é, os levitas (os sacerdotes) não podiam possuir bens     temporais.

    390

    CANTO XVII

Saindo do denso fumo, Dante, novamente em êxtase, vê exemplos     de ira punida. Tornando a si, vê um anjo que está perto da     escada do quarto compartimento. Os dois Poetas continuam a     subir. Sobrevindo, porém, a noite, param e Virgílio explica     ao     discípulo que o amor é o princípio de todas as virtudes     e de todos     os vícios.

LEITOR, se lá na alpina cordilheira     Te colheu névoa, que de ver tolhia,     3 Como se olhos tivemos de toupeira,

Lembra que, quando a úmida e sombria     Cortina a delgaçar começa, a esfera     6 Do sol escassa luz ao ar envia.

E mal tua mente imaginar pudera     Como de novo à vista se mostrava     9 O sol, que ao seu poente descendera.

Ao lume, que nos planos se finava,     Do Mestre os passos fido acompanhando     12 Saí da cerração, que me cercava.

Fantasia que, o espírito enlevando,     Tanto o homem dominas, que não sente

    391

15 Clangor de tubas mil, juntas soando,

O que te move, estando o siso ausente?     Luz que desce por si, no céu formada,     18 Ou por querer do céu onipotente.

Cuidei súbito ver a que mudada,     Dos crimes seus em pena, foi nessa ave,     21 Que em trinar mais se mostra deleitada.

Tanto minha alma, na visão suave,     Extática ficou, que não sentia     24 Outra impressão qualquer que a prenda e     trave.

Naquele êxtase logo após eu via     Em cruz um homem de feroz semblante:     27 Nem a morte a arrogância lhe abatia:

Stava o grande Assuero não distante,     Ester, a esposa e Mardoqueu prudente,     30 Justo nos feitos, no dizer prestante.

E fugiu-me esta imagem prontamente,     Como a bolha, que de água se formara     33 E à falta de água esvai-se de repente.

Donzela eis na visão se me depara     Que em prantos exclamava: — “Ó mãe querida     36 Por que tomaste irosa a morte amara?

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“Perdes, por não perder Lavínia, a vida     E perdida me tens: teu fim deplora,     39 Mas não o de outro, a filha dolorida.” —

Como se rompe o sono, se de fora     Luz repentina às pálpebras nos desce;     42 Não morre logo, em luta se demora:

Minha visão assim se desvanece,     Quando as faces clarão tão vivo lava,     45 Que na terra outro igual nunca esclarece.

Volvi-me para ver onde me achava;     Mas, ouvindo uma voz — “Sobe esta escada” — 48 De qualquer outro intento me apartava.

Por saber quem falara foi tomada     Minha alma de um desejo tão veemente,     51 Que fora, se o não viesse, conturbada.

Como ao sol, que deslumbra em dia ardente,     Sendo-lhe véu seu lume flamejante,     54 Senti perdida a força incontinênti.

— “Espírito é celeste: vigilante     Sem rogos, o caminho nos indica:     57 O próprio brilho esconde-o fulgurante.

“Como o homem consigo, assim pratica;

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Quem, mal extremo vendo, só rogado     60 Acode, esquivo ser já significa.

“A tal convite o pé seja apressado!     Antes da noite rápidos subamos;     63 Depois somente quando o sol for nado.” —

Disse o meu Guia; e logo encaminhamos     Os passos, de uma escada em direitura.     66 Ao primeiro degrau quando chegamos

Mover de asas ao perto se afigura,     Bafejo sinto; e ouço: — “É venturoso     69 Quem ama a paz, isento de ira impura!” —

No alto já do céu o luminoso     Rasto, da noite precursor, surgira,     72 De astros assoma o exército formoso.

— “Ai de mim! Por que a força minha expira?” Disse, entre mim, sentindo que, esgotada,     75 Súbito às pernas o vigor fugira.

Tendo alcançado o topo já da escada,     Imóveis nos quedamos, imitando     78 A nau, que aferra a praia desejada.

A escutar stive um pouco, interrogando     Daquele novo círc’lo algum sonido;     81 Depois ao Mestre me voltei falando:

394

— “No lugar em que estamos, pai querido,     Que pecado recebe a pena sua?     84 Parando os pés, teu verbo seja ouvido.”

Tornou-me: — “Se do bem o amor recua     No seu dever, aqui se retempera;     87 Sobre o remisso a expiação atua.

“Por melhor compreenderes, considera     No que digo: a detença, porventura,     90 Dará o fruto, que tua mente espera.

“Ao Criador, meu filho, e à criatura     Nunca falece amor — tens já sabido — 93 Ou venha da alma ou venha da natura.

“O amor natural de erro é despido;     Pode pecar o outro pelo objeto,     96 Por nímio ardor, por star arrefecido.

“Quando aos bens principais ele é direto     E nos bens secundários moderado,     99 Causar não pode criminoso afeto.

“Se ao mal, porém, se torce ou, desregrado,     De menos ou de mais ao bem se move,     102 Ofende ao Criador quem foi criado.

“Tens, pois, o necessário, que te prove

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Que amor em vós semente é de virtude,     105 Como é dos feitos, que o céu mais reprove.

“E como o amor o bem somente estude     Do seu sujeito, quando o amor domina,     108 Não pode ser que em ódio a si se mude.

“E porque nenhum ente se imagina     Sem ter no que criou a causa sua,     111 Ódio em nenhum contra este se origina:

“Contra o próximo é, pois, que se insinua     Do mal o amor, pecaminoso.     114 No humano limo em modos três atua.

“Qual, da grandeza, e glória cobiçoso,     As espera em ruína de outro, e anela     117 Vê-lo em terra prostrado e desditoso;

“Qual, temor de perder, triste, revela     Valia, honra e poder, se outro os partilha     120 E em querer-lhe o contrário se desvela;

“Mágoa sentindo de uma injúria filha,     Qual porfia em vingar-se, e, de ira ardendo,     123 De mal fazer os meios esmerilha.

“Do mal este amor tríplice nascendo,     Lá embaixo se expia; mas atende     126 Ao que vai desregrado, ao bem correndo.

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“Confusamente cada qual se acende     Por certo bem e sôfrego o deseja:     129 Por ter-lhe a posse, afana-se e contende.

“O que do bem no amor inerte seja     Depois que do pesar sofrerá agrura,     132 É justo que em martírio aqui se veja.

“Há outro bem; não dá, porém, ventura.     Felicidade não é, não é a essência     135 De todo o bem, o fruto, a raiz pura.

“O amor, que a tal bem vota a existência,     Acima em círc’los três há seu tormento:     Por que assim se divide, a inteligência,

139 Sem te eu dizer, dar-te-á conhecimento.” —

20. Nessa ave etc., Filomena, por vingar-se de ter sido ultrajada     por Teseu, deu-lhe de comer os próprios filhos e foi por isso     transformada pelos deuses em rouxinol. — 26. Em cruz um     homem etc. Aman, ministro do rei Assuero, foi crucificado na     cruz que ele havia mandado levantar para o inocente     Mardoqueu (Ester II, 5). — 34. Donzela, Lavínia, filha do rei     Latino e da rainha Amata. — 37-39. Perdes etc., A rainha     Amata supondo que Turno, noivo de Lavínia, tivesse sido morto     por Enéias, suicidou-se.

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    CANTO XVIII

Virgílio continua a falar sobre o amor. No entanto as almas dos     preguiçosos vão passando diante dos Poetas, lembrando     exemplos da virtude contrária à preguiça, e, depois,     de punição     da preguiça. Uma das almas dá-se a conhecer a Dante. É     o     abade de S. Zeno, em Verona. Dante cai em profundo sono.

PALAVRAS tais já proferido havia     O Vate excelso e, atento, me observava     3 Por ver se eu satisfeito parecia;

E eu, em maior sede me inflamava,     Calando-me, entre mim dizia: “O excesso,     6 Que nas perguntas há, talvez o agrava.” —

Mas o sincero pai, sempre indefeso,     Meu silêncio notando e o que o motiva     9 Logo animou-me a lho fazer expresso.

— “Minha vista” — falei — “tanto se aviva     À luz do verbo teu, Mestre, que ao claro     12 Vejo o que da razão tua deriva.

— “Rogo-te, pois, ó pai beni’no e caro,     Me ensines esse amor, de que descende     15 Todo o mal, todo o bem ao mundo ignaro.” —

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— “Volve a mim” — disse — “a luz, que     mais se     acende     No espírito e há de ser-te bem patente     18 Quanto erra o cego que guiar pretende.

“Alma criada para amar ardente,     A tudo corre, que lhe dá contento,     21 Se despertada do prazer se sente.

“Do que é real o vosso entendimento     Colhe imagens que em modo tal desprega,     24 Que alma pra elas sente atraimento.

“Se alma, enlevada, ao seu pendor se entrega,     Esse efeito é amor, própria natura,     27 Em que o prazer novo liame emprega.

“E, como o fogo se ala para a altura     Por sua forma, que a elevar-se tende     30 Ao foco, onde o elemento seu mais dura,

Assim pelo desejo a alma se acende,     Ação esp’ritual que não se aquieta,     33 Se não consegue a posse, que pretende.

“Vê, pois, que da verdade excede a meta     Quem acredita e aos outros assevera     36 Que todo o amor de si é cousa reta.

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“Em gênero talvez se considera     O amor sempre bom; mas todo selo     39 É bom, inda que seja boa a cera?

— “Se, te ouvindo” — tornei — “com mor     desvelo     Do que ser pode o amor fico inteirado,     42 Dúvidas hei, que esclarecer anelo.

“Pois que amor é de fora derivado,     Pois que a alma de outra sorte não procede,     45 No bem, no mal o mérito é frustrado.” —

— “Dizer-te posso o que a razão concede” — Tornou — “do mais a Beatriz somente,     48 Por ser ato de fé, solução pede.

“Forma substancial, não depende     Da matéria, porém com ela unida,     51 Specífica virtude tem latente.

“Só, quando atua, pode ser sentida;     Denúncia do que seja dá no efeito,     54 Como em planta a verdura indica a vida.

“Das primeiras noções onde o conceito     Nasceu? Donde apetites vêm primeiros,     57 A que o homem no mundo está sujeito?

“Como o instinto do mel na abelha, inteiros     Em vós estão, louvor não merecendo,

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60 Nem censura também, ínscios obreiros.

“Tudo desses pendores dependendo,     Inata a faculdade é que aconselha,     63 A porta do consenso em guarda tendo.

“Em tal princípio a causa se aparelha,     De que procede em vós merecimento:     66 Repele o mau amor, no bom se espelha.

“Os sábios, estudando o fundamento     Das cousas, vendo inata a liberdade,     69 Da moral vos tem dado o ensinamento.

“E, supondo que por necessidade     Nascesse todo o amor, que vos incende,     72 Tendes para contê-lo potestade.

“Nobre virtude ser Beatriz entende     O livre arbítrio; e, quando lhe falares,     75 A isto mesma a memória atento prende.” —

Como alcanzia a flamejar nos ares,     A lua à meia-noite, já tardia,     78 Escurecia os outros luminares;

E, contra o céu, caminho percorria,     Por onde o sol vai pôr-se, quando a Roma,     81 Entre Sardenha e Córsega, alumia.

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Havia a sombra ilustre, por quem toma     A fama Ande à cidade mantuana,     84 Do peso meu aliviado a soma:

Quando eu, que explicação lúcida e plana     Sobre as minhas questões tinha alcançado,     87 Sinto que a mente sonolência empana.

Desse quebranto súbito arrancado     Por turba fui, que, após se encaminhando,     90 A nós vinha com passo acelerado.

E como o Ismeno e Asopo, outrora, em bando,     Correr viam Tebanos ofegantes,     93 Por noite Baco em alta voz cantando,

A multidão, assim, dos caminhantes,     De bom querer e justo amor tocados     96 Pelo círc’lo apressavam-se anelantes.

E, pois, tinham-se em breve apropinquado;     Na carreira chorando afadigosa,     99 Assim gritavam dois mais avançados:

— “Maria corre ao monte pressurosa;     César rende Marselha, e contra Ilerda     102 Rápido voa à Espanha revoltosa. —

— “Pressa; pressa! De tempo já sem perda!     Pouco zelo não haja!” — outros clamaram —

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105 “Não refloresce a Graça nalma lerda!” —

— “Vós, em que tais fervores se deparam,     Que talvez negligência ides remindo     108 Dos tempos, que no bem não se empregaram,

“Dizei a um vivo (estais verdade ouvindo),     Que partir-se pretende à nova aurora.     111 Se é perto a entrada, donde vá subindo.”

A voz do Mestre meu desta arte exora.     Dos espíritos um lhe respondia:     114 — “Vem conosco: não longe ela demora.

“Anelo de ir avante nos desvia     De detença: perdoa, por bondade,     117 Se há, cumprindo um dever, descortesia.

“De S. Zeno em Verona fui abade     De Barba-roxa, o bom, sob o reinado     120 De quem Milão se lembra sem saudade.

“Alguém que à sepultura está curvado     Há de em breve chorar esse mosteiro     123 E o poder, com que o tinha dominado;

“Pois, em dano ao pastor seu verdadeiro,     Ao filho mal nascido, o cometera,     126 No corpo horrendo, na maldade useiro.”

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Não sei se inda falou, se emudecera,     De nós já velozmente se alongara,     129 Mas ouvi-lo e notá-lo me aprazara.

Então disse-me quem me guia e ampara: — “Volve-te, atenta nestes dois: correndo     132 Nos lentos mordem com censura amara.” —

— “Avante!” — os dois no couce vêm dizendo      — Os que se abrir o mar viram, morreram,     135 A herança do Jordão não recebendo,

“E os que o filho de Anquises não quiseram     Seguir até seu fim nas árdua jornada     138 Fama e glória por gosto seu perderam.” —

Depois, daquela grei stando afastada     Tanto, que eu divisá-la não podia,     141 De nova idéia a mente foi tomada,

Outras surgindo após de romaria;     E tanto de uma em outra vagueava.     Que pouco a pouco o sono me invadia,

145 E o pensamento em sonho se mudava.

76. Alcanzia, bola de barro. — 77. A lua a meia noite, etc., a lua     que demorava a surgir até quase meia-noite, com o seu fulgor     escurecia as outras estrelas. — 79. E contra o céu etc., corria     de     ponente para o levante por aquele caminho do Zodíaco no qual

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está o sol quando o habitante de Roma o vê descer entre a     Sardenha e a Córsega. — 83. Ande (depois Pietola) aldeia perto     de Mântua, na qual Virgílio nasceu. — 91. Ismeno e Asopo,     rios     da Beócia. — 100. Maria corre ao monte etc., a Virgem Maria,     logo depois do anúncio do nascimento de Jesus, correu a visitar     a sua prima Isabel (Evang. S. Lucas I, 39). — 101. César rende     etc., Júlio César, com grande celeridade, deixando parte do     seu     exército no assédio de Marselha, com a outra parte dirige-se     para Ilerda. — 118. De S. Zeno em Verona etc., Geraldo, abade     de S. Zeno. — 119. Barba-roxa o imperador Frederico I, que em     1162 destruiu a cidade de Milão. — 121. Alguém que à     sepultura está curvado etc., o velho Alberto della Scala, que     destituiu Geraldo do seu cargo de abade, substituindo-o por um     seu filho bastardo que, além de coxo, era malvado. — 134-135.     Os que se abrir o mar viram etc., os filhos de Israel que, pela sua     preguiça, morreram no deserto, não alcançando a Terra     Prometida. — 136. E os que o filho de Anquise etc., os Troianos     que não tiveram a coragem de seguir a Enéias (Eneida V, 604).

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    CANTO XIX

No sono, Dante tem uma visão misteriosa. Acordando, conta-a a     Virgílio, o qual a explica. Sobem, depois, os Poetas ao quinto     compartimento, no qual se purificam os avarentos, debruçados no     chão. Entre eles está o papa Adriano V, Ottobuono de Fieschi,     que lhe pede que a recomende à sua sobrinha Alagia.

CHEGADA essa hora, em que o calor diurno     Não mais da lua a frigidez aquece,     3 Pela terra vencido ou por Saturno,

Quando ao geomante fúlgida aparece     A Fortuna Maior lá no Oriente,     6 Donde rápida a noite se esvaece,

Sonhando vi mulher balbuciente,     Que vesga era nos olhos, nos pés torta,     9 De mãos truncadas e de tez palente.

Eu a encarava; e como o sol conforta     Os membros a que a noite o frio agrava,     12 Ao meu olhar assim a quase morta

Língua movia; o corpo já se alçava,     E no terreno e lívido semblante     15 A cor, que amor estima, se mostrava.

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    Soltando a voz, há pouco titubante,     Doce canto entoava tão donosa,     18 Que me absorvia o enlevo inebriante.

— “Sereia sou” — cantava — “deleitosa,     Que da rota desvia os mareantes,     21 Tanto prazer lhes movo poderosa.

“Detiveram meus cantos fascinantes     Ulisses vago; e raros me deixaram,     24 A todos prende o som dos meus descantes.” —

Junto a mim, mal seus lábios se fecharam,     Eis se mostrava dama santa e presta:     27 A sereia os seus olhos conturbaram.

— “Dize, ó Virgílio: que mulher é esta?”     — Bradava irosa; e o Vate lhe acorria.     30 Respeitoso ante aquela face honesta.

Dela a dama travava e prosseguia,     Seus véus rasgava, o ventre desnudando:     33 Desperto ao cheiro infando que saía.

Olhos abri. Virgílio, me falando: — “Três vezes te chamei” — disse — “eia!     asinha     36 Vamos, o passo onde entres, procurando.” —

Ergui-me logo. Alumiados tinha

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O dia os círculos todos do alto monte;     39 Pelas costas surgindo o sol nos vinha.

Após o Mestre se me inclina a fronte,     Como a quem, de cuidados oprimido,     42 Curva a cerviz, semelha arco de ponte,

— “Aqui se passa: vinde!” — proferido     Foi por voz tão suave, tão beni’na,     45 Que não fora igual som na terra ouvido.

Da rocha entre os dois muros nos desi’na     Quem falara, o caminho, asas abrindo,     48 Que tem do cisne a alvura purpurina.

Depois as níveas plumas sacudindo, — “Os que choram” — bradou — “são     venturosos     51 De consolo a esperança possuindo!” —

— “Por que os olhos no chão fitas cuidosos?” — O Mestre perguntou, depois que alçou-se     54 Voando o anjo aos ares luminosos.

— “Em recente visão, Senhor, mostrou-se     Imagem” — respondi — “que tanto instiga     57 Que inda a sua impressão não mitigou-se.” —

— “A mágica” — me disse — “viste     antiga,     Que lá mais alto tanta dor motiva?     60 Como o homem viste dela se desliga?

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“Não mais! Avante segue, o alento aviva!     Olhos volve ao reclamo, com que gira     63 Do Rei Eterno cada esfera altiva.” —

Como faz o falcão, que os pés remira,     Depois ao grito acode e, acelerado,     66 Contra a ralé, que avista, ao ar se atira:

Assim eu; e por onde era cortado,     Para trânsito dar ao monte erguido,     69 Corri té outro círculo, apressado.

Tendo ao círculo quinto já subido,     Jazer vi turba inúmera em lamento:     72 Para baixo era o rosto seu volvido.

“Adhaesit anima mea pavimento” — Com tanta dor diziam suspirando,     75 Que da voz mal caí no entendimento.

— “Dizei, de Deus eleitos, que, penando,     Colheis alívio na justiça e esp’rança,     78 Por onde ao cimo iremos caminhando.” —

— “Se a nossa punição não vos alcança     E mais pronta quereis ter a subida,     81 À direita e por fora que se avança.” —

Do meu Guia a pergunta respondida

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Foi por uma alma, que adiante estava:     84 Ser outra idéia eu cri nisso escondida.

Então, olhos voltando, interrogava     Virgílio, que aprovou com ledo gesto     87 O desejo, que o rosto denotava.

Da permissão do Mestre usando presto,     Daquele ente acerquei-me doloroso,     90 Que se fez por palavras manifesto.

— “Tu, que, expiando as culpas lacrimoso,     Apressas de te erguer à glória o dia,     93 Por mim pára em teu pranto fervoroso.

“Quem foste? Por que assim jazeis?” — dizia “No mundo, donde venho vivo, impetre     96 Por teu bem querer cousa da valia?” —

— “Convém que o teu espírito penetre     Desta pena a razão; porém primeiro     99 Scias quod ego fui sucessor Petri.

“Do meu solar o título altaneiro     Origem teve nesse rio belo,     102 Que entre Chiaveri e Siestre flui ligeiro

“Em pouco mais de um mês vi que desvelo     Custa guardar o grande manto puro:     105 Todo outro fardo é pluma em paralelo.

410

“Quanto — ai de mim! — de converter fui duro!     Mas, apenas Pastor em Roma eleito,     108 Eu soube quanto mente o mundo impuro.

“Não gozou paz, nem quietação meu peito;     Mais alto já subir se não pudera:     111 Então da vida eterna ardi no afeito.

“Minha alma, triste e mísera, perdera     De Deus o amor em sórdida avareza:     114 Esta pena, que vês, bem merecera

“De tal pecado mostra-se a graveza     Aqui pelo castigo, em que se expia:     117 No monte outro não há de mor asp’reza.

“Como ao céu nossa vista não se erguia,     Nas cousas terreais embevecida,     120 Assim justiça à terra a prende e lia.

“Como a avareza em nós tinha extinguida     A propensão ao bem, aos santos feitos,     123 Assim nos tem justiça a ação tolhida.

“Pés e mãos ata em vínculos estreitos:     Enquanto a Deus prouver, nós, estendidos,     126 Imóveis estaremos nesses leitos.” —

De joelhos e de olhos abatidos

411

Quis falar-lhe; mas ele, conhecendo     129 Esse meu ato só pelos ouvidos,

— “Por que te curvas?” — me atalhou dizendo. — “Em reverência à vossa dignidade:     132 Cumpro um dever dessa arte procedendo.” —

— “Ergue-te, irmão! Não erres! Em verdade,     Eu como tu, e o universo inteiro     135 A lei seguimos de uma só vontade.

“Do Evangelho o sentido verdadeiro     Que disse — neque nubente — se entendeste,     138 Verás o meu pensar quanto é certeiro.

“Vai-te agora, demais te detiveste.     Saudável pranto empece a tua estada:     141 Perdão apressam lágrimas, disseste.

“Sobrinha tenho, Alagia foi chamada:     É boa, se da raça tão funesta     Não pervertê-la a tradição danada.

145 Somente esta no mundo ora me resta.” —

1. Essa hora etc., a manhã, pouco antes do alvorecer. — 5. A     Fortuna maior, uma das combinações que os geomantes     desenhavam para adivinhar a sorte e que se parecia à     constelação do Aquário e, em parte, à dos Peixes.      — 7. Mulher     balbuciente etc., símbolo dos vícios. — 19-26. Dama Santa,

    412

símbolo da prudência e das virtudes — Sereia — metade     mulher     e metade peixe. — 62. Reclamo, instrumento com o qual o     caçador atrai as aves. — 73. Adhaesit anima mea pavimento, a     minha alma esteve pregada ao chão (às coisas materiais), Salmo     C XIX, 25. — 99. Scias quod ego fui sucessor Petri, saibas que     fui sucessor de Pedro. É o espírito do papa Adriano V,     Ottobuono dei Fieschi, conde de Lavagna. — 137. Neque nubent,     palavras de Jesus aos saduceus; no Céu não há núpcias.     Com     essa expressão Adriano V quer que Dante entenda que ele não     deve mais considerá-lo esposo ou chefe da Igreja. — 142. Alagia     dei Fieschi, casada com Moroello Malaspína.

413

    CANTO XX

Os dois poetas ouvem uma alma recordar exemplos de pobreza     honesta e da generosidade benfazeja. É Hugo Capeto, fundador     da casa dos reis da França, o qual censura asperamente os seus     descendentes. Ouve-se, no entanto, tremer o monte e cantar “Gloria in excelsis Deo.”

EM luta, o bem querer ao mau se alteia.     Por contentar essa alma, eu, descontente,     3 Da água tirei a esponja, inda cheia.

Sigo os passos do guia diligente,     Do monte à extrema borda caminhando,     6 Como em muro entre ameias, cautamente.

O espaço mais largo enchia o bando,     Que a avareza, do mundo atroz imiga,     9 Expurga, pranto em fio derramando.

Maldita sempre seja, Loba antiga,     Mais do que as outras feras cobiçosas!     12 Jamais a fome tua se mitiga!

Ó céu, cuja carreira portentosa     As condições se crê reger da vida,     15 Quando virá quem lance a besta ascosa?

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    A passo lento e escasso era a subida,     Atento eu indo à turba, que exprimia     18 Por carpir lamentoso a dor sentida.

Eis ante nós dizer: — “Doce Maria!” — Uma voz escutei no amargo pranto,     21 Qual mulher que no parto a dor crucia.

Acrescentou: — “Bem pobre foste e tanto,     Que à luz trouxeste lá no humilde hospício     24 Do seio virginal o fruto santo.” —

E logo após ainda: — “Ó bom Fabrício,     Com virtude antes pobre ser quiseste     27 Do que a opulência possuir com vício.” —

De tal prazer meu coração se veste     Ouvindo, que avançava pressuroso     30 Por que ao perto, maior atenção preste.

Também contava esse ato generoso,     Que em prol das virgens Nicolau fizera     33 Para guardar-lhes puro o estado honroso.

— “Alma, que tão bem falas, diz sincera,     Quem foste?” — lhe disse eu — “Por que somente     36 A tua voz a virtude aqui venera?

“Se eu à vida tornar, que brevemente

415

Levar-me deve ao suspirado porto,     39 Em te ser grato ficarei contente.” —

E ele: — “Falarei, não por conforto     Lá do mundo esperar, mas porque tanta     42 Graça refulge em ti antes de morto.

“Estirpe fui dessa maligna planta     Que o solo esteriliza à cristandade:     45 Se frutos bons produz, fato é que espanta.

“A vingança, se houvessem faculdade,     Lilla, Bruges, Conai, Grandja tomaram;     48 Férvido a peço à Suma Potestade.

“Na terra Hugo Capeto me chamaram:     Dos Filipes fui tronco e dos Luíses,     51 Que novamente a França dominaram.

“Foi meu pai carniceiro. Os infelizes     Antigos Reis progênie não deixando,     54 Exceto um monge, às minhas mãos felizes,

“Parar daquele reino veio o mando.     Tanto prestígio tinha, tal pujança     57 Dos povos na vontade fui ganhando,

“Que a c’roa o meu querer cingir alcança     Do filho meu à fronte, em que começa     60 A prole ungida desses Reis de França.

416

“O provençal grã dote havendo, cessa     Na raça minha a prístina vergonha:     63 Somenos, mas aos bons não fora avessa.

“Rapinas pela força e ardis, que sonha     Começando, invadiu por penitência     66 Pontois, Normandia com Gasconha.

“Carlos, Itália entrando, em penitência     Vitimou Conradino; e triunfante     69 Ao céu mandou Tomás, por penitência.

“Em tempo, do presente não distante,     Inda outro Carlos vir de França vejo     72 E fama a si e aos seus dar mais sonante.

“Sai sem armas; traz só naquele ensejo     Lança de Judas, que a Florença aponta:     75 Rasga-lhe o peito, como é seu desejo.

“Terás não terras, mas pecado e afronta,     Que se lhe há de tornar tanto mais grave,     78 Quanto ele a tem de pouco preço em conta.

“Outro, que preso sai da própria nave,     Vejo a filha vender, como fizera     81 Aos escravos pirata: ó pai suave!

“Avareza! o que mais de ti se espera,

417

Se o meu sangue a tal raiva hás arrastado,     84 Que te deu sua carne em pasto, ó fera?

“Para o mal igualar, porvir, passado,     Entrando Alagni flor-de-lis se ostenta,     87 E Cristo em seu Vigário é cativado.

“Injúrias vejo novas que exp’rimenta,     Fel, vinagre sorver o vejo ainda     90 E entre vivos ladrões ter morte lenta.

“Vejo o novo Pilatos, que, não finda     A sanha sua, sem decreto assalta     93 O Templo aceso na cobiça infinda.

“Senhor meu! Pois que excesso nenhum falta,     Quando ante a punição serei ditoso,     96 Que oculta, o teu juízo adoça e exalta?

“Quanto ao que me inquiriste curioso,     As palavras, que, há pouco, eu dirigia     99 Do Spírito Santo à Esposa fervoroso,

“São nossas orações enquanto é dia.     Mas contrários exemplos invocamos,     102 Quando a sombra da noite principia.

“Então Pigmalião nós recordamos     Que foi traidor, ladrão e parricida     105 A sua sede de ouro condenamos.

418

“E a miserável condição de Mida,     Do rogo seu estulto resultado,     108 Sempre do mundo inteiro escarnecida.

“De Acam o louco feito é memorado.     Que os despojos roubara, e ainda a ira     111 De Josué receia amendrontado.

“Com seu marido acusa-se Safira     E louva-se o mau fim de Heliodoro.     114 Por todo o monte imenso brado gira

“Contra o que tirou vida a Polidoro. — Dize do ouro o sabor, Crasso avarento! — 117 Também clamamos todo nós em coro.

“Qual murmura, qual grita em seu lamento,     Segundo o afeto que o estimula e agita,     120 Segundo é fraco ou forte o sentimento.

“Eu único não era, pois, que em grita     O bem, que ao dia é próprio ia dizendo:     123 Não alçava outro perto a voz bendita.” —

Essa alma já deixáramos, fazendo     Esforço por vencer a altura ingente,     126 Que adiante se estava oferecendo,

Eis tremer sinto o monte de repente.

419

O coração no peito se me esfria,     129 Qual réu, que à morte arrasta-se palente.

Delos, por certo, assim não se movia,     Quando por ninho a preferiu Latona,     132 Que os dois olhos do céu parir queria.

De toda parte um brado então ressona     Tanto, que o Mestre, para mim voltando,     135 — “Não há risco” — me diz —     “teu Guia o     abona!”

Gloria in excelsis Deo — era entoado,     Quanto a voz perceber foi permitido     138 Do ponto, a que o rumor me foi levado.

Quedos, como os pastores tendo ouvido     À vez primeira outrora aquele canto,     141 Ficamos té findar moto e soído.

Depois seguimos no caminho santo,     Vendo as almas prostradas sobre a terra,     144 Sempre a verter o costumado pranto.

E se a memória nisto em mim não erra,     Jamais desejo, que a ignorância acende,     147 Na mente me excitara tanta guerra,

Quanto naquele instante em mim contende.     Nem pela pressa, eu perguntar ousava,

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Nem o que ouvia o espírito compreende.

151 Tímido assim e pensativo andava.

10. Loba antiga, a avareza. — 23. Humilde hospício, a gruta     de     Belém, onde nasceu Jesus. — 25. Bom Fabrício, C. Fabrício,     general romano, que recusou o dinheiro que o inimigo de Roma     lhe oferecia. — 32. Nicolau, S. Nicolau, bispo de Mira, que dotou     várias jovens pobres. — 43. Estirpe fui, Hugo Capeto, fundador     da dinastia dos de França. — 52. Foi meu pai, etc. Segundo a     tradição, Hugo Capeto, filho de um carniceiro, desposou a filha     do último rei carlovíngio. — 61. O provençal, Carlos     I de Anjou     por casamento herdou a Provença. — 67. Carlos, Itália     entrando, Carlos I de Anjou, conquistou o reino de Nápoles,     mandou matar a Conradino de Suábia e, segundo uma tradição,     fez envenenar a S. Tomás de Aquino, quando este se dirigia     para o concilio de Lião. — 71. Outro Carlos, de Valois, que foi     a     Florença em veste de pacificador e expulsou os Brancos, entre     os quais Dante. — 86. Entrando Alagni etc., o papa Bonifácio     VIII, em 1303, por ordem de Filipe o Belo, foi aprisionado em     Alagni. — 103. Pigmalião, matou a traição seu tio     Siqueu para     roubá-lo. — 106. Mida, rei mitológico, recebeu a faculdade     de     transformar em ouro tudo o que tocava, morreu de fome. — 109. Acam, guerreiro israelita, depois da conquista de Jericó,     desobedecendo às ordens de Josué, escondeu o que saqueou e     foi condenado à morte. — 112. Safira e seu marido Ananias,     querendo roubar o dinheiro pertencente à comunidade cristã,     foram fulminados. — 113. Heliodoro, entrara no templo de     Jerusalém para roubar, mas foi expulso por um cavalo a     patadas. — 115. O que tirou a vida a Polidoro, Polinestor, rei da     Trácia matou a Polidoro, filho de Príamo, para roubá-lo.      — 116.     Crasso, romano, homem muito rico e avarento. — 130. Delos,     ilha do mar Egeu. Segundo a mitologia, era instável, antes que     nela se estabelecesse Latona, que deu à luz Apolo e Diana. — 136. Glória in excelsis Deo, é o canto dos anjos na noite em     que     nasceu Jesus.

    421

    CANTO XXI

Enquanto os dois Poetas continuam no seu caminho, uma alma     se aproxima deles. É o poeta latino Estácio, o qual explica     que o     abalo do monte que se deu pouco antes foi o sinal de que,     purificado dos seus pecados, ele pode subir ao Céu. Sabendo que     está falando com Virgílio, Estácio demonstra-lhe o seu     afeto.

A SEDE natural, que não sacia     Senão a água, que, súplice, implorava     3 Ao senhor a mulher de Samaria,

Molestando-me, os passos me apressava     Após meu Guia na impedida estrada,     6 E do justo castigo o dó me entrava.

Eis, como escreve Lucas na sagrada     História que Jesus aparecera,     9 Ressurgido, aos dois sócios na jornada,

Uma sombra surgiu; trás nós viera.     Andando aquela turba contemplava:     12 Dela fé nem o Mestre, nem eu dera.

— “Deus vos dê paz, irmãos!” — assim     falava.     Voltamo-nos de súbito, e Virgílio,     15 Cortês no gesto, a saudação tornava

422

    Logo dizendo: — “Do feliz concílio     Te receba na paz a santa corte,     18 Que a mim me desterrou no eterno exílio!”

— “Como andais” — respondeu — “com passo     forte.     Se Deus no céu vos não permite a entrada?     21 Quem vos conduz na altura desta sorte?” —

— “Os sinais de que a fronte está marcada     Deste homem por um anjo” — diz meu Guia — 24 “To mostram di’no da eternal morada,

“Mas, como aquela, que, incessante fia,     Não lhe havia inda a estriga consumido,     27 Que impõe Cloto ao que a vida principia,

“Subir só não teria ao céu podido     A sua alma, irmã tua, como é minha,     30 Pois não há, como nós, ver conseguido.

“Do inferno às fauces fui tirado asinha     Para guiá-lo, e o guiarei contente     33 No que do meu saber não passe a linha.

“Se puderes, me diz, por que o eminente     Monte, há pouco, tremeu, e desde a c’roa     36 À base retumbou clamor ingente.” —

423

A pergunta ao desejo tão boa soa,     Que ouvi-la a sede ardente me alivia,     39 Somente uma esperança mitigou-a.

— “Quanto hás notado” — a sombra respondia      —     “Em nada os ritos da montanha altera:     42 De estranheza motivo não seria.

“Mudança aqui supor se não pudera:     Subindo ao céu quem pertencer-lhe deve,     45 A causa dá-se que esse efeito opera.

“Nunca saraiva, chuva, orvalho ou neve     Nesta montanha cai, passando a altura     48 Dos três degraus que estão na escada breve.

“Aqui não vê-se nuvem clara ou escura,     Relâmpago não luz, nem de Taumante     51 Mostra-se a filha, que tão pouco dura.

“Jamais daqueles três degraus avante,     Em que de Pedro o sucessor domina,     54 Seco vapor se eleva um só instante.

“Tremor talvez a sua base inclina;     Mas não atua no alto oculto vento,     57 Que não sei como dentro se amotina.

“Quando já de estar puro o sentimento     Uma alma tem e se ala ao céu, que a chama,

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60 Segue o tremor e o grito ao movimento.

“Seu querer a pureza lhe proclama,     Prova que tem de alçar-se a liberdade     63 Por força do desejo, em que se inflama.

“Antes o tem; mas contra essa vontade     A divina justiça ardor lhe inspira     66 Por pena, como o teve por maldade.

“Eu que em martírio decorridos vira     Anos quinhentos, à melhor morada,     69 Momentos poucos há, pus livre a mira.

“Eis do tremor a causa declarada!     Do Senhor eis por que, louvor cantando,     72 Rogou cada alma em breve ser chamada!” —

Calou-se. E como, a tanto mais gozando     Está quem bebe, quanto é mor a sede,     75 Indizível prazer tive escutando.

— “Vejo” — disse Virgílio — “agora     a rede,     Que vos prende e depois dá liberdade,     78 Donde o tremor e o júbilo procede.

“Explicar-me te praza ainda, em verdade,     Quem tu foste e a razão por que hás jazido     81 Séc’los tantos em tanta asperidade.” —

425

— “No tempo em que o bom Tito, protegido     Por Deus, vingou as chagas que verteram     84 Sangue, por Judas” — replicou — “vendido,

“Na terra o nobre título me deram,     Que mais honra perdura, e fui famoso:     87 Inda os lumes da fé me não vieram.

“Dos meus cantos o som foi tão donoso,     Que de Tolosa a si me atraiu Roma:     90 C’roas me deu de mirto glorioso.

“De Estácio o nome ainda o tempo doma;     Tebas cantei e Aquiles esforçado:     93 Este das forças me exauriu a soma.

“Do vivo ardor, que a mente me há tomado,     Na flama divinal a causa estava,     96 Que em milhares de engenhos há brilhado.

“Mãe e nutriz a Eneida me alentava;     Estro bebi caudal no seio puro;     99 Quanto vali da Eneida derivava.

“Para viver no tempo (te asseguro)     Em que existiu Virgílio, mais um ano     102 Passara no, que deixo, exílio duro.” —

Estas vozes ouvindo, o Mantuano     Olhou-me. — Cala-te! — sem falar dizia;

426

105 Mas a vontade está sujeita a engano.

Ou no pranto ou no riso se anuncia     Tão rápida a paixão, quando se acende,     108 Que o querer nos sinceros prende e lia.

Sorri-me, como que sagaz, compreende.     Calou-se o esp’rito; e me encarava atento     111 Nos olhos onde a mente mais se entende.

— “Sejas” — disse — “feliz no excelso     intento!     Explica-me, porém, por que em teu rosto     114 Lampejar vi sorriso de momento.” —

Entre os extremos dois estava eu posto:     Um diz — silêncio! — outro a falar me instiga.     117 Suspiro, e o Mestre atenta em meu desgosto.

Responde, que ao silêncio nada obriga, “Fique” — disse — “a verdade bem patente,     120 O que anela saber ele consiga.” —

— “Maravilha causou provavelmente” — Tornei-lhe — “antigo espírito, o meu riso;     123 Maior será me ouvindo, certamente.

“Virgílio é quem me guia ao Paraíso:     Para deuses e heróis cantar tiveste     126 Por ele o esforço que lhe foi preciso.

427

“Se outra causa em meu riso supuseste,     Te enganaste: o motivo declarado     129 Nas palavras está que lhe disseste.” —

Quer os pés abraçar do Mestre amado,     E o Mestre: — “Irmão, que fazes?” — lhe dizia      — 132 “Vê que és sombra e de sombra estás ao lado!”

Erguendo-se ele: — “Tanto me extasia     O amor” — disse — “em que por ti me acendo,     Que da nossa vaidade me esquecia,

136 Tratar sombras, quais corpos, pretendendo.”     —

2-3. Água que suplica etc., a água simbólica que a Samaritana     pediu a Jesus, isto é, a verdade. — 7. Como escreve Lucas,     Evang. XXIV, 13-15. — 25. Aquela que, incessante fia etc.,     Laquesis não fiara ainda todo o fio que Cloto ajuntou e que     representa o decorrer da vida dos homens. — 48. Dos três     degraus, onde está a porta do Purgatório. — 50. De Taumante     a     filha, Íris, mensageira de Juno, foi transformada em arco-íris.      — 53. O sucessor de Pedro, o anjo. — 82-83. O Bom Tito, vingou as     chagas etc., Tito, destruindo Jerusalém, vingou a morte de     Jesus Cristo. — 91. Estácio, o poeta latino Papinio Estácio,     autor de “Tebaida”, morto no ano 96, d.C.

    428

    CANTO XXII

Subindo ao sexto compartimento, Estácio diz a Virgílio que,     não     pelo pecado da avareza, mas pela sua prodigalidade, teve de     ficar muito tempo no quinto compartimento; e, por não ter     declarado publicamente a sua conversão ao cristianismo,     precisou ficar muito tempo no quarto compartimento. Virgílio o     informa a respeito de muitos ilustres personagens da antigüidade     que estão no Limbo. Chegando os Poetas no sexto compartimento,     encontram uma árvore cheia de pomos perfumados, da qual     saem vozes que louvam a virtude da temperança.

O ANJO atrás já tínhamos deixado,     Que para o sexto círc’lo nos guiava,     3 Um P na fronte havendo-me apagado.

E à turba, que a justiça desejava,     Tinha dito Beati docemente     6 Com sitio e, após tais vozes, se calava.

Mais que em toda a jornada antecedente     Eu, ligeiro, seguia sem fadiga     9 Os Vates, que subiam velozmente.

— “Aquele amor, com que virtude instiga,     Reproduz” — disse o Mestre — “a própria chama     12 Mostras de si apenas dar consiga.

429

“Dês que, da vida terminada a trama,     Do inferno ao limbo, Juvenal descendo,     15 Saber me fez o afeto, que te inflama,

“Tão vivo bem-querer sabe te rendo,     Quanto haver pode a incógnita pessoa,     18 Contigo ora suave andar me sendo.

“Mas dize (e como amigo me perdoa,     Se em falar há nímia confiança     21 E em prática amigável arrazoa):

“Como avareza fez em ti liança     Com ciência, que o estudo te alcançava     24 E em que punhas cuidados e esperança?”

Às palavras do Mestre pronto estava     Estácio, e lhe sorrindo: — “O que me hás dito     27 Penhor caro é de afeto” — lhe tornava.

“Muitas vezes da dúvida o conflito     Por aparência errônea é suscitado,     30 Até que a exata causa surja ao esp’rito.

“Fica em tua pergunta declarado     Creres que eu fora avaro noutra vida,     33 Por ser no círc’lo a avaros destinado.

“Pois sabe que a avareza repelida     Por mim foi nimiamente, e a demasia

430

36 De luas em milhares foi punida.

“Minha alma eterno fardo volveria,     Se atenção tanta em mim não despertasse     39 A indi’nação, que nos teus versos via,

“Quando lançaste dos mortais à face: — “A que extremos impeles os humanos,     42 Fome de ouro sacrílega e rapace!” —

“Então do excesso em despender, os danos     Aprender pude, agro pesar sentindo     45 Desse pecado e de outros tantos insanos.

“Chorarão, tosquiados ressurgindo,     Quantos não têm sabido à penitência     48 Dar-se em vida ou sua hora extrema em vindo!

“Cada culpa e a que tem contrária essência     Aqui a pena dão conjuntamente,     51 No martírio expurgando a virulência.

“Estive entre essa turba penitente,     Que o desvario chora da avareza     54 Por ter sido no oposto renitente.” —

— “Quando cantaste de armas a crueza,     Que duplamente molestou Jocasta” — 57 Disse o cantor da pastoril simpleza —

431

“Pois que de Clio então o ardor te arrasta,     Inda o fervor da fé não te incendia,     60 E o bem sem fé para salvar não basta:

“Que sol, que estrela, em treva tão sombria     Te aclarou e dessa arte alçar pudeste     63 Velas após o pescador, que se ia?” —

— “Primeiro” — disse Estácio — “tu     me deste     Do Parnaso a beber na doce fonte     66 E de Deus santa luz ver me fizeste.

“Hás sido, como à noite o guia insonte,     Que leva a luz, mas o seu bem não prova,     69 E aqueles serve, de quem vai na fronte,

“Quando disseste — “O séc’lo se renova,     Volta a justiça, volta a idade de ouro,     72 E progênie do céu descende nova.” —

“Por ti ganhei a fé, de vate o louro:     Isto deve, porém, ser-te explicado;     75 Dê ao desenho a cor de claro o foro,

“Já stava o mundo inteiro alumiado     Da vera crença que do reino eterno     78 Os mensageiros tinham propagado.

“O vaticínio teu, Mestre superno,     Aos predicantes novos se adatava;

432

81 Por isso, os freqüentando, o bem discerne.

“Tanto a virtude sua me enlevava,     Que, quando os perseguiu Domiciano,     84 Ao pranto seu meu pranto acompanhava.

“Enquanto estiver no viver humano,     Dei-lhes socorro e o seu exemplo austero     87 Ódio inspirou-me às seitas do erro insano.

“Antes já de cantar o cerco fero     De Tebas no batismo renascera:     90 Mas, de medo, ocultei meu crer sincero.

“Gentio largo tempo eu parecera;     Por isso hei tantos séc’los padecido     93 No círc’lo quarto; a pena merecera.

“Tu a quem devo, pois, ter conseguido     O véu rasgar, que tanto bem cobria.     96 Pois que tempo em subir é concedido,

“Onde Terêncio diz-me ora estancia?     Onde está Plauto Varro com Cecílio?     99 À qual parte do inferno a culpa os lia?” —

— “Aqueles, Pérsio e eu” — tornou Virgílio      — E os outros mais o Grego acompanhamos     102 Predileto das Musas; lá no exílio

433

“Do círculo primeiro demoramos     Vezes freqüentes do famoso monte,     105 Das Camenas assento praticamos.

“Eurípede é conosco e Anacreonte,     Simônide, Agaton e outros inda     108 Gregos, que cingem de laurel a fronte.

“Stão heroínas, que cantaste: a linda     Antígone, Deifile com Argia,     112 Ismênia, em quem tristeza nunca finda;

“Vê-se também a que mostrou Langia,     Tétis se vê e de Tirésia a filha,     114 E das irmãs Deidama em companhia” —

Os dois, da poesia maravilha,     Calaram-se, ao que os cerca atentos stando,     117 Vencida sendo da subida a trilha.

Das ancilas do dia atrás ficando     A quarta, logo a quinta se jungia     120 Ao carro ardente, ao alto o encaminhando,

“Quando o Mestre — “Eu suponho” — nos dizia “Que nós à destra caminhar devemos,     123 Volteando, como antes se fazia.” —

Desta arte na exp’riência a mestra havemos,     E no andar prosseguimos confiados,

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126 Porque de Estácio o assenso recebemos.

Iam diante os Vates afamados,     E eu logo após, nas vozes escutando     129 Arcanos da poesia sublimados,

Eis rompe esse colóquio doce e brando     Uma árvore, que à estrada em meio achamos:     132 Lindos pomos na fronde estão cheirando.

Vão para cima decrescendo os ramos     De abeto; estes descendo diminuem:     135 Para alguém não subir — acreditamos.

Límpidos jorros do penedo ruem     Da parte, em que a montanha a entrada mura;     138 Sobre as folhas em rocio as gotas fluem.

Estácio com Virgílio se apressura     Para essa árvore, quando voz, da fronde,     141 Gritou: — “Não gozareis desta doçura!

“Maria (e o seu desejo não se esconde)     Atende mais das bodas à grandeza     144 Que ao seu gosto; e por vós ora responde.

“Das Romanas à antiga singeleza     Água bastava; e Daniel ciência     147 Logrou, tendo em desprezo a régia mesa.

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“Chamou-se de ouro a idade da inocência;     Fez as glandes a fome saborosas;     150 Água em néctar tornou da sede a ardência.

“Ao Batista iguarias bem gostosas     Mel, gafanhotos foram no deserto:     Assim fez grandes obras gloriosas,

154 “Como pelo Evangelho ficou certo.” —

5-6. Beati etc., S. Mateus V, 6: “Beati qui esurient et sitium     justitiam.” — 14. Juvenal, poeta satírico latino. —      56. Jocasta,     mãe de Eteocles e Polinices, irmãos inimigos que originaram     a     guerra de Tebas. — 58. Clio, musa da história. — 63. O     pescador, S. Pedro. — 83. Domiciano, imperador romano que     reinou do ano 81 ao 96. d.C. — 97-100. Terêncio, Plauto, Varro,     Cecilio, Pérsio, poetas latinos. — 101-102. O grego... predileto     das Musas, Homero.— 106-107. Euripedes, Simônides,     Anacreonte, Agaton, poetas gregos. — 110. Antígone, filha de     Édipo, rei de Tebas; Deifile, esposa de Tideo; Argia, esposa de     Polinice. — 111. Ismênia, filha de Édipo. — 112.     A que mostrou     Langia, Isifiles, que mostrou o rio Langia às tropas sedentas de     Adrastro. — 113. Tétís, mãe de Aquiles; de Tirésia     a filha,     Dafne. — 114. Deidama, filha do rei Licomedes. — 142-144.     Maria etc., a mãe de Jesus para honrar a festa dos noivos de     Caná, pediu ao filho que transformasse a água em vinho. — 146-147. Daniel etc., o profeta Daniel que adquiriu sabedoria     pela sua abstinência.

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    CANTO XXIII

No sexto compartimento estão as almas dos gulosos. Elas são     atormentadas pela fome e pela sede; Dante descreve a sua     horrível magreza. O Poeta reconhece o seu parente Forense     Donati, o qual louva a sua viúva, Nella, e repreende a impudicícia     das mulheres florentinas.

FITAVA os olhos sobre a rama verde,     Qual caçador, que após um passarinho,     3 Correndo, parte da existência perde.

Quando o que me era mais que pai: — “Filhinho,     O tempo” — disse — “que nos está marcado,     6 Quer mais útil emprego. Eia! a caminho!” —

Voltando o rosto, a passo acelerado     Os sábios sigo e, atento ao que falavam,     9 Não me sentia, andando, fatigado.

Plangentes vozes súbito entoavam     Labia, Domine, mea por maneira,     12 Que piedade e prazer me provocaram.

— “Do que ouço”— disse então —     “ó Pai, me     inteira.”—     — “Almas” — tornou — “talvez que o meio

    437

tentam,     15 Que o peso à sua dívida aligeira.” —

Peregrinos solícitos que atentam     Só na jornada, achando estranha gente,     18 Vontam-se apenas, mas o passo alentam:

Tal após nós vem turba diligente;     Em devoto silêncio se acercava;     21 Olhou-nos e afastou-se prestamente.

Os olhos encovados nos mostrava,     Pálida a face e o rosto descarnado,     24 Sobre os ossos a pele se estirava.

Não creio que Erisicton devastado     Tanto da fome horrível estivesse     27 Quando das forças viu-se abandonado.

Eu cogitava: — “O povo aqui padece,     Que Solima perdeu, quando Maria     30 Carnes comeu ao filho, que perece.” —

Cad’olho anel sem pedra parecia:     O que na humana face lesse “omo” 33 Bem claro o M aqui distinguiria.

Quem crer pudera, não sabendo como,     Efeito de desejo ser, nascido     36 Do frescor de água, junto a odor de pomo?

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    Atônito inquiria o que haja sido     De tal fome a razão, não manifesta,     39 Que tal magreza tenha produzido,

Eis lá da profundez da sua testa     Uma alma olhos volvia e me encarava,     42 Gritando: — “Mereci graça como esta?” —

Quem fora o gesto seu não me indicava;     Mas tive pela voz prova segura     45 Do que o aspecto seu não revelava.

Foi súbito clarão em noite escura,     Do rosto avivou traços deformados     48 Forese conheci nessa figura.

— “Ai! não fiquem teus olhos assombrados”     — Dizia — “a lepra ao ver que me descora,     51 E estes ossos mesquinhos, descarnados!

“Dize a verdade de ti próprio agora:     De quais almas te vejo companheiro?     54 Não haja, rogo, em responder demora.” —

— “Como outrora é meu dó tão verdadeiro,     Vendo-te o vulto que chorei já morto,     57 Tão dif’rente do que era de primeiro,

“Dize, por Deus, por que és tão sem conforto:

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Tolhe-me a fala a vista, que me espanta;     60 Responder-te não posso, em mágoa absorto.” —

— “De tal poder” — tornou — “essa água     e planta     Sabedoria eterna tem dotado,     63 Que consumação em mim produziu tanta.

“Os que o rosto, cantando, têm banhado     De pranto, havendo entregue à gula a vida,     66 Sobem, na fome e sede, o santo estado.

“A fome, a sede sente-se incendida     Dos pomos pelo aroma e por frescura     69 Das águas, sobre as ramas espargida.

“Cada vez que giramos na fragura,     Revive nossa pena e mais agrava;     72 Erro chamando pena o que é doçura.

“Esse desejo ardente de nós trava,     Que fez Cristo dizer — Eli! contente,     75 Quando o sangue em prol nosso na Cruz dava.”     —

— “Forese” — hei respondido incontinênti —     “Dês que deixaste a terreal morada     78 Passaram-se anos cinco escassamente;

“Se a força de pecar stava esgotada     Antes de vir da dor bendita a hora,

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81 Em que alma é com seu Deus conciliada,

“Como te vejo nesta altura agora?     Lá embaixo encontrar-te acreditara,     84 Onde o tempo com tempo se melhora.” —

— “Conduziu-me tão cedo Nela cara,     Por pranto, que incessante há derramado,     87 Do martírio a tragar doçura amara.

“De orações e suspiros sufragado     Assim, me alcei da encosta, onde se espera,     90 E fui dos outros círc’los resgatado.

“Tanto mais Deus com dileção esmera     Aquela, que extremoso amei na terra,     93 Quanto, só, em virtude ela é sincera.

“Pois a Barbagia de Sardenha encerra     Mulheres por pudor bem mais notadas,     96 Que a Barbagia, onde o vício acende guerra.

“Queres tu, doce irmão, manifestadas     Idéias minhas? Pouco dista o dia     99 Das vozes nesta prática empregadas,

“Em que proíba o púlpito a ousadia     Das impudentes damas florentinas,     102 Que têm, mostrando os seios, ufania.

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“Morais ou quaisquer outras disciplinas     Hão mister para andarem bem cobertas     105 As mulheres pagãs ou marroquinas?

“Mas, se tais despejadas foram certas     Do castigo, que está-lhes iminente,     108 Bocas teriam para urrar abertas.

“E, se, antevendo, não me engana a mente,     Grande angústia hão de ter antes que nasça     111 Barba ao que em berço embala-se inocente.

“Ah! de dizer quem sejas faz-me a graça!     Não por mim; mas a turba atenta mira     114 Teu corpo e a sombra, que com ele passa.” —

— “Se agora à mente” — eu disse — “te     surgira     O que outrora um pra o outro havemos sido,     117 Desprazer inda agudo te pungira.

“Há pouco, me há do mundo conduzido     Quem me precede; havia então rotunda     120 A irmã do que vês aparecido.” —

E o sol mostrei — “Por noite a mais profunda     Dos verdadeiros mortos me há guiado,     123 Quando a carne inda os ossos me circunda.

“Tenho depois, por ele confortado,     Desta montanha pelos círc’los vindo,

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126 Que em vós corrige o que trazeis errado.

“Quanto disse, acompanha-me, cumprindo     Té onde a Beatriz veja o semblante:     129 Então sem ele avante irei seguindo.

“Ei-lo! É Virgílio o guia meu constante!     É aquele outro a sombra venturosa     Por quem o vosso reino, vacilante,

133 Tremeu, quando partiu-se jubilosa.” —

11. Labia mea etc., verso 17 do Salmo 50: “Abre-me os lábios,     ó     Senhor, e a minha boca te louvará.” — 25. Erisiton, tendo     injuriado a Geres foi punido com fome insaciável. — 28-29. O     povo aqui padece çue Solima perdeu etc., o povo de Jerusalém     sofreu tanto a fome, que, segundo o historiador hebreu Flavio     José, uma mulher chamada Maria comeu o seu próprio filho. — 32. O que na humana face lesse “omo“, na face humana está     escrita a palavra “omo“ (homem), os olhos representando os dois     o e o nariz com as sobrancelhas o m. — 48. Forese Donati,     parente de Dante, morto em 1296. — 74. Cristo dizer: Eli!,     Cristo crucificado, pouco antes de morrer, disse: “Eli, Eli,     lamma sabactani”, isto é: “Meu Deus, meu Deus, por que     me     desamparaste?”

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    CANTO XXIV

Forese mostra a Dante outras almas de gulosos, entre as quais a     de Bonagiunta de Lucca, que prediz ao Poeta que se enamorará     de uma mulher da sua cidade, e lhe louva o estilo da poesia.     Procedendo, os Poetas encontram outra árvore e ouvem outros     exemplos de intemperança castigada.

NÃO era o passo e o praticar mais lento     Um do que outro; igualmente prosseguiam,     3 Qual nau servida por galerno vento.

As sombras, que duas vezes pareciam     Mortas, nos cavos olhos grande espanto,     6 De estar eu vivo certas, exprimiam.

Eu, a falar continuando, entanto,     Disse: — “Conosco para ir retarda     9 Sua ascensão essa alma ao reino santo.

Mas, rogo-te declara: onde é Picarda?     Afamada por feitos há pessoa     12 Entre a gente, que sôfrega me esguarda?” —

— “Tanto era minha irmã gentil e boa     Que não sei qual foi mais: triunfa leda     15 No Olimpo, onde alcançou formosa c’roa.

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“Nomes dizer de mortos não se veda     Aqui” — Forese torna; e logo ajunta: — 18 “Tanto a fome as feições nossas depreda!”

“Este que vês de Lucca é Bonagiunta;     E aquela alma (seu dedo ia apontando),     21 Mais que todas desfeita, que lhe é junta,

“Foi Tours; já na Igreja exerceu mando.     Stá, por jejuns, anguilas de Bolsena,     24 Ver na ceia, afogadas, expurgando.” —

Muitos mais nomeou, que sofrem pena;     E todos demonstravam star contentes     27 De ouvir dizer Forese o que os condena.

Em vão de fome vi mover os dentes     Ubaldino de Pila e Bonifaço,     30 Que regeu com seu bago muitas gentes.

Misser Marchese vi, que largo espaço     Com menos sede em Forli consumia.     33 Em beber; mas julgava-o inda escasso.

Mas, como o que repara e que aprecia     Escolhendo, ao de Lucca eu me inclinava,     36 Porque mais conhecer-me parecia.

Submissa voz da boca lhe soava,

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Causa do mal, que trouxe-lhe o castigo:     39 “Gentucca” ou não sei que pronunciava.

— “Ó alma” — disse — “que falar     comigo     Queres, ao claro te explicar procura:     42 Satisfeita serás como contigo.

— “Mulher nasceu, mas inda é virgem pura,     Por quem” — torna — “hás de amar minha     cidade,     45 Posto assunto haja sido de censura.

“Este prenúncio levas da verdade;     Se por meu murmurar te hás enganado,     48 Trazer-te há de o porvir à claridade,

“Se vejo aquele diz, que à luz há dado     Versos novos, que assim têm seu começo:     51 Damas que haveis de amor na mente entrado.

— “Que vês em mim” — lhe respondi — “confesso     Quem screve o que somente Amor lhe inspira:     54 O que em meu peito diz falando expresso.

“O óbice ora vejo que eu não vira     Que ao Notário a Guittone a mim tolhia     57 O doce estilo da moderna lira.

“As vossas plumas vejo que à porfia     Seguem de perto o inspirador potente;

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60 Tanto alcançar às nossas não cabia.

“Quem, por mais agradar, mais alto a mente     Erguer que, não discerne um do outro estilo.” 63 Disse e calou-se de o dizer contente.

Como aves, que no inverno o noto asilo     Buscando ora num bando incorporadas,     66 Ora em fila apressadas vão-se ao Nilo,

Essas almas assim já demoradas,     Volvendo o rosto rápidas fugiram,     69 Da magreza e vontade auxiliadas.

Como aquele a quem forças se esvaíram     Correndo afrouxa os passos para o alento     72 Cobrar, em quanto os sócios se retiram;

Forese assim que a passo andava lento     Deixou passar a santa grei dizendo:     75 — “Quando de ver-te inda terei contento?” —

— “Quanto haja de viver” — fui respondendo —     “Não sei; por menos que me dure a vida     78 Mais ao seu termo os meus desejos tendo.

“Que onde foi a existência concedida     Mais escassa a virtude é cada dia:     81 Ruína espera triste e desmedida.

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— “O que mor culpa tem” — me retorquia —     “À cauda de um corcel vejo arrastado     84 Ao vale, onde o pecado não se expia:

“Vai sempre, sempre mais acelerado     Aquele bruto na carreira fera:     87 Fica vilmente o corpo lacerado.

“Não há de girar muito cada espera     (Para o céu se voltava) antes que seja     90 Claro o que te explicar eu não pudera.

“Adeus, porém: quem neste reino esteja     Ao tempo dê seu preço verdadeiro;     93 O que eu perco ao teu lado já sobeja.”

Como a campanha deixa um cavaleiro,     A galope veloz se arremessando,     96 Por ter na liça as honras de primeiro:

Forese assim de nós foi-se alongando.     Fiquei dos dois espíritos ao lado,     99 Que o mundo está por mestres proclamando.

Quando em distância tanta era apartado,     Que as vistas nesse andar o acompanharam,     102 Como a mente ao que havia revelado.

Eis perto aos olhos meus, que se voltaram,     De outra árvore de pomos carregada

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105 Os ramos vicejantes se mostraram.

As mãos alçava multidão cerrada     À fronde em brados; turba semelhava     108 De infantes, por desejos vãos turbada,

Um objeto implorando a quem negava,     E que o mostrando ainda mais acende     111 Desejo, que a cobiça lhes agrava.

Foi-se, porém, porque ninguém a atende.     Da grande árvore então nos acercamos,     114 Que a todo o rogo e pranto desatende.

Uma voz de entre as folhas escutamos: — “Ide-vos logo; não chegueis ao perto!     117 Eva o fruto há mordido de outros ramos:

“Stão longe estes de lá provêm de certo.”     — Então de lado os passos dirigimos,     120 Unidos no caminho, que era aberto.

— “Lembrai esses malditos” — inda ouvimos —     “Filhos das nuvens, duplos na figura,     123 Que atacaram Teseus, ébrios cadimos;

“E os que em beber acharam tal doçura,     Que os não quis Gedeão na companhia,     126 A Madiã marchando lá da altura.”

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Por junto à borda o passo se volvia,     E as penas escutamos dos pecados     129 Mortais, que outrora a gula cometia.

Já pela estrada solitária entrados,     Demos mais de mil passos inda avante,     132 Contemplando, em silêncio mergulhados.

— “Em que cismais vós outros?” — retumbante     Soou voz. — Fiquei logo em sobressalto     135 Como o corcel de medo titubante.

Para ver levantei a fronte ao alto:     Aos olhos, dera em fusão, no forno ardente,     138 Vidro ou metal não dera igual assalto,

Como o anjo que eu vi resplendecente.     Dizia: — “A volta dai para a subida!     141 Quem quer paz para aqui vai certamente.” —

Daquele aspecto a vista foi tolhida:     Como quem pelo ouvido os passos guia,     144 Fui caminhando, aos Vates em seguida.

E qual aura de maio, que anuncia     A alvorada, das flores espalhando     147 E das ervas o aroma, que extasia,

Tal sobre a fronte um sopro senti brando,     Senti mover-se a pluma: então rescende

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150 Odor celeste, o olfato me enlevando

Dizer senti: — “Feliz o que se acende     Na Graça o que, da gula desligado,     Ao sabor do apetite não se prende,

154 Comendo quanto é justo sem pecado!” —

10. Picarda, irmã de Forese Donati. — 19. Bonagiunta degli     Orbicciani, poeta contemporâneo de Dante. — 22. Tours, o papa     Martinho IV, que foi cônego da catedral de Tours. — 29.     Ubaldino de Pila, de nobre família pisana. — Bonifaço,     Bonifazio     dei Fieschi, arcebispo de Ravenna. — 31. Messer Marchese de     Rigogliosi, gentil-homem de Forli. — 39-43 Gentucca, senhora     de Lucca, que Dante amou, quando em 1314 esteve em Lucca     na casa do seu amigo Uguccione della Faggiuola. — 51. Damas     etc., primeiro verso de uma canção de Dante em louvor de     Beatriz. — 56. O notário, Jacopo de Lentini. — Guittone     de     Arezzo. — 82. O que mor culpa tem, Corso Donati, irmão de     Forese, chefe do partido dos Pretos, foi assassinado em 1308. — 121-123. Esses malditos... filhos das nuvens etc., os Centauros,     que foram mortos por Teseu quando tentavam raptar Ipodamia. — 124-126. Os que não quis Gedeão etc., os soldados hebreus     que Gedeão, seguindo os conselhos de Deus, não quis por     companheiros, porque beberam avidamente, ajoelhando-se na     fonte.

    451

    CANTO XXV

Subindo por estreita senda, do sexto ao sétimo e último     compartimento, Dante pergunta a Virgílio como podem emagrecer     as almas, que não precisam de alimento. Respondem-lhe Virgílio,     antes, e depois Estácio. Este fala da geração do corpo     do homem,     da alma que nele Deus infunde, e da maneira de existência     depois da morte. O compartimento no qual acabam de chegar     está cheio de flamas, nas quais estão se purificando as almas     dos luxuriosos.

PARA subir o tempo nos urgia;     Meridiano ao Tauro o sol já dera,     3 Bem como a noite ao Scorpião cedia

Qual viajor, que o passo não modera,     Que em nada atenta e sempre segue avante,     6 Se em seu querer necessidade impera,

Nós penetramos no rochedo hiante,     Por escada estreitíssima subindo,     9 Que obriga um ir atrás outro adiante.

Da cegonha o filhinho, asas abrindo,     Por voar logo, encolhe-as e não tenta     12 Deixar o ninho, esforço não sentindo:

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Tal o desejo em mim ferve e arrefenta     De perguntar chegando quase ao ato     15 De quem para dizer se experimenta.

O Mestre, sem parar, pressente o fato: — “Tens da palavra o arco” — diz — “tendido,     18 Deixa a seta partir; não sê coato“. —

De confiança então já possuído,     Falei, — “Como é possível fique magro     21 Quem não precisa mais de ser nutrido?” —

— “Se recordaras” — torna — “Meleagro     Que, em ardendo um tição se consumia     24 Isso não fora de entender tão agro.

“Também de fácil crença te seria,     Se no espelho notaras que o teu rosto,     27 Segundo te movesses, se movia.

“Por dissipar-se a dúvida ao teu gosto,     Eis Estácio, a quem rogo fervoroso     30 Seja a dar-te o remédio bem disposto.” —

— “Se eu o eterno conselho explicar ouso”     — Disse Estácio — “quando és, Mestre, presente,     33 Ao teu querer me curvo respeitoso.

“Se, filho, o que eu disser guardas na mente,     Hás de ter — prosseguiu — “esclarecidas

453

36 Essas dúvidas tuas prontamente.

“Sangue puro, que as veias ressequidas     Não bebem, que de parte permanece     39 Quais viandas em mesas bem providas,

“Do coração tomou que lhe oferece     Virtude de que a forma aos membros veio,     42 Como o que às veias por fazê-los desce;

“Ainda, elaborado, desce ao seio     De canal que não digo; após, unido     45 Em vaso é natural com sangue alheio.

“É ali com outro confundido,     Paciente sendo um, sendo outro ativo,     48 Pela perfeita sede, em que há nascido.

“Trabalho então começa produtivo     Coagulando e depois vivificando     51 O condensado efeito primitivo:

“Em alma a força ativa se tornando,     Como em planta, é, no entanto, diferente:     54 Pára a planta, vai a alma caminhando.

“Prosseguindo, já move-se, já sente,     Como o fungo marinho; e logo emprende     57 Os sentidos, que em si tem qual semente.

454

“Ora contrai-se, filho, ora se estende     A força genetriz, do peito vinda,     60 Donde natura em todo o corpo entende.

“Mas, filho meu, não sabes certo ainda     Como a ser vem um ente cogitante:     63 É ponto em que um mais sábio no erro finda;

“Pois, na doutrina sua extravagante,     Distinto da alma fez o entendimento     66 Possível, não lhe vendo órgão bastante.

“Abre à luz da verdade o pensamento:     Vê que, no feto os órgãos em chegando     69 Do cérebro ao perfeito acabamento,

“O Primeiro Motor, ledo encarando     Da natureza tal primor, lhe inspira ,     72 Esp’rito, em que virtudes stão brilhando,

“E que ativo alimento dali tira     Para a própria substância; e alma se forma,     75 Que vive e sente e pensa e em si regira.

“Com meu dizer tua mente se conforma,     Notando que do sol calor em vinho,     78 Da uva ao sumo unido, se transforma.

“O esp’rito, se Laquésis não tem linho,     Deixa a carne e virtude, traz consigo

455

81 Dotes, que teve no corpóreo ninho.

“Sobem de ponto no valor antigo     A memória, a vontade, o entendimento,     84 Da mudez o mais fica no jazigo.

“Cai logo, de espontâneo movimento,     Por maravilha, numa ou noutra riba,     87 Onde há do rumo seu conhecimento.

“Vindo a lugar, que o circunscreva e iniba,     Da força informativa é rodeado,     90 Como em membros que a morte nos derriba.

“Bem como o ar de chuva carregado,     Se dos raios solares é ferido,     93 De cores várias mostra-se adornado,

“O ar vizinho assim fica inserido     Nessa forma, que desde logo amanha     96 Virtualmente o esp’rito ali contido;

“E semelhante ao fogo, que acompanha     Labareda, com ele se movendo,     99 Cada alma segue aquela forma estranha.

“Aparência de forma nela havendo     Sombra se chama; e, após, ela organiza     102 Sentidos, o da vista compreendendo.

456

“Fala, ri-se, ama, odeia ou simpatiza,     Exala dor, carpindo ou suspirando:     105 Neste monte já tens prova precisa.

“Segundo está sofrendo ou desejando,     Da alma também altera-se a figura:     108 Vê, pois, o que a magreza está causando.” —

Voltando à mão direita, da tortura     Entramos pela estância derradeira:     111 Então preocupou-nos outra cura.

Flamas brotava aqui a ribanceira,     Aura ativa da estrada respirava:     114 Subindo, as rechaçava subranceira.

Ao longe da árdua borda caminhava     Um por um: precipício temoroso     117 De um lado, e do outro o fogo eu receava.

Disse Virgílio: — “Aqui bem cauteloso     Deve aplicar aos olhos seus o freio     120 Quem não quiser dar passo perigoso.” —

Summae clementiae Deus stavam no seio     Do grande incêndio as almas entoando,     123 E de voltar-me o ardor então me veio.

Vi nas chamas espíritos andando:     Aos movimentos seus, aos meus estava

457

126 Atento, a vista a uns e a outros dando.

E quando aquele cântico findava     Virum non cognosco alto se ouvia,     129 E o cântico em tom baixo renovava.

E, terminando, o coro repetia: “Diana expulsa da floresta Helice     132 Que o veneno de amor tragado havia.” —

Cantaram; cada qual como antes disse     Esposas e maridos, que hão guardado     135 A fé, que Deus mandou sempre os unisse:

Este modo há de ser, creio, alternado,     Enquanto os rodear a chama ardente:     A chaga por tal bálsamo e cuidado

139 Há de ser guarnecida finalmente.

2-3. Meridiano ao Touro, etc. No hemisfério do Purgatório eram     duas horas da tarde e no hemisfério antípoda eram duas horas     depois da meia-noite. — 22. Meleagro, personagem de Ovídio ao     qual, ao nascer, as fadas predisseram que a sua vida estava     ligada a um tição. Sua mãe Altéia guardou o tição     para     preservar-lhe a vida; mas, depois, irada contra o filho, o lançou     ao fogo no qual se consumiu, e Meleagro morreu. — 37-57.     Nestes tercetos é descrita a forma da geração humana.      — 63.     Um mais sábio, o filósofo Averroes que não encontrando     no     homem um órgão especial para o pensamento, como os olhos     para ver, as orelhas para ouvir etc., concluiu que o intelecto era     disjunto da alma do homem. — 70. O Primeiro Motor, Deus. —

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79. Laquesis, a Parca que fia o estame da vida. — 121. Summae     Deus clementiae, hino eclesiástico com o qual se roga a Deus     que nos livre da luxúria. — 128. Virum non cognosco, palavras     da Virgem Maria ao arcanjo Gabriel. — 131. Helice, ou Calixto,     que foi expulsa da sua companhia por Diana, que sempre se     manteve virgem, por ter sido seduzida por Júpiter.

    459

    CANTO XXVI

Entre os luxuriosos e os que pecaram contra a natureza Dante     encontra o poeta Guido Guinicelli, ao qual exprime a sua     profunda admiração. Guido lhe aponta o poeta provençal     Arnaud     Daniel, que o saúda em versos provençais.

ENQUANTO imos a borda costeando.     Um após outro, o Mestre repetia:     3 “Eu te previno, vai com tento andando!’

O sol pela direita me feria;     Purpureava a luz todo o poente:     6 Do céu o azul de branco se tingia.

Co’a sombra minha ainda mais rubente     Parece a flama; e as almas, que passavam,     9 Notando-a davam-me atenção ingente.

Nessa estianheza ensejo deparavam     Para, entre si, conversação travarem.     12 “Não é fictício o corpo seu” — falavam.

Quando podiam, mas tendo cuidado     Avançavam por mais certificarem,     15 O fogo expiatório em não deixarem.

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— “Tu, que vais após outros colocado,     Mostrando ser, não tardo, respeitoso,     18 Responde: em fogo e sede ardo, abrasado.

“Não sou eu só de ouvir-te desejoso:     Quantos vês da resposta sentem sede     21 Mais que Etíope da água cobiçoso.

“Diz-nos como o corpo teu parede     Oponha desta sorte à luz do dia:     24 Não te colheu da morte acaso a rede?” —

Uma sombra falou-me. Eu pretendia     Logo explicar; porém fui distraído     27 Pelo que então de novo aparecia.

Pelo caminho andando escandecido,     Outra grei ao encontro veio desta:     30 Atalhei-me, em mirar pondo o sentido.

De parte a parte se dirige presta     Uma alma a outra; osculam-se e em seguida     33 Vão-se, contentes dessa breve festa.

Assim da negra legião saída,     Em marcha, toca em uma outra formiga,     36 Por saber do caminho ou sorte havida.

Separando-se após a mostra amiga,     Antes que o giro sólito transcorra

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39 Cada uma grei em brados se afadiga.

— “Sodoma!” — clama a última — “Gomorra!” E a outra: — “Entrou Pasifae na vaca,     42 Por que à luxúria sua touro acorra.” —

Como grous, de que um bando se destaca     Para os Rifeus e o outro pra o deserto,     45 Pois calma ali e frio aqui se aplaca,

Uns se vão, outros vêm; voltando, ao perto     O hino se renova, e o pranto e o brado,     48 Que tem, qual mais convém, efeito certo.

Os mesmos, que me haviam perguntado,     De mim como inda há pouco, se acercaram:     51 Stá desejo nos gestos desenhado.

Vendo ainda o que já manifestaram, — “Sabeis vós, que tereis de glória em dia,     54 Paz que os vossos martírios vos preparam,

“Que inda não jaz meu corpo em terra fria;     Comigo vem na própria compostura,     57 Com seu sangue e seus membros” — lhe dizia.

“Minha cegueira aqui a luz procura:     Lá no céu santa Dama há conseguido     60 Que eu, vivo, por aqui me eleve à altura.

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“Dizei-me (e seja em breve concedido)     Quanto anelais, no céu, que é de amor cheio     63 E em que espaço mais amplo está contido!

“Para que eu tenha de narrá-lo o meio,     Quem fostes e também que turba é aquela,     66 Que como hei visto ao vosso encontro veio.” —

Se o pasmo seu o montanhês revela,     Quando rude e boçal vê de repente     69 Quanto pode encerrar cidade bela,

Na grei não foi o efeito diferente.     Tornando sobre si, porém, do espanto,     72 Que se esvai logo em peito preminente,

— “Ditoso tu, que vendo o nosso pranto” — Respondeu quem primeiro há perguntado — 75 “Alcanças ao viver ensino santo!

“Inquinaram-se aqueles no pecado,     Porque César outrora, triunfando,     78 Rainha, em vitupério, foi chamado.

“Eis por que se acusavam se apartando,     Contra si de — Sodoma! alçando o brado,     81 Do fogo à pena o opróbrio acrescentando.

“Hermafrodito foi nosso pecado;     Mas tendo as leis humanas transgredido

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84 De brutos no apetite desregrado,

“Por nossa injúria o nome é repetido,     Quando partimos, da mulher impura,     87 Que em bestial figura besta há sido.

“Se queres, vendo a nossa nódoa escura,     Do nome de cada um ser instruído,     90 Não sei, nem tempo para tal nos dura.

“Mas o meu te farei bem conhecido;     Vês Guido Guinicelli: o crime expia     93 Por se haver inda a tempo arrependido.” —

Quais, ante a fúria em que Licurgo ardia,     Os filhos dois achando a mãe, ficaram,     96 Tal senti, sem correr viva alegria,

Quando o nome essas vozes declararam     Do pai meu e do pai de outros melhores,     99 Que em doce metro amores decantaram.

Sem falar, sem ouvir perscrutadores     Longamente olhos meus o contemplaram:     102 Vedavam-me acercar do fogo ardores.

Depois que em remirá-lo se enlevaram,     Ao seu serviço declarei-me presto,     105 E solenes promessas o afirmaram.

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— “Imprimiu tal vestígio o teu protesto” — Tornou — “no peito meu agradecido,     108 Que fora além do Letes manifesto.

“Se hei de ti a verdade agora ouvido,     O que di’no me fez do sentimento,     111 Que tens na voz, nos olhos insculpidos?” —

E eu: — “Das rimas vossas o concento,     Que, enquanto usar-se do falar moderno,     114 Salvas hão de viver do esquecimento.” —

— “O que te indico, irmão” — tornou-me terno     (E seu dedo outra sombra me apontava)     117 Mais primor teve no falar materno.

“Nos versos, nos romances superava     A todos: stultos só dizer ousaram     120 Que o Limosim aquele avantajava.

“Pelo rumor verdade desprezaram,     E, como arte e razão desconheceram,     123 Sem fundamento opinião formaram.

“Assim muitos outrora procederam     Com Guittone e o seu nome hão proclamado;     126 Mas verdade alfim todos conheceram.

“E pois que o privilégio hás alcançado     De entrar nesse mosteiro portentoso,

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129 Por Cristo, como abade governado,

“Um Pater Noster diz por mim piedoso;     Quanto mister havemos neste mundo,     132 Onde ato algum não há pecaminoso.” —

“Por dar lugar ao spírito segundo,     Já próximo, no fogo desparece.     135 Qual peixe, quando imerge de água ao fundo.

Acerquei-me da sombra que aparece,     E disse que ao seu nome apercebia     138 Meu desejo o lugar que assaz merece.

Logo assim livremente me dizia: — “Tão cortês vosso rogo é, que escutando,     141 Me encobrir não quisera ou poderia.

“Arnaldo sou, que choro e vou cantando,     Triste os erros passados meus lamento,     144 E o fausto dia estou ledo esperando.

“E peço-vos pelo alto valimento,     Que da escada a eminência ora vos guia,     Que em tempo vos lembreis do meu tormento.”

148 E, após, ao fogo apurador se envia.

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40. Sodoma... Gomorra, V. Inferno, canto XI, 50; cidades que     Deus destruiu por pecarem contra a natureza. — 41. Pasifae, V.     Inferno, canto XII, 13; mulher do rei de Creta, para unir-se com     um touro se colocou numa vaca de madeira; e desta união     nasceu o Minotauro. — 44. Rifeus, montanhas da Moscóvia     boreal. — 77. César... rainha, em vitupério, foi chamado,     conta     Suetônio que os soldados de César, no triunfo que lhe foi     concedido por ter vencido os Galos, cantavam: “César submeteu     as Gálias, Nicomedes a César”, aludindo às suas     relações com o     rei Nicomedes. — 92. Guido Guinicelli, célebre poeta bolonhês     n.     em 1230 e m. em 1276. — 94-95. Quais, ante a fúria etc.,     Ipsifile condenada à morte por Licurgo, rei da Neméida, mas     foi     salva pelos dois filhos que, antes, não a conheciam. — 115. O     que te indico etc., o trovador Arnaud Daniel, que viveu na     metade do século XII. — 120. O limosim, Gerault de Berneil de     Limonges, outro trovador provençal. — 125. Guittone de Arezzo,     poeta aretino do sécuio XII.

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    CANTO XXVII

Para chegar à escada que do sétimo e último compartimento     leva     ao cimo do monte, Dante é obrigado por um Anjo a atravessar as     flamas. Pouco depois de ter começado a subir, o ar escurece e     sobrevém a noite. Param e Dante, cansado, adormece.     Despertado pela madrugada, os Poetas recomeçam a subir,     chegando ao Paraíso Terrestre.

COMO, quando os primeiros raios vibra     Lá onde Cristo sangue derramara,     3 Sotopondo-se o Ebro à excelsa Libra,

E, ao meio-dia, o Gange aquece e aclara     Stava o sol; declinando a luz já se ia:     6 Eis ledo o anjo de Deus se nos depara.

Fora da flama, à borda ele se erguia,     Beati mundo corde modulando.     9 Em tom de voz, que a humana precedia.

“Para avante passar” — acrescentando —     “Apurai-vos no fogo, almas piedosas!     12 Entrai, de além nos hinos atentando.”

Lhe ouvindo ao perto as vozes sonorosas,     Sossobrei, como quem, perdido o alento,

    468

15 Da tumba às trevas desce pavorosas.

Mãos cruzadas, quedei sem movimento;     De olhos na chama, os vivos relembrava,     18 Que das fogueiras vira no tormento.

A mim cada um dos Vates se voltava. — “Não temas, filho! Aqui dor se padece,     21 Mas não morte” — Virgílio me exortava.

“Lembra! Lembra ou memória em ti falece?     Já sobre Gerião levei-te a salvo:     24 De Deus mais perto, em mim virtude cresce.

“Se destas chamas, crê, tu foras alvo     Em todo o espaço de um milheiro de anos,     27 De um só cabelo ficarias calvo.

“Se cuidas no que digo haver enganos,     Te acerca e por ti próprio experimenta,     30 Ao fogo expondo de tua veste os panos.

“Todo o temor do ânimo afugenta!     Vem, pois! Mostra que tens peito seguro!” — 33 Ouvi, mas o valor meu não se aumenta.

Vendo-me ainda pertinace e duro,     Merencório me disse: — “Ó filho amado,     36 De Beatriz a ti só este muro!” —

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De Tisbe ao nome, Píramo chegado     À morte, os olhos para vê-la abria,     39 Quando há seu sangue à amora cor mudado;

A resistência minha assim cedia.     A Virgílio volvi-me, o nome ouvindo,     42 Que sempre o pensamento me alumia.

Então a fronte meneou; sorrindo,     Como a infante, que um pomo há seduzido,     45 Disse: — “Aqui ficaremos persistindo?” —

Sou por ele no fogo antecedido;     Estácio, que antes sempre caminhara,     48 Depois de mim seguia a seu pedido.

Eu pelo fogo apenas penetrara,     Ardor tanto senti, que, pra recreio,     51 Em vidro derretido me lançara.

De confortar-me procurando o meio,     De Beatriz Virgílio assim falava:     54 — “Seu gesto julgo ver de fulgor cheio.” —

Voz peregrina ouvi, que ali cantava:     Fora saímos nós, dos sons guiados,     57 Na parte, onde a subida se mostrava.

— “Vinde, ó vós de meu Pai abençoado!”     —- Do seio de um luzeiro retinia,

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60 Tal que os olhos cerram-se ofuscados.

“Transmonta o sol, a noite segue ao dia,     Não vos detende; a passo andai ligeiro,     63 Que o Ponente já trevas anuncia.” —

A trilha no penhasco sobranceiro     Direita sobe à parte em que tolhia     66 A sombra minha o lume derradeiro.

Vencido apenas nosso passo havia     Alguns degraus, a sombra, que fenece,     69 Mostra que o sol já luz não difundia.

Antes que em todo apresentado houvesse     O imenso horizonte igual aspeito,     72 E a noite os seus véus todos estendesse,

Um degrau cada qual tomou por leito;     Que nos tirara da montanha a agrura,     75 Mais que o desejo de subir o jeito.

Como as cabras das penhas sobre a altura,     Antes de fartas, rápidas e ardentes,     78 Têm, ruminando, mansidão, brandura;

Pousam à sombra, enquanto o sol candentes     Lumes despede, e as guarda o pegureiro     81 Com seu cajado e os olhos previdentes;

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E como o guardador, que no terreiro     Quedo pernoita em sentinela aos gados     84 Contra assaltos do lobo carniceiro:

Assim nós três estávamos pousados,     Eu como cabra, os Vates quais pastores,     87 Da rocha a um lado e a outro conchegados.

Escassa aberta deixa ver fulgores     De estrelas, que do céu naquela parte,     90 Contemplava mais lúcidas, maiores.

Nessa vista engolfei-me por tal arte,     Que o sono me prendeu, sono que à mente     93 Do que há de ser a provisão comparte.

Naquela hora em que Vênus do Oriente     Seus lumes sobre o monte difundia,     96 Parecendo de amor star sempre ardente,

Jovem formosa em sonho ver eu cria,     Dama que em veiga amena passeando,     99 Flores colhendo, a modular dizia:

— “Quem meu nome pedir, vá me escutando:     Sou Lia e uma grinalda, cuidadosa,     102 Co’as minhas belas mãos a tecer ando.

“Mirar-me, hei-de no espelho mais garbosa:     De sua mana, Raquel se não separa,

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105 Sentada o inteiro dia descuidosa.

“De ver os belos olhos seus não pára,     Como eu em me adornar sou diligente:     108 Ela contempla, eu trabalhar tornara!”

Já vem do dia o precursor splendente,     Que tanto alenta a esp’rança ao peregrino,     111 Quando o seu lar já próximo pressente.

Fugia a treva ao lume matutino — E com ela o meu sono: ergui-me ativo,     114 Dos mestres tendo no exemplo o ensino.

— “O pomo, que é tão doce, quanto esquivo,     Que a ambição dos mortais procura ansiosa,     117 Hoje à fome há de dar-te o lenitivo.” —

Estas palavras proferiu donosa     Do Mestre a voz: janeiras não dariam     120 Jamais satisfação tão graciosa.

Tão vividos anelos me pungiam     De alar-me ao cimo excelso, que julgava     123 Que asas o passo meu favoreciam.

Quando a comprida escada terminava     E o pé firmamos no degrau superno,     126 Virgílio, me encarando, assim falava:

473

— “O fogo temporário e o fogo eterno     Tens visto, filho, e a altura hás atingido.     129 Além de cuja extrema não discerno:

“Te hei com engenho e arte conduzido:     Seja-te agora o teu querer o guia;     132 Angústias e fraguras tens vencido.

“Olha: o semblante o sol já te alumia;     Flores, ervinhas, árvores virentes     135 Vê que a terra espontânea brota e cria.

“Antes que os olhos venham refulgentes,     Que em teu prol me enviaram por seu pranto,     138 Repousa, ou pelos prados vai florentes.

“Não mais te falo, nem te aceno, entanto;     Possuis vontade livre, reta e boa,     Cumpre os ditames seus: a ti, portanto,

142 Pois de ti és senhor, dou mitra e c’roa.

1-5. Como, quando os primeiros raios etc. O sol surgia em     Jerusalém; na Espanha era meia-noite. No Purgatório o sol     tramontava. — 8. Beati etc., bem-aventurados os limpos de     coração porque eles verão a Deus (S. Mateus, Evang. V,     8). — 23. Gerião etc., v. Inf XVII. — 101. Lia, filha de Labão     e primeira     mulher de Jacó, símbolo da vida ativa. — 104. Raquel,     irmã de     Lia e segunda mulher de Jacó, símbolo da vida contemplativa.

474

    CANTO XXVIII

O Poeta descreve a beleza do Paraíso Terrestre. Chegam Dante,     Virgílio e Estácio perto de um rio que os impede de prosseguir.     Do     outro lado do rio aparece uma mulher de maravilhosa beleza que     discorre a respeito da condição do lugar, resolvendo as dúvidas     que Dante lhe propõe.

VAGAR já nos recessos desejando     Da selva divinal, vivida espessa,     3 Que ao novo dia o lume faz mais brando,

Daquela encosta a me afastar dou pressa.     Pela veiga me interno a passo lento,     6 Doce aroma sentindo, que não cessa.

Do ar, que circulava, o doce alento,     Mas sempre igual, a fronte me afagando,     9 Tinha o bafejo de suave vento.

As folhas, molemente balouçando,     Do santo monte à parte se inclinavam,     12 A que a sombra primeira vai baixando.

Mas, no meneio seu, não se acurvavam     Em modo, que na rama aos passarinhos     15 Os hinos perturbassem, que entoavam.

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    Pousados ledamente entre os raminhos     Saudavam com seus cantos a alvorada     18 Da fronde os acordando aos murmurinhos;

Assim de Chiassi no pinhal soada     De ramo em ramo corre quando a amara     21 Prisão, abre ao mestre Eolo a entrada.

Com demorado andar eu caminhara     Na selva antiga tanto, que não via     24 Mais o lugar, por onde penetrara.

Eis andar um ribeiro me tolhia,     Que, à sestra deslizando-se, beijava     27 A ervinha, que às margens lhe crescia:

O cristal dessa linfa superava     Da terra água a mais pura e transparente;     30 Quanto continha em si patente estava.

Entanto, pela sombra permanente,     Que luz da lua ou sol nunca atravessa,     33 Negreja aquela plácida corrente.

O pé detenho, e a vista se arremessa     Além do humilde rio, contemplando     36 Primores, com que maio se adereça,

Então se of’rece aos olhos, como quando

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De súbito um portento surge à mente,     39 De outro pensar qualquer a desviando,

Uma dama sozinha de repente,     Que, cantando, escolhia, de entre as flores,     42 Que o chão cobriam de matiz ridente.

— “Bela dama, que sentes os fervores     Do amor divino, se por teu semblante     45 Da tua alma julgar devo os ardores” —

Assim falei — “se caminhar avante     Até perto do rio te aprouvera,     48 Te entendera esse canto inebriante.

“Tão linda, em tal lugar, lembras qual era     Prosérpina, ao perdê-la a mãe querida     51 E ao perder também ela a primavera.” —

Qual menina, que em danças entretida,     Gira ligeira em terra deslizando,     54 Os passos troca e volve-se garrida,

Sobre o esmalte das flores se voltando,     A mim se dirigiu, como donzela     57 Que vai, modesta, os olhos abaixando.

Quanto o desejo meu sôfrego anela     Acercou-se e da angélica toada     60 Distinta pude ouvir a letra bela.

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    Logo em chegando à borda em que banhada     A erva era da linfa cristalina,     63 De olhar-me fez a graça assinalada.

Não creio que na vista peregrina     De Vênus lume tal resplandecesse     66 Ao feri-la de amor seta mali’na.

De fronte aos olhos a sorrir se of’rece.     As mãos de lindas flores tendo plenas,     69 De que espontâneo o solo se guarnece.

A nós três passos interpõem apenas:     O Helesponto que Xerxes transcendera,     72 Lição em que há para os soberbos penas,

Em Leandro mais ódio não movera,     Quando entre Sesto e Ábidos nadava,     75 Do que o rio que tanto estorvo me era.

— “Sois recém-vindos” — ela assim falava —     “Meu riso ao ver-vos no lugar eleito     78 À humana raça, quando à luz brotava,

“Talvez vos maravilhe por suspeito.     Se lembrado o salmo Delectasti,     81 De todo o engano vos será desfeito.

“Tu, que estás adiante e me falaste

478

Que mais ouvir desejas? Eis-me presta     84 Explicação a dar-te, quanto baste.” —

— “Esta água” — torno — “e o som     desta floresta     Opõem-se à minha fé na maravilha.     87 Que eu tinha ouvido e que é contrária a esta.”     —

— “Eu te direi a causa, de que é filha     A razão que te move essa estranheza;     90 Terás, em vez de névoa, a luz que brilha.

“O Bem, que em si somente se embeleza,     Apto ao bem fez o home’; em arras deu-lhe     93 De eterna paz à edênica riqueza.

“A culpa sua este alto dom tolheu-lhe;     A culpa sua em prantos, em desgostos     96 Os prazeres, os risos converteu-lhe.

“A fim de que efeitos, que, compostos     São de eflúvios das águas e da terra,     99 Para o calor acompanhar dispostos,

“Ao homem não fizessem qualquer guerra,     Tão alta há se elevado esta montanha,     102 Que é livre desde o ponto onde se encerra.

“E porque todo o ar, por força manha,     Roda ao impulso do motor primeiro,

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105 Quando estorvo nenhum seu giro acanha,

“Este cimo elevado e sobranceiro     Pelo éter vivo ao moto é tão batido,     108 Que o denso bosque remurmura inteiro:

“E sendo em cada um tronco percutido,     A virtude transmite fecundamente     111 Ao ar, que a esparge, em torno revolvido.

“A terra, como é apta, circunstante     Por si ou por seu céu plantas concebe     114 De gênero e virtude variante.

“E pois, já claramente se percebe     Como planta há viçosa e florescente,     117 Quando o germe a terra não recebe.

“Sabe que até jardim toda semente     Do que a terra produz em si compreende     120 E contém fruto inoto à humana gente.

“Esta água de uma origem não depende,     Que alimente vapor que em chuva desça,     123 Como rio que seca ou que se estende.

“De fonte certa vem que nunca cessa,     Pois por querer que Deus tanta dimana,     126 Quanta aqui por canais dois se arremessa.

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“A que neste álveo que ora vês, se encana     Memória do pecado desvanece,     129 Aviva a outra a da virtude humana.

“É Letes, se por ela o mal se esquece,     Eunoé quando lembra: atuam quando     132 O gosto de uma e de outro homem conhece.

“Saber igual aos outros comparando     Não existe ao desta água. Ao teu pedido     135 Satisfação hei dado assim falando.

“Corolário, porém, lhe seja adido:     Não receio que assim te desagrade,     138 Indo além do que fora prometido.

“Poetas que cantavam de ouro a idade     E sua dita, em Parnaso, certamente     141 Sonharam desta estância a f’licidade.

“Estirpe humana aqui fora inocente;     Eterna primavera aqui domina;     144 Foi este néctar, que inventou sua mente.” —

Então a vista aos Vates se me inclina.     Um sorriso em seus lábios se revela,     Esse conceito ouvindo, em que termina.

148 Rosto volvi depois à dama bela.

481

19. Chiassi, localidade (hoje destruída) perto de Ravena, onde     ainda há um grande pinheiral. — 21. Éolo, rei dos ventos.      — 40     Uma dama, Matelda, como Dante dirá no Canto XXXIII, v. 119.     Para a maior parte dos comentadores é Matilde, condessa de     Canossa. — 50. Prosérpina, filha de Ceres que foi raptada por     Pluto quando colhia flores no vale do Etna. — 71. O Helesponto,     o estreito dos Dardanelos que Xerxes, rei da Pérsia, atravessara     com uma ponte de barcos para invadir a Grécia, e que,     derrotado, teve de atravessar novamente. — 73. Leandro, etc.     Leandro todas as noites atravessava a nado o Helesponto, da     sua cidade Ábido a Sesto, onde morava a sua amante Heros. — 80. Delectasti etc., Salmo XCI, 5. — 130. Letes, o rio do     esquecimento. — 131. Eunoé, o rio da boa recordação.

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    CANTO XXIX

Da floresta aparece um súbito esplendor. Dante vê avançar     uma     procissão de espíritos bem-aventurados em cândidas vestes,     e,     no fim da procissão, um carro tirado por um grifo. Ouve-se um     trovão e o carro e o grifo param.

AS vozes, que eu lhe ouvia, ela remata,     Qual dama namorada, assim cantando:     3 Beati quorum tecta sunt peccata!

Como das ninfas o formoso bando,     Que nas umbrosas selvas sós andavam,     6 Qual ver, qual evitar o sol buscando:

Contra o ribeiro os passos a levavam,     Sobre a margem seguindo lentamente;     9 E pelos seus os meus se regulavam.

Cinqüenta assim andáramos somente,     Quando o álveo curvou a linfa pura,     12 E, pois, da banda achei-me do oriente.

Pouco éramos avante na espessura,     Eis, voltando-se, a dama desta sorte     15 Falou-me: — “Escuta, irmão, e ver procura.” —

483

Refulge de repente uma luz forte,     Por todo o espaço imenso da floresta.     18 Relâmpago julguei, que os ares corte.

Mas luz após relâmpagos não resta;     E o fulgor mais e mais resplendecia.     21 Disse entre mim: — “Que maravilha é esta?” —

Pelo ar luminoso se esparzia     Dulcíssima harmonia: e em zelo ardendo     24 De Eva o feito imprudente eu repreendia,

Pois, céu e terra a Deus humildes vendo,     A mulher só, que a vida começara,     27 Violava o preceito, os véus rompendo.

Se fiel fora e as ordens respeitara,     Mais cedo e por mais tempo essa morada,     30 Em delícia inefável, eu gozara.

Prosseguia, tendo a alma transportada     Nas primícias da eterna f’licidade,     33 Em desejos mais vivos abrasada,

Quando vimos de intensa claridade     Sob a rama tornar-se o ar brilhante     36 E o som tomou de um hino a suavidade.

Ó Musas, santas virgens, se, constante     Fome, frio, vigílias hei sofrido,

484

39 Da mercê vos rogar assoma o instante:

Das águas de Hipocrene bem provido     Para em metro cantar idéia imensa     42 De Urânia e das irmãs seja eu valido!

De ver, um tanto além, eu tive a crença     Árvores sete de ouro: era aparência,     45 Emprestava a distância parecença.

Mas, quando me acerquei, quando a evidência     Provou-me quanto a semelhança engana,     48 Dando das cousas falsa inteligência,

A faculdade, que à razão aplana     O discurso, fez ver distintamente     51 Candelabros e ouvir no hino: Hosana!

Cada qual flamejava refulgente,     Mais que no azul do céu rebrilha a lua     54 Da noite em meio, em seu maior crescente.

De pasmo, que no espírito me atua,     A Virgílio me volto; ele me encara:     57 Também revela espanto a vista sua.

Tornei-me ao lampadário, que não pára,     Prosseguindo, porém, solene e lento:     60 Noiva ao altar mais presta caminhara.

485

Eis a dama gritou-me: — “Por que atento     Às vivas luzes stás com tanto excesso,     63 Que desvias do mais o pensamento?” —

Trajadas de alva cor a ver começo     Pessoas, que os luzeiros têm por guia:     66 Candor igual na terra não conheço.

Do rio a linfa à sestra resplendia:     Espelho, minha imagem, desse lado,     69 Oscilando, aos meus olhos refletia.

Dos lumes tanto estava apropinquado,     Que pelo rio só fiquei distante:     72 Parei, por ver melhor, maravilhado.

Esses clarões eu vi passar avante;     Trás si no ar matiz vário espalhavam,     75 A pendões desfraldados semelhante.

Sete listras bem claras desenhavam,     As cores que contém de Delia o cinto     78 Ou stão do sol no arco, figuravam.

Cada estandarte, atrás asas distinto,     Se perdia â vista; entre eles pareciam     81 Dez passos se no cálculo não minto.

Por baixo de tão belo céu seguiam     Vinte e quatro anciões emparelhados:

486

84 Brancos lírios as frontes lhes cingiam.

Todos cantavam juntos: compassados — “Entre as filhas de Adam sejas bendita!     87 Benditos teus excelsos predicados.” —

Quando da margem bem de fronte sita,     De fresca relva e flores guarnecida,     90 A grei se foi que alcançava a santa grita,

Como no céu a luz de outro é seguida,     Quatro animais após se apresentavam,     93 Coroados de fronde entretecida:

A cada qual seis asas adornavam,     Cobertas de olhos tantos, quantos Argo     96 Tinha, quando os seus vida gozavam.

De descrevê-los não faço cargo,     Leitor; a tanto ora me falta ensejo:     99 Nem posso neste ponto ser mais largo.

Contenta Ezequiel o teu desejo:     Ele os viu, que, do norte se arrojando,     102 Vinham com vento, nuve’, ígneo lampejo.

Como os pintou, estava os contemplando:     Dif’rença quanto às asas há somente;     105 João eu sigo, Ezequiel deixando.

487

Entre os quatro volvia resplendente     Com dupla roda um carro triunfante,     108 Por um grifo tirado altivamente,

As asas estendendo ia pujante;     No meio às listras três de cada lado,     111 Sem nenhuma empecer seguia avante.

Não sobe a vista ao ponto sublimado     A que se erguem; são d’ouro os membros d’ave     114 No mais o róseo e o níveo misturado.

Roma um plaustro não viu tão belo e grave     Do Africano em triunfo ou no de Augusto;     117 O do sol fora ante ele humilde trave:

Esse que, transviado foi combusto,     Da Terra quando as súplicas bradaram     120 E em seus arcanos Júpiter foi justo.

Dançando à destra aos olhos se mostraram     Três damas: tão rubente uma parece,     123 Que chamas se a cercassem a ocultaram.

A segunda tão verde resplandece,     Como composta de esmeralda bela;     126 A candura da neve outra escurece.

A dança dirigindo, se desvela     Ora a branca ora a rubra: o canto desta

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129 Detém, apressa o passo ao querer dela,

À sestra fazem outras quatro festa     De púrpura vestidas: uma guia     132 As outras e três olhos tem na testa.

Dous anciões no couce depois via     Dif’rentes no vestir; mas igualdade     135 Nos gestos seus e acatamento havia.

Aluno um parecia na verdade     De Hipócrates sublime que criado     138 Natura tem por bem da humanidade.

Mostrava o companheiro outro cuidado     Trazendo espada tão aguda e clara,     141 Que onde eu stava de susto fui tomado.

De humilde aspeito a vista me depara     Mais quatro: segue o velho, que, distante,     144 Cerra os olhos mas luz a face aclara.

Os sete como os quatro de diante     Trajando a fronte sua têm cingida,     147 Não de c’roa de lírios alvejante,

Mas de purpúreas flores rubescida:     Um tanto longe ao vê-los me parece,     150 Que a testa a cada qual stava incendida.

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E, quando o carro em face me aparece,     Rompe um trovão e a santa companhia,     Atendendo ao sinal pronta obedece:

154 Pára o cortejo e quanto o antecedia.

3. Beati quorum tecta sunt peccata, Salmo XXX, l: “Bem- aventurados aqueles cujos pecados são perdoados.” — 42.     Urânia, a musa da astronomia. — 51. Candelabros, S. João     no     Apocalipse vê sete candelabros de ouro; símbolos dos sete     sacramentos ou dos sete dons do Espírito Santo. — 83-84. Vinte     e quatro anciões, v. Apocalipse IV, 4; símbolo dos vinte e quatro     livros do Velho Testamento. — 92-93. Quatro animais, símbolo     dos quatro evangelhos. — 95. Argo, monstro mitológico, que     possuía cem olhos. — 100. Ezequiel, profeta de Israel, autor     de     um livro do Velho Testamento, v. I, 4. — 105. João, Apocalipse     IV, 6-8. — 107. Com dupla roda um carro, a Igreja Católica; as     duas rodas simbolizam o Velho e o Novo Testamento. — 108     Grifo, animal mitológico, metade leão e metade águia;     símbolo     de Jesus Cristo, com as duas naturezas, humana e divina. — 118-120 Esse que, transviado, foi combusto, Fetonte que tentou     guiar o carro do Sol, porém, a rogos da Terra, foi fulminado por     Júpiter. — 122-129. Três damas, as três virtudes     teologais: fé,     esperança e caridade. — 130-132. Outras quatro, as quatro     virtudes cardiais: justiça, fortaleza, temperança e prudência.     A     prudência tem três olhos (como diz Sêneca, vigia o presente,     prevê o futuro e lembra o passado). — 133-135. Dois anciões,     S.     Lucas e S. Paulo. — 143. Mais quatro, S. Pedro, S. João, S.     Tiago e S. Judas, escritores das Epístolas canônicas. —      143- 144. O velho, S. João que, parece, quando escreveu o Apocalipse     estava perto dos noventa anos. (É preciso notar que os     escritores sacros são apresentados em vários aspectos,     conforme os seus livros; por isso alguns entre eles são     repetidos).

    490

    CANTO XXX

Acolhida festivamente pelos anjos e pelos bem-aventurados,     desce do Céu, Beatriz (a divina sabedoria) e pousa no carro. Nisto     Virgílio (a humana sabedoria) desaparece. Ela dirige-se a Dante e     lhe exprobra os seus desvios. Dante chora; e os anjos se     compadecem dele. Beatriz, dirigindo-se a eles, expõe mais     particularmente quais foram as suas faltas depois da sua morte.

QUANDO o setentrião do céu primeiro,     Que, jamais tendo ocaso, nem nascente,     3 Da culpa só nublou-se em nevoeiro,

E ali fazia cada qual ciente     Do dever seu, bem como o deste mundo     6 Do nauta ao porto é guia permanente,

Parou, a santa grei, que ia em segundo     Lugar antes do Grifo, dirigia,     9 Como à paz sua ao carro olhar profundo.

Um, que do céu arauto parecia,     Veni, sponsa de Libano — cantando,     12 Três vezes disse, e a turba repetia.

Como, ao soar o derradeiro bando,     Hão de os eleitos ressurgir ligeiros,

    491

15 Com renovada voz aleluiando,

Assim, da vida eterna mensageiros,     Cem anjos, ad vocem tanti senis     18 Elevaram-se ao carro sobranceiros.

Diziam todos: — Benedictus qui venis!     Modulavam, lançando em torno flores:     21 Manibus, oh, date lilia plenis!

Já vi do dia aos lúcidos albores     Em parte o céu de rosicler tingido,     24 Estando em parte azul e sem vapores,

E o sol, nascendo em nuvens envolvido,     Permitir que se encare em seu semblante,     27 Entre véus nebulosos escondido:

Tal, em nuvem de flores odorante,     Que de angélicas mãos sobe fagueira     30 E cai no carro e em torno a cada instante,

De véu neves cingida e de oliveira,     Uma dama esguardei com verde manto     33 E veste em cor igual à da fogueira.

E o espírito meu que, tempo tanto     Havia já, não fora ao seu conspeito,     36 Trêmulo, entrando de soçobro e espanto,

492

Antes que aos olhos se mostrasse o aspeito,     Sentiu, por força oculta que desprende,     39 Do antigo amor, o poderoso efeito.

Quando essa alta influência em mim descende,     Que desde o alvor primeiro da existência     42 Da alma as potências me avassala e rende,

À sestra me voltei com diligência,     Qual infante da mãe correndo ao seio,     45 Se dor ou medo assalta-lhe a inocência,

Por dizer a Virgílio: — “Neste enleio,     Meu sangue em cada gota é convulsado,     48 De amor na antiga flama eu me incendeio.”

Mas ai! Virgílio havia-se ausentado,     Virgílio, o pai dulcíssimo e amoroso,     51 Virgílio, a quem, por me salvar, fui dado!

Quanto perdeu neste lugar formoso     Eva, não tolhe as lágrimas no rosto,     54 Que o rocio me lavara milagroso.

— “Não haja por Virgílio ir-se, desgosto;     Não te entregues ao pranto agora, ó Dante;     57 Por dor mais viva ao pranto sê disposto.” —

Como em revista às naus sábio almirante     Nas manobras feroz a dura gente

493

60 E os corações esforça vigilante,

Do carro à borda, à esquerda, incontinênti,     Quando voltei-me ao nome proferido,     63 Que por ser dito aqui vem simplesmente,

A dama vi que tinha aparecido     Velada em meio da divina festa,     66 Tendo, além-rio, o gesto a mim volvido.

Conquanto o véu, que lhe cingia a testa,     Que de Minerva fronde coroava,     69 A face não deixasse manifesta,

No régio continente que ostentava     Desta arte prosseguiu; porém dizendo     72 O mais acerto para o fim guardava:

— “Oh! Sou eu! Sim! Beatriz stás vendo!     Pois te hás dignado de ascender ao monte     75 Ter aqui dita o homem já sabendo?” —

Os olhos inclinando à pura fonte     Vi minha imagem; logo os volto a um lado,     78 Tanta vergonha me acendia a fronte!

Qual mãe, que o filho increpa em tom maguado,     Pareceu-me: porque se torna amara,     81 A piedade que pune, ao castigado.

494

Calou-se ela e dos anjos a voz clara — “In te, Domine, speravi” — de repente     84 Entoa, mas em pedes meos pára.

Da terra italiana em serra ingente     Da esclavônia por ventos contraída     87 Entre as selvas congela a neve algente;

Depois liquesce e corre derretida     Ao quente sopro, que do sul procede,     90 Como cera de flamas aquecida;

Tal o soçobro as lágrimas me impede     Antes de ouvir a angélica toada,     93 Que o hino dos eternos orbes mede.

Mas quando, em seus concentos expressada,     Compaixão vejo mais do que se houvessem     96 Dito: — “Senhora, por que és tanto irada?”,

No peito meu os gelos se amolecem;     Dos lábios e dos olhos irrompendo,     99 Com lágrimas soluços aparecem.

Firme no carro, à destra se volvendo,     Ela aos pios espíritos dizia,     102 Do cântico às palavras respondendo:

— “Vigilantes estais no eterno dia;     Jamais por noite ou sono distraída,

495

105 Do tempo os passos vossa vista espia.

“Minha resposta, pois, vai dirigida     Àquele, que ora ao pranto os olhos solta:     108 A culpa seja pela dor medida.

“Dos céus, não pela ação, na imensa volta,     Que para um fim conduz cada semente,     111 Segundo os astros, que lhe vão na escolta,

“Se não de graças por divina enchente,     Que chovem sobre nós dessa eminência,     114 A que se alar nem pode a nossa mente,

“Este homem foi na aurora da existência,     De tais dotes ornado, que pudera     117 Da virtude alcançar toda a excelência.

“Se, porém, a incultura se apodera     Ou semente ruim do bom terreno,     120 Plantas mali’nas, peçonhentas gera.

“Conservou-se ante mim puro e sereno:     Meus olhos, em menina, o conduziram     123 Pelo caminho mais seguro e ameno.

“Tanto que umbrais à vista se me abriram     Da idade segunda e desta vida,     126 Deixou-me; outros enlevos o atraíram.

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“Quando em espírito eu fora convertida     E beleza e virtude em mim crescera,     129 Em menos preço fui por ele havida.

“Por fraguras fugiu da estrada vera,     Em fingidas imagens enlevado,     132 De que jamais se alcança o que se espera.

“Inspirações em vão hei-lhe impetrado     Em sonhos, em vigília o bem mostrando:     135 Cego, correu pelo caminho errado.

“Já todo o esforço meu se malogrando,     Para salvá-lo do perigo eterno     138 Quis que baixasse ao reino miserando.

“Foi neste empenho que desci ao inferno,     E à sombra, que de guia lhe há servido,     141 Fiz o meu rogo lacrimoso eterno.

“O preceito de Deus fora infringido,     Se ele do Letes transcendesse as águas,     Se lhe fosse prová-las permitido,

145 Sem seu preço pagar em pranto e mágoas.” —

11. Veni, sponsa, etc., convite do esposo à esposa no Cântico     dos Cânticos de Salomão. — 17. Ad vocem tanti senis, à     voz de     velho tão venerando como era Salomão. — 19. Benedictus     qui     venis, cantavam os hebreus a Jesus quando entrou em

497

Jerusalém, S. Mateus, Evang. XXI, 9. — 21. Manibus, oh, date     lilia plenis, espalhai lírios às mãos cheias. —      39. Do antigo amor     etc., Dante se enamorou de Beatriz, quando tinha a idade de     nove anos. — 83. In te, Domine, speravi, Salmo XXX, até às     palavras: pedes meus, exprime o arrependimento e a esperança     na misericórdia de Deus.

    498

    CANTO XXXI

Beatriz continua repreendendo a Dante, o qual confessa os seus     pecados. Matilde o mergulha, então, no rio Letes. Depois as sete     damas que participavam da procissão (as quatro virtudes     cardiais e as três virtudes teologais) o levam até Beatriz, pedindo     a ela que se desvele diante do seu fiel. Beatriz tira o véu.

“Ó TU que estás além da água sagrada”     — Prosseguiu Beatriz incontinênti,     3 A ponta a mim voltando dessa espada,

Que de revés já fora assaz pungente —     “Diz se é verdade, diz! À culpa unida     6 Esteja a confissão do penitente.” —

Tanta a força mental foi confrangida,     Que a voz desfaleceu, se erguer tentando,     9 Expirou-me nas fauces inanida.

Esperou; disse após: — “Que estás pensando?     Responde: inda não tens nágua apagado     12 Lembranças do passado miserando?” —

No meu enleio, de temor travado,     Um tão confuso sim, trêmulo, expresso,     15 Que houve mister dos olhos ajudado.

499

    Como em besta entesada em grande excesso,     Quebrando-se arco e corda, parte a seta     18 E no alvo dá sem força do arremesso,

Stando minha alma em tanto extremo inquieta     E em suspiros e lágrimas rompendo,     21 Perdeu a voz o som, que a língua enceta.

— “Se ao meu querer” — prossegue —     “obedecendo     Tinhas fanal, que ao bem te conduzisse,     24 De anelos teus a mira ser devendo,

“Onde o poder de estorvos, que impedisse     Teus passos? Quais grilhões que os retivessem     27 Na vereda, que avante ir permitisse?

“Houve encantos, que a outros te prendessem,     E delícias, que tanto te atraíram,     30 Que a tua alma enlear assim pudessem?” —

Do peito agros suspiros me saíram;     Para falar-lhe apenas tive alento,     33 E a voz a custo os lábios exprimiram.

Tornei chorando: — “O engano, o fingimento     Ao terreno prazer me hão transviado,     36 Em vos nublando a face o passamento.” —

500

— “Se ocultaras” — falou-me — “o teu pecado,     A graveza da culpa ao claro vira     39 Aquele, por quem deves ser julgado.

“Mas se o réu, confessando, tem na mira     O pesar do mau feito, em nossa corte     42 Contra o fio da espada a mó se vira.

“Entanto, por que seja em ti mais forte     De errar o pejo e, no porvir ouvindo     45 Sereias, não procedas de igual sorte,

“Escuta-me, os teus prantos consumindo:     Verás que, inda sepulta, eu te guiara,     48 Pela contrária rota conduzindo.

“Jamais arte ou natura te mostrara     Enlevo, quanto a rara formosura     51 Do corpo, em pó tornado, em que eu morara.

“Se comigo baixara à sepultura     Teu supremo prazer, como arrastar-te     54 Pôde, após si, mortal delícia impura?

“Enganos tais sentindo saltear-te,     Aos céus alçando a mente deverias     57 Té minha eternidade sublimar-te,

“E não baixar do vôo, em que subias     Te expondo a novos tiros, atraída

501

60 Por jovem, por vaidades fugidias.

“Será duas, três vezes iludida     Ave inexperta; mas a seta, o laço     63 Pássaro velho esquiva, apercebido.” —

Qual menino, que a mãe por largo espaço     Increpa; e, baixa a fronte, envergonhado     66 Reconhece em silêncio o errado passo,

Tal me achava. — “De ouvir se estás magoado.     Levanta a barba!” — ainda prosseguia — 69 “Olhando-me, hás de ser mais castigado!” —

Com menos resistência abateria     De Europa o vendaval carvalho altivo     72 Ou da terra, que a Jarba obedecia,

Do que eu alcei o rosto pensativo;     Quando ela disse barba e não semblante     75 A malícia notei e o seu motivo.

Olhos erguendo alfim, do mesmo instante     Aos ares vi que flores não lançava     78 A falange dos anjos radiante.

Tímida a vista a Beatriz achava     Voltada ao Grifo, que uma só pessoa     81 Em naturezas duas encerrava.

502

Além do rio sob o véu e a c’roa     Tanto excede a beleza sua antiga     84 Quanto em vida as que mais fama apregoa.

E do pesar pungiu-me tanto a urtiga,     Que das cousas, que mais na terra amara     87 A mais cara odiei como inimiga.

Remorso tal a mente me assaltara,     Que vencido tombei: qual fiquei sendo     90 Sabe quem dor tão viva motivara.

Ao coração a força me volvendo     Notei a dama, que primeiro eu vira     93 Ao lado meu, — “Abraçai-me!” — dizendo.

Té ao colo no rio me imergira;     E correndo, qual leve lançadeira,     96 Das águas sobre a tona a si me tira.

Já próximo à beatífica ribeira,     Ouvi Asperges me tão docemente,     99 Que o não descrevo ou lembro, inda que o     queira.

Matilde, abrindo os braços de repente,     Cingiu-me a fronte e súbito afundou-me;     102 Era dessa água haurir conveniente.

Assim purificado, ela guiou-me

503

Das damas quatro para a dança bela,     105 E cada uma nos braços estreitou-me.

— “Cada qual, ninfa aqui, nos céus estrela,     Antes que Beatriz descesse ao mundo,     108 Servas de ordem suprema somos dela.

“Os seus olhos verás; mas no jucundo     Lume interno hás de ter vista aguçada     111 Pelas três cujo olhar é mais profundo.” —

Modulando na angélica toada,     Ante o Grifo consigo me levaram:     114 Lá Beatriz para nós era voltada.

— “Em contemplar sacia-te!” — falaram —     “As esmeraldas que ora tens presentes,     117 Donde os farpões de amor te vulneraram.” —

Mais que a flama desejos mil ardentes     Prenderam olhos meus aos seus formosos,     120 Na adoração do Grifo persistentes.

Qual sol no espelho, nesses luminosos     Astros o Grifo se alternando, eu via     123 Seres dois refletir misteriosos:

Meu espanto, ó leitor, qual não seria     Vendo o objeto na imagem transmutado,     126 Quando constante em si permanecia?

504

    Enquanto eu de prazer e pasmo entrado,     Esse doce manjar stava gozando,     129 Que sacia mas sempre é desejado,

De ordem mais alta ser manifestando     Pelo meneio, as três se adiantaram,     132 Por angélico estilo modulando.

“Os olhos santos, Beatriz” — cantaram —     “Oh! volve ao servo teu leal constante     135 A quem por ver-te os passos não custaram.

“Nos dá por grã mercê que o fido amante     Sem véu segunda formosura     138 Contemple nesse divinal semblante!” —

Ó resplendor da luz eterna e pura!     Quem do Parnaso à sombra descorando     141 E da água sua haurindo alma doçura,

Aturdido não fora, se arrojando     A tentar descrever qual te mostraste,     Quando o céu de harmonias te cercando,

145 Ao ar patente a face revelaste?

71-72. De Europa etc. Ao vento boreal que sopra na nossa     região, ou ao vento meridional que sopra na África, onde reinou

505

Jarbas. — 75. A malícia notei etc., Beatriz disse “barba”      e não     semblante, querendo referir-se à idade madura de Dante.

506

    CANTO XXXII

Dante olha com amor a Beatriz. No entanto o carro, seguido pela     procissão dos bem-aventurados, se move em direção a um     árvore     elevadíssima e despida de folhagem. O grifo ata o carro à árvore     e esta logo cobre-se de flores. O Poeta adormece. Ao despertar vê     Beatriz, rodeada das sete damas, sentada ao pé da árvore.     Acontecem, depois, no carro fatos maravilhosos que causam ao     Poeta surpresa e medo.

COM tão sôfregos olhos saciava     A sede, em que anos dez eu me incendia,     3 Que aos mais sentidos toda a ação cessava.

Quase murada a vista se imergia     No santo riso ao mais indiferente,     6 E nos laços de outrora me prendia.

Desse êxtase arrancou-me de repente     A voz das santas, que da esquerda soa:     9 — “Demais contemplativa tens a mente!” —

Os ofuscados olhos me nevoa     Torvação semelhante ao vivo efeito,     12 Que do sol causa a face em quem fitou-a.

Mas quando à pouco luz estive afeito

507

(Pouca em confronto ao lume deslumbrante,     15 Que por força deixara e a meu despeito),

Vi que à destra volvia o triunfante     Exército celeste à frente estando     18 Os candelabros sete e o sol flamante.

Qual hoste a se salvar broquéis alçando,     Se volta, e co’a bandeira não prossegue     21 Senão mudada a direção, girando;

A celeste milícia avante segue,     Na marcha procedendo desfilava     24 Antes que o santo carro a volver chegue.

Cada coréia as rodas escoltava,     E o Grifo a carga santa removia     27 Sem parecer que as penas agitava.

Quem pelo rio me arrastado havia,     Estácio e eu a roda acompanhamos,     30 Que por arco menor volta fazia.

Na alta floresta caminhando vamos,     Erma por culpa da que a serpe ouvira:     33 Pelo cântico os passos regulamos.

Andáramos espaço que medira     Uma seta três vezes disparada:     36 Desceu Beatriz do carro, em que eu a vira.

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“Adam!” — disse em murmúrio a grei sagrada,     Todos depois uma árvore cercaram,     39 De folhas e de flores despojada.

Tanto aos lados seus ramos se alargaram,     Quanto erguiam-se ao céu: como portento     42 índios nas selvas suas os mostrariam.

“Ó Grifo! Glória a ti! De culpa isento,     Não provaste do lenho doce ao gosto,     45 Que tanta dor causou, tão cru tormento!” —

Daquele tronco excelso em torno posto,     Diz o préstito; e o Grifo lhe contesta:     48 — “Assim justiça é sempre no seu posto.”     —

E ao carro que tirara na floresta,     Voltou-se e o conduziu ao tronco anoso:     51 Dele foi parte, a ele atado resta.

Quando o astro rebrilha poderoso,     Juntando os seus clarões aos que desprende,     54 Depois do Peixe o signo luminoso,

Brotando as plantas cada qual resplende     De esmalte novo, e ainda de outra estrela     57 Abaixo os seus frisões o sol não prende:

Súbito assim refloresceu aquela

509

Árvore nua, gradações formando     60 Entre rosa e violeta em cópia bela.

Então de um hino as notas escutando,     Quais nunca sobre a terra se cantaram,     63 Não pude resistir a som tão brando.

Se eu narrasse como olhos se fecharam     De Argo impiedosos, de Sírius ao conto     66 Que o seu nímio velar caro pagaram,

Pintor, tirara ao natural e em ponto     O sono em que engolfei-me docemente;     69 Mas faça-o quem nessa arte forma pronto!

Passo ao momento em que espertou-se a mente:     Fulgor ao sono intenso o véu rompia,     72 — “Eia! que fazes?” — ouço incontinênti.

Quais vendo que de flores se cobria     O linho cujo pomo apetecido     75 Na boda eterna os anjos extasia,

João, Pedro e Tiago ao seu sentido,     Depois da prostração à voz tornaram,     78 Que sono inda maior tinha vencido,

E a companhia decrescida acharam     De Elias e Moisés enquanto as cores     81 Sobre a estola do Mestre se mudaram:

510

    Tal despertei da luz aos esplendores,     Vi perto a dama que me fora guia     84 Do rio à margem sobre a relva e as flores.

— “Onde é Beatriz?” — cuidoso lhe dizia. — “Da fronde nova à sombra a vês sentada,     87 Junto à raiz” — Matilde respondia.

“Da companhia sua é rodeada;     Ao céu após o Grifo os mais subiram,     90 Com mais doce canção, mais sublimada.” —

Não sei se as vozes suas prosseguiram     Pois aquela aos meus olhos se mostrara,     93 Em quem meus pensamentos se imergiram.

Sobre a terra bendita se assentara,     Só, como em guarda ao plaustro portentoso,     96 Que ao tronco antigo o Grifo vinculara.

Rodeiam-na, com círculo formoso,     As ninfas sete, os lumes empunhando,     99 Seguros de Austro e de Aquilão ruidoso.

— “Na selva a tua estada abreviando,     Serás comigo na eternal morada     102 Da Roma, onde tem Cristo o régio mando.

“Do mundo em prol, perdido em rota errada,

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O carro observa e cada cousa atento     105 Guarda, por ser ao mundo registrada.” —

Falou Beatriz; e eu, pois, que o entendimento     Do seu querer aos pés tinha prostrado,     108 Fitei no carro a vista e o pensamento.

Dos etéreos confins arremessado,     Não rasga o raio à densa nuve, o seio,     111 Com tanta rapidez precipitado,

Como da alta ramada pelo meio,     Córtice fronde, flores destruindo,     114 O pássaro de Jove irado veio.

Com força imane o carro foi ferindo,     Que aos golpes, qual navio, se agitava,     117 Que o mar combate os bordos lhe investindo.

E logo após eu vi que se enviava     Ao carro triunfal uma raposa,     120 Que bom cibo não ter manifestava.

Increpando-lhe a vida criminosa,     Beatriz pô-la em fuga, e em tanta pressa,     123 Quanto sofreu-lhe a ossada cavernosa.

Depois do carro à caixa a Águia se apressa     A vir por onde, há pouco, descendera;     126 De inçar de plumas seus coxins não cessa.

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    Qual gemido que a dor no peito gera,     Ouvi do céu baixar voz, que dizia:     129 — “Ó barca! bem má carga ora se onera!”     —

A terra então me pareceu se abria,     Entre as rodas um drago arrevessando     132 Que pelo carro a cauda introduzia.

Depois a cauda atroce retirando,     Qual vespa o seu ferrão, feita a ferida,     135 Arranca o fundo e vai-se coleando.

Como em terra vivaz relva crescida,     Cobre o resto plumagem de repente,     138 Com tenção casta e pura oferecida;

Timão e rodas vestem-se igualmente     Tão presto, que um suspiro vem lançado     141 À flor dos lábios menos prontamente.

Daquele plaustro santo, assim mudado,     Nos ângulos cabeças irromperam,     144 Três no timão e uma em cada lado.

Essas, como as de boi, armadas eram;     Uma só ponta as quatro guarnecia:     147 Monstros iguais já nunca apareceram.

Qual penhasco em montanha excelsa, eu via

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No carro nua meretriz sentada,     150 Lascivos olhos em redor volvia.

Como para não ser-lhe arrebatada     Em pé ao lado seu stava um gigante,     153 Com quem trocava beijos despejada.

Que os olhos requebrava a torpe amante     Pra mim notando, fero a flagelava     156 Dos pés a fronte o barregão farfante.

No ciúme e na ira, que o inflamava     Desprende o carro e à selva o vai tirando,     Que depressa aos meus olhos ocultava

160 A prostituta e o novo monstro infando.

38-39. Uma árvore etc., a árvore do bem e do mal, cujo fruto     Adam comera, pelo que foi expulso do Paraíso. — 64-66. Como     os olhos se fecharam etc., como adormeceu e se fecharam os     olhos de Argos ao ouvir o conto de Mercúrio a respeito de Sírio, — 73-81. Quais vendo etc., como os apóstolos João, Pedro     e     Tiago, ao assistirem à transfiguração de Jesus Cristo,     no monte     Tabor, e ao vê-lo em companhia de Moisés e Elias, desmaiaram     e despertando, depois, o viram em sua forma natural havendo     os dois profetas desaparecido, etc. — 102. Da Roma onde tem     Cristo o régio mando, o Paraíso. — 114. O pássaro     de Jove, a     águia, símbolo do império. — 119. Uma raposa, símbolo     da     heresia. — 126. De inçar de plumas seus coxins não cessa,     provável alusão ao poder temporal outorgado por Constantino     à     Igreja Romana. — 142-147. Daquele clastro etc., Dante nesta     visão, que imita as visões do Apocalipse, pretende simbolizar     os     funestos efeitos das riquezas que foram oferecidas à Igreja. As

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sete cabeças do monstro provavelmente simbolizam os sete     pecados capitais originados pela corrupção. — 149. Meretriz,     a     Cúria Romana. — 152. Um gigante, a casa real de França     e,     talvez, mais particularmente, Felipe o Belo que umas vezes foi     amigo, outras inimigo dos Papas, conseguindo que o Papa     Clemente V, em 1305, transportasse a Santa Sé para Avinhão.

    515

    CANTO XXXIII

Beatriz anuncia, com linguagem misteriosa, que brevemente     aparecerá quem libertará a Igreja e a Itália da servidão     e da     corrupção. Impõe-lhe que escreva o que viu. Pede, depois,     a     Matilde que o mergulhe nas águas do rio Eunoé. Dante, depois     da     imersão, sente-se mais forte e disposto a subir às estrelas.

DEUS, venerunt gentes, alternando,     Em coros dois, suave melodia     3 Cantam as ninfas, pranto derramando.

E Beatriz, a suspirar, ouvia     Tão dorida, que pouco mais, outrora     6 Junto da Cruz mostrara-se Maria.

Quando lhe coube alçar a voz canora,     Entre as formosas virgens posta em pé,     9 Com santo ardor, que as faces lhe colora:

“Modicum et non videbitis me,     Caras irmãs, et iterum” — tornava — 12 “Modicum et vos videbitis me”.

Depois, antes de si as colocava,     E a mim e a dama e ao Vate, que restara,     15 Pra seguir os seus passos acenava.

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    Ia assim: que ela houvesse eu não julgara     O seu décimo passo em terra posto,     18 Eis sua vista na minha se depara.

— “Mais perto” — disse com sereno rosto —     “Caminha; pois falar quero contigo,     21 E o leves a me ouvir star bem disposto.” —

Beatriz, logo em tendo-me contigo, — “Por que” — prossegue —“irmão     não hás     querido     24 Me inquirir, quando vens assim comigo?” —

Fiquei, como o que o espírito aturdido,     Ao seu superior falando sente,     27 E apenas balbucia confundido.

Falei, com voz cortada, reverente: — “Quanto hei mister sabeis mui bem, senhora,     30 O que seja em prol meu sabeis prudente.” —

— “De temor e vergonha desde agora” — Tornou — “isento sê, stando ao meu lado:     33 Como quem sonha as vozes não demora!

“A caixa, que a serpente há devastado,     Já foi: de Deus castigo aos criminosos     36 Ser não pode por sopa obliterada.

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“Não faltarão herdeiros cuidadosos     Da águia, que ao carro as suas plumas dera,     39 E o tornou monstro e presa aos cobiçosos.

“Vejo o porvir e a voz minha assevera     O que propínquos astros anunciam:     42 Nada os estorva, nem seu curso altera.

“Um quinhentos dez cinco prenunciam,     Que o céu manda a punir a depravada     45 E o gigante: ambos juntos delinquiam.

“A narração, talvez, de treva inçada,     Como as do Esfinge e Têmis não a entendas,     48 Por parecer-te ao spírito enleada.

“Farão, porém, os fatos que a compreendas;     Quais Náiades, darão do enigma a chave,     51 Sem dano ao trigo, ao gado, sem contendas

“Que na memória tua isto se grave:     Como te falo, assim o ensina aos vivos     54 Que se afanam em buscar morte insuave.

“Lembra os que hás visto feitos aflitivos.     Da árvore o stado narra, que te espanta,     57 Quanto sofreu assaltos dois esquivos.

“Quem despoja ou mutila a sacra planta     Blasfema a Deus, de fato o ofende ousado:

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60 Para o seu uso só a criou santa.

“Sperou a primeira alma, que há provado     Do seu fruto, anos mil cinco gemendo     63 Por quem penas em si deu do pecado.

“Tua alma dorme, se não stá sabendo     A causa singular, que a planta há feito     66 Tão alta, o cimo tal largura tendo.

“Se da água d’Elsa não trouxesse o efeito     O teu vão cogitar sobre essa mente,     69 Que escurece, qual sangue à amora o aspeito

“Fora o que eu disse já suficiente     Para o justo preceito compreenderes,     72 Que Deus há posto sobre o tronco ingente.

“Como te ofusca a luz dos meus dizeres.     Porque de pedra tens o entendimento,     75 Que, afeito à culpa, não permite veres,

“Uma imagem te guarde o pensamento,     Como palma ao bordão junta, voltando,     78 Peregrino, em remédio ao esquecimento.” —

— “No cérebro, qual cera conservando” — Tornei — “a marca do sinete impresso,     81 Vosso verbo se irá perpetuando.

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“Mas por que se sublima em tanto excesso     Vossa palavra, sempre apetecida,     84 Que, alcançá-la tentando, desfaleço?” —

— “Por veres” — diz — “que escola pervertida,     Hás cursado, o que, pois, sua doutrina     87 Ao verbo meu não pode ser erguida;

“Pois a vereda vossa da divina     É tão remota, quanto está distante     90 Da terra o céu que ao alto mais se empina” —

— “Não me lembro” — respondo à excelsa     amante “De ter-me às vossas leis nunca esquivado:     93 Não diz-mo a consciência vigilante.” —

— “Possível é que estejas olvidado” — Respondeu-me a sorrir — “tem na lembrança     96 Que inda há pouco, hás do Lete água tragado,

“E se de flama o fumo dá fiança,     Que o teu querer no erro andou perdido     99 Demonstra o olvido teu com segurança.

“Será da minha voz claro o sentido,     Por que mais facilmente de ora avante     102 Da rude mente seja percebido.” —

Mais demorado, entanto, e coruscante     No círc’lo entrava o sol do meio-dia,

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105 Como os climas diversos variante,

Quando as damas, bem como astuto espia,     Que, precedendo a tropa, de andar cessa,     108 Se acaso novidade se anuncia,

Paravam, ao sair da sombra espessa,     Qual aos frios arroios murmurantes     111 Dos Alpes bosque verde-negro of’reça.

Julguei ver Tigre e Eufrates não distantes     Brotar da mesma fonte juntamente     114 E separar-se lentos, quais amantes.

— “Ó glória! ó esplendor da humana gente!     Qual é, dizei-me, essa água, bipartida     117 Depois de proceder de uma nascente?” —

— “Ser-te deve a pergunta respondida     Por Matilde” — tornou-me então, falando     120 Em tom de quem por falta fosse argüida,

A dama disse: — “Tudo lhe explicando     Já stive: não podia haver efeito     123 Do Letes, a lembrança lhe apagando.” —

E falou Beatriz: — “Pode ter feito     Escura a mente sua o mor cuidado,     126 Que o entendimento às vezes torna estreito.

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“Eis Eunoé, que o curso há derivado:     Conduze-o e, como sabes, o imergindo,     129 Seu coração alenta desmaiado.” —

Como alma nobre, ao bem nunca fugindo,     Faz do estranho querer própria vontade,     132 Quando um simples sinal o está pedindo,

A gentil dama, usando alta bondade,     Guiou-me e a Estácio disse, que atendia:     135 — “Segue-o também” — com garbo e     majestade

Esse doce licor, que não sacia,     Eu cantara, leitor, se desse ensejo     138 Da página uma parte inda vazia.

Mas, porque todas ocupadas vejo     E ao meu segundo Cântico aplicadas     141 Da arte o freio me tolhe esse desejo.

Como de planta as folhas renovadas     Mais frescas na hástea mostram-se, mais belas,     Puro saí das águas consagradas

145 Pronto a me alar às lúcidas estrelas.

1. Deus venerunt gentes, Salmo 78, no qual David lamenta a     contaminação do templo de Jerusalém: “Senhor, as     nações     entraram no teu domínio e contaminaram o teu templo.” —      10.

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Modicus et non videbitis me, “pouco tempo passará e não     me     vereis mais”, S. João Ev. XVI, 16; Beatriz responde: “e     novamente passará pouco tempo e me vereis.” Provável alusão     ao pouco tempo que a Santa Sé teria ficado em Avinhão. —      36.     Sopa, a sopa que, em sinal de expiação, o homicida comia sobre     o túmulo do assassinado. — 43. Um quinhentos dez cinco, um     DVX, isto é, um chefe, um capitão, enviado de Deus, o qual     punirá a Cúria Romana e o rei da França. — 47.     Esfinge, que     propôs o enigma a Édipo. — Têmis, que respondeu em     forma     obscura a Deucalião, que a foi consultar. — 49-51. Náiades,     ninfas das fontes. — 61. A primeira alma, etc. Adam esperou     cinco mil anos a vinda de Jesus Cristo, que tomou sobre si o     seu pecado. — 67. Elsa, confluente do Arno. — 112. Tigre e     Eufrates etc., o Letes e o Eunoé pareciam esses dois rios; pois     nasciam na mesma fonte e, depois, se afastavam, aos poucos,     um do outro.

 

Paraíso

 

CANTO I

Invocando Apolo, o Poeta conta como do Paraíso Terrestre ele e Beatriz se     alçaram ao Céu, atravessando a esfera do fogo. Beatriz explica-lhe como possa     vencer o próprio peso e subir. É atraído pelo invencível amor. Seguindo as     teorias de Ptolomeu, Dante põe a terra imóvel no centro do Universo e, em     redor dela, em órbitas concêntricas, os céus da Lua, de Mercúrio, de Vênus,     do Sol, de Marte, de Júpiter, de Saturno, a oitava esfera, que é a das estrelas     fixas, a nona, ou primeiro móvel, e finalmente o Empíreo, que é imóvel. Transportado     pela força que faz rodar os céus e pela luz sempre crescente de Beatriz, Dante     eleva-se de um céu para outro, e em cada um deles aparecem-lhe os espíritos     bem-aventurados que, quando vivos, possuíram a virtude própria do respectivo     planeta.

À GLÓRIA de quem tudo, aos seus acenos,     Move, o mundo penetra e resplandece,     3 Em umas partes mais em outras menos.

No céu onde sua luz mais aparece,     Portentos vi que referir, tornando,     6 Não sabe ou pode quem à terra desce;

Pois, ao excelso desejo se acercando,     A mente humana se aprofunda tanto     9 Que a memória se esvai, lembrar tentando.

    525

Os tesouros, porém, do reino santo,     Que arrecadar-me pôde o entendimento,     12 Serão matéria agora de meu canto.

Faz-me neste final cometimento,     Bom Febo, do teu estro eleito vaso,     15 Que tenha ao louro amado valimento.

Fora-me assaz um cimo do Parnaso;     Daquele e do outro necessito agora     18 Para vencer na liça a que me emprazo.

Cala em meu peito, alenta o que te exora!     Sê como quando a Marsias arrancado     21 Hás do corpo a bainha protetora!

Se, divinal virtude, eu for entrado     Tanto de ti, que a sombra represente     24 Do reino que em minha alma está gravado,

Ao teu querido lenho eu, diligente,     Irei, por ter a c’roa merecida     27 De ti e deste assunto preminente.

Tão rara vez é, Padre, igual colhida     Quando triunfa César ou poeta     30 (Culpa e vergonha do querer nascida)

Que à Délfica Deidade a predileta     Fronde excitar devera alta alegria,

526

33 Se um coração por tê-la se inquieta.

Grande incêndio em centelha principia;     Voz, após mim, talvez, mais eloqüente     36 Mais graça em Cirra alcance e mais valia!

Por várias portas surge refulgente     A lâmpada do mundo; mas daquela,     39 Onde orbes quatro brilham juntamente

Com três cruzes, caminha sob estrela     Melhor, em modo que a mundana cera     42 Mais ao seu jeito retempera e assela.

Dali nascia a luz; daqui viera     A noite; e um hemisfério branquejava     45 Enquanto ao outro a treva enegrecera,

Eis vi que à esquerda Beatriz fitava     Olhos no sol: jamais águia afrontara     48 Tanto desse astro o lume, que ofuscava.

Como o raio, que a luz de si despara,     Reflete outro, que preito retrocede,     51 Qual romeiro, que à volta se prepara,

Esse ato, com que assim Beatriz procede,     Meu se tornou nos olhos infundido,     54 E o fitei mais que a um homem se concede.

527

Muito do que é na terra defendido,     No Paraíso é dado à humana gente,     57 A quem fora por dote prometido.

Fitar o sol não pude longamente.     Mas assaz para o ver fulgir no espaço,     60 Qual ferro, que do fogo sai candente.

Eis cuidei ver um dia, ao mesmo passo,     Luzir com outro, qual se Deus fizera     63 Do céu um sol segundo no regaço.

Sorvidos Beatriz na eterna esfera     Os olhos tinha; os meus que eu desviara     66 Dali no seu semblante embevecera.

Contemplando-a, o meu ser se transformara;     Tal Glauco, portentosa erva comendo,     69 Igual do mar aos Deuses se tornara.

Significar per verba não podendo     O que é transumanar o exemplo baste     72 Ao que o exp’rimente, a graça recebendo.

De ti, que por teu lume me exaltaste,     Amor do meu Senhor é conhecido,     75 Se em mim somente havia o que criaste.

Quando as Sferas, no giro, conduzido     Por ti no eterno anelo, me enlevaram

528

78 Com hino ao teu compasso dirigido,

Tantos etéreos plainos se mostraram     Inflamados do sol, que nunca os rios,     81 Nem as chuvas um lago igual formaram.

Essa luz, esses sons (jamais ouvi-os)     De saber tais desejos me acenderam     84 Que tão pungentes de antes não senti-os.

Ela em meu coração os viu como eram:     Por serenar-me o ânimo agitado,     87 Sem me escutar, seus lábios se moveram,

E disse: — “O teu espírito anda errado     Com falso imaginar: ’starias vendo     90 O que não vês, se houveras afastado.

“Te enganas, sobre a terra achar-te crendo:     O raio tão veloz do céu não desce,     93 Como tu que p’ra o céu vais ascendendo.” —

Se a dúvida primeira desaparece,     À voz que o riso segue, lhe escutando,     96 Inda mais outra a mente me escurece.

— “Modera-se o meu pasmo” — lhe tornando     Falei — “mas ora muito mais me admira     99 Como estes corpos leves vou passando.” —

529

Ouvindo, Beatriz terna suspira     E me encara piedosa, com semblante     102 De mãe que fala ao filho que delira.

— “Conservam” — respondeu-me — “ordem     constante     As cousas entre si: esta é a figura     105 Que o universo ao Senhor faz semelhante.

“Ali vê cada uma alta criatura     Do Poder Sumo, bem ao claro, o selo,     108 Alvo sublime, que essa lei procura.

“Cada um entre na ordem, que eu revelo,     Se vai por modos vários inclinando,     111 Mais ou menos, ao seu princípio belo.

“Para portos dif’rentes navegando     No vasto mar do ser, cada qual segue     114 Os instintos que Deus lhe deu, criando.

“Por Ele a flama à lua alar consegue,     Por Ele o coração mortal se agita     117 E a terra em sua contração prossegue.

“Seu poder não somente se exercita,     Qual arco em seta, em bruto inconsciente,     120 Mas nos entes, que amor, razão concita.

“Tudo ordenando, o Autor Onipotente

530

Com sua luz tem o céu sempre aquietado,     123 Em que gira o que vai mais velozmente.

“Até lá, como a um alvo decretado,     Desse arco impele a força poderosa,     126 Quem conduz tudo a venturoso estado.

“Mas, como, às mais das vezes, revoltosa     A forma não responde ao intento da arte,     129 Porque a matéria é na surdez teimosa,

“Assim desta vereda se desparte     A criatura, para o bem guiada,     132 Que pode propender para outra parte,

“Se, de falso prazer sendo arrastada,     Baixa à terra, qual fogo desprendido,     135 De súbito, da nuvem carregada.

“Não seja mais de espanto possuído:     Como ao val rio cai de monte altivo,     138 Para a esfera estelífera és erguido.

“De maravilha fora em ti motivo     Não subindo; pois stás de estorvo isento;     Não fica imoto em terra o fogo vivo.” —

142 Disse e os olhos fitou no firmamento.

    531

14. Febo, Apolo. — 16. Parnaso, o monte Parnaso tinha dois     cimos; num moravam as Musas com Baco, no outro (Elicão ou     Cirra) morava Apolo. — 20 Marsias, o sátiro Marsias desafiou     Apolo e foi esfolado pelo deus. — 31. Délfica deidade, Apolo.      — 36. Cirra, parte do Parnaso consagrada a Apolo. — 38. A     lâmpada do mundo, o sol, 38-41. Daquela onde orbes quatro,     etc. o ponto do céu no qual se conjuntam quatro círculos     celestes, os quais entrecortando-se formam três cruzes.     Caminha sob estrela melhor, a constelação do Áries. —      41.     Mundana cera, a matéria terrestre. — 43-45. Dali nascia a luz;     daqui viera a noite, no hemisfério do Purgatório amanhecia;     no     nosso hemisfério caía a noite. — 68. Glauco, pescador     mitológico, ao comer uma erva marinha transformou-se em     deus do mar. — 122-23. O Céu sempre aquietado, em que gira o     que vai mais velozmente, o Empíreo imóvel, dentro ou embaixo     do qual gira o primeiro móvel, que é o mais veloz dos céus.

532

    CANTO II

Sobem à lua. Exortação aos leitores. Dante pergunta     a Beatriz se     as manchas da lua dependem da maior ou menor densidade do     astro. Beatriz confuta o erro. Todos os astros são iluminados pela     virtude que do primeiro móvel se difunde aos céus sotopostos.     Na     lua a virtude é menor que nos outros céus.

VÓS, que em frágil barquinha navegando,     Desejosos de ouvir, haveis seguido     3 Meu baixel, que proeja e vai cantando,

Volvei à plaga, donde haveis partido,     O pélago evitai; que, em me perdendo,     6 Vosso rumo talvez tereis perdido.

Ondas ninguém cortou, que vou correndo,     Sopra Minerva e me conduz Apolo     9 E o Norte as Musas mostram-me, a que eu     tendo.

Vós, que, raros, a tempo haveis o colo     Erguido ao pão dos anjos, que alimenta,     12 Mas não sacia, no terráqueo solo,

A vossa nau guiai, de medo isenta,     No salso argento, após a minha esteira,

    533

15 Enquanto água o seu sulco inda apresenta.

A que em Colcos surgiu gente guerreira,     Menos que vós, atônita ficara     18 Jasão vendo aplicado à sementeira.

Perpétua, inata sede nos tomara     Do império deiforme e nos levava     21 Quase bem como o céu, que jamais pára.

Olhava o céu Beatriz, eu a encarava.     Tão depressa talvez, quanto arrojada     24 Ao ar, a seta do arco se destrava,

Cousa vi, que prendeu maravilhada     A vista minha súbito; e então ela,     27 Que do meu cogitar stava inteirada,

Voltou-se e disse leda, quanto bela: “A Deus eleva a mente, agradecido,     30 Chegados somos à primeira estrela.”

Lúcido, espesso, sólido e polido     Vulto, qual nuvem, nos cobrir parece,     33 Quase diamante pelo sol ferido.

Na per’la eterna entramos: assim desce     Raio de luz pela água, que recebe     36 No seio, mas unida permanece.

534

Se eu era corpo, e aqui se não percebe     Como uma dimensão outra compreende,     39 Senão se um corpo em outro corpo embebe,

Com mais razão desejo em nós se acende     De ver aquela essência, que é patente     42 Como a nossa natura a Deus se prende.

Ali o que por fé se crê somente     Sem provas por si mesmo será noto,     45 Como a verdade prima o que o home’ assente.

— “Ante o Senhor com ânimo devoto     Humilho-me” — tornei-lhe — “enternecido,     48 Pois do mundo mortal me tem remoto.

“Mas dizei: neste corpo o que tem sido     As manchas negras, com que lá na terra     51 Sobre Caim se hão fábulas urdido.” —

Sorriu-se e respondeu: — “Se assim tanto erra     Dos mortais o juízo no que a chave     54 Dos sentidos verdade não descerra,

“Não mais depois o espanto em ti se agrave;     Pois vês como, aos sentidos se rendendo,     57 Nos curtos vôos a razão se trave.

“Mas fala, idéias tuas me dizendo.” —     — “O que parece aqui ser diferente

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60 De corpo raro e denso vir stou crendo.” —

— “Tu verás” — replicou — “bem     claramente     Ser falsa a crença tua, se escutares     63 Os argumentos, que lhe oponho em frente.

— “Na oitava esfera há muitos luminares,     Nos quais, por qualidade e por grandeza,     66 Notam-se aspetos vários, singulares.

“Se o denso e o raro atua, com certeza     Virtude única em todos tem regência,     69 Influindo com mais, menos graveza:

“São as virtudes várias conseqüência     Dos princípios formais que destruídos     72 Seriam, exceto esse: é de evidência.

“Se são por corpo raro produzidos     Tais sinais, ou neste astro muitos postos     75 De matéria estão destituídos,

“Ou, como o gordo e o magro sobrepostos     No corpo vês, quadernos diferentes     78 Este astro em seu volume tem dispostos.

“Nesse caso estariam bem patentes     Nos eclipses do sol da luz efeitos,     81 Que são, nos corpos raros, transparentes.

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“Assim não é. No outro, se desfeitos     Forem seus fundamentos, demonstrado     84 Terei teu erro em ambos os respeitos.

“Não indo o raro de um ao outro lado     Limite deve haver onde, já denso,     87 Não possa o corpo ser atravessado;

“E sobre si o lume torne intenso,     Bem como a cor, por vidro refletida,     90 Ao qual o chumbo é por detrás apenso.

“Dirás que a luz se mostra escurecida     Aí, mais do que outra e em qualquer parte,     93 Por ser de mais distância refrangida.

“Desta instância consegue libertar-te     Experiência, se dela te ajudares,     96 Por ser sói a fonte de toda arte.

“De espelhos três se a dois tu colocares     Com igual intervalo, e o derradeiro     99 Mais longe, entre os primeiros encarares;

“Se houveres pelas costas um luzeiro,     Que os espelhos já ditos esclareça,     102 Dos dois repercutido e do terceiro:

Conquanto uma extensão menor pareça     No espelho que se avista mais distante,

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105 Verás como igual luz o resplandeça.

“Como aquecida do astro rutilante,     A neve se derrete e se esvaece,     108 A frigidez perdendo e a cor brilhante,

“Assim, pois que o teu erro desparece,     Mostra-te clarão vou tão refulgente,     111 Que cintila qual luz que do céu desce.

“No céu da paz divina um corpo ingente     Gira: em sua virtude está guardado     114 O ser de quanto é ele o continente.

“O céu seguinte, de astros marchetado,     Aquele ser reparte por essências     117 Distintas, mas que tem nele encerrado.

“Os outros céus, por várias influências,     Distinções que contêm, dispõe, lhes dando     120 Quanto serve aos seus fins e conseqüências.

“Esses órgãos do mundo (estás notando)     Seguem, pois, gradação, que não varia;     123 Vêm de cima os que abaixo vão passando.

“Comprendes já como é segura a via,     Por onde ir à verdade desejada:     126 Depois o vau tu passarás sem guia.

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“Deve aos santos motores imputada     Ser, como ao fabro o efeito do martelo,     129 Dos céus a ação, desta arte revelada.

“E o céu, que tantos lumes fazem belo,     Do Ser Supremo, que no espaço o agita.     132 A imagem toma e a insculpe como selo.

“E como alma, que a humana argila habita,     Por diferentes membros atuando,     135 Faculdades diversas exercita,

“A Inteligência assim multiplicando     Dos astros nos milhões sua bondade,     138 Sobre a Unidade sua vês girando.

“Cada virtude, em sua variedade,     A cada precioso corpo é unida     141 A que dá, como em vós vitalidade.

“A virtude, em tais corpos infundida     Refulge, de um ser ledo procedente     144 Qual ledice em pupila refletida.

“Daí vem que uma luz de outra é dif’rente,     Não por efeito do que é denso e raro:     Esse é formal princípio eficiente

148 Conforme a sua ação o turvo e o claro.” —

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11. Pão dos anjos, teologia. — 14. Salso argento, o mar. —      16. A     que em Colcos surgiu gente guerreira, os Argonautas que se     espantaram quando Jasão arou o campo com dois touros que     expeliam flamas pelas narinas e semeou os dentes do monstro     que havia matado, do que surgiram guerreiros (Ovídio, Met. VII). — 34. Per’la eterna, a lua. — 51. Sobre Caim se hão     fábulas     urdido, segundo uma crendice popular, as manchas da lua     representavam Caim carregando um feixe de espinhos. — 60.     De corpo raro e denso, Dante havia escrito no Convívio que as     manchas lunares eram partes rarefeitas do astro. — 73-90. Se a     lua tivesse algumas partes transparentes não haveria     possibilidade de verificar-se o eclipse do sol. Se as partes     rarefeitas não são transparantes deveria haver ao oposto delas,     como num espelho, partes densas que impediriam a     transparência. Nesse último caso, porém, os raios externos,     como no espelho, deveriam refletir-se. — 112. No céu da paz,     o     Empíreo. — 112-13. Um corpo ingente gira, o primeiro móvel,     que influencia os outros céus. — 127. Santos motores, os anjos     que agem em cada um dos céus. — 130-132. E o céu, que     tantos     lumes fazem belo etc., aquele Céu que tantas estrelas fazem     belo, recebe da divina inteligência a virtude e a imprime nos     outros céus.

    540

    CANTO III

Na lua estão as almas daqueles que não cumpriram plenamente     seus votos religiosos. Aparece ao Poeta a alma de Picarda Donati,     que resolve uma sua dúvida sobre o contentamento dos espíritos     bem-aventurados. Narra-lhe como foi violentamente tirada do     mosteiro. Indica-lhe a alma da imperatriz Constança.

O SOL por quem primeiro ardeu meu peito,     Provando e refutando, me mostrara     3 Da formosa verdade o doce aspeito.

Por confessar-me do erro, em que vagara,     Quanto possível fosse, convencido,     6 Mais alto a fronte para a sua alçara.

Eis fui de uma visão tal possuído,     Que olvidei meu desejo inteiramente,     9 Ficando em contemplá-la submergido.

Bem como em cristal puro e transparente,     Ou nágua clara, límpida e tranqüila,     12 Que deixa à vista o fundo seu patente,

A imagem nossa quase se aniquila,     Em modo, que uma per’la em nívea fronte     15 Se faz mais perceptível à pupila,

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    Assim, dispostas a falar defronte     Várias figuras vi: eu no erro oposto     18 De Narciso caí amando a fonte.

Eu, cuidando as feições do seu composto     Ver num espelho, súbito volvia,     21 Por bem saber quem fosse, atrás o rosto.

Ninguém vi. Logo o gesto me atraía     Da doce guia, que, a sorir-me estando,     24 Dos santos olhos no esplendor ardia.

— “No sorriso, não pasmes, reparando,     A causa é” — diz — “teu pueril engano,     27 À verdade caminhas vacilando.

“Andas em falso, como sóis, de plano:     Verdadeiras substâncias estás vendo;     30 Trouxe-as aqui dos votos seus o dano.

“Interroga, o que ouvires crer devendo;     Pois da verdade a luz, que as esclarece,     33 As conduz, de todo erro as defendendo.” —

Volto-me então à sombra, que parece     Mais desejosa de falar: torvado     36 Começo, e a voz impaciência empece.

— “Tu, espírito eleito, que, enlevado,

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Da vida eterna aqui fruis a doçura,     39 Que entende só quem tem expr’imentado,

“Grã mercê me farás, se porventura     Disseres o teu nome e a sorte vossa.” — 42 A responder-me leda se apressura.

— “Ao bom desejo a caridade nossa,     Como a que manda a corte sua inteira     45 Imitá-la, defere quanto possa.

“Eu era lá no mundo virgem freira:     Diz-te a memória, se as feições me guarda,     48 Que sou, posto mais bela, e verdadeira.

“Atenta bem: verás que sou Picarda:     Estou nesta bendita companhia,     51 Venturosa na esfera, que é mais tarda.

“As nossas afeições que inflama e guia     Somente a inspiração do Esp’rito Santo,     54 Enlevam-se em cumprir ordens que envia.

“A sorte, ao parecer somenos tanto,     Nos coube, por ter sido descurado     57 O sacro voto e em parte posto a um canto.” —

Respondi-lhe: — “No aspeito sublimado     Vosso rebrilha um não sei que divino,     60 Que o tem do que foi de antes transmutado.

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“Não fui, pois, em lembrar-me repentino;     Porém, do que disseste me ajudando,     63 Eu do que hás sido em recordar-me atino.

“Mas vós que estais aqui dita logrando     Não sentis de outro céu desejo ardente     66 Por ver mais alto mais amor gozando?” —

Sorriu-se a sombra e as outras docemente;     E disse da alegria radiante,     69 O seu primeiro amor como quem sente:

“Rege o nosso querer, em paz constante,     A caridade, irmão: só desejamos     72 O que ora temos e não mais avante.

“Anelando ir mais alto do que estamos,     Seríamos rebeldes à vontade,     75 A que aprouve esta estância, que habitamos.

“Pois nos cumpre existir na caridade,     Surgir não pode em nós tal pensamento,     78 Dessa virtude oposto à santidade.

“Condição de eternal contentamento     É preceito cumprir do Onipotente:     81 Um só com ele é logo o nosso intento.

“Do reino em cada plaga refulgente

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Somos, do reino todo muito ao grado     84 E do Rei, que à sua lei nos molda a mente.

“Seu preceito a paz nossa se há tomado:     Ele é mar a que tudo precipita,     87 Que cria, ou faz natura ao seu mandado.” —

Conheço então que o Paraíso habita     Quem stá do céu em qualquer parte, e vejo     90 Não chover de um só modo a suma dita.

Mas, se um manjar sacia, dado o ensejo,     E de outro resta o apetite vivo,     93 Um se agradece, expondo-se o desejo.

Por gesto e voz assim fiz-me expressivo     Para a tela saber que a lançadeira     96 Não rematara com lavor ativo.

— “Perfeita em vida, em mérito altaneira     Acima santa está, que há regulado     99 Vestes e véus, com que professa freira,

“Até finar-se, vele ou durma ao lado     Desse esposo, que todo voto aceita,     102 Se lhe é por caridade consagrado.

“Menina e moça, à sua regra estreita     Submeti-me, e do mundo me apartando     105 Jurei aos seus preceitos ser sujeita.

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“Roubou-me à paz do claustro iníquo bando,     Mais à maldade do que ao bem afeito:     108 Qual foi Deus sabe o meu viver, penando!

“Este fúlgido esp’rito, em cujo aspeito     (À direita demora-me) se acende     111 Quanto lume o céu nosso tem perfeito,

“O que digo de mim de si o entende;     Sendo freira, como eu foi-lhe arrancado     114 O santo véu, que o voto à fronte prende.

“Mas, ao mundo tornando de mau grado,     Que os seus piedosos usos ofendia,     117 Guardou fiel seu peito ao sacro estado.

“É a excelsa Constância a que radia:     Deu de Suábia ao Imperador segundo     120 Herdeiro, em que extinguiu-se a dinastia.” —

Calou-se; e logo do Ave o hino jucundo     Cantou: cantando aos olhos desparece,     123 Qual peso, que mergulha em mar profundo.

Segui-la a vista quis quanto pudesse;     De desejo invencível atraída,     126 Voltou-se, quando em todo se esvaece,

E em Beatriz fitou-se embevecida.

546

Mas era o rosto seu tão fulgurante,     Que ante o lume sentiu-se esmorecida.

130 Pelo efeito atalhei-me titubante.

1. Sol da beleza, Beatriz — 17-18. No erro oposto de Narciso,     Narciso se enamorou da sua imagem na fonte, tomando-a por     pessoa verdadeira. Dante caiu no erro oposto. — 49. Picarda     Donati, irmã de Forese e de Corso, freira de Santa Clara, foi     obrigada pela sua família a casar-se com Rossellino della Tosa. — 95-96. A tela a saber que a lançadeira etc., o motivo pelo     qual     faltou aos votos que tomara — 98. Acima Santa está, Santa     Clara. — 118. Constância, filha de Rogério, rei das Apúlias     e de     Sicília, casada com Henrique VI e mãe de Frederico II.

    547

    CANTO IV

Duas dúvidas agitam o espírito do Poeta. A primeira é     relativa à     doutrina platônica, segundo a qual todas as almas voltam para     as estrelas donde saíram. A outra, se a violência tolhe a     liberdade, como pode ser justo que as almas forçadas a romper     os votos tenham desconto de glória? Beatriz responde à primeira     dúvida restringindo o sentido da doutrina platônica.     Relativamente à segunda diz que aquelas almas não consentiram     no mal, mas não o repararam, voltando ao claustro, quando     tiveram possibilidade de fazê-lo.

DE igual modo distantes e atraentes,     Homem livre entre cibos dois morrera     3 De fome, antes que num metesse os dentes.

Cordeiro assim, sem se mover, temera     No meio de dois lobos truculentos;     6 Um galgo entre dois gamos não correra.

Calando-me entre opostos pensamentos,     Louvor não merecia, nem censura;     9 Necessário era então nos meus intentos,

Mas no semblante o anelo se afigura;     Constrangido silêncio o denuncia     12 Melhor que a voz, quando expressão apura.

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Fez Beatriz, qual Daniel fazia     Para os assomos moderar da ira,     15 Que ao mal Nabucodonosor movia.

— “Dos desejos cada um tua alma tira”     — Disse — “e estando em tais laços enleada,     18 Tolhido o raciocínio, não respira.

“Discorres: se a vontade contrastada     No bem persiste, pode porventura     21 Em méritos julgar-se amesquinhada?

“Turbar-te inda outra dúvida procura:     Se das estrelas a alma torna ao meio,     24 Como Platão filósofo assegura.

“Destes problemas dois te nasce o enleio.     No derradeiro o exame principia     27 Porque do erro mais fel há no seu seio.

“Não têm anjo, que em Deus mais se extasia     Moisés e Samuel, João Batista,     30 O Evangelista, nem também Maria,

“Lugar em céu dif’rente do que a vista     De espíritos te deu que hão se mostrado:     33 Num só têm todos a eternal conquista.

“O Empíreo é por todos adornado,     Hão todos doce vida variamente,

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36 Conforme o eterno sopro é facultado.

“Se nesta esfera os viste, certamente,     Não foi por destinada lhes ter sido,     39 Grau só denota menos eminente.

“Assim por mente humana comprendido     Será, pois se eleva ao entendimento     42 Do que é pelos sentidos percebido.

“Por ter do que sois vós conhecimento     A Escritura atribui, mas al entende,     45 Pés e mãos ao Senhor do firmamento.

“Em figurar a Igreja condescende     Gabriel e Miguel e o que a Tobia     48 Curou, sob a feição, que à humana tende.

“Timeu esta verdade contraria     No que acerca das almas argumenta;     51 Parece crer à letra o que anuncia.

“Ao seu astro voltar a alma sustenta,     Supondo que ela à terra descendera,     54 Quando, por forma ao corpo unida, o alenta.

“Talvez diversa idéia concebera     Do que nas vozes suas emitira,     57 Escarnecida ser não merecera.

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“Se a honra ou vitupério atribuíra Aos astros de influir     na vida humana, 60 Na verdade talvez firmasse a mira.

“Mal entendido, o seu princípio dana O mundo quase inteiro,     que prestara 63 A Jove e a Marte adoração insana.

“A dúvida segunda te depara Menos veneno, pois o mal, que encerra     66 Para longe de mim não te afastara.

“Que a Justiça Divina lá na terra Pareça injusta     é, de péssima heresia, 69 Argumento de fé, que jamais     erra.

“Mas, como a humana mente poderia Às alturas alar-se da verdade,     72 Vou dar-te, o que o desejo te sacia.

“Constrangimento havendo, se, à maldade A vítima se opondo,     em luta insiste, 75 Desculpa elas não têm, sem dubiedade.

“Não se abate a vontade, se persiste; Sempre se ergue, qual     flama cintilante: 78 A força a estorce, vezes mil resiste.

“Por menos que se dobre vacilante, Cede à força: voltar     ao santo abrigo

81 Puderam, tendo o ânimo constante.

“Se o querer fosse inteiro no perigo, Como Lourenço no braseiro     ardente, 84 Ou Múcio, que à mão sua deu castigo, “Em     livres sendo, a estrada incontinênti Do dever seguiriam pressurosas;     87 Mas raro é tal valor na humana gente.

“Se atendeste, razões dei poderosas Para ficar tua dúvida     solvida: 90 Causa te fora a angústias afanosas.

“Mas ante os olhos ora vês erguida Outra ainda mais grave, que,     por certo, 93 Não fora por ti só desvanecida.

“Já te hei bem claramente descoberto Que não pôde     mentir alma ditosa 96 Pois da Suma Verdade é sempre perto.

“Narrou depois Picarda que extremosa No seu amor ao véu fora     Constância, 99 Ao revés do que eu disse cautelosa.

“Na existência há mais de uma circunstância, Em     que se faz, perigos receando, 102 O que é vedado ou move repugnância.

“Do pai ardentes rogos respeitando, A sua mãe Alcmeon cortava     a vida, 105 Por piedade impiedoso se tornando.

“Fique, pois, a tua mente convencida De que ao querer se a força     anda ajustada, 108 Não há desculpa à falta cometida.

“A vontade absoluta é declarada Inimiga do mal: cede temendo     111 Ser, pela oposição, mais lastimada.

“A verdade absoluta em mira tendo, Picarda discorreu: de outra eu falava.

114 Verdade ambas estamos defendendo.” — Do santo rio a luz assim     manava, Da Fonte da verdade é derivada: 117 Cada um dos meus desejos     contentava.

— “Ó do Primeiro Amante excelsa amada! Ó santa”     — eu disse — “cuja voz me anima, 120 Me inunda e a força     aviva à alma abrasada! “Afeto meu que ao extremo se sublima,     Não basta por tornar graça por graça: 123 Que o Senhor     minha dívida redima! “Não há, bem sei, não     há quem satisfaça A mente, se a Verdade não comprende

126 Fora da qual outra nenhuma passa.

“A mente ali se refocila e prende, Qual fera, que em seu antro empolga     a presa: 129 De outra sorte o desejo em vão se acende.

“E por isso ao pé nasce da certeza, Como vergôntea, a     dúvida e nos leva 132 De cimo em cimo até sublime alteza.

“Com toda a reverência que vos deva, Ouso pedir-vos me expliques,     Senhora, 135 Outra verdade, que me está na treva: “Os rotos votos,     que homem sente e chora, Pode suprir com mérito dif’rente, 138     Que iguale em peso o que perdera outrora?” — Beatriz me encarou:     tão refulgente Lhe rebrilhava o olhar e tão divino, Que me volto,     sentindo a força ausente, 142 E, quase aniquilado, a fronte inclino.

13. Qual Daniel etc., Beatriz interpretou o pensamento de Dante, como Daniel     o sonho de Nabucodonosor, que queria mandar matar os seus sábios por     não terem podido interpretá- lo. — 24. Como Platão     filósofo assegura, segundo a teoria platônica as almas são     criadas antes dos corpos e habitam as estrelas, a elas voltando, depois da     morte do corpo. — 28-32.

Não tem anjo etc., todos os anjos e santos não têm, no     céu,

lugar diferente daquele dos espíritos que agora apareceram. —      47. O que a Tobia curou, o Arcanjo Gabriel que curou a cegueira de Tobias.      — 49 Timeu, diálogo de Platão no qual se fala da imortalidade     da alma. — 61-63. Mal entendido, o seu princípio dana, etc.,     a opinião, mal entendida, da ação das estrelas sobre     a alma, talvez, leva ao erro, e, por isso, deram-se aos planetas os nomes     de Jove e Marte e foram eles adorados. — 83.

Lourenço, condenado a morrer queimado vivo. — 84. Muzio, Scevola,     para punir-se, fez queimar sua mão sobre um braseiro.

— 104. Alcmeon, filho de Anfiarau, matou a mãe Erifiles, v.

Purgatório, XII, 50.     CANTO V

Continuando no discurso do canto anterior, Beatriz explica a Dante que o     voto é um pacto entre o homem e Deus. Pode mudar- se a matéria     do voto, mas deve ser substituída com oferecimentos de maior mérito.     Beatriz lamenta a leviandade dos cristãos.

Beatriz e Dante voam depois para a esfera de Mercúrio, onde estão     as almas dos homens que viveram uma vida digna, adquirindo fama no mundo.     Um espírito fala ao Poeta.

SE no fogo do amor te resplandeço Em modo, que o terreno amor precede;     3 Se aos olhos teus a força desfaleço; “Não te     espantes: efeito é que procede Desse perfeito ver, que o bem compreende,     6 E, o compreendendo, em se apurar progrede.

“Já patente me está quanto resplende Na inteligência     tua a Luz eterna, 9 Que, apenas vista, sempre amor acende; “E, se outro     objeto humano amor governa, Vestígio dela é só mal percebido,     12 Só transluzindo em sua forma externa.

“Saber queres se um voto não cumprido

É de outras obras resgatado, e tanto, 15 Que em juízo de Deus     fique absolvido.” — Começou Beatriz desta arte o canto;     E, como quem no discorrer não pára, 18 Seguiu assim no seu elóquio     santo: “O mor bem que ao universo Deus doara, O que indicara mais sua     bondade 21 O que em preço mais alto avaliara, “Foi do querer,     por certo, a liberdade, Que a toda criatura inteligente 24 Há dado     em privativa faculdade.

“Daqui, por dedução, fica evidente Do voto a alta valia,     quando é feito 27 Por acordo entre Deus e a humana mente.

“Por contrato, entre Deus e o home’ aceito, Esse tesouro é     vítima imolada, 30 Que ao sacrifício vai com ledo aspeito.

“Pode ser porventura compensada? Se cuidas usar bem do que ofertaste,     33 Crês fazer bem com prata mal ganhada.

“Certo do ponto capital ficaste; Com a dispensa a Igreja, parecendo     36 Em tal caso contrário ao que escutaste,

“Convém, que um pouco à mesa te detendo, Para o rijo     manjar, que hás ingerido, 39 Socorro aguardes, que te dar pretendo.

“Ao que te explico atento presta ouvido E guarda-o na alma; pois não     dá ciência 42 Ouvir o que depois fica no olvido.

“Exige do sagrado voto a essência Aquele objeto em sacrifício     dado 45 E do próprio contrato a consistência.

“Jamais pode ser este obliterado, Ainda que infringido: já bem     clara 48 Demonstração sobre este ponto hei dado.

“Lei rigorosa a Hebreus determinara Fazer pia oblação;     mas concedida 51 A permuta da oferta lhes ficara.

“Da matéria do voto é permitida Conversão quando     ensejo se oferece, 54 Sem ser por isso falta cometida.

“Mas não se muda, quando bem parece, O fardo; só se a     Igreja, tendo usado 57 Das chaves de ouro e prata, o concedesse.

“Crê que toda permuta é passo errado,

Quando o antigo no novo não se inclua, 60 Bem como quatro em seis     vês encerrado.

“Se o voto é tal na gravidade sua, Que obrigue a se inclinar     toda balança, 63 Outro voto não há, que o substitua.

“Não contraí, mortais, votos por chança! Cumpri-os,     mas não Jefté imitando, 66 A quem deu louco voto a desesp’rança.

“— Fiz mal! — dissesse ao voto seu faltando, Por não     fazer pior cumprindo-o. Estulto 69 Foi o potente Rei dos gregos, quando “À     filha fez chorar seu belo vulto E à piedade moveu quantos ouviram 72     Falar daquele abominável culto.

“A razões pesai bem, que vos inspiram, Cristãos! não     sêde pluma a qualquer vento! 75 As nódoas com toda a água     se não tiram! “Tendes o Velho e o Novo Testamento E da Igreja     o pastor, que os passos guia: 78 Que mais quereis por vosso salvamento? “Se     má cobiça o peito vos vicia, Homens sêde e não     brutos animais: 81 Que entre vós o Judeu de vós não ria.

“Como o cordeiro simples não façais, Que contra si combate     petulante, 84 Da mãe o leite não querendo mais.” —      Beatriz assim disse. Eis anelante E arrebatada em êxtase voltou-se 87     À parte, onde o universo é mais brilhante.

Ante o enlevo em que o gesto transmutou-se, Calou-se o meu desejo impaciente:     90 De outras questões, já prestes, refreou-se.

Como a seta, que o alvo de repente Atinge antes que a corda esteja quieta,     93 No céu segundo entramos velozmente.

Tão leda eu via Beatriz dileta, Daquele céu nas luzes penetrando,     96 Que mais vivo esplendor mostra o planeta.

E se a estrela sorriu, se transformando, Como não fiquei eu, que fez     natura 99 Mudável, impressões todas tomando? Como viveiro de     água mansa e pura, Pela esp’rança, de pasto, que se of’reça,     102 Sofregamente o peixe o anzol procura, Mais de mil esplendores vindo à     pressa,

— “Eis aí quem nos traz de amor aumento!” —      105 A voz de cada qual nos endereça.

De cada sombra o alegre sentimento, Em se acercando a nós, se denuncia     108 No fulgor do seu claro luzimento.

Quão sôfrego o desejo não seria Em ti leitor, se acaso     interrompesse 111 A narração de quanto então se via?     Imaginas, portanto, o que eu tivesse De conhecer aquela grei formosa, 114     Tanto que ante os meus olhos aparece.

— “Ó criatura, que assim vês ditosa Os tronos do     eternal triunfo, inda antes 117 De finda a terreal guerra afanosa, “Nos     lumes, que no céu há mais brilhantes, Ardemos: te darei, se     as pretenderes, 120 Ao teu desejo informações bastantes.”     — Assim falou. — “Responde que assim queres.” —      A Beatriz ouvi — “diz com franqueza, 123 E crê como divino     o que entenderes.” — “O ninho tens, já vejo com certeza,     Na luz eterna: o seu fulgor revela 126 Dos olhos teus, sorrindo-te a viveza.

“Mas não sei quem tu és, ó alma bela, Nem por     que por degraus tens esta esfera, 129 Que aos mortais nos clarões de     outra se vela.” Assim disse, voltado à luz que houvera Primeira     a voz alçado: refulgindo, 132 Mais coruscante a vi ao que antes era.

Bem como o sol os lumes encobrindo No seu próprio esplendor quando     esvaece 135 As cortinas que estavam-nos cingindo, Da alegria no excesso desparece     Nos próprios raios a figura santa.

Na sua luz envolta que recresce, 139 Disse o que o canto que se segue canta.

56-57. Só se a Igreja etc., só se a Igreja, que possui a chave     de prata (da ciência) e de ouro (da autoridade) o permitir. —      65.

Jefté, juiz de Israel, fez o voto, se vencesse os Amonitas, de sacrificar     a primeira pessoa que encontrasse no caminho; e esta foi a sua filha. —      69. O potente rei dos Gregos, Agamenon prometeu aos deuses o que possuía     de mais belo. Chorou depois a beleza da sua filha Ifigênia.     CANTO VI

A alma do imperador Justiniano fala ao Poeta. Narra-lhe a história     do Império, de Enéias a César, a Tibério, a Tito,     a Carlos Magno, para mostrar-lhe a santidade da autoridade imperial.

Diz-lhe que no Céu de Mercúrio estão os espíritos     daqueles que se esforçaram para conseguir fama imortal. Discorre-lhe     acerca de Romeu, que administrou a corte de Raimundo Beranguer, conde de Provença.

“DEPOIS que Constatino a Águia voltara Contra o curso do céu,     que ela seguira 3 Pós o herói, que Lavínia conquistara,      “Duzentos anos já passados vira Da Europa em confins de Deus     essa ave, 6 Vizinha aos montes, donde se partira; “Das plumas sob a     sombra ampla e suave, De mão em mão o mundo há dominado,     9 Té comigo reger do Império a nave.

“César, Justiniano fui chamado.

Do Amor, que sinto, por querer movido, 12 O supérfluo das leis hei     cerceado.

“Antes de ter a empresa cometido,

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Uma só natureza acreditava 15 Ter Cristo e andava nessa fé     perdido.

“Mas de Agapeto santo que mandava De Roma Santa Igreja, a voz potente     18 Levou-me à crença pura, que eu deixava.

“O que então disse, eu vejo claramente, Pois, como vês,     contradição implica 21 Uma falsa asserção e outra     evidente.

“Quando eu cri no que a Igreja certifica, Minha mente, de Deus por     alta graça, 24 Logo à sublime empresa se dedica.

“Belisário a reger as armas passa; No favor, que lhe deu poder     divino 27 Sinal vi que me ordena a paz se faça. — “A responder-te,     o que ouves tem destino; Mais o que hei dito agora a tanto obriga, 30 Que     a mor explicação dar-te me inclino.

“Verás que sem razão vontade imiga Move-se contra esse     estardarte santo, 33 Quando o tenta usurpar, quando o profliga.

“Pelos fatos verás respeito quanto Mereceu desde a honra em     que Palante 36 Morreu por dar-lhe de sob’rano o manto.

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“Em Alba sabes como foi constante Por mais de anos trezentos té     lutarem 39 Três contra três por que ele fosse avante.

“Sabes quanto ele fez por se curvarem Vizinhos desde o roubo das Sabinas     42 Té Lucrécia expirar e os Reis findarem.

“Sabes que glória teve nas mãos di’nas De heróis,     que Breno e Pirro combateram, 45 E de outros reis coligações     mali’nas; “Décios, Fábios, Torquatos lhe deveram     E Quíncio Cincinato, que amo e louvo 48 A fama das vitórias,     que tiveram; “Calcou o orgulho do Africano povo, Que por fraguras, donde,     o Pó, te envias, 51 Sob Aníbal, abriu caminho novo.

“Fez triunfar da juventude em dias Cipião e Pompeu, e assaz     desgosto 54 Causou às tuas pátrias serranias.

“Perto dos tempos, em que o céu disposto Havia, por seus fins,     dar paz ao mundo.

57 Em mãos de César Roma o teve posto.

“O que ele fez do Var ao Rin profundo

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Isara há visto e o Era, há o Sena 60 E esse vale, onde o Rone     é sem segundo.

“Passando o Rubicon, após Ravena, Com César a Águia     tanto em vôo alçou-se, 63 Que o não pôde seguir     nem voz, nem pena.

“Depois que para a Espanha remontou-se, A Durazzo e a Farsália     acometia: 66 Do efeito o ardente Nilo perturbou-se.

“O Simoente e Antandro então revia, Seu berço, em que     a de Heitor cinza descansa; 69 E sem detença a Ptolomeu se envia.

“Dali, qual raio, logo Juba alcança; Depois volve-se às     terras do Ocidente, 72 Onde os sons de Pompeu a tuba lança.

“Nas mãos de outro o que fez essa ave ingente No inferno Bruto     e Cássio estão sentindo, 75 Sofrem Perúgia e Módena     tremente.

“Cleópatra inda vai triste carpindo Atroce morte, que da serpe     toma, 78 Da Águia os assaltos pávida fugindo.

“Até o Roxo mar tudo a Águia toma, E ao mundo tão     serena a paz se inclina, 81 Que em fim de Jano as portas fecha Roma.

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“O que fez e faria a ave divina Para trazer à fama sua aumento     84 Nesse império mortal, em que domina, “Parece escasso em seu     merecimento, Quando em mãos de Tibério a contemplamos 87 Com     puro afeto e claro entendimento; “Pois que a viva justiça, que     adoramos Lhe há nessas mãos a glória concedido 90 De     dar vingança às iras, que incitamos.

“Sê, me ouvindo, de espanto possuído: Águia a vingança     do pecado antigo 93 Depois com Tito há por tornar corrido.

“Quando, mordida por lombardo imigo, Gemia a Santa Igreja, à     sombra da ave 96 Salvou-a Carlos Magno do perigo.

“Podes julgar, portanto, do erro grave Daqueles, cujas faltas hei notado,     99 Causa do mal que vês quanto se agrave.

“Contra o sacro estandarte um tem hasteado Áureo lírio,     outro o quer por seu partido: 102 Custa dizer qual seja o mais culpado.

“Gibelinos, no iníquo andar sabido

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Outra bandeira sigam; que à justiça 105 Culto esta exige nunca     interrompido.

“Carlos novo a batê-la em vão cobiça Com Guelfos;     temas as garras, que arrancaram 108 A mais forte leão juba inteiriça.

“Mais de uma vez os filhos já choraram Pelas culpas do pai:     é louca a esp’rança, — 111 De que de Deus favor     lírios ganharam.

“O planeta, em que habito agora, estança É de almas generosas     que honra e fama 114 Aspiraram do mundo na lembrança.

“Quando os desejos deste modo inflama O incentivo da glória,     aos céus ascende 117 Do vero amor menos ativa a chama.

“Mas nossa dita em parte compreende Dos méritos e prêmio     no confronto: 120 Nem menor, nem maior nenhum se entende “Pois da viva     justiça o feito pronto Tanto os afetos nos ameiga e apura, 123 Que     nequícia os não torce em nenhum ponto.

“Vozes várias de sons formam doçura: Assim os vários     graus na eterna vida 126 Doce harmonia fazem nesta altura.

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“Nesta per’la, em que estás, bela e polida, Rebrilha de     Romeu claro luzeiro, 129 Virtude ínclita e mal agradecida.

“Os provençais, pelo ato traiçoeiro, Não se riram;     caminho segue errado 132 Quem o bem de outro inveja sobranceiro.

“Às filhas grato de rainha o estado Conseguiu Beranguer: tal     bem devia 135 A Romeu, nome humilde e não falado.

“Preso na trama que a calúnia urdia, Que aumentado no quinto     o erário havia; 138 Do erário contas exigiu do justo, “Romeu     partiu-se então pobre e vetusto: Se o mundo o coração     lhe aquilatara, Quando, mendigo, se mantinha a custo, 142 Louvor muito maior     lhe dispensara.” —

1-3. Depois que Constantino a Águia voltara etc., depois que Constantino     transferiu o Império de Roma para Bizâncio. — 10.

Justiniano, imperador romano e grande legislador, que reinou duzentos anos     depois de Constantino, pois começou o seu reinado em 527. — 14.     Uma só natureza etc., a doutrina de Eutíquio segundo a qual     Cristo tinha só a natureza humana. — 16. Agapeto, o papa Agabito.      — 25. Belisário, grande capitão que combateu na Itália     contra os Godos. — 32. Esse estandarte

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sacro, o emblema do Império, que representava a águia. —      35.

Palante, companheiro de Enéias, morreu combatendo contra Turno. —      37. Alba, cidade fundada por Ascânio, filho de Enéias.

— 39. Três contra três, combatimento dos Horácios     contra os Curiácios. — 41. O roubo das Sabinas, o rapto das mulheres     dos Sabinos, efetuado pelos Romanos. — 42. Lucrécia, mulher de     Colatino, foi violentada por Tarquinio, daí resultando a rebelião     dos Romanos contra a monarquia. — 44. Breno e Pirro, o primeiro general     dos Galos, o segundo rei do Épiro, que invadiram a Itália. —      46-47. Décios, pai, filho e neto morreram pela pátria; Fábios,     ilustre família romana; Torquatos, T. Manlio Torquato; Quíncio,     Q. Lúcio Cincinato. — 51. Aníbal, general cartaginês     que invadiu a Itália. — 67. Simoente, rio perto de Tróia;     Antadro, cidade da Frísia. — 73. Nas mãos do outro o que     fez César, Augusto vingou a morte de César. — 76. Cleópatra,     rainha do Egito, suicidou-se. — 93. Tito, destruiu Jerusalém,     cujos habitantes tinham crucificado a Jesus Cristo. — 94.

Lombardo imigo, Desidério, último rei longobardo que foi derrotado     por Carlos Magno. — 101. Áureo lírio, as armas da Casa     de França. — 106. Carlos novo, Carlos II de Anjou, chefe do partido     guelfo. — 128. Romeu, segundo conta G. Villani, foi administrador de     Raimundo Beranguer, conde de Provença, aumentando-lhe o patrimônio     e conseguindo casar as filhas de Raimundo com quatro reis. Caluniado, não     quis mais ficar na corte de Provença e, velho e pobre, desapareceu.

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CANTO VII

Desaparecem os bem-aventurados cantando. Beatriz explica como a crucificação     de Cristo restituiu ao homem a dignidade perdida, a liberdade que lhe foi     conferida por Deus. Os anjos e os homens por sua natureza são livres     e imortais. O homem porém, pecando, abusou da sua liberdade, e deformou     a imagem de Deus que tinha em si. Não podia reparar a falta por si     mesmo, pois não podia humilhar-se tanto quanto Adão, em seu     orgulho, quis subir. A Deus convinha ou perdoar ou punir. Na sua sabedoria     infinita, Deus perdoou e puniu no mesmo tempo. Puniu a humanidade em Jesus     Cristo e nele a fez novamente livre.

“HOSANNAH Sanctus Deus Sabaoth, Superillustrans daritate tua 3 Felices     ignes horum malacòth!” Assim, voltando à melodia sua,     Cantar ouvi essa alma venturosa 6 Em quem dúplice lume se acentua.

Tornam todas à dança jubilosa, E súbito da vista se     apartaram 9 Velozes, como flama fulgurosa.

Disse entre mim, pois dúvidas me entraram: “Fala à senhora     tua, fala; à sede 12 Rocio as palavras suas te deparam.”

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Torvação me assenhora e a voz me impede, Que apenas B com I     C E conjugava: 15 Acurvei, como quem ao sono cede.

Mas Beatriz do enleio me tirava, Com sorriso, que a mente me ilumina 18 E     aditara entre as chamas começava: — “Como bem vejo, dúvida     domina A tua alma: — a vingança, que foi justa, 21 Punição     teve, da justiça di’na? “Esclarecer-te o espírito     não custa.

Atende bem: verdade preminente 24 Das vozes minhas co’a expressão     se ajusta.

“Aceitar não querendo, obediente, Saudável freio, o homem,     sem mãe nado, 27 Perdeu-se a si, perdeu a humana gente.

“Muitos séc’los enferma do pecado, Jazeu ela não     erro engrandecido 30 Té que o Verbo de Deus fosse encarnado.

“Por ato só do Eterno Amor, unido À natureza se há,     que ao mal se dera, 33 Depois de esquiva ao Criador ter sido.

“No que vou te dizer bem considera.

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A natureza, a que se uniu beni’no 36 Em pessoa, nasceu boa e sincera.

“Por si mesma, fugindo em desatino Da vereda da vida e da verdade,     39 Do Paraíso se exilou divino.

“Da Cruz a pena, em face da maldade Da natureza, a que Jesus baixara,     42 Foi a mais justa em sua gravidade.

“Nunca injustiça igual se praticara, Atenta essa Pessoa, que     há sofrido, 45 Que à natureza humana se ajuntara.

“Contrastes, pois, de um ato hão procedido: Folgam Judeus da     morte a Deus jucunda, 48 Foi ledo o céu e o mundo espavorido.

“E não te mova sensação profunda Ouvir que uma     vingança, que foi justa, 51 Vingada ser devia por segunda.

“Vejo-te a mente por vereda angusta Levada a estreito nó de     dubiedade, 54 Que solver mor esforço ora te custa.

“Dirás: — discerne o que ouço, na verdade; Mas     porque Deus nos desse está-me oculto, 57 Remindo-nos tal prova de bondade.      —

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“Este decreto irmão, está sepulto Aos olhos do que ainda     o entendimento 60 Não tem de Amor na flama ainda adulto.

“É mistério em que luta o pensamento Sem fruto conseguir     de tal porfia, 63 Mas foi o melhor modo. Ouve-me atento! “A Divina Bondade     que desvia De si o desamor, arde e flameja, 66 Por eternais primores se anuncia.

“Diretamente o que emanado seja Dela é sem fim; eterna impressão     fica 69 Do que no seu querer supremo esteja.

“O que assim nasce, não sujeito fica Das causas secundárias     à influência 72 E liberdade plena significa.

“Mais lhe apraz, se é conforme à sua essência:     Que o santo Amor que em toda cousa brilha, 75 Mais vivo é no que encerra     esta excelência.

“Aos homens de tais bens cabe a partilha: De tais predicados se um     falece, 78 Sua nobreza já decai, se humilha.

“Só por pecado dessa altura desce;

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Do Sumo Bem não mais reflete o lume, 81 Semelhança não     mais dele oferece.

“E o grau sublime seu não mais assume, Se não contrapuser     ao do pecado 84 Deleite mau das penas o azedume.

“Quando o gênero humano, infeccionado Todo no germe seu, foi     dessa alteza 87 E do seu Paraíso deserdado, “Reaver só     pudera (com certeza Verás, se bem cogitas), intervindo 90 Um dos meios,     que aponto por clareza: “Ou Deus, por graça infinda, remitindo;     Ou — porque, de si mesmo, se convença — 93 Das culpas suas     o homem se remindo.

“Para sondar a profundeza imensa Dos eternos conselhos, prende à     mente 96 As razões que o discurso meu dispensa.

“O homem não podia, de indigente, As dívidas solver:     nunca pudera 99 Curvar-se tanto, humilde e reverente, “Quanto, rebelde,     se elevar quisera.

Eis por que redimir-se do pecado 102 Só por si mesmo ao homem não     coubera.

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“E, pois há sido do divino agrado, Por clemência ou justiça     e ambas juntando, 105 Ser ele à vida eterna aparelhado.

“A feitura do Autor ao gosto estando Inda mais, quando a imagem nos     of’rece 108 Do peito, de quem vem piedoso e brando, “A Bondade     que em tudo transparece, Em prol vosso os dois modos reunia: 111 Um somente     bastar-lhe não parece.

“Entre a noite final e o primo dia Ato igual não se fez alto     e formoso 114 Desse modo por um, nem se faria.

“Dando-se, há sido Deus mais generoso, Por que o home’      a se erguer se habilitasse, 117 Do que só perdoando carinhoso.

“Outro meio qualquer, que se empregasse Não bastara à     Justiça, se humilhando 120 De Deus o Filho à carne não     baixasse.

“Para de todo seres doutrinado Eu torno a um ponto, por que vejas claro,     123 Como eu, o que zelosa hei te explicado.

“Dizes: — no fogo e no ar, se bem reparo

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Na terra e nágua vejo e em seus compostos 126 Corrupção     que destrói sem anteparo.

“Na criação por Deus foram dispostos: De corrupção     isentos ser deveram, 129 Certos sendo os princípios por ti postos.      — “Criados, meu irmão, se consideram Os anjos e dos céus     o que há no espaço, 132 Inteiros, puros sempre quais nasceram.

“Elementos e quanto no regaço Da natura por eles se combina     135 De virtude criada of’recem traço.

“Criou-lhes a matéria a lei divina, Criando logo a força     informativa, 138 Que nos astros, que os cercam, predomina.

“Dos lumes santos moto e luz deriva Dos brutos alma, e plantas igualmente,     141 Por compleição potencial passiva.

“A vida nossa vem diretamente De Deus, Supremo Bem, que em nós     acende 144 Amor tal, que o deseja eternamente: “Daí, por dedução,     também descende Vossa ressurreição, se ao ser e à     essência Da humana carne o teu esp’rito atende,

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148 Quando o primeiro par teve existência.” —

1-3. Hosannah, sanctus Deus Sabaoth, expressão constituída     por palavras latinas e hebraicas: “Salve, Deus dos exércitos,     que iluminas com a tua luz os felizes lumes deste reino.” — 18.     E aditara, do verbo aditar, tornar feliz. — 26. O homem sem mãe     nado, Adão. — 46-48. Contrastes, pois, de um ato procedido etc.,     a morte de Jesus Cristo deu satisfação a Deus, porque reparava     a ofensa de Adão e deu satisfação aos Judeus pela raiva     deles contra Jesus; a terra ficou espavorida pela crucificação     de Deus e o Céu alegre porque se abria novamente à humanidade.

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CANTO VIII

Dante e Beatriz elevam-se à estrela de Vênus, onde estão     os espíritos daqueles que outrora foram propensos às paixões     amorosas. Encontro com Carlos Martelo, o qual referindo-se à índole     mesquinha de seu irmão Roberto, explica-lhe como se dá que de     um bom pai possa nascer um filho mau e, enfim, quanto providencial é     a Natureza nos seus decretos e quão vaidosos são os homens que     não lhe seguem as indicações.

O MUNDO com perigo verdadeiro Creu que Ciprina bela dardejava 3 Louco amor     do epiciclo que é terceiro.

Sacrifícios não só lhe consagrava, Preces e votos essa     antiga gente 6 No erro antigo fatal, que a transviava, Mãe e filho     adoravam juntamente, Dione e o seu Cupido, que fingiram 9 De Dido reclinado     ao seio ardente; Dessa falsa deidade o nome uniram Ao planeta, que o sol sempre     namora, 12 Quando raiam seus lumes, quando expiram.

Como ao astro eu me alcei, a mente ignora,

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Mas certo fui de haver lá penetrado, 15 Mais formosa por ver minha     senhora.

Como se vê fagulha em fogo ateado, Como uma voz é de outra discernida,     18 Firme o som de uma, o de outra variado, Outros clarões notei na     luz subida, Mais ou menos velozes se volvendo, 21 Lá da eterna visão,     creio, à medida.

Ou visíveis ou não, ventos rompendo, Em rápida invasão,     de nuve’ escura, 24 Demorados stariam parecendo, A quem pudesse ver     cada luz pura, Que ao nosso encontro vem deixando a dança 27 Que marcam     serafins dos céus na altura.

Trás a grei, que primeiro nos alcança.

Tão doce hosana soa, que, incessante, 30 De inda ouvi-lo o desejo     jamais cansa.

Dos espíritos um, que vem diante Só principia: — “Todos     nós queremos 33 Quanto para aprazer-te for prestante.

“Num só ardor e giro nos movemos Cos Príncipes, celestes     esplendores 36 De quem no mundo hás dito (bem sabemos):

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— “Vós, do terceiro céu sábios motores!”     — Por te agradar nos é doce o repouso 39 Tão vivos são     do nosso amor fervores!” — De Beatriz ao gesto luminoso Depois     que alcei os olhos reverente 42 E certo fui do seu querer donoso, À     luz, que se mostrou condescendente Em tanto grau — “Quem és”     — falei, de afeito 45 Estremecido possuída a mente.

Ó das palavras minhas raro efeito! Maior a vi brilhar; nova delice     48 A alegria aumentou do claro aspeito.

— “Bem pouco o mundo” — a refulgir-me, disse —     “Me teve; se algum tempo mais vivesse, 51 Mal, que há de vir,     por certo ninguém visse.

“O júbilo que em torno me esclarece, Aos teus olhos me encobre,     como inseto, 54 Que dos seus véus de seda se guarnece.

“Com razão me votaste o extremo afeto; Pois, em mais longa vida,     eu te mostrava 57 Por ações quanto me eras tu dileto.

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“Aquela região, que o Rone lava À sestra, quando ao Sorga     corre unido, 60 Por senhor seu um dia me esperava.

“Como da Ausônia o litoral partido Por Bari, por Gaeta e por     Crotona.

63 Onde é do Tronto e Verde o mar nutrido.

“Da c’roa a fronte minha já se entona Do vasto reino,     que o Danúbio rega, 66 Quando as plagas tudescas abandona.

“Trinácria, a cujos céus névoa carrega Sobre o     golfo, em que mais Euro embravece, 69 De Paquino a Peloro, em mor refega,      “Que não Tifeu, mas súlfur escurece, O trono guardaria     à prole minha, 72 Que de Carlo e Rodolfo antigos desce, “Se o     mau jugo, que os povos amesquinha, A gritar — morra! morra! —      não movesse 75 Palermo, a quem temor não mais continha.

“Se mais prudência meu irmão tivesse, Dos Catalanos a     indigência avara 78 Fugira, por que o mal seu não crescesse.

“Urgente, na verdade, se tomara Que, por si ou por outrem, não     deixasse

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81 Mais onerar a barca, que adernara.

“Quando a índole nobre transtornasse Avareza, milícia     ter devia, 84 Que só de encher seus cofres não curasse.”     — — “Como creio” — tornei-lhe — “a     essa alegria, Que me infundes, Senhor, a origem tira 87 De Deus que todo bem     finda e inicia.

“Comigo a sentes: mor prazer me inspira.

Quanto me hás dito, me é no extremo caro, 90 Pois vês,     de Deus no espelho tendo a mira.

“Ledo me hás feito; assim tornar-me claro O que por teu dizer     stá duvidoso: 93 Semente doce brota fruto amaro?” — —     “Vendo a verdade” — disse — “pressuroso Darás     o dorso ao que ora dás o rosto, 96 Verás claro o que julgas     tenebroso.

“O Bem, que os céus, que sobes, há disposto, Os move     e alegra, sem pôr providência 99 Nestes corpos que vês virtude     posto.

“E não só com perfeita previdência Cousas terrestres     acham-se ordenadas, 102 Mas as preserva a sua onipotência;

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“Porque as setas, deste arco arremassadas, Predestinadas são     a um ponto certo, 105 Infalíveis ao alvo enderaçadas.

“O céu aliás, aos olhos teus aberto, Só feituras     sem arte produzidas 108 Abrangera e ruínas no deserto.

“Foram então de perfeição despidas As Substâncias,     que regem as estrelas 111 E a mão, que as fez assim destituídas.

“Verdades são: mais claras queres vê-las?” —     — “Não” — repliquei — “supor não     poderia 114 Natura escassa em suas obras belas.” — — “Um     mal, dize-me, fora” — prosseguia — “Não ser     o homem cidadão na terra?” — 117 — “Por certo;     e a razão sei” — lhe respondia.

— “Sociedade haverá, se não encerra Misteres vários,     que cada um pratica? 120 Não, se o teu Mestre em seu pensar não     erra.” — Deduzindo, a evidência significa, E logo concluiu:      — “Causa dif’rente 123 Efeito diferente sempre indica.

“Nasce um Sólon, e Xerxe outro é furente,

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Melquisedeque ou Dédalo perito, 126 Que no ar perdeu o filho seu demente.

“Perfeito é o giro pelos céus descrito; Na cera humano     o seu sinal fazendo, 129 Mas solar não distingue, nem distrito.

“Daí vem que Esaú, logo em nascendo, Difere de Jacó;     toma Quirino 132 Marte por genitor, seu pai vil sendo.