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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A ESCRAVA NEGRA DO NILO / Brigitte Riebe
A ESCRAVA NEGRA DO NILO / Brigitte Riebe

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A ESCRAVA NEGRA DO NILO

 

O agitado percurso da vida de uma beldade negra originária da Núbia, a terra do ouro, e que termina como amante e esposa do faraó Kamés na corte de Tebas.

Um grande romance de mulheres da historiadora Alemã Brigitte Riebe, nascida em 1953, e que nos leva ao luxo colorido e à atmosfera mágica deste mundo exótico, e revela as raízes “negras” da cultura do antigo Egipto.

 

PRÓLOGO

Amanhã morrerei.

Para meu próprio espanto, estou serena enquanto escrevo estas palavras, antes de as ler ao pequeno escorpião, único companheiro que há tanto partilha comigo o cárcere. O meu coração bate calmo e regular. Nem as mi-

nhas mãos tremem. Não se trava qualquer luta por trás da minha fronte, o cérebro trabalha obediente. Não tenho medo, pois já vivi mais do que uma morte, mesmo que agora pareça ser esta a mais longa, até mesmo a eterna.

Mas quem sabe onde está o Sol durante a noite?

Quem pode dizer para onde vão os homens na sua derradeira jornada? Na alvorada que em breve despontará, eles virão com as cabeças cobertas para me arrastar para o patíbulo, como é habitual com os traidores da pátria, ainda antes de o filho solar recém-nascido aparecer entre as coxas da deusa dos céus. Quando a barca tiver escapado à boca da grande cobra e os fortes braços do deus Chu erguerem o astro cintilante para o céu, o meu cadáver será já pasto dos abutres.

Pois será isso que me vai acontecer: o meu corpo será atirado para a vala do lixo. Sem sarcófago, é claro, sem mumificação. Nem me será concedida a pele de boi com que os mais pobres dos pobres são enterrados nas areias do deserto. Nem mesmo um verso d’O Livro dos Mortos que me possa indicar o caminho para o país das almas:

Dormes, para acordares, morres, para viveres.

Mas eu não preciso das suas fórmulas mágicas, nem gravadas em madeira, nem em pedra, ou escritas em papiro, porque as conheço todas. De todas estas listas infindáveis, não esqueci uma única.

A memória das pessoas de Kemet, pelo contrário, parece-me curta.

Demasiado curta.

Será que já se esqueceram que fui, outrora, escrivã na casa da vida?

Uma iniciada nos seus segredos que, em corpo e alma, experimentou o que só os eleitos podem saber?

Talvez me odeiem por isso mesmo.

Porque, durante anos, insistentemente tentei tornar-me como eles, uma gota entre outras na infinita amplitude do mar, despercebida, sim, quase invisível. Só quando este desesperado desejo me levou para perto do precipício, quando aprendi a beber a água escura que desperta o gosto pela vingança, a salvação surgiu no último momento. Desde que eu sei quem sou:

Leoa das terras do Sul.

Verdadeira filha de Apedemak.

Neta da feiticeira.

Espia do reino do arco, que ama e sempre amará o homem no trono de Kemet.

Sahti, a cuxita.

Uma revelação que é, também para mim, controversa e de múltiplos significados, e que, de maneira nenhuma, me torna sempre feliz. No entanto, desde então que aquela paz existe em mim. Uma silenciosa certeza que é apenas minha. Ninguém ma pode tirar, nenhum juiz, nenhum carrasco, nem mesmo o faraó. Ninguém, senão Nabu, jamais entendeu esta paz. Mas ela, a minha irmã de raça, bela e orgulhosa, que até mesmo antes de mim foi desconhecida durante muito tempo, já me precedeu para aquele misterioso reino ocidental dos que partem, de onde ainda nenhum mortal jamais regressou.

Não temo por mim, e isto é dito com verdade, se bem que por alguém que é tido em todo o reino como uma astuta mentirosa. No entanto, se eu penetrar mais profundamente em mim, então bem que existem pensamentos e sentimentos que fazem sangrar o meu coração. A minha morte poderá ser útil a alguns que cruzaram o meu caminho; alguns provavelmente desejaram-na; um ou outro até conspiraram para isso, com determinação e cheios de perfídia. Todavia, também existem aqueles para quem a despedida vai ser imensamente dolorosa, pessoas que tudo foram para mim e que o continuarão a ser, mesmo quando a minha respiração já tiver cessado. Sobretudo Nuia, a minha pequena filha, que ainda vai fazer dois anos. Ela tem o nome da minha mãe, que eu nunca vi e por quem toda a vida ansiei. Nunca mais poder acariciar a pele suave de Nuia ou ouvir o seu límpido chilrear, o cómico esmero com que ela repetia, pairando, os sons estranhos que eu lhe segredei aos ouvidos quando estávamos sozinhas e ninguém nos podia ouvir. Que ideia mais cruel, mais desumana!

A preocupação com ela faz-me passar as noites acordada. Daria tudo para vê-la mais uma vez. O que irá acontecer-lhe, quando eu deixar de existir? Os crimes, de que sou acusada, também irão lançar sobre ela as suas sombras? Ou será que, por fim, o amor do seu régio pai se mostrará mais forte do que todo o cálculo político?

Depois Namiz, o meu amigo do longínquo Kepni, que zelou por mim como um espírito de guarda desde o dia do meu rapto. Passaram-se muitas luas desde que o vi pela última vez, muitas semanas desde que uma palavra sobre o seu destino penetrou o meu isolamento. Segundo consegui saber, foi preso como eu. De resto, só o mais profundo silêncio. Nenhuma notícia, nenhuma indicação. Nada!

Rezo todos os dias para que ele tenha sido capaz de se salvar no último momento, esperto e astuto como sempre. Ou teve ele de perecer miseravelmente por minha causa, por ele, o estranho, sempre me ter protegido e promovido a mim, a estranha?

E, finalmente, Teti-Cheri, matriarca da casa real em Uaset, simultaneamente amiga prudente e estadista inteligente! Não um solitário felino predador como a orgulhosa daia, a avó dos meus dias de infância, antes uma elegante gazela que conserva sempre o faro e decide rápida e certeiramente O que deve ser feito. No seu rosto em forma de trapézio, com os ossos malares altos e o nariz pronunciado, encontro muitos traços do meu querido Kamés, o faraó que, por fim, me condenou à morte, por temer amar-me demasiado...

Amanhã morrerei.

A bárbara, assim eles me chamam. Mulher do Sul, do miserável reino de Kuch. Traidora de Uauat.

A negra.

Eles nada sabem, apesar de eu ter vivido tantos anos no seu seio. Devem ser cegos.

Invade-me a tristeza. Então, sombras cinzentas alastram sobre a minha pele; devido à mágoa e às preocupações, tudo se torna embotado, como que retocado com linhas entrelaçadas de grafite. Mas, nos tempos felizes, quando o meu coração era claro e radioso, a minha pele uma os matizes de um castanho oleoso, misturado com um cobre luminoso. Ouro escuro, o mais belo e precioso, como só as montanhas de Kuch revelam após duro labor, tal foi o elogio do faraó, meu amante infiel.

Naquele tempo, em que ele ainda me desejava ardentemente.

Quando eu era tudo para ele, quando ele era capaz de sacrificar por mim não só a coroa como a sua vida.

Antes de a inveja, a ambição e o ódio terem cortado definitivamente o forte laço entre nós e eu me ter tornado uma estranha para ele. Uma feiticeira má, intriguista, que ele não mais pôde nem quis compreender.

E, no entanto, a minha pátria confina com a sua pátria. Não somos inimigos mas, sim, vizinhos desde o começo: Kuch, a Terra do Ouro, é irmã de Kemet, mas não é um paraíso fértil que o Nilo presenteia abundantemente com a sua lama, todos os anos no meio do Verão; é antes uma disputa implacável entre o rio eterno e o deserto, sempre pronto para se apoderar de novo daquilo que a mão humana tão penosamente lhe arrancou: acácias com espinhos do tamanho de um dedo e folhas minúsculas, tamarindos, arbustos de alfena e alcaparra, todo o género de frutos de aboboreira com as suas pevides extremamente eficazes, que podem provocar alívio ou terrível sofrimento, dependendo se são ministradas por mãos curativas oucriminosas.

Porém, o que seria o reino das Duas Terras de lotos e papiros sem os tesouros da Terra do Ouro, de que se tem servido a seu bel-prazer desde há milhares de anos, nas suas sangrentas expedições de guerra e em inúmeras excursões de saque: madeiras preciosas, marfim, incenso, óleos, pedras preciosas, peles, penas de avestruz, gado, ouro e pessoas? O que seria o faraó com a coroa branca e vermelha sem as nossas riquezas, ele que reivindica para si ser filho de Deus, único e legítimo?

Perguntas que permanecerão sem resposta.

Semelhante às inúmeras perguntas que fiz à data, quando eu ainda era uma criança.

- Sabes onde fica o fim do deserto?

Ela olhava para a vastidão lá fora, piscava os olhos e, primeiro, calava-se por um momento, daquele modo que eu lhe conhecia. Era necessário acontecer algo, para que ela se deixasse levar a uma palavra imponderada, a uma frase rápida. Eu já contava que ela ficasse muda mais uma vez, olhei fixamente os dedos sujos dos meus pés e fingi que isso me deixava totalmente indiferente. Às vezes, esta era a única possibilidade de, todavia, a fazer falar.

Finalmente percebi o vago sinal de um sorriso. De repente, fiquei envergonhada, apanhada, porque ela tinha descoberto a minha astúcia infantil.

- Não há nenhum fim - disse ela, e dedicou-se novamente à preparação do chá de hortelã que espumava, simultaneamente amargo e doce como a nossa terra, de onde ela provém, que arde sobre a língua e refresca e reconforta o estômago. - E, como sabes, algumas perguntas não precisam sequer de ser feitas.

Ainda trago estas imagens dentro de mim, a mulher com o cabelo branco e a pele escura, dobrada sobre a chaleira de cobre, as cores, os ruídos e os cheiros. Nem preciso de fechar os olhos, para que tudo renasça à minha frente: aquelas inesquecíveis manhãs junto do Nilo, a terna transparência do céu, o leve estremecer do ar fresco, quando as águas do grande rio parecem estar paradas e a Criação se renova inteiramente, dia após dia.

O Sol que, ao meio-dia, arde como fogo sobre a catarata, quando o horizonte parece infinito e sem fronteiras. A areia reluzente que reflecte a luz e a transforma em brasa incandescente. Na margem oriental vêem-se as montanhas, até muito perto do rio, com excepção de uma estreita faixa de fértil terra de lavradio que a todos tem de alimentar, penhascos de patina negra, rocha escameada a sépia, misturada com o vermelho quente do are| nito. A oeste, as dunas movediças, ameaçadoramente próximas, de um amarelo-açafrão, iguais a enormes e perigosos lagartos, um jardim em chamas, como dizem os Beduínos.

Depois, os fins de tarde, antes do crepúsculo, a caírem sobre a terra como um punho pesado. Quando, só por instantes, as cores se tornam tão cheias que tudo o que o calor do dia tornou lívido e pálido parece repleno e muito vivo. Finalmente, a frescura das noites, deliciosa e a formigar sobre a pele, enquanto o crescente da Lua lança a sua luz como uma barca prateada, e pessoas e animais se reúnem sob o céu estrelado, enquanto, em toda a parte, junto das fogueiras, são cantadas as antigas canções, as histórias sobre o amor, os perigos e a morte... Amanhã morrerei.

Mas por ora ainda vivo. Ainda posso sentir a minha respiração que faz subir e descer o tórax. Ainda me resta esta última noite para terminar o meu trabalho.

A análise da minha consciência já lá vai. Não passará pelos meus lábios nenhuma confissão de culpa que, de acordo com a crença das gentes de Kemet, todo o finado deve proferir na presença de Maet, antes de o seu coração ser pesado. E o que iria eu dizer, face aos seus mandamentos, que se me afiguram pura ironia, quando medito sobre as estações da minha vida cheia de vicissitudes?

Sim, eu ofendi os seus deuses e também os meus deuses, não porque quisesse blasfemar, mas porque estava perturbada, sem saber a que me agarrar.

Cometi injustiças, porque me encontrava desamparada e porque era demasiado inexperiente para o fazer melhor.

Roubei, por necessidade e por desespero. Senão, teria morrido à fome.

Fui violenta, defendi-me com unhas e dentes, mesmo perante um sacerdote que abusou do seu alto cargo.

Eu não quis ouvir a verdade, porque tive medo de não a poder suportar, eu menti, e, com isto, feri profundamente os outros e a mim própria.

Fui muitas vezes precipitada no meu julgamento, o que trouxe dor e desespero às pessoas que me amaram e que foram bem-intencionadas comigo.

Fui uma pessoa dada à ira, uma falta que eu hoje lamento mais que todas.

Desencadeei conflitos, conflitos esses que agora até ameaçam a segurança de grandes reinos.

Desejei o homem de uma outra mulher, e ainda hoje o desejo com uma paixão inalterada, porque ele faz parte de mim, é o pai dos meus filhos, carne da minha carne, o meu fervorosamente amado, para além da morte.

Até matei, porque, de outro modo, eu própria teria sofrido uma morte torturante...

Poderia continuar interminavelmente, até à eternidade, para, com um grito, afirmar cada um dos seus mandamentos.

Não! Não sou pura, não sou pura, não sou pura!

Sou tudo menos uma justa, que se pudesse gabar orgulhosamente dos seus feitos, mas sim uma mulher que conhece demasiado bem os seus próprios erros.

Uma estranha entre estranhos, que leva para a morte o seu último e maior segredo, do qual até agora nem mesmo o faraó desconfia: um filho do amor, que nunca nascerá.

Para esta criança eu serei a deusa Nut. O meu corpo, o seu caixão, os meus braços, as poderosas asas, a minha língua, a escriba dos versos fúnebres.

Para a minha querida pequena Nuia e para esta criança, que nunca irá conhecer a sua irmã mais velha, eu registei a minha vida. Por amor a eles eu presto contas sobre tudo o que aconteceu - sinceramente, sem embelezar, sem pudor.

Quase que cheguei ao fim do registo. Pouco ainda falta acrescentar, para que tudo faça sentido, e eu irei aproveitar as minhas últimas doze horas para o concluir, forte e de cabeça erguida, como até aqui.

E quando, mesmo assim, durante estes meses passados, a coragem me quis abandonar, quando escuras nuvens ensombravam a minha alma, quando a armadilha do medo me fazia desalentar ou eu caía na tentação de encobrir, dissimular ou atenuar, então os meus lábios começavam a dizer a oração que a daia nos ensinou em crianças.

Para aquele ser por nascer, a quem eu nunca darei a vida, e para a minha filha, que dolorosamente dei à luz, também agora eu recito as sagradas palavras:

«Peço-te, Apedemak, grande Deus, Leão do Sul, que vem a todos os que por ele chamam. Aquele que carrega o segredo oculto em seu ser sem que seja visto por ninguém. Que ele seja um companheiro para mulheres e homens, sem ser impedido no céu ou na terra. Aquele que providencia alimentos para todas as pessoas. Aquele que lança o seu sopro de fogo contra os inimigos. Aquele que pune todas as faltas cometidas contra ele. Aquele que prepara o assento para quem lhe é submisso. Senhor da vida, grande no teu poder, soberano de Kuch, a ti recorrem os reis e pedem o teu auxílio. A ti também eu levanto a minha voz, nesta última noite. Peço-te, assiste à tua filha Sahti...»

 

PRIMEIRA HORA: RIO DA VIDA

Todas as manhãs ela descia até ao rio, tal como todas as mulheres e raparigas que viviam na aldeia, com excepção das parturientes e daquelas que se encontravam sob o encanto da Lua vermelha. Eram aqueles primeiros dias claros de Primavera que tanto amava, em que as rãs acasalavam e o verde fresco despontava, transformando os campos em esmeraldas verdes, em que o ar era muito ameno, recheado do zumbir das libélulas e do marulhar das ondas que, sem cessar, fluíam para jusante. Um pouco mais tarde já a terra estaria negra de tanto sol, mas, mesmo agora, já as pedras estavam em brasa, e o aroma dos arbustos de absíntio, que em escuras ilhas cresciam uns juntos dos outros, era estonteante. Levemente inebriada, quase sempre desatava a correr ainda antes de chegar às acácias, sem prestar atenção às ervas duras, até que finalmente alcançava, ofegante, a margem do Nilo. Sahti, magra e elástica, tinha as solas dos pés duras como madeira. Era ágil como uma doninha, constantemente em movimento e muito mais curiosa do que a roliça Ruju, sua irmã mais velha, que se comportava de modo obediente e nunca se afastava voluntariamente para demasiado longe do rancho feminino.

Sahti, como sempre muito adiante dos outros, mal podia esperar até que as mulheres tivessem despido os seus longos trajes e entrassem na água, num local protegido por uma curva, para onde, era consabido, nunca iam crocodilos, peixes perigosos ou outros monstros do rio. Ela queria, antes de mais, a comunhão quase palpável, que a todos unia, forte como a proximidade corporal, um sentimento vivo e quente, do qual nunca se fartava. Dava pouca importância às meninas da mesma idade ou alguns anos mais novas, e muito menos ainda aos pequenos rapazes atrevidos que, afinal, só eram autorizados a acompanhar as mães durante os primeiros anos de vida, e, depois, colocados junto aos homens. As velhas também a interessavam pouco. Mantinham-se quase sempre junto à margem, zelando para que nenhum estranho as molestasse, aparentemente satisfeitas em se refrescarem nas águas pouco profundas.

Claro que a data nunca se encontrava entre elas. A avó esperava em casa, encimada por uns enormes chifres de vaca para espantar os maus espíritos, que as duas meninas voltassem com as bilhas de barro em que a água se conservava fresca durante muito tempo. Quando tomava banho, só o fazia sozinha, pouco antes de escurecer, semelhante aos animais selvagens que só se aproximam da água quando já não farejam perigo. Desde muito cedo que ensinara às suas netas que não era próprio olhar fixamente as pessoas adultas, sobretudo quando se encontravam nuas e ocupadas com a sua toilette matinal.

Contudo, apesar de todas as recomendações da daia, Sahti não se cansava de olhar todas aquelas formas arredondadas e aquelas cavidades sombreadas. Havia corpos que eram lisos e escuros, outros faziam lembrar a cor das tâmaras maduras ou do cobre avermelhado, que tanto despertava a avidez dos enviados do faraó do Norte. Algumas mulheres tinham o nariz comprido e estreito, outras tinham-no arredondado com asas dilatadas. Possuíam bocas finas, que transmitiam uma sensação de energia, ou lábios cheios e carnudos, que ao sorrir desvendavam o seu lado interior com tatuagens azu, ladas, iniludível sinal do casamento.

Porém, a mais bela de todas era Nabu, que Golo, o pai de Sahti, tinha pedido em casamento há três Verões. À menina, ela parecia uma rainha. Nenhuma era tão alta e orgulhosa, como se o seu corpo abrigasse um segredo que ninguém desvendava; nenhuma tinha um pescoço tão esguio, seios tão cheios, tão firmes. Os olhos de Nabu não eram negros como os das outras, mas sim de um profundo castanho cor de mel, e, quando ria, os seus dentes brilhavam mais brancos que marfim. Além disso, nunca caminhava com o andar arrastado das mulheres casadas, que davam sempre a impressão de carregar um fardo invisível. Movia-se rápida e graciosamente. Na parte superior dos seus braços ostentava duas cobras tatuadas: à esquerda, o perigoso réptil parecia adormecido, um fino adorno laçado, uniforme, mais belo que qualquer aro em ouro; à direita, no entanto, a cabeça da cobra levantava-se, ameaçadora e impressionante, como se, no instante seguinte, fosse cuspir o seu veneno mortal.

Realmente, ela não tinha a necessidade de se banhar em fumos durante horas ou de aplicar óleos de aromas intensos para atrair o seu homem! Não precisava também de nenhuma gordura animal no seu cabelo e menos ainda de ervas mágicas, que as outras iam buscar furtivamente, à noite, a casa da daia.

Não era de espantar que, desde o primeiro dia em que Golo a trouxera para a aldeia, todo o lugar cochichasse sobre ela! Ele parecia como que enfeitiçado e só tinha olhos para ela, que, segundo a versão oficial, só tomara como esposa secundária com o propósito de gerar, finalmente, os filhos desejados que há tanto tempo esperava em vão. Mas, por enquanto, não havia indício algum de descendência. «A noiva», nome que davam a Nabu com certa conotação trocista mesmo ao fim de três anos, mantinha-se inalteradamente esbelta. Golo não parecia incomodado com isso. Todas as noites se deitava junto dela, dizia-se, às vezes até durante o dia, em vez de cuidar, como os outros homens, da sua considerável manada de gado, até então o seu maior orgulho. Heua, sua primeira esposa, com os seus olhos trágicos fundamente encovados num rosto carrancudo, que apenas lhe dera mais uma filha, ainda por cima pouco vistosa, fugia desesperada de casa para escapar ao constante sussurrar amoroso e, com isto, tornava-se de dia para dia mais feia.

Nabu ria quando lhe chegavam aos ouvidos estes e semelhantes mexericos, atirava com a cabeça para trás, fazendo tinir as pesadas argolas nas suas orelhas, e andava por ali toda aprumada, parecendo ainda mais segura de si.

Só Sahti sabia que a segunda mulher de seu pai tinha ainda outro lado: um lado ansioso. Sempre observara os olhares furtivos de Nabu quando as jovens mães banhavam os seus filhos no rio e cuidadosamente lhes lavavam as omoplatas e borrifavam as cabecinhas, antes de, junto à margem, voltar a atar os pequenos às costas e colocar a bilha de água sobre a cabeça para o regresso à aldeia. Ela até conseguia lembrar-se do instante em que Nabu a tinha tocado debaixo de água, um contacto leve, suave, tão diferente dos braços autoritários da daia, e depois de ter achado, por breves instantes, que havia sonhado, tendo simultaneamente a certeza de que não fora um sonho.

Desde então, não só se mantivera longe de Nabu, como também começara a odiá-la, quase tão ardentemente como a daia devia odiar Nabu, não só porque a jovem mulher aparentemente tinha o poder de curar e matar, mas porque, junto de Golo, suplantara completamente a memória da sua falecida esposa, Nuia. A saudade de sua mãe crescia em Sahti de uma maneira tão poderosa que muitas vezes mal a podia suportar. Conquanto a culpa era ainda mais esmagadora. Não havia a menor dúvida: Sahti provocara a morte de Nuia. Se ela não tivesse nascido, sua mãe não teria morrido e Ruju não teria crescido como órfã de mãe.

«Nunca o esqueças!», sussurravam vozes invisíveis, quando Sahti, à noite, se encontrava estendida junto de Ruju no leito entrançado e, mais uma vez, não conseguia adormecer. «Foste tu e mais ninguém quem a matou. Aqui na aldeia todos o sabem. Claro que também a tua irmã. E, especialmente, a daia. A tua mãe teve de morrer cruelmente para que tu viesses ao mundo.»

Como é que ela alguma vez o poderia esquecer?

Aliviava, se bem que só por breves momentos, atirar-se às ondas e meter a cabeça debaixo de água até que o ar escasseasse, obrigando-a a emergir, ofegante. Aliviava quando, de volta à margem, se aconchegava junto de Ruju, que nunca se aventurara em águas mais profundas e, muitas vezes, tambem se sentia melhor só pelo facto de a irmã, ignorando o que a atormentava, lhe entrelaçar o cabelo frisado em inúmeras trancinhas.

No entanto, hoje, Sahti sentia-se mais só que nunca.

Porque, naquele momento, Ruju estava a ser purificada no banho de fumo, um procedimento que ainda tinha de ser repetido mais seis vezes. Há muito que já tudo se encontrava preparado para o seu grande dia. O colchão circular de palmeira com o buraco ao meio, bem como o amuleto e o véu nupcial vermelho, a pasta de alfena para a pintura tradicional dos dedos e dos pés, o defumar prescrito e a raiz nodosa que causava calafrios a qualquer um que a avistasse.

Dentro de sete dias, assim que a terra respirasse mais leve e o escuro crescesse sob a Lua negra, ela seria entregue às mãos sabedoras da velha feiticeira na cabana do escorpião.

Já era noite quando os soldados do faraó chegaram ao forte de Abu Resi, quatro companhias a quarenta homens cada, equipados com arcos, fundas, armas de arremesso e lanças, e, além disso, mais de vinte subcomandantes, que exibiam a sua patente mediante lança e punhal, sob as ordens de quatro chefes. Toda a expedição, muito mais bem equipada, com cerca de duzentos burros como transporte de carga, e mais numerosa do que há alguns anos antes, estava subordinada ao comandante supremo Ipi, que era acompanhado por Namiz, intendente do ouro e da prata, como emissário directo do faraó. O grupo não estava muito bem-disposto. Os homens tinham percorrido um caminho longo e fatigante pelo oásis do Oeste, «a estrada dos quarenta dias», como era chamada por todos com respeito. Ipi desviara-se para esse antigo caminho de caravanas, a fim de evitar os piratas do rio, Cuxitas, cada vez mais atrevidos, e que, naqueles últimos anos, tinham feito adernar, por mais de uma vez, barcos vindos de Kemet. Apesar de um planeamento cuidadoso, os alimentos haviam-se tornado escassos nos últimos dois dias e até a água tivera de ser drasticamente racionada. Consequentemente, Ipi obrigara os seus homens a uma marcha forçada. Agora, os soldados estavam ansiosos por descansar e por beber uma cerveja, de preferência uma para cada um, e por uma boa e bem condimentada refeição igual às que estavam habituados a comer em casa.

Porém, a cidadela era tudo menos convidativa, sendo visível que precisava urgentemente de recuperação. com efeito, ainda se viam as trincheiras escarpadas, bem como uma passagem militar através da qual qualquer agressor seria atacado com saraivadas de flechas e pedras. Apesar disso, o muro principal, construído com tijolos de lama do Nilo seca ao ar e reforçado com tapetes de erva e troncos de acácia, permanecia intacto. Tinha uma altura superior a cinco homens e um aspecto impressionante com os seus algerozes e torres, ameias e galerias que possibilitavam uma melhor panorâmica sobre toda a terra circundante. No entanto, tudo parecia estar a desmoronar-se e preparavam-se já para fortalecer o pé do muro com pedras. Viam-se por todos os lados grandes pedaços de cascalho, nos quais muitos soldados já tinham tropeçado, provocando duras quedas.

No entanto, era sobretudo o interior da cidadela que provocava maior irritação, pois as guaritas, para não falar do aquartelamento para os soldados rasos, encontravam-se num estado lastimável. Os tectos estavam completamente esburacados, os soalhos meio levantados e, como camas, havia apenas tarimbas sujas e duras. O mesmo acontecia ao depósito de provisões que só com boa vontade poderia ser descrito como razoavelmente cheio. O comandante decidiu lá guardar o trigo que tinham trazido e ainda os habituais bens de troca que englobavam faianças, fardos de fazenda, vasilhas de pedra e alguns garrafões de vinho. Ainda mais grave era o estado do pequeno templo dedicado à deusa ísis e ao filho, Hórus, que, entretanto, não passava de um monte de lixo e que Ipi, tal como os outros, inspeccionou de testa franzida. Nem mesmo os aposentos surpreendentemente limpos que o antigo comandante da cidadela, Ameni, respeitosamente lhe oferecera, conseguiram suavizar o seu crescente mau humor.

- Tinha de chegar a este ponto - proferiu ele enquanto, visivelmente repugnado, provava o pão daquela zona e procurava um pedaço de carne no prato que tinha à sua frente. - Os corajosos soldados do faraó não terem mais nada para comer senão erva, apesar de ser uma zona de caça. Terei de organizar uma grande caçada para dar de comer aos meus homens.

Nem mesmo a cerveja de figos verdes, acabada de fermentar, que Ameni apressadamente mandara trazer, melhorou a disposição do comandante. Empurrou para o lado a taça que o ordenança lhe acabara de trazer e serviu-se ostensivamente de água. Depois, continuou com o seu lamento.

- Já não há sinal do nosso glorioso passado! Nenhum homem do Sul conseguia passar a fronteira de Semna, por terra ou por mar, em direcção ao norte e muito menos era autorizada a passagem do seu gado. As nossas cidadelas, catorze no total, que se lhes atravessavam no pescoço como ossos, encontravam-se alinhadas ao lado umas das outras até à terceira catarata, qual pérolas preciosas num colar, cada uma delas em estado impecável, mas tão habilmente colocadas que podiam ser defendidas por pequenas guarnições. Além disso, nenhum dos bárbaros teria ousado atacar as nossas posições. Nem um único! Em vez disso, executavam, sem se queixar, aquilo que esperávamos deles: faziam ofertas em ouro para honrar o grande faraó.

- Tens razão, mas isso já foi há muito tempo - afirmou cuidadosamente o pequeno comandante com o ventre descontraído. - Desde que aqueles reis estrangeiros começaram a governar o delta e o divino faraó foi forçado a ir para Uaset e ficou limitado ao Sul de Kemet que temos grandes dificuldades, pois o governante de Kerma começou...

- Cala a boca! - interrompeu Ipi, cortante. - A coroa dupla pertence apenas a uma pessoa: ao nosso querido faraó Sekenenré Taa. Que tenha uma vida longa e com saúde! Todos os países estão sob o seu domínio. As fronteiras a sul vão até ao como da Terra e as fronteiras a norte até aos pântanos. Aqueles de quem tu falas são súbditos do rei pastor de Uaset e não passam de invasores indesejados que o nosso braço forte em breve expulsará em direcção ao mar. Resta apenas esperar o momento oportuno. - Ergueu o nariz, cheio de orgulho. - Nessa altura, levantar-se-á uma tempestade que nunca mais esquecerão.

- Aposto que, se te pudessem ouvir, morreriam de susto! - Namiz, o intendente do tesouro, esvaziara, com apetite, o seu prato e bebia agora com prazer a terceira caneca de cerveja. Na sua testa alta viam-se pequenas gotas de transpiração e os seus matreiros olhos esverdeados brilhavam. Queira Ámon que esse momento chegue depressa, pois temo que até lá ainda nos preparem bastantes dissabores.

- Está assente que em breve atacaremos os Hicsos. Afinal, o poderoso Kemet já acabou com inimigos bem diferentes. - Ipi ergueu-se rapidamente da sua cadeira. - De resto, não estou a gostar desta conversa. E vem precisamente da boca daquele cujo berço ficava nas margens do Nilo.

Absorto, Namiz continuou a falar como se não tivesse ouvido as palavras do comandante.

- Não é verdade que ultrapassam rápida e eficientemente todos os inimigos com os seus carros puxados por cavalos? E que utilizam espadas curvas e machados muito afiados, feitos de bronze de Keftiu, bastante apropriados para abrir um crânio ao meio?

Ipi fez um gesto irritado que dava a entender que desejava silenciá-lo. Porém, Namiz ignorou-o, virando-se directamente para o seu anfitrião.

- É verdade, Ameni, que estiveste em contacto com os chefes dos Beduínos?

- É bem possível. E até provável. - O homem baixo, com as mãos eloquentes que nunca estavam paradas, acenou preocupadamente com a cabeça. - Talvez estes rebeldes do deserto se tornem ainda mais ousados. Recentemente, enfrentámos um bando enorme deles em frente às minas e só no último momento conseguimos repeli-los. Fizeram uma emboscada para atacar o nosso transporte de ouro.

- E depois?

- Matámos sete, mas caíram também três dos meus melhores homens para os quais não consegui substitutos aqui em Abu Resi. É claro que conseguimos trazer o ouro aqui para o forte, mas a situação está a tornar-se cada vez mais insustentável... - Começou a tossir, e os seus movimentos tornaram-se ainda mais agitados. Por fim, continuou com um tom determinado. - Penso que temos de contar com uma próxima tentativa. Os espiões que fugiram já relataram, decerto, a chegada da expedição e voltarão a atacar.

- E espero que seja em breve! - adiantou Ipi. - Para que é que temos quatro companhias de soldados bem preparados? Eu até gostava que eles planeassem um ataque. Assim, poderíamos demonstrar-lhes como é que, em Kemet, lidamos com agitadores e ladrões. - com a excitação agarrou na caneca de cerveja que estava mais perto e esvaziou-a. - Espero ansiosamente ver o seu sangue a escorrer.

- E o que é que o faraó diria? - Namiz riu-se. - O grande Sekenenré afirmou várias vezes, na minha presença, que esta expedição deveria correr sem o mais pequeno incidente. Está à espera que as madeiras, pedras preciosas, o incenso e o marfim cheguem a Uaset com rapidez e segurança. Isto para não falar do ouro dos Cuxitas, pelo qual sou responsável.

Gozou o efeito das suas palavras antes de continuar.

- E será que não falou também, se bem me recordo, do alargamento urgente da guarda real dos archeiros? Teremos alguma dificuldade em levar esta missão a cabo se empreendermos uma guerra aqui, na Terra do Ouro, em vez de levarmos tropas bem preparadas para a corte. Não achas?

Fez uma pequena vénia na direcção do comandante, que só poderia ser designada como irónica.

Ipi virou-se em silêncio, mas Namiz ainda não terminara.

- Mas foi precisamente por isso que o grande faraó nomeou o primeiro homem à sua direita, o experiente e prezado comandante supremo Ipi, para chefe da expedição, o comandante dos archeiros de Sua Majestade, o enviado real ao estrangeiro...

- Conheço os meus títulos... - interrompeu Ipi - e prescindo das tuas lições petulantes. Ninguém melhor do que eu sabe o que espera o legítimo governante de ambos os países. Preferia morrer a desiludi-lo.

- Ainda bem. Proponho então que vamos todos dormir para que amanhã de manhã possamos começar as nossas tarefas.

Namiz levantou-se, com uma ligeireza espantosa para a estatura que tinha, e abandonou a sala de jantar. Durante todo o caminho, Ipi não dissimulara a sua antipatia pelo homem do nariz de gancho que, ao longo de toda a marcha, não lhe ficara a dever uma única resposta. Contudo, a antipatia transformara-se numa inimizade aberta. E se o faraó tinha um fraco por aquele estrangeiro que, por muito que se esforçasse, jamais seria de Kemet, ali, em terra inimiga, no meio daqueles malditos Cuxitas, mostrar-lhe-ia com quem se tinha metido.

- Ainda não és o intendente do tesouro real, homem de Kepni - sussurrou ele. - Se depender de mim, nunca o serás.
A noite era a parte do dia de que ela mais gostava e simultaneamente a que mais odiava. Quando ficava escuro, tinha a ilusão de ouvir a voz da filha, se bem que soubesse perfeitamente que poderia ser apenas o sussurrar do vento, ruídos dos animais ou o som abafado de algum tambor na aldeia. Assim que os seus olhos deixavam de beber a plenitude da luz, tudo lhe caía em cima como um sonho: os gemidos de Nuia que também não conseguiu dar à luz no segundo dia, o seu ventre quase grotesco, no qual os movimentos da criança se tornavam cada vez mais fracos, e todo aquele sangue quando finalmente agarrou na faca e o cortou, pois a filha a isso a intimou.

Moribunda, Nuia exigira-lhe, à mãe, que salvasse o filho, que ainda não nascera, sem a poupar. Finalmente, a tremer e entre lágrimas, fizera o que a filha lhe pedira. Desde então, tinham passado quase nove Verões e tornava-se cada vez mais doloroso ver crescer Sahti, de dia para dia mais parecida com a mãe. Movimentava-se como Nuia, ria como Nuia, ficava rapidamente zangada como apenas Nuia era capaz de ficar, quando não conseguia levar a cabo os seus intentos. Porém, nada lhe conseguia trazer Nuia de volta.

Ninguém fazia a menor ideia do que lhe ia na alma, muito menos as duas netas que viviam com ela, pois o pai, que só pensava em mulheres, não era capaz de as educar. Já bastava o facto de as duas meninas terem de crescer sem mãe. Ruju e Sahti não deviam sentir a presença de uma primeira mulher enfadonha e das suas presumidas rivais naquele ambiente doméstico decadente. Nem sabiam o que convinha às crianças. Ocupar-se-ia delas enquanto pudesse.

O seu corpo vigoroso e ainda muito erecto não se vergara com o peso da idade, que apenas se manifestava através das profundas rugas na testa e dos cabelos brancos.

«A leoa branca», murmuravam respeitosamente as gentes, algumas com medo, quando passava com o seu passo pesado. Olhavam para o lado como se não pudessem suportar o seu olhar. Todos tinham conhecimento de que era uma mulher poderosa, que conseguia fazer chover, curar muitas doenças e tratar muitas feridas. Sabiam ainda que, graças aos seus poderes ocultos, também era capaz de provocar grandes danos a pessoas e animais.

Sim! Não era só por fora que se assemelhava a uma leoa com o seu nariz curto e largo, de asas abertas em expressão de ironia ou desprezo, e os lábios carnudos com uma expressão preferencial de gozo. A sua tez era de um castanho profundo, mais escuro do que o da maioria das mulheres, não sendo a única coisa que a distinguia das suas congéneres. Era a sua natureza, tímida e desconfiada, que desde o início lhe dificultara a adaptação. Não valia a pena ajustar-se e procurar amizades que imediatamente se romperiam. Além disso, havia ainda os saberes e conhecimentos que muitas das mulheres da sua pátria também possuíam e que ali pareciam estar esquecidos. Chamavam por ela quando alguém estava doente ou uma mulher dava à luz. Autorizavam a utilização da faca quando era uma rapariga. Encomendavam-lhe elixires de amor. E amuletos para manter afastados os maus vizinhos. Começaram por lhe chamar parteira, curandeira e finalmente feiticeira. Na aldeia ninguém proferia o seu verdadeiro nome e, como o marido tinha fugido, não havia ninguém que se lembrasse dele. As netas chamavam-lhe daia, avó respeitada, e em breve toda a aldeia começara a chamar-lhe assim.

Todavia, isso não significava que os outros fossem bem-vindos. Agora evitavam a sua presença, cochichavam quando passavam por ela, e só se dirigiam a sua casa para pedir ajuda sob a protecção da noite. Ninguém queria saber quem ela era na realidade. Vivia na aldeia, mas não lhe pertencia. Diziam uns aos outros que provinha das terras do Sul, daquele lugar onde uma poderosa corrente tornava o rio inultrapassável. Raramente falava disso e o máximo que fazia eram insinuações.

- O que é que aconteceu? - perguntava ela quando Sahti, tão curiosa como Ruju, mas muito mais teimosa, a pressionava. - Quantas vezes tenho de te contar essa história? Fui arrastada para aqui como um pedaço de caça e aqui fiquei até hoje.

- E depois?

Os olhos da criança mantinham-se suspensos do seu olhar e quase com a mesma curiosidade de saber como os de Nuia. Seria mais simples continuar a história sem se deixar esmagar pelas antigas imagens, mas finalmente conseguiu silenciar a pequenina, usando o tom correcto: uma mistura bem doseada de manifesto tédio e irritabilidade.

- Não aconteceu mais nada. Dei à luz quatro filhos. Os anos passaram. O meu marido deixou-me, tal como os outros homens deixam as suas mulheres quando estão fartos delas. Os meus filhos e filhas morreram. Qual das duas é que vai limpar a casa?

Tinham o leão como animal místico - e ela guardava a pata mumificada de uma leoa num saco de pele de antílope com areia do deserto do seu secreto lugar natal, que apenas ela conhecia.

A daia empurrou o tapete de palha para o lado. Aos olhos de um estranho, a parede parecia ser de tijolo cru tal como em todas as outras casas, mas o seu olhar arguto descobriu imediatamente a exígua marca que ficava à altura do peito e que ela própria fizera. Usou a unha para retirar o pó e a pedra pareceu deslocar-se sozinha. Ficou com o saco na mão durante bastante tempo, sem o abrir. Conseguia sentir-se o poder do amuleto. No seu coração soou uma antiga melodia e os seus lábios entreabriram-se para a trautear baixinho.

Involuntariamente, endireitou o corpo. Continuava a ser a única mulher que possuía a força do leão e não a outra, a jovem e bela que apelava à grande serpente e que, igualmente como uma serpente, enlouquecia os homens com o seu andar, sorriso e encantador movimento de ancas.

Quando pensou em Nabu, a daia apertou os lábios. Se a segunda esposa de Golo também tivesse mãos dotadas, se conhecesse plantas e ervas, se, tal como claramente afirmavam as tatuagens nos seus braços, o poder de muitas escamações pudesse estar com ela, a daia já descobrira há muito as armas invisíveis com que enterraria uma estaca no coração de Nabu. O que mais cedo ou mais tarde viria a acontecer, dependia apenas e exclusivamente da «noiva», mas era inevitável. Na aldeia não havia lugar para as duas. Uma teria de desaparecer, e a daia tinha a certeza absoluta de que não seria ela própria.

Ainda a sussurrar, colocou o amuleto ao pescoço. Fazia-lhe bem sentir o seu peso entre os seios e o enorme poder que havia por trás dele. Ela nunca se esquecia que Apedemak, o poderoso deus-leão, que a protegia desde o início, estava consigo. Por seu turno, ela nunca pusera de lado que um dia morreria como qualquer ser humano. O veneno feito a partir de mandrágora esmagada e cabeças de papoila, que tinha sido preparado para o grande e eterno sono, fora demasiado fraco. No último momento, quando já parecia perdida, Apedemak salvara-a, a única sobrevivente no meio de milhares de mortos. Como poderia ela não lhe estar eternamente agradecida, se bem que já tivessem passado tantos anos?

Voltou novamente ao seu esconderijo.

Lá estavam elas, as jóias. Os colares que roubara durante a fuga, não os deixando ficar no túmulo do soberano, os anéis e pulseiras, os aros e diademas de ouro maciço. Nunca usara as jóias à luz do dia com medo de trair a sua origem e, mesmo agora, que ninguém a via, sentiu dificuldade em não ceder à tentação de o fazer.

Todavia, arriscou e durante alguns momentos regressaram as recordações vivas e fortes da sua infância e juventude, como se apenas tivesse passado um dia e não toda uma vida.

A peça seguinte era a faca, uma relíquia valiosa do passado, muitas vezes posta à prova. com a forma de foice e em obsidiana negra. Permaneceu com ela na mão, à luz cintilante das candeias de azeite, e parecia quase inofensiva. Foi trespassada por um curto arrepio e subitamente pensou ouvir um coro de vozes de raparigas e mulheres. Avolumou-se de tal maneira que começaram a doer-lhe os ouvidos.

O silêncio voltou logo a seguir, de modo quase abrupto.

A lâmina parecia queimar-lhe a pele. Devolveu rapidamente as jóias ao seu esconderijo, à excepção de um par de estreitos aros de ouro que não dariam nas vistas. Meteu a faca na bainha. Voltou a ocultar aquilo que não deveria ser visto por ninguém.

Depois, entrou no quarto das meninas.
Ruju dormia de costas, com os braços despreocupadamente dobrados para trás, ocupando, como sempre, a maior parte da cama. Os traços do rosto mostravam-se descontraídos, a testa seca e lisa. Parecia não existirem sombras a atormentar-lhe a alma nem pesadelos a perturbá-la. Há dias que andava doida de alegria com o facto de em breve se tornar mulher e tirava prazer da atenção que lhe dispensavam, dos presentes e da sensação de estar num ponto intermédio.

Sahti era completamente diferente. Estava ali deitada qual arco tenso, magra e esbelta, em relação ao corpo mais cheio da irmã. Por baixo das finas pálpebras, o seu olhar parecia estar a ser caçado por inimigos invisíveis. Encharcada em suor, de vez em quando suspirava, e a velha mulher, como que avassalada por uma forte emoção, saiu rapidamente do aposento.

As brasas na lareira protegida estavam púrpuras. Duas cavacas seriam suficientes para atiçar de novo o fogo. Se bem que a noite de Primavera estivesse muito agradável e o vento do deserto mal arrefecesse, a daia sentiu novamente um gelo interior a percorrer-lhe os membros, como já acontecia há muitas luas. O seu fio da vida estaria a enrolar-se? Começaria já Apedemak a chamá-la para si? Por vezes, sentia-se tão cansada que teria preferido ficar calada com o rosto virado para a parede, afundada nas suas recordações e sonhos. No entanto, lá estava a casa, as ervas e as poções, e até então acabara sempre por se levantar de manhã e fazer o seu trabalho.

Se não fosse ela, quem tomaria conta das duas meninas?

Olhou para o céu. A Lua parecia uma foice esbranquiçada. Daí a alguns dias tornar-se-ia negra e poderosa. Sabia que aquele dia não era o melhor para o oráculo dos ossos, mas sentia-se demasiado inquieta. Não podia nem queria esperar mais. Pegou no velho tambor, que já pertencera a sua mãe, e começou a agitá-lo com suavidade. No início, usou um ritmo lento que cresceu gradualmente, até se abrir à sua frente a entrada para aquele mundo negro dos espíritos.

- Venham buscar-me! - sussurrava ela. - Venham até mim! Salvem-me! Não me deixem esperar mais!

Um tremor atravessou-lhe o corpo. Agitava o tambor cada vez com mais força, e o tremor tornava-se cada vez mais intenso, enquanto se erguiam as labaredas na lareira. com um movimento apenas, lançou à sua frente os ossos de vaca preparados para aquele efeito, e um instante depois voltou a agitar o tambor como uma cavaleira selvagem. Agora ali estava ela, a impetuosa pergunta no seu interior, que a preço algum poderia proferir.

Entretanto, ainda algo agitada, olhou para as fissuras e rachas que as pequenas labaredas provocavam nos ossos e assustou-se. A veia da testa inchou de tensão.

Perigo. Grande perigo. Nada ficará como está e tu serás impotente, não poderás fazer nada para evitar o inevitável.

Tentou despertar do profundo transe quando ouviu o leve ruído de passos a seu lado, fazendo um tremendo esforço para se mexer. A tristeza esmagava-a como o fardo de um manto pesado e húmido.

- Sahti?

A menina pareceu não a ouvir, se bem que o som da voz a tivesse feito virar a cabeça na sua direcção. Não era a primeira vez que a sua neta vagueava durante o sono, mas nessa noite pareceu ter mais significado do que até então.

-- Sahti? Sou eu. A daía O que fazes aqui fora, no meio da noite?

Os olhos abriram-se e olharam-na sem a ver. Quem estava a falar? Quem evocava tão poderosamente os espíritos que se era forçado a obedecer?

Cada passo significava um enorme esforço para a idosa mulher. Mesmo assim, aproximou-se lentamente, evitando dirigir pela terceira vez a palavra à criança. Temia que a sua alma tivesse grandes dificuldades em voltar sã e salva para o corpo. Assim, a daia pegou na criança, que não opôs resistência, e levou-a para casa.

As minas de Sarras não ficavam longe do grande rio: apenas meio dia de viagem desde Abu Resi. Por isso nunca fora erigida uma verdadeira aldeia mineira, existindo apenas algumas cabanas de pedra redondas e baixas, apropriadas apenas para passar a noite, e um local para cozinhar ao ar livre que era coberto por um telhado de folhas de palmeira. O trabalho nas covas abertas, onde o minério era depois derretido ao fogo e finalmente cinzelado sobre as rochas, era cansativo e duro. Mesmo nos primeiros tempos, quando o domínio do faraó ainda pesava sobre Kuch, fora tremendamente difícil encontrar mineiros que já estivessem habituados ao esforço e levassem a cabo aquela tarefa. Agora, como Kemet estava dividido em dois reinos, isso parecia quase impossível.

Transpirando no meio daquele ambiente inóspito, Namiz caíra em desânimo pela primeira vez desde que tinham partido de Uaset. Não só usava um avental quadrado, igual ao dos soldados, como também uma camisa comprida de linho, que agora lhe estava colada a todo o corpo, presa com um largo cinto de couro guarnecido com metal que parecia desconfortável. A sede torturava-o, o seu cabelo cor de areia encontrava-se húmido devido ao calor e, depois da viagem que fizera no barco oscilante, no qual era o único passageiro, ainda se sentia um pouco tonto. Acima de tudo, a solução do seu problema parecia-lhe cada vez mais distante.

A disputa entre ele e Ipi inflamara-se rapidamente. Ao fim de dois dias intermináveis que passara na cidadela a pesar o pó de ouro, à noite ia jantar inusitadamente calado. Por oposição, o comandante, cujos soldados tinham reunido um enorme rebanho, vangloriava-se do seu feito.

- Quase quatrocentas cabeças de gado - dizia ele com orgulho. E ainda quarenta dentes de elefante e setenta porções de incenso. Acho que o todo-poderoso Sekenenré vai ficar contente, tanto mais que em breve obteremos a quantidade necessária de penas de avestruz. Tratarei pessoalmente do recrutamento de novos archeiros. Vi na aldeia alguns homens do Sul, bastante fortes, que gostaria de inspeccionar.

Um gesto quase imperceptível na direcção do comandante.

- Felizmente que a construção do navio está a progredir bem. A maioria dos barcos está agora a secar no estaleiro. As cabinas e gaiolas estão prontas. Agora o shemu1 está iminente, mas, se o Nilo não estiver muito baixo, poderemos, com alguma sorte, poupar a marcha de regresso através do deserto, não considerando o resto da companhia que conduzirá o resto do gado restante.

- Contanto que não tenhamos de permanecer aqui durante meses ou anos - concluiu Namiz melancolicamente.

- O que é que isso quer dizer?

- Que ainda faltam seiscentos deben2 para a medida de entrega ordenada pelo faraó. Já pesei mil e quatrocentos. Nem mais, nem menos. Sekenenré está à espera de dois mil, e poderá levar tempo até serem arrancados da pedra. A não ser que tenhamos um exército de mineiros à disposição.

- Ameni!

O comandante da cidadela ainda ficou mais baixo.

- Eu fiz o que podia, comandante Ifi - declarou ele. - Precisas de acreditar em mim! Só a construção dos navios absorveu todas as forças disponíveis. Além disso, tive de tratar pessoalmente das pedras preciosas desejadas, o que não passa de uma insignificância. Seiscentos deben de cornalina,  oitocentos  de amazonite,  quinhentos  de turquesas  e dois  mil  de malaquite. Além disso, nada mais nada menos do que mil e quinhentos deben de ametistas começarão a ser extraídos a partir de amanhã. O mais difícil será o jaspe vermelho, pois a grande remessa que vem do Sul ainda não foi entregue.

Ameni começara a transpirar em abundância, o que aparentemente era uma perturbação até para si próprio. Estava sempre a limpar o suor da testa com um lenço.

- E agora por falar do ouro, sendo necessária também uma quantidade enorme, acho que, sem reforços e sob estas condições difíceis, será simplesmente impossível...

1 Estação da colheita (ou do Verão). (N. da T.)

2 Medida-padrão utilizada no antigo Egipto, geralmente com a forma de uma cabeça de touro, que equivale a cerca de 0,10 quilogramas. (N. da T.)
- Uma palavra que eu desconheço! Por que razão não me participaste isso há mais tempo? - perguntou Ipi, irado.

- Tentei mais do que uma vez, mas tu não me deixaste falar.

- Não volto a cair nessa. Não ouses fazer de mim idiota!

Ipi ergueu-se em toda a sua altura. Poderia ter sido um homem impressionante, alto, com braços e pernas musculosos e um rosto largo e másculo, se não fosse a expressão ardilosa provocada por um nariz várias vezes partido, e que ficara deformado. Essa deformação devia-se a uma briga que tivera na juventude e consultara os melhores médicos de todo o país para se livrar daquela mácula.

- Mas eu apenas queria...

- bom, que se aproveite a oportunidade. Uma coisa é certa: vamos arranjar o ouro que falta nem que seja preciso chicoteá-los. com duas companhias, esses cuxitas trabalharão com mais eficácia.

- Disparate! O ouro não é uma seiva que se extraia da rocha com a facilidade com que se ordenha uma vaca. - Namiz tomou a palavra com o rosto muito pálido, o que era sinal da sua fúria. - Usar o chicote é uma brincadeira de crianças. Precisamos de bastantes trabalhadores que sejam suficientemente fortes e tenham jeito.

- Nem mais uma palavra! A minha ordem está dada e é válida para todos.

- Mas é um disparate! Só eu sou responsável pelo ouro. Por isso, irei sozinho fiscalizar as minas e, se necessário, tratarei duramente os cuxitas. À minha maneira. E ninguém irá intrometer-se. Entendido?

À luz do pôr do Sol que deixava tudo com um aspecto lívido e ressequido, o intendente comportara-se com determinação, como se lhe fosse altamente desagradável partilhar a sua responsabilidade com alguém. O faraó era nobre e magnânimo desde que lhe prestassem os serviços como esperava. Sekenenré Taa estava também em posição de se transformar, de um momento para o outro, num déspota furioso que não conhecia amizade nem lealdade. Durante a sua vida na corte, Namiz já vira muitos súbditos darem-se mal com essa súbita mudança. Se isso sucedia à gente de Kemet, mais depressa aconteceria a um estrangeiro que, olhado com inveja por todos os intendentes do ouro e da prata, podia agradecer à boa vontade real o seu bem-estar e posição. Estremeceu e teria preferido virar as costas. A perspectiva de uma estadia indesejada nos calabouços húmidos da ilha de Abu deu-lhe a força necessária para continuar.

Estava tudo como morto. Apenas encontrou algumas figuras escuras sob uma vela de pano, junto aos almofarizes de pedra, a esmagar o minério. Tal como supusera, trabalhavam com martelos de dolerito já gastos. Não era a primeira vez que pensava que instrumentos de bronze ou de um metal mais duro teriam maior eficácia. Os outros cuxitas estavam no acesso às azenhas, onde os pedaços de minério seriam feitos em pó. A secção de lavagem, que ficava um pouco mais abaixo junto do rio, encontrava-se abandonada. As largas pranchas de pedra inclinadas para baixo estavam completamente secas e aparentemente não eram utilizadas há muito. Na areia viam-se peles de carneiro descoradas, sobre as quais era vertida a farinha de quartzo fervida para que as pepitas de ouro mais pesadas ficassem presas na última camada de fibra. Um método muito antigo, também utilizado em Kemet; há muito que Namiz cogitava numa maneira de o melhorar e refinar.

Sem saber como deveria proceder, virou-se na direcção dos trabalhadores e o seu olhar recaiu sobre um tamariz. Estava um homem sentado no chão encostado ao tronco a olhar para o rio.

Namiz aproximou-se lentamente e depois sentou-se no chão poeirento em frente ao homem.

Um rosto escuro e orgulhoso, rígido e sem vestígios de um sorriso, que o intendente estava habituado a ver em todos os beduínos que encontrara no caminho. A idade ou uma vida dura e cheia de privações tinham causado profundos sulcos no rosto do homem. Só tinha um olho, a outra órbita estava cicatrizada e parecia há muito vazia. No decorrer das inúmeras viagens que fizera durante a vida, Namiz aprendera que os cegos muitas vezes se salientavam em relação às pessoas normais, pois tinham de aprender a arte de aguçar os outros sentidos. Talvez aquele homem só com um olho possuísse parte desse conhecimento.

Ambos ficaram em silêncio. Só o murmúrio do vento o cortava. A areia voava em redemoinho, como pequenas nuvens que pareciam nevoeiro, junto ao chão. Foi apenas por um momento, mas tudo pareceu mais pálido, como se estivesse mergulhado em fumo amarelado que realçava os contor-

nos.

Namiz esfregou os olhos. Alguns dos grãos de areia deixaram-se arrastar.

- Tenho algumas perguntas para te fazer - começou ele por fim, pesando cuidadosamente as palavras. O dialecto núbio veio-lhe com fluência aos lábios. Conseguia fazer-se entender em, pelo menos, meia dúzia de línguas e não tinha quaisquer dificuldades em aprender mais. - Perguntas, cujas respostas teriam grande valor para mim. Pareces ser a pessoa indicada para me responder.

Não houve qualquer réplica.

Também não esperara nenhuma. Imóvel, Namiz deixou passar algum tempo. Era certo que não conseguiria arrancar uma única palavra àquele homem oferecendo-lhe faiança e instrumentos baratos, mas, por sorte, tra/ia consigo uma coisa que, provavelmente, soltaria a língua ao velho. Retirou um punhal da bainha e colocou-o com um gesto casual à frente do seu interlocutor. Um lindo trabalho, banhado a prata, recordação preciosa da sua amada cidade natal, Kepni. Enquanto jovem, Namiz fugira de casa e há muito que deixara de ter a ilusão de um dia poder regressar.
Forçou-se a não pensar mais sobre o assunto. Também resolvera não dar atenção ao que Ipi diria ou faria se soubesse daquele estranho intercâmbio.

- Por que razão trabalham aqui tão poucos homens? Porque é que as gentes de Kuch afirmam que extrair ouro é fazer sangrar a terra-mãe? Ou estará a razão na vida quotidiana nas minas? Exigem alguma coisa que o comandante da cidadela vos está a recusar? - Terminara as suas conjecturas.

- Podes falar abertamente comigo. Ninguém saberá da nossa conversa.

Voltou a passar bastante tempo até, finalmente, o seu interlocutor olhar com cautela para o punhal, como se se tratasse de um réptil perigoso. O seu corpo permaneceu imóvel, mas os dedos começaram a acariciar o metal.

- Apareceu na areia como uma febre furtiva. - A voz era áspera, não utilizada há muito. - Não em forma de tempestade, mas sim suavemente. Grãos de areia colavam-se às paredes e muros e cresciam como se fossem inchaços. Já acontecera assim muitas vezes, e as pessoas pensaram que não seria mais grave do que das outras vezes. Mas a febre agravou-se. O vento soprava persistentemente e as bossas de areia inchavam como se fossem massa levedada. Desta vez, o vento vinha do Sul.

- Do Sul - repetiu Namiz, pensativo.

Como que a confirmar, o vento refrescou. Consistia agora em amplos véus, com ajuda dos quais a areia dourada varria a paisagem. Namiz escondeu o rosto, mas, mesmo assim, ainda levou algumas alfinetadas.

- Exactamente. A partir de agora, o vento soprará sempre do Sul. Entendes?

Entretanto, a mão direita do homem agarrou firmemente o punhal. A sua expressão permaneceu estática.

Involuntariamente, Namiz recuou um pouco. A sua debilidade tinha desaparecido, sentia-se bem desperto e o seu pensamento deslizava suavemente como que arrastado pelo vento. Agora não tirava os olhos do rosto enrugado do homem. Ainda não tinha bem a certeza daquilo que o zarolho queria insinuar, mas havia um pressentimento que se tornava cada vez mais forte. Se fosse esperto e cuidadoso, talvez conseguisse chamá-lo à razão.

- E o que se passará se o vento sul continuar a soprar? - perguntou ele. - O que acontecerá então à mina? E às pessoas de Kemet que aqui vivem? O que acontecerá à cidadela?

Desta vez, a resposta veio sem hesitação.

- Nessa altura, o Sol desaparecerá e o céu ficará cor de mijo de burro. De um golpe, será noite. Uma noite escura e eterna, pois não há como parar a tempestade vinda do Sul.

- Em parte nenhuma?

- Em parte nenhuma. - O tom era sereno, quase monótono. - Perante nada. Nem forte, nem templo. Nem perante uma catarata. Compreendes?

Namiz acenou lentamente com a cabeça. Sim! A pouco e pouco começava a perceber o que aquele beduíno lhe tentava transmitir com palavras floreadas. Mil pensamentos redemoinharam na sua mente. Fez um esforço para parecer descontraído. De facto, poderia ser uma explicação lógica para aquilo que estava a acontecer perante os seus olhos, para o malogro do comandante, para a arrogância dos Beduínos que pareciam não se importar com o facto de Kemet ter sido uma grande potência invencível.

Se acontecesse o que ele pressentia, seria necessário alterar todos os planos. Se o leão de Kerma, cujos rugidos ainda não se tinham ouvido na distante Kemet, se erguesse para mostrar o seu poder e alargar o território, era preciso agir rapidamente e com precisão. E enquanto ele fosse o único a saber disso, teria uma vantagem inestimável. Há muito que Namiz tinha conhecimento de que o comandante supremo teria preferido que ele nunca tivesse chegado vivo a Uaset e ainda menos como intendente do tesouro real. Todavia, há muito tempo que trabalhava para ocupar aquele posto e investira demasiado para permitir que, tão perto do alvo, um soldado ganancioso lhe retirasse o ambicionado sucesso.

Namiz pigarreou enquanto via, com aparente serenidade, o punhal desaparecer na bainha do beduíno como se nunca tivesse estado noutro sítio. Só quando aclarou as ideias é que começou a fazer as perguntas que lhe queimavam a alma.

Daí a dois dias, perderia Ruju. Nessa altura, ela passaria a fazer parte das crescidas, que se mexiam devagar e arrastavam os pés, como todas as mulheres adultas, e que passavam todo o dia a recolher lenha, a ir buscar água e a moer cereal num bloco de pedra. Vendo bem as coisas, Ruju já possuía alguma coisa delas, pois a rapariga, que andava orgulhosamente pela casa de nariz levantado qual uma pequena noiva, tinha cada vez menos a ver com a alegre irmã mais nova, com quem já havia rido e brincado o dia inteiro.

- Não percebes nada disto - dissera-lhe Ruju, mirando-a de cima, i nquanto Sahti se queixava disso. - És demasiado nova para tal. Daqui a alguns anos, quando tiveres onze e entrares para o nosso grupo, saberás logo do que é que se trata.

Os novos aros de ouro tilintavam no tornozelo. Fora a daia que lhos colocara depois de ir buscá-los ao quarto. É claro que Sahti tentara escutar à porta, mas as vozes soavam demasiado baixas e, além disso, o medo de ser

apanhada fê-la abandonar rapidamente o seu desconfortável posto. Não

•descansara enquanto não conseguira fazer com que Ruju falasse. No silêncio

da noite, sobre a cama larga, não havia quem as separasse.
- Muito bem - dissera finalmente Ruju que, pela primeira vez, cheirava a incenso, alfena e ao pesado óleo doce, a que apenas as mulheres adultas cheiravam. - Mas se dizes à daia que falei contigo, corto-te a língua. Podes ter a certeza!

- Começa lá! - Sahti encostou-se mais à irmã. A pele de Ruju era tão suave, tão consoladora. - Sabes muito bem que me sei calar quando é preciso. De que é que estás à espera?

- Mas promete-me que não vais excitar-te!

- Prometo - dissera Sahti baixinho e com uma expressão inusitadamente dócil.

Ruju aclarou a garganta. Era óbvio que estava a ser-lhe difícil ir contra a proibição da avó.

- Quando a primeira mulher deu à luz o seu primeiro filho, as dores do parto reuniram-se nas suas pérolas. Como que eliminadas por uma mão invisível, ela afastou-as e transformou-se num escorpião...

Sahti aproximava-se agora da cabana do escorpião, na qual ninguém podia entrar, a não ser que estivesse prestes a dar à luz. De súbito, pensou ouvir de novo a voz suave da irmã. Parou, olhou com cautela à sua volta, mas não havia ninguém à vista. Estava completamente só. Durante um momento sentiu o poderoso impulso de voltar para trás e correr para casa da daia. No entanto, a curiosidade e um sentimento estranho, que simultaneamente a excitava e assustava, obrigavam-na a ficar. As estranhas histórias de Ruju não a deixavam em paz. Queria ver com os seus próprios olhos qual a relação que a cabana tinha com elas.

A porta, com o símbolo do escorpião esculpido, foi aberta com esforço. Lá dentro estava escuro. Através das fendas estreitas do abanador de palmeira entrava a quente luz da tarde. Escutou o suave murmúrio do ar e o cântico do vento que mal se ouviam no interior.

Subitamente sentiu o cheiro e parou estupefacta.

Não era o aroma a incenso que lhe entrava pelo nariz, nem os vapores do terreno argiloso muitas vezes humedecido e outras tantas seco que tão bem conhecia de casa da daia. A voz de menina de Ruju parecia encher a sala escura:

-... a sua água é o veneno, o seu sangue é a dor e dirigi-lo-á a cada homem que se quiser aproximar da mulher, picá-lo-á e matá-lo-á como o ferrão do escorpião.

O pescoço de Sahti ficou tenso.

Junto à parede encontrava-se uma das habituais camas com cobertura, idêntica àquela em que dormia com Ruju todas as noites. Era convidativa, quase confortável, não fossem as cordas que, qual serpentes, caíam dos lados e pés, e as manchas acastanhadas, claras e escuras, que formavam um modelo estranho. Todavia, o mais insuportável era o cheiro doce e levemente metálico, que já conhecia dos animais acabados de caçar que os homens traziam para casa: sangue.

- E os homens serão castrados. - Sem querer, Sahti começara a falar. Repetia todas as palavras que arrancara a Ruju com tanto esforço, e o som da sua própria voz dava-lhe coragem. - Pois, como sabemos, o seu prepúcio pode transformar-se num lagarto. Quando isto for conseguido, o homem sentirá compaixão da mulher. De outro modo, ele receá-la-ia e odiá-la-ia. Só assim conseguirá entender as suas dores...

Calou-se. Os seus ouvidos tinham reconhecido um som que era muito mais suave do que um murmúrio humano. Tentou ficar muito calada e não fazer qualquer movimento, enquanto o seu coração batia fortemente por baixo das costelas.

Um sussurro e depois silêncio.

E subitamente viu-o: o escorpião. Brilhante, negro e imperturbável, ergueu-se atrás da cama.

Sahti esforçou-se por reprimir um grito. Depois, correu para fora da cabana o mais depressa que conseguiu.

É claro que teria preferido fugir para casa. No entanto, quando pensou em Ruju que era esperada naquele local tenebroso, parou, respirando pesadamente, ao alcançar as primeiras casas da aldeia. Mas não queria ir para casa da daia que era capaz de ler os seus pensamentos mais secretos. Não, naquele estado.

Algumas casas adiante vivia uma amiga que era apenas um ano mais velha e que ia muitas vezes com ela tomar banho no rio. Já ia a caminho da casa quando de repente se lembrou de que, há uns dias atrás, a rapariga lhe virara as costas.

- A minha mãe já não quer que brinquemos ou nos banhemos juntas.

- E porquê? - perguntara Sahti, admirada.

- Tu pertences à leoa branca. A minha mãe diz que temos de tomar cautela com pessoas como vocês. E agora deixa-me! Quero ir ter com os outros.

Antes de tomar consciência disso, já os seus pés tinham tomado uma determinada direcção. Havia silêncio nas ruas estreitas. Só o vento lhe trazia ocasionalmente alguns sons: o burro a zurrar, risos de crianças, o pranto uniforme de uma velha. Sahti esgueirou-se para o interior de um dos pátios que ligavam as casas entre si. Dali, passou para a cozinha que se seguia, que era maior e mais limpa do que a outra.

Junto ao fogo, encontrava-se uma panela com chá quente. Ao lado estava pão folhado a torrar. No chão, viam-se bilhas de barro com azeite e  milho. As moscas voavam devagar. Uma tarde sonolenta. Não se via ninguém,  felizmente nem a recente mulher de seu pai que, com as filhas das outras, ocupava uma parte menos confortável da casa, andando muitas vezes por ali sózinha para que ninguém esquecesse os seus direitos como dona da casa.
Sahti sabia muito bem onde começava o reino de Nabu e, apesar de nunca antes ter estado ali, teria encontrado a casa às cegas. O poder de Nabu ultrapassava os muros, as paredes e tudo o que estivesse dentro delas: os pequenos bancos de troncos de acácia, a cama artística com as pernas torneadas, a cobertura de madeira e o local para o corpo, feito de corda entrançada; os grandes recipientes de ébano, nos quais guardava as tinturas e óleos aromáticos; os pequenos potes de unguentos coloridos para enegrecer as extremidades das pálpebras; os seus trajos, que guardava dobrados numa arca; ao lado, finos anéis e fios de ouro que guardava nos dias de trabalho e colocava em dias de festa.

Um cansaço quente e saboroso afundou-se sobre Sahti como se tivesse passado várias noites sem dormir, estando agora em segurança. Na realidade, esticou-se numa das esteiras de palha, que exalavam o cheiro de Nabu, até se meter completamente debaixo da cama, que a envolvia como um buraco negro. Aliviada, fechou os olhos, enroscou-se de lado, como se estivesse junto do corpo suave de Nabu, e depressa sentiu a corrente de ar da brisa primaveril na pele quente.

O faraó espera dois mil deben de ouro. - A voz do homem estava

calma, mas não denotava simpatia.

- O que é que eu tenho a ver com isso?

Sahti nem ousou mexer-se. O pai respondera com aspereza. Percebia-se perfeitamente que estava zangado. Golo adorava lutar, mas não com os punhos. com palavras. Mas como é que ele tinha trazido um estranho para os aposentos privados que não podiam ser usados por ninguém, a não ser pelos membros mais chegados da família?

Os outros dizem que vais ser o próximo chefe.

Ela apenas conseguia ver as pernas dos homens. As do desconhecido eram pálidas, robustas e com muito pêlo, e nos pés trazia umas sandálias de tiras cruzadas. As do pai eram escuras, esbeltas e lisas e, até então, ninguém conseguira vencê-las nas corridas a pé. Muitos diziam que ela seria muito parecida com ele, pois comportava-se do mesmo modo e era também muito ligeira. No entanto, Sahti esperava que não fosse assim, pois o pai, homem que se irritava com muita facilidade, sempre fora um estranho para ela. Por vezes, sentia até medo da sua imprevisível violência.

Foi assim determinado pelo Conselho dos Homens: logo que o velho chefe estiver enterrado. Nem mais cedo nem mais tarde.

Isso significa que uma doença incurável está a destruir-lhe o corpo.

O estranho falava bem o dialecto deles, quase com fluência, mas, apesar

disso, Sahti reparou que estava sempre à procura das palavras mais adequadas. -  E és a pessoa cuja palavra toda a gente da aldeia escuta.
- Ele ainda respira e eu já devia estar há muito tempo junto das minhas vacas, em vez de ficar aqui em casa sem fazer nada. Sou criador de gado e não mineiro.

- Todos estamos aqui para servir o grande Sekenenré. Que tenha uma vida longa e saudável! - contrapôs o visitante, tornando-se subitamente muito formal. - Quanto a mim, sou o responsável pelo seu ouro.

- O seu ouro? - O riso de Golo tinha uma expressão infeliz. - Ele já tem as nossas cabeças de gado. Que mais quer? As nossas mulheres e filhos?

- O seu ouro - repetiu o outro, imperturbável. - E garanti com a minha vida que receberia a quantidade estipulada aos membros da expedição.

- Estipulada? Por quem? - O tom de Golo tornou-se mais áspero. Sahti ficou com pele de galinha. Não saberia o homem branco o que se poderia passar se o pai ficasse irritado? - Não te esqueças de que somos cuxitas, guerreiros livres a quem pertencem as manadas de gado enquanto vocês não as roubarem! Não somos escravos de Kemet, obrigados a uma obediência cega.

Ficaram calados alguns instantes.

- Talvez queiras esperar pelo vento sul antes de tomares uma decisão

- afirmou por fim o estrangeiro. O tom de voz mudara. Agora parecia simultaneamente esgotada e cuidadosa.

- Pelo vento sul? - repetiu Golo, lentamente.

- Então, tenho de te avisar, pois o vento que sopra do Sul é instável e imponderável. Às vezes, leva muito mais tempo a sentir-se do que muitos pensam.

As pernas de Golo movimentaram-se na direcção da porta.

- Não roubei o meu tempo - disse ele, áspero. - Se queres continuar a falar em enigmas...

- Está bem! Está bem! - O estrangeiro correu atrás dele. Sahti gostava da sua voz profunda e cheia, completamente diferente da voz clara e um |)ouco estridente do pai. - Esquece o que acabei de dizer e voltemos às coisas importantes! Tenho uma oferta para te fazer. Uma oferta verdadeiramente interessante. Entendes?

- Ah, estou muito surpreendido! Coisas de que não precisamos? Instrumentos de pedra que rapidamente se partem? Ou será uma quantidade suficiente de trigo para que as nossas crianças não morram à fome quando as próximas colheitas voltarem a secar?

A voz do estrangeiro ribombou como um trovão.

- Eu sou um homem de bem. Não sou um mentiroso. Nunca ninguém se arrependeu de ter feito algum negócio com o Namiz de Kepni. Estou a falar de ouro branco e, como tal, de vida. Interessado?

As pernas de seu pai regressaram lentamente. Sahti reparou que os joelhos lhe tremiam um pouco.
- Então, fala! - ordenou Golo, e ela sentiu uma súbita cobiça por trás das suas palavras. - Mas pensa bem no que vais dizer!

- Sal - proferiu suavemente o homem de Kepni. - E em quantidade suficiente para garantir a sobrevivência até que o filho do teu filho mais novo herde as tuas manadas.

- Já está a dormir e dormirá durante bastante tempo, pois dei-lhe uma boa quantidade de leite de papoila. Podemos ir.

Tunbee, que a daia muitas vezes utilizava como ajudante, deitou um olhar satisfeito a Sahti e depois colocou a mão no ombro da outra rapariga.

Se bem que o movimento fosse suave, Ruju estremeceu. O seu olhar cintilou e todo o corpo parecia estar sob tensão. As palmas das mãos e as solas dos pés haviam sido pintadas de fresco com alfena e os membros ornados de negro com antimónio. Usava um vestido novo, colorido, que chegava até à barriga da perna e que a fazia parecer mais alta, quase uma adulta. Os cabelos penteados e alisados com gordura, os brincos de ouro e o véu de noiva vermelho fortaleciam essa impressão. Parou, abrupta, à entrada e olhou à sua volta como se quisesse assimilar profundamente aquilo que deixaria atrás de si naquela noite.

Depois, com um suspiro, saiu.

A pequena procissão, integrada por Ruju, Tunbee e três mulheres mais idosas que transportavam incenso, pedras de amuleto e archotes, dirigia-se lentamente na direcção da cabana do escorpião. O céu estava ligeiramente nublado, a noite de lua cheia quente e plena de ruídos de animais e do barulho das águas do grande rio, que iam deixando cada vez mais para trás à medida que subiam até à cabana.

Nenhuma das mulheres sentia vontade de falar.

Ruju cerrou os dentes com tanta força que as gengivas começaram a doer. Tinha a pele coberta de transpiração. De vez em quando, tropeçava como se lhe faltassem as forças para caminhar direita. Algures a meio do caminho, a daia surgiu da escuridão, suave e silenciosa como um predador. Integrou-se na procissão, cujos membros continuavam calados, e, ao passar, afagou fugazmente a mão de Ruju.

Tinham quase atingido o seu objectivo quando, subitamente, Nabu lhes apareceu à frente e as impediu de continuar.

- O que queres? - perguntou-lhe a daia em tom autoritário.

- Isso sabes tu muito bem - retorquiu Nabu com determinação. A mãe protege a filha. Especialmente numa noite como esta.

- Tu não és a mãe dela.

- Mas sou mulher do Golo.No meio da escuridão, mal se conseguiam visualizar as serpentes que ornavam os braços de Nabu. Além disso, a voz começara a tremer um pouco facto que a daia registou com alegria. Para não se sentir impedida de realizar o seu trabalho, manuseara durante todo o dia o seu amuleto, o que a deixava agora mais tranquila, pois sentia perfeitamente que o enorme poder do leão estava consigo.

« Não ! Tu não és realmente mãe dela»’ Pensou, enquanto fixava os olhos’ de Nabu com enorme segurança, «e nunca poderás ser mãe, não vais engravidar, nem parir enquanto eu não te libertar da responsabilidade da morte da minha filha. De mais a mais, isso não seria especialmente grave Apenas precisarias de apertar um pequeno bezerrito negro junto ao teu peito como se lhe fosses dar de mamar. O teu marido teria então de te imolar. Golo esse arruaceiro e fanfarrão, que já esqueceu a minha linda filha e, no fundo nunca a mereceu e que deixou escorrer sobre ti o seu sangue. Não tiveste autorização para te lavares durante três dias nem de te aproximares do grande rio. Entretanto foi preciso esfolar cuidadosamente o pequeno bezerro e o teu marido foi obrigado a comê-lo até não poder mais. Em contrapartida tu não tiveste permissão para comer nada durante esses dias e recebeste a pele do jovem animal para a colocares debaixo da tua cama. Após o terceiro dia, tiveste de tomar banho no rio, na corrente eterna que gera toda a vida para depois voltares para os outros como um redentor. Mas agora os meus lábios vão retirar-te a maldição: Espírito da minha filha, ouve o meu pedido! - Tu que  recusas um  filho a esta mulher, mas tu estás morta e ela, viva Pára com isso! Peço-te que a deixes ter um filho...-»

Sentiu vontade de rir. «Mas tal não vai acontecer», pensou, «pelo menos enquanto houver em mim réstia de vida.»

- Isso não chega, Nabu - interferiu Tunbee. - E sabes bem disso. Esta noite, a única coisa que vale é o poder do sangue. Afasta-te do caminho e deixa-nos cumprir aquilo que tem de ser realizado sob a Lua negra! Não foi preciso insistir mais. Nabu acenou abruptamente com a cabeça como se tivesse levado um grande empurrão e, com a mesma rapidez, desapareceu na escuridão de onde emergira.

 

Um casal feito de barro, uma mulher, um homem, duas sombras ao  lusco-fusco. Suavemente, ele puxa-a para si e ela permite que isso suceda. Sem resistir, ela afunda-se lentamente contra o seu corpo. Tocam-se, abraçam-se beijam-se até se fundirem um no outro, transformando-se numa sombra única.

Subitamente, um grito.

A mulher afasta o homem de si, levanta-se e aponta para ele.

 Ele transformou-se num animal, num escorpião negro e venenoso que agora se enterra profundamente nela.Ela grita e volta a gritar, não consegue parar de gritar, vira-se e grita. O sangue jorra do seu colo, colorindo de escuro o chão claro da cabana...

com um grito, Sahti acordou, assustada. Tinha a testa inundada de suor e a garganta ressequida. Sentia ainda um sabor desagradável na boca que apenas desapareceu depois de beber alguns goles de água do recipiente de pele de cabra.

A cabeça doía-lhe terrivelmente. Precisou de algum tempo para se orientar na escuridão. Mesmo assim, quando se levantou, tropeçou no pequeno banco, ao qual deu um empurrão para não se magoar mais. Quando o agarrou sentiu, para sua grande surpresa, algo mole sobre o assento. Os dedos reconheceram do que é que se tratava antes de poder ver: o segredo da daia, a pata de leão mumificada, que tantas vezes observara com curiosidade. Sem pensar muito, Sahti pendurou o saco ao peito. Sobre a pele nua, a sensação do saco era suave e estranha.

«Foi apenas um sonho», pensou ela, já calma, «um sonho provocado por um espírito mau. Estou em casa da daia, estou segura e protegida. Nada pode acontecer-me.»

Ficou muito mais tranquila. Um insecto entrara na casa e ela conseguia ouvir o seu zumbido excitado no silêncio da noite.

De repente, entendeu que havia outra coisa diferente: faltava a respiração regular de Ruju, bem como a mais profunda da daia.

A rapariga estava semi-reclinada na cama, presa de pés e mãos. À sua volta encontravam-se quatro mulheres: Tunbee atrás dela, com as mãos a pressionar firmemente o peito da rapariga, mais duas que lhe mantinham as coxas afastadas, e a quarta, aos pés, segurava o archote que afundava a sala numa luz trémula.

Tentou libertar-se, mas em vão. Todavia, quanto mais se mexia, as tenazes cortavam mais profunda e dolorosamente.

- Está sossegada! - ordenou Tunbee, tentando tranquilizá-la. - Já está quase a acabar. Todas nós o suportámos. Só acontece quando se é uma mulher. Senão, nunca haverá ninguém que queira casar-se connosco. Por isso, sê corajosa, pequenina, e fica quieta! Será mais fácil assim. Acredita em

mim!

A rapariga não conseguia falar porque tinha uma enorme raiz fibrosa A amordaçá-la, mas os olhos evidenciavam-se perigosamente enquanto abana vá a cabeça com fúria.

- Morde! - aconselhou Tunbee. - Verás que ajuda!

A velha feiticeira tinha terminado as suas orações. Veio até junto da cama, levantou a faca, sopesou-a na mão uns momentos como que para a experimentar antes de ousar o corte.

As pernas da rapariga começaram imediatamente a encolher-se. com uma força espantosa, virou-se de tal maneira que as mulheres fizeram um esforço imenso para a segurar.

Depois de um vigoroso aceno de cabeça, a velha feiticeira iniciou o seu trabalho sem hesitar. Agora, o corpo da rapariga tremia e movimentava-se para trás e para a frente como se estivesse possuída por demónios e espíritos malignos.

Nesse momento, a porta abriu-se.

Sahti estava de pé à porta da cabana do escorpião, ofegante e coberta de suor. O seu olhar perscrutou toda a sala e rapidamente percebeu aquilo que estava a acontecer.

Esbugalhou os olhos. A repugnância começou a invadi-la, o que lhe provocava náuseas misturadas com medo e raiva. Involuntariamente, as mãos agarraram o amuleto que trazia por baixo do vestido.

A rapariga era Ruju.

E a velha feiticeira que transformara o regaço de sua irmã numa ferida sangrenta era a daia.

Um grito brotou da garganta de Sahti, sendo de tal maneira estridente que as mulheres se encostaram umas às outras.

Depois, precipitou-se, como que em transe, na noite.

 

SEGUNDA HORA: NA BOCA DA GRANDE SERPENTE

Um grasnar estranho manteve Sahti acordada. Ou teria sido o frio penetrante que a arrancara ao sono? Sobre os acidentados picos a ocidente aparecia a primeira luz do dia, de um tom de lavanda quase transparente que se ia desvanecendo. Pelo ar límpido e a curta distância, um corvo abria

o seu caminho na tranquilidade da madrugada.

Sentindo as pernas tensas, levantou-se. Estava gelada e vestida, hirta. Tinha areia húmida colada aos braços e pernas e até na boca sentia os grãos ásperos.

Alguns passos inseguros. Os membros obedeceram contrariados. O chão que pisava ainda estava frio.

Conseguiu finalmente manter-se de pé. Tinham desaparecido as faixas de pomares que ficavam ao lado do grande rio, como se nunca tivessem existido campos, árvores, uma aldeia com casas feitas de tijolos de lama seca, onde cada beco e cada pátio interior lhe eram familiares. À sua frente, estendia-se um mundo de areia e pedras que já brilhavam nos locais onde os primeiros raios de sol atingiam a areia. Do chão duro saíam apenas algumas ervas que lentamente se moviam ao vento. No horizonte detectou um fino e incessante entrelaçado que se elevava.

Sentia a garganta apertada, e a língua parecia algo de estranho dentro da boca. Tinha fome, muita sede e pela primeira vez na vida estava completamente só. Por que motivo não acordara em casa da daia, enroscada ao corpo cheio de Ruju? Era lá o seu lugar. Por que razão não sentia o odor forte e ligeiramente doce do chá matinal, de rebentos de acácia secos, que a daia fazia para si todas as manhãs?

De súbito recordou-se, e Sahti voltou a sentir uma enorme repugnância, enquanto as imagens e os sons da noite anterior a tentavam dominar. Involuntariamente, pôs-se de cócoras, como que para se proteger de um inimigo invisível, e apertou fortemente o ventre com os braços. Através do couro sentiu a picada da garra de leão no peito, uma dor suave e agradável que

lhe pareceu uma advertência que não devia esquecer.
Correra, fugira da sua vida até cair sem forças algures na terra-de-ninguém para escapar da cabana do escorpião e de tudo o que vira e ouvira. Os movimentos seguros e quase impassíveis das mulheres. A sua respiração pesada. Os gemidos de horror da sua irmã presa. A faca ensanguentada. Sobretudo, os olhos muito abertos de Ruju com aquela expressão desconcertada e profundamente desesperada que a perseguiria até ao fim dos seus dias.

Ajuda-me, Sahti! Ajuda-me! Porque é que não me ajudas, irmã?

Todavia, não ficara ao lado de Ruju. Deixara-a entregue ao seu destino. Além disso, trazia ao pescoço o saco do leão da daia. Ela iria por certo dar por falta dele. Teria sido esse o castigo, perder-se no meio do deserto, atirada sem protecção para a zona da morte certa, em relação à qual todas as crianças da aldeia eram avisadas no momento em que começavam a andar?

Como um peso enorme, o medo esmagou-a.

Sahti agarrou instintivamente no saco que tinha ao peito para sentir a protecção da garra e forçou-se a erguer-se da posição em que estava. O céu limpo e insuportavelmente azul estendia-se sobre ela. O Sol já subira bastante. Não faltava muito para que o seu sopro quente tornasse impossível cada passo sobre a areia escaldante.

Mas em que direcção deveria ir?

Só quando girou no seu próprio eixo e olhou cuidadosamente em todas as direcções é que decidiu dirigir-se aos rochedos. Tinham uma forma bizarra, mas eram as únicas formações que proporcionavam sombra. Sem pensar mais, começou a caminhar. Todavia, reparou de imediato que detinha uma noção totalmente errada da distância. Em vez de se aproximarem, os rochedos pareciam distanciar-se a cada passo que dava. A areia fina que se lhe enterrava entre os dedos tornava a caminhada cada vez mais árdua, obrigando-a a um maior esforço para levantar as pernas. Além disso, havia ainda a sede que a dominava cada vez mais. Sahti tentou puxar saliva. Há quanto tempo não cuspia? Quando mantinha a boca fechada durante algum tempo, uma massa grossa colava-lhe os lábios. Contudo, conseguira sempre abri-los, mas, no processo, gretava a pele fina, acabando por sangrar.

Sahti conseguiu percorrer o caminho com as suas últimas forças, provavelmente porque no final se tornou mais fácil. Já próximo, viu que a parede do rochedo estava coberta de estrias que formavam uma compacta rede de linhas. De tons amarelo e vermelho-pálido, queimados pela areia e sol. Muitos dos contornos faziam lembrar animais, outros, dunas, e ainda outros, formações nebulosas. O vento do deserto corroerá os rochedos e formara uma saliência semelhante a um pente que parecia um nariz gigantesco. Encostou o rosto à pedra cinzenta que lhe pareceu estranhamente fresca, se bem que não devesse faltar muito para o meio-dia, hora a que o calor se tornava insuportável.
Uma protecção? Uma fuga àquele deserto devastador que ameaçava engoli-la?

Aquela sensação de alívio desapareceu com a mesma rapidez com que surgira. Começou a tremer e o estômago contraiu-se quando percebeu onde fora dar. Aos seus pés desembocava o vale inóspito, cujo brilho ofuscante lhe queimava os olhos. À sua volta apenas havia pedras, vento e areia. Além dela, não existia qualquer ser vivo. Sahti sentia-se demasiado fraca para chorar e para pensar no que deveria fazer. Sem forças, sucumbiu e agachou-se à sombra do enorme nariz do rochedo.

Algum tempo depois, um ligeiro ruído assustou-a. Viu um rato minúsculo, cinzento-amarelado, que quase não se distinguia da cor do fundo. A sua cauda, pouco mais longa do que todo o animal, movimentava-se de excitação. Tinha enormes orelhas redondas e olhos negros que fixavam Sahti com curiosidade. Quando a rapariga, plena de alegria, fez um movimento na sua direcção, o rato deu um salto enorme e fugiu.

Durante um instante, Sahti esqueceu a sua situação e riu-se. Uma criatura tão divertida! Pelo menos, já não estava completamente só.

O rato farejou com insistência na sua direcção. Os finos bigodes tremiam ligeiramente. Depois, colocou a cabeça de lado, quase como se estivesse a pensar. Como Sahti teria gostado de fazer uma festa ao animal! Quando mudou de posição, a fim de conseguir esticar os braços para o rato com mais segurança, o rato fugiu com grandes saltos, tão rápidos que de imediato desapareceu na areia brilhante.

Agora, encontrava-se outra coisa sob Sahti, musculosa, muito mais sedosa do que o chão duro por baixo da sua perna. Movimentos ondulatórios, como se a areia tivesse, de súbito, adquirido vida própria. Um estreito membro castanho-amarelado com listas cinzentas, que agilmente tentava libertar-se.

Um silvo que veio de muito perto assustou Sahti.

Quis dar um salto, mas já era tarde. Estava a olhar para duas pupilas por trás de duas fendas profundas. Depois, com a rapidez de um relâmpago, a cabeça quadrada da víbora avançou e enterrou o dente venenoso na sua coxa.

A caçada fora frutuosa. Os soldados mal conseguiam esperar pela confecção culinária dos animais selvagens que tinham matado, e até o comandante Ipi, que não se esquivara ao acompanhamento das tropas, se mostrava bastante contente. Tinham partido bem cedo para aproveitar o fresco da madrugada. Haviam levado lanças, setas e arcos e, graças a grandes redes finamente tecidas, tinham apanhado mais antílopes e gazelas do que fora esperado. Agora, o calor obrigava-os a descansar junto a um grupo de rochedos. Tinham até conseguido apanhar algumas das muito cobiçadas cabras-monteses, cuja carne suculenta era considerada um acepipe em ambos os lados da primeira catarata. Os animais mortos encontravam-se empilhados num local especial e havia muitos soldados que se mostravam ansiosos por lhes retirar os cornos, a fim de exibir como trofeu.

Até Namiz, que habitualmente não se dedicava a esses prazeres, se sentia contaminado por aquela febre de caça que deitara por terra tudo o que havia à sua volta. A tensão dos últimos dias parecia ter soçobrado. Desde a sua conjura com Golo, era a primeira vez que ousava acreditar numa expedição de caça bem-sucedida, pelo menos no que lhe dizia respeito. Tinha de agradecer à sua sorte nas negociações o facto de ter cerca de oito dúzias de cuxitas, sob a chefia de Golo, a caminho das minas, homens fortes que o intendente tivera oportunidade de ver com os seus próprios olhos. Ameni, que Ipi colocara provisoriamente no comando de uma companhia, escoltara os homens com os seus soldados, não como guarda, mas para os proteger dos assaltantes beduínos, tal como fora exigido por ambos os lados.

É claro que reforços daquela natureza não estariam em posição de operar milagres, pois as minas de ouro, tal como Namiz já há muito sabia, podiam-se comportar de um modo tão caprichoso como a mulher mais inconstante. Mas, pelo menos, era um princípio. Pressionava Namiz a deslocar-se o mais depressa possível para Sarras e de lá controlar tudo, mas não deixava de ter em consideração o cálculo diplomático que aprendera com esforço durante anos. Era claro que o comandante era seu inimigo por causa das conversas ásperas que tivera durante a marcha e no forte. Seria, no entanto, tão urgente transformá-lo num inimigo mortal?

Por esse motivo, Namiz participara na expedição de caça, na qual Ipi gostaria de ter estado só, pois, finalmente, lhe era oferecida a oportunidade de se mostrar aos seus soldados como vencedor duro e experiente. Namiz não queria estar muito tempo afastado do comandante e permaneceria na refeição festiva até ao corte da última fatia.

Na verdade, Ipi parecia ter rejuvenescido alguns anos no momento em que fazia vibrar vigorosamente o arco, matando o animal selvagem com a seta, quando arremessava a sua lança ou o seu machado rachava ao meio o crânio de um carneiro em fuga. Até a sua procura de prestígio desaparecera. Ficava, normalmente, para trás como comandante dos seus homens, mas agora estava de novo à sua frente. Ria, gracejava, louvava os atiradores que tinham a sorte de conseguir um tiro de mestre e também sabia levantar o moral àqueles que não conseguiam acertar. Um homem entre homens, um •soldado, um camarada. Alguém que trabalhara arduamente, com coragem e tenacidade, para chegar aonde chegara. Ali, sob o sol crepuscular de Kuch, o comandante tão pouco amado reencontrara as suas raízes que tantas vezes desmentira na corte de Uaset.

Algo recaiu sobre eles.

Talvez devido à sua alegria e boa disposição, algo em que as tropas repararam demasiado tarde. Ninguém notou que a pele ficava completamente ressequida por muito que bebessem. Ninguém reparou que o suave vento da manhã há muito desaparecera, e a terra se mostrava invadida por uma tranquilidade pouco saudável e impressionante. Todos os habitantes das areias, cobras e insectos pareciam ter desaparecido completamente. Os pássaros já não cantavam por cima das suas cabeças. Era como se a Natureza tivesse suspendido a respiração para reunir todas as suas forças. Antef, o soldado às ordens do comandante, era um homem forte, de poucas palavras, e testa alta onde já se via o cabelo a rarear; trabalhava como jardineiro no palácio real em Uaset. Foi o primeiro a falar. - Uma muralha! Olhem! Lá à frente! Uma gigantesca parede amarela! Namiz levantou a cabeça, assustado. Agora conseguia cheirar o vento seco, e as finas asas do nariz apertaram-se como que queimadas. Era exactamente como se os velhos beduínos as tivessem queimado. O céu, que a sul estava amarelo como mijo de burro, ergueu-se numa áspera linha de um azul-pálido.

- Vem aí a areia! - Levantou-se, pronto a fugir. - Rápido! Temos de regressar rapidamente ao forte!

- Tanto medo perante este vento suave? - O comandante nem se mexeu do local onde estava sentado e pareceu contente com a nova oportunidade de troçar do odiado homem de Kepni. - O exército do grande faraó não se deixa impressionar com tão pouco.

- Isto não é vento. É uma tempestade em formação. Temos de voltar!

- instava Namiz, determinado. - Eu sei o que estou a dizer. A população local avisou-me insistentemente.

A inquietação espalhava-se por entre os soldados. Agora, já ninguém estava deitado. Tinham-se posto de pé num salto e olhavam, pouco tranquilos, para sul. Finalmente, Ipi deu a ordem de marcha.

Pelo caminho, formavam-se bossas de areia como se se tratasse de massa fermentada, e as silvas queimadas açoitavam violentamente o solo. O vento parecia soprar com uma intensidade cada vez maior e encher toda a terra. As nuvens largas, rajadas acastanhadas varriam a planície. O pequeno burro, que até então transportara as pesadas peças de caça, tremia cada vez mais. Os soldados tinham preferido seguir o seu exemplo, mas esforçaram-se por se movimentar com maior rapidez. Os grãos de areia quase lhes perfuravam o rosto e pescoço. Os olhos ardiam e os lábios inchavam.

A caminhada do destacamento de caça era cada vez mais lenta. Finalmente, o comandante mandou parar e todos se acocoraram à volta de Ipi.

- Temos de permanecer em qualquer lado - gritou o comandante para que a sua voz se sobrepusesse ao barulho do vento, voz essa que parecia rouca, como se não fosse utilizada há muito. - O melhor será ficarmos já aqui. De qualquer modo, não conseguimos avançar mais.

- Para que a areia nos enterre até ao pescoço? - protestou Namiz, furioso. Tal como os soldados, envolvera a cabeça com a faixa do cinto para se proteger, mas não valia de muito. De pé, sentia os golpes das gigantescas chicotadas. - Pelo menos, avancemos até ali - propôs ele. - Os enormes rochedos proteger-nos-ão do pior.

Para sua grande surpresa, Ipi não se opôs, talvez porque uma parte dos homens já se pusera a caminho. Céu e terra há muito que se haviam misturado. Não existia princípio nem fim, apenas a força do deserto que fazia ajoelhar homens e animais.

A sombra do rochedo oferecia algum alívio. Os soldados chegaram-se uns aos outros, e o burro, que fora rapidamente libertado da sua carga, fez o mesmo. Todavia, os que permaneciam na parte de fora do círculo continuavam a ser dolorosamente fustigados.

- Está aqui uma coisa mole. - Antef, como sempre muito próximo do seu senhor, começara a fazer uma cova. - Provavelmente, o cadáver recente de algum animal. De contrário, já estaria duro.

Continuou a afastar a areia com as mãos, uma tarefa visivelmente inútil, mas não para um teimoso como Antef, que gostava de levar tudo até ao fim.

- E depois?! - gritou Ipi. - Fecha a boca, baixa-te e vê se sais daí depressa. Não tenho a menor vontade de procurar um novo ordenança. Entendido?

- Uma criança! - Antef continuara a cavar afanosamente. Encostou o ouvido ao peito magro e coberto de areia. - Uma menina, e não está morta. Consigo ouvir a sua respiração, apesar de fraca e irregular.

Ela conhecia aquela terra escura, mas daquela vez entrara pela porta da dor. O frio invadia-a e era muito mais gelado do que o da noite anterior. Os maxilares começaram a bater e todo o corpo foi trespassado por convulsões. Sahti não conseguiu sair dali rapidamente como acontecera durante os seus secretos passeios nocturnos, quando as primeiras estrelas brilhavam sobre ela, qual pedras preciosas através de água esverdeada, antes de ficarem duras e brancas. Não conseguia afastar com algumas frases duras o ruído leve das patas que a seguiam em sonho.

Daquela vez era diferente.

O leão que estava no saco da daia agarrara-se ao seu peito. Conseguia sentir o cheiro pestilento dos predadores e apercebia-se claramente do peso enorme que quase a esmagava. Contudo, a besta não parou um segundo, perfurando cada vez mais a sua carne. Todos os músculos do corpo de Sahti doíam, mas o mais grave era a falta de sensibilidade crescente na perna que agarrava contra o corpo.

A mão fria do medo apertava-lhe o coração, pois a grande cobra ainda não estava contente com o seu trabalho destruidor.

Teria sido Nabu, a rainha das serpentes, que a mandara para matar Sahti?

Tensa e incapaz de qualquer movimento, a rapariga viu a cobra recuar, uma estreita banda na areia, que avançava para ela. A cobra ergueu-se à sua frente, cresceu para o céu como uma coluna de pedra e parecia perscrutá-la com minúcia.

Uma última observação antes de uma segunda mordedura?

Para grande espanto, o réptil permaneceu quase encostado à cabeça de Sahti, balançando-se de um lado para o outro, como que ao som de uma flauta inaudível numa dança perigosa e elegante. A sua língua bífida aproximava-se cada vez mais, como se quisesse beijar a rapariga. Depois, afastou-se subitamente dela, deu a volta e virou-lhe o corpo escamoso.

Um convite para a montar?

O leão parou de lhe consumir o coração e levantou atentamente a cabeça.

Depois, cobra e leão pareceram fundir-se um no outro, formando um único ser. O mais belo e ameaçador que Sahti jamais vira. Um ser com cabeça de leão e corpo de serpente que crescia de um botão com três pétalas. Não era uma planta, nem animal nem pessoa: um deus. E a rapariga reconheceu aquele de quem a data apenas falava em murmúrios respeitosos, o verdadeiro rei do Sul, cujo nome fazia tremer os povos: Apedemak, rei dos deuses.

Subitamente, tudo desapareceu: o medo, a sede, o terrível aperto que sentia no peito, o latejar da coxa e o sopro gelado que lhe ia no coração. Sahti já não sentia o chão de pedra em que estava deitada nem a areia com que se cobrira como se se tratasse de uma sepultura. A cabeça do leão aproximava-se cada vez mais, tinha uma cor de ouro como que coberta de areia, e uma boca gigantesca abriu-se para lhe falar numa língua áspera e estranha que ela não entendia.

«Cura-me!», quis ela dizer. «Eu vi-Te, orei ao Teu nome e serei para sempre Tua.» Mas não conseguiu proferir uma palavra.

Foi duramente obrigada a entreabrir os lábios e a ingerir uma substân-

cia seca, repulsivamente amarga, que mal conseguiu engolir.

Um raio prateado. Uma dor aguda e clara que quase a levou à agonia. O sangue começou a jorrar, ela sentia a humidade quente.

Seria que a cobra a mordera novamente?

As pálpebras estavam cerradas, e Sahti só as conseguiu abrir com muito esforço. A cabeça de leão pareceu ter o dobro do seu tamanho, depois o triplo, e finalmente surgiram inúmeros rostos que olhavam para ela com preocupação.

com um suspiro profundo, Sahti fechou os olhos e enterrou-se ainda mais para dentro daquela areia escura, onde Apedemak estava à sua espera. Ou talvez só a morte.

O rosto de Ruju exibia um amarelo doentio, e a testa, assim como o resto do corpo, ardia. Tunbee, que substituía a daia à cabeceira da doente, estava constantemente a mudar os panos molhados, mas nada ajudava.

- Temo que estejamos numa situação muito difícil - murmurou, preocupada. - Este cheiro não me agrada mesmo nada. Além disso, ela terá de largar águas e, sobretudo, beber. Caso contrário, ficará desidratada.

- Não quero água - murmurou Ruju. - Não tenho sede.

As suas pernas atadas estavam sem forças. Haviam sido presas com espinhos de acácia e uma corda de tripa, não deixando a mais pequena abertura. Assim, Ruju era obrigada a ficar deitada, sem se mexer durante semanas, pois cada passo mal dado ou movimento mais esforçado poderiam anular o desejado acontecimento. Na aldeia, havia casos em que fora necessário passar duas e três vezes pelo doloroso processo. E em cada um deles, as dores tinham sido ainda mais insuportáveis.

- Eu sei, pequenina, que todas afirmam que ao princípio dá bastantes dores. Achas por acaso que eu já não me recordo? Por muito que viva, ninguém esquece uma coisa dessas. Arde como fogo e tu tens medo de não sobreviver. Crê que sobreviverás! Além disso, não serve para nada: a água tem de entrar no teu corpo e voltar a sair. Senão, morrerás.

Tunbee esforçava-se por parecer bem-disposta, mas não estava a conseguir.

- Não vamos deixar que as coisas cheguem tão longe... Se quiseres, eu ajudo-te. Vais ver que as duas conseguimos. Eu levanto-te lentamente, depois despejo a gamela de água e pronto.

- Deixa-a em paz, Tunbee! - A daia regressava com odres. Ergueu cuidadosamente o tronco de Ruju para que pudesse beber com mais facilidade e colocou-lhe uma taça de paredes finas em frente do nariz.

- Chá de sementes de tamarindo acabado de ferver, não é? - Tunbee aproximara-se curiosamente para sentir o odor. - Para sarar as feridas e sobretudo para baixar a febre. Estou certa?

Apesar do seu estado de fraqueza, Ruju virou a cabeça para o lado e negou a ingestão do líquido. Para espanto de Tunbee, a daia não insistiu. Consentiu e agarrou numa segunda chávena um pouco maior.
- E o que temos aí? - Não havia nada que impedisse os comentários astutos de Tunbee. - Ah, sim! Já estou a ver! Chá de cominho para sarar e desinflamar. Não queres acrescentar algumas gotas de óleo de rícino? As vexes, funciona às mil maravilhas!

Sem dizer uma palavra, a daia levantou a camisa de Ruju e começou suavemente a separar as coxas da rapariga. Mas antes de a pasta quente e verde-acinzentada tocar na ferida, Ruju já se encolhera e começara a gritar como se estivessem a matá-la. com um encolher de ombros, a daia afastou-se dela. A rapariga calou-se de repente. Não se ouvia mais nada senão um leve choramingar.

- Ela ainda está a sangrar! - A grande mancha escura sobre o colchão não escapara a Tunbee. - E bastante! Talvez tivesse sido melhor não a trazer para tua casa. - Segundo a tradição, todas as raparigas deviam ficar sete dias na cabana do escorpião, pois só assim desaparecia o seu poder e o ferrão já não a poderia envenenar. Tunbee falou num tom de repreensão.

- Mas tu tinhas concordado que, depois da primeira noite, nós...

- E não vês como eu tinha razão? - A daia parecia ter finalmente recuperado a fala. - Eu sei o que faço. Se não te agrada, és livre de voltar para tua casa. Sim! Vai-te embora. Já não te posso ver!

Tunbee, que obedecia sempre às ordens da daia, não se mexeu.

- É por causa da Sahti - proferiu ela, finalmente, numa voz suave, não tirando os olhos da leoa branca. - É isso que te está a torturar.

A daia ficou em silêncio como se não compensasse responder, mas deitou um olhar perigoso à jovem mulher.

- Tens medo de perder mais uma filha - continuou Tunbee com ousadia. - Medo de que tudo se repita.

- Disparate! - contrapôs a daia, começando simultaneamente a mexer a pasta de cominho com tanta força que se espalhou pelo chão. A Sahti vai voltar. Deve estar escondida em qualquer lado.

- E se não for assim? - Tunbee não se deixava desconcertar. - Se ela já não estiver na aldeia, como tu supões, e tiver fugido? Ou, imagina tu, que os soldados...

- Ainda não acabaste? - A daia mostrava-se furiosa.

- E se estiver para aí deitada em qualquer lado e tiver chamado inutilmente por nós até perder as forças? Não consigo pensar noutra coisa. Tunbee colocou as mãos sobre o rosto. - Sinto isto como se se tratasse de uma filha da minha família.

- Não sabia que tinhas tido uma filha! E agora vai! O teu discurso horoso até me faz mal. É mais do que suficiente o facto de voltares à noite para a vigília. - A ironia mordaz da daia não podia passar despercebida.

- É claro que, se te contentas com esses pensamentos, poderei dormir algumas horas.
Quase que empurrou Tunbee para fora da porta e depois voltou para o seu trabalho. O cansaço e a falta de sono pesavam sobre o seu corpo como uma dor surda. Não era a única, porém. Havia outros martírios muito mais graves. O que estaria a acontecer àquela mulher, a quem o oráculo dos ossos deixara mal pela primeira vez na noite anterior? Só se vira escuridão, um vazio sem fronteiras e nada mais. Por que motivo é que a perda da pata de leão lhe provocava um sofrimento atroz que se tornava cada vez mais insuportável? Por que razão a fúria inicial em relação a Sahti, que profanara a cerimónia sagrada, há muito desaparecera e apenas sentia medo e preocupação pela menina? Sim. Estava sem sentidos, farta de esperar e rezar, destituída de todos os seus poderes mágicos, presa àquela casa onde a vida da sua neta se encontrava nas suas mãos. Agora, era apenas uma mulher velha e cansada que não descobria soluções. Parecia claro que os deuses tinham decidido pô-la à prova, mas o sentido ela nunca entendera e talvez nunca entendesse. O terrível oráculo da noite branca de quarto crescente, com o qual começara todo aquele infortúnio, era tudo o que lhe restava para suportar o insuportável.

- Sahti? - Ruju mexia-se inquieta no meio dos sonhos provocados pela febre, como se tivesse lido parte dos pensamentos da daia. - Sahti? Onde estás? Estás aqui?

Ela levantou-se.

- Chiu! Não é nada. Nada! - A daia aproximou-se do leito da rapariga. - A Sahti vai voltar para nós em breve. E tu tens de dormir e beber para ficares boa. Prometes-me isso?

A cabeça de Ruju rolou sem forças para o lado. As faces já não estavam tão pálidas, e a daia via o seu queixo, outrora suave, a ficar assustadoramente bicudo. Além disso, havia aquele cheiro pestilento que envenenava todo o quarto e que, apesar de todas as defumações, se obstinava em não sair. Era como se a vida estivesse a fugir daquele corpo de criança que há alguns dias atrás tinha rido, brincado e cantado. As coisas pareciam graves. Muito graves até. Ela não precisava de Tunbee para saber isso. A daia experimentava isso com todos os seus sentidos. Se, em breve, não acontecesse um milagre e a febre baixasse, Ruju morreria. A daia sabia que era assim mesmo, embora, até então, se tivesse convencido de que a crise passaria.

Ninguém conseguia escapar à morte. Nem à sua nem à daqueles que estavam mais perto do seu coração. Muitos já lhe tinham repetido isso. Entretanto, era novamente a sua vez. O mesmo medo pesado que sentira junto ao leito de morte da sua própria filha deixava-a agora sem respiração. Primeiro Nuia e, hoje, a filha da filha. Que terrível e desumana repetição! Porém, o Senhor da Vida e da Morte era rígido e orgulhoso, não se deixava influenciar por orações e súplicas. Ela não podia fazer nada, mas mesmo assim atirou-se-lhe aos pés. Os lábios mexiam-se numa prece silenciosa:
- Ela não, Apedenuik. Ela não! Leva-me, se quiseres. Já vivi o suficiente.

O choro junto à cama transformou-se num som poderoso.

- Não te podes ir embora, Ruju. Estás a ouvir? - proferia a daia. Também tu, não! Não podes simplesmente morrer e deixar-me sozinha.

Ruju olhava-a com olhos febris, mas ela não viu.

- Sahti? Sahti? A voz esmoreceu.

Desesperada, a daia inclinou-se sobre o leito e tomou nos braços o corpo quente.

Após o banquete, um grupo de soldados permaneceu secretamente na aldeia depois de comer antílope e gazela assados e se encharcar de cerveja de figo. Vinha a calhar que a maioria dos homens tivesse ido para as minas sob liderança de Golo, tendo os soldados apenas que contar com idosos e crianças. No seu regresso à cidadela, o destacamento de caça ficou a olhar para eles de boca aberta.

A colónia situava-se a jusante do Nilo, numa ligeira elevação de terreno que a protegia das inundações do grande rio. Logo na margem, começavam as temíveis terras de aluvião, para as quais os soldados nem olhavam, fazendo o mesmo com as pastagens que chegavam até ao limite do deserto. Poucos animais ali pastavam. Os restantes berravam há muito nos estábulos provisoriamente erigidos na cidadela de Abu Resi, tendo sido reunidos para ser transportados para Uaset, onde iriam aumentar os enormes rebanhos do Faraó.

Era uma digressão a um mundo estranho, se bem que, como na sua terra, também fosse construído com os tijolos de lama seca do Nilo. Todavia, era também um mundo proibido. Há séculos que existia uma lei rígida, a qual dizia que nenhum cuxita tinha autorização para entrar na cidadela, e I pi ordenara ainda aos seus homens que evitassem qualquer contacto com os nativos. No entanto, a atracção do proibido tornava o empreendimento muito mais aliciante e, se assim não fosse, teriam passado os dias a fantasiar.

Agora que estavam tão perto do seu objectivo, não lhes agradava que as ruas estivessem tão vazias e que não se visse a luz de lamparinas de azeite na maioria das casas. Não se ouvia uma única voz de homem vinda dos pátios interiores. Os soldados ficaram de mau humor.

Finalmente, pararam.

- Onde diabo estão as mulheres cuxitas? - O chefe da matilha, um  subcomandante franzino de olhos brilhantes, a quem toda a companhia dava o nome de «Chacal», pois gostava de matar em bando, girou sobre si próprio. Tinham trazido archotes para encontrar melhor o caminho. Uma luz vacilante que, soprada pela brisa nocturna, formava sombras estranhas.

- Será que lutámos contra a areia e a tempestade para agora ficarmos perante portas fechadas? Venham cá para fora, suas pombinhas negras! Nós vamos mostrar-vos o que é um homem a sério!

- Quer dizer que vocês são tão delicadas que até nos sentimos nos braços de Hathor - disse, entusiasmado, o seu companheiro gordo que tentava não arfar de desejo.

- Não é por acaso que se diz que uma única de vocês substitui um harém cheio de belas mulheres de Kemet.

- Por vezes, a verdade ultrapassa até os sonhos mais doces!

Risos ébrios. A tensão crescia e o desejo ainda mais. Continuaram a caminhar cheios de impaciência e, a cada passo, mais libidinosos. Um gato

coxo que lhes apareceu no caminho, e que não conseguiu fugir com a rapidez necessária, foi pontapeado até deixar de se mexer. Dois cabritos, que estavam presos à porta de uma casa, foram estripados e ali largados. O sangue quente dos animais aumentou a embriaguez, se bem que alguns dos homens estivessem a recuperar a lucidez a pouco e pouco.

- O comandante enforca-nos a todos se nos apanha aqui - sussurrou um jovem soldado que cumpria a sua primeira missão em terras estranhas e

estava agora amargamente arrependido por se ter deixado convencer. O seu

andar era hesitante, por causa do medo ou porque bebera demasiada cerveja de figo, e as pernas não lhe obedeciam.

O homem que ia ao seu lado, pouco mais velho do que ele e que parecia estar nas mesmas condições, assentiu com a cabeça.

- O meu irmão mais velho contou-me o que acontece aos soldados que contrariam as suas ordens. Não achas que será melhor voltarmos rapidamente para a cidadela?

- Ah, vá lá, rapaz! - tranquilizou-o um terceiro. - Quando te meteres profundamente num destes estreitos potes de mel, prometo-te que as tuas preocupações desaparecerão.

A resistência começou a diminuir. Além disso, não havia como escapar. Tinham ido juntos e juntos viveriam as aventuras daquela noite.

Subitamente, o Chacal mandou-os parar. A casa que estava agora à sua frente era maior e estava em melhores condições do que aquelas que a rodeavam. Uma construção quase mais imponente do que os edifícios princi, pais e parecia ter sido erigida há pouco tempo.

- Não ouvem nada? - Ele encostou o ouvido à porta. - Lá dentro

ouve-se o espanejar de passarinhos. Sabem uma coisa, homens? Se elas não

querem vir voluntariamente até nós, então vamos até elas. - Aproximou a tocha da porta até lhe pegar fogo. Rapidamente irromperam chamas da madeira seca. - Cá para fora, pombinhas! - gritou ele a plenos pulmões. Senão, assamo-las vivas!
A porta foi hesitantemente aberta por dentro. Duas mulheres e uma menina protegiam o rosto com lenços coloridos.

Muito bem! - Um sorriso de contentamento. - Por que razão não

vieram logo? - Ele afastou a criança para o lado. - Desaparece, pequena! ordenou ele amigavelmente. - A tua mãe não vai precisar de ti agora.

Corre, miúda! - gritou Heua cheia de medo, deixando cair o lenço.

Evidenciou-se um grande rosto cheio de cicatrizes dominado por uns olhos muito abertos. Desiludido, o soldado afastou-se dela. - Corre para casa da daia o mais depressa que puderes e diz-lhe que os soldados...

Um poderoso soco no estômago silenciou-a. com um grito de dor, sucumbiu. A filha aproveitou a oportunidade para fugir por entre as pernas dos soldados e desaparecer na escuridão.

E se ela conseguir, de facto, trazer a ajuda de alguns homens fortes

que nos atirem todos pelos ares?

Que venham! E se trouxerem com eles irmãs e tias bonitas, não será

nada mau.

O Chacal arrancou o véu à segunda mulher e assobiou entre dentes, com ar aprovador, quando viu o seu rosto. Depois, virou-se para trás, porque os outros não estavam a tomar providências para se acalmar, até que um soldado com mais presença de espírito apagou o fogo com a água do

balde.

De que é que estão à espera? Ainda não viram como estão a correr as

coisas? Um bocado de fumo e todos fogem como ratos. Nesse caso, procurem as vossas próprias presas! Se quiserem, agarrem a mais feia. Por mim, podem ficar com ela. - Passou por cima de Heua, que estava ainda no chão cheia de dores. - Mas esta é uma pombinha muito ao meu gosto.

Bruscamente, tomou a mulher nos braços e apertou-a. A luz da sua tocha iluminou a cabeça de cobra que tinha no antebraço direito e ele hesitou por breves instantes.

Um escarro de Nabu atingiu-o entre as sobrancelhas.

Então, não és uma pombinha. És uma gata selvagem! - Limpou o

cuspo com as costas das mãos. Os olhos brilhavam de desejo. - Ainda bem, porque assim o prazer é ainda maior. Mal podes esperar que eu te amanse. Então, vem! Não me importo mesmo nada!

Fê-la recuar para o interior da casa até ela ficar encostada a uma parede e não poder esquivar-se. O seu peito subia e descia com violência. Estava demasiado escuro para ver a expressão do seu rosto, mas suficientemente claro para reconhecer os contornos do seu corpo contra a parede fina. Primeiro, o Chacal meteu-se rudemente entre as suas pernas, mas depois pareceu mudar de ideias.

No chão! - ordenou ele. - Ou queres sentir o fio da minha faca?

Para seu espanto, ela obedeceu tão depressa e com tanta prontidão que por uns instantes perguntou a si próprio se a mulher compreenderia a sua língua. Era indiferente! Agora havia coisas mais importantes para fazer. Caiu sobre ela e rasgou-lhe o vestido aos pedaços. Ansioso, atirou-se às coxas e seios e depois quis penetrá-la.

Ela mantinha-se ali deitada como uma morta e não se mexia.

As mãos dele revolviam a sua carne, mas mesmo assim não estava a conseguir uma verdadeira erecção. Muito pelo contrário! O seu até então fiel servidor do desejo permaneceu estranhamente indeciso, como se nunca tivesse possuído uma mulher. Ela tinha as coxas abertas, mas o homem não conseguia chegar ao alvo.

- Mexe-te! - ordenou o Chacal, ofegante e suando cada vez mais, furioso com ela, mas ainda mais irado com o seu próprio fracasso. - Defende-te ou faz, pelo menos, alguma coisa! Ou pensas que desejo uma múmia?

Nenhuma reacção.

- És surda? - Por duas vezes a atingiu fortemente no rosto, mas foi tão rápido que ela nem teve oportunidade de se defender. A cabeça bateu no chão, mas a mulher não soltou um gemido ou grito abafado, o que o pôs ainda mais furioso. - Talvez precises de um uniforme de gala para te mexeres.

Na sua ira, era-lhe completamente indiferente se ela o entendia ou não. A linguagem dos seus punhos chamá-la-ia à razão. Ele queria possuí-la, cos diabos, nem que fosse preciso bater-lhe.

Uma dor perfurante fê-lo parar. Só uma vez na vida sentira algo de semelhante: ao ser picado por um escorpião que quase o levara à morte.

- Sua bruxa! - Cego de raiva, desferiu um golpe. - O que é que fizeste? - Parecia que todo o seu corpo se incendiara. Deixou-se cair para o lado, agarrou no pénis com ambas as mãos, mas isso não lhe proporcionou qualquer alívio. - Fala! O que é que me fizeste?

Estava demasiado ocupado com a sua dor para perceber o que se passava atrás de si. Mais pessoas tinham entrado na casa: muitos homens e soldados que não pertenciam ao seu bando. Só quando uma mão o agarrou pelo ombro e o puxou para trás, como se lhe quisesse arrancar a articulação, é que reparou que caíra numa armadilha. Por um breve instante, esqueceu a dor, pois sentiu a voz do comandante como se fosse uma chicotada.

- Foi isto que aprendeste no meu exército? É assim que cumpres as minhas ordens?

- Nós só queríamos...

- Amarrem-no!

Dois homens puseram-no de pé, mas mal se conseguia aguentar nas pernas.

- Esta cobra de mulher lançou-me um feitiço! - gritou ele, indignado. - Um veneno, uma magia. Quem sabe o que me preparou. Só ela tem a culpa de eu...
- Façam-no calar!

Dois socos que lhe desfizeram o queixo. Cambaleou e caiu para a frente.

- Amarrem-no ao burro que está lá fora para que não o percamos pelo caminho! - A voz de Ipi parecia gelo. - E depois tratem dos companheiros dele. Por cada um que fugir, paga um de vocês. Fui claro?

- Às ordens, comandante.

Saíram todos para a rua. Apenas dois soldados ficaram em sentido na ombreira da porta.

- E a mulher, comandante? - inquiriu um deles. - O que vai acontecer com ela?

Nabu estava acocorada junto à parede e não se mexia.

- Podemos usá-los como testemunhas? - perguntou Ipi friamente.

- Não, comandante, não podemos - recordou de imediato o segundo soldado. - Deseja que os mande calar imediatamente?

Lá fora ouviam-se muitas vozes aos gritos.

- Ela está lá dentro - foi o grito emitido por uma mulher. - Ela ainda deve estar lá dentro! Tenho a certeza!

Provavelmente, metade da aldeia já se juntara ali, o que não estava nos planos de Ipi. Hesitou uns instantes. O mais importante era uma retirada rápida e ordeira. Tudo o resto seria feito mais tarde.

- Levamo-la connosco - ordenou ele. - Prendam-na!

- Para a cidadela? - perguntou com espanto um dos soldados. Via-se claramente na sua expressão que achava muito estranha aquela decisão.

- Para a cidadela! - reforçou Ipi, claramente impaciente, como se aquela ordem não passasse de mera rotina e todas as perguntas fossem supérfluas. - De que estão à espera?

Nabu começou a agredir todos os que estavam à sua volta, quando os soldados a levantaram. Um sentiu os dentes a enterrarem-se-lhe na mão, o outro levou um vigoroso pontapé no baixo-ventre que o atirou ao ar. Por fim, os soldados conseguiram subjugá-la. Amordaçaram-na, amarraram-lhe as mãos atrás das costas e apertaram-lhe tanto as canelas que ela mal conseguia andar. Estava seminua, a pálpebra direita muito inchada, e sangrava de diversas feridas, mas mantinha-se ali, orgulhosa e de cabeça levantada, com o porte de uma rainha.

- Ela, de facto, parece ser perigosa. - Ipi observou a prisioneira com uma ligeira repulsa, que cresceu depois de ter descoberto a tatuagem que tinha no braço. - Mantenham a mulher serpente debaixo de olho, senão, estarão em perigo! Um animal selvagem precisa de tratamento especial. Vamos!

Quando abandonaram a casa e se alinharam com os outros soldados, várias crianças e mulheres recuaram; entre elas encontrava-se Heua, que, entretanto, acordara do seu desmaio. De qualquer modo, colocou a mão sobre a boca para abafar o grito que soltou quando viu o estado em que se encontrava a sua rival, e os traços do seu rosto revelaram algo que parecia quase compaixão.

Apenas uma mulher não mostrou a menor intenção de libertar o caminho. Uma mulher idosa, de nariz largo e cabelos brancos, que ali estava ofegante como se tivesse vindo a correr. Fixou a prisioneira durante algum tempo, parecendo não se cansar de olhar para ela. De repente, pareceu mudar de ideias. Num longo arco, cuspiu para os soldados, retirou do pescoço um longo colar no qual estavam enfiadas inúmeras conchas de caracol e com ele desenhou no ar figuras misteriosas. Seguidamente, começou numa cantilena cujo tom ia subindo e que tinha um carácter ameaçador.

Os soldados trocaram um olhar desconfortável entre si. A maioria teria preferido sair dali a correr, mas ninguém ousou. Até Ipi parecia enfeitiçado, não se mexendo nem se irritando.

Da mesma maneira abrupta como tinha começado, a velha parou.

Pareceu voltar a si e manteve a cabeça caída, continuando a impedir o regresso dos soldados do faraó. Porém, antes de Ipi poder determinar qual seria o seu destino, foi subitamente engolida pela escuridão.

De acordo com os desejos do homem da longínqua Kepni, tinham levado a rapariga do deserto para um dos quartos da cidadela de Ameni. O quarto era pequeno e não estava especialmente limpo. Quando Namiz a ia ver, encontrava sempre, para seu espanto, o ordenança do comandante que a lavava e secava, cuidando para que ela bebesse uma quantidade suficiente de líquidos e, em pequenos goles, dava-lhe a beber o caldo de carne quente para que rapidamente recuperasse as forças. Além disso, parecia ser quase doloroso àquele homem de mãos grosseiras, que, segundo parecia, não lidava suave e cautelosamente apenas com os pequenos rebentos de plantas, ser observado na prática daquele acto pouco comum, mas felizmente habituou-se e pareceu incluir Namiz numa espécie de confiança cúmplice.

Lá de baixo ouviam-se risos e berros, e a brisa nocturna fazia entrar pela janela o cheiro a carne assada. A maior parte dos soldados já estava bêbeda, e decerto não havia um único que ainda tivesse espaço no estômago para mais uma dentada. Pouco antes, o comandante mandara sair subitamente alguns homens que ainda conseguiam ter-se de pé. Namiz teria gostado muito de saber qual a sua intenção, mas é claro que Ipi não o informou e, vendo bem as coisas, ele não tinha nada a ver com isso. Fazia melhor em pensar em si próprio, pois a caçada e banquete tinham finalmente terminado e ao nascer do Sol poderia retomar as suas próprias tarefas.

- A ferida está a sarar mais depressa do que se pensava. Até o inchaço está a reduzir lentamente. - Antef abafava a voz para a pequenina não acordar. - De qualquer maneira, vai ficar com uma cicatriz.

- Ela já disse alguma coisa?

-Já não grita e reage quando a tentamos acalmar.

- Que coisa estranha é essa que ela traz ao peito? - inquiriu Namiz

- Um amuleto? Quem sabe quais são as tradições dos Cuxitas! Mas ela não deixa que lho tiremos. Até a dormir o agarra com força.

- Tu salvaste-lhe a vida - afirmou Namiz e olhou com ternura o magro rosto da criança de pálpebras cerradas, sob as quais as inquietas pupilas se movimentavam para cá e para lá. Aquela terna criatura devia ser protegida por um bom espírito. Caso contrário, nunca teria sobrevivido à tempestade de areia nem à mordedura da serpente. - O que importa uma cicatriz? Ou um saco estranho que ela não quer largar a preço algum? Sem a sua natureza corajosa e, sobretudo, sem o teu antídoto, as hienas já a teriam comido há muito. - Fez uma pequena pausa. - O comandante sabe realmente onde passas o teu tempo? - perguntou ele, cuidadoso.

- Desde que faça o meu trabalho, ele não terá nada a opor. Além do mais, não fui eu que arranjei o antídoto, mas sim a Tama. - Antef afastou cautelosamente o cabelo molhado da testa da criança. - Insistiu para que ela tomasse um poderoso remédio contra as víboras venenosas. Sem isso, ela nunca me teria deixado partir.

- Tama! É a tua mulher?

- E que mulher! Pagou muito dinheiro pelo remédio. Tanto que me zanguei com ela. Mas foi-lhe completamente indiferente. A Tama faz sempre o que quer e exigiu que eu voltasse são e salvo para ela. Precisa de mim. Pelo menos, é o que diz.

- Isso soa bem. - Namiz riu-se. - Deduzo que não têm filhos.

- A Tama já esteve grávida três vezes, mas sempre... - Antef calou-se.

O brilho da lamparina de azeite mostrava um rosto escuro e triste. - Por

vezes, pensei que ela não iria aguentar, mas felizmente enganei-me. E tu? Tens filhos?

- Não - retorquiu Namiz, talvez um pouco depressa de mais.

O que interessava aos outros que, há muitos anos, na longínqua Kepni tivesse vindo ao mundo um rapazinho de caracóis negros e olhos verdes ipie, entretanto, já devia ser um homem? Tinha-o visto poucas vezes, bem cono à bela e apaixonada mãe do rapaz, que ainda hoje abraçava em sonhos. Eram noites boas. Nas piores, era torturado pelas imagens de uma

mulher desesperada e de uma criança a chorar, esperando pelo regresso de

um pai que nunca mais poderia regressar a casa, pois não queria pôr em perigo a sua vida e a da família.

Pensamentos e recordações que ainda doíam e não se adequavam àquela última noite na cidadela. Além disso, precisava das suas forças para o tempo que ia passar em Sarras e que seria, decerto, cansativo. Por isso, já deveria estar a dormir há muito tempo. Contudo, gostava de conversar com aquele homem que, de outro modo, se mantinha em silêncio, e cujos pensamentos eram tão fáceis de ler como um papiro perfeitamente escrito.

- É provável que a tua Tama se alegrasse muitíssimo com uma menina. Amá-la-ia como se fosse sua, mesmo que tivesse a pele escura, viesse do Sul e não conseguisse perceber uma única palavra daquilo que vocês dizem. É por isso que passas aqui tanto tempo?

Antef evitou o olhar do intendente. Por uns instantes, o quarto ficou tão silencioso que apenas se conseguia ouvir a respiração da pequenina.

- Não é verdade que as crianças aprendem depressa? - indagou ele, por fim.

- E se, entretanto, temos saudades delas? A criança não vai cair do céu como uma tâmara madura! E se aqui perto existirem uma mãe e um pai que choram por ela?

- Não existem.

- Como podes ter tanta certeza? - indagou Namiz, espantado.

- Porque, se assim fosse, eu não a teria encontrado no meio do deserto. Quem ama os filhos protege-os e não os manda para a morte. - Parecia definitivo.

A determinação de Antef obrigou Namiz a respeitá-lo. Espantoso como tanta coisa se escondia por trás daquela testa alta! Estava ansioso por saber como se desenrolaria o plano aventureiro do ordenança de Ipi, pois, até agora, só dificilmente imaginava aquele comandante tenebroso a gostar suficientemente de uma criança para permitir que ele a levasse da Terra do Ouro para Uaset.

- Então, propuseste-te uma grande tarefa - afirmou Namiz, virando-se para sair.

- Hathor e ísis estarão comigo - exclamou Antef. - A Tama está sempre a dizer que, se lhe pedirmos, Hathor ajuda todos os amantes, enquanto ísis trata do bem da criança. E em toda a minha vida ainda não tive razão para duvidar das palavras da minha Tama.

Quando as sombras se tornaram mais longas e o ar já não tremia por causa do calor, nem mais uma mão se mexeu em toda a mina. O comandante Ameni, que estava naquele momento ocupado a iniciar na sua tarefa dois futuros «intendentes do ouro» - soldados que sabiam ler e escrever e que, a partir daquela altura, tinham a tarefa de assentar em pequenos quadros de barro todas as descobertas de ouro - interrompeu, estupefacto, o discurso.
Os outros dois homens fizeram o mesmo.

Deixaram de se ouvir os ruídos das azenhas, o crepitante amontoar das pedras moídas nas chanfraduras lisas e o regular murmúrio da água. Nem um som. Em vez disso, o céu claro e limpo sobre eles e a sua insuportável claridade que paralisava todos os seres vivos.

- O que se passa aqui? Por que razão não está ninguém a trabalhar? Como sempre, Ameni virou-se primeiro para Golo, que o olhava com

animosidade. Fora combinado com Namiz que o futuro chefe ainda ficaria até ao fim da semana, voltando então para as suas manadas. Contudo, Golo sustentava agora a lança e o seu largo punhal de guerra enfeitado com pérolas, no qual as suas mulheres tinham trabalhado durante vários Verões, e parecia estar armado para lutar, não para se ir embora.

Atrás dele, encontravam-se os mineiros cuxitas, tão impassíveis como ele. Quando se puseram em movimento, após alguns instantes que pareciam uma eternidade, Ameni viu que tinham os rostos pintados com ocre, máscaras ameaçadoras e rígidas, e o comandante sentiu um aperto na garganta.

Ocre significa guerra. Guerra contra Kemet.

Guerra contra ele.

Como se tivesse lido os seus pensamentos, Golo levantou a lança, fez

um gesto largo e lançou-a. Enterrou-se no chão e ficou a vibrar a um dedo do pé esquerdo de Ameni.

- Deve haver um mal-entendido - disse Ameni, inseguro e mal ousando olhar para baixo, sentindo-se de repente à mercê daqueles homens.

- É com certeza um mal-entendido.

Não obteve resposta, o que fez crescer o seu mal-estar. Os dois «intendentes do ouro», que estavam a seu lado, tinham dado instintivamente dois pissos atrás, como se ele exalasse um cheiro desagradável. Encontravam-se também desarmados.

Procurando ajuda, olhou na direcção de Namiz, que fora com dois soldados até ao rio para inspeccionar o embarcadouro. De manhã, enviara os restantes homens com alguns burros para ir buscar lenha rio acima e, mesmo que tivessem chegado a horas, o número de nativos suplantava-os amplamente.

Ameni tentou uma segunda vez. Ao fim e ao cabo, tinha largos anos de

experiência com aquela gente.

- Temos de falar - disse ele quase em tom de súplica. - Diz-me o que se passou. Decerto encontraremos uma solução.

Em conjunto, os cuxitas começaram a dar estalos com a língua. Um ruído perturbador, aparentemente provocado pelos lábios e pelas línguas, que trespassava todo o corpo de Ameni, fazendo lembrar o som de um chicote sobre pedra. Os seus troncos oscilavam ritmicamente para trás e para a frente, uma grande onda castanha que só de olhar o estonteava. As coxas assumiram o movimento do tronco e o ritmo aumentou. Ameaçadoramente, os homens avançavam a zona dos órgãos genitais na sua direcção para logo a seguir a recuarem.

Pelo canto do olho, Ameni viu que parte dos homens que haviam ido recolher lenha já regressara, mas não tinham a menor intenção de o ajudar, observando com o mesmo espanto aquele espectáculo. Entretanto, os estalos com a língua haviam-se transformado num silvo perigoso e simultaneamente os ventres dos cuxitas tinham passado a fazer movimentos circulares que lhe lembravam uma dança de répteis perigosos.

Distraiu-se por alguns instantes, por isso todo ele estremeceu quando uma segunda lança se enterrou na areia ao lado da sua sandália direita.

- Namiz! - gritou ele, cada vez mais amedrontado. - Reúne todos os teus homens e vem cá imediatamente!

Os guerreiros ocres, que continuavam a movimentar-se, pareciam estar a dizer alguma coisa que ele não percebia. Era uma única palavra que repetiam continuamente em coro, um som que lhe era cada vez mais insuportável aos ouvidos.

De súbito, entendeu o que era.

«Mulheres!» Era isso que gritavam no seu estranho dialecto, cuja reduzida aprendizagem lhe custara longos e esforçados meses. «Mulheres, mulheres, mulheres!»

O medo que sentia tornou-lhe o corpo tenso e duro.

Deviam ter sabido do incidente ocorrido na aldeia. Penetrar sozinho na casa de uma cuxita era um enorme ultraje, possuir as mulheres à força era um crime gravíssimo que apenas poderia ser limpo com sangue. Que importância tinha o facto de ele não ter estado lá e haver condenado duramente a fuga dos soldados? Encontrava-se agora à frente deles, responsável pelos homens de Kemet que tinham cometido esses crimes.

Cada movimento parecia um risco. Ameni ousou, mesmo assim, virar ligeiramente a cabeça.

- De que estão à espera? - gritou ele na direcção dos soldados que tinham vagarosamente acordado da sua estupefacção e agarrado, por fim, em setas, lanças e arcos; assustou-se com a fraqueza da sua própria voz. - Não vêem o que se está a passar à vossa frente? É lógico que estes cuxitas enlouqueceram e vão atacar! Vão-nos matar a todos: a mim, a vocês, a todos nós...

Quando terminou, os soldados haviam largado as armas e começado a fugir, mas era tarde para Ameni. A terceira lança atravessou-lhe o pescoço e silenciou o comandante a meio da frase.

 

TERCEIRA HORA: AS GARRAS DE PACHET

Sahti gostava do homem com as mãos grandes, surpreendentemente protectoras, se bem que ela apenas pudesse adivinhar pela expressão do seu rosto o que ele queria dizer-lhe com aqueles sons estranhos. Gostava dos contactos suaves, estava grata por ele lhe trazer água, sopa e, mais tarde, outros alimentos, por ele a colocar sobre uma gamela para que urinasse e por lhe tratar atenciosamente das feridas. Na generalidade, sentia-se melhor e começou a interessar-se cada vez mais pelo que estava à sua volta. Observava pormenorizadamente o pequeno quarto onde se encontrava deitada, as paredes cruas e poeirentas, nas quais alguém secretamente desenhara imagens e símbolos, o pequeno quadrado que ficava sobre a sua cabeça, no qual caía a cambiante luz do Sol ou o luar pálido. Por vezes, empurrava para o lado a ligadura de linho e observava cuidadosamente a crosta que se formava sobre o buraco feito na coxa pela faca daquele homem. Mesmo assim, de vez em quando, parecia que o veneno da serpente ainda a possuía. Nessas alturas, a ferida ardia e pulsava, todo o corpo começava a doer e o medo frio do deserto regressava como um pesadelo.

A chorar, Sahti chamava por Ruju e pela daia para que viessem e a levassem para casa. Depois, lembrava-se de que Ruju ainda devia estar na casa do escorpião e que a daia não podia saber que a sua neta se encontrava ali. Além disso, tirara-lhe o saco com a garra de leão, o seu bem mais precioso, e em que mais ninguém podia tocar. Talvez a daia tivesse ficado tão furiosa que não a quisesse ver mais. Nunca mais.

A maior parte das vezes, Sahti adormecia a meio destes pensamentos horríveis, esgotada do choro e da dor, até uma voz ao lado da cama a acordar novamente. Todavia, naquela manhã não aparecera o homem das mãos grandes que lhe trazia água, caldo de carne e pão e manejava habilidosamente as longas tiras de linho adequadas à sua ferida. Viu aquele estranho de pernas pálidas que avistara em casa de seu pai. Sahti hesitou quando ele lhe dirigiu na sua língua, falando com cuidado, como se cada palavra fosse importante. Se bem que visse que tinha a testa coberta de uma transpiração fina e se apercebesse de como ele estava tenso, o seu tom de voz permaneceu calmo e amigável.

Desde o nascer do Sol, estava tudo lá fora assustadoramente silencioso, muito diferente dos outros dias em que se ouviam passos impacientes e os gritos dos soldados. Naquele dia, parecia que toda a cidadela sustivera a respiração. Aquele silêncio cortante não agradava a Sahti e subitamente ansiou pelos sons estridentes que antigamente tanto a tinham assustado. Além disso, estava alguma coisa a ser queimada lá em baixo no pátio. Conseguia cheirar o fogo e ouvia o seu crepitar funesto que parecia subir até ela e agredi-la.

Ele perguntou-lhe o seu nome e informou-a de que se chamava Namiz, facto que ela já conhecia, mas que manteve para si por boas razões. A sua sede de conhecimento sobre a aldeia e seus habitantes parecia inesgotável. Só quando ele começou a falar dos pais dela é que Sahti se retraiu sensivelmente.

- O meu pai chama-se Golo - recordou ela, atenta. Deveria acrescentar que não crescera junto dele e que, na realidade, não o conhecia muito bem? Ou teria ele já descoberto isso há muito?

- Golo? O futuro chefe? - inquiriu ele imediatamente como se não conseguisse compreender o que estava a ouvir. A pequena não precisava de saber que o velho chefe morrera há dois dias e que naquele momento não existia nenhum chefe na aldeia.

«Sim», esteve ela prestes a dizer, «esse é Golo, o homem a quem prometeste muito sal. Para os filhos dos seus filhos. Mas o meu pai não tem filhos. Nem mesmo da sua esposa preferida.»

- Ele pertence à Nabu. - A frase escapou-se-lhe antes de ter tempo para pensar melhor.

- Quem é a Nabu? - foi prontamente a questão seguinte. - A tua

mãe?

Sahti virou a cabeça para a parede e ficou calada.

- A minha mãe está morta - replicou finalmente, com o coração aos saltos e ansiando que ele não aprofundasse o assunto. - Há muito tempo.

Ouviu-se um ruído em frente à porta, e Namiz levantou-se para ver o que era. Lá fora, ouviu-o falar em sussurros com vários homens como se tivessem medo de ser ouvidos. Alguns minutos depois, quando ele regressou para junto dela, tinha o rosto corado e transpirava profusamente. Sentou-se cuidadosamente à beira da cama e pegou na conversa onde esta fora interrompida.

- Então, quem é a Nabu? É muito, muito importante.

Sahti pressentiu que o homem estava a dizer a verdade. Era importante para ele. Muito importante. Como poderia Sahti não corresponder ao seu desejo?

- O meu pai amava-a mais do que à vida. Teve-a como esposa por mais de dois Verões. Até hoje, todos lhe chamam apenas «a noiva».

- A «noiva»? Porquê?

- Porque ainda não tinha filhos. Filhos varões. Nem filhas. E a daia diz que nunca os irá ter.

- E quem é a daia?

- A daia é a daia - ripostou Sahti, perplexa. Nunca iria ficar satisfeito com as suas respostas? Quanto mais informações lhe dava, mais perguntas peculiares lhe fazia. - Desde sempre. Toda a gente da aldeia o sabe. Ela esperou um momento e procurou o olhar dele. - Também posso fazer

uma pergunta?

- Claro. - Parecia surpreendido, mas susteve o seu olhar. - Começa! Reuniu toda a sua coragem.

•- Sou uma prisioneira? - indagou suavemente. Namiz levou algum tempo a responder.

- Eu não lhe chamaria isso - disse ele por fim, ligeiramente embaraçado. - Como é que tu sabes o que isso é? Um prisioneiro?

- Pela daia. - A rapariga mostrava-se cada vez mais impaciente. Pensaria aquele homem que ela era parva só por ser mais nova do que Ruju?

- Mas sou obrigada a ficar aqui?

- Sim - ripostou ele num tom baixo e estranho que a rapariga não soube interpretar. - Acho que tens.

Namiz olhou para a janela como se esperasse uma confirmação da sua resposta.

Lá fora, uma única voz de homem cortou o silêncio.

«Aguçada como uma faca», pensou Sahti, encolhendo-se involuntariamente.

- E essa daia é a mãe da Nabu? - Ele virara-se novamente para ela, mas Sahti notou que o homem tinha todos os seus sentidos dirigidos lá pa-

ra fora.

- Não! - exclamou Sahti com um suspiro. - Claro que não. - Seria incapaz de perceber? - A daia até odeia a Nabu por esta possuir a força da serpente...

Os olhos do estranho estreitaram-se.

- Diz lá isso outra vez! - exigiu.

- O quê?

- O que acabaste de dizer. Aquilo da serpente.

- Eu só sei o que os outros dizem e aquilo que a daia me contou. O que é que ele queria dela? Sahti sentia-se confusa, a perna voltara a

doer-lhe e tinha imensas saudades de casa. Teria preferido mandá-lo embo-

ra, virar-se para a parede e não proferir nem mais uma palavra. Ele pareceu sentir o seu tormento, mas a sua curiosidade ainda não chegara ao fim.

- Então, deixa-me que faça a pergunta de outra maneira: essa Nabu traz duas cobras tatuadas nos braços? É verdade?

Foi atingida por uma enorme debilidade, quase tão escura e pesada como a que sentira nos primeiros dias depois da fuga para o deserto, e Sahti afundou-se num sono sem sonhos.

O sol caía inexorável sobre o campo de manobras, mas ninguém ousava mexer-se. Logo de manhã, depois de um parco pequeno-almoço, o comandante supremo Ipi mandara formar todos os soldados da cidadela, bem como todos os homens da sua companhia. Soldados, subcomandantes e comandantes estavam ali, desde então, em formatura, banhados em suor e quase a desmaiar devido ao calor e à sede. À sua frente foram colocadas duas grandes gaiolas de madeira que tinham sido originalmente construídas para transportar o gado até Uaset. Na da esquerda, encontravam-se os soldados que tinham assaltado a aldeia, presos com correntes como se de gado se tratasse. Na da direita, os cuxitas, também acorrentados. Uma fogueira crepitante, rodeada por pedaços de pedra, que o ordenança do comandante estava constantemente a alimentar com ramos secos, ardia em labaredas en tre as duas gaiolas. No meio da praça, fora reservada uma grande superfície lisa, onde, por ordem de Ipi, haviam sido enterradas duas estacas enormes.

Golo fora amarrado à da esquerda.

À da direita, o Chacal.

Ambos tinham sido chicoteados quase até à inconsciência, depois molhados com água fria e novamente açoitados. Ninguém se ocupara das suas feridas, às quais, entretanto, se tinham colado moscas negras, parecendo ilhas a movimentar-se em sangue a correr. Apenas as estacas os mantinham erectos. Os corpos estavam frouxos e sem forças. Aos seus pés, haviam sido colocados troncos secos de tamarindo e lenha.

Reinava uma calma opressiva na cidadela. O silêncio, o sopro da traição e da morte. Há muito que desaparecera a alegria da caçada e do banquete. Ipi, que estava de pé no meio dos postes, passeou atentamente o olhar por todo aquele cenário e, por fim, começou a falar. Ninguém o via há três dias, à excepção de Antef, e mesmo naquele momento parecia não ter pressa de pronunciar a sentença, pela qual todos esperavam.

- Esta noite, o Ameni pagou as suas dívidas. - A sua voz ressoava pela praça poeirenta. - Na verdade, um servidor fiel e digno do grande Sekenenré! Que este viva com saúde! - Nem uma palavra daquilo que, realmente, pensara do comandante. Mais uma vez se mostrava um mestre em estrutura linguística. - Abu Resi precisa agora de um novo comandante .para a cidadela e que só o faraó poderá nomear. Até que isso aconteça, e devido à autoridade do meu cargo, emposso como substituto Hori, de Uaset.

Uma sombra, entregou-lhe o chicote. Quase à laia de brincadeira, Ipi fê-lo estalar várias vezes na areia. Se bem que mais ninguém tivesse falado ou sequer ousado mexer-se, a praça pareceu ficar ainda mais silenciosa.

- Pois aqui estão os membros, que correm e agarram, cortam e matam e que, como já vimos, nunca mais poderão fazer mal. - Ipi pronunciara-se em voz baixa como se estivesse a falar consigo próprio. Subitamente começou aos berros. - Mas o que seriam vocês sem o coração que, sem escrúpulos, transforma a ordem em crime, se bem que deva estar em posição de entender as consequências temíveis do crime?

com dois saltos rápidos, aproximou-se do Chacal e chicoteou-lhe as costas já torturadas. Do mesmo modo se aproximou de Golo, com o qual se comportou da mesma maneira. Nem o soldado nem o cuxita gritaram, quando a pele de novo se dilacerou e o sangue começou a correr. Ambos se afundaram junto ao poste, mas o Chacal, que parecia estar fisicamente em pior estado, tombou mais do que Golo.

- Se a terra é invadida por uma epidemia mortal, existe apenas um meio para a banir: o fogo purificador. Só quando tudo o que suportar o germe da pestilência estiver completamente queimado é que poderá despontar uma nova vida.

com passos determinados, o comandante dirigiu-se à fogueira, retirou um pedaço de lenha a arder e virou-se para a gaiola onde estavam presos os soldados do faraó.

- Será que devo começar por vocês? - Comprovativamente, tomou o peso do pedaço de lenha. - Atirar com vocês para o deserto, Amenti, a terra vermelha do deus Set, expor-vos ao vento e à areia até morrerem de sede? Ou queimar-vos aqui já para retirar para sempre a maldade dos vossos corações?

Receosos, os homens recuaram até onde lhes permitia a exígua gaiola, perante o calor do fogo. Ipi virou-se para os cuxitas.

- E vocês? Devo deitar-vos fogo para que finalmente aprendam o significado de obediência e lealdade? - Também aqui se aproximaram perigosamente as labaredas do pedaço de lenha. - Ou isso não será ainda o suficiente? Será preciso que as vossas casas, gado, filhos e mulheres também acreditem, para que vocês demonstrem o respeito que devem ao divino faraó?

Não havia possibilidade de qualquer movimento na gaiola dos cuxitas. Os homens começaram a tossir e outros fixavam Ipi com os olhos esbugalhados de medo.

- Não será muito mais inteligente cortar o mal pela raiz, arrancando-o do coração apodrecido que o planeou? - O comandante Ipi estava agora junto de Chacal. Inclinou-se e colocou a madeira em fogo junto aos pés do prisioneiro. As chamas subiram  rapidamente,  envolvendo pés e pernas.

O grito lancinante saiu da garganta do homem. Depois, começou a soltar gemidos não menos penetrantes que pareciam não querer parar.

Desnorteados, os camaradas olhavam para ele e para a tortura que estava agora a suportar.

Ipi comportou-se como se não houvesse notado nada. Tinha acabado de se aproximar de Golo e olhava-o cheio de repugnância. Não havia dúvida de que o comandante iria dar-lhe o mesmo destino de Chacal. Todavia, no último momento, pressentiu um movimento ao seu lado. Era Namiz,

• ofegante e com o rosto vermelho e suado, que aparentemente tinha corrido demasiado depressa.

- O que queres? - exigiu Ipi.

- Chamar-te à razão - disse Namiz em voz baixa. - Preciso de falar-te com urgência.

- Agora?

- Agora.

- Sabes que estás a brincar com a tua vida?

- E tu com todas as nossas vidas - replicou o homem de Kepni. Se Ipi soubesse naquele instante da combinação secreta que fizera com

Golo, seria muito melhor nunca ter enchido os pulmões de ar. Mas, tal como estavam as coisas, talvez ainda se pudesse salvar. O sal que prometera aos Cuxitas encontrava-se ainda incólume nos armazéns de Abu Resi, e o trturado não estava em posição de o trair. Namiz aclarou vigorosamente a garganta para banir o mais pequeno vestígio de insegurança da sua voz.

- Duas notícias acabaram de chegar à cidadela. Uma é escrita e vem pessoalmente do faraó. Exige-nos que terminemos a expedição e que regressemos imediatamente a Uaset.

- Quais são as razões que ele invoca? Os Hicsos estão às portas da cidade? - perguntou cinicamente o comandante.

- Será que não chega uma ordem do grande Sekenenré para que imediatamente lhe obedeçamos?

Ipi ficou com o rosto tenso. Muito em breve se vingaria daquele estrangeiro.

- E a outra notícia? - sussurrou. - Vamos! Mas escolhe bem as pala-

vras.

- Vem dos nossos próprios emissários que acabaram de chegar da terceira catarata. O senhor de Kerma está decidido a expandir o seu reino. As suas

tropas são em grande número e já estão em marcha para jusante. Se não nos apressarmos, seremos apanhados.

- E depois? Sabemos como se luta.

- Não haverá o menor incidente aqui na Terra do Ouro! Foram ordens expressas do faraó. Já te esqueceste? Já é suficientemente grave o que está a acontecer agora.

Os gemidos do soldado que ardia tornavam-se cada vez mais insuportáveis. Até o comandante parecia já não conseguir deixar de o escutar. Ao seu vigoroso aceno de cabeça, Antef enterrou a lâmina caridosa no peito do homem que gemia. O soldado, a quem todos tinham chamado Chacal, caiu morto. O cheiro de carne humana queimada impestava o ar claro.

- Então, quero, pelo menos, levar até ao fim aquilo que deve ser cumprido.

Ipi inclinou-se para também transformar Golo numa tocha viva, mas Namiz agarrou-o firmemente pelo braço.

- Conheço um meio bem mais apropriado para o tornar inofensivo para sempre - propôs. - O velho chefe morreu e ele é o seu sucessor. Um tal sucessor que nunca mais ousará levantar uma mão contra nós. Juro-te pela minha vida.

- Por Ámon, qual é o meio?

- Reféns! A mulher serpente que trouxeste aqui para a cidadela é sua esposa e, ainda por cima, a rapariga que apanhámos no deserto é filha da mulher que ele mais amou. Se formos astutos, ele nunca mais na vida verá nenhuma delas.

O corpo nos seus braços era tão assustadoramente leve que quase o deixou cair. A daia estava contente por ninguém ter notado a sua agitação. Até perante Tunbee, que estava sempre a pedir para a acompanhar, permanecera impenetrável. Face àquilo que a esperava, não teria suportado a presença de mais ninguém. Ninguém podia nem devia retirar-lhe aquele último e mais difícil de todos os caminhos.

Ainda estava escuro quando a velha abriu o túmulo da sua neta morta que ficava bastante longe da aldeia, muito perto do porto de Abu Resi. Chegara ao seu objectivo ainda antes do amanhecer. Pousara cuidadosamente a sua leve carga e apreciou o que Tunbee preparara de acordo com as suas ordens. Desta vez, não havia o menor vestígio de desleixo, razão pela qual já ralhara inúmeras vezes com a sua ajudante. Tudo estava como devia ser: a cova, da profundidade certa, entre os outros amontoados de pedra e cuidadosamente forrada a esteiras de junco. O refrescante vento nocturno cobrira-a ligeiramente de areia, cristais minúsculos que lançavam um brilho dourado com os primeiros raios da manhã. À esquerda e à direita da sepultura viam-se dois enormes montes de pedras. Iriam cobrir a última morada de Ruju, impedindo que qualquer animal selvagem a tomasse como presa.

A daia baixou-se junto do pequeno cadáver e, depois de inspirar profundamente, retirou o pano que cobria o corpo. Durante o seu sono eterno, a rapariga nunca recuperara a sua expressão amorosa. O coração da daia apertou-se de dor, mas forçou-se a não desviar o olhar dos traços fisionómicos da criança que ainda espelhavam medo e terror, parecendo-lhe uma queixa surda.

Mas que mais poderia ter feito?

Desde tempos imemoriais que todas as raparigas chegadas à idade adulta tinham de passar por esse cerimonial, se não quisessem ser alvo da ira do todo-poderoso mundo dos espíritos que se vingavam sangrentamente de todos aqueles que os desafiavam, fossem homens ou mulheres. Sem honra, sem casamento, sem felicidade. Um destino do qual já protegera muitas raparigas nos seus inúmeros anos como guardiã da faca negra. O seu olhar possuía a sua firmeza, as mãos ainda não tinham perdido a habilidade e possuía mais experiência do que todas as outras juntas, sabendo exactamente a profundidade do corte. As dores eram inevitáveis, facto que conhecia tão bem como qualquer das outras mulheres que já tinham passado por aquele ritual, mas geralmente iam diminuindo a pouco e pouco, se se tratasse bem da ferida, se a candidata orasse em paz e, sobretudo, se não se levantasse extemporaneamente.

Mas mesmo assim a febre chegara, secreta e rapidamente como um ladrão na noite.

A daia tinha de admitir que não era a primeira vez que aquilo acontecia. Depois da noite da faca negra, era frequente as raparigas ficarem doentes, inconscientes durante bastante tempo ou até morrerem. Contudo, daquela vez não se tratava de uma rapariga qualquer, mas sim da sua neta. Como é que, apesar de todos os seus conhecimentos, a situação chegara tão longe? Teria retirado Ruju demasiado cedo da cabana do escorpião por pressentir males ameaçadores? Ou a força da garra de leão tê-la-ia abandonado para sempre?

Sentia a cabeça demasiado pesada e o coração demasiado triste para encontrar uma resposta. Além disso, lutara como uma verdadeira leoa para salvar a vida da criança e nenhum dos seus meios mais eficazes tinham feito fosse o que fosse pelas penas de Ruju. Nem o seu chá, de efeito comprovado, de frutos de balah-hava que apenas usava em casos muito graves, nem o puré de arbusto de juncos que, depois de queimados, desfazia em cinzas, acrescentando água e pequenas bolinhas de resina, para aumentar o apetite. Sacrificara todo o seu precioso incenso, bebera pó de pontas de corno com sangue de cabrito fresco, que também esfregara na base das costas da rapariga para afastar dela a praga e assim poder restabelecer-se, jejuara e orara durante dias a fio para apaziguar os deuses, mas tudo fora em vão.

Como última oferta, colocara na cabecita da morta um diadema que retirara do seu esconderijo. Adornada como uma pequena noiva, Ruju seria devolvida ao seio da terra. As lágrimas corriam pelas faces da daia que recomeçou a orar:

- Tu, Tu que consegues transformar a morte em vida com o Teu sopro, traz-me a sabedoria para descobrir a Tua verdade...

Murmurando, pegou na criança morta e levou-a para a sepultura. Naquele momento, a daia não hesitou e meteu-se dentro da cova. De cócoras, deitou Ruju sobre a esteira com o rosto virado para ocidente como se estivesse a dormir. Aos pés da morta tinha espalhado brinquedos, conchas, o pequeno tambor predilecto de Ruju que o trazia sempre consigo, bem como uma pequena paleta de cores feita de diorito para maquilhar os olhos e que a criança nunca chegara a utilizar. A daia endireitou mais uma vez a mortalha, que, na realidade, se destinava ao seu próprio funeral, e colocou-a pela última vez sobre o corpo definhado.

Foi profundamente difícil separar-se da neta, pois, de repente, sentiu-se possuída pela imagem antiga de umas outras exéquias: uma câmara funerária quadrada e gigantesca, ornada de placas de lápis-lazúli polido... o soberano morto deitado no seu leito sumptuoso... à sua volta as armas e uma grande quantidade de vasilhas de barro, de paredes finas, em vermelho e negro como a vida e a morte... rodeado dos seus animais, várias dúzias de servidores e ainda mais seguidores, todas as suas mulheres, as suas concubinas... no meio uma jovem, com nariz de asas largas e cabelo caído, que parece lutar em vão contra a força do veneno que ameaça puxá-la para a escuridão eterna...

Nessa altura, conseguira escapar à morte, pois nesse tempo tinha consigo o poderoso amuleto do leão e estava protegida pelas garras de Apedemak contra todos os perigos. Agora, depois de ter perdido irrecuperavelmente a garra, também ansiava por um fim rápido. De preferência, ter-se-ia deitado ao lado de Ruju e simplesmente deixado de respirar. No entanto, tarefas muito importantes esperavam ainda por ela, as quais mais ninguém poderia levar a cabo.

com as pernas rígidas saiu da sepultura, ajoelhou-se ao seu lado e começou a escavar com as próprias mãos. A areia caía sobre a mortalha colorida, sob a qual os membros de Ruju se tornavam cada vez menos visíveis, em cima da paleta, do tambor e do resto dos brinquedos. Era um trabalho cansativo, penoso e pouco habitual para a daia, mas era-lhe indiferente. Enquanto o realizava, caiu num estado entre a vigília e o sono que a ajudava a realizar com mais facilidade aquela tarefa tão triste. O cadáver depressa desapareceu sob as brilhantes camadas de areia. A seguir vinham as pedras. Acamou-as, uma a uma, até erigir a colina oval que cobria a sepultura, parecendo metade de um gigantesco ovo de avestruz. Passos, sons de animais e vozes arrancaram a daia ao seu sonho. Para não cegar, cerrou os olhos e levantou um braço contra a luz do Sol da manhã.

Uma caravana de gado e homens movimentava-se na direcção dos navios que estavam atracados, uma cadeia quase infindável de madeira de acácia que ainda exalava o odor adocicado típico daquela árvore. Alguns dos barcos estavam equipados com grandes gaiolas, nas quais seriam alojados os animais, veículos enormes que proporcionavam uma imagem forte e inexpugnável. Os dois primeiros pareciam diferentes: não eram navios de carga, mas sim barcos de um luxo como ela nunca vira até então. Em vez das gaiolas, cada um deles possuía duas coberturas arejadas e extraordinariamente espaçosas, feitas com armações de madeira e cobertas com esteiras e grandes lençóis de linho. Em ambos os lados da proa, estavam pintados enormes olhos coloridos, dos quais a daia imediatamente afastou o olhar para não ficar hipnotizada.

Decerto não se tratava dos simples barcos que os pescadores utilizavam! Todos os navios tinham uma vela quadrada com um mastro, muitos remos fortes e um casco em forma de foice, fortemente encurvado para não ficar preso nos temíveis bancos de areia do grande rio. Estavam ligados à margem por pranchas de passagem, e o gado percorria agora aquela ponte que oscilava ligeiramente. A daia continuou o seu trabalho, mas algo a levou a olhar diversas vezes para os acontecimentos perturbadores que estavam a decorrer na margem.

As companhias do faraó tinham claramente decidido partir e serviam-se sem qualquer vergonha dos cuxitas presos. Inúmeros homens da aldeia transportavam para bordo pesados sacos com pó de ouro, enquanto os soldados de Kemet os faziam movimentar à força de chicote. Outros iam carregados com enormes dentes de elefante, cujo peso fazia enterrar na areia os seus portadores, outros, ainda, gemiam até à margem sob enormes camadas de peles de animais ou sob o peso de cestos cheios de pedras preciosas.

Uma raiva acesa enchia o coração da velha, e a mão lutou com uma das pedras como se nunca mais a quisesse largar. «Deitam abaixo as nossas árvores», pensou ela, «para levar com rapidez pelo grande rio aquilo que nos roubaram e deixam a nossa terra vermelha a sangrar de inúmeras feridas, para retirar todo o ouro e pedras preciosas. Abatem os nossos animais ou então roubam-nos. Entram à força nas nossas casas e não têm em consideração a honra dos homens nem a das mulheres. Os primeiros não passam de escravos que têm de servir o faraó deles e as segundas só servem para satisfazer a sua luxúria.»

A testa começou a doer-lhe, pois sentia-se muito fraca e quase sem sentidos.

«As minhas conchas mágicas não podem fazer nada contra isso», pensou ela, irada. «Estou velha e cansada e tenho de sepultar uma pessoa querida. Como permites Tu que se comportem assim, Apedemak, Grande Leão do Sul, em vez de afundar com o Teu sopro poderoso esse povo de formigas?»

Agora, dois soldados arrastavam um homem acorrentado que mal conseguia aguentar-se de pé. Chegados à margem do rio, largaram-no e ele caiu como um saco molhado. Mantivera a cabeça inclinada para a frente para que não o reconhecessem, se bem que, desde o início, o seu porte lhe parecesse estranhamente familiar. Bastante tempo depois, quando se endireitou, ela viu que era Golo.

Que teriam feito com ele?

A terrível resposta apenas levou alguns instantes a chegar. Outros soldados empurravam uma mulher amordaçada, amarrada de tal maneira de mãos e pés que apenas conseguia dar passos minúsculos. Apesar das suas limitações, havia tanta revolta no seu corpo que tentava inutilmente libertar-se daquelas cadeias. Os homens pareciam divertir-se com os seus esforços: riam-se, empurravam-na e diziam piadas que enraiveciam ainda mais a prisioneira, pois ela parecia perceber perfeitamente o que eles diziam.

Num pestanejar, a daia entendeu que estavam a levar Nabu para o primeiro barco, perante os olhos de Golo, e que a rapariga que um homem de cabelo ralo trazia ao colo, caminhando apenas alguns passos atrás, era Sahti.

Começou a correr e a gritar com a pedra ainda na mão.

- Sahti - gritou ela. - Sahti! Devolvam-me imediatamente a minha menina, sua gente de Kemet. A filha de Nuia!

Golo pareceu acordar da sua letargia e começou a gritar como se o fizesse pela sua vida.

- Nabu! - gritou ele. - Não, Nabu!

O comandante Ipi, que até então seguira com satisfação os preparativos para o embarque, reconheceu a velha com o estranho colar de conchas, enquanto ela corria, gritando a plenos pulmões pela sua neta. Naquela noite funesta, havia-se colocado no caminho dele e dos seus homens, uma monstruosidade que ele nunca esqueceria. Agora, até tinha uma pedra na mão. Quereria atingir com ela os soldados do faraó?

Porém, tivesse o que tivesse em mente, daquela vez ele não lhe daria a oportunidade de o provocar.

Levantou o braço direito.

Os seus archeiros colocaram-se imediatamente em posição, e os soldados que estavam junto a Golo calaram-no com violentas bofetadas.

Entretanto, a daia já estava muito perto de Antef, que mal conseguia segurar a criança que se debatia selvaticamente.

- Daia! - gritou a pequena ao ver a avó aproximar-se cada vez mais, esticando os braços cheios de ansiedade. - Daia. Daia! A minha daia

- Preparar! - ordenou Ipi.

Poucos passos separavam agora a mulher da criança. Para seu grande espanto, a daia viu que Sahti trazia ao pescoço o seu saco de couro com o amuleto. Involuntariamente, abriu a mão e a pedra caiu na areia.

- Disparar! - berrou Ipi.

Uma seta perfurou o peito da leoa branca. Duas enterraram-se-lhe nas pernas. Ela tropeçou, desequilibrou-se, ainda a correr, e bateu violentamente com o rosto no chão.

Há dias que Sahti recusava qualquer tipo de alimento. Estava deitada, em silêncio, numa das espaçosas coberturas do segundo navio e nem sequer queria beber nada. Todavia, Namiz não se cansava de lhe abrir os lábios finos e, contra a vontade da rapariga, a obrigar a engolir pequenos goles de água.

- Se continuas assim, morres - dizia ele, preocupado. O rosto da menina já estava bastante magro e o corpo era só pele e osso. Para ver se ela comia, Namiz tinha pedido ao cozinheiro que confeccionasse taamiia, pequenas bolas de feijão cozido, cujo aroma alastrava por todo o navio e que ele ia passando por baixo do nariz, alternando com pão fresco. - Não queres provar um bocadinho, Sahti? Só um pouco?

Esta parecia não o ouvir e Namiz desejava que Antef, que tinha muito mais paciência do que ele, estivesse no seu lugar. No entanto, ele talvez não tivesse conseguido levar a cabo a tarefa. Todos os pedidos e ameaças não produziam qualquer efeito sobre a criança. A sua testa ligeiramente franzida deixava transparecer uma vontade inquebrantável. Contudo, a força de vontade não era o suficiente para a manter viva. Namiz decidiu agir, mesmo que isso lhe custasse.

À noite, quando o vento se levantou, trazendo consigo uma brisa refrescante, os dois primeiros barcos lançaram âncora um atrás do outro. Eram a vanguarda do resto da frota, pois não transportavam gado que era preciso estar continuamente a alimentar. Por conseguinte, conseguiam avançar um pouco mais depressa. A guarnição erigiu o acampamento nocturno na margem, junto de uma plantação de linho. As vozes dos homens enchiam a noite.

Quando teve a certeza de que o general Ipi terminara a sua refeição em paz, Namiz juntou-se-lhe. Ipi estava um pouco distante dos outros a aquecer as mãos numa fogueira. Como sempre, Antef encontrava-se perto do comandante, qual uma sombra silenciosa e deferente que olhava Namiz com uma expressão inquiridora e amedrontada, mas não ousava informar-se abertamente sobre a criança que estava no outro barco.

- Preciso da mulher serpente - começou Namiz sem rodeios. Tem de vir imediatamente comigo ao convés do segundo navio.

Nada mais obteve de Ipi do que um sopro desdenhoso.

- Provavelmente, não haverá homem nestes navios, para além de mim, que não a deseje, se bem que eu não entenda o que vocês vêem nessa negra que enterra as garras em todos os que se acercam dela. Tenho outras intenções em relação a ela, que só a mim dizem respeito. Como tal, ficará amarrada até chegarmos a Uaset.

- Não estás a perceber-me. - Namiz tentou dominar a sua crescente raiva. - Não é para mim. É para a criança. A Sahti morrerá, se não começar a alimentar-se. Precisa de alguém que possa falar com ela, usando a sua própria língua.

- É isso de uma pessoa que se vangloria de falar cuxita como um nativo? - contrapôs o comandante com ironia. - Diz-me lá, estrangeiro! Existem outros talentos de que te gabes falsamente?

Namiz semicerrou os olhos. Se explodisse agora, deitaria tudo a perder.

- Por favor! - pediu ele suavemente, tentando soar tão submisso quanto fosse necessário. - Apenas por uns instantes. A pequena é uma presa valiosa e tu sabes bem disso. - O seu tom ficou ligeiramente mais áspero. - Mas, é claro, que isso só acontecerá enquanto respirar.

Antef lançou-lhe um olhar de profundo agradecimento. Era evidente que também ele se preocupara com a criança nos dias anteriores. Ipi demorou algum tempo a pensar antes de dar uma resposta.

- Que não seja por minha culpa - declarou ele por fim. - De facto, gostaria de as entregar vivas ao faraó, mas o meu primeiro-oficial também vai. Se tocares na serpente negra com um dedo, ou se ela tiver a ousadia de tentar fugir, o teu crânio liso será espetado no mastro mais alto antes do nascer do Sol. Isso posso garantir-te!

Dois soldados e o oficial voltaram ao convés e retiraram Nabu de uma das duas cabinas na qual fora amarrada. Pela primeira vez, desde o momento da sua prisão, não tentou defender-se, deixando-se levar sem resistência pela prancha de madeira até à margem e depois pela outra que dava acesso a bordo do segundo navio.

Namiz mantinha-se colado à retaguarda do pequeno grupo, decidido a manter-se próximo. Reparou como ela estremeceu ao olhar para Sahti. Depois, estendeu as mãos amarradas na direcção de Namiz.

- Assim não consigo ajudá-la - disse.

Segundo parecia, já há muito que sabia que ele era o único que falava a sua língua

- Desamarra-a! - ordenou Namiz. - Despacha-te!

O oficial acatou a ordem de testa franzida. Nabu distendeu as articulações endurecidas e esfregou as palmas das mãos. As cordas tinham-lhe cortado a carne e deixado marcas ensanguentadas, das quais não se livraria tão cedo. Os soldados olhavam com uma expressão desconfortável para a prisioneira e depois para a menina magra e silenciosa que jazia na cama.

- Tenho de ficar a sós com ela - murmurou Nabu na direcção de Namiz, apalpando a testa da criança. Depois, com a mesma ternura, tocou-lhe no peito e afagou-o.

- Esperem lá fora! - exigiu Namiz. - Eu assegurar-me-ei do bom mdamento das coisas.

Os três homens hesitaram, mas finalmente obedeceram-lhe.

- Por que razão ela não come nada? - quis Namiz saber, aproximando-se com curiosidade. - Conheces o motivo?

- Perdeu a alma - afirmou Nabu. - Pura e simplesmente partiu quando foi obrigada a ver as vossas setas a matar a sua daia. - Afastou cuidadosamente para o lado as tigelas com os feijões já frios. - Isto matá-la-ia imediatamente. Tem de se começar com fruta cortada em pedaços muito pequenos ou com um caldo fino e bastante aguado. Tudo o resto será demasiado pesado para ela.

Nabu calou-se um momento.

- Melhor ainda seria leite quente com mel - prosseguiu. - E o ideal seriam os braços carinhosos de uma mãe.

Foi como se um sopro gelado tivesse invadido a cabina. Namiz foi obrigado a pensar no que Sahti lhe dissera sobre Nabu, a «noiva», e que a daia

tinha afirmado que nada mudaria.

- E quem é a daia - perguntou ele para mudar de assunto. Sahti não conseguira ou não quisera esclarecer esse tema. Talvez conseguisse finalmente saber de que se tratava.

- A avó da Sahti - retorquiu Nabu sem tirar os olhos da criança. Os seus dedos percorriam o corpo da menina como se fossem um bando de pássaros castanhos, mas evitaram sempre tocar no saco de pele. - A mulher que a criou desde o seu nascimento. Vocês mataram-na em frente desta criança.

O seu tom ficou subitamente mais agitado, quase irado. Ainda maior na a hostilidade manifestada pelos seus traços dominantes. Namiz apenas conseguia supor o que iria dentro dela. Todavia, tal como ele imaginava, aprendera a não o demonstrar.

- Mas a sua alma voltará? Peço-te que, se puderes, ajudes a pequena! A Sahti tem de viver.

Nabu levantou os ombros. À luz da tocha, o seu rosto parecia uma máscara de ouro negro que nem mesmo as feridas já quase saradas conseguiam desfigurar. A sua atitude não manifestava qualquer desamparo, indicando, ao invés, que eram outras forças que tomavam essa decisão.

- Deixa-nos sozinhas! - repetiu. - Vai entretanto até à balaustrada, olha para a água ou para o céu e pede ajuda aos teus poderosos deuses! Não podes fazer mais nada por Sahti!

Ela ficou a escutar os passos do homem a afastarem-se. Depois, virou-se para a criança que estava ainda de pálpebras cerradas. com muito cuidado, afastou o saco para o lado e teve o cuidado de apenas lhe tocar com as pontas dos dedos. Sentia a força que dele emanava sem querer saber do que se tratava. No entanto, tinha um pressentimento que lhe dizia não ser bom misturar dois poderes tão fortes.

- Estás a olhar para mim - murmurou ela -, mas não me queres ver, pois pensas que eu as odeio. A ti e à daia. Mas enganas-te. Eu amo-te, minha pequena criança silenciosa, e também amei aquela velha teimosa que era a tua daia.

Nabu virou-se ligeiramente para o lado e afastou o lençol fino que cobria a doente. Depois, retirou-lhe a camisa, inclinou-se sobre ela e esfregou © antebraço, onde tinha as tatuagens, por toda a pele de Sahti.

- Quando a serpente muda de pele assemelha-se a uma criança murmurou. - Quando uma criança chega à fase adulta, abandona o colo da mãe. A serpente saiu da sua pele, como a criança que está a sair do colo...

A perna ferida de Sahti começou a arder como se o veneno da cobra tivesse subitamente sido reactivado.

- As serpentes vivem eternamente, pois possuem a força da escamação; as pessoas têm de morrer porque não aprenderam a libertar-se da sua pele velha. - A voz de Nabu mudou, tornando-se áspera e sibilante. - Eu sou Nabai, a grande serpente. Morro e renasço. A minha força vive em ti. Regressa, alma, ao teu jovem corpo! Também tu vives eternamente e nunca morrerás!

A pele de Sahti começou a brilhar. Os membros estremeceram. Teria preferido livrar-se do peso que tinha em cima, mas Nabu manteve-a firmemente agarrada.

- Sabes como tudo começou? - Nabu parecia querer contar-lhe uma das velhas histórias, as quais Sahti nunca se cansava de escutar. - No início, uma mãe vivia com as suas duas filhas. A mãe deitou fora a sua pele e rejuvenesceu. A filha mais nova encontrou a pele velha junto à margem e voltou a colocá-la na mãe. Desde então, todas as pessoas morrem, pois não aprenderam a escamar-se. - Nabu elevou a voz. - Tira a tua pele, Sahti! Respira. Não podes fugir ao teu destino, tal como eu não posso fugir ao meu. Mas prometo-te que a tua hora chegará! Aí, tu e a daia vingar-se-ão de tudo o que vos fizeram.

Sahti continuava muda. Permanecia ali deitada, hirta como um cadáver, se bem que as cores já tivessem voltado às suas faces.

com dois dedos, Nabu abriu-lhe os lábios, inclinou-se sobre ela e soprou para dentro da boca de Sahti. A sua respiração era doce e quente e a menina bebeu-a sofregamente. Pouco a pouco, o sopro da vida ia enchendo Sahti.

Então, demasiado depressa, voltou o frio da noite, e Sahti voltou a sentir o peso da garra de leão sobre o peito.

Quando a rapariga abriu os olhos, viu que as mãos de Nabu já estavam novamente amarradas. Os soldados empurravam-na para fora do barco com tanta dureza e impaciência que Nabu já não conseguiu trocar um olhar com a rapariga.

Agora, só Namiz estava junto do seu leito. Fazia parte das gentes do faraó que ela odiava desde que a daia fora morta com as suas setas. Contudo, aquele homem continuava a ser diferente, mesmo que ela não conseguisse perceber a razão.

E, além disso, o único com quem conseguia conversar.

- Tenho fome - proferiu Sahti em voz baixa, evitando, por cautela, olhar para ele. - Gostaria de comer alguma coisa.

Todas as manhãs, o Sol banhava de ouro a margem do Nilo e, todas as noites, de cobre. O grande rio serpenteava poderosamente através do deserto, fluindo qual metal polido, quando o Sol subia e o calor se apoderava de tudo. Ainda existia o corte entre terra árida e fértil, feito de um modo tão exacto que parecia ter sido efectuado por uma régua celeste. No entanto, o verde oásis do rio alargava-se cada vez mais, comportava árvores e plantas ricas e de todas as espécies, se bem que a época das inundações ainda não tivesse chegado ao Kemet, a «terra negra».

À frente, na proa, estava o piloto que tinha por tarefa medir, com uma vara comprida e em intervalos regulares, a profundidade das águas para detectar bancos de areia e baixios que eram muito perigosos no estado actual do rio. A água fervilhava de peixe: percas azuis e brilhantes que eram pescadas e penduradas a secar em cordas, siluros prateados com o comprimento do braço de uma criança, e gigantescos peixes-gatos com bigodes finos e dourados, sendo cada um o suficiente para satisfazer o apetite a dez homens, se bem que todos a bordo afirmassem que estavam fartos da sua carne gordurosa, ansiando pela comida do seu país de que há muito não usufruíam.

Em torno dos navios circulavam agora águias-pesqueiras que se esforçavam por apanhar aquilo que a viagem trazia à superfície ou o lixo que era devolvido ao rio durante a maré cheia. Atrás, vinham bandos de aves aquáticas, enchendo o ar límpido com o som do seu bater de asas, uma onda clara que se tornava branca e desaparecia na direcção do Sol. Havia íbis escuros e claros com bicos que pareciam ganchos, gansos-marinhos que os soldados abatiam com gosto, pois, assados no espeto, eram uma delícia, e ainda patos de todas as espécies e em grande número. Sahti achava especialmente bonitos os pequenos papa-moscas com os seus longos bicos abertos e tão vermelhos que pareciam pedras preciosas reluzentes.

Namiz levantara as esteiras que protegiam a sua cabina do vento e do sol e passava horas a ver o impulso do barco sobre o grande rio, que estava permanentemente a abrir uma única corrente de água, cujas cores variavam segundo as alturas do dia: quase azul de madrugada, mais tarde de um verde quente e profundo, ou quase prateado ao crepúsculo. À noite, quando paravam para acampar na margem e preparar o jantar em várias fogueiras ateadas para o efeito, viam-se dezenas de pirilampos a subir e a descer nas moitas junto à margem.

Nabu raramente via Sahti e, quando isso acontecia, era sempre ao longe, não havendo oportunidade de trocar mais do que um olhar, um aceno de cabeça ou um pequeno sorriso que Sahti retribuía com algum acanhamento. Os sentimentos que experimentava em relação à esposa preferida do pai eram contraditórios: por um lado, puxava-a quase dolorosamente para a intimidade da sua terra natal e, desde aquela noite no seu leito de enferma, parecia ter a sua alma ainda nas mãos; por outro lado, o seu coração continuava cheio de um medo e desconfiança que cresciam continuamente quando via os soldados a olhar e a provocar Nabu. Sahti sentia-se então como se Nabu estivesse sempre a emitir um anátema, com o qual também cobrira Golo, que agora provavelmente cairia por terra, e Sahti virava-se de imediato, a fim de se proteger dele.

Reprimia qualquer pensamento sobre Ruju ou a daia. Se à noite lhe surgisse algum, quando via a Lua no céu azul-escuro ou não conseguia dormir, desviava-o imediatamente para não se deixar esmagar pela dor da su;i perda. Deste modo, aprendeu a apreciar cada vez mais a presença de Namiz que aparecia logo a seu lado assim que ela proferia uma palavra estranha. À laia de brincadeira, ele aceitava o seu talento, deixava Sahti proferir palavras e meias frases e, quando necessário, ajudava-a com significado.

- Tu aprendes mais depressa do que eu - observou ele com apreço uma noite. - É pena que estejamos quase a chegar! Caso contrário, falarias fluentemente a língua de Kemet à chegada a Uaset.

Antef, que encontrava sempre uma oportunidade para estar a seu lado, assentiu com a cabeça, cheio de admiração. Nem o olhar crítico de Ipi o impedia de tratar da perna de Sahti que, entretanto, já estava quase curada, e queixava-se várias vezes da pena que tinha de não ter tratado dela.

- A Tama nunca me perdoará se eu lhe contar - disse ele, preocupado, vertendo sobre a crosta óleo de sésamo de um frasco muito pequenino.

- Mas a Tama é muito mais corajosa do que eu.

Sahti tinha o olhar fixo na sua boca. Era-lhe mais fácil percebê-lo se seguisse atentamente o movimento dos lábios.

- Quem é a Tama? - perguntou ela a Namiz por uma questão de segurança.

- A esposa do Antef e, ao que parece, uma mulher muito especial. Como habitualmente, o homem de Kepni respondera em cuxita. - Tenho a certeza de que a conhecerás em Uaset.

Nessa noite de luar, lançaram âncora muito perto da primeira catarata. Excepcionalmente, o comandante ficou no convés do primeiro barco, enquanto grande parte da guarnição se dirigia à margem para dormir. Como sempre, foram destacadas sentinelas. No entanto, o desleixo ou o cansaço fizeram com que os homens estivessem a dormir profundamente quando Sahti acordou devido aos sons de alegria. Levantou-se e afastou a coberta do navio estava rodeado por vários pequenos botes, nos quais se viam sentados homens negros, de narizes largos, muito bem armados. Em tudo se assemelhavam aos barcos de papiro que os acompanhavam há dias e que lançavam as redes de pesca ao rio.

Namiz, que se encontrava a dormir na cabina ao lado da de Sahti, acordou subitamente.

- Piratas do rio! - gritou ele muito excitado para Sahti. - Deita-te no chão! E não te mexas!

Um dos grupos de homens armados acabara de abordar o primeiro navio e dominara toda a tripulação à ponta do punhal. Deitada de barriga para baixo, Sahti observava, de respiração suspensa, a maneira como eles tinham retirado o comandante da sua cabina. Desde o primeiro dia que o homem do nariz partido lhe parecia inquietante e, acima de tudo, receava o tom da sua voz. Contudo, naquele momento tinha pena dele. Atingiram-no no rosto, enquanto ele teimosamente abanava a cabeça, e desferiram-lhe uma série de pontapés na barriga.

- Com certeza que nos seguem há bastante tempo - afirmou Namiz - en voz baixa. - E agora querem obrigá-lo a confessar onde estão escondidos os grandes tesouros.

Entretanto, alguns soldados haviam conseguido alcançar o navio e ini-

ciou-se uma luta feroz no convés. Gritavam alto, ouvia-se o ruído das armas

eram desferidos socos muito fortes. Subitamente, dois dos assaltantes agarraram o comandante, seguraram-no e empurraram-no por cima da balaustrada. De cabeça para baixo, Ipi tombou pesadamente na água e foi de imediato ao fundo como uma pedra.

- Não sabe nadar - sussurrou Namiz. - Ele próprio mo confessou. Um segundo mergulho. Antef conseguira libertar-se de um dos agressores e saltara para salvar o seu superior. Mergulhou e voltou à superfície com o comandante que se debatia com falta de oxigénio. Para não se preocupar com o seu arfar, Antef usou de todas as suas forças para o virar de costas e nadou, também ele de costas, puxando o comandante até à margem.

Entretanto, os soldados do faraó tinham conseguido repelir os assaltantegs. Dois sacos, que os piratas já haviam retirado do porão, afundaram-se no Nilo, e os homens de pele escura, muitos a sangrar de feridas profundas, não tiveram outra solução senão saltar para os seus barcos e distanciar-se, os navios partiram assim que terminou o tumulto que ia no convés. Ipi foi para a sua cabina onde permaneceu até à noite. Depois, só se mostrou durante pouco tempo para triplicar o número de sentinelas e ele próprio assumiu a vigia depois da meia-noite, que era o período mais difícil. Tinha o rosto inchado e coxeava ligeiramente, mas não proferiu nem uma palavra supérflua. Antef também prosseguiu com as suas tarefas habituais. Nem a sua expressão nem comportamento mostravam que tivesse acontecido alguma coisa de particular.

Ninguém dormiu bem na noite seguinte e até Antef despertou mais cedo. Levantou-se do seu leito na margem, sacudiu as pernas e deu alguns passos na direcção da corrente de água escura para aliviar as suas necessida des em paz. Tudo parecia calmo e tranquilo. Não havia vestígios de inimi gos cuxitas que se tivessem emboscado para os assaltar de surpresa.

- Por que razão estás outra vez levantado? - A voz de Ipi ressoou ao seu lado. - Vais precisar das tuas forças quando amanhecer. Talvez tenhamos de contar com um segundo ataque.

Antef virou-se, espantado.

- Não estou cansado - replicou Antef-, e acho que já tiveram a sua conta.

- Se eu pudesse ter a certeza! De qualquer modo, posso dizer-te que ficarei muito feliz quando finalmente chegarmos a Uaset.

Não era costume ouvir o comandante a emitir opiniões pessoais na presença do seu subordinado. Antef contentou-se com um ligeiro rosnar de anuência. Sabia muito bem o que Ipi queria dizer, pois ele próprio sentia o mesmo. As saudades que tinha de Tama cresciam de dia para dia, à medida que se iam aproximando do seu país. Se pudesse, teria preferido nadar como um peixe pela torrente abaixo, a fim de chegar mais depressa.

- De qualquer forma, tenho de te agradecer - continuou o comandante pouco depois, aclarando a garganta. -- Tu tiraste-me da água e um Ipi nunca fica a dever nada a ninguém. Toma! É tudo o que te posso dar neste momento. No entanto, quando chegarmos a Uaset ainda receberás mais qualquer coisa que irá ser-te muito útil. Depois contas-me. - Meteu -lhe na mão uma pequena estatueta de lápis-lazúli artisticamente trabalhada. Era uma figura feminina com cabeça de leão sobre dois inimigos acorrentados: um cuxita e outro que usava os trajes das gentes de Kepni. Ipi também achava que estava repleta de significado. - Diz-se que a deusa Pachet, também chamada a Grande, com olhos de águia e garras eficazes, é mais poderosa para repelir forças inimigas. Portanto, trata-se de algo muito semelhante ao que tu fizeste hoje de manhã. Trazer-te-á sorte!

- Mas isto é muito valioso! - afirmou Antef. - É-me impossível aceitar. Além disso, eu estou aqui para te servir. Apenas cumpri a minha obrigação.

- E como a cumpres! Fecha imediatamente a boca se não queres que me zangue. Será que a minha vida não tem valor suficiente para recompensar adequadamente o seu salvador? Antef engoliu em seco várias vezes antes de retomar a palavra.

- Tu sabes, comandante, que não sou homem de muitas palavras. Mas há uma coisa que te queria pedir do fundo do coração.

A coragem ficou-lhe entalada na garganta. - Então, fala! Que queres?

Ipi já recomeçara a caminhar para retomar a vigia que interrompera.

- A menina - começou Antef com uma voz tão baixa que mal se conseguiu ouvir a si próprio. - Como presente dos céus para a minha Tama.

À vista da primeira catarata, que Sahti já imaginara, depois de Namiz a descrever como uma queda-d’água selvagem e perigosa que corria para o fundo de uma garganta, os soldados manifestaram o seu entusiasmo. Uns abraçavam-se e outros ajoelhavam-se e agradeciam aos deuses o facto de terem regressados intactos à terra de Kemet. A sensação de alívio parecia ser contagiosa. Até o comandante estava bem-disposto e ficou junto das suas tropas em vez de tomar a sua refeição sozinho como era habitual. De uma aldeia que ficava bem perto, foram trazidas muitas bilhas de cerveja forte, bebida que já não tomavam há muito. Mataram patos e galinhas e assaram-nos nas fogueiras.

Na manhã seguinte continuaram; o homem do leme e o piloto conseguiram fazer passar em segurança ambos os navios por aquela tremenda corrente, depois de várias sacudidelas. Passaram a cidade de Sunu, um dos lo-

cais preferidos do faraó, informação que Namiz proporcionara a Sahti, pois sua mãe era de lá, e pelas inúmeras palmeiras, cuja madeira dos troncos era preferencialmente utilizada para a construção, servindo ainda como canais de irrigação.

A época das colheitas nas terras baixas já terminara. Agora seriam colhidos os produtos de todos os campos que ficavam acima do nível das águas, onde havia campos de trigo e milho, espigas e maçarocas claras que brilhavam maduras ao sol. Os camponeses e suas mulheres tratavam em conjunto

• das colheitas, enquanto as crianças corriam por toda a parte, tentando apanhar pássaros. Sobre as pesadas marés do Nilo, cresciam em ambas as margens camadas de lama amarelo-acastanhada que funcionavam como muros.

- Isto acontece porque estamos na época seca - esclareceu Namiz pa-

cientemente a Sahti antes de ela se ir deitar, espantado com tudo aquilo que

a criança queria saber. - Espera até começar o Outono e verás a água su-

bir. Mal conseguirás reconhecer o rio! A cor muda de verde para cinzento, e a catarata que tão pouco te impressionou começará a urrar como um animal selvagem que se quer lançar sobre o seu opositor. Deixará de haver visibilidade, pois nuvens de espuma elevam-se para os céus e ocultam cada fragmento de azul. Até se poderá imaginar que Hapi está a abrir a sua boci gigantesca para engolir tudo e todos.

Mesmo junto à ilha de Abu, onde era preciso navegar através de enormes rochedos de granito que se elevavam no meio do preguiçoso Nilo, ele chamara a atenção da rapariga para uma escadaria de pedra que saía das águas. Na sua longa viagem para norte tinham passado por diversas formações de pedra muito semelhantes.

- Estás a ver as marcas horizontais nas paredes da escada? Sahti anuiu com a cabeça.

- Quanto mais alto sobe Hapi, melhores serão as próximas colheitas

- declarou ele. - Quando a antepenúltima marca é alcançada, deverão fazer-se sacrifícios aos deuses, pois nessa altura sabe-se que os silos em breve estarão de novo cheios.

- E o que acontece se a água subir ainda mais? Quero dizer, se não quiser parar?

- Então, homens e animais estarão sob a ameaça de uma grave inundação - avisou Namiz muito sério -, e pode acontecer que muitos percam as suas casas e até as vidas. No entanto, é muito raro que isso aconteça. Nos últimos anos, a sorte tem abençoado Kemet. Também nos temos livrado de marés muito baixas que apenas trazem consigo fome e preocupação.

Ela já o adivinhara.

- Apesar do teu cansaço ainda queres saber como é que a história continua? - perguntou Namiz, preocupado.

- Sim - disse Sahti, abrindo muito os olhos. - Conta!

- Depois, tudo fica coberto com aquela terrível lama negra que alimenta o solo, preparando-o para novas sementeiras. Finalmente, quando a água volta a descer, os campos têm de ser novamente medidos.

- Então, ninguém passa fome?

Sahti exibia um ar muito cansado e quase perdido.

- Não - esclareceu Namiz, espantado com tão estranha pergunta. O que é que aquela criança já teria sofrido na sua curta vida? - Quando o Nilo transporta água suficiente, todos ficam abastados.

- Então, as pessoas de Kemet devem ser todas muito, muito ricas - afirmou a menina com um ar pensativo. - E muito felizes com o facto de o grande rio lhes oferecer tanta fartura.

- Ricas e felizes? - Namiz riu-se. - Não. Não são todas assim. Pelo menos, nem todas e nem sempre. Há ricos e pobres em Kemet, pessoas felizes e infelizes, boas e más. Não é em nada diferente da tua terra, em Kuch.

Sahti fez um rápido aceno com a cabeça e olhou com esforço na direção oposta, onde naquele momento passava um barco com muitas velas. Namiz sentiu vontade de se esbofetear pela sua falta de tacto.

- Lamento - disse ele em voz baixa. - Lamento muito, minha pequenina.

No decorrer da viagem, ganhara tanto amor à criança que era cada vez mais atormentado pela sua consciência. Ainda em Abu Resi, pouco depois de terem descoberto a criança ferida no deserto, esta não passava de uma figura interessante num tabuleiro imaginário, que se podia movimentar para cá e para lá segundo a táctica exigida. Levar Sahti e Nabu como reféns para Kemet parecera-lhe, na altura, uma ideia luminosa que evitara o pior e o libertara. É claro que nem tudo decorrera sem vítimas. O Chacal fora queimado e Golo precisaria de muito tempo para recuperar a saúde. Pelo menos, nem os cuxitas presos nem os soldados que tinham seguido cegamente o seu líder haviam sido sanguinariamente chacinados. Os primeiros haviam sido enviados para a sua aldeia antes da viagem, e os segundos tiveram de contar com as penas de prisão respectivas na cidadela, mas pelo menos estavam vivos.

Agora, porém, Namiz não estava assim tão certo e, quanto mais perto estavam de Uaset, mais fortes ficavam as suas dúvidas. Não só teria de contar com o jogo de intrigas de Ipi que usaria todos os meios para o denegrir perante Sekenenré, nem que fosse apenas para salientar o seu próprio papel na expedição e conseguir novas vantagens, mas também teria de enfrentar as tremendas oscilações de humor do faraó. Este ordenara o regresso a casa e eles tinham cumprido as suas ordens. Mas quereria isso dizer que teria de

lhe fazer compreender o motivo por que não tinham trazido a quantidade de ouro exigida?

Além do mais, o facto de a carga total chegar incólume ao seu destino era mais do que questionável. Os piratas do rio poderiam muito bem ter assaltado os outros navios, e o velho trilho das caravanas, pelo qual era transportada para o Norte a maior parte do gado, estava sempre a ser assaltado por Beduínos. Além disso, havia vento e areia, bem como a fadiga inerente is longas marchas, o que afectava homens e gado.

E que destino aguardava agora a mulher e a criança que tinham irreversivelmente perdido a sua pátria, só porque encaixavam bem nos seus planos?

No entanto, também era tarde de mais para modificar aquilo que aconteceria no futuro próximo e distante. Namiz só podia esperar que o faraó estivesse de bom humor, pois já tinham existido momentos nos quais Namiz encontrara Sekenenré com um espírito bastante aberto e tranquilo. Talvez conseguisse até realizar da melhor maneira o desejo de Antef, pois sabia muito bem o que o salvador de Sahti ansiava oferecer à sua Tama.

A fim de preparar a rapariga para o que aí vinha, para o qual não havia, contudo, explicação, começou a falar-lhe cada vez mais da cidade do faraó, do palácio do soberano, dos templos, dos jardins e das ruas, da família real, e dos muitos súbditos que viviam junto do faraó. Das pessoas que trabalhavam sob a sua protecção, dos escribas, sacerdotes, artesãos e jardineiros, nos quais se incluía Antef. Finalmente falou-lhe ainda da sua própria ocupação, um tema sobre o qual não podia falar dia e noite sem interrupção, porque havia muito poucos ouvintes interessados: como procurava pedras preciosas, como, de acordo com as suas orientações, eram cortadas, furadas e presas umas às outras; contava-lhe a maneira artística e altamente difícil como o pó de ouro era extraído nos inúmeros corredores das minas de ouro de Uauat, que agora transportavam em sacos muito pesados até finalmente serem transformados em anéis, amuletos ou colares que brilhavam no pescoço da rainha.

Sahti ouvia com muita atenção, parecia compreender tudo e assimilar cada uma das palavras. De vez em quando, fazia-lhe as suas perguntas estranhas que o deixavam espantado e para as quais nem sempre tinha resposta fácil. Contudo, Namiz, que tinha pouca experiência com crianças, tentava sempre dar-lhe a informação mais correcta possível. As faces de Sahti coravam durante aquele vivo jogo de pergunta e resposta que, aparentemente, lhe dava tanto prazer como a ele e não era nada fácil pô-la a dormir, pois Sahti não se cansava.

- Então, o faraó é um deus? - quis ela saber antes de se enroscar e virar para a parede.

- Não - retorquiu Namiz; sério -, mas administra um legado divino. E como não está a conseguir, a terra encontra-se desfeita e sangra de milhares de feridas. Assim, temos a tarefa de lhe aliviar  tamanho fardo, prestando os nossos serviços.

Quando seis dias mais tarde chegaram finalmente ao porto de Uaset, as velas foram recolhidas e os remadores descansaram. No meio do verde-vivo do jardim, o palácio real brilhava como ouro sob a última luz do dia, e Namiz sentiu tristeza. Na margem esquerda do rio, a cidade aproximava-se cada vez mais, qual um sonho nocturno contra o azul profundo do céu e a pesada cor prateada do rio. Quanto mais irreal parecia; mais o intendente era atraído para a tenebrosa realidade. Quando olhou para o Templo de Amon, no qual, em dias de festa, o faraó; vestido com peles de leopardo,  assumia o papel de sumo sacerdote e oferecia sacrifícios aos deuses, toda a sua esperança desapareceu subitamente e viu-se como um velho louco que se convencera de que poderia influenciar um soberano temperamental e imprevisível, um soberano que era conhecido por não confiar realmente em nenhum dos seus conselheiros.

- É esta a cidade maravilhosa? - perguntou Sahti suavemente, enquanto percorriam o porto onde estavam ancorados inúmeros navios e havia um trânsito intenso de pequenos barcos que se preparavam para fazer as descargas. Pareciam pequenos insectos a voar sobre a água. com os olhos muito abertos, Sahti observava aquele turbilhão. - Onde tudo e todos pertencem ao faraó?

O luxo do edifício e a multidão que naquela altura percorria as ruas esmagaram-na. Além disso, sentia-se a imensidão de odores dos vendedores ambulantes, que traziam as suas cozinhas provisórias amarradas à cintura e apregoavam especialidades culinárias.

«Sim», pensou Namiz e foi subitamente obrigado a recordar a primeira vez que pusera os pés no chão de Kemet, momento em que a sua Kepni  natal lhe pareceu uma espelunca suja e decadente. No mesmo instante, veio-lhe à mente Hut-Uaret, aquela grandiosa cidade do delta, há muito transformada na residência dos Hicsos e que, de ano para ano, se tornava cada vez maior e mais luxuosa. Conhecia pessoalmente a cidade, enquanto, até ao momento, apenas conhecia a casa real de Uaset através de histórias e descrições. Sabia o que lá vira com os seus próprios olhos, se bem que o tivesse guardado para si por motivos óbvios. Um estrangeiro que louvava o luxo do odiado soberano dos Hicsos! Quanto valeria a sua vida naqueles tempos difíceis numa Kemet dividida?

Olhando do alto da cidadela, do enorme palácio, estrategicamente colocado numa curva do Nilo, para as largas ruas de Hut-Uaret, para as casas com vários andares e templos, os vinhedos artísticos e canteiros de flores cuidadosamente tratados, cercados pelas sombras de árvores dispersas, conseguia-se ter a ideia de que o faraó, que reinava em Uaset, há muito que deixara de ser um homem a representar o papel de um deus, passando a ser um senhor ao serviço de soberanos terrenos muito mais poderosos.

Namiz sentiu o forte impulso de abanar vigorosamente a cabeça, pois, de súbito, tudo o que contara a Sahti durante a viagem parecia-lhe errado e sinultaneamente demasiado complicado e estranho, desejando afastar a impressão dada até então. Na imagem inseria-se bem o facto de inúmeros pedreiros estarem, há muito mais de um ano, a edificar um novo palácio para •ekenenré na margem oriental do Nilo, fora de Uaset, que, apesar do que todos afirmavam, não passava de uma pálida cópia daquela impressionante

cidadela em Hut-Uaret.

Sahti continuava à espera da sua resposta. Qual um adulto, tinha a ca-

beça um pouco de lado, como se assim fosse mais fácil ter a paciência necessária para esperar que Namiz se exprimisse.

Daquela vez, foi Namiz que só conseguiu responder-lhe com um vago aceno de cabeça, sendo forçado a virar-se rapidamente para o lado, pois já

não conseguia suportar a sua expressão infantil cheia de esperança.

 

 QUARTA HORA: ESTA ÁGUA É FOGO

Normalmente, a pequena casinha onde tinham metido Sahti na véspera à noite tornava-se quente e asfixiante até ao limite do insuportável. Era tão pequena que apenas media oito passos de comprimento e cinco de largura, possuindo apenas duas exíguas janelas com grades que estavam a uma altura tal, naquela parede de tijolos de barro irregular, que impedia que ela olhasse para a rua. Até ser interrompida, dormira tão bem e tão profundamente que nem dera pelo facto de lhe trazerem água fresca, fruta e um estranho caldo de cereais aromático, e ainda um banco muito prático, para poder arranjar-se, que conhecia desde os tempos que estivera a bordo e aprendera a apreciar.

Sahti comeu e bebeu com apetite, mas poupou água suficiente para, pelo menos, poder molhar o rosto, o pescoço e as mãos que ainda estavam pegajosos da viagem de barco e do passeio de burro que fizera através da cidade. com os dedos abertos, passou a mão pelo cabelo, o que não foi mais

do que uma tentativa ineficaz, pois os pequenos caracóis estavam atrozmente entrelaçados uns nos outros e apenas as mãos dotadas de Ruju tinham a habilidade suficiente para os desembaraçar.

Pensar na irmã trespassou Sahti como uma flecha. À primeira luz do dia pensou ter ouvido a sua voz, suave e fraca, mas inconfundível, um chamamento quase suspenso, bem perto do seu ouvido, como se Ruju tentasse por todos os meios chamar a atenção de Sahti. A rapariga acordou assustada com os sonhos, o coração a bater veloz e a garganta seca, e ficou momentaneamente com muito medo, pois não conseguia saber onde estava.

- Ruju! - sussurrara, apesar de estar completamente só e mais ninguém conseguir ouvi-la. - Onde estás? Como estás? E que me queres dizer?

Mas tudo ficou em silêncio.

Aquela voz familiar acabara por esmorecer, e não teve outra alternativa senão conformar-se. Lentamente, recuperou a tranquilidade. Por fim, enroscou-se, metendo na boca um canto da fina coberta. Sempre o fizera desde que era muito criança, quando sentia medo ou tristeza, e acabou por adormecer.

Todavia, naquele momento já estava bem desperta e cheia de curiosidade, não sendo capaz de entender o facto de ninguém vir ter com ela para a levar para o sol e a luz. Só as pás e enxadas de diversos tamanhos e cobertas de terra que estavam encostadas a um canto, aparentemente destinadas a cuidar das plantas e vegetais, lhe denunciavam o local aonde viera parar. Era claro que devia estar algures no jardim do faraó, pois na noite anterior e no final de uma dura cavalgada tinham alcançado um enorme muro. Abrira-se um portão de madeira e entraram. Passaram imediatamente por árvores muito altas e arbustos espantosos que exalavam um aroma que Sahti nunca cheirara antes, e durante toda a noite ouvira o som regular de uma pequena fonte que ficava muito perto, a qual jorrava certamente de um dos lagos artísticos do jardim de que Namiz lhe falara durante a viagem.

Aquele aparente esbanjamento de água espantava-a e revoltava-a simul taneamente, pois a daia sempre lhe dissera que não se devia desperdiçar uma única gota, visto que, de contrário, ser-se-ia alvo da ira dos deuses. Contudo, naquela terra estranha tudo era diferente: o ar suave e seco que acariciava a pele quente como um tecido muito fino; as plantas e árvores de diferentes espécies, como que concebidas por outro criador, elevavam-se tanto que parecia que daquele lado do enorme vale verde, onde viviam os mortais de Kemet, não havia aridez que, sem piedade, negasse a vida; finalmente, as próprias pessoas de ancas estreitas, os homens de rosto barbeado, as mulheres de pele clara usando vestidos tão finos e tão reveladores que a própria Sahti virara o olhar de vergonha quando elas passaram. Todos, grandes e pequenos, jovens ou velhos, se movimentavam rapidamente como se esperassem por alguma coisa que não queriam perder de modo algum, ao contrário das pessoas da sua aldeia que pareciam nunca ter pressa. Além disso, havia ainda a maravilhosa língua daquelas pessoas que ela já compreendia um pouco graças às lições de Namiz, não conseguindo exprimir nem metade do que entendia, porque a sua língua parecia lutar contra aqueles estranhos sons.

Chegaria alguma vez a sentir-se em casa?

Cheia de dúvidas, voltou a deitar-se sobre a cama dura, olhou para o tecto, depois fechou os olhos e esperou que alguma coisa finalmente acontecesse.

O som de uma chave a girar na fechadura fez com que Sahti se levantasse, pouco tempo depois. Para seu grande espanto não apareceram nem Namiz nem Antef, como supusera, mas sim uma mulher velha com uma expressão teimosa. Um olho estava meio fechado, como se lhe faltasse a força para se manter aberto, e as mãos, com as quais gesticulava com violência, eram nodosas e atravessadas por veias anormalmente grossas e azuladas.

-Meret! - repetiu ela várias vezes, apontando constantemente para os seus seios caídos, dos quais o vestido colorido de linho fino ameaçava tombar. - Vem comigo!

Sahti levantou-se obedientemente e seguiu-a, aliviada por poder finalmente sair daquela cabana. A velha ia alguns passos à frente com uma rapidez incrível para a sua idade, se bem que as suas costas, fortemente encurvadas,  denunciassem uma vida de trabalho físico muito duro.  Na noite anterior, fora a escuridão que impossibilitara Sahti de olhar à sua volta e agora era Meret que a impedia, pois estava invariavelmente a empurrar Sahti quando esta parava para admirar a copa de uma árvore, o esplendor amarelo-avermelhado das pétalas ou o chilrear de um pássaro que saltitava excitado entre ramos altos e baixos. A fonte, cujo fluir tão suavemente a embalara no sono, corria para dentro de um tanque oval rodeado de altos e antigos sicómoros e coberto por milhares de flores de loto já abertas. Ali,  Meret teve de fazer estalar a língua várias vezes até Sahti se pôr novamente

a caminho.

Um portão gigantesco, flanqueado por torreões feito de tijolos de barro seco, enquadrava a porta principal do palácio que se podia ver do jardim. Paus de bandeira feitos de madeira de cedro, nos quais se viam hasteados galhardetes coloridos, elevavam-se dentro de dois nichos ornados a madeira. Para grande alívio de Sahti, no pátio pavimentado, onde borbulhavam duas fontes, Namiz esperava-a.

Tinha o seu cabelo denso e cor de areia bem penteado para trás com óleo, estava cuidadosamente barbeado e trazia um avental branco com um cinto, o que acentuava o seu tronco forte. Dele emanava um odor pesado e ligeiramente adocicado e, quando Sahti olhou melhor, descobriu que tinha pintado as sobrancelhas e as pálpebras. Refrescava-se com um leque de penas, mas Sahti já percebera pela sua expressão e porte como ele estava diferente.

- Finalmente! - gritou-lhe ele em cuxita, o que logo desencadeou em Sahti saudades da sua terra natal. - Hoje é o dia em que tudo vai acontecer ! - Olhou-a criticamente da cabeça aos pés como se estivesse a vê-la pela primeira vez. - Mas vejam só como tu estás, minha pequenina! Parece que te tiraram agora de uma pedreira. - Arfou repreensivamente na direcção da velha. - Não haverá ninguém neste palácio que pudesse encarregar-se um pouco dela, agora que vai à presença do Único - Um?

Ninguém me disse nada sobre isso - declarou Meret com rudeza. – E o que iríamos usar numa coisa destas? Membros tão finos como ramos, as costelas salientes e coxas como as de um cabrito enfraquecido!

Além disso, eu não estou aqui para lavar uma selvagem nem para lhe catar os piolhos como uma mãe macaca.

O seu olhar amofinado mostrava que só a descrição a deixava enojada.

- Está bem! Está bem! - admitiu Namiz. - Agora ela terá de entrar assim. Vamos, vamos, pequenina, já estamos bastante atrasados.

Não foram as três antecâmaras sucessivas que mais impressionaram Sahti, sendo cada uma mais esplendorosa do que a outra. A cor predominante era o azul em todos os cambiantes imagináveis: o radiante do céu, o mais profundo do rio à primeira luz da manhã, misturado com borrifos dourados que provocavam o efeito de pequeninas cápsulas contendo luz do Sol, e finalmente o azul-prateado das enormes percas a debater-se inutilmente na rede do pescador. Também não foi a grande sala de recepções com as inúmeras colunas coloridas, cujos capitéis representavam flores de loto. E também não foram as paredes artisticamente pintadas da sala de audiências, nas quais estavam reproduzidas com veracidade algumas cenas de caça em papi ro espesso: pequenos barcos sobre um lago luzidio, setas que atingiam o seu alvo como um enxame de abelhas, um gordo hipopótamo que se empinava depois de atingido mortalmente e que ameaçava puxar, com as suas últimas forças, caçadores e barco para o rio. Finalmente, o navio real carregado com as presas mortas, à proa o faraó como grande senhor da caça.

Foram os soalhos que magicamente atraíram o olhar de Sahti: as pinturas de presos de pele amarela e negra parecia pavimentar o caminho e estavam representados com tanto realismo que os pés de Sahti hesitaram em continuar a andar.

Namiz, que parecia adivinhar o que a incomodava, deu-lhe um pequeno empurrão amigável.

- Vá lá! - murmurou ele. - Já falta muito pouco até à próxima co luna e aí ficarás sossegada, não andando por aí a vaguear. Olhas respeitosa mente para o chão e farás tudo o que te estou a dizer. Compreendes?

- Mas eu não posso simplesmente pisá-los! - protestou Sahti em voz baixa.

Daquela vez, o empurrão foi um pouco mais forte.

- Ai não que não podes! - murmurou Namiz. - E receio que muito em breve irás aprender outras coisas, pequena.

Sahti obedeceu e continuou, mas não era capaz de refrear o olhar. Por fim, deixou de se incomodar quando conseguiu meter na cabeça que tudo ali lhe era desconhecido. Depressa perdeu o interesse nos cortesãos que com versavam em  pequenos grupos:  mulheres e homens pintados,  untados, adornados e usando vestidos de linho fino e imaculadamente branco.

Assim, fez recair o olhar no trono de madeira de cedro com braços abertos, cujas travessas interiores tinham sido trabalhadas com plantas de papiro em filigrana. Depois, viu o homem que estava sentado no trono, um pouco   abatido. Achou-o velho e, por isso, extremamente feio: O seu peito ossudo e estômago descaído eram visíveis, apesar do avental branco com a peça central em forma de trapézio. Além disso, o avental não era suficientemente longo para cobrir as coxas magras.

Era aquele o faraó, o Único-Um, soberano de Kemet e de todos os seus habitantes que o tinham de servir?

Com a pele das faces descaída, o que fazia sobressair os ossos, as rugas profundas em torno do nariz e as pálpebras pesadas que quase ocultavam os olhos, pareceu-lhe um avô cansado, cujo tempo chegava inexoravelmente ao

fim. A cabeça estava coberta por um lenço quadrado com listas, cujas pontas lhe caíam sobre o peito. Encontrava-se preso por um aro dourado que tinha no meio uma cobra-capelo erecta. O ventre da cobra estava coberto de pedras preciosas, a cabeça era em lápis-lazúli trabalhado, e os seus olhos, abertos e polidos, faziam com que o réptil parecesse tão vivo que Sahti deu involuntariamente um passo atrás e subitamente pareceu sentir a mordedura de cobra na sua coxa.

Ao lado esquerdo do faraó, consequentemente do lado do coração, havia um segundo trono, não tão esplendoroso como o anterior e claramente mais baixo. Nele encontrava-se sentada uma mulher que aos olhos de Sahti não parecia muito jovem, se bem que o seu ventre dilatado por baixo do vestido branco transparente denotasse que estava grávida e no final do período de gestação. Ao pescoço tinha uma corrente de ouro na qual se viam penduradas pequenas conchas douradas. Usava brincos pesados, largas braceletes nos braços e tornozelos, com patas de pássaro engastadas com pedras preciosas. Ao mais pequeno movimento, quando as pequenas peças de metal trabalhadas roçavam umas nas outras, tilintavam. Era como se ela não fosse uma pessoa de carne e osso, mas sim uma imagem divina festivamente ornamentada, coberta de pequenas placas de ouro da cabeça aos pés, com as quais o vento brincava.

- Todas as peças foram feitas pelos meus cinzeladores - informou Namiz cheio de orgulho, sussurrando atrás de Sahti. Apesar do pedido para baixar a cabeça em sinal de respeito, não desviou a atenção. - É natural, pois a esposa do faraó, Ahhotep, apenas se contenta com o melhor.

- E quem é o gordo que está ao lado do faraó? - murmurou Sahti. Uma longa capa sem mangas caía até aos disformes tornozelos do homem. Os braços tesos, nos quais braceletes douradas cortavam profundamente a carne, pareciam fasciná-la. O seu rosto tinha um tom vermelho ligeiramente azul-prateado, sinal de pouca saúde, e a respiração era curta e entrecortada.

- Seb, o vizir do rei. Muitos consideram-no quase tão poderoso como o faraó, mas todos os súbditos esperam que em breve se junte à fileira das almas.

- E o magro com o crânio rapado?

- Nebnefer, o sumo sacerdote de Amon, o homem do ódio. Quem se mete com ele, poderá contar com tudo.

A porta para a sala de audiências abriu-se. Entraram dois jovens. um deles saltou antes de começar a caminhar, parecendo um rapaz selvagem que crescera demasiado depressa. Possuía os membros magros e uma cabeça acabada de rapar, tendo de lado um único caracol. Os traços ainda infantis não se adaptavam ao pescoço magro, no qual a enorme maçã-de-adão pare cia um objecto estranho. O rapaz inclinou a cabeça perante o faraó, um gesto que não dava a ideia de respeito, mas sim de uma pesada obrigação que queria pôr atrás das costas o mais depressa possível, caindo depois aos pés da rainha como um cachorro cansado.

- Ahmés - murmurou Namiz, - o primogénito real. Só queria saber se a princesa, sua irmã, pensa mostrar-se.

O outro, alguns anos mais velho, com a cabeça repleta de cabelo negro, parecia não ter pressa. Tinha estatura média e era esbelto, os ombros eram largos e exibia o andar seguro de um homem que anda muito, e bem, a pé. Um grande nariz dominava o seu rosto, os olhos demasiado afastados e o queixo um pouco afilado, o que não chegava para lhe chamar bonito, expri mindo, no entanto, frescura e vitalidade. A sua vénia perante o trono pareceu ser bem medida. Quando ele se levantou, Sahti reparou que havia uma manifestação de azedume nos seus traços. O momento passou tão depressa que Sahti não conseguiu ter a certeza de não o haver imaginado. com tranquilidade e segurança, tomou o seu lugar atrás do trono do faraó.

- Kamés, primo de Ahmés. Um jovem obstinado que, como se costuma dizer, prefere o deserto e a solidão.

Namiz sentiu-se envergonhado, pois acabara de receber um olhar pouco amistoso do faraó.

- Finalmente os príncipes apareceram - afirmou Sekenenré em vo/ alta e ligeiramente esganiçada quando, por fim, se fez silêncio. Esticou de pois cautelosamente as pernas ossudas como se quisesse livrar-se das dores.

- Mas por que motivo não vejo em parte alguma a grande senhora Teu -Cheri?

- A rainha mãe não se sente bem.

A resposta de Ahhotep foi suave e, quando virou a cabeça para o seu esposo, o tilintar das peças de ouro voltou a fazer lembrar um jogo de vento artisticamente elaborado. Só prestando muita atenção é que se reconhecia a rudeza que estava por trás do seu tom doce e que dizia o seguinte:

- O seu velho sofrimento! Aquela inflamação nas articulações que lhe tem dado tantas dores desde o último Inverno. Ela pede desculpa, pois quer consultar primeiro o seu médico particular antes de se levantar esta manhã.

Um som indefinível veio da boca do faraó.

- E onde está o comandante?

Tinha cuspido aquela frase como se fosse um escarro.

Tal como se se tratasse de uma deixa, abriu-se a porta e Ipi aproximou-se do trono em passos largos, usando uma peruca tripartida, um avental branco e sandálias douradas finamente guarnecidas. De qualquer modo, o seu nariz partido dava-lhe a aparência de um lutador engalanado. Antef, como sempre colado a ele, teve de se esforçar para manter o passo.

Atrás de ambos, soldados fizeram entrar Nabu ainda acorrentada. O seu estado não podia ser mais degradado: o vestido sujo e rasgado, braços e pernas cobertos de arranhões, e os cabelos totalmente despenteados. Não só lhe tinham amarrado as mãos como ainda amordaçado com um pedaço de pano e, mesmo naquele momento, em frente aos olhos do faraó, Ipi não fazia a menor intenção de lho retirar.

- Quem são estas criaturas? - O olhar de Sekenenré oscilava desconfiado entre a criança de pele negra que estava junto a Namiz e a mulher acorrentada. - E por que motivo as trazeis perante mim?

- De joelhos! - ordenou Namiz a Sahti, em cuxita. - Testa e palmas das mãos coladas ao chão e não te mexas antes de eu te mandar.

Ela obedeceu imediatamente. Ao contrário, Nabu não tinha nenhum tradutor a seu lado que lhe esclarecesse o cerimonial. Em vez disso, os soldados deram-lhe um empurrão nas costas e ela caiu no chão com um agudo grito de dor. Durante alguns instantes todos pareceram assustados, até que repararam que a mulher não ficara ferida.

- É isso que quero explicar-te, amado faraó.

Ipi colocara-se em posição para responder extensivamente. O soberano fez um brusco movimento com a mão que deixou Ipi imobilizado.

- Mais tarde! - ordenou Sekenenré. - Quero ouvir primeiro o responsável pela expedição real!

Namiz estremeceu. Nunca estivera tão perto dele a chave para a câmara do tesouro real. Rapidamente narrou o que sucedera em Abu Resi. Falou da quantidade de ouro que faltava e da tempestade de areia durante a caçada, do assalto dos soldados à aldeia, da situação dos mineiros e da maneira como estes e o comandante Ameni tinham morrido. A consequente nomeação de  Hori também foi mencionada, bem como a morte do Chacal e a decisão de trazer a mulher e a filha de Golo como reféns para Uaset, em vez de recrutar archeiros para a guarda do faraó. Como bom cronista que era, Namiz não deixou de referir os reforços das tropas de Kerma para norte e não embelezou nada. Mesmo assim, não mencionou quem fora o cérebro que planeara a apreensão dos reféns e também não disse nada que desse a entender que ele e o comandante teriam decidido tudo em conjunto durante a expedição.

Quando finalmente terminou, o faraó fez um breve aceno de cabeça,

- Mais tarde iremos buscar o ouro que falta e, no que concerne aos archeiros, o contingente actual é suficiente. Se Amon nos ajudar, os barcos e manadas chegarão incólumes a Uaset. O mais importante é que agiram de acordo com as minhas ordens numa situação crítica e não cederam a provocações.

Olhou para Namiz e Ipi, assentindo reconhecidamente com a cabeça.

O comandante abriu a boca como se quisesse dizer alguma coisa, mas fechou-a de novo quando o faraó, depois de uma pequena pausa, continuou em voz alta.

- Pois, neste momento, uma guerra contra o Sul seria a última coisa que Kemet precisaria. Pelo contrário, planeio conseguir aprisionar o soberano de Kerma, já que aquele desavergonhado rei-sombra do delta, filho duma hiena, está a tentar deixar as suas marcas fedorentas por todo o reino qual um cão raivoso... - Os traços de Sekenenré ficaram tensos. - Está a precisar de uma lição. Foi por essa razão que vos chamei mais cedo.  Ta-Meri, a nossa Terra Amada, precisa agora de todas as mãos e de todos os corações.

Naquele momento, o comandante não teve alternativa senão aplaudir, se é que não queria que o resto do seu poder se afundasse no meio daquele salão.

- É claro que o atacaremos, senhor das Duas Terras! - proferiu ele, empolado. - O que tu ordenares! Os teus soldados estão contigo como se fossem um único homem, pois tudo o que Rá ilumina está sob o teu controlo. Só tu, o Único-Um, és o herdeiro do filho de Isis.

- Levantem a mulher! - ordenou Sekenenré sem aceitar com uma única sílaba as afirmações de Ipi. - E levantem também a criança negra!

Sahti ergueu-se sem ajuda, enquanto a acorrentada Nabu era içada como um pedaço de madeira.

- Retirem-lhe as correntes e a mordaça! - prosseguiu o faraó, arreganhando os lábios. - Como é que queremos que as pessoas do Sul confiem em nós se tratamos as suas mulheres e crianças como gado?

Assim que se viu livre das cordas, Nabu levantou os braços num gesto de revolta ou alívio. Deste modo, as serpentes tatuadas na sua pele dourada pareceram tomar vida. Um som estranho saiu da sua garganta, um silvo agudo e alto que se ouviu em toda a sala de audiências.

Naquele momento, não houve ninguém do séquito do faraó que não a olhasse com estupefacção e muitos com medo. Nebnefer, o sacerdote, levantou ambas as mãos como se quisesse proteger-se de forças malignas e murmurou rapidamente uma oração.

Até Sekenenré Taa ficara pálido. Inconscientemente, colocou a sua mão direita sobre a serpente primitiva que tinha na testa que, segundo as antigas tradições, ejecta o seu veneno sobre todos os que tentam infligir sofrimento ao rei ou que se aproximam traiçoeiramente do seu coração. Depois, deixou a mão sobre o regaço. No entanto, no seu olhar, que estivera tão cansado e perturbado, brilhou subitamente um fogo oculto.

- Temos então uma feiticeira cuxita - proferiu ele em voz baixa. - uma daquelas que fala com as serpentes tal como a divina Ísis. Que coincidência estranha! Ou será que é uma providência divina? Porque é que tu não incluíste isto no teu relatório, homem de Kepni?

Nebnefer fez uma careta de repulsa como se tivesse entrado na lama e

olhou, exigente, para o comandante, que parecia ter agora oportunidade de

se vingar de Namiz.

A sorrir deu um passo em frente e começou a fazer gestos largos.

- No que me diz respeito, amado Hórus dourado, reconheci-o de imediato e achei importante. Esta mulher é extremamente perigosa e por isso fiz questão que ela...

- Tragam-na aqui! - interrompeu o faraó asperamente. - Aqui! Bem perto do meu trono! Quero ver o brilho dos seus olhos.

Como se tivesse percebido as suas palavras, Nabu afastou os soldados que a queriam agarrar com um gesto de desdém. Suavemente, com pequenos passos, aproximou-se e ficou, orgulhosa e temerária, em frente ao faraó. Fundiram os olhares e permaneceram a observar-se em silêncio, não como refém e soberano, o que foi notado por todos os espectadores, mas sim como dois iguais que mediam forças numa guerra silenciosa.

Lentamente, a tensão foi crescendo no salão, se bem que ninguém ousasse emitir um som. Sahti, que mal conseguia ficar calada, sentiu que a brilhante Ahhotep estava a ficar inquieta e que teria preferido terminar à força com aquela cena. Viu como Ipi se mostrava ansioso por continuar o seu discurso e o esforço com que Namiz, que poderia ainda perder tudo, tentava manter o porte e o sangue-frio.

Sekenenré foi o primeiro a ter de afastar o olhar. Aquela estrangeira escura tê-lo-ia atingido?

Se estava espantado com isso, não deixou que ninguém o notasse.

- Levem-na de imediato para o harém real! - ordenou ele, aparentemente de bom humor. - E acompanhada por damas da corte que a levarão com cuidado. Não por soldados. Desejo que seja banhada e ungida, que a vistam convenientemente e lhe dêem de comer e beber com fartura. Depois, os meus médicos deverão ser conduzidos até ela!

A expressão do vizir estava empedernida. Apenas as suas bochechas tremiam ligeiramente. O olhar do sumo sacerdote emanava repulsa quando olhou para Nabu.

O faraó levantou-se abruptamente do trono, como se já não tivesse mais nada para dizer. Depois, deu a impressão de estar a ponderar alguma coisa e voltou a sentar-se. Nabu ficou impenetrável à sua frente até que duas damas da corte lhe tocaram levemente, levando-a para fora do salão.

- E a criança, Majestade? - perguntou Namiz, angustiado, pois até então não fora proferida uma palavra sobre Sahti. - O que vai acontecer com a rapariga? - Pelo canto do olho, conseguiu ver que Antef estava preocupado e lhe enviava um olhar fugitivo.

- A criança, pois... - Os dedos bem tratados do faraó, perdido nos seus pensamentos, massajavam o queixo pontiagudo. Não era difícil perceber que não tinha um verdadeiro interesse naquela criança magra.

- Será que o senhor das Duas Terras me permite que faça uma proposta? - interrompeu Ipi, suplicante

- Fala!

- Na corte, esta criança não estaria no seu lugar. Porque não dá-la a um homem corajoso e à sua mulher, algures aqui na cidade, para que seja bem educada? E claro que ambos devem cuidar do seu bem-estar e entre gar-nos informações com regularidade. Deste modo, teríamos a pequena refém sob controlo, sem que se tornasse um peso na corte.

Ipi fez uma profunda vénia e esperou.

- E por acaso tu, mestre de todas as palavras, já tens à mão aqui na cidade o homem corajoso e a sua mulher. Não é verdade, comandante? A ironia no tom de Sekenenré era mordaz. - Será que posso partir do pressuposto de que não se trata da tua pessoa? Senão, teria de encontrar um novo comandante para os meus archeiros, pois, nos próximos tempos, tu estarias muito ocupado a tratar da criança. Ou estou enganado?

- Não... Claro que não. Quero dizer, sim. - Entretanto, a testa de Ipi ficara transpirada e até as suas fortes costas pareciam estar oleadas. Ar quejou, como se o nariz partido estivesse prestes a preparar-lhe dificuldades de respiração. - Pensei no meu ordenança, Antef. Parece-me ser a pessoa certa: firme, honrado e, como soldado do faraó, dedicado de todo o coração. No que diz respeito à mulher...

- Então, o teu ordenança pode levar a criança se, por qualquer motivo, isso é tão importante para ti. - No rosto de Antef abriu-se um largo sorriso quando ouviu as palavras reais. - Mas será apenas um empréstimo que eu poderei querer de volta a qualquer momento. Não é uma prenda. Fui claro?

Tanto Ipi como Antef assentiram com a cabeça. Um, indiferente, e o outro, preocupado.

O faraó falara rapidamente e não muito alto para que Sahti percebesse apenas algumas palavras. Foram as suficientes para se virar para Namiz, o único apoio que ela tinha naquele mundo estranho e inquietante que tanto temia.

- Por que razão não posso ficar contigo? - perguntou ela, assustada.

- Vais ficar muito bem com os dois - assegurou-lhe Namiz de imediato, a fim de esconder da criança a sua crescente inquietação. - Muito melhor do que na minha casa de homem solteiro e, além disso, foi o Antef que te salvou a vida no deserto. Já te esqueceste, Sahti?

- Mas eu quero ficar contigo. - Colocou-se nas pontas dos pés e pendurou-se pesadamente no seu braço. - Não vês como já estou crescida?

E quem conversará comigo? O que dizem parecem latidos.

- Para além disso, estou quase sempre a viajar. Como é que poderia tratar de ti?

E tenho a certeza de que daqui a algumas semanas já falarás como uma nativa. Vá lá, Sahti, pequena amiga, sê razoável!

- Então, leva-me contigo. Por favor - suplicou Sahti. A sua voz tremia e tinha lágrimas nos olhos. - Eu não te incomodarei. Prometo!

Namiz colocou-lhe o dedo indicador sobre os lábios para lhe mostrar que realmente devia estar calada, pois Sekenenré parecia ir definitivamente levantar-se do trono. Abriu os braços num gesto amplo, como um sacerdote antes de uma oração ou prelecção.

- Aconselhei-me com o meu coração. Haverá uma festa heb-sed para deixar a tremer todos os inimigos de Kemet. Depois desses dias de brilho e alegria, ninguém, seja do Norte ou do Sul, deverá ter a ousadia de tentar lançar mão ao reino duplo de Kemet. Nem um único!

O vizir acenou com a cabeça, como se esperasse há muito por aquelas palavras. Também Nebnefer emitiu um murmúrio profundo de assentimento. Os outros não se exprimiram.

- E quando deverá ter lugar a festa de todas as festas, grande faraó? A voz de Kamés mostrava-se fresca e despreocupada. Como um jovem provocador, colocara-se em frente ao trono.

- Assim que a deusa Sepedet surja nos céus e se una a Osíris para dar à luz a Estrela da Manhã.

Depois de proferir estas palavras, Sekenenré abandonou a sala de audiências. Foi seguido a alguma distância pela esposa, pelo vizir, o sumo sacerdote e os dois príncipes, enquanto os cortesãos fizeram uma longa fila. Antef hesitou alguns instantes até Ipi lhe dar um empurrão para que finalmente se dirigisse a Sahti que ainda estava agarrada ao braço de Namiz, sentindo-se perdida.

- Vem, rapariga - pediu o subordinado do comandante, colocando a sua mão grande e quente sobre a cabeça da criança. - Finalmente, vamos os dois para casa.

Sahti não deu um passo, olhando desesperada para Namiz, que já não

conseguia suportar o seu sofrimento silencioso e não tinha outro conselho a dar senão anuir repetidamente com a cabeça, mostrando que entendia o desamparo da criança.

- Porque está ela com um ar tão triste? - inquiriu Antef, preocupado. - Não percebeu o que eu disse?

- Acho que sim - replicou Namiz. - Mas parece ter medo. A pequena está num país estranho e perdeu tudo aquilo que tinha algum significado para ela. Felizmente, os deuses ofereceram-lhe carácter e coração; depressa compreenderá que tens boas intenções em relação a si e que em tua casa tudo de bom a espera e não o contrário.

- Não precisas de ter medo! - começou Antef voltando a interpelá-la com muita afabilidade. - Eu também sou teu amigo, miúda!

- Sahti - disse Namiz suavemente. - Ela chama-se Sahti.

Sahti continuava pressa a Namiz. Depois de ponderar a situação, Antef libertou-lhe calma e cuidadosamente os dedos, um a um, do braço do intendente até a sua pequena mão ficar na sua, na qual quase desaparecia. Um aperto amigável que Sahti retribuiu depois de uma pequena hesitação. Agora, a rapariga só olhava para ele e não para Namiz.

- E, além disso, a Tama está com certeza à nossa espera, Sahti.

Tudo em Tama se ria: os olhos cinzento-esverdeados, as faces redondas com covinhas e os lábios vibrantes que revelavam dentes imaculadamente brancos. Até os seus belos seios pareciam sorrir, bem visíveis através do vestido simples que trazia; os joelhos bem feitos, que se desenhavam por baixo do tecido urdido à mão, e, especialmente, os dedos dos pés castanhos e curtos. Fora com esse sorriso radiante que correra para Antef e Sahti e, depois de um curto momento de assombro, rindo e chorando, apertou contra si o marido e logo a seguir, com a mesma intensidade, a criança estrangeira.

- Hoje deve ser o meu dia de sorte - declarou ela mais uma vez, enquanto tocava alternadamente em Sahti e Antef como que para ter a certeza de que não estava a sonhar e, sim, bem acordada. - ísis, mãe de todas as

mães, ouviu-me finalmente.

Tama não esperou qualquer resposta, puxando os dois, entre murmúrios, para dentro de casa, que, apesar do mobiliário simples, estava limpa e agradável. Ali, forçou-os a tomar uma refeição que teria satisfeito sem dificuldade uma família numerosa com fome. Depois de uma bem temperada sopa de feijão e lentilhas, pão fresco ricamente coberto com grão-de-bico e um guisado de pato no qual boiavam saborosos alhos selvagens, veio ainda para a mesa um prato cheio de figos e nozes.

- Queres engordar-nos até à morte? - inquiriu Antef, que seguira todos os seus movimentos com alegria, fingindo dúvida.

Ela chegava-lhe ao peito, e mesmo assim só quando se colocava em pontas dos pés, mas o que lhe faltava em altura era compensado pelo seu temperamento afável. Tama conseguira até um jarro de vinho novo, do qual Antef gostava bastante, e serviu a ele e a si própria uma boa quantidade.

Comeram no pequeno pátio interior, em cuja parte dianteira se situava a cozinha, coberta de palha e ramos, protegendo do sol os seus utilizadores. Era, no entanto, suficientemente arejada para deixar sair os cheiros.

- A pequena bem precisa de mais carne sobre aqueles ossos - declarou Tama, inquieta. - E no que te diz respeito... -... Seria melhor teres em consideração o tempo que eu estive fora de casa. Meia eternidade! É que as alegrias de Hathor podem resultar muito cansativas de barriga cheia.

- É mesmo teu não pensares em mais nada num dia como este! - retribuiu ela com a mesma alegria. - O que pensará a nossa filha dos seus novos pais?

- Que eles se amam e que ainda estão loucos um pelo outro - concluiu Antef, muito sério. - E que este corajoso soldado não ansiou por mais nada nestes longos meses, senão pelos braços suaves de sua esposa.

- Só pelos braços?

Durante esta conversa, Tama acariciava provocantemente as suas coxas nas suas nádegas quentes, e ele tentava puxá-la para si, mas ela afastou-se.

- Mais tarde teremos tempo suficiente - murmurou Tama. - Quando a pequena estiver na cama a sonhar.

Sahti seguia tudo o que se passava de olhos muito abertos. Nunca testemunhara o facto de um homem e uma mulher se namorarem publicamente com lábios e mãos e muito menos com o olhar. No entanto, aquilo agradava-lhe, se bem que sentisse algum embaraço. Os modos contidos e até rudes da daia vieram-lhe sem querer à lembrança, a daia, cujas mãos só muito raramente afagavam com ternura. As mesmas mãos que manejavam a faca negra ...

Uma sombra, que não passou despercebida a Tama, atravessou-lhe o rosto. Sentou-se a seu lado, colocou-lhe cuidadosamente o braço sobre os ombros e não deixou transparecer que sabia que Sahti estava muito assustada.

- Estou tão contente por estares connosco, Sahti - afirmou ela lenta e articuladamente para que cada palavra ficasse bem clara. - Não podes imaginar como sempre desejei uma filha como tu. Entendes o que estou a dizer?

Sahti assentiu com a cabeça. «Posso», pensou ela, espantada, sentindo o seu coração a suavizar-se perante todo aquele calor, «com a mesma ansiedade como eu desejava uma mãe viva.» Sentiu subir-lhe do estômago um formigueiro agradável que rapidamente reprimiu, pois parecia-lhe demasiado perigoso .

- Vamos dar-nos lindamente - continuou Tama com cautela -, mesmo que precisemos os três de paciência para nos conhecermos bem.

O mais importante é que aprendas rapidamente a nossa língua. Assim, tudo se tornará mais fácil para ti e para nós.

«E também sei», pensou, «como o vamos conseguir. Eu trato disso.» Sahti olhava para ela enquanto lavava e secava a loiça, varria o pátio e, em pontas dos pés, tirava a roupa que branqueara e secara ao sol. Antef recolhera-se mais cedo e, quando escureceu, Tama levou Sahti para um pequeno quarto que, segundo parecia, estivera por habitar. Em frente à cama, despiu-lhe o vestido rasgado e cobriu-a carinhosamente com uma manta. A janela estava coberta com uma gaze muito fina para proteger dos insectos.

- Esta cama já espera há muito por uma menina, ibib - sussurrou ela, enquanto se inclinava sobre Sahti. - Isto significa «querida», que é talvez a palavra mais importante de qualquer língua. - Tama cheirava um pouco a pão e os seus lábios rosados quase acariciaram as faces de Sahti, mas não a beijou naquela noite. Queria dar-lhe tempo; e a si também. Ainda bem que finalmente está uma menina aqui deitada. Senão, teria sido capaz de qualquer disparate para não me sentir tão só.

Sahti riu-se porque a imagem lhe agradou e até Tama sorriu, mas rapidamente voltou a ficar séria.

- O Antef e eu estamos mesmo aqui ao lado. Se tiveres medo ou precisares de alguma coisa, chamas-nos ou vais até ao nosso quarto. Percebeste?

Sahti anuiu com a cabeça. «Fica!», quis ela dizer, «Deita-te um bocadinho ao meu lado! Sinto-me tão bem ao pé de ti.» Todavia, faltaram-lhe as palavras certas e também a coragem. Uma última festa fugidia, que parecia uma carícia de uma pena de ganso, e Tama foi-se embora e ela ficou sozinha. Se bem que todos os cheiros lhe fossem estranhos, Sahti sentiu, alguns instantes depois, o cansaço a apoderar-se dela, qual onda grande e escura que caía sobre si e a enrolava suavemente no sono.

Quando a respiração de ambos se tranquilizou, encostaram-se o mais possível um ao outro, os dedos entrelaçados, dois corpos nus brilhando de suor depois da satisfação do amor. Mantiveram-se imóveis durante algum tempo, gozando da intimidade silenciosa que havia entre eles.

- Nunca me senti tão feliz por estar em casa - disse finalmente Antef, sonolento. - Sinto-me melhor como jardineiro do que como soldado. Não é nada fácil suportar os estados de espírito do comandante mesmo que, no nosso caso, se tenha manifestado tão magnanimamente, como podes ver. Todavia, na minha opinião, o exército real nunca mais deveria pôr-se em marcha.

- Por muito que viva, nunca me esquecerei - disse Tama em voz baixa -, que mantiveste a tua promessa em relação a esta maldita expedição.

Antef aclarou a garganta.

- Não deves alimentar grandes esperanças, meu amor - afirmou ele. É apenas uma espécie de empréstimo. Não é um presente. O faraó foi muito claro e não há motivos para duvidar das suas palavras.

- Como é que a encontraste? - quis Tama saber.

As suas sobrancelhas finas cerraram-se logo que ele começou pela mordedura da serpente e pelos seus valiosos medicamentos, de facto apropriados para salvar uma vida, quando encontrara Sahti no deserto. Ela franziu mais uma vez a testa, ao ouvir o relato dele sobre a morte da velha feiticeira, causada pelas setas dos archeiros de Kemet. Foi-lhe difícil contar-lhe pormenorizadamente todos os factos, mas tentou narrar tudo o que lhe parecia importante. Por fim, falou da queda de Ipi na água e suas consequências. Quase constrangido, procurou as suas coisas que tinham ficado espalhadas pelo chão na loucura do amor, puxou da pequena estatueta em lápis-lazúli da deusa Pachet, que estava na sua sacola de linho, e estendeu-a à mulher.

- Para ti - disse. - A deusa de pedra para a minha deusa de carne e osso.

Emocionada, inclinou-se para o beijar. Os cabelos acariciaram-lhe o rosto, a boca estava quente e doce e ele desejou beber a sua respiração como se fosse vinho quente e amá-la uma segunda vez, lenta, suave e eternamente, talvez até uma terceira vez, se Hathor estivesse com ele e lhe emprestasse as forças necessárias, antes de romper a madrugada, quando a noite cuidadosamente dava lugar ao dia.

- Mas ele vai separá-la de nós? - murmurou ela entre beijos cada vez mais apaixonados. - Não pode. Uma criança é uma dádiva do céu e não um empréstimo qualquer! Ele não pode fazer isso, mesmo sendo o faraó.

Em vez de lhe dar uma resposta, a língua de Antef abriu-lhe novamente os lábios, e Tama não conseguiu pensar em mais nada durante bastante tempo.

Esperou até ter a certeza de que ele dormia profundamente. Depois, le-

vamtou-se com suavidade, envolveu-se num dos lençóis que ela própria tecera agarrou na pequena estatueta e esgueirou-se para o quarto ao lado. O luar entrava pela janela, e Tama ficou de pé ao lado da cama, admirando, encantada, os traços da criança que dormia. Sahti tinha-se destapado, o que proporcionava uma melhor oportunidade para observar a sua coxa ferida. Antef fizera bem o seu trabalho, mas uma coisa era certa: a criança ficaria com uma cicatriz. Todavia, mel e azeite, misturados na medida certa e aplicados regularmente, poderiam fazê-la desaparecer.

Finalmente, o olhar de Tama recaiu sobre o saco de pele que Sahti ainda trazia ao pescoço e, sem querer, riu-se. Logo de manhã cedo, Tama li bertaria a pequena daquela coisa pouco apetitosa e substituí-la-ia por um amuleto que lhe trouxesse sorte. Ao fim e ao cabo, era necessário um longo banho, um corte de cabelo, vestidos novos e, sobretudo, muito amor. Já era tempo de Sahti iniciar uma nova vida!

Os seus pés nus não fizeram barulho sobre as placas de ardósia do pátio interior que tinham sobrado de uma renovação dos terraços reais e que Antef, que era chamado para todas as obras manuais, colocara sozinho. Tama destrancou a porta da casa que tinham conseguido mandar edificar na Primavera do ano anterior, quando, subitamente, as moedas de prata do embalsamador para quem trabalhava haviam começado a dar à casa um bem-estar económico permanente.

A primeira das salas do andar de baixo continha os seus dois teares e, por conseguinte, a sua propriedade mais valiosa. Junto a ela, situava-se o local onde guardava as suas bolas de linho, o de pior qualidade, para vestuário simples e que há mais de um ano mantinha apenas para uso próprio, tecendo também para os vizinhos, conhecidos e amigos; o mais fino, para toalhas que reservava para a clientela rica do embalsamador.

Entrou na terceira sala, que não passava de uma câmara bastante pequena e que era o seu santuário particular. Sobre uma coluna de madeira pintada, cuja cor já estava ligeiramente desbotada, via-se uma pequena estátua de bronze: ísis, com os chifres de vaca e o disco solar na cabeça, dava de mamar ao pequeno Hórus que estava ao seu colo.

Um homem que não tenha filhos nunca será homem, assim se dizia em Kemet. Não se pensará no seu nome; nunca se dirá o seu nome; como alguém que nunca tenha existido...

Antef nunca fizera qualquer alusão nesse sentido para, tal como ela supunha, não aumentar a sua tristeza. Conquanto o desejo de ter consigo um pequeno ser também houvesse sido insuportável para Tama. Não teriam sido suficientes os amuletos caríssimos que comprara e as bebidas amaríssimas que tomara para conseguir a tão desejada gravidez? E quantas vezes, na protecção da noite, caíra aos pés da sua deusa protectora, desesperada e a chorar? Várias dúzias de mãos não seriam suficientes para contar pelos dedos.

Naquela noite, porém, dirigira-se à câmara por motivos mais ditosos. Tama ajoelhou-se, inclinou respeitosamente a cabeça e começou a orar a meia voz.

- Grande deusa ísis, senhora dos dez mil nomes, cuja imensa misericórdia alimenta o mundo inteiro, chamo-Te para Te agradecer. O meu coração está cheio de amor por Ti, tal como o lago está cheio de botões de lotos, pois finalmente ouviste a minha súplica e saraste a ferida do meu ventre sem frutos. Deixa-me usufruir até à última gota desta alegria inexplicável. Peço-Te, mãe divina, que protejas o meu marido e a minha filha!

Depois de permanecer bastante tempo em contemplação silenciosa, levantou-se lentamente. A estatueta de pedra que trouxera consigo pesava-lhe na mão. Tama observou-a com um interesse inesperadamente renovado. Há muito que se habituara, em bons ou maus dias, a nunca passar por um santuário sem apresentar uma pequena oferenda ou, pelo menos, uma oração, por muito inferior que fosse a posição da divindade. Para Tama aquilo fora mais do que uma oferta inteligente. Não haveria inveja e inimizade suficientes entre os homens para também a provocar entre os deuses?

Para Tama, há muito que estava decidido que ninguém suplantaria ísis no seu coração. Não obstante, talvez a deusa da cabeça de leoa possuísse poderes suplementares que pudessem ser úteis e benéficos ao trabalho, à casa e, sobretudo, aos seus habitantes.

Assim, Tama colocou a escultura de Pachet sobre a coluna ao lado da de Ísis. Após uma curta hesitação, empurrou a recém-chegada deusa um bom palmo para trás e recuou para observar a sua obra.

Satisfeita, assentiu com a cabeça. Sim! Parecia-lhe certo; assim repôs a ordem no seu coração e no seu santuário.

Sem pressas, trancou a porta, atravessou o pátio silencioso e voltou para a cama onde Antef há muito ressonava em paz.

 

Com a passagem dos dias, Sahti começara a confiar cada vez mais na sua nova vida e em tudo o que a ela estava ligado: o caminho ressequido entre os edifícios de tijolos de barro, nos quais viviam os vizinhos com os filhos e animais domésticos, as cabras, as galinhas, os cães e os patos, o atalho gasto que conduzia até ao rio e, sobretudo, a casa e a oficina de Tama, onde se sentia especialmente bem.

A sua mãe adoptiva não conseguira ter coragem de lhe cortar os caracóis todos, contentando-se em aparar os que emergiam, espetados, da cabeça de Sahti, parecendo envolta num capuz negro. De súbito, o pescoço de Sahti ficava inquietantemente tenso e os seus olhos pareciam impenetráveis. Havia vizinhos e até estranhos que paravam, admirados, ou olhavam para Sahti por cima do ombro com um ligeiro riso trocista, quando a rapariga passava por eles. De mais a mais, a cozinha variada de Tama fazia com que o pele de Sahti fosse perdendo o tom cinzento, ganhando cada vez mais uma cor de ouro, escura e quente. Quando se olhava com atenção, percebia-se que as costelas já não estavam assustadoramente salientes por baixo do seu vestido colorido.

Contudo, muitos pareciam não perceber a felicidade de Sahti ou até a invejavam.

- Uma criança negra? - perguntavam, admiradas, as mulheres quando se encontravam com Tama na margem do rio a esfregar a roupa em grandes pedras. - Tens muita coragem! A rapariga veio lá do Sul, de Kuch?

- A minha menina de ouro - replicava Tama a sorrir, sentindo o co ração a pular de alegria, enquanto esfregava com os seus braços fortes as toalhas de linho que mais tarde levaria para casa num cesto. Envidava também todos os esforços para que Sahti nunca viesse a saber daquelas conversas idiotas. - E foi-me enviada pessoalmente por ísis.

Finalmente, também conseguira convencer Sahti a pôr de lado o saco de pele e a pendurar ao pescoço um amuleto oval no qual estava representa do o olho de Hórus, símbolo da Lua, que protege e mantém saudável quem o usa. Mesmo assim, a menina insistira em guardar o seu saco debaixo da almofada sob a qual pousava a cabeça todas as noites e, às vezes, quando Tama saía, a seguir às histórias que lhe contava, ela retirava-o, premia o rosto contra ele e tentava recordar-se das imagens da sua terra-mãe que, para seu espanto, pareciam cada vez mais ténues.

Durante o dia, mal tinha tempo para ter pensamentos saudosos. Sahti aprendera depressa a ajudar Tama nos trabalhos domésticos, tal como já apoiara a daia nas tarefas diárias. Ia buscar água, arrumava o quarto e o pátio, tendo aprendido tudo o que se referia à limpeza dos vegetais e ao amassar do pão. Enquanto isso, Tama conversava ininterruptamente com ela, indicava tudo o que lhe aparecia à frente e repetia a palavra correspondente. Tinha a paciência suficiente para insistir até que Sahti compreendesse e conseguisse pronunciá-la correctamente.

Antef levava-a com frequência para o seu trabalho nos jardins reais que, mesmo naquela época em que tudo secava em Kemet e os seres vivos apenas ansiavam por uma sombra, estavam vivos e verdes graças a um engenhoso dispositivo de rega. Os caminhos serpenteantes encontravam-se debruados com canteiros artisticamente organizados, e não havia um único nome de planta que Antef não conhecesse. Sahti adorava observá-lo a colocar estacas em rebentos novos ou a aparar os arbustos de modo a que, em breve, voltassem a rebentar. Todavia, o que ela preferia era sentar-se à beira de um dos tanques enormes com as pernas metidas dentro de água ou ouvir o cantar dos pássaros nas copas das árvores.

Nunca era vista pelo faraó ou pela sua altiva rainha nessas excursões ocasionais, e, quando perguntava a Antef por ambos, ele explicava-lhe à sua maneira desajeitada que eles estariam decerto ocupados com os preparativos da festa de heb-sed. Uma vez pensou ver à distância o príncipe mais velho a quem Namiz chamara de Kamés, mas, quando quis aproximar-se, já ele desaparecera no meio das altas palmeiras.

O comandante Ipi já a visitara na primeira semana e, algum tempo depois, também Namiz aparecera. Dessa vez, Sahti não lhe suplicou que a levasse, em contrapartida, mostrou-lhe orgulhosamente todas as palavras e ” frases que aprendera. Tama e Antef trocaram olhares enquanto o intendente do faraó, intensamente perfumado, se movimentava para cá e para lá na sua pequena casa, mas ninguém ousou perguntar se era uma missão real ou apenas curiosidade pessoal. Para seu alívio, Namiz pareceu encontrar tudo como esperara. Acenou com a cabeça ao ver o quarto limpo em que Sahti dormia e elogiou a caneca de vinho que Tama lhe ofereceu, bem como uma fatia de pão com azeite de alho que ele engoliu com uma admirável rapidez antes de se despedir, desejando felicidade.

Além do mais, Sahti rapidamente encontrou amigos: duas meninas da vizinhança, que inicialmente tinham batido à porta a medo, mas que agora

o faziam com confiança, a fim de a ir buscar para brincar. Quem mais o fazia era Maj, o filho de Nofret, que trabalhava no segundo tear de Tama

desde que o marido morrera precocemente no Verão anterior. O rapaz, dois

anos mais velho que Sahti, mas apenas um palmo mais alto e quase tão magro, revelara-se um grande corredor. As pernas ágeis de Sahti nunca o conseguiam ultrapassar. Mesmo no início, quando ainda tinham dificuldade em compreender-se por palavras, era a jogar à apanha que se entendiam melhor. Infelizmente, Sahti não tinha tanto tempo para esses prazeres como Maj, o qual sabia, com uma infalível perspicácia, esquivar-se a tudo aquilo

que, ao longe, se assemelhasse a trabalho. Tama estava sempre a precisar de Sahti, na maior parte dos casos para tarefas simples na oficina. O embalsamador Ut, o seu cliente mais importante, encomendara uma enorme quantidade de ligaduras de linho para os seus clientes, gente rica que não ficara

satisfeita com o facto de os seus mortos serem envoltos em lençóis velhos, e as duas mulheres que trabalhavam nos teares estavam a fazer os impossíveis para que a encomenda se encontrasse pronta a tempo. Assim, os tecidos para vestidos e adereços de cama dos vizinhos tinham de esperar. Ut era, além do mais, um cliente muito importante, que exigia tratamento especial. Sem perder uma palavra sobre o assunto, esperou que Tama abandonasse tudo e lhe desse atenção, assim que entrou no pátio. Apenas aceitava a melhor qualidade e, depois de um controlo meticuloso, rejeitava cada ponto falha-

do, cada irregularidade no tecido ou baixava enormemente o preço acordado.

Sempre que o via chegar, Sahti escondia-se atrás das bolas de linho empilhadas. Receava aquele homem baixo, com o tronco de um lutador e as

curtas pernas estranhamente finas, que lhe fazia lembrar uma esfera ambulante. O seu crânio era completamente liso, como se nunca tivesse tido um úmico cabelo, e os pequenos olhos rápidos e duros quase desapareciam no

lobo ocular. Quando se zangava, o que podia acontecer com grande rapidez, o seu queixo triplo estremecia e a voz fazia lembrar o guincho indignado de um bácoro.

Tama era a única que sabia como lidar com o embalsamador. Mantinha-se sempre amável e alegre, quer ele criticasse com mesquinhez, vociferasse ou diminuísse o preço acordado para a encomenda. Conseguia sorrir ao trazer-lhe a obra de arte já pronta, quando todos os que estavam nas proximidades se encolhiam. Se alguém tentasse dizer alguma piada sobre os acontecimentos ou falar dele, ela repreendia-o imediatamente, mesmo se se tratasse do marido.

- Fico sempre com pele de galinha quando esse servidor de Anúbis pisa o nosso chão. - Antef estremeceu de vergonha. - Nunca reparaste a que é que ele cheira? A morte e putrefacção, mas as suas arcas devem estar a transbordar de ouro e prata. Contra isso, nem muitos baús do melhor óleo de açafrão poderão tirar-lhe aquele cheiro. - Inclinou-se para beijar o alto da cabeça de Tama. - Será que não há mais ninguém para quem possas trabalhar, minha querida?

- Claro - retorquiu Tama, impenetrável. - Há dúzias.

- Então, porque é que não mudas?

- Porque, sem Ut, eu não teria um tear novo nem esta nova casa onde posso trabalhar em paz e sem que me perturbem. Ele detém uma posição importante e paga em prata, enquanto os outros chegam cá com uma galinha no braço ou um barril de azeite... quando trazem. Além disso, não gosto que profiras o nome de um deus em vão. - Os lábios já tensos de Tama ficaram subitamente duros. - Anúbis não é apenas o protector dos mistérios como também, em relação a Maet, o poderoso senhor dos pratos da balança. Virá inexoravelmente o dia em que tu irás alegremente à sua presença.

Recomeçou o seu trabalho que interrompera por breves instantes, uma verdadeira mestra de tecelagem. Sahti nunca aprenderia a separar os fios com a ajuda de uma dobadoura como ela fazia, nem nunca conseguiria dominar daquela maneira a lançadeira que voava para cá e para lá nas mãos de Tama. Só de ver ficava-se tonto. Por muito que se esforçasse, Nofret nunca conseguiria ser tão hábil como ela, pois aquela tosse horrível, da qual não conseguia livrar-se, obrigava-a a fazer pausas cada vez mais amplas. Nesses casos, Tama trazia-lhe chá de funcho quente com mel e começava a contar uma das suas muitas histórias que Sahti nunca se cansava de ouvir, enquanto os seus pés manobravam os pedais a uma velocidade relâmpago e as tiras de tecido apareciam nas suas mãos como que por geração espontânea.

- No início havia o gigantesco oceano Nun. Destas águas intermináveis nasceu o monte original. Uma flor de loto subiu para cima dele, da qual saiu Ré, o deus do Sol...

Essas histórias continuavam normalmente à noite, quando Sahti já estava na cama e já fizera as suas orações...

-... por sua vez Ré teve dois filhos divinos: Chu, o ar, e Tefnut, a água. Estes geraram Geb, a terra, e Nut, o céu. Geb e Nut deram à luz Osíris, Set, Néftis e Isis...

- Isis é a de que eu gosto mais - murmurava Sahti, bêbeda de sono. - Porque traz o Sol na cabeça.

- Também é a minha preferida, minha filha - sussurrava Tama, dando um beijo de boa-noite cheio de amor. Há muito que nenhuma delas prescindia dele.

 

Nenhuma das histórias de Tama prendia e tranquilizava Sahti como a de Isis que vertera lágrimas amargas com a morte do seu amado Osíris, pois tinha sido morto por seu irmão Set. Quando finalmente a estrela do Cão ( a estrela de Sírio – N.T. ) se mostrou no céu e os campos se afundaram no abraço do Nilo, Sahti percebeu que tudo aquilo só poderia ser devido ao choro de ísis. Tudo indicava que Kemet iria novamente ter um ano frutífero com boas colheitas. Por esse motivo, a festa de Ano Novo e, consequentemente, a homenagem a Hapi, o grandioso senhor das águas, iriam ser particularmente deslumbrantes.

A sua estátua, um homem gordo e hermafrodita com seios descaídos, seria retirada da escuridão do templo e integrada na procissão, durante a qual lhe eram feitas oferendas junto ao Nilo: aves selvagens das suas margens, pão, ramos de loto e papiro e inúmeros peixes. Também Sobek, o deus com figura de crocodilo com a coroa de penas verdes, seria muito louvado, pois acreditava-se que ele retirara a água do mar original para a trazer para o vale do Nilo, tornando os campos verdes. Seriam sacrificados bois, acender-se-iam fogueiras e os sacerdotes louvariam a inundação com hinos sagrados.

- Louvado sejas, Hapi, que corres até ao delta! Apareceste para dar vida a Kemet e de beber ao deserto. Louvamos-Te como a um rei, se de vez em quando fizeres subir as águas e encheres o Baixo e o Alto Kemet. Inundas os campos que Ré criou. Os crocodilos estão prenhos. A novena dos deuses que reside em Ti dará à luz... Nilo, alarga-te, pois só Tu manténs vivos homens e animais!

Antef, que deveria inspeccionar um pedaço de terra pertencente a Ipi e que ficava fora de Uaset, levou Sahti consigo para verificar o estado das águas. De mão dada percorreram os diques que impediam as inundações, servindo simultaneamente de caminho. Estupefacta, Sahti viu que os canais de irrigação, anteriormente secos, estavam cheios até às bordas e alegrou-se com a lama que, tal como Namiz profetizara, cobriria os campos com um fértil manto negro quando as águas descessem.

Quando voltaram para casa, Tama surpreendeu Sahti com um presente: algo semelhante a um novelo de pêlo que enchia a sua mão de criança. A cabeça e as costas eram percorridas por faixas negras idênticas, enquanto as patas eram negras como pez, e o ventre redondo, que subia e descia velozmente, cor de mel.

- Um vizinho quis afogá-la no Nilo - disse ela enquanto Sahti, encantada, pressionava a gata contra si e esta miava, indignada, enterrando as garras afiadas no seu peito. Um amor selvagem e trasbordante subiu por ela acima, sentindo mais uma vez uma saudade tão grande de Ruju e da data que ficou estonteada. A voz alegre de Tama entrava nos seus ouvidos como um sussurro. - E não podíamos deixar que isso acontecesse. Pois não?

- Vou chamar-lhe Kctdiis - murmurou a rapariga. - E pode dormir no meu pescoço. - Lançou um rápido olhar a Tama. - Ela é só minha?

- Claro! A partir de agora és responsável por ela, pelo menos até crescer. Só não me agrada essa história do pescoço. É mesmo necessário? Franziu a testa. - E porquê Kadiis*. - indagou Tama. - É um nome muito curioso!

- Porque quer dizer «gato». Na minha língua.

Sahti ficou ligeiramente corada e sentiu de súbito muita pressa em correr para a casa ao lado e mostrar o seu presente a Maj. Tama ficou a olhar para ela, enquanto Sahti caminhava. Até então, a rapariga evitara qualquer menção à sua vida passada, mas sentia que imagens e pensamentos tenebrosos deviam torturar Sahti. Já por duas vezes a tinham encontrado a meio da noite no pátio, descalça, com os olhos muito abertos, mas evidentemente a dormir, pois não conseguiam falar com ela, e no dia seguinte não se recordava de nada. Tama sabia, por ter presenciado esse facto várias vezes, que as pessoas podiam morrer se não fossem suficientemente amadas. Teria sido essa talvez uma das razões por que lhe oferecera o animal: para que Sahti aprendesse o mais depressa possível o que era amor e compreendesse melhor como era profundamente amada naquela casa.

Dois dias mais tarde, quando foi ter com Sahti à cama, verificou que Kadiis já há muito a adoptara como local para dormir. Criança e gata estavam enrolados, respectivamente por baixo e por cima do lençol de linho, como se esperassem pela história do costume. Contudo, daquela vez, Tama não falou de Isis ou Set, ficando em vez disso sentada à beira da cama.

- Não queres trocar e seres tu a contar-me alguma coisa? - perguntou ela quando Sahti finalmente se queixou.

- Eu! Eu não sei nada!

- Não acredito. Por exemplo, gostaria tanto de saber como eram as coisas no teu país!

- Já me esqueci de tudo. - O corpo da criança ficou hirto e virou abruptamente a cabeça para o lado.

- Tudo mesmo? - perguntou Tama com cautela. - Não queres pensar um pouco, minha querida?

- Tudo!

Quando abandonou o quarto, Tama percebeu que fora demasiado cedo. Sahti tinha os olhos fechados, mas na realidade ainda estava acordada, fingindo dormir. Porém, Tama voltaria a tocar no assunto mais tarde, se visse necessidade de tentar novamente. Mas há muito que entendera uma coisa: se Sahti queria ser uma verdadeira filha de Kemet, teria de aprender a falar da Terra do Ouro.

O dia do festival heb-sed começara com uma manhã soalheira e luminosa, na qual Uaset inteira parecia repousar. Na noite anterior, fora enterrada festivamente no templo uma estátua do faraó, que deveria simbolizar a morte do velho rei, dando lugar à renovação.

E, na realidade, Sekenenré, que na manhã seguinte subira para o estrado num pavilhão de festa meio aberto, parecia maravilhosamente rejuvenescido. Os seus traços estavam mais firmes, os olhos mais claros e vivos e até o porte parecia mais garboso. Colocara o seu manto de linho azul do heb-sed, que lhe cobria os braços e terminava à altura dos joelhos. Nas mãos tinha as insígnias do poder: o ceptro e o bastão. A cabeça estava coberta com o toucado de Nemes, com a serpente original.

A rainha ficara nos seus aposentos. Ahhotep tinha, há poucos dias, dado à luz mais uma filha, e sofria, assim dizia a versão oficial, dos efeitos de um parto difícil. Presentes encontravam-se Ahmés e Kamés e ainda as três princesas mais velhas, que se encolhiam contra as paredes do pavilhão real, e ainda Seb, o vizir, e o sumo sacerdote, Nebnefer. A própria Teti-Cheri, a rainha mãe, seguia os acontecimentos numa liteira pintada, coberta de panos coloridos para a proteger do sol quente.

Na infindável procissão, liderada por Ipi, que parecia um senhor vitorioso, foram inseridos os tributos trazidos da Terra do Ouro para Uaset, destinados ao faraó regente: sacos com pó de ouro e pedras preciosas, peles de animais, marfim e ovos de avestruz. As manadas que se seguiram sujaram o local da cerimónia de tal maneira que os enviados de todas as terras, os portadores das oferendas, os soldados da corte e os sacerdotes vindos para prestar homenagem ao seu soberano tiveram dificuldade em não sujar os pés.

Depois de uma rápida limpeza, instalou-se em frente ao trono um dos quatro cordões de archeiros, que deviam manifestar a contínua estabilidade da soberania.

- Ele afunda-se no ventre da terra como uma temível estaca e desta união surge uma nova vida.

A voz de Nebnefer tremia ligeiramente enquanto pronunciava as palavras rituais.

Finalmente, Sekenenré levantou-se e preparou-se para a corrida do rei. O murmúrio ansioso dos espectadores aumentou e até Sahti começou a gritar, confortavelmente sentada nos ombros de Antef, quando detectou Namiz no meio da multidão, esforçando-se por abrir caminho até ao pavilhão.

Gemia quando finalmente lá chegou.

- Hoje de manhã, uma terrível dor de cabeça quase me tirou a razão - informou ele, queixoso e ainda muito pálido. - Mas, por sorte, ainda consegui chegar a tempo!

Sahti queria brincar com ele, mas subitamente parou. Uma mulher esbelta acabara de entrar no local dos festejos, brilhando em branco e prata, qual a figura de uma deusa. O seu corpo estava coberto do mais fino linho. Pescoço, orelhas, tornozelos e pulsos, ornados de lindas jóias. Quando a viu, o faraó, que tinha acabado de tirar o seu manto e recebera das mãos de Nebnefer a tradicional pele de animal, parou. À distância não se conseguia distinguir muito bem a expressão do seu rosto, mas Sahti poderia jurar que ele estava a rir-se de felicidade.

- A sua nova favorita - murmurou Namiz a Tama e Antef, parecendo ter esquecido a presença de Sahti. - E parece que ela o trouxe à razão. No harém, há cada vez mais burburinho e até a esposa real se consome de ciúmes. Foi por isso que ela não apareceu e não por causa do nascimento da filha.

Só quando a clara figura se virou é que Sahti reconheceu quem era.

- Nabu! - murmurou ela, assustada, e olhou para as suas próprias articulações que, subitamente, lhe pareceram muito escuras. Sentiu de súbito um gosto amargo na língua, o sabor da traição, o coração a apertar-se. Agora, a Terra do Ouro parecia ainda mais distante. - Mas como é que ela consegue estar mais branca e clara do que o faraó?

- Pó de alabastro - afirmou Namiz -, que é de fácil utilização e já foi diversas vezes testado.

No pátio da festa fez-se silêncio. À sua volta tinham sido colocados relicários, símbolos dos santuários dos deuses de todas as províncias. Sekenenré, que usava a coroa das Duas Terras com a erecta serpente original e colocara a artística barba dos deuses, virou a cabeça e correu, com uma velocidade surpreendente, entre as pinturas em forma de meia-lua que simbolizavam as fronteiras de Kemet. O seu corpo estava coberto de suor e gemia quando, por fim, tomou lugar sucessivamente em dois tronos, mas o seu porte continuava majestoso e cheio de vigor.

Todos os espectadores sabiam o que significavam os dois tronos: o domínio absoluto sobre o Alto e o Baixo Kemet e com isso uma declaração de guerra a Apopi, o poderoso rei dos Hicsos do longínquo delta.

Nebnefer colocou-se em frente do faraó e levantou os braços em oração:

- Só tu asseguras Kemet, tu determinas as leis para a alegria das pessoas. Tu satisfazes as necessidades, fundador de ambas as terras, os dignitários estão no local certo. Tu defendes as fronteiras contra novos assaltos. Ré r teu pai, em cujo trono foste parido. Todas as terras te temem.

Em seguida, foi a vez de Ipi, que entregou ao soberano as armas rituais. O faraó assumiu a posição, estendeu o arco e fez uma pontaria certeira. Só depois começou a disparar: a primeira seta para norte, e a segunda, para leste. A terceira para oeste. A quarta, que foi lançada com tanta força como as anteriores, voou para sul.

Sahti, ainda sobre os ombros largos de Antef, fechou os olhos cheios de terror quando ouviu a última seta a sibilar pelos ares, receando que ela lhe perfurasse o coração.

 

QUINTA HORA: NOS BRAÇOS DAS TREVAS

Como acontecia muitas vezes, Sahti encontrava-o junto ao rio, não muito longe das grandes pedras onde as mulheres esfregavam a sua roupa. Terminara a época das inundações, o Nilo recuara novamente para o seu leito, e a lama negra ficara sobre os campos. Peret ( época de sementeira que ía de meados de Novembro a meados de Março – N.T. ) estabelecera-se e havia dado início à época da sementeira com Mechir, a segunda Lua, enviando dias quentes que convidavam aos banhos e a longos passeios. Alguns patos nadavam por entre os juncos, quando ela chegou à margem. Naquela altura, em que as sombras cresciam lentamente, a água estava verde-escura, e pó de ouro parecia bailar sobre as ondas. Contudo, ela já vira a cor mudar frequentemente para azul e até para cor de prata.

Maj, que esperava na margem, apenas reparou em Sahti quando ela já estava muito perto. Só há pouco tempo é que ele começara a crescer, mas agora já a ultrapassava em mais de uma cabeça, movimentando-se, porém, tropegamente, como se ainda não se tivesse habituado à sua altura. O seu corpo era rígido, musculoso e a pele bronzeada, se bem que fosse mais clara

que a de Sahti. Os ombros pareciam mais másculos desde que encontrara um trabalho no porto, como carregador, e as pernas magras também davam a sensação de estar mais fortes. Todavia eram, sobretudo, os seus órgãos genitais, os quais faziam lembrar-lhe uma flor escura, que levavam Sahti a

corar.

O seu andar mudou quando ele a olhou e, subitamente, Sahti sentiu um calor entre as pernas, parecendo que Maj lhe estava a tocar na pele. No mesmo instante, tomou dolorosamente consciência das alterações do seu corpo. Em geral, estudava as pequenas mudanças só à noite, quando ninguém a incomodava: o suave aumento dos seios, a penugem que crescia nas axilas e na vulva, e as coxas que já não possuíam nada de infantis, manifestando a sua adolescência. De vez em quando, as mãos de Sahti escorregavam  até ao regaço; era então apanhada por um turbilhão de desejo, medo e sentimentos de culpa que mal conseguia suportar.

Seria a ira do escorpião por, até então, não ter sido castigada com a fiu .1 negra?

Se fosse verdade o que Ruju lhe sussurrara há muito tempo ao ouvido, sem os dias e as noites passados na cabana do escorpião, nunca nenhum ho mem a amaria e muito menos teria filhos. Mas essa tradição seria apenas válida na sua pátria ou também ali, em Kemet?

Teria preferido perguntar a Tama, que parecia ter muito boas relações com o seu corpo de mulher, pois era ainda tão desejada por Antef como no primeiro dia do seu amor. Contudo, não ousara perguntar e, cada vez que o tentava fazer, perdia a coragem. Havia noites em que não conseguia adormecer por causa dos ruídos de amor que vinham do quarto ao lado. Naturalmente, nunca proferiu uma palavra sobre o assunto, nem a Tama nem a Antef. Sahti encontrava-se em Uaset já há quatro anos e nunca quisera ser nada mais do que uma rapariga de Kemet, sem ser incomodada com perguntas e recordações. Até Tama parecia sentir isso, pois desistira, com súpli cas ou exigências, de tentar saber fosse o que fosse sobre a antiga vida de Sahti.

Sahti virou-se rapidamente antes que Maj reparasse no seu embaraço e tivesse oportunidade de voltar a colocar o seu avental. Ficaram em silêncio durante algum tempo. Sahti sentara-se numa enorme pedra, que lhe trans mitia calor à pele, e Maj instalou-se ao lado. Olhou para a água, enquanto ela aparentemente observava os jogos de sol e sombra que as folhas das palmeiras reflectiam.

- Como está a Nofret? - perguntou Sahti finalmente, se bem que já conhecesse a resposta.

Há muitas luas que a mãe de Maj estava demasiado doente até para trabalhar no tear. Desde então, a gorda Redi ajudava sempre que podia e até Sahti o fazia, quando Tama tinha encomendas urgentes para Ut.

- Cada dia pior.

- E por que razão não estás junto dela?

Sahti arrependeu-se mal acabou de proferir a pergunta, mas nos últimos tempos algo a impelia a magoar Maj. Quando os seus traços fisionómicos exprimiam dor, ela sentia um triunfo doce, o qual rapidamente desaparecia.

- Porque já mal consigo suportar a situação - replicou ele em voz baixa. - Se ela gritasse ou, pelo menos, chorasse! Mas passa o tempo a tentar mostrar-se forte e isso é muito mais grave. Às vezes, até desejo que tudo termine. Podes imaginar isso?

Ela anuiu rapidamente com a cabeça. Agora, era-lhe penoso olhar para ele e para a sua dor.

- E acabo por ter tanta pena que me odeio. Estarei a ser um monstro, Sahti ? - Tinha-se virado para ela. Os seus joelhos quase se tocavam e conseguiu aperceber-se, pelo cheiro, de que ele comera feijão com cebola, como todos os que queriam alimentar-se rapidamente. - Primeiro, o meu pai e , agora ela! Às vezes penso que os deuses me querem castigar. Mas porquê? Eu não fiz mal a ninguém.

- Não - disse Sahti suavemente - não fizeste, Maj. É é óbvio que não és um monstro. A Tama diz que ninguém consegue saber o que o destino lhe reserva. - Apertou-lhe o pulso com os dedos. - Talvez os deuses queiram testar-te por te terem destinado algo de especial.

Nos seus olhos ela leu um rápido alívio, mas voltaram a ficar turvos devido ao medo e preocupação. Teria preferido abraçá-lo e apertá-lo contra si como já fizera com Kadiis. Claro que não o fez. Em vez disso, retirou a tira colorida com o amuleto de Tama e pendurou-o ao pescoço de Maj.

- Ofereces-me isto? - perguntou ele, surpreendido. - O teu amuleto?

Sahti acenou com a cabeça.

- Udjat, o olho curador de Hórus, proteger-te-á - afirmou festivamente, tal como a sua mãe adoptiva fizera com ela. - A partir de agora trazes a Lua, que deve estar lá em cima no céu, sobre o teu peito. E tenho a certeza de que te trará sorte.

- Enquanto viver nunca tirarei este amuleto - gritou Maj, excitado. - Nem na sepultura.

Tentou abraçá-la, mas Sahti afastou-se bruscamente, se bem que tudo nela ansiasse por um conforto. Porém, lá estava a promessa firme que fizera a Tama. O primeiro ciclo menstrual da rapariga ainda não surgira, o que era estranho, mas que inexplicavelmente estava de acordo com Sahti. Assim sendo, a sua mãe adoptiva tinha-a avisado para não se deixar abordar por nenhum homem. Aparentemente, a tecedeira não tencionava casá-la tão cedo, tendo outros planos para Sahti, relacionados decerto com o trabalho, Tama queria expandir a oficina para que Sahti cortasse e cosesse peças de vestuário, a partir dos tecidos coloridos ou brancos feitos no mesmo local.

- Preferimos esperar ainda algum tempo antes de te encontrarmos um

marido. Nessa altura, já saberás mais sobre a vida e poderás reconhecer quem te convém. - Puxou Sahti contra si e beijou-a. - E, além disso, não tenho o menor desejo de perder tão cedo a minha menina de ouro para

um indivíduo qualquer.

Aquilo parecia ser uma atitude maternal, mas por trás havia qualquer coisa que Sahti há muito descobrira. Tama amava-a tanto que não a queria partilhar com ninguém. Assim, Sahti tinha de se justificar quando queria sair com outras pessoas da sua idade, quando demorava mais tempo a regressar do mercado, onde Antef vendia figos numa pequena banca, ou quando se esquecia das horas ao ir buscar água. Se dependesse de Tama, esta nunca tiraria os olhos de Sahti. Como aquele empenho se manifestava cada vez mais forte, a rapariga fora obrigada a pensar em pequenas desculpas ou a escapulir-se no caminho para casa.

Mesmo agora, depois de ter deixado Maj na margem do rio, Sahti ia a pensar numa maneira de explicar a sua ausência para evitar uma discussão com Tama, que, apesar da sua boa disposição, era capaz de remoer dias a fio em alguma coisa que lhe escapasse à razão. Ao princípio, Sahti ficava secretamente amuada e zangada, mas agora acedia cada vez mais e tentava realizar os desejos de Tama.

Depois, os seus pensamentos voaram para as preocupações que sobre carregavam o seu amigo. Pelo seu trabalho no porto recebia o suficiente para se alimentar a si e a Nofret, mas não sobrava nada para os tratamentos Além disso, Sahti não sabia se haveria algum meio eficaz contra os escarros com sangue que a mãe de Maj cuspia. A própria Tama, que tinha sempre uma proposta útil à mão, parecia também desorientada. Uma vez, lançara .1 hipótese de ser a deusa Selket, a qual deixava respirar os pulmões, que desejava levá-la rapidamente para o seu serviço. Entretanto, Sahti soubera pela sua mãe adoptiva da importância de estar de boas relações com as divindades para se receber algo de bom.

O interior do templo dedicado a Selket não podia ser usado pelos simples crentes, e Nofret não podia deslocar-se a qualquer um dos pequenos santuários existentes em Uaset, pois estava demasiado fraca para isso. Mas por que caminho deveria uma mulher sem meios, como Nofret, conseguir uma valiosa estátua de um deus, a quem pudesse pedir vida e saúde dentro das suas quatro paredes?

Sahti decidiu que havia apenas uma pessoa que podia ajudar a alcançar o impossível: Namiz. Tinha de pensar muito bem na maneira de o com

vencer.

Um suave arrulhar, algo tão suave como a seda, roçava-se pelas paredes.

- Kadiis - gritou Sahti alegremente, inclinando-se para a afagar.

O animal tornara-se uma visita rara na casa. A sua orelha esquerda apresentava uma cicatriz, tendo ficado um ligeiro alto, depois de Kadiis, no Inverno anterior, lhe ter enterrado um espinho, e estava tudo menos gorda. Os seus olhos mantinham-se claros e o pêlo brilhava, sendo tudo isso um sinal de saúde de uma caçadora experiente que aprendera a tratar da sua sobrevivência. Não poderia ela aprender com Kadiisi

E enquanto percorria, acompanhada pela gata, o caminho ressequido que conduzia a casa, Sahti amadureceu o seu plano.

Sekenenré levou algum tempo até descobrir finalmente sua mãe no par que novo. Sentara-se confortavelmente num dos bancos de alabastro que, à sombra das palmeiras, convidavam ao descanso. Como sempre, Meret estava acocorada a seu lado com uma expressão zangada.

- Saudações, grande senhora Teti-Cheri! - proferiu cortesmente.  - Vim pedir-te um conselho.

- Com honra e prazer - replicou ela com não menos formalidade, inclinando a cabeça. - Por favor, Meret. Deixa-nos um pouco a sós.

A velha levantou-se, murmurando palavras incompreensíveis e afastou-se sem pressa. Até de costas se conseguia ver como tinha levado a mal o pedido.

- Como é que suportas a presença dessa velha? A sua rabugice pôr-me-ia louco.

- Ela é minha irmã de leite - contrapôs Teti-Cheri - e dois dias mais nova do que eu. Todas as manhãs damos mais um passo em direcção da morte e, quantas mais manhãs vivermos, maior será a alegria com que a esperamos.

Sekenenré olhou fixamente para ela. Só tinha quinze anos quando o trouxera ao mundo. Não era uma princesa de sangue real e sim a filha de um simples juiz. Encantara de tal modo o seu pai, o duro faraó Senaktenré, que no espaço de algumas semanas a elevou à posição de esposa preferida. Talvez nessa altura, ela já estivesse anormalmente desperta para as coisas dos espíritos. De qualquer modo, no decorrer dos anos, tinham louvado tanto a sua beleza, coragem e especialmente inteligência que corria por todo o reino que Teti-Cheri tinha quatro olhos, conseguindo assim olhar para as quatro direcções do céu. Nunca passara pela cabeça de Sekenenré que pudesse perder os seus poderes. Mesmo agora, que o seu cabelo negro estava adornado com madeixas prateadas e uma rede de finas rugas lhe rodeava os olhos, a mãe parecia-lhe tão jovem como sempre.

- Promete-me que nunca morrerás! - exigiu ele, apertando-lhe as pequeníssimas mãos que lhe tinham dado a alcunha, entre outras, de «a criança».

- Como posso prometer isso? - indagou ela, rindo. - O meu coração ainda está contigo, mas já existem momentos em que anseia por uma nova morada.

- O teu lugar é aqui - contradisse ele -, neste novo e luxuoso palácio que mandei construir especialmente para ti.

- Estou a falar na minha casa a oeste - continuou ela tranquilamente - a sepultura que me espera do outro lado do rio. A minha mãe terrena esteve grávida de mim durante dez meses, mas em breve os braços da celestial Nut se estenderão para mim. Quando penso nisso, o meu coração salta de felicidade.

Fez-lhe uma festa cuidadosa na testa como se, com aquele gesto, pudesse apagar-lhe as marcas de preocupação.

- Ficavas com um ar tão zangado quando ainda não conseguias andar bem! Um pequeno herói que já nessa época teria conquistado todo o mundo. Tu és o Único-Um, meu filho. Em que pode aconselhar-te uma velha como eu?

- Uma rainha inteligente apoia o rei na protecção da pátria e na manutenção do reino.

- A tua rainha chama-se Ahhotep e não Teti-Cheri. - Calou-se por uns instantes. - Ela ainda não te perdoou? - O seu tom denotava a sua falta de compreensão por tão disparatado comportamento. - Ser rainha significa colocar o dever acima de tudo. Toda a minha vida foi assim e assim será a vida de qualquer rainha.

Sekenenré abanou a cabeça.

- Nunca me perdoará. E muito menos quando souber que vou levar a Nabu para Hut-Uaret.

- Para Hut-Uaret? Porquê?

- Porque não quero sofrer mais provocações de Apopi e dos seus hicsos - contestou ele, excitado; pôs-se de pé e começou a caminhar em passos largos e enérgicos em frente do banco. - Vai ter de perceber com quem se meteu!

- E o que esperas? - Subitamente, a voz de Teti-Cheri ficou mais áspera. - No festival heb-sed atiraste a tua seta para norte. Ele tem de reagir.

- Mas a maneira como ele o faz! Na sua terceira mensagem utiliza comparações que indicam que me despreza a mim e ao meu trono e, consequentemente, toda a família. Ele não pede! Ele ordena! Afirma que os hipopótamos o adormecem quando berram nos nossos mares, os animais do seu deus, Sutech, que nós gostamos tanto de caçar em barquinhos de papiro.

- O seu tom mudou. - Sei exactamente o que aquele merda de cão quer dizer com isso. - Cuspiu o insulto como se fosse um alimento estragado.

- E não farei uma viagem tão perigosa sem a Nabu! De modo algum! Que mais me pode proteger do seu ódio do que a poderosa força da serpente?

- Já determinaste o teu plano e já não precisas do meu conselho declarou Teti-Cheri, tranquila. - Os teus barcos estão prontos?

Ela nem se deu ao trabalho de mencionar a segunda parte do discurso do filho. A cobiça do harém real não perdera nada na sua política. Fora como futuro faraó que educara o filho, mas se, agora, que era um deus, acreditava poder afastar-se disso, o assunto era dele e não seu.

- Com o orgulhoso estandarte de Uaset no mastro. - Subitamente, pareceu desanimado. - Mas o que acontecerá se, apesar de todos estes preparativos, não conseguir vencer Apopi? Se os aliados não forem fiéis e Hut-Uaret for, de facto, uma cidadela intransponível, como supõem muitos dos nossos informadores? Ou se eu próprio cair na armadilha? Então, haverá guerra por todo o Kemet e inúmeros inocentes perderão a vida. Será que é esse o verdadeiro desejo de Amon, mãe?

Ela calou-se, comovida com o facto de o filho, pela primeira vez em tanto tempo, lhe ter aberto o coração.

- Kemet é das gentes de Kemet - declarou ela por fim com grande ênfase. - O destino da nossa terra foi determinado por senhores estrangeiros durante demasiado tempo. Além disso, tenho a certeza de que voltarás são e salvo. E mesmo que isso não aconteça... - Respirou fundo, falando depois com uma voz mais firme: - com Kamés e Ahmés, tens dois falcões no ninho que poderão assumir a tua herança. O primeiro acabou de casar e o outro fá-lo-á em breve. Dá-me um motivo para que não gerem filhos! A nossa espécie continuará, mesmo que nós já não estejamos aqui.

Esperou, um pouco ansiosa, que o filho aceitasse o facto de ela nomear os netos à sua frente, mas ele não alimentou a esperança de Teti-Cheri.

- Então, és a favor da guerra?

O faraó ficou suspenso das suas palavras como se tudo dependesse delas.

- Um trono que é construído com base na fraqueza ou na inimizade não merece ser honrado - replicou com uma expressão real. - E no que concerne Amon, a quem já fizeste um juramento, já sabes a quem é que o meu coração é fiel: lach, protector da Lua. No seu reino da noite, as coisas não são nem pretas nem brancas. Estão cheias de sombras secretas que podem significar muita coisa.

Ele assentiu com a cabeça, mas pareceu óbvio que não tinha compreendido aonde ela queria chegar.

- Permite-me que seja mais clara! - disse Teti-Cheri. - Os grandes soberanos nunca tiveram receio de servir a astúcia. Até o deus da Lua se esconde debaixo de outros nomes quando é necessário, acabando assim com os seus inimigos. Porque não o fazes tu também, amado Hórus dourado das Duas Terras?

- Fala! - disse ele com crueza. - Que devo fazer?

- Bom! Porque não derrotas Apopi, mostrando obediência e até humildade se é isso que ele exige? - Os seus olhos brilhavam. - Asseguras-lhe que nenhum hipopótamo levantará a sua voz moribunda no teu reino, envias-lhe ricas ofertas, mais valiosas do que ele exige, para demonstrar que tem em ti um vassalo fiel. Enquanto balança na ilusão enganadora de que teve sucesso em todos os aspectos...

-... a minha frota de guerra dirige-se para norte, a fim de o aniquilar e para me devolver o direito à coroa das Duas Terras.

A voz de Sekenenré era triunfante; começou a rir.

- A coroa branca do Alto Kemet e a vermelha do Baixo - reforçou Teti-Cheri cheia de orgulho. - Que assim seja, filho do meu coração! E que todos os nossos deuses estejam a teu lado!

Namiz recebeu Sahti à porta da sua luxuosa morada que ficava junto ao Nilo e possuía um porto próprio. Todo o pessoal parecia estar muito atarefado, pois à noite realizar-se-ia uma grande festa. Os criados tinham passado todo o dia na cozinha a preparar diversos assados, pão e várias doçarias. Agora, a poucas horas da entrada dos convidados, todas as salas estavam a ser ornamentadas com grinaldas e coroas de flores coloridas, tendo sido também preparados os cones de bálsamo preferidos, que deveriam ir derretendo na cabeça dos participantes e colorindo de amarelo cor de açafrão o seu vestuário branco.

Sahti já lá estivera muitas vezes, pois Namiz convidara-a, amiúde, para o visitar, quando se encontrava na cidade mais do que poucos dias. Contudo, naquele dia, o turbilhão de criados e a disposição de todo aquele esplendor fez com que ele levasse mais tempo a dar atenção a Sahti.

- Uma estátua de Selket? - perguntou Namiz, espantado. Parou de arranjar as flores de loto que flutuavam na tigela de prata e que seriam oferecidas aos convidados em sinal de boas-vindas. Em casa, cobria o seu corpo com um traje até aos tornozelos, tal como faziam os homens na sua terra natal. - Por que razão tem de ser exactamente essa deusa?

- Ela mandou a Isis sete escorpiões para se salvar de Set - comentou Sahti, sentindo uma imensa gratidão pelas histórias e lendas de Tama. E protege e sara os pulmões.

- Em ouro? - continuou ele, fazendo o possível por não demonstrar muito a sua curiosidade, pois talvez fosse a única maneira de obter de Sahti a história completa. - Infelizmente será um objecto muito caro e é quase impossível, pois em todo o Kemet há apenas uma pessoa que tem o direito de ter uma coisa dessas: o faraó.

- O material não tem importância, mas tem de ser bonita - retorquiu Sahti, muito séria.

- Porquê?

- Para que se possa rezar especialmente bem à deusa. Subitamente, tudo se tornou muito simples. Esqueceu-se de todos os

seus cálculos e começou a contar a história de Nofret, que morreria se não houvesse melhoras, e de Maj que já não conseguia suportar o sofrimento de sua mãe. Namiz ouviu atentamente em silêncio, com os lábios em forma de bico, como sempre fazia quando alguma coisa o interessava.

- E o Maj é o teu pequeno amiguinho? - indagou ele. - O rapaz que já vi em vossa casa?

- Sim. Meu amigo - assentiu Sahti. - Mas já não está pequeno. Está mais alto do que eu. - Colocou-se em pontas de pés e indicou uma medida invisível que ficava algures acima da sua cabeça. - Ajudas-me?

- Não conseguirás comprar essa estátua em nenhuma loja e muito menos no mercado - disse ele, pensando em voz alta.

Uma ideia começou a tomar forma na sua cabeça, o que não era de admirar num estratega tão exímio como ele. Portanto, quanto mais pensava no assunto, mais a ideia lhe agradava por ser tão perigosa.

- Seria preciso até...

- Sim - interrompeu Sahti. - O que seria preciso?

Nos últimos tempos, ele já não se escanhoava completamente, como exigia a moda dominante, tendo deixado ficar uma barba que o fazia parecer mais velho, mas ainda mais maravilhoso. Namiz parecia estar divertido a pensar no seu plano.

- ... mandá-la fazer especialmente para o teu objectivo. - Entretanto, tomara a decisão de ousar o impossível. - Queres que trate do assunto?

- Farias isso? - Atirou-se ao pescoço de Namiz de tal modo que ele se inclinou ligeiramente para trás. - Mas como te poderei pagar? - murmurou-lhe Sahti ao ouvido. - Não posso pedir dinheiro à Tama. Ela está a guardar todas as moedas de prata para construir a sala nova.

- Não te preocupes com isso - disse Namiz em voz baixa. Devia estar louco para se meter numa coisa daquelas! Mas agora não havia retorno.

- Em caso de necessidade, deixar-te-ei pagar a dívida com o trabalho que fazem as tuas lindas e pequenas mãos. Nessa altura, ficarás ao meu serviço até te chamarem para o descanso eterno. Entendido?

- Entendido! E, por favor, promete-me que irás apressar-te - pediu Sahti quando finalmente o largou. A sua respiração estava cada vez mais acelerada e Namiz notou que uma pequena veia palpitava no seu pescoço esbelto. - Pois temo que não reste muito tempo a Nofret.

- Ainda esta noite posso falar com o Butu - propôs Namiz -, o chefe da minha oficina, e descrever-lhe ao pormenor aquilo de que necessitas - Nele poderia confiar. Butu era fiel e calado e nunca diria uma única palavra sobre o assunto.

- Esperas uma semana. Depois, vais ter com ele e recebes a tua Selket. Sabes onde trabalham os meus homens?

- A Selket de Nofret - corrigiu Sahti. - E é claro que conheço o teu reino, prezado trabalhador do ouro!

- Intendente do ouro - corrigiu-a Namiz, orgulhoso.

- Só quem sabe lidar bem com a substância dos deuses merece esse nome.

O seu riso não lhe saiu da cabeça durante toda a noite e muito menos o calor do seu corpo jovem. Nem ao cumprimentar os seus convidados e ao ver os seus jardins e salas a encherem-se de homens e mulheres de branco, enfeitados com as grinaldas que os criados lhes tinham colocado ao pescoço nem quando começou o banquete e foram trazidos pratos e salvas cheias de apetitosos alimentos que seriam acompanhados por inúmeras jarras de vinho. E muito menos quando as flautas, alaúdes e harpas se calaram e a serpente do tamborim se ergueu, enquanto bailarinas deslumbrantes,

nas suas roupas quase transparentes, começaram a dançar em círculos, des- nudando-se até restar apenas a cinta de pérolas que lhes cobriam a zona pélvica.

Pela sala ressoavam brindes joviais.

- Para o teu Ka !

- Festejemos este dia!

- Goza esta bebida embriagante!

Também as canções, executadas por uma cantora extraordinariamente bela, acompanhada à harpa pela sua não menos bela irmã, foram muito aplaudidas pelos convidados.

 

Desfrutem do azeite e mirra

Coloquem grinaldas ao pescoço!

As vossas mesas estão cheias de beleza

Em todas belos frutos,

De coisas de todos os sabores

De cheiro a festa...

 

Duas raparigas fortaleceram o ritmo com espadelas, e uma delas, mais gorda e de pele um pouco mais clara que Sahti, mas não muito mais velha, seguiu Namiz de boa vontade até ao seu quarto de dormir que ficava na ala leste da casa, depois de os últimos convidados se terem despedido.

Como tributo à deusa Hathor, senhora do amor e embriaguez, ele atirou-a sem grandes prolegómenos para as almofadas brancas que cheiravam a essência de rosa; finalmente acabou por se envergonhar de não ter prestado atenção à sua parceira e ter pensado exclusivamente em si. Contudo, a rapariga não se mostrava muito preocupada com isso, parecendo até aliviada por aquele dever complementar ter decorrido tão depressa. Arrumou no saquinho as turquesas que ele lhe deixara como recompensa e desapareceu silenciosamente no jardim.

Ainda estava escuro quando Namiz entrou no terraço, o momento em que a noite pára pela última vez para respirar, antes de o dia fazer a sua entrada, uma hora mágica e, tal como aprendera durante anos, extremamente perigosa. A alegria dos pensamentos que tivera durante a festa tinha agora um sabor amargo. Subitamente ansiou por água fria, a dureza de um penhasco ou o grito de um falcão no ar límpido. Enquanto se dirigia ao rio, a erva que sentia sob os seus pés descalços estava agradavelmente fresca, e as árvores e arbustos inclinavam-se ligeiramente devido ao vento fresco da manhã.

Subiu para o pontão, sentou-se na prancha de madeira e meteu as pernas dentro de água. O Nilo quase lhe parecia negro, uma enérgica e perigosa corrente que poderia trazer o terror, possuindo a força para aniquilar tudo.

Mais uma vez, surgiram à sua frente os rostos de sua mulher e filho, mas para seu grande espanto, os traços de Sahti estavam sempre a sobrepor-se. Não os de uma menina, mas de uma jovem mulher, cuja beleza o inquietava. Por vezes, o rosto de adulta não possuía aquilo que o rosto infantil prometia. No caso da rapariga da Terra do Ouro, havia qualquer outra coisa que fazia reflectir exteriormente a sua elegância interior, que também o atraía.

Namiz ganhara muito amor a Sahti, e aquele bem-querer encontrava-se firmemente incrustado no seu coração, mesmo que tivesse decidido, por vários motivos, manter uma distância cautelosa. O faraó provavelmente nem

quer se recordava que ela existia, o que poderia muito bem mudar devido às conhecidas modificações de humor de Sekenenré. Só esse motivo parecia importante a Namiz: que Sahti tivesse um protector que circulava pela corte, sabendo exactamente qual o humor dominante em cada momento. Além disso, havia Nabu que não usava serviços de informação para saber o que se passava com a filha de Golo. Por vezes, parecia preocupada em saber se Sahti já esquecera a sua antiga pátria, pois adaptara-se muito bem à vida em casa de Antef e Tama. Por outro lado, ouvir Sahti falar de Nabu era, para Namiz, uma total impossibilidade; fechava-se assim que ele tentava. Na noite anterior, surgira algo novo a juntar-se aos sentimentos paternais. Teria sido por esse motivo que armara aquele plano e feito uma promessa que, provavelmente, lhe custaria a cabeça?

Na realidade, ele tinha querido avisar Sahti, mas, no último momento, não o fizera. Assim, não havia qualquer dúvida sobre a verdade daquilo que

subera. Haveria guerra. Aquela notícia viera directamente do palácio novo, onde Sekenenré matutava há demasiado tempo nas injúrias que o rei Apopi lhe enviara. O faraó parecia agora ter decidido enfrentar os Hicsos, consciente da perigosidade do inimigo. Isso significava que Sahti teria de, pelo menos durante algum tempo, prescindir da presença do seu pai adoptivo. As tropas do faraó, comandadas por Ipi, marchariam para norte, a fim de cercar Hut-Uaret. Naturalmente que Ipi nem pensava em prescindir do seu subordinado.

Namiz tirou as pernas da água. De repente estremeceu, sentiu-se esgotado e com sono, como se tivesse feito uma viagem longa e árdua. Deveria finalmente despedir-se do seu sonho, há muito alimentado, de se tornar intendente do tesouro real? Ou faltaria apenas o último passo decisivo para a sua concretização?

Daquela vez, não faria parte da expedição e há dias que incessantemente ponderava se isso poderia ser uma desvantagem, como tudo levava a crer, ”u se constituiria uma vantagem. O faraó enviara-o a Bjau com um pequeno destacamento de protecção, aquela inóspita península no mar Vermelho onde existiam enormes minas de turquesas. A paixão do soberano por essas pedras azul-esverdeadas ultrapassava as raias do bom-senso. Para Sekeneme significavam muito mais do que o muito mais valioso lápis-lazúli que os seus antecessores no trono de Kemet tanto apreciavam.

- A minha sepultura deverá ser da cor do mar - dizia ele. - Azul como as ondas num dia de Verão; verde como o ondular do oceano, quando açoitado pelo vento e pela tempestade e as nuvens rápidas fogem no horizonte. Assim, o local do meu último descanso unirá o mais belo da Terra e do Céu.

Namiz deveria partir daí a dois dias e, possivelmente, só regressaria a Uaset quando estivesse decidido o destino da coroa das Duas Terras. Para uma vitória, Apopi dispunha de carros de guerra, cavalos e das mais perfeitas armas estrangeiras. Ao invés, Sekenenré apresentava-se com a ira divina, como seguidor do verdadeiro rei de Kemet, um decidido comandante que com as suas tropas tentava afastar o jugo estrangeiro. Se ganhasse, não haveria soberano mais poderoso no mundo; mas, se perdesse, o destino da sua família estava traçado.

O que seria dele, o intendente, que colocara todo o seu futuro na casa real de Uaset?

Não havia ninguém com quem pudesse aconselhar-se. Desde a sua fuga de Kepni, mantivera-se um solitário, quase um eremita, mesmo que estivesse sempre a dar festas ou desfrutasse de um lindo corpo de mulher.

«O tempo assemelha-se, de facto, a um rio», pensou Namiz, enquanto as imagens da sua vida passavam como uma frota de navios coloridos. «Passa depressa e outras vezes com demasiada lentidão.»

Duas íbis levantaram voo da floresta de papiro e passaram, rasantes à sua cabeça, por cima da superfície do rio que lentamente se tornava mais clara. Um casal de pássaros brancos com pescoço e cabeça negras quase encostadas uma à outra. Até eles andavam aos pares.

E para sua própria admiração, foi assaltado por um sentimento de solidão, há muito desaparecido, que quase lhe cortava a respiração.

 

- Vai haver guerra, Tama.

O sangue subiu-lhe todo ao rosto e os braços e pernas ficaram sem peso. Sentiu-se satisfeita por não estar de pé, mas sim deitada nos braços de Antef. i

- Quando? - sussurrou monocordicamente.

- A frota parte daqui a três dias, mas o comandante ordenou que todos os soldados se reunissem amanhã ao cantar do galo. Ando há muito tempo para te dizer isto, mas não consegui.

- Então, é a nossa última noite. - Tinha os olhos marejados de lágrimas, mas a voz parecia firme. - Nem sequer houve tempo para te preparar mais antídoto, quero dizer, para o caso de teres algum encontro com uma cobra.

- Uma filha não te chega? - Antef passou logo a usar um tom de brincadeira, aliviado por não ter de ouvir nenhuma prelecção. - Além disso, desta vez não marchamos para sul. Vamos para norte, na direcção do delta. - Riu-se quando sentiu que ela ficara hirta nos seus braços. - Não precisas de ter medo, Tama! Eu sei cuidar de mim. Prometo-te. E estarei de volta mais depressa do que imaginas.

- Esperemos! - murmurou, mas aquele peso frio não se queria afastar do seu peito, e os beijos dele, com os quais a silenciou, eram, pela primeira vez amargos.

Além do mais, ele oscilava sobre o seu corpo com tanta inquietação que não seria de felicidade, apenas prazer. Pela primeira vez desde que faziam amor, Tama ficou feliz quando tudo terminou. Teria podido falar, pois tinha tanta coisa no seu coração que Antef devia necessariamente saber, mas só a perspectiva de ainda estarem menos horas juntos silenciou-a. Assim, não lhe disse que já conseguira juntar as moedas de prata necessárias para mandar construir outra casa e também não referiu o seu receio de Nofret não sobreviver aos próximos dias. Também não queria inquietá-lo, a tão pouco tempo da partida, com o facto de, nos últimos tempos, o embalsamador Ut perguntar muito por Sahti de uma maneira estranha e persistente, o que lhe causara suores frios na testa.

Contudo, também guardou para si o seu maior trunfo, se bem que já tivesse decidido adquirir uma estátua de Taueret, a deusa-hipopótamo grávida, a melhor protecção para todas as mulheres que esperam um filho, podendo deixar de pensar numa cama de parturiente. A certeza seria dada pelos dois vasos que comprara no mercado, naquela manhã: um, com sementes de cevada e, outro, com sementes de trigo. Algumas gotas de urina da manhã e, daí a dez dias, se houvesse gérmen na terra seria certo que estava grávida. Se nascesse primeiro o gérmen da cevada, era um rapaz; se o de trigo fosse mais rápido, contaria com uma rapariga. Se nada germinasse, tratar-se-ia infelizmente de uma partida da natureza, mas todo o seu corpo se encontrava tão agitado que só podia significar que não estava enganada.

Daquela vez, não.

Se bem que tivesse dado tudo para ver a alegria nos olhos de Antef, Tama decidiu calar-se, mesmo quando o seu amado abandonou a casa, depois de lhe ter dado um último abraço e um beijo de despedida na testa da adormecida Sahti, de modo a estar a horas junto do comandante. Ela trabalhou febrilmente no tear, como fazia todos os dias, lado a lado com Redi, que provavelmente nunca aprenderia a trabalhar os fios de forma correcta, mesmo que ela lho ensinasse cem vezes. Não chorou na madrugada do dia em que a frota deveria levantar âncora. Faltaram-lhe as forças até para estar junto ao Nilo, mas mandou Sahti em seu lugar, que correu para o porto com quantas forças tinha.

Uma esquadra imponente estava ancorada a alguma distância da margem, navios grandes e robustamente construídos que conseguiriam levar mais carga e tripulantes do que os antigos. Há quase três anos que o ambicioso projecto de Sekenenré, o estaleiro de Uaset, fora guarnecido com tropas. Na proa do navio via-se o olho colorido de Hórus, que recordava a Sahti o amuleto que estava agora na posse de Maj, e nos mastros esvoaçava o estandarte claro onde se viam as armas de Uaset: o ceptro do poder. Pequenos barcos a remos, que entre as abauladas estruturas da frota pareciam formigas, traziam para bordo os últimos mantimentos. Aqui e ali já se içavam as velas e recolhiam as pranchas.

Uma grande multidão seguia o acontecimento do cais, e Sahti, que tentara inutilmente detectar Antef entre os soldados, estava sempre a esticar-se para ver melhor. Procurava também com toda a atenção o tremendo perfil de Ipi, em cuja proximidade deveria encontrar o seu pai adoptivo, mas não os descobriu em parte alguma. Então, quando já quase desistira e a pequena flor que tinha na mão já estava a murchar, detectou os dois.

No entanto, o comandante e Antef não estavam sozinhos.

A seu lado encontrava-se o faraó Sekenenré, que, daquela vez, trazia na cabeça o aro azul com a serpente primitiva. Um passo atrás dele, encontrava-se Nabu. Não estava pintada como uma rapariga normal, tendo apenas um pouco de pó na pele, o que era suficiente para evidenciar as cobras escuras e ameaçadoras que tinha nos braços.

Quando foi vista, a multidão começou a murmurar e parecia tudo menos amigável. Desde o início que se cruzavam na cidade estranhas histórias sobre a feiticeira negra, que afastara todas as mulheres do harém real e atraí do para si o faraó; o facto de Sekenenré a levar na sua comitiva contra os inimigos do Norte era motivo suficiente para alimentar ainda mais os boatos.

- Atira a negra pela borda fora, faraó! - ressoou subitamente a voz aguda de uma mulher. - Senão, um dia ela dar-te-á a última punhalada.

- Sim! Água com ela! - disseram outras vozes. - Assim a valente cuxita poder-nos-á mostrar como mergulham as suas serpentes venenosas,

Sahti não tinha a certeza se o vento levaria aquelas palavras odiosas até ao tombadilho, mas reparou na alteração dos traços do faraó. Nabu acercou-se rapidamente dele e disse-lhe alguma coisa ao ouvido, que lhe fez desanuviar a expressão. Depois, pressionou o corpo ligeiramente contra o dela de um modo tão terno como se estivessem na intimidade de um quarto e não seguidos por centenas de pares de olhos. Voltou a largar Nabu e foi com Ipi para uma das cabinas cobertas.

Nabu desapareceu numa outra, e, finalmente, Sahti teve a oportunidade de chamar a atenção de Antef através de gritos e saltos. Acenou, aliviado, quando a descobriu e enviou-lhe beijos com a mão até a âncora ser içada e o barco do faraó abandonar o porto no meio da armada.

Sahti ainda acenava quando a vela já há muito desaparecera para lá da curva do Nilo. Por fim, deixou cair a flor na água e involuntariamente encaminhou-se para a oficina do intendente do ouro e da prata.

 

- Mas é maravilhosa! Como se tivesse sido pessoalmente construída por Ptah, o deus da criação! - murmurou ela respeitosamente, quando Butu lhe entregou a pequena figura.

- O maior artesão e deus protector de todos os artesãos do ouro -  contrapôs o homem, espantado. - O que sabe de Ptah uma pequena rapariga negra como tu?

O barulho que havia à sua volta era ensurdecedor e, apesar da porta fechada, ainda lhe chegavam os ruídos provocados pelos golpes de martelos, com os quais homens muito fortes trabalhavam na bigorna o ouro arrefecido que saía dos fornos. Em baixas mesas de madeira sob as janelas, trabalhavam outros artesãos que construíam finas placas de ouro, as quais tinham sido acamadas entre peles de animais para as proteger de eventuais assaltos. À sua frente, outros trabalhadores estampavam placas de ouro em matrizes feitas de pedra, a fim de formar aros que, mais tarde, iriam apertar aventais ou colares.

- Mal consigo ouvir! - Sahti colocara as mãos nos dois ouvidos. Como é que suportas isto durante um dia inteiro?

- Uma pessoa habitua-se - dissera Butu. - De qualquer modo, não trocaria com ninguém.

O artesão puxara-a para o lado, para um local de onde Sahti podia ver mulheres novas e velhas a enfiar pérolas. Para sua surpresa, o homem fechou a porta para então lhe entregar a estátua.

- Sei muito sobre Ptah - continuou ela, quando finalmente se ouvia menos barulho. - A sua mulher chama-se Sekhemet e tem cabeça de leoa. Criou o mundo só através das emoções do seu coração e das palavras que proferiu. De outro modo, se calhar não estávamos aqui. - Riu-se para Butu - Creio que não há um único deus sobre o qual Tama não saiba uma história. Portanto, conheço-as praticamente todas. - Os seus dedos acariciavam o corpo de ouro liso. - Esta Selket parece-se um pouco com ela e brilha como se fosse do mais puro ouro.

A deusa tinha os braços ligeiramente abertos, um gesto simultaneamente de bênção e de protecção. À volta do pescoço, possuía um fio de pérolas e um fino véu envolvia os seus contornos femininos. Um lenço dobrado co bria-lhe o cabelo, e o rosto estava tão finamente modelado que quase se conseguia acreditar que a figura iria começar a respirar. Contudo, sobre a cabeça via-se um escorpião, símbolo da poderosa curandeira.

- Eu não sei quem é essa Tama - bradou Butu -, mas posso assegurar-te de que não encontrarás ouro mais puro em toda a Uaset. O senhor exigiu o melhor, e o que o senhor ordena é cumprido. Espero que saibas avaliar a responsabilidade que assumiu por ti.

- O Namiz é meu amigo - disse Sahti, que não compreendia o que o homem queria dizer. - E os amigos entreajudam-se. Não é verdade?

Estava tão feliz que quase voou para casa. Agora tudo ficaria bem. Maj voltaria a dormir e Nofret com certeza não morreria. Ela quase acreditava que já sentia a força da deusa, a qual amarrara ao corpo com faixas de linho, por baixo do vestido, para não a perder pelo caminho. Todos que a encontravam lhe sorriam, até os pedintes que, como sempre, vagueavam à beira-rio, pois esperavam encontrar algo de comestível nas proximidades do porto.

Depois de ter galgado o caminho poeirento até à casa de Nofret, hesitou um instante, porque o seu coração lhe gritava que Tama devia ser a primeira a ver o seu tesouro. Talvez assim lhe aliviasse mais a dor da despedida. Todavia, decidiu não perder mais tempo. Há três dias que não encontrava Maj à beira do Nilo, o que era sinal de que a doença da sua mãe piorava seriamente. Como iria ficar admirado quando ela lhe levasse tão valioso presente!

A transpirar, chegou finalmente junto da pequena casa. A porta de madeira azul estava apenas encostada e abriu-se quando ela lhe tocou. Só havia dois quartos minúsculos além da cozinha ao ar livre. Algures na vizinhança um cão ladrava, mas nem Nofret nem Maj se encontravam ali. O ar estava impregnado de um odor pesado e ligeiramente doce a que Sahti associava algo de desagradável. Mal conseguia respirar e lutava contra uma crescente sensação de vómito e o forte impulso de simplesmente sair dali.

Mas obrigou-se a ficar.

Quando percorreu novamente os dois quartos, agora com mais lentidão e cautela, reparou nos panos de linho encharcados em sangue que se viam em toda a parte. Até o colchão de palha tinha diversas manchas enormes. No chão encontrou vestígios de sangue, como se alguém tivesse arrumado a casa tão apressadamente que nem tivera tempo para limpar. Mas como poderia ser aquilo? Maj nunca se iria embora sem se despedir dela, e Nofrci não saía da cama há muitas luas.

As pontas dos dedos dos pés chocaram com uma pequena irregularidade do solo e, quando se inclinou para ver o que era, trouxe na mão parte do amuleto que oferecera ao amigo. A tira colorida, carinhosamente tecida por Tama, estava rasgada e do medalhão existia apenas uma metade odiosamente desfigurada.

Sentiu o estômago apertado de repugnância.

Algo de horrível devia ter acontecido, não só com Nofret, mas também com Maj, pois ele nunca se teria separado voluntariamente do seu presente.

Pela primeira vez, o metal da estátua da deusa pareceu queimar-lhe a pele. Depois, de súbito, soube exactamente o que tudo aquilo lhe recordava: o cheiro a morte na cabana do escorpião.

 

Mais tarde, Sahti não teria sabido descrever como, nessa tarde, conseguira chegar a casa, mas ainda se lembrava da sensação, quase esmagadora, de alívio que sobreveio, quando entrou no pátio acabado de varrer e lhe cheirou à sopa que Tama acabara de pôr ao lume. Kadiis, que estava prestes a dar à luz e por isso mais caseira do que era habitual, cumprimentou Sahti esfregando-se nas suas pernas como se fosse um dia completamente normal. Como sempre viam-se peças de roupa a secar ao sol.

Para sua imensa estupefacção, Tama não ficou admirada quando ela lhe falou, chocada, dos quartos abandonados em casa de Nofret e da desordem que lá encontrara. Ela ouviu-a sem a interromper e pousou a sua mão tranquila e quente sobre a cabeça de Sahti. Tal como antes, a rapariga encontrava-se sentada a seus pés, caso contrário, a mãe adoptiva não chegaria à sua cabeça.

- Eu sei, ibib - disse Tama com uma expressão protectora, logo que Sahti terminou, quase sem folgo. - E, na realidade, tive a intenção de to dizer hoje de manhã, mas depois decidi esperar até Antef estar a bordo. Ainda o conseguiste ver? Estava bem?

- Sim - retorquiu Sahti, impaciente, porque todas aquelas perguntas lhe faziam arder a alma. - Ele está bem. O que se passa com a Nofret e com o Maj?

- bom, minha pequenina... - Tama calou-se, como se estivesse à procura das palavras certas. De um modo estranho, parecia estar interiormente feliz, se bem que o seu rosto se mostrasse muito sério e aclarasse a garganta frequentemente. - A Nofret morreu, Sahti. Penso que devemos ficar felizes. Agora, pelo menos, o seu sofrimento já não será tão grande.

«Mas isso não pode ser!», quis Sahti gritar indignada. «Eu encomendei a Namiz uma Selket de ouro para curar os pulmões dela e ver o Maj novamente a sorrir.»

Em vez de o dizer, sentiu a garganta tão apertada que, durante bastante tempo, não conseguiu proferir uma palavra.

- E o Maj? - sussurrou ela por fim, em total desânimo.

Teriam todos os seus esforços sido em vão? A oferenda tão valiosa de Namiz parecia-lhe agora uma coisa inútil.

- Também lhe aconteceu...

- Não. O que estás para aí a pensar? - gritou Tama. - Claro que não!

- Então onde é que ele está? Por que razão não está aqui? Em nossa casa? A casa dos seus amigos?

- Porque o Maj é um bom rapaz, Sahti. - Os braços de Tama envolveram-na e ela sentiu-se demasiado quente e apertada. - Ele quis realizar o desejo da sua falecida mãe. Lembras-te de que a Nofret sempre sonhou com a possibilidade de o seu cadáver ser mumificado para alcançar os campos das almas?

- Mas isso custa uma fortuna! - Sahti libertara-se do abraço maternal. Subitamente, não quis que Tama soubesse fosse o que fosse sobre o segredo de ouro que ela trazia junto ao corpo. Se a figura já não podia ajudar Nofret, então talvez pudesse, pelo menos, ajudar Maj. Em caso algum, deveria o ouro ser utilizado para as bolas de linho de Tama. - Nos últimos meses eles mal tinham dinheiro para comer. Como é que conseguiram uma coisa dessas?

- Foi por isso que o Maj aceitou a proposta do embalsamador. - Tama dirigira-se à cozinha e começara a mexer o conteúdo de uma panela. Tu devias comer primeiro um grande prato de sopa, Sahti. Ou, ainda melhor, dois. Isso acalmar-te-á as ideias.

- Qual proposta? - A rapariga parecia não estar a escutá-la. - Não ouvi falar em nenhuma proposta.

- O Ut ofereceu-se para realizar o desejo da mãe do Maj com uma condição. Tu já conheces o embalsamador: não oferece presentes a nin guém. - Tama virara-se novamente para Sahti. - O rapaz deverá trabalhar para ele o tempo necessário para pagar todas as despesas.

- Mas isso pode levar anos! Tama encolheu os ombros.

- Foi uma decisão do Maj - afirmou ela. - Não nossa.

- Então, ele está em casa do Ut? Na cidade das múmias?

Para Sahti, tudo aquilo parecia quase uma sentença de morte, mas tentou afastar essa impressão. Além do mais, possuía uma coisa que poderia salvá-lo.

Tama acenou pensativamente com a cabeça.

- O Ut levou o jovem juntamente com o cadáver da Nofret. Não perdeu muito tempo.

- Tenho de visitar o Maj. - Sahti mostrava-se muito excitada. - Se calhar, vou já.

- Não vais! - contrapôs Tama, com dureza. - Enquanto tiver uma palavra a dizer, não irás.

- E porque não? - O lábio inferior de Sahti tremia. - Dá-me uma razão válida para isso! Não és tu que sempre dizes que os mortos voltam para nós com o vento?

- E isso não é, de todo, muito agradável, como talvez tenha chegado aos teus ouvidos inocentes. Nós, os vivos, não perdemos nada no mundo deles. Ou será que queres empreender uma viagem sem regresso?

Sahti ficou calada, pois pensava febrilmente numa maneira de convencer a sua mãe adoptiva. Todavia, Tama interpretava o seu silêncio erradamente, como aceitação.

- Estás a ver? Nenhum morto entra no reino de Anúbis sem penar e muito menos a minha menina de ouro.

Quatro meses depois, a frota de Sekenenré regressou a Uaset. A época seca reinava sobre a terra, e nos campos as espigas maduras oscilavam ao vento. Cheiros fétidos apressavam o retorno dos navios. Falava-se de perfídia e traição, de uma batalha que tinha levado à morte muitos homens de l Jaset, da vitória de Apopi e de uma derrota amarga de Sekenenré.

Desta vez, não havia uma multidão alegre para receber os soldados. e o cais encheu-se apenas de mulheres e crianças suplicantes que queriam saber dos seus maridos e pais. Foram rapidamente dispersadas pela guarda de Ipi. Todos os soldados tinham ordens para se dirigir às casernas, dizia a informação, e só dois dias depois poderiam ir para casa.

Mas os cheiros escuros e fétidos não paravam.

Logo nessa noite, toda a cidade de Uaset sabia que o faraó tinha morrido e que o seu crânio fora espetado nas ameias dos Hicsos. O medo espalhou-se por toda a cidade como uma onda, e as mulheres só se acalmariam quando pudessem finalmente abraçar os maridos.

Contudo, alguns soldados não voltaram para casa e entre eles contava-se Antef. Tama tinha roído as unhas até fazer sangue durante aqueles dois intermináveis dias. Não havia panelas ao lume. Pela primeira vez, desde que Sahti a conhecia, os teares estavam parados. Até as luzes do interior da casa, que nos meses anteriores se encontravam sempre acesas, estavam apagadas.

- Ele tem de estar vivo! - murmurava ela continuamente. - Agora que estou grávida do seu filho, nem sequer tive oportunidade de lhe dar a notícia. Ele tem de estar vivo!

- É natural que o Antef ainda volte - tranquilizava-a Sahti, mas quanto mais pronunciava estas palavras, mais inacreditáveis lhe pareciam.

Tama não falava de outra coisa, e a rapariga não conseguia levá-la a pensar noutro assunto. Quando chegou a madrugada do terceiro dia e a mãe adoptiva, pálida e chorosa, ficou na cama, Sahti decidiu tratar do assunto por conta própria.

Ficaria à espera em frente dos grandes edifícios militares. Ninguém estava pronto para lhe dar informações sobre Antef. Quando finalmente reuniu toda a sua coragem e perguntou pelo comandante, riram-se dela. Não demorou muito tempo até começarem as primeiras brincadeiras rudes e o círculo de homens se apertar à sua volta. Um subcomandante, que trazia o braço ao peito, libertou-a da sua posição, gritando com os homens e mandando a rapariga para casa. No entanto, Sahti não desistiu.

Há muitos anos que o caminho para os jardins do palácio lhe era familiar. Apressou-se a ir até lá, se bem que, naquele momento, estivesse imenso calor. Chegada ao seu destino, bateu energicamente ao portão e, quase sem folgo, mas sem hesitar, fez o seu pedido. O velho guarda que já vira muitas vezes a rapariga na companhia de Antef, deixou-a entrar sem grandes objecções.

O jardim rodeava Sahti como se fosse um oásis. Agora, já não tinha pressa e gozava cada passo que dava. Se não fosse a preocupação com Antef, razão da sua presença naquele local, não teria largado as sombras das árvores e dos arbustos verdes. Sem saber para que lado havia de virar-se primeiro, parou brevemente junto ao seu tanque preferido, com as flores de loto, refrescou os braços e o pescoço e saciou a sede numa fonte.

Assustou-se quando ouviu uma voz atrás de si.

- Não és a filha do jardineiro? A rapariga que ele trouxe de Kuch? À sua frente, encontrava-se uma mulher baixa, com olhos pequenos e

escuros cuja expressão, triste, não se adequava ao seu sorriso.

- Sou eu - disse Sahti. - E vós sois a grande senhora Teti-Cheri. Fez uma vénia cortês tal como Antef lhe ensinara. - Por acaso, sabeis onde está o meu pai?

- Ele encontrava-se entre os homens que foram para a guerra? Sahti anuiu com a cabeça.

- Mas ainda não voltou, e a minha mãe está a morrer de medo. Foi por isso que aqui vim. Ela está à espera de um filho e não se pode incomodar.

- São sempre as mulheres e as mães que deitam as lágrimas - observou Teti-Cheri em voz baixa. - Porque sabem mais sobre a vida. Eu também sou uma mãe que perdeu um filho. O meu filho, o faraó, teve de morrer.

- Ouvi falar disso... - proferiu Sahti suavemente - e lamento imenso.

- Ele deu a sua vida por Kemet, mas sei que a sua morte não será em vão.

Piscou os olhos e virou-se ligeiramente de lado.

- O meu pai é o subordinado de Ipi - disse Sahti. - Talvez...

- O comandante! - exclamou Teti-Cheri, espantada. - Um homem teimoso e extremamente difícil que não trouxe sorte ao seu rei nesta expedição. Por que razão não lho perguntas directamente?

- Já estive nas casernas. Os soldados riram-se de mim e mandaram-me para casa. - Endireitou o queixo. - Mas não vou para casa antes de saber o que aconteceu ao Antef.

- Isso quase parece uma ameaça! - A idosa rainha voltou a rir-se, mas logo a seguir o seu olhar tornou-se sério. - Tu pareces saber exactamente o que queres.

- Perdão, grande senhora - replicou Sahti. insegura. E se ela se tivesse comportado mal e também dali fosse mandada embora? - É apenas porque...

-... mal se consegue suportar o terror. Não é verdade, rapariga? continuou Teti-Cheri, perdida nos seus pensamentos. - Às vezes, deixa-se de saber o que é mais assustador: se a certeza ou a espera horrível antes de apagar a luz e a felicidade com uma martelada. Como te chamas, rapariga?

- Sahti.

- bom, Sahti. Talvez conheça alguém que possa ajudar-te.

O olhar da velha senhora era penetrante e sem limites. Sahti não conseguiu esconder a sua crescente ansiedade.

- Quem? - conseguiu ela dizer, finalmente.

Não se lembrava de alguma vez ter sido tratada daquela maneira.

- A feiticeira negra - replicou Teti-Cheri, observando Sahti com muita atenção. - Ela também fazia parte da expedição. Poderá contar-te o que aconteceu.

A senhora virou-se e dirigiu-se ao palácio como se já tivesse dito tudo. Alguns passos adiante parou, pois notou que Sahti não se tinha movido.

- De que estás à espera? - perguntou Teti-Cheri com uma expressão de preocupação maternal. - Eu levo-te ao harém real.

A ala das mulheres ficava a oriente do palácio real; também fora erigida em tijolos de lama seca e estava directamente ligada aos edifícios de serviço . armazéns. A sul via-se um lago com peixes, parcialmente coberto com flores de loto, e a norte os altos sicómoros lançavam uma reconfortante sombra. A parte central do edifício era constituída por um corredor muito comprido com duas filas de colunas coloridas, ficando, à esquerda e à direita, os quartos das mulheres. Agora, à hora de almoço, o corredor estava vazio e reinava um silêncio oprimente.

Subitamente, Teti-Cheri parou.

- Lá ao fundo à esquerda. - Estendeu o dedo indicador. - Ali não a encontras. Há pouco tempo passou a residir aqui à frente, como se fosse uma rainha sem coroa. Mas os tempos mudaram. Não só para mim como para ela.

- A senhora não vem comigo? - perguntou Sahti subitamente assustada.

- Por que motivo deveria ir contigo? Não são da mesma aldeia? Então, devem conhecer-se! - O seu olhar tornou-se mais penetrante. - Ou será precisamente por isso que tens medo?

- Não - declarou Sahti, se bem que não correspondesse à verdade -, eu não tenho medo.

Porém, naqueles dias misteriosos, o medo perseguia-a e todas as leis pareciam não ter qualquer poder. Face àquele olhar, Sahti decidiu não o demonstrar.

- Então, vai ter com ela e faz-lhe as perguntas para as quais buscas resposta! - O rosto da velha rainha parecia uma máscara e subitamente pareceu não recordar o nome de Sahti. - Desejo de todo o coração, rapariga, que o teu pai tenha voltado com saúde. Que lach esteja contigo! E com todos os bravos soldados de Kemet.

com isto, Teti-Cheri deixou-a sozinha.

Sahti reparou como estava nervosa quando os seus dedos, a tremer, bateram à porta feita de madeira de acácia. Durante alguns instantes tudo se manteve em silêncio, mas depois pareceu-lhe ouvir um ruído vindo do interior.

O pequeno quarto estava praticamente cheio com um mobiliário constituído por uma cama larga e dois simples baús de madeira.

- Que queres? - Nabu estava deitada e nem se deu ao trabalho de se mexer. - Se vieste para te rejubilares com a minha ruína, podes voltar para trás!

Falava fluentemente a língua de Kemet, mas com uma pronúncia quase nasalada que a fazia parecer estrangeira.

- Eu procuro Antef - ripostou Sahti, receosa, usando também a língua de Kemet. Como é que a antiga esposa preferida de seu pai conseguia ser tão antipática consigo? - O subordinado do comandante.

- Aqui? Precisamente no harém do faraó? - Um riso duro e sem alegria. - É provável que ele não vivesse nem uma hora dentro destes muros. Não viste os eunucos que nos guardam dos assaltantes?

Sahti abanou a cabeça.

- A grande senhora Teti-Cheri trouxe-me - recomeçou ela - porque eu...

- Já devia imaginar! - Nabu elevara-se agora um pouco. Cheirava mal, como se não tomasse banho há dias, estava nua, tendo apenas um lenço amarelo, quase transparente, solto sobre o corpo, despenteada e sem pintura. Viam-se-lhe pérolas de suor sobre a pele escura, e também Sahti começou a transpirar profusamente. No pequeno quarto estava quase tanto calor como num forno. - Deve ser uma grande satisfação saber-me num buraco como este!

- Onde está o meu pai? - insistiu Sahti. - Sabes dizer-me alguma coisa?

- Mas, claro. - Os olhos de Nabu estreitaram-se e respondeu em cuxita. - O teu pai, Golo, é da Terra do Ouro que fica para lá da primeira catarata. Já te esqueceste? E já não te recordas certamente da nossa aldeia. Tenho razão? Ele amou-me muito e provavelmente ainda me ama. Mas será necessário que os soldados do faraó tenham tido a bondade de o deixar viver. Mais alguma coisa?

- E o meu pai adoptivo? Está morto? - Sahti deixou de lutar contra as lágrimas. O passado e o presente já não estavam separados, tendo-se ennelaçado de uma maneira assustadora. O funesto crepitar do fogo que ela tanto, temera na cidadela misturou-se com o ruído das armas e os sons de animais de grande porte que nunca vira antes. O seu tom tornou-se suplicante. Não entendia por que razão Nabu a desprezava tanto, e esse desprezo causava-lhe até uma dor quase física. - Se o sabes, tens de me dizer. Por favor!

Um rápido aceno de cabeça.

- O Antef está morto? - perguntou Sahti, desnorteada. - Mas como é que...

- Um no meio de muitos - disse Nabu com um pouco mais de afabilidade na voz. - Morto, porque o faraó quis recuperar a coroa das Duas Terras por todos os meios, mas não foi capaz! Não! O grande Sekenenré não conseguiu, apesar de todos os seus brilhantes navios. Agora, o seu crânio tem um par de buracos horrendos e quase o atiraram para a areia do deserto como se fosse uma imundície, e eu estou instalada nesta cela, tal qual uma prisioneira. E queria ele, um dia, fazer-me sua rainha, porque lhe desvendei segredos aos quais mais ninguém poderia aceder! Consegues imaginar isso?

- Ele já tem uma rainha - afirmou Sahti. - Eu vi-a na grande procissão.

- Já conseguiram levar-te tão longe? - Num salto, Nabu pusera-se de pé. - Transformaste-te numa pequena patriota desta terra odiada. Parabéns! O Golo ficaria muito orgulhoso de ti. E que achas que a daia diria?

Agarrou a rapariga pelos pulsos e abanou-a, até Sahti se libertar com raiva.

- Deixa-me! Tu estás doente!

- Sim. Talvez esteja - murmurou Nabu. - Mas não suficientemente doente para ser responsabilizada pela morte do rei. É o que todos afirmam! Ainda não ouviste os boatos? Então, eu conto-te! - Começou a balançar as pernas. Os pés, de uma cor de alfena estranha e empalidecida, produziam um efeito simultaneamente peculiar e desconcertante. -As minhas serpentes mataram-no. Rastejaram secretamente durante a noite para o palácio de Apopi, expulsaram o seu veneno mortal e, por fim, esburacaram a cabeça de Sekenenré. E também sabes porquê? Sahti olhava-a em silêncio.

- Porque uma feiticeira negra como eu consegue fazer tudo. -- Começou a gritar e a agredir inimigos invisíveis. - Toma atenção a isto, pequena Sahti. Tenham cuidado comigo! A Nabu ainda não morreu, mesmo que queiram acreditar nisso. O faraó está morto. E depois? O que significa isso? Ele tem um filho e um sobrinho, e as minhas serpentes podem matá-los tão depressa e silenciosamente como a ele.

Parecia estar em transe, os olhos esbugalhados. A sua voz soava quase esganiçada.

De um golpe, a porta abriu-se e entraram dois homens seminus. Daquele modo, o quarto tornou-se tão pequeno que Sahti mal conseguia respirar.

- O que se passa aqui? - perguntou o mais forte dos dois. Falava anormalmente alto e depressa, com um tom tão frio como o do

embalsamador Ut.

- Isso não te diz respeito, seu molengão! - gritou Nabu. - Olha bem para mim! Eu sou a favorita do faraó! E posso fazer o que bem me apetecer.

Cuspiu-lhe no rosto.

- O faraó está morto e provavelmente por tua causa, se os boatos estiverem correctos. Portanto, não voltes a proferir o seu nome, serpente negra!

- gritou o outro, atingindo Nabu, sem aviso, no rosto. - Quando a tua cabeça rolar na areia, poderás gritar por ele mais uma vez. Antes disso, não.

Para grande espanto de Sahti, Nabu calou-se, deixou-se cair na cama e começou a gemer.

O primeiro eunuco agarrou Sahti por um braço.

- E tu? O que é que perdeste aqui? - indagou ele. - Desaparece! Ou queres que te prendamos?

- A grande senhora Teti-Cheri trouxe-me - disse Sahti, sem medo.

- E, se não me largas imediatamente, gritarei por ela com quantas forças tiver.

O homem largou-a.

Sahti aproveitou aquele momento de confusão para fugir. Rápida como o vento, alcançou a porta e correu tão depressa pelo corredor fora, até ao caminho serpenteante que conduzia ao portão do jardim, que eles nem sequer tentaram segui-la.

Durante o longo caminho para casa, não fez uma única paragem, pois poderiam faltar-lhe as forças para continuar. O movimento regular das pernas e braços era quase consolador, com os seus pensamentos girando em círculo. No entanto, por muito que se esforçasse, não lhe surgia qualquer solução. Era já responsável pela morte da mãe que lhe dera a vida. Como é que poderia dar tão temível notícia a Tama sem fulminar a sua mãe adoptiva?

No pátio, ia chocando com o embalsamador. Um dos seus ajudantes, quase tão gordo como Ut, gemia por baixo da pesada carga de tecidos que colocava sobre um burro. Sahti recuou.

«O Antef sempre afirmou que ele cheirava a morte e a decomposição», pensou ela. «E o meu pai adoptivo tinha realmente razão.»

- Já era tempo de chegares - declarou Ut, olhando-a de cima a baixo, como se quisesse apreçar o seu valor. - Já cresceste mais?

Zangada, ela negou. Ficava furiosa quando o homem a olhava daquela maneira, pois sentia-se quase suja. Todavia, não fugiu do seu caminho. Afinal de contas, já não era uma criança que se escondesse quando tinha medo.

- Onde está a Tama? - perguntou rapidamente.

- Em casa, penso eu. A tua mãe não se encontra bem. Como sempre, quando é preciso empacotar, não se descobre a Redi em lado nenhum e por isso nós temos de fazer tudo sozinhos. Mais um desleixe deste tipo e retiro-vos, pelo menos, três moedas de prata!

- O que aconteceu? - perguntou Sahti, subitamente temerosa. - Sucedeu alguma coisa à criança?

- Ela teve uma visita - disse Ut. - Um homem. Um soldado. Esteve muito pouco tempo com ela e, desde então, ainda não parou de chorar.

Voltou-se para o ajudante que, entretanto, levara a pesada carga. - Regressamos no final da semana para buscar o resto e nessa altura espero que tudo esteja como acordámos.

Virou-se para se ir embora.

Naquele momento, Sahti ouviu o som inconfundível do que, até à altura, lhe parecera o gemido de um animal ferido, uma espécie de som temeroso, e reconheceu o choro copioso de Tama.

- Tama! - gritou ela assustada. - Onde estás, Tama? Encontrava-se sentada no banquinho de Sahti e balançava-se ininterrup-

tamente para a frente e para trás. O rosto estava húmido. Aos seus pés, havia cacos, e Sahti viu no chão gotas de sangue vermelho-vivo.

- Fala! - pediu Sahti. - O que aconteceu?

- Ele está morto. - A sua voz não passava de um sussurro. - Aconteceu. O Ipi esteve aqui e contou-me. O comandante está vivo e o meu Antef está morto. Morreu porque não permitiu que matassem o comandante e nem sequer mo trouxeram para casa. Agora, o seu cadáver jaz algures no delta. Sabes o que isso significa, Sahti? Não teve sarcófago e por isso os braços celestiais de Nut não o levarão em paz e nunca conhecerá o nosso filho.

- Eu sei como isso te deve doer - comentou Sahti suavemente, encostando a cabeça de Tama ao seu peito, como se ela fosse a mãe, e a outra, a filha. - E também tenho muitas saudades dele, mas o Antef estará sempre connosco. Os mortos voltam com o vento. Tu própria o disseste, e não devemos ter medo porque ambas o amamos muito. -Agarrou-lhe na mão. ,  Vá! Deixa-me ver! Vou já fazer-te um curativo.

Era impossível reconhecer com exactidão. A palma da mão de Tama es tava estranhamente suja, como se houvesse remexido em terra, e cheia de sangue. A tecedeira puxou rapidamente a mão, como se se queimasse, e es condeu-a no regaço.

É apenas um arranhão - murmurou ela por entre lágrimas. - Não

passa de um pequeno arranhão.

Três dias depois, veio a febre, e pouco depois Tama foi acometida por ataques de arrepios. Sahti mal ousava abandonar o seu lugar ao lado da ca ma e, se se levantava para ir buscar água ou panos frescos para mudar, voltava o mais depressa possível. Tama parecia não a reconhecer. O seu rosto estava desfigurado: os músculos dos maxilares descaídos, como se se tratasse de duros inchaços, enquanto a boca se mantinha hirta num estranho sorriso, e estava sempre a esticar a cabeça para trás. Quando Sahti tocava na sua barriga de grávida parecia-lhe uma esfera cheia que podia rebentar a qual quer momento.

Mãe! - dizia Tama, enquanto Sahti tentava em vão arrefecer-lhe a

testa. - Vieste para me levar?

Depois voltava a gritar tão desesperadamente por Antef que Sahti não viu outra solução se não ir ao santuário de Tama. Agarrou nas três estátuas das deusas, ísis, Pachet e Taueret, que estavam sobre uma coluna, e trouxe-as para junto da cama da mãe adoptiva.

Ajudem-na! - orou ela. - Salvem-na, a ela e à criança!

Perto da madrugada, Tama ficou aparentemente mais tranquila e Sahti estava tão esgotada que adormeceu a seu lado. Quando a primeira luz da manhã encheu o quarto, o tronco de Tama encontrava-se de tal maneira arqueado que todo o corpo parecia estar apenas apoiado na cabeça e nas ancas. A respiração da doente era fraca. Sahti teve de se inclinar bastante sobre ela para a escutar. Não valia a pena pensar sequer em comer ou beber. Sahti só podia estar sempre a humedecer os estreitos lábios de sua mãe.

Redi, que apareceu por volta do meio-dia, saiu do quarto da doente alguns instantes depois, a chorar.

Ela vai deixar-te em breve - murmurou. - Não há salvação. Mas

o que te acontecerá depois, minha pequenina, sem pai nem mãe?

Sahti sentia-se demasiado vazia e cansada para chorar.

Não podia sequer fazer uma festa à doente, pois sempre que lhe tocava Tama encolhia-se. Sem chorar uma lágrima, a rapariga permaneceu junto da cama até Tama se contorcer numa luta selvagem e deixar de respirar. Sahti fechou as pálpebras da sua mãe adoptiva e cruzou-lhe as mãos sobre o ventre.

- Que sejas a Nut do Antef - proferiu ela em voz baixa. - E que o

teu amor fique com ele para todo o sempre.

Forçou-se a ir até ao baú onde Tama escondia as suas poupanças. O pequeno saco de linho estava cheio de moedas de prata. Quantas vezes tinha visto Tama a contar o seu tesouro à luz da lamparina de azeite! Deixou-o i-in cima de um banco ao lado da morta antes de entrar para o seu próprio quarto.

Há anos que não mexia no amuleto do leão. Quando o retirou debaixo dos lenços e vestidos para o pendurar ao pescoço, sentiu, através da pele gasta, a ponta e a força da garra. Qual uma maré viva, as antigas imagens ameaçaram recair sobre Sahti, que foi tomada por uma ligeira vertigem, contra a qual lutou com todas as suas forças. «Mais tarde», disse para si própria, «mais tarde, quando eu estiver em segurança junto do Maj e tiver tempo suficiente para chorar e pensar!»

A imagem da daia, há muitas luas já que soltara um tijolo da parede para esconder o seu tesouro secreto. Retirou a estatueta dourada de Selket, embrulhou-a num pano e, depois de pensar um pouco, prendeu-a ao corpo por baixo do vestido.

Mal tinha acabado de repor tudo, quando ouviu a voz esganiçada de Ut i- imediatamente a seguir o bufar da sua gata.

Teria ele tentado espezinhar o animal outra vez?

- A tecedeira está morta? - Apareceu no meio do quarto como um fantasma gordo e pálido. - Então, tenho de procurar outra o mais depressa possível.

- Sim - anuiu Sahti e virou-se lentamente para ele -, vais precisar.

- Agora era preciso ter cuidado com cada palavra. Ut devia continuar a acreditar que tinha todos os trunfos na mão. Seria assim muito mais fácil provocar nele o que lhe ia no coração. Atirou a cabeça para trás. - Mais uma coisa. Gostaria que a Tama fosse embalsamada antes de ser enterrada, mas não da maneira mais simples, como fazem com os pobres camponeses. Quero o mais caro. Para a eternidade!

- E com que pensas pagar isso? - Ut fez balançar o saco de linho de Tama em frente a Sahti. - Talvez com este bocadinho de prata que ela me tirou do bolso no decorrer dos tempos? Lamento, mas isto está longe de ser o suficiente!

- Acho que sim - declarou Sahti com firmeza.

Era importante que conseguisse chegar o mais depressa possível junto a Maj, o único amigo que a amara, pois há muitas luas que não havia notícias de Namiz. Dolorosamente foi obrigada a deixar Kadiis, mas talvez não fosse uma despedida definitiva. Se o seu plano tivesse sucesso, talvez um dia voltasse a encontrar a gata.

- Que queres dizer com isso?

- Acho que posso oferecer-te uma coisa que vai agradar-te.

- E o que é? - Ut ficara curioso. - Fala!

- Eu - disse Sahti. Sentia o coração a bater, veloz, e simultaneamente pedia a Selket e a todos os deuses de quem Tama sempre lhe falara que .1 protegessem. Sentia-se muito pequenina e, no entanto, era forçada a parecer segura de si e ponderada. - Trabalharei para ti até tudo estar pago. Assim sendo, levas-me já para a cidade dos mortos.

Os olhinhos de Ut brilhavam enquanto tentava compreender o que .1 levava a fazer aquela oferta.

- Óptimo - concordou finalmente, como se fosse uma honra. Vou levar-te comigo, mas na margem ocidental valem todas as regras. Entendido? Quer gostes ou não.

- Entendido - confirmou Sahti. - Vamos embora!

 

SEXTA HORA: NO REINO DE ANÚBIS

Pouco tempo depois, Sahti já estava sentada com o cheiro pestilento da morte entranhado na pele, e tudo o que se encontrava daquele lado da escuridão fúnebre, e de que só agora ela se apercebia, parecia tão irreal como um sonho. Sentia o fedor nos pulmões quando respirava mais profundamente e depois tinha de tapar o nariz e engolir em seco. Subitamente ansiou pela sequência de dias ardentes e noites não menos quentes que precediam a época das chuvas e que ela sempre achara acabrunhante. Ansiou ainda pelas conversas animadas quando, durante toda a noite, se viam esteiras sobre os telhados planos das casas, pois só ao relento se conseguia dormir algumas horas. Agora teria dado muito para voltar a ouvir o canto dos pássaros e os latidos dos cães ou, pelo menos, as discussões das vizinhas que disputavam sempre os figos mais maduros dos cestos de Antef. O que lhe fazia mais falta era o ressoar do grande rio.

A «Casa da Beleza» de Ut, tal era o nome da oficina do embalsamador, não era uma construção em tijolo ou simplesmente em madeira como os restantes edifícios relacionados com o seu ofício. Situava-se debaixo da terra, entre dois rochedos ligados um ao outro, cujos corredores, câmaras e buracos tinham sido mandados construir especialmente para o seu objectivo. Estabelecera ali o seu domicílio, de onde raramente saía. Ali trabalhavam os seus ajudantes que viviam lá fora e, pelo menos de manhã e à noite, conseguiam apanhar luz do Sol. O mesmo acontecia quando tinham de ir buscar cadáveres, durante as horas de trabalho, ou o espelho de água subterrâneo da cisterna os obrigava a percorrer o caminho até à margem.

Ali também havia crianças. com Maj e agora Sahti, contavam-se quatro rapazes e duas raparigas.

Logo a seguir à chegada, o gordo embalsamador mandou chamar Sahti à antiga câmara dos mortos onde passaria a dormir. Ela estremeceu quando saiu da antecâmara e passou pela ombreira, pois, sobre esta, viam-se duas figuras de Anúbis, face a face, que pareciam vivas, com as suas cabeças de chacal verdes, as orelhas levantadas e os focinhos aguçados. Usando de todas as suas forças, tentou reprimir o medo que sentia, pois ainda não tivera oportunidade de procurar um esconderijo para o seu tesouro secreto. Quando os ajudantes a carregaram em silêncio e a agarraram no meio da câmara, perante Ut, ela quase lançou um grito. Os homens pegaram na rapariga como se estivesse num torno, enquanto o embalsamador, impassí vel, lhe levantava o vestido até ao pescoço. Apalpou, entediado, o saco de pele gasto que Sahti, tinha entre os pequenos seios. Parecia estar muito mais interessado no que estava mais abaixo. Assim, os seus dedos percorreram a pele de Sahti e a rapariga estremecia cada vez que os dedos de Ut lhe tocavam nas coxas. Sentiu-se quase aliviada quando finalmente ele retirou a ligadura de linho presa ao seu ventre e descobriu a estátua com um grunhido surpreendente.

Levantou a figura para a observar ao pormenor e deu uma dentada no braço da deusa.

- Uma Selket de ouro puro. Ah, compreendo! Por isso te mostravas tão arrogante. -À luz das lamparinas de azeite, recipientes de tijolo cru, nos quais ardia gordura animal misturada com sal, os seus traços ficavam com um aspecto quase demoníaco. - Onde é que a roubaste? Algures no palácio real? Vamos a falar! Senão, ainda te acontece qualquer coisa de desagradável!

- Em lado nenhum! - Sahti empinou o queixo para não deixar reconhecer que sentia uma enorme repugnância e fixou as paredes. O construtor da sepultura original tinha mandado pintar as paredes com raparigas . tocar instrumentos de música e bailarinas que traziam flores de lotos brancas nas mãos. Aquilo fazia com que Sahti se recordasse daquela tarde de festa em casa de Namiz onde tudo começara. Agora, aquelas imagens pareciam-lhe tão distantes como se fizessem parte de uma outra vida. - Foi-me oferecida por um amigo.

-- Um amigo? - A ironia mordaz de Ut não era de desprezar. Sahti começou febrilmente a pensar. Algures, naquelas câmaras e intermináveis degraus, deveria estar o cadáver de Nofret num banho de natrão à espera que Maj cumprisse a sua promessa. Além disso, não queria desiludir Tama. Talvez conseguisse colocar o embalsamador de melhor humor se lha entregasse.

- Podes ficar com ela - disse Sahti, reunindo todas as suas forças. Foi por esse motivo que a trouxe para aqui, mas só quando a Nofret e a Tama obtiverem o melhor tratamento que existe. São essas as minhas condições.

- Mais alguma coisa? - Ele recuara alguns passos, balançava com algum esforço a sua gordura sobre as pernas finas e olhava para Sahti quase divertido. - Estou muito curioso.

- Sim. - Custou-lhe bastante falar com firmeza e tranquilidade. - Gostaria que libertasses o Maj. Ele tem de regressar ao porto e não pode ficar a trabalhar aqui contigo.

- É tudo? - O seu sorriso alargou-se.

- É tudo - repetiu ela, subitamente muito insegura.

Que estaria ele a preparar? Involuntariamente, deitou a mão ao saco com a garra de leão.

Como um rochedo de carne e gordura, inclinou-se para ela. O medo de Sahti cresceu.

- Por que motivo deverei respeitar nem que seja uma das tuas exigências? Sobretudo quando esta peça de luxo já está na minha posse. - Sopesou na mão a figura da deusa. - E tu também. Sabes uma coisa, rapariga? Não estou a pensar em libertar nenhum dos dois. E que dizes agora? - Ele deleitou-se com o seu medo silencioso. - E o que acontecerá agora a todas as tuas lindas e bem pensadas artimanhas?

- Não tens o direito de me tirar a estátua! - Sahti foi subitamente tomada por uma fúria. Havia menosprezado o embalsamador. Menosprezado irremediavelmente. Agora, ela e Maj teriam de aguentar tudo aquilo. - Ela pertence-me. Só a mim!

- Não tenho direito? - Ut riu-se friamente. - Aqui quem dita as regras sou eu. Já te esqueceste? - Enquanto ele se aproximava, Sahti encolheu-se perante aquele cheiro penetrante a mirra que o seu corpo exalava a cada movimento.  Os punhos fortes dos ajudantes tornavam impossível qualquer fuga. - Além disso, todo o ouro é propriedade do faraó e só pode ser usado e possuído com a sua autorização. Qualquer um que não leve em conta esta regra, poderá contar com penalizações muito rígidas. Não sabias disso?

Sahti abanou a cabeça. «Um dia vais pagar-me», pensou ela. «Um dia! E nessa altura serei eu a rir-me de ti.»

- O meu amigo não fez nada de mal - disse ela com arrojo, e desejou com todas as forças do seu coração que Namiz estivesse presente. - Nunca!

- E quem é essa pessoa misteriosa que se movimenta tão à vontade com preciosidades proibidas?

- Não é da tua conta! - Nunca lhe ofereceria o nome de Namiz. Ela virou-se, tentou em vão libertar-se das garras de ambos os homens. E agora larguem-me! Estão a magoar-me.

- O teu amigo sem nome poderá facilmente perder a cabeça, se não tomar cuidado. - Só imaginar aquele facto parecia dar um especial prazer a Ut. - Ou mesmo tu, se alguém te encontrar no momento errado e no lugar errado com a tua estátua de ouro. No entanto, eu sei como te proteger. - Os seus olhos brilhavam. - Não te preocupes, rapariga! Eu guardarei a tua deusa do escorpião até à eternidade. - O seu tom tornou-se áspero. - E agora levem-na para junto dos outros!

Sahti regressou de cabeça baixa para a pequena câmara secundária, na qual as crianças dormiam no chão em finas esteiras; procurou encontrar um lugar livre e enrolou-se. Não pronunciou uma sílaba sobre o que acontecera. Maj, que ficara acordado e estava perto dela, tentou chamar a sua atenção algumas vezes, mas não ousou continuar a perguntar. À luz da pequena lamparina de azeite colocada sobre as suas cabeças, Maj surgiu-lhe, cansado, pálido e com medo, e ela quase não reconheceu o rapaz ágil que há tão pouco tempo tomara banho no rio.

Naquele momento, a pálida Ita aproximou-se mais de Sahti. Estavam muito mal nutridos, pois os alimentos não abundavam. Já anteriormente, ela olhara com atenção para a «nova» rapariga.

- Ele bateu-te? - sussurrou ela, curiosa. - Ou prendeu-te os braços e as pernas e picou-te com a sua longa agulha?

- Ele bate-vos, amarra-vos e tortura-vos? - Sahti levantou-se. - Mas porquê?

- Para que nunca nos esqueçamos de quem manda aqui. E não faças barulho, senão ele pode continuar! - Ita deitou-se. - É difícil dizer quem irá a seguir. E sobretudo o Pani o mais maltratado. Talvez por ser filho de um escriba rico. Se queres a minha opinião, o Ut odeia todos os ricos. Riu-se baixinho. - E claro que isso só seria possível se ele tivesse um coração. Como te chamas?

Pani era o mais pequeno de todos, um monte de braços e pernas magros, uma cabeça negra e uns olhos que denotavam grande sensibilidade. Sahti gostara imediatamente dele, comovendo-a os seus ombros retraídos.

- Sahti. E esse escriba rico permite que o seu filho seja torturado? perguntou ela, incrédula.

Ita fez um suave aceno de cabeça.

- É claro que o pai está morto, sua parva - disse ela. - E a mãe também. O Pani já não tem um único parente. Por isso, ninguém sente a sua falta no reino dos vivos da margem oriental. Do mesmo modo que já ninguém se lembra de ti ou de mim.

- Mas, no meu caso, alguém sentirá a minha falta - afirmou Sahti. Não sabia quando, mas Namiz acabaria por voltar para Uaset e, nessa altura, iria com certeza perguntar por ela. - De qualquer modo, não ficarei aqui muito tempo. Nesta sepultura horrenda!

Durante alguns instantes, tudo ficou tranquilo. Depois, os sussurros quentes de Ita recomeçaram.

- Foi o que todos pensámos no início, mas há apenas uma saída para a liberdade e essa está quase sempre fechada. Até agora, ninguém conseguiu fugir. Pelo menos desde que eu aqui estou e, pelas minhas contas, encontro-me aqui há mais de um ano.

- Um ano desta escuridão? Ele deve ser completamente louco.

Um medo frio trespassou Sahti. «E se o Namiz não descobrir onde eu estou?» Era mais do que certo que a gorda Redi a vira sair com o embalsamador. Mas... e se a mulher não abrisse a boca a tempo ou apenas dissesse disparates?

- Ah, isso não é nada! Muitas das crianças já cá estão há muito mais tempo - informou Ita, que aparentemente se sentia tão assustada como Sahti. - Amek, que fica sempre com as unhas em sangue porque não consegue deixar de ter nojo, e Bija que já nem se lembra de como era a mãe. Depois há ainda Pani, o pequeno palerma, que não passa um dia sem levar bofetadas. Mas sabes, chega uma altura em que as coisas não são assim tão graves. Até a fome. Habituamo-nos às outras coisas: ao natrão, às ligaduras, aos amuletos e até aos mortos. De vez em quando, uns contam-nos algumas coisas. - Riu-se novamente.

- E que contam eles?

- Irás reparar quando já estiveres há mais tempo aqui.

- Mas eu não vou ficar aqui - repetiu Sahti, e assustou-se com o tom da sua voz.

Ita aclarou a garganta antes de continuar.

- Diz lá uma coisa! Porque é que és tão negra? Já há pouco te queria fazer esta pergunta. Tu não és de Kemet, Sahti, pois não? De onde és?

Sahti permaneceu calada e cerrou os punhos. «Mais tarde chorarei», pensou ela, furiosa. «Quando todos estiverem a dormir e ninguém puder ouvir-me. E quando ninguém ouse fazer mais perguntas que me magoem.»

- Lamento - murmurou Ita uns instantes depois. - Na realidade, é-nos completamente indiferente. Pelo menos, és uma rapariga e já não sou a única aqui em baixo.

Thau, o vento sufocante que rapidamente cansava todos, acompanhou a barca do faraó na sua viagem para a margem ocidental, e as outras barcas seguiam-na a uma distância respeitável. Teti-Cheri, que ia de pé sozinha na proa da barca real, não esperou que os carros que transportavam o cadáver os canopos fossem levados, sendo a primeira a atravessar a prancha. À sua frente, avistava-se apenas uma pequena faixa de pomares, atrás da qual se erguiam os rochedos: um outro mundo, reservado aos mortos. Era coroado pelo corno, o pico montanhoso mais alto, que se elevava sobre o vale como se fosse uma pirâmide natural e assento da deusa Meretseger, a da cabeça de cobra, que amava o silêncio.

- De que estás à espera? - perguntou a grande senhora por cima do ombro, ligeiramente indignada quando verificou que Ahhotep não a seguia, ficando parada. - ísis e Néftis não hesitaram um único instante para chorar o seu bem-amado Osíris.

- Já vou. - O vestido fino da viúva do faraó estava profundamente rasgado à frente em sinal de tristeza, mas, como sempre, trazia pesados ornamentos de ouro no pescoço, nas orelhas e pulsos, enquanto Teti-Chen não usava uma única jóia. - Não sejas sempre tão impaciente comigo, mãe!

A velha senhora não alterou a expressão. Além da sua irmã de leite, Me ret, ninguém sabia que a viúva de Sekenenré não era sua filha, mas sim fi lha de uma criada a quem o Hórus dourado oferecera os seus favores. Na altura, ela também estivera grávida, mas perdera prematuramente o filho. Não seria melhor esperar algumas semanas e receber a rapariga da criada como sua filha, já que a mãe verdadeira não sobrevivera ao parto?

O faraó nunca lhe perdoara e durante muitos anos Teti-Cheri esteve convencida de, na altura, ter feito o que era melhor para todos. Deu o nome de Ahhotep à pequena menina de nariz grosso e grandes olhos negros, e deste modo ligou-se para todo o sempre com a deusa da Lua, o Sol da noi te que espiritualmente mais amava. Educou-a como uma verdadeira princesa e até concordou no casamento com o seu filho preferido Sekenenré, que, até à morte, acreditou que tomara como esposa a sua irmã de sangue.

No entanto, Teti-Cheri já não tinha a certeza.

«Uma criada é sempre uma criada, mesmo que se enfeite com ouro e pedras preciosas», pensava ela quando reparava na maneira como Ahhotep se exibia sempre que tinha oportunidade. Nunca permitira que lhe ornamentassem a cabeça com uma casa de ouro estilizada, que representava Neí tis, porque nunca ousara retirar à sua suposta mãe o papel de deusa ísis. «Pelo menos, oferecera-lhe quatro filhas saudáveis e um filho», continuou Teti-Cheri nas suas divagações. «Ainda que fosse preferível que o filho varão não sucedesse ao pai.» Ela própria tinha conduzido o faraó àquela impor tante decisão, poucos dias antes de Sekenenré ter partido para a guerra no delta.

- Um faraó sábio nunca deixa a sua casa desprevenida. O rei olhara para ela, admirado.

- Tu tens um neto muito ajuizado. Não queres agradecer aos deuses por isso?

- Os deuses ofereceram-me dois netos - ripostou ela com a mesma determinação. - E enquanto os meus fracos ossos me permitirem, atirar -me-ei aos seus pés todas as manhãs e todas as noites em sinal de graças. Mas tu sabes muito bem qual dos dois será o melhor rei.

- O Ahmés é o filho do teu filho e da tua filha. Quem o poderia suplantar?

- O seu primo - contrapôs ela sem hesitações -, o filho da tua irmã morta. O Kamés deverá ser o próximo faraó, Sekenenré, como sempre aconteceu.

- A sucessão baseada na linha materna? - disse ele, algum tempo depois. - Exiges muito, mãe.

Ela acenou vigorosamente com a cabeça.

- E segundo as virtudes e capacidades. Não me digas que tu próprio

há muito não pensas no mesmo! O Kamés é um soldado corajoso e excelente estratega. Enquanto para ele chega uma boa fogueira que aqueça e proteja, no Ahmés vejo apenas uma chuva de faíscas. O nome Kamés significa « O Forte Nasceu». Nós sabemos que se adequa bem a ele.

- Mas o Ahmés...

Ela não o deixou falar.

- Declara o Kamés teu substituto enquanto fores lutar contra os estranhos do Norte! E ao teu sucessor não deves retirar todas as esperanças. Kemet precisa de um soberano como ele; um que possa continuar o nosso trabalho. O teu e o meu, quando já cá não estivermos.

Subitamente, Sekenenré ficara taciturno.

- Não quero ouvir falar mais disso! Estou a ser torturado por pesadelos. Tenho medo, mãe - murmurou ele -, um medo assustador.

As suas palavras ardentes soaram-lhe nos ouvidos quando o cortejo fúnebre se colocou finalmente em movimento. Era surpreendentemente curto para um faraó que se tornara um deus, mas até nesse ponto Teti-Cheri se impusera, quando percebeu que Ahhotep tinha planeado um grande e tradicional funeral de Estado. Como tal, não havia a habitual afluência de carpideiras profissionais nem filas de sacerdotes em oração. Apenas convidados

escolhidos.

O sumo sacerdote de Ámon, Nebnefer, era acompanhado por apenas meia dúzia de outros sacerdotes do seu templo. Os altos dignitários que estavam junto do vizir Seb, que respirava com dificuldade, mal se contavam pelos dedos de duas mãos. Além destes, viam-se os servidores de confiança, que, sobre a areia quente, transportavam os carros com os adereços do funeral e os que levavam o sarcófago pintado à mão. Havia ainda outros carros que carregavam os habituais animais para sacrifício.

Kamés, muito quieto e concentrado em meditação, tinha o pesek-kef na mão, uma faca feita de obsidiana, em forma de cauda de peixe, que pertencia às insígnias do deus Anúbis. Os restantes instrumentos divinos encontravam-se no seu avental. Ao lado de Kamés, com um cistro em cada mão, avançava Ahhotep, a sua esposa, que era conhecida na corte por Acha, para que não fosse confundida com a viúva de Sekenenré. Era uma mulher jovem e muito esbelta, cujos olhos ficavam sérios até quando sorria.

Os canopos, jarras de alabastro que continham as vísceras, cada um fechado com a cabeça dos quatro filhos de Hórus, eram transportados por Ahmés e pelas suas três irmãs mais velhas. Nefertari, a mais velha, mantinha-se muito próxima do irmão. Há muito que corriam rumores sobre o casamento dos dois, e a ideia parecia agradar extraordinariamente a sua mãe, Ahhotep. Eram tão parecidos exteriormente e na maneira de ser que podferiam ser gémeos: altos e magros, com rostos compridos e finos, nos quais assentavam umas sobrancelhas demasiado elevadas; os olhos, anormalmente distanciados, faziam com que a sua expressão manifestasse surpresa. As outras duas irmãs não conseguiam estar sossegadas um instante, mantendo-se sempre em movimento. Mesmo naquelas circunstâncias, parecia ser impossível avançarem num passo comedido e cerimonioso e, em pouco tempo, as duas princesas mais jovens já estavam muito atrasadas em relação ao cortejo.

Todos transpiravam quando finalmente chegaram ao rochedo onde se encontravam as sepulturas. À semelhança dos seus antecessores, Sekencinr não mandara erguer nenhuma pirâmide, tendo-se decidido por uma sepul tura na rocha, envolta na solidão, onde ninguém a visse ou ouvisse, tal como aconselhavam os costumes da casa real da eternidade. O sarcófago de madeira foi descarregado e colocado em frente da entrada.

Tudo se encontrava preparado para levantar a tampa.

O rosto de Sekenenré estava coberto por uma máscara fúnebre de ouro fino que não deixava revelar os sinais da idade ou da terrível luta fatal, mas sim os traços frescos do rei enquanto jovem. O peito encontrava-se coberto por um valioso peitoral de ouro engastado com as suas tão amadas turquesas. O resto do corpo estava envolto em ligaduras de linho. Os sacerdotes queimavam incenso e entoavam cânticos sagrados, enquanto Nebnefer se colocava atrás do sarcófago e proferia as antigas fórmulas que capacitavam o morto a receber a magia protectora através da coluna vertebral.

A seguir, era a vez de Kamés.

Sem se importar com o olhar de Ahmés e de Nefertari, posicionou se em frente do corpo de seu tio. Segundo as antigas tradições, evocou os deu sés das quatro direcções do céu e borrifou a múmia com água proveniente de quatro recipientes de ouro diferentes. De um pequeno cesto que lhe foi entregue por Seb, retirou bolas de natrão e incenso, passando-as duas vezes. pela boca, duas vezes pelos olhos e uma vez por cada mão de Sekenenré

Finalmente, Kamés realizou, com a faca em forma de cauda de peixe, que também era conhecida como «grande feiticeira», o ritual da abertura da boca. Depois, ainda com a faca e também com um escopro e outros instrumentos mágicos que retirou do seu avental, tocou a boca, olhos, ouvidos, nariz, braços e pernas de Sekenenré, devolvendo assim ao morto o poder sobre os seus sentidos e movimentos.

- Eu abro-te a boca, amado pai - ecoava a voz jovem e poderosa de Kamés no silêncio da tarde quente -, para que possas voltar a comer e a falar.    

Por fim, abraçou a múmia.

- Levanta-te e acorda! Os mortos abandonarão a Terra, mas não como mortos; como seres vivos. Nos seus rostos vê-se a vida e a força. As asas dos narizes respiram a frescura do vento norte e vêem crescer o trigo nos campos celestiais.

Teti-Cheri observava com alegria e comoção; as lágrimas corriam-lhe pelas faces. Todavia, registou com a mesma atenção os muitos olhares eloquentes entre Nebnefer e o vizir quando, logo a seguir, foram sacrificados os animais e simbolicamente passadas quatro vezes pela boca e olhos da múmia as carnes de boi, gazela e ganso, dando assim mais sabor à carne ainda em sangue. Depois desta parte do ritual, à qual assistiu pormenorizadamente, deixou de haver dúvidas sobre quem sucederia ao trono de Sekenenré. Assim, Kamés foi publicamente legitimado como sucessor.

A este conceito adaptava-se o facto de o vento se ter levantado e começado agora a soprar, o merhyt, o vento seco do deserto, que fazia sempre lembrar-lhe limpeza e solidão. De braços abertos, avançou para junto da múmia para se despedir.

- No dia em que foste gerado, o deus Ámon decidiu engravidar-me, a « grande esposa real». Entrou no meu leito, assumindo a forma do faraó, mas eu reconheci-o imediatamente e rejubilei quando o vi. O seu amor entrou para o meu ventre. A partir dele foste gerado e nasceste. Nunca esquecerei esse dia, pois o palácio estava inundado de aroma a deuses.

O sarcófago foi fechado e levado para baixo juntamente com as jarras de alabastro que, à luz das tochas, foram colocadas num santuário de pedra. Teti-Cheri, Ahhotep e as princesas depuseram coroas de lotos sobre o sarcófago, enquanto à sua volta era preparado tudo aquilo que um faraó necessita para a vida além-túmulo: estátuas de reis, as suas armas, jóias, jarras de alabastro com salva e óleos, espelhos de bronze, paletas com pinturas em forma de pássaro, cadeiras e camas e ainda bilhas com vinho e alimentos, entre os quais frutos e carne assada. Também não deveriam faltar os ucheb-ti, servidores de madeira, em tão grande número como em qualquer dia do ano, e que deviam levar a cabo os trabalhos do faraó no além. A câmara de ouro oval de Sekenenré tinha o tecto pintado com um céu azul estrelado; nas paredes viam-se deuses que tomavam os mortos pela mão e os faziam passar perante o trono do rei dos mortos, Osíris, o soberano da eternidade.

No meio, encontrava-se o sarcófago de madeira com a máscara pintada, cujo  modelo retratava a figura de um falcão e devia recordar que os braços da

deusa Nut protegeriam o morto. Complementarmente, na fachada brilhavam abutres e serpentes para que, mesmo na morte, fosse lembrada a soberania do Alto e Baixo Kemet.

Nas paredes dos corredores que conduziam à câmara de ouro foram espalhadas inúmeras superfícies planas, e viam-se claramente os traços negros e vermelhos dos desenhos inacabados, pois sobressaíam do fundo claro.

- Quase se me parte o coração ter de ver isto - segredou Teti-Cheri a Kamés.

Ela fizera as coisas de maneira a ir a seu lado no regresso a casa. Poderia necessitar de protecção e conselhos em relação ao que o esperava. No futuro, também ela vigiaria atentamente o jovem soberano que tinha por missão continuar o trabalho do filho falecido.

- A sua casa da eternidade está tão incompleta! E tanto ele desejava o verde dos mares e o azul brilhante dos céus!

- Infelizmente, Sekenenré morreu demasiado cedo - foi a resposta respeitosa de Kamés. - Ninguém contava com isso.

- Morreu? - Quase lhe faltou a respiração. - Ele foi assassinado, completamente trucidado! Só foi possível porque o apanharam numa emboscada e porque, infelizmente, reuniu durante demasiado tempo à sua volta as pessoas erradas. Por exemplo, um comandante que deixa morrer o seu faraó, quando ele próprio fica vivo, ou um estranho que anseia demasiado o posto de intendente do tesouro real e que está num local distante, em vez de tratar da câmara funerária do seu soberano. - Teti-Cheri colocou a sua pequena mão sobre o braço de Kamés e obrigou-o a parar. - Deverás ter mais cuidado na escolha dos teus conselheiros, Kamés!

Estas palavras ressoaram longamente no seu coração, enquanto a sepultura era fechada e selada com o selo da necrópole, e a procissão enlutada tomava uma refeição de luto em honra do morto, em frente à entrada, sob , sombra de folhas de palmeira. Ainda as ouvia quando, mais tarde, retomaram o caminho até à margem do Nilo e o vento da noite levou Kamés na barca real, enquanto futuro faraó, para a margem oriental, a margem dos vivos.

Sahti habituara-se a viver debaixo da terra e até à comida sempre igual e em pouca quantidade que, afinal de contas, sustentava as crianças, mas nunca chegava. Habituou-se ao odor da terra com uma mistura a decompo sição humana e aos vapores ácidos do natrão que pareciam colar-se às mãos por muito vigorosamente que fossem esfregadas. Só o seu sono se tornou mais leve, às vezes, passava toda a noite acordada e de manhã os olhos estavam inflamados. Mas que importância tinha isso naquele buraco sempre es curo onde ninguém via nascer o Sol?

Aprendeu que, primeiro, se abria o lado esquerdo do morto, retirando -lhe todos os órgãos incluindo o coração. As mãos habilidosas do embalsamador faziam entrar os instrumentos correspondentes através do nariz até retirar o cérebro e o juntar nas calhas da mesa de mumificação. Ut possuía três mesas dessas, feitas de alabastro, e na cabeceira havia duas cabeças de leão que simbolizavam a vida e a morte. Tinham de ser mantidas limpas e, depois do trabalho feito, impecavelmente polidas, bem como os instrumentos: os espigões, as pinças, as espátulas, facas, colheres, as agulhas e muitos mais. A limpeza e manutenção destes era feita pessoalmente por Ut. O mais importante era a faca de obsidiana em forma de meia-lua e também a faca negra que se assemelhava muito à da daia, para a qual Sahti não conseguia olhar sem ficar toda arrepiada.

- Até o melhor artista deve ser tão bom como os seus instrumentos - tinha Ut o cuidado de dizer enquanto tratava dos aparelhos; era já insuportável ouvir as referências ao orgulho que possuía na sua habilidade manual. Qualquer desleixo no desempenho destas funções era rigidamente repreendido. - Além disso, quem trabalha para o além nunca deve satisfazer-se com a mediocridade.

Aos gritos, castigava as crianças até que a consistência do óleo de salva encontrasse o seu ponto exacto, sendo feito de betumes, cera de abelha e resinas que mais ninguém, a não ser ele próprio, inseria cuidadosamente pelo buraco aberto na parte de trás da cabeça. Se acontecesse alguma coisa de errado, era sobretudo Pani o primeiro a sentir a sua ira, e o rapaz agachava-se sob as suas chicotadas indomáveis, tentando proteger, em vão, a cabeça com os seus braços finos. Estranhamente, ninguém defendia a outra criança. Nem Maj, que sempre socorrera os mais fracos, nem Sahti, que mal conseguia aguentar aquela injustiça; Ita também fechava rapidamente a boca.

- Nem pensar! Isso só o tornará mais furioso e depois o Pani levará, pelo menos, o dobro da dose. Será melhor que trates dos teus próprios problemas. Senão, nunca aguentarás isto.

No entanto, Ut deixava os trabalhos mais rudes para as crianças, e por isso os mais crescidos, Maj, Sahti e Ita, deviam limpar muito bem os buracos vazios dos corpos com água e vinho de palmeira, enquanto a tarefa dos ajudantes era limpar especialmente bem os intestinos, o fígado, o estômago e os pulmões, emergi-los num banho de natrão e finalmente envolvê-los em linho. Se houvesse um preço preestabelecido, seriam finalmente inseridos em jarras de alabastro de um tom translúcido, ou calcário, raramente de cobre ou de alabastro polido, que seriam entregues juntamente com a múmia. O cadáver esventrado esperava, entretanto, em natrão, por vezes misturado com sal marinho, que levava até setenta dias a retirar-lhe toda a água e, como tal, impedia os processos naturais de apodrecimento e decomposição. Tinas e contentores estavam sempre prontos nas pequenas câmaras funerárias e todos cheios de cadáveres nos diferentes estádios. A muitos dos mortos, para os quais a família apenas desejava um tratamento menor, era-lhes injectado no ventre, através de clister, óleo de cedro sem sequer os cortar. Voltava-se a retirar o óleo, que trazia atrás de si todos os órgãos derretidos. O natrão comia depois toda a carne até que ficassem apenas pele e ossos. Se, inicialmente, Sahti se encolhera toda ao olhar para tais múmias ou se virara dizendo rapidamente uma oração, hoje as coisas já não eram assim. Começou a comportar-se de outra maneira quando, finalmente, descobriu Nofret. Aquela coisa escura que estava à sua frente não tinha qualquer semelhança com a mulher viva e alegre que fora antes daquela violenta dor ca a deitar abaixo. E se Maj não tivesse parado e dado um grito lancinante, ela nunca teria reconhecido a mãe dele.

Chorava quando se ajoelhou com Sahti ao lado da tina.

- Se eu não tivesse perdido o teu amuleto no dia da morte dela, Sahti! Assim, todo o azar tomou o seu curso. De outro modo, o olho de Hórus ter-nos-ia decerto protegido deste horrível Ut. Nunca devia ter confiado no lê! Nem por um momento. - Maj olhou medrosamente à sua volta para ver se o embalsamador ou os ajudantes estavam à vista. - Às vezes, penso que os deuses se esqueceram de nós aqui em baixo. - O seu olhar tornou-se selvagem. - Preferia estar morto.

«Tenho uma pena imensa, Nofret», pensou Sahti, comovida. «Eu tentei tudo para te salvar, a ti e ao teu filho, mas não consegui vencer o Ut.»

- Que disparate! Estamos vivos e os deuses não se esquecem de ninguém - proferiu ela em voz alta para dar coragem a si própria. – É indiferente o local onde nos encontramos. A Tama sempre me disse o mesmo e sabia exactamente o que estava a dizer.

- Mas deixaram simplesmente morrer a minha mãe. Além disso, a Tama também está morta. Para que lhe serve agora toda essa sabedoria?

- A Nofret já não devia estar enterrada há muito tempo? - Sahti tentou desviar a conversa, pois mal conseguia suportar a maneira como ele estava a falar de Tama.

Os sentimentos que tinha pela sua falecida mãe adoptiva eram um assunto que só a ela diziam respeito. Além disso, ainda não contara nada a Maj sobre a Selket perdida, o que por vezes a oprimia. No entanto, não pensou em falar do assunto. O amigo já se mostrava fraco e sem coragem.

- Eu não sei - segredou ele, duvidoso. - Os outros afirmam que há muitos cadáveres que ele não devolve e nunca me deixaria enterrá-la.      

- Mas, então, o que faz ele com esses cadáveres? Para que fica com eles? E, sobretudo, como é que os mortos conseguem alcançar o campo das almas se ninguém os sepulta?

Os olhos de Maj estavam escuros e perdidos.

- Não sei, Sahti. E se queres que seja franco, tenho demasiado medo para pensar nisso.

As palavras nunca mais saíram da cabeça de Sahti. Em especial, porque  não encontrava o cadáver de Tama em lado nenhum. Não podia falar com as outras crianças, pois, à excepção de Ita, nenhuma delas parecia ter força suficiente. Entretanto, teve conhecimento dos seus tristes destinos: Amek teria vendido a Ut pela própria tia a troco de algumas moedas de prata; Bija fora fechado no reino subterrâneo de Ut de uma maneira semelhante à de Maj e nunca mais fora libertado. Pani era muito pequeno quando os pais morreram para se defender das artimanhas do embalsamador. Apenas Ita não quis falar da maneira como ali chegara.

«Eu sou a única que veio para este reino fúnebre quase por vontade própria», pensou Sahti, algo espantada. «Pois, nessa altura, ainda estava na ilusão de que podia enganar o Ut e salvar Maj. Segundo parece, sou também a única que ainda não desistiu de pensar em fugir.»

Continuou a sua busca secreta do cadáver de Tama até finalmente ficar a sós com Ita, alguns dias depois. Ut ordenara às duas raparigas que enchessem o buraco do ventre de um morto com serradura e musgo de carvalho aromático, o que era especialmente dispendioso e só acontecia se a família pagava antecipadamente uma grande quantidade de prata. Finalmente, os buracos dos olhos seriam tapados com tampões de linho embebidos em ervas aromáticas para dar ao rosto uma expressão mais viva. Mas o embalsamador decidira-se, por razões puramente monetárias, por pequenas cebolas.

Sahti teve de agarrar Ita porque ela queria dar uma dentada sôfrega nos legumes frescos.

- Ninguém reparará quando ele estiver envolto em ligaduras de linho

- protestou Ita. - Consegues imaginar a fome que tenho?

- Consigo. E talvez tenha uma coisa que vai acalmar o rebuliço da tua barriga. - Sahti respirou fundo. Seria possível realmente confiar em Ita? Decidiu arriscar. - Deve haver algures uma outra zona secreta - sussurrou ela. Tinham quase terminado o trabalho e, de um momento para o outro, Ut ou um dos seus lacaios poderiam dar com elas. - Uma zona na qual o embalsamador não deixa entrar ninguém. Nem os ajudantes. Sabes alguma coisa sobre isso?

- Pode ser. - Parecia que aguardava por alguma coisa. - Quanto vale essa informação?

- Dois pães pequenos em dois dias seguidos.

- Três pães - corrigiu rapidamente Ita. - E, pelo menos, em três dias consecutivos. Senão, não obterás nem uma palavra.

- De acordo, mas só se realmente tiveres alguma coisa para me dizer.

- Primeiro, o pão - teimou Ita, começando a rir, na expectativa.

Ela era a única que, apesar da pouca comida, andava sempre mais alimentada. Provavelmente, porque conseguia rações suplementares com alguma frequência.

Sahti não teve outro remédio senão passar fome durante três intermináveis noites e não ter pão para a boca. Depois de Ita ter engolido o último pedaço, Sahti já se encontrava a seu lado. As outras crianças estavam a lavar-se. O embalsamador era tão parco na água como no pão, feijões e cebolas: se chegassem ligeiramente atrasados, continuariam com aquele cheiro repugnante nos braços e dedos até ao dia seguinte.

- Então! Que tens para me dizer? - perguntou Sahti, impaciente.

- Ele deixou-me entrar recentemente na sua câmara funerária - afirmou Ita, hesitante. - A meio da noite, quando já estavam todos a dormir. Depois, mandou os ajudantes para casa e, de um modo estranho, encostou -me a uma parede. Primeiro, pensei que me quisesse bater ou picar, mas não era aparentemente o que ele tinha em mente.

Olhou fixamente para o chão.

- O que era então?

- Eu tinha de me despir, deitar-me num sarcófago de madeira e fechar os olhos como se estivesse morta. - A sua voz tornou-se um sussurro. E depois...

- Fala de uma vez!

- ... deitou-se em cima de mim, aquele tipo gordo e malcheiroso, e eu pensei que ia esmagar-me os ossos todos. «Não respires!», estava sempre a segredar, como se eu tivesse ar para respirar. Subitamente, começou a cantar uma coisa sobre corpos que já se tinham dissipado, de outros que tomavam os seus lugares, de pirâmides e de muros desfeitos... eu sei lá! Pedi a todos os deuses que me ajudassem e me salvassem e, quando já tinha perdido totalmente as esperanças, tudo terminou. Ainda continuei bastante tempo com os olhos fechados, com medo que ele me fizesse alguma coisa. Quando tive a coragem de os abrir, ele estava afastado de mim, perante uma porta na parede meio aberta e chorava.

- Chorava?

- Sim - confirmou Ita. - E balbuciava algumas idiotices que já esqueci há muito. Mas agora é indiferente. Compreendes, Sahti? A zona secreta que procuras deve estar directamente ao lado da sua câmara funerária. Aquela parede com a porta parece uma superfície pintada perfeitamente normal. Já sabes. Aquele ponto mais ou menos gasto com as dançarinas e as flores de lotos brancas.

Sahti, que se lembrava mal da primeira noite, acenou negativamente] com a cabeça.

- Aquele local onde a parede parece ter granito rosa pintado. Nesse momento, a imagem apareceu viva na mente de Sahti. Tentou vi-

sualizá-la com a maior clareza possível.

 -Algures nessa área deve haver uma porta secreta que, naquela noite, sei encontrava aberta. Infelizmente, não estava claro o suficiente para reconhecer com exactidão o que existia por trás, mas de uma coisa tenho a certeza.

- Sim?

- Era uma espécie de mesa parecida com a que tem pés de leão e sobre a qual ele disseca os mortos. Além disso, vi no chão uma das suas tinas de cadáveres. - Ita engoliu em seco antes de continuar a falar. - E... cheirava tremendamente mal.

A Lua lançava um grande cone luminoso sobre o rio, quando Nabu foi levada ao palácio por dois eunucos. Tinha esperado tanto tempo por aquele dia que tudo estava a parecer-lhe irreal. Sem criadas, era impossível aclarar a pele com pó e pasta e pintar o rosto segundo os costumes da corte. Nunca Ousara colocar as jóias que Sekenenré lhe oferecera com medo que fossem roubadas e deixasse de possuir fosse o que fosse para subornar o carrasco, a fim de ter uma morte rápida. Assim, decidira usar um simples vestido amarelo que fazia realçar a sua pele cor de bronze e mantivera-se descalça, colocando apenas um aro em volta da cabeça, que impedia que o seu cabelo despenteado lhe caísse para a testa.

Kamés recebeu-a numa sala onde nunca entrara. Estava vazia, apenas se viam muitas almofadas no chão e vários candeeiros. O jovem soberano convidou-a a sentar-se com um movimento da mão.

- Um hábito que aprendi no deserto e que copiei dos Beduínos. Espero que seja suficientemente confortável para ti.

- Sou filha da Terra do Ouro - replicou ela com cuidado. - E estou muito habituada a tudo o que é desconforto.

- Isso já eu sei. Kamés riu-se com gosto. O que quereria ele dela?

A porta estava aberta e deixava entrar a quente noite de Verão, mas Nabu não se deixou enganar por isso e muito menos pelo seu sorriso que fazia lembrar o do velho rei e que ela detestara desde o primeiro momento.

- Por que razão me mandaste chamar? Para me banir? Ou para me ler a sentença de morte? Fala! Assim tudo será mais fácil!

- Queria conhecer-te melhor. A mulher que o meu tio...

-... levou à morte como todos afirmam? É isso que queres dizer? Olharam um para o outro em silêncio. Nenhum estava preparado para

ser o primeiro a desistir. Todavia, Nabu já uma vez ganhara naquele jogo e nessa noite a vitória também foi dela.

- A serpente negra - proferiu ele por fim, pensativo, e deixou o olhar percorrer-lhe o corpo como se quisesse tirar-lhe as medidas. - É assim que todos te chamam. Há muito que pergunto a mim próprio se têm realmente razão.

Nabu levantou muito lentamente os braços para que ele pudesse ver melhor as escuras tatuagens. A serpente esquerda dormia aparentemente em paz, e a direita estava em posição de ataque.

-Provocam-vos medo - disse ela -, a vocês, homens de Kemet, porque também são estranhas. Milenares e plenas de poder

- São?

Kamés ficara em pé mas naquele momento agachou-se à sua frente. O seu joelho bateu no dela e Nabu conseguiu cheirar o suor fresco coberto por um outro aroma mais fraco. O seu rosto encontrava-se apenas à distância de um braço. Apertou os lábios.

- O que queres na realidade? - perguntou Nabu em voz baixa  Não queres com certeza dizer-me que arranjaste uma favorita no harém, da qual toda agente pensa o pior! Isso só traria sangue mau. No meio das tuas outras mulheres ciumentas, será garantido. E junto à tua Acha, rígida e infeliz, será certo.

- Que sabes tu da minha esposa? - Ele afastou-se dela. O sorriso desaparecera. - Não tens o direito de falar assim sobre ela.

- Claro que não. Perdoa-me, grande faraó! - Nabu baixou a cabeça. – Eu não passo de uma cabeça de gado que vocês trouxeram do Sul. Não é verdade?

-Voltou a olhar para cima e obrigou-o de novo a medir forças com ela. - Mas não podes proibir os meus olhos e muito menos os meus ouvidos.  Vejo o que vejo e ouço o que ouço, se bem que não te convenha

- E o que vês e ouves?

Todo o corpo de Kamés estava tenso como um arco. Nabu conseguia sentir no seu próprio corpo aquela tensão.

- Agora és tu que estás curioso? - Nabu riu-se alto. - Diz-me simplesmente o que desejas! Um feitiço para que ela te deixe entrar, por fim, no seu leito, para conceber o herdeiro que Kemet deseja urgentemente ?? Ou uma profecia que te dirá quando é que irás aquecer o seu coração de gelo ?  Talvez te fosse mais útil um simples elixir de amor, como lhe chamamos em Kuch ...

- Silêncio!

Kamés levantou a mão para lhe bater. Nabu travou-lha a meio do movimento e segurou-a vigorosamente.

- Podes mandar-me matar, faraó - disse ela. - Mas nunca me baterás. Nunca!

No entanto, os seus olhares encontraram-se e aquela luta silenciosa instalou-se. - - Tu és a serpente negra - afirmou ele finalmente com um respeito relutante.

- Sou a mulher das muitas peles. - Nabu levantara-se e começara a balançar-se lentamente à sua frente. - Sabes como é que tudo começou há muitos e muitos anos?

Kamés abanou a cabeça em silêncio.

Tinha a língua colada às gengivas, e o coração em chamas. Tudo nele gritava por ela, com um desejo que nunca sentira antes por outra mulher.

- Um dia, os deuses vieram à Terra e perguntaram aos seres vivos: «Quem é que não quer morrer?» - A voz de Nabu era suave e incisiva, parecendo-lhe uma mistura de repulsa e promessa. Ela continuou com a dança excitante que confundia os sentidos. - Infelizmente, todos os homens e todos os animais estavam a dormir. Só a serpente estava acordada e respondeu: «Eu.»

- Eu - repetiu Kamés. - Eu!

Como seria esfregar a sua pele na dele? Como afundar-se nela e sentir as suas unhas afiadas na carne?

-... assim, todos os homens e animais morrem e apenas a serpente não morre. Só pode ser morta à traição. Todos os anos muda de pele. Desse modo, permanece forte e poderosa e só ela...

- Silêncio!

Ele agarrou-a, puxou-a para si e Nabu não se defendeu. Perdida e fraca, ficou nos seus braços, acariciando-lhe o coração com a serpente erguida.

- Só ela gera filhos espirituais - sussurrou junto ao pescoço dele. E puxa a chuva. A sua língua origina os raios, e a garganta, os trovões. Bebe as águas dos mares e persegue as nuvens, mas quando ama envolve o amado como...

- Silêncio!

Daquela vez, assemelhara-se a um grito. Quase à força, Kamés premiu-lhe os ombros contra o chão para que não conseguisse fazê-lo entrar em transe.

- Sim. Calemo-nos, grande faraó! - murmurou Nabu. A sua respiração acariciava-lhe as faces, enquanto as coxas se movimentavam lentamente em ondas amplas e quentes, que ele desejava fossem intermináveis. - Calemo-nos finalmente!

Por um mero acaso, Sahti descobriu que Pani sabia ler. Apercebeu-se disso em frente de um grande mural já um pouco desbotado que retratava figuras de deuses diante de uma múmia. Quando viu Sahti, escondeu as mãos atrás das costas.

- Que estás aí a fazer? - perguntou-lhe. - E onde estão as ligaduras de linho que ele te mandou ir buscar? Já sabes o que acontece quando o Ut te apanha a mandriar.

- Nada. - Afastou o olhar como um cachorrinho abandonado. Absolutamente nada.

- Vá lá! Não mintas! Eu sou a única aqui em baixo que te defende. Então?

- Estava a ler - murmurou ele, zangado. - Por favor, não digas nada a ninguém.

- Tu sabes ler?

Pani assentiu com a cabeça.

- Então, lê! - exigiu Sahti, ainda incrédula, apontando para uma das partes do mural. - O que está lá escrito?

- O que temos de fazer a ocidente é esmagar os adversários e libertar as águas originais...

O seu pequeno dedo indicador, que seguia lentamente os hieróglifos de cima para baixo, parou.

- A partir daqui já não se consegue ler muito bem. Além disso, não percebo o que significa. Para ser honesto, não estive muito tempo na escola.

- Também sabes escrever?

- Uma coisa leva à outra! - afirmou Pani, estendendo o pescoço. Mas o meu pai disse-me que um bom escriba passava a vida a aprender. Na realidade, ainda tenho muito que estudar.

Estendeu o queixo bicudo. Os olhos encheram-se de lágrimas.

- Tens saudades dele, não é?

- Tenho ainda mais da minha mãe - sussurrou Pani entre lágrimas.

- Ela sempre gostou muito de mim.

Quase involuntariamente, Sahti colocou os braços em torno do rapaz e apertou-o contra si. Era muito mais chegado a ela do que Maj, o qual, com frequência, a queria agarrar no escuro quando os outros estavam a dormir. Até agora, ela sempre rejeitara energicamente as indesejadas mãos. Nada restava da atracção que sentira por ele à luz do Sol e, ali em baixo, até o seu próprio corpo lhe parecia, por vezes, um inimigo desconhecido. Há dias que se sentia simultaneamente muito estranha, excitada e abatida, quase sempre com vontade de chorar, e logo de manhã surgia-lhe aquela força admirável que lhe arrepiava as entranhas. Crescia nela uma estranha saudade de chorar nuns braços de mãe que a envolvessem e amassem, e os olhos começavam a arder.

- Nós vamos sair daqui - murmurou ela por entre o cabelo cerrado e por lavar de Pani. - Vais ver! Já não falta muito! Ele não pode enterrar -nos na sua câmara secreta. Não pode fazer isso!

Pani olhou-a, assustado.

- De que câmara estás a falar? -- Chiu! Está bem! Esquece!

Sahti largou-o e alisou o vestido. No chão, descobriu algumas gotas escuras. Devia-se ter ferido em qualquer lado, pois também tinha sangue na perna.

Puxou o vestido para cima e assustou-se.

A maldição do escorpião... e não se submetera à faca negra em forma de quarto crescente!

- Vai à frente - ordenou ela, com a maior tranquilidade possível, a Pani, agarrando a garra de leão. Simultaneamente, começaram a passar-lhe pela cabeça todas as orações que aprendera com Tama. - Eu venho já.

- E as ligaduras de linho? - contrapôs Pani, que pareceu compreender o que se passava. - Ele vai voltar a bater-me, se eu não as...

- Eu levo-as já. São muito pesadas para ti.

Só quando o rapazinho desapareceu é que ela ousou pegar em duas tiras de linho com as quais se limpou de imediato. As dores no baixo-ventre eram agora insuportáveis e teria preferido enrolar-se ali no chão. Tirou rapidamente mais algumas tiras de linho, enrolou-as e amarrou-as debaixo do vestido. Em seguida, pegou com esforço na pilha de ligaduras para as desenrolar, mas deixou-as tombar no chão.

- Não podes ter cuidado? - bradou-lhe Ut, batendo-lhe nas costas.

- Como se tudo isto não custasse dinheiro! E agora leva-as à Ita! Ou ela

também terá de limpar tudo sozinha? - Ele franziu o sobrolho e observou-a com atenção. - Tens sangue na perna!

- Não é sangue - contrapôs Sahti, saindo dali. Ainda tremia quando encontrou Ita na galeria seguinte, a qual, de mau humor, carregava dois pesados baldes de água para o embalsamador.

- Sabes por que razão os cadáveres de mulheres jovens são trazidos ao Ut, o mais tardar, três dias depois da morte? - Ita despejou o primeiro balde. - Tens três tentativas para adivinhar!

- Não estás a querer dizer que... A visão de Sahti ficou enevoada.

- Então, porquê, sua palerma! Se calhar faz com elas aquilo que não conseguiu terminar comigo. Morro, se ele torna a mandar-me chamar. - Levantou o nariz, emproada. - Mas talvez eu tenha sorte e haja outros para o serviço.

- Estás a falar de quem? - perguntou Sahti em voz baixa. - O Pani?

- É possível - ripostou Ita ironicamente. - Ou talvez tu?

 

Um canto alto e uniforme arrancou Sahti do sono. À sua volta ouviam-se as respirações regulares das outras crianças, até de Pani que quase sempre dormia de costas com a boca aberta, as mãos cerradas, ressonando terrivelmente...  e  naquela noite não  era excepção.  Sentia-se  um  cheiro acentuado na pequena câmara, porque o embalsamador, mudando subitamente de humor, lhes negara à noite a água das lavagens, e estava escuro, vendo-se apenas um cansado raio de luz do dia no nicho da parede.

Sahti sentia uma fome que não era habitual e tremia quando se levantou cuidadosamente para não acordar os outros. Por sorte, a hemorragia enfraquecera, mas ela ainda tinha as tiras de linho enroladas entre as pernas e

sentia-se mais vulnerável do que antes. Hesitou um instante perante a possi bilidade de ter de acordar Ita, mas depois desistiu. Ita insultara-a na véspera, usando palavras odiosas, acusando-a de lhe ter roubado um pão e, como se não quisesse atirar culpas para cima dos outros, até lhe batera. Não tinha sido possível uma reconciliação; mesmo naquele momento, Ita parecia resmungar durante o sono, com o rosto virado para a parede.

Quanto mais Sahti se aproximava da câmara funerária, na qual Ut se encontrava, mais penetrantes se tornaram os cânticos. Entretanto, desapareceram as dúvidas sobre a sua proveniência. Os ajudantes já tinham abando nado há muito aquele buraco na rocha e só voltariam às primeiras horas da manhã com os cadáveres de um casal que morrera.

Quando chegou à entrada da câmara, tentou acalmar a sua respiração agitada, mas todos os esforços foram inúteis. O seu peito subia e descia assustadoramente e as palmas das mãos estavam húmidas. Sahti agarrou-se à garra de leão, enviou uma oração a ísis e entrou. Viu apenas a gigantesca parte traseira do corpo de Ut, sem forma, qual um elefante, uma montanha de gordura sebosa e ligeiramente acinzentada. Quando ele se virou, a primeira coisa que Sahti viu é que Ut estava nu. Evitou olhar directamente para aquela coisa horrível que lhe balançava entre as enormes coxas, mas ao fixar-lhe o rosto, assustou-se.

Ut usava uma máscara de Anúbis, perfeitamente elaborada, que ocultava os seus traços. Por trás das estreitas fendas brilhavam olhos frios.

Parou abruptamente de cantar.

- A pequena negra. Olhem só! - Por sorte, não manifestou a menor intenção de se aproximar de Sahti. - Querias fazer-me companhia? Ou tiveste saudades da tua deusa de ouro? - O seu dedo indicador apontou para um nicho. - Ali está ela, e o seu pequeno amigo, o escorpião venenoso, beija-me todas as noites antes de eu adormecer.

Sahti abanou a cabeça, mas não se mexeu.

- Onde está a Tama? - perguntou ela, sentindo-se feliz por a sua voz não tremer.

- A Tama? - repetiu ele, como se já tivesse esquecido completamente aquele nome.

- A Tama - reforçou Sahti. - A tecedeira. A minha mãe. Porque é que ela ainda não está enterrada?

- É muito provável que a tua mãe esteja enterrada no Sul entre lixo e moscas. - Por trás da máscara, a sua voz soava ainda mais terrível. - Mas nós hoje não queremos excepcionalmente ser tão maus. Andaste então à procura da tecedeira morta? Menina feia! E infelizmente não a encontraste. Pobre menina! - O seu riso fez com que toda aquela gordura estremecesse.

- Também não conseguirias encontrá-la, pois sempre esteve junto de mim. Vem!

O seu dedo apontou na direcção de uma porta semiaberta. Na parede, entre as pinturas das instrumentistas e bailarinas com as flores de lotos, abria-se uma fenda negra de onde saía um cheiro repugnante.

- De que estás à espera? - pressionou Ut. - Queres ou não uma resposta para a tua pergunta?

Sahti estremeceu e ansiou tanto estar de novo à luz do dia e ao sol que quase chorou. Todavia, encontrava-se tão perto do seu objectivo que não podia desistir. Hesitante, deu um passo na direcção da porta e depois mais um até a alcançar. Lá atrás, abria-se uma grande sala escavada na rocha, onde se viam mesas e diversas tinas, tal como Ita supusera.

- Medo? - Ut estava a seu lado e ela mal conseguia respirar de excitação. - Quem ultrapassa a porta dos mortos vê a obra dos deuses e passa a ser um iniciado.  Por isso, despacha-te! - Empurrou-a para a frente.

- O que é isto? - perguntou Sahti em voz baixa.

- Isto? - O seu riso foi estridente. - O meu laboratório, poder-se-á dizer. Ou, se quiseres, a oficina dos deuses.

com os membros tensos, Sahti continuou. Na primeira mesa, jazia uma jovem mulher ainda bela mesmo na morte, e, subitamente, Sahti recordou-se do que Ita dissera sobre o período de três dias. Numa mistura de curiosidade e horror, aproximou-se.

- Agrada-te? - segredou Ut. - A mim também me agrada. Os mortos são mais bonitos do que os vivos e pertencem-me. Só a mim!

Sahti virou-se abruptamente.

- Onde está a Tama? - repetiu. - Fala de uma vez! O que fizeste com ela?

- Queres mesmo saber?

O fedor era quase insuportável. No entanto, Ut riu-se quando viu Sahti tapar o nariz.

- Não podemos preocupar-nos com esses factores secundários quando lutamos para alcançar as estrelas. Eu faço experiências. Entendes? Não! Eu crio! Do mesmo modo que Ptah o faz. Sim. Eu sou Ptah e Anúbis e Osíris em um. Assim que esventro os mortos, utilizo algumas partes e observo o que finalmente acontece. São o meu material. Posso formar com eles aquilo que me aprouver!

Tinham quase chegado ao meio da sala e Ut continuava colado a ela. Numa outra mesa, via-se o cadáver de um homem, cuja mumificação parecia estar quase pronta. O corpo estava seco e encarquilhado e o ventre cortado.

- Tu importunaste-me na minha criação artística - sussurrou Ut. Estava a acabar de o preparar para a eternidade. Olha! - Agarrou num balde e colocou uma coisa castanha sob o nariz de Sahti. - Este vai ser o seu novo coração.

- Mas isso é esterco! - Repugnada, recuou. - Não podes fazer isso! Como é que o seu coração poderá ser pesado na balança perante os olhos de Osíris?

- Eu sou o rei da eternidade - gritou Ut, histérico. - E decido se ele terá, ou não, coração. Posso levantar a queixa contra ele! - com um gesto largo, atirou o esterco para dentro do peito do cadáver e começou novamente a cantar. - «Ouve-me, meu coração, pois eu sou o teu senhor! Como não estás no meu corpo, não me farás sombra...»

Era o pior que se podia fazer a alguém! com aquela atitude, qualquer esperança de continuar a viver depois da morte estava completamente posta de parte.

Ele parou e gozou a repulsa silenciosa de Sahti.

- E a Tama? - voltou a insistir a rapariga. - Também lhe fizeste alguma coisa...

- A minha ira não se dirige aos mortos - contrapôs Ut, agarrando na faca negra que estava sobre a mesa. Sahti sentiu cãibras por todo o corpo. -- De qualquer modo, ela ainda não está nessa situação. Coloquei-a durante algum tempo no meu monte de lixo, onde os cadáveres não têm nome, e que utilizo para as minhas experiências pessoais.  Por exemplo,  natrão. O que achas que acontece quando a dose é aumentada e depois se acrescenta água? Aproxima-te, rapariga! É divertido observar.

Ut dançava na outra esquina. Sahti seguia-o como que em transe. Ele parou em frente a uma tina gigantesca.

- Como Ptah - segredou o embalsamador. - Posso criar e destruir. Eu sou um deus! - O seu tom mudara e tornara-se quase objectivo. Ainda estás a sangrar?

Como é que ele ousava falar sobre os seus assuntos mais íntimos? O medo de Sahti transformou-se numa ira enorme.

- Isso não te diz respeito!

- Diz, sim... E como! Achas que não reparo no linho precioso que me roubas? Além disso, preciso de ti para aquilo que tenho em mente. - Espetou-lhe no braço a ponta da faca. - Não pensas, com certeza, que vou deixar-te regressar para junto dos outros depois de tudo o que aqui viste, pois não? - Aproximou-se. A cada passo, a faca em forma de quarto crescente parecia aumentar na sua mão.

- Deixa-me! - exclamou Sahti, incapaz de se mexer. - Eu não lhes contarei nada. Absolutamente nada. Juro-te.

- Não. Não o farás. E sabes porquê, rapariga? - A expressão da sua voz parecia quase divertida. - Porque nunca sairás desta sala. Nem viva nem morta.

Tão rapidamente quanto as suas banhas permitiam, quis atirar-se sobre Sahti, mas não reparou que ela tinha esticado uma perna. Ut tropeçou e bateu com a testa numa tina. Ficou caído sem sentidos. A faca negra tombou no chão a seu lado.

- Atira-o para dentro da tina. Para a tina! - A voz clara de Ita arrancou Sahti do seu estado de estupefacção. Juntamente com as outras crian-

ças, Ita entrou na sala secreta. - Metemo-lo num banho de natrão! Despacha-te, antes que ele recupere os sentidos! Maj e Amek, vocês pegam nas

pernas. Bija, Sahti e Pani vocês, nos braços. Despachem-se! Se ele voltar a

si será tarde de mais.

As crianças tentaram agarrar naquele colosso e juntas conseguiram-no.

Levantaram Ut como se fosse um pesado animal morto.

- Vamos matá-lo? - perguntou Sahti, recuando. - Mas não se deve

matar!

- Queres esperar até que ele recupere? Já nos torturou o tempo suficiente.

Ut caiu pesadamente para dentro do banho de natrão e o seu corpo maciço fez saltar o líquido. Por um instante, ficou sem se mexer, mas depois a sua carne começou a tremer.

Pani gritou.

- Ele ainda está vivo. Está vivo!

O embalsamador tentou, de facto, levantar-se, mas os seus pés não encontraram apoio no fundo escorregadio da tina.

- Empurra-o para baixo! - ordenou Ita, inabalável. - Força! Todos juntos. Ele não pode fugir ao seu destino.

As crianças obedeceram, se bem que o natrão lhes ardesse na pele, mas Ut ainda se defendia. Subitamente, as suas forças voltaram. Qual uma estranha criatura marinha emergiu. Perdera a máscara. O rosto estava branco e vazio. Como que desfeito.

- A faca, Sahti. A faca! - gritou Ita. - Se tu não...

Sahti agarrou na faca de pedra negra, fechou os olhos, pensou em Tama enterrou-a com força.

 

SÉTIMA HORA: O MUNDO DAS ESTRELAS

Depois da opressão e do cheiro que tinham suportado naquela sepultura rochosa, o ar da noite pareceu tão suave e benfazejo às crianças que estas estavam sempre a parar para respirar fundo. Além do mais, as mãos ainda ardiam devido ao contacto com o natrão, e colocá-las contra o vento trazia alívio. Não tinham muitas oportunidades de o fazer, pois Ita obrigava-os a uma marcha forçada, se bem que alguns resmungassem em segredo. Ninguém ousava contrariá-la abertamente. Assumira a liderança do pequeno grupo e, com uma lamparina de azeite na mão, conduzia-o, não na direcção do rio, mas para ocidente, onde se erguia um vale rochoso.

- Mais tarde haverá tempo suficiente para lamentos e para olhar para as estrelas - informava ela, assim que algum ficava para trás. - E tomem atenção aos pés, para que não haja nenhum acidente. O caminho é estreito e está cheio de espinhos. Há uma eternidade que ninguém deve passar por aqui.

- Mas eu gostaria muito mais de ir para o lado do rio! - Pani fez uma careta, como se fosse começar a chorar, e tacteou à procura da mão de Sahti. - E depois atravessar para o outro lado. Finalmente de regresso a casa!

- Já não há casa em lado nenhum. Já te esqueceste? - com dores, Ita passou de um ombro para o outro o saco de linho cheio. - Para nenhum de nós. Por isso, despachem-se! Já não deve faltar muito.

Fora a única que mantivera a cabeça fria no meio de toda aquela excitação. Fora buscar a chave do esconderijo secreto de Ut, que procurara nos dias anteriores, e que fechava a única saída para a liberdade. Entretanto, os outros, que estavam ainda muito agitados, gritavam sobre o que deviam fazer a seguir. Sem medo, voltara com Maj e Amek à prisão escura para ir buscar água e os alimentos mais importantes para a fuga.

- Tens de o tratar dessa maneira? - protestou Sahti quando o mais pequeno deixou cair tristemente a cabeça. Ela vivera todo aquele acontecimento como se estivesse num transe profundo, do qual estava muito lentamente a recuperar. - E também não precisas de lhe meter medo! Felizmente, isso já passou.

- Ah, sim? - Ita parou abruptamente em frente de Sahti. - Quem é que o apunhalou? - Satisfeita, viu Sahti estremecer. - Está bem! Descontrai-te. Fizeste-o por todos nós! É claro que nos manteremos juntos. Até à morte, sua palerma. Quando nos apanharem, cada um de nós terá a sua quota de responsabilidade!

Amek e Maj, carregados com mantas esfarrapadas e alguns mantimentos, trocaram um olhar preocupado. Só o desastrado Bija, até então sempre calado e receoso, não conseguiu refrear a sua súbita infantilidade.

- Nós devíamos ter-lhe tirado a pele pela cabeça! - Apesar dos avisos de Ita, não se lembrou de abafar a voz. A parede rochosa que ficava à frente do grupo fez ecoar claramente as suas palavras, o que parecia diverti-lo bastante. - Tal como se faz a um chacal. Ou então abri-lo de alto a baixo e enchê-lo com as suas ervas aromáticas repugnantes.

- Se tu continuas a berrar dessa maneira, poderemos poupar esforços na busca de um esconderijo - admoestou-o Ita com dureza -, e, em vê/ disso, iremos directamente para o carrasco do faraó. Tu achas que alguém iria acreditar numa palavra de um punhado de crianças órfãs das quais nin guém sente a falta? - Suspirou profundamente. - Porque é que eu tomei conta de vocês? Devia estar louca. - Depois, agarrou no braço de Sahti e apertou-o. - Diz qualquer coisa!

-- Tens razão - murmurou Sahti, ainda bastante perturbada. Não conseguira deixar de olhar para as mãos durante todo o caminho. Teriam elas realmente conduzido a faca negra? E matado o embalsamador? Desde que haviam fugido das garras de Ut, os seus pensamentos circulavam em torno da mesma questão. - Mas se ele não estivesse realmente... Se ele não estivesse completamente morto... - Levou as mãos ao rosto e deixou-as cair de novo.

Naquele momento, todos pararam assustados.

- Que disparate! - declarou Ita categoricamente. - Ninguém sobrevive àquilo. Não viram a quantidade de sangue? Parecia ’um porco a sangrar! - As crianças anuíram todas com a cabeça. - E também não se mexeu mais. Aquele não torturará mais ninguém. Isso posso garantir-vos! O seu tom denotava triunfo. - Ora bem! Eu já sabia. Chegámos!

À sua frente, erguia-se uma longa rampa de inclinação suave que eles olharam com hesitação.

- O que é isto? - segredou Pani, impressionado, quando chegaram ao cimo e olharam para as primeiras filas de colunas iluminadas pelo luar. Uma sepultura? Ou um palácio desabitado? Já tinhas estado aqui?

- Já. Há alguns anos, quando o meu pai ainda era vivo. - Ita riu-se e parecia ter novamente mudado de estado de espírito. - E já estou farta de sepulturas. Vocês não estão?

A tensão fez com que todos se rissem à gargalhada.

- Deve ter sido um templo - aventou Bija, que correra à frente. – Vejo as pedras artisticamente talhadas que estão no meio  do cascalho.

A curiosidade levou-o a avançar. - Isto poderia ter sido uma mesa de Sacrifícios e aquilo um nicho para a imagem de um deus. Mas é certo que há muito tempo que não se realizam sacrifícios neste lugar. Mesmo assim, o deus a quem este lugar é dedicado talvez nos proteja.

Apenas algumas das colunas estavam intactas, enquanto outras já se encontravam semidesfeitas. Os antigos jardins do templo, nos quais, por fim, entraram, encontravam-se abandonados e completamente secos.

- Ora aí está! - Ita riu-se. - É precisamente por isso que estamos aqui. Para que ninguém nos encontre e ninguém nos possa fazer mal. Daqui, poderemos, sem qualquer impedimento, avançar até ao rio quando nascer o Sol. Mas agora precisamos de nos fortalecer. Tenho tanta fome que conseguiria comer, sem esforço, um boi inteiro.

Todos ficaram delirantes por ela ter sido a primeira a pensar em água e alimentos. Ita não permitiu que ninguém a ajudasse, tratando do seu rebanho com cuidados de mãe, retirando pão e uma grande tira de peixe seco do saco. Amek e Maj contribuíram com mais peixe seco, figos secos e figos de piteira, que tinham apanhado na orla do pomar e que eram refrescantemente amargos. As crianças sentaram-se em círculo, comeram, beberam e todas tentaram suavizar o ambiente com brincadeiras. Apenas Sahti se manteve à parte, olhando em silêncio para o céu azul-escuro da noite.

- Tu nem tocaste no teu pão! - observou Ita, quando os outros já se tinham preparado para dormir,  amontoando-se,  como era hábito, para se proteger da noite do deserto. - E nem comeste um único pedaço de peixe. Estás doente? O que se passa contigo?

- Nada. Não sei. Toma! - Sahti entregou-lhe tudo. - Não tenho fome. - Encolheu os joelhos, e envolveu-os com os braços, parecendo muito pequenina.

- Mas tu tens de comer. Ainda só passámos a primeira parte desta aventura. Quem sabe o que nos acontecerá amanhã.

- Deixa-me - ripostou Sahti secamente. - Quero estar sozinha.

- Ouve! Lamento muito aquela história do pão! Entretanto, vim a saber que ficaste zangada.

- Como se isso tivesse alguma importância neste momento! Depois de tudo o que passou... Sem ti, Ita, eu já não estaria viva... - Sahti começou a chorar convulsivamente.

Ita aproximou-se e colocou-lhe, hesitante, os braços sobre os ombros.

- Nós não tínhamos opção - murmurou ela de um modo surpreendentemente brando. O seu corpo estava suave e quente. Quase como o da sua irmã, Ruju, se bem que Ita cheirasse a algo mais desagradável e quase pestilento. De uma maneira ou de outra, ele ter-nos-ia matado a todos. Era louco, Sahti. Não te esqueças disso. Um monstro que mereceu cem vezes a morte.

Sahti continuava a chorar.

- Consegues imaginar o que ele fez com a Tama? E com a outra gente’ anónima? Falava entrecortadamente, como se estivesse com dores. «Uma pilha de lixo», foi o que ele lhes chamou! Cortou-os, secou-os e voltou a recheá-los como... como... velhos pedaços de pano ou rolos de papiro! E no lugar do coração, colocou...

O que é que ele fez? - perguntou Ita, subitamente muito interessada.

Nada. Sahti sentia-se impossibilitada de continuar.

Não importa. Esquece isso e tudo o que de horroroso viste e viveste naquele buraco! Ele está morto e nós estamos vivos. Só isso importa. A rapariga afastou o cabelo da testa. - Se bem que não faça a menor ideia do que vai ser de nós. £ tu? Sahti abanou a cabeça.

Quem irá dar-nos trabalho? E de comer? Ou aceitar-nos em sua casa. Somos todos demasiado jovens para viver sozinhos! - Ergueu energicamente o queixo. - Mas depois de tudo o que já passámos, uma coisa eu sei: enquanto tiver uma única centelha de vida, ninguém me traz mais para a margem ocidental.

- A mim também não! - concordou Sahti. - Se bem que com o medo me tenha esquecido de...

Selket! A estátua de ouro da deusa ainda devia estar no nicho escuro. O que aconteceria se alguém a encontrasse? Haveria algum indício de que provinha de Namiz... e que ela não tivesse reparado? Se assim fosse, nunca perdoaria a si própria.

- Estás novamente a falar em charadas, Sahti - afirmou Ita, impaciente.      De que é que te esqueceste? Não estou a perceber nada. Será melhor ires dormir. Eu assumirei a primeira vigia e a seguir é a vez do Maj. Começou a rir-se baixinho. - Aposto que ele daria tudo para estar aqui sentado ao teu lado. Está mesmo apaixonado por ti!

Que disparate! - protestou Sahti. - Estás a imaginar coisas.

Não é disparate! -. zombou Ita. - Não reparaste como ele olha para ti? Como um vitelo quando lhe dá o cheiro a sal. - A expressão do seu rosto denotou bastante entusiasmo. - E agora, boa noite. Bons sonhos! Endireitou-se, olhando na direcção do Nilo, se bem que um enorme maciço rochoso lhe impedisse a vista para a agua. Contudo, não ficou ali muito tempo e muito menos Maj que, a meio da noite, acordara assustado e encontrara Ita a dormitar. Pouco depois, o rapaz enrolou-se a seu lado e ela ficou feliz por sentir o calor do seu corpo.

Quando o Sol, vermelho e dourado, se levantou sobre o horizonte, Sahti descobriu que ele estava a dormir como todos os outros. com a maior cautela possível, acordou-os um a um. As crianças esfregaram os olhos para afastar o sono, partilharam água e restos de comida e continuaram o seu caminho. Pani manteve-se ao lado de Sahti, como já fizera na caminhada até ali, não querendo largar-lhe a mão. , - A pele ainda te arde? - segredou ele. - Arde e pica?

- Um pouco, mas passa. Será melhor tentares não pensar nisso.

- Para onde vamos? - Ele parecia confuso. - Acho que vamos para a outra margem... Vais-me deixar lá sozinho?

- Nunca - ripostou ela com firmeza. - Mas agora está calado e imagina que és um pequeno cabrito-montês que está aqui como que em casa. Senão, ainda me desnorteias com a tua tagarelice.

Na sequência destas palavras, Pani ficou silencioso até chegarem ao porto. Como não havia protecção em lado algum, as crianças agacharam-se involuntariamente, como se quisessem tornar-se invisíveis. Por fim, Maj ousou ser o único a proferir aquilo que em segredo todos pensavam.

- E o que acontecerá se os ajudantes do Ut nos descobrirem e nos levarem à força para o mundo subterrâneo? Talvez estejam no primeiro barco.

- Podem arrastar-nos com eles! - Bija, o mais pequeno e o mais magro, enfrentou Maj com coragem. - Mas só o farão depois de me matarem.

- Porque é que eles quereriam fazer-nos mal? - disse Ita para grande surpresa de Sahti. - Mesmo que encontrem o seu cadáver? - Fez uma careta exagerada. - Nós praticamente não existíamos!

- O barco! - gritou Pani, agitando freneticamente os braços. - Vem aí! Vem aí! Olhem! com uma vela que parece de ouro puro. A partir de agora estaremos em segurança.

Aprenderam a conhecer a fome mais depressa do que imaginavam e atrás dela veio uma ansiedade que os obrigava a pensar só em comida. A orgulhosa Uaset mostrava pouca compaixão para com as crianças sem lar. Pela primeira vez, a cidade pareceu-lhes sombria, um labirinto de casas quase encaixadas umas nas outras e com pátios sujos; as largas ruas dos cortejos, as sombras dos templos e os lagos cuidadosamente tratados pareciam inatingíveis. A casa de Nofret há muito que fora ocupada por outras pessoas, uma velha antipática e uma filha não menos antipática, que correram com as crianças quando estas vieram espreitar.

- Fora daqui, sua matilha de pedintes!

Aconteceu-lhes o mesmo junto à morada de Tama. Um vizinho que há muito tempo cobiçava a oficina de tecelagem, rapidamente a ocupara para entrançar os seus tapetes de junco, e, se Sahti não tivesse desaparecido imediatamente com os outros, depois de procurar Kadiis por todo o lado, ele teria ficado extremamente furioso.

- O Antef e a Tama não tinham filhos. Sei isso muito bem! gritou

ele, furibundo. - E muito menos um aborto negro do submundo como tu! E os gatos são afogados. Ponto final! Agora deixa-me continuar a trabalhar em paz. Ou é preciso atiçar-te os cães?

- Então, pelo menos, diz-me onde posso encontrar a Redi!  pediu

Sahti. - A gorda Redi! Tu sabes! A que ajudava a minha mãe adoptiva... a Tama.

A sua boca formou um sorriso tétrico.

- No cemitério, se queres saber exactamente onde. E já foi há duas luas! Demasiado peixe podre! E agora desapareçam daqui!

Nada mais restou às crianças senão voltar para o mercado. Se tivessem sorte, um dos comerciantes sentiria pena deles e dar-lhes-ia alguns restos. Se tal não acontecesse, teriam necessariamente de recorrer ao roubo. A primeira vez que agarraram num bem alheio fora um grande golpe para eles. No entanto, o hábito e um estômago quase sempre vazio levou-os a continuar. À noite, dormiam de preferência perto do Nilo, sempre junto à cabana de outros sem-abrigo, que pareciam não ter muita pressa em admitir concorrentes.

- Se não arrancarmos os olhos ou, pelo menos, cortarmos um pé, teremos poucas perspectivas - comentou Ita amargamente, quando à noite se sentaram juntos. - Eu não fazia ideia de que os habitantes de Uaset tivessem um coração de pedra. - Alguns pães, três peixes pequenos e um saco de figos, já em más condições, foi tudo o que conseguiram partilhar uns com os outros em torno da fogueira. - E agora? O que acontece a seguir?

- Eu poderia voltar amanhã para junto dos trabalhadores do porto começou Maj, alguns momentos depois. - E o Bija também, mas só a título de experiência. Eles vão querer ter a certeza de que ele tem força suficiente para aquele trabalho. Temos duas refeições por dia e uma cama, mas para os dois.

Mais ninguém falou.

- É-me indiferente! Eu vou para o Sul, para Abu - murmurou finalmente Amek. - Se tiver sorte, apanho amanhã mesmo um barco para lá.

- Para a primeira catarata? - perguntou Sahti, espantada. Sentia-se tão cansada que só com esforço mantinha os olhos abertos. A recordação da barreira de rochedos negra no rio baniu por alguns instantes o seu estado de esgotamento. - Porque é que queres ir precisamente para esse sítio?

- A minha mãe é da ilha de Abu e sempre falou muito da sua terra natal. Se não estiver enganado, o seu irmão mais novo deve ainda lá viver. É comerciante de legumes. Talvez me receba.

- Amek, o comedor de açafrão! - ironizou Ita para não mostrar como se sentia abandonada. - Boa ideia! E o que farás se ele não estiver vivo? Ou tiver uma casa cheia de filhos e não quiser saber de ti? - A sua voz soou fragilizada. - Além disso, pensei que íamos ficar juntos para sempre.

Ele pareceu ficar embaraçado.

- Nesse caso, procurarei trabalho no exército. Ouvi dizer que o novo faraó precisa de soldados.

- Queres matar por obrigação? - Ita não o deixava em paz. - Já não estás farto disso?

- Sempre é melhor do que procurar comida no lixo como porcos - ripostou Amek vigorosamente, virando-lhe as costas.

- E nós, Sahti? - Os enormes olhos de duende de Pani fixaram-na como se a sua vida dependesse dela. - Onde é que vamos ficar se todos nos abandonarem?

- Ninguém nos vai abandonar, Pani! - Sahti tentou reprimir a sua própria preocupação. - Os outros apenas estão a tentar sobreviver e isso é bom. Ou seria melhor morrermos todos à fome de mão dada?

O pequeno abanou a cabeça, mas não estava totalmente convencido.

- Estás a ver? E no que nos diz respeito... - Pareceu ponderar as palavras. - Penso que amanhã vamos novamente a casa do Namiz. - Sahti fez o possível por dar à sua voz uma expressão minimamente segura. - Ele um dia terá de voltar da sua expedição e com certeza que nos...

- A mim também?

Acidentalmente, Ita tocou na cicatriz de Sahti. A mão direita agarrava o saco sujo que nunca mais largara desde que tinham saído daquela sepultura. Nem a dormir. Os olhares das duas raparigas encontraram-se e desencadearam uma luta silenciosa: Tu sabes o que fiz por ti. O olhar de Ita era inconfundível. Agora é a tua vez! E espero que compreendas o que isso significa...

Sahti acenou com a cabeça como que por obrigação.

À primeira luz da manhã despediram-se uns dos outros. Ita foi a última a encostar-se contra o peito de Maj e beijou-o em ambas as faces. Em contrapartida, o rapaz ficou ali muito hirto e nem ousou levantar os olhos. Quando chegou a vez de Sahti, ela apenas lhe fez uma festa no braço.

- Que os deuses te protejam, Maj! - exclamou Sahti rapidamente para esconder a sua inquietação. - E agora vai! Senão, perderás a refeição da manhã e terás de carregar com pesos de estômago vazio.

Ela fez um esforço para não se virar e levou Pani consigo, pois todos os outros pareciam, pela primeira vez, estar com muita pressa. Ita seguiu-os em silêncio através de pátios e ruas até chegarem ao seu objectivo.

- O que é que vocês querem outra vez? - perguntou o criado, depois de eles terem batido cautelosamente à porta. - Desapareçam! Hoje já atu rei pedintes suficientes.

- O dono da casa está? - perguntou Sahti educadamente.

- O dono? Não sabia que isso te dizia respeito. Zangado, fez menção de lhes fechar a porta na cara.

Sahti pensou ouvir raspar no interior da casa como se pesados baús esti vessem a ser arrastados pelo chão. Subitamente, a sua timidez pareceu desaparecer.

- Eu tenho de falar com ele - insistiu. Estava com tanta fome e tão esgotada que mal conseguia aguentar-se de pé. - Por favor! Ele é meu amigo!

- Teu amigo? - Como resposta, o olhar do criado passou pelas três figuras esfarrapadas. - Nunca vi uma tamanha falta de vergonha...

- Sahti! Rapariga! - O homem que energicamente empurrava o criado para o lado estava muito bronzeado e tão magro que Sahti quase não o reconheceu. Depois sentiu as lágrimas de alívio a correrem-lhe pelas faces.

- Mas que aspecto é esse, minha pequenina?

- E tu também! - disse ela a soluçar. Minha pequenina Há quanto tempo ninguém a tratava assim!

Namiz estava descalço, usava uma barba avermelhada e tinha apenas uma simples tanga a envolver-lhe as nádegas. Riu-se, divertido, quando olhou para si próprio.

- Realmente, tens razão! A barriga foi-se. E no deserto havia poucas possibilidades de me arranjar convenientemente.

- Namiz! - conseguiu ela ainda dizer com um imenso esforço e agarrou-se à ombreira da porta; de súbito, o chão parecia estar a abater-se debaixo dos seus pés. - E eu já pensava que tu nunca mais...

Fez um movimento com a mão na direcção de Pani e Ita, que estavam pregados ao chão ao seu lado, começou a ver tudo negro e tombou no chão, desmaiada.

•- Estiveste muito tempo fora. Muito tempo.

A voz de Kamés mostrava-se descontraída, mas a posição do seu corpo dava a entender a atenção com que seguia cada palavra e cada movimento do seu interlocutor. Convocara Namiz para uma audiência numa das salas do palácio novo, que parecia maior e mais iluminada, pois mandara retirar a maior parte dos móveis. Agora, encontrava-se ali apenas um trono de madeira de cedro, flanqueado por dois homens jovens e esbeltos. Os murais, acabados de pintar, representavam flores e plantas, um jardim arejado, independentemente dos favores do grande rio. Viam-se ainda cenas de caça ”um bosque de papiro, na interminável grandeza do deserto e entre rochedos, que representavam o jovem faraó com as grandes presas, após uma bem-sucedida caçada.

- Tens razão, faraó. - Namiz deixou-se cair no chão em frente ao trono, o que lhe pareceu bastante mais fácil do que antigamente. Entretanto  barbeara-se e perfumara-se,  usando  um linho extremamente fino. ”~^ E estive quase para não voltar.

- Levanta-te!

O intendente obedeceu.

- Os rebeldes do deserto foram perdendo a paciência - continuou ele. - Se não tivesse conseguido rapidamente a quantidade de ouro exigida...

- As tuas notícias chegaram-nos tarde e por outros caminhos. Além do mais, estivemos ocupados com outras situações.

Parecia conclusivo. Namiz desculpou-se.

- O meu coração também chora quando penso na morte do grande ^çkenenré...

- Temos de nos preocupar com o futuro. Kemet não tem tempo para Pensar muito no passado. - Kamés levantara-se. Não era a primeira vez

que Namiz o achava muito semelhante a um predador elegante. No entan-

to, havia mais qualquer coisa que ainda não se juntara à sua energia juvenil e que Namiz não conseguiu nomear: uma irradiação que o príncipe ainda não adquirira. - Ouvi dizer que nos trouxeste alguma coisa.

- É verdade. Turquesas. Tantas quanto o teu coração desejar. De um azul-claro puro até ao verde das folhas jovens. Ou, então, semelhantes ao céu e ao mar como foi teu desejo. - Se Kamés não tinha entendido a alusão às pedras favoritas do seu falecido tio, ele também não a explicou. A minha gente descobriu uma nova mina que alberga tesouros incomensuráveis. Já estávamos com a construção muito adiantada, quando os rebeldes do deserto nos...

- E mais?

Namiz não mostrou quanto lhe fora desagradável aquela terceira interrupção. Um novo faraó significava o despontar de novos tempos. Só podia esperar que, no meio de toda aquela confusão, este fosse o indicado para subir ao trono.

- Cobre - disse ele rapidamente. - Em tão grande quantidade que chegará para os filhos dos vossos filhos e seus exércitos.

Os olhos de Kamés brilharam e começou finalmente a sorrir. O homem ”agro que estava à sua esquerda fez o mesmo, enquanto o da direita, muito alto e bem constituído, olhava com uma expressão amigável, mas permaneceu sério.

- O ouro, Hori, é a carne dos deuses - proferiu Kamés com suavidade, virando-se ligeiramente para a esquerda. - No entanto, o cobre é o coração das armas. E o que Kemet precisa urgentemente é de um coração forte e corajoso.

Calou-se durante tanto tempo que Namiz receou que a audiência tivesse terminado.

- Posso retirar-me, Hórus dourado? Aclarou decentemente a garganta.

- Ainda não. O homem que está do lado do meu coração é o comandante Hori, chefe das minhas tropas. Conhece-lo? - Não esperou pela resposta. - Um talento militar notável e será destacado para uma cidade junto da segunda catarata. - Namiz recordou-se imediatamente. Os anos em Abu Resi tinham amadurecido Hori, mas ainda possuía o seu ar fresco e jovem. - À minha direita está o vizir, Totó, meu amigo desde os tempos em que estivemos juntos na Casa da Vida. Ambos são da minha mais com pleta confiança.

Namiz fez uma ligeira vénia em cada uma das direcções.

- E o Ipi e o Seb? - A pergunta saíra-lhe automaticamente. Por feli cidade, não perguntara nada sobre Ahmés que, na melhor das hipóteses, deveria estar sentado naquele trono. - Para não falar de Nebnefer...

- Nebnefer? - Um riso curto, quase uma gargalhada. - Foi o seu pior inimigo! E no que diz respeito aos outros, foram-lhes entregues, em meu nome, punhais afiados. - A boca de Kamés endureceu. - Nesta corte, o tem-

po dos velhos inúteis terminou! ;.

Namiz sentiu um frio de medo nas entranhas.

- Isso significa que eu também...

- Sabes ler? - Não era uma pergunta, mas sim uma afirmação.

- Sim, sei - afirmou o intendente de Kepni com orgulho. - Domino a escrita da minha pátria, a da ilha de Keftiu e, claro, todos os símbolos mais importantes de Kemet.

- Óptimo. Então irás reunir à tua volta, em meu nome, muitos escribas que começarão brevemente com os trabalhos na minha futura Casa da Eternidade, e gostaria que examinasses a sua capacidade. Ao lado de outros trabalhadores que devem ser muito habilidosos e possuir qualidade de trabalho. Comigo não irá acontecer o que sucedeu a Sekenenré que foi enterrado numa sepultura inacabada. - Kamés riu-se de contentamento. - As coisas não correrão, quase decerto, como durante a sua regência.

Os homens que estavam ao lado do faraó trocaram olhares eloquentes. Segundo parecia, sabiam exactamente de que é que ele estava a falar.

- Receio não estar a compreender - retorquiu Namiz, irritado. Devo contratar escribas e outros trabalhadores para a vossa sepultura? Mas isso significa que...

-... que te nomeio superintendente da Casa do Tesouro Real. Tenho grandes planos. Planos poderosos.

No primeiro momento, Namiz pensou ter ouvido mal. Tantos sonhos e a ânsia de todos aqueles anos... Agora conseguia a nomeação quando já não pensava nela. A alegria quase o paralisou.

- Agradeço-te, faraó, e só espero mostrar-me digno de tão grande honra - Fez uma vénia tão profunda quanto possível e não conseguiu impedir que a sua voz soasse comovida. - Que tenhas uma vida longa e sã! Toda a minha arte e vida te pertence. Nunca te desiludirei. Juro por todos os deuses.

- Se isso acontecer, perderás o teu alto cargo mais depressa do que imaginas. - O olhar de Kamés recaía sobre a figura de Namiz e o que via parecia agradar-lhe. - Acho que deitaste fora um enorme peso. Por aquilo que consegui apurar, penso ter encontrado um óptimo companheiro de armas.

- Estou a ouvir, Unico-Um.

- Tudo será novo - declarou Kamés. - A administração. A determinação das taxas de imposto e, sobretudo, o exército. Precisamos de mais soldados, de uma melhor formação, de outras armas e tácticas e, é claro, de aliados com os quais possamos contar. Vamos acabar com as gerações de funcionários que se estabeleceram por todo o país. São todos aparentados. Acabar com os sacerdotes corruptos! Quero criar um novo Estado que conduzirá Kemet ao seu antigo poderio. E isso não vai levar decénios, mas sim alguns anos... - Olhou para o jardim e pareceu distrair-se com o jogo das folhas ao vento.

- E qual será a minha tarefa? - ousou Namiz perguntar finalmente. Estou ansioso por te apoiar em tudo.

- A seguir equipar-nos-emos para uma nova expedição às minas de cobre. Além disso, quero-te incluir imediatamente no meu projecto e para isso já preparei muitas coisas: plantas, cálculos, caminhos alternativos. Vais ficar admirado! E assim que tudo estiver como eu imagino...

-... as coisas viram-se para norte, grande faraó - completou Namiz.

- Falaremos disso assim que chegar o momento e não antes. Sou um soberano e não um sonhador.

Namiz fez várias vénias e virou-se para sair.

- Espera! Mais uma coisa! - A voz poderosa de Kamés obrigou-o a parar. - Onde está a rapariga de Kuch?

- A Sahti?

Um gesto impaciente que mostrava claramente que Kamés considerava aquela réplica desnecessária.

- Em minha casa, Unico-Um. - Namiz estava contente por apenas ter os joelhos a tremer e não a voz. - Há alguns anos, foi para junto de uns pais adoptivos apropriados, mas eles morreram e então... - Confuso, parou de falar. E se aquilo que o faraó queria saber tivesse a ver com o que acometera ao repugnante embalsamador? Estariam as crianças ameaçadas por o lerem morto, a fim de salvar a própria vida? Mal conseguira acreditar nos seus ouvidos quando Sahti, Pani e Ita lhe tinham narrado os acontecimentos.

- Não quero pormenores! - Kamés fez um gesto de desprezo. Agora passa a estar sob a tua protecção pessoal. Entendido?

Namiz anuiu com a cabeça.

- Mas eu terei de me ausentar frequentemente ao teu serviço, grande faraó. Agora que dirijo a Casa do Tesouro Real ainda sairei com mais frequência. E o que acontecerá então à Sahti...

- É um problema teu. E agora deixa-nos sós! Ainda há muita coisa para organizar.

Nabu encontrou-o inclinado sobre grandes rolos de papiro que cobriam toda a mesa. Já era tarde quando ele a mandara chamar, muito para lá da meia-noite, e, à excepção dos dois eunucos que, de má vontade, a acompa nhavam pelos escuros jardins reais e de dois servidores pessoais do faraó, o palácio estava profundamente adormecido.

Ela pigarreou quando entrou na sala.

Kamés olhou-a.

- Vem! - Fez-lhe um gesto para que se aproximasse. - Tens de ver isto!

Lentamente, ela acercou-se da mesa. As inúmeras linhas negras sobre o fundo claro confundiam-na, mas finalmente reconheceu as ruas e pátios e ainda outros planos diferentes.

- O que é isto? Uma nova cidade? - Riu-se porque lhe agradava que ele se comportasse com impaciência. - Deixa-me adivinhar! Estás farto da velha Uaset? Tão farto dela como da tua amante negra? - Calou-se.

- Disparate! - murmurou Kamés ainda afundado nos seus planos. Vê só! É assim que vão viver os meus artistas e trabalhadores e nada os arrancará do seu trabalho. Nem a cansativa viagem que terão de empreender todas as manhãs e todas as noites! - Passou as mãos, lentamente e com ternura, sobre as linhas como se fosse o corpo de uma mulher. - Haverá escribas e pintores, pedreiros, portadores de água e condutores de gado. Simplesmente tudo! Receberão casas, alimentos e, naturalmente, os seus próprio santuários para dizer as suas orações. Em meu nome, criar-se-ão obras que até agora ninguém viu. - Bebeu um gole de vinho. - Até Ahmés ficará sem fala. Talvez perceba finalmente a razão por que Sekenenré me indicou como seu sucessor.

- E por que razão me escondes no harém como uma leprosa? - A voz do Nabu estava gelada. - Talvez tivesse sido melhor que me esquecesses como à outra rapariga que vocês também trouxeram de Kuch.

Naquele momento, ele afastou-se dos papéis e puxou-a para si.

- Escondo-te porque não te quero partilhar com ninguém - disse ele suavemente.

- Nem com homens nem com deuses. Nem sequer com Ré ,ou com lach. Pertences-me, Nabu. Só a mim! - Os seus lábios procuraram a boca de Nabu. - Além disso, nunca me esqueço de nada.   De nenhuma traição, de nenhum serviço e muito menos de uma pessoa. O Namiz tem a seu cargo a pequena e guarda-a como a vida. Se te interessa, ela está em sua casa.

O corpo de Nabu manteve-se hirto nos seus braços e até virou o rosto.

Kamés fez uma expressão de admiração.

-O que tens, Nabu? A preocupação com a rapariga não é nada. O que se passa? Queres vestidos novos? Jóias? Criadas? Um pedaço de terra?

Nabu riu-se cruamente.

-O que é que eu posso ter? Não passo de um brinquedo ridículo! Que tu mandas buscar quando sentes desejo e que largas assim que estás satisfeito.

Uma ruga de raiva surgiu-lhe entre as sobrancelhas.

- Como faraó, eu poderia...

’’ - ... mandar-te matar imediatamente. - Ela suspirou com desprezo. - Pensas que me esqueço de um único respirar dentro deste palácio, que é talvez a prisão mais luxuosa que se pode imaginar?

Nabu estava tão perto dele que Kamés conseguia ver cada pequeno cabelo, cada pestana. O seu peito subia e descia, arquejante, sob o vestido prateado transparente. Ela exalava um aroma a terra e a fêmea que nem mesmo os óleos perfumados conseguiam cobrir.

Kamés abraçou-a apaixonadamente. Às vezes, desejava-a tanto que mal conseguia respirar. Ela compreendia-o e era capaz de pô-lo ao rubro. Todavia, Nabu também conseguia ter mais humor ou ficar fechada como uma pedra sem mostrar qualquer tipo de sensibilidade. Nessa altura, não havia palavras, nem pedidos, nem ordens que resultassem. Não! Ele não queria que aquela noite de Verão terminasse sem beleza.

Num gesto conciliador, pôs-lhe um caracol de cabelo atrás da orelha. - E volta a ser a minha Nabu. Aquela de quem eu gosto! Ficarei doente se continuares tão fria e dura.

Ela libertou-se abruptamente.

- Esqueceste-te de uma coisa.

Kamés olhava para ela, admirado. Estava à sua frente de cabeça bem erguida.

- Neste quarto nós somos homem e mulher. Mais nada. E agora vem até mim se queres ser o meu homem!

Abraçá-la era ao mesmo tempo caça e aventura e tão secretamente como de todas as outras vezes. Ela gemia debaixo dele e os seus lábios mostravam os seus fortes dentes brancos, mas ele não fazia a menor ideia do que se passava dentro dela quando lhe cravava as unhas nas costas e lançava gritos ardentes. Às vezes, chegava a ter medo de a ferir, pois Nabu revirava tanto os olhos que até se conseguia ver a camada leitosa do globo ocular; todavia, era incapaz de a levar a proferir uma única palavra.

- Eu sinto o teu desejo. - Nada mais conseguira arrancar-lhe. Não chega?

- Então, tu amas-me? - tentava ele assegurar-se quando, banhado em suor, ficavam deitados lado a lado.

Só se via o jogo de luzes dos candeeiros de alabastro sobre os seus corpos escuros! Ele sentiu um desejo imenso de a possuir segunda vez.

- Não sabes?

O ritmo da respiração aumentou. Só ela poderia permitir que continuassem.

- Gostaria que engravidasses de mim. Oferece-me um filho, Nabu! Ela ficou estupefacta, mas reagiu rapidamente.

- Um bastardo para o rei? - Nabu começou a rir. - Kuch e Kemri unidos num ser vivo. Que imagem tão irónica! - Riu-se ainda com mais gosto. - Mas o que é que a corte diria dessa criança? E, sobretudo, Teti -Cheri, a tua rígida avó! Ela odeia-me com todas as forças do seu ser. Não sabes disso, Kamés?

- É apenas a tua imaginação. E mesmo que... seria única e exclusiva mente da minha responsabilidade

- Dizes isso porque a tua triste pomba não te recebe nem quer parir? Algo no seu tom o enraiveceu e o magoou simultaneamente. Kamês

agarrou no pulso de Nabu e puxou-o.

- Deixa Acha fora do jogo! A grande senhora real não...

-... não perdeu nada na tua cama? De facto, isso não aconteceu!

Nabu inclinou-se sobre ele até os seus seios lhe acariciarem o seu tron co. Depois, mordeu-lhe o pescoço. Por fim, beijou-o tão profundamente que ele começou a arquejar de desejo.

- Tu enlouqueces-me! - segredou ele. - É isso que desejas? Nabu abriu muito os olhos.

- As serpentes negras não trazem filhos no ventre -- murmurou ela, enquanto a sua respiração se tornava mais vigorosa. Levantou-se como uma chama orgulhosa e escura. - Elas põem os ovos na areia, secretamente, sob a protecção da noite, e deixam-nos chocar ao sol até finalmente saírem inúmeras serpentes pequeninas...

- O que estás para aí a murmurar? Kamés olhava, espantado, para o seu rosto.

- Nada - disse Nabu e retomou o ritmo interrompido. - Absolutamente nada, meu rei.

- Gostava de saber escrever, Namiz. E ler, tal como o Pani. - Sahti surpreendeu-o com aquele pedido quando estava prestes a retirar-se para o quarto. Só há alguns dias atrás é que ela lhe confessara que tinha deixado .1 deusa Selket em ouro na câmara funerária subterrânea do embalsamador morto. Desde então, havia uma sombra no seu espírito, que insistia em não desaparecer, apesar de ele estar continuamente a dizer a si próprio que nada aconteceria, que nada poderia acontecer... nem a ele nem a ela. Contudo, talvez também fosse essa a razão de ele já não suportar tão bem o vinho, tendo perdido tanto peso. Decidira prescindir dele nos tempos mais próximos.

Naquele momento, sentiu que precisava de um bom gole.

- Para quê, Sahti?

- E ainda perguntas? Tu que dominas tantas línguas? Ela fixava-o simultaneamente indignada e desconcertada.

- Pois! Mas eu sou homem, intendente do ouro e além disso...

-... Superintendente da Casa do Tesouro Real - completou ela, impaciente. - E eu sou apenas uma rapariga de Kuch. - Os seus olhos brilhavam. - É por isso que não tenho valor?

- Que disparate! - Namiz esvaziou o copo e voltou a enchê-lo rapidamente. - É claro que tens valor, Sahti, e se é um desejo muito importante tentaremos...

- Obrigada! - Deu um salto como se fosse abraçá-lo, mas no último momento ficou parada à sua frente com os ombros ligeiramente puxados para trás. - Às vezes penso que a tinta poderia lavar o sangue das minhas mãos - disse ela em voz baixa. - Mas talvez já ajude o facto de ter o meu espírito ocupado com alguma coisa de útil.

Namiz percebeu imediatamente o que ela queria dizer. O banho de líquido de embalsamador estava longe de se encontrar esquecido e talvez nunca conseguisse esquecê-lo. Namiz estava feliz pelo facto de ela, de certo modo, ter saído ilesa, se bem que ainda acordasse assustada e banhada em suor, gritando por Tama ou pela daia. Na manhã seguinte, perguntava-lhe o que tinha sido, mas ela já não se lembrava de nada. Porém, as olheiras azuladas e as faces encovadas diziam tudo.

- Tenho a certeza de que te vai fazer bem, mas temos de encontrar um caminho especial para ti, já que és demasiado crescida para a escola do templo.

- Para os sacerdotes, não! Por favor!

- Ainda gostas menos deles do que eu. - Riu-se. - Compreendo u bem!

- Por que razão tu não me podes dar aulas? E o Pani também? Ele já me mostrou como é que se cortam os juncos e disse-me como a tinta deve ser diluída.

- Porque não sou escriba, Sahti, e tenho mais que fazer. Contudo, tal vez pudesse colocar-te junto dos escribas, mas terias de lá viver e ajudar nas tarefas domésticas para que, em contrapartida, te ensinassem os símbolos.

- Pareceu ponderar o assunto. - Até estou a pensar numa determinada família que poderia receber-te.

- E ao Pani - acrescentou ela prontamente. - Sem ele não vou para lado nenhum.

- E a Ita?

Esperou atentamente pela resposta.

- É claro que a Ita também - contrapôs Sahti depois de franzir irrita damente o sobrolho.

A estranha expressão do seu rosto ainda ocupou o espírito de Nami/ nos dias que se seguiram e começou a ponderar melhor o assunto. Ganhara imediatamente amizade ao pequeno dos olhos eloquentes e ficava mais tranquilo por ver que seguia Sahti para todo o lado como um cachorrinho. Em contrapartida, a outra rapariga era um enigma: umas vezes parecia muito mais madura do que Sahti, mas outras muito mais infantil e até desamparada. Também o irritava o facto de Ita estar sempre a papaguear e ainda mais o facto de não olhar para ele. Como tal, tinha a sensação de que Ita seguia atentamente o que ele fazia, mas não permitia que ninguém reparassena acuidade da sua observação.

Assim que terminaram os preparativos para a expedição às minas de cobre, dirigiu-se imediatamente a casa do escriba que já tinha sido nomeado chefe da futura colónia. Penju, um homem baixo e de precoces cabelos brancos, cumprimentou-o respeitosamente, ofereceu-lhe pão e cerveja e não pareceu admirado quando Namiz lhe falou do seu estranho desejo.

- Os deuses deixaram-nos apenas um único filho - disse ele tristemente. - Uma filha seria decerto muito bem-vinda. Que idade dizes tu que ela tem?

A mulher seguia a conversa com atenção. Heteput era magra, de poucas palavras e com a sua melena avermelhada elevava-se mais de vinte e cinco centímetros acima dele.

- Quase catorze. Chama-se Sahti e vem de Kuch - informou Namiz, não deixando de fixar os olhos do seu interlocutor. - Uma rapariga com muito carácter, esperta e com sede de saber. Precisa de um lugar onde possa amadurecer em paz e de pessoas correctas que tratem dela. O faraó está muito interessado no seu bem-estar e eu também.

Penju assentiu com a cabeça. A ideia parecia agradar-lhe.

- E claro que ela não precisa de fazer mais nada. Todos os meses vos mandarei algumas moedas de prata. Nada deve faltar à Sahti e muito menos a vocês.

- Será muito bem-vinda, senhor Namiz. - Penju fez uma ligeira vénia. - Trá-la quando quiseres.

- Mas há mais uma coisa... Ela não vem sozinha. - Espontaneamente Namiz decidira desvendar mais tarde a existência de Ita. - Existe ainda um órfão, filho de um escriba, um miúdo muito esperto que ainda não tem dez anos e que perdeu os pais demasiado cedo.

- Será o pequeno Pani? - Penju deu um salto, quase deitando abaixo uma caneca de cerveja. - O único filho do Kaj?

- Esse mesmo!

- Mas parecia que a terra o tinha engolido! Todos pensávamos que lhe acontecera alguma coisa.

- Ambas as crianças passaram um mau bocado que, provavelmente, só conseguirão superar se se mantiverem juntas. Seria desumano separá-las.

- Eu gostaria muito de ter mais uma criança em casa - afirmou Heteput. Ficara corada com a excitação. - E tenho a certeza de que o nosso Nesmin ficará muito contente por ter um irmão mais novo.

- O vosso filho?

- O nosso mais velho - confirmou Penju, orgulhoso. - Acabou de fazer dezoito anos e é um dos escribas mais dotados. A Sahti não poderia ter um mestre mais capaz.

- E ele tem tempo suficiente para isso? com certeza que já deve ter a sua própria família ou em breve a fundará.

Penju e a mulher trocaram um olhar preocupado.

- Diz-lhe tu isso! - proferiu Penju. - Acho que ele dá pouca importância a tal coisa.

- O Nesmin sofre da doença dos deuses. - A voz de Heteput mostrava-se fragilizada. - Há muito que tememos perdê-lo, mas ele é teimoso e possui uma forte vontade de viver.  Entretanto,  aprendeu a viver com a doença e as crises já são mais raras. É claro que não pode esforçar-se de mais, deve evitar o vinho e a cerveja e ter sempre um pouco mais de cuidado do que os outros.

- O que decerto não deve ser fácil para um homem jovem -• disse Namiz.

Penju e Heteput trocaram um olhar eloquente.

- Não - disse Penju. - Às vezes, desejava poder retirar-lhe um pouco do peso que carrega. Infelizmente, não posso fazê-lo.

Com um suspiro de alívio, Namiz abriu a porta que dava para o jardim da sua casa, entrou e olhou para o céu. Expandia-se, claro e límpido, num azul profundo e secreto que o punha mais tranquilo. Tinha estado tão ocupado que ainda se sentia um pouco tonto. A caravana para as minas de cobre partira, os preparativos para a nova colónia de trabalhadores na margem ocidental decorriam a todo o vapor, e Sahti encontrara um novo lar. Tinha gostado logo de Penju e, de certo modo, entendera-se com a orgulhosa He teput.

Sahti inspeccionara tudo minuciosamente: a casa de dois andares com o pátio interior onde se encontrava a cozinha e os quartos, baixos e quadrados, que ela e Pani futuramente habitariam. Agradou-lhe a limpeza que vi nhã das mãos organizadas de Heteput e o pequeno altar doméstico com uma estátua do deus dos escribas, Tot. O que a surpreendeu mais foram os utensílios com que Penju trabalhava: a paleta com covas para os bolbos de pigmento vermelho e negro ao lado de pequenos potes de água e canetas de bambu afiadas, bem como os rolos de papiro.

- Eu também vou ter algo assim?

- Acho que para começar bastarão simples placas de pedra ou fragmentos de cerâmica - afirmou Nesmin, rindo. - Afinal, foi assim que todos começámos. Todavia, se te mostrares habilidosa, chegarás um dia a es crever em papiro. - Ele era alto e tinha as ancas arredondadas, possuindo os traços suaves de seu pai e os curiosos olhos castanhos de sua mãe.

- Eu ajudo-te, Sahti! - gritou Pani, excitado.

Parecia estar extremamente feliz por ter encontrado ali alojamento.

- E tu aprendes depressa. Já sei!

Namiz também encontrara uma casa para Ita. O primo de Penju, que vivia duas ruas abaixo e também era escriba, prontificou-se rapidamente a recebê-la. Por que razão sentia o coração tão pesado?

Porque em breve a solidão voltaria a instalar-se, assim que os risos infantis e os sons de passos apressados em sua casa desaparecessem e com isso a sua vida?

Namiz voltou para o quarto, apagou o candeeiro e adormeceu pouco depois. Despertou quando sentiu que algo se colava a ele, um corpo de mulher nu e quente que inconscientemente puxou para si.

- Sahti? - murmurou ele, meio adormecido. - És tu?

- Se quiseres também posso ser a Sahti para ti - segredaram-lhe ao ouvido.

- Ita! - Ele reconheceu-a mais depressa pelo cheiro forte do que pela voz e despertou completamente. - O que queres daqui?

- Chiu! Fala mais baixo! Não é preciso que toda a gente nos ouça. Tinha o dedo sobre os seus lábios e naturalmente os olhos habituados à es curidão. - Queria proporcionar-te um pouco de alegria. Uma alegria que não se deverá limitar a esta noite.

Com um movimento obsceno, abriu as coxas.

- Pára com isso! - Namiz virou-se. - Tu ainda és uma criança. Ela riu-se e com as mãos levantou os seus seios.

- Está bem! Sou uma criança! Diz lá se não anseias secretamente por uma criança com quem possas brincar?

- Não anseio, decerto, por uma criatura que de uma maneira obscena se me atira ao pescoço! - Namiz recuou, agarrou num lenço e atirou-lho.

- Vais vestir-te e voltar imediatamente para o teu quarto!

Ela começou de novo a colar-se a ele.

- Não me mandes embora! Por favor! A Sahti e o Pani já me abandonaram. Tu não podes! Farei tudo o que quiseres. Tudo! Mas deixa-me ficar aqui!

- Já falámos de tudo em pormenor! Em casa do Penju já não há lugar, mas ficarás em casa de pessoas honestas que tratarão de ti e estarás bem próxima da Sahti. Que mais queres?

A voz de Ita soou gelada.

- Sahti. Sempre a Sahti! O que é que ela tem que eu não tenha? A cor da pele? É isso que te excita? - Não lhe deu sequer tempo para responder.

- A mim não consegues enganar-me. Na realidade, tu deseja-la. Desiste! Pelo menos, perante ti próprio!

- Podes voltar para junto dos mendigos - contrapôs ele, friamente. Já amanhã de manhã. Depositar-te-ei pessoalmente junto da fogueira que tem ao pé do rio.

- Tu não percebes, Namiz. - Parecia assustada. - Tu não percebes nada. Eu só queria uma casa e alguém que realmente me amasse.

- Se abandonares o meu quarto imediatamente, ambos esqueceremos que alguma vez aqui estiveste - proferiu Namiz, dominador. - A Sahti não deve sequer sonhar com isto. Mas tu sais imediatamente. Compreendeste-me?

Contrariada, levantou-se, agarrou no lenço e cobriu-se. Depois ficou parada junto à cama dele.

- A tua Sahti. Será que realmente a conheces? Pensas que ela é pura e boa, quase uma santa - continuou ela, insaciável. - Porque é assim que .1 queres ver, mas não a conheces. Ela roubou. O Maj quase a levou a confessar. Não a vi verter uma única lágrima pelos seus pais mortos. - A voz de Ita tornara-se esganiçada. - E foi ela que enterrou a faca no corpo gordo do Ut. Não fomos nós!

- Desaparece!

- Mais uma coisa. O embalsamador mandou-a ir ter com ele em segredo durante a noite. Sozinha. - Calou-se. - Já perguntaste a ti próprio

que é que ele deve ter feito com ela na câmara funerária?

Em silêncio, como um ser da noite, desapareceu na escuridão, deixando Namiz com as suas questões e pensamentos.

- O que fazes aqui, Sahti? Estamos a meio da noite e devias estar a dormir há muito tempo!

- Estou a praticar, Nesmin. Achas que algum dia vou conseguir escrv ver e ler correctamente? Já estou quase há meio ano convosco e ainda não apanhei o Pani. - Um profundo suspiro. - Como eu desejava ter começado mais cedo!

A hesitante chama da lamparina de azeite provocava estranhas sombras sobre o seu rosto. Nesmin sentia-a mais desprotegida do que anteriormente e talvez um pouco menos dedicada.

- Que disparate! Tu fizeste progressos enormes e em breve ainda serás melhor. Mas para isso é necessário que amanhã estejas realmente descansada.

Esforçava-se por parecer acordado e racional.

- Agora pareces a Heteput a falar. Ambos se riram.

- O que é que estás aqui a fazer?

Ela olhou-o com curiosidade. Nesmin deixara crescer o cabelo até aos ombros e recentemente ficava durante mais tempo a banhar-se e a perfumar-se.

- Tinha sede. - Não foi convincente. - Vens comigo ali à porta de casa?

- Agora?

Inconscientemente, ambos tinham começado a sussurrar.

- Agora. Quero mostrar-te uma coisa.

Sahti levantou-se da posição típica de um escriba, passou as mãos pelo vestido e seguiu-o. A porta do quarto de Pani estava aberta. Ouviu o seu ressonar ruidoso, hábito que nunca perderia, nem agora que estava em segurança; no entanto, os seus pequenos punhos já não se fechavam para se defender dos assustadores horrores da noite.

Saíram a porta. com um gesto largo, Nesmin apontou para cima.

- Olha! Já viste alguma coisa assim?

Uma estrela cadente à frente dos seus olhos.

A garganta de Sahti ficou apertada, pois subitamente pareceu-lhe ouvir a voz de Tama:

Nut abriu os seus braços escuros e deixou as estrelas caírem do seu corpo. Por vezes, envia-nos uma delas. Isso significa sorte, Sahti, uma grande sorte.

- Deves formular um desejo, Nesmin - disse ela. - Rápido! Não penses muito!

Ele deu um passo em frente.

- Eu sei o que desejo - afirmou ele em voz baixa. - E tu também sabes. - Aclarou a garganta antes de continuar. - Eu gosto de ti, Sahti. Gosto até muito de ti.

- Eu também gosto de ti, Nesmin - retorquiu ela muito depressa. Io meu professor e o meu...

- Por favor, não digas irmão mais velho! Estou ligado ao Pani por sentimentos fraternais, mas contigo é diferente. Muito diferente!

- Eu ainda não cheguei tão longe, Nesmin. - Ele apercebeu-se do tom cauteloso da sua voz. - Preciso de tempo. Percebes o que quero dizer?

- Para conseguir amar? - murmurou ele, colocando um braço à volta dela.

Sahti acenou lentamente com a cabeça e retirou o braço que lhe rodeava os ombros.

- Não estás a subestimar-te? - continuou ele. - E a mim também?

- Sabes o que desejo mais para mim? - perguntou ela. - Ser simplesmente como todas as outras e não uma estrangeira. Gostaria de sentir, pensar e ser exteriormente como vocês, não havendo qualquer diferença. Nenhuma. Para que, por fim, pudesse sentir paz. É esse o meu desejo mais profundo, Nesmin.

- Mas afinal tu és como és - disse ele. - Eu não consigo imaginar-te de outra maneira.

Sahti calou-se durante algum tempo e baixou a cabeça. Quando a levantou novamente com um movimento rápido e olhou para Nesmin, pareceu-lhe tão atraente que ele teve de se esforçar por não a tomar nos braços e nunca mais a largar.

- Nós somos ainda tão jovens! - proferiu ela em voz baixa.

- Talvez eu não chegue a velho - disse Nesmin, não ousando olhar para a jovem. - Já houve momentos em que pensei que a doença iria desfazer-me. Além disso, a escuridão em que me precipito é como a morte.

Involuntariamente, voltou a aproximar-se e, da mesma maneira dócil, a rapariga voltou a afastá-lo.

- Consigo sentir o teu medo - observou ela suavemente. - Também sentes o meu?

Ele anuiu com a cabeça.

- Se realmente me queres, irmão, terás de ter paciência. Muita paciência!

- Toda a paciência do mundo, Sahti - assegurou, comovido.

- Óptimo - murmurou ela e olhou, perdida nos seus pensamentos, para a cauda da estrela que iluminava o infinito céu da noite. - Acredito na tua palavra, Nesmin.

 

OITAVA HORA: O TEMPO PARADO E O TEMPO QUE CORRE

O ar estava quente e cheio de poeiras que brilhavam ao sol, e nada incomodava a tranquilidade adormecida do meio-dia nos pátios e casas circundantes. Só o suspirar espaçado da jovem mulher não se enquadrava nessa imagem de paz, pois, de súbito, pareceu ficar tremendamente furiosa por continuar a lavar feijões. Penju tivera de ir urgentemente ao mercado de Uaset comprar ocre, pois acabara-se-lhe a tinta vermelha, e Sahti aproveitara a oportunidade de atravessar com ele o Nilo para visitar Ita que, entretanto, fora viver com Maj e esperava o seu primeiro filho. Depois da alegria inicial do reencontro, entraram numa disputa vigorosa. Tinham passado mais de quatro anos desde que haviam fugido juntos da câmara funerária do embalsamador, mas o seu espírito malévolo parecia ainda pairar sobre eles.

- De qualquer modo, eu mantenho a minha promessa! - Ita colocou de lado a pequena figura da deusa Taueret que Sahti lhe trouxera, sem lhe prestar a menor atenção. O seu vestido de grávida ficava muito esticado na zona da barriga. Os tornozelos e pulsos estavam inchados e cada movimento era um esforço. A gravidez avançada parecia torná-la ainda mais impaciente. - Exactamente ao contrário de outras pessoas que conhecemos que, de repente, deixaram de se lembrar de tudo.

- Podes dizer à vontade que estás a referir-te ao meu casamento ripostou Sahti, tentando manter-se calma. - Mas é-me indiferente o que possas ter contra isso. Depois de amanhã, serei mulher de Nesmin. Já o fiz esperar o suficiente. - Esgotada, limpou o suor da testa e do pescoço. A época das inundações começara, mas os dias ainda estavam muito quentes. - E, é claro, que ficarei muito feliz se vocês puderem estar presentes. Tu e o Maj. Afinal de contas, vocês são meus amigos!

- Ah, sim? Quem é que naquela altura jurou pela vida que nunca mais poria os pés na margem ocidental? E, no entanto, já vives lá há mais de dois anos. Eu não conseguiria nem um minuto, entre todas aqueles ossos e sepulturas! E o Maj, muito menos. Todavia, não podemos contar com um protector rico que nos pague uma casa novinha em folha e, alem disso, nos dê um dote régio.

O olhar infeliz de Ita passou por cima do desarrumado pátio interior. Sahti sabia que dentro de casa o aspecto não era melhor. Tudo lá dentro exibia um aspecto desleixado. É claro que agora teriam de viver ainda mais apertados, pois Maj ganhava pouco no seu duro trabalho no porto Mas que papel desempenharia esse facto se se tinham um ao outro e, em breve, o fruto do seu amor?

- Onde há felicidade, está a felicidade - contrapôs Sahti simples mente. - Foi o que a Tama sempre disse e agora já sei que ela tinha razão. A nossa colónia, Ita, não tem realmente nada a ver com a necrópole. Temos casas e ruas completamente normais e tudo é belo e alegre naquele local. Tenta ver as coisas de uma maneira imparcial. Tenho a certeza de que te sentirás melhor.

- Eu? No vale dos mortos? Nunca! Ou queres que ponha em jogo a vida do meu filho?

- Claro que não - retorquiu Sahti, assustada. - Como podes dizer uma coisa dessas? - Deu um passo em direcção a Ita para ternamente lhe colocar a mão sobre o ventre, mas a amiga afastou-se bruscamente. Desculpa! Eu só queria senti-lo a mexer-se.

- Arranja um para ti própria! Assim irás saber como é que é, quando alguém que está dentro de ti te dá pontapés dia e noite.

- Mas não ficas feliz com isso?

- Não poderia imaginar nada de mais belo - proferiu ela, bruscamente.

Sahti ainda pensava na expressão ambígua da amiga quando foi ter com Penju ao local em que tinham combinado encontrar-se para regressar à nova colónia. Ainda recordava aquelas palavras, quando a barca levantou âncora e as ondas do grande rio se assemelhavam a um oceano esverdeado, e também ao chegarem, por fim, à margem ocidental, onde se puseram a caminho de casa pela estrada poeirenta.

Heteput recebeu-os muito agitada.

- Escolheram logo o dia de hoje para estar fora de casa tanto tempo! Quando ainda há tanta coisa para preparar! Será que tenho de fazer tudo sozinha? - Atirou a Sahti um olhar reprovador. - Estiveste em casa da Ita?

Ela assentiu hesitantemente com a cabeça. Sabia que, há muito tempo, existia uma contenda entre a mulher mais velha e a mais nova. Heteput nunca perdoara o facto de Ita ter fugido algumas luas depois, porque não conseguia continuar junto da outra família de escribas, tendo andado sozinha até finalmente se juntar a Maj.

- Se queres que a tua existência seja boa - teve Heteput o cuidado de dizer -, mantém-te afastada do mal. É o que diz um velho ditado. Seria melhor nunca mais voltares a ver a Ita.

- Ela dará à luz em breve - informou Sahti, tentando parecer convincente. - Por isso é que não pode festejar o casamento connosco. Mas manda-nos felicidades a todos.

- Aposto que não aparece porque tem inveja de ti - rosnou Heteput, e mexeu a sopa de lentilhas com tanta energia que esta lançou perigosos salpicos em várias direcções. - Para não falar do nosso Nesmin. Na realidade, ela deveria estar grata por lhe teres deixado o Maj. Se bem que ele seja apenas um simples trabalhador do porto e não um escriba. Mas a palavra gratidão não consta do vocabulário da Ita!

Sahti foi rapidamente lá fora à cisterna para esconder o riso. O orgulho em relação ao trabalho de escribas do marido e do filho fazia com que Heteput parecesse, por vezes, ridícula, e agora, pouco antes do casamento de Nesmin, parecia especialmente sensível. Era o primeiro casamento a realizar-se na nova colónia.

Há semanas que andava, incansável, nos preparativos. Limpara todas as paredes, e o chão de tijolo original fora coberto com quadrados de gesso, tal como é devido na casa de alguém com um cargo superior. Uma enorme equipa de mulheres cozinhava e assava sob a sua supervisão. Tinham sido entregues vasilhas de vinho e fora preparada cerveja de figo fresca. Apesar da quantidade exacta de mantimentos que a Casa do Tesouro Real enviava aos trabalhadores da necrópole, havia ainda bastantes gansos, que eram assados no forno, bem como pedaços de vaca cozidos em massa de pão, um acepipe muito especial. Também conseguira arranjar alguns pelicanos, que Heteput iria colocar na mesa como ponto alto da sua culinária.

Para sua grande satisfação, Namiz não se importara de ser o substituto do pai da noiva. Fora elaborado em sua casa um contrato nupcial bastante equilibrado, que Sahti assinou deliciada. Segundo o contrato, ela trazia para o casamento móveis, vestuário, espelhos diversos e todo o tipo de utensílios domésticos, enquanto o dote de Nesmin consistia em jóias de prata. Como complemento, destinava ao futuro marido um terço dos bens da família e obrigava-se a esse contrato mesmo em caso de divórcio. Quando foi lido esse ponto do contrato, Nesmin olhou para Sahti tão profundamente nos olhos que todos os presentes soltaram gargalhadas.

- Ele nunca mais a deixará! - gritou Pani que, entretanto, crescera e se transformara num jovem corajoso com caracóis castanho-escuros e covinhas no rosto; as raparigas já começavam a olhar para ele. - E quando eu for crescido só estarei interessado numa mulher como a Sahti.

- Negro é o seu cabelo como a escuridão da noite como uvas e figos

- citou Nesmin. - O nosso pequeno irmão mostra ter um extraordinário bom gosto.

Naquele mesmo dia, ao regressar do seu trabalho no local secreto, como era chamado o futuro sepulcro do faraó, o olhar de Sahti fez com que Nesmin se lembrasse de um dos seus poemas mais amados:

- com ancas sólidas e nádegas estreitas  l  ela, cujas coxas lutam pela sua beleza l num caminhar nobre quando pisa a terra  l  rouba o meu coração com o seu cumprimento...

- Pára com isso! - Sahti virou-se,  muito corada. - Se alguém nos ouve, o que irá pensar de nós?

Completamente transpirado e sujo como estava, Nesmin apertou-a contra si.

- E depois? Eu mal posso esperar -- sussurrou ele. - Estas últimas horas parecem-me anos.

- A mim também - segredou ela quase sem fôlego e deixou-se beijar, mas colocando uma mão cuidadosa sobre o peito.

- Temos mesmo de esperar? - Nesmin inclinara a cabeça um pouco de lado para a tentar convencer. - Quem é que nos poderia impedir de estrear a nossa casa nova já esta noite..- à nossa maneira?

- Eu - proferiu Sahti, suavemente, e afastou-o com carinho. Porque quero ser mesmo tua mulher. Mas só depois de amanhã!

Mais tarde, no entanto, quando todos já se tinham recolhido e ela era a única que estava acordada, teve pena de, mais uma vez, o ter repelido. Sabia como Nesmin ansiava por partilhar finalmente a mesma cama com ela. O seu corpo também o desejava, se bem que a ideia a assustasse profundamente. Ainda em casa, tomaria um último banho aromático, seria massajada por mulheres mais velhas e perfumada com óleos de odor forte, tendo finalmente de colocar um longo trajo que seria fortemente amarrado com correias em torno da cintura e das nádegas. Ainda se recordava bem dos gritos que Nabu lançara quando Golo desatara os nós: sinal da valentia e força de carácter femininas. Uma mulher que não se defendesse era considerada fraca e sem personalidade. Os gritos tinham sido ouvidos por toda a aldeia, e nessa noite Sahti encostara-se muito mais a Ruju, consolada com o calor do corpo suave de sua irmã...

Bastava pensar nisso para que surgisse um sentimento de solidão e desenraizamento. Por que razão, Tama, pelo menos, não estava naquele momento consigo, tendo morrido de uma forma tão pouco natural, devido obviamente ao amor por Antef? Parecia impossível confiar na orgulhosa Heteput, que estava sempre a pregar moral e boas maneiras e a emitir di tados antigos, se bem que Sahti tivesse muitas questões a arder na alma. Ainda tremia em segredo perante a fúria do escorpião negro. Iria ele exigir-lhe o seu tributo na noite de núpcias?

Sahti olhou para os pés cobertos de ornamentos de alfena, que brilhavam sobre a sua pele escura, e estremeceu.

 

Ahmés acordou do seu sono leve quando Nefertari entrou no seu leito. Sentou-se na cama. A porta para o jardim do palácio estava apenas encostada, e o ar quente da noite entrava como se fosse um lençol escuro e pesado.

- Ninguém me viu - disse, antes de tirar o vestido e de entrar na cama, encostando-se muito a ele. Os seus lábios procuraram-lhe a boca e beijaram-se longa e avidamente. - Nem sequer a avó Teti-Cheri, a quem nada passa despercebido no palácio.

- E se soubesse? - continuou ele. - A Ahhotep sabe que pertencemos um ao outro e apoia-nos. Ela também não era irmã do marido? Eu já seria faraó há muito tempo se tivesse feito de ti grande esposa real e acabado para sempre com todos os rumores invejosos.

- Mas infelizmente não és tu que estás sentado no trono e sim o teu primo Kamés - replicou Nefertari com alguma rudeza; no momento seguinte, encostou-se novamente a ele como se quisesse retirar a rudeza das palavras com a suavidade do seu corpo. - Ele é o faraó.

- Ainda! - Ahmés afastou-se dela e encostou-se à parede. Os seus olhos abriram-se como se estivessem a olhar para um ponto muito distante. - Mas quem sabe por quanto mais tempo o será?

- O que é que isso quer dizer? - Nefertari olhou-o com curiosidade. -- Aconteceu alguma coisa? Fala!

- Todos os dias acontece alguma coisa. E tudo a nosso favor, Nefertari, mesmo que não pareça. Todavia, tudo se arruma cada vez mais num modelo perfeito que, provavelmente, só mais tarde conheceremos.

- Que queres dizer com isso?

Um pouco desmoralizado, colocou a testa sobre a omoplata dela. Por vezes, o impulso de lhe tocar era tão forte que ele quase se sentia mal.

- O Kamés e os seus homens implementaram as suas famosas reformas, e o povo detesta-o por isso, se bem que no seu zelo cego não dêem por tal. Incluem-se os funcionários que estão cada vez mais insatisfeitos, pois os antigos direitos deixaram de vigorar. Depois, os soldados que estão a ser exercitados cada vez mais duramente. Os artesãos não devem ser esquecidos, os quais têm muita inveja dos mais privilegiados na nova colónia da margem ocidental. Por fim, os sacerdotes que estão à frente de todos estes. Ou pensas que o sumo sacerdote de um templo de Amon irá permitir que o seu deus seja posto atrás de uma divindade da Lua!?

- Nebnefer! - gritou ela. - Finalmente falaste com ele.

- Falei - replicou Ahmés, contente. - E ele partilha as minhas ideias. O Nebnefer não tem o Hori em grande consideração, o novo comandante dos exércitos de Kamés, e muito menos o vizir, Totó, que foi seu companheiro na Escola da Vida. Ele odeia, sobretudo, Nami/, disse o emproado intendente de Kepni. Garanto-te que o detesta tanto como tu e eu!

- Isso não é nada de novo! - exclamou ela, impaciente. - Ninguém que possua dois dedos de testa gosta desse trio que só prepara desgraças e ainda mostra ares superiores. A que conclusão é que vocês chegaram? O que querem concretamente empreender contra o Kamés? - Estreitou os olhos. •- O trono pertence-te, Ahmés, e não a ele, mesmo que o pai o tenha determinado.

- Eu sei. E é por isso que subirei ao trono num dia que não está mui to distante.

- Mas como é que queres preparar isso? - Começou inconsciente mente a falar sozinha. - Por acaso tencionas matar o nosso primo?

Ele olhou-a muito sério, mas nos cantos da boca esboçava-se um sor riso.

- O Kamés até mandou um emissário a Kuch para tentar uma aliança contra Apopi - comunicou Ahmés, por fim. - O Sul alia-se contra o Norte... - Riu-se. - Não é má ideia, mas infelizmente não vai funcionar,

- Porquê?

- Porque a única língua que os nossos vizinhos do Sul e do Norte compreendem é o ruído das armas! - ripostou ele com vigor. - Um dia irei ao delta e à Terra do Ouro e recuperarei o que pertence a Kemet numa batalha árdua, homem contra homem e não com conselhos femininos que não levam a nada. Terminarei o que o nosso pai Sekenenré não conseguiu levar a cabo.

- Também acreditas naquilo que se diz por toda a parte? - perguntou Nefertari. - Que ele... talvez não tenha sido morto no campo da batalha, mas sim...

-... por uma serpente negra que está neste momento a envenenar os ouvidos do Kamés? - Ahmés fez avançar o queixo. - Quanto mais, melhor! Quem é que dá atenção a um faraó que se deixa influenciar por uma cuxita?

- Tu não queres dizer mais nada de concreto sobre os teus propósitos, não é assim?

As asas do seu nariz estremeceram de divertimento.

- Entre muitas outras coisas, amo-te por seres tão esperta. Exactamente ao contrário da grande esposa real, da qual não se pode dizer o mesmo!

- Pobre Acha! - Nefertari riu-se para dentro da mão aberta. - Às vezes quase que sinto pena. Se estivesse no seu lugar, já teria feito alguma coisa contra essa Nabu, mas ela infelizmente contenta-se com a espera e o sofrimento, enquanto a outra constrói cada vez mais uma relação a três.

Ahmés fez um gesto vago.

Nefertari pareceu subitamente vê-lo com outros olhos.

- Se calhar, essa serpente também te enrolará um dia à volta do dedo, tal como fez com o pai e agora com o Kamés. - A sua voz esganiçouse. - Sabes o que farei então? Mato-me. com as minhas próprias mãos.

E a ela também.

- Disparate! - Colocou-lhe jocosamente a mão sobre a boca. E sabes isso muito bem. Sou completamente imune à sua sedução. O meu coração só pertence a uma pessoa, a mais bela de todas: tu!

À luz suave dos candeeiros de alabastro, sem os quais ele nunca conseguia dormir, o quarto parecia dourado, e o ouro estava também sobre a pele e pálpebras de Nefertari. Olhar para ela era como ver o seu reflexo feminino num espelho, ansiando fundir-se com o seu ser. A sua língua estava lisa quando ela abriu a boca, e os lábios estavam frescos. Respirava levemente pelo nariz quando ele passou a mão pela sua testa quente e, em seguida, pelo pescoço. Tudo estava como Ahmés mais adorava: belos e ternos ombros de mulher, coxas esguias e mamilos acastanhados que agora se contraíam, cheios de desejo. Ela cheirava a amêndoa, canela e almíscar, estava deitada imóvel por baixo dele, quase como morta. Depois começou a fazer movimentos regulares e cada vez mais rápidos e, por fim, soltou um grito longo e agudo que penetrou até ao mais íntimo da sua alma.

- A única amada, sem igual - murmurou ele quando, mais tarde, repousava a cabeça nos seus braços, meio levantado para que a jovem não adormecesse na sua cama. - Mais bela do que tudo no mundo...

- Eu amo-te - segredou ela. - Gostaria de governar o país ao teu lado. Dar-te pelo menos uma dúzia de filhos. Servir os deuses e fazer movimentar o mundo inteiro.

- E eu também te amo. Um dia, elevar-te-ei a esposa divina. Juro-te pela minha vida!

Os olhos de Sahti tinham sido enegrecidos com carvão, a boca brilhava pintada de um vermelho-ocre, mas não ousara colocar pó para que a pele parecesse mais clara. Em vez disso, oleara-se da cabeça aos pés. Em contraste com o vestido azul, a sua pele brilhava numa cor de cobre azulado, e a coroa de flores de lotos brancas sublinhava o negro do seu cabelo. Nesmin ficou quase sem respiração quando olhou para ela.

Não comera nada de manhã devido à excitação; quando o cortejo de amigos e parentes chegara para vir buscar o casal e os acompanhar à sua nova casa, os joelhos tremiam-lhe. Sahti deitou-lhe um olhar preocupado, mas ele riu-se e apertou-lhe a mão com força.

- Já estava a pensar que este dia nunca iria raiar - sussurrou. - Es tou tão feliz que poderia morrer agora.

- Não digas disparates! - segredou ela, sorrindo. - Queres dizer que serei tua viúva antes de ser tua mulher?

- Só um minuto! Tenho uma coisa para ti. - Segurava um amuleto de prata na mão que queria pendurar-lhe ao pescoço.

- O olho de Hórus! Não! - gritou Sahti, baixando-se assustada. Não posso usá-lo!

- Porque  não? - Desiludido  e  bastante perplexo,  olhou-a.

O símbolo sagrado da Lua protege-te do mal e da doença e traz-te muita felicidade!

Sahti abraçou-lhe o pescoço.

- Eu sei que tu só tiveste boas intenções - disse suavemente. Mas, mesmo assim, é completamente impossível. Foi com ele que tudo começou, sabias? - O seu olhar de incompreensão disse-lhe que Nesmin não fazia ideia do que ela estava a dizer. - Não tem importância, Ncsmin! Eu, um dia, conto-te. Por enquanto, deixemos as coisas assim. Está bem?

Nesmin tocou a fita gasta na qual ela tinha pendurado ao pescoço o saco com o amuleto do leão.

- E tu achas que isso te protege melhor? - perguntou em voz baixa.

- Querem sair cá para fora? - gritou Pani, impaciente. - Ou é preciso ir buscar-vos?

- Sim - declarou Sahti. - Mas se é muito importante para ti, eu hoje, excepcionalmente, tiro-o. Queres que o faça?

Nesmin abanou a cabeça.

- Deixa estar! Às vezes penso que nunca vou compreender-te por completo - murmurou ele. - Mas, se calhar, é precisamente por isso que te amo.

Em vez de uma resposta, Sahti apertou-lhe a mão.

Até Namiz tinha encontrado o caminho para a margem ocidental, apesar de todas as suas tarefas, e Pani começou a saltar à volta do seu novo protector. Penju e Heteput banharam os pés dos noivos com água do Nilo, o que lhes traria sorte e fertilidade, e deram-lhes um pedaço de pão que estava carregado de sal.

- Tu és a minha esposa. - A voz de Nesmin mostrou-se firme quando proferiu os votos. - Quero amar-te e honrar-te até à morte.

- Tu és o meu esposo - proferiu Sahti. - Quero amar-te e honrar-te até à morte.

Alegremente, o cortejo de casamento atravessou as ruas até chegar à casa nova. Sahti ria-se de tensão quando, de mão dada com Nesmin, ultrapassou a soleira e, algo admirada, quando alguns instantes depois voltaram para a rua, para a luz do Sol. Todos bateram palmas e lhes atiraram [ flores quando se beijaram.

Os festejos foram em casa de Penju e Heteput, e a mesa do copo-d’água enchia praticamente o pátio interior. Comeram e beberam, Pani tocou algumas pequenas peças na sua flauta feita à mão, e os brindes e desejos de felicidade não tinham fim.

- Se tu amas a tua mulher, tal como deves amar - gritou um vizinho que, aparentemente, já não estava muito sóbrio -, enche o seu ventre e veste as suas costas. Senão, ela um dia foge de ti.

 Alegra o seu coração enquanto viveres, pois ela é um campo fértil para os senhores! - disse outro que já cambaleava um pouco. - Que o  Nesmin e a Sahti sejam abençoados com muitos filhos! Que Hathor esteja convosco!

Mas não permitas que ela te leve perante um juiz e mantém-na longe do poder! - avisou jocosamente um terceiro que estendeu o copo a Heteput para que esta o enchesse. - Mostra-lhe quem é o senhor da casa, Nesmin! E na cama!

O bom humor aumentava cada vez mais, à medida que o vinho ia sendo consumido; até Nesmin bebia a título de excepção, em vez de cerveja de figo, e começaram também a ouvir-se algumas obscenidades. Heteput franziu imediatamente a testa, Penju, ao contrário, estava descontraído e abraçou-a.

Tu hoje não deves ligar a nada, meu amor! - gritou ele, alegre. - Ou já te esqueceste como é que nós, naquela altura...

Heteput não teve outra opção senão beijá-lo fugazmente para o calar, o que ainda alegrou mais toda a companhia. Depois sentou-se.

Nós não devíamos retirar-nos? - Nesmin apertou Sahti contra si.

Sobre eles viam-se inúmeras estrelas e não havia uma única nuvem no firmamento. Os braços de Nut envolviam a terra como se fossem sedas pesadas de um azul-escuro.

Já? - protestou ela em voz baixa. - Enquanto todos ainda festejam tão alegremente?

- Por isso mesmo não darão pela nossa falta. Portanto, vem, amada

esposa!

Muito abraçados, percorreram as ruas até à sua nova casa. Nesmin foi o primeiro a entrar, acendeu as candeias e depois ficou em frente a Sahti como um rapazinho entusiasmado. Daquela vez, foi ela que começou a tremer. Nesmin abraçou-a ternamente.

- Será maravilhoso - murmurou ele junto do seu pescoço. - Não precisas de ter medo. Já não te lembras de que te prometi todo o tempo do mundo?

Sahti anuiu silenciosamente com a cabeça.

- Deixas-me sozinha um instante? - pediu ela. - Eu chamo-te quando estiver pronta.

- Naturalmente. Eu espero lá fora.

Lentamente, Sahti subiu os degraus até ao primeiro andar e abriu a porta do quarto. Dirigiu-se à cama, passou os galhos coloridos sobre a colcha e sentou-se. Tentou inutilmente apaziguar o seu coração. Proferiu uma curta oração e agarrou-se à garra de leão. Depois, retirou o amuleto e colocou-o sob a almofada. Inquieta, levantou-se e tentou olhar à sua volta de candeia na mão.

Não havia em parte alguma vestígio de um escorpião.

Sahti depôs a candeia no seu lugar. Depois, tirou o vestido e estendeu-o sobre a cama.

- Nesmin? - A sua voz não passava de um murmúrio. – Vens? Ele devia estar mesmo atrás da porta, pois chegou rapidamente à ca

ma. Contudo, em vez de a agarrar, como ela esperava, ficou subitamente abatido como que atingido por um raio. Olhou para o chão em silêncio.

- Nesmin! O que tens? - Sahti colocou-se de um salto a seu lado.

- Por favor, diz qualquer coisa.

A cabeça estava inclinada para o lado, a pele de uma palidez de morte, as pupilas dilatadas, os lábios dormentes. Durante um terrível momento, ela pensou que estivesse morto, mas depois surgiram as violentas convulsões. A nuca de Nesmin bateu impetuosamente no chão, saiu-lhe saliva ensanguentada da boca, e os braços e pernas pareciam completamente descontrolados. Sem pensar muito, Sahti enrolou o vestido de casamento e colocou-lho sob a cabeça. Usando todas as suas forças, conseguiu virá-lo de lado, o que pareceu fazer-lhe bem. Os espasmos e contracções duraram ainda algum tempo. Agora, Nesmin respirava com dificuldade e a um ritmo muito acelerado, mas respirava!

- Meu querido - murmurou Sahti entre lágrimas. - Ouves-me? Não tenhas medo. Estou ao pé de ti.

Quando ele reabriu os olhos, parecia ter passado uma eternidade.

- Estou tão cansado - disse com dificuldade. O seu rosto estava tenso e as feições pareciam desfeitas. - E estou muito tonto. Tudo na minha cabeça gira em círculos. Amas-me, Sahti? - Engoliu em seco antes de continuar. - Mesmo agora?

- Sim - afirmou Sahti. Inclinou-se sobre ele e beijou-o ternamente.

Como se fosse uma criança. - Agora dorme! - segredou ela. Tens de

dormir! Tudo ficará bem!

Quando trouxeram Maj para casa numa padiola, Ita pareceu muito tranquila. Os outros trabalhadores tinham-lhe posto provisoriamente talas no braço e ligado a ferida, a sangrar, que possuía no ombro. Ela lavou-a com água e ligou-a com linho lavado. Pareceu-lhe muito mais estranho

o facto de ele não dizer uma única palavra, mesmo horas depois de ter

chegado, olhando simplesmente para a frente, sem a reconhecer ou ao filho. Conseguiu, com muita paciência, meter-lhe algumas gotas de água na boca, pois ele rejeitava tudo o que fosse comestível.

Impulsionada por uma inquietação interior, Ita foi buscar a mulher que lidava com plantas e que vivia ao fundo do beco. A velha observou Maj atentamente e fez uma expressão de desagrado.

- Tem um demónio aninhado na cabeça - afirmou ela, por fim. Não será fácil libertá-lo. Ele queixa-se de dores?

- O Maj foi retirado debaixo de troncos cortados - replicou Ita. É daí que resultam os seus ferimentos. - Esfregou os olhos. - E não abre a boca. Pelo menos, para dizer alguma coisa que eu compreenda. É exactamente o que me inquieta.

- Eu poderia trazer-te um remédio contra isso - prometeu a curandeira. - Mas tem de ser muito bem preparado e, como tal, não é nada barato.

Ita entregou-lhe as suas últimas moedas de prata.

- Faz com que fique bom! - pediu. - É tudo o que eu quero. A velha regressou algum tempo depois e queimou um pó amarelado

para afastar os demónios. Em seguida, enrolou a cabeça de Maj com uma ligadura embebida em óleos.

- Láudano, zimbro, incenso, ocre e gordura de cabrito - murmurou ela. - Acho que vai ajudar.

Maj, porém, continuou totalmente apático, mesmo nos dois dias seguintes em que a velha o visitou e pouco alterou o tratamento. Murmurava ainda fórmulas mágicas estranhas e, de cada vez, descobria alguma coisa na casa de que precisava urgentemente.

Depois da terceira noite de vigília, Ita foi buscar a estátua dourada de Selket que tinha dentro do velho saco debaixo da cama. Durante todos aqueles anos fora o seu penhor, aquilo que a salvaria em maus momentos, e agora não havia nenhum motivo para esperar mais tempo. Por cautela, já há muito que a esfregara com fuligem e, agora, renovou cuidadosamente o disfarce exterior. Depois, foi ter com Maj e beijou-o na testa. Ainda mais pálido que nos dias anteriores, pareceu murmurar algo de incompreensível.

- Eu volto já - disse ela em voz baixa. - E depois tudo correrá bem para nós e até para sempre. Prometo-te!

com um lenço, Ita amarrou o pequeno Tjai às costas, arrumou o saco em que tinha colocado a estátua e, quando já ia a caminho, deitou um ultimo olhar preocupado a Maj.

Um bando de pombas brancas descrevia um círculo nos céus, logo que ela passou o primeiro portão do grande Templo de Ámon. com pon deração, escolhera a hora de almoço para fazer o seu pedido, mas só o facto de caminhar pelo pavimento abandonado lhe provocava uma sensação estranha. À sua frente levantava-se um muro de arenito e teve de ultrapassar uma ligeira angústia para que, no último momento, não fizesse coisas disparatadas. Ita bateu várias vezes antes de a pesada porta de madeira se abrir numa pequena nesga.

- O que queres? - Um jovem com uma longa capa de sacerdote estava à sua frente. À volta do crânio rapado colocara uma faixa branca. Os seus olhos eram negros e inexpressivos.

- Tenho fome - disse ela e apontou para trás. - E o meu filho também.

Como se se tratasse de uma deixa, Tjai começou a chorar e a bater com os pés.

- A entrega de esmolas já acabou. Futuramente, terás de te levantar mais cedo.

- Eu nem sequer dormi - replicou Ita, mordaz - e estou a pé desde a primeira luz da manhã.

O sacerdote esticou o seu pescoço esguio e pareceu deixar-se comover pela criança que berrava.

- Espera! - A porta fechou-se. Pouco depois, abriu-se de novo e o sacerdote deu a Ita dois pães já cozidos há muito. - Mas isto é uma excepção - disse ele com dureza -, porque o pequeno me faz pena. Deverias amamentá-lo melhor! Como a divina ísis amamenta o filho Hórus.

Aparentemente indiferente, Ita deixou cair a irrisória dádiva no chão.

- As tuas migalhas não nos servem - replicou ela. - Pois amanhã continuarei com fome. E depois de amanhã. E em todos os dias que se seguirão. E o meu filho também. Para não falar do meu marido doente, que está deitado em casa e não consegue mexer os membros, porque teve um acidente. Preciso urgentemente de remédios e de um bom médico que o ponha outra vez de pé.

Agora, o jovem sacerdote olhava-a quase com inimizade.

- O que queres então, mulher? - perguntou, tentando controlar-se.

- Oferecer ao templo algo que poderá ser interessante. Ita abriu o saco e retirou a estátua de Selket.

- E o que queres que façamos com isto? - De má vontade, revirou na mão a estátua negra de fuligem. - Esta coisa suja! Não percebo nada.

O cuspo de Ita atingiu a cabeça da deusa. Agarrou numa tira do vestido e limpou aquela zona. À luz do Sol, o ouro reluzia.

Naquele instante, tinha a certeza de possuir a completa atenção do sacerdote.

- As coisas não são sempre o que parecem à primeira vista - disse ela, observando atentamente o homem. - Uma coisa destas terá valor para ti? E não me voltes com os teus pães ressequidos!

Fez um gesto de cobiça.

- Eu não posso decidir isso sozinho - contrapôs ele. - Tenho de

falar primeiro com o sumo sacerdote.

Então, fala! - Retirou-lhe bruscamente a estátua de Selket da mão. - despacha-te! Nós temos que comer para sobreviver. A       -Como te chamas? - perguntou ele.

Ela hesitou um instante. Os seus olhos faziam lembrar carvão incandescente.

- Ita - disse, então.

- Volta amanhã, Ita! - Nas suas faces ardiam duas manchas vermelhas. - Mais ou menos à mesma hora. Nessa altura, terei mais informações.

•- Cá estarei.

A criança calara-se entretanto e chuchava no polegar. Ita colocou ao ombro o saco com a estátua, inclinou-se para apanhar os pães, ergueu-se e foi-se embora sem sequer olhar à sua volta.

Às primeiras horas da manhã, Nesmin já saíra para o local secreto juntamente com Penju. Depois de dez semanas de trabalho, havia a perspectiva de três dias de folga, e Sahti mal podia esperar que eles chegassem. Silenciosamente, pôs toda a casa em ordem, esfregou e limpou até estar tudo branco e limpo. Adorava aquelas horas da manhã que só pertenciam a si e aos seus pensamentos, sobre os quais ninguém tinha direito.

Desde que engravidara, movimentava-se num mundo de sonho que pertencia a si e ao pequeno ser que crescia nela, não o querendo partilhar com ninguém, nem mesmo com Nesmin. Falava com a criança, secretamente convencida de que era uma rapariga, se bem que soubesse como Nesmin e toda a família desejavam um rapaz que poderia continuar a tradição dos escribas. Talvez por isso tivesse esperado tanto tempo até ter a certeza, não precisando de trigo nem centeio para saber o que se passava com ela. Do mesmo modo, também não existiam ao lado do seu leito estátuas de Taueret, a deusa-hipopótamo grávida, para oferecer, à criança e à mãe, protecção e felicidade. Aliás, Sahti também não conversava muito com ela.

Entretanto, o seu ventre arredondara-se claramente e às vezes esticava a barriga para a frente para mostrar a todo o mundo o seu grande tesouro. Todos tinham ficado muito contentes: Penju, Heteput, Pani, que estava orgulhoso por vir a ser tio, e naturalmente Nesmin, que reagira com lágrimas à sua confissão. O único que se mostrava ligeiramente céptico era Namiz e, na sua última visita, observara-a atentamente.

- Sombras por baixo dos olhos e faces descaídas! Está tudo bem contigo, Sahti? Não estarás doente?

- Estou grávida - afirmara ela. - E estou melhor do que nunca. Afinal, precisei de mais de quinze luas para chegar até aqui.

- O teu Nesmin faz-te feliz? É o homem indicado para ti?

- Não poderia imaginar um homem melhor. - Ela fixou o intendente, admirada. - Porque perguntas?

Namiz hesitou na resposta e fixou distraidamente a parede.

- Foi meu professor, meu irmão e agora meu marido, pai do meu filho... - prosseguiu Sahti, subitamente sem saber que mais dizer. E por que razão perguntas precisamente agora?

- bom, o Nesmin não é muito saudável, e o novo trabalho que começou há pouco pode ser um grande esforço para ele. Devemos falar nisso com toda a clareza.

- Mas ele adora aquele desafio! - Sabia como Nesmin estava orgulhoso por ter sido nomeado o chefe da equipa que tinha de coordenar a actividade dos canteiros, estucadores, pintores, escribas e desenhadores que trabalhavam do lado esquerdo da câmara funerária, enquanto o sai pai coordenava o lado direito. É claro que muitas vezes regressava esgotado a casa, à noite, e apenas dava duas dentadas no que houvesse, antes de adormecer. Todavia, Sahti apenas precisava de lhe fazer uma pergunta sobre o trabalho para que os seus olhos começassem a brilhar. - E já não tem ataques - afirmou ela, faltando um pouco à verdade.

Desde aquela grande crise na noite do casamento, houvera pequenas réplicas, mas tinham decorrido de uma forma muito menos dramática. Apesar disso, o medo nunca mais abandonara Sahti quando faziam amor, e ela até se encolhia quando adivinhava o desejo de Nesmin. Nessas ocasiões, era muito carinhoso, cheio de ardor e de uma franqueza ilimitada, de tal modo que ela, por vezes, se sentia uma traidora, não conseguindo experimentar o mesmo tipo de sentimento. Gostava de estar deitada nos seus braços, cheirar o seu corpo fresco e de escutar as suas juras de amor. Contudo, havia sempre algo nela que ficava para trás, quase a observar. Por vezes, ele parecia senti-la, calava-se e olhava penetrantemente, como se quisesse ver o que se passava dentro da sua cabeça.

- Onde estás, Sahti? Estás realmente comigo?

- Claro! - assegurava ela de imediato, sentindo-se ainda pior.

Por sorte, tornara-se tudo um pouco mais simples desde que engravidara. Nesmin contentava-se agora com acariciar os seus seios ou tê-la nos braços metade da noite.

- Em breve terei de partir, Sahti. Durante mais tempo. - Ainda ouvia a voz suave de Namiz quando, durante as limpezas, abrira um baú que tinha estado fechado até então.

- Para onde vais desta vez?

Involuntariamente, meteu as mãos no baú e retirou alguns rolos de papiro. Abriu o primeiro e sentou-se no chão de pernas abertas, posição em que se sentia mais confortável.

- Para Keftiu e depois para a ilha de Asi. Mas, por favor, não me faças mais perguntas sobre o que lá vou fazer! É segredo de Estado! compreendes? Na realidade, eu nem te deveria ter dito para onde vou logo a seguir à Festa Bela no vale do deserto. Mas já sei que a minha pequenina sabe guardar um segredo.

- Isso é verdade - respondera Sahti com um grande entusiasmo. Especialmente no que te diz respeito. E vou sentir a tua falta, Namiz. Por favor, não estejas muito tempo fora.

Os seus olhos passaram pelas máximas que, desde há anos, tentava copiar com esforço para o seu pequeno pedaço de pedra polida. Como se recordava bem daquele dia em que conseguira, pela primeira vez, decifrar uma frase inteira! Agora já lia fluentemente e estava sempre a agarrar na caneta de junco para não se esquecer daquilo que aprendera. Não era um rapaz como Pani, que já conseguira os seus primeiros trabalhos como escriba no local secreto, sob a orientação de Penju e Nesmin.

Empresta os teus ouvidos, ouve o que te é dito. Mas entrega o teu coração para compreender...

Impacientemente, Sahti omitiu as linhas que se seguiam.

Quando as tuas palavras estão no coração,

Então o coração está apto a receber pensamentos alegres.

É apenas o coração,

Que transforma alguém num ouvinte...

Era tudo muito belo e bom, e decerto verdade, mas entretanto fartara-se!

O outro papiro que desenrolou parecia um pouco mais antigo. O fundo era escuro e a tinta já estava um pouco desbotada. Sahti começou a ler, mas parou assustada depois das primeiras palavras. Deviam ser as palavras secretas que se colocavam no sarcófago e na máscara funerária. Poucos tinham autorização para as conhecer. Nesmin devia estar distraído, pois, caso contrário, teria, como habitualmente, trancado o baú.

Saúdo-te, soberano do Além, Osíris, senhor de Abido, Vê, eu anseio por ti...

De uma assentada, lembrou-se de tudo, como se tivesse acontecido na véspera: os traços repugnantes de Ut, a sua última e vigorosa revolta, todo aquele sangue vermelho vivo que jorrava da ferida. De súbito, Sahti sentiu até os repulsivos cheiros doces e acres da oficina do embalsamador. Inconscientemente, colocou ambas as mãos sobre o ventre para proteger o seu filho. Teve de continuar a ler:

...o meu coração sempre foi fiel aos caminhos do bem; o mal nunca habitou os meus pensamentos! No meu peito não há cicatrizes.

Nunca menti nem nunca induzi em erro outras pessoas com uma língua

dupla.

Junto da leoa celeste com duas cabeças, Nunca na vida roubei...

- Sahti? Estás aí em cima? - A voz férrea de Heteput parecia vir de outro mundo. - Onde é que estás? Trouxe cereais. Podemos começar já a preparar as refeições para que possam estar prontas quando os homens chegarem.

- vou já! Só um momento! Já vou!

As mãos de Sahti tremiam quando reencontrou as linhas cuja leitura interrompera.

... no entrançado das sombras, nunca matei um homem...

- Sahti? Sucedeu alguma coisa? - Os passos de Heteput estavam cada vez mais perto e o seu tom de voz cada vez mais preocupado. - Não é nada com a criança, pois não?

- Não - gritou Sahti; enrolou com os dedos a tremer os papiros e voltou a metê-los no baú junto aos outros. - Não é nada.

Conseguiu responder quase com naturalidade. Ao levantar-se com dificuldade e dirigir-se às escadas para receber a sogra, sentiu que o vestido estava encharcado em suor e colado à pele.

Quando Ita regressou do Templo de Ámon, Maj abriu algumas vezes os olhos e disse algumas palavras. No entanto, ela reconheceu que o seu espírito ainda estava confuso. Até o pequeno Tjai pareceu sentir que havia alguma coisa que não estava bem com o pai. com as suas mãozinhas pouco dotadas, fez-lhe festas no rosto como se quisesse acordá-lo e começou a gritar, indignado, quando Ita o afastou rapidamente do leito do doente.

- Sahti! - murmurou subitamente o doente, querendo levantar-se.

- Sahti! Sahti!

- Pára com isso! - exclamou Ita, passando-lhe a mão pelo rosto para com isso, conseguir afastar-lhe os pensamentos. - Ela agora não pode ajudar-te, mas eu posso. Vais ver!

Mal conseguiu esperar que as trevas dissipassem e voltasse a amanhecer para poder regressar ao templo. Teria alegremente feito planos com Maj, dizendo que tudo agora seria maravilhoso, mas depois do que ele irracionalmente murmurara, manifestando que ainda amava a amiga, não lhe restou mais nada senão pensar num futuro sozinha. Pouco antes de

amanhecer, decidiu não levar Tjai. Sentou a criança na anca e foi até a casa do lado para o confiar à vizinha durante o tempo que estivesse fora. Como ninguém abria a porta, não teve outro remédio se não fazer a viagem com a criança.

Escolhera novamente a hora de almoço, mas daquela vez vira-se obrigada a esperar até que a praça, que ficava em frente ao templo, esvaziasse e ela pudesse bater à porta sem ser incomodada.

A pesada porta abriu-se lentamente e lá estava de novo o jovem sacerdote com quem falara na véspera. Atrás dele, encontrava-se um segundo homem, alto e magro, com traços bem definidos e lábios estreitos e dominadores.

- É esta? - perguntou ele em voz baixa ao jovem. - Essa tal Ita?

- Sim, sou a Ita - respondeu rapidamente. - E tu deves ser o sumo sacerdote. Não é verdade?

Tens a estátua contigo? - atalhou o mais velho sem responder à

pergunta dela.

Na testa de Ita viam-se gotas de suor e as costas estavam tensas devido ao peso de Tjai, mas estava decidida a não se deixar intimidar, nem que fosse pelo próprio superior do templo.

- Estaria aqui se não a tivesse comigo? - ripostou ela com rudeza.

- Queres vê-la agora ou não? Não tenho muito tempo.

Começou a vasculhar no saco.

- Sim, mas é melhor que não seja cá fora. Entra!

O mais velho abriu a porta um pouco mais para que ela pudesse entrar. Quase lançou um grito de admiração quando a porta se fechou atrás de si, pois à sua frente avistou um jardim cuidado, com sombras de árvores de fruto, cujos ramos balançavam ligeiramente ao vento.

Só naquela altura é que Ita reparou como tinha fome e sede.

-Antes disso preciso urgentemente de comer e beber - exigiu ela.

- Sobretudo o meu filho!

- Primeiro a estátua! - exigiu o mais velho.

Ela não ousou opor-se-lhe, entregando-lhe a figura de Selket. Ele usou a sua túnica para limpar uma grande parte da estátua, levantou-a, a fim de se certificar de que era verdadeira, e agarrou-a com tanta força como se não fizesse a menor intenção de jamais se separar dela.

- Dá-ma! - exigiu Ita, que lentamente começara a sentir-se indisposta. - Até receber uma oferta generosa, ela continua a ser minha. E sem truques. Caso contrário, vou-me embora!

Ele entregou-lhe, hesitante, a deusa dourada. Por segurança, Ita voltou a metê-la no saco.

- Onde é que arranjaste a estátua? - quis saber o sacerdote.

- Encontrei-a - replicou Ita rapidamente. - Já há muito tempo.

- Calou-se. - O que é que ela valeria para ti? E pensem bem no que me vão oferecer! Não confio nada em vocês.

- E onde é que a encontraste? Ela encolheu os ombros.

- Que importância tem isso agora? É minha e isso chega. - Tjai co meçou a choramingar. Ela deu-lhe umas palmadinhas na perna para o sossegar. - Beber e comer - repetiu ela. - E já! Ou esqueceram-se?

- Leva a mulher para a cozinha - ordenou o mais velho. - Comtinuaremos a conversar mais tarde. - Virou-se para a esquerda, como se para ele não houvesse mais oportunidades, e desapareceu rapidamente atrás das árvores.

Um pouco contrariada, Ita seguiu o jovem sacerdote que andava tão depressa que ela mal conseguia acompanhá-lo. Passaram por uma pequena capela branca e chegaram a um edifício em forma de semicírculo.

- Ainda é muito longe? - protestou Ita. - Morre-se de calor!

- Estamos quase lá.

com a rapidez de um raio, o jovem sacerdote afastou-se para o lado e, subitamente, ela foi agarrada por quatro homens. Um punhal brilhou e o saco com a estátua caiu ao chão. Mãos poderosas retiraram-lhe a criança das costas. Os braços de Ita foram rudemente puxados para trás, uma mão tapou-lhe a boca.

Em seguida, Ita sentiu uma forte pancada na cabeça. Depois, tombou sem sentidos.

Em longas estacas de transporte, a barca do deus Ámon repousava sobre os ombros nus do sacerdote que, sob aquele peso enorme, avançava com dificuldade. Por ocasião da chamada Festa Bela no vale do deserto, a barca deixava o seu templo de origem, em Uaset, em cada dia de lua cheia do segundo mês das colheitas, para fazer uma visita ao templo funerário real na margem ocidental. Há muito deixara de estar em ruínas, altura em que Sahti e as outras crianças lá se tinham escondido; e agora, graças a um decreto de Kamés, fora reerguido por um exército de artesãos.

Os trabalhadores da necrópole mantinham respeitosamente a distância, enquanto a longa procissão passava em direcção ao templo, mas Sahti conseguira um lugar mesmo à frente. Para sua grande desilusão, as portas do relicário de madeira estavam fechadas e não conseguiu ver a estátua do deus.

No entanto, teve uma melhor oportunidade para ver de perto a família real que seguia a barca do deus juntamente com os outros sacerdotes. Se bem que já tivessem passado alguns anos desde a sua visita ao palácio, reconheceu todos: a minúscula Teti-Cheri, que entretanto ficara com a cabeça toda branca, possuindo ainda um rosto de criança, protegida do sol num palanquim dourado; a viúva do rei, Ahhotep, usando um vestido de linho branco imaculado e coroada com um toucado com cabeças de gazelas trabalhadas, cujos traços fisionómicos, porém, se mostravam muito fatigados e tensos. O imberbe príncipe Ahmés, que, contudo, se tornara um homem, e a seu lado uma mulher esbelta que se parecia muito com ele. Atrás, as três jovens princesas que usavam vestidos maravilhosos, os quais, em vez de ocultar as suas formas, as realçavam. Finalmente o faraó, Kamés.

A coroa branca do Alto Kemet fazia com que o seu rosto moreno ficasse mais estreito do que a imagem que Sahti tinha dele. O nariz marcante denunciava determinação e os lábios revelavam capacidade de decisão. Os seus ombros eram musculosos, as ancas estreitas e o seu caminhar parecia-lhe tão suave como o de um caçador. Trazia uma túnica dobrada e nas mãos o ceptro e o bastão.

Quando o faraó passou por ela, um raio de sol atingiu a serpente original que trazia na testa e o seu rosto pareceu ficar iluminado por dentro.

Sahti sentiu-se como se tivesse sido atingida por um raio.

O seu coração falhou por um instante, depois continuou a bater rápida e vigorosamente no seu peito. De súbito, pareceu-lhe que estava a respirar fogo. Já não conseguiu olhar para a rainha, Acha, que ia ao lado de Kamés. Em vez disso, o seu corpo foi trespassado por um desejo que nunca sentira até então. Teve de usar de todo o seu controlo para ficar de pé e não cair para o chão. No entanto, Nesmin que estava atrás dela pareceu notar a sua confusão.

- Passa-se alguma coisa? - indagou ele, preocupado. - Não é alguma coisa com a criança? com o meu filho?

Sahti abanou a cabeça em silêncio. Se tivesse respondido a Nesmin teria perdido todas as forças.

Passou todo o dia a responder em monossílabos, fechada sobre si mesma, enquanto os habitantes da nova colónia se reuniam em torno das sepulturas dos seus mortos para fazer oferendas e tomar uma refeição de festa. Segundo a tradição, havia carne assada, bolos de mel com diversos tipos de sementes e pequenos pães recheados com ovos cozidos, tudo isto acompanhado com vinho. Algumas mulheres tinham trazido também recipientes com a forte aguardente de cacto, que elas próprias faziam, e que era distribuída por todos. Não serviu de nada o facto de Heteput exigir a Penju que fosse com ela para casa, de modo a que, no dia seguinte, pudesse estar suficientemente descansado para retomar o seu trabalho. com o cabelo um pouco despenteado insistiu em continuar a festejar, bem como Nesmin, que exibia um ar cansado, mas que, aparentemente, não queria dar parte fraca perante os outros homens.

Por fim,. Heteput levantou-se, aborrecida, para, sozinha, se pôr a caminho de casa.

Sahti, feliz por finalmente conseguir sair do meio daqueles bêbedos, seguiu-a de boa vontade.

Ainda esteve acordada muito tempo na tranquilidade nocturna do seu quarto, escutando, espantada e confusa, a estranha rebelião que ia dentro do seu coração e que lhe parecia uma grande injustiça. Quando ouviu os passos inseguros de Nesmin nas escadas, virou-se rapidamente para o lado e fingiu dormir.

Na manhã seguinte, Penju queixava-se de abatimento, de sede e de enormes dores de cabeça, e Nesmin quase conseguiu convencê-lo a ficar em casa, pois as rígidas regras permitiam folgar no dia seguinte a uma noite de bebedeira. Quando Heteput se meteu na conversa e murmurou algo sobre o serviço e o cumprimento do dever, ele pareceu contente por poder evadir-se aos seus conselhos. Finalmente, um grupo de homens quase adormecidos dirigiu-se à sepultura do rei.

Sahti passou mal pela primeira vez durante o período de gravidez. Sentia as fontes insensíveis, como se tivesse também bebido de mais e a criança no seu ventre mexia-se, intranquila. Fora tomada por uma enorme pressão interior que a obrigava a estar constantemente a começar tarefas diferentes e a terminá-las com a mesma brusquidão. Por volta do meio -dia, deitou-se um pouco a descansar, mas levantou-se alguns minutos de pois. Melhorou um pouco quando as sombras começaram a crescer e ela teve de preparar o jantar.

Já amassara o pão quando Heteput entrou apressadamente no pátio interior com as mãos no pescoço e os olhos esbugalhados.

- Penju! - Foi tudo o que ela conseguiu dizer. - Penju e também o meu filho!

- O que se passou? - com as mãos sujas de massa, Sahti tentou apoiar-se, em vão.

- Uma parte da galeria traseira abateu e as pedras arrancaram Penju do seu escadote e subterraram-no. Os trabalhadores tentaram tudo, mas quando conseguiram libertá-lo ele já não respirava... - O seu choro con-

vulsivo dificultava a compreensão das suas palavras. - Por fim, o Pani foi pedir ajuda ao Nesmin, mas quando viu o pai ali deitado, no meio de tanto sangue, ele... - O corpo de Heteput tremia fortemente com os soluços.

- Que horror! E o Nesmin... Fala! O que aconteceu com o Nesmin?

- Um ataque... súbito... e infelizmente deve ter batido com a cabeça numa esquina de pedra...

Heteput calou-se e olhou para a nora, como se a estivesse a ver pela primeira vez.

-- Mas isso não quer dizer com certeza que...

Uma tristeza enorme esmagou Sahti. Sabia exactamente o que aí vinha, se bem que tudo nela se defendesse.

- Sim! - gritou Heteput. - Ele está morto. O Nesmin está morto. Compreendes? - Vergou-se devido à dor, enquanto Sahti não conseguia mexer nem um dedo. - Valham-me os deuses! Por que razão mereci este sofrimento? O meu marido e o meu filho já não estão vivos... Perdi os dois para sempre!

- O nome! - A voz do sacerdote era dominadora, mas ele repetiu a

sua exigência.

Dois dias de um interrogatório quase ininterrupto, de sede e de fome, tinham transformado Ita numa massa informe e dorida que gemia.

- Água - murmurava ela. - Água! Suplico-te! Por favor! Estou a morrer à sede.

Nebnefer ergueu irado as sobrancelhas.

- A caneca está ali - disse ele - e só está à tua espera... assim que falares. Voltemos, portanto, outra vez ao princípio: de onde é que roubaste a estátua de Selket? Quero um nome e não me venhas outra vez com as tuas fantasias!

A sala em que Ita se encontrava era pequena e quadrada onde só se viam, tal como nas outras celas dos sacerdotes, um colchão fino e um escabelo. A câmara estava cheia de um cáustico cheiro a suor.

- Onde está o meu filho? - A visão de Ita estava nublada. Cada movimento era uma tortura. - Tjai... o que fizeram com ele? E em casa espera-me o meu marido doente.

- O teu filho está bem tratado, Ita, e os nossos sacerdotes cuidarão do teu marido. - O tom de Nebnefer tornou-se mais suave. - E as coisas poderiam estar a correr melhor para ti. Porque estás a tornar tudo tão difícil, para ti e para nós?

- Porque tu não queres acreditar em mim. Quantas vezes terei de repetir? - Espessa e pegajosa, quase como um corpo estranho, tinha a língua colada às gengivas. Tinha roído as unhas até fazer sangue. De preferência teria arrancado a pele do corpo, completamente seca. - Estávamos na câmara funerária do embalsamador e, quando ele morreu, trouxe a estatua de Selket. É tudo... Não sei mais nada!

- E como é que ela lá chegou?

Cada sílaba que proferia denunciava o seu cepticismo.

- Sahti - murmurou Ita. - A negra. Ela levou a estátua consigo. E também foi ela que matou o Ut; não fomos nós. Tens de acreditar em mim! com a sua faca negra.

- A rapariga de Kuch? - Nebnefer riu-se, incrédulo. - E foi precisamente ela que esteve presa contigo? E também tratou de vos libertar? Vais começar de novo com as tuas mentiras? - Aparentemente desiludido, virou-se. - Assim não vamos longe, Ita. Infelizmente! Estou em crer que vais esperar muito pela tua água.

- Não! Por favor, por favor... - Ela esticou o braço na direcção do líquido inatingível. - Estou a morrer! Por favor, não me deixem morrer! Eu quero fazer tudo o que tu exiges!

- Como queiras. Então, conta-me exactamente como é que a pequena negra de Abu Resi se apoderou da estátua de ouro da deusa.

- Namiz - sussurrou Ita, já sem forças. - Talvez ele lhe tenha...

- Diz lá isso outra vez? - A voz de Nebnefer quase se esbateu.

- Namiz, o homem de Kepni - proferia Ita, num tom áspero. Conhece-lo?

O sacerdote agarrou-lhe nos cabelos, puxou-lhe a cabeça para trás e com a outra mão colocou-lhe o púcaro nos lábios. Apanhada de surpresa, Ita não conseguia beber suficientemente depressa. A água corria-lhe pelo queixo e pescoço, humedecendo o vestido sujo. Sorvia e estalava com a língua como um animal com sede junto a uma fonte.

- Bebe! - exclamou Nebnefer, com dureza. - Bebe o que quiseres!

Assim que escureceu, o belo faraó surgiu-lhe em sonhos, acariciou-a com os lábios e língua e excitou-a até ela sentir o sangue a inflamar-se, unindo-se com uma paixão e violência como nunca sentira alguma vez. Depois, aparecia-lhe Nesmin, pálido e com um olhar reprovador, e desa parecia novamente, qual uma miragem, quando ela lhe estendia os braços.

De manhã, Sahti acordou desfeita. Levantou-se como se estivesse embriagada e passou todo o dia com medo de adormecer e de o ver de novo. Pani arrastava-se à sua volta com os ombros descaídos, e Heteput dava asas à sua dor em sua casa sem se incomodar com os outros. A sua tristeza não a impedira de tratar da mumificação de Penju e Nesmin; quanto a Sahti, que quase ficava sem respiração ao ouvir aquela palavra, deixou-a tratar de tudo.

Claro que não foram os ajudantes de Ut que fizeram o trabalho, mas sim um embalsamador honesto que abrira a sua oficina a curta distância da nova colónia. Sahti deu a Heteput algumas jóias e também o olho prateado de Hórus que Nesmin lhe oferecera para que servissem de amuletos, a fim de serem colocados entre as ligaduras de linho que envolviam os falecidos. Foi queimado incenso para devolver aos corpos algum calor e respiração simbólicos.

Enquanto tudo isto acontecia, a sombra da morte parecia pairar sobre toda a colónia. Tinham desaparecido os risos e a alegria e, quando se começou a aproximar o dia do funeral, formou-se uma enorme fila silenciosa que se colocou em movimento na direcção da necrópole. Entretanto, o simples sarcófago de madeira era levado em ombros por seis homens. Sahti negara-se firmemente a despedir-se da múmia. Preferia recordar pai e filho como tinham sido em vida. Além disso, havia ainda o pequeno ser no seu ventre em que também devia pensar. A criança parecia sentir toda aquela tristeza, pois os seus movimentos haviam enfraquecido nos últimos dias.

- Nunca o esqueceremos. Estás a ouvir? - murmurou ela monocordicamente, colocando as mãos sobre o ventre para suavizar as oscilações provocadas pelos desníveis do chão. Os seus olhos ardiam devido ao sal das lágrimas, e o seu coração estava pesado com sentimentos de culpa, pois não conseguira amar Nesmin como ele merecera. - Como é que podíamos tê-lo feito? Decerto, terás os seus olhos ou o seu sorriso, e um dia ensino-te a ler e a escrever com tanta paciência e amor como ele me ensinou a mim. Isso posso prometer-te!

Tinham quase chegado ao cemitério quando Sahti reparou num grupo de homens que caminhavam aceleradamente, vindos do lado sul até ao cortejo fúnebre, soldados e sacerdotes, o que se podia reconhecer pelos crânios rapados. À cabeça encontrava-se Nebnefer, sumo sacerdote de Ámon. Levantou um braço.

O cortejo parou.

- És tu a Sahti, a cuxita? - perguntou ele, num tom autoritário e cerrando os dentes.

- Sou eu - respondeu ela. As costas doíam-lhe, mas tentou endireitar-se o mais possível para o enfrentar sem medo. - E, além disso, a viúva de Nesmin, o chefe da equipa, que perdeu a vida num acidente ao serviço do faraó.

- E tu estás presa em nome do faraó. Levem-na!

Dois homens agarraram em Sahti e prenderam-lhe as mãos. Hetcpui puxou Pani para si e afastou-se um pouco, como se quisesse mostrar que nada tinha a ver com ela.

- O que quer isto dizer? - gritou Sahti, indignada. - São cegos? Não vêem que vou dar à luz em breve?

Tentava furiosamente libertar-se.

- Vamos levar-te para a margem oriental, para um interrogatório, lá poderás explicar-te.

- Qual o crime de que sou acusada? - queixou-se Sahti. - Não fiz nada de mal.

- Sabê-lo-ás daqui a pouco tempo. Assim que compareceres perante os juizes - contrapôs Nebnefer friamente. - Vamos embora!

Perante os olhos do estupefacto cortejo fúnebre, Sahti foi arrastada para a margem do Nilo onde já a esperava um transporte. Bandos de íbis levantaram voo dos campos castanhos quando ela entrou nele. Ninguém proferiu uma palavra durante o caminho, mas Sahti sentia o olhar dos homens como se fossem setas a arder na sua pele.

Entretanto, surgira-lhe secretamente um pensamento assustador que lhe subiu à cabeça como um veneno de efeito rápido: o homicídio de Ut! Alguém a traíra. Ita? Ou Maj? Ou um dos outros? Fosse quem fosse, agora era ela que pagaria por isso.

E o seu filho? A única recordação que lhe ficara de Nesmin, depois de o seu sarcófago já estar sepultado. Ele nada podia fazer agora!

Sahti reuniu toda a sua coragem e virou-se para Nebnefer, que se encontrava a seu lado com uma expressão de pedra.

- Namiz, o superintendente da Casa do Tesouro Real, irá com certeza abonar a meu favor - disse ela. - Eu sei que neste momento está em viagem, mas é meu amigo e irá com certeza...

- Silêncio! - O tom rude da voz atingiu-a como uma bofetada. -• Tu só falarás quando te dirigirem a palavra. Entendido?

Cheia de medo Sahti calou-se, colocou os braços em volta do ventre e começou a balançar-se suavemente.

Na margem oriental, meteram-na num veículo equipado com placas deslizantes e puxado por dois burros. Os transeuntes apressados olhavam com curiosidade para ela, que não ousou sequer um movimento com a mão. Diante do Templo de Amon, os soldados desapareceram. Agora estava apenas rodeada de sacerdotes que a fizeram descer do veículo e a conduziram ao portão em passo rápido, como se fosse uma criminosa.

Não teve tempo de olhar para o jardim do templo, pois era conduzida com muita rapidez. Quando chegaram ao seu destino, Sahti teve de baixar a cabeça, porque a porta da prisão sem janelas, na qual foi metida, era especialmente baixa. Um último ruído quando a porta foi trancada várias vezes pelo lado de fora. Passos que se afastavam rapidamente. A escuridão .1 fundou-se sobre Sahti.


NONA HORA: A ILHA DAS CHAMAS

As dores de parto instalaram-se pouco depois de o jovem sacerdote ter retirado a louça da refeição da noite. Era o terceiro dia que passava na prisão, se bem que na cela escura fosse muito difícil reparar no passar das horas e distinguir se era noite ou dia. Sahti pensou que as dores eram devidas a problemas de intestinos, causados pelos alimentos que ingeria, mas, mais tarde, quando as águas romperam, percebeu que o seu filho estava a vir ao mundo prematuramente, pois faltavam duas luas para terminar o tempo.

Sem saber o que fazer, tentou orar, mas não conseguiu. Tinha esquecido todas as orações da sua infância e não lhe ocorreu nem uma das inúmeras orações aos deuses de Kemet que Tama tão pacientemente lhe ensinara. Soluços persistentes irritavam-lhe a garganta. Agora que ela própria ia ser mãe, fora inundada por uma esmagadora saudade das inalcançáveis mães da sua vida: a primeira, que nunca conhecera, a segunda, por quem se sentia profundamente enganada, e a terceira, que a deixara demasiado cedo.

Gradualmente, Sahti foi-se acalmando. Durante bastante tempo conseguiu, até, lutar contra um pânico cada vez mais intenso. Incansável, vagueava pela estreita cela ou enrolava-se sobre o leito duro quando era atacada pela próxima onda de dores. No entanto, quando as contracções começaram a suceder-se quase sem intervalo e ela mal tinha possibilidade de recuperar as forças, perdeu finalmente o controlo.

- Abram imediatamente! - Batia com os punhos contra a porta. Fora tomada por uma fúria tremenda que a fez esquecer todo o medo. Abram! Já disse! O meu filho vai nascer prematuramente porque vocês me fecharam aqui. E não pararei de gritar até alguém aparecer.

A raiva emprestou-lhe forças acrescidas. Até a sua voz estava mais volumosa e dura do que nunca. Mesmo assim, pareceu-lhe uma eternidade até ouvir os passos em frente à cela e a porta a ser destrancada.

Quando subitamente a luz do dia entrou na cela, recuou, quase cega, para o canto mais longínquo. A seguir, só conseguiu distinguir sombras, à medida que recuperava o poder de visão. Nebnefer viera com alguns homens mais velhos, de cabeça rapada e com túnicas compridas como o sumo sacerdote. Um velho pareceu apreciá-la de cima a baixo. Torturada, Sahti fechou os olhos, pois fora atacada pelas dores, levada até ao seu ponto mais alto, diminuindo novamente.

- Uma mulher para assistir! - exigiu ela quando recuperou a respiração. - É o mínimo que podem proporcionar-me.

- Ajoelha-te! - ordenou o velho em voz baixa. - Ou melhor ainda, senta-te no banco de pernas abertas quando fores invadida pelas dores. Será mais fácil para ti. - As suas mãos de dedos finos e calor agradável tocaram o seu ventre tenso, depois o seu sexo, com tanto cuidado e habilidade que ela não opôs resistência. - Já está muito dilatada - observou ele virado para Nebnefer. - E por sorte não está aleijada como acontece à maioria das mulheres da Terra do Ouro, o que nos facilita as coisas. Precisamos de água quente, linho, uma faca e um recipiente com incenso para melhorar a qualidade do ar. Não te esqueças de mandar vinho aromático. Apressem-se! Não vai demorar muito!

Nebnefer virou-se.

- Alto! - ordenou o velho. - Deixa a porta aberta. Já nem se consegue respirar aqui dentro!

Sahti sentiu logo as dores.

- Esta criança tem de viver - segredou ela antes de começar a gritar.

- Foi uma promessa que fiz ao seu falecido pai. - O rosto enrugou-se-lhe quando premiu o queixo contra o peito. -- Foi a última prenda que me deu. Entendes?

Depois, gemeu alto.

- Óptimo - disse o velho com simpatia -, estás a fazer tudo muito bem! E grita à vontade se te apetecer! Aqui só as pombas do templo poderão ouvir-te.

Entretanto, dois jovens sacerdotes haviam trazido o que era necessário e Nebnefer também aparecera como que para vigiar a sua presa. Quando Sahti reparou no seu perfil, as suas entranhas reviraram-se de repulsa, mas continuou a deixar-se levar pela voz descontraída do velho.

- E agora força! Força!

Um último esforço poderoso e a criança saiu dela. Sahti ouviu o ruído estranho que o seu parteiro emitira, quando a apanhou e se deixou cair, esgotado, para trás. Ela mal sentiu o corte do cordão umbilical, que foi levado a cabo por um jovem sacerdote sob a orientação do velho.

O velho retirou a placenta do queixo do recém-nascido e meteu-lhe os dedos na pequenina boca para abrir as vias respiratórias, mas o pequeno peito não quis começar a movimentar-se e também não se ouviu nenhum grito forte e zangado, nem um pequeno guincho.

- O que se passa? - murmurou Sahti depois de alguns horríveis momentos de espera.

- Um rapaz - replicou o velho. - E é muito bonito.

- Porque é que ele não grita?

- Porque já foi para os braços de Osíris. O cordão umbilical deve-o ter morto, provavelmente ainda antes de nascer. - Calou-se. - Queres vê-lo?

Sem forças, virou a cabeça para o lado.

- Leva-o daqui! - segredou ela.

Tudo o que aconteceu então pareceu-lhe um sonho. Foi-lhe colocado um púcaro nos lábios e sentiu o líquido quente e aromático a escorrer-lhe pela garganta. Mesmo quando não queria beber mais nada, foi repetidamente obrigada a engolir. Em breve, tudo começou a girar à sua volta: a cela estreita, os rostos dos sacerdotes e as mãos suaves do velho que terminava

o seu trabalho, massajando-lhe o ventre para que ela expelisse toda a pla-

centa para um recipiente.

- Agora irás dormir durante bastante tempo - pensou ela ouvir antes da escuridão do esquecimento a envolver por completo.

Ita estava deitada com o rosto virado para o lado numa poça escura, o braço direito esticado. A sua outra mão apertava a garganta aberta como se tivesse tentado, no último momento, não deixar sair o sangue do seu corpo.

Nebnefer inclinou-se sobre o punhal ensanguentado e sopesou-o pensauvamente na mão.

- Ela suicidou-se? - perguntou o velho.

- Segundo parece, sim - replicou Nebnefer. - No entanto, é muito misterioso o facto de ter conseguido uma arma. Revistámos várias vezes a sua cela e sempre sem resultados.

- Mesmo depois de ter falado?

Os olhos do velho estavam amarelados, e a sua pele enrugada, bronzeada do sol. Se não se mexesse, poder-se-ia pensar que era uma estátua de arenito.

- Não - disse Nebnefer, colocando o punhal sobre o leito. - Não me pareceu necessário. Não se diz que se sente a alma mais leve e o coração liberto assim que se confessam todos os pecados?

- Os pecadores ficam em falta perante Osíris e entram para o círculo dos criminosos. No reino dos mortos, não há possibilidade de esconder este ou aquele acto. Tudo está perante os olhos dos deuses e é julgado - retorquiu o velho com rudeza para, imediatamente a seguir, continuar a falar num tom mais tranquilo. - Então, tu também erraste neste caso? Se bem que não se te possa atribuir o seu final tão súbito.

- Sim. Tens razão. Teria sido muito desagradável para nós.

- Mas conseguiste saber o que querias?

Nebnefer assentiu com a cabeça.

- Foi escrita uma confissão completa perante mim e duas testemunhas, e ela assinou-a com a impressão digital. Traz o selo sagrado do templo. Quem quiser fazer uma investigação, não encontrará nada que seja contra a lei. - Nebnefer afastou o olhar. - O que temos nas mãos servirá para aniquilar para sempre o homem de Kepni. Assim, apanharemos o superintendente de Kamés.

- Por regra, é melhor deixar brilhar as pessoas antes de as atirar para a vergonha e escândalo - replicou tranquilamente o velho. - É por isso que entendo a tua pressa. O nosso jovem príncipe Ahmés possui, sem dúvida, muitas virtudes, mas a paciência não é uma delas.

Ambos se riram.

- Além do mais, aconselha-se que o cálice do conhecimento seja total mente esvaziado - continuou o velho. - Especialmente quando se está ,i prever ficar com algum conhecimento.

- O que é que isso quer dizer? - perguntou Nebnefer, desconfiado.

- A confissão desta morta poderá ser-nos muito útil quando chegar a altura certa de lidar com a situação. Mas, apesar disso, não seria melhor ter a certeza de que as coisas se passaram como ela afirma?

- Mas esta tal Ita confessou tudo!

- Eu conheço os teus métodos - respondeu o velho, pouco impressionado. - A verdade, Nebnefer! É a única coisa que conta. Temo que tenhamos de ter uma conversa com a pequena cuxita.

- O que não vai ser fácil - comentou Nebnefer alguns instantes depois. - Ela parece ter outra força que esta não possuía - proferiu, empui rando com o pé o cadáver de Ita. - Ambiciosa, cheia de inveja e de ciúme. O que é que a cuxita ainda tem a perder, agora que o seu filho está morto?

- A vida - contrapôs o velho. - E eu vi o que a impulsiona: a raiva. Além disso, o cheiro da verdade é a situação em que muitas línguas se soltam. De qualquer modo, ela não deve nem sequer ver a tua sombra.

- Porquê?

- Porque te odeia. Não sabias?

- E a ti, não? - perguntou Nebnefer imediatamente. - Tu também és um sacerdote de Amon!

- Tu arrancaste-a ao funeral do marido como uma criminosa. Eu, pelo contrário, tive o seu filho nos braços.

Ao sangue seco da mulher morta a seus pés, começaram a juntar-se as primeiras moscas. Nenhum dos dois se deu ao trabalho de as afastar.

- O que acontece agora com o Tjai? - perguntou, por fim, o velho.

- Educamo-lo no templo. Assim que for um pouco mais crescido, irá com os outros para a Escola da Vida. Acho que o Tjai se sente bem aqui, e os sacerdotes mais novos estão loucos por ele. Não me admiraria se um dia se tornasse um bom servidor de Ámon.

- É decerto a melhor solução para uma criança que perdeu pai e mãe

- observou o velho, pensativo.

Nebnefer evitou soltar uma gargalhada de alívio.

- O que significa que o pai da criança receberá já uma visita nossa. foi tudo o que ele emitiu sobre o assunto.

- Dois dos nossos sacerdotes estiveram ontem em sua casa. - O velho alisou a sua imaculada túnica. O tronco, coberto de cabelos brancos, era musculoso, e os ombros e os braços ainda mostravam que tinha força. Ele deve ter a constituição de um hipopótamo para sobreviver aos nossos remédios especiais.

- Nenhum deles chegou a velho - proferiu Nebnefer. - Nem a Ita nem o seu amante.

- Em cada jogo de senet, cães e chacais devem ser sacrificados - respondeu o velho à vontade. - Só pode haver um vencedor.

Uma paz enorme reinava sobre os terrenos do templo. A cela estava inundada pela luz do fim da tarde. Mesmo assim, os cheiros desagradáveis começaram a espalhar-se cada vez mais.

Nebnefer fez um esgar de nojo.

- Temos de queimar aqui bastante enxofre - disse ele, repugnado. Vou dar imediatamente as indicações necessárias.

- Para remover os cheiros é preferível uma mistura de mirra, zimbro e mástique - propôs o velho. - Não há melhor meio contra as sombras do passado. - Começara a caminhar. - O mais eficaz é realizar pessoalmente o ritual - acrescentou semivirando a cabeça para trás. - Pois, com isso, também nos limpamos de todos os fluidos negativos.

Naquela manhã resplandecente, foi-lhe oferecido um quadro belo e apaziguador: um jovem guerreiro que se movimentava com tanta agilidade no seu garanhão negro que, ao longe, quase se poderia pensar que cavalo e homem constituíam um único ser. Quando se aproximou, ela viu que o tronco de Kamés estava coberto de suor. Devia ter andado a cavalgar arduamente.

Desceu da sela e ofereceu-lhe um sorriso. Depois, amarrou o cavalo e começou a esfregar com palha o corpo húmido do animal. Teti-Cheri olhou para ele durante algum tempo em silêncio.

- Pensas primeiro no cavalo - disse ela por fim. - E só depois em ti.

- Há muito tempo que não encontro nenhum ser que mereça a minha total atenção - replicou ele. - O trono torna-nos muito solitários, avó. Muito solitários.

- E isso espanta-te? O faraó tem de tomar decisões nas quais os outros homens não podem participar, pois a sua natureza não se adapta a tais soluções. Por isso, deves pedir conselhos ao teu coração sempre que haja situações importantes.

- Uma lição de diplomacia logo de manhã. A que devo tal honra? Um sorriso espontâneo e brilhante tornou o seu rosto jovem e alegre, e

subitamente Teti-Cheri voltou a ver nele o rapazinho que brincara durante tanto tempo à sombra do trono sem verdadeiras perspectivas de alguma vez lá chegar. Agora, fazia tudo o que estava ao seu alcance para voltar a reuni ficar Kemet. Sentiu uma profunda sensação de cumplicidade, misturada com o agradecimento a Sekenenré, seu falecido filho, que fora suficiente mente inteligente para não misturar as situações do país dividido com os desejos do seu primogénito.

- Eu queria falar contigo - respondeu ela simplesmente. - E sem ouvidos curiosos à nossa volta. Além disso, prefiro saber das coisas importantes em primeira mão.

O cavalo relinchou, aparentemente contente com o tratamento do dono, que quase terminara o seu trabalho. O pelo brilhava à luz do Sol como ónix polido.

- Um animal magnífico! - comentou Teti-Cheri com reconhecimento na voz. - Se eu já não fosse tão velha, teria vontade de o montar!

- O melhor de todos - afirmou Kamés apaixonadamente, acariciando o poderoso pescoço do cavalo. - E também nos meus carros de guerra. Por isso é que lhe chamei Or.

- Or? - repetiu ela, curiosa. - O que significa isso?

- Significa rei em cuxita. Vamos caminhar um pouco?

Kamés esforçou-se por não andar muito depressa, pois sabia que Teti-Cheri não conseguia dar grandes passos. No Inverno anterior, voltara a estar doente durante bastante tempo e as inflamações nas articulações, que provavelmente nunca a abandonariam, haviam-na imobilizado durante meses. Contudo, tinha ainda força e determinação, não havendo uma única cabeça em toda a corte que possuísse a clareza da sua. Chegados ao jardim do palácio, ele conduziu-a a um dos bancos de pedra e sentou-se a seu lado.

- E o que é que queres saber agora? - perguntou ele.

- O Ahmés anda a espalhar por toda a parte que planeias para breve uma expedição contra Apopi...

- O Nilo ainda vai inundar os campos várias vezes e recuar novamente para o seu leito - interrompeu ele -, até que isso aconteça. Claro que já tenho planos concretos, se bem que sejam, por certo, diferentes dos de meu primo.

- Os maravilhosos animais que estão nos estábulos também fazem parte do plano?

- Os cavalos são uma parte imprescindível da minha estratégia, bem como os carros que mandei construir segundo o modelo utilizado pelos Hicsos. Mas de que serve o melhor equipamento, se não for utilizado com perícia pelos soldados?

Teti-Cheri acenou com a cabeça em sinal de assentimento.

- E para isso precisamos de tempo. De muito tempo! Até agora, em Kemet apenas conhecíamos as zorras de madeira cujas pranchas, ao deslizar, se afundavam profundamente na areia. Agora, os meus homens irão lutar em carros de guerra com rodas, puxados por animais velozes. São capacidades que têm de ser aprendidas e exercitadas. Daqui a algum tempo, irei inspeccionar as tropas e talvez a minha presença incite os homens.

- Quando é que tencionas partir?

- Em breve. Já depois de amanhã.

- E o Ahmés acompanhar-te-á? - perguntou Teti-Cheri.

- Ele já se encontra no local, como foi seu desejo. Segundo parece, não se cansa dos novos carros. O Hori informou-me de que ele anda a treinar com afinco.

- Parece-me, no entanto, que essa ideia te causa algum desconforto observou ela, cautelosa. - Tem cuidado, Kamés! Ele pode ser muito perigoso, sobretudo se se sentir encurralado.

- Tens razão - respondeu Kamés com um suspiro. - De momento, tenho outras preocupações. Se o Namiz já estivesse de volta! Da sua viagem trazer-me-á informações importantes sobre a forja de armas de bronze especialmente resistentes.

- Logo o homem de Kepni! - O tom de Teti-Cheri denunciava cepticismo. - Não podias ter enviado outra pessoa?

Kamés agarrou-lhe na mão e apertou-a.

- Tiveste razão em desconfiar do Ipi e do Seb. Neste momento, estás a condenar injustamente o Namiz. Será que a mais sábia de todas as mulheres não consegue libertar-se de preconceitos antigos?

Ela fez um gesto vago.

- Mesmo assim, ainda nos falta o mais importante - continuou ele, largando novamente a mão da avó.

- E isso é? - perguntou Teti-Cheri. - Agrada-me a tua sabedoria, Kamés. Só um cabeça-de-vento ou um idiota tentaria recuperar Hut-Uaret sem os actuais preparativos.

- Aliados - elucidou Kamés. - Se queremos virar-nos para norte contra um adversário tão difícil de vencer, o Sul tem de estar seguro. Eu já pedi ao soberano de Kerma que se aliasse a mim, mas sem sucesso.

- Mas não tinhas já desistido? E isso, apesar de o Ahmés vociferar por todo o lado que tem intenção de estender os limites do seu reino até à catarata?

- Não - disse ele. - Até agora, a nossa cidadela em Abu Resi mantém-se incólume e acho que ficará assim. Perante uma situação crítica, será melhor considerarmos os Cuxitas como vizinhos e não como inimigos ou súbditos. Só assim Kemet se tornará forte, unido e impenetrável.

- Foi ela quem te ensinou isso? - Teti-Cheri evitou olhá-lo e brincou com as pulseiras, tão pequenas que serviriam à vontade no pulso de uma criança. - Diz-se que tu fazes tudo o que ela exige.

- A Nabu? - Soltou uma pequena gargalhada. - Ela ensinou-me muito. Mais do que qualquer outra pessoa que já conheci. Excluindo-te a ti.

Kamés fez uma vénia na direcção da avó.

- Não nos ponhas no mesmo saco! - continuou Teti-Cheri.

- O que te fez ela para a odiares tanto?

- Envenenou a alma do meu filho, tal como está agora a instilar em ti o seu veneno negro. Essa mulher só traz desgraças. A Kemet, a ti e a todos os que se aproximam dela. - O seu rosto fechou-se, mas não se deixou influenciar. - E tu tens de pensar no futuro. Até agora, não há falcão no ninho. Nem de Acha, a tua grande esposa real, nem de qualquer outra das

tuas esposas, e, alem disso, como seria possível, se tu pareces cego e surdo perante todas as outras mulheres à excepção da serpente negra?!

- E se fosse precisamente a Nabu a trazer ao mundo o meu filho e herdeiro?

- Não podes estar a falar a sério! - Teti-Cheri levantou-se, muito enervada. - Ela está grávida?

- Só a ideia me põe o coração aos saltos. E se as coisas tiverem de chegar até aí, então...

- Que o divino lach nos proteja para toda a eternidade!

com a rapidez de um raio, ele pusera-se de pé e agarrara-lhe com tanta força nos pulsos que ela soltou um grito abafado.

- Eu amo-te e respeito-te, avó - disse Kamés, determinado. - Kemet tem poucos homens que possam equiparar-se a ti em inteligência e sabedoria e nunca esquecerei como lutaste por mim. Todavia, mete isto na cabeça para sempre: eu sou o faraó e não um dos teus bonecos de cera que arranjaste para amantes!

Virou-se abruptamente e deixou Teti-Cheri estupefacta à sombra dos sicómoros.

Quando aquele cansaço estranho desapareceu, Sahti reconheceu que, durante a sua agonia, fora levada para outro local do templo. O quarto em que acordou estava vazio, possuindo apenas uma cama e um pequeno banco, estando, no entanto, limpo e iluminado. Uma janela deixava entrar o sol quente da tarde. Ao lado da cama, viu um púcaro de água e uma taça com frutos. À laia de hábito, as suas mãos repousavam sobre o ventre e estremeceu quando, em vez da curvatura habitual, sentiu uma superfície lisa e tensa.

Os seus olhos encheram-se de lágrimas. Virou-se e fixou, sem ver, as paredes cruas.

Passos suaves arrancaram-na do seu estado absorto. Cauteloso, o velho sentou-se a seu lado.

- Provavelmente ainda te vai doer durante muito tempo - disse ele em voz baixa. - Mas o tempo cura todas as feridas do corpo e do coração, mesmo que tu, neste momento, não acredites nisso. Um dia voltarás a rir, Sahti.

- O que queres? - Levantou-se, encostou-se à parede e olhou para ele, desconfiada. - Já não chega o que vocês me fizeram? Querem também a minha vida?

- Isso depende única e exclusivamente de ti - respondeu o velho, tranquilo. - Se estás pronta para a verdade, poderás começar uma vida totalmente nova.

- A verdade? De que verdade falas? Não confio em ti! Não confio em sacerdotes!

- Estás no teu direito - afirmou ele, descontraído. - E na tua situação até é compreensível. Mas agora deverias usar toda a tua inteligência. com a mão direita levantou-lhe ligeiramente o queixo. Os seus olhares encontraram-se e Sahti sentiu a força interior do velho. - Pondera as coisas calmamente! O teu marido está morto e a mãe dele não quer saber de ti. Só poderás sair daqui, do templo, se nós quisermos. Resta-te alguma alternativa, senão trabalhar connosco?

- E o que é que achas que eu posso fazer? - perguntou Sahti, por fim. - Não te passe pela cabeça que me poderão aterrorizar! O que vai acontecer comigo? - Virou-se para ele. Fixá-lo nos olhos tinha feito crescer as suas forças. - Para onde é que o levaram? - perguntou ela em voz baixa. - Onde é que está o meu filho?

- Sepultado com as bênçãos de Ámon. Descansa nos braços protectores de Nut. Levanta-te! -- ordenou ele, estendendo-lhe a mão. - Temos de ir passear um pouco.

Ela afastou-lhe a mão, mas agarrou-a logo a seguir quando sentiu as pernas pouco seguras. O velho conduziu-a através do jardim frondoso do templo e parecia estranhamente irreal sentir o chão desnivelado debaixo dos pés e o calor do sol-poente sobre a pele. Nos topos das árvores os pombos arrulhavam, soprava uma brisa suave e moscas voavam à frente dos dois. Mais uma vez, as lágrimas inundaram os olhos de Sahti e, se não estivesse apoiada no braço dele, teria caído sem forças no chão.

Ele levou-a para uma sala pobremente mobilada, repleta de um cheiro estranho, fazendo-a sentar num banco. Depois trancou a porta por dentro. Agora estavam sós.

- Fecha os olhos - ordenou ele. - E concentra-te no teu coração! Diz-me quando estiveres pronta.

O cheiro aromático tornou-se mais intenso e Sahti teve a sensação de que este não entrava apenas pela boca e pelo nariz, mas sim por todos os poros do seu corpo. Ficou com a cabeça muito leve. Os seus ouvidos começaram a zunir.

- Estou pronta - declarou em voz baixa.

- Olha para mim!

O velho estava a olhar para ela e no seu regaço tinha a estátua de ouro de Selket. Por alguns instantes, Sahti pensou ser uma ilusão dos seus sentidos ou uma miragem, mas, no entanto, o incensório que estava ao seu lado, do qual saía aquele aroma acentuado, mostrou-lhe que não era ilusão, mas sim realidade.

- Isto não é um jogo - declarou o velho, muito sério. - Exijo muito de ti, Sahti. Exijo tudo: a verdade. Portanto, de onde veio esta estátua?

O animal que estava sobre a cabeça dourada de Selket pareceu mexer-se. A sua cauda virou-se claramente na direcção de Sahti. Na sua cabeça havia um turbilhão de pensamentos. O sofrimento de Nofret; a necessidade de Maj; o embalsamador; as crianças presas; Ita... Que mais saberia o velho? . Seria um interrogatório que iria levá-la à morte? Tê-la-ia o escorpião finalmente vencido? Apertou os lábios para não emitir qualquer som imprudente.

- Onde arranjaste esta estátua, Sahti? Eu sei que ela estava em teu poder. Quem é que ta deu? E com que fim?

Aquele cheiro já penetrara profundamente nos seus pulmões. Quanto mais Sahti tentava expirá-lo, mais difícil era contrariar a voz do velho. Havia alguma coisa naquele odor que fazia vibrar uma corda que Sahti esquecera há muito. Tentou, mas não conseguiu recordar-se.

- Teria sido o Namiz? O intendente oriundo de Kepni? Foi ele que ta deu?

- Deixa-me em paz! - Não estava certo torturá-la daquela maneira. Como se atrevia? A fúria trespassou-lhe o corpo. - Não quero mais! E não posso mais!

- Então foi mesmo o Namiz? Eu só preciso desse nome. Diz simplesmente «Namiz», Sahti! «Namiz»... e esta porta abrir-se-á.

A fúria de Sahti cresceu, tornou-se violenta e cada vez mais intensa. Não teria já pago o suficiente? Ruju e a daia estavam perdidas para sempre. Antef e Tama já se encontravam mortos. Noite após noite, era torturada pelas horríveis recordações de Ut. Sentia imensas saudades de Pani. Nesmin estava morto e o seu filho também. Já não tinha pátria nem mesmo um local para onde fugir. Agora, o escorpião negro já devia estar feliz. Ou exigiria ainda, apesar de tudo o que acontecera, mais algum tributo?

- Tu tens de me deixar em paz. Entendes?

A voz de Sahti quase não se ouvia. Sentia o impulso de se atirar ao velho e de lhe arrancar os olhos com as unhas. Simultaneamente, qual uma flor do pântano, uma imagem começou lentamente a tomar forma.

- com certeza. Mas só quando me disseres de onde veio esta estátua de ouro. E vou sabê-lo. Temos tempo, Sahti. Muito tempo. Pergunto-te mais uma vez: veio do Namiz?

Apesar da sua fragilidade, Sahti levantou-se e cerrou os punhos.

- Nunca! - gritou ela. - Nunca! Estás a ouvir?

Tossiu, reprimiu os vómitos e foi obrigada a sentar-se com falta de ar. O cheiro enchia-lhe a cabeça, os pensamentos e o coração! «Fala!», parecia ele sussurrar. «Por que razão não lhe dizes o que ele já sabe? Assim terás paz. Finalmente paz.»

- Então, Sahti. Tenho a certeza de que me darás essa informação. Eu sei e tu também sabes. A verdade! - exigiu teimosamente o velho. - Não preciso de mais nada para além da verdade. - O seu tom suavizou-se. Não tornes as coisas tão difíceis para ti! Nem para mim. Tu queres dizer-me a verdade. Consigo senti-lo. Então? Estou à espera.

Era como se tivessem fechado um pesado cortinado. Naquele momento, Sahti reconheceu o cheiro que enchia toda a sala: salva seca do deserto que a leoa branca usara como planta curativa! Sahti procurou a garra que tinha ao peito e, finalmente, depois de muito, muito tempo, foi como se parte da sua velha força tivesse regressado ao seu corpo. Por um instante, viu novamente as costas fortes e firmes da daia e até pensou ouvir a sua voz. Não digas nada, pequena Sahti! Se falares, eles matam-te... A neta da feiticeira não é uma traidora.

Não! Nunca entregaria Namiz àquele sacerdote insidioso, que apenas desejava fazer mal. Nunca! Enquanto nela houvesse uma centelha de vida!

- Por mim não saberás nada - retorquiu ela com a maior clareza possível. Parecia ter a língua colada às gengivas e precisava de lutar contra aquela nuvem quase opaca. - Mesmo que me ameaces de morte. Se é essa a tua verdade, sacerdote, então mata-me!

Os cavalos relinchavam e por baixo das suas patas elevavam-se nuvens de areia que cobriam tudo com uma camada dourada, penetrando até na garganta dos homens. Obedientemente, os soldados tinham enfileirado ao longo do terreiro de exercícios. Murmúrios de espanto percorreram as fileiras quando os dois carros se separaram pela segunda vez, dirigindo-se para as extremidades.

Um era conduzido pelo faraó. O outro, pelo príncipe Ahmés.

Ambos usavam elmos e peitorais de bronze, se bem que no forro lateral dos seus carros não estivessem espadas de metal, mas sim armas de exército feitas de dura madeira de ébano. As rodas de madeira maciça enterravam se profundamente no chão, pois não só suportavam o peso dos homens como também os pesados ornamentos de metal sobre o estribo e as armações laterais. Apesar disso, os cavalos conseguiam ganhar uma espantosa velocidade.

Chegado ao meio da praça, Ahmés puxou da sua espada de madeira e desferiu um golpe tão violento contra Kamés que este quase caiu do carro. Só no último momento é que o faraó conseguiu manter o equilíbrio e inclinar-se para o lado. Puxou o freio com força e virou-se rapidamente para começar uma nova avançada.

A última vez que tinham lutado um contra ao outro ainda eram rapazes e Kamés acabara por ganhar, se bem que Ahmés tivesse tentado, por todos os meios, deitá-lo ao chão. Há muito que Kamés sabia que ele nunca lhe perdoara aquela derrota. O olhar de tensão e ódio que se via no rosto do seu primo mostrava que estava decidido a reparar a ignomínia sofrida nessa época.

Se bem que já lhe doessem os braços devido ao vigor do primeiro ataque, Kamés tentou ignorar o seu antagonista e concentrar-se totalmente no cavalo. O garanhão negro levantou as orelhas quando sentiu os esforços do seu senhor. Uma ordem rápida e Or avançou vigorosamente.

Não menos temerário, Ahmés aproximava-se do lado oposto. Desta vez Kamés não lhe deu tempo para se recolocar, dirigindo o seu carro para uma posição lateral. Assim, Ahmés perdera a cobertura, e o súbito ataque com espada do faraó entrou tão duramente pelo lado direito do seu peito que cambaleou e caiu do carro.

O príncipe levantou-se num ápice.

- Estás ferido? - gritou-lhe Kamés. - Bastará uma palavra tua para pararmos com isto.

- Não é nada. Não te apresses nas tuas decisões! Ainda falta muito para terminar o nosso combate.

com um pequeno salto, Ahmés subiu para o seu carro.

Mais uma vez, os adversários se colocaram em posição.

Entretanto, os soldados tinham feito silêncio. Estupefactos, olhavam para os homens que desempenhavam o espectáculo realizado perante os seus olhos. O que começara por ser uma pura demonstração de destreza militar transformara-se há muito numa amarga luta de homem contra homem, que apenas conhecia um vencedor.

Os carros avançaram novamente no meio de nuvens de areia que coloriam o ar de amarelo. Mesmo assim, Ahmés açoitava o cavalo com um chicote de tiras de couro com nós, pois aparentemente não estava a correr à velocidade desejada. Assustado, o animal espantou-se e arrastou o carro consigo, que tombou pesadamente para o lado.

Como um boneco de palha, o príncipe caiu abruptamente para o lado e ficou imóvel no chão.

O peso de que o cavalo, apesar de todos os esforços, não conseguia libertar-se, parecia torná-lo ainda mais furioso. Mais uma vez se pôs de pé e quase foi espezinhado pela montada. No entanto, Kamés conseguiu acalmar o animal que agarrara pelas rédeas. Puxando com força e usando palavras tranquilizantes, fê-lo parar.

O comandante Hori aproveitou a oportunidade para mandar alguns homens até ao local, os quais se colocaram em torno de Ahmés para o proteger. Um deles retirou-lhe o elmo, enquanto o cavalo, que entretanto acalmara, era levado. O príncipe tinha marcas profundas nas faces e do seu olho esquerdo escorria sangue.

- Estás ferido? - perguntou o faraó, que empurrara os homens para o lado, a fim de avaliar a situação pessoalmente.

- Parece que uma manada de elefantes passou por cima do meu peito e não consigo mexer a perna direita - gaguejou Ahmés. As gotas de suor deixavam um rasto escuro no seu rosto coberto de areia. - Mas ainda estou vivo. Portanto, haverá uma próxima vez, Kamés, podes ter a certeza disso. Não ficarás a dever-me a desforra. Senão, eu próprio a procurarei e, se for preciso, à força.

- Não te esqueças de que esta luta foi ideia tua e não minha - replicou Kamés tranquilamente. - Além disso, foi um exemplo impressionante para todos. - com um gesto largo afastou os soldados. Levantou a voz. com esta disciplina militar férrea, ninguém consegue ganhar se tratar o cavalo como a peça mais fraca, ao qual pode bater à vontade. Estes animais são nossos aliados, mas apenas se lhe dermos o tratamento que eles merecem. - O seu tom tornou-se mais áspero. - Quem utilizar o chicote por raiva, não merece outra coisa senão o próprio chicote. Compreenderam?

Encontrava-se de pé, de costas para o ferido que naquele momento estava ser colocado numa padiola provisória, sendo transportado para a zona dos doentes, mas obviamente que o príncipe sabia a quem se dirigia aquele discurso inflamado.

- Eu odeio-te, primo - sussurrou Ahmés entre dentes. - Do mais fundo da minha alma. Já não está longe o dia em que sentirás o meu ódio no teu corpo garboso como a vara de um tirano.

Todas as manhãs, ao raiar do Sol, o guarda que estava sobre o telhado do templo tocava a sua trombeta, dando assim o sinal que despertava para a vida toda a comunidade sagrada. No entanto, antes do nascer do Sol já se dera início a grandes preparativos: os sacerdotes tinham ido ao grande rio para se lavar e purificar; alguns deles haviam enchido bilhas e ânforas com água do rio sagrado para a libação; os escribas apareceram com as imensas listas de sacrifícios do dia, e no matadouro e na cozinha preparavam-se as oferendas; frutos e legumes diversos eram colocados em pratos, abençoados pelos sacerdotes e finalmente levados para o local dos sacrifícios.

Sahti sabia de todas estas actividades por ouvir contar, pois havia negros entre os seus guardas. Como tal, também sabia que, depois do sinal da trombeta, o Sol se erguia e se ouviriam as evocações do coro de sacerdotes que louvavam o deus com hinos de várias estrofes. Agora já não faltaria muito para lhe trazerem comida e bebida. Contudo, era muito mais importante para ela o facto de obter os instrumentos de escrita e os textos ainda desconhecidos.

No início da sua prisão, o velho colocara-lhe tudo à frente com uma expressão impenetrável.

- Conheces os símbolos sagrados?

- Sim - afirmara Sahti, cautelosa. - Sei ler e escrever.

Há dias que não trocavam uma palavra. Que manha estaria ele agora a planear?

- Então, também sabes o que é O Livro do Despertar do Dia?

- O Livro dos Mortos? O Nesmin era o chefe dos escribas na sepultura do rei - disse ela. - Falou-me disso.

Manteve para si o facto de ter tido os antigos papiros nas mãos e de os ter folheado.

- Enquanto estiveres aqui, poderias tornar-te útil - disse o velho. O tempo também passaria mais depressa.

- Por que razão não me deixam ir embora? - insistiu ela. - Ou matem-me! Seria decerto o mais simples para todos.

- Tu já sabes a resposta - observou o velho sem se deixar provocar.

- A duração da tua estada depende única e exclusivamente de ti.

Ela não conseguiu perturbá-lo e, se isso fosse possível, ainda não descobrira como. com um suspiro, Sahti virou-se para o velho.

- Deverás copiar estes papiros - ordenou ele. - Eu próprio me assegurarei do teu zelo. E agora começa!

A partir dessa altura, passava os dias a escrever, desde que amanhecia até o Sol ser engolido por Nut, apenas com alguns pequenos intervalos. Por vezes, a articulação da mão ficava muito rígida pelo desvelo com que agarrava a caneta de junco, mas ela não se importava. Muito pelo contrário! Fazia-lhe bem ter uma ocupação que a afastasse dos seus eternos e inúteis devaneios. Sahti já copiara muitas estrofes, e as escuras mensagens vogavam durante a noite na sua alma. Todavia, eram mais fáceis de suportar do que as imagens assustadoras que a atormentavam até então.

A porta abriu-se. Como era habitual pela manhã, recebeu pão, feijões e água. Naquele dia, surgiu também, pela primeira vez, uma caneca com um chá amarelado, cujo cheiro a enjoou.

- Bebo-o mais tarde - disse ela ao jovem sacerdote que ficava sempre a olhá-la, como se Sahti se tratasse de um animal raro e perigoso, do qual era necessário manter a distância. - Bebo-o quando tiver sede.

- Agora! - ordenou ele. - O velho disse que precisas urgentemente de remédios.

Encontrava-se à sua frente de pernas abertas, e ela não teve outra solução senão obedecer. Se se revoltasse, ser-lhe-iam retirados os escassos privilégios. Deixaria de poder sair da cela à noite para passear no jardim do templo e lavar-se no pequeno tanque artisticamente decorado.

Pegou na caneca e bebeu. Era tão amargo que ficou cheia de vómitos, mas mesmo assim esvaziou o recipiente.

- O que devo escrever hoje?

- Isto. - O jovem sacerdote pegou no púcaro e entregou-lhe um monte de papiros. - E apressa-te! Virei buscar tudo esta tarde.

À sua esquerda encontrava-se um conjunto de canetas novas e à sua frente a paleta com as concavidades para as tintas vermelha e negra. Sentou-se no chão e abriu o primeiro rolo.

Aqui começam os capítulos Que narram a viagem da alma À luz clara do dia. O seu ressurgimento no espírito A sua entrada e viagem Nas regiões do Além...

Sahti segurou a caneta entre dois dedos e sentiu-se contente com a rapidez e ligeireza com que escorregava no papiro novo que tinha no colo.

Estas são as palavras que se devem proferir No dia do enterro,

No momento em que, separada do corpo, A alma entra no mundo além-túmulo...

Subitamente, Sahti ficou cheia de frio e começou a escrever mais depressa como se, desse modo, conseguisse aquecer-se. À distância, pensou distinguir vozes altas que repetiam um único verso monótono. A elas juntou-se um outro som, ainda mais ritmado do que o cântico dos sacerdotes, um som seco e firme que parecia vir das entranhas do templo.

Sahti piscou os olhos.

As linhas finas do seu modelo tinham perdido a nitidez. Além disso, a sua mão direita, com a qual segurava a caneta, começou a parecer um objecto estranho que não possuía nada em comum com o resto do seu corpo. Abanou a mão e melhorou por alguns instantes. Entretanto, os símbolos grá ficos que estavam à sua frente tinham-se transformado em imagens pouco ní tidas que dançavam de um lado para o outro, parecendo brincar consigo.

Parou, colocou a caneta de lado e esticou a perna que lhe pareceu estar tão inchada como a de um hipopótamo e que, no momento seguinte, pareceu transformar-se num pau rígido. O fluxo salivar parara. A sua garganta estava tão seca que ardia, mas era-lhe impossível esticar a mão para agarrar na caneca de água. Encontrava-se muito perto, mas parecia-lhe a uma distância inalcançável.

A cela começou a encolher ao ponto de Sahti sentir medo de ser esmagada pelas paredes. Depois, voltou a alargar. As fendas alargavam e soltavam estranhos animais negros que se arrastavam até ela. com um grito de repugnância, Sahti atirou-se para cima da cama e viu que pela janela entrava uma luz estranha e irreal que ameaçava envolvê-la.

Quando, assustada, fechou os olhos, detectou por trás das pálpebras fechadas uma explosão de luz. Em seguida, começaram a formar-se figuras bizarras que flutuavam até ela. Como o ressoar seco de um tambor, das suas bocas saía o verso d’O Livro dos Mortos que ela acabara de copiar e que, agora, lhe parecia mais desconhecido e assustador do que antes.

Meu coração minha mãe

Meu coração com formas cambiantes,

Não te levantes contra mim como testemunha!

Não avances contra mim perante os juizes!

Não te inclines contra mim perante

O mestre da balança...

Tapou os ouvidos, mas as palavras tornaram-se cada vez mais fortes até encherem toda a cela e ameaçarem saltar.

- Parem com isso! - murmurou Sahti, torturada. - Parem imediata mente com isso!

- Ela já está assim tão longe?

Agora, as vozes pareciam estar ainda mais próximas do seu ouvido.

- Em breve. - Imaginou ouvir a voz do velho, deformada e pouco clara, como se estivesse a falar do fundo de um poço. - Penso que pode precisar de mais.

Recebeu outra bebida, mais amarga do que a anterior, mas ainda ficou com mais sede.

- Eu morro! - gemeu ela. - Morro de sede! Água, por favor! Água!

- Isto é apenas o início dos horrores - berravam as terríveis vozes. Os amaldiçoados como tu têm de enfrentar Osíris e ainda o deus Sol. Ré viaja para o submundo na sua barca para ser juiz da tua causa...

Foi como se lhe tivessem colocado no peito um monte de cobras serpenteantes. Cheia de repugnância, Sahti recuou, mas não conseguia fugir. As suas entranhas ardiam e os braços e pernas estavam completamente dormentes.

- Tenho de morrer já? - gemeu ela. - Não quero morrer!

- Quem se revolta contra Maet, fica no Além, isolado de toda a ordem. Não podes salvar-te, mas podes suavizar o teu destino. Confessa! Confessa!

Tentou falar, mas dos seus lábios não saía um único som. Assim, as vozes tornaram-se ainda mais ameaçadoras.

- Amaldiçoados como tu têm de viver com a vergonha no coração. Ficarão sem ar para respirar. Ficarão sem ouvir nem ver, pois serão atirados para a escuridão eterna até ao fim dos tempos...

,Tudo se tornou escuro à sua volta.

- Já estarei morta! - murmurou ela inexpressivamente.

- As espadas deitam fogo, as chamas cortam e perfuram-te a carne. Serpentes venenosas erguem-se para te estrangular...

Uma das serpentes estava em pé e, quanto mais se aproximava de Sahti, tanto mais mudava. Da chata cabeça de réptil nasceram duas orelhas peludas e o focinho tornava-se cada vez mais comprido e afilado. Anúbis mostrava os seus dentes pontiagudos, tencionando mordê-la, mas ela sabia muito bem quem se escondia por trás da máscara: Ut. Tinha voltado para a comer e para a fechar eternamente no seu pestilento reino dos mortos.

Um grito mais alto e agudo ficou-lhe entalado na garganta.

- Não! Ut, não! Tudo menos ele!

«O antídoto! Rápido!» pensou ela ouvir, mas os seus pensamentos estavam demasiado confusos para conseguir entender o que aquilo significava.

Todavia, foi-lhe dado a beber um líquido claro e reconfortante, que trouxe alívio e deixou que a saliva fluísse de novo. As paredes da cela voltaram ao seu tamanho inicial e não tornaram a alterar-se. Gradualmente, as cores voltaram a brilhar e até a fria paralisia começou a libertar os seus membros.

Sahti abriu os olhos.

Estava sozinha na cela, à sua frente no chão estavam ainda os utensílios da escrita, e encontrava-se agora na posição de agarrar o púcaro de água.

Bebeu até matar a sede. Depois, enrolou-se sobre a cama e caiu num sono profundo.

Teti-Cheri escolhera o meio do dia para conversar com Acha, se bem que a noite, o reino do seu amado deus da Lua, tivesse sido muito mais a seu gosto. No entanto, Meret, a sua confidente, tinha-lhe dito que a jovem rainha se retirava muito cedo, observando os costumes e tradições que diziam que, se levasse para a cama um jarro de vinho de dormideira, ficaria protegida dos maus sonhos.

Para o que Teti-Cheri tinha para lhe dizer, Acha precisava de ter a cabeça lúcida. Assim, a grande senhora apertou reprovadoramente os lábios quando viu o jarro de vinho e o cálice sobre a pequena mesa que ficava ao lado do leito em que Acha dormia.

Se não fossem os cantos da boca descaídos e as rugas de insatisfação entre as sobrancelhas, poderia ser considerada uma mulher bela. Apele era muito clara, pois protegia-se da luz solar e passava muito tempo a banhar-se em leite de burra e a embelezar-se com fino pó de alabastro. Os olhos de Acha, cuidadosamente pintados com pó de malaquite, estavam verdes, da cor do Nilo. Encontrava-se nua debaixo do finíssimo vestido de linho que deixava mais do que adivinhar as suas formas de rapariga. À volta do pescoço esbelto tinha um colar de pérolas com conchas de ouro; nos pulsos usava aros de ouro ornamentados com turquesas, lápis-lazúli e cornalina.

- Sim! Olha bem para mim, muito amada avó! - A boca de Acha contorceu-se, rancorosa. - Provavelmente, também não te agrado, tal como a Kamés, o teu tão adorado neto. Sabes quando foi a última vez que ele me procurou? - Parecia uma criança a queixar-se. - Há mais de oito luas! E mesmo nessa altura não pensou em partilhar o leito comigo, mas sim olhar-me depreciativamente de alto a baixo para voltar o mais depressa possível para a sua amante negra. Eu não passo de ar para ele. Não! Pior do que ar: lixo!

- É precisamente por isso que estou aqui - afirmou Teti-Cheri. Posso sentar-me?

Já tinha procurado a cadeira mais confortável de madeira de cedro que estava forrada com pele de pantera. Acha levantou-se e puxou um banco.

- Não tenho decerto metade da tua inteligência - disse. - Mas, mesmo assim, sou suficientemente esperta para saber que ele não me ama. Nunca me amou. E nunca amará. Sobretudo desde que essa cuxita o enfeitiçou.

- E o que pensas fazer a esse respeito? - perguntou Teti-Cheri, tranquila.

- Não podemos forçar o amor! - disse Acha.

- Não estou a falar de amor, mas sim das tarefas de uma rainha, Acha! O país precisa de um falcão no ninho. Se o negares, o sucessor do trono de Kemet será de outra.

- Então, mato-a! - continuou Acha. - Arranco-lhe os olhos e como-lhe o coração. - Riu-se cruelmente. - Além disso, não sou eu que estou a negar nada. Devias saber isso muito bem!

- Agora pareces a Nefertari a falar! Não te deves perder em planos de vingança. Deves tratar do assunto e depressa! Já perdeste demasiado tempo.

A jovem começou a andar de um lado para o outro cheia de inquietação. Encolhera os ombros como se adivinhasse uma ameaça. Os seus movimentos pareciam os de uma égua, e Teti-Cheri perguntou a si própria, pela milionésima vez, por que razão é que Kamés tinha feito daquela criatura a grande esposa real. Mas só se podia trabalhar com o material disponível. Acha não era de primeira água, portanto não poderia ser formada na perfeição.

- Senta-te! - exigiu. - Fico tonta se continuas a andar de um lado para o outro.

Acha obedeceu, mas a sua expressão continuou fechada e arrogante.

- Não queres mesmo saber o que é sentir uma vida nova sob o coração? - perguntou a velha. - Sentir o teu ventre a arredondar-se, os seios a inchar, como o teu corpo e todo o teu ser passa pelo mistério do nascimento, o momento da divindade que nós, mulheres, devemos viver...

- Pára com isso! - ordenou Acha, escondendo o rosto com as mãos.

- Pára já com isso!

- Não há noites em que ficas acordada a desejar que uma pequena boca beba o teu leite e que mãos minúsculas agarrem os teus seios?

- Queres matar-me? Por que razão estás a magoar-me tanto?

- Para que acordes! - Teti-Cheri bateu-lhe com tanta força com o nó do dedo na testa que Acha estremeceu. - Acaba com esse sonambulismo!

- com um movimento irado da mão, atirou ao chão o jarro de vinho. Acaba com estas anestesias saborosas! Levanta-te, enterra essa letargia mortal e luta como uma rainha!

Acha fixava-a, atordoada. Depois, surgiu um ligeiro sorriso nos seus lábios.

- Aposto que já tens um plano, mas terá de ser muito inteligente e astuto, pois o Kamés também o é.

- Há sempre meios e caminhos para obter aquilo por que se anseia declarou a velha senhora. - Mas precisamos de coragem e poder de decisão e saber qual o momento certo para agir. De outro modo, todos os esforços serão inúteis.

- Até parece que devo fazer alguma coisa ao faraó! - Acha parecia assustada. - É isso que desejas de mim?

- Disparate! Uma herdeira do nosso sexo. Não exijo mais nada de ti. E que sigas à risca as minhas ordens, mesmo que te pareçam contraditórias e até perigosas. Acima de tudo, preciso da tua confiança, neta! - Ela nunca tratara Acha assim. Os olhos verdes da jovem encheram-se de lágrimas.

- Estás preparada para isso? Para colocar o teu destino nas minhas mãos experientes?

O silêncio reinou por alguns instantes no quarto. Taças de incenso lançavam aromas doces e lá fora ouvia-se o som do vento nas palmeiras que fazia oscilar as grandes folhas. Uma osga que até então estivera imóvel, parecendo um ornamento da parede, disparou como uma seta para cima.

Involuntariamente, ambas se riram. Os seus olhares cruzaram-se. <     - Estou pronta - afirmou a rainha. - Aconteça o que acontecer.

Era cada vez mais raro Sahti conseguir escrever algumas colunas, pois as vozes não a deixavam em paz. Nos poucos momentos de lucidez que lhe restavam, sabia exactamente que tinham misturado alguma coisa no chá que lhe fora dado a ingerir, mas, entretanto, estava demasiado fraca para se defender. O tempo e espaço não existiam para si: era ainda pior que a prisão escura do embalsamador, pois agora não havia limites entre o interior e o exterior. Seria até capaz de jurar que eram sacerdotes vivos que lhe sussurravam as palavras, mas depois voltava a ter a certeza de que eram os próprios símbolos sagrados que lhe gritavam o que ela perdera para sempre.

Possuía tão pouco controlo sobre os pensamentos como sobre o corpo, que muitas vezes lhe parecia um pedaço de carne morta. Isso devia-se ao facto de ela mal conseguir alimentar-se, o que aumentava a sua fraqueza. Uma noite, quando se arrastou até ao tanque do templo, assustou-se ao ver, à luz do luar, reflectidos na água os traços de uma louca.

- Querem matar-me? - murmurou ela. - Então, matem-me de uma vez!

- Também se pode matar alguém sem o matar fisicamente - sussurravam as árvores e as ondas, ressoando um riso odioso que ela mal conseguia suportar. - Quem não quer obedecer, tem de morrer, morrer, morrer...

E depois começou tudo do princípio: os sons odiosos, as paredes que cresciam e desapareciam, os animais repugnantes que saíam do seu corpo e se desfaziam no ar assim que ela os agarrava.

- O mar de fogo - foi murmurado ao seu ouvido -, chamas para os pecadores que se revoltam contra os deuses. Todos os pássaros fogem dele quando vêem a sua água e cheiram o seu odor pestilento. Mas tu afundar-te-ás nele sem salvação. E antes sofrerás o castigo dos deuses.

Ela já conhecia a situação. Nos seus pesadelos frios, que lhe pareciam cada vez mais reais, Sahti revivia tudo. Osíris, senhor do mundo dos mortos estava presente, bem como Anúbis, cujo olhar chegava para lhe fazer parar o sangue nas veias. Finalmente, o odioso monstro de pernas de hipopótamo, que abria a sua boca de crocodilo para a engolir. No meio, encontrava-se a balança com os dois pratos. Num estava o coração de Sahti e no outro a pena branca da verdade.

Confessa! - retumbava a voz. Impiedosamente, começava com a sua litania. - Eu não cometi nenhuma injustiça perante os homens, não insultei nenhum deus, não roubei, nunca provoquei dor, nunca causei lágrimas, nunca matei...

Sahti nunca conseguia falar, pois sempre que o tentava era assolada por aquela imagem horrenda: como uma pedra, o prato da balança que tinha o seu coração descia, enquanto do outro lado a pena branca da verdade se erguia, triunfante...

Misericórdia! - gemia Sahti, comprimindo-se contra o chão, para sentir, pelo menos, um apoio. - Misericórdia!

Sentiu que a levantavam e a levavam para o exterior. Estava tão fraca, que dois homens arrastavam-na através da noite, pelo jardim do templo, e, assim, conseguia ir mais depressa do que se caminhasse por si própria.

- Tens mesmo a certeza? - murmuravam as uvas nas vinhas. – Até agora ainda não fizemos qualquer progresso. Como o meimendro, aliás! Nunca encontrei uma criatura tão teimosa.

Uma última tentativa. Se ela continuar calada, pelo menos teremos a

certeza do que irá acontecer.

Ao salão das colunas seguia-se a sala dos sacrifícios de animais. No meio da parede posterior, abria-se um santuário com os altares e mesas de sacrifícios. No meio estava a porta que dava para as moradas mais altas.

Tens mesmo a certeza? - murmuravam as paredes de pedra. - É um ultraje trazê-la aqui.

Todos os que ultrapassam esta porta são transformados até ao mais

íntimo dos seus seres - retorquiu a barca dos deuses que respondeu com a voz do velho sacerdote.

Agora tinham chegado a um pequeno nicho de pedra. Sahti estava tão esgotada que tropeçou, mas os homens agarraram-na e obrigaram-na a olhar para a frente. Estava muito escuro no pequeno quarto e, mais uma vez, os seus olhos viam as fendas habituais em que as coisas encolhiam e cresciam sem avisar. Gradualmente, conseguiu concentrar o olhar no san-

tuário.

Desta vez, as portas não estavam fechadas como durante a Festa Bela no vale do deserto. Enquadravam como asas de madeira uma estátua brilhante.

- Fala! Alguém a abanou.

- O que devo dizer? Ela tartamudeava.

Os últimos desejos da morte. Despacha-te!

Cumprimento-te, grande deus, senhor da verdade - conseguiu Sahti

dizer com um esforço desumano. - Vim até ti, Ámon...

O nome, Sahti! O nome! Até na presença do deus queres ocultar-nos

a verdade?

Um raio pareceu iluminar o rosto do deus e ela julgou reconhecer um círculo solar com penas de falcão na sua cabeça. Os seus traços não eram distintos às escuras, mas no queixo ela descortinou uma barba enrolada. Parecia caminhar para ela, uma figura cheia de força e elasticidade juvenis. O seu avental real mexeu-se. No instante seguinte, ele alcançá-la-ia.

- Perdão!  - Tombou tão depressa que os dois homens não tiveram tempo de a sustentar. - Protege-me, Ámon.

Nebnefer levantou o braço e bateu-lhe com o punho na nuca. Ela caiu e não se mexeu mais.

- Acabemos com isto amanhã! - ordenou. - É definitivo. Ela não mereceu outra   coisa.

O velho acenou afirmativamente com a cabeça. Depois levaram Sahti de volta para a cela.

Acordou cheia de dores. As suas fontes latejavam e na nuca tinha um grande inchaço. Sahti arrastou-se até à janela. Um brilho suave iluminava o horizonte a ocidente.

Eles viriam   em breve para a matar.

O atordoamento desaparecera e conseguia agora pensar com clareza. O templo parecia ainda adormecido, mas em breve a trombeta matinal o acordaria.

E também   o seu carrasco.

O seu olhar caiu sobre o jarro e o púcaro, mas não tocou em nenhum. Lentamente dirigiu-se à porta e encostou-se a ela. Para seu grande espanto, a porta abriu-se. Sahti reprimiu um grito de alívio.

Deviam ter-se esquecido de a fechar na véspera.

Como que automaticamente, os seus pés levaram-na ao pátio do templo. Cada passo significava um imenso esforço, mas obrigou-se a colocar um pé à frente do outro. Diante do edifício da cozinha, viu alguns sacerdotes a manejar grandes recipientes e o coração subiu-lhe à cabeça. Continuou, mesmo assim, na direcção do muro. Ao chegar lá, o seu corpo estava coberto de suor e sentia as gotas a escorrerem-lhe pelo rosto

Quando um homem, seguido a alguma distância por outros, veio na sua direcção, sentiu-se perdida. Era magro e de estatura média e usava uma cobertura branca na cabeça que lhe fazia recordar algo que não conseguia nomear.

Naquele momento, soou a trombeta do telhado do templo, aparentemente um pouco mais tarde do que era habitual, pois os primeiros raios de sol caíam directamente no seu rosto.

O raio dourado que a cegara na noite anterior!

Já não conseguia sentir o chão debaixo dos pés e os joelhos já não a sustinham. Atrás dela ouviu passos rápidos, uma respiração rápida e a voz excitada de Nebnefer.

- Rápido! Apressem-se! Parem-na! Ela está a tentar fugir.

Sahti atirou-se directamente aos pés do homem com a coroa branca.

- Perdão! - sussurrou, mas não ousou olhar para ele. - Protege-me, Ámon!

Braços fortes pegaram nela com cuidado e, quando abriu os olhos, olhou directamente para o rosto do faraó.

 

DÉCIMA HORA: A FLAUTA DE NUN

Sons de flauta penetraram o sonho de Sahti e quando abriu os olhos quase esperou ver Pani à sua frente a tocar o seu instrumento preferido. Mas estava sozinha. Ficou deitada durante alguns instantes a gozar a pequena melodia que vinha do jardim e admirou, afundada em pensamentos, o friso de gazelas situado na parede em frente. Pela primeira vez desde há muito, sentia-se fresca e descansada; os terríveis pesadelos pareciam finalmente ter acabado. Quando ousou levantar-se, estava tão fraca que apenas a tentativa de colocar os pés no chão a fez tombar ao lado da cama.

- Ela está acordada! E está ali sem se poder mexer. Rápido!

A jovem criada queria ajudá-la, mas só o conseguiu quando Nabu correu para a apoiar. Em conjunto, colocaram Sahti na cama.

- Onde estou? - perguntou ela, esgotada.

Aquele esforço que já não era habitual banhara-lhe o corpo em suor.

- No harém do palácio real - replicou Nabu. - E por sorte despertaste finalmente do teu estado de inconsciência!

- O que se passa comigo? Estive doente?

- Estiveste a morrer. Eu pedi ao faraó que me deixasse tratar de ti pessoalmente. Quem sabe o que o seu curandeiro teria feito contigo!

- Há quanto tempo? - murmurou Sahti.

- Quase duas luas.

- Duas luas? Mas isso é impossível!

- Podes dar graças por ainda estares viva - replicou Nabu. - Pouco faltou para te perdermos eternamente para o reino escuro dos espíritos das sombras, do qual não há retorno.

No seu estreito vestido branco com abelhas bordadas a fio de ouro, ela parecia ainda mais atraente e misteriosa do que antigamente.

- Agora já me lembro. O juncai! Passei todo o tempo a vaguear lá dentro.

- As ervas e bebidas da noite são fortes, especialmente quando tomadas durante muito tempo. Chega uma altura em que não se consegue distinguir o sonho da realidade. No final dessa viagem, está a loucura, quando não a morte. A daia nunca te falou disso? Estiveste quase lá.

- Eu... - Sahti aclarou a garganta antes de continuar. - Eu disse alguma coisa? Talvez um nome?

- Tu choraste, gritaste e vociferaste. Por duas vezes tivemos de te amarrar para que não te magoasses a ti própria. - Nabu inclinou-se ainda mais sobre ela. - Perdeste o teu filho?

Sahti anuiu com a cabeça. Na voz de Nabu havia uma expressão quase clandestina que a obrigou a aguçar o ouvido. Seria alívio? Ou até satisfação? Naquele momento não tinha forças nem coragem para continuar a falar.

- Quem é que te fez isto? - A curiosidade de Nabu ainda não estava satisfeita. - Aquele horrível sacerdote de Ámon, o Nebnefer? Então, também foi ele quem te quis enlouquecer? Porquê? Diz-me!

Subitamente exausta, Sahti fechou a boca e limitou-se a responder com um gesto vago.

- Um dia terás de falar - disse Nabu. Se o silêncio de Sahti a desiludira, não o mostrou. - O Kamés não se satisfará com um encolher de ombros. Sabes, foi ele quem te retirou do templo e te trouxe para aqui num estado verdadeiramente deplorável!

- Kamés! Onde está ele agora? - perguntou Sahti rapidamente, virando a cabeça para ocultar os seus sentimentos que até ela receava.

- O faraó? - Um riso gutural. - Passa muitas das suas noites comigo e não com a sua triste pomba que hoje de manhã quase me teria arrancado os olhos. Os seus dias pertencem a Kemet, aos seus deuses e aos assun tos de Estado. - Nabu alisou o vestido. - Tenho a certeza de que vai saber imediatamente que tu estás acordada e a melhorar.

- Porquê?

-Todos nós somos seus súbditos. Ele poderia ordenar a nossa execução, se a Terra do Ouro se virasse contra si. - Os lábios de Nabu apertaram-se. - E eu acho que o faria sem pensar muito no meu destino, e muito menos no teu.

Ficou silenciosa durante alguns instantes; ambas ouviam o som da flauta que recomeçara depois de uma pequena interrupção.

- A daia nunca te disse de onde provinha? - perguntou Nabu por fim. - Ou disse?

- Dos confins do Sul - respondeu Sahti. - Ela falou algumas vezes numa catarata muito selvagem, que só podia ser atravessada à custa de muitos perigos. E de uma cidade com grandes fossos de fortalezas onde viveu quando era jovem. Mas nunca gostou de falar sobre isso e muitas vezes até ficava zangada se eu queria saber mais sobre o assunto. - Involuntariamente, tocou no braço de Nabu, que lhe pareceu tão sedoso como a pele diuma cobra. - Por que razão perguntas?

- Mais tarde - disse Nabu. - Quando tiver chegado o momento certo.

Quis levantar-se abruptamente, mas Sahti agarrou-se com firmeza ao seu vestido.

- Por que razão estás a fazer tudo isto por mim? - perguntou ela. Nos impenetráveis olhos cor de mel de Nabu, tentou, em vão, buscar uma resposta. - Não me odeias? Já há muito tempo?

- Como poderia odiar a carne da carne do Golo? - Nabu libertou-se impacientemente. As serpentes escuras nos seus antebraços pareciam fixar Sahti. Nabu empurrou o lábio inferior para a frente e descobriu as tatuagens negro-azuladas. - Eu trago a sua marca para sempre. Achas que poderia esquecê-lo?

- Mas nós agora vivemos aqui. Já há muitos anos - replicou Sahti.

- Kemet tornou-se a nossa pátria.

- Talvez a tua! Eu sou a serpente negra de Tanub e assim permanecerei até ao meu último suspiro. Não olhes para mim com tanto espanto! O Hórus dourado decidiu oferecer-me as suas graças: primeiro, Sekenenré, e agora, Kamés. E depois? Mesmo que após eles apareça um terceiro! O que é que isso significa? Sabes o que é que realmente me importa?

Sahti abanou a cabeça, espantada.

- Como poderias saber? Tu eras uma criança quando nos arrastaram à força. - A voz de Nabu parecia magoada. - O meu corpo pode estar aqui em Uaset. Mas o meu coração nunca deixou a Terra do Ouro onde está tudo o que me pertence, tudo o que amo e todas as razões da minha existência.

Lançou a cabeça para trás num gesto de desdém.

- O que queres dizer com isso?

Sahti não conseguia parar de fixar Nabu. Ela parecia-lhe graciosa e sedutora como a própria vida, mas ao mesmo tempo, tão misteriosa e ameaçadora como a morte.

- Que estou em guerra com este país - segredou Nabu. - À minha maneira e com as minhas armas. Um dia chegarei à vitória. Mesmo que me custe a vida.

- Também exiges isso de mim?

Todo o corpo de Sahti começou a tremer.

- Primeiro, tens de saber quem és - declarou Nabu. - Depois, poderás decidir.

- Eu... sou eu - afirmou Sahti. - Sei muito bem disso.

- Não. Tu não sabes. Ainda não sabes. Apenas uma mulher que conheça os seus encantos poderá mudar de pele como a cobra. Pode até subir para o círculo de fogo sem que as chamas lhe toquem. Porém, se ainda não se encontrou, arderá como palha.

Sahti lançou-lhe um último e longo olhar antes de Nabu ter desaparecido do seu quarto.

A Festa do Céu era realizada na segunda lua da época das inundações, akhet, para homenagear lach, o deus da Lua, quando a água do Nilo inundava os campos, transformando-os num lago gigantesco e devolvendo-lhes a fertilidade com a sua lama negra. Segundo a tradição,.toda a família real tomava parte nos festejos. Em liteiras de madeira de cedro forradas a ouro, fora transportada, depois do pôr do Sol, para o Templo de Ámon. O sumo sacerdote, Nebnefer, recebeu-os à porta com a sua longa túnica sacerdotal e conduziu-os ao santuário através do jardim iluminado pelo luar, onde já aguardavam os outros sacerdotes.

Kamés caminhava à frente de todos com tal impetuosidade que a grande esposa real mal conseguia acompanhá-lo. Finalmente, Acha deixou-se ficar para trás e contentou-se em olhar para as suas costas com uma expressão tenebrosa. Depois de se ter queixado várias vezes que o marido a evitava, tanto em particular como em público, o faraó insistia agora que ela estivesse a seu lado em todas as festas sagradas. Todavia, não mudara nada no seu comportamento em relação a ela e continuava sempre a magoá-la. Quando a olhava como se ela não estivesse presente, Acha tinha um sentimento de ódio tão profundo por ele que até se assustava.

- Quando? - segredou, no momento em que Teti-Cheri pareceu sentir o que levava Acha a apertar-lhe a mão. - Eu atiro-me para o chão se tiver de presenciar mais isto.

- Em breve - disse a velha senhora em voz baixa. - Muito em breve. Só mais um pouco de paciência! Já não falta muito para a Festa de Hathor. - Riu-se. - Queres melhor protectora para o nosso objectivo do que a deusa do amor e da fertilidade? Portanto, tem coragem e confiança, neta!

A viúva de Sekenenré, Ahhotep, rodeada pelas suas três filhas mais novas que estavam sempre a cochichar umas com as outras, esforçou-se inutilmente por entender todos aqueles segredos. Não lhe agradava que Teti-Cheri se encontrasse tantas vezes com Acha, o que a inquietava profundamente. Contudo, nem o seu filho Ahmés tivera uma ideia para a ajudar.

- Tu já sabes que a grande senhora sempre fez aquilo que considerou correcto - avisou ele. - Como se fossem as suas próprias leis e mais ninguém tivesse razão, o que talvez constitua a sua enorme força e, simultaneamente, a sua grande fraqueza. Diz lá, mãe! Por que razão não vais conversar um pouco com ela? Talvez compartilhe contigo alguma coisa e te diga o que tem em mente.

Um olhar para os traços decididos daquela mulher elegante mostraram-lhe como era inútil, e até inocente, a sua proposta. Nunca conseguira com astúcia ou adulações saber nada pela sua boca, e até Nefertari, que levara a cabo a incumbência, regressara para junto dele na mais completa ignorân-

cia.

- Ela odeia-me - sussurrara Nefertari, agitada. - Sabes como é que ela me tratou? Como um insecto que se quer esmagar.

- Deves estar enganada - contrapusera ele. - Estás, com certeza, enganada. És filha do filho e da filha dela. Ela ama-te.

- Não, não ama. - Nefertari apertara-se contra ele. - E a ti também te ama muito pouco. Não tenhas ilusões, Ahmés! Nós não passamos de bonecos que ela manobra a seu bel-prazer.

Ahmés calara-a com um beijo.

- Sabes o que penso às vezes? - murmurara Nefertari, depois de finalmente ter satisfeito os seus desejos amorosos. - Que consegue ver o que está dentro da cabeça dos homens. Conhece os nossos pensamentos mais secretos, Ahmés, os teus e os meus. Eu tenho medo dela, meu amor. Aos meus olhos, ela não fica atrás da feiticeira das serpentes negras.

Naquele momento, um olhar penetrante da velha rainha chegou até ele, que quase se sentiu tentado a concordar com Nefertari. A dor aguda no seu joelho exigia, no entanto, toda a sua atenção, e só com grande esforço o príncipe conseguiu reprimir o impulso de arrastar a perna como um velho combatente. Só a presença de Kamés o impediu de o fazer e também o seu orgulho, que ameaçava desaparecer lentamente. Apesar de todos os esforços do seu médico, o ferimento que sofrera com a queda do carro não queria sarar. Todavia, manifestavam-se aparentes progressos que lhe davam alguma confiança, mas um único movimento em falso, e ele começava logo a sentir que se havia enganado.

E se não voltasse a possuir a rapidez e a elasticidade que determinavam, aos seus olhos, um futuro faraó? E se nunca mais tivesse a possibilidade de conduzir o seu carro de uma maneira vencedora, pois só com a sua ajuda seriam esmagados os soldados daquele usurpador do delta? Nada no mundo abalava tanto Ahmés como aqueles pensamentos terríveis que circulavam no seu cérebro como pedras.

Em frente ao templo, o cortejo separou-se. Um sacerdote conduziu a família real até uma escada escondida, através da qual alcançariam o telhado plano do edifício. Nebnefer e o faraó entraram lado a lado no local sagrado.

- Tenho saudades do velho - afirmou Kamés, enquanto atravessavam o salão e se aproximavam do santuário do deus da Lua. - Onde é que disseste que ele anda agora?

- Todos nós temos saudades dele - replicou Nebnefer. - Ele é o nosso modelo e muitos dos sacerdotes mais jovens tentam imitá-lo com fervor. - Tinham alcançado o santuário fechado. Kamés inclinou a cabeça. Nebnefer também o fez. - De tempos a tempos, precisa da solidão do deserto para orar, jejuar e castigar-se - continuou o sacerdote. - Nenhum de nós sabe quanto tempo estará fora. E um dia, provavelmente, não regressará ao templo. Então, o deserto será o seu sarcófago e os braços de Nut

j embalá-lo-ão num mar de areia para toda a eternidade.

j Quis tocar nas portas do sacrário, mas Kamés, como chefe supremo

do culto, abriu-as com as suas mãos. Na semiescuridão, a estátua prateada do deus brilhava como se fosse pó lunar. Sobre a meia-lua, lach trazia a co-

! roa de Osíris que simbolizava a evolução e morte da Natureza; por um mo-

mento, o olhar do deus e do faraó pareceram encontrar-se.

Kamés baixou-se e beijou o chão em frente ao sacrário. Nebnefer fez o mesmo. Por fim, o faraó levantou-se e retirou a estátua da caixa de madeira. Dispensou a barca do culto, transportando-a nas mãos com cautela e ternura.

- Pode ser perigoso entrar no reino de Osíris pelo outro lado do deserto ocidental - disse ele em voz baixa quando chegou junto à porta. O vento nocturno fez vibrar os ramos dos altos sicómoros e ouviu-se o miado de um gato. - A poderosa deusa-serpente, Uadjit, protege os mortos, aqueles que realmente possuem um conhecimento puro. Por outro lado, os outros, que traíram as leis de Maet, só são esperados pela comedora de mortos.

Nebnefer estremeceu, abriu a boca para lhe retorquir, mas fechou-a porque Kamés acabara de se virar. As escadas que conduziam ao telhado do templo eram tão estreitas que foram obrigados a caminhar em fila. Chegado lá acima, Acha avançou imediatamente para junto deles, como se estivesse apenas à espera disso, e foi ao lado de Kamés até ao pequeno palanque, em frente do qual se reuniam todos os anos.

Kamés depôs a estátua e com uma tocha acendeu o incenso já pronto. Por fim, dois jovens sacerdotes despejaram dois baldes com água benta sobre a sua cabeça. Limpo e purificado, ajoelhou-se perante o deus da Lua.

- Os portões do céu abrem-se - orou ele. - Os portões da terra estão fechados. Eu dirijo os meus cânticos para ti, amado sol da noite. Tu és o grande transformador que muda a sua figura, tendo cabeça de falcão ou de íbis, e que nós, aqui em baixo, honramos com nomes diferentes. Tu és o senhor das águas e as flautas de Nun obedecem-te. No teu colo estão a sabedoria e a magia. Para sempre serás o irmão pálido de Ré...

Quando se levantou para perfumar a estátua com óleos aromáticos, uma única nuvem escura ocultou o astro nocturno. Agora, só as lamparinas de azeite brilhavam ao vento, lançando uma luz pouco firme. Todos os que estavam sobre o telhado pareceram suspender a respiração. Nebnefer e Ahmés trocaram um olhar eloquente. No entanto, com a mesma rapidez com que aparecera, a nuvem desapareceu, e o faraó pôde terminar o seu sacrifício tradicional perante a lua cheia.

Todavia, a grande paz interior que ele sentira com aquele ritual nocturno não voltou a instalar-se. E muito menos a profunda alegria que até então enchera todo o seu ser. Kamés ficou calado e recolhido, mesmo quando a estátua do deus foi novamente levada para o sacrário e a família real voltou para os seus aposentos. Ao contrário do que estava previsto, ou seja, acompanhar os outros até ao palácio, fez questão de ir a pé.

Espantados, os guardas do portão do jardim do palácio viram-no entrar sozinho, sem servidores nem seguidores. Parou no tanque de lotos, sentou-se na berma talhada e ficou a olhar durante muito tempo para os botões fechados que, qual jóias, se encontravam entre as folhas. Algo de estranho acontecera com ele; fora agarrado pela previsão de um facto que o enchia de uma saudade pouco clara e de impaciência. Por fim, levantou-se e continuou a andar no meio daquela noite solitária que deveria passar longe dos braços de Nabu.

Cuidadosamente, Sahti afastou-se do tronco do velho tamarindeiro ao qual se encostara. O coração batia com tanta força contra as costelas que receou que o ruído denunciasse a sua presença. Até então, Kamés não passara de uma recordação brilhante e clara, semelhante a Ré que irradiava luz sobre tudo. Agora, que o via tão pálido e pensativo à luz do sol nocturno, também ele se transformara na sua luz.

Quando Kamés finalmente a mandou chamar, tudo parecia girar à sua volta. Sahti viveu o banho de botões de rosa como se fosse um sonho. Os cabelos supérfluos do seu corpo estavam a ser arrancados com cera quente, um procedimento doloroso, que a afastou por instantes do seu devaneio. A massagem final trouxe-lhe um alívio que lhe reanimou a pele e a deixou a brilhar como ouro escuro. As mãos dotadas das criadas trataram os cabelos encrespados de Sahti, penteando-os à moda da corte, o que libertava o pescoço esbelto da jovem. O rosto fora cuidadosamente polvilhado, as pálpebras e sobrancelhas pintadas com tinta negra e a boca pintada com ocre vermelho. Quando Sahti se viu finalmente no espelho de bronze polido, a mulher reflectida parecia-lhe uma estranha.

Seguiu os eunucos através de corredores e salas que pareciam não ter fim e ficou aliviada quando voltou a sentir ar fresco num pátio interior. A cada passo era inundada por recordações de há muitos anos. Contudo, ainda sentia no seu corpo o medo da pequena rapariga negra que fora trazida como refém para Kemet.

Para sua enorme surpresa, não entraram na sala do trono, mas sim num dos aposentos privados do faraó, uma enorme sala clara com um canapé, uma mesa e vários assentos. Kamés estava de costas para ela, inclinado sobre rolos abertos de papiro, o que lhe deu tempo para se recompor. Na esquina oposta da sala, apareceu um homem magro e queimado do sol que se dirigiu a ela a sorrir.

- Sahti! Finalmente!

- Namiz! - Ela voou para os seus braços. - Ainda bem que já voltaste!

- Parece-me ser extraordinariamente perigoso deixar-te sozinha por algumas luas. - Empurrou-a um pouco para trás, a fim de a admirar melhor. - Estás maravilhosa. E tão crescida! Mas já estás bem, minha pequenina? - perguntou ele em voz baixa. - Tens de me contar tudo o que se passou!

- Sim, Namiz, mas não posso...

- Então, permitem que me junte a vós? - Kamés tinha-se virado e olhava atentamente. Não trazia resguardo na cabeça. O seu cabelo escuro era liso e caía-lhe até aos ombros. De perto, conseguia ver que os seus olhos eram mais claros do que se recordava: de um castanho quente com um círculo verde em torno da íris. - Há uma coisa que devem saber.

As suas palavras bateram-lhe no fundo da alma e foi novamente apanhada pela conhecida sensação de desmaio.

- Posso sentar-me?

Sahti tacteou até encontrar um apoio.

Rapidamente, Namiz ofereceu-lhe um pequeno banco.

- Parece estar ainda muito fraca - disse ele na direcção de Kamés, tentando desculpar-se. - Deves saber, Hórus dourado, que as suas maneiras são em geral irrepreensíveis.

Enquanto falava, tocou-lhe suavemente no braço e, pelo frio da sua mão, Sahti percebeu que, por trás daquela fachada, Namiz devia estar mui-

to tenso.

- Não estamos aqui para dar atenção a pormenores sem importância

- replicou o faraó. A sua boca formou um sorriso. - Já te sentes melhor?

Sahti assentiu angustiada, com a cabeça.

Ele puxou um segundo banco, sentando-se à sua frente, enquanto Namiz se manteve atentamente de pé a seu lado. Sahti teria preferido levantar-se e fugir, mas simultaneamente desejou que aquela conversa nunca mais terminasse.

- O Nebnefer informou-me das circunstâncias em que chegaste ao templo - continuou Kamés. - Mas gostaria de ouvir a tua versão.

- Ele mandou-me prender - disse ela suavemente. - Durante o enterro do Nesmin, o meu falecido marido.

Custou-lhe muito proferir aqueles nomes na presença de Kamés e sentiu-se envergonhada.

- Porquê?

- Ainda estou para saber. Houve apenas indicações vagas. Não existiu uma acusação clara.

- E mais?

Kamés franziu a testa.

- Levaram-me para a margem oriental e fecharam-me numa prisão escura dentro do templo. E depois... - A voz de Sahti começou a tremer -... começaram as dores de parto. Demasiado cedo. - O seu olhar inclinou-se para o chão.

- Os sacerdotes bateram-te? - insistiu Kamés. - Ou infligiram-te algum sofrimento que prejudicasse a criança?

- Não. O velho até ajudou no parto - replicou Sahti. - Mas o meu filho não respirou. O cordão umbilical deve-o ter estrangulado ainda dentro do meu ventre.

Fez-se silêncio por alguns instantes.

- O que aconteceu depois? - perguntou Kamés.

- Quando estava a recuperar as forças, obrigaram-me a copiar uma enorme quantidade de papiros - disse ela corajosamente, o que a surpreendeu. - D’O Livro do Despertar do Dia. Um trabalho que eu teria negado. - Pareceu-lhe importante não levantar o véu da verdade e ainda as infinitas perguntas sobre Namiz e a origem da estátua de Selket em ouro, razão por que tinha sido tão torturada. Não referiu também aquela noite horrível em que os sacerdotes a haviam arrastado até ao local sagrado. Davam-me de comer e de beber, mas eu já não estava bem. Fiquei muito doente. Tudo à minha volta ficou pouco nítido e até as paredes pareciam esmagar-me e começar a falar comigo. Cada vez tinha mais medo e por isso fugi.

- Devem-lhe ter dado meimendro - disse Kamés que se virara para Namiz -, e em altas doses, durante semanas a fio. Segundo parece, para que enlouquecesse. Mas porquê?

- Provavelmente para a tirar do caminho - retorquiu Namiz. O que, de resto, seria uma atitude muito adequada a Nebnefer e aos seus seguidores.

O seu rosto ficara cor de cinza e Sahti sentiu o esforço que ele fazia para se mostrar tranquilo. Apesar da sua própria tensão, Sahti quase se riu. «Não precisas de ter medo, meu velho amigo!», pensou ela, esperando que Namiz apanhasse a sua corrente de pensamento. «Até agora, nem a mais pequena palavra saiu dos meus lábios, mesmo quando os sacerdotes me ameaçaram de morte. E até agora, perante Kamés, o homem que preenche todo o meu ser, eu nunca direi seja o que for que possa prejudicar-te.»

- Por que razão eles não a mataram imediatamente? - continuou Kamés, pensativo. - O que teria sido muito mais simples e seguro. Provavelmente precisavam de tempo... Tempo para quê, Sahti? - Naquele momento toda a suavidade desaparecera da sua voz e também qualquer esboço de um sorriso. - Por que razão esperaram?

O seu olhar penetrante amedrontou-a, mas estava decidida a suportá-lo.

- Que motivos poderiam ter? - prosseguiu Kamés. - Fala!

Sahti estremeceu e desejou ter a coragem para agarrar a sua garra de leão sob o fino vestido de linho. Teria Kamés sido informado sobre o fim do embalsamador? Poderia ter sabido alguma coisa sobre isso? E, se sim, levá-la-ia à justiça e mandá-la-ia punir?

- O que é que tu sabes que todos querem saber com tanta insistência? - pressionou ele. - É importante. Percebes? Diz-me. Tens de me dizer!

- Não sei.

Sahti tinha respondido numa voz tão baixa que mal se conseguira perceber, e a desilusão manifestou-se imediatamente nos traços de Kamés. Ela sentiu a sua mentira a pairar na sala como um cheiro desagradável, mas não podia e não queria revelar o segredo.

- Eu poderia obrigar-te - declarou ele por fim, levantando-se abruptamente.

- De que é que isso te serviria? - ripostou Sahti a tremer por dentro. Kamés virou-se aparentemente desenganado, enquanto Namiz respirou

fundo.

- Há mais de cem anos que Kemet está dividida e sangra de inúmeras feridas - prosseguiu o faraó com uma ira contida e amarrotando um papiro com os punhos. - Enquanto nos esforçamos por acabar com esta situação inaceitável, alguns dos sacerdotes passam o tempo a brincar aos juizes. Diz-me, Namiz. Poderá ser realmente essa a vontade de Amon, que prometeram honrar e servir de corpo e alma?

- Só a vontade dos deuses é imortal - respondeu Namiz, muito sério.

- Nós, os mortais, não podemos fazer mais nada senão inclinarmo-nos perante ela.

- Sabiamente dito, homem de Kepni! - rematou Kamés. - O templo também deveria ser a casa da eternidade, da transitoriedade. Os homens que o servem não o fazem. Para eles só valem as leis que o faraó recebeu dos deuses. - Calou-se, para depois continuar com mais vigor: - Acho que já chegou a altura de lhes reavivar a memória.

Sahti olhava para ele sem perceber nada, e Namiz estava cada vez mais intranquilo.

- Não estás a pensar numa fiscalização, Unico-Um? - perguntou ele.

- Precisamente agora, depois de ter sido levantada tanta poeira? Só te posso desaconselhar vivamente.

- Não! - Kamés começou a rir-se. - Estou a falar de uma grande inspecção oficial ao templo. Instrumentos, listas de sacrifícios, protocolos de abastecimentos, registo dos bens, tudo o que se encontra naquela área sagrada. E ninguém melhor do que tu, superintendente da Casa do Tesouro Real, para a realizar em meu nome.

Quase abruptamente virou-se para Sahti, como se apenas naquele momento se tivesse recordado da sua presença, e bateu as palmas duas vezes. Os eunucos apareceram de imediato.

- Levem-na de volta! - ordenou. - Mas vão devagar para que ela não se esforce muito.

Sahti levantou-se com insegurança. A audiência terminara e Kamés parecia não ter qualquer aspiração para ela. Para aquilo se tinha banhado, penteado e perfumado durante horas para, depois de algumas frases de descontentamento, ser novamente fechada no harém. Provavelmente passar-se-iam semanas ou mesmo meses até voltar a ver o seu rosto. Se ele não se esquecesse totalmente da sua existência.

Lágrimas de desilusão ardiam-lhe nos olhos e num súbito impulso emocional dirigiu-se a Namiz.

- Mas eu preciso de falar contigo com urgência. A sós! - Pelo menos tinha de lhe dizer o que lhe ia na alma. Senão, para quê todas aquelas mentiras?

- Em breve, minha pequenina. - Na presença do faraó ele não ousava ser mais claro. - Penso que nos veremos muito em breve. O mais tardar durante a festa de Hathor. - Havia preocupação na sua voz. - E toma conta de ti, Sahti! Gostaria muito que ficasses boa. Completamente boa. Entendes?

Kamés voltara para os seus papiros.

Sahti não teve outro remédio se não fazer uma profunda vénia.

Depois, os eunucos levaram-na para o harém.

A barca da Lua já não estava sobre o palácio novo e a oriente também não se via o seu brilho vermelho. Como num último abraço, a noite envolveu a terra que dormia. Na margem viam-se barcos de papiro que em breve vogariam no grande rio, em honra de Hathor, ao som de tambores e sistros.

Um pouco mais afastado, encontrava-se o navio real, também construído com folhas de plantas do pântano, mas maior e um pouco mais sólido. Estava apetrechado com dois toldos que formavam uma cabina provisória. Teti-Cheri olhou cuidadosamente à sua volta, enquanto se aproximava do navio, mas não descortinou guardas.

Atravessou a prancha e entrou no barco, que oscilava ligeiramente.

No chão viam-se algumas almofadas. Apesar de ser muito cedo, alguns servidores mais atentos já tinham cuidado de todas as necessidades possíveis do faraó. Dois grandes abanos de penas de pato estavam prontos para lhe proporcionar ar fresco. Num cesto, Teti-Cheri descobriu saborosos frutos. Em vez de uma vasilha de vinho, encontrou sobre uma pequena mesa baixa alguns odres de pele de cabra cheios, com os quais poderia matar a sede durante o caminho.

Uma ligeira brisa fazia ondular a água escura, e nas ramas dos arbustos os primeiros pássaros já pairavam nos seus sons matinais. Levara apenas uma pequena lamparina para não cair pelo caminho, mas, entretanto, já estava suficientemente claro para ver onde punha os pés. Apresentava-se muito calma, apesar de mal ter dormido, e ter ansiado pelo fim da noite. As suas mãos nunca tremeram quando retirou a pequena dose de alabastro do avental do seu traje. Duas esferas acastanhadas ergueram-se sobre o fundo leitoso.

Teti-Cheri abriu o odre de pele de cabra e introduziu uma delas.

- Hathor dourada - murmurou ela, enquanto fechava cuidadosamente o recipiente para acelerar a dissolução da esfera -, mãe de todos os deuses e de todas as deusas, as águas sagradas de Hapi jorram do teu colo. Poderosa vaca do céu que transportas o sol entre os cornos da lua, suplico a tua ajuda. Es, simultaneamente, eterna e mutável. Através da união com o touro de Ré concebeste Ihi, o teu filho divino. - Apesar das dores que tinha nas articulações, Teti-Cheri ajoelhou-se. - Deixa que o desejo do faraó cresça! Abre o como da lua da grande esposa real! - continuou ela a orar. - E oferece à nossa amada terra, Kemet, o herdeiro de que tanto necessita.

Hesitou uns instantes e depois, ainda ajoelhada, fez com que a segunda esfera seguisse o caminho da primeira.

-- Como luz brilhante elevas-te do lódão e geras a vida a partir da força das águas e da lama da terra. Senhora da vida! Permite que Acha conceba e dê à luz!

Levantou-se a gemer ligeiramente. Depois colocou o odre sobre a pequena mesa e recuou alguns passos. Tudo estava exactamente como antes. Mesmo que fizessem uma inspecção profunda, não ocorreria a ninguém que tivesse havido um intruso.

Só nessa altura começou a rir.

Raízes de mandrágora, uma onça de alcaçuz, algumas pontas de meimendro, folhas secas de amoreira, um escaravelho embebido em leite de uma vaca preta, cozido em vinho, triturado e misturado com caroços de romã esmagados, bem como mais alguns ingredientes secretos sobre os quais ela não queria ter informações correctas. A sua irmã de leite, Meret, tinha ido buscar o produto a uma velha feiticeira que era especialmente experiente em coisas do amor.

Por uma questão de cautela, Teti-Cheri trata